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Ciro Flamarion Cardoso (organizador) Jorge Zahar Editor ESCRAVIDAO E ABOLICAO NO BRASIL Novas perspectivas CO historiador Ciro Flamarion, organizador e co-autor deste livro, mais uma vez se de- bruca criticamente sobre a bibliografia que reescreveu © escravismo brasileiro em seus miiltiplos aspectos. Baseado em grande quantidade de livros, artigos e teses univer- sitérias inéditas, publicadas no meio século anterior, ele j4 apontava, em um texto pu- blicado em 1981, graves lacunas na biblio- | ida ica, a gnafia brasileira cepecializada, Escravidao e Abolicaéo no Brasil O presente trabalho é uma outra reviséo critica da bibliografia mais recente referente ao escravismo brasileiro, langando também | um qlhar retrospectivo sobre algumas ver- s6es anteriores. Novas Perspectivas No primeiro capftulo, os modelos que pre- | tenderam e pretendem explicar o funciona- mento e a légica da economia baseada na mfo-de-obra escrava s&o revistos por Joao Lufs Fragoso. A questéo da escravidao tal | como surgia fora das grandes empresas agrérias € analisada por Hebe Mattos de Castro. A Ronaldo Vainfas coube referir-se A temdtica das ideologias e, concluindo 0 | capitulo, o professor Flamarion escreve so- bre as novas perspectivas acerca da escra- | vidio no Brasil. | No segundo capitulo a abolig&o é abordada como problema histérico e historiografico. Flamarion analisa alguns dos caminhos tri- Ihados pela pesquisa hist6rica desde 1960, através de alguns eixos tematicos preferen- | ciais: abolicionismo, luta de classes, imi- { grantismo e o imagindrio, relacionados, ca- da um deles, ao final do processo de deses- cravizagéo da economia brasileira. Ao en- t cerrar sua andlise, 0 autor chega a conclu- sdes “‘tendencialmente otimistas sobre a historiografia do que se (re)escreveu sobre a abolicao, e ainda sobre a escravidao, nos Gitimos anos”, nas palavras do professor José Luiz Werneck, diretor da Coleco Ju- bileu e prefaciador deste volume, que inicia a colegio. TLE eee IUBILL ev Colecdo dirigida por J. L. Werneck da Silva (IFCS/UFRJ) Escravidao e Abolicio no Brasil: novas perspectivas Textos de Ciro Flamarion S. Cardoso (organizador) Hebe Maria Mattos de Castro Joao Luis Ribeiro Fragoso Ronaldo Vainfas Jorge Zahar Editor Rio de Janeiro rr Copyright © 1988, Ciro Flamarion S$. Cardoso, Joao Luis Ribeiro Fragoso, Hebe Maria Mattos de Castro, Ronaldo Vainfas Todos os direitos reservados. A reprodugéo néo-autorizada desta publicagéo, no todo ‘ou em parte, constitui violagéio do copyright. (Lei 5.988) 19% Direitos para esta edicfo contratados com Jorge Zahar Editor Ltda. rua México 31 sobreloja 20031 Rio de Janeiro, RJ Ficha técnica Reviséo de texto: Jussara Bivar. Diagramagao: Celso Bivar. Capa: Jofo da Franca sobre reprodugao de fotografia do acervo do SPHAN, Revisio: Ricardo Santos, Lincoln Natal Jr., Nair Dametto, Carmem Moreno. ComposicZo e Impressio: Tavares e Tristio Grafica e Editora de Livros Ltda ISBN: 85-7110-048-9 Sumario Introdugao: José Luiz Werneck da Silva 7 capitulo 1 Novas perspectivas acerca da escravidio no Brasil 15 Modelos explicativos da economia escravista no Brasil 16 A escravidao fora das grandes unidades agroexportadoras az Escravidaio, ideologias e sociedade 46 Reflexdes conclusivas: uma sociedade, nao um mero quintal da Europa 56 Notas 62 capitulo 2 A aboligéo como problema histérico e historiografico 73 Abolicionismo e aboligéo 72: Lutas de classes e aboligéo 79 Imigrantismo e aboligéo 90 Imagindrio e aboligfo 93 Estruturas econémico-sociais e aboligao 99 Conclusdes 102 Notas 106 Sobre os autores pbay Introducao Reeserevendo a histéria da escravidao e da abolicio (...) E preciso reescrever a histéria sem cessar néio somente em razéo da descoberta de novas fontes e de fatos desconhecidos, mas, sobretudo, porque o desenvolvimento da historia nos revela aspectos e tragos novos de fatos jé conhecidos, mostrando os processos histéricos sob co- res novas, e esclarecendo-nos a uma luz mais penetrante. E assim que se desenrola 0 processo cognitive — processo sem fim da marcha para a verdade absoluta, em progresso perpétuo, mas jamais acabado. ApAM SCHAFF Por que se reescreve @ historia sem cessar? + Em 1981, ao se debrugar criticamente sobre “uma massa nao negligencidvel de livros, artigos e teses universitérias inéditas”, publicados no meio século anterior e que reescreviam o es- cravismo brasileiro, em seus miultiplos aspectos, comparan- do-o com outros escravismos americanos, o historiador Ciro Flamarion Santana Cardoso apontava “graves lacunas” na bi- bliografia brasileira especializada, se comparada aquela pro- duzida em outras regides, como nas Antilhas Britfnicas ¢ es- pecialmente nos Estados Unidos. Ainda tinham, entre nds, ca- titer pioneiro e por vezes até precdrio — dizia naquela opor- tunidade — os estudos sobre demografia dos escravos, ativi- dades agricola e comercial auténomas dos mesmos e suas for- mas de resisténcia e revolta.? 8 escraviddo e aboligdo no Brasit Sete anos depois — a propésito da reflexdo académica, jamais de carter comemorativo,3 suscitada pelo Centenario da Lei Aurea (13 de maio de 1888) — persistiriam aquelas “graves lacunas’? Em duas situagdes, 0 proprio Ciro F. S. Cardoso teve como fazer um (re)balango critico da (re) escri- ta recente da histéria da escravidio e da aboligéo no Brasil. A primeira, através do artigo “Escravidao ¢ Economia no Bra- sil”, no qual, inclusive, propde “a economia escravista como um fator central da explicacdo do subdesenvolvimento persis- tente das regides afro-americanas”.4 A segunda, neste livro. Escravidio e Aboligéo no Brasil: Novas Perspectivas com 0 qual Jorge Zahar Editor abre sua Colegdo Jubileu, cuja mar- ca seré a revisdo historiografica, mesmo a suscitadora de po- lémica, to pouco versada entre nés. A explicagao para ser- mos tao arredios ao “intercAmbio intelectual e ao confronto de idéias, na area de estudos histéricos” estaria — segundo Ciro F. S. Cardoso — na auséncia de uma tradigio de debate cientifico, na inexisténcia aqui de uma verdadeira comunidade cientifica e no parogquialismo dos intelectuais brasileiros® (p. 105). Mas, nas “Novas Perspectivas acerca da Escravidao no Brasil”, no capitulo 1 deste livro, diferentemente de 1981, Ciro F. S. Cardoso nao esta sozinho, nfo fosse “toda histéria, filha do seu tempo”.6 Acompanham-no: Joao Luis Ribeiro Frago- so, autor da parte relativa “aos modelos que pretenderam ou pretendem explicitar o funcionamento ¢ a légica da economia baseada na mfo-de-obra escrava”; Hebe Maria Mattos de Castro, que escreve sobre “a questio da escravidao tal como surgia fora das grandes empresas agrarias” ¢ Ronaldo Vainfas, que trabalha a tematica da relagio entre a “escravidao, as ideologias e a sociedade”. A explicagio para esta significativa associagéo de autores esté “no desenvolvimento decisivo da profissionalizag&o dos cientistas sociais e historiadores em nosso pafs, mesmo sendo verdade que tal processo ainda nao esta introdugao * concluido. Isto se intensificou sobretudo a partir da década de 1970, com a proliferag&io dos cursos de pés-graduagio e tam- bém o surgimento de mecanismos mais regulares e eficientes de financiamento e apoio as pesquisass” (p. 103). O “desenvolvimento decisivo da profissionalizagio dos cientistas sociais e dos historiadores” nos cursos de pés-gra- duagio, no caso especifico do Grande Rio, foi deveras estimu- lado quando houve uma linha de pesquisa que sistematizasse ¢ referenciasse os trabalhos individuais. Tal ocorreu na Univer- sidade Federal Fluminense. Ali se vem, efetivamente, acumu- lando elementos para reescrever a histéria da escravidio, através de questdes como a da terra e da organizagao do trabalho. presentes, sempre. as visOes agrarias regionalizadas e até lo- calizadas, sem desconexio com a totalidade.7 Em Ultima instancia, estas questGes e vis6es acima mini- mizam os lugares-comuns da historiografia tradicional quanto as determinagdes externas, esvaziando as premissas “‘circulacio- nistas”, negadas, também, por Ciro F. S. Cardoso ao concluir © capitulo 1. Ele diz que todo o seu texto fornece “argumen- tos ponderdveis contra uma tendéncia ainda bastante forte e que consiste em ver, no Brasil colonial e ainda no Império, no uma formagao econémico-social — uma sociedade pro- priamente dita —, mas sim, unicamente, uma espécie de quin- tal da Europa” (pp. 57-58). Em 1981, movido pelo que chamava de “préprios inte- resses temiticos”, Ciro F. S. Cardoso identificava, no jd cita- do livro de Katia M. de Queirés Mattoso, trés grandes arti- culagdes temdticas no estudo da escravidfo no Brasil: a dua- lidade — mundo dos negros, mundo dos brancos — vivida diferentemente pelos negros africanos, pelos negros nascidos no Brasil ¢ pelos mulatos; a diversidade das situagdes resul- tantes da oposi¢fio entre negros africanos, negros nascidos no Brasil e mulatos ou da sua insergaéo em estruturas econémico- Sociais diferentes, particularmente quando houvesse, como no 10 escravidéo e abolicéo no Brasil caso do sul, a presenga do branco imigrante; por fim, a mo- dalidade das alforrias e do destino dos libertos, caminho para a revelagfio das estruturas da escravidiio e da mentalidade dos senhores de escravos, com seus desdobramentos na sociedade pos-escravista.? Sete anos depois, no capitulo 2, “A Aboligaéo como Problema Histérico e Historiografico”, Ciro F. $. Cardo- so sente-se “incapaz de oferecer um estudo completo do tema anunciado, mesmo porque seus préprios trabalhos de pesquisa versaram muito mais sobre o estudo comparativo (¢ estrutural) da escravidao em diferentes regides das Américas do que sobre a abolig&io” (p. 74). Mas também neste capitulo 2, Ciro F. S$. Cardoso opta por “eixos tem4ticos preferenciais”. Inicialmente, correlacio- na “Abolicionismo © aboligio”. Nao julga importante, entre- tanto, avaliar historiograficamente as duas propostas da. clas- se dominante para enfrentar a desescravizagdo da economia, Uma, a proposta da emancipagiio (de escravos), optativa e gradual, hegeménica na década de 1870 e na primeira meta- de da década de 1880. Outra, a proposta da Aboligdo (da es- crayidio), compulséria ¢ imediata, por sua vez hegeménica no final da década de 1880. A passagem de uma proposta para outra se liga as questdes suscitadas pelo binémio “Imaginario e aboligéo”. A seguir, discute “Lutas de classe e aboligao”, “Imi- grantismo e aboligéo”, “Estruturas econémico-sociais e aboli- cao”. O autor nao entende, porém, relevante avaliar historio- graficamente o que seria uma analise de conjuntura, articulan- do abolicionismo e imigrantismo — com os aspectos de lutas de classes que possam envolver — 4s questdes militares, ao projeto liberal de 1889 e ao republicanismo. Depois de discutir acuradamente os “eixos temdticos pre- ferenciais”, eleitos para o capitulo 2, Ciro F. S. Cardoso arro- la “Conclusées” tendencialmente otimistas, sobre a historio- grafia do que se (re)escreveu, sem cessar, sobre a Aboligdo, e ainda sobre a Escravidio, nos tltimos anos. Assinala que * introdugéo nu “se tornaram bem menos freqiientes do que no passado as obras de inteng&io meramente descritiva, avessas aos debates tedricos e as interpretagdes”. Por outro lado, condena “uma es- pécie de desencanto polftico”, motivador “de uma tendéncia ao abandono da problemitica do sujeito, de uma critica nao sé da concepgao marxista como de qualquer visio totalizadora da hist6ria ¢ do social”, presente na “autoproclamada Nova Histéria” (pp. 103-104). Metodologicamente, a (re)escrita re- cente da hist6ria da Escravidfo e da Aboligaio vem sendo mar- cada por “uma tendéncia muito positiva aos estudos regio- nais”; nio obstante, “co enfoque comparativo — muito pra- ticado nos Estados Unidos e no Caribe” — vem apresentando pouco desenvolvimento (p. 105). Ao elegermos a citagio de Adam Schaff, suscitadora da in- cessante (re)escrita da histéria, nfio pretendemos justificar esta Colegio Jubileu e este livro, Escravidao e Aboligéo no Brasil Novas Perspectivas com um “presentismo” crociano, de subje- tivismo ¢ relativismo extremos, a histéria sendo apenas uma criagio a priori do historiador. Estamos mais préximos do que Adam Schaff chamou de “perspectivismo”, segundo o qual “as verdades hist6ricas sao verdades parciais, socialmente ¢ historicamente determinadas, 0 que nfo as impede de ser, nes- tes limites, verdades objetivas”. Na perspectiva marxista, “a verdade € considerada nao como estatica, mas como o pro- cesso ininterrupto de um progresso em diregZo a verdade total, portanto absoluta, semelhante a uma série matematica que tende ao seu limite. Este processo ndo termina nunca. Cada fase concluida do conhecimento é limitada; nao sendo com- pleta, é portanto varidvel.” 9 José Luiz WERNECK DA SILVA julho 1988 12 escraviddo e aboligdo no Brasi! NOTAS Artigo publicado na Revista Diogéne, UNESCO, n.° 30, abril-junho de 1960. Tradugao publicada no Boletim de Histéria, do Centro de Estudos de Histéria, da Faculdade Nacional de Filosofia, Uni- versidade do Brasil, n.° 6, Ano III, janeiro-junho de 1961. Preficio do livro Ser escravo no Brasil, de KAétia M. de Queirés Mattoso, publicado naquele mesmo ano pela Editora Brasiliense, S&o Paulo, e considerado capaz de “abrir uma nova era nos es- tudos da escravidio brasileira” (pp. 7 ¢ 8). Da mesma historia- dora, a Editora Corrupio, de Sio Paulo, em co-financiamento com o CNPq, publicou, em 1988, 0 livro Familia e sociedade na Bahia do século XIX. No que interessa diretamente A historiografia, os eventos mais significativos proyocados pelos Cem Anos da Abolig&o 1888-1983 foram a publicacéo do Guia de fontes para a historia da Africa, coordenado pelo Arquivo Nacional (RJ) ¢ a sucessio de Con- gressos Internacionais, como os de Campinas (UNICAMP), de 23 de maio a 08 de junho; de So Paulo (USP), de 7 a 11 de junho, e do Rio de Janeiro (UFF e UFRJ), de 13 a 17 de junho. Um convénio assinado entre o Ministério da Cultura e o da Cién: © Tecnologia (através do CNPq) permitiu, ao longo de 1988, 0 desenvolvimento de pesquisas, a publicacdo de livros e periédicos e a execugio de eventos abordando as manifestagdes da cultura negra e sua influéncia na formagao econdmico-social brasileira. Ciro F.S. Cardoso. “Escravidiéo e Economia no Brasil”. Suplemen- to especial sobre a aboligéo, do Estado de Sdo Paulo, Sao Paulo, 12 de maio de 1988, pp. 7 e 8. Mario Maestri escreveu “A His- toriografia da Escravidio j& apresenta boas opgées” para o Suple- mento especial sobre os Cem Anos da Aboligio, do Didrio do Sul, Porto Alegre, 13 de maio de 1988, n.° 8, pp. 1 e 2. Em seus Ensaios racionalistas: filosofia, ciéncias naturais e his- t6ria, publicado pela Editora Campus, no Rio de Janeiro, em 1988, Ciro F.S. Cardoso combate, em nome da razéo dialética materia- lista, 0 irracionalismo — que se Ihe afigura reaciondério — da Nova Histéria, A citagaéo esta em Jean Glénisson, Iniciagéo aos estudos histéricos, com a colaboragio de Pedro Moacyr Campos e Emilia Viotti da Costa. Séo Paulo, Difusora Européia do Livro, 1961, p. 26. introducdo 13 > Ver Maria Yedda Leite Linhares, “As Outras Faces do Escra- vismo”. Caderno B Especial 1988-1888, do Jornal do Brasil, 8 de maio de 1988, p. 4. Ver Luts Carlos Lopes, O espetho e a ima- gem: 0 escravo na historiografia brasileira (1808-1920). Rio de Janeiro, Edigdes Achiamé, 1987. Ciro F.S. Cardoso, Prefacio ao livro de Katia M. de Q. Mattoso. Ser escravo no Brasil, op. cit., pp. 9 e 10. Adam Schaff. Por que se reescreve a historia sem cesscr?, op. cit, Pp. 130. capitulo 1 Novas perspectivas acerca da escravidao no Brasil Ciro Flamarion S. Cardoso (organizador) Joao Luis Ribeiro Fragoso Hebe Maria Mattos de Castro Ronaldo Vainfas novas perspectivas acerca da escravidéo no Brasil Bid Tema ja muito freqiientado em nossa historiografia, a escravi- A procura daquilo que quase se poderia chamar de “pe- dao negra no Brasil tem sido interpretada ¢ reinterpretada, cado original” — 0 sentido da evolugao do povo brasileiro —, explicada de diferentes maneiras, abordada de Angulos extre- Caio Prado remetia 4 expansdo maritima e comercial européia mamente variados. Neste capitulo, queremos ocupar-nos de iniciada no século XV. Em outras palavras, encontrar tal sen- algumas das perspectivas mais recentes sobre uma selegio de tido significaria entender o descobrimento e a posterior estru- aspectos referentes A sociedade escravista, langando também, ; turac¢éo da sociedade e economia coloniais como capitulos da ocasionalmente, um olhar retrospectivo a algumas visGes historia comercial européia: anteriores. Si A esséncia d: fe idad cS ; ; e vamos A esséncia da nossa formagio, veremos que na realidade elati a Joao Luis Ribeiro Fragoso é autor da parte relativa aos nos constituimos para fornecer agticar, tabaco, alguns outros ge- modelos que pretenderam ou pretendem explicitar o funciona~ neros, (...) e em seguida café para o comércio europeu (...) mento e a légica da economia baseada na mao-de-obra escra- E com tal objetivo, objetivo exterior, voltado para fora do pals va. Hebe Maria Mattos de Castro debrugou-se sobre a questio ; e sem atencdo a consideragdes que nao fossem o interesse daquele da escravidéo tal como surgia fora das grandes empresas agré- comércio, que se organizaram a sociedade ¢ a economia brasilei- rias, ou plantations. A Ronaldo Vainfas coube referir-se a te- ras. matica das ideologias. Ao coordenador do capitulo, Ciro F. S. Gudosc: devemzse ina reflexces Conclusivas: A partir destas passagens nao é dificil perceber-se o tipo de estrutura encontrada por Caio Prado Jiinior na economia colonial. Tratar-se-ia de um sistema cujo funcionamento se explicita através da transferéncia de excedentes para a metré- pole de além-mar. Daf que a economia em questao se estru- turasse em torno do trinémio grande propriedade, monocultivo e trabalho escravo, As conseqiiéncias de tal quadro explicativo so inevitdveis. A sociedade colonial estaria marcada: 1) por uma incapacidade de realizar acumulagoes end6- genas; Modelos explicativos da economia escravista no Brasil Comegaremos esta secfo referindo-nos ao debate historiografico sobre os aspectos econdmicos da spciedade escravista. A se- guir procuraremos apresentar novos dados apontados por pes- quisas recentes, a partir dos quais buscaremos contribuir para uma reflexdo renovada acerca do tema. F 2) pela subordinagao da produgio ao capital mercantil Be isin externo; i cs Mee sense) See a 2 ee 3) pela debilidade do mercado interno e, por conseguin- que se sucedem em ordem rigorosa e dirigida sempre numa de- te, das produgées mercantis para ele yoltadas; terminada orientacdo. 1 4) e pela presenga de uma massa de homens livres pobres q vivendo ao nivel da mera produgdo de subsisténcia, 4 margem da hist6ria (identificada esta tiltima as atividades exportadoras), ou subordinada a grande propriedade escravista exportadora. Como veremos, estes “tragos coloniais” sao também en- contrados em outros autores. Na verdade, Caio Prado Jtnior, Com estas palavras, Caio Prado Junior, em 1942, rompia com a visio dos ciclos de produtos de exportagio? e, grosso modo, inaugurava toda uma tendéncia historiografica até hoje em evidéncia, 18 escraviddo e aboligéo no Brasil procurando o “sentido da evolugéo do povo brasileiro”, deu sentido (“linha mestra”) A sua historiografia.* As idéias deste autor se juntariam, nos anos 50, as de Cel- so Furtado. De acordo com este, (...) sendo uma grande plantacéo de produtos tropicais, a col6- nia estava intimamente integrada nas economias européias, das quais dependia. Nao constituia, portanto, um sistema auténomo sendo simples prolongamento de outros maiores.5 Para Furtado, por ser um apéndice de sistemas maiores. a economia colonial estava desprovida de ritmo proprio. Suas flutuagdes eram comandadas de fora, a partir do mercado inter- nacional, das economias ali dominantes. Por conseguinte, falar em flutuacdes coloniais significava, na verdade, falar sobre flu- tuagées do mercado internacional em relagao 4 economia co- lonial, Frente a conjunturas favordveis, as ligagdes com 0 cir- cuito internacional tornavam-se mais estreitas e a agroexpor- tagdo pi © inverso e os pregos internacionais cafssem, a economia co- lonial entraria num periodo de estagnacao. Dentro de certos limites, porém, esta fase B (isto é, depressiva) nao implicaria qualquer mudanga de estrutura, pois em parte os gastos da empresa agroexportadora dependiam da propria utilizagéo do escravo, podendo este ser deslocado para atividades nao dire- tamente ligadas 4 exportagéo e que nao acarretassem maiores despesas para as empresas escravistas.° A determinagao externa das flutuagdes coloniai: das estas tiltimas como ritmos de uma dada sociedade, fica mais clara quando nos detemos na dinamica das atividades produti- yas nao-exportadoras.” A pecudria e a produgio auténoma de alimentos, por exemplo, podiam eventualmente aparecer liga- das a agroexportagao. Entretanto, por estarem fundadas em larga medida na produgao de subsisténcia ¢ nao recorrerem ao uso do trabalho escravo como mao-de-obra majoritaria, tais ava a viver uma fase de expansao. Caso ocorressc entent novas perspectivas acerca da escravida@o no Brasil 19 setores ndo dependiam inteiramente das flutuagdes coloniais. Por estes mesmos motivos, contudo, nao criavam por si pr6- prios uma circulagio de mercadorias e de moedas. Em periodos de expansdo da agroexportagao, a atividade pecudria podia ver a sua renda monetéria ampliada, o mesmo ocorrendo com a produgao auténoma de alimentos, j4 que os escravos das empresas (ou plantations, como se preferir) eram deslocados da produgfo de mantimentos para a de exportagao. Esta redugao da produgio interna de alimentos das empresas agroexportadoras poderia, em alguns casos, gerar carestias. Nas fases B das flutuagdes coloniais os segmentos n&o-exportadores, apesar de terem a sua renda monetdria reduzida, nao viam comprometido seu ritmo de crescimento, que, pelo contrario, se ampliava ao absorver contingentes egressos do setor expor- tador. E o que teria acontecido, por exemplo, com o declinio do agticar em finais do século XVII e, mais tarde, com a decadéncia da mineragaéo na segunda metade do século XVII. Assim sendo, para Furtado, 0 crescimento mercantil ¢ mo- netétio da produgio nao vinculada ao mercado internacional dependia, em ultima instancia, de fatores externos. Na fase A (fase de expanséo) a produgio para o mercado interno — compreendida como circulagio efetiva de mercadorias ¢ de moedas — ampliava-se. Ja na fase B, apesar de as atividades nao-exportadoras poderem se expandir, elas o faziam negando © cardter mercantil anterior, 0 que, conseqiientemente, redu- zia o mercado interno. Deste modo, a fase B representaria estagnagdo nao apenas para a agroexportagio mas, também, para o mercado interno, isto é, para a economia ¢m seu con- junto. Este tipo de andlise encontrado em Furtado ja estava presente em Caio Prado e o estard em autores posteriores. Mais de 30 anos apés a publicagZo de Formacao do Brasil contempordneo, Fernando Novais escrevia que, se combinarmos G..) © carter comercial dos empreendimentos da Epoca Mo- derna (...) com a desintegragaio do feudalismo e a constituigsio escraviddo e aboligéo no Brasil do capitalismo industrial — a idéia de um sentido da colonizagao atingiré 0 pleno desenvolvimento.’ Em outra ocasiao, este autor voltaria a precisar seu ponte de vista: (...) © que nos parece peculiar, historicamente especifico, das formagées coloniais do Antigo Regime, ¢ que sua montagem de- corre dos movimentos da acumulagao do capital mercantil, na formacio do capitalismo; isto ¢, na transi¢do do feudalismo ao capitalismo. ° Para Novais, portanto, este contexto ¢ fundamental na compreensao das formagées coloniais. Um dos eixos de andlise do autor consiste na nogéo de Antigo Sistema Colonial. Tra- ta-se do conjunto de relagdes entre metrépoles e colénias, na €poca do chamado “‘capitalismo comercial”, cuja fungao seria a de implementar a acumulagdo primitiva de capitais através do Exclusivo Colonial — monopolio comercial que organizava as compras e vendas externas das colénias. Por este meca- nismo a burguesia metropolitana se apropriava, via circulagdo, do sobretrabalho colonial, Entre outras conseqiiéncias, tal si- tuacdo tornaria acidental qualquer reproducao ampliada autd- noma na coldnia. Quanto ao regime de trabalho colonial, este teria que ser compuls6rio, para melhor se adequar as necessidades da acumulagao primitiva — ja que o trabalho livre seria muito dis- pendioso, ou se “perderia” na produgao de subsisténcia. A opgao pela escravidao africana se explica, segundo Novais, pela lu- cratividade do tréfico de escravos: “é a partir do trafico ne- greiro que se pode entender a escravidio africana colonial, e nao o contrario.” 19 Por ultimo, como decorréncia dos préprics parametros da economia colonial, temos a impossibilidade do desenvolvimen- to de um mercado interno e de as reas coloniais se auto-esti- mularem. Encontramos aqui a mesma linha de raciocinio ja ‘. novas perspectivas acerca da escravidéo no Brasil 21 observada em Caio Prado e Furtado, acerca das flutuagdes coloniais (impulsos vindos de fora) e das caracteristicas das atividades econémicas nao-exportadoras (mercado interno).1* Os anos 70, além de significarem a reafirmagio do “sen- tido da colonizagdo”, presenciariam também o aparecimento de uma outra tendéncia historiografica. Em 1971, e depois em sucessivos trabalhos, Ciro Cardoso propés um novo tipo de abordagem para a histéria colonial.12 As sociedades coloniais (...) 86 adquirem sentido se sio abordadas como parte de um conjunto mais vasto, posto que surgem (...) sob a dependéncia de niicleos metropolitanos (...). Por outro lado, a empresa co- lonial faz aparecer sociedades com estruturas internas que pos: suem uma légica que nfo se reduz A sua vinculagio externa +) G..) desta forma, defini-las como anexo ou parte inte- grante de um conjunto mais vasto é um momento central da analise, mas néo o bastante. 18 Rompia-se, assim, a tradigéo do “sentido da colonizagao”, do império do comércio externo e da acumulagio primitiva de capital que a tudo determinam e explicam. A partir desta nova 6tica, Ciro Cardoso esbogava como hipétese de trabalho a exis- téncia de um modo de produgao escravista-colonial, cujos prin- cipais tragos seriam: 1) incluia estruturalmente dois setores agricolas articula- dos: um sistema escravista dominante, produtor de mercadorias exportiveis, ¢ um sistema camponés, subordinado ao primeiro, exercido pelos préprios escravos; 2) as forgas produtivas tinham um nivel relativamente bai- X0, caracterizando-se pelo uso extensivo dos recursos naturais € da mao-de-obra; 3) ao nivel macroeconémico a légica do sistema e a do capital mercantil cram inseparaveis; 4) ao nivel microeconémico a rentabilidade da empresa €scravista dependia da reduc&o dos custos de produg&o (mio- de-obra © insumos) ¢ buscava a auto- -suficiéncia; als. ates as novas perspectivas acerca da escravidéo no Brasil 23 5) os principais mecanismos de reprodugio do modo de excedente colonial pela burguesia comercial metropolitana im- produgfio eram o trafico africano (os Estados Unidos consti- pedem que a economia colonial acumule endogenamente. Des tuindo uma excecSo) ¢ diversos fatores extra-econdmicos.! provida de uma l6gica propria, a economia colonial seria, na yerdade, a outra face de um modo de produg&o capitalista em instalagio. Para este autor, se hé subordinagio formal do tra- balho ao capital na metrépole, o mesmo ocorre na coldéni: ‘Nas Colénias ha, formalmente, capitalismo, porque a escravi- dao € escravidao introduzida pelo capital.””!® Neste ponto caberia expor as criticas de Ciro Cardoso ¢ J. Gorender as posigdes, entre outros, de Caio Prado Junior e Fernando Novais.*° Entretanto, nos limitaremos a indicar duas: Seguindo uma linha de raciocinio préxima 4 de Cardoso, Jacob Gorender levaria até as tltimas conseqiiéncias a idéi de um modo de produgio colonial, em um tipo de andlise que parte do processo de produg&o (relagdes sociais de producaéo e forgas produtivas) ao invés de privilegiar a circulagéo.’* Ba- seando-se em obras teéricas, na historiografia e em cronistas da época, Gorender chega a formular leis de funcionamento para o escravismo colonial. O curioso, entretanto, é que em passagens de seu mais importante trabalho encontremos algu- mas das formulagdes de Caio Prado, Furtado e Novais. Tal €é 0 caso da inexpressividade do mercado interno colonial e da determinacéo externa das flutuagGes coloniais.'® Anténio Barros de Castro, apesar de em certos aspectos se distanciar das posigdes dos dois tltimos autores, também buscava dar outra interpretagao ao “sentido da colonizacgao”. Para ele, 1) a acumulagao primitiva de capital é um processo que se faz por meio de trés mecanismos interligados, sendo estra- nho ao pensamento de Marx o privilegiamento da acumulagéo mercantil e da pilhagem colonial em detrimento dos demais — ¢ principalmente da expropriagéo de camponeses e artesdos, movimento que resultaria na constituigio das relagdes capita- listas de produgao; 2) © capitalismo, enquanto medo de produgdo dominan- (...) imstalado 0 aparato produtivo escravista-mercantil, o seu te, s6 aparece nos séculos XVIII e XIX (ao contrario do objetivo maior — 0 seu sentido se se quiser — lhe € agora ine- que pensa Cardoso de Mello), inexistindo algo que possa ser 2 tipl idades, garantir a sua re- fe aeae 1 rente: atender as suas miiltiplas necessidades, garantir a sua re chamado de “capitaliea tenants produgéo. Em tais condi¢ées 0 comércio é estruturalmente reco- 4 ¥ . . \ Ticaid Odd tintetedee toateahtiN’ bas dcime ‘os da coroa E, portanto, temerario explicar a racionalidade do sistema terio de ter em conta as determinacées que se estabelecem ao colonial do mercantilismo a partir do que viré, 0 que por seu nivel da produgio.17 turno significa reduzir a histéria a uma cadeia teleolégica. Ou- trossim, obras que se ocupam do trafico escravista e da indus- Escrito em meio ao debate que se instalara nos anos 70. trializagio provam que a participagdo directa do primeiro no o trabalho de Joao Manoel Cardoso de Mello levaria ao limite capital que detonou a Revolucao Industrial Inglesa foi de so- algumas das idéias de Caio Prado ¢ F. Novais.'* Segundo Car- mente 0,11%. Quanto ao exclusivo comercial, estudos para o doso de Mello, é impossivel falar de um modo de producio mundo colonial hispanico ¢ francés tendem a mostrar que este escravagista-colonial, j4 que a reproducgdo de suas relagées de mecanismo nfo era téo efetivo como se esperava.2* produgiio nfio se dé endogenamente: o fornecimento do trabalho Ao longo dos anos 70 e 80 surgem também novas pes- escravo se faz via trafico internacional e este é controlado pelo quisas e abordagens. Jé em 1973, K. Maxwell langava uma capital mercantil metropolitano; a apropriagao © o controle do nova luz sobre a economia de Minas Gerais no século XVIII. ca escraviddo e aboligao no Brasi: Este autor demonstrou a inexisténcia de uma decadéncia pés- mineragao; mais do que isto, constatou o peso de produgdes escravistas-mercantis voltadas para o abastecimento interno.** Outro pesquisador, Roberto B. Martins,2* provou que a maior provincia escravista do Brasil no século XIX era Minas Gerais (que em 1819 concentrava 15,2% da populagio cativa, cifra que chegaria a 24,5% em 1872), sendo que 75% de seus escravos em 1874, estayam yoltados para atividades nao-cxportadoras. Encontramos 0 mesmo fenédmeno no Rio de Janeiro de 1874: 51% dos escravos se localizavam em areas nao-exportadoras. Campos, um municipio ligado ao mercado interno no perfodo 1872-1881, incorporava cativos a uma taxa média anual de 3%, superior & de Vassouras, municipio cafeeiro (0,5% ao ano).?° Ainda nesta linha revisionista, temos A, Lenharo e R. Goren- stein, que sublinharam a importancia do mercado interno ¢ des produgoes voltadas para ele.2¢ Assim sendo, pesquisas de primeira mao tendem, pois, a pdr em diivida os esquemas explicativos para a escravidao antes mencionados, Em outras palavras, a escravidéo aparecia, nao apenas associada 4 agrocxportagéo, mas também servia de base a produgées ligadas ao abastecimento interno. Este fato — que serd considerado com maior detalhe na segado seguinte deste capitulo — por sua yez nos leva a recolocar em discussdo a propalada inexpressividade do mercado interno, ponto tantas vezes sublinhado por aqueles que defendem o “sentido da co- lonizagaéo” ou a plantation bissegmentada. As pesquisas acima vém somar-se outras, como as que comprovam a presenga de familias estdéveis de cativos nas fa- zendas brasileiras.*7 Os trabalhos de S, Schwartz demonstram a difusio da propriedade de escravos entre diferentes catego- tias sociais da populagao livre.** Temos, ainda, os estudos sobre a agricultura do homem livre pobre, em que o trabalho cam- ponés pode aparecer combinado ao do cativo.2® Para tais as- pectos remetemos, também, a préxima segao do capitulo. novas perspectivas acerca da escravidéo no Brasil 25 Em termos de novas abordagens, deve-se ressaltar o tra- balho de Anténio Barros de Castro, que, em um ensaio, langou a sugestiva idéia de se conceber a escraviddo fundamentalmente como um regime social.°° Deve ser reconhecido, porém, que as pesquisas de base sobre 0 quotidiano ¢ a resisténcia escrava ainda se encontram, infelizmente, nos seus primeiros passos. Tais trabalhos poderiam de fato introduzir a yisdéo do escravo como agente social ativo na sociedade escravista.31 Desde a “escola” dos Annales, sabe-se da importancia dos es- tudos regionais para a elaboragéo de quadros tedricos de so- ciedades historicamente definidas. Através de uma pesquisa em andamento e com o cuidado de nao cair em generalizagdes apressadas, buscaremos agora discutir alguns tragos econémicos da sociedade escravista-colonial.*? Q que se segue tem como ponto de partida a montagem da agricultura do café no Médio Vale do Paraiba: a sua conjuntura econémica durante a pri- meira metade do século XIX e os mecanismos de sua formagao. A rdpida montagem da agricultura cafeeira ocorre numa €poca marcadamente depressiva a nivel internacional — uma fase B do movimento Kondratieff (1815-1850). Em termos da economia escravista-colonial, no entanto, alguns dados indi- cam que suas flutuagdes néo acompanharam aquela tendéncia. Apesar de 0 prego do agicar para o periodo 1821-1831 apresentar uma taxa média anual negativa de crescimento (—3,1%), as rendas de sua exportagéio aumentaram em 2,7%, © que foi possivel através do aumento do volume exportado, ao ritmo de 5,6% ao ano em média. O crescimento do volume médio de exportagéo do acticar em 1797-1807 (fase A do movimento Kondraticff) ¢ 1821-1831 (fase B) foi de 68,4%,.*4 A sustentagao das flutuagdes coloniais nao se deve, con- tudo, apenas as exportagdes. Desde o final do século XVIII até 26 escravidéo e aboligéo no Brasil pelo menos 1825, no Rio de Janeiro, os pregos dos alimentos ligados a dieta das classes populares e dos escravos apresen- tam uma taxa média de crescimento anual superior a do agticar branco exportado.®> As saidas de reses, toucinho e carne sal- gada de Minas Gerais pelo registro do Presidio do Rio Preto aumentaram mais de 170% entre 1818 e 1828, No periodo 1826-1830 as saidas de porcos pelo mesmo registro cresceram a uma taxa anual (17,4%) superior a das saidas de café (12,2%) pelo porto do Rio de Janeiro.** Perpassando tais movimentos temos 0 proprio crescimento demografico: a cidade do Rio de Janeiro ampliou sua populagéio em 159,8% entre 1799 © 1821;°7 a comarca mineira do Rio das Mortes, drea voltada para o abastecimento interno, de 1776 a 1821 viu o seu ntimero de habitantes aumentar em 158%. Quanto ao trdfico atlantico de cativos, de 1795 a 1830 entraram mais de 650.000 africanos no porto carioca, a uma taxa média anual de 5,1%. De 1815 até 1830, portanto j4 na fase B do movimento Kondratieff, as importag6es de africanos cresceram a uma taxa anual superior a 4%.38 A elogiiéncia destas cifras dispensa qualquer comentério sobre os esquemas antes apresentados para a explicagao das flutuag6es coloniais. Ao contrério do que cles afirmavam, a queda dos precos internacionais nao levou, na época em ques- tao, a uma retragaio da agroexportagdo ou do mercado interno da regiéo Sudeste. Por conseguinte, as flutuagdes coloniais, dentro de certos parametros, tinham relativa autonomia.*® Re- forgando isto, nota-se o crescimento das produgées voltadas para o abastecimento interno a um nivel superior ao das liga- das @ exportagao. Deve-se lembrar que as empresas agroex- portadoras nio eram, stricto sensu, auto-suficientes: no Médio Vale do Paraiba, cerca de um quarto das despesas da fazenda eram alocadas as compras de alimentos, sem contar os animais de tiro.f? Para o Recéncavo baiano, ha dados que mostram que os escravos eram alimentados em boa parte a partir de uma agricultura mercantil e regional de alimentos, complemen- novas perspectivas acerca da escraviddéo no Brasil 24 tada pelo cabotagem; ** j4 nos séculos XVII ¢ XVIII, sabe-se que a Bahia recebia géneros vindos de Sergipe.*? Isto significa que a agroexportagao se constituia em um mercado para os setores escravistas ligados ao mercado interno.** Assim sendo, a economia escravista-colonial nfo seria apenas um mero re- flexo de determinag6es externas e nem se resumiria a agro- exportagao. Na verdade, a montagem da cafeicultura enquanto sistema agrario escravista © mercantil nao foi o tinico fenémeno deste tipo durante os primeiros 50 anos do século passado, Na pas- sagem do século XVIII para 0 XIX encontramos algo seme- lhante com a formagao da agricultura canavieira em Campos. Nesta regiao, de 1777 a 1810, o ntmero de engenhos aumentou em 700% (de 50 para 400); e 71,4% das doagdes de sesma- rias corresponderam ao periodo 1780-1820.4 Tais dados, além de contrariarem as opinides que negam a existéncia da repro- dugdo ampliada na economia colonial, insinuam que estamos frente a um fenémeno ligado a continua (te)criagio da so- ciedade escravista-colonial em areas de fronteira. E a partir de tal fenémeno que a devemos entender, ‘Temos, entéo, uma sociedade na qual a produgao ¢ apro- priagéo do trabalho excedente nao resultam inteiramente de condigées econémicas no sentido estrito. Ao contrério do ca- pitalismo, para o qual a coercao extra-econémica nao exerce fungao estrutural ¢ sob o qual a produgao é regulada por me- canismos autodeterminados,‘® aqui a extorsdo do sobretrabalho € mais o resultado de relagdes de poder (sendo o produtor direto cativo de outrem) do que de relagdes econémicas. Este fendmeno confere As relagdes sociais de subordinagao um pa- pel preponderante, ja que elas exercem a funcdo de relagées de produgo.® O escrayo, contudo, além de ser propriedade de outrem, é, também, uma mercadoria, 0 que em principio © transforma num produtor de mercadorias, A partir deste dado © mercado adquire uma importincia decisiva na reprodugaio daquelas relagdes sociais de subordinagéo no tempo, e uma