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FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
E
WALDO VIEIRA

A VIDA
ESCREVE PELO ESPÍRITO HILÁRIO SILVA

Com o bom livro, caminhamos na direção do futuro e recebemos da Divina Imortalidade e
nossa gloriosa destinação de filhos da Luz.

Emmanuel ( Cartas do Coração)

Caro Amigo:

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Que Jesus o Abençoe
Muita Paz

1

...............................................................................................................................O MAIS DIFÍCIL.................. 19 9 .........DENTRO DA PRÓPRIA CASA ............................................................................................................................................................................................................ 72 8 .....................................................................................................................................................................................................................VISÃO DE EURÍPEDES ......................................................................................................................................................................7 3 ....................................................................................................................O MERECIMENTO .............................................................O GRITO........................6 2 .. 23 11 .......................................... 46 23 .................................................................CARRANCISMO..............O TEMOR DA MORTE ...........................................................CLAUDINO E A LAVOURA..................................................... 14 7 ............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................. 86 17 ...........................................................................SÓ CRESCE PARA BAIXO .........................................SURPRESA DE MAGISTRADO ......................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................OURO E BATATAS ..... 63 3 ............................................................CONTRABANDO ............. 42 21 .....................................................................................................................................LOLA-LEILA........................................................................ 90 18 .................................................................................................................... 53 27 .....................................................OUTRA OPINIÃO ...............PÁGINA DE ANÁLIA .........................................................................PERIGO EMINENTE ...........................................................................................................................................................O PREÇO DA REMISSÃO ................ 25 12 ..O ENCONTRO ............................................................. 61 2 .................................................................................................................................................................O APARTE ............ 82 14 ............................................................................................................................................................................ 97 23 ............................................................................................................................O MÓVEL DA OBSESSÃO.................................................................................................................................................................................................................UM CASO DE CIÚME....................ÚLTIMO ARGUMENTO........................................................5 1 .......................................................................................................................................NA HORA DO PASSE..................................................................................................................................................O BICO DE GÁS............................................... 79 12 ......... 81 13 ........................................................... 103 24 .....................................O COLAR DE PÉROLAS...........INSTANTÂNEO .............................................................................................................................. 78 11 .............................................................................................................3 A VIDA ESCREVE.................................................................................................................................................................................................................. 67 4 ...... 84 15 ..........................................................................................................................................................................................................................................................MESMO FERIDO ................................................................................ 92 20 ......................................................................................................O BOM HOMEM ..........O ENSINO DA LUZ..............................................................................................................................................................PRESENTE IMPREVISTO ..............................................................................................................FRUTOS .................................................................................................................................SINAIS ....................................................................A MORATÓRIA ...............................JESUS MANDOU ALGUÉM............. 34 15 ..........................................................................................................................................................................................................................................PERGUNTA CONTRA PERGUNTA........ 37 18 .......................... 39 19 ........................................................................................................................ 35 16 ....................... 93 21 ..............O LIVRO .................................A FALA DE CADA HUM .........................................................................................................................A VOZ DO EVANGELHO .....................................................BOCA TORTA ...... 45 22 .................................................................................................................................................................. 36 17 .........O CARTAZ....................................... 96 22 – SUICIDA......... 56 SEGUNDA PARTE............................................................................................NÃO VALE A PENA...................................................... 105 25 ........................................... 29 14 ............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ 114 2 .........................................................................POR CINCO DIAS ..................................................................................................................................................................................... 69 6 .................................................................................................................................................................................................DEVER CRISTÃO ................................. 11 5 .........4 PRIMEIRA PARTE .......................... 110 27 ................................ 16 8 ................................................................................ 50 25 ....................................................................................................................................EM COMBATE.................................................................................................................................................................................................................................................................... 91 19 ..................... 26 13 .............................................................................................................................................................................LIBELO .............. 74 9 ..............INCÊNDIO NA SERRARIA ................................................................................................ 54 28 ...........................................O LAR DAS CRIANÇAS .......................................O NEGÓCIO DA DOAÇÃO .................................................................................................................... 112 28 ....................................... 52 26 .....................................................POR TELEFONE ........................................................ 107 26 .................................. 60 1 .............................................................................................................................................................................................................. 20 10 .................................. 76 10 ..............................................................DEUS E NÓS ..........................................................................................................9 4 .................................. 71 7 ........................................................................................................................................................................................................................O QUE ACHA O IRMÃO ? ............................................................ 48 24 ..........................................................AMIGOS............................................................................... 85 16 ................................................................................................................................................................................. 40 20 ............................................................................................................CONSELHO TROCADO ......................................................... 12 6 ...........CALVÁRIO MATERNAL ..........................................................................................................................................................................RENDIÇÃO .................................................O CONTO DA MOSCA .........................................................................NOVO SERVIDOR ................. 68 5 ...............................

a sua mensagem simples e fraterna. liberta a cabeça de prejuízos e preconceitos. em que a informação do Plano Espiritual pudesse chegar com facilidade ao entendimento comum.NOVO SERVIDOR Incorporando-se ao trabalho que nos foi concedido. Constituída de retalhos do cotidiano. assim. Entregando-a. valeu-se das faculdades de dois médiuns amigos (1) e grafou o livro que nos apresenta de coração para coração. porém. compreendeu o imperativo de renovação. à maneira de doentes que possuem receitas seguras no bolso. em contacto com a verdade. desde o princípio da tarefa. 2 de fevereiro de 1960. E idealizou a produção de páginas ligeiras. Anotou o imperativo de se veicularem os nossos princípios. exige novas formas de pensamento para a transferência justa da vida. aos irmãos de ideal e de luta. com os pés algemados a ilusões e convenções. os médiuns Waldo Vieira e Francisco Cândido Xavier receberam respectivamente a primeira e segunda parte deste livro 3 . continuando. mas se esquivam ao remédio por falta de tempo. alcançando a mente popular. pois. Munindo-se. através das mais diversas vias de leitura e conhecimento. pedimos ao Divino Mestre abençoe o novo servidor que se enriqueça de paz e trabalho. . convidando-nos a pensar. (Médium: Francisco Cândido Xavier) (1) A convite do Espírito de Hilário Silva. Entendeu que a maioria tem dificuldades para a leitura digerida dos volumes especializados Reparou que muitos companheiros rogam orientação. de conclusões e anotações. em sua leira de luz. portas adentro de nossa atividade espiritual. desse modo. Observou que a Doutrina Espírita. Emmanuel Uberaba. ao alcance do povo. Hilário. aqui temos. Percebeu que muita gente.

Além. Contadora divina. 2 de fevereiro de 1960) (Médium Waldo Vieira) 4 . Hilário Silva (Uberaba. multiplica valores. E nós somos autores de todos os capítulos que se desenrolam por fatos vivos. Adiante. a vida escreve em toda parte aquilo que pensamos. o drama chora.A VIDA ESCREVE Sim. O caderno em branco chama-se Tempo. subtrai influências. a fim de que saibamos o que seja Destino. a comédia ri. para nós. aquilo que desejas. divide compromissos e dá-nos a equação de tudo quanto é hoje. soma os atos. Anota. Aqui. amanhã. de vez que a vida expressa tudo quanto queremos. desse modo. a tragédia assombra. o poema envela. no livro da Eternidade. Ali.

PRIMEIRA PARTE MÉDIUM WALDO VIEIRA 5 .

Meu caro – advertiu Alves. Sempre juntos nas boas obras.. aí dentro. não posso vê-lo reiteradamente neste lugar.DEVER CRISTÃO Rossi e Alves eram diretores de conhecido templo espírita e davam-se muito bem na vida particular. Acredito que amanhã surgirá renovada. era visto penetrando a porta de uma casa evidentemente suspeita. num pequeno salão. É preciso agir. de maneira escarninha. certa noite. . . Alves. Alguns minutos depois de zero hora.Dever cristão? . meia-noite. porém. sua própria filha chorando ao pé de um cavalheiro desconhecido. Hoje. Dez. Jovem inexperiente. Amizade recíproca... em suplica ansiosa.. andam em bica. a filha de um dos meus melhores amigos está freqüentando este circulo. acreditou nele. sem escândalo.Tem medo de ser apanhado em mentira? – disse Alves. Nada podemos condenar.Sim. Quem sabe? Talvez em futuro próximo a invigilante pequena possa encontrar companheiro digno.Você sabe. nas três noites da semana sem atividades doutrinárias.1 . informado de que o amigo entrara na casa referida. além de tudo. não! Não vá! – pediu Rossi. . Convidei-a a pensar.Não. sisudo _.. E ser mãe respeitada. E sem mais nem menos entrou casa adentro encontrando.Vou ver se é verdade. veio esperá-lo à saída. Alves. pai de família e.. integravam-se perfeitamente no programa do bem... Alves riu-se às pampas. Enganada por lamentável explorador de meninas. Há mais de um mês prossegue a luta. lugar tristemente adornado para encontros clandestinos de casais transviados. Afinidade profunda.Não há nada. Mas a batalha está quase ganha. carrega nos ombros a responsabilidade de mentor em nossa Casa.. Estou apenas cumprindo um dever cristão. passou a saber que Rossi. com desapontamento. 6 . com a suspeita no rosto. sem rumor. mas você não ignora que álcool e entorpecentes. onze. E ante os olhos desconfiados do amigo: . viu com os próprios olhos o logro de que é vítima. Rossi coçou a cabeça num gesto característico e observou: . Rossi saiu calmo e o amigo abordou-º . Persistindo semelhante situação por mais de um mês. Ave desprevenida em furna de lobos.. Você é casado. e falou: .

supomo-nos sozinhos e proferimos inconveniências. Cabeleira revolta. Às vezes. E virando-se para Belmiro: . Desajudamos quando podíamos ajudar. amigo! – exclamou. quando triste homem penetra o recinto. A pequena assembléia ouvia atenta a palavra de Sálus.Quem mandou confiar em Jesus? – perguntou. Acabamento esmerado. recordando a lição.Confia em Jesus!. escutava em silêncio. . Destaquemos o bem. . bradou: . Tudo pronto. abrindo os braços. Belmiro Arruda. E mostrando um revólver: 7 . nas funções de pedreiro-chefe. O som estava admiravelmente distribuído. Arruda.2 . *** Decorridos alguns dias. Semblante transtornado. Confia em Jesus!. .Não adianta repetir frases inúteis.Uma boa palavra auxilia sempre. saibamos dizer o melhor.Experimentemos a acústica – disse o engenheiro superior.. Se abrirmos a boca para dizer algo. Falar é um dom de Deus. Comentemos o bem. Alguém aponta Belmiro. O enorme salão parecia completo.O GRITO . orientava o término da construção de grande recinto.. . E é sempre falta grave conferir saliência ao mal. Arruda.Obrigado.. o instrutor espiritual que falava pelo médium. Dentre todos os presentes..Grite algo. Os operários continuavam na sua faina. Pintura primorosa. para quem ele se dirige. É preciso aproveitar oportunidades.

Estou desempregado. e sou pai de oito filhos. entretanto... escutei seu apelo e sustei o tiro.Venha amanhã. Jesus...Ia encostar o cano no ouvido.. Pode vir trabalhar amanhã. 8 . de olhos úmidos.. . mas sua voz acordou-me.. sim! Confiarei em Jesus!. Queria morrer no terreno baldio da construção. E o diretor.. O caso foi conduzido ao conhecimento do diretor do serviço. Arruda abraçou-o. visivelmente emocionado. há muito tempo. estendeu a mão ao desconhecido e falou: .

Boa noite. ouviu por alguns instantes as cigarras cantarem.Meren . Saboreou. O calor abafava.Durma com Deus.disse ele. e ambos. ao pôr do Sol. ao moinho e renovou a provisão de milho para o fubá. Acariciou o bezerro da Lilinda. Vou até ao curral. se dirigiram ao mandiocal.PERIGO EMINENTE Basílio chegara ao rancho. A Lua apareceu inteirinha. Ar parado. meu filho. No quarto. Dirigiu-se. em visita a parentes. passo lesto. deixe a casa aberta. no outro dia. onde a vacaria procurava descanso. e melhorou a cama de palha. Dez da noite quando voltou. E. leria. Comeu calmamente o guisado de palmito que Emerenciana lhe dera a jantar. mastigando o repasto. A esposa viajara na véspera.disse à doce vovó que arranjava a cozinha -. o "momento espiritual". Basílio beijou-lhe a mão encarquilhada e lhe enviou um sorriso bom. mas já volto. como na noite anterior. não longe. Contudo. Ainda assim. perto. acima do barrocão. 9 . como se quisessem esquecer o vigor da canícula. chegou ao cercado. a pamonha bem-feita. . bem cedo.3 . Acendeu o candeeiro e sentou-se renteando a cama toda branquinha. felizes da vida. Sentia falta da esposa. Basílio visitou. espantando os tatus. . depois de cerrar as janelas. em seguida. a sós. a casa de Jorge. que nascera robusto. depois. fitando o pano com atenção pelos óculos fortes. vó . companheiro do arado. Não tinha sono. e se dispôs a sair. o milharal novo esperava por ele. Emerenciana premia a máquina com o pé e costurava. .

Algum benfeitor espiritual. preparava-se para desferir- lhe o golpe certeiro . voltou à consulta. o item 34: "Num perigo iminente. enorme cascavel emergira dos lençóis e. semanas antes.. acaso. que a Vontade de Deus se cumpra. pensativo." Depondo o Evangelho sobre a colcha do leito. Queria material para refletir. considerou que a vida é patrimônio de Deus. . certamente o prevenia. e abriu novamente a janela.grita ele." Tratava-se de uma prece para ocasião importante. o livro ofereceu-lhe a mesma passgem. Em rápidos segundos. logo após. Basílio fez-se grave. como se mantido por mãos invisíveis. "Como é isso? Já orei . aprontando a defensiva. Acordada de chofre ao impacto do livro. que Deus a dá e retoma. meu anjo guardião. porém. colocado na cama.. que os seus olhos de carne não conseguiam ver.. descerrou-as de novo. Se devo ser salvo.. repetiu. " . Recordou um amigo que desencarnara. quando lhe apraz. socorrei- me! Se tenho de sucumbir. ergueu-se. ouve leve cicio à retaguarda. a fitá-lo.Orou por alguns instantes e. que o restante da minha vida repare o mal que eu haja feito e do qual me arrependo. Volta-se inquieto e estaca. buscando a visão do céu. em momento crucial. solenemente: "Deus Todo-Poderoso e tu.pensou. O volume. deu-lhe a mesma resposta. que ele mesmo desconhecia? Nisso. lívido.Quem é? . Agradeceu à Divina Bondade o benefício da consciência tranqüila e. porém. de um colapso cardíaco. Surgiu-lhe aos olhos. Estaria. Por que? Intrigado. dedicado à oração. baixando o olhar para a folha. tomou " O Evangelho segundo o Espiritismo" e abriu ao acaso. Não poderia ser coincidência. Debruçou-se para a noite. no capítulo vinte e oito. 10 . Na luz frouxa do candeeiro projeta-se um vulto. fechando as páginas. Entretanto. E. ameaçadora.

D. eu sou sapateiro. quer arranjar-me um cigarro. está sem algum costume censurável? A senhora é assistente de saúde. Diz-se habituada aos serviços da saúde. entrou no presídio da Rua Frei Caneca. Almira volta-se para ele e começa a doutrinar. não fuma. fala dos prejuízos do fumo. calmamente. Já pensou nos perigos do salto alto? A senhora me desculpe. que lhe prejudicam a saúde. neste mundo.4 . pequeno grupo de companheiros. quem. Quando termina. tem belos sapatos "Luís XV". madame. Distribuição de lembranças e guloseimas. entretanto. por favor? D. mas tanto erro eu com o cigarro reprovável quanto a senhora com o calçado inconveniente. Almira Barbosa ouve a voz de um encarcerado: .Madame.CONSELHO TROCADO No Rio de Janeiro.Ora. O preso observa a senhora. no culto da assistência. comenta os imperativos da higiene. dos pés à cabeça. Passando por determinada cela. 11 . replica fleumático: . Com certeza. explana sobre as despesas trazidas pelo hábito de fumar e refere-se ao câncer do pulmão.

E depois o silêncio. Telegrama dos jornais: " A criança foi devorada em vida pelas piranhas! Em poucos minutos. Leve rumor. jovem senhor feudal. o irmão desapiedado arroja-lhe o corpo frágil no precipício. a vítima. numa pequena canoa. chama os três servidores mais íntimos a conselho. o pequeno bastardo. que corre nos fundos da casa do pescador. José Antônio Maria de Alenquer senhoreia enorme herança. na outra margem do rio Gurupatuba. devorada em vida e em poucos minutos por um cardume de famintas piranhas e.. a esposa e a filha ouvem-no. o mordomo. E. interessados. era uma criança muito estimada pela sua vivacidade e seu temperamento ameno. filho do pescador Darlan. é conduzido pelos quatro a extenso poço lotado de peixes vorazes. em companhia de sua irmã Josefina.. na presença dos pais e de irmã menor. que se deslumbra perante a vida. Quer liquidar José Joaquim. nascido nos últimos tempos da existência do pai viúvo. menino de sete anos. O menino Adílson.O PREÇO DA REMISSÃO I No grande castelo português do século XVII. Manuel Macário. Um grito abafado. E José Joaquim. no Baixo Amazonas. ainda não se refez do choque emocional causado pela tragédia que envolveu uma criança de sete anos. todos horrorizados. 12 . Ganharão pequena fortuna pela cumplicidade. o que é pior. de maneira tão brutal.5 . enquanto a criança fita o bojo das águas. José Antônio Maria de Alenquer. No dia em que perdeu a vida. II 8 de fevereiro de 1957. a fim de levar um recado a um conhecido. de onze anos. havia sido mandado pelo pai. dela só restava o esqueleto! Presenciada pelos pais do menor a horripilante cena! A população da pequena cidade de Monte Alegre. E a vida continua .

o local onde mergulhou o menor tingiu-se de sangue. 13 . a devoraram. os pais de Adílson e a irmãzinha do menino assistiram à cena impressionante. que em poucos minutos.. ou mesmo segundos. sem nada poderem fazer. Horrorizados. A infortunada criança caíra exatamente num cardume de vorazes piranhas. tal a conhecida rapidez com que age essa espécie de peixe. Essa ocorrência deixou chocados a quantos dela tiveram conhecimento. apenas.Já no meio da travessia." III A voracidade das piranhas e o assombro da pequena família foram o preço da remissão da falta cometida. o pai de Adílson. a um movimento menos feliz. como um louco. Incontinenti. perdeu o equilíbrio e caiu na água. quase totalmente descarnado. mergulhou nas profundas águas do rio e de lá voltou trazendo. um esqueleto.. Adílson. Refeito da brutalidade da cena e passado o cardume.

decerto. em que médiuns eram denunciados de maneira cruel. Fosse onde fosse. ferido. busca a residência da vítima. E a mãe do menino enxugando o rosto. para escrever um livro contra os postulados espíritas. e destilava pequenas difamações como quem debulhava espigas de brasas. lhe cai sob as rodas. lhe diminuiria a tensão. costumava ler para os amigos esse ou aquele trecho. Isso. se a conversa versasse sobre algum tema de Espiritismo.LIBELO O distinto causídico não ocultava a ojeriza que experimentava pela Doutrina Espírita. nas proximidades de um Grupo escolar. em fazenda silenciosa. Deseja ser humilhado. suportando os impropérios do povo. Tumulto.. Um passarinho sob um trator não morreria mais depressa. Encontra ali. quando sobreveio o inesperado. quando atarantado pequeno. Em sã consciência não é culpado. Tão azedo adversário se fizera. O doutor não teve culpa alguma. escorregava deliberadamente para o sarcasmo. E riam-se. Dirigia o carro elegante.Nada disso. mas o chefe da família responde firme: . Os desígnios de Deus foram cumpridos. O pai acaricia os cabelos da criança. Livro-acusação. Ninguém faria isso por querer. Autoridades em cena. Ele mesmo. apenas resignação e a serenidade. “Essa história de Espiritismo só num tratado psiquiátrico”. e a mãezinha ora em lágrimas. entrega o menino morto aos pais em pranto. em silêncio. a correr desorientado. de coração agoniado. O advogado consulta então a família sobre a instauração do processo de indenização. O distinto advogado assumia as primeiras responsabilidades para enviar o volume à editora... porém. que aproveitou largo período de férias. acusado. entre um e outro gole de uísque. acrescenta: 14 . salpicando a lama esfogueante em forma de letras. ele e os companheiros. Livro de ódio. Nos serões caseiros.O LIVRO . mas tem o coração alanceado de intensa dor. – dizia irônico -. que o recebem sem a mínima queixa. apanha o cadáver minúsculo e. Chorando copiosamente.6 ..

Choramos. até a realização dos funerais. Admirando-lhes a paciência cristã. E à noite.Nós somos espíritas – informou o pai da pequena vítima. Deus sabe o que faz.Que religião professam? ... fechou-se no quarto e rasgou o livro-libelo que havia escrito. considerou: . em casa. a fim de acalmar-se. como é natural.. de coração opresso e transformado. não se preocupe. .. O causídico. 15 . indagou vacilante: . mas não desejamos indenização alguma.. Ore conosco. . O senhor está sofrendo tanto quanto nós.Então. de olhos vermelhos...Doutor. Compreendemos perfeitamente que o senhor não tem culpa. O advogado baixou a cabeça e ali permaneceu sensibilizado e prestimoso..

que lhe dizia. Retira-lhe o conteúdo. por vezes.RENDIÇÃO Tudo fizera para pagar o quinhentos mil cruzeiros.Irmão Avelino. Sentia a necessidade de orar.Deus esteja conosco. afastou-se Avelino. nitidamente. como? Abnegado amigo dispôs-se a conduzi-lo a determinado templo espírita. a fim de que pudesse recolher algum esclarecimento e consolo. Deixou a missiva. Desesperava-se. Estava desapontado e desgostoso. Começa a leitura e esbarra com a saudação: “. Ninguém lhe evitaria semelhante propósito. sem dar-se por satisfeito. Somente o Evangelho guarda bastante luz para a solução de nossos problemas. “Todo motorista é engraçado” – pensou. Apreensivo. Não desespere.. Ao retornar a casa. Volte ao lar e ouça Jesus no Evangelho. Deus esteja conosco. hoje e sempre”. e falou de si para consigo: 16 . Fugiria do mundo. inquieto em suas cogitações. em página breve: “. modifica inteiramente o destino. no pára-choque: “.Deus viaja conosco. a movimentar-se em sentido contrário. reparou que os faróis do ônibus incidiram sobre a frente de um transportador de carga.7 .” Terminada a reunião. irônico. contrafeito. Simples quarto de hora está revestido de imenso valor e. e pode ler. Chegando em casa. O desejo de auto-eliminação escaldava-lhe o crânio.” Sorriu.. Mas. entrega-lhe a esposa afetuosa carta de um companheiro.... Tudo debalde.. recebeu a palavra de generoso Mentor.

abriu o livro.. À frente da inesperada visita.Papai! Papai! Hoje na aula escrevi sem errar o primeiro ditado da Professora: “Confiemos em Deus!” 17 . dirige-se ao quarto próximo e inclina-se. Antes. ao mesmo tempo em que exclama expansivo: . notou que a esposa andara lendo o Evangelho. Fita. Terminaria tudo.” Ainda assim. angustiado. Mais curioso que interessado. o garoto que dorme. Estava decidido.. fazendo ir ao chão o copo que se estilhaça no piso. sede consolados.Deus esteja conosco. e o Deus de amor e de paz será convosco. enfadado de tudo.. Guardando a taça entre as mãos. do gesto infeliz. e seus olhos caíram sobre o versículo onze do capítulo treze. sem dizer palavra. pensa um pouco. para Ricardo.. sede perfeitos. rasgado. com o enternecimento de quem se despede pela última vez.” Abandonou o livro desalentado.Sempre filosofia religiosa!. No cimo de grande armário vê. então recolhida. a cena familiar que o rodeia. O leito pressiona. “. a pequena distância. Tornou à copa. Beijou a esposa. porém. regozijai-vos. atira-se nos braços paternos. o verde papagaio de papel que lhe recorda o filhinho. quase em pranto. atarantado. vivei em paz. na segunda carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios: “. estala de leve e o menino acorda. Esparramou-se em velha poltrona e ouviu conhecido locutor encerrando o programa naquelas primeiras horas da madrugada: “.” Desligou o aparelho.Quanto ao mais. porque um exemplar do Novo Testamento descansava na mesa. O gargalo de uma garrafa verte a cerveja sobre alta dose de violento corrosivo.

contemplou o céu rutilante de estrelas. A seguir. a longos haustos. Avelino. levando o lenço aos olhos. respirou.Obrigado. ajudá-lo-ia a pagar o quinhentos mil cruzeiros. apertou o filhinho com mais ternura e. como se estivesse encontrado a felicidade pela primeira vez. gritou. . aliviado.Obrigado meu filho! – clamou... espontâneo: . agora chorando e rindo... descerrando larga janela. abraçou o petiz. feliz. que o cercava por toda parte. 18 . Deus vencera! Deus. E tomando de júbilo inconsciente. meu Deus! Delirando de alegria.

O heroísmo na praça pública pode ser mero fruto de circunstâncias especiais. A avareza. Cada um tem reflexos diferentes..Estudemos. não se vendo logo atendido.8 .SINAIS Na reunião íntima. cinco vezes. três.. pelo seu comportamento atrás da porta. E o silêncio cai. no ânimo dos ouvintes. o benfeitor espiritual Bittencourt Sampaio falava pelo médium. Em certo ponto da preleção. nos gestos mais apagados. É o cotidiano que nos revela o íntimo. insiste com mais força. entretanto. anuncia claramente que um dos seus reflexos mais altos é a impaciência. Pancadas violentas: duas. pesado.. A leviandade vem à baila num vago sorriso. nas manifestações pequeninas. A pessoa que nos procura talvez seja um modelo de cortesia na vida social. A calúnia por vezes se entremostra numa simples palavra. O instrutor desencarnado retoma a palavra e explica: . veementemente: . em muitas ocasiões. 19 . alguém bate á porta cerrada.Revelamos os nossos sinais dominantes.. nas mínimas ações. surge num vintém. dizia. Nisso.. com propriedade e beleza. O visitante. A maldade aparece num ato de cólera..

Há domicílios com bilhares. Residências superluxuosas. Augusto Franco. E alongou-se a crônica verbal.Creio seja melhor adiar. ouvia. . E. o tesoureiro. tantas vezes esteio firme da instituição. Preguiça delituosa. todavia. Mesa-redonda. tragédias passionais. mais à vontade. Todas as bebidas liberadas. Maconha. . bar interno. lhes administram entorpecentes para estarem. registrou com acerto todos os desacertos do mundo. NIsso. E os companheiros encarnados iam chegando. crianças delinqüentes e vagabundos inveterados. Franqueza. Cada qual poderia expender francamente seus pontos de vista. ao cafezinho. temos a granel quadrilhas juvenis. Abusos no cinema. E Leivas. conselheiro da casa e dos mais experientes. porém.. A pequena assembléia ouvia. durante a noite.Se Deus não se compadece da Humanidade.. argumentava: . em conseqüência. Os companheiros.. estaremos perdidos. Festas inoportunas. estávamos a postos. 20 . E. o cafezinho. percebendo que retardara. cinema próprio. Desabafo. porém. muitas vezes. e o vício e a criminalidade vão crescendo. .. aprovando com a cabeça.. o presidente da casa. aderiu. Todos monossilábicos. junto a grande organização espírita. o horário avançou além do tempo previsto. Todos brincam de viver.9 . Altas rodas passam a noite no pif-paf.O LAR DAS CRIANÇAS I Amigos espirituais diversos. salões de baile e piscinas. Máquinas e empregados para todos os misteres.disse Cunha. Pais e mães abandonam meninos a criaturas mercenárias que.E a nossa reunião? _ perguntou Franco. Há por toda parte soberano desprezo ao trabalho. O ponderado orientador da casa. O campo social é manicômio sem portas. Antes.. pareciam desenxabidos. quando temos milhares de companheiros a quem falta o estritamente necessário. Seriam discutidos os estatutos para a fundação do lar de crianças.

Aspiramos a um lar. Sentia-se culpado e pedia escusas. Não contamos com material dessa espécie. Teremos colchões vulgares.. Franco. Você quer uma casa complexa. Você julga que as crianças devem ser mantidas sem trabalho. Consideramos que todas devem estudar e servir. 21 .Outro dia. Você especifica um número exagerado de pias e banheiros.. E todos os demais. Você planeja a compra de noventa globos e dez lustres para luzes elétricas. rogando a inspiração de Jesus. porque realmente. Ricardina. E como suspiramos por nossos filhos libertos dos prejuízos morais que vergastam a Terra. Sonhamos uma casa confortável. Você quer um monumento. Você diz que precisaremos de quarenta colchões de mola.. sem ser suntuosa. Não tencionamos remunerar cooperador algum. Estamos satisfeitos com quarenta lâmpadas simples. . meu caro. Foram iniciados os estudos para o lançamento da obra. como se estivessem receosos de expor o pensamento. pronunciaram a palavra "depois". Exigia. sim. à uma. Nós tememos semelhante aquisição.Você é o autor da maior parte de nossos planos. corajoso -. abraçando a realidade sem os perigos da fantasia. Você indica várias peças de mármore. fazendo-se úteis o mais cedo possível. preferiríamos o entendimento para outra hora. e olhe lá que vão abrigar muitas crianças. e. Escolhemos apenas cimento. sem prévia combinação. segundo a vocação e a capacidade delas. Que o perdoassem pela comprida conversação. simples sem ser miserável. o futuro vem aí. mas vivia espantado com os desastres morais. Você solicita um salão de festas.falou. a secretária. onde as crianças não sejam bibelôs para os nossos caprichos e. tapetes e móveis.acrescentou D. O prestimoso conselheiro instava com tanta humildade que Felício Cunha buscou a papelada e. pronunciou a prece de abertura. a fim de não contrariarmos a você mesmo. Pretendemos apenas quinze. porque todos os amigos gaguejassem. que viria favorecer a irresponsabilidade infantil. porém. admitimos seja nosso dever não enganar a nós próprios. não concordou. abrindo um relatório: . Não queremos qualquer ruído inútil. Veja bem.. Você espera um parque de brincar. II Não houve outro recurso senão atendê-lo. Você reclama empregados pagos. Você propõe a compra de muitos metros quadrados de ladrilhos brancos e azuis. creio que todos nós.. nossos próprios filhos.Augusto . Você pede a construção de trinta e dois aposentos. como de outras vezes.. Cunha foi claro.Ora essa! Como assim? E Cunha. crendo que os ladrilhos singelos nada deixam a desejar. . adornado com uma fonte luminosa. Esperamo-la simples.

... o vice-presidente da casa. pediu que fosse adiado o debate geral do assunto. orou.Meu Deus... tossiu. contudo..Augusto Franco. mastigou em seco. e Cunha. com aquiescência de todos. encerrando a reunião. Lima. calmo. de fato vocês têm razão .. é ... E depois de um instante em silêncio. apanhado de surpresa. como se estivesse falando para dentro de si: . 22 . pigarreou e disse desapontado: .É. é muita coisa sobrando! .

Amar a todos. . qual é.A humildade.O trabalho.A maldade é atributo de todos – clamou Tiago . . . O Mestre pensava. faço o bem quanto posso. para nós todos. momentos antes. . o mais alto dever? – aventurou Tadeu novamente. 23 . mas apenas recolho simples espinhos de ingratidão.. Vira chagas e aflições. Afastara-se da multidão. . Não era aquele um momento raro? E ensaiaram perguntas.. João e Bartolomeu aproximaram-se.E a norma de triunfo mais elevada? – indagou Bartolomeu.. . . Jesus refletia.10 .Oh! Isso é quase impossível – gemeu o aprendiz.A persistência no bem.. . a todos servindo sem distinção. . Senhor? – falou Tiago. qual é o mais importante aviso da Lei na vida dos homens? E o Divino passou a responder: .Senhor – disse João . .Qual o talento mais nobre. * Tadeu e Tiago. .O MAIS DIFÍCIL Diante das águas calmas.Amemos a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a nós mesmos. Ouvira remoques e sarcasmos. o moço.Mestre.E qual a virtude mais preciosa? – indagou Tadeu.

Vejo homens bons sofrendo calúnias por toda parte – acentuou outro discípulo. O mais difícil é ajudar em silêncio. que é mais difícil? Qual a aquisição mais difícil? Jesus sorriu e declarou: . . .Tenho encontrado mãos para auxiliar – disse outro. A aquisição mais difícil para nós todos chama-se paciência. 24 . dar sem pedir. voltou a interrogá-lo: .Senhor. João. amar sem crítica... entender sem reclamar. E as mágoas desfilaram diante do Mestre silencioso. contudo.A resposta está aqui mesmo em vossas lamentações.

25 . já consigo dominar-me e governar meus próprios pensamentos.. E o amigo repetia: . Batuíra. em sua residência. meu amigo. ... na Rua do Lavapés. que o dono da casa conhecia de muito tempo... . louvar a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo..Que abrirei minha bolsa todos os dias.Que serei paciente e humilde. . hoje.Que procurarei o caminho do bem.. então... em favor dos necessitados. o doente começou a gritar e piorou outra vez... assim.. Venho. . .E prometo. .Que executarei o trabalho que a tua vontade determinar. formulando renovação. . Homem próspero. . Mas. quando um enfermo melhorado varou a porta. estou muito mais forte – disse o recém-chegado -. em São Paulo... Batuíra abraço-o e lembrou: .11 . o inolvidável apóstolo da Doutrina Espírita....Que executarei o trabalho que a tua vontade determinar.Que serei paciente e humilde.. elevou olhos ao Alto e. .Senhor. O apóstolo cofiou a barba respeitável.Sim.. . à nossa prece.Graças a Deus.Que procurarei o caminho do bem. Transbordando satisfação. ia dizendo a oração: .O MÓVEL DA OBSESSÃO Achava-se Batuíra..Senhor. sentindo talvez que o compromisso enunciado era para ele excessivamente pesado... faça a petição que deseje e acompanharei as suas palavras. nesse ponto.. Tratava-se de um obsidiado em recuperação. eu te agradeço a infinita misericórdia.E prometo.Convém. . colocando as mãos sobre a cabeça do doente sentado.. com mais confiança. eu te agradeço a infinita misericórdia.

. Senhor. E mentalizavam no doce requerimento o modesto edifício.Contamos com o senhor . que ofertariam aos pequeninos.Deus recompensará o que possa fazer . comovidos.Não temos interesse algum em concessão semelhante . Rute.Doutor.era ele engenheiro hábil -.acentuou Dona Ester. limpo e alvo. E. Constância. 26 .falou D. Alberto .falou ele.aduziu D. Rogaremos auxílio. mas é uma escola destinada às crianças menos felizes . O pedaço de terra. Agradecemos as dádivas que já recebemos em Vosso nome. Digo isso em consideração às senhoras.INCÊNDIO NA SERRARIA I O grupo de senhoras estava em prece. esfriou.disse.. nós. levantaram-se para sair. Amália. Agora. Mas. Ateu puro.. mesmo assim. Não será lícito imiscuir o Criador em negócios que não lhe dizem respeito. porque. . importante empresa da grande cidade. tínhamos o coração enternecido.A educação é obra para governos.Senhor . . . inspirai-nos e protegei-nos. a conversação se fez viva. visitaremos a fábrica de móveis. . recebeu a comissão cortesmente. a pedra e a cal. .As portas serão abertas em nome de Deus . o Dr.dizia a mais experiente das quatro -. II O gerente da serraria-oficina. contando com Vossa bênção! Em seguida. Contudo. Ateu. ao ouvir a sucinta exposição. precisamos de madeira para dar início. Chamados a ouvi-las. Senhor.... . Desejavam construir uma escola. Confiadas em Vosso amor. mordaz. a maior responsável. junto delas.E que temos a ver com Deus? ..12 . . os desencarnados. desapontado. pusemo-nos igualmente em marcha. de mim mesmo. sou materialista confesso.falou D.

levantaram-se acabrunhadas.Respeitamos o seu ponto de vista.. apesar de sorridentes. . espavorido. Começaram as despedidas corretas. Alberto mostrou-se mais irônico. . Rute. positivamente sarcástico.Por que não? . Por mais de uma hora falou e falou sobre os novos progressos da Humanidade.falou D.Mas. 27 . com brandura e espontaneidade. da higiene. senão Deus? . o seu modo de pensar . O engeheiro movimenta-se. nem mesmo um centavo. varando a porta do gabinete. Mas cremos na força inteligente da vida. - Depressa! Venha depressa! O fogo está devorando a seção de compensados! Alarido interior. Rute sorriu.ponderou D. Referiu-se à Natureza. Admitimos a eterna bondade que orienta os sucessos do mundo. O senhor comanda uma fábrica. da fiscalização. Dispõe de muitas máquinas. da técnica. . paciente. como sejam as árvores cortadas. Tudo em vão. até que isso aconteça. As senhoras instintivamente lhe seguiram os passos. ma não se deu por vencida. O incêndio nascera de violento curto-circuito. As senhoras. III . E acabou notificando que não daria peça alguma. acreditamos que toda a matéria-prima. Conta dezenas de empregados. E nós também. .. Exibiu mapas e apontamentos sobre botânica. Corre-corre.Quem é o dono real de tudo.Decerto que esperamos do governo que nos dirige providências mais amplas a favor dos meninos. Brados por socorro multiplicam-se angustiantes. Ester. quando o inesperado aconteceu. não será compreensível fazer algo de nossa parte? O ensino será totalmente alheio ao ensino religioso. que a todos nos sustenta. delicada.. Sabedoria e amor que chegam de Deus. Comentou as vitórias da contabilidade. Campainhas vibrando.Doutor Alberto! Doutor Alberto! .D. os instrumentos em uso.resmungou o engenheiro. Entretanto. o equilíbrio dos servidores e até mesmo a sua própria saúde são doações de Deus.. por que envolver Deus nesta história? . O Dr. Entretanto.gritou um operário. E aclarou: . doutor.

tomam a dianteira do trabalho salvacionista. ordena e coopera. agora calmo. terminando com a bela exclamação: .Dr. O Dr. com as vestes sujas e rasgadas. Alberto. quatro heroína aos seus olhos e.Depois conversaremos sobre Deus. Deslocam móveis. A casa não estava segurada contra incêndio.. Transferem tábuas pesadas. Doutor Alberto. As senhoras.Que Deus nos abençoe! 28 . chamuscadas. sorriram e retiraram-se. E pulam. presente à inauguração. Mande buscar amanhã toda a madeira de que necessite. Há deficiência de pessoal. como dono desta oficina. escola singela e branca recebia quarenta meninos. Ainda assim. Alberto.. E. Estafam-se. acrescentou: . como se lhe fossem subalternas de muito tempo. as chamas se extinguem. Mudei de idéia. penso que Deus ganhou a questão de sua escola. contou a história do incêndio. aproxima-se das damas. em seguida. e um garoto. muito pálido. Finda meia hora de intensa luta. Combatem o fogaréu. Empunham mangueiras. todavia. disse. Rute. bem-humorado. E sofrem queimaduras ligeiras. corajosamente. As senhoras. porém. E vencem. gentil: . esclarece o chefe de obras que duzentos mil cruzeiros de madeira compensada deviam estar perdidos. Depois de dois meses. cumprimentando a diretora da comissão. fez pequeno agradecimento.D. E mais o que precisar.

a rival caíra doente. recebeu-nos a postos. Amava-a. Haviam sido felizes. durante dez dias. Não seria necessário maior exame para estabelecer o prognóstico. da vida. Quantos sucessos dentro de um ano! Via-se abraçada. a ela. o marido confiante.. imensamente felizes. ao desposar Gilberto. O organismo anêmico não reagia. no cartório. Espantada. 29 . Seguira-o. na altura da noite. contudo. o amigo espiritual que nos chamara. sofria ele a intercessão de parentes. Clênia era a prima dele. convertida em refúgio. esperando o cirurgião. desde os primeiros dias da escola. como alguém a bater porta selada. Velha câmara de despejo. Inclinamo-nos para a parturiente. recordava . O nasciturno assemelhava-se a semente viva ansiando sair do fruto deteriorado. Maria Regina. a quem devotava amizade pura. recordava. Gilberto reqüestado por Clênia. Clênia entregava-se aos bacilos a lhe trabalharem os pulmões. Rememorava o noivado difícil. talvez.13 .UM CASO DE CIÚME I Atingimos grande maternidade. que se lhe tornara a companheira legal. demorara a se decidir. O quarto de Maria Regina era um cubículo anexo à enfermaria. era sensível às demonstrações de ternura que recebia da outra. rendia-se à prece. Entre as duas.. A agonia tomava-lhe o rosto edemaciado. Entretanto. Suor abundante. Desinteressada. Depois disso. Seguimos. Inspeções radiológicas. o pequenino ser vivente excitava-se todo. Antésio.

doente . Como se possuída por fantasmas estranhos. E mentalizava Gilberto a recostá-la no próprio peito. Trouxe pequena faca. embrulhando amostras gratuitas de remédios caros.Ciumenta! .. Ante a resposta. mas o espírito andava longe. almoçava fora e à noitinha fazia trampolim do lar. O marido aproxima-se." . Gilberto. deixava a residência da prima. alta noite. apareceu uma noite mais aflitiva... Relegada a si mesma. Ela geme.. Torturada. estertora. Cortava cuidadosamente com os dedos ágeis. Depois de quatro meses. Experimentando conflito enorme.a pergunta vinha irritante como chicote no ar. E deitou-se para sofrer ainda mais.Que houve? . . Procurara não pensar. para à prima enferma. Chorava a debater-se no leito frio.era só o que ele respondia. parecia transportada. Debalde o tenta-me. Madrugada além.. entregou-se ao ciúme. 30 . trabalhando.. O esposo chegava tarde e surpreendia-lhe os olhos vígeis. O esposo estaca. compadecido. Salvo isso. oferecendo-lhe o café quente. aturdido. Gilberto ria. irônico. em espírito.Estou cansada. .. Deixou o instrumento cortante na mesa próxima. Maria Regina costumava dizer-lhe: "Venha hoje mais cedo . inchados de pranto.Surgiram as primeiras dificuldades sentimentais. Ela não se contém e grita-lhe insultos. Delirando. Estimulava-lhe o gosto pela medicação . O esposo era mecânico bem pago e saía cedo. Tinha a idéia de entrar no quarto de Clênia e surpreender o marido em posição pouco digna.. Habituara a insculpir em madeira. e começou a fantasiar. ouvia-lhe juramentos de amor. simplesmente para a troca de roupa. Se quisesse vê-lo e ouvi-lo que levantasse de madrugada. à casa de Clênia. Confortava-a. sinto a cabeça pesada . chega Gilberto. nervoso.

Sentindo-se humilhada. enquanto as lágrimas rolavam da face da infeliz. E a bênção da anestesia devolve simplesmente um cadáver . Desolada. Nem as recordações do marido encontrara. A polícia interveio. .. a hemorragia fora abundante. . Declara-se culpada. sempre -. Entretanto. Requer a inspeção de saúde. admitindo-lhe a insanidade.repetia. O abdômen é atingido. espantado. porque o marido buscasse contê-la. O esposo rola. Submete-se à apreciação de generoso facultativo.. Volta a casa. Gilberto. ela lhe enterra toda a lâmina. bradou acintosamente. perdendo sangue. lhe fala em gravidez. Uma sombra que chora incessantemente.. Atracam-se. entre discreto e humano. ao retorno. estendeu a outra mão e empunhou a faca. após o exame. em movimento instintivo. Comovem-se autoridades e obtém-se o "habeas corpus".clamou colérico. toma-lhe agora os pulsos..A senhora deve ter coragem! Confiemos em Deus . Não lhe permitiram nem mesmo chorar sobre o morto. E.dissera o clínico. fora o ciúme. Sai dementada. A família tudo levara. Advogado familiar esposa-lhe a causa..O esposo era amigo e leal . premindo-lhe um dos braços... que. 31 . sem querer. Detida. Gilberto é transportado ao pronto-socorro. simplesmente o ciúme . II Maria Regina continua lembrando . contudo. Sozinha. Confessou-se assassina. Pede socorro aos vizinhos.Loucura! Loucura! . A intervenção é feita num átimo.

quanto possível. Compreende o problema grave e medita. trazido por benfeitores.." "Maria Regina.. Socorro antecipado. devagarinho. Excitava-se o ser não-nascido com violência. lembre-se do filhinho ." Aborrecia-se. ouve amigos preocupados: "Maria Regina. no entanto. Como num pesadelo. revolvendo-lhe o coração. Quatro horas de inconsciência. assassina . Você também. Você também. III Manhãzinha. apesar da esmerada assistência.. Providências pré-operatórias. É Gilberto a sorrir-lhe . Gilberto perdeu a existência pelo ventre cortado.. Não vê o robusto menino em mãos da enfermeira. Afirma-se assassina. mas grita em tremendo susto. não mais se recupera. 32 . Que lhe importava o filho? . Você vai ser mãe.Perdoe-me! Perdoe-me! O esposo.pensava. a moça arregala os olhos e suplica: ..Maria Regina. nem tudo está acabado..Alimentando-se à força e dormindo menos. porém. Ajudamo-lo indiretamente. seu débito foi pago. abraça-a com carinho. E Antésio esclarece: ." Amorosa parenta internou-a. Mas o remorso era espinho invisível. A hora esperada chegou e dores rudes surgiram nela. Está fatigada. Mas alguém chega até nós.. Ausculta. E enquanto se lhe inteiriça o corpo frágil. Queria somente tranqüilidade. chega o cirurgião apressado. desperta conosco em Espírito. Chegara a refletir consigo mesma: "Parece uma ave assustada buscando fugir ao ninho de angústia. Gilberto apartou-se prematuramente da vida física. A parturiente é submetida à cesariana..

Mais tarde voltarão vocês no lar dele . E como irmãos um do outro aprenderão. ambos em lágrimas... parecia a esperança de Deus.Gilbertinho é o grande porvir! Agora.Que fazer? Que fazer? O instrutor benevolente aponta a criança e fala bondoso: . Débil recém-nato dormia num berço.. aflita: ... E a luz. a parenta amiga dizia à jovem de branco: . Ser-lhe-ão filhos abençoados. e será meu! . o amor fraternal para sempre . lutaremos no reajuste. 33 . foram conduzidos a câmara próxima. Ao pé dele..Chamar-se-á Gilberto..prometendo o futuro . invadindo o aposento. o Sol rutilava . enfim..Abraçados. Maria Regina agarra-se ao esposo e exclama. Lá fora. enxugando os olhos...

acentuou: . Uma voz gritante na consciência a todo instante e uma disciplina que não acaba...PERGUNTA CONTRA PERGUNTA Acabara Leopoldo Cirne de presidir a sessão pública. imperturbável: .Como é que a senhora queria que ela fosse?.. É um freio a corrigir-nos e um aguilhão a impulsionar-nos.Sr.. Doutrina de retificações incessantes e obrigações sem limites. interpretando certa passagem do Evangelho.. E mirando os olhos claros do interlocutor.. tenho buscado praticar a Doutrina Espírita por todos os meios ao meu alcance..Que me diz o senhor sobre isso? E Cirne respondeu. 34 . desapontada: . mas é impossível. Cirne. quando elegante senhora se aproxima e considera..14 .

depois de velho. Não concordo em que os espíritas de afirmem cristãos. O papel da religião não será ajudar.Como não. E sacou do bolso pequenino exemplar. pelo fruto se conhece a árvores. gritou o opositor enervado – estudo o Evangelho de ponta a ponta. hoje diz que é espírita. um homem problema tornar-se útil. Fala sobre Jesus. então benemérito lidador da Doutrina Espírita na capital pernambucana.” 35 .. Quero a letra da lei. assassinou um companheiro de quarto que lhe negará alguns vinténs. Vamos lá! E Jesus? O Mestre foi o remédio dos enfermos. muito ligado às tarefas de evangelização. muito afável: . . nas anotações de Mateus: “.. dirigindo-se a Djalma de Farias. é sempre impossível que não tenhamos resposta justa..Imagine só – e apontando para um homem sob pesado fardo na rua -.Então. em triste miséria.. Só a palavra do Evangelho é verdadeira. Você é leal servidor do Evangelho. restaurar. reviver? Surpreendendo-se desarmado de argumentação mais sólida. morreu a esposa e um filhinho da vítima.. Não será esse um caso para louvar? Pois se vemos um delinqüente regenerado. perto de nós. . se fez ermitão? Farias. que esteve na cadeia por mais de oito anos. objetou. o equilíbrio dos loucos. veja lá o que diz. mas decididamente não concordo. porém..E você tem aí o Testamento do Cristo? – indagou Farias com humildade. Não é o caso do demônio que.Meu caro. por causa dele.15 . e.. Isso aconteceu aqui mesmo.Reconheço no Evangelho o livro da salvação. Beberrão contumaz. aquele é Secundino. . Era um negociante do Recife.Para mim nada disso vale. a visão dos cegos.FRUTOS . abra o livro – pediu Djalma -. o movimento dos paralíticos. . O lojista descerrou as páginas. com segurança. o comerciante aduziu: . Lê comentários do Novo Testamento. Entretanto. e surgiram aos olhos de ambos as palavras de Cristo no versículo trinta e três do capítulo doze..

. pequenina bruxa dourada voeja na sala e toca de leve o rosto do orador. E prossegue a preleção . Complacente. No clima de júbilo geral. como suportaremos as pancadas justas da vida? 36 .INSTANTÂNEO João Marques pregava com fervor.“Suportemos os golpes do destino! Suportemos a calúnia e a ingratidão.* Mais tarde. esmaga-a com o pé. julga que me conduzi a contento na palestra? . sorridente. brilhantemente. fraterno. Se não podemos suportar pobre borboleta a nos beijar respeitosamente a testa.Como não? – replica.E não tem apontamento a dizer? O benfeitor pareceu refletir um minuto e concluiu: .Marques. toma a minúscula borboleta noturna e. Controlando o médium. Quando está preste a despedir-se. feliz. Apenas alguns companheiros e o médium Macedo. o orientador desencarnado. saúda os amigos. explana. enlevada. visivelmente irritado. o instrutor. bebia-lhe o verbo. já que você faz questão do apontamento. Mas pensemos um pouco. Interrompe-se. Era o décimo aniversário do templo e o salão estava cheio.. comunica-se Nuno. otimista. Nisso.. João Marques vacila. o círculo é reduzido.Meu amigo. o presidente da instituição. A assembléia. agradece as bênçãos da noite. não posso omiti-lo. João Marques arrisca: .. Você falou sobre a tolerância.” O auditório vibrava . – Você estava muito bem inspirado. O tema era a tolerância. Num átimo. a dificuldade e a lágrima! .. . num deslumbramento de luz. Batista..16 .. sobre os méritos do trabalho.

via-se atarantado. Aflição.A impaciência é vício grave. castigava improficuamente a si mesmo. E continuava: . informou calmamente: .. O zeloso contador tentava alcançá-la com um tabefe. Ocorrera a ruptura de vaso importante no cérebro.. com grande acerto. entre os livros do escritório. A sessão terminou e todos exaltaram a excelência dos conceitos ouvidos. procurando-lhe a calva. E você ainda dispunha de onze anos pela frente para trabalhar junto aos homens. Jerônimo. fê-lo cair. muitas vezes. . aqui e ali. afirmava Jesus: “Bem-aventurados os mansos. À maneira da personagem de Fedro. meu Deus? Que fazer? O amigo espiritual. Por isso. todavia. Falta de caridade para consigo mesmo. Suicídio indireto. Quando acordou. porque possuirão a Terra.17 . e Fraga. provavelmente pela vigésima vez. gritou.O CONTO DA MOSCA . no conto das moscas. o mesmo Fraga. Leve mosca zombava dele.Tão bons conselhos! Tão bons conselhos! No outro dia. mas apenas agora toma acordo de si. em poucas horas. A pancada. E Fraga. praticado pelos cultores da intemperança mental.Você já se encontra fora do corpo de carne há dois meses. suicídio sem nenhuma razão de ser. mas nada . no regaço do piedoso Jerônimo. no calor da tarde. entre os seus raros cabelos. Socorro. basta um momento de indisciplina e a morte surge por nonadas. ao conhecer a própria situação. bateu fortemente no próprio crânio.E agora? Que faço? O benfeitor espraiou o olhar pela casa de socorro terrestre em que se achavam e esclareceu: 37 .O suicídio indireto é. porém. o contador de vários estabelecimentos comerciais. no entanto. Você estava avisado quanto aos perigos da impaciência e caiu. se viu desencarnado. falava pelo médium. o benfeitor espiritual. afobado: . coçando nervosamente a cabeça exclamou risonho: .” Isso quer dizer que o homem sereno desfruta o privilégio de mais extensa vida no corpo. Em muitas ocasiões. meu caro. Já estudamos seu caso. mesmo assim.E agora. espantado. Sentindo que ela se alojava.

assombrado. . onde? – indagou Fraga. .E fazendo o que? Sem sorrir.Aprendendo a ter paciência. você ficará durante algum tempo a espantar moscas.Ajudando aos enfermeiros.. .Aqui. Jerônimo explicou simplesmente: . . Ficará aqui mesmo.. 38 .. decerto não merece o pavor das`regiões abismais.No hospital onde estamos.. Mas também não está habilitado para subir.Com que fim? . Pela vida correta que você levou. .Já expliquei o problema aos nossos Maiores.

39 . estava sempre a braços com dificuldades morais de vulto. . O pupilo errara com agravantes. Tomando o automóvel. Deus me dará suas mãos. Mas. desentendeu-se fortemente com o posto fiscal.Deus está comigo. À noite. Deus me ajudará. Deus me ajudará.Está bem. disse em voz alta: .. Deus está do meu lado. E muitas vezes repeti hoje: “Deus está do meu lado. ignorar o dever da humildade. Eusébio surgiu-lhe aos olhos e argumentou.18 . foi multado. mas não se esqueça de que nós também precisamos estar com Deus e entregar as mãos a Deus.. Conhecia as próprias obrigações. Sebastião.Está bem – disse Eusébio -. o instrutor espiritual que lhe dedicava incessante carinho. certa feita afirmou: . no instante das orações. sim – concordou Eusébio -. estimado motorista. Cabia-lhe controlar-se. meu irmão. perdeu a calma.” .Sim. em boa consciência. convincente. sentia-se envergonhado. tudo está certo. Como de outras vezes. apesar de todos os votos que fazia. asserenar-se. como proceder? Saí de casa orando. abusou da velocidade. Sebastião rixou com alguns colegas. Deus me dará suas mãos. Está bem? Sebastião gaguejou. gaguejou e acabou conformando-se: . buscando vigiar . Entretanto.DEUS E NÓS Sebastião Lobo. Clarividente. contudo. amanhã vamos começar tudo de novo. fizera-se mais consagrado à oração. pela manhã.Meu amigo. encontrava grande consolo na palavra de Eusébio. insatisfeito consigo mesmo. justamente nesse dia. pois que espírita algum pode. depois de afeiçoar-se ao Evangelho.

Adelino de Carvalho. Quem compareceu foi Antonio Logogrifo. mas não à custa de vãs aparências e sim por seu próprio esforço.Como assim? 40 . amando. antes de tudo. batalhando em favor do bem.. crescer no mundo será sempre vaidade? – gemeu Carvalho. . . passa a esclarecê-lo. triste. concentrou-se e pediu a opinião da Esfera Espiritual. admiravelmente situados no círculo das finanças. intimamente. . que não lhe convinha figurar uma situação que não tinha. elevar-me socialmente? .Você não é homem para viver na obscuridade..Então. Não precisava de grande mansão. Um palacete que não desse muito trabalho seria bastante. excelente amigo desencarnado.19 . abnegado médium passista de Uberaba. no entanto. A vaidade tem consigo o progresso da cauda de cavalo.Você nasceu para melhor destino . Quando o plano se tornou amadurecido no pensamento. lutando.. . não é bem isso. em Minas. a possibilidade de casa no centro urbano..SÓ CRESCE PARA BAIXO . . E tantos elogios ouviu que passou a considerar. a fim de atender ao povo? . Um lugar em que pudesse acolher as visitas com elegância e decência. Adelino expõe o projeto e roga parecer. começou a ouvir semelhantes frases de muitos amigos.. Logogrifo. .Você tem a força de Deus nas mãos! .Pode sim – ditou o Espírito amigo -.Por que não montar gabinete próprio num dos melhores pontos da cidade.Não. que deveria permanecer no domicílio singelo e que os amigos não podiam efetuar aquilo que somente a ele competia fazer. precisa assistência moral. bondoso.Mas – suspirou o médium contrariado – não posso aspirar à melhoria? Valorizar os meus interesses. Que um médium. servindo. Adelino – obtemperou o companheiro -.Estejamos todos prósperos e poderemos naturalmente ajudar.

sorridente: . meu irmão. Como quem acorda de longo sono. Compreendeu. então. E o amigo espiritual informou. pode apenas dizer: . chorando de alegria. 41 .Só cresce para baixo. E. que na sua modesta casa já morava a felicidade. Adelino sentiu estranho contentamento.Deus lhe pague.

A esposa dissera ser "melhor chamar médico". o empreiteiro de obras.gritava. Além disso. febril. marcara o relógio. Abatido. o operário mais jovem. Mercedes julgou prudente comprar uma nova caixa em farmácia vizinha. Precisava satisfazer o serviço urgente em reconstruções diversas. Vira-se. amanheceu exasperado. D. 42 . Inutilmente. Cesário. Tanto tempo passara que D.Onde a Providência Divina que não me ajuda? . Apesar do problema orgânico. um dos cooperadores. de vez. a esposa. não apenas gemia. caindo aos pedaços. preferia ter viajado. Horário certo de levantar. alarme certo. O corpo bambeara e a cabeça parecia-lhe um vaso em fogo. A casa velha. Contrariava-se. Piorava a olhos vistos. vem pedir providências. ficando impossibilitado para o trabalho. obstinado. Vicente reagiu. vomitava substância amarga. Vicente pede à esposa a injeção antitóxica guardada no armário. É indispensável confiar na Divina Bondade. não agüentou o ataque das picaretas e ruíra. Às nove horas. . O empreiteiro. Entulhado de comprimidos. cansado. Enfermo. Atacando o serviço.A MORATÓRIA I Vicente Curi. Mercedes. frenético. De noite. agora. tivera os pés gravemente feridos. II Badalavam dez horas. ele e os companheiros assistiram ao inesperado.20 . Era a última de pequena série que deixara incompleta. Quatro operários esperavam-no para a necessária demolição do velho prédio que adquirira em bairro distante. Carro de clínico à porta. Tentara erguer-se. porém. Justamente naquele dia. pede-lhe calma. a demorar-se na cama. A idéia do serviço marcado castigava-lhe o pensamento. Valmiro.

enquanto a mulher lhe falava na Providência Maior. porém.. Ultrapassa os limites do silêncio correto. E acrescentou: . Está pronto. perdendo-se o conteúdo. O enfermo. Velha assim mesmo. algodão e fósforos foram trazidos ao quarto. Vicente se enraiveceu. O doente. sob ventosas acima dos rins. Protesta indignado. Convencera-o a valer-se do passe de reconforto. na hora certa. Fala asneiras. surge sorrindo. falou em aplicação de ventosas. sobre o Amparo Divino. D. Copos de vidro. não queria mais a medicação. Vicente é retirado pelas senhoras. Comunica-se o fogo aos lençóis finos.Parece que urubus pousaram em mim. Mercedes entra em luta perseguindo o lacrau que lhe foge ao chinelo. mais uma vez. IV Quase noite. porque sentisse dores nas costas. promete colaborar.Agora é remédio raro. Queria a injeção. para conduzi-lo ao templo espírita. D. III Mais tarde. amigo da casa. D. Souto. desesperado. recusou. Alguém lembrou o telefone para recurso a outra farmácia. Entretanto. Vicente lembrou-se do avô. amuado. ao telefone. antiga enfermeira da vizinhança. D. E aceitou-as. no entanto. buscando ajustá-la à agulha. O marido lamenta-se. não se conformava. Sente-se perseguido. um algodão inflamado escapa das mãos da bondosa amiga. mostra-se Vicente mais inquieto.falara o moço de vendas. e fala. Crescência. 43 . Mercedes pede o concurso de Souto. Mercedes viu-a cair no piso. Do colchão incendiado. Relaciona amarguras e prejuízos. embora melhor. sai correndo enorme escorpião. E reclama: . mostrando dardo em riste.Não temos . Quando faziam a aplicação das ventosas. Vicente precisava de socorro moral. e.

Quatro mortos e dez feridos . no Infinito Amor de Deus. e diz a Vicente. O socorro de Deus nem sempre tem a forma de flor ou a rutilância da luz. Você esteve à bica de ser esmagado pelo prédio que veio a cair. Mercedes.. alcançando o recinto no momento em que iam cerrar a porta. como alguém que consegue moratória no banco. para hoje. na Lei.. e zarpa adiante. . Volte e agradeça os contratempos e dissabores do dia. O ônibus. mas.O enfermo toma-lhe o braço. a renovação de sua vida . Por não poder conversar. Vicente.. Tomam um táxi. em atenção aos seus gestos de caridade. rebelou-se você contra a Providência Divina. ocorrido momentos antes. que Vicente perdera. insiste.Meu amigo. Terminada a sessão. o ônibus esperado não espera por eles... de ser envenenado pela empola que trazia líquido alterado. Mercedes insiste. Iniciava-se a prece de abertura. a médium habitual. em voz alta. Vicente enxugou os olhos úmidos . pensa D. o Irmão Luís. capotara em local próximo. no momento do passe. incorpora-se em D.. satisfeito. planeou. que recebia agora por bênção doce e reconfortante. Você mereceu amparo. hoje. Antes deles. Cristina. Fora feito o balanço. ao passo que a Divina Providência o arrebatou ás garras da morte por quatro vezes.. a desencarnação rude e violenta. tornando ao leito.Era o que faltava! . Serenidade é remédio em cada remédio. um moço pálido entra à pressa e roga ao diretor da reunião. Reconciliara-se consigo mesmo. Entretanto. de ser picado pelo escorpião que o seguira no próprio leito. uma oração pelas vítimas de um desastre. mais uma vez. com efeito. entretanto. Por quatro vezes. Pára um segundo. alarmado: . tranqüilo. porém. e de ser estrangulado na engrenagem do coletivo menos feliz . D. não reclame. enervado. E. O amigo. 44 . amigos espirituais do caminho advogaram-lhe a causa. Chegam ao templo indicado. regressou a casa. Sua ficha de espírito devedor marcava. talvez porque se movimentasse com lentidão. Volte para casa e descanse a cabeça teimosa. e. São os últimos.Diz Vicente. orientador espiritual das tarefas em curso.. Não quer mais o passe.

já havia feito o possível. em que a voz do Senhor solta esta frase: . em que Jesus assim se expressa: . assim. aceitava. esta noite pedirão tua alma. segundo refletia. Procurou o Novo Testamento e. Enriquecera.“Assim também vós. após recolhê-lo. João Lício pensava.21 . Nervoso. Seu nome nos bancos indicava créditos de milhões. Abrira outra vez. procurando os amigos de modo a ver como poderia ajudar. das anotações do Apóstolo Mateus: .. onde a traça e a ferrugem tudo consomem e onde os ladrões minam e roubam . isso é que não.“Louco. Ainda assim.A VOZ DO EVANGELHO Esparramado na poltrona. porque fizemos somente o que deveria fazer. doa apontamentos de Lucas. Nenhuma Doutrina mais consoladora. entretanto. quando fizerdes tudo o que vos for mandado. tornou a sentar-se. da parte de amigos. a importância referida expressava migalha. Mas daí a espalhar o que havia juntado. no versículo dezenove do capítulo seis.” Como de houvesse recebido um choque. inquieto. Levantou-se. encerrou a consulta. Espantado. E o Livro aberto exibiu o versículo vinte do capítulo doze. fora feliz nos negócios. lhe reservava alguma consolação. dizei: Somos servos inúteis. O Livro Divino. Abriu indiscriminadamente. E. Sentia-se exonerado de quaisquer compromissos. 45 .” Surpreendeu-se mais ainda. decerto. Sem dúvida. Que aceitava o Espiritismo. consultou pela terceira vez. Para o montante do que possuía. por haver recebido na véspera a solicitação de duzentos mil cruzeiros. O evangelho como que o chamava a brios.“Não ajunteis tesouros da Terra. igualmente das lições de Lucas.. E caiu-lhe aos olhos a sentença de Jesus. tangido no íntimo. Meditava. Dera grandes somas.. E o que tens ajuntado para quem será?” João Lício fechou o volume com mãos trêmulas. Custeara a compra de vasto material. para salvar grande obra periclitante. Cumprira com os preceitos da cooperação e da caridade. ouvira dizer que o Evangelho respondia a consultas e resolveu experimentar. tomando o chapéu. porque sempre dera muito a todas as instituições de caridade. Repetiu o movimento e as páginas lhe mostraram o versículo dez do capítulo dezessete.. saiu. ponderou que o trecho não apresentava significação para ele.

certa feita. porém. O Dr. Detinha-se apaixonadamente em Napoleão. Recolhido ao leito. estou empenhado na abolição das armas de morte – dizia Dantas. perdera a palavra e o controle dos movimentos. . Telas mostrando o efeito de bombardeios destruidores. aos quarenta e dois anos de idade. o Dr. Neves faz o possível. aos pequeninos. E toca a devorar as viandas que aparecessem.Crisolino. aí estava Dantas para a cruzada a que se propunha. depois das instruções. zombou do facultativo e repetiu o que costumava dizer: . O Dr. durante quatro dias se quatro noites de vigilância e exaustão. Da residência de Dantas chamavam-no.com semelhante regime. Adquiriu boa máquina cinematográfica e exibia quadros curiosos. Alegava que uma boa conversação. Chamado. Ele. Depois de grande ceia. trabucos e punhais. E falava entusiástico. o esperado. * Aconteceu. Estudos sobre adagas e baionetas.Desde que recebi a solicitação de Crisolino. diante dos pais. o meu protetor espiritual. – Creio que a guerra desaparecerá do mundo. Neves Lima para examiná-lo.Dantas. Espasmo cerebral. por insistência do telefone. Pedia movimentos renovadores. se você não tiver cuidado. Sabres em mãos de legionários da antiguidade ao invadirem territórios pacíficos. Prostração. sofria obesidade característica e era campeão de moléstias do estomago. Onde aparecesse oportunidade. numa crise de gastralgia. estimava as alegrias da mesa. quando cada um de nós esteja disposto a expulsá-la do seu próprio círculo. consolidava impressões. Todavia. Complicações sérias. Revólveres provocando desastres. 46 . Salientava os programas bélicos de muitos povos. declarou que chegarei aos setenta. brinquedos que simulassem armas de morte.22 . Encontrou o cliente em coma. meu benfeitor espiritual. noite alta. chamando- lhe “gênio carniceiro” Não se poupava. após um assunto sério em conferência. num jantar íntimo. Rememorava a estatística de muitas guerras. Dantas acusara súbito mal-estar. admirou-se o médico da pressão alta. Dantas. pedia sempre não dessem. para que os canhões se fizessem arados. E.EM COMBATE . Neves acordou. porém. desde que me mantenha combatendo as armas da morte. acaba estourando.

Sim. se eu permanecesse em combate contra as armas de morte? E que fiz toda a minha existência senão isso? Crisolino. Dantas foi compelido a deixar o corpo físico. paternalmente. que o amparava. sim. A família chorava. Dantas acordou no regaço de Crisolino. 47 .. No plano Espiritual.Apesar de tudo. clamou desapontado para os ouvidos do guardião: .. replicou sem vacilação: . considerando os problemas que lhe requisitavam a presença no mundo. porém.Mas você não me prometeu setenta anos. mas você esqueceu de que o garfo também mata . Informou-se quanto à libertação de que fora objeto. Mas.

outras ficam de lábios tortos. A preleção do dia versava sobre a mentira.Guilhermina. . 48 .23 . guardando certa porção de goiabada no armário. hoje não temos doce algum – foi a resposta. tia Cota mandou pedir à senhora um pedaço de goiabada. mamãe. Algumas perdem a língua. peço que reserve o doce para as visitas que estou esperando. que ouvia em silêncio.Tem sim. Da.. Joaninha.E depois disso tudo – esclarecia a professora -.BOCA TORTA Antes de sair para lecionar Evangelho às crianças. sempre ouvi dizer que as pessoas mentirosas trazem defeitos na boca. no templo espírita. De novo em casa e ao tomar os chinelos para descanso.Ah! minha filha.Da. Joaninha. Rosália – diz respeitosa -. . Finda a aula.. porque julgavam estivesse a brincar. todos os meninos estavam muito bem impressionados. Rosália chamou a jovem que lhe atendia à cozinha e. desapontada – acaso teremos doces sem que eu saiba? . avisou: . E seguiu a mãezinha para a aula. . A miúda assembléia escutava com assombro. a caçula da casa. Rosália contou vários casos fatais de meninos mentirosos. como aquela história do garoto que enganava sempre a todos e acabou morrendo afogado. se a senhora tiver. Daí a instantes. Vamos lá.Está no armário. veio à copa e retirou da prateleira pequeno bolo que destinava a uma colega que sempre lhe pedia merenda. porém. falou de pronto: .Ora essa! – disse a mãezinha. e perante mais de trinta crianças Da. . a dona de casa é procurada por jovem da vizinhança.

Da. sorrindo. abeirou-se dela. Nossas visitas de hoje não terão doce. a pequenina. que se despediu com sincero agradecimento. Da. muito medo de a senhora ficar com a boca torta. Mas.. 49 . com mais carinho. mas sua mãe terá a consciência tranqüila. Eu tive.Mãezinha. eu sei que a senhora não sabia onde estava a goiabada. Em seguida.Não se preocupe. minha filha.. foi. abraçou-a e disse simplesmente: . afagou-a. a professora de Evangelho sentou-se pensativa. que não passava dos cinco anos de idade.. e falou: . entregou toda a goiabada existente à vizinha. Rosália. embora corada de vergonha. Tudo está muito bem. Rosália seguiu a filhinha e confirmou que realmente se enganara e. porém. ao vê-la nesse estado..

Mais fatos. É a aceitação dos acontecimentos naturais. Existe a fé automática. Mais fatos para compreender os fatos. Opondo-se aos argumentos de dois amigos. Algo cansado. Estudara profundamente a anatomia e precisava apalpar para crer. as provas de sobrevivência. Mas. Acaloradamente.” Realmente. Só renderia à evidência dos fatos. estava contrariado ao recolher-se. ouvimos-lhe as considerações silenciosas. acabou dormindo. seu velho irmão desencarnado havia muitos anos... Acomodava os filhinhos.24 . mas viaja no veículo despreocupadamente.. sem comprovação. Por isso mesmo. essa circunstância. Queria fatos. sem a ajuda dos sentidos. Veja bem. Necessitava sentir.. Era homem prático. A esposa demorou-se ainda um tanto em luta pela ordem no apartamento estreito. analisar. II Rosalino dizia convincente: . inconsciente. Vitalino prosseguia em solilóquio mental. atendia aos misteres da casa. Constância passou a ressonar. Dormiu e sonhou que se achava diante de Rosalino. muitas vezes. só por só. Não mudaria. ouvir.O BICO DE GÁS I Naquela noite Vitalino Caixeta discutira muito. mesmo depois que Da.“Meu caro. combatia a fé. Em quanta coisa você confia inteiramente sem proceder a qualquer exame! Você não examina a competência do motorista. não lhe autoriza negá-la.. Acreditava somente no que visse. Mas. são difíceis. 50 .. cheirar.

. Algo sucedera de estranho. Ambas desacordadas..existe.. Você não experimente a segurança da casa bancária. mas deita e dorme tranqüilo. Você não morreu ainda. mas como sem medo.... Acorde para a verdade! Acorde e viva! Acorde e viva! III Como se impulsionado por estranha força.. E. cada noite. tomou papel e lápis.ele.. Aflito.. Você não apalpa o ar.. meu amigo. distraída.. passado o perigo.. mas ouve satisfeito os programas radiofônicos.. abre maquinalmente a janela próxima e faz luz... Você não escuta muitas das ondas sonoras que se entrecruzam à sua volta.. deixara aberta a torneira do gás. mas confia-lhe os bens sem titubear... mas sofre a gripe. Levantou-se estremunhado. e começou a meditar. Por outro lado. Igualmente... você diz que não vê e não pega o Mundo Espiritual. Somente aí descobre que a esposa. mas aceita a fatalidade do fenômeno da morte. mas reconhece o infinito da Criação. Você não testa a resistência do leito.. O ambiente pesava.. metro a metro..... Fazia-se o ar irrespirável. A família salvara-se a tempo. mas... escreveu todas as considerações que ouvira em sonho. Você não vê os ingredientes que lhe compõem a refeição. Você não vê o vírus. Procurou o berço das duas crianças.. 51 . Vitalino despertou no corpo físico. Você não mediu o Universo. mas respira o oxigênio sem susto. inúmeras ocorrências perspassam-lhe na vida sem merecer-lhe estudo mais acurado.

Judas. Bartolomeu. em Jerusalém. Hosanas ao Messias. feliz. é sempre fácil. apagado e discreto. Perfumes no ar.Por que tristeza. por si mesmos.A batalha mais árdua é vencer com os amigos. que dormiriam descuidados. no dia seguinte. observou a atmosfera festiva e disse. Cânticos. 52 . houve um instante em que parou para respirar livremente. porque os inimigos se colocam a distancia. fitando a turba próxima. meneou a cabeça e. que o abandonaria.Bartolomeu. contente: Oh! Mestre.AMIGOS Quando Jesus entrou. Bartolomeu. o aprendiz perguntou: . apesar dos perseguidores! Notando que Jesus continuava em grave silencio. E profundamente desencantado: . Com ele. quanta felicidade! Afinal! Afinal a glória. Até eles chegavam os ecos do grande êxito. vitorioso. sem lhe perceberem a angústia. Simão Pedro. mesmo tendo inimigos. falou sereno: . O discípulo exultava.25 . E toda uma legião de admiradores que. Tiago e João. Senhor. Tomé. Não longe. que negaria o Senhor. porém. Algazarra. se transformariam em adversários. vencer. que o negociara. apenas Bartolomeu. se estamos triunfando de tantos inimigos? O Cristo.

pela manhã. Prende-se contudo. ante o olhar materno. Da. mas.. com muitas promessas. Olinda falava no templo espírita a seis dezenas de crianças subnutridas e maltratadas.. Olinda Soares freqüentava templo espírita contíguo à sua residência. Não me abandone. as pérolas soltas deram às crianças menos felizes todo um Natal de alegria.Filha. estava de volta. Da. pálida. o lindo colar ao pega-papéis justaposto a carteira próxima. ali mesmo. nos guardados mais íntimos. Lea. É o colar que pertencera à vovó. enche-se de medo... Queixando-se ao marido e aos filhos da dureza que encontrara nos corações. 53 . Da.O COLAR DE PÉROLAS . A entidade aproxima-se e diz: . que a auxiliasse. e saía para solicitar a cooperação de pessoas abastadas a fim de atender à comemoração natalina.26 .. vai corrigir a filha. sua filhinha de seis anos. É ela mesma. No momento em que se refere à caridade. vislumbra o Espírito de Da. sem lista alguma. Interrompe-se e tenta alcançar a menina. Joaquina. Da. Acompanha-me.. Joaquina de Miranda. entra a pequena Lea. fazendeira abastada noutro tempo. Olinda..Avô. trazendo ao colo precioso colar de pérolas. Como-se e chora. agora curiosamente rodeada pelas outras. Corre. Levo agora a lista aos amigos. desapontada. Sente um choque. E rogava ao amoroso Espírito de sua vovó. ajude-me a fazer o Natal das criancinhas. e as pérolas se espalham pelo chão. Era sábado. No dia seguinte.. pela sua vidência mediúnica. Conservava-o como relíquia. Responsabilizava-se pelas aulas de moral cristã. À noite. diante de tanta necessidade? E. recolheu- se ao repouso. roupa numerosa e pão farto. você não me pediu auxílio para as crianças? Como pode reter esta jóia por tanto tempo. mas sem qualquer recurso de substância.

despedindo a interlocutora. porém. Movimenta-se. não traiu qualquer emoção no olhar frio.27 . de cabeça empertigada. . compadeça-se de nós! – clamou a infeliz.Nada mais tenho a dizer – falou. O magistrado. Alcançamos a casa solarenga. quando enorme alvoroço estala na rua. ajudamo-la a tocar a campainha a destacar-se na parede fidalga. Profissionais inconscientes! O processo foi corretamente conduzido por mim e a justiça provará que Cecino é um homicida quanto outro qualquer. Ouve.Doutor. Seu marido foi imprudente. apenas surge depois de longa espera. . a visitante que chora. 54 . . *** O juiz voltava. entretanto. Uma serviçal atente prestativa. acompanhamo-la à presença do juiz. Temos oito filhinhos passando falta. – Quem pensa que sou? A justiça é justiça. Extenso jardim. sereno.SURPRESA DE MAGISTRADO Comovidos ante a prece tocante da sofredora mulher. Oito filhos. Houve premeditação inconteste e sanearei a cidade. . . Deleitosa varanda. Tomá-lo-ei para escarmento aos motoristas criminosos. Meu pobre marido não tem culpa. doutor! Tenha piedade e ajude-nos! O senhor não ignora que meu pobre Cecino foi sempre um chofer cuidadoso! O homem estava embriagado quando avançou de encontro ao carro! O juiz. desnaturado. o magistrado. peço-lhe caridade. Torvelinho na via pública.Que deseja a senhora com semelhante arrazoado? – falou irritadiço.Socorro! Socorro! Pega o culpado! Pega o culpado! Populares gritam em desespero. ríspido. Sem que nos pressentisse. ao interior doméstico.Doutor – diz ela –.

Ao lado de luxuoso automóvel, último tipo, agita-se um rapaz aprisionado por homens
do povo. Não longe, uma criança morta.

Inteiramo-nos, então, do sucesso triste. Era o filho do juiz, que, no carro da família, em
correria desenfreada, acabava de atropelar pequenina indefesa.

Mal refeito do choque, ouvimos alguém que pede em tom respeitoso:

- Licença! Licença!

O juiz passa junto de nós com extrema agonia moral a se lhe estampar no semblante
paterno.

Abraça o filho com enternecimento de quem se compadece de um louco.

E, naquele dia, o magistrado não pode comparecer ao fórum...

55

28 - POR TELEFONE

I

Amadeu Barbosa, recentemente desencarnado, era motivo de nossa grande preocupação.

Fora soldado, a serviço da ordem. Corretíssimo. Substituindo o companheiro Abílio
Marques, em determinada diligência, tombara em lamentável desastre e perdera o corpo
físico.

Acabrunhado, queria voltar à esfera dos homens, precisava voltar...

E tanto rogou socorro, que me recordo perfeitamente do dia em que o instrutor
Camerini, recebendo-nos as consultas particulares, lhe falou, firme:

- Amadeu, se você deseja a ajuda de alguém, comece por ajudar alguém.

Desde essa hora, vimo-lo ativo, modificado...

II

Achávamo-nos ao pé de Abílio Marques, quando a enfermeira se abeirou dele e falou
calma:

- Não se impaciente, Sr. Abílio. Deus nos ajudará.

Logo após, a senhora simpática buscou o interior da maternidade e Marques
permaneceu cismarento na sala de espera.

Qual caracol refugiado na concha, ensimesmara-se, esquecendo o mundo em torno.

Pensava... pensava...

Lembrava-se de todas as ocorrências, como se fossem acontecimentos daquele
mesmo dia, embora guardassem o curso de três anos.

Tudo começara naquela tarde...

III

Ele, Abílio, sentia-se sonolento.

Chegara fatigado da corporação.

56

O dia foi cheio.

Tomou lanche reforçado e tentou repousar...

Mal começara a dormir, escutou a voz materna a chamá-lo: Abílio! Abílio!

Encontrava-se de pé ao telefone...

Da. Amélia, a genitora, ouvira-o dizer, de olhos cerrados, dando a impressão de diálogo
pelo fio:

- Alô! Que alegria!

- ....

- Como vai? Disponha, disponha ...

- Ah! sei. Perfeitamente.

- ...

- Hoje? Farei o possível. Conte comigo, conte comigo...

Impressionada, Da. Amélia despertou-o as sacudidelas.

O filho passava, às vezes, por semelhantes fenômenos. Era sonâmbulo. Costumava
levantar-se à noite e andar automaticamente dentro de casa.

A mãezinha passou a relatar-lhe o que ouvira. Palavra por palavra.

Ele, porém, estava radiante e contou que conservava a lembrança nítida.

Seria simples sonho? Não ocultava, contudo, a alegria a lhe brilhar no espírito.

- Mas ... que foi, meu filho?

E ele explicara à mãezinha espantada:

- Mamãe, foi o Amadeu! O Amadeu Barbosa, meu colega de serviço que morreu há tempos.
Telefonou-me, precisamente na hora em que se habituara a fazê-lo...

- Meu filho, que é isso? Onde tem a cabeça? Tudo não passa de um sonho, pesadelo
como os outros...

- Mamãe, mamãe, esperemos! Ele disse algo...

- Que disse?

57

Fizera-se necessária. Irene fora recolhido em casa. Por isso. Chorava.. Buscou a mãezinha e ambos a ouviram. filho único. Restaurara-se. pusera-se ele a ler os vespertinos. Chamava-se Irene. vencido pelo carinho.. Amélia esperava sempre. Era pobre moça mal vestida e despenteada.. Abílio. sem destino. A história do sonho estava esquecida. em plena expectação. Ouvira palavras desrespeitosas na rua e resolvera pedir socorro.. ajudava. como em seu novo lar. Contente. Levantara-se mecanicamente para atender. exatamente quando o genitor desaparecido procurava trabalho. Amélia consolou-a e consultou o marido. Amélia sorriu. andava sem rumo. sozinha e necessitada. Tinham chegado. fora ela a enfermeira dedicada e hábil. como se fora a irmã que lhe faltava. há tempos. Tinha fome. o dono da casa. implorava ao pai auxiliasse à menina. Mas. enternecera-se.. mais irônica. interessados. . Da. e afastou-se. com tremenda infecção. bondosa. vitima de grande explosão. Era a filha que Da. estava ali. Expulsa dos escombros a que se acolhera. Da. E Custódio. falecera. Quando Custódio caíra febril. O pai.. havia dias. dera o contra. quando alguém bate à porta. compreendia. Estava órfã. 58 . do interior e o desastre surpreendera-os em quarto humilde de aluguel. IV Onze da noite. único apoio de que dispunha.Pediu-me ajudar a uma jovem necessitada que enviará até nós ainda hoje. Trabalhava. Custódio Marques.

. tomou o recém-nato. Barbosa renascera. 59 . Amadeu Barbosa Marques. VI Sim. como se chamará o netinho? Ah! O nome? – respondeu Abílio. Abílio! Sr. recordamos a lição do instrutor: . que se achava ao pé da nora -. A pupila de ontem era-lhe agora a companheira querida. Irene? E a esposa fez um gesto de aprovação.Amadeu. agora..Sr.. de todos os sucessos e de todas as minudências! Procurávamo-nos asserenar-lhe a mente inquieta.. ternamente.Então. com a alegria de todos. diante dos fatos.. Acompanhamo-lo ao quarto. foi normalíssimo. em pranto de alegria. Abílio! É um lindo menino! O parto. comece por ajudar alguém. meu filho – perguntou Da. Abílio desposara-a. enquanto a enfermeira reaparece com ar triunfante a chamá-lo: . transbordando felicidade. emocionado. na face. quando ouvimos choro forte de uma criança. graças a Deus. aflito. Recomeçava a existência para lutar e triunfar. – Ele se chamará Amadeu. inclinou-se para a esposa e beijou-a. se você deseja a ajuda de alguém. tonto de júbilo. Depois de dois anos.. Amélia. Abílio. Em seguida. V Como se lembrava. . E. não é. Sorriu.

SEGUNDA PARTE MÉDIUM: FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER 60 .

1 - PÁGINA DE ANÁLIA

À doente se queixava em desespero, a senhora que lhe velava o leito perguntou:

- Permite que eu leia para seu reconforto algum pequeno trecho de Allan Kardec?

- Deus me livre! - gritou a enferma, cuspindo-lhe aos pés.

Ainda assim, as mãos abnegadas da companheira continuaram ajeitando-lhe os lençóis...

- Quero água! - exigiu a doente.

A amiga trouxe-lhe água pura e fresca.

De copo às mãos, a enferma, num ímpeto, atirou-lhe todo o líquido à face, vociferando:

- Água imunda!...

como se atreve a tanto?

Quero outra!

Paciente e humilde, a senhora enxugou o rosto molhado e, em seguida, trouxe mais água.

- Quero chá.

E o chá surgiu logo.

- Chá malfeito! Chá frio! O conteúdo da taça foi projetado ao peito da outra, ensopando-lhe
a blusa.

- Traga chá quente! Foi a ordem obedecida.

- Você aceita agora o remédio? - indagou a assistente.

- Que venha depressa.

Ao tomar, contudo, a poção, a dama inconformada agarra a colher e vibra um golpe no
braço da amiga.

61

Surge pequeno ferimento, mostrando sangue.

E a enferma cai em crise de lágrimas.

Chora, chora e depois diz:

- Anália, se a religião espírita que você abraçou é o que lhe ensina a me suportar com tanta
calma, leia o que quiser.

A interpelada sentou-se.

Tomou "O Evangelho segundo o Espiritismo" e leu a formosa página intitulada A Paciência,
no capítulo IX, que começa afirmando:

"A dor é uma bênção que Deus envia a seus eleitos..."

Acalmou-se a doente, que acabou aceitando o socorro do passe e o benefício da água
fluída.

Conversaram ambas.

A enferma, asserenada, ouviu da companheira os planos que arquitetava para o futuro, em
benefício dos meninos abandonados à rua.

No dia seguinte, ao despedir-se, a obsidiada em reequilíbrio beijava-lhe as mãos e dava-lhe
os primeiros dois contos de réis para começar a grande obra.

Essa enfermeira admirável de carinho e devotamento era Anália Franco, a heroína da
Seara espírita paulista, que se fez sublime benfeitora das criancinhas desamparadas.

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2 - O ENCONTRO

I

Rosabela preparava-se. Não cabia em si de esperança. Visitara o cabeleireiro, e
experimentava, feliz, o vestido novo.

Sozinha no apartamento, relia a última carta. A última carta de amor que a buscava,
enfim. E a sós, enquanto a noite de sábado transbordava de música, recordava, recordava...

Casara-se, havia cinco anos; todavia, Tristão, o esposo, revelara-se libertino. Não
conseguia olvidar os primeiros tempos. A presença dele, suas palavras e promessas,
estavam em seu pensamento como inolvidável perfume.

Ainda assim, tivera coragem de romper consigo própria e tentar outra experiência. Isso
porque não tivera força de perdoar-lhe.

Rememorava a noite em que se haviam despedido...

Regressava do interior fluminense, onde fora ter com os pais, em repouso breve.
Entretanto, inesperada queratite obrigara-lhe a volta em momento imprevisto. E não olvidava
o quadro que a ferira, fundo.

Penetrando em casa, surpreendera Tristão embriagado junto de outra. Ambos
agressivos. Inconvenientes. Dilacerada nos melhores sonhos, protestara, chorando; contudo,
o marido alterado, atira-lhe as malas na rua. Expulsara-a como se fora um animal corroído de
peste.

Acolhera-se à residência de amigos e mudara o curso dos próprios passos.

O esposo, talvez mudado, tentara a aproximação, mas debalde.

Ultrajada, negou-se.

Alugando pequeno apartamento em bairro distante, aceitou as funções de datilografia
quase anônima, em grande companhia comercial. E mergulhara a mente no serviço.

De quando em quando, esse ou aquele Don Juan de esquina lhe deitava olhos menos
sensatos; todavia, pelo comportamento irrepreensível, não lhes encorajava qualquer palavra
incorreta.

O tempo correu lentamente.

Um, dois, três, quatro anos...

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Autobiografias discretas. anunciando trinta e dois anos de idade. endereçando bela missiva datilografada para a caixa postal indicada. Confidências recíprocas. contente. até que pudessem estabelecer um encontro franco. supunha que faltava Tristão. por sentir-se sozinho. perdão. entendimento. estava modificada. carinhosas e ardentes. uma noite diferente. Aqueles apontamentos dele inclinavam-na à alegria e à esperança. E dizia-se um homem a caminho de regeneração. Relacionava dificuldades do pretérito. Acabava. Não acusava-a informava. consoladores. Em outras missivas. que ela manuseava com imensa emoção. O curioso anúncio era assinado por Benjamim Solis e apresentava expressivo cunho de serenidade. Lia velho número de uma revista sentimental e encontrara aí um convite a esmo. desejava estabelecer amizade com alguém. E ofereceu-se. intimamente desamparada. Ela mesma. desde muito. que não soubera fazê-la feliz. contou-lhe Benjamim uma longa história. Cavalheiro. no entanto. Ensaiava a aquisição de amizades novas. entretanto. Às vezes. Livros espíritas. 64 . Falavam de renúncia. mas arredava para longe o pensamento. Após refletir. Mas via-se distanciado da esposa. no entanto. Sentia-se. historiava estranhos episódios. Respeitosamente. Declarava adotar igualmente a datilografia por sistema ideal. feliz. Mais paciente. desiludida. apenas. E as cartas começaram afetivas para se tornarem longas e belas. com dez meses de correspondência. II Surgiu. resolveu arriscar. mais tolerante. Benjamim escreveu. Era casado.. Dizia chamar-se Rosalinda Malvar e informava a posta-restante para a resposta. Flores e lembranças pelo correio. Enviava livros..

porém. descer. todavia.. Respondera aquiescendo. agora. Contudo. do dia seguinte.. ali estava. Enfim. depois. Não quis.. Dois minutos para dez. o lotação. domingo. 65 .. a que se avistassem.. no entanto. a remessa de fotos. coração aos saltos.. Envergaria costumes de linho alvo e traria gravata escura com pequeno alfinete em forma de “R”. Aí mesmo. E caminhou. Queria movimentar-se um tanto. Fez sinal e apeou numa rua da Gávea. à porta do velho Jardim Botânico. Antes. Esperá-la-ia às dez horas em ponto. religiosamente datilografadas.. Incentivo do coração que pudesse auxiliá-la a viver. à caça de ar puro.”. deliberadamente. mal suportando a própria emoção. buscando anular-lhe o reflexo. nada a impedia de manter uma afeição pura e nobre. enfim o encontro. Avançou trêmula. convidava-a. Estava presa aos compromissos legais. entre si.. Rosabela pôs-se em marcha. A princípio. no rumo certo. Benjamim.. adiavam sempre... E pensava: “se conhecesse tudo isso ao tempo de Tristão. E informara que trajaria um vestido da mesma cor. mostrando um broche singelo lembrando os contornos da mesma letra. Olhou o relógio. revirava nas mãos a última carta. Impossível que Benjamim fosse mau. Pensando em como prosseguir no romance. de chofre. nas imediações do jardim. mentalizava Benjamim e expulsava a imagem do esposo. III Manhãzinha.. Vários grupos se movimentaram sob o arvoredo. naquelas cartas. mais alguns passos e estacou. utilizando pequena bolsa. Preparar-se. retocou o semblante e realinhou os cabelos. o elétrico e. plenamente refeito. E chegar às dez em ponto. E ainda que houvesse cometido algo passível de justa reprovação.

prestes a cair. . Mas.... abraçou-a mais forte.. muito pálido. ao notar que ela repousara a cabeça em seus ombros. aquele homem. Este encontro é a resposta do Mundo Espiritual às minhas preces constantes! Louvando seja Deus!. Aquele homem era Tristão. O alfinete em forma de “R” luzia. veio ao encontro dela. O amigo lá estava. Rosabela nada respondeu. O marido. Ambos. Sofri demais. Perdoe-me. agora! Estou transformado. 66 . não obstante minúsculo. no entanto...Pois é você... abraçaram-se de manso. depois de alguns minutos.. creia. Roupa branca e gravata escura.. percebeu que a primorosa lapela surgia agora ensopada de lágrimas. Rosa? Eu bem que desconfiava. e. Somente você poderia escrever-me como fez. O esposo. tocando-me o coração.

de idéias espíritas. está no círculo. o senhor tem razão. Levado ao facultativo. o fazendeiro itinerante observa. recebeu conselho. Mas sempre noto que a gente. marcara encontro com a autoridade e. 67 . Um velhinho a pedir café.DENTRO DA PRÓPRIA CASA Abastado fazendeiro fluminense. faz também ladrões. era apontado como sendo o autor do desaparecimento de grande soma de residência vizinha. a fim de entender-se com o Juiz de Menores sobre o comportamento reprovável de seu filho. É possível que a gente ajudando possa. Para cada um tem o auxílio como reposta. vinha do sítio à cidade. sem exauri-lo. doutor. Em seguida. Ajudar a torto e a direito é criar vadios. conta apenas migalhas. Um doente que lhe apresenta o semblante triste. humilde e abnegado. medicação. Ouve a conversa com discrição. O pai. mas creio que o exagero da caridade é um abuso. de imediato. Essa ou aquela criança tentando amparo. aqui e ali. A pequena mão leve preocupava. Um companheiro reconheceu-o. É um coração materno a rogar auxílio. ver surgir vadios.E às vezes fazemos ladrões dentro da própria casa. conselheiral: .3 . mas José Luís saca do bolso. ferroviário espírita. tenho muita simpatia pela Doutrina Espírita. Por último. acumulando muitos bens sem proveito. abraços. O dinheiro é pouco. De fato. parou num posto de gasolina. a roda de amigos. O jovem de catorze anos se fizera malfeitor. atende a esse ou àquele necessitado. Supunham-no enfermo. José Luis do Espírito Santo. De quando em quando. aflito. O ferroviário esboçou o gesto de quem fora surpreendido em falta e justifica-se: . Ainda assim. Um homem como eu. passou a escandalizar parentes. A princípio. E sem saber que tocava fundo na chaga do homem: . de passagem por Nilópolis. A certa altura. E. Assunto vai. assunto vem. subtraía valores em casa.Meu amigo.Dou coisa alguma. não se emendou.

tudo exigindo. os agentes do fisco.. um dos diretores do templo -. através do médium. Mas... por que? Meu trabalho é tão lícito quanto os outros..Acautele-se. revólveres e rádios. O trabalho honesto á a vida segura. Aposto que mudaria se estivesse no nosso. Leonardo Madeira falava aos amigos: . desalentado.CONTRABANDO . fizera-se o receptador de perfumes e isqueiros. exigências de Ricardo e loucuras de Ricardo. Compro e vendo. Você é tintureiro. passeios de Ricardo. Lembre-se de que.Mas ouça. Ambulância. Resigne-se ao dever. ainda o terceiro. Tenho um filho para educar e o colégio é um osso duro. Entretanto. Ricardo era o filho feliz.. como complemento aos folguedos daquela noite. com esmero. Rebuliço.. Pode haver embaraço. . E Leonardo continuou. Gritaria. chega em casa e deslumbra-se.4 . no comercio ilegal. porém. – Não queira contrabando. . Leonardo. Corre-corre.. é tudo que faço. Carrega a arma e experimenta.. Leonardo – falava Serra.Ora. todos os dias. às vezes. Pode haver. apalpa o outro. a noite de enorme desilusão.. Burlava. Se você realmente negocia de forma clandestina. Maria Clara ao seu filho Leonardo. 68 . sim. costumamos tudo perder. ali mesmo. A criatura tem livre-arbítrio para melhorar o destino ou agravá-lo. Chegou. altera-se a direção e a bala lhe vara o peito. Mas o suor na obrigação bem cumprida é o preço correto da verdadeira felicidade! – assim falava o Espírito de Da. À noite. em poucos minutos. Minha vida é meu filho. Por fim. Jurei que não terá de futuro as minhas dificuldades. Minha mãe mora noutro mundo. E a renda aumentava.. mas os dedos tremem. que é serviço de Deus. Cuide da roupa limpa. ora.Clandestina. Recebera Leonardo três revólveres finos para passa adiante. simpatiza mais fortemente com um deles. meu filho! Fuja de qualquer desrespeito ao caminho legal.. alcoolizado em festa junina. Observa um exemplar. recolhe o filho morto. Para estudos de Ricardo. o filho. você precisa considerar. ao término da sessão.. E tem a idéia louca de disparar.

Noto igualmente que precisamos de um instituto diferente para os alcoolizados. à noite..Excelente projeto.É uma escola. em que os internados esqueçam o vício. . em bases espíritas.E uma vila completa para os nossos irmãos infelizes que moram em casebres misérrimos? Uma vila. de amplas proporções? .Isso seria uma concessão de Deus.Que acha você levantarmos um orfanato para as criancinhas desamparadas de Salvador? . Às vezes volto para a casa.. Afinal – pensava – surpreendera ave rara. 69 . não podemos ficar parados. . quando um rapaz. homem disposto a trabalhar e sofrer pela causa. Petitinga não cabia em si de contente. . Uma obra dessas é um monumento de amor.Muito importante. . trabalho.5 . ..O plano é uma benção. E entre ambos a conversação se alongou. Alguém iria longe. Que opinião é a sua? . . .. . interessado em grandes projetos de assistência social. A hora é de trabalho..Nem tenho expressões.E um sanatório para obsidiados? . e vejo anciãos na calçada. veio procurá-lo.Também penso assim.Um lar para velhinhos é uma necessidade.. Petitinga.Petitinga. Que dia você de um albergue moderno.NA HORA DO PASSE Dirigia José Petitinga distinta organização espírita na capital baiana. em que pudéssemos reunir muitas famílias? .. Uma casa-hospital. é caminho do Reino de Deus.

Repetiu. Você compreende. Mas o moço. e ele. a sua palavra brilha para mim. E como o tempo passava e tinha serviço urgente. várias vezes. Continuemos conversando em serviço. Tenho família.. isso não. convidou: . o gesto de quem expulsa a poeira do paletó. que sonhava tantas obras de caridade. desenxabido: .. Fez-se lívido... Estou justamente na hora do passe a dois irmãos tuberculosos e terei muito prazer em seu concurso. Não posso buscar moléstias contagiosas.Ora. Petitinga. E lá se foi . incompreensivelmente. respondeu.Bem. meu amigo.. alterou o semblante. 70 .

O senhor prefere o avião? Dez minutos apenas. 71 .A estrada é péssima. No outro dia. na expectativa da intervenção.Que sugere? – roga o marido desapontado..Nada disso.. em vilarejo distante. o esposo aflito aquiesceu e partiu a galope. Sales Neto.. a residência do operador estava cheia de gente..Era o que faltava! Não posso expor-me assim. distinto médico espírita.A crise apareceu de surpresa.. não me arrisco..... havia morrido.. porém. doutor? Arranjo-lhe um cavalo. .. tragam a parturiente aqui. .Um cavalo. . Perdi dois amigos de uma só vez na semana passada. De minha parte. procurando esquivar-se. quando a senhora Meireles chegou.Um carro? . O senhor já operou Paulínia por duas vezes. . tão longe? – disse o médico. . .. em conseqüência de uma trombose. Narciso Meireles pedia o concurso do Dr Sales Neto. abatida.. Não soube do desastre havido anteontem? . naquela noite. em busca do teco-teco.. como julgarem melhor. no próprio leito. para a mulher que experimentava parto difícil. a sua competência é a nossa esperança.. Nada de vôo.. Em face da evidente má-vontade do facultativo.Doutor..Por que deixaram ficar assim.. . O Dr.O TEMOR DA MORTE ..Se quiserem – disse o médico -.6 .

Francisco Teodoro. sem abandonar a tensão. Surgira. e disparou um tiro no crânio. descansava no depósito.Coronel Francisco. Defrontado por crise financeira esmagadora.. promissor. construíra uma fábrica. o industrial suicida.7 . com protestos públicos. Ainda assim. armazéns e lucros firmes. apresentava desculpas. descobriu que a vida continuava. nossa firma não pode esperar. Meses passaram pesadamente. E porque alguém o ameaçava de escândalos na imprensa.POR CINCO DIAS Mais de seis lustros passaram. Importando fios. A produção. Sr. anunciando-se insolvável. carregando.. Por toda parte. em que seria indicado por negociante desonesto. Devia aos credores diversos o montante de oitocentos contos de réis. Deus não desampara as criaturas – pensava. Humilhavam-no cobranças e advertências. abundante. Francisco. porém. O capitão do serviço pedia mais tempo. 72 . a lhe invadirem a casa. Procurava consolo na fé religiosa. trago-lhe as promissórias vencidas. a retração dos negócios. escreveu pequena carta. em zonas sombrias de purgação. tentava a oração. conseguira tecer casimiras notáveis. . Tivera vida próspera. Cartas vinagrosas chegavam-lhe à caixa postal. lia e ouvia referências à Divina Bondade. havia aniquilado a existência. À custa de ingente esforço. a cabeça em frangalhos. sem compradores.. falava de novas esperanças e comentava as dificuldades de todos. Frases vexatórias espancavam-lhe os ouvidos. Operários e máquinas eficientes. E o trabalho se desdobrava. Com imenso pesar. experimentava pavorosos suplícios nas trevas..

o progresso enorme da fábrica que lhe saíra das mãos. Ele apenas não soubera esperar. internando- se em casa de reajuste. pode recuperar-se. os filhos e os netos reunidos no trabalho vitorioso. chorando de alegria. E agora que retornava à cidade que lhe fora ribalta ao desespero. que acumulara zelosamente. o visitante espiritual compreendeu.. 73 . Palavra alguma na Terra conseguiria descrever-lhe o martírio. Mostrando melancólico sorriso. reavendo afeições e reconhecendo amigos.914. produziu importância que superou de muito a quatro mil conto de reis. reverenciado pelos descendentes no grande escritório. surpreendido. então... Depois de trinta anos. E após reconhecer o seu próprio retrato.. veio a saber que acontecimento importante sucedera cinco dias depois dos funerais em que a família lhe pranteara o gesto terrível. que a Bondade de Deus não falhara. ante a grande guerra de 1. Sentia-se um louco encarcerado na gaiola do sofrimento.. abraçou. o estoque de casimiras. À face de alteração na balança comercial do País. notava. Embora invisível aos olhos físicos dos velhos companheiros de luta.

Cimo é que você arranja numerário para esse fim? .Não ignoro que você tem deveres de caridade na instituição que freqüenta... Temos bonde à porta e. mas se o faço.Quatro mil cruzeiros. foi procurado por amigo situado no comércio do Rio. .Não é bem assim – falou Sampaio. Você 74 .Sampaio – disse o visitante.. O homem fez um gesto irônico e observou: . do Rio de Janeiro.NÃO VALE A PENA Antônio Sampaio Júnior. Boa cama no dia seguinte. Certa feita. valoroso tarefeiro do Centro Espírita “Regeneração”. nem sempre posso visitar os doentes. sei que você é espírita e esfalfa-se.. enfrentando dificuldades..Não vale a pena..Pois é.Não vale a pena. às vezes com sacrifício da própria saúde... .. meu dia de serviços corre normal. E prosseguiu: .Gasto o que posso. depois do bonde.. Estou informado de que você visita os infortunados nos morros.. Zeloso. por fim: ... socorrendo órfãos e amparando viúvas. É tempo de você melhorar. correto.. Três milhões de cruzeiros.. Preciso de um sócio para um negócio da China. . faz sempre bem uma caminhada a pé. e. tenho amigos.Não disponho dessa facilidade. madrugador. sem rebuços -.. às vezes.. passa noites à cabeceira de enfermos... Quanto você ganha mensalmente? .. o diretor faz concessões. humilde -. apelos.. . trouxe à luz um documento e abriu-se. admirando você como sempre.8 . Sampaio. Aproveita decerto o carro de alguém. ponto facultativo. resolvi auxiliá-lo de vez. para sentar-se à máquina de escrever. Faço listas. era humilde servidor num escritório.Não vale a pena. quando a despesa ultrapassa os recursos. Naturalmente. . Disseram-me – continuou o homem – que você. há muito tempo.. mal havia espanado os móveis pela manhã. O amigo meteu a mão no bolso interno.

. perguntou: . mas temos noventa e nove probabilidades a nosso favor... sem perder a serenidade. teremos entrevista no Distrito Policial....E se falharem as noventa e nove?. o assunto envolve alguns interesses de repartições públicas. evidentemente desapontado -.. você e eu ficaremos provavelmente com mais de um milhão cada um..... sem desejar ofender.assina comigo a papelada e acompanharei todo o assunto. É um navio velho que vamos desencravar. Gastaremos talvez uns quinhentos contos na tramitação do processo.. Sampaio. E recomeçou a espanar.Ah! Se vier o contra – informou o amigo. falou simples: . mas há algum inconveniente a considerar? .Não vale a pena. . Sampaio.Creio na lisura da iniciativa. Basta só que você assine.Bem. Tudo pronto.. 75 .

o produto está sendo surrupiado. ele mesmo. n o Estado do Rio. havia plantado grande milharal de parceria com um amigo.. o sócio. Decorridos alguns minutos. Mas. lavrador de prol. em silêncio. não quer ser agora surpreendido.. No dia seguinte. Ele. sob copada árvore. que desejava surpreender. à nossa custa. . o sócio vem de novo comunicar-lhe que a roça estava sumindo. O sócio.CLAUDINO E A LAVOURA Entre Barra do Piraí e a vila de Juparanã.. renovando a denúncia. financiava o cometimento.. E na manhã seguinte. em prece. vê o intruso.. É o próprio parceiro da lavoura.. dia a dia -. Claudino recua. mãos anônimas começaram talando a roça. tac. que aceitara o negócio na intenção de ajudar uma instituição de caridade. De vez em vez. arrancando espigas. despreocupado.. numa noite de luar Claudino resolveu inspecionar a roça. iam namorar a cultura viçosa de que as águas do Paraíba eram farto sustento. Alguém está fazendo comércio de milho verde. Surgindo a época das espigas iniciantes. Compadece-se do amigo e afasta-se em silêncio.9 .. quase uma hora. . Claudino – vinha José. Claudino Dias. Não feriria o irmão que aproveitava a noite para roubar. dê conselhos. 76 . Alguns momentos depois de zero hora.. José aparecia. denodado seareiro espírita barrense.. até que atingiu a margem do rio. Tac.. e Claudino. não faça violência. Caminhou.Sr.José – recomendava o amigo-. notou que alguém quebrava o milho com discrição. descansou. tac… Recordou o Evangelho e mentalizou as palavras que iria dizer. Avançou devagarinho. os dois. Se apanhar o responsável.. juntos. notificar. Porque o resto do milho amadurecesse e o furto continuasse. tac. cuidava da gleba. a poucos metros. vigie com critério.

– falou o amigo.Muito grato pelo convite. O senhor é um santo.. Claudino sorriu e respondeu: .. realmente a lavoura tem dado a você muitos problemas e prejuízos.Oh! Oh! Muito obrigado. De hoje em diante. mas queria convidar o senhor para plantarmos dois alqueires de amendoim. Pode agir à vontade. E ante o amigo desapontado. mas desejo ajudá-lo. . em tom paternal -. E continuou: ..Agradeço muito. concluiu: . você é o dono.. 77 .Mas Deus é sócio de todos nós e estará com você. mas agora não posso...-José – diz o companheiro. A plantação é toda sua. Meus deveres são muitos. Não precisa pensar em mim.

Dispunha-se à retirada.Que sente um cadáver se o mergulham num lago de piche? .Meu filho – disse o pregador -. em verdade carrega consigo a consciência morta. 78 .Nada – disse. pois cadáver não reage. O senhor disse que a calúnia é um braseiro no caluniador. O senhor disse que o furto é um espinho no ladrão..Que sente um cadáver se lhe enterram um espinho no peito? . apóstolo da Doutrina Espírita no Brasil.Coisa alguma. no Plano Espiritual.Pois olhe. Eu roubei e nada senti. o Dr. acerca dos desregramentos morais. .. O senhor disse que o criminoso tem a nuvem do remorso a sufoca-lo. Bezerra de Menezes. Eu matei e nada senti. rindo. É um morto-vivo. O senhor disse que o destruidor de lares terrestres carrega a lâmina do arrependimento a retalhar-lhe o coração. quando fino ironista o invectivou: . doutor. Destacara os males da alma e os desastres do espírito. . Falara. rematava a preleção. maneando paternalmente a cabeça. Eu caluniei e nada senti. Doutor Bezerra fitou o triste interlocutor e. que sente um cadáver quando alguém lhe incendeia o braço inerte? .Escute. meu filho. o opositor sarcástico -. Destruí diversos lares e nada senti. concluiu: .Absolutamente nada.O APARTE Perante o enorme ajuntamento de sofredores desencarnados. E a conversação prosseguiu. quando alguém não sente o mal que pratica.10 . com muito brilho. . ora essa! O cadáver é a imagem da morte.

Sempre vovô chama por ele nas preces: “Vem Jesus! Vem Jesus!” e Jesus nunca veio. antes que o vovô terminasse. a dona da casa. Acho que Jesus ouviu a nossa conversa e mandou alguém por Ele. é um homem! Ele está pedindo em nome de Jesus.. são representantes dEle.. nós. filhos e netos. nesse momento repartia o café. batem à porta. e explicou: . O Mestre vive presente conosco em suas lições. não sei porque Jesus não vem. encantada: . trazendo o desconhecido. Um doente é uma pessoa que o Senhor nos manda socorrer. reclamou: . voltaram. apoiando-se em pobre cajado. É preciso abrir a porta. depois de alguns instantes. Maria.JESUS MANDOU ALGUÉM O culto do Evangelho no lar havia terminado às sete da noite. Ana Maria e Jorge Lucas. e João Pires. . O avô riu-se. porém.. correm para atender.Vovô.. Ana Maria..Que é isso? – exclama a senhora Pires. aproxima-se do avô e informa. em torno da mesa.11 . principalmente os mais necessitados.Ninguém não! É só um mendigo pedindo esmola.. os espíritas.Vovô. esperava o café que a família saboreava depois das orações. um faminto é alguém que Ele nos recomenda servir. não podemos pensar assim.Filhinha. 79 . pequena de sete anos. A família comoveu-se. irmão mais crescido. aparentando mais de oitenta anos de idade. e. D. E cada pessoa do caminho.. bondoso.... O chefe da casa acompanhou a netinha e. Daí a instantes. instintivamente – a estas horas? Ana Maria. enquanto o menino grita: . voltam. com a esposa. junto de nós. de roupa em frangalhos e grande barba ao desalinho. Era um velho. de olhos arregalados.

no “até amanhã”. após abraçar o inesperado visitante. vovô? O grupo entendeu o ensinamento e o recém-chegado foi conduzido à poltrona. 80 . o ancião respondeu: .Ante a surpresa de todos.Como não.Eu não falei. a menina segurou-lhe a mão direita e perguntou: . Antes da despedida.O senhor conhece Jesus? Trêmulo e acanhado. minha filha? Ele morreu na cruz por nós todos! E Ana Maria para o avô: . Recebeu tudo o que precisava e João Pires anotou-lhe o nome e endereço para visitá-lo no dia seguinte. enxugando os olhos.Graças a Deus. a pequena dormiu feliz. sensibilizado: . tivemos hoje um culto mais completo. com ar de triunfo. falou. Alimentou-se. o chefe de família. e.

instou muito e conduziu-o a uma reunião da Doutrina Espírita. Em sã consciência. Por uma semana repetiu-se o reencontro. porém. desarmado. e..Nada fizera que pudesse ofender. pensando. topou. retornando ao trabalho. munido de um revólver. Ele. freou-se prudentemente. mas recordou a lição e conteve-se. porém.MESMO FERIDO O rapaz fora rudemente esbofeteado num baile. agora.A corrigenda do ofensor pode ser amanhã.Mesmo ferido. aquele que o ferira. na qual surgiam afirmações como estas: . O jovem ouviu atentamente e saiu pensando. pela mão de um dos médiuns presentes. covarde” – haviam dito os circunstantes. .Ninguém precisa vingar-se. encontra um enterro e descobre-se. porém. o desafeto. Por mera desconfiança. compreendeu que. porém. . não seria prudente medir forças. E. picado por escorpião. Desinteressado. face a face. Na manhã seguinte.A justiça real vem de Deus. vingar-se. comentários e apontamentos edificantes. Ao término da seção.. aguardava ocasião. escreveu bela página sobre o perdão. no entanto. por sete vezes. . “Covarde.12 . limpando a face sanguinolenta. Jurara. o agressor esmurrara-lhe o rosto. Só então vem a saber que o grande esmurrador. Um amigo. 81 . serve e perdoa. não sentia culpa alguma. um amigo espiritual. Dias depois. percebendo-lhe a alma sombria. morrera na véspera. ouviu preces e pregações.

Entreguei o pedaço de terra ao meu primo Martinho Dantas e abalei-me. Tornarei. de meus avós. como bêbado solitário. vejo pequena bolsa.. II Peres interrompeu-se. Mastigando folhas amargas que me impunham tremenda salivação. a tempo breve. arrastei-me. Semi – enlouquecido. Juvenal e Sertório entraram em fuga. não mentalizava senão ouro. não sei.. achávamo-nos sem caminho. não encontrava por mim senão cascalho e desilusão. sorrindo -. Cada minerador. A seca atacava tudo. e rumei para Vila Rica.13 . como quem encontra os remanescentes de uma farofa gorda. sim – dizia bem humorado -. Cambaleei por dois dias. Guarda-Mores e Oficiais Deputados para as Minas de Ouro”.. ouro. com que o cetro português procurava incentivar a mineração no Brasil. estava de volta à esfera dos homens. em Taubaté. procurando comer. para morrer depois em pavoroso suplício. Ouvi a fama das minas de Cuiabá. até que.. prestimoso amigo do Plano Espiritual. E bebo água.. em pleno deserto verde. ignoro. E porque desfrutasse merecidos afetos. ouro. mas fomos desviados da rota e.. felizes. demorei-me por tempo indeterminado.OURO E BATATAS I João Peres. arrastei-me. Instalado nas vizinhanças de São João Del – Rei. Mas sei que vivi pesadelo 82 . Trinta anos vivi ali a loucura do ouro. Abro o saquitel e contemplo uma farinha dourada. invadida de pó valioso. Todavia alguém pede mais. quando foi promulgada a lei de 18 de abril de 1702. Vendi a propriedade que herdara.Tudo começou às mil maravilhas. Tremo de esperança. com dois escravos. encho a boca. fatigado. Encerra então a carreira? Não – disse ele. consegui catorze cativos e comecei meu trabalho. recheada com algo.. muita água. era como bênçãos de luz a festa das despedidas. para a viagem temível. e espero vencer agora. ao que respondeu generoso: . Tudo pronto para o renascimento. No delírio que me assaltava. Na segunda noite de maiores dificuldades. levando-me víveres e cavalos. Se acordado..356 metros quadrados. sozinho. E caí doente. Mourejando de sol a sol. Alguém teria deixado ali algum resto de refeição. ao pé da própria carcaça. porque nada mais fizera que comer ouro em pó. Indagou alguém se estava informado quanto ao pretérito. sob o nome de “Regimento dos Superintendentes. 4. Cobiçoso. senti fome. ou seja. Mas enquanto companheiros diversos prosperavam. Se dormindo. ao pé de uma fonte.Conservo a memória voltada para certo período – e modificando a expressão fisionômica: Tinha eu trinta anos de idade. febril. a pouco e pouco me desencantei. com mais de 12 escravos poderia receber uma data com 900 braças quadradas.

e ajuntou: Desde então.. Viajei garantido. poderia desfrutar vida farta. resolvi retirar-me. rumo ao sul. mostrando o seio aurífero. próspero. Mas exigi. . um amigo que também se dispunha à reencarnação. ou nada feito. no entanto. Na travessia do S. Volto ao meu torrão antigo em S. exigi que as minhas duas grandes malas de ouro me acompanhassem.. Atravessava a de novo a casa dos sessenta anos. de enorme fortuna em ouro e consegui escapar ao processo. no movimento da retaguarda. intrigado. mergulho nas profundas águas. A terra que eu lhe emprestara abrira-se. porque o próprio Martinho não mais achei. E. Tomei tropas. Reclamei meus direitos e bramei contra o mundo. sensato. estimulei nos escravos o gosto do furto. Paulo e vou plantar batatas. Policiado. Peres? – Perguntou.. O ex-garimpeiro e comerciante levantou-se e atendeu: -Agora será diferente. sem que ninguém me ouvisse. 83 . Mudaria meu próprio nome. Buscaria o território baiano e. ansiando a pose de ouro. por lá.. no entanto.. tudo esquecendo. quando a clandestinidade dos meus serviços escusos foi revelada. subornando funcionários e consciências. Carga volumosa e pesada. deixando larga fortuna aos filhos. desceria por mar.. “É muito peso” – disse o barqueiro. com a carga. lâminas de ouro e caixas de ouro. Na Corte.E agora.. pensativo. Morrera. Viajava entre Sabará e São João Del – Rei sem medir sacrifícios. Francisco. por bondade de Deus. Gritando. sorrindo. dormi. Peres fitou-nos. O homem aceitou. em espírito.incessante em que via barras de ouro.. pus-me. à feição de louco. E aumentei meus negócios. concluiu: -É muito melhor. até que. Depois. um dia. pepitas de ouro. Renascera entre os bisnetos de meu primo e. Muito tempo havia passado. desde de cedo. mas a pleno rio. Servidores numerosos. Vai-se a primeira mala. Dispunha. Ele e eu. perdendo de novo a vida. Quando essa loucura encontrou alívio. aprendi a comerciá-lo. O barco oscila. Entretanto aspirando à riqueza fácil. Quanto me pudessem oferecer tinha preço. surgem correntes mais fortes. enfim. Tento retê-la e cai a segunda. tomaria medidas novas. sofri merecidos horrores para aprender.

meu amigo.O NEGÓCIO DA DOAÇÃO O professor chaves. mas tudo sem resultado. meu amigo? . duzentos contos de réis. Queria.. agora desejo doar duzentos contos para obras espíritas.. . O distinto educador. então? Humilde e simples. pioneiro da Doutrina espírita.Que idéia! – falou o visitante.. O que eu desejo é fazer uma dádiva. não tem preço.Caridade é o amor de Deus no coração humano.Dádiva é o bem que a gente faz sem esperar recompensa de coisa alguma. o apoio de seu prestígio diante dos espíritas.. despediu-se e procurou distração num bilhar. peremptório. sumamente conhecido por sua virtuosa austeridade. o tesouro do verdadeiro amor ou o espetáculo do céu estrelado?. .Já auxiliei construções espíritas numerosas. desencantado. Como a reticência se prolongasse. Em toda parte. guardava silêncio. tenho aspirações políticas desde muito tempo. conforme nos ensina o Espiritismo. nervoso. entretanto. o professor explicou: . É uma lástima. Que é caridade.Chaves. Para vocês.Queria o que.Que é isso? – falou o amigo. espíritas. E esse amor. Onde é que o senhor já viu alguém pagar a luz do sol. . para que me garantissem o voto. Tenho apenas recebido ingratidões e mais ingratidões.. desse modo.Nada posso fazer – disse o professor. como você não desconhece. 84 . Chaves perguntou: . – Entrego duzentos contos. em Uberaba. . E inquirido por alguns correligionários quanto aos resultados da entrevista. que lhe falou sem rebuços: . foi procurado por prestigioso amigo do campo social. deu primorosa tacada e falou que o professor João Augusto Chaves não passava de um louco.14 . com ar de censura . isso é muita filosofia...Desejava a sua palavra empenhada. imperturbável.. O político. disse o outro -. E o outro prosseguia: .você prometeu receber-me e atender ao meu problema.. .Pensei que o senhor estivesse tratando de caridade. o que vem a ser uma dádiva? E o educador respondeu sereno: .Mas Chaves. mentiras e mentiras. Minas. a bênção do ar.. mas o que francamente procura é a realização de um negócio – disse Chaves.

e disse: .15 .O CARTAZ . não – explicou o negociante. o senhor foi convidado a seguir sua vocação e está pago pelos serviços que nos prestou.Meu amigo. o rótulo é quase nada. – era Frederico Figner. Figner fitou o grande edifício junto ao qual conversavam.. . Discute sem razão. o senhor não serve para o trabalho comercial. paternalmente -.Mas Sr. Perde tempo. tudo é harmonia e disciplina. Figner – anotava o moço -.. de conformidade com todos os seus direitos. Foge aos horários. abnegado espírita e grande comerciante. Mas note o cartaz à porta do cinema. . Desatende os que nos procuram..Decididamente..Expulso. Repare este majestoso prédio. A presença dele aqui não altera coisa alguma. 85 . Desde a primeira pedra na base até a última no alto. que falava a empavonado rapaz à porta de conhecido cinema do Rio. não é possível! Fui expulso de sua firma sem mais nem menos. E lança discórdia em casa. .Mas eu sou espírita – lamentou-se o ex-empregado.

Espantam-se todos.. agora o moço Licurgo de Melo. É meu único filho. com o acidente sou hoje inútil. O médico e a senhora.. assumindo o compromisso de assinar o sacrifício em cartório. A lágrima parada no olho doente fez-se mais grossa e o pranto jorrou. a verter uma lágrima que não chegava a cair. dizem que trago moléstia contagiosa.16 . . pedindo serviçais.Ninita. Tento a lavanderia. Às vezes. Compareço.Estou quase cega – dizia. ouvia passos de leve. viúva e doente. noite alta. E. desanimam. pela generosidade do casal que o perfilhara. olhou o. e. além disso. pequeno com simpatia. Trazia Quitéria o semblante deformado. E somente à força dos bons conselhos em casa lhe suportava os carinhos. desisto. impunha-lhe dolorosa feição. Perdera um dos olhos e o outro se mostrava esbugalhado. silencioso. quando me vêem. Leio anúncios. Pranto resignado.O garoto será nosso – disse. humilhada -. correspondia-lhe a atenção. Entretanto. chegou à casa do Dr. O petiz. com agudeza e inteligência.CALVÁRIO MATERNAL I Quando Maria Quitéria. zombava de suas poucas letras.. mas vivemos os dois em fome e penúria. . o filhinho de cinco anos. a prestimosa lavadeira vinha trazer-lhe o chocolate que não pedira. – Mas se vier com papel passado. ao chegar da rua. mal vestido. Parecia muito mais um monstro em corpo de mulher. Ainda assim. sempre que vinha de férias encontrava no lar a pobre lavadeira cercando-o de atenções. Sem que você faça renúncia completa. Não tinha filhos e dispunha-se a tutela-lo. sorrindo. D. Num minuto. a dona da casa.. O rosto. falou súplice: . Não compreendia porque os pais adotivos facultavam a Maria Quitéria liberalidades tão grandes. tinha o corpo mais morto que vivo. Maria Quitéria teve forças para acariciar o menino e entregá-lo. receberam-na entediados. contudo. Podia esperar. exclamando: 86 . II O menino Licurgo. Lauro de Melo.Ofereço-lhes o menino. amigos de longo tempo. queimado meses atrás por grande porção de vitríolo. E apresentando Licurgo.

Licurgo de Melo. III Jovem médico e recém-casado. foi sequer respeitada. Ele. Vigílias. Inconsolável.“Você é uma excelente mamãe”. decidindo-se por alguns meses no campo. agora. que um dia não mais se ergueu. E. Dificuldades. colérico. Comida escassa. Licurgo e Rosana. era sombra a mover-se ajudando calada. quanto podia. Velhos sapatos no fogo. Maria Quitéria. como se ele houvera dito: . buscava os pejorativos mais duros para lançar-lhos em rosto. a expulsão. Ninita. a pobre criatura tartamudeava palavras de reconhecimento e alegria. no governo doméstico. Nem mesmo a memória de D. servia-lhe quitutes raros em regime de exceção. por fim. batia a porta. Se lhe dirigisse qualquer olhar de enternecimento. Dr. porém. a caminho da morte. partilhando por ela a mesma antipatia gratuita. avançava de pronto.Você é uma excelente megera. 87 . à arruinada saúde de D. por ela invocada nos momentos difíceis. consagrava-se. À mesa. Roupa humilde subtraída à velha canastra para servir como esfregão na limpeza dos pisos. as dores e as privações. ainda mesmo sob ameaças. porém. abandonada agora aos caprichos dos donos mais moços da casa. Rosana. de parceria com o pai pelo coração. mantinha-se a distância. Maria Quitéria. Quando a via rondando o quarto. com sorridente expressão. nas proximidades do tanque de lavar. a doente cerrou os olhos do corpo para não mais abri-los. E. junto deles.. Ninita. Depois de muitos dias e noites esfalfantes. não perdia oportunidade para magoá-la. o viúvo aceitou o alvitre de parentes bondosos. Acostumada a vocabulário restrito. submeteram-na a insuportáveis humilhações. mais cansada. Entretanto. passou a sofrer rude trato. nunca se encorajava a sair. o Dr. ao passar distraído. à feição de um gato ferido. Tantas lhe foram. a esposa jovem. mergulhando-lhe a cabeça disforme na tina d’água. E. como se fossem elogios adocicados.

a esposa desencarnada e ele se abstiveram de dar-lhe a conhecer a realidade. assim. ele. enquanto a infortunada viúva dormia. desterrou-a para uma seção de indigentes. igualmente banhada em pranto. A pedido da própria Maria Quitéria.. explicou-lhe a palavra total. Licurgo. mas escapara. ante a saudade constante da companheira. Licurgo e Rosana ajoelharam-se ao pé da cama: . dominadora.. demandaram à enfermaria.ordens. ante as duas patentes médicas. ao contar que fora o próprio Licurgo. na inconsciência infantil. descartando-se. perguntou pela serviçal. Dr. que se abriu facilmente. Maria Quitéria agonizava. O pai. Depois do chá. como material de serviço. enfim. Lauro tomou-lhe o pulso e abanou a cabeça.. chorou intensivamente. possuía o corrosivo em casa. entornara-lhe o ácido na face. Dr. ao que Rosana informou displicente: . dedicados à assistência cristã. por fim. Nada conseguia reter a esclerose retrátil.Mamãe! Mamãe! – gritou ele.Afinal de contas. Maria Quitéria sofrera terrivelmente. que conhecia agora os segredos do sofrimento moral. Na mesma noite. Na noite seguinte ao dia dos funerais dele. Entre leitos anônimos. com saborosos confeitos. quando menino de quatro anos. extra . O velho médico ouviu todo o relatório.. diante da aversão que sua presença sempre lhe causava. E.Agora é leva-la à força para o hospital – dissera Rosana. com toda a facilidade. carregando o cenho. Era noite. Lauro de Melo ao antigo solar em que fora feliz. embora conservando monstruoso semblante. chorando – porque não me disse tudo? 88 . Ela temia fazer o filho infeliz. em seu leito de angústia. a cãs principesca do filho que a conhecia. IV Atendendo à oração de dois estudantes de Medicina. tomando corajosamente a palavra.. abraçado à esposa. e Licurgo. agora irreversível. quem lhe despejara no rosto um vidro de ácido sulfúrico. desconhecendo-ª E vimos a volta do Dr. operário simples de uma grande oficina. conhecemos Maria Quitéria. Maria Quitéria era um trambolho difícil de conservar. e. A cirrose do fígado agravava-se pouco a pouco. depois. Licurgo chorava. Lauro. Visitamos. Era tarde.

perdoe-me. porém. perdoe-me! Ela. na viajem para a vida melhor. Entretanto. disse ainda: . Daria tudo para erguer a mão quase fria e afagar-lhe a cabeça. leve-me para casa.Meu filho. reunindo todas as forças e como se nunca tivesse razões para perdoar. A enferma. identificando as visitas. encharcado de lágrimas. e pediu: . simplesmente falou: . cobrou ânimo e contemplou-o.Mamãe. não mais voltou. mas não pôde. guardava a expressão serena de um anjo. qual humanitária cirurgia. 89 . enternecida. minha mãe. Licurgo. passeando a triste expressão do olho semi – morto pelo aposento. viu que aquele inesquecível olhar o reconhecera. refizera-lhe o rosto. meu filho.. e veio ter conosco. Ao calor do abraço filial. A morte.Deus te abençoe meu filho! E. nas raias da morte. dormiu. E dormindo em nossos braços..

– e relanceando o olhar pela sala. através de passes. tudo temos feito por suas melhoras. 90 ..Eu. Certo dia. o Espírito amigo tratava da saúde de João. moço de muita fé. dois bifes.Que acha o irmão? O benfeitor sorriu.Parece que foi só isso. Notando que o espírito silenciara.Que comeu você hoje no almoço? O rapaz informou presto: .17 . quatro ovos e duas xícaras de café quente. Por mais de cinco anos consecutivos. É.. e respondeu: .. Entretanto o problema gástrico está renitente.O QUE ACHA O IRMÃO ? João Neves. João indagou: . com inexcedível paciência.Comi feijão e arroz. João? Que posso falar? Penso apenas que o único remédio em seu caso seria Deus conceder a você dois estômagos. dois pães com manteiga. como se recorresse à memória. através da médium.. sempre recorria aos préstimos de benfeitor desencarnado que ajudava aos doentes por intermédio das faculdades psicofônicas de conhecida médium. E ajuntou: . o caridoso amigo considerou: . um prato de saladas.João. incorporado à médium. acrescentou: .

carrancismo. no Brasil. . – falava um deles... do ponto de vista em que se colocam..E o senhor Dr.. e os amigos comentavam: . não encontraríamos definição mais exata.. vocês têm razão. Guillon Ribeiro.CARRANCISMO O grupo solicitara a presença do Dr.. velharia nas decisões.Sim. Carrancismo é a praga de nossa diretoria. . O Espírito amigo.18 ..O que nos espanta é o carrancismo do presidente de nossa casa. Pretendendo arrancar-lhe uma opinião.. escutava. .. mas “carrancismo” é a palavra com que sempre definimos a trabalho da diretoria de qualquer Instituição da qual não façamos parte 91 . Guillon? Que diz o senhor acerca de nosso assunto? O benfeitor desencarnado deixou o silêncio em que se mantinha e falou. a direção da casa de Ismael. Velharia nas providências. pediu um dos circunstantes: .. meus amigos. através do médium..O que me assombra é nossa caminhada carro-de-boi – lamentava um terceiro. – Carrancismo. sorridente: . que ocupara dignamente. escutava. e por longos anos.E o rotinismo do tesoureiro? – dizia outro – pensa por padrões do outro século.Justamente – proclamava ainda outro . para estudar os problemas da Instituição.

Doente da alma.Raimundo.19 . graças a Deus temos em você um companheiro espírita compreensivo e cristão. advogando a causa de um colega que fugira pela manhã. Um apoio fraterno. como que se adoçava. o senhor já soube? .Tenho meu coração agoniado e defendê-lo-ei até o fim. conciliador -. carregou a capa que o senhor deixou aqui ontem? E Cecílio. Nosso caro Roque não agiu com premeditação. carregando consigo nada menos que oitocentos mil cruzeiros. porém.Ora. O homem está obsidiado. . pela manhã. mas infelizmente o Banco não sabe disso. o assédio das entidades perturbadas e infelizes pode voltar-se contra nós. O pequeno círculo de amigos. ora! Isso é dever de nós todos – respondia Cecílio.Soube o que? . convicto. Não se pode afirmar que é realmente furto. . Raimundo. . que se arvorara em defensor do colega.Quem de nós está livre? Amanhã. A opinião de Raimundo era água fria na fervura. E enquanto o grupo chegava ao serviço. completamente transtornado: .Gatuno! Cão vil! Pagará caro! Ele há de ver! 92 . gritou. a princípio severo. No saguão. lembre-se que ele tem os sentidos obliterados. Roque está doente.Como poderia ser até mais – atalhou Cecílio. o contador de grande organização bancária.Sr. É preciso compreender.OUTRA OPINIÃO .O Roque. outro amigo acentuou: . E continuava: . ao fugir hoje. Estive com o gerente e conversamos sobre o assunto. é esquisito! Olhe bem que ele soube empalmar com absoluta mestria oitocentos contos de uma só vez. um contínuo aproximou-se e notificou: . Era Raimundo Cecílio. solucionando-nos as dificuldades morais.Entretanto – opinou um companheiro -.

Mas também não faltou quem dissesse: .O MERECIMENTO I Saturnino Pereira era francamente dos melhores homens. Longe desse quadro.. O cirurgião informou. tão bem observada? Saturnino é espírita convicto e leva a sério o seu ideal. vem de ser a vítima! – comentava um amigo. O chefe da tecelagem. parecendo raio de sol dissipando as sombras. conduziu-o ao automóvel. . aí estava de plantão. Amoroso mordomo familiar. solícito. A caridade em pessoa. Saturnino ferido! Logo Saturnino. Por isso mesmo. o caso merecia apontamentos diversos: . até mesmo de aviões projetados ao solo. entre o pasmo e a amargura.Cotizemo-nos todos para ajuda-lo. Onde houvesse a dor a consolar.Felizmente. a fim de estancar o sangue a correr em bica. e justamente Saturnino.Que adianta a religião. Companheiro dos humildes. Todo o braço direito está ferido. Por que o infausto acontecimento? – expressava-se um colega materialista. quando o acidentado apareceu muito pálido. nosso amigo perderá simplesmente o polegar. Nas maiores dificuldades. traumatizado.Devemos ajudar Saturnino. Vive para os outros. era o amigo fiel do horário e do otimismo. No trabalho. junto à máquina de que era condutor. Na caridade é um herói anônimo.Porque um desastre desses com um homem tão bom? – murmurava uma companheira. Suas colegas de fábrica rasgaram peças de roupa. era um sorriso generoso. o amigo de todos. Não só isso. 93 . porém. quando foi visto de mão a sangrar. com o braço direito em tipóia. internando-o de pronto em magnífico hospital. que nos ajuda a todos. todas as atenções se voltaram para ele.20 .. sorrindo: . E à tarde. carinho e respeito rodearam-no por todos os lados.Tenho visto tantas mãos criminosas saírem ilesas. Operação feliz. . mas será reconstituí do em tempo breve. .

por débito legítimo. nem se entregue a tristeza inútil. Regozije-se. desde a primeira mocidade. compareceu à reunião habitual do templo espírita que freqüentava. Acontece.. porque pobre empregado enfermo não lhe pudesse obedecer às determinações. Sessão íntima. mas perdeu só um dedo. Lágrimas de conforto. esperava o encerramento.Saturnino..... você andou perturbado. Não estamos aqui para elogiar. cujos gritos lhe ecoavam no coração.. 94 . com as próprias mãos. Na manhã seguinte. Por muito tempo. Apenas dez pessoas habituadas ao trato com os sofredores. programou a excursão presente. toda vez que nos apresentamos em condições para o desagravo. seu empenho à justiça. em companhia da esposa. II À noite. bondoso: . quando Macário. Entretanto. ao conhecer a Doutrina Espírita. Consagrado ao serviço da prece. não tem motivo. Você hoje demonstra indiscutível abatimento. pontual. Excursão de trabalho. Sei.. Mas. em sua cadeira humilde.. meu amigo! Você está pagando. alijaria você todo o braço. porém. Saturnino derramava grossas lágrimas. no Plano Espiritual. porém.. você. certo dia. que hoje.. ao serviço.Saturnino agradeceu a generosidade de que fora objeto. porque você continua lutando. após traçar diretrizes. Quando você se preparava ao mergulho no berço terrestre. estava triste. compareceu. Você tem trabalhado. Saturnino. por muito tempo. que formulou uma sentença contra você mesmo.Há oitenta anos. Sorriu. o operário.. de apaziguamento e alegria. resignado. E continuou: . Todas as dores decretadas pela Justiça Divina são aliviadas pela Divina Misericórdia. e o plantio disso ou daquilo só pode ser avaliado em definitivo por ocasião da colheita. Fez uma pausa e prosseguiu: . era você poderoso sitiante no litoral brasileiro e. tem os pés no caminho do bem aos outros. Contudo.. Por muito tempo. em amor. contemplando mentalmente o caldo de cana enrubescido pelo sangue da vítima. você. lutando. de reajuste. esmerando-se no dever.E você implorou existência humilde em que viesse a perder no trabalho o braço mais útil. Proferiu palavras de agradecimento a Deus. dirigiu-se a ele.. mostrando no rosto amorável sorriso. De cabeça baixa.. meu filho. O Pai não deseja o sofrimento dos filhos. o orientador espiritual das tarefas. não se creia desamparado. obrigou-o a triturar o braço direito no engenho rústico.

Não estou doente.O senhor está enganado.Graças a Deus! 95 . respondeu simplesmente: . fábrica a dentro. E caminhando. como se todos devessem ouvi-lo: . Fui apenas acidentado e posso servir para alguma coisa.É porque o fiscal do relógio lhe estranhasse o procedimento. falou alto. quando o médico o licenciara por trinta dias.

contente da vida. com isso. de modo algum.. a fala de cada um. falava. Os fazendeiros.. Cacique de Barros. há uma lenda hindu que nos esclarece. fama e autoridade são aspectos na pessoa. Era preciso tudo fiscalizar. gesto. a distância de casa. nesse regime. solucionar o problema? O círculo de confrades entrou em oração. O orientador fez uma pausa e continuou: – Nome.21 . despretensioso. concluiu: – Se vocês quiserem realmente conhecer benfeitores e malfeitores. Através do médium. E teve uma idéia. enfraqueceu- se o animal por falta de forragem. sábios e ignorantes. 96 . O burro. surgiu uma noite em que jumentas vararam a paisagem. manhãzinha. e ele rogou parecer ao mentor da Casa.. E o burro. Recomendava o estudo constante. Passeando. o Amigo Espiritual compareceu bem-humorado e. forma. o homem achou um tigre morto. acordado nas afinidades do instinto. pelo crivo da análise. Cobriria o humilde cooperador com a pele do tigre e soltá- lo-ia cada noite nas terras dos fazendeiros vizinhos. Encarecia a meditação.. escutem. o burrico seria respeitado. sem serem. era recolhido pelo dono à pequena estrebaria. Visto disfarçado em tigre. e assim aconteceu. Mas. distinto baiano que foi valoroso missionário dos princípios espíritas no Rio Grande do Sul. zurrando. depois de saudação fraterna. zurrando. zurrou e zurrou também. Em seguida. falou conciso: – Meus irmãos. Mas. sãos e doentes. a pessoa em si.. quanto à necessidade de se coibirem as mistificações nos fenômenos mediúnicos. porque não tivesse recursos. Um homem necessitado era dono de um burro que lhe prestava grandes serviços. fez-se nédio. Como... O muar fartava-se de cevada e. A palavra dele conquistava simpatia crescente. encarnados e desencarnados.A FALA DE CADA HUM Logo após o início da sessão. porém. com atenção.. porém. rasgando-lhe toda a pele. descobriram a farsa e mataram-no a cacetadas.

Complicara-se. Dois anos de vã esperança. sem morrer. Além disso. entregara-se ao rapaz.22 – SUICIDA I Desde o momento em que sorvera a mistura venenosa. . seguiu o companheiro. Sob a marquise. sentiam-se como numa ilha de encantamento. sorria e deixava passar. Inebriada. Refletia na heroína do filme. contrariada pela família. Qual se fora um animal hipnotizado. como resistir? Jorge assobiava todas as noites.. mergulhando o olhar um no outro. E tudo se agravou numa noite de chuva.. Marina sentia-se morrer.. Na queria viver mais. como quem patinasse acima das nuvens. À frente da garoa persistente. criticavam colegas. Queixavam-se dos professores. O pai costumava dizer-lhe: “Cuidado com os rapazes de hoje. pensavam no tema. Acariciara o sonho de esposar Jorge e criar-lhe os filhos. . Via-se desprezada. embora freqüentassem instituições diferentes. Deixou-se conduzir. Uma jovem tímida. Haviam assistido a um filme pitoresco. achava-o antiquado e exigente. Automaticamente. Começou pedindo-lhe livros. Sonhava. ela. Ela não tinha voz para dizer-lhe “não”. E levara-lhe a gramática. iam juntos ao cinema do bairro. Ele interpretara-lhe o silêncio pelo “sim”. com quem fugiu. Jorge chamara um táxi. confiante. contudo a conversação. Desde então. encantada. Percebera a manobra. mas o cinema coroara a aventura com um beijo. nem sempre têm bom caráter”. voltando no outro dia para solicitar informações. Ninguém poderia dizer o que teria acontecido depois. com intenções ocultas. Lembrava-se de tudo. Nem viu quando o moço fez sinal ao motorista. Não conseguira desvencilhar-se do braço que a envolvera. porém. sem responder. Desceram. A mãe entretanto. sentia-se deslizar no asfalto. Ela corara. 97 .Estou em dificuldades com meu professor de latim – dissera.Você teria coragem de acompanhar-me num longo passeio? – perguntou ele.. A princípio comentavam estudos. encontravam-se noite a noite. Após quatro semanas de convivência.

o táxi. Que fazia ali a imagem do Cristo? Recordou em relampagueantes pensamentos repetidas palavras maternas: . Depois do chá. . como se a noite compassiva desejasse apagar vulcão de sentimentos e idéias a lhe transtornar a cabeça. Transpuseram um pequeno portão.” Mas não dispunha de espaço mental para ocupar-se do assunto. A pequena escada pareceu-lhe um trecho de espaço. II Ele apertou um botão que encimava um florão da parede. Jorge despertara. Um belo leito de casal estava perto.Minha velha amiga – dissera Jorge. e indicou-lhes quarto próximo. o silêncio.Pingos de chuva caíam-lhe nos cabelos de menina e mulher. não há motivos para lágrimas. Lembrou-se do lar. Chorou. A chuva apoquentara-os. tinha no rosto a calma das enfermeiras de plantão. enquanto ocupavam pequena sala. Acordou junto dele. Levantaram-se. tornando à sala. embora estremunhada. O moço pediu chá e explicou-lhe algo em voz baixa. O moço tomara-lhe a mão trêmula e arrastou-a quase. Jorge enlaçara-a e as horas se perderam da imaginação. A dona da casa nem de leve se surpreendera..Conversaremos amanhã – disse Jorge simplesmente. compareceu. agora..“Todos devemos orar. Mal teve ela tempo para relancear os olhos pelo recinto. A senhora hospitaleira. como se fosse uma rosa despetalada que devesse retornar ao jardim. chamado pelo telefone. Alguns instantes de espera e abre-se a porta. . A viajem de volta não apresentava o sabor da vinda. 98 . prestimosa. generoso. Senhora gorda e afável atendeu. e acalmou-a . à frente do paraíso. sorrindo. alta madrugada. como se o tempo estivesse morto. Entre os dois. E continuou loquaz. e pediam abrigo por alguns minutos a fim de conversarem a sós. ao deixá-la em casa. Na parede um retrato do Cristo.Tolinha.

Para isso.Rouquenha voz lhe gritava aos ouvidos: “Mãe. no lençol. III Desde essa ocasião. Processou-se o aborto esperado. que pretendia casar-se dentro de poucos dias. aparecera-lhe o outro lado da vida. Na véspera. Estudos intensivos. perturbada. Passavam-se agora semanas de ausência. Ao fim de quatro meses.O coração materno esperava-a. Jorge levou –a ao gabinete de um médico ainda jovem. Desde o aborto era outra. sentira-se diferente. beijando-lhe a face. Dizia-se também cansado. Vomitava. Conversou mais demoradamente com a mulher que velava e conheceu outras clientes do do pequeno edifício. Tinha vertigens. desde então. buscara Jorge na esperança de mais decisivo socorro médico. Ele ria-se e falava em consulta ao psiquiatra. Mas. suspirando fundo. Devia terminar o curso de bacharel. Revoltava-se diante dele. sem rebuço. E não obstante a caratonha do relógio mostrando as três horas. Ele sempre a dissipar-lhe os temores com a promessa do matrimônio. 99 . que lhe deitava olhares ambíguos. Jorge. estava com outra. E estarrecera-se. Parecia-lhe viver com o filho que não nascera. D. Contava-lhe os sonhos. Conheceu mais de perto a residência da cancela rosada. porém. precisava casar-se. exigia-lhe calma. mãezinha? Mentira pela primeira vez. por que me mataste?” Acordava. Queria ser mãe. Sentia-se visitada por idéias estranhas. rogava conforto. . . como passaria a mentir sempre – a chuva atrazou-nos em excesso e descansamos em casa de Jorge – afirmara.mãe. Apresentou-a . nos últimos tempos. enxugando o suor álgido. O amigo. fizera-se arredio.Companheira de infância – informou. no entanto.Parecia adivinhar tudo. pela inquietação que denunciava.Marcília nada respondeu. mas submeteu-se a tratamento. Pedia conselhos.Porque afligir-se. Via-se perseguida por alguém. como vidraça clara atravessada por largo jogo de sombras. que sempre considerara noivo em particular. tinha sonhos alucinantes. E afirmara. Todavia. Telefonava-lhe.

Pavorosa dor irrompeu-lhe na carne. a ignorar-lhe a tragédia.. Jorge. Agitava-se. sorridente. Seis homens aproximaram-se. Não a amava. Adquiriu a substância letal. conduziu-a a pequena distância e explicou-se. nos nervos. Entretanto.falou. a única interpretação que podia dar ao espaço fechado de pequena ambulância. Um deles. antes de mais sérias dificuldades. atendia aos seus apelos. pela manhã. Viu-se atirada. de encontro ao que lhe pareceu “laje fria”. Dois homens colocaram-na em “vasta gaveta”. frio -. ouvia sua própria mãe gritar como louca: “Morta! Morta!” Ouvia algazarra. no sangue. Empalidecera. no entanto. sem qualquer consideração. . indiferente à dor que a fulminava.Dissuada-se – concluiu quase áspero.. Não apenas chorava. Viu-se carregada. nas o próprio sofrimento não lhe conferia o privilégio das discriminações. E afastara-se.É melhor terminarmos assim . A idéia de suicídio envolveu-a de todo. mais experiente. Ela implorou em lágrimas.. parecia conduzir outros cinco. 100 . retomando o braço da jovem que sorria. . E.A rival cumprimentou-a. tranqüila. IV Mundo íntimo desmoronado. Rugia em contorções. Arrastou-se de regresso a casa. Ninguém. Escreveu bilhetes. nos ossos. sorvera a porção de uma só vez. confessou impassível. Convulsões sucessivas não lhe permitiam morrer. Suplicava socorro. mas ninguém lhe percebia agora os terríveis lamentos.

Queria ajoelhar e pedir-lhes a necessária assistência. exclamou.. fez mais. em pranto. O mais velho. Reconhecia-se jovem ainda.. Desejava tranqüilizar os pais. E mais que isso. ela – Marina. Tinha pressa. Arrependera-se. Ouvia vozes. Mas. Alguém dizia: “Bela mulher!”. Tomou de um bisturi e abriu-lhe o abdômem. Mãos ágeis trabalhavam-lhe as vísceras. . de pé.Terminassem a operação! – pedia. enquanto o cavalheiro amadurecido. indignada ante o vexame evidente. Dois dos cinco rapazes presentes tocaram-lhe o corpo. Beliscaram-na. Nenhum dos circunstantes lhe ouvia os brados. ela mesma – cambaleava.. de olhar irônico. Poderia sobrepor-se à situação. Desejava retomar o corpo e viver. Entretanto. desrespeita-la. V O homem amadurecido afastou-se por minutos como quem se esquecera de trazer algum remédio a fim de ajuda-la. desnudaram-na. Alarmou-se. Tentara o suicídio. O corpo que ela própria arruinara apresentava máscara triste. . refazer a existência. Era demais. sentiu que continuavam a lhe cortar a carne. reconhecendo tratar com jovens cirurgiões em estudo. Mas a operação prosseguia.Mãe! Minha mãe! – clamou aterrada – quero viver! Viver!. clamava que não. Trabalharia por vencer. com todas as dores e convulsões de momentos antes. Viu-se separada do próprio corpo. E conheceu a verdade. tateando-lhe o busto: “Porque matar-se desse modo?” Sentindo-se em desespero total. longe de garanti-la. Pensava no martírio dos pais. . como jóia que salta mecanicamente do escrínio. separando material de exame necrológico. em grande avental branco. mas recuara. Pareciam desconhece-la.Assassinos! Assassinos! – estertorava. Um dos moços.. 101 . falava em “cianetos” e “cheiro de amêndoas amargas”.enfim. em meio das sensações turbilhonárias que lhe atormentavam a alma.

Outra voz. e esforçou-se terrivelmente para voltar e erguer de novo o corpo tombado na mesa fria.. aturdida. eu também quero viver!.. contudo.. minha mãe. o aborto. a tortura. Mais era tarde.. 102 .e o suicídio. Lembrou. Procurou com os olhos agoniados quem lhe falava. mas apenas sentiu que braços vigorosos a aprisionavam.Mãe. os sonhos. bramiu-lhe ameaçadora e sarcástica aos ouvidos: .

Tudo melhorará. voltava D. desfaleço!..Filha. A situação perdurava por mais de um ano.. E Irmã Nélia.23 . Na reunião imediata.Flavinha quem pedia à entidade amorosa. Que será de mim com tantas dores? A piedosa entidade balsamiza-lhe a alma: .Ó Irmã Nélia.. D. E a emissária do bem: . Flavinha repetia: . Flavinha clamava: . A luta é instrumento de redenção! A dor é uma bênção que a Lei de Deus nos envia.. Flavinha: . Flavinha rogou com mais lágrimas: 103 . Era D. materializada.PRESENTE IMPREVISTO .. Irmã Nélia! Minhas provações são terríveis! Que será de mim? Traga-me um consolo! A mensageira em serviço respondia: . Irmã Nélia sofro imensamente! Ampare-me!. Rearticulada a assembléia de oração. quando. Socorro.Olhe por mim. Nas preces seguintes..Filha. na sessão de efeitos físicos. Seja a fé nosso guia.Jesus é por nós. tenhamos paciência e coragem.. em grande cidade mineira. confortava: . não esmoreça! Com o dever retamente cumprido. Irmã Nélia! Tenho sofrido demais. D. Confiemos em Jesus. não desanime! Outras seções e outros clamores. receberemos do Senhor novas bênçãos! Não desanime. certa noite.... D. minha filha! Acalme-se.

Sim. não posso mais! Auxilie-me.. Flavinha sorriu pela primeira vez... por amor de Deus! Sua caridade tem trazido aqui o remédio para tanta gente! Lembre-se de mim! Traga-me. Quando a seção terminou. bem-posta. sim... algum socorro mais decisivo! E Irmã Nélia informou: .. No seu colo estava. D.. tentarei.Irmã Nélia. por Jesus. Grande e curiosa chupeta. Tentarei. embora extremamente desapontada. 104 .

. Onze da noite. em dores indescritíveis. e ainda percebe o par em doce adeus. há beija-mão no Paço Imperial do Rio de Janeiro. sorrateiro. mas tudo melhorará.. No dia seguinte. Viúvo.24 .. Antônio. Abeira-se da moça que volta do baile. Há festas públicas.É calmante – diz ele -. Ajude-nos. Inquieto.. logo após. bailes. largamente conhecido pela honestidade ilibada. que fala em pranto: . sente. Era-lhe a jovem toda a esperança da vida.O BOM HOMEM I Noite de 2 de dezembro de 1857. a filha única. girândolas no ar. Pedro II. muito pobre. Perdoe-me. consagrara-se a ela. mas espero casar-me. 105 . agora silencioso. desde muito.. ouve a menina. o rapaz que escolhi. Aproxima-se. escuta vozes no jardim. Aguardo um filhinho. visita o interior doméstico e volta à presença da filha. . comerciante de jóias. Em homenagem ao imperador D. mas vê-se desarmado. e parte apressado. colérico. esperava Maria Amélia. a versão paterna estava aceita. tome e descanse. papai.Papai não me queira mal. Sai pela porta dos fundos. rilhando os dentes. pelo amor de Deus! O comerciante. o choque da morte. os dois.. A moça obedece e. Amanhã conversaremos. estendendo-lhe um copo com líquido indefinível. que completa 32 anos de idade. Em humilde residência suburbana. na casa em que são eles os únicos moradores. Um homem que ele desconhece beija-lhe a filha. e internam-se. João Ferreira de Sousa.. cantarolas na rua.. Depois de perguntas ásperas. Não somente isso. João apalpa os bolsos. é pobre. Sorvera arsênico em grande dose.

. em seguida.. onde com ela se encontra.. interpela-o de chofre. João Ferreira de Souza. afasta-se do sarau. algo explica: . afasta-se o genitor em silêncio. noutro corpo de carne. E. A advertência é clara e incisiva. para receber a morte logo após. II Noite de 2 de dezembro de 1957. papai. Pesa-lhe a cabeça.. bebendo o líquido. afagando-lhe em lágrimas o corpo inerte. inquieto. em grande dose. E o próprio pai. João Ferreira de Sousa desencarnou. Crendo valer-se de sal medicamentoso. cai gemendo com dores lancinantes. segue-lhe os passos. Ajude-nos.Papai. rumo ao jardim. 106 . enternecidamente. ingerira arsênico. está nervoso. acreditou tratar-se de suicídio. Na pequena farmácia caseira. mas tudo melhorará.. arde-lhe o estômago. Aguardo um filhinho. O moço. a moça que escolhi. é pobre. pelo amor de Deus! Sensibilizado. numa festa íntima. O pai. toma um vidro e verte o conteúdo na taça com água. Mas o jovem. E quando o filho se despede da menina. muito pobre.Todos acreditaram tratar-se de suicídio. na casa em que nasceu. mas espero casar-me. que não lhe apóia a pretensão. com o título de “bom homem”.. está jovem. Muito tempo depois. à procura de um antiácido.. porém.. em grande arrabalde do Rio. Consagrado à afeição de moça humilde. não me queira mal. Lenita. em transporte afetivo. acabrunhado. Busca o interior doméstico. Perdoe-me.

Um dia. o espelho contou-lhe a história da velhice. Desesperou-se. Passo lento. Chorou. entretanto. Dom Jairo. Lola Mendez dançou e bebeu por muito tempo ainda.Perfumaria e seda farfalhante. revoltados. obsidiado pela vítima. Lola. e que ela própria vivia.. E quando o túmulo lhe acomodou os restos no esquife estreito. veio. Explorou-lhes o coração. às ocultas. Bailarina admirável. para ofertar-lhe mais ouro. Estonteante beleza. a breve tempo. para a caverna da loucura. mais forte. Rosto enrugado. que Dom Jairo padecia as conseqüências dos próprios crimes. mãos piedosas traçaram-lhe nova senda. que assassinara o próprio pai.. Borboleta humana expressando mulher. Dentre todos os admiradores. no entanto. Peregrina do sofrimento errou longo tempo nas trevas.25 . era o centro das atenções. Esvaziam-se garrafas e bolsas. que abandonara esposa e filhos para fazer-lhe a corte. Ao fim de cada espetáculo.LOLA-LEILA I Sempre Lola Mendez. Transportava a graça nos pés. porém. Um dia. em duelo fatal. queria mais. e Dom Jairo Carízio. que Dom Gastão não morrera. Cabeça branca. Ceias lautas. onde encontrou a morte. Amedrontada. aprendeu a encontrar o socorro da prece. até que se vissem. a saber. desceu. um à frente do outro. salientavam-se dois que. Soberana da ribalta envolvia-os em sorrisos maliciosos. por ela. eliminou o rival. com estocada irresistível. 107 . arruinaram a própria vida: Dom Gastão Álvares de Toledo.

fugindo aos compromissos. porém. praticou o aborto criminoso por quatro vezes. desfazendo toda a discórdia. Dom Gastão e Dom Jairo. para reeduca-los. Buscavam-na em sonho. agora Leila. Queriam viver. Antes dos vinte. A antiga devedora. desposou Luis Fernandes. na posição de mulher inconstante. que. receberia Dom Gastão e Dom Jairo como filhos.. Ressurgiram do seu sangue. sessenta e. como se fossem agentes da peste.Renasceria no mundo. metalúrgico modesto. reunidos agora no mesmo instinto de esperança. E. totalmente. A antiga bailarina. se divertia. Esconderia em lar humilde a passada grandeza. ambos tramaram vindita. Chamava-se agora Leila. E quando Lola. que se propõe conduzi-la de volta. muito pobre. contudo. luxo. pressionam a mente da amiga. com o terror estampado nos olhos. rogaram-lhe compaixão. Banidos violentamente pela quinta vez. Dom Gastão e Dom Jairo. expulsando-os do corpo e do pensamento. prazeres.. E. os antigos rivais lhe encontraram a rota. descanso. Ela que os havia moralmente aniquilado. a distância do esposo. Recomeço laborioso. Menina apagada.. influenciaram-na. aspirava a gozar. Seria pobre.. ao lado de homem simples.. enceguecidos de ódio. Ela se põe a beber bebidas alcoólicas. Seriam irmãos gêmeos. noventa quilômetros por hora. reabilitá-los-ia com devotamento de mãe. Trabalho árduo. depois. O velocímetro acusa quarenta. Queria jóias. a moça leviana toma o carro de um amigo. se diz dominada por fantasmas. II Lola renasceu. novamente em plenitude juvenil. Argumentavam. recalcitrava. Noite alta. 108 . Segundo o plano estabelecido. excitados..

entre os homens.. cai no asfalto. partindo o crânio. Do outro lado da vida. Leila era violentamente agarrada por dois feros algozes. porém. nas anotações da manhã seguinte. o acompanhante da noite alegre procura contê-la. E antes que o freio funcionasse. abre-se a porta. na madrugada cinzenta..Acreditando-a sob o domínio exclusivo da embriaguez.. foi o número da ambulância que recolheu na rua o corpo de uma mulher morta.. Atritam-se. 109 . ontem Lola. e Leila. E de tudo o que ficou. O carro dispara. sem largar o volante.

110 . Os próprios genitores haviam tramado a separação. emocionado. Luz interior. Lutava contra. segregado em pavoroso abismo. Entretanto. mentalizando o lar do futuro. Acompanhara a desagregação das próprias vísceras. o vazio melancólico. faziam promessas de eterno amor. entre severa e confiante. a família fora inflexível. de leve. fora talvez mais cruel. desejava prosseguir esperando-a. tornava a Olinda. A escolhida transformada em esposa. Em todas as dores e expectações. Durante o dia.Os cabelos eram bastos fios de veludo negro a lhe emoldurarem a expressão de menina. Anjo refletido no espelho de sua própria alma. Socorrido. Seria enviado ao estrangeiro. Complicações atrás de complicações. Perdera-a. fora Dulcila a visão regenerativa. depois da ausência de trinta anos. porém. O veneno banira-o do corpo. desencarnado. Ela sorria.ÚLTIMO ARGUMENTO Não queria reencarnar. a praia sem diques. Aguardava. Chorando. na pequena cancela da casa pobre. ansioso. sofrimentos. Entretanto. O exílio procurado. Com semelhantes reflexões. A casa paterna tinha moradores diferentes. mas sabia agora que o túmulo não apagava a existência.. dizendo “papai”. Aurélio. Por ela. e filhinhos a lhe abraçarem o pescoço. Bebia a esperança por seus olhos azuis. tonto de felicidade. Esperar a mulher que lhe embelecera os sonhos da juventude. o instante de recolher-lhe o sorriso de doce colegial. Ela. feliz. procurava-a deslumbrado em cada sorriso de criança e supunha vê-la no colorido de cada flor. Portugal seria o desterro. “O tempo é o anestésico do amor” – dissera-lhe a palavra maternal. Chorara. Não resistira. E o ninho da janela florida desaparecera. Passeavam de mãos dadas. Dulcila era a imagem constante dos sonhos que lhe povoavam a noite. contudo. por beneméritos guardiães do Mundo Espiritual. temores. sim. por toda parte. amargara o suicídio. Contrariado pelos pais que não lhe aprovavam a escolha atingira as raias da impaciência. corada. submetera-se às instruções para o reajuste e esperara o tempo com paciência. olvidava dificuldades.26 . assim. E tornando a casa. Loucura. sempre ela a guia-lo. viu de novo o mar tocar.. Aqui e ali. por ele mesmo. Dulcila era tudo. colhia margaridas silvestres para ofertar-lhe um buquê. Devaneava. Padecera o indescritível. Embora as exortações dos benfeitores que o recolhiam. Junto dela.

Como que varado por bala assassina. Era complacente amigo do lar espiritual de que se fizera hóspede.. nela reconheceu a amada de outro tempo.. . procurava disfarçar as pregas do rosto.Que choro é este? – perguntou assombrado. você hoje merece jantar fora. Acompanhou-o e. Desolado. Duas jovens. O amigo arrancou-o ao torpor. . em poucos instantes. em avental muito branco. senti-la de perto outra vez. conduzindo-o para dentro. . Contornaram o edifício. no entanto sentiu-se mal. Vamos celebrar.. piscando um olho. Aurélio baqueou.. Dulcila. meu amor? . rogou à Divina Providência a felicidade de renascer.Como não? – respondeu a dama. ali mesmo. ganhando os fundos. atingiram elegante residência em Recife. ostentando cabelos tintos e jóias caras.Minha Cicila. No pátio. Ouviu choro de crianças.Aurélio. Aurélio recuou. vamos! vamos! Voltou-se. Queria vê-la.São vozes de crianças não nascidas .. ouviu alguém: .Quantos casos hoje.. Um não sei quê lhe causava repugnância. . a mulher que lhe fora ídolo estava agora junto de um homem de meia-idade. mostravam profundo abatimento.. Choro alto. São oito mil. Aproximou-se.Dulcila! Dulcila! Onde estava Dulcila que não soubera ou não pudera espera-lo? Chorou em prece. deitadas em leitos simples. 111 . no pátio interno. Mais pelo olhar que pelo porte.Quatro. À porta de pequeno pavilhão estava gorda senhora.disse o companheiro -. estamos numa casa dedicada à criminosa indústria do aborto. O recém-chegado pespegou-lhe um beijo na face pintada e perguntou: . Caído. minha Cicila – exclamou o cavalheiro risonho -. Tudo bem? Gente boa? .Nada menos que dois mil cruzeiros cada um. em lágrimas abundantes.

no curso de quase vinte séculos. à maneira de pássaro teleguiado.. em admirável desdobramento. E num deslumbramento de júbilo. Envergava forma leve. Mas estava como que chumbado ao solo estranho. Reparava na formosa paisagem. o apóstolo da mediunidade. à noite. avistou um homem que meditava. Como que magnetizado pelo desconhecido. quando não longe. subia... Afagar-lhe as mãos ou estirar-se à maneira de um cão leal aos seus pés. até que se reconheceu em campina verdejante. Recordou as lições do Cristianismo.. quando adquiriu coragem e ergueu os olhos. envolvido por doce luz. mas não conseguia. Houve. respirando num oceano de ar mais leve ainda. certa feita. em Sacramento.. 112 . e ficou em silêncio. porém.VISÃO DE EURÍPEDES Começara Eurípedes Barsanulfo.. Viu. Embora inquieto. como que arrastado pela vontade de alguém num torvelinho de amor.. no Estado de Minas Gerais. quando. trêmulo... aproximou-se.. em que estacou. esmagado pela honra imprevista. Baixou a cabeça. que Jesus também chorava. Braços intangíveis tutelavam-lhe a sublime excursão..27 . Traspassado de súbito sofrimento... na literatura e nas artes. Algo lhe dizia no íntimo para que não avançasse mais... Queria parar. os templos do mundo. por ver-lhe o pranto. subia. e descer. Subia sempre.. desejou fazer algo que pudesse reconfortar o Amigo Sublime. as homenagens prestadas ao Senhor. a observar-se fora do corpo físico. reconheceu-se na presença do Cristo. humilde. reavendo o veículo carnal. porém. um momento. sentindo-se como intruso. Ofuscado pela grandeza do momento. viu a si próprio em prodigiosa volitação. viajou. Respirava outro ambiente... incapaz de voltar ou seguir adiante. Viajou.. Grossas lágrimas banhavam-lhe o rosto.. começou a chorar. e a mensagem d’Ele a ecoar entre os homens.

. sem repouso sequer de um dia. Eurípedes reiterou: .Não.. Eurípedes não saberia descrever o que se passou então. Abriu a boca e falou suplicante: .Choras pelos descrentes do mundo? Enlevado. Era madrugada. após um instante de atenção. lhe atiram incompreensão e sarcasmo. 113 . no entanto. a se perpetuarem nas criaturas que até hoje. meu filho. entregou-se aos necessitados e aos doentes. sem comunicar a ninguém a divina revelação que lhe vibrava na consciência.Recordou. Choro por todos os que conhecem o Evangelho. servindo até a morte..... o missionário de Sacramento notou que o Cristo lhe correspondia agora ao olhar. E. desceu. desceu. E acordou no corpo de carne. Como se caísse em profunda sombra. na Terra. Mas desejando certificar-se de que era ouvido. ante a dor que a resposta lhe trouxera. E desde aquele dia.Senhor. respondeu em voz dulcíssima: . mas não o praticam. não se conteve. Levantou-se e não mais dormiu. os tormentos do Cristo. Nessa linha de pensamento. por que choras? O interpelado não respondeu. não sofro pelos descrentes aos quais devemos amor.

Senhor. Pancadas. enorme conflito. para semelhante conquista? Jesus. longe de gritar ou discutir.Em meio de grande tempestade. Correrias. qual é o nosso dever maior. na execução do Evangelho para a redenção das criaturas? O Mestre fitou o céu azul em que nuvens pequeninas semelhavam estrigas de linho alvo. isto é. a porta libertadora. vindo a noite. em vão procuraram o lugar de saída. ouviu os rogos de socorro que partiam do infortunado reduto e... cada qual se escondeu nos quartos mais internos e. o caminho. Um homem. O Mestre fez grande intervalo e voltou a dizer: . acendeu a sua candeia e passou entre os amotinados.Assaltos. como exilado buscando alguma visão da pátria longínqua. com facilidade. Procuremos o Reino de Deus e a sua justiça. Bastou a luz dele para que todos percebessem os disparates que vinham fazendo. que por ali passava. Porque sentissem medo uns dos outros. então. inúmeros viajantes se recolheram a enorme casarão que se assemelhava a um labirinto. E que fazer.Senhor . Começou. aclarou docemente: . vivamos no amor puro e na consciência tranqüila. Crimes nas trevas. os outros perceberão. por si mesmos. após o dia de trabalho estafante -. . Lamentos. Se a luz do bom exemplo estiver entre nós.O ENSINO DA LUZ . Pragas.28 . E falou em seguida: . ao mesmo tempo que encontravam.disse Tadeu a Jesus. continuando em sua contemplação do céu.E tudo o mais ser-nos-á acrescentado 114 . em profundo silêncio.