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Universidade Federal do Amapá
Pró-Reitoria de Ensino de Graduação
Curso de Licenciatura Plena em Pedagogia
Disciplina: Fundamentos da Filosofia
Educador: João Nascimento Borges Filho

Para ler Hegel - Nóbrega
Nossa Pretensão
Direitas e esquerdas em nossos dias sofrem alguma influência de Hegel.
Ele se torna, pois, necessária introdução a correntes do pensamento atual,
sobretudo do marxismo.
Mas uma abordagem do pensamento hegeliano não é fácil. Não só por se
um tipo de reflexão o idealismo pouco encontradiço no homem comum, mas
também porque dentre os idealistas é Hegel dos mais sutis, abstratos,
inacessíveis.
Habitualmente o estudante de filosofia procura se introduzir no
pensamento hegeliano, dispondo apenas de algumas páginas em algum livro
de História da Filosofia. É pouco demais. Ou recorre a algum livro específico,
pesado e complexo, que supõe toda uma introdução ao pensamento hegeliano.
E este meio-termo, esta introdução a Hegel, é o que não se encontra. Hegel
permanece assim o necessário e o inacessível. Ademais, as obras específicas
do pensamento hegeliano se detêm apenas sobre alguma parte se seu
sistema, seja a Lógica, seja a Filosofia da Natureza, etc. E permanece a
carência sobre uma visão global do sistema.
Este estado da questão coloca o limite das ambições destas páginas. Se
alguma coisa a mais resta a ser dita expressamente é que esta publicação não
representa um esforço de pesquisa, mas de didática. Para isto, usamos tanto
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de exemplos como de repetições. Não se destina ao professor, mas ao aluno.
Nunca pretende trazer descobertas novas sobre Hegel, mas facilitar a
apresentação do que já demais pesquisado, demais conhecido. E se acha
demais disperso em tantas publicações escritas mais para eruditos do que para
iniciantes.

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Esta, a nossa pretensão.
A Razão e seus Atributos
1. "Causa" e "Razão"
Nem todos os filósofos pretenderam fazer sistema filosófico. Num sistema
se pretende explicar tudo, concatenadamente, de modo a se ter uma visão
coerente, global, de toda a realidade, a partir de determinados princípios. A
filosofia de Hegel é um sistema e tem toda esta ambição mental.
Mas antes de se dizerem os princípios sobre os quais repousa toda a sua
explicação exaustiva do Universo, há uma questão preliminar: o que é mesmo
"explicar" o Universo?
Há duas respostas possíveis: 1) explicar é dizer a "causa"; 2) explicar é
dizer a "razão". Embora não se entenda de imediato a diferença entre "causa"
e "razão" – e saberemos logo abaixo – se percebe que estamos numa primeira
encruzilhada do pensamento filosófico que determina rumos completamente
diferentes, talvez opostos, de explicação da realidade. E de fato o é. A
explicação por causas é uma explicação realista. A explicação por "razão" é
uma explicação idealista.
2. Explicar o Universo não é dizer-lhe as Causas
Eu me pergunto: por que um terremoto? E a resposta virá: por causa da
constituição interna de nosso planeta. (A explicação evidentemente seria mais
ampla e mais complexa.) Mas me leva a uma segunda questão: e por que
nosso planeta é hoje assim? Imediatamente remontamos a um passado da
Terra que, através de outros "porquês", se perde em todo o passado do
sistema solar, das galáxias, do Universo inteiro. Estamos dando uma
explicação através de causa. E desta via discordará Hegel por duas razões:
primeiro, porque, diria ele, nada está sendo realmente explicado. Cada causa
leva a outra causa que, por sua vez, pede explicação. Quem explica a segunda
causa? A terceira. E quem, a terceira? Sempre resta uma causa exigindo
explicação. De fato não estamos explicando. Estamos adiando a explicação. A
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um certo momento, para se pôr ponto final a esta caminhada, sem explicações,
se tem de falar em uma causa que seja a causa de si própria. E uma causa de
si parece absurda. Se eu perguntar quem é a mãe de Maria e me disserem
Joana, me pergunto: e a de Joana? Posso chegar a um final de série em que
alguém se diga mãe de si própria?

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Há uma outra razão para se rejeitar a via causal. Quando digo que B é
causa de A, digo que isto assim, de fato, acontece. Mas não vejo necessidade
absoluta de assim acontecer. O fogo é a causa do incêndio. De fato assim
acontece. Mas não vejo nenhum absurdo do oposto (um fogo que não queime).
Mas vejo o absurdo do oposto quando digo que um e um são dois. No primeiro
caso, o do fogo, constato um fato que sempre assim se verificou mas nada me
convence de que assim, necessariamente, deva acontecer. No segundo caso,
o da soma, vejo claramente que seria absurdo esta soma ser mais ou menos
dois. No primeiro caso temos uma explicação causal. No segundo, uma
racional. No primeiro caso, dizemos que os fatos sempre acontecem sem
enxergar uma necessidade de assim acontecerem. No segundo, nos
encontramos diante de uma necessidade absoluta, incontrolável. É uma
necessidade lógica da razão.
3. Explicar o Universo é dizer-lhe a Razão
Por tudo isto, para Hegel, explicar é dar a razão. Cada nova afirmação se
deduz da outra, necessariamente, como os raciocínios que provam um
teorema. Pois é assim que Hegel pretende "explicar" toda a realidade. Já
enxergamos claramente que a causa é sempre material, concreta, tangível,
mensurável. E por isto há quem chame esta via de materialista, embora muito
usada por espiritualistas também. A razão é conceitual, abstrata, se refugia na
mente e nos raciocínios. E por isto há quem a chame de via espiritualista.
De qualquer modo percebemos que na via racional se elimina um
inconveniente: as parcelas aludidas que formam a explicação global do
Universo se concatenam, se seguem, se interdependem numa coerência e
necessidade absolutas. E isto não se verifica na explicação causal, como já
vimos.
O outro aspecto a que se aludiu contra a explicação causal é que se
chegaria ao absurdo de uma causa de si própria. E na vida racional, não se a
chegaria a uma última razão que é razão de si própria? E isto não seria
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igualmente absurdo? A resposta a esta questão será dada adiante sob os
números 6 e 31.
4. A Razão não é Uma Coisa
Escrevemos agora Causa e Razão (com maiúsculas). Por via causal
chegamos a uma primeira Causa, primeiro Princípio, um Absoluto de onde o

falha . este Absoluto. com o que se encontra em todas as coisas de uma mesma espécie ou gênero. existindo em si próprio.) Precisamos ter consciência de seus atributos. o lápis. este traço. concretamente existente. como cada coisa. de algum modo. É o caso da http://www2. A primeira causa deve ser algo individual. Esta primeira realidade de onde tudo flui deve explicar o Universo e se explicar a si própria. por exemplo. Até uma pessoa. Page 4 de 35 Universo inteiro. toda realidade procede. eu falar. E "este" quer dizer que não é outro. assim. este Absoluto hegeliano de onde tudo procede. particularizadas: este lápis. Digamos: a Causa. que não se confunde com nenhum outro ser.br/borges razão. de algum modo. Só posso fazer abstração com o que é universal. E o primeiro deles é a universalidade: a Razão é universal. como o giz. a Razão de onde. – coisa é individual e a Razão é universal. não existe em si própria. Nenhuma das razões aludidas na explicação do Universo é coisa. sentimos necessidade de saber exatamente o que é este Princípio. Nada mais universal do que a razão. em vez de falar de coisas. neste sentido. A Razão Se Explica a Si Própria O que Hegel pretende – e com ele todos nós – é encontrar uma explicação coerente do Universo. "Eqüidistância" é uma abstração. de "eqüidistância"! Todas as paralelas são eqüidistantes. – veremos logo abaixo. Assim o foi cada causa apresentada. 5. Mas a eqüidistância não é uma coisa. Mas a Razão não seria uma coisa. distinto de tudo o mais. Mas este princípio. se não é causa é razão. Mas se. Traga-me aqui a eqüidistância! Ela está nas paralelas. Não são coisas. São razões. concretas. Imaginem se as razões pelas quais se prova que a soma dos ângulos de um triângulo é igual a dois ângulos retos. Entretanto nada mais universal do que aquilo que é a fonte de todas as coisas e de algum modo deve estar presente em toda e qualquer existência e não apenas em linhas ou em paralelas. Porque. É isto que em Filosofia se chama de "coisa": um ser individual. É o caso da eqüidistância em todas as paralelas. Uma primeira Causa. que não é aquele. não basta dizer o que não é. procede. se chama de coisa. Várias razões são apresentadas. A Razão é Universal e Abstrata Depois que se falou tanto em Razão. As coisa são individuais. (Não é coisa. Toda coisa é. 6.unifap. este giz. individualizada.

portanto. o princípio da própria racionalidade. A resposta plena. Mas quando. só poderá ser apresentada adiante. O que se quer é a racionalidade que está ou deve estar por trás dos fenômenos. aceitável mentalmente. Numa palavra: se explica a si própria. Uma primeira Razão explicaria o Universo – já se disse – por necessidade lógica. uma vez apreendida a série completa de razões e sua fundamentação última. capaz de satisfazer às nossas indagações. 31. sem se identificar com nenhuma.br/borges particular (e já vimos que a Razão não é individualizada mas universal). Mas uma primeira Razão se explicaria a si própria? Ou recai na contradição de uma primeira Causa que fosse causa de si? Quando se pede uma explicação do Universo. não se quer apenas o fato de que o Universo é assim. uma razão em http://www2. as coisas não apenas de fato assim acontecem. Não quero dizer com isto que a Razão suprema do universo seja evidente. teria sentido perguntarmos pela racionalidade da racionalidade? Parece que não. de raciocínio em raciocínio. uma razão apresentada ainda parece obscura e pede outra razão para se justificar. Page 5 de 35 diante destas duas condições. Se encontramos a racionalidade do Universo. isto é. Não se pode dizer isto de cada razão apresentada.unifap. Mas já percebemos que a primeira Razão do Universo não é esta ou aquela razão. e que os explica. Esta razão última é realmente razão de si. Quero dizer que uma série concatenada de razões pode chegar a uma última de tal modo que a inteligência indagadora se satisfaz. chegamos à evidência. antes de conhecermos a Lógica de Hegel. filosóficos. sob o n. Ela se explica e se justifica a si própria. É difícil entender plenamente o pensamento hegeliano neste particular. Hegel. ela pode se apresentar diante da inteligência humana como racional. E o que a nossa mente percebe como racional se impõe como inteligível. Segundo ela. das causas e efeitos. ou de qualquer outro tipo. que de fato de tais causas se seguem tais efeitos. Como a eqüidistância está em todas as paralelas sem ser idêntica a nenhuma. – já se disse. Em muitos raciocínios matemáticos. mas é a razão em geral. mas necessária e inevitavelmente. ninguém pede a razão da evidência. Idealismo e Idealistas . aquilo que está em cada razão particular.

O universal é. independentemente de minha mente. dos universais. Esta cadeira. Não passam de sombras das ideias de mesa. Por outras palavras: várias vezes na filosofia se tentou afirmar que a ideia é de alguma maneira. em cadeiras. objetivo. as coincidências.br/borges marcados pela percepção dos sentidos. individualmente. um lápis. Como Hegel. uma cadeira. Primeiro. que se encontram no mundo das Ideias. nem também a sua sombra existirá.unifap. Vejo neste mundo uma mesa. Há coincidências e discrepâncias nisto entre Hegel e Platão. portanto. apenas sombras das verdadeiras realidades que estão fora do tempo e do espaço. Ao contrário: estes objetos. E os universais de Hegel devem se aplicar a tudo o que é real.) Mas o que é sensitivo não é tão universal. é que têm realidade. Para Platão as coisas não existem realmente. lápis. Existem antes que eu os pense. Se esta coisa não existe. já estão classificadas. autônoma. aquela e aquela outra. Nosso mundo é. com existência própria. Para alcançá-las. apenas duas: a de Platão e a de Kant. a forma. para fins de comparação com o pensamento hegeliano. E sombra é sombra de alguma coisa. este lápis. através desta. lápis. Mas há discrepâncias entre Platão e Hegel. Digo "universal" enquanto supera os limites de cada indivíduo e se estende a toda espécie "cadeira". Não sou eu que classifico as coisas. esta cadeira). na . cadeira. para ambos. Hegel e Platão Não foi Hegel o primeiro a tentar explicar o Universo a partir da ideia. Antes de minha mente. individualizados. cada uma. Só se aplica a determinados seres – os materiais. em sua existência. como seres independentes. E esta classificação não é tirada dos objetos individuais (esta mesa. por exemplo. (E poderíamos falar de outras percepções sensoriais. sim. convém antes verificarmos dois tipos diferentes de universais. etc. Existem como as sombras. E que realidades são estas e que mundo é este? São ideias existindo no mundo das Ideias. anterior às coisas. É próprio do olho perceber a cor e. Platão também entende que o mundo flui de universais. Estas. para Platão. é que procedem. já que toda realidade deles promana. Entre estas várias tentativas apresentamos. fora deste mundo. Page 6 de 35 7. mesas. de uma ideia universal de cadeira. Platão também queria chegar até aí. dependem. Há um tipo de universais http://www2.

E o próprio termo "homem". Distingue os universais sensíveis dos puros universais. não pode ser aplicável apenas a alguns seres. aquele que não tem nenhuma mistura de percepção sensível. Outros exemplos podem ser citados para maior clareza. para Kant. Logo este globo é redondo". "odor". como homem. "mortal". "homem". isto é. não é contudo tão universal. "som". Citei o exemplo de "totalidade" e de "existência". Mas usa outra terminologia. ele chama de categorias. embora já universalizado. Quando digo "todo" e digo "é". Começamos a entender que o puro universal. são . é que deve ser. o tipo de razão que explica o Universo. Trata-se de um determinado homem. segundo Hegel. animais e coisas. mas não parece ter alcançado a necessidade desta distinção. O que até aqui chamamos de universais. de algum modo. Há. etc. E estas duas categorias valem para quaisquer tipos de ser e para quaisquer outros termos que eu use para substituir estes três. Ou ainda: "Toda esfera é redonda. "substância". "Cor". Pedro é homem. Neste silogismo estamos com três termos: "homem". Posso dizer: "Toda planta é vegetal". "lápis". Aquilo que deve ser. etc. Pedro é mortal. A acácia é uma planta. 8. "cadeira". Logo a acácia é um "vegetal". sem pretender com isto aqui exaurir a relação dos universais hegelianos: "ser". Onde entram elementos de percepção sensível – como em "Pedro". Hegel e Kant http://www2.br/borges Kant não se fixa no problema do ser mas do conhecimento. São sensitivas. Page 7 de 35 explicação de toda a realidade. "mesa" – a própria universalidade fica algum tanto adstrita. Este globo é uma esfera. estou falando de duas categorias: de "totalidade" e de "existência. fonte de todos os seres. "quantidade". porque não convém apenas a Pedro mas a todos os homens. logo. Analisando alguns silogismos. "Pedro" não é universal. "Pedro". categorias que resultam da experiência. Mas neste próprio silogismo há categorias plenamente universais. já que toda nossa experiência é através da explicação dos sentidos. portanto. Não convém a plantas. um indivíduo. vemos melhor fundada a existência hegeliana desta distinção: Todo homem é mortal. mesa. "qualidade".unifap.

. Está em mim. portanto.br/borges como são em si. Aplico a elas as categorias que estruturam a minha mente. Assim também. Mas entre Kant e Hegel há uma diferença ainda: Para Hegel estes universais puros (sem mistura de percepção sensível) são as razões de onde dimana todo ser. E se torna a única maneira inevitável de perceber os objetos. Nossa mente. anterior a qualquer experiência. Elas são anteriores à experiência.) Se estou de óculos azuis e vejo tudo azulado. Nunca as coisas http://www2. Page 8 de 35 exemplos destas categorias. se as categorias a priori estão em minha mente. Mas categorias como "totalidade". Para Kant são a aplicação do conhecer. (Também não pretendemos dar aqui a relação completa das categorias a priori de Kant. "antes de". São condições de existir. As "sombras" de Platão são as "aparências" das realidades que estão em outro mundo. Kant acredita que elas não nascem em nossa mente como resultado de nossa experiência sensível. E não tenho condição de me furtar a esta necessidade. É tempo de notar que aqui Platão e Kant estão concordando. percebo. este "azulado" não está na natureza. embora não esteja nos objetos. me pergunto: então não percebo os objetos como eles são? Percebo como eles me aparecem através destas lentes? Sim. pela experiência. Meus olhos não o colhem. E a expressão latina "a priori" significa exatamente isto: "anterior a". nos objetos que enxergam. mas na minha mente. Do mundo.unifap. é o próprio conhecimento: não percebo as coisas como elas são. segundo Kant. projeto-o sobre os objetos. Os puros universais de Hegel são as categorias a priori de Kant. o real como é em si mesmo. Como uma pessoa que coloca óculos azuis e vê tudo azulado. de apreender. sob as categorias de "unidade". Mas voltando aos óculos azulados. também a mente já traz em si. tem determinadas estruturas sob as quais percebe o universo: são as categorias a priori. tanto num como no outro. É o que ele chama "a priori". Kant. só as aparências. etc. diretamente. E assim também. segundo Kant. E a mente se encontra na dificuldade. pelas quais forçosamente percebe o mundo. "pluralidade". supraditas. etc. e Hegel tiveram o cuidado de fazê-la. "pluralidade". "unidade". A distinção portanto que Platão não fez. são as condições do conhecimento. estas categorias. são destituídas da marca de sensibilidade. o que a eles aplico. sob elas percebo o mundo.

conhecer e ser. Page 9 de 35 Aí está em que Hegel e Kant concordaram: nas distinções entre puros universais e universais sensoriais. priori. Realidade/Aparência Explicar o Universo a partir da ideia não é. originalidade de Hegel. presentes. mente que as pense. Vários antes dele fizeram o mesmo. resultantes da experiência dos existência. num quadro sinóptico. se identificam. Mais tarde veremos que a distinção entre ser e conhecer existe em Kant mas em Hegel. Distinção entre Realidade e Aparência: Poder-se-ia. – Tais universais não sentidos e as categorias a independente de uma têm existência. agora. E após isto. ao pensamento de Hegel. estes universais são condições do conhecer. são objetivos. em que discordam e concordam estes três filósofos de tendências idealistas. primeiros princípios do conhecimento.br/borges confrontamos Hegel com dois outros que têm posições semelhantes. comparados. objetiva. No pensamento hegeliano – veremos no número 33 – ideia e coisas. portanto. em si. portanto. 9. Estamos em condições. (A distinção que Platão não fez. portanto.Tais universais são os – Tais categorias têm – Tais Ideias são os primeiros princípios de onde existência subjetiva. É a via racional de preferência à via causal. devemos sensoriais e imaterial. Afinal o que aparece (a aparência) não é . Kant. dizer que tal distinção não é possível. convém estabelecer os postulados básicos do pensamento idealista.unifap. princípios de onde fluem os fluem todos os demais seres. Platão. –Tais categorias são os demais seres. Hegel. não. de ver. E as estas alturas. à primeira vista. Para Hegel são fontes do ser.) E aí está em que Kant e Hegel discordam: para Kant. em que http://www2. portanto. não têm marca de percepção distinguir as categorias – Tais ideias têm sensorial. São subjetivos. Esta observação é feita para se entender melhor alguns detalhes. poderemos dizer as teses básicas do pensamento idealista: PLATÃO HEGEL KANT – O Universo procede das ideias. 10. É o que se chama de idealismo. . sem distinção – O Universo procede – Na análise do alguma entre os aspectos apenas dos universais que conhecimento.

esta casa alva. Existe este chapéu alvo. em si. comecemos pelas "sombras" de Platão. é aparência. E é real somente o universal. http://www2. esta flor alva. conforme o que se entenda por "realidade". Uma ilusão sem ilusionado. esta coisa. (É bom reler novamente. Pode ser algo material (mesa. existe individualizado. A realidade é independente. este lápis. Realidade/Existência Distinção entre Realidade e Existência: Em nenhum momento. c) "Existência" é o que pode ser imediatamente apresentado à consciência. já que tudo promana dos universais. Foi dito que tem ser. esta cadeira. Mas a alvura. É assim tudo o que o idealismo chama de "aparência". . Tem ser mas não tem existência.br/borges a) "Real" é só o que tem um ser independente de qualquer outro b) "Aparência" é o ser que depende de outro ser. E para melhor entender este termo. Existe o indivíduo. Page 10 de 35 real? Sim e não. se disse que a realidade tem existência. nas linhas acima. como universal. O que Platão quer dizer é que a sombra não tem uma existência independente do ser de que é sombra. etc.) ou psíquico (um sentimento. Estamos falando de seres que não existem senão em dependência de outros seres. 12. independente de qualquer outro ser. simplesmente não existe (conforme número 5). Consequentemente o universal não tem existência. Tomemos outros exemplos: o sonho ou a ilusão não se reportam a algo que exista em si mas na mente de alguém. sendo formado de indivíduos. Mas o universal não existe. também. A aparência tem um ser dependente de outro ser. Um sonho sem alguém que o sonhe é impossível. O universo.unifap.) De fato o real não existe. Todo ele flui dos universais que Hegel chama de Razão. Teses básicas do Idealismo Podemos agora formular sucintamente algumas teses básicas do pensamento idealista. Chegamos pois a estas conclusões que parecem demais estranhas: a aparência não tem ser senão dependente do que é real. esta mesa. Pode alguma coisa aparecer senão a alguém que a perceba? Pode algo ser percebido sem alguém que seja o perceptor? Mas a realidade tem o ser em si. Tudo o que existe. A sombra da árvore não existe se não existisse a árvore. 11.

pensamento. É algo parecido com o esforço de falar uma língua estrangeira: ainda quando nos chegue o vocábulo e a gramática seja respeitada. razão. Page 11 de 35 etc. E facilmente entendemos mal.br/borges ideias. Sendo universal é um ser lógico. Abaixo damos alguns exemplos. Está no tempo se é psíquico.). O que o Idealismo não Afirma Quando entramos em contato com uma maneira diferente de pensar. e) O real não tem existência. logo acima. h) Este real. nossas convicções filosóficas divergem. Tudo o que se inclui nos itens b e c. inteligência.unifap. nossas categorias. Prioridade Lógica e Cronológica . O idealismo é uma espécie de língua bastante estrangeira ao homem comum que espontaneamente parte do real e a ele acredita subordinar suas http://www2. É objetivo e abstrato. 13. é o último ser. Está no tempo e no espaço. não é algo individualmente existindo no tempo ou no espaço. E a distância entre sistemas filosóficos é mais profunda do que entre línguas. Mas é sempre individual. Ou lhe faz perguntas a partir de supostas afirmações idealistas que de fato não existem. enquanto nossa maneira de pensar. com os conceitos dela. do qual o Universo procede e pelo qual o Universo se explica i) Este primeiro princípio é primeiro no sentido de prioridade lógica e não cronológica (conforme número 14). g) O real (o universal) é também pensamento. Mas esta mente. Alcançamos no sistema estranhas conclusões que nunca foram por ele admitidas. 14. se é físico. razão. encontramos dificuldades inúmeras: de raciocinar com ela. de acompanhar suas deduções ou conclusões últimas. é individual e aparência. como facilmente se entende mal uma língua estrangeira. princípio e fonte de todos os seres. abstrato. mente. universal. Não existe na subjetividade de alguém. inteligência. nos resta pelo menos o sotaque. d) O real é somente o universal. E facilmente supõe no idealismo teses que o idealismo nunca afirmou. o Absoluto. A lógica interna de um sistema dificilmente se percebe plenamente. f) Existência é aparência.

Mas esta anterioridade. Outro tempo e outro lugar para os universais. não é cronológica. Ninguém imagine bilhões de anos medeando entre a existência dos universais e o surgimento do Universo. Há uma prioridade daqueles sobre este. uma prioridade lógica pela qual a categoria de "unidade" precede o ser uno e a categoria de "existência" precede o ser existente. temporal. A mente popular imediatamente se põe a imaginar estes universais. separada das coisas que são alvas. Tem realidade mas não existência (conforme número 11). num sentido estritamente mental. de prioridade cronológica. esta prioridade não é no tempo. e num certo sentido. lógico. sem alguma coisa concretamente existindo? É de um certo modo como se quiséssemos encontrar a alvura em si. Como poderia existir a categoria de "pluralidade" sem várias coisas existindo como o próprio plural? Como poderia existir a categoria de "unidade" sem um objeto concreto existente no Universo que seja uno? Como poderia acontecer a categoria "existência". Dos universais procede o Universo. Então logicamente há uma prioridade. Evidentemente. . existindo em algum lugar que não o mundo. alguns bilhões de ano antes da criação do mundo. Só se é pai no mesmo instante em que se tem um filho. http://www2. Mas há outro tipo de prioridade. entra mais água no rio. E tais absurdos o idealismo nunca afirmou. Exemplo: pai é aquele que gerou um filho. portanto. O universal nunca existiu nem existirá. estritamente simultâneas. não existe em lugar algum e em tempo algum. Esta separação evidentemente não é possível no plano cronológico ou espacial. estritamente simultâneas. Mas o universal em si independe do individual.br/borges Afirmou. Pai e filho se coligam sem nenhuma prioridade temporal. Nunca se diria que o filho causou o pai. Talvez algumas horas sejam precisas para a água da montanha engrossar o caudal do rio. como a do pai sobre o filho. Falamos de antes e depois. Paternidade e filiação são. segundo Hegel. Há uma prioridade puramente lógica. um ser anterior á outra. sim. precede o Universo. uma precedência do pai sobre o filho. na ordem cronológica. Page 12 de 35 Um sistema de categorias. Duas coisas podem acontecer ao mesmo tempo. Quando chove na montanha.unifap. aquilo de onde o Universo procede é anterior ao Universo. Mas logicamente existe uma prioridade de um sobre outro. É puramente lógica. É sempre o contrário. Não prioridade cronológica.

16. a partir de categorias religiosas. E mais claramente . como são as categorias a priori de Kant ("existência". Para o cristão e o judeu. Mesmo os conceitos que independem de aspectos sensoriais. algum tanto confusamente. A repugnância da conclusão não está na conclusão em si mas nos conceitos de onde ela flui. por um ato criador. O idealismo em geral (menos ainda Hegel) não sente nestas teses da psicologia experimental qualquer desmentido de suas próprias teses. Porque só Ele é realmente independente e incriado. por nenhum dos sentidos. veio depois que tive a experiência de cor (desta e daquela cor) e de casa (desta e daquela casa). a muitas mentes que se acostumaram.). de certo modo. uma vez o mundo criado. um dado psicológico: os conceitos (universais) não se formam na mente antes de se ter a experiência do individual. como tal.br/borges colônia se torna independente do reino. Tudo o mais dele vem. Mas o que é posterior no tempo é anterior na lógica. Page 13 de 35 15. O pensamento popular. participada do único ser plenamente real que é Deus. A realidade das coisas é. causa estranheza a afirmação de um mundo apenas como aparência de algo que precede o mundo. no sentido amplo da palavra. se torna independente de Deus e passa a existir por própria conta. No processo do conhecimento o universal é posterior. E quem não tem nenhuma experiência. Muitas vezes também conhecemos primeiro um fato e depois sua razão lógica que. teve precedência lógica. Se tenho o conceito de "cor" ou de "casa". a psicologia pretende afirmar que são posteriores à experiência sensível. etc. a pensar assim ou quase assim. Todo este argumento não passa de uma reedição do equívoco anterior. só Deus realmente "é". que. entretanto. E todas as coisas (o mundo inteiro) são apenas aparência. Esta conclusão idealista repugna. O Mundo como Aparência Só o mundo é real. como uma http://www2. não é temporal. de ter o universo um ser em si mesmo. E por causa deste aspecto de existência independente. imagina. a prioridade do universal sobre o individual é lógica. tem pleno ser. isto é. acontece algum tempo depois que se teve a vivência da experiência das coisas. Prioridade Cronológica do Indivíduo Alega-se. contra Hegel. "unidade".unifap. entretanto. não teria categoria em sua mente. à primeira vista. Mas na própria teologia cristã este perenemente dependendo de uma realidade divina parece confirmado.

com esta reflexão. com a qual se começou a fazer alguma coisa. de onde procede o Universo. todos os sistemas filosóficos concordam numa coisa a respeito deste problema: é que este "algo eterno" é . Se alguma coisa existe hoje. Mas. Discordam http://www2. mas uma manifestação perene dele. neste caso. (Não é portanto um raciocínio de Hegel. O espiritualista poderá falar de um Deus. é eterno. de certo modo. dando origem. absolutamente nada. Fala-se. O mundo subsiste a cada instante como manifestação do único real. E do nada. em direção ao passado. É portanto aparência de outra coisa. devem ser da ordem de ideias. teríamos que admitir que todas as coisas que aí estão (o Universo inteiro) teriam vindo do nada.br/borges quando se pergunta a natureza deste princípio imprincipiado. vem de algo anterior. apenas regressando. O materialista dirá que é a matéria eterna. nada se faz. Em busca das origens Até aqui acompanhamos Hegel em suas reflexões: a explicação do mundo não está na ordem das causas. à própria matéria. Nem na Bíblia se insinua. Estamos. portanto. concatenados num sistema. O que não existiu sempre. se não existiu sempre. neste sentido. Este sistema de universais é o que Hegel chama de Razão. incriada. vem de algo que anteriormente existiu. de um "ponto de partida". espiritualistas ou materialistas. de ordem conceitual. pronta e para sempre feita. A Dialética e as Origens 17. Podemos agora fazer este raciocínio que é válido em qualquer sistema filosófico. São os universais. confirmando a necessidade lógica de encontrar algo que sempre existiu. Os fundamentos últimos. E isto. Do contrário. sem ter origem num ser anterior. de "um termo anterior" à criação do mundo. por sua vez.unifap. Page 14 de 35 ainda no pensamento hindu. Como a sombra é manifestação do objeto e como tal apenas sua aparência. Esta conclusão nem é espiritualista nem materialista. O conceito de "nada" não é o de uma substância. Ambas estas tendências do pensamento concordam sobre a eternidade de um princípio de onde toda realidade recebe origem. no qual o mundo não é uma criação de Deus. de um ser que não a matéria. algo é eterno: Evidentemente não se está dizendo que é eterno tudo o que existe hoje. que o mundo se fez do nada. Algo. É um suposto de todos os sistemas que se empenham em dar a explicação última do Universo).

Não serão dois nem mais. nenhuma pretendeu enumerar .unifap. "preto". outro. Antes de tudo. Ninguém dá o que não tem. por mais uno que seja. Agora voltemos a Hegel. Page 15 de 35 um único ser. que. Exceção feita talvez unicamente ao pensamento maniqueísta (que admitia dois princípios igualmente eternos). pelo qual tentamos entender como essa imensidade de seres heterogêneos. juntamente com inúmeras outras ideias. já que dele procede tudo o que existe. pelo qual tentamos entender como deste "algo eterno" procedem todas as coisas. em um certo sentido deve ser múltiplo. Se este "algo eterno" for tão rigidamente uno. exceção feita talvez à ideia de "sensação". juntamente com as demais de "verde". que por sua vez procede (com os demais objetos dos cincos sentidos) da ideia de "sensação" que é uma dentre as muitas qualidades englobadas portanto na Ideia superior de "qualidade". que achou como único atributo deste princípio eterno a palavra "Uno". (A terminologia "ascendente" e "descendente" não é de Hegel e a usamos aqui apenas para distinguir mais nitidamente os diversos aspectos do problema). até opostos tantas vezes. O sistema dele está de um certo modo reduzido a dois grandes momentos: um ascendente.br/borges superior de "cor". procedem da ideia http://www2. Ainda uma terceira questão dentro do mesmo problema: este princípio eterno que deve ser único. abaixo. em algum momento se encontraram idênticos neste único princípio. descendente. procede da suprema e última ideia de "Bem". termina afirmando que do Uno procede indiretamente a Matéria com os seres materiais todos que conhecemos. dele não poderia proceder a pluralidade de coisas que constituem o mundo. Segundo Platão Mais uma vez verifiquemos como se pensou antes de Hegel para com ele compararmos alguns dos exemplos anteriores. sem rivais. De onde procedem estes objetos brancos? Da ideia de "branco" anterior. (Evidentemente é um esquema nosso de um pensamento de Platão. Mesmo Plotino. sob a última linha. sem paralelos. "azul". Não pode gerar a pluralidade o que é radicalmente pura unidade. 18. ninguém mais ousou isto na filosofia. etc. (Como se vê. E esta. Platão: apresentamos no quadro (figura 1) anexo um esquema que pretende representar de algum modo o pensamento platônico. todas as coisas "brancas" do Universo.) No esquema platônico que apresentamos. uma a uma. deveríamos enumerar..

Page 16 de 35 todas as suas subdivisões ou explicações. Mas não podemos concluir: está nublado. Vemos que as ideias procedem umas da outras. a origem última do Universo.br/borges digamos. as condições que se impõem à solução do problema: 1) este princípio imprincipiado deve ser. como o fez Platão. em síntese. Vemos que é possível a procedência. logo choverá necessariamente.unifap. termina em doze princípios últimos. existiu depois doutra e dela se explicitou. A multiplicidade está evidente. Não vemos a procedência necessária de cada ideia. ao explicar. Mas não vemos que é necessária. num sentido. O processo do conhecimento em Kant. doze categorias. supremo. 20. Existem. portanto. As categorias de Kant (as destituídas de qualquer marca sensorial) são doze. Aqui vemos uma necessidade lógica e não apenas um fato. uno e múltiplo. com a ideia de Bem. elas não se deduzem umas das outras. Mas o pensamento platônico tropeça em algumas dificuldades. as próprias afirmações em que se fundamenta a assertiva. Hegel: a Identidade dos Opostos Repitamos. E na própria explicação do teorema vamos deduzindo. . Platão expôs um fato. já que nele estão contidas todas as demais ideias. mas os princípios do conhecer. Kant não buscou uma superior a elas na qual elas se englobassem. não graças a um processo pelo qual uma. Em certo sentido é múltiplo. E o que queríamos de Platão é que as ideias fossem deduzidas numa da outra como as afirmações todas que fazemos. http://www2. Mas não alcançamos a necessidade. por exemplo? Necessidade nenhuma. Nem por isto. por exemplo. uma comparação com seu pensamento seria desnecessária. último. Nenhum absurdo seria imaginar um mundo sem a cor azul. uno. sem mostrar a lógica que exija este fato ser de tal maneira assim que seria absurdo ser de outra maneira. Também quando está nublado vemos que é possível chover. Além disto. deduzida da anterior. uma ao "lado da outra". passo a passo. A unidade não é afirmada. Vemos o fato esquematizado. Segundo Kant É bom repetir: Kant não quis apresentar o princípio do ser. de onde toda realidade procede. de certo modo. que a soma dos ângulos todos de um triângulo é igual a dois ângulos retos. Há necessidade mesmo que da ideia de "cor" proceda a cor azul. em geometria. exatamente porque uma não engloba a outra por força de necessidade lógica.) O bem seria para Platão este "algo eterno". 19.

Não será tão estúpida se refletirmos mais. quiçá contraditório. permanecendo idênticos e permanecendo opostos. eterno. segue-se que "C" esteve contido antes em "B" e "B" contido em "A". 2) Mas se "C" procede de "B" e "B" de "A". Afinal. de onde virá então? Opostos parecem ter a mesma origem: "preto" e "branco" viriam da mesma ideia de cor? Isto importaria em dizer que opostos teriam existido idêntico numa realidade anterior. e se admitirmos que tudo veio de um único ser. Se admitirmos que no universo há seres opostos. Pergunto: de onde vem este "alvo" que vejo neste objeto? E vem a resposta conforme o esquema anterior: da ideia de "alvura".br/borges a procedência de todos os seres a partir de um único ser. num ser que seja a origem de tudo. O Movimento Descendente Por que um ser uno. não ficou nele mesmo. Veremos depois mais detalhadamente este caráter de contradição e de identidade de opostos (conforme números 22 e 23). idêntica à vida e oposta a ela. Page 17 de 35 Dele todas as coisas devem proceder necessariamente. se reduz a uma fórmula que eu estabeleceria nestes termos: "cor" + "alvura" = "branco". tudo o que fosse colorido seria azulado. Se contivesse necessariamente. Seres opostos são idênticos. Ao dizer Hegel que opostos são idênticos – preste-se bem atenção a isto! – ele não está dizendo que cessou a oposição nem que cessou a identidade. O que nos importa no momento é perceber como Hegel conclui sobre a identidade dos opostos: como única maneira de entender http://www2. O branco. contraditórios. qual será a conclusão? Que. opostos são idênticos. Isto não é possível no pensamento platônico. Hegel poderia dizer que a morte está na vida. Ou que o nada está no ser. Mas se alvura não vem de cor. E a ideia de "alvura"? Da ideia de "cor". de seres. A ideia de uma "identidade de opostos" parece esquisita à primeira vista. por exemplo. A explicação está ineficiente. É fácil achar isto estranho. o primeiro princípio deve. em algum momento. É a única maneira pela qual Hegel acha possível este movimento ascendente de englobar um mundo profundamente heterogêneo.unifap. conter todas as demais coisas. Mas a pergunta resta: é possível encontrar outra via? 21. de certa maneira. eternamente idêntico a si próprio. idêntico ao ser e oposto a ele. Porque a ideia de cor não contém necessariamente a ideia de "azul". sem dele precederem novos seres? O que é que explica o .

etc.. Page 18 de 35 movimento descendente. portanto. as realidades vão se deduzindo umas das outras? Isto não tem explicação no pensamento de Platão nem em vários outros sistemas que apenas apresentam um fato. Nenhuma realidade.. necessariamente. De uma semente surge a planta. necessariamente. Se tudo estiver profundamente pacificado dentro de cada um destes três exemplos. Se perguntarmos por que o princípio imprincipiado não resta eternamente a única realidade. surgiu do nada? Não. Vamos partir de exemplos bem materiais. tem sua explicação. a Hegel. Algo no ovo conspira contra este estado atual e busca um estado novo. É . E quando a segunda realidade surge (pintinho. sensíveis. contradição. E por este conflito que existe dentro de cada realidade. a realidade nova. houver. como o fez Hegel: de um ovo surge um pintinho. Surgiu da realidade anterior. (conforme número 20). a reposta é esta: por um movimento http://www2. forçosamente. idêntica. Antítese. desta luta de opostos. De uma criança surge o adolescente. Tese. criança). que esteja isenta deste movimento dialético. O mesmo se diga da semente e da criança. graças à contradição. à oposição que existe na realidade anterior. Fixemos mais a atenção na dialética hegeliana: uma dialética não é um movimento simples. sem nenhuma necessidade imperiosa. É exatamente a estranha afirmação feita há pouco: a identidade dos opostos. Daremos um exemplo hegeliano logo abaixo (conforme números 25 e 26). 22. planta. E por isto não satisfazem como explicação do Universo. nunca surgirá uma segunda realidade. existe. como as realidades se deduzem necessariamente. pois. Deve haver uma contradição no ovo. na semente. Podemos então dizer que a planta está na semente.unifap. Hegel não daria estes exemplos. sensíveis. pelo qual. se origina. a resposta esta aí: ele carrega em si a contradição e a luta de opostos. já o dissemos. na criança. oposição. Mas em Hegel esta dedução (esta impossibilidade de o primeiro ser restar o único). Se perguntarmos.br/borges dialético. Síntese Estamos falando da dialética hegeliana: de um movimento pelo qual realidades novas se explicitam. Hegel aqui fala de universais não sensoriais. Não fala aqui de coisas tangíveis. se nenhuma luta. se deduzem. antes de colocá-los ao nível das categorias de puros universais. tangíveis. Mas tais exemplos são mais inteligíveis e neles está salva toda a lógica de Hegel de uma identidade de opostos.

23. É importante atentar para os sentidos. mais freqüentemente. A dialética hegeliana tem três unidades que ele denomina de Tese. idêntica à Tese e oposta a ela. Quando tentamos imaginar um princípio de todos os seres. Ela vai fazer "suspender" ou "cessar" a contradição entre a Tese e Antítese. Uma vez explicitada a oposição. Os próprios termos lembram a identidade dos opostos referida acima. Negação e Negação da Negação. Hegel. a pena que se coloca contra o réu cessou . Antítese. é necessário que nele coisas opostas tenham em algum sentido existido idênticas. se explicou necessariamente dialeticamente. no número 20. Como suspender uma pena de morte não é fazê-la cessar. Afirmação. E se nos lembrarmos ainda do princípio hegeliano da identidade de opostos (conforme número 20) podemos repetir: A Antítese está na Tese. Page 19 de 35 composta de várias unidades. Um processo decorre. Colocamos dois verbos. Aufheben Foi dito acima: "suspender" ou "cessar". mas tudo o que existe se deduziu. os dois opostos vão encontrar sua identidade num terceiro momento: na Síntese. Mas só se explicita depois o que já existiu implícito antes. Mas quando estamos no primeiro momento deste movimento dialético. negação da negação. Ela se explicita no segundo momento quando a própria Antítese se explicita. na Tese. não restou tudo na unidade original da primeira categoria. Antítese e Síntese. Exatamente por isto. A tensão entre estes dois termos encontra sua conciliação na Síntese. Tese é afirmação. Nela algo é afirmado. enquanto prescindimos do momento seguinte. de categorias que se opõem e se contradizem. e que convém reler. Mas não é uma identidade. Em português diríamos que uma contradição sustada (suspensa) não é uma contradição cessada. podemos dizer que a Antítese já está na Tese. cessando a oposição. podemos perguntar: onde está a Antítese? Como cada momento se deduz do anterior. No primeiro caso. E porque a oposição continua é que a dialética acontece. de Tese. Ela já carrega em si sua contradição. Síntese. ou.unifap. alemão que era.br/borges cessar: Aufheben. Se fixamos nossa atenção apenas ao primeiro momento (a Tese). A Antítese é negação do que se afirmara antes. ambos intencionalmente buscados por Hegel num verbo só de sua língua. usa um só verbo que exprime as modalidades: suspender e http://www2. a contradição está implícita na Tese.

há uma oposição superada. cessada em outro. Perguntamos então a Hegel: a contradição. abaixo. Antítese. que entre a primeira Tese e a última Síntese tenha havido uma "queda". em que cada Síntese é por sua vez transformada na Tese de nova tríade. um "regresso". Poderíamos representar graficamente o movimento dialético de Hegel na (figura 2). no gráfico) que inicia novo movimento dialético. entrou em um estado definitivo. da última tríade do esquema que apresentamos. portanto. não busquemos outros significados neste gráfico. está ao mesmo tempo sustada e cessada. Sustada em um sentido. em direção oblíqua descendente. por exemplo. A Síntese se transforma por sua vez numa nova Tese de outra tríade. Antítese. A última Síntese. Nem Hegel disse tal coisa nem este gráfico pretende representá- la. Não só isto: todos os momentos contidos entre a primeira Tese e a última Síntese já estavam implícitos neste primeiríssimo momento. O momento anterior deve englobar todos os momentos . extinguiu-se. cessada. Além disto. como resta na Síntese? Está definitivamente extinta? Cessou mesmo? Ou apenas está sustada. Explicitação e Concretização Foi dito acima (número 21) que o momento posterior está sempre contido no anterior. estava http://www2. está suspensa. capaz de reaparecer no futuro? A resposta hegeliana é que tal contradição está "aufgehoben" (particípio passado de "aufheben"). Estava nele implícito e se explicitou depois. Mas nela não cessou definitivamente toda e qualquer luta de opostos. uma "deteriorização" ou algo semelhante. quando suscita uma nova negação. enquanto se defronta com nova negação. No que se refere à tensão anterior entre Tese e Antítese. cessou. Mas cada Síntese (S) se transforma em nova Tese (T). (em vertical. 24. E assim por diante.br/borges implicitamente contida na primeira Tese da primeiríssima tríade. a luta dos opostos vigente entre a Tese e a Antítese. vemos sempre a tríade TAS (Tese. No segundo caso. Não imaginemos. O processo dialético não é apenas de explicitação mas também de concretização. Síntese). Neste gráfico (figura 2). com nova tríade. na unidade da Síntese. Page 20 de 35 provisoriamente.unifap. suspensa. uma nova Antítese que pede outra conciliação numa nova Síntese. poderá recair sobre ele novamente.

mais ampla. implícito. então. este ainda não basta. mais abstrato. arbitrariamente. Há tantos conceitos – exemplos: "espírito". etc. . na qual todas as outras se encontram http://www2. por um instante. Queríamos apenas estabelecer dois critérios (de explicitação e concretização) para entendermos quais devem ser necessariamente as categorias de Hegel.br/borges implicitamente. mais abstrata. "existência". Não englobaria os de "som". aos exemplos do número 18. então. num conceito. E se nos refugiamos nos conceitos mais amplo de "sensação". a mais abstrata. A Primeira Tríade Os exemplos acima – foi dito explicitamente – não foram dados com categorias hegelianas. mais vasto. portanto. se procede do abstrato para o concreto. "vermelho". de "cor". O menos vasto é o mais concreto. 25. Porque não se trata de estabelecer. Voltemos. o conceito mais universal e mais abstrato. enquanto não podemos exemplificar com categorias hegelianas. o mais vasto. mais abstrato: – o de "sensação". Assim também é o movimento da dialética hegeliana: enquanto se procede do implícito para o explícito. a Antítese de Ser? É o não-ser. está de algum modo contido num conceito (do qual procede) mais vasto. Page 21 de 35 posteriores. etc. A primeiríssima Tese do sistema de Hegel é portanto o "Ser". Deve ser. Este. Nem podemos dizer que seja o de "cor" porque não engloba todo e qualquer conceito. capaz de envolver todos estes exemplos até aqui citados. Mas como estamos tratando de categorias. que englobe em si tudo o mais. estamos em condições bem mais fáceis de encontrar sua Antítese e sua Síntese. a primeiríssima Tese desta primeira tríade hegeliana? Deve ser uma categoria. Qual deve ser. anterior. "odor". – que de si nada dizem necessariamente de "sensação"! Mas se considerarmos o conceito de "SER" temos a categoria mais vasta. algumas categorias. mais vasto. ou seja. o NADA. abrangedor de qualquer outro conceito? Não podemos dizer que seja o conceito de "azul" porque não abrange o de "verde". Qual é. mais amplo do que todos os momentos que dele se explicitam.unifap. Hegel não pretende "inventar" mas "descobrir" a realidade como ela é. é o mais abstrato. a mais universal. O "azul" é um conceito que está de algum modo englobado. E achada a primeira tese. por sua vez. Qual é a negação. de conceitos (conforme números 3 e 5). em termos de conceitos.

está "sendo" mais. 26.unifap. Matéria = Ser + materialidade. Qualquer ser individual é Ser mais inúmeros outros atributos. Porque a diferença entre o conceito de Ser e qualquer Ser concretamente existente são os seus atributos. ao término. aumentando. Todos estes conceitos recaem sob o conceito comum de movimento. que está fora do conceito de Ser. apenas Ser. portanto. diminuindo. progredindo. regredir. crescer. Mas aqui. Quando algo está definhando. Page 22 de 35 Busquemos agora uma Síntese do Ser e do Nada. O Nada. se desenvolvendo. determinações. decrescer. inúmeras determinações. tenho um conceito que é Ser mais alguma coisa. teremos o próprio conceito de Ser. diminuir. ao falar do puro conceito de Ser. Acabei de dizer que qualquer objeto. vir-a-ser. visto que Ser e Nada são idênticos. individualizado. está de algum modo se aproximando mais do Nada. qualquer ser concreta e individualmente existente tem. E teremos. que seja síntese de todas estas ações: aumentar. pois. progredir. puro Ser. está sendo menos. aqui referida. atributos. é que constituem este algo a mais que excede. Idêntico ao Ser Vejamos agora até que ponto o primeiro exemplo dialético de Hegel confirma as condições preestabelecidas de crescente explicitação e concretização e de identidade de opostos. Se. regredindo. http://www2. sem nenhum atributo.br/borges Vamos. . absolutamente todas. Busquemos agora uma categoria que englobe todos estes verbos. Falo de Ser. devir. Está em direção ao mais "ser". fazer agora este exercício mental de destituir um determinado ser de todas as suas determinações até coincidir com o puro conceito de Ser. tomarmos um ser individual e mentalmente dele retirarmos todas as suas determinações. Quando digo "matéria". que não são de si sinônimos de Ser. nenhuma determinação a mais. além do puro conceito de Ser. Quando algo está crescendo. não é nenhum ser determinado. Imaginemos uma senhorita com os seguintes atributos: – Ela é jovem. E estes atributos. devo excluir este "mais" (+). concretamente existindo. Como se poderia dizer que o Nada e o Ser são idênticos? Antes de tudo convém observar que a categoria de Ser. A categoria de DEVIR é pois a síntese do Ser e do Nada.

Não há aqui. nenhum valor quantitativo representado. sem qualquer determinação. De fato. seja de cada parte. Não faz mal. temos o próprio Nada. Noção . O nosso exercício é exatamente de prescindir destas determinações. Prescindamos de mais duas. A Ideia se subdivide em Ser. Teríamos apenas "ela é". é de se esperar que estas sejam mais concretas e existam em Devir implicitamente.br/borges que é bem maior. 2. agora. Elas incluem Devir explicitamente. Devir é também uma categoria mais concreta do que a de Ser que é a noção mais abstrata que se pode imaginar. Neste gráfico (figura 3). O mais Explícito e o mais Concreto Outras condições preestabelecidas do movimento dialético são uma passagem do mais abstrato para o mais concreto e do mais implícito para o mais explícito. Realmente Devir está implícito em Ser. O Sistema em suas Partes Explicando o Gráfico 1. loura. puro Ser. É uma modalidade de Ser. Natureza e Espírito 3. qualquer movimento. alva. seja do Sistema todo. Teríamos: ela é loura. portanto. Essência. Devir as inclui implicitamente. transição. é uma modalidade inclusa na categoria geral de Devir. Se já prescindimos de tantas que elas ficaram reduzidas a quatro. o número de tríades. Se compararmos agora Devir com as próprias categorias que se seguem. já temos meio caminho andado. absolutamente de todas as determinações. Prescindamos agora da última e. de todas. Page 23 de 35 Loura alva culta Evidentemente nesta relação já estão omissas muitas outras determinações que se poderiam acrescer.unifap. não corresponde ao realmente desenvolvido por Hegel http://www2. Prescindamos agora da última. Teríamos então: ela é jovem. por conseguinte.) Mas é o quê? (Esta afirmação de Ser equivale a quê?). como novas Teses e Antíteses. passagem. Sistema globalmente se divide em três partes: Ideia. Nada! Quando chegamos à conceituação de Ser. (Dizer "é" é fazer a afirmação de Ser. 27.

e portanto de todo o Sistema. como se fez antes. de dedução em dedução. Natureza (= Antítese). Síntese. 7. primeiríssima categoria de "Ser". E Espaço é a primeira categoria da Natureza Mecânica. 8. 5. do Nada. primeira parte do Sistema da Ideia Absoluta que é última categoria da Ideia. Antítese. Antítese. Filosofia. Não vamos. Embora formada de sucessivas Teses. da primeira parte da Ideia.unifap. a segunda série de tríades se coloca em relação à http://www2. portanto. a respeito do Ser. munido de um mínimo de iniciação às teses básicas do pensamento hegeliano. Acompanhando este gráfico anexo . Aí está. entre outras. Antíteses. Sínteses? Que raciocínios se podem apresentar para se perceber a dedução lógica. Nem iremos responder a todas. E surge realmente uma grande Antítese de toda esta série de tríades anteriores. Física e Orgânica. a divisão tripartida do sistema de Hegel: Ideia (= Tese). A Natureza se subdivide em Mecânica. A Segunda série se chama a Natureza. por exemplo. Objetivo e Absoluto. globalmente. De tríade em tríade. é de se esperar que algo de completamente novo venha a surgir. do Devir? São estas algumas perguntas. A Divisão Tripartida do Sistema Por onde marcha e para onde marcha este movimento dialético? Que nomes outros. Religião. Igualmente se distinga Ideia. Devir.br/borges primeira como uma grande Antítese. E Espírito Absoluto se subdivide em Arte. "Ser". além da primeira tríade. Vamos apresentar apenas os delineamentos gerais do Sistema. Distinga-se. Espírito se subdivide em Subjetivo. pois. A exigüidade deste trabalho não comporta ambição maior do que a de levar o interessado a obras de amplitude e especialização no assunto. Page 24 de 35 4. pois. A primeira série de tríades se chama a Ideia. caminhar de tríade em tríade. 6. Espírito (= Síntese). recebem as seguintes Teses. é Ser. A primeira tríade do Ser. Ideia e Natureza se defrontam. que se podem levantar a estas alturas da reflexão hegeliana. Síntese (= tríade). como Tese e Antítese. passando do cada vez mais abstrato para o cada vez mais concreto. 28. 9. Nada. Há ainda um terceiro grande momento em que Ideia e Natureza se reconciliam numa grande Síntese: o Espírito. Cada uma destas divisões tripartidas corresponde sempre a Tese.

O objeto do sujeito é o . Nela o pensamento subjetivo. da divisão do Sistema hegeliano. exterior a si. Em vez de o sujeito ter o objeto como algo fora de si. como veremos. uma divisão dialética. sem mistura de percepção sensorial. Esta primeira parte. todos eles considerados globalmente. é a "Ideia Absoluta". Antítese. globalmente considerado. A Ideia Absoluta E a última categoria. constituem a "a ideia". Síntese. o Ser. A Ideia Absoluta é plena identidade do sujeito com o objeto. Depois se objetiva. É a Essência. A Ideia Vamos recuar ao número 9. (Distingue-se. assim também cada um destes momentos se subdivide em uma pequena Tese. mais uma vez. Antítese. 29. depois que se objetivou. vamo-nos demorar um pouco em cada um destes três momentos. Lá a ideia está subdividida em três momentos: Ser (= Tese). reconhece o objeto como idêntico consigo mesmo. da Noção. 30. Kant e Hegel. A divisão tripartida de Ideia é toda ela. c) Os universais são os primeiros princípios de onde fluem todos os demais seres (diremos nós agora: de onde fluem a Natureza e o Espírito). se distingue daquele "Ser" cuja antítese é o Nada. Depois o subjetivo e o objetivo (Ser e Essência) encontram sua síntese na Noção. Page 25 de 35 (figura 3). Síntese. Essência (= Antítese) e Noção (= Síntese). anterior à Natureza (e que se chama Ideia Absoluta). da "Ideia Absoluta" que é apenas a última categoria desta série toda chamada "a Ideia" [conforme gráfico (figura 3) anexo]. onde estabelecemos comparação entre Platão. se exterioriza. agora. Estes universais. E esta Síntese é o Absoluto. portanto. última portanto de toda a primeira parte do Sistema. A ideia é inicialmente subjetiva (= Ser). Mais uma vez remandamos o leitor ao gráfico (figura 3) da divisão do Sistema hegeliano.br/borges Ideia Absoluta é talvez o que se aproxima de certo modo do nosso conceito de Deus. b) Estes universais não têm existência objetiva. Um é apenas parte do outro. se dividiu em três grandes momentos. como estas: a) O Universo (diremos nós agora "a Natureza") procede de (categorias) universais. como Tese. A http://www2. demanda uma síntese sujeito-objeto. alheio a si.unifap. Mas assim como o Sistema hegeliano. Aí encontramos teses de Hegel. desde o primeiro (que se chama o Ser) até a última categoria. como se vê no gráfico (figura 3).

A Ideia Absoluta é o Infinito absoluto. de universais. sujeito. Esta série toda se chama simplesmente "ideia". oposição. que vão http://www2. Estamos em condição agora de dar uma explicação mais satisfatória. plantas. animais. havia um princípio e este deveria ser "Ideia". Deus é o pensamento do pensamento. total. Ideia e Razão O que queríamos inicialmente era explicar o mundo. unidade: a Ideia Absoluta. de categorias. – já dissemos. anterior à Natureza e que se chama "Ideia Absoluta". ao Mundo. É ela. sujeito e objeto. pois. Mas esta mente que conhece e estas coisas que são conhecidas. o pensamento dos pensamentos. Page 26 de 35 próprio sujeito. objetivação. que é a primeiríssima tese da primeiríssima tríada e se chama Ser. acabada. Se nós olhamos o mundo como um sistema de "matéria" governada por "Forças". A verdade completa é que o Universo é pensamento (conforme número 9) e pensamento de pensamento. não. até à última. É pensamento pensado idêntico a quem o pensa. Dissemos que uma primeira Razão pode explicar a si própria. 31. não é algo oferecido ao conhecimento de uma mente. O que era obstáculo. pelo conhecimento de si. numa unidade única e universal. O mundo visto na sua verdade outra coisa não é senão a Ideia Absoluta. a verdade absoluta. o pensamento que se pensa a si próprio em todas as coisas. E para explicá-lo optamos por uma primeira Razão. temos uma visão inverídica do Universo. e uma primeira Causa. é coextensiva a toda realidade. formam uma única síntese. o universo inteiro de coisas. o absoluto sujeito-objeto. Nela todos os obstáculos. Hegel a chama também de "Razão". . exteriorizada. em vez de primeira Causa (conforme número 2 e 3). Mas não se trata de uma ideia distinta das outra. Agora que esta exteriorização. diferente de todas estas coisas. à luz apenas de algumas. A este ponto. formando. pois. oposições (antítese) estão superados. foi assimilada na identidade de si. sem rival. O mundo exterior é a própria mente colocada fora de si. nesta unidade. era o seu eu objetivado. Hegel achou que anterior à Natureza.br/borges desde a primeira. homens. É a definição completa. se a considerarmos sob os aspectos de princípio e explicação última de onde toda realidade se deduz. de Deus e do Universo. controladas por "causas".unifap. A Ideia Absoluta é. para se identificar consigo própria. a Ideia Absoluta. Trata-se de um sistema de ideias. mas não de todas as categorias.

dos universais.unifap. A "Ideia Absoluta" se explica por tudo o que vem antes. como pensamento puro. Podemos dizer. A Natureza Dissemos que a Antítese está na Tese. Porque Espaço é sempre esta parte "espacial" distinta daquela outra. O que temos agora é parte distinta de parte. no Tempo. noção). A Razão se explicita a si própria. isto que não é aquilo. . Tempo. é um processo lógico. E esta primeira tríade se explica por tudo o que vem depois até a "Ideia Absoluta". é a ideia alienada. Não há um só momento inexplicável. na sua interioridade e subjetividade. Page 27 de 35 É a primeira razão de que antes se falava. A Natureza é a Ideia exteriorizada. objetivada. O Ser está contido na "Ideia Absoluta" explicitamente. a Razão pode ser dita e aceita como razão de si mesma. E Tempo é este instante diferente daquele. desde o "Ser. E tudo o que está no Ser se explicita no que vem depois. Devir". Antítese. esta parte que não é aquela parte. na sua alteridade. como sua antítese. 32. O momento da Ideia é também a Lógica de Hegel. portanto: a Natureza está na Ideia. como há na via causal. E ela se explica a si própria. Natureza mecânica é sua primeira fase. Apenas esta diferença e multiplicidade de partes é simultânea no Espaço e sucessiva no Tempo. Esta interioridade passa dialeticamente à sua Antítese de exterioridade. Agora temos a absoluta exterioridade expressa em Espaço. "física" (= Antítese) e "orgânica" (= Síntese). também a Natureza tem sua subdivisão numa pequena tríade: "mecânica" (= Tese). Todo o processo de dedução das categorias. A Ideia. Síntese (= Ser. de oposição. emergindo do nada. porque tem em si a explicação de si. idêntica à Tese e oposta a ela. http://www2. Matéria.br/borges É a multiplicidade expressa no Espaço. num fluxo dedutivo do implícito para o explícito. A Natureza. Essência. na Matéria. Porque o que está explícito na "Ideia Absoluta" já estava implícito no Ser. E vice-versa. Não é pois a Natureza algo totalmente desvinculado da ideia. idêntica à Ideia e oposta a ela. é interna a si mesma. Como a Ideia se subdividiu em uma pequena Tese. Ela é a Ideia mas num outro momento dialético. O primeiro momento é a Ideia em si mesma. afirmando algo como causa de si mesmo. Nada. A "Ideia Absoluta" está contida no "Ser" implicitamente. ilógica. E por isto. de objetivação.

plantas. com seus caracteres e atributos individuais e intransferíveis. Com ele já começa o Espírito. é matéria. no espaço. primeiro na planta. É governada por puro mecanismo. que é a própria Razão. Trata-se de dedução de . Aqui chegamos às formas e espécies da Natureza inorgânica. em contraposição à pura objetividade inicial da Natureza. na gravitação. É. Transição Ideia/Natureza A Natureza acaba de ser conceituada e exemplificada em suas subdivisões. Antes de tudo é preciso dissolver uma ambigüidade muito comum a toda mente que se aproxima deste problema. gravitação. é carente de qualquer unicidade e subjetividade. como deduz esta ideia de uma anterior. animais. neste momento. aqui ainda precária e débil. Continua. que não se constitua de partes várias e vários lados. aos objetos individuais. a busca de unidade. etc. Este retorno pleno à subjetividade se consolida com o Homem. A natureza física sucede à mecânica. podemos regredir um pouco para um problema crucial do hegelianismo e de todo idealismo.br/borges se na Natureza falamos de matéria inorgânica. Melhor situados conceitualmente. Hegel continua deduzindo ideias de ideias. sofre gravitação. etc. Todas estas categorias podem ser aplicadas indiferentemente às coisas concretas. a gravitação uma busca de unidade e revela uma ação da Razão. Também há um processo de interioridade. Anteriormente falamos de Espaço. Depois vem a Natureza orgânica que. Não se trata de deduzir coisas (esta mesa. já que tudo está no tempo. um lado distinto de outro lado. por menor que seja. de consciência. Esta Natureza mecânica. este lápis. superando a multiplicidade anterior. nem plantas de matéria inanimada. Page 28 de 35 A Matéria é. Tempo. já aflorando no animal. E http://www2. de fato.) de ideias. uma parte diferente de outra parte. deduzindo ideia de animal da ideia de planta. depois no animal. como antes e como sempre. É um plano puramente abstrato. Matéria. assim constituída. 33. Não há matéria. tem sua expressão rudimentar. começa a adquirir unidade cada vez maior. É a transição da Ideia para a Natureza. Hegel não está deduzindo animais de plantas. em qualquer objeto. Entretanto.unifap. Mas este já não é mais pura Natureza. Na Natureza física chegamos à concretização das coisas.

poderá estender o exercício a outros aspectos). sonoridade. Ela é leve. se quiser. feito de coisas tangíveis. Estes atributos são universais: alvura. para Hegel. é uma soma de universais. leveza. Mas uma questão pode surgir: será que uma bola se reduz a isto mesmo? Será que não há algo http://www2. Tudo o que estas coisas têm.unifap. E sem afirmar esta identidade entre Ser e Conhecer. Respondemos que cada coisa – esta mesa. redonda. – não é senão ideia. porque Hegel a deduziu. este pedaço de giz. este quadro-negro. de uma soma de universais. etc. Se as categorias universais de Hegel não chegarem a cada coisa. 34. leveza. Hegel acha que não poderia . deles declinamos alguns. É uma soma de universais. Ser e Conhecer Voltemos a uma questão atrás: uma bola de pingue-pongue. senão abstratas reflexões. desapontado. E apesar delas aí está o mundo. Page 29 de 35 "universais". não porque Hegel a deduziu. etc. em afirmar que Ser e Conhecer são a mesma coisa. dissemos. que é feita esta bola de pingue-pongue: – de alvura. impenetrável? Hegel acha que o inconhecível não existe. É disto. Declinamos apenas estes para exemplo e exercício. rotundidade. Hegel apenas descobre o que existia antes. enquanto Hegel pretende apenas deduzir pensamento de pensamento. Poderá alguém. mensurável. são universais. tangível. Tudo o que existe é conhecível e se traduz em categorias universais. esta bola não existe. Não se trata de um processo subjetivo. Tenho aqui uma bola de pingue-pongue. A Natureza existe porque existe a Ideia. e não deste objeto concreto. Hegel não pretendeu criar coisas por força do pensamento dedutivo. Mas o leitor. individualmente existindo. sonoridade. a explicação do Universo que buscávamos – e foi a isto que nos propomos como Hegel inicialmente (conforme número 1) – continua insolúvel.br/borges inconhecível. reais. alva. Evidentemente. por exemplo. tudo o que elas são. Isto importa. que é esta caneta. Não é porque Hegel pensou que o Universo existe. para as quais levantou-se o desafio de uma explicação em busca de sua origem. dizer que. não faz outra coisa. sonora (naturalmente terá outros atributos. rotundidade. independente da mente humana: uma série de universais se explicitando.

Talvez esta afirmação pareça provar além do que Hegel pretende. Daí concluímos que o . que os universais são objetivos porque a bola é objetiva. E coisa. como a bola de pingue-pongue. pois. sem estes. Ela não é mais do que leveza. De um objeto não conhecemos senão conceitos. Mas quando queremos reduzir uma bola de pingue-pongue a universais. no sentido de existir. A palavra "Ser" é aqui usada como tudo aquilo que é objeto do conhecimento. A expressão "identidade do Ser e do Conhecer" expressa que o sujeito (o lado do conhecimento) e o objeto (o lado do ser) são idênticos. é a bola.unifap. Não seriam. Estes teriam aplicação apenas a determinadas coisas. forma um indivíduo. cada uma exterior à http://www2. o conhecimento parece impossível. Qualquer objeto se dissolve. nenhum pensamento é possível. pois. analiticamente. rotundidade. Quem existe. Esta soma de universais existe porque. ele distinguiu bem os puros universais dos universais sensíveis. tão universais como os primeiros. E a posição de Hegel é exatamente inversa: os universais têm realidade mas não existência. Sujeito e objeto não são duas realidades independentes. em soma de universais. a bola é objetiva. Para negar a objetividade dos universais deveríamos negar a objetividade da bola. É o que está fora da mente e com ela se relaciona como o objeto com o sujeito. etc. pois. Page 30 de 35 afirmar que tudo o que existe é traduzido em universais e idêntico a estes universais. em favor de Platão e contra Hegel? Além disto. não estaremos aí incluindo os universais sensíveis. alvura. São dois aspectos diferentes da mesma realidade. Hegel afirma que as suas categorias são objetivas. tem existência. nenhuma palavra tem sentido. parece dizermos que os universais existem porque a bola existe. E. sonoridade. das mais sutis do pensamento hegeliano. A razão última da objetividade dos universais está na identidade do Ser e do Conhecer. convém reler toda a distinção feita entre existência e realidade (conforme número 11). se não aceitamos isto. universais. conjuntamente. Para Hegel. contra Platão (conforme número 7 e 9). Se dizemos. indivíduo. uma coisa. nenhum destes universais tem existência.br/borges outra. não os universais de que ela é composta. Porque. Mas considerando cada um separadamente. Para prosseguirmos esta reflexão.

O objeto é objeto como o conhecemos. E como Ideia começa com o conceito mais vazio e mais abstrato – o de Ser – também a Natureza começa com a categoria mais vazia e mais abstrata do Universo: o Espaço. É afirmar que o inconhecível existe. antes de se manifestar e aparecer. Continuando. Só por metáfora se pode falar de partes de pensamento. Page 31 de 35 objeto nada mais é senão uma soma de universais. existindo antes do Universo. Pensamento é interioridade. Neste momento chamado Espaço. . E o conhecemos como uma soma de universais. É pura exterioridade. e caímos na aceitação do inconhecível. O Universo inteiro não é outra coisa senão o conteúdo da consciência. Isto importaria. As partes do Espaço são partes exatamente porque estão exteriores às outra.br/borges 36. e admitimos os universais como objetivos. Assim como a Ideia é a esfera de muitos conceitos. Início da Natureza Caracterizamos a natureza para entendermos toda a transição entre a Ideia e Natureza. É a Síntese da Ideia e da Natureza. distinta de parte. de determinação. já vimos. um sujeito. É negação de forma. é a mente absoluta. Um objeto não é objeto senão para uma consciência. Espaço. por não encontrar universais que sejam a sua realidade. esta aparência é a Natureza. 35. de diferenciação. Espaço é exterioridade. Espaço é essencialmente vazio. de conteúdo. A única maneira de superar estes limites que se tenta impor ao conhecimento é a identidade do Ser e do Conhecer. http://www2. ou aceitamos isto. entretanto. englobada na interioridade. Espaço é parte fora de parte. Poder-se-ia dizer que há meus conceitos da coisa e há a coisa em si. A Ideia. Porque Espaço é a suprema oposição do pensamento. o Espaço. consequentemente os universais são objetivos. a Natureza está em sua suprema oposição à Ideia. antítese da Ideia. E se quisermos falar estaria cada uma dentro de outra. Espírito O Espírito é o terceiro grande momento do sistema de Hegel.unifap. Ou negamos isto. é Deus como Ele é em si mesmo. em afirmar que algo da coisa resta inconhecível. é a Natureza a esfera de muitas coisas. totalmente outra realidade que não os meus conceitos. Ser significa ser para a consciência. Esta manifestação. refletimos agora sobre o primeiríssimo momento da Natureza (a primeira categoria da Natureza mecânica).

sozinha. Agora. É um objeto material. O Espírito subjetivo é o espírito humano ainda encerrado em sua http://www2. como antes. pois. se torna seu oposto. imaginação. existindo exteriorizado. em si. Realidades da psicologia humana como desejo. se exteriorizando. Num segundo momento. sob a dominação das leis da Natureza. aparece.unifap. Doutro lado. É a Natureza. materializada no tempo e no espaço. inteligência. Agora. Porque as categorias psicológicas supra-aludidas só . subjetividade. de certo modo. com o Espírito. porque a pura exterioridade jamais seria condição de manifestação do que é pura interioridade e subjetividade. tem realidade mas não tem existência. já vimos também (conforme número 11). ele é um ser espiritual. de certo modo se perdendo. não pode se manifestar a si mesma. Saindo. é a Razão externa existindo corporificada. A Razão que. toma existência. saindo de si mesma. Pelo homem. são categorias do Espírito subjetivo. já que existência é aparência. emoção. mas também para si. A Ideia se manifesta. Hegel diz que o primeiro momento é a Ideia em si. se alienando. De um lado o Homem é parte da Natureza. não se poderia manifestar nem existir – conforme acima – agora tem no Homem sua manifestação e sua existência dentro da Natureza. o objeto começa a se identificar com o sujeito e o irracional começa a se racionalizar. se objetiva a Ideia. percepção. enriquecida pelo seu estado de Antítese e de alienação. sai de si próprio. sem condições de se manifestar. isto é. pois. No momento da Natureza a Ideia estava. 37. O segundo é a Ideia fora de si. Espírito Subjetivo e Objetivo Como aconteceu com a Ideia (conforme número 29) e com a Natureza (conforme número 32) também o Espírito sofre uma subdivisão numa Tese (Espírito Subjetivo). a Razão está voltando a si mesma. se torna exterior ao Homem. com o Homem – porque é com ele que começa o Espírito – a pura exterioridade começa a ceder lugar à interioridade. com partes distintas de partes. exteriorizada e irracional. Por isto. começa o retorno. É animal. Com ele a Ideia será não apenas em si. memória. espírito. Antítese (Espírito objetivo) e numa Síntese (Espírito Absoluto).br/borges interioridade. porque não tem existência. A Ideia. aprisionada. o Espírito se objetiva. Page 32 de 35 Porque a Ideia. de si.

a objetivação não propriamente do meu eu no que ele tem de único. A mente não é determinada por algo exterior a ela. Nelas. A História Em toda a evolução do Espírito. pois. etc. a Moral. a História. portanto. se objetiva fora de si mesma. passa para um estágio de maior liberdade. pois. num processo de conscientização. Serão a expressão da vontade coletiva. fazendo prevalecer sua vontade sobre as dos demais.br/borges a) A característica da matéria é a gravitação. mas objetivação do meu eu no que ele tem de comum com todos os homens. sobretudo no momento primeiro da Natureza: mecânica. da . objetivadas. em encontro consigo mesmo. o Estado. não serão a expressão do capricho de um homem. para a apresentação da concepção hegeliana da História sob alguns itens: http://www2. a mente está presa dentro de si mesma. ao passar o Espírito do plano subjetivo para o objetivo. Não é que a Lei. Todas as instituições humanas pertencem. ele vai crescendo em liberdade. sucinta que seja. lhe sejam impostos de fora para dentro. a característica do Espírito é a liberdade. a Moral.unifap. o Estado. Page 33 de 35 têm existência na interioridade de cada indivíduo. E quem ama a Lei não é escravo da Lei. Tais realidades são. É assim que a encontramos descrita na Natureza. neste momento de apresentação do Espírito não se pode passar adiante sem uma pausa. Ela se determina. No Espírito objetivo a mente se liberta. a Política. das instituições humanas. e não apenas no Direito. particular e excêntrico. 38. portanto. são modalidades do Espírito despidas do caráter de individualidade. E entre elas. opressiva e ditatorialmente. Mas categorias outras como a Moral. das realizações coletivas da mente humana. Isto é também o que se passa em proporções menores ao longo de todos os momentos do Espírito objetivo. As leis do Estado. etc. O processo é inverso: a mente ao se exteriorizar nas instituições humana faz com que sua vontade coincida com a Lei. colocadas fora de cada um dos homens. a História humana não faz exceção a isto. No Espírito subjetivo. A gravitação é uma determinação exterior ao ser e é própria da Natureza. em conhecimento de si. ao Espírito objetivo. o Direito. desde o "subjetivo" até o "absoluto". b) Em contraposição a isto. Porque é bastante ampla a obra de Hegel sobre a Filosofia da História. consoante com as demais mentes.

O Espírito humano no plano anterior – a mente subjetiva das realidades psicológicas e a mente objetivada das realizações coletivas – está http://www2. seu regime político. a romana. por exemplo) e os demais. da glória. da sede do poder. Page 34 de 35 matéria. em sua fase objetiva. O momento do espírito absoluto. com suas leis. 39. se coincidem numa síntese. eliminam as mútuas oposições. utilizando os homens da História universal. A História toda se torna como que uma espécie de strip-tease do Espírito. sua ética. A liberdade é uma determinação interior do ser. cessam as limitações recíprocas e o Espírito se torna infinito. portanto. luz ou flor. pura exterioridade. as aristocracias) e os demais. representa globalmente um momento do Espírito. da ambição. Depois. em que alguns eram livres (as oligarquias privilegiadas. c) A História sendo um crescimento do Espírito. seja sol ou terra. d) Esta conquista gradativa da liberdade não se faz graças a heroísmo. regra geral. se revelando a si próprio. imbuídos que são. escravos. Os fatos da História comprovam isto. é autodeterminação. se dá quando a mente se percebe a si própria em qualquer outra coisa. Cessada esta dicotomia entre sujeito e objeto. O Espírito é único através delas. ou qualquer outra coisa que imaginar se possa. O Espírito se percebe então . Nas primeiras civilizações. apenas um era livre (o Faraó. para através disto que eles buscaram restar para a humanidade uma liberdade maior. altruísmo. tomando consciência e posse de si por uma liberdade cada vez maior. É o Espírito absoluto. De fato é a Razão quem dirige a História. escravos. vieram civilizações como a grega. no caso.unifap. cada civilização é um novo momento do despertar do Espírito ao longo da História. Nos dois momentos anteriores sujeito e objeto (Espíritos subjetivo e objetivo) se limitam mutualmente. um estágio superior de civilização em que eles não pensaram e) De fato. Cada civilização. o Espírito absoluto é necessariamente a consciência de si próprio. Finalmente chegaremos a um estágio da História em que nenhum será mais escravo e todo serão realmente livres. As civilizações se sucedem várias. Espírito Absoluto O terceiro momento é o Espírito absoluto. E existe uma "astúcia da Razão".br/borges limitado. Se sujeito e objeto. que serão exceção na História humana. é necessariamente um crescimento de liberdade.

É. Talvez finitudes ainda possa haver na esfera da arte e da religião. Ele é então realmente absoluto. como objeto. Tal Espírito só existe como consciência humana. O Espírito Absoluto é portanto o conhecimento do Espírito pelo Espírito. Esta liberdade se tornou maior quando. Esta apreensão tem três momentos que são subdivisões em momentos outros do Espírito absoluto: a arte. a religião e a filosofia. Resta dizer ainda que o Espírito absoluto tem a apreensão do Absoluto. ainda neste momento. infinitude. superou os limites do sujeito-objeto e se tornou pura liberdade. esta é também a esfera da Religião que outra coisa não é senão o conhecimento de Deus. qualquer instituição do Espírito objetivo se coloca diante do Homem como algo distinto dele. a apreensão do divino e do eterno. http://www2. Borges . Ele se contempla a si mesmo ao contemplar qualquer coisa. portanto o próprio conhecimento que o Homem tem do Absoluto através de tudo o que se faz presente à sua consciência e é percebido como idêntico a si próprio.br/borges Prof. em busca da plena liberdade e da infinitude. Page 35 de 35 idêntico a todo ser e qualquer realidade. autodeterminação. seja pela arte. É igualmente o conhecimento do Absoluto pelo Absoluto. idêntico a toda realidade. e portanto como oposto. Mas o Espírito que se conhece em toda realidade. Somente na filosofia o Espírito absoluto é absolutamente livre e infinito. A característica da mente humana é a liberdade. a mente se tornou idêntica ao Estado e as suas Leis. Todos os modos pelos quais o ser humano pode se tornar consciente do Absoluto. pela religião ou pela filosofia. são fases do Espírito absoluto. É o Espírito absoluto. Na transição do Espírito objetivo para o absoluto houve uma conquista de maior liberdade.unifap. Espírito e Absoluto são sinônimos. E porque o Absoluto e Deus são idênticos. Mas. passando da subjetividade às instituições humanas objetivas. Estes três momentos são sucessivas aproximações do Espírito.

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