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Combatendo o

Trabalho infantil
GUIA PARA EDUCADORES

1 Combate ao trabalho infantil


1 Combate ao trabalho infantil
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Combatendo o
Trabalho infantil
GUIA PARA EDUCADORES

1
Combate ao
trabalho infantil

Programa Internacional para a Eliminação do Trabalho Infantil - IPEC


ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO
Escritório no Brasil
Copyright © Organização Internacional do Trabalho (2001)
1a edição, 2001
As publicações da Organização Internacional do Trabalho gozam da proteção dos direitos de
propriedade intelectual decorrente do protocolo 2 anexo à Convenção Universal sobre Direitos Autorais.
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Internacional do Trabalho, Departamento de Publicações (Direitos autorais e licenças), CH-1211 Genebra
22, Suíça. Solicitação de exemplares, catálogos ou listas de publicações para o endereço acima ou:
OIT – Escritório no Brasil, Setor de Embaixadas Norte, Lote 35, 70800-400 Brasília DF, Brasil, tel. (xx61)
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A responsabilidade por opiniões expressas em textos assinados, estudos e outras contribuições recai
exclusivamente sobre seus autores; sua publicação não constitui endosso da OIT às opiniões aí
constantes.
OIT – Escritório no Brasil
Direção Armand Pereira
Coordenação Nacional do IPEC-Brasil Pedro Américo Furtado de Oliveira
Coordenação do Projeto Moema Prado

Organização Internacional do Trabalho


Combatendo o trabalho infantil : Guia para educadores / IPEC. –
Brasília : OIT, 2001. : il.

Conjunto formado por 2 volumes, cartazes e jogo


v.1: Combate ao trabalho infantil – 48 p.
v.2: Sugestões de atividades – 64 p.

Produção CENPEC
ISBN 92-2-811040-6
1.Trabalho infantil. I. OIT II. IPEC. III. CENPEC.

Com base no conjunto: “Child labour: an information kit for teachers,


educators and their organizations” ILO/IPEC (ISBN 92-2-111040-0).

Material elaborado pelo CENPEC para o escritório da OIT no Brasil, no âmbito do Projeto “Professores,
educadores e suas organizações na luta contra o trabalho infantil”/IPEC
CENPEC Centro de Estudos e Pesquisas em Educação,
Cultura e Ação Comunitária
R. Dante Carraro 68 Pinheiros
05422-060 São Paulo SP Brasil
http://www.cenpec.org.br
Presidência Maria Alice Setubal
Coordenação geral Maria do Carmo Brant de Carvalho
Coordenação de Área Isa Maria F. R. Guará – e-mail: isa@cenpec.org.br
Coordenação do Projeto Lúcia Helena Nilson
Consultoria Walderez Nosé Hassenpflug
Autoria (v.1) Alexandre Isaac, Cristina Almeida Sousa, Mirna Busse Pereira,
Ronilde Rocha Machado
Edição de texto Tina Amado e Guy Amado
Edição de arte Eva Paraguassú Arruda Câmara, José Ramos Néto e
Camilo de Arruda Câmara Ramos
Ilustração Luiz Maia
Fotografia Iolanda Huzak
Fotolito Grupo RV2
Impressão Cromosete
Apoio CNTE – Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação
Setor de Diversões Sul, Edif. Venâncio III, sala 101/4
70393-900 Brasília DF
www.cnte.org.br
Sumário
4 Apresentação
5 Por que e como utilizar este material

7 A OIT e o trabalho infantil


8 As Convenções da OIT
9 O trabalho infantil no mundo

11 Trabalho infantil e direito à infância


13 O que é trabalho infantil
14 O trabalho em sociedades indígenas brasileiras
15 O que obriga crianças e jovens a trabalhar?
16 Alegações usuais para “justificar” o trabalho infantil
16 Efeitos perversos do trabalho infantil

19 Trabalho infantil no Brasil atual


20 Dimensionando o problema
21 Trabalho infanto-juvenil por grupos de idade
22 No campo e na cidade

25 O trabalho de crianças no passado


brasileiro
26 A criança escrava
27 Na fábrica, na passagem do século XIX ao XX
29 Trabalho infantil na Inglaterra, séculos XVIII e XIX

31 Os direitos da criança e do adolescente


32 O ECA, Estatuto da criança e do adolescente
34 Direito à educação, direito à infância
36 A importância do brincar

39 Contrapondo-se ao trabalho infantil

43 Considerações finais

44 Referências bibliográficas

46 Anexo
Quadro: Incidência de trabalho infantil no Brasil
COMBATENDO O TRABALHO INFANTIL: GUIA PARA EDUCADORES v.1

Apresentação suas organizações na luta contra o trabalho


infantil”.
Ao buscar discutir o tema com educadores e
Este material foi preparado para divulgar suas organizações, a OIT e seus parceiros
informação sobre o trabalho infantil, os direitos reconhecem a importância desses agentes em
da criança e a importância da educação na suas comunidades e a contribuição que podem
prevenção e erradicação do trabalho infantil. trazer à luta contra o trabalho de crianças e
Nossa expectativa é que os leitores – educadores adolescentes. Considera sua participação,
em geral, pais, cidadãos – se engajem no especialmente a dos professores nas escolas,
combate a essa forma extrema de violação dos fundamental para mobilizar e sensibilizar toda
direitos das crianças e adolescentes. a comunidade. Compreendendo melhor a
chaga social que é o trabalho infantil,
A erradicação do trabalho infantil é ponto certamente irão desenvolver ações que
de honra para um país que pretenda alcançar contribuam para sua eliminação, tanto na
patamares mais elevados de eqüidade e justiça própria comunidade como no restante do país.
social. A construção de um país mais justo,
menos desigual, mais democrático depende Quem está em contato próximo com
não só da definição de estratégias a curto e crianças, jovens e seus pais, tem a
longo prazos, mas da vontade política dos oportunidade de fazê-los refletir sobre a
governos, empresários, trabalhadores, grupos realidade e a responsabilidade de cada um de
organizados da sociedade civil e dos cidadãos nós no conhecimento e na transformação
em geral. Impulsionar essa vontade política, social, especialmente da realidade à nossa
sensibilizar e mobilizar novos segmentos e volta. É o educador que pode estimular os
direcionar suas energias para ações alunos a formar conceitos e valores sobre
competentes na busca de soluções e direitos, justiça, eqüidade e solidariedade. Por
alternativas para o trabalho infantil é o grande isso a OIT busca seu engajamento e
desafio a ser enfrentado por todos aqueles que compromisso com essa luta, que é de toda a
se comprometem com a luta pelos direitos da sociedade brasileira. Desse esforço de
infância e juventude em nosso país. sensibilização nasceu o conjunto Combatendo
o trabalho infantil: guia para educadores,
Para erradicar o trabalho infantil, a principal buscando subsidiá-lo para tratar dessa temática
medida que vem sendo adotada é a de atribuir com os alunos, pais, colegas, a comunidade.
prioridade à educação, entendida como
englobando escola formal e atividades ESTE CONJUNTO É FORMADO POR
culturais, de esporte, lazer, orientação à saúde DOIS VOLUMES, QUATRO
etc. O direito à educação integral e de CARTAZES E UM JOGO.
qualidade garante às crianças e jovens um
Neste Volume 1
outro direito fundamental: o de viver sua
foram reunidas
infância e juventude como um período
informações
essencial de formação para a vida e de
básicas sobre a
desenvolvimento de seu potencial humano.
temática do
A OIT - Organização Internacional do trabalho infantil,
Trabalho, por meio do IPEC - Programa sua situação no
Internacional para a Eliminação do Trabalho Brasil e no
Infantil, em parceria com a CNTE - mundo, bem
Confederação Nacional dos Trabalhadores em como sobre os
Educação e com o apoio técnico do CENPEC - direitos das
Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, crianças e
Cultura e Ação Comunitária, de São Paulo – adolescentes,
elaboraram este conjunto de materiais no destacando a educação e o lazer como
âmbito do projeto “Professores, educadores e alternativas ao trabalho infantil.
4
O Volume 2 reúne POR QUE E COMO
sugestões de
atividades escolares UTILIZAR ESTE MATERIAL
relativas à temática, Um estudo realizado pela OIT (1999a) sobre
agrupadas segundo estratégias bem-sucedidas para a prevenção e
os componentes erradicação do trabalho infantil em 13 países
curriculares (dentre os quais o Brasil) mostrou que
História, Português, educadores em geral e suas organizações são
importantes agentes no combate ao trabalho
Ciências, Geografia
infantil, atuando diretamente na comunidade
e Artes. escolar e engajando-se em lutas mais amplas.
Assim, este material foi elaborado para subsidiar
Os cartazes podem ser utilizados em várias educadores brasileiros de modo a que venham
situações: para introduzir o estudo do tema, ser, eles também, agentes nesse combate. O
propósito deste volume é permitir que o
para ficar expostos em lugar bem visível ou
educador, conhecendo a problemática em
para compor, com outros materiais, as profundidade – origens, dimensão, efeitos,
atividades em sala de aula. Podem também mitos, legislação etc. –, esteja em condições de
funcionar como ponto de apoio para debates e analisar a natureza do problema local
discussões na comunidade escolar. (contextualizando-o no nível nacional) e possa
contribuir para aumentar o grau de consciência
de alunos, pais e comunidade sobre o tema.
O volume 2 traz orientações para desenvolver a
temática em sala de aula, mas de modo a
envolver toda a escola e a comunidade. A equipe
escolar, bem como os educadores de
organizações não-governamentais, podem
reforçar junto aos pais o valor da educação
como alternativa importante para romper o
círculo vicioso da pobreza; trabalhar por uma
educação de qualidade, que inclua o currículo
apropriado e relevante para todas as crianças,
particularmente as mais pobres e vulneráveis; e
construir parcerias com outros grupos que
combatam o trabalho infantil.
Quanto às organizações de educadores, a
O jogo Bem-vindos à escola visa levar expectativa é que, fortalecidas e mobilizadas
alunos a reconhecer, de forma lúdica, as pelo conhecimento sobre a temática, possam:
características negativas do trabalho infantil, y pôr à disposição sua estrutura operacional e seu
bem como a importância do cumprimento do poder de penetração junto aos associados para
Estatuto da Criança e do Adolescente para pôr mobilizar contra o trabalho infantil;
fim à exploração dessa população. y definir uma política de atuação contra o
trabalho infantil;
y estabelecer parcerias com escolas, órgãos
governamentais ou outras organizações de
trabalhadores, tanto para a prevenção quanto
o combate ao trabalho infantil;
y organizar fóruns de discussão; auxiliar em
diagnósticos locais;
y conscientizar a comunidade sobre o direito e a
importância da educação para todas as
crianças e jovens.
A comunidade poderá então exercer pressão para
a formulação de políticas públicas e para
sustentar politicamente programas educativos.
5
COMBATENDO O TRABALHO INFANTIL: GUIA PARA EDUCADORES v.1

MENINA (13 ANOS) RETIRA CARVÃO DO FORNO. RIBAS DO RIO PARDO - MS


A OIT e o
trabalho infantil
A OIT – Organização Internacional do
Trabalho, com sede em Genebra, é
uma das agências especializadas da
ONU, Organização das Nações
Unidas. Foi criada em 1919, ao
término da Primeira Guerra Mundial,
quando se discutia a necessidade de
encontrar meios para alcançar a paz
permanente e universal, capaz de
impedir novos e sangrentos conflitos
como o que findara. Isso foi debatido
por ocasião da Conferência de Paz de
Paris em 1919, cujos participantes
chegaram à conclusão de que “a paz
universal e permanente somente
pode basear-se na justiça social” – o
que se tornou a frase inicial da
constituição da própria OIT, formada
por representantes de governos,
empregadores e trabalhadores.

7
COMBATENDO O TRABALHO INFANTIL: GUIA PARA EDUCADORES v.1

O objetivo da OIT é lutar pela melhoria das titui o mais importante instrumento normativo
condições de trabalho no mundo e elevação do de luta contra o trabalho infantil. Essa Conven-
ção determina, no geral, a idade mínima de 15
padrão de vida dos trabalhadores, pleiteando re-
anos para o ingresso no mercado de trabalho,
gulamentação da jornada de trabalho, liberdade em todos os setores da atividade produtiva (para
de associação, negociação coletiva, igualdade de trabalhos perigosos, a idade mínima é 18 anos
remuneração pelo trabalho de igual valor e não- e, para trabalhos leves, 14 anos). É uma norma
discriminação no trabalho; também pleiteia pro- que, por seu caráter flexível, atende ao nível de
teção contra enfermidades profissionais, além de desenvolvimento socioeconômico dos diferen-
outras disposições, sobre desemprego e forma- tes países-membros da OIT e admite iniciativas
a médio e longo prazo.
ção profissional.
9 a Convenção n.182 sobre as Piores Formas de
A proteção da infância é um dos elementos
Trabalho Infantil (OIT, 2001) determina a ime-
essenciais na luta pela justiça social e pela paz diata concentração de esforços para erradicar o
universal. A OIT entende que o trabalho infantil, trabalho infantil nas seguintes situações:
além de não constituir trabalho digno e ser con- y todas as formas de escravidão e práticas aná-
trário à luta pela redução da pobreza, sobretudo logas, como a venda e o tráfico de crianças, o
rouba das crianças sua saúde, seu direito à edu- trabalho forçado ou obrigatório, a servidão
cação, ou seja, sua própria vida enquanto crian- por dívidas e a condição de servo;
ças – para a OIT, o termo “criança” refere-se a y a utilização, o recrutamento ou a oferta de
pessoas com idade inferior a 18 anos. crianças para a prostituição, a produção de
pornografia ou atuações pornográficas;
Preocupada com a situação de exploração do y a utilização, o recrutamento ou a oferta de
trabalho infantil, a OIT lançou em 1992 o Pro- crianças para a realização de atividades ilíci-
grama Internacional para Eliminação do Traba- tas, em particular a produção e o tráfico de
lho Infantil (IPEC). Trata-se de um programa mun- substâncias entorpecentes, tal como se defi-
dial de cooperação técnica contra o trabalho in- nem nos tratados internacionais pertinentes;
fantil, contando com o apoio financeiro de 22 y qualquer outro tipo de trabalho que, por
países doadores, cujo objetivo é estimular, orien- sua natureza ou pelas condições em que se
realiza, possa supor ameaça à saúde, à segu-
tar e apoiar iniciativas nacionais na formulação
rança ou à moralidade das crianças.
de políticas e ações diretas que coíbam a explo-
Com relação ao trabalho perigoso acima mencio-
ração da infância. O IPEC visa a erradicação pro-
nado, a OIT indica que se considerem, no mínimo,
gressiva do trabalho infantil mediante o fortale- os trabalhos em que as crianças:
cimento das capacidades nacionais e do incenti-
y fiquem expostas a abusos de ordem física,
vo à mobilização mundial para o enfrentamento emocional ou sexual;
da questão. Promove o desenvolvimento e a apli-
y atuem embaixo da terra e da água, em altu-
cação de legislação protetora e apóia organiza- ras perigosas ou em meios confinados;
ções parceiras na implementação de medidas
y utilizem maquinarias, equipamentos e ferra-
destinadas a prevenir o trabalho infantil, a retirar mentas perigosas ou que manipulem e trans-
crianças de trabalhos perigosos e a oferecer al- portem cargas pesadas;
ternativas imediatas, como medida transitória y atuem em meio insalubre ou estejam expos-
para a erradicação do trabalho infantil. tas, por exemplo, a substâncias, agentes ou
processos perigosos, ou ainda a temperatu-
AS CONVENÇÕES DA OIT ras ou níveis de ruído e vibração prejudiciais à
saúde;
Os instrumentos normativos da OIT são conven- y atuem em condições especialmente difíceis,
ções e recomendações sobre o trabalho. Uma con- como por exemplo horários prolongados, no-
venção é um instrumento do sistema internacio- turnos ou que impeçam o regresso diário à
nal de direitos humanos que se torna vinculante, sua casa.
ou seja, de cumprimento obrigatório pelos países
que a ratificam. Como signatário das convenções Além dos instrumentos normativos, a OIT empre-
da OIT, o Brasil assume o compromisso de fazer ga outros dois meios de ação: a produção e disse-
cumprir suas determinações. Em relação ao traba- minação de informação; e a cooperação técnica
lho infantil, duas delas merecem destaque: para desenvolver programas como o IPEC, que in-
centiva o fim da exploração do trabalho infantil.
9 a Convenção n.138 sobre Idade Mínima de Ad- Esses três meios de ação se complementam visan-
missão ao Emprego (OIT, 2001), de 1973, cons- do o alcance da justiça social.
8
O trabalho infantil no mundo
A exploração do trabalho crianças são geralmente de isso se tornar sua principal
infantil não é um fato restrito encontradas, em todo o ou única atividade. Essa
ao Brasil. A OIT estima em cerca mundo? Milhões de crianças forma é mais comum em
de 250 milhões as crianças fazem trabalho perigoso, países como Brasil, Colômbia,
trabalhadoras em todo o abusivo e explorador. Entre Equador, Filipinas, Quênia e
mundo. Pelo menos 120 outras, são comumente Tanzânia.
milhões de crianças entre 5 e encontradas exercendo as
14 anos de idade trabalham em seguintes formas de trabalho
tempo integral. Os restantes (OIT, 1999b).
combinam trabalho com os y Na indústria, realizando
estudos e com outras atividades trabalho perigoso, como
não-econômicas. fabricação de vidro,
De acordo com estimativas da construção e tecelagem de
OIT (1999b), a maioria absoluta tapetes. Dentre outros países,
dessas crianças está em países essas atividades são y Em trabalho doméstico,
“em desenvolvimento”. São 17 freqüentes na Índia. árduo, sob condições de
milhões na América Latina e isolamento, trabalhando
Caribe (7%); 80 milhões na horas excessivas, sujeitas a
África (32%); e 153 milhões na abuso físico e sexual – mais
Ásia, excluindo o Japão (61%). freqüente no Brasil, Colômbia,
Embora as estatísticas Equador e Indonésia.
geralmente não mencionem,
nos países desenvolvidos há um
significativo contingente de y Na agricultura, realizando
crianças e adolescentes trabalho pesado e sendo
trabalhando em situações que expostas a muitos perigos
envolvem riscos. O relatório associados à introdução de
Situação Mundial da Infância moderna maquinaria e
(UNICEF, 1998) informa, por produtos químicos. A OIT,
exemplo, que nos Estados por meio do IPEC, mantém y Em regime de escravidão ou
Unidos uma operação- programas de atendimento, em arranjos de trabalho
relâmpago do Departamento de entre outros, no Nepal e na muito similares, como
Trabalho, realizada em 1990 Tanzânia, onde é muito alto o trabalho servil e prostituição
durante três dias, encontrou índice de crianças envolvidas infantil. Esta última é muito
mais de 11.000 crianças nas fainas agrícolas. comum no Brasil, no Quênia
trabalhando ilegalmente. e na Tailândia, enquanto
Grande parte delas pertencia a crianças trabalham em
minorias étnicas ou a regime escravo ou servil na
comunidades de imigrantes e Índia e no Nepal.
trabalhava na agricultura. Na
Europa, os países do antigo
bloco socialista viram surgir o
trabalho infantil em virtude dos
desajustes sociais e econômicos y Em casa, cuidando de irmãos
decorrentes da transição para a e irmãs mais novos ou
economia de mercado. ajudando em sítios ou
Em que tipos de trabalho as empresas familiares, a ponto
9
COMBATENDO O TRABALHO INFANTIL: GUIA PARA EDUCADORES v.1

AOS 11 ANOS, CARREGANDO SACOS DE LARANJA. TABATINGA - SP


Trabalho infantil
e direito à
infância
Talvez uma forma de descrever o
trabalho infantil seja pelas marcas
que deixa na vida de crianças e jovens
que a ele são submetidas. Para essas
pessoas, a sina diária é trabalhar sob
qualquer condição, enfrentar
cansaço, fome, às vezes mutilação,
abandono. Nada de livros, cadernos,
lápis de cor, brincadeiras ou sonhos.
Nada de aprender a ler e escrever, a
ler o mundo a sua volta... Essas
crianças e jovens nunca ouvem o sinal
do recreio. A merenda, quando há,
é comida ali mesmo, no meio da
fuligem, rapidamente, pois não se
pode perder tempo. Ficam proibidos
os risos, molecadas, algazarras.
O importante é produzir, trocar o que
produziu por quase nada e recomeçar
tudo no outro dia, sem direito a ter
direitos, mesmo os mais
fundamentais: aprender, brincar,
ter férias, descansar... Bola,
brincadeira de roda, jogos não
entram nesse mundo. Em vez de ser
preparadas para segurar o lápis,
desenhar, pintar, recortar e colar, suas
mãos carregam pás, enxadas, foices,
desproporcionais a sua força.

11
COMBATENDO O TRABALHO INFANTIL: GUIA PARA EDUCADORES v.1

E com o que sonha uma criança que só co- mundo? Como indenizá-los pela infância não vi-
nhece da vida o horizonte delimitado pelo car- vida, pelas oportunidades perdidas, pelo direito
vão, sisal, pela cana ou pedreira? Será que sonha negado de partilha do conhecimento construído
em ser cantor, atriz, bombeiro ou enfermeira? pela humanidade, da qual faz parte? Não são
“Meu maior desejo”, disse um menino carvoei- perguntas fáceis de responder.
ro, “é não tossir à noite por causa da fumaça do
Mas milhares de crianças e jovens brasileiros
forno. Aí dá para dormir”. É próprio da criança e
enfrentam hoje a dura realidade do trabalho pre-
do jovem projetar-se no futuro e sonhar com o
coce. E esse número pode aumentar: a agudiza-
que virá. Mas o sonho maior do menino carvoei-
ção da pobreza estrutural no país e o risco de
ro está preso, como ele, ao seu duro cotidiano.
intensificação das desigualdades sociais ameaçam
A exploração brutal e os riscos de vida a que empurrar mais e mais crianças e jovens para o
estão sujeitos os trabalhadores infantis são fla- trabalho. Estudos de caso feitos em 13 países pela
grantes, como exemplifica esta descrição das con- OIT (1999a) apontam esses dois fatores como os
dições de trabalho experimentadas por um me- maiores obstáculos à eliminação do trabalho in-
nino, numa pedreira no interior do Ceará: fantil – e que mais contribuem para seu aumen-
O lugar não é para brincadeiras. Usa-se cartu- to. Por outro lado, altas taxas de desemprego pro-
cho de pólvora para fragmentar a pedra; lascas de vocam a falta de confiança no valor e importân-
pedra e aço dos instrumentos voam para todo lado cia da educação, o que prejudica a percepção do
e inala-se pó o tempo inteiro. Ninguém usa óculos seu papel estratégico nessa luta. Outro fator
nem qualquer outro equipamento de proteção. apontado, além da persistência de atitudes soci-
Acidentes são rotina. (...). No povoado de Taquara
ais e culturais que favorecem o trabalho infantil,
(...), Francisco, 11 anos, quebrava pedra como to-
dos os meninos: sentado no chão, no meio da é a baixa qualidade dos serviços educacionais,
poeira levantada pelas explosões a dinamite, pelo refletida em altas taxas de retenção e evasão.
entra-e-sai dos caminhões e sob o sol escaldante. Esses fatores dão a dimensão da complexida-
Martelava pedra com uma marreta, sobre uma
de que envolve o tema e dos desafios a serem
pedra almofariz. Para cada carrinho de cinco me-
tros cúbicos de brita, Francisco recebe o equiva- enfrentados nos níveis político, econômico e so-
lente a pouco mais de dez centavos de dólar1 . Ele ciocultural, para que o país avance na erradica-
produz 20 carrinhos por semana; se a mãe vem ção do trabalho infantil. Tome-se o desafio da
junto, a produção chega a 60 carrinhos. (Azevedo distribuição de renda: sem dúvida, frente ao qua-
& Huzak, 1994, p.100) dro atual de aprofundamento da pobreza no país,
Essa realidade remete a indagações: Que pers- a melhor forma de enfrentá-la a curto e médio
pectivas de desenvolvimento, de formação edu- prazos seria com um programa de distribuição e
cacional e de participação na cultura se colocam geração de renda para todas as famílias em situa-
para uma criança que desde cedo é submetida a ção de pobreza, não só para aquelas envolvidas
essas condições de trabalho? Que possibilidades com o trabalho infantil.
existem para que Francisco, ao se tornar adulto,
Não é fácil propor soluções a essa problemá-
vivencie experiência de trabalho que lhe propor-
tica. Mas é possível e necessário construir, coleti-
cione condições de vida dignas?
vamente, perspectivas de superação dessa reali-
E qual será o futuro de um menino carvoeiro, dade que afeta a vida de milhares de crianças
de um cortador de cana ou de sisal, privado do brasileiras. A amplitude e complexidade do pro-
direito (que lhe é garantido pelas leis do país) ao blema deixam claro que é necessário que toda a
desenvolvimento integral, por meio de oportuni- sociedade brasileira tenha uma atitude de indig-
dades educativas? Como enfrentará a sociedade nação frente ao trabalho infantil e se sensibilize,
do conhecimento e da tecnologia, sem saber es- se mobilize para enfrentá-lo. É imprescindível unir
crever o próprio nome, sem poder ler, sem co- todos: esferas de governo, organizações não-go-
nhecer o funcionamento das instituições e do vernamentais, sindicatos, empresas, igrejas, clu-
bes, associações, escolas, cidadãos, numa atitu-
1 Para se ter uma idéia de quanto Francisco recebia por mês, pode-se de de co-responsabilidade participante.
estimar a produção mensal em 80 carrinhos o que, a dez centavos de
dólar por carrinho, dá oito dólares por mês. Na cotação de maio de Os professores e demais trabalhadores em
2001 (R$ 2,25 por dólar), isso significa que Francisco recebia cerca de
R$ 18,00, ou aproximadamente um décimo do salário mínimo. educação também estão convocados a descobrir
12
que contribuição podem dar em sua escola, bair- trada no mercado de trabalho. As Constituições
ro, comunidade, município ou estado, para pre- de 1934, 1937 e 1946 ampliaram a idade míni-
venir e erradicar o trabalho infantil e devolver as ma para 14 anos. Porém, em 1967, em plena
crianças à escola, à infância e a uma vida mais ditadura militar, novamente se recuou esse limi-
digna e justa. Mãos à obra. te para 12 anos!
Atualmente, a legislação brasileira, por meio
O que é trabalho da Emenda Constitucional 20/98 e da lei sancio-
nada em 19 de dezembro de 2000 (Brasil, 2000a,
infantil? que altera disposições da CLT – Consolidação das
Leis Trabalhistas), determina que a idade mínima
O trabalho pode ser compreendido como uma para a entrada no mercado de trabalho é 16 anos.
“atividade consciente e voluntária, pela qual o O trabalho noturno, perigoso ou insalubre é per-
homem exterioriza no mundo fins destinados a mitido apenas a maiores de 18 anos. E apenas
modificá-lo, de maneira a produzir valores ou na condição de aprendiz o adolescente pode exer-
bens social ou individualmente úteis e satisfazer cer trabalho remunerado, dos 14 aos 16 anos,
assim suas necessidades” (Russ, 1994, p.297). com direitos trabalhistas garantidos, em jornada
A forma como o trabalho é realizado em di- e regime especificados na lei.
versas sociedades, ao longo do tempo, aproxi-
É PROIBIDO QUALQUER TRABALHO A
ma-se ou distancia-se dessa definição. Ao mes-
MENORES DE DEZESSEIS ANOS DE IDADE,
mo tempo que modificam o mundo pelo traba-
lho, os seres humanos também se modificam, SALVO NA CONDIÇÃO DE APRENDIZ,
estabelecendo relações entre si, criando e reno- A PARTIR DOS QUATORZE ANOS.
vando a cultura. Nesse sentido, o trabalho com- (BRASIL, LEI 10.097/2000, ART.1O)
pleta o indivíduo e contribui para seu desenvol-
Podemos dizer pois que o trabalho infantil é
vimento enquanto ser humano. Mas o modo
aquele realizado por crianças e adolescentes que
como uma determinada sociedade se organiza
estão abaixo da idade mínima para a entrada no
para o trabalho e o tipo de relações que se esta-
mercado de trabalho, segundo a legislação em
belecem na produção podem levar à desumani-
vigor no país.
zação e à alienação. Há trabalhos que embrute-
cem e deformam, além de não proporcionar con- No entanto, é preciso refinar essa definição,
dições para escapar da situação de penúria e pri- contemplando certos aspectos de tradições cul-
vação na vida pessoal, familiar e social. turais em diferentes lugares do mundo. Em al-
gumas sociedades, a transmissão cultural reali-
É fácil incluir o trabalho infantil nessa última
za-se oralmente, não havendo registros escritos
perspectiva. A entrada precoce de crianças e ado-
de sua história, técnicas ou ritos. Assim, na agri-
lescentes no mercado de trabalho, nas condições
cultura tradicional ou na produção artesanal,
atuais – e históricas – do capitalismo no Brasil
crianças e adolescentes realizam trabalhos sob a
exemplifica bem essa perspectiva de trabalho,
supervisão dos pais como parte integrante do pro-
situação que não é muito diferente para imensos
cesso de socialização – quer dizer, um meio de
setores da população adulta trabalhadora.
transmitir, de pais para filhos, técnicas tradicio-
Em diferentes países, de maneira geral, o tra- nalmente adquiridas. Esse trabalho pode ser tam-
balho infantil costuma ser definido como aquele bém motivo de satisfação para as próprias crian-
realizado por “crianças e adolescentes”. Isso sig- ças (Bequelle, 1993, p.22). O sentido do apren-
nifica que a permissão (ou a proibição) para a der a trabalhar varia de acordo com a cultura,
entrada dos indivíduos no mercado de trabalho com a sociedade e, dentro destas, varia também
é estabelecida em lei de acordo com a idade. No dependendo do momento histórico em que elas
entanto, esse recorte é móvel, varia de socieda- se encontram. Mas a situação de trabalho como
de para sociedade e, em cada uma, muda tam- parte do processo de socialização não deve ser
bém de acordo com a compreensão do que seja confundida com aquelas em que as crianças são
infância e adolescência. No Brasil, em 1891, ins- obrigadas a trabalhar, regularmente ou durante
tituía-se a idade mínima de 12 anos para a en- jornadas contínuas, para ganhar seu sustento ou
13
COMBATENDO O TRABALHO INFANTIL: GUIA PARA EDUCADORES v.1

o de suas famílias, com conseqüentes prejuízos Por outro lado, essa preocupação não pode
para seu desenvolvimento educacional e social. ser radicalizada no sentido de excluir a participa-
ção das crianças e adolescentes em tarefas do-
Seguindo esse raciocínio, as condições de ex-
mésticas. Essa participação reveste-se de caráter
ploração e os prejuízos à saúde e ao desenvolvi-
educativo e formador do senso de responsabili-
mento da criança ou adolescente que realiza a
dade, pessoal e em relação ao núcleo familiar.
atividade é que seriam parâmetros para caracte-
rizar o trabalho infantil. Mas é preciso lembrar Atualmente, na luta pelo reconhecimento dos
que o mero fato de trabalhar “em casa” ou “com direitos da criança e do adolescente, um parâ-
a família” não descaracteriza o trabalho infantil. metro mais claro tem sido colocado: ainda que
Mesmo no espaço do trabalho em família, sabe- seja para garantir a continuidade de uma tradi-
se que muitas crianças são submetidas a esta- ção familiar, para dividir responsabilidades no in-
fantes jornadas de trabalho na lavoura familiar terior da casa ou para ajudar na lide do campo,
ou são responsabilizadas por todos os serviços o trabalho de crianças não pode impedir que elas
domésticos e cuidados com os irmãos menores exerçam seus direitos à educação e ao brincar,
em casa, sem que lhes seja garantido, por exem- condições essenciais a seu pleno desenvolvimen-
plo, tempo para ir à escola ou para brincar. to.

O trabalho em sociedades
indígenas brasileiras
Em muitas sociedades indígenas trabalho leva em consideração E isso quer dizer ter funções e
brasileiras, trabalhar é aprender não só as tarefas a serem responsabilidades
a fazer junto, pois o trabalho se realizadas, mas principalmente compartilhadas com as demais
caracteriza como momento de a idade e as condições físicas de pessoas com as quais convive,
troca de experiência entre os seus participantes, como uma como produzir alimentos,
membros do grupo. Nessa forma de protegê-los. confeccionar adereços e objetos
vivência, as pessoas envolvidas Meninas e meninos aprendem, artesanais para o uso cotidiano,
com as mais diversas formas de no convívio familiar, as tarefas ritual e festivo, construir a
atividades constróem consideradas femininas e própria habitação, participar da
coletivamente conhecimentos, masculinas. Mães, mulheres vida comunitária.
como fruto desse aprendizado. idosas ou experientes ensinam Produção, família e sociedade
O trabalho constitui assim as meninas a tecer, fabricar acham-se articuladas e se
importante aspecto da vida cerâmica, transformar os orientam pelos mesmos
comunitária indígena. Ele alimentos. Pais e homens idosos propósitos, o que faz com que
fornece as bases de uma da aldeia ensinam os meninos a educação e vida caminhem
organização social de tipo fazer arcos, flechas, adornos juntas. Educar nas comunidades
igualitária, em que a família corporais, técnicas de caça e indígenas tem um sentido
funciona como unidade básica pesca... Na sociedade indígena, amplo. Significa ensinar e
de produção, acumulando e essa aprendizagem visa aprender pela vivência direta
trocando os conhecimentos propiciar à criança a nas várias situações cotidianas:
indispensáveis à subsistência de apropriação de todos os saber é saber fazer. Dessa
todos os seus membros. A conhecimentos que necessitará forma, o aprendizado para o
organização baseia-se na em sua futura vida adulta. trabalho é incorporado nas
divisão sexual do trabalho: há Para uma criança ou práticas coletivas que são, em
tarefas masculinas (em geral, adolescente, fazer parte de uma si, educativas; em outras
caçar, derrubar mato) e tarefas família, e portanto de uma palavras, integra o processo de
femininas (em geral, cuidar da unidade de produção, significa socialização das crianças e
roça, cozinhar). Essa divisão do ser membro da sociedade. jovens indígenas.
14
destinada ao trabalho. Um sistema escolar efi-
O que obriga crianças e ciente deve assegurar a permanência de todas as
jovens a trabalhar? crianças na escola, com aprendizagem efetiva.
Outro fator que obriga ao trabalho infantil é
a crença, comum em muitas culturas – e não só
nos estratos mais pobres –, de que as crianças
devem compartilhar as responsabilidades da fa-
mília, participando do trabalho dos pais, ganhan-
do remuneração fora de casa ou ajudando na
administração da casa. Esta última é especialmen-
te verdadeira para as meninas, de quem é espe-
rado que cuidem dos irmãos e irmãs, bem como
das tarefas domésticas, a ponto de estas se tor-
narem sua principal ou única atividade. Tais cren-
ças fazem com que o peso da responsabilidade
seja assumido por crianças desde cedo, sem qual-
quer questionamento, de geração em geração.
Dessas crenças e da situação de vulnerabilidade
econômica, os empregadores tiram vantagens em
HIGIENE MATINAL NA CARVOARIA. ÁGUAS CLARAS - MS proveito próprio. Ao empregar crianças, têm em
Crianças e jovens são obrigados a trabalhar mente garantir trabalhadores dóceis, submissos,
por várias razões, sendo a pobreza a principal que não causem “encrenca” e sejam incapazes
delas. Muitos governos, ao enfrentar crises eco- de defender seus direitos; crianças e adolescen-
nômicas, não dão prioridade às áreas que pode- tes têm menos condições de se negar a realizar
riam ajudar a aliviar as dificuldades enfrentadas tarefas servis por baixos salários do que os adul-
por famílias de baixa renda: não priorizam saú- tos. Os empregadores beneficiam-se ainda da
de, educação, moradia, saneamento básico, pro- ineficácia da fiscalização: embora cientes da lei

s gramas de geração de renda, treinamento profis-


sional, entre outros. Para essas famílias, a vida se
que proíbe o trabalho infantil, violam-na na cer-
teza da impunidade.
torna uma luta diária pela sobrevivência. As crian-
Portanto, a incorporação de crianças e ado-
ças são forçadas a assumir responsabilidades, aju-
lescentes no mercado formal e informal de tra-
dando em casa para que os pais possam traba-
balho expressa, por um lado, deficiências das po-
lhar, ou indo elas mesmas trabalhar para ganhar
dinheiro e complementar a renda familiar. Em um líticas públicas para educação, saúde, habitação,
mundo crescentemente desigual, em um proces- cultura, esportes e lazer, além da ineficácia da fis-
so acentuado pelo fenômeno da globalização, calização do trabalho para cumprimento da lei e
cada vez mais contrapõem-se riqueza e pobreza. da vigência de certas crenças, mesmo entre os
Assim, todo um segmento da população, alijado próprios pais. Por outro lado, expressa os efeitos
de condições adequadas de formação, educação perversos da má distribuição de renda, do desem-
e acesso a bens e serviços, vem constituindo um prego, dos baixos salários, ou seja, de um modelo
contingente de despossuídos. econômico que não contempla as necessidades
Um sistema educacional deficiente também do desenvolvimento social. O Brasil é considerado
contribui para empurrar crianças para o trabalho. a 10a economia do mundo em termos de Produto
Mesmo tendo acesso à escola – no Brasil, 97% Interno Bruto, mas está classificado em 74o lugar
das crianças entre 7 e 14 anos estão sendo matri- (IPEA, 1999) em termos de IDH – Índice de De-
culadas todo ano (Brasil, 2000b) – crianças e ado- senvolvimento Humano (esse índice, criado pela
lescentes das camadas pobres são mais atingidos ONU em 1990, considera simultaneamente os ní-
pela repetência. Após repetir várias vezes, a crian- veis de renda, instrução e saúde das populações;
ça – por si mesma e pelos pais – é considerada calculado para 174 países, classifica-os em uma
“incapaz” de aprender, saindo da escola e sendo escala do melhor para o pior).
15
COMBATENDO O TRABALHO INFANTIL: GUIA PARA EDUCADORES v.1

ALEGAÇÕES USUAIS ças com dificuldades no desempenho escolar.


Muitas famílias, sem vislumbrar outras possibili-
PARA “JUSTIFICAR” dades de enfrentamento das dificuldades, acabam
O TRABALHO INFANTIL incorporando a idéia de que é melhor encaminhar
seus filhos ao trabalho. Nesse caso, cabe à escola
Apesar de condenável e proibido por lei, ainda há repensar sua adequação a essa clientela, pois a
quem procure justificar a necessidade do trabalho função social da escola em uma sociedade demo-
infantil. Alguns argumentos, freqüentemente usa- crática é permitir o acesso de todos os alunos ao
dos para “justificar” essa prática, devem ser refu- conhecimento.
tados (OIT & CECIP, 1995, p.8-9).
Em suma, o trabalho infantil não se justifica e não
“Crianças e jovens (pobres) devem trabalhar para é solução para coisa alguma. A solução para essa
ajudar a família a sobreviver”. problemática é prover as famílias de baixa renda
É a família que deve amparar a criança e não o de condições tais que elas possam assegurar a suas
contrário. Quando a família se torna incapaz de crianças um desenvolvimento saudável.
cumprir essa obrigação, cabe ao Estado apoiá-la,
não às crianças. O custo de alçar uma criança ao EFEITOS PERVERSOS DO
papel de “arrimo de família” é expô-la a danos TRABALHO INFANTIL
físicos, intelectuais e emocionais. É um preço al-
tíssimo, não só para as crianças como para o con- O trabalho precoce de crianças e adolescentes in-
junto da sociedade pois, ao privá-las de uma in- terfere diretamente em seu desenvolvimento:
fância digna, de escola e preparação profissional, 9 físico – porque ficam expostas a riscos de lesões,
reduzimos o valor dos recursos humanos que po- deformidades físicas e doenças, muitas vezes
deriam impulsionar o desenvolvimento do país no superiores às possibilidades de defesa de seus
futuro. corpos;
“Criança que trabalha fica mais esperta, aprende 9 emocional – podem apresentar, ao longo de suas
a lutar pela vida e tem condições de vencer profis- vidas, dificuldades para estabelecer vínculos afe-
sionalmente quando adulta”. tivos em razão das condições de exploração a
que estiveram expostas e dos maus-tratos que
O trabalho precoce nunca foi estágio necessário
receberam de patrões e empregadores;
para uma vida bem-sucedida. Ele não qualifica e,
portanto, é inútil como mecanismo de promoção 9 social: antes mesmo de atingir a idade adulta
social. O tipo de trabalho que as crianças exercem, realizam trabalho que requer maturidade de
rotineiro, mecânico, embrutecedor, impede-as de adulto, afastando-as do convívio social com pes-
realizar as tarefas adequadas à sua idade: explorar soas de sua idade.
o mundo, experimentar diferentes possibilidades, Ao mesmo tempo, ao ser inserida no mundo do
apropriar-se de conhecimentos, exercitar a imagi- trabalho a criança é impedida de viver a infância e
nação... a adolescência sem ter assegurados seus direitos
de brincar e de estudar. Isso dificulta muito a vi-
“O trabalho enobrece a criança. Antes trabalhar
vência de experiências fundamentais para seu de-
que roubar”.
senvolvimento e compromete seu bom desempe-
Esse argumento é expressão de mentalidade vi- nho escolar – condição cada vez mais necessária
gente segundo a qual, para crianças e adolescen- para a transformação dos indivíduos em cidadãos
tes (pobres, pois raramente se refere às das famí- capazes de intervir na sociedade de forma crítica,
lias ricas), o trabalho é disciplinador: seria a “solu- responsável e produtiva. Entre as crianças que tra-
ção” contra a desordem moral e social a que essa balham há maior repetência e abandono da escola.
população estaria exposta. O roubo – aí conotan-
Encomendada pelo IPEC e CNTE, uma pesquisa
do marginalidade – nunca foi e não é alternativa
feita pelo DIEESE – Departamento Intersindical de
ao trabalho infantil. O argumento que refuta esse
Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (1997),
é, “antes crescer saudável que trabalhar”. O tra-
junto a 1.419 crianças trabalhadoras que freqüen-
balho infantil marginaliza a criança pobre das opor-
tam a escola, constatou índices alarmantes de re-
tunidades que são oferecidas às outras. Sem po-
petência, na faixa de 64%. Essa pesquisa foi reali-
der viver a infância estudando, brincando e apren-
zada em seis das maiores capitais brasileiras: Be-
dendo, a criança que trabalha não é preparada
lém, Belo Horizonte, Goiânia, Porto Alegre, Recife
para vir a ser cidadã plena, mas para perpetuar o
e São Paulo. A pesquisa também entrevistou os
círculo vicioso da pobreza e da baixa instrução.
alunos-trabalhadores, constatando que os deve-
Outro argumento presente na sociedade é o de res escolares, quando realizados, são feitos após a
que o “trabalho é um bom substituto para a edu- jornada de trabalho e cada dia em um horário di-
cação”. É usado principalmente no caso de crian- ferente, roubando parte do tempo destinado ao
16
descanso ou lazer. Inquiridas sobre as razões das o sistema escolar para colaborar com a renda fa-
freqüentes repetências, porém – embora para o miliar” (CENPEC, 1999, p.19). Os dados da Tabela
observador externo seja óbvio que não têm tem- 1 confirmam isso.
po para estudar – as crianças a explicam por seu
próprio “desinteresse”. Tabela 1
Distribuição de crianças de 10 a 14 anos por situação de trabalho e
Isso significa que o mau desempenho escolar apa-
freqüência
freqüência à escola, segundo a rrenda familiar,, Brasil, 1990
enda familiar
rece, para as crianças, como de sua responsabili-
dade. É possível, também, que tal explicação seja Renda familiar Só Trabalham e Só
assumida pela família – o que confirmaria dados estudam estudam trabalham
semelhantes encontrados por outros pesquisado- (%) (%) (%)
res, de que as camadas excluídas dos bens e servi- Até 1/4 SM 59,6 14,7 12,3
ços sociais se atribuem a causa da exclusão. Essa
Mais de 1/4 a 1/2 SM 63,8 11,7 11,7
visão tem efeitos danosos, pois impede ou dificul-
ta a mobilização para cobrar os direitos de cida- Mais de 1/2 a 1 SM 73,2 10,3 8,0
dania que lhes são negados. Mais de 1 a 2 SM 83,1 8,3 4,0
Além disso, o fato de as crianças se considerarem Mais de 2 SM 91,5 5,1 1,2
as únicas “culpadas” por sua repetência acaba por
Fonte: dados do IBGE compilados por Sabóia (1996, p.79).
interferir em sua auto-estima, levando-as a se achar
incapazes de aprender. Essa crença, comum a alu- Como se pode verificar, os índices referentes a
nos e pais, acaba gerando o abandono da escola: crianças que “estudam e trabalham” ou “so-
“se não é bom pros estudos, então larga a escola mente trabalham” são mais elevados nas fa-
e vai trabalhar”. “Embora a evasão esteja presente mílias com faixa de renda menor. Enquanto nas
desde a 1a série do ensino fundamental, o aban- famílias com renda acima de dois salários mí-
dono definitivo da escola geralmente ocorre entre nimos apenas 1,2% das crianças “somente tra-
os 13 e 15 anos. Mais grave ainda: o aluno médio, balham”, naquelas com renda abaixo de 1/4
mesmo permanecendo quase oito anos na escola, de salário mínimo esse índice é de 12,3%. O
só consegue atingir a 3a ou 4a série. Mais uma vez, Gráfico 1 (com os dados da última coluna da
são as crianças e famílias pobres as mais vulnerá- tabela acima) permite visualizar melhor a in-
veis à evasão. É muito provável que pressões eco- terrelação entre renda familiar, trabalho infan-
nômicas obriguem esses estudantes a abandonar til e evasão escolar.

Gráfico 1 O trabalho precoce


Distribuição de crianças de 10 a 14 anos que trabalham e não estudam, segundo a rrenda
enda familiar
familiar,, Brasil, 1990 interfere pois negati-
vamente na escolari-
zação das crianças,
seja provocando
múltiplas repetên-
cias, seja empurran-
do-as para fora da
escola – fenômeno
diretamente relacio-
nado à renda fami-
liar. Crianças e ado-
lescentes oriundas de
famílias de baixa ren-
12,3%
11,7% da tendem a traba-
lhar mais e estudar
menos, comprome-
8,0% tendo, dessa forma,
suas possibilidades
de vida digna.
4,0% Até 1/4 salário mínimo O trabalho infantil
Mais de 1/4 a 1/2 salário mínimo constitui assim obs-
Mais de 1/2 a 1 salário mínimo
1,2% táculo ao desenvolvi-
Mais de 1 a 2 salários mínimo
Mais de 2 salários mínimo mento das crianças,
resultando em redu-
ção de suas expecta-
tivas futuras.
17
COMBATENDO O TRABALHO INFANTIL: GUIA PARA EDUCADORES v.1

ADOLESCENTES ALMOÇAM DURANTE A COLHEITA DA LARANJA. TABATINGA - SP


O trabalho
infantil no Brasil
atual
A mera existência de trabalho
infanto-juvenil revela desrespeito
flagrante ao direito de existir de
milhões de crianças e adolescentes,
no Brasil e no mundo. Como se viu,
essa realidade reflete o modelo
político-econômico vigente nas
últimas décadas, que vem
conduzindo o país a um processo de
concentração de renda sem
precedentes na história, colocando
um enorme contingente de nossa
população em situação de extrema
penúria. Para combater o
trabalho infantil, porém, não basta
conhecer as causas: é preciso
conhecer sua extensão, localização
e características.

19
COMBATENDO O TRABALHO INFANTIL: GUIA PARA EDUCADORES v.1

tema na agenda social nacional só se iniciariam


Dimensionando o problema na década seguinte.

Necessidade, oportunismo e incompreensão Os anos 90 foram decisivos para o início do


se mesclam para explicar o trabalho precoce. A movimento contra o trabalho infantil, tanto para
situação de pobreza obriga os pais tanto a utili- a mobilização da sociedade civil como para a im-
zar os filhos como mão de obra doméstica, quan- plementação de políticas públicas de assistência
to a oferecê-los no mercado de trabalho para au- social. Em 1992, o número de crianças e adoles-
mentar a renda familiar. centes exercendo algum tipo de atividade eco-
nômica era de 9,7 milhões. A estimativa do total
Como uma das expressões da pobreza e da de crianças e adolescentes (10 a 17 anos) traba-
injusta distribuição de renda, o trabalho infantil lhando no Brasil em 1998 é de 7,7 milhões. Isso
sempre se fez presente em nossa sociedade. O aponta uma tendência de redução que, no en-
Gráfico 2 mostra como crianças e jovens partici- tanto, ainda é muito lenta.
param da economia entre os anos 1950 e 1980.
Tais dados ainda consideravam a população tra- Cabe notar que, dentre os que trabalham,
balhadora infantil somente a partir dos 10 anos aproximadamente a metade têm entre 16 e 17
de idade. anos, estando portanto na faixa etária permitida
pela legislação brasileira para o ingresso no mer-
A década de 80, é bom lembrar, foi marcada
cado de trabalho. Para conhecer melhor o fenô-
por grande instabilidade econômica, fazendo
meno do trabalho precoce, é preciso pois desa-
com que o Brasil entrasse nos anos 90 com um
gregar os dados por faixa etária.
dos piores desempenhos entre os países pobres
do Terceiro Mundo, no que diz respeito ao en- Os indicadores sobre a participação de crian-
frentamento da pobreza e à distribuição de ren- ças na força de trabalho mostram que essa parti-
da. E, embora tenha sido também a década da cipação cresce com a idade e é maior entre os
mobilização social pela redemocratização do país, meninos do que entre as meninas (com a ressalva
a luta contra o trabalho infantil e a inserção do da invisibilidade e maior dificuldade de estimativa
do trabalho destas em
Gráfico 2
casa); decresce com o
Por centagem de crianças (10 a 14 anos) e jovens (15 a 19 anos)
orcentagem
aumento do nível de
es no total dos rrespectivos
trabalhadores
trabalhador espectivos grupos etários, Brasil, 1950-1980
renda das famílias onde
estão inseridas; e é mais
elevada na área rural
60%
do que na urbana.
50,9%
50% É preciso ressaltar
47,8%
que, ao longo da dé-
40% cada de 90, os dados
41,7% mostram que houve
30%
uma redução no nú-
mero de crianças tra-
19,8% balhando. Isso prova-
20%
12,7% velmente se deve ao
14,4%
fato de a sociedade
10%
estar mais atenta e de-
nunciar a exploração
0%
de crianças e adoles-
1950 1970 1980
centes. Também pode
estar refletindo a vi-
Jovens Crianças gência de algumas es-
truturas de controle so-
cial e a implementação,
Fonte: dados dos Censos Demográficos do IBGE; extraído de Retratos do
Brasil, 1985, v.2, p.303. mesmo se pontual e
20
Trabalho infanto-juvenil por
grupos de idade
Dos 5 aos 9 anos crianças ocupavam-se em de crianças e jovens entre 10 e
Foi somente em 1993 que o atividades agrícolas), 14 anos –, indicando uma
Brasil assumiu oficialmente a especialmente na pequena auspiciosa tendência à redução.
existência de crianças produção familiar, e Com certeza, os meninos são
trabalhadoras com idades entre predominantemente nos mais numerosa e precocemente
5 e 9 anos, em diferentes tipos estados do Nordeste. Os dados empurrados para o trabalho do
de trabalho em diversos estados de 1999 já mostram que o
que as meninas, em todo o
brasileiros. Esse reconhecimento número de crianças de 5 a 9
país. No entanto, considerando
tardio é grave, se levarmos em anos trabalhando caiu para
a arraigada visão que atribui às
conta que o país já dispunha de 375.000.
mulheres e meninas os
legislação trabalhista Dos 10 aos 14 anos cuidados domésticos, é possível
regulamentando o acesso ao O número e proporção de que os dados subestimem o
trabalho segundo a idade e, crianças trabalhadoras eleva-se trabalho das meninas em casa.
também, do Estatuto da substancialmente na faixa dos O trabalho infantil feminino
Criança e do Adolescente (ECA), 10 aos 14 anos. O contingente doméstico é uma das formas de
promulgado em 1990. dos que trabalhavam em 1995 trabalho mais difundidas e
Dados de 1995 mostravam que representava 18,7% (3,3 menos pesquisadas, devido a
3,6% (581.300) das crianças milhões) das crianças do grupo sua pouca visibilidade. Dados
entre 5 e 9 anos trabalhavam (ao todo, cerca de 17,6 da PNAD de 1998 mostram que
no país, com uma jornada milhões) – e eram quase 400 mil meninas na faixa
média semanal de 16,2 horas. majoritariamente meninos de 10 a 16 anos trabalhavam
A maior parte (79,2%) do (87,4%). Novamente, mais da como empregadas domésticas.
trabalho nessa faixa etária metade (54,6%) moravam em A regra geral é não terem
ocorria em ocupações típicas da áreas rurais. Em 1999, esse carteira assinada e a
agricultura (três quartos dos contingente havia baixado para remuneração, em média, não
chefes de família dessas 2,5 milhões – 16,6% do total chega a um salário mínimo.

Gráfico 3
Distribuição das crianças e adolescentes (10-14 anos) que trabalham segundo o sexo e grandes rregiões,
egiões, Brasil, 1999

3 000 000 1 600 000


2 817 889
2 500 000 1 400 000
1 200 000
2 000 000
1 854 854 1 000 000
1 500 000 800 000

1 000 000 600 000


963 035
400 000
500 000
200 000
0 0
BRASIL NORDESTE NORTE CENTRO SUDESTE SUL
OESTE

total de crianças trabalhadoras


meninos
meninas

Fontes: IBGE, PNADs 95 e 99; Cipola, 2001; Schwartzman, 2001.

21
COMBATENDO O TRABALHO INFANTIL: GUIA PARA EDUCADORES v.1

insuficiente, de políticas públicas de assistência NO CAMPO


para retirar crianças do trabalho – o que só re-
força a necessidade de incentivar a manutenção
E NA
e ampliação eficiente e sustentável das políticas CIDADE
públicas de combate ao trabalho infantil. Conhecer a realida-
Muitas dessas crianças estão exercendo tra- de do trabalho in-
fantil implica co-
balhos considerados insalubres e perigosos2 –
nhecer, também,
que, por sua natureza ou circunstância em que as condições desu-
são exercidos, comprometem sua saúde, seu de- manas em que
senvolvimento físico, psicológico, ou moral. As ocorre. As crian-
condições particulares em que se realiza a explo- ças trabalhadoras
ração do trabalho de crianças e adolescentes no desenvolvem ati-
Brasil passa pelas “piores formas” apontadas na vidades penosas,
perigosas, em
Convenção da OIT (cf. p.7-8). Algumas dessas
LIXÃO DO JA NG UR UÇ U. CE ambientes insa-
formas são trágicas no país, como a prostituição lubres – no mais,
e a participação de crianças e adolescentes no inadequadas também para adultos. Vários
tráfico de drogas. No primeiro caso, o machismo desses aspectos podem ser mais facilmente vislum-
imperante em amplos setores da sociedade fa- brados no campo, na cultura da cana de açúcar,
vorece o acobertamento e a tolerância dessa prá- nas carvoarias, no sisal e nas pedreiras, entre ou-
tros. As informações sobre trabalho infantil por
tica infame em muitas regiões; no segundo, a
estado, apresentadas a seguir, foram colhidas por
falta de perspectiva, a escassez de recursos e a fiscais das Delegacias Regionais do Trabalho do res-
desesperança têm levado milhares de crianças e pectivo ministério e publicadas no Mapa de indi-
jovens ao circuito do crime organizado, vislum- cativos do trabalho da criança e do adolescente
brando possibilidades de ganhos “fáceis” e ime- (Brasil, 1999).
diatos. Ao mesmo tempo, tornam-se autores e Milhares de crianças e jovens trabalham de sol a
vítimas de ações violentas, como se tem verifica- sol nos canaviais e no engenho, principalmente em
Alagoas, Bahia e São Paulo. Na safra, fazem o cor-
do em estatísticas sobre jovens infratores e sobre
te da cana, ajudam a transportar os feixes para o
mortes em chacinas. Em ambos os casos, as crian- engenho. Num calor abrasador, trabalham no co-
ças são expostas a todos os riscos que a vida nes- zimento do caldo da cana, revirando-o com uma
sas condições coloca, sendo o pior deles a perda escumadeira, retirando espuma e impurezas, até
do senso de dignidade da existência humana. que se atinja o ponto do melado. Na entressafra,
pegam na enxada para ajudar os pais a limpar o
A visibilidade do problema do trabalho infan- canavial. Esse tipo de trabalho os expõe a vários
til, traduzido em números, contribui sobrema- riscos de acidentes – lesões por facão ou foice,
neira para compreender a dimensão que este vem queimaduras, picadas de cobras. Além disso, o
assumindo no Brasil. Embora em termos estatís- transporte até o local de trabalho é feito em veí-
culos inadequados. As jornadas são longas, os sa-
ticos os números possam parecer pouco signifi-
lários baixíssimos e a situação é agravada pela fal-
cativos, no que diz respeito aos direitos das crian- ta de alimentação, de água potável e de instala-
ças e adolescentes (como também aos direitos ções sanitárias adequadas.
humanos), enquanto houver uma só criança que Sob o calor do sol e dos fornos que queimam le-
esteja trabalhando, devemos exercer não só o nha para fazer carvão, centenas de crianças e jo-
direto de nos indignar, como também nos posi- vens trabalham em carvoarias, principalmente nos
cionar contra essa exploração e reivindicar medi- estados da Bahia, Goiás e Minas Gerais. Seu tra-
balho é encher os fornos com lenha, fechá-los com
das concretas para a erradicação dessa chaga,
barro e, depois, retirar o carvão. Ainda ajudam no
em qualquer parte do mundo. corte das árvores para fornecer a lenha, no ensa-
camento do carvão e no carregamento dos cami-
2 Em relação ao trabalho perigoso, o país que ratifica a Convenção 182 da nhões. Fumaça e calor fazem parte do ambiente
OIT compromete-se a constituir uma comissão com representantes de de trabalho. A jornada excessiva, o trabalho no-
governo, empregadores e trabalhadores, para listar os trabalhos conside-
rados perigosos. O Brasil foi o oitavo país a ratificá-la e a comissão tripar- turno e exposição a variações bruscas de tempera-
tite aqui formada (com base em quadro sobre “Trabalho do menor”, cons- tura comprometem a saúde. Crianças e adultos
tante da antiga CLT), definiu 81 tipos de atividades como perigosas, rigo-
rosamente proibidas para menores de 18 anos (Brasil, 2001). trabalham sem proteção alguma e sem descanso
22
semanal. Em algumas localidades do Mato Gros- dores de carro, “flanelinhas”, jornaleiros ou en-
so do Sul, constatou-se a existência de trabalho graxates, dentre tantas atividades. Vendendo pro-
semi-escravo, ou seja, a empresa fornecia alimen- dutos diversos entre veículos em congestionamen-
tos e descontava seu valor sem apresentar notas; tos, pontos de ônibus, em frente a centros comer-
na hora do acerto de salário, muitos trabalhado- ciais ou estádios de futebol, eles fazem parte da
res ainda ficavam devendo à empresa (Huzak & paisagem urbana, sendo por muitas vezes vistos
Azevedo, 2000, p.22). O grande paradoxo é pen- como estorvo ou mesmo como futuros marginais.
sar que o carvão, destinado a fornecer energia, A rua é um local de trabalho cruel e perigoso: as
seja produzido subtraindo energia de crianças e relações que estabelecem com outros atores so-
jovens. ciais (adultos agenciadores, policiais, traficantes e
No sertão da Bahia e da Paraíba, crianças e ado- adultos de rua) em muitos casos põem em risco
lescentes trabalham nas plantações de sisal: cor- sua vida. Além disso, esses meninos e meninas fa-
tam as pontudas folhas e as carregam para a “ba- zem longos percursos a pé, alimentam-se de ma-
tedeira”, máquina de desfibrar as folhas de sisal, neira e em horários inadequados e, por vezes, tra-
transportando também a fibra processada para a balham em locais e horários impróprios para a ida-
secagem. Nesse trabalho, não raro sofrem mutila- de, como bares ou boates, à noite.
ções pelo uso da máquina e ainda são expostos ao Nas cidades, além dos lixões e do trabalho nas ruas,
ruído excessivo e à alta concentração de poeira. O outra forma de inserção, menos visível, é o em-
Brasil é o principal fornecedor mundial dessa plan- prego doméstico e em pequenos empreendimen-
ta, cujas fibras conseguem altos preços no merca- tos (lojas, fábricas e escritórios familiares ou de
do internacional. A beleza dos produtos derivados pequeno porte). Para os empregadores, o traba-
do nosso sisal esconde histórias de privações de lho infantil apresenta-se como recurso barato e
crianças e adolescentes envolvidos na produção da sem necessidade de regularização. Embora talvez
fibra. cause menor impacto, esse trabalho não perde suas
Detectado em 12 estados brasileiros, dentre os características e condições de exploração, exposi-
quais Alagoas, Bahia e São Paulo, o trabalho de ção a riscos e prejuízo ao desenvolvimento das
crianças e adolescentes em pedreiras lembra os crianças e jovens.
antigos trabalhos forçados que prisioneiros eram
O trabalho doméstico, realizado geralmente por
obrigados a realizar. As crianças trabalham a céu
meninas em residências, constitui freqüentemen-
aberto em meio a explosões de rochas, provoca-
te uma forma de exploração oculta, como men-
das com cartuchos de pólvora. Com marretas e
cionado. Na maioria das vezes, as condições de
talhadeiras quebram os blocos de pedras sob o
vida e trabalho são inadequadas, muitas meninas
sol, num esforço físico excessivo para suas idades.
dormem no emprego – condição que favorece uma
Também trabalham no polimento e carregamento
jornada de trabalho extremamente alongada – e
de pedras, inalando pó o tempo inteiro. A jornada
muitas chegam a sofrer humilhações e abusos se-
é excessiva, o trabalho é insalubre, ninguém usa
xuais.
óculos ou qualquer outro meio de proteção.
Nos centros urbanos, o trabalho infantil é visível A mesma pesquisa do DIEESE (1997) em seis gran-
nas ruas e, especialmente, nos depósitos de lixo des centros urbanos brasileiros, já mencionada,
ou “lixões”. Em ambiente altamente insalubre, crian- constatou que 70% das crianças trabalhadoras têm
ças e adolescentes recolhem garrafas, latas, plás- menos de 14 anos, sendo que um terço delas co-
tico e papel para reciclagem ou reaproveitamento meçou a trabalhar antes dos 10 anos. Grande par-
e posterior comercialização. Nos lixões, convivem te delas trabalha cinco, seis e até sete dias da se-
com materiais contaminados e gases de fermen- mana, em tempo integral; muitas cumprem parte
tação dos dejetos; latas, garrafas e peças de metal da jornada de trabalho à noite. O trabalho que as
cortam e ferem, tanto adultos como crianças. Ali- crianças fazem é exatamente o mesmo que é feito
mentam-se em meio a enxames de moscas. Além por adultos, inclusive com as mesmas condições
do que recolhem para venda, costumam selecio- precárias, isto é, em locais perigosos e insalubres.
nar alimentos e objetos reaproveitáveis para uso Um quadro sintetizando as principais ocupações
próprio. Com o que vendem, crianças conseguem de crianças no Brasil é apresentado anexo (última
obter a quantia de no máximo R$ 2,00 por dia página). O quadro aqui esboçado mostra que a
(Huzak & Azevedo, 2000, p.81). É comum traba- sociedade brasileira, nos tempos atuais, vem im-
lhar a família inteira, numa jornada ininterrupta, primindo grandes doses de sofrimento a milhões
sem descanso semanal ou qualquer vínculo em- de crianças e adolescentes, que continuam sendo
pregatício. agenciados para os mais diversos tipos de traba-
Pequenos trabalhadores nas cidades vêem-se por lho, realizados em condições que em nada se re-
toda parte, nas ruas. São vendedores de picolé, vertem em seu próprio benefício. E, também no
fruta, cigarro, biscoito, doces e balas; são guarda- passado, isso ocorria.
23
COMBATENDO O TRABALHO INFANTIL: GUIA PARA EDUCADORES v.1

PATRÃO (OU CAPATAZ) POSA PARA FOTO AO LADO DE SEUS OPERÁRIOS - FÁBRICA BANGU. RIO DE JANEIRO - RJ (1907)
O trabalho de
crianças no
passado brasileiro
A escravidão vigorou no Brasil por
mais de três séculos, tempo em que
se permaneceu investindo na
formação e na constante reafirmação
da mentalidade escravista, sobretudo
através do trabalho, adulto e infantil.
Nos últimos pouco mais de cem anos
republicanos e de “trabalho livre”,
têm sido muito tênues as iniciativas
concretas no sentido de combater
e/ou coibir a exploração desenfreada
do trabalho infanto-juvenil. É preciso
pois indagar em que medida essa
prática estaria expressando resquícios
da mentalidade escravista. Qualquer
iniciativa que vise a superação dos
efeitos do trabalho escravo ainda
presentes em nossa sociedade deverá
necessariamente deitar o olhar sobre
o passado escravista.
É lá que estão algumas das raízes
históricas que explicam a aceitação
com grande naturalidade da
exploração da força de trabalho
de crianças e jovens. Afinal, esse foi
um aprendizado que se deu no
cotidiano das relações entre senhores
e negros, escravizados e libertos.

ICONOGRAPHIA
25
COMBATENDO O TRABALHO INFANTIL: GUIA PARA EDUCADORES v.1

do preço do escravo adulto, uma vez que o mer-


cado escravista valorizava mais aqueles que ti-
nham certas habilidades ou que haviam se espe-
cializado em alguma ocupação. Era dessa forma
que proprietários exploravam a força de traba-
lho de crianças e adolescentes escravos.
No mundo do trabalho escravo, aprender a
trabalhar significava, sobretudo, aprender a ser-
vir e a obedecer ao senhor. Isso implicava, para a
criança negra, ser iniciada num longo e sofrido
aprendizado, em que deveria incorporar a ma-
neira de ser... escrava. Esse aprendizado come-
çava muito cedo e estava concluído por volta dos
12 anos de idade. Aos 14 anos as crianças já tra-
balhavam como adultos.
Na sociedade escravista, ao voltar o olhar, ain-
da que brevemente, à vida das crianças da elite,
o que vislumbramos são as imensas diferenças,
comparativamente à vida das crianças escravas,
sendo a principal diferença óbvia: as crianças da
elite branca não trabalhavam. Durante quatro
séculos ocorreu a lenta e constante construção
de uma mentalidade pautada na relação de man-
do e obediência; a desigualdade social entre as
crianças escravas e as da elite expressa a própria
DO SÉCULO XIX NA FOTOGR
AFIA DE CHRISTIANO JR. estrutura econômica da época. Às crianças bran-
ESCRAVOS BRASILEIROS LISSOVSKY
LIVRO DE PAULO CESAR DE
AZEV EDO E MAU RICI O
ca da elite estava reservado um tipo de vida que
as preparava para as funções que viriam a assu-
mir na sociedade: as meninas seriam as futuras
A criança escrava sinhás – aprendiam a costurar e bordar, a tocar
piano; e os sinhozinhos, que assumiriam as ve-
Estudos mostram que, nos engenhos, os fi- zes de senhores-de-engenho, eram educados por
lhos de escravos, tal qual seus pais, passavam pelo professores (muitos estrangeiros), que lhes ensi-
mesmo tormento de ter de trabalhar no eito, navam conhecimentos gerais e idiomas. A situa-
cortar a cana de açúcar, arrastá-la e picá-la em ção de mando se afirma por meio das múltiplas
pedaços, colocando-a para moer, espremer e fer- relações que os indivíduos estabelecem entre si.
ver. Podemos supor então que seus pequenos Para as crianças da elite, as brincadeiras eram
corpos também experimentaram o desconforto momentos privilegiados para exercitar e afirmar
das altas temperaturas emanadas das caldeiras sua condição de superioridade na hierarquia so-
das casas de purgar, local onde se fabricava o cial. Uma brincadeira típica era aquela em que o
açúcar. Também nas demais atividades em que menino escravo, com joelhos e mãos apoiados
se empregava mão-de-obra escrava, a criança no chão, servia de mula para o sinhozinho mon-
trabalhou desde cedo em tarefas que exigiam tar e trotar. Arqueado, curvado ao chão e sendo
esforços muito superiores às suas possibilidades montado pelo sinhozinho, ao menino escravo se
físicas. Acompanhando seus pais, fazia desde ser- incutia, mesmo nessa “brincadeira”, sua condi-
viços domésticos, como servir, lavar, passar, co- ção de inferioridade na hierarquia social do mun-
zer roupas e consertar sapatos, até trabalhos em do escravista.
madeira. No campo, pastoreava gado e realizava
Tal mentalidade, enraizada em nossa socieda-
tarefas na roça.
de por quase quatro séculos, pode estar na raiz
Para a lógica dos proprietários de escravos, o da aceitação como “natural” do trabalho de crian-
trabalho infantil significava projetar o aumento ças e adolescentes pobres.
26
pois pressionava para baixo o salário do trabalha-
Na fábrica, na passagem dor adulto.
do século XIX ao XX Um recurso utilizado no meio industrial, su-
postamente para minimizar a inadequação do
No início do século XX, o que se buscava com trabalho infanto-juvenil, foi a prática de fazer
o trabalho fabril era a disciplinarização do traba- adaptar parte do maquinário aos pequenos cor-
lhador, isto é, a incorporação de seus movimen- pos trabalhadores. A Fábrica de Tecidos Mariân-
tos ao ritmo sincronizado das máquinas. Essa dis- gela, instalada em São Paulo, adquiriu máquinas
ciplina dos gestos e dos movimentos era ensinada em tamanho reduzido para as crianças que em-
desde cedo, empregando-se crianças de 10 anos pregava. Esse tipo de medida, porém, não alte-
de idade, ou menos. A história das crianças ope- rava o fato de as crianças operárias serem sub-
rárias acha-se assim inserida no processo de in- metidas a condições de trabalho inadequadas à
dustrialização como um capítulo pontuado de re- idade e serem vítimas de acidentes. Em 1904,
latos de acidentes de trabalho, que registram des- por exemplo, a menina Antonia de Lima perdeu
de queimaduras, passando por perdas parciais de parte de seu braço direito numa máquina de cor-
mãos e/ou braços, chegando mesmo à morte. tar fumo da fábrica Arthur Pereira, em São Paulo
Alguns dados sobre o trabalho infantil, no fi- (Moura, 1999).
nal do século XIX e início do XX em São Paulo, Aos “acidentes de trabalho” acresciam-se, ain-
ajudam a dimensionar o que pode ter significa- da, os ferimentos resultantes de maus-tratos a
do o início do processo de industrialização para que os pequenos trabalhadores estavam sujeitos
os pequenos operários. Em 1890, do total de em- pela ação de patrões e/ou chefias hierárquicas.
pregados em estabelecimentos industriais, 15% Sob o argumento de manter “na linha” e de “pre-
era formado por crianças e adolescentes. Nesse venir o (mau) comportamento”, as crianças e
mesmo ano o Departamento de Estatística e Ar- adolescentes operários eram submetidos a casti-
quivo do Estado de São Paulo registrava que ¼ gos e humilhações, chegando a casos extremos
da mão de obra empregada no setor têxtil da de serem surradas e espancadas. Isso foi o que
capital paulista era formada por crianças e ado- aconteceu com o garoto Vitto Lindolpho que,
lescentes. Vinte anos depois, esse equivalente já também em 1904, foi “brutalmente espancado
era de 30%, segundo dados do Departamento pelo patrão”, quando este deu falta de 50 mil
Estadual do Trabalho. Já em 1919, segundo o réis da gaveta da sapataria (Moura, 1999). Era
mesmo órgão, 37% do total de trabalhadores do comum também os pequenos trabalhadores se-
setor têxtil eram crianças e jovens; e, na capital rem castigados em decorrência de avaliações
paulista, esses índices chegavam a 40%. Crian- negativas de seu desempenho profissional.
ças operárias trabalha-
vam em vários setores
ICONOGRAPHIA

da atividade fabril;
além da têxtil, estavam
também presentes nas
indústrias alimentícias
e de produtos quími-
cos, por exemplo.
Esses dados expres-
sam, principalmente, a
situação de pobreza vi-
vida pela família operá-
ria. Da perspectiva dos
industriais, o emprego
e a baixa remuneração
de mão-de-obra infan-
to-juvenil significava
aumentar seus lucros, OFICINA DE LATOEIRO. RIO DE JANEIRO - RJ (1908)

27
COMBATENDO O TRABALHO INFANTIL: GUIA PARA EDUCADORES v.1

Inadequação do trabalho à idade, disciplina- crianças entre 12 e 15 anos. O Decreto Estadual


rização e castigos atingiam não só meninos, como n.233, de 1894, estabelecera a jornada de 12
meninas também. No entanto, a inserção de horas diárias para o conjunto do operariado, proi-
meninas crianças e adolescentes se daria sob a bindo jornadas noturnas após as 21h para meni-
dupla discriminação de sexo e de idade, que com- nos menores de 15 anos e, para o sexo feminino,
primia ainda mais sua remuneração. Além disso, até os 21 anos. Apesar da legislação, porém, dada
as crianças do sexo feminino também sofriam a inoperância ou inexistência de fiscalização go-
com práticas de abuso sexual, então encobertas vernamental, o empresariado determinava sua
pela relação de mando de seus superiores hierár- própria jornada – um exemplo é o do Cotonifício
quicos – que, embora em menor proporção, não Crespi (em São Paulo), cujos 60 “menores” em-
poupavam nem os meninos. pregados trabalhavam durante 11 horas segui-
O mundo do trabalho, com sua disciplina fér- das, com um pequeno intervalo de 20 minutos à
rea e suas relações de poder – em que patrões e meia-noite; sua jornada tinha início às 7 horas
chefes hierárquicos transformavam sua condição da noite e se estendia até às 6 da manhã do dia
social e funcional em instrumentos de mando, seguinte. Longe de ser um caso isolado, essa era
imprimindo maus-tratos à mão-de-obra infantil uma prática comum nos estabelecimentos indus-
– não foi porém suficiente para subverter a in- triais do início do século XX.
fância e adolescência a ponto de excluir o lúdico Mas não só na indústria havia exploração do
das vidas de crianças e adolescentes. Relatos de trabalho infantil. De modo geral as cidades, ape-
brincadeiras no interior das fábricas e oficinas – sar dos baixos salários, ofereciam mais oportuni-
inadequadas ao ambiente de trabalho, mas pró- dades de trabalho, inclusive informais, como os
prias à idade – atestam que os pequenos traba- de vendedor ambulante, engraxate e jornaleiro.
lhadores não só transformavam em brinquedo Desse modo, a cidade representava um atrativo
objetos de trabalho (como pedaços de ferro em para a família inteira migrante do campo, pois
armas, por exemplo), mas em certos casos, resis- acenava com a possibilidade de emprego para
tiam a obedecer regras, fazendo prevalecer sua os adultos e seus filhos. Entre os operários, de
idade sobre a situação de trabalhadores, por meio uma maneira geral, o salário infantil era entendi-
de malcriação, desobediência e constantes brin- do como forma de complementar o orçamento
cadeiras. Além de resistência à rigidez de com- familiar. No entanto, e ao contrário dessa expecta-
portamento exigido pelo mundo do trabalho, as tiva, o agenciamento de mão-de-obra de crian-
brincadeiras sugerem que os pequenos trabalha- ças e adolescentes pressionava para baixo os sa-
dores também buscavam uma forma de quebrar lários dos trabalhadores adultos.
a monotonia da rotina. Elas “aliviavam a tensão
que permeava a situação de trabalho, resgatan- Portanto, os empresários se beneficiavam du-
do minimamente o direito à infância e à adoles- plamente da precária situação de vida e de tra-
cência, tão negado a esses trabalhadores” (Mou- balho do operariado em geral. Souberam tirar
ra, 1999, p.270). proveito da grande quantidade de crianças que
perambulavam pela cidade. Com um discurso que
Nas fábricas, os trabalhadores se amontoa- era um misto de filantropia e paternalismo, enal-
vam em ambientes insalubres, mal iluminados e teciam o trabalho como uma suposta solução ou
ventilados, com excesso de ruído. Nessas condi- alternativa para a convivência nas ruas com seus
ções precárias permaneciam em excessivas jor- riscos, seduções e vícios de toda ordem. Na insu-
nadas, que variavam de 12 a 14 horas diárias, ficiência deste, recorriam a outro argumento, o
realizando esforço contínuo e intenso. A precari- do aprendizado. Na ausência ou omissão de polí-
zação e o comprometimento da saúde constan- ticas públicas em matéria de educação profissio-
temente geravam doenças, entre as quais a tão nalizante, empresários alegavam propiciar o
temida tuberculose. aprendizado de habilidades para o exercício de
Em relação aos trabalhadores infanto-juvenis, profissão ou função. Nesse caso, a tendência da
desde 1910 havia leis regulamentando a jornada prática empresarial era a de não remunerar a
de trabalho de acordo com a idade, mas não eram mão-de-obra aprendiz, que acabou sendo a ca-
observadas. Em 1917, a Lei Estadual 1596 (SP) tegoria mais explorada nas primeiras décadas
definia o limite de até cinco horas diárias para republicanas.
28
Trabalho infantil na Inglaterra,
séculos XVIII e XIX
Atualmente, na maior parte dos o sistema fabril, é que este com o trabalho, elas ainda
países desenvolvidos da Europa último herdou as piores feições não são emancipadas, sendo
as crianças e adolescentes são do sistema doméstico, numa alugadas e seus salários
em geral respeitadas em seus situação em que não existiam recebidos pelos pais ou
direitos: estudam, brincam e se as compensações do lar, responsáveis (Documentos
preparam de forma adequada utilizando o trabalho de parlamentares ingleses, apud
para a vida adulta. Mas nem crianças pobres, explorando-as São Paulo, 1978).
sempre foi assim. Embora o com brutalidade tenaz. O fato é que, a despeito da
trabalho infantil seja constante Isso pode ser evidenciado nos opinião dos ricos, que
na história da humanidade, Relatórios dos Comissários de consideravam as crianças
ganhou evidência a partir da Trabalho Infantil, resultantes de trabalhadoras nas fábricas
Revolução Industrial, nos investigações determinadas “ativas”, “laboriosas” e “úteis”
séculos XVIII e XIX. (sendo afastadas dos parques e
pelo Parlamento Britânico em
Segundo o historiador 1833: pomares), os anos de 1830 a
Thompson (1987, p.202-24) na 1840 foram de intensa agitação
O presente inquérito reuniu
Inglaterra, por exemplo, houve operária pela melhoria das
(...) uma grande quantidade
uma intensificação drástica da condições de trabalho e
de provas sobre os diversos
exploração do trabalho de redução da jornada, tanto dos
aspectos das condições das
crianças entre 1780 e 1840, adultos quanto das crianças.
fábricas, que exercem
período em que as Comitês pela Redução da
importante influência na
transformações na produção Jornada foram criados,
saúde dos trabalhadores,
estavam em curso, com a “encorajando a dignidade (...) e
adultos e crianças. Nas
introdução do sistema de explicando o valor da educação
fábricas (...) [o ambiente] é
fábrica. Crianças trabalhavam para os não-instruídos”. O
sujo; mal ventilado; mal
nas minas de carvão e nas movimento de apoio às crianças
drenado; sem banheiros ou
fábricas, “(...) quase todas operárias cresceu e ganhou
vestiários; sem exaustores
doentias, franzinas, frágeis, adeptos em outros setores da
para a poeira; [há]
além de andarem descalças e sociedade. Thompson,
maquinária solta (...).
mal vestidas. Muitas não na condição de
Disso resulta:
aparentavam ter mais de 7 historiador e
anos”, escreveu um médico, 9 Que as crianças empregadas cidadão inglês,
sobre as que trabalhavam em em todos os ramos de conclui sua análise
uma fábrica em Manchester. manufatura do Reino dizendo que “a
As jornadas eram longas, tanto trabalham o mesmo número exploração das
quanto as dos adultos, variando de horas que os adultos; crianças, na
de 12 a 15 horas diárias. Os 9 Que os efeitos de trabalho escala e na
salários eram muito baixos, tão prolongado são: a intensidade
apenas um complemento para a deterioração permanente da com que foi
pequena renda familiar; e as constituição física; a praticada,
fábricas, sujas, escuras, mal aquisição de doenças representou
ventiladas. incuráveis; a exclusão (por um dos
Embora o trabalho infantil não excesso de fadiga) dos meios acontecimentos
fosse novidade já nessa época, de obtenção da educação mais vergonhosos
segundo Thompson (1987) a adequada; da nossa história”.
diferença entre o que era antes 9 Que, na idade em que as
realizado, no âmbito familiar, e crianças sofrem prejuízos
29
COMBATENDO O TRABALHO INFANTIL: GUIA PARA EDUCADORES v.1

MENINA EXTRAI RESINA DE PINHEIRO. ITAPETININGA - SP


Direitos da
criança e do
adolescente
Os direitos da criança e do
adolescente no Brasil são assegurados
na Constituição Brasileira e
especificados no ECA - Estatuto da
Criança e do Adolescente. Fruto de
um processo democrático, de
mobilização e organização popular
poucas vezes visto na história da
sociedade brasileira, o ECA representa
o esforço de diversos setores sociais
comprometidos com a causa da
infância e juventude. Durante a
elaboração da Constituição de 1988,
diversos grupos de pressão e
movimentos sociais organizados
denunciaram a situação desumana e
violenta a que estavam submetidas
grandes parcelas da população de
crianças e
adolescentes pobres do país e
conseguiram aprovar dois artigos
constitucionais sobre os direitos da
infância e juventude, que vieram a
servir de base para a elaboração do
ECA em 1990.

31
COMBATENDO O TRABALHO INFANTIL: GUIA PARA EDUCADORES v.1

Nesse sentido, falar do ECA implica falar dos O ECA - ESTATUTO DA


movimentos sociais que, de alguma maneira, re-
sistiram à ditadura militar e, no início da década
CRIANÇA E DO
de 80, cresceram e se articularam politicamente, ADOLESCENTE
nas áreas de educação, saúde, habitação, infân- O ECA pretende assegurar, a toda criança e ado-
cia e juventude, entre outras. A principal bandei- lescente, o direito básico de viver – desenvolver-se
ra desses movimentos era a democratização da saudavelmente, educar-se e receber proteção. Con-
sociedade brasileira e a melhoria das condições trariando a tradição brasileira de estabelecer o or-
de vida da população. Sua expressão maior veio denamento jurídico a partir “de cima” (quase sem-
pre atendendo aos interesses dos segmentos do-
a ser o novo texto constitucional (que substituiu
minantes da sociedade), o ECA resultou desse pro-
o que estava em vigor desde 1969, considerado cesso de mobilização dos setores sociais compro-
autoritário e centralista). Nesse contexto, os mo- metidos com a mudança, tanto na maneira de
vimentos especificamente voltados para a infân- “ver” a criança e o adolescente quanto no atendi-
cia e juventude promoveram intenso debate que mento a lhes ser dedicado. Assim, sua redação
levou, em março de 1988, à formação do Fórum evitou o termo “menor”, o que representou uma
Nacional Permanente de Entidades Não-Gover- mudança radical em relação à legislação anterior
namentais de Defesa dos Direitos da Criança e sobre o assunto, o Código de Menores. O termo
“menor”, de larga utilização no senso comum, na
do Adolescente (Fórum DCA). O esforço reunido
imprensa e mesmo na pesquisa científica, inicial-
desses setores comprometidos com a defesa da mente associado à idade, passou a assumir cono-
infância e juventude culminou na importante tação estigmatizante, designando principalmente
emenda popular “Criança prioridade nacional”, crianças pobres, abandonadas, ou que incorriam
incorporada nos artigos 227 e 228 da Constitui- em delitos, generalizando-se daí por diante para
ção Federal – que, por sua vez, foram fundamen- referir-se a crianças e adolescentes oriundos das
tais para a elaboração de uma lei específica re- camadas populares e em situação de miséria. Subs-
gulando os assuntos da infância e juventude, o tituir o termo “menor” por criança e adolescente
é, portanto, uma atitude política e filosófica de
ECA, promulgado em 1990.
resistência e não-discriminação.
Um olhar retrospectivo permite visualizar que Nesse sentido, o ECA representa uma mudança
as lutas e negociações travadas no Brasil pela con- de paradigma na área da infância e da juventude,
quista dos direitos da criança e do adolescente na medida em que incorpora uma nova concep-
estão inseridas no contexto das lutas internacio- ção de criança e adolescente – como sujeitos de
nais – o que não quer dizer que o que ocorria no direitos – na perspectiva da proteção integral, em
Brasil fosse apenas reflexo do que estava sendo contraposição à concepção anterior, em que eram
definidos por suas carências. Pensar a infância e a
discutido no mundo. Já em 1924, a Declaração
adolescência nessa perspectiva significa reconhe-
de Genebra determinava “a necessidade de pro- cer que, nessa fase da vida, crianças e adolescen-
porcionar à criança uma proteção especial”. Da tes necessitam de atendimento e cuidados espe-
mesma forma, a Declaração Universal dos Direi- ciais para se desenvolver plenamente; e essas ne-
tos Humanos, das Nações Unidas (ONU, [2000]) cessidades constituem direitos do conjunto desse
afirmava o direito da criança a cuidados e assis- segmento social, sem discriminação de qualquer
tência especiais. Estes foram finalmente consoli- tipo.
dados na Declaração dos Direitos da Criança, O principal aspecto do ECA é especificar os direi-
adotada pela Assembléia Geral das Nações Uni- tos da criança e do adolescente no que diz respei-
das em 1959 (ONU, 1959 – ver cartaz 1). to à vida e saúde, à liberdade, respeito e dignida-
de, à educação, cultura, esporte e lazer, e à profis-
sionalização e proteção no trabalho. Além disso,
explicita claramente a condenação legal contra
toda e qualquer forma de ameaça ou violação dos
direitos, sob forma de violência, exploração, dis-
criminação ou negligência, responsabilizando o
poder público pela implementação de políticas
sociais “que permitam o nascimento e o desenvol-
vimento sadio e harmonioso, em condições dig-
nas de existência” (Art. 7o). O Estatuto também
assegura às crianças e adolescentes o direito à con-
32
vivência comunitária e familiar, à livre expressão cação e Delegacias do Trabalho e que sejam ob-
de opiniões e crenças; o direito de brincar, de pra- servadas as regras de proteção ao trabalho previs-
ticar esportes e de se divertir. Cabe aos adultos tas na CLT. O Estatuto determina, porém, em seu
preservar-lhes a integridade física, moral e psíqui- artigo 68 sobre o trabalho educativo, que as exi-
ca, pondo-os a salvo de qualquer tratamento de- gências pedagógicas relativas ao desenvolvimen-
sumano, violento ou constrangedor. to pessoal e social do educando prevaleçam sobre
Dois direitos assegurados pelo ECA, em especial, o aspecto produtivo.
interessam-nos aqui: o direito à educação e a pro- A única possibilidade de trabalho para o adoles-
teção no trabalho. Entre os maiores ganhos do cente sem vínculo de emprego é a condição de
Estatuto está o reconhecimento do princípio da estagiário. Mas essa forma de aprendizagem pro-
centralidade da educação. O direito à educação fissional é regida por legislação específica, que
como direito do cidadão criança e adolescente e estabelece entre outras coisas que haja compati-
como dever do Estado e da sociedade tem sido bilidade entre a atividade do estágio (“parte prá-
um instrumento poderoso na exigência do direito tica”) e o horário escolar (“parte teórica”), não
de acesso à escola pública e gratuita, próxima da devendo a jornada de estágio ultrapassar seis
residência, em igualdade de condições de acesso horas diárias, objetivando priorizar a freqüência
e permanência, assegurando-se também o direito à escola diurna.
a programas suplementares de material didático-
Para fazer valer os direitos que arrola, o ECA tam-
escolar, transporte escolar, alimentação e assistên-
bém determina a criação de um sistema de garan-
cia à saúde. Cabe ao Estado oferecer ensino fun-
tia de direitos e de proteção integral, o que signi-
damental, obrigatório e gratuito, buscar a pro-
fica dizer que não apenas descreve os direitos, mas
gressiva extensão da obrigatoriedade e gratuida-
cria mecanismos para que os mesmos possam ser
de para o ensino médio, além de assegurar a ofer-
assegurados na prática. A proteção integral obri-
ta de creche e pré-escola para as crianças de até
ga a que todas as políticas sociais se articulem para
6 anos. O Estatuto determina ainda que deve ser
viabilizar o atendimento às necessidades da crian-
oferecido ao adolescente trabalhador ensino no-
ça e do adolescente. A exigibilidade torna legítima
turno regular e atendimento especializado para
a defesa comunitária desse atendimento por meio
os portadores de necessidades especiais, estabe-
dos Conselhos de Direitos (nacional, estaduais e
lecendo a obrigação dos pais de matricular seus
municipais) e dos Conselhos Tutelares. Cabe aos
filhos na escola e definindo como direito dos res-
Conselhos de Direitos formular e definir políticas
ponsáveis participar da definição das propostas
educacionais. Na perspectiva aqui adotada, esse públicas para a infância e juventude, financiadas
direito é tão importante que é tratado em tópico com recursos da União, dos estados e municípios.
à parte, adiante. Em cada município deve haver um Conselho Mu-
nicipal e um Fundo da Criança e do Adolescente.
No que se refere ao trabalho, o capítulo V do Apesar de serem instrumentos democráticos, é
ECA é inteiramente dedicado ao tema. Embora o preciso fiscalizar as políticas formuladas pelos con-
Estatuto tenha definido a idade mínima de 14 selhos, bem como o destino dos recursos do Fun-
anos para a admissão ao trabalho, legislação do. Os Conselhos Tutelares são órgãos autônomos
posterior (Brasil, 2000a), como já mencionado, e permanentes, encarregados de garantir o res-
determinou a idade mínima de 16 anos; o traba- peito aos direitos de todos as crianças e adoles-
lho da criança de 0 a 14 anos permanece termi- centes. É composto por cinco membros eleitos pela
nantemente proibido; e ao adolescente entre os própria comunidade que têm como atribuições,
14 e 16 anos é facultado o trabalho na condição dentre outras, atender crianças e adolescentes
de aprendiz. cujos direitos foram ameaçados ou violados, apli-
Ao ingressar em um emprego, o adolescente mai- cando as devidas medidas de proteção; atender e
or de 16 anos tem todos os direitos assegurados aconselhar pais e responsáveis; requisitar serviços
ao trabalhador na CLT (carteira de trabalho assi- públicos nas áreas de saúde, educação, serviço so-
nada, salário, repouso semanal remunerado, fé- cial, previdência, trabalho e segurança. Vale lem-
rias, recolhimento do Fundo de Garantia por Tem- brar que somente a autoridade judiciária tem po-
po de Serviço, direitos previdenciários etc.). der para rever as decisões do Conselho Tutelar (mais
É possível o adolescente com mais de 14 anos tra- de uma década depois da promulgação do ECA,
balhar como aprendiz, sendo a aprendizagem rea- porém, o papel dos conselheiros de direitos e tu-
lizada pelos Serviços Nacionais de Aprendizagem telares ainda é pouco entendido por diversos se-
instalados em todo o país, por organizações cre- tores da sociedade).
denciadas de ensino profissionalizante ou na pró- O Estatuto institui pois direitos dos quais não po-
pria empresa, desde que supervisionada pelos ór- demos abrir mão – e tampouco podemos deixar
gãos públicos responsáveis das Secretarias de Edu- de lutar para sua efetiva implementação.
33
COMBATENDO O TRABALHO INFANTIL: GUIA PARA EDUCADORES v.1

lidade. Certamente um requisito básico para esse


Direito à educação, modo de estar no mundo é a existência de parâ-
direito à infância metros éticos que sirvam de balizamento à mul-
tiplicidade de escolhas que se colocam no dia-a-
dia dos indivíduos. A questão que então se colo-
Em todos os países que lutam pela elimina-
ca é: qual educação poderia dar conta desses
ção do trabalho infantil, é consenso que a po-
desafios?
breza é a principal causa do ingresso precoce das
crianças no mundo do trabalho. As famílias, pre- Entre os organismos internacionais, a UNES-
midas pela miséria, muitas vezes não encontram CO, por meio do Relatório da Comissão Interna-
alternativas a não ser buscar a complementação cional sobre Educação para o Século XXI, coor-
de renda por meio do trabalho dos filhos. Por- denado por Jacques Delors (1998) aponta a ne-
tanto, o combate a essa forma de exploração não cessidade de a educação estar apoiada numa
pode ser dissociado de outras políticas que te- concepção de aprendizagem que contemple o
nham como objetivo intervir na diminuição da aprender a conhecer, a fazer, a conviver e a ser. A
pobreza. E uma das maneiras de incidir sobre a perspectiva é a de que os cidadãos acessem e
pobreza é propiciar mais e melhor educação às apreendam os conhecimentos construídos e a-
camadas pobres. Estudos recentes demonstram cumulados socialmente, que compreendam e
que o baixo índice de escolaridade da população atuem criticamente na realidade social não só
gera e realimenta as desigualdades sociais e a mais próxima, como também na mais ampla, no
concentração de renda. Investir na educação bá- sentido de sua modificação, preservação ou am-
sica é uma estratégia para reduzir as desigualda- pliação das conquistas sociais. Trata-se, portan-
des e melhorar a qualidade de vida da popula- to, de incorporar os conhecimentos à própria prá-
ção (Barros et al., 1990). tica, ao próprio fazer-se no dia-a-dia. Para isso, é
necessário desenvolver competências pessoais
No Brasil, a luta pela prevenção e eliminação
que envolvem flexibilidade, criatividade e pre-
do trabalho infantil está centrada na garantia do
disposição para um contínuo processo de apren-
direito à educação básica, associada a outras
dizagem.
ações, como complementação da renda familiar
e implantação e desenvolvimento de programas Também internacionalmente foi firmada, em
socioeducativos no período complementar à es- 1990, a Declaração Mundial sobre Educação para
cola. Todos (conhecida como EFA, sigla em inglês de
educação para todos, Education For All) no âm-
Organismos internacionais e nacionais, pes-
bito de conferência organizada por agências da
quisadores e educadores não se cansam de res-
ONU (UNICEF, 1990). Esse documento, do qual
saltar a importância da educação na formação
o Brasil é signatário, determina que toda pessoa
de cidadãos. Educados, estes estariam melhor ca-
deve poder se beneficiar de uma formação que
pacitados a enfrentar as exigências de uma so- compreenda tanto os instrumentos de aprendi-
ciedade cada vez mais complexa: uma sociedade zagem essenciais (leitura, escrita, expressão oral,
que exige das pessoas assumir uma postura que cálculo, resolução de problemas) quanto de con-
implica discernir, escolher e se posicionar frente ceitos, atitudes e valores indispensáveis à convi-
às mais diversas informações e situações da rea- vência social saudável. No Brasil, em consonân-
cia com a EFA e como resultado de movimentos
de educadores que a antecederam3 , foi elabora-

3 Desde a década de 80 movimentos de educadores pleiteavam o resgate


da importância da escola pública de qualidade e acessível a todos, em
confronto com visões então predominantes, que viam a escola basica-
mente como instrumento de perpetuação das elites. As CBE –Conferên-
cias Brasileiras de Educação – surgiram da aproximação entre associa-
ções de professores das redes públicas de ensino e entidades ligadas à
pesquisa e ao ensino universitário, tendo representado importante es-
paço para a ampliação dos debates que vinham ocorrendo na área edu-
cacional. Realizadas entre 1980 e 1988, “tiveram papel de destaque,
pois foi a partir delas que se consolidou uma posição em defesa do
ensino público e da melhoria da qualidade do ensino (...) visando a
democratização da educação” (Setubal et al., 2001, p.22).

34
do o Plano Nacional de Educação para Todos, outros espaços de educação e socialização para
um conjunto de diretrizes que orienta a imple- crianças e jovens, que não apenas o escolar. De-
mentação das políticas educacionais no país. senvolver plenamente o potencial presente em
cada criança não é tarefa somente da escola, mas
Uma das metas do Plano, já alcançada em pra-
da família e da sociedade como um todo. Os pro-
ticamente todas as regiões do país, é a universa-
gramas socioeducativos que se desenvolvem no
lização do acesso à escola fundamental – o que
horário oposto ao da escola têm a função de criar
inclui o acesso das crianças e adolescentes de
oportunidades para que crianças de famílias de
todas as camadas sociais, impedindo que a apro-
baixa renda pratiquem esportes, desenvolvam
priação do conhecimento por uma parte da so-
atividades artísticas e culturais, desenvolvam com-
ciedade seja utilizada como instrumento de ex-
petências sociais, brinquem e tenham seu
clusão social de milhares de crianças e jovens.
estudo acompanhado. A intenção não é a de
Mas uma educação que contribua para a in- substituir ou repetir o que a criança faz na esco-
clusão social deve contemplar tanto a democra- la, mas complementar e enriquecer a educação
tização do acesso às instituições educacionais que ela recebe de seus professores e familiares.
quanto a permanência na escola, com aprendi- Vale lembrar que as crianças de outros estratos
zagem efetiva. E isso ainda não foi alcançado, sociais se aprimoram em aulas particulares, fre-
como atestam os elevados índices de repetência qüência a clubes, bibliotecas, museus, teatros etc.
e evasão escolar. Para as crianças trabalhadoras, Complementar a educação daquelas crianças é
como se viu, esses índices são ainda mais eleva- contribuir para a maior eqüidade nas oportuni-
dos, o que reforça a necessidade de combater o dades educacionais. Assim, parte dos esforços
trabalho infantil, que dificulta o acesso à escola, para combater o trabalho infantil devem ser des-
cada vez mais fundamental para o exercício da tinados a fortalecer essas ações complementares
cidadania. à escola. Nessa perspectiva é que se justifica a luta
É importante, entretanto, considerar que o di- por uma escola de qualidade que garanta o in-
reito à educação não se reduz à freqüência à es- gresso, regresso, permanência e sucesso da crian-
cola formal. Embora esta constitua espaço privi- ça e, ao mesmo tempo, a luta por espaços, públi-
legiado para o desenvolvimento do processo edu- cos ou não, que ofereçam oportunidade de aces-
cativo, a sociedade e o Estado podem e devem so e prática de esporte, arte, cultura e lazer.
assumir suas responsabilidades no sentido de criar Viver a infância, ir à escola e ter possibilida-
des concretas de desenvolver atividades compa-
tíveis com a faixa etária em que se encontram
são condições necessárias ao pleno desenvolvi-
mento das potencialidades das crianças e ado-
lescentes. E um tipo especial dessas atividades
são as brincadeiras.

35
COMBATENDO O TRABALHO INFANTIL: GUIA PARA EDUCADORES v.1

A importância do brincar
As brincadeiras são universais, As brincadeiras como cantigas
estão presentes na história da de roda, cabra-cega, queimada
humanidade ao longo dos e os diversos tipos de atividades
tempos, fazem parte da cultura esportivas e jogos como
de um país, de um povo. futebol, xadrez ou damas, por
Achados arqueológicos do exemplo, apresentam situações
século IV a.C., na Grécia, pré-estabelecidas, não são
descobriram bonecas em uma determinada cultura ou criadas por um indivíduo em
túmulos de crianças. Há grupo social. particular. Portanto, não
referências a brincadeiras e Uma forma de brincar é o faz- expressam diretamente
jogos em obras tão diferentes de-conta das crianças, que aspectos de suas próprias
como a Odisséia de Ulisses e o começa muito cedo pela vivências. Mas nelas também a
quadro Jogos infantis, de Peter imitação dos adultos. Ao criança experimenta emoções e
Brueghel, pintor flamengo do exercê-lo, a criança vai se vivências comuns a todos os
século XVI. Nessa tela de 1560, apropriando das vivências indivíduos, simbolicamente
são apresentadas cerca de 84 cotidianas, internalizando essas representadas, e aprende a
brincadeiras que ainda hoje experiências e tornando-as suas. respeitar regras e limites, a
estão presentes em diversas Essa é uma das formas de a conviver com o outro. Além
sociedades. No Brasil, muitas criança explorar, experimentar e disso, nas brincadeiras
delas podem ser encontradas conhecer o mundo e a realidade tradicionais a criança entra em
no repertório das crianças de que a circunda. Quando brinca contato com experiências
diversas regiões do país; por de bonecas está re- passadas, que fazem parte da
exemplo, “cabra-cega” e “boca apresentando o cuidar que história da cultura em que vive.
de forno” parecem ser variantes experimenta da mãe, está Dessa forma, brincando – sem
das brincadeiras “galinha–cega” vivendo esse papel em seus estar exercendo funções adultas
e “o-chefe-mandou”, aspectos cognitivos e afetivos; – a criança elabora sentimentos,
representadas naquele quadro. no faz-de-conta pode exercer fantasias, angústias, medos,
Mas há também diferenças nos diversos papéis para, dessa aprende a se relacionar com o
jogos, brincadeiras e forma, melhor compreendê-los. mundo e a se apropriar da
brinquedos ao longo da E, à medida que esse processo história do grupo social de que
história, no interior das culturas se amplia com a participação de faz parte – e da história da
e entre as classes sociais. Assim, outras pessoas, a criança vai humanidade.
pode-se dizer que o brincar, ao aprendendo a lidar com O brincar tem hoje sua
mesmo tempo, expressa aquilo diferentes situações, a importância reconhecida por
que há de universal e estabelecer relações entre ela e estudiosos, educadores,
permanente na infância o outro, ao mesmo tempo que organismos governamentais
humana e as peculiaridades de se diferencia deste. nacionais e internacionais. A
Declaração Universal dos
Direitos da Criança (aprovada
na Assembléia Geral das Nações
Unidas em 1959), no artigo 7o,
ao lado do direito à educação,
enfatiza o direito ao brincar:
“Toda criança terá direito a
brincar e a divertir-se, cabendo
à sociedade e às autoridades
públicas garantir a ela o
exercício pleno desse direito”.
36
próprias, conforme se pode
verificar nestes depoimentos:
Na rua só durmo em grupo.
Tenho meu grupo certo de
três amigos e a gente está
sempre junto. De noite a
gente dorme junto, e de dia
a gente brinca junto,
também. A gente gosta
muito de brincar de picula,
porque é uma brincadeira
legal e alegre.
(depoimento colhido por
Ataíde, 1996, p.89)
Nunca teve festa no dia do
meu aniversário. Desde que
eu era pequeno que eu
queria muito ter um bolo no
meu aniversário… queria
convidar meus amigos para
uma festa (…) mas isso
nunca aconteceu porque
nunca sobrava dinheiro em
casa para festinhas…
(depoimento colhido por
Ataíde, 1996, p.95)
Pode-se compreender, pois,
como o trabalho precoce, ao
dificultar não só os estudos mas
também o brincar, inviabiliza
ou restringe as possibilidades
de desenvolvimento das
crianças, sua preparação para
se tornarem adultos e cidadãos
saudáveis, críticos e
participativos.

Em 1961, foi criada a IPA – ao direito à liberdade, o art. 16


Associação Internacional pelo inciso 4 reafima o direito a
Direito de Criança Brincar. Dez “brincar, praticar esportes e
anos depois, em 1971, a IPA foi divertir-se” (Cury et al., 1992,
reconhecida pela UNESCO e p.63).
passou a agir de acordo com A dimensão lúdica na vida das
seus princípios. crianças e adolescentes, porém,
O direito de brincar também é não é valorizada apenas por
explicitado no ECA: referindo-se especialistas, mas por elas
37
COMBATENDO O TRABALHO INFANTIL: GUIA PARA EDUCADORES v.1

SISALEIRO (7 ANOS) ESTENDENDO FIBRAS PARA SECAGEM. LAGOA DO BOI - BA


Contrapondo-se
ao trabalho
infantil
Vimos que o trabalho infantil já foi
preconizado como “solução” para os
problemas da infância pobre. E,
agora, é reconhecido universalmente
como um grave problema, revelador
da situação de miséria e exclusão
social vivida por milhares de famílias.
A mudança nesse modo de olhar a
questão vem acontecendo
lentamente. No Brasil, surge do
esforço de grupos organizados,
movimentos sociais, sindicatos e
diversas instituições, especialmente a
partir da década de 90.
Estudos acadêmicos, reportagens-
denúncia, levantamentos estatísticos,
seminários e debates foram
realizados. Aos poucos, a discussão
ganha corpo, torna-se pública e a
questão “Trabalho infantil” vem
constituindo mais um dos problemas
que a sociedade brasileira precisa
enfrentar e propor alternativas
visando sua superação.
Recapitulamos algumas das ações
que pontuam essa luta.

39
COMBATENDO O TRABALHO INFANTIL: GUIA PARA EDUCADORES v.1

A Marcha Global O Fórum Nacional


Contra o Trabalho Infantil de Prevenção e Erradicação
Partindo da África do Sul, do Brasil e das Filipinas, a do Trabalho Infantil
Marcha percorreu 80 mil quilômetros, de janeiro a
Esse organismo, criado em 1994, é composto por re-
junho de 1998. Em 29 de maio desse ano, 600 pes-
presentantes de organizações não-governamentais e
soas, dentre as quais 104 crianças e adolescentes re-
governamentais, de trabalhadores, empresários, mem-
presentando seus pares dos quatro continentes, reu-
bros da Igreja Católica e dos poderes legislativo e ju-
niram-se na sede da OIT na Suíça. Foi o ponto culmi-
diciário. Além dessas instituições, conta com a parti-
nante das mobilizações, caminhadas e encontros rea-
cipação de organismos internacionais, como a OIT e
lizados nos diversos países do mundo, envolvendo
o UNICEF.
milhares de pessoas. A maioria dos meninos e meni-
nas participantes era de ex-trabalhadores, resgatados Seu objetivo é discutir as ações de prevenção e erradi-
de lixões, das ruas, de pequenas e grandes planta- cação do trabalho infantil, visando garantir o cumpri-
ções, de fábricas e de outros sorvedouros da infância mento da legislação em vigor no país. O Fórum pro-
pobre e desatendida por esse mundo afora. põe-se a atuar como articulador entre os diversos pro-
jetos e programas no âmbito das esferas federal, es-
A presença dessas crianças e adolescentes na Marcha
tadual e municipal, buscando assegurar o acesso, a
contribuiu para chamar a atenção da opinião pública
permanência e o sucesso das crianças na escola. Seus
mundial para a necessidade da eliminação do traba-
integrantes acreditam que uma atuação coerente no
lho infantil, que persiste no início do novo milênio.
que diz respeito ao trabalho infantil deve procurar me-
Também permitiu a essas crianças e jovens aparecer,
lhorar as condições de vida das famílias e não somen-
resgatando-os da invisibilidade e deixando que sua
te das crianças, contemplando os aspectos básicos de
própria voz ecoasse pelo mundo, anunciando que é
saúde, educação e trabalho.
preciso e possível mudar essa realidade, de modo a
garantir-lhes o direito a uma infância digna. O Fórum Nacional constitui o mais amplo e impor-
tante espaço de discussão sobre a questão da pre-
venção e erradicação do trabalho infantil no Brasil,
não apenas por congregar os diversos segmentos so-
ciais, mas por seu caráter democrático.

CHEGADA DA MARCHA GLOBAL EM GENEBRA, 1998

40
O PETI – Programa os governos estaduais e federal, o que inviabiliza ações
do PETI em determinadas localidades.
de Erradicação Frente aos dados alarmantes, já expostos, em que
do Trabalho Infantil crianças e adolescentes de 5 a 16 anos exercem diver-
sas atividades econômicas, contrariando a legislação
O PETI, vinculado à SEAS – Secretaria de Estado de
e, principalmente, comprometendo seu desenvolvi-
Assistência Social do Ministério da Previdência e As-
mento biológico, psicológico e social, o governo con-
sistência Social, foi lançado em 1996, como uma das
segue atingir, com o PETI, uma reduzida parcela des-
primeiras ações concretas resultantes de denúncias e
ses pequenos trabalhadores.
reivindicações relacionadas ao trabalho de crianças no
Brasil. Surgiu com a perspectiva de eliminar as piores
formas de trabalho de crianças e adolescentes no país.
A primeira experiência foi implantada em 1996, nas
carvoarias do Mato Grosso do Sul e, nos anos seguin-
tes, nos canaviais de Pernambuco e na região sisaleira
da Bahia. Em 1998 o programa atingia as regiões ci-
trícolas do Sergipe, um garimpo de Rondônia e cana-
viais do Rio de Janeiro. Em 1999 passou a contemplar
os estados de Alagoas, Espírito Santo, Pará, Paraíba,
Rio Grande do Norte e Santa Catarina.
O público alvo do PETI são as famílias em condições
de miséria, com filhos na faixa de 7 a 14 anos que
realizem trabalhos considerados perigosos, insalubres,
penosos ou degradantes. Seu principal instrumento é
a “Bolsa Criança-Cidadã”, que complementa a renda
das famílias com R$ 25,00, desde que estas mante-
nham os filhos freqüentando escola; propicia ainda
uma série de atividades socioeducativas para além do
horário normal das aulas (jornada escolar ampliada).
O programa visa garantir condições mínimas para que
a família promova o atendimento de suas necessida-
des fundamentais e não precise da renda gerada pelo O Mapa de indicativos
trabalho das crianças. Em dezembro de 2000,
362.000 crianças e adolescentes estavam sendo aten-
do trabalho de crianças e
didas pelo PETI, em 590 municípios de 26 unidades adolescentes no Brasil
da Federação.
Em 1996, o Ministério do Trabalho e Emprego rea-
Apesar de o PETI apresentar concretamente resulta- lizou em todo o país, por meio das Delegacias Regio-
dos positivos, devemos considerar alguns problemas nais do Trabalho, um levantamento detalhado da in-
em sua operacionalização. O programa tem um cará- cidência de trabalho infantil, por regiões e estados
ter emergencial, uma vez que não é acompanhado brasileiros. Foi produzido um diagnóstico preliminar,
de políticas mais efetivas voltadas para superar a in- com informações sobre o tipo de atividade, as tarefas
justa distribuição da renda no país, situação essa res- realizadas, as condições de trabalho e os riscos à saú-
ponsável pela permanência das condições que impe- de e à segurança das crianças. Esses dados, atualiza-
lem as crianças para o trabalho precoce. As idades dos e complementados, foram reunidos no documen-
determinadas para inclusão e desligamento do pro- to Mapa de indicativos do trabalho de crianças e ado-
grama (7 a 14 anos) atuam como limitador da abran- lescentes (Brasil, 1999), com novas informações so-
gência da população atendida. Há casos de crianças bre o assunto, incluindo dados a respeito dos municí-
que, ao serem excluídas do programa por completa- pios onde ocorreu redução do emprego da força de
rem 15 anos, retornam ao trabalho nas mesmas con- trabalho infantil.
dições de ilegalidade anteriores, apesar de a legisla- Esse documento, sem dúvida, é importante por for-
ção proibir o trabalho para os menores de 16 anos. necer dados que contribuem para a implementação
As políticas públicas nas áreas de educação, saúde, de ações visando a erradicação do trabalho infantil.
trabalho, justiça, emprego e renda, entre outras, apre- Contudo, as denúncias decorrentes dessa pesquisa e
sentam um grau de articulação ainda incipiente com a correspondente fiscalização têm sido insuficientes
o PETI, dificultando uma ação intergovernamental para coibir a atuação dos empregadores, responsá-
mais efetiva no combate ao trabalho infantil. Alguns veis pelo gesto fundamental: dar emprego a crianças,
municípios não estabelecem parcerias estáveis com em vez de a adultos.
41
COMBATENDO O TRABALHO INFANTIL: GUIA PARA EDUCADORES v.1

Mobilização dos trabalhadores: o


papel de centrais sindicais,
confederações e sindicatos
Os sindicatos introduziram em primeira instância a
questão do trabalho infantil na pauta do movimento
social em defesa dos direitos da criança. As centrais
sindicais (CUT, CGT, Força Sindical), com o apoio do
programa IPEC da OIT, iniciaram em 1992-1993 uma
campanha para a conscientização de sindicalistas e
mobilização da sociedade. Além de enfatizar os direi-
tos negados às crianças, promoveram a realização de
seminários para sindicalistas, encontros e caravanas
de crianças trabalhadoras, voltados para a denúncia
e a pressão direta junto ao governo (Carvalho, 2000).
As centrais sindicais e as confederações de trabalha-
dores (CONTAG, por exemplo), integraram-se ao Fó-
rum Nacional de Prevenção e Erradicação do Traba-
lho Infantil desde a sua formação, em 1994.
Organizações sindicais realizaram estudos que subsi-
diaram, entre outras ações, a discussão para a for-
mulação de políticas públicas pertinentes, programas
de atendimento às crianças e a inclusão da questão
do trabalho infantil nos contratos coletivos de traba-
lho. Também promoveram cursos de capacitação dos
trabalhadores a respeito da cidadania das crianças, o
que os fortalece para participarem mais ativamente
em conselhos como de direitos da criança, de assis-
tência social, entre outros.
A CNTE – Confederação Nacional dos Trabalhadores
Participação dos empresários: em Educação, parceira da OIT neste projeto –, visan-
do ampliar o engajamento de educadores e suas or-
a Fundação ABRINQ ganizações no combate ao trabalho infantil, vem de-
Criada em 1990, a Fundação ABRINQ incluiu a luta senvolvendo atividades como:
pela eliminação do trabalho infantil no rol de suas 9 realização de uma pesquisa, em cinco estados brasi-
preocupações a partir de 1995. Dentre outras ações, leiros, envolvendo a comunidade local, famílias, edu-
criou o selo “Empresa Amiga da Criança”, destinado cadores e governo, que resultou em uma cartilha
às empresas que respeitam a legislação referente ao específica sobre o tema (CNTE, 1999);
trabalho infantil. Também procura atuar sobre as ca-
deias produtivas, isto é, acompanhar todas as fases
9 participação nas marchas estaduais, nacional e glo-
bal contra o trabalho infantil;
de produção de um determinado item, desde a maté-
ria-prima até o produto final, com o intuito de detec- 9 inserção de representantes nos Conselhos da Crian-
tar a existência de exploração do trabalho infantil. ça e do Adolescente em nível nacional e estadual,
interferindo nas políticas públicas de atendimento
Recentemente, a Fundação ABRINQ aumentou as exi-
à população infanto-juvenil;
gências relativas ao compromisso com a infância, para
reconhecer uma empresa como “Amiga da criança”. 9 participação no debate sobre a questão da impu-
Trazendo o tema do combate ao trabalho infantil para tabilidade penal;
o âmbito da discussão sobre a responsabilidade social
das empresas, amplia-se o engajamento do empresa-
9 participação no Fórum Nacional de Prevenção e
Erradicação do Trabalho Infantil.
riado na defesa dos direitos das crianças e adolescen-
tes, estimulando também o envolvimento do setor Além dessas, várias outras atividades vêm sendo de-
produtivo em programas educacionais locais. senvolvidas nos sindicatos de base e em conjunto com
outras frentes que buscam a adesão dos vários seg-
mentos da sociedade (governo, empresários, educa-
dores, trabalhadores em geral) à luta para prevenir e
erradicar esse mal que compromete por inteiro o fu-
turo da nação.
42
Considerações
finais
Refletir sobre soluções que, de alguma
maneira, enfrentem a realidade do
trabalho infantil implica,
principalmente, discutir a urgência de
uma política econômica que
redistribua a renda de maneira mais
justa, promovendo as reformas
estruturais necessárias e implantando
programas específicos para as famílias
em situação de pobreza extrema, para
erradicar de maneira definitiva a
prática do trabalho infantil no país.
Tais medidas devem estender a todos
os brasileiros condições dignas de
moradia, uma educação pública de
qualidade e um sistema de saúde
eficiente.
Essas são ações de caráter político-
institucional, mas muito também
pode ser feito no cotidiano, por
cidadãos comuns. Não basta discutir
e refletir sobre as condições em que
uma imensa parcela de crianças e
jovens estão sendo precocemente
inseridos no mundo do trabalho. É
preciso agir e propiciar condições para
que o problema seja efetivamente
resolvido. Cada qual com sua parcela
de contribuição e responsabilidade,
governos, empregadores, trabalhadores
e suas organizações, organizações da
sociedade civil e as próprias famílias
devem empenhar-se no objetivo
comum de garantir a todas as crianças
e adolescentes os direitos assegurados
na Constituição brasileira.

43
COMBATENDO O TRABALHO INFANTIL: GUIA PARA EDUCADORES v.1

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45
COMBATENDO O TRABALHO INFANTIL: GUIA PARA EDUCADORES v.1

Anexo
Quadro 1: Incidência de Trabalho Infantil
por regiões do Brasil e estados da Federação, segundo atividade econômica,
tarefas executadas e condições de trabalho

REGIÃO NORTE
NORTE

Atividade/incidência Tarefas geralmente executadas


arefas Condições de trabalho a que estão submetidos
nos estados adultos e crianças

Indústria de móveis Cortar, lixar e pintar madeiras Ambientes insalubres, falta de equipamento de proteção,
(Acre, Amazonas e para fabricação de móveis contato com produtos tóxicos, falta de anotação em carteira
Tocantins) de trabalho

Pecuária (Acre) Limpeza dos currais, ordenha e Jornada excessiva de trabalho, transporte de carga excessiva
alimentação dos animais e falta de registro na carteira de trabalho

Cerâmica e Olaria Coleta do barro, transporte de Trabalho realizado em galpões úmidos, ritmo de trabalho
(Acre, Amazonas, lenha para alimentação do forno acelerado e repetitivo, jornada excessiva e
Rondônia e Tocantins) falta de registro na carteira de trabalho, luminosidade
e instalações sanitárias inadequadas, máquinas sem proteção
das polias e baixa remuneração.

Engraxate Atividade autônoma, realizada Longos percursos em busca de clientes, má alimentação,


(Amazonas e Rondônia) em ruas, praças, bares e pontos trabalho em locais de risco e proibidos como bares
de ônibus e boates

Madeireira e Serrarias Serviços gerais – limpeza de Falta de anotação na CTPS, descumprimento do período de
(Acre, Amazonas e entulhos, coleta de pó de descanso intrajormnada, falta de condições de higiene,
Pará) serragem, e manuseio de serra exposição a ruído e poeira vegetal, contato com produtos
circular. químicos, manuseio de máquinas perigosas,
Laminadores – corte laminar, não-fornecimento de água potável e instalações sanitárias
secagem e colagem de lâminas, inadequadas
carregamento e empilhamento

REGIÃO NORDESTE

Fumicultura Plantio, colheita, secagem e Jornada excessiva, manuseio de agrotóxicos, falta


(Alagoas, Bahia, ensacamento do fumo de registro na carteira de trabalho
Paraiba)

Pedreira (AL, BA, Extração, beneficiamento, corte, Trabalho a céu aberto, falta de água potável e instalações
CE,MA, PE, PI) polimento e carregamento de sanitárias; carga e jornada excessivas
pedras

Agricultura canavieira Plantio manual, queima do Não fornecimento de água potável e alimentação, falta de
(AL, BA, CE, canavial, corte e carregamento instalações sanitárias adequadas, transporte em veículos
MA, PB, PI,PE) dos caminhões inadequados e jornada excessiva de trabalho

Cultura do sisal Corte do sisal, carregamento Ruído excessivo junto às máquinas, jornada longa
(BA,CE,PB) para “batedeira”, Uso dessa de trabalho, máquinas sem proteção, alta concentração de poeira,
máquina para desfibramento, e falta de registro na carteira de trabalho
transporte para secagem

46
REGIÃO CENTRO-OESTE

Catador de papel Recolhimento em carroça com Trabalho insalubre, risco de acidentes de trânsito,
ou sem animal de papel e baixa remuneração e transporte de peso
papelão dos lixos dos
escritórios e dos orgãos públicos

Produção de carvão Manutenção dos fornos, Trabalho noturno, jornada excessiva, remuneração
vegetal (GO,MS) ensacamento, corte das madeiras por produção e exposição a variações bruscas de temperaturas
e carregamento dos caminhões

Agricultura (GO,MS) Limpeza, plantio, colheita e Transporte inadequado, uso de instrumentos cortantes,
transporte com cargas excessiva jornada excessiva, manuseio de agrotóxicos e falta de registro na
carteira de trabalho

REGIÃO SUDESTE

Extração de pedra Extração, quebra, corte, polimento Insalubridade, perigo de acidentes, jornada
brita, mármore e granito e carregamento de pedra excessiva, falta de condições sanitárias, trabalho a
(ES,RJ,SP) céu aberto
Mineração (MG*) *Manipulação inadequada de explosivos

Cafeicultura (MG,SP, Colheita e transporte de cargas Falta de registro em carteira de trabalho e jornada
ES*) pesadas excessiva
*Manuseio de produtos tóxicos

Agricultura canavieira Plantio manual, queima do Não fornecimento de água potável e alimentação,
(ES,MG,RJ,SP) canavial, corte e carregamento falta de instalações sanitárias adequadas,
dos caminhões transporte em veículos inadequados e jornada
excessiva de trabalho

Construção civil Ajudante de pedreiro e Falta de registro na carteira de trabalho, não


(ES,MG,SP) carregamento de entulho em fornecimento de água potável e jornada excessiva
carrinho de mão

REGIÃO SUL

Extração do calcário Corte, beneficiamento e Falta de máscaras, de protetores para o ouvido e


polimento jornada excessiva

Avicultura Abate, tratamento, embalagem, Falta de registro na carteira de trabalho e jornada excessiva
coleta dos ovos

Indústria calçadista Trançagem do couro, colagem Atividade exercida em “pequenos ateliês” em


da sola e outros componentes, alguns casos localizados no próprio domincílio.
limpeza da sola com produtos Por essas razões, não há controle de jornada de
químicos, pintura e lixamento trabalho, de proteção contra riscos à saúde
(exposição a produtos químicos) e à segurança
(manuseio de ferramentas cortantes), dentre outros aspectos.

Plantio e corte de Plantio e corte Falta de registro na carteira de trabalho, jornada


pinus (SC) excessiva, transporte inadequado e falta de água potável.
Fonte: Mapa de indicativos do Trabalho da Criança e do Adolescente. Brasília: Ministério do Trabalho e
Emprego/Secretaria de Inspeção do Trabalho, 1999.

No que diz respeito especificamente aos riscos e à segurança à saúde, a entrada precoce no universo do trabalho expõe
milhares de crianças e adolescentes às seguintes situações:contaminação pela água, intoxicação por diversos produtos
químicos, doenças no aparelho auditivo e respiratório, postura inadequada, dermatoses, lesão por esforços repetitivos.

47
BRASIL

Ver sugestão de trabalho com este mapa à p.6 do volume 2


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FOTOS: IOLANDA HUSAK

Programa Internacional para a Eliminação do Trabalho Infantil - IPEC


ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO
Escritório no Brasil
ISBN 92-2-811040-6