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ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE NA REVISTA ZÊNITE - ILC -

INFORMATIVO DE LICITAÇÕES E CONTRATOS, EDIÇÃO DE JUNHO DE 2001

O SISTEMA DE REGISTRO DE PREÇOS E O PREGÃO.

por PAULO SÉRGIO DE MONTEIRO REIS

Aqueles que atuam na área de licitações dentro da Administração Pública federal


receberam, nos últimos anos, duas excelentes armas para a melhor execução dessa árdua tarefa:
a regulamentação do Sistema de Registro de Preços e a nova modalidade de licitação,
denominada de pregão.

Vamos abordar neste comentário alguns aspectos que nos parecem relevantes na
aplicação desses dois dispositivos, fruto da experiência que já acumulamos na sua utilização em
nosso dia-a-dia, com a finalidade de, especialmente, mostrar a vantagem que trazem para a
Administração Pública, destacadamente no que se refere à maior celeridade no processamento
das aquisições e contratações de serviços.

O Sistema de Registro de Preços foi introduzido em nosso ordenamento jurídico já no


ano de 1922, através do Decreto Federal nº 4.536, diploma legal esse que organizou o Código de
Contabilidade da União. Dizia o art. 52 desse decreto, textualmente (com a grafia própria da
época):

"Art. 52. Para os fornecimentos ordinários ás repartições públicas, poderá o Governo


estabelecer o regimen de concurrencias permanentes, inscrevendo-se, nas
contabilidades dos Ministérios e nas repartições interessadas nos fornecimentos, os
nomes dos negociantes que se propuzerem a fornecer os artigos de consumo habitual,
com a indicação dos preços offerecidos, qualidade e mais esclarecimentos reputados
necessarios.

§ 1º. A inscripção far-se-á mediante requerimento ao chefe da repartição ou ao


Ministro, conforme determinação regulamentar, acompanhado das informações
necessarias ao julgamento da idoneidade do proponentes, indicação dos artigos e
preços dos fornecimentos pretendidos.

§ 2º. Julgada dentro de 10 dias a idoneidade do proponente, será ordenada a sua


immediata inscripção si este se subordinar ás condições exigidas para o fornecimento.

§ 3º. Os preços offerecidos não poderão ser alterados antes de decorridos quatro mezes
da data da inscripção, sendo que as alterações communicadas em requerimento só se
tornarão effectivas após 15 dias do despacho, que ordenar a sua annotação.

§ 4º. O fornecimento de qualquer artigo caberá ao proponente que houver offerecido


preço mais baixo, não podendo, em caso algum, o negociante inscripto recusar-se a
satisfazer a encommenda, sob pena de ser excluido o seu nome ou firma do registro ou
inscripção e de correr por conta delle a differença".
A despeito de todo o longo tempo decorrido desde então e das vantagens que a
implantação do Sistema proporciona, verifica-se, ainda, uma pequena utilização dele em nossa
Administração Pública. Aliás, nos últimos meses temos sido procurados, com uma freqüência
muito maior do que a que vinha ocorrendo até então, por representantes de órgãos, entidades e
empresas públicas que, sabedores de nossa experiência no assunto, buscam informações a
respeito, fato que nos incentivou a escrever este comentário.

Na área da União, o Sistema de Registro de Preços foi regulamentado através do


Decreto nº 2.743, de 21 de agosto de 1998. Poucos meses depois, começamos a utilizá-lo e
podemos testemunhar as vantagens que ele apresenta para a aquisição de materiais de uso
permanente, dos quais necessitamos regularmente e que não podem, por isso mesmo, estar em
falta em nossos almoxarifados.

Vantagens que começam pelo fato de que é realizada uma única licitação por ano, na
modalidade concorrência, do tipo "menor preço". Nessa licitação, o licitador apresentará uma
estimativa da quantidade que pretende adquirir ao longo de 12 meses e da previsão da quantidade
que deverá ser entregue mensalmente. Ao contrário do que ocorre com as aquisições feitas com
entrega parcelada do material, nos termos do art. 57 da Lei nº 8.666/93, o período da contratação,
no caso do sistema em questão, é de 12 meses contínuos, independentemente, portanto, da
vigência do crédito orçamentário. Nada impede, dessa forma, que uma contratação por esse
sistema seja formalizada em, por exemplo, junho de um determinado ano. A vigência será até
o mesmo mês do ano subseqüente, independentemente do crédito orçamentário a que se refira.
E isso só é possível em função de uma segunda grande vantagem do Registro: a Administração
Pública, ao formalizar a contratação, através da chamada Ata de Registro de Preços, não assume
o compromisso de fazer as aquisições dela decorrentes. Nesse caso, a redução da quantidade a
ser adquirida, de que trata o § 1º do art. 65 da Lei de Licitações, passa a ser de 100%, isto é,
pode-se firmar a Ata e simplesmente nada adquirir ao longo de sua vigência, sem que qualquer
direito caiba ao fornecedor registrado. O Registro cria, apenas, uma expectativa de fornecimento
e não um compromisso de aquisição.

Uma outra vantagem é a redução dos estoques de material no almoxarifado. Em lugar


de a Administração Pública ser obrigada a fazer uma imobilização considerável, de forma a
manter um estoque que lhe permita dispor do material no momento em que dele necessitar, ela
transfere esse estoque para o próprio fornecedor. É ele quem vai manter o material disponível
para, quando receber a competente solicitação de fornecimento, fazê-lo tempestivamente. Além
da redução da imobilização financeira, há uma vantagem adicional na redução da área física
necessária para o almoxarifado e na desnecessidade de cuidados especiais com a conservação
do material, como ocorre habitualmente com determinados produtos, como, por exemplo, os
cartuchos de tinta e de toner para impressoras.

Por outro lado, o registro de preços reduz, também, o desperdício de material. Se, em
um determinado momento, aquele produto vier a ser substituído por outro (o que ocorre com
freqüência, para citar o mesmo exemplo, com os cartuchos de tinta para impressoras: no instante
em que um novo modelo desse equipamento é adquirido, geralmente o tipo de cartucho que ele
utiliza é diferente daquele que a antiga impressora usava), não há perdas de material (ou, pelo
menos, elas serão significativamente reduzidas), tendo em vista que não havia estoque do
referido produto.
Para alguns tipos de equipamentos, de que a Administração Pública necessita com uma
freqüência superior ao que pode ser considerado usual e para os quais o planejamento de
compras nem sempre acompanha essa demanda, a utilização do registro de preços também é
bastante vantajosa, pois elimina a necessidade de fazer estoque (com todas as desvantagens já
acima citadas) e permite que se disponha do material praticamente no momento em que ele se
torna necessário. Citamos como exemplo os casos dos aparelhos de ar condicionado e dos
arquivos para pastas.

Finalmente, temos a manutenção do preço cotado no preço licitatório pelo prazo de um


ano. Esse preço será devidamente controlado pelo órgão licitador, de forma a verificar se está
efetivamente de acordo com os preços praticados no mercado, podendo ser revisto em
decorrência de eventual redução, em qualquer momento.

Essas são algumas das inúmeras vantagens que o Sistema de Registro de Preços traz
para a Administração Pública. E qual o motivo por que ele não está sendo plenamente utilizado?
A resposta cabe àqueles que são responsáveis pelas aquisições.

Quanto ao pregão, trata-se de novidade introduzida no âmbito da União há cerca de um


ano, regulamentada pelo Decreto nº 3.555, de 08 de agosto de 2000, diploma esse já alterado por
duas vezes, através dos Decretos nº 3.693, de 20 de dezembro de 2000, e nº 3.784, de 06 de abril
de 2001.

Não vamos aqui abordar o aspecto da constitucionalidade de se cingir sua aplicação ao


âmbito da União, tampouco as evidentes contradições entre o texto da Medida Provisória e dos
decretos regulamentadores. Outros já o fizeram, com muita propriedade, sendo dispensável voltar
ao assunto. Vamos nos preocupar com a aplicação dessa nova modalidade de licitação.

O pregão representa, se bem observado, a concretização dos anseios de parcela


representativa de nossa sociedade. É uma licitação absolutamente transparente, realizada em ato
público com a presença de todos os interessados ou através de procedimento eletrônico, via
Internet, com igual abertura ao acompanhamento de todos. Além dessa transparência tantas e
tantas vezes exigida, o pregão, em qualquer de suas duas formas, proporciona uma celeridade nas
aquisições e contratações de serviços que não é possível atingir em qualquer outra modalidade
de licitação, por maiores que sejam os esforços empreendidos nesse sentido.

Nossa experiência restringe-se, até o momento em que escrevemos este comentário, ao


chamado pregão comum, aquele que é realizado em sessão pública, com a presença de todos os
interessados ou seus representantes legais. E todas as licitações que já realizamos nessa
modalidade foram concluídas no mesmo dia, em curtíssimo espaço de tempo, e com resultados
excelentes, tanto para a Administração, como para o particular.

Além dessa celeridade e da transparência já mencionadas, o pregão possibilita a


compra/contratação por justo preço, acabando com a idéia de que a licitação foi decidida em um
golpe de sorte, no qual um dos licitantes cotou um preço inferior em apenas alguns centavos
àquele cotado por outro licitante. Isso até pode acontecer no pregão, ou seja, a licitação ser
decidida pela diferença de alguns centavos. Mas, quando isso ocorre, é porque o perdedor não
teve condições ou interesse em reduzir ainda mais seu preço, de modo a torná-lo inferior ao do
concorrente. Cada interessado vai até o seu limite, que só ele sabe qual é, pois a licitação é,
genericamente, uma disputa entre desiguais, e só por isso mesmo existe. Se todos fossem iguais
e, conseqüentemente, se todos tivessem o mesmo limite inferior de preços, não existiriam as
licitações.

Apesar de algumas interpretações divergentes, que respeitamos, mas com as quais não
concordamos, o pregão comum exige a presença dos interessados ou seus representantes legais
na sessão pública. É o único entendimento que vemos possível quando se faz uma interpretação
sistemática do texto da MP e do regulamento. Citamos como exemplo da necessidade imperiosa
da presença na sessão pública o que está disposto nos textos legais quanto ao recurso. Pressupor
que o licitante ausente da sessão estaria renunciando ao direito de recurso ou intimado a
apresentar as contra-razões, seria contrariar frontalmente o princípio constitucional do
contraditório e da ampla defesa.

O pregão pode ser utilizado para diversos tipos de aquisições e de contratações de


serviços. A relação constante do Anexo II do regulamento é, em nossa opinião, meramente
exemplificativa, não taxativa. Por isso mesmo, consideramos desnecessária a edição de um novo
decreto a cada vez que se resolve introduzir um novo item nessa relação, como vem sendo feito.

Nada impede que se faça um pregão com diversos itens. Apenas, o bom senso deve
prevalecer: se pretendemos encerrar a licitação no mesmo dia, devemos limitar a quantidade de
itens ao que for viável. Essa é uma outra vantagem do pregão: como não há limite de valor para
ele, a realização de várias licitações nessa modalidade, simultâneas e sucessivas, não poderá ser
caracterizada como um parcelamento. Assim, se há, por exemplo, vinte itens para adquirir,
podemos fazer duas licitações, em dias consecutivos, e isso não constituirá qualquer tipo de
agressão ao texto legal.

Temos tido muito sucesso com o pregão. Os resultados para a nossa Administração têm
sido muito vantajosos, com aquisições ou contratações realizadas por preços inferiores aos
estimados, concluindo-se as licitações em prazos muito curtos. E, para os particulares, pelo que
temos observado, também os resultados têm sido excelentes, pois concretizam a venda em curto
prazo, pelo preço que quiseram cotar. É o pregão, sem a menor dúvida, um avanço significativo
na árdua tarefa de realizar licitações para atender às necessidades da Administração Pública
brasileira.

Para chegarmos a uma situação ainda mais satisfatória, resta, em nossa opinião, juntar
esses dois avanços, isso é, passar a permitir que as licitações para Registro de Preços possam ser
realizadas, também, por pregão. Estaríamos, dessa forma, reunindo a celeridade e a obtenção de
melhores preços às vantagens decorrentes do Registro, atendendo especialmente ao princípio da
eficiência, que sempre foi necessário para a Administração Pública e que agora é uma
determinação constitucional.

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