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FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
E
WALDO VIEIRA

A VIDA
ESCREVE PELO ESPÍRITO HILÁRIO SILVA

Com o bom livro, caminhamos na direção do futuro e recebemos da Divina Imortalidade e
nossa gloriosa destinação de filhos da Luz.

Emmanuel ( Cartas do Coração)

Caro Amigo:

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Que Jesus o Abençoe
Muita Paz

1

.............................................................................................................................................................. 39 19 .................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................... 74 9 ...............................................................................................................CALVÁRIO MATERNAL ..............................................................................................................................................................................................................................O BICO DE GÁS...........................9 4 .................................................................................................................................................................................................................................................................................................................FRUTOS .............................................................. 81 13 ............................... 42 21 .............................................. 46 23 ........................................................................CLAUDINO E A LAVOURA.................................O MÓVEL DA OBSESSÃO.................................................................................................................. 40 20 ............................................ 34 15 ........................ 114 2 ....SÓ CRESCE PARA BAIXO ... 71 7 .......................................................................................................................VISÃO DE EURÍPEDES ............. 105 25 ................ 84 15 .............O COLAR DE PÉROLAS..............O CONTO DA MOSCA ...................O NEGÓCIO DA DOAÇÃO ...O BOM HOMEM ...................................................................................................................................................................................................................................................... 69 6 .................................................................CONTRABANDO ...................O LAR DAS CRIANÇAS ........................................................................ 63 3 .................................................................................................................... 54 28 .................................LOLA-LEILA........RENDIÇÃO ............O QUE ACHA O IRMÃO ? ..................................................................................................................... 60 1 ..............................................................................................DEVER CRISTÃO ........................................................................................ 92 20 .................................................................SURPRESA DE MAGISTRADO ..................................................................................................... 103 24 .NOVO SERVIDOR ..........................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................O TEMOR DA MORTE ............................................................................................................................................................................. 78 11 ...................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................... 25 12 .. 53 27 ...................................................................................................... 35 16 .............................O LIVRO .................................................................................................................. 26 13 ..............BOCA TORTA ................................POR TELEFONE .............................................................................................................................AMIGOS..........A MORATÓRIA . 48 24 ....... 67 4 ................................................................................................PÁGINA DE ANÁLIA ...................................................... 11 5 ....O ENSINO DA LUZ.......................................DENTRO DA PRÓPRIA CASA .....................................O ENCONTRO .................... 96 22 – SUICIDA................................................................................................................................................................................................... 61 2 .......................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................A FALA DE CADA HUM ...ÚLTIMO ARGUMENTO...........................................................................................................................................................................7 3 ........................................................ 112 28 ..INCÊNDIO NA SERRARIA ......................................................................................PERIGO EMINENTE .............................................................................................................................................PERGUNTA CONTRA PERGUNTA................................................................................................................... 97 23 ........................................................................................................................................... 90 18 .......................SINAIS ....................................................................... 19 9 ................................................................................O GRITO........................................................................................................................O APARTE .........................................................OUTRA OPINIÃO ............................................................................................................. 20 10 ................... 91 19 ......................... 50 25 ................................................................................................................... 36 17 ............................A VOZ DO EVANGELHO ...................................................................................... 56 SEGUNDA PARTE........................................................................................................................... 14 7 .....................................................................................................................................................................................................................................................6 2 ................................................................................... 86 17 ....................................................................................................................................O PREÇO DA REMISSÃO ....................CONSELHO TROCADO ................................................................................................. 110 27 ........DEUS E NÓS ....................................................... 68 5 .............................................................................4 PRIMEIRA PARTE ........................................................................... 85 16 .............................NÃO VALE A PENA......... 45 22 ............................................PRESENTE IMPREVISTO ......................................................................................................................................................................................................................................................... 107 26 ...............................................................INSTANTÂNEO .................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................... 16 8 ............................................................................................ 52 26 ......O MAIS DIFÍCIL..................................................................................................MESMO FERIDO ................................................................................................. 23 11 ..... 76 10 ........................................OURO E BATATAS ..................................................................................................................................................... 12 6 .......................................................................... 79 12 ............................5 1 ........................................ 72 8 ..................................................O MERECIMENTO ..................................................................................................POR CINCO DIAS ....................... 37 18 ..............................................................JESUS MANDOU ALGUÉM.............................LIBELO ...................................................................................................................................................................................................................................................... 93 21 ....................................................................................................NA HORA DO PASSE............................................................................................UM CASO DE CIÚME......EM COMBATE........................................................... 29 14 ...................................................................O CARTAZ.......... 82 14 ............................................CARRANCISMO.................................................................................................3 A VIDA ESCREVE.......................................................................................................................................................................................................................................................

Entendeu que a maioria tem dificuldades para a leitura digerida dos volumes especializados Reparou que muitos companheiros rogam orientação. Observou que a Doutrina Espírita. . à maneira de doentes que possuem receitas seguras no bolso. mas se esquivam ao remédio por falta de tempo. em que a informação do Plano Espiritual pudesse chegar com facilidade ao entendimento comum. desse modo. em contacto com a verdade. ao alcance do povo. através das mais diversas vias de leitura e conhecimento. convidando-nos a pensar. assim. em sua leira de luz. compreendeu o imperativo de renovação. Hilário. valeu-se das faculdades de dois médiuns amigos (1) e grafou o livro que nos apresenta de coração para coração. Anotou o imperativo de se veicularem os nossos princípios. aos irmãos de ideal e de luta. com os pés algemados a ilusões e convenções. continuando. liberta a cabeça de prejuízos e preconceitos. pois. Percebeu que muita gente. Munindo-se. Emmanuel Uberaba. (Médium: Francisco Cândido Xavier) (1) A convite do Espírito de Hilário Silva. pedimos ao Divino Mestre abençoe o novo servidor que se enriqueça de paz e trabalho.NOVO SERVIDOR Incorporando-se ao trabalho que nos foi concedido. Constituída de retalhos do cotidiano. de conclusões e anotações. portas adentro de nossa atividade espiritual. desde o princípio da tarefa. 2 de fevereiro de 1960. os médiuns Waldo Vieira e Francisco Cândido Xavier receberam respectivamente a primeira e segunda parte deste livro 3 . alcançando a mente popular. E idealizou a produção de páginas ligeiras. aqui temos. Entregando-a. a sua mensagem simples e fraterna. exige novas formas de pensamento para a transferência justa da vida. porém.

o poema envela. o drama chora. divide compromissos e dá-nos a equação de tudo quanto é hoje. desse modo. Ali. subtrai influências. E nós somos autores de todos os capítulos que se desenrolam por fatos vivos. soma os atos.A VIDA ESCREVE Sim. no livro da Eternidade. Anota. de vez que a vida expressa tudo quanto queremos. Adiante. Contadora divina. amanhã. O caderno em branco chama-se Tempo. multiplica valores. a vida escreve em toda parte aquilo que pensamos. Aqui. Além. 2 de fevereiro de 1960) (Médium Waldo Vieira) 4 . a tragédia assombra. Hilário Silva (Uberaba. para nós. a comédia ri. aquilo que desejas. a fim de que saibamos o que seja Destino.

PRIMEIRA PARTE MÉDIUM WALDO VIEIRA 5 .

Não. Dez. integravam-se perfeitamente no programa do bem.DEVER CRISTÃO Rossi e Alves eram diretores de conhecido templo espírita e davam-se muito bem na vida particular. acreditou nele. num pequeno salão. Ave desprevenida em furna de lobos. certa noite. Alves.. Alguns minutos depois de zero hora. nas três noites da semana sem atividades doutrinárias. passou a saber que Rossi.Não há nada. ... Alves riu-se às pampas. Rossi saiu calmo e o amigo abordou-º . Acredito que amanhã surgirá renovada. Estou apenas cumprindo um dever cristão. Sempre juntos nas boas obras. Afinidade profunda. sua própria filha chorando ao pé de um cavalheiro desconhecido. Jovem inexperiente. não! Não vá! – pediu Rossi.. andam em bica. sem rumor. Alves. porém. carrega nos ombros a responsabilidade de mentor em nossa Casa. . era visto penetrando a porta de uma casa evidentemente suspeita. E sem mais nem menos entrou casa adentro encontrando.Meu caro – advertiu Alves. Persistindo semelhante situação por mais de um mês. e falou: . sem escândalo. com desapontamento..Vou ver se é verdade. Convidei-a a pensar. meia-noite. Quem sabe? Talvez em futuro próximo a invigilante pequena possa encontrar companheiro digno. em suplica ansiosa. É preciso agir. Mas a batalha está quase ganha. a filha de um dos meus melhores amigos está freqüentando este circulo. E ser mãe respeitada. Nada podemos condenar. veio esperá-lo à saída. .1 . lugar tristemente adornado para encontros clandestinos de casais transviados.Sim. 6 .Dever cristão? . onze..Você sabe.. Amizade recíproca. pai de família e.Tem medo de ser apanhado em mentira? – disse Alves. Há mais de um mês prossegue a luta.. mas você não ignora que álcool e entorpecentes. além de tudo. Hoje. E ante os olhos desconfiados do amigo: . com a suspeita no rosto. aí dentro. não posso vê-lo reiteradamente neste lugar.. informado de que o amigo entrara na casa referida. sisudo _. viu com os próprios olhos o logro de que é vítima. Enganada por lamentável explorador de meninas. Rossi coçou a cabeça num gesto característico e observou: . Você é casado.. de maneira escarninha.

Dentre todos os presentes. Semblante transtornado. E mostrando um revólver: 7 . .2 . abrindo os braços. E virando-se para Belmiro: . Pintura primorosa. Belmiro Arruda.Confia em Jesus!. Cabeleira revolta. Os operários continuavam na sua faina.Não adianta repetir frases inúteis. Desajudamos quando podíamos ajudar. . o instrutor espiritual que falava pelo médium. Destaquemos o bem. orientava o término da construção de grande recinto. O enorme salão parecia completo. Tudo pronto. saibamos dizer o melhor. supomo-nos sozinhos e proferimos inconveniências. nas funções de pedreiro-chefe. Arruda.. . quando triste homem penetra o recinto. para quem ele se dirige.Experimentemos a acústica – disse o engenheiro superior. A pequena assembléia ouvia atenta a palavra de Sálus. Confia em Jesus!. .Uma boa palavra auxilia sempre. Arruda. E é sempre falta grave conferir saliência ao mal. O som estava admiravelmente distribuído.. Falar é um dom de Deus. recordando a lição. bradou: .Obrigado.. Se abrirmos a boca para dizer algo. Comentemos o bem. É preciso aproveitar oportunidades.O GRITO .Quem mandou confiar em Jesus? – perguntou.. *** Decorridos alguns dias. Alguém aponta Belmiro. Às vezes. amigo! – exclamou.Grite algo. Acabamento esmerado. escutava em silêncio.

escutei seu apelo e sustei o tiro. de olhos úmidos... sim! Confiarei em Jesus!. estendeu a mão ao desconhecido e falou: . Queria morrer no terreno baldio da construção. Pode vir trabalhar amanhã.Venha amanhã. 8 ...Ia encostar o cano no ouvido. Arruda abraçou-o. E o diretor. Estou desempregado. O caso foi conduzido ao conhecimento do diretor do serviço. mas sua voz acordou-me..... . Jesus. e sou pai de oito filhos. há muito tempo. entretanto. visivelmente emocionado.

Sentia falta da esposa. A Lua apareceu inteirinha. Comeu calmamente o guisado de palmito que Emerenciana lhe dera a jantar. a sós. companheiro do arado. e melhorou a cama de palha. em seguida. o milharal novo esperava por ele. E. Saboreou. a casa de Jorge. Dez da noite quando voltou. acima do barrocão. . bem cedo. Dirigiu-se. e ambos. em visita a parentes. vó .3 .PERIGO EMINENTE Basílio chegara ao rancho. que nascera robusto. fitando o pano com atenção pelos óculos fortes. passo lesto. Acendeu o candeeiro e sentou-se renteando a cama toda branquinha.disse ele. . . Basílio beijou-lhe a mão encarquilhada e lhe enviou um sorriso bom. o "momento espiritual". a pamonha bem-feita. Acariciou o bezerro da Lilinda. onde a vacaria procurava descanso. ouviu por alguns instantes as cigarras cantarem. A esposa viajara na véspera. chegou ao cercado. Ainda assim. depois. Contudo. perto. Basílio visitou. Emerenciana premia a máquina com o pé e costurava. 9 .Boa noite.Durma com Deus. No quarto. como na noite anterior. O calor abafava. não longe. como se quisessem esquecer o vigor da canícula. meu filho.Meren . ao moinho e renovou a provisão de milho para o fubá. Ar parado. felizes da vida. Não tinha sono. e se dispôs a sair.disse à doce vovó que arranjava a cozinha -. mas já volto. mastigando o repasto. deixe a casa aberta. Vou até ao curral. no outro dia. ao pôr do Sol. se dirigiram ao mandiocal. depois de cerrar as janelas. leria. espantando os tatus.

Debruçou-se para a noite. Se devo ser salvo. enorme cascavel emergira dos lençóis e. meu anjo guardião. pensativo.. porém. que a Vontade de Deus se cumpra. solenemente: "Deus Todo-Poderoso e tu. lívido. dedicado à oração. e abriu novamente a janela. fechando as páginas. Não poderia ser coincidência. 10 .. Agradeceu à Divina Bondade o benefício da consciência tranqüila e. acaso. Estaria. Surgiu-lhe aos olhos.Quem é? . aprontando a defensiva. que Deus a dá e retoma. E. O volume. repetiu. " . Na luz frouxa do candeeiro projeta-se um vulto. que o restante da minha vida repare o mal que eu haja feito e do qual me arrependo. no capítulo vinte e oito. quando lhe apraz. colocado na cama. o livro ofereceu-lhe a mesma passgem. deu-lhe a mesma resposta. Acordada de chofre ao impacto do livro. a fitá-lo. Volta-se inquieto e estaca. Recordou um amigo que desencarnara. que ele mesmo desconhecia? Nisso. voltou à consulta." Depondo o Evangelho sobre a colcha do leito. Basílio fez-se grave. certamente o prevenia. porém.. considerou que a vida é patrimônio de Deus. que os seus olhos de carne não conseguiam ver. buscando a visão do céu. Em rápidos segundos. Algum benfeitor espiritual. de um colapso cardíaco. como se mantido por mãos invisíveis. logo após. preparava-se para desferir- lhe o golpe certeiro . ouve leve cicio à retaguarda. .Orou por alguns instantes e. tomou " O Evangelho segundo o Espiritismo" e abriu ao acaso. Queria material para refletir. Por que? Intrigado. semanas antes. em momento crucial. ergueu-se.pensou. Entretanto." Tratava-se de uma prece para ocasião importante.. descerrou-as de novo. ameaçadora. "Como é isso? Já orei .grita ele. socorrei- me! Se tenho de sucumbir. baixando o olhar para a folha. o item 34: "Num perigo iminente.

Passando por determinada cela. quem.Ora. replica fleumático: . não fuma. explana sobre as despesas trazidas pelo hábito de fumar e refere-se ao câncer do pulmão.4 . por favor? D. Almira volta-se para ele e começa a doutrinar. Já pensou nos perigos do salto alto? A senhora me desculpe. tem belos sapatos "Luís XV". pequeno grupo de companheiros. quer arranjar-me um cigarro. fala dos prejuízos do fumo. entretanto. entrou no presídio da Rua Frei Caneca. no culto da assistência. está sem algum costume censurável? A senhora é assistente de saúde. O preso observa a senhora. Com certeza. eu sou sapateiro. Quando termina. Almira Barbosa ouve a voz de um encarcerado: . neste mundo. dos pés à cabeça. madame. calmamente.Madame. que lhe prejudicam a saúde.CONSELHO TROCADO No Rio de Janeiro. Distribuição de lembranças e guloseimas. D. mas tanto erro eu com o cigarro reprovável quanto a senhora com o calçado inconveniente. Diz-se habituada aos serviços da saúde. comenta os imperativos da higiene. 11 .

Um grito abafado. Ganharão pequena fortuna pela cumplicidade. a esposa e a filha ouvem-no.. numa pequena canoa. em companhia de sua irmã Josefina.O PREÇO DA REMISSÃO I No grande castelo português do século XVII. o que é pior. havia sido mandado pelo pai. menino de sete anos. devorada em vida e em poucos minutos por um cardume de famintas piranhas e. que se deslumbra perante a vida. dela só restava o esqueleto! Presenciada pelos pais do menor a horripilante cena! A população da pequena cidade de Monte Alegre. o irmão desapiedado arroja-lhe o corpo frágil no precipício. E depois o silêncio. o pequeno bastardo. na presença dos pais e de irmã menor. chama os três servidores mais íntimos a conselho. O menino Adílson. interessados. Manuel Macário. José Antônio Maria de Alenquer senhoreia enorme herança. a vítima. jovem senhor feudal. o mordomo. é conduzido pelos quatro a extenso poço lotado de peixes vorazes. Leve rumor. E. que corre nos fundos da casa do pescador. 12 . No dia em que perdeu a vida. ainda não se refez do choque emocional causado pela tragédia que envolveu uma criança de sete anos. todos horrorizados. enquanto a criança fita o bojo das águas. filho do pescador Darlan. a fim de levar um recado a um conhecido. era uma criança muito estimada pela sua vivacidade e seu temperamento ameno.. de maneira tão brutal. José Antônio Maria de Alenquer. II 8 de fevereiro de 1957. Telegrama dos jornais: " A criança foi devorada em vida pelas piranhas! Em poucos minutos. E José Joaquim. de onze anos.5 . E a vida continua . na outra margem do rio Gurupatuba. Quer liquidar José Joaquim. no Baixo Amazonas. nascido nos últimos tempos da existência do pai viúvo.

a um movimento menos feliz. apenas. os pais de Adílson e a irmãzinha do menino assistiram à cena impressionante. A infortunada criança caíra exatamente num cardume de vorazes piranhas. Essa ocorrência deixou chocados a quantos dela tiveram conhecimento. mergulhou nas profundas águas do rio e de lá voltou trazendo. sem nada poderem fazer.. o pai de Adílson. o local onde mergulhou o menor tingiu-se de sangue. perdeu o equilíbrio e caiu na água. a devoraram.Já no meio da travessia. um esqueleto. 13 . tal a conhecida rapidez com que age essa espécie de peixe." III A voracidade das piranhas e o assombro da pequena família foram o preço da remissão da falta cometida. que em poucos minutos. Incontinenti. Horrorizados. Adílson. como um louco. Refeito da brutalidade da cena e passado o cardume. quase totalmente descarnado. ou mesmo segundos..

lhe cai sob as rodas. para escrever um livro contra os postulados espíritas. Nos serões caseiros. E riam-se. Livro de ódio. ferido.O LIVRO . apenas resignação e a serenidade. mas o chefe da família responde firme: . O doutor não teve culpa alguma. Em sã consciência não é culpado. Tão azedo adversário se fizera. suportando os impropérios do povo. quando atarantado pequeno. costumava ler para os amigos esse ou aquele trecho. Ninguém faria isso por querer. acrescenta: 14 . entrega o menino morto aos pais em pranto. apanha o cadáver minúsculo e. O pai acaricia os cabelos da criança. mas tem o coração alanceado de intensa dor. de coração agoniado. E a mãe do menino enxugando o rosto.LIBELO O distinto causídico não ocultava a ojeriza que experimentava pela Doutrina Espírita. decerto. que aproveitou largo período de férias. Ele mesmo. lhe diminuiria a tensão. Livro-acusação. busca a residência da vítima.. Os desígnios de Deus foram cumpridos. que o recebem sem a mínima queixa. Dirigia o carro elegante. e destilava pequenas difamações como quem debulhava espigas de brasas. O distinto advogado assumia as primeiras responsabilidades para enviar o volume à editora..6 . porém. Isso. salpicando a lama esfogueante em forma de letras. nas proximidades de um Grupo escolar. em silêncio. Tumulto. Deseja ser humilhado. entre um e outro gole de uísque.. Fosse onde fosse. O advogado consulta então a família sobre a instauração do processo de indenização. Autoridades em cena. – dizia irônico -. “Essa história de Espiritismo só num tratado psiquiátrico”.Nada disso. se a conversa versasse sobre algum tema de Espiritismo. escorregava deliberadamente para o sarcasmo. em que médiuns eram denunciados de maneira cruel. ele e os companheiros. Um passarinho sob um trator não morreria mais depressa.. a correr desorientado. acusado. quando sobreveio o inesperado. e a mãezinha ora em lágrimas. Encontra ali. Chorando copiosamente. em fazenda silenciosa.

a fim de acalmar-se. de olhos vermelhos.. Ore conosco.. Admirando-lhes a paciência cristã. como é natural. . O senhor está sofrendo tanto quanto nós.. O causídico. ..Choramos.. de coração opresso e transformado. até a realização dos funerais. E à noite.. fechou-se no quarto e rasgou o livro-libelo que havia escrito. indagou vacilante: ..Então.. mas não desejamos indenização alguma. Deus sabe o que faz. considerou: . Compreendemos perfeitamente que o senhor não tem culpa. O advogado baixou a cabeça e ali permaneceu sensibilizado e prestimoso. 15 .Nós somos espíritas – informou o pai da pequena vítima.Doutor. não se preocupe. em casa.Que religião professam? .

por vezes. Chegando em casa. sem dar-se por satisfeito. entrega-lhe a esposa afetuosa carta de um companheiro. modifica inteiramente o destino.. a movimentar-se em sentido contrário. em página breve: “. irônico. Sentia a necessidade de orar. Apreensivo.Deus viaja conosco.. Fugiria do mundo. Não desespere.. e pode ler. contrafeito.7 . Simples quarto de hora está revestido de imenso valor e. Volte ao lar e ouça Jesus no Evangelho. Deixou a missiva. Desesperava-se. Tudo debalde. Ao retornar a casa.” Sorriu. recebeu a palavra de generoso Mentor. reparou que os faróis do ônibus incidiram sobre a frente de um transportador de carga. Deus esteja conosco.” Terminada a reunião. e falou de si para consigo: 16 . Mas.Deus esteja conosco. inquieto em suas cogitações. hoje e sempre”. O desejo de auto-eliminação escaldava-lhe o crânio.RENDIÇÃO Tudo fizera para pagar o quinhentos mil cruzeiros.. Estava desapontado e desgostoso. Ninguém lhe evitaria semelhante propósito. Começa a leitura e esbarra com a saudação: “.. que lhe dizia. a fim de que pudesse recolher algum esclarecimento e consolo. Retira-lhe o conteúdo.Irmão Avelino. Somente o Evangelho guarda bastante luz para a solução de nossos problemas. “Todo motorista é engraçado” – pensou. afastou-se Avelino. como? Abnegado amigo dispôs-se a conduzi-lo a determinado templo espírita.. no pára-choque: “. nitidamente.

o verde papagaio de papel que lhe recorda o filhinho. Mais curioso que interessado. vivei em paz. o garoto que dorme. O gargalo de uma garrafa verte a cerveja sobre alta dose de violento corrosivo. estala de leve e o menino acorda. na segunda carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios: “. e seus olhos caíram sobre o versículo onze do capítulo treze.. ao mesmo tempo em que exclama expansivo: . Fita. Esparramou-se em velha poltrona e ouviu conhecido locutor encerrando o programa naquelas primeiras horas da madrugada: “. sede perfeitos. notou que a esposa andara lendo o Evangelho. abriu o livro. Estava decidido.Papai! Papai! Hoje na aula escrevi sem errar o primeiro ditado da Professora: “Confiemos em Deus!” 17 . quase em pranto. com o enternecimento de quem se despede pela última vez. À frente da inesperada visita. dirige-se ao quarto próximo e inclina-se. atarantado. atira-se nos braços paternos. a cena familiar que o rodeia. porém. Guardando a taça entre as mãos. pensa um pouco. enfadado de tudo. fazendo ir ao chão o copo que se estilhaça no piso.Sempre filosofia religiosa!. para Ricardo. porque um exemplar do Novo Testamento descansava na mesa. então recolhida. Tornou à copa. No cimo de grande armário vê. regozijai-vos.. angustiado.Quanto ao mais..” Ainda assim. rasgado. e o Deus de amor e de paz será convosco. Beijou a esposa.” Abandonou o livro desalentado.. “. Terminaria tudo. do gesto infeliz. sem dizer palavra. O leito pressiona. a pequena distância.” Desligou o aparelho. Antes. sede consolados.Deus esteja conosco.

18 . Deus vencera! Deus.. A seguir.. levando o lenço aos olhos.Obrigado meu filho! – clamou. como se estivesse encontrado a felicidade pela primeira vez. gritou.Obrigado. aliviado. agora chorando e rindo. Avelino. respirou.. ajudá-lo-ia a pagar o quinhentos mil cruzeiros. espontâneo: . abraçou o petiz. descerrando larga janela. que o cercava por toda parte. apertou o filhinho com mais ternura e. meu Deus! Delirando de alegria.. a longos haustos. contemplou o céu rutilante de estrelas. E tomando de júbilo inconsciente. . feliz.

. 19 . O visitante. É o cotidiano que nos revela o íntimo. nas mínimas ações. alguém bate á porta cerrada. nas manifestações pequeninas.Estudemos. nos gestos mais apagados. com propriedade e beleza. veementemente: . Cada um tem reflexos diferentes. dizia. A calúnia por vezes se entremostra numa simples palavra. em muitas ocasiões. Em certo ponto da preleção. entretanto. E o silêncio cai.. três.. cinco vezes.. A maldade aparece num ato de cólera. insiste com mais força. Nisso.. O instrutor desencarnado retoma a palavra e explica: . o benfeitor espiritual Bittencourt Sampaio falava pelo médium.Revelamos os nossos sinais dominantes. A pessoa que nos procura talvez seja um modelo de cortesia na vida social. O heroísmo na praça pública pode ser mero fruto de circunstâncias especiais. pelo seu comportamento atrás da porta. no ânimo dos ouvintes. Pancadas violentas: duas. anuncia claramente que um dos seus reflexos mais altos é a impaciência. pesado.8 .. A leviandade vem à baila num vago sorriso.SINAIS Na reunião íntima. A avareza. não se vendo logo atendido. surge num vintém.

cinema próprio. ouvia. Festas inoportunas. E Leivas. Seriam discutidos os estatutos para a fundação do lar de crianças. porém. Preguiça delituosa. o tesoureiro.Creio seja melhor adiar. E alongou-se a crônica verbal.. conselheiro da casa e dos mais experientes. e o vício e a criminalidade vão crescendo. quando temos milhares de companheiros a quem falta o estritamente necessário. Os companheiros. E. todavia. crianças delinqüentes e vagabundos inveterados. ao cafezinho. E os companheiros encarnados iam chegando. . NIsso.. percebendo que retardara. . pareciam desenxabidos. O campo social é manicômio sem portas. o presidente da casa. aprovando com a cabeça. Residências superluxuosas. argumentava: . o horário avançou além do tempo previsto. Franqueza.. 20 . .Se Deus não se compadece da Humanidade. Todos brincam de viver. muitas vezes. Altas rodas passam a noite no pif-paf. estaremos perdidos. porém. salões de baile e piscinas. tragédias passionais... O ponderado orientador da casa. Mesa-redonda. aderiu.9 . Máquinas e empregados para todos os misteres. junto a grande organização espírita. Maconha. Há por toda parte soberano desprezo ao trabalho.disse Cunha. Todos monossilábicos. E. tantas vezes esteio firme da instituição. em conseqüência. Abusos no cinema. bar interno. mais à vontade. estávamos a postos. durante a noite.. Augusto Franco.O LAR DAS CRIANÇAS I Amigos espirituais diversos. lhes administram entorpecentes para estarem. o cafezinho. Pais e mães abandonam meninos a criaturas mercenárias que. Todas as bebidas liberadas. Antes. Há domicílios com bilhares.E a nossa reunião? _ perguntou Franco. Desabafo. registrou com acerto todos os desacertos do mundo. temos a granel quadrilhas juvenis. A pequena assembléia ouvia. Cada qual poderia expender francamente seus pontos de vista.

E todos os demais. à uma.. Consideramos que todas devem estudar e servir. o futuro vem aí. Cunha foi claro. fazendo-se úteis o mais cedo possível. e. como de outras vezes. Nós tememos semelhante aquisição.. Não tencionamos remunerar cooperador algum. que viria favorecer a irresponsabilidade infantil. Você quer uma casa complexa. 21 . pronunciou a prece de abertura.Augusto . Você propõe a compra de muitos metros quadrados de ladrilhos brancos e azuis. sem ser suntuosa. porque realmente. não concordou. corajoso -. Não queremos qualquer ruído inútil. adornado com uma fonte luminosa. . Aspiramos a um lar.falou. Sonhamos uma casa confortável. O prestimoso conselheiro instava com tanta humildade que Felício Cunha buscou a papelada e. meu caro. II Não houve outro recurso senão atendê-lo.Ora essa! Como assim? E Cunha.Você é o autor da maior parte de nossos planos. onde as crianças não sejam bibelôs para os nossos caprichos e.acrescentou D. sim.. crendo que os ladrilhos singelos nada deixam a desejar. Ricardina. simples sem ser miserável. Franco. Você julga que as crianças devem ser mantidas sem trabalho. Você indica várias peças de mármore..Outro dia. admitimos seja nosso dever não enganar a nós próprios. Você planeja a compra de noventa globos e dez lustres para luzes elétricas. Você reclama empregados pagos. rogando a inspiração de Jesus. como se estivessem receosos de expor o pensamento. abraçando a realidade sem os perigos da fantasia. nossos próprios filhos. Teremos colchões vulgares. mas vivia espantado com os desastres morais. Estamos satisfeitos com quarenta lâmpadas simples. abrindo um relatório: . Veja bem. Você especifica um número exagerado de pias e banheiros. Que o perdoassem pela comprida conversação. Esperamo-la simples. sem prévia combinação.. pronunciaram a palavra "depois". a secretária. porém. segundo a vocação e a capacidade delas.. Você diz que precisaremos de quarenta colchões de mola. Pretendemos apenas quinze. Você espera um parque de brincar. preferiríamos o entendimento para outra hora. Escolhemos apenas cimento. porque todos os amigos gaguejassem. Você solicita um salão de festas. a fim de não contrariarmos a você mesmo. tapetes e móveis. Foram iniciados os estudos para o lançamento da obra. E como suspiramos por nossos filhos libertos dos prejuízos morais que vergastam a Terra. Não contamos com material dessa espécie. creio que todos nós. Você quer um monumento. Você pede a construção de trinta e dois aposentos. e olhe lá que vão abrigar muitas crianças. Sentia-se culpado e pedia escusas. . Exigia.

Lima. orou. o vice-presidente da casa..Meu Deus. 22 . é . de fato vocês têm razão . E depois de um instante em silêncio. tossiu... contudo.. pigarreou e disse desapontado: .. e Cunha. como se estivesse falando para dentro de si: ... mastigou em seco.. calmo.É. é muita coisa sobrando! .Augusto Franco.. apanhado de surpresa. com aquiescência de todos. encerrando a reunião. pediu que fosse adiado o debate geral do assunto.

O Mestre pensava.Qual o talento mais nobre. 23 . para nós todos..A humildade.Mestre. o moço.O MAIS DIFÍCIL Diante das águas calmas. faço o bem quanto posso. Afastara-se da multidão. . . momentos antes. o mais alto dever? – aventurou Tadeu novamente.E a norma de triunfo mais elevada? – indagou Bartolomeu. Jesus refletia. Não era aquele um momento raro? E ensaiaram perguntas. * Tadeu e Tiago. .Amemos a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a nós mesmos. . . .O trabalho.Amar a todos. a todos servindo sem distinção. . .Oh! Isso é quase impossível – gemeu o aprendiz..A persistência no bem. Ouvira remoques e sarcasmos.A maldade é atributo de todos – clamou Tiago .E qual a virtude mais preciosa? – indagou Tadeu. . .. Senhor? – falou Tiago.Senhor – disse João . qual é. qual é o mais importante aviso da Lei na vida dos homens? E o Divino passou a responder: . Vira chagas e aflições. João e Bartolomeu aproximaram-se..10 . . mas apenas recolho simples espinhos de ingratidão.

.A resposta está aqui mesmo em vossas lamentações. 24 .Tenho encontrado mãos para auxiliar – disse outro. amar sem crítica. que é mais difícil? Qual a aquisição mais difícil? Jesus sorriu e declarou: . . dar sem pedir. João. contudo. E as mágoas desfilaram diante do Mestre silencioso.Vejo homens bons sofrendo calúnias por toda parte – acentuou outro discípulo. . voltou a interrogá-lo: . A aquisição mais difícil para nós todos chama-se paciência.. O mais difícil é ajudar em silêncio. entender sem reclamar.Senhor.

assim. em São Paulo. então. ...Senhor.11 ... sentindo talvez que o compromisso enunciado era para ele excessivamente pesado. Batuíra abraço-o e lembrou: ... colocando as mãos sobre a cabeça do doente sentado... eu te agradeço a infinita misericórdia. em favor dos necessitados.O MÓVEL DA OBSESSÃO Achava-se Batuíra..Que abrirei minha bolsa todos os dias. . meu amigo... 25 . . nesse ponto.Que procurarei o caminho do bem. ..Sim. .Que serei paciente e humilde.. à nossa prece.. Tratava-se de um obsidiado em recuperação.Que executarei o trabalho que a tua vontade determinar. quando um enfermo melhorado varou a porta. . ... o inolvidável apóstolo da Doutrina Espírita. Homem próspero. estou muito mais forte – disse o recém-chegado -.. que o dono da casa conhecia de muito tempo.Senhor. Mas. faça a petição que deseje e acompanharei as suas palavras. com mais confiança. ia dizendo a oração: . . formulando renovação. Batuíra. eu te agradeço a infinita misericórdia... hoje.. Venho. elevou olhos ao Alto e..Que serei paciente e humilde.Convém. . o doente começou a gritar e piorou outra vez. em sua residência. já consigo dominar-me e governar meus próprios pensamentos. na Rua do Lavapés.Que procurarei o caminho do bem. . . O apóstolo cofiou a barba respeitável.E prometo.Graças a Deus... louvar a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Transbordando satisfação.E prometo. E o amigo repetia: ..Que executarei o trabalho que a tua vontade determinar.

Contudo. . II O gerente da serraria-oficina.A educação é obra para governos. Senhor. Alberto . 26 . Rute. .Não temos interesse algum em concessão semelhante . mordaz.INCÊNDIO NA SERRARIA I O grupo de senhoras estava em prece. os desencarnados.falou D. Ateu puro. a maior responsável. Desejavam construir uma escola. o Dr. . Rogaremos auxílio. sou materialista confesso. mesmo assim. esfriou.Senhor . porque. que ofertariam aos pequeninos. limpo e alvo. levantaram-se para sair. Amália. junto delas. recebeu a comissão cortesmente.. contando com Vossa bênção! Em seguida. . comovidos. Senhor.12 . importante empresa da grande cidade.Contamos com o senhor . precisamos de madeira para dar início. Confiadas em Vosso amor. E. Digo isso em consideração às senhoras. ao ouvir a sucinta exposição. Chamados a ouvi-las.falou ele.falou D..E que temos a ver com Deus? . mas é uma escola destinada às crianças menos felizes . desapontado.aduziu D. Agora. Mas. nós. Constância.. . . a pedra e a cal. inspirai-nos e protegei-nos. E mentalizavam no doce requerimento o modesto edifício.era ele engenheiro hábil -. Ateu. visitaremos a fábrica de móveis.As portas serão abertas em nome de Deus . de mim mesmo.acentuou Dona Ester.. tínhamos o coração enternecido.Doutor.Deus recompensará o que possa fazer .. Não será lícito imiscuir o Criador em negócios que não lhe dizem respeito.dizia a mais experiente das quatro -. . a conversação se fez viva. O pedaço de terra. pusemo-nos igualmente em marcha.. Agradecemos as dádivas que já recebemos em Vosso nome.disse. .

Referiu-se à Natureza. apesar de sorridentes. senão Deus? . Entretanto. As senhoras. Alberto mostrou-se mais irônico.resmungou o engenheiro. da higiene. Rute sorriu. Conta dezenas de empregados. que a todos nos sustenta. acreditamos que toda a matéria-prima. Admitimos a eterna bondade que orienta os sucessos do mundo.. Tudo em vão. O senhor comanda uma fábrica. Comentou as vitórias da contabilidade. Mas cremos na força inteligente da vida. III . espavorido. E aclarou: . positivamente sarcástico. da técnica. . Sabedoria e amor que chegam de Deus. os instrumentos em uso. até que isso aconteça.. Dispõe de muitas máquinas. Começaram as despedidas corretas.Decerto que esperamos do governo que nos dirige providências mais amplas a favor dos meninos. ma não se deu por vencida. paciente. como sejam as árvores cortadas. com brandura e espontaneidade. Ester. . Campainhas vibrando.Mas. o seu modo de pensar . Por mais de uma hora falou e falou sobre os novos progressos da Humanidade. - Depressa! Venha depressa! O fogo está devorando a seção de compensados! Alarido interior. o equilíbrio dos servidores e até mesmo a sua própria saúde são doações de Deus. Exibiu mapas e apontamentos sobre botânica. Rute. da fiscalização. por que envolver Deus nesta história? . varando a porta do gabinete.D. não será compreensível fazer algo de nossa parte? O ensino será totalmente alheio ao ensino religioso. O Dr.Por que não? . delicada.ponderou D.falou D.. E nós também. Corre-corre. As senhoras instintivamente lhe seguiram os passos. 27 .Respeitamos o seu ponto de vista. levantaram-se acabrunhadas. nem mesmo um centavo. E acabou notificando que não daria peça alguma. doutor. . O engeheiro movimenta-se. quando o inesperado aconteceu.gritou um operário.Quem é o dono real de tudo. Entretanto.Doutor Alberto! Doutor Alberto! .. Brados por socorro multiplicam-se angustiantes. O incêndio nascera de violento curto-circuito. .

Doutor Alberto.Depois conversaremos sobre Deus. As senhoras. presente à inauguração. Deslocam móveis. Há deficiência de pessoal.Dr.D. sorriram e retiraram-se. corajosamente. em seguida.. todavia. muito pálido. Mande buscar amanhã toda a madeira de que necessite. Alberto. bem-humorado. agora calmo. Finda meia hora de intensa luta. contou a história do incêndio. Combatem o fogaréu. e um garoto. porém. Transferem tábuas pesadas. Alberto. E pulam. E. escola singela e branca recebia quarenta meninos. esclarece o chefe de obras que duzentos mil cruzeiros de madeira compensada deviam estar perdidos. como se lhe fossem subalternas de muito tempo. Empunham mangueiras. A casa não estava segurada contra incêndio. Ainda assim. Estafam-se. As senhoras. aproxima-se das damas. quatro heroína aos seus olhos e. gentil: . chamuscadas.Que Deus nos abençoe! 28 . as chamas se extinguem. penso que Deus ganhou a questão de sua escola. terminando com a bela exclamação: . disse. E vencem. tomam a dianteira do trabalho salvacionista. Mudei de idéia. Depois de dois meses. E sofrem queimaduras ligeiras. O Dr.. como dono desta oficina. ordena e coopera. cumprimentando a diretora da comissão. Rute. E mais o que precisar. com as vestes sujas e rasgadas. acrescentou: . fez pequeno agradecimento.

Suor abundante. recordava. 29 . a rival caíra doente. Antésio. Seguimos. no cartório. rendia-se à prece. talvez.. o pequenino ser vivente excitava-se todo. esperando o cirurgião. Entre as duas. desde os primeiros dias da escola. que se lhe tornara a companheira legal. recordava . A agonia tomava-lhe o rosto edemaciado. O nasciturno assemelhava-se a semente viva ansiando sair do fruto deteriorado. O organismo anêmico não reagia. da vida. demorara a se decidir. na altura da noite. Não seria necessário maior exame para estabelecer o prognóstico. Rememorava o noivado difícil. Maria Regina.UM CASO DE CIÚME I Atingimos grande maternidade. convertida em refúgio. O quarto de Maria Regina era um cubículo anexo à enfermaria. ao desposar Gilberto. Depois disso. Haviam sido felizes. Quantos sucessos dentro de um ano! Via-se abraçada. Seguira-o. Velha câmara de despejo.13 .. Inspeções radiológicas. o marido confiante. Amava-a. a quem devotava amizade pura. Entretanto. recebeu-nos a postos. o amigo espiritual que nos chamara. Espantada. como alguém a bater porta selada. Gilberto reqüestado por Clênia. Desinteressada. a ela. contudo. Inclinamo-nos para a parturiente. sofria ele a intercessão de parentes. imensamente felizes. Clênia entregava-se aos bacilos a lhe trabalharem os pulmões. Clênia era a prima dele. era sensível às demonstrações de ternura que recebia da outra. durante dez dias.

Torturada. doente . aturdido..a pergunta vinha irritante como chicote no ar. Depois de quatro meses.. e começou a fantasiar. . chega Gilberto. O esposo era mecânico bem pago e saía cedo. simplesmente para a troca de roupa.Surgiram as primeiras dificuldades sentimentais. alta noite. O esposo estaca." . apareceu uma noite mais aflitiva. Gilberto ria. Maria Regina costumava dizer-lhe: "Venha hoje mais cedo . nervoso.. irônico. parecia transportada.Estou cansada. entregou-se ao ciúme. Tinha a idéia de entrar no quarto de Clênia e surpreender o marido em posição pouco digna. Procurara não pensar. Salvo isso. E mentalizava Gilberto a recostá-la no próprio peito. inchados de pranto. sinto a cabeça pesada . 30 . em espírito.Ciumenta! . para à prima enferma. Se quisesse vê-lo e ouvi-lo que levantasse de madrugada.era só o que ele respondia. trabalhando.. Estimulava-lhe o gosto pela medicação . oferecendo-lhe o café quente.Que houve? .. embrulhando amostras gratuitas de remédios caros. Deixou o instrumento cortante na mesa próxima. Gilberto.. Ante a resposta. O marido aproxima-se. almoçava fora e à noitinha fazia trampolim do lar. Cortava cuidadosamente com os dedos ágeis. E deitou-se para sofrer ainda mais. Confortava-a.. compadecido. deixava a residência da prima. mas o espírito andava longe. Ela não se contém e grita-lhe insultos. Relegada a si mesma. Trouxe pequena faca. O esposo chegava tarde e surpreendia-lhe os olhos vígeis. ouvia-lhe juramentos de amor. Experimentando conflito enorme.. Ela geme. à casa de Clênia. Chorava a debater-se no leito frio. Delirando. . Debalde o tenta-me. estertora. Como se possuída por fantasmas estranhos. Habituara a insculpir em madeira. Madrugada além.

Sai dementada. em movimento instintivo. Não lhe permitiram nem mesmo chorar sobre o morto. Gilberto é transportado ao pronto-socorro. O esposo rola. enquanto as lágrimas rolavam da face da infeliz.. O abdômen é atingido. Volta a casa. 31 . a hemorragia fora abundante. Entretanto. Nem as recordações do marido encontrara. Requer a inspeção de saúde.O esposo era amigo e leal . simplesmente o ciúme . Declara-se culpada. espantado.clamou colérico. contudo.Loucura! Loucura! . lhe fala em gravidez.. A família tudo levara. bradou acintosamente. A intervenção é feita num átimo. admitindo-lhe a insanidade. Uma sombra que chora incessantemente. Detida. estendeu a outra mão e empunhou a faca. Gilberto. ao retorno. fora o ciúme. porque o marido buscasse contê-la. Advogado familiar esposa-lhe a causa. entre discreto e humano. II Maria Regina continua lembrando . Comovem-se autoridades e obtém-se o "habeas corpus". Desolada. Confessou-se assassina..dissera o clínico. . toma-lhe agora os pulsos. Submete-se à apreciação de generoso facultativo. após o exame. Atracam-se. perdendo sangue. E a bênção da anestesia devolve simplesmente um cadáver . sem querer. Pede socorro aos vizinhos. Sentindo-se humilhada. ela lhe enterra toda a lâmina. sempre -. premindo-lhe um dos braços.. Sozinha. que.. E. ...A senhora deve ter coragem! Confiemos em Deus .repetia. A polícia interveio.

no entanto. devagarinho. Não vê o robusto menino em mãos da enfermeira." "Maria Regina. Mas alguém chega até nós. Você também. E Antésio esclarece: . nem tudo está acabado. Chegara a refletir consigo mesma: "Parece uma ave assustada buscando fugir ao ninho de angústia. chega o cirurgião apressado. Excitava-se o ser não-nascido com violência. quanto possível. Mas o remorso era espinho invisível. não mais se recupera. mas grita em tremendo susto. desperta conosco em Espírito. É Gilberto a sorrir-lhe . E enquanto se lhe inteiriça o corpo frágil. Está fatigada.. A hora esperada chegou e dores rudes surgiram nela. Ausculta. 32 . Gilberto perdeu a existência pelo ventre cortado. Como num pesadelo.. Socorro antecipado.pensava.. assassina . seu débito foi pago. lembre-se do filhinho . trazido por benfeitores.Alimentando-se à força e dormindo menos. porém... Afirma-se assassina..Maria Regina. A parturiente é submetida à cesariana. III Manhãzinha. abraça-a com carinho. Gilberto apartou-se prematuramente da vida física. Quatro horas de inconsciência." Aborrecia-se. Compreende o problema grave e medita. Queria somente tranqüilidade. a moça arregala os olhos e suplica: . Você vai ser mãe." Amorosa parenta internou-a.. Você também. apesar da esmerada assistência..Perdoe-me! Perdoe-me! O esposo. Que lhe importava o filho? . Ajudamo-lo indiretamente. Providências pré-operatórias. ouve amigos preocupados: "Maria Regina. revolvendo-lhe o coração.

. enfim.. a parenta amiga dizia à jovem de branco: ... Débil recém-nato dormia num berço. lutaremos no reajuste. 33 . Lá fora.Chamar-se-á Gilberto... ambos em lágrimas. e será meu! . parecia a esperança de Deus. o amor fraternal para sempre .. Maria Regina agarra-se ao esposo e exclama. E a luz.Gilbertinho é o grande porvir! Agora. Mais tarde voltarão vocês no lar dele . Ao pé dele.prometendo o futuro . o Sol rutilava .Abraçados. Ser-lhe-ão filhos abençoados. invadindo o aposento. foram conduzidos a câmara próxima. enxugando os olhos..Que fazer? Que fazer? O instrutor benevolente aponta a criança e fala bondoso: .. E como irmãos um do outro aprenderão. aflita: ..

Doutrina de retificações incessantes e obrigações sem limites. tenho buscado praticar a Doutrina Espírita por todos os meios ao meu alcance. Cirne.. acentuou: .. interpretando certa passagem do Evangelho. mas é impossível.14 .. quando elegante senhora se aproxima e considera. É um freio a corrigir-nos e um aguilhão a impulsionar-nos..Como é que a senhora queria que ela fosse?.Sr... imperturbável: .Que me diz o senhor sobre isso? E Cirne respondeu.. E mirando os olhos claros do interlocutor. Uma voz gritante na consciência a todo instante e uma disciplina que não acaba.PERGUNTA CONTRA PERGUNTA Acabara Leopoldo Cirne de presidir a sessão pública. 34 .. desapontada: .

dirigindo-se a Djalma de Farias.. o movimento dos paralíticos. Beberrão contumaz. gritou o opositor enervado – estudo o Evangelho de ponta a ponta. E sacou do bolso pequenino exemplar. . e.Imagine só – e apontando para um homem sob pesado fardo na rua -.. Só a palavra do Evangelho é verdadeira. O papel da religião não será ajudar.. o equilíbrio dos loucos. em triste miséria. reviver? Surpreendendo-se desarmado de argumentação mais sólida. muito afável: . Era um negociante do Recife. Lê comentários do Novo Testamento. mas decididamente não concordo. porém.. aquele é Secundino. um homem problema tornar-se útil.E você tem aí o Testamento do Cristo? – indagou Farias com humildade.Meu caro. perto de nós.Reconheço no Evangelho o livro da salvação.Então. . com segurança.. muito ligado às tarefas de evangelização. Quero a letra da lei. a visão dos cegos.FRUTOS . . hoje diz que é espírita. que esteve na cadeia por mais de oito anos. assassinou um companheiro de quarto que lhe negará alguns vinténs. veja lá o que diz. então benemérito lidador da Doutrina Espírita na capital pernambucana. Isso aconteceu aqui mesmo. O lojista descerrou as páginas. pelo fruto se conhece a árvores. Entretanto. Não é o caso do demônio que.15 . é sempre impossível que não tenhamos resposta justa. Não será esse um caso para louvar? Pois se vemos um delinqüente regenerado. e surgiram aos olhos de ambos as palavras de Cristo no versículo trinta e três do capítulo doze. se fez ermitão? Farias. por causa dele. abra o livro – pediu Djalma -. Fala sobre Jesus. o comerciante aduziu: . restaurar. nas anotações de Mateus: “. Você é leal servidor do Evangelho.. objetou. . Vamos lá! E Jesus? O Mestre foi o remédio dos enfermos. depois de velho. morreu a esposa e um filhinho da vítima..” 35 . Não concordo em que os espíritas de afirmem cristãos..Para mim nada disso vale.Como não.

João Marques arrisca: . brilhantemente. explana. Controlando o médium.. Mas pensemos um pouco... o círculo é reduzido. O tema era a tolerância. sobre os méritos do trabalho.E não tem apontamento a dizer? O benfeitor pareceu refletir um minuto e concluiu: . . Interrompe-se. o orientador desencarnado. julga que me conduzi a contento na palestra? . João Marques vacila. Batista.16 .. num deslumbramento de luz. sorridente. visivelmente irritado. saúda os amigos. toma a minúscula borboleta noturna e. Se não podemos suportar pobre borboleta a nos beijar respeitosamente a testa.Como não? – replica. pequenina bruxa dourada voeja na sala e toca de leve o rosto do orador.” O auditório vibrava . . esmaga-a com o pé. o instrutor. Num átimo.“Suportemos os golpes do destino! Suportemos a calúnia e a ingratidão. E prossegue a preleção . enlevada. Quando está preste a despedir-se... Nisso. Complacente. como suportaremos as pancadas justas da vida? 36 . otimista. No clima de júbilo geral. A assembléia.* Mais tarde.Meu amigo. fraterno. Você falou sobre a tolerância. feliz. Era o décimo aniversário do templo e o salão estava cheio. comunica-se Nuno. a dificuldade e a lágrima! . já que você faz questão do apontamento. o presidente da instituição. não posso omiti-lo. – Você estava muito bem inspirado.Marques. bebia-lhe o verbo.INSTANTÂNEO João Marques pregava com fervor. Apenas alguns companheiros e o médium Macedo. agradece as bênçãos da noite.

Falta de caridade para consigo mesmo. Sentindo que ela se alojava. E continuava: .E agora? Que faço? O benfeitor espraiou o olhar pela casa de socorro terrestre em que se achavam e esclareceu: 37 . meu Deus? Que fazer? O amigo espiritual. o benfeitor espiritual. A pancada. espantado. praticado pelos cultores da intemperança mental.A impaciência é vício grave. aqui e ali.17 . e Fraga. informou calmamente: . entre os seus raros cabelos. procurando-lhe a calva. se viu desencarnado. provavelmente pela vigésima vez. Já estudamos seu caso.O suicídio indireto é. Suicídio indireto. bateu fortemente no próprio crânio.. afirmava Jesus: “Bem-aventurados os mansos.O CONTO DA MOSCA . gritou. Leve mosca zombava dele. afobado: . muitas vezes. meu caro. A sessão terminou e todos exaltaram a excelência dos conceitos ouvidos. todavia. suicídio sem nenhuma razão de ser. mesmo assim. em poucas horas.. O zeloso contador tentava alcançá-la com um tabefe. no regaço do piedoso Jerônimo. no entanto. Jerônimo. coçando nervosamente a cabeça exclamou risonho: . o mesmo Fraga. ao conhecer a própria situação. Você estava avisado quanto aos perigos da impaciência e caiu.E agora. Em muitas ocasiões. Aflição. Ocorrera a ruptura de vaso importante no cérebro. E Fraga. no conto das moscas.” Isso quer dizer que o homem sereno desfruta o privilégio de mais extensa vida no corpo.Tão bons conselhos! Tão bons conselhos! No outro dia. fê-lo cair. porque possuirão a Terra. basta um momento de indisciplina e a morte surge por nonadas. E você ainda dispunha de onze anos pela frente para trabalhar junto aos homens. mas nada . porém. À maneira da personagem de Fedro. Quando acordou. . falava pelo médium. via-se atarantado. no calor da tarde. o contador de vários estabelecimentos comerciais. Socorro. castigava improficuamente a si mesmo. Por isso. com grande acerto. entre os livros do escritório.Você já se encontra fora do corpo de carne há dois meses. mas apenas agora toma acordo de si.

38 .Já expliquei o problema aos nossos Maiores.Com que fim? . Ficará aqui mesmo.Aprendendo a ter paciência. Mas também não está habilitado para subir.. onde? – indagou Fraga.Ajudando aos enfermeiros. Jerônimo explicou simplesmente: . assombrado. . .Aqui..E fazendo o que? Sem sorrir..No hospital onde estamos.. . . Pela vida correta que você levou. você ficará durante algum tempo a espantar moscas. . decerto não merece o pavor das`regiões abismais.

Sim. desentendeu-se fortemente com o posto fiscal. estimado motorista. o instrutor espiritual que lhe dedicava incessante carinho. mas não se esqueça de que nós também precisamos estar com Deus e entregar as mãos a Deus. Deus me ajudará. gaguejou e acabou conformando-se: . insatisfeito consigo mesmo. tudo está certo. À noite. em boa consciência. Deus está do meu lado. encontrava grande consolo na palavra de Eusébio. justamente nesse dia. certa feita afirmou: . O pupilo errara com agravantes. fizera-se mais consagrado à oração. Tomando o automóvel.” . . Como de outras vezes. como proceder? Saí de casa orando. amanhã vamos começar tudo de novo..Está bem.DEUS E NÓS Sebastião Lobo. Deus me ajudará. estava sempre a braços com dificuldades morais de vulto. Entretanto. convincente.Deus está comigo. pois que espírita algum pode. Está bem? Sebastião gaguejou. Sebastião. 39 . buscando vigiar . Deus me dará suas mãos. depois de afeiçoar-se ao Evangelho. pela manhã. Sebastião rixou com alguns colegas. contudo. sim – concordou Eusébio -. sentia-se envergonhado. abusou da velocidade. apesar de todos os votos que fazia. Cabia-lhe controlar-se. foi multado.Meu amigo.18 . meu irmão.Está bem – disse Eusébio -. no instante das orações. Mas. Eusébio surgiu-lhe aos olhos e argumentou. Deus me dará suas mãos. asserenar-se. Clarividente. perdeu a calma. disse em voz alta: .. ignorar o dever da humildade. Conhecia as próprias obrigações. E muitas vezes repeti hoje: “Deus está do meu lado.

. . a fim de atender ao povo? .Você nasceu para melhor destino . A vaidade tem consigo o progresso da cauda de cavalo. bondoso. . Um lugar em que pudesse acolher as visitas com elegância e decência.. lutando. admiravelmente situados no círculo das finanças. intimamente.19 .Não. não é bem isso... triste.Estejamos todos prósperos e poderemos naturalmente ajudar. precisa assistência moral.Como assim? 40 . Logogrifo. Não precisava de grande mansão. . amando.Você não é homem para viver na obscuridade..Mas – suspirou o médium contrariado – não posso aspirar à melhoria? Valorizar os meus interesses. . E tantos elogios ouviu que passou a considerar. Quando o plano se tornou amadurecido no pensamento. que deveria permanecer no domicílio singelo e que os amigos não podiam efetuar aquilo que somente a ele competia fazer.. a possibilidade de casa no centro urbano. excelente amigo desencarnado. Quem compareceu foi Antonio Logogrifo. abnegado médium passista de Uberaba. . antes de tudo. servindo.Você tem a força de Deus nas mãos! . Que um médium. Um palacete que não desse muito trabalho seria bastante. batalhando em favor do bem. Adelino expõe o projeto e roga parecer. Adelino de Carvalho. concentrou-se e pediu a opinião da Esfera Espiritual. começou a ouvir semelhantes frases de muitos amigos. passa a esclarecê-lo.Pode sim – ditou o Espírito amigo -.SÓ CRESCE PARA BAIXO . em Minas. Adelino – obtemperou o companheiro -. que não lhe convinha figurar uma situação que não tinha. elevar-me socialmente? .Então. crescer no mundo será sempre vaidade? – gemeu Carvalho.Por que não montar gabinete próprio num dos melhores pontos da cidade. mas não à custa de vãs aparências e sim por seu próprio esforço. no entanto.

Compreendeu. Como quem acorda de longo sono.Só cresce para baixo.Deus lhe pague. sorridente: . pode apenas dizer: . chorando de alegria. que na sua modesta casa já morava a felicidade. meu irmão. Adelino sentiu estranho contentamento. então. E o amigo espiritual informou. 41 . E.

A MORATÓRIA I Vicente Curi. Vicente reagiu. Vira-se. Valmiro. Às nove horas. o empreiteiro de obras. Carro de clínico à porta. vomitava substância amarga. Vicente pede à esposa a injeção antitóxica guardada no armário. o operário mais jovem. II Badalavam dez horas. Tentara erguer-se. amanheceu exasperado.Onde a Providência Divina que não me ajuda? . De noite. ficando impossibilitado para o trabalho. caindo aos pedaços. marcara o relógio. Quatro operários esperavam-no para a necessária demolição do velho prédio que adquirira em bairro distante. a demorar-se na cama. agora. Entulhado de comprimidos. Cesário. ele e os companheiros assistiram ao inesperado. Precisava satisfazer o serviço urgente em reconstruções diversas. Piorava a olhos vistos. D. cansado. frenético. preferia ter viajado. Inutilmente. O empreiteiro. de vez. tivera os pés gravemente feridos. vem pedir providências. Contrariava-se. febril. . Horário certo de levantar. alarme certo.gritava. porém. A idéia do serviço marcado castigava-lhe o pensamento. Atacando o serviço. obstinado. um dos cooperadores. não apenas gemia. Mercedes julgou prudente comprar uma nova caixa em farmácia vizinha. não agüentou o ataque das picaretas e ruíra. pede-lhe calma. 42 . a esposa. A esposa dissera ser "melhor chamar médico". Enfermo. Abatido. A casa velha. Mercedes. Apesar do problema orgânico. Justamente naquele dia. Tanto tempo passara que D. Além disso. O corpo bambeara e a cabeça parecia-lhe um vaso em fogo. Era a última de pequena série que deixara incompleta.20 . É indispensável confiar na Divina Bondade.

O enfermo. surge sorrindo. Mercedes entra em luta perseguindo o lacrau que lhe foge ao chinelo. Velha assim mesmo. Vicente é retirado pelas senhoras. D. um algodão inflamado escapa das mãos da bondosa amiga. Sente-se perseguido. algodão e fósforos foram trazidos ao quarto. D. amuado. Ultrapassa os limites do silêncio correto. III Mais tarde.. Está pronto. e fala. recusou. enquanto a mulher lhe falava na Providência Maior.falara o moço de vendas. porque sentisse dores nas costas. D. 43 . Relaciona amarguras e prejuízos. Do colchão incendiado. sai correndo enorme escorpião. E acrescentou: . Fala asneiras. O doente. O marido lamenta-se.Não temos . Entretanto.Agora é remédio raro. no entanto. promete colaborar. Copos de vidro. Protesta indignado. falou em aplicação de ventosas. Quando faziam a aplicação das ventosas. mostrando dardo em riste. desesperado. Souto. não queria mais a medicação. antiga enfermeira da vizinhança. ao telefone. Convencera-o a valer-se do passe de reconforto. E reclama: . IV Quase noite. Mercedes viu-a cair no piso. Vicente lembrou-se do avô. sobre o Amparo Divino. Vicente se enraiveceu. sob ventosas acima dos rins.Parece que urubus pousaram em mim. Mercedes pede o concurso de Souto. Alguém lembrou o telefone para recurso a outra farmácia. Crescência. D. E aceitou-as. Queria a injeção. mostra-se Vicente mais inquieto. perdendo-se o conteúdo. Vicente precisava de socorro moral. buscando ajustá-la à agulha. Comunica-se o fogo aos lençóis finos. mais uma vez. porém. embora melhor. não se conformava. para conduzi-lo ao templo espírita. e. amigo da casa. na hora certa.

a renovação de sua vida . Fora feito o balanço.... Você mereceu amparo. Não quer mais o passe. hoje. E. São os últimos.Diz Vicente. Mercedes insiste. 44 .. . uma oração pelas vítimas de um desastre. para hoje. Volte e agradeça os contratempos e dissabores do dia. planeou. O amigo. Volte para casa e descanse a cabeça teimosa. rebelou-se você contra a Providência Divina. e. e diz a Vicente. alarmado: . Você esteve à bica de ser esmagado pelo prédio que veio a cair. enervado. Serenidade é remédio em cada remédio. Iniciava-se a prece de abertura. no momento do passe. e zarpa adiante. Reconciliara-se consigo mesmo. Por quatro vezes. Tomam um táxi. a desencarnação rude e violenta. de ser picado pelo escorpião que o seguira no próprio leito.. pensa D.O enfermo toma-lhe o braço. não reclame. O socorro de Deus nem sempre tem a forma de flor ou a rutilância da luz. mas. Entretanto. Sua ficha de espírito devedor marcava. O ônibus. Quatro mortos e dez feridos . Chegam ao templo indicado. mais uma vez. na Lei. Vicente.. ocorrido momentos antes. alcançando o recinto no momento em que iam cerrar a porta. D. ao passo que a Divina Providência o arrebatou ás garras da morte por quatro vezes. que recebia agora por bênção doce e reconfortante. Pára um segundo.Meu amigo. em voz alta.. no Infinito Amor de Deus. a médium habitual. Antes deles. como alguém que consegue moratória no banco. com efeito. em atenção aos seus gestos de caridade. Por não poder conversar. o ônibus esperado não espera por eles. regressou a casa. que Vicente perdera. amigos espirituais do caminho advogaram-lhe a causa. entretanto. Vicente enxugou os olhos úmidos . satisfeito.. de ser envenenado pela empola que trazia líquido alterado. tornando ao leito. Mercedes. capotara em local próximo. um moço pálido entra à pressa e roga ao diretor da reunião. incorpora-se em D. Terminada a sessão. tranqüilo. insiste. porém. o Irmão Luís. Cristina. talvez porque se movimentasse com lentidão. orientador espiritual das tarefas em curso.Era o que faltava! . e de ser estrangulado na engrenagem do coletivo menos feliz .

Sem dúvida. consultou pela terceira vez. E caiu-lhe aos olhos a sentença de Jesus. já havia feito o possível. por haver recebido na véspera a solicitação de duzentos mil cruzeiros. porque fizemos somente o que deveria fazer. onde a traça e a ferrugem tudo consomem e onde os ladrões minam e roubam . O evangelho como que o chamava a brios. Cumprira com os preceitos da cooperação e da caridade. dizei: Somos servos inúteis. Nervoso. 45 . tangido no íntimo.A VOZ DO EVANGELHO Esparramado na poltrona. doa apontamentos de Lucas. Sentia-se exonerado de quaisquer compromissos. O Livro Divino. Ainda assim. entretanto.. Dera grandes somas. encerrou a consulta. quando fizerdes tudo o que vos for mandado. inquieto. E o que tens ajuntado para quem será?” João Lício fechou o volume com mãos trêmulas. assim..“Assim também vós. esta noite pedirão tua alma.“Não ajunteis tesouros da Terra. segundo refletia.” Surpreendeu-se mais ainda. aceitava. em que Jesus assim se expressa: . porque sempre dera muito a todas as instituições de caridade.. lhe reservava alguma consolação.“Louco. ouvira dizer que o Evangelho respondia a consultas e resolveu experimentar. para salvar grande obra periclitante. Procurou o Novo Testamento e. da parte de amigos. procurando os amigos de modo a ver como poderia ajudar. após recolhê-lo. isso é que não. Para o montante do que possuía. João Lício pensava. Nenhuma Doutrina mais consoladora. Meditava. fora feliz nos negócios. Abriu indiscriminadamente. ponderou que o trecho não apresentava significação para ele. Abrira outra vez. Levantou-se. E.21 . em que a voz do Senhor solta esta frase: . saiu. Espantado.. tomando o chapéu. decerto. das anotações do Apóstolo Mateus: . Seu nome nos bancos indicava créditos de milhões. Que aceitava o Espiritismo. a importância referida expressava migalha. E o Livro aberto exibiu o versículo vinte do capítulo doze. igualmente das lições de Lucas. Enriquecera. Custeara a compra de vasto material. Repetiu o movimento e as páginas lhe mostraram o versículo dez do capítulo dezessete. tornou a sentar-se.” Como de houvesse recebido um choque. no versículo dezenove do capítulo seis. Mas daí a espalhar o que havia juntado.

brinquedos que simulassem armas de morte. . Da residência de Dantas chamavam-no. Recolhido ao leito. para que os canhões se fizessem arados. Telas mostrando o efeito de bombardeios destruidores. o Dr. Espasmo cerebral. aos pequeninos. Detinha-se apaixonadamente em Napoleão. O Dr. E toca a devorar as viandas que aparecessem. aos quarenta e dois anos de idade.com semelhante regime. aí estava Dantas para a cruzada a que se propunha. Encontrou o cliente em coma. E. por insistência do telefone. o esperado. Sabres em mãos de legionários da antiguidade ao invadirem territórios pacíficos. Prostração. chamando- lhe “gênio carniceiro” Não se poupava. declarou que chegarei aos setenta. desde que me mantenha combatendo as armas da morte. * Aconteceu. quando cada um de nós esteja disposto a expulsá-la do seu próprio círculo. estimava as alegrias da mesa. durante quatro dias se quatro noites de vigilância e exaustão. Rememorava a estatística de muitas guerras. E falava entusiástico. após um assunto sério em conferência. acaba estourando. Depois de grande ceia. consolidava impressões. certa feita. meu benfeitor espiritual. Neves acordou. trabucos e punhais. porém. Neves faz o possível.EM COMBATE . zombou do facultativo e repetiu o que costumava dizer: . se você não tiver cuidado.Crisolino. depois das instruções. Pedia movimentos renovadores. porém. Complicações sérias. 46 . O Dr. Onde aparecesse oportunidade. Adquiriu boa máquina cinematográfica e exibia quadros curiosos.22 . pedia sempre não dessem. perdera a palavra e o controle dos movimentos. – Creio que a guerra desaparecerá do mundo. admirou-se o médico da pressão alta. Todavia. Dantas acusara súbito mal-estar. diante dos pais. num jantar íntimo.Desde que recebi a solicitação de Crisolino. o meu protetor espiritual. Chamado. Salientava os programas bélicos de muitos povos. Ele. Neves Lima para examiná-lo. Estudos sobre adagas e baionetas.Dantas. sofria obesidade característica e era campeão de moléstias do estomago. estou empenhado na abolição das armas de morte – dizia Dantas. Alegava que uma boa conversação. numa crise de gastralgia. noite alta. Revólveres provocando desastres. Dantas.

considerando os problemas que lhe requisitavam a presença no mundo. mas você esqueceu de que o garfo também mata .. Dantas foi compelido a deixar o corpo físico. que o amparava. No plano Espiritual. 47 . replicou sem vacilação: . Informou-se quanto à libertação de que fora objeto.. paternalmente. sim.Mas você não me prometeu setenta anos. Mas. Dantas acordou no regaço de Crisolino. porém.Apesar de tudo.Sim. se eu permanecesse em combate contra as armas de morte? E que fiz toda a minha existência senão isso? Crisolino. A família chorava. clamou desapontado para os ouvidos do guardião: .

Da. sempre ouvi dizer que as pessoas mentirosas trazem defeitos na boca.23 . Algumas perdem a língua. peço que reserve o doce para as visitas que estou esperando. .Guilhermina. porém. guardando certa porção de goiabada no armário. desapontada – acaso teremos doces sem que eu saiba? .. A preleção do dia versava sobre a mentira. hoje não temos doce algum – foi a resposta. Rosália contou vários casos fatais de meninos mentirosos. veio à copa e retirou da prateleira pequeno bolo que destinava a uma colega que sempre lhe pedia merenda. Joaninha.Ah! minha filha. avisou: .Está no armário. . 48 . tia Cota mandou pedir à senhora um pedaço de goiabada. a dona de casa é procurada por jovem da vizinhança.Da. Finda a aula. porque julgavam estivesse a brincar. que ouvia em silêncio. Rosália chamou a jovem que lhe atendia à cozinha e. Rosália – diz respeitosa -. outras ficam de lábios tortos. De novo em casa e ao tomar os chinelos para descanso.E depois disso tudo – esclarecia a professora -.Tem sim. e perante mais de trinta crianças Da. como aquela história do garoto que enganava sempre a todos e acabou morrendo afogado.Ora essa! – disse a mãezinha. se a senhora tiver. A miúda assembléia escutava com assombro. a caçula da casa. Joaninha.. . mamãe. . todos os meninos estavam muito bem impressionados. Daí a instantes. no templo espírita. falou de pronto: . E seguiu a mãezinha para a aula. Vamos lá.BOCA TORTA Antes de sair para lecionar Evangelho às crianças.

abeirou-se dela. e falou: .. que se despediu com sincero agradecimento. embora corada de vergonha. com mais carinho.. muito medo de a senhora ficar com a boca torta.. Em seguida. Mas. Da. Tudo está muito bem. Rosália. minha filha. 49 . mas sua mãe terá a consciência tranqüila. a professora de Evangelho sentou-se pensativa. Nossas visitas de hoje não terão doce. ao vê-la nesse estado. que não passava dos cinco anos de idade. sorrindo. foi. afagou-a. entregou toda a goiabada existente à vizinha. Eu tive. Da.Não se preocupe.Mãezinha.. Rosália seguiu a filhinha e confirmou que realmente se enganara e. a pequenina. eu sei que a senhora não sabia onde estava a goiabada. abraçou-a e disse simplesmente: . porém.

50 . Existe a fé automática. cheirar.O BICO DE GÁS I Naquela noite Vitalino Caixeta discutira muito.. são difíceis. mas viaja no veículo despreocupadamente. Vitalino prosseguia em solilóquio mental. inconsciente. Acreditava somente no que visse. combatia a fé. sem comprovação. Mais fatos. Algo cansado. estava contrariado ao recolher-se. atendia aos misteres da casa. sem a ajuda dos sentidos. Só renderia à evidência dos fatos. A esposa demorou-se ainda um tanto em luta pela ordem no apartamento estreito.” Realmente. Opondo-se aos argumentos de dois amigos. ouvir. II Rosalino dizia convincente: . analisar. Necessitava sentir. mesmo depois que Da. essa circunstância. Por isso mesmo.. Queria fatos. Mas. Acaloradamente.. Veja bem. só por só. Acomodava os filhinhos. É a aceitação dos acontecimentos naturais. Constância passou a ressonar. acabou dormindo. Em quanta coisa você confia inteiramente sem proceder a qualquer exame! Você não examina a competência do motorista.. Era homem prático. ouvimos-lhe as considerações silenciosas.. Dormiu e sonhou que se achava diante de Rosalino. Estudara profundamente a anatomia e precisava apalpar para crer. Mas. Não mudaria. Mais fatos para compreender os fatos. seu velho irmão desencarnado havia muitos anos.24 .“Meu caro. muitas vezes.. não lhe autoriza negá-la. as provas de sobrevivência.

Algo sucedera de estranho.. Você não morreu ainda... Aflito. cada noite. distraída. tomou papel e lápis. mas reconhece o infinito da Criação... passado o perigo.. abre maquinalmente a janela próxima e faz luz. você diz que não vê e não pega o Mundo Espiritual.. Você não escuta muitas das ondas sonoras que se entrecruzam à sua volta. mas como sem medo...ele.. Procurou o berço das duas crianças.. Você não testa a resistência do leito.. Você não vê os ingredientes que lhe compõem a refeição. deixara aberta a torneira do gás.. Somente aí descobre que a esposa. Você não vê o vírus. mas respira o oxigênio sem susto.... mas ouve satisfeito os programas radiofônicos. Você não apalpa o ar. Acorde para a verdade! Acorde e viva! Acorde e viva! III Como se impulsionado por estranha força. E. Você não mediu o Universo. Fazia-se o ar irrespirável... mas aceita a fatalidade do fenômeno da morte. e começou a meditar. Levantou-se estremunhado. 51 . Ambas desacordadas. A família salvara-se a tempo.. mas deita e dorme tranqüilo.... inúmeras ocorrências perspassam-lhe na vida sem merecer-lhe estudo mais acurado.. escreveu todas as considerações que ouvira em sonho.. Igualmente. mas confia-lhe os bens sem titubear.. mas sofre a gripe. O ambiente pesava. metro a metro.. Você não experimente a segurança da casa bancária. mas.existe.. meu amigo.. Por outro lado.. Vitalino despertou no corpo físico.

houve um instante em que parou para respirar livremente. Bartolomeu. Judas. porém. no dia seguinte. é sempre fácil. se transformariam em adversários. Tomé. se estamos triunfando de tantos inimigos? O Cristo. falou sereno: . que o negociara. apagado e discreto. E toda uma legião de admiradores que. em Jerusalém. Senhor.25 . porque os inimigos se colocam a distancia. Simão Pedro.A batalha mais árdua é vencer com os amigos. O discípulo exultava. Perfumes no ar.Bartolomeu. fitando a turba próxima. o aprendiz perguntou: . apesar dos perseguidores! Notando que Jesus continuava em grave silencio. quanta felicidade! Afinal! Afinal a glória. mesmo tendo inimigos. Até eles chegavam os ecos do grande êxito. por si mesmos. que o abandonaria.Por que tristeza. que negaria o Senhor. vencer. Algazarra.AMIGOS Quando Jesus entrou. meneou a cabeça e. Não longe. Tiago e João. apenas Bartolomeu. feliz. Bartolomeu. vitorioso. Com ele. que dormiriam descuidados. Cânticos. Hosanas ao Messias. contente: Oh! Mestre. 52 . observou a atmosfera festiva e disse. sem lhe perceberem a angústia. E profundamente desencantado: .

Não me abandone. vislumbra o Espírito de Da.. e as pérolas se espalham pelo chão. Acompanha-me. trazendo ao colo precioso colar de pérolas.. entra a pequena Lea. Interrompe-se e tenta alcançar a menina. Joaquina de Miranda.. ajude-me a fazer o Natal das criancinhas. vai corrigir a filha. Da. mas. No momento em que se refere à caridade. o lindo colar ao pega-papéis justaposto a carteira próxima. Responsabilizava-se pelas aulas de moral cristã. estava de volta. com muitas promessas. e saía para solicitar a cooperação de pessoas abastadas a fim de atender à comemoração natalina.. sua filhinha de seis anos. E rogava ao amoroso Espírito de sua vovó. recolheu- se ao repouso. 53 . agora curiosamente rodeada pelas outras. ante o olhar materno.26 . roupa numerosa e pão farto. Da.O COLAR DE PÉROLAS . fazendeira abastada noutro tempo. Corre. pela manhã. Da. Conservava-o como relíquia. Lea.. mas sem qualquer recurso de substância. A entidade aproxima-se e diz: . Como-se e chora. À noite.. Olinda Soares freqüentava templo espírita contíguo à sua residência.Filha. pela sua vidência mediúnica. ali mesmo.. que a auxiliasse. sem lista alguma. Da. Prende-se contudo. enche-se de medo. você não me pediu auxílio para as crianças? Como pode reter esta jóia por tanto tempo. Olinda. nos guardados mais íntimos. Sente um choque. Queixando-se ao marido e aos filhos da dureza que encontrara nos corações. Olinda falava no templo espírita a seis dezenas de crianças subnutridas e maltratadas. É o colar que pertencera à vovó.Avô. desapontada. É ela mesma. Levo agora a lista aos amigos. Era sábado. Joaquina.. pálida. as pérolas soltas deram às crianças menos felizes todo um Natal de alegria. diante de tanta necessidade? E. No dia seguinte.

Extenso jardim. 54 . quando enorme alvoroço estala na rua. ao interior doméstico. porém. Seu marido foi imprudente. despedindo a interlocutora. o magistrado. Sem que nos pressentisse. . apenas surge depois de longa espera.Nada mais tenho a dizer – falou. Profissionais inconscientes! O processo foi corretamente conduzido por mim e a justiça provará que Cecino é um homicida quanto outro qualquer.Socorro! Socorro! Pega o culpado! Pega o culpado! Populares gritam em desespero.27 . a visitante que chora. Torvelinho na via pública. Tomá-lo-ei para escarmento aos motoristas criminosos. . Movimenta-se. . ajudamo-la a tocar a campainha a destacar-se na parede fidalga. peço-lhe caridade. O magistrado. Deleitosa varanda. doutor! Tenha piedade e ajude-nos! O senhor não ignora que meu pobre Cecino foi sempre um chofer cuidadoso! O homem estava embriagado quando avançou de encontro ao carro! O juiz.Doutor – diz ela –.Que deseja a senhora com semelhante arrazoado? – falou irritadiço. Meu pobre marido não tem culpa. sereno. Temos oito filhinhos passando falta. . desnaturado. . Oito filhos. acompanhamo-la à presença do juiz. – Quem pensa que sou? A justiça é justiça.Doutor. Uma serviçal atente prestativa. de cabeça empertigada. Alcançamos a casa solarenga. *** O juiz voltava. não traiu qualquer emoção no olhar frio. ríspido.SURPRESA DE MAGISTRADO Comovidos ante a prece tocante da sofredora mulher. Houve premeditação inconteste e sanearei a cidade. entretanto. Ouve. compadeça-se de nós! – clamou a infeliz.

Ao lado de luxuoso automóvel, último tipo, agita-se um rapaz aprisionado por homens
do povo. Não longe, uma criança morta.

Inteiramo-nos, então, do sucesso triste. Era o filho do juiz, que, no carro da família, em
correria desenfreada, acabava de atropelar pequenina indefesa.

Mal refeito do choque, ouvimos alguém que pede em tom respeitoso:

- Licença! Licença!

O juiz passa junto de nós com extrema agonia moral a se lhe estampar no semblante
paterno.

Abraça o filho com enternecimento de quem se compadece de um louco.

E, naquele dia, o magistrado não pode comparecer ao fórum...

55

28 - POR TELEFONE

I

Amadeu Barbosa, recentemente desencarnado, era motivo de nossa grande preocupação.

Fora soldado, a serviço da ordem. Corretíssimo. Substituindo o companheiro Abílio
Marques, em determinada diligência, tombara em lamentável desastre e perdera o corpo
físico.

Acabrunhado, queria voltar à esfera dos homens, precisava voltar...

E tanto rogou socorro, que me recordo perfeitamente do dia em que o instrutor
Camerini, recebendo-nos as consultas particulares, lhe falou, firme:

- Amadeu, se você deseja a ajuda de alguém, comece por ajudar alguém.

Desde essa hora, vimo-lo ativo, modificado...

II

Achávamo-nos ao pé de Abílio Marques, quando a enfermeira se abeirou dele e falou
calma:

- Não se impaciente, Sr. Abílio. Deus nos ajudará.

Logo após, a senhora simpática buscou o interior da maternidade e Marques
permaneceu cismarento na sala de espera.

Qual caracol refugiado na concha, ensimesmara-se, esquecendo o mundo em torno.

Pensava... pensava...

Lembrava-se de todas as ocorrências, como se fossem acontecimentos daquele
mesmo dia, embora guardassem o curso de três anos.

Tudo começara naquela tarde...

III

Ele, Abílio, sentia-se sonolento.

Chegara fatigado da corporação.

56

O dia foi cheio.

Tomou lanche reforçado e tentou repousar...

Mal começara a dormir, escutou a voz materna a chamá-lo: Abílio! Abílio!

Encontrava-se de pé ao telefone...

Da. Amélia, a genitora, ouvira-o dizer, de olhos cerrados, dando a impressão de diálogo
pelo fio:

- Alô! Que alegria!

- ....

- Como vai? Disponha, disponha ...

- Ah! sei. Perfeitamente.

- ...

- Hoje? Farei o possível. Conte comigo, conte comigo...

Impressionada, Da. Amélia despertou-o as sacudidelas.

O filho passava, às vezes, por semelhantes fenômenos. Era sonâmbulo. Costumava
levantar-se à noite e andar automaticamente dentro de casa.

A mãezinha passou a relatar-lhe o que ouvira. Palavra por palavra.

Ele, porém, estava radiante e contou que conservava a lembrança nítida.

Seria simples sonho? Não ocultava, contudo, a alegria a lhe brilhar no espírito.

- Mas ... que foi, meu filho?

E ele explicara à mãezinha espantada:

- Mamãe, foi o Amadeu! O Amadeu Barbosa, meu colega de serviço que morreu há tempos.
Telefonou-me, precisamente na hora em que se habituara a fazê-lo...

- Meu filho, que é isso? Onde tem a cabeça? Tudo não passa de um sonho, pesadelo
como os outros...

- Mamãe, mamãe, esperemos! Ele disse algo...

- Que disse?

57

. do interior e o desastre surpreendera-os em quarto humilde de aluguel. Amélia esperava sempre. único apoio de que dispunha. implorava ao pai auxiliasse à menina.. Restaurara-se. Quando Custódio caíra febril. Contente. estava ali. Amélia consolou-a e consultou o marido. há tempos. mais irônica. havia dias. Era pobre moça mal vestida e despenteada. com tremenda infecção. Chorava. Expulsa dos escombros a que se acolhera. o dono da casa. bondosa. Chamava-se Irene. Da. A história do sonho estava esquecida. Tinha fome. Levantara-se mecanicamente para atender. quando alguém bate à porta. 58 . vencido pelo carinho. exatamente quando o genitor desaparecido procurava trabalho. Irene fora recolhido em casa. IV Onze da noite. andava sem rumo. como em seu novo lar... falecera. Buscou a mãezinha e ambos a ouviram. e afastou-se. Abílio... ajudava. Mas. filho único. interessados. Custódio Marques. compreendia. Estava órfã. sem destino. O pai. fora ela a enfermeira dedicada e hábil. em plena expectação. como se fora a irmã que lhe faltava. vitima de grande explosão.Pediu-me ajudar a uma jovem necessitada que enviará até nós ainda hoje. E Custódio. Ouvira palavras desrespeitosas na rua e resolvera pedir socorro. . Era a filha que Da. Amélia sorriu. Fizera-se necessária. dera o contra. sozinha e necessitada. Trabalhava. pusera-se ele a ler os vespertinos. enternecera-se. Por isso. Tinham chegado. Da.

Abílio! É um lindo menino! O parto. A pupila de ontem era-lhe agora a companheira querida. que se achava ao pé da nora -. como se chamará o netinho? Ah! O nome? – respondeu Abílio.Sr. em pranto de alegria.. Barbosa renascera. Abílio. Amadeu Barbosa Marques.. de todos os sucessos e de todas as minudências! Procurávamo-nos asserenar-lhe a mente inquieta. se você deseja a ajuda de alguém.. Em seguida. meu filho – perguntou Da. Amélia. transbordando felicidade. ternamente. agora.. Irene? E a esposa fez um gesto de aprovação. Abílio desposara-a. com a alegria de todos. 59 . comece por ajudar alguém. na face. . não é. Sorriu. emocionado. enquanto a enfermeira reaparece com ar triunfante a chamá-lo: . Depois de dois anos. – Ele se chamará Amadeu. foi normalíssimo. inclinou-se para a esposa e beijou-a. tomou o recém-nato. Acompanhamo-lo ao quarto.. tonto de júbilo. Recomeçava a existência para lutar e triunfar. E. recordamos a lição do instrutor: .Amadeu.Então. graças a Deus. quando ouvimos choro forte de uma criança. V Como se lembrava. Abílio! Sr. diante dos fatos. aflito. VI Sim..

SEGUNDA PARTE MÉDIUM: FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER 60 .

1 - PÁGINA DE ANÁLIA

À doente se queixava em desespero, a senhora que lhe velava o leito perguntou:

- Permite que eu leia para seu reconforto algum pequeno trecho de Allan Kardec?

- Deus me livre! - gritou a enferma, cuspindo-lhe aos pés.

Ainda assim, as mãos abnegadas da companheira continuaram ajeitando-lhe os lençóis...

- Quero água! - exigiu a doente.

A amiga trouxe-lhe água pura e fresca.

De copo às mãos, a enferma, num ímpeto, atirou-lhe todo o líquido à face, vociferando:

- Água imunda!...

como se atreve a tanto?

Quero outra!

Paciente e humilde, a senhora enxugou o rosto molhado e, em seguida, trouxe mais água.

- Quero chá.

E o chá surgiu logo.

- Chá malfeito! Chá frio! O conteúdo da taça foi projetado ao peito da outra, ensopando-lhe
a blusa.

- Traga chá quente! Foi a ordem obedecida.

- Você aceita agora o remédio? - indagou a assistente.

- Que venha depressa.

Ao tomar, contudo, a poção, a dama inconformada agarra a colher e vibra um golpe no
braço da amiga.

61

Surge pequeno ferimento, mostrando sangue.

E a enferma cai em crise de lágrimas.

Chora, chora e depois diz:

- Anália, se a religião espírita que você abraçou é o que lhe ensina a me suportar com tanta
calma, leia o que quiser.

A interpelada sentou-se.

Tomou "O Evangelho segundo o Espiritismo" e leu a formosa página intitulada A Paciência,
no capítulo IX, que começa afirmando:

"A dor é uma bênção que Deus envia a seus eleitos..."

Acalmou-se a doente, que acabou aceitando o socorro do passe e o benefício da água
fluída.

Conversaram ambas.

A enferma, asserenada, ouviu da companheira os planos que arquitetava para o futuro, em
benefício dos meninos abandonados à rua.

No dia seguinte, ao despedir-se, a obsidiada em reequilíbrio beijava-lhe as mãos e dava-lhe
os primeiros dois contos de réis para começar a grande obra.

Essa enfermeira admirável de carinho e devotamento era Anália Franco, a heroína da
Seara espírita paulista, que se fez sublime benfeitora das criancinhas desamparadas.

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2 - O ENCONTRO

I

Rosabela preparava-se. Não cabia em si de esperança. Visitara o cabeleireiro, e
experimentava, feliz, o vestido novo.

Sozinha no apartamento, relia a última carta. A última carta de amor que a buscava,
enfim. E a sós, enquanto a noite de sábado transbordava de música, recordava, recordava...

Casara-se, havia cinco anos; todavia, Tristão, o esposo, revelara-se libertino. Não
conseguia olvidar os primeiros tempos. A presença dele, suas palavras e promessas,
estavam em seu pensamento como inolvidável perfume.

Ainda assim, tivera coragem de romper consigo própria e tentar outra experiência. Isso
porque não tivera força de perdoar-lhe.

Rememorava a noite em que se haviam despedido...

Regressava do interior fluminense, onde fora ter com os pais, em repouso breve.
Entretanto, inesperada queratite obrigara-lhe a volta em momento imprevisto. E não olvidava
o quadro que a ferira, fundo.

Penetrando em casa, surpreendera Tristão embriagado junto de outra. Ambos
agressivos. Inconvenientes. Dilacerada nos melhores sonhos, protestara, chorando; contudo,
o marido alterado, atira-lhe as malas na rua. Expulsara-a como se fora um animal corroído de
peste.

Acolhera-se à residência de amigos e mudara o curso dos próprios passos.

O esposo, talvez mudado, tentara a aproximação, mas debalde.

Ultrajada, negou-se.

Alugando pequeno apartamento em bairro distante, aceitou as funções de datilografia
quase anônima, em grande companhia comercial. E mergulhara a mente no serviço.

De quando em quando, esse ou aquele Don Juan de esquina lhe deitava olhos menos
sensatos; todavia, pelo comportamento irrepreensível, não lhes encorajava qualquer palavra
incorreta.

O tempo correu lentamente.

Um, dois, três, quatro anos...

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Aqueles apontamentos dele inclinavam-na à alegria e à esperança. Ensaiava a aquisição de amizades novas. historiava estranhos episódios. que não soubera fazê-la feliz. resolveu arriscar. estava modificada. Falavam de renúncia. Sentia-se. feliz. Relacionava dificuldades do pretérito. desejava estabelecer amizade com alguém. Lia velho número de uma revista sentimental e encontrara aí um convite a esmo. entendimento. Acabava. que ela manuseava com imensa emoção. mais tolerante. II Surgiu. mas arredava para longe o pensamento. Era casado. E dizia-se um homem a caminho de regeneração. Mais paciente.. desiludida. Dizia chamar-se Rosalinda Malvar e informava a posta-restante para a resposta. com dez meses de correspondência. anunciando trinta e dois anos de idade. desde muito. E ofereceu-se. supunha que faltava Tristão. uma noite diferente. O curioso anúncio era assinado por Benjamim Solis e apresentava expressivo cunho de serenidade. consoladores. Autobiografias discretas. Flores e lembranças pelo correio. Ela mesma. no entanto. entretanto. intimamente desamparada. 64 . Benjamim escreveu. apenas. Em outras missivas. no entanto. Livros espíritas. carinhosas e ardentes. até que pudessem estabelecer um encontro franco. Não acusava-a informava. E as cartas começaram afetivas para se tornarem longas e belas. contente. Mas via-se distanciado da esposa. Enviava livros. Declarava adotar igualmente a datilografia por sistema ideal. Às vezes. perdão. endereçando bela missiva datilografada para a caixa postal indicada. por sentir-se sozinho. Confidências recíprocas.. contou-lhe Benjamim uma longa história. Após refletir. Respeitosamente. Cavalheiro.

Aí mesmo.. III Manhãzinha. E caminhou. Queria movimentar-se um tanto. ali estava. Contudo.... Preparar-se. porém... Dois minutos para dez. o elétrico e. mais alguns passos e estacou. deliberadamente. Olhou o relógio. Avançou trêmula. Pensando em como prosseguir no romance. 65 . Rosabela pôs-se em marcha. Antes. mentalizava Benjamim e expulsava a imagem do esposo. Respondera aquiescendo.. enfim o encontro. mal suportando a própria emoção. E chegar às dez em ponto. Enfim. a que se avistassem.. utilizando pequena bolsa. Impossível que Benjamim fosse mau. E informara que trajaria um vestido da mesma cor. retocou o semblante e realinhou os cabelos. agora. Esperá-la-ia às dez horas em ponto. Benjamim.. nas imediações do jardim. Não quis. descer. à caça de ar puro. E ainda que houvesse cometido algo passível de justa reprovação. adiavam sempre.. depois. Envergaria costumes de linho alvo e traria gravata escura com pequeno alfinete em forma de “R”. Fez sinal e apeou numa rua da Gávea. buscando anular-lhe o reflexo. nada a impedia de manter uma afeição pura e nobre. Vários grupos se movimentaram sob o arvoredo.”. de chofre. o lotação. domingo. coração aos saltos. no rumo certo. Estava presa aos compromissos legais. mostrando um broche singelo lembrando os contornos da mesma letra. todavia. entre si. A princípio. Incentivo do coração que pudesse auxiliá-la a viver. convidava-a.. E pensava: “se conhecesse tudo isso ao tempo de Tristão. do dia seguinte. naquelas cartas. a remessa de fotos. plenamente refeito. no entanto. revirava nas mãos a última carta. à porta do velho Jardim Botânico. religiosamente datilografadas..

abraçaram-se de manso. veio ao encontro dela. abraçou-a mais forte.. Este encontro é a resposta do Mundo Espiritual às minhas preces constantes! Louvando seja Deus!. Rosabela nada respondeu. e. não obstante minúsculo. creia. Rosa? Eu bem que desconfiava. depois de alguns minutos.Pois é você.... agora! Estou transformado. 66 .. Aquele homem era Tristão. muito pálido. tocando-me o coração. percebeu que a primorosa lapela surgia agora ensopada de lágrimas. O amigo lá estava.. O alfinete em forma de “R” luzia. aquele homem. Ambos.. O marido. O esposo. no entanto. . prestes a cair.. Roupa branca e gravata escura... Mas. ao notar que ela repousara a cabeça em seus ombros. Sofri demais. Perdoe-me. Somente você poderia escrever-me como fez.

a roda de amigos. doutor. O jovem de catorze anos se fizera malfeitor. É possível que a gente ajudando possa. sem exauri-lo. O ferroviário esboçou o gesto de quem fora surpreendido em falta e justifica-se: . humilde e abnegado. É um coração materno a rogar auxílio.DENTRO DA PRÓPRIA CASA Abastado fazendeiro fluminense. Ouve a conversa com discrição. recebeu conselho. E. o senhor tem razão. medicação. De fato. Um homem como eu. Por último. José Luis do Espírito Santo. faz também ladrões.3 . Levado ao facultativo. conselheiral: . A certa altura. o fazendeiro itinerante observa. A princípio. parou num posto de gasolina. Assunto vai.Meu amigo. ver surgir vadios. O pai. E sem saber que tocava fundo na chaga do homem: . tenho muita simpatia pela Doutrina Espírita. aqui e ali. Supunham-no enfermo. 67 . aflito. Essa ou aquela criança tentando amparo. Para cada um tem o auxílio como reposta. Um velhinho a pedir café. conta apenas migalhas. De quando em quando. está no círculo. de imediato. Mas sempre noto que a gente.Dou coisa alguma. vinha do sítio à cidade. O dinheiro é pouco. não se emendou. atende a esse ou àquele necessitado. de idéias espíritas. marcara encontro com a autoridade e. mas José Luís saca do bolso. de passagem por Nilópolis.E às vezes fazemos ladrões dentro da própria casa. Ajudar a torto e a direito é criar vadios. A pequena mão leve preocupava. Ainda assim. era apontado como sendo o autor do desaparecimento de grande soma de residência vizinha. acumulando muitos bens sem proveito. assunto vem. Em seguida. a fim de entender-se com o Juiz de Menores sobre o comportamento reprovável de seu filho. Um doente que lhe apresenta o semblante triste. passou a escandalizar parentes. ferroviário espírita. abraços. mas creio que o exagero da caridade é um abuso. Um companheiro reconheceu-o. subtraía valores em casa.

Corre-corre. 68 . costumamos tudo perder. Se você realmente negocia de forma clandestina.. Recebera Leonardo três revólveres finos para passa adiante. você precisa considerar. Ambulância. Entretanto. .. um dos diretores do templo -. sim. às vezes. Rebuliço. passeios de Ricardo. é tudo que faço. Leonardo – falava Serra.4 . revólveres e rádios. Minha mãe mora noutro mundo. E Leonardo continuou. chega em casa e deslumbra-se. os agentes do fisco. Tenho um filho para educar e o colégio é um osso duro. altera-se a direção e a bala lhe vara o peito. Maria Clara ao seu filho Leonardo.CONTRABANDO . Por fim. . porém. todos os dias.. Leonardo Madeira falava aos amigos: . no comercio ilegal. ainda o terceiro. através do médium. em poucos minutos. Minha vida é meu filho. Compro e vendo. alcoolizado em festa junina. Jurei que não terá de futuro as minhas dificuldades.. fizera-se o receptador de perfumes e isqueiros. exigências de Ricardo e loucuras de Ricardo.. Pode haver embaraço. Lembre-se de que. apalpa o outro.. Ricardo era o filho feliz. tudo exigindo.. A criatura tem livre-arbítrio para melhorar o destino ou agravá-lo. mas os dedos tremem. Leonardo. que é serviço de Deus. Gritaria. ao término da sessão. simpatiza mais fortemente com um deles.. Mas. ora. E tem a idéia louca de disparar. Mas o suor na obrigação bem cumprida é o preço correto da verdadeira felicidade! – assim falava o Espírito de Da. o filho.Clandestina.. À noite. Burlava. a noite de enorme desilusão. Você é tintureiro.Acautele-se. Resigne-se ao dever. E a renda aumentava. por que? Meu trabalho é tão lícito quanto os outros. – Não queira contrabando. ali mesmo.. meu filho! Fuja de qualquer desrespeito ao caminho legal. Chegou. Aposto que mudaria se estivesse no nosso. Carrega a arma e experimenta. Para estudos de Ricardo. recolhe o filho morto.Mas ouça. Pode haver. desalentado. O trabalho honesto á a vida segura. como complemento aos folguedos daquela noite. Cuide da roupa limpa. Observa um exemplar.Ora... com esmero.

5 . quando um rapaz. A hora é de trabalho. Que dia você de um albergue moderno.NA HORA DO PASSE Dirigia José Petitinga distinta organização espírita na capital baiana.. . . .Que acha você levantarmos um orfanato para as criancinhas desamparadas de Salvador? .Nem tenho expressões... . e vejo anciãos na calçada.Muito importante.Um lar para velhinhos é uma necessidade. 69 . de amplas proporções? . em bases espíritas. Afinal – pensava – surpreendera ave rara. em que pudéssemos reunir muitas famílias? . Uma obra dessas é um monumento de amor. em que os internados esqueçam o vício. é caminho do Reino de Deus. à noite. ..Excelente projeto. . . trabalho. veio procurá-lo. Uma casa-hospital. Às vezes volto para a casa.Noto igualmente que precisamos de um instituto diferente para os alcoolizados..O plano é uma benção..E um sanatório para obsidiados? . homem disposto a trabalhar e sofrer pela causa.Isso seria uma concessão de Deus.Também penso assim. Petitinga não cabia em si de contente. Que opinião é a sua? . não podemos ficar parados. Petitinga..Petitinga.É uma escola. interessado em grandes projetos de assistência social. Alguém iria longe.E uma vila completa para os nossos irmãos infelizes que moram em casebres misérrimos? Uma vila. . E entre ambos a conversação se alongou.

E como o tempo passava e tinha serviço urgente. meu amigo. Não posso buscar moléstias contagiosas. Você compreende. Estou justamente na hora do passe a dois irmãos tuberculosos e terei muito prazer em seu concurso.. Continuemos conversando em serviço. o gesto de quem expulsa a poeira do paletó.. convidou: . incompreensivelmente.. e ele. Petitinga. 70 . Repetiu. Mas o moço. desenxabido: . Fez-se lívido. várias vezes. E lá se foi . respondeu.Bem. que sonhava tantas obras de caridade. alterou o semblante.. Tenho família. a sua palavra brilha para mim. isso não..Ora.

. o esposo aflito aquiesceu e partiu a galope..... . No outro dia. . na expectativa da intervenção. como julgarem melhor...Se quiserem – disse o médico -.. doutor? Arranjo-lhe um cavalo.Nada disso. .A crise apareceu de surpresa.Um cavalo.Que sugere? – roga o marido desapontado. Sales Neto. tão longe? – disse o médico..Era o que faltava! Não posso expor-me assim.. abatida.Por que deixaram ficar assim. Nada de vôo. para a mulher que experimentava parto difícil. Narciso Meireles pedia o concurso do Dr Sales Neto... . em conseqüência de uma trombose. . a sua competência é a nossa esperança.. O Dr. em busca do teco-teco. a residência do operador estava cheia de gente. . Não soube do desastre havido anteontem? . havia morrido. . não me arrisco.A estrada é péssima.. De minha parte. procurando esquivar-se... porém. quando a senhora Meireles chegou.Doutor.. Perdi dois amigos de uma só vez na semana passada..Um carro? . Em face da evidente má-vontade do facultativo. distinto médico espírita. O senhor já operou Paulínia por duas vezes.O TEMOR DA MORTE . naquela noite. 71 . em vilarejo distante.6 . tragam a parturiente aqui.. O senhor prefere o avião? Dez minutos apenas. no próprio leito.

Defrontado por crise financeira esmagadora. escreveu pequena carta. Francisco Teodoro. sem compradores. A produção. e disparou um tiro no crânio. armazéns e lucros firmes. E o trabalho se desdobrava. tentava a oração. Deus não desampara as criaturas – pensava. O capitão do serviço pedia mais tempo. construíra uma fábrica. trago-lhe as promissórias vencidas. Operários e máquinas eficientes. porém.7 . Procurava consolo na fé religiosa.. À custa de ingente esforço. anunciando-se insolvável.. carregando. Importando fios.. a retração dos negócios. nossa firma não pode esperar. conseguira tecer casimiras notáveis. Meses passaram pesadamente. em zonas sombrias de purgação. falava de novas esperanças e comentava as dificuldades de todos.. Ainda assim. . Tivera vida próspera. promissor. Francisco. Com imenso pesar. Surgira. o industrial suicida. lia e ouvia referências à Divina Bondade. Cartas vinagrosas chegavam-lhe à caixa postal. Humilhavam-no cobranças e advertências.POR CINCO DIAS Mais de seis lustros passaram. descobriu que a vida continuava. a cabeça em frangalhos. 72 . havia aniquilado a existência. apresentava desculpas. abundante.Coronel Francisco. Frases vexatórias espancavam-lhe os ouvidos. em que seria indicado por negociante desonesto. Sr. experimentava pavorosos suplícios nas trevas. Por toda parte. a lhe invadirem a casa. Devia aos credores diversos o montante de oitocentos contos de réis. E porque alguém o ameaçava de escândalos na imprensa. com protestos públicos. descansava no depósito. sem abandonar a tensão.

abraçou. notava. veio a saber que acontecimento importante sucedera cinco dias depois dos funerais em que a família lhe pranteara o gesto terrível. Ele apenas não soubera esperar. Embora invisível aos olhos físicos dos velhos companheiros de luta. E após reconhecer o seu próprio retrato. o estoque de casimiras. E agora que retornava à cidade que lhe fora ribalta ao desespero. que a Bondade de Deus não falhara. 73 .. que acumulara zelosamente. Mostrando melancólico sorriso.. internando- se em casa de reajuste.914. o visitante espiritual compreendeu. À face de alteração na balança comercial do País. produziu importância que superou de muito a quatro mil conto de reis. o progresso enorme da fábrica que lhe saíra das mãos. os filhos e os netos reunidos no trabalho vitorioso.. pode recuperar-se. Depois de trinta anos. então. ante a grande guerra de 1. Sentia-se um louco encarcerado na gaiola do sofrimento. reavendo afeições e reconhecendo amigos.. chorando de alegria. surpreendido. Palavra alguma na Terra conseguiria descrever-lhe o martírio.. reverenciado pelos descendentes no grande escritório.

. e.. o diretor faz concessões. O homem fez um gesto irônico e observou: ..Pois é. Naturalmente. admirando você como sempre. socorrendo órfãos e amparando viúvas. meu dia de serviços corre normal.Não é bem assim – falou Sampaio. Quanto você ganha mensalmente? . Disseram-me – continuou o homem – que você. . Estou informado de que você visita os infortunados nos morros.8 .. mal havia espanado os móveis pela manhã. Faço listas. . depois do bonde....Não vale a pena. era humilde servidor num escritório... passa noites à cabeceira de enfermos.NÃO VALE A PENA Antônio Sampaio Júnior. madrugador..Não ignoro que você tem deveres de caridade na instituição que freqüenta. quando a despesa ultrapassa os recursos.Quatro mil cruzeiros. apelos. valoroso tarefeiro do Centro Espírita “Regeneração”. por fim: . faz sempre bem uma caminhada a pé. trouxe à luz um documento e abriu-se. Preciso de um sócio para um negócio da China. . humilde -.Não vale a pena. ponto facultativo..... do Rio de Janeiro. enfrentando dificuldades. Você 74 .. sei que você é espírita e esfalfa-se. mas se o faço.Gasto o que posso. Zeloso.Sampaio – disse o visitante. Certa feita. Boa cama no dia seguinte. tenho amigos...Não vale a pena. sem rebuços -. Temos bonde à porta e. nem sempre posso visitar os doentes. Aproveita decerto o carro de alguém. Três milhões de cruzeiros. há muito tempo. às vezes.. O amigo meteu a mão no bolso interno. É tempo de você melhorar.. . E prosseguiu: .Não disponho dessa facilidade. para sentar-se à máquina de escrever. . Sampaio. foi procurado por amigo situado no comércio do Rio. às vezes com sacrifício da própria saúde.. correto. resolvi auxiliá-lo de vez.. Cimo é que você arranja numerário para esse fim? ..

Não vale a pena.. mas temos noventa e nove probabilidades a nosso favor.. Sampaio... perguntou: .Ah! Se vier o contra – informou o amigo.Creio na lisura da iniciativa. você e eu ficaremos provavelmente com mais de um milhão cada um. E recomeçou a espanar.. sem perder a serenidade.. o assunto envolve alguns interesses de repartições públicas. falou simples: .. Gastaremos talvez uns quinhentos contos na tramitação do processo. Sampaio... sem desejar ofender. É um navio velho que vamos desencravar.E se falharem as noventa e nove?. teremos entrevista no Distrito Policial. ...Bem.assina comigo a papelada e acompanharei todo o assunto. . evidentemente desapontado -.. 75 . Basta só que você assine. mas há algum inconveniente a considerar? . Tudo pronto.

financiava o cometimento. não faça violência. De vez em vez. o produto está sendo surrupiado. No dia seguinte. Compadece-se do amigo e afasta-se em silêncio.. Porque o resto do milho amadurecesse e o furto continuasse.. até que atingiu a margem do rio. juntos.9 . O sócio. José aparecia. . e Claudino... Alguém está fazendo comércio de milho verde. que desejava surpreender. Se apanhar o responsável. dê conselhos. Claudino recua. Alguns momentos depois de zero hora. dia a dia -. notou que alguém quebrava o milho com discrição.. Avançou devagarinho. em silêncio. a poucos metros.. Mas. denodado seareiro espírita barrense. tac. 76 . que aceitara o negócio na intenção de ajudar uma instituição de caridade. ele mesmo. Claudino – vinha José. notificar. Não feriria o irmão que aproveitava a noite para roubar. à nossa custa. Ele. descansou. iam namorar a cultura viçosa de que as águas do Paraíba eram farto sustento. mãos anônimas começaram talando a roça. arrancando espigas.. havia plantado grande milharal de parceria com um amigo. o sócio vem de novo comunicar-lhe que a roça estava sumindo.. os dois. É o próprio parceiro da lavoura. o sócio. vê o intruso. Tac.José – recomendava o amigo-. cuidava da gleba. sob copada árvore. tac… Recordou o Evangelho e mentalizou as palavras que iria dizer. renovando a denúncia.CLAUDINO E A LAVOURA Entre Barra do Piraí e a vila de Juparanã. vigie com critério. Decorridos alguns minutos.. não quer ser agora surpreendido. . tac. em prece. lavrador de prol.Sr. numa noite de luar Claudino resolveu inspecionar a roça. E na manhã seguinte. Surgindo a época das espigas iniciantes. despreocupado. Caminhou.. n o Estado do Rio.. Claudino Dias. quase uma hora..

mas agora não posso. Não precisa pensar em mim. Claudino sorriu e respondeu: .Oh! Oh! Muito obrigado.. realmente a lavoura tem dado a você muitos problemas e prejuízos. em tom paternal -. A plantação é toda sua. concluiu: . De hoje em diante.. E continuou: . – falou o amigo.Mas Deus é sócio de todos nós e estará com você.Muito grato pelo convite.. mas desejo ajudá-lo. Meus deveres são muitos.-José – diz o companheiro.. mas queria convidar o senhor para plantarmos dois alqueires de amendoim. 77 . O senhor é um santo. Pode agir à vontade.Agradeço muito. E ante o amigo desapontado.. .. você é o dono.

Que sente um cadáver se o mergulham num lago de piche? .Escute.Pois olhe. em verdade carrega consigo a consciência morta. meu filho. maneando paternalmente a cabeça. doutor. apóstolo da Doutrina Espírita no Brasil. O senhor disse que a calúnia é um braseiro no caluniador. E a conversação prosseguiu.Meu filho – disse o pregador -. Falara. . Eu caluniei e nada senti. acerca dos desregramentos morais. Eu roubei e nada senti. É um morto-vivo.Que sente um cadáver se lhe enterram um espinho no peito? . O senhor disse que o furto é um espinho no ladrão. ora essa! O cadáver é a imagem da morte. 78 .. o opositor sarcástico -. o Dr. com muito brilho. . Destruí diversos lares e nada senti.Absolutamente nada.. no Plano Espiritual. . quando fino ironista o invectivou: . Eu matei e nada senti. Bezerra de Menezes. O senhor disse que o criminoso tem a nuvem do remorso a sufoca-lo. Dispunha-se à retirada. que sente um cadáver quando alguém lhe incendeia o braço inerte? . rematava a preleção. quando alguém não sente o mal que pratica. Doutor Bezerra fitou o triste interlocutor e. O senhor disse que o destruidor de lares terrestres carrega a lâmina do arrependimento a retalhar-lhe o coração.Nada – disse. rindo. concluiu: .O APARTE Perante o enorme ajuntamento de sofredores desencarnados.10 .Coisa alguma. Destacara os males da alma e os desastres do espírito. pois cadáver não reage.

Daí a instantes. de olhos arregalados.. . filhos e netos. esperava o café que a família saboreava depois das orações.. e João Pires.. antes que o vovô terminasse. e explicou: . E cada pessoa do caminho. irmão mais crescido. enquanto o menino grita: . não sei porque Jesus não vem.Vovô. Ana Maria e Jorge Lucas. instintivamente – a estas horas? Ana Maria. Ana Maria. em torno da mesa. voltam. trazendo o desconhecido.Filhinha. Maria. correm para atender. O avô riu-se. O Mestre vive presente conosco em suas lições. os espíritas.Que é isso? – exclama a senhora Pires. aparentando mais de oitenta anos de idade. a dona da casa.. aproxima-se do avô e informa.JESUS MANDOU ALGUÉM O culto do Evangelho no lar havia terminado às sete da noite. Um doente é uma pessoa que o Senhor nos manda socorrer. pequena de sete anos. porém. apoiando-se em pobre cajado. nós. É preciso abrir a porta. Era um velho. um faminto é alguém que Ele nos recomenda servir. é um homem! Ele está pedindo em nome de Jesus. e.11 . D. Sempre vovô chama por ele nas preces: “Vem Jesus! Vem Jesus!” e Jesus nunca veio.. batem à porta. encantada: . O chefe da casa acompanhou a netinha e. Acho que Jesus ouviu a nossa conversa e mandou alguém por Ele.. 79 .Ninguém não! É só um mendigo pedindo esmola. reclamou: . bondoso.. de roupa em frangalhos e grande barba ao desalinho.. depois de alguns instantes.. não podemos pensar assim. voltaram. nesse momento repartia o café. principalmente os mais necessitados. A família comoveu-se. são representantes dEle. junto de nós.. com a esposa.Vovô.

o ancião respondeu: . falou. minha filha? Ele morreu na cruz por nós todos! E Ana Maria para o avô: .Graças a Deus. Alimentou-se. o chefe de família. Antes da despedida. com ar de triunfo. a pequena dormiu feliz. vovô? O grupo entendeu o ensinamento e o recém-chegado foi conduzido à poltrona. Recebeu tudo o que precisava e João Pires anotou-lhe o nome e endereço para visitá-lo no dia seguinte.O senhor conhece Jesus? Trêmulo e acanhado. no “até amanhã”.Como não. sensibilizado: . 80 .Ante a surpresa de todos. após abraçar o inesperado visitante. tivemos hoje um culto mais completo. a menina segurou-lhe a mão direita e perguntou: . enxugando os olhos. e.Eu não falei.

picado por escorpião. porém. Dias depois. 81 . face a face.Nada fizera que pudesse ofender. . por sete vezes. retornando ao trabalho. encontra um enterro e descobre-se. desarmado. agora. . E.A justiça real vem de Deus. covarde” – haviam dito os circunstantes.Mesmo ferido. percebendo-lhe a alma sombria. o desafeto.. freou-se prudentemente. instou muito e conduziu-o a uma reunião da Doutrina Espírita. Na manhã seguinte. não sentia culpa alguma. munido de um revólver.Ninguém precisa vingar-se. morrera na véspera.MESMO FERIDO O rapaz fora rudemente esbofeteado num baile. limpando a face sanguinolenta. vingar-se. não seria prudente medir forças. pela mão de um dos médiuns presentes. aquele que o ferira. “Covarde. Desinteressado. o agressor esmurrara-lhe o rosto. topou. escreveu bela página sobre o perdão. no entanto. porém. pensando. . Ao término da seção. Um amigo. serve e perdoa. porém. Em sã consciência.12 . ouviu preces e pregações. um amigo espiritual. aguardava ocasião. O jovem ouviu atentamente e saiu pensando. comentários e apontamentos edificantes. Por mera desconfiança..A corrigenda do ofensor pode ser amanhã. na qual surgiam afirmações como estas: . Só então vem a saber que o grande esmurrador. compreendeu que. mas recordou a lição e conteve-se. Ele. Por uma semana repetiu-se o reencontro. e. porém. Jurara.

para morrer depois em pavoroso suplício. ouro. de meus avós. sorrindo -. sim – dizia bem humorado -. Tudo pronto para o renascimento. senti fome. estava de volta à esfera dos homens. Encerra então a carreira? Não – disse ele. em pleno deserto verde. mas fomos desviados da rota e. consegui catorze cativos e comecei meu trabalho. ou seja. felizes. II Peres interrompeu-se.. procurando comer. com que o cetro português procurava incentivar a mineração no Brasil. sozinho. Alguém teria deixado ali algum resto de refeição. Na segunda noite de maiores dificuldades. para a viagem temível. ao pé da própria carcaça. achávamo-nos sem caminho.. levando-me víveres e cavalos. não mentalizava senão ouro.. No delírio que me assaltava. como quem encontra os remanescentes de uma farofa gorda. quando foi promulgada a lei de 18 de abril de 1702. com mais de 12 escravos poderia receber uma data com 900 braças quadradas. E bebo água. Se dormindo. Mastigando folhas amargas que me impunham tremenda salivação. sob o nome de “Regimento dos Superintendentes. ouro. e espero vencer agora. invadida de pó valioso. Cambaleei por dois dias. encho a boca. ao que respondeu generoso: ..13 . não encontrava por mim senão cascalho e desilusão. Mas sei que vivi pesadelo 82 . como bêbado solitário.. em Taubaté.Conservo a memória voltada para certo período – e modificando a expressão fisionômica: Tinha eu trinta anos de idade. a tempo breve. Instalado nas vizinhanças de São João Del – Rei.Tudo começou às mil maravilhas. Indagou alguém se estava informado quanto ao pretérito. arrastei-me. Mas enquanto companheiros diversos prosperavam. e rumei para Vila Rica. prestimoso amigo do Plano Espiritual. E porque desfrutasse merecidos afetos. Mourejando de sol a sol. Todavia alguém pede mais. com dois escravos. Entreguei o pedaço de terra ao meu primo Martinho Dantas e abalei-me. a pouco e pouco me desencantei. Ouvi a fama das minas de Cuiabá. A seca atacava tudo.. arrastei-me. Trinta anos vivi ali a loucura do ouro.. Cada minerador.356 metros quadrados. fatigado. muita água.OURO E BATATAS I João Peres. não sei. porque nada mais fizera que comer ouro em pó. 4. recheada com algo. Guarda-Mores e Oficiais Deputados para as Minas de Ouro”.. Tremo de esperança. Abro o saquitel e contemplo uma farinha dourada. febril. Tornarei. Juvenal e Sertório entraram em fuga. Se acordado. Cobiçoso. ignoro. ao pé de uma fonte. Vendi a propriedade que herdara. era como bênçãos de luz a festa das despedidas. Semi – enlouquecido. até que. vejo pequena bolsa. demorei-me por tempo indeterminado. E caí doente.

rumo ao sul. ansiando a pose de ouro. E. surgem correntes mais fortes. pensativo. Quanto me pudessem oferecer tinha preço. enfim. 83 . no entanto. Mudaria meu próprio nome. Tento retê-la e cai a segunda.incessante em que via barras de ouro. Servidores numerosos. subornando funcionários e consciências. Depois. resolvi retirar-me. aprendi a comerciá-lo. Renascera entre os bisnetos de meu primo e. Entretanto aspirando à riqueza fácil. até que. Vai-se a primeira mala. desceria por mar. Gritando. poderia desfrutar vida farta. Muito tempo havia passado. . Volto ao meu torrão antigo em S. Viajei garantido. Atravessava a de novo a casa dos sessenta anos. intrigado. por lá. Mas exigi. perdendo de novo a vida. Francisco. dormi. Dispunha.. em espírito. “É muito peso” – disse o barqueiro. por bondade de Deus. sorrindo. O ex-garimpeiro e comerciante levantou-se e atendeu: -Agora será diferente. com a carga.. estimulei nos escravos o gosto do furto.. Morrera. Na travessia do S.. exigi que as minhas duas grandes malas de ouro me acompanhassem.E agora.. desde de cedo. sofri merecidos horrores para aprender. porque o próprio Martinho não mais achei. no entanto. tomaria medidas novas. sem que ninguém me ouvisse. O homem aceitou.. Reclamei meus direitos e bramei contra o mundo. E aumentei meus negócios. um dia. Paulo e vou plantar batatas. O barco oscila. à feição de louco.. A terra que eu lhe emprestara abrira-se. um amigo que também se dispunha à reencarnação. sensato. tudo esquecendo. Peres fitou-nos. no movimento da retaguarda. Tomei tropas. concluiu: -É muito melhor. Viajava entre Sabará e São João Del – Rei sem medir sacrifícios. Ele e eu. Na Corte. pus-me. mostrando o seio aurífero. próspero. Carga volumosa e pesada. deixando larga fortuna aos filhos. Buscaria o território baiano e. Peres? – Perguntou. Policiado. mergulho nas profundas águas. lâminas de ouro e caixas de ouro. de enorme fortuna em ouro e consegui escapar ao processo. ou nada feito.. mas a pleno rio. pepitas de ouro. quando a clandestinidade dos meus serviços escusos foi revelada. e ajuntou: Desde então. Quando essa loucura encontrou alívio.

Chaves. 84 . Como a reticência se prolongasse.você prometeu receber-me e atender ao meu problema. mas o que francamente procura é a realização de um negócio – disse Chaves. que lhe falou sem rebuços: . . não tem preço. sumamente conhecido por sua virtuosa austeridade.Nada posso fazer – disse o professor.Dádiva é o bem que a gente faz sem esperar recompensa de coisa alguma.Queria o que.Já auxiliei construções espíritas numerosas. . Que é caridade.14 . espíritas. o que vem a ser uma dádiva? E o educador respondeu sereno: . agora desejo doar duzentos contos para obras espíritas. – Entrego duzentos contos.Que é isso? – falou o amigo. tenho aspirações políticas desde muito tempo. peremptório.Mas Chaves. o apoio de seu prestígio diante dos espíritas.. despediu-se e procurou distração num bilhar. . Em toda parte. com ar de censura . Minas. Para vocês... pioneiro da Doutrina espírita. mas tudo sem resultado. E esse amor. Onde é que o senhor já viu alguém pagar a luz do sol. O distinto educador. para que me garantissem o voto. duzentos contos de réis.. . conforme nos ensina o Espiritismo. deu primorosa tacada e falou que o professor João Augusto Chaves não passava de um louco. disse o outro -. a bênção do ar. em Uberaba.Pensei que o senhor estivesse tratando de caridade. guardava silêncio. Tenho apenas recebido ingratidões e mais ingratidões. meu amigo.. E o outro prosseguia: . então? Humilde e simples. nervoso. Queria. desse modo.Caridade é o amor de Deus no coração humano.O NEGÓCIO DA DOAÇÃO O professor chaves. O que eu desejo é fazer uma dádiva. Chaves perguntou: . entretanto.. . O político. isso é muita filosofia.Desejava a sua palavra empenhada.. meu amigo? . É uma lástima. desencantado. o professor explicou: .. E inquirido por alguns correligionários quanto aos resultados da entrevista. mentiras e mentiras. como você não desconhece. foi procurado por prestigioso amigo do campo social. o tesouro do verdadeiro amor ou o espetáculo do céu estrelado?.Que idéia! – falou o visitante... imperturbável.

Expulso. Desde a primeira pedra na base até a última no alto. A presença dele aqui não altera coisa alguma. . o senhor não serve para o trabalho comercial. Perde tempo..O CARTAZ . 85 . Figner – anotava o moço -. e disse: ..15 .Mas eu sou espírita – lamentou-se o ex-empregado. abnegado espírita e grande comerciante. o senhor foi convidado a seguir sua vocação e está pago pelos serviços que nos prestou.Decididamente. E lança discórdia em casa. Discute sem razão. Repare este majestoso prédio. de conformidade com todos os seus direitos.. .Mas Sr.. – era Frederico Figner. não – explicou o negociante. que falava a empavonado rapaz à porta de conhecido cinema do Rio. o rótulo é quase nada. Foge aos horários.Meu amigo. Mas note o cartaz à porta do cinema. . não é possível! Fui expulso de sua firma sem mais nem menos. paternalmente -. Figner fitou o grande edifício junto ao qual conversavam. Desatende os que nos procuram. tudo é harmonia e disciplina.

e. olhou o. com o acidente sou hoje inútil. impunha-lhe dolorosa feição. além disso. o filhinho de cinco anos. a prestimosa lavadeira vinha trazer-lhe o chocolate que não pedira.CALVÁRIO MATERNAL I Quando Maria Quitéria. O petiz. mas vivemos os dois em fome e penúria. agora o moço Licurgo de Melo. sorrindo. Perdera um dos olhos e o outro se mostrava esbugalhado. falou súplice: . . Parecia muito mais um monstro em corpo de mulher. chegou à casa do Dr.. correspondia-lhe a atenção. Entretanto. A lágrima parada no olho doente fez-se mais grossa e o pranto jorrou. quando me vêem.. Podia esperar. dizem que trago moléstia contagiosa. Às vezes. pedindo serviçais. mal vestido.Ninita. desanimam. Não tinha filhos e dispunha-se a tutela-lo. Não compreendia porque os pais adotivos facultavam a Maria Quitéria liberalidades tão grandes. E. pela generosidade do casal que o perfilhara. É meu único filho. Tento a lavanderia. amigos de longo tempo. II O menino Licurgo. Maria Quitéria teve forças para acariciar o menino e entregá-lo.. D. Trazia Quitéria o semblante deformado. pequeno com simpatia. com agudeza e inteligência. queimado meses atrás por grande porção de vitríolo. Compareço. Lauro de Melo. noite alta.Estou quase cega – dizia. E somente à força dos bons conselhos em casa lhe suportava os carinhos. E apresentando Licurgo. Num minuto. O médico e a senhora. silencioso. Pranto resignado. ouvia passos de leve. a verter uma lágrima que não chegava a cair. zombava de suas poucas letras.Ofereço-lhes o menino. a dona da casa. O rosto. sempre que vinha de férias encontrava no lar a pobre lavadeira cercando-o de atenções. viúva e doente. . humilhada -. contudo. desisto. exclamando: 86 . assumindo o compromisso de assinar o sacrifício em cartório. – Mas se vier com papel passado. Sem que você faça renúncia completa.16 . Ainda assim.O garoto será nosso – disse. receberam-na entediados. Leio anúncios.. ao chegar da rua. tinha o corpo mais morto que vivo. Espantam-se todos.

ao passar distraído. Dificuldades. por fim.. Comida escassa. agora. no governo doméstico. Maria Quitéria. Ninita. as dores e as privações. que um dia não mais se ergueu. E. o Dr. partilhando por ela a mesma antipatia gratuita. mantinha-se a distância. o viúvo aceitou o alvitre de parentes bondosos. Ele. Rosana. submeteram-na a insuportáveis humilhações. Tantas lhe foram. avançava de pronto. era sombra a mover-se ajudando calada. quanto podia. foi sequer respeitada. Depois de muitos dias e noites esfalfantes. À mesa. como se fossem elogios adocicados. não perdia oportunidade para magoá-la. mais cansada. a esposa jovem. passou a sofrer rude trato. decidindo-se por alguns meses no campo. Ninita. Licurgo e Rosana. Inconsolável. III Jovem médico e recém-casado. Maria Quitéria. Roupa humilde subtraída à velha canastra para servir como esfregão na limpeza dos pisos. de parceria com o pai pelo coração. Dr. colérico. a caminho da morte. à arruinada saúde de D. a pobre criatura tartamudeava palavras de reconhecimento e alegria. servia-lhe quitutes raros em regime de exceção. 87 .Você é uma excelente megera. Nem mesmo a memória de D. Vigílias. nas proximidades do tanque de lavar. buscava os pejorativos mais duros para lançar-lhos em rosto. com sorridente expressão.“Você é uma excelente mamãe”. Acostumada a vocabulário restrito. junto deles. Se lhe dirigisse qualquer olhar de enternecimento. abandonada agora aos caprichos dos donos mais moços da casa. ainda mesmo sob ameaças. batia a porta. Velhos sapatos no fogo. à feição de um gato ferido. consagrava-se. Entretanto. como se ele houvera dito: . porém. Quando a via rondando o quarto. nunca se encorajava a sair. a doente cerrou os olhos do corpo para não mais abri-los. Licurgo de Melo. por ela invocada nos momentos difíceis. E. mergulhando-lhe a cabeça disforme na tina d’água. E. porém. a expulsão.

Era noite. conhecemos Maria Quitéria. carregando o cenho. Entre leitos anônimos. tomando corajosamente a palavra. mas escapara. Visitamos. descartando-se.ordens. e. enquanto a infortunada viúva dormia. que se abriu facilmente. explicou-lhe a palavra total. O velho médico ouviu todo o relatório. ante as duas patentes médicas. dedicados à assistência cristã. extra . Maria Quitéria era um trambolho difícil de conservar. Lauro. chorando – porque não me disse tudo? 88 . que conhecia agora os segredos do sofrimento moral. O pai. possuía o corrosivo em casa. chorou intensivamente. embora conservando monstruoso semblante. Licurgo e Rosana ajoelharam-se ao pé da cama: . Era tarde. perguntou pela serviçal.. como material de serviço. Dr. depois. agora irreversível. diante da aversão que sua presença sempre lhe causava. Dr. Maria Quitéria sofrera terrivelmente. Lauro tomou-lhe o pulso e abanou a cabeça. E. A pedido da própria Maria Quitéria. com saborosos confeitos. A cirrose do fígado agravava-se pouco a pouco. Lauro de Melo ao antigo solar em que fora feliz. ao contar que fora o próprio Licurgo. enfim. assim. abraçado à esposa. ele.Afinal de contas. dominadora. Maria Quitéria agonizava. ao que Rosana informou displicente: . ante a saudade constante da companheira. Ela temia fazer o filho infeliz. igualmente banhada em pranto. e Licurgo.Mamãe! Mamãe! – gritou ele. Nada conseguia reter a esclerose retrátil. em seu leito de angústia. Depois do chá. Licurgo chorava. a esposa desencarnada e ele se abstiveram de dar-lhe a conhecer a realidade.. com toda a facilidade. Na noite seguinte ao dia dos funerais dele. operário simples de uma grande oficina. Na mesma noite. a cãs principesca do filho que a conhecia. entornara-lhe o ácido na face. desterrou-a para uma seção de indigentes. Licurgo. demandaram à enfermaria.Agora é leva-la à força para o hospital – dissera Rosana. quando menino de quatro anos. por fim... na inconsciência infantil. desconhecendo-ª E vimos a volta do Dr. quem lhe despejara no rosto um vidro de ácido sulfúrico. IV Atendendo à oração de dois estudantes de Medicina..

Deus te abençoe meu filho! E.. Daria tudo para erguer a mão quase fria e afagar-lhe a cabeça.Mamãe. minha mãe. dormiu. na viajem para a vida melhor. qual humanitária cirurgia.. e veio ter conosco. E dormindo em nossos braços. perdoe-me! Ela. reunindo todas as forças e como se nunca tivesse razões para perdoar. perdoe-me. A enferma. Licurgo. enternecida. A morte. e pediu: . viu que aquele inesquecível olhar o reconhecera. passeando a triste expressão do olho semi – morto pelo aposento. Ao calor do abraço filial. guardava a expressão serena de um anjo. identificando as visitas. leve-me para casa. disse ainda: . 89 . cobrou ânimo e contemplou-o. não mais voltou.Meu filho. Entretanto. porém. mas não pôde. nas raias da morte. refizera-lhe o rosto. meu filho. encharcado de lágrimas. simplesmente falou: .

sempre recorria aos préstimos de benfeitor desencarnado que ajudava aos doentes por intermédio das faculdades psicofônicas de conhecida médium. um prato de saladas. e respondeu: .Parece que foi só isso.Que comeu você hoje no almoço? O rapaz informou presto: . através da médium.Eu. quatro ovos e duas xícaras de café quente. através de passes.. incorporado à médium. João indagou: . Notando que o espírito silenciara. o caridoso amigo considerou: . tudo temos feito por suas melhoras.. João? Que posso falar? Penso apenas que o único remédio em seu caso seria Deus conceder a você dois estômagos. Por mais de cinco anos consecutivos. 90 . Certo dia. moço de muita fé. dois pães com manteiga. E ajuntou: .Comi feijão e arroz. como se recorresse à memória. – e relanceando o olhar pela sala.João..O QUE ACHA O IRMÃO ? João Neves.17 .Que acha o irmão? O benfeitor sorriu. o Espírito amigo tratava da saúde de João.. dois bifes. Entretanto o problema gástrico está renitente. com inexcedível paciência. É. acrescentou: .

O que nos espanta é o carrancismo do presidente de nossa casa. do ponto de vista em que se colocam. meus amigos. no Brasil. a direção da casa de Ismael. mas “carrancismo” é a palavra com que sempre definimos a trabalho da diretoria de qualquer Instituição da qual não façamos parte 91 . – Carrancismo.O que me assombra é nossa caminhada carro-de-boi – lamentava um terceiro.. para estudar os problemas da Instituição.Sim. sorridente: . . através do médium. escutava. e por longos anos... carrancismo. . . escutava.Justamente – proclamava ainda outro .. – falava um deles. pediu um dos circunstantes: ..E o senhor Dr.. e os amigos comentavam: . não encontraríamos definição mais exata.CARRANCISMO O grupo solicitara a presença do Dr. O Espírito amigo. que ocupara dignamente. Velharia nas providências.. Carrancismo é a praga de nossa diretoria. Pretendendo arrancar-lhe uma opinião. Guillon Ribeiro.. velharia nas decisões... vocês têm razão.E o rotinismo do tesoureiro? – dizia outro – pensa por padrões do outro século.18 .. Guillon? Que diz o senhor acerca de nosso assunto? O benfeitor desencarnado deixou o silêncio em que se mantinha e falou.

Gatuno! Cão vil! Pagará caro! Ele há de ver! 92 . outro amigo acentuou: . completamente transtornado: . Um apoio fraterno.Como poderia ser até mais – atalhou Cecílio. mas infelizmente o Banco não sabe disso. Não se pode afirmar que é realmente furto. Estive com o gerente e conversamos sobre o assunto. um contínuo aproximou-se e notificou: .Soube o que? . a princípio severo. No saguão. O pequeno círculo de amigos. convicto. advogando a causa de um colega que fugira pela manhã. . é esquisito! Olhe bem que ele soube empalmar com absoluta mestria oitocentos contos de uma só vez. Roque está doente. lembre-se que ele tem os sentidos obliterados.Raimundo. O homem está obsidiado. . o assédio das entidades perturbadas e infelizes pode voltar-se contra nós. . carregou a capa que o senhor deixou aqui ontem? E Cecílio.Quem de nós está livre? Amanhã.Ora.Tenho meu coração agoniado e defendê-lo-ei até o fim. ao fugir hoje. o contador de grande organização bancária. pela manhã. carregando consigo nada menos que oitocentos mil cruzeiros. A opinião de Raimundo era água fria na fervura.OUTRA OPINIÃO . que se arvorara em defensor do colega. conciliador -. ora! Isso é dever de nós todos – respondia Cecílio. Era Raimundo Cecílio. porém. Raimundo.19 . o senhor já soube? . É preciso compreender. solucionando-nos as dificuldades morais. Nosso caro Roque não agiu com premeditação. graças a Deus temos em você um companheiro espírita compreensivo e cristão. gritou. como que se adoçava. E enquanto o grupo chegava ao serviço.Sr.O Roque. E continuava: .Entretanto – opinou um companheiro -. Doente da alma.

Companheiro dos humildes. o caso merecia apontamentos diversos: . E à tarde.Cotizemo-nos todos para ajuda-lo. . todas as atenções se voltaram para ele. nosso amigo perderá simplesmente o polegar. com o braço direito em tipóia. parecendo raio de sol dissipando as sombras.20 . até mesmo de aviões projetados ao solo. . Por que o infausto acontecimento? – expressava-se um colega materialista. No trabalho. era um sorriso generoso. junto à máquina de que era condutor. Onde houvesse a dor a consolar. quando foi visto de mão a sangrar. Longe desse quadro.Felizmente. Todo o braço direito está ferido. Suas colegas de fábrica rasgaram peças de roupa. mas será reconstituí do em tempo breve. e justamente Saturnino. O chefe da tecelagem. Nas maiores dificuldades.Porque um desastre desses com um homem tão bom? – murmurava uma companheira.Tenho visto tantas mãos criminosas saírem ilesas. tão bem observada? Saturnino é espírita convicto e leva a sério o seu ideal. que nos ajuda a todos. O cirurgião informou. era o amigo fiel do horário e do otimismo. Mas também não faltou quem dissesse: .Devemos ajudar Saturnino. Na caridade é um herói anônimo. Vive para os outros. a fim de estancar o sangue a correr em bica.Que adianta a religião. sorrindo: . Operação feliz. porém.O MERECIMENTO I Saturnino Pereira era francamente dos melhores homens. Não só isso. solícito. o amigo de todos. A caridade em pessoa. quando o acidentado apareceu muito pálido. vem de ser a vítima! – comentava um amigo. aí estava de plantão. conduziu-o ao automóvel.. internando-o de pronto em magnífico hospital. Saturnino ferido! Logo Saturnino.. traumatizado. . 93 . entre o pasmo e a amargura. Por isso mesmo. Amoroso mordomo familiar. carinho e respeito rodearam-no por todos os lados.

Lágrimas de conforto. alijaria você todo o braço. porém.Há oitenta anos. 94 .. Entretanto. desde a primeira mocidade. bondoso: . Sessão íntima.E você implorou existência humilde em que viesse a perder no trabalho o braço mais útil. quando Macário.. dirigiu-se a ele. Excursão de trabalho. Acontece. lutando. Você hoje demonstra indiscutível abatimento. cujos gritos lhe ecoavam no coração.. após traçar diretrizes. compareceu. meu filho. estava triste. por muito tempo. ao serviço. Contudo.. Saturnino derramava grossas lágrimas.. o orientador espiritual das tarefas. Por muito tempo. nem se entregue a tristeza inútil. contemplando mentalmente o caldo de cana enrubescido pelo sangue da vítima. Na manhã seguinte. com as próprias mãos.Saturnino agradeceu a generosidade de que fora objeto. esperava o encerramento. Sorriu. Por muito tempo.. mostrando no rosto amorável sorriso.. Regozije-se. certo dia. II À noite. E continuou: . pontual. programou a excursão presente. ao conhecer a Doutrina Espírita. Não estamos aqui para elogiar.Saturnino. resignado. não tem motivo. em amor. que formulou uma sentença contra você mesmo. você.. em sua cadeira humilde. esmerando-se no dever. Você tem trabalhado.. porque pobre empregado enfermo não lhe pudesse obedecer às determinações. mas perdeu só um dedo. porém. de apaziguamento e alegria. Mas. o operário. no Plano Espiritual. O Pai não deseja o sofrimento dos filhos. compareceu à reunião habitual do templo espírita que freqüentava. você. meu amigo! Você está pagando. em companhia da esposa. Apenas dez pessoas habituadas ao trato com os sofredores.. obrigou-o a triturar o braço direito no engenho rústico. tem os pés no caminho do bem aos outros. Sei. Proferiu palavras de agradecimento a Deus.. seu empenho à justiça. de reajuste. Quando você se preparava ao mergulho no berço terrestre. era você poderoso sitiante no litoral brasileiro e. e o plantio disso ou daquilo só pode ser avaliado em definitivo por ocasião da colheita. por débito legítimo.. toda vez que nos apresentamos em condições para o desagravo. De cabeça baixa.. porque você continua lutando. Fez uma pausa e prosseguiu: . Saturnino.. Todas as dores decretadas pela Justiça Divina são aliviadas pela Divina Misericórdia. você andou perturbado. Consagrado ao serviço da prece. não se creia desamparado. que hoje.

Não estou doente. Fui apenas acidentado e posso servir para alguma coisa. E caminhando. como se todos devessem ouvi-lo: . respondeu simplesmente: .O senhor está enganado.Graças a Deus! 95 .É porque o fiscal do relógio lhe estranhasse o procedimento. fábrica a dentro. falou alto. quando o médico o licenciara por trinta dias.

A palavra dele conquistava simpatia crescente. Como. 96 . forma. Visto disfarçado em tigre. solucionar o problema? O círculo de confrades entrou em oração. rasgando-lhe toda a pele. e ele rogou parecer ao mentor da Casa. porém. sãos e doentes. zurrando. o Amigo Espiritual compareceu bem-humorado e. O burro. o burrico seria respeitado. pelo crivo da análise. zurrando. fez-se nédio. quanto à necessidade de se coibirem as mistificações nos fenômenos mediúnicos. falava. com isso. porque não tivesse recursos.. falou conciso: – Meus irmãos. gesto. Através do médium. depois de saudação fraterna. E o burro. a distância de casa. o homem achou um tigre morto. a fala de cada um. surgiu uma noite em que jumentas vararam a paisagem.A FALA DE CADA HUM Logo após o início da sessão. O muar fartava-se de cevada e. contente da vida.. com atenção. Recomendava o estudo constante. Em seguida. escutem. enfraqueceu- se o animal por falta de forragem. porém. zurrou e zurrou também. sem serem... e assim aconteceu. encarnados e desencarnados. despretensioso. era recolhido pelo dono à pequena estrebaria. Mas. O orientador fez uma pausa e continuou: – Nome.. a pessoa em si. concluiu: – Se vocês quiserem realmente conhecer benfeitores e malfeitores. Era preciso tudo fiscalizar. Cacique de Barros. manhãzinha. sábios e ignorantes. Os fazendeiros. de modo algum. nesse regime. há uma lenda hindu que nos esclarece..21 . acordado nas afinidades do instinto. distinto baiano que foi valoroso missionário dos princípios espíritas no Rio Grande do Sul. descobriram a farsa e mataram-no a cacetadas. E teve uma idéia... fama e autoridade são aspectos na pessoa. Um homem necessitado era dono de um burro que lhe prestava grandes serviços. Mas. Encarecia a meditação. Cobriria o humilde cooperador com a pele do tigre e soltá- lo-ia cada noite nas terras dos fazendeiros vizinhos. Passeando.

Ele interpretara-lhe o silêncio pelo “sim”. mas o cinema coroara a aventura com um beijo. criticavam colegas.Estou em dificuldades com meu professor de latim – dissera. sentiam-se como numa ilha de encantamento. sem morrer. mergulhando o olhar um no outro. Desde então. . sem responder. Acariciara o sonho de esposar Jorge e criar-lhe os filhos. ela. como quem patinasse acima das nuvens. Ninguém poderia dizer o que teria acontecido depois. Haviam assistido a um filme pitoresco. como resistir? Jorge assobiava todas as noites.22 – SUICIDA I Desde o momento em que sorvera a mistura venenosa.. Queixavam-se dos professores. Desceram. Lembrava-se de tudo. Jorge chamara um táxi. Não conseguira desvencilhar-se do braço que a envolvera.. Inebriada. Começou pedindo-lhe livros. E tudo se agravou numa noite de chuva. seguiu o companheiro. A mãe entretanto. Percebera a manobra. confiante. entregara-se ao rapaz. sorria e deixava passar. Uma jovem tímida. contrariada pela família. Sonhava. nem sempre têm bom caráter”. Qual se fora um animal hipnotizado. Ela não tinha voz para dizer-lhe “não”. Nem viu quando o moço fez sinal ao motorista. contudo a conversação. com quem fugiu. O pai costumava dizer-lhe: “Cuidado com os rapazes de hoje. iam juntos ao cinema do bairro. Dois anos de vã esperança. 97 . embora freqüentassem instituições diferentes. achava-o antiquado e exigente. com intenções ocultas.Você teria coragem de acompanhar-me num longo passeio? – perguntou ele. Sob a marquise. E levara-lhe a gramática. pensavam no tema. Após quatro semanas de convivência. Automaticamente. Via-se desprezada. encontravam-se noite a noite.. encantada. Ela corara. sentia-se deslizar no asfalto. porém. Complicara-se. Refletia na heroína do filme. Deixou-se conduzir. A princípio comentavam estudos. . Na queria viver mais. Além disso. Marina sentia-se morrer. voltando no outro dia para solicitar informações.. À frente da garoa persistente.

Um belo leito de casal estava perto. como se a noite compassiva desejasse apagar vulcão de sentimentos e idéias a lhe transtornar a cabeça.“Todos devemos orar. Entre os dois. o táxi. Que fazia ali a imagem do Cristo? Recordou em relampagueantes pensamentos repetidas palavras maternas: . ao deixá-la em casa. Senhora gorda e afável atendeu. prestimosa. agora. A viajem de volta não apresentava o sabor da vinda. II Ele apertou um botão que encimava um florão da parede. tornando à sala. sorrindo.Conversaremos amanhã – disse Jorge simplesmente. Na parede um retrato do Cristo. Chorou. . . Depois do chá. e acalmou-a . Jorge enlaçara-a e as horas se perderam da imaginação.. à frente do paraíso. e indicou-lhes quarto próximo. generoso. como se fosse uma rosa despetalada que devesse retornar ao jardim. Jorge despertara. e pediam abrigo por alguns minutos a fim de conversarem a sós. A chuva apoquentara-os. E continuou loquaz. A senhora hospitaleira. tinha no rosto a calma das enfermeiras de plantão. alta madrugada. 98 . Lembrou-se do lar.. A dona da casa nem de leve se surpreendera. chamado pelo telefone. enquanto ocupavam pequena sala.Tolinha. Mal teve ela tempo para relancear os olhos pelo recinto. embora estremunhada. Transpuseram um pequeno portão. Acordou junto dele. Levantaram-se. não há motivos para lágrimas. O moço pediu chá e explicou-lhe algo em voz baixa. o silêncio. como se o tempo estivesse morto. A pequena escada pareceu-lhe um trecho de espaço.Minha velha amiga – dissera Jorge.Pingos de chuva caíam-lhe nos cabelos de menina e mulher. O moço tomara-lhe a mão trêmula e arrastou-a quase. Alguns instantes de espera e abre-se a porta. compareceu.” Mas não dispunha de espaço mental para ocupar-se do assunto.

por que me mataste?” Acordava. perturbada. aparecera-lhe o outro lado da vida. sem rebuço. no lençol. Conheceu mais de perto a residência da cancela rosada. III Desde essa ocasião. no entanto. sentira-se diferente. como vidraça clara atravessada por largo jogo de sombras. Todavia. Apresentou-a . Para isso. Queria ser mãe. Tinha vertigens. Conversou mais demoradamente com a mulher que velava e conheceu outras clientes do do pequeno edifício. Via-se perseguida por alguém. que lhe deitava olhares ambíguos. rogava conforto. mãezinha? Mentira pela primeira vez. Passavam-se agora semanas de ausência. Desde o aborto era outra. Estudos intensivos.Porque afligir-se. mas submeteu-se a tratamento. exigia-lhe calma. Dizia-se também cansado. tinha sonhos alucinantes. que sempre considerara noivo em particular. E estarrecera-se. Revoltava-se diante dele.Rouquenha voz lhe gritava aos ouvidos: “Mãe. Vomitava. Sentia-se visitada por idéias estranhas. nos últimos tempos.O coração materno esperava-a. E afirmara. Ele sempre a dissipar-lhe os temores com a promessa do matrimônio.Marcília nada respondeu. buscara Jorge na esperança de mais decisivo socorro médico. Jorge.Parecia adivinhar tudo. O amigo. . como passaria a mentir sempre – a chuva atrazou-nos em excesso e descansamos em casa de Jorge – afirmara. Processou-se o aborto esperado. desde então. fizera-se arredio. Na véspera. Contava-lhe os sonhos. enxugando o suor álgido. pela inquietação que denunciava. 99 .Companheira de infância – informou. D. Mas. que pretendia casar-se dentro de poucos dias. estava com outra. suspirando fundo. porém. Jorge levou –a ao gabinete de um médico ainda jovem. E não obstante a caratonha do relógio mostrando as três horas. Parecia-lhe viver com o filho que não nascera.mãe. beijando-lhe a face. Ele ria-se e falava em consulta ao psiquiatra. Ao fim de quatro meses. Pedia conselhos. . Telefonava-lhe. precisava casar-se. Devia terminar o curso de bacharel.

retomando o braço da jovem que sorria. Suplicava socorro. Seis homens aproximaram-se. Pavorosa dor irrompeu-lhe na carne. Não a amava. atendia aos seus apelos. . Dois homens colocaram-na em “vasta gaveta”. Empalidecera. sem qualquer consideração. Não apenas chorava. Rugia em contorções. E afastara-se. nos nervos. antes de mais sérias dificuldades. a ignorar-lhe a tragédia. Agitava-se. Convulsões sucessivas não lhe permitiam morrer. mais experiente. pela manhã.É melhor terminarmos assim . sorridente. tranqüila. A idéia de suicídio envolveu-a de todo. Arrastou-se de regresso a casa.. no entanto. Entretanto. Escreveu bilhetes. Ninguém. parecia conduzir outros cinco. nas o próprio sofrimento não lhe conferia o privilégio das discriminações. Adquiriu a substância letal... Um deles.falou. frio -. Ela implorou em lágrimas. a única interpretação que podia dar ao espaço fechado de pequena ambulância. nos ossos. 100 . E. confessou impassível. ouvia sua própria mãe gritar como louca: “Morta! Morta!” Ouvia algazarra. mas ninguém lhe percebia agora os terríveis lamentos. sorvera a porção de uma só vez. conduziu-a a pequena distância e explicou-se. Viu-se carregada. . indiferente à dor que a fulminava. de encontro ao que lhe pareceu “laje fria”. no sangue.Dissuada-se – concluiu quase áspero. Jorge. Viu-se atirada. IV Mundo íntimo desmoronado.A rival cumprimentou-a.

O mais velho. com todas as dores e convulsões de momentos antes. Dois dos cinco rapazes presentes tocaram-lhe o corpo. Viu-se separada do próprio corpo. Desejava retomar o corpo e viver. enquanto o cavalheiro amadurecido. refazer a existência. Mas a operação prosseguia.enfim. Nenhum dos circunstantes lhe ouvia os brados. desnudaram-na. . Mas.. Arrependera-se. Beliscaram-na. Poderia sobrepor-se à situação.Queria ajoelhar e pedir-lhes a necessária assistência. . O corpo que ela própria arruinara apresentava máscara triste. tateando-lhe o busto: “Porque matar-se desse modo?” Sentindo-se em desespero total. clamava que não. longe de garanti-la. Mãos ágeis trabalhavam-lhe as vísceras. . como jóia que salta mecanicamente do escrínio. Pensava no martírio dos pais. em grande avental branco. em pranto. Era demais. fez mais. exclamou. Entretanto..Terminassem a operação! – pedia. Trabalharia por vencer.Assassinos! Assassinos! – estertorava. desrespeita-la. V O homem amadurecido afastou-se por minutos como quem se esquecera de trazer algum remédio a fim de ajuda-la.Mãe! Minha mãe! – clamou aterrada – quero viver! Viver!. sentiu que continuavam a lhe cortar a carne. ela mesma – cambaleava. mas recuara. Tinha pressa. reconhecendo tratar com jovens cirurgiões em estudo. indignada ante o vexame evidente. Pareciam desconhece-la.. Reconhecia-se jovem ainda. Desejava tranqüilizar os pais. de pé. separando material de exame necrológico. 101 . Tomou de um bisturi e abriu-lhe o abdômem. Ouvia vozes. E mais que isso. ela – Marina. E conheceu a verdade. de olhar irônico. Tentara o suicídio. falava em “cianetos” e “cheiro de amêndoas amargas”. em meio das sensações turbilhonárias que lhe atormentavam a alma. Um dos moços.. Alguém dizia: “Bela mulher!”. Alarmou-se.

Mãe.e o suicídio. aturdida. Lembrou. contudo. o aborto. os sonhos. 102 . mas apenas sentiu que braços vigorosos a aprisionavam..Outra voz. eu também quero viver!.. Procurou com os olhos agoniados quem lhe falava. bramiu-lhe ameaçadora e sarcástica aos ouvidos: . minha mãe. a tortura.. Mais era tarde. e esforçou-se terrivelmente para voltar e erguer de novo o corpo tombado na mesa fria..

Confiemos em Jesus. desfaleço!.. em grande cidade mineira.. Era D. D.. Nas preces seguintes. certa noite.Olhe por mim. Irmã Nélia! Tenho sofrido demais. Flavinha repetia: ..Tudo melhorará. Seja a fé nosso guia. Flavinha rogou com mais lágrimas: 103 . materializada.. tenhamos paciência e coragem. não desanime! Outras seções e outros clamores. D.... Flavinha: .. confortava: . Irmã Nélia! Minhas provações são terríveis! Que será de mim? Traga-me um consolo! A mensageira em serviço respondia: . quando.PRESENTE IMPREVISTO . Na reunião imediata..Filha. Que será de mim com tantas dores? A piedosa entidade balsamiza-lhe a alma: . Irmã Nélia sofro imensamente! Ampare-me!. não esmoreça! Com o dever retamente cumprido.Ó Irmã Nélia. receberemos do Senhor novas bênçãos! Não desanime.23 . Socorro. Flavinha clamava: .Flavinha quem pedia à entidade amorosa. A situação perdurava por mais de um ano. E Irmã Nélia. voltava D. D. A luta é instrumento de redenção! A dor é uma bênção que a Lei de Deus nos envia. minha filha! Acalme-se. E a emissária do bem: .Jesus é por nós.Filha. na sessão de efeitos físicos. Rearticulada a assembléia de oração.

. sim.. por Jesus.. Quando a seção terminou.Irmã Nélia. tentarei. Grande e curiosa chupeta.. No seu colo estava.. Tentarei. D. Flavinha sorriu pela primeira vez. por amor de Deus! Sua caridade tem trazido aqui o remédio para tanta gente! Lembre-se de mim! Traga-me.. 104 . não posso mais! Auxilie-me.Sim. algum socorro mais decisivo! E Irmã Nélia informou: . bem-posta.. embora extremamente desapontada.

colérico. ouve a menina. Depois de perguntas ásperas. Viúvo. que completa 32 anos de idade. cantarolas na rua. João apalpa os bolsos. que fala em pranto: .. escuta vozes no jardim. Antônio. e internam-se. Em homenagem ao imperador D. Não somente isso. o choque da morte. os dois. comerciante de jóias. visita o interior doméstico e volta à presença da filha. esperava Maria Amélia. e ainda percebe o par em doce adeus. Abeira-se da moça que volta do baile. mas vê-se desarmado. há beija-mão no Paço Imperial do Rio de Janeiro. Aguardo um filhinho. rilhando os dentes.É calmante – diz ele -.. Perdoe-me. mas tudo melhorará. agora silencioso.Papai não me queira mal. a filha única. largamente conhecido pela honestidade ilibada. em dores indescritíveis. Aproxima-se. João Ferreira de Sousa. estendendo-lhe um copo com líquido indefinível. a versão paterna estava aceita. sente. . girândolas no ar. Sorvera arsênico em grande dose.. desde muito.O BOM HOMEM I Noite de 2 de dezembro de 1857.. Inquieto. No dia seguinte. Pedro II. é pobre. pelo amor de Deus! O comerciante. e parte apressado.. Onze da noite. sorrateiro. muito pobre. Um homem que ele desconhece beija-lhe a filha. Ajude-nos. 105 .. o rapaz que escolhi. papai.24 . Sai pela porta dos fundos.. consagrara-se a ela. bailes. na casa em que são eles os únicos moradores. tome e descanse.. Era-lhe a jovem toda a esperança da vida. mas espero casar-me. A moça obedece e. Há festas públicas. Amanhã conversaremos. logo após. Em humilde residência suburbana.

. numa festa íntima. em grande arrabalde do Rio.. E quando o filho se despede da menina. na casa em que nasceu. Consagrado à afeição de moça humilde. toma um vidro e verte o conteúdo na taça com água. Na pequena farmácia caseira. muito pobre. onde com ela se encontra. interpela-o de chofre. papai. cai gemendo com dores lancinantes. Lenita. acabrunhado. E o próprio pai. 106 . Perdoe-me. para receber a morte logo após. II Noite de 2 de dezembro de 1957. O pai. Muito tempo depois. A advertência é clara e incisiva. Busca o interior doméstico. bebendo o líquido. à procura de um antiácido. afagando-lhe em lágrimas o corpo inerte.. inquieto. algo explica: . afasta-se o genitor em silêncio. que não lhe apóia a pretensão. noutro corpo de carne. em seguida.. enternecidamente. O moço. Ajude-nos.Papai.. Aguardo um filhinho. a moça que escolhi. arde-lhe o estômago. Pesa-lhe a cabeça. é pobre. João Ferreira de Souza. afasta-se do sarau. ingerira arsênico.Todos acreditaram tratar-se de suicídio.. E. não me queira mal. Mas o jovem. em transporte afetivo. está nervoso.. rumo ao jardim. mas espero casar-me. em grande dose. João Ferreira de Sousa desencarnou. com o título de “bom homem”.. Crendo valer-se de sal medicamentoso. mas tudo melhorará. está jovem. acreditou tratar-se de suicídio. segue-lhe os passos. pelo amor de Deus! Sensibilizado. porém.

Um dia. Explorou-lhes o coração. Lola. Rosto enrugado. e que ela própria vivia. Amedrontada. Dom Jairo. E quando o túmulo lhe acomodou os restos no esquife estreito. às ocultas. entretanto. mais forte. Um dia. porém. veio. que abandonara esposa e filhos para fazer-lhe a corte. Desesperou-se. e Dom Jairo Carízio. arruinaram a própria vida: Dom Gastão Álvares de Toledo. o espelho contou-lhe a história da velhice. aprendeu a encontrar o socorro da prece. 107 . até que se vissem. onde encontrou a morte.. desceu. que Dom Gastão não morrera. Estonteante beleza. mãos piedosas traçaram-lhe nova senda. Transportava a graça nos pés.25 . Cabeça branca. que assassinara o próprio pai. Borboleta humana expressando mulher.Perfumaria e seda farfalhante. revoltados. Bailarina admirável. salientavam-se dois que. Lola Mendez dançou e bebeu por muito tempo ainda. por ela. em duelo fatal. a breve tempo. um à frente do outro. para a caverna da loucura. era o centro das atenções. Ao fim de cada espetáculo. Passo lento. eliminou o rival. queria mais. Dentre todos os admiradores. Ceias lautas. no entanto. Peregrina do sofrimento errou longo tempo nas trevas. com estocada irresistível. a saber. Chorou.LOLA-LEILA I Sempre Lola Mendez. Soberana da ribalta envolvia-os em sorrisos maliciosos. Esvaziam-se garrafas e bolsas.. obsidiado pela vítima. que Dom Jairo padecia as conseqüências dos próprios crimes. para ofertar-lhe mais ouro.

Ressurgiram do seu sangue. Dom Gastão e Dom Jairo. fugindo aos compromissos. Queriam viver. reabilitá-los-ia com devotamento de mãe. Chamava-se agora Leila. ambos tramaram vindita. novamente em plenitude juvenil. se divertia. sessenta e. se diz dominada por fantasmas. excitados. contudo. expulsando-os do corpo e do pensamento. E. luxo. os antigos rivais lhe encontraram a rota. que. muito pobre. desposou Luis Fernandes. descanso. depois. II Lola renasceu. aspirava a gozar. pressionam a mente da amiga. metalúrgico modesto. como se fossem agentes da peste... Seriam irmãos gêmeos. E quando Lola. Noite alta. totalmente. Segundo o plano estabelecido. desfazendo toda a discórdia. na posição de mulher inconstante. prazeres. Buscavam-na em sonho. Banidos violentamente pela quinta vez. Dom Gastão e Dom Jairo. receberia Dom Gastão e Dom Jairo como filhos. a distância do esposo. Argumentavam. Recomeço laborioso. recalcitrava. Ela que os havia moralmente aniquilado. Menina apagada. Esconderia em lar humilde a passada grandeza. reunidos agora no mesmo instinto de esperança. Seria pobre... 108 .. Queria jóias. que se propõe conduzi-la de volta. porém. E. Antes dos vinte. noventa quilômetros por hora. O velocímetro acusa quarenta.. praticou o aborto criminoso por quatro vezes. a moça leviana toma o carro de um amigo. rogaram-lhe compaixão. A antiga devedora. Trabalho árduo. Ela se põe a beber bebidas alcoólicas. enceguecidos de ódio. agora Leila. ao lado de homem simples. A antiga bailarina. com o terror estampado nos olhos. influenciaram-na. para reeduca-los.Renasceria no mundo.

partindo o crânio. porém. 109 . e Leila.Acreditando-a sob o domínio exclusivo da embriaguez. abre-se a porta. Do outro lado da vida. cai no asfalto. Atritam-se.. Leila era violentamente agarrada por dois feros algozes. sem largar o volante.. nas anotações da manhã seguinte. entre os homens. ontem Lola. E antes que o freio funcionasse.. foi o número da ambulância que recolheu na rua o corpo de uma mulher morta. E de tudo o que ficou. na madrugada cinzenta. o acompanhante da noite alegre procura contê-la. O carro dispara..

26 . Acompanhara a desagregação das próprias vísceras. por beneméritos guardiães do Mundo Espiritual. fora talvez mais cruel. Durante o dia. Chorara. ansioso. Dulcila era tudo. depois da ausência de trinta anos. Entretanto. sempre ela a guia-lo. Bebia a esperança por seus olhos azuis.. Ela. Os próprios genitores haviam tramado a separação. desejava prosseguir esperando-a. por toda parte. mentalizando o lar do futuro. procurava-a deslumbrado em cada sorriso de criança e supunha vê-la no colorido de cada flor. Socorrido. “O tempo é o anestésico do amor” – dissera-lhe a palavra maternal. Embora as exortações dos benfeitores que o recolhiam. dizendo “papai”. E tornando a casa. porém. Luz interior. mas sabia agora que o túmulo não apagava a existência. entre severa e confiante. Ela sorria. faziam promessas de eterno amor. a família fora inflexível. A escolhida transformada em esposa. 110 . emocionado. Devaneava. Complicações atrás de complicações. de leve. amargara o suicídio. Por ela. e filhinhos a lhe abraçarem o pescoço. Lutava contra. Loucura. Portugal seria o desterro. a praia sem diques. fora Dulcila a visão regenerativa.Os cabelos eram bastos fios de veludo negro a lhe emoldurarem a expressão de menina. Dulcila era a imagem constante dos sonhos que lhe povoavam a noite. E o ninho da janela florida desaparecera. Seria enviado ao estrangeiro. por ele mesmo. O veneno banira-o do corpo. temores. segregado em pavoroso abismo. Anjo refletido no espelho de sua própria alma. sim. tornava a Olinda. contudo. Chorando. Aurélio. olvidava dificuldades. A casa paterna tinha moradores diferentes.ÚLTIMO ARGUMENTO Não queria reencarnar. viu de novo o mar tocar. Entretanto. Não resistira. Junto dela. tonto de felicidade. na pequena cancela da casa pobre. Padecera o indescritível. desencarnado. Contrariado pelos pais que não lhe aprovavam a escolha atingira as raias da impaciência. o vazio melancólico.. feliz. sofrimentos. submetera-se às instruções para o reajuste e esperara o tempo com paciência. corada. Aguardava. o instante de recolher-lhe o sorriso de doce colegial. Aqui e ali. Em todas as dores e expectações. Esperar a mulher que lhe embelecera os sonhos da juventude. colhia margaridas silvestres para ofertar-lhe um buquê. Com semelhantes reflexões. assim. Passeavam de mãos dadas. Perdera-a. O exílio procurado.

Duas jovens. No pátio. Acompanhou-o e. Tudo bem? Gente boa? .. no entanto sentiu-se mal.Que choro é este? – perguntou assombrado. 111 .São vozes de crianças não nascidas .. Dulcila. Aurélio recuou.. Contornaram o edifício. em lágrimas abundantes.. rogou à Divina Providência a felicidade de renascer.Nada menos que dois mil cruzeiros cada um. procurava disfarçar as pregas do rosto. ostentando cabelos tintos e jóias caras. Caído. a mulher que lhe fora ídolo estava agora junto de um homem de meia-idade.Quantos casos hoje. Desolado.Quatro. estamos numa casa dedicada à criminosa indústria do aborto. Era complacente amigo do lar espiritual de que se fizera hóspede. Ouviu choro de crianças. Um não sei quê lhe causava repugnância. minha Cicila – exclamou o cavalheiro risonho -. piscando um olho.. ganhando os fundos. senti-la de perto outra vez. O amigo arrancou-o ao torpor. em poucos instantes. Queria vê-la.Minha Cicila.disse o companheiro -. Vamos celebrar. O recém-chegado pespegou-lhe um beijo na face pintada e perguntou: . você hoje merece jantar fora. Choro alto.Como não? – respondeu a dama. . Como que varado por bala assassina.. em avental muito branco. . À porta de pequeno pavilhão estava gorda senhora. ouviu alguém: . Mais pelo olhar que pelo porte. Aproximou-se. .. vamos! vamos! Voltou-se. deitadas em leitos simples. Aurélio baqueou.Aurélio.Dulcila! Dulcila! Onde estava Dulcila que não soubera ou não pudera espera-lo? Chorou em prece. mostravam profundo abatimento. São oito mil. . meu amor? . ali mesmo. atingiram elegante residência em Recife. conduzindo-o para dentro. no pátio interno. nela reconheceu a amada de outro tempo.

. subia. Reparava na formosa paisagem. como que arrastado pela vontade de alguém num torvelinho de amor. à maneira de pássaro teleguiado. incapaz de voltar ou seguir adiante. Algo lhe dizia no íntimo para que não avançasse mais.. Grossas lágrimas banhavam-lhe o rosto.VISÃO DE EURÍPEDES Começara Eurípedes Barsanulfo. no curso de quase vinte séculos. reconheceu-se na presença do Cristo. e descer. o apóstolo da mediunidade. à noite.. e a mensagem d’Ele a ecoar entre os homens. porém..27 ... Baixou a cabeça. quando. Afagar-lhe as mãos ou estirar-se à maneira de um cão leal aos seus pés. em que estacou. Como que magnetizado pelo desconhecido. e ficou em silêncio. respirando num oceano de ar mais leve ainda. aproximou-se.. na literatura e nas artes. Embora inquieto. os templos do mundo. Queria parar. 112 . quando não longe. até que se reconheceu em campina verdejante. no Estado de Minas Gerais. Braços intangíveis tutelavam-lhe a sublime excursão. Houve. humilde. Subia sempre. em Sacramento. viajou.... Traspassado de súbito sofrimento. esmagado pela honra imprevista.. desejou fazer algo que pudesse reconfortar o Amigo Sublime. em admirável desdobramento. um momento. E num deslumbramento de júbilo. Respirava outro ambiente. por ver-lhe o pranto.. sentindo-se como intruso. a observar-se fora do corpo físico. quando adquiriu coragem e ergueu os olhos. viu a si próprio em prodigiosa volitação. avistou um homem que meditava. certa feita. Ofuscado pela grandeza do momento. Viu. Envergava forma leve. que Jesus também chorava... trêmulo... porém. começou a chorar. Recordou as lições do Cristianismo. Mas estava como que chumbado ao solo estranho. Viajou. subia. as homenagens prestadas ao Senhor. reavendo o veículo carnal... mas não conseguia.. envolvido por doce luz..

meu filho. Como se caísse em profunda sombra... E desde aquele dia. os tormentos do Cristo. mas não o praticam. respondeu em voz dulcíssima: .Recordou.. desceu. na Terra. no entanto. Nessa linha de pensamento. Levantou-se e não mais dormiu. não se conteve. E acordou no corpo de carne. não sofro pelos descrentes aos quais devemos amor. o missionário de Sacramento notou que o Cristo lhe correspondia agora ao olhar. Choro por todos os que conhecem o Evangelho. desceu.Choras pelos descrentes do mundo? Enlevado. Abriu a boca e falou suplicante: . sem repouso sequer de um dia..Senhor.. lhe atiram incompreensão e sarcasmo. a se perpetuarem nas criaturas que até hoje..Não. ante a dor que a resposta lhe trouxera. por que choras? O interpelado não respondeu. Era madrugada. sem comunicar a ninguém a divina revelação que lhe vibrava na consciência. entregou-se aos necessitados e aos doentes. Eurípedes não saberia descrever o que se passou então. Eurípedes reiterou: . 113 . E. após um instante de atenção. Mas desejando certificar-se de que era ouvido. servindo até a morte.

em profundo silêncio. E falou em seguida: . por si mesmos. o caminho. qual é o nosso dever maior.Senhor . aclarou docemente: . Um homem. então. isto é. ouviu os rogos de socorro que partiam do infortunado reduto e. que por ali passava.Em meio de grande tempestade. continuando em sua contemplação do céu. Correrias.disse Tadeu a Jesus. Pragas. enorme conflito. inúmeros viajantes se recolheram a enorme casarão que se assemelhava a um labirinto. Crimes nas trevas..O ENSINO DA LUZ .28 . vindo a noite.E tudo o mais ser-nos-á acrescentado 114 . em vão procuraram o lugar de saída.Assaltos. . como exilado buscando alguma visão da pátria longínqua. Se a luz do bom exemplo estiver entre nós. Pancadas. Procuremos o Reino de Deus e a sua justiça. E que fazer. cada qual se escondeu nos quartos mais internos e. para semelhante conquista? Jesus. O Mestre fez grande intervalo e voltou a dizer: . após o dia de trabalho estafante -. Senhor. ao mesmo tempo que encontravam. a porta libertadora. Bastou a luz dele para que todos percebessem os disparates que vinham fazendo. Lamentos. Porque sentissem medo uns dos outros. vivamos no amor puro e na consciência tranqüila. os outros perceberão. com facilidade. acendeu a sua candeia e passou entre os amotinados. na execução do Evangelho para a redenção das criaturas? O Mestre fitou o céu azul em que nuvens pequeninas semelhavam estrigas de linho alvo.. Começou. longe de gritar ou discutir.