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FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
E
WALDO VIEIRA

A VIDA
ESCREVE PELO ESPÍRITO HILÁRIO SILVA

Com o bom livro, caminhamos na direção do futuro e recebemos da Divina Imortalidade e
nossa gloriosa destinação de filhos da Luz.

Emmanuel ( Cartas do Coração)

Caro Amigo:

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Que Jesus o Abençoe
Muita Paz

1

..................................................................A FALA DE CADA HUM ...................................................................................... 91 19 ..................................... 39 19 ......................O BICO DE GÁS................................................................................................................................O PREÇO DA REMISSÃO ..................................................................................................................................................................................................................................................................................................A MORATÓRIA ....................OURO E BATATAS .......................7 3 .............................................. 46 23 ......................... 72 8 ....................................................................................................... 14 7 .................................................................................................... 107 26 .............................................PERIGO EMINENTE ........................ 90 18 .... 19 9 ..................................................................................................................A VOZ DO EVANGELHO ........................................................5 1 ....................................... 40 20 ............... 26 13 .......................................................................................................................................................................O LAR DAS CRIANÇAS ...................................... 69 6 ............................................................................................................................................................................................................................................................... 53 27 ............................................. 114 2 .........................................................................................................POR CINCO DIAS ..................................................................................O CARTAZ..............UM CASO DE CIÚME......................... 68 5 .......................................................CONTRABANDO ................O CONTO DA MOSCA ..................................................................................................................................................................................................................................................................................................................... 85 16 ......... 112 28 ...................................... 25 12 ............................................ 45 22 ............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................LIBELO ............................................................ 54 28 ......................................................................................................................................................................................6 2 .........................................................................................................................................CONSELHO TROCADO ......................................................................................... 37 18 .......................................................................................................POR TELEFONE .................................NOVO SERVIDOR ......4 PRIMEIRA PARTE .......NA HORA DO PASSE............................................................................................... 63 3 ....................................................................................................................................................DEVER CRISTÃO .....................................................................................................................................................................................O APARTE .......................................................................O BOM HOMEM ........................ 81 13 ................................. 56 SEGUNDA PARTE.................................PERGUNTA CONTRA PERGUNTA.....................EM COMBATE.........................................................................................O MAIS DIFÍCIL.................................................................................................................................................................................................................................... 34 15 ...............................................................................INSTANTÂNEO .........................................................................O MERECIMENTO .... 92 20 .................................................................................................9 4 ............................................... 96 22 – SUICIDA..................................................................O MÓVEL DA OBSESSÃO....................................................................................................................................................................................................NÃO VALE A PENA.. 50 25 ............................O LIVRO .........................................................................................BOCA TORTA ...............................................3 A VIDA ESCREVE.......................................................... 35 16 ......................................................................................................................................................... 71 7 ............................AMIGOS...........................................................................................................................PÁGINA DE ANÁLIA ..............................CLAUDINO E A LAVOURA..............................DEUS E NÓS ................O GRITO......................... 48 24 .............................................................................................................................. 11 5 ..................................................................................................... 78 11 .................................... 79 12 ................. 110 27 ...............FRUTOS .....................................................................................................MESMO FERIDO ....................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................JESUS MANDOU ALGUÉM........................................................................................................................... 103 24 ............................ 86 17 ........................SÓ CRESCE PARA BAIXO ................................................................................ 16 8 .............................................................ÚLTIMO ARGUMENTO..................................................................................................O ENSINO DA LUZ......................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................... 82 14 .................................................................................................................................................................................................................................... 20 10 ........................................................................................... 23 11 .............................................................................. 105 25 ..................INCÊNDIO NA SERRARIA ....................................................................................................................................................................................................................................................................................................................DENTRO DA PRÓPRIA CASA ............ 36 17 ................................................................................................OUTRA OPINIÃO ................................... 84 15 ..............................................................................................................................................................O TEMOR DA MORTE ...................... 97 23 ................ 42 21 ...............O COLAR DE PÉROLAS.............. 52 26 ............................................................................................................................................................................................................................................................LOLA-LEILA............................................................ 61 2 ........................................................................................................................................................................................................................................................................................................... 60 1 .................................................................................................................................................................................................................PRESENTE IMPREVISTO .........O ENCONTRO ......................................................................SINAIS ............................................. 67 4 ................................SURPRESA DE MAGISTRADO .............................................O QUE ACHA O IRMÃO ? ...................................................................................................................................................................................................................CALVÁRIO MATERNAL ............................................... 74 9 .................... 12 6 ................................. 93 21 ...........CARRANCISMO..................................VISÃO DE EURÍPEDES ......................................................RENDIÇÃO ........................................................................................................O NEGÓCIO DA DOAÇÃO ............................................................... 76 10 .......................................................... 29 14 .......................................................................................................................................................................................................................................................

ao alcance do povo. os médiuns Waldo Vieira e Francisco Cândido Xavier receberam respectivamente a primeira e segunda parte deste livro 3 . Entendeu que a maioria tem dificuldades para a leitura digerida dos volumes especializados Reparou que muitos companheiros rogam orientação. em contacto com a verdade. Entregando-a. porém. Constituída de retalhos do cotidiano. 2 de fevereiro de 1960. pois. . valeu-se das faculdades de dois médiuns amigos (1) e grafou o livro que nos apresenta de coração para coração. através das mais diversas vias de leitura e conhecimento. exige novas formas de pensamento para a transferência justa da vida. pedimos ao Divino Mestre abençoe o novo servidor que se enriqueça de paz e trabalho. assim. continuando. com os pés algemados a ilusões e convenções. de conclusões e anotações. aos irmãos de ideal e de luta. Hilário. portas adentro de nossa atividade espiritual. à maneira de doentes que possuem receitas seguras no bolso. Munindo-se. em que a informação do Plano Espiritual pudesse chegar com facilidade ao entendimento comum. desse modo.NOVO SERVIDOR Incorporando-se ao trabalho que nos foi concedido. Emmanuel Uberaba. convidando-nos a pensar. aqui temos. Observou que a Doutrina Espírita. compreendeu o imperativo de renovação. liberta a cabeça de prejuízos e preconceitos. a sua mensagem simples e fraterna. Anotou o imperativo de se veicularem os nossos princípios. (Médium: Francisco Cândido Xavier) (1) A convite do Espírito de Hilário Silva. alcançando a mente popular. desde o princípio da tarefa. Percebeu que muita gente. E idealizou a produção de páginas ligeiras. mas se esquivam ao remédio por falta de tempo. em sua leira de luz.

soma os atos. 2 de fevereiro de 1960) (Médium Waldo Vieira) 4 . o poema envela. para nós. amanhã. divide compromissos e dá-nos a equação de tudo quanto é hoje. Contadora divina. o drama chora. Além. desse modo. aquilo que desejas. O caderno em branco chama-se Tempo. Ali. a tragédia assombra. a vida escreve em toda parte aquilo que pensamos. subtrai influências. no livro da Eternidade. Hilário Silva (Uberaba. a comédia ri. Adiante.A VIDA ESCREVE Sim. E nós somos autores de todos os capítulos que se desenrolam por fatos vivos. Aqui. Anota. a fim de que saibamos o que seja Destino. de vez que a vida expressa tudo quanto queremos. multiplica valores.

PRIMEIRA PARTE MÉDIUM WALDO VIEIRA 5 .

meia-noite. integravam-se perfeitamente no programa do bem. em suplica ansiosa. Alves riu-se às pampas.. Alguns minutos depois de zero hora.Vou ver se é verdade. era visto penetrando a porta de uma casa evidentemente suspeita. . de maneira escarninha. Rossi coçou a cabeça num gesto característico e observou: .Meu caro – advertiu Alves.. e falou: . E sem mais nem menos entrou casa adentro encontrando. Há mais de um mês prossegue a luta. . Dez. Ave desprevenida em furna de lobos. Hoje. carrega nos ombros a responsabilidade de mentor em nossa Casa. Persistindo semelhante situação por mais de um mês.Não há nada. não! Não vá! – pediu Rossi.. Rossi saiu calmo e o amigo abordou-º . Afinidade profunda. veio esperá-lo à saída. a filha de um dos meus melhores amigos está freqüentando este circulo. E ser mãe respeitada. sua própria filha chorando ao pé de um cavalheiro desconhecido. sem rumor. pai de família e. Estou apenas cumprindo um dever cristão.. Quem sabe? Talvez em futuro próximo a invigilante pequena possa encontrar companheiro digno. Alves. E ante os olhos desconfiados do amigo: . mas você não ignora que álcool e entorpecentes. Mas a batalha está quase ganha. Alves.Tem medo de ser apanhado em mentira? – disse Alves.Dever cristão? . acreditou nele. porém. Jovem inexperiente.. com desapontamento. É preciso agir. Sempre juntos nas boas obras. informado de que o amigo entrara na casa referida. além de tudo. passou a saber que Rossi. lugar tristemente adornado para encontros clandestinos de casais transviados. sisudo _. não posso vê-lo reiteradamente neste lugar. 6 . Nada podemos condenar...Sim.Não. Convidei-a a pensar. nas três noites da semana sem atividades doutrinárias. aí dentro.1 .DEVER CRISTÃO Rossi e Alves eram diretores de conhecido templo espírita e davam-se muito bem na vida particular.. viu com os próprios olhos o logro de que é vítima. andam em bica.. onze. sem escândalo. com a suspeita no rosto. Amizade recíproca. Enganada por lamentável explorador de meninas. certa noite.Você sabe. num pequeno salão.. Você é casado. Acredito que amanhã surgirá renovada. .

Comentemos o bem. Arruda.Grite algo. E mostrando um revólver: 7 . .Não adianta repetir frases inúteis. nas funções de pedreiro-chefe. quando triste homem penetra o recinto. Dentre todos os presentes.Confia em Jesus!. bradou: . Se abrirmos a boca para dizer algo. Às vezes. Destaquemos o bem. E é sempre falta grave conferir saliência ao mal.. . Cabeleira revolta. Semblante transtornado. E virando-se para Belmiro: .O GRITO . Tudo pronto. Alguém aponta Belmiro. .Quem mandou confiar em Jesus? – perguntou.Obrigado.. É preciso aproveitar oportunidades.Experimentemos a acústica – disse o engenheiro superior. Falar é um dom de Deus. Arruda. saibamos dizer o melhor. para quem ele se dirige. supomo-nos sozinhos e proferimos inconveniências. Acabamento esmerado.. amigo! – exclamou. Os operários continuavam na sua faina.Uma boa palavra auxilia sempre. Pintura primorosa. O som estava admiravelmente distribuído. Confia em Jesus!. o instrutor espiritual que falava pelo médium. O enorme salão parecia completo. orientava o término da construção de grande recinto.2 . escutava em silêncio. . recordando a lição. Desajudamos quando podíamos ajudar. A pequena assembléia ouvia atenta a palavra de Sálus.. abrindo os braços. Belmiro Arruda. *** Decorridos alguns dias.

. Jesus... Queria morrer no terreno baldio da construção.. escutei seu apelo e sustei o tiro. há muito tempo.. sim! Confiarei em Jesus!. Pode vir trabalhar amanhã. Arruda abraçou-o. estendeu a mão ao desconhecido e falou: ... de olhos úmidos.Ia encostar o cano no ouvido. O caso foi conduzido ao conhecimento do diretor do serviço.Venha amanhã.. Estou desempregado. mas sua voz acordou-me. E o diretor. visivelmente emocionado. entretanto. 8 . . e sou pai de oito filhos.

e se dispôs a sair.PERIGO EMINENTE Basílio chegara ao rancho. mastigando o repasto. no outro dia. A esposa viajara na véspera. Contudo. ao pôr do Sol. Dirigiu-se. 9 . Vou até ao curral.disse à doce vovó que arranjava a cozinha -. o milharal novo esperava por ele. Comeu calmamente o guisado de palmito que Emerenciana lhe dera a jantar. . Emerenciana premia a máquina com o pé e costurava. Dez da noite quando voltou. ao moinho e renovou a provisão de milho para o fubá. a sós. onde a vacaria procurava descanso. e melhorou a cama de palha. Saboreou. em visita a parentes. ouviu por alguns instantes as cigarras cantarem. A Lua apareceu inteirinha. e ambos. não longe. espantando os tatus. No quarto.Meren . que nascera robusto. fitando o pano com atenção pelos óculos fortes. . deixe a casa aberta. Basílio visitou. a casa de Jorge. E. em seguida. depois.disse ele. leria. o "momento espiritual".3 . bem cedo.Durma com Deus. chegou ao cercado. depois de cerrar as janelas. Basílio beijou-lhe a mão encarquilhada e lhe enviou um sorriso bom. . companheiro do arado. Acendeu o candeeiro e sentou-se renteando a cama toda branquinha. se dirigiram ao mandiocal. meu filho. Sentia falta da esposa. felizes da vida. acima do barrocão. O calor abafava. a pamonha bem-feita.Boa noite. perto. Não tinha sono. vó . Ainda assim. como se quisessem esquecer o vigor da canícula. mas já volto. como na noite anterior. passo lesto. Ar parado. Acariciou o bezerro da Lilinda.

. "Como é isso? Já orei . Não poderia ser coincidência. Basílio fez-se grave. que os seus olhos de carne não conseguiam ver. deu-lhe a mesma resposta. voltou à consulta. Volta-se inquieto e estaca. quando lhe apraz. porém. tomou " O Evangelho segundo o Espiritismo" e abriu ao acaso. de um colapso cardíaco. Recordou um amigo que desencarnara. E. em momento crucial. dedicado à oração. Acordada de chofre ao impacto do livro. considerou que a vida é patrimônio de Deus. o item 34: "Num perigo iminente. semanas antes. que a Vontade de Deus se cumpra. que ele mesmo desconhecia? Nisso. o livro ofereceu-lhe a mesma passgem. . meu anjo guardião. repetiu. lívido. como se mantido por mãos invisíveis. baixando o olhar para a folha. Agradeceu à Divina Bondade o benefício da consciência tranqüila e. certamente o prevenia.. ameaçadora. a fitá-lo." Depondo o Evangelho sobre a colcha do leito. " . Estaria. aprontando a defensiva. no capítulo vinte e oito. solenemente: "Deus Todo-Poderoso e tu.. Surgiu-lhe aos olhos. buscando a visão do céu. Em rápidos segundos. preparava-se para desferir- lhe o golpe certeiro . porém. descerrou-as de novo. O volume. colocado na cama. logo após. ergueu-se. Entretanto. socorrei- me! Se tenho de sucumbir.Quem é? . enorme cascavel emergira dos lençóis e." Tratava-se de uma prece para ocasião importante. ouve leve cicio à retaguarda.Orou por alguns instantes e. Algum benfeitor espiritual. 10 . acaso.. Queria material para refletir. que o restante da minha vida repare o mal que eu haja feito e do qual me arrependo. e abriu novamente a janela. Se devo ser salvo.grita ele.pensou. fechando as páginas. Debruçou-se para a noite. pensativo. Na luz frouxa do candeeiro projeta-se um vulto. Por que? Intrigado. que Deus a dá e retoma.

replica fleumático: . Passando por determinada cela. Quando termina. O preso observa a senhora. tem belos sapatos "Luís XV".Ora. dos pés à cabeça. quem. calmamente. está sem algum costume censurável? A senhora é assistente de saúde. Distribuição de lembranças e guloseimas. Almira volta-se para ele e começa a doutrinar.CONSELHO TROCADO No Rio de Janeiro. pequeno grupo de companheiros. no culto da assistência. D. fala dos prejuízos do fumo.4 . madame. Almira Barbosa ouve a voz de um encarcerado: . neste mundo.Madame. 11 . mas tanto erro eu com o cigarro reprovável quanto a senhora com o calçado inconveniente. por favor? D. entrou no presídio da Rua Frei Caneca. quer arranjar-me um cigarro. eu sou sapateiro. comenta os imperativos da higiene. Diz-se habituada aos serviços da saúde. entretanto. Já pensou nos perigos do salto alto? A senhora me desculpe. não fuma. que lhe prejudicam a saúde. Com certeza. explana sobre as despesas trazidas pelo hábito de fumar e refere-se ao câncer do pulmão.

Quer liquidar José Joaquim. José Antônio Maria de Alenquer senhoreia enorme herança. o irmão desapiedado arroja-lhe o corpo frágil no precipício. era uma criança muito estimada pela sua vivacidade e seu temperamento ameno. que se deslumbra perante a vida. E depois o silêncio. jovem senhor feudal. nascido nos últimos tempos da existência do pai viúvo. Leve rumor. Um grito abafado.O PREÇO DA REMISSÃO I No grande castelo português do século XVII. devorada em vida e em poucos minutos por um cardume de famintas piranhas e. é conduzido pelos quatro a extenso poço lotado de peixes vorazes. ainda não se refez do choque emocional causado pela tragédia que envolveu uma criança de sete anos. numa pequena canoa. chama os três servidores mais íntimos a conselho. interessados. menino de sete anos.. no Baixo Amazonas. dela só restava o esqueleto! Presenciada pelos pais do menor a horripilante cena! A população da pequena cidade de Monte Alegre. Manuel Macário. o que é pior. Ganharão pequena fortuna pela cumplicidade. E. havia sido mandado pelo pai. Telegrama dos jornais: " A criança foi devorada em vida pelas piranhas! Em poucos minutos. de maneira tão brutal. o pequeno bastardo. No dia em que perdeu a vida. II 8 de fevereiro de 1957. filho do pescador Darlan. em companhia de sua irmã Josefina.5 . o mordomo. enquanto a criança fita o bojo das águas. na outra margem do rio Gurupatuba. a esposa e a filha ouvem-no. a vítima. que corre nos fundos da casa do pescador. de onze anos. E José Joaquim. José Antônio Maria de Alenquer.. E a vida continua . todos horrorizados. 12 . a fim de levar um recado a um conhecido. na presença dos pais e de irmã menor. O menino Adílson.

Adílson. quase totalmente descarnado. 13 . Refeito da brutalidade da cena e passado o cardume. a devoraram. A infortunada criança caíra exatamente num cardume de vorazes piranhas. mergulhou nas profundas águas do rio e de lá voltou trazendo.. a um movimento menos feliz. Incontinenti. como um louco. apenas..Já no meio da travessia. ou mesmo segundos. perdeu o equilíbrio e caiu na água. o pai de Adílson. Essa ocorrência deixou chocados a quantos dela tiveram conhecimento." III A voracidade das piranhas e o assombro da pequena família foram o preço da remissão da falta cometida. Horrorizados. o local onde mergulhou o menor tingiu-se de sangue. os pais de Adílson e a irmãzinha do menino assistiram à cena impressionante. tal a conhecida rapidez com que age essa espécie de peixe. um esqueleto. que em poucos minutos. sem nada poderem fazer.

Encontra ali. e a mãezinha ora em lágrimas. costumava ler para os amigos esse ou aquele trecho. Tão azedo adversário se fizera. se a conversa versasse sobre algum tema de Espiritismo. escorregava deliberadamente para o sarcasmo. Um passarinho sob um trator não morreria mais depressa. em silêncio. E a mãe do menino enxugando o rosto. O doutor não teve culpa alguma. Fosse onde fosse. suportando os impropérios do povo. Deseja ser humilhado. Ninguém faria isso por querer. acusado.6 . acrescenta: 14 .O LIVRO . nas proximidades de um Grupo escolar. “Essa história de Espiritismo só num tratado psiquiátrico”. E riam-se. Nos serões caseiros. mas tem o coração alanceado de intensa dor. Isso. O distinto advogado assumia as primeiras responsabilidades para enviar o volume à editora. Autoridades em cena. apenas resignação e a serenidade. que o recebem sem a mínima queixa. Livro de ódio. Tumulto. quando atarantado pequeno. O advogado consulta então a família sobre a instauração do processo de indenização. em fazenda silenciosa. para escrever um livro contra os postulados espíritas. busca a residência da vítima.. decerto. entre um e outro gole de uísque. Chorando copiosamente. de coração agoniado. mas o chefe da família responde firme: . apanha o cadáver minúsculo e. Livro-acusação. a correr desorientado. Ele mesmo. que aproveitou largo período de férias. e destilava pequenas difamações como quem debulhava espigas de brasas. O pai acaricia os cabelos da criança. salpicando a lama esfogueante em forma de letras. Os desígnios de Deus foram cumpridos. ele e os companheiros..LIBELO O distinto causídico não ocultava a ojeriza que experimentava pela Doutrina Espírita.Nada disso. Dirigia o carro elegante. lhe diminuiria a tensão. entrega o menino morto aos pais em pranto. lhe cai sob as rodas. – dizia irônico -. ferido. Em sã consciência não é culpado. quando sobreveio o inesperado. em que médiuns eram denunciados de maneira cruel.. porém..

mas não desejamos indenização alguma.. não se preocupe.Choramos. em casa. Compreendemos perfeitamente que o senhor não tem culpa. considerou: . O senhor está sofrendo tanto quanto nós. Ore conosco. indagou vacilante: .Nós somos espíritas – informou o pai da pequena vítima. O causídico.. de coração opresso e transformado.. como é natural. Admirando-lhes a paciência cristã.Doutor. 15 . a fim de acalmar-se.. .. Deus sabe o que faz. até a realização dos funerais. . fechou-se no quarto e rasgou o livro-libelo que havia escrito. O advogado baixou a cabeça e ali permaneceu sensibilizado e prestimoso.Que religião professam? .Então.... de olhos vermelhos. E à noite.

em página breve: “. entrega-lhe a esposa afetuosa carta de um companheiro. e pode ler. “Todo motorista é engraçado” – pensou. Somente o Evangelho guarda bastante luz para a solução de nossos problemas. Apreensivo.. Chegando em casa. Mas. no pára-choque: “. modifica inteiramente o destino. a fim de que pudesse recolher algum esclarecimento e consolo. Retira-lhe o conteúdo. Desesperava-se.Deus esteja conosco.. irônico.RENDIÇÃO Tudo fizera para pagar o quinhentos mil cruzeiros. afastou-se Avelino. hoje e sempre”.” Sorriu... Tudo debalde. Começa a leitura e esbarra com a saudação: “. Ninguém lhe evitaria semelhante propósito. contrafeito.Deus viaja conosco. Não desespere. Volte ao lar e ouça Jesus no Evangelho. Deixou a missiva.7 .Irmão Avelino. Ao retornar a casa. recebeu a palavra de generoso Mentor. Sentia a necessidade de orar. como? Abnegado amigo dispôs-se a conduzi-lo a determinado templo espírita. reparou que os faróis do ônibus incidiram sobre a frente de um transportador de carga. e falou de si para consigo: 16 .” Terminada a reunião.. a movimentar-se em sentido contrário. por vezes. sem dar-se por satisfeito. que lhe dizia. Deus esteja conosco.. Simples quarto de hora está revestido de imenso valor e. Estava desapontado e desgostoso. Fugiria do mundo. nitidamente. inquieto em suas cogitações. O desejo de auto-eliminação escaldava-lhe o crânio.

Mais curioso que interessado. com o enternecimento de quem se despede pela última vez. regozijai-vos. pensa um pouco. porém.” Ainda assim. rasgado.Sempre filosofia religiosa!.. estala de leve e o menino acorda. atira-se nos braços paternos.. Fita. enfadado de tudo. porque um exemplar do Novo Testamento descansava na mesa. fazendo ir ao chão o copo que se estilhaça no piso. sede perfeitos. Esparramou-se em velha poltrona e ouviu conhecido locutor encerrando o programa naquelas primeiras horas da madrugada: “. O gargalo de uma garrafa verte a cerveja sobre alta dose de violento corrosivo. atarantado.Papai! Papai! Hoje na aula escrevi sem errar o primeiro ditado da Professora: “Confiemos em Deus!” 17 .Deus esteja conosco.. Beijou a esposa. e seus olhos caíram sobre o versículo onze do capítulo treze. do gesto infeliz. abriu o livro. sem dizer palavra. ao mesmo tempo em que exclama expansivo: . angustiado.” Desligou o aparelho. a cena familiar que o rodeia. então recolhida. À frente da inesperada visita. Guardando a taça entre as mãos.” Abandonou o livro desalentado. notou que a esposa andara lendo o Evangelho. na segunda carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios: “. Tornou à copa. “.. Terminaria tudo. a pequena distância. O leito pressiona. Estava decidido. Antes. dirige-se ao quarto próximo e inclina-se. quase em pranto. o garoto que dorme. vivei em paz. para Ricardo.Quanto ao mais. e o Deus de amor e de paz será convosco. o verde papagaio de papel que lhe recorda o filhinho. No cimo de grande armário vê. sede consolados.

abraçou o petiz. a longos haustos. ajudá-lo-ia a pagar o quinhentos mil cruzeiros.. levando o lenço aos olhos. . E tomando de júbilo inconsciente. meu Deus! Delirando de alegria. respirou.. como se estivesse encontrado a felicidade pela primeira vez. Avelino.Obrigado. espontâneo: . Deus vencera! Deus. descerrando larga janela.Obrigado meu filho! – clamou. que o cercava por toda parte. gritou. feliz.. contemplou o céu rutilante de estrelas. agora chorando e rindo. 18 . aliviado. apertou o filhinho com mais ternura e.. A seguir.

Estudemos. insiste com mais força. entretanto. Em certo ponto da preleção.Revelamos os nossos sinais dominantes. dizia. O instrutor desencarnado retoma a palavra e explica: . cinco vezes. no ânimo dos ouvintes. O heroísmo na praça pública pode ser mero fruto de circunstâncias especiais. 19 . E o silêncio cai. Pancadas violentas: duas. anuncia claramente que um dos seus reflexos mais altos é a impaciência. nas manifestações pequeninas. A calúnia por vezes se entremostra numa simples palavra. alguém bate á porta cerrada.8 . surge num vintém. pelo seu comportamento atrás da porta. em muitas ocasiões. nas mínimas ações. não se vendo logo atendido. nos gestos mais apagados. o benfeitor espiritual Bittencourt Sampaio falava pelo médium.. É o cotidiano que nos revela o íntimo. três. O visitante. A pessoa que nos procura talvez seja um modelo de cortesia na vida social. pesado... A avareza.. com propriedade e beleza. A maldade aparece num ato de cólera. veementemente: . Cada um tem reflexos diferentes. A leviandade vem à baila num vago sorriso. Nisso.SINAIS Na reunião íntima...

em conseqüência. E. o cafezinho. cinema próprio. durante a noite. tragédias passionais. . . Desabafo. E Leivas. ouvia.. Seriam discutidos os estatutos para a fundação do lar de crianças. percebendo que retardara. aderiu. estávamos a postos. Residências superluxuosas. E alongou-se a crônica verbal.E a nossa reunião? _ perguntou Franco. Festas inoportunas. registrou com acerto todos os desacertos do mundo. salões de baile e piscinas. muitas vezes. Há por toda parte soberano desprezo ao trabalho. A pequena assembléia ouvia. o tesoureiro.Creio seja melhor adiar.. Augusto Franco.Se Deus não se compadece da Humanidade. 20 . Há domicílios com bilhares. Maconha. E. o presidente da casa. lhes administram entorpecentes para estarem. Preguiça delituosa. Antes. Máquinas e empregados para todos os misteres. pareciam desenxabidos. NIsso. o horário avançou além do tempo previsto. junto a grande organização espírita.9 . estaremos perdidos. conselheiro da casa e dos mais experientes. Todos monossilábicos. Os companheiros. crianças delinqüentes e vagabundos inveterados. tantas vezes esteio firme da instituição. E os companheiros encarnados iam chegando. porém.. . aprovando com a cabeça. argumentava: . bar interno. Pais e mães abandonam meninos a criaturas mercenárias que. todavia.. Mesa-redonda. e o vício e a criminalidade vão crescendo. temos a granel quadrilhas juvenis... Abusos no cinema. O ponderado orientador da casa. Altas rodas passam a noite no pif-paf. O campo social é manicômio sem portas. Todos brincam de viver. Cada qual poderia expender francamente seus pontos de vista. quando temos milhares de companheiros a quem falta o estritamente necessário. Franqueza.disse Cunha. Todas as bebidas liberadas.O LAR DAS CRIANÇAS I Amigos espirituais diversos. mais à vontade. ao cafezinho. porém.

meu caro. Franco. como de outras vezes. a secretária.Augusto . adornado com uma fonte luminosa. rogando a inspiração de Jesus. Você especifica um número exagerado de pias e banheiros.falou. 21 . Não queremos qualquer ruído inútil. Esperamo-la simples.. porque todos os amigos gaguejassem.. pronunciaram a palavra "depois". mas vivia espantado com os desastres morais. Não contamos com material dessa espécie. fazendo-se úteis o mais cedo possível. onde as crianças não sejam bibelôs para os nossos caprichos e. à uma. sem ser suntuosa. e olhe lá que vão abrigar muitas crianças. Sonhamos uma casa confortável. Você indica várias peças de mármore. Foram iniciados os estudos para o lançamento da obra. Escolhemos apenas cimento.. o futuro vem aí. Teremos colchões vulgares. sem prévia combinação. simples sem ser miserável. . tapetes e móveis. Você diz que precisaremos de quarenta colchões de mola. preferiríamos o entendimento para outra hora. Pretendemos apenas quinze. como se estivessem receosos de expor o pensamento.Ora essa! Como assim? E Cunha. porém. Você julga que as crianças devem ser mantidas sem trabalho. . nossos próprios filhos. O prestimoso conselheiro instava com tanta humildade que Felício Cunha buscou a papelada e. Cunha foi claro. E como suspiramos por nossos filhos libertos dos prejuízos morais que vergastam a Terra.. Sentia-se culpado e pedia escusas. II Não houve outro recurso senão atendê-lo. Veja bem. abraçando a realidade sem os perigos da fantasia. Nós tememos semelhante aquisição. segundo a vocação e a capacidade delas. sim. abrindo um relatório: . Você propõe a compra de muitos metros quadrados de ladrilhos brancos e azuis. Você planeja a compra de noventa globos e dez lustres para luzes elétricas. Não tencionamos remunerar cooperador algum. Consideramos que todas devem estudar e servir. pronunciou a prece de abertura. E todos os demais.Outro dia. não concordou. crendo que os ladrilhos singelos nada deixam a desejar. e. Você quer uma casa complexa. Você pede a construção de trinta e dois aposentos. que viria favorecer a irresponsabilidade infantil. a fim de não contrariarmos a você mesmo.Você é o autor da maior parte de nossos planos. Aspiramos a um lar.. porque realmente. admitimos seja nosso dever não enganar a nós próprios. Estamos satisfeitos com quarenta lâmpadas simples.. Você espera um parque de brincar. Exigia. corajoso -. Você solicita um salão de festas. Você reclama empregados pagos. Ricardina. Que o perdoassem pela comprida conversação.acrescentou D. creio que todos nós. Você quer um monumento.

apanhado de surpresa. 22 .. tossiu. é . e Cunha.É.Augusto Franco. encerrando a reunião.. calmo. o vice-presidente da casa... contudo..Meu Deus. como se estivesse falando para dentro de si: . com aquiescência de todos.. E depois de um instante em silêncio. pigarreou e disse desapontado: .. orou.. de fato vocês têm razão . Lima. pediu que fosse adiado o debate geral do assunto. mastigou em seco. é muita coisa sobrando! ..

.A humildade. .O MAIS DIFÍCIL Diante das águas calmas. .A persistência no bem. Não era aquele um momento raro? E ensaiaram perguntas.Qual o talento mais nobre.. Jesus refletia. Vira chagas e aflições. o moço.Mestre. 23 . para nós todos.Senhor – disse João .A maldade é atributo de todos – clamou Tiago . * Tadeu e Tiago. . a todos servindo sem distinção. João e Bartolomeu aproximaram-se.O trabalho. . . o mais alto dever? – aventurou Tadeu novamente. faço o bem quanto posso. Ouvira remoques e sarcasmos. Senhor? – falou Tiago.Amar a todos.. mas apenas recolho simples espinhos de ingratidão. .Amemos a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a nós mesmos.Oh! Isso é quase impossível – gemeu o aprendiz. .E qual a virtude mais preciosa? – indagou Tadeu. momentos antes.E a norma de triunfo mais elevada? – indagou Bartolomeu. qual é o mais importante aviso da Lei na vida dos homens? E o Divino passou a responder: . . . .. .10 . qual é. Afastara-se da multidão. O Mestre pensava.

contudo. voltou a interrogá-lo: . A aquisição mais difícil para nós todos chama-se paciência. . E as mágoas desfilaram diante do Mestre silencioso. João. .A resposta está aqui mesmo em vossas lamentações. amar sem crítica. que é mais difícil? Qual a aquisição mais difícil? Jesus sorriu e declarou: . 24 ..Tenho encontrado mãos para auxiliar – disse outro. dar sem pedir.Senhor. entender sem reclamar. O mais difícil é ajudar em silêncio..Vejo homens bons sofrendo calúnias por toda parte – acentuou outro discípulo.

..Que abrirei minha bolsa todos os dias. em sua residência. . eu te agradeço a infinita misericórdia.Senhor. em favor dos necessitados. Batuíra abraço-o e lembrou: . estou muito mais forte – disse o recém-chegado -.Que serei paciente e humilde. . o inolvidável apóstolo da Doutrina Espírita.. Tratava-se de um obsidiado em recuperação. Venho.E prometo. O apóstolo cofiou a barba respeitável. Transbordando satisfação. meu amigo.. .Sim. que o dono da casa conhecia de muito tempo. já consigo dominar-me e governar meus próprios pensamentos.Que executarei o trabalho que a tua vontade determinar... à nossa prece. . 25 . nesse ponto. .....11 . . louvar a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo.Convém. Homem próspero.... em São Paulo. colocando as mãos sobre a cabeça do doente sentado..O MÓVEL DA OBSESSÃO Achava-se Batuíra.. formulando renovação.Que procurarei o caminho do bem. hoje. .Que executarei o trabalho que a tua vontade determinar.. com mais confiança. . elevou olhos ao Alto e. quando um enfermo melhorado varou a porta..Que serei paciente e humilde. E o amigo repetia: . Mas. eu te agradeço a infinita misericórdia. assim... . sentindo talvez que o compromisso enunciado era para ele excessivamente pesado. na Rua do Lavapés. Batuíra.E prometo. faça a petição que deseje e acompanharei as suas palavras. então..Graças a Deus... .Senhor.Que procurarei o caminho do bem. o doente começou a gritar e piorou outra vez.... ia dizendo a oração: .

falou ele... Não será lícito imiscuir o Criador em negócios que não lhe dizem respeito. importante empresa da grande cidade. junto delas. sou materialista confesso. a pedra e a cal.Doutor. . visitaremos a fábrica de móveis. precisamos de madeira para dar início.As portas serão abertas em nome de Deus . desapontado. limpo e alvo. Alberto .falou D. Ateu.INCÊNDIO NA SERRARIA I O grupo de senhoras estava em prece. mas é uma escola destinada às crianças menos felizes . . Agradecemos as dádivas que já recebemos em Vosso nome. o Dr. .Deus recompensará o que possa fazer . Contudo. 26 . nós. Ateu puro. levantaram-se para sair.Não temos interesse algum em concessão semelhante . mesmo assim.era ele engenheiro hábil -. mordaz. recebeu a comissão cortesmente. inspirai-nos e protegei-nos.E que temos a ver com Deus? .acentuou Dona Ester. Constância. . E mentalizavam no doce requerimento o modesto edifício. Confiadas em Vosso amor. ao ouvir a sucinta exposição. .12 . Senhor.A educação é obra para governos.. esfriou. Senhor. Desejavam construir uma escola.. Chamados a ouvi-las. Digo isso em consideração às senhoras. pusemo-nos igualmente em marcha. porque. Rogaremos auxílio. .Contamos com o senhor . . comovidos. contando com Vossa bênção! Em seguida.disse. os desencarnados..dizia a mais experiente das quatro -. Amália. a conversação se fez viva. a maior responsável. O pedaço de terra. II O gerente da serraria-oficina. tínhamos o coração enternecido. .. de mim mesmo.Senhor . E. Agora. Mas. Rute.aduziu D. que ofertariam aos pequeninos.falou D.

Quem é o dono real de tudo.. até que isso aconteça. com brandura e espontaneidade. Rute. Sabedoria e amor que chegam de Deus. - Depressa! Venha depressa! O fogo está devorando a seção de compensados! Alarido interior. paciente. . Rute sorriu.. Começaram as despedidas corretas. Entretanto. o equilíbrio dos servidores e até mesmo a sua própria saúde são doações de Deus. 27 . doutor. Ester. da fiscalização. .Mas. espavorido. da higiene. Alberto mostrou-se mais irônico. . Por mais de uma hora falou e falou sobre os novos progressos da Humanidade. III . Campainhas vibrando. O engeheiro movimenta-se. delicada. Exibiu mapas e apontamentos sobre botânica. positivamente sarcástico. Referiu-se à Natureza.ponderou D.resmungou o engenheiro. Comentou as vitórias da contabilidade. Corre-corre. varando a porta do gabinete. Tudo em vão. da técnica. quando o inesperado aconteceu. que a todos nos sustenta. os instrumentos em uso. . As senhoras instintivamente lhe seguiram os passos.. E nós também.. não será compreensível fazer algo de nossa parte? O ensino será totalmente alheio ao ensino religioso. como sejam as árvores cortadas.Doutor Alberto! Doutor Alberto! . acreditamos que toda a matéria-prima. Mas cremos na força inteligente da vida. apesar de sorridentes. o seu modo de pensar . Brados por socorro multiplicam-se angustiantes. ma não se deu por vencida.Respeitamos o seu ponto de vista. Conta dezenas de empregados.gritou um operário.D.falou D.Decerto que esperamos do governo que nos dirige providências mais amplas a favor dos meninos. Dispõe de muitas máquinas. O incêndio nascera de violento curto-circuito. Entretanto.Por que não? . senão Deus? . Admitimos a eterna bondade que orienta os sucessos do mundo. nem mesmo um centavo. E aclarou: . levantaram-se acabrunhadas. O senhor comanda uma fábrica. por que envolver Deus nesta história? . As senhoras. E acabou notificando que não daria peça alguma. O Dr.

Depois conversaremos sobre Deus. Mudei de idéia. tomam a dianteira do trabalho salvacionista. E.Dr. com as vestes sujas e rasgadas. quatro heroína aos seus olhos e. Combatem o fogaréu. Transferem tábuas pesadas.D. Rute.. O Dr. muito pálido. E sofrem queimaduras ligeiras. penso que Deus ganhou a questão de sua escola. aproxima-se das damas. E vencem. E pulam. Empunham mangueiras. esclarece o chefe de obras que duzentos mil cruzeiros de madeira compensada deviam estar perdidos. Estafam-se.Que Deus nos abençoe! 28 . como dono desta oficina. Ainda assim. acrescentou: . Há deficiência de pessoal. As senhoras.. as chamas se extinguem. corajosamente. Deslocam móveis. agora calmo. porém. em seguida. Finda meia hora de intensa luta. Depois de dois meses. contou a história do incêndio. cumprimentando a diretora da comissão. e um garoto. escola singela e branca recebia quarenta meninos. gentil: . terminando com a bela exclamação: . Mande buscar amanhã toda a madeira de que necessite. fez pequeno agradecimento. bem-humorado. todavia. ordena e coopera. presente à inauguração. A casa não estava segurada contra incêndio. Alberto. Alberto. Doutor Alberto. E mais o que precisar. As senhoras. chamuscadas. disse. como se lhe fossem subalternas de muito tempo. sorriram e retiraram-se.

A agonia tomava-lhe o rosto edemaciado. a ela. sofria ele a intercessão de parentes.13 . demorara a se decidir. durante dez dias. Não seria necessário maior exame para estabelecer o prognóstico.UM CASO DE CIÚME I Atingimos grande maternidade. Haviam sido felizes. o marido confiante. 29 . o amigo espiritual que nos chamara. era sensível às demonstrações de ternura que recebia da outra. Entretanto. o pequenino ser vivente excitava-se todo. O nasciturno assemelhava-se a semente viva ansiando sair do fruto deteriorado. esperando o cirurgião. Suor abundante. que se lhe tornara a companheira legal. Entre as duas. O organismo anêmico não reagia. convertida em refúgio. talvez. Inspeções radiológicas. Rememorava o noivado difícil. ao desposar Gilberto.. recebeu-nos a postos. Quantos sucessos dentro de um ano! Via-se abraçada. Desinteressada. Gilberto reqüestado por Clênia. Antésio. a rival caíra doente. rendia-se à prece. Amava-a. contudo. Espantada. da vida. na altura da noite. Seguira-o. a quem devotava amizade pura. como alguém a bater porta selada. imensamente felizes. recordava. recordava . no cartório. Maria Regina.. Seguimos. O quarto de Maria Regina era um cubículo anexo à enfermaria. Clênia entregava-se aos bacilos a lhe trabalharem os pulmões. Velha câmara de despejo. Clênia era a prima dele. Depois disso. Inclinamo-nos para a parturiente. desde os primeiros dias da escola.

O esposo estaca. . estertora. Gilberto. O marido aproxima-se.era só o que ele respondia." .. Relegada a si mesma. Debalde o tenta-me. Cortava cuidadosamente com os dedos ágeis. Procurara não pensar. Como se possuída por fantasmas estranhos. Se quisesse vê-lo e ouvi-lo que levantasse de madrugada. ouvia-lhe juramentos de amor. parecia transportada. à casa de Clênia. O esposo era mecânico bem pago e saía cedo..Surgiram as primeiras dificuldades sentimentais. Trouxe pequena faca.Ciumenta! . alta noite.. O esposo chegava tarde e surpreendia-lhe os olhos vígeis. 30 . compadecido. Ela geme. Maria Regina costumava dizer-lhe: "Venha hoje mais cedo . E deitou-se para sofrer ainda mais. Confortava-a. . Chorava a debater-se no leito frio.. em espírito. chega Gilberto. Ante a resposta. mas o espírito andava longe. entregou-se ao ciúme. E mentalizava Gilberto a recostá-la no próprio peito. oferecendo-lhe o café quente. deixava a residência da prima. Tinha a idéia de entrar no quarto de Clênia e surpreender o marido em posição pouco digna. Torturada.Estou cansada. trabalhando. Ela não se contém e grita-lhe insultos. para à prima enferma. aturdido.. Estimulava-lhe o gosto pela medicação . inchados de pranto. e começou a fantasiar.. Salvo isso.. sinto a cabeça pesada .. simplesmente para a troca de roupa. Experimentando conflito enorme. Delirando. Deixou o instrumento cortante na mesa próxima. embrulhando amostras gratuitas de remédios caros. Gilberto ria. Madrugada além. Habituara a insculpir em madeira. doente . irônico.Que houve? . nervoso.a pergunta vinha irritante como chicote no ar. almoçava fora e à noitinha fazia trampolim do lar. Depois de quatro meses. apareceu uma noite mais aflitiva.

O esposo era amigo e leal . simplesmente o ciúme . A intervenção é feita num átimo. contudo. .Loucura! Loucura! . a hemorragia fora abundante. Gilberto. porque o marido buscasse contê-la. Pede socorro aos vizinhos. fora o ciúme. Não lhe permitiram nem mesmo chorar sobre o morto. Atracam-se. Advogado familiar esposa-lhe a causa.repetia.. após o exame. Entretanto.clamou colérico.. Nem as recordações do marido encontrara.. sem querer. .. Comovem-se autoridades e obtém-se o "habeas corpus".. E. Declara-se culpada. toma-lhe agora os pulsos. sempre -. lhe fala em gravidez. Requer a inspeção de saúde. perdendo sangue. ao retorno. Desolada. estendeu a outra mão e empunhou a faca.dissera o clínico. premindo-lhe um dos braços. II Maria Regina continua lembrando . 31 . O esposo rola. bradou acintosamente. ela lhe enterra toda a lâmina. espantado. Gilberto é transportado ao pronto-socorro.. Volta a casa. Uma sombra que chora incessantemente. Sentindo-se humilhada. Sai dementada. Submete-se à apreciação de generoso facultativo. admitindo-lhe a insanidade.A senhora deve ter coragem! Confiemos em Deus . enquanto as lágrimas rolavam da face da infeliz. A família tudo levara. que. Detida.. entre discreto e humano. em movimento instintivo. Sozinha. E a bênção da anestesia devolve simplesmente um cadáver . O abdômen é atingido. A polícia interveio. Confessou-se assassina.

.Maria Regina. A parturiente é submetida à cesariana. no entanto.pensava.. Chegara a refletir consigo mesma: "Parece uma ave assustada buscando fugir ao ninho de angústia. Você também." Amorosa parenta internou-a. apesar da esmerada assistência. chega o cirurgião apressado. Gilberto apartou-se prematuramente da vida física. III Manhãzinha. Mas o remorso era espinho invisível. E enquanto se lhe inteiriça o corpo frágil. Está fatigada. Queria somente tranqüilidade." "Maria Regina.." Aborrecia-se. a moça arregala os olhos e suplica: . quanto possível.. Você também. não mais se recupera.Perdoe-me! Perdoe-me! O esposo. desperta conosco em Espírito. nem tudo está acabado. trazido por benfeitores. Socorro antecipado. Você vai ser mãe.. 32 .Alimentando-se à força e dormindo menos. A hora esperada chegou e dores rudes surgiram nela. Como num pesadelo. devagarinho. seu débito foi pago. abraça-a com carinho. porém. Excitava-se o ser não-nascido com violência. revolvendo-lhe o coração. Mas alguém chega até nós.. assassina . lembre-se do filhinho . Ausculta.. Afirma-se assassina. Compreende o problema grave e medita. Providências pré-operatórias. É Gilberto a sorrir-lhe . Que lhe importava o filho? . mas grita em tremendo susto. Não vê o robusto menino em mãos da enfermeira.. Quatro horas de inconsciência. Ajudamo-lo indiretamente. ouve amigos preocupados: "Maria Regina. E Antésio esclarece: . Gilberto perdeu a existência pelo ventre cortado.

. Ao pé dele.prometendo o futuro . foram conduzidos a câmara próxima.Chamar-se-á Gilberto.... 33 . invadindo o aposento. lutaremos no reajuste. enfim....Abraçados. o amor fraternal para sempre . Mais tarde voltarão vocês no lar dele .. parecia a esperança de Deus. Débil recém-nato dormia num berço. E como irmãos um do outro aprenderão. Lá fora. ambos em lágrimas. E a luz. e será meu! . Ser-lhe-ão filhos abençoados..Gilbertinho é o grande porvir! Agora..Que fazer? Que fazer? O instrutor benevolente aponta a criança e fala bondoso: . Maria Regina agarra-se ao esposo e exclama. enxugando os olhos. aflita: . a parenta amiga dizia à jovem de branco: . o Sol rutilava .

.. mas é impossível. Doutrina de retificações incessantes e obrigações sem limites.... desapontada: ..Sr.Como é que a senhora queria que ela fosse?.PERGUNTA CONTRA PERGUNTA Acabara Leopoldo Cirne de presidir a sessão pública. interpretando certa passagem do Evangelho. Cirne.. Uma voz gritante na consciência a todo instante e uma disciplina que não acaba. 34 . E mirando os olhos claros do interlocutor. acentuou: . tenho buscado praticar a Doutrina Espírita por todos os meios ao meu alcance. quando elegante senhora se aproxima e considera.Que me diz o senhor sobre isso? E Cirne respondeu..14 . imperturbável: . É um freio a corrigir-nos e um aguilhão a impulsionar-nos.

e. . em triste miséria. dirigindo-se a Djalma de Farias. que esteve na cadeia por mais de oito anos. hoje diz que é espírita. por causa dele. Só a palavra do Evangelho é verdadeira. Você é leal servidor do Evangelho.” 35 . nas anotações de Mateus: “. . Não será esse um caso para louvar? Pois se vemos um delinqüente regenerado.Então. muito ligado às tarefas de evangelização. perto de nós.. com segurança. Lê comentários do Novo Testamento. depois de velho.E você tem aí o Testamento do Cristo? – indagou Farias com humildade. o comerciante aduziu: .. a visão dos cegos.. objetou. . Fala sobre Jesus.. Não concordo em que os espíritas de afirmem cristãos.. se fez ermitão? Farias. Isso aconteceu aqui mesmo. Entretanto. Beberrão contumaz. restaurar. O papel da religião não será ajudar. então benemérito lidador da Doutrina Espírita na capital pernambucana. aquele é Secundino.Imagine só – e apontando para um homem sob pesado fardo na rua -. Não é o caso do demônio que. o movimento dos paralíticos. Quero a letra da lei. um homem problema tornar-se útil.15 . assassinou um companheiro de quarto que lhe negará alguns vinténs. gritou o opositor enervado – estudo o Evangelho de ponta a ponta. porém. e surgiram aos olhos de ambos as palavras de Cristo no versículo trinta e três do capítulo doze.Como não. Era um negociante do Recife. Vamos lá! E Jesus? O Mestre foi o remédio dos enfermos.Meu caro. o equilíbrio dos loucos. veja lá o que diz.. abra o livro – pediu Djalma -. é sempre impossível que não tenhamos resposta justa. . muito afável: . mas decididamente não concordo.FRUTOS . morreu a esposa e um filhinho da vítima. pelo fruto se conhece a árvores. O lojista descerrou as páginas.. E sacou do bolso pequenino exemplar.. reviver? Surpreendendo-se desarmado de argumentação mais sólida.Reconheço no Evangelho o livro da salvação.Para mim nada disso vale.

como suportaremos as pancadas justas da vida? 36 . visivelmente irritado. .. Num átimo.. Se não podemos suportar pobre borboleta a nos beijar respeitosamente a testa. fraterno. não posso omiti-lo. comunica-se Nuno.* Mais tarde. feliz. saúda os amigos. sorridente. o presidente da instituição. já que você faz questão do apontamento. julga que me conduzi a contento na palestra? . Complacente. num deslumbramento de luz. A assembléia. sobre os méritos do trabalho. o círculo é reduzido.” O auditório vibrava .. E prossegue a preleção .Meu amigo.. agradece as bênçãos da noite. Mas pensemos um pouco.INSTANTÂNEO João Marques pregava com fervor. O tema era a tolerância. esmaga-a com o pé.. Quando está preste a despedir-se. o instrutor. – Você estava muito bem inspirado. a dificuldade e a lágrima! . Interrompe-se. bebia-lhe o verbo. pequenina bruxa dourada voeja na sala e toca de leve o rosto do orador. brilhantemente. otimista. toma a minúscula borboleta noturna e.“Suportemos os golpes do destino! Suportemos a calúnia e a ingratidão. Apenas alguns companheiros e o médium Macedo. No clima de júbilo geral. Você falou sobre a tolerância. explana.E não tem apontamento a dizer? O benfeitor pareceu refletir um minuto e concluiu: . João Marques arrisca: .Marques. Controlando o médium. Nisso. o orientador desencarnado. João Marques vacila. enlevada.Como não? – replica. Batista.. . Era o décimo aniversário do templo e o salão estava cheio.16 .

.” Isso quer dizer que o homem sereno desfruta o privilégio de mais extensa vida no corpo. E continuava: . se viu desencarnado. mesmo assim.Tão bons conselhos! Tão bons conselhos! No outro dia.Você já se encontra fora do corpo de carne há dois meses. O zeloso contador tentava alcançá-la com um tabefe. gritou. Em muitas ocasiões. informou calmamente: ..O suicídio indireto é. procurando-lhe a calva. porém. bateu fortemente no próprio crânio. aqui e ali. entre os seus raros cabelos. Você estava avisado quanto aos perigos da impaciência e caiu. Sentindo que ela se alojava. com grande acerto.17 . o mesmo Fraga. A pancada. E você ainda dispunha de onze anos pela frente para trabalhar junto aos homens.O CONTO DA MOSCA . À maneira da personagem de Fedro. praticado pelos cultores da intemperança mental. Socorro. em poucas horas.E agora. mas apenas agora toma acordo de si. Jerônimo.A impaciência é vício grave. Falta de caridade para consigo mesmo. Já estudamos seu caso. no conto das moscas. basta um momento de indisciplina e a morte surge por nonadas. Quando acordou. ao conhecer a própria situação. castigava improficuamente a si mesmo. afobado: .. no entanto. falava pelo médium. e Fraga. o benfeitor espiritual. afirmava Jesus: “Bem-aventurados os mansos. no regaço do piedoso Jerônimo. muitas vezes. Suicídio indireto. coçando nervosamente a cabeça exclamou risonho: . Por isso. A sessão terminou e todos exaltaram a excelência dos conceitos ouvidos. porque possuirão a Terra. todavia. E Fraga. provavelmente pela vigésima vez. no calor da tarde. via-se atarantado. Ocorrera a ruptura de vaso importante no cérebro. Leve mosca zombava dele. meu Deus? Que fazer? O amigo espiritual. fê-lo cair. meu caro. suicídio sem nenhuma razão de ser. entre os livros do escritório. mas nada . o contador de vários estabelecimentos comerciais. espantado.E agora? Que faço? O benfeitor espraiou o olhar pela casa de socorro terrestre em que se achavam e esclareceu: 37 . Aflição.

Aqui.. você ficará durante algum tempo a espantar moscas.Aprendendo a ter paciência. .No hospital onde estamos.Já expliquei o problema aos nossos Maiores. Ficará aqui mesmo... .Ajudando aos enfermeiros. . decerto não merece o pavor das`regiões abismais. . Jerônimo explicou simplesmente: .E fazendo o que? Sem sorrir.Com que fim? . assombrado.. Pela vida correta que você levou. onde? – indagou Fraga. . 38 . Mas também não está habilitado para subir.

. Clarividente. insatisfeito consigo mesmo. Deus me dará suas mãos. Como de outras vezes.” . tudo está certo. Deus me dará suas mãos.Sim. depois de afeiçoar-se ao Evangelho. desentendeu-se fortemente com o posto fiscal. fizera-se mais consagrado à oração. Mas. O pupilo errara com agravantes. disse em voz alta: . . estimado motorista. 39 . Sebastião. À noite.Está bem – disse Eusébio -. sentia-se envergonhado.. ignorar o dever da humildade.18 . pois que espírita algum pode. Eusébio surgiu-lhe aos olhos e argumentou. buscando vigiar . Conhecia as próprias obrigações. Sebastião rixou com alguns colegas. Deus está do meu lado. como proceder? Saí de casa orando.Meu amigo. perdeu a calma.Está bem. mas não se esqueça de que nós também precisamos estar com Deus e entregar as mãos a Deus. no instante das orações. justamente nesse dia.Deus está comigo. Tomando o automóvel. convincente. em boa consciência. asserenar-se. Entretanto. meu irmão. sim – concordou Eusébio -. contudo. E muitas vezes repeti hoje: “Deus está do meu lado. abusou da velocidade. pela manhã. Cabia-lhe controlar-se. Deus me ajudará. apesar de todos os votos que fazia. foi multado. Deus me ajudará. encontrava grande consolo na palavra de Eusébio. gaguejou e acabou conformando-se: . amanhã vamos começar tudo de novo.DEUS E NÓS Sebastião Lobo. Está bem? Sebastião gaguejou. estava sempre a braços com dificuldades morais de vulto. o instrutor espiritual que lhe dedicava incessante carinho. certa feita afirmou: .

Mas – suspirou o médium contrariado – não posso aspirar à melhoria? Valorizar os meus interesses. Adelino de Carvalho. . a fim de atender ao povo? . .Pode sim – ditou o Espírito amigo -. .Você tem a força de Deus nas mãos! . Adelino expõe o projeto e roga parecer.Então. que deveria permanecer no domicílio singelo e que os amigos não podiam efetuar aquilo que somente a ele competia fazer. intimamente. E tantos elogios ouviu que passou a considerar. Um palacete que não desse muito trabalho seria bastante. batalhando em favor do bem. passa a esclarecê-lo. crescer no mundo será sempre vaidade? – gemeu Carvalho. em Minas. Não precisava de grande mansão. que não lhe convinha figurar uma situação que não tinha. Quem compareceu foi Antonio Logogrifo. mas não à custa de vãs aparências e sim por seu próprio esforço.Como assim? 40 . a possibilidade de casa no centro urbano. Um lugar em que pudesse acolher as visitas com elegância e decência. Que um médium. .Você não é homem para viver na obscuridade. elevar-me socialmente? . começou a ouvir semelhantes frases de muitos amigos. bondoso. A vaidade tem consigo o progresso da cauda de cavalo. abnegado médium passista de Uberaba. Logogrifo. amando.Não.Estejamos todos prósperos e poderemos naturalmente ajudar. precisa assistência moral.. servindo. admiravelmente situados no círculo das finanças. . não é bem isso. Quando o plano se tornou amadurecido no pensamento.SÓ CRESCE PARA BAIXO . . Adelino – obtemperou o companheiro -. concentrou-se e pediu a opinião da Esfera Espiritual.... no entanto.Por que não montar gabinete próprio num dos melhores pontos da cidade. antes de tudo. triste.19 .Você nasceu para melhor destino . lutando. excelente amigo desencarnado..

Como quem acorda de longo sono. pode apenas dizer: . meu irmão. então. sorridente: . Adelino sentiu estranho contentamento. 41 . Compreendeu. E o amigo espiritual informou.Só cresce para baixo.Deus lhe pague. chorando de alegria. que na sua modesta casa já morava a felicidade. E.

Além disso. Horário certo de levantar. um dos cooperadores. Valmiro. ele e os companheiros assistiram ao inesperado. vomitava substância amarga. Tanto tempo passara que D. Tentara erguer-se. Mercedes. porém. Entulhado de comprimidos. Atacando o serviço. agora. 42 . não agüentou o ataque das picaretas e ruíra. Cesário.gritava. Abatido. Justamente naquele dia. alarme certo. A casa velha.20 . caindo aos pedaços. Às nove horas. o operário mais jovem. preferia ter viajado. Contrariava-se. O corpo bambeara e a cabeça parecia-lhe um vaso em fogo. A idéia do serviço marcado castigava-lhe o pensamento. Inutilmente. Vicente pede à esposa a injeção antitóxica guardada no armário. de vez. Mercedes julgou prudente comprar uma nova caixa em farmácia vizinha. A esposa dissera ser "melhor chamar médico". o empreiteiro de obras. Vicente reagiu. Apesar do problema orgânico. Piorava a olhos vistos. obstinado. amanheceu exasperado. . II Badalavam dez horas. marcara o relógio. ficando impossibilitado para o trabalho. vem pedir providências. Quatro operários esperavam-no para a necessária demolição do velho prédio que adquirira em bairro distante. É indispensável confiar na Divina Bondade. Vira-se.A MORATÓRIA I Vicente Curi. não apenas gemia. a demorar-se na cama. frenético. tivera os pés gravemente feridos.Onde a Providência Divina que não me ajuda? . O empreiteiro. febril. Carro de clínico à porta. D. a esposa. Enfermo. De noite. pede-lhe calma. Era a última de pequena série que deixara incompleta. cansado. Precisava satisfazer o serviço urgente em reconstruções diversas.

O doente. Entretanto. no entanto. antiga enfermeira da vizinhança. Souto. embora melhor. 43 . mostrando dardo em riste. Mercedes entra em luta perseguindo o lacrau que lhe foge ao chinelo. D. Vicente é retirado pelas senhoras. E reclama: .Agora é remédio raro.falara o moço de vendas. Vicente se enraiveceu. sob ventosas acima dos rins. Fala asneiras. Velha assim mesmo. falou em aplicação de ventosas. porém.. porque sentisse dores nas costas. Ultrapassa os limites do silêncio correto. III Mais tarde. buscando ajustá-la à agulha. Quando faziam a aplicação das ventosas. IV Quase noite. um algodão inflamado escapa das mãos da bondosa amiga. não queria mais a medicação. sai correndo enorme escorpião. e. Queria a injeção. amigo da casa. não se conformava. Alguém lembrou o telefone para recurso a outra farmácia. Protesta indignado. Sente-se perseguido. E aceitou-as. e fala. surge sorrindo. enquanto a mulher lhe falava na Providência Maior. Copos de vidro. para conduzi-lo ao templo espírita. desesperado. E acrescentou: . algodão e fósforos foram trazidos ao quarto. Comunica-se o fogo aos lençóis finos. Vicente precisava de socorro moral. D. sobre o Amparo Divino. ao telefone. Vicente lembrou-se do avô. promete colaborar. O enfermo. Do colchão incendiado.Parece que urubus pousaram em mim. D. Mercedes viu-a cair no piso. O marido lamenta-se. Convencera-o a valer-se do passe de reconforto. Relaciona amarguras e prejuízos. D. recusou.Não temos . Mercedes pede o concurso de Souto. mostra-se Vicente mais inquieto. Está pronto. perdendo-se o conteúdo. Crescência. mais uma vez. na hora certa. amuado.

mais uma vez. e zarpa adiante. rebelou-se você contra a Providência Divina. O amigo. Volte para casa e descanse a cabeça teimosa.. amigos espirituais do caminho advogaram-lhe a causa. Entretanto. não reclame. Tomam um táxi.Diz Vicente. para hoje. no Infinito Amor de Deus. Você esteve à bica de ser esmagado pelo prédio que veio a cair. O ônibus. e de ser estrangulado na engrenagem do coletivo menos feliz . Chegam ao templo indicado. Iniciava-se a prece de abertura. insiste. em voz alta. Vicente. D. ao passo que a Divina Providência o arrebatou ás garras da morte por quatro vezes. tranqüilo. Reconciliara-se consigo mesmo. .. Você mereceu amparo. Fora feito o balanço. orientador espiritual das tarefas em curso. tornando ao leito.Era o que faltava! .. 44 . a desencarnação rude e violenta. Antes deles. e diz a Vicente. entretanto. incorpora-se em D. Não quer mais o passe. Por não poder conversar.Meu amigo. Sua ficha de espírito devedor marcava. a médium habitual. pensa D. alcançando o recinto no momento em que iam cerrar a porta. alarmado: . Por quatro vezes. o Irmão Luís. como alguém que consegue moratória no banco. Terminada a sessão. capotara em local próximo. que recebia agora por bênção doce e reconfortante.O enfermo toma-lhe o braço. a renovação de sua vida . porém. Serenidade é remédio em cada remédio. de ser envenenado pela empola que trazia líquido alterado. no momento do passe. talvez porque se movimentasse com lentidão. com efeito. Cristina. enervado. um moço pálido entra à pressa e roga ao diretor da reunião. Volte e agradeça os contratempos e dissabores do dia. São os últimos. planeou. na Lei. uma oração pelas vítimas de um desastre. hoje. regressou a casa. que Vicente perdera. Mercedes insiste. satisfeito. em atenção aos seus gestos de caridade.. e. Mercedes.. Vicente enxugou os olhos úmidos .. o ônibus esperado não espera por eles.. ocorrido momentos antes. mas. O socorro de Deus nem sempre tem a forma de flor ou a rutilância da luz.. Pára um segundo. de ser picado pelo escorpião que o seguira no próprio leito. E. Quatro mortos e dez feridos .

por haver recebido na véspera a solicitação de duzentos mil cruzeiros.21 . Sem dúvida. Custeara a compra de vasto material. O Livro Divino. das anotações do Apóstolo Mateus: . decerto.. E o que tens ajuntado para quem será?” João Lício fechou o volume com mãos trêmulas. porque fizemos somente o que deveria fazer. Meditava. Repetiu o movimento e as páginas lhe mostraram o versículo dez do capítulo dezessete. Mas daí a espalhar o que havia juntado. a importância referida expressava migalha. Sentia-se exonerado de quaisquer compromissos. inquieto. Que aceitava o Espiritismo. Cumprira com os preceitos da cooperação e da caridade. Procurou o Novo Testamento e.“Não ajunteis tesouros da Terra. Para o montante do que possuía. porque sempre dera muito a todas as instituições de caridade. procurando os amigos de modo a ver como poderia ajudar. Seu nome nos bancos indicava créditos de milhões. doa apontamentos de Lucas. aceitava. Espantado.” Surpreendeu-se mais ainda. tomando o chapéu.” Como de houvesse recebido um choque. quando fizerdes tudo o que vos for mandado. Levantou-se.. E o Livro aberto exibiu o versículo vinte do capítulo doze. em que a voz do Senhor solta esta frase: . entretanto. esta noite pedirão tua alma. em que Jesus assim se expressa: . consultou pela terceira vez. João Lício pensava. Nervoso. Ainda assim. E caiu-lhe aos olhos a sentença de Jesus. ouvira dizer que o Evangelho respondia a consultas e resolveu experimentar. Dera grandes somas. já havia feito o possível. assim. após recolhê-lo. encerrou a consulta. isso é que não. onde a traça e a ferrugem tudo consomem e onde os ladrões minam e roubam . Abriu indiscriminadamente. segundo refletia. saiu. igualmente das lições de Lucas. lhe reservava alguma consolação.. tornou a sentar-se. Nenhuma Doutrina mais consoladora. ponderou que o trecho não apresentava significação para ele.A VOZ DO EVANGELHO Esparramado na poltrona. tangido no íntimo. Abrira outra vez. E.“Louco.“Assim também vós. 45 . no versículo dezenove do capítulo seis. fora feliz nos negócios. dizei: Somos servos inúteis.. da parte de amigos. O evangelho como que o chamava a brios. para salvar grande obra periclitante. Enriquecera.

aos pequeninos. estimava as alegrias da mesa. Neves faz o possível. aos quarenta e dois anos de idade. Ele. Telas mostrando o efeito de bombardeios destruidores. diante dos pais. o esperado. .com semelhante regime.22 . pedia sempre não dessem. Encontrou o cliente em coma. Rememorava a estatística de muitas guerras. Adquiriu boa máquina cinematográfica e exibia quadros curiosos. desde que me mantenha combatendo as armas da morte. Neves acordou. porém. Dantas acusara súbito mal-estar. perdera a palavra e o controle dos movimentos. Recolhido ao leito. Neves Lima para examiná-lo. por insistência do telefone.EM COMBATE . * Aconteceu. Dantas. zombou do facultativo e repetiu o que costumava dizer: . Onde aparecesse oportunidade. Alegava que uma boa conversação. Espasmo cerebral. certa feita. estou empenhado na abolição das armas de morte – dizia Dantas. o Dr. o meu protetor espiritual.Dantas. porém. Chamado. Sabres em mãos de legionários da antiguidade ao invadirem territórios pacíficos. admirou-se o médico da pressão alta. numa crise de gastralgia. acaba estourando. meu benfeitor espiritual. declarou que chegarei aos setenta. Prostração.Crisolino. Depois de grande ceia. E. após um assunto sério em conferência. noite alta. brinquedos que simulassem armas de morte. 46 . Revólveres provocando desastres. Da residência de Dantas chamavam-no. E toca a devorar as viandas que aparecessem. – Creio que a guerra desaparecerá do mundo. se você não tiver cuidado. consolidava impressões. E falava entusiástico.Desde que recebi a solicitação de Crisolino. Detinha-se apaixonadamente em Napoleão. depois das instruções. Estudos sobre adagas e baionetas. O Dr. chamando- lhe “gênio carniceiro” Não se poupava. Pedia movimentos renovadores. quando cada um de nós esteja disposto a expulsá-la do seu próprio círculo. aí estava Dantas para a cruzada a que se propunha. Salientava os programas bélicos de muitos povos. para que os canhões se fizessem arados. O Dr. num jantar íntimo. trabucos e punhais. Todavia. durante quatro dias se quatro noites de vigilância e exaustão. sofria obesidade característica e era campeão de moléstias do estomago. Complicações sérias.

Dantas foi compelido a deixar o corpo físico.Apesar de tudo. Dantas acordou no regaço de Crisolino. A família chorava. replicou sem vacilação: .. porém. No plano Espiritual.. sim.Sim. considerando os problemas que lhe requisitavam a presença no mundo. Informou-se quanto à libertação de que fora objeto. se eu permanecesse em combate contra as armas de morte? E que fiz toda a minha existência senão isso? Crisolino.Mas você não me prometeu setenta anos. que o amparava. 47 . clamou desapontado para os ouvidos do guardião: . Mas. paternalmente. mas você esqueceu de que o garfo também mata .

23 .Ora essa! – disse a mãezinha. mamãe. Vamos lá.Tem sim. porém.Está no armário. 48 . peço que reserve o doce para as visitas que estou esperando.. . Da.Guilhermina. e perante mais de trinta crianças Da. outras ficam de lábios tortos. veio à copa e retirou da prateleira pequeno bolo que destinava a uma colega que sempre lhe pedia merenda. falou de pronto: . avisou: . De novo em casa e ao tomar os chinelos para descanso. A miúda assembléia escutava com assombro. Algumas perdem a língua. hoje não temos doce algum – foi a resposta. Rosália contou vários casos fatais de meninos mentirosos.. Finda a aula. a dona de casa é procurada por jovem da vizinhança. Rosália – diz respeitosa -. Daí a instantes. Rosália chamou a jovem que lhe atendia à cozinha e. todos os meninos estavam muito bem impressionados. tia Cota mandou pedir à senhora um pedaço de goiabada.Ah! minha filha. Joaninha. porque julgavam estivesse a brincar. E seguiu a mãezinha para a aula. . que ouvia em silêncio. .BOCA TORTA Antes de sair para lecionar Evangelho às crianças. como aquela história do garoto que enganava sempre a todos e acabou morrendo afogado. Joaninha. desapontada – acaso teremos doces sem que eu saiba? .E depois disso tudo – esclarecia a professora -.Da. a caçula da casa. sempre ouvi dizer que as pessoas mentirosas trazem defeitos na boca. . no templo espírita. se a senhora tiver. A preleção do dia versava sobre a mentira. guardando certa porção de goiabada no armário.

e falou: .Não se preocupe. Mas. abeirou-se dela. Nossas visitas de hoje não terão doce. que se despediu com sincero agradecimento.. Tudo está muito bem. afagou-a. Em seguida. entregou toda a goiabada existente à vizinha. Rosália seguiu a filhinha e confirmou que realmente se enganara e. a pequenina. Da. muito medo de a senhora ficar com a boca torta. que não passava dos cinco anos de idade. 49 . com mais carinho. ao vê-la nesse estado.. porém. abraçou-a e disse simplesmente: .. mas sua mãe terá a consciência tranqüila. sorrindo. eu sei que a senhora não sabia onde estava a goiabada. minha filha.Mãezinha. a professora de Evangelho sentou-se pensativa. Rosália. foi. embora corada de vergonha. Da.. Eu tive.

Existe a fé automática. Algo cansado. Dormiu e sonhou que se achava diante de Rosalino.. não lhe autoriza negá-la. ouvimos-lhe as considerações silenciosas.O BICO DE GÁS I Naquela noite Vitalino Caixeta discutira muito. ouvir. Por isso mesmo. estava contrariado ao recolher-se.24 . as provas de sobrevivência..“Meu caro. Mas. Veja bem. 50 . muitas vezes.. acabou dormindo. inconsciente. Mais fatos para compreender os fatos. Opondo-se aos argumentos de dois amigos.” Realmente. A esposa demorou-se ainda um tanto em luta pela ordem no apartamento estreito. É a aceitação dos acontecimentos naturais. Era homem prático. são difíceis. mesmo depois que Da. Vitalino prosseguia em solilóquio mental. Mais fatos. Não mudaria. Queria fatos... Em quanta coisa você confia inteiramente sem proceder a qualquer exame! Você não examina a competência do motorista. atendia aos misteres da casa. sem a ajuda dos sentidos. Necessitava sentir. Estudara profundamente a anatomia e precisava apalpar para crer.. Constância passou a ressonar. Mas. sem comprovação. Acomodava os filhinhos. mas viaja no veículo despreocupadamente. II Rosalino dizia convincente: . só por só. cheirar. Acaloradamente. analisar. Acreditava somente no que visse. Só renderia à evidência dos fatos. seu velho irmão desencarnado havia muitos anos. combatia a fé. essa circunstância.

. mas reconhece o infinito da Criação. Você não vê o vírus..ele.. Por outro lado.... O ambiente pesava.. metro a metro. distraída.. E. A família salvara-se a tempo. mas deita e dorme tranqüilo.... Você não morreu ainda.. e começou a meditar. passado o perigo.. mas como sem medo. cada noite. meu amigo. Fazia-se o ar irrespirável... inúmeras ocorrências perspassam-lhe na vida sem merecer-lhe estudo mais acurado. escreveu todas as considerações que ouvira em sonho.. 51 .. Você não testa a resistência do leito...existe. Ambas desacordadas. Aflito. abre maquinalmente a janela próxima e faz luz. mas ouve satisfeito os programas radiofônicos. Você não apalpa o ar... Procurou o berço das duas crianças. deixara aberta a torneira do gás. mas.. mas confia-lhe os bens sem titubear. mas respira o oxigênio sem susto. Igualmente. Você não experimente a segurança da casa bancária.. Vitalino despertou no corpo físico. Algo sucedera de estranho... Acorde para a verdade! Acorde e viva! Acorde e viva! III Como se impulsionado por estranha força. mas sofre a gripe. Somente aí descobre que a esposa. tomou papel e lápis.. mas aceita a fatalidade do fenômeno da morte. Você não escuta muitas das ondas sonoras que se entrecruzam à sua volta. Você não mediu o Universo.. Você não vê os ingredientes que lhe compõem a refeição. Levantou-se estremunhado... você diz que não vê e não pega o Mundo Espiritual.

contente: Oh! Mestre. que o abandonaria. o aprendiz perguntou: . Senhor. mesmo tendo inimigos. porque os inimigos se colocam a distancia. E toda uma legião de admiradores que. feliz. Hosanas ao Messias. vencer. que negaria o Senhor. é sempre fácil. 52 . houve um instante em que parou para respirar livremente. se transformariam em adversários. Bartolomeu.AMIGOS Quando Jesus entrou. que dormiriam descuidados.Bartolomeu. Com ele.25 . Simão Pedro. Até eles chegavam os ecos do grande êxito. que o negociara. quanta felicidade! Afinal! Afinal a glória. O discípulo exultava. Tiago e João. porém. por si mesmos. apagado e discreto. sem lhe perceberem a angústia. fitando a turba próxima. no dia seguinte. Não longe. em Jerusalém. falou sereno: .A batalha mais árdua é vencer com os amigos. se estamos triunfando de tantos inimigos? O Cristo. Bartolomeu. Algazarra. Tomé. Perfumes no ar. meneou a cabeça e.Por que tristeza. apesar dos perseguidores! Notando que Jesus continuava em grave silencio. Cânticos. E profundamente desencantado: . observou a atmosfera festiva e disse. apenas Bartolomeu. vitorioso. Judas.

É o colar que pertencera à vovó. Interrompe-se e tenta alcançar a menina. Como-se e chora. que a auxiliasse. Olinda. Levo agora a lista aos amigos. Joaquina. vislumbra o Espírito de Da. Da.. Da. as pérolas soltas deram às crianças menos felizes todo um Natal de alegria. e saía para solicitar a cooperação de pessoas abastadas a fim de atender à comemoração natalina. ali mesmo. trazendo ao colo precioso colar de pérolas. sua filhinha de seis anos. diante de tanta necessidade? E. fazendeira abastada noutro tempo. Responsabilizava-se pelas aulas de moral cristã. o lindo colar ao pega-papéis justaposto a carteira próxima. ajude-me a fazer o Natal das criancinhas... Prende-se contudo... nos guardados mais íntimos. pálida. Acompanha-me. recolheu- se ao repouso.Filha. mas. À noite. Sente um choque. No momento em que se refere à caridade. Olinda Soares freqüentava templo espírita contíguo à sua residência. Não me abandone.O COLAR DE PÉROLAS . estava de volta. Olinda falava no templo espírita a seis dezenas de crianças subnutridas e maltratadas. E rogava ao amoroso Espírito de sua vovó.. Era sábado. pela sua vidência mediúnica. Joaquina de Miranda. É ela mesma. entra a pequena Lea. Lea. Conservava-o como relíquia. Da. Queixando-se ao marido e aos filhos da dureza que encontrara nos corações.. Corre..26 . agora curiosamente rodeada pelas outras. roupa numerosa e pão farto. pela manhã. 53 . vai corrigir a filha. você não me pediu auxílio para as crianças? Como pode reter esta jóia por tanto tempo. mas sem qualquer recurso de substância.Avô. com muitas promessas. desapontada. A entidade aproxima-se e diz: . No dia seguinte. enche-se de medo. ante o olhar materno. e as pérolas se espalham pelo chão. Da. sem lista alguma.

SURPRESA DE MAGISTRADO Comovidos ante a prece tocante da sofredora mulher. desnaturado. Tomá-lo-ei para escarmento aos motoristas criminosos. entretanto. Profissionais inconscientes! O processo foi corretamente conduzido por mim e a justiça provará que Cecino é um homicida quanto outro qualquer.Socorro! Socorro! Pega o culpado! Pega o culpado! Populares gritam em desespero. não traiu qualquer emoção no olhar frio. sereno. Extenso jardim. 54 . Oito filhos. porém.Que deseja a senhora com semelhante arrazoado? – falou irritadiço. Temos oito filhinhos passando falta.Doutor – diz ela –. . . Torvelinho na via pública. . quando enorme alvoroço estala na rua. . – Quem pensa que sou? A justiça é justiça.Doutor. *** O juiz voltava. O magistrado. acompanhamo-la à presença do juiz. peço-lhe caridade. compadeça-se de nós! – clamou a infeliz. despedindo a interlocutora. . ajudamo-la a tocar a campainha a destacar-se na parede fidalga. Seu marido foi imprudente. Houve premeditação inconteste e sanearei a cidade. de cabeça empertigada. ríspido. Sem que nos pressentisse. doutor! Tenha piedade e ajude-nos! O senhor não ignora que meu pobre Cecino foi sempre um chofer cuidadoso! O homem estava embriagado quando avançou de encontro ao carro! O juiz.27 . apenas surge depois de longa espera. ao interior doméstico.Nada mais tenho a dizer – falou. o magistrado. Alcançamos a casa solarenga. Movimenta-se. Meu pobre marido não tem culpa. Ouve. Uma serviçal atente prestativa. a visitante que chora. Deleitosa varanda.

Ao lado de luxuoso automóvel, último tipo, agita-se um rapaz aprisionado por homens
do povo. Não longe, uma criança morta.

Inteiramo-nos, então, do sucesso triste. Era o filho do juiz, que, no carro da família, em
correria desenfreada, acabava de atropelar pequenina indefesa.

Mal refeito do choque, ouvimos alguém que pede em tom respeitoso:

- Licença! Licença!

O juiz passa junto de nós com extrema agonia moral a se lhe estampar no semblante
paterno.

Abraça o filho com enternecimento de quem se compadece de um louco.

E, naquele dia, o magistrado não pode comparecer ao fórum...

55

28 - POR TELEFONE

I

Amadeu Barbosa, recentemente desencarnado, era motivo de nossa grande preocupação.

Fora soldado, a serviço da ordem. Corretíssimo. Substituindo o companheiro Abílio
Marques, em determinada diligência, tombara em lamentável desastre e perdera o corpo
físico.

Acabrunhado, queria voltar à esfera dos homens, precisava voltar...

E tanto rogou socorro, que me recordo perfeitamente do dia em que o instrutor
Camerini, recebendo-nos as consultas particulares, lhe falou, firme:

- Amadeu, se você deseja a ajuda de alguém, comece por ajudar alguém.

Desde essa hora, vimo-lo ativo, modificado...

II

Achávamo-nos ao pé de Abílio Marques, quando a enfermeira se abeirou dele e falou
calma:

- Não se impaciente, Sr. Abílio. Deus nos ajudará.

Logo após, a senhora simpática buscou o interior da maternidade e Marques
permaneceu cismarento na sala de espera.

Qual caracol refugiado na concha, ensimesmara-se, esquecendo o mundo em torno.

Pensava... pensava...

Lembrava-se de todas as ocorrências, como se fossem acontecimentos daquele
mesmo dia, embora guardassem o curso de três anos.

Tudo começara naquela tarde...

III

Ele, Abílio, sentia-se sonolento.

Chegara fatigado da corporação.

56

O dia foi cheio.

Tomou lanche reforçado e tentou repousar...

Mal começara a dormir, escutou a voz materna a chamá-lo: Abílio! Abílio!

Encontrava-se de pé ao telefone...

Da. Amélia, a genitora, ouvira-o dizer, de olhos cerrados, dando a impressão de diálogo
pelo fio:

- Alô! Que alegria!

- ....

- Como vai? Disponha, disponha ...

- Ah! sei. Perfeitamente.

- ...

- Hoje? Farei o possível. Conte comigo, conte comigo...

Impressionada, Da. Amélia despertou-o as sacudidelas.

O filho passava, às vezes, por semelhantes fenômenos. Era sonâmbulo. Costumava
levantar-se à noite e andar automaticamente dentro de casa.

A mãezinha passou a relatar-lhe o que ouvira. Palavra por palavra.

Ele, porém, estava radiante e contou que conservava a lembrança nítida.

Seria simples sonho? Não ocultava, contudo, a alegria a lhe brilhar no espírito.

- Mas ... que foi, meu filho?

E ele explicara à mãezinha espantada:

- Mamãe, foi o Amadeu! O Amadeu Barbosa, meu colega de serviço que morreu há tempos.
Telefonou-me, precisamente na hora em que se habituara a fazê-lo...

- Meu filho, que é isso? Onde tem a cabeça? Tudo não passa de um sonho, pesadelo
como os outros...

- Mamãe, mamãe, esperemos! Ele disse algo...

- Que disse?

57

Era pobre moça mal vestida e despenteada. quando alguém bate à porta. do interior e o desastre surpreendera-os em quarto humilde de aluguel. Chorava. estava ali. pusera-se ele a ler os vespertinos.. vencido pelo carinho. único apoio de que dispunha.. Expulsa dos escombros a que se acolhera. Da. Chamava-se Irene. . andava sem rumo. com tremenda infecção.. sem destino. sozinha e necessitada. Amélia esperava sempre. ajudava. IV Onze da noite. Irene fora recolhido em casa. filho único. compreendia. Amélia sorriu. bondosa. E Custódio. Custódio Marques. mais irônica. como se fora a irmã que lhe faltava. em plena expectação. Por isso. Tinham chegado. Ouvira palavras desrespeitosas na rua e resolvera pedir socorro. Levantara-se mecanicamente para atender. O pai. enternecera-se. fora ela a enfermeira dedicada e hábil. Buscou a mãezinha e ambos a ouviram. Quando Custódio caíra febril. Da.. e afastou-se. Contente. Era a filha que Da. falecera. A história do sonho estava esquecida. havia dias. Mas. exatamente quando o genitor desaparecido procurava trabalho. como em seu novo lar. Tinha fome. Estava órfã. Trabalhava. Restaurara-se. interessados. vitima de grande explosão. o dono da casa. dera o contra. Abílio.. implorava ao pai auxiliasse à menina.Pediu-me ajudar a uma jovem necessitada que enviará até nós ainda hoje. Fizera-se necessária. 58 . há tempos.. Amélia consolou-a e consultou o marido.

. Sorriu. tonto de júbilo. foi normalíssimo. agora. Recomeçava a existência para lutar e triunfar. Abílio desposara-a. em pranto de alegria. diante dos fatos. Amélia. aflito. ternamente. meu filho – perguntou Da. como se chamará o netinho? Ah! O nome? – respondeu Abílio... Abílio! É um lindo menino! O parto.Então.Amadeu. na face. de todos os sucessos e de todas as minudências! Procurávamo-nos asserenar-lhe a mente inquieta. 59 .. com a alegria de todos. comece por ajudar alguém. – Ele se chamará Amadeu.Sr. se você deseja a ajuda de alguém. graças a Deus. Acompanhamo-lo ao quarto. Irene? E a esposa fez um gesto de aprovação. enquanto a enfermeira reaparece com ar triunfante a chamá-lo: . tomou o recém-nato. Barbosa renascera. Abílio! Sr. quando ouvimos choro forte de uma criança. emocionado. não é. Abílio. E. que se achava ao pé da nora -. recordamos a lição do instrutor: . . A pupila de ontem era-lhe agora a companheira querida.. Em seguida. Amadeu Barbosa Marques. transbordando felicidade. V Como se lembrava.. VI Sim. inclinou-se para a esposa e beijou-a. Depois de dois anos.

SEGUNDA PARTE MÉDIUM: FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER 60 .

1 - PÁGINA DE ANÁLIA

À doente se queixava em desespero, a senhora que lhe velava o leito perguntou:

- Permite que eu leia para seu reconforto algum pequeno trecho de Allan Kardec?

- Deus me livre! - gritou a enferma, cuspindo-lhe aos pés.

Ainda assim, as mãos abnegadas da companheira continuaram ajeitando-lhe os lençóis...

- Quero água! - exigiu a doente.

A amiga trouxe-lhe água pura e fresca.

De copo às mãos, a enferma, num ímpeto, atirou-lhe todo o líquido à face, vociferando:

- Água imunda!...

como se atreve a tanto?

Quero outra!

Paciente e humilde, a senhora enxugou o rosto molhado e, em seguida, trouxe mais água.

- Quero chá.

E o chá surgiu logo.

- Chá malfeito! Chá frio! O conteúdo da taça foi projetado ao peito da outra, ensopando-lhe
a blusa.

- Traga chá quente! Foi a ordem obedecida.

- Você aceita agora o remédio? - indagou a assistente.

- Que venha depressa.

Ao tomar, contudo, a poção, a dama inconformada agarra a colher e vibra um golpe no
braço da amiga.

61

Surge pequeno ferimento, mostrando sangue.

E a enferma cai em crise de lágrimas.

Chora, chora e depois diz:

- Anália, se a religião espírita que você abraçou é o que lhe ensina a me suportar com tanta
calma, leia o que quiser.

A interpelada sentou-se.

Tomou "O Evangelho segundo o Espiritismo" e leu a formosa página intitulada A Paciência,
no capítulo IX, que começa afirmando:

"A dor é uma bênção que Deus envia a seus eleitos..."

Acalmou-se a doente, que acabou aceitando o socorro do passe e o benefício da água
fluída.

Conversaram ambas.

A enferma, asserenada, ouviu da companheira os planos que arquitetava para o futuro, em
benefício dos meninos abandonados à rua.

No dia seguinte, ao despedir-se, a obsidiada em reequilíbrio beijava-lhe as mãos e dava-lhe
os primeiros dois contos de réis para começar a grande obra.

Essa enfermeira admirável de carinho e devotamento era Anália Franco, a heroína da
Seara espírita paulista, que se fez sublime benfeitora das criancinhas desamparadas.

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2 - O ENCONTRO

I

Rosabela preparava-se. Não cabia em si de esperança. Visitara o cabeleireiro, e
experimentava, feliz, o vestido novo.

Sozinha no apartamento, relia a última carta. A última carta de amor que a buscava,
enfim. E a sós, enquanto a noite de sábado transbordava de música, recordava, recordava...

Casara-se, havia cinco anos; todavia, Tristão, o esposo, revelara-se libertino. Não
conseguia olvidar os primeiros tempos. A presença dele, suas palavras e promessas,
estavam em seu pensamento como inolvidável perfume.

Ainda assim, tivera coragem de romper consigo própria e tentar outra experiência. Isso
porque não tivera força de perdoar-lhe.

Rememorava a noite em que se haviam despedido...

Regressava do interior fluminense, onde fora ter com os pais, em repouso breve.
Entretanto, inesperada queratite obrigara-lhe a volta em momento imprevisto. E não olvidava
o quadro que a ferira, fundo.

Penetrando em casa, surpreendera Tristão embriagado junto de outra. Ambos
agressivos. Inconvenientes. Dilacerada nos melhores sonhos, protestara, chorando; contudo,
o marido alterado, atira-lhe as malas na rua. Expulsara-a como se fora um animal corroído de
peste.

Acolhera-se à residência de amigos e mudara o curso dos próprios passos.

O esposo, talvez mudado, tentara a aproximação, mas debalde.

Ultrajada, negou-se.

Alugando pequeno apartamento em bairro distante, aceitou as funções de datilografia
quase anônima, em grande companhia comercial. E mergulhara a mente no serviço.

De quando em quando, esse ou aquele Don Juan de esquina lhe deitava olhos menos
sensatos; todavia, pelo comportamento irrepreensível, não lhes encorajava qualquer palavra
incorreta.

O tempo correu lentamente.

Um, dois, três, quatro anos...

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por sentir-se sozinho.. endereçando bela missiva datilografada para a caixa postal indicada. desejava estabelecer amizade com alguém. contente. resolveu arriscar. E dizia-se um homem a caminho de regeneração. Acabava. Era casado. Dizia chamar-se Rosalinda Malvar e informava a posta-restante para a resposta. Aqueles apontamentos dele inclinavam-na à alegria e à esperança. Mais paciente. entendimento. historiava estranhos episódios. no entanto. desde muito. carinhosas e ardentes. Enviava livros. que não soubera fazê-la feliz. uma noite diferente. feliz. O curioso anúncio era assinado por Benjamim Solis e apresentava expressivo cunho de serenidade. Confidências recíprocas.. Às vezes. que ela manuseava com imensa emoção. Declarava adotar igualmente a datilografia por sistema ideal. Flores e lembranças pelo correio. Ensaiava a aquisição de amizades novas. Ela mesma. intimamente desamparada. contou-lhe Benjamim uma longa história. estava modificada. Autobiografias discretas. Lia velho número de uma revista sentimental e encontrara aí um convite a esmo. até que pudessem estabelecer um encontro franco. Após refletir. mas arredava para longe o pensamento. 64 . perdão. consoladores. Em outras missivas. II Surgiu. E as cartas começaram afetivas para se tornarem longas e belas. Mas via-se distanciado da esposa. com dez meses de correspondência. Relacionava dificuldades do pretérito. supunha que faltava Tristão. Benjamim escreveu. Respeitosamente. anunciando trinta e dois anos de idade. desiludida. E ofereceu-se. apenas. Não acusava-a informava. Cavalheiro. Sentia-se. no entanto. Falavam de renúncia. entretanto. mais tolerante. Livros espíritas.

nada a impedia de manter uma afeição pura e nobre. à porta do velho Jardim Botânico. Preparar-se. deliberadamente. Fez sinal e apeou numa rua da Gávea. Enfim. Rosabela pôs-se em marcha. Contudo. Aí mesmo. Benjamim. nas imediações do jardim. Envergaria costumes de linho alvo e traria gravata escura com pequeno alfinete em forma de “R”.. todavia.. Estava presa aos compromissos legais. Impossível que Benjamim fosse mau. mais alguns passos e estacou.. enfim o encontro. Vários grupos se movimentaram sob o arvoredo. porém. Respondera aquiescendo. entre si. à caça de ar puro. Antes.. Dois minutos para dez. ali estava. utilizando pequena bolsa.”. de chofre.. revirava nas mãos a última carta. a que se avistassem. buscando anular-lhe o reflexo.. A princípio. retocou o semblante e realinhou os cabelos. Esperá-la-ia às dez horas em ponto. do dia seguinte. Pensando em como prosseguir no romance. mal suportando a própria emoção. E pensava: “se conhecesse tudo isso ao tempo de Tristão. plenamente refeito. adiavam sempre. coração aos saltos. religiosamente datilografadas. domingo. E ainda que houvesse cometido algo passível de justa reprovação. depois. no rumo certo. Incentivo do coração que pudesse auxiliá-la a viver. III Manhãzinha. no entanto. descer. convidava-a.. E chegar às dez em ponto. Não quis. Queria movimentar-se um tanto. mostrando um broche singelo lembrando os contornos da mesma letra.. o lotação. o elétrico e.. E informara que trajaria um vestido da mesma cor. E caminhou. naquelas cartas. 65 ... agora. Olhou o relógio.. a remessa de fotos. Avançou trêmula. mentalizava Benjamim e expulsava a imagem do esposo.

. Somente você poderia escrever-me como fez.. Rosa? Eu bem que desconfiava. depois de alguns minutos. veio ao encontro dela. Este encontro é a resposta do Mundo Espiritual às minhas preces constantes! Louvando seja Deus!. Ambos.. O esposo. e. Perdoe-me. percebeu que a primorosa lapela surgia agora ensopada de lágrimas.. creia. Aquele homem era Tristão.. tocando-me o coração.. aquele homem.Pois é você. Mas. prestes a cair. abraçou-a mais forte. no entanto. muito pálido. agora! Estou transformado. Roupa branca e gravata escura... O amigo lá estava.. não obstante minúsculo.. abraçaram-se de manso. ao notar que ela repousara a cabeça em seus ombros. 66 .. Rosabela nada respondeu. Sofri demais. O alfinete em forma de “R” luzia. O marido.

de imediato. Levado ao facultativo. De quando em quando. Assunto vai. marcara encontro com a autoridade e. O ferroviário esboçou o gesto de quem fora surpreendido em falta e justifica-se: .DENTRO DA PRÓPRIA CASA Abastado fazendeiro fluminense. recebeu conselho. 67 . Em seguida. Um homem como eu. Essa ou aquela criança tentando amparo. assunto vem.3 . Um companheiro reconheceu-o. não se emendou. medicação. doutor.Dou coisa alguma. mas creio que o exagero da caridade é um abuso. Por último. Ainda assim. tenho muita simpatia pela Doutrina Espírita. de passagem por Nilópolis. de idéias espíritas. Ajudar a torto e a direito é criar vadios. A pequena mão leve preocupava. Um doente que lhe apresenta o semblante triste. a fim de entender-se com o Juiz de Menores sobre o comportamento reprovável de seu filho. Supunham-no enfermo. aqui e ali. A certa altura. abraços. conta apenas migalhas. O pai. parou num posto de gasolina. faz também ladrões. atende a esse ou àquele necessitado. Mas sempre noto que a gente. sem exauri-lo. Um velhinho a pedir café. Ouve a conversa com discrição. está no círculo. ver surgir vadios. aflito. o senhor tem razão. José Luis do Espírito Santo. o fazendeiro itinerante observa. De fato. era apontado como sendo o autor do desaparecimento de grande soma de residência vizinha. A princípio. passou a escandalizar parentes. É um coração materno a rogar auxílio. a roda de amigos. subtraía valores em casa. E. E sem saber que tocava fundo na chaga do homem: . conselheiral: . O jovem de catorze anos se fizera malfeitor. É possível que a gente ajudando possa. vinha do sítio à cidade.Meu amigo. humilde e abnegado. ferroviário espírita. mas José Luís saca do bolso.E às vezes fazemos ladrões dentro da própria casa. O dinheiro é pouco. Para cada um tem o auxílio como reposta. acumulando muitos bens sem proveito.

Observa um exemplar.. O trabalho honesto á a vida segura. através do médium. exigências de Ricardo e loucuras de Ricardo. ao término da sessão. altera-se a direção e a bala lhe vara o peito.. Se você realmente negocia de forma clandestina..Ora.. com esmero. passeios de Ricardo. – Não queira contrabando. 68 . desalentado. ali mesmo. como complemento aos folguedos daquela noite. Recebera Leonardo três revólveres finos para passa adiante.Mas ouça.. Pode haver. porém. recolhe o filho morto. Leonardo Madeira falava aos amigos: . alcoolizado em festa junina. Pode haver embaraço. apalpa o outro. Você é tintureiro. Burlava.Clandestina. Carrega a arma e experimenta. Leonardo. Resigne-se ao dever. fizera-se o receptador de perfumes e isqueiros. em poucos minutos. E tem a idéia louca de disparar. Mas. ... Minha vida é meu filho. Chegou. os agentes do fisco. À noite. Gritaria. mas os dedos tremem.. Minha mãe mora noutro mundo. a noite de enorme desilusão. E Leonardo continuou. Compro e vendo. Mas o suor na obrigação bem cumprida é o preço correto da verdadeira felicidade! – assim falava o Espírito de Da.. Ambulância. Rebuliço. Jurei que não terá de futuro as minhas dificuldades. Tenho um filho para educar e o colégio é um osso duro. revólveres e rádios.. Maria Clara ao seu filho Leonardo. no comercio ilegal. E a renda aumentava. Corre-corre. é tudo que faço.4 .. A criatura tem livre-arbítrio para melhorar o destino ou agravá-lo.CONTRABANDO . meu filho! Fuja de qualquer desrespeito ao caminho legal. costumamos tudo perder. Lembre-se de que. Entretanto. ora. chega em casa e deslumbra-se. um dos diretores do templo -. às vezes. por que? Meu trabalho é tão lícito quanto os outros. todos os dias. . que é serviço de Deus.. tudo exigindo. você precisa considerar. sim. Por fim. ainda o terceiro. Para estudos de Ricardo. Leonardo – falava Serra. Ricardo era o filho feliz.Acautele-se. simpatiza mais fortemente com um deles. o filho. Cuide da roupa limpa. Aposto que mudaria se estivesse no nosso.

.Que acha você levantarmos um orfanato para as criancinhas desamparadas de Salvador? . e vejo anciãos na calçada.E uma vila completa para os nossos irmãos infelizes que moram em casebres misérrimos? Uma vila.Um lar para velhinhos é uma necessidade. E entre ambos a conversação se alongou.5 . . . Às vezes volto para a casa. Afinal – pensava – surpreendera ave rara. é caminho do Reino de Deus.Muito importante. trabalho. . Petitinga não cabia em si de contente.Excelente projeto. homem disposto a trabalhar e sofrer pela causa.E um sanatório para obsidiados? . Petitinga. em que os internados esqueçam o vício. Que opinião é a sua? . interessado em grandes projetos de assistência social.. Alguém iria longe.NA HORA DO PASSE Dirigia José Petitinga distinta organização espírita na capital baiana.O plano é uma benção.Isso seria uma concessão de Deus... em bases espíritas.Noto igualmente que precisamos de um instituto diferente para os alcoolizados. quando um rapaz.. Uma casa-hospital. Uma obra dessas é um monumento de amor.Nem tenho expressões.É uma escola. de amplas proporções? .Petitinga. .Também penso assim. não podemos ficar parados. 69 . veio procurá-lo. em que pudéssemos reunir muitas famílias? . Que dia você de um albergue moderno. A hora é de trabalho. .. à noite. ... .

. Petitinga. alterou o semblante.. Você compreende.. respondeu. 70 . Continuemos conversando em serviço. incompreensivelmente. meu amigo. Tenho família. Não posso buscar moléstias contagiosas. E como o tempo passava e tinha serviço urgente. convidou: . E lá se foi . desenxabido: . Fez-se lívido. que sonhava tantas obras de caridade.Ora.Bem. Repetiu.. isso não. e ele. várias vezes.. Estou justamente na hora do passe a dois irmãos tuberculosos e terei muito prazer em seu concurso. Mas o moço. a sua palavra brilha para mim. o gesto de quem expulsa a poeira do paletó.

.. Nada de vôo. distinto médico espírita.. tão longe? – disse o médico. havia morrido.A crise apareceu de surpresa.. como julgarem melhor. não me arrisco..O TEMOR DA MORTE . o esposo aflito aquiesceu e partiu a galope. a sua competência é a nossa esperança. No outro dia. Em face da evidente má-vontade do facultativo.Era o que faltava! Não posso expor-me assim.Um carro? . em vilarejo distante.Se quiserem – disse o médico -. .Doutor. O senhor já operou Paulínia por duas vezes.. em busca do teco-teco...... Sales Neto..6 . . . naquela noite. na expectativa da intervenção. De minha parte.A estrada é péssima. . a residência do operador estava cheia de gente. no próprio leito. abatida.Nada disso. . em conseqüência de uma trombose. procurando esquivar-se. O Dr.Um cavalo.. tragam a parturiente aqui. Não soube do desastre havido anteontem? . 71 . O senhor prefere o avião? Dez minutos apenas. Narciso Meireles pedia o concurso do Dr Sales Neto. para a mulher que experimentava parto difícil. ..... quando a senhora Meireles chegou..Que sugere? – roga o marido desapontado.. Perdi dois amigos de uma só vez na semana passada.Por que deixaram ficar assim. porém. . doutor? Arranjo-lhe um cavalo.

sem compradores.. Operários e máquinas eficientes.POR CINCO DIAS Mais de seis lustros passaram. A produção. 72 . Tivera vida próspera. . E o trabalho se desdobrava. sem abandonar a tensão. Sr. Frases vexatórias espancavam-lhe os ouvidos.. em zonas sombrias de purgação. em que seria indicado por negociante desonesto. trago-lhe as promissórias vencidas. Importando fios. com protestos públicos.Coronel Francisco. experimentava pavorosos suplícios nas trevas. Humilhavam-no cobranças e advertências. apresentava desculpas. descansava no depósito. tentava a oração. e disparou um tiro no crânio. Cartas vinagrosas chegavam-lhe à caixa postal. a retração dos negócios. Meses passaram pesadamente. armazéns e lucros firmes. Francisco Teodoro. conseguira tecer casimiras notáveis. havia aniquilado a existência. a cabeça em frangalhos. Ainda assim. promissor. O capitão do serviço pedia mais tempo. Por toda parte. anunciando-se insolvável. abundante. Francisco. falava de novas esperanças e comentava as dificuldades de todos. nossa firma não pode esperar. Devia aos credores diversos o montante de oitocentos contos de réis. o industrial suicida.7 . descobriu que a vida continuava. construíra uma fábrica. Com imenso pesar. Surgira. a lhe invadirem a casa.. À custa de ingente esforço. lia e ouvia referências à Divina Bondade. carregando.. Procurava consolo na fé religiosa. Deus não desampara as criaturas – pensava. porém. escreveu pequena carta. E porque alguém o ameaçava de escândalos na imprensa. Defrontado por crise financeira esmagadora.

reverenciado pelos descendentes no grande escritório. Ele apenas não soubera esperar. notava. chorando de alegria. reavendo afeições e reconhecendo amigos. então. internando- se em casa de reajuste. abraçou. À face de alteração na balança comercial do País. E após reconhecer o seu próprio retrato. Sentia-se um louco encarcerado na gaiola do sofrimento.. surpreendido. o estoque de casimiras. Palavra alguma na Terra conseguiria descrever-lhe o martírio. que a Bondade de Deus não falhara. o progresso enorme da fábrica que lhe saíra das mãos. que acumulara zelosamente... ante a grande guerra de 1. produziu importância que superou de muito a quatro mil conto de reis. pode recuperar-se. Embora invisível aos olhos físicos dos velhos companheiros de luta. o visitante espiritual compreendeu. Mostrando melancólico sorriso. 73 . Depois de trinta anos.914.. os filhos e os netos reunidos no trabalho vitorioso.. veio a saber que acontecimento importante sucedera cinco dias depois dos funerais em que a família lhe pranteara o gesto terrível. E agora que retornava à cidade que lhe fora ribalta ao desespero.

sem rebuços -. foi procurado por amigo situado no comércio do Rio. passa noites à cabeceira de enfermos. enfrentando dificuldades.Quatro mil cruzeiros. às vezes com sacrifício da própria saúde. Quanto você ganha mensalmente? . .. era humilde servidor num escritório.. admirando você como sempre.. às vezes. resolvi auxiliá-lo de vez. nem sempre posso visitar os doentes.Pois é. Disseram-me – continuou o homem – que você.. O amigo meteu a mão no bolso interno.Não é bem assim – falou Sampaio. Boa cama no dia seguinte. o diretor faz concessões. E prosseguiu: ..Não vale a pena. por fim: . do Rio de Janeiro.. O homem fez um gesto irônico e observou: . valoroso tarefeiro do Centro Espírita “Regeneração”. correto. mas se o faço.. Você 74 . Naturalmente.. Zeloso. mal havia espanado os móveis pela manhã. há muito tempo..8 .. Estou informado de que você visita os infortunados nos morros. socorrendo órfãos e amparando viúvas. Certa feita.. ponto facultativo. quando a despesa ultrapassa os recursos. . . apelos. tenho amigos.Não disponho dessa facilidade. depois do bonde.Gasto o que posso. humilde -. sei que você é espírita e esfalfa-se. Temos bonde à porta e... para sentar-se à máquina de escrever. Faço listas. e.Não vale a pena.. Três milhões de cruzeiros. Preciso de um sócio para um negócio da China. Cimo é que você arranja numerário para esse fim? ..Não ignoro que você tem deveres de caridade na instituição que freqüenta.Sampaio – disse o visitante. Sampaio.NÃO VALE A PENA Antônio Sampaio Júnior.. .Não vale a pena. faz sempre bem uma caminhada a pé.. madrugador.. Aproveita decerto o carro de alguém. É tempo de você melhorar. ... meu dia de serviços corre normal... trouxe à luz um documento e abriu-se.

perguntou: . . evidentemente desapontado -..Não vale a pena.. Basta só que você assine. Sampaio. 75 .. sem desejar ofender.Ah! Se vier o contra – informou o amigo. . teremos entrevista no Distrito Policial.Creio na lisura da iniciativa. Sampaio. É um navio velho que vamos desencravar. mas temos noventa e nove probabilidades a nosso favor. E recomeçou a espanar.. Tudo pronto. o assunto envolve alguns interesses de repartições públicas.....E se falharem as noventa e nove?. você e eu ficaremos provavelmente com mais de um milhão cada um.. falou simples: .. Gastaremos talvez uns quinhentos contos na tramitação do processo. sem perder a serenidade.. mas há algum inconveniente a considerar? .Bem.assina comigo a papelada e acompanharei todo o assunto..

vigie com critério. despreocupado.. tac. O sócio. vê o intruso.CLAUDINO E A LAVOURA Entre Barra do Piraí e a vila de Juparanã. Caminhou. que aceitara o negócio na intenção de ajudar uma instituição de caridade. cuidava da gleba. em prece. em silêncio. Se apanhar o responsável... No dia seguinte. quase uma hora. Claudino Dias.Sr. dia a dia -. não faça violência. os dois.. Claudino – vinha José. notificar. que desejava surpreender. Mas.. denodado seareiro espírita barrense. a poucos metros. lavrador de prol. Compadece-se do amigo e afasta-se em silêncio. .. à nossa custa. financiava o cometimento. Tac..José – recomendava o amigo-. Alguém está fazendo comércio de milho verde. não quer ser agora surpreendido. Não feriria o irmão que aproveitava a noite para roubar. mãos anônimas começaram talando a roça. De vez em vez. o produto está sendo surrupiado.. Surgindo a época das espigas iniciantes. sob copada árvore. dê conselhos. o sócio vem de novo comunicar-lhe que a roça estava sumindo. descansou. o sócio. havia plantado grande milharal de parceria com um amigo. Decorridos alguns minutos.. juntos. José aparecia. tac… Recordou o Evangelho e mentalizou as palavras que iria dizer.. 76 . Ele. ele mesmo. iam namorar a cultura viçosa de que as águas do Paraíba eram farto sustento. Alguns momentos depois de zero hora. arrancando espigas. renovando a denúncia. até que atingiu a margem do rio. E na manhã seguinte. . n o Estado do Rio.9 ... notou que alguém quebrava o milho com discrição. numa noite de luar Claudino resolveu inspecionar a roça. Porque o resto do milho amadurecesse e o furto continuasse. e Claudino. Avançou devagarinho. Claudino recua. É o próprio parceiro da lavoura. tac.

E continuou: . A plantação é toda sua.. . Claudino sorriu e respondeu: . 77 . você é o dono. E ante o amigo desapontado.Oh! Oh! Muito obrigado.. Não precisa pensar em mim..Agradeço muito. O senhor é um santo.. Meus deveres são muitos. De hoje em diante. Pode agir à vontade.Muito grato pelo convite. – falou o amigo. realmente a lavoura tem dado a você muitos problemas e prejuízos.-José – diz o companheiro..Mas Deus é sócio de todos nós e estará com você.. em tom paternal -. mas desejo ajudá-lo. mas agora não posso. mas queria convidar o senhor para plantarmos dois alqueires de amendoim. concluiu: .

Eu matei e nada senti. doutor. É um morto-vivo. quando fino ironista o invectivou: . Eu roubei e nada senti. Destacara os males da alma e os desastres do espírito.Que sente um cadáver se lhe enterram um espinho no peito? . O senhor disse que o furto é um espinho no ladrão. .Pois olhe. . Bezerra de Menezes.Escute. quando alguém não sente o mal que pratica. pois cadáver não reage. meu filho.Nada – disse. apóstolo da Doutrina Espírita no Brasil.Que sente um cadáver se o mergulham num lago de piche? . O senhor disse que a calúnia é um braseiro no caluniador. maneando paternalmente a cabeça. Falara. no Plano Espiritual. Doutor Bezerra fitou o triste interlocutor e.10 . Dispunha-se à retirada. ora essa! O cadáver é a imagem da morte. . rindo. Eu caluniei e nada senti.Meu filho – disse o pregador -. em verdade carrega consigo a consciência morta. acerca dos desregramentos morais. que sente um cadáver quando alguém lhe incendeia o braço inerte? . com muito brilho.. o Dr. o opositor sarcástico -. E a conversação prosseguiu. O senhor disse que o destruidor de lares terrestres carrega a lâmina do arrependimento a retalhar-lhe o coração. 78 . rematava a preleção. O senhor disse que o criminoso tem a nuvem do remorso a sufoca-lo.Absolutamente nada. Destruí diversos lares e nada senti..O APARTE Perante o enorme ajuntamento de sofredores desencarnados. concluiu: .Coisa alguma.

nós. principalmente os mais necessitados.Que é isso? – exclama a senhora Pires. O avô riu-se. Daí a instantes. correm para atender.. são representantes dEle.Filhinha. e João Pires. apoiando-se em pobre cajado. Maria. voltam. pequena de sete anos. nesse momento repartia o café. é um homem! Ele está pedindo em nome de Jesus. encantada: . aproxima-se do avô e informa. batem à porta. É preciso abrir a porta. não sei porque Jesus não vem. D.. aparentando mais de oitenta anos de idade. e.. irmão mais crescido. filhos e netos. a dona da casa... em torno da mesa. um faminto é alguém que Ele nos recomenda servir. E cada pessoa do caminho. Era um velho.11 . junto de nós. O chefe da casa acompanhou a netinha e. esperava o café que a família saboreava depois das orações. com a esposa. os espíritas.. e explicou: . Sempre vovô chama por ele nas preces: “Vem Jesus! Vem Jesus!” e Jesus nunca veio. Acho que Jesus ouviu a nossa conversa e mandou alguém por Ele.JESUS MANDOU ALGUÉM O culto do Evangelho no lar havia terminado às sete da noite. Ana Maria. não podemos pensar assim. de olhos arregalados. enquanto o menino grita: . de roupa em frangalhos e grande barba ao desalinho. Ana Maria e Jorge Lucas. bondoso.Vovô. antes que o vovô terminasse.Ninguém não! É só um mendigo pedindo esmola. trazendo o desconhecido. 79 . Um doente é uma pessoa que o Senhor nos manda socorrer.. depois de alguns instantes.. A família comoveu-se. reclamou: . voltaram. instintivamente – a estas horas? Ana Maria.. O Mestre vive presente conosco em suas lições.. . porém.Vovô.

a pequena dormiu feliz.Graças a Deus. a menina segurou-lhe a mão direita e perguntou: . tivemos hoje um culto mais completo.Como não. enxugando os olhos. Recebeu tudo o que precisava e João Pires anotou-lhe o nome e endereço para visitá-lo no dia seguinte. com ar de triunfo. após abraçar o inesperado visitante. e. o ancião respondeu: . sensibilizado: . no “até amanhã”. falou. Alimentou-se.Eu não falei. 80 . Antes da despedida.O senhor conhece Jesus? Trêmulo e acanhado. vovô? O grupo entendeu o ensinamento e o recém-chegado foi conduzido à poltrona.Ante a surpresa de todos. minha filha? Ele morreu na cruz por nós todos! E Ana Maria para o avô: . o chefe de família.

pensando. O jovem ouviu atentamente e saiu pensando. no entanto. Por uma semana repetiu-se o reencontro. Desinteressado. picado por escorpião. . um amigo espiritual. vingar-se. Por mera desconfiança. porém. Dias depois. encontra um enterro e descobre-se. Jurara. topou. face a face.Mesmo ferido. serve e perdoa. ouviu preces e pregações. e. porém. por sete vezes. Em sã consciência. limpando a face sanguinolenta.A corrigenda do ofensor pode ser amanhã. Um amigo. não seria prudente medir forças. instou muito e conduziu-o a uma reunião da Doutrina Espírita. o desafeto. desarmado. agora. aquele que o ferira.MESMO FERIDO O rapaz fora rudemente esbofeteado num baile. 81 . morrera na véspera.12 . E. escreveu bela página sobre o perdão. porém. retornando ao trabalho. .. não sentia culpa alguma. covarde” – haviam dito os circunstantes. aguardava ocasião. compreendeu que. porém. o agressor esmurrara-lhe o rosto. “Covarde. comentários e apontamentos edificantes. freou-se prudentemente. mas recordou a lição e conteve-se.Ninguém precisa vingar-se. Na manhã seguinte. Só então vem a saber que o grande esmurrador. pela mão de um dos médiuns presentes..Nada fizera que pudesse ofender. percebendo-lhe a alma sombria. Ele. . na qual surgiam afirmações como estas: . Ao término da seção. munido de um revólver.A justiça real vem de Deus.

Na segunda noite de maiores dificuldades. Ouvi a fama das minas de Cuiabá. Juvenal e Sertório entraram em fuga. II Peres interrompeu-se.Tudo começou às mil maravilhas.13 . para morrer depois em pavoroso suplício.. ignoro. Encerra então a carreira? Não – disse ele. Mas enquanto companheiros diversos prosperavam. em Taubaté. Mas sei que vivi pesadelo 82 . com dois escravos. demorei-me por tempo indeterminado. sozinho. vejo pequena bolsa.356 metros quadrados. arrastei-me. Abro o saquitel e contemplo uma farinha dourada. arrastei-me. Cada minerador. Vendi a propriedade que herdara. prestimoso amigo do Plano Espiritual. quando foi promulgada a lei de 18 de abril de 1702. 4. Se dormindo.. Cambaleei por dois dias.. a tempo breve. Se acordado. de meus avós. A seca atacava tudo. encho a boca. felizes. Guarda-Mores e Oficiais Deputados para as Minas de Ouro”. mas fomos desviados da rota e. E caí doente. Tremo de esperança. muita água. Tudo pronto para o renascimento.Conservo a memória voltada para certo período – e modificando a expressão fisionômica: Tinha eu trinta anos de idade. Semi – enlouquecido. sorrindo -. achávamo-nos sem caminho. Cobiçoso. Mastigando folhas amargas que me impunham tremenda salivação.. como bêbado solitário. a pouco e pouco me desencantei. levando-me víveres e cavalos. fatigado. E bebo água. sob o nome de “Regimento dos Superintendentes. senti fome. Todavia alguém pede mais. Alguém teria deixado ali algum resto de refeição. recheada com algo. em pleno deserto verde. não mentalizava senão ouro. consegui catorze cativos e comecei meu trabalho. como quem encontra os remanescentes de uma farofa gorda. febril. Trinta anos vivi ali a loucura do ouro. Tornarei. estava de volta à esfera dos homens. não sei.OURO E BATATAS I João Peres. ao pé da própria carcaça. E porque desfrutasse merecidos afetos. com mais de 12 escravos poderia receber uma data com 900 braças quadradas. Entreguei o pedaço de terra ao meu primo Martinho Dantas e abalei-me. procurando comer. sim – dizia bem humorado -. era como bênçãos de luz a festa das despedidas.. e espero vencer agora. ouro. ou seja. porque nada mais fizera que comer ouro em pó.. invadida de pó valioso. e rumei para Vila Rica. para a viagem temível. ouro.. Mourejando de sol a sol. No delírio que me assaltava. Instalado nas vizinhanças de São João Del – Rei. ao pé de uma fonte.. não encontrava por mim senão cascalho e desilusão. com que o cetro português procurava incentivar a mineração no Brasil. até que. Indagou alguém se estava informado quanto ao pretérito. ao que respondeu generoso: .

próspero. porque o próprio Martinho não mais achei. em espírito. Dispunha. Vai-se a primeira mala. e ajuntou: Desde então. no entanto. dormi... Francisco. Reclamei meus direitos e bramei contra o mundo. mas a pleno rio. Gritando. no entanto... O homem aceitou. um dia. aprendi a comerciá-lo. ou nada feito. desde de cedo. Tomei tropas. Policiado. rumo ao sul. O ex-garimpeiro e comerciante levantou-se e atendeu: -Agora será diferente. Buscaria o território baiano e. de enorme fortuna em ouro e consegui escapar ao processo. ansiando a pose de ouro. estimulei nos escravos o gosto do furto. Volto ao meu torrão antigo em S. Tento retê-la e cai a segunda.. tomaria medidas novas. desceria por mar. Mas exigi. Carga volumosa e pesada. tudo esquecendo. concluiu: -É muito melhor. deixando larga fortuna aos filhos. “É muito peso” – disse o barqueiro. E. mostrando o seio aurífero. sofri merecidos horrores para aprender. Na Corte. à feição de louco. um amigo que também se dispunha à reencarnação. intrigado. A terra que eu lhe emprestara abrira-se. sensato. Ele e eu. Servidores numerosos. subornando funcionários e consciências. pensativo. E aumentei meus negócios. Entretanto aspirando à riqueza fácil. por lá. Renascera entre os bisnetos de meu primo e. lâminas de ouro e caixas de ouro. Muito tempo havia passado. . por bondade de Deus. perdendo de novo a vida. com a carga. quando a clandestinidade dos meus serviços escusos foi revelada.E agora. exigi que as minhas duas grandes malas de ouro me acompanhassem. resolvi retirar-me.. Viajei garantido. Morrera. Viajava entre Sabará e São João Del – Rei sem medir sacrifícios. sorrindo. 83 . no movimento da retaguarda. Na travessia do S. mergulho nas profundas águas. Mudaria meu próprio nome. pus-me.incessante em que via barras de ouro. sem que ninguém me ouvisse. Paulo e vou plantar batatas.. Quanto me pudessem oferecer tinha preço. até que. Quando essa loucura encontrou alívio. enfim. Peres? – Perguntou. poderia desfrutar vida farta.. pepitas de ouro. Depois. Peres fitou-nos. Atravessava a de novo a casa dos sessenta anos. O barco oscila. surgem correntes mais fortes.

Como a reticência se prolongasse. pioneiro da Doutrina espírita.Desejava a sua palavra empenhada. E o outro prosseguia: .Já auxiliei construções espíritas numerosas. a bênção do ar. imperturbável. peremptório. tenho aspirações políticas desde muito tempo.Mas Chaves. nervoso. para que me garantissem o voto. . Em toda parte. . que lhe falou sem rebuços: . foi procurado por prestigioso amigo do campo social. Queria. despediu-se e procurou distração num bilhar. duzentos contos de réis.você prometeu receber-me e atender ao meu problema. guardava silêncio. E inquirido por alguns correligionários quanto aos resultados da entrevista. como você não desconhece. mentiras e mentiras. . conforme nos ensina o Espiritismo. O distinto educador.. meu amigo. mas o que francamente procura é a realização de um negócio – disse Chaves.. o professor explicou: . espíritas. não tem preço.Nada posso fazer – disse o professor. agora desejo doar duzentos contos para obras espíritas. Tenho apenas recebido ingratidões e mais ingratidões. Que é caridade. desencantado. entretanto. sumamente conhecido por sua virtuosa austeridade.Que é isso? – falou o amigo.. O político. o que vem a ser uma dádiva? E o educador respondeu sereno: . em Uberaba. O que eu desejo é fazer uma dádiva. Chaves perguntou: .Pensei que o senhor estivesse tratando de caridade. o tesouro do verdadeiro amor ou o espetáculo do céu estrelado?. então? Humilde e simples.Chaves.. mas tudo sem resultado. Para vocês. disse o outro -.Caridade é o amor de Deus no coração humano.Dádiva é o bem que a gente faz sem esperar recompensa de coisa alguma. deu primorosa tacada e falou que o professor João Augusto Chaves não passava de um louco.Que idéia! – falou o visitante. Onde é que o senhor já viu alguém pagar a luz do sol. 84 . – Entrego duzentos contos. com ar de censura . .. Minas....14 .O NEGÓCIO DA DOAÇÃO O professor chaves.Queria o que. É uma lástima. meu amigo? . E esse amor.. desse modo. isso é muita filosofia. .. o apoio de seu prestígio diante dos espíritas.

abnegado espírita e grande comerciante. o rótulo é quase nada.O CARTAZ . o senhor não serve para o trabalho comercial. Foge aos horários. Desde a primeira pedra na base até a última no alto. e disse: . . o senhor foi convidado a seguir sua vocação e está pago pelos serviços que nos prestou. Figner – anotava o moço -. E lança discórdia em casa. de conformidade com todos os seus direitos. não – explicou o negociante. tudo é harmonia e disciplina.Mas Sr.Mas eu sou espírita – lamentou-se o ex-empregado.Expulso.. Mas note o cartaz à porta do cinema. Perde tempo. Desatende os que nos procuram. . 85 .Decididamente.15 . A presença dele aqui não altera coisa alguma. Repare este majestoso prédio. Figner fitou o grande edifício junto ao qual conversavam. Discute sem razão.. que falava a empavonado rapaz à porta de conhecido cinema do Rio.. .. não é possível! Fui expulso de sua firma sem mais nem menos. paternalmente -. – era Frederico Figner.Meu amigo.

E somente à força dos bons conselhos em casa lhe suportava os carinhos. receberam-na entediados. A lágrima parada no olho doente fez-se mais grossa e o pranto jorrou. D.CALVÁRIO MATERNAL I Quando Maria Quitéria. pela generosidade do casal que o perfilhara. contudo. queimado meses atrás por grande porção de vitríolo. Pranto resignado. Num minuto. Ainda assim. silencioso. olhou o. Às vezes. Trazia Quitéria o semblante deformado. E. a verter uma lágrima que não chegava a cair. . Não tinha filhos e dispunha-se a tutela-lo. desanimam. O petiz. Não compreendia porque os pais adotivos facultavam a Maria Quitéria liberalidades tão grandes. O rosto. E apresentando Licurgo. Espantam-se todos. humilhada -. a prestimosa lavadeira vinha trazer-lhe o chocolate que não pedira. pedindo serviçais. impunha-lhe dolorosa feição. zombava de suas poucas letras. mal vestido.Estou quase cega – dizia. sorrindo. Leio anúncios. assumindo o compromisso de assinar o sacrifício em cartório. viúva e doente.Ofereço-lhes o menino. e. pequeno com simpatia.. com agudeza e inteligência. Perdera um dos olhos e o outro se mostrava esbugalhado. Sem que você faça renúncia completa. Lauro de Melo. – Mas se vier com papel passado. O médico e a senhora. mas vivemos os dois em fome e penúria. exclamando: 86 . Podia esperar. dizem que trago moléstia contagiosa. II O menino Licurgo.. Tento a lavanderia. agora o moço Licurgo de Melo. sempre que vinha de férias encontrava no lar a pobre lavadeira cercando-o de atenções. Maria Quitéria teve forças para acariciar o menino e entregá-lo. Parecia muito mais um monstro em corpo de mulher... o filhinho de cinco anos. ao chegar da rua. Compareço.Ninita. correspondia-lhe a atenção. amigos de longo tempo. a dona da casa. ouvia passos de leve. com o acidente sou hoje inútil. chegou à casa do Dr. tinha o corpo mais morto que vivo.16 .O garoto será nosso – disse. além disso. quando me vêem. desisto. . Entretanto. É meu único filho. noite alta. falou súplice: .

mergulhando-lhe a cabeça disforme na tina d’água. Tantas lhe foram. batia a porta. a expulsão. Velhos sapatos no fogo. consagrava-se. a esposa jovem. Entretanto. Quando a via rondando o quarto. partilhando por ela a mesma antipatia gratuita. Ninita. agora.Você é uma excelente megera. passou a sofrer rude trato. por ela invocada nos momentos difíceis. no governo doméstico. Rosana. como se ele houvera dito: . Depois de muitos dias e noites esfalfantes. ainda mesmo sob ameaças. Comida escassa. mais cansada. Inconsolável. a doente cerrou os olhos do corpo para não mais abri-los. ao passar distraído. o viúvo aceitou o alvitre de parentes bondosos. abandonada agora aos caprichos dos donos mais moços da casa. foi sequer respeitada. nas proximidades do tanque de lavar. Licurgo de Melo. E. Ninita. Dificuldades. Maria Quitéria. porém. III Jovem médico e recém-casado. não perdia oportunidade para magoá-la. Nem mesmo a memória de D. nunca se encorajava a sair.“Você é uma excelente mamãe”. era sombra a mover-se ajudando calada. Roupa humilde subtraída à velha canastra para servir como esfregão na limpeza dos pisos. as dores e as privações. decidindo-se por alguns meses no campo. 87 . avançava de pronto. Licurgo e Rosana. de parceria com o pai pelo coração. colérico. por fim. porém. servia-lhe quitutes raros em regime de exceção. Dr. que um dia não mais se ergueu. com sorridente expressão. Maria Quitéria. Ele. Acostumada a vocabulário restrito. E.. a caminho da morte. o Dr. à feição de um gato ferido. à arruinada saúde de D. Vigílias. quanto podia. a pobre criatura tartamudeava palavras de reconhecimento e alegria. buscava os pejorativos mais duros para lançar-lhos em rosto. junto deles. Se lhe dirigisse qualquer olhar de enternecimento. como se fossem elogios adocicados. E. submeteram-na a insuportáveis humilhações. mantinha-se a distância. À mesa.

demandaram à enfermaria. assim. carregando o cenho. ao contar que fora o próprio Licurgo. Licurgo chorava. Lauro tomou-lhe o pulso e abanou a cabeça.. tomando corajosamente a palavra. Entre leitos anônimos. que conhecia agora os segredos do sofrimento moral. como material de serviço.. embora conservando monstruoso semblante. Licurgo e Rosana ajoelharam-se ao pé da cama: . e.Mamãe! Mamãe! – gritou ele. mas escapara. em seu leito de angústia. desterrou-a para uma seção de indigentes. que se abriu facilmente. com toda a facilidade. Lauro. a esposa desencarnada e ele se abstiveram de dar-lhe a conhecer a realidade. Depois do chá. dominadora. ele.ordens. Maria Quitéria sofrera terrivelmente. descartando-se. ante a saudade constante da companheira. depois. agora irreversível. chorou intensivamente. por fim. entornara-lhe o ácido na face.Agora é leva-la à força para o hospital – dissera Rosana. enquanto a infortunada viúva dormia. Era tarde. ante as duas patentes médicas. enfim. A cirrose do fígado agravava-se pouco a pouco. Lauro de Melo ao antigo solar em que fora feliz.. quem lhe despejara no rosto um vidro de ácido sulfúrico. Visitamos.Afinal de contas. na inconsciência infantil. dedicados à assistência cristã. ao que Rosana informou displicente: . quando menino de quatro anos. Dr. Era noite. Ela temia fazer o filho infeliz. Dr.. a cãs principesca do filho que a conhecia. A pedido da própria Maria Quitéria. possuía o corrosivo em casa. diante da aversão que sua presença sempre lhe causava. Licurgo. desconhecendo-ª E vimos a volta do Dr. abraçado à esposa. perguntou pela serviçal. operário simples de uma grande oficina. E.. Maria Quitéria agonizava. e Licurgo. Na noite seguinte ao dia dos funerais dele. IV Atendendo à oração de dois estudantes de Medicina. igualmente banhada em pranto. conhecemos Maria Quitéria. chorando – porque não me disse tudo? 88 . extra . explicou-lhe a palavra total. O pai. Na mesma noite. com saborosos confeitos. O velho médico ouviu todo o relatório. Nada conseguia reter a esclerose retrátil. Maria Quitéria era um trambolho difícil de conservar.

qual humanitária cirurgia. perdoe-me! Ela. guardava a expressão serena de um anjo. Licurgo. A enferma. e pediu: .. refizera-lhe o rosto. perdoe-me.. reunindo todas as forças e como se nunca tivesse razões para perdoar. cobrou ânimo e contemplou-o.Mamãe. porém. na viajem para a vida melhor. Ao calor do abraço filial. nas raias da morte. identificando as visitas. passeando a triste expressão do olho semi – morto pelo aposento. leve-me para casa. meu filho.Meu filho. minha mãe. encharcado de lágrimas. E dormindo em nossos braços. Entretanto. viu que aquele inesquecível olhar o reconhecera.Deus te abençoe meu filho! E. mas não pôde. disse ainda: . não mais voltou. e veio ter conosco. A morte. Daria tudo para erguer a mão quase fria e afagar-lhe a cabeça. simplesmente falou: . dormiu. 89 . enternecida.

.Que comeu você hoje no almoço? O rapaz informou presto: .Que acha o irmão? O benfeitor sorriu. e respondeu: . o caridoso amigo considerou: . tudo temos feito por suas melhoras.. dois bifes. É. o Espírito amigo tratava da saúde de João. moço de muita fé. acrescentou: . quatro ovos e duas xícaras de café quente. através da médium. sempre recorria aos préstimos de benfeitor desencarnado que ajudava aos doentes por intermédio das faculdades psicofônicas de conhecida médium.. João? Que posso falar? Penso apenas que o único remédio em seu caso seria Deus conceder a você dois estômagos.João. um prato de saladas. João indagou: . Notando que o espírito silenciara. E ajuntou: .Parece que foi só isso.17 . 90 . Entretanto o problema gástrico está renitente. Por mais de cinco anos consecutivos. – e relanceando o olhar pela sala. Certo dia. com inexcedível paciência..Eu. através de passes.O QUE ACHA O IRMÃO ? João Neves. como se recorresse à memória. dois pães com manteiga.Comi feijão e arroz. incorporado à médium.

.Justamente – proclamava ainda outro . do ponto de vista em que se colocam.O que me assombra é nossa caminhada carro-de-boi – lamentava um terceiro. e os amigos comentavam: . – Carrancismo. que ocupara dignamente. . .. e por longos anos. velharia nas decisões. – falava um deles.. . Pretendendo arrancar-lhe uma opinião. Guillon? Que diz o senhor acerca de nosso assunto? O benfeitor desencarnado deixou o silêncio em que se mantinha e falou. Guillon Ribeiro.E o senhor Dr. não encontraríamos definição mais exata. através do médium.. Carrancismo é a praga de nossa diretoria.Sim.O que nos espanta é o carrancismo do presidente de nossa casa...E o rotinismo do tesoureiro? – dizia outro – pensa por padrões do outro século. mas “carrancismo” é a palavra com que sempre definimos a trabalho da diretoria de qualquer Instituição da qual não façamos parte 91 . pediu um dos circunstantes: . a direção da casa de Ismael. meus amigos. escutava. para estudar os problemas da Instituição. vocês têm razão.. no Brasil.. Velharia nas providências.18 .. escutava.CARRANCISMO O grupo solicitara a presença do Dr. carrancismo.. sorridente: .. O Espírito amigo.

é esquisito! Olhe bem que ele soube empalmar com absoluta mestria oitocentos contos de uma só vez. que se arvorara em defensor do colega. O pequeno círculo de amigos.Entretanto – opinou um companheiro -. Raimundo. E continuava: . Nosso caro Roque não agiu com premeditação.Quem de nós está livre? Amanhã. Estive com o gerente e conversamos sobre o assunto. ora! Isso é dever de nós todos – respondia Cecílio. Não se pode afirmar que é realmente furto. E enquanto o grupo chegava ao serviço. carregou a capa que o senhor deixou aqui ontem? E Cecílio. Roque está doente.Gatuno! Cão vil! Pagará caro! Ele há de ver! 92 . graças a Deus temos em você um companheiro espírita compreensivo e cristão. gritou. convicto. . conciliador -. um contínuo aproximou-se e notificou: . É preciso compreender. ao fugir hoje.19 . lembre-se que ele tem os sentidos obliterados. porém.Soube o que? . Um apoio fraterno.O Roque.Sr. advogando a causa de um colega que fugira pela manhã.Como poderia ser até mais – atalhou Cecílio. carregando consigo nada menos que oitocentos mil cruzeiros.Raimundo. o contador de grande organização bancária. .Ora. Era Raimundo Cecílio. pela manhã. Doente da alma. O homem está obsidiado. a princípio severo.OUTRA OPINIÃO . completamente transtornado: . mas infelizmente o Banco não sabe disso. o senhor já soube? . No saguão. o assédio das entidades perturbadas e infelizes pode voltar-se contra nós. A opinião de Raimundo era água fria na fervura. . solucionando-nos as dificuldades morais. outro amigo acentuou: .Tenho meu coração agoniado e defendê-lo-ei até o fim. como que se adoçava.

o caso merecia apontamentos diversos: . entre o pasmo e a amargura. carinho e respeito rodearam-no por todos os lados. 93 . sorrindo: . .Cotizemo-nos todos para ajuda-lo. Mas também não faltou quem dissesse: . com o braço direito em tipóia. Suas colegas de fábrica rasgaram peças de roupa. Longe desse quadro. quando foi visto de mão a sangrar. Nas maiores dificuldades.Felizmente. e justamente Saturnino.. Não só isso. o amigo de todos. mas será reconstituí do em tempo breve. que nos ajuda a todos. nosso amigo perderá simplesmente o polegar. traumatizado. Companheiro dos humildes.Tenho visto tantas mãos criminosas saírem ilesas. . parecendo raio de sol dissipando as sombras.O MERECIMENTO I Saturnino Pereira era francamente dos melhores homens. No trabalho. quando o acidentado apareceu muito pálido.Porque um desastre desses com um homem tão bom? – murmurava uma companheira. junto à máquina de que era condutor. Operação feliz. Onde houvesse a dor a consolar. Vive para os outros. Na caridade é um herói anônimo. E à tarde. porém. tão bem observada? Saturnino é espírita convicto e leva a sério o seu ideal. A caridade em pessoa. O cirurgião informou. até mesmo de aviões projetados ao solo. Amoroso mordomo familiar. Todo o braço direito está ferido. solícito.20 . vem de ser a vítima! – comentava um amigo. . aí estava de plantão.. a fim de estancar o sangue a correr em bica.Devemos ajudar Saturnino. conduziu-o ao automóvel. Saturnino ferido! Logo Saturnino. O chefe da tecelagem. era um sorriso generoso. todas as atenções se voltaram para ele.Que adianta a religião. era o amigo fiel do horário e do otimismo. internando-o de pronto em magnífico hospital. Por isso mesmo. Por que o infausto acontecimento? – expressava-se um colega materialista.

estava triste.Saturnino.. bondoso: . certo dia. e o plantio disso ou daquilo só pode ser avaliado em definitivo por ocasião da colheita. em sua cadeira humilde.. mas perdeu só um dedo. nem se entregue a tristeza inútil. Sorriu. de apaziguamento e alegria. Você hoje demonstra indiscutível abatimento. meu filho. Fez uma pausa e prosseguiu: . Regozije-se.. meu amigo! Você está pagando.. que hoje. pontual. ao conhecer a Doutrina Espírita. compareceu à reunião habitual do templo espírita que freqüentava. Saturnino. seu empenho à justiça.Saturnino agradeceu a generosidade de que fora objeto. porque pobre empregado enfermo não lhe pudesse obedecer às determinações. quando Macário. Por muito tempo... Acontece. esperava o encerramento... obrigou-o a triturar o braço direito no engenho rústico. em companhia da esposa. após traçar diretrizes. por muito tempo. Por muito tempo. por débito legítimo. alijaria você todo o braço. tem os pés no caminho do bem aos outros. toda vez que nos apresentamos em condições para o desagravo. mostrando no rosto amorável sorriso. você andou perturbado. Lágrimas de conforto. Quando você se preparava ao mergulho no berço terrestre. Mas.. contemplando mentalmente o caldo de cana enrubescido pelo sangue da vítima. Não estamos aqui para elogiar. compareceu. o operário. lutando.E você implorou existência humilde em que viesse a perder no trabalho o braço mais útil. esmerando-se no dever. não tem motivo.. em amor.. Excursão de trabalho. Todas as dores decretadas pela Justiça Divina são aliviadas pela Divina Misericórdia. Apenas dez pessoas habituadas ao trato com os sofredores. II À noite. E continuou: . dirigiu-se a ele. Contudo. O Pai não deseja o sofrimento dos filhos. porém. porém.. desde a primeira mocidade. Saturnino derramava grossas lágrimas.. Sessão íntima. Na manhã seguinte.Há oitenta anos. você. você. De cabeça baixa. programou a excursão presente. Proferiu palavras de agradecimento a Deus. porque você continua lutando. ao serviço. 94 . no Plano Espiritual.. não se creia desamparado. de reajuste. que formulou uma sentença contra você mesmo. era você poderoso sitiante no litoral brasileiro e. com as próprias mãos. resignado. Sei. o orientador espiritual das tarefas. Você tem trabalhado. Consagrado ao serviço da prece. Entretanto. cujos gritos lhe ecoavam no coração.

como se todos devessem ouvi-lo: .Graças a Deus! 95 .O senhor está enganado. respondeu simplesmente: . fábrica a dentro.É porque o fiscal do relógio lhe estranhasse o procedimento. quando o médico o licenciara por trinta dias. Não estou doente. E caminhando. falou alto. Fui apenas acidentado e posso servir para alguma coisa.

a fala de cada um. Os fazendeiros. Cacique de Barros. sem serem. com isso. o burrico seria respeitado. e assim aconteceu. a pessoa em si.. forma. quanto à necessidade de se coibirem as mistificações nos fenômenos mediúnicos. falava. fama e autoridade são aspectos na pessoa. sãos e doentes. A palavra dele conquistava simpatia crescente. 96 . Cobriria o humilde cooperador com a pele do tigre e soltá- lo-ia cada noite nas terras dos fazendeiros vizinhos. encarnados e desencarnados. Como. despretensioso. Através do médium.21 . O orientador fez uma pausa e continuou: – Nome. E o burro. Em seguida. manhãzinha.. e ele rogou parecer ao mentor da Casa... O burro. pelo crivo da análise. era recolhido pelo dono à pequena estrebaria. contente da vida. Encarecia a meditação. porém.A FALA DE CADA HUM Logo após o início da sessão. surgiu uma noite em que jumentas vararam a paisagem. Visto disfarçado em tigre.. com atenção.. escutem. falou conciso: – Meus irmãos. Mas. Recomendava o estudo constante. concluiu: – Se vocês quiserem realmente conhecer benfeitores e malfeitores. porém. zurrando. rasgando-lhe toda a pele. Passeando. O muar fartava-se de cevada e. zurrando. descobriram a farsa e mataram-no a cacetadas. a distância de casa. Mas. há uma lenda hindu que nos esclarece. o Amigo Espiritual compareceu bem-humorado e. o homem achou um tigre morto. de modo algum... E teve uma idéia. enfraqueceu- se o animal por falta de forragem. nesse regime. porque não tivesse recursos. solucionar o problema? O círculo de confrades entrou em oração. zurrou e zurrou também. fez-se nédio. Um homem necessitado era dono de um burro que lhe prestava grandes serviços. gesto. Era preciso tudo fiscalizar. depois de saudação fraterna. sábios e ignorantes. distinto baiano que foi valoroso missionário dos princípios espíritas no Rio Grande do Sul. acordado nas afinidades do instinto.

O pai costumava dizer-lhe: “Cuidado com os rapazes de hoje. encontravam-se noite a noite. mergulhando o olhar um no outro. como resistir? Jorge assobiava todas as noites. Desceram. Complicara-se. Via-se desprezada. 97 . Dois anos de vã esperança. porém. Uma jovem tímida. sentiam-se como numa ilha de encantamento. contudo a conversação. À frente da garoa persistente. embora freqüentassem instituições diferentes. sem responder. mas o cinema coroara a aventura com um beijo. sorria e deixava passar. seguiu o companheiro. Automaticamente. voltando no outro dia para solicitar informações. A mãe entretanto.Estou em dificuldades com meu professor de latim – dissera. Haviam assistido a um filme pitoresco. achava-o antiquado e exigente. Na queria viver mais. encantada. Sonhava. Percebera a manobra. sentia-se deslizar no asfalto. Ela não tinha voz para dizer-lhe “não”.. Após quatro semanas de convivência. Sob a marquise. Acariciara o sonho de esposar Jorge e criar-lhe os filhos. pensavam no tema. Refletia na heroína do filme. Não conseguira desvencilhar-se do braço que a envolvera. Começou pedindo-lhe livros. Qual se fora um animal hipnotizado.Você teria coragem de acompanhar-me num longo passeio? – perguntou ele. Lembrava-se de tudo.. Inebriada. E levara-lhe a gramática. E tudo se agravou numa noite de chuva. como quem patinasse acima das nuvens. A princípio comentavam estudos. Desde então. criticavam colegas.. sem morrer. Ninguém poderia dizer o que teria acontecido depois. Deixou-se conduzir. .22 – SUICIDA I Desde o momento em que sorvera a mistura venenosa. Nem viu quando o moço fez sinal ao motorista. Além disso. Marina sentia-se morrer. contrariada pela família. Ela corara. ela. com intenções ocultas. confiante. iam juntos ao cinema do bairro. Ele interpretara-lhe o silêncio pelo “sim”.. com quem fugiu. . nem sempre têm bom caráter”. Jorge chamara um táxi. entregara-se ao rapaz. Queixavam-se dos professores.

E continuou loquaz. A chuva apoquentara-os. o táxi. e acalmou-a . sorrindo.Pingos de chuva caíam-lhe nos cabelos de menina e mulher. O moço pediu chá e explicou-lhe algo em voz baixa. à frente do paraíso. como se o tempo estivesse morto. alta madrugada. . Que fazia ali a imagem do Cristo? Recordou em relampagueantes pensamentos repetidas palavras maternas: . Lembrou-se do lar.“Todos devemos orar. A viajem de volta não apresentava o sabor da vinda. Alguns instantes de espera e abre-se a porta.Tolinha. Jorge enlaçara-a e as horas se perderam da imaginação. A pequena escada pareceu-lhe um trecho de espaço. ao deixá-la em casa. como se a noite compassiva desejasse apagar vulcão de sentimentos e idéias a lhe transtornar a cabeça. II Ele apertou um botão que encimava um florão da parede. . A dona da casa nem de leve se surpreendera. Entre os dois.” Mas não dispunha de espaço mental para ocupar-se do assunto. 98 . embora estremunhada. Jorge despertara. e indicou-lhes quarto próximo. chamado pelo telefone. tinha no rosto a calma das enfermeiras de plantão. generoso. Um belo leito de casal estava perto.. como se fosse uma rosa despetalada que devesse retornar ao jardim. O moço tomara-lhe a mão trêmula e arrastou-a quase.Conversaremos amanhã – disse Jorge simplesmente. compareceu. Mal teve ela tempo para relancear os olhos pelo recinto. Na parede um retrato do Cristo. enquanto ocupavam pequena sala. agora.Minha velha amiga – dissera Jorge. Transpuseram um pequeno portão. prestimosa. Acordou junto dele. Levantaram-se. Depois do chá. A senhora hospitaleira. e pediam abrigo por alguns minutos a fim de conversarem a sós. Chorou. o silêncio. não há motivos para lágrimas. Senhora gorda e afável atendeu. tornando à sala..

Porque afligir-se. Jorge. Todavia. mãezinha? Mentira pela primeira vez.mãe. Jorge levou –a ao gabinete de um médico ainda jovem. Sentia-se visitada por idéias estranhas. Conheceu mais de perto a residência da cancela rosada. Ao fim de quatro meses. Via-se perseguida por alguém. E não obstante a caratonha do relógio mostrando as três horas. III Desde essa ocasião. sentira-se diferente. 99 . Telefonava-lhe. O amigo. Pedia conselhos. . que sempre considerara noivo em particular. tinha sonhos alucinantes. E estarrecera-se. aparecera-lhe o outro lado da vida. Estudos intensivos. no lençol. por que me mataste?” Acordava. Ele ria-se e falava em consulta ao psiquiatra.Parecia adivinhar tudo. Processou-se o aborto esperado. Devia terminar o curso de bacharel. beijando-lhe a face. Vomitava. sem rebuço. nos últimos tempos. porém. Dizia-se também cansado. que pretendia casar-se dentro de poucos dias. que lhe deitava olhares ambíguos. perturbada. D. Parecia-lhe viver com o filho que não nascera. estava com outra. Queria ser mãe. como vidraça clara atravessada por largo jogo de sombras.Rouquenha voz lhe gritava aos ouvidos: “Mãe. precisava casar-se. mas submeteu-se a tratamento. como passaria a mentir sempre – a chuva atrazou-nos em excesso e descansamos em casa de Jorge – afirmara. fizera-se arredio. exigia-lhe calma. Desde o aborto era outra. Contava-lhe os sonhos.Marcília nada respondeu.Companheira de infância – informou. E afirmara. . Conversou mais demoradamente com a mulher que velava e conheceu outras clientes do do pequeno edifício. Mas. Para isso. enxugando o suor álgido. buscara Jorge na esperança de mais decisivo socorro médico. suspirando fundo. Tinha vertigens. desde então. pela inquietação que denunciava. rogava conforto. Passavam-se agora semanas de ausência. Na véspera.O coração materno esperava-a. Ele sempre a dissipar-lhe os temores com a promessa do matrimônio. Apresentou-a . no entanto. Revoltava-se diante dele.

Suplicava socorro. Arrastou-se de regresso a casa. conduziu-a a pequena distância e explicou-se. Empalidecera. 100 . indiferente à dor que a fulminava.Dissuada-se – concluiu quase áspero.. antes de mais sérias dificuldades. a única interpretação que podia dar ao espaço fechado de pequena ambulância.falou. tranqüila.A rival cumprimentou-a. Seis homens aproximaram-se. . Pavorosa dor irrompeu-lhe na carne.É melhor terminarmos assim . a ignorar-lhe a tragédia.. de encontro ao que lhe pareceu “laje fria”. mas ninguém lhe percebia agora os terríveis lamentos. confessou impassível. retomando o braço da jovem que sorria. nas o próprio sofrimento não lhe conferia o privilégio das discriminações. Ela implorou em lágrimas. pela manhã. Não apenas chorava. frio -. Jorge. Ninguém. Viu-se carregada. E afastara-se. Um deles. mais experiente. no entanto. Rugia em contorções. Agitava-se.. nos nervos. sem qualquer consideração. Não a amava. Escreveu bilhetes. Viu-se atirada. IV Mundo íntimo desmoronado. atendia aos seus apelos. parecia conduzir outros cinco. no sangue. sorridente. A idéia de suicídio envolveu-a de todo. nos ossos. Adquiriu a substância letal. Dois homens colocaram-na em “vasta gaveta”. Entretanto. sorvera a porção de uma só vez. ouvia sua própria mãe gritar como louca: “Morta! Morta!” Ouvia algazarra. . E. Convulsões sucessivas não lhe permitiam morrer.

Arrependera-se. Desejava tranqüilizar os pais. em meio das sensações turbilhonárias que lhe atormentavam a alma. de pé. Reconhecia-se jovem ainda..Assassinos! Assassinos! – estertorava. . refazer a existência. reconhecendo tratar com jovens cirurgiões em estudo. Mas. enquanto o cavalheiro amadurecido. falava em “cianetos” e “cheiro de amêndoas amargas”. desnudaram-na. . Trabalharia por vencer. ela – Marina. separando material de exame necrológico. em pranto. indignada ante o vexame evidente... Mas a operação prosseguia. Alguém dizia: “Bela mulher!”. Tentara o suicídio. exclamou. Poderia sobrepor-se à situação. mas recuara. ela mesma – cambaleava. Tomou de um bisturi e abriu-lhe o abdômem. Era demais. fez mais. Nenhum dos circunstantes lhe ouvia os brados. desrespeita-la.enfim. sentiu que continuavam a lhe cortar a carne.Mãe! Minha mãe! – clamou aterrada – quero viver! Viver!. Viu-se separada do próprio corpo. Beliscaram-na.Queria ajoelhar e pedir-lhes a necessária assistência. V O homem amadurecido afastou-se por minutos como quem se esquecera de trazer algum remédio a fim de ajuda-la. E conheceu a verdade. 101 . . Tinha pressa. como jóia que salta mecanicamente do escrínio. de olhar irônico. clamava que não. Um dos moços. E mais que isso. Mãos ágeis trabalhavam-lhe as vísceras. Alarmou-se. tateando-lhe o busto: “Porque matar-se desse modo?” Sentindo-se em desespero total.. Desejava retomar o corpo e viver. Pensava no martírio dos pais. Dois dos cinco rapazes presentes tocaram-lhe o corpo. Ouvia vozes. Entretanto. longe de garanti-la. em grande avental branco. Pareciam desconhece-la.Terminassem a operação! – pedia. O mais velho. O corpo que ela própria arruinara apresentava máscara triste. com todas as dores e convulsões de momentos antes.

Mãe.. os sonhos.. bramiu-lhe ameaçadora e sarcástica aos ouvidos: . contudo.e o suicídio.Outra voz. minha mãe. eu também quero viver!. o aborto.. e esforçou-se terrivelmente para voltar e erguer de novo o corpo tombado na mesa fria. aturdida. mas apenas sentiu que braços vigorosos a aprisionavam. a tortura.. Lembrou. Mais era tarde. Procurou com os olhos agoniados quem lhe falava. 102 .

Flavinha: . materializada.Filha. Irmã Nélia! Tenho sofrido demais. não esmoreça! Com o dever retamente cumprido. E a emissária do bem: . D.23 . A luta é instrumento de redenção! A dor é uma bênção que a Lei de Deus nos envia. não desanime! Outras seções e outros clamores. Irmã Nélia sofro imensamente! Ampare-me!.. Nas preces seguintes.Filha. minha filha! Acalme-se. certa noite.Jesus é por nós. na sessão de efeitos físicos. Na reunião imediata. desfaleço!. quando. Irmã Nélia! Minhas provações são terríveis! Que será de mim? Traga-me um consolo! A mensageira em serviço respondia: .Tudo melhorará.PRESENTE IMPREVISTO ..Olhe por mim. Era D.. A situação perdurava por mais de um ano. Confiemos em Jesus.. D.. em grande cidade mineira. tenhamos paciência e coragem. D. E Irmã Nélia. receberemos do Senhor novas bênçãos! Não desanime. Flavinha clamava: . confortava: .Ó Irmã Nélia... Flavinha repetia: . Rearticulada a assembléia de oração. voltava D.. Que será de mim com tantas dores? A piedosa entidade balsamiza-lhe a alma: ...Flavinha quem pedia à entidade amorosa. Seja a fé nosso guia. Flavinha rogou com mais lágrimas: 103 . Socorro.

por Jesus. Grande e curiosa chupeta. tentarei.Sim. Flavinha sorriu pela primeira vez. por amor de Deus! Sua caridade tem trazido aqui o remédio para tanta gente! Lembre-se de mim! Traga-me.Irmã Nélia.. Tentarei.... embora extremamente desapontada. D.. Quando a seção terminou. No seu colo estava.. não posso mais! Auxilie-me. 104 . algum socorro mais decisivo! E Irmã Nélia informou: . bem-posta.. sim.

visita o interior doméstico e volta à presença da filha. sorrateiro. Aguardo um filhinho. logo após. Um homem que ele desconhece beija-lhe a filha. Ajude-nos. Não somente isso. comerciante de jóias.. Depois de perguntas ásperas. João apalpa os bolsos. Perdoe-me.. bailes. desde muito. que fala em pranto: . sente. estendendo-lhe um copo com líquido indefinível. largamente conhecido pela honestidade ilibada. e ainda percebe o par em doce adeus. Pedro II.O BOM HOMEM I Noite de 2 de dezembro de 1857.. João Ferreira de Sousa. Onze da noite. Sai pela porta dos fundos. os dois. rilhando os dentes. Aproxima-se. o choque da morte. cantarolas na rua. 105 .. No dia seguinte. o rapaz que escolhi. consagrara-se a ela. Em homenagem ao imperador D. ouve a menina.. e internam-se. tome e descanse. Viúvo. na casa em que são eles os únicos moradores. Antônio. papai. é pobre. Abeira-se da moça que volta do baile.24 . mas tudo melhorará. em dores indescritíveis. colérico. Há festas públicas. agora silencioso. há beija-mão no Paço Imperial do Rio de Janeiro.Papai não me queira mal. esperava Maria Amélia. que completa 32 anos de idade. Era-lhe a jovem toda a esperança da vida. Amanhã conversaremos. mas vê-se desarmado. Inquieto. a filha única. pelo amor de Deus! O comerciante. muito pobre.. escuta vozes no jardim.. Em humilde residência suburbana. mas espero casar-me. girândolas no ar. . Sorvera arsênico em grande dose..É calmante – diz ele -. a versão paterna estava aceita. e parte apressado. A moça obedece e.

papai. à procura de um antiácido. toma um vidro e verte o conteúdo na taça com água. Mas o jovem. rumo ao jardim. afasta-se do sarau. segue-lhe os passos. em seguida. O moço. numa festa íntima. não me queira mal.. E o próprio pai. 106 . com o título de “bom homem”. em grande arrabalde do Rio. que não lhe apóia a pretensão. João Ferreira de Souza. afagando-lhe em lágrimas o corpo inerte. algo explica: . em transporte afetivo. cai gemendo com dores lancinantes. arde-lhe o estômago. interpela-o de chofre. A advertência é clara e incisiva.. na casa em que nasceu.Papai. II Noite de 2 de dezembro de 1957. Perdoe-me. enternecidamente. Lenita. Ajude-nos. Muito tempo depois. onde com ela se encontra. a moça que escolhi. Consagrado à afeição de moça humilde. para receber a morte logo após.. inquieto. Na pequena farmácia caseira. mas tudo melhorará. noutro corpo de carne. afasta-se o genitor em silêncio. é pobre... pelo amor de Deus! Sensibilizado. está jovem. Pesa-lhe a cabeça. ingerira arsênico. acabrunhado. em grande dose. porém. mas espero casar-me. está nervoso.. E quando o filho se despede da menina. Busca o interior doméstico.. bebendo o líquido. Crendo valer-se de sal medicamentoso.. muito pobre. acreditou tratar-se de suicídio. E.Todos acreditaram tratar-se de suicídio. João Ferreira de Sousa desencarnou. O pai. Aguardo um filhinho.

que abandonara esposa e filhos para fazer-lhe a corte. Dom Jairo. Passo lento. Amedrontada. Soberana da ribalta envolvia-os em sorrisos maliciosos. Borboleta humana expressando mulher. Transportava a graça nos pés. obsidiado pela vítima. Lola Mendez dançou e bebeu por muito tempo ainda. Ao fim de cada espetáculo. para ofertar-lhe mais ouro. mãos piedosas traçaram-lhe nova senda. mais forte. queria mais. Estonteante beleza.LOLA-LEILA I Sempre Lola Mendez.Perfumaria e seda farfalhante. um à frente do outro. Cabeça branca.25 . e Dom Jairo Carízio. o espelho contou-lhe a história da velhice. que assassinara o próprio pai. no entanto. desceu. era o centro das atenções. até que se vissem. salientavam-se dois que. Rosto enrugado. Peregrina do sofrimento errou longo tempo nas trevas. que Dom Jairo padecia as conseqüências dos próprios crimes. revoltados. eliminou o rival. E quando o túmulo lhe acomodou os restos no esquife estreito. porém. entretanto. em duelo fatal. 107 . Chorou. Um dia. Explorou-lhes o coração. com estocada irresistível. às ocultas. para a caverna da loucura. arruinaram a própria vida: Dom Gastão Álvares de Toledo. aprendeu a encontrar o socorro da prece. onde encontrou a morte.. Um dia. Desesperou-se. Esvaziam-se garrafas e bolsas. e que ela própria vivia.. por ela. que Dom Gastão não morrera. Lola. veio. Dentre todos os admiradores. Bailarina admirável. a breve tempo. Ceias lautas. a saber.

.Renasceria no mundo. Argumentavam. se diz dominada por fantasmas.. fugindo aos compromissos. sessenta e.. agora Leila. Ela que os havia moralmente aniquilado. recalcitrava. ambos tramaram vindita. Recomeço laborioso. noventa quilômetros por hora. a moça leviana toma o carro de um amigo. praticou o aborto criminoso por quatro vezes. reunidos agora no mesmo instinto de esperança. prazeres. para reeduca-los. porém. A antiga devedora. se divertia. descanso. E quando Lola.. Queriam viver. com o terror estampado nos olhos. A antiga bailarina.. muito pobre. aspirava a gozar. E. enceguecidos de ódio. depois. como se fossem agentes da peste. Buscavam-na em sonho. novamente em plenitude juvenil. receberia Dom Gastão e Dom Jairo como filhos. Seria pobre. Chamava-se agora Leila. a distância do esposo. totalmente. que. II Lola renasceu. desposou Luis Fernandes. Menina apagada. os antigos rivais lhe encontraram a rota. Dom Gastão e Dom Jairo. expulsando-os do corpo e do pensamento. Banidos violentamente pela quinta vez. desfazendo toda a discórdia. metalúrgico modesto. influenciaram-na. Ressurgiram do seu sangue. 108 . rogaram-lhe compaixão. reabilitá-los-ia com devotamento de mãe. Esconderia em lar humilde a passada grandeza. luxo. Dom Gastão e Dom Jairo. O velocímetro acusa quarenta. que se propõe conduzi-la de volta. na posição de mulher inconstante. pressionam a mente da amiga. Queria jóias. E. Segundo o plano estabelecido. Trabalho árduo.. Ela se põe a beber bebidas alcoólicas. Noite alta. excitados. contudo. Antes dos vinte. ao lado de homem simples. Seriam irmãos gêmeos.

. Do outro lado da vida. 109 . ontem Lola.. partindo o crânio. na madrugada cinzenta.Acreditando-a sob o domínio exclusivo da embriaguez. foi o número da ambulância que recolheu na rua o corpo de uma mulher morta. O carro dispara. abre-se a porta. E antes que o freio funcionasse.. Atritam-se. E de tudo o que ficou. nas anotações da manhã seguinte. porém. Leila era violentamente agarrada por dois feros algozes. e Leila. entre os homens.. sem largar o volante. cai no asfalto. o acompanhante da noite alegre procura contê-la.

O veneno banira-o do corpo. Seria enviado ao estrangeiro. Durante o dia. mentalizando o lar do futuro. A escolhida transformada em esposa. Dulcila era tudo. A casa paterna tinha moradores diferentes. temores. o instante de recolher-lhe o sorriso de doce colegial. Entretanto. Complicações atrás de complicações. mas sabia agora que o túmulo não apagava a existência. na pequena cancela da casa pobre. O exílio procurado. Aguardava. Esperar a mulher que lhe embelecera os sonhos da juventude. emocionado. Luz interior. sempre ela a guia-lo. Socorrido. Chorando. E o ninho da janela florida desaparecera. procurava-a deslumbrado em cada sorriso de criança e supunha vê-la no colorido de cada flor. assim. corada. Entretanto. o vazio melancólico. olvidava dificuldades. 110 . e filhinhos a lhe abraçarem o pescoço.ÚLTIMO ARGUMENTO Não queria reencarnar. sofrimentos.Os cabelos eram bastos fios de veludo negro a lhe emoldurarem a expressão de menina. Em todas as dores e expectações. porém. depois da ausência de trinta anos. Perdera-a. E tornando a casa. Não resistira. Junto dela. tornava a Olinda. Anjo refletido no espelho de sua própria alma. faziam promessas de eterno amor. Com semelhantes reflexões.. Ela. de leve. Embora as exortações dos benfeitores que o recolhiam. fora Dulcila a visão regenerativa. Bebia a esperança por seus olhos azuis. a família fora inflexível. Dulcila era a imagem constante dos sonhos que lhe povoavam a noite. segregado em pavoroso abismo. desencarnado.26 . Devaneava. fora talvez mais cruel. Chorara. desejava prosseguir esperando-a. Aurélio. “O tempo é o anestésico do amor” – dissera-lhe a palavra maternal. amargara o suicídio. dizendo “papai”. Passeavam de mãos dadas. Lutava contra. Por ela. por toda parte. Ela sorria. sim. Loucura. Contrariado pelos pais que não lhe aprovavam a escolha atingira as raias da impaciência. tonto de felicidade. colhia margaridas silvestres para ofertar-lhe um buquê. por ele mesmo. ansioso. entre severa e confiante. por beneméritos guardiães do Mundo Espiritual.. Padecera o indescritível. feliz. viu de novo o mar tocar. Portugal seria o desterro. Acompanhara a desagregação das próprias vísceras. Aqui e ali. Os próprios genitores haviam tramado a separação. submetera-se às instruções para o reajuste e esperara o tempo com paciência. a praia sem diques. contudo.

Dulcila. a mulher que lhe fora ídolo estava agora junto de um homem de meia-idade. conduzindo-o para dentro.. . piscando um olho. . ouviu alguém: . procurava disfarçar as pregas do rosto. ganhando os fundos... em avental muito branco..Quantos casos hoje. Desolado. estamos numa casa dedicada à criminosa indústria do aborto. Choro alto. 111 . À porta de pequeno pavilhão estava gorda senhora. deitadas em leitos simples. .Dulcila! Dulcila! Onde estava Dulcila que não soubera ou não pudera espera-lo? Chorou em prece.disse o companheiro -. Vamos celebrar. minha Cicila – exclamou o cavalheiro risonho -.Que choro é este? – perguntou assombrado. Um não sei quê lhe causava repugnância. Mais pelo olhar que pelo porte. Queria vê-la.Minha Cicila. no pátio interno. senti-la de perto outra vez. você hoje merece jantar fora. Era complacente amigo do lar espiritual de que se fizera hóspede. O recém-chegado pespegou-lhe um beijo na face pintada e perguntou: . Caído. Aurélio baqueou.. ostentando cabelos tintos e jóias caras. Contornaram o edifício.. em lágrimas abundantes.. São oito mil.Nada menos que dois mil cruzeiros cada um. rogou à Divina Providência a felicidade de renascer. Aurélio recuou. Como que varado por bala assassina. O amigo arrancou-o ao torpor. ali mesmo. Aproximou-se. vamos! vamos! Voltou-se. em poucos instantes. Acompanhou-o e. Duas jovens.Quatro. no entanto sentiu-se mal.Como não? – respondeu a dama. meu amor? . nela reconheceu a amada de outro tempo. mostravam profundo abatimento.São vozes de crianças não nascidas . Ouviu choro de crianças. atingiram elegante residência em Recife. . No pátio.Aurélio. Tudo bem? Gente boa? .

até que se reconheceu em campina verdejante.... humilde. avistou um homem que meditava. reconheceu-se na presença do Cristo. Traspassado de súbito sofrimento. subia.. no curso de quase vinte séculos. reavendo o veículo carnal.. à noite. na literatura e nas artes. o apóstolo da mediunidade. os templos do mundo. Reparava na formosa paisagem. quando... e a mensagem d’Ele a ecoar entre os homens. Envergava forma leve. começou a chorar. as homenagens prestadas ao Senhor.. Subia sempre.. envolvido por doce luz.. Grossas lágrimas banhavam-lhe o rosto.. em Sacramento. e descer. em admirável desdobramento. viajou. respirando num oceano de ar mais leve ainda. que Jesus também chorava. Mas estava como que chumbado ao solo estranho. em que estacou. quando adquiriu coragem e ergueu os olhos. Recordou as lições do Cristianismo. Houve. Algo lhe dizia no íntimo para que não avançasse mais. Viu. Queria parar. aproximou-se.. Viajou. um momento. Como que magnetizado pelo desconhecido..VISÃO DE EURÍPEDES Começara Eurípedes Barsanulfo. porém. sentindo-se como intruso. E num deslumbramento de júbilo. Respirava outro ambiente.. como que arrastado pela vontade de alguém num torvelinho de amor. Afagar-lhe as mãos ou estirar-se à maneira de um cão leal aos seus pés. trêmulo. viu a si próprio em prodigiosa volitação. esmagado pela honra imprevista. no Estado de Minas Gerais. Baixou a cabeça. quando não longe.. Ofuscado pela grandeza do momento.. subia. incapaz de voltar ou seguir adiante... mas não conseguia.. e ficou em silêncio.. por ver-lhe o pranto. desejou fazer algo que pudesse reconfortar o Amigo Sublime. porém. certa feita. à maneira de pássaro teleguiado. a observar-se fora do corpo físico. 112 . Embora inquieto.27 . Braços intangíveis tutelavam-lhe a sublime excursão.

na Terra. entregou-se aos necessitados e aos doentes. 113 . a se perpetuarem nas criaturas que até hoje.Não. E acordou no corpo de carne. ante a dor que a resposta lhe trouxera. não sofro pelos descrentes aos quais devemos amor. por que choras? O interpelado não respondeu.Choras pelos descrentes do mundo? Enlevado. no entanto. não se conteve. servindo até a morte... sem comunicar a ninguém a divina revelação que lhe vibrava na consciência. Era madrugada. sem repouso sequer de um dia.Recordou. lhe atiram incompreensão e sarcasmo. desceu. respondeu em voz dulcíssima: . mas não o praticam. Mas desejando certificar-se de que era ouvido. E desde aquele dia.Senhor.. Eurípedes não saberia descrever o que se passou então. após um instante de atenção.. Choro por todos os que conhecem o Evangelho. Abriu a boca e falou suplicante: . E. Levantou-se e não mais dormiu.. os tormentos do Cristo. Nessa linha de pensamento. meu filho. desceu.. Eurípedes reiterou: . o missionário de Sacramento notou que o Cristo lhe correspondia agora ao olhar. Como se caísse em profunda sombra.

Começou. qual é o nosso dever maior. em profundo silêncio. Se a luz do bom exemplo estiver entre nós. Crimes nas trevas. por si mesmos. Porque sentissem medo uns dos outros. . ouviu os rogos de socorro que partiam do infortunado reduto e. longe de gritar ou discutir. E que fazer. Correrias. que por ali passava. em vão procuraram o lugar de saída.28 . então. vivamos no amor puro e na consciência tranqüila. Um homem.disse Tadeu a Jesus. acendeu a sua candeia e passou entre os amotinados. enorme conflito. ao mesmo tempo que encontravam. para semelhante conquista? Jesus. o caminho. como exilado buscando alguma visão da pátria longínqua. E falou em seguida: . aclarou docemente: . Lamentos.. isto é.Em meio de grande tempestade. Pancadas.E tudo o mais ser-nos-á acrescentado 114 . na execução do Evangelho para a redenção das criaturas? O Mestre fitou o céu azul em que nuvens pequeninas semelhavam estrigas de linho alvo.Senhor .. Procuremos o Reino de Deus e a sua justiça. os outros perceberão. após o dia de trabalho estafante -. vindo a noite. inúmeros viajantes se recolheram a enorme casarão que se assemelhava a um labirinto. O Mestre fez grande intervalo e voltou a dizer: . cada qual se escondeu nos quartos mais internos e.O ENSINO DA LUZ .Assaltos. Senhor. continuando em sua contemplação do céu. Pragas. Bastou a luz dele para que todos percebessem os disparates que vinham fazendo. a porta libertadora. com facilidade.