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BRONISLAW MALINOWSKI ARGONAUTAS DO PACIFICO OCIDENTAL UM RELATO DO EMPREENDIMENTO EDA AVENTURA DOS NATIVOS NOS ARQUIPELAGOS DA NOVA GUINE MELANESIA Com filo de Sir James George Frazer Tradugdo de Anton P. Carr (Capitulos 1- XV) ¢ Ligia Aparecida Cardieri Mendongs (Capitulos XVI - XX. revista por Eunice Ribeiro Durham 49 CAPITULO IE (Os nativos das ithas Trobriand I Deixando de lado os rochedos bronzeados ¢ a selva escura das ilhas Amph- lett — pois teremos de voltar a visité-las no decorrer dos nossos estudos, a fim de melhor conhecer seus habitantes — vamos navegar agora em direcio ao norte, rumo a um mundo completamente diferente, o das ilhas planas de coral; um distrito etnogréfico que, por um sem-nimero de modos e costumes peculiares, se distingue muito do resto do territério papua-melanésio. Até agora, navegamos por mares profundamente azuis e transparentes; nos lugares em que a agua é pouco profinda, pode-se ver o leito de coral, com sua imensa variedade de co- res e formas, com suas plantas e peixes, constituindo em si fascinante espetéculo — um mar moldado pelos esplendores da selva tropical, de cenérios vulcdnicos montanhosos, de répidos cursos de 4gua ¢ cachoeiras, de nuvens vaporosas que pairam sobre os planaltos. De tudo isso nos despedimos a0 navegarmos para 0 norte. Os contornos das ilhas Amphlett logo desaparecem de vista, envoltos na bbruma tropical; por fim, a tinica coisa que permanece no horizonte é 0 vulto piramidal e adelgacado do monte Koyatabu que nos vai seguindo até alcangarmos a laguna de Kiriwina, Entramos, agora, num mar de éguas opacas ¢ esverdeadas, moa6tono, onde se véem, quando muito, uns poucos bancos de areia, alguns estéreis e varridos pelas guas, outros com uma ou outra érvore do pandano, trepadas em suas faizes aéreas, erguendo-se acima da areia, Nesses bancos de arcia, cenérios de muitos incidentes miticos do Kula primevo, os nativos de Amphlett passam se- manas a fio, pescando tartarugas e peixes-boi. Mais adiante, em meio & cerracio do mar, se adensam os primeiros tragos do horizonte como os riseos de um lépis. Aos poucos, eles véo ganhando formas: um se encomprida e alarga, outros yao assumindo a forma de pequenas ilhas — e assim, finalmente, nos encontra~ ‘mos na grande laguna das ilhas Trobriand, com Boyowa, a maior celas, & nossa direita, e muitas outras — habitadas ou néo — ao norte e noroeste, ‘A medida que nosso barco penetra na laguna, seguindo passagens intrica~ das por entre os bancos de areia e aproximando-se lentamente da ilha principal, a selva — baixa, espessa e emaranhada — se abre aqui e acolé numa praia, deixando entrever um bosque de palmeiras, como um grande espago oco cheio de pilares. Isso é sinal de que ali se localiza uma aldeia. Descemos 2 praia, onde, via de regra, a gua é lamacenta e coberta de escéria flutuante. Na orla da praia encontram-se as canoas, a secar ao sol. Atravessando o bosque de palmeiras deparamos finalmente com a aldeia (veja fig. 8). Em breve estaremos sentados numa das plataformas construidas em frente dos celeiros de inhame, & sombra da projecio do telhado. Os trorcos roligos gastos pelo contato de pés descalgos € corpos nus, 0 chao pisado da rua da 50 MALINOWSKI aldeia, a pele marrom dos natives, que imediatamente se retinem em grandes grupos ao redor do visitante, tudo iss0 forma um esquema de cor cinza ¢ bronze, inesquecivel a qualquer pessoa que, como eu, viveu em meio a essa gente, E dificil descrever as sensages de suspense ¢ extremo intereste que 0 cetnégrafo experimenta ao entrar pela primeira vez no distrito que em breve serd ‘© campo de sua pesquisa. Certas caracteristicas do lugar imediatamente Ihe saltam aos olhos, enchendo-o de esperancas ¢ apreensdes. A aparéncia dos nati- vos, seus gestos, e seu tipo de comportamento podem constituir bom ou mau pressdgio para a esperanca de uma pesquisa fécil e répida. Prevendo a existéncia de muitos. mistérios etnograticos, ocultos sob o aspecto trivial de tude que vé, © etndgrafo fica & espreita de fatos sociolégicos significativos. O nativo & minha frente que parece bastante inteligente e tem um aspecto estranho talvez seja um feiticeiro famoso, Entre estes dois grupos de homens talvez haja uma relacdo de rivalidade ou vinganga que podera vir a esclarecer algum fato referente aos cos- tumes ¢ ao cardter dessa gente. Pelo menos eram esses os meus pensamentos, quando, no mesmo dia em que cheguei Boyowa, sentei-me préximo a um grupo de nativos observando-os cuidadosamente enquanto conversavam. Um dos primeiros fatos que nos chamaram a atengao em Boyowa é a grande variedade de tipos fisicos.* Hé homens e mulheres de grande estatura, de porte clegante ¢ tragos delicados, de perfil aquilino © bem delineado, de testa alta, nariz e queixo bem formados e uma expresso aberta ¢ inteligente (veja fig. 9, 15 e 17). A par desses, hd os de rosto negréide e prognata, boca grande e la ‘grossos, testa curta e expressio grosseira (veja fig. 10, 11 ¢ 12). Os de tragos mais suaves tém também pele de cor mais clara, O cabelo também varia, indo do liso-anelado ao crespo caracteristico do tipo melanésio puro. Usam os mesmos enfeites que os outros massim: braceletes e cintos de fibra trancada, brincos de casco de tartaruga © de discos feitos do spondylus; gostam muito’ também de enfeitar-se com ervas arométicas e flores. Sua atitude € bem mais livre, espon- tanea e confiante que a dos nativos que até agora encontramos. Quando algum visitante desconhecido chega ao local, metade da aldeia se retine ao redor dele falando alto e tecendo comentérios —- em geral pouco lisonjeiros — a respeito do visitante, e assumindo em geral um tom de jocosa intimidade. A existéncia de classes ¢ diferenciagdo social ¢ uma das primeiras caracte- risticas sociolégicas que chama a atenco do observador atento. Alguns nativos — muito fregiientemente os de melhor aparéncia — sio tratados com o maximo respeito pelos demais; estes chefes e pessoas de posi¢ao, por sua vez, se com- portam de modo bastante diferente para com os estranhos ¢, com cieito, de- monstram possuit manciras excelentes, no sentido pleno da palavra. Na presenga do chefe, nenhum dos plebeus ousa permanecer en. posicao fisica mais alta que a dele: precisa curvar ou agachar-se. De igual forma, quando © chefe se senta, ninguém ousa ficar de pé. A instituigdo definida da chef qual se demonstram tais extremos de respeito através de um cerimonial de uma realeza rudimentar ¢ de insignias de posicao social ¢ autoridade, ¢ de tal forma estranha ao temperamento das tribos melanésias que, & primeira vista, chega a transportar 0 etnégrafo para um mundo bem diferente. No curso de nossa pesquisa, amitide iremos encontrar tais manifestagdes da autoridade do chefe % G Dr. C. G. Seligman jé nos chemou 2 atengio para o fato de que entre os massim do forte hd nativos de extraordindria beleza fisica. Os habitantes das ilhas Trobriand pertencem 4 segdo ocidental desses massim do norte, ¢ sé0 "de modo geral mais altos (freqientemente bem mais altos) que os ativor de Tosto curto e mariz chato, not quais 0 oss0 do nariz bem comprido e baixo”. Op. cit, p. 8.