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UMA HISTORIA INTIMA DE COLECIONADORES E COLECOES PHILIPP BLOM TER E MANTER BERILO VARGAS EDITORA RECORD RIO DE JANEIRO + SiO Patto 2003 eeaeees Cleon ate sos Nand Ea ao. a, 1970 sors, erm Pal Bo: mide Va - ide aor: Re. 05 “nde Toe te ld Ban ovo? 1 Cesena cokes 2 Ciesonars cei Fada 5 Cacti Apc Bevin n coo- 01 oss cout ‘Titulo orginal eminglés: TO HAVE AND TO HOLD Copyright © 2002 by Philipp Blom ‘Todos 0s dictos reservados. Probida areprodugo, armazenamento ou, {ranamissdo de partes deste Livro através de quaisquer meios, sem prévia autorizato por esto Proiida a venda desta edigdo een Portugal e resto da Europa. Dirstos exchsivos de pubiasto cm 0 Brasil =| ago em lingua portoguesa para RISTRIBUIDORA RECORD DE SERVICOS DE IMPRENSA S.A. ‘Ras Argentina 171 —Rio de fneira, RI ~ 20921-380 ~ Tel 2588-2000 ‘eS Feserva.a propriedadelteriria desta trad tp 8 Bes ISON 801.0422 /A\ PEDIDOS PELO REEMBOL SO. sce CanaPesal 23092 Peat NP an RI 2092-979 acne j | Para Veronica Sumdrio Lista de anager ‘Aaradecimentos Parte I: Um parlamento de monstos 0 dragtoe carne eearo Disposgt para a melancolia ‘Uma ara oubada ‘art refinada do douto Ruysch ‘Parte Is Ua bstéria completa das borboetas ise veo curioso CO mastodont ¢taxionomia da memeéria ‘Angelus Novas ‘Agrandena dos imperios ‘Um elevador para os cbs 23 “8 @ 9s m ns ar 7 ‘TERE MANTER Parte I: Feitigos Porque no se deve cozinhar as pessoas “Tits patos voadores esadorese utopias Um teatro de memras Parte IV: A tore dos insensatos ‘Um verdadero vlomaniaco Leporeloe seu mestre Se Soane mio est em casa pitogo: Copos de plistico e mausoléus Notas ibiograf Indice 163 183, 195 203, as an 29 261 267 285 295 Pigina 30, 2 a8 2 48, Lista de Iustragoes Jan van der Heyden, Naturezasmorta com raridades,pintura a leo; eproduzida com autorizagio do Suépmivésti 1s Budapeste. (© *Dragio de Bolonha”, preservado por Aldrovandi em 1572, gravue 1, de Ulise Aldrovandi,Serpentum et draconum historiae;reprodu- sida com autoriaagso da Academia de Medicina de Nova York. ‘© Masacum Ferrante Imperato, gravura, de Ferrante Imperato, Dell” bistoria naturales produ com autorizacio dos Visantes do Ash- smelean Museum, Oxford Vittore Carpaccio, The Vsiow of St Augustine, pincura a tempera, deta ‘he, Scuola di San Giorgio degli Schiavoni, Veneza Jan Breughel, o Velho, Netureza-morda com jarra azul: pintura a deo, ‘eta reprouhzi com autorizago do Kansthistoisches Museum, Viena, J.G, Hainte Armia de colecionador, pinta a dteo;reproduzida ‘com autorzasto do Museu Mistrico de Amster, 1. Vincent, Wondertoomeel der Nature, gravitas reprodurida com au torizagho do Museu Histrico de Amster, ‘Hans Lienberger, Death Figurine; reprodusido com autorizasto do Museu Histrico de Amster Philipp Hainboter, Kunstichrank de Gustavo Adolfo; reproduido com autorizagdo do Museu da Universidade de Uppsala, 174, 178. 178. 181. 184, 186, 187, 208, 218, 229, 236, 238, 247, 250, ‘TERE MANTER eto de Sata rsuls, Cldnis;reprodunido com autorizago de Rhcinischer Verein fr Denkmalpflege und Landschafeschurz, “Apoeosede Vincenzo Blin fot: Donatella Polini Piazza; repro esa com autorizagio do Museo Civico Bellniano, Catinia, Corpo de Vincenzo Bellini apds.a exumagio, foto: Donatella Polizei iauz;reproduida com autorizagio do Museo Civico Belliniano, Ca. eter Pal Ruhens Meduss, intra a 6leo;reprodusida com autorza- odo Kunshiorisches Museum, Viena, “ets pats voadores, James Lowe Collection; reproduaidos com auto- riagio de Flying Duck Eterpriss iio pastoral, posal do séeulo XIX, colegfo do autor. “Tampas de gata dete, Oliver Ogden Collection; reproduzidas com sutornaio de Over Ogden Silver Spring, EUA. Flu, Urique Cosmi,fontispicio, Merton College Library, Ox- ford; reprodurida com autoriaséo dos Fellows of Merton College, Oxford Cténio de Thomas Browne, foto: James Eason; reproduzida com autor rig de James Eason, ‘Albrecht Dies, O maniaco por ros; xilogravura;reproduzida com unorzagio da Ostereichische Nationalbbliothek, Vien. Honoré Daumie, O Connoisseur, pimtura a 6leo;reprodurida com suornagto do Instiuto de Arte de Chicago, Pieter Breughelo Velho, A tore de Babel, pintura a leo; eepro- 31 “TER E MANTER ndagacio renascentista era estimulag, padres ¢ fil6sofos antigos, e pela 5," mercado de peixes era um lugar a ue uma biblioteca, Era mais proviya ft i Esse novo spirit de : ‘os eamadores, € 40 PO! 1a idéia de que © hecimentos doq ‘ prem suas 2485 esp6iMES TFOS € Marabou Peeasem dscortr sobre seus habitos € nOMeS do que qualquer ques sted de manuscrits latinos. Jé no bastava a Amesa de um most; saat pero alrovandpecorria 0s mereados de peises, em buses g oes, econversava com pescadores, assim como Descartes fi mnicoteotegicas no mnsen ate Leialen, stat cidade natal, Ble era ma TaNtY por sev conheeimento ¢ por suas aibeis demonstragdes puiblica por stir habilisdaate-quase sobre-humana ___ de preseryar e apresentar a beleza hums conhevido no s. come S na depois da morte, Gragas am metodo & secreto de embalsamamento, desenval- vido ao longo dos anos, cle transforma stado de paz 3 © ya qualgner eahiver num tretante, aplicaya esse MEtO~ ererna, Jultos, mat donioa a corpes de erian- Mt AARTI REMINADA DO HOUTOR RUSCH. oeans ga pegquenas, que obtinha entre as parteiras Tocaie eer wa condigto def Medico da Corte, dle bebe afogados no porto de Amsterda. ‘ Faves cauhiveros de infelizes © docntes cram transformados por Ruyseh can abjetos de prodiglo esteticos a nido de um bebe, vestida primorosamente com nang rendach, feita pela filha do bom médicn, Rachel (que se tornaria prlncora famosa), sequrando o tecide cle una drbita oeular env etegante com: ppostura, guarctaca numa jarea de video cheia de dleook pequenos rostos xosses saivlos ou cont ols de video abertos, preservadtos em jarras ou embalsamados ce deitados em pequenas canis, arvanjos sotisticndos de eérebros © genitals, (ylaccereado por finos bordados que ocultavant ineiydes, pontos ¢ cortes do anatomist — os quis, ce outta forma, poderiam destruit a iusto. de pas Tae Weasoey i 3 eterna, Havia preparados patoldgicos, também, como en qualquer colegio mé- ica, mas a verdadeira paixto de Ruyseh era 0 que ele ehamava de sua konst, sna “arte, a unio entre medicina jamento e ales escultura, embal goria, cigneia ¢ beleza, Com orgu> tho exibia sia dle profissto € outros colegio para colegas isitantes, Um ¥ nédico alemao ficou muito impr ado com a “mimia” de um me> nino de ite anos, e em L715 um estndante hiingaro de teologia fez ad colegio ¢ ouvin um sion ENG uma visi principe russo contar que ficara tho comovido de ver nm menino de 12 anos embalsamado que beijara © corpo morto, Havia outta crianga embalsamada em pé, de olhos aber- a estivesse viva, apesar de sua visita ter durado tres ho~ a admirar a obra de Ruysch, tos, como se ain ras, o estudante decid fiear trés dias inteiros, «em todos os detalhes, © programa de Ruysch era mais ambicioso do que simplesmente jogar com 0 raro € o exético, Suas obras-primas eram arranjos muitos mais traba- 8s q ‘TER E MANTER thados, que expressavam com elegincia intengoes € crencas. A pungéncia dg morte ¢ do renascimento, 0 excesso ¢ a vanitas estavam ali representados, O historiador holandés de medicina Antonie Luyendijk-Elshout analisoy ida percepgao de sua composicao ¢ de tum desses quadros ¢ oferece uma vi seus objetivos: Com 6rbitas oculares viradas para o céu, o esqueleto central — um fete de cerca de quatro meses — entoa um lamento sobre a miséria da vida. “O, destino, 6, amargo destino!”, canta ele, acompanhando-se a si mesmo ao violino, feito de seqiestro osteomielitico e com uma artéria seca fazendo as vezes de arco. A sua diteita, um miniisculo esqueleto conduz a miisica com uma batuta, incrustada de minésculos calculos renais. No primeiro plano & direica, um pequeno € rijo esqueleto cobre os quadris com intestinos de ovelha injetados, a mio direita segurando uma langa feta do vas deferens endurecido de um homem adulto, transmitindo sombriamente a mensagem de que sua primeira hora também foi a altima. A esquerda, atrés de um belo vaso feito da inflada tunica albuginae de testis, posa um clegante pequeno es- queleto com uma pena no cranio € uma peda expelida dos pulmdes que Ihe pen- dem da mao. Ao que tudo indica, com a pena pretende-se chamar a atengio paraa ‘ossificagio do crinio. Para 0 pequeno esqueleto horizontal no primeiro plano, que tem na delicada mao um familiar efemerdptero, Ruysch escolheu uma citagio do poeta Romano Plauto, um dos autores favoritos da época, dizendo que sua vida tinha sido tio breve quanto a da jovem grama ceifada pela foice logo depois de brorar.” “Todos esses quadros proclamavam a mensagem da transitoriedade da vids, ¢ dos perigos do pecado que se esconde em cada esquina. Ruysch levara uma orgulhosa tradigio a sua conclusio 16 seguiram as formas intricadas de seus materiais usando corais ¢ construindo cenas alegéricas, ¢ 0 famoso G. G. Zumbo, 0 mesmo escultor de cera dose culo XVIII que fez modelos primorosamente belos para a insteugio de alt: cescultores nos de medicina de Florenga e Viena, também comps quadros alegorico® com mintisculos corpos de cera contemplando a mortalidade humana bebés todas as suas formas, sarcéfagos ¢ timulos barrocos, crinios € roligos levados prematuramente pelo ceifador, sob titulos como Funeral, A prast ¢ O triunfo do tempo. 86 A ARTE REFINADA DO DOUTOR RUYSCH Poucas obras de Frederik Ruysch sobreviveram até nossos dias, e quase ne- nhuma delas em Leiden. A razdo dessa anomalia esta na visita do “principe sso” que veio ver sta colegio ¢ de tio comovido beijou 0 corpo embalsa- mado de um menino. © principe chegara aos Paises Baixos pela primeira vez na pele de Pjotr Mil jinstrugéo nos estaleiros de Amsterda. Queria parecer discreto, 0 que era hailov, simples carpinteiro em busca de trabalho dificil em vista de sua altura, pois media dois metros em suas botas, ¢ des- racava-se no meio dos outros carpinteiros como um navio de guerra num. grupo de barcacas holandesas. Tratava-se,é claro, do czar Pedro, o Grande (1672-1725), que viera para a Europa Ocidental com sua “Grande Embai- xada” em 1697-98. Quando sua presenca imponente tornou iniitil a tenta~ tiva de manter-se incégnito, ele deixou de preocupar-se com o anonimato. Pedro era um voraz colecionador nio apenas de utensilios ¢ objetos de histéria natural, mas também de esquisitices naturais ¢ aberragées. Em sua Kunstkamera em Sao Petersburgo, mantinha uma atragio de carne e osso, Foma, o Ando, que tinha apenas dois dedos nas maos ¢ nos pés parecidos com garras. Outra atragio, um hermafrodita, que recebia um estipéndio anual de 20 rublos, finalmente fugira do olhar estiipido dos espectadores ¢ da com- , al a panhia menos vivida de atragées como 0 esquieleto do lacaio pessoal de Pedro, Nicholas Bourgeois, um gigante de 2,13, me que, depois de morto, passou a en- feitar a colegio de seu senhor como es- pécime anatémico. Primeiro grande colecionador da historia russa, Pedro herdara o antigo gabinete de curiosidades uma pequena colegio formada pelo costumeito chifre | de narval, por um relicdrio obtido no saque de uma cidade alema por Iva, 0 pm | | Terrivel, e por “alguns animais ¢ um tre- né lapao”.? Em poucos anos, ele trans- formara essa modesta quantidade de objetos num museu particular capaz, 87 Russo reinare Pe a TER B MANTER segundo o curador, de encher trinta salas s6 com 08 itens dos deposits, que inchafam animais exéticos, monstruosidades, armas, utensilios, itens etng grificos ¢ presentes de embai 1716, ela seria ampliada pela didiva de dois tesouros de ouro citico encon. trados na Sibéria, Pedro, com seu incansivel impulso modernizador, notg. riamente 0 castigo das barbas boiardas, nao se contentou em manter essa, riquezas guardadas: elas deveriam servir de instrugio para todos, ¢ assim sy = colegio foi aberta ao puiblico em 1714, com ordens para manter longe a ple. be, e para servir vodca e outras comidas ¢ bebidas & melhor classe de visitan. tes, 0s aristocratas e estrangeiros. Ao estabelecer sua colegao, Pedro buscara, como era seu lema, instruirse com o que havia de melhor, e foi 0 filésofo alemao Leibnitz quem aconse- Ihou o monarca sobre o que devia comprar € como organizar suas posses; adores estrangeiros. Mais tarde, em 1715 , Em relagdo ao Museu e aos gabinetes ¢ Kunstkammern, é absolutamente essencial ® © gue sirvam nao apenas de objeto da curiosidade geral, mas também de meio para Ygwowy2 Ww Esse gabinete deverd conter todas as coisas aperfeigoar as artes ¢ as ciéncias (. importantes e todas as raridades criadas pela natureza ¢ pelo homem. Hé uma ne cessidade especial de pedras, merais, minerais, plantas silvestre e de suas e6pias antficais, tanto animais empalhados como animais preservados(..) As obras estan- geiras a serem adquiridas devem incluir diversos livros, instrumentos, curiosidades ¢ raridades (...) Em resumo, tudo que possa esclarecer ¢ agradar os olhos.* Em obediéncia a essa determinagao, agentes foram enviados a toda a Europa em busca de objetos de valor ¢ “para visitarem museus de homens sibios, tanto piblicos como particulares, ¢ observarem em que o Museu de S Majestade se diferencia dos deless e verem se algo est faltando no muscu Sua Majestade, ¢ se esforcarem para preencher essa lacuna”. ut faco, cuja . la desse monarca maniaco, Colecionar era apenas uma faceta na vid: f inextinguivel energia trouxe para o presente, segurando-a pelo resto de ea lo, a recém-barbeada corte de Moscou ¢ Sao Petersburgo. O a aparet . a nao sabia ficar parado. Era implacdvel com os inimigos, a Jurando na guerra de vinte anos com a Suécia como sufocando véris 6 es com mao de ferro. Quando 0 filho, Alexis, fugiu desse pai domin 88 ‘A ARTE REFINADA DO DOUTOR RUYSCH para a Austria ¢ tentou conseguir apoio contra ele, Pedro o atraiu de volta, Jevou-0 a julgamento e, segundo a versio que escolhamos, mandou maticlo 4 chicotadas ou estrangulou-o com as préprias maos. Cortesios envolvidos vio epis6dio foram empalados, torturados na roda ou chicoteados e banidos. (Os esforgos do czar em tempos de paz eram igualmente severos ¢ exaus- rivos, ¢ ele tinha a fama de ser duro com amigos e inimigos. Nao que se pou- passe, a si mesmo. Envolvia-se ativamente no planejamento da nova cidade de Sao Petersburgo, reformando impostos, viajando pela Europa, visitando outros monarcas ¢ trabalhando incégnito (mais ou menos) como carpinteiro em estaleiros, farreando regularmente com a Assembléia Bébada, uma corte de faz-de-conta que se dedicava a beber enormes quantidades de dlcool, na qual ele assumiu o papel de arquidiécono Pedro, enquanto modernizava, comandava guerras, legislava, e colecionava o que, a seu ver, traria beneficios para a cultura de seu pafs (quase como uma reflexao tardia). ‘Suas comemoracées eram sempre em grande escala, ¢ impréprias para estémagos delicados. Embaixadores recebiam ordens sumérias para compa- recer € se divertirem, e nobres russos que relutavam em expor a saiide as imensas quantidades de vodca consumidas nas farras descobriam que a ira do czar era tao terrivel quanto a generosidade que thes impunha. Um deles foi chicoteado porque preferira nao ir a uma festa, apesar de constar da lista de convidados. Enquanto desgastava praticamente todos aqueles a quem abengoava com sua hospitalidade, Pedro parecia, ele mesmo, indestrutivel. Um ministro de Hanover conta que acordou com ressaca em Peterhof em 1715, incapaz de lembrar o que acontecera na noite anterior, e foi encontrar czar cortando érvores para recuperar a sobriedade. Entdo, escreveu o infe- liz aleméo, “recebemos outra dose de bebida que nos mandou, desacordados, Para a cama”. Os habitos etflicos de Pedro eram not6rios entre aristocratas € diplomatas. © dinamarqués Just Joel foi mandado de volta, de camisolao, Para uma “festa em que se corria risco de vida”, da qual tentara escapar. “Para © enviado estrangeiro”, lamentou ele, “essas sessdes de bebedeira sio uma terrivel provagao: ou participa e acaba com a satide, ou nao aparece ¢ cai em desgraca com o czar”. Em seus raros momentos de sossego, Pedro dedicava-se a oficios, especi- almente torneamento de madeira, osso € marfim, habilidade da qual tinha 89 Nh nrogy sow TER E MANTER um orgulho desmedido, Diversas obras de sua lavrafaziam parte da cole Algumas das paixes a que se entregava o governante de todas a Rave provocavam comentérios espantados de visitantes: “Sua maior paixig ¢.* casas pegando fogo, o que se tornou muito freqiente em Moscous, ong, guém se dé 20 trabalho de apagar um incéndio, a ndo ser que haj 400 500 casas em chamas”,informou um observador francés em 1689.0, insistia em comandar 0s trabalhos de combate ao fogo pessoalmente, se pre se colocando nos lugares onde era maior o perigo. Seu amor por anger, outras aberragSes 3s vezes expressava-se por meio de lauta (pelo men, para nossos olhos) crus festividades, como o casamento do anio ral lan Volkov, para o qual o czar mandou reunir e enviar para Sao Petersburg dos os andes de Moscou, que ficaram trancados como gado por vitos day antes de receberem roupas especialmente preparadas, nas quaistiveram de comemorar 0 casamento de Volkov como uma vasta assembléia de lilipuiancs, enquanto espectadores normais mal conseguiam abafar as risadas, A medida que os folides se embebedavam e descobriam que as pernas curtas se recus- vam a obedecer. Quando Volkov morreu em 1724, todos os andes resden- tes em Sio Petersburgo foram convocados para acompanharem o caixio,ea ver nin. —SSS— 90 ‘A ARTE REFINADA DO DOUTOR RUYSCH procissio foi organizada em pares, de acordo com a altura dos carpidores, ‘ps menores na frente ¢ 0 mais alto, o czar entre eles, atrés. Pedro tinha um grande fas ‘0 por anatomia, doenga € morte, € se jul- ava excelente cirurgido. Parte de sua colegio era formada por dentes que _ yj. ‘o arrancara, nem sempre por necessidade. Muitos transeuntes ino- ele prop entes cediam seus molares para satisfazer a fome cirdirgica do czar. Os den- tes da colecio sio registrados assim num catélogo da época: “dentes extraidos pelo Imperador Pedro de diversas pessoas”, entre eas um cantor, alguém que po de Rostov ¢ um mensageiro de pés ligeiros fazia toalhas de mesa, um (“mas nao 0 suficiente”, com observa Stephen Jay Gould). O interesse de Pedro por preparados anat6micos era especialmente for- te. Quando visitou Vinius, 0 boticério real: “Vi aqui uma grande maravilha, que em casa se cos- ibau, escreveu, em estado de grande agitagao, a Andrei tumava dizer que era mentira: um homem tem em sua botica, numa jarra de solugées alcodlicas, uma salamandra que tirei e segurei nas maos: isto é, pa- lavra por palavra, exatamente como foi escrito."” Em sua segunda viagem européia, em 1716-17, desta vez oficialmente como monarca, 0 czar fez questio de visitar grandes colegdes por onde passou, fosse na Torre de Lon- dres, na Biblioteca Bodleiana em Oxford, em gabinetes particulares de curi- osidades, na famosa Kunstkammer do eleitor da Saxénia em Dresden ¢, € claro, no theatrum anatomicum em Leiden e no museu do Dr. Ruysch. Seu entusiasmo pelo esteticismo mérbido do embalsamador holandés era ilimi- tado. Comprou toda a colegio pela enorme quantia de 30 mil rublos ¢ man- dou-a para Sao Petersburgo, onde algumas pecas ainda sobrevivem na Kunstkammera, Depois de Pedro, 0 ato de colecionar estabeleceu-se firme- mente entre 0s aristocratas russos, como j4 ocorria na Europa Ocidental. Catarina, a Grande, seguiu seu exemplo, comprando colegdes inteiras para encher o seu palacio de inverno, o Hermitage. 1 Parte II Uma Hist6ria Completa das Borboletas Esse Velho Curioso Nio € facil localizar o Departamento de Lepidépteros do Museu de Histéria Natural de Londres. Corredores dao voltas por toda a hist6ria do museu; passam por dignos ¢ quase abandonados armédrios de mogno na ala antiga e levam a imensos sistemas metélicos de armazenagem na nova ala, contendo bandejas e bandejas bandejas de mariposas ¢ borboletas de todos os tama- nhos, cores, origens ¢ de todos os niveis de raridade e beleza. Estima-se que ali sejam mantidos 68 milhdes de espécimes, dos quais 20 milhdes sio de borboletas. A colegio tornou-se uma vasta base referencial para a taxionomia de espécies conhecidas e desconhecidas, ¢ todos os dias chegam pacotes de todas as partes do mundo, com um vago cheiro de produtos quimicos e con- tendo criaturas secas ou presas a pedagos de papelo ou suspensas em dlcool. Mostram-me exemplos verdadeira- mente espetaculares, coisas delicadas milagrosamente ricas ¢ variadas em suas cores, aparicdes iridescentes com asas do tamanho de mios, mariposas mortas que parecem ter criinios desenhados no dor- so macigo, ¢ outras tio pequenas que é quase impossivel acreditar em sua com- plexidade. Os espécimes que procuro, entretanto, esto todos num pequeno armario, num grande salio com um cheiro insuportavel de naftalina. Ali, aber- tas com uma chave especial, estao algumas bandejas com borboletas em molduras de vidro individuais, todas rotuladas 4 mio ¢ seladas com perga~ 95 ‘TER E MANTER rns desses espécimes tm um ponto de referéncia usada no passado para q muito e praticamente se desintegrara minho nas bordas. Algu . cando que sio a amostra ae é freram ‘ spécie; outros sO Secon eral, grande, com asas vermelhas axavesadas de martom ¢ oe Pel evee épouco mais do qu o fantasia de uma borbole, "ay como uma folha outonal J, meras nuances de cor entre as duas gn Ay Geo que sustentam o que ainda Festa. mina sae igeis vesgjos foram parte de Uma dS malores cols Europa jd vu, fundamental nfo apenas para 08 acervos do Muy 4 vhs Notaral mas também para os do Museu Britanico: a obra dy aa Hans Sloane (1660-1753). le Que, “Desde jovem sempre me agradou muito o estudo das plantas, e de gy partes da natura, e vi muitas desss curiosidades, que se enconran = nos campos como nos jardins ou gabinetes de curiosidades nestas reisgr dizia Sloane, recordando sua infancia irlandesa. Nascido em 1660, fh, f tum administrador de terras em Killyleagh, condado de Down, estadouy escola latina local. Aos 16 anos, desenvolveu hemoptise, dolorosa doen, que o fazia cuspir sangue e durou trés anos, embora outras fontes sustensey que ela 0 atormentou, intermitentemente, pelo resto da vida. E possivel qe este problema de satide tenha forcado o jovem a se voltar para objetivos nis académicos, em vez de seguir a vida campestre da familia. Aos 19 anos, exw. dou no Apothecary’s Hall, em Londres, ¢ logo chamou a atengio de Robet Boyle, destacado quimico e médico. O jovem cultivou a amizade de Boye “informando-o de tudo que lhe acontecia, que parecesse curioso ¢ imp tante, ¢ que o Sr. Boyle sempre recebia com sua costumeira candura c devo: via com todos os sinais de civilidade e estima”. Depois de quatro anos no Apothecary’s Hall, Sloane viajou ao exteir para estudar em Paris, dividindo o tempo entre o Jardin Royal des Pantest o Hopital de la Charité. Era um estudante voraz, como atesta um amigo: Ele chegou as seis da manha no Jardim Real de Plantas com M. Tournefoutt, apresentou as Plantas de acordo com a Ordem de Caspar Bahuin (..) até #0" quando M, Duforty explicou suas virtudes até as dez; e as duas da tarde M du Verne) 96 ESSE VELHO CURIOS sew extos de Anatomia a6 a8 quate, e fo subsiuido por M. Salyon, o profesor de quimicas aia por M. Faveur.? que discursou em francés sobre as operagées a serem realizadas naquele palo jovem Sloane foi para a mais famosa escola de medicina da época, Montpellier. Por ser protestante, nao péde obter um diploma em Paris e ay Montpellier, e teve de terminar 0s estudos em Orange, Recebeu o diplo- ta de doutor em medicina com t jovem médico voltou para a Inglaterra com uma carta de apresentacio para oe, Thomas Sydenham, um dos mais notiveis médicos da época. Tornou- e,membro da Sociedade de Médicos. © mundo, pelo menos o pequeno vrundo da respeitavel sociedade londrina, estava aberto para ele. Em 1687, Sloane aceitou o posto de médico do segundo duque de ‘Albermale, que acabara de ser nomeado governador da Jamaica, provavel- snente para que fosse mantido 0 mais afastado possivel de Londres. O duque provocara considerdvel escéndalo com sua vida dissoluta, que ameagava ar~ fuinar nao apenas a si proprio mas também a reputagio do pai, o general Monck, um dos mais leais seguidores de Cromwell, que mudara de lado e fora feito duque em reconhecimento pelo papel central que desempenhara na Restauracdo da monarquia em 1660. No clima politico posterior, da dé- cada de 1680, entretanto, sob o reinado de Jaime II, cujas inclinacées caté- licas eram visiveis para qualquer um, o indécil filho de um homem eminente que antes apoiara a oposigo era um Snus, ¢ o melhor a fazer seria mandé-lo stingao. J4 respeitado homem de ciéncia, para longe. ‘A perspectiva de uma viagem ao exterior animou 0 jovem médico, espe- cialmente porque teria a oportunidade de estudar plantas ¢ drogas estran- geiras. Depois de uma viagem para a Jamaica no Assistance, fragata de 44 pecas de artilharia, Sloane estabeleceu uma rotina de obrigacées leves, que Ihe deixavam tempo de sobra para suas exploragées. Contratou artistas para registrar a natureza ¢ os animais silvestres, tomou notas detalhadas escre- veu sobre suas aventuras para os amigos de Londres: Depois de coletar e descrever as plantas, sequei amostras da melhor maneira possi- vel, para trazé-las comigo. Quando encontei as frutas que no podiam ser ressecadas 7 "TER B MANTER contratei o reverendo Sr. Moore, um dos methores des ou guardada sethistas di, niveis al, para desenhlas, e desenhar peixes aves n86tO8 ete em ction, 4. NC lev ‘© comigo ao campo, para que pudesse trabalhar nos préprios locais.* Os dias de Sloane nas indias Ocidentais estabeleceram o padrio que segy pelo resto da vida, Como seu posto de médico do duque nao the exigig a ce grande parte do seu tempo era preenchida explorando, catalogande ¢.” servando suas descobertss, logo passou a administrar uma clinica médie s sucesso para atender ao cireulo do governador e 40s cidados menos privig giados de Port Royal. (Um dos seus pacientes foi Sir Henry Morgan, bucancng aposentado, cujo problema de satide consistia em beber tanto que nio con, seguia dormir, conseqiiéncia pouco comum do consumo exagerado de sleool Embora nio admitisse que coisa alguma atrapalhasse sua paixio, Sloane sinha consciéncia dos perigos que se escondiam em toda parte. “Naquele clims discante, o calor e a chuva sio excessivos”, escreveu. “As regides desabitadas _) costumam ser infestadas de serpentes € de outras criaturas peconhentas (..) Os prdprios lugares discantes das colénias geralmente estio cheios de negros fugitives, que preparam emboscadas para matar os brancos.” Nao eran apenas ex-escravos rebeldes que ameagavam sua crescente colecao; o clims wropical representav2 de beija-flores, ¢ fai obrigado, para protegé-las de formigas, a penduriias na ponts de cords de uma roldana presa 20 teto, e ainda assim elas dere: um jeito de chegar 20 teto ¢ destrui-las.” A fase de Sloane como médico colonial ¢ colecionador de espécies rarss fei bruscamnente interrompida em 16 de marco de 1688, quando seu patti ue tinks experimemtado com entusiasmo tm produto local, o rum jamaica. senses de repeme. & Gagaess, sem divide aliviada com o fim antecipado & sea exSin, decid voltas para casa. Sloane descobriu que sua capacidade & preserva oxyssisnon mostron-se muito ati), pois 0 corpo do dugue precise va ser embalvamado a Sin de sex mandado para a Inglaterra, As incor? politicas que cereavamn 9 cada vera sitiado Jaime I impediram que? up viajasse non Gnon meses veguinnes, A duguesa viva decidin sabiamente 2 Inglaterra de umn rei catblicn cada ver mais intransigente no era U bom lugar para viver. Acabaram partindo em agosto, quando parecia cert? gue ficuldades extras. “Tentei preservar as peles ¢ penas % ESSE VELHO CURIOSO Jaime II ndo duraria muito, Ao chegar d Inglaterra, o duque, embalsamado djuas vezes, foi sepultado na Abadia de Westminster. De volta a Londres, Sloane rapidamente explorou suas relagées € sua especialidade, Montou um consultério na Bloomsbury Square € logo conta- ya, entre seus clientes, com alguns dos membros mais influentes da socieda- de, Sua reputagio € riqueza aumentaram com a publicagio das observagdes feitas na viagem as Indias Ocidentais. Em 1693, sucedeu a Isaac Newton como. sectetirio da Real Sociedade ¢ em 1719 tornou-se presidente do Colégio de Médicos. Médico particular da rainha Anne, também recebeu um diploma honorifico da Universidade de Oxford. Apesar do cargo de consultor dos ricos e famosos, Sloane obviamente conservou um forte senso de dever pro- fissional: doava seu saldrio anual de 30 libras, como médico titular do Hos- pital de Cristo, para ajudar no tratamento de seus pacientes. A essa altura, honrarias atraiam honrarias. Atendeu o principe George, da Dinamarca, 0 consorte da rainha Anne em 1708, ¢ foi feito baronete em 1716, ¢ médico geral do Exército em 1722, Em 1727, com 67 anos, foi nomeado médico do rei George I. Obviamente muito ativo e bem-sucedido como médico € homem de cién- cia, Sloane era acima de tudo um colecionador dotado de enorme curiosida- dee de recursos considerdveis. Sua grande fortuna nao se baseava apenas no sucesso como médico; em 1695 casou-se com uma vitiva que conhecera na Jamaica, Elizabeth Langley, herdeira de uma fortuna substancial, que the permitiu dedicar-se sua paixdo € pagar somas fabulosas por objetos que julgava valiosos e genufnos. Como nao havia nada que nao lhe despertasse 0 interesse, nada que fosse pequeno ou insignificante o bastante para que ele nao tentasse adquirir, Elizabeth descobriu que seu famoso marido Ihe custa- ra caro. Quando John Evelyn visitou Sloane em 1691, apenas trés anos de- pois de sua volta da Jamaica, escreveu: Fui ver as curiosidades do Dr. Sloane, uma colecao universal das produgbes naturais da Jamaica formada por plantas, corais, minerais, terra, conchas, animais, insetos tc: colecionados por ele com grande discernimento, diversos f6lios de plantas secas ¢ um com cerca de 80: diversas samambaias ¢ outros tipos de mato: etc.: a pimenta da Jamaica em galhos, folhas, flores, frutos etc.: com seu didrio, ¢ outros discursos 99 ‘TER E MANTER filoséficos e observagées sobre a natureza é, de fato, extraordinario ¢ suficiente para apresentar uma excelente hist6ria daquela ilha, diante d, corajei e aprovei muitissimo sua diligéncia’ abundant, lo que on, Sloane nfo confiava apenas no prépriojulgamento, Agentes © matings Ihe traziam raridades, e ele comprava colegSesinteias para incorporaras as melhores peas. Seus aposentos em Bloomsbury devem ter sido extrarding Flos: pacientes ricos vinham ver o grande homem quando 0 grande homey, no podiavsité-los; outros, menos distintos mas igualmente doentes, espery vam ser atendidos; marinheiros com plantas, animais, vivos e mortos, an Biidades, artes tibaise caixas chegadas de todas as cidades portudriay 4, Inglaterra, tudo brigando por lugar em seus abrigos cada dia mais atulhados A colecio tomou novo rumo quando tum amigo de Sloane dos tempos, Universidade de Montpellier, 0 rico botanico William Courten, da Compa, nhia das indias Orientais, legou seus espécimes a Sloane em 1702, heranga ue segundo se estima alcangava a soma estonteante de 50 mil libras ester nas.© Depois disso, nada parecia capaz de deté-lo. Sloane adquiriu varias colegdes inteiras, entre elas “uma boa colegio de moedas romanas, ¢ uma mais surpreendente de conchas, mil conchas de diversos tipos e de todas as partes do mundo, curiosas pela forma, pelo tamanho, pela cor etc.”.” Nio contente com objetos de ciéncia, tornou-se cada vez mais amigo de curiosi- dades, como, por exemplo, partes dos salvados de um galedo espanhol, A essa altura, uma equipe permanente de curadores auxiliares ajudava-o na tarefa de catalogar ¢ preservar a imensa quantidade de espécimes existentes na casa Hé relatos conflitantes sobre a aparéncia da colegio, o que talvez acon- tecesse porque era continuamente alterada. Inicialmente, estava contida em onze quartos grandes, nos quais armérios para as diversas espécies revestiam parte inferior das paredes, com trés ou quatro camadas de prateleiras em cima, Os arnidrios eram ordenados de acordo com a espécie de objetos que continham: mineral ou animal, insetos ou vertebrados, conchas, ovos de aves, € um deles contendo “sete mil frutas diferentes”. Havia ainda armdrios com sapatos ¢ roupas, antigilidades egipcias, f6sscis, medalhas e moedas, ¢ virios objetos que desafiavam a classificagio, Sempre generoso quanto ao acesso too ESSE VELHO CURIOSO sus tesouros, Sloane esperava que os visitantes tivessem o maior cuida- se Go, Quando Handel vsitou o grande homem em 1740, caiu em desgracac enfureceu 0 anfitrido a0 colocar um paozinho com manteiga em cima de um raro manuscrito medieval. — (© ntimero crescente de itens na casa acabou forgando Sloane a buscar novas acomodagdes. Em 1742, resolveu mudar-se para Chelsea, onde espe- rava acomodar suas pecas mais adequadamente. Edmund Howard, que tra- rente de Sloane, ficou encarregado de fazer um inventirio. balhou como as 0 catélogo se estende por quarenta volumes in-fdlio, incluindo registros de uma biblioteca de 42 mil volumes. A colegio continuou a crescer. Jé em abril de 1743, um visitante fez 0 seguinte comentario sobre a nova residéncia de Sloane: “Sua grande casa em Chelsea esté completamente tomada; todos os. armérios e chaminés cheios de livros, raridades etc.” Um inventirio de 1753 oferece um quadro mais exato do tamanho da colegio, Relaciona, entre outras categoria: “Terras e sais 1.035 Betumes, enxofres, ambares e Ambares grises 399 Metais © minerais 2.725 Talcos, micas etc. 388 Corais, ou coisas do género, como esponijas ¢ outras plantas submarinas Lat Vegetais e substincias vegetais, como raizes, madeiras, sementes, gomas, resinas e sucos concentrados 12.506 Além de 200 grandes volumes de plantas secas, entre as quais espécimes raros colecionados por mim na Europa, na Ilha da Madeira e na América, assim como os coletados pelo Dr. Merret, pelo Dr. Plukenet ¢ pelo Sr, Petiver, © outras pessoas curiosas em todo o mundo conhecido 44 Insetos 5.439 Ourigos-do-mar e partes deles, tanto naturais como fossilizados, encontrados no mar ¢ em terra 659 Peixes © partes de peixes 1.555 Aves e partes de aves, ovos 1.172 "VERB MANTER Viboras, serpentes ete. 521 aber, edleulos de rins ¢ vesfeula, preparados anatdmicos, ¢ Humana, a coisas do género 756 Ontras coisas no compreendidas nas categorias acima, naturais ¢ artificiais 2,098 Coisas relativas aos costumes dos tempos antigos, ou antigtidades, urnas, instrumentos ete, 1.125 cas grandes 268 ‘Vasos grandes, asas e outras coisas feitas de Agata, jaspe, cornalina, cristal, além de muitos camafeus ¢ selos, excisa, incisa 700 Medalhas, antigas, como samaritanas, fenicias, gregas, consulares, ‘e modernas, ¢ moedas em todas as medalhas 23.000 romanas, et Livros em miniaturas de cores, com finos desenhos de plantas, insetos, aves, peixes, quadripedes ¢ todo tipo de curiosidade natural e artificial, vos de gravuras ete., volumes de manusctitos, a maior parte relativa d fisica e & hist6ria natural etc. aproximadamente 50.000." Sauveur Morand, homem de ciéncia francés, visitou a colegio de Sloane em 1729 e ainda estava, evidentemente, sob a impressio desse vasto ¢ estranho estratagema quando compés esta descrigao: Os armarios do Sr. Sloane compreendem onze salas grandes, incluindo sua biblioteca, a mais completa da Europa em livros de medicina; ele tem trés mil manuscritos sobre o assunto. Em seu gabinete podem ser vistas pecas anatdmicas extremamente raras, entre as quais muitas preparadas por Ruysch; 0 feto que Ciprien retirou por operagio cesariana em 1694 sem provocar a morte dt mie; varias injeges dos principais vasos de um corpo do qual as Uinicas estio cheias de nés causados por matéria tofosa, produzida pela gota; varios esqueletos, incluindo o de um sifilitico, cheio de tumores; diversas pegas mostrando doengas dos ossos; pedFas tiradas de diferentes partes do corpo — cerca de 400; da vesteulas « diversas dos intestinos 102 ESSE VELHO CURIOSO Uma colegio de medalhas; tanto antigas como modernas, 23.000 Restos de folhas de diversas drvores, deixados por insetos, varios passaros, entre os quais colibris e “oiseaux du mogol” Pel Dentes de todo tipo de animal, entre os quais presas de elefante, es de todo tipo de animal inchadas ¢ alargadas, depois de penetradas por corpos estranhos as existe uma bola de ferro fpcias Quatro mil insetos diferentes; o sapo do Suriname que permanecem dentro; numa de Grande nimero de antigitidades ‘Uma hist6i ia completa das borboletas em caixas lustradas, Hi também folhas curiosas, que lembram insetos voando, ¢ se cchamam folia amulantia Uma colegio de besouros Uma colegio de todas as espécies de aranhas Uma grande colegio de cobras preservadas em liquido ‘As asas de varias espécies de peixes voadores Um conjunto de sapatos de todos os tipos e de diferentes paises Roupas indianas’ Sloane nao delegava aos assistentes todo 0 trabalho de lidar com os detalhes. Ele préprio rotulava as pegas que possuia, registrando sua historia, suas pe- culiaridades, seus antigos proprietérios ¢ sua aparéncia, Entre os itens mais raros havia um “peito depois de sepultado por [faltando] anos que me foi dado pelo Sr. Walpole”, “um pedago do peito da rainha Katherine tirado da area da Abadia de Westminster em setembro de 1667 para as colegdes do Sr. Giffords”, “A cabega de uma miimia egipcia seca nas areias ¢ trazida do Egito pelo Sr. Sandys” e “Pedaco da pele de um paxé estrangulado na Tarquia que me foi dada pelo Dr. Vari Buns rétulos contavam histérias completas: ”. Nem todas as descrigdes eram tio breves. Al- ‘Uma bola de benzoar tirada das tripas de um professor de Lancashire que por sete ‘nos sofreu de cli uma pedra de chumbo com [flomentum a0 redor encontrada quando abriram seu provocada por ela, apesar das tentativas de médicos. O centro corpo, seguindo suas instrugdes, depois de morto, para que se descobrisse a causa de 103 ‘TER E MANTER, tio grave enfermidades um pequeno tumor de gordura expelido pot uma pes, $8 gue Pregava ting, 0 Por cer, . : . ca tum ano, quando por sangria e com ajuda de um eletustio de cont. Ref. Bal, Lan + Bals. Locate & fl. Shlph. com bel ae go com sangue coagulado."” Ls sofria excessivamente de célica depois de engolir um prego quando no teto, Ele tentara tird-lo com osso de baleia e sentiu uma dor de lad, a peitoral ele o pos para fora com uma pequena Como médico, Sloane tinha acesso ilimitado a0 tipo de monstruosda tio do agrado de colecionadores de um séeulo antes. Sua colegio contay, com uma boa quantidade de espécimes desse tipo, “Uma crianga monstruns com quatro bragos ¢ quatro pernas”, seguida de “um monstro humano com. posto de dois corpos de ctianga unidos numa cabega, € tendo quatro brags € quatro pernas. De Staffordshire”. Outros itens de anatomia davam teste. munho dos gostos ¢ habitos mais estranhos de Sloane: Daas cataratas Hradas dos olhos de uma pequena raposa cega na Groenlindia, Ha vivora muitos anos comigo em meu jardin, era eastanha no vero e branca no inver io. Hin abril, yeralmente soltava 0 pélo branco, menos em seu dltimo ano de vi quando, por estar doente, 0 pélo branco permanecow até a morte, sem snudar eon de habito, As curiosidades naturals ocupavam grande espago, Havin pogas dle wamanko consideravel, como: “O exqueleto de am orangotango ou honiem selva di Sunvaten nas fidiae Orientals pelo eapitio Sprice, Aw nition ¢ 08 pés foram ationdos xo mar nin viagemn das fndine Orientals quande a eriaturt mortell M0 25 MN tres Fvictine dado pula St, Maidstone; “Um camele empalhaco"s ¢° Wet com 1741 om Mil offs ete. de in elefite que morten de consump “thn satu, cane “l ewe’, nasind Come exposighes de proparyces iy modestas, Com” wr cmnuindennge brane puauiter nani estacira ti pag Hanover fugcrigoes He Nie ern aperins a colegio zaudégien que mierects tile ds dont ereunte! tight prin tl ay avsporior jue ite creven oolire FGnaeis connie ae se tritttaues de codons Vive, [% ee triers Moahiie ene tianelttinids de in aria nearieatins desente tere, Hote qiebte conve crtieline © (eitirin® entre AS snanelfbvule « yest lviferien, que afer crvttier precedence tiieninilinn” Ae deaerigGes de vest wa ESSE VELHO CURIOS I6gicos mostram que seu proprietério era um homem mais interessado em medicina do que em historia: “Um cranio coberto de crosta e espada, ambos encontrados no Tibre, em Roma, do lado direito do cranio esté 0 timero ou a cabega do timero, ¢ a primeira costela aderindo.”"= ‘A mansio de Chelsea, que tinha grandes e exéticos animais empalhados, barcos inteiros € uma colegio de aproximadamente 200 mil pecas, tornou- se grande atragio para visitantes. O préprio Sloane, entretanto, precisava pensar no destino que the daria depois de sua morte. Sua colegio, apesar de nio ter rival no mundo, foi tida por alguns como ultrapassada. John Wood- ward, também ardente colecionador, escreveu: “Merece censura quem esti perpetuamente acumulando colegdes naturais, sem projeto de construir uma estrutura filosofica a partir delas, ou de oferecer proposigdes que possim resultar em beneficio ¢ vantagem para o mundo.” Sem se perturbar com as eriticas, entretanto, Sloane resolveu dispor de seus tesouros, Madame du Bocage, visitante francesa, registrou com grande surpresa: “E 80 pretende, & 0 que se di we velho cu legar os frutos de suas indagagées 0 Real Sociedade de Londres.” © velho eurioso fer exatamente isso, Deixou para a Real Sociedade “minha biblioteea de livros, desenhos, manuseritos, gravuras, medalhas © moedas; antigiidades arcaicas © moder: nas, selos e camafeu cntathes ¢ pedras preclosass digatas ¢ jaspes, vasos de ‘yata, jayne ow cristal; nstrumentos, desenhos e figuras de matenistica, ¢ todas aw outras piss”. © Muscu Britinico acabava de nascer, Sloane, que sofria de uni forma de paralisia desde 1739, morrow em Lt de janeiro de 1753. Tinh 92 anos, Sua colegio, juntiamente com a bilbiotcea de Sir Robert Cotton © Biblioteca Real, doada ao Museu por George Hem 1757, foi abrigada inictalnente em Montague House, Bloomsbury, ¢ inaugurada ene 15 de ja heir de 1759, Uin relate de autoria de un mening de 12 anos em 1780 jd se refere a inte exporidnela de Lr wo muscu que parece familiar para visitantes de hoje: ‘Ava equine extavie rep Ms de todo oy tipow de serene & haart que ja viv Titi COHN sae, Havin Un par de: Havas feitae com bigs dle wvexithav, wnbérn co 408 eawenv ie & jel awacespday ote, e yan erouiafil, coisa te monstrHnt te seria Capra de deverar tréa ou quatro honiens no café dit manlia, Havin anithares de ow 1s aaa oa “Ter E MANTER ras conan, que ian reno rempo de riasionay «ne verdade 080 Zriamos rds po de ficar para ver metade delas."* ‘Os estatutos do museu estipul so nacional fundado pela Autoridade do Parlamento, projetado primorgia srente para 0 uso de homens de saber € estudiosos, TaMO Raturais do pai camo eetrangeiros, em suas pesquisas nos diversos campos do conhecimen, qo", Os homens sibios ¢ estudiosos obviamente gostavam de guardar seu, tesouros para uso préprio, pois quando o historiador alemio Wendebor, paren A porta da recém-estabelecida instituigao em 1785, queixou-se de gue pessoas desejosas de vistar 0 museu precisam primeiro apresentar suas ce. denciais no escritério e s6 depois de um periodo de cerca de 14 dias tém chance de receber um ingresso”."" Mesmo assim uma visita 4s coleces nig cera coisa que se pudesse fazer 2 vontade. Um curador, deixando claro que considerava 0 aparecimento de um visitante um desperdicio do seu preciosg tempo, mostrava-Ihe as salas, sem Ihe dar chance de tomar fdlego, menos ‘ainda de examinar individualmente os objetos, expostos sem muita organi- avam gue era para Ser um “estabelecimy, zagao, ¢ sem rétulos ou etiquetas. ‘A colegio de Sloane, cada vex mais obscurecida por outros tesouros, teve uma histéria de altos e baixos em seu novo ambiente. Um Comité Parlamen- tar Seleto que investigou as condigdes do Museu Britanico em 1835 desco- briu que a maior parte do legado do grande homem tinha desaparecido, George Shaw, responsivel pelo Departamento de Histéria Natural e de Cu- riosidades Modernas, disse ao comité: “Sir Hans Sloane tinha um método para guardar insetos que era muito danoso. Espremia-os entre duas Himinas de mica, que destrufam os espécimes, na maioria dos casos, até mesmo as asas das borboletas. Poucos espécimes desses insetos ainda restam, € n6s 0s consideramos lixo, ¢ foram destruidos com outros tipos de lixo.”"” Os pou cos espécimes que tiveram a sorte de escapar dessa barbaridade estio agors guardados no Museu de Historia Natural, onde continuam a nos fazer cen: tes das riquezas desordenadas de Sloane Sloane foi provavelmente o ultimo dos colecionadores “universais”, umn ho smiet gue se ergue no vértice da velha tradigio de gabinetes de curiosidade «da nova mancira de colecionar cienuticamente ¢ da classificagio metodict 16 ESSE VELHO CURIOSO woligrafo ainda mais tardio foi o poeta, cientista, colecionador © po- isco “alemio Johann Wolfgang von Goethe). Jina época em que Sloane viveu, 0 ato de colecionar sofrera uma brusca smodanga de narureza, © Iluminismo © 0 surgimento das academias, onde ‘misdiosos se Teuniam para discutir ¢ compartiliar suas pesquisas, conduzi- rmas mais metédicas de abordar o mundo material e a formas mais das de colecionar. A ambicao de colecionar tudo que fosse digno (outro P ram a £0} especializa de nota, natural em Aldrovandi e Tradescant, cedera a vez a uma divisao de ar Tplinas,e dentro delas um novo projeto sorgiu: a clasificacio racional ¢ ao completa da narureza ¢, finalmente, da arte. a descri da dessa nova mancira de olhar 0 ‘Um homem que estava na vanguar mundo, Carl Linen (1707-78), visitara 0 gabinete de Sloane ¢ manifestara sia desaprovacio, declarando que as colegées estavam em “completa desor- dem”. Caéticas conflagragoes de curiosidades nao tinham qualquer interes- separa ele. Lineu era homem piedoso e acreditava que a obra de Deus deveria ser expressa ¢ compreendida em termos mais sistematicos. Nascido na Suécia rural, em Rashult, na paréquia de Stenbrobult, em Smland, filho de um pastor e dedicado botanico amador, estudara medici- na € tornara-se conhecido registrando as plantas da Lapénia, além dos cos- tumes do povo indigena sami. De Uppsala, o jovem foi para a universidade holandesa em Hardewijk ¢ entao, de posse de um diploma, para Leiden, um dos centros de filosofia natural do continente. Ali encontrou um patrono no famoso médico ¢ humanista Hermann Boerhaave (1668-1738), ¢ trabalhou em diversas obras botanicas. Quando voltou para a Suécia, em 1738, tinha uma s6lida reputagao como botinico mas nenhum emprego, ¢ foi obrigado, a fixar-se em Estocolmo, como clinico geral. Finalmente Ihe ofereceram uma cadeira de botinica em sua antiga universidade, Uppsala, onze anos depois. Ali, Lineu encontrou seu caminho, cultivando plantas raras em seus jar- dins botinicos, fazendo palestras para multidées de estudantes que 0 adora- vam, € que mais tarde formaram uma rede botanica mundial ¢ forneceram mais espécimes para sua colegdo, ¢ continuando a catalogar plantas de acor- do com seu sistema de classificagao sexual. Lineu descobriu que podia subdividir o reino das plantas de acordo com a forma € a fungao das partes reprodutoras dos espécimes individuais. Por 307 THR 8 MANTER esse método, chegou s 22 classes e um grande ntimero de ordens, cespécies para aprofundar a diferene! O nome latino de eada planta teria dl Benctos 0. partes: uma classificagio binom " icin i uma para a classe ¢ outra para a identificagio da espécie individual, A colegio de Lineu, euja maior parte foi vendida para Londres po 1 Sta vitiva © agora esté gua dada em gavetas em um salao reforgado do subyy em Burlington House, em Piccadilly, J sede da Sociedade Lineana, néio é mui- a to grande e $6 parece espetacular para} BY. Pier botinicos. Com sua classificagio, entre- x] tanto, ele mudou a face da pesquisa cientifica da natureza. Teve seus de- tratores, é claro, mas praticamente nao encontrou dificuldade para se impor. Quando o botanico alemao Johann Siegesbeck atacou seu sistema de classi ficagdo sexual, chamando-o de “prostituigdo repugnante”, o doce sueco achou oportuno dar © nome do botanico a uma erva particularmente antipética, ainda hoje conhecida como Siegesbeckia."* Uma forma de oposicao intelectual, mais séria do que os melindres pro- testantes, veio de um francés, o terrivel George Louis Leclerc, conde de Buffon (1707-88), diretor do Jardin des Plantes. Buffon era tudo que Lineu nao era: um extravagante nobre e erudito, independentemente rico, bem relaciona- do e transbordante de confianga na prépria capacidade. Hoje, Buffon é mais lembrado como matemético do que como naturalista. Quando tinha vinte anos, formulou o teorema binomial, importante contribuicao para a mate- matica. Trabalhou também no célculo das probabilidades e props uma ma- neira surpreendentemente precisa de calcular 0 valor de pi, prendendo alfinetes numa folha de papel quadriculado. Em sua prépria época, entretanto, foi o estudo da natureza que ™ est ais ocupou o nobre homem, Nascido no mesmo ano em que nasceu Lineu, dou direito, matemiética e botanica, traduziu Newton para o francés divul gou os escritos de Leibnitz. Forgado a abandonar os estudos em Angers depo’ de um duelo, partiu num Grand Tour em companhia do duque de Kingsto" ¢ visitou Roma Londres, onde foi eleito membro da Real Sociedade. De 108 258% VELHO CURIOSO, yolta 4 Franga, levou o pai ao tribunal por tentar deserdéclo e aceitou o car- gode diretor do Jardin de Roi (hoje o Jardin des Plantes) em 1738. Tinha 32 anos: Entio comegow a trabalhar em sua magnum opus, a Histoire naturelle, générale et particuliore (1749-1804), projetada para ocupar cingiienta volu- ‘mes, dos quais apenas 36 foram terminados. Foi a primeira tentativa feita durante o Iuminismo de representar sistematicamente todos os campos do conhecimento humano em hist6ria natural, geologia e antropologia. O siste- ima de Buffon diferia radicalmente do de Lineu, Enquanto a classificacio binomial procurava entrar cada vez mais em detalhes e fixar todas as criatu- ras com 0 equivalente intelectual de um alfinete de taxidermista, Buffon acre- ditava na instabilidade das espécies. Caracterfsticas redundantes, como o dedo posterior dos porcos, afirmava, com o tempo tendem a desaparecer, como alias a propria espécie. Esse conceito evolucionério levou-o a propor uma idade para a Terra muito maior do que anteriormente se imaginava, e a falar de diferentes perfodos durante os quais existiram espécies desde entio desa- parecidas. A Histoire naturelle era um misto de historia natural ¢ filosofia, destinada parcialmente a impedir que a obra se tornasse monétona em suas descrigées de animais e plantas. O estilo era importante para 0 conde: “Le style c'est homme méme”, como declarou, notoriamente, numa palestra na Academia Francesa. Enquanto o sistema de classificagdo de Buffon por forma e fungao de plantas €animais ndo resistiu ao teste do tempo, suas idéias sobre a instabilidade das espécies, sobre os ancestrais comuns de homens € macacos ¢ sobre a evolu- cao na natureza em geral acabaram demonstrando um alcance maior do que ele poderia ter imaginado, ¢ foram retomadas um século depois por outro apaixonado colecionador ¢ especialista em vermes, Charles Darwin. Os gabinetes dos séculos XVII ao século XVIII tinham sido cheios de objetos e criaturas extraordindrias, fora da ordem das coisas. O objetivo fi- nal desse projeto tinha sido fazer perguntas ¢ ampliar 0 tipo de conhecimen- todo mundo existente no Ocidente; dragoes e sereias, tatus ¢ baiacus, cocares indigenas e sapatos esquimés, tudo apontava para um mundo maior do que © conhecido, para uma realidade muito além do que se julgava possivel. As 109 ‘TER E MANTER classificagées tinham um cardter anedético € incerto, e, se ndo eram invent. das 20 vivo, surgiam com igual presteza tanto a partir de Plinio como de pescadores locais. O que importava era a maravilha de cada objeto, uma contestacao material das supostas limitagdes do mundo conhecido, ‘A emergente abordagem cientifica da natureza virou essa abordagem de pernas para o ar. O objetivo agora era colocar tudo numa ordem de coisas, tem seu devido lugar dentro de um grande sistema, capaz, pelo menos poten- cialmente, de absorver tudo que existia na terra € nos céus. A natureza s- submeteria a classificacio definitiva e até o étimo besouro e o tltimo musgo encontrariam seu lugar nas paginas de Lineu, apareceriam de alguma forma num dos muitos tomos de Buffon. A mente cientificafinalmente estava equi m das coisas; de fato, de acordo com escritores pada para dominar a orde1 revoluciondrios, foi a mente cientifica que estabeleceu essa ordem ¢ a impos ao universo. 110 O Mastodonte ea Taxionomia da Memoria Charles Willson Peale (1741-1827), filho de um condenado que as autorida- des britanicas mandaram para Maryland, comegou a vida como aprendiz. de seleiro. Gracas ao talento para o desenho, logo se tornou retratista de mui- 10s dos herdis revoluciondrios do comeco da hist6ria americana; entre eles, Lafayette, Jefferson € Washington, Era algo mais do que um jeito de ganhar dinheiro. Peale era um republicano convicto, que fora soldado na Guerra da Independéncia e ativo participante na consolidagao politica do pais. A pintura e a politica, entretanto, nunca foram suficientes para ocupar 0s dias de Peale, Ele obteve a patente de banhos a vapor, projetos de pontes © um poligrafo, que Ihe permitia copiar documentos, € mostrou-se incansa- vel na caga de objetos ¢ em prepari-los para exposigio — segundo idéias divulgadas pela primeira vez na Europa por Lineu ¢ Buffon — em seu mur seu, o melhor de todos os museus idealizados no século XVII. ‘A parte central do museu de Peale era uma comprida galeria com ilumi- hago natural, na qual expds os retratos de grandes americanos que cle pro- Prio pintara, como um friso na parte superior do cémodo, enquanto na parte inferior, tanto literal como metaforicamente, ficavam expostas a8 ordens menores da natureza: animais e passaros habilmente empalhados ¢ expostos ates de Kiminas de vidro. Outros armérios continham insetos, minerals € f6sseis.1 © muscu tinha cerca de cem mil objetos, incluindo 269 pincuras, aproximadamente 1.800 pssaros, mil conchas etc. O conhecimento tedrico ™erecia menos atengo: a biblioteca tinha apenas 313 volumes. Os objetos ut ‘TER E MANTER expostos eram arranjados de acordo com as siltimas teorias; Peale exp, que toda boa colecao deveria ter: va (Os diverss habitantes de cada elemento, no apenas da tribo animal mas tan espécimes da wibo vegetal — e todas as pedras brihantes € precios, sem fal 0s fragmentos de pedra € areia comuns — todos os minerais em estado virgen, Petsficagoes do corpo humano, das quais ha dois exemplos conhecidos, euma mere variedade que deveria adornar todo Museu bem sortido, Ali no devem ser yg.s duplicatas,s6 as variedades de cada espécie, udo colocado nos pontos de luz may claros, para que se tenha a melhor visio e nao seja preciso segurar!? A evolugao da idéia de como deve ser uma colecdo tinha progredido rapidg. mente desde os tempos dos cabticos tesouros de Sloane, ¢ sem divida alyy, ma desde os tempos dos gabinetes de raridades que floresceram apenas um século € meio antes: Ali ndo devem ser vistas duplicatas, Tanto quanto possivel, os arranjos de Peale conformavam-se a simples principios evolutivos que parecem mais ligados as idéias morfologicas de Buffon do que as de Lineu. Enquanto 0 orangotango era colocado mais per- to dos macacos do que dos homens, esquilos-voadores, avestruzes morce- 30 cram consideradon intermediérios entre passaros e quadrdapedes, Cenarion pintados com paisagens apropriadas valorizavam a exposicio, A natureza ea representacan da natureza eram de suprema importincia, € tanto quanto possivel o museu devia ser urn verdadeiro mundo em miniatura. No piso da galeria toda uma paisagem adquiria forma, com mato, grama, arvores e uma lagoa, na qual espécimes empalhados dos elementos apropriados (n’io rechea- das de palha mas espichadas em madeira para dar uma aparéncia mais realis- ta) caminhavam, se arrastavam € nadavam diante dos visitantes admirados. O grande urso pardo em especial, apoiado nas patas traseiras em pose amea- sadora, deve ter causado grande impressao. A pega mais surpreendente do museu, entretanto, foi adquirida por Peale em 1801, € 96 depois de um grande esforco, que ele proprio imortalizou numa tela intitulada A exumagdo do mastodonte. A descoberta do mastodonte, mamifero pré-hist6rico, foi uma sensagio nos circulos cientificos. Mesmo antes de sua descoberta, durante os trabalhos de escavacio numa fazenda de 112 (© MASTODONTE E A TAXIONOMIA DA MEMORIA Newburgh, Nova York, cientistas tinham excrito a respeito dele, como prova de que as espécies podem desaparceer, fato que fortaleceu ainda mais as idéias recentes sobre evolugao natural, Peale ¢ seu filho Kembrandt (todos os filhios tinham nomes de grandes pintores, colecionadores e naturalistas) supervisi onaram a exposigao dos 0560s gigantescos. No quadro, a tarefa chegara a seu climax: sob ameaga de uma tempestade, os trabalhos decorrem num clima de urgéncia urgentissima, uma roda ambulante puxando uma corrente de baldes para tirar agua do buraco. proprio Peale esta ali perto, em pose quase visiondria, brilhrantemente iluminado no primeiro plano e com um mapa anatémico de uma perna de mastodonte na mao. As pessoas mostradas ao redor dele, seus parentes € amigos, sio surpreendidas na grande expectativa do momento, a recupera- sao de algo que se acreditava perdido ha muito tempo (ou inexistente); e, como muitas pessoas exibidas na tela jé tinham morrido na época da exu- magao, elas também estavam sendo, dessa maneira, recuperadas. Neste mo- mento de mito particular elas estavam tao presentes quanto certamente 113 E MANTER temas de outra tela de , 2 ‘; de Catto sta colegdo, uma cépia de sua prépria lavra de Noé e sua acts 4 ago resgatando as glorias dati, estcadd estiveram em toda a vida de Peale; 0 quadro reflete Nos dois casos, 0 pai € ajudado pelos filhos, i i jm Os paralelos sio Sbvios: a morte é vencida, a natureza do i seu subjugada pela sabedoria.’ © mastodonte foi instalado m0 MNT do monstruose ai ids atraiu grandes multiddes que queriam ver os restos “ve ‘A zde Para seu dono, entretanto, aquilo nao era apenas um chamari ‘mas também uma prova de tudo em que ele acreditava. 14 (© MASTODONTE E A TAXIONOMIA DA MEMORIA, Um tipo de exposicao que Peale gostaria imensamente de ter em seu museu munca se concretizou. Enquanto considerava que fazer retratos era um meio jdequado de assegurar uma forma de permanéncia e imortalidade, ele