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Bem Sofrer

Waldomiro com netinha ao colo.


Enquanto o câncer lhe traz duros sofrimentos
físicos e morais, sua expressão é de
serenidade, fé e esperança.

Edison Carneiro
2 Bem Sofrer

Sumário
Introdução..................................................2 Causas.................................................31
Lembrando Kardec................................2 Conduta................................................33
Prefácio..................................................2 Depressão............................................35
Como ler este livro?...............................3 Obsessão.............................................36
Crianças deficientes.............................39
Filosofia da dor..........................................4
A função da dor......................................4 Afeto..........................................................40
A qualidade da dor.................................5 Desamor...............................................41
A Quantidade Da Dor.............................6 Convívio expiatório...............................42
A Resignação.........................................7 Solidão.................................................44
O problema da dor.................................9 Amores impossíveis.............................46
Consoladores universais........................11 Dores morais............................................50
O livro...................................................11 Queda moral........................................50
O Canto................................................12 Calúnia.................................................55
O grande quadro consolador...............13 Vícios...................................................57
A prece.................................................14 Tristeza................................................65
Tédio....................................................68
A morte.....................................................16
A Morte em si.......................................16 Dinheiro ...................................................70
A compreensão da morte.....................17 Miséria..................................................70
A separação afetiva pela morte...........18 Insatisfação..........................................73
O Luto..................................................19 Sonhos financeiros..............................74
Falência................................................75
Doenças....................................................21 Prejuízos..............................................76
AIDS.....................................................22 Remorso...............................................77
Câncer..................................................23 Constrangimento..................................77
Lepra....................................................27 Preocupação........................................78
Deficiência visual.................................29
Paraplegia............................................30 Velhice......................................................80
Visão Prática........................................80
Problemas mentais..................................31 Visão Poética.......................................82
Introdução 3
Introdução
Chorai que a imensidade inteira chora
Cruz e Souza

Lembrando Kardec do inimigo fraqueje nas tenazes de uma


pena moral. Nenhuma recompensa obtém
A Doutrina Espírita, pode e deve ser en- o homem por essa espécie de coragem;
tendida como o consolador prometido. mas, Deus lhe reserva palmas de vitória e
Este livrinho nasceu dela e dentro dela, uma situação gloriosa.
especialmente do Cap V do Evangelho Quando vos advenha uma causa de sofri-
Segundo o Espiritismo – Bem Aventura- mento ou de contrariedade, sobreponde-
dos os Aflitos. vos a ela, e, quando houverdes consegui-
Como testemunho de gratidão, que sejam do dominar os ímpetos da impaciência, da
dos espíritos que assessoraram Kardec cólera, ou do desespero, dizei, de vós
as palavras inciais: para convosco, cheio de justa satisfação:
"Fui o mais forte."
Bem Sofrer e Mal Sofrer
Bem-aventurados os aflitos pode então
Quando o Cristo disse: "Bem-aventurados
traduzir-se assim: Bem-aventurados os
os aflitos, o reino dos céus lhes pertence",
que têm ocasião de provar sua fé, sua fir-
não se referia de modo geral aos que so-
meza, sua perseverança e sua submissão
frem, visto que sofrem todos os que se en-
à vontade de Deus, porque terão centupli-
contram na Terra, quer ocupem tronos,
cada a alegria que lhes falta na Terra, por-
quer jazam sobre a palha. Mas, ah! pou-
que depois do labor virá o repouso. - La-
cos sofrem bem; poucos compreendem
cordaire. (Havre, 1863.)1
que somente as provas bem suportadas
podem conduzi-los ao reino de Deus. O
desânimo é uma falta. Deus vos recusa Prefácio
consolações, desde que vos falte cora- Olhando em torno de nós, veremos que
gem. A prece é um apoio para a alma; todos os seres que nos rodeiam, sofrem:
contudo, não basta: é preciso tenha por
• A planta sofre;
base uma fé viva na bondade de Deus.
• o animal sofre;
Ele já muitas vezes vos disse que não co-
• o homem sofre;
loca fardos pesados em ombros fracos. O
• os espíritos também sofrem.
fardo é proporcionado às forças, como a
recompensa o será à resignação e à cora- Mesmo Jesus, modelo divino, médium de
gem. Mais opulenta será a recompensa, Deus, sofreu.
do que penosa a aflição. Cumpre, porém,
merecê-la, e é para isso que a vida se A história atesta que o sofrimento é cara-
apresenta cheia de tribulações. cterística marcante da Terra. Ao longo
dos séculos o pranto vem lavando a face
O militar que não é mandado para as li- de todos os homens e mulheres que por
nhas de fogo fica descontente, porque o aqui tem passado.
repouso no campo nenhuma ascensão de
posto lhe faculta. Sede, pois, como o mili- Embora o convívio íntimo, profundo, pro-
tar e não desejeis um repouso em que o longado com a dor, ela permanece como
vosso corpo se enervaria e se entorpece- um mistério para nós.
ria a vossa alma. Alegrai-vos, quando De onde vem essa estranha companhei-
Deus vos enviar para a luta. Não consiste ra? o que nos trás? o que tira de nós?
esta no fogo da batalha, mas nos amargo- como evitá-la? como conviver com ela?
res da vida, onde, às vezes, de mais cora-
gem se há mister do que num combate 1 Allan Kardec – Evangelho Segundo o
sangrento, porquanto não é raro que Espiritismo – Edição Feb -
aquele que se mantém firme em presença www.febnet.org.br
4 Bem Sofrer
Muitas vezes a dor de não compreender e
de não aceitar a dor, soma-se aos nossos
Do ponto de vista emocional, a única
sofrimentos, tornando-os muito maiores.
resposta plausível à dor é a compaixão.
Lançar luz sobre a dor, nossa e alheia,
A resposta emocional é a parte poética
fornecer ideias balsâmicas que nos alivi-
deste livrinho, nascida sem métrica e sem
em os sofrimentos, expandindo as pala-
rima, num coração musical. Meu coração
vras de Jesus "Bem aventurados os afli-
é musical porque é da natureza do cora-
tos porque serão consolados", é o objeti-
ção ser musical. Você não ouve como
vo deste trabalho.
suas batidas são ritmadas, como se fora
Que este livrinho possa nos auxiliar a um tamborzinho no peito?
compreender que:
Alguns filósofos e psicólogos menospre-
• É preciso aproveitar o estágio no plane- zam a compaixão. Tolos estoicos, na sua
ta da Dor. pretensa racionalidade, tratam seus ir-
• Deus nos colocou no lugar certo. mãos como soldadinhos de chumbo. Lem-
• Os nossos sofrimentos não são gran- bremos Jesus: "Misericórdia quero e não
des, e jamais serão superiores às nos- sacrifícios".
sas próprias forças.
• Devemos fazer da própria dor caminho
de libertação interior. Entenda-me como seu irmão. Escrevo,
• Devemos fazer da dor alheia penhor de sem nenhuma pretensão de superiorida-
redenção. de. Alguém que tenta fazer alguma coisa,
Edison Carneiro mesmo sabendo de sua inferioridade e li-
Março/92 mitações. Perdoe-me se eu for grosseiro,
se fizer você perder tempo, se lançar
Como ler este livro? ideia negativas na sua alma,... Você pre-
cisa de compaixão, porque todo ser hu-
Quanto ao método, há três caminhos: lê- mano em alguma medida sofre. Eu tam-
lo sequencialmente, abri-lo ao acaso, ou bém preciso de sua compaixão, pelo mes-
procurar no índice o capítulo que mais se mo motivo.
aproxime do problema que você tem pela
Deus nos fez irmãos, e nisto está a força
frente.
de nosso relacionamento. Não sei se che-
garemos a nos ver com nossos olhos car-
Quanto à atitude, a resposta terá que ser nais. Mas durante o tempo que você dedi-
um pouco mais pensada. car à leitura deste livrinho, teremos uma
grande intimidade mental.
Observando a maneira pela qual heróis
morais consolam, tais como, Francisco de Saiba que eu o respeito, e que essa inti-
Sales, São João Batista Vianney, São midade mental me é valiosa.
Paulo, São Vicente de Paulo, Allan Kar- Em suma, em pensamento eu peço a
dec, observei o seguinte: Deus que o abençoe e procuro envolvê-lo
Não se foge do problema. O ato de fugir com a minha solidariedade, com meu
já nos enfraquece e nos fará sofrer mais. amor.
Há que manter uma atitude equilibrada Eu gostaria que você lesse este livrinho
entre dois caminhos: aceitar ou tentar eli- assim: sentindo-se abençoado por Deus e
minar a dor? A parte racional deste livri- amado pelos seus irmãos em humanida-
nho é dedicada a essa pergunta. de.
Filosofia da dor 5
Filosofia da dor
É fascinante filosofar sobre a dor. É mais Inteligente e sensível, a morte dos pais
importante bem sofrer e consolar. adotivos o devolveria à condição plena de
A filosofia da dor é um campo vasto, ain- negro, lançado no mar de tormentos, que
da inexplorado. foi a escravatura no Brasil. Amando enter-
necidamente a esposa, viu-a enlouque-
Lamento que a filosofia, neste século, ex- cer, assistiu à morte dos filhinhos.
ceção feita à lógica, continue sendo tão
maltratada. Aos 37 anos em 1898, morreria, sendo
seu corpo conduzido num vagão de gado
A filosofia, na noite dos mil anos 2, foi apri- até o Rio de Janeiro, onde seria sepulta-
sionada na sacristia. Libertada, na renas- do.
cença, tiraram-lhe Deus. Sem Deus, va-
gou por sistemas nocivos, a serviço do Olhando sua vida vemos um rosário de
pessimismo, da negação. Alguns tenta- dores.
ram subordiná-la as relações comerciais. Creio que ele pediu uma encarnação tão
Em outros termos, a prostituíram. sofrida para também poder compreender
Acho que muito da desorientação indivi- melhor o sofrimento.
dual vem desse descaso face a filosofia, Cruz e Souza em muitos sonetos expôs a
mãe das ciências. Suas filhas órfãs, fun- função da dor com grande beleza e senti-
cionárias de academias e universidades, mento. Eis um deles:
que muita vez nada têm de universais,
produzem algumas leis naturais e cami-
nhões de tecnologia, que se distribui de
Sofre
forma tão equitativa entre malefícios e be- Toda dor que na vida padeceres,
nefícios, que ao final o ganho em felici- Todo o fel que tragares, todo pranto,
dade real para a humanidade é baixo. Ser-te-ão como trevas e, entretanto,
Embora esse amor grande pela filosofia, Serás pobre de luz se não sofreres.
este livrinho tem que ser prático, dirigido
a atitudes e situações concretas. É que dos sofrimentos nasce o canto
De alegria dos mundos e dos seres,
Para satisfazer essas necessidades opos- Pois que a dor é a saúde dos prazeres,
tas, resolvemos abrir este capítulo, abor- O hino da luz, misterioso e santo.
dando quatro questões da filosofia da dor,
que ofereçam um pequeno embasamento Doma o teu coração, e, no silêncio,
teórico e sirvam de estímulo a você. Foge à revolta, humilha-o, dobra-o,
Moral da História vence-o,
Chorando a mesma dor que o mundo
• De filósofos, todos temos um pouco. chora;
• A filosofia está subordinada à vida.
Abre a tua consciência para as luzes
A função da dor E, no mundo que o mal encheu de
Eu tenho um carinho muito especial por cruzes,
Cruz e Souza. Do Bem encontrarás a eterna aurora.
Cruz e Souza foi um poeta brasileiro que Ouvindo-o, nossas almas recebem eflú-
sofreu muito. vios de paz, e me sinto como essas aves
Nascido negro na época da escravatura, migratórias, que descansam por algum
foi adotado por pais brancos que lhe de- tempo num lago, matam a sede, e nova-
ram muito carinho e educação esmerada. mente alçam voo, voando sempre, porque
o instinto determina a busca do sol e da
luz.
2 Período que corresponde Os espíritos, a semelhança das pedras
aproximadamente do ano 500 a 1500
6 Bem Sofrer
preciosas, para brilharem necessitam ser fossem deles esses sofrimentos, seriam
lapidados. suportados mais facilmente.
A lapidação dos espíritos é feita por 3 ar-
tesãos: pela dor, pelo trabalho e pelo
A dor poderá ser desta vida ou de vidas
amor.
passadas conforme a antiguidade de
Devido a nossas imperfeições, os arte- suas causas.
sãos trabalho e amor vão deixando muitas
arestas para trás, sem lapidar, cabe então Se as causas estão nesta vida, como
acontece com a maioria das dores, estará
à dor completar o trabalho.
em nós eliminá-las.
Deus quer que sejamos ricos de luz.
"Sede Perfeitos", disse Jesus. Aceitemos Se a causa deriva de delitos cometidos
sem revolta o trabalho complementar des- em encarnações passadas, há que resga-
ta artesã, a dor, que faz, contra a nossa tá-los pelo amor, pelo trabalho e também
vontade, aquilo que não conseguimos fa- pela resignação em sofrer suas conse-
zer pelo esforço do coração e das mãos. quências enquanto não são resgatados.
Cada um pois tome a sua cruz e siga a
Jesus. Como essas aves migratórias que A dor poderá ser provocada, num sentido
vão de um hemisfério a outro, voando imediato, por:
sempre, porque o instinto determina a • nós mesmos,
busca do sol e da luz.
• inimigos encarnados,
• inimigos desencarnados.
Moral da História
Quando nós mesmos somos nossos al-
• Há quem guarde as gotas do teu gozes, a auto educação é que deverá nos
pranto conduzir a uma conduta mais sensata, eli-
No tesouro sublime e sacrossanto minando o sofrimento.
Dos arcanos de luz da Divindade
(Cruz e Souza) Quando são nossos inimigos encarna-
dos que a provocam, a situação é mais
complexa: precisaremos da terapia do
• O Céu é a pátria eterna dos
perdão e da universalização da nossa ca-
vencidos pacidade de amar para desembaraçarmos
Onde aportam ditosos, redimidos, essas teias de ódio, que fomos tecendo
Como heróis dos prantos e das em vidas passadas ou nessa própria vida.
dores (Cruz e Souza)
Se há a intervenção de inimigos desen-
A qualidade da dor carnados, provavelmente nos enredamos
nas complexas tramas da obsessão, que
A dor varia ao infinito: cada ser humano éexigirão de nós, o máximo de boa vontade
uma história diferente e uma dor dife- para a necessária libertação, sempre au-
rente. No entanto somos todos iguais pe- xiliada por benfeitores encarnados ou de-
rante ela. O mesmo pranto, o mesmo fel. sencarnados.
Não há privilegiados. No correr das vidas
sucessivas, todos temos que beber do A dor poderá ser física ou moral, confor-
seu cálice amargo. me seja atingido inicialmente nosso corpo
físico ou nosso espírito.
Toda a dor física terá repercussões na
A dor poderá ser própria ou alheia con- nossa individualidade moral, da mesma
forme tenha sua origem em nós ou na- forma, toda dor moral terá repercussões
queles que nos cercam. no corpo físico. As dores morais trazem
As dores que nascem nos entes queridos no geral mais sofrimento que as dores fí-
podem doer mais do que as nossas pró- sicas. Entre as dores morais, as mais do-
prias dores. É de ver-se como os pais se loridas são aquelas que atingem nosso
debatem com os sofrimentos dos filhos, coração, nossa estrutura afetiva.
Filosofia da dor 7
Transportando a humanidade
o veiculo da caridade
Uma fonte importante de dores são as en-
vai pela estrada da esperança.
fermidades.
Nos seus sacolejos os homens:
Por vezes as doenças, ao trazerem desar- Se empurram,
monias no corpo físico, nos auxiliam a Se pisam,
harmonizarmos nossa alma. Se ajudam,
Há enfermidades que, se não doem fisi- Se levantam.
camente, trazem impedimentos muito do-
lorosos, como por exemplo, a paralisia Ora lentos,
que impede o caminhar, ou a cegueira, ora rápidos,
que impede a visão, ou as doenças men- os raios das rodas
tais, que nos impedem pensar com clare- do veículo da caridade
za. são raios de sol,
não param,
giram e giram,
As necessidades não satisfeitas doem: como os grandes
a sede, a fome, a impossibilidade do relógios astronômicos,
sono, do afeto, da luz, da liberdade, ... que marcam o tempo
no universo sem fim.
Há dores-evolução. Dói progredir, inven-
tar, crescer, descobrir, conhecer-se, ... Ai de mim!
Há dores-purificação. O crime foi cometi- Digo hoje.
do, o espírito está impuro, a dor, como Feliz de mim!
que, o lava. Direi amanhã,
pois o meu Deus,
Há dores-alerta. Dói por a mão no fogo, o Deus que ganhei
para nos livrar de queimaduras. do meu Pastor,
Há muitas outras dores ainda. do meu Mestre,
do meu Senhor,
o Deus,
que Jesus me deu
Tantas dores, tantos amores É bom.
Havendo tantas dores
há também amores, Moral da História
vários e infindos • A dor tem muitas faces para que a alma
e, portanto, tenha muitas luzes.
todo pranto, • A diversidade dos sofrimentos nos re-
será estancado. úne numa única família.

Tantos A Quantidade Da Dor


sofrem tanto
e, no entanto Você acha que sofre muito, alma querida,
a alegria, que sua dor é enorme?
branca, leve, Vou apresentar-lhe dois amigos, que tal-
doce, harmonia, vez o auxiliem a medir melhor a própria
será rainha. dor: Encio e José

Acima Encio Gaitinha, apelido devido ao instru-


do tormento, mento que tocava na mocidade, 50 anos,
do sofrimento, era leproso, vivia num leprosário nas ime-
vejo a luz diações de São Paulo. A lepra havia leva-
de Deus. do alguns de seus dedos. Sua esposa
também era leprosa, e a lepra a havia dei-
xado cega. Encio trabalhava como eletri-
8 Bem Sofrer
cista, no próprio leprosário. A sua casa va, situações difíceis que se apresenta-
era muito arrumada e limpa. Para escre- vam, ao apequenar-se face a vida, procu-
ver valia-se de uma velha máquina, onde rando trilhar o caminho da humildade,
ia pressionando o teclado com seus res- crescera e crescera muito, e os seus pro-
tos de mãos, envoltos em panos. Sempre blemas tornaram-se muito menores do
bem humorado, sempre alegre, sempre que ele próprio.
falando em Jesus.
José, 30 anos, alto, forte bonito, situação
Moral da História:
econômica definida pelos imóveis que
herdara. A mãe o amava muito, e várias • Ser egoísta na dor é multiplicar por mil
mulheres disputavam sua companhia. nossas dores.
Tristonho, problemático, desencontrado. • Sair de si mesmo na dor, é vencê-la.
José procurava frequentemente o Encio,
em busca de auxílio. E Encio bondosa- A Resignação
mente o consolava e o encorajava. A virtude básica para bem sofrer e conso-
Do ponto de vista objetivo os sofrimentos lar é a resignação. Ela é o alicerce sobre
de Encio eram muito maiores que os sofri- o qual serão edificadas as demais virtu-
mentos de José, alias do ponto de vista des, as gemas preciosas no sofrimento,
objetivo, era difícil identificar focos de dor que são a paciência, a esperança, a fé ...
em José. Tudo para José era fácil, ame- Por vezes dá-se uma conotação pejorati-
no. Para Encio tudo era difícil, contunden- va à resignação, atribuindo-lhe o sentido
te. Do ponto de vista da saúde, não havia de acomodação, inércia, covardia.
o que comparar. Do ponto de vista social,
Encio era um segregado, para a maioria Lázaro, numa mensagem dada em Paris,
de seus familiares ele havia "morrido", entretanto, define a resignação de forma
tais os preconceitos da época. Financei- precisa, devolvendo-lhe toda a grandeza
ramente, mal e mal Encio ganhava para a espiritual: resignação é o consentimento
alimentação, enquanto para José, mesmo do coração.
esbanjando um pouco, e não ganhando Na vida, do ponto de vista exterior, movi-
nada, o provável é que jamais enfrentas- dos pelo interesse, pelo medo, pela cobi-
se problemas financeiros. ça, pelo orgulho, podemos aceitar uma
No entanto, do ponto de vista subjetivo, série de coisas. Mas dentro de nós, no
José vivendo José, e Encio vivendo En- fundo de nosso coração, essas mesmas
cio, José sofria muito mais que Encio. Por coisas não foram aceitas. O coração não
que? deu a sua aprovação. Porém, sem forças
para lutar, calamos nossas emoções, des-
José vivia fechado em si mesmo Para consideramos nossos sentimentos, e
José, José era o ser mais importante do prosseguimos nossa vida, como se tudo
mundo. José tentava crescer aos próprios estivesse bem. Mas a nossa estrutura
olhos, cheio de orgulho, vaidade, egocen- sentimental não irá digerir esses "sapos"
trismo, ao mesmo tempo apequenava a e mais cedo ou mais tarde, surgirão os
importância da vida. inevitáveis problemas psicológicos da re-
O egoísmo de José tinha duas conse- volta, da fuga, do mal estar aparentemen-
quências opostas: atribuindo importância te sem causa. É forçoso notar que neste
exagerada aos seus próprios problemas, caso, acovardados, tentando nos justifi-
fazia com que eles crescessem; atribuin- car, nos aplicaremos à qualidade de resi-
do-se valor exagerado, José diminuía gnados, em completa oposição ao seu
como ser humano. sentido original.
Ao aumentar seus problemas e diminuir a Ser resignado, todavia, é pôr as razões
si próprio, José tornara seus problemas do sentimento acima do interesse e do
insuportáveis. medo, buscando o consentimento do co-
ração, através de um correto posiciona-
De outro lado, Encio, ao voltar-se para mento na vida. Exemplifico:
fora, tendo que resolver, de forma objeti-
Filosofia da dor 9
Antônio Carlos, desde criança, teve mui- res."
tos problemas de relacionamento com Se, cheio de poder, Jesus poderia evitar a
sua mãe viúva, Claudia. Em todas as sua paixão, por que seu coração consentia
atitudes Claudia espezinhava Antônio naqueles sofrimentos que estavam por
Carlos. vir?
Aos catorze de idade, Antônio Carlos saiu Porque seu coração amava a vontade de
de casa, e foi morar com Rogério, um ho- nosso Pai que está nos céus, e a vontade
mem bom que terminou de criá-lo. de nosso Pai era que, embora Jesus não
Antônio Carlos, dotado de tino comercial, necessitasse sofrer, era preciso que Je-
jovem ainda, se viu bem na vida. Sua pri- sus ensinasse, com exemplos, os homens
meira preocupação localizar a mãe e a sofrerem. E a vontade de Deus, que é
comprar uma casinha que a abrigasse. A toda amor, se refletia cristalina no seu co-
mãe revoltada aceitou, porém não permi- ração amoroso.
tia que Antônio Carlos entrasse na casa, Seu coração não consentia a fuga, nem a
destruía documentos relativos à casa, violência, nem a tergiversação face a
pois sabia que isso traria transtornos a seus princípios. Seu coração consentia
Antônio Carlos. apenas o ensino amoroso.
Antônio, de outro lado, perdoava a mãe e, E ele atravessou o mar tormentoso da
movido pelo dever filial, continuava resig- paixão, como uma brisa suave, ensinando
nadamente a auxiliá-la. a suavidade e o perfume, a brandura e a
O coração de Antonio Carlos, valorizando misericórdia e fixou no nosso coração pa-
sobremaneira o dever filial consentia em lavras como: "Pai, perdoa-lhes porque
suportar as agressões maternas, que não sabem o que fazem ...", e gestos
eram acolhidas com gestos de perdão e como: "morreu de pé e com os braços
compaixão, ou seja, a resignação tendo abertos a toda humanidade".
em vista bens maiores, não se importa Pelo bem maior que é a redenção eterna
em sofrer dores momentaneamente inevi- da humanidade, Nosso Senhor sofreu por
táveis. alguns dias, toda a perversidade humana,
Um dia, quando esta vida terminar tanto expressa através dos poderes constituí-
para Antônio Carlos, quanto para a sua dos e do povo de Jerusalém.
mãe, Antonio Carlos descobrirá que as Complementando a lição do Calvário, Je-
agressões da sua mãe foram manifesta- sus nos deu a lição da ressurreição. Pois
ções da justiça de Deus por faltas anterio- a verdadeira resignação é consequente,
res, e que sua resignação ao recebê-las causal. A verdadeira resignação, como a
em clima de perdão foi a manifestação da da paixão, provoca por fim a alegria, a
misericórdia de Deus tanto para com ele paz, a glória expressa na sua contra parti-
quanto para com a sua mãe. da: a ressurreição.
Deus foi misericordioso com Antônio Car- Em termos evangélicos: "Bem aventura-
los ao permitir que através desses incô- dos os que choram pois que serão conso-
modos menores subisse mais alto no bem lados". O pranto resignado tem como con-
inestimável do amor puro. sequência o consolo divino. É como se as
Deus foi misericordioso com Claudia, a mãos de Deus enxugassem as lágrimas
mãe, que não teve seus sofrimentos am- daquele que as verteu por amor a Deus e
pliados pelo revide ou indiferença do filho. aos homens.
Minha boca e meus pensamentos são tão
Jesus, mestre divino, deixou o perfeito grosseiros para descrever a suavidade
exemplo de resignação: das mãos de Deus... Terão certamente a
luz e a leveza de um arco-íris, serão tépi-
No horto, antes dos sofrimentos da pai- das como o mais doce dos afagos mater-
xão, orava assim: "Meu pai, se é possível, nos, tão delicada será a química divina ao
afasta de mim este cálice; todavia, não transformar os fluidos de dor em fluidos
seja como eu quero, mas como tu que- de alegria, paz e glória.
10 Bem Sofrer
do através dos anos, caiu, pois o tronco
não estava mais lá. Na volta outro tombo,
Moral da História
pois Joaquim vinha pensando no que ia
• O coração tem que consentir em dores fazer durante o dia, e esqueceu a gentile-
menores se almeja felicidades maiores. za do primo.
• A base da resignação é a compaixão ati-
Joaquim esperou pacientemente uma se-
va, e não a acomodação passiva.
mana, até que o primo partisse, para não
magoá-lo, e pôs novamente o tronco no
O problema da dor lugar.
A dor pode ser encarada como um proble- No exemplo acima fica claro, que o autor
ma? do problema foi Antônio. O problema foi
Mas o que é um problema? mal formulado: a premissa das dificulda-
des acarretadas pelo tronco era falsa, não
Formulamos algumas premissas e algu- tinha nada a ver com a questão de como
mas questões, que julgamos estarem re- expressar seu sentimento de gratidão. A
lacionadas. A seguir buscamos a solução solução também foi péssima.
do problema, ou seja a resposta às ques-
tões que formulamos. Gastei estas 30 ou 40 linhas para alertar
que a maioria de nós é muito desatenta
Nisso tudo há uma sutileza de raciocínio ao formular problemas. Formulamos mui-
que muitas vezes nos escapa. É a ques- tos problemas desnecessários e pomos
tão da autoria do problema. Somos sem- nosso raciocínio horas, dias e anos a bus-
pre, obviamente, os autores de nossos car soluções sem sentido, porque o pro-
problemas, a vida determina necessida- blema onde estão inseridas está mal for-
des, circunstâncias, fenômenos. Porém a mulado.
construção lógica dos problemas cabe a
cada um de nós. Exemplifico: Sejamos mais atentos, propondo a nós
mesmos o menor número possível de pro-
Joaquim morava na roça. De sua casa blemas. Problemas que nasçam de ne-
saia um trilhozinho que ia até uma nas- cessidades reais.
cente. No meio do trilhozinho havia um
tronco de árvore caído. Todos os dias Nestes problemas necessários, aplique-
pela manhã, Joaquim ia pelo trilhozinho mos nosso raciocínio a formulá-los corre-
com um balde, pulava o tronco, lavava o tamente e resolvê-los da melhor forma.
rosto e escovava os dentes na nascente, Todavia não adianta achar a solução se a
enchia o balde, voltava pelo mesmo cami- vontade não comparece para pô-la em
nho, pulava o tronco e continuava o seu prática.
dia. Certo verão veio Antônio, um primo
da cidade. Antônio formulou o seguinte
problema. Mas voltemos a dor e tentemos identificar
quais os seus principais problemas.
Premissas: Antônio pulava o tronco duas
vezes por dia. Este salto, principalmente Duas questões surgem com frequência
com o balde cheio d'água, exigia um es- em nossas vidas:
forço físico. A gratidão pela hospitalidade • Como suportar adequadamente os sofri-
de Joaquim exigia um ato gentil. mentos, ou seja, sofrer bem?
Questão: como ser gentil com Antônio? • Como consolar o próximo que sofre?
Solução: remover o tronco do caminho.
Há uma terceira questão que parece vir
Formulado e resolvido o problema, Anto- antes das 2 acima:
nio atirou-se ao trabalho. Por toda uma
tarde, debaixo do sol, valendo-se de algu- • Como eliminar a dor?
mas alavancas, removeu o tronco.
A resignação, expressando o bem sofrer,
No outro dia pela manhã, ainda meio dor- diminui os sofrimentos. O consolo como
mindo, Joaquim ao fazer sua excursão ato de compaixão, provoca reações na
matinal, ao pular o tronco, hábito adquiri- justiça divina, através da lei de causa e
Filosofia da dor 11
efeito, minimizando nossas dores. Porém, melhoremos dia a a dia.
a solução definitiva da questão do sofri- A evolução espiritual passa necessaria-
mento, nós a encontraremos na auto-edu- mente pela aquisição de virtudes. As vir-
cação, também chamada reforma íntima. tudes são inúmeras. Devemos nos esfor-
Tenho enorme respeito pela palavra "edu- çar por conhecê-las e praticá-las.
cação", o sentido de esforço que a ex-
pressão "reforma íntima" contém é sobre- Não há evolução espiritual sem o concur-
maneira incentivador, mas prefiro utilizar so do tempo. Séculos e séculos são ne-
a expressão "evolução espiritual". cessários ao crescimento do espírito. Je-
sus referindo-se a necessidade de muitas
O espírito é alado. As almas devem voar vidas para o nosso aperfeiçoamento dis-
leves e diáfanas. E devem voar para o se: "Vocês não entrarão no Reino do
Céu. Por isso gosto de "evolução espiri- Céus se não nascerem de novo".
tual".
Certa feita um espírito instruiu-me num
Elimine seus vícios, aumente suas virtu- sonho a respeito da evolução espiritual.
des, dilate sua capacidade de amar a Um conceito interessante é o de "área de
Deus e aos homens. Passe a ter créditos mudança atual". O espírito evoluí, do pon-
junto a justiça divina. Pague seus débitos. to de vista relativo, um pouquinho em
E eis você na condição de espírito feliz. cada encarnação. Esse pouquinho, que é
Doenças, ódios, desarmonias, angústias, o objetivo de evolução numa encarnação,
tudo isso pertencerão ao passado. é a "área de mudança atual". Normalmen-
Para sua auto-educação, você precisa de te, em termos de virtudes, o espírito tem
um bom programa, mais que isso, urge como objetivo aperfeiçoar no máximo 2 ou
um programa completo e perfeito. Para 3 virtudes numa dada encarnação. Um
sua reforma tem necessidade de um pro- exercício interessante é tomarmos uma
jeto detalhado, inteligente, que faça do lista de virtudes e verificarmos qual a vir-
seu ranchinho um belo palácio. Como tude que mais nos falta.
voar, sem a segurança da torre, que indi- Encerrando este item, lembre-se:
que nossa posição e rota?
• quanto mais esforço na sua evolução
O Evangelho de Jesus é o programa de espiritual, menos você necessitará da
ensino, o projeto de construção, a torre dor para alcançar a felicidade;
de controle. Evangelho significa boa nova. • dadas as nossas imperfeições haverá
Alegria, alegria, Jesus trouxe o mapa da necessidade, ainda por alguns séculos,
felicidade. de dores buriladoras;
A evolução espiritual exige o auto-conhe- • bem sofrer é uma virtude necessária a
cimento. O referencial para traçarmos o sua evolução espiritual;
nosso perfil espiritual é ainda o evangelho • saber consolar também é uma virtude
de Jesus. Devemos, com sinceridade, nos necessária a sua evolução espiritual.
examinar face a esse código divino. Santo
Agostinho propõe que façamos toda noite,
Moral da História.
antes de dormir, um exame de nosso dia
perante o Evangelho de Jesus. Feito esse • É você que define seus problemas.
exame em clima de prece, vamos propor • O Evangelho é a solução definitiva ao
a nós mesmos pequenas metas para que problema da dor.
12 Bem Sofrer
Consoladores universais
Qualquer que seja a dor, há algumas fon- ao mar. O mar é uma das criaturas mais
tes de consolo que são universais. majestosas e belas do reino mineral. Vic-
Elementos da natureza, faculdades do tor, um homem forte, de senso estético
próprio homem, inventos... apurado, encontrou no mar uma válvula
para expansão do seu amor, pleno de ma-
Por vezes esses consoladores universais, jestade, de variedade, de movimento. Pe-
são válvulas por onde a alma consegue dro II, ao ser exilado do Brasil que tanto
derramar o seu amor. E o amor é o leniti- amava, levou um saquinho de terra do
vo primeiro da dor. A mãe parindo o seu Brasil. Aquele punhado de terra auxiliava
filhinho tem suas dores amenizadas por- o seu coração a relacionar-se com o
que o amor ao filhinho as suaviza. imenso território e povo que deixava para
E onde achar essa válvula que destampe traz.
o nosso amor e traga um bálsamo às nos- Essas válvulas de amor variam ao infinito,
sas dores? mas o nosso coração vai tratar especial-
Há que procurar, confiantes nas palavras mente de quatro:
de Jesus: "Quem procura acha" • O Livro.
Há que procurar em clima de prece: • O Canto
"Tudo o que vocês pedirem, em meu • O Céu
nome, ao Meu Pai que está no Céu será • A Prece
dado a vocês".
Moral da História:
Há que procurar humildemente: "Deus • A válvula do amor é o principal lenitivo
sabe o que vocês necessitam, antes que da dor.
Lhe digam". • Todos temos uma imensa capacidade
A válvula do amor poderá ser uma pes- de amar.
soa: uma criança, um velho, um necessi-
tado, uma esposa, um marido. No auge
da dor, no monte do calvário, pregado na O livro
cruz, vendo Jesus a dor imensa de sua
mãe, Maria, e de seu discípulo amado, O sofrimento por um fato acontecido, prin-
João, disse: "Mãe, eis aí teu filho, filho eis cipalmente em coisas do coração, fica
aí tua mãe". Jesus dava a Maria uma vál- maior quando aprisiona a alma naquele
vula ao seu amor maternal na figura de momento, naquele fato.
João. Jesus dava a João uma válvula ao Bezerra de Menezes, vulto ilustre da polí-
seu amor filial na pessoa de sua Santa tica e da medicina no século passado,
Mãe. Extravasando o amor puro, ambos aqui no Brasil, foi surpreendido dolorosa-
sentiram grande alívio na suas dores. mente pelo falecimento da esposa.
A válvula do amor poderá ser uma criatu- Em virtude do muito afeto, sua dor foi
ra do reino animal: um cão, um gato, um enorme. Não conseguia, pelo muito sofri-
beija-flor que todos os dias venha visitar omento, pensar em nada. E assim, inerme,
nosso jardim. não clinicava, não participava da vida pú-
As válvulas poderão ser criaturas do reino blica.
vegetal: Waldomiro colecionava roseiras. Foi quando um amigo, penalizado pela
As roseiras davam-lhe rosas. Waldomiro sua situação, lhe sugeriu a leitura da bí-
dava-lhes amor. Ao podá-las, adubá-las, blia. O conselho foi válido. Bezerra, en-
regá-las, suas dores eram aliviadas pelo quanto lia a bíblia, não pensava na espo-
amor que sentia pelas belas plantas. sa morta e conseguia algum descanso
As válvulas poderão ser criaturas do reino para seu coração atormentado. O equilí-
mineral: Victor Hugo, no seu sofrido exílio brio foi voltando, pouco a pouco foi reto-
da França, construiu sua casa em frente mando as suas atividades, e com o tempo
novo matrimônio surgiria, entrando sua
Consoladores universais 13
vida novamente em plena normalidade. volvem o coração pesam mais que os pró-
A bíblia o projetara para fora daquela si- prios fatos que fazem sofrer.
tuação, Ao lê-la sua alma ganhou impulso
movida pelas asas da imaginação e liber- O canto é uma coisa inata no homem.
tou-se daquele preciso momento em que Aquele que não canta é porque tem algu-
a esposa falecera. ma disfunção. Deve procurar um profes-
Imaginação?! sor de música e vencer sua inibição, fa-
Imaginação, sim. Embora o autor nos dê zendo como alguém que teve algum im-
algumas linhas gerais, o grosso do que pedimento muscular e procura um fisiote-
apreendemos num livro vem da própria rapeuta.
imaginação do leitor. Ler é imaginar. Ima- A bíblia está plena de música, no velho
ginar é co-criar, é descobrir o novo, é ter testamento encontramos no Rei Davi um
consciência de nossa imensa capacidade compositor a serviço do bem. Com seus
de renovação, de reconstrução. E esse salmos trazia fé, coragem e afastava os
novo imenso, coloca na sua justa medida maus espíritos que atormentavam o rei
o fato passado. Saul.
Nunca é demais lembrar que existem li- A música está presente no Evangelho de
vros de luz e livros de sombra, livros que Jesus, como fator consolador. Na paixão,
levantam e livros que arrasam. antes de dirigir-se ao Monte das Oliveiras,
Claro está que o que sofre deverá buscar Jesus cantou com os apóstolos, como le-
consolo nos livros da luz. mos em Mateus, versículo 26, capitulo 30:
"E tendo cantado um hino, saíram para o
Quando pois, o pranto enevoar teus Monte das Oliveiras"
olhos, procura fazê-los descansar, corren-
do-os sobre as pequenas letras alinhadas O apóstolo Paulo, inteligência fulgurante,
do livro. Do livro bom, do livro que dá a fé, esclarece na sua Primeira Carta aos Co-
que aviva o amor, que exalta a beleza, ríntios: “cantarei com o espírito, mas tam-
que demonstra a verdade. E teus olhos bém cantarei com o entendimento”. Creio
alimentarão mais uma vez tua alma para que o apóstolo referia-se a necessidade
que fortalecida ela supere a dor. de unir, no canto, razão e sentimento para
fazer vibrar a nossa alma por inteiro, já
Moral da História que o canto é o feliz casamento entre a
• Não só de pão vive o homem mas de poesia e a música.
toda palavra que vem da boca de Deus. Humberto de Campos, nas suas anota-
(Jesus) ções, no livro "Boa Nova" narra emociona-
• O livro não apenas esclarece, emociona, do, um dos pontos centrais de ligação en-
instrui... Consola também. tre o sofrimento e a música. Ele nos conta
que logo após o desencarne, nossa Mãe
O Canto Santíssima, Maria, Mãe de Jesus, dirigiu-
se a Roma para levar seu carinho aos
Hoje assisti ao filme "Amadeus" de Milos
cristãos que estavam sendo perseguidos.
Formam, creio que foi lançado em 84/85.
Gira em torno de Mozart. Peter Shaffer Penetrou nos sombrios cárceres do Es-
ambienta o roteiro num hipotético contras- quilino, onde estavam presos os cristãos,
te entre Salieri e Mozart. Salieri tem os fa- aguardando a morte, e espargiu ali a cla-
vores do rei, mas não tem talento, e inve- ridade misericordiosa do seu espírito. Ao
ja Mozart, que considera vil, mas que de- partir considerou consigo mesma...
tém o favor divino. O personagem Salieri Mas ouçamos o próprio Humberto:
afirma que é o próprio Deus que se mani-
festa através do músico talentoso. Que possuía Maria para lhes dar? Deveria
suplicar a Deus a liberdade?! Mas, Jesus
O músico que traz a boa música é um ins- ensinava que com ele todo jugo é suave,
trumento de Deus. A boa música através e todo fardo seria leve, parecendo-lhe me-
de suas vibrações tem o dom de afastar lhor a escravidão com Deus do que a falsa
as sombras, e na dor, as sombras que en-
14 Bem Sofrer
liberdade nos desvãos do mundo. Recor- vés das palavras da alma delicada e sen-
dou que seu filho deixara a força da ora- sível do poeta Casemiro de Abreu:
ção como um poder incontrastável entre
os discípulos amados. Então, rogou ao Bálsamo
Céu lhe desse a possibilidade de deixar
entre os cristãos oprimidos a força da ale- Eu vi-a lacrimosa sobre as pedras
gria. Foi quando aproximando-se de uma Rojar-se essa mulher que a dor ferira!
jovem encarcerada, de rosto descarnado A morte lhe roubara dum só golpe
e macilento lhe disse ao ouvido: "Canta Marido e filho, encaneceu-lhe a fronte,
minha filha! Tenhamos bom ânimo!... Con- E deixou-a sozinha e desgrenhada
vertamos as nossas dores da Terra em - Estátua da aflição aos pés dum
alegrias para o Céu!... túmulo! -
O esquálido coveiro p'ra dois corpos
A triste prisioneira nunca saberia compre-
Ergueu a mesma enxada, e nessa noite
ender o porque da emotividade que lhe fez
A mesma cova os teve!
vibrar subitamente o coração. De olhos
E a mãe chorava,
estáticos, contemplando o firmamento lu-
E mais alto que o choro erguia as
minoso, através das grades poderosas, ig-
vozes!
norando a razão de sua alegria, cantou
um hino de profundo e enternecido amor a
No entanto o sacerdote - fronte branca
Jesus, em que traduzia a sua gratidão pe-
Pelo gelo dos anos - a seu lado
las dores que lhe eram enviadas, transfor-
Tentava consola-la.
mando todas as suas amarguras em con-
A mãe aflita
soladoras rimas de júbilo e esperança. Daí
Sublime desse belo desespero
a instantes, seu canto melodioso era
As vozes não lhe ouvia; a dor suprema
acompanhado pelas centenas de vozes
Toldava-lhe a razão no duro transe
que choravam no cárcere, aguardando o
"Oh! Padre! - disse a pobre
glorioso testemunho.
s'estorcendo
........... Co'a voz cortada dos soluços d'alma -
Por essa razão, irmãos meus, quando ou- "Onde o bálsamo, as falas d'esperança,
virdes o cântico nos templos das diversas "O alívio à minha dor?!"
famílias religiosas do cristianismo, não vos Grave e solene,
esqueçais de fazer no coração um brando O padre não falou - mostrou-lhe o céu!
silêncio, para que a Rosa Mística de Na- Rio, 1858
zaré, espalhe aí seu perfume3
Não sei que magia tem o Céu, mas minha
experiência pessoal, confirma essa afir-
Moral da História: mativa de poetas e santos. Olhar o céu
traz um grande alívio a alma, como regis-
• Quem canta seus males espanta. trou Casemiro, e é efetivamente um bál-
• Sofrer cantando, é embelezar a dor. samo.
Meus maiores sofrimentos nesta encarna-
O grande quadro consolador ção advém das minhas quedas morais.
Há um quadro, sobretudo, que tem muita Felizmente construí nas estrelas do céu
força na dor. Varia todos os dias e todas algumas mensagens, providência que re-
as noites, e todos temos esse quadro comendo.
dado por Deus, para haurirmos nele as Na constelação de Órion (aquela que tem
forças precisas para enfrentarmos as as três marias no centro e parece uma
mais rudes provas, as mais duras expia- enorme borboleta) vejo sempre uma gran-
ções. de asa protetora, posta por Deus lá em
Apresentemos esse quadro sublime, atra- cima, pura e luminosa a proteger-nos aqui
na terra.
3 Boa Nova – FEB – Francisco Cândido O Sol, a estrela que nos ilumina, pertence
Xavier / Humberto de Campos a constelação do Centauro. As duas es-
Consoladores universais 15
trelas principais da constelação do Cen- sar? ou seriam as duas coisas? A noite
tauro, Alfa e Beta parecem uma seta e tem encanto e encantamentos.
apontam para a constelação da Cruz, o
nosso querido Cruzeiro do Sul. E eu digo
no meu coração: "Alfa e Beta de Centauro Moral da Historia:
ainda apontam para Crucis". E essas pa- • A terra está no céu.
lavras e aquelas estrelas me significam, • Olhar o céu é povoar de estrelas e azul
que tudo, que todos, num sentido muito nosso pranto.
grande, caminhamos para Jesus, cami-
nhamos para o equilíbrio, e isso me con-
sola da minha abjeção.
A prece
Todos os dias o Céu nos dá uma lição de
otimismo e alegria através da alvorada in- Falar com Deus.
centivando-nos a começar bem o dia, a Depositar na Sua mão, nossos proble-
seguir vai evoluindo pela manhã, a mani- mas, nossas angústias.
festação de força do meio dia nos enche
Dirigir-se a algum herói da fé, da virtude,
de energia, os cambiantes da tarde culmi-
aos chamados Santos, que embora mor-
nam com a grande mensagem de calma
tos para a carne, estão vivos para o espí-
do crepúsculo, finalmente a noite nos
rito.
descerra o infinito, pelo exemplo de sua
profundidade sem termo. Sentir as mãos de Jesus nas nossas ca-
beças, ou o afago carinhoso de nossa
A chuva é voz de aconchego e de fertili-
Mãe Santíssima.
dade, o céu limpo dissipa a tristeza e nos
dá bom ânimo. Tudo isso é prece, tudo isso é fonte de
alívio e de alegria para quem sofre.
Jesus dizia que o seu reino era o reino do
céu. E ao expressar a perfeição de Deus, Não devemos restringir a prece a pala-
disse: "Sede perfeitos como o vosso Pai vras, as palavras são apenas sons, é o
que está no Céu é perfeito e faz nascer o coração que dá força à prece, transfor-
sol sobre justos e injustos e cair a chuva mando as palavras em requerimentos le-
sobre bons e maus." gítimos dirigidos ao plano superior.
Vejam: o sol e a chuva como exemplos da Muitas vezes a nossa dor, ou a de nossos
bondade de Deus! entes queridos, é irreversível. O pensa-
mento de que nada podemos fazer nos
Enfatizamos tanto aqui a bênção do qua- acabrunha, a sensação de impotência nos
dro abstrato do Céu, que o bom Deus nos abate, a própria imobilidade nos desorien-
oferece diariamente, porque, efetivamen- ta. Neste momento, lembrarmo-nos de
te, essa pintura tão luminosa é um bálsa- que podemos fazer algo, e que esse algo
mo para todas as dores. pode significar muito, nos tira dessa apa-
Um último exemplo para encerrar: tia. Orar é uma coisa que sempre podere-
Marília enfrentava duro problema senti- mos fazer, e coisa importante e eficaz.
mental. Após um dia de angústia e pranto, Só o fato de pensarmos em alguma coisa
sentou-se à noite frente à janela, e viu superior já colabora para afastar fluidos
uma estrela. Por feliz inspiração sentiu-se pesados e pensamentos sombrios, nos
atraída por aquela estrela e passou a quais nos enovelamos quando sofremos.
olhá-la fixamente desabafando suas má- A prece diminui o sofrimento ao aumentar
goas. No outro dia despertou refeita, a as nossas forças espirituais, pois, se mui-
angústia se desvanecera, dormira a noite tas vezes a provação é necessária, con-
toda. forme a justiça divina, a misericórdia de
Teria sido algum espírito amigo que utili- Deus sempre se fará presente, melhoran-
zara a estrela simplesmente como um do as nossas condições interiores, dando-
ponto de concentração para a hipnose te- nos a coragem, a paciência, a resignação.
rapêutica? seria o magnetismo da própria Esta boa influência não é ostensiva, mas
estrela que a fizera adormecer e descan-
16 Bem Sofrer
discreta, de sorte a não tolher nossos mo- cito pela minha coragem e por não ter me
vimentos. A respeito Allan Kardec propõe deixado abater!"
a seguinte ilustração: Mas, dir-se-á, por que o bom Espírito não
Um homem está perdido num deserto e lhe disse claramente: "Segue esta vereda
sofre sede horrível: sente-se desfalecer e e ao fim dela encontrar s o de que neces-
se deixa cair no chão. Roga, então a Deus sitas?" Por que não se mostrou a ele para
para o assistir e espera; mas nenhum anjo o guiar e sustentar no seu
vem lhe trazer o que beber. Entretanto, desfalecimento? Dessa maneira, ficaria
um bom espírito lhe sugere o pensamento convencido da intervenção da Providên-
de se levantar, seguir uma das veredas cia. Foi, primeiro, para lhe ensinar que é
que se apresentam à sua frente; então, preciso ajudar a si mesmo e fazer uso das
por um movimento maquinal, reúne suas suas próprias forças. Além disso, pela in-
forças, levanta-se caminha ao acaso. certeza, Deus coloca à prova sua confian-
Chega diante de uma elevação e desco- ça e submissão a sua vontade. Esse ho-
bre, ao longe, um riacho; diante disso, en- mem estava na situação de uma criança
coraja-se. Se tem fé, exclamará: "Obriga- que cai e que, percebendo alguém, grita e
do, meu Deus, pelo pensamento que me espera que a venha levantar; se não vê
haveis inspirado, e pela força que me ha- ninguém, esforça-se e levanta por si mes-
veis dado". Se Não tem fé, dirá: "Que pen- ma.
samento bom eu tive! Que sorte eu tive to-
mando a vereda da direita, ao invés da es-
querda; o acaso, algumas vezes, nos ser- Moral da História
ve verdadeiramente bem! Quanto me feli- • Quem ora diminui seus sofrimentos.
• Orar no sofrimento é divinizar a dor.
A morte 17
A morte
Muitos consideram a morte como o sofri- A Morte em si
mento máximo. Há mortes plenas de do-
res, verdadeiros suplícios morais. Mas há Há alguns meses atrás, vi um motoqueiro,
também mortes calmas e pacíficas, como desses que fazem pequenas entregas,
o apagar de uma vela que fosse soprada que havia sido atropelado, por um ônibus,
por Deus. creio. O asfalto encheu-se de sangue.
Uma viatura da polícia civil procurava dar
O pranto sempre foi associado à morte. A atendimento à ocorrência. Eu olhei aquele
maioria dos prantos derramados nos veló- cadáver mal vestido, imaginei seus esfor-
rios não é pelo morto que deixa o mundo ços correndo para vencer o trânsito da ci-
material. Sentimentos de culpa com rela- dade, correndo atrás do magro salário,
ção ao morto, que a hipocrisia não permi- correndo riscos sem conta, até alcançar
te revelar; medo da própria morte, que o ponto de chegada, num cruzamento da
nos esforçamos por esquecer, mas que a Av. Duque de Caxias.
morte de conhecidos teima em relembrar;
medo do que poderá acontecer, notada- Fiz uma prece por ele. Mas doeu em mim,
mente quando há forte dependência eco- aquela morte.
nômica do morto; de outras vezes o pran- A morte tem má aparência. Seja violenta
to é mascara para ocultar a alegria do ou suave, na via pública, no lar, ou no
descanso da parentela após a agonia pro- ambiente antisséptico de um hospital, há
longada, ou mesmo a expectativa de algu- sempre a destruição do corpo físico, inter-
ma herança. Essas verdades são duras na ou externa, que nos choca.
mas não há como ignorá-las. Se no íntimo
de nós mesmos nos propomos encará-las Os ritos fúnebres também são tristonhos.
francamente, eliminando qualquer tipo de O sepultamento ou a cremação não dei-
hipocrisia e disfarce, será bem mais fácil xam de soar como uma violência.
lidar com elas. Desmascarar os nossos ir- Mas, se a morte é feia na sua feição exte-
mãos também não será o melhor cami- rior, material, ela é bela no seu aspecto
nho, deixemos esse trabalho para a pró- interior, espiritual.
pria vida que no momento oportuno o
Devemos portanto sempre olhar a morte
fará.
com os olhos do espírito.
Mas, a par dessas lágrimas falsamente
Olhando a morte com os olhos do espíri-
atribuídas à morte, há dores reais, sim-
to:
plesmente porque há afetos reais. É a es-
tes que, mais especialmente, queremos • Não veremos o cadáver, e sim a alma.
nos dirigir neste capítulo. • Não veremos a sepultura, e sim a liber-
tação.
A morte pertence à natureza dos corpos
• Não veremos o corpo que a doença de-
(nascer, crescer, morrer). É preciso que
sorganiza, e sim a nova etapa de vida
aprendamos a conviver com a natureza,
que se inicia.
entendendo-a e amando-a. Mesmo por-
que nós, as almas, somos imortais por
natureza, e contemplaremos muitas mor- Morrer é deixar este mundo material,
tes de corpos. O argumento básico para e viver plenamente o mundo
consolo, na morte, é que a vida continua
e o amor continua. espiritual.
Moral da História:
A morte me lembra o maracujá
• A vida é um rio. A morte é uma cachoei-
ra. O rio continua a correr mais em bai- É uma fruta, de certa forma feia, os me-
xo. (Explicação de um índio) lhores são aqueles que estão com a cas-
• Na morte vejo que nem todo choro é sin- ca toda enrugada, encarquilhada. Corta-
cero, mas há ainda muito amor verda- mos a fruta, retiramos o seu interior, joga-
deiro. mos a casca fora, batemos a polpa
18 Bem Sofrer
com água e gelo no liquidificador, e que estrada que está as nossas costas, pela
saboroso suco obtemos. qual já passamos.
Vista pelo seu aspecto exterior, a morte é Um espírito amigo, chamado José, numa
feia, encarquilhada, mas se nos aprofun- noite de preces, no pequeno e querido
damos no que acontece no cerne do fenô- "Lar de Maria", descreveu-me com as
meno, no sentido das leis de Deus que cores vivas de sua visão psicológica, a
estabeleceram a fatalidade da morte do morte de uma criança nos seguintes ter-
corpo e da imortalidade da alma, jogamos mos:
fora a casca das aparências, ficamos com Corria a bola...
a polpa do fruto, se pusermos tudo isso a
misturar-se com a água viva do evange- Corria a criança...
lho do Senhor, e com o gelo refrescante Corria o caminhão...
do mais puro raciocínio, que belo suco de
ideias obteremos, refrescante para a nos- Tríplice encontro marcado num ponto pre-
sa alma, que se enche de gratidão junto ciso, num instante preciso...
ao Bom Deus, por suas disposições de Convergiam para um ponto focal de seus
bondade e misericórdia. destinos...
Benfeitores espirituais solícitos sabiam
Moral da História: daquele segundo assinalado pelas leis di-
vinas e tomavam providências.
• Aos olhos do espírito, morrer é renascer
para a vida eterna. Aquela cena seria o reflexo de outra cena.
• Quem olha a morte em profundidade vê Espelho da vida refletindo no futuro even-
a verdadeira vida. tos do passado.
A criança de hoje fora no passado velhi-
PS.: Outro dia, vi o motoqueiro no além. nho que desperdiçara seus últimos mo-
Agora é mensageiro de espíritos eleva- mentos em suicídio inconsciente, através
dos. Cruza os espaços, sem os impedi- do apego incontrolável ao álcool.
mentos da matéria, sem os engarrafa- Motorista de hoje, filho mais velho nos ca-
mentos do trânsito, sem a poluição sono- minhos de ontem, irresponsável, omisso.
ra e ambiental da motoca. Ao invés de le-
var documentos comerciais, leva mensa- Mãe, hoje amorosa, atenta, porém distraí-
gens de orientação, alento e consolo. Sua da por alguns segundos com a limpeza da
família aqui na terra ainda o preocupa casa. Ontem a esposa indiferente, agra-
(benditas preocupações), continua fazen- vando os problemas sentimentais do ma-
do o possível por ela. Ele frequentemente rido.
agradece a Deus, porque o seu novo pos- Pai de hoje, filho mais novo de ontem, in-
sível, como espírito liberto, é muito mais grato, causa de inúmeros dissabores.
amplo que o antigo possível do pobre mo-
toqueiro. A cena foi rápida. Surpresa, angústia,
consternação face a morte violenta do lin-
A compreensão da morte do menino de seis anos.
O esforço do motorista para salvar a
Subordinada às leis que presidem a nos-
criança, arriscando a própria vida e des-
sa evolução, está a lei de ação e reação,
truindo completamente o caminhão, foi
ou a lei do carma, que ao devolver-nos de
inútil.
forma invertida, os atos que praticamos,
nos auxilia a subir a escada do progresso. A angústia da mãe em transbordamento
de carinho a todos comoveu, o sentimen-
Uma outra maneira de vermos a dita lei
to de culpa pela sua indiferença foi incom-
de ação e reação é vê-la como um espe-
preensível para todos que sempre a acha-
lho retrovisor, vivo e dinâmico que inseris-
ram extremosa, e como culpar-se por uma
se à nossa frente fatos do passado, com
distração de alguns segundos?
o objetivo de retificá-los, misturando à es-
trada que está a nossa frente, cenas da O pai transtornado, com seus sonhos
A morte 19
despedaçados, orava, orava... Quando há uma separação em vida, moti-
E a bola? vada pelo desentendimento, pelo desinte-
resse, ou por circunstâncias que não qui-
A bola colorida da criança de hoje, lança- semos superar, a própria separação já é
da a um canto da calçada, lembrava-me o um balde de água fria no afeto, mesmo
vício que havia precipitado o homem de que essa separação seja unilateral.
ontem nos bares, consumido suas melho-
res energias, ligando-o às piores compa- Mas, se existe um afeto profundo, e a
nhias: o jogo de bilhar. morte separa, o afeto fica inalterado, ge-
rando saudade e mais saudade.
Espelhos da vida, como são precisas as
suas imagens invertidas. Separação! essa é a palavra chave que
os pares afetivos devem meditar com re-
lação à morte.
Esta pequena história é uma mensagem A morte é separação?
de esperança na medida em que reencon-
tramos os mesmos personagens com pa- Sim e não!
péis trocados, mas muito mais conscien- Sim! quanto ao contato visual, sim quanto
tes, amorosos e bons. a disposições materiais. O sócio não assi-
Havia débitos com faltas passadas, que nará mais ao nosso lado. O esposo não
exigiam o respectivo resgate, que foi feito mais repartirá conosco as atividades do-
com muitas lágrimas, mas sem revolta, mésticas. Não mais compraremos mate-
em clima de prece, e como a vida conti- rial escolar para o filho querido.
nua, de futuro os nossos personagens se Não! quanto à vida do espírito. O esposo
encontrarão novamente, numa situação nos envolverá com seu afeto. O filho bei-
melhor, mais livres, para se aproximarem jará nossas mãos em manifestações de
mais da verdadeira felicidade que está em carinho e gratidão. O sócio nos fortalece-
Deus. rá nos momentos difíceis que atravesse-
mos na condução de nossos negócios.

Moral da História: O interesse é arrasado pela morte. O


amor puro, a lealdade, a amizade são for-
• Todas as circunstâncias, mesmo as me- talecidos pela morte.
nores, têm sua razão de ser.
• Há uma justiça divina que ao longo do A morte projetará o afeto, o relacionamen-
tempo tudo harmoniza. to, em outro plano.
Míriam é um exemplo raro de casamento
A separação afetiva pela morte feliz. Mulher bonita e afetiva, seu marido
é sua realização como mulher. Ele mor-
No impacto da morte em si, nosso cora- reu. Conversávamos. Ela me instruía:
ção ainda não a registra. Há apenas o
trauma da morte, a mistura involuntária e - Ontem aguava o jardim de nossa casa
inconsciente do cadáver e do ente queri- de praia. Conversei tanto com o meu ma-
do, Mas o tempo vai passando, as ima- rido enquanto regava as plantas. Conti-
gens da morte vão se enevoando e aí ela nuo viúva, porque dentro do meu coração
surge cada vez mais forte: a saudade permaneço casada. Passo com o meu
companheiro mais horas até do que quan-
Qual das afirmações será válida: "longe do ele estava encarnado.
dos olhos, longe do coração", ou será
"longe dos olhos, perto do coração"? A morte matou o corpo do marido de Mi-
riam. As qualidades morais do esposo
Se o afeto é superficial, a falta de contato permitiram que o afeto real, profundo,
visual rapidamente provoca o esqueci- descobrisse as vias para matar a sauda-
mento; mas se o afeto é profundo, podar de, e tudo ficou melhor ainda.
a copa dá mais força à planta afetiva, que
lança suas raízes vigorosas la dentro de Esses afetos grandes parecem a água de
nosso coração. um pequeno riacho, que vai achando va-
les, encontrando rios maiores até que en-
20 Bem Sofrer
fim se lança no mar. do outro lado da vida.
"Viver na lembrança" tem um duplo senti- Não procure esquecê-los. O esquecimen-
do. to é frio, dói mais do que a morte.
Se "viver na lembrança" é estar mergulha- Cultive os seus afetos desencarnados.
do no passado, misturando-o ao presente; Mas cultive-os com alegria, uma alegria
se "viver na lembrança" é negar a mudan- doce, que poderá ter até uma pitadinha
ça a que todos devemos buscar, então, de tristeza.
devemos nos recusar taxativamente a "vi- Dê-lhes no silêncio de seu coração, um
ver na lembrança", pois esse "viver na pouco do seu tempo, rogue a Deus por
lembrança" é uma prisão. eles.
Se "viver na lembrança" é lembrar cons- Faça alguma boa ação em nome deles.
tantemente o ente querido, compartilhan-
do nossas duas vidas; se "viver na lem- Um dia também você atravessará as por-
brança" é usar o passado como trampolim tas da morte. E queira Deus que sua mor-
para nos projetarmos em direção ao futu- te tenha muito mais de re-encontro do
ro grandioso onde nosso afeto será ainda que de despedida.
maior, então devemos "viver na lembran- Moral da História:
ça", tendo esse "viver na lembrança"
como alavanca de libertação espiritual. • Lembrar pode ser morrer ou viver.
• A morte valoriza o afeto sincero.
A maneira pela qual nos lembramos da-
quele que partiu pode ser causa de gran-
de alegria ou sofrimento para o desencar-
O Luto
nado. Formas de expressão, como o beijo, o
O desencarnado é muito sensível. Se o aperto de mão, o abraço, a interjeição de
desligamento do corpo se dá em algumas alegria, os diversos gestos, o vestuário, a
dezenas de horas, o mesmo não se dá festa, vem enriquecendo a cultura huma-
com relação a toda vida material: objetos na ao longo dos séculos e tem inestimá-
pessoais, a casa, locais que frequentava, vel valor.
o jornal diário que estava habituado a ler, A demonstração e a afirmação de senti-
tudo isso demandará tempo, para que o mentos, se não tem por base sentimentos
desencarnado se desabitue. sinceros resvala, para a hipocrisia, e a hi-
Se nas nossas lembranças, atentamos pocrisia é pior que a morte.
muito para essa parte material, se nossas O luto está relacionado com a demonstra-
lembranças estão cheias de dor e revolta, ção e a afirmação dos sentimentos que
nossas lembranças atingirão o nosso ente temos face à morte.
querido como verdadeiras flechas enve- Mais uma vez temos que separar o ele-
nenadas, e abrirão as portas da obses- mento vivo, sentimental, social que existe
são. Que coisa triste: um afeto com gran- no luto, de seu elemento formal, de apa-
des possibilidades de espiritualização ser rência, de superfície.
transformado por nossa imprudência nes-
sa enfermidade pesada e penosa da ob- Que devemos expressar no luto?
sessão. Devemos expressar o que sentimos. Mas
De outro lado, se nossas lembranças fo- o que convém sentir?
rem doces, harmoniosas, verdadeiras Tristeza, desespero, descrença?
lembranças em Deus, plenas de espe-
rança e fé, elas serão como flores, luzes, Não! Nem ter, nem expressar maus senti-
envolvendo nosso ente querido, e serão mentos. Não nos esqueçamos que o re-
mais calorosas que o aperto de mão fran- cém desencarnado é muito sensível, à se-
co e leal, do que o abraço apertado, do melhança dos bebes da carne.
que o beijo pleno de carinho. O que devemos expressar no luto?
Você que tem uma criatura amada: filho, Devemos expressar essencialmente o
pai, mãe, amigo, amiga, esposo, esposa amor. O amor sincero, que garanta ao de-
A morte 21
sencarnado que o fenômeno da morte to do extinto, que o homenageasse e esti-
não rompeu os laços afetivos profundos e mulasse a sua lembrança.
que o unem aos encarnados que ficaram. Allan Kardec, presidente da sociedade,
O preto é a ausência de luz; o branco é o observou: - É melhor dar pão aos pobres
produto da mistura de todas as cores. do que pedras aos mortos.
No ocidente os ritos relacionados aos É tocante, para os vivos, e também para
mortos usam o negro, como sinal de tris- os mortos, verem num túmulo, uma rosa
teza. Usar a ausência da luz para identifi- que o amor lançou.
car a morte, é atitude desesperada. Have- Todavia, entre a arte e os ritos funerários
rá o impulso inconsciente de identificar a de um lado, e a caridade de outro, não há
morte com o nada? Ou será que, carrega- o que pensar.
do de sentimentos de culpa, o homem de-
sejaria que assim fosse para não prestar Atender aos afetos que o morto deixou;
contas a Deus? fazer obras de caridade em seu nome;
orar por ele para tudo corra bem na vida
Câmara Cascudo, estudioso do folclore, espiritual que se inicia; manter a concór-
afirmava que para muito povos africanos, dia, mesmo quando deixou alguns bens,
a cor para identificar a morte era o bran- que o interesse sugere disputar; perdoá-lo
co. Isso me parece muito mais coerente, de alguma falta; lembrá-lo sem mágoa
porque para o espírito a morte é liberta- nem desrespeito valem muito mais que o
ção e luz. Mesmo para os pecadores, que mais pomposo dos enterros ou o mais
todos somos, tenhamos sempre presente suntuoso dos túmulos.
que a misericórdia de Deus é maior que
as nossas faltas.
Certa feita, tendo morrido um membro da Moral da História:
Sociedade Espírita de Paris, alguns só- • O luto deve expressar amor ao morto.
cios tomaram a iniciativa de arrecadar • A vida continua tanto para o morto quan-
fundos, para que fosse levantado um bus- to para nós.
22 Bem Sofrer
Doenças
A doença tem várias consequências dolo- pois toda enfermidade nos empurra, um
rosas: pouco mais para fora do corpo e para den-
a dor física, tanto aquela derivada da tro do espírito.
doença em si, quanto do tratamento; Deus por vezes nos retira alguma possibi-
a imobilidade, toda enfermidade nos inca- lidade física, com o objetivo de que tenha-
pacita. Desde uma simples gastrite que mos novas possibilidades de desenvolvi-
nos impede de comer frituras, até a mo- mento moral.
léstia grave que nos aprisiona ao leito; No treinamento do atleta, são impostas di-
a proximidade da morte, tanto mais difícil, versas limitações, o corredor levará pesos
quando a espera é longa e quando os tra- nas costas, o nadador fará exercícios, uti-
tamentos são apenas sintomáticos; lizando apenas os braços, ou as pernas...,
naturalmente esses exercícios serão limi-
o cansaço. A doença cansa o doente, tados ao treinamento. Na hora da compe-
cansa os familiares, e com o correr do tição com plena liberdade, o atleta fará
tempo esse cansaço vai ficando cada vez uma brilhante figura.
mais doloroso.
Assim é a deficiência de locomoção, de
A dor, a imobilidade, a proximidade da visão, de audição, durante o período em
morte, e o cansaço. Segundo um ponto que essas limitações se impuserem: se-
de vista terreno quatro instrumentos de rão aperfeiçoadas as qualidades morais e
tortura, segundo um ponto de vista espiri- intelectuais, para que a vida tenha maior
tual quatro processos de purificação. brilho quando esses impedimentos forem
A dor física desmaterializa o espírito. retirados.
A proximidade da morte aproxima a vida Quem convive com deficientes se surpre-
do espírito ende com a memória auditiva do cego
(conheci programadores de computador
A imobilidade do corpo favorece a mobili- cegos, que memorizavam textos de defini-
dade do espírito ção de programa com 60 páginas, ouvin-
O cansaço das atribulações materiais, do-os uma única vez) ou com a acuidade
nos dá novas energias para o trato das visual do surdo, lendo lábios, ... Se vísse-
realidades espirituais. mos também, como as deficiências dila-
tam as possibilidades da alma, muito
mais surpresos ficaríamos.
Na enfermidade ficam claras: a função
Esses impedimentos são dados frequen-
purificadora da dor e as relações estrei-
temente como exercícios corretores na
tas entre espírito e corpo. O corpo é um
sequência das encarnações, para prote-
filtro que coa o espírito. O corpo fica sujo,
ção do próprio espírito: Oradores e profis-
deformado, enfermo, e o espírito fica lim-
sionais de comunicação que nos desman-
po.
damos na calúnia e na divulgação de
Em outros termos, passando a palavra a ideias nocivas no seio da multidão, solici-
S. Vicente de Paulo: tamos impedimentos na fala e na audição
As doenças purificam a alma; são um po- que nos re-eduquem no uso da palavra;
deroso meio para atrair a virtude àqueles aqueles que usamos sistematicamente
que a desprezavam, abrem aos enfermos nossa inteligência para ferir, pedimos os
um vasto campo para praticar a fé a es- empeços cerebrais que nos dificultem no-
perança, a submissão a vontade de Deus vos crimes e nos direcionem na valoriza-
e todas as outras virtudes ção das possibilidades intelectuais; suici-
das que desprezamos a oportunidade do
Não devemos nunca desejar a enfermida- corpo físico, retornamos estropiados para
de e trabalhar sempre pela saúde, mas se aprender a valorizar membros e órgãos
ela chega, devemos entendê-la como um perfeitos...
ferramenta divina de progresso espiritual,
Doenças 23
Nossos principais adversários são o orgu- Em torno da doença central,
lho e o egoísmo. A deficiência combate o isolamento,
duramente o orgulho, ao destruir nossos o preconceito,
pruridos de superioridade face aos nos- as dificuldades financeiras,
sos irmãos. De outro lado imperfeições a sensação do irremediável,
manifestas nos auxiliam a sair de nós as doenças oportunistas,
mesmos, substituindo egoísmo por altru- e sobretudo o estigma,
ísmo. a marca.
Para sermos mais objetivos, vamos con-
versar um pouco, no decorrer deste capí- Não há que não ver:
tulo, a respeito de 3 enfermidades graves: a gravidade da AIDS,
Aids, Câncer e Lepra e duas deficiências: há que ouvir
visual e paraplegia. As ideias expostas a afirmação de Jesus:
face a essas enfermidades servem para "Fostes me ver"
consolo de outras doenças.
Aidético,
Olha-te com olhos cristãos,
Moral da História Olha-te nos olhos de Jesus.
• A desarmonia do corpo serve para har- Tu, Mãe,
monizar a alma. sabe que esta hora
• A deficiência do corpo tem por objetivo é a tua hora,
aumentar a eficiência da alma. firma-te em Maria,
e olha teu filho
AIDS com o olhar com que Maria
Ao Jaime amigo pelo co- via Jesus,
ração, companheiro pelo pensamento, ir- na cruz.
mão pelo espírito. Tu, pai,
companheiro,
Que o Deus Bom, companheira,
nesta hora me abençoe, irmão, amigo,
que humilde como uma ovelhinha, vizinho, filho,
possa discorrer, tu, a quem o Senhor
como esses riachos, chama de próximo,
que correm nas florestas, sê humano,
ainda virgens de malícia e hipocrisia. e aproxima-te
com olhos bons.
Ah, tudo isso peço
ao Deus Bom, E tendo nos
pois vou falar olhos Jesus:
aos meus irmãos aidéticos.
A morte
Que o meu coração será libertação.
seja inundado
pelas palavras eternas As doenças oportunistas,
do Cristo eterno a limpeza mais completa
"Estive doente do corpo espiritual
e fostes me ver" que deverá desabrochar na morte,
Não há que não ver como uma flor bela,
a gravidade da AIDS. que as borboletas do além,
almas libertas,
Não há que não ver virão beijar.
as dores várias do aidético.
O preconceito,
Não há que não ver: a condenação,
24 Bem Sofrer
o estimulo da humildade, • Aids é uma doença física.
virtude maior. • Se teus olhos forem bons, todo o teu
corpo será bom.
O isolamento,
solidão abençoada, PS. E o julgamento? e a sentença? con-
onde a alma exilada, denado ou absolvido?
pode com liberdade, - Não julgues para não seres julgado.
refletir em paz,
curtindo a intimidade,
do Deus Bom, Câncer
de Jesus, rei da luz, Nesta hora lembro-me de muitos mortos
de anjos, santos, heróis e mártires. queridos: meu pai, minha mãe, minha ma-
O estigma, a marca, drinha, Florise, Mercedes, William, ...
é passaporte,
Através do câncer fizeram a grande via-
onde a sabedoria da cruz
gem.
retificará
a loucura dos homens, Não possuo nenhuma formação em medi-
tão logo seja feita cina, que me autorize a ficar dando palpi-
a importante viagem. tes em técnicas médicas. Mas, o longo
convívio com o câncer, me obriga a fazer
Tudo isso assim será algumas sugestões aos cancerosos e
se tu aidético seus familiares.
olhares teu problema, Carlos teve a esposa, Mercedes, cance-
com os olhos nus, rosa. Participei do processo como parente
despidos de revolta, e amigo. Carlos muitas vezes usou a se-
cheios de esperança, guinte expressão:
fé e confiança,
no teu pai que é Deus. - Não devemos acrescentar novos proble-
mas a um problema já grave.
Tudo isso assim será Essa afirmativa ficou gravada em minha
se olhares tua prova, memória, e é chave para minorar proble-
posta por Deus mas que frequentemente acompanham
em teu caminho, moléstias graves.
não como pedra de tropeço,
mas como pedra de escada, Lembrando esse amigos, eu repito o que
pedra preciosa aprendi: No caso de doenças graves, uma
de enriquecimento primeira regra para bem sofrer é não
e elevação. acrescentar, por atitudes insensatas, ata-
balhoadas, sofrimentos desnecessários, a
Tudo isso assim será sofrimentos inevitáveis.
se olhares teus vírus Assim sendo, devemos ser prudentes nas
como coisa natural, nossas previsões, cautelosos nas nossas
tão natural como nascer, afirmativas, acompanhando atentos o de-
tão natural como florir, senvolvimento dos fatos, em prece, para
tão natural como envelhecer, tomarmos as melhores decisões.
tão natural como frutificar,
tão natural como morrer.
Há toda uma expectativa envolvendo o
Morrer bem, diagnóstico. Com grande ansiedade a fa-
morrer praticando o bem, mília e o enfermo aguardam o resultado
para renascer bem da biópsia. O tumor será benigno ou mali-
na vida imortal gno?
Há muitos preconceitos ainda com rela-
Moral da História. ção ao câncer. Acho que o principal deles
é considerar o câncer incurável. Há mui-
Doenças 25
tas variedades de câncer, com níveis de desnecessárias. Não foram razões médi-
malignidade diferentes. Certa feita con- cas que levaram Prof. José a fazer essas
versando com a infatigável Carmem Pru- intervenções cirúrgicas, e sim a necessi-
dente, ela me dizia existir mais de 400 es-
dade de conseguir fundos para o vício in-
pécies de câncer. veterado de jogador em corridas de cava-
Acrescentar uma grande carga de ansie- los.
dade à expectativa de doenças graves é Dr. Raul, conceituado gastroenterologista,
multiplicar problemas. Também não deve- ao diagnosticar um câncer de ovário que
mos esquecer que na maioria dos casos o comprimia o intestino de Magda, uma sim-
diagnóstico será negativo, e então tere- ples secretária, falta de recursos, teve a
mos desperdiçado energias e nos envolvi- delicadeza de pedir a Magda:
do em sombras tolamente. - Estabeleça você o preço da cirurgia que
Nessa hora, cultivar a serenidade, prepa- eu e meus assistentes faremos, levando
rar-se para aceitar a vontade de Deus. em conta apenas sua possibilidade de pa-
Posição de equilíbrio. É uma doença gra- gamento.
ve, mas curável. Se muito ainda se ignoraMagda estabeleceu um preço irrisório,
sobre o câncer, já se aprendeu muito. dentro de suas possibilidades Nem por
Em suma: nem desespero, nem espe- isso, Dr. Raúl deixou de dar-lhe o melhor
ranças tolas. Esperar em Deus o resulta- atendimento. Passados dois anos, Magda
do. receberia alta, estando curada da enfer-
midade.

O câncer é uma doença cara, frequente- Enfatizo aqui esta questão de honorários
mente de longo curso. Uma avaliação cui- médicos porque, segundo os benfeitores
dadosa das possibilidades financeiras, espirituais, a maior inimiga do bom aten-
para dar ao paciente o melhor, é impor- dimento médico é a lamentável e exage-
tante. Se a alternativa melhor é deixar ao rada ganância da grande maioria das pes-
estado, ou às instituições securitárias os soas físicas e jurídicas ligadas à saúde.
custos da enfermidade, ou ainda arcar a O amor à saúde, sobrepujando o apego
própria família com esses custos, são ca- ao dinheiro, um car ter compassivo, saú-
minhos que devem ser pensados cuidado- de da alma, são características imprescin-
samente. díveis a um bom médico. Tendo elevação
de alma o médico será assistido por ben-
Acrescentar problemas financeiros a
feitores espirituais, independentemente
uma doença grave, por imprevidência,
da sua particular crença religiosa, porque
é multiplicar problemas. no fundo da sua alma ele prática a eterna
Dar o melhor atendimento dentro das pos- e universal religião do amor.
sibilidades orçamentárias é dividir proble- De passagem: rótulos religiosos não en-
mas. dossam nenhuma atividade profissional;
gestos superficiais de agrado por parte do
profissional ou empresa de assistência
Avaliar a conduta médica, consultando se
médica, aprendidas em manuais de "su-
possível mais de um oncologista, sem
cesso em vendas de serviços" ou formula-
melindrar sutilezas da ética médica, para
das por agências de propaganda, e que
ter o médico mais honesto e competente,
nada tem a ver com qualquer boa inten-
atendendo o enfermo, é sofrer bem, so-
ção, também devem ser identificadas e
frendo menos
descartadas.
Juntar um mau médico a uma doença gra-
Dois casos: ve é multiplicar problemas, foi o que Wal-
Waldomiro sofreu 27 intervenções cirúrgi- domiro fez, ao não usar do máximo crité-
cas, feitas pelo Dr. José, professor titular rio na escolha e manutenção de seu mé-
de urologia de uma famosa universidade. dico.
As intervenções, na sua maioria, eram
26 Bem Sofrer
Ter o apoio de um bom médico numa correntes fluídicas de amor que envolvem
doença grave, é dividir problemas, fi- o paciente. Isso poderia ser feito através
cando com a menor parte. Foi o que Mag- de tarefas de beneficência exercidas pelo
da fez. próprio paciente. A resposta natural a
essa atividade benemérita seriam senti-
mentos de amorosa gratidão dos benefi-
Em casos de doenças graves, ficam res- ciados, que alimentariam o paciente de
saltadas divergências familiares. Tendo amor, aliviando seus estados depressivos
em maior conta tolices como: amor pró- e consequentemente a moléstia.
prio, vaidade, posições opiniáticas, a fa- Aqueles que estão próximos, a meu ver,
mília divide-se, forma partidos e, decla- devem colaborar, cercando o paciente de
rando guerra interna, cria um clima som- todo o carinho.
brio de conflitos.
Isso é muito significativo, também do ân-
É a hora dos que, efetivamente amam o gulo humano, já que o sentir-se desama-
doente, mais do que ao orgulho ferido, lu- do é uma característica da personalidade
tarem por estabelecer a concórdia, a cal- do canceroso.
ma e a harmonia, criando um clima fami-
liar adequado.
Juntar brigas de família a uma doença O câncer, frequentemente envolve cirur-
grave é multiplicar problemas. gias de risco. Toda cirurgia é traumática,
não só a cirurgia em si, mas também o
Ter a família unida e harmoniosa em tor- pós-operatório.
no dos interesses do enfermo é dividir
problemas. O médico explicita o risco seguindo fre-
quentemente a seguinte linha de raciocí-
nio:
Contar a verdade? Sim ou não? Pode a cirurgia ser bem sucedida, há ris-
Se o paciente é lúcido, e tem algum equi- co de óbito na operação, há risco de óbito
líbrio nervoso, ele deve conhecer os seus no pós operatório, há risco de fracasso na
problemas, para que possa decidir da me- cirurgia: o paciente passar por uma série
lhor forma sobre a sua própria vida. de sofrimentos e continuar canceroso.
Se o paciente está em franco desequilí- Em cada caso o médico ponderará, as
brio nervoso, de nada adiantará aumentá- chances de sobre-vida, as chances de um
lo. O conhecimento busca a melhoria da boa qualidade de vida na sobre-vida, e as
qualidade das decisões, e nesse caso o chances desfavoráveis de óbito e insu-
impacto da notícia iria tão somente piorar cesso.
ainda mais as condições do paciente de- Por vezes, o médico transfere a decisão à
cidir sobre a sua vida. família ou ao paciente.
Se o paciente tem um mínimo de luci-
Autores espirituais afirmam que a alma se dez, a decisão deverá ser dele, pois são
nutre de amor, principalmente do amor de sua vida, as suas dores, a sua sobre-vida
Deus. Esse mecanismo automático é blo- que estão em jogo.
queado por estados depressivos. Na de-
Que a decisão seja tomada em clima de
pressão a alma deixa de absorver essas
prece, pois probabilidades não são certe-
correntes de amor divino. Isso provoca
zas, e a nossa visão acanhada frequente-
uma baixa nas energias da alma favore-
mente erra.
cendo novos estados depressivos, num
círculo vicioso crescente. Essa baixa de E como são dolorosos esses tipos de
energia também atinge a estrutura espiri- erro. Abrem a comporta a toda uma ava-
tual das células perturbando sua reprodu- lanche de sentimentos de culpa, que ju-
ção e favorecendo o surgimento do cân- diam da alma por anos a fio.
cer. Ora pois ao teu Deus, a Jesus, a Maria,
Uma terapia preventiva seria aumentar as nossa Mãe espiritual, eleva-te, e no silên-
Doenças 27
cio da tua consciência, em paz, em prece, mentos que, comparados com isso reco-
tomar s a decisão melhor que puderes, nheceremos não termos razão em chamar
atendendo às vozes do plano superior, aflições, pesares e contradições a estes pe-
que te falarão através da acústica velada quenos acidentes que nos acontecem e em
da intuição. desejar paciência por coisas tão pequenas,
pois que uma só gota de modéstia basta
para suportar o que nos sucede.
A quimioterapia, a radioterapia têm feito
muitos avanços. A proximidade da morte torna-se clara,
quando passamos por uma doença grave.
Inobstante, esses tratamentos trazem
uma série de desconfortos para o pacien- Cumpre notar que a morte sempre está
te. próxima. A morte poderá estar numa ave-
nida que vamos atravessar, num atropela-
Em tudo podemos encontrar exemplos em mento fatal; no banheiro que nos é fami-
Nosso Senhor Jesus Cristo. Jesus nunca liar e que utilizamos todos os dias e que
esteve enfermo. Mas, no episódio da pai- poderá trazer a queda que nos leve à
xão, seria vítima de muitos males. grande viagem; em algum tresloucado as-
Tendo vários ferimentos, estava Jesus sassino, que nos mate, para furtar algum
crucificado, quando lhe foi oferecida, por trocado, ou nosso automóvel...
um soldado, uma esponja embebida em Embora essas hipóteses da morte este-
vinho misturado com fel, com a intenção jam próximas, estão as vezes distantes
de atormentá-lo ainda mais, Jesus provou do nosso entendimento. Refletir sobre a
e não quis beber. Logo depois, quando morte é valorizar a experiência do espíri-
um outro soldado ofereceu-lhe vinagre, to. O conceito de que somos espíritos en-
que segundo a crença de então, minorava carnados, à medida que valoriza alguns
a sede dos condenados, Jesus bebeu. aspectos da vida, desvaloriza outros.
Nessa passagem, Jesus nos ensinou que Essa troca de valores consome muito tra-
não devemos aceitar sofrimentos evitá- balho interior. A preguiça de trabalhar in-
veis, nem tomar aquilo que a maldade, teriormente nos leva a fugir de tudo aquilo
por maldade, nos oferece. Mas que deve- que nos ressalta a vida do espírito.
mos aceitar de bom grado os medicamen- Para aquele que acha que a morte é o fim
tos que servirão de alivio aos nossos so- de tudo, e deposita seu prazer na gula, na
frimentos, e que nos são estendidos por torpe ganância, no aproveitar-se devida e
um gesto de solidariedade e compaixão, indevidamente de tudo que o cerca, como
mesmo que sejam desagradáveis. um predador, a morte é terrível. Tenho
Meditar sobre os sofrimentos de Jesus é ouvido esse espíritos comparecerem aos
sempre sublime consolação. Jesus não modestos centros espíritas, despidos do
necessitava sofrer, mas para nos ensinar corpo, quando a situação lamentável tor-
como devemos sofrer, sofreu também. na ridículo todo orgulho. Orgulhosos da
inteligência comparecem dementados,
Refletir nos Seus sentimentos puros, na avarentos e vaidosos comparecem mendi-
perfeita aceitação da vontade de Deus, no gos e com má aparência. Com paciência
perdão irrestrito aos seus algozes, tudo e carinho são atendidos, e com a graça
isso troca os nossos padrões mentais, de Deus acabam por compreender o que
nos enche de energias novas, de novo ju- sempre tentaram esquecer: a eternidade
ízo de valores. Como diria S. Francisco da alma e a consequência moral.
de Sales:
Ter consciência de que a morte virá um
É fora de dúvida que nada nos pode dar dia, e de que esse dia está próximo não
uma tão profunda tranquilidade neste mun- desmerece a vida, aumenta o amor à
do, como o contemplar muitas vezes a Nos- vida. Santos e benfeitores espirituais nos
so Senhor, em todas as aflições que teve, aconselham a viver cada dia como se fos-
desde o seu nascimento até a morte, por- se o último. Não significando desequilí-
que aí veremos tantos desprezos, calunia, brios e disparates que nos compromete-
pobreza, indigência, abjeções, penas e tor- riam seriamente a vida no plano espiri-
28 Bem Sofrer
tual, mas justamente como quem está de prestado e finalmente conseguiu que al-
partida para o seu pais natal, de onde guém lhe cedesse um rim a pagamento.
emigrou, há anos, e se prepara para essa Era para poder trabalhar, reaver o que ti-
viagem, selecionando sua bagagem. Põe nha gasto com a doença, e deixar a famí-
na bagagem um tanto mais de amor, um lia em situação boa, justificava-se.
tanto mais de benefícios efetivos ao próxi- O transplante foi feito com sucesso. Dois
mo, alguns laços de amizade, .... Pois o meses depois surgiria uma série de caro-
viajante sabe que no seu país natal a úni- ços na sua perna. Feita a biópsia, o resul-
ca moeda que conta é o amor real. Aparta tado foi que os tumores eram malignos, e
ódios, problemas mal resolvidos, débitos haviam proliferado por metástase por todo
pendentes, pois sabe que essas dividas o corpo. O médico deu alguns medica-
serão cobradas para onde vai, e não quer mentos que aliviassem os sintomas do
sombras empanando a felicidade que o câncer, e explicou que nada mais havia a
aguarda. fazer.
Assim se a morte está próxima, como efe- Parece-me que para Antônio havia soado
tivamente ela sempre está, aproveita a a hora final aqui na Terra, e a compra de
vida que te resta, mesmo enfermo, para um órgão sadio, como forma de ludibriar
viver da melhor forma, praticando o amor. as leis divinas, foi inútil.
Na hora da doença grave, quando o médi- Nós somos dos que advogam a união da
co fornece um prognóstico pessimista, a medicina convencional à medicina espiri-
família frequentemente sai em busca de tual, em qualquer processo mórbido. O
qualquer recurso. médium com Jesus sempre poderá auxi-
As práticas religiosas que admitem a me- liar muito aos enfermos. Mas nunca deve-
diunidade são então procuradas. O que mos esquecer que:
Deus vedou à medicina convencional, não • A misericórdia divina não depende des-
seria permitido aos espíritos através des- se ou daquele recurso.
se ou daquele médium? • A vontade de Deus está acima da vonta-
Antônio possuía uma grave enfermidade de de qualquer um.
nos rins, que o obrigou a extraí-los, pas- • A doença pode ser uma necessidade
sando a sobreviver graças as frequentes para o progresso espiritual do doente,
diálises. assim sendo, a espiritualidade agirá
Procurou vários médiuns, alguns inclusive com coerência não favorecendo a cura.
de moralidade duvidosa, que encheram
seu corpo de sinais, sua mente de fenô- Moral da História:
menos e seu coração de desencanto.
• Na doença grave procure unir: o melhor
Para um espírito, através de um médium, da medicina material ao melhor da as-
produzir uma cicatriz, um corte sem dor, sistência espiritual. Se o corpo não for
um cheiro de éter, e vários outros fenô- curado, a alma o será.
menos, é bem mais fácil, que restaurar • Na doença grave é fundamental a quali-
uma função complexa como a filtragem dade das decisões.
renal. Havia fenômenos, havia certeza de
mediunidade e da presença de espíritos, Lepra
mas não havia a cura.
Por varias vezes visitei leprosários. Nes-
Entre os familiares de Antonio não havia sas visitas fiquei amigo de alguns lepro-
ninguém em condições de doar-lhe um sos, entre eles do Encio Gaitinha, que
rim. A fila nos hospitais era imensa. menciono em outros capítulos, nesse livri-
Se os caminhos lícitos pareciam fecha- nho.
dos, em desespero de causa, Antônio de- Uma notícia triste para os brasileiros, pelo
cidiu-se pelo ilícito: compraria um rim. menos nesse ano em que escrevo este
Fez um grande esforço, vendeu tudo o "Bem Sofrer e Consolar": o número de le-
que tinha, pegou doações e dinheiro em- prosos no Brasil está aumentando muito.
Doenças 29
Outro dia ouvi na "Voz do Brasil", no seg- E disse-lhe:
mento destinado a Câmara Federal, depu- - Levanta-te e vai; a tua fé te salvou.
tados do Amazonas comentarem que nos
arredores de Manaus estão surgindo no- Devemos ser sempre gratos a Deus, fa-
vamente grupos de leprosos, que vagam zendo como aquele samaritano grato e
sem destino e sem descanso. É uma não como os nove ingratos, que se não
pena que esse pesadelo, que havia desa- diretamente, mas através da ciência mé-
parecido na década de 50, volte na déca- dica, alivia nossas dores.
da de 90.
Também sei de casos de leprosos em fa- A lepra, ao que parece, está muito ligada
mílias próximas e que são tratados com ao mau uso da boa aparência. Aqueles
grande sigilo. que utilizaram a beleza física, para levar
Felizmente, os tratamentos a base de sul- sofrimentos afetivos, para destruir lares,
fona, minimizam muito os efeitos da doen- para conquistar o poder e utilizá-lo mal,
ça e suas possibilidades de contágio. Já o vêm numa próxima encarnação com essa
preconceito e a falta de caridade são enfermidade, para limparem o seu espíri-
mais demorados para serem erradicados. to, através do corpo físico.
Por várias vezes, no novo testamento ve- Todos aqueles que suportarem resignada-
mos Jesus, aproximando-se de leprosos, mente essa enfermidade ouvirão ao entrar
como por exemplo em Lucas, capitulo 17: na vida espiritual, estas doces palavras
de Jesus: "Levanta-te e vai, Sê limpo. A
E aconteceu que indo a Jesus a Jerusa- tua fé te salvou".
lém, passava pela divisa entre a Samaria
e a Galileia. O leproso deve se sentir como aquele que
está enfaixado por ter feito uma operação
Ao entrar em certa aldeia, saíram-lhe ao plástica que o deixará integralmente lindo,
encontro 10 leprosos, que pararam ao lon- bonito por dentro e por fora.
ge, elevaram suas vozes, dizendo;
Explicitemos: Numa encarnação anterior o
- Jesus, Mestre, tem compaixão de nós! leproso de hoje foi belo do ponto de vista
Jesus, logo que os viu, disse-lhes: físico, mas do ponto de vista espiritual foi
feio, pois a vaidade, o orgulho, a perversi-
- Ide e mostrai-vos aos sacerdotes. (Na-
dade interior, esvaziavam aquela beleza
quele tempo eram os sacerdotes que de-
exterior. Consciente, antes da encarnação
claravam uma pessoa leprosa ou não. atual, procurou a beleza interior a qual-
Além da dos sofrimentos derivados da quer preço e optou pelo pesado paga-
doença os leprosos eram impedidos de re- mento da lepra. Agora a lepra lhe trás a
lacionarem-se com pessoas sãs, não po- beleza interior e a feiura exterior. No pla-
dendo comprar, vender, conviver nem no espiritual, liberto do corpo físico e da
mesmo falar com outros que não fossem vaidade, será belo por dentro e por fora.
leprosos. Havia necessidade de que os
sacerdotes os examinassem e os decla- E para confirmar isto, vamos ouvir o de-
rassem sãos para que essas restrições poimento dado após a morte por Jésus
fossem retiradas) Gonçalves, que em vida foi leproso:
Enquanto iam, ficaram limpos.
Anjo da Redenção
Um deles, que era samaritano, vendo que
fora curado, voltou glorificando a Deus em Do Céu desceste resplendente e puro
alta voz e prostrou-se com o rosto em ter- E no santo mistério em que te apagas
ra aos pés de Jesus, dando-lhe graças. Vestiste-me o burel de sânie e chagas
Perguntou, pois, Jesus: E algemaste-me a lenho estranho e
duro.
- Não foram limpos os 10? E os nove,
onde estão? Não se achou quem voltasse Nume solar pairando no monturo,
para dar glória a Deus, senão esse estran- Terno, escondendo as flores com que
geiro? afagas,
30 Bem Sofrer
Ouviste-me, em silêncio, o choro e as Meus bons amigos, por que me haveis
pragas, chamado? É para me fazer impor as mãos
Doce e invisível no caminho escuro! sobre a pobre sofredora que está aqui, e a
cure? Ah! que sofrimento, bom Deus! Ela
Mas da cruz de feridas que me deste, perdeu a vista a as trevas se fizeram para
Libertaste meu ser a Luz Celeste, ela. Pobre criança! que ore e espere; não
Onde, sublime e fúlgido, flamejas! sei fazer milagres, sem a vontade do Bom
Deus. Todas as curas que pude obter, e
E agora brado, enfim, de alma robusta: que foram assinaladas, não as atribuais
- Deus te abençoe, ó Dor piedosa e senão aquele que é nosso Pai em tudo.
justa, Em vossas aflições, portanto, olhai sem-
Anjo da Redenção! bendito sejas!... pre o céu, e dizei do fundo do vosso cora-
ção: "Meu Pai, curai-me, mas fazei com
que a minha alma doente seja curada an-
Moral da História tes das enfermidades do meu corpo; que
minha carne seja castigada, se preciso for
• As feridas do corpo transformam-se em
adereços da alma para o doente resig- para que a minha alma se eleve até vós
nado. com a brancura que tinha quando a crias-
• Deus quer que sejamos belos por dentro tes. "Depois dessa prece, meus bons ami-
e por fora. gos, que o Bom Deus ouvirá sempre, a
força e a coragem vos serão dadas e, tal-
vez, também essa cura que não tereis pe-
Deficiência visual dido senão timidamente como recompen-
São João Batista Vianey, cura da peque- sa da vossa abnegação.
na aldeia de Ars, no sul da França, na pri- Mas, uma vez que eu estou aqui, numa
meira metade do século 19, foi um ho-
assembleia‚ia onde se trata, antes de
mem de inestimável valor.
tudo, de estudos, eu vos direi que aqueles
Embora o árduo trabalho na sua paró- que estão privados da vista deveriam se
quia, chegando frequentemente a 18 ho- considerar como os bem aventurados da
ras diárias, mantinha sempre o coração expiação. Lembrai-vos que o Cristo disse
aquecido pelo amor a Deus e aos ho- que seria preciso arrancar vosso olho, se
mens, distribuindo orientação e consolo a ele fosse mau, e que valeria mais que ele
quantos o procuravam. fosse lançado ao fogo do que ser causa
Deixado o corpo físico, esse grande herói de vossa perdição. Ah! quantos há sobre
cristão prosseguiu no seu trabalho. Entre essa vossa Terra, que maldirão um dia
os dons espirituais que enfeitavam sua nas trevas terem visto a luz! Oh! sim, são
bela alma estava o dom de curar através felizes estes que, na expiação, são atingi-
da imposição das mãos. dos na vista! seu olho não será motivo de
escândalo e de queda; podem viver intei-
Desencarnado, foi invocado para devolver ramente a vida das almas; podem ver
a vista a uma jovem cega em Paris. mais que vós que vedes claro... Quando
Transcrevemos aqui na integra sua men- Deus me permite ir abrir as pálpebras de
sagem, por crermos que ela poderá ser alguns desses pobres sofredores e devo-
útil a todos os deficientes visuais. lver-lhes a luz, digo a mim mesmo; Alma
querida, por que não conheces todas as
delícias do Espírito que vive de contem-
plação e de amor? tu não pedirias para
ver imagens menos puras e menos sua-
ves que aquelas que te é dado entrever
em tua cegueira.
Oh! sim, bem-aventurado o cego que quer
viver com Deus; mais feliz que vós, que
estais aqui, ele sente a felicidade, toca-a,
Doenças 31
vê as almas e pode se lançar com eles As dores, as humilhações, foram tornando
nas esferas espirituais que os próprios mais e mais delicado aquele coração de
predestinados da vossa Terra não veem. mulher.
O olho aberto está sempre pronto para fa- Anos a fio, no mês de maio, participava
zer a alma falir; o olho fechado, ao contrá- de seu culto semanal do evangelho no lar.
rio, está sempre pronto a fazê-la alçar
para Deus. Crede-me bem, meus bons e Num desses cultos, Domitilia estava dei-
caros amigos, a cegueira dos olhos, é fre- tada, pois ao longo dos anos a enfermida-
quentemente, a verdadeira luz do coração, de foi progredindo e levando-a a imobili-
enquanto que a vista é, frequentemente, o dade quase total. No meio de nossas pre-
anjo tenebroso que conduz a morte. ces, sentiu-se mal. Saí a procura de um
médico. Quando voltei, Domitilia havia
E, agora, algumas palavras para ti, minha partido para a vida maior.
pobre sofredora: espera e tem coragem!
se te dissesse: Minha filha os teus olhos Tive algumas vezes a alegria de vê-la es-
vão se abrir, como serias ditosa! e quem piritualmente, mandou-me até uma carti-
sabem se essa alegria não te perderia? nha pelas vias da psicografia. Está tão
Tem confiança no Bom Deus que fez a fe- bem na outra vida. Perto dela, sentimo-
licidade e permite a tristeza! Farei por ti nos como se fôssemos envolvidos numa
tudo o que me for permitido; mas, a seu renda feita de fios finíssimos de seda per-
turno, ora e, sobretudo, medita em tudo o fumada.
que acabo de dizer. Aquele corpo foi como um vaso de barro,
que fosse decantando um perfume e que
Antes que me afaste, vós todos que estais
quando a essência estivesse suficiente-
aqui, recebei minha bênção.
mente depurada, seria aberto deixando
que ela evolasse.
Moral da História: O seu sorriso doce era a energia que ali-
• Pior cego é aquele que não que ver. mentava a purificação do seu espírito en-
• A luz do céu é muito mais bela que a luz carcerado num corpo paralítico.
da terra. Creio que neste item, não fui muito objeti-
vo, mas se você teve seu corpo parcial-
Paraplegia mente imobilizado, dirija seu pensamento
a essa dama, Domitília Ferreira, que sem
Domitilia foi uma das pessoas mais doces palavras ela o auxiliará com suas vibra-
que conheci nessa encarnação. ções e energia a suportar com um sorriso
Mulata, magrinha, nascera nos primeiros a paralisia.
anos do século 20. Tivera educação es- Muitas vezes, Jesus foi procurado por pa-
merada num colégio evangélico, o que ralíticos. Depois de curá-los, Jesus dizia:
acentuara sua meiguice. "levanta-te e anda".
Jovem ainda, manifestou-se o reumatis- Mesmo que tua deficiência prossiga, obe-
mo, que a impossibilitaria de andar. Arte- dece ao mandamento de Jesus, tens uma
sã da agulha, fazia tricô e crochê com alma, que esta alma se levante e cami-
perfeição. nhe.
Recebendo uma pequena herança, cons-
truirá um quartinho nos fundos da casa da
irmã, que não a compreendia nem a acei- Moral da História
tava. Anos a fio suportaria as agressões • O egoísmo é a pior das deficiências.
da irmã. • O pensamento é mil vezes mais veloz
Seu quartinho era um primor de limpeza e que a mais veloz das pernas.
bom gosto. Seu sorriso e suas palavras,
sempre suaves e doces.
32 Bem Sofrer
Problemas mentais
A faculdade de pensar é a mais importan- encarnações anteriores, ou de vícios
te do ser humano. Lembramos o filósofo: mentais desta mesma encarnação, é um
"Penso, logo existo". De fato, é inconcebí- processo, e, como todo processo, tem co-
vel o espírito sem o pensamento. meço, meio e fim.
Por isso, regra geral, as enfermidades Assim sendo, se você ou seus entes que-
mentais trazem mais sofrimento que as fí- ridos tem problemas mentais graves, es-
sicas perança ainda e sempre, somos eternos,
Diz o aforismo: "de médico e louco, todos o tempo é o nosso aliado e a justiça de
têm um pouco". Somos todos em alguma Deus, complementada pela sua misericór-
medida enfermos do pensamento, doen- dia, haverá por fim de enxugar toda lágri-
tes mentais. O que não deve causar es- ma.
tranheza, pois se examinados a fundo, Moral da História
perceberemos que não é perfeita nossa
• A doença mental purifica a mente.
visão, nossa audição, nosso sistema di-
• Sendo mais dolorosa a doença mental
gestivo ou cardiovascular.
do que a física, o doente mental merece
Essa imperfeição é decorrente da nature- um carinho maior.
za humana. Todavia, no ambiente social
em que vivemos, é exigido um patamar Causas
mínimo de desempenho mental que nos
permita exercer de forma satisfatória nos- Refletir sobre as causas das doenças
sas atividades. mentais, do ponto de vista espiritual, tem
duas vantagens principais:
Creio que podemos traçar um comparati-
vo entre capacidade financeira e capaci- 1. Sabendo algo sobre as causas dos
dade mental. desequilíbrios mentais, teremos
Em termos de capacidade financeira, há uma condição melhor de evitá-los
os mais disparatados desníveis entre as
pessoas, quase todos se queixam, acha- para o futuro.
mos que devíamos ter mais dinheiro. Em- 2. A nossa razão, conhecendo um pouco
bora essa nebulosidade introduzida pela dos mecanismos de re-educação men-
insatisfação humana, há incapacidades fi- tal, estabelecidos por Deus, através da
nanceiras tão gritantes que não permitem lei de causa e efeito, auxiliará o nosso
mais a alimentação, a saúde, o teto; nes- coração a ser resignado face aos débi-
te estado falamos em miséria material. tos que trazemos do passado.
Da mesma forma há os maiores desníveis Por que a taxa de doenças mentais
entre capacidade mental. Todos, no fun- está crescendo?
do, gostaríamos de ser mais inteligentes,
O homem avança a galope na ciência, em
criativos, perspicazes, queixas advindas
novas conquistas. Já no sentimento, ca-
da nossa insatisfação, e que não devem
minha a passo. Esse desequilíbrio que vai
ser levadas muito a sério. Mas, por vezes
surgindo entre o cérebro e o coração é a
a incapacidade mental desce a níveis tão
causa principal do aumento das doenças
acentuados, que não nos permitem mais
mentais.
atividades tão básicas quanto: perceber a
própria identidade; reconhecer ligações A máquina, produto do progresso, de ou-
familiares fundamentais, tais o elo pais etro lado vai exonerando nossas mãos do
filhos; exercer as mais simples atividadestrabalho duro, mais e mais tempo vai so-
profissionais. Permito-me chamar esta si- brando para a atividade mental, através
tuação de miséria mental. da qual convivemos mais intimamente co-
nosco mesmos. Neste convívio íntimo
Como toda deficiência, a deficiência men-
com nós mesmos temos grande dificulda-
tal, congênita, ou adquirida na encarna-
de em suportarmo-nos.
ção, decorrente de faltas praticadas em
Problemas mentais 33
Nossa inteligência cria, vê, trabalha, em em que vivemos.
residências, com cujo conforto, jamais so- E trabalha, e transforma, e aperfeiçoa tua
nhou um imperador da antiguidade. Mas vida individual, e age também na socieda-
as possibilidades de afeto que temos para de. O trem do progresso tecnológico é
a construção do lar são muito acanhadas. grande e veloz, mas com Deus e com
A tecnologia oferece toda sorte de comu- amor ao próximo, nós o poremos de volta
nicações. Em segundos nos comunica- nos trilhos.
mos de um lado a outro do planeta. Uma
Como os maus sentimentos levam a
simples ficha telefônica vence distâncias
enfermidades mentais?
consideráveis, num instante. Mas a tole-
rância e a afabilidade de que dispomos, Os reflexos dos sentimentos menos dig-
para sustentar relacionamentos, é muito nos que alimentamos voltam-se sobre nós
pequena. mesmos, depois de convertidos em ondas
Essa falta de condição emocional, que dê mentais, tumultuando o serviço das c‚lulas
suporte adequado às novas possibilida- nervosas que, instaladas na pele, nas vís-
des do progresso tecnológico, vai criando ceras, na medula e no tronco cerebral, de-
"tomadas de obsessão", ou seja, desar- sempenham as mais elevadas funções
monias mentais muito grandes. técnicas; acentue-se, ainda, que esses re-
flexos menos felizes, em se derramando
A nossa já limitada capacidade de amar sobre o córtex encefálico, produzem aluci-
sofre o decréscimo de qualidade advindo nações que podem variar da fobia oculta a
do amor possessivo. O amor possessivo loucura manifesta, pelas quais os reflexos
gera em nós processos lamentáveis de ci- daqueles companheiros encarnados ou
úme e desesperação, que vão nos empur- desencarnados, que se conjugam ao
rando em direção ao crime e a loucura. modo de proceder e de ser, nos atingem
Dado esse quadro, o que fazer? com sugestões destruidoras, diretas ou in-
diretas, conduzindo-nos a deploráveis fe-
Você está aqui na Terra para ser agente
nômenos de alienação mental, na obses-
de transformação, e não para aceitar pas-
são comum, ainda mesmo quando no jogo
sivamente, situações.
das aparências possamos aparecer como
Se o coração ficou para trás, vamos cor- pessoas aparentemente sadias (Emma-
rer com ele e pô-lo novamente à frente do nuel/F.C.Xavier).
progresso científico, pois pior que um co-
ração sem ciência, é uma ciência sem co- E o que fazer para superar esse qua-
ração. dro?
Busca e consequentemente encontra o Trabalhar no nosso coração. Utilizar toda
seu caminho de libertação espiritual. oportunidade que Deus nos dá de eleva-
ção de sentimentos.
Sabendo que somos espíritos imortais,
valoriza o respeito que devemos uns aos · agressão responder com o perdão.
outros, não se esquecendo de que somos · dor, com compaixão.
individualidades, onde cada um tem o seu
caminho, que vem percorrendo, através · humilhação, com humildade.
dos séculos. · descrença, com a fé .
Lembra que todos têm uma tarefa assina- · grosseria e ao abandono, com a sublima-
lada por Deus e devemos pedir continua- ção.
mente a Deus não permitir sermos propri-
etários dos nossos irmãos, da mesma for- Enfim, responder ao bem com o bem, e ao
ma que não queremos ser propriedade de mal também responder com o bem. Isto
ninguém. exigirá um grande esforço? Sim, claro.
Mas, lembre-se, Deus é por nós.
Neste caminho, as perturbações mentais
se reduzirão. Descobriremos que cada A toxicomania, especialmente o álcool, é
homem, cada mulher, cada criança, é um causa de inúmeras doenças mentais, en-
mundo imenso, neste mundo maravilhoso tre elas a loucura e a idiotia.
34 Bem Sofrer
Combater o vício em toda oportunidade, sos entes queridos?
auxiliando o viciado a libertar-se, é uma
Naturalmente que, quando temos conosco
forma de erradicar doenças mentais.
no recinto doméstico alguém portando de-
Quais as causas da esquizofrenia? sequilíbrio mental, devemos a esse al-
A esquizofrenia na essência, decorre de guém o máximo de carinho na obra de as-
transformações de car ter negativo no qui- sistência mais íntima.
mismo da vida cerebral. Tanto quanto possível, é importante con-
Esse problema, no entanto, procede da servar os companheiros portadores de
Vida Espiritual, antes do processo re-en- doença mental, no clima da família, evi-
carnatório, de vez que o problema da cul- tando quanto possível a ausência deles,
pa, instalado em nós, por nós mesmos, na de vez que na base do tratamento das
experiência terrestre, se transfere conos- doenças mentais prevalece o amor - o
co, pela desencarnação, no rumo do Mais amor que sempre estabelece prodígios na
Além. vida de cada um de nós. (Emmanuel -
F.C.Xavier)
Muitas vezes, atravessamos condições de
vida purgatorial, no Outro Mundo, mas so- Isto significaria um desapreço pelos
mos devolvidos à Terra mesmo, aos nú- tratamentos que a psiquiatria oferece?
cleos habitacionais em que nossas culpas Amigos nossos da Vida Maior, exprimindo-
foram adquiridas, e, frequentemente, car- se comumente sobre o assunto, asseve-
reamos conosco as telas da esquizofrenia. ram que a Psiquiatria, tanto quanto a Psi-
Quando o processo de esquizofrenização cologia e a Análise são caminhos da Ciên-
se patenteia violento, eis que perturba- cia proporcionados a nós outros na Huma-
ções consequentes se manifestam na nidade para a liberação dos desequilíbrios
criatura em período de desenvolvimento mentais que se nos apresentem.
infantil, mas na maioria dos casos a esqui- Afirmam que o progresso da Psiquiatria,
zofrenia aparece depois da puberdade ou seja na criação de ansiolíticos ou neuro-
logo após a maioridade física. lépticos para alívio ou cura das enfermida-
Os Instrutores Espirituais são unânimes des da mente é muito grande e compete-
em afirmar que esse desequilíbrio decorre nos prestigiar, no máximo, os domínios da
dos nossos próprios débitos, nas áreas Psiquiatria nesse sentido, embora reco-
das forças espirituais de que dispomos no nheçam amigos nossos da Espiritualida-
campo da própria consciência. (Emmanuel de, dentre os quais destacamos o nosso
- F. C. Xavier) benfeitor Dr. Adolfo Bezerra de Menezes,
que a rotulagem das doenças mentais de-
E o que fazer? veria sofrer uma revisão da parte dos se-
Não acalentar sentimentos de culpa, nem nhores médicos e cientistas, neste capítu-
em nós, nem em nossos irmãos, incenti- lo da Patologia, porque quase todos os
vando sempre a reparação, a reconstru- doentes da alma estão lúcidos.(Emmanuel
ção a retratação, quando agimos mal. - F.C.Xavier)
Ainda e sempre orar, para suavizar as pro- Sempre será conveniente que nossos
vas do próximo, acatando com apreço e irmãos, enfermos mentais tenham um
serenidade as determinações da justiça conhecimento preciso de seus estado?
divina. Os irmãos, em desequilíbrio mental, com-
Moral da História. provado, demonstram por vezes um teor
muito grande de sensibilidade e o tácito
• Equilíbrio Afetivo = Saúde Mental
conhecimento do diagnóstico, relativa-
• Todos podem fazer muito pela saúde
mente à moléstia de que são vítimas,
mental
pode suscitar fixações no próprio enfermo,
inibindo o êxito do processo terapêutico.
Conduta (Emmanuel - F.C.Xavier)
Devemos internar em sanatórios, nos- Devemos entender os criminosos como
Problemas mentais 35
doentes mentais? em seu lar. Depois que iniciou essa práti-
ca as internações ficaram mais espaça-
Nesse sentido, e considerando a impor-
das...
tância do tratamento psiquiátrico, o Dr.
Bezerra de Menezes acredita que a Ciên- Marta, de família muito rica, estudando na
cia no futuro, com o amparo da Adminis- França, repentinamente o pai falindo, ela
tração Pública, dispensará aos nossos ir- voltando as pressas. Depois morando
mãos, que se encontram na segregação numa casa muito modesta da periferia de
carcerária, determinados medicamentos São Paulo, com um escultor de metais,
que possam frenar neles os impulsos de sem muito talento, mas com muitas mu-
agressividade exagerada, amenizando os lheres fora de casa. E Marta não supor-
problemas de contenção e condução dos tando a decadência financeira, moral, afe-
re-educandos, porventura detidos em nos- tiva, e enlouquecendo. Uma moça de inte-
sas penitenciárias, que se expressam por ligência tão fina. Quando convalescia, su-
beneméritos hospitais do espírito. geri a ela que traduzisse uma pequena
coleção de cinco sermões do Padre La-
No assunto, não será justo esquecer, no cordaire, cristão e orador sacro francês
Estado de Goiás, o notável governador do século XIX. Ela gostou do trabalho e
Dom João Manoel de Menezes que esta- me disse que muitas ideias de Lacordaire
beleceu a construção de presídios, nas despertaram seu interesse.
margens do Araguaia - na confluência do
Rio Araguaí com o Rio Vermelho e com o No meu tempo de escola, ia estudar com
rio Tocantins - transferindo para essas re- um colega, Manoel, que tinha um irmão,
giões centenas de irmãos delinquentes e Alfredo, de 20 anos, mas com mentalida-
prisioneiros, compreendendo que o traba- de de 5. Ficamos muito amigos eu e Alfre-
lho e a socialização evidenciam profundo do, e por vezes brincávamos horas, com
coeficiente de poder renovador para os seus brinquedinhos. Alfredo era uma
companheiros em Humanidade que ainda criança encantadora, embora seu tama-
caminham entre as sombras da mente, nho de mais de 1,70m. Os familiares o
porque a criminalidade não passa de adoravam, e efetivamente, era muito difí-
cil não gostar dele.
amarga resultante de trevas do espírito.
(Emmanuel - F.C.Xavier) Essas minhas reminiscências, talvez se-
melhantes as suas, enchem meu coração
de amor e saudade dos doentes mentais
Por diversas vezes nessa encarnação fui que conheci e que as encruzilhadas da
a sanatórios visitar amigos, doentes men- vida levaram a outros caminhos.
tais, necessitados de tratamento.
As ideias são como imenso mar, o pensa-
Alguns eram alcoólatras em processo de dor se atira neste mar, solitário, na frágil
recuperação, outros, crianças com proble- jangada do seu cérebro carnal. O mar das
mas congênitos, vários que não suporta- ideias tem seu dias bonitos, mas também
ram as provas da vida e acabaram enfer- tem suas tempestades.
mando mentalmente, alguns já desencar-
Se estamos todos na praia, cantemos
naram...
canções e repartamos nosso peixe. Se
Lembro-me de um, José Carlos. Meteu-se estamos na praia e nosso irmão fez-se ao
em experiências psíquicas, sem nenhum mar, na pesca imprescindível dos novos
apoio em Jesus, aprisionaram-no as alge- conceitos, oremos por ele, para que volte
mas da obsessão. Andei alguns quilôme- são e salvo, que sua frágil barquinha
tros a pé, para vê-lo. Levei a ele meu aguente o peso das ondas.
abraço e minha prece, ficou contente em
Se demora a voltar, sejamos solidários,
ver-me...
deixemos o medo na praia, enfunemos as
Lembro-me de Maria, que tinha crises pe- rotas velas, e vamos socorrê-lo, que no
riódicas, que muitas vezes a levavam per- mar dos pensamentos há também pensa-
to do suicídio, felizmente não se matou, dores cruéis, doutrinas mórbidas, ideias
mas foi internada várias vezes. Frequen- avassaladoras..., e um companheiro leal é
temente participava do culto do evangelho como as luzes de um porto, surgindo na
36 Bem Sofrer
escuridão. píritos: Jesus dizia: "Eu sou a videira e
Se naufraga o nosso irmão, entristeçamo- vós os ramos" e também "ninguém vai ao
nos, que é triste naufragar, mas console- Pai senão por mim"; com isso Jesus que-
mo-nos: o lugar do pensador é no mar ria dizer que Ele é que alimenta a nós to-
das ideias, pelo menos naufragou no seu dos com sua seiva. O que significa essa
lugar de trabalho, e Deus levará isso em seiva? Significa o amor que Ele tem por
conta. todo homem que veio a esse mundo.
Além dessas correntes de amor mais im-
Moral da História portantes, há também o amor daqueles
• O doente mental requer presença amo- que nos querem bem, dos que nos são
rosa e não ausência cômoda. gratos por algum bem que fizemos, dos
• Todo crime está ligado a enfermidades que nos são simpáticos.
da alma. A alma, mesmo naquele que se diz ateu,
por mecanismos inconscientes absorve
Depressão toda essa carga amorosa, onde o amor de
Deus é a mais importante, e tem nessas
Uma estranha sombra envolve a mente, a energias o seu equilíbrio, a sua alegria de
alma verga sua cabeça, dirige seu olhar viver e a sua esperança.
para o chão, esquece o céu.
Mas por alguma causa desconhecida, a
A esperança se vai apagando, o futuro alma passa a ser incapaz de absorver
passa a prometer apenas dores e amar- plenamente essas correntes de amor. É
guras. O presente vai tendo suas possibi- como a planta que perdesse o contato
lidades reduzidas, se estreitando, se com a água e começasse a murchar.
transformando num pico de montanha es-
carpado e árido, donde a alma não con- Há situações tão graves dessa desnutri-
segue descer. ção espiritual, que a alma mesmo que
quisesse não conseguiria de pronto ab-
O sentimento da presença de Deus se es- sorver todo o amor de que necessita. Faz
vai. Os laços de amor que a unem a ou- lembrar essas crianças que conheci em
tras almas, tornam-se pesados como cor- favelas, que, habituadas por longo tempo
rentes, e um mar de desamor vai subindo, à desnutrição, suavam e ficavam febris ao
tormentoso, angustiante. simples esforço de tomar um prato de
A alma tenta fugir dessa nuvem angustio- sopa nutritiva e quentinha.
sa, mas a nuvem parece persegui-la. E a É isso a depressão: incapacidade da alma
alma imobiliza-se e fecha-se na sua dor de sentir-se amada em níveis profundos.
inexplicável.
A depressão é sempre acompanhada
Todo esse quadro tenebroso, que envolve
de processos mais fortes ou mais leves
a alma, parece imenso, mas na realidade
é uma pequena nuvem, que nasce dela de obsessão, necessitando portanto da
mesma, e que lhe obscurece a razão, a terapia desobsessiva.
visão e o coração. É uma enfermidade que tem graves reper-
Essa nuvem, que a muitos de nós ator- cussões no corpo físico: atinge todo o
menta, recebe o nome de depressão. nosso aparelho de defesa, enfraquecen-
do-o, permitindo que se instalem enfermi-
dades diversas como a tuberculose, a le-
Mas o que vem a ser a depressão? pra e outras. De outro lado, a depressão
compromete o mecanismo sutil que regula
A depressão é uma disfunção, nos meca- a reprodução celular, propiciando o surgi-
nismos de absorção de energias da alma. mento do câncer, com suas metástases.
Estamos envoltos num verdadeiro mar de A medicina convencional é necessária
energias. Entre essas energias a mais im- para auxiliar o tratamento anti-depressivo,
portante é a do amor de Deus, que pene- mas, sozinha, conseguirá apenas camu-
tra e percorre toda a criação. Ao amor de flar o problema.
Deus, seguem-se o amor dos grandes es-
Os tratamentos, conquanto úteis, não ob-
Problemas mentais 37
terão resultado, enquanto o paciente não xas e lamentações. Sem grosseria, mas
se dispuser à precisa renovação moral, com firmeza, não permita que ele entre
expressa em humildade e paciência, espí- por esse caminho, ao contrário distraia-o
rito de serviço e dedicação ao bem, que e mude o curso de seus pensamentos.
lhe permita absorver novamente as cor- Não julgue o depressivo. Ou seja, nem o
rentes do Amor Divino, e de tantos outros coloque na posição de vítima, nem de
amores que Deus semeou no nosso cami- réu, nem de advogado de acusação, nem
nho. na de advogado da defesa, muito menos
Nesta encarnação, tenho tido muitas que- na posição de juiz. O depressivo se perde
das depressivas, mas tenho-me re-ergui- com facilidade nesses meandros da justi-
do graças a misericórdia de Deus que ça. Insista no dever que todos temos de
permitiu que meus pais, professores, ins- amar a todos: inferiores e superiores,
trutores religiosos me ensinassem a orar. amigos e inimigos.
Uma das pessoas que me demonstraram Incentive e apoie o depressivo para que
muito amor nesta encarnação foi minha ele saia de sua tristeza e expresse de for-
mãe. Hoje, ela está no plano espiritual. ma concreta, real, o amor ao próximo.
Lembro-me de sua dedicação e de tantas
Moral da História
provas de amor desinteressado que me
deu. Oro a ela pedindo seu conselho e • Depressão se cura com amor.
seu apoio em momentos depressivos. A • O objetivo é o céu que está acima. O ca-
depressão desaparece, o sol da espe- minho é palmilhar a terra que está em
rança volta a brilhar e continuo minhas baixo.
pequenas lutas com ânimo fortalecido.
Creio que ao lembrar-me do amor da mi- Obsessão
nha mãe, consigo absorvê-lo, desentupin-
do canais, e me alimentando de todo o A obsessão, embora ainda não cataloga-
imenso amor que me cerca, como a todo da nas academias de medicina como
espírito imortal criado por Deus. doença mental, é a doença mental mais
comum.
Além da prece, é muito útil ao depressivo
a prática da beneficência, pois ela estimu- Um médico espírita, já falecido, Edison
la correntes de amor inconscientes a sur- Queiroz, informava certa feita, que em
girem dos beneficiados e de quem a eles pesquisa realizada na Bahia, mais de
se associa. O depressivo benemérito nes- 50% dos enfermos, internados em hospi-
te caso terá mais facilidade em absorver tais de doenças mentais, eram na verda-
essas correntes, tanto por mérito, como de obsidiados.
pela proximidade dos fatos. O que obsessão?
Se, de outro lado, a depressão o faz so- É uma enfermidade da nossa capacidade
frer, não agindo em você mesmo, mas de relacionamento.
subjugando aqueles a quem você quer
Por alguma disfunção, que tem no fundo
bem, aqueles que lhe estão próximos,
problemas morais, se estabelece um rela-
faço-lhe alguns pedidos:
cionamento enfermo involuntário, com es-
Afaste toda irritação, A irritação faz com píritos encarnados ou desencarnados,
que o depressivo sinta-se ainda mais de- onde um reflete os aspectos negativos do
samado, agravando seus males. outro.
Envolva o depressivo com todo o seu Usando uma analogia de cunho biológico,
amor. Um amor pleno de energia e espe- seria como um parasitismo da alma. A
rança, um amor alegre, não um amor atrofia de certas funções leva o parasita a
cheio de penas ou tristeza. explorar seu hospedeiro, que abriga o pa-
Em hipótese alguma, deixe-se contagiar rasita por ter seus mecanismos de defesa
pelo pessimismo do depressivo. deficientes.
O depressivo tende, encontrando "um Quais os principais efeitos da obses-
ombro amigo", a se extravasar em quei- são?
38 Bem Sofrer
Queda nas capacidades intelectuais: inte- zia que este comportamento era natural,
ligência, memória, imaginação. decorrente da necessidade fisiológica que
Irritabilidade: tudo nos irrita. Na verdade o todo homem tem de relacionar-se com
que nos irrita é a presença do obsessor, mocinhas?!
mas como não a identificamos, atribuímos Finalmente no seu estágio mais adiantado
nossa irritabilidade a tudo e a todos. a obsessão ganha o nome de subjugação,
Antipatia: essa ligação mental carreia onde o espírito inferior fica com um con-
para nós a antipatia que o espírito obses- trole quase completo da mente e do corpo
sor gera em torno de si pelos seus maus do obsidiado. Nessa situação o senso
fluidos. crítico diminui cada vez mais, até que
passamos a praticar os maiores dispara-
Transtornos: se o obsessor sente ódio por tes, fazendo coisas absolutamente irracio-
nós, mil pequenos acidentes e incidentes nais, sendo considerados como loucos.
passam a acontecer.
Temos sempre consciência do proces-
Negativismo: passamos a ver os outros so obsessivo?
pelos olhos do obsessor e como essa
avaliação é muito negativa, passamos a Como não é uma enfermidade evidente,
avaliar pessoas e situações negativamen- muitas vezes estamos obsidiados sem o
te. saber.
Vícios: é muito comum que o obsessor Apenas os desencarnados nos obsi-
seja envolvido com vícios tais como álco- diam?
ol, desregramentos sexuais, drogas, jogo, Podemos ser obsidiados por espíritos de-
etc, e nos impulsione a esses maus hábi- sencarnados e também por encarnados.
tos.
O desencarnado, quando inadaptado a
Comportamentos estranhos: ao assimilar vida espiritual, procura um simulacro de
os pensamentos do obsessor, passamos vida material, se acha em nós uma bre-
a agir em contraste com nossa personali- cha moral, liga-se a nós, procurando viver
dade, já que há uma personalidade estra- nossos problemas e emoções. Num com-
nha enxertada em nós. portamento paralelo, o nosso familiar en-
Perturbação nos mecanismos do sono e carnado na verdade está nos obsidiando
dos sonhos. quando tenta fugir de sua própria vida
procurando pensar nossos pensamentos,
Quais os graus da obsessão? sentir os nossos sentimentos, viver nossa
A obsessão pode ir desde a simples "ten- vida, tendo como brecha nossa insegu-
tação", nas sua formas mais leves, em rança ou comodismo.
que sentimos presença de estranhos pen- Obsessão tem cura?
samentos, assediando-nos contra nossa
vontade. Porém lutamos mentalmente e O maior consolo que podemos dar aos
conseguimos, se não afastá-los, ao me- processos obsessivos é a afirmação: "a
nos não seguir suas determinações más e obsessão tem cura".
absurdas. Por vezes mostra-se como uma enfermi-
No grau seguinte, a enfermidade compa- dade renitente, que exigirá anos de perse-
rece como fascinação. O nosso senso crí- verante trabalho, mas, com humildade e
tico é atingido, e passamos a aceitar boa vontade, será vencida certamente.
como normais as sugestões desarrazoa- Repetindo: lembra-te de que não serão
das do obsessor. Conheci um Senhor que gritos, nem ritos, que afastarão os espíri-
fascinado pelo seu obsessor, colecionava tos infelizes, também necessitados de au-
papéis que encontrava pela rua. Questio- xílio. O que os afastará será a sinceridade
nado dizia ser aquilo absolutamente natu- de um coração que busca a Jesus.
ral; tive um amigo que embora bem casa-
do, colecionava mocinhas movido por ob- Quais as principais etapas na cura da
sessor transviado no sexo. Questionado, obsessão?
embora sua formação e prática cristã, di- A terapia da obsessão segue as seguin-
Problemas mentais 39
tes linhas principais: faixa mental, induzindo-nos à criminalida-
• Eliminar a falta moral que estabelece a de em que ainda persistem.
ligação com as sombras. Espreitam-nos a estrada, à feição de cúm-
• Mudar padrões mentais pelo estudo que plices do mal, inconformados com o nosso
eleve. anseio de reajuste, recompondo de mil
• Consagrar-se em paz ao serviço inces- modos diferentes, as ciladas de sombra
sante. em que venhamos a cair, para reabsorver-
• A prece sincera: ligar-se mentalmente a lhes a ilusão ou a loucura.
Deus, a Jesus, aos benfeitores espiri-
tuais.
• Tratar-se em grupos espíritas que culti- Recebe, pois, os irmãos em desalinho mo-
vem a mediunidade com Jesus. ral de ontem com espírito de paz e enten-
dimento.
O que fazer com os obsessores?
Acusá-los, seria o mesmo que alargar-
Também são nossos irmãos? Irmãos ini- lhes a ulceração com novos golpes.
migos, irmãos transviados no mal, mas
ainda e sobretudo irmãos. Ouçamos a ori- Crivá-los de reprimendas, expressaria in-
entação de Emmanuel, recebida através dução lamentável a que se desmereçam
de F.C. Xavier: ainda mais.
Obsessor, em sinonímia correta, quer di- Revidar-lhes a crueldade, significaria com-
zer "aquele que importuna". prometer-nos em culpas maiores.
E "aquele que importuna" é, quase sem- Condená-los, é o mesmo que amaldiçoar
pre, alguém que nos participou da convi- a nós mesmos, de vez que nos acompa-
vência profunda, no caminho do erro, a nham os passos, atraídos pelas nossas
voltar-se contra nós, quando estejamos imperfeições.
procurando a retificação necessária. Aceita-lhes injúria e remoque, violência e
No procedimento de semelhante criatura, desprezo, de ânimo sereno, silenciando e
a antipatia com que nos segue é seme- servindo.
lhante ao vinho do aplauso convertido no Nem brasa de censura, nem fel de repro-
vinagre da crítica. vação.
Daí, a necessidade de paciência constan- Obsessores visíveis e invisíveis são nos-
te para que se lhe regenerem as atitudes. sas próprias obras, espinheiros plantados
Considerando, desse modo, que o presen- por nossas mãos.
te continua o pretérito, encontramos ob- Endereça-lhes, assim, a boa palavra ou o
sessores reencarnados, na experiência bom pensamento, sempre que preciso,
mais íntima. mas não lhes negues paciência e traba-
Muitas vezes, estão rotulados com belos lho, amor e sacrifício, porque só a força do
nomes. exemplo nobre levanta e reedifica, ante o
Sol do futuro.
Vestem roupa carnal e chamam-se pai ou
mãe, esposo ou esposa, filhos ou compa-
nheiros familiares na lareira doméstica. Moral da História
Em algumas ocasiões, surgem para os ou- • Todos nós somos imperfeitos e temos
tros na apresentação de santos, sendo uma grande carga de desafetos, conse-
para nós benemerentes verdugos. quentemente somos passíveis de ob-
Sorriem e ajudam na presença de estra- sessão.
nhos e, a sós conosco, dilaceram e pisam, • Na prática do Evangelho de Jesus está
atendendo, sem perceberem, ao nosso o principal anti-obsessivo.
burilamento.
E, na mesma pauta, surpreendemos desa- Crianças deficientes
fetos desencarnados que nos partilham a Filhos do Deus da Luz
40 Bem Sofrer
Desejo pedir licença a Maria, mãe de Jesus e volteando o insolúvel por ora,
mãe das mães, para dirigir um poema às mães e mais que tudo do teu papel,
e aos pais que recebem nos braços filhinhos papel de amor,
com problemas mentais: onde firmarei meus traços.
O Deus da luz
O Deus da luz
quer filhos altaneiros,
quer e os anjos aconselham
como as perobas adultas
que embora, as feridas,
das matas brasileiras.
os pés de barro,
O Deus da luz sejam anjos também,
quer filhos lúcidos, voem bem alto,
como o sol esplêndido e me levem mais perto do céu.
das praias brasileiras.
Outros recuaram,
O Deus da luz fugiram de mim,
quer filhos equilibrados, mas vocês me quiseram,
como os astros constelados, no fundo de si,
das noites brasileiras. nos templos sagrados
do inconsciente
O Deus da luz onde a verdade esplende.
quer que sua própria obra,
se desdobre, Mamãe, papai,
em mil esboços; este cérebro doente
que o auto-artista guarda uma mente
faça e refaça imortal,
seu próprio desenho, eu também sou filho da luz,
sucessivamente mais semente de anjo,
altaneiro, anjinho,
adulto, e um dia
lúcido, minhas asas luminosas,
esplêndido, cortarão os céus,
equilibrado, do reino de Jesus.
constelado,
O Deus da luz
de virtudes mil.
quer que eu tenha a vocês,
O Deus da Luz que vocês tenham a mim,
quer e eu peço, e que Jesus tenha a todos nós.
que você, querida mamãe
Este meu tratamento
e você, adorado papai,
custará caro em esforço,
tomem a mim,
lágrimas e humilhações,
espírito encarcerado,
mas nos nossos corações,
como se eu fora
será depositado um tesouro,
uma sementinha,
do ouro mais puro,
no fundo da terra,
do valor mais seguro,
ou como plantinha podada,
que será a nossa redenção,
na correção necessária,
num elo lindo de afeição,
para que no silêncio,
que iluminará nosso futuro.
das manifestações exteriores,
eu mais uma vez me refaça.
Moral da História
Eu usarei a borracha do tempo, • Na terra, o maior presente que Deus nos
mas preciso dos lápis de cores deu, foram nossos pais.
da sua compreensão, bem luminosa, • Cérebro doente hoje, mente saudável
da régua do seu equilíbrio, amanhã
do compasso da sua sensibilidade,
Afeto 41
Afeto
Alguns benfeitores espirituais informam Cumpre mais uma vez notar que não falo
que num único ano da década de 60 os aqui de um Deus verbal, da boca para
sofrimentos ligados a afeto e sexo supe- fora, não falo aqui de um Deus racionali-
raram todos os sofrimentos da guerra zado, falo do Deus força, agindo nas pro-
39/45. fundezas inconscientes de nossa mente.
Quanto horror na segunda guerra, deze- Do Deus, que mesmo os que se dizem
nas de milhões de mortes, fornos crema- ateus possuem, do Deus invisível e im-
tórios, bombardeios sem fim, ... pessoal. Do Deus de Amor, conforme a
conceituação de João Evangelista.
No entanto num só ano, as lágrimas der-
ramadas, por amores não correspondidos,
triângulos amorosos, convivências de pro- Posto que todos estamos unidos por
va, prostituição, separações afetivas, fo- Deus, separações, uniões impossíveis,
ram mais numerosas... convívios de sofrimento, tudo isso será
Assim é o afeto, assim é o sexo: fontes temporário, relativo ao estágio que atra-
máximas de prazer e alegria imediatas. vessamos, pois ao longo da evolução, ao
Prefácios aos amores eternos. E pelo seu longo da eternidade, todo relacionamento
alto poder de mexer com as almas, igual- será equacionado.
mente fontes de discórdia, de sofrimen- Seja qual for o ser humano que possamos
tos, de disputas, dado o estágio de dese- ter em mente, há uma semente de amor
quilíbrio em que ainda nos encontramos. imortal nos unindo, e essa semente vigo-
rosa, que é a vontade do Deus que nos
criou, fatalmente se desenvolver , e o
Todos nós, seres humanos, estamos liga- ódio, a antipatia, a impossibilidade serão
dos por um fio inquebrável que nos "cos- um dia vencidos, e um relacionamento
tura" um nos outros. Fio eterno, puríssi- saudável, vigoroso, esclarecido, profundo,
mo, infinito. Esse fio é o amor de Deus. será fonte de felicidade para o par de al-
Todos fomos criados por Ele. E Ele a to- mas.
dos ama.
Esse ponto em comum que todos nós te-
mos, Deus, não é um ponto, é o infinito, e Deus
é a base primeira e última das ligações Feliz o que tem Deus nessa batalha
humanas. Da miséria terrena, que estraçalha
Jesus, interpelado pelos fariseus, sobre Todo anseio de amor ou de bonança
qual seria o maior mandamento da lei,
respondeu: Cruz e
Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu Souza
coração, de toda a tua alma, de todo o
teu entendimento; é o maior e o primeiro Alma querida, se tens Deus,
mandamento. E eis o segundo que é se- no sacrário de teu coração,
melhante ao primeiro. Amar s o teu próxi- na hora da dor do sentimento
mo como a ti mesmo. lembra-te desse tesouro.
Creio que Jesus relacionou o amor a
Deus em primeiro lugar e disse que amar Deus é balsamo
ao próximo é semelhante a amar a Deus, que alivia a dor.
porque o amor de Deus é base do amor Deus é luz
ao próximo. que afasta a sombria tristeza.

Toda vez que amamos o próximo sem Quando o teu sentimento,


Deus, esse amor é desequilibrado, sem doer pelas feridas
base. aumentadas
42 Bem Sofrer
guarda o pensamento, do amor de Deus.
em Quem te criou,
em Quem te ama, Graças te damos, ó Deus eterno, fonte de
e reflete: todas as leis, por nos teres dado como lei
maior, a lei do amor.
Se Ele o Senhor,
amarras corta,
é que te importa, Devemos sempre unir esperança e reali-
te fazeres ao mar, dade, para que a esperança nos ajude a
navegar transformar em realidade o que espera-
no amor universal, mos.
eterno, imortal. A esperança nos oferece a fatalidade do
amor. A realidade nos mostra caminhos
Se Ele, o Senhor, pedregosos, portas estreitas e cruzes. Va-
afasta quem amas mos trilhar esses caminhos corajosamen-
é que por outras vias, te, abrir essas portas, carregar essas cru-
mais espirituais, zes, porque o amor vale esse preço e
deves te aproximar. muito mais. E a nossa decisão expressan-
do nossa fé tornará suaves esses cons-
Se Ele, o Criador, trangimentos e leves esses pesos.
te aproxima de quem,
por excesso de afeto
e falta de condições, Moral da História:
te sinaliza quedas
e embaraços, • Amor e dor é uma rima muito comum.
é que quer • O amor é uma lei de Deus.
exercitar tua prudência
e desapego, Desamor
que a paixão também passa.

E ao invés de deixar, O amor é o alimento das almas.


pela muita dor,
a alma em dores
se esvaindo, Há almas, quer por um temperamento
a bracejar enfraquecida, próprio, quer por disposições da lei do
parecendo criancinha carma (ou ação e reação, como a denomi-
perdida da mãe. nam outros), são desnutridas de amor.
Para! Seus familiares, ou não as amam, ou já
ao invés de agitar partiram para o mundo maior. A vida não
os braços em vão, favoreceu que encontrassem pessoas
põe as mãos postas afins, que lhes facilitassem o surgimento
em prece de paz. de afetos.
Ao deixarem suas atividades rotineiras,
E com lágrimas em luz, seja o trabalho profissional, sejam ativida-
busca Deus, des caritativas ou de aprendizado, não há
com todas as forças ninguém esperando por elas.
do teu frágil coração,
pois, sentindo a presença de Deus,
saberás, Meu irmão, ao ir ao enterro de uma vizi-
que nenhum sofrimento nha, foi surpreendido por ser o único
é vão, acompanhante.
e que acima das tuas
pequenas dores,
de afetos partidos, Nos fins do século passado, o nosso país
paira a alegria perfeita foi agraciado com a presença de Francis-
Afeto 43
ca Clotilde. Uma palavra define essa alma espíritos familiares de outras encarna-
de escol: educadora. ções, e muitos mais.
No plano espiritual, Francisca Clotilde es- E há o grande anônimo, Deus, o seu mais
tuda aqueles casos muito especiais, em íntimo companheiro, o grande onipresen-
que Jesus vem pessoalmente receber o te, que está também no mais profundo de
recém-desencarnado no plano espiritual. você mesmo, e sempre.
Dois desses casos chegaram ao nosso Se de um lado dói não ter ninguém na
conhecimento, através de livros psicogra- carne, entenda esse jejum afetivo como a
fados pelo médium Chico Xavier. necessária preparação para o grande
O primeiro caso é de uma mulher da roça, banquete que o aguarda.
Sabina, que vem para a cidade grande,
envelhece, fica enferma e solitária, e é
constrangida à mendicância. Em um de Moral da História.
seus versos Clotilde explicita: • Todos nós somos muito amados no Rei-
Sabina não tinha ninguém, ninguém... no dos Céus.
• Jejuns carnais são preparativos para
Do ponto de vista material, morre solitá-
banquetes espirituais.
ria, numa calçada, doente, com frio, com
fome... Do ponto de vista espiritual, de-
sencarna numa festa de luz, recebida por Convívio expiatório
Jesus, trazendo-lhe de presente seu filho As leis que regem a simpatia e a antipatia
que morrera quando criança, e levando-a são variadas e complexas.
pessoalmente para o seu reino.
A base de todas essas leis é a seguinte
lei: "o semelhante atrai o semelhante".
O segundo caso é de Tintino, um palhaço Como somos seres complexos, podemos
por profissão, que também morre aos no- ser olhados segundo muitos aspectos,
venta e dois anos, ao relento, absoluta- tendo pontos de afinidade num aspecto e
mente só e abandonado, mas que tem a divergências num outro aspecto.
glória de ser recebido por Jesus, do outro
lado da vida, como mérito pela sua vitória Um advogado terá afinidades com um
na carne, onde espalhara muita alegria, professor por serem ambos operários da
fazendo muito mais do que os deveres palavra. Mas poderá haver grandes diver-
profissionais lhe exigiam. gências de temperamento, ou de morali-
dade. Daí nascerão tensões, pois se de
um lado há atração, de outro há repulsa.
Trago esses exemplos à mente, e se Se atendermos ao fator atração, unindo-
você, embora suas atividades, padece da nos, o fator repulsa provocará choques.
desnutrição afetiva, aceite meu abraço Se atendermos ao fator repulsa, afastan-
em Jesus e permita dizer-lhe que sou seu do-nos, o fator atração provocará carên-
irmão. Se você puder, apareça na nossa cias. Duros dilemas.
pequena casa espírita, que procuraremos
dar-lhe um afeto puro e sincero. Se não
puder ir pessoalmente escreva-nos ou te- Essas atrações e repulsas terão vários ní-
lefone. veis de intensidade e também de profun-
didade na alma.

Permita dizer-lhe também que há uma Há atrações e repulsas superficiais, deri-


Mãe no Céu, que a todos estende seu vadas principalmente de circunstâncias.
amor infinito. Que essa Mãe está ao seu Por trabalharmos numa mesma organiza-
alcance imediato, através de um "telefoneção, sentimo-nos atraídos pelos nossos
que se chama prece", como diria Ceres colegas de trabalho. Por vezes achamos
Prado. até que poderosos laços de amizade nos
unem. Mas, tão logo mudamos de empre-
E há Jesus, e há um anjo da guarda, pos- go, os laços se desfazem.
to por Deus para conduzi-lo, e haverão
44 Bem Sofrer
Há atrações e repulsas extremamente uma atração física intensa, mas não sen-
profundas, forjadas ao longo dos séculos, tem nada um pelo outro a nível de pes-
no curso das re-encarnações, difíceis de soa.
serem resolvidas. Os filhos forçam um relacionamento. Os
ideais de vida forçam um afastamento.
É da lei de Deus que todo relacionamento E o espírito, sente-se como que amarrado
humano seja equacionado no amor. a cauda de dois potros bravios, cada um
A família é um instrumento de Deus para puxando para um lado, para ser esquarte-
o crescimento do amor. É na família que jado afetivamente.
surgirão estes mecanismos de atração e
repulsão com mais intensidade. Dez auto-questionamentos para aliviar o
Jesus, na última ceia, questionado por sofrimento de um convívio difícil:
João sobre quem o trairia, disse a João, 1. E se fosse eu que estivesse no lugar
referindo-se a Judas: "O que come comi- dele?
go no mesmo prato, este é o que me trai-
rá." 2. Como eu posso aumentar a plataforma
de simpatia que existe no nosso rela-
Uma lição que tiramos dessas palavras cionamento?
de Jesus é que serão os nossos mais ínti-
mos que nos trarão as maiores aflições. 3. Como eu posso reduzir as áreas de
atrito que existem entre nós?
4. Quais são os pontos na vida dele que
Há vínculos indissolúveis durante a encar- podem me inspirar compaixão? (A
nação, tais sejam os vínculos carnais. Por compaixão é a mais fácil forma de
mais que racionalizemos, continuaremos amor)
filhos de nossos pais, irmãos de nossos
irmãos, pais de nossos filhos, netos de 5. Como posso eliminar meus sentimen-
nossos avós. tos de culpa? (sentimentos de culpa
não pagam dívidas)
O único vínculo, em termos familiares,
que pode ser dissolvido é o vínculo conju- 6. Como posso trabalhar interiormente e
gal. Mesmo assim, com alto custo. exteriormente com resignação para
pagar essa dívida?
Benfeitores espirituais orientam que não
há vínculo conjugal sem fundamento divi- 7. Tenho-me lembrado sempre que dei-
no, ou seja, que ocorrido o casamento, xar falar um mais tolo é uma forma de
formal ou não, ligações espirituais se es- caridade?
tabelecem entre marido e mulher, que de- 8. Como e com que objetivo deverei orar,
veriam em tese durar por toda a vida. para vencer as conflitos morais e psi-
O vínculo carnal atrai, são filhos, por cológicos que nos desgastam?
exemplo, mas o temperamento repele: 9. Tenho procurado ter sempre presente
são ambos "pavios curtíssimos". o fato de que eu e ele somos ambos fi-
O passado atrai mas presente repele: há lhos de Deus?
lembranças doces, mas os caminhos da 10. Por que Deus, na sua suprema justiça,
vida os levaram a posições muito distan- bondade e sabedoria terá nos
tes. Em outros casos o presente atrai mas reunido?
é o passado que repele: hoje nada os se-
para, mas não conseguem superar as Você, em cujo semblante o convívio difícil
lembranças de mágoa e desafeto. projeta sombras e lágrimas, levanta os
olhos ao céu, põe a esperança no cora-
O sentimento atraí, o sexo repele: enten- ção e prossegue com fé no Ser Maior, no
dem-se bem nas finanças domésticas, na Criador do Universo, que definiu a repul-
educação dos filhos, nos momentos de la- são e atração para todos os seres e, bas-
zer, porém na cama não conseguem ne- eando-se nessas duas forças opostas,
nhuma harmonia. Ou vice-versa: possuem constrói continuamente a harmonia entre
Afeto 45
todos os seres. terior das pessoas.
O progresso de cada espírito, no correr É interessante considerarmos que somos
das vidas, é fatal, é certo. E com o correr espelhos, e que refletimos no convívio a
dos séculos, com a evolução, todos sere- imagem, uns dos outros. Quem convive
mos uma presença agradável. assimila gestos, maneira de pensar, de
dizer. Casais que convivem longo tempo
tornam-se parecidos até fisicamente. Ca-
Moral da História mões, o grande poeta da língua portugue-
• Há amores eternos. Todo desafeto é sa expõe isso num poema:
passageiro. Transforma-se o amador na cousa
• Não existem vínculos fortuitos, todo vín- amada,
culo tem um propósito. Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Solidão Pois em mim tenho a parte desejada.
Há ingredientes da vida que são necessá-
Se nela está, minha alma transformada,
rios para promover o equilíbrio, para ser-
Que mais deseja o corpo de alcançar?
vir como fatores de moderação.
Em si somente pode descansar,
Um primeiro exemplo é a treva. A treva é Pois consigo tal alma está liada,
o fator moderador da luz. Se em alguns
pontos não houvesse o escuro, a luz per- Mas esta linda e pura semideia,
deria seu contorno, ficaria difusa, informe. Que como o acidente em seu sujeito,
A treva (ausência de luz) serve para dar Assim como a alma minha se conforma,
contorno à luz. De outro lado, se a luz vi-
esse em toda sua intensidade, ela, pela Está no pensamento como ideia;
sua própria força, seria agressiva, feriria (E) o vivo e puro amor de que sou feito,
nossos olhos e as plantas que se alimen- Como a matéria simples busca a forma.
tam de luz.
Pensar que existam seres que se alimen-
tam de luz, as nossas irmãs plantas, tão Fiz esta pequena digressão em torno da
floridas, tão amigas, é um pensamento tese "a intimidade arrefece a individuali-
consolador. dade" para tornar mais clara a necessida-
Mas, voltando ao ponto, medita nesta des de alguma solidão, para salvaguar-
analogia: assim como a luz necessita da darmos nossa individualidade.
treva, para amortecer-se e se tornar agra-
dável, assim também o convívio necessita
da solidão para ter os seus contornos de- A vida se desenvolve em múltiplos cená-
finidos, para se tornar agradável. rios. Operários invisíveis, causas desco-
nhecidas, estão sempre modificando o
Se o convívio fosse absoluto e perene, palco, onde representamos os papéis que
seria um motivo de cansaço e não, de sa- Deus nos confiou. Ora é a câmara conju-
tisfação. gal, onde vivemos o papel de amantes,
muito ou pouco realizados; em seguida a
via pública, na condição de motoristas ou
Quando o convívio se intensifica, ganha o de pedestres, com a infinita variedade de
nome de intimidade. A intimidade é o con- ruas avenidas e praças; o trabalho, o es-
vívio aprofundado. critório, a fábrica, o gabinete, o hospital, a
Assim como a luz ao ter sua frequência escola ...; e tantos outros cenários, va-
aumentada, depois de passar pelo ultra- riando da várzea de futebol de campo ao
violeta, entra no campo dos raios X, ven- clube noturno sofisticado, do templo da
cendo as barreiras da matéria, retratando periferia à escola profissionalizante, da
imagens interiores, da mesma forma o casa do amigo estimado ao diretório parti-
convívio, intensificando seus componen- dário...
tes psicológicos e espirituais, passa ao in-
46 Bem Sofrer
Em cada um desses cenários, podemos ções incorporadas século a século e que
sentir o mel da intimidade, como também permitiam alguma harmonia na tribo pré-
a amargura da solidão. histórica, até os códigos legais modernos,
Assim como a intimidade não é uma só, regulando desde o regime de governo até
havendo a intimidade conjugal, profissio- o estacionamento numa rua de bairro; a
nal, religiosa, política... Assim também a evolução da linguagem falada e escrita; o
solidão tem múltiplas faces. estabelecimento da moeda, ... E na vida
diária: os cumprimentos, e todos os ges-
O paralelo entre luz e convívio, também tos a traduzirem aproximação e repulsa,
aqui se aplica. Há muitos mecanismos os elos estabelecidos pelas relações fa-
para diminuir a luz: venezianas para sua- miliares, a extrema intimidade na gesta-
vizar a luz dos dormitórios, persianas e ção e amamentação entre mãe e filho, ...
cortinas para dar um toque de doçura e
privacidade a outros cômodos da casa, vi- Você deseja que uma mão amiga se
dros leitosos em lâmpadas e lustres, o te- apoie sobre a sua, que um beijo toque a
cido fino da cúpula do abajur, ou o botão sua face, que um olhar se fixe no seu, e
de controle da luz do painel dos automó- esse desejo insatisfeito enche de som-
veis. Assim, também, há muitos mecanis- bras o seu semblante. Mas você fica imó-
mos para diminuir o convívio nos seus vel na sua dor, não se levanta para abrir
inumeráveis cenários: convenções sociais uma janela, descerrando à sua própria
que nos impedem de abordar indiscrimi- alma um novo horizonte social, ou nem
nadamente estranhos, diferenças de posi- sequer aperta um botão acendendo a
ção, paredes, salas e ante-salas, vesti- lâmpada da beneficência, que estabelece-
mentas, distâncias... rá a intimidade com os sofredores, que os
há em toda latitude.
Lute, lute, lute, diariamente, mensalmen-
Mas, o que muitas vezes faz você sentir-
te, anualmente para construir intimidades
se triste é não ter a intimidade que quer, e
saudáveis, para eliminar outras que sejam
ter a solidão que não deseja. É como não
motivo de perturbação. Deus vê o nosso
ter luz quando dela necessita para cami-
esforço. E Aquele que estabeleceu para o
nhar, e tê-la abundante quando deseja aUniverso a lei máxima do amor, certamen-
penumbra para dormir. te terá como vontade que haja o convívio
A resposta a essas dificuldades que e a intimidade, que são alicerces para o
amargam o coração, é expressa por duas amor. Deus que o ama multiplicará o seu
sílabas: lute! esforço de aprimoramento do convívio.
Medite comigo: Você não deseja excesso de solidão?
Convívio de qualidade, na quantidade cer-
Quanta luta, quanto trabalho, ao longo ta, conquistado pela perseverança, cons-
dos séculos em busca da luz. Desde o tância, entendimento, perdão, paciência,
fogo, nas cavernas, até os modernos edi- é a resposta.
fícios iluminados graças a distantes usi-
nas de geração de energia elétrica. Na
vida diária, o pagamento da conta de A humanidade é uma humanidade em
energia elétrica, a troca de lâmpadas, o construção. Andaimes por toda a parte
esforço muscular de abrir ou fechar as ja- sustentando paredes e lajes não termina-
nelas de sua casa... Há um tributo perma- das, trechos mal feitos sendo demolidos
nente sendo pago para que a luz se faça para serem reconstruídos, estruturas im-
na medida certa. E a coisa iria muito mais ponentes necessitando acabamento, pi-
longe, se fôssemos pelo caminho das lu- sos respingados de massa...
zes espirituais, das luzes do saber...
O convívio exige duas premissas: Somos
Transporte essa analogia para o campo seres inacabados, caminhando em dire-
do convívio, e você verá que o quadro ção à perfeição; os outros também são
não é diverso. Do ponto de vista histórico, seres imperfeitos caminhando em direção
quanta luta, quanto trabalho para equa- à perfeição. Quem exigir perfeição em si,
cionar o convívio humano, desde as tradi- nos outros, ou nas relações humanas,
Afeto 47
para conviver, amargará uma solidão va- lista, onde havia ganho "A Peônia Rubra",
zia. que me foi dada pelo jovem ambulante a
De outro lado, quem entender a si e aos título de troco, face a outros livros que eu
outros como seres em construção, fará havia comprado. O ambulante, desconsi-
das mesmas dificuldades da construção derando o interesse comercial, havia sido
um elo que aproxima e une. muito gentil comigo. Trabalhava de parce-
ria com um paraplégico que propunha
uma terapia alternativa baseada em pe-
Eu viajava de ônibus, em direção a uma dras.
cidade próxima. Ia ter uma conversa difí- Misteriosos elos da vida, que me ligaram
cil. Nuvens sombrias toldavam o céu de a dois ambulantes, a um filósofo chinês,
minha alma. Um vento úmido de indife- aos grandes mestres da humanidade, e a
rença, de descrença, me dava um frio in- Jesus.
terior.
Vislumbro a grande razão que norteia a
Dormi um pouco. Acordei. O ônibus esta- vida, mas não consigo compreender suas
va vazio. Comecei a ler um romance do fi- engrenagens.
lósofo chinês Lin Yu Tang, sobre filosofia
do afeto, chamado "A Peônia Rubra". Assim também você não está só. Paren-
tes, amigos, benfeitores espirituais, a cer-
Em alguns trechos Lin Yu Tang, através cam por toda parte.
de seus personagens citava Kong Fon
Tse, Confúcio, na maneira aportuguesada Vá até eles, exponha aos invisíveis seus
de falar. problemas, usufrua de profundas intimida-
des mentais e sentimentais.
Olhei pela janela, um canavial se estendia
verdinho por muitos alqueires. Vendo Eleve seu pensamento numa prece. O
aquela plantação, formulei espontanea- céu está bem próximo. E o grande Pai
mente uma prece: que está nos céus, está também dentro
de nós.
- Mestre, como foi longe tua plantação.
Essa prece nascia do fato de que vinte e
cinco séculos após, e a vinte mil quilôme- Moral da História:
tros de distância, as boas ideias que o • A solidão numa certa medida é necessá-
mestre da filosofia chinesa havia semea- ria.
do estavam vivas, auxiliando-me. • Devemos lutar para ter nossos momen-
Essa prece elevada a Confúcio me emo- tos de convívio intimo e saudável, que
cionou muito. Algumas lágrimas me mo- sejam as luzes de nossos afetos.
lharam a face. Em resposta veio a ideia:
Amores impossíveis
-Teus Mestres estão vivos.
Existirão amores impossíveis? Estarei eu
Sim, Salomão, Confúcio, Sócrates, Agos- impedido de amar a estrela que está a mi-
tinho, Paulo, Francisco, e tantos outros lhões de anos luz de distância? De achá-
mestres da humanidade estão vivos. E la bonita? De mostrá-la a um amigo?
eu, embora mau discípulo, tenho certeza
de que se procurá-los, serei atendido, Estarei impossibilitado de amar o santo
pois um imortal amor liga o mestre ao dis- ou herói, que o séculos não conseguiram
cípulo. E se meus mestres estão vivos, ocultar no esquecimento?
pleno de vida está o mestre dos mestres É evidente que não! O amor é sempre
que é Nosso Senhor Jesus Cristo. Se as- possível!
sim é, não estou só, tenho para onde vol-
tar, tenho amigos poderosos a quem re- O que muitas vezes é impossível é o con-
correr. Essa linha de ideias me trouxe vívio, a intimidade em determinados mol-
grande conforto e energias novas. des.
Lembrei-me da pequenina banca de livros O que ama anseia tocar o ser amado com
usados, estendida na calçada na Av. Pau- suas mãos, ouvi-lo, senti-lo contra o peito,
48 Bem Sofrer
e quando é impossível satisfazer estes compaixão do rico muito agravava sua fal-
desejos, dizemos que o amor é impossí- ta.
vel. O que é uma flagrante contradição, já Então, Natan explicou ao rei Davi que ele,
que toda essa dor advém, não de que o Davi, era o homem rico e que Urias era o
amor seja impossível, mas de que ele homem pobre, e a ovelhinha era Betsabá.
está presente e patente. Que Davi poderia ter quantas mulheres
Há uma distância, e nós não queremos quisesse, mas Urias tinha apenas a Bet-
distância, queremos proximidade; eis o sabá. Que a justiça de Deus se abateria
conflito resumido em duas palavras: dis- sobre ele, Davi, que enfrentaria grandes
tância indesejada. violências na sua vida, e sofreria a humi-
lhação de ser traído por suas mulheres,
as claras, finalmente que a criança morre-
Por vezes, forçamos situações; há um ria poucos dias após o nascimento. E
exemplo bíblico que muito me enternece: acrescentou: todas essas penas eram
O rei Davi, de Israel, apaixonou-se por proporcionais à responsabilidade que
Betsabá. Betsabá, mulher muito bonita, Davi tinha como rei, de dar os melhores
era casada com Urias, oficial do exército exemplos ao seu povo.
de Davi. O romance prosseguiu e Betsabá Logo após a partida de Natan, o filho de
ficou grávida. Dentro dos costumes da Davi e Betsabá adoeceu gravemente. E
época, nem pensar em separação e se- Davi buscou recursos em Deus, e prostra-
gundo casamento. do em terra, orou com todas as suas for-
Atormentado pela paixão, pelo constrangi- ças, pedindo pela vida de seu filho. Os
mento social, que seria a gravidez de Bet- anciãos da corte quiseram tirá-lo desse
sabá, o Rei Davi teve a infeliz ideia de as- estado, mas não o conseguiram, e Davi
sassinar Urias, tornando Betsabá viúva e jejuou e orou por sete dias, implorando a
viabilizando o casamento. Pôs em prática Deus pela vida da criança, mas no sétimo
o plano, e fez com que Urias, num ataque dia a criança morreu.
aos filisteus, ficasse isolado do resto da
Os anciãos temiam dar a notícia ao rei, tal
tropa e fosse morto pelo inimigo. O as- a comoção que demonstrara. Mas quando
sassinato muito bem planejado e realiza- Davi, pelas conversas em voz baixa, per-
do, ficou oculto, e o rei Davi pode casar-
cebeu que a criança havia morrido, levan-
se tranquilamente com Betsabá. tou-se do solo, lavou-se, ungiu-se, vestiu-
A criança veio ao mundo normalmente e se, foi até o templo, adorou a Deus, e ali-
era muito querida do rei Davi. mentou-se.
Passado algum tempo, o profeta Natan Os anciãos estranharam aquele tão pron-
procurou Davi e apresentou-lhe a seguin- to restabelecimento do rei, após uma tão
te queixa: grande dor. Porém Davi os esclareceu:
- Havia numa cidade dois ho- - Estando viva a criança, jejuei e chorei,
mens, um rico e outro pobre. O rico tinha pensando: quem sabe o Senhor se com-
muitas ovelhas e vacas, o pobre não tinha padecerá de mim, e a criança viver ? Mas
coisa alguma, exceto uma ovelhinha, que agora que ela morreu, por que eu
comprara e criara. Essa ovelhinha havia jejuaria? Poderia fazê-la voltar? Eu irei
crescido com o pobre, comia no seu pra- até ela mas ela não voltará para mim. A
to, bebia no seu copo, deitava-se no seu seguir, Davi foi consolar sua mulher, Bet-
leito. Tendo de hospedar um viajante, o sabá.
rico deixou de lado suas vacas e ovelhas, Mas como Deus não é apenas justiça,
tomou a ovelhinha do pobre e fez um gui- mas também misericórdia, eis que Betsa-
sado com ela para receber seu hóspede... bá teve um segundo filho, Salomão, que
Neste momento o rei Davi se enfureceu, e seria o maior rei de Israel, muito amado
disse que o homem rico devia ser conde- por Deus e que daria grandes alegrias a
nado à morte, após restituir ao pobre qua- Davi e a Israel.
tro vezes o que lhe tirara, e que a falta de
Afeto 49
Na minha vida afetiva, quando sinto a for- É comum nestes entrechoques afetivos,
ça e a perfeição da justiça de Deus, digo ficarmos pensando a todo o vapor, bus-
a mim mesmo: "o filho da que foi adúltera cando uma solução para o problema. Isso
foi o maior Rei de Israel", com isso me é muito desgastante, por que o problema
consolo, pois nessas palavras me vem não é de natureza intelectual e sim emo-
que a misericórdia de Deus, segue sem- cional. Por mais que raciocinemos, as
pre a Sua justiça. nossas emoções e as do outro permane-
cerão as mesmas. A paixão é mãe de
muitos sofismas, como diz o cancioneiro
A distância afetiva pode sempre ser supe- popular: "as aparências enganam aos que
rada através da sublimação. A distância odeiam e aos que amam". O momento é de
será sempre uma coisa material. À medi- conseguir alicerces sólidos, ou seja, premis-
da que desmaterializamos o amor, a dis- sas corretas, para definirmos nossas atitu-
tância perde o sentido. Não é simples des, e não ficar em mil círculos viciosos de
desmaterializar o amor, tornar dispensá- raciocínios, baseados no que desejaríamos
vel o toque, viver com alegria sem todo o que fosse, e, não no que realmente é.
envolvimento fisiológico e psicológico que
acompanha o relacionamento sexual. Mas
todo esforço é válido. Uma questão importante, nesta questão
de distâncias, é saber quando devemos
superá-la.
Muitos de nós se angustiam em admitir
que têm necessidades fisiológicas, inclu- Laura era uma mulher de trinta anos, ex-
sive, de intimidade. Que o sexo é uma ne- plosiva, sentimental, as carnes em equilí-
cessidade quase tão patente quanto o brio com a ossatura grande, clara e sar-
sono. Achado um parceiro que nos satis- denta, mas ainda bonita. Trazia na alma
faça, e isso é bom, tentamos atribuir a toda a impulsividade dos seus ancestrais
esse parceiro um sentido de encontro de russos.
almas e de união de corações que, por Trabalhava como voluntária num albergue
vezes, não existe. da prefeitura destinado a indigentes, na
Creio que procedemos assim, inicialmen- sua maioria alcoólatras. Um dia atendeu
te pelo medo da busca afetiva, pois pro- um mendigo, sujo, desfigurado, bêbado:
curar parceiros afetivos é muito dolorido: Antônio.
achamos um que aparentemente nos fará Laura atirou-se com perseverança e cora-
felizes, há um halo de simpatia, mas ele gem ao trabalho de apoio na recupera-
prefere outro; alguém nos acha, oferece o ção. Lavado, vestido e sóbrio, Antônio ti-
que tem de melhor, mas não nos inspira nha boa aparência. Localizou-lhe a famí-
maiores sentimentos, e temos o desagra- lia, tivera até um bom berço. Deu-lhe seu
dável dever de tornar isso claro, e se agi- amor quente e terno, talvez mais que ter-
mos de forma estabanada, nos enchemos no, materno. Auxiliou-o a reconstruir sua
de culpas; e vai por aí além, até que vida profissional, inicialmente como mo-
achamos um, que é quase viável; não te- desto pintor de paredes.
mos ânimo de continuar procurando a Um dia, casaram-se, fui até sua casinha,
pessoa certa. Porém, o quase viável é ele na época estava trabalhando em cam-
ainda impossível e não nos satisfaz. Vive- panhas anti-fumo numa instituição da pre-
mos por algum tempo uma situação falsa, feitura. Eram felizes.
que irá se tornando mais e mais patente,
sofreremos as dores do desligamento. A Me emociona lembrar isso, passados já
vida nos forçará a continuar na busca atévinte anos. Me emociona lembrar aquela
acharmos o parceiro adequado. Imperfei- mulher forte de corpo e alma, que não se
to ainda, mas um terreno sólido, onde po-acovardou face as distâncias econômicas,
deremos edificar nosso ninho afetivo. sociais, e perdoem a clareza, até de higi-
ene. A todas foi superando com seu amor
Peça a Deus que lhe dê a clareza de vi- quente e doce. E teve seu homem, pariu e
são necessária nas suas buscas afetivas. criou seus filhos, afirmando a fé na vida.
50 Bem Sofrer
Sem um discurso, apenas com a força do primazia das razões do coração e vence a
seu coração, esfacelou a todos os pre- distância.
conceitos. Uma verdadeira revolucionária. Se já achou o seu homem ou a sua mu-
lher, busca aperfeiçoar o relacionamento,
Que posso eu dizer a você: não destrua que muito há para ser feito.
lares, não destrua seu lar, não se auto- Se ainda não encontrou, continua procu-
destrua. A impossibilidade do convívio rando. Não busque aparências, frivolida-
justifica apenas a destruição da nossa des, busque a essência e busque com
materialidade, do nosso egoísmo. Deus.
Mas, em clima de prece, verifique se a im- Um último lembrete: põe amor na busca
possibilidade está em razões do coração, do amor, se não, não encontrará o amor.
em razões de uma moralidade adulta e
apoiada em Deus. Se assim for, respeita
a vontade de Deus e prossegue, não se Moral da História:
cansando de buscar, seus complementos • Não há pé, por mais torto, que não en-
afetivos. contre seu chinelo velho.
Se a impossibilidade for de interesses • Há um impossível que nasce da virtude
materiais, financeiros, sociais, afirma a e um impossível que nasce do precon-
ceito.
Dores morais 51
Dores morais
A dor da consciência ferida pela prática Moral da História
do mal, nossa ou dos nossos entes queri-
• Seguir a voz da consciência é estar em
dos, a noite insone, a vergonha, o medo
paz.
de enfrentar os próprios erros, eis um so-
• A vontade de Deus é o melhor para nós.
frimento real que acompanha o espírito
imperfeito.
Queda moral
A consciência é provavelmente a mais
alta faculdade do espírito humano. O cristianismo através de sua moral pro-
funda estabelece com grande clareza a
É nela que podemos ouvir a voz de Deus, noção de certo e errado, o que leva a re-
nos orientando, segundo Sua santa vonta- conhecermo-nos em muitas situações
de. como pecadores, é também o mesmo
A todo momento ela nos adverte, mas cristianismo que oferece solução ao peca-
nem sempre queremos ouvi-la. Mesmo do.
assim, ela prossegue, perfeito guardião O pecado no nosso estágio evolutivo é
de nossa probidade interior, velando pela quase uma fatalidade. Poucos escapam
nossa dignidade moral. dele. Essa fatalidade: "‚ necessário que
Jesus disse: "até os fios de cabelo de haja o escândalo", nas palavras de Jesus,
vossa cabeça estão contados", significan- se contrapõe às dores e à repulsa que
do com isso que a apuração de nossos causa o crime: "mas ai daquele por quem
débitos e créditos pela contabilidade divi- o escândalo vem", ainda palavras de Je-
na é exata e perfeita. Disse mais, Jesus: sus. Usamos a palavra escândalo não no
"pagarás até o último ceitil", significando sentido de estardalhaço, mas no sentido
que a essa contabilidade perfeita segue de todas as consequências do mal moral.
uma justiça igualmente perfeita. Pecado em sua acepção primitiva, etimo-
Dentro desse quadro de contabilidade de lógica, significa queda. Estamos a cami-
justiça sempre haverá modos de pacificar nho, no caminho do aperfeiçoamento, no
a consciência. Não através do esqueci- caminho que conduz a felicidade, no ca-
mento, mas através da boa ação e da ex- minho que conduz a Deus. Não sabemos
piação. ainda andar direito, pois será o proprio
caminho que nos ensinará a andar. Nesse
Perdoando, seremos perdoados. Na me- caminho espiritual caímos, sofremos a dor
dida em que medirmos os outros seremos da queda, interrompemos a marcha por
igualmente medidos. O metro da tolerân- algumas horas ou por alguns séculos: eis
cia e da indulgência está a nossa disposi- o pecado, ou queda moral: uma interrup-
ção, na avaliação de nossos irmãos. E a ção na nossa evolução espiritual.
fé nos garante que, usando-o com nos-
sos irmãos, ele também será usado para Dura contradição da natureza humana,
medir as nossas ações. que sabe o melhor, deseja o melhor, mas
repentinamente se desestrutura e faz o
Evitemos os sofrimentos morais sendo fi- pior.
eis aos nossos deveres, que o dever é a
súmula de todas as especulações morais.
Vivamos o Evangelho de Jesus, que a lei Usa-se também a palavra "falta", para
do amor a Deus e ao próximo é o resumo descrever nossas quedas morais, a mim
de todas as leis morais. parece uma palavra muito adequada. Pe-
camos porque nos falta alguma coisa: nos
Tenhamos confiança em Deus, que nos falta humildade, desprendimento, cora-
criou para sermos homens e mulheres de gem, etc..
bem, e vivermos a alegria da nossa digni-
dade.
Por que Deus na sua sabedoria permitiu
as quedas morais, o pecado?
52 Bem Sofrer
Ouçamos ainda São Francisco de Sales: ele te conduzir . Se não te livra imediata-
O orgulho é um mal tão comum entre os mente das imperfeições, é para te livrar
homens, que nunca se pode pregar e in- com mais utilidade, e te exercitar mais lon-
culcar bastante, a necessidade que tem gamente na humildade, para que tu sejas
de perseverar na prática da santa e ama- firme nesta cara virtude.
bilíssima virtude da humildade. Ora, a hu- ...
mildade é o verdadeiro conhecimento da Sabes, conforme já te disse muitas vezes
nossa abjeção. Este conhecimento do que deves ser afeiçoado igualmente à prá-
nosso nada, não nos deve perturbar, mas tica da fidelidade para com Deus, e à hu-
suavizar, humilhar e rebaixar. mildade: da fidelidade para que renoves
... as resoluções de servir a Sua divina bon-
É o amor próprio que faz com que nos im- dade, tantas vezes quantas caístes, fican-
pacientemos e sejamos tão vis e abjetos. do atento de cumpri-las sempre; à humil-
dade quando te suceder violar a fidelida-
Mas eu sou tão miserável, tão cheio de de, para reconheceres tua fraqueza e tua
imperfeições! abjeção. Os que aspiram ao puro amor de
- Conheces isto bem? Louve a Deus por Deus não tem necessidade de tanta paci-
te ter dado este conhecimento, e não te ência com os outros, quanto tem consigo
lamentes tanto. És bem feliz por conhecer mesmos.
que não és senão a própria miséria. É preciso sofrer a nossa imperfeição para
É preciso confessar a verdade; somos po- chegarmos a perfeição.
bres criaturas que nenhum bem podemos Digo sofrer com paciência, e não amar ou
fazer. Digo que serás fiel se fores humilde acariciar. A humildade alimenta-se com
- Mas serei humilde? Sim, se quiseres - esse sofrimento. Somos todos capazes de
Mas eu quero. - Portanto és - Mas sinto cair nas mesmas faltas, todos temos de-
que não sou. - Tanto melhor pois isto é feitos e não havemos de maneira alguma
mais uma garantia, e é sinal de que és. nos admirarmos de encontrá-las, pois se
... ficarmos algum tempo sem cair em falta
alguma, virá tempo em que cairemos a
As nossas imperfeições, ao tratar dos as- cada passo em imensas imperfeições, das
suntos tanto interiores quanto exteriores, quais poderemos tirar proveito para a nos-
são uma grande causa de humildade, e a sa humilhação.
humildade produz e nutre a generosidade.
A alma que sobe do pecado a devoção, é
... comparada a aurora, que ao nascer, não
Nosso Senhor permite que não possamos afugenta as trevas de repente, mas pouco
vencer algumas pequenas dificuldades, a a pouco. A cura, diz o aforismo, que faz-se
fim de que nos humilhemos e saibamos devagar, é sempre a mais certa e sólida.
que, se vencemos grandes tentações, não As moléstias do coração como as do cor-
é por nossa força, mas pela assistência de po, vem depressa, a cavalo e de carro,
sua divina bondade. mas retiram-se a pé e a passo, vagarosa-
mente.
Tenha paciência! Se Deus te deixa escor-
regar, é para te fazer conhecer que se Ele Devemos pois ter paciência, e não pen-
não te sustentasse, cairias completamente sarmos curar em um dia tantos maus hábi-
tos que contraímos, pelo pouco cuidado
Salomão diz que a criada que se torna se-
que temos de nossa saúde espiritual; se a
nhora é um animal insolente.
força da tempestade, nos abala algumas
Da mesma forma, a alma dominada sem- vezes, e nos faz tontear, não nos espante-
pre pelas paixões, e que se visse rapida- mos, mas, logo que pudermos, retomemos
mente livre delas e sua dominadora, to- a coragem, e animemo-nos a prosseguir
nar-se-ia orgulhosa e vã em um momento. no bem.
Fica em paz e suporta com paciência tuas Eleva teu coração quando caires, doce-
pequenas misérias. Pertences a Deus, e mente, humilhando-te muito diante de
Dores morais 53
Deus, pelo conhecimento da tua miséria, tranquilas, tendo com ele mais compaixão
sem absolutamente te admirares da que- que ira, exortando-o a corrigir-se, o arre-
da, porque não é de admirar que a enfer- pendimento que tiver será muito mais pro-
midade seja doença, a fraqueza seja fra- fundo, do que se o repreendêssemos com
ca, e a miséria, vil. Deteste no entanto, despeito ira e aspereza.
com todas as tuas forças, a ofensa que Quanto a mim, se tivesse, por exemplo:
Deus recebeu de ti, e com uma grande co- grande cuidado em não cair no vício da
ragem e confiança na Sua misericórdia, vaidade, mas se tal acontecesse, não re-
continue na prática das virtudes que ti- preenderia meu coração com palavras se-
nhas abandonado. melhantes a estas:
Devemos nos entristecer pelas faltas co- "És tão miserável e abominável que, de-
metidas, com um arrependimento forte, pois de tantas resoluções, te deixastes se-
constante, tranquilo, mas não turbulento, duzir pela vaidade! Morre de vergonha!
nem inquieto, e desanimador. não levantes mais os olhos para o céu,
Nada, a não ser o pecado, nos deve en- cego e imprudente, traidor e desleal para
tristecer e afligir; e mesmo esta aflição pe- com o teu Deus!" ou coisas semelhantes.
las faltas cometidas, deve unir-se a alegria Corrigi-lo-ia razoável e moderadamente di-
e a consolação santa na misericórdia divi- zendo:
na.
"Ora, meu pobre coração, eis-nos caídos
Tem grande cuidado em não desanimar no lodo de que tanto prometemos fugir.
quando tiveres caído em alguma falta, Ah! levantemo-nos e abandonemo-lo para
mas humilha-te prontamente diante de sempre; imploremos a misericórdia de
Deus com uma humildade branda e amo- Deus, e esperemos o seu auxílio, para
rosa, que te leve a confiança de recorrer que de ora em diante sejamos mais fortes
prontamente à Sua bondade, tendo certe- e entremos no caminho da humildade. Co-
za que te ajudará a emendar-se. ragem, tenhamos de ora em diante, mais
Quando te suceda cair em alguma falta cautela, Deus nos ajudará e nos tronará
qualquer que seja, pede perdão humilde- fortes"
mente a Nosso Senhor, dizendo-lhe que ...
estás bem certo de que Ele te ama, e te
perdoará. E isto sempre com doçura. Nosso Senhor nos ordenou dizer diaria-
mente, estas palavras do "Pai Nosso":
... "perdoai-nos as nossas dívidas assim
A desconfiança que tens de ti mesmo é como perdoamos nossos devedores" e
boa, porque servirá de fundamento a con- não há exceções neste mandamento, por-
fiança que tu deves ter em Deus; mas se que todos temos necessidade de cumpri-
alguma vez te levar ao desânimo, pertur- lo.
bação, pesar e melancolia, peço-te que a
rejeites como a maior das tentações, e
que nunca permitas que teu espírito discu- Duas palavras a você que achou um tanto
ta ou replique em favor da perturbação ou duras, descaridosas, palavras como "vis e
do abatimento, pelo qual te sintas inclina- abjetos", "não ‚s senão a própria miséria"
do, embora seja com o pretexto da humil- do texto de São Francisco de Sales,
dade. transcrito acima: O orgulho é realmente
um vício tenaz, que necessita ser tratado
... com energia. É triste ver aquele irmão,
Crede-me, as repreensões de um pai, fei- que após milênios de crimes e faltas, por
tas com doçura e cordialidade, têm mais ter conseguido passar alguns anos sem
poder sobre um filho para corrigi-lo, do praticar um determinado tipo de falta, tra-
que feitas com maus modos e cólera.; da ta com desprezo seus irmãos que erram.
mesma forma, quando reconhecemos em O orgulho da virtude nascente matou os
nosso coração alguma falta, e o repreen- seus benefícios.
demos com advertências carinhosas e "Vis", "abjetos", "insignificantes", é para
54 Bem Sofrer
tornar bem claro que não há em nós ne- maiores que nossas forças, não permite
nhum motivo para sentir orgulho. também que contraiamos débitos morais
Há em nós algum valor? Sim, fomos cria- superiores à nossa capacidade de paga-
dos por Deus, somos amados por Deus. mento.

Por termos galgado um degrau de evolu- Reconhecer a culpa, para responsabilizar-


ção valemos mais que o nosso irmão que se moralmente, sim! Ficar sentindo e "cur-
está embaixo? Não, a ação boa vale infi- tindo" a culpa, entravando a reparação,
nitamente mais que a má, mas o justo não!
não vale mais que o criminoso, pois am-
bos são filhos de Deus, e o justo de hoje Aqueles que aceitam as re-encarnações
terá sido o criminoso de ontem, e o crimi- sucessivas, têm motivos de grandes con-
noso de hoje será o justo de amanhã. solações, quando por ocasião das quedas
O justo é mais feliz que o criminoso? Sim, morais.
pois goza da paz da consciência, da ale- Diz Jesus "pagarás até o último ceitil", ou
gria do dever cumprido. É muito melhor seja, Deus é justo. Mas a misericórdia de
ser virtuoso do que pecador, mas se o vir- Deus não contraria a sua justiça, comple-
tuoso se sente superior ao pecador já menta: mas Eu te darei condições para
não é mais virtuoso. pagar.
Se você se considera com algum poder e Na lei das encarnações sucessivas o ho-
algum valor que nasce de você mesmo, micídio é equacionado frequentemente da
cuidado o abismo do orgulho está a seus seguinte forma. Matar é destruir o corpo
pés! de um espírito. A reparação será devolver
Se você considera a sua desvalia e impo- este corpo. Como? Através dos recursos
tência e a infinita valia e a onipotência de da paternidade e da maternidade podere-
Deus, e pensa que, se somar a sua pe- mos dar a nossa vítima um novo corpo.
quenez com a grandeza infinita de Deus, Claro está que na maioria das vezes a ví-
você será de muita valia para seus ir- tima de outras épocas será, nesta encar-
mãos, tendo grande poder para fazer o nação reparadora, um inimigo, que tere-
bem, então você está num caminho bom. mos no próprio lar, o que nos trará vários
inconvenientes, mas teremos a oportuni-
dade de refazer em novas bases o nosso
Algo que, absolutamente, não ajuda nas relacionamento e quitar os nossos débitos
quedas morais é o sentimento de culpa. com as leis divinas.
Derramamos o leite sobre a mesa, a toa-
lha vai sendo molhada, o líquido vai cor-
rendo sobre as cadeiras, precipitando-se O pecado é um aspecto da nossa carên-
sobre o tapete. Qual a atitude correta: fi- cia de evolução que num dado instante se
car a um canto chorando e se culpando torna manifesto.
do leite derramado, ou movimentar-se ra- Seja como exemplo um homicídio. num
pidamente, localizar um pano de pratos, dado instante nossa mão acionou um ga-
endireitar a leiteira, enxugar a mesa, tro- tilho e alguns instantes depois a nossa ví-
car o toalha e ir à padaria comprar um ou- tima estava morta.
tro litro de leite. Do ponto de vista policial, o crime terá
Por vezes dizemos: o meu crime não tem ocorrido num horário preciso, num local
perdão. Esta é uma afirmação de orgulho. preciso.
Por mais que tenhamos procurado fazer o Do ponto de vista espiritual, no entanto, a
mal, não devemos esquecer que a miseri- nossa agressividade nunca foi bem con-
córdia de Deus é infinitamente maior. So-
trolada, egoísmo, orgulho, problemas ain-
mos tão pequenos que nem crimes gran- da não superados. Naquele instante, hou-
des temos condições de cometer. ve apenas o extravasamento de proble-
Aliás, da mesma forma que Deus não per- mas que tinham milênios, como se nosso
mite que sejamos carregados com cruzes organismo espiritual, tivesse longa enfer-
Dores morais 55
midade que repentinamente explodisse Disse-lhes mais:
numa crise sintomática. Certo homem tinha dois filhos.
Desse ponto de vista, pode haver surpre-
O mais moço deles disse ao pai:
sa, com relação às nossas faltas, ou da-
queles com quem convivemos, mas a sur- - Pai dá-me a parte dos meus bens que
presa deve ter sua causa no nosso des- me toca.
conhecimento, de nós próprios, ou de O (pai) repartiu-lhes pois seus haveres.
nosso próximo, porque aqueles males já
estavam presentes desde há muito. Poucos dias depois, o filho mais moço,
ajuntando tudo, partiu para um pais dis-
Assim, o crime deve ser entendido como tante, e ali desperdiçou os seus bens, vi-
um alerta. É uma sirene humilhante e do- vendo dissolutamente.
lorosa, mas uma sirene ainda, que nos
convoca ao trabalho de reforma interior Havendo ele dissipado tudo, houve na-
ou de ajuda, com coragem e devotamen- quela terra uma grande fome, e começou
to. a passar necessidades. Então foi encos-
tar-se a um dos cidadãos daquele país, o
qual o mandou para os seus campos a
A você que está no chão, lamentando pascentar porcos. Desejava encher o es-
suas quedas morais, nós lhe lembramos tômago com as frutas de alfarroba6 que os
Jesus, questionado pelos fariseus, porque porcos comiam, mas ninguém lhe dava
convivia com pecadores: nada.
Então ele lhes propôs esta parábola: Caindo porém em si, disse:
Qual de vós é o homem que possuindo - Quantos empregados do meu pai tem
100 ovelhas, e perdendo uma delas, não abundância de pão, e eu aqui pereço de
deixa as 99 no deserto, e não vai após a fome! Levantar-me-ei, irei ter com meu pai
perdida até que a encontre? E achando-a, e dir-lhe-ei: "Pai pequei contra o céu e
põe-na sobre os ombros, cheio de júbilo; e diante de ti; já não sou digno de ser cha-
chegando a casa, reúne os amigos e vizi- mado teu filho; trata-me como um dos teus
nhos e lhes diz: alegrai-vos comigo, por- empregados.
que achei a minha ovelha que se havia
Levantou-se pois, e foi para o seu pai. Es-
perdido.
tando ainda longe, seu pai o viu, encheu-
Digo-vos que assim haverá maior alegria se de compaixão e, correndo, lançou-se-
no céu por uma pecador que se arrepen- lhe ao pescoço e o beijou. Disse-lhe o fi-
de, do que por 99 justos que não necessi- lho:
tam de arrependimento.
- Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já
Ou, qual é a mulher que, tendo 10 dra- não sou digno de ser chamado teu filho.
cmas4 e perdido 1 dracma, não acende a
Mas o pai disse aos seus servos:
candeia5, e não varre a casa, buscando
com diligência até encontrá-la? E achan- - Trazei depressa a melhor roupa, e vesti-
do-a, reúne as amigas e vizinhas, dizendo: lha, e ponde-lhe um anel no dedo e san-
alegrai-vos comigo, porque achei a dra- dálias nos pés; trazei também o bezerro
cma que havia perdido. cevado, e matai-o; comamos, e regozije-
Digo-vos que assim há alegria na presen- mo-nos, porque este meu filho estava
ça dos anjos de Deus por um só pecador morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi
que se arrepende. achado.
E começaram a regozijar-se. Ora, seu filho
mais velho estava no campo; e quando
4 Dracma = moeda de prata no valor de voltava, ao aproximar-se da casa, ouviu a
seis “óbolos” música e as danças; e chamando um dos
5 Candeia = equipamento de iluminação
feito de um recipiente de barro cheio de
óleo com uma mecha 6 Alfarroba = fruta da alfarrobeira,
56 Bem Sofrer
servos, perguntou-lhe o que era aquilo. conseguiria desfazer, o que fez em alguns
Respondeu-lhe o servo: minutos.
- Chegou a teu irmão, e teu pai matou o Mas vamos, mais uma vez dar o braço a
bezerro cevado, porque o recebeu são e São Francisco de Sales, e ouvi-lo a res-
salvo. peito da calúnia:
Mas ele se indignou e não queria entrar. Dizem que os que têm o preservativo, co-
Saiu então o pai e instava com ele. Ele nhecido pelo nome de óleo de São Paulo,
porém respondeu ao pai: não incham quando mordidos por víboras,
contanto que o óleo seja fino; da mesma
- Eis que há tantos anos te sirvo, e nunca
forma, quando a humildade e a doçura
transgredi um mandamento teu; contudo
são boas e verdadeiras, nos protegem da
nunca me deste um cabrito para eu me re-
inchações e ardor que as injustiças e injú-
gozijar com meus amigos, vindo porém
rias costumam provocar em nossos cora-
este teu filho, que desperdiçou os teus
ções. Se sendo picados e mordidos pelos
bens com meretrizes, mataste-lhe o bezer-
caluniadores e inimigos, nos tornamos or-
ro cevado.
gulhosos, inchados e despeitados, é sinal
Replicou-lhe o pai: que as nossa humilhações e doçuras não
- Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o são verdadeiras e leais, mas fingidas e
que é meu é teu; era necessário, porém , aparentes.
regozijarmo-nos e alegrarmo-nos, porque ...
este teu irmão estava morto, e reviveu; ti-
Se o mundo nos despreza, alegremo-nos;
nha-se perdido, e foi achado.
pois tem razão, somos os primeiros a re-
Levante-se pois, alma caída, busca teu conhecermos que somos desprezíveis. Se
Pai Celestial, que terá para você, junta- nos estima, desprezemos a sua estima e o
mente com seus santos anjos, sempre os seu juízo; porque ele é cego.
braços abertos para recebê-lo, e pede a
você unicamente humildade e reconheci- Ocupai-vos pouco do que pensa o mundo,
mento de suas faltas. não vos importeis com isso, desprezai o
seu louvor e o seu desprezo, e deixai que
Lembre-se, que o Deus único, criador do diga bem ou mal. Em resumo, desprezai
céu e da terra, não é o Deus da condena- igualmente a opinião que o mundo de vós
ção, e sim, o Deus da justiça, do amor e fizer e não lhe ligueis importância. Dizer-
da misericórdia. Não acalente pois suas mos que não somos o que o mundo pensa
misérias, corre para ele, e retome a ale- quando nos louva, é bom; pois o mundo é
gria de viver e a dignidade de reconstruir. charlatão, fala sempre demais, seja bem
ou mal.
Moral da História. ...
• Quem está de pé, pode talvez cair. Meu Deus, de que vale esta reputação,
Quem caiu, certamente tem que se le- que encontra tantos que por ela se sacrifi-
vantar. cam? Na verdade não passa de um so-
• A queda moral ao humilhar-nos, auxilia- nho, um sombra, uma opinião, uma fuma-
nos a vencer o orgulho. ça, uma lisonja, um louvor onde a memó-
ria morre com o som, uma estima que é
muitas vezes tão falsa, que muitos se ad-
Calúnia miram que lhe louvem as virtudes, quando
sabem conter justamente os vícios opos-
A calúnia é como se alguém tomasse um tos, e que lhe censuram os vícios de que
travesseiro de penas e o rasgasse ao estão isentos.
vento forte, e as penas se espalhassem.
Em algum minutos as penas foram leva- ...
das pelo vento. Se aquele que as espa- Os que se queixam da maledicência são
lhou tentasse recolhê-las arrependido, ve- muito sensíveis; é uma pequena cruz de
ria que nem com alguns anos de trabalho palavras que o vento carrega. Esta frase:
Dores morais 57
"ele feriu-me", significando "ele me fez Deus, e me basta estar com Ele, e que Ele
uma injúria" me desagrada; porque existe esteja comigo, para estar em paz
grande diferença entre o zunir de uma Tenhamos sempre fixos os olhos em Je-
abelha e sua picada; é preciso ter o ouvi- sus-Cristo crucificado, caminhemos em
do e a pele muito delicados, para não su- seu serviço com confiança e simplicidade,
portar o ruido de uma mosca e ofender-se mas prudente e discretamente; Ele será o
com seu cantar. protetor de nossa reputação, e se permitir
... que no-la roubem, será para nos dar me-
Nunca deixarei de pensar, se Deus me lhor, ou para nos fazer aproveitar da santa
ajudar, nesta máxima: "que não se deve humildade, uma onça7 da qual vale mais
viver segundo a prudência humana mas, que mil libras8 de honra.
segundo a lei do Evangelho, porque esta Se nos caluniarem injustamente, oponha-
prudencia humana é uma verdadeira toli- mos com paciência a verdade à calúnia;
ce. Oh! Deus! Que Nosso Senhor nos de- se perseverarem, perseveremos na humil-
fenda sempre, e nos faça viver continua- dade; entregando assim nossa reputação
mente segundo o espírito do Evangelho, e nossa alma nas mãos de Deus, não a
que é suave, simples, amável, dando poderemos guardar melhor.
sempre o bem pelo mal. Sirvamos a Deus, com boa ou má reputa-
Estavam bem conformes a prudência hu- ção.
mana, os que inventaram este provérbio: Amai muito a Jesus, quando vosso cora-
"vale mais a boa reputação que a ção estiver orvalhado, pela santa consola-
riqueza", preferindo a honra às riquezas, ção, mas amai-O sobretudo, quando esti-
isto é, a vaidade a avareza. Oh! Deus! verdes mergulhados na dor, na tribulação
como isto está longe do espírito da fé ! Há e aridez, porque assim vos amou Ele no
porventura reputação manchada como a paraíso, e vos testemunhou ainda maior
de Jesus Cristo? Com que injúrias foi ata- amor, entre os açoites, cravos, espinhos e
cado? De quantas calúnias foi vitima? En- trevas do Calvário.
tretanto o eterno Pai, deu-lhe um nome
superior a todos os nomes, e exaltou-o O Santo Bispo de Genebra (Francisco de
quanto ele se tinha humilhado. Sales) consolou os caluniados. Agora,
uma palavra aos caluniadores, aos que
... têm a consciência dolorida por terem,
Se a graça de Deus se justificasse em através da mentira, leviana ou nascida da
mim, desejaria que no dia do juízo, quan- má fé, espalhado a um véu de sombra em
do se manifestassem os segredos dos co- torno do seu próximo a quem deviam
rações, que só Deus soubesse a minha amar e respeitar.
justiça, e que as minhas injustiças fossem O vento levou as penas do travesseiro.
conhecidas de todas as criaturas! Em que Não é mais possível reuni-las. Passando
queremos, vos pergunto, testemunhar de bocas a ouvidos se multiplicaram por
nosso amor para com Aquele que tanto todo o tecido social, à semelhança de
sofreu por nós, a não ser pelas contrarie- uma infecção atingindo um organismo.
dades, repugnâncias e aversões? Ah! dei-
xemos que o nosso coração seja trans- A esses, algumas recomendações evan-
passado com a lança da contradição; ali- gélicas:
mentemo-nos com o absinto e bebamos o Reconcilia-te com teu adversário enquan-
fel e o vinagre das amarguras temporais, to estás a caminho. Façamos o possível
visto ser esta a vontade de nosso doce por propagar e restaurar a verdade, se
Salvador. Deus, eis o espelho de nossa conseguirmos humilhar-nos retratando-
alma, e o polo imóvel sobre o qual giram nos, isso será uma grande vitória aos
os nossos desejos, e todos os nossos mo- olhos de Deus.
vimentos. Depois disto, arme-se o céu,
amotinem-se a terra e os elementos, guer-
reiem-se todas as criaturas; confio em 7 Onça = aproximadamente 28 gramas
8 Libra = 453 gramas
58 Bem Sofrer
Vai e não peques mais. Mas é possível espelho, mas que diferença da visão an-
que a coisa tenha ido longe e tenha gera- terior, quando ela via apenas o fundo das
do situações irreversíveis. O sentimento próprias órbitas.
de culpa não pode paralisar a vida. Por Assim somos nós: Voltados para nós
todos os meios possíveis, delimitemos a mesmos, cegos pelo egoísmo nada ve-
fofoca, a maledicência, a calúnia. Seja- mos, ao pretendermos ver apenas a nós
mos cuidadosos até em comentários so- mesmos. Mas pela misericórdia de Deus,
bre figuras públicas, tão sujeitas a mexeri- nosso interesse é deslocado, em busca
cos. do outro. As pálpebras da renovação se
Aquele que não nascer de novo, não en- abrem. A pupila da sensatez equilibra as
trará no Reino dos Céus. Confiemos na emoções. Os músculos da percepção
perfeita justiça de Deus, que nesta ou passam a nos fornecer imagens nítidas,
numa nova encarnação nos auxiliará a ex- focadas pela cristalina compreensão. E
piarmos os nossos delitos, e trabalharmos nossos irmãos em humanidade, com toda
pela valorização da palavra aqui na terra. sua diversidade de caracteres, com toda
sua riqueza de contrastes surgem a nos-
sa frente. Ocasionalmente, nos examina-
Moral da História: mos refletidos nos nossos próprios atos,
• A consciência tranquila vale mais que a mas que diferença da sombria postura an-
reputação. terior.
• Na dúvida, cala-te.
Esquecer a si mesmo é bom. Mas há
Vícios duas maneiras de esquecer a si mesmo: o
O homem busca a felicidade. Essa busca caminho da virtude e o caminho do vício.
foi plantada nele por Deus, ele poderá Na verdade, da mesma forma que se
tentar ignorá-la, paralisa-la, procurar a fe- bebe para esquecer, se joga para esque-
licidade onde ela absolutamente não está. cer, se usam drogas para esquecer, até o
O que o homem não conseguirá fazer vício do fumo, mais leve, tem um forte
será extirpar do mais fundo de si a procu- componente de auto-esquecimento. E o
ra do melhor, a procura da verdade, a vício traz alguma momentânea alegria.
procura do bem, a procura do amor, resu-
mindo: a procura da felicidade. A beneficência é a virtude que mostra
com mais clareza a alegria do auto-es-
Para que o homem saia de si, procurando quecimento. Aquele que se esquece no
a felicidade, Deus lhe deu a alegria, que atendimento ao necessitado sente de
nada mais é que o esquecimento de si imediato uma profunda e duradoura ale-
mesmo. Toda vez que conseguimos tirar gria.
o foco de nossa atenção de nós mesmos,
é como se uma grande carga fosse tirada E as alegrias do amor, em todas as suas
de nossos ombros e pudéssemos respirar feições, do amor filial ao conjugal, do
aliviados. maternal ao fraternal, como é agradável
pensar no outro, sentir o outro, completa-
Eu imagino que as coisas se passam mente esquecidos de nós mesmos...
mais ou menos assim. Imaginemos uma
pessoa que tivesse os olhos virados para
a parte interna da orbita ocular. Ela não Eis as duas diferenças fundamentais en-
veria nada, e sentiria uma grande angús- tre a alegria proporcionada pela virtude e
tia. De repente seus olhos viram-se para a alegria proporcionada pelo vício: a ale-
as pálpebras, as pálpebras se abrem, a gria da virtude é duradoura e profunda, a
pupila se ajusta para a quantidade certa alegria do vício é passageira e superficial.
de luz, os pequenos músculos do cristali- Uma alimenta e delicia a alma, a outra
no focam as imagens, e eis que ela per- apenas delicia de forma limitada.
cebe o mundo em toda a sua variedade
de formas e cores. Ocasionalmente pode- Façamos uma analogia entre alimentação
rá contemplar sua própria imagem num e alegria. O corpo tem fome, necessita de
Dores morais 59
alimento, a ausência do alimento traz gra- mas se libertem dos seus vícios.
ves transtornos e finalmente a morte. Sabendo disso, à terapêutica da virtude,
Deus nos deu o paladar, porque é Bom, e acrescenta a terapêutica clássica contra a
que quer que atendamos a essa necessi- obsessão: prece sinceras, reforma íntima,
dade básica com prazer. Da mesma for- limpeza de pensamentos e hábitos, e o
ma a alma tem a necessidade de esque- apoio de uma instituição religiosa séria.
cer-se para ligar-se aos outros, e Deus
como é bom fez disso uma coisa agradá-
vel. Se alguém apenas comesse para sa- Vitor Hugo, o grande literato francês, es-
tisfazer o paladar, com alimentos sem ne- creveu um longo poema "O Fim de Satã".
nhum valor nutritivo, ou até prejudiciais,
embora tivesse o prazer de saboreá-los, O poema principia com a queda de Lúci-
dentro em pouco estaria enfrentando to- fer, o mais belo dos anjos que se rebelara
das as dores da desnutrição. Assim é contra Deus: Abandonando o nome de
aquele que busca esquecer-se através do Lúcifer que significa luminoso adota o
vício, delicia de forma duvidosa a alma, nome de Satã. Escuro, lamacento, blasfe-
não a nutre, a intoxica; dentro em breve mo, infeliz, sombrio, colérico, Lúcifer se
estará doente. precipita num abismo sem fim, renegando
a Deus e ao bem, símbolo de todos os ví-
cios.
Uma das dificuldades do vício, é que de- Segue-se a história da humanidade, com
pois de passado o auto-esquecimento, ele seu rosário de dor. Satã vai se enfastian-
exigirá uma dose maior para um novo es- do do mal.
quecimento, pois há que vencer também
novos sentimentos de culpa, e assim su- Aparece no cenário humano Jesus, com
cessivamente. sua mensagem de amor e perdão. Satã
vai se convertendo.
Novas dores, e Satã vai se sublimando,
Ao que tem vícios, o que eu sugiro com até que redimido e purificado, Satã adota
veemência, é que procure combater o ví- novamente o nome de Lúcifer. Volta-se
cio pela prática da virtude, especialmente para Deus, para ser seu mensageiro de
a beneficência. amor e paz.
Cada coração será mais sensível a um Deus não criou nenhum ser voltado eter-
ângulo dos sofrimentos e necessidades namente para o mal. Isso seria contradi-
humanos: Este ao velhinhos desampara- zer-se. Criar alguém para o mal não po-
dos, aquele às crianças órfãs, outro à fa- derá ser jamais entendido como um gesto
mília que enfrenta a miséria, um outro de amor.
ainda aos doentes, ... Ache o seu lado
mais sensível, aquele mais capaz de so- Os homens chafurdam no mal, talvez de-
frer com os que sofrem, chorar com os morem milênios nesta situação, mas, pela
que choram, e por esse caminho procure própria força das coisas, acabam por se
o esquecimento de si mesmo. arrepender, purificar sua imundície inte-
rior, e voltarem-se para o amor a Deus e
Numa atividade perseverante você irá en- ao próximo.
contrando mais forças para vencer as
suas tentações. Lembre: "ajude-se e o A você que luta contra os próprios vícios,
céu o ajudará" uma mensagem de esperança: Se até os
maiores criminosos, no correr das vidas
sucessivas acabam por emendar-se, por-
Em todo vício há um componente obses- que você que não conseguirá a sua pró-
sivo. Referimo-nos aqui a delicada ques- pria redenção?
tão, de que mentes desencarnadas, já li-
bertas do corpo físico, mas aprisionadas
ainda em apetites carnais, ou movidas por Orgulho: É o principal dos vícios. Lamen-
desejos de vingança, se conjugam, para tavelmente quase todos o temos. Consis-
de todas as formas impedir que suas víti- te em se achar mais importante que os
60 Bem Sofrer
demais. A busca da própria importância
consome largas porções de energia e Quando reparas em algo,
leva ao esquecimento dos próprios pro- Deixas de arrojar-te ao todo.
blemas.
Em oposição ao orgulho está a santa hu- Para vir de tudo ao todo,
mildade, que nos liberta através das asas Hás de deixar-te de todo em tudo.
do amor e da sabedoria, rumo ao céu. Oh, E quando o venhas de todo a ter,
como é enfadonho ficarmos constante- Hás-de tê-lo sem nada querer.
mente nos comparando, nos medindo,
procurando argumentos que nos conven- Nesta desnudez acha o espírito seu
çam de que somos superiores aos nossos descanso
irmãos, quando é tão aconchegante nos Porque não cobiçando nada,
sentirmos todos igualmente filhos de Nada o afadiga para cima e nada o
Deus. oprime para baixo
porque está no centro da sua
O orgulho é um vício que exige uma luta humildade.
tenaz para ser extirpado. As humilhações
que Deus nos envia são um precioso au-
xiliar no combate do vício do orgulho. Avareza: O apego excessivo ao dinheiro.
O amor que deveria ser direcionado a
Vigie seus pensamentos, e procure agir Deus e ao próximo, é endereçado ao di-
com sensata humildade, que não é nem nheiro. O avarento se esquece no amor
servidão nem servilismo, saboreia a liber- ao dinheiro.
dade interior, que as conquistas no cam-
po da humildade vão te trazendo. A sen- Dante, na "Divina Comédia" descreve que
sação de liberdade interior proporcionada em certo lugar do inferno haviam dois
pela humildade é um grande incentivo na bandos que ficavam separados por algum
luta contra o orgulho. tempo, depois se arremetiam um em dire-
ção aos outro, se engalfinhavam, se mor-
São João da Cruz, santo e poeta da Es- diam com grande alarido. Passado algum
panha do século 17, amigo de Santa Te- tempo nessa luta corporal, separavam-se
resa d'Ávila, entre seus muitos poemas de cada grupo tomando sua direção, para
orientação cristã, compôs este, que tra- depois voltarem novamente a estranha
duz com perfeição a liberdade interior, ad- luta. Intrigado o poeta se aproxima para
quirida, pelo desprendimento, pela humil- ouvir. Os grupos se engalfinham e gritam
dade e pela modéstia: respectivamente duas perguntas: "Por
Para vir a gostar de tudo, que gastar?" e "Por que guardar?", a ang-
Não queiras ter gosto em nada ústia da falta de resposta os exaspera, e
por isso se agridem. Eram os grupos dos
Para vir a saber tudo, avarentos e dos pródigos.
Não queiras saber algo em nada. Eis dois vícios paralelos, a avareza e a
prodigalidade.
Para vir a possuir tudo,
Não queiras possuir algo em nada A avareza é o apego ao dinheiro para
guardá-lo, a prodigalidade é também ape-
Para vir ao que não gostas, go ao dinheiro, mas para gastá-lo. Eis a
Hás-de ir por onde não gostas. resposta a ambas as perguntas: a Carida-
de. Devemos gastar, quando pelo dispên-
Para vir ao que não sabes, dio poderemos expressar nosso amor ao
Has-de ir por onde não sabes. nosso próximo e a Deus, seja diretamen-
te, seja através de causas nobres, tais a
Para vir a possuir o que não possuis, verdade ou a beleza. Devemos poupar,
Hás-de ir por onde não possuis. pois o dinheiro, como todos os recursos
que Deus nos deu, merece respeito e
Para vir ao que não és, apreço pelas possibilidades de realização
Has-de ir por onde não és. no amor que oferece, e que não devem
Dores morais 61
ser desperdiçadas. A inveja poderá ser material: invejamos a
Por vezes você guarda em excesso, de casa, o automóvel.
outras gasta tolamente? Você se desequi- A inveja poderá ser de talento: invejamos
libra por dinheiro? Se acha pobre? (isso é a inteligência, a criatividade, o dom musi-
indicativo de avareza ou prodigalidade). cal.
Medite sobre a viúva que deu duas moe- A inveja poderá ser afetiva: invejamos o
dinhas no templo de Jerusalém, e não marido, a esposa, a mãe.
perca tempo, saí fazendo a sua pequeni-
na sementeira de alegrias, planeje seus A inveja se expressa nos verbos auxilia-
trocados, examine seu guarda roupa, res: Quero ter o que o outro tem, ser o
seus móveis, seus utensílios e livros, ... que o outro é, estar onde o outro está.
Há algo que será útil a alguém? Ponha-se Devemos opor à inveja, a sublime virtude
a campo, doe. da benevolência, ou seja, desejar o bem
Marília havia tido um contato mais profun- dos outros.
do com a doutrina cristã. Houve por bem Que tal nos voltarmos, com sinceridade,
iniciar a prática da doação. Foi ao seu para dentro de nós mesmos num primeiro
guarda-roupa onde havia três comparti- passo, e irmos descobrindo quais são os
mentos ideais, como na maioria dos guar- nossos próprios desejos e ideais? Não
da roupas: o trapo, praticamente inserví- mais como ladrões dos objetivos e reali-
vel; as roupas velhas para usar em casa; zações dos outros, mas na posição de au-
as roupas do dia a dia para o trabalho; e tores do próprio destino, criando para nós
finalmente, as roupas domingueiras, de mesmos, nossos planos, com indepen-
festa. Iniciou dando os trapos, sentiu al- dência?
guma resistência interior, ainda poderiam
ser úteis, em alguma faxina em casa, po- E num segundo passo, que tal esquecer
deria se valer deles, venceu essas dúvi- um pouco o que o nosso próximo é tem
das e deu. O tempo foi passando, Marília ou está, e procurarmos descobrir o que
foi se conscientizando, vencendo suas re- ele necessita, onde podemos auxiliá-lo, o
sistências, e foi avançando no guarda que temos de bom para repartir?
roupa: roupas de casa, roupas de traba-
lhar. Até que um dia resolveu dar uma
roupa domingueira. Passou a noite em Vaidade: É o vício do aplauso. O aplauso
claro, tão bonito o vestido, tinha compra- embriaga como um vinho tinto, sobe a ca-
do com tanto gosto, angustiada embora, beça, deixa-nos corados e bamboleantes,
venceu todo sentimento de posse e deu. e cremos que pelo aplauso conseguire-
Venceu a si mesma e prosseguiu. Anos a mos nos esquecer. É evidente que não
fio doaria o 13ª salário para instituições estamos identificando vaidade com boa
de caridade. Casada reservava 1/3 do or- aparência. Alguém pode estar vestido dig-
çamento doméstico para a beneficência. namente e ser um exemplo de modéstia,
Todas essas doações a fizeram mais feliz e outro aos farrapos ser um exemplo de
que o mais belo dos vestidos e a mais vaidade.
fina das joias. Nós, os vaidosos, buscamos o aplauso a
Não dê esmola. A esmola fere, humilha. qualquer preço, em todo tipo de gestos,
Presenteie. Presenteie quem você nunca sejam palmas, cumprimentos, elogios, ou
viu. Presenteie o mendigo que pede a simples olhares de admiração.
você uma esmola. Isso mesmo, ele pediu Na busca do aplauso, por vezes enfrenta-
uma esmola, você deu muito mais, deu mos as situações mais ridículas. Um de
um presente envolto em alegria e calor nossos erros, de nós os vaidosos, é fingir-
humano, na forma de dinheiro talvez, masmos ignorar que aqueles que nos cercam
foi um presente, a seu irmão. sabem que somos vaidosos. Quanto sorri-
Inveja: Esquecer os nossos próprios de- so irônico pelas nossas costas, depois
sejos, passando a desejar o que o nosso dos elogios falsos.
próximo tem. Procuremos em tudo a modéstia. Só nos
desgastemos com a evidência, quando
62 Bem Sofrer
absolutamente necessário. O anonimato é risco, medo do desconhecido, medo da
repousante, traz energias novas para o responsabilidade.
espírito e no mais das vezes cria as con- Seja qual seja o setor em que a preguiça
dições ideais para as boas ações. Evite- nos aprisionou, é preciso fugir. Isso mes-
mos portanto o destaque. mo fugir, usemos nossa habilidade em fu-
Lembremo-nos, quando a vaidade nos as- gir do esforço, para fugir da preguiça.
salte, de Deus. Ele o criador máximo, é o Para bolar o nosso plano de fuga, apoie-
grande anônimo, invisível, discreto, dando mo-nos da prece. Benfeitores espirituais
infinitas oportunidades a suas criaturas. nos ajudarão bondosamente nesta fuga.
Estimule e não envaideça: se teu irmão Sejamos sorrateiros, iniciemos por peque-
está num caminho bom diga a ele: "vá em nas tarefas: ler um livro, visitar um amigo,
frente", "não desista". Mas não há nenhu- arrumar uma cozinha. Oh, agradável sur-
ma necessidade de dizer: "você é o me- presa! Ao tentarmos fazer pequenas tare-
lhor", "como são grandes as suas qualida- fas, descobriremos que não são tão difí-
des". Estímulo, sim! Elogios desproposita- ceis assim, e a nossa insegurança come-
dos, não! O estímulo leva ao bem, o ça a se desfazer. Mas prossigamos com
aplauso ao egoismo, à vaidade. perseverança, até escaparmos definitiva-
A competição, qualquer que seja: profis- mente das cadeias da preguiça.
sional, comercial, afetiva é um grande in-
centivo a vaidade. Nós que temos proble-
Luxúria: O auto esquecimento pela prati-
mas com a vaidade, tracemos a nós mes-
ca exagerada dos prazeres do sexo.
mos uma regra: "evitar competições", e se
porventura formos forçados a isto, fazer Sexo: eis um ponto delicado em todo ser
de tudo para que eventuais vitórias não humano. Nesta força básica se apoia o
nos subam à cabeça. equilíbrio psicológico, e se enraíza o
amor.
Busca a aprovação de Deus com sinceri-
dade. Comparada à paz de consciência, o Na cama, o prazer que o outro nos pro-
aplauso humano será como uma n‚voa porciona, faz-nos esquecer de nós mes-
desfeita ao sol da manhã mos. Isso é bom, e Deus dispôs as coisas
exatamente dessa maneira.
Na luxúria, entretanto, esquecemos a nós
Preguiça: É esquecer-se no ócio. É dor- e ao outro e mergulhamos numa espécie
mir acordado. Algumas vezes é dormir de masturbação a dois.
mesmo. A preguiça tem muitas faces:
O sexo é o alicerce, a intimidade afetiva é
• preguiça moral: fugir ao esforço de ad- a residência confortável agasalhando o
quirir virtudes, perder vícios, auto apri- lar. O sexo é a tubulação, a afinidade é
morar-se. água cristalina, dessedentando as almas.
• preguiça intelectual: fugir ao esforço de O sexo é o recurso, o meio, o amor é o
aprender, objetivo.
• preguiça profissional: fugir ao trabalho
• preguiça afetiva: fugir da busca afetiva, Os desequilíbrios do sexo estão tão liga-
e do aprofundamento dos afetos exis- dos aos desequilíbrios da alma, que al-
tentes. guns, inadvertidamente, chegaram ao
• preguiça doméstica; fugir aos deveres e exagero de afirmar que todos os desequi-
afazeres da casa. líbrios da alma têm componentes sexuais.
• ... O que devemos almejar, nós que nos de-
sequilibramos no sexo, é a santa virtude
Repetimos propositalmente a palavra "fu- da castidade. A castidade não é abstinên-
gir". Nós os preguiçosos, estamos em cia, é equilíbrio. A corrente d' gua corren-
fuga. Atemoriza-nos o esforço. do sem freio leva tudo na enxurrada, re-
Alegamos cansaço, falta de energias, presada, estagna, apodrece. Como é
mas no fundo a preguiça está intimamen- agradável ver o regato correndo calmo,
te ligada a covardia, ao medo. Medo do no meio de um campo florido.
Dores morais 63
Nós, os espíritos encarnados e desencar- com as quais estejamos seguros de não
nados na Terra, somos seres sexuados. cair em deslizes sexuais.
Homens e mulheres, masculinos e femini- Cultivemos o casamento. Concentremos
nos. Havendo apenas a diferença que toda a nossa capacidade erótica no nosso
quando encarnados as atividades sexuais cônjuge. Elevemos o sexo pela troca do
podem gerar novos corpos físicos e tam- sentimento, da solidariedade, do respeito
bém as obras mais diversas, pois homem mútuo. Evitemos a infidelidade por todos
e mulher formam uma parceria de gran- os meios, seja fugindo de ocasiões evitá-
des possibilidades. Desencarnados não veis, seja resistindo em encontros inevitá-
temos esta faculdade de geração de cor- veis. Apliquemo-nos a considerar na pes-
pos físicos, mas apenas de obras espiri- soa de sexo oposto, qual o papel mais
tuais. adequado para ela: irmã, mãe, filha, ir-
Deverei sentir toda mulher, como mulher, mão, pai, filho. Oremos a Maria, mãe de
ou seja como um ser feminino, com todos Jesus e nossa Mãe Santíssima, que ela
os atributos da mulher, da sensibilidade à nos auxiliará na evolução em direção à
menstruação, da delicadeza de sentimen- castidade.
tos à gestação. Amar implica em compre- Uma palavra de incentivo: todo sonho
ender o outro com todos os seus atribu- dourado, todo anseio romântico, todo
tos. Amar cristãmente as mulheres, não é ideal de vida a dois, encontrarão sua res-
supô-las assexuadas, é compreender e posta nesta palavra: castidade.
aceitar todos os atributos, problemas e
necessidades impostos pela feminilidade. Gula e fumo: São vícios menores. En-
Amar as mulheres, conscientes de sua quanto como ou fumo, esqueço.
condição feminina, não significa desejá- Embora vícios menores, pois sua ação se
las. O desejo sexual deve ser exclusivo, restringe ao viciado, podem ter uma con-
ser dirigido a uma única mulher. O ho- sequência funesta: o suicídio involuntário.
mem é no fundo de sua alma monogâmi- O suicídio é um crime grave. Há no entan-
co. to duas situações diversas: o suicídio do-
Ser um homem casto, não é ignorar a se- loso, onde o infeliz tem a intenção de pôr
xualidade da metade do contingente hu- termo a própria vida, e o culposo, onde,
mano, é, sim, estabelecer vínculos com por irresponsabilidade, abreviamos nos-
as mulheres que Deus nos permitiu co- sos dias.
nhecer, nas intimidades tão doces de A nós, gulosos, é difícil resistir a toda sor-
irmã, de filha, da mãe, elegendo, se Deus te de guloseimas e quitutes, que nos per-
permitir, uma única mulher com a qual es- turbam a digestão, debilitam o nosso cor-
tabeleçamos vínculos de esposa. po e arrefecem nossas energias.
As mesmas colocações expostas acima A nós, fumantes, depois daquele café
valem para a mulher casta. bem saboroso e quente, é quase impossí-
A castidade não é conquista fácil. No pla- vel resistir a uma tragada onde devanea-
no espiritual, toda ligação poligâmica é in- mos, tal qual nossa cabeça fosse um cír-
cestuosa, porém vagamos no mar huma- culo de fumaça levado pela brisa.
no, muitas vezes à deriva, sem um leme Um conhecimento útil: em nível sutil, em
afetivo que nos dirija convenientemente e, nível de corpo espiritual, a alimentação
com muita frequência, trocamos papeis. corpórea está ligada a alimentação afeti-
Jesus foi claro: toda vez que você desejar va. A respiração está ligada a expressão.
em pensamento uma mulher que não a Brincando um pouco: minha sobrinha ar-
sua, você praticou o adultério. E nosso rumou um namorado, abriu o coração, fe-
pensamento desarvorado muitas vezes chou a boca, e perdeu vinte quilos.
constrói as mais tresloucadas hipóteses.
Sendo a gula e o fumo vícios menores,
Mas não devemos desanimar. Meditemos superficiais, o apoio psicológico, as várias
continuamente na dignidade do sexo terapias, o desembaraçamento afetivo e
oposto. Aprofundemos os nossos relacio- de expressão, muito nos ajudarão a supe-
namentos com pessoas do sexo oposto,
64 Bem Sofrer
rá-los priamente: purificação.
A vontade de Deus é que sejamos bran-
dos e pacíficos. Deus não quer a morte
Cólera: É o auto esquecimento pela vio-
do pecador, mas que ele se arrependa e
lência. É sairmos de nós buscando o ou-
viva. Deus quer nos perdoar, mas exige
tro, para destruí-lo, e nesse jogo de des-
que perdoemos.
truição esquecemos os nossos próprios
problemas. Pelo menos é neste sentido Há muita coisa para ser destruída na ter-
em que tomamos aqui a palavra. ra: ignorância, miséria, preconceito, hipo-
crisia. A isso devem ser dirigidas nossas
O mundo está intoxicado de cólera. Mi-
melhores possibilidades de luta.
lhões de toneladas de papel são utiliza-
dos, para levar aos leitores as emoções Esfacelar corpos, torturar moralmente,
da agressão ao próximo. O cinema, a te- destruir edificações e objetos ainda úteis,
levisão também exploram o vício das al- agredir animais e fenômenos atmosféri-
mas que se embriagam com a agressão. cos, mesmo que seja, apenas na imagina-
ção, auxiliada pelo filme tolo, só fará
Os espetáculos e livros de violência, tam-
agravar problemas e testemunhar inércia
bém a justificam pela vingança, que é as-
e acomodação.
sociada a justiça.
Ainda aqui a prece. Um recurso que uso e
Inicialmente é proposto um vilão: Qual-
que pode ser útil a quem me lê, é o se-
quer ser, dos reinos mineral, vegetal, ou
guinte: quando sinto a cólera chegando e
animal, ou hominal, real ou imaginário,
um véu vermelho descendo sobre meus
pode ser rapidamente transformado em
olhos, procuro um copo d' gua, faço uma
vilão: animais, que irão desde a útil abe-
prece, e peço o socorro da misericórdia
lha, até as inocentes e dizimadas baleias;
divina. Tenho sido atendido. Aquele copi-
povos, como nações indígenas (muito
nho de água, tão humilde e casta, como
usadas nos primeiros 70 anos deste sécu-
diria São Francisco de Assis, enriquecido
lo), adversários de sistemas econômicos
pelos fluidos do céu, amortece meu lado
(capitalistas para os comunistas e comu-
ainda animalesco e consigo comportar-me
nistas para os capitalistas), seres do mun-
como um ser humano.
do espiritual, qualquer coisa enfim, vira
um vilão; na mente doentia desses auto- A cólera é dita um vício secundário, por-
res, até uma colorida bolha de sabão se que nasce ou do orgulho ferido, ou da vai-
transforma num monstro. dade não atendida, ou da inveja sufoca-
da, ou seja é um vício que é consequên-
Em complemento é criado um herói, que
cia de outro. Mas a cólera renega sua ori-
após ter sofrido alguma injustiça por parte
gem e rapidamente põe o manto da justi-
do vilão, parte para a vingança, distribuin-
ça, deixando para fora as mãos de lama.
do socos e pontapés, espetadadelas de
Ser capaz de tirar rapidamente o manto
arma branca e tiros, quebrando tudo o
da hipocrisia quando sinto a cólera e ad-
que encontra pelo caminho, de automó-
mitir com sinceridade, que no caso o que
veis a palácios, de ossos a reputações...
foi ferido foi meu orgulho ou minha vaida-
Após ter reduzido o vilão a pedaços, há de, tem me ajudado a vencer ataques de
alguns minutos de relativa tranquilidade cólera.
no espetáculo, que se encerra.
Evidentemente, espíritos trôpegos que so-
Toda vingança é injusta. Toda vingança é mos, devemos fugir de situações provoca-
falta de fé e falta de amor. A vingança tivas.
pressupõe a ausência de Deus. E Deus
Ainda aqui, o re-equilíbrio afetivo pode
sendo onipresente, sua ausência é uma
ser um precioso auxiliar na eliminação da
acabada mentira.
cólera.
Mas, Deus nos pôs no mundo para que
lutemos dentro de nós e fora de nós. A Alcoolismo e Toxicomania: É o auto-es-
palavra mundo é antônima de imundo. quecimento através de substâncias que
Mundo significa portanto puro, mais pro- afetam o sistema nervoso.
Dores morais 65
Aqui, como em nenhum outro vício, ficam sim, sentir a emoção do risco de perdê-
evidenciadas as ligações entre doença e los ou ganhá-los.
vício moral. Percebemos que o jogo aparece no afeto,
Muito importante o apoio médico. Muito quando mesmo encontrando o parceiro
importante o apoio moral. Indispensável a correto, logo nos enfastiamos e vamos
vontade do paciente. em busca da aventura de localizar outro.
Conheci alguns alcoólatras que se recu- Muitos adultérios também podem ser en-
peraram. tendidos como jogo. Neste caso, o jogo é
enganar o parceiro, conseguir traí-lo sem
Lembro-me de um primo, mostrando a pa- que ele perceba. Toda a emoção e o
rede suja de sangue. Era seu próprio san- medo de ser descoberto, a elaboração in-
gue. Numa alucinação alcoólica, ele acre- telectual de situações que permitam o en-
ditava esmurrar um inimigo, enquanto es- contro secreto, tudo isso frequentemente
murrava o próprio rosto. Muitos problemas pesa muito mais que algum afeto porven-
afetivos. Apaixonara-se por uma artista tura existente entre os amantes.
circense, um filho indesejado estava a ca-
minho, uma rota de fuga rápida para Nos negócios, existe uma relação entre
aquela situação foi o álcool. Ele fugia da lucro e risco. O bom negociante procura
situação, mas a situação se apegava um ponto ótimo que lhe favoreça o maior
cada vez mais a ele. A criança morreu, o lucro com o menor risco. Se nos negó-
choque fê-lo voltar a realidade. O corpo, o cios, começamos a procurar altas taxas
bolso, o coração e a consciência estavam de risco, sem o lucro correspondente, é
cheios de problemas. Mas resolvendo um evidente que estamos jogando e não, ne-
a um conforme o possível, resignando-se gociando.
face ao irremediável, re-equilibrou-se. Se o jogador perde, isso o ajuda a pros-
Nunca mais bebeu. seguir no vício, pois a perda alivia os
Se quiser você vencerá, mas não poupe seus sentimentos de culpa, se o jogador
recursos nessa guerra, pois é uma guerra ganha isso o leva a prosseguir também,
cara. Se você conseguir admitir o vício, a pois a vitória enche a sua cabeça de fan-
primeira metade do caminho foi percorri- tasias.
da. Jogar, em outra acepção, é lançar fora.
Ter consciência de que sua vida, sua en- Quando jogamos, fazemos isso: jogamos
carnação presente e sua próxima estada fora tempo, oportunidades, dinheiro, afe-
no plano espiritual estão em risco, o auxi- to, talvez a própria vida.
liarão a jogar tudo nesta batalha. Isto é Dominar o colega, ganhar uma disputa
mais um terço. com um vizinho, tudo isso poderá se
O restante é o apoio médico, espiritual e transformar em jogo. Conheci um jogador,
afetivo que você conseguir. E esta ultima que por vezes, estando com seus compa-
parte é a mais fácil, O apoio ao alcoólatra nheiros de vício e não tendo cartas de ba-
ou toxicômano que deseja recuperar-se é ralho, apostavam sobre tudo: em qual dos
um dos pontos onde hoje se patenteia a açucareiros uma mosca sentaria primeiro,
compaixão humana em todas as latitudes. se a placa do próximo carro a virar a es-
quina seria par ou ímpar, etc..
Jogo: É conseguir o auto esquecimento
Inicialmente, a vigilância para perceber-
através da emoção do risco. É talvez o ví-
mos quando a emoção do risco está se
cio mais difundido. Além dos jogos de
sobrepondo aos objetivos reais. Detecta-
azar, que são em menor número, há ou-
do o problema, mudança imediata de ati-
tros tipos de jogos bem mais numerosos:
tude.
o jogo afetivo, o jogo do poder, o jogo fi-
nanceiro. Uma segunda linha de combate ao vício
do jogo, mais sutil: diminuir em nós a
Naturalmente, a busca do afeto e do pão
emoção do risco. Se não mais sentirmos
envolvem riscos. O comportamento vicio-
emoção no risco o jogo será tão enfado-
so aparece quando o mais importante não
nho, que instintivamente nos afastaremos
é mais encontrar o afeto, ganhar o pão, e
66 Bem Sofrer
dele. Mas, como diminuir a emoção cau- inclina mais e mais.
sada pelo risco? Há uma linha de liberdade no ser humano
1. Exercermos atividades lúdicas, no senti- que não pode ser rompida. Cada um é se-
do que alguns filósofos cristãos atri- nhor da própria vida e do próprio destino.
buem à palavra. Aquelas atividades que Todavia, no universo há um ser que é
fazemos tendo como objetivo elas mes- criador, mantenedor, e senhor de todas
mas. Por exemplo, visitarei minha mãe, as vidas e de todos os destinos. Este ser,
apenas pelo prazer de visitá-la, e não que é Deus, estabeleceu a lei do progres-
porque há algum constrangimento social so espiritual, do aperfeiçoamento moral e
ou moral, ou algum outro interesse. Se da felicidade para todas as suas criaturas.
você trabalha pelo prazer de trabalhar, o
trabalho será uma atividade lúdica. Na Recorram a Ele, que nenhuma prece Ele
medida em que o trabalho é feito não deixa sem resposta, e pelos mecanismos
por prazer, mas por necessidade finan- da prece, Ele os intuirá quanto à melhor
ceira, o trabalho vai deixando de ser lú- atitude, e lhes dará forças necessárias
dico. As atividades lúdicas alimentam para fazer tudo o que for conveniente.
nossa alma de paz, não deixando espa- Como não existe moléstia interminável,
ço para a inquietação, matéria prima do também não existe vício interminável. Se
vício do jogo. a prece não interrompe o vício de pronto,
2. Centrar nossos interesses no presente, certamente diminuirá a sua duração. So-
cuidando do dia de hoje, entregando o mos seres eternos, temos no tempo nos-
dia de amanhã a Deus, aliviando expec- sa força, mas por isso mesmo somos
tativas face ao amanhã. Pensa: se Deus obrigados a valorizá-lo. Um mês que se
veste a um lírio do campo, ou cuida de ganhe na diminuição do processo enfer-
um pardal, por que devemos ter tanta in- miço já é grande ganho.
quietação?
3. A doutrina Zen, com a sua afirmação pe- Lembre-se, também que acima das suas
remptória do presente, pode ser de responsabilidades relativas e precaria-
grande valia àqueles que têm o vício do mente atendidas, paira a infinita e perfeita
jogo. responsabilidade de Deus.
Moral da História.
Um item escrito para você, mãe insone, • O vício se combate com a virtude.
esperando o marido alcoólatra, que che- • Os vícios são inimigos que venceremos.
gará fazendo estardalhaço e atormentan- Fatalmente.
do seus filhinhos pequenos, que pouco a
pouco estão passando a ver o seu mari- Tristeza
do, não como pai, mas como um estranho
atormentado... Você que nesta hora está triste, examine
sua tristeza.
Para você que sente um frio na alma,
quando se lembra que sua filha vem to- Se sua tristeza tem uma origem objetiva
mando drogas em festas de embalo... que você identifica prontamente, como
por exemplo, itens mencionados neste li-
Para você, homem maduro, que se entris- vrinho: enfermidades, problemas morais,
tece com o amor sucessivamente maior afetivos, etc.., você deve ser consolado
que seu pai demonstra pelo dinheiro, e com carinho e doçura.
cujas justificativas, de deixar bem a famí-
lia não convencem mais... Mas se você sofre, por ser triste. Se o
motivo dessa tristeza é um tanto obscuro.
A todos vocês que amam o viciado, dese- Se vem aquela amargura subindo do co-
jam sua libertação, mas sentem-se impo- ração, e por mais que busque, não acha
tentes, pois os seus entes queridos não qual a fonte que está enchendo de fel o
abrem sequer o diálogo, se fecham feito cálice de sua vida, perdoe-me, mas a pru-
uma ostra quando se toca no assunto, dência exige que eu trate você com ener-
mas por mil indícios, vocês estão perce- gia.
bendo que o plano por onde descem se
Dores morais 67
A má tristeza reflete assim: Deus é severo
Este livrinho não tem propósitos proseli- e injusto comigo, pois os outros são mais
tistas, não buscamos adeptos para esta felizes que eu. Esse pensamento vem de
ou aquela corrente de pensamento. É me- um secreto orgulho, que os convence que
lhor que a maneira de pensar de cada um ninguém deveria ser mais perfeito do que
seja o fruto do próprio amadurecimento, e eles.
não da persuasão de algum líder de seita. A má tristeza perde o coração e o adorme-
ce, torna-o inútil, fazendo-o abandonar as
boas obras. A boa tristeza dá força e cora-
Primeiro alerta enérgico para as tristezas gem, não deixa, não abandona uma boa
sem causa definida: resolução; foi essa a tristeza de Nosso Se-
Atenção! Espíritos desencarnados, amar- nhor, que apesar de tão grande e a maior
gurados com seus fracassos na ultima en- que existiu, não lhe impediu a oração e o
carnação, podem estar derramando, em cuidado de seus apóstolos. E Nossa Se-
processos obsessivos velados, sua me- nhora tendo perdido seu filho, ficou muito
lancolia sobre você. triste; mas não deixou de procurá-lo
apressadamente, como também fez Mada-
Nesse caso, não identificamos a causa da
lena, sem ficar a lamentar-se e a chorar
tristeza, porque a causa não está em nós
e sim, nos espíritos sofredores. Devemo- inutilmente.
nos valer da terapêutica desobsessiva, e
nos libertarmos dessa melancolia que a Ontem, conversava com alguns espíritos
nada aproveita. em sofrimento através de médiuns ami-
Terapêutica desobsessiva: reforma ínti- gos. Os médiuns passavam por dificulda-
ma, prece, higiene mental, passes, reuni- des para transmitir os pensamentos dos
ões de desobsessão realizadas em gru- espíritos perturbados, os espíritos tinham
pos espíritas confiáveis. dificuldades para compreender onde esta-
vam, no meio dessas dificuldades estava
a minha dificuldade em ajudar moralmen-
Posta de lado essa tristeza semeada em te aos outros. Felizmente, eu tive uma
nós pelos espíritos sofredores, vamos boa tristeza, e a expressei numa prece:
agora refletir sobre a tristeza própria,
apoiando-nos em ideias de São Francisco - Mãe Santíssima, eu sou um verme, va-
de Sales. lho muito pouco, mas eu sei que a Senho-
ra existe, e sei que seus ouvidos sensí-
Há a boa e a má tristeza. veis e onipresentes ouvem até os vermes
A tristeza que vem de Deus, diz São Pau- mudos. Ajuda esses médiuns que se es-
lo, opera a penitência para a salvação; e a forçam, embora suas limitações, para fa-
tristeza do mundo opera a morte. A triste- zer o bem. Ajuda a esses espíritos ator-
za pode pois ser boa ou má segundo os mentados. Sei que fizeram muitas coisas
efeitos que nos pode causar. É verdade erradas, mas pelo menos eles consegui-
que produz mais maus efeitos do que ram chegar até aqui e há um anseio de
bons, porque só há dois efeitos bons a mi- felicidade nos seus corações.
sericórdia e a penitência, ao passo que há Nesta tristeza ouve misericórdia com
seis maus: a angústia, a preguiça, a indig- aqueles que me cercavam, e houve um
nação, a inveja, o ciúme e a impaciência. sincero arrependimento por eu ser como
É por isso que diz o sábio que a tristeza sou.
mata muitas pessoas e que nada ganha- Ontem também tive várias más tristezas:
mos com ela, porque se há dois bons re- tristeza por não me darem mais atenção;
gatos que provem da fonte da tristeza, há tristeza por não me terem mais considera-
seis maus. ção; tristeza por aborrecerem meu repou-
A boa tristeza reflete assim: Eu sou uma so; tristeza porque as outras pessoas não
criatura miserável, vil e abjeta e portanto são como eu quero que sejam. Em todas
Deus exercerá em mim a sua misericórdia essas tristezas estiveram presentes o or-
68 Bem Sofrer
gulho e o egoísmo, encapuzados pela loucura, cometeu uma falta, e não pode
auto-estima, e pelo fazer-me de vítima. obter perdão de Deus.
A personagem de uma tragédia que não
Segundo alerta para as tristezas com cau- mais teve condições de trabalho.
sas obscuras: A vítima indefesa que todos queriam as-
Caim é o grande exemplo da má tristeza, sassinar.
como nos narra a bíblia:
Havia dois irmãos, filhos de Adão: Caim, Mas, conhecendo toda a história e anali-
o mais velho, era agricultor, Abel o mais sando-a, quanta maldade encontramos
jovem, era pastor. As ofertas que Abel fa- sob a capa da má tristeza.
zia a Deus eram aceitas, as de Caim, O hipócrita, cheio de erros que, por serem
não. Caim encheu-se de inveja e de ciú- tantos, não cabiam na sua casa e "jaziam
mes, ficou com um semblante descaído, a sua porta", encobrindo seus crimes com
como se dizia antigamente. uma falsa devoção a Deus.
Deus manifestou-se a Caim, dizendo que O invejoso, que disfarça seus ciúmes do
suas ofertas não eram aceitas porque o irmão, acusando Deus de injusto.
"pecado jazia a sua porta". Que se ele
praticasse o bem, suas ofertas seriam O malvado, que mata o próprio irmão,
aceitas. usando o isolamento da intimidade para
livrar-se de testemunhas.
Ao invés de emendar-se, Caim, mais des-
peitado ainda e, estando a sós com Abel, O criminoso, que oculta o crime, inver-
matou-o. tendo a situação, dizendo que não tinha
obrigação de guardar o irmão.
Deus perguntou a Caim:
O orgulhoso, que acha o seu crime maior
- Onde está Abel o seu irmão. que a misericórdia de Deus, escondendo
Caim, hipócrita, respondeu: o orgulho numa atitude falsa de auto-con-
- Sou eu guarda do meu irmão? denação extremada.

Deus o repreendeu: O preguiçoso, que decide não mais traba-


lhar, pretextando a tragédia familiar que
- O sangue do teu irmão grita por Mim. ele mesmo provocara.
Caim, orgulhoso do seu crime: O assassino irresponsável, transferindo à
- A minha maldade é maior que a Sua mi- sociedade os seus pendores homicidas,
sericórdia. afirmando que todos tentarão matá-lo.
O egoísmo de Caim prosseguiu:
- Não mais trabalharei, viverei como um Toda vez que, num esforço de conscienti-
vagabundo e fugirei das pessoas, pois to- zação, acharmos em nós uma melancolia
das quererão matar-me. aparentada com a melancolia de Caim,
fora com ela! Fronte elevada ao céu, um
sorriso bonito afivelado ao semblante,
Se encontrássemos Caim, com seu sem- mãos ocupados no trabalho, responsabili-
blante tristonho, sua aparência de vítima, dade moral, solidariedade, fé em Deus.
sua invencível tristeza, e o ouvíssemos, Se de outro lado, o sorriso nos foge, num
que quadro teríamos: momento de seriedade, conscientes do
O devoto que orava a Deus e foi injustiça- nosso desvalor e grandeza do poder de
do nas suas preces. Deus, vivamos com dignidade esse mo-
mento, porém não o prolonguemos muito,
O inocente que foi responsabilizado pelo que a virtude está na alegria.
assassinato do próprio irmão, simples-
mente por não servir-lhe de guarda.
O pobre homem que, num momento de Moral da História:
Dores morais 69
• Mesmo a tristeza justificada não merece mas ele tinha que se manter atento, para
mais que alguns momentos. não deixar escapar erros e não vir a per-
• Tristeza não paga dividas materiais ou der o "bico". Aquilo era um verdadeiro su-
morais. plício psicológico, repetindo-se noite após
noite.
Tédio
Algumas linhas de raciocínio expostas O trato de doentes em família também
para a tristeza se aplicam ao tédio: pode ser muito tedioso.
Por vezes o tédio deriva de uma vida va- Vera, há 14 anos, não ia ao cinema ou
zia. Neste caso elimine o tédio o mais ra- qualquer outro tipo de diversão. Adotara
pidamente possível, enchendo de amor o Lúcia, um bebê que tinha problemas cere-
vazio de sua vida. brais e ósseos, muito graves. Vera sabia
O uso de viagens, vida social intensa, clu- disso mas movida por um forte impulso in-
bes de entretenimento para encher a vida terior adotara Lúcia e se justificava assim:
são inócuos. Pelo seu caráter superficial, "Se todos quisessem apenas os perfeitos,
são adequados para estabelecerem al- a quem Deus confiaria os doentinhos?".
guns vazios necessários numa vida ocu- A sua condição financeiras permitia que
pada. Se a vida está vazia, providências pagasse apenas uma enfermeira que tra-
desse tipo só a tornarão mais vazia. tasse de Lúcia, no horário comercial.
Há muitos carentes de amor: crianças ór- Esse horário Vera aproveitava para suas
fãs de pais vivos, velhinhos estéreis de fi- atividades profissionais. Como Lúcia exi-
lhos vivos, mães abandonadas, gisse dedicação constante, o restante das
doentes, ... Auxiliando todos esses caren- horas de Vera era para a sua filhinha ado-
tes de amor, suas carências serão supri- tiva.
das, sua vida se encherá do colorido de Quando a visitei, Vera estava exultante,
tantas outras vidas. porque após 14 anos, Lúcia aprendera a
Um reparo. O auxílio que vem de cima dar beijinhos. Uns beijinhos um tanto des-
para baixo, a doação embalada na esmo- coordenados, cheios de saliva (eu tam-
la, o orgulho que vende o favor exigindo bém ganhei um), mas que, para a mãe
paga imediata em submissão e gratidão, extremosa, valiam mais que um diploma
o preconceito social que traça divisões universitário.
entre os que tem (classe alta) e os que Embora todo esse amor, era dura a vida
não tem (classe baixa)... Nenhuma des- de Vera: uma monotonia aliada a uma
sas atitudes tem algo a ver com o amor disciplina férrea de horários e tarefas.
exemplificado por Jesus. Tudo isso se estendendo por 14 anos, dia
Não nos esqueçamos de que a prática da após dia, mês após mês, ano após ano, e
autêntica beneficência, é uma das fontes sem perspectivas de solução, a não ser
de felicidade aqui na terra. pela morte de Lúcia, pois creio que se
Vera fosse libertada pela morte, o amor
extremo a Lúcia a manteria fiel a sua filhi-
Há um tédio real, que surge em algumas nha querida.
vidas como autêntica expiação. Pais de
família que são forçados a trabalhar em
atividades repetitivas, totalmente em de- E o que eu direi a esses heróis, que por
sacordo com o seu perfil psicológico... amor ou necessidade enfrentam, anos a
fio, tarefas tão tediosas?
Certa feita, conheci um homem muito cul-
to, inteligente e criativo. O único emprego Anotarei aqui uma história vivida por Sele-
que conseguiu foi o de revisor de jornal. na:
O pior: revisava os anúncios classifica- Não sei o nome dele. É um negro forte,
dos. A atividade judiava muito dele, pois o apesar dos anos vividos, cativos, no servi-
sono, o tédio, tudo levava a desviar sua ço escravo. Mantém o corpo ereto, tendo
atenção da leitura daqueles anúncios, sobre os ombros um pedaço de pau, onde
70 Bem Sofrer
amarra poucas e pobres vestimentas. A encarnação passada brota em quadros
Caminha em direção à mata cerrada, bus- de seu inconsciente.
ca um lugar para morar. Nobre na corte francesa. A posição lhe
Após muito caminhar, detém-se num ria- possibilitava trabalho importante no bem
cho. estar dos pobres, mas o fausto, as festas,
a vida dissoluta, o ócio dourado, consumi-
Ele olha o riacho, onde as águas cristali- ram-lhe o tempo.
nas correm soltas sobre as pedras, trans-
parecendo liberdade. De outro lado, o orgulho do nascimento e
da posição o levavam a desprezar os po-
A seguir, seu olhar dirige-se para as suas bres, tidos como seus inferiores.
mãos, grossas como cascas de árvores,
ele mal pode flexionar os dedos. A sua falta de consideração causou inú-
meros sofrimentos a muitas famílias, em
completa contraposição ao seu encargo,
Relembra seus dias de trabalho duro: a que era justamente de minorar suas do-
rotina dura de todos os dias; o cama dura res.
abandonada antes do sol raiar; o chicote A resignação nascera dessas lembranças,
duro para superar o cansaço; a alimenta- guardadas no seu inconsciente, mas que
ção parca; a plantação de cana de açú- norteavam sua consciência, no acatamen-
car... to da justiça divina.
A cana de açúcar era doce. Doce no sa-
bor e nos muitos contos de reis que trazia
para o seu senhor. Para ele, que não re- Vendo aqueles quadros que não saberia
cebia nenhum real, era áspera, cheia de explicar, ele compreende haver se liberta-
farpas, enchendo de crostas suas mãos. do do pior de todos os senhores: o orgu-
lho.
Os dias eram sempre iguais. Percebia
que era domingo pela obrigação de assis- Seu corpo e seu espírito se vergaram no
tir à missa, e rezar a um Deus que se era trabalho árduo e humilhante, libertando-o
pai, era pai apenas dos brancos. de um passado sombrio.

No seu interior havia um entendimento,


ele tinha que ser resignado, não devia re- Essa foi a visão acompanhada pela psico-
voltar-se, um dia tudo aquilo terminaria. fonia, que Selena, médium, transmitiu no
A resignação, aliada ao trabalho perseve- pequeno grupo espírita, que funcionava
rante acabaram conquistando a simpatia na cozinha do pequeno sobrado.
do seu senhor, que finalmente lhe dera a A lição de vida que o preto velho transmi-
carta de alforria. tira fez com que Selena chorasse e tam-
bém emocionou os presentes à singela
reunião.
Volta ao riacho que serpenteia pela mata
cerrada. Compreenderam que aquele espírito esta-
va ali, dando prosseguimento a tarefa que
Com as mãos unidas em concha apanha deixara de cumprir na corte francesa, e os
um pouco d'água que vai vazando pelos encarnados de agora eram os pobres que
dedos. Bebe alguns goles e joga o resto ele não auxiliara.
no rosto. Mistura água às lágrimas com
que chora.
Sente na água o gosto da liberdade. Moral da História:
• Encha de amor o vazio de sua alma.
• A pior monotonia é a do erro repetido.
Dinheiro 71
Dinheiro
Brasil, março de 92, o país enfrenta uma mento, do agasalho, do teto, do remé-
grave crise financeira. Hoje minha cunha- dio. A esse sofrimento chamaremos mi-
da telefonou expondo uma série de pro- séria.
blemas financeiros. Muitos amigos desfi- 2. A imaginada falta de recursos. O nível
lam queixas: dinheiro curto, recessão, in- de vida oferecido pelos rendimentos é
flação, insolvência... considerado mau. Se nos interrogamos,
O desequilíbrio financeiro traz grande so- respondemos: Como mal, moro mal, vis-
frimento. to-me mal. A esse sofrimento chamare-
mos insatisfação.
O dinheiro é muito importante na nossa 3. O desejo de realizar alguma coisa que
vida. Jesus afirmou "Dai a César o que é exija um dinheiro que não temos. O au-
de César, e a Deus o que é de Deus", re- xílio a um parente, a edificação de uma
lacionando o paralelismo entre nossos de- obra de caridade ou artística, uma via-
veres materiais e nossos deveres espiri- gem... A esse sofrimento chamaremos
tuais. Se não atendemos às nossas obri- sonhos financeiros.
gações materiais, estamos falhando espi- 4. Não poder pagar débitos que considera-
ritualmente, de outro lado, se não nos li- mos legítimos. A esse sofrimento cha-
gamos à espiritualidade superior, nossas maremos falência.
atividades materiais não serão uma con- 5. Não receber aquilo a que julgamos ter
tribuição positiva à edificação dos recur- direito. A esse sofrimento chamaremos
sos materiais de nossa sociedade.
prejuízo.
Mas Jesus também afirmou: "Não podeis 6. O reconhecimento de ter agido mal em
servir a Deus e Mamom" (Mamom, pala- nossos negócios. Vendemos mal, com-
vra grega, derivada do aramaico mamon, pramos mal, fomos imprevidentes ou im-
mamona, riquezas), estabelecendo que prudentes no trato das questões finan-
"dar a César o que lhe é devido" deverá ceiras. A esse sofrimento chamaremos
ser sempre um caminho para servir a remorso.
Deus, e nunca uma via para nossa escra- 7. A necessidade de fazermos algo que
vização. Parafraseando Jesus: "O dinhei- não gostamos por necessidade financei-
ro foi feito para o homem e não o homem ra. A insatisfação profissional, o desfa-
para o dinheiro". zer-se de um bem que estimamos, pe-
quenas ou grandes humilhações por fal-
ta de dinheiro. A esse sofrimento cha-
Para tratarmos com proveito as dores re- maremos constrangimento.
lacionadas ao dinheiro há que compreen- 8. A angústia de não sabermos como fica-
dê-las rá a nossa situação financeira. Esse so-
A compreensão auxiliará nosso raciocínio, frimento frequentemente acompanha os
nossas emoções e nossa individualidade anteriores, mas por uma questão de mé-
moral no relacionamento com esses sofri- todo vamos tratá-lo de forma isolada
mentos, sejam nossos ou de nosso próxi- chamando-o de preocupação.
mo. 9. Feita esta divisão, vamos tratar indivi-
Compreendendo-os, teremos melhores dualmente cada uma dessas dores.
condições de avaliar em que medida os
problemas financeiros devem ser enfren- Miséria
tados, seja num clima de luta para dimi- A real falta de recursos. A falta do ali-
nuí-los, ou seja num impulso de resigna- mento, do agasalho, do teto, do remédio.
ção para suportá-los.
Este é um sofrimento verdadeiro.
Para compreender as causas dos sofri-
mentos relacionados ao dinheiro há que Ah! que o bom Deus que fez com que seu
separa-las. Vamos dividi-las em 8 grupos: Filho Bem Amado, Jesus, pleno de virtude
e perfeição, nascesse tão pobrezinho,
1. A real falta de recursos. A falta do ali- que teve por berço uma manjedoura, e
72 Bem Sofrer
por enxoval alguns paninhos, encha meu na, com grande esforço frequentou a es-
coração, para que minha palavra possa cola de tricô, pois aos muito pobres tudo
ser pão, (nem só de pão vive o homem é muito difícil, e Elza também com esforço
mas de toda a palavra que nasce da boca comprou uma máquina de tricô para Alci-
de Deus), e minha palavra seja agasalho na.
e seja teto. Um dia fui visitar Alcina em companhia de
Primeiramente uma palavra a você que Elza. Alcina estava bem, na casa pobre,
procura nesse livrinho elementos de con- mas confortável. Tive a alegria de ouvir
solação. Se você tem algum recurso, vá da boca da ex-necessitada, o seguinte:
ao miserável, antes de falar, alimenta, estava dando a uma outra amiga pobrezi-
agasalha, protege. Depois abre sua boca, nha a m quina que ganhara, pois tinha
seus braços, e seu coração, e fale: adquirido outras duas, e queria por sua
Fale de um reino maravilhoso que aguar- vez agradecer a Deus, beneficiando na
da os resignados após a morte; fale da mesma medida que fora beneficiada.
esperança de uma notícia maravilhosa,
de uma boa notícia que ecoou na Galileia Ora a miséria material vem acompanhada
há dois mil anos, e que até agora nos da miséria moral, ora a miséria material
sustenta; fale do Filho do Homem que vem acompanhada da grandeza moral.
não tinha uma pedra onde repousar a ca-
beça. Soube de um homem que trabalhava num
albergue onde acolhia mendigos. Líder de
Por mais que você fale, entretanto, a dor instituição assistencial era muito conside-
de ver os próprios filhos sentirem o rigor rado na sua cidade. Após a morte surpre-
do frio, estarem magros e pequenos por endeu-se ao encontrar muitos mendigos
falta de alimento, continuará doendo. Mas de rua, que a provação da miséria havia
se você tiver doado o possível antes de purificado e agora no plano espiritual
falar , mesmo que seu possível seja pou- eram benfeitores iluminados, aos quais
co, suas palavras aliviarão. Ao você ves- devia por sua vez pedir auxílio.
tir os nus, com farrapos embora, alimen-
tar os famintos, com migalhas embora,
você representará a providência divina, e Conheci duas mães que esmolavam para
suas palavras terão um som que vem de sustento de seus filhos. Quando por algu-
Deus. ma razão uma não podia ir, a outra levava
Mas, com muito tato, fale também do tra- os filhos da ausente para ajudar a pedir.
balho, da humildade, do equilíbrio, que, Dividiam fraternalmente o produto da co-
muitas vezes, a miséria não é uma purifi- leta. Ouvi dizer que há mães que alugam
cação que vem do céu, mas consequên- seus filhos. Entre as mendigas que co-
cia de nosso desatino aqui na terra mes- nheci, havia muita solidariedade, na misé-
mo. E suas palavras de orientação, a mo- ria as pessoas tornam-se solidárias, nun-
vimentação de suas relações, poderão ca conheci uma mãe que alugasse seus
trazer um alívio real ao eliminar a miséria. filhos.
Nas favelas conheci a grandeza da mu-
lher. Perdoando a má palavra, o macho
Elza, ao visitar Alcina, senhora em grande afrouxa logo, caí na bebida, deserta, são
penúria, teve uma feliz inspiração: Falou raros os que continuam lutando. Mas a
à Alcina da existência de m quinas de fa- mãe, ah, que bênção! Quanta coragem eu
zer tricô, do tricô que poderia ser aprendi- vi, nas catadoras de papelão, nas mendi-
do nas escolas de tricô. Tudo isso preci- gas, nas faxineiras, nas catadoras de lixo,
sou falar, pois Alcina vinha de uma região quanta fibra que tudo vence e que tudo
de clima tórrido, onde roupas de lã não dobra. A miséria é reveladora. Deus dá
faziam sentido. essa prova para que seus heróis e suas
E as palavras de Elza ecoaram na inteli- heroínas brilhem, nos testemunhos de fé,
gência de Alcina em penúria. Elza matri- nos testemunhos do trabalho, nos teste-
culou a Alcina na escola de tricô, e a Alci- munhos do amor materno, e não para que
Dinheiro 73
nos alquebremos na revolta inerme. Batem as portas, erguem-se as mães
Choram meninos, ladram os cães...

E para encerrar esse item sobre a misé- Rezam e cantam, levam a esmola,
ria, transcrevo um poema de Guerra Jun- Vinho no bucho, pão na sacola.
queiro, poeta de caráter feito de diaman-
tes. O poema foi composto em Portugal, Fruta da horta, caldo ou toucinho,
no fim do século dezenove. Dão sempre os pobres a um
pobrezinho.
OS POBREZINHOS
Um que tem chagas, velho, coitado,
Pobres de pobres são pobrezinhos, Quer ligaduras ou mel rosado.
Almas sem lares, aves sem ninhos...
Outro, promessa feita a Maria,
Passam em bandos, alcateias, Deitam-lhe azeite na almotolia 12 .
Pelas herdades, pelas aldeias.
Pelos alpendres, pelos currais,
É em novembro, rugem procelas 9 ... Dormem deitados como animais.
Deus nos acuda, nos livre delas!
Em caravanas, em alcateias,
Vêm por desertos, por estevais 10 Vão por herdades, vão por aldeias...
Mantas aos ombros, grandes bornais 11 ,
Como farrapos, coisas sombrias, Sabem cantigas, oraçõezinhas,
Trapos levados nas ventanias... Contos destrelas, reis e rainhas...
Filhos de Cristo, filhos d'Adão Choram cantando, penam rezando,
Buscam no mundo côdeas de pão! Ai, só a morte sabe até quando!
Há-os ceguinhos, em treva densa, Mas no outro mundo Deus lhes prepara
D'olhos fechados desde nascença. Leito o mais alvo, ceia a mais rara...
Há os com feridas esburacadas, Os pés doridos lhos lavarão
Roxas de lírios, já gangrenadas. Santos e santas com devoção!
Uns de voz rouca, grandes bordões, Para lavá-los, perfumaria
Quem sabe lá se serão ladrões!... Em gomil 13 d'ouro, d'ouro a bacia.
Outros humildes, riso magoado, E embalsamados, transfigurados,
Lembram Jesus que ande disfarçado... Túnicas brancas, como em noivados,
Enjeitadinhos, rotos, sem pão, Viverão sempre na eterna luz,
Tremem maleitas d'olhos no chão... Pobres benditos, amém, Jesus!...
Campos e vinhas!... hortas com
flores!...
Ai, que ditosos os lavradores! Moral da História.
• Quem dá aos pobres empresta a Deus.
Olha, fumegam tectos e lares... (Rei Salomão 800 AC)
Fumo tão lindo!... branco nos ares! • Aos pobres é anunciado o evangelho.
(Jesus, ao se identificar como o Cristo)

9 Procelas = tempestades
10 Estevais = campo coberto de estevas,
arbusto aromático 12 Almotolia = vasilha para azeite
11 Bornais = sacola de pano 13 Gomil = jarro
74 Bem Sofrer
Insatisfação terno, tiveram um papel preponderante no
equilíbrio daquele espírito, no caso um
A imaginada falta de recursos. O nível de suicida que necessitava dessa gestação
vida oferecido pelos rendimentos é consi- para re-equilibrar seu corpo espiritual, le-
derado mau. Se nos interrogamos, res- sado na encarnação anterior. Se não lhe
pondemos: Como mal, moro mal, visto-me serviram as roupas materiais, todo o jogo
mal. de vibrações que envolveu a preparação
Há a boa insatisfação e a má insatisfa- do enxoval, aqueceu seu coração, liber-
ção. tando-o do frio da indiferença.
A boa insatisfação é aquela que é estímu-
lo, mola do progresso. A boa insatisfação Nelson era um professor, que aguardava
não se queixa, não culpa, crê no futuro, a morte, desencadeada por um tumor ma-
trabalha sem desequilíbrio mas com muita ligno no cérebro. Enquanto esperávamos
constância e perseverança. que transcorressem as semanas que fal-
A má insatisfação tem um cheiro ruim de tavam para o desfecho final, conversáva-
desânimo, a todos culpa, mas não se res- mos e instruíamo-nos. Eu lhe falava de al-
ponsabiliza. É plena de direitos e vazia de gumas leituras que fizera sobre a morte.
deveres. ele me instruía fazendo um balanço final
de sua encarnação.
A boa insatisfação não é interesseira e
atinge o seu maior nível quando é dedica- Nélson, por 20 anos fora professor de ma-
da aos legítimos interesses dos que ama- temática de uma escola técnica na área
mos. de mecânica, dessas que ensinam dese-
nho técnico, projeto mecânico, e formam
também torneiros e frezadores.
Sempre me comoveram os pais de famí- Seus alunos eram operários que, insatis-
lia, que lutam pela manutenção da própria feitos com seus cargos, procuravam
prole, procurando propiciar aos seus fi- acrescentar conhecimento teórico à prati-
lhos saúde e educação. ca calosa de suas mãos. Mais que alunos
Valdomiro era manobrista de estrada de eram amigos. O salário modesto de pro-
ferro, nos idos de 1929. Tendo um filhinho fessor dava para manter um padrão de
a caminho, trabalhou 72 horas consecuti- vida digno em casa. O nível de realização
vas para comprar o enxovalzinho do profissional era elevado. No lar, procurava
bebê. ser um educador, na escola, um pai.
Buscou o dinheiro extra, insatisfeito por Mas, a insatisfação com o nível de renda,
não poder receber condignamente a sua foi crescendo, crescendo, e Nelson dei-
primogênita. Ficou tão cansado que ao xou a matemática, seus alunos operários,
chegar à porta de sua casa modesta des- e foi ser vendedor. Venda de persuasão,
maiou. Levado a cama, Valdomiro fez as tinha tudo para dar certo. Nelson possuía
suas necessidades fisiológicas dormindo. bom controle verbal, desinibição e seu co-
ração transbordava ambição, valorização
Valdomiro recebeu o pagamento, com-
do ganho.
prou algum tecido, e alguma lã, para sua
esposa, gr vida de 8 meses, confeccionar Mas, a coisa não deu certo. Aquelas vi-
as roupinhas para o anjinho que estava a brações baixas de cupidez o desmonta-
caminho. Essa foi uma insatisfação legíti- ram, abrindo brechas importantes na sua
ma, que Deus abençoou, que não nasceu alma, por onde entraram as sombras. Era
do supérfluo, nem do interesse próprio. um vendedor dentro e fora de casa, se-
guindo sua tendência inata de não sepa-
Porém, para seu aprendizado, a filhinha
rar lar e emprego. Perdeu o controle da
de Valdomiro morreria ao nascer. Usou
família. Sua filha mais velha se desenca-
uma única muda das roupinhas, envolven-
minhou pela estrada da promiscuidade e
do seu cadáver, conduzido num caixão de
trouxe ainda mais perturbações ao lar.
terceira ao cemitério.
Com todo esse desequilíbrio, o próprio
Mas o esforço, as vibrações de amor pa- ganho começou a diminuir. As provações
Dinheiro 75
se tornaram extremamente agudas com a café, são estimulantes e socializantes.
chegada do câncer no cérebro. Nelson se Waldomiro, que já mencionei outras ve-
arrependia amargamente de ter deixado a zes nesse livro, trabalhava como mano-
sua atividade de professor por uma insa- brista numa estrada de ferro na década
tisfação ilegítima, nascida da cupidez e de 1920. Naquela época, o engate dos
do amor-próprio. vagões não era automático, e havia ne-
cessidade de um funcionário que ficasse
Quanto a você, pesa na balança da cons- correndo entre os trilhos, e quando a lo-
ciência sua insatisfação em questões de comotiva lançasse um vagão contra o ou-
dinheiro. tro, ele pusesse a trava que prendia efeti-
vamente um vagão no outro. Era um ser-
Se for a boa insatisfação, tem nela o estí- viço bruto, sem especialização alguma,
mulo precioso do progresso, da mudança muito mal remunerado e arriscado, pois
para melhor. se o manobrista errasse ao jogar a trava,
Se for a má insatisfação, re-equilibre-se e corria o risco de perder a mão.
expulsa da sua alma a cupidez, que tanta Waldomiro, no meio da chuva, via passar
vezes vem disfarçada com as fantasias os vagões tipo "pullman", que eram mon-
sutis do bem estar familiar, da segurança, tados como pequenas salas de estar, fre-
da possibilidade de realização de boas tados pelos fazendeiros de café, a elite
obras. econômica da época. O manobrista dizia
de si para consigo: "Ainda terei uma fa-
zenda de café e viajarei nesses vagões
Moral da História: "pullman". Um sonho um tanto louco de
• A insatisfação pode ser doença ou estí- alguém que, não fora a condição de viajar
mulo. de graça, penaria para pagar uma passa-
• Rico é aquele que está contente (do li- gem de terceira classe.
vro do Tao, escrito por Lao Tse no sécu- 20 anos seriam necessários para transfor-
lo 7 antes de Cristo). mar o manobrista em fazendeiro. Ele não
andaria de "pullman", porque este tipo de
Sonhos financeiros vagão cairia em desuso, e sua fazenda
O desejo de realizar alguma coisa que não ficava próxima de nenhuma estrada
exija um dinheiro que não temos. O auxí- de ferro, mas o longo sonho foi realizado.
lio a um parente, a edificação de uma Durante vinte anos misturou esperança e
obra de caridade ou artística, uma via- impossibilidade, na irrealidade do sonho.
gem... Mas o sonho também era desejo, e o de-
sejo era acalentado por uma forte, efetiva
e real força de vontade. A força de vonta-
O sonho é sempre fuga, e a fuga não é de recebeu o consentimento da vontade
sempre o pior. de Deus e o sonho se realizou.
Todo desejo é prece. Toda a prece sobe
até Deus. Deus responde a todas as pre-
ces. Mas as respostas de Deus nem sem- Que direi eu para consolá-lo nesta dor
pre são a realização de nossos sonhos suave e doce de seus sonhos?
porque quase sempre a realização do so- Direi que a própria doçura do sonho já é
nho não é o melhor. consolo.
Direi que a fantasia há que ter medida,
Por vezes, há sonhos que têm um gosto para que não venha a ser causa de dese-
de café : misturam com leveza a amargu- quilíbrio.
ra de não serem realidade, que compara- Direi que desde que haja equilíbrio, quem
mos ao café, com a possibilidade advinda sou eu para desvanecer seus sonhos?
da esperança, que comparamos ao açú-
car. E esses sonhos, a semelhança do
Moral da História:
76 Bem Sofrer
• As nuvens do céu, tão diáfanas14, serão dois anos, pegando chocolate na gara-
apenas sombra? ou serão chuva? Só gem e vendendo em mercearias e bares
Deus o sabe. da periferia.
• Sonho bom é aquele que nos estimula à Tentou voltar a medicina, mas 40 anos
boa luta. haviam passado da formatura brilhante, e
40 anos são muito tempo. O diploma lá
Falência estava, mas a memória havia deixado que
Não poder pagar débitos que considera- os conhecimentos todos fossem levados
mos legítimos. pelo rio do tempo. Para complicar, grave
problema cardíaco havia-se instalado.
É um duro sofrimento dever e não ter com
que pagar. Por vezes essa dor vem do Porém a vida continua, e foi conseguindo
nosso senso de dever, por outras vezes alguns bicos, baseados em algumas rela-
vem do orgulho ferido. ções que sobraram. A medicina teria dado
mais dinheiro e dignidade. O arrependi-
Há muitos casos, noticiados pela impren- mento também ensina, e o conhecimento
sa, inclusive, de pessoas que faliram fi- é de valor inestimável, porém é triste sa-
nanceiramente e, não suportando o fato, ber que só poderemos aplicar na próxima
acabaram por precipitar-se no suicídio. encarnação o que o arrependimento nos
Embora as insinceras cartas de despedi- ensinou.
das de suicidas, plenas de inverdades
douradas, grafadas com emoção, creio
que o móvel desses trânsfugas, tenha Se a dor nasce do orgulho, há um conso-
sido essencialmente o orgulho ferido e o lo, todos somos imperfeitos, e existe uma
medo do recomeço. O empresário bem medida efetiva para eliminá-la: eliminar o
sucedido que se vê repentinamente con- orgulho.
duzido à posição de funcionário modesto, Mas nem toda dor nasce do orgulho. Há
envolvido nos percalços do recomeço, aquela que nasce efetivamente do senso
não suporta o que considera humilhação, de honestidade, de mesmo contra a nos-
racionaliza alguns argumentos e, envolvi- sa vontade, prejudicar financeiramente o
do pelas sombras, deserta da vida. outro.
Essa é uma dor boa, uma dor sentinela,
Antônio Carlos tinha um grande entusias- uma dor que indica saúde moral. Dor que
mo pela medicina. Formou-se com bri- nos dá alegria, por sabermos que ainda
lhantismo, pois era muito inteligente. A há homens que ficam com as faces ver-
paixão pelo dinheiro e pelo jogo dos ne- melhas de vergonha.
gócios foi maior que o entusiasmo juvenil.
Guardou carinhosamente o diploma de
médico e atirou-se aos negócios. Fazen- Uma coisa que precisa ser considerada é
deiro e empresário na rea de materiais que toda operação financeira envolve ris-
para construção, foi muito bem sucedido cos.
(era realmente inteligente), amealhou Riscos que nenhum dos participantes da
considerável patrimônio. Alguns negócios negociação ignoravam. Quem comprava
mal sucedidos bastaram para que fossem poderia perder, quem vendia poderia per-
por água abaixo suas empresas. Mas, der. Aconteceu o pior, os dois perderam,
como tinha muito, ainda sobrou bastante. os dois foram culpados por não avaliar
Parentes o atraíram para uma fábrica de corretamente o risco. Em que porcenta-
chocolate, marca muito conhecida na gem deve ser distribuída a culpa? Creio
época. Pôs nela o que havia sobrado. era que nessas situações a análise profunda
uma armadilha. Faliu. Conseguiu escon- das culpas é o que menos importa.
der um caminhão de chocolate numa ga-
Importa mais continuar trabalhando com
ragem de um amigo, foi a única coisa que
humildade e fé, sabendo que se a justiça
sobrou. Envergonhadamente viveu uns
de Deus decidiu pela nossa perda e a
perda do outro, a mesma justiça nesta
14 Diáfanas = translúcidas
Dinheiro 77
vida, ou em outra nos dará a oportunida- balho duro. Os pezinhos de café crescen-
de, ou o constrangimento de restituir. do, encorpando. Ele acariciava os pés de
café como se fossem bichinhos de pelú-
cia.
Moral da História.
Ele havia feito um exame cuidadoso da
• Pagarás até o último centavo. (Jesus) mata, antes da derrubada, para verificar a
• Deus dá, Deus tira, Deus torna a dar. presença de espécies sensíveis ao frio. E
Louvado seja Deus. as encontrou. Se havia, isto significava
que na região não ocorria o fenômeno da
Prejuízos geada, terrível para o café. O que ele não
previu, foi que o extenso desmatamento
Não receber aquilo a que julgamos ter di- da região introduziria profundas altera-
reito. Perder o que julgamos nosso. ções climáticas.
Muitas vezes tratamos os negócios como E numa manhã de julho, tudo amanheceu
um jogo. O risco, inerente às atividades branquinho de gelo. Waldomiro chegou
econômicas, pode ser exaltado de tal for- em casa com um raminho de café, o gelo
ma que consideramos os agentes econô- foi derretendo, e as folhas foram amarron-
micos como parceiros num jogo de bara- zando, caíam as gotinhas d'água enquan-
lho. to as folhas morriam. O seu rosto moreno,
O jogo cativa, eu creio, por alguma rela- tostado de sol, também foi sendo coberto
ção obscura que mantém com o orgulho. de lágrimas, que saiam de seus olhos ver-
Qual seria outra explicação para tanta de-azeitona que, ao contrário das folhas,
emoção em vencer ou ser derrotado, foram ficando mais brilhantes.
mesmo quando essa vitória ou derrota Cinco anos de trabalho, cinco anos dis-
nada acarreta? tante da família, cinco anos de sacrifícios
Já me angustiei por ter, numa compra ou sem conta, cinco anos arriscando a vida
venda, perdido algum dinheiro. O que me na brutalidade da disputa de terras. Cinco
angustiava não era ter comprado um tanto anos estavam indo embora. Estava se-
mais caro, ou vendido um tanto mais ba- cando a planta da casa nova, partia a ga-
rato, o que me humilhava era não ter tido lope o repouso para o homem que chega-
a habilidade suficiente para vencer o ven- va aos 50 anos, enrolava-se em correntes
dedor ou o comprador, o que me fazia so- de financiamento a sonhada liberdade
frer era ter perdido no jogo psicológico da econômica. Tornava-se áspero o conforto
compra ou venda. que pretendia estender aos colonos, que
Esse não é um sofrimento que vem de mais que empregados eram amigos. Tudo
Deus. O prejuízo, no caso, é apenas pre- isso decretava aquela fina camada de
texto para dar mais emoção ao vício do gelo, no raminho de café, tudo isso com-
jogo. preendia aquele rosto moreno coberto de
lágrimas.
Esse é um sofrimento evitável. Lutemos
contra essa tendência de viver nossos ne-
gócios como se fossem uma loteria, ou Lembremos o livro de Jó: Deus deu, Deus
um cassino. Apeguemo-nos mais ao tra- tirou, louvado seja Deus. Nu saí do ventre
balho, ao componente produtivo de nos- de minha mãe, nu voltarei ao meu Pai Ce-
sas atividades econômicas. lestial.
No mundo, nada nos pertence. Conse-
Nem sempre o prejuízo será simplesmen- quentemente, se nada temos, nada pode-
te perder a partida no jogo econômico: mos perder. Tudo nos é cedido como em-
préstimo, como o operário que pela ma-
Ainda o nosso querido Waldomiro. nhã vai ao almoxarifado e pega as ferra-
Waldomiro abriu no fim da década de 40 mentas de trabalho e, à tarde, concluída a
uma fazenda de café. Na época o Norte tarefa, as devolve ao almoxarifado.
do Paraná era sertão. Cinco anos de tra- Vamos, conscientize-se! qualquer posse é
78 Bem Sofrer
quimera. Nem teu corpo te pertence. De- negociação é irretratável? A mercadoria
vido ao nosso apego às coisas materiais, não pode ser devolvida? O cargo não
Deus nos relembra isso, por vezes de ma- pode ser retomado? Disciplinadamente,
neira contundente. contabilizemos rapidamente o prejuízo e
Assim trabalhe sempre, mas sempre com não permitamos que ele se alastre, acres-
humildade, sabendo que acima de nossa centando à perda financeira, outras per-
vontade há outra infinitamente mais pode- das tais sejam: a perda de tempo, a perda
rosa, mais sábia. da calma, a perda de energias, a perda
da auto estima e estejamos certos de que
Todas aquelas dificuldades econômicas todas essas perdas redundarão em novas
das geadas não previstas, que se repeti- perdas financeiras. Nesses casos esque-
riam a cada dois anos, postergariam inde- cer é difícil, mas é o caminho seguro para
finidamente os sonhos de realização eco- delimitar o dano.
nômica de Waldomiro. De outro lado, es-
sas mesmas dificuldades o uniram, mais Girar com perseverança o braço da mor-
e mais, aos seus empregados. E Waldo- sa, para desligar-se do mau negócio, lan-
miro passou na dura prova de emprega- çá-lo com humildade entre os inservíveis
dor. Ao invés de algumas centenas de mi- e prosseguir trabalhando. De tudo fica
lhares de pés de café, levou ao morrer al- uma lição. Há lições muito caras do ponto
gumas centenas de amigos. Deus sabe o de vista financeiro, mas não há lições que
que é melhor. custem mais do que valem do ponto de
vista espiritual.

Moral da História.
Moral da História
• 1 - Atividade econômica é trabalho, não
loteria. • Águas passadas não movem moinhos.
• 2 - Todo mal vem para o bem. • Humilde é quem reconhece os próprios
erros. Contumaz é quem se agarra a
eles.
Remorso Constrangimento
O reconhecimento de ter agido mal em
nossos negócios. Vendemos mal, com- A necessidade de fazermos algo que não
pramos mal, fomos imprevidentes ou im- gostamos por necessidade financeira. A
prudentes no trato das questões financei- insatisfação profissional, o desfazer-se de
ras. um bem que estimamos, pequenas ou
grandes humilhações por falta de dinhei-
Ah! por que vendi..., para que fui com- ro.
prar..., se soubesse não tinha mudado de
emprego. Inicialmente temos que examinar se so-
mos obrigados a fazer o que não gosta-
A morsa é uma ferramenta que serve para mos.
manter unidas e imóveis uma ou mais pe-
ças. O remorso que nos mantém imóveis Será que há uma necessidade financeira
e unidos a nossa falha, não é uma ferra- real? será que não há outra alternativa
menta útil. É um instrumento de tortura. para resolvê-la? será que não estamos
sendo movidos pela cobiça? pelo como-
Se o "soubesse" andasse a frente de nos- dismo?
sos atos, tudo seria diferente. Mas isso é
impossível. Não adianta amarrá-lo ao Muita coisa destrambelhada que fazemos,
rabo de nossas ações, como latas ao ocultamos sob o véu da necessidade fi-
rabo do cachorro, que nem por isso elas nanceira. Pais que não suportamos o lar e
ficarão melhores, ficarão apenas mais ba- desertamos para a atividade profissional,
rulhentas e atormentadas. justificamo-nos dizendo: são as futuras
necessidades financeiras de nossos filhos
Podemos fazer alguma coisa para conser- que me obrigam a passar tanto tempo no
tar o estrago? Sim? Ponhamo-nos a cam- trabalho... Outras vezes é a inveja: preci-
po com humildade e diligência. Não? A so ter um carro de ano mais recente que
Dinheiro 79
o vizinho, custe o que custar... Preocupação
Evidentemente esses constrangimentos A angústia de não sabermos como ficará
são falsos, e o melhor é deixarmos de nos a nossa situação financeira.
enganar. Se nós mesmos atamos vendas
as nossos olhos certamente acabaremos Preocupar-se, como está explicito na pró-
caindo e levando outros também a caí- pria palavra, é ocupar-se antecipadamen-
rem. te.
E nas nossas preocupações, quanta ang-
ústia, quantas energias, quanta mente
Mas, existe o constrangimento real. cansada, parafusando e parafusando o
Neusa era uma faxineira que possuía 2 que irá acontecer. E na maioria das vezes
empregos, dormia 4 horas por dia, tudo tudo isso desperdiçado, porque os fatos
isso para alimentar 4 filhos, depois que o tomaram outros rumos e nada do que pre-
marido a abandonara. O dinheiro vinha víamos aconteceu.
curto, sofrido, amargo. Ela não tinha, po- É premissa básica das finanças a previ-
rém, outro caminho que fosse digno. são, ou seja, a identificação dos fatos
Trago agora essa heroína, em pensamen- econômicos que estão por vir, receitas,
to, a minha frente. Agora que seus filhos despesas, variações patrimoniais e con-
são maiores e enfrenta uma situação eco- junturais. É também premissa básica a
nômica tranquila. provisão, isso é a reserva para suportar
os dispêndios futuros.
E olho nos seus olhos, vivos e apertados
na face magra, precocemente envelheci- É difícil falar em dinheiro, seja numa gran-
da, e digo-lhe: de corporação privada, seja na adminis-
tração pública, seja na economia domésti-
Neusa, irmã!
ca, sem falarmos em planejamento e or-
Se o dinheiro foi curto, como é longa e çamento.
calma essa sensação de dever cumprido
Fincado no presente o homem realista faz
após a batalha.
seus cálculos tentando penetrar no futuro
Se o dinheiro foi amargo, como é doce a para dar segurança ao presente e tranqui-
dignidade de tê-lo ganho honestamente lidade ao futuro.
Se o dinheiro foi sofrido, como é prazero-
so, passados esses anos, ter a consciên-
Mas todas essas providências nada têm a
cia de ter amado seus filhos, não como a
ver com a angústia daquele que espera o
si mesma, mas mais do que a si mesma!
pior do amanhã. Daquele que se castiga,
Benditos sejam os constrangimentos que cheio de medo, do problema que vir , in-
nos elevam para o bem. solúvel.
Benditos esses constrangimentos que são Não há problemas insolúveis. Há solu-
como o peso que o corredor põe nas cos- ções dolorosas, soluções simples, solu-
tas, para fortalecer seu corpo e dar-lhe ções complexas, situações constrangedo-
músculos mais poderosos, para que no ras, mas o tempo, que é um bem que vem
dia da corrida, livre dos aparelhos do trei- de Deus, tudo equaciona na Sua Justiça
namento, brilhe leve e veloz. Perfeita.
Essa preocupação exagerada com o por-
Moral da História: vir econômico é uma verdadeira auto-pu-
nição. Creio que essa auto-punição deriva
• Necessidade financeira jamais deve ser de sentimentos de culpa. A alma sente-se
desculpa. inconscientemente culpada, e fantasia so-
• Se o querer diverge do dever, atende o frimentos futuros, crendo com isso passar
dever. de ré a vítima, tanto perante a própria
consciência, quanto perante aqueles que
a cercam.
80 Bem Sofrer
Claro está que a auto-punição não reso- Olhem para as aves do céu, que não se-
lverá os problemas advindos de nossos meiam, não ceifam, nem ajuntam em ce-
deslizes, mas inconscientemente aplica- leiros. E o Pai Celestial as alimenta. Vo-
mos a nós mesmos os conceitos da justi- cês não valem muito mais do que elas?
ça humana de multa e fiança.
Ora, qual de vocês por mais ansioso que
esteja, pode acrescentar meio metro a
Ah, como seria cômodo, se pudéssemos própria estatura?
resgatar nossos débitos morais com preo- E por que vocês estão ansiosos pelo que
cupações... vestirão? Olhem para os lírios do campo,
Não! Pensando melhor, acho que seria como crescem: não trabalham, nem pre-
muito atormentado, muito angustiante. param fios. Contudo eu digo a vocês, nem
Salomão em toda a sua glória, vestiu-se
Se nos sentimos devedores, não será me- como um deles.
lhor prevermos em nossos orçamentos,
alguma verba por pequena que seja, para Pois se Deus veste assim a erva do cam-
o auxílio ao nosso próximo? Aprovisionar- po, que hoje existe e amanhã é lançada
mos este dinheiro e empregá-lo na conta no forno, quanto mais a vocês, homens de
da caridade, que remunera a 100 por 1? pequena fé ?
Não é uma forma muito mais inteligente Portanto, não se inquietem, dizendo: Que
de usar os conceitos financeiros para res- havemos de comer? ou: Que havemos de
gatar as nossas dívidas? beber? ou: Com que havemos de nos ves-
Lembremo-nos, sempre que o futuro eco- tir? Porque o seu Pai Celestial sabe que
nômico nos angustiar, que o pior que vocês precisam de tudo isso.
pode acontecer é a prova da miséria, vivi- Mas procurem primeiro o Seu Reino e a
da por milhões de irmãos nossos, e que, sua justiça, e todas essas coisas lhes se-
muitas vezes nos seus barracos e baixos rão acrescentadas.
de viaduto, são mais felizes que outros
que vivem em palácios. Não se inquietem portanto pelo dia de
amanhã; porque o dia de amanhã cuidará
Fixemos os ensinamentos que Jesus nos de si mesmo. Bastam a cada dia suas do-
ofereceu no sermão da montanha e que res.
foram anotados por Mateus no capítulo 6
do seu evangelho:
Não estejam ansiosos quanto a sua vida, Moral da História.
pelo que haverão de comer, ou beber, • Os sofrimentos advindos de preocupa-
nem pelo corpo pelo que haverão de ves- ções de natureza financeira devem ser
tir. evitados.
Não é a vida mais do que o alimento e o • O planejamento econômico deve levar
corpo mais do que o vestuário? em conta a caridade cristã.
Velhice 81
Velhice
Visão Prática primavera, verão e outono.

A Cícero, romano ilustre. Cada estação do ano tem seu encanto: o


inverno, o aconchego; a primavera, a be-
leza; o verão, a força; o outono, os frutos.
Entre as figuras do império romano, tenho Tem também o seu desencanto: o inverno
um carinho muito especial por Marco Tú- é frio; a primavera é passageira; o verão é
lio Cícero. violento; o outono é trabalhoso.
Cícero nasceu em 106 A.C. e foi assassi- O homem, à semelhança do ano, possui
nado em 43 A.C. a mando de Marco Antô- quatro idades; infância, juventude, madu-
nio, o mesmo general romano que se en- reza e velhice.
volveria com Cleópatra. Alguns historiado- A infância corresponde ao inverno, o
res afirmam Cícero covarde e interessei- aconchego do lar é preponderante, mas
ro. Eu o afirmo um dos precursores de Je- há, pela própria ignorância infantil, uma
sus. certa indiferença pelos destinos do mundo
Cícero escreveu inúmeros tratados, entre e daqueles que nos cercam, uma certa fri-
eles destacam-se 2: "O Tratado da Amiza- eza.
de" e o "Tratado da Velhice". No "Tratado A juventude, primavera da alma, é florida
da Amizade" Cícero propõe como valor pelos sonhos e pelo romance, mas é pas-
máximo a amizade, que estende a tudo o sageira, inconsistente.
que foi criado, propondo amizade pelas
plantas, pelos animais e, naturalmente, A madureza é o verão, com o sol forte
pelas pessoas. Usou o termo amizade, contrastando com as tempestades rápi-
para tornar claro que o amor de que fala- das, a idade da força, do impor-se; mas
va não implicava necessariamente o sexo. pelo próprio atropelo do tempo, das expe-
riências que se sucedem rápidas, das ne-
Cícero admitia, seguindo a linha de Só- cessidades próprias e da família, avança-
crates e Platão, a re-encarnação, a sobre- mos, por vezes pisando nos outros, sendo
vivência da alma, e que, a vida após a violentos.
morte será boa ou má conforme tenha-
mos sido bons ou maus nesta vida. A velhice é a estação dos frutos, quando
finalmente vamos colher o que semeamos
Este item do nosso livrinho será escrito, durante a vida. Poucos cuidam de semear
tomando como base o "Tratado da Velhi- o bem, portanto, muitos colhem amargu-
ce", escrito por Cícero, um ano antes de ras e tempestades. Mesmo para esses
morrer, aos 62 anos de idade. que semearam o amor, a velhice será tra-
Muitos consideram a velhice um mal. Al- balhosa, pois o tempo todos os dias dirá
guns, tolamente, fogem aos anos mentin- ao velho que aproveitou bem o seu tempo
do sobre a própria idade. na infância, juventude e madureza:
Como muitas vezes dissemos neste livri- - Procure ser mais rápido. Estou acaban-
nho: A velhice será má para quem está do.
aferrado às coisas da matéria, sem condi- Assim sendo, não há idade inferior. Cada
ções de amar. A velhice será prazerosa época da vida está igualmente plena de
para quem preza os valores do espírito. oportunidades. O que não devemos es-
Cícero viveu plenamente sua velhice. quecer é que o que é oportuno em uma
dada idade será inoportuno em outra.
Eis suas respostas a algumas perguntas
comuns. As faculdades mentais são decaden-
tes na velhice?
Cada idade tem seu perfil intelectual: na
A velhice é uma idade inferior? infância é assombrosa a capacidade de
O ano possui quatro estações: inverno, aprender, porém o acervo cultural (posse
82 Bem Sofrer
de significados é pequeno. do de paz com Pirro, levantou-se e bra-
A mocidade caracteriza-se pelo encanta- dou:
mento por tudo que é novo, mas com difi- Para onde se desgarraram vossas mentes
culdade em tomar decisões. que outrora costumavam permanecer re-
A maturidade é capacitada em ações, tas, agora tombadas em demência?
mas pobre em reflexões. No caso, a prudência determinava a guer-
A velhice é rica em reflexões e experiên- ra e não a paz.
cia mas apresenta dificuldades no apren-
dizado.
Faltam forças à velhice?
Em todas as idades encontramos pensa-
Se falamos de força física, é evidente que
mentos arrazoados e ideias absolutamen-
sim. Se falamos de força moral, não. A
te sem fundamento.
velhice consciente, indiscutivelmente au-
A velhice goza, no geral, a vantagem de menta a força moral.
ser mais sensata
Se o velho muito errou, seus erros lhe te-
rão ensinado o que não deve ser feito, e
A proximidade da morte torna a velhice isso lhe dá peso para evitar novos erros.
atormentada? Se acertou algumas vezes, isso lhe dá
peso para indicar a direção correta.
Um primeiro engano é achar que velhice
significa proximidade da morte. A morte O próprio desinteresse, que a velhice fa-
sempre está próxima, em qualquer etapa vorece, torna o velho isento e desapaixo-
da vida. nado. Isenção e equilíbrio são fontes de
autoridade moral.
Um segundo engano é considerar a morte
má. Dedicamos um capítulo deste livrinho
à morte, mas aqui reafirmamos: como é A velhice diminui o prazer?
bela a morte do velho que viveu bem, do
A velhice explicita o contraste entre o cor-
velho que aprendeu a vida e consequen-
po e o espírito: o corpo entra em deca-
temente não teme a morte.
dência, de outro lado o espírito está pleno
Encerra sua peregrinação em paz, e parte de experiência.
para a vida maior, como o trabalhador
Os prazeres que exigem muito do corpo
que deixa a oficina com a consciência em
estarão proibidos na velhice. Os prazeres
paz, e volta ao lar com o coração cheio de
que exijam muito do espírito, só poderão
amor.
ser gozados na velhice.
A experiência, a sabedoria, os bons con-
A velhice é parada? selhos permitem à velhice, segurar o ti-
A temeridade é atabalhoada, sai fazendo mão e dirigir o leme. Conduzir o navio da
sem pensar, cheia de fantasias. Essa agi- vida enseja muita emoção e muita realiza-
tação inócua e inconsequente é frequen- ção. Seja na função pública, nas diversas
temente confundida com dinamismo. Só o esferas e poderes constituídos, seja na
tempo, ao demonstrar a ausência de bons condução de empresas, seja na condução
frutos, tornará claro que toda essa movi- da família, seja na orientação religiosa,
mentação foi tolice. O navio levantou ân- seja no apoio aos amigos mais jovens,
coras, enfunou as velas, movimentou a quantas coisas boas pode o velho ofere-
marujada, aguardou a maré, deixou o por- cer, pela sua experiência no mar da vida.
to e ... encalhou na praia ao lado. Pois o mar não é lógico e só convivendo
longamente com ele é que passamos a
A vida ensina ao velho a prudência. Pru- conhecê-lo. Para saber navegar é preciso
dência que por vezes impõe ações drásti- navegar muitas milhas.
cas. Cícero cita o exemplo do velho Ápio
Cláudio que, no senado romano, quando A velhice favorece o prazer do estudo. Cí-
estava a ponto de ser concluído um trata- cero, aos 61 anos teve grande prazer em
aprender a língua dos gregos e poder
Velhice 83
adentrar na sua cultura sem os empeci- Visão Poética
lhos de interpretes e traduções.
Ouçamos Cícero sobre o prazer da agri-
cultura:
Velai!
Venho agora aos prazeres da agricultura,
nos quais encontro incrível encanto, pois a Nem uma hora pudestes velar comigo?
idade, a eles, não pode trazer nenhum Jesus (no Horto).
obstáculo e me parecem ser os que me-
lhor concordam com a vida do sábio.
Têm sua razão de ser na terra, sempre I - O velho enfermo
dócil, e que não torna a dar sem usura o Vela de parafina,
que recebeu, às vezes com menor, mas pequenina e fina,
frequentemente com maior proveito. Toda- que fazes nesse caixote,
via, encantam-me não tanto os frutos mas nessa tampa de lata,
a natureza e a virtude da própria terra. ao lado do doente pobre?
Logo que, no seu seio, amolecido e aberto
pela gradagem15, recebe a semente que a Trêmula, afastas as trevas
mão do lavrador espalhou, esta semente, mas projetas sombras,
primeiro encoberta e que depois fende o que balançam inseguras,
solo, uma vez aquecida pelo calor e pela escuras imagens duras
compressão, faz sair dela a verdura, que, nas paredes de papelão...
apoiando-se sobre os filamentos da raiz
cresce insensivelmente, elevando-se em O doente é terminal,
colmos16 nodosos, já quase pubescen- o barraco é pobre,
tes17, mas fechados, ainda, numa bainha; a doença é tenaz,
quando sai dessa bainha, espalha o fruto a vizinhança é erma...
da espiga, disposto em ordem, e se mune
com uma trincheira de barbas de espiga O doente murmura:
contra o ataque dos pequenos pássaros. -Nossa Senhora, valei-me...
A voz não sai...
Não me posso saciar com o encanto des-
se espetáculo, e quisera que conhecês- Mais alguns ais...
seis o descanso e as delícias da minha
velhice. De novo sussurra:
-Jesus...
Moral da História
• A velhice pode ser muito prazerosa. É um sopro a respiração...
• A velhice é a idade do espírito. O velho e cansado coração
bate desgovernado...

II - Alguém está ouvindo?

Quem te ouvirá
velho pobre?
15 Gradagem = esfacelar os torrões da terra A multidão na praça
16 Colmo = tipo de caule ouve boquiaberta
17 Pubescente = pelos curtos e macios que a voz do demagogo
cobrem certos frutos (pêssego, por no alto-falante
exemplo) possante,
84 Bem Sofrer
mas, que ilusão um castiçal
projetarão de luz imortal.
teus gemidos,
velho caído? Seis braços,
tem o castiçal.
A multidão no estádio
ouve gingando Seis almas puras
em alta temperatura formam o castiçal.
a banda de rock,
mas, que sensação
despertarão Seis espíritos de luz
tuas dores, iluminam o castiçal.
velho febril?
Seis anjos do Senhor
A multidão de soldados sustentam o castiçal.
ouve preocupada
as instruções do general Desce do céu
antes da batalha brutal, um castiçal
mas, que rebelião de luz imortal.
levantarão
tuas lágrimas,
velho resignado? IV - O que fazeis?

Seis almas em luz,


seis almas em prece,
A quem falas ondulam suas emoções,
velho doente? sublimes, compassivas...

Ao chão batido, São seis velas acesas


que há um mês no velador.
não é varrido? Velam a dor,
velam a dor
Ao teu cão, com véus de lágrimas
cujo último latido nos olhos velados.
há três dias se calou? Velam a dor,
velam a dor...
Falas às estrelas
à lua, aos planetas?
Onde está tua ciência,
tua tecnologia, V - Por que viestes?
teu ônibus espacial,
velho terminal? Almas invisíveis
que formais este castiçal,
Talvez fales amplo, vivo, imortal,
a vela de parafina, trazido dos templos da luz,
tão fina, que fazeis aqui
tão pequenina, nesta choça
com momentos ao lado desta vela de parafina
tão contados tão fina e pequenina?
quanto os teus?
Este velho é pobre,
este barraco é sujo,
III - O castiçal esta doença é final,
este doente está só.
Desce do céu,
Velhice 85
Por que os anjos Acende-se a sétima
dispensam seu tempo chama-alma do castiçal,
na noite infinita, luminosa como as demais,
e, solícitos, É uma de suas iguais...
derramam sua luz,
se ao centro Em cintilantes reflexos,
apenas há este velho esquecido indescritíveis,
em rude sofrimento? os seis olhares
se refletem no sétimo.
Por que a angélica ciranda,
por que a florida guirlanda, Seis abraços,
se ao centro seis beijos,
apenas há um velho moribundo sete sorrisos...
dando adeus ao mundo?
É o viajor que chega
Que fazeis aqui percorrida a estrada.
com vossos mantos brancos,
com vossas feições belas É o operário que volta ao lar
com vossas mãos estendidas, concluído o trabalho.
com vossas mentes profundas,
com vossos corações plenos de amor, É o soldado que abraça a família
se ao centro, imóvel e arquejante, vencida a batalha.
há apenas um velho sofredor?
É o cristão vitorioso em prece de
Será que os espíritos da luz gratidão
aqui vieram ao término da re-encarnação.
só porque este velho
sussurrou:
"-Jesus..."? VII - Rumo ao infinito

Só porque este velho A vela de parafina apaga-se,


pediu a valia mas a vida evola-se
de Maria? em gigantesco clarão.

O castiçal agora com sete chamas


Só porque este velho, alteia-se clareando a noite terrestre.
no último adeus,
pensa em Deus? Sete luzes iluminando
a noite estrelada.

VI - A morte Sete raios cruzando


a noite infinita.
É o fim;
um ultimo aí, Sete almas subindo
o desprendimento na noite bendita.
completa-se.
Benditas,
Uma chuva de centelhas, benditas...
miríades de fagulhas,
mil estrelas, Edison Carneiro, páscoa de 93
deixam o corpo exausto. edisoncarneiro@gmail.com