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FUNDACAO EDITORA DA UNESP Presidente do Conselho Curador Antonio Manos dos Santos Sib, DiretorPresidente José Casitho Manques Neto AssessonEdicrial {Weio Hernani Bomfim Gusiere Contelho Editorial Académico ‘Antonio Celso Wagner Zann Antonio de Pidua Pthon Cyne ‘Benedito Antunes Carlos Erivany Fantnat luabel Maria FR. Louteto gia M, Veeworato Trevisan Maria Sueli Parreira de Arruda Raul Borges Guimartes Roberto Kraenkel Rosa Matia Feteiro Cavala EicoraBxccutiva (Christine Rabi Edita Assistente Maria Dolores Prades ANTHONY GIDDENS» A TRANSFORMACAO . DA INTIMIDADE ~ SEXUALIDADE, AMOR & EROTISMO NAS SOCIEDADES MODERNAS. ‘Tradugio de Magda Lopes = f 4 reimpressio Nes ~ Copyright © 1992 by Anthony Giddens ‘Tilo orignal em ingles: The Transformation of Isimacy: Semulity, Love & Eroticism in Modern Societies. Copyright © 1992 da tadugto brasileira 269.0 Fandagio Eitora da UNESP (FEU) eG Praga da Se, 108, (01001.900 - Sto Paulo - SP Tels oat) 232-7171 -_ Fax (Onl) 2327172 = @80 Home page: www-edicora.unesp.be ¢ Email fex@editora.unesp.br ‘Dados Internacionais de Catalogagio na Publicaco (CIP) (Camara Brasileira do Livro, S, Brasil) Giddens, Anthony. ‘A transformacio da insimidade: semualidade, amor & eroismo nas sociedades modernas/Anthony Giddens; traduyio de Magda Lopes. ‘Sto Paulo: Edtora da Universidade Estadual Paulista, 1993. - (Biblioteca basi) S ISBN 852713903711 1-Amor 2. rocismo 3. Intimidade (Psicologi) 4. Sexo ~ Aspec tos socials 1. Titulo. IL. Tieulo: Semualidade, amor & erotismo nas sociedades modernas. II. Site. 93.0396 cpp3067 Indices para catlogo sistematico: 1. locinidade e senaldad: Scsloga 30627 2. Senile icmidade, Scope 306.7 250 20 __ Seo Univeraldade de Brasilia B 27 47 59 7 125 149 SUMARIO. Preficio Introdugio Experiéndas do cotidiano, relacionamentos, sexualidade Foucault ea sexualidade O amor romintico e outras ligagSes ‘Amor, compromisso ¢ relacionamento puro ‘Amor, sexo ¢ outras inclinagées , O significado sociolégico da codependéncia Distirbios pessoais, problemas sexuais Contradigées do relacionamento puro Sexualidade, repressio, civilizagio 201 223, ANTHONY GIDDENS A intimidade como democracia Indice remissivo PREFACIO ‘Varias pessoas leram e comentaram os primeiros esbosos deste livro. Tanto quanto permitiu a minha capacidade, tentei levar em consideracio a maior parte das criticas levantadas. Sou especial- mente grato as seguintes pessoas: Grant Barnes, Michéle Barrett, Teresa Brennan, Montserrat Guiberneau, Rebecca Harkin, David Held, Sam Hollick, Graham McCann, Heather Warwick, Jeffrey Weeks um revisor anénimo da Sanford University Press. Gostaria também de agradecer a Avril Symonds por seu trabalho nna preparacio do manuscrito ¢ a Helen Jeffrey por sua muito conscienciosa revisio das provas. Pretendi produsir um livro que fosse acessivel 4 maioria das pessoas com interesse em sua leitura. Adsim sendo, sempre que possivel evitei a linguagem técnica, mesmo ao me desviar para dreas ineelectuis de alguma complexidade. Usilizei uma ampla variedade de fontes, mas visando ir a leitura, reduzi a um minimo as referéncias e as notas de rodapé. Um recurso que utilize! extensa- mente talver necessite aqui de algum comentirio: a literatura de autoajuda, Desprezada por muitos, para mim ela oferece insights de outro modo impossiveis, e eu me coloco deliberadamente tio préximo do génere quanto possvel, no desenvolvimento dos meus proprios argumentos. INTRODUGAO Sexualidade: tema que poderia parecer uma irrelevancia pabli- ‘ca ~ questo absorvente, mas essencialmente privada, Poderia ser também considerada um fator permanente, pois se trata de um. componente biolégico ¢ como tal necesséria A continuidade das espécies. Mas, na verdade, o sexo hoje em dia aparece continua mente no dominio piblico ¢, além disso, fala a linguagem da revolugfo. O que se diz é que durante as tltimas décadas ocorreu uma revolugio sexual; ¢ as esperangas revolucionérias tém condu- tido a reflexio sobre a sexualidade muitos pensadores, para os ‘quais cla represena um reino potencial da liberdadte, nfo maculado pelos limites da civilieaco atual. Como se poderia interpretar tais afirmagées? Essa questio impeliu-me a escrever este livro. Comecei a escrever sobre sexo. E ‘me deparei escrevendo quase outro tanto sobre o amor; ¢ sobre os géneros masculino ¢ feminino. As préprias obras sobre sexo tendem a uma separacio por género. Em alguns dos estucdos mais notiveis sobre a sexualidade, escritos por homens, nio ha virtual- mente nenhuma mengio ao amor, ¢ os géneros aparecem como ‘uma espécie de adendo. Atualmente, pela primeira vee na historia, as mulheres reivindicam igualdade com os homens. No que se segue, nio tento analisar até que ponto persistem as desigualdades 0 ANTHONY GIDDENS entre o¢ sexos nos dominios econémico ou politico. Em ver disso, concentro-me em uma ordem emocional em que as mulheres ~ as mulheres comuns, que tratam de suas vidas cotidianas, ¢ também ‘08 grupos conscientemente feministas ~ foram pioneiras em mu- dangas de grande e ampla importincia. Estas dizem respeito essencialmente a uma exploragio das potencialidades do “relacio- ‘namento puro”, um relacionamento de igualdade sexual e emocio- nal, explosivo em suas conotagSes em relacko as formas preexis- tentes do poder do sexo. Aascensio do amor romantico proporciona um estudo de caso das origens do relacionamento puro. Durante muito tempo, os ideais do amor romantico afetaram mais as aspiragées das mulheres do que dos homens, embora, é claro, os homens também tenham sido influenciados por elas. O ethos do amor romantico teve um. impacto duplo sobre a situagio das mulheres. Por um lado, ajudou a colocar as mulheres “em seu lugar” - o lar. Por outro, entretanto, amor romintico pode ser encarado como um compromisso ativo e radical com o “machismo” da sociedade moderna. Q amor romantic pressupse a possibilidade de se estabelecer um vinculo emocional durivel com o outro, tendo-se como base as qualidades intrinsecas desse préprio vinculo. Eo precursor do relacionamento puro, embora também permaneca em tensio em relagio a ele. ‘Acemergéncia do que eu chamo de sexualidade plastica ¢ crucial para a emancipaco implicita no relacionamento puro, assim como para a reivindicagéo da mulher ao prazer sexual. A sexualidade plistica é sexualidade descentralizada, iberta das necessidades de reprodugto, Tem as suas origens na tendéncia, iniciada no final do século XVIII, & limitagio rigorosa da dimensio da familia; mas tornase mais tarde mais desenvolvida como resultado da difusio da contracepgio moderna e das novas tecnologias repro- dutivas. A sexualidade plistica pode ser caracterizada como um traco da personalidade e, desse modo, esté intrinsecamente vincu- Jada ao eu. Ao mesmo tempo, em principio, liberta a sexualidade da regra do falo, da importincia jactanciosa da experiéncia sexual masculina. ATRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE " As sociedades modernas possuem uma historia emocional secreta, mas prestes a ser completamente revelada. E uma historia das buscas semuais dos homens, mantidas separadas de suas identidades piblicas. © controle sexual dos homens sobre as mulheres é muito mais que uma caracteristca incidental da vida social moderna. A medida que esse controle comeca a falhar, observamos mais claramente revelado 0 cariter compulsivo da sexualidade masculina - ¢ este controle em declinio gera também tum fluxo crescente da violencia masculina sobre as mulheres. No ‘momento, abtiu-se um abismo emocional entre os sexos, e no se pode dizer com qualquer certeza quanto tempo ele levari a set transposto. Mas as possibilidades radicalizadoras da transformagio da intimidade sio bastante reais. Alguns tém declarado que a intimi- dade pode set optessiva, ¢ isso pode realmente ocorrer se ela for encatada como uma exigéncia de relagio emocional constante. No entanto, se considerada como uma negociagio transacional de iculos pessoais, estabelecida por iguais, ela surge sob uma luz completamente diferente, A intimidade implica uma total demo- cratizagio do dominio interpessoal, de uma maneira plenamente compativel com a democracia na esfera publica. Hé também implicagdes adicionais. A transformagio da intimidade poderia ser uma influéncia subversiva sobre as instituigSes modernas como um todo. Um mundo social em que a realizado emocional substituisse a maximizacio do crescimento econdmico seria muito diferente daquele que conhecemos hoje. As mudangas que atual- mente afetam a sexualidade sio, na vetdade, revoluciondrias ¢ muito profundas. EXPERIENCIAS DO COTIDIANO, RELACIONAMENTOS, SEXUALIDADE Em sua novela Before She Met Me, Julian Barnes discute o destino de um certo Graham Hendrick, historiador académico, que deixou sua mulher e comegou tum novo relacionamento com outra. No inicio do romance, Graham est com quase 40 anos, ficou 15 casado e, “na metade da vida", péde “sentir 0 declinio”. Em uma festa, que seria absolutamente comum, ele conhece Ann, que jf foi uma atriz de filmes mediocres, depois tornou-se compradora de moda, Por alguma razio, 0 seu encontro com ela desperta nele sensagSes quase esquecidas de esperanga ¢ cxcitagio. Sente-se como se alguma linha de comunicacto ha muito rompida, com alguém de vinte anos atris, de repente se restabelecesse” € ele sentese “mais uma vez capa de loucurase idealismo”. ‘Apés uma série de encontros clandestinos, que se transformam ‘em um caso intenso, Graham deixa sua mulher ¢ ilho e vai morar ‘com Ann. Apés 0 divércio, os dois se casam. © amago da novela diz respeito a descoberta progressiva de Graham sobre os amantes na vida de Ann, antes de seu aparecimento. Ela esconde pouca ‘coisa, mas nfo fornece espontaneamente qualquer informacio, a menos que ele perguntasse diretamente. Graham torna-se aos poucos obcecado por uma necessidade de descobrir os detalhes cexuais do pasado de Ann. Assiste repetidas vezes os pequenos 4 ANTHONY GIDDENS papéis que Ann desempenhou na tela, tentando surpreender uma troca de olhares ou outros sinais que poderiam indicar que ela e uum determinado homem com quem contracenou tivessem sido amantes. As vezes ela admite que teve relagSes sexuais, mas na maioria nega insistentemente. O desenvolvimento final da histéria é selvagem e sua conclusio subverte quase completamente o estilo de humor impasstvel em que ¢ escrita a maior parte do livro, Através de uma pesquisa persistente, Graham descobre que seu melhor amigo, Jack - a quem ele confiou seus problemas em relagio a vida de Ann “antes de me conhecer” - teve um envolvimento sexual com Ann alguns anos antes. Graham combina encontrarse com seu amigo, a pretexto de continuar suas discussdes, mas leva consigo uma faca, uma “lamina de 15 cm, afinando de uma largura de 2,5 em até uma ponta afiada”. A certa altura, quando Jack volta as costas para ele, para se ocupar de algo sem importincia, Graham o golpeia. Quando Jack se vira, desconcertado, Graham Ihe enterra a faca repetidas vezes, “entre o coracao eos genitais”. Depois de fazer um curativo em seu dedo, que cortara durante o assassinato, instala-se ‘em uma cadeira com os restos de uma xicara de café que Jack havia feito para ele Nesse meio tempo, cada vez mais preocupada com a auséncia de Graham, que se estendeu noite adentro,¢ tendo telefonado para a policia ¢ para os hospitais locais em um esforgo infrutifero para descobrir o seu paradciro, Ann faz uma busca na escrivaninha de Graham. Ali encontra documentos que atestam as investigagées compulsivas de Graham sobre o seu pasado ~ e descobre que ele sabe de seu caso com Jack (0 tinico encontro sexual que ela realmente escondeu de Graham). Dirige-se a0 apartamento de Jack eli encontra Graham, juntamente com o corpo ensangientado de Jack, Sem compreender por que, ela deixa Graham acalmitla e amarrar seus bragos com um pedago de fio de eletricidade. Graham calcula que este procedimento darlhed tempo suficiente para realizar o seu objetivo, antes que ela corra para otelefone em busca de ajuda. “Nem cordées de cortina; nem melodrama”: pegando a ATRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE, 5 faca, Graham faz um corte profundo de lado a lado de sua propria garganta. Em relagéo a Ann ~ “ele amava Ann, ndo havia qualquer diivida sobre isso” ~ ele calculou mal. Ann se langa sobre o vidro de uma janela, gritando alto. Quando a policia chega, a poltrona ests totalmente ensopada de sangue ¢ Graham esti morto. A conclusio dos paragrafos finais do romance é de que Ann também se matou ~ inadvertidamente ou por qualquer outro motivo, néo sabemos. Before She Met Me nao ¢ esscncialmente uma novela sobre 0 cidme, Enquanto lt 0 material que Graham reuniu sobre ela, Ann. reconhece que ciumento “era uma palavra que ela ndo utlizaria em relagio a ele”. O importante é que “ele ndo conseguia lidar com © passado dela”. O final é violento ~ incongruentemente, devido a0 tom meio cdmico do resto do livro A violencia de Graham é uma tenvativa frustrada de dominagio. Suas origens sio deixadas completamente obscuras pelo novelista, algo que 0 pro prio Graham desconhece. Os segredos que Graham busca desco- bri na historia sexual de Ann estio ligados a0 inconformismo dela quanto a0 que ele espera de uma mulher - 0 seu pasado € incompativel com seus ideais. © problema é emocional; ele recor rnhece como ¢ absurdo supor que Ann pudesse ter vida propria antes de télo conhecido. Mas a sua independéncia sexual, mesmo quando ele ainda nao “existia” para ela, & inaceitivel, a tal ponto que o resultado final é uma violenta destruigio. Para seu crédito, Graham tenta proteger Ann da violéncia que ela provocou nele; mas € claro que de algum modo ela também termina sendo envolvida, £ as ri Os acontecimentos descritos na novela sio definitivamente contemporineos; como uma discussio das vidas das pessoas comuns, a novela no poderia ter sido situada, digamos assim, ha ‘um século atrés. Ela presume um grau significativo de igualdade sexual e, especificamente, depende do fato de que hoje ¢ comum uma mulher ter muitos amantes antes de assumir (¢ mesmo 1, Todas as ctage sto de Julian Barnes, Before She Met Me, London: Picador, 1986. Oy 6 ANTHONY GIDDENS. durante, assim como depois de terminar) um envolvimento sexual "serio". E dlaro que sempre houve uma minoria de mulheres para as quais {01 possivel a variedade sexual, e também uma certa proporgio de igualdade, Mas, em suia maioria, as mulheres tém. sido divididas entre as virtuosas e as perdidas, ¢ as “mulheres perdidas” $6 existiram & margem da sociedade respeitivel. Ha muito tempo a “virtude” tem sido definida em termos da recusa de uma mulher em sucumbir a tentagto sexual, recusa esta amparada por virias protegSes institucionais, como o namoro com acompanhante, casamentos forcados e assimn por diante. Os homens, no entanto, tém sido tradicionalmente considera dos - e niio apenas por si proprios ~ como tendo necessidade de variedade sexual para a sua satide fsiea. Em geral tem sido aceitivel cenvolvimento dos homens em encontros sexuais multiplos antes do casamento, € 0 padrio duplo apés 0 casamento era um fendmeno muito real. Como diz Lawrence Stone em seu estudo sobre a histéria do divércio'na Inglaterra, até muito recentemente um padrio duplo rigido com respeito & experiéncia sexual dos homens e das mulheres. Um tinico ato de adultério por parte de uma esposa era “uma violagio imperdodvel da lei da propriedade eda idéia da descendéncia hereditiria” ¢ a descoberta punha em agio. medidas altamente punitivas. O adultério por parte dos maridos, ao contrério, era amplamente “encarado como uma fraqucza lamentivel, mas compreensivel”.* Em um mundo de igualdade sexual crescente ~ ainda que tal igualdade esteja longe de ser completa ~ ambos os sexos sio levados a realizar mudangas findamentais em seus pontos de vista ¢ em seu comportamento, em relagfo um ao outro. Os ajustes exigidos das mulheres sio consideraveis, mas no livro, talvez pelo fato de o novelista ser um homem, estes ajustes nfo sio nem representados nem retratados com muita simpatia, Barbara, primeira esposa de Graham, ¢ descrita como uma criatura irtitante, exigente, cujas 2. Lawcence Stone, The Roa o Dione, England 1530-1987, Oxford: Oxford Univer: sy Peas, 1990, p, 7. ATRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE ” atitudes ele acha desconcertantes; embora sinta um amor consis tente por Ann, sua compreensio de seus pontos de vista e ages, nfo é nem um pouco mais profunda, Seria até possivel dizer que, apesar do intensivo trabalho de pesquisa que tealizou sobre 0 passado de Ann, ele, na verdade, nfo chegou absolutamente a conhectla, Graham tende a rejeitar © comportamento de Barbara e de ‘Ann de uma maneira tradicional: as mulheres sio seres emotivos, captichosos, cujos processos de pensamento nfio caminhan por linhas racionais. Mas sente compaixo por ambas, ¢ particularmen- te por Ann, na ocasifo da historia. Sua nova esposa nao é wma “mulher perdida” e ele no tem qualquer direito de tratéla como tal, Quando ela vai se encontrar com Jack, apés terse casado com Graham, rejeita firmemente os avangos dele. Mas Graham nao consegue tirar de sua mente a ameaga que sente do que ocorreu antes de cla estar “sob seu controle”. O novelista transmite muito bem a natureza experimental ¢ aberta do segundo casamento de Graham, que difere consideravel- mente do pri ica claro que © seu primeito casamento foi mais um fenémeno que “ocorreu naturalmente”, baseado na divisio convencional entre a esposa doméstica e ganha-pio masculino. Com Barbara, o casamento era uma coisa convencio- nal, uma parte da vida nfo particularmente compensadora, assim como terse um emprego que nfo se aprecia muito, mas suportase por dever. Em contraste, 0 casamento com Ann & uma série complexa de interages que tm de ser constantemente negociadas e “cuidadas”.’ Em seu segundo casament®, Graham penetrou em uum novo mundo que mal emergiu no tempo de sua juventude. E um mundo de negociacéo sexual, de “relacionamentos”, em que as novas terminologias de “compromisso” e “intimidade” vieram Atona, Before She Met Me & uma novela sobre a inquictagio ¢ a violéncia masculinas, em um mundo social que passa por profun- 3. Bart, Before She Met Me, p. 5558. TEEN 8 ANTHONY OIDDENS das transformagdes. As mulheres no admitem mais a dominacio sexual masculina, e ambos os sexos devem lidar com as implicagdes deste fendmeno. A vida pessoal tornouse um projeto aberto, criando novas demandas ¢ novas ansiedades. Nossa existéncia interpessoal esti sendo completamente transfigurada, envolvendo todos nés naquilo que chamarei de experigncias sociais do cotidiano, com as quais as mudangas sociais mais amplas nos obrigam a nos engajar. Vamos proporcionar uma visio mais sociolégica destas mudangas, que témn a ver com 0 casamento e com a familia, mas também diretamente com a sexualidade, Mudanga social e comportamento sexual Em 1989, Lillian Rubin estudou as historias sexuais de quase mil pessoas heterossexuais nos Estados Unidos, entre 18 ¢ 48 anos de idade. Com este estudo, ela ofereccu um testemunho que revela “uma historia de mudanga de proporgdes quase surpreendentes nas relagées entre os homens ¢ as mulheres” nas ultimas décadas.* A vida sexual anterior dos pesquisados de mais de 40 anos contrastaram dramaticamente com aquelas relatadas pelos grupos cde menos idade. A autora prefacia o seu registro com as coisas que ocorreram com a geracio mais velha através do seu proprio testernunho, ela propria sendo um membro daquela geracio. Era virgem na ocasido do seu casamento durante a Segunda Guerra Mundial, uma moga que "seguia todas as regras de sua época”, ¢ jamais teria “avangado o sinal”. Nao estava sozinha na determina- ‘gio de marcos claros para estabelecer os limites de exploracio sexual, compartilhando com suas amigas cédigos de conduta. Seu futuro marido foi um participante ativo na garantia de que estes cédigos seriam respeitados; seu senso dos “certos e errados” sexuais correspondia ao dela 4. Lilian Rubin, Erte Wars, New York: Farar, Staus and Giroux, 1990, p. 8. ATRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE » ‘A virgindade antes do casamento, por parte das garotas, era apreciada por ambos os sexos. Poucas garotas revelavam o fato de permitirem a um namorado uma relacio sexual completa ~ e muitas s6 admitiam que tal coisa acontecesse se estivessem formalmente comprometidas com o rapaz em questio. As garotas mais sexual mente ativas eram depreciadas pelas outras, assim como pelos proprios homens que buscavam “se aproveitar” delas. Assim como a reputagio das garotas estava apoiada em sua capacidade de resist, ‘ou conter, os avangos sexuais, a dos rapazes dependia das conquistas sexuais que poderiam realizar. Segundo © depoimento de um hhomem de 45 anos, a maior parte dos rapazes conseguia tais conquistas apenas “circulando com uma daquelas garotas, as vadias”. ‘Quando obsewamos a atividade sexual dos adolescentes hoje, a distinglo da garou decente/garota vadia ainda se aplica em certo grau, assim como a ética da conquista masculina. Mas outras atitudes, por parte de muitas adolescerttes em particular, mudaram radicalmente. As garotas acham que tém o direito de se envolver na atividade sexual, incluindo a relaggo sexual, em qualquer idade que thes parega apropriada, Na pesquisa de Rubin, virtalmente nenhu- ma garota adolescente fala em “se guardar” para o noivado e para o casamento, Em vez disso, falam uma linguagem de romance ¢ ‘compromisso que reconhece a natureta potencialmente finita de seus envolvimentos sexuais anteriores. Assim, em resposta a uma pergune ta de Rubin sobre suas atividades sexuais com seu namorado, uma entrevistada de 16 anos de idade observou, “Nos nos amamos, por isso nfo ha raafo para que nfo devamos fyzer amor”, Rubin entao perguntou em que extensio ela considerava um vinculo prolongado com seu parceiro. Sua resposta foi: “Voce quer saber se nés vamos nos casa? A resposta € no. Ou se estaremos juntos no préximo ano? Nilo posso responder a isso agora; ainda falta muito tempo até 14. A maior parte dos jovens nio fica junto por muito tempo. Mas no temos vontade de estar com ninguém mais enquanto estamos juntos. Isso € um compromisso, ndo &"5 5. Ibid, p. 61 OO 20 ANTHONY GIDDENS Nas geragdes anteriores, a pritica convencional era a adoles- cente sexualmente ativa desempenhar o papel de inocente, Esta telagtio hoje esta geralmente revertida: a inocncia, quando neces- siria, desempenha o papel de falsa. De acordo com as descobertas de Rubin, as mudangas no comportamento ¢ nas atitudes sexuais das garotas tm sido muito mais pronunciadas do que entre os rapazes. Ela conversou com alguns rapazes que eram sensiveis quanto as ligagdes entre sexo e compromisso, ¢ que resistitam a comparagio entre o sucesso sexual eo valor masculino, A maioria, centretanto, falou com adiniragio sobre amigos que safam com vrias garotas, enquanto condenowas garotas que faziam o mesmo. ‘As poucas garotas da amostra de Rubin que disputavam 0 com- portamento sexual masculino, o fzeram abertamente e com algum, desafio; diante de tais ages, a maioria dos rapazes reagiu com um sentimento de ultraje. Eles ainda descjavam a inocéncia, pelo menos de um certo tipo. Viiias mulheres jovens a quem Rubin entrevistou, no momento de se casarem, acharam necessério mentir a seus futuros maridos sobre a extensio de suas experignci sexuais anteriores. Um dos achados mais notiveis da pesquisa de Rubin, confit mado por outras pesquisas e que se aplica a todas as faixas etirias, a ampla variedade das atividades sexuais em que a maior parte das pessoas ou se engaja ou julga apropriado que outros patticipem, se este ¢0 seu desejo. Assim sendo, entre as mulheres cos homens acima dos 40, menos de um entre des teve relago oral durante a adolescéncia; para cada geracio sucessiva, a proporgéo aumenta, Entre a atual geragio de adolescentes, embora nao universalmente raticado, 0 sexo oral ¢ encarado como uma parte normal do comportamento sexual. Todo adulto entrevistado por Rubin ja teve pelo menos alguma experigncia neste sentido ~ isso em wi sociedade em que o sexo oral é ainda descrito como “sodomi nos cédigos civis e é, na verdade, ilegal em 24 Estados. ‘A maior parte dos homens aceita bem o fato de as mulheres terem se tornado mais disponiveis sexualmente, ¢ declaram que «em qualquer vinculo sexual prolongado desejaim uma parceira que ATRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE u seja intelectual e economicamente igual a cles. Mas, segundo as descoberts de Rubin, demonstram um descon{orto ébvio ¢ pro- fandamente arraigido quando defrontados com as implicagSes de tais preferéncias. Dizem que as mulheres “perderam a capacidade para a bondade”, que “no sabem mais como entrar em acordo” ¢ que “as mulheres de hoje néo querem ser esposas, quetem esposas”. Os homens declaram que desejam igualdade, mas muitos também fazem declaragSes sugerindo que ou rejeitam o que isso significa para cles, ou fica desconcertados a respeito. “Como voct poderia contribuir para educar as criancas?”, perguntou Rubin a Jason, um homem que, segundo suas préprias palavras, “nao tinha problemas com as mulheres fortemente agressivas”. Sua resposta: “Certamente, estou desejando fazer tudo 0 que posso. Nao preten- do ser um pai ausente, mas alguém tem de assumir a maior parte da responsabilidade... E no vou dizer que eu possa fazer isso, porque nao posso. Tenho a minha carreira, ¢ ela é muito impor- tante para mim, éaquilo por que eu trabalhei durante toda a minha vida" 6 ‘A maior parte das pessoas, homens e mulheres, chega atual- ‘mente ao casamento trazendo com elas uma reserva substancial de experiéncia e conhecimento sexual. Para elas nfo ¢ abrupta a transigo entre of encontros furtivos desajeitados ou ilicitos a sextalidade mais segura, mas também com uma freqdéncia mais ‘exigente do leito nupcial. Os casais recém-casados de hoje so em sua maioria experientes sexualmente, ¢ nfo hé periodo de apren- dizado sexual nos primeiros estigios do casamento, mesmo quar do 08 individuos envolvidos nio viveranf‘um com 0 outro previa- mente, No entanto, Rubin mostra que muito mais ¢ esperado sexual- mente do casamento, tanto pelas mulheres quanto pelos homens, do que em geral ocorria nas geragdes anteriores. As mulheres esperam tanto receber quanto proporcionar prazer sexual, ¢ muitas comesaram a considerar uma vida sexual compensadora como um 6. Thad, 146. | i 2 ANTHONY GIDDENS requisito chave para um casamento satisfatério. A proporgio de mulheres casadas ha mais de cinco anos que t8m encontros sexuais extraconjugais é, hoje em dia, virtualmente a mesma que aquela dos homens. O padrio duplo ainda existe, mas as mulheres ndo so mais tolerantes diante da perspectiva de que ~ enquanto os homens necessitam de variedade e pode-se esperar que se envolvam em aventuras extraconjugais ~ elas néo se comportem do mesmo modo. (© que podemos concluir sobre as mudangas sociais genéricas a partir de tal pesquisa, realizada com um numero limitado de pessoas, apenas em um pais? Podemos aprender, penso eu, essen cialmente o que precisamos saber para os propésitos deste estudo. E inquestionavel que, de um ponto de vista mais amplo, as transformagdes do tipo levantado por Rubin estio ocorrendo na maior parte das sociedades ocidentais - e em alguma extensio também em outras partes do mundo. E claro que ha divergéncias significativas entre paises, subculturas e camadas socioeconémicas diferentes. Alguns grupos, por exemplo, colocam-se & margem do tipo de mudangas descritas, ou tentam ativamente resistir a elas Algumas sociedades apresentam uma historia de tolerincia sexual mais longa do que outras e as mudangas que estio experimentando talver nao sejam tio radicais quanto nos Estados Unidos. Em muitas, entretanto, tais mudancas esto ocorrendo em oposicio a valores sexuais subjacentes, mais repressores do que aqueles caracteristcos da sociedade americana de varias décadas atris. Para as pessoas que vivem nestes contextos, sobretudo para as mulheres, as transformagdes que estio atual mente ocorrendo sao dramaticas ec perturbadoras. Heterossexualidade, homossexualidade ‘A pesquisa de Rubin trata apenas das atividades heterossexuais, Sua decisio de excluir as experigncias homossexuais ¢ estranha, devido 20 fato, jf revelado por Kinsey, de que uma proporgio muito ATTRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE » alta de homens, assim como uma proporgo substancial de mulhe- res, tomaram parte em atos homossexuais em algum momento de suas vidas. Kinsey descobriu que apenas cerca de 50% de todos os homens americanos eram, em seus termos, “exclusivamente hete- rossexuais”, ou seja, no participaram de atividades homossexuais, nem sentiram desejos homossexuais. Eram exclusivamente homos- sexuais ou convictamente bissexuais 18%. Entre as mulheres, 2% ceram exclusivamente homossexuais, 13% das outras se envolveram ‘em alguma forma de atividade homosexual, enquanto outros 15% declararam ter tido impulsos homossexuais, mas sem realizélos." Os achados de Kinsey escandalizaram, na época, um piblico descrente. Entretanto, no tiltimo quarto de século a homossexua- lidade foi afetada por mudangas tio profundas quanto aquelas que influenciaram a conduta heterossexual. Na ocasifo em que os livros de Kinsey fram publicados, a homossexualidade ainda era consi- derada em grande parte da literatura clinica como uma patolog ‘uma forma de distirbio psicossexual, a0 lado de tantos outros fetichismo, voyeurismo, travestismo, satiriase, ninfomania etc. ‘Continua a ser encarada como uma perversio por muitos heteros- sexuais - isto é, como especificamente nfo-natural e a ser moral- mente condenada, Mas o proprio termo “perversio” desaparecet quase completamente da psiquiatria clinica, ea aversfo sentida por muitos em relacio & homossexualidade no recebe mais um apoio substancial da profissio médica, A “emergtncia" da homossexualidade € um processo muito real, com conseq{igncias importantes para a yida sexual em geral. Foi assinalado pela popularizagéo da autodenominagio gay, exemplo daquele processo reflexivo em que um fendmeno social pode ser apropriade e transformado através do compromisso coletivo. Gay, & claro, sugere colorido, abertura e legitimidade, um. srito muito diferente da imagem da homossexualidade antes sustentada por muitos homossexuais praticantes, assim como pela 7. Alf Kiney eta, Serual Behaviour inthe Human Male, Philadelphia: Saunders, 1948; Serual Behaviour the Hunan Female, Philadelphia Saunders, 1953. m ANTHONY GIDDENS. inaioria dos individuos heterossexuais. As comunidades cultu ‘gays que surgiram nas cidades americanas, assim como em muitas areas urbanas da Europa, proporcionaram uma nova face piblica para a homossexualidade. Em um nivel mais pessoal, no entanto, © termo gay também trouxe com ele uma referéncia cada vex mais _ indida a sexualidade como uma qualidade ou propriedade do ex. Uma pessoa “tem” uma sexualidade, gay ou outra qualquer, que pode ser reflexivamente alcangada, interrogada e desenvolvida. Desse modo, a sexualidade tornase livre; 20 mesmo tempo que ay 6 algo que se pode “ser”, e “descobrirse ser", a sexualidade abresea muitos propésitos. Assim, The Kinsey Institute New Report on Sex, publicado em 1990, descreve o caso de um homem de 65 anos de idade cuja mulher morreu depois de um casamento feliz que durou 45 anos. Um ano depois da morte de sua esposa, ele se apaixonou por um homem. Segundo seu préprio testemunho, jamais havia sentido atracio por um homem ou fantasiado sobre atos homossexuais. Este individuo agora professa abertamente sua borientago sexual alterada, embora tenha de enfrentar o problema de “o que dizer aos filhos”® Sera que ha alguns anos cle teria concebido a possibilidade de poder transformar desta maneira a sua “sexualidade"? Ele entrou em uin nove mundo de maneira muito semelhante aquele de Graham. A idéia do “relacionamento” emerge tio fortemente nas sub- cculeuras gays quanto na mais heterossexual populacio. E comum, 08 homossextais masculinos terem uma diversidade de parceitos sexuais, com os quais 0 contato pode ser apenas passageiro - resumido na cultura das saunas, antes do advento da AIDS levar 20 seu virtual desaparecimento. Em um estudo realizado no final da década de 1970, perguntou-se a cerca de 600 homossexuais, masculinos nos Estados Unidos quantos parceiros sexuais eles hhaviam tido; cerca de 40% declarou o néimero de 500 ou mais.? 8, June M. Reinisch, Ruth Beasley, Th Kinscy Institute New Report on Sex, Harenonde- ‘worth: Penguin, 1990, p. 143. 9. Ibid, p14 | TRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE as Poderia parecer que encontramos aqui um universo social de ‘um movimento desmedido da sexualidade masculina, em que encontros de umé noite transformaram-se em coitos casuais de dez minutos. Mas, na verdade, uma alta proporgo de homens gays, € a maioria das mulheres lésbicas, esti todo 0 tempo em uma relagio de cohabitagio com um parceiro. Os mesmos estudos recémeitados concluiram que a maior parte das pessoas pesquisa- das esteve relacionada com um parceiro principal pelo menos uma vez por um pericdo de dois anos ou mais. A pesquisa realizada pelo Instituto Kinsey no inicio da década de 1980, bascada em entrevistas com varias centenas de homens homossexuais, cone cluin que virtualmente todos estiveram, em uma ocasifo ou outra, em um relacionamento firme por pelo menos um ano." As mulheres ¢ os homens gays precederam a maioria dos heterosse- mento de relacionamentos no sentido que o termo veio assumir hoje, quando aplicado a vida pessoal. Assim, ‘iveram de “segui:” sem estruturas de casamento tradicionalmente adotadas, cm condigdes de relativa igualdade entre os parceitos. Hoje em dia a “sexualidade” tem sido descoberta, revelada propicia ao desenvolvimento de estilos de vida bastante variados. E algo que cada um de nés “tem”, ou cultiva, nio mais uma condigio natural que um individuo accita como um estado de coisas preestabelecido. De algum modo, que tem de ser investiga- do, a sexualidade funciona como um aspecto maledvel do ex, um ponto de conexio primério entre o corpo, a autoidentidade ¢ as ormas soci xuais no estabele Tais mudangas nao sio em parte algufna melhor demonstradas que no caso da masturbagio, outrora o simbolo tertivel da sexua- lidade fracassada. A masturbacio “surgiu’” tao abertamente quanto a homossexualidade. O Relatario Kinsey concluiu que 90% dos homens ¢ 40% das mulheres, em algum periodo de suas vidas, praticaram a masturbacio. Dados de pesquisas mais recentes elevaram estas proporgdes a quase 100% no caso dos homens ¢ 10. Ibid, p. 145, 6 ANTHONY GIDDENS, em torno de 70% das mulheres. Igualmente relevante: a mastur- bagio ¢ amplamente recomendada como uma fonte importante de prazer sexual e ativamente encorajada como um modo de melhorar a resposta sexual por parte de ambos os sexos.!"! De que modo as mudangas que foram discutidas interagem com as transformagSes na vida pessoal? Como as mudancas das ‘iltimas décadas se relacionam com influéncias mais prolongadas sobre a conduta sexual? Responder a estas perguntas significa investiga como se o veio a ser algo que os individuos “possuem”. Estes problemas constituem a minha preocupagio no livro como um todo. Mas, nos tltimos anos, uma obra dominou o pensamento sobre estas questées ¢ podemos fazer uma abordagem inicial delas através de uma breve apreciacio critica do relato de Michel Foucault sobre a historia da sexualidade. Para evitar possiveis més interpretagdes, devo enfatizar que um encontro prolongado com 0 pensamento de Foucault seria deslo- cado neste estudo, ¢ no tento algo deste tipo. As brilhantes inovagdes de Foucaule colocam certas questéeschave de forma jamais pensada, anteriormente, Em minha opinifo, entretanto, seus escritos sfo também profundamente defeituosos, tanto a respeito das afirmagSes mais histérieas que faz, quanto das que infere. Os admiradores de Foucault ficario decepcionados: nio justifico estas afirmagdes em qualquer detalhe. Nio obstante, minhas diferengas com Foucaultemergem com bastante clareza na substincia dos argumentos que desenvolvo; utilizo a sua obra principalmente como um contraponto, através do qual esclarego esses argumentos. nou a “sexualidade”, 0 que cla é € como LL, W. HL Masters, VE. Johnson, Human Serual Response, Boston: Liul, Brown, 1966, FOUCAULT E A SEXUALIDADE. Em The History of Seiwality, Foucault decide atacar o que, em uma expresso famosa, ele chama de “a hipétese repressiva’.! De acordo com esse ponto de vista, as instituicbes modernas nos compelem a pagar um prego - a repressio crescente ~ pelos beneficios que oferecem. Civilizaglo significa disciplina, e discip nna, por sua ver, implica controle dos impulsos interiores, controle este que, para ser eficaz, tem de ser interno. Quem fala em modernidade fala em superego. © proprio Foucault parecia aceitar algo de uma perspectiva similar em seus escrtos anteriores, conside- rando a vida social moderna como intrinsecamente vinculada & ascensio do “poder disciplinar”, caracteristico da prisio e do asilo mas também de outras organizagées, tais como empresas comerci escolas ou hospitais. O poder disciplinag supostamente produzia “corpos déceis”, controlados e regulados em suas atividades, em vez de espontaneamente capazes de atuar sobre os impulsos do desejo. © poder aparece aqui, acima de tudo, como uma forga de repressio. No entanto, do modo como Foucault passou a avalilo, © poder ¢ um fendmeno mobilizador e nfo apenas um fendmeno 1. The Histor of Sexuality fot publicada em tts volumes, dos quais 0 volume 1: Une Inadugdo, Harmondsworth Pelican, 1981, ¢ sem divida o mas pertinent aqui isin | ~ ANTHONY GIDDENS que estabelece limites; ¢ aqueles que estio sujeitos ao poder discipl- nar rGo so, de modo algum, necessariamente déceis em suas reagSes. O poder, por isso, pode ser um instrumento paraa produgio do prazer: no se coloca apenas em oposicfo a ele. A “sexualidade” info deve ser compreendida somente como um impulso que as forsas sociais tm de conter. Mais qte isso, cla “um ponto de transferéncia especialmente denso para as relagdes de poder”, algo que pode ser subordinado como um foco de controle social pela propria energia que, impregnada de poder, cla gera. O sexo nio é conduzi jos escondidas na cvilizago moderna. ‘Ao contrario, vem sendo continuamente discutido e investigado. Tornou-se parte de “um grande sermao", substituindo a tradigto ais antiga da pregagio teoldgica. As declaragées sobre repressio sexual ¢ 0 sermio da transcendéncia reforgam-se mutuamente; a luta pela liberagio sexual faz parte do mesmo mecanismo de poder que ela denuncia. E Foucault pergunta retoricamente se alguma outra ordem social tem se preocupado de forma tho persistente ¢ intensa com o sexo? O século XIX eo inicio do XX sto a principal preocupagio de Foucauleem seu encontro com a hipstese repressiva. Durante este perlodo, a sexualidade e o poder tornaram-se interligados de muitas maneiras distintas. A sexualidade desenvolveu-se como um segredo que, a seguir, teve de ser incessantemente guardado, ¢ contra 0 qual era preciso se precaver. Tomemos 0 caso da masturbacio. Campanhas inteiras foram montadas por médicos ¢ educadores para conter este perigoso fendmeno ¢ esclarecer suas conseqilén- cas. Entretanto, tanta atengao Ihe foi dada que podemos suspeitar que 0 objetivo nio fosse sua eliminagdo mas, sim, a organizacio ¢ o desenvolvimento do individuo, fisica e mentalmente. Este foi também o caso, prossegue Foucault, das numerosas perversées catalogadas por psiquiatras, médicos e outros profissio- nais. Estas formas diversas de aberracio sexual foram a0 mesmo tempo abertas & exibigio publica e transformadas em prineipios de lassificagio da conduta, da personalidade ¢ da autoidentidade individuais. © propésito nao era terminar com as perversées, mas ATRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE » atribuirlhes “uma realidade analitica, visivel e permanente”; clas foram “implantadas nos corpos, furtivamente introduzidas em modos de conduta indignos”. Por isso, na legislagio pré-moderna, a sodomia era definida como um ato proibido, mas ndo era uma qualidade ou um padrdo de comportamento de um individuo. No ‘entanto, o homossexual do século XIX tornow-se “um personagem, uum superado, um registro de caso”, assim como “um tipo de vida, unia forma de vida, uma morfologia”. “Nao devemos imaginar”, nas palavras de Foucault, ‘que todas estas coisas anteriormente toleradas chamassem a atencio € recebessei uma designacio pejorativa quando a época acabava de outorgar tum papel regulador a0 Unico tipo de sexualidade eapaz de reproduzir 0 poder do trabalho e a forma da familia... Foi através do isolamento, da intensificagio e ds consolidagio das sexualidades perifércas que as rages de poder vinculadas a0 sexo e a0 prazer se espalliaram © multiplcaram, avaliaram 0 corpo e penettaram nos modos de conduta? Muitas culturas ¢ civilizagdes tradicionais fomentaram as artes de sensibilidade erética; mas apenas a sociedade ocidental moderna desenvolveu uma cigncia da sexualidade. Na opinido de Foucault, esta surgiu da assosiagio do principio da confissio com o aciimulo de conhecimento sobre 0 sexo. O sexo tornouse de fato © ponto principal de um confessio- nirio moderno. Segundo Foucault, o confessionairio catélico foi sempre um meio de controle da vida sexual dos figis. Envolvia muito mais que apenas as indiscrigdes gexuais, ¢ tanto o padre quanto o penitence interpretavam a confissio de tais pequenos delitos em termos de uma ampla estrutura ética, Como parte da ContraReforma, a Igreja tornou-se mais insistente em relagio confissio regular, e todo 0 processo foi intensificado. Nao apenas 6s atos, mas também os pensamentos, as fantasias e todos os detalhes relacionados a0 sexo deveriam ser trazidos a tona ¢ cexaminados. A “carne” de que somos legatirios na doutrina criti, 2 Whit, p. 478. ai nabiciaaaiinial al a nsela 0 ANTHONY GIDDENS, que inclu’ alma e corpo combinados, era a origem imediata daquela preocupacio sexual moderna caracteristica: 0 desejo sexual. Em algum momento no final do século XVIII, a confisstio como peniténcia transformouse na confissio como interrogatbrio. Foi transportada para diversos discursos ~ desde o registro de caso € © tratado cientifico até panfletos escandalosos, como o andnimo ‘My Secret Life. O sexo é um “segredo” criado pelos textos que 0 repudiam e, a0 mesmo tempo, por aqueles que o celebram. Acreditavase que o acesso a este segredo revelasse a “verdade": sexualidade é fundamental ao “regime da verdade”, caracteristico da modernidade. A confissio, em seu sentido moderno, “envolve todos aqueles procedimentos através dos quais o sujeito é estimu- lado a produit um discurso da verdade a respeito da sua sexuali- dade capaz de produzit efeitos sobre o proprio sujeito”.? Por isso, equipes de técnicos, sexélogos ¢ especialistas variados estiio prontos para escavar o segredo que ajudaram a criar. O sexo é dotado de vastos poderes causais e parece influenciar muitas agBes diversas.* O proprio esforco dispendido na investigagao transforma © sexo em algo clandestino, sempre resistente & observagio des- preocupada. Como a loucura, a sexualidade no ¢ um fenémeno jd existente, aguardando analise racional e corrego terapeutica. O prazer erético se transforma em “sexualidade” a medida que a sua investigagio produz textos, manuais ¢ estudos que distinguem a “sexualidade normal” de seus dominios patologicos. A verdade e 1 segtedo do sexo foram determinados pela busca e pelo acesso facil a mis “descobertas”. No stculo XIX, 0 estudo e a criagho de discursos sobre 0 sexo levaram ao desenvolvimento de varios contextos de poder ¢ de conhecimento. Um deles dizia respeito as mulheres. A sexualidade 3. Michel Foucault, “The confession ofthe flesh", in Calin Gordon, Miche Foucault Power/Kuouledg, Hemel Hempstead: Harvester, 1980, . 21516. 4. Michel Foucault, “Technologies ofthe ofthe Self, London Tavistock, 1988, p. 16. Ao contetio de out inerdigdes semis esto constantemente relacionadas com a obrigato de sp contar averdade sobre si mesmo: A TRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE a feminina foi reconhecida e imediatamente reprimida ~ tratada como a origem patologica da histeria, Outro tinha a ver com as criangas; a “descoberta” de que as criangas so sexualmente ativas cestava ligada & declaragio de que a sexualidade das criangas era “contrdria a natureza”. Um outro contexto referia-se ao casamento € A familia, O sexo no casamento deveria ser responsivel & autocontrolado; néo apenas limitado ao casamento, mas ordenado de modos distintos e especificos. A contracepgdo era desencorajar da, Supunhase que o controle da dimensio da familia devesse emergir espontaneamente da busca disciplinada pelo prazer. Final- mente, foi preparado um catilogo das perversbes ¢ descritos os modos de tratamento. Para Foucault, a invenglo da sexualidade foi parte de alguns processos distintos envolvidos na formagio e consolidagao das instivuigdes sociais modernas. Os Estados modernos ¢ as organi- zagbes modernas dependem do controle meticuloso das popula ges através do tempo € do espaco. Tal controle foi gerado pelo desenvolvimento de uma “andtome-politica do corpo humano” ~ tecnologias do controle corporal que visam ao ajuste, mas também 4 otimizagio, das aptidées do corpo. A “anstomorpolitica” é, por sua vez, uma questio central no reino do biopoder mais ampla- mente estabelecidos © estudo do sexo, observa Foucault em uma entrevista, & cansativo. Além de tudo, por que engendrar mais outro discurso para acrescentar a multiplicidade que ja existe? O interessante & a ‘emergéncia de um “mecanismo da sexualidade”, uma “administra- ‘glo positiva do corpo e do prazer”.* Foucault acabou se concen trando cada vez mais neste “mecanismo” em relagio a0 ex, € seus estudos sobre 0 sexo no mundo clissico ajudam a esclarecer a questo do modo como ele a vé.? Os gregos estavam preocupados 5, Foucault, The Histor of Sera v. 1, p. 142. 6, Foucault, “The confession of the flesh”. 7, Michel Foucault, Prficio a The History of Semaliy,v. 2: The Use of Pleawre, Harmondsworth: Penguin, 1987. SS | 2 ANTHONY GIDDENS em promover o “cuidado do eu”, mas de uma maneira “diametral- mente oposta” ao desenvolvimento do eu na ordem social moder- nha, que, em seu aspecto mais extremo, ele as vezes rotula de “o culto californiano do eu”. Entre estes dois, mais uma ver, estava a influéncia da ctistandade. No mundo antigo, pelo menos entre a classe superior, 0 cuidado do eu estava integrado a uma ética da cexistencia cultivada, estética, Para os gregos, segundo Foucault, a alimentagio e a dieta eram muito mais importantes que o sexo. A cristandade substituiu a visio clissica pela idéia de um eu que tem de set renunciado: 0 eu ¢ algo a ser decifrado sua verdade, idennificada, No “culto californiano do eu’, “supsese descobrit 0 seu proprio eu, separitlo do que poderia obscurecélo ou aliens, e decifrara sua verdlade gracas cigncia psicolégica ou psicanalitica” # A sexualidade e a mudanca institucional Para Foucault, a “sexualidade” é na verdade um termo que aparece pela primeira vez no século XIX. A palavra existia no jargio, téenico da Biologia e da Zoologia ja em 1800, mas somente préximo a0 final do século ela veio a ser usada amplamente em tum sentido mais préximo do significado que tem hoje para nés = como o que o Oxford English Dictionary se refere como “a qualidade de ser sexual ou possuir sexo”. A palavra aparece neste sentido em, tum livro, publicado em 1889, preocupado com o porqué das mulheres estarem predispostas a varias enfermidades que nio afetam os homens - algo atribuido a “sexualidade” das mulheres © fato de ela estar originalmente relacionada a tentativas de se manter sob controle a atividade sexual femninina ¢ amplamente ‘8, Michel Foucaule, “On the genealogy of ethics: an overview of workin progress" in Paul Rabinow, The Foucault Reader, Harmondsworth: Penguin, 1986, p. 362. Para incor discussio secunvria de Foucaul eo "eu", ver Lois McNay, Foweault and Feminism, Cambridge: Polity, 1992. 9. Stephen Heath, The Sexual Fix, London: Macmlla 982, p. 76. ATRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE demonstrado na literatura da época. A sexualidace emergiu como uma fonte de preocupacio, necessitando de solugées; as mulheres que almejavam prazer sexual eram defi Segundo as palavras de um especialista meédico, “o que éa condigio habitual do homem lexcitagio sexual] & a excego nas mulheres”.!° itivamente anormai ‘A sexualidade ¢ uma elaboragio social que opera dentro dos campos do poder, ¢ nio simplesmente um conjunto de estimulos biolégicos que encontram ou no uma liberagio direta. Mas nto podemos aceitar a tese de Foucault de que hi um caminho de desenvolvimento mais ou menos direto, desde um “fascinio” vitoriano pela sexualidade até os tempos mais recentes.!! Ti contrastes importantes entre a sexualidade revelada pela literatura médica vitoriana, e ali efetivamente marginalizada, ¢ a sextalidade como um feréinene cotidiano em milhares de livros, artigos e outras fontes descritivas atunis. Além disso, as repressdes da era vitotiana ¢ as posteriores foram em alguns aspectos muito reais, como podem plenamente atestar virias geragées de mulheres.? E dificil, senio impossivel, compreender estas questdes se permannecemos na posigio tebrica geral desenvolvida por Foucault, fem qe as tinicas forgas impulsionadoras so © poder, 0 discurso € 0 corpo. Nos escritos de Foucault, o poder se movimenta de Imaneiras misteriosas e a historia, como a rcalzacio ativamente 10. Citado em Ibid, p. 17 11, Para una verso de tl vsh, ver Heath, The Seal Fi 12, Lawrence Seone, "Passionate attachments in the Westfn historical perspective" in Williany Gain e Eel Person, Possinate Auachments, New York: Fre Press, 1988, “Tem havido muitas dissssdes sobre a “hipétese repressva". Ver, porexemplo, Pest Gay, The Bourgeois Experience, Oxford: Oxford University Press, v. 1, 19844 ¥. 2, 1986, Cf. ramen com James MaHTood e Kristine Wenburg, The Mosher Sues, New York: Ammo, 1980, que dit respito a um estudo de 45 mulheres vtorianas, condusido por Celia Mosher, De seus entevstados, 4% disseram que “sempre” ‘ou “geralmente™ experimentavam orgasmo nas relages Sexunis, unm indice que se “compara fvoravelmente como Relat Kinacy sobre ae mulheres. Oextrordinsrio trabalho de Ronald Hyun, Empire and Sexaliy, Manchester: Manchester University Prets, 1990, demonsta que 0 “vitorianismo” ndo pod ser compreendido se for Timitado a GekBreanha, A “repress” ex seu pals companou o abuso sexval spade nos dominios imperais ~ por pare dos clonizadores do sexo masculino, d ata ™ ANTHONY GIDDENS claborada das questdes humanas, mal existe. Por isso, aceitamos 0s seus argumentos sobre as origens sociais da sexualidade, mas ‘vamos situsslos em uma estrutura interpretativa diferente. Foucault colocou demasiada anfase na sexualidade em detrimento do género sexual. Silenciou quanto as conexées da sexualidade com o amor romAntico, fendmeno intimamente vinculado as mudangas na’ familia, Além disso, sua discussio da natureza da sexualidade permanece em grande parte no nivel do discurso ~ ¢, nesse nivel, as formas mais especificas de discurso. Finalmente, devese colocar em questo a sua concepgo do ex em relagio a moder- nidade. Foucault declara que a sexualidade no perlodo vitoriano era tum segeedo, mas um segredo aberto, ininterruptamente discutido em diferentes textos e em fontes médicas. © fendmeno do diversi ficado debate médico é importante, em grande parte pelas razdes que apresenta, Mas seria claramente um erro suporse que © sexo era amplamente representado, analisado ou avaliado em fontes disponiveis & massa do publico. As revistas médicas ¢ outras publicagdes semioficiais s6 eram acessiveis a muito poucos; e, até a tiltima parte do século XIX, a maior parte da populagio nfo era sequer alfabetizada. O confinamento da sexualidade as areas téenicas de discussfo era uma forma de censura de facto; esta literatura nfo era disponivel 4 maioria, mesmo em se tratando da populagio educada. Tal censura afetava tangivelmente mais as mulheres que os homens. Muitas mulheres casavamse virtualmen- te sem qualquer conhecimento sobre sexo, exceto o de que ele estava relacionado aos impulsos indesejiveis dos homens e tinha de ser suportado. Assim, era comum uma mie dizer para sua filha, “Depois do seu casamento, minha querida, coisas desagradaveis violhe acontecer, mas nfo tome conhecimento delas; eu jamais tomei”.!? 13. Citado em Carol Adams, Ordinary Lites, London: Virago, 1982, p. 129. ATEANSFORMAGAO DA INTIMIDADE 3s Eis Amber Hollitaugh, ativista lésbica,fazendo uma convocagio nos anos 80 para uma “manifestagao” de mulheres que iré revelar abertamente anseios até entio nao inteiramente enunciados: (Onde estio todas as mulheres que no se revelam docilmente e nem querem se tevelar; elas nao sabem do que gostam, mas. pretendem descobrir; s80 as amantes das sapatdes ou das mulheres femininas; que gostam de foder os homens; praticam sacomasoquismo consensual; sentem-se mais como viados que como lésbieas; adoram vibradores, penetracto, temnos; zostam de suar, de falar palavedes, de ver a expresso de ansiedade de coit nos rostos de seus amantes: S40 confisase precisam tentaras suas proprias idéias experimentais de paixdo; e sentem testo com a ejaculagio de um gas!* O faseinio pelo sexo mencionado por Foucault esta claro aqui na exortacio extitica de Hollibaugh; porém, mesmo por uma anilise superficial, poder-seia indagar se qual mais interessante que os tediosos textos médicos, de autores hhomens, que ele descreve? Como passamos de um ponto a outro por um periodo de pouco mais de um século? Se seguissemos Foucault, as respostas a estas questdes parece- riam muito ficeis. Seria possivel argumentarse que a obsessio vitoriana por sexo chegou finalmente a uma culminagio com Freud, que, partindoce uma perplexidade em relagio as mulheres histéricas, veio a encarar a sexualidade como 0 mago de toda a experigncia humana. Mais ou menos na mesma ocasiio, Havelock Elise outros sexélogos comegaram a atuar, declarando que a busca do prazer sexual por parte de ambos og" sexos & desejivel ¢ necessria. A partir dai estaremos muito préximos, passando por Kinsey e Masters & Johnson, de uma obra como Treat Yourself to Sex, em que 0 leitor ¢ comparado sexualmente a um aparelho de ridio: “Pergunte a si mesmo por que vocé deixou de se divertir com a transmissio. Com que freqiiéncia desfrutou de um progr 14, Amber Hollibaugh, “Desire for the fate: radical hope in pasion and pleasure, in Carole S. Vance, Pleasure and Danger. Exploring Female Sexaliy, London: Routledge, 1984, p. 403. 6 ANTHONY GIDDENS, ma inesperado, descoberto por acaso quando brincava com os bot6es!”. Mas as coisas nfo sfo tio simples. Para explicar como tais mudangas ocorrem, temos de nos afastar de uma excessiva énfase no discurso e examinar fatores em grande parte ausentes da anise de Foucault. Alguns dizem respeito a influéncias muito antiga, enquanto outros estio confinados a um periodo mais recente. Vou indicar, de forma breve apenas, as tendéncias mais antigas, embora a sua importéncia geral seja fundamental, uma ver «que determinam o cendrio para aquelas que afetam a fase posterior. Durante o século XIX, a formagio dos lagos matrimoniais, para a maior parte dos grupos na populagfo, baseavarse em outras consi. deragées além dos julgamentos de valor econémico. Ideias de amor romintico, antes de tudo exercendo a sua principal inluéncia sobre cs grupos burgueses, foram difundidas em grande parte pela ordem social. “Ser romantico” passou a ser sindnimo de cortejar, ¢ o8 “romances” foram a primeira forma de literatura a aleangar uma populngio de massa. A difusio dos ideais do amor romantico foi tum fator que tendeu a libertar o vinculo conjugal de lagos de parentesco mais amplos e proporcionouthe um significado espe- cial. Maridos e esposas eramn vistos cada ver mais como colabora dores em um empreendimento emocional conjunto, este tendo primazia até mesmo sobre suas obrigagdes para com seus filhos. © “lar” passou a ser considerado um ambiente distinto, separado do trabalho, e, pelo menos em prinelpio, converteurse em umn local ‘onde os individuos pocleriam esperar apoio emocional, em con- traste com o carter instrumental do local de trabalho. Particular: ‘mente importantes em relagio & sexualidade, as presses para se constituirem faruilias grandes, caracteristicas virtuais de todas as culturas prémodernas, deram lugar a uma tendéncia a se limitar de uma forma rigorosa o tamanho da familia, Tal pritica, aparen- temente una estatitica demogrifiea inocente, colocou um dedo 15. Pail Brown e Carolyn Faulder, Treat Yourself o Ses, Harmondsworth: Penguin, 1979, p35. ATRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE ” no gatilho histérico, no que dizia respeito a sexualidade. Pela primeira ver, para uma populagio maciga de mulheres, a sexual dade se aparta de um clrculo crénico de gravider ¢ parto. ‘A contragio no tamanho da familia foi historicamente no 6 uma condigfo, mas também uma conseqiiéncia da introdugio dos métodos modemos de contracepgio. E claro que o controle da natalidade ha muizo ja tinha seus defensores, em sua maioria mulheres, mas o movimento do planejamento familia s6 teve urna inf_uencia considerivel na maior parte dos paises pds a Primeira Guerra Mundial, Uma mudanga na postura oficial do Reino Unido, até aquela data com freqtiéncia veementemente hostl, foi assinalada quando Lord Dawson, médico do rei, declarou com relutincia em um discurso a Igreja em 1921: “O controle da natalidade veio para ficar. [um fato consumado e, por bem ou por mal, tem de ser aceito... Nenhuma dentincia vai derrubélo”. Sua opiniio perturbou muitos, O Sunday Express declarou em resposta, “Lord Dawson deve ser afastado!”.!6 ‘A contracepgio efetiva significava mais que uma enpacidade aumentada de se limitar a gravider. Associada a outras inluéncias, i citadas, que afetaram 0 tamanho da familia, marcou uma profunda transigZo na vida pessoal. Para as mulheres - ¢, em certo sentido, diferente também para os homens ~ a sexualidade tornou- se maleivel, sujeita a ser assumida de diversas manciras, ¢ wma “propriedade” potencial do individuo. ‘A sexualidade passou a fazer parte de uma progtessiva diferen- 0 entre o sexo ea exigtncias da reprodjigio. Com a elaboragfo adicional de tecnologias reprodutivas, essh diferenciagio hoje em dia tomou-se completa. Agora que a concepsio pode ser antificial- mente produzida, mais que apenas artificialmente inibida, a sexuae lidade fica afinal plenamente autonoma. A reprodugio pode ocor- rer na auséncia de atividade sexual; esta é uina “libertagio” final para a sexualidade, que dat em diante pode tornarse totalmente tuma qualidade dos individuos e de suas relagoes miituas. 16, Citado em Adams, Ordinary Lies, p. 138. 38 ANTHONY GIDDENS A ccriagio da serualidade plastica, agravada por sua antiqatssima integragio com a reprodugio, os lagos de parentesco e a proctiaglo, {oi a condigio prévia da revolugio sexual das tltimas décadas, Para a ‘maior parte das mulheres, na maior partedas culturas, através da maior parte dos periods da historia, o prazer sexual, quando possive, estava intrinsecamente ligido ao medo de gestagSes repetidas, e, por isso, da morte, dada a substancial proporgdo de mulheres que morsiam no parto e aos indices muito altos entio prevalecentes de mortalidade de bebés. Romper com estas conexées foi, portanto, um fenémeno com implicagGes realmente radicais. Podese dizer que a AIDS reintroduaiu a conexio da sexualidade com a morte, mas esta no é uma reversio antiga situagio, pois a AIDS ndo faz distingdo entre os sexos. Do ponto de vista dos géneros masculino e feminino, a “revolugio sexual” dos dltimos trinta ou quarenta anos nfo é) apenas, ou mesmo primariamente, um avango neutro na permis: sividade sexual. Ela envolve dois elementos bisicos. Um deles ¢ a revolugio na autonomia sexual feminina ~ concentrada naquele periodo, mas possuindo antecedentes que remontam ao século XIX.17 Suas conseqiténcias para a sexualidade masculina so pro- fandas e tratase muito mais de uma revolugio inacabada, O segundo elemento é0 florescimento da homossexualidade, mascu lina efemi novo campo sexual bem mais adiante do sexualmente “ortodoxo”, Cada um destes desenvolvimentos tem relagio com o livrearbitrio sexual proclamado pelos movimentos sociais da década de 1960, mas a contribuigo de tal livrearbitrio para a emergéncia da sexualidade plistica nfo foi necesséria nem particularmente direta. Estamos lidando aqui com mudangas muito mais profundas ¢ irreversiveis do que aquelas provocadas por tais movimentos, por mais importantes que eles tenham sido na facilitaglo de discus+ ses mais livres sobre a sexualidade, o que anteriormente nfo era possivel. 1a. Homossexuais de ambos os sexos demarcaram um. 17. Ese ponte ¢ desenvolido com algunt deus em Basbata Ehrenreich et a. Remaking Love, London: Fontana, 1987. ATRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE » Reflexividade institucional e sexualidade Na analise do desenvolvimento sexual, Foucault certamente esti corteto ao declarar que o discurso torna-se essencial arealidade social que ele retrata, Desde que ha uma nova terminologia para se compreender a sexualidade, as idéias, os conceitos e as teorias expressos nestes tecmos penetram a propria vida social e ajudam a reordendsla, Para Foucault, no entanto, este processo surge como ‘uma intrusio determinada e direta do “poderconhecimento” na ‘organizagdo social. Sem negar a sua conexo com o poder, devemos consideré-lo mais como um ferdmeno de reflexividade institucional em constante movimento. E institucional por ser o elemento estrutural basico da atividade social nos ambientes modernos. E reflexivo no sentido de que os termos introduzidos para descrever a vida social habitualmente chegam e a transformam ~ ndo como uum processo mecinico, nem necessariamente de uma maneita controlada, mas porque tornam-se parte das formas de acio adotadas pelos individuos ou pelos grupos. Uma expansio da teflexividade institucional é uma caracterls tica distintiva das sociedades modernas no passado relativamente recente. A maior mobilidade geogrifica, os meios de comunicasao de massa e muitos outros fatores extrairam elementos da tradica da vida social que ha muito tempo resistiam ~ ou se adaptavam ~ amodernidade. A continua incorporacio rellexiva do conhecimen- tondo apenas se introduz na brecha, ela pubporciona precisamente tum impeto bésico as mudangas que ocorrem nos contextos pes- soais, ¢ também globais, da agdo. Na area do discurso sexual, os textos que informam, analisam € comentam a sexualidade, na pritica, so de muito mais longo alcance em seus efeitos do que aqueles abertamente propagandistas, que recomendam a busca pelo prazer sexual. Os Relatérios Kinsey, assim como outros que (5 seguiramn, objetivavam analisar o que estava se passando em uma drea particular da atividade social, como toda pesquisa social busca fazer. Mas quando foram divulgados, também influencia- ” ANTHONY GIDDENS ram, iniciando ciclos de debate, reinvestigagio e mais debates. debates tornaram-se parte de um dominio pablico amplo, m também serviram para modificar opinises de leigos sobre proprias ages ¢ envolvimentos sexuais. Sem duvida, asp “cienutfico” de tais investigagSes ajuda a neutralizar a inquietag moral em relagdo & adequacio das priticas sexuais pecul Entretanto, o mais importante € que o avango de tais pesqul assinala ¢ contribui para uma accleragio da reflexividade priticas sexuais habituais, cotic Em minha opinifo, uido isso tem pouco a ver com o conks sionrio, mesmo no sentido mais geral que esse termo ¢ util por Foucault, A discussto de Foucault deste t6pico, por m suscite reflexdo, parece absolutamente equivocada, Podemos eo cordar que a terapia ¢ 0 aconselhamento, incluindo a psicandlise, tornamse cada vez mais proeminentes & medida queas sociedades ‘modemnas amadurecem; sua centralidade, no entanto, no & ui resultado do fato de cles proporcionarem “procedimentos regula- mentados para a confissio do sexo", como declara Foucault.!* ‘Ainda que consideremos apenas a psicanalise, a comparagiio com 0 confessionirio & demasiado forgada para ser convincente. No con- fessiondtio assumese que 0 individuo é prontamente capaz de fornecer a informagio requerida. A psicanilise, contudo, supe que 6s bloqueios emocionais, derivados do passado, inibam wm autoco- nnhecimento ¢ uma autonomin de agio por parte do individuo.!? A interpretagio de Foucault do desenvolvimento do cu nas sociedades modernas deveria também ser posta em questio de wma maneira mais basica. Em ver de se considerar 0 ett como sendo construido por uma “tecnologia” especifica, deveriamos reconhhecer que a autoidentidade ternase particularmente problemética na vida sécial moderna, particularmente nos periodos mais recentes. ATTRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE “ caracteristicas fundamentais de uma sociedade de alta reflexivi- soo cariter “aberto” da autoidentidade ¢ a natureza reflexiva Para as mulheres que esto lutando para se libertar de -sextiais preexistentes, a questio “Quem cu sou?” - que Betty rrotulou como “o problema que nfo possui nome" - ven x com particular intensidade. © mesmo ¢ vilido para os exitais masculinos ¢ femininos que contestam os esteresti- srossexuais dominantes. A questio ¢ de identidade sexual, apenas isso, Hoje em dia, o eu € para todos um projeto uma interrogacdo mais ou menos continua do passado, ente edo futuro.” EE um projeto condu isio de recursos reflexivos: terapia.e manuais de autoajuda de 105 tipos, programas de televisso e artigos de revistas. Diante deste cenario, podemos interpretar as contribuigoes de Freud a cultura moderna sob uma lur diferente daquela de Fou cault, A importancia de Freud nfo foi o fato de ele ter proporcior nado A preocupagio modema com 0 sexo a sua formulagdo mais convincente, Mais que isso, Freud rovelou as conexdes entre a sexualidade ¢ a autoidentidade, quando elas eram ainda inteira- mente obscuras, ¢ 20 mesmo tempo mostrou que essas conexées ‘io problematicas. A psicanslise tem suas origens no tratamento médico das patologias de comportamento, ¢ foi encarada por Freud ‘como um método de combate & neurose. E sob esta luz que ela ¢ compreendida até hoje por muitos de seus profissionais, assim ‘como pela maior parte das outras formas de terapia que ajudou a inspirar. A psicandlise pode curar as neyroses - embora o scu sucesso neste aspecto seja discutivel. Sua importincia especifica & que cla proporciona um ambiente ¢ uma base tedricos e conceituais pata a criagio de uma narrativa reflexivamer te ordenada do eu. uum tipo psicanalitico clissico, os individuos sio capazes (em ca de recursos m uma situacio terapeutica, seja ou nfo de a ANTHONY GIDDENS. do presente, consolidando um enredo emocional com o qual eles se sentern relativamente satisfeitos. © que se aplica ao eu aplicase também ao corpo. Este, obviamente, & em certo sentido - ainda a ser determinado - 0 doininio da sexualidade. Assim comoa sexualidade, eo cu, ele esti hoje intensamente impregnado de reflexividade. O corpo tem sido sempre adornado, acarinhado e, as vezes, na busca de ideais mais elevados, mutilado ou debilitado, © que explica, porém, nossas distintas preocupagées com a aparéncia ¢ o controle fisicos, atual- mente, que diferem de algumas maneiras ébvias daquelas predcu- pages mais tradicionais? Foucault tem uma resposta, esta conduz A sexualidade. Ele diz que as sociedades modernas, em um contras- teespecifico com o mundo prémoderno, dependem da criaglo do biopoder. Mas esta é, no maximo, uma meiaerdade, Certamente, ‘corpo torna-se um foco do poder disciplinar. Mas, mais que isso, torna-se um portador visivel da autoridentidade, estando cada vex inais integrado nas decisdes individuais do estilo de vida. A reflexividade do corpo se acelera de um modo fundamental com a invenezo da dieta em seu significado moderno - diferente, é claro, do antigo - algo que, como um fendmeno de massa, data de vtias décadas atras. A dieta est ligada a introdugao de uma “cigncia” da nutrigio e, portanto, ao poder disciplinar no sentido de Foucault; mas também situa a responsabilidade pelo desenvol- vimento e pela aparéncia do corpo diretamente nas mios do seu proprietirio. © que um individuo come, mesmo entre os mais materialmente carentes, torna-se uma questfo reflexivamente im pregnada de selecio dietética. Hoje em dia, toda a gente nos paises desenvolvidos, com excegio dos muito pobres, faz “uma diet”. Com a eficitncia cada vez maior dos mercados mundiais, nto somente o alimento & abundante, mas uma variedade de géneros alimenticios esta dispontvel o ano todo para o consumidor. Nestas, circunstancias, 0 que se come & uma escolha do estilo de vida, influenciado, ¢ construido, por um imenso numero de livros de: culindtia, tratados médicos populares, guias nutricionais etc. Causa algum espanto que os distarbios da alimentagio tenham substicut ATRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE » do a histeria como as patologias de nossa época? Causa algum espanto que tais distirbios afetem principalmente as mulheres, particularmente as mulheres jovens? A dieta associa a aparéncia fisica, a auto-identidade e a sexualidade no contexto das mudangas sociais que os individuos lutam para enfrentar. Atualmente, corpos ‘emagrecidos no mais atestam uma devogao extitica, mas a inten sidade desta batalha secular. O declinio da perversiio Entretanto, o que podertamos concluir do declinio da “perver- slo"? Como se explica que ages sexuais que um dia foram tio severamente condenadas, e &s veres permanecem formalmente ilegais, sejam hoje to extensamente praticadas ¢, em muitos circulos, ativamente estimuladas? Mais uma vez, é bastante facil tragar a sua histéria cuperficial. Os sexdlogos ¢ também Freud, ¢ pelo menos alguns de seus seguidores mais heterodoxos, subver- teram muito as énfases morais da idéia de perversio. Os muito discutidos Three Essays on the Theory of Sexuality de Freud, publi- cados pela primeira vez em 1905, buscavam demonstrar que os tragos sextais associados & perversio, longe de estarem restritos a pequenas categorias de pessoas anormais, sio qualidades comuns A sexualidade de toda gente. Por isso, concluiu Freud, ¢ “inadequa- da a utilizagao da pslavra perversio como um termo acusatério”.”* Similarmente, Havelock Ellis também déflarou que o termo é inaceitivel, substituindoo por “desvio sexual”. Podese afirmar que, em uma epoca subseqiente, grupos © movimentos interessados comegaram ativamente a reivindicar aceitagio social e legitimidade legal para a homossexualidade, contestando inclusive a terminologia de desvio. Assim, por exem- 22, Sigmund Freud, “The semal aberrations", in Thee Essay on he Theory of Sexuality, ‘Standatd Ediion, London: Hogarth, 1953, p. 160. “ ANTHONY GIDDENS plo, nos Estados Unidos, grupos como a Mattachine Society e as Daughters of Bilitis foram estabelecidos como o ponto culminante do macartismo. A subseqideinte criagio de grandes comunidades 29s proporcionou um florescimento de novos grupos e associar Ges, muitos deles promovendo preferéncias sexuais minoritérias, A batalha para assegurar a tolerincia publica a homossexualidade provocou 0 “aparecimento” de outras organizagées interessadas na. promogio do pluralismo sexual. Como declara Jeffrey Weeks: [Nito parece mais um grande continente de nonmalidade cercado por pequenasilhas de distirbios, Em ver disso, podemos agora presenciar uma grande quantidade deilhas, randes e pequenas...Surgitam novas catego- tas e minoriaseréticas. Aquelas mais antgas experimentaram wim processo de subdivisto como preferéncias especais, ates especifcas, © as neces sidades tornarame a base para a proiferagio de identidades sexuais.9 Expressa de outra maneira, a diversidade sexual, embora ainda encarada como perversio por muitos grupos hosts, saiu dos cadernos de anotagdes dos registros de casos de Freud para o| mundo social cotidiano. Considerado nestes termos, 0 declinio da perversio pode ser compreendido como uma batalha parcialmente ber-sucedida so- bre os direitos da autoexpressio no contexto do Estado democré- tico liberal. Ocorreram vitdrias, mas as con(rontagées continua, as liberdades alcangadas ainda poderiam ser plausivelmente coibidas por um movimento reacionstio. Os homossexuais ainda enfrentam um preconceito profundamente enraizado e, muito comumente, uma violéncia aberta. Suas lutas emancipatorias en- contram resistencias talver tio profundas quanto aquelas que continuam a obstruir 0 acesso das mulheres & igualdade social ¢ ‘econémica. Nao hé razio para duvidarse de tal interpretagio. Mas, mais ‘uma vez, hi uma outra maneira de se ver as coisas, sugerindo que a substituigto incipiente da perversio pelo pluralismo seja parte de 23, Jelfcy Weeks, Sexuality, London: Tavistock, 1986, cap. 4. ATRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE um conjunto de mudancas de bases amplas, essencial a expansio da modernidade. A modernidade esta associada a socializagio do mundo natural ~ a substituigio progressiva das estruturas ¢ dos acontecimentos que eram parametros externos da atividade huma- na por processos socislmente organizados. Nao apenas a propria vida social, mas também 0 que costumava ser “natureza”, passam a ser dominadas por sistemas socialmente organizados. A repro- dugfo um dia foi parte da natureza ¢ a atividade hoterossexwal era inevitavelmente o seu ponto principal. Uma ver que a sexualidade tomnouse um componente “integral” das relagdes sociais, como resultado de mudangas jé discutidas, a heterossexualidade nio & mais um padrio pelo qual tudo o mais é julgado. Ainda nio atingimos un estigioem que a heterossexualidade & aceita como apenas uma preferéncia entre outras, mas esta é a implicagéo da socializagio da reprods Esta visio do dleclinio da perversio nfo é inconsistente com a outa vi a tolerincin tem sempre de ser combatida no dominio piblico. Ela proporciona, no entanto, uma interpretago. cem que a emergéncia da sexualidade plistica tem um higar primor- dial. Terei muito mais a dizer sobre a sexualidade plistica nas piginas que se seguem. Mas antes de tudo vou me concentrar inaquilo que Foucault especificamente negligencia: a natureza do amor, em particular, a ascensio dos ideais do amor romantico. A transmutaggo do amor é tanto um fenémeno da modernidade quanto a emergéncia da sexualidade, e est diretamente relacionada as questdes da reflexividade e da autoidentidade ¢ 24, Giddens, Modernity and Self dent & © AMOR ROMANTICO E OUTRAS LIGACOES “O Amor”, observa Bronislaw Malinowski em seu estudo sobre 0s habitantes da Ilha Trobriand, “é uma paixto, tanto para ‘co melanésio quanto para o europeu, e atormenta a mente ¢ 0 corpo em maior ou menor extensio; conduz muitos a um impasse, um escindalo ou uma tragédia; mais raramente, ilumina a vida e faz com que o coragio se expanda ¢ transborde de alegria."! Numero- sos exemplos de poesia de amor sobrevivem entre as relquias do Antigo Egito, alguns remontando a antes de 1000 a.C. O amor é ai retratado como um esmagamento do eu, e, portanto, é semelhante uma espécie de doenca, embora também possua poderes ocultos: The sight of her makes me well When she opens heres my body is ung, Her speaking makes me strong; Embracing her expels my malady ~ Seven days since she went frm mel? 1. Bronislaw Malinowsi, The Sexual Life of Savages, Landon: Routledge, 1929, p. 69. 2. Ciadoem Martin. Bergmann, The Anatomy of Loving, New York: Columbia, 1987, 5 4. A sua vito me fr bem/Quando ela abre os ellos, meu corpo rejuvenes- | ‘&/Quando ela fla, eu me since forey/Abrastlaexpulea meus males /H see dias sla me detxoul// etter * ANTHONY GIDDENS. [ATTRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE ° j Embora 0 uso secular da palavra “paixto” - distinto de sua muito mais culturalmente especfico. Nas paginas que se seguem, sling mate antiga, signifiando prt religiosa~ scjarlaiva YoU tentar identifica algumas caracterstics distintvas do amor mente moderno, faz sentido consicerarse amor apaixonado, Toméntico e buscar as suas implicagdes. O meu propésito ¢ antes : amour passion,? como a expressio cle uma conexio genérica entre de tudo analitico; nfio estou preocupado em escrever uma historia S amore aligagio sexual. O amor apaixonado ¢ marcaco por ums. do amor romantico, nem sequer em miniatura, Entrtanto, para tagencia que o colocn 8 parte das rotinas da vida cotdiana, com a comesar, €necessria uma breve interpretago histérica, qual, na verdade, ele tende a se conflitar, O envalvimento emocio nal com 0 outro é invasivo - tio forte que pode levar o individuo, cou ambos os individuos, a ignorar as suas obrigagbes habituais. Casamento, sexualidade e amor romintico t amor apaixonado tem uma qualidade de encantamento que pode ser religiosa em seu fervor. Tudo no mundo parece de repente vigoso, embora talvez ao mesmo tempo nfo consiga captar © Na Europa pré-moderna, a maior parte dos casamentos eran interesse do individuo que esti tio fortemente ligado a0 objeto do contraidos, nao sobre o alicerce da atragio sextial matua, mas o da amor, O amor apaixonado € especificamente perturbador dat situagio econdmica. Entre os pobres, o casamento era wm meio de relages pessoais, em um sentido semelhante a0 clo carisma: organizar o trabalho agrario. Era improvivel que uma vida carac- nrranca o individuo das atividades mundanas e gera uma propen erizada pelo trabalho arduo e continio conduisse a paixo sexual. silo as opsbes radicais e aos sacrificios.t Por esta razio, encarade Tem sido relatado que, entre os camponeses da Pranga ¢ da sob o ponto de vista da ordem ¢ do dever sociais, ele ¢ perigoso. Alemanha do século XVII, o beijo, a caricia ¢ outras formas de Dificilmente surpreende que o amor apaixonado nao tenha side afeigio fisica associadas ao sexo eram raros entre os casais casados. fem parte alguma reconhecico como uma’ base necessiria 0¢ No entanto, as oporunidades para os homens se envolverem em suficiente para 0 casamento, ¢ na maior parte das culturas tem sidé figagées extraconjugais cram com freqiiéncia muito numerosas.* refratirio a ele, Somente entre os grupos aristocraticos, a licenciosidade sexual 5 ou menos universal 6, abertamente permitida entre as mulheres “respeitiveis”. A Devo dizer que ele deveria ser diferenciado do amor romantica jerdade sexual acompanha o poder ¢¢ uma expressio do poder; fei certas épocas ¢ locais, nas camadas aristocriticas, as mulheres 57S sew # de Scnthal, mas eu no spo siieado que cle The ais, ea etam suficientemente liberadas das exigencigs da reproducto © do hssfeago dos rps dame quel presente. Pdiase observa, coe pet rabalho rotineiro para poderem buscar o éeu prazer sexual inde- ses, ue, no eae ans dvid pendente. Evidentemente, isto jamais esteve relacionado ao casa ingmamentinid an ot na por DesuedeTeye rere mento, A maior parte das civilizagdes parece ter criado historias fm oben seo or conc “um lio de wing, Prsenda que fs vse mitos qule catregam a mensagem de que aqucles que buscar pepe investi sel ering Ligncbes permanentes devido a um amor apaixonado so ‘Sdencade por anlage com Clie de Vawe. Eaetanto, durante o paid condenadlos. Shoat da epmagio da Sociologia mosema, sas inféncis fram submess Darcie cmt de Carr erearea ceca Se eH 5. Michal i 4, Fanon Alber Fling in Une, New Yrs Random How, 1983 Fe a Re eee cin tarred cris, | Oamor apaixonado € um fendmeno mai ees * ANTHONY GIDDENS AA diferenciagéo entre a sexualidade “casta” do casamento ¢ © cardter erético ou apaixonado dos casos extraconjugais era absol tamente comum entre outras aristocracias, além daquelas da Euro” pa. Especifica da Europa era a emergéncia dos ideais do amor intimamente relacionados aos valores morais da cristandade.* O preceito de que era preciso devotarse a Deus para conhectlo, € ‘que através deste processo alcana-se o autoconhecimento, tornou- se parte de uma tnidade mistica entre o homem ea mulher. A idealizagZo temporaria do outro, tipica do amor apaixonado, aqui se associou a um envolvimento mais permanente com o objeto do amor, € uma certa reflexividade ja estava presente, mesmo anteriormente.? © amor romantico, que comegou a marcar a sua presenga a partir do final do século XVIII, utilizou tais ideais e incorporou elementos do amour passion, embora tenhase tornado distinto deste. © amor romantico introduziu a idéia de uma narrativa para uma vida individual - formula que estendeu radicalmente a reflexividade do amor sublime, Contar uma histéria ¢ um dos sentidos do “romance”, mas esta histéria tornava-se agora indivir dualizada, inserindo 0 eu eo outro em uma narrativa pessoal, sem ligagdo particular com os processos sociais mais amplos. O inicio do amor, romantico coincidiu mais ou menos com a emergéncia da novela: a conexio era a forma narrativa recém-descoberta. © complexo de idéias associadas a0 amor romantico pela primeira ver vinculou amor com a liberdade, ambos sendo considerados como estados normativamente desejaveis. © amor apaixonado tem sido sempre libertador, mas apenas no sentido de gerar uma quebra da rotina e do dever. Foi precisamente esta qualidade do amour passion que 0 colocou & parte das instituigdes cexistentes. Os ideais do amor romantico, a0 contritio, inseriram-se 6, Into ¢discutido de uma mancira particularmente sul ern Niklas Luhimann, Love at Pasion, Cambridge: Polity, 1986, cap. 5. 17. Beatrice Gotlieb, *The meaning of dandestine marriage", in Robert Wheaton ¢ “Tamara K: Hareven, Family and Sezulityn French History, Philadelphia: Universoy ‘of Penneyvania Press, 1980. ATRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE EN diretamente nos lagos emergentes entre a liberdade e a auto-teali tagio. Nas ligagées de amor romantico, o elemento do amor sublime tende a predominar sobre aquele do ardor sexual. A importincia deste ponto dificilmente pode ser muito enfatizada. A idéia do amor romantico é, neste aspecto, tio historicamente rara quanto os tragos que Max Weber encontrou associados na ética protestante# ‘amor rompe com a sexualidade, embora a abarque; a “virtude” comega a assumir um novo sentido para ambos os sexos, no mais, significando apenas inoctncia, mas qualidades de cariter que distinguem a outra pessoa como “especial”. Freqitentemente considera-se que 0 amor roméntico implica atragio instantinea - “amor primeira vista”, Entretanto, na medida fem que a atragio imediata faz parte do amor romAntico, ela tem de ser completamente separada das compuls6es sexuais/erdticas do amor apaixonado, O “ primeiro olhar” é uma atitude comunicativa, ‘uma apreensio intuitiva das qualidades do outro. IE um processo de atragio por alguém que pode tornar a vida de outro alguém, digamos assim, “completa”. A ideéia de “romance”, no sentido que o termo veio a assumir no século XIX, tanto expressou quanto contribuiu para as mudan- ‘as seculares, afetando a vida social como um todo.’ A moder dade é inseparivel da ascendéncia da razio, no sentido de que se ‘supde que a compreenso racional dos processos fisicos € sociais substitui a regra arbitréria do misticismo e glo dogma. A razio no abre espaco para a emogio, que simplesmente fica fora do seu doininio; mas na verdade a vida emocionat passava a ser reorde- nada nas condigSes variéveis das atividades cotidianas. Atéo inicio da Era Moderna, os encantamentos, filtro ¢ afrodistacos do amor faziam parte do estoque de homens e mulheres “malandros", aos 8, Max Weber, The Putestan Eihic and the Spirit of Copal, London: Allen and Unwin, 1976. 9. Lawtence Stone, The Family, Sex and Mariage In England, 1500-1800, Harmonds- worth: Pelican, 1982 p. 189 st. (nL Ret LL SSR TT 2 ANTHONY GIDDENS quais se podia recorrer para auxiliar no manejo dos caprichos dos envolvimentos sexuais, Como alternativa, o padre poderia set consultado, No entanto, 0 destino do individuo nas ligagées pessoais, e também em outras esferas, estava ligado a uma ordem céstnica mais ampla, O “romance”, como foi entendido do sécule XVIII em diante, ainda possuia ressondncias de concepgSes ante riores do destino césmico, mas as mesclava a uma atitude que nsiava por um futuro livre, Um romance ndo era mais, como em gral havia sido antes, uma invocagto de possibilidades especifica mente reais em um reino de fiegdo. Em ver disso, converteu-se eri tuma via potencial para o controle do futuro, assim como uma forma de seguranga psicolégica (em principio) para aqueles cujat vidas eram por ele afetadas. O género e 0 amor ‘Alguns tém dito que 0 amor romintico foi um enredo enger drado pelos homens contra as mulheres, para encher suas cabegas ‘om sonhos fteis e impossiveis. Mas tal opiniso no pode explicar ‘0 apelo da literatura romantica, ou 0 fato de as mulheres terem desempenhado um papel importante na sua difusio. “E dificil tencontrarse uma jovein no reino”, observou uma escritora do The Lady's Magazine, com alguna hipérbole, em 1773, “que no tenba lido com avider um grande ntimero de romances ¢ novelas. Estas publicagdes”, prosseguia a escritora, acrescentando acremente, eendem a viciat 0 gosto.""° Uma onda crescente de novelas ¢ historias ronvinvticas, que nao diminuiu até hoje ~ muitas escritas por iulheres -, inundow as livraias do intcio do século XIX em diane, © surgimento da idéia do amor romantico tem de ser com preendido em relagfo a virios conjuntos de influéncias que afet ram as mulheres a partit do final do século XVI. Um deles foi 10. Thi, p. 189. ATRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE 3 criagdo do lar, ja referido. Um segundo foi a modifcagio nas relagdes entre pais ¢ filhos; um terceiro, o que alguns chamaram de “a invengio da maternidade”. No que dizia respeito & situagio ddas mulheres, todos eles estavam muito intimamente integrados." Seja ou ndo a propria infancia uma criagio do passado relat vamente recente, como Arits to celebremente declarou, sem davida aqueles padrées da interacio pais-fihos foram substanciak mente alterados, para todas as classes, durante o periodo vitoriano “tepressivo”. Mas, em alguns aspectos, o poder patriarcal no meio doméstico estava declinando na tiltima parte do século XIX. O dominio direto do homem sobre a familia, que na realidade era abrangente quando ele ainda era o centro do sistema de producto, ficou enfraquuecido com a separagio entre 0 lare o local de trabalho. Certamente, o marido assumiu este poder fundamental, mas com freqdéncia uma énfase crescente sobre a importancia do ardor emocional entre pais ¢ filhos abrandou o uso que fazia dele. © ‘controle das mulheres sobre a criagio dos filhios aumentou medida que as familias ficavann menores, © as eriangas passaram a ser identificadas como vulneriveis ¢ necessitando de um treina- mento emocional a longo prazo. Como declarou Mary Ryan, 0 centro da familia destocouse “da autoridade patriarcal para a afeigio maternal”." A idealizagio da mae foi parte integrante da moderna constru- ‘gio da maternidade, e sem dtivida alimentou diretamente alguns dos valotes propagidos sobre © amor romantico. A imagem da Mesposa e mie” reforcou um modelo de “déis sexos” das atividades dos sentimentos. As mulheres eram reconhecidas pelos homens como sendo diferentes, incompreensiveis ~ parte de um dominio estranho aos homens. A ideia de que cada sexo é um mistério para ‘0 outro & antiga, e tem sido representada de varias maneiras nas 11, Ann Dally, Inventing Motkeshod, London: Bumet, 1982. Ver também Elizabeth Badiner, Myth of Motherond, London: Souvenir, 1981. 12, Mary Ryan, The Cralleo the Middle Class, Cambridge: Cambridge University Pres, 1981, p. 102. 4 ANTHONY GIDDENS diferentes culturas. © elemento distintamente novo, aqui, era a associagio da maternidade com a ferinilidade, como sendo qua Tidades da personalidade - qualidades estas que certamente est ‘vam impregnadas de concepgées bastante firmes da sexualidade feminina, Como observou tum artigo sobre o casamento, publicado em 1839, “o homem exerce dominio sobre a pessoa e a conduta ide sua esposa. Ela exerce o dominio sobre as inclinagdes do tmarido; ele governa pela lei; ela governa pela persuasio... O império da mulher um império de suavidade... suas ordens sto as caricias, suas ameacas, as Ligrimas”. O amor romantico era essencialmente um amor feminilizado. Como revelou Francesca Cancian, antes do final do século XVII, se de algum modo se falava de amor em relagdo a0 casamento, tratavase de um amor de companheiros,ligado a responsabilidade miitua de maridos e esposas pelo cuidado da familia ou dt propriedade. Por sso, em The Well Ordered Family, publicado loge npés a virada do século, Benjamin Wadsworth declarou sobre 0 tasal casado que “o dever do amor é miituo, deve ser realizado de tum para o outro”. Entretanto, com a divisio das esferas de agio, a promogio do amor tornou-se predominantemente tarefa das mulheres. As idéias sobre o amor romantico estavam claramente ascociadas & subordinagio da mulher a lar ¢ ao seu relativo isolamento do mundo exterior. Mas o desenvolvimento de tais idéias foi também uma expressto do poder das mulheres, uma assercio contraditéria da autonomia diante da privagio. Para os homens, as tensdes entre o amor romintico € © amour passion eram tratadas separandose o conforto do ambiente domés tico da sexualidade da amante ou da prostituta. O cinismo mascu: lino em relagio ao amor romantico foi prontamente amparado pot cata divisio, que no obstante accitava irhplicitamente a ferninili zac do amor “respeitivel”. A prevaléncia do padrto duplo nic 73. Francesca M. Cancian, Love tn America, Cambridge: Cambridge Universcy res 1987, p. 21 14, Chado em ibid, p15. ATRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE s proporcionava as mulheres tal salda. Mas a fusio dos ideais do amor romantico e da maternidade permitiu as mulheres desen- volvimento de novos dominios de intimidade. Durante o periodo vitoriano, a amizade masculina perdeu muito da qualidade de envolvimento mituo que os camaradas mantinham um pelo outro. Os sentimentos da camaradagem masculina foram em grande parte relegados a atividades marginais, como o esporte ou outras atividar des de lazer, ou ainda a participagio na guerra. Para muitas mulheres, as coisas ocorreram na ditegio oposta. Como especiar listas do coracfo, as mulheres estabelecem contato uma com a outra fem uma condiggo de igualdade pessoal ¢ social, dentro dos espectros amplos das divisées de classe. As amizades entre mulhe- res ajudaram a mitigar 08 desapontamentos do casamento, mas também mostraram-se por si sés compensadoras. As mulheres falavam das amizades, assim como os homens freqientemente 0 faziam, em termos de amor, ¢ ali encontraram um verdadeiro confessionatio.'S O consumo vido de novelas ¢ histérias romanticas nao era em qualquer sentido um testemunho de passividade. O individuo buscava no éxtase o que the era negado no mundo comum. Vista deste angulo, a realidade das historias romanticas era uma expres- slo de fraquera, uma incapacidade de se chegar a um acordo com a autoidentidade frustrada na vida social real. Mas a literatura romantica era (¢ ainda é hoje) também uma literatura de esperanga, ‘uma espécie de recusa, Freqiientemente rejeitava a idéia da domes- ticidade estabelecida como o tinico ideal proeminente. Em muitas historias romanticas, apés um namoro éom outros tipos de ho- mens, a heroina descobre as virtudes do individuo integro, sélido, que se torna um matido confidvel. Entretanto, pelo menos com a mesina frequencia, 0 verdadeiro her6i ¢ um brilhante aventureiro que se distingue por suas caractersticas exdticas ¢ ignora a conven do em sua busca de uma vida errante. 5 sncy Cott, The Bends of Womanhood, New Haven: Yale Universiy Press, 19775 Janice Raymond, A Patslon for Friends, Londons Women's Press, 1986. 56 ANTHONY GIDDENS Resumindo até este ponto, o amor romantico tornow-se distin- to do amour passion, embora 20 mesmo tempo possuisse alguns residuos dele. © amour passion jamais foi uma forca social genética dda maneira que tem sido o amor romantico, desde o final do século XVIII até periods relativamente recentes. Juntamente com outras mudangas sociais, a difussio de idéias de amor romantico estava profundamente envolvida com transigdes importantes que afeta ram o casamento e também outros contextos da vida pessoal. 0 amor romantico presume algum grau de autoquestionamento, Como eu me sinto em relagio a0 outro? Como outro se sente a meu respeito? Seri que os nossos sentimentos sio “profundos” o bastante para suportar um envolvimento prolongado? Diferente do ‘amour passion, que extirpa de modo irregular, © amor romantico ddesliga o individuo de sitwagées sociais mais amplas de uma maneira diferente. Proporciona uma trajetoria de vida prolongada, orientada para um futuro previsto, mas maleivel; e cria uma “histéria compartihada” que ajuda a separar o relacionamento conjugal de outros aspectos da organizasio familiar, conferindodhe ‘uma prioridade especial. Desde suas primeiras origens, © amor roméntico suscita a {questfo da intimidade. Ela ¢ incompativel com a luxiria, nfo tanto porque o ser amnado éidealizado ~ embora esta seja parte da historia =, mas porque presume uma comunicagfo psiquica, um encontro de almas que tem uin cariter reparador. O outro, seja quem for, preenche um vatio que o individuo sequer necessariamente reco nhece ~ até que a relagio de amor seja iniciada. E este vazio tera diretamente a ver com a autoidentidade: em certo sentido, 0 individuo fragmentado torna-se inteiro. © amor romantico fez do amour passion um aglomerado especifico de crengas ¢ ideais equipado para a transcendéncia; @ amor romintico pode terminar em tragédia e se nutrir na trans: fressio, mas também produ triunfo, wma conquista de preceitor e compromissos mundanos. Tal amor se projetn em dois sentidos apsiase no outro e idealiza 0 outro, © projeta um curso do desenvolvimento futuro. Embora a maioria dos autores tenha st [ATRANSFORMACAO DA INTIMIDADE ea concentrado no primeiro desses tragos, 0 segundo ¢ pelo menos to importante e em certo sentido constitui a sua base, O carater sonhador e fantasioso do romance, descrito na literatura popular do século XIX, atraiu o desprezo dos criticos racionalistas homens ce mulheres, que enxergavam nele uma fuga absurda ou patética. Na perspectiva aqui sugerida, o romance ¢ 0 mode de ver contra- factual do carente - e do século XIX em diante participou de uma reelaboragio importante das condigdes da vida pessoal. No amor romantico, a absorgio pelo outro, tipica do amour passion, esti integrada na orientagio caracteristica da “busca”. A busca € uma odisseia em que a autoidentidade espera a sua validacio a partir da descoberta do outro. Possuii um cariter ativo neste aspecto, o romance moderno contrasta com as historias romanticas medievais, em que a heroina em geral ¢ relativamente passiva. As mulheres das novelas romAnicas modernas so em sua Inaioria independentes ¢ corajosas ¢ ttm sido consistentemente retratadas deste medo.! O motivo da conquista nestas historias nio se parece com a versio masculina da conquista sexual: a heroina encontra ¢ enternece o coragio de um homem que inicialmente mostra-se indiferente e distante dela, ou ainda aberta- mente hostil. A heroina entio ativamente produz amor. © seu amor faz com que ela seja amada, dissolve a indiferenga do outro ¢ substitui o antagonismo por devosio. Se o ethos do amor romantica ¢ sitmplesmente compreendido ‘como o meio pelo qual uma mulher conhece o seu “principe”, isso parece realmente superficial. Embora na ligeratura, como na vida, as vezes as coisas se passem deste modo, a conquista do coragio do outro é na verdade um processo de criago ¢ uma narrativa biogréfica matua. A hero{na amansa, suaviza e modifica a mascu- linidade supostamente intratavel do seu objeto amado, possibili- tando que a afeigio matua transformese na principal diretriz de suas vidas juntos, 16. Janice A. Radway, Reading the Romance, Chapel Hil: Universiy of Non Carolina Pres, 1984, ES ANTHONY OIDDENS ‘O caréter intrinsecamente subversivo da idéia do amor roman tico foi durante muito tempo mantido sob controle pela associago do amor com 0 casamento e com a maternidade; e pela idéia de j que o amor verdadeiro, uma vez encontrado, ¢ para sempre. ‘Quando o casamento, para a maioria da populagio, efetivamente era para sempre, a congruéncia estrutural entre © amor romantica | a parceria sexual estava bem delineada. O resultado pode, com freqdencia, ter sido anos de infelicidade, dada a conexio fragil entre 3 ‘©. amor como uma formula para o casamento e as exigéncias para AMOR, COMPROMISSO E & 4 progtedir posteriormente. Mas um casamento eficaz, ainda que ORELACIONAMENTO PURO nfo particularmente compensador, podia ser sustentado por uma | divisio de trabalho entre os sexos, com 0 marido dominando trabalho remunerado ea mulher, 0 trabalho doméstico. Podemos | ver neste aspecto como o confinamento da sexualidade fer a0 casamento era importante como um simbolo da mulher “tee No final da década de 1980, Sharon Thompson realizou uma peitivel”. Isto ao mesmo tempo permitia aos homens conservat_investigaco das atitudes, dos valores e do comportamento sexual distancia do reino florescente da intimidade e mantinha a situacd¢_ de 150 adolescentes americanos de classes ¢ origens étnicas dife- do casamento como um objetivo primario das mulheres. rentes.! No decorrer de suas longas entrevistas, encontrou diferen- «as importantes entre as maneitas como os rapazes discutiam sexo (no falavam com freqiiéncia em amor) e as respostas das garotas. | Os rapazes pareciam incapazes de falar sobre sexo de uma forma " narrativa, com vistas a um futuro a sua frente.? Discorriam, | sobretudo, sobre episédios sexuais esporidicos, como desempe- ho heterossexual precoce ou conquistas sexuais diversas. Por outro lado, a0 questionar as garotas, Thompson verificou que quase todas com quem falava, com um pouco de estimulo, conta- | vam longas histérias “repletas de descolgtrias, de angiistia e de | entusiasmo pelas relagées intimas".’ Segundo ela, as garotas pos- sufam algo que se aproximava das habilidades dos novelistas 1. Sharon Thompson, "Seatch for tomorrow or feminism and the reconstruction of teen romance”, in Carole S, Vance, Pleasure and Danger. Exploring Female Sexual, London: Pandora, 1989. 2, Ibid, p. 350. 3. Ibid, p. 351 © ANTHONY GIDDENS. profissionais em sua capacidade para narrar uma historia detalhada e complexa; muitas falavam durante virias horas, necessitando de ‘muito pouca colaborago por parte da entrevistadora. Thompson declara que a natureza fluente das narrativas na primeira pessoa derivava em grande parte do fato de elas terem sido ensaiadas, Eram o resultado das muitas horas de conversa que as adolescentes tém uma com a outra, durante as quais sto utidos e moldados os sentimentos ¢ os anscios. Thompson admite o fato de, sendo ela membro de uma geragio mais velha, as narrativas relatadas poderem ter sido em parte preparadas part cla. Mas ela também funcionou como uma caixa de ressondncit para a interpretacio reflexiva por parte das entrevistadas. Achou que “foilhe confiado algo tho valioso, forte ¢ profético quanto um primeiro amor, quando.a pessoa apaixonada o interpreta como ui pressigio para o futuro”. Como uma ressondincia mais reflexiva, cla propria admite ser “viciada em romance” * A busca do romance ATRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE a Seguesse a descrigéo de um romance apresentada por uma das centrevistadas: Descobrimos que morivamos mais ou menos préximo, ecomegamos tomando.o mesmo énibus de volta para casa. Depois descobrimos que nfo queriamos mais tomar 0 mesmo Onibus para casa. Queriamos caminhar, porque iso signifcava mais tempo conversando. Tinhamos nossas pro pias ideas a respeito do mundo... Comegavamos conversando sobre a escola terminavamnos falando sobre a sintaglo na China... t's meses ‘nas tarde, eu estava completamente apaixonaca.. fo fantastico. Sim, fantdstico - ou teria sido para um pesquisador da sexua- lidade do adolescente vinte e cinco anos antes -, porque o romance ‘em questfo era lésbico. Um dos achados importantes do trabalho de Thompson é quea diversidade sexual existe juntamente com a persisténcia das idéias de romance, embora As vezes em uma relagio inquietante ¢ conflituosa. Entre as entrevistadas de Thompson, as garotas [ésbicas pareciam considerar 0 romance tio estimulante quanto as heterossexuais. ‘A “perda da virgindade” para um rapaz, hoje em din, assim ‘como desde os tempos imemoriais, continua sendo uma expressio impropria: para os rapazes, a primeira experiéncia sexual € uma adigo, um ganho. E um talisms que aponta para o futuro; © principal instrumento tematico das historias das garotas fol entretanto, nfo se trata disso em relagio aos aspectos mais intimos aquele que Thompson rotula como a “busca do romance”. Odo eu, mas um dentre outros simbolos da capacidade masculina. amance liga a sexualidade a um futuro antecipado, em que OS Pama as garotas, a virgindade @ ainda considerada como uma encontros sexuais so vistos como desvios no caminho para um ‘entrega. Para a maioria, a questiio ndo & rpalizla ‘ou nao como srlacionamento amoroso definitive. O sexo é, digamos assitn, um parte da experitncia sexual precoce, mas conto escolher © momento instrumento que emite descargas elétricas, com © romance Come eq circunstincia certos. O acontecimento esta diretamente relacior a buen do destino. Entretanto, neste momento, a procura do amotpad a narrativas romanticas. Os rapazes esperam forcat a quest#o omantico ndo significa mais 0 adiamento da atividade sexual atfda jniciacio sexual, enquanto as garotas preferem “relardar as {que o relacionamento desejado apacega. Fazer sexo com tM NOWeoisns", A questo que as garotas colocam pata si préprias, assim Frarceiro pode set o inicio do encontrofatdico buscado, mas maiteym implicitamente para o seu primero parceito, soja ele (ou ela) provavelmente nio 0 ‘quem for, é seri que a minha sexualidade vai me permi 4. Ibid, p. 351 5, Citado em ibid, p. 36 5 a [ANTHONY OIDDENS determinar o caminho da minha vida futura? Seré que vai me * proporcionar capacidade sexual? A primeira experigincia sexual ¢ para muitas um teste para verificarem se um futuro enredo roma tico pode ou nfo ser alcangado. ‘Como o termo sugere, a busca do romance ndo é para essas sgaroias um conjunto passivo de aspiragées - “algum dia o meu 4 principe vira”. Doloroso e cheio de ansiedade em muitos aspectos, q pesar disso 6 um processo ativo de engajamento com o futuro, Repetindo Rubin, Thompson descobriu que as garotas com quem falou nio tiveram de lutar para conseguir liberdade sexual: tal liberdade existe, mas o problema ¢ fazer algo quanto a isso diante das atitudes masculinas, que ainda carregam mais que um eco do passado. Por isso, as garotas emergem aqui como as principais a obains sociais. Thompson expressa isso muito bem: ‘De uma certa forma, as adolescentes Lutam com © problema que # feministas do século XIX previram a0 se posicionarem conta orompimente ATIANSFORMAGAO DA INTIMIDADE “6 nilo pode mais ser vinculado permanéncia. Em uma sociedade altumente reflexiva, asistindo a televisio ¢ lendo, elas entram em contato e ativamente procuram numerosas discussées sobre sexo, relacionamentos e influéncias que afetam a posigo das mulheres. Os elementos fragmentirios da idéia do amor romantico a que estas garotas se aferram, buscando deter um controle pritico de suas vidas, ndo esto mais inteiramente ligados ao casamento. Virtalmente, todas admitem que terfo um trabalho remunerado durante a maior parte de suas vidas, a maioria considerando a importincia da formagio profissional como sendo uma base para a sua autonomia furura. Somente algumas garotas entrevistadas por Thompson - a maioria de classe média - encaram 0 trabalho ‘como uma importante fonte de significado para 0 seu futuro. Assim, uma garota disse, “A minha idéia do que quero fazer fexatamente agora é abragar uma carreira que eu amo... Se eu me ‘asar com alguém ou mesmo viver com alguém e cle me deixar, nio tenho de me preocupar, porque serei totalmente independen- } é rannnrrto enue o sexo. a epreducta, pelo fato de ele constitu o nie te”, Mas, do mesmo modo que Thompson verificou em outras, meio que as mulheres possuiam para convencer 05 smeterem em um telacionamento. Mas, do tomar sexos.® homens a se compro ¢la rapidamente retornou as questes de romance ¢ sexualidade: ‘fina exe no eum problema de spy. aur iy ‘oagto, mas de visio. Exige 0 enfrentamento com a desconstrugdo do sexs ‘eda intimidade, e com a renegociagfo da barganha entre of “Desejo 0 relacionamento ideal com um rapaz. Acho que quero alguém que me amee cuide de mim, tanto quanto eu dele”.? Sob a press dessas incumbéncias, algumas garotas tentars recuar para idéias e modos de comportamento preexistentes - neetasgo do padrio duplo, “sonhos melosos de maternidade’ , seeernees de amor ceme, A maioria se depara rompendo © Foi somente na ulima grag que, pala as mulheres, viver a coer tabus anteriormente estabelecidos, adaptando-os de tlgya propria vida significou deixar a casa paterna. Anteriormente, rari sc grace parte da energia emocional ¢ investi, mas dear a casa signfcava para todas, com excegto de uma pequena ‘uma maneira absolutamente proviséria ¢ propensa a reestruturacproporcio de mulheres, casarse. Ao contririo da maioria dos a luz de possiveis acontecimentos futuros. hhomens, a maior parte das mulheres continua a identificar a sua No final da adolescencia, muitas garotasjiveram expetignelinsergo no mundo externo com o estabelecimento de ligagSes. de amotesinfelizes, esundo bem conscientes de que o tomancMuitos estudiosos ttm observado que, mesmo quando um indivt- Mulheres, casamento, relacionamentos 1. Ibid, p. 356. 6. Ibid, p. 360. o ANTHONY GIDDENS, duo ainda esta sotinho e apenas prevendo rclacionamentos fut ros, os homens em geral falam em termos de “eu”, enquanto as natrativas femininas sobre si mesmas tendem a ser expressadas em termos de “nds”. A “fala individualizada” aparente na citaglo acima € qualificada por um “nés” subrepticio ~ alguém que vai ser “amado e cuidado” e transformaré o “eu” em “nés”, [Em contraste com aquelas que hoje fazem parte de uma faixa cetiria mais jovem, a experiéncia das mulheres mais velhas foi quase ATRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE, 6 te independente que eu realizava. Assim, muitas outras coisas 0 seguiram”. Mas seu ato de autonomia também presumia depen- déncia material. “Suponho que teria sido muito mais radical nfo ter me casado. Esta seria a atitude mais radical, mas jamais foi uma ‘opeio para mim. Nunca pensei em mim mesma como uma pessoa «que nao se casaria, Era uma inclinagio.” Ela nfo queria ser apenas luma esposa, estava determinada a ndo seguir uma vida tio provinciana quanto a de sua mie, cuja principal preocupacio sempre foi o lar. Tomou-se professora e considerava a sua carreira ‘empre estruturada em termos do casamento, mesmo quea pessoa 5 on giesas ilo tenha se casado. No final da década de 1980, Emily eo Nao deixou o ae quando engravidou, mas passou Hancock pesquisou as histérias de vida de 20 mulheres america Iecionar em tempo parcial nas, de virias otigens de classe, entre 30 ¢ 75 anos de idade ‘Algumas estavam ainda em scus primeiros casamentos, outrat hhaviam tornado a se casar, cram divorciadas ot vitivas. Para clas, ‘6 casamento era 0 cemne da experiéncia da vida de uma mulher - embora muitas tenham tido retrospectivamente de reconstruir ¢ sett passado, porque quando se casaram 0 casamento era muite diferente do que é agora. Entio seu marido morreu em um acidente. Ela passou por uma ctise grave, perdendo o controle de sua percepgio sobre seu eu adulto. Nao foi apenas o abandono que foi traumtico, mas a perda da ligacio sobre a qual ela baseou seus sentimentos de seguranga « realizagio. Sentiase “langada de volta adolescéncia", embora livesse uma crianga para cuidar. Seus pais esperavam que ela voltasse a morar com cles; resistin com sucesso, depois de com- Vamos acompanhar a histéria de Wendy, que tinha 39 anot preender o quanto dependeu do casamento para ter uma sensagSo quando Hancock a entrevistou. A historia de vida de Wend) de integridade. Seu segundo casamento, assim como o primeiro, Gemonstra uma consciéncia reflexiva crescente do eu, provocad: foi por amor ¢ “parte da volta a mim mesma”, Mas a essa altura ‘em parte por mudangas sociais externas ¢, em parte, por crises ela “tinha mais visio” do que quando se casou pela primeira ver: transigdes pessoais que ela teve de superar. Wendy é mais vellé*Pazer estas coisas com uma autoconsciéncia que surge apos a de quatro filhios de uma familia abastada da Nova Inglaterra, cujo: dificuldade é que nos ajuda a compreender o nosso potencial. Voce pais seguiam cédigos muito estritos de “comportamento aptoptit| 9 modela de uma maneira mais dara, como uma escultura”. Wendy Fo. Ela libertouse do controle de seus pais através do casamento teve outros filhos de seu segundo casamentg, estava contente com ¢ 0 fez de uma forma muito efetiva e consciente, por meio de uma sua vida, ainda encontrava satisfagio em seu trabalho remunera- fuga (termo que, depois de algumas décadas, tornowse arcaico)do, mas ndo era ambiciosa para pretender maiores realizagSes “Wendy encarava o casamento como o equivalentea entrar na idad profissionais, adulta, Pensava nele como “uma recriago de um casulo, 20 mest: tempo em que se é também uma borboleta inteiramente desenval vida". Comparemos a experiéncia de Wendy com a de Helen, com 49 anos de idade quando contatada pela pesquisadora. Em suas proprias palavras, durante a sua fase de crescimento, Helen “carecia Sua ligagao com seu futuro marido facilitava a sua independérde autoconfianga em grau patoldgico”. Na universidade, conheceu cia, pelo menos dh maneira como cla via as colsas na 6poca: “Este easourse com um professor que rapidamente criou cera fama em feluefonamento com uma nova pessoa era.a primeira agio realm’ gua especialidade. Tendo abandonado a sua educagio para casar-se, “ ANTHONY GIDDENS seu senso de autoestima tornouse muito dependente de set envolvimento com as aspiragées © realizagSes de seu matido Ocupava parte da vida dele, como mais tarde declarou, como “um inquilino” ou “um porteiro”. Ela ¢ seu marido moravam em um alojamento da universidade, quando ele anunciou que queria o divorcio; como apenas ele era possuidor de um cargo na instiuigio cla teve de partir, levando o seu filho para morar com ela. Ao contrétio do que aconteceu com Wendy, seus pais nio a convida ram para voltar para casa nem Ihe ofereceram algum apoio moral ‘ou material. Inicialmente dominada pelo desespero e acometida pela soli , Helen afinal decidiu voltar & universidade em tempo parcial ‘eterminar 0 seu curso. Ndo obstante, viuse durante algum tempo explorada em “empregos femininos” de baixa qualificagio, atl ‘conseguir obter um cargo em publicidade, e na ocasiao da pesquiss haviese tornado uma bemsucedida editora. Ela ¢ descrita pot Hancock como uma pessoa de modos bruscos ¢ sarcisticos inclinada a um humor sardonico, Mas sua aparente competéncit mascarava atitudes de desespero ¢ autoaversio que o fim de seu casamento deixou e de que jamais se recuperou. Viurse presa a um vida “varia e arida”. Em ver de buscar moldar o seu futuro continuava a “vagar para o infinito". Concluius“Vocé me perguntt foque tem sido a minha vida adulta? Um vazio, cis o que tem sido ‘Aos 35 anos, et era um cadaver, E agora estou com quase 50 ¢ indo consigo nem sequer avalir esses 15 anos de intervalo. Eu ‘o meu filho, mas a minha sensagio de tempo desapareceu”* Uma mulher razoavelmente satisfeita ¢ realizada, outra solitd ria, amarga: historias banais, cada uma delas, embora em ambot 16s casos impregnadas de uma dor considerivel. © que elas not contam do amor, uma vez que o amor rio € um tema dominant nna narrativa individual de nenhuma delas? Seria ficil dizer, ¢ impossivel contestar, que 0 casamento foi uma armadilha para ambas as mulheres, ainda que uma armadilha em que as di . Tosas as ctagies sto de Emily Hancock, Th Gil Within, London: Pandora, 1990 ATRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE o Jangaram deliberadamente. Wendy foi capaz de recuperarse da perda de seu marido, enquanto Helen nao conseguiu fazélo, ¢ tomou-se subjugada pela forga opressiva das circunstancias com que tdo freqilentemente se defrontam as mulheres s6s. Ambas ‘asaram-se por amor ~ Wendy duas vezes -, mas cada uma delas, sein uma total compreensio do fato, encarou o casamento como uma declaragio de independéncia e como um meio de forjar uma auto-identidade definitiva. Quem sabe se Wendy ainda seria capaz de assumir o encargo efetivo de sua vida se seu segundo marido a deixasse? Como a maioria das mulheres entrevistadas por Hancock, ambas buscaram libertarse das vidas que suas mies viviam, identificadas por elas com a domesticidade confinada, © proceso foi muito tenso, pois cada uma buscava distanciarse de sua me sem rejeitar a feminilidade. Néo observamos aqui a perpetuagio de atitudes que vinculam o amor e 0 casamento como um “estado final”; mas também nfo é simplesmente uma tentativa de entrar em um mundo masculino por meio da adogio de valores instru- mentais. Estas mulheres, assim como as outras retratadas no livro de Hancock, so, em um sentido real, pioneiras que se movem através de um territério ndo delimitado, que tragam alteragSes na autoidentidade a medida que se confrontam e sio confrontadas com mudangas na natureza do casamento, da familia e do trabalho. © paradoxo ¢ que o casamento é utilizado como um meio para se alcangar uma certa autonomia. Jé sugeri anteriormente que 0 amor romantico é um jogo corttra o futuro, uma origntacio para ‘controle do tempo futuro por parte das mulheres que se tornaram especialistas em questdes de (0 que agora veio a ser compreendido como) intimidade. Nos periodos iniciais do desenvolvimento modemo, para muitas mulheres havia uma ligagao quase inevitavel :ntre o amor e o casamento. Mas mesmo entio, absolutamente & {Parte das intervengdes dos aurores feministas prescientes, as mu- Theres estavam de facto explorando outros caminhos. A separacio ‘entre 0 casamento e suas ralzes tradicionais nos fatores “externos” impds-se muito mais intensamente sobre as mulheres do que sobre — « ANTHONY GIDDENS ‘0s homens, que poderiam encontrar no casamento ¢ na familia antes de tudo um refigio do individualismo econdmico. Para ot homens, colonizar o futuro em termos de uma catreira economia prevista significava deixar de avaliar a forma paralela, mas substany tivamente muito diferente, de colonizar o tempo, proporcionada pelo amor romantico. Para eles, pelo menos aparentemente, 0 amor permanecia mais préximo ao amour passion. Para Wendy e Helen, o casamento, quando nele entraram, ji era contraditério, mas também pronto para ser impregnado com ‘um nivel mais alto de reflexividade, Ainda no havia sido conside rado livre de suas ancoras “externas”, e proporcionava um statu! distinto para as mulheres enquanto esposas € mées. Entretanto, mesmo na primeira parte de suas vidas, cle ja no era para clas tuma questo de “encontrar um homem", mas estava vinculado ¢ tarefis ¢ preocupagdes absolutamente diferentes daquelas da ger ‘lo de suas mies. Mulheres como Wendy ¢ Helen ajudaram a preparar o.caminho para uma reestruturagéo da vida intima, atris da qual esti colocado todo 0 peso das mudangas discutidas no primeiro capitulo. Se as adolescentes mio falam muito sobre ¢ casamento, no € por terem realizado uma transigio bemsucedide para um futuro ndodoméstico, mas porque sio participantes, ¢ colaboradoras, de uma reorganizagio importante por que realmen te passa o casamento ¢ outras formas de vinculo pessoal proximo Falam mais em relacionamentos do que no casamento em si, ¢ ATTRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE ° pelo que pode ser derivado por cada pessoa da manutengdo de uma associagdo com outra, e que sé continua enquanto ambas as partes considerarem que extraem dela satisfagdes suficientes, para cada ‘uma individualmente, para nela permanecerem, Paraa maior parte dda populagao sexualmente “normal”, o amor costumava ser vincu- lado & sexualidade pelo casamento, mas agora os dois esto cada ‘vez mais vinculados através do relacionamento puro, O casamento para muitos, mas de forma alguma para todos os grupos na populagio - temsse voltado cada ver mais para a forma de um relacionamento puro, com muitas outras conseqtiéncias. Repetin- do, o relacionamento puro ¢ parte de uma reestruturagdo genética da intimidade. Emerge em outros contextos da sextalidade além deno casamento heterossextal; de algumas maneiras causalmente relacionadas, ele ¢ paralelo ao desenvolvimento da sexualidade plistica. A idéia do amor romAntico ajudou a abrir um caminho para a formagio de relacionamentos puros no dominio da sexua- lidade, mas agora tornowse enfraquecida por algumas das propri influéncias que ela ajudow a criar, Mulheres, homens, amor romantico ‘Até agora temos nos referido principalmente as mulheres. Se aiidéia do amor romantico foi desenvolvida, e também mais tarde de algum modo dissolvida, primeiramente pelas mulheres, o que aconteceu com os homens? Sera que os homens permanecefam intocados pelas mudangas que as mulheres ajudaram a realizar, ‘exceto em seu papel de defensores reaciondrios do privilégio entrincheirado? © fato de os homens serem participantes das ‘experiéncias cotidianas descritas neste livro nfo carece de maiores cexplicages. Mas acho pertinente apresentar uma interpretagio da transmutagio do amor romantico, que em grande parte exclui os homens. Eles sio os retardatirios nas transigSes que estio atual- mente ocorrendo - eem certo sentido tem sido assim desde o final do século XVIII. Pelo menos na cultura ocidental, a época atual & estto certas ém assim fazé-lo. © termo “relacionamento”, significando um vinculo emocio nal préximo e continuado com outra pessoa, s6 chiegou 20 us geral em uma época relativamente recente. Para esclarecer © que std em jogo aqui, podemos introduzir a expressio relacionamentt puro para nos refetirmos a este fendmeno.? Um relacionamente puro rio tem nada a ver com pureza sexual, sendo um conceite mais restrtivo do que apenas descritivo. Refere-se a uma situacie em que sc entra em uma relaglo social apenas pela propria relacio 9. Anthony Giddens, Modernity and Selfdenty, Cambridge: Polity, 1991. ° ANTHONY GIDDENS 6 primeiro periodo em que os homens estio descobrindo que ees proprios so homens, ou seja, possuem uma “masculinidade problemética. Em épocas anteriores, os homens assumiram que suas atividades constitulam a “histéria”, enquanto as mulheres existiam, {quase atemporalmente, fazendo a mesma coisa que sempre fizeram, Os homens, assim como as mulheres, apaixonam se ¢ apaixo- naramse através de todo o passado documentado, Durante os dois tikimos séculos, foram também influenciados pelo desenvolvimen to dos ideais do amor romantico, mas de um modo diferente do dlas mulheres. Aqueles homens que foram muito influenciados por tais idéias de amor foram isolados da maioria como sendo “roman ", em um sentido peculiar desse termo. Eles sio, digamos assim, sonhadores adamados que sucumbiram ao poder feminino, Tais homens abandonaram a divisio entre mulheres imaculadase pura, tio central sexualidade masculina. Apesar disso, 0 romantico nfo trata as mulheres como iguais, Ele & o escravo de tuma mulher particular (ow de varias mulheres em seqiiéncia) € ‘constréi sua vida em torno dela; mas a sua submissio nao ¢ uma, atitude de igualdade. Ele nfo ¢ realmente um participante da exploracio emengente da intimidade, mas, mais que isso, de um regresso a épocas anteriores. © roméntico neste momento niio & alguém que intuitivamente compreendeu a natureza do amor como tum modo de organizar a vida pessoal em relagio & colonizaco do tempo futuro ¢ A construgio da autoidentidade. Para a maior parte dos homens, o amor romantico entra em conflito com as regras da sedugio. Esta observagio revela que a ret6rica do amor romantico nao ¢ apenas mais um tecurso utilizado pela maioria dos Lotharios.!® Desde o inicio das transformagSes que afetam 0 casamento ¢ a vida pessoal, os homens em geral excluiramse do desenvolvimento do dominio da intimidade. As ligagGes entre o amor romantico ea intimidade foram suprimidas, € 0 apaixonarse permaneceu intimamente vinculado a idéia de 10, Referencia a Lothario, personagem que representa osediator na pora The Fair Pentent (1703), de Nicholas Rowe. (NT) ATTRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE n acesso: acesso a mulheres cuja virtude ou reputacio era protegida até que pelo menos uma unifo fosse santificada pelo casamento, Os homens tenderam a ser “especialistas em amor” apenas com respeito as técnicas de sedugio ou de conquista. Sempre houve um abismo entre os sexos em termos da experiencia, dacriagio e da educagio. “Essas mulheres impossiveis! Como circulam em torno de nés! O poeta estava certo: nio se pode viver com elas ou sem elas” (Aristofanes). Entretanto, no século XIX, por razdes ja discutidas, as mulheres tornaramse, numa nova acepgio, obscuras aos homens. Tornaram-se misteriosas, segundo Foucault, devido aos proprios discursos que buscavam conhece- fas, que fizeram da sexualidade feminina um “problema” ¢ tratavam as suas doengas como formas de desqualificagio social originarias das profundezas sombrias. Mas também tornaranyse desconcertantes em virtude das prdprias mudangas que estavam ajudando a introduzir. © que os homens desejam? Em certo sentido, a resposta tem sido clara e, a partir do século XIX, compreendida por ambos os sexos. Os homens querem status perante os outros homens, onferido por recompensas materiais ¢ associado a tituais de solidariedade masculina. Mas, aqui, 0 sexo masculino interpreta mal uma tendénciachave na uajetéria do desenvolvimento da modernidade, Os homens procuravam obter a auto-identidade no trabalho, © - em geral, devemos sempre acrescentar ~ nfo con preenderam que 0 projeto reflexivo do eu envolve uma reconstru- «Ho emocional do passado para projetar uma natrativa coerente em, ditesio a0 futuro. Sua confianga emocional inconsciente nas mulheres era o mistério cuja resposta eles buscavam nas pré- prias mulheres, e a busca pela auto-identidade ficou dissimulada nesta nfo reconhecida dependéncia. © que os homens queriam cera algo que as mulheres, de certa forma, jé haviam alcangado; no surpreende que os autores homens, inclusive © natrador de My Secret Love, ficassem obcecados pelo segredo que somente as mulheres poderiam revelar, e que o acimulo de conquistas amo- rosas nfo conseguiu, inteiramente, descobrir. n ANTHONY GIDDENS Amor roméntico versus amor confluente Na época atual, os ideais de amor romiintico tendem a frag mentarse sob a pressio da emancipagio ¢ da autonomia sexual feminina, O conflito entre a idéia do amor romantico ¢ 0 relacio- rnamento puro assume virias formas, cada uma delas tendendo a tornarse cada ver mais revelada a visio geral como um resultado da crescente rellexividade institucional. © amor romantico depen: de da identificagao projetiva, da identificagio projetiva do amour passion, como 0 processo pelo qual os parceitos potenciais tornam se atraidos ¢, entdo, unemse. A projecio cria, aqui, uma sensago de totalidade com o outro, sem divida intensificada pelas diferen- ‘asestabelecidas entre a masculinidade e a femninilidade, cada uma delas definida em termos de uma antitese. Os tragos do outro so “conhecidos” em uma espécie de sentido intuitivo. Mas em outros aspectos, a identificagio projetiva vai contra o desenvolvimento de um relacionamento cuja continuagio depende da intimidade. A abertura de um em relagto ao outro, condicio para o que chama remos de amor confluente, & de algum modo 0 oposto da identift cagio projetiva, ainda que tal identificagio, por vezes, estabelesa tum caminho até ele. © amor confluenteé um amor avo, contingent, ¢ or isso entra em choque com as categorias “para sempre” e “inico” da dia do amor romantico. A “sociedade separada e divorciada” de hhoje aparece aqui mais como um efeito da emergéncia do amor confluente do que como sita causa. Quanto mais o amor confluente consolida-se em uma possibilidade real, mais se afasta da busca da “ pessoa especial” €0 que mais conta &0 “relacionamento especial” Em contraste com 0 amor confluente, o amor romantico tem sido sempre equilibrado em relacko a género, como resultado de influtncias ja discutidas. © amor romantico hé muito tempo tem mostrado uma qualidade igualitaria, intrinseca a idéia de que um relacionamento pode detivar muito mais do envolvimento emocior nal de duas pessoas do que de critérios sociais externos. De facto ATTRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE b ‘no entanto, o amor romdntico & completamente desvinculado do poder. Muito freqtientemente, os sonhos de amor romantico das mulheres tém conduzido a uma severa sujeicio doméstica. O amor confluente presume igualdade na doagio e no recebimento emo- cionais, e quanto mais for assim, qualquer lago amoroso aproxi mae muito mais do protétipo do relacionamento puro. Neste momento, © amor 6 se desenvolve até o ponto em que se desenvolve a intimidade, até o ponto em que cada parceiro esta preparado para manifestar preocupagées e necessidades em relagio 20 outro e esta vulnerivel a esse outro. A dependéncia emocional mascarada dos homens tem inibido a sua propensio © a sua capacidade, para tornaremse, assim, vulneriveis. O ethos do amor romintico tem de certo modo sustentado esta orientacio, no sentido de que © homem desejavel tem sido com freqiencia representado como frio € inatingivel, Mas desde que tal amor dissolve estas caracteristices, que sio exibidas como uma mascara, 6 reconhecimento da vulnerabilidade emocional masculina esti evidentemente presente. Oamor romantico ¢ um amor sexual, mas liberta a ars erotica. A satisfagio ¢ a felicidade sexuais, especialmente na forma fanta- siada do romance, so supostamente garantidas pela forga muito erotica provocada pelo amor romantico, © amor confluente pela primeira ver introduz a ers erotica no cere do relacionamento conjugal ¢ transforma a realizago do prazcr sexual reciproco em um dlementochave na manutencio ou dissolugio do relacionamento. © caultivo de habilidades sexuais, a capacidade de, proporcionar ¢ experimentar satisfago sexual, por parte de ambos bs sexos, tornam- se organizados reflexivamente via uma multiplicidade de fontes de informagio, de aconselhamento e de treinamento sexual. Nas culturas nfo-ocidentais, como jé foi mencionado, a ars erotica era em geral uma especialidade feminina, quase sempre limitada a grupos especificos; as artes eréticas eram cultivadas por concubinas, prostitutas ou pelos membros de comunidades reli giosas minoritirias. © amor confluente desenvolve-se como um ideal em uma sociedade onde quase todos ttm a oportunidade de Eauaicce (eee ee ec retains aol . ” [ANTHONY GIDDENS | tornarenvse sexualmente realizados; e presume o desaparecimento da distingdo entre as mulheres “respeitaveis” ¢ aquelas que de algum modo estio marginalizadas da vida social ortodoxa. Diferen-_ te do amor romantico, o amor confluente no é necessariamente monogimico, no sentido da exclusividade sexual. © que mantém_ 0 relacionamento puro é a accitaglo, por parte de cada um dos] pparceiros, “até segunda ordem”, de que cada um obtenha da relagio beneficio suficiente que justifique a continuidade. A exclusividade sexual tem um papel no relacionamento até © ponto em que os parceiros a considerem desejavel ou essencial. Deveria ser observado mais um contraste muito importante entre © amor romiintico € 0 amor confluente: assim como 0 relacionamento puro em geral, o amor confluente nfo tem ligngio, ‘specifica com a heterossexualidade. As ideias de romance témse estendido a0 amor homossexual, demonstrando, também, certa nfluéncia sobre as distingées de feminilidade ¢ masculinidade desenvolvidas entre parceiros do mesmo sexo. Ja observei que 0 amor roméntico apresenta caracteristicas que tendem a subrepujat ‘a diferenga sexual. Apesar disso, a idéia do amor romAntico tem-se claramente orientado, sobretudo, pelo casal heterosexual. O amor confluente, embora nao necessariamente andrdgeno, ¢ ainda talver estruturado em torno da diferenga, presume um modelo de relar cionamento puro em que é fundamental 0 conhecimento das peculiaridades do outro. E uma versio de amor em que a sexuali- dade de uma pessoa é um fator que tem de ser negociado como parte de um relacionamento. Por enquanto, quero deixar de lado até que ponto, na pritica, ‘amor confluente faz parte atualmente do relacionamento sexual. ‘Antes de tudo, tém de ser discutidos outros aspectos ¢ implicagdes do relacionamento puro e de sua associagio com a auto-identidade ¢ 2 autonomia pessoal. Em tal discussio, muito freqilentemente farei uso de obras terapéuticas e de manuais de autoajuda - embora de uma maneira critica - como minha orientagio. Nao porque foferegam relatos exatos das alteragées que afetam a vida pessoal: maioria ¢ constituida essencialmente de livros de cardter pritico ¢ [ATEANSFORMAGAO DA INTIMIDADE 8 correspondem a expressées de processos de reflexividade que esbogam e ajudam a conformar. Muitos sio também emancipaté- rios: apontam para mudangas que poderiam libertaros individuos de influéncias que bloqueiam o seu desenvolvimento auténomo. Sio textos da nossa época em certo sentido compariveis aos manuais medievais de conduta, analisados por Norbert Elias, ou As obras de etiqueta uilizadas por Erving Goffman em seus estudos sobre a norma da interacio. AMOR, SEXO E OUTROS ViCIOS “Olhei debaixo do vestido de uma mulher quando estivamos farendo sandutches para os pobres na missio da igreja... Tentei passar a cantada em outro paciente na fila da clinica de doencas ‘venéreas... Dormi com o melhor amiga de meu namorade quando le estava fora da cidade.” Indiscrigdes reveladas na privacidade do confessionatio catélico? Nao, estas so declaragées publicas feitas em um encontro dos Sexdmanos Anénimos (Sex Addicts Anony- mous - SAA).' Os SAA derivaram do tratamento do alcoolismo e foram modelados diretamente a partir dos Alcodlicos Anénimos.? Os grupos dos SAA adotam 0 método de recuperagio dos “doze passos”, aprovado pelos Alcodlicos Anénimos, segundo o qual os | individuos concordam antes de tudo em accitar que esto acome- tidos de uma compulsio que sto incapfes de controlar. O primeiro passo do "Big Book” dos Alcodlicos Anénimos reza: “Admitimos que somos impotentes em relagio ao alcool - que nossas vidas tornaram-se incontrolaveis”. Solicita-se aos membros 1. Seven Chapple e David Talbot, Buming Ds, New York: Signet, 1990, p35. 2 Ha outs onpaitagéese dvsdes: of Sexaolics Anonymous e ot Sex and Love ‘Aadics Anonymous io princpalmente heteoseeuais em sua oienato; grupos como ot Sex Compulives Anonymous slo orizages para © mesmo sexo. ® [ANTHONY GIDDENS isso e dai em diante suas necessi- dos SAA que comecem com a mesma ad progridam em diresfo A superacio de sua sujeigio as dades sexuais. Em uma inversio interessante ~ esignificativa ~ das tendéncias observadas por Foucault, os proponentes dos SAA, que em sua maior parte nfo sao da drea médica, ttm buscado tratar 08 vicindos ‘em sexo através da medicina. A “condigio”, propéem eles, deveria ser relacionada em manuais de diagnéstico como “disturbio do desejo sexual hiperativo". A idéia pode parecer artificial, ainda mais, que se tem declarado que uma proporso muito substancial da populagio é acometida por ela. Mas praticamente 0 mesmoacontece ‘com 0 vicio do alcool, que segundo alguns cileulos atinge cerca de 4 de todos os adultos nos Estados Unidos. Demorou muito tempo para que o alcoolismo fosse ofcialmente aceito nos circulos médicos ‘como um vicio, ainda que ele tenha uma base fisiologica definida, ‘A primeira vista, o vicio do sexo poderia parecer apenas outra excentricidade - ou tlvez um novo modo de se explorar uma multidio de crédulos, uma ver que uma categoria psiquidtrica reconhecida pode ajudaras partes interessadas na qualificacio para investimentos médicos, na criago de apoto de pesquisa e na sua | propria apresentagio como uma nova geragio de especialists, Mas | ha mas coisas em jogo do que poderia suger tal visio, tanto na | rea especifica da atividude sexual quanto em um nivel mais amplo. | ( sexo é apenas um dentre um grande ntimero de vicios reconhe: | cidos nos altimos anos. E possivel alguém se tornar viciado, entre | sm drogas, comida, trabalho, fumo, compras, exer ficamente sexual, | outras coisas, e cicios, jogo - e, além do componente especi também em amor e em relacionamentos.? Por que o vicio veio a ses tio extensamente comentado no perfodo relativamente recente? Para responder a esta pergunta, que esti relacionada aos meus argumentos na totalidade do livro, vamos examinar a questio do >, Jovee Dialer e James Dialer, f You Really Loved Me, How to Survive an Addition in ‘he Family, Londres: Macmillan, 1989 - apenas um exermplo do que se tornou uma literatura muito tens, ‘ATRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE » po a sexo ¢ considerar em que sentido, se é que hé algum, el um fendmeno real e néo uma novidade terapéutica superical. Sexo e desejo “As mulheres querem amor, os home 2 ie . 0s homens querem sexo.” Se sno ésteredipo forse verdad, no exsiia a questio do ico sexo. O apetite dos homens pelo sexo, com tantas pa quan posse ea snpesmene ua ect dtd le sua masculinidace. O desejo das mulheres pelo amor dominaria qualquer tendénca para o exo, que seria o prego para se conseguit a recompensa de amar e ser amada. meson i. Mas esta ant cbsewsgo, plo menos no mundo aa, pei lifcada, As mulheres querem sexo? Sitn, pela primeira ver tmulheres colevamente, enifo como especalisias em una as etc, so capes de buscro pre sen como un components bi co A sus vids ede seus relcionamentos. Os homens querem amor? stamente, apesar das aparéucias em contritio ~ talvez mais que tmaioria das mulheres, embora de formas que ainda pr ie investigdas. A posio dos homens ne dominio pio i lear fova dens esclusto da tansformacio da inimidade, __ Sendo assim, vamos verificar onde se chega s e invertda, Comesarei segundo o destino de Gert, joan mallee que contatou 0 grupo dos SAA na regito de Minneapolis, & tomourse uma das participants de um projeto de pesquisa sob vicio sexual feminino realizado por Charlotte Kas! Antes de vincularse aos SAA ~ , depois, em surtos eventais = Geri levava uma vida to esqizofrénica quanto qualquer homem que pudesse ter misturado a probidade em suas aivdades de trabalho vom a 1 Gta mn ne Maina 98d rmemeeten png mao cat niece a eee Spt ca ctaerenee ‘mek ieee ca Sareea ais em andamento, mas tambémn como sintomatico dessas mudora. pees Ses % ANTHONY GIDDENS busca calculada de conquistas sexuais na sua vida privada, Durante © dia, era professora assistente em uma escola, A noite, is vezes assistia outras classes, mas também freqiientava bares para “soltei ros” € nos meses anteriores a sua filiagio aos SAA estava sexual mente envolvida a0 mesmo tempo com quatro homens diferentes, cada um deles ignorando a existencia dos outros. Ela atingiw uma crise em sua vida quando descobriu que, apesar de tomar mais precaugSes do que nunca, havia contraido uma doensa venérea (pela décima segunda ver em sua vida). Para chegar até outros que poderiam ter sido infectados, teria de contatar nfo menos que catorze homens com quem esteve sexualmente envolvida em tim. curto periodo. Foi incapae de fazer isso, em parte porque nio podia defron- tarse com a indignidade de realizar as chamadas telefdnicas necessirias, ¢ em parte porque estava preocupada que os homens, com quem ela safa regularmente, pudessem descobrir a sua dup cidade em relagio a eles. Gerri descobriu a teoria do vicio do sexo quando se deparou com um artigo sobre 0 assunto no jornal local, que mencionava uma clinica de dependéncia sexual no hospital. A idéia de ir até a clinica passou por sua cabega, mas em ver disso procurou um de seus amigos homens e passou a noite fazenido sexo com ele. Sé contatou a clinica virios dias mais tare, depois de outto episédio sexual. Gerri e sua irma foram a um bat ¢arranjaram dois homens. Voltando para o seu apartamento com um dos homens, ela envolveuse em um acidente de automével. Relatou: Eu estava em estado de choque quando chegamos em casa. Mesmo assim, queria fazer sexo. Em geral, atrawis do sexo eu podia me esquecer de tudo, mas aquela noite eu ndo consegui, Durante 0 sexo, sentime morta € doente do estémago. Fiquei aliviada quando 0 rapaz foi embora de ‘madrugada, Nao cinha interesse em volo novamente, mas meu ego fcott ferido quando ele nto me procurou no dia seguinte. Eu me orgulhava de fazer com que os homens andassem atrés de mim 5. Ibid, p. 86, ATRANSFORMACAO DA INTIMIDADE, a Gerri sentia que a sua vida estava fora de controle freqiiente- ‘mente pensava em suicidio, Tentou manterse afastada de encon- tros sexuais durante varios meses aps juntarse ao grupo dos SAA, para onde a clinica a encaminlou. Nesse meio tempo, foi presa por fraudar a Previdéncia Social: as autoridades declararam que, antes de conseguir 0 seu emprego como professora, obteve bene- ficios da Previdéncia aos quais no tinha direito. A acusagio era dubia, ¢ ea tornou-se uma espécie de cause célébre local, recebendo apoio de varias organizagbes dos direitos das mulheres. No tribunal, varias outras mulheres acusadas de delitos simi- lares apareceram antes dela no banco dos réus, ¢ todas foram julgadas culpadas; ela, entretanto, declarou ser inoc te a acusagio contra ela foi retirada, Gerri subseqtientemente tornou-se membro proeminente de um grupo que contestava casos em que niulheres que apelavam para a Previdéncia Social eram condenadas. Falava na necessidade de se averiguar “como as mulheres so humilhadas ¢ cue duras sentencas recebem por tentarem sobreviver”. Na luta por seus direitos, “podia perceber meu proprio objetivo na vida”. “Anteriormente”, dizia la era uma maneira de eu conseguir poder... a tinica manera que eu conhecia"# Comegou um nove relacionamento com um hemem, foi morar com ele ¢ esforgouse para néo ficar sexualmente envol- vida com ninguém ma finalmer Sera que Gerri estava agindo da mesma forma que uma longa lista de homens sedutores,tentando experimentar uma yida sexual to variada quanto pudesse conseguir levar? A resposta, acho eu, € um qualificado sim, Ela estava envolvida em um certo tipo de busca, através do uso da sexualidade, que s6 pode ser descrita como tuma procura frustrada por autoidentidade; esta tentativa no era a busca do romance convencional. Ela procurava ativamente os homens, e nem sequer esperavaem casa que eles a chamassem, Sua autoestima estava limitada a sua pericia sexual, incluindo a sua 6. Ibid, p. 439. T a ANTHONY GIDDENS capacidade para obter e também para proporcionar prazer sexual; ¢ mantinha um registro dos homens que havia “conquistado”. Mas ha uma tanica desesperada e trigica em sua historia, 0 que também ocorre em experiéncias masculinas de um tipo semelhante, mas nestas em geral € menos evidente. Hoje em dia pode muito bem existir algumas mulheres que, sem muitos pro- bblemas psiquicos, adotam algo proximo a atitude masculina tradi cional em relagio a sexualidade como sendo uma dindmi¢a orgae nizada da sua propria conduta sexual. Mas se ha tais mulheres, Gerri certamente nfo era uma delas, pois seu comportamento a envolvia em grande sofrimento. Soubese que tanto seu pai quanto sua mie eram alcodlatras, e seu pai combinava 0 aleoolismo com uuraa tendéncia a iras violentas, que com muita freqaéncia eram dirigidas contra seus filhos. Abusou sexuialmente de todas as suas quatro filhas; Gerri aprendeu a ser “boa” com ele ~ em outras palavras, acetar seus avangos sexuais ~ para proteger a si mesma As suas irmas de provaveis surras. Certa casio, denunciou 0 ituigio local de proteggo a infancia, Quando uma tente social visitou sua familia, seu pai conseguiu convencéla de que no havia nada errado; mas seu pai mais tarde a espancou cla nunca mais ousou fazer quaisquer outras queixas pablicas. Gerri “queria sexo": estava tentando integrar uma abertura para novas experiéncias sexuais com as outras exigéncias de sua vida, Logo percebeu que sexo proporcionavahe um certo controle em um mundo sobre o qual a sua verdadeira influéncia era limitada ¢ problematica. Gerri considerava a sua vida absoluta- mente falsa, 0 que era realmente verdade: estava efetivamente se comportando como um homem sexualmente aventureiro, sem © apoio material ou aceitagio normativa generalizada, que a maior parte de tais homens tacitamente possuem. Ela podia chamar os homens e procurar ativamente novos parceitos sexuais, mas ndo podia facilmente buscar um contato sexual além de um certo ponto, da forma que um homem podia fazélo. Muitos homens, talvez a maior parte, ainda consideravam desapropriado e ameacador, para as mulheres, comportarem-se em relagio a eles do mesino modo ATTRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE ® que eles rotineiramente se comportam em relacio a elas. A necessidade de constante aprovagio sexual tornouse parte do cariter de Gerri - mas ela tinha de buscar tal endosso em ambientes sociais controlados pelos homens. A natureza do vicio Antes de decidir se 6 ou nao razodvel falar do comportamento de Gerti como sendo um vicio sexual, devo voltara um plano mais geral e considerar 0 que a idéia de vicio poderia significat. Origi- nalmente, 0 conceito de vicio estava vinculado em sua quase totalidade a dependéncia quimica, ao alcool ou a drogas de varios tipos. Uma vez incorporada pela medicina, a idéia foi definida como uma patologia fisica: 0 vicio neste sentido refere-se a um estado do organismo. Tal conceito, no entanto, esconde o fato de que 0 vicio ests expresso no comportamento compulsive, Mesmo no caso de dependéncia quimica, o vicio é medido de facto em termos das conseqiiéncias do habito para o controle de um individuo sobre a sua vida e mais as dificuldades de se abandonat aquele vicio. Toda vida social é substancialmente transformada em, totina: temos modos de atividade regulares, que repetimos dia apos dia, e que dao forma as nossas vidas individuais, assim como reprodu- zem instituigdes maiores para as quais a nossa conduta conttibui. Mas tais rotinas nfo sfo todas do mesmo tipo. Craig Nakken cria tum conjunto til de distingées entre os padées de afio, os habitos, as compulsdes € 0s vicios.” Um padrio é simplesmente uma rotina que ajuda a organizara vida cotidiana, mas que um individuo pode alterar quando necessirio. Assim, uma pessoa pode levar o cio para passear na maioria das vezes pela manh, mas pode fazé-lo & noite, se necessario. Um habito é uma forma de comportamento: repetitivo psicologicamente mais obrigatdria que um padrio de 7. Crig Nakken, The Aidicive Penonaiy, Rots, Riwals and Recovery, Centre Ciy, Minn.: Hazelden, 1988, eS Cy ANTHONY GIDDENS conduta; para alterido ou rompélo, € necessitio um esforco distinto da vontade. As atividades habituais so com freqiéncia descritas pela palavra “sempre” ~ “Eu sempre janto as oito da noite”. A compulsio é uma forma de comportamento que um indiv- duo acha muito dificil, ou impossivel, parar apenas pelo poder da vontade, ¢ cuja realizagdo produz a liberacio de uma tensio. As compulsées em geral assumem a forma de ritais pessoais estereo- ‘ipados, assim quando um individuo tem de lavar-se quarenta ou inqdenta vezes por dia para sentir-se limpo. O comportamento compulsivo esti associadoa uma sensaglo de perda de controle sobre ©.cui,a pessoa pode realizar as agdes rituais em uma espécie de estado de transe. Nao conseguir realizélas provoca uma ctise de ansiedade. Os vicios so compulsivos, mas nfo so rituais sem importin- ia; atingem grandes dreas da vida de um individuo. Um vicio inelui cada um dos aspectos do comportamento ji mencionado e mais ainda, Pode ser definido como um habito padronizado compulsi- vamente engajado, cuja retirada gera uma ansiedade incontrolavel. Os vicios proporcionam uma fonte de conforto para o individuo, atenuando a ansiedade, mas esta experigncia ¢ sempre mais ou menos transitéria.? Todos os vicios slo essencialmente narcotizan- tes, mas o feito quimico, se existir algum, nfo ¢ um elemento essencial 4 experiéncia do vicio. Seguem-se algummas caractersticas especificas dos vicios: 1. O “éxtase”. Nas palavras de Erving Goffinan, o éxtase € aquilo que os individuos buscam quando procuram onde estd a ‘energia? ~ uma experiénciaisolada das caracteristicas habituais, das caracteristicas mundanas da vida cotidiana, E uma sensagio mo- mentinea de exaltagio que a pessoa desfruta quando uma sensagio “especial” & produzida - um momento de libertagao. O éxtase 68 vvezes, embora nei sempre, uma sensago de triunfo e também de 8, Stanton Pecle, Love and Addiction, New York: New American History, 1975, 9. Erving Goffman, Ineracion Rial, London; Allen Lane, 1972. ATRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE as relaxamento. Antes de um proceso de vicio, 0 &xtase ¢ uma experiéncia intrinsecamente compensadora. Entretanto, uma vez estabelecido © padrio, o elemento de libertagdo predomina sobre as caracteristicas inerentes 2 quaisquer sensagSes envolvidas, 2. A“dependéncia”. Quando uma pessoa esta viciada em uma experigncia ou em uma forma de comportamento especficas, © esforgo para atingir um éxase tradurse na necessidade de uma dependéncia. A dependéncia abranda a ansiedade ¢ introduz 0 individuo na fase narcotizante do vicio. A dependéncia ¢ psicolo- gicamente necessaria, mas mais cedo ou mais tarde ¢ sucedida pela depressio e pelas sensagies de vatio; ¢ 0 ciclo recomeca. 3. O éxtase e a dependéncia sfo ambos formas de se “sair do at”. Os esforcos habituais do individuo estio temporariamente em. estase e parecem remotos; a pessoa esti, digamos assim, em “outro mundo” e pode encarar 28 suas atividades normais com um divertimento cinico ou até com desprezo. Mas estes sentimentos estio com freqihncia sujeitas a uma inversio abrupta e poder-se- iam transformar em uma aversio a0 padrao do vicio. Tal desliga- mento em geral assume a forma de um desespero de que o vicio 1do possa ser controlado; éalgo que ocorre apesar das “melhores intengbes” do individuo. 4. A experiéncia do vicio € um afastamento do eu, um abandono temporério daquela preocupagio reflexiva com a prote- «fo da auto-identidade, genérica 4 maior parte das situagées da vida cotidiana. Algumas formas de éxtase ~ aquelas assogiadas a0 éxtase teligioso, por exemplo ~ relacionam especificamente a experiéncia com a derrota ou com a perda do eu. Nos viciados, entretanto, tais sensagées so em geral uma parte secular do padrio de comporta- mento; a sensagio de deslocamento do eu ¢ intrinseca & sensacio de libertacio da ansiedade. 5. O sentido de perda do eu é mais tarde seguido por sentimentos de vergonha e de remorso. Os vicios nfo sfo normal- mente formas estiveis de comportamento, mas tendem a aumentar em sua importincia. Pode ocorrer umn processo negativo de reali- vee a 86 ANTHONY GIDDENS mentaglo em que uma dependéncia cada ver maior do comporta- mento viciado gera nfo sentimentos crescentes de bem-estar, mas Pinico e autodestruicao. 6. A experiéncia do viciado parece muito “especial” e na verdade © & no sentido de que no momento nada mais funciona. Mas, em termos da condiglo psiquica do individuo, os vicios so com freqiiéncia funcionalmente equivalentes. Uma pessoa vai lutar para libertar-se de um vicio apenas para sucumbir a outro, e fica encerrada em um novo padro de comportariento compulsivo. Ela ou ele poderia associar duas formas de comportamento viciado, assim como bebere fumar muito ou as vere utilizar temporariamente um deles para compensar os estragos causados pelo outro. O comporta: mento viciado pode ser “disposto em camadas” na composigio psicolbgica do individuo, de tal forma que outros tragos de vicios menores, ou compulsdes, encubram 0 vicio principal. O fato de os vicios tenderem a ser funcionalmente intercambidveis proporciona uum forte apoio & conclusto de que assinalam para uma ineapacidade subjacente para enfientar centos tipos de ansiedade, 7.A perda do eu e a autoaversio caracteristicas dos vicios no devem necessariamente ser identificadas com a indulgéncia. Todos 65 vicios so patologias da autodisciplina, mas tais desvios podem seguir em duas diregées ~ para a liberagio ou para a contengio. Podemos ver cada uma dessas tendéncias expressas em vicios alimentares que podem assumir a forma de excesso de ingestio compulsiva e/ou de fastio anoréxico. Embora a bulimia e a anorexia paregam opostas, slo os dois lados de uma moeda e freqiientemente coexistem como propensées do mesmo individuo. Vicio, reflexividade, autonomia do eu Nos paises ocidentais, pessoas de diversas camadas sociais hi ‘muito tempo vm consumindo alcool e também outras drogas. Mas info sfo chamadas de viciadas. Até 0 século XIX, a ingestio regular ATTRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE ” do alcool, por exemplo, s6 era considerada um “problema social” se atingisse a um ponto de levar a desordem publica. A ideia de que alguém pode ser um viciado data mais ou menos da metade do século XIX; s6 mais tarde o termo alcangou o uso geral,e precede ‘um pouco a difundida aplicago da expressio viciado em bebida. A invengio do viciado, segundo Foucault, é um mecanismo de controle, uma nova rede de “poder/conhecimento”. Mas também. determina um passo a frente na caminhada para a emergéncia do projeto reflexivo do eu, que é a0 mesmo tempo emancipatério e constrangedor. O viciado, antes de tudo, ¢ alguem “imoderado”, palavra que nao esti relacionada apenas ordem piiblica, mas a ‘uma recusa, a uma aversio discreta de se aceitar o proprio destino. © vicio aponta para um modo peculiar de controle sobre aspectos da vida cotidiana de alguém ~ e também sobre o eu. A importincia espectfica do vicio pode ser considerada do seguinte modo. O vicio deve ser compreendido em termos de uma sociedade ‘em que a tradiglo tem sido mais abandonada do que jamais foi, ¢ em que © projeto reflexiva do eu assume correspondentemente ‘uma importincia especial. Quando grandes areas da vida de uma pessoa no stio mais compostas por padrées ¢ habitos preexisten- tes, 0 individuo ¢ continuamente obrigado a negociar opgbes de estilo de vida, Além disso ~ e isto é crucial -, tais escolhas nio sio apenas aspectos “externos” ou marginais das atitudes do individuo, mas definem quem 0 individuo “é”. Em outras palavras, as escolhas de estilo de vida constituem a narrativa reflexiva do eu.!® O fato de 0 alcoolismo ter sido identificado como uma patolo- gia fisica, durante algum tempo desviou a atenfio da relagio entre ovicio, a escolha do estilo de vida e a auto-identidade. A promessa emancipatéria que ele carrega foi bloqueada até o ponto de ele ser percebido como uma doenga como outra qualquer. Mas o progra- tna inicial dos Alcodlicos Andnimos jé reconhecia que a recupera- do do vicio significava profundas mudangas no estilo de vida e tum reexame da auto‘dentidade, Assim como acontece com a 10, Anshony Giddens, Modemityand Self deny, Cambridge: Polity, 1991. Ane CERT ET a 8 ANTHONY GIDDENS psicoterapia e 0 aconselhamento, aqueles que freqdentam suas reunides encontram uma atmosfera em que nao existe critica ou julgamento. Os membros sio estimulados a revelar suas preocupa- g6es e temores mais particulares de uma forma aberta, sem medo de ficarem embaracados ou de receberem uma resposta ofensiva. O ‘motivo condutor desses grupos ¢ uma reescrita da narrativa do eu, Em uma ordem péstradicional, se 0 individuo quiser combi- nar autonomia pessoal com um sentido de seguranga ontolégica, a narrativa do eu tem de ser, na verdade, continuamente reelabo- rada, ea ela alinhadas as priticas do estilo de vida. No entanto, os processos de autorealizngio so muito freqitentemente parciais ¢ confinados. Por isso, nfo surpreende que 08 vicios sejam poten ialmente tio abrangentes em sua natureza, Uma vez que a reflexividade institucional atinge virtualmente todas as partes da vida social cotidiana, quase todo padrlo ou habito pode tornar-se um vicio. A-idéia do vicio faz pouco sentido em uma cultura tradicional, onde & normal fazerse hoje o que se fez ontem. Quando ha continuidade da tradigio e 0 que foi ha muito estabelecido, ¢ também sancionado como correto ¢ adequado, & 0 seguimento de um determinado padrio social. Dificilmente isso poderia ser descrito como um vicio; nem exporia as caracteristicas especificas do eu. Os individuos néo podiam pegar e escolher, mas também nao precisavam revelar-se em suas agées e habitos. Por isso, na modernidade tardia, os vicios so umn indicador negative do grau de movimento do projeto reflexivo do eu em diregio a0 estigio central. Sio modos de comportamento que penetram a forca, talver de uma maneira muito importante, naquele projeto, mas recusarse a ser acleatrelados. Neste sentido, todos sto prejudiciais a0 individuo ¢ ¢ facil perceber por que © problema de sua superacio ¢ agora tio amplamente admitido na literatura terapéutica. O vicio & uma incapacidade de adi © futuro, ¢, sendo assim, transgride uma das principais ansiedades que os individuos tém de enfrentar reflexivamente. Todo vicio é uma reagéo defensiva ¢ uma fuga, um reconhi mento da falta de autonomia que langa uma sombra sobre a ATTRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE » competéncia do eu.!" No caso de compulsdes pouco importantes, ‘0 sentimentos de vergonha podem limitar-se a uma autodepreciar ‘gio branda, a uma admissao irdnica de que “eu parecia estar preso esta droga”. Em formas mais pronunciadas de comportamento compulsivo, a integridade do eu como um todo fica ameagada. Normas sociais mais amplas influenciam muito profundamente ‘num sentido ou em outro. Os vicios que sio enfocados de formas socialmente aceitiveis so menos facilmente reconhecidos como seja pelos individuos interessados ou pelos outros ~ até talver, surgirem algumas situagdes de crise. Como em seguida seri mostrado, isso freqtientemente ocorre com o sexo ¢ também com. © trabalho. Um viciado em trabalho que ocupa um emprego de prestigio pode atuar durante muitos anos sem reconhecer inteirar mente o cariter compulsivo de sua atividade (mais comum nos homens que nas mulheres). Somente quando intervém outros acontecimentos, a natureza defensiva de sua dedicagéo tornase aparente ~ se, por exemplo, ele softe uma perturbaglo ao perder © seu cargo ou se 0 seu casamento fracassa. O trabalho, podese dizer, tem sido tudo pata ele, mas tem sido também um “entorpe- cimento”, uma experiéncia narctica prolongada que embota ou- tras necessidades ou aspiragées que ele nfo consegue administrar diretamente. Ele ja se acostumou, como se diz, a regularmente perderse em seu trabalho. Implicagdes para a sexualidade ‘ Neste ponto podemos voltar a questio do vicio do sexo. Alguns poderiam estar inclinados a discutir se 0 sexo poderia tornar-se compulsivo no mesmo sentido que o trabalho. Alguém poderia objetar que a necessidade de atividade sexual regular seja um impulso bisico que todos os adultos possuem:; por isso, de algum modo, quase todo mundo é viciado em sexo. Mas a existéncia de 1. thi. ” ANTHONY GIDDENS luma necessidade ndo governa os meios de sua saciedade, A necessidade de alimentagdo ¢ também um impulso elementar, mas 5 vicios alimentares témse tornado muito presentes hoje em dia. sexo ¢ compulsivo, assim como outros padrées de comporta- mento, quando o comportamento sexual de uma pessoa é gover nado por uma busca constante de uma dependéncia que, no entanto, conduz persistentemente a sentimentos de vergonha ¢ inadequagio. No que diz respeito a0 projeto reflexivo do eu, 0 vicio € © comportamento contraposto a escollia; esta observacio é tio valida no caso do vicio do sexo quanto de outras formas de comportamento, A sexualidade compulsiva tem de ser compreendida tendo como pano de fundo circunstancias em que a experiéncia sexual temse tornado mais livremente dispontvel do que jamais o foi, € em que a identidade sexual forma uma parte central da narrativa do eu. As mulheres querem sexo? E claro que sim, se isto for compreendido como uma reivindicagio limitada a autonomia ¢ a reali2agio sexuais. Mas consideremos a enormidade das mudangas que esta circunstincia presume, Qualquer um que acredite que a “hipétese repressiva” no contém verdade poderia refleti sobre 0 fato de que na Gri-Bretanha, apenas ha cerca de 75 anos, muitas ‘mogas solteiras que ficavam gravidas era enviadas aos milhares para reformatérios © hospitais mentais. O Ato de Deficigncia Mental, promulgado em 1913, permitia que as autoridades locais autuassem, ¢ mantivessem indefinidamente presas, as mulheres solteiras grividas que fossem pobres, desamparadas ou apenas “imorais”. Visto que era amplamente sustentada a idéia de que a sravides ilegitima era em si um sinal de subnormalidade, os termos do Ato podiam ser, eeram, também muito amplamente aplicados. As mulheres solteiras de origens mais abastadas que ficavam stividas podiam, as vezes, fazer abortos ilegais ~ como também poderiam fazélo as mulheres mais pobtes, mas com um tisco de vida considerivel - ¢ do contririo tornavatnse efetivamente parias, A ignorincia sobre 0 sexo e a reprodugdo era assumida como implicando subnormalidade, mas era ampla, Uma mulher, nascida ATRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE ot em 1918 em Londres, entrevistada em um estudo de histéria oral realizado por Joy Melville, ecorda que sua mle sussurravadthe toda noite quando ela ia dormir, que nao deveria fazer sexo antes do casamento senio ficaria louca. Ela nfo questionava por que as mies solteiras eram colocadas em asilos; apenas pensava, “Bem, elas mereceram; fizeram sexo ¢ enlouqueceram? De modo algum surpreende o quanto ¢ dificil para as mulheres cenfrentar as mudangas que elas ajudaram a produzie. A compulsi- vidade no comportamento sexual, assim como em outras reas, & © embotamento da autonomia. Dadas as orientagées sexuais preexistentes, este fato tem implicagdes diferentes para a maioria das mulheres, comparadas & maioria dos homens. Atualmente, para ambos os sexos, 0 sexo carrega com ele a promessa ~ ou a ameaga - da intimidade, algo que em si afeta os principais aspectos do eu. A precatia sensagio de seguranca de Gerri estava profundar mente relacionada a sua necessidade de demonstrar repetidamente a sua atragio pelos homens, Ela era capaz de obter prazer sexual em muitos de seus encontros, mas ~ até as subseqilentes mudancas tem sua vida - se afastava de quaisquer ligacies prolongadas. Poder-seia dizer que ela internalizou um modelo masculino de sexualidade, vinculando a experiéncia sexual a uma “busca” erigida sobre a variedade; mas, por uma combinagio de razées sociais ¢ psicol6gicas, esta era uma estratégia destrutiva. Como observa Kasl: Muito poucar mulheres deidiram ter tantos parcetos sexuais quanto possivel. As mulheres sexualmente viciadas viamse presas em um ciclo-em {que sua principal fonte de poder ¢ a conquisth sexta, preenchendo a sua necessidade de carinho e contato pelo ato sexual Para a maior parte das mulheres, subjacente a0 comportamento.sexualmente viciado, ha um desejo de um relacionamento continuado.!? © comportamento sexualmente compulsive das mulheres as- sume varias formas, reforcando a conclusio de que o importante 12. Joy Mebvlle, “Baby Hues", New Statesman and Society, 3 de mao de 1991, p. 2. 13. Kasl, Women, Sexand Addition, p57 2 ANTHONY GIDDENS €a sindrome subjacente, mais que suas manifestagdes especificas, Em alguns casos, a masturba¢o compulsiva, talves varias veres 20 dia, €0 principal elemento; algumas dessas mulheres ttm poucos parceiros sexuais, Em outros momentos, a caracteristica dominante € uma preocupagio obsessiva com o sexo enquanto fantasia, descrita por uma mulher como sendo “uma preocupacao cheia de medo em relagio a0 sexo". Para muitas, a atividade sexual assemelhase ao ciclo comum nas perturbagées alimentares. Um periodo de energia sexual frenética alternase com fases em que 0 Sexo parece repulsivo, como aquela em que o individuo mal pode pensar em mais um encontro sexual. A maiotia dlessas mulheres parece estar sujeita a0 orgasmo. O éxtase do orgasimo é um momento de triunfo e também de libertacto fisica e emocional; ‘mas muitas experimentam tm éxtase também ao se prepararem para um encontro sexual, quando se sentem. particularmente despertas ¢ até eufericas, ‘A compulsio sexual masculina tende a ser diferente, Nao ha equivalente masculino para a mulher “perdida”, eo homem dado a aventuras sexuais € com freqdéncia admirado, particularmente em meio a outros homens. Kas! observa que, quando mencionot para uum homem, em uma festa, que estwva escrevendo um livro sobre vicio sexual feminino, ele reagiu de uma forma que mais tarde tomourse muito familiar: “Voce quer dizer que hé mulheres viciadas em sexo? Ei, quero conhecer uma delas” !¥ Mas hid muita evidéncia de que 0s homens sexualmente vorazes nio procuram mulheres cujo comportamento seja semelhante ao seu, e na verdade sio freqden- temente muito repelidos por elas. Como sempre, no que diz respeito aos contatos sexuais com tais homens, as mulheres esto dlivididas em duas categorias: aquelas que tém de ser “cagadas” por isso podem ser conquistadas, e aquelas que estio de alguma forma além dos limites morais e portanto “tanto faz”.!6 14. Wid, p58, 15, Ibid, 279. 16. Chapple e Talbot, Buming Desis, ap. 1, [ATRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE ” Ovicio do sexo entre os homens nao esta totalmente vinculado a uma inclinagio obsessiva para a variedade. Como no caso das mulheres, pode assumir a forma de masturbagio compulsiva, muito freqentemente ligada & fantasia sexual que invade quase todas as outras atividades em que a pessoa se envolve. Ocasional- mente, a “compulsio semal” esti focalizada apenas em uma pessoa, Charlie, descrito em um estudo realizado por Susan Forward, relata ter de fazer sexo com sua parceira virias vezes por dia, A caracterizago que ele faz do seu comportamento € reflexiva- mente sofisticada, e autoconscientemente utiliza a linguagem do vicio: “Podiamos ter feito sexo dez vezes aquela semana, mas se na décima primeira ela dissesse ‘nfo’, eu me sentiria rejeitado e ficaria furioso com ela. Agora sei que isso no era razoivel, mas tudo 0 que conseguia enxergar néquele momento era que a minha ‘de- pendéncia’ estava me afastando de mim”.!7 Aqueles que buscam vatiedade, em sua maioria “garanhées”, combinam uma dedicagio 4 busca sexual a um desprez0 mal ssimulado pelos proprios objetos do seu descjo. Segundo as palavras de um autor, “eles buscam as mulheres com uma urgéncia © uma objetividade que fazem com que a corte habitual pareca casual e despropositada, ¢ com um descuido que freqtientemente pe em tisco os seus casamentos, stuns carreiras ¢ sua satide”.!8 As mulheres que sio desejadas com uma intensidade esmagadora transformam-se em nada, assim que um caso atingiu o seu objetivo ~ embora muitos desses homens busquem estabilidade fora de seus casos eventuais, mantendo ao mesmo tempo um gelacionamento continuo. Assim fazendo, com freqiténcia ttm de effrentar os mais tertiveis enganos e disfarces. ‘A caga para a conquista sexual produz o mesmo ciclo destrui- dor de desespero e desilusto observado em outros vicios. Eis 0 escritor citado acima, referindo-se as suas proprias experiéncias, 17. Susan Forward, Men Who Hat Bantam, 1988, . 68. 18, Peter Trachtenberg, The Casanwa Complex, New York: Pocket Books, 1988, p. 17. Women andthe Women Who Love Them, New Yorke ” ANTHONY GIDDENS. ue por fim o levaram a juntarse a um grupo de autoajuda para o vicio do sexo: Compreendi que as medidas que sempre havia assumido para afastar a dor tornaramse imensuravelmente dolorosas: levar uma mulher para a ‘cama no “fancionava” mais para mim. Perdi muita coisa na busca do mew Vicio, ea minha sensagio de vari pessoal agora me atingia minutos depois dda minha altima conquista. O sexo nto me proporcionava nada alm da liberagao fisica da ejaculagio; muito freqientemente, eu sequer conseguia iro orgasmo. As mulheres nfo eram mais objetos de amor ou! mesmo de desejo, Eu havia atingido o ponto em que sentiarepuigndncia por minhas parceiras mesmo quando as penetrava, ¢ a causa da minha aversio era principalmente o fato de eu saber o quanto precisava delas.!? ‘Como ele mais tarde acrescenta, é dificil aceitar tranqdilamente as afirmagoes de alguns garanhées de que suas atividades nao si0 uum problema para cle. A resposta de um homem as suas perguntas foi: “Achar as mulheres é um problema; mas levidas para a cama, ‘ndo.” Mas a ansiedade em relagio as mulheres, ¢ 0 medo delas, aparecem rapidamente nas entrevistas da autora com tais homens; a calma com que podiam falar de suas exploragbes.sexuais contrasta com a natureza frenética da busca, assemelhando-se & caracteristica de negagio de outros vicios, As observagbes que utilizam para comentar as suas atividades sio muito similares quelas utilizadas pelos alco6latras quando justificam a sua bebida: “és6 este”, “no vai fazer mal a ninguem’, “minha mulher nunca vai descobrir”. E importante esclarecer 0 curso desta discussio, A galanteria nido deveria ser contraposta a um modelo implicito de monogamia, como se a “fidelidade” pudesse ser definida em termos de exclus- vidade sexual. A atividade do garanhio esti certamente ligada a0 que mais tarde chamarei de sexualidade episédica, mas as duas no so a mesma coisa, A conexio entre elas ¢ a compulsividade, 19. Ibid, p. 289. 20, Wid, p. 2834. A TRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE 9 Sexualidade e sedugio Seria possivel suporse que a compulsividade sexual masculina 6 simplesmente a sexualidade masculina ibertada de seus tra nais constrangimentos. Além disso, néo existiram sempre muitas culturas em que os homens ricos acumularam 0 maximo possivel de esposas ou concubinas? Casanova nio ¢ 0 arquetipo do hersi masculino - admirado também por muitas mulheres - ¢ o precur- sor dos James Bonds atuais? Entretanto, no contexo das culturas prémodernas, a posse de duas ot mais esposas em geral tinha pouco ou nada a ver com a prépria conquista sexual. Virtualmente todas as sociedades poligh- micas tém tido sistemas de casamento arranjado. A aquisicio de virias esposas exigia, ¢ expressava, riqueza ou prestigio social; acontecia 0 mesmo com 0 concubinato, que era uma instituigio aceita, Nas culturas prémodernas nfo ha lugar para Casanova; ele € um personagem de uma sociedade no limiar da modernidade. No tinha interesse em acumular esposas, se tal coisa fosse possivel. Para cle, 0 sexo era uma busca sem fim, concluida, nao 20 se atingir a autorrealizagio ou a sabedoria, mas apenas pela decrepinude da velhice. Os homens querem amor? Bem, certamer te no sentido exato do que significa a vida de Casanova. Ele foi o primeiro “ladies’ man”: uma expressio notivel porque, apesar de parecer 0 contririo, mostra quem pertence a quem. Tais homens amam as mulheres, embora nfo possam amar apenas uma mulher em particular. Sem deivida é um amor que se origina em parte do medo, mas ¢ interessante que, tanto quanto se sabe, Casanova nic dedicava as mulheres aquele completo desprezo que parece tio aparente entre os garanhées, como ocorre pelo menos entre alguns homens gays, atualmente. Ele nao foi de ‘modo algum uma figura tipica: na velice, ficou reduzido a violagao como um meio de manterativaa sua vida sexual. Em sua juventude, no entanto, procurou cuidar das mulheres que amou e abandonou, muito freqdentemente, arranjandothes maridos adequados. Se % ANTHONY GIDDENS gundo Havelock Ellis, Casanova “amou muitas mulheres, mas partiu poucos coragies",#! embora este ulgamento certamente seja muito benevolente. De um modo caracteristico em suas memérias, Casanova escreveu de modo encantador sobre as mulheres com quem se envolveu sexuialmente, e muitos de seus comentitios bem Posteriores i ocorréncia dos romances eram, segundoa sua propria perspectiva, generosos e elogiosos em relacao a elas. Casanova era um sedutor. Suas exploragées sexuais ocorreram em uma época em que supunhase que as mulheres solteiras deveriam manterse virtuosas ¢, na maior parte dos grupos sociais, exceto a atistoctacia, o adultério por parte das mulheres casadas, se descoberto, podia ter conseqiiéncias devastadoras, Suas sedu- g6es tinham de ser conduzidas com cuidado, e com muita frequién- cia eram diligéncias relativamente prolongadas, pois muitos prepa rativos tinham de ser feitos. O processo necessatiamente no ferminava uma ver realizada a conquista, pois Casanova muitas vvezes tinha de certficarse, depois do ocorrido, de que as acompa- nhantes, os guardides ¢ os parentes da mulher envolvida permane- ciam sem suspeitas. Hoje em dia, os garanhées so produtos das proprias transfor- ages da vida pessoal As quais, & superficie, eles parecem se contrapor mais firmemente. So sedutores em uma época em que a sedugio virtalmente tornouse obsoleta, ¢ isto explica muita coisa sobre a natureza de sua compulsio. A “sedugio” perdeu grande parte do seu significado em uma sociedade em que as mulheres tornaramse muito mais sexualmente “dispontveis” aos homens do que jamais o foram, embora ~ ¢ isto é importante ~ apenas mais como uma igual. A atitude do garanhao reflete esta mudanga fundamental e 20 mesmo tempo reclama contra ela.22 Os garanhdes atuais poderiam parecer fésseis de uma época anterior, aproximandose de sua presa com bravura, armados apenas com penicilina, camisinhas (esperase) e prontos para 21. Havelock Elis, Pachologof Sx, London: Heinemann, 1946, p 189. 22. Techeaberg, The Casenous Compile, 4Le A TRANSFORMAGAO DA INTIMIDADE 7 enfrentar 0 tisco da AIDS. Mas se os meus argumentos anteriores estiverem corretos, os garanhdes compéem uma parte intrinseca do mundo atual da sexualidade. Eles so sedutores sim, e nesse sentido esto preocupados acima de tudo com a conquista sexual com 0 exercicio do poder. Mas qual o prego da viteria, quando festa € tho facil? O que ha para saborear, quando 0 outro nfo esté apenas disponivel, mas talvez esteja igualmente ansioso pela expe riéncia sexual? ‘A assergio do poder na seducZo, através da qual as mulheres so dominadas ou simbolicamente “mortas”, podia na aparéncia dar a impressio de tornar-se absolutamente desafindora quando o individuo se vé diante de alguém que estabelece a sua igualdade. Mas a igualdade sexual feminina, como descobriu Graham Hendrick, dissolve a velha divisto entre a mulher virtuosa ea mulher corrupta ‘ou degradada. Visto que o “ato de matar” do sedutor depende da destruigio da virtude, a busca perde a sua dindmica principal. ‘Aquela “integridade” que o sedutor buscava espoliar, ou manter sob o seu poder, nfo é mais a mesma inocéncia sexual, ¢ nao esta iais ligada a0 género. No contexto do relacionamento puro, a integridade mantém um papel fundamental, mas tomase um atributo ético que cada parceiro presume no outro. Nas épocas mais tradicionais, o sedutor seguia o seu proprio ‘caminho de genuino aventureiro, langando um desafio néo apenas a cada mulher, mas a todo um sistema de regulamentagio sexual. Era um subvertor da virtude ¢ também lutava contra outros inimigos imagindrios, porque seduzir significava desaflar uma fordem masculina de protesfo e controle sexual. O garanhio atval nfo € alguém que cultiva o prazer sensual, mas uma pessoa que busca emogées em um mundo de oportunidades sexuais abertas. ‘Aemogfo da busca proporciona o éxtase ~ mas 0 éxtase tende mais tarde a se transformar em dependéncia. Os garanhées nio sto tio libertinos quanto contraevolucionarios involuntirios em um ambiente em que a sexualidade e a intimidade estio vinculadas como jamais 0 foram. O amor confluente presume a intimidade: se tal amor nfo for alcangado, o individuo esta preparado para %® ANTHONY GIDDENS partir. Os garanhées mantém aquele “espago potencial” necessério por outros meios além do respeito pelo parceiro. Sua capacidade de “partie” & alcangada pela antecipacio do préximo encontro sexual potencial. Freqdentemente, so mestres da retotica do amor romantico, mas slo incapazes de produzir a partir dele uma narrativa emocionalmente coerente do eu. Em conseqiencia disso, um homem que é fluente e confiante quando segue a sua rotina de seduso poderia perceber-se desajeitado, titubeante e desespera- do para ir embora, uma vez terminado 0 ato sexual. Ele esta, na verdade, na posigio do fetichista de Karl Krauss, que aspira apenas © sapato de uma mulher, mas em vez disso tem de lidar com o set humano inteiro. Alguns desses homens fazem sexo com cem ou mais mulheres por ano: em que sentido poderiam dizer que “querem amor*? Em tum sentido especial e de urgéncia, Sua dependéncia das mulheres € bastante dbvia, na verdade tio cbvia que chega a ser uma influéncia controladora em suas vidas. Um dia a seducio foi facilmente assimilada em um mundo masculino de tealizagio ¢ de superagio de obsticulos ~ 0 mundo masculino da prépria moder- nnidade. Mas esta indicagio fica vazia quando a sedugio perde 0 seu antigo significado. O garanho nio pode ser “especial” para cada parceiro sexual do mesmo modo como o consegulia Casanova = como o espoliador da virtude, mas também como © potencial salvador de uma vida de isolamento sexual. O aventureiro sexual moderno tem rejeitado © amor roméntico, ou utiliza a sua lingua get apenas como ret6rica de persuasio. Por isso, a sua dependén- cia das mulheres s6 pode ser validada através dos mecanismos da conquista sexual. Seria possivel argumentar-se que, mais que os ‘outros homens, o garanhio distingue a ligaglo entre a sexualidade, a intimidade e a construglo reflexiva da autoidentidade; mas ele & mais escravo das mulheres do que competente para encaré-las lependentes capazes de dar e aceitar amor. O garanhdo aparece como uma figura que “as ama e as deixa”. Na verdade ele é absolutamente incapaz de “deixi-las”: cada abandono € apenas um prelidio de outro encontro, como seres i OSIGNIFICADO SOCIOLOGICO DA CO-DEPENDENCIA Os garanhées freqientemente apresentam qualidades intima- mente relacionadas com o$ tragos comuns do amor romantico ~ neste caso, sic homens que vio arrebatar as mulheres ou cortejtlas com particular fervor, tendo talver se especializado em fuztlo. ‘Algumas mulheres ~ &s quais todas essas coisas so hoje em dia muito familiares ~ poderiam muito bem optar por uma ligagéo sexual de curta duragdo na busca de uma excitagio ou de um prazer transitorios. Para tais mulheres, o atrativo do gal rapidamente desaparece ou ¢ deliberadamente mantido sob controle. A maior parte das amadas dos galés nfo € de modo algum assim!! Ao contririo, uma vez iniciado qualquer relacionamento, ‘o mais provivel & que fiquem logo profundamente envolvidas. As vidas de tais mulheres sio repletas de romance$ desastrosos ou de envolvimentos longos e dolorosos com homens que, de wm modo ou de outro, abusaram delas. Resumindo, estas mulheres sio codependentes, tendose tornado um lugar-comum na literatura terapéutiea que a codependéncia ~ embora de forma alguma 1, Peer Trachtenberg, The Casanova Complex, New York: Pocket Books, 1988, p. 2448. 10 ANTHONY GIDDENS limitada as mulheres ~ é um termo que de certa maneira descreve co que antigamente se chamava genericamente de “papel feminino” > ‘As mulheres co-dependentes sto protetoras, necessitam cuidar dos outros, mas, em parte ou quase inteiramente inconsciente, prevéem quea sua devocio seré mal recebida. Que ironia dolorosa! E quase certo que a mulher co-