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Latusa digital – ano 4 – N° 29 – julho de 2007

Cidadão-sintoma *

Manuel Fernández Blanco **

O Encontro internacional do Campo freudiano PIPOL 3, que se desenvolverá em Paris nos dias 30 de junho e 1 de julho de 2007, nos convoca sob o título ”Psicanalistas em contato direto com o social”, com a contribuição dos CPCT e de outras instituições de atenção de orientação lacaniana. 1

Esse título pode parecer surpreendente, já que a psicanálise é uma prática privada. O encontro com um analista requer segredo e concerne ao mais íntimo do sujeito. Falar, então, de ação social dos psicanalistas poderia parecer um contra-senso. Mas, não se trata disso. Não se trata disso porque, como sublinha Jacques-Alain Miller, “o laço social é o sintoma”. 2

Não há laço social sem sintoma, não há qualquer forma de fazer laço que não seja sintomática, que seja desligada do gozo próprio de cada um. É justamente porque o sintoma está presente em toda relação humana, que o mal-estar na civilização não é eliminável. Malgrado todos os melhoramentos sociais, o mal- estar persiste e ainda cresce na medida em que aumenta o gozo. A questão política não é subvencionar as necessidades ou permitir os gozos, mas os articular.

* Publicado na Revista La Cause freudienne n° 66. Paris: Navarin Editeur, maio de 2007.

** Analista Membro da Escola – AME. Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise (ELP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP).

1 CPCT - Centro Psicanalítico de Consulta e de Tratamento da Escola da Causa Freudiana que oferece consultas e tratamento analíticos gratuitamente por tempo limitado.

2 MILLER J.-A. Los inclasificables de la clínica psicoanalítica. Buenos Aires: Instituto Clínico de Buenos Aires/Paídos, 1999, p. 347-348.

É impossível sustentar a ilusão de que a tolerância democrática permitiria

assegurar a harmonização dos gozos. Os exemplos são evidentes. Como ignorar que os assassinatos de mulheres por seus parceiros ou ex-parceiros, os quais freqüentemente se suicidam após o homicídio, continuam a proliferar apesar do avanço do status social das mulheres, apesar das medidas legislativas, sociais ou repressivas quanto à violência conjugal? Que as mulheres maltratadas insistem em voltar a viver com seus carrascos? Que continua a crescer o número de abortos, apesar da informação sexual e do livre acesso aos métodos contraceptivos? Que o bullying 3 se generaliza, assim como a violência nas escolas? Em nossa civilização, pululam exemplos daquilo

que se faz sintoma e de sua dupla face: enigma e mal-estar.

Deus obscuro

Desde Freud, os psicanalistas estão melhor situados para pensar e dar uma resposta àquilo que questiona e causa mal-estar. Por isso, nossa clínica e nossa pesquisa podem ser consideradas como verdadeira utilidade pública. Entretanto, habituados à subjetividade e à verdade reprimida, a “verdade autêntica”, temos padecido de uma espécie de narcisismo da verdade. Desinteressando-nos em demonstrar e fazer valer a utilidade pública de nossa prática, desembocamos num autismo social. Foi preciso o Outro, a sociedade do controle, vir nos despertar do sono dos justos.

A sociedade atual está dominada pela revolução tecnológica que se torna

equivalente ao progresso. No discurso social dominante presente e futuro contam mais que a memória. Os sujeitos de hoje estão cada vez mais a- históricos e desconectados do inconsciente, da história particular ignorada por cada um deles. São filhos do capitalismo a-histórico ou de uma historicidade reduzida ao corte sincrônico de um presente estreito. São sujeitos aos quais

3 O bullying é uma prática de intimidação.

falta culpabilidade, efeito de atos do passado, enquanto sobra angústia ante o futuro. Como já dizia Lacan em 1961.

“Não estamos mais, apenas, passíveis de ser culpados pela dívida simbólica. É ter a dívida ao nosso encargo que nos pode ser, no sentido mais próximo que essa palavra indica, censurado. Em suma, é

a própria dívida onde tínhamos nosso lugar que nos pode ser retirada,

e é ali que podemos nos sentir nós mesmos totalmente alienados. Sem dúvida, o Atè antigo nos tornava culpados dessa dívida, mas ao renunciar a ela, como podemos fazer agora, somos tomados por uma infelicidade ainda maior, a de que esse destino não seja nada”. 4

Vivemos no tempo em que “a culpa que nos resta, aquela que palpamos no neurótico, deve ser paga justamente pelo seguinte, que o Deus do destino está morto” 5 . Há quarenta e cinco anos atrás, Lacan fazia o diagnóstico de nossa época: a morte do deus do sentido lança os sujeitos a vidas cada vez mais desprovidas de sentido, pois, somente pela dívida o sujeito se liga ao Outro, se sabe filho do Outro. Temos aqui um paradoxo surpreendente: se o deus do sentido está morto, somente resta o sem-sentido, isto é, a orfandade que conduz para a extensão do sem-sentido como maneira de estar no mundo. Se outrora a desgraça significava uma dívida a pagar, incluída no destino, hoje resta apenas para o sujeito seu sacrifício a um deus obscuro.

Fantasia comportamentalista

A memória, para o mestre das regulações, normas e protocolos, é um signo de antipragmatismo. As TCC propõem ao sujeito técnicas para “virar a página”, sem se interrogarem sobre a causalidade, sobre a origem, sobre a memória que não se deixa esquecer, sobre a dimensão irredutível e singular do trauma. Essas técnicas, por diluírem as estruturas clínicas, promovem a onipotência da

4 LACAN, J. O seminário, livro 8: A transferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992, p.

295.

5 Idem, p. 296.

vontade, recusando os limites, o impossível, dirigindo o sujeito à impotência. A resposta standardizada ao mal-estar individual supõe o empuxo ao Um. O efeito de retorno dessa homologação dessubjetivante é a busca da singularidade, num empuxo a se dar um nome, mediante o recurso à diversificação imaginária (a rua é multicor) e, a um gozo separador. Assim, o laço social se apresenta cada vez mais desnudado, e a política nas sociedades ocidentais se reduz freqüentemente à impossível tentativa de articulação e harmonização entre gozos individuais e grupais cada vez mais organizados sobre a base de um mesmo traço de gozo. Isso promove na civilização a crença na possibilidade de uma relação direta do sujeito com seu objeto de gozo. Essa espécie de naturalismo coloca a fantasia no primeiro plano do laço social. O discurso atual, mescla de aparente liberalismo e de recusa da castração, ataca a inibição do sujeito com o imperativo: “Você pode!”. Ele empuxa ao pior, ao fazer curto-circuito da dimensão do sintoma, degradando-o numa inibição euóiuca. O discurso social dominante fomenta a crença de que o objeto de satisfação pode ser oferecido pelo mercado ou por uma técnica comportamental que permita maior assertividade.

O direito à psicanálise

Nesse contexto e para lembrar a utilidade pública da psicanálise, as Escolas da Associação Mundial de Psicanálise tiveram a iniciativa da criação e sustentação de Centros Psicanalíticos de Consultas e de Tratamento (CPCT) e de outras instituições de psicanálise aplicada, em diferentes lugares do mundo. Nesses centros gratuitos, tornamos possível o encontro com um analista a todos aqueles que possam beneficiar-se, sem que a dificuldade econômica, ou de outro tipo, faça obstáculo a um tratamento privado. Tal iniciativa supõe defender a psicanálise, em ato, como um direito do cidadão, como uma alternativa ao sofrimento mais íntimo de cada um. Consideramos que o encontro com um analista é algo demasiado precioso para que seja possível apenas para algumas pessoas. Conhecemos a eficácia terapêutica de nossas intervenções e sua rapidez, mesmo nos casos em que levar uma psicanálise

até seu fim lógico seria impossível. Permitir a um sujeito ter a experiência do inconsciente, para encontrar a lógica de suas decisões e de sua posição na vida, é assegurar-lhe a possibilidade de sair da repetição do pior. É para isso que o analista lacaniano é disponível. Ele faz algo raro na sociedade contemporânea: aceita trabalhar gratuitamente. Aceita sair de seu consultório privado para sustentar na cidade, com seu ato, o direito à psicanálise. Essa política se tornou possível pela generosidade de numerosos colegas e pelo apoio recebido de amigos do Campo freudiano e de instituições privadas e públicas.

Os CPCT são uma invenção poética, esta entendida como uma criação da qual necessitávamos. Os CPCT fazem existir o efeito da fala pela oferta de uma escuta. Por mais desorientado que esteja um sujeito, por mais angustiado que esteja, por maior que seja a urgência de dizer na qual ele se encontre, por mais próximo que esteja da borda de cometer um ato de conseqüências lamentáveis, basta que ele entre em um Centro para que a palavra e a escuta possam ganhar uma batalha. “A utilidade social da escuta”, para retomar a expressão de J.-A. Miller, é hoje mais necessária do que nunca, em uma sociedade onde a resposta tecnocrática ao sofrimento se baseia nos protocolos standardizados que apagam a particularidade do sintoma e sua dimensão individual, condenando cada um à cronicidade. Acrescenta-se a esse quadro, uma clínica infanto-juvenil dominada pelo déficit da palavra, o qual condena as crianças à hiperatividade e ao consumo, maciço e precoce, de drogas e de álcool.

Os CPCT são o laboratório privilegiado da clínica de amanhã. São portadores de uma clínica que transformará a clínica. Se a histérica contestava o mestre em sua posição de saber, hoje, é o real que vem como resposta ao mestre em posição “protocolar”. Os protocolos são o outro nome da rotina, do empuxo à repetição. O mal-viver encontra cada vez mais lugares de tratamento e menos lugares de escuta e de acolhimento, de modo que o real se mostra cada vez mais desnudo.

Nestes tempos, em que o próprio estatuto do cidadão está degradado no de usuário e consumidor, em que a globalização torna equivalentes a cultura e o Centro comercial, um psicanalista pode contribuir para reinventar o estatuto de cidadão. Uma clínica orientada pelo sintoma fornece ao sujeito contemporâneo a possibilidade de aceder a um lugar distanciado do estatuto de assujeito:

súdito (subdito) do signicante-mestre das práticas normativas que embocam na servidão ao gozo mais opaco. Ao sujeito protocolisado, os psicanalistas opõem o sujeito sintoma. Essa é a nossa concepção de utilidade. Não se trata de utilidade como rentabilidade capitalista, adaptação e funcionamento sem embaraço, e sim da utilidade que se deduz do mais-de-vida que o tratamento de um sujeito pela via de seu sintoma possibilita.

Essa é uma razão de estrutura. O que faz cada um sofrer é o laço. É declinando o laço de outra maneira que a posição de um sujeito em relação aos outros muda. Partindo disso, podemos dizer, com um pouco de ironia, que um psicanalista contribui para a paz social, entendendo que a paz social resulta da mutação da posição do sujeito em seu laço com o outro, e não de um a priori com tintas pastorais.

O individualismo global

Os psicanalistas lacanianos estão bem situados para responder aos desafios da civilização hipermoderna. Sabemos do orgulho dos protocolos, irreversíveis ante as contingências. Sabemos que freqüentemente o fracasso escolar não resulta de um déficit intelectual, mas de uma forma de recusa do Outro. Como também, que um acidente de trabalho pode ser fruto da pulsão de morte de um sujeito.

Essas verdades, longe se serem humildes ou sensíveis, constituem algumas das armas com as quais um psicanalista pode aceder à cena pública, transmitindo sua clínica e sua interpretação daquilo que é sintoma numa civilização caracterizada por fenômenos derivados da globalização. Este

conceito implica, como desenvolveu J.-A. Miller 6 , em suas “Intuições milanesas”, que a noção de lugar desaparece. Ele constata que aquilo “que os

sociólogos advertem é que a globalização é acompanhada da individuação. O que está afetado é o modo de viver junto, o laço social que existe sob a forma

de sujeitos desarrumados, dispersos, que induz, ao mesmo tempo, em cada

sujeito um dever social e uma exigência subjetiva de invenção”. 7

A globalização força os sujeitos a inventar suas próprias vidas, sem

referências, sem o auxílio de um discurso, e de valores universais. O paradoxo

da globalização poderia ser algo como: “Todos no mesmo e cada um na sua”.

Não há nada de mais pessoal que o sintoma, o único que permite fazer laço social, porque inclui a dimensão do Outro.

A ironia da globalização é favorecer o empuxo individualista. O global é o resultado da crise do universal, é o imaginário do universal, ele promove a lógica do não-todo e soluções fragmentárias, provisórias, locais. A crise do sentido emboca muitos sujeitos à angústia, especialmente os menos metonímicos, aqueles que necessitam abrochar um sentido para tolerar a existência. Esses sujeitos já não têm o amparo da tradição, nem dos discursos preestabelecidos e totalizadores que, cabe sublinhar, participam da lógica masculina. Um dos efeitos da globalização é uma feminização das lógicas discursivas e sociais e o empuxo a gozos que não passam pelo falo.

Se as novas formas de apresentação do sintoma são novas formas de laço social, podemos afirmar que qualquer modificação do sintoma é uma intervenção social, talvez a mais eficaz. A política da criação dos CPCT é nossa maneira de privilegiar a relação direta com o social a partir da clínica psicanalítica. É um ato político no sentido nobre do termo. Lacan, em “Lituraterra”, diz que se houvesse o encontro entre política e psicanálise seria

6 MILLER, J.-A. “Intuitions milanaises” [1]. Em : Mental, n° 11. Paris: NLS, 2002.

7 MILLER, J.-A. “Intuitions milanaises” [2]. Em: Mental, n° 12. Paris: NLS, 2002, p. 20.

por se colocar a psicanálise “à testa da política” e, assim, contribuir para que se “articulassem outras falas”. 8

Tradução: Maria Angela Maia

8 LACAN, J. “Lituraterra”. Em: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, ano 2003,

p.23.