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Longe dela sinto que nem eu e nem ela existimos e a noite vai ferindo,

ferindo, gaguejando silncios, sobrepondo dvidas at que a saudade


coloque a mo sobre a minha boca e me cale.

Me debato, deixo a mente me guiar por caminhos escuros e labirintos cheio


de cinzas e fumaas, eterno, esse segundo eterno e nele moram todas
as minhas certezas, com a boca ainda cheia de marcas de mordidas, coo a
pele marcada, aqui nesse quarto no tenho espelhos, no tenho nenhuma
foto, nenhuma lembrana, apenas uma luz fraca e as paredes rabiscadas,
tudo ficou espalhado pelos cantos da lembrana, a corda suspensa no teto,
o pescoo pendendo, a cabea dizendo no.

Como bom ter os olhos fechados, assim eu percebo que onde eu vivo
mesmo aqui dentro de mim, onde no h visitas, onde as cadeiras
permanecem vazias, os fantasmas zanzam, caminham na ponta dos ps e
serpenteiam como luzes hostis, no tenho medo agora, apenas sou a
sombra, apenas brinco de me esconder de mim mesmo, duas palavras
bastam, como um mantra gasto, assim desabo em meus sonhos, at a
sombra de um pssaro cobrir todo o quarto e desaparecer, j disse que no
tenho medo, no tenho nem ao menos a certeza de que existo, sou apenas
um risco de luz, um meio-termo, um smbolo matemtico desenhado com os
dedos em um pote de gua, de manh, logo cedo no estarei mais aqui,
espero que se lembre de mim, espero que aqueles dias fiquem acorrentados
na memria como um sonho arquivado, um leve e distante piscar de olhos,
no permaneo, permanecer di, cansa.

Eu nunca pude pensar por mim mesmo, como se houvesse uma linha
delimitada, desenhada de giz branco, onde o Universo diz, com voz de
trovo:

_Ande, esse o teu Destino, caminhe, exista, no faa curvas, no pense,


no ame, no odeie, no seja.

Apenas sigo, assim como todos, uma longa e enfadonha viagem em direo
a lugar nenhum.