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Psicologia Social Apontamentos de: Autyor desconhecido E-mail: Data: Bibliografia: Neto, Félix (1998). Psicologia

Psicologia Social

Apontamentos de: Autyor desconhecido E-mail:

Data:

Bibliografia: Neto, Félix (1998). Psicologia Social I. Lisboa: Universidade Aberta.

Nota:

Psicologia Social

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I. DOMÍNIO DA PSICOLOGIA SOCIAL

1. Introdução

Nós, os seres humanos somos animais sociais. Vivemos em grupos, sociedades e culturas. Organizamos as nossas vidas em relação com outros seres humanos e somos influenciados pela história, pelas instituições e pelas actividades. Se há quem exalte ou quem condene a sociedade, não restam dúvidas de que os outros desempenham grande importância nas nossas vidas. No fundo, o estudo das pessoas enquanto animais sociais é o que a Psicologia Social aborda.

O seu domínio é geralmente apresentado como sendo novo, na medida em que a Psicologia Social contemporânea, tal como hoje a conhecemos, conta menos de 100 anos. Contudo, muitos dos problemas com que actualmente se confrontam os psicólogos sociais são os mesmos com que se confrontaram as pessoas através da história das civilizações. Muitos dos fenómenos examinados pelos psicólogos sociais são quase sempre aspectos universais do comportamento social.

2. O que é a Psicologia Social?

2.1 Tentativa de definição

A apresentação de uma definição de um campo de estudo nunca é uma tarefa fácil. Há sempre o

perigo de se apresentar uma visão enviesada da disciplina e de se negligenciarem aspectos importantes.

Definir formalmente a grande maioria dos domínios científicos é uma tarefa complexa. No caso vertente da Psicologia Social, as dificuldades ampliam-se devido a 2 ordens de factores: a diversidade do domínio e a sua rápida taxa de mudança. (Allport) A Psicologia Social tenta compreender e explicar como os pensamentos, sentimentos e comportamento dos indivíduos são influenciados pela presença actual, imaginada ou implicada de outros.

Pode-se efectivamente conceber a psicologia social em termos de entradas para o indivíduo e de saídas do indivíduo. Na definição apresentada, as entradas são as presenças actuais, imaginadas ou implicadas de outras pessoas; as saídas são os pensamentos, sentimentos e comportamentos do indivíduo.

Se a presença de outras pessoas influencia pensamentos, sentimentos e comportamentos, na definição de Allport transparece também que as outras pessoas podem influenciar-nos mesmo sem estarem fisicamente presentes. A presença imaginada ou implicada de outras pessoas afecta

o comportamento.

(Pg. 39)

Sem dúvida que as pessoas têm influenciado outras ao longo dos séculos e têm-se admirado desta influência. Arte, literatura, filosofia e religião são alguns dos produtos desta admiração. Todavia, nos últimos 100 anos ocorreram 2 mudanças importantes. Em 1º lugar, há cerca de 100 anos os cientistas começaram a aplicar o método científico à compreensão do comportamento social humano. Este desenvolvimento tornou eventualmente possível a psicologia social, tal como hoje a conhecemos. Dirige-se por agora muito simplesmente que a abordagem científica procura descobrir relações causa-efeito, inferindo-as da observação objectiva e da experimentação.

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Um 2º desenvolvimento trouxe a psicologia social para a cena: as modernas viagens e as comunicações de massa multiplicaram as relações sociais e as potencialidades para a interacção social. Para além disso, não conhecemos todas as tentativas para nos influenciarem quotidianamente através da televisão, rádio, cinema, revistas, jornais, etc. Estas mudanças tornaram a psicologia social fundamental.

2.2 Tópicos da Psicologia Social

Uma outra maneira de responder à questão “O que é a Psicologia Social?” é descrever os tópicos que ocupam os psicólogos sociais: atribuição (como é que as pessoas percepcionam as causas dos comportamentos dos outros), atitudes e a mudança de atitudes, desenvolvimento social e de personalidade, processos cognitivos, diferenças individuais, papéis sexuais e diferenças sexuais, agressão, atracção interpessoal, comportamento de ajuda, comunicação não verbal, conformidade e condescendência, etc.

Os psicólogos sociais abordam pois uma ampla gama de comportamentos humanos e essa lista tem vindo a aumentar cada vez +. Estas áreas do comportamento humano podem ser divididas em 3 grupos: fisiológico, cognitivo- atitudinal, e de realização.

Os psicólogos sociais têm-se ocupado tradicionalmente das atitudes das pessoas, das opiniões, das crenças, dos valores, dos sentimentos, das representações sociais.

Um outro domínio de medida é constituído pela habilidade das pessoas em realizar tarefas.

2.3 Relações com outros campos

A Psicologia Social mantém uma relação próxima com vários campos, em especial com a

Sociologia e a Psicologia. Segundo Moscovic, a Psicologia Social distingue-se quer da Sociologia quer da Psicologia pela mesma característica, as 2 últimas põem em relação um sujeito

(individual ou colectivo) e um objecto (meio, estímulo), ao passo que na psicologia social a relação dual (sujeito-objecto) é substituída por uma relação ternária: sujeito individual (ego), sujeito social (alter) e objecto (físico, social, imaginário ou real). É pois introduzida uma mediação constante entre o sujeito e o objecto que se traduz em modificações do pensamento e

do comportamento de cada um.

Em geral, a ênfase no social distingue a psicologia social da psicologia e a ênfase no individual distingue-a da sociologia.

A Psicologia é o estudo científico do indivíduo e do comportamento individual. Muito embora este

comportamento possa ser social, não o é necessariamente. Habitualmente os psicólogos abordam

o indivíduo fora do contexto social ocupando-se de vários processos internos como seja percepção, aprendizagem, memória, inteligência, motivação e emoção.

A Sociologia é o estudo científico da sociedade humana. Os sociólogos analisam o comportamento

humano num contexto + amplo. Abordam tópicos tais como instituições sociais (família, religião, política), estratificação dentro da sociedade (classes sociais, raça, e etnicidade, papéis sexuais), processos sociais básicos (socialização, desvio, controlo social), e a estrutura de unidades sociais (grupos, redes, organizações formais, burocracias). Dão maior importância às normas que guiam

o comportamento, resultado de pressões externas.

A Psicologia Social estabelece a ponte entre a psicologia e a sociologia.

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É uma ampla tarefa a identificação dos factores que influenciam as actividades de um

indivíduo em relação a outros, pois o comportamento social resulta de diferentes causas. Entre as + importantes são de referir:

1. o comportamento e as características das outras pessoas

2. a cognição social (pensamentos, atitudes, recordações acerca das pessoas que nos rodeiam)

3. variáveis ecológicas (influências directas ou indirectas do meio físico)

4. contexto sócio-cultural em que ocorre o comportamento social

5. aspectos da nossa natureza biológica relevante para o comportamento social.

A explicação para um determinado comportamento depende do nível de análise focalizado pelo

investigador.

2.4 Níveis de análise

Podemos encontrar várias psicologias sociais diferentes e múltiplas explicações para as experiências humanas e as acções. Encontram-se 2 variantes principais em Psicologia Social, a Psicologia Social Sociológica (PSS) e a Psicologia Social Psicológica (PSP).

 

Psicologia Social Psicológica (PSP)

 

Psicologia Social Sociológica (PSS)

A focalização central é no indivíduo

 

A focalização central é no grupo ou na sociedade

Os investigadores tentam compreender o comportamento social mediante a análise de estímulos imediatos, estados psicológicos e traços de personalidade

Os investigadores tentam compreender o comportamento social mediante a análise de variáveis societais, tais como estatuto social, papéis sociais e normas sociais

O objectivo principal da investigação é a predição do comportamento

O objectivo principal da investigação é a descrição do comportamento

A

experimentação

é

o

principal

método

de

Inquéritos e observação participante são os principais métodos de investigação

investigação

 

Técnicas de investigação utilizadas pela PSP e PSS:

PSP

PSS

Experiências de laboratório Investigação por inquérito Estudos de campo Experiências de campo Experiências naturais Investigação bibliotecária Investigação de arquivo outras

Investigação por inquérito Investigação bibliotecária Estudos de campo Experiências de laboratório Experiências de campo Experiências naturais Outras

Tendo a PSS e a PSP histórias diferentes, têm também “heróis” diferentes. PSP: Lewin, Festinger, Schachter, Asch, Campbell e Allport. PSS: Mead, Goffman, French, Homans e Bales.

Há várias razões para se proceder ao estudo das 2 psicologias sociais. A 1ª é que ambas as abordagens fornecem informação complementar acerca dos mesmos problemas. Cada uma destas abordagens tem os seus pontos fortes e fracos. A sua combinação contrabalança algumas das fraquezas de cada perspectiva com as forças da outra.

Em 2º lugar, em última instância, as 2 abordagens convergem. Todas as teorias da psicologia social tentam compreender os indivíduos no seu contexto social. Todas reconhecem implícita ou explicitamente, a influência recíproca do indivíduo e da sociedade na construção social da realidade.

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Em 3º lugar, a atenção ao mundo subjectivo do indivíduo é a única contribuição da psicologia

social que é partilhada pela psicologia social sociológica. Ambas as perspectivas acentuam o meio percepcionado pelo indivíduo e não tanto o meio actual.

(Doise) Análise de diferentes níveis da Psicologia Social:

1º Estudo doa processos “psicológicos” ou “intra-individuais” – modo como o indivíduo organiza a

sua experiência do mundo social

2º dinâmica de processos “inter-individuais” e “intra-institucionais” que ocorrem entre indivíduos

3º diferenças de “posições” ou “de estatutos sociais” para dar conta de modulações de

interacções situacionais

4º “crenças ideológicas universalistas” – como induzem representações e condutas

diferenciadoras, ou até mesmo discriminatórias.

Muito embora os diferentes níveis de análise tenham sido apresentados de modo linear e de certo modo estático, é de referir que numa dada situação podemos encontrar + de um nível. Se pode haver diferentes níveis de análise numa mesma situação, tal é revelador de vários processos psicológicos nesta situação social.

3. Esboço histórico da Psicologia Social

(Ebbinghaus) escrevera que a “Psicologia tem um longo passado mas só tem uma breve história”.

Efectivamente, a Psicologia Social é um dos campos + novos da psicologia, sendo ela própria uma disciplina jovem. Atribui-se frequentemente como data de nascimento da psicologia científica, em geral, o ano de 1879, por Wilhelm Wundt.

3.1 O longo passado do pensamento sócio-psicológico

A Psicologia Social começou a esboçar-se enquanto centro de interesse científico em finais do séc.

XIX e no princípio do séc. XX.

(Allport) A história da filosofia não pode ser esquecida na medida em que até há um século todos os psicólogos sociais eram filósofos e muitos filósofos eram psicólogos sociais.

(Platão, 417-347 a.C.) Os Estados formam-se porque o indivíduo não é auto-suficiente e necessita da ajuda de muitos outros. Se os homens formam grupos sociais é porque precisam deles. Platão tinha, por conseguinte, uma visão utilitária das interacções humanas e dos reagrupamentos.

(Aristóteles, 384-322 a.C.) Vê as pessoas como “animais políticos”, gregários por instinto. Pensa

que a interacção social é necessária para o desenvolvimento normal dos seres humanos.

(Rousseau, 1712-1778) As condições sociais transformam verdadeiramente o homem. A natureza não destinava o homem à vida em sociedade, tendo vivido o homem durante milénios só e independente.

(Bentham, 1748-1832) Defendeu que todo o comportamento humano é motivado pela procura de prazer, princípio conhecido como hedonismo. Por isso, por extensão, todo o comportamento social é hedonista.

(Karl Marx, 1818-1883) O comportamento social é determinado pelas condições económicas. Segundo esta perspectiva, para mudar o modo das pessoas pensarem, sentirem e agirem é fundamental mudar antes as instituições económicas.

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Nenhum destes autores conceberam a psicologia social como disciplina independente. Todavia as perspectivas dos autores assinalados são suficientes para ilustrar a existência de 2 temas de “psicologia social pré-científica”:

- as disposições psicológicas individuais produzem as instituições

- as condições sociais influenciam os comportamentos dos indivíduos.

3.2 As origens da Psicologia Social

O húmus propício à eclosão de uma abordagem específica da psicologia social, encontramo-lo na

confluência de 2 correntes: uma francesa e outra anglo-saxónica.

3.2.1 Corrente francesa

(Comte, 1798-1857), que inventou o termo “sociologia, foi o 1º autor a ter concebido a ideia de uma Psicologia Social.

2 das suas contribuições são geralmente conhecidas. A 1ª é a famosa “lei dos 3 estádios” que nos chama a atenção para a emergência gradual das ciências do estádio teológico (em que os

acontecimentos

acontecimentos são explicados por poderes impessoais e pelas leis da ciência) até ao positivo (em

que os acontecimentos são explicados pela sua invariabilidade e constância).

A 2ª: Comte faz a distinção entre ciências abstractas que tratam de fenómenos irredutíveis, de

acontecimentos fundamentais e primários, e ciências concretas que tratam de fenómenos compósitos, de “seres” concretos e das aplicações das ciências abstractas. Comte lá pelo fim da sua vida andou à procura de uma “Verdadeira Ciência Final” edificada simultaneamente na biologia e na sociologia e chamou-lhe “Moral Positiva”.

os

são

explicados

e

personificados

pelos

deuses),

metafísico

(em

que

É todavia a Gabriel Tarde (1843-1904) e a Gustave Le Bon (1841-1931) que se deve um real desenvolvimento da Psicologia Social.

é

rigorosamente irredutível ao individual. Esta posição de Durkheim vai entrar em choque com a de Tarde que muito embora não negasse aos fenómenos sociais uma certa especificidade, alicerçava-os na alternância de 2 fenómenos propriamente psicológicos, a invenção e sobretudo a imitação. Uma sociedade pode definir-se como “um grupo de homens que se imitam”.

(Émile Durkheim, 1855-1917) Defende a posição de Comte segundo a qual

o social

Segundo Le Bon, a multidão modifica o indivíduo, pois dota-o de uma “alma colectiva”. Esta alma faz com que os indivíduos, na situação da multidão, sintam, pensem e ajam de modo completamente diferente do que sentiriam, pensariam, agiriam cada um isoladamente.

Fez ressaltar algumas características psicológicas. Em 1º lugar a multidão obedece à lei da unidade mental. Além disso, a multidão coloca os indivíduos perante emoções rápidas, simples, intensas e mutáveis. Enfim, adopta um raciocínio rudimentar qualitativamente inferior ao dos indivíduos que a compõem. Estes comportamentos são explicados por Le Bon por uma causa interna, o contágio mental, e uma externa, a existência de líderes.

3.2.2 A corrente anglo-saxónica

Nos países anglo-saxónicos, e em particular nos Estados Unidos, frequentemente se fixam como datas para as origens, 1898 para a 1ª experiência em Psicologia Social e 1908 para os 2 primeiros manuais.

(Robert Zajonc, 1969) faz uma comparação impressionante entre a data das 1ªs medidas científicas e a do 1º estudo experimental em Psicologia Social.

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Foi efectivamente em 1898 que Triplett publicou a experiência sobre os efeitos da competição sobre o desempenho humano.

O estudo de Triplett representa um marco auspicioso. A questão que ele se colocava no virar do

séc. XIX ainda fascina os psicólogos sociais. As pessoas obtêm melhor desempenho sós ou acompanhados? Em 1924, Floyd Allport fez a distinção entre facilitação social (a influência do grupo nos movimentos do indivíduo) e rivalidade (o desejo de ganhar). Em 1965 Robert Zajonc escreveu um artigo clássico sugerindo que a mera exposição à presença de outras pessoas aumenta o desempenho das respostas dominantes (isto é, bem aprendidas), mas interfere com o desempenho das respostas não dominantes (isto é, novas). A investigação sobre a facilitação social ainda continua.

Apesar da experiência de Triplett nota-se que a Psicologia Social não foi muito experimental nos seus primórdios. Especulações e descrições salientavam-se + que testes científicos.

(William McDougall) publica a obra “Introdução à Psicologia Social. O autor delineia uma introdução psicológica à sociologia e mostra como é que os factos sociais se alicerçam na Psicologia. Baseou-se amplamente no ponto de vista que o comportamento social resulta de um pequeno n.º de tendências inatas ou instintos.

A influência considerável que teve na evolução da Psicologia Social deveu-se sobretudo aos

remoinhos que levantou e não tanto ao valor das suas concepções que são rejeitadas na actualidade por quase todos os psicólogos sociais.

3.3 Evolução da Psicologia Social

O ideal de transformar a Psicologia Social numa disciplina empírica já tinha sido aceite em finais

dos anos 20, começo dos anos 30. desenvolveram-se técnicas de investigação e expande-se o trabalho efectuado.

Nos anos 30 surge a publicação de trabalhos de 3 figuras de 1ª fila da história da Psicologia Social: Levy Moreno (1892-1974), Muzafer Sherif (1906-1990) e Kurt Lewin (1890-1947). Em 1934 Moreno desenvolveu o sistema sociométrico para analisar as interacções indivíduo- grupo. Deve atribuir-se a Sherif (1936) o 1º programa de investigação com cariz experimental. Interessou-se pelo estudo de normas sociais, isto é, regras que suscitam os comportamentos das pessoas.

Se no domínio da psicologia social não há gigantes, contudo se alguma figura de 1º plano influenciou a orientação geral do domínio foi muito provavelmente Kurt Lewin.

Kurt Lewin formulou a “teoria do campo” segundo a qual o comportamento humano deve ser considerado como uma função das características do indivíduo em interacção com o seu meio.

Em cada década do séc. XX os interesses da investigação foram-se modificando e ampliando. Durante os anos 40 e 50 a expansão do campo continua em várias direcções. Presta-se atenção à influência dos grupos e da pertença aos grupos sobre o comportamento individual e abordam-se as relações entre vários traços da personalidade e comportamento social. Em finais dos anos 50, Festinger propôs a teoria da dissonância cognitiva (postula que as pessoas encontram insatisfatórias as incoerências entre 2 cognições, ou entre os seus pensamentos e o seu comportamento, e procuram reduzi-las mudando quer os seus pensamentos quer os seus comportamentos. Também em finais desta década, Fritz Heider brindou a disciplina com o que ficou chamado “psicologia ingénua” em que se examina como as pessoas atribuem um sentido à sua vida e tentam controlar o meio. Nesta mesma década a experimentação tornou-se o método predominante de investigação.

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Nos anos 60 o campo da psicologia social expandiu-se de modo acentuado. Os psicólogos sociais fizeram incidir a sua atenção em áreas de investigação, tais como porque é que obedecemos à autoridade, como é que efectuamos julgamentos acerca do comportamento das pessoas, como negociamos e resolvemos conflitos, como nos atraímos e fazemos amigos, porque é que espectadores muitas vezes não ajudam em situações de emergência.

Durante os anos 70, para além de se continuarem linhas de estudo dos anos anteriores, foram postos em cena novos tópicos ou foram investigados com um enfoque novo e + sofisticado. Entre os + importantes assinale-se a atribuição, papéis sexuais e discriminação sexual, psicologia ambiental.

Entrámos 2 tendências que atravessam os anos 70 e 80: influência crescente da perspectiva cognitiva e a ênfase na vertente aplicada.

Nas 2 últimas décadas tem-se também verificado um crescente interesse pela investigação aplicada. Esta tendência pode também ser o reflexo de uma procura de “relevância” nas ciências sociais.

Para além da influência da perspectiva cognitiva e da vertente aplicada, 2 outras perspectivas vão ocupar + os psicólogos sociais, a saber, o estudo do papel do afecto e uma maior sensibilização à variação cultural.

Os psicólogos sociais estão-se também a tornar + sensíveis ao impacto da cultura no comportamento social. Aperceberam-se que os princípios que influenciam um grupo dentro do mesmo país. Dado que o mundo se está tornando cada vez + interdependente, os psicólogos sociais pensam que o seu campo deve tornar-se cada vez + internacional e multicultural.

4. A Psicologia Social como ciência

Ciência – corpo organizado de conhecimentos que advêm da observação objectiva e de testagem sistemática.

As ciências naturais, como a biologia, botânica, a física, a química e a zoologia tentam explicar observações acerca da natureza e do mundo físico. As ciências comportamentais, como a antropologia, a etologia, a psicologia e a sociologia, abordam observações acerca de actividades, como sejam operações mentais e respostas motoras, de animais e de seres humanos. A expressão ciências sociais refere-se às ciências comportamentais e disciplinas afins (economia, ciência política) que abordam actividades das pessoas inseridas em comunidades humanas. A Psicologia Social investiga as acções de indivíduos e de indivíduos dentro de grupos, sendo assim uma ciência comportamental e social.

No âmbito das ciências, as teorias ajudam-nos a compreender como e porque é que as coisas acontecem. O termo “teoria” designa para os cientistas uma descrição de relações entre símbolos que representam a realidade. Aplica-se o termo construto quando um símbolo abstracto numa teoria é definido em termos de acontecimentos observáveis. Todas as teorias contêm aspectos que não podem ser provados como verdadeiros em sentido absoluto, na medida em que são abstractos. No entanto, as teorias apresentam objectivos comuns.

4.1 Investigação científica

A psicologia social utiliza o método científico para estudar o comportamento social. O método científico implica observação sistemática, desenvolvimento de teorias que explicam essas observações, uso de teorias que engendram predições acerca de observações futuras e

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revisão de teorias quando as predições não estão certas. É este processo que assegura que todas

as pessoas que se movem dentro de uma disciplina falem a mesma linguagem.

A recolha de observações pelos cientistas implica que eles sigam um certo n.º de regras

estabelecidas. Mas a ciência não se limita a ficar por observações precisas, exigindo explicações. São precisamente as teorias que nos ajudam a explicar o que se observa. Uma teoria consiste na formação de regras gerais tendo por alicerce observações específicas efectuadas – indução lógica.

Mas uma teoria não se formula só para explicar observações precisas. Deve também poder explicar e sugerir novas observações que se podem utilizar para testar a teoria. Uma teoria deve ser capaz de fazer predições acerca de fenómenos com recurso à lógica dedutiva. Ou, por outras palavras, uma teoria deve poder gerar hipóteses susceptíveis de serem testadas.

O conhecido filósofo da ciência Karl Popper mostrou que uma teoria científica não pode

logicamente ser provada como verdadeira, mas pode ser refutada. Popper defende que para uma teoria ser científica deve, em princípio, ser capaz de refutação empírica. Uma teoria nunca pode ser aceita como verdadeira, pois não há garantia que no futuro será a mesma que no passado.

Qualidades que uma boa teoria deve reunir:

1. Deverá estar em concordância com dados conhecidos, incorporando o que se encontrou acerca do comportamento humano;

2. compreensiva, tentando compreender e explicar um amplo leque de comportamentos;

3. parcimoniosa, não contendo + que os elementos necessários para explicar o assunto em questão;

4. se é possível testar, fornecendo meios mediante os quais hipóteses específicas e predições podem ser suscitadas e subsequentemente testadas por investigação;

5. valor heurístico, isto é, em que medida estimula o pensamento e a investigação e desafia outras pessoas a desenvolverem e testarem teorias opostas;

6. valor aplicado de uma teoria

Os psicólogos sociais interessam-se pelas teorias porque desejam ajudar a sociedade a viver melhor. As teorias podem ajudar as pessoas aumentando a compreensão, aumentando a sensibilização e dando acesso a novos modos de se comportar.

Os psicólogos sociais tentam elaborar teorias que aumentem na pessoa a tomada de consciência

de deficiências na vida quotidiana e permitam guiá-la para opções + satisfatórias.

Uma teoria com estas possibilidades foi chamada de generativa. Esta teoria dá às pessoas a possibilidade de se interrogarem sobre o que acreditavam antes e permite optar por novas relações em vez de conservarem crenças dogmáticas.

4.2 Objectivos científicos da Psicologia Social

De um modo geral os psicólogos sociais tentam associar as suas teorias com trabalhos empíricos. Procura-se assim proporcionar informação sobre os padrões de comportamento social, predizer acontecimentos futuros e aumentar a força da teoria pela sua demonstração. Descrever os fenómenos que se observam.

2º Explicação que pressupõe a identificação das relações causais que produzem comportamentos particulares. Uma coisa é descrever padrões de comportamento e outra é desenvolver teorias para explicar o que se observou.

3º Predição - A melhor medida de uma teoria é a sua capacidade em fazer predições certas. As teorias e as predições ajudam a compreender os motivos da ocorrência de fenómenos

comportamentais

4º Controlar quando ou se ocorrem fenómenos comportamentais.

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Em resumo, a investigação pode fornecer informação fidedigna sobre a sociedade, explicá-la, permitir predições e controlar a ocorrência de fenómenos comportamentais.

4.3 O processo de investigação em Psicologia Social

Os psicólogos sociais para estudarem de modo eficaz o comportamento social, devem planear meticulosamente e executar os seus projectos de investigação. Este processo científico pode sintetizar-se em 7 etapas.

Seleccionar um tópico de investigação. É necessário desenvolver uma ideia acerca do comportamento que valha a pena explorar. As ideias de investigação não se desenvolvem num vácuo social.

Busca da documentação de investigação que permite delimitar os estudos anteriores efectuados sobre o tópico.

Formulação de hipóteses – as hipóteses são expectativas específicas sobre a natureza das coisas decorrentes de uma teoria. São as implicações lógicas da teoria.

Escolha de um método de investigação que permitirá testar as hipóteses. Os 2 principais métodos utilizados pelos psicólogos sociais nas suas investigações são o correlacional (em contexto natural, no campo) e o experimental (em meio controlado, em laboratório).

Recolha dos dados – 3 técnicas básicas de recolha dos dados: auto-avaliações, observações directas e informação de arquivo.

6ª Efectuar a análise de dados. Na psicologia social contemporânea esta etapa exige um conhecimento aprofundado de procedimentos estatísticos e de programas de computador. As 2 espécies básicas de estatísticas utilizadas pelos psicólogos sociais são descritivas e inferenciais.

7ª Apresentar o relatório dos resultados. Tal pode efectuar-se publicando artigos em revistas científicas, fazendo apresentações em congressos, ou informando pessoalmente outros investigadores na disciplina. Mediante a difusão destes resultados pode haver o aperfeiçoamento no trabalho e a compreensão do comportamento social é enriquecida.

4.4 Meta-análise

Um dos problemas com que se defrontam muitas vezes os investigadores é que o processo de investigação conduz frequentemente a resultados contraditórios de um estudo para outro. No passado os investigadores utilizavam muitas vezes a abordagem das “regras da maioria” para resolver essas discrepâncias. Neste caso limitavam-se a contar o n.º de estudos em que se tinha encontrado ou não um determinado efeito psicológico e concluíam então que o efeito existia se ocorresse na maioria dos estudos. Actualmente, utiliza-se a meta-análise – é uma técnica estatística que permite aos investigadores combinar informação de muitos estudos empíricos sobre um tópico e avaliar objectivamente a fidelidade e o tamanho global do efeito.

5. Teorias em Psicologia Social

Nenhuma teoria permite explicar de modo adequado todos os fenómenos sociais. Certas teorias são globais ou gerais, enquanto que outras são + particulares e restritas na sua aplicação e predições. Entre as principais posições teóricas amplas em Psicologia Social figuram as teorias da aprendizagem, as teorias cognitivas e as das regras e papéis.

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No seio destas 3 orientações teóricas gerais é possível desenvolverem-se modelos + limitados, por vezes chamados mini-teorias, que tentam explicar um leque + restrito do comportamento humano. A orientação teórica adoptada pelo investigador conduzi-lo-á a colocar certas questões acerca do comportamento que se está a estudar.

5.1

Teorias da aprendizagem

O

seu núcleo é a ideia de que o comportamento de uma pessoa é determinado pela

aprendizagem anterior. A teoria da aprendizagem tornou-se popular noas anos 1920, estimulada pelos trabalhos sobre associação ou condicionamento “clássico” do psicólogo russo Ivan Pavlov e

do americano John Watson.

5.1.1 Mecanismos de aprendizagem social

Há 3 mecanismos gerais mediante os quais as pessoas aprendem coisas novas:

através da associação ou condicionamento clássico – determinadas condições ou situações despoletam determinadas reacções ou atitudes (reflexo condicionado)

reforço – as pessoas aprendem através de recompensas e de castigos

aprendizagem observacional ou imitação – uma parte importante do comportamento humano é adquirido através de instrução directa e por observação do comportamento dos outros. As pessoas aprendem muitas vezes atitudes sociais a comportamentos através da simples observação de atitudes e comportamentos de modelos.

5.1.2 Contribuições

As teorias da aprendizagem têm-se utilizado para explicar muitos fenómenos sócio-psicológicos,

como a atracção interpessoal, a agressão, o altruísmo, o preconceito, a formação de atitudes, a conformidade e a obediência.

As teorias da aprendizagem têm sido particularmente úteis na estimulação, por parte dos investigadores, da procura de acontecimentos ambientais ligados às acções das pessoas. Estes teóricos defendem que uma melhor compreensão do efeito de acontecimentos ambientais torna possível prever a sua influência.

5.2

Teorias cognitivas

As

teorias da aprendizagem são muitas vezes criticadas por terem uma “caixa negra” para o

comportamento humano. É salientado o que entra na caixa (estímulo) e o que sai da caixa (resposta), mas é prestada pouca atenção ao que se passa dentro da caixa. Os elementos do interior – emoções e cognições – são a principal preocupação das teorias cognitivas. A ideia principal das teorias cognitivas para a Psicologia Social é que o comportamento de uma pessoa depende do modo como percepciona a situação social.

Teóricos: psicólogos da Gestalt, Kohler e Koffka.

5.2.1 Princípios básicos

As pessoas tendem espontaneamente a agrupar ou a categorizar objectos.

Percepcionamos imediatamente algumas coisas como sendo salientes (figuras) e outras como

estando atrás (fundo). Geralmente percepcionamos os estímulos coloridos, em movimento, barulhentos, únicos, próximos, como figuras, e os estímulos suaves, monótonos, estacionários, quietos, longínquos, como fundo.

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Os 2 princípios, isto é, que agrupamos e categorizamos espontaneamente as coisas que percepcionamos e que prestamos particular atenção aos estímulos + salientes, são centrais para a nossa percepção de objectos físicos e também para a nossa percepção do mundo social. Estes princípios cognitivos são importantes para o modo como interpretamos o que as pessoas sentem, querem e que tipo de pessoas são.

A investigação sobre a cognição social tem sido efectuada em 3 áreas: percepção social, memória social e julgamentos sociais. Em 1º lugar uma pessoa percepciona um estímulo social, depois deve armazenar de alguma forma uma representação desse estímulo na memória, para + tarde o utilizar para fazer julgamentos sociais.

As representações que as pessoas têm nas suas cabeças acerca de pessoas e de acontecimentos chamam-se esquemas. Os esquemas representam o conhecimento integrado que temos a respeito do nosso meio social.

Uma outra direcção de investigação cognitiva em que a Psicologia Social tem sido fértil é o estudo de atribuições causais, isto é, os modos como as pessoas usam a informação para determinar as causas do comportamento social.

5.2.2 Contribuições

As

incompreensíveis.

teorias

cognitivas

permitem

explicar

situações

que

parecem

numa

abordagem

Por exemplo, uma aplicação directa desta orientação tem sido a investigação sobre como é que as pessoas formam impressões de outras pessoas.

5.3 Teoria dos papéis

Foi George Herbert Mead (1913) que tornou o conceito de papel popular na sua análise do self em relação com as pessoas que nos rodeiam.

5.3.1 Princípios básicos

Embora se esteja a utilizar o termo teoria do papel, não se trata efectivamente de uma teoria única. Trata-se de uma rede ligada de hipóteses e de um conjunto bastante amplo de construtos. De modo diferente das teorias da aprendizagem, esta abordagem presta pouca atenção aos determinantes individuais do comportamento. Por ex., raramente recorre a conceitos de personalidade, atitudes, motivação. Em vez disso, o indivíduo é visto como um produto da sociedade em que vive e como um indivíduo que contribui para essa sociedade. Por isso, a teoria dos papéis dá + atenção a amplas redes sociais.

Papel – posição ou função que uma pessoa ocupa no seio de um determinado contexto social. Uma pessoa pode desempenhar simultaneamente muitos papéis. Estes vários papéis são guiados por determinadas expectativas que os outros têm acerca do comportamento. Esses papéis também são guiados por normas que são expectativas + generalizadas acerca do comportamento, internalizadas no decurso da socialização. Conflitos de papéis ocorrem quando uma pessoa ocupa diversas posições com exigências incompatíveis (conflito interpapel) (ex.: ter um trabalho para fazer até tarde no serviço e ter de ficar com o filho doente) ou quando um só papel tem expectativas que são incompatíveis (conflito intrapapel) (ex.: os 2 filhos têm festas na escola, sendo difícil a opção).

Psicologia Social

5.3.2 Contribuições

12

O

conceito de papel tem sido amplamente utilizado em Psicologia Social. Este conceito dá conta

da

possível mudança de comportamento das pessoas quando a sua posição na sociedade muda.

A

teoria dos papéis suscitou várias investigações e mini-teorias em psicologia social. As

investigações sobre as normas sociais e sobre os processos de comunicação constituem posições teóricas que fazem apelo a conceitos ligados à teoria dos papéis.

Mais recentemente as ideias da teoria dos papéis têm contribuído para o incremento do estudo do auto-conceito. Assim, modelos de autoconsciência referem em que condições nos tornamos + conscientes de nós próprios. O conceito de autovigilância dá conta da tendência de algumas pessoas a observarem o modo como são percepcionados pelas outras. A área da gestão da impressão aborda o modo como as pessoas tentam criar impressões específicas e positivas acerca delas próprias. O trabalho sobre este tópico tem mostrado que as pessoas se comprometem activamente em estratégias comportamentais, para dirigir a impressão das outras pessoas a respeito de si próprias.

5.4 Uma comparação de teorias

Dimensão

Teorias da

Teorias cognitivas

Teorias do papel

aprendizagem

Conceitos centrais

Estímulo-resposta,

Cognições,

Estrutura

Papel

Reforço

cognitiva

Comportamentos

Aprendizagem de novas respostas; processos de troca

Formação e mudança de crenças e de atitudes

Comportamento

no

primários

papel

explicados

 

Suposições acerca

As

pessoas são

As

pessoas

são

seres

As

pessoas

são

da

natureza

hedonistas; os seus actos são determinados por padrões de reforço

cognitivos que agem com base nas suas cognições

conformistas

e

humana

comportam-se

de

 

acordo

com

 

expectativas de papéis

Factores

que

Mudança na quantidade, tipo, ou frequência de reforço

Estado

de

inconsistência

Mudança

nas

produzem

cognitiva

expectativas de papéis

mudança

no

comportamento

 

A Psicologia Social hodiernia pode recorrer a diversas teorias para compreender o comportamento

social. Cada teoria faz-nos caminhar por uma vereda algo diferente. Consoante a teoria por que

se enverede, podemos observar aspectos diferentes do comportamento social.

Hoje em dia a abordagem cognitiva é a + popular junto de teóricos e de investigadores. Todavia

as outras duas posições continuam a exercer uma influência de relevo nesta disciplina.

Uma outra tendência a que se vem assistindo é a tendência a combinar e integrar ideias de diferentes tradições teóricas.

6. A Psicologia Social contemporânea

6.1 Uma ciência em ebulição

O período actual caracteriza-se por uma explosão dos conhecimentos, das descobertas e das

publicações.

Psicologia Social

6.2 Uma plêiade de investigadores

13

Há um quarto de século o domínio da Psicologia Social era constituído por um monopólio reduzido de investigadores. Hoje em dia são cada vez + numerosos os investigadores que apresentam contribuições de valor para esta ciência.

6.3 Empregos em Psicologia Social

O domínio da psicologia social representa um sector muito popular no âmbito da psicologia, muito

em particular nos Estados Unidos.

A maioria dos empregos em psicologia social é obtida ao nível do ensino e da investigação, em

postos de professores ou de cientistas em meio universitário ou secundário.

As competências de um psicólogo social podem ser exercitadas em muitas espécies de trabalho:

investigação de mercado, sondagens de opinião pública, avaliação da investigação nos negócios e

no

governo (isto é, investigação que avalia os efeitos de novos programas), e análise estatística

de

dados comportamentais.

Muitos dos psicólogos sociais que trabalham em meios académicos partilham o seu tempo entre ensinar, ficar ao corrente da nova investigação e efectuar investigação.

7. Perspectivas internacionais

Se as raízes da psicologia social emergiram na Europa, grande parte da sua história tem sido amplamente dominada por investigadores nos estados Unidos. Uma das razões importantes para esta mudança foi o crescimento do fascismo na Europa nos anos 30. efectivamente podemos ver

os Estados Unidos como constituindo o entre 3 “mundos” em que os psicólogos têm levado a

cabo investigação e prática.

O mundo é constituído por outras nações industrializadas, como Canadá, Grã-Bretanha,

Austrália, França e Rússia. Em certos aspectos o 2º mundo é tão produtivo como o 1º, mas a sua influência é maior entre os países que aí se inserem e no 3º mundo.

O mundo compreende países em desenvolvimento, tais como Índia, Nigéria e Cuba.

Se o 1º mundo exporta conhecimento psicológico para o 2º e 3º mundos, é por sua vez pouco

influenciado pela psicologia dos outros 2 mundos. O 3º mundo é sobretudo importador de conhecimento psicológico.

Os

psicólogos nos 3 “mundos” estão cada vez + a ser sensíveis até que ponto a psicologia do 1º e

“mundos” é relevante para as sociedades do 3º mundo.

Hoje em dia há uma grande e activa troca de ideias entre os psicólogos sociais e em todos os países. Uma das principais questões suscitadas por esta troca de informação diz respeito a aspectos do comportamento humano que são culturalmente específicos, tendo em conta as condições existentes numa determinada cultura e os que são devido à herança humana partilhada. Tudo leva a crer que nos anos vindouros surja uma ciência + rica, fecundada por cruzamentos de ideias e de dados de diversas culturas.

II. SELF

1. Introdução

Self – engloba as características que uma pessoa reclama como sendo suas e às quais dá um valor afectivo.

Psicologia Social

14

Ao longo da história, filósofos, poetas e estudiosos da personalidade apresentaram o self como sendo um aspecto estável da personalidade humana. Ao invés, os psicólogos sociais acham que o self pode, de certo modo, ser maleável, mudando de uma situação para outra. Dentro desta perspectiva, o self tem diferentes rostos.

O self é uma construção social que se forma mediante a interacção com outras pessoas. O self

constitui a base das interacções sociais. Mas o self é não só definido no processo da interacção social, como também afecta um amplo leque de comportamentos sociais.

Grupos e organizações podem contribuir para a emergência do self, no entanto só o indivíduo tem self. Sendo assim, o self social é o domínio natural do psicólogo social.

3 aspectos do self:

- auto-conceito cognitivo e a questão de como é que as pessoas chegam à compreensão dos seus próprios comportamentos

- auto-estima, a componente efectiva, e a questão de como as pessoas se avaliam a elas

próprias

- auto-representação, a manifestação comportamental do self, é a questão de como é que as pessoas se apresentam às outras.

2. O Self em Psicologia Social

Desde há séculos que diversos pensadores têm abordado a natureza do self .

O self ajuda-nos a compreender o nosso comportamento. Ele pode efectivamente ajudar a percepcionar-nos como uma pessoa com certas atitudes, valores ou comportamentos.

Final do séc. XIX e o início do séc. XX, fora introduzidas várias teorias do self que são geralmente aceites. Não só nos conhecemos através dos outros, como também que a nossa compreensão dos outros depende do conhecimento que temos de nós próprios.

(John Watson, 1913) Defendia que o self não pode ser medido e que não deveria, por conseguinte, ser objecto de estudo científico. É impossível saber com precisão o que se passa na cabeça de uma outra pessoa. Durante os decénios que se seguiram, o self foi votado ao esquecimento.

Nas décadas de 60 e 70 a investigação sobre o self floresceu na psicologia clínica. Hoje em dia, na psicologia social contemporânea, o self e construtos conexos constituem materiais importantes de explicação do comportamento social.

Este breve sobrevoo histórico faz ressaltar 3 pontos. O 1º é que o auto-conceito não é certamente indispensável para a psicologia social e que é possível analisar o comportamento social sem recorrer a ele. Em 2º lugar, vários teóricos defendem que mesmo que não seja indispensável, o autoconceito pode ser muito útil. Em 3º lugar, o uso científico do autoconceito suscita vários problemas em psicologia social.

3. Definindo o Self: autoconceito

O conceito de self foi discutido em pormenor por muitos teóricos. Todos eles concordam sobre a

construção social do self. Temos uma concepção do self por causa das nossas interacções com outras pessoas. A internalização destas interacções sociais faz parte do que pensamos sobre nós próprios. O autoconceito pode ser definido como o conjunto de pensamentos e sentimentos que se referem ao self enquanto objecto. É importante referir que o autoconceito não constitui

Psicologia Social

15

necessariamente uma visão “objectiva” do que somos, mas antes um reflexo de nós próprios tal qual nos percepcionamos.

3.1 Componentes do autoconceito

(William James, 1890) descreveu a dualidade básica que está no âmago da nossa percepção do self. Em lugar, o self é composto pelos nossos pensamentos e crenças acerca de nós próprios, o que James denominou o “conhecido”, ou + simplesmente o “mim”. O conceito de James do “mim” contém 3 componentes distintos. Há o self material que inclui o corpo, o vestuário, a casa e todas as outras possessões. O self espiritual inclui os traços de personalidade, atitudes, valores e percepções sociais. Finalmente, o self social inclui o que amigos, pais, namorado, etc. conhecem de mim próprio. James sugeriu haver tantos “selves” sociais quantas classes de pessoas que têm uma imagem de nós na sua cabeça.

Mim, o self conhecido:

Características que cremos possuir; o self como um objecto de reflexão

que cremos possuir; o self como um objecto de reflexão Self material: O corpo de uma

Self material:

O corpo de uma pessoa, possessões físicas

Self espiritual:

Traços de personalidade, atitudes, valores, percepções sociais

Self social:

O que amigos, namorado, pais, professores, etc., conhecem de mim

Em lugar, o self é também o processador activo de informação, o “conhecedor”, ou o “eu”. Em termos modernos, referimo-nos ao aspecto conhecido do self como o autoconceito ou a definição do self, e ao aspecto conhecedor do self como consciência. Estes 2 processos psicológicos combinam-se para criar um sentido coerente da identidade.

Com o intuito de obter uma radiografia das características de uma pessoa particular, os psicólogos desenvolveram a técnica “Quem Sou Eu?”. A resposta a esta questão permite obter o autoconceito espontâneo, isto é, a pessoa fornece uma descrição de si própria sem ser orientada pelo experimentador sobre as dimensões que considera importantes. A utilização deste método tem subjacente que as pessoas referirão o que consideram + saliente para elas.

3.2 Autoconceito de trabalho

Nem sempre damos a mesma resposta à questão “Quem Sou Eu?”, dado que só se pode ter acesso cognitivamente a uma parte do self de cada vez. Recolheu informação sobre si durante muitos anos, por isso o seus autoconceito de trabalho inclui somente os atributos que são activados pela situação social actual.

Quando as pessoas respondem à questão “Quem Sou Eu?”, geralmente referem o seu nome, características físicas, características demográficas, traços e crenças, e interesses e actividades. Para além disso, as pessoas tendem também a mencionar características que as diferenciam das outras.

A saliência de certas características no autoconceito espontâneo pode ser influenciada pelo meio. O autoconceito reflectirá muitas vezes características da identidade que tornam as pessoas

Psicologia Social

16

distintas das que as rodeiam. O autoconceito de trabalho inclui geralmente as características menos comuns.

O

autoconceito espontâneo pode também ser influenciado pelas circunstâncias imediatas.

O

autoconceito também pode ser influenciado pelo meio cultural + amplo. Características políticas

e

sociais podem afectar as auto-representações.

Definimo-nos a nós próprios, por conseguinte, pelo menos em parte, tendo em conta as nossas diferenças em relação a outras pessoas, o que ilustra a importância dos factores sociais do autoconceito. O nosso autoconceito armazena uma vasta quantidade de informação acerca das nossas experiências e relações sociais. Todavia qualidades que nos diferenciam de outras pessoas tendem a ser + salientes que os nossos atributos + comuns.

3.3 Auto-esquemas

As auto-representações não são só descrições de superfície que se utilizam quando alguém nos pergunta quem somos. Para além disso, as crenças sobre o self podem afectar a maneira como vemos o mundo e como retemos informação acerca de experiências e acontecimentos. Esquemas – são colecções organizadas de informação acerca de algum objecto. Por isso um auto-esquema é um tipo especial de esquema construído com tudo o que conhecemos, pensamos e sentimos acerca de nós próprios. Como qualquer outro esquema, um auto-esquema não só organiza, como também guia o processamento de informação. Isto significa que os nossos auto-esquemas podem influenciar as nossas percepções, memória e inferências acerca de nós próprios.

Do mesmo modo que as pessoas podem ter diferentes autoconceitos, também podem ter diferentes auto-esquemas.

Qualquer atributo específico pode ser relevante para o autoconceito total de algumas pessoas, não o sendo para outras.

Os auto-esquemas não se limitam só a material verbal. Parte do nosso autoconceito, implica imagens visuais. Há, pois, uma variedade de modos em como a maneira como nos vemos a nós próprios afecta a maneira como vemos o mundo.

O autoconceito na medida em que abarca muitos auto-esquemas é multifacetado. Poder-se-ia,

porventura, esperar que perante tal diversidade de auto-esquemas experienciássemos uma confusão de identidade. Há, no entanto, 2 motivos que contradizem isso. O 1º tem a ver com o

facto de que os indivíduos transportam os seus auto-esquemas conjuntamente num autoconceito, talvez organizado numa história de vida coerente. O 2º motivo tem a ver com a autocomplexidade definida pelo n.º de identidades distintas que uma pessoa tem (amigo,

namorado, estudante,

com um autoconceito complexo acham ser relativamente + fácil absorver as contrariedades da vida. Se uma pessoa só tem uma ou 2 identidades principais, qualquer acontecimento único pode ter um impacto na maior parte dos aspectos do autoconceito.

) que propicia um amortecedor contra agentes de stress. As pessoas

3.4 Memória autobiográfica

Os auto-esquemas afectam também o modo como relembramos o passado. Sem memória autobiográfica, isto é, as nossas lembranças da sequência de acontecimentos que tocaram a nossa vida, não teríamos auto-representações.

(Greenwald) propôs que o self actua como um ego totalitário que processa a informação de modo enviesado. Este autor identificou 3 viés principais: egocentração, beneficiação e conservadorismo cognitivo.

Psicologia Social

3.4.1 Egocentração

17

A egocentração descreve a tendência para o julgamento e a memória se focalizarem no self.

Acontecimentos que afectam o self são lembrados melhor que informação que não é relevante para o self. Actores assumem a honra injustificada para acontecimentos em que eles próprios e outras pessoas estiveram envolvidos. – viés egocêntrico.

Para além destas tendências egocêntricas há a crença que as pessoas têm de controlar acontecimentos que ocorrem meramente por acaso – ilusão de controlo.

A

egocentração também se manifesta no viés do falso consenso, isto é, a tendência geral para

as

pessoas acreditarem que a maior parte das outras pessoas se comporta e pensa como nós.

Ainda outra forma de egocentração no autoconhecimento é a crença que tem a maior parte das pessoas que são melhores que a média em qualquer categoria ou traço socialmente desejável.

3.4.2 Beneficiação

Este processo opera quando tiramos conclusões acerca de nós próprios a partir das nossas

acções. Para mantermos um conceito positivo do self, chamamos a nós o sucesso e negamos a responsabilidade pelo fracasso. A “beneficiação” é um viés de autocomplacência que preserva o nosso sentido de competência. Diga-se tão só que muitas vezes este viés tem sido apresentado como universal. Ora ele é efectivamente bastante específico a certos elementos da cultura ocidental.

No Japão produziu-se simplesmente o inverso, um forte viés de auto-apagamento.

3.4.3 Conservadorismo cognitivo

O conservadorismo cognitivo significa que os nossos autoconceitos tendem a resistir à

mudança. A maior parte das vezes as pessoas colocam-se em situações susceptíveis de reforçar situações que possam suscitar informação inconsistente.

Apesar da tendência a resistir à mudança, os nossos autoconceitos, atitudes e valores podem mudar com o tempo. Quando tal acontece, as pessoas mantêm a sua imagem de consistência distorcendo a sua memória das suas atitudes anteriores, lembrando-as como estando + perto das atitudes actuais do que realmente estavam. A memória aparece como sendo maleável e é reconstituída para permitir que uma pessoa mantenha uma perspectiva consistente do seu self.

3.5 Origens do self

3.5.1 Avaliação reflectida

O autoconceito inclui crenças acerca das nossas características e uma avaliação de cada

característica quer se trate de aspectos positivos ou negativos. Muitos de nós pretenderíamos que

o nosso autoconceito não estivesse dependente do que os outros dizem, todavia uma fonte de

informação central acerca do autoconceito são as reacções que as pessoas têm em relação a nós.

Prestamos muita atenção ao que outras pessoas significativas para nós, tais como amigos, pais, professores, dizem a nosso respeito. Por isso o nosso julgamento sobre nós próprios reflecte de muitas maneiras a avaliação dos outros a nosso respeito. Cooley afirma que aprendemos acerca

de

nós próprios através dos outros.

As

avaliações reflectidas são percepções das pessoas sobre o modo como outras pessoas as

vêem. Todavia, a informação dos outros nem sempre é percepcionada de modo totalmente correcto. As nossas atitudes, valores e outras partes dos nossos auto-esquemas podem fazer com que haja uma distorção da informação recebida.

Psicologia Social

3.5.2 Comparação social

18

A comparação social pode permitir avaliar as nossas habilidades, pensamentos, sentimentos e

traços comparando-os com outros. (Festinger) A sua teoria afirma que na ausência de um padrão físico ou objectivo de exactidão, procuramos as outras pessoas como meio para nos avaliarmos.

A investigação mostra que muitas vezes as pessoas escolhem comparar-se com outras pessoas

semelhantes quando se avaliam. Por outras pessoas semelhantes, entende-se pessoas que condizem em dimensões que estão relacionadas com a comparação em questão.

A utilização do sexo como critério para se escolher os outros para comparação tem-se revelado

uma dimensão particularmente importante de comparação.

As comparações com os outros podem pôr em evidência comparações positivas, também podem salientar que as pessoas são piores que outras. As crianças podem ser especialmente vulneráveis a estas comparações negativas, uma vez que o seu autoconceito se está a desenvolver.

3.5.3 Comparação temporal

As pessoas podem também auto-avaliar-se efectuando comparações entre o seu self presente e o seu self passado, isto é, efectuando comparações temporais. As avaliações efectuadas com base nas tendências temporais podem ser fonte de satisfação quando a realização melhorou.

Para certas pessoas, como por ex., pessoas idosas, as comparações temporais podem acentuar a deterioração nas suas capacidades e na sua saúde.

Note-se, enfim, que quando se efectuam comparações temporais pode haver uma relativa distorção. As pessoas podem ter esquecido até que ponto mudaram. As pessoas podem ser “historiadores revisionistas” na medida em que têm a capacidade de reescrever as suas histórias pessoais do modo que lhes convém.

3.5.4 Autopercepção

Uma outra fonte de informação acerca do self baseia-se nas inferências e observações que as pessoas fazem quando observam o seu próprio comportamento. A teoria da autopercepção propõe que as pessoas conhecem as suas próprias atitudes, emoções e outros estados internos, parcialmente inferindo-os de observações do seu próprio comportamento e ou de circunstâncias em que este comportamento ocorre.

A teoria da autopercepção tem implicações importantes para a motivação humana. Quando se

paga às pessoas para fazerem algo, elas não gostam tanto desse trabalho como quando elas o fazem e não são pagas ou quando iniciam elas próprias a acção. Realizar uma acção sem razões externas claras leva o autor a inferir que deve ter valores que levem a este comportamento.

3.6 O self num contexto cultural

O nosso sentido do self combina aspectos privados ou internos de uma pessoa e aspectos +

públicos ou sociais de alguém que se identifica com vários grupos, como sejam grupos culturais, raciais, religiosos, políticos, etários, etc. Os aspectos + privados do self fornecem-nos um sentido

de identidade pessoal, ao passo que os aspectos + públicos do self propiciam-nos um sentido de identidade social.

Psicologia Social

19

Teóricos do self avançaram a ideia de que o self é fundamentalmente social. Para além disso, o desenvolvimento de um sentido do self foi visto como ocorrendo só através de interacção com outras pessoas e com a sociedade. E hoje em dia os que enveredam por uma perspectiva sócio- cultural vêem o self como “propriedade da cultura”.

3.6.1 A importância de um grupo para o sentido do self

Uma das teorias com grande influência que apareceu em Psicologia Social desde a crise dos anos 70 foi a Teoria da Identidade Social. Esta teoria sublinha que a pertença grupal é muito importante para o autoconceito de uma pessoa. A sua identidade social é aquela parte do seu autoconceito que advém de ser membro de grupos sociais e da identificação com eles. Distingue-

se da identidade pessoal que engloba os aspectos únicos e individuais do seu autoconceito.

Alguns destes grupos são escolhidos por si (ex.: Faculdade), mas também se pode ser membro de grupos de modo involuntário (ex.: grupo sexual, etário ou de meio cultural de origem).

Muitas vezes o nosso sentido de valor do self está ligado ao grupo a que pertencemos ou com que nos identificamos. Assim, uma proposição fundamental da teoria da identidade social é a de que os indivíduos procuram manter ou realizar uma identidade social positiva e distintiva. Em 1º lugar, estamos preocupados com o que o nosso grupo se possa distinguir de outros grupos, o que nos assegura uma identidade. Em 2º lugar, estamos também preocupados com que os nossos grupos sejam avaliados positivamente em relação a outros grupos existentes na sociedade.

Para se estabelecer se o nosso grupo tem uma identidade social positiva ou negativa usa-se a comparação social intergrupal. Comparamos o estatuto e o respeito do nosso grupo com outros grupos na sociedade.

No caso desse grupo aparecer conotado com uma identidade social negativa, a teoria sugere que

o indivíduo está motivado para a melhorar. Tal envolve muitas vezes uma identidade em

competição com outros grupos e pode levar ao preconceito e a conflitos. A identidade social tem implicações no domínio do preconceito e da discriminação.

3.6.2 Self e cultura: Identidade social através das culturas

Um dos aspectos + importantes da identidade social de uma pessoa é a sua cultura que tem sido como o sistema organizado de significações, percepções e crenças partilhadas por pessoas que pertencem a um grupo particular. A compreensão partilhada de uma cultura passa de geração em geração e simultaneamente modela e é modelada por cada geração sucessiva.

(Pg. 161)

O self enquanto tópico de investigação tem interessado sobretudo cientistas sociais de culturas

individualistas.

(Triandis) refere as distinções entre o self privado (a avaliação do self por si próprio), o self público (a avaliação do self por um outro generalizado) e o self colectivo (a avaliação do self por um grupo de referência particular).

Triandis defende que a probabilidade de que um indivíduo escolha cada um destes 3 aspectos do self varia segundo as culturas.

Em suma, os estudos actuais mostram que se todas as culturas parecem ter um conceito do self, elas variam na compreensão deste conceito. Diversos estudos interculturais convergem em apontar que a conceito do self e a importância que se lhe atribui não se pode universalizar a todas as culturas não ocidentais.

Psicologia Social

20

4. Avaliando o Self: auto-estima

A auto-estima refere-se à avaliação de si próprio, seja de modo positivo ou negativo, e contém

julgamentos sociais que as pessoas internalizaram. Também abarca numerosos auto-esquemas; as pessoas avaliam-se a elas próprias de modo favorável nalguns aspectos, mas não outros.

Ao passarmos a abordar a auto-estima, movemo-nos da informação factual contida no nosso autoconceito para também se incluírem as avaliações ligadas a esta informação. Em termos cognitivos podia-se dizer que passamos de “cognições frias” para “cognições quentes”. É óbvio que autoconceito e auto-estima não são totalmente independentes. Não se pode valorizar algo a não ser que já se tenha uma ideia clara do que é. E, inversamente, ter uma ideia clara de algo inclui certamente sentimentos avaliativos disso. Ambos estão ligados.

4.1 Avaliação da auto-estima

A nossa auto-estima global depende do modo como avaliamos as nossas identidades de papéis

específicos, isto é, conceitos do self em papéis específicos (estudante, amigo, filha) e as qualidades pessoais. Avaliamos cada uma delas como sendo relativamente positivas ou negativas. Segundo a teoria, o nosso nível global de auto-estima é o produto destas avaliações individuais,

com cada identidade pesada segundo a sua importância.

Habitualmente estamos inconscientes do modo preciso como combinamos e pesamos as avaliações das nossas identidades específicas. Se pesamos as identidades avaliadas positivamente como + importantes, podemos manter um elevado nível global de auto-estima ainda que admitindo uma certa fraqueza. Se damos um grande peso às identidades avaliadas negativamente, teremos baixa auto-estima global mesmo se temos muitas qualidades de valor.

Dispõe-se de diversas medidas da auto-estima, mas provavelmente uma das + populares seja a escala elaborada por Rosenberg. Segundo Rosenberg, os resultados desta escala permitem prever emoções e comportamentos das pessoas.

4.2 Desenvolvimento da auto-estima

(Gordon Allport) As raízes da auto-estima mergulham na infância. A auto-estima torna-se uma parte importante da auto-consciência entre os 2 e 3 anos. Por essa altura as crianças começam a exercer controlo sobre elas próprias e sobre os outros objectos. Se fracassam constantemente ou são frustradas nas suas tentativas de autonomia, a sua auto-estima ressente-se.

Investigação: Quando os pais dão liberdade às crianças ou quando lhes explicam as razões que estão por trás das restrições, a auto-estima desenvolve-se. As crianças com maior auto- estima provêm de famílias com estilos educativos “indulgentes” ou “autoritativos” (democráticos). Os pais indulgentes envolvem-se com dificuldade com os seus filhos, mas permitem-lhes fazer as suas próprias escolhas. Os pais autoritativos também se envolvem com os seus filhos, mas mantêm regras e dão + assistência. Os pais autoritativos explicam as razões das suas regras e permitem às crianças questionar as suas restrições.

Por outro lado, as crianças com a auto-estima + baixa são originárias de famílias que são “autoritárias” ou “negligentes”. Os pais autoritários exigem submissão inquestionável e não se envolvem com os seus filhos. Os pais negligentes não exigem uma disciplina estricta nem se envolvem com os seus filhos.

Estudos: uma baixa auto-estima na idade adulta pode desenvolver-se a partir de experiências infantis desagradáveis, tais como medo de castigo, preocupações com as notas escolares, ou a

Psicologia Social

21

percepção de que uma pessoa é feia, hospitalização de um dos pais por doença mental, um outro casamento de um dos pais, ou a morte de um pai.

4.3 Auto-estima e comportamento

A auto-estima tem uma grande influência na vida quotidiana. As pessoas com elevada auto-

estima muitas vezes comportam-se de modo bastante diferente das pessoas com baixa auto- estima. A investigação indica que alta auto-estima está associada com implicação social activa e propiciadora de conforto, ao passo que baixa auto-estima é um estado debilitante.

Crianças, jovens e adultos com elevada auto-estima são sociáveis e populares com os seus

colegas, confiam + nas suas próprias opiniões e julgamentos e estão + seguras das percepções de si próprias. São + assertivas nas suas relações sociais, + ambiciosas, e obtêm melhores resultados académicos. Quando submetidos a testes psicólogos aparecem como sendo + saudáveis, mais bem adaptados,

e relativamente isentos de sintomas.

Em contextos escolares os estudantes com baixa auto-estima envolvem-se menos em discussões na turma e nos grupos formais e usualmente não acedem à liderança. As pessoas com baixa auto-estima são infelizes vêem-se a elas próprias como fracassadas. Pode acontecer que uma atitude derrotista envolva uma pessoa num círculo vicioso.

Perante o fracasso, um resultado provável perante tal atitude negativa, culpabilizam-se, sentem-

se ainda + incompetentes e mantêm os seus baixos níveis de auto-estima.

4.4 Variações na auto-estima

Muito embora os níveis de auto-estima sejam relativamente estáveis, pode no entanto haver variações. Muitas vezes essas variações ocorrem durante alguns minutos, outras vezes durante anos.

4.4.1 Adolescência

Os acontecimentos da adolescência podem abanar a auto-estima.

O crescimento físico rápido e outras mudanças podem causar grandes estragos na imagem

corporal e lançar desordem na auto-estima. As raparigas que amadurecem + cedo e os rapazes que amadurecem + tarde parecem sofrer + no seu desenvolvimento social, incluindo na sua auto-estima. Alguns destes efeitos podem ainda persistir na idade adulta.

4.4.2 Experiências

A investigação mostra que as boas avaliações dos professores, dos experimentadores ou dos

namorados levantam a auto-estima, e as más avaliações baixam-na, pelo menos temporariamente. Acontecimentos negativos, tais como a morte de um amigo íntimo também podem baixar a nossa auto-estima. Por outro lado, experiências positivas reforçam a nossa auto-

estima. Mesmo circunstâncias que produzem um aumento ou abaixamento temporário no nosso estado de espírito podem produzir um efeito correspondente na nossa auto-estima.

4.4.3 Identidade étnica de grupos minoritários

Muitas vezes tentamos aumentar a nossa auto-estima à custa dos outros. Fazemos tal

sobreavaliando os grupos e os membros dos grupos com que nos associamos, isto é, que formam

a nossa identidade social, e subavaliando outros grupos e os seus membros.

Psicologia Social

22

Os membros de minorias étnicas podem ter problemas especiais no desenvolvimento da auto- estima positiva. Por causa de preconceitos, os membros de grupos minoritários podem ter uma imagem negativa deles próprios como reflexo das avaliações das outras pessoas.

América – Surpreendentemente a grande maioria dos estudos oferecem pouco apoio para a conclusão que as minorias étnicas têm uma auto-estima substancialmente + baixa.

Um modo como as minorias étnicas se têm confrontado com a intolerância é mediante a redescoberta da sua própria herança étnica e a rejeição activa dos estereótipos negativos da sociedade. A identidade étnica que é um tipo de identidade social, é o sentido de identificação pessoal de um indivíduo com um determinado grupo étnico. A identidade étnica de uma pessoa é um estado de espírito e a sua aquisição requer muitas vezes um esforço considerável.

(Jean Phinney) Modelo de formação da identidade étnica:

Estádio 1 – identidade étnica não examinada, as pessoas em situação minoritária muitas

vezes não examinaram pessoalmente as questões de identidade étnica, e podem ter interiorizado inconscientemente estereótipos da cultura dominante nos seus próprios autoconceitos. Uma consequência negativa da internalização destas crenças sociais depreciativas no autoconceito é que as pessoas podem experienciar auto-aversão.

Estádio 2 – busca de identidade étnica, as pessoas têm uma experiência que expulsa temporariamente as suas perspectivas antigas do mundo, tornando-se receptivas à exploração da sua própria etnicidade. Seja qual for o desencadeador, este estádio implica muitas vezes um intenso período de busca, em que as pessoas tentam destruir a antiga identidade negativa e substituí-la por uma nova identidade positiva. Durante o estádio, os membros do grupos minoritários também podem desenvolver uma identidade antagonista, em que rejeitam activamente os valores da cultura dominante e denigrem os membros do exogrupo dominante.

Estádio 3 – é uma compreensão + profunda e uma avaliação da etnicidade da pessoa, identidade étnica realizada. Neste estádio final do desenvolvimento da identidade, confiança e segurança na nova identidade étnica encontrada permite que as pessoas sintam um sentido profundo de orgulho étnico juntamente com uma nova compreensão do seu lugar na cultura dominante. São capazes de identificar e de internalizar os aspectos da cultura dominante que são aceitáveis e revoltar-se contra os que são opressores. O desenvolvimento de uma identidade étnica positiva funciona, pois, não só como protectora de minorias denegrias da continuação do racismo no seus país, mas também permite-lhes utilizar esta identidade social positiva para prosseguir os objectivos da sociedade dominante. Estas transformações criam uma elevada auto-estima e um autoconceito estável.

4.5 Autodiscrepâncias

Listas que representam autoguias, ou padrões pessoais:

1. self ideal - o self que gostaria de ser, englobando todas as esperanças e objectivos

2. self ideal para os outros – as características que outras pessoas importantes desejam que atinja

3. self devido – as características que sente dever ter em termos de um sentido de dever, responsabilidade, e obrigações para os outros

4. self devido aos outros – as características que outras pessoas importantes sentem que deve ter.

(Higgins) Com base na teoria da autodiscrepância, podem-se usar estas listas para predizer não só o nível de auto-estima, como também o seu bem-estar emocional. Há, em 1º lugar, a possibilidade de discrepâncias entre o self actual e self devido. No caso do seu autoconceito ser incompatível

- com os seus próprios sentimentos de responsabilidade ou

- com as obrigações que impedem sobre si por parte de outra pessoa significativa sentirá culpa, vergonha. Em casos extremos poderá sofrer de desordens relacionadas com a ansiedade.

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Em 2º lugar, há a possibilidade de discrepâncias entre o self percepcionado e o self ideal. Se a sua primeira lista não se ajusta bem

- com os seus próprios ideais, esperanças e aspirações ou

- com as obrigações que impendem sobrem si por parte de outra pessoa significativa pode sentir-

se desiludido, frustrado e não realizado. Em casos extremos, a desagradável concretização que tais sonhos não poderão realizar-se poderá levá-lo à depressão.

Todos vivemos com alguma discrepância entre o nosso autoconceito e as nossas autoguias. Levanta-se todavia a questão de se saber porque é que nem todos sofremos de depressão e ansiedade. Segundo Higgins, as consequências emocionais da autodiscrepância dependem de 2 factores: a quantidade e a acessibilidade. Quanto maior seja a quantidade de discrepância, + intenso será o desconforto emocional, e quanto + conscientes estejamos desta discrepância + intenso será o desconforto.

Efeitos de discrepâncias com o autoconceito

Discrepância

 

Estado emocional

 

Desordem

Deveres próprios

Agitação por auto-crítica (culpa)

 

Ansiedade

Deveres dos outros

Agitação por medo e ameaça (vergonha)

 

Ansiedade

Ideais próprios

Desânimo

por

falta

percepcionada

de

auto-

Depressão

realização (desilusão)

 

Ideais dos outros

Desânimo por perca antecipada de afecto social (falta de orgulho)

Depressão

4.6

Autoconsciência

A auto-focalização, isto é, em que medida a atenção de uma pessoa está dirigida para dentro de si em oposição para fora de si, para o meio, está ligada à memória e à cognição. Só nos podemos focalizar em nós próprios se relembrarmos acontecimentos passados relevantes e processarmos informação actual relevante. Um breve período de autofocalização é susceptível de melhorar o autoconhecimento.

4.6.1 Estados de autoconsciência

(Robert Wicklund) Segundo a sua teoria da autoconsciência, geralmente não estamos autofocalizados; no entanto certas situações levam-nos de modo previsível a voltarmo-nos para o interior e a tornarmo-nos objectos da nossa própria atenção.

Quando estamos perante um espelho ou um público, tornamo-nos o objecto da nossa própria atenção. Se os espelhos são susceptíveis de produzir autoconsciência privada, já os públicos provocam autoconsciência pública.

Sabe-se que certos tipos de contextos sociais aumentam a autoconsciência. A autoconsciência pode ser induzida pelo facto de nos vermos num espelho, de ouvirmos a nossa voz gravada, de sermos autografados, de estarmos num contexto não habitual, ou de estarmos em minoria num grupo.

Segundo Wicklund a autoconsciência induz um processo de auto-avaliação em que as pessoas começam a focalizar-se até que ponto o seu comportamento se compara com normas, regras ou padrões que se integram no autoconceito. Muitas vezes esta auto-avaliação revela uma discrepância entre a sua condição habitual ou comportamento e os seus padrões ou objectivos. Esta comparação pode pois ser frequentemente uma experiência desagradável. É óbvio que se a comparação do self com o padrão é positiva, as pessoas poderão então sentir-se bem e até procurar + auto-reflexão. Perante o desconforto, as pessoas têm 2 recursos: comportar-se de

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modo a reduzir a discrepância ou fugir do estado de autoconsciência. A escolha efectuada depende se as pessoas esperam poder reduzir com sucesso a sua discrepância. No caso positivo, fazem condizer o seu comportamento com o padrão; no caso negativo, fogem da situação de autofocalização e tentam parar de pensar sobre si próprios.

Os padrões internos provêm das outras pessoas e relacionam-se com a moralidade e a realização. Uma pessoa que está autoconsciente pode também tornar-se + consciente dos padrões das outras pessoas. Na área das atribuições, a atenção autodirigida aumenta a aceitação da responsabilidade pessoal para os resultados positivos, mas pode diminuir a aceitação da responsabilidade para os resultados negativos. Tal é especialmente verdadeiro com pessoas com elevada auto-estima que revelam o maior grau de autocomplacência nas suas atribuições.

A auto-consciência, para além de poder ser induzida por agente situacionais, é objecto de

diferenças de certo modo estáveis entre os indivíduos.

4.6.2 Diferentes tipos de autoconsciência

Para investigar a possibilidade da autoconsciência ser um traço de personalidade Alan Fenigstein, Michael Scheier e Alan Buss (1975) construíram um questionário, chamado Escala de Autoconsciência.

A autoconsciência privada diz respeito à capacidade de prestar atenção aos sentimentos e

pensamentos pessoais; a autoconsciência pública define-se como uma consciência geral do próprio enquanto objecto social que tem um efeito sobre os outros; a ansiedade social define-

se pelo mal-estar em presença dos outros.

A autoconsciência privada e pública referem-se a um processo de atenção centrada no próprio,

enquanto que a ansiedade social desponta como reacção a este processo.

Muito embora os sujeitos autoconscientes privada e publicamente estejam nalgum sentido atentos a eles próprios, os seus diferentes modos de estar auto-atentos deveriam acarretar diferentes espécies de comportamentos.

Estudos: pessoas com elevada autoconsciência pública eram capazes de predizer melhor as reacções que suscitarão dos outros, + conformistas às pressões sociais, + sociáveis e + susceptíveis de se desviarem de situações embaraçantes que aquelas com baixa autoconsciência pública.

As pessoas com um traço elevado de autoconsciência mostram maior consistência entre atitudes

e comportamento, manifestam + a tendência para partilhar informações pessoais e íntimas com

colegas. As pessoas altas em autoconsciência privada tendem também a estar + conscientes das mudanças nos seus estados internos corporais. Tem sido mesmo sugerido que tais pessoas

tendem a ser + saudáveis porque podem reconhecer o stress nos seus corpos e providenciar antes que o stress seja fisicamente prejudicial.

Com base nestes estudos pode-se concluir que altos níveis de autoconsciência privada estão associados com um conhecimento dos seus estados internos melhor, + pormenorizado e preciso.

4.6.3 Autoconsciência e uso de álcool

Se a autoconsciência se reveste de interesse em si mesma, tem também várias aplicações práticas. Uma das aplicações + interessantes refere-se ao uso do álcool.

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(Hull) estudou os efeitos do álcool sobre a autoconsciência. Propõe que é porque o álcool reduz a autoconsciência que as pessoas podem usá-lo para tratar com a informação negativa acerca delas próprias. Propôs que as pessoas com elevada autoconsciência privada, na medida em que estão de modo + penetrante conscientes como encontram os padrões internos, podem ser especialmente vulneráveis ao uso de drogas e de álcool.

(Hull e Young) Raciocinaram que as pessoas que tendem a ter elevada autoconsciência quererão beber + álcool após fracasso, porque é doloroso focalizar-se em si mesmo após falhar. As pessoas com uma baixa autoconsciência, contudo, beberam quase a mesma quantidade de vinho apesar do sucesso ou fracasso prévio.

4.6.4 O que é que causa diferenças na autoconsciência?

- Experiências de vida significativas durante os anos de formação

- Efeitos culturais (há alguma evidência que individualistas têm maiores níveis de autoconsciência privada que colectivistas. Os psicólogos sociais hoje em dia conhecem muito + cerca acerca das consequências das diferenças na autoconsciência do que cerca das suas causas.

4.7 Protecção da auto-estima

As pessoas estão motivadas a proteger a sua auto-estima, seja ela alta ou baixa. A maior parte das pessoas têm uma alta auto-estima e querem retroacção de auto-engrandecimento. Algumas pessoas têm uma auto-estima baixa e para verificar as suas auto-avaliações querem retroacção de auto-depreciação.

Técnicas para manter a sua auto-estima:

- manipulação de avaliações

- processamento selectivo de informação

- comparação social selectiva

- compromisso selectivo com identidades

4.7.1 Manipulação de avaliações

Escolhemos associar-nos com pessoas que partilham a nossa perspectiva do self e evitamos fazê-

lo com pessoas que a não partilham.

Um outro modo de manter a auto-estima é interpretar as avaliações das outras pessoas como sendo + favoráveis ou desfavoráveis do que são.

4.7.2 Processamento selectivo de informação

Um outro modo de protegermos a nossa auto-estima é prestar + atenção às ocorrências que são consistentes com a nossa auto-avaliação.

A memória também trabalha na protecção da auto-estima. As pessoas com alta auto-estima

lembram actividades boas, responsáveis e bem sucedidas + frequentemente, ao passo que as

pessoas com baixa auto-estima são + susceptíveis de relembrar as actividades más, irresponsáveis e mal sucedidas.

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4.7.3 Comparação social selectiva

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Quando não dispomos de padrões objectivos para nos avaliarmos a nós próprios, recorremos à comparação social. Escolhendo com cuidado as pessoas com que nos comparamos, podemos adicionalmente proteger a nossa auto-estima. Geralmente comparamo-nos com pessoas que são semelhantes em idade, género, profissão, classe social, capacidades e atitudes. Uma vez que as pessoas fazem uma comparação social, tendem a sobreavaliar os seus padrões relativas.

4.7.4 Compromisso selectivo com identidades

Ainda uma outra técnica implica comprometermo-nos + com auto-conceitos que fornecem retroacção consistente com a auto-avaliação e afastarmo-nos dos que fornecem retroacção que a ameaça. Tal protege a auto-estima global porque a auto-avaliação está baseada + nas identidades e qualidades pessoais que consideramos + importantes.

As pessoas tendem a enaltecer a auto-estima dando + importância a identidades (religiosas, raciais, profissionais, familiares) que consideram particularmente admiráveis. Aumentam ou diminuem também a identificação com um grupo social quando o grupo se torna uma fonte potencial de auto-estima maior ou menor.

As 4 técnicas descritas para proteger a auto-estima retratam os seres humanos como processadores activos de acontecimentos sociais. As pessoas não aceitam passivamente avaliações sociais nem permitem que a auto-estima seja ferida pelas crueldades do mundo social. Nem os sucessos nem os fracassos afectam directamente a auto-estima. As técnicas descritas testemunham a ingenuidade humana na selecção e modificação dos sentidos dos acontecimento são serviço da auto-estima.

5. Relacionado o Self: auto-apresentação

Auto-apresentação – processos pelos quais as pessoas tentam controlar as impressões que os outros formam.

5.1 O self nas interacções sociais

(Cooley e Mead) Sublinharam que os participantes nas interacções sociais tentam tomar o papel do outro e ver-se a si próprios da maneira como os outros os vêem. Este processo permite simultaneamente conhecer o modo como se aparece aos outros e guiar o comportamento social para ter o efeito desejado.

(Erving Goffman) Delineou analogias com o mundo do teatro na formulação da sua teoria da apresentação do self na vida quotidiana. Sugeriu que a vida social é como uma representação teatral em que a representação de cada participante é delineada tanto pelo efeito no público como pela expressão aberta do self. Defendeu que nas interacções sociais cada pessoa segue um papel, à semelhança do que acontece numa peça, isto é, um padrão de comportamentos verbais e não verbais cuidadosamente escolhidos que expressam o self do sujeito. A principal característica do papel é a aparência, o valor social positivo obtido da interacção.

O objectivo da interacção social não é manter a aparência. Manter a aparência é uma condição para que a interacção social continue. Incidentes que ameaçam a aparência de um participante ameaçam também a sobrevivência da relação. É por isso que quando acontecimentos desafiam a aparência de um participante, iniciam-se correctivos para impedir que o embaraço possa interferir na conduta.

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(Alexander) sugeriu também que a auto-apresentação é uma faceta fundamental da interacção

social. As identidades tendem a ser situadas, isto é, as identidades são muitas vezes apropriadas

- com a base para a interacções – unicamente em certas situações (ex.: a relação professor-

aluno que se verifica numa sala de aulas não é apropriada quando as 2 pessoas se encontram

num café).

As 3 teorias da auto-apresentação estão em consonância ao considerar que as outras pessoas estão sempre a formar impressões a nosso respeito e utilizam estas impressões para orientar as suas interacções connosco.

5.2 Motivos da auto-apresentação

Na gestão da impressão foram identificados 2 componentes:

- impressão-motivação refere-se até que ponto se está motivado para controlar o modo como os outros nos vêem, para criar uma impressão particular nas mentes dos outros.

- impressão-construção implica a escolhe de uma imagem particular que se quer criar e alterar

o comportamento de outra pessoa para modos específicos em vista a realizar este objectivo. (Leary e Kowalski) propuseram que a impressão-motivação resulta de 3 motivos primários:

O desejo de obter recompensas sociais (aprovação, amizade e poder) e materiais (subida de ordenado),

Para manter ou para aumentar a auto-estima,

E para facilitar o desenvolvimento de uma identidade.

Estes 3 motivos gerais funcionam geralmente conjuntamente. Comportamentos de auto- apresentação que obtêm recompensas também aumentam auto-estima e ajudam a estabelecer identidades desejadas. Pode, todavia, haver excepções.

O grau em que as pessoas estão motivadas para controlar o modo como os outros as vêem é afectado por uma variedade de variáveis situacionais e disposicionais. A motivação para a gestão da impressão que se dá é maior em situações que envolvem objectivos importantes em que os indivíduos se sentem insatisfeitos com a imagem que projectam (auto-discrepância). A impressão-motivação é mesmo + forte quando uma pessoa se sente dependente ou poderosa que controla recursos importantes ou após um fracasso ou um incidente embaraçante.

(Pg. 197)

5.3 Auto-apresentação e embaraço

Cada um de nós investe pois quer na sua própria apresentação quer na de outrem. Uma auto-

apresentação bem sucedida suscita uma auto-imagem positiva. Se o papel é mal desempenhado,

o sujeito “perde a face”. Há então divergência entre a identidade que este tenta apresentar e a identidade resultante. A pessoa em causa encontra-se numa situação difícil. O embaraço é uma

emoção desagradável quando cremos que não podemos representar um papel de modo coerente numa situação pública.

5.3.1 Embaraço, uma forma de ansiedade social

O embaraço é geralmente visto como uma forma de ansiedade social intimamente relacionado com a timidez, a ansiedade em público e a vergonha.

Embora existam diferenças entre as emoções sociais previamente referenciadas, uma característica comum é a dificuldade de auto-apresentação. Isto é, há uma preocupação com a avaliação e a reacções dos outros.

Diversos autores têm notado uma ligação entre a timidez e a ansiedade em público, por um lado,

e a vergonha e o embaraço, por outro lado.

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(Buss) A timidez e a ansiedade em público são traços que parecem ser consistentes ao longo do tempo e das situações. A timidez surge quando há uma discrepância antecipada entre a auto- apresentação de uma pessoa e o seu padrão para a auto-apresentação ou quando a resposta de um sujeito depende em grande parte das respostas dos outros.

A ansiedade em público surge quando as respostas de uma pessoa são orientadas sobretudo

por planos internos e em nada ou muito pouco por respostas dos outros. Poder-se-ia assim dizer que a timidez e a ansiedade em público surgem respectivamente quando é antecipada em encontros contigentes ou não contigentes uma discrepância entre o padrão de uma pessoa para a

sua auto-apresentação e a sua auto-apresentação actual.

(Buss) Apesar das semelhanças notadas entre vergonha e embaraço assinala diferenças: o embaraço implica por vezes o corar e o riso, não sendo o caso da vergonha; o embaraço é acompanhado geralmente de um sentimento de asneira, enquanto que a vergonha de pesar; um acidente social resulta em embaraço, enquanto que o facto de ser apanhado a efectuar um acto imoral provavelmente suscitará vergonha.

Geralmente a vergonha refere-se a um sentimento de autocensura ou de auto-repugnância. O embaraço surge provavelmente quando é percepcionada uma discrepância entre a auto- apresentação de uma pessoa e o seu padrão para a auto-apresentação.

O embaraço é a consequência negativa de um fracasso em apresentar uma imagem desejada aos

outros que vemos como avaliadores da nossa realização.

É precisamente porque o embaraço é um sinal de fracasso social que tem um efeito dramático na situação social.

Tem havido diversas tentativas para conceptualizar o processo subjacente ao embaraço. Todas elas tendem a enfatizar a necessidade de considerar tanto o acto social, definido como sendo potencialmente embaraçante para o actor, como o sentimento subjectivo do embaraço experenciado pelo actor. Nesse sentido, o embaraço obriga o actor a fazer avaliações cognitivas tanto do evento social como das consequências fisiológicas e comportamentais desse evento. Tais conceptualizações do embaraço sobrepõem-se claramente com as conceptualizações de emoção.

5.3.2 Modelo multifacetado do embaraço

O modelo proposto por Edelmann pressupõe uma complexa interacção de acontecimentos e de

avaliações destes acontecimentos e não tanto uma clara sequência de acontecimentos. Para esta

perspectiva as respostas emocionais podem ser inatas, mas os estímulos evocadores, as avaliações subsequentes e as estratégias de confronto são aspectos aprendidos.

Os principais temas do modelo podem sintetizar-se do seguinte modo:

1. Nas situações sociais os indivíduos tentam controlar imagens do autoconceito perante audiências reais ou imaginadas. Tal pressupõe:

a) que o actor esteja consciente de um objectivo particular ou padrão;

b) que o actor esteja tocado pelo evitamento de percas significativas de aprovação social.

Dado esse padrão, uma ruptura da rotina social, terá como resultado a criação de uma impressão indesejada na imagem projectada do actor.

A consciência de uma discrepância entre o estado presente e o padrão conduz à auto-focalização.

A presença de uma audiência, seja ela real ou imaginada, focaliza a atenção + na autoconsciência

pública do que na autoconsciência privada.

2. Um certo n.º de consequências comportamentais estão associadas com o aumento da auto- atenção pública que resulta de uma ruptura observada da rotina social. A autofocalização em aspectos específicos pode ter como efeito a intensificação da experiência do embaraço.

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3. Como é difícil esconder o embaraço, determinadas estratégias remediativas podem ser adoptadas para recuperar a aprovação social perdida e restaurar a imagem pública do actor.

O ponto de partida do modelo que se tem vindo a apresentar é a avaliação do estímulo que pode

ser externa e/ou interna. Esta avaliação cognitiva pode ter como consequência respostas fisiológicas, comportamentais e a experiência subjectiva do embaraço. A predominância da avaliação externa ou interna dependerá das características do meio que provavelmente contribuem para aumentar a autofocalização, como seja um espelho ou um público ou de diferenças individuais na auto-atenção (elevada autoconsciência pública).

Estratégias de confronto com o embaraço podem ser suscitadas após uma avaliação inicial de estímulos e das reacções da pessoa a esses acontecimentos.

5.3.3 Antecedentes, respostas e estratégias de confronto com o embaraço

Geralmente os acontecimentos embaraçosos estão ligados a um passo em falso, uma inconveniência, uma transgressão que suscita na imagem projectada do actor uma impressão que ele não deseja.

(Pg. 201)

(Modigliani) distinguiu as seguintes classes de acontecimentos embaraçosos:

1. Situações em que a pessoa fica desacreditada pela sua auto-apresentação

2. Situações em que a pessoa se encontra incapaz em responder de modo adequado a um acontecimento inesperado que ameaça impedir o calmo fluxo de interacção

3. Situações em que o actor perde o controlo da sua auto-apresentação não tendo um papel bem definido

4. Situações em que há um embaraço empático, isto é, a pessoa observa outra que parece estar numa situação embaraçosa

5. Situações em que o indivíduo se encontra envolvido em incidentes com conotações sexuais não adequadas.

Reacções que acompanham o embaraço: corar, aumento da temperatura, aumento do ritmo cardíaco, tensão muscular, rir, desvio do olhar e tocar a face.

A ocorrência de um acontecimento embaraçante pode suscitar no actor um certo m.º de estratégias para recompor a sua imagem pública.

Estratégias verbais

A falta de especificação de tentativas verbais de confronto com o embaraço é um pouco

surpreendente devido à literatura extensiva sobre estratégias remediativas verbais.

É possível que de facto os sujeitos dêem uma resposta verbal na altura em que estejam

embaraçados, mas não sejam capazes de recordá-la durante o preenchimento do questionário;

também é possível, no entanto, que as tentativas verbais não sejam as + eficazes para o confronto com o embaraço.

Estratégias não verbais: face (sorrir), olhos (procurar o contacto ocular, evitar o contacto ocular), corpo, comportamento motor e postura.

O embaraço ocorre à volta do mundo quer nas culturas ocidentais quer nas orientais.

A mensagem emergente destas investigações é clara: há uma notável semelhança no embaraço nas diferentes culturas. Apesar da sua língua, religião, clima, nível de industrialização, sentem o embaraço quando acontecimentos indesejados revelam informações indesejadas acerca de si próprios às outras pessoas.

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O quadro geral que emerge dos resultados é que apesar de existirem semelhanças entre as nações nas reacções, nas tentativas de confronto com o embaraço e nas reacções dos observadores, existem também algumas variações notáveis e interessantes.

5.3.4 Implicações sociais do embaraço

Geralmente tentamos comportar-nos de modo socialmente apropriado para assegurar que uma determinada imagem desejada de nós próprios seja apresentada aos outros. Parece pois plausível que o medo do embaraço possa constranger o nosso comportamento, agindo como um mecanismo de controlo social.

Em qualquer situação em que se corra o risco de apresentação de modo discrepante com o desejado, pode-se inibir a dádiva e a procura de ajuda. Mais particularmente o embaraço aumentará e, por consequência, a dádiva de ajuda diminui em presença de vastos públicos. Um resultado que tem sido frequentemente posto em evidência é que a inibição social é produzida pela presença de um público: quanto maior é o público, menor ajuda prestarão as pessoas. Entre as explicações avançadas para este fenómeno, para além da influência social e da difusão de responsabilidade, tem sido referido que os públicos podem inibir a dádiva de ajuda quando as pessoas têm medo que o seu comportamento possa ser visto pelos outros e assim ser avaliado de modo negativo. Neste caso as pessoas temem as consequências embaraçantes de efectuarem julgamentos erróneos acerca da situação.

Outros factores que contribuem para a inibição social da dádiva de ajuda são situações ambíguas, situações embaraçantes e quando o pedido de ajuda é efectuado por uma pessoa deficiente desfigurada. Pelo contrário, a dádiva de ajuda pode aumentar no caso do pedido ser efectuado após um acontecimento embaraçante realizado pela pessoa que dá ajuda.

Do mesmo modo o embaraço aumentará e, por conseguinte, a procura de ajuda diminuirá em público, perante vastos públicos, no caso de a pessoa que ajuda ser fisicamente atractiva, uma criança. Pelo contrário, o aparecimento de embaraço por parte da pessoa que procura ajuda pode aumentar a ajuda recebida.

O medo do embaraço pode, pois, desempenhar um papel importante na possibilidade de se dar

ajuda aos outros ou de se procurar ajuda. Um modo frequente do embaraço de tornar conhecido

no mundo social é através do que as pessoas farão para o evitar.

5.4 Tácticas de auto-apresentação

Há várias tácticas específicas que as pessoas podem utilizar para se apresentarem aos outros. Foram identificadas 5 tácticas principais de auto-apresentação, diferindo no atributo particular que a pessoa está a tentar ganhar: insinuação, intimidação, autopromoção, exemplificação e súplica.

Estratégia

Técnica

Objectivo

Insinuação

Lisonjear e concordar

Ser visto como simpático

Intimidação

Ameaçar

Ser visto como perigoso

Autopromoção

Jactar-se

Ser visto como competente

Exemplificação

“Blasonar”

Ser visto como moralmente puro

Súplica

Rogar

Ser visto como fraco

Insinuação

O objectivo principal do insinuador é ser visto como uma pessoa simpática. Tácticas frequentes

consistem em cumprimentar outras pessoas, ser um bom ouvinte, ser amigável, fazer favores e

conformar-se nas atitudes e comportamento. O insinuador assume, de modo correcto, que tendemos a gostar das pessoas cujas atitudes e valores aparecem semelhantes aos nossos.

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Intimidação

O intimador tenta projectar uma identidade como sendo uma pessoa forte e perigosa. Através de

olhares ameaçantes, de palavras zangadas, de ameaças de violência, os intimidadores tentam ganhar condescendência induzindo medo nos outros.

Intimidador tipo: ladrão com arma, atletas de equipas contrárias.

É óbvio que as ameaças não são muito agradáveis, podendo levar a outra pessoa a fugir da

situação. É por essa razão que a intimidação pode ser utilizada a maior parte das vezes nas relações que são em certos aspectos não voluntárias e em que não se pode escapar facilmente.

Autopromoção Esta táctica envolve tentativas da parte de um actor para realizar uma identidade como sendo uma pessoa competente e inteligente. Os insinuadores querem que os outros gostem deles, já os autopromotores querem respeito para as suas capacidades. As tácticas de autopromoção são particularmente importantes para obter um objectivo imediato, tais como o ingresso num curso ou emprego de difícil acesso.

Exemplificação Consiste em acções que a pessoa utiliza para ganhar respeito e admiração dos outros projectando uma imagem de moralidade, de integridade e de dignidade. O exemplificador tem como objectivo último modificar o comportamento do público alvo. Através de uma actuação admirável uma pessoa amplifica um determinado código, norma ou padrão de conduta que deveria orientar o comportamento de todas as pessoas.

Súplica

A súplica faz com que uma pessoa pareça fraca e dependente. Pode ser a única táctica disponível

para aquela pessoa que não dispõe dos recursos requeridos pelas tácticas precedentes. Esta táctica funciona porque há normas espalhadas na nossa cultura que vão no sentido de que as pessoas necessitadas devem ser ajudadas. Estas normas são + salientes quando a dependência não aparece como sendo da responsabilidade do sujeito como, por ex., uma pessoa que nasceu deficiente em oposição a uma pessoa que se tornou alcoólico. Mas é óbvio que demasiada súplica tem os seus custos. Por um lado, as pessoas fracas raramente podem estar seguras de que os outros viverão em conformidade com essas normas e, por outro lado, a fraqueza não é muito atractiva.

As 5 tácticas de auto-apresentação podem ser utilizadas podem ser utilizadas pela mesma pessoa em situações diferentes.

Refira-se, enfim, que as tácticas referidas têm como objectivo influenciar o modo como os outros nos vêem, mas também podem mudar o modo como nos vemos. Podem influenciar o nosso autoconceito.

5.5 Estilo de auto-apresentação: Autovigilância

Todos nós recorremos a estratégias de auto-apresentação. Contudo algumas pessoas são + susceptíveis de enveredarem por auto-representações estratégicas que outras. Segundo Mark Snyder, estas diferenças estão relacionadas com um traço de personalidade denominado de autovigilância que é a tendência para usar pistas de auto-apresentação das outras pessoas para controlar as suas próprias auto-apresentações. As pessoas com elevada autovigilância estão conscientes das impressões que suscitam nas interacções sociais e são sensíveis às pistas sociais a propósito de como se deveriam comportar em diferentes situações. Percepcionam-se como flexíveis e podem não agir em consonância com os seus sentimentos interiores quando a situação lho reclama. Ao invés, às pessoas com baixa autovigilância falta-lhes a habilidade e a motivação para regular as suas auto-apresentações expressivas. Os seus comportamentos expressivos são o reflexo dos seus estados interiores

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permanentes e momentâneos. Por consequência, tendem a comportar-se + de modo consistente com a sua própria auto-imagem do que como pensam que a situação lhe reclama.

Há investigadores que apontam 3 factores na escala de autovigilância. Um parece ter a ver com a habilidade em representar; outro tem a ver com a orientação para os outros (ser tocado pelas avaliações dos outros); e o último refere-se à extroversão ou sociabilidade. Sugerem que a escala é um instrumento imperfeito porque não mede uma coisa, mas várias coisas.

Estudos: Poder-se-ia esperar que as pessoas com elevada autovigilância prestassem atenção às outras pessoas e as pessoas com baixa autovigilância prestassem atenção a elas próprias. As pessoas com baixa autovigilância eram + susceptíveis de falar na 1ª pessoa (eu, meu, minha, etc.) que as pessoas com alta autovigilância. Estas era + susceptíveis de falar em 3ª pessoa (ele, ela, seu, sua, etc.). Tais diferenças sugerem que as pessoas com alta autovigilância estão + atentas às acções e reacções dos outros, e as pessoas baixas em autovigilância preocupam-se + com elas próprias.

Estas diferenças na atenção reflectem-se também nas escolhas interpessoais que as pessoas fazem. As pessoas com alta autovigilância tendem a escolher um companheiro com base no modo como essa pessoa joga; as pessoas com baixa autovigilância são + susceptíveis de escolher um companheiro com base no modo como gostam dessa pessoa. Os resultados evidenciam que as pessoas com baixa autovigilância são + comprometidas com as pessoas, ao passo que as pessoas altas em autovigilância são + comprometidas com situações.

Há também estudos que têm mostrado que as pessoas com elevados valores em autovigilância são + susceptíveis de mudar o seu comportamento para seguir a situação que a pessoa com valores baixos. Como seria de esperar, as pessoas com valores altos em autovigilância possuem maiores habilidades sociais, são + susceptíveis de iniciar interacções sociais e + atentas a pistas sociais em situações ambíguas. Aprendem + depressa comportamentos sociais apropriados e são melhores na compreensão de comportamentos não-verbais.

Poderá haver 2 razões diferentes por que as pessoas com elevada autovigilância modificam o seu comportamento para se ajustar às expectativas e às pressões da situação. Tem-se efectuado a distinção entre estratégias de evitamento/protecção e de aquisição/agressão. Pessoas com valores altos em autovigilância que adoptam uma orientação de evitamento/protecção tendem a estar inseguras, a ter uma auto-estima baixa e a ser tímidas.

À 1ª vista poderá parecer que a autovigilância é muito semelhante ao construto de autoconsciência discutido previamente. Contudo, a autovigilância focaliza-se + nas habilidades de auto-apresentação; a autoconsciência focaliza-se + na auto-atenção.

III. CRENÇAS DE CONTROLO E ATRIBUIÇÕES

1.

Introdução

A vida é uma constante procura de controlo. Gastamos muito do nosso tempo e esforço procurando concretizar um sentido de controlo.

No âmago das relações humanas, quer sejam entre indivíduos quer entre grupos, as relações com o controlo estão sempre presentes. Agressão e conflito, dominação e submissão, negociação e cooperação são alguns dos resultados a que chegam as pessoas para resolver problemas de controlo. Em suma, o tema do controlo em todas as suas variações permeia todos os aspectos da vida real. Não admira que a psicologia do controlo se tenha tornado uma área de investigação dominante.

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Locus de controlo – uma crença, percepção ou expectativa de controlo do reforço. Por sua vez, as atribuições causais surgem tomando por base crenças que permitem explicar e controlar os acontecimentos da vida quotidiana.

Socialmente é + valorizada a crença de controlo (internalidade) em termos de sucesso, de saúde psicofísica ou de adaptação social. É a chamada norma de internalidade que não provém apenas de um puro determinismo psicológico, mas pode encontrar fundamento nas práticas educativas visando o controlo do poder.

2. A ilusão de controlo

A crença de que podemos controlar o nosso destino é confortante. Talvez em consequência disso

as pessoas se enganem a si próprias muitas vezes pensando que têm + controlo do que

efectivamente têm.

Foi todavia Langer (1975) quem melhor ilustrou as manifestações desta ilusão de controlo. Definiu-a como sendo a expectativa de uma possibilidade de sucesso muito superior à probabilidade objectiva.

A propensão em acreditar que os acontecimentos são controláveis é aparentemente tão forte que

bastarão alguns resultados positivos e rápidos para provocar a ilusão de controlo.

O sucesso numa tarefa pode pois criar a ilusão de controlo.

As pessoas que conhecem um sucesso inicial pensam que têm jeito e esquecem, por conseguinte,

os fracassos ulteriores que poderão sofrer. Este processo revela a nossa tendência em pensar que

os acontecimentos são controláveis, de modo que quando encontramos sucesso ou resultados positivos iniciais nalgum domínio, temos tendência a desenvolver uma ilusão de controlo para avaliar os acontecimentos seguintes.

Resultados deste género não querem dizer que não temos nunca controlo das situações e dos resultados. Todavia a nossa crença no controlo pode ser + ampla do que as fronteiras actuais do controlo.

3.1 Popularidade e definição

3. Locus de controlo

A

grande atenção dos psicólogos prestada a este construto deve-se certamente, como reconhece

o

próprio Rotter, à importância das expectativas, do valor do reforço e da situação para a

interpretação do comportamento humano. Efectivamente, o locus de controlo toca a complexidade da pessoa e do seu comportamento, dada a importância das expectativas de controlo do reforço e do valor do mesmo reforço para o comportamento, considerando sempre o contexto.

(Rotter) considerado o pai deste construto, particularmente com a sua monografia de 1966, onde teorizou sobre esta variável e apresentou a sua escala, inicialmente não usava a expressão locus de controlo, mas controlo interno-externo de reforço, considerando-o uma crença, uma percepção, uma expectativa, ou ainda uma interpretação. Esporadicamente denomina também esta variável de atitude.

(Rotter) descreve deste modo o controlo interno e externo: Quando o reforço é percebido pelo sujeito como seguindo-se a alguma acção sua, mas não estando completamente dependente dessa acção, então, na nossa cultura é tipicamente percebido como resultado da sorte, do acaso, do destino ou sob o controlo de outros poderosos, ou como imprevisível, dada a grande complexidade de forças que o rodeiam. Quando o acontecimento é interpretado deste modo por

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um indivíduo, designamos isto uma crença no controlo externo. Se a pessoa percebe que o acontecimento depende do seu próprio comportamento ou das suas características relativamente permanentes, apelidamos isto de uma crença no controlo interno.

Por conseguinte, designa-se um indivíduo como “interno” quando ele tem a percepção ou a crença de que controla a situação ou o reforço e por isso tende a atribuir os resultados a si mesmo (o “lugar” de controlo está dentro dele), enquanto o “externo” sente que não controla os acontecimentos ou que os resultados não são dependentes do seu comportamento, e por isso tende a atribuí-los a causas alheias à sua própria vontade, como aos outros poderosos, à sorte ou ao acaso (o “lugar” de controlo está fora dele).

Não se trata de tudo ou nada, mas simplesmente de uma tendência maior ou menor para um dos pólos. O controlo interno-externo se refere ao grau segundo o qual o indivíduo crê que o que lhe acontece resulta do seu próprio comportamento ou então é resultado da sorte, do acaso, do destino ou de forças para além do seu controlo.

Rotter compreendeu a importância de, juntamente com o construto locus de controlo, ter um bom instrumento de avaliação. Por isso no mesmo artigo monográfico onde teoriza sobre o novo conceito, apresenta também a sua escala.

Rotter apresentou em 1966 a sua escala I-E com 29 itens (apenas 23 são contáveis, sendo os outros 6 de despistamento). Para cada um dos itens o sujeito deve escolher uma resposta entre 2 alternativas que lhe são propostas (uma afirmação “interna” e uma afirmação “externa”) que + corresponde ao que pensa.

3.2 Diferenças comportamentais

Inúmeras investigações propuseram-se estabelecer as diferenças de comportamento correspondendo a diferenças de crenças no controlo dos reforços. Diferenças no locus de controlo estão relacionadas com o comportamento em situações competitivas. Solicitações competitivas levam as pessoas com uma orientação externa a desistir. Os internos excedem-se + que os externos quando está envolvida a competição, mas não diferem numa situação de cooperação.

Dado que os internos se caracterizam por uma maior confiança neles próprios que os externos, seria de esperar que fossem menos influenciados que os externos.

A 1ª investigação que examinou a relação entre locus de controlo e resistência à influência foi efectuada por Odell. Os externos mostraram maiores tendências a conformarem-se.

Estudo: quando as paradas de êxito se revestem de algum valor para o indivíduo, os internos acreditam + nos seus próprios julgamentos que os externos.

Se em geral se tem encontrado que os externos são + conformistas, o trabalho de Spector acrescenta uma precisão a esses resultados, tendo em conta a distinção entre conformidade normativa, isto é, a que corresponde ao desejo de não cortar com os outros, e conformidade informativa, isto é, a que denota a necessidade de responder com a maior certeza possível tendo em conta as respostas dos outros como informações. Os resultados indicaram que os externos se diferenciavam dos internos relativamente à conformidade normativa.

Nas suas interacções sociais, os internos tomam medidas para controlar o resultado. Mesmo nas relações sexuais, a internalidade está associada nos 2 sexos com interacções + frequentes e satisfatórias com o sexo oposto.

(Midlarsky) Ainda no domínio das relações interpessoais refiram-se as diferenças entre internos e externos nos comportamentos de ajuda e nas condutas de liderança. Os internos prestam + ajuda às pessoas que delas precisam que os externos.

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(Johnson) As investigações relativamente à relação entre internalidade e liderança apontam no sentido de os internos se sentirem + à vontade no papel de chefe que os externos.

(Earn) Em contexto laboral seria de esperar que o aumento de salário agisse como um incentivo para se trabalhar + e se estar + satisfeito com o trabalho. Tal não é totalmente verdade, e o locus de controlo é um dos factores que complica essa relação. Em contextos laborais é avançada a hipótese de que os internos trabalham + e estão + satisfeitos com o trabalho.

Foi igualmente demonstrada a capacidade dos internos em prestarem atenção à informação do meio em situações da vida real. Estes são muito + levados a reagir a informações de índole médica para uma mudança dos seus hábitos de vida que os externos. Tal parece indicar que os internos levam uma vida + sadia e + segura que os externos. Mesmo quando estão doentes ou feridos, parecem sair-se melhor. O indivíduo que assume uma parte da responsabilidade de um acidente grave de que foi vítima conhece uma cura + rápida e completa.

(Escovar) As transformações comunitárias devem começar pela transformação das pessoas, sentindo-se + responsáveis pelo seu destino e + confiantes na mudança.

Escovar avança um modelo psicossocial do desenvolvimento. Neste modelo é salientada a necessidade de se romper o círculo vicioso em que as atitudes das populações carecidas conduzem a atitudes e comportamentos que, por sua vez, retro-alimentam essas mesmas características. Assim, a sorte, o azar, a vontade divina, o destino, os outros poderosos, etc. são considerados por estas pessoas como responsáveis pelos seus destinos.

Ao invés, um dos factores que visa o desenvolvimento da comunidade é o desenvolvimento da crença de que as pessoas podem interferir nos seus destinos, o que caracteriza as pessoas consideradas internas.

Em suma, quando se é interno é-se + bem sucedido e adaptado social e emocionalmente do que quando se é externo.

3.3 Investigação intercultural

O estudo de diferenças em grupos nacionais e étnicos são, segundo Phares, particularmente importantes, não só porque podem mediar diferenças grupais em certas espécies de comportamento, mas também por causa das suas implicações em relação aos antecedentes das crenças de internalidade.

3.3.1 Comparações nacionais

Tendo em conta as grandes semelhanças culturais entre países anglo-saxónicos não seria de esperar encontrar grandes diferenças no locus de controlo entre esses países.

Também as diferenças entre países europeus e entre a Europa e os estados Unidos tendem a ser pequenas. Pelo contrário, há diferenças consistentes entre americanos e asiáticos, obtendo os japoneses, em particular, um score alto em externalidade.

Uma ideia que também tem sido evidenciada é a de que as pessoas das nações industrializadas são + internas que as dos países em vias de desenvolvimento.

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3.3.2 Comparações com grupos étnicos e minoritários

São assaz numerosas as investigações em que se estudam grupos minoritários, sobretudo nos Estados Unidos. Apesar da heterogeneidade destes estudos, parece que a linha mestra nestas investigações aponta para uma maior externalidade dos grupos minoritários.

Os estudos com imigrantes e minorias são típicos de muita da investigação com o construto locus de controlo, isto é, os seus resultados nem sempre são consistentes e por vezes são contraditórios. Apesar disso, os resultados tendem geralmente a confirmar a hipótese de uma ligação entre expectativas generalizadas de controlo de reforço e a existência de reforços sociais valorizados no mundo real. Neste género de estudos, para se poderem fazer inferências válidas sobre a influência de uma variável como a etnicidade, nem sempre outras variáveis como idade, sexo, instrução e nível sócio-económico foram controladas, o que poderá contribuir para uma certa incongruência dos resultados. Sabe-se, por ex., que os grupos favorecidos do ponto de vista sócio-económico são + internos.

3.4 Desejo de controlo

(Jerry Burger) Distingue:

- locus de controlo refere-se a quanto controlo pessoal as pessoas percepcionam ter

- desejo de controlo reflecte quanto controlo pessoal as pessoas preferem ter. Os dois não são a mesma coisa e são possíveis diferentes combinações de cada um.

As pessoas que querem sentir-se com controlo são + susceptíveis de controlar uma conversa, de se envolverem em actividades da comunidade e menos conformistas às pressões normativas. As pessoas com alto desejo de controlo são também + susceptíveis de sobressaírem na realização de tarefas. (Burger) sugere 4 razões para a tendência das pessoas altas no desejo de controlo, sobressaírem:

- têm objectivos + elevados

- fazem um esforço extra em ocasiões apropriadas

- persistem + tempo em tarefas difíceis

- dado que os sujeitos com alto desejo de controlo tendem a assumir os seus sucessos e a atribuir os seus fracassos à sorte, são + susceptíveis de fazer + esforço nas tarefas subsequentes.

Locus de controlo e desejo de controlo são diferenças individuais no modo como vemos as nossas relações com as situações. Afectam o comportamento em contextos diferentes.

4. Reacções à perda de controlo

Muito embora possa ser gratificante acreditar que se tem controlo sobre os acontecimentos, nem sempre se pode ter esse controlo.

4.1 Teoria da reactância

A teoria da reactância psicológica explica algumas das nossas reacções à perca de controlo ou

de liberdade de escolha. A reactância psicológica é uma motivação para restaurar liberdades comportamentais ameaçadas. Segundo esta teoria, a reactância é activada quando a liberdade de uma pessoa para se comprometer com algum comportamento é ameaçada.

A teoria da reactância prediz que tentativas do género para limitar a liberdade das pessoas deveriam aumentar a probabilidade de “reagirem”.

A censura constitui um exemplo de aplicação da reactância.

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4.2 Desânimo aprendido

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(Seligman) Talvez o resultado + negativo de experiências repetidas de falta de controlo seja o desânimo aprendido – crença que os resultados de uma pessoa são independentes das suas acções. A 1ª investigação sobre esta problemática foi efectuada com animais (cães). Seligman sugeriu 3 espécies de défices em resultado de experiências com resultados

incontroláveis:

-

défice motivacional, pelo que o animal não tenta aprender novos comportamentos

-

défice cognitivo, pois a aprendizagem não se efectua

-

défice emocional, tornando-se o animal deprimido porque os resultados são incontroláveis.

O

desânimo aprendido observado nos animais é também, uma resposta humana.

A

noção de desânimo aprendido tem também sido evocada para explicar as reacções a uma

ampla variedade de agentes de stress, tais como ruído, desemprego, sobrepovoamento e desastres tecnológicos.

O desânimo aprendido pode ser uma resposta para as pessoas que sentem que não têm controlo

das situações.

Para Seligman, a depressão é uma forma de desânimo aprendido em virtude de se experienciar resultados incontroláveis. Como resposta foi desenvolvido o modelo reformulado do desânimo aprendido.

O novo modelo está baseado em conceitos da teoria da atribuição, pois o que importa são as

atribuições da pessoa ao que causou a falta inicial de controlo. 3 dimensões:

- interna vs. externa, refere-se a se se as causas dos acontecimentos são atribuídas a aspectos

da pessoa em oposição aos da situação

- estável vs. instável, refere-se a se se espera que as causas persistam ou flutuem no tempo

- global vs. específica, refere-se a se a atribuição tem implicações difundidas ou circunscritas.

Segundo a formulação deste modelo, a gravidade dos défices de desânimo é maior quando a falta de controlo é atribuída a factores internos, estáveis e globais.

A experiência do desânimo aprendido nos seres humanos parece depender de um padrão

complicado de explicações.

4.3 Dependência auto-induzida

Um sentimento de perda de controlo pode ser suscitado por outros factores, para além de resultados incontroláveis que inicialmente engendram o desânimo aprendido. Uma ilusão de incompetência pode ser criada por um certo n.º de situações.

O facto de se ser rotulado de dependente, pode contribuir para criar a dependência (ex.: terceira

idade).

5. Atribuições

O tema da atribuição é um dos domínios + importantes da investigação na psicologia social nas 2

últimas décadas.

A sua importância transparece, não só pela quantidade de trabalhos suscitados, como também

pelas discussões proporcionadas. Tal importância advém do facto de a atribuição nos ajudar a predizer e de certo modo a controlar a nossa experiência social. Uma vez que acreditamos que

compreendemos as causas do comportamento, reagiremos com certos pensamentos, sentimentos

e respostas. Enfim, as atribuições acerca de acontecimentos passados influenciam as nossas expectativas de futuro.

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4 princípios gerais que são habitualmente aceites:

a) A atribuição de causalidade é uma actividade com ampla difusão na vida quotidiana;

b) as atribuições podem não ser exactas, mas sujeitas a erros;

c) as pessoas comportam-se em função de como percepcionam e interpretam os factos;

d) a actividade atribucional desempenha uma função adaptativa.

5.1 O que é uma atribuição?

5.1.1 Definição

Atribuição – inferência que pretende explicar porque é que um determinado acontecimento ocorreu ou que tenta determinar as disposições de uma pessoa.

A questão do porquê que nos colocamos tanto pode ser os nossos próprios comportamentos como

sobre os dos outros. A explicação que se avança torna-se então a causa percepcionada de um acontecimento ou de um comportamento correspondendo a uma atribuição. Convém realçar que uma atribuição representa uma causa percepcionada que pode não estar certa.

5.1.2 Tipos de atribuições

Atribuições causais são efectuadas a propósito de causas de um acontecimento.

Atribuições disposicionais procura-se determinar em que medida a acção que uma pessoa acaba de se realizar permite inferir características sobre ela. Dado que as características da pessoa permitem explicar o comportamento, possui-se então uma atribuição para a acção bem como inferências sobre a personalidade efectiva da pessoa.

Atribuições de responsabilidade são + difíceis de apreender pois podem ter pelo menos 3 significações diferentes: a responsabilidade relativa a um efeito produzido, a responsabilidade legal e a responsabilidade moral (auto-censura).

5.1.3 Avaliação das atribuições

O método + comum de medida das atribuições refere-se à avaliação das atribuições causais

específicas, através de:

1. questionários de resposta aberta ou não estruturada, onde os sujeitos referem porque é que

obtiveram sucesso ou insucesso numa dada tarefa;

2. medidas de percentagem das causas, em que os indivíduos indicam a contribuição de cada

causa para o resultado obtido (o somatório das avaliações de percentagem deve ser igual a

100%);

3.

escalas de Likert para um conjunto de causas independentes, onde os sujeitos indicam o grau

de

importância de cada uma delas como determinantes de um dado acontecimento.

Hoje em dia são sobretudo as dimensões causais subjacentes às atribuições que se utilizam na investigação. Assim, os investigadores não medem directamente as atribuições, mas antes as

dimensões causais que descrevem a atribuição em questão. Com este intuito, Russel desenvolveu

a Escala de Dimensões Causais (CDS). Compõe-se de 8 situações hipotéticas de realização a

que os sujeitos respondem indicando as causas responsáveis pelo sucesso e insucesso, avaliando,

em seguida, cada uma dessas causas em 9 escalas semânticas diferenciais (com formato Likert em 9 pontos). A Escala possui 3 itens para cada dimensão causal (locus de causalidade, estabilidade e controlabilidade).

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5.2 Teorias

5.2.1 Causalidade e psicologia ingénua

39

(Heider, 1958) sentiu que a maior parte dos indivíduos são psicólogos “ingénuos” que tentam compreender os outros de forma a tornarem o mundo + previsível.

Para explicar um acontecimento, podem ser invocados 2 conjuntos de condições:

- as causas internas são factores no interior da pessoa (ex.: o esforço, a capacidade e a intenção)

- os factores externos situam-se no exterior da pessoa (ex.: dificuldade da tarefa e a sorte).

Quando alguém observa uma acção A de um sujeito, vai imputá-la a factores internos a esse sujeito (FI) e/ou a factores do meio (FM), donde a equação A = f(FI, FM)

É importante lembrar que a teoria da atribuição se refere não tanto às causas reais do

comportamento de uma pessoa como às inferências que o observador faz acerca das causas.

Segundo Heider, os atributos pessoais são + evidentes quando o meio permite um leque de possíveis comportamentos. Uma vez inferida uma característica acerca de um indivíduo, pode ser usada para predizer o comportamento.

5.2.2 Inferência correspondentes

A teoria das inferências correspondentes (Jones e Davis, 1965) aborda como é que os indivíduos

fazem um certo n.º de inferências sobre as intenções de uma pessoa. (

)

(Pg. 270)

As inferências correspondentes são influenciadas por 3 factores:

Os comportamento que resultam de livre escolha tendem a produzir inferências correspondentes, não sendo o caso de comportamentos que são resultado de escolha forçada.

Prestamos atenção aos comportamentos que produzem efeitos não comuns, isto é, elementos do padrão escolhido de acção que não são partilhados com padrões alternativos de acção. Esses efeitos servem para explicar a atribuição, eliminando-se os efeitos comuns, pois não contribuem com informações susceptíveis de orientarem a escolha.

Também prestamos + atenção nas nossas tentativas para compreendermos os outros, às acções que realizam revestidas de baixa desejabilidade social, que às reacções altas nesta dimensão. Assim, Jones, Davis e Gergen mostraram que as condutas que se afectavam das exigências de um determinado papel numa situação, suscitavam + informações ao observador do que as que correspondiam a esse papel.

A experiência confirmou a hipótese de que o comportamento conforme a um papel, ou imbuído

de desejabilidade social, informa-nos relativamente pouco sobre os traços de personalidade de um indivíduo.

Em suma, a teoria proposta por Jones e Davis sugere que concluímos + provavelmente que o comportamento dos outros reflecte os seus traços estáveis, isto é, obtemos inferências correspondentes acerca deles, quando as suas acções: 1) ocorrem por escolha; 2) produzem efeitos não comuns; e 2) são baixas em desejabilidade social.

5.2.3 Covariação e esquema causal

(Kelley, 1967) propôs um modelo que assenta no princípio de analogia entre as diligências feitas pelas pessoas na vida quotidiana e as efectuadas pelo cientista, e isto a partir de uma análise de covariância. Segundo o princípio de covariância, um efeito atribuído a uma das possíveis

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causas com que, ao longo do tempo, varia. Segundo Kelley procuramos um padrão sistemático de relações e inferimos causa e efeito a partir desse padrão. Este modelo postula que se tem + de uma oportunidade para se observar uma pessoa particular e que observamos outras pessoas em situações semelhantes.

3 tipos gerais de explicação que se podem utilizar quando se tenta interpretar o comportamento de alguém:

- uma atribuição ao actor, ou seja, à pessoa que está envolvida no comportamento em questão;

- uma atribuição à entidade, ou seja, à pessoa alvo com quem o actor está interagindo;

- e uma atribuição às circunstâncias, ou seja, ao contexto particular em que o comportamento ocorre.

O modelo de covariação de Kelley afirma que a atribuição a um destes componentes (actor,

entidade, circunstâncias) depende de 3 aspectos do comportamento. O valor de cada uma destas 3 variáveis comportamentais pode ser alto ou baixo. As atribuições feitas, quer a factores

internos (o actor), quer a factores externos (entidade, circunstâncias), dependendo dos níveis relativos destas 3 variáveis. Estas variáveis comportamentais são:

1. Distintividade. Um comportamento pode ser atribuído com exactidão a alguma causa se só

ocorre quando essa causa está presente, e não ocorre quando essa causa está ausente.

2. Consistência. Sempre que a causa esteja presente, o comportamento é o mesmo ou quase o

mesmo.

3. Consenso. Os outros comportam-se do mesmo modo em relação à mesma entidade.

Este modelo sugere que provavelmente atribuímos o comportamento dos outros a causas internas em situações de baixa distintividade, alta consistência e baixo consenso. Pelo contrário, atribuímos + provavelmente o comportamento dos outros a causas externas em condições de alta distintividade, alta consistência e alto consenso. E geralmente atribuimo-lo a uma combinação destes factores em condições de alta distintividade, alta consistência e baixo consenso.

Explicamos o acontecimento atribuindo-o ao actor, à entidade ou às circunstâncias consoante a combinação particular de informação de que disponhamos acerca das pessoas envolvidas.

O modelo de covariação é útil quando se consideram padrões de acção sobre os quais temos

alguma informação. Todavia não nos ajuda no caso de termos de fazer atribuições a acções isoladas. Para preencher esta lacuna, Kelley propôs um modelo de esquema causal que é uma concepção geral que a pessoa tem sobre o modo como certos tipos de causas interagem para produzir um tipo de efeito particular.

Em certos casos, cada uma das diferentes causas possíveis é suficiente para produzir um dado efeito (esquema das múltiplas causas suficientes).

(Pg. 275)

Noutros casos um efeito só pode manifestar-se se diferentes causas operam ao mesmo tempo (esquema das múltiplas causas necessárias).

(Kelley) menciona certos princípios, em função dos quais um indivíduo elaboraria uma opinião sobre a causalidade:

- o princípio de desconto, diz respeito a situações em que um dado efeito tem múltiplas causas possíveis. O papel de uma dada causa na produção de um dado efeito é subtraído se outras causas plausíveis estão presentes.

- princípio de aumento postula que quando há esforço, sacrifício, embaraço, custos ou riscos

associados à realização de uma acto, a acção é + atribuída ao actor do que o seria de outro

modo.

Psicologia Social

41

Em suma, os esquemas causais são uma espécie de estenografia. Se dispomos de informação ilimitada, o modelo de covariação pode representar os processos inferenciais de modo preciso. Todavia, em muitas situações tenta-se a explicação dos acontecimentos sem se dispor de toda a informação. Nestes casos contaremos com os esquemas causais para se dar sentido ao comportamento observado.

Na sua forma original a teoria das inferências correspondentes tratava sobretudo de dar sentido a instâncias singulares do comportamento, ao passo que o modelo de covariação foi avançado para explicar de modo explícito como é que o sentido é dado a uma sequência de comportamento ao longo do tempo.

5.2.4 Atribuições de sucesso e de fracasso

(Weiner) avançou um modelo de atribuição que se refere a uma área muito + específica do comportamento. O modelo de Weiner diz respeito às explicações para o sucesso e o fracasso de pessoas na realização de uma tarefa.

Como Kelley, Weiner pressupõe que uma das dimensões dos nossos julgamentos é uma comparação entre causas de disposição e de situação, que refere como sendo a dimensão interna/externa. Além disso, Weiner acrescenta uma 2ª dimensão, intitulada instável/estável. Para além de que o locus de causalidade se localiza no interior ou no exterior do sujeito, a causa pode ser percepcionada como perdurando no tempo (estável) ou não (instável). Numa outra versão da teoria, Weiner acrescentou uma 3ª dimensão controlável/incontrolável que se refere à capacidade percepcionada pelo sujeito para actuar sobre a causa de um sucesso modificando-a ou não.

Algumas dúvidas têm sido colocadas quanto à independência da dimensão controlabilidade em relação ao locus de causalidade. A questão reside em saber se as causas externas poderão ser controláveis. Na verdade, parece que todas as causas externas são incontroláveis. Contudo, a decisão em rotular as causas externas como incontroláveis poder-se-á considerar incorrecta, se atendermos ao facto de as causas externas para o actor poderem ser percebidas como controláveis pelos outros.

Ex.: Classificação das causas do sucesso e do insucesso escolar de acordo com as dimensões causais

 

Internas

 

Externas

 

Estáveis

Instáveis

Estáveis

Instáveis

Incontroláveis

Capacidade

Humor

Dificuldade da tarefa

Sorte

Controláveis

Esforço imediato

Esforço

do

Viés do invulgar

Ajuda

habitual

professor

dos outros

Posteriormente, os teóricos do modelo reformulado do desânimo aprendido formularam uma outra dimensão já referida: globalidade vs. especificidade. Os elementos causas específicos afectam as acções individuais específicas, enquanto que os elementos causais globais afectam as acções do indivíduo numa ampla variedade de situações.

A categorização das causas em dimensões tem levantado alguns problemas a nível empírico. Por um lado, pode-se interrogar se a atribuição causal é igual para todas as pessoas.

Por outro lado, pode-se perguntar se uma mesma causa não poderá exprimir diferentes significados em diversos contextos.

O modelo de Weiner é + limitado do que os outros, pois focaliza-se só nas explicações para o sucesso e insucesso em contextos de realização. Além disso, investigação recente pôs em

Psicologia Social

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evidência que as nossas reacções aos acontecimentos e as suas explicações podem ser + complicadas dos que os 3 factores indicados.

5.3 Aplicações da teoria da atribuição

(Kurt Lewin) chamou a nossa atenção para o facto de “nada ser tão prático como uma boa teoria”. O que o autor queria dizer é que uma vez que tenhamos uma compreensão sólida e científica de algum aspecto do comportamento social, podemos utilizar este conhecimento de modo prático.

5.3.1 Violação

(Ryan) refere-se à tendência cultural em “censurar a vítima”. Efectivamente, as pessoas que sofrem crimes e acidentes tendem a ser duplamente vitimadas: em 1º lugar durante o próprio acontecimento e depois pela tendência da sociedade em considerá-las responsáveis pelo acontecido (Janoff-Bulman) Sobre a auto-censura da vítima de violação, 2 espécies de auto-censura:

Na auto-censura comportamental a vítima sabe que está fazendo algo de néscio, tal como andar sozinha a uma hora tardia da noite, deixar entrar uma pessoa estranha em casa, não fechar o carro, etc. trata-se de comportamentos voluntários e, por conseguinte, susceptíveis de se evitarem no futuro. Na auto-censura caracteriológica a falta encontra-se no próprio carácter da pessoa: “Sou uma pessoa fraca, não assertiva”, etc. A auto-censura caracteriológica, é + difícil de modificar que a comportamental. Resultados: em 1º lugar que a auto-censura é uma resposta frequente da vítima de violação. Em 2º lugar, a auto-censura comportamental ultrapassava a caracteriológica. Este trabalho chama- nos a atenção para a aceitação por parte das vítimas da sua própria responsabilidade pelo que lhes aconteceu.

(Howard) Os resultados sugerem a tendência para considerar as vítimas femininas + responsáveis pelo que lhes aconteceu que as vítimas masculinas, e também para se atribuir a auto-censura comportamental a vítimas masculinas e a auto-censura caracteriológica a vítimas femininas.

Os resultados evocados ilustram o impacto de factores sociais e culturais que vitimam certas vítimas. Parece, por conseguinte, ser ainda habitual, sobretudo nas pessoas com atitudes tradicionais acerca dos papéis masculinos e femininos, censurar a vítima de violação, especialmente se a vítima é do sexo feminino. Para além disso, muitas mulheres aceitam a perspectiva de censurar a vítima, por vezes de modo + acentuado do que os homens. Trata-se aparentemente de padrões atribucionais que estão em consonância com estereótipos sexuais.

5.3.2 Desemprego

(Feather e Davenport) referem que as pessoas que se sentiam + deprimidas acerca das circunstâncias, eram + susceptíveis de censurar as condições económicas da sociedade do que a elas próprias. Quando se censuram as condições económicas, muitas pessoas têm dúvidas sobre o controlo do seu próprio destino e assim sentem-se abandonadas e deprimidas.

Em ambos os estudos reflecte-se uma semelhança entre o modo como as vítimas e os observadores do desemprego julgam as suas causas. Ambos focalizaram-se + em atribuições externas do que na censura da vítima.

Em suma, em ambos os casos de desemprego imaginado ou experienciado as pessoas fazem o mesmo tipo de atribuições. O emprego é visto como sendo o resultado de algo relacionado com as pessoas e o desemprego como sendo o resultado de algo relacionado com a sociedade.

Psicologia Social

5.3.3 Acidentes

43

Emerge novamente a tendência geral para censurar a vítima.

5.3.4 Relações interpessoais

(Fincham) Foi sugerido que as relações interpessoais se desenvolvem através de 3 fases: durante

o estádio de formação, as atribuições reduzem a ambiguidade e facilitam a comunicação e uma

compreensão da relação. Na fase de manutenção a necessidade de se fazerem atribuições diminui, porque relações estáveis foram construídas. A fase de dissolução caracteriza-se por um aumento nas atribuições com vista a obter-se de novo uma compreensão da relação.

5.4 Erros de atribuição

Muito embora os modelos de atribuição pretendessem nas suas origens ver as pessoas como fazendo atribuições de modo lógico e racional, depressa se descobriu que a racionalidade nem sempre é a regra. Sabe-se hoje em dia que há vários modos de as explicações poderem estar enviesadas.

É importante compreender os viés atribucionais porque contribuem para o conflito entre pessoas. 4 erros da atribuição:

- diferenças entre actor e observador

- erro fundamental

- complacência na atribuição de causalidade

- efeitos temporais na atribuição.

5.4.1 Diferenças entre actor e observador

Existem diferenças nas atribuições que são feitas pelas pessoas implicadas no comportamento (os actores) e as que só observam o comportamento. Os actores têm tendência a fazerem atribuições para o seu próprio comportamento a causas externas ou situacionais, enquanto que os observadores são + susceptíveis de fazerem atribuições internas ao comportamento dos outros. Esta tendência é conhecida pelo nome de efeito actor-observador.

A focalização da percepção é uma explicação para este efeito. Se somos o actor, somos +

susceptíveis de nos focalizar nos acontecimentos circundantes, ao passo que se observarmos outra pessoa geralmente essa pessoa é o foco de atenção. Outra explicação para a diferença

actor-observador advém da diferença na informação disponível para actores e observadores.

Há factores que podem alterar as diferenças actor-observador. Se se passar do papel de actor para o papel de observador também se conseguem diminuir as atribuições situacionais. O modo de se fazerem atribuições causais não é sempre o mesmo. Diferentes perspectivas e diferentes tipos de informações podem contribuir para enviesar as nossas explicações num sentido ou noutro.

5.4.2 Erro fundamental

A tendência relativa dos actores em prestarem atenção a factores situacionais quando fazem atribuições é uma excepção a um viés muito espalhado. De um modo geral, as pessoas subestimam a importância de factores situacionais quando explicam o comportamento. Quer os actores quer os observadores dão maior importância a disposições que a situações na explicação do comportamento. A este exagero na importância de factores pessoais tem-se chamado o erro fundamental da atribuição. As atribuições das pessoas estão erradas porque os determinantes

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situacionais são muitas vezes ignorados; o erro é fundamental porque a divisão de causas do comportamento em internas/externas é fundamental para a abordagem da atribuição.

Uma explicação que tem sido avançada para o erro fundamental da atribuição é que quando observamos o comportamento de outra pessoa, temos tendência a focalizarmo-nos nas suas acções e ignoramos o contexto social em que estas ocorrem. Donde resulta que a influência potencial das causas situacionais não seja reconhecida. Uma 2ª interpretação é que os indivíduos efectivamente vêm os factores situacionais, mas não conseguem dar-lhes um peso suficiente. Ou por outras palavras, não os percepcionam como sendo tão importantes como são realmente.

5.4.3 Complacência na atribuição da causalidade

O erro de complacência na atribuição da causalidade refere-se à tendência da pessoa a

percepcionar-se como sendo a causa dos seus sucessos, mas a atribuir a causa dos seus

fracassos a causas externas.

O

erro de complacência pode ser demonstrado em várias experiências. Não ocorra só em relação

ao

próprio comportamento dos observadores, mas também em relação a quem estão associados.

Este erro resulta de 2 fontes diferentes se bem que estejam relacionadas. Em 1º lugar, permite- nos proteger a nossa auto-estima: se somos responsáveis pelos resultados positivos, mas não nos censuramos pelos negativos, os nossos sentimentos sobre nós próprios podem ser mantidos. Em 2º lugar permite-nos melhorar a nossa imagem pública.

5.6 Atribuições e relações intergrupais

A teoria da atribuição em tentado compreender como é que uma pessoa atribui causas a outra pessoa ou a ela própria.

É efectivamente pertinente colocar-se a questão de se saber se a pertença a determinados

grupos ou categorias sociais contribui para que as atribuições feitas ao seu endogrupo ou a exogrupos sejam diferentes. Tendo por base trabalhos sobre as relações intergrupais, é de

esperar que as atribuições ao endogrupo sejam realçadas.

A existência de fenómenos etnocêntricos postos em evidência nas experiências não são

contestáveis. Todavia não se pode pensar que sistematicamente a causalidade interna do efeito positivo seja atribuído ao grupo interno ou que a causalidade interna de um efeito negativo seja atribuída ao grupo externo. (Deschamps) chama-nos a atenção para este ponto: “não contestamos a existência destes fenómenos de tipo etnocêntrico, tais resultados, escondendo

uma parte da realidade, correm o risco de só nos levarem a um modelo incompleto que conduziria a uma teoria da auto-idealização dos grupos”. Um tal modelo não teria em conta que num dado momento há certos grupos que são ideologicamente dominantes.

Em suma, se as pessoas tendem geralmente a fazer atribuições que aumentam o valor do

endogrupo, as atribuições também podem depender das posições relativas que ocupam os grupos

no relacionamento intergrupal.

5.7 Atribuições e diferenças culturais

Diversos autores chamaram a nossa atenção para o facto de os mecanismos inferenciais estarem intimamente ligados à cultura.

Toda uma variedade de investigações confirmaram a existência do erro fundamental da atribuição nas culturas ocidentais. Foram contudo suscitadas dúvidas em que medida o erro fundamental da atribuição é assim tão fundamental.

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A questão concreta que se pode levantar é a de se saber até que ponto os mesmos modelos de

atribuição funcionam se aplicados a outras culturas.

Em suma, a investigação intercultural tem evidenciado nesta área semelhanças e diferenças entre as culturas. Se as semelhanças parecem deixar transparecer que as características fundamentais dos esquemas causais são universais, tal não significa que as diferenças encontradas sejam meras variações de menos importância. Assim, o viés sociocêntrico (secção anterior) e o erro fundamental da atribuição, 2 fenómenos atribucionais amplamente replicados nas culturas ocidentais, não parecem ser fenómenos universais.

6. Normas de internalidade

6.1 Definição de norma de internalidade

(Jellison e Green) mostraram que as explicações internas no controlo dos reforços são objecto de desejabilidade social.

Propuseram que a prevalência das explicações internas devia ser considerada como a expressão de uma norma, “a norma de internalidade”. Por conseguinte, a norma de internalidade consiste na valorização social da internalidade.

Esta norma permite compreender como é que os sujeitos são levados a atribuir + valor às explicações que privilegiam o papel causal do actor no que faz e no que lhe acontece, do que às explicações redutoras deste papel.

Os trabalhos suscitados pela norma de internalidade têm sido orientados em 3 direcções. Numa 1ª linha de investigação tentou-se verificar que as explicações internas, quer em matéria de atribuição quer de locus de controlo, são socialmente desejáveis. Verificou-se também que as explicações internas das condutas e dos reforços são + escolhidas pelos indivíduos que pertencem a grupos favorecidos do que pelos que pertencem a grupos sociais desfavorecidos. Verificou-se, enfim, que a norma de internalidade, quer na explicação das condutas quer dos reforços, é objecto de uma aprendizagem social.

6.2 A norma de internalidade na sociedade portuguesa

Na 1ª experiência constatou-se que, quanto maior é o nível de internalidade maior é a aprovação social e a percepção do sucesso académico. Confirmou-se a desejabilidade social das explicações internas em termos de locus de controlo, pois os sujeitos que fornecem + respostas internas são

+ bem julgados pelos outros. Esta experiência permite comprovar a generalização intercultural da

forte desejabilidade social das explicações internas.

Em Portugal essa norma pode ser suscitada pela referência a estudantes portugueses da 2ª geração, ou seja, sujeitos que viveram longos anos numa outra cultura.

Em suma, as investigações que se inscrevem nesta linha chamam a nossa atenção para o facto de que o psicólogo intuitivo é normativo quando efectua explicações causais. Não procura a verdade científica, mas a aceitação social.

7. Níveis de análise distintos mas relacionados?

De que espécie de distinções se podem fazer no âmbito do controlo percebido:

Há uma 1ª perspectiva que sugere que o controlo percebido se relaciona, de um modo ou de outro, com tantos construtos que pode ser considerado como um único construto genérico.

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Há uma 2ª perspectiva que considera que o controlo percebido pode dividir-se em construtos que se relacionam com crenças do controlo percebido e atribuições de controlo. As atribuições são vistas como sendo específicas ao contexto. Pelo contrário as crenças do controlo reflectem avaliações contextuais independentes do estado do mundo.

3ª perspectiva, questiona se o controlo percebido forma a base do construto, é um subcomponente do construto. Assim o locus de controlo e a auto-eficácia são construtos que se alicerçam na noção de controlo percebido.

Aplicações: Estilo Atribucional

As pessoas apresentam diferenças no seu estilo atribucional e estas diferenças podem afectar a maneira como respondem a acontecimentos incontroláveis da vida. O que determina as reacções

a acontecimentos incontroláveis baseia-se em 3 tipos de atribuições: internas vs. externas,

estáveis vs. instáveis e globais vs. específicas. As pessoas que fazem atribuições internas para acontecimentos incontroláveis tendem a experienciar uma auto-estima + negativa. As pessoas que fazem atribuições estáveis e globais para acontecimentos incontroláveis são + susceptíveis de se sentirem desamparadas em acontecimentos futuros. Quando todos os 3 tipos de atribuições negativas são usadas habitualmente para explicar acontecimentos da vida que suscitam stress, esta tendência atribucional é denominada de estilo explicativo depressivo, na medida em que se encontrou que as pessoas com este padrão têm um maior risco de depressão. Para essas pessoas um acontecimento infeliz tem uma causa interna, uma causa estável e uma causa global. Pelo contrário, quando acontece algo de positivo às pessoas com um estilo explicativo depressivo tendem a fazer atribuições externas, instáveis e específicas.

O estilo explicativo optimista contrasta com o estilo depressivo. Os optimistas tendem a

explicar os acontecimentos negativas em termos de uma causa externa, uma causa instável e uma causa específica. Por outro lado, quando encaram acontecimentos positivos, os optimistas

explicam-nos efectuando atribuições internas, estáveis e globais.

De uma forma geral este estudo sugere que as pessoas com um estilo explicativo depressivo vivem menos tempo que as que têm um estilo optimista.

Apesar de estarmos perante estudos impressionantes ainda não se tem uma resposta à questão de porque é que o estilo explicativo influencia a saúde. Há várias possibilidades que são avançadas por Peter e Seligman:

1. Um estilo depressivo explicativo pode afectar o sistema imunológico, de modo semelhante ao de como opera o stress.

2. as pessoas com estilo explicativo podem não ser noas em resolver problemas; adiam a solução de problemas que eventualmente muitas vezes se transformam em crises.

3. as pessoas com estilo explicativo depressivo podem negligenciar a sua saúde e não dormir, nem alimentar-se nem exercitar-se de modo apropriado.

4. as pessoas com estilo explicativo depressivo podem tornar-se passivas quando encaram com a doença. Na medida em que não procuram cuidados médicos ou não seguem o tratamento médico prescrito, a sua saúde deteriora-se.

IV. ATITUDES

1. Introdução

Se fizer uma introspecção das bases desta sua atitude, seja qual for a sua tonalidade, muito possivelmente há um certo n.º de semelhanças que emergem:

- as suas atitudes estão fortemente associadas a valores que defende pessoalmente

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- estas atitudes assentam num certo n.º de crenças

- estas atitudes aparecem associadas a uma emoção forte ou afecto

- para modelar a sua atitude poderá ser algum comportamento passado ou experiência pessoal.

2. Sinopse histórica

Atitude significa a disposição natural para realizar determinadas tarefas, designou a posição corporal dos modelos dos pintores italianos do renascimento. Mediante determinada posição corporal era expresso um sentimento, um desejo. Assim, a atitude recebe uma significação que é susceptível de ser compreendida pelas outras pessoas. Mais tarde, o termo entrou na linguagem corrente para se referir já não tanto a uma postura corporal como a uma “postura da mente”.

Hoje em dia, quer para o público em geral quer para os psicólogos sociais, as atitudes referem-se

a estados mentais.

Subjacente à popularidade suscitada pela noção de atitude parece estar a suposição que muitos psicólogos sociais fizeram que as atitudes eram muito simplesmente “comportamentos em miniatura”. Nesta ordem de ideias, para se poder prever o comportamento, tudo o que se tinha a fazer era determinar a atitude das pessoas em relação a um objecto do comportamento. O problema tornara-se então metodológico, pois era necessário implementar utensílios adequados para medir as atitudes. Essa suposição contribuiu para a eclosão de uma literatura florescente sobre a medida das atitudes nos anos 30.

Esta multiplicidade de investigações suscita uma grande diversidade de definições, sobretudo porque as atitudes não podem ser directamente observadas. Por isso a atitude é um construto hipotético que os investigadores tentam apreender por meio de definições conceptuais e de elaboradas técnicas de medida.

3. O que são as atitudes?

As definições que são propostas na literatura são tão numerosas que quase todos os autores que trataram deste tópico avançaram uma.

Esta multiplicidade de definições deixa transparecer que este conceito é uma realidade psico- social ambígua e difícil de apreender.

3.1 Modelos de atitudes

Os modelos são uma espécie de planos de arquitecto que tornam a sua operacionalização + fácil.

(Pg. 338)

A. Uma abordagem tradicional tem considerado as atitudes como sendo multidimensionais com uma organização relativamente duradoira. Para o modelo tripartido clássico a atitude é uma disposição que resulta da organização de 3 componentes: afectivo, cognitivo e comportamental. (Rosenberg e Hovland)

O componente afectivo de uma atitude refere-se aos sentimentos subjectivos e às respostas fisiológicas que acompanham uma atitude. O componente cognitivo diz respeito a crenças e opiniões através das quais a atitude é expressa, muito embora nem sempre sejam conscientes. O componente comportamental diz respeito ao processo mental e físico que prepara o indivíduo a agir de determinada maneira.

É necessário ter presente que nem sempre as atitudes são expressas directamente em acções.

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Não é claro o modo como se interrelacionam cada um destes componentes. Em muitas situações

a presença de um componente implica a presença dos outros.

(Breckler) Investigação mostrou também que cada componente pode contribuir com algo de único para o que se chama atitude.

B. Outros consideram a atitude como sendo unidimensional, isto é, uma atitude representa a resposta avaliativa (afecto), favorável ou desfavorável, em relação ao objecto de atitude. A atitude constitui-se, pois, a resposta que situa o objecto numa posição do continuum de avaliação. Trata-se do modelo unidimensional clássico.

C. (Zanna e Rempel) delinearam o modelo tripartido revisto que integra todas estas

concepções das atitudes. Começam por definir a atitude como uma categorização de um objecto-

desfavorável).

Neste modelo a atitude é, por conseguinte, um julgamento (isto é, uma opinião) que exprime um

grau de aversão ou de atracção num eixo bipolar. Pressupõem então que esta avaliação pode

basear-se em 3 espécies de informação: informação cognitiva, informação afectiva ou informação baseada no comportamento passado.

A avaliação pode basear-se em qualquer espécie de informação ou qualquer combinação de

espécies. Por outras palavras, uma atitude pode, por ex., só derivar de cognições, ou de cognições e afecto, ou de cognições, afecto e comportamento passado.

estímulo ao longo de uma dimensão avaliativa (por ex.: aborto – favorável

3.2 Características

A atitude enquanto realidade psicológica possui determinadas características oriundas das

realidades físicas. Pode-se encarar como um continuum psíquico, ou seja, uma entidade que tem um começo e um termo de modo que se possa passar de um ao outro por variações de grau. Deste continuum ressaltam 4 características: a direcção, a intensidade, a dimensão e a acessibilidade.

A

direcção designa o nível positivo ou negativo do objecto de atitude. Em relação a este objecto

o

sujeito pode sentir atracção ou repulsa.

O

sujeito também pode ser indiferente a essa questão. O problema colocado por essa questão

resolve-se caso se considere uma outra característica das atitudes, a intensidade. Neste caso as diferentes posições dos sujeitos são expressas num continuum que oscila entre 2 extremos (favorável e desfavorável) com um ponto intermédio.

A intensidade da atitude exprime-se pela força da atracção ou da repulsa em relação ao objecto.

Uma subpropriedade associada à intensidade é a extremidade. Se indivíduos sentem um sentimento positivo, podem exprimi-lo por meio de uma atitude positiva desde “ligeiramente” a “totalmente positiva”. Quanto + a opinião expressa se aproxima das categorias extremas do continuum “discordo totalmente” ou “concordo totalmente”, mais se está perante uma atitude polarizada. Já há muito tempo pode ser demonstrado que uma atitude bem definida tende a ser extrema.

A dimensão da atitude permite-nos apreender se se trata de um objecto complexo e que não

está bem definido. Assim, uma atitude pode ser unidimensional, se abarca um só domínio da actividade comportamental, e multidimensional se abrange vários domínios.

A direcção da atitude, os seus graus e dimensão permitem caracterizar uma atitude, não

obrigando a defini-la.

Outra característica é a acessibilidade da atitude, ou seja, a solidez da associação entre o objecto de atitude e a sua avaliação afectiva. Por exemplo, pode ser avançada uma definição + prática da noção de “não atitude”.

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Num dos extremos do continuum encontra-se a “não atitude”, isto é, não existe na memória nenhuma avaliação à priori do objecto de atitude. Seguidamente, à medida que nos deslocamos ao longo do continuum, a avaliação afectiva aumenta e a sua acessibilidade torna-se + provável. Finalmente, no outro extremo do continuum aparece uma atitude bem definida, seja ela negativa ou positiva, amplamente acessível a partir da memória de modo espontâneo e automático. Quanto + a resposta é automática, + se pode concluir que a atitude está cristalizada e, por conseguinte, é + provável a predição do comportamento.

Outras características básicas:

1ª as atitudes são inferidas do modo como os indivíduos se comportam; 2ª as atitudes são dirigidas em relação a um objecto psicológico ou categoria. Os objectos de atitude podem ser diversos. Podem ser objectos tangíveis, pessoas, grupos, ideias abstractas ou comportamentos. 3ª as atitudes são aprendidas, isto é, provêm da experiência, podem ser mudadas.

3.3 Funções psicológicas das atitudes

Um outro modo de se obter uma compreensão + aprofundada das atitudes é perguntar porque é que as pessoas as têm. As atitudes são úteis para a pessoa que tem uma atitude. (Smith) atribui 3 funções às atitudes: adaptação social, exteriorização e avaliação do objecto de atitude. (Katz) menciona as 4 funções seguintes: conhecimento, instrumentalidade (meios a atingir), defesa do eu (protecção da nossa auto-estima) e expressão de valores (permitindo às pessoas mostrar os valores com que se identificam e as definem).

Tipo de atitude

Função suscitada pela atitude

Perspectiva

psicológica

Conhecimento

Ajuda a pessoa a estruturar o mundo em vista a dar-lhe sentido

Cognitiva

Instrumentalidade

Ajuda a pessoa a obter recompensas e a ganhar aprovação dos outros

Behaviorista

Defesa do eu

Ajuda a pessoa a proteger-se

de

Psicanalítica

reconhecer as verdades básicas sobre si

Expressão de valores

Ajuda a pessoa a expressar aspectos importantes do autoconceito

Humanística

As atitudes podem ter 3 funções:

1. ajudam a definir grupos sociais

2. ajudam a estabelecer as nossas identidades

3. ajudam o nosso pensamento e comportamento.

As atitudes é que elas contribuem para a auto-representação. Se um conjunto de atitudes são um elemento fulcral de certos grupos sociais, as atitudes também são elementos fulcrais nas representações que as pessoas têm delas próprias.

As atitudes constituem também elementos importantes da vida cognitiva das pessoas. Guiam o modo como se pensa, sente e age.

4. Atitude e noções conexas

4.1 Crenças

Para autores que se situam num modelo tripartido das atitudes, as crenças podem ser consideradas como o componente cognitivo das atitudes.

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Já autores que consideram a atitude como sendo unitária, definem as crenças como julgamentos que indicam a probabilidade subjectiva de uma pessoa ou um objecto tenha uma característica particular. Nesta perspectiva, crenças e atitudes são claramente distintas: as crenças são cognitivas (pensamentos e ideias) enquanto que as atitudes são afectivas (sentimentos e emoções).

4.2 Opiniões

Por vezes os termos opinião e atitude têm sido utilizados como sinónimos. Assim, o termo opinião continua a ser amplamente utilizado, em particular no âmbito da investigação de inquérito e de sondagens de opinião pública que se focalizam em atitudes partilhadas e crenças de vastos grupos de pessoas. Geralmente em sondagens de opinião, atitudes, crenças e intenções comportamentais aparecem combinadas.

Acontece todavia que muitas vezes são efectuadas distinções entre atitudes e opiniões, havendo no entanto diferentes perspectivas sobre o tipo de distinção a ser efectuada. Encontra-se frequentemente na literatura uma definição de opinião como sendo + específica que a atitude.

4.3 Valores

Os valores constituem uma variável psicológica intimamente associada às atitudes. Muito embora as atitudes se refiram a avaliações de objectos específicos, os valores são crenças duradoiras acerca de objectivos importantes da vida que transcendem situações específicas. Os valores constituem um aspecto importante do autoconceito e servem de princípios directores para uma pessoa.

Os valores têm as seguintes propriedades:

1.

São crenças gerais acerca de objectivos e comportamentos desejáveis.

2.

Envolvem bondade e maldade e têm uma qualidade de “dever” acerca deles.

3.

Transcendem atitudes e influenciam a forma que as atitudes podem assumir.

4.

Fornecem padrões para avaliar acções, justificar opiniões e comportamentos, planificar comportamentos, decidir entre diferentes alternativas e apresentar-se aos outros.

5.

Estão organizados em hierarquias para uma determinada pessoa e a sua importância relativa pode variar ao longo da vida.

6.

Os sistemas de valores variam segundo indivíduos, grupos e culturas.

4.4

Ideologia

A ideologia representa um sistema integrado de crenças, em geral, com uma referência social ou política.

(Tetlock) As ideologias podem variar segundo 2 características:

1. Podem atribuir diferentes prioridades a valores particulares.

2. Há ideologias que são pluralistas e há outras que são monistas. Se uma ideologia pluralista pode tolerar um conflito de valores, uma ideologia monista será bastante intolerante ao

conflito, perspectivando as questões em termos de tudo ou nada.

5. Formação das atitudes

As nossas atitudes resultam das diversas experiências vitais. Como tal são influenciadas pelas pessoas significativas nas nossas vidas e pelos modos como processamos a informação acerca do mundo.

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5.1 Fontes de aprendizagem

51

Muito embora gostássemos de acreditar que formamos as nossas atitudes de modo independente, a investigação tem mostrado que as nossas atitudes são influenciadas pelas pessoas que desempenham papéis significativos nas nossas vidas. Os pais são os principais agentes de socialização na infância e as atitudes que comunicam têm um efeito profundo e muitas vezes perene sobre as pessoas.

Por + importância que tenham os pais na formação das atitudes dos seus filhos, a sua influência não deve todavia ser sobreavaliada. Parece que à medida que uma criança vai avançando na idade, o impacto das influências parentais pode começar a diminuir. As atitudes em relação à música, aos modos de vestir e de pentear, e muitos outros aspectos desenvolvem-se no contexto da interacção com companheiros. Quando os adolescentes e jovens deixam o meio familiar, as suas atitudes mudam muitas vezes de modo profundo como resultado da pertença a novos grupos de companheiros e da pressão dos grupos de referência.

Pais, companheiros e grupos de referência não são os únicos modelos que afectam a formação de atitudes. Os meios de comunicação de massa, muito particularmente a televisão também influenciam a aprendizagem das atitudes.

5.2 Condicionamento clássico

O princípio básico do condicionamento clássico é que quando um estímulo neutro é emparelhado

com um estímulo que naturalmente provoca uma resposta particular (estímulo incondicional), o estímulo neutro provocará uma resposta semelhante e então tornar-se-á um estímulo

condicionado.

O trabalho de Staats ilustra o uso dos princípios básicos do condicionamento desenvolvendo um

modelo de formação da atitude. (Staats) define uma atitude como uma resposta – uma resposta

avaliativa condicionada por algum objecto do meio.

Estudo: o condicionamento clássico por ser particularmente potente na formação de atitudes em relação a coisas quando não se tem muito conhecimento prévio acerca delas.

5.3 Condicionamento operante

Se os princípios do condicionamento clássico vêem a formação da atitude como um processo automático de emparelhamento repetido, os princípios do condicionamento operante (ou aprendizagem instrumental) enfatizam o papel do reforço na formação da atitude. Quando os indivíduos recebem aprovação social para as suas atitudes serão reforçados. Ao invés, se as atitudes são desaprovadas, não serão reforçadas.

Os reforços verbais têm sido utilizados para modificar fenómenos tais como o uso de vestuário de certas cores, a expressão de atitudes preconceituosas, a adesão a certas filosofias de educação.

Nesses casos o reforço de uma atitude aumenta a expressão futura dessa atitude. Note-se, contudo, que isso depende muito da fonte de aprovação ou desaprovação.

5.4 Aprendizagem social

(Bandura) mostrou que muitas vezes aprendemos novas respostas – e portanto novas atitudes – observando e tentando imitar o comportamento de modelos. Através da modelagem, as crianças adquirem várias atitudes dos seus pais.

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52

Evidentemente que os pais não são os únicos modelos que afectam a formação das atitudes. Muita aprendizagem de atitudes continua na escola, na igreja e noutras organizações. Os mass- media são também uma fonte poderosa para formar as atitudes.

5.5 Aprendizagem por experiência directa

A experiência directa com o objecto de atitude contribui para a aprendizagem de muitas das nossas atitudes. Efectivamente nas interacções quotidianas com o objecto de atitude, bem como com as recordações dessas interacções, podem ser enviesadas por estereótipos.

5.6 Observação do próprio comportamento

Muito embora estejamos habituados a encarar as atitudes como causas do comportamento, também acontece que os comportamentos podem levar a mudanças de atitudes. A teoria da autopercepção propõe que as pessoas podem vir a conhecer as suas próprias atitudes, emoções e outros estados internos, parcialmente através de inferências de observações do seu próprio comportamento e/ou das circunstâncias em que este comportamento ocorre. Por conseguinte, segundo esta teoria, inferimos muitas vezes o que são as nossas atitudes observando o nosso próprio comportamento.

Em suma, as atitudes podem-se formar de diversos modos. Algumas atitudes podem desenvolver-se através dos princípios básicos da aprendizagem e reforço. Outras podem-se formar quando uma pessoa obtém informação sobre novos assuntos.

Refira-se, enfim, que as atitudes também podem ser formadas para servir necessidades da nossa personalidade.

6. Medidas das atitudes

Os psicólogos sociais não procuram somente saber o que são as atitudes e como são formadas. Tentam também medi-las, avaliar a sua direcção e intensidade, o que permite efectuar comparações entre os indivíduos e os grupos.

6.1 Análise de conteúdo das comunicações

Uma das primeiras tentativas para avaliar as atitudes foi efectuada por Thomas e Znaniecki (1918). O método que utilizaram consistiu fundamentalmente em inferir as atitudes de diferentes tipos de documentos escritos.

Mais recentemente, Eiser (1983) propôs que um exame cuidados das palavras revestidas de emoções que as pessoas utilizam em entrevistas pode fornecer uma indicação de valor sobre as atitudes subjacentes, mesmo que não estejam a fazer afirmações atitudinais directas.

Na medida em que Thomas e Znaniecki não recorreram a instrumentos específicos ou a escalas de medida punha-se a questão da precisão das interpretações efectuadas. Por causa disso outros investigadores elaboraram técnicas em que se podia avaliar + facilmente a sua fidelidade e validade.

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6.2 Escala de avaliação com um item

53

Recorre-se frequentemente a uma escala de avaliação com um item para medir atitudes. Trata-se de um método económico de medir uma atitude em muitos estudos com carácter representativo.

A questão formulada está ligada a uma escala de avaliação com diversos graus.

As respostas possíveis podem oscilar de “totalmente em desacordo” (=1) a “totalmente em

acordo” (=7). Este modo de medir atitudes defronta-se no entanto com um problema de monta:

a potencial falta de fidelidade.

6.3 Escala de distância social

Esta escala foi proposta por Emory Bogardus em 1925 com o objectivo de medir as atitudes étnicas. Esta técnica mede o grau de distância que uma pessoa deseja manter nas relações com pessoas de outros grupos.

A escala apresenta-se sob a forma de um quadro de dupla entrada que tem como abcissa o nome

de diferentes grupos humanos.

Como ordenada dispõem-se 7 proposições que caracterizam o tipo de relações que o sujeito

gostaria de ter com pessoas pertencendo a esses grupos.

Os n.ºs colocados à direita indicam o grau de distância social representado por cada proposição. Quanto maior for o n.º, maior é a distância social. Assim uma pessoa que aceitasse alguém de um determinado grupo humano nas suas relações + íntimas pelo casamento, pressupõe-se que seria a pessoa menos preconceituada; ao passo que alguém que fosse ao ponto de negar a admissão de um determinado grupo no seu país é considerada a pessoa + preconceituada.

Diversos aspectos desta escala têm sido criticados, em particular a questionável linearidade da escala e os seus intervalos desiguais.

6.4 Escala de Thurstone

(Thurstone) defendeu que há um continuum psicológico de afecto ao longo do qual se podem situar os indivíduos. Este continuum tinha as mesmas propriedades básicas de um continuum físico de pesos. Com base nesta suposição, Thurstone procurou desenvolver uma técnica para localizar os indivíduos ao longo deste continuum.

A elaboração da escala de intervalos aparentemente iguais pode ser sintetizada em 8

passos:

1. Obtém-se um determinado n.º de itens em relação com o objecto da atitude (cerca de 100).

2. Os itens são avaliados por um conjunto de juízes com características semelhantes às das

pessoas que serviram de sujeitos. 3. Pede-se aos juízes para ordenarem os itens em 11 categorias desde a + favorável (1), passando pela neutra (6), à + desfavorável (11). Deve-se estar seguro que os juízes

compreendem que vão classificar as frases e não indicar o seu acordo ou desacordo com elas.

4. Os itens que são ordenados pelos juízes nas mesmas categorias são retidos, ao passo que os

itens em que há um desacordo entre os juízes são afastados.

5. a cada um dos itens atribui-se um valor da escala correspondendo à mediana da distribuição

das respostas dada pelos juízes.

6. Retém-se um certo n.º de proposições de modo que representem a extensão dos valores da

escala ao longo da dimensão favorável a desfavorável, tendo aproximadamente intervalos iguais entre pares dos valores adjacentes da escala.

7. Apresentam-se os itens seleccionados numa ordem aleatória a uma população pedindo-se-lhes

para escolherem aqueles com que concordam.

8. A atitude do sujeito é então determinada pelo cálculo dos valores médios ou medianos dos

valores da escala dos itens escolhidos. Por isso, na análise final, a atitude de um sujeito será representada por um n.º entre 1 e 11.

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Este tipo de escala defronta-se com algumas dificuldades:

1º a preparação da escala é complicada e morosa

2º pode haver um fosso relativamente grande entre o júri e a população a quem se administra a

escala

3º Thurstone partiu da ideia de que os juízes ordenam as proposições independentemente das suas atitudes, mas o contrário pode ser provado.

6.5 Escala de Likert

(Rensis Likert, 1932) concebeu um dos métodos que + influência tem tido na medida das atitudes. Likert examinou 5 grandes áreas das atitudes: relações internacionais, relações raciais, conflitos económicos, conflitos políticos e religião.

Pode-se sintetizar a construção das escalas de Likert em 3 etapas:

1. Um conjunto de itens relacionados com vários aspectos de uma atitude são seleccionados pelos investigadores com base na experiência, intuição ou pré-testes. Inclui-se um n.º aproximadamente igual de proposições favoráveis e desfavoráveis.

2. Os itens são submetidos aos sujeitos a quem se lhes pede para indicarem as suas opiniões fazendo um círculo à volta de um ponto de uma escala de 5 graus cujos extremos são concordo fortemente (5) e discordo fortemente (1).

3. A atitude de uma pessoa em relação a um objecto é determinada pela soma das respostas a todos os itens que têm uma correlação satisfatória com toda a escala. Ou noutros termos, os itens que são retidos para formar um score total são só aqueles que apresentam uma correlação satisfatória com o score total. Procede-se assim a uma análise do item.

A principal vantagem de uma escala de Likert é que ela constrói-se + depressa e com menos

gastos que uma escala de Thurstone.

Todavia esta escala também não está isenta de críticas. Entre estas, a crítica + frequente à escala de Likert é de que se os scores de 2 indivíduos são iguais, estes devem ter a mesma atitude. Porém é frequente observarem-se scores totais engendrados por diferentes respostas às questões, o que pressupõe atitudes também elas diferentes.

6.6 A escala de Guttman

A escala de Guttman baseia-se no pressuposto de que as opiniões podem ser ordenadas

segundo a sua “favoralidade” de modo que a concordância com uma dada afirmação implica concordância com todos os itens que exprimem opiniões + favoráveis. Segundo Louis Guttman

(1944), qualquer escala que reproduzisse perfeitamente este modelo seria perfeitamente unidimensional. Um dado score de atitude numa escala de Guttman só pode teoricamente ser obtido de uma maneira. Se se conhecer o score de um indivíduo, então conhecer-se-á o modo como a pessoa respondeu a cada item da escala.

A elaboração de uma escala deste tipo pode ser sintetizada em 3 etapas:

1. Reúne-se um grande n.º de opiniões sobre a atitude que se deseja medir. Estas opiniões

deverão permitir a exploração dos domínios que constituem o campo de expressão da atitude. As opiniões retidas deverão igualmente permitir aprender todas as matizes da direcção da atitude (da + favorável à + desfavorável). Enfim, as opiniões serão formuladas de maneira dicotómica, isto é, escolhas de tipo acordo, desacordo.

2. Administra-se o questionário de opiniões a uma população de sujeitos.

3. Efectua-se uma análise das respostas para se determinar se correspondem ao modelo ideal.

A escala unidimensional de Guttman evita o problema de diferentes padrões de atitude com o

mesmo score, no entanto também não está isenta de problemas. Entre eles refira-se que um conjunto de itens que produza respostas escalonáveis (isto é, unidimensionais) para uma

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população pode não funcionar noutra população. Os itens da escala podem ser ordenados de modo diferente, ou podem não ter uma ordem consistente. Por isso, a escala deve ser pre- testada junto de uma amostra de sujeitos semelhantes àqueles com que se utilize a escala no estudo final.

6.7 Diferenciador semântico

O problema com escalas como as do tipo Thurstone, Likert ou Guttman é de que para cada novo

objecto de atitude tem de se construir uma nova escala. O diferenciador semântico propicia a possibilidade de se medirem diferentes atitudes com a mesma escala.

O diferenciador semântico desenvolvido por Osgood, Suci e Tannenbaump, é uma técnica de

medida da significação psicológica que têm os objectos ou os conceitos para o indivíduo. É a combinação de um método de associações forçadas, mas controladas e de um procedimento de

escalas permitindo obter a direcção e intensidade do significado do conceito. Concretamente, os sujeitos devem diferenciar um conjunto de escalas bipolares de adjectivos antónimos com 7 graus

de intensidade, uma série de conceitos saídos de um campo semântico. A direcção do julgamento

pode ser positiva ou negativa e ir de -3 a +3.

Por meio do recurso à análise factorial, Osgood e seus colegas identificaram 3 dimensões básicas mediante as quais os conceitos podem ser descritos. Estes factores foram interpretados como sendo a avaliação, a potência e actividade.

O diferenciador semântico tem sido utilizado de diversos modos: estudar as diferenças sócio-

culturais nas atitudes, estudar as diferenças sexuais e para avaliar o auto-conceito.

O diferenciador semântico tem a vantagem de ser fácil de construir. Quase toda a escala

previamente elaborada pode ser utilizada como modelo para outra variável que vai ser estudada,

na

medida em que os adjectivos são independentes de qualquer variável.

As

críticas ao diferenciador semântico também não faltaram. Entre elas assinale-se a existência

por vezes de falsas bipolaridades, bem como o empobrecimento das conotações suscitadas pela rigidez das escalas nas 3 dimensões. O campo das conotações parecer ser maior e + aberto. Um outro problema tem a ver com o facto de a estrutura factorial de uma escala de um determinado diferenciador semântico variar com o tipo de conceito que se avalia.

6.8 Medidas indirectas

Os questionários são de longe as técnicas de avaliação das atitudes + amplamente utilizadas. Todavia a facilidade em detectar-se a sua intenção é susceptível de influenciar certas pessoas. As medidas de auto-avaliação são particularmente susceptíveis de serem influenciadas pela desejabilidade social. Tal tem suscitado nalguns investigadores a utilização de métodos indirectos. As medidas indirectas + comuns, em que não se pergunta à pessoa a sua atitude directamente, são: técnicas fisiológicas, comportamentais e projectivas.

As técnicas fisiológicas de medir as atitudes, tais como a resposta galvânica da pele e a

resposta pupilar, assentam no pressuposto de que o comportamento afectivo das atitudes produz uma reacção fisiológica que pode potencialmente ser medida. Recentemente chegou-se à conclusão de que a novidade do estímulo causa uma elevada resposta galvânica da pele.

O problema levantado pela interpretação desta experiência mostra a dificuldade em se utilizar

esta medida fisiológica da atitude.

Uma outra medida que está associada com o sistema nervoso autónomo é a mudança no tamanho da pupila. A sua dilatação tem sido interpretada como indicativo de uma atitude positiva e a sua contracção como indicativo de uma atitude negativa.

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A utilização da EMG é obviamente impossível sem um equipamento conveniente, um meio cuidadosamente controlado, um experimentador perito e sujeitos que cooperem. Quando levada a cabo com cuidado, esta técnica assegura a promessa de revelar a direcção e a intensidade de uma atitude.

Refira-se ainda uma técnica de avaliação das atitudes que recorrer a um falso indicador psicofisiológico (bogus pipeline). Esta técnica permite detectar atitudes que de outro modo não seriam reveladas porque suscitam embaraço à pessoa. Muito presumivelmente estes sujeitos responderam de modo + honesto quando pensavam que os investigadores já conheciam a verdade acerca dos seus preconceitos através das suas respostas fisiológicas.

As medidas comportamentais assentam na suposição que o comportamento é consistente com atitudes. (Mehrabian, 1967) estudou o aspecto comportamental das atitudes utilizando algumas das ideias da proxémica que se refere ao grau de intimidade da interacção não-verbal entre duas pessoas que comunicam. Segundo Mehrabian podem-se medir as atitudes de um sujeito em relação a outro através da medição da distância, do contacto ocular, da tensão corporal quando 2 pessoas interagem.

Outros estudos têm avaliado atitudes em relação a várias pessoas e organizações mediante a medida comportamental da “técnica da certa perdida”. São “perdidas” cartas, sendo antes dirigidas a várias pessoas ou organizações. A proporção de cada conjunto de cartas que é reenviada serve de índice de como se gosta de cada organização. Mas, o comportamento nem sempre é um bom guia para as atitudes.

As técnicas projectivas em que se pede aos sujeitos para descreverem uma figura, contarem uma história, completarem uma frase, ou indicarem como é que alguém reagiria a essa situação, têm a vantagem de que muitas vezes as pessoas projectam as suas próprias atitudes nos outros. Daí que o facto de se pedir a alguém para preencher, por ex., os balões nas figuras, pode propiciar o conhecimento da atitude da pessoa em relação à autoridade. Tendo em conta o modo como o sujeito preenche esses balões pode-se inferir que a pessoa tem uma atitude submissa ou irreverente perante a autoridade.

Vantagens para a utilização de técnicas indirectas para medir as atitudes: essas técnicas são menos susceptíveis de suscitarem respostas socialmente aceites. Desvantagens: dificuldade em medir a intensidade da atitude e sendo as atitudes inferidas, estas técnicas podem deixar a desejar quanto à fidelidade; também podem suscitar problemas éticos.

7. Atitudes e comportamento

Os psicólogos sociais estiveram tão interessados no estudo das atitudes durante décadas, em grande parte porque acreditaram que a partir das atitudes podiam prever o comportamento. Além disso, os psicólogos sociais também estavam interessados em mudar o comportamento através da influência exercida sobre as atitudes das pessoas.

7.1 O dilema da consistência atitude-comportamento

Um dos 1ºs estudos que sugeriram que as atitudes e os comportamentos poderiam não estar tão estreitamente ligados como os psicólogos sociais da época pareciam pensar, foi efectuado por LaPiere (1934).

Certos psicólogos sociais foram levados a concluir que o conceito de atitude não era útil e pouco servia para prever o comportamento. Encontra-se, contudo, forte apoio empírico da validade preditiva da atitude em relação ao comportamento.

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7.2 Condições metodológicas da predição atitude-comportamento

Uma 1ª tentativa de reavaliação da consistência da atitude e do comportamento debruçou-se sobre os aspectos metodológicos das investigações.

Uma das possibilidades é que problemas de medida interfiram na nossa possibilidade em prever de modo exacto o comportamento a partir das atitudes. Pressões para se dizer e fazer coisas socialmente desejáveis pode tornar as medidas das atitudes e dos comportamentos menos válidos do que se pretenderia. Também pode acontecer que os instrumentos não sejam suficientemente sensíveis e precisos para avaliarem as atitudes. A discrepância também pode ocorrer devido ao prazo de tempo muito longo entre a observação de uma variável e da outra.

Uma outra razão é que, como no estudo de LaPiere e em muitos outros, se tentam relacionar atitudes gerais com comportamento específico. Seria + apropriado ter em conta o princípio de correspondência: as componentes preditivas do comportamento (atitude ou crença, ou

intenção

e o comportamento previsto deveriam medir-se a níveis correspondentes de

especificidade. Para se aplicar este princípio é necessário precisar os níveis de correspondência atitude-comportamento por meio de 4 marcadores: uma acção, um alvo, uma situação e o tempo.

Em suma, quanto + os 4 marcadores da medida de atitude são parecidos com os marcadores do comportamento, tanto + a relação atitude-comportamento será importante.

)

Uma outra questão a considerar na relação atitude/comportamento é o princípio da agregação dos comportamentos, para demonstrar que a construção de um índice comportamental compósito pode aumentar a correlação atitude-comportamento.

Uma das razões para a inclusão de um leque amplo de comportamentos é que o comportamento é complexo e multideterminado. Os factores situacionais também podem influenciar o comportamento.

Um outro princípio que ajudou a clarificar a relação atitude-comportamento foi o do comportamento prototípico. Há objectos que desencadeiam + facilmente uma reacção atitudinal que outros. Isso observa-se particularmente quando se está perante objectos representativos de uma classe de objectos.

Em suma,, quando estamos perante a atitude a respeito de grupos pode revestir-se de interesse examinar-se preliminarmente a representação que a amostra tem do alvo.

7.3 Modelos teóricos de predição do comportamento

Para se resolver o dilema da consistência houve investigadores que se voltaram para a “abordagem das outras variáveis”. Apesar de melhorias metodológicas é possível que haja factores que possam opor ao comportamento implicado por uma atitude. A compreensão dos papéis concorrentes de diversas atitudes pode contribuir para a previsão do comportamento futuro.

7.3.1 Abordagem das variáveis moderadoras

Uma variável moderadora representa uma variável que influencia a direcção ou a intensidade da relação entre uma variável preditora ou independente e uma variável critério ou dependente. Trata-se pois de uma 3ª variável que age sobre a correlação simples entre outras 2 variáveis.

Um factor que contribui para aumentar a consistência atitude-comportamento é a experiência directa da pessoa com o objecto da atitude.

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Tem sido sugerido que a ligação entre comportamentos e atitudes formada mediante experiência directa é + forte porque tais atitudes são mantidas com + clareza, confiança e certeza, porque tais atitudes são + acessíveis e + fortes e porque são automaticamente activadas com a apresentação do objecto de atitude.

Um segundo factor que afecta a consistência atitude-comportamento é a pertinência pessoal. Se uma pessoa tem um direito adquirido numa questão aumenta a relação entre atitude e comportamento. Um direito adquirido significa que os acontecimentos em questão terão um forte efeito na própria vida da pessoa.

A relação entre atitudes e comportamento também depende do modo como se espera que nos

comportemos em determinadas situações.

Diferenças individuais também podem ser importantes. Algumas pessoas estão naturalmente

+ dispostas que outras a expressar consistência entre as suas atitudes e comportamentos.

Uma variável que tem sido muito estudada em psicologia é o locus de controlo. No campo da relação atitude-comportamento, Saltzer mostrou claramente a importância desta variável para obter boas predições.

Outro factor de personalidade que pode afectar a consistência atitude-comportamento é a autovigilância que consiste numa capacidade de auto-observação e de autocontrolo dos comportamentos verbais e não verbais em função de índices situacionais.

Relembre-se que a autoconsciência é uma característica disposicional para prestar atenção a si próprio em diversas situações, donde a existência de variações crónicas das pessoas nos seus estilos de atenção em relação a si próprias. Contribui para o processo de regulação do comportamento na medida em que a pessoa centra a sua atenção em certos aspectos salientes de si própria. As dimensões privada e pública da autoconsciência permitem efectuar predições diferentes da consistência entre as atitudes e o comportamento.

As únicas pessoas que se espera sejam consistentes são as pessoas com alta autoconsciência privada e com baixa autoconsciência pública.

Estudo: somente os sujeitos com elevada autoconsciência privada se conheciam suficientemente para serem consistentes, e somente os sujeitos com baixa auto-consciência pública expressavam as suas verdadeiras atitudes sem serem perturbados pelo modo como os outros os viam.

Prever o comportamento a partir das atitudes não é assim tão simples como poderia parecer à 1ª vista. Os psicólogos sociais têm examinado o problema da experiência directa, de factores pessoais, de normas sociais e de diferenças de personalidade. Tomando em consideração tais factores pode-se prever o comportamento de modo + preciso, mas não tão precisamente quanto seria desejável.

7.3.2 Teoria da acção reflectida e do comportamento planificado

(Fishbein e Ajzen) A teoria da acção reflectida descreve as relações entre crenças, atitudes e comportamento. As crenças influenciam: 1) atitudes em relação a um comportamento particular

e 2) normas subjectivas. Estes componentes influenciam as intenções comportamentais que, por

sua vez, influenciam o comportamento. A atitude de uma pessoa em relação a um comportamento é determinada pelas crenças de que realizando, o comportamento, isso leva a resultados desejáveis ou indesejáveis. As normas subjectivas envolvem: 1) crenças acerca de comportamentos normativos (isto é, que são esperados pelos outros) e 2) motivação de uma pessoa para condescender com expectativas normativas.

Só os componentes endógenos do modelo influenciam directamente a intenção e, pelo mesmo facto, o comportamento. Segundo a teoria, a intenção comportamental está sob a influência

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imediata das componentes da atitude e da norma subjectiva, que ambas se encontram sob a influência das componentes que as constituem, isto é as crenças e as avaliações das consequências para a atitude, as crenças normativas e a motivação em se submeter à norma subjectiva. Atitude tem, pois, de se traduzir em intenção para exercer uma influência no comportamento.

De um modo geral, a intenção de efectuar um comportamento estará em relação directa com a soma dos produtos das crenças, multiplicadas pela sua avaliação, bem como com a soma dos produtos das crenças normativas, multiplicadas pela motivação em condescender. Todavia, a teoria postula que a importância relativa dos 2 factores depende da natureza do comportamento alvo. Por conseguinte, para certas intenções, a componente atitude ou norma subjectiva será predominante; noutras situações, as 2 componentes podem contribuir para a intenção de igual modo. O valor explicativo da teoria é aumentado pela possibilidade de atribuir empiricamente ponderações (coeficientes de regressão) aos 2 determinantes da intenção.

Certas variáveis exteriores ao modelo podem também influenciar a intenção comportamental, mas de modo indirecto, por meio de outras componentes do modelo. Esta aptidão dos factores preditores endógenos do modelo em mediatizar os efeitos de variáveis externas constitui o postulado de suficiência. Entre estas variáveis externas encontram-se traços de personalidade, dados sócio-demográficos, etc.

(Pg. 400)

Apesar de certas dificuldades deste modelo, tem havido um consenso quanto à robustez da teoria da acção reflectida para predizer o comportamento voluntário. Mas o que é que acontece quando o comportamento alvo só é parcialmente voluntário? Para dar conta dos determinantes que escapam à vontade, Ajzen propôs a teoria do comportamento planificado acrescenta uma variável preditora ao modelo da acção reflectida. Este factor denominado de controlo comportamental percepcionado é determinado pelas experiências passadas de uma pessoa e pelas crenças so