POLÍTICAS EDUCACIONAIS BRASILEIRAS: TRANSIÇÃO DE

SENTIDOS NAS DUAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO 21

Salomão Alves Pereira
6º período
Licenciatura em Ciências Sociais – IFG/Anápolis

O estudo das políticas educacionais de determinada nação tem como resultado
exato a consideração da educação como reflexo da estrutura social na qual se desenvolve.
Azevedo (1997) desenvolve esta questão através da abordagem dos principais modelos de
políticas educacionais conforme determinados modelos teóricos. Tratam-se do neoliberalismo,
da teoria liberal moderna da cidadania e da teoria marxista, modelos teóricos que se
destacaram no cenário das políticas públicas em geral. As políticas educacionais, aliás, devem
ser compreendidas no quadro geral das políticas públicas do Estado que as aplica (Azevedo
1997). Isto se relaciona com a ideia de que a educação é o resultado das pretensões de uma
sociedade – e, nos casos atuais, também as pretensões do Estado – quanto ao comportamento
dos indivíduos que a compõem.
Políticas educacionais são um caso particular da estrutura de todas as políticas
públicas existentes em uma sociedade organizada de forma centrípeta pelo Estado. Uma vez
que sociedades com Estado se organizam a partir desta força centralizadora, a ordenação da
educação nestas sociedades se dará especialmente a partir da esfera política – termo que, na
modernidade, se refere à ação do Estado –, não mais exclusivamente a partir da esfera cultural
ou social. Variações culturais e sociais em relação às determinações políticas podem ser
punidas pelo Estado – através da ação policial, judicial e carcerária, principalmente. Dessa
forma, as relações políticas entre parlamentares, os Três Poderes – Legislativo, Executivo e
Judiciário – e a burocracia, ocorridas no seio do Estado, são, desde a consolidação dos
Estados-nação, o espaço principal de ordenação da educação.
Um caminho para a abordagem das políticas educacionais é o já mencionado feito
de Azevedo (1997). O Estado nada mais é do que uma instituição sustentada e atualizada a
cada interação seguindo determinado modelo de subjetivação, diria Weber (2013). Portanto,
compreender sua existência passa por analisar os sentidos das interações que o constroem. Tal
forma de trabalho é, também, um modelo a partir do qual se pode considerar a educação de
forma plena, não restringindo a análise aos modelos político-pedagógicos teóricos ou às
formas reais da educação, considerando ambos concomitantemente. Dessa forma, procura-se
analisar os sentidos – teoricamente orientados – atribuídos às ações e interações de
organização da educação em determinada nação. Isto por entender que é principalmente a
partir de tais sentidos que tal organização ocorre, especialmente na modernidade, momento no
qual as ações e interações dependem de uma justificativa racionalmente construída (Weber
2004).
Como afirmado anteriormente, os três principais modelos teóricos que orientaram
práticas de organização da educação no âmbito de sociedades ordenadas via Estado são o
neoliberalismo, a teoria moderna liberal da cidadania e o marxismo. No primeiro caso, em
suma, trata-se de políticas educacionais voláteis, nas quais não existe estabilidade no que se
refere à regulamentação do Estado. A visão neoliberal, em primeiro lugar, compreende que a
principal causa de qualquer crise social é a grande abrangência de políticas públicas. Isto
ocorre, segundo os autores neoliberais, porque o excesso de políticas públicas – aí incluídas as
políticas educacionais, naturalmente – restringe a liberdade e individualidade das pessoas. Isto
gera a proposta de despolitização, especialmente, da vida econômica. Apesar da proposta de
redução de políticas públicas, a maioria dos autores neoliberais não defendem a extinção de
políticas educacionais. Ao contrário da abordagem de outras políticas sociais, a educação é
defendida como uma das poucas funções do Estado. Ainda que a organização e regulação da
educação deva ficar a cabo do Estado, mantendo fidelidade aos pressupostos teóricos do
neoliberalismo defende-se que a responsabilidade pela oferta da educação, a depender do
nível, possa ser dividida com a iniciativa privada. Portanto, o sentido neoliberal de
organização da educação é a volatilidade quanto à regulamentação da educação pelo Estado
(Azevedo 1997).
Contrariamente a este construto teórico e político, tem-se a teoria moderna liberal
da cidadania. A partir desta estrutura teórica, tem-se um aprofundamento da presença da ação
estatal na construção de políticas públicas, e, portanto, educacionais. Isto porque tal forma de
pensamento corresponde à defesa de bem-estar social e igualdade entre os cidadãos.
Conforme tal teoria, a liberdade e individualidade possui correlação com o quantum de bem-
estar e igualdade disperso na sociedade. Assim, é pressuposto da liberdade a existência destes
dois itens. Ademais, tal construto compreende que o bem-estar é alcançado por meio da ação
seguradora da esfera política, isto é, do Estado. Quanto mais presentes e melhor construídas as
políticas públicas e educacionais, maiores as chances de se construir uma sociedade na qual o
indivíduo pode existir em função de seu bem-estar. Nesse modelo de sociedade, a formação, a
participação política e o convívio social se orientam a partir da criação de condições de
sustentação da individualidade, que fica a cargo da ação organizacional política (Azevedo
1997).
Tal modelo teórico nos remete à teoria política social-democrata, que, por sua vez,
se apresenta como um modelo alternativo tanto ao neoliberalismo, quanto ao marxismo
(Bobbio et al. 1998). Por um lado, este modelo não procura, como o marxismo, a superação
da organização social centralizada pelo Estado, e, por outro, não busca, como o faz o
neoliberalismo, sua redução. A alternativa apresentada é a de permitir a existência do Estado e
sua participação na ordenação da sociedade. Em tempo, isto não significa acusar os sociais-
democratas de reformistas, em clara oposição aos revolucionários. Se sociais-democratas
aceitam a existência do Estado, não deixam de reconhecer sua insuficiência na construção de
uma sociedade efetivamente partícipe de sua vida política (Cf. Bobbio et al. 1998:1188-1192).
A ação social-democrata se localiza no exato limite entre a revolução e a reforma. Na prática,
a distribuição de renda sem a revolução do monopólio dos meios de produção, como ocorrido
nos governos Lula (2002 e 2008) e Dilma (2010 e 2014), é um exemplo evidente de ação
social-democrata.
Além das teorias neoliberal e moderna liberal da cidadania, construtos que
orientaram a organização da educação de diversas sociedades, pode-se citar como importante
no estudo de políticas educacionais a teoria marxista. Há uma série de aspectos diferentes
entre si, por vezes contraditórios, no seio deste grande grupo teórico. Tal dinâmica é
incorporada, também, pelas políticas educacionais (Azevedo 1997). Marx, por exemplo,
realiza uma crítica à social-democracia, no sentido de tal modelo teórico não combater a raiz
da desigualdade social: o processo de extração de mais-valia (Marx apud Azevedo 1997). A
escola, nesta situação, deveria funcionar como um instrumento de apoio para o combate do
proletariado ao processo de extração de mais-valia pela burguesia. Com a social-democracia,
no entanto, a promoção de igualdade entre todos os indivíduos não significa a superação da
sociedade capitalista. Poder-se-ia dizer, com Marx, que o combate à desigualdade levado a
cabo pela teoria social-democrata é extremamente abstrato, não conseguindo considerar o
problema de forma radical, isto é, alcançando sua raiz, coisa que equivaleria, conjugada à
ação prática, ao socialismo científico.
Após Marx, uma série de autores (Cf. Althusser 2014; Mészáros 2008; Gramsci
1982; Vygotsky 1991; Poulantzas 2000; Sader 2013; Fernandes 2005) seguindo sua linha
teórica, realizou diferentes análises e colaborou indiretamente para a construção de políticas
públicas. Não se trata, não obstante, de afirmar que tais autores procuraram necessariamente
construir minuciosamente diretrizes para a prática escolar, evidentemente. Foi com a atitude
de buscar resolver questões políticas e sociais mais gerais que influenciaram, aí sim, aqueles
indivíduos que da construção das políticas educacionais se ocupam. Embora diferentes entre
si, existe um elemento geral na crítica realizada por autores marxistas: a identificação do
Estado como forma primordial de sustentação do poder da burguesia e, por isso, divisão da
sociedade em classes. Tal identificação, incorporada pela prática, equivale à tomada do Estado
pelos trabalhadores – socialismo – para que aconteça, posteriormente, sua destruição.
Como isto é incorporado pelas políticas educacionais? Azevedo (1997),
mencionando exemplos brasileiros, mostra que a defesa do aumento do acesso à educação,
especificamente para o proletariado, ainda que possa beneficiar também o próprio modo de
produção capitalista, contribuiria para a criação de uma consciência de classe no proletariado.
Esta seria a condição para a tomada do Estado pelos trabalhadores e superação do capitalismo.
O pensamento gramisciano ajuda a compreender tal lógica. A contribuição de sua teoria é a
demonstração da importância da hegemonia cultural, e por isso da educação, para o processo
revolucionário (Gramsci 1982). Neste sentido, cria-se a necessidade, posterior ao socialismo,
da organização da educação de modo que seja possível aos trabalhadores revolucionar a
sociedade. Portanto, avançando a teoria sintetizada inicialmente por Marx, percebe-se de que
forma a crítica à divisão de classes da sociedade, cerne da desigualdade, e a reflexão sobre
como superá-la, pode se refletir na construção de políticas públicas.
Como demonstra Sader (2013), o Brasil começou a passar muito recentemente por
um processo muito semelhante, ainda que, do ponto de vista dos movimentos sindicais e
operários, em muito se questione o caráter socialista-revolucionário do governo do Partido
dos Trabalhadores1. Após 2016 e o golpe de Estado pelo qual passaram o país e o governo do
PT, com a ascensão do governo Temer, uma série de políticas educacionais petistas orientadas
senão por um comportamento revolucionário, ao menos por uma ação social-democrata,
começaram a ser eliminadas. Ressalte-se que o processo de negligência às políticas
educacionais, em função de um suposto salvamento da economia e do PIB brasileiros,
começou já no último governo petista com um imenso corte de recursos das instituições
federais de ensino superior. Aquilo iniciado neste governo anterior vem sendo aprofundado
pelo governo atual. Especialmente no que se refere (a) à atribuição do sentido de gasto para a
educação, em oposição à noção de investimento dispersa entre os grupos especializados na
consideração científica desta instituição social, (b) à manutenção dos cortes de verbas
destinados às instituições federais de ensino superior, e (c) à incapacidade de ter em conta
pareceres especializados sobre a conduta desejável na elaboração de políticas educacionais,
este mesmo item sendo um elemento relativamente ausente no governo anterior. Além destes
três itens de caráter mais geral, o atual governo sinaliza interesse em estabelecer parcerias
1 Como exposto em Boito Junior (2003).
entre o Estado e instituições privadas organizadas em um regime jurídico nomeado de
organização social, e vem conseguindo aprovar com relativo sucesso e aprovação popular
uma mudança institucional e pedagógica do ensino médio brasileiro direcionada, na prática,
exclusivamente para a formação de mão-de-obra.
É evidente a existência dos três principais sentidos identificados por Azevedo
(1997) para a ação política no quadro geral das políticas educacionais brasileiras. Com o
governo anterior, como afirmamos, se faz presente na história do Brasil um tipo de política
educacional influenciado concomitantemente pela presença das teorias neoliberal e moderna
liberal da cidadania, por um lado, e da teoria marxista, por outro. Diríamos, com certo pesar,
que a presença de uma orientação marxista na elaboração de políticas educacionais durante a
década petista permaneceu sendo mais o sustentáculo de uma imagem governamental
necessária para manter a coesão da base militante mais próxima do partido, e menos uma
intenção genuína. A chegada ao poder executivo traz consigo a convivência corporal entre
grupos que, para ali estarem, elaboraram uma verdadeira narrativa em tudo oposta a esta
instituição, e a própria instituição por eles criticada (governos pmdbistas e parlamentares
neoliberais). A convivência não se dá sem que os petistas precisem se adequar. Coisa que faz
com que seja necessário rever uma série de posicionamentos anteriores. Esta ação mesma é o
que faz com que as políticas educacionais petistas, embora elogiáveis, sejam um misto de
teorias neoliberais, modernas liberais da cidadania e marxistas – em função da
“governabilidade”, isto é, daquilo que o Estado pede dos grupos que ocupam o poder
executivo, as duas primeiras possuíram maior lastro no governo petista.
A passagem que identificamos nas políticas educacionais brasileiras,
especialmente se considerarmos a década petista e sua ruína, o governo pmdbista atual,
corresponde à maior ou menor presença das três principais teorias norteadoras da elaboração
de políticas públicas. No caso da década petista, se faz presente, como dissemos, em maior
grau as teorias neoliberal e moderna liberal da cidadania, e, em menor, a marxista.
Naturalmente, houve uma ampliação do acesso ao ensino, em seus diversos níveis, e, por um
curto período de tempo, um incentivo material e político para o aprimoramento do quadro
profissional das diversas instituições de ensino. Não se pode retirar do petismo este mérito.
Mas é questão de outra ordem a pertença destas ações à teoria marxista, que, como sabemos,
para que seja aquilo que idealmente é, deve sê-lo radicalmente. Nem um pouco presente,
doravante, se faz presente o cerne do marxismo no governo pmdbista atual. A Reforma do
Ensino Médio, carro-chefe do governo no setor das políticas educacionais, propõe
explicitamente a transformação da escola em um centro de preparação técnica de mão-de-obra
industrial. Não se trata nem ao menos da afirmação de certos sentidos próprios da educação
marxista, quais sejam, omnilateralidade e ruptura com a divisão entre formação intelectual-
humanística e profissional (Marx & Engels 2011), como o buscava fazer o governo petista. A
diferença entre os dois governos brasileiros nas duas primeiras décadas do século 21 se deve
exatamente à mudança de sentido na elaboração de políticas educacionais. O sentido das
políticas educacionais no período 2000-2017, portanto, é exatamente a transição de um
governo cuja existência abrange, em quantidades específicas, as três principais teorias de
orientação da construção de políticas públicas para outro que se concentra em apenas uma
delas, a saber, a teoria neoliberal.
Ademais, os casos aqui mencionados demonstram com clareza que, no nosso
formato de sociedade, a ordenação da educação é competência do Estado. Mais ainda,
evidenciam que não existe educação sem que haja determinados sentidos para a ação corporal
que se denomina política. Ainda que seja difícil, pela natureza de qualquer dinâmica social,
definir com clareza os limites entre uma sociedade e outra, dentro de determinado território
nacional existe um padrão de ordenação da educação. Mesmo que existam experiências
diferentes, todas elas são consideradas válidas ou não pelo Estado. Isto não significa que não
existam desvios. Como afirmado, a dinâmica da vida social não segue toda a expectativa da
organização proposta pelo Estado. Ela não está prevista nos códigos construídos na esfera de
relações políticas. Este é, aliás, um mecanismo presente na relação entre a gramática, a
ordenação da língua, e o próprio sistema fonológico de comunicação de determinada
coletividade. Há, entre os dois termos, uma defasagem, correspondente à dinamicidade do
segundo elemento. Tal mecanismo também existe na relação entre códigos morais e sociais
construídos pelo Estado e sua incorporação nos comportamentos e relações sociais. Esta é a
característica da nossa sociedade: defasagem entre os objetos por ela gerados e sua própria
mudança interna. Por isso, as políticas educacionais – a manifestação da educação em nossa
sociedade – sofrem diversas variações sem, contudo, deixarem de reproduzir a dinâmica
centralizadora e fixativa do Estado. O que apenas confirma a ideia de que a educação cumpre
um papel ordenador em determinada estrutura social, bem como a de que, nosso formato
societal, ela o faz através da ação do Estado, manifestando-se nas políticas públicas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALTHUSSER, Louis. 2014 [1995]. On the reproduction of capitalism: ideology and
ideological state apparatuses. London/New York: Verso.
AZEVEDO, Janete M. Lins de. 1997. A educação como política pública. Campinas:
Autores Associados.
BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. 1998. Dicionário de
política. Brasília: Editora Universidade de Brasília.
FERNANDES, Florestan. 2005. A ciência aplicada e a educação como fatores de mudança
cultural provocada. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Brasília, v. 86, n. 212,
jan./abr. (:125-161).
GRAMSCI, Antonio. 1982. Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. 2011. Textos sobre educação e ensino. Campinas:
Navegando.
MÉSZÁROS, István. 2008 [2005]. A educação para além do capital. São Paulo: Boitempo.
POULANTZAS, Nicos. 2000 [1978]. State, power, socialism. London/New York: Verso.
SADER, Emir. 2013. A construção da hegemonia pós-neoliberal. In: SADER, Emir (org.).
10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma. São Paulo: Boitempo; Rio de
Janeiro: FLACSO Brasil.
VYGOTSKY, Lev. 1991. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes.
WEBER, Max. 2013. Ciência e Política: duas vocações. São Paulo: Cultrix.
______. 2004. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. São Paulo: Companhia das
Letras.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful