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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Apresenta:

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A NOITE DOS TEMPOS

O enredo deste romance de René Barjavel é tão absurdo e fascinante


quanto à própria realidade de nossa imprevisível época.
Os membros de uma expedição polar fazem um levantamento do relevo
subglacial, numa região onde o gelo tem mais de mil metros de espessura e as
camadas mais profundas datam de 900 mil anos. De repente, um inacreditável
fenômeno acontece: os aparelhos registram sinais provenientes do interior do
gelo. Não restam dúvidas: existe um emissor sob a camada.
A descoberta estoura nas manchetes de todo o mundo: "O Mistério do
Pólo"; "Um Coração Bate Sob o Campo de Gelo"; "A UNESCO Vai Derreter o Pólo
Sul".
Sábios e técnicos acorrem, de todas as partes do mundo, em busca da
solução do mistério. A galeria aberta no gelo os conduz a um abrigo onde
dormem congelados, há 900 mil anos, um homem e uma mulher.
Assim começa a narrativa de um amor apaixonado, que nem mesmo a
morte pôde destruir. Quando os sábios conseguem fazer Eléa voltar à vida, sua
primeira palavra, não olvidada apesar dos séculos, será o nome de seu amado.
Um romance excepcional, cujo enredo se passa simultaneamente nos dias
de hoje e há quase um milhão de anos, e que deu a seu autor o cobiçado
Prêmio dos Livreiros (da França) de 1969.
A Noite dos Tempos está sendo filmado por André Cayatte.

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A NOITE DOS TEMPOS

Do original francês La Nuit des Temps


Copyright 1968 by Presses de La Cité
Copyright 1971 da edição em português Editora Artenova S.A. Terceira
edição brasileira em abril de 1975

Traduzido por Marisa Murray


Revisão: Salvador Pittaro
Capa de Salvio Negreiros/Studio Artenova

Reservados todos os direitos desta tradução. Proibida a reprodução,


mesmo sem expressa autorização da Editora Artenova S.A.

editora artenova s.a


Composto e impresso no Brasil — Printed in Brazil
René Barjavel

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A NOITE DOS TEMPOS


Traduzido por MARISA MURRAY

editora artenova S.A.


End. telegráfico ARTNOVA São Cristóvão rio RJ
Dep. jornalístico dep. gráfico dep. editorial Studio de arts

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A André Cayatte,
pai desta aventura inspirador deste livro,
com a minha amizade.
R.B.

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Minha bem amada, minha abandonada, eu te deixei lá no fim do mundo,


voltei para meu quarto de homem da cidade com seus móveis familiares sobre
os quais tantas vezes pousei minhas mãos que os amavam, com os seus livros
que me alimentaram, com sua velha cama de cerejeira onde dormi minha
infância e onde, esta noite, procurei em vão encontrar o sono. E todo este
cenário que me viu crescer, desenvolver, tornar-me eu, hoje me parece
estranho, impossível Este mundo que não é o teu tornou-se um mundo falso, no
qual meu lugar jamais existiu.
E no entanto é meu pais, eu o conheci...
Vai ser preciso reconhecê-lo, aprender novamente a nele respirar, a nele
fazer o meu trabalho de homem no meio dos homens. Serei capaz disso?
Cheguei ontem à noite pelo jato australiano. No aeroporto de Paris-Norte,
um bando de jornalistas me esperava, com seus microfones, suas câmaras,
suas inúmeras perguntas. Que poderia eu responder?
Todos eles te conheciam, todos eles haviam visto sobre suas telas a cor
dos teus olhos, a incrível distância do teu olhar, as formas perturbadoras do teu
rosto e do teu corpo. Mesmo aqueles que te viram apenas uma vez não
puderam te esquecer. Eu os sentia, por trás dos reflexos de sua curiosidade
profissional, secretamente mudos, agitados, magoados. Mas talvez fosse a
minha própria dor que eu projetava sobre o rosto deles, minha própria ferida
que sangrava quando eles pronunciavam o teu nome...
Voltei para meu quarto. Não o reconheci. A noite passou e não dormi.
Através da parede de vidro, o céu, que era negro, tornava-se pálido. As trinta
torres da Defesa se tingiam de cor-de-rosa. A Torre Eiffel e a Torre
Montparnasse enfiavam seus pés na bruma. O Sacré-Coeur parecia uma
maquete de gesso pousada no algodão, sobre esta bruma envenenada por suas
fadigas de ontem, milhões de homens acordam já extenuados de hoje. Do lado
de Courbevoie, uma chaminé alta joga uma fumaça negra que tenta reter a
noite. Sobre o Sena, um rebocador solta seu grito de monstro melancólico.
Estremeço. Nunca mais, nunca mais sentirei calor no meu sangue nem na
minha carne...

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O Dr. Simon, as mãos nos bolsos, a testa apoiada na parede de vidro de


seu quarto, olha Paris, sobre a qual o dia se levanta. É um homem de 32 anos,
grande, magro, moreno. Veste um suéter grosso de gola roulé, cor de pão
queimado, um pouco deformado, gasto nos cotovelos, e calça de veludo negro.
Sobre o tapete, seus pés estão descalços. Seu rosto é coberto por anéis de
barba castanha, curta, barba de alguém que a deixou crescer por necessidade.
Por causa dos óculos que usou durante o verão polar, o côncavo dos olhos
parece claro e frágil, vulnerável como a pele cicatrizada de um ferimento. Sua
testa é larga, meio escondida pela nascente dos cabelos curtos, um pouco
tombada em cima dos olhos e cortada por uma profunda ruga. Suas pálpebras
estão inchadas, o branco de seus olhos é estriado de vermelho. Não pode
dormir, não pode mais chorar, não pode esquecer, é impossível...

A aventura começou com uma missão de simples rotina, das mais banais.
Havia anos que o trabalho sobre o continente antártico não era mais feito pelos
corajosos, mas sim por sábios organizados. Havia todo o material necessário
para lutar contra os inconvenientes do clima e da distância, para conhecer o
que procuravam saber, para assegurar aos pesquisadores um conforto
equivalente ao de um hotel de luxo. Todo o pessoal da equipe possuía os
conhecimentos indispensáveis à missão. Quando o vento soprava forte demais,
fechavam-se e deixavam-no soprar; quando se acalmava, todos saíam e cada
um fazia o que tinha a fazer. Sobre o recortado mapa daquele continente, na
Base Paul-Emile Victor, a missão francesa permanente debruçava-se sobre a
fatia que lhe coubera, dividia-a em pequenos quadrados e trapézios e os
explorava sistematicamente um após outro. Sabia que não havia mais nada a
ser encontrado a não ser gelo, neve e vento, vento, gelo e neve. E, abaixo,
rochas e terra, como em toda parte. Não havia nisso nada de excitante, mas
mesmo assim aquilo os apaixonava, porque eles estavam longe do óxido de
carbono e dos engarrafamentos, porque cada um dava a si próprio uma
pequena ilusão de ser um pouco de herói explorador, enfrentando grandes
perigos, e principalmente porque estavam no meio de amigos.

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A missão acabara de fazer a exploração do trapézio 381, a documentação


estava encerrada, uma cópia tinha sido enviada à sede em Paris. Restava-nos
passar à tarefa seguinte. Burocraticamente, do 381, deveríamos ter saltado
para o 382, mas nem sempre as coisas aconteciam assim. Havia as
circunstâncias, os imprevistos e a necessidade de um mínimo de variedade.
A missão acabava de receber um novo aparelho de sondagem subglacial
de concepção revolucionária, que, segundo seu construtor, era capaz de
descobrir os menores detalhes do solo sob vários quilômetros de gelo. Louis
Grey, o glaciólogo, 37 anos, agregado de Geografia, estava ardendo de
impaciência para pô-lo à prova, comparar o seu trabalho com o das sondas
clássicas. Foi então decidido que um grupo iria fazer um levantamento do solo
subglacial no quadrado 612, que se situava a algumas centenas de quilômetros
do Pólo Sul.
Em duas viagens, o pesado helicóptero depositou os homens, seus
veículos, e todo o material sobre o local de operação.
O lugar já havia sido bastante sondado pelos métodos e engenhos
habituais. Sabia-se que profundidades de 800 a 1.000 metros de gelo
terminavam em abismos de mais de 4.000 metros. Aos olhos de Louis Grey, o
local constituía um campo de experiência ideal para testar o novo aparelho. Era,
acreditava ele, o que havia motivado sua escolha. Hoje em dia, ninguém ousa
acreditar.
Com tudo o que foi revelado depois, como se poderia pensar ainda que
tinha sido só o acaso, ou uma razão qualquer, que fizera vir esses homens com
todo o material necessário exatamente a este ponto do continente, ao invés de
a qualquer outro ponto desse deserto de gelo maior que a Europa e os Estados
Unidos juntos?
Muitos espíritos sérios acreditam agora que Louis Grey e seus
companheiros tenham sido "chamados". De que maneira? Isso não foi
esclarecido com os acontecimentos seguintes. E nem mesmo se tratou disso.
Havia problemas bem maiores e mais urgentes a elucidar. Mas a verdade é que
Louis Grey e mais onze homens, levados em três snodogs, se colocaram
exatamente no lugar certo.

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E, dois dias depois, todos estes homens sabiam que tinham vindo ao
encontro de um acontecimento inimaginável. Dois dias...
Como falar aqui de dias e de noites? Estávamos no princípio de dezembro,
quer dizer em pleno verão austral. O sol não se punha. Girava sobre os homens
e os caminhões, em volta do seu mundo redondo, como para vigiar de longe e
por todos os lados. Mais ou menos às 9 horas da noite, passava atrás de uma
montanha de gelo, reaparecia às 10 do outro lado dessa montanha, lá pela
meia-noite parecia a ponto de sucumbir e desaparecer sob o horizonte que
começava a engoli-lo. Então se defendia, crescendo, deformando-se, tornando-
se vermelho. Ganhava a batalha e recomeçava lentamente a percorrer suas
distâncias e sua ronda de sentinela, iluminando ao redor da missão um imenso
disco branco e azul de frio e solidão. Por outro lado, muito além desses limites
longínquos sobre os quais montava guarda, atrás dele havia a Terra, as cidades
e as multidões, os campos com suas vacas, as ervas, as árvores e os
passarinhos.
O Dr. Simon estava nostálgico. Acabava uma permanência de três anos,
quase ininterrupta, nas diferentes bases francesas da Antártida, e estava mais
do que cansado. Após esse estágio, deveria ter tomado o avião para Sidney.
Ficou, porém, a pedido do seu amigo Louis Grey, para acompanhar sua missão,
pois o Dr. Jaillon, seu substituto, estava ocupado na base atacada por uma
epidemia de rubéola.
Essa rubéola era inverossímil. Quase nunca se vêem moléstias na
Antártida, dir-se-ia até que os micróbios têm medo do frio. Os médicos só têm
que cuidar de acidentes e, às vezes, de frieiras dos recém-chegados, que não
deixam de cometer imprudências. Por outro lado, a rubéola quase que
desapareceu da face da Terra depois que inventaram a vacina bucal que todos
os recém-nascidos tomam nas suas primeiras mamadeiras. Apesar dessas
evidências, havia rubéola na Base Victor. Um homem em cada quatro ardia de
febre em sua cama, a pele transformada num tecido de bolinhas.
Louis Grey juntou um grupo ainda ileso, em meio do qual estava o Dr.
Simon, e embarcou-o a toda pressa para o ponto 612, desejando ardentemente
que o vírus não os seguisse.
Se não tivesse sido a rubéola...

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* Snodogs: caminhão-tanque montado em esteiras e colchões de ar.


Se naquele dia, ao invés de subir no helicóptero, eu tivesse embarcado no
avião para Sidney, se do alto da sua decolagem vertical, antes que ele se
lançasse rugindo em direção às terras quentes, eu tivesse dito adeus para
sempre à base, ao gelo, ao monstruoso continente frio, que teria acontecido?
Quem teria estado perto de ti, minha bem-amada, no momento terrível?
Quem teria visto em meu lugar? Quem teria sabido?
Alguém teria gritado, berrado o nome? Eu, eu não disse nada. Nada...
E tudo se consumou...
Desde então, repito a mim mesmo que era tarde demais, que se eu tivesse
gritado isso não teria mudado nada, e eu teria simplesmente ficado arrasado
sob o peso de um desespero inexpiável. Durante aqueles poucos segundos, não
teria havido bastante horror no mundo para encher teu coração.
Eis o que me repito sem cessar, desde aquele dia, desde aquela hora:
"Muito tarde... muito tarde... muito tarde..."
Mas talvez seja uma mentira que eu mastigo e torno a mastigar, e da qual
tenha de me alimentar para viver...

Sentado numa esteira do snodog, o Dr. Simon sonhava com um croissant


molhado num café cremoso. Molhado, sumarento, para ser comido aos
pequenos pedaços, mastigando devagar, à maneira dos bons parisienses. Era
um prazer que lhe trazia as melhores lembranças, aquele de entrar no bistrot,
aproximar-se do balcão, aspirando o cheiro do café expresso, os pés sobre a
serragem, lado a lado com os rabugentos da manhã, compartilhando do seu
primeiro prazer do dia, talvez o maior, o de se encontrar neste lugar de primeiro
encontro com os outros homens, sentindo o calor e as correntes de ar.
Não podia mais com todo este gelo e este vento, um vento que não
cessava jamais de fustigá-lo, de fustigar todos os homens da Antártida, metidos
naquele deserto glacial. Empurrava-os sem cessar, a eles e a suas barracas,
antenas e caminhões, para que se fossem, abandonassem o continente, e os
deixassem, ele e a neve mortal, consumar a sós, eternamente na solidão, suas
monstruosas bodas ultrageladas...

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Era preciso ser verdadeiramente obstinado para suportar aquela vida.


Simon tinha chegado ao auge de sua obstinação. Antes de sentar-se, havia
colocado uma coberta dobrada em quatro sobre a esteira do snodog, a fim de
que suas nádegas ficassem melhor protegidas.
Estava com o rosto voltado para o sol e esfregava as faces, escondidas
pela barba, tentando convencer-se de que o sol o esquentava, se bem que lhe
fornecesse mais ou menos tantas calorias quanto uma lanterna a óleo a três
quilômetros de distância. O vento tentava virar o seu nariz em direção a sua
orelha esquerda. Virou a cabeça para receber o vento do outro lado. Pensava na
brisa do mar à noite em Collioure, tão quente, mas que achavam fresca porque
fazia muito calor durante o dia. Pensava no indescritível prazer de se despir, de
mergulhar na água sem se transformar em gelo, de se deitar sobre as areias
quentes... Quentes! Isso lhe pareceu tão inverossímil que ele riu.
Você agora ri sozinho? — disse Brivaux. — Estamos bem... Você estará com
rubéola?
Brivaux estava por trás dele, a sonda a tiracolo, pendurada numa larga
correia de pele de lobo que passava por trás do seu pescoço.
Estava pensando nos lugares do mundo onde faz calor — disse Simon.
— Não é rubéola, é meningite... Fique sentado assim, e você vai gelar até a
alma... Olhe, venha ver um pouco isto aqui... Apontou-lhe o mostrador da
sonda, com sua folha registradora já em parte enrolada. Era um modelo comum
como qual ele acabava de prospectar o setor que lhe tinha sido designado.
Simon levantou-se e olhou. Não entendia muito da parte técnica. O
mecanismo do corpo humano lhe era mais familiar do que o de um simples
isqueiro a gás. Mas tivera tempo, depois de três anos, de se familiarizar com os
desenhos que traçava, sobre o papel magnético, a grafite das sondas portáteis.
Pareciam, em geral, com o corte de um terreno vago, ou de um montão de
ruínas, ou de não importa o quê, que não se parecesse com coisa alguma. Ora,
o que lhe mostrava Brivaux parecia com qualquer coisa...
Com quê?
Com nada de conhecido, nada de familiar, mas...
Seu espírito, habituado a fazer a síntese dos sintomas para apresentar um
diagnóstico, compreendeu de repente o que havia de incomum nesse relevo do

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solo glacial. A linha reta não existe na natureza bruta. A linha curva regular
também não. O solo brutalizado, áspero, misturado no decorrer das idades
geológicas, pelas formidáveis forças da Terra, é sempre totalmente irregular.
Ora, o que a sonda de Brivaux havia inscrito sobre o papel era uma sucessão de
curvas e de retas. Interrompidas e quebradas, mas perfeitamente regulares.
Que o solo pudesse apresentar um tal perfil, era totalmente improvável e
mesmo impossível. Simon tirou a conclusão mais evidente:
— Há qualquer coisa errada nesse negócio...
— E você, você tem qualquer coisa errada aí dentro? — Brivaux bateu com
o dedo enluvado na sua cabeça.
— Este aparelho funciona com perfeição. Gostaria de funcionar tão bem
quanto ele até o meu último dia. Mas lá embaixo há qualquer coisa que não
está bem...
Bateu na superfície do gelo com o salto da sua bota forrada.
—Um perfil assim, não é possível — continuou Simon.
— Eu sei, isto não parece ser verdade.
— E os outros? O que encontraram?
— Não sei de nada, vou dar um toque de cometa para chamá-los... Subiu
no laboratório do caminhão, e, três segundos depois, soava a sirena chamando
os membros da missão de volta ao acampamento.
Aliás, eles já estavam prestes a voltar. Primeiro as duas equipes a pé, com
suas sondas clássicas. Depois o snodog, que tinha na frente o transmissor-
receptor da nova sonda, uma armadura metálica entre suas duas lagartas. Um
cabo vermelho o ligava ao posto de comando e ao registrador, no interior do
veículo. Estava também, no veículo, o mecânico Eloi, Louis Grey, impaciente
para ver funcionar o novo instrumento, e um engenheiro da fábrica que tinha
vindo para mostrar o seu funcionamento.
Era um rapaz alto e magro, mais para louro, e de maneiras delicadas. Dava
a impressão, por sua elegância natural, de ter feito cortar seus trajes polares
numa casa de alta costura. Os veteranos não podiam deixar de sorrir ao olhá-lo.
Eloi o havia chamado de "Cornexquis" o que lhe assentava com perfeição.
Desceu do caminhão em silêncio, escutando com um ar reservado as
apreciações de Grey sobre seu "utensílio". Segundo a opinião do glaciólogo, a

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nova sonda falhara completamente. Ele nunca havia visto, nem mesmo no
aparelho mais antigo, ser traçado um perfil igual àquele.
— Mas o mistério não acaba aí... — disse Brivaux, que esperava junto ao
caminhão - laboratório.
Foi você quem chamou?
Fui eu, velhinho...
— O que é que está acontecendo?
— Entre e verá... E eles viram...

Eles viram os quatro levantamentos, os quatro perfis, todos estranhos e


semelhantes entre si. O da nova sonda estava inscrito num filme de 3mm. Grey
o havia seguido sobre a tela de controle. Os outros membros da missão o viram
sobre a tela do laboratório.
O que as outras três sondas tinham deixado supor, o novo aparelho
mostrava com evidência. Fazia desfilar sobre a tela, com uma nitidez que não
deixava lugar a nenhuma dúvida, perfis de escadas derrubadas, muros
quebrados, cúpulas arrebentadas, rampas helicoidais torcidas, todos os
detalhes de uma arquitetura que uma mão gigantesca parecia ter deslocado e
destruído.
— Ruínas!... — disse Brivaux.
— Não é possível... — disse Grey, com uma voz que ousava apenas se fazer
ouvir.
— E por quê? — indagou Brivaux, tranqüilamente. Brivaux era filho de um
pequeno camponês da Alta-Savóia, o último de sua cidadezinha a continuar a
criar vacas ao invés de seguir os parisienses acumulados a dez por metro
quadrado de neve ou de grama seca. O velho Brivaux havia cercado seu pedaço
de montanha de moirões e de arame-farpado — "É proibida a entrada" —e
nessa prisão vivia em liberdade.
O filho tinha-lhe herdado os olhos azuis-claro, os cabelos negros e a barba
avermelhada, além do humor sempre igual e o senso de equilíbrio. Ele via as
ruínas, como todos os que ali estavam e sabiam interpretar um perfil. A
diferença é que os outros não acreditavam, mas ele acreditava porque os via.

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Se tivesse visto seu próprio pai lá no gelo, teria ficado espantado durante um
segundo, depois teria dito "olha aí meu pai..."
Mas os membros da missão não podiam deixar de se render à evidência.
Os quatro levantamentos se assemelhavam e se confirmavam uns aos outros. O
desenhista Bernard foi encarregado de fazer a síntese. Uma hora mais tarde,
apresentava seu primeiro esboço. Não parecia com nada que se conhecesse:
era uma arquitetura gigantesca, destruída por alguma força titânica,
descomunal.
— A que profundidade estão estas coisas? — perguntou Elói.
— Entre novecentos e mil metros! — disse Grey com ar furioso, como se
fosse responsável pela enormidade do acontecimento.
— Isso significa que elas estão lá há quanto tempo?
— Não se pode saber... Nunca perfuramos tão profundamente.
— Mas os americanos já o fizeram — disse calmamente Brivaux.
— Sim... os russos também... — acrescentou Simon, para depois perguntar:
— Eles teriam podido datar suas amostras?
— Pode-se sempre... isso não quer dizer que seja exato.
— Exato ou não, eles dataram de quando?
Grey levantou os ombros diante do absurdo que ia dizer.
— Aproximadamente novecentos mil anos, há alguns séculos... Houve
exclamações e depois um silêncio estupefato.
Os homens reunidos no caminhão olhavam sucessivamente o esboço de
Bernard e as últimas linhas do perfil, imóveis sobre a tela. Acabavam de tomar
consciência, de repente, da imensidão da sua própria ignorância.
— Não pode ser — disse Elói... — Foram homens que fabricaram isso. Há
novecentos mil anos, não havia homens, só havia macacos.
— Quem lhe disse isso, meu caro? — disse Brivaux.
— O nosso conhecimento da história dos homens e da evolução da vida
sobre a Terra — observou Simon — não é maior do que um cocô de pulga na
Praça da Concórdia...
— E então? — disse Elói.
— Sr. Lancieux, peço desculpas ao seu aparelho — disse Grey. Lancieux.
Cornexquis. Ninguém mais tinha vontade de chamá-lo assim, nem mesmo

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mentalmente. Não havia mais lugar na cabeça desses homens para as


brincadeiras de colegiais que os ajudavam normalmente a suportar o frio e a
lentidão do tempo. Lancieux mesmo não parecia mais com o seu apelido. Seus
olhos estavam cansados, suas faces encovadas, tragava seu cigarro apagado e
retorcido, e escutava Grey, sacudindo a cabeça com ar ausente.
— É uma mecânica sensacional — dizia o glaciólogo. — Mas há uma outra
coisa... Ninguém prestou atenção. Mostre-lhes... E diga-lhes o que você pensa...
Lancieux apertou o botão de rebobinagem, depois o botão vermelho, e a
tela se iluminou, mostrando novamente o lento desfile do perfil das ruínas.
— É ali que se deve observar — disse Grey.
Seu dedo mostrava, no alto da tela, embaixo do traçado tormentoso do
subsolo, uma linha retilínea apenas visível, finamente ondulada, de uma
regularidade perfeita.
Efetivamente, ninguém havia prestado atenção, pensando talvez que fosse
uma linha de referência, um reparo, ou outro sinal qualquer, mas nada de
significativo.
— Diga-lhes... — repetiu Grey. — Diga-lhes o que você me disse! No ponto
em que estamos...
— Preferiria — disse Lancieux com voz um pouco aflita — fazer primeiro
uma contraprova. Nenhuma das outras sondas registrou...
Grey cortou-lhe a palavra:
— Elas não são bastante sensíveis!
— Talvez — disse Lancieux com sua voz suave. — Mas não é certo... Talvez
seja porque elas não estejam na freqüência exata...
Lançou-se, juntamente com Brivaux, numa discussão, à qual se juntaram
logo os outros técnicos do grupo, cada um sugerindo quais as modificações que,
em sua opinião, convinha fazer nas sondas.
O Dr. Simon encheu seu cachimbo e saiu.

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Não sou um técnico. Não me debruço sobre meus doentes: faço isso o
menos possível. Antes procuro compreendê-los. Para agir assim é preciso
poder. Mas eu sou um privilegiado... Meu pai, que era médico em Puteaux, via
desfilar mais de cinqüenta clientes por dia no seu gabinete. Como saber o que
eles são, o que eles têm? Cinco minutos de exame, a pinça para perfurar, o
cartão, a máquina de diagnóstico, a receita impressa, o selo de imposto, está
pronto, pode se vestir, o seguinte. Ele detestava sua profissão tal como ele e
seus colegas eram obrigados a exercer. Quando se apresentou para mim a
ocasião de vir para cá, ele me empurrou pelos ombros com todas as suas
forças: "Vai! Vai! Você terá um punhado de homens para tratar. Uma cidade!
Você poderá conhecê-los..."
Ele morreu no ano passado, esgotado. Seu coração lhe falhou. Não tive
nem tempo para ir lá. Ele nunca pensou em perfurar seu cartão pessoal e
colocá-lo na fenda do seu médico eletrônico. Mas pensou em me ensinar umas
tantas coisas que havia aprendido com seu pai, médico em Auvergne. Por
exemplo, a tatear o pulso, olhar uma língua e o branco dos olhos. É prodigioso o
que o pulso pode revelar sobre o interior de um homem. Não somente sobre o
estado momentâneo de sua saúde, mas sobre suas tendências habituais, seu
temperamento, e mesmo seu caráter, se ele é superficial ou profundo,
agressivo ou suscetível, sedoso ou áspero. Há o pulso do saudável e o do
doente, há também o pulso da caça e o do caçador.
Tenho também, como todos os médicos, um diagnosticador e pequenos
cartões. Que médico não os tem? Só os uso para confortar aqueles que têm
mais confiança na máquina do que no homem. Aqui, felizmente, eles não são
muito numerosos. Aqui, o homem conta.

Quando Brivaux deixou a fazenda de seu pai, para fazer em Grenoble os


estudos que o apaixonavam, havia calmamente dado uma olhada no programa
e transposto todos os obstáculos. Tendo saído em primeiro lugar da escola
eletrônica com um ano adiantado, pôde transformar seu diploma de engenheiro
numa ponte de ouro para qualquer grande indústria do mundo. Mas escolheu a
Base Victor. "Porque — explicava ele ao Dr. Simon, seu amigo — tratar de

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eletrônica aqui, é divertido... Estamos a dois dedos do pólo magnético, em


pleno vaivém das partículas ionizadas, em pleno sopro do vento solar, e mais
uma quantidade enorme de coisas que não se conhecem. Isso faz uma salada
interessante. Pode-se fazer "misérias"...
Ele abria os braços horizontalmente e agitava os dedos, como se
convidasse as correntes misteriosas da Criação a penetrar no seu corpo e a
percorrê-lo. Simon sorria, imaginando-o um Netuno da eletrônica, em pé sobre o
pólo, os cabelos plantados nas trevas do céu, sua barba vermelha mergulhada
nas chamas da Terra, seus braços estendidos no vento perpétuo dos elétrons,
distribuindo à Natureza os fluxos e refluxos vivos do planeta-mãe. Mas era
nessas "misérias" que ele manifestava uma espécie de gênio. Seus grossos
dedos cabeludos eram incrivelmente hábeis, e sua ciência, associada a um
instinto infalível, lhe dizia exatamente o que devia fazer. Ele sentia essas
correntes assim como os bichos sentem a água. E seus dedos hábeis
começavam a agir. Três pontas de fio, um circuito, três metais granulados
semicondutores, que ele virava, juntava, colava, ligava. Uma fumacinha, um
cheiro de resina - e pronto, um quadrante começava a viver, um arabesco
palpitava na espessura da tela.
O problema que Lancieux lhe formulou não era um problema para ele. Em
menos de uma hora havia trocado as três sondas clássicas e as equipes se
repartiam. O que iam procurar era tão espantoso que todos estavam convenci-
dos de que iam voltar, sem haver conseguido nada. Afora Lancieux, que
conhecia bem seu aparelho, os demais pensavam que a pequena linha
ondulada era efeito de um capricho da nova sonda. Um "fantasma", como dizem
os técnicos de televisão.
O sol se escondia por trás de uma montanha de gelo quando eles voltaram.
Tudo estava azul, o céu, as nuvens, o gelo, os rostos e o vapor que saía de suas
narinas. O casaco vermelho de Bernard estava cor de abóbora. Eles não tinham
voltado sem nada conseguir. A linha ondulada estava gravada em suas fitas
registradoras, sob a forma de uma linha reta. Menos detalhada, ela havia
perdido sua pequena ondulação, mas ela estava lá. Bem que haviam
encontrado o que tinham ido procurar.

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Comparando seus levantamentos e o de Lancieux, Grey pôde localizar um


ponto certo do solo subglacial. Projetou o perfil sobre a tela do snodog. Aquilo
parecia representar um pedaço gigantesco de escada, virado e quebrado.
— Meus filhos — disse Grey com uma voz controlada — lá... lá tem... Na
mão esquerda, segurava uma folha de papel que tremia. Calou-se, pigarreou.
Sua voz não conseguia mais sair. Batia na tela com seu papel que se amassava.
Engoliu a saliva, explodiu:
— Meu Deus, isso é loucura! Mas existe! As quatro sondas não podem ter
enlouquecido exatamente da mesma maneira! Não há somente ruínas, no meio
dessa camada, lá, nesse lugar aí, justamente aí, há um emissor de ultra-sons
que funciona!
Seria a pequena linha misteriosa o registro de um sinal enviado por um
emissor que funcionava, segundo toda lógica, há mais de novecentos mil anos?
Tal suposição ultrapassava a história e a pré-história, derrubava todos os credos
científicos, não estava no alcance daquilo que aqueles homens sabiam. O único
que aceitava o acontecimento com calma era Brivaux, o único nascido e
educado no campo. Os outros, nas cidades, tinham crescido no meio do
provisório, do efêmero, do que se constrói, se queima, se desmorona e se
transforma. Ele, na vizinhança das rochas alpinas, tinha aprendido a ver a
grandeza e a perscrutar a eternidade das coisas.
— Vão pensar que estamos loucos — disse Grey.
Chamou a base pelo rádio e pediu o helicóptero com urgência para ir
buscar o grupo. Mas havia esquecido da rubéola. O último piloto disponível
acabara de cair de cama. — Tem o André que está melhorzinho — disse o rádio
da base — dentro de três ou quatro dias poderemos mandá-lo. Mas por que é
que vocês querem voltar? O que foi que aconteceu? Pegou fogo nas geleiras?
Grey cortou. Enfim, essa brincadeira boba adiantara de certo modo.
Dez minutos mais tarde, o chefe da base, Pontailler, chamava outra vez,
muito preocupado. Queria saber qual a razão da missão querer voltar. Grey
tranqüilizou-o, porém recusou-se a dizer o que quer que fosse.
— Não bastará que eu lhe diga, é preciso que lhe mostre — disse — senão
você vai pensar que ficamos todos malucos. Mande-nos buscar logo que for
possível.

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E desligou.
Quando o helicóptero chegou ao ponto 612, cinco dias mais tarde,
Pontailler estava nele e foi o primeiro a saltar em terra.
Os homens de Grey haviam passado aqueles cinco dias numa excitação e
numa alegria crescentes. Acabado o estupor devido ao choque inicial, eles
haviam aceito as ruínas, aceito o emissor, e os haviam adotado. O próprio
mistério e sua inverossimilhança os exaltavam assim como crianças que entram
numa floresta onde as fadas existem de verdade. Haviam acumulado os
levantamentos E os registros. Bernard, baseado nas coordenadas fornecidas
pelos aparelhos, trabalhava numa espécie de plano piloto, cheio de lapsos e de
partes em branco, mas que já tomava o aspecto de uma paisagem fantástica,
mineral, deserta, desconhecida, porém humana.
Brivaux havia trazido um magnetofone e o havia acoplado ao registrador
da sonda nova. Obteve uma fita magnética e convidou seus amigos para
escutá-la. Eles não ouviram ruído nenhum, nada de nada.
— Esse seu "troço" deve estar meio esburacado! — resmungou Elói...
Brivaux sorriu.
— Está tudo em silêncio — disse ele. — Vocês não podem ouvir os ultra-
sons.
Mas eles estão lá, isso eu garanto. Para ouvi-los, seria preciso um redutor
de freqüência. Eu não tenho. Na base também não há. Seria preciso ir a Paris.
Seria preciso ir a Paris. Esta foi também a conclusão de Pontailler que a
princípio havia recusado para depois aceitar a evidência da descoberta. Não se
podia nem mesmo falar sobre isso pelo rádio, com todos os ouvidos do mundo
atentos noite e dia ao menor segredo. Era preciso levar todos os documentos à
sede em Paris. O chefe das Expedições Polares decidiria o que e a quem
comunicar. Enquanto esperavam, todos deviam ficar calados. Como dizia Elói,
"isso poderia ser algo de diferente".

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Peguei o avião para Sidney, com duas semanas de atraso, e o desejo de


voltar o mais depressa possível. Não estava mais atormentado por aquele
desejo de café creme. Nem um pouco. Havia lá, embaixo do gelo, qualquer
coisa de bem mais excitante que o odor dos cafés parisienses.
O avião ganhou velocidade na pista, subiu no ar como uma bolinha de
plástico sobre um repuxo, virou um pouco no mesmo lugar à procura da sua
direção; depois, com um ruído ensurdecedor, atirou-se rumo ao norte e para
cima, a 50 graus de inclinação. Apesar das cadeiras reclinadas e acolchoadas
como amas-de-leite, é engraçada a sensação que dá ao subir, com tal
inclinação e muita velocidade. O avião levava somente viajantes
experimentados e não corria o risco de quebrar as janelas por conta do bang.
Então os pilotos pouco ligavam para o resto...
Ele me levava com minhas valises e minha pasta, que continha, além da
escova de dentes e o pijama, os microfilmes dos levantamentos e do plano
piloto de Bernard, a fita magnética, as cartas de Grey e de Pontailler
autenticando tudo isso.
Eu levava também, sem saber, o vírus da rubéola, que iria dar a volta ao
mundo sob o nome de rubéola australiana. Os laboratórios farmacêuticos
fabricaram a toda pressa uma nova vacina e ganharam muito dinheiro.
Só cheguei a Paris dois dias depois da minha partida. Ignorava que tinha se
tornado muito difícil atravessar os oceanos. No nosso isolamento de gelo,
havíamos esquecido os ódios estúpidos do mundo, que haviam crescido mais e
se ramificado durante esses três anos. A estupidez generalizada evocava para
mim a idéia de cães enormes acorrentados uns diante dos outros, cada um
forçando a sua corrente, não pensando senão em rompê-la para ir abocanhar o

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cão que estava à sua frente. Sem razão. Simplesmente porque é um outro cão.
Ou talvez porque esteja com medo...
Li os jornais australianos. Havia pequenos incêndios espalhados pelo
mundo inteiro. Eles haviam crescido depois da minha partida para a Antártida.
E haviam-se multiplicado. Em todas as fronteiras, à medida que se tiram as
barreiras alfandegárias, barreiras policiais as substituem. Desembarcado no
aeroporto de Sidney, não fui autorizado nem a sair nem a partir novamente.
Faltava não sei qual visto militar no meu passaporte. Foram-me necessárias 36
horas de discussão furiosa para finalmente poder pegar o jato com destino a
Paris. Eu tremia com a idéia de que eles pudessem meter o nariz nos meus
microfilmes. Que teriam imaginado? Porém ninguém me pediu para abrir a
pasta. Poderia muito bem estar transportando os planos das bases atômicas.
Mas isso não os interessava. Precisavam do visto, nada mais. Era a estupidez.
Era o mundo organizado.
Logo que Simon lhe entregou o conteúdo de sua pasta, Rochefoux, chefe
das Expedições Polares Francesas, tomou-o na mão com sua energia habitual.
Ele tinha quase 80 anos, o que não impedia de passar todos os anos algumas
semanas na proximidade de um ou de outro pólo. Seu rosto era cor de tijolo,
seus cabelos curtos de um branco brilhante, seus olhos azul-celeste, seu sorriso
otimista, tornavam-no idealmente fotogênico para a televisão, que não perdia
uma oportunidade de entrevistá-lo, de preferência em primeiro plano.
Naquele dia, ele as havia convocado todas, as do mundo inteiro e toda a
imprensa, no fim da reunião da Comissão da UNESCO. Ele havia decidido que o
segredo já havia sido guardado durante, bastante tempo, e tinha a intenção de
sacudir a UNESCO, como um fox-terrier sacode um rato, a fim de poder obter
toda a ajuda necessária, imediatamente.
Num grande escritório do 7º andar, os operadores do Centro Nacional de
Pesquisas Científicas acabavam de instalar seus aparelhos sob a direção de um
engenheiro. Rochefoux e Simon de pé diante da grande janela, olhavam os dois
oficiais trotar seus cavalos alazões na perspectiva retangular do pátio da Escola
Militar.
A Praça Fontenoy estava cheia de jogadores de pelanque que sopravam
nos dedos antes de jogar as pesadas bolas.

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Rochefoux pigarreou e virou-se. Não gostava nem dos ociosos nem dos
militares. O engenheiro informou que tudo estava pronto. Os membros da
Comissão começaram a chegar e a tomar lugar ao longo da mesa, diante dos
instrumentos. Eram dois negros, dois amarelos, quatro brancos e três mulatos.
Mas o sangue de todos eles misturados, formaria um só sangue bem vermelho.
No momento em que Rochefoux começou a falar, a atenção e emoção deles
foram únicas.
Duas horas mais tarde, eles sabiam tudo, haviam visto tudo, haviam feito
cem perguntas a Simon. Rochefoux concluiu, mostrando sobre a tela um ponto
do mapa que ali estava projetado:
- La no ponto 612 do continente antártico, sobre o paralelo 88, sob 980
metros de gelo, há os retos de qualquer coisa que foi construída por uma
inteligência e há milênios emite um sinal. Há novecentos mil anos, este sinal
diz: "Estou aqui, eu os estou chamando, venham..." Pela primeira vez, os
homens vieram a ouvi-lo. Vamos hesitar? Nós salvamos os templos do vale do
Nilo. Mas a água sempre crescente da barragem de Assuã nos jogava para trás.
Aqui, evidentemente, não há necessidade, não há urgência! Mas há qualquer
coisa de bem maior: há o dever de conhecer, de saber. Chamam-nos. É preciso
ir! Isto exige de nós meios consideráveis. A França não pode fazer tudo. Ela fará
a sua parte. E pede às outras nações para se juntarem a ela. O delegado
americano desejava alguns detalhes. Rochefoux pediu-lhe que tivesse
paciência, e continuou:
- Esse sinal, vocês o viram sob a forma de uma simples linha escrita sobre
um quadrilátero. Agora, graças aos meus amigos do Centre National de
Recherches Scientifiques, que o ouviram de todas as maneiras possíveis, vou
fazê-los ouvir...
Fez sinal ao engenheiro, que colocou um novo circuito sob tensão. No
começo, urgiu na tela do osciloscópio uma linha reta luminosa como o mi de
um violão, enquanto que se ouvia um assobio superagudo que fez Simon
caretear. O negro mais negro passou a língua sobre os lábios ressequidos. O
branco mais louro colocou seu dedo indicador no ouvido e agitou-o
violentamente. Os dois amarelos fecharam completamente a brecha dos seus
olhos. O engenheiro do CNRS apertou lentamente um botão. O som superagudo

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

tornou-se agudo. Os músculos se distenderam. Os maxilares se relaxaram. O


agudo baixou, o assobio tornou-se um trinado. Começaram a tossir e a limpar a
garganta. Sobre a tela do osciloscópio a linha reta tinha-se tornado ondulada.
Lentamente, lentamente, a mão do engenheiro fazia descer o sinal, do
agudo ao grave, em toda a escala das freqüências. Quando chegou ao limite
dos infra-sons, foi como uma massa de feltro batendo na pele de um tambor
gigantesco. E cada batida fazia tremer os ossos, a carne, os móveis, os muros
da UNESCO até suas raizes. Era semelhante às batidas de um coração enorme,
o coração de um animal inimaginável, o coração da própria Terra.
No dia seguinte, lia-se nos títulos da imprensa francesa: "A maior
descoberta de todos os tempos", "Uma civilização congelada", "A UNESCO vai
derreter o Pólo Sul".
Um jornal inglês perguntava em sua manchete principal: "Quem ou quê?"
Em redor de uma mesa em forma de meia-lua estão os Vignont, família
francesa: o pai, a mãe e um casal de filhos. Na tela da tevê, penduradas na
parede diante deles vêem o jornal televisionado, enquanto jantam. Os pais
dirigem uma loja da União Européia de Calçados. A filha segue um curso na
Escola de Artes Decorativas. O filho se arrasta entre o segundo e o terceiro ano
do ginásio.
Na tela assiste-se à entrevista de uma etnóloga russa, transmitida
diretamente pelo satélite. Ela fala em russo, com tradução simultânea.
— A senhora pediu para fazer parte da expedição encarregada de elucidar
o que se chama o mistério do Pólo Sul. A senhora espera encontrar traços
humanos sob mil metros de gelo?
A etnóloga sorri.
— Se existe uma cidade, ela não foi construída por pingüins...
Não existem pingüins no Sul. Só existem manchots. Mas uma etnóloga não
é obrigada a saber disso.
O Secretário Geral da UNESCO anuncia que os Estados Unidos, a URSS, a
Inglaterra, a China, o Japão, a União Africana, a Itália, a Alemanha, e outras
nações fizeram saber que dariam todo o seu apoio material à empreitada de
degelo do ponto 612. Os preparativos vão ser apressados. Tudo estará pronto
em princípio do próximo verão polar.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

A televisão fazia entrevistas com populares:


—Você sabe onde é o Pólo Sul?
— Bem... eu...
— E você?
— Ora... é lá em baixo...
— E você?
— É ao sul!
— Bravos. Você gostaria de ir lá?
— Eu não, bolas.
— Por quê?
— Bem, deve fazer muito frio.
— Na mesa em forma de meia-lua, a mãe Vignont sacudiu a cabeça:
— Como eles são bobos de fazer essas perguntas assim! Refletiu um
segundo e depois acrescentou:
— É claro que lá não deve fazer calor... O pai Vignont replicou:
— Imagine só o que isso vai custar em dinheiro! Seria muito melhor que
eles construíssem parqueamentos...
Na tela apareceu o plano piloto de Bernard.
— Mas mesmo assim é um bocado gozado encontrar isto naquele lugar —
disse a mãe.
— Não é novo — disse a filha - é pré-colombiano...
O filho nem olhou. Enquanto comia, lia as historinhas de aventuras de Billy
Kid. Sua irmã o sacudiu.
— Olha um pouco! Não é gozado? Ele sacudiu os ombros.
—Besteiras — disse ele.

Um engenho monstruoso afundava-se no flanco da montanha de gelo,


projetando atrás de si uma nuvem de fragmentos transparentes que o sol
atravessava e coloria com um arco-íris.
A montanha já estava cortada por umas trinta galerias em volta das quais
haviam instalado, no coração vivo do gelo, os entrepostos e os emissores de
rádio e televisão da EP1 — Expedição Polar Internacional. A cidade na montanha
chamava-se EPI-1 e a que estava abrigada sob o gelo no platô 612 chamava-se

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EPI-2. Esta compreendia todas as outras instalações e a pilha atômica que


fornecia a força, a luz e o calor às duas cidades protegidas e a EPI-3, a cidade
da superfície composta dos hangares, dos veículos e de todas as máquinas que
atacavam gelo de todas as maneiras que a técnica podia imaginar.
Jamais uma empreitada internacional desse tamanho fora realizada.
Parecia que os homens haviam encontrado, com alívio, a tão sonhada ocasião
de esquecer ódios, de confraternizar num esforço totalmente desinteressado.
A França era a potência que convidara, o francês tinha sido escolhido como
língua de trabalho. Mas para tornar as relações mais fáceis, o Japão havia
instalado na EPI-2 uma máquina tradutora de ondas curtas. Ela traduzia
imediatamente discursos, os diálogos que lhe eram transmitidos, e emitia a
tradução em dezessete línguas sobre dezessete ondas diferentes. Cada sábio,
cada chefe de equipe e técnico importante, havia recebido um receptor adesivo,
que não era maior que uma ervilha, no comprimento de onda da sua língua
materna, que e mantinha permanentemente no ouvido, e um emissor-alfinete
que levava geralmente preso à lapela ou ao ombro. O manipulador de bolso, da
espessura de uma moeda, lhe permitia se isolar do barulho das mil conversas
quando dezessete traduções se misturavam no éter, numa confusão de Babel, e
permitia lecionar o diálogo do qual se desejava participar.
A pilha atômica era americana, os helicópteros pesados eram russos, as
roupas acolchoadas eram chinesas, as botas finlandesas, o uísque escocês e a
cozinha francesa. Havia máquinas e aparelhos ingleses, alemães, italianos,
canadenses, carne da Argentina e frutos de Israel. O condicionamento de
temperatura e o conforto no interior do EPI-1 e 2 eram americanos. E eram tão
perfeitos que poderiam receber visita de mulheres.
Um poço se afundava no gelo translúcido, partindo numa linha vertical do
ponto onde havia sido localizado o emissor do sinal. Tinha onze metros de
diâmetro. Uma torre de ferro semelhante a um derrick o dominava, trepidante
de motores, fumegante de vapores, que o vento transformava em echarpes de
neve. Dois elevadores levavam para as profundezas os homens e o matéria"
que se afundavam cada dia um pouco, rumo ao coração do mistério.
A 917 metros, os mineiros do frio encontraram um pássaro no gelo. Era
vermelho, com o peito branco, as patas alaranjadas, uma crista da mesma cor,

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

o bico amarelo, largo, entreaberto, o olho ruço e preto, brilhante. Tinha as asas
meio abertas, distorcidas, a cauda em leque, as patas bem abertas como se
tentasse frear, dando a impressão de se debater numa rajada de vento que o
pegara por trás. Estava eriçado como uma chama.
Recortaram ao seu redor um cubo de gelo e ele foi enviado para a
superfície...
O comitê diretor da expedição decidiu deixá-lo em sua embalagem natural.
Foi colocado num refrigerador transparente, e os sábios começaram a discutir
sobre o seu sexo e sua espécie. A tevê tornou sua imagem conhecida no mundo
inteiro.
Quinze dias mais tarde, em plumas, em pelúcia, de seda, de lã, de plástico,
de madeira e de penas, ele inundava a moda e as lojas de brinquedos. No fundo
do poço os entalhadores de gelo tinham atingido as ruínas.

O Professor João de Aguiar, delegado do Brasil, presidente em exercício da


UNESCO, subiu à tribuna e virou-se para a assistência. Estava de casaca. Na
grande sala de conferências, havia naquela tarde não somente sábios,
diplomatas e jornalistas, mas também o tout-Paris muito parisiense e o tout-
Paris internacional.
Acima da cabeça do Professor Aguiar, a maior tela de tevê do mundo
ocupava quase toda a parede do fundo. Ela ia receber e mostrar em relevo
holográfico a emissão vinda do fundo do poço, emitida pela antena do EPI-1 e
retransmitida pelo satélite Trio.
A tela iluminou-se. O busto gigantesco do presidente apareceu, em cores
pastéis, um pouco enfeitadoras, em relevo perfeito.
Os dois presidentes, o pequeno em carne e osso e sua grande imagem,
ergueram a mão direita num gesto amigável e falaram. Isto durou sete minutos.
Concluiu informando: "Uma sala pôde ser talhada no gelo, no meio das ruínas
extraordinárias. Salvo alguns heróicos pioneiros da ciência humana que
cruzaram o poço com sua técnica e sua coragem, ninguém ainda no mundo as
viu. E o mundo inteiro vai, dentro de um instante, descobri-las. Quando eu
apertar este botão, graças ao milagre das ondas, lá, do outro lado do mundo, os

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projetores se iluminarão e a imagem daquilo que talvez tenha sido a primeira


civilização do mundo, á enviada a todos os lares da civilização de hoje..."
Na sua pequena cabina, o realizador vigiava na tela de controle a imagem
do presidente. Os dois abaixaram o dedo polegar ao mesmo tempo. Nos confins
do mundo a sala de gelo iluminou-se.
O que logo viram todos os espectadores foi um cavalo branco. Ele estava
de pé, por trás da superfície de gelo. Magro, grande, alongado, parecia prestes
a cair de lado, relinchando de medo, os lábios arreganhados sobre os dentes,
sua crina e sua cauda flutuavam, imóveis, há novecentos mil anos.
O tronco partido de uma árvore gigantesca estava caído e atravessado
atrás dele. Nas palmas de sua folhagem, no teto da sala, aparecia a goela
aberta de um tubarão. Um lance de escadas enormes, ou de pequenos degraus
amarelos, descendo da noite, se perdiam na escuridão.
Em frente, uma flor flamejante, grande como uma rosácea de catedral,
espalhava três quartos de suas pétalas púrpuras. À sua direita, erguia-se um
trecho destruído de muro cor-de-rosa, de uma matéria desconhecida, que não
era completamente opaca. Aí se abria uma espécie de porta, ou de janela,
através da qual se viam, imóveis, um pequeno roedor com a cauda em pé, as
patas para o ar, e um bando de ouriços azuis. Mais abaixo, notava-se o pico de
uma larga pista helicoidal feita de um metal que parecia com o aço. Tudo
envolto na bruma de um mundo gelado.
A segunda operação começou. Uma mangueira de ar foi dirigida para a
parede onde estava um pedaço de muro. Aos olhos do mundo inteiro, o primeiro
fragmento do passado embalsamado ia ser libertado da sua canga.
O ar quente jorrou, afundando-se no gelo que começou a derreter. Uma
mangueira de sucção aspirava a lama que se formava, uma outra engolia a
água da fonte e tornava a enviá-la à superfície.
A parede de gelo começou a diminuir, recuar, até que o muro verde
apareceu. E sobre as telas, a imagem distorcida, deformada pelas gotas que
escorriam das câmaras blindadas, mostrou esse fenômeno inacreditável: o
muro fundiu ao mesmo tempo que o gelo...
Os ouriços e o roedor de patas para o ar derreteram-se e sumiram. O ar
quente havia invadido toda a sala. Todas as paredes se fundiam. Do teto,

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

cataratas corriam sobre os homens de escafandros. As palmas da árvore se


derreteram. A goela do tubarão derreteu-se como um chocolate. Duas das
pernas do cavalo e o seu flanco se derreteram. O interior do seu corpo
apareceu, vermelho e fresco. A flor vermelha transformou-se em água
sangrenta. O ar morno atingiu o alto da pista helicoidal de aço, e o aço se
fundiu.
Os jornais exploraram com sensacionalismo o assunto. As suas manchetes
diziam: "A maior decepção do século". "A cidade embalsamada não era senão
um fantasma". "Milhões engolidos por uma miragem".
Uma entrevista televisionada de Rochefoux colocou as coisas no lugar. Ele
explicou que a enorme pressão sofrida durante milênios havia dissociado os
corpos mais resistentes até suas moléculas. Mas o gelo mantinha na sua forma
primitiva a poeira impalpável na qual eles se tinham transformado. Ao
fundirem- se, a poeira os libertava e eram arrastados pela água.
— Vamos adotar uma nova técnica — acrescentou Rochefoux. —
Recortaremos o gelo com os objetos que ele contém. Não renunciamos a
descobrir o segredo dessa civilização que nos vem da noite dos tempos. O
transmissor de ultra-sons continua a emitir seu sinal. Nós continuamos a descer
em sua direção...
A 978 metros abaixo da superfície do gelo, o poço atingiu o solo do
continente. Mas o sinal emitido vinha do subsolo.

Depois de ter se enfiado no gelo, o poço afundou-se mais dentro da terra, e


depois dentro da rocha. Em seguida, esta apareceu muito dura, vitrificada,
como se tivesse sido cozida e comprimida, e que depois se enrijecesse cada vez
mais. Sua consistência deixou os geólogos desconcertados. Ela apresentava
uma dureza, uma compacidade desconhecida em qualquer outro ponto do
globo. Era uma espécie de granito, mas as moléculas que o compunham
pareciam ter sido ordenadas e arrumadas para ocupar um mínimo de lugar
possível e oferecer um máximo de coesão. Depois de ter quebrado uma
quantidade de ferramentas mecânicas, chegamos finalmente ao fim da rocha, e
a 107 metros abaixo do gelo, encontramos areia. Esta areia era um absurdo

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

geológico. Não poderia ser encontrada aí. Rochefoux, sempre otimista, dizia que
ela deveria ter sido trazida para aquele lugar. Isto era uma prova de que
estávamos no bom caminho.
O sinal continuava chamando, cada vez mais para o fundo. Era preciso
continuar descendo.
Continuamos.
Após atingirmos a areia, fomos obrigados a fechar o poço antes mesmo de
tê-lo cavado, enfiando um invólucro metálico na areia, tão seco e móvel quanto
a de uma ampulheta e que escorria como água.
A dezesseis metros abaixo da rocha, um mineiro seguro pelas cordas
começou a fazer gestos frenéticos e a gritar qualquer coisa que sua máscara
contra poeira tornava incompreensível. O que ele queria dizer é que sentia
qualquer coisa dura sob seus pés.
O aspirador, enfiado na areia, subitamente começou a fazer barulho e a
vibrar até que seu tubo achatou-se. Higgins, o engenheiro, que do alto da
plataforma supervisionava os trabalhos, desligou o motor. Juntou-se aos
mineiros, e começou a escavar com precaução, primeiro com a pá, depois com
a mão, depois com uma vassoura.

Quando Rochefoux desceu, acompanhado de Simon, de Brivaux, da


atraente antropóloga Leonova, chefe da delegação russa, e do químico Hoover,
chefe da delegação americana, encontraram no fundo do poço, já limpa de toda
a areia fina, uma superfície metálica, ligeiramente convexa, unida, de cor
amarela.
Hoover pediu que parassem os motores, mesmo o da ventilação, e que
todos se abstivessem de falar ou de mexer.
Houve então um silêncio extraordinário, protegido dos barulhos da Terra
por cem metros de rocha e um quilômetro de gelo. Hoover ajoelhou-se e o seu
joelho esquerdo estalou. Com o dedo indicador dobrado, ele bateu na superfície
do metal. Ouviu-se somente um barulho frágil: aquele da carne frágil de um
homem de encontro a um obstáculo maciço.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Houver tirou um martelo de cobre da sua maleta e bateu no metal,


primeiro suavemente, depois com grandes golpes. Não houve nenhuma
ressonância.
Hoover resmungou e inclinou-se para examinar a superfície. Não tinha
marca nenhuma dos golpes. Tentou ver se tirava uma amostra. Mas sua tesoura
de tungstênio escorregou sobre a superfície e não conseguiu prendê-la.
Então jogou diferentes ácidos que logo examinava com espectroscópio
portátil. Levantou-se. Estava perplexo.
— Não compreendo o que o torna tão duro. Ele é praticamente puro.
— Ele, por que ele? Que metal é este? — Leonova perguntou irritada.
Hoover era um gigante avermelhado, barrigudo e bonachão, com
movimentos lentos. Leonova era miúda e morena, nervosa. Era a mulher mais
bonita da expedição. Hoover olhou-a sorridente.
— O quê! Você não reconheceu? Você, uma mulher?... É ouro!...
Brivaux tinha feito seu aparelho registrador funcionar. O papel se
desenrolava. A delgada linha registradora aparecia sem um colchete, sem uma
interrupção.
O sinal vinha do interior do ouro.

Parecia que o poço tinha atingido uma grande esfera, não exatamente no
seu cimo, mas um pouco do lado. Uma grande parte da superfície fora limpa,
mas pelos lados tudo parecia afundado em areia.
Limparam o ponto mais alto da esfera e o transpuseram. Logo depois
fizeram a primeira descoberta reveladora. No metal aparecia uma série de
círculos concêntricos, o maior tendo mais ou menos três metros de diâmetro.
Esses círculos eram compostos de uma fileira de dentes agudos e baixos
inclinados como para funcionar no sentido de uma rotação.
— Isto parece a extremidade de uma escavadora — disse Hoover. — Para
fazer um buraco! Para sair de lá de dentro!...
— Você acredita que seja oco e que exista alguém lá dentro? — disse
Leonova.
Hoover fez uma careta.
— Talvez...

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Ele acrescentou:
— Antes de pensar em sair, foi preciso que eles entrassem. Em algum lugar
deve existir uma porta!...
Duas semanas depois do primeiro contato com o objeto de ouro, os
diversos instrumentos de sondagem haviam fornecido bastantes conhecimentos
para que pudessem tirar conclusões provisórias:
O objeto parecia ser uma esfera pousada sobre um pedestal, o todo
colocado num bolso cheio de areia e afundado numa rocha artificialmente
endurecida A areia serviria sem dúvida para isolar o objeto dos abalos sísmicos
e de todos os movimentos terrestres. A esfera e seu pedestal pareciam estar
solidários e formar um só bloco. A esfera tinha 27 metros e 42 de diâmetro e
era oca. A espessura de sua parede era de 2m92.
Resolveu-se começar por tirar toda a areia e a esvaziar o bolso rochoso
para soltar o objeto de ouro, pelo menos até a metade.

A letra A marca a porção do bolso rochoso desembaraçada de areia. A letra


B indica a porção ainda cheia de areia. Na letra C inicia-se a extremidade do
poço. O E designa a esfera e o P o pedestal. Continuávamos a chamar assim a
este último, embora ficasse depois evidente que ele não servia de maneira
nenhuma de suporte para a esfera. A sondagem havia revelado que ele era oco
como esta última.
Um desenho mostra a realidade, os números são inexpressivos. Para
materializar o que representavam os 27 metros de diâmetro da esfera, é preciso
se dizer que é a altura de um prédio de dez andares. E, tomando em

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

consideração a espessura da sua parede, restava ainda lugar, no interior, para


um prédio de oito andares.
O número 1 marca o lugar da cabeça da máquina de perfurar.
O número 2 marca o lugar da porta. Pelo menos supunha-se que se
tratasse de uma porta. Era um círculo de um diâmetro um pouco superior ao da
mão de um homem, desenhado na parede pelo que parecia ter sido uma solda.
Do momento em que descobrimos a porta, uma ponte provisória foi
colocada na areia para receber sábios e técnicos que desciam numa espécie de
caixa improvisada e que podia ser dirigida.

Brivaux fez com que seu pequeno aparelho de quadrantes passeasse ao


longo de toda a circunferência.
— Está soldada por todos os lados — disse ele — em toda a sua espessura.
— Dê-nos a espessura do centro — pediu Leonova.
Colocou seu aparelho no centro do círculo e leu o número sobre o
quadrante:2m92. Era a largura geral da parede da esfera.
— Uma vez a marmita cheia, soldaram a tampa — disse Hoover. — Isto dá
mais a idéia de um túmulo do que de um abrigo.
— E a perfuratriz? — disse Leonova. — É para fazer sair o quê? O gato?
— Vai ver que naquele tempo nem existia gato, minha bonequinha —disse
Hoover.
Com a sua cordial má educação americana, que tinha sido agravada pelos
inúmeros anos vividos em Paris, no Quartier Latin e em Montparnasse, ele quis
passar seu dedo indicador sob o queixo dela.
Seu dedo tinha o tamanho e a cor de um salsichão, com manchas de
sardas coberto de pêlos ruivos.
Furiosa, Leonova deu um tapa na mão que subia em direção ao seu rosto
— Ela morde! — disse Hoover sorrindo. — Ora, boneca, vamos subir. Passe
primeiro...
A caixa podia levar duas pessoas, mas Hoover contava por três. Ele ergueu
Leonova como uma pluma e colocou-a sobre um banquinho de ferro. Gritou
— Puxem!

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

A caixa começou a subir. Ouviu-se um barulho e gritos. Alguma coisa


atingiu Hoover na altura das canelas, ele caiu para trás e sua cabeça bateu
contra um obstáculo duro. Ouviu um estalo no interior do seu crânio e
desmaiou. Acordou num leito da enfermaria. Simon, inclinado sobre ele, olhava-
o com um sorriso otimista. Hoover bateu duas ou três vezes as pálpebras para
sair daquela espécie de inconsciência e perguntou bruscamente:
— E a moça?
Simon sacudiu a cabeça com uma careta tranquilizadora.
— O que foi que aconteceu? — perguntou Hoover.
— Um desmoronamento. Toda a parede acima do corredor caiu.
— Há feridos?
— Dois mortos...
Simon havia pronunciado estas palavras em voz baixa, como se tivesse
vergonha de fazê-lo. Os dois primeiros mortos da expedição... Um mineiro do
agrupamento e um marceneiro francês. Companheiros do dever, que
trabalhavam no cofre. Houve também quatro feridos, entre os quais um
eletricista japonês em estado grave.
O corredor está designado no desenho pela letra D.
Na parede de rocha desenhava-se uma abertura que deve ter sido
retangular e que cumulava uma mistura caótica de pedaços de rocha, de uma
espécie de cimento e de formas metálicas retorcidas e devolvidas à sua origem
mineral Entre essa abertura e a porta da esfera, haviam encontrado na areia a
mesma espécie de destroços, que eles haviam cuidadosamente embrulhado e
enviado à superfície, para exame e análise.
O corredor tinha sido chamado assim porque os sábios pensavam que ele
fosse o fim de uma passagem, mas suas proporções faziam crer mais num
esboço de uma sala bastante ampla. Fosse como fosse, era sem dúvida a partir
de lá que os homens do passado — se se tratassem de homens, mas o que mais
poderia ser? — tinham atravessado e endurecido a rocha, trazido a areia e
construído a esfera. Era o cordão umbilical a partir de que esta se desenvolvia
na sua placenta rochosa. Era claro que o corredor vinha de alguma parte e
podia para lá nos conduzir. Íamos abrir passagem através dele, mas antes
tínhamos de explorar a esfera, conforme havia decidido a assembléia de sábios.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

— E eu, o que é que tenho?


Hoover quis apalpar seu crânio, mas os dedos não chegavam até lá: sua
cabeça estava envolta numa espessa atadura.
— Está quebrada? — perguntou Hoover.
— Não. O couro cabeludo se abriu, houve uma contusão no osso, e um
pequeno pedaço de granito enfiou-se no occipital. Já o extraí, não estava muito
fundo. Está tudo bem agora.
— Brrruu... — fez Hoover.
Relaxou-se e afundou-se com prazer no travesseiro.
No dia seguinte, ele já assistia à reunião de informação, na Sala das
Conferências. Quando subiu ao pódio para tomar lugar à mesa do comitê diretor
do EPI percebeu primeiro uma onda de risos. Havia saído do leito para vir, e
havia simplesmente enfiado seu robe de chambre cor de framboesa amassada
com pequenas meias-luas azuis e verdes. Seu ventre volumoso erguia a faixa
da cintura e uma das pontas caía até suas botas de pele de urso branco, que
usava para andar dentro de casa. Sua atadura redonda em forma de turbante
acabava de lhe dar um ar extravagante, que provocava risos à primeira vista,
Rochefoux, que presidia a sessão, levantou-se e abraçou-o. Uma onda de
aplausos cobriu a onda de risos. Todo mundo gostava de Hoover, e todos
sabiam que ele tinha sido vítima de um acidente.
A sala estava cheia. Havia lá, além dos sábios e dos técnicos vindos de
todas as fronteiras, uma dúzia de jornalistas representando as maiores agências
do mundo, que dispunham, na tribuna da imprensa, de receptores individuais
de tradução.
Sobre uma grande tela, atrás do pódio, apareceu uma vista geral do bolso
rochoso iluminado pelos projetores.
Uns trinta homens ali trabalhavam ativamente, vestidos de vermelho ou
laranja, capacetes na cabeça e máscara pendurada no pescoço, pronta para ser
utilizada imediatamente. A metade superior da esfera, emergindo da areia e do
solo, brilhava suavemente, enorme e tranquila, ameaçadora também por causa
do seu volume, do seu mistério, e pelo desconhecido que encerrava.
Com uma voz cantante, um pouco monótona, Leonova fez o resumo dos
trabalhos, e a tradutora começou a cochichar em todos os ouvidos, em

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

dezessete línguas diferentes. Leonova calou-se, ficou um instante sonhadora, e


recomeçou:
— Não sei o que lhes sugere a vista dessa esfera, mas a mim ela faz pensar
num grão. Na primavera, o grão devia germinar. A perfuratriz telescópica, é a
haste que deveria se desenvolver e abrir caminho até a luz, e o pedestal oco
estava lá para receber os entulhos... Mas o verão não veio e o inverno dura
desde novecentos mil anos... No entanto, eu não quero, eu não posso acreditar
que o grão esteja morto!...
Fez uma pausa, observou a platéia e disse em voz alta:
— Existe o sinal!
Um jornalista levantou-se e perguntou no mesmo tom veemente:
— Então o que é que voces estão esperando para abrir a porta? Leonova,
espantada, olhou e respondeu num tom que havia se tornado glacial:
— Nós não a abriremos.
Um murmúrio de surpresa percorreu a assistência. Rochefoux levantou-se
sorrindo e colocou os pontos nos ii.
— Nós não abriremos a porta — disse ele — pois é possível que a ela esteja
ligado algum dispositivo de segurança ou de destruição. Iremos abrir aqui.
Com uma vara de bambu ele tocou na imagem, apontando um lugar
situado no alto da esfera.
— Mas há uma dificuldade. Nossas perfuratrizes quebraram os dentes
sobre este metal. Ele também não se funde com maçarico oxídrico. Ou melhor,
ele se funde mas torna a se fechar em seguida. Como se alguém abrisse a
carne com um escalpelo, e que a carne cicatrizasse imediatamente depois da
lâmina, passar. É um fenômeno cujo mecanismo nós não compreendemos, mas
que se passa na escala molecular. Devemos, para poder abrir caminho nesse
metal atacá-lo ao nível das moléculas, dissociá-las. Esperamos um novo
maçarico que usa ao mesmo tempo o laser e o plasma. Logo que nós o tivermos
recebido, começaremos a operação A: Abertura...
O poço de gelo e rocha conduzia a um poço de ouro. Um buraco de dois
metros de diâmetro afunda-se na crosta da esfera. No fundo do buraco, dentro
de uma luz dourada, um cavaleiro de branco ataca um metal com uma lança de
luz. Vestido de amianto, com uma máscara de vidro e de aço, é o engenheiro

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

inglês Lister munido do seu plaser. Uma voz explica que a palavra plaser foi
formada pela conjunção das duas palavras plasma e laser, e que este
maravilhoso e gigantesco maçarico foi construído graças à colaboração das
indústrias inglesa e japonesa.
Sobre a tela de tevê a imagem recua descobrindo a parte de cima do poço
de ouro. Sobre a plataforma que o cerca, técnicos de laranja e de vermelho
seguram os cabos, dirigem câmaras ou projetores. O calor que sobe do buraco
faz com que seus rostos transpirem abundantemente.
A tela da tevê é dobrável e está pendurada sobre um guarda-sol à beira de
uma piscina em Miami. Um homem gordo e congestionado, vestido de um
calção muito curto, estirado sobre uma rede que se balança ao sopro de um
ventilador, suspira e passa sobre o peito um guardanapo esponjoso. Ele acha
que é desumano mostrar um tal espetáculo a alguém que já esteja sentindo
tanta dor.
O comentador recorda as dificuldades a que tiveram de se sujeitar os
sábios do EPI. Em particular, as dificuldades climatéricas. Em seguida, a câmara
focaliza a superfície do local das pesquisas.
Sobre a tela, uma tempestade terrível assola o EP1-3. Fantasmas de
veículos que transportam dum edifício ao outro suas silhuetas amarelas, a
coberta batida pela neve que o vento leva horizontalmente, a duzentos e
quarenta quilômetros a hora. O termômetro marca 52° abaixo de zero.
O homem gordo congestionado torna-se lívido, embrulha-se na toalha
batendo do os dentes.
Numa casa japonesa a tela substituiu, sobre a parede de papel, a gravura
tradicional. A dona da casa, ajoelhada, serve o chá. O comentador fala
calmamente te. Diz ele que o fundo do poço não tem mais que alguns
centímetros de espessura e que um buraco vai ser feito para permitir a
introdução de uma câmara de tevê em seu interior. Dentro de alguns instantes
os espectadores do mundo inteiro vão penetrar na esfera junto com a câmara e
conhecer finalmente o seu mistério.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Leonova, dentro de uma roupa de amianto, juntou-se a Lister no fundo do


poço. Hoover, muito grandalhão, teve que ficar em cima com os técnicos.
Deitou-se de barriga na beira do buraco e gritou recomendações a Leonova que
não o entendeu.
Ela está ajoelhada ao lado de Lister. Uma espécie de escudo blindado
colocado diante das suas coxas os protege. A língua de fogo penetra no ouro
que derrete e se transforma em ondas de luz.
De repente, ouve-se um grito superagudo. A chama, as faíscas, a fumaça
são violentamente aspiradas para baixo. O pesado escudo cai no chão de ouro,
Leonova oscila, Hoover grita e xinga, Lister agarra-se ao plaser. Um técnico já
cortou a corrente. O berro transforma-se num assobio que passa do agudo ao
grave e pára. Leonova põe-se de pé, tira sua máscara e fala no seu microfone.
Anuncia calmamente que a esfera está furada. Contrariamente ao que todos
poderiam crer, fazia mais frio no interior do que no exterior, o que provocou
esta violenta sucção de ar. Agora, o equilíbrio está estabelecido. Iam então
arredondar o buraco e descer a câmara.

Simon está em cima da esfera ao lado de Hoover e de Lanson, engenheiro


inglês de tevê que dirige a descida do cabo mais grosso. A extremidade do cabo
estava atravessada por duas lentes superpostas: a de um projetor em miniatura
e a de uma mini câmara.
No fundo do poço Leonova agarrou o cabo com suas duas mãos enluvadas
e o introduziu no buraco negro. Depois de deixá-lo penetrar mais ou menos um
metro, ela ergueu os braços. Lanson parou a progressão do cabo. Está tudo
preparado — disse ele a Hoover.
— Esperem-me — disse Leonova.
Ela subiu para a plataforma, para olhar junto com todos os homens
presentesa tela do receptor de controle colocada na borda do poço.
— Comece! — disse Hoover. Lanson virou-se para um técnico:
— Luz!
Sobre o assoalho de ouro o olho do projetor se ilumina, o da câmara olha. A
imagem sobe ao longo do cabo, atravessa a tempestade, jorra do alto da

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

antena do EP1-1 em direção ao satélite Trio imóvel no grande vazio negro do


espaço, ricocheteia nos outros satélites e cai em forma de chuva em todas as
telas do mundo.
A imagem aparece sobre a tela de controle. Não há nada. Nada além de um
lento torvelinho acinzentado que a luz do mini projetos tenta em vão perfurar.
Isto parece com um inútil esforço de uma lanterna de carroça dentro de uma
forte neblina londrina.
— Poeira! — disse Hoover. — Poeira horrível!...
A poeira provocada pela corrente de ar causara esses turbilhões...
— Mas como a danada dessa poeira pôde entrar na esfera tão
hermeticamente fechada? — perguntou Lanson, com ar de espanto.
Um transmissor lhe responde. É Rochefoux que fala da Sala de
Conferências.
— Faça saltar rapidamente o fundo da caixa — disse ele. — E vá ver.

O fundo do poço estava aberto. Sobre a plataforma, a equipe estava


pronta, para descer. Ela se compunha de Higgins, Hoover, Leonova, Lanson e
suas câmeras sem filme, o africano Shanga, o chinês Lao, o japonês Hoi-To, o
alemão Henckel e Simon.
Era muita gente, perigosamente gente demais. Mas era necessário dar uma
satisfação à suscetibilidade das delegações.
Rochefoux que se sentia muito cansado, havia cedido seu lugar a Simon. A
presença de um médico aliás poderia ser útil.
Simon, sendo o mais jovem, solicitou e obteve licença para descer em
primeiro lugar. Estava vestido com um macacão aquecido, cor de limão, com
botas de feltro cinza e um chapéu de astracã. Um termômetro de exploração
havia revelado que a temperatura no interior era de 37 graus positivos.
Ele levava uma lâmpada frontal, uma máscara de oxigênio pendurada no
pescoço e à cintura um revolver que tinha tentado recusar, mas que Rochefoux
o havia obrigado a aceitar: não se sabia o que se ia encontrar ao descer.
Uma escada metálica que serviria de antena estava fixada na borda do
poço e pendurada no desconhecido. Simon colocou seu capacete e começou a
descer. Viram-no desaparecer na claridade dourada, e depois na escuridão.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

— O que é que você está vendo? — gritou Hoover. Houve um silêncio,


depois o transmissor disse:
— Pisei firme! Aqui tem um assoalho...
— Mas, por favor, o que é que você está vendo? — perguntou Hoover
— Nada... não há nada para ver...
— Vou descer! — disse Hoover.
Agarrou-se à escada metálica. Seu macacão era cor-de-rosa. Ele usava um
boné de lã grossa verde, de tricô, encimado por um pompom colorido.
— Você vai quebrar tudo! — disse Leonova.
— Não peso nada — disse ele. — Sou como um grande floco... Ajustou sua
máscara e sumiu. Lanson, sorrindo, dirigiu a câmara na sua direção.

Eu estava de pé sobre o assoalho de ouro, na peça redonda e vazia. Uma


poeira ligeira espalhava seus véus ao longo do muro de ouro circular,
atravessado por milhões de alvéolos que pareciam jeitos para conter alguma
coisa e que não continham nada.
Os outros desciam, olhavam e se calavam. A poeira quase invisível velara o
feixe das lâmpadas frontais, e enfeitava com uma auréola nossas silhuetas
mascaradas.
Depois vieram os dois eletricistas com seus projetores de bateria. A grande
claridade transformou a peça no que ela era: simplesmente uma peça vazia.
Diante de mim, uma parte do muro era lisa, sem alvéolo. Tinha a forma
trapezoidal, um pouco mais larga em cima do que em baixo, com um ligeiro
estrangulamento na metade. Pensei que isso podia ser uma porta e dirigi-me
para ela.
Foi assim que dei meus primeiros passos na lua direção.

Não havia nenhuma maneira visível de abrir aquela porta, se é que era
porta. Nem maçaneta nem fechadura. Simon ergueu sua mão direita enluvada,
colocou-a de encontro à porta, perto da beirada, à direita, e empurrou. A borda
direita da porta separou-se do muro e entreabriu-se. Simon tirou a mão. Sem
barulho e sem clique, a porta voltou exatamente ao seu lugar.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

— E então, o que estamos esperando? — disse Hoover. — Vamos... Como


ele estava à esquerda de Simon, instantaneamente ergueu sua mão esquerda e
pousou-a sobre a borda esquerda da porta. E a porta abriu-se à esquerda.
Sem se demorar a admirar essa porta ambivalente, Hoover empurrou-a
mais profundamente. Ela permaneceu aberta. Simon com um gesto chamou um
eletricista que levou seu projetor e o fixou na abertura.
Era como um corredor longo de vários metros de comprimento. O solo era
de ouro, e os muros de uma matéria de cor verde que parecia porosa. Uma
porta azul da mesma matéria fechava o fundo do corredor. Duas outras
estavam à direita e uma à esquerda.Simon entrou seguido de Hoover, de
Higgins e dos outros atrás dele. Quando chegou à primeira porta, parou, ergueu
a mão e empurrou.
Sua mão enluvada afastou a porta e passou para o outro lado...
Hoover pigarreou de surpresa e fez um movimento para se aproximar. Seu
corpo enorme roçou em Higgins que para conservar o equilíbrio, apoiou-se
contra a parede.
Higgins passou através da parede. Gritou, e a tradutora reproduziu o
mesmo grito em todos os microfones de ouvido. Houve um baque surdo alguns
metros mais abaixo e a voz de Higgins calou-se.
O choque havia abalado as paredes. Viram-nas tremer, se dobrar, se abater
e desmoronar suavemente em camadas de poeira, descobrindo um abismo de
escuridão mostrado pelos projetores, onde outras paredes caíam sem barulho,
revelando todo um mundo à beira de desaparecer. Móveis, máquinas, animais
imóveis, silhuetas vestidas, espelhos, formas desconhecidas que se
deformavam, escorregando sobre o assoalho que balançava e trepidava.
Do fundo da esfera, onde se encontravam todas essas coisas, subiam rolos
cinzas e espessos de cúmulos de poeira. Os sábios e os técnicos tiveram tempo
de perceber Higgins lá em baixo com os braços em cruz, o peito atravessado
por uma estaca de ouro. Depois a nuvem o envolveu e continuou a subir.
— Máscaras! — gritou Hoover.
Apenas tinham colocado suas máscaras, a nuvem os atingiu, envolveu-os e
encheu toda a esfera. Ficaram parados no lugar, não ousando se mexer. Não

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

viam mais nada. Estavam numa passarela sem balaustrada, acima de oito
andares de vazio, envolvidos por uma neblina impenetrável.
— Ajoelhem-se! Devagar! — disse Hoover. — Fiquem de quatro!...
Foi assim que voltaram lentamente, tateando as bordas da passarela, a
sala redonda, e depois para o exterior da esfera. Emergiram um a um, trazendo
com eles farrapos e êcharpes de poeira. O poço de ouro fumegava.
Dois escafandristas presos por cordas desceram para procurar o corpo de
Higgins. Um pastor celebrou um serviço fúnebre numa igreja debaixo do gelo.
Uma cruz de luz abria-se para o céu, recortada na abóbada translúcida.
Depois o corpo de Higgins fez a longa e silenciosa viagem de volta à Cidade
do Cabo, sua terra natal.
A imprensa deleitou-se: "A esfera maldita ataca de novo", "O túmulo do
Pólo Sul matará mais sábios do que o de Tutankhamon?" No restaurante do EPI-
2, os jornais acabavam de chegar pelo último avião, e passavam de mão em
mão. Leonova olhava com desprezo um hebdomadário inglês cujo título era o
seguinte: "Que fantasma assassino toma conta da esfera de ouro?"
— A imprensa capitalista delira — comentou.
Hoover, sentado diante dela, espalhava um quarto de litro de creme sobre
o seu prato de milho.
— Sabemos bem que os marxistas não acreditam no sobrenatural —
respondeu ele — mas espere até que o fantasma venha lhe fazer cócegas na
sola dos pés, de noite...
Engoliu sem mastigar mais uma colherada de milho, e prosseguiu:
— Houve alguma coisa que empurrou Higgins através da parede, não?
— Foi sua barriga que o empurrou!... Você não tem vergonha de
transportar tamanho horror diante de si? Ela não é somente inútil, mas também
perigosa!
Ele bateu carinhosamente na sua pança.
— Toda a minha inteligência está aqui. Quando eu emagreço me torno
triste e tão bobo quanto qualquer outra pessoa... Estou desolado por Higgins...
Não gostaria de morrer como ele, sem ver a continuação...

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Haviam introduzido no interior da esfera um enorme tubo de ar que a


aspirava há uma semana.
O ar lançado para a superfície era recebido dentro de sacos e a poeira
recolhida era enviada para os laboratórios que, no mundo inteiro, trabalhavam
para a expedição.
Quando os sacos não recolheram mais nada, a primeira equipe penetrou
novamente na esfera. Havia projetores assentados em todas as direções, na
atmosfera interior que havia se tornado transparente. Sua luminosidade
refletida, quebrada, difundida em todas as partes pelo mesmo metal, inundava
com reflexo de ouro uma arquitetura abstrata e fantástica.
No desmoronamento do muro fechado, tudo que era composto da mesma
liga da parede externa havia subsistido. Assoalhos sem muro, escadas sem
rampas, rampas que não levavam a lugar nenhum, porta se abrindo sobre o
vazio, peças fechadas suspensas, ligadas umas às outras, sustentadas,
escoradas por vigas abertas ou arcos bastante frágeis, compunham um
esqueleto de ouro leve, incrivelmente belo.
Quase no centro da esfera, uma coluna a atravessava verticalmente de
lado a lado. Era ela, ou continha a perfuratriz. Aos seus pés, apoiada contra ela,
ou talvez ligada a ela, erguia-se uma construção de mais ou menos nove metros
de altura, hermeticamente fechada, em forma de ovo, com a ponta para cima.
— Encontramos o grão, eis aqui o gérmen — murmurou Leonova.
Uma escada, cujos degraus de ouro pareciam se manter no ar sozinhos,
partia do lugar da porta na parede da esfera, atravessava o ar como um sonho
de arquiteto e terminava no ovo, a três quartos da sua altura. Logicamente
nesse lugar deveria se encontrar a abertura.
De assoalho em passarela e em escada, por caminhos aéreos, os
exploradores desceram em direção ao ovo. E aí encontraram a porta no lugar
onde esperavam encontrá-la. Era de forma ovóide, mais larga para baixo.
Estava bem fechada e não apresentava nenhum dispositivo de abertura.
Embora não fosse soldada, resistiu a todas as pressões. Simon, como um
moleque, tirou um canivete do bolso e tentou introduzir a lâmina na abertura
quase invisível. A lâmina escorregou sem penetrar. A fechadura era de um

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

hermetismo total. Hoover pegou seu martelo de cobre e bateu. Assim como na
parede da esfera, o som era oco.
Fizeram descer Brivaux com seu registrador. A linha de ultra-sons
inscreveu-se sobre o papel.
O sinal vinha do interior do ovo.
Na Sala de Conferências, sábios e jornalistas seguiam sobre as telas o
trabalho das equipes no interior da esfera. Os carpinteiros do dever instalavam
passarelas escoravam escadas.Hoover e Lanson, assistidos por eletricistas, se
ocupavam com a porta do ovo. Leonova e Simon acabavam de atingir com uma
escada uma sala de ouro suspensa no vácuo.
A atmosfera estava clara. Ninguém mais usava máscara. Com mil
precauções Leonova empurrou a porta metálica da sala redonda, que se abriu
lentamente Leonova entrou e afastou-se para deixar passar Simon. Ambos se
viraram para o interior da sala e olharam.
A sala não estava iluminada senão pelos reflexos que deixava entrar a
porta entreaberta. Nessa penumbra de ouro encontravam-se seis seres
humanos. Dois estavam de pé e os olhavam entrar. O da direita num gesto
móvel os convidava a sentar sobre uma espécie de banco horizontal cujo
suporte n ã o se percebia. O da esquerda abriu os braços como se fosse dar um
abraço cordial.
Todos dois estavam vestidos de uma pesada e larga capa vermelha que
caía até o solo e escondia-lhes os pés.
Um pequeno boné vermelho lhes cobria a cabeça. Cabelos lisos, castanho
num e louro no outro, caíam até a altura dos seus ombros.
Atrás deles, dois homens quase nus sentados face a face sobre um móvel
branco entrelaçavam os dedos da. mão esquerda e erguiam a direita com o
dedo indicador esticado. Talvez fosse um jogo.
Leonova pegou seu aparelho fotográfico e apertou a claridade dupla do raio
laser. Toda a cena foi violentamente iluminada durante um milésimo de
segundo.
Simon teve tempo de vislumbrar mais dois personagens, mas a imagem
apagou-se, na sua retina. E a cena apagou-se ao mesmo tempo. Como se o
choque da claridade tivesse sido muito violento para eles, as roupas, depois as

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substâncias dos personagens se desprenderam e resvalaram transformando-se


em poeira, descobrindo uma série de motores e de bolsos metálicos. Depois
esses esqueletos por sua vez se desmancharam lentamente. Em poucos
segundos não restou do grupo, na poeira que subia, senão alguns arabescos de
fios de ouro, sustentando, aqui e ali, uma plaqueta, um círculo, uma espiral
suspensos...
Leonova e Simon se apressaram a sair e a fechar a porta da peça sobre a
nuvem de poeira que a enchia. Estavam frustrados como quando a gente
acorda no meio de um sonho e sabe que nunca mais o verá.
De pé sobre a porta do ovo, Hoover dava informações sobre os trabalhos
da sua equipe. Na sala de Conferências, os jornalistas olhavam para a grande
tela e tomavam notas.
Conseguimos perfurar — disse Hoover. — Eis aqui o buraco... — Seu
polegar gordo pousou sobre a porta, perto de um orifício negro no qual se
ajustava perfeitamente.
—Não houve nenhum movimento de ar, nem numa direção nem na outra.
O equilíbrio das pressões externa e interna não pode ser obra de um acaso.
Nalgum lugar deve existir um dispositivo que conhece a pressão externa e age
sobre a pressão interna. Onde está ele? Como funciona? Vocês gostariam de
saber? Eu também...
— Rochefoux falou no microfone da mesa do conselho.
— Qual é a espessura da porta?
— Cento e noventa e dois milímetros de camadas alternadas de metal e de
uma outra matéria que parece ser um isolante térmico. Há pelo menos umas
cinqüenta camadas, um verdadeiro folheado! Vamos medir a temperatura
interior.
Um técnico introduziu no orifício um longo tubo metálico, que terminava,
no lado exterior, por um quadrante. Hoover deu uma olhada neste último,
bruscamente assumiu um ar interessado e não despregou mais seus olhos.
— Pois bem, crianças! Está descendo!... está descendo!... Ainda... mais...
estamos a menos 80 graus, 100... menos 120...
Deixou de enumerar os números e pôs-se a assobiar espantado. A máquina
tradutora assobiou dentro de dezessete ouvidos...

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— Menos 180 graus centígrados! — disse a imagem de Hoover em primeiro


plano. — É quase a temperatura do ar líquido!
Louis Deville, representante da Europress, que fumava um charuto longo e
fino, disse com seu belo sotaque meridional:
— Puxa! é um frigorífico! Vamos encontrar aí petit-pois congelado! Hoover
continuava:
— Estamos tentando introduzir um gancho de aço no buraco e puxar para
cima, a fim de abrir a porta. Mas com o frio que faz lá dentro, o gancho vai se
quebrar como um fósforo. É preciso encontrar uma outra maneira...

Esta outra maneira foram três ventosas pneumáticas, grandes como um


prato, aplicadas sobre a porta, ligadas a um macaco-trator fixado a uma
armação de ferro armada em torno do ovo. Uma bomba sugava o ar das
ventosas até quase o vácuo, com uma pressão capaz de levantar uma
locomotiva.
Hoover começou a fazer girar o volante do macaco.
Na Sala de Conferência, um jornalista inglês perguntou a Rochefoux:
O senhor não tem medo de que aí dentro haja um dispositivo de
destruição?
— Não havia nada atrás da porta da esfera. Nós só soubemos disto depois
que estávamos lá dentro. Portanto não há razão para que haja um aqui.
O comitê estava todo reunido diante da tela, de onde se podia ver, bem
melhor do que no próprio local, o que se passava lá embaixo. A sala estava
cheia e agitada. Mesmo aqueles que tinham outras coisas para fazer fora dali,
vinham olhar rapidamente como iam correndo os trabalhos e depois partiam
para suas obrigações.
Sozinha, Leonova, muito impaciente para ficar olhando de longe, havia
acompanhado Hoover e seus técnicos. Simon estava perto deles, com duas
enfermeiras, pronto a intervir em caso de acidente.
Sobre a tela, a imagem de Hoover virou a cabeça em direção dos seus
colegas do comitê.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Já dei vinte voltas ao volante — disse ele. — Isso representa 10


milímetros de tração. A porta não mexeu nada. Se eu prossigo, ela vai se
deformar os se arrebentar. Continuo?
— As ventosas não correm o risco de cair? — perguntou Ionescu, físico
romeno.
— Era mais fácil elas arrancarem o Pólo Sul.
— É necessário que essa porta seja aberta de uma maneira ou de outra -
disse Rochefoux.
Virou-se para os membros do Conselho.
— O que é que vocês pensam? Votamos?
É preciso continuar — disse Shanga, levantando a mão. Todas as mãos se
levantaram, Rochefoux falou à imagem.
Continue, Joe — disse ele.
O.K. — disse Hoover.
Com suas duas mãos retomou o volante do macaco.
Na cabina de tevê, Lanson ligou a antena emissora. Atrás de um
compartimento de vidro à prova de som, um jornalista alemão comentava. Na
tribuna da imprensa, Louis Deville levantou-se:
Posso fazer uma pergunta ao Sr. Hoover? — solicitou.
Aproxime-se — disse Rochefoux.
Deville subiu ao pódio e inclinou-se para o microfone direto.
— Sr. Hoover, o senhor me ouve?Hoover assentiu com um gesto de cabeça.
—Bem — prosseguiu Deville — o senhor fez um buraco no gelo, encontrou
um grão. Fez um buraco no grão, encontrou um ovo. Hoje o que é que o senhor
pensa que vai encontrar?
Hoover virou-se e apresentou um sorriso encantador no seu rosto gordo.
— Nuts! — disse, empregando gíria americana.
A máquina tradutora, depois de um milésimo de segundo de hesitação
traduziu nos microfones franceses como:
— Nozes.
Não se deve pedir demais a um cérebro eletrônico... Para exprimir
corretamente a idéia o cérebro do homem traduziria o termo por "bolas".

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Deville voltou para seu lugar esfregando as mãos. Ele tinha uma boa
notícia para esta tarde, mesmo se...
— Atenção! — disse Hoover — creio que chegamos... Bruscamente houve
no emissor um barulho semelhante ao de algumas toneladas de veludo sendo
rasgadas. Na parte de baixo da porta apareceu uma fresta escura.
— Ela abre por baixo! — disse Hoover. — Descolem a número 1 e a número
2. Rápido!
As duas ventosas superiores cheias de ar caíram no fim das suas correntes
Só ficaram as da parte de baixo. Hoover virava o volante a toda pressa. Houve
um arpejo lancinante como se todas as cordas de um piano se arrebentassem
uma após as outras. Depois a porta não resistiu mais.
Ao cabo de alguns minutos as suas bordas cederam. Leonova e Simon
vestiram macacões de astronautas, os únicos capazes de proteger contra o frio
que reinava no ovo. Tinham sido trazidos a jato da Estação Rockefeller, a base
americana de partida para a Lua. Esperavam os dos russos e dos europeus. Mas
no momento só havia esses dois. Hoover teve que renunciar a se meter dentro
de um deles. Pela primeira vez, depois de ter passado dos cem quilos,
lamentava o seu volume. Colocou luvas de amianto, introduziu sua mão pela
fresta, por baixo do último degrau da escada, e puxou a porta, que se ergueu
como uma tampa.

Entrei. E te vi.
E fui logo tomado pela vontade louca, mortal, de afastar, de destruir todos
aqueles que lá, atrás de mim, na esfera, sobre o gelo, diante de suas telas no
mundo inteiro, esperavam saber e ver. E que iam te ver, como eu te via.
Entretanto, eu queria também que eles te vissem. Queria que o mundo
inteiro soubesse como eras maravilhosa e incrivelmente bela.
Mostrar-te ao universo no tempo de um relâmpago, depois de encerrar-me
contigo, sozinho, e olhar-te durante a eternidade.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Uma luz azulada vinha do interior do ovo. Simon entrou primeiro e, por
causa desta claridade, não acendeu sua lanterna. A escada prosseguia no
interior e parecia acabar no azul. Seus últimos degraus se recortavam em
silhuetas negras, e paravam mais ou menos na metade da altura do ovo. Mais
abaixo, um grande anel metálico horizontal estava suspenso no vazio. Era
aquilo que emitia a breve claridade, ou melhor, essa luminescência suficiente
para iluminar à sua volta uma quantidade de aparelhos cujas formas eram
estranhas, desconhecidas. Hastes e fios se ligavam entre si e todos estavam de
uma certa maneira virados para o anel, como se para receber alguma coisa.
O grande anel azul estava suspenso no ar sustentado por nada, em contato
com coisa alguma. Todo o resto estava rigorosamente em ordem. Ele girava,
mas era tão liso o seu movimento, tão perfeitamente realizado em torno de si
mesmo, que Simon o adivinhou mais que o viu, e não pôde ter certeza se girava
muito lentamente ou a uma velocidade considerável.
Do exterior, Lanson que tinha descido da Sala de Conferências para
supervisionar as câmaras, acendeu um projetor. Seus mil watts sorveram a
luminescência azul, fizeram desaparecer a mecânica fantasmagórica, revelaram
em seu lugar uma laje transparente que, agora, refletia a claridade viva e não
deixava mais distinguir o que havia embaixo dela.
Simon continuava em pé na escada, cinco degraus abaixo do solo
transparente te, e Leonova dois degraus abaixo dele. Juntos pararam de olhar o
chão a seus pés, ergueram a cabeça e viram o que havia diante deles.
O pico do ovo se constituía de uma sala em cúpula. Sobre o solo, diante da
escada, duas bases de ouro de forma alongada. Sobre cada uma dessas bases
repousava um bloco de matéria transparente, semelhante ao gelo,
extremamente clara. Em cada um desses blocos se encontrava deitado um ser
humano, com os pés em direção à porta.
Uma mulher à esquerda. A direita, um homem. Não havia nenhuma dúvida
pois eles estavam nus. O sexo do homem estava ereto, como um avião ao
decolar. Sua mão esquerda fechada repousava sobre o peito. A mão direita
estava erguida obliquamente e o dedo indicador em riste. As pernas da mulher
estavam juntas. Suas mãos abertas descansavam uma sobre a outra, logo
abaixo do busto. Seus seios eram a própria imagem da perfeição. As curvas de

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

suas ancas eram como as de uma duna que o vento tivesse levado um século
para moldar com suas carícias. Suas coxas eram redondas e longas, um
desenho perfeito. O ninho discreto do sexo era coberto de pêlos dourados
curtos e crespos. Dos ombros aos pés, semelhantes a flores, seu corpo era uma
harmonia em que cada nota, milagrosamente justa, se encontrava em completo
acordo com o conjunto.
Não se via o seu rosto. O do homem estava coberto, até o queixo, por um
capacete de ouro, com traços estilizados, de uma beleza grave.
A matéria transparente que os envolvia, tanto a um como a outro, era tão
fria que o ar, ao seu contato, tornava-se líquido e escorria, franjando os dois
blocos de uma renda que dançava, se despegava, caía e se evaporava antes de
tocar no chão.
Estendidos nesses cofres de claridade movediça, estavam pela sua própria
nudez revestidos de um esplendor de inocência. Suas peles lisas como uma
pedra polida tinham uma cor clara, indefinida.
Embora fosse menos perfeito que o da mulher, o corpo do homem dava a
mesma impressão de uma extraordinária juventude nunca dantes vista. Não era
a mocidade de um homem e de uma mulher, mas a da espécie. Estes dois seres
eram novos, conservados intactos desde a infância humana.
Simon, lentamente, estendeu a mão para a frente. Entre todos os homens
que naquele momento olhavam nas suas telas a imagem dessa mulher, que
viam esses meigos ombros perfeitos, esses braços redondos encerrando numa
cesta os frutos ligeiros dos seios, e a curva dessas ancas onde corria a beleza
total da criação, quantos não desejaram impedir sua mão de se estender para
pousar ali?
E entre as mulheres que olhavam este homem, quantas não foram
queimadas pelo desejo irrealizável de se deitar sobre ele, de nele se plantar e
de nele morrer?
Houve no mundo inteiro um instante de estupor e de silêncio. Mesmo os
velhos e as crianças se calaram. Depois as imagens do ponto 612 se apagaram,
e a vida normal recomeçou um pouco mais irritada, um pouco mais amarga. A
humanidade, através de um pouco mais de barulho, esforçava-se para esquecer

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o que vinha de compreender olhando aqueles dois que jaziam no Pólo: a que
ponto ela era antiga, cansada, mesmo nos seus mais belos adolescentes.

Leonova fechou os olhos e sacudiu a cabeça dentro do seu capacete.


Quando ergueu as pálpebras, não olhava mais na direção do homem. Desceu,
empurrou Simon com seu joelho. Tirou da sua sacola um pequeno instrumento,
deu alguns passos, e colocou-o em contato com o bloco que continha a mulher.
Ela olhou
O quadrante e disse numa voz neutra ao seu microfone:
— Temperatura na superfície do bloco: menos 272 graus centígrados.
Houve entre os sábios reunidos na Sala de Conferências murmúrios de
espanto. Era quase o zero absoluto.
Louis Deville, esquecendo o microfone, levantou-se para gritar sua
pergunta:
— Pode perguntar ao Dr. Simon, enquanto os olha, falando como médico,
se acredita que eles estejam vivos?
— Não fiquem na proximidade dos blocos — disse a voz traduzida de
Hoover nos aparelhos de escuta de Simon e de Leonova. — Recuem! Mais!
—As roupas que vocês usam não foram feitas para um frio igual a este!...
Recuaram para a parte debaixo da escada. Simon recebeu a pergunta de
Deville. Esta pergunta, ele fazia a si mesmo, há alguns momentos, com
angústia.
Primeiro ele não tinha tido dúvida nenhuma: esta mulher estava viva, não
podia estar senão viva... Mas era um desejo, não uma convicção. E agora
procurava razões objetivas para acreditar ou duvidar. Informou no seu
microfone, falando principalmente para si mesmo.
— Estavam vivos quando o frio os atingiu. O estado do homem comprova
isto.
Estendeu seu braço forrado em direção ao sexo oblíquo do homem.
— Um fenômeno que já havia sido constatado em certos enforcados. Prova
uma congestão brutal de fluxo sangüíneo, em direção à parte inferior do corpo.
Daí vem a lenda da Mandrágora, aquela raiz mágica, de forma humana, que
nascia sob os patíbulos na terra que tinha sido inundada pelo esperma dos

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

enforcados. Pode ser que uma congestão análoga tenha se produzido no


processo de um resfriamento rápido. Ela não pode ser produzida senão num
corpo
ainda com vida. Mas é possível que num instante mais tarde a morte tenha
se dado. E mesmo se esses dois seres estavam num estado de vida que tinha
sido parado, mas de vida possível depois da sua congelação, como podemos a
saber em que estado eles estarão hoje, novecentos mil anos depois da sua
congelação?
O emissor da Sala de Conferências, que transmitia diretamente a voz de
Simon, traiu nessas últimas palavras a angústia do jovem médico, e calou-se.

O físico japonês, Hoi-To, sentado à mesa do Conselho, fez notar o seguinte:


— É preciso saber a que temperatura eles se encontram. Nossa civilização
nunca conseguiu obter o zero absoluto. Mas parece que essas pessoas
dispunham de uma técnica superior. Eles chegaram lá... Esse zero absoluto é a
imobilidade total das moléculas. Quer dizer que nenhuma outra modificação
química e possível. Nenhuma transformação mesmo infinitesimal... Ora, a morte
é uma transformação. Se no centro desses blocos reina o frio absoluto* este
homem e esta mulher se encontram exatamente no mesmo estado que
estavam no momento em que aí foram mergulhados. E poderiam ficar assim
durante a eternidade.
— Há uma maneira bem simples de saber se estão mortos ou vivos - disse
a voz de Simon no emissor. — E como médico, creio que é nosso dever: é
preciso tentar reanimá-los...

A emoção no mundo foi considerável. Os jornais gritavam em letras


enormes coloridas: "Acordem-nos!" Ou então: "Deixem-nos dormir!"

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Segundo a opinião de uns, havia o dever imperioso de tentar chamá-los à


vida. Outros opinavam que não se tinha absolutamente o direito de perturbar a
paz daqueles que lá repousavam a um tempo inacreditável.
A pedido do delegado do Panamá, a Assembléia das Nações Unidas foi
convocada para deliberar.

Novos macacões espaciais tinham chegado ao 612 mas nenhum era do


tamanho de Hoover. Ele teve que mandar fazer um sob medida. Esperando sua
chegada, ele assistia, impotente e furioso, do alto da escada de ouro, aos
trabalhos de seus colegas, que se locomoviam no ovo com imperícia, as pernas
abertas e os braços duros. A umidade da esfera penetrava no ovo e se
condensava logo numa neblina composta de flocos imperceptíveis. Uma geada
tinha se formado sobre toda a superfície interna do muro e uma coberta de
neve pulverizada, imóvel como a poeira, cobria o chão.
Apesar dos seus macacões, os homens que desciam no ovo podiam ficar aí
durante um tempo muito curto, o que tornava difícil a continuação das
pesquisas. Tinham podido analisar a matéria transparente que envolvia os que
1á jaziam. Era hélio sólido, isto é, um corpo que os físicos nunca tinham
conseguido obter, e sobre o qual pensavam até mesmo que, teoricamente, ele
não podia existir.

* Isto é, 273,15 graus centígrados abaixo de zero.

O nevoeiro gelado que enchia o ovo tirava era parte o homem e a mulher
nus da vista das equipes que trabalhavam a seus lados. Eles pareciam se
esconder atrás dessa tumba, tomar de novo suas distâncias, se afastar no fundo
dos tempos, longe dos homens que tinham querido encontrá-los. Mas o mundo
não os esquecia.
Os paleontólogos esbravejavam. O que haviam encontrado no Pólo não
podia ser verdade. Ou então os laboratórios que haviam feito as medidas das
datas tinham se enganado.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Tinham examinado a lama fundida das ruínas, os restos de ouro e a poeira


da esfera. Através de todos os métodos conhecidos tinham determinado a sua
antigüidade. Mais de cem laboratórios de todos os continentes tinham feito
cada um mais de cem medidas, chegando a mais de dez mil resultados
concordantes que confirmavam os 900 mil anos aproximativos de antigüidade
da descoberta subglacial.
Esta unanimidade não incluía a convicção dos paleontólogos, pois estes
gritavam que era uma fraude, um erro, uma distorção da verdade. Para eles,
não havia dúvida: menos de 900 mil anos, era mais ou menos o começo do
pleistoceno. Nesta época, tudo o que podia existir de espécie de homens, era a
australopiteca, ou seja, uma espécie de primata minável junto do qual um
chimpanzé teria feito a figura de um ilustre civilizado.
Estas instalações e esses indivíduos que haviam sido encontrados sob o
gelo, ou bem eram falsas, ou bem mais recentes, ou então vinham de outro
lugar. Aquilo não podia ser verdade. Era impossível!
Respostas dos transeuntes interrogados à saída do metrô, em Saint-
Germain-en-Laye:
O repórter da tevê — O senhor acha que é verdade ou não o que foi
encontrado?
Um senhor bem vestido — O que é que não é verdade?
O repórter da tevê — Aquele negócio lá, embaixo do gelo, lá, no Pólo...
O senhor — Oh! sabe, eu... só vendo!...
O repórter da tevê — E a senhora, madame?
Uma velhinha maravilhada — Eles são lindos! Eles são tão lindos! É claro
que são verdadeiros!
Um senhor magro, moreno, sentindo frio, irritado, apossou-se do
microfone — Eu,
acho o seguinte: Por que os sábios querem sempre que os nossos
ancestrais sejam medonhos? Cro-Magnon e seus companheiros, gênero
orangotango? Os bisões que vimos nas grutas de Altamira e de Lascaux eram
mais lindos que a vaca normanda, não é mesmo? E por que nós também não?
Na ONU, a Assembléia desinteressou-se subitamente dos dois seres cuja sorte

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

havia motivado sua convocação. O delegado do Paquistão acabara de subir à


tribuna e fizera uma declaração sensacional.
Os técnicos do seu país tinham calculado qual deveria ser a quantidade de
ouro constituída pela esfera, seu pedestal e suas instalações internas. Tinham
chegado a uma cifra fantástica. Havia, lá embaixo do gelo, perto de duzentas
mil toneladas de ouro! Significava uma soma de ouro maior do que a contida
em todas as reservas nacionais, em todos os bancos particulares e em todos os
haveres individuais e clandestinos! Mais que todo o ouro do mundo!
Por que haviam escondido esta verdade da opinião? Que preparavam as
grandes potências? Será que tinham feito um acordo para dividir entre si esta
riqueza fabulosa como já dividiam todas as outras? Esse volume de ouro era o
fim da miséria para a metade da humanidade que sofria ainda de fome e que
tinha necessidade de tudo. As nações pobres, as nações esfomeadas exigiam
que esse ouro fosse tirado, dividido, repartido entre elas proporcionalmente ao
número da sua população.
Os negros, os amarelos, os verdes, os cinzentos e alguns brancos juntaram-
se e aplaudiram freneticamente o paquistanês. As nações pobres formavam na
ONU uma grande maioria que a habilidade e direito de veto das grandes
potências controlava com uma dificuldade sempre crescente.
O delegado dos Estados Unidos pediu e obteve a palavra.
Era um homem alto e magro que com um ar cansado carregava a
hereditariedade de uma das famílias mais distintas e antigas de Massachusetts.
Numa voz sem paixões, um pouco velada, declarou que compreendia a
emoção do seu colega, que os técnicos dos Estados Unidos tinham chegado às
mesmas conclusões que aqueles do Paquistão, e que ele se apressava
justamente a fazer uma declaração a esse respeito.
Mas, acrescentou, outros técnicos examinando as amostras do ouro do
Pólo, tinham chegado a uma outra conclusão: este ouro não era um ouro
natural, era um metal sintético, fabricado por um processo do qual eles não
podiam fazer a menor idéia. Os físicos atômicos, esclareceram, fabricam um
ouro artificial, através da transmutação dos átomos. Mas somente em pequena
quantidade e a um preço que o tornava proibitivo.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

O verdadeiro tesouro escondido sob o gelo, não era que tal ou qual
quantidade de ouro fosse considerável mas sim os conhecimentos encerrados
no cérebro daquele homem ou daquela mulher, ou talvez dos dois. Quer dizer,
não somente o segredo da fabricação do ouro, do zero absoluto, do moto
perpétuo, mas sem dúvida uma quantidade de outras coisas ainda bem mais
importantes.
— O que encontramos no ponto 612 — prosseguiu o orador — na verdade
permite supor que uma civilização muito adiantada, sentindo-se ameaçada por
um cataclismo que ameaçava destruí-la inteiramente, colocou num abrigo, com
luxo de precauções que talvez tenham esgotado todas as suas riquezas, um
homem e uma mulher suscetíveis de fazer renascer a vida depois da passagem
do flagelo. Não é lógico pensar que este casal tenha sido escolhido unicamente
por suas qualidades físicas. Um ou outro, ou os dois, devem possuir bastante
ciência para fazer renascer uma civilização equivalente àquela da qual eles
faziam parte. É esta ciência que o mundo de hoje deve sonhar em dividir, antes
de qualquer outra coisa. É por isso que é preciso que se reanimem aqueles que
a possuem e dar-lhes um lugar entre nós.
— Se eles ainda estiverem vivos — disse o delegado chinês.
O delegado americano fez um gesto ligeiro com a mão esquerda e esboçou
um sorriso que revelava certo desprezo:
— É claro...
Olhou toda a Assembléia com ar ausente e aborrecido e prosseguiu:
— A Universidade de Columbia está perfeitamente equipada em matéria de
sábios e aparelhos para realizar essa reanimação. Os Estados Unidos se
propõem então, com o vosso acordo, ir buscar no ponto 612 o homem e a
mulher dentro dos seus blocos de gelo, transportá-los com todas as precauções
necessárias e no menor tempo possível, até os laboratórios de Columbia. Lá
então, serão despertados do longo sono e acolhidos em nome de toda a
humanidade.
O delegado russo levantou-se sorridente e disse que não duvidava da boa
vontade americana, nem da competência dos seus sábios. Mas a URSS possuía
igualmente, em Akademgorodok, os técnicos, os teóricos e aparelhagem
necessários. Ela podia, também, encarregar-se da operação de reanimação. Mas

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

não se tratava nesse momento capital do futuro da humanidade de fazer a


grande pesquisa científica e de disputar um jogo que pertencia a todos os povos
do mundo. A URSS propunha então dividir o casal, ela se encarregaria de um
dos dois indivíduos e os Estados Unidos se ocupariam do outro.
O delegado paquistanês explodiu. O complô das grandes potências
estourava à luz do dia! Desde o primeiro momento elas tinham decidido atribuir
a si mesmas o tesouro do 612, fosse um tesouro monetário, ou um tesouro
científico. E, dividindo entre elas o segredo do passado, dividiam a supremacia
do futuro, como já possuíam a do presente. As nações que adquirissem o
monopólio dos conhecimentos submersos sob o ponto 612, possuiriam um
domínio total e absoluto do mundo. Nenhum outro país poderia jamais esperar
se subtrair à sua hegemonia. As nações pobres deveriam se opor com todas as
suas forças à realização desse abominável ensejo, nem que para isso os dois
seres vindos do passado tivessem que ficar para sempre dentro da sua
carapaça de hélio!
O delegado francês que tinha ido telefonar a seu Governo, pediu, por sua
vez, a palavra. Fez pacificamente notar que o ponto 612 encontrava-se no
interior de uma fatia do continente antártico atribuído à França, isto é, em
território francês. E, daí, tudo o que pudesse vir a ser descoberto era
propriedade francesa...
Formou-se uma enorme confusão. Delegados de grandes e pequenas
nações encontravam-se desta vez de acordo para protestar, ironizar, ou
simplesmente fazer uma cara divertida segundo o seu grau de civilização.
O delegado francês sorriu e fez um gesto pacificador. Quando a calma
voltou, declarou que a França, diante do interesse universal da descoberta,
renunciava aos seus direitos nacionais, e mesmo aos direitos de "inventor", e
depunha tudo o que tinha sido encontrado e tudo o que ainda poderia ser
encontrado no ponto 612 sobre o altar das Nações Unidas.
Agora eram aplausos polidos que o seu gesto se esforçava para fazer
cessar. Mas... mas sem comungar dos temores do Paquistão, a França pensava
que era necessário tudo fazer para impedi-los de se tornarem justificados, por
menores que fossem. Não havia senão a Columbia e a Akademgorodok que
tinham equipes de reanimação. Podiam se encontrar especialistas eminentes na

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Iugoslávia, na Holanda, nas Índias, sem falar da Universidade Árabe e da equipe


muito competente do Dr. Lebeau, do Hospital de Vaugirard, em Paris.
A França não afastava as equipes russas e americanas. Pedia somente que
a escolha fosse feita pela Assembléia inteira e sancionada por um voto...
O delegado americano riu-se logo dessa proposta. Para deixar às
candidaturas competentes o tempo de se manifestar, pediu que transferissem o
debate para o dia seguinte, o que foi decidido. Os regateios e as negociatas
secretas iam começar imediatamente.
Por uma vez, a tevê funcionou em sentido contrário. O satélite Trio, de alto
do éter, enviou para a antena do EPI-1 as imagens da ONU. Na sala de
Conferências, os sábios que não tinham se ocupado de suas missões mais
urgentes tinham seguido os debates em companhia dos jornalistas. Quando
tudo terminou, Hoover, com um gesto do seu polegar, apagou a grande tela e
olhou seus colegas fazendo uma careta.
— Creio — disse ele — que nós também teremos que deliberar. — Pediu
aos jornalistas que tivessem a fineza de se retirar, e lançou pelos aparelhos
emissores um apelo geral a todos os sábios, técnicos, operários e trabalhadores
da Expedição para uma reunião imediata.
No dia seguinte, no momento em que se abria a reunião da Assembléia da
ONU, um comunicado proveniente do ponto 612 foi entregue ao presidente. O
seu texto difundido para o mundo inteiro através de todos os meios de
informação era o seguinte:
Os membros da Expedição Polar Internacional decidiram por unanimidade o
que se segue:
1.º — Negam a toda nação, seja ela rica ou pobre, o direito de reivindicar
para uso lucrativo, o menor fragmento de ouro da esfera e de seus acessórios.
2.º — Sugerem, se isso pode ser útil à Humanidade, que uma moeda
internacional seja criada e afiançada por este ouro, à condição que ele fique
onde está, considerando que ele não será nem mais útil nem mais "congelado"
sob um quilômetro de gelo do que nos cofres dos bancos nacionais.
3.º — Não reconhecem a competência da ONU, organismo político, no que
concerne à decisão, de ordem médica e científica, de tomar a si a
responsabilidade do casal em hibernação.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

4.º — Não confiarão esse casal a nenhuma nação em particular.


5.º — Colocarão à disposição da humanidade inteira o conjunto de
informações científicas ou de qualquer outra ordem que possam ser recolhidos
pela Expedição.
6.º — Convidam Forster, de Columbia, Moissov, de Akademgoro- dok,
Zabrec, de Belgrado, Van Houcke, de Haia, Haman, de Beirute, e Lebeau, de
Paris, a se reunir com eles, no ponto 612, com urgência, trazendo todo o
material necessário para proceder à reanimação.
O manifesto foi como uma ducha fria nas discussões da ONU. Os vidros do
palácio tremeram até o último andar. O delegado do Paquistão estigmatizou,
em nome das crianças que morreriam de fome, o orgulho dos sábios que
queriam colocar-se acima da humanidade e com isso se distanciavam daquele
problema, Falou de "ditadura de cérebros", declarou que tudo era inadmissível e
pediu sanções.
Depois de um debate apaixonado, a Assembléia votou o envio imediato de
uma força militar representativa ao ponto 612 para tomar posse, em nome das
nações, de tudo o que ali se encontrava.
Duas horas mais tarde, a antena do EPI-1 pedia e obtinha um corredor
internacional. Todos os postos particulares e nacionais interromperam suas
emissões para darem lugar às imagens vindas do Pólo. Foi o rosto de Hoover
que apareceu. O rosto de um homem gordo, sempre pronto a sorrir, fosse qual
fosse a emoção que ele tentasse exprimir. Mas a gravidade do seu olhar era ta1
que fez esquecer suas faces rosadas e gordas e seus cabelos vermelhos mal
penteados. Hoover iniciou:
— Estamos chocados. Chocados porém decididos.
Virou-se para a direita e para a esquerda e fez um sinal. A câmara recuou
para permitir aos que se aproximavam de surgirem na imagem. Era Leonova,
Rochefoux, Shanga, Lao Tchang. Vieram se colocar ao lado de Hoover, dando-
lhe a caução de suas presenças. Atrás deles a luz dos projetores revelava os
rostos dos sábios de todas as nacionalidades que há meses se batiam contra o
gelo para lhe arrancar seu segredo. Hoover recomeçou:
- Vocês vêem, estamos todos aqui. E todos decididos. Jamais permitiremos
as mancomunações privadas, nacionais ou internacionais, não deixaremos que

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

ponham a mão sobre bens do qual depende talvez a felicidade dos homens de
hoje e de amanhã. De todos os homens, e não somente de alguns e de tais ou
quais categorias.
Passou a mão na testa, deu um pigarro e continuou:
— Não temos confiança na ONU. Não temos confiança em sua
representação militar. Se soldados desembarcarem no 612, deixaremos cair a
pilha atômica dentro do poço e o faremos explodir!...
Ficou imóvel durante um instante, silencioso, para dar tempo aos ouvintes
de digerirem a enormidade da decisão tomada. Depois a sua imagem apagou-se
e surgiu a de Leonova.
O seu queixo tremia. Ela abriu a boca e não conseguiu falar. A mão gorda
de Hoover apoiou-se sobre o seu ombro. Leonova fechou os olhos, respirou
fundo, e encontrou um pouco de calma.
— Nós queremos trabalhar aqui para todos os homens — disse ela. — Ê
fácil nos impedir. Não dispomos de um parafuso ou de uma migalha de pão que
não seja enviado por uma ou outra nação. Basta nos cortar a remessa de
víveres. Ou simplesmente usarem de má vontade. Nosso sucesso, até o
momento, foi o resultado de um esforço concentrado e desinteressado das
nações. É preciso que esse esforço continue com a mesma intensidade. Vocês
podem obter, vocês que nos escutam. Não é aos governos, nem aos políticos
que eu me dirijo. É aos homens, às mulheres, aos povos, a todos os povos.
Escrevam aos vossos governos, aos chefes de Estado, aos ministros, aos
sovietes. Escrevam imediatamente, escrevam todos! Vocês ainda podem salvar
tudo!
Ela transpirava. A câmara mostrou-a mais de perto. Via-se o suor banhar o
seu rosto. Uma mão entrou na imagem, alcançando-lhe um lenço de papel cor
de ouro. Ela o pegou e apalpou sobre a testa e sobre os lados do nariz.
Prosseguiu:
— Se temos que renunciar, não abandonaremos, seja aquém for, as
possibilidades de conhecimentos, que, mal empregados, poderiam acarretar
para o mundo uma infelicidade irreparável. Se nos obrigam a partir, não
deixaremos nada atrás de nós.
Virou-se e passou o lenço nos olhos. Ela chorava.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Em quase todos os lugares onde a televisão era um monopólio do Estado a


transmissão do apelo dos sábios tinha sido cortada antes do fim. Mas durante
doze horas, a antena de EPI-1 continuava a bombardear o satélite Trio com as
imagens de Hoover e de Leonova. E Trio, objeto científico perfeitamente
desligado de opinião, as transmitiu durante doze horas a seus gêmeos e seus
primos que circulavam no globo todo. Quase dois terços dentre eles emitiam
com grande potência para serem captados diretamente em receptores
particulares. Cada vez que as imagens recomeçavam, a máquina traduzia as
palavras em uma língua diferente. E no fim apareciam os dois seres do passado,
na sua beleza e na sua imobilidade total, tal como as telas os haviam mostrado
a primeira vez.
A emissão se superpunha aos programas previstos, embaralhava tudo, e
acabava por passar por trechos diferentes e por ser compreendida por aqueles
que queriam compreender.
Durante o meio dia que se seguiu, todos os serviços de rádio foram
brutalmente controlados. Nas menores cidades de Auvergne ou Béloutchistan,
as caixas de correio transbordavam. Desde os primeiros centros de
reagrupamento das malas postais, as salas de recepção estavam cheias até o
teto. No escalão acima, era a submersão total. Os poderes públicos e as
companhias privadas negaram-se a transportar este correio mais longe. Não era
necessário lê-lo Sua abundância era sem significado. Pela primeira vez, os
povos manifestavam, acima de suas línguas, suas fronteiras, suas diferenças e
suas divisões, uma vontade comum. Nenhum governo podia ir contra
sentimento de tamanha amplidão. Novas instruções foram dadas aos delegados
da ONU.
Uma moção foi votada em meio ao entusiasmo e à unanimidade, anulando
o envio da tropa, e exprimindo a confiança das nações nos sábios do EPI para
conduzir ao bem... etc, para o maior bem... etc, a fraternidade dos povos... etc,
do presente e do passado, ponto final.
Os reanimadores aos quais o comunicado dos sábios havia feito um apelo
tinham chegado com suas equipes e seu material.
Sob a orientação de Lebeau, os técnicos e operários construíram uma sala
de reanimação no interior da esfera, acima do ovo.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Um problema grave apresentou-se aos responsáveis: por quem começar?


Pe1o homem ou pela mulher?
O primeiro a ser reanimado, forçosamente teria que correr riscos. O
segundo, ao contrário, se beneficiaria da experiência. Era preciso começar pelo
menos precioso. Mas qual era ele?
Para o árabe, não havia dúvida. O único que contava era o homem. Para o
americano, era em torno da mulher que deveriam tomar a mais respeitosa das
precauções, e até mesmo arriscar por ela a vida do homem. O holandês não
tinha opinião; o iugoslavo e o francês, embora evitassem opinar, a tendência
deles era para o lado masculino.
— Meus caros colegas — disse Lebeau no curso de uma das reuniões —
vocês sabem tão bem quanto eu, que os cérebros masculinos são superiores em
volume e peso aos cérebros femininos. Se é o cérebro que nos interessa,
parece-me então que é o homem que nós devemos reservar para a segunda
intervenção.
— Mas pessoalmente — acrescentou ele sorrindo — depois de ter visto a
mulher, teria facilmente uma tendência maior em pensar que uma tal beleza
tem mais importância que o saber, por maior que ele seja...
— Não há razão — disse Moissov — para que tratemos um antes do outro.
Os direitos são iguais. Proponho que formemos duas equipes e que operemos
ao mesmo tempo sobre os dois.
Era generoso, porém impossível. Não havia bastante espaço, nem bastante
material. E os conhecimentos dos dez sábios não seriam demais, juntando-os
todos, para fazer a luz nos momentos difíceis. Quanto ao raciocínio de Lebeau,
ele era válido para os cérebros de hoje. Mais quem podia afirmar que na época
de onde tinham vindo estes dois seres a diferença de peso e de volume existia?
E se existia, quem sabe, naquele momento, ela não seria ao contrário a favor
dos cérebros femininos? As máscaras de ouro que escondiam as duas cabeças
não permitiam mesmo fazer uma comparação aproximativa do seu volume, e,
por dedução, dos seus conteúdos...
O holandês Van Houcke era especialista notável em hibernação de focas.
Mantinha uma congelada há doze anos. Aquecia-a, despertava-a todo ano, na

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entrada da primavera. Fazia com que ela se regalasse com alguns arenques, e
depois que ela os havia digerido, ele a recongelava.
Mas, afora essa especialidade, era um homem muito esperto. Confiou aos
jornalistas as dúvidas dos seus colegas, e pediu-lhes conselho.
Pelo Trio, os jornalistas encantados expuseram a situação à opinião
mundial e fizeram uma pergunta: "Por quem se deve começar? Pelo homem ou
pela mulher?".
Hoover havia finalmente recebido o seu macacão. Vestiu-o e desceu no
ovo. Desapareceu no nevoeiro. Quando voltou, pediu ao conselho para se reunir
com os reanimadores.
— É preciso se decidir — disse ele. — Os blocos de hélio estão diminuindo.
O mecanismo que transmitia o frio continua a funcionar, mas nossa intrusão no
ovo tirou-lhe uma parte de sua eficiência. Se vocês permitirem, vou dar a
minha opinião. Acabo de ver de perto o homem e a mulher... Meu Deus, como
ela é bela!... Mas não é esta a questão. Ela pareceu-me estar em melhor estado
do que ele. Ele apresenta no peito e em diversos lugares do corpo, pequenas
alterações de cor na pele, que talvez sejam sinais de lesões epidérmicas
superficiais. Ou talvez não sejam nada, eu não sei. Mas creio — digo
francamente que creio, é uma impressão, não uma convicção — que ela é mais
forte que ele, mais capaz de suportar os vossos pequenos erros, se é que vocês
o farão. Vocês são médicos, olhem-nos de novo, examinem o homem pensando
no que eu acabo de dizer, e decidam. Na minha opinião, é pela mulher que se
deve começar.
Eles nem desceram no ovo. Era preciso começar por qualquer um.
Basearam-se na opinião de Hoover.
Assim, enquanto que a opinião se apaixonava, que a metade masculina e a
metade feminina da humanidade investiam uma contra a outra, que as disputas
estouravam em todas as famílias, entre todos os casais, entre os colegiais e
estudantes que se entregavam às discussões ferozes, os seis reanimadores
decidiram começar pela mulher.
Como poderiam saber que cometeriam um erro trágico se tivessem
escolhido começar pelo homem?

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A mangueira de ar foi dirigida para o bloco da esquerda, e começou a


lançar ar na temperatura da superfície, que era de menos 32 graus. O bloco de
hélio desmanchou-se em alguns instantes. Passou diretamente do estado sólido
ao estado gasoso e desapareceu, deixando a mulher intacta dentro do seu
caixão. Os quatro homens de macacão que a olhavam estremeceram. Parecia-
lhes que agora, toda nua dentro deste caixão de metal, envolvida pelo turbilhão
de bruma gelada, ela deveria sentir frio mortal. Todavia, ela estava
sensivelmente mais aquecida.
Simon estava entre os quatro. Lebeau lhe havia pedido, em virtude dos
seus conhecimentos de problemas polares, e de tudo o que ele já sabia da
esfera, de ovo e do casal, para que se juntasse à equipe de reanimação.
Ele deu a volta no caixão. Segurava sem jeito, numa das suas luvas de
astronauta, um grande par de pinças cortantes. A um sinal de Lebeau inclinou-
se, e cortou o canudo metálico que ligava a máscara de ouro à parte de trás do
caixão. Lebeau, com uma delicadeza infinita, tentou erguer a máscara, mas não
o conseguiu. Parecia estar soldada na cabeça da mulher, embora fosse
visivelmente separada por um espaço de pelo menos um centímetro.
Lebeau endireitou-se, fez um sinal de renúncia, e dirigiu-se para a escada
de ouro. Os outros o seguiram.
Eles não podiam ficar lá muito tempo. O frio entrava por dentro de suas
vestes protetoras. E não podiam levar a mulher pois, na temperatura em que
ela ainda estava, arriscavam-se a quebrá-la como a um vidro.
A mangueira de ar, teleguiada da sala de reanimação, continuava
passeando lentamente ao redor dela, banhando-a com uma corrente de ar com
uma temperatura aproximada de 20 graus.
Algumas horas mais tarde os quatro desceram novamente. Sincronizando
seus movimentos, escorregaram suas mãos enluvadas por baixo da mulher
congelada e a separaram do caixão. Lebeau tinha medo de que ela ficasse
colada ao metal pelo gelo. Mas isso não aconteceu e as oito mãos a ergueram,
rija como uma estátua, e a carregaram acima dos ombros. Depois os quatro
homens começaram a andar lentamente, com um medo enorme de dar um
passo em falso. A neve pulverulenta batia-lhe nas pernas e afastava-se diante
deles como a água. Grotescos dentro dos seus macacões com capuz, meio

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apagados pela
bruma eles tinham um ar de personagem de pesadelo, levando para outro
mundo a mulher que o atormentava em sonhos. Subiram a escadaria de ouro e
saíram pelo buraco luminoso da porta. A mangueira de ar foi retirada e o bloco
transparente onde o homem permaneceu, que havia diminuído bastante no
decorrer da operação, parou de se reduzir.
Os quatro entraram na sala de operação e depositaram a mulher sobre a
mesa de reanimação. Daquele momento em diante nada mais podia parar o
desenvolvimento fatal dos acontecimentos.
Na superfície, a entrada do poço tinha sido cercada por uma construção de
enormes blocos de gelo que o seu próprio peso ligava uns aos outros. Pesada
porta sobre trilhos fechava o acesso. No interior se encontravam as instalações
de foles, o relais da tevê, do telefone, da máquina tradutora, da corrente de
força e luz, os motores dos elevadores, dos monta-cargas e suas estações de
saída, baterias, e acumuladores de socorro a eletrólise seca.
Diante das portas dos elevadores, Rochefoux enfrentava uma multidão de
jornalistas. Ele havia fechado as portas e colocado as chaves no bolso. Os
jornalistas protestavam violentamente, em todas as línguas. Queriam ver a
mulher, assistir ao seu despertar. Rochefoux, sorrindo, declarou-lhes que isto
não era possível. A parte o pessoal da equipe médica, ninguém, nem ele
mesmo, seria admitido na sala de operações.
Conseguiu acalmá-los prometendo-lhes que veriam tudo pela televisão
interna, na grande tela da Sala das Conferências.
Simon e os seis reanimadores, vestidos de blusas verde-claras com
chapéus e mascaras de cirurgião, botas de algodão branco, luvas de látex rosa,
rodeavam a mesa de reanimação. Uma coberta aquecedora envolvia a mulher
até a altura o queixo. A máscara de ouro continuava cobrindo o seu rosto. Pelas
frestas a coberta saíam fios multicores que se ligavam a aparelhos de medida,
correias, eletrodos, ventosa, apalpadores aplicados em diferentes lugares do
seu corpo gelado.
Nove técnicos, vestidos de blusas amarelas, mascarados como os
cirurgiões, não tiravam os olhos dos quadrantes dos aparelhos. Quatro

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enfermeiras e três enfermeiros de azul ficavam próximos de cada médico,


prontos a obedecer imediatamente.
Lebeau, reconhecível por causa de suas enormes sobrancelhas grisalhas,
inclinou-se em direção à mesa, e, mais uma vez, tentou arrancar a máscara. A
proteção se mexeu, mas parecia esta presa por uma espécie de haste central.
— Temperatura? — perguntou Lebeau. Um homem amarelo respondeu:
— Fole. Cinco positivos. — Uma mulher azul estendeu a extremidade de um
tubo macio, que Lebeau introduziu entre a máscara e o queixo.
— Pressão cem gramas, temperatura quinze.
Um homem amarelo virou dois pequenos volantes e repetiu os números.
— Mande — ordenou Lebeau.
Um assobio fraquinho fez-se ouvir. O ar a quinze graus correu entre a
máscara e o rosto da moça. Lebeau endireitou-se e olhou para os seus colegas.
Seu olhar estava sério, no limite da ansiedade. Uma mulher de azul, com uma
compressa de gaze, enxugou-lhe as têmporas onde o suor escorria.
— Experimente — falou Forster.
— Alguns minutos — disse Lebeau. — Atenção à parte de cima... De cima!
Foram minutos intermináveis. Os vinte e três homens e mulheres presentes na
sala esperavam, em pé. Eles ouviam seus corações martelando dentro do peito
e sentiam o peso dos seus corpos enrijecer os músculos de suas pernas como
uma pedra. A câmara n° 1 virada para a máscara de ouro enviava a imagem
gigantesca sobre a grande tela. Um silêncio total reinava na Sala de
Conferências, mais uma vez cheia até o limite. O difusor fazia ouvir as
respirações agitadas por trás das máscaras de algodão, e o longo sopro de ar
sob a máscara de ouro.
— Quanto tempo? — perguntou Lebeau.
— Três minutos e dezessete segundos — disse um homem amarelo.
— Vou experimentar — disse Lebeau.
Inclinou-se de novo para a mulher, introduziu a ponta dos seus dedos sob a
máscara e apoiou suavemente a ponta do queixo, que cedeu com lentidão. A
boca da mulher que não se podia ver, deveria estar aberta. Lebeau pegou a
máscara com as duas mãos e, mais uma vez, muito lentamente, tentou erguê-
la. Não houve mais resistência...

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Lebeau suspirou e sob as grossas sobrancelhas seus olhos sorriram. Com o


mesmo movimento, sem pressa, ele continuou a levantar a máscara.
— Era exatamente o que pensávamos: máscara de ar ou de oxigênio.
Ela estava com uma ponteira na boca...
Ergueu totalmente a máscara e tirou-a. Efetivamente, no lugar da boca
encontrava-se uma saliência orlada de uma borda, de matéria translúcida que
parecia elástica.
— Vejam! — disse a seus colegas, mostrando-lhes o interior da
máscara. Mas ninguém olhou. Todos admiravam o rosto da mulher.

Primeiro vi a tua boca entreaberta. À tua boca entreaberta, o recorte quase


transparente dos dentes delicados que apareciam em cima e embaixo,
ultrapassando apenas a borda dos teus lábios pálidos. Comecei a tremer. Via
demais dessas bocas entreabertas no hospital, as bocas dos corpos que a seiva
da vida acabara de abandonar, deixando de um só golpe todas as células, e que,
bruscamente, não são mais do que carne vazia, exposta à gravidade.
Porém Moissov colocou sua mão em concha sob teu queixo,
carinhosamente fechou tua boca, esperou um segundo, e retirou a mão. E tua
boca ficou fechada...

Sua boca fechada — nacarada pelo frio e pelo sangue retirado — era como
o debrum de uma concha frágil. Suas pálpebras eram duas longas folhas sobre
as quais os cílios e as sobrancelhas desenhavam o contorno sombreado de
dourado. Seu nariz era pequeno, bem feito, suas narinas ligeiramente acesas e
bem desenhadas. Seus cabelos de um castanho quente, como batidos por uma
luz de ouro, rodeavam sua cabeça com pequenas ondas de raios de sol e
escondiam parte da testa e das faces. Das orelhas apareciam somente o lóbulo
da esquerda, como uma pétala engastada num brinco.
Houve um grande suspiro, por parte do homem, ao microfone o qual a
máquina tradutora não soube reproduzir. Haman inclinou-se, afastou os cabelos
da mulher e começou a instalar os eletrodos do encefalógrafo.

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Na cave do Hotel Internacional de Londres — à prova de bomba A, mas não


da bomba H; de desmoronamentos, mas não de um golpe direto bastante sólido
para dar segurança a uma clientela rica que exigia esta segurança ao lado do
conforto — suficientemente e visivelmente blindada para inspirar confiança,
mas não para assegurar proteção — ninguém, nada poderia proteger nada nem
ninguém -, a cave do Internacional de Londres, por sua arquitetura, sua
calefação e sua betonagem, reunia as condições ideais para se transformar num
shaker.
Era assim que se chamavam as salas, cada vez maiores, onde se reuniam
rapazes e moças de todas as classes, para aí se entregar em comum a danças
frenéticas. Pressionados por seus instintos dirigidos para uma nova concepção
de vida, os jovens se encerravam ali, sacudidos por pulsações sonoras e
perdiam os últimos vestígios de preconceitos e de convenções que ainda lhes
acossavam. A cave do Internacional de Londres era o mais vasto shaker da
Europa. E também um dos mais quentes.
Seis mil rapazes e moças. Uma só orquestra, porém doze alto-falantes
iônicos sem membrana que faziam vibrar o ar da cave como o interior de um
sax-tenor. E mais Yuni, o brasa de Londres, dezesseis anos, cabelos raspados,
óculos de fundo de garrafa, um olho vesgo, o outro esbugalhado, yuni que
convencera a administração do hotel a lhe alugar a cave. Nenhuma nota
musical chegava aos ouvidos dos hóspedes que ocupavam os andares. Às
vezes, alguns desciam para "balançar o esqueleto" e subiam maravilhados — e
apavorados — pelo espetáculo dessa juventude em estado primitivo e
efervescente.
Yuni, diante de um teclado, na cadeira de alumínio presa ao muro acima da
orquestra, uma orelha escondida por um enorme aparelho de escuta em feitio
de couve-flor, escutava todas as orquestras e, quando encontrava uma música
quente, ligava-a nos alto-falantes mais próximos. De olhos fechados, ele
escutava. Num ouvido o barulho enorme da cave, no outro, três medidas, duas
medidas, vinte medidas colhidas no inatingível. Em intervalos, sem abrir o olho,
soltava um grito agudo e longo, que ressoava acima do barulho do fundo. De
repente arregalou os olhos, cortou o som e gritou:
— Ouçam! Ouçam!

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A orquestra calou-se. Seis mil corpos suados ficaram repentinamente no


silêncio e na imobilidade. Enquanto que por trás do estupor a consciência
começava a renascer neles, Yuni continuava:
— Notícia sobre a moça congelada!
Assobios, xingamentos. Bolas! Se dane! Vá lá você esquentá-la! Que é que
eu tenho com isso! Yuni gritou:
— Cambada de ratos! Escutem!
Ligou para a BBC. Nos doze alto-falantes soou a voz do speaker de serviço.
Ela encheu o ar da cave com uma vibração forte e bem marcada:
— Difundimos pela segunda vez o documento que nos chegou do ponto
612. Isto constitui certamente a mais importante notícia do dia...
Pigarros. Silêncio. O céu penetrou na cave com o ruído indizível da
multidão que caminha pela noite cósmica: o barulho das estrelas. Depois a voz
de Hoover. Como se estivesse ofegante. Talvez estivesse com asma. Ou o
coração envolvido por uma grande emoção.
— Aqui é EPI. Ponto 612. Hoover falando. Estou feliz... muito feliz... de vos
ler o comunicado seguinte chegado da sala de operações: "O processo de
reanimação prossegue normalmente. Hoje, 17 de novembro, às 14h52m, hora
local, o coração da jovem mulher recomeçou a bater..."
A cave explodiu num grito. Yuni, visivelmente contrariado, berrou mais
forte:
— Calem a boca! Vocês são uns burros! Vocês não têm alma! Escutem!
Obedeceram. Obedeciam tanto à voz como à música. Contanto que esta fosse
mais forte. Feito silêncio, ouviu-se de novo a voz de Hoover:
— As primeiras batidas do coração dessa mulher foram registradas. O
órgão não batia há mais de novecentos mil anos. Escutem... Desta vez,
verdadeiramente, todos se calaram. Yuni fechou os olhos, o rosto iluminado.
Ouvia a mesma coisa nos seus dois ouvidos. Escutava:
Silêncio.
Uma batida surda: bum... Uma só.
Silêncio... silêncio... silêncio... Bum...
Silêncio... silêncio... Bum... Silêncio... Bum... bum... Silêncio...
Bum... bum... bum... bum, bum, bum...

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

O bateria da orquestra respondeu, suavemente, em contraponto, com o pé


na caixa. Depois acrescentou a ponta dos dedos. Yuni superpôs a orquestra e as
ondas. O contrabaixo uniu-se à bateria e ao coração. O clarinete gritou uma
longa nota, depois terminou numa improvisação alegre. Os seis violões elétricos
e os dois violões de aço desandaram a tocar. O baterista batia por sua vez em
todas as peles... Yuni gritou como um minarete:
— Ela está acordada! Bum! Bum! Bum! Os seis mil cantavam:
— Ela está acordada!... Ela está acordada!...
Seis mil cantavam, dançavam, no ritmo do coração que acabava de
renascer. Assim nasceu o wake, a dança do despertar... Aqueles que queriam
dançar, dancem. Aqueles que podem acordar, acordem.

Não, ela não estava acordada. Suas longas pálpebras ainda estavam
abaixadas sobre o sono interminável. Mas seu coração batia com uma potência
tranqüila, seus pulmões respiravam calmamente, sua temperatura subia pouco
a pouco em direção à vida.
Atenção: — disse Lebeau, inclinado sobre o encefalograma. — Pulsações
irregulares... Ela sonha!
Ela sonhava! Um sonho que a havia acompanhado, enroscado, gelado
dentro de alguma parte da sua cabeça, e agora aquecido vinha a florescer.
Florescer em que espantosas imagens? Azuis ou negras? Sonho ou pesadelo? As
pulsações do coração subiram bruscamente de 30 para 45, a pressão sangüínea
atingiu o limite, a respiração acelerou-se e tornou-se regular, a temperatura
subiu para 36 graus.
— Atenção! — exclamou Lebeau. — Pulsações do pré-despertar. Ela vai
acordar! Ela acorda! Tirem o oxigênio!
Simon ergueu o inalador e estendeu-o para a enfermeira. As pálpebras da
moça tremeram. Uma pequena sombra de dúvida apareceu na parte de baixo
das suas pálpebras.
— Nós vamos lhe meter medo! — disse Simon.
Arrancou a máscara de cirurgião que lhe cobria a parte inferior do rosto.
Todos os médicos o imitaram.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Lentamente, as pálpebras se ergueram, os olhos apareceram,


incrivelmente grandes. O branco era muito claro, muito puro. A íris larga, um
pouco eclipsada pela pálpebra superior, era de um azul de céu em noite de
verão, semeado de lantejoulas de ouro.
Seus olhos estavam fixos no teto, que certamente não viam. Depois
piscaram vezes seguidas, suas sobrancelhas se ergueram, seus olhos mexeram,
olharam e viram. Viram primeiro Simon, depois Moissov, Lebeau, os
enfermeiros, todo mundo. Uma expressão de espanto invadiu seu rosto de
mulher. Tentou falar, abriu a boca, mas não chegou a ter o comando dos
músculos da língua nem da garganta. Emitiu uma espécie de estertor. Fez um
esforço enorme para erguer um pouco a cabeça e olhar tudo. Ela não
compreendia onde estava, tinha medo, e ninguém podia fazer nada para dar-lhe
confiança. Moissov sorriu-lhe. Simon tremia de emoção. Lebeau começou a falar
muito carinhosamente. Recitou dois versos de Racine, as palavras mais
harmoniosas que alguma língua já pôde reunir:
Ariane, minha irmã, de que amor ferida...
Era a canção do verbo perfeito e acariciante. Mas a mulher não escutava.
Via-se que o horror a dominava. Mais uma vez ela tentou falar, sem conseguir.
Seu queixo começou a tremer. Ela fechou os olhos e deixou a cabeça cair para
trás.
— Oxigênio! — ordenou Lebeau. — E o coração?
— Normal! Cinqüenta e dois... — disse um homem amarelo.
— Desmaiou... — observou Van Houcke. — Nós lhe metemos um medo
enorme... O que ela esperava encontrar?
— Bem, é como se você fizesse sua filha dormir e ela acordasse no meio de
um bando de feiticeiros... — disse Forster.
Os médicos decidiram aproveitar do seu desmaio para carregá-la para a
superfície, onde uma sala mais confortável a esperava na enfermaria. Ela foi
introduzida numa espécie de caixa plástica transparente, com a parede dupla
isolante, alimentada por uma bomba de ar. Quatro homens carregaram-na ate o
elevador. Todos os fotógrafos da imprensa deixaram a sala do Conselho para se
precipitar ao seu encontro. Os jornalistas estavam já nas cabinas de rádio, a
telefonar para o mundo inteiro sobre aquilo que eles haviam visto e que não

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

haviam visto. A grande tela mostrava os homens amarelos retirando suas


máscaras do rosto e se desembaraçando dos seus aparelhos. Lanson apagou a
imagem da sala de trabalho e substituiu-a pela que enviava a câmara de
controle do interior do ovo.
Leonova levantou-se bruscamente:
— Olhe! — disse ela apontando seu dedo em direção à tela. — Sr. Lanson,
focalize sobre o pedestal da esquerda.
A imagem do pedestal com o caixão vazio apareceu, cresceu e fez-se ver
atrás de um ligeiro véu de bruma. Repararam então que faltava um dos seus
lados. Toda uma parede vertical havia se afundado no solo, aparecendo uma
espécie de estante com prateleiras metálicas sobre as quais estavam colocados
objetos de formas desconhecidas.
Quando a mulher deixou a sala de operação, os objetos achados na
prateleira a substituíam sobre a mesa de reanimação. Voltavam a sua
temperatura normal. Constituíam, de certa maneira, a "bagagem" da viajante
adormecida.
Agora não eram mais os médicos que rodeavam a mesa, eram os sábios, s
mais suscetíveis, por sua especialidade, de compreender o uso, e o
funcionamento desses objetos.
Leonova pegou com toda a precaução alguma coisa que parecia ser uma
roupa dobrada e a desdobrou. Era algo que não era papel nem fazenda, de cor
alaranjada, com desenhos amarelos e vermelhos. O frio absoluto o havia
guardado num estado de conservação perfeita. Era leve, fino e parecia sólido,
avia vários, de cores, formas e dimensões diferentes. Sem nenhuma manga, em
abertura de espécie alguma, nem botões, nem fechos, nem nada, nenhuma
maneira de os colocar ou de fixá-los.
Foram pesados, medidos, numerados, fotografados, e tiraram-lhes
amostras microscópicas para análises. Depois passaram ao objeto seguinte.
Era um cubo com os cantos arredondados, com 22 centímetros de aresta.
Comportava, grudado numa de suas faces, um tubo oco e disposto em posição
diagonal. O todo era compacto, feito de uma matéria sólida e leve, de um cinza
muito claro. O físico Hoi-To segurou-o na mão, olhou-o longamente e olhou os
outros objetos.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Havia uma caixa sem tampa que continha varinhas octogonais de cores
diferentes. Pegou uma e introduziu-a no tubo oco colado ao cubo. Logo, uma luz
nasceu dentro do objeto e iluminou-o suavemente.
E o objeto suspirou... Hoi-To teve um pequeno sorriso. Suas mãos delicadas
botaram o cubo de volta sobre a mesa branca.
a

Agora o objeto falava. Uma voz feminina falava em voz baixa, numa língua
desconhecida. Nasceu uma música, semelhante ao sopro de um vento ligeiro
numa floresta povoada de pássaros e de harpas eólias. E sobre a face superior
do cubo, como projetada do interior, uma imagem surgiu: o rosto da moça A
imagem do pedestal com o caixão vazio apareceu, cresceu e fez-se ver r trás de
um ligeiro véu de bruma. Repararam então que faltava um dos seus lados. Toda
uma parede vertical havia se afundado no solo, aparecendo uma espécie de
estante com prateleiras metálicas sobre as quais estavam colocados objetos de
formas desconhecidas
que falava. Parecia com aquele que tinham encontrado dentro do ovo. Mas
não era ela. Sorriu e apagou-se, substituída por uma flor estranha, que por sua
vez derreteu-se numa cor movediça. A voz da mulher continuava. Não era uma
canção, não era uma poesia, era ao mesmo tempo um e outro, era coisa
simples e natural como o barulho de um riacho ou de chuva. E todas as faces do
cubo se iluminavam simultaneamente, mostrando uma mão, uma flor, um sexo,
um pássaro, um seio, um rosto, um objeto que mudava de forma e de cor, uma
forma sem objeto, uma cor sem forma.
Todos olhavam e escutavam, interessados. Era o desconhecido, o
inesperado, e os tocava profundamente, como se esse conjunto de imagens e
de sons tivesse sido composto especialmente para cada um, segundo suas
aspirações mais secretas e profundas, ultrapassando todas as convenções e
barreiras.
Hoover sacudiu a cabeça, pigarreou e tossiu.
— Que transistor mais gozado — disse ele. — Desligue esse troço. Hoi-To
retirou a varinha do tubo. O tubo apagou-se e silenciou.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

No quarto da enfermaria, aquecido a 30 graus, a mulher, nua, jazia


estendida sobre um leito estreito.
Elétrodos, placas, pulseiras fixadas nos seus pulsos, nas suas têmporas, em
seus pés, nos seus braços, ligavam-na por meio de espirais e de ziguezagues
aos fios dos aparelhos de observação.
Duas enfermeiras massageavam os músculos de suas coxas. Um
massagista friccionava os músculos dos seus maxilares. Uma outra enfermeira
passava sobre o seu pescoço um aparelho de infravermelho. Van Houcke
apalpava-lhe suavemente a parede do ventre. Os médicos, as enfermeiras, os
técnicos, transpiravam na atmosfera superaquecida, irritados com esse desmaio
que se prolongava. Trocavam olhares, esperavam, davam sua opinião em voz
baixa. Simon olhava a mulher, olhava aqueles que a cercavam, que a tocavam.
Apertou os punhos e os maxilares.
— Seus músculos respondem — disse Van Houcke. — Diríamos que ela está
consciente...
Moissov veio para a cabeceira do leito, inclinou-se sobre a moça, ergueu
uma pálpebra, depois a outra...
— Ela está consciente! — disse ele. — Ela fecha os olhos voluntariamente...
não está mais nem desmaiada nem adormecida...
— Por que então ela fecha os olhos? — perguntou Forster. Simon explodiu:
— Porque ela está com medo! Se queremos parar de lhe meter medo, é
preciso parar de tratá-la como um animal de laboratório!
Fez um gesto brusco em direção às cinco pessoas reunidas ao redor do
leito.
— Saiam daí! Deixem-na tranqüila! Van Houcke protestou. Lebeau
interveio:
— Ele talvez tenha razão... Estudou psicoterapia durante dois anos com
Pèrier... Talvez esteja mais capacitado que nós; vamos! Tirem tudo isso daí...

Moissov no mesmo momento retirou os Elétrodos do encefalograma. As


enfermeiras desembaraçaram o corpo estendido de todos os outros fios que
partiam dele como de uma teia de aranha. Simon pegou um lençol que estava
enrolado nos pés da cama e ergueu-o delicadamente até os ombros da moça,

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

deixando os seus braços de fora. Ela usava no dedo maior um grande anel de
ouro que tinha a forma de uma pirâmide truncada. Simon pegou a outra mão
entre as suas, a mão esquerda, a mão nua, e a segurou como se segura um
passarinho perdido ao qual se queira infundir confiança.
Lebeau, sem barulho, fez sair as enfermeiras e os técnicos. Trouxe uma
cadeira para perto de Simon, recuou até a parede e fez sinal aos outros médicos
para que o imitassem.
Van Houcke sacudiu os ombros e saiu.
Simon sentou-se, deixou sobre o leito suas mãos que seguravam sempre a
da mulher, e começou a falar. Muito carinhosamente, quase cochichando. Muito
docemente, muito ardentemente, muito calmamente, como a uma criança
doente que necessita de carinho durante os pesadelos da febre.
— Nós somos amigos... — disse ele. — Você não compreende o que eu
lhe digo, mas você compreende que eu lhe falo como um amigo... somos
amigos... Você pode abrir os olhos... você pode olhar nossos rostos... nós
queremos o seu bem... tudo vai bem... Você vai ver... você pode acordar... nós
somos seus amigos... queremos fazê-la feliz... nós a amamos...
Ela abriu os olhos e olhou-o.

Lá embaixo tinham examinado, pesado, medido, fotografado diversos


objetos cujo uso não havia sido compreendido. Era agora a vez de uma espécie
de luva de três dedos. O polegar, o indicador e um buraco maior para o dedo
grande, anular e o mínimo juntos. Hoover ergueu o objeto.
— Luva para a mão esquerda — disse ele, apresentando à objetiva da
câmara registradora.
Procurou com os olhos a luva da mão direita. Não a via.
— Retificação — acrescentou em tom brincalhão. — Luva para um mane-
ia!...
Colocou sua mão esquerda no interior da luva, e quis dobrar os dedos. O
indicador permaneceu duro, tirou o polegar, os três outros dedos solidários
dobraram-se em direção à palma. Houve um choque abafado, luminoso e
sonoro, e um berro. O romeno Ionescu, que trabalhava diante de Hoover, voava

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

no ar os braços abertos, as pernas retorcidas, como projetado por uma força


enorme e foi estatelar-se contra os aparelhos, despedaçando-os.
Hoover, estupefato, ergueu sua mão para olhá-la. Com um estrondo
enorme a parte superior da parede que estava diante dele e a metade do teto
ficaram pulverizados.
Ele teve então o reflexo certo. Pouco antes de fazer saltar o resto do teto e
sua própria cabeça: desdobrou os dedos...
O ar deixou de ficar vermelho.
— Bem... vejam só! — disse Hoover. Segurava com o braço esticado, como
se fosse um objeto estranho e horrível, sua mão enluvada.
Ela tremia.
— A weapon!... — exclamou. A máquina traduziu em dezessete línguas;
— Uma arma!...
Ela havia fechado os olhos, porém não mais para se esconder, mas sim por
cansaço. Parecia dominada por uma fadiga infinita:
— Será preciso alimentá-la — disse Lebeau. — Mas como é que vamos
saber o que eles comiam?
— Vocês todos já a viram bastante para saber que ela é mamífera!
acrescentou Simon, furioso. — Dêem-lhe leite.
De súbito Simon estacou. Todos prestaram atenção. Ela falava.
Seus lábios se moviam. Falava com uma voz muito fraca. Parava.
Recomeçava. Adivinhavam que estivesse repetindo sempre a mesma frase.
Abriu seus olhos azuis e parecia que o céu havia entrado no quarto. Olhou para
Simon e repetiu a frase. Diante da evidência de que não tinha a menor
possibilidade de se fazer compreender, ela fechou os olhos e calou-se.
Uma enfermeira trouxe uma tigela de leite quente. Simon pegou-a, e
encostou cuidadosamente seu calor nas costas da mão que repousava sobre o
lençol. Ela olhou. A enfermeira ergueu-lhe o busto e sustentou-a. Ela quis
segurar a tigela, porém os músculos delicados das suas mãos ainda não haviam
readquirido as forças. Simon levantou a tigela para ela. Quando o odor lhe
chegou às narinas, ela sobressaltou-se, fez uma careta de nojo e recuou. Olhou
à sua volta e repetiu a mesma frase antiga. Tentava visivelmente indicar
alguma coisa...

75
PDL – Projeto Democratização da Leitura

— É água! Ela quer água! — disse Simon, percebendo, subitamente a


evidência.
Era exatamente o que ela queria. Tomou um copo e mais a metade de um
segundo.
Depois que se deitou novamente, Simon colocou a mão sobre o seu próprio
peito e disse carinhosamente o seu nome:
— Simon...
Repetiu duas vezes a palavra e o gesto. Ela compreendeu. Olhando Simon,
ergueu sua mão esquerda, colocou-a na sua própria testa e disse:
— Eléa...
Sem parar de olhá-lo, ela recomeçou seu gesto e disse novamente:
— Eléa...
Os homens que haviam ido buscar o corpo de Ionescu para o transportar
tiveram a impressão de pegar um invólucro de borracha cheio de areia e
cascalho. Ele tinha só um pouco de sangue nas narinas e nos cantos da boca,
porém todos os seus ossos estavam quebrados e o interior do seu corpo
reduzido a farinha.
Já haviam se passado vários dias desde o acidente, mas Hoover ainda se
surpreendia examinando furtivamente sua mão esquerda e a baixar os três
dedos na direção da palma, o indicador e o polegar esticados. Se ele se
encontrava nas proximidades de uma garrafa de scotch, ou mesmo de qualquer
brandy, apressava-se em buscar nelas o conforto do qual tinha grande
necessidade. Era preciso uma gigantesca força de caráter para suportar a
fatalidade que o havia tornado duas vezes, em algumas semanas, num
assassino. Ele não tinha, bem entendido, até então morto ninguém, não havia
nem mesmo matado nada, nem um coelho na caça, nem um peixe na pesca,
absolutamente nada.
A arma e os objetos ainda não examinados tinham sido recolocados,
pruden- temente, na estante onde haviam sido encontrados. Os operários
reconstruíam a sala de reanimação e os técnicos consertavam o que podiam.
Mas vários aparelhos estavam inteiramente destruídos. Fizera-se necessário
esperar que fossem substituídos para iniciarem as operações sobre o segundo
ocupante do ovo.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Eléa — esse era provavelmente o seu nome — recusava todos os


alimentos. Tentaram introduzir por intermédio de uma sonda, um pouco de
caldo no seu estômago. Ela se debateu tão violentamente que tiveram que
amarrá-la. Mas não chegaram a conseguir que ela abrisse os maxilares. Foi
necessário fazer a sonda penetrar por uma narina. Apenas o caldo penetrou no
seu estômago, ela o vomitou.
Simon a princípio havia protestado contra estas violências. Depois se
conformara. O resultado convenceu-o de que ele tinha razão e de que este não
era um método certo. Enquanto os seus colegas chegavam à conclusão de que
o sistema digestivo da mulher do passado não era feito para digerir os
alimentos do presente, e analisavam o caldo rejeitado na esperança de neles
encontrar ensinamentos sobre o seu suco gástrico, Simon repetia para si próprio
a única pergunta que, na sua opinião, tinha valor:
— Como, como comunicar?
Comunicar, escutá-la, compreendê-la, saber de que tinha ela necessidade.
Como, como fazê-lo?
Presa dentro de uma camisola, os braços e as coxas mantidos por correias,
ela não reagia mais. Imóvel, as pálpebras novamente fechadas sobre o imenso
céu dos seus olhos, ela parecia estar no auge do medo e da resignação. Uma
agulha fina enfiada na veia do seu braço direito injetava-lhe o soro alimentador
contido numa ampola suspensa na cabeceira do leito. Simon olhava com raiva
esse apetrecho bárbaro, atroz, que era, no entanto, o único meio de prolongar
momento em que ela iria morrer de fome. Ele não suportava mais aquilo. Era
necessário...
Saiu bruscamente do quarto, atravessou a enfermaria e penetrou num
corredor de onze metros de largura e de trezentos metros de comprimento, que
servia coluna vertebral ao EPI-2.
Tinham-lhe dado o nome de Avenida Amundsen, em homenagem ao
primeiro homem que tinha estado no Pólo Sul. Primeiro, pelo menos ao que se
supunha. Ruas pequenas e portas de edifício se abriam à esquerda e à direita
Algumas pequenas plataformas elétricas baixas, com pneus grossos amarelos
serviam para transportar o material, segundo a necessidade. Simon saltou
nutria delas abandonada perto da porta da enfermaria, e se apoiou sobre a

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

manivela, O veículo arrancou ronronando como um gato. Alcançando a


superfície, Simon saltou sobre o gelo áspero e começou a correr. A máquina
tradutora estava quase na extremidade da avenida. A pilha atômica vinha a
seguir, depois de uma curva de cento e vinte graus.
Entrou no complexo da tradutora, abriu seis portas antes de encontrar a
certa, respondendo com um gesto irritado as perguntas feitas, parou finalmente
numa peça estreita cujo muro no fundo, um muro mais alto, era forrado de
borracha, plástico e coberto de lã. Havia outro muro de vidro e um terceiro, de
metal. Diante deste corriam um consolo de quadrantes, de mosaicos, botões,
manivelas, visores, microfones, botões para ligar instrumentos, cordões. Diante
do consolo, uma cadeira com rodas e, sobre a cadeira, Lukos, o filólogo turco.
Era uma inteligência de gênio num corpo de estivador. Dava, mesmo
sentado, a impressão de uma força prodigiosa. A cadeira desaparecia sob a
massa de músculos das suas nádegas. Ele parecia capaz de carregar nas costas
um cavalo ou um boi, ou quem sabe os dois ao mesmo tempo.
Fora ele que concebera o cérebro da máquina tradutora. Os americanos
não tinham acreditado, os europeus não tinham podido, os russos tinham
desconfiado, e afinal, os japoneses o tinham ajudado e fornecido todos os
meios.
O exemplar do EPI-2 era o décimo segundo posto em serviço nos últimos
três anos, e o mais aperfeiçoado. Traduzia dezessete línguas, mas Lukos
conhecia, ele próprio, dez vezes ou talvez vinte vezes mais. Possuía o gênio do
poliglotismo assim como Mozart tinha o gênio da música. Diante de uma língua
nova, bastava-lhe um documento, uma referência permitindo-lhe uma
comparação, e algumas horas, para ele, por deduções e analogias, começar a
compreender sua estrutura e logo considerar o vocabulário como familiar. E no
entanto ele emudecia diante do idioma de "Eléa".
Dispunha de dois elementos de trabalho que lá estavam, colocados diante
dele: o cubo cantante, e um outro objeto que não era maior que um livro de
bolso. Sobre um dos lados do prato desenrolava-se uma fita luminosa coberta
de linhas regulares: cada linha era composta de uma série de sinais que
pareciam constituir uma escrita. Imagens, visíveis em três dimensões,

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

representando pessoas em ação, acabavam de fazer este objeto análogo a um


livro ilustrado.
— E então? — perguntou Simon.
Lukos sacudiu os ombros. Há dois dias que ele desenhava sobre a tela do
registrador da tradutora grupos de sinais que pareciam não ter nenhuma
relação uns com os outros. Esta linha estranha parecia ser composta de
palavras completamente diferentes e que não se repetiam jamais.
— Há qualquer coisa que me escapa — resmungou ele. — E a ela também.
Bateu com sua mão pesada no metal do consolo, depois escorregou uma
varinha de madeira para dentro do cubo musical. Desta vez foi uma voz de
homem que começou a falar, e o rosto que apareceu era o de um homem
imberbe, com dois olhos grandes azuis bem claros, cabelos negros, caindo até
os ombros.
— A solução talvez esteja aí — disse Lukos. — A máquina gravou todas as
varetas. São quarenta e sete. Cada uma comporta milhares de sons. A escrita
tem mais de dez mil palavras diferentes. Se é que são palavras!... Quando eu
acabar de fazê-la engolir tudo, será preciso que ela os compare um a um, e por
grupos, a cada som e cada grupo de sons, até que encontre uma idéia geral,
uma regra, um caminho, alguma coisa para ser seguida. Ajudarei, é claro,
examinando suas hipóteses e propondo-lhe outras. As imagens ajudarão a nós
dois...
— Dentro de quanto tempo você espera alcançar resultado — perguntou
Simon com ansiedade.
— Dentro de alguns dias... algumas semanas, isto depende.
— Estará morta! — gritou Simon. — Ou então louca! É preciso conseguir
depressa! Hoje! Amanhã, dentro de algumas horas! Sacuda sua máquina!
Mobili-ze toda a base! Há bastantes técnicos aqui!
Lukos olhou como Menuhin teria olhado alguém que lhe pedisse para
"sacudir" seu Stradivarius para lhe fazer tocar "mais depressa" um prestíssimo
de Paganini.
— Minha máquina faz o que ela sabe fazer — disse ele. — Não é de
técnicos que ela precisa. Isto ela tem o suficiente. O que ela precisa é de
cérebros...

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

—Cérebros? Mas não há um lugar no mundo onde você possa encontrar


melhores do que os que estão aqui! Vou pedir uma reunião imediata do
Conselho. Você exporá o problema...
—São cérebros pequenos, senhor doutor, são cérebros pequenos de
homens. Seria-lhes necessário séculos de discussão antes de ficarem de acordo
sobre a direção de uma vírgula... Quando digo cérebro, é no dela que eu penso.
— Mais uma vez acariciou a beira do consolo acrescentou:
— No dela e no dos seus semelhantes.
— Um novo SOS partiu da antena do EPI-1. Pedia a colaboração imediata.
As respostas chegaram rapidamente de todos os cantos. Todos os
computadores disponíveis foram colocados a serviço de Lukos e de sua equipe.
Mas aqueles que estavam disponíveis não eram evidentemente nem os maiores
nem os
melhores. Destes obtiveram promessas: quando tivessem um instante
livre, entre dois programas, não se poderia exigir mais do que isso. Fariam o
impossível,diziam.
Simon fez entrar três câmaras no quarto de Eléa. Uma focalizava a agulha
enfiada no braço a fim de dar-lhe o soro, último recurso para salvar a mulher. A
outra sobre o rosto, filmando as faces que tinham se tornado encovadas. A
terceira era dirigida ao corpo desnudo, e tragicamente emagrecido.
Fez essas imagens serem enviadas pela antena do EPI-3, através do
satélite Trio, para todo o mundo. E falou:
— Ela vai morrer. Vai morrer porque nós não a compreendemos. Morre de
fome, e nós a deixamos morrer porque não a compreendemos quando ela nos
diz com o que poderíamos nutri-la. Vai morrer porque aqueles que poderiam nos
ajudar a entendê-la não querem nos transferir um minuto do tempo dos seus-
preciosos computadores, ocupados a comparar o preço do custo líquido de um
cano de cabeça octogonal com o de um de cabeça hexagonal ou a calcular a
melhor divisão dos pontos de venda de lenços de papel, segundo o sexo, a
idade e a cor dos habitantes! Olhem-na, olhem-na bem, vocês não a verão mais,
ela vai morrer... Nós, os homens de hoje, mobilizamos uma potência enorme, e
as maiores inteligências do nosso tempo, para ir buscá-la no seu sono no fundo
do gelo, para depois matá-la. Vergonha, vergonha para nós.
Calou-se um instante, e repetiu suavemente, com uma voz arrastada:

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Vergonha para nós...


John Gartner, diretor-presidente da Mecânica e Eletrônica Intercontinental,
viu a emissão a bordo do seu jato particular. Estava indo de Detroit para
Bruxelas. Dava suas instruções aos colaboradores que o acompanhavam e aos
que recebiam, ao longe, sua mensagem codificada. A trinta mil metros acima
dos Açores, tomava seu café da manhã: acabava de sorver com um canudinho a
gema de um ovo preparado num envelope esterilizado transparente. Agora
tomava seu suco de laranja com uísque.
— This boy is right* — disse. — Vergonha para nós se não fizermos alguma
coisa.
Deu ordem de pôr imediatamente à disposição de EPI-1 todos os grandes
calculadores do seu truste, que possuía sete na América, nove na Europa, três
na Ásia, e um na África.
Seus colaboradores desesperados expuseram-lhe as perturbações horríveis
que isto iria causar em todos os domínios da atividade de sua firma. Depois ele
iria precisar de meses para se reorganizar novamente. E haveria o desgaste que
ninguém poderia consertar.
— Não tem importância — disse ele. — Vergonha para nós se não fizermos
nada.
John Gartner agia naquela hora, acima de tudo, como ser humano mas
também fazia valer seu tato de grande homem de negócios. Deu instruções
para que sua decisão fosse levada ao conhecimento do mundo inteiro, por todos
os meios, o mais depressa possível.
No domínio dos negócios a popularidade e as vendas da Mecânica e
Eletrônica Intercontinental aumentaram de dezessete por cento.
Por outro lado, a decisão do presidente da M.E.I. despertou uma reação em
cadeia. Todos os grandes trustes mundiais, os centros de pesquisas, as
universidades, os Ministérios, o próprio Pentágono, e o Centro Russo de Balística
fizeram Lukos saber, nas horas que se seguiram, que seus cérebros eletrônicos
estavam à sua disposição. A única coisa que pediam, se fosse possível, era que
ele se apressasse em requisitá-los.

* Este rapaz tem razão. (Em inglês no original.) (N. do T.)

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Era uma recomendação irrisória. Todos no 612 sabiam que se lutava contra
a morte. Eléa enfraquecia de hora em hora. Aceitara experimentar outros
alimentos mas seu estômago não os retinha. E ela repetia sempre a mesma
seqüência de sons que parecia compor duas palavras, talvez três. Compreender
estas palavras, era para isso que trabalhava a totalidade da mais apurada
técnica de todas as nações.
Lá nos confins da Terra, Lukos tentou e conseguiu a mais fantástica
associação. Baseado em suas indicações, todos os grandes calculadores foram
ligados uns aos outros, por fio, sem fio, ondas-imagens e ondas-sons, com relais
em todos os satélites estacionários. Durante algumas horas, os grandes
cérebros a serviço de firmas concorrentes, estados-maiores inimigos, ideologias
opostas, de raças que se detestavam, uniram-se numa só imensa inteligência
que circundava a Terra inteira e o céu em volta dela com a rede de suas
comunicações nervosas. Trabalhavam com toda a sua capacidade inimaginável
com o único e desinteressado objetivo de compreender três palavras...
Para entender essas três palavras, era necessário compreender a língua
completamente desconhecida. Extenuados, sujos, os olhos vermelhos de sono,
os técnicos nos emissores e receptores de EPI-1 lutavam contra o tempo e
contra o impossível. Sem cessar, injetavam nos circuitos da máquina novas
fornadas de cálculos e de problemas, tudo aquilo que a tradutora já havia
examinado, além das novas hipóteses de Lukos. O cérebro genial do poliglota
turco parecia ter-se dilatado, à proporção do seu imenso homólogo eletrônico.
Comunicava-se com ele numa velocidade incrível, freada somente pelos
embaraços dos emissores e dos relais contra os quais tomava-se de cólera
furiosa. Parecia-lhe que poderia passar sem eles, e entender-se diretamente
com a mulher. Essas duas inteligências extraordinárias, a que vivia e a que
parecia viver, faziam mais do que comunicar, estavam niveladas e muito acima
dos demais. Elas se compreendiam.
Simon ia da enfermaria para a tradutora, da tradutora para a enfermaria,
impaciente, aborrecendo os técnicos extenuados que o mandavam passear, e a
Lukos, que não lhe respondia mais.

82
PDL – Projeto Democratização da Leitura

Enfim, houve um momento em que, bruscamente, tudo se tornou claro.


Entre milhares de combinações, o cérebro encontrou uma lógica e tirou
conclusões com a rapidez da luz, combinou-as, experimentou-as e, em menos
de dezessete segundos, entregou à tradutora todos os segredos da língua
desconhecida. Depois disso, o cérebro entrou em pane. Os relais
enfraqueceram, as ligações caíram, a rede nervosa que envolvia o mundo
rompeu-se e se reabsorveu. Do Grande Cérebro não restou nada a não ser seus
gânglios independentes que voltaram a ser o que eram antes, socialistas ou
capitalistas, comerciantes ou militares, ou ao serviço de interesses e de
desconfianças.
Entre as quatro paredes de alumínio da grande sala da máquina tradutora
reinava o mais absoluto silêncio. Os dois técnicos de serviço dos armários
registrares olhavam Lukos que pousava sobre a platina receptora a pequena
bobina onde estavam registradas as três palavras de Eléa. Um microfone as
havia recolhido tal como ela as pronunciava, cada vez
com menos força, cada vez com menos freqüência...
Houve um pequeno clique seco quando foi colocada no lugar. Simon, as
duas mãos apoiadas nas costas da cadeira de Lukos, impacientou-se mais uma
vez.
— E então?...
Lukos abaixou o comutador de partida. A bobina pareceu fazer um quarto
de volta, mas ela já estava vazia e o impressor fazia ruído. Lukos estendeu a
mão e arrancou a folha sobre a qual a máquina tradutora acabara de imprimir,
num microssegundo, a tradução do mistério.
Ele dava um olhar rápido no texto quando Simon arrancou-o de sua mão e
leu a tradução francesa. Consternado, balançou a cabeça e olhou para Lukos,
que tinha tido tempo de ler em albanês, inglês, alemão e árabe...
Retomou a folha e leu a continuação. Era a mesma coisa. O mesmo
absurdo em dezessete línguas. Isto não fazia mais sentido em espanhol do que
russo ou chinês. Em francês dava o seguinte:
DE COMER MÁQUINA.
Simon não tinha mais força para falar em voz alta.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Estes cérebros... — sua voz era quase um murmúrio. — Estes grandes


cérebros... de merda...
A cabeça baixa, os ombros caídos, arrastou os pés em direção à parede
mais próxima, ajoelhou-se, estendeu-se, virou as costas para a luz e dormiu,
com o nariz enfiado na parede de alumínio.
Dormiu nove minutos. Acordou bruscamente e levantou-se gritando:
— Lukos!
Lukos estava lá, introduzindo na máquina tradutora novos testes, para ler e
de decifrar as traduções dadas pelo impressor.
Eram pedaços de uma história num estilo surpreendente, que se
desenrolava num mundo tão estranho que parecia fantástico.
— Lukos — disse Simon -, será que você fez isso tudo por nada?
— Não — respondeu Lukos -, olhe... Estendeu-lhe as folhas impressas.
— É um texto, isso não são garatujas! O cérebro não é idiota, ele
compreen- deu bem a língua e a tradutora e assimilou muito bem! Vela, ela
traduziu... fielmente... exatamente...: de comer máquina.
— De comer máquina...
— Isto quer dizer alguma coisa!... ela traduziu palavras que significam
alguma coisa!... Não compreendemos porque nós é que somos idiotas!
— Pode ser... pode ser... — disse Simon. — Escute...
De repente, na esperança que renascia, começou a tratá-lo como a um
irmão...
— Você pode incluir esta língua dentro de um dos seus comprimentos de
onda? Não tenho nenhum livre...
— Libere um! Suprima uma língua!
— Qual?
— Qualquer uma! O coreano, o tcheco, o sudanês ou o francês!
— Eles ficarão furiosos!
— Azar, azar, AZAR para as suas raivas! Você acha que é o momento da
gente se preocupar por criar uma raiva nacional?
— Ionescu!
— O quê?

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Ionescu... Ele morreu... era o único que falava o romeno. Suprima o


romeno e eu pego a sua onda.
Lukos levantou-se, sua cadeira de aço pareceu gemer de alegria.
— Alô!
O gigante turco gritava no interfone, à meia parede:
— Alô, Haka! Você está dormindo, bom Deus!
Berrou e começou a insultar em turco. Uma voz sonolenta respondeu.
Lukos deu-lhe instruções em inglês e depois virou-se para Simon:
— Estará pronto dentro de dois minutos... Simon atirou-se em direção à
porta.
— Espere! — disse Lukos.
Abriu um armário, pegou uma caixinha com um emissor e um auscultador
de orelha, com as cores romenas e deu-o a Simon.
— Leve para ela...
Simon apanhou os dois instrumentos minúsculos.
— Preste atenção — disse ele — para que a sua maquininha não comece a
berrar dentro dos tímpanos dela.
— Eu prometo - retrucou Lukos. — Supervisionarei... um sussurro... nada
mais que um sussurro...
Pegou nas suas mãos duras como tijolos as mãos daquele que tinha se
tornado seu amigo durante essas últimas horas comuns de esforços
monstruosos e apertou-as carinhosamente.
— Eu prometo... Pode ir.
Alguns minutos mais tarde, Simon entrava no quarto de Eléa, depois de ter
alertado Lebeau que fora por sua vez chamar Hoover e Leonova.
A enfermeira que estava sentada à cabeceira de Eléa, lia um romance da
coleção sentimental. Levantou-se vendo a porta abrir e fez sinal a Simon para
entrar em silêncio. Tomou um ar profissional preocupado para olhar o rosto de
Eléa. Na realidade ela pouco se importava, estava ainda pensando no seu livro,
a confissão desesperada de uma mulher abandonada pela terceira vez; sofria
junto com a heroína da novela e maldizia os homens, inclusive aquele que
acabava de entrar.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Simon inclinou-se para Eléa cujo rosto abatido pela desnutrição havia se
tornado muito pálido. Suas narinas estavam quase translúcidas. Seus olhos
fechados. A respiração apenas erguia o peito. Chamou docemente pelo seu
nome.
— Eléa... Eléa...
Suas pálpebras tremeram ligeiramente. Ela estava consciente. Ela o ouvia.
Leonova entrou seguida de Lebeau e de Hoover que tinha uma pilha de
fotografias ampliadas. Mostrou-as de longe a Simon. Este fez um gesto de
aquiescência com a cabeça, e pareceu dar novamente toda a sua atenção a
Eléa. Colocou um microemissor sobre o lençol azul, bem perto do cabelo,
descobrindo a orelha esquerda semelhante a uma flor pálida, e introduziu
delicadamente o aparelho de escutar dentro da sombra rosa do conduto
auditivo.
Ela esboçou um reflexo para sacudir a cabeça e rejeitar o que lhe parecia
ser o prenúncio de uma nova tortura. Mas desistiu, esgotada.
Simon logo falou, para acalmá-la. Disse muito baixo, em francês:
— Você me compreende... Agora você me compreende!...
E no ouvido de Eléa soou uma voz masculina que cochichava no seu
ouvido:
— Agora você me compreende... você me compreende... e eu posso
compreendê-la...
Aqueles que a olhavam viram sua respiração parar, depois recomeçar.
Leonova, cheia de compaixão, aproximou-se do leito, pegou a mão de Eléa e
começou a falar-lhe em russo com todo o calor do seu coração.
Simon ergueu a cabeça, olhou-a com olhos ferozes, e fez um sinal para que
ela se afastasse. Leonova obedeceu, um pouco espantada. Simon estendeu a
mão para as fotografias. Hoover alcançou-as.
Percorreu o ouvido esquerdo de Eléa num tom suave de compaixão
recitado a toda velocidade por uma voz feminina que ela compreendia. No seu
ouvido direito uma torrente pedregosa que ela não compreendia; depois, o
silêncio. E em seguida a voz masculina recomeçou:
— Você pode abrir os olhos?... Você pode abrir os olhos?... Tente... Ele
calou-se. Eles a olharam. Suas pálpebras tremiam.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Tente... mais uma vez... somos seus amigos... coragem... E os olhos se


abriram.
Não conseguiram se acostumar. Não era possível se acostumar. Nunca
haviam visto olhos tão grandes, de um azul tão profundo. Tinham empalidecido
um pouco, não era mais aquele azul do fundo da noite, mas sim um azul de
depois do crepúsculo, do lado onde a noite vem, depois da tempestade, quando
o grande vento lava o céu com suas vagas. E os peixes de ouro aí ficaram
presos.
— Olhe!... olhe!... — dizia a voz. — Onde está a máquina de comer? Diante
de seus olhos, duas mãos seguravam uma imagem, substituíam-na por uma
outra, uma outra... Eram imagens reproduzidas dos objetos que lhe eram
familiares.
— Máquina de comer?... onde está a máquina de comer? Comer? viver? Por
quê? Para quê?
— Olhe!... olhe!... onde está a máquina de comer?... onde está a máquina
de comer?
Dormir... esquecer... morrer.
— Não! Não feche os olhos! Olhe!... olhe mais uma vez... são os objetos
que encontramos com você... um deles deve ser a máquina de comer... Olhe!...
Vou mostrá-los mais uma vez... se você vir a máquina de comer, feche os olhos
e depois abra-os...
Na sexta fotografia ela fechou os olhos e os reabriu.
— Rápido! — disse Simon.
Estendeu a fotografia a Hoover que se precipitou para fora do quarto com a
velocidade de um raio.
Era um dos objetos que ainda não tinham sido examinados e havia sido
guardado nas prateleiras ao lado da arma.

É bom explicar rapidamente o que tornou tão difícil decifrar e compreender


a língua de Eléa. É que na realidade não era uma língua — e sim duas: a língua
feminina e a língua masculina, totalmente diferentes uma da outra tanto na sua
sintaxe quanto no vocabulário. Bem entendido, os homens e as mulheres
compreendiam uma e outra, mas os homens falavam a língua masculina que

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

possuía gêneros próprios e as mulheres falavam a língua feminina que tinha,


por sua vez, feminino e masculino distintos. E na escrita, às vezes a língua
masculina e às vezes a língua feminina eram empregadas segundo a hora, a
estação ou o lugar onde se passava a ação, segundo também a cor, a agitação,
a temperatura, a calma, a montanha ou o mar. Outras vezes as duas línguas se
misturavam no seu emprego.
É difícil dar um exemplo da diferença entre a língua masculina e a língua
feminina, visto que dois terços equivalentes não podiam ser traduzidos a não
ser pela mesma palavra. O homem diria: "Que será sem espinhos", a mulher
diria: "pétalas do sol poente" e um e outro compreenderiam que se tratava de
uma rosa. É um exemplo aproximativo: no tempo de Eléa os homens ainda não
haviam inventado a rosa.
"De comer máquina". Eram três palavras, mas, segundo a lógica da língua
de Eléa, era também uma só palavra, o que em gramática portuguesa seria
chamada de um "substantivo" e que servia para designar "o-que-é-o-produto-
da-máquina-de-comer". A máquina de comer era a-máquina-que-produz-o-que-
se-come.
A máquina estava pousada sobre o leito, diante de Eléa, que haviam
ajudado a sentar e que se sustentava apoiada em travesseiros. Haviam lhe
dado "roupas" encontradas nas prateleiras, mas ela não tinha tido força para
vesti-las. Uma enfermeira tinha querido vestir-lhe um suéter, mas ela teve um
gesto de recuo e no seu rosto surgiu uma tal expressão de repulsa que não
haviam insistido. Tinham-na deixado nua. Seu busto emagrecido, seus
pequenos seios apontados para o céu, eram de uma beleza quase espiritual,
sobrenatural. Para que ela não tivesse frio, Simon havia aumentado a
temperatura do quarto. Hoover transpirava como um bloco de gelo sobre uma
grelha. Já havia molhado sua camisa, mas as camisas dos outros também
estavam prontas para ser torcidas. Uma enfermeira distribuiu guardanapos
brancos para enxugar os rostos. As câmaras estavam lá. Uma delas mostrou em
primeiro plano a máquina de comer.
Era uma espécie de meia-esfera verde, salpicada de um grande número de
botões coloridos, dispostos em espiral, indo do cimo até a base, e que
reproduziam, em várias centenas de nuançes diferentes, todas as cores do

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

espectro. No alto encontrava-se um botão branco. A base repousava sobre um


pedestal em forma de cilindro pequeno. O conjunto tinha o volume e o peso de
uma metade de melancia. Eléa tentou erguer sua mão esquerda. Não
conseguiu. Uma enfermeira quis ajudá-la. Simon afastou-a e tomou a mão de
Eléa na sua.
Grande primeiro plano da mão de Simon segurando a mão de Eléa e
conduzindo-a em direção da máquina-de-comer.
Primeiro plano do rosto de Eléa. Seus olhos. Lanson não podia se desviar.
Tinha sempre uma ou outra de suas câmaras obedecendo a seu impulso semi
inconsciente, voltando a se fixar sobre a insondável noite desses olhos de
outros tempos. Ele não os enviava para a antena. Guardava-os numa tela de
controle. Só para ele.
A mão de Eléa pousou no cimo da esfera. Simon a guiava como a um
pássaro. Ela tinha vontade, mas não tinha força. Ele sentia onde ela queria ir, e
o que queria fazer. Ela o guiava, ele a conduzia. O longo dedo indicador pousou
sobre o botão branco, depois tocou os botões de cor, daqui, dali, de cima, de
baixo, do meio...
Hoover anotava as cores num envelope úmido tirado do seu bolso. Mas não
tinha nem um nome para diferenciar os três tons de amarelo que ela tocou um
após o outro. Desistiu.
Ela voltou para o botão branco. Descansou aí, quis apoiar-se, não
conseguiu. Simon ajudou-a. Mal o botão afundou-se, houve um ligeiro barulho, e
pela abertura um pequeno prato de ouro retangular caiu. Continha cinco
esférulas de matéria translúcida, vagamente rosada, um minúsculo garfo de
ouro, com dois dentes.
Simon pegou o garfo e espetou uma das pequenas esferas. Esta ofereceu
ligeira resistência, depois se deixou traspassar como uma cereja. Ele levou-a
para os lábios de Eléa...
Ela abriu a boca com esforço. Foi sacrifício fechá-la sobre o alimento. Não
fez nenhum movimento de mastigação. Adivinhou-se que a esfera devia estar
se fundindo na sua boca. Depois a laringe subiu e desceu, visível na garganta
emagrecida.
Simon enxugou o rosto, alcançou-lhe a segunda esférula...

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Alguns minutos mais tarde, ela utilizou sem ajuda a máquina-de-comer.


Tocou levemente alguns botões diferentes, obteve esferas azuis, absorveu-as
rapidamente, repousou alguns minutos, depois acionou novamente a máquina.
Recuperava as forças com uma rapidez incrível. Parecia que ela pedia à
máquina mais do que alimento: o que era necessário para tirá-la imediatamente
do estado de fraqueza no qual se encontrava. Tocava em botões diferentes,
obtendo de cada vez um número diferente de esferas de cores variadas. Ela as
absorvia, bebia água, respirava profundamente, descansava alguns minutos e
recomeçava.
Todos os que estavam no quarto, e aqueles que seguiam a cena sobre a
tela da Sala de Conferências, viam literalmente a vida refluir, seu busto
desabrochar seu rosto se encher, seus olhos retomarem a antiga cor profunda.
Máquina-de-comer: era uma máquina para dar comida. Talvez fosse
também uma máquina para curar.
Os sábios de todas as categorias ferviam de impaciência. As duas amostras
da civilização antiga, que eles tinham visto se manifestar — a arma e a
máquina-de-comer — excitavam loucamente sua imaginação. Ardiam de
impaciência para interrogar Eléa e abrir esta máquina, que, pelo menos ela, não
era perigosa.
Quanto aos jornalistas, depois da morte de Ionescu que lhes havia
fornecido sensação para todas as ondas e todos os jornais, eles viam com
encantamento, a máquina de comer e seus efeitos sobre Eléa, como uma nova
fonte de informação não menos extraordinária, porém desta vez mais otimista.
Sempre o inesperado, o branco depois do negro; esta expedição era
decididamente um bom negócio jornalístico.
Eléa, enfim, afastou a máquina, e olhou todos aqueles que a cercavam. Fez
um esforço para falar. Este foi apenas audível. Recomeçou e cada um ouviu na
sua própria língua:
— Vocês me compreendem?
— Sim, oui, yes, da...
Eles balançavam a cabeça — sim, sim — eles compreendiam.
— Quem são vocês?
— Amigos — disse Simon.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Mas Leonova não se agüentou. Ela pensava numa distribuição geral de


máquinas-de-comer aos povos pobres, às crianças esfomeadas. Perguntou
vivamente:
— Como funciona isto? O que que você põe lá dentro?
Eléa pareceu não compreender, ou então considerar essas perguntas como
um barulho feito por crianças. Seguiu seu próprio raciocínio. Perguntou:
— Nós devíamos ser dois no abrigo. Eu estava sozinha?
— Não — disse Simon -, vocês eram dois. Você e um homem.
— Onde está ele? Está morto?
— Não, ainda não foi reanimado. Começamos por você.
Eléa calou-se um instante. Parecia que a notícia em vez de alegrá-la
despertava-lhe certa tristeza.
Ela respirou profundamente e disse:
— Ele é Coban. Eu sou Eléa. Perguntou de novo:
— Vocês... quem são vocês?
E Simon não encontrou outra coisa para responder:
— Somos amigos...
— De onde vocês vêm?
— Do mundo inteiro... Isto pareceu surpreendê-la.
Do mundo inteiro? Não compreendo. Vocês são de Gondawa?
— Não.
De Enisorai?
— Não.
— De onde vocês vêm?
— Eu venho da França, ela da Rússia, ele da América, ele da França, ele
da Holanda e...
— Não compreendo... Agora será que existe a paz?
— Hum — fez Hoover.
— Não! — disse Leonova — os imperialistas...
— Cale a boca! — ordenou Simon.
— Somos obrigados — disse Hoover — a nos defender contra.
— Saiam! Saiam! Deixem-nos sozinhos, nós os médicos!... Hoover
desculpou-se:

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Somos uns estúpidos!... desculpe... mas eu fico... Simon virou-se para


Eléa:
— O que eles disseram não quer dizer nada. Sim, agora reina a paz...
estamos em paz, você está em paz. Você não tem nada a temer...
Eléa deu um profundo suspiro de alívio. Mas foi com certa apreensão visível
que formulou a pergunta seguinte:
— Vocês têm notícias... notícias dos Grandes Abrigos? Eles agüentaram?
Simon respondeu:
— Não sabemos. Não temos notícias.
Eléa o olhou com atenção para ter certeza de que ele não mentia. Simon
compreendeu que não poderia jamais lhe dizer outra coisa senão a verdade.
Ela começou uma sílaba, depois parou. Queria fazer uma pergunta mas não
ousava, porque tinha medo da resposta.
Olhou para todos, depois para Simon sozinho e perguntou, muito
docemente:
— Paikan?
Houve um curto silêncio, depois um clique nas orelhas e a voz neutra da
tradutora — aquela que não era nem voz de homem nem voz de mulher — falou
em dezessete línguas nos dezessete canais:
— A palavra Paikan não figura no vocabulário que me foi injetado e não
corresponde a nenhuma possibilidade lógica de neologismo. Tomo a liberdade
de supor que se trate de um nome.
Eléa ouviu também, na sua língua.
— Mas é claro que é um nome — disse ela. — Onde está ele? Vocês têm
notícias dele?
Simon olhou-a gravemente.
— Não temos notícias dele... Quanto tempo pensa que dormiu? Ela olhou-o
com inquietação.
— Alguns dias — respondeu ela.
— Mais... — disse Simon.
De novo, o olhar de Eléa examinou a decoração ao redor e os personagens
que a cercavam. Encontrou o expatriamento do seu primeiro acordar, tudo

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

insólito, como um pesadelo. Mas ela não podia aceitar a explicação inverossímil.
Devia haver uma outra. Tentou apegar-se ao impossível.
— Dormi quanto tempo?... Semanas?... Meses?...
A voz neutra da tradutora interveio novamente:
— Traduzo aqui aproximadamente. A não ser o dia e o ano, as medidas de
tempo que me foram injetadas são totalmente diferentes das nossas. São
igualmente diferentes para os homens e para as mulheres. Diferentes para o
cálculo e para a vida normal, diferentes segundo as estações, e diferentes
segundo a vida e o sono.
— Mais... — disse Simon — muito mais... Você dormiu durante...
— Atenção, Simon! — gritou Lebeau.
Simon parou e refletiu alguns segundos, preocupado, olhando Eléa. Depois
virou-se para Lebeau:
— Você pensa?
— Tenho medo... — disse Lebeau. Eléa, ansiosa, repetiu sua pergunta:
— Dormi durante quanto tempo? Você compreende a minha pergunta?...
Desejo saber quanto tempo dormi... desejo saber...
— Nós compreendemos — respondeu Simon. Ela calou-se.
— Você dormiu...
Lebeau interrompeu novamente:
— Não estou de acordo!
Colocou a mão sobre o seu microfone para que as palavras não chegassem
até a tradutora e sua tradução aos ouvidos de Eléa.
— Você vai lhe dar um choque terrível. É melhor dizer-lhe pouco a pouco...
Simon estava sério. Franzia as sobrancelhas com ar de teimosia.
— Não sou contra o choque — disse ele também fechando o seu microfone
com a palma da mão. — Em psicoterapia preferimos o choque e nunca a
mentira que envenena. E creio que ela agora está bastante forte...
— Desejo saber... — recomeçou Eléa.
Simon virou-se para ela. Disse-lhe abruptamente:
— Você dormiu durante novecentos mil anos.
Ela o olhou com estupefação. Simon não lhe deu tempo para refletir.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Isto pode lhe parecer extraordinário. A nós também. Mas no entanto é a


verdade. A enfermeira lerá para você o relatório da nossa expedição, que a
encontrou no fundo de um continente gelado, e o dos laboratórios que medi-
ram, através de diversos métodos, o tempo em que você aí passou...
Ele falava num tom diferente, escolar, militar, e a voz da tradutora calcava-
se na sua, calma, indiferente no fundo do ouvido esquerdo de Eléa.
— Esta quantidade de tempo não tem medida comum com a duração da
vida de um homem, e mesmo de uma civilização. Não resta nada do mundo em
que você viveu. Nem mesmo sua lembrança. É como se você tivesse sido
transportada a outro extremo do Universo. Você deve aceitar essa idéia, aceitar
os fatos, aceitar o mundo onde você acordou, e onde tem somente amigos.
Mas ela não o ouvia mais. Ela tinha se afastado. Separado da voz no seu
ouvido, desse rosto que lhe falava, desses rostos que a olhavam, desse mundo
que a acolhia. Tudo isto se afastava, se apagava, desaparecia. Restava apenas
a abominável certeza — mas ela sabia que ele não tinha mentido — a certeza
do abismo através do qual ela tinha sido projetada, longe de TUDO o que era a
sua própria vida. Longe de...
— PAIKAN!...
Berrando seu nome, ela endireitou-se na cama, nua, selvagem, soberba e
tensa como uma fera acossada.
As enfermeiras e Simon tentaram retê-la. Ela lhes escapou, saltou do leito
gritando:
— PAIKAN!...
Correu em direção à porta, passando no meio dos médicos: Zabre tentou
segurá-la, recebeu uma cotovelada no estômago e a deixou partir enquanto ele
cuspia sangue. Hoover foi empurrado contra a parede; Forster recebeu, no seu
braço esticado em direção a ela, um golpe tão duro que pensou que tivesse um
osso quebrado. Ela abriu a porta e saiu.
Os jornalistas que seguiam a cena sobre a tela da Sala de Conferências,
correram para a Avenida Amundsen. Viram a porta da enfermaria se abrir
bruscamente e Eléa correr como uma louca, como um antílope que vai ser
agarrado por um leão, em direção a eles. Fizeram uma barreira. Ela chegou sem
vê-los. Gritava uma palavra que eles não compreendiam. As lâmpadas duplas

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

dos flashes de laser espocaram em toda a linha dos fotógrafos. Ela passou
através, derrubando três homens com seus aparelhos. Corria em direção à
saída. Chegou aí antes que alguém a segurasse, no momento em que a porta
de correr se abria para deixar entrar um carregamento de alimentos, conduzido
por um chofer de macacão forrado da cabeça aos pés.
Do lado de fora, havia uma tempestade branca, um nevoeiro denso. Louca
de angústia, cega, nua, atirou-se nas navalhas do vento. O vento enfiou-se na
sua carne, ergueu-a e levou-a nos seus braços para a morte. Ela se debateu,
retomou pé, bateu no vento com seus punhos e com sua cabeça, arrancou-o do
seu peito gritando mais forte que a tempestade. O vento e a neve entraram-lhe
na boca e apagaram-lhe o grito que nascia na sua garganta.
Ela caiu.
Os homens a recolheram um segundo depois e a transportaram.
— Eu bem que havia dito — disse Lebeau a Simon, com uma severidade
que temperava à satisfação de ter tido razão.
Simon, triste, olhava ás enfermeiras agindo, friccionando Eléa inconsciente.
— Paikan... — murmurou.
— Ela deve estar apaixonada — disse Leonova. Hoover caçoou:
— De um homem que ela deixou a novecentos mil anos!...
— Que ela deixou ontem... — disse Simon. — O sono não tem duração... e
durante a curta noite, a eternidade interpôs-se entre eles!
— Infeliz... — murmurou Leonova.
— Eu não podia saber — disse Simon baixinho.
— Meu filho — acrescentou Lebeau -, em medicina, aquilo que não
sabemos devemos supor...

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Compreendi tudo.
Olhando para os teus lábios, notei que eles estremeceram de amor à
passagem daquele nome.
Então eu quis te separar dele, o mais breve possível, brutalmente. Quis
que soubesses que ele estava acabado, que nada restava dele, nem mesmo um
grão de poeira, mil vezes levado pelos mares e pelos ventos, nada mais dele e
nem do teu passado. Nada de nada... Que as tuas lembranças eram tiradas do
vazio. Que atrás de ti havia somente escuridão; que a luz, a esperança e a vida
estavam no nosso presente, conosco. Destruí todo o teu passado de um só
golpe. Eu te fiz mal.
Mas tu, pronunciando aquele nome, tu foste a primeira a destruir.
Destruías o meu coração.
Os médicos esperavam que ela fosse atacada por uma pneumonia ou
alguma outra conseqüência da ação do frio. Mas Eléa não teve nada. Nem
tosse, nem febre, nem a menor vermelhidão sobre a pele.
Quando voltou a ficar, consciente, viram que havia assimilado o choque e
superado todas as suas emoções. Não havia mais sobre o seu rosto aquela
expressão petrificada de uma indiferença total, semelhante a de um condenado
à prisão perpétua, no momento em que entra na cela da qual sabe que não
sairá jamais. Ela sabia que lhe haviam dito a verdade. Portanto quis ter provas.
Pediu para ouvir o relatório da Expedição e quando a enfermeira começou a lê-
lo, fez um gesto com a mão para afastá-la, dizendo:
— Simon...
Simon não estava no quarto.
Depois da sua intervenção brutal, que tinha terminado de maneira tão
desastrosa, os reanimadores julgaram-no perigoso e o proibiram de se ocupar
de Eléa.
— Simon... Simon... — repetia ela.
Procurava com o olhar por todos os cantos da peça. Desde que abrira os
olhos, ela o havia sempre visto ao seu lado, estava acostumada com seu rosto,
com sua voz, com o cuidado dos seus gestos. E era ele quem lhe havia dito a

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

verdade. Neste mundo desconhecido, no fim desta viagem apavorante, ele era
um elemento já familiar, um apoio contra o medo que a assaltava.
— Simon...
— Creio que é melhor mandar buscá-lo — disse Moissov.
Simon veio e começou a ler. Depois chegou no momento da descoberta o
casal em hibernação, ela ergueu a mão para que ele se calasse, e disse:
— Eu sou Eléa, ele é Coban. É o maior sábio de Gondawa. Ele sabe tudo.
Gondawa é o nosso país.
Calou-se um instante. Depois acrescentou com uma voz muito baixa, que a
tradutora mal pôde ouvir:
— Gostaria de morrer em Gondawa.
Durante o desmaio de Eléa, Hoover, sem o menor escrúpulo, havia
manipulado a máquina de comer. Ele também estava, bem como todos aqueles
que a viram funcionar sobre a tela, ansioso para saber a partir de quais
matérias-primas ela fabricava as diferentes espécies de alimentos que, em
pouco tempo, haviam dada a Eléa forças para lutar contra uma dúzia de
homens, a fim de se precipitar na tempestade.
Sobre a superfície lisa da esfera e do cilindro, havia somente uma saída
possível, um só ponto de comando e de manipulação: o botão branco do centro.
Sob os olhos horrorizados de Leonova, Hoover o havia pressionado, virado
para a esquerda, para a direita, puxado para cima e outra vez para a esquerda.
O que ele esperava aconteceu: a calota da semi-esfera ergueu-se como
uma campânula de queijo, descobrindo o interior da máquina.
Esta, colocada sobre uma pequena mesa sanitária, revelou seu mistério
aos olhos de todos, e, todavia, tornou-se ainda mais misteriosa. Pois todo o
interior da meia-esfera era ocupado por um mecanismo incompreensível que
não se parecia com nenhuma outra montagem mecânica ou eletrônica. Dava
mais a impressão de uma maquete de metal do sistema nervoso. E em parte
alguma havia lugar para a menor matéria-prima, fosse ela em pedaços, em
grão, em poeira ou líquido.
Hoover ergueu a máquina, sacudiu-a, olhou-a sob todos os ângulos, fez a
luz bater em cheio naquele emaranhado de ouro e de aço. Em seguida, passou-
a a Leonova e Rochefoux que a olharam por sua vez de todas as maneiras

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

possíveis que se olha um objeto aberto, tal um despertador sem sua caixa. Não
havia em parte alguma, qualquer vestígio de lugar que comportasse sais
minerais, açúcar, pimenta, carne e peixe. Visivelmente, logicamente,
absurdamente, esta máquina fabricava alimentos a partir do nada...
Hoover, tendo recolocado a calota hemisférica no lugar, fez os mesmos
gestos que havia visto Eléa fazer e obteve o mesmo resultado: uma pequena
gaveta se abriu e ofereceu esférulas verde-claras. Hoover hesitou um instante,
depois pegou o garfo de ouro, picou uma esfera e colocou-a na boca. Esperava
uma surpresa extraordinária. Ficou desapontado: não tinha gosto definido e não
era particularmente agradável. Fazia pensar em leite coalhado no qual teriam
mergulhado uma limalha de ferro. Ofereceu a Leonova, que recusou.
— Seria melhor — disse ela — você mandar examiná-las.
Era o bom senso científico que falava por sua boca. Envoltas numa folha de
plástico, as esférulas foram enviadas para o laboratório de análise.
Veio o primeiro resultado, que não revelou nada de extraordinário. Havia
proteínas, corpos gordurosos, glicose, uma quantidade de sais minerais,
vitaminas e oligo-elementos misturados nas moléculas semelhantes às do
amido.
Depois houve uma retificação. Uma análise mais profunda havia
descoberto algumas moléculas quase do tamanho das existentes nas células.
Depois uma segunda retificação: essas moléculas se reproduziam!
Portanto, a partir do nada, a máquina de comer fabricava não somente a
matéria nutritiva, mas também a matéria análoga à da matéria viva.
Tudo aquilo era incrível!
Logo que Eléa aceitou esclarecer suas dúvidas, os cientistas se
acotovelaram em torno dela e a crivaram de perguntas:
— Como funciona a máquina de comer?
— Vocês viram.
— Mas, no interior?
— No interior ela fabrica o alimento.
— Fabrica com quê?
— Com o Todo.
— O Todo? O que é o Todo?

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Vocês bem sabem... é isto que vocês fabricam também...


— O Todo... o Todo... não há outro nome para o Todo?
Eléa pronunciou três nomes e se ouviu em seguida a voz impessoal da
máquina tradutora:
— "As palavras que acabam de ser pronunciadas no canal onze não
figuram no vocabulário que me foi programado. No entanto, por analogia, creio
poder propor a tradução aproximativa seguinte: energia universal. Ou talvez:
essência universal. Ou ainda: vida universal. Mas estas duas últimas idéias me
parecem um pouco abstratas. A primeira é sem dúvida a mais próxima do
sentido original. Seria necessário, para ser justo, nela incluir as duas outras".
Energia!... A máquina fabricava a matéria a partir da energia! Não era
impossível admitir isso, no estado atual dos conhecimentos científicos e da
técnica. Mas seria necessário mobilizar uma quantidade fabulosa de eletricidade
para obter uma partícula invisível, intocável e que despareceria logo que
surgisse.
Entretanto, aquela estranha máquina, que tinha a aparência de um
brinquedo de criança, tirava do nada, com a maior simplicidade, o alimento que
lhe fosse pedido.
Lebeau teve que acalmar a impaciência dos sábios, cujas perguntas se
multiplicavam no cérebro da tradutora.
— Você conhece o mecanismo do seu funcionamento?
— Não. Coban sabe.
— Você conhece ao menos o princípio?
— Seu funcionamento é baseado na equação universal de Zoran...
Com os olhos ela procurava alguma coisa que pudesse ajudá-la a explicar
melhor o que queria dizer. Viu Hoover que tomava notas nas margens de um
jornal. Estendeu-lhe a mão. Hoover alcançou-lhe o jornal e a caneta. Leonova,
adiantando-se, substituiu o jornal por um bloco de papel virgem.
Com a mão esquerda, Eléa tentou escrever, desenhar, traçar alguma coisa.
Não conseguiu. Irritou-se. Jogou a caneta e pediu à enfermeira:
— Dê-me o seu... seu...
Imitava o gesto que ela havia visto fazer várias vezes, o de passar um
batom nos lábios. Espantada, a enfermeira o estendeu.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Então com um só traço leve, Eléa desenhou sobre o papel um elemento em


espiral, que cortava uma reta vertical e que continha dois traços curtos.

Estendeu o papel a Hoover.

— Isto é a equação de Zoran, que se lê de duas maneiras. É lida em


linguagem corrente e em termos de matemática universal.
— Você pode lê-la? — perguntou Leonova.
— Em linguagem corrente significa: "O que não existe existe".
— E da outra maneira?
— Eu não sei. Coban sabe.
Conforme o compromisso assumido, os sábios do EPI comunicaram a todas
as nações do mundo o que haviam conseguido e ainda tudo aquilo que
esperavam saber. A língua gonda já eslava sendo estudada em numerosas
universidades, e a humanidade inteira sabia que estava às vésperas de uma
transformação extraordinária. O homem adormecido e que ia ser acordado
explicaria a equação de Zoran que permitiria retirar do seio da energia universal
os meios para vestir aqueles que estavam nus e alimentar os que tinham fome.
Não haveria mais conflitos por causa de matérias-primas, nem mais guerra do
petróleo, nem mais batalhas pelas regiões férteis. O Todo ia resolver tudo
graças à equação de Zoran. O sábio Coban ia acordar e indicar o que era
necessário fazer para que a miséria, a fome e a tristeza dos homens
desaparecessem para sempre.
Os trabalhos de reanimação foram marcados para o dia seguinte. A sala de
operação tinha sido reconstruída, os últimos aparelhos acabaram de chegar,

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

substituindo os que haviam sido destruídos. A equipe de técnicos apressava-se


a pô-los no lugar e a testá-los.
A tempestade tinha acalmado. O vento soprava ainda, mas sem a fúria
anterior. Naquela latitude ele sopra sempre, e quando não ultrapassa 150
quilômetros a hora, é uma brisa carinhosa. No céu sem nuvens, cor azul-
ardósia, o sol vermelho arrastava-se no horizonte. Estrelas enormes, afiadas
pelo vento, furavam a cúpula celeste.
Dois homens que tinham trabalhado até tarde na esfera, saíram do
elevador. Eram Brivaux e seu assistente. Estavam exaustos, desejavam ir
descansar e dormir. Tinham sido os últimos a subir. Não havia mais ninguém lá
embaixo.
Brivaux fechou a porta do elevador a chave. Saíram do edifício de muros de
neve e blasfemando enfiaram-se no vento.
No prédio vazio e negro, uma mancha redonda de luz acendeu-se. Por trás
da pilha de caixas de onde haviam retirado os últimos aparelhos recém-
chegados, um homem agachado endireitou-se, batendo os dentes. Na sua mão
a lanterna elétrica tremia. Ele estava lá há mais de uma hora, esperando a
subida dos últimos técnicos, e, apesar do seu macacão polar, estava mordido
pelo frio até os ossos.
Dirigiu-se até o elevador, tirou do bolso um pequeno molho de chaves
achatadas e começou a experimentá-las uma a uma. Não conseguiu nada,
tremia demais. Descalçou as luvas, soprou seus dedos entorpecidos, bateu no
corpo com os braços e deu alguns pulos sobre o mesmo lugar. O sangue
começou a circular. Retomou o molho de chaves. Encontrou finalmente a chave
certa. Entrou no elevador e apertou o botão de descida.
Na enfermaria, Simon olhava Eléa dormir. Não a deixava mais. No
momento em que ele se afastava, ela o reclamava. À indiferença glacial em que
ela se havia instalado, se juntava, quando ele não estava presente, uma
ansiedade física da qual ela exigia ser imediatamente libertada.
Ele estava lá, ela podia dormir. A enfermeira de plantão dormia também,
numa cama flexível. De uma lâmpada azul, acima da porta, vinha uma claridade
muito suave. Nessa quase noite apenas luminosa, Simon olhava Eléa dormir.
Seus braços repousavam estendidos sobre a coberta. Ela tinha acabado por

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

aceitar vestir um pijama de flanela, meio grande porém confortável. Sua


respiração era calma e lenta, seu rosto sério. Simon inclinou-se, aproximou seus
lábios a longa mão de longos dedos, quase a tocou.
Depois foi para o leito vazio, estendeu-se, puxou sobre si uma coberta,
suspirou de felicidade, e adormeceu.
O homem havia entrado na sala de reanimação. Foi direto para um
pequeno armário metálico, e o abriu. Sobre uma prateleira encontravam-se os
papéis. Folheou-os, arrancando de passagem algumas páginas que fotografou
com um aparelho que trazia preso ao ombro e colocou-os de volta no lugar.
Depois dirigiu-se para o aparelho receptor de tevê que montava guarda no
local. Sua tela mostrava permanentemente o interior do ovo. A nova câmara,
sensível aos infravermelho, iluminava a bruma. Ele viu muito claramente o
homem no seu bloco de hélio quase intacto e o pedestal que havia sustentado
Eléa. O lado do pedestal continuava aberto, e sobre as prateleiras repousavam
ainda alguns objetos que Eléa não havia reclamado.
O homem acionou os botões de telecomando da câmara. Conseguiu que o
pedestal aberto ficasse bem dentro do quarto. Acionou o zoom e finalmente
reconheceu, em primeiro plano, o que ele procurava: a arma.
Sorriu de satisfação e resolveu descer ao interior do ovo. Sabia que lá
reinava um frio perigoso. Não tinha podido procurar um macacão de astronauta,
por isso teria que fazer tudo muito rapidamente. Saiu da sala de operação. À
sua volta, o interior da esfera, fracamente iluminado, parecia o esqueleto de um
gigante pássaro surrealista, meio afogado na noite do inconsciente. A fim de
afastar a ameaça do silêncio total, o homem voluntariamente tossiu. O barulho
da sua tosse encheu a esfera como um relâmpago, rasgou-se nas bordas das
traves e dos arcos, chocou-se no casulo, e voltou para ele em milhares de
fragmentos de ruídos agudos, agressivos.
Afundou bruscamente seu capacete até as orelhas, envolveu o pescoço
numa grossa êcharpes e calçou suas luvas forradas enquanto descia a escada
de ouro. Um dispositivo elétrico permitia-lhe ver a porta do ovo, que se levantou
como uma concha quando ele apertou o botão. Escorregou para o interior. A
porta se fechou atrás dele.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Ficou surpreendido pela bruma que a câmara infravermelha não lhe havia
mostrado. Ela era tingida de um azul irreal pela luz que subia do motor imóvel
através do solo transparente e da coberta de neve fofa e azulada. De lanterna
na mão, precedido por um círculo de luz branca e opaca, desceu com precaução
a escada. Sentiu, à medida que descia, o frio atroz a lhe morder as canelas, a
barriga das pernas, o joelho, as coxas, o ventre, o peito, a garganta, o crânio...
Era preciso andar depressa, depressa. Seu pé direito atingiu o solo coberto
de neve. Firmando-se com os pés, deu um passo à esquerda, e inspirou pela
primeira vez. Seus pulmões gelaram em bloco, transformados em pedra. Quis
gritar, abriu a boca. Sua língua gelou, seus dentes caíram. O interior dos seus
olhos se dilatou e tornou-se sólido, empurrando as íris para fora. Ainda teve
tempo, antes de morrer, de sentir o frio esmagar-lhe os testículos, e seu cérebro
gelar. A lanterna apagou-se. Tudo tornou-se silêncio, ele caiu para frente, na
neve azul. Ao tocar o solo, seu nariz se quebrou. A poeira da neve, erguida
durante um instante numa nuvem ligeira e luminosa, recaiu e o cobriu.
De manhã, o operador de câmara que se aproximou do receptor da sala
operatória, espantou-se de encontrar sobre a tela, em vez do plano geral do
ovo, a arma em primeiro plano.
— Por aqui andou algum cara metendo a mão no meu pudim! — disse ele. -
Vai ver que são esses eletricistas! Vou dar uns bons trancos quando eles
descerem, esses idiotas!
Sempre resmungando, manipulou os comandos para trazer de volta o plano
geral. Foi assim que ele viu entrar, por baixo da tela, uma mão enluvada que
saía da neve, os dedos separados.
Quando os homens de capacetes, vestidos com seus macacões espaciais,
tiraram o cadáver para fora do seu caixão de neve fina, apesar de todas as
precauções seu braço direito partiu-se em pedaços, como uma folha seca.
— Estou desolado — disse Rochefoux aos jornalistas e fotógrafos reunidos
na Sala de Conferências — de ter que lhes participar a morte trágica de Juan
Fernandez, fotógrafo do La Nación, de Buenos Aires. Ele se meteu
clandestinamente dentro do ovo, sem dúvida para tirar fotografias de Coban, e
o frio o matou antes que tivesse tempo de dar três passos. — Fez uma pausa e
prosseguiu: — Nunca seria demais lhes recomendar prudência. Não lhes

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

escondemos nada. Nosso maior desejo é que vocês saibam tudo e que
propaguem por todo o mundo. Peço-lhes que não tomem mais tais iniciativas
que não são somente perigosas para vocês, mas que arriscam a comprometer
gravemente o êxito das operações delicadas cujo sucesso pode transformar
inteiramente a sorte da humanidade.
Mas um telegrama do La Nación, transmitido pelo Trio, fez saber que esse
jornal ignorava tudo sobre Juan Fernandez, e que este nunca fizera parte do seu
pessoal. Então se lembraram do testemunho do operador que havia visto em
primeiro plano a imagem da arma. Remexeram no quarto de Fernandez. Lá
encontraram três aparelhos fotográficos, um americano, um tcheco, um
japonês, além de um emissor de rádio alemão e um revólver italiano.
Os responsáveis do EPI e os reanimadores se reuniram, longe da
curiosidade dos jornalistas. Estavam consternados.
— É um desses cretinos dos serviços secretos — disse Moissov. — De qual
serviço secreto? Eu não sei, nem vocês, nunca saberemos. Eles têm em comum
a estupidez e a ineficiência. Mostram uma engenhosidade prodigiosa para
conseguir resultados que não são maiores que um cocô de mosca. A única coisa
que eles conseguem é a catástrofe. É preciso nos proteger contra esses ratos.
— Eles são uma merda! — acrescentou Hoover, em francês.
— Não é a mesma palavra em russo — disse Moissov — porém é a mesma
matéria. Infelizmente vou ser obrigado a utilizar palavras menos expressivas e
mais vagas, de que não gosto porque são pretensiosas. Mas é preciso falar com
as palavras que se têm.
— Continue, continue — aparteou Hoover — não faça tanto rodeio. Este
Pequeno macabeu nos deixou na merda de qualquer maneira.
— Sou médico — retrucou Moissov. — Você, você é... é o quê?
— Engenheiro químico e eletrônico... Mas o que é que você tem com isto?
Aqui tem de tudo.
—Sim — disse Moissov — e no entanto nós somos todos iguais... Temos
qualquer coisa em comum que é mais forte que as nossas diferenças: a
necessidade e saber. A literatura chama isso de amor pela ciência. Eu chamo de
curiosidade.

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Quando ela é servida pela inteligência, é a maior qualidade do homem.


Pertencemos a todas as disciplinas científicas, a todas as nações e a todas as
ideologias. Você pode não gostar de um russo comunista. Eu não aprecio que
vocês sejam pequenos capitalistas, imperialistas estúpidos, enfiados no visgo
de um passado social em vias de apodrecer. — Abrandou o tom de voz para
prosseguir:
— Mas sei e vocês todos sabem que isto já está superado pela nossa
curiosidade. Vocês e eu queremos saber. Queremos conhecer o Universo em
todos os seus segredos, os maiores e os menores. E já sabemos ao menos
alguma coisa: que o homem é maravilhoso, mas que os homens são dignos de
piedade; que cada um do nosso lado, no nosso campo de conhecimento e no
nosso nacionalismo miserável, trabalha em favor do homem. O que há para
conhecer aqui é fantástico. E o que nós podemos tirar de proveito para todos os
homens é inimaginável. Mas se deixarmos intervir nossas nações, com sua
cretinice secular, seus generais, seus ministros e seus espiões, tudo está
perdido!
— Vê-se bem — replicou Hoover — que você seguiu os cursos noturnos do
marxismo... Você tem sempre um discurso na ponta da língua. Mas é claro, você
tem razão. Você é meu irmão. Você é minha irmãzinha — acrescentou, dando
um tapa nas nádegas de Leonova.
— Você é um porco gordo e sujo — disse ela.
— Permitam à Europa — falou Rochefoux sorrindo — fazer ouvir sua voz.
Nós temos o ouro, aquele que nós cortamos ao perfurar a casca da esfera. Pesa
cerca de 20 toneladas. Com isso podemos comprar armas e mercenários.
Shanga, o africano, levantou-se rapidamente.
— Sou contra os mercenários! — bradou.
— Eu também — disse o alemão Henckel. — Não pelas mesmas razões.
Acho simplesmente que eles serão espiões canalhas. Devemos organizar nós
mesmos nossa polícia e nossa defesa. Quero dizer, a defesa do que está dentro
da esfera. A arma e, principalmente, Coban. Enquanto ele estiver no frio, não
corre risco nenhum. Mas as operações de reanimação vão começar. A tentação
de raptá-lo será grande, antes que possamos comunicar seus conhecimentos a
todos. Não há uma nação que não tentará o impossível para assegurar a

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exclusividade do que ele tem dentro da cabeça. Os Estados Unidos, por


exemplo...
— Claro, claro — disse Hoover.
— A URSS... Leonova explodiu:
— A URSS! Sempre a URSS! Por que a URSS? A China também: A
Alemanha! A Inglaterra! A França!
— Isto!... — disse Rochefoux sorrindo. — Até mesmo a Suíça...
— Metralhadoras, revólveres, minas — adiantou Lukos — posso encontrar
ali.
— Eu também — disse Henckel.
Partiram naquele mesmo dia para a Europa. Shanga e Garret, o assistente
de Hoover, uniram-se a eles. Estava entendido que eles não se separariam
nunca. Assim a lealdade de cada um, da qual ninguém duvidava, seria
garantida pela presença dos outros.
Com os revólveres e fuzis de caça que já se encontravam na base,
organizaram um rodízio de vigilância de dia e noite perto do elevador e do
quarto de Eléa.
Dois homens, técnicos ou sábios, se revezavam. Um ocidental e um
oriental. Essas medidas foram tomadas por unanimidade, sem discussão. Diante
da enormidade do que estava em jogo, ninguém tinha confiança em ninguém,
nem mesmo em si próprio.
Dois projetores iluminam o ovo, envolto na bruma.
A mangueira de ar está dirigida para o bloco de Coban, que se encolhe, se
deforma, se reabsorve, desaparece como um halo que se apaga. Na sala de
trabalho, os reanimadores passam, um por um, pela esterilização. Enfiam-lhes
luvas e blusas assépticas, e amarram-lhes as botas de algodão.
Simon não está com eles, está perto de Eléa, na Sala de Conferências,
sentado sozinho com ela sobre o pódio. Diante dele, sobre a mesa, o revólver
que lhe confiaram. Seu olhar vigia sem cessar a assistência. Está pronto a
defender Eléa contra seja o que for. Diante dela estão espalhados os diversos
objetos da prateleira que ela havia pedido. Está calma, imóvel. As ondas dos
seus cabelos castanhos com reflexos dourados são como um mar calmo. Ela
vestiu as estranhas roupas encontradas na prateleira. Na altura dos quadris

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colocou quatro retângulos avermelhados de uma matéria sedosa que parecia


uma fazenda fina, fluida e pesada. Caíam-lhe até os joelhos e, quando ela
andava, se dobravam e se desdobravam, cobrindo e descobrindo a pele, como
asas, como o movimento das ondas ao sol. Enrolou à altura do busto uma faixa
longa da mesma cor, que modelava seu corpo e seus ombros, deixando
adivinhar sob a fazenda seus seios livres como pássaros.
Tudo isso preso por um nó, por uma argola ou trespassado ora por cima ora
por baixo, por um milagre. Era à primeira vista muito complicado, mas tão
natural que poderia se pensar que ela havia nascido assim. Diante dela, sentia-
se a horrível impressão de se estar vestido com sacos de farinha.
Ela aceitara responder a todas as perguntas. Então organizaram a primeira
reunião de trabalho destinada a informar aos homens de hoje sobre a sua
civilização.
O rosto de Eléa estava gelado, seus olhos pareciam portas abertas sobre a
noite. Ela estava silenciosa e seu silêncio dominava toda a assistência. Hoover
fez um barulho enorme com a garganta.
— Hum... que tal começarmos?... O melhor seria começar pelo início... você
nos dizer primeiro quem é, qual sua idade, profissão, situação de família etc Em
poucas palavras...
Mil metros mais abaixo, o homem nu perdeu sua carapaça transparente
atingiu uma temperatura que permitia a sua locomoção. Dentro da bruma
brilhante, quatro homens vestidos de vermelho, embotados, com capacetes
esféricos de plástico, se aproximaram lentamente do corpo inerte e se colocam
ao lado de seu caixão. Na porta do ovo dois homens vigiavam de metralhadora
na mão. Os quatro homens se abaixaram, escorregaram por baixo do homem
nu suas mãos enluvadas de pele, de couro e de amianto, aguardaram um
instante.
Diante da tela do posto da sala de trabalhos, Forster, atento, olha a
imagem. Tudo preparado, ele ordena:
— Tenham cuidado! Atenção! Um, dois, três, já!
Em quatro idiomas diferentes a ordem chega ao mesmo tempo aos quatro
capacetes esféricos. Os homens se erguem lentamente.

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Uma claridade azul fulgurante, mil vezes mais forte que a dos projetores,
estoura sob seus pés, queima-lhes os olhos, enche o ovo como uma explosão,
jorra pela porta aberta, invade a esfera, sobe pelo poço como um gêiser...
Depois se apaga.
Não houve nenhum barulho. Não era senão claridade. Sobre o solo do ovo,
a neve não está mais azul. O motor que desde a noite dos tempos fabricava o
frio para manter intactos os dois seres vivos que lhe tinham sido confiados, no
mesmo segundo em que lhe tiraram sua última razão de ser, parou e destruiu-
se.
— Eu sou Eléa — disse a mulher. — Meu número é 3-19-07-91. Eis aqui
minha chave,...
Mostrou a mão direita com os dedos dobrados, o médio separado e curvado
para fazer sobressair o engaste do seu anel, em forma de pirâmide truncada.
Pareceu hesitar, depois perguntou:
— Vocês não têm chave?
— Claro que sim! — respondeu Simon. — Mas creio que não é a mesma
coisa...
Tirou o chaveiro do seu bolso, agitou-o, colocando-o depois diante de Eléa.
Ela o olhou sem tocar, com uma espécie de inquietação misturada à
incompreensão. Em seguida fez um gesto que pareceu de pouco caso e
continuou:
— Nasci no Abrigo da Quinta Profundidade, dois anos depois da Terceira
Guerra.
— O quê? — perguntou Leonova.
— Que guerra?
— Entre que países?
— Onde era o seu país?
— Quem era o inimigo?
As perguntas espocavam de todos os cantos da sala. Simon levantou-se,
furioso. Eléa colocou suas mãos sobre os ouvidos, fez uma cara de dor, e
arrancou o aparelho de escuta.
— Perfeito! Muito bem! Vocês conseguiram! — gritou Simon. Estendeu sua
mão aberta para Eléa. Ela aí colocou o auscultador. Ele fez sinal a Leonova:

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— Venha — chamou.
Leonova subiu ao pódio. Pegou um grande globo terrestre colocado sobre o
chão e pousou-o sobre a mesa.
— Vocês bem sabem que Eléa não pode manipular o isolador — disse
Simon aos sábios. — Ela recebe todas as vossas perguntas de uma vez!
Vocês o sabem! Já tínhamos previsto! Se vocês não podem respeitar um pouco
a disciplina, serei obrigado, falando como o médico responsável, a proibir essas
sessões! Peço-lhes deixar Madame Leonova falar por todos vocês e fazer as
primeiras perguntas. Depois um outro tomará seu lugar e fará suas perguntas e
assim por diante. De acordo?
— Tem razão, rapaz — disse Hoover. — Vá lá que seja, que a linda
bonequinha fale por nós...
Simon virou-se para Eléa e, de mão estendida, ofereceu-lhe o auscultador.
Eléa ficou imóvel um instante, depois pegou o aparelho e colocou-o no ouvido.
O homem está estendido sobre a mesa operatória. Ainda está nu. Os
médicos e os técnicos se agitam ao seu redor, fixam-lhe os eletrodos, as
pulseiras, as braçadeiras, as correias de colocar nas pernas, todos os contatos
que o ligam aos aparelhos. Travesseiros são colocados sob o seu braço direito,
ainda pesado como ferro, meio erguido e no qual o dedo médio ostenta um anel
semelhante ao de Eléa.
Van Houcke, com precauções de babá, envolveu em pequenos pedaços de
algodão o precioso sexo ereto. Apesar desses cuidados, ele quebrou uma
mecha de pêlos. Praguejou em holandês.
— Não tem importância — disse Zabrec. — Isto, isto crescerá outra vez...
enquanto que o resto...
— Olhe! — disse de repente Moissov, apontando um lugar da parede
abdominal.
— Olhe aí... O peito...
— E aí!
— O bíceps esquerdo!...
— Merda! — gritou Lebeau.
Eléa olha o globo e o faz girar com perplexidade. Dir-se-ia que ela não o
reconhecia. Sem dúvida as convenções geográficas do seu tempo não eram as

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mesmas que as nossas. Os oceanos azuis, por exemplo, talvez ela não
compreen da o que representam, se, nos mapas da sua época, eles figurassem
em vermelho ou em branco... Talvez o norte fosse em baixo, ou à esquerda, ou
à direita...
Eléa hesita, pensa, estica o braço, faz girar o globo, e sobre o seu rosto
adivinha-se que ela, enfim, reconhece e que também vê a diferença...
Pegou o globo pelo pé e o inclinou.
— Assim — diz ela. — Ele era assim...
Apesar da promessa, os sábios não puderam conter exclamações abafadas.
Lanson dirigiu a boca da câmara para o globo e sua imagem apareceu na
grande tela. O globo inclinado por Eléa tinha seu norte em cima e seu sul
embaixo, mas deslocados quase 40 graus.
Olofsen, o geógrafo dinamarquês, exultou. Ele havia sempre sustentado a
teoria muito controvertida de uma inclinação do globo terrestre. Havia trazido
mil provas, que eram refutadas uma a uma. Agora detalhes estavam aí, ele
tinha razão! Não havia mais necessidade de provas discutíveis: havia uma
testemunha!
Um dedo de Eléa pousou sobre o continente antártico e sua voz disse:
— Gondawa!...
Sobre o globo que Leonova segurava na posição que Eléa havia lhe dado
Gondawa ocupava um lugar a meio caminho do Pólo e do Equador, em plena
zona temperada quente, quase tropical!
Eis o que explica essa flora exuberante, esses pássaros de fogo
encontrados no gelo. Um cataclismo brutal fez virar a Terra sobre um eixo
equatorial, misturando os climas em algumas horas, talvez minutos, queimando
o que era frio, gelando o que era quente, e submergindo os continentes com
massas enormes de águas oceânicas arrancadas à sua inércia.
— Enisorai... Enisorai... — disse Eléa.
Procurou no globo alguma coisa que não encontrou.
— Enisorai... Enisorai...
Fez girar o globo entre as mãos de Leonova. A grande imagem do globo
girou sobre a tela.
— Enisorai, o inimigo!...

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Seus olhos procuraram em vão alguma referência no globo.


— Enisorai... Enisorai... Ah!...
A imagem parou. As duas Américas ocuparam a tela. Mas a inclinação do
globo colocou-as numa posição estranha: o norte virado para baixo e o sul para
cima:
— Ali! — disse Eléa. — Ali falta...
Sua mão apareceu na imagem segurando uma vareta que Simon lhe tinha
dado. A ponta de grafite pousou na extremidade do Canadá, atravessou a Terra
Nova, riscando um largo traço vermelho que avançava até o meio do Atlântico,
indo encontrar-se, num desenho acidentado, com a ponta mais avançada do
Brasil. Depois Eléa cobriu com riscos vermelhos todo o espaço percorrido,
preenchendo o imenso golfo que separa as duas Américas e as transformando
num só continente maciço cujo centro ocupava metade do Atlântico Norte.
Deixou cair a vareta, pousou sua mão sobre a Grande América que acabava de
criar, e disse:
— Enisorai...
Leonova pousou o globo. Uma onda de excitação vibrou novamente na
sala. Como tal fenda poderia ter sido aberta no Continente? Teria sido o mesmo
cataclismo que provocara o desaparecimento de Enisorai central e deslocara o
eixo da Terra?
A todas essas perguntas Eléa respondeu:
— Eu não sei... Coban sabe... Coban tinha medo... Foi por isso que ele fez
construir o abrigo onde vocês nos encontraram...
— Coban tinha medo do quê?
— Não sei... Coban sabe... Mas posso lhes mostrar...
Estendeu a mão para os objetos colocados diante dela. Escolheu um círculo
de ouro, tomou-o com as duas mãos e o colocou na cabeça. Duas pequenas
placas ficaram aplicadas às suas têmporas. Uma outra cobriu a fronte logo
acima dos olhos. Em seguida apanhou um outro círculo.
— Simon... — disse.
O médico virou-se em sua direção. Ela colocou o segundo círculo na cabeça
dele e, com um gesto do polegar, abaixou a placa frontal, que se transformou
numa máscara sobre os olhos do jovem médico.

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— Calma — balbuciou.
Apoiou seus cotovelos sobre a mesa e pôs a cabeça entre as mãos. A placa
frontal ficou levantada. Ela fechou lentamente as pálpebras.
Todos os olhares, todas as câmaras focalizaram Eléa e Simon, sentados
lado a lado, ela com os cotovelos na mesa, ele sentado na sua cadeira, os
ombros apoiados no encosto, os olhos cobertos pela máscara de ouro.
O silêncio era tão grande que se ouviria cair um floco de neve.
De repente Simon teve um sobressalto. Viram-no colocando as mãos
abertas diante de si, como se quisesse se assegurar da realidade de alguma
coisa. Levantou-se lentamente e murmurou qualquer coisa que a tradutora
repetiu num sussurro:
— Eu vejo!... Eu ouço... Gritou bem alto:
— EU VEJO! É o apocalipse! Uma planície imensa, queimada... viva...
vitrificada!... Exércitos caem do céu... as armas cospem a morte e destroem
tudo!... Ainda caem mais! Como mil nuvens de gafanhotos! Eles cobrem o solo...
se afundam!... A planície se abre!... se abre em duas!... de um pedaço a outro
do horizonte... O sol sobe e cai!... Os exércitos estão desaparecidos!
Alguma coisa sai da terra... algo gigantesco! Uma máquina... uma máquina
monstruosa, uma planície de vidro e de aço... ela se separa da terra, se levanta,
voa, se desdobra... dilata-se... enche o céu todo!... Ah!... um rosto... um rosto
encobre o céu... ele está perto... de mim!... inclina-se sobre mim... ele me olha!
É um rosto de homem... seus olhos estão cheios de desespero...
— Paikan! — geme Eléa.
A cabeça de Simon escorrega de suas mãos, seu corpo cai sobre a mesa. A
visão desaparece do cérebro do médico.
Coban sabe. Ele sabe o melhor e o pior. Ele sabe qual é essa máquina
monstruosa dê guerra que enchia o céu. Ele sabe como tirar do nada tudo
aquilo que falta aos homens. Coban sabe. Mas poderá ele dizer aquilo que sabe?
Os médicos encontraram lesões sobre quase toda a superfície do seu torso,
dos seus braços e, em menos quantidade, sobre suas costas. Pensaram que se
tratava de erupções de pele causadas pelo frio. Mas quando retiraram sua
máscara, descobriram uma cabeça na qual todos os cabelos, cílios e

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

sobrancelhas estavam queimados até a raiz. Não eram simples erupções, mas
sim visíveis sinais de queimadura. Ou ambas as coisas, talvez.
Perguntaram se Eléa sabia como ele havia se queimado. Ela não sabia.
Quando Coban adormeceu, estava a seu lado, saudável e intacto...
Os médicos o envolveram dos pés à cabeça com ataduras com preparado
antinecrose, a fim de impedir que a pele ficasse destruída quando retomasse
sua temperatura normal e de ajudar a reconstituição dos tecidos.
Coban sabe. Ele por enquanto não é senão uma múmia fria envolvida em
faixas amarelas. Dois tubos transparentes, enfiados nas suas narinas, saem das
ataduras. Fios de todas as cores surgem das espirais amarelas em todas as
alturas do seu corpo e o ligam aos instrumentos. Lentamente, lentamente, os
médicos continuam a aquecê-los.
A guarda do elevador foi dobrada através de um dispositivo tipo armadilha
posto à entrada da esfera. Lukos aí colocou duas minas eletrônicas que havia
trazido da sua missão, e que havia aperfeiçoado. Ninguém poderia se aproximar
sem as fazer ir pelos ares. Para entrar na esfera, era preciso, chegando embaixo
do poço, se apresentar aos homens que montavam guarda na saída do
elevador. Os guardas se comunicavam com o interior onde três médicos e
várias enfermeiras e técnicos velavam permanentemente em torno de Coban.
Um deles baixava o interruptor. Uma luz vermelha deixava de piscar e então as
minas se tornavam inertes como chumbo. Podia-se descer à esfera.
— Coban sabe... Vocês acham que esse homem representa perigo para a
humanidade ou, ao contrário, ele vai trazer a possibilidade de fazer da Terra um
novo Éden?
— Para mim, o Éden, ora... nós nunca fomos lá!... e nem sabemos se era
assim tão formidável!...
— E o senhor?
— Bem, sabe, é meio difícil de dizer...
— E a senhora?
— Bem, eu acho que é apaixonante! Este homem e esta mulher que vêm
de tão longe e que se amam!
— A senhora acredita que eles se amam?

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— Claro, sem dúvida!... Ela diz o tempo todo o nome dele!... Balkan!...
Balkan!...
—Acho que a senhora está fazendo uma pequena confusão, mas em todo o
caso a senhora tem razão, é apaixonante tudo isto!... E o senhor; o senhor
também acha que é assim apaixonante?
— Não posso dizer nada, visto que sou estrangeiro...
O Sr. e Senhora Vignon, seu filho e sua filha comem batatas com açúcar, na
mesa em feitio de lua diante da tela. É uma receita da cozinha nutritiva.
— É uma bobagem fazer perguntas como essas — comenta a mãe.
— Esse sujeito — diz a filha — eu o mandaria de volta para o frigorífico. A
gente vive muito bem sem ele...
— Oh! Hum! hum... — replica a mãe. — Não se pode fazer isso.
Sua voz está um pouco rouca. Ela pensa num certo detalhe. E em seu
marido que já não é mais tão... Recordações lhe rasgam o ventre. Uma grande
tristeza enche seus olhos de lágrimas. Assoa o nariz.
— Acho que estou mais uma vez resfriada...
Por este lado, a filha está em paz. Ela tem amigos na Arte e Decorações
que são" talvez menos agraciados do que este tipo, mas sob um certo detalhe
eles lhe eqüivalem. Enfim, talvez não seja bem assim... Mas eles, ao menos não
estão gelados!...
— Não podem colocá-lo de novo no gelo — diz o pai — depois de todo o
dinheiro que já gastaram. Isto representa um investimento...
— Por mim ele pode se danar! — resmunga o filho.
Não diz mais nada. Pensa em Eléa toda nua. Sonha com ela de noite, e,
quando não está dormindo, é pior ainda.
Eléa, com indiferença, havia deixado que os sábios examinassem os dois
círculos de ouro. Brivaux tentou encontrar dentro deles um circuito, conexão,
alguma coisa. Nada. Os dois círculos com as duas placas temporais fixas e a
placa frontal móvel eram feitos de um metal sólido, sem qualquer mecanismo
interno ou externo.
— É preciso não se enganar — disse Brivaux. — Trata-se de eletrônica
molecular. Esse negócio é tão complicado quanto um emissor e receptor de
tevê reunidos e tão simples quanto uma agulha de tricô! Está tudo nas

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moléculas! É formidável! A meu ver, isto funciona assim: quando você o põe ao
redor da cabeça, ele recebe as ondas do seu cérebro, transforma-as em ondas
eletromagnéticas e as emite. Quando se põe o outro círculo na cabeça, a placa
é puxada para baixo e funciona em sentido contrário. Recebe então as ondas
eletromagnéticas que são enviadas, transformando-as em ondas, que transmite
a outro cérebro.
Compreendeu? A meu ver, acho que poderíamos ligar isso à tevê...
— O quê?
— Não é feitiçaria... captar as ondas no momento em que elas estão
eletromagnéticas, amplificá-las e injetá-las no receptor de tevê. Isto certamente
dará alguma coisa. Talvez uma confusão... talvez uma surpresa... vamos
experimentar. Ou é possível ou não... De qualquer maneira não é difícil tentar.
Brivaux e sua equipe trabalharam apenas a metade de um dia. Depois
Goncelin, seu assistente, colocou na cabeça o capacete emissor. E constataram,
entre surpresos e confusos, imagens sem continuação nem ligação, às vezes
sem formas precisas. Uma construção mental tão instável quanto a areia nas
mãos de uma criança.
Não tente "pensar" — disse Eléa. — Pensar é muito difícil. Os pensamentos
se fazem e se desfazem. Quem os faz, quem os desfaz? Não é quem os Pensa...
É preciso se lembrar. Memória, somente memória. O cérebro registra tudo,
mesmo se os sentidos não prestam atenção. É preciso se lembrar. Recordar
uma imagem precisa no instante preciso. E depois deixar fazer, o resto vem
sozinho...
Vamos ver! Ponha isso sobre a sua cabecinha! — disse Brivaux a Odile, a
secretária do escritório técnico que taquigrafava as peripécias dos ensaios.
— Feche os olhos e lembre-se do seu primeiro beijo.
— Oh! Senhor Brivaux!
—Não se faça de boba!
Ela tinha 45 anos e parecia um inspetor de trânsito às vésperas de se
aposentar. Havia sido escolhida entre outras porque já havia feito grandes
marchas, tinha vocação de líder e não temia o mau tempo.
— E então, chegou lá?
— Sim, Monsieur Brivaux!

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— Vamos! Feche os olhos! Lembre-se!


— Houve na tela-testemunha uma explosão vermelha. Depois mais nada.
— Curto-circuito! — disse Goncelin.
— Emoção demais — disse Eléa. — É preciso recordar a imagem, mas se
esquecer... Tente mais uma vez.
Tentaram. E conseguiram.
Para a segunda sessão de trabalho, além de Leonova e de Hoover, Brivaux
e seu assistente Goncelin haviam tomado lugar ao lado de Eléa e de Simon.
Brivaux estava sentado perto de Eléa. Ele manipulava uma montagem
complicada pouco maior que um cubo de gelo e que estava encimada por um
buquê de antenas da altura de um dedo mínimo e tão complexo como as
antenas de um inseto.
A montagem estava ligada a uma mesa de controle colocada à frente de
Goncelin. Um cabo partia dessa mesa para a cabina de Lanson.
— A terceira guerra durou uma hora — disse Eléa. — Depois Enisorai teve
medo. E nós também, é claro. Paramos. Havia oitocentos milhões de mortos.
Principalmente de Enisorai. A população de Gondawa era menos numerosa, mas
bem protegida nos abrigos. Na superfície do nosso continente não restava mais
nada e os sobreviventes não podiam subir, por causa das irradiações mortais.
— Irradiações? Que armas eles haviam utilizado?
— As bombas terrestres.
— Você conhece o funcionamento delas?
— Não. Coban conhece.
— E conhece o princípio?
— Elas eram fabricadas com um metal tirado da terra e que queimava,
destruía e envenenava muito tempo depois da explosão.
Ouviu-se a voz impessoal da máquina tradutora: "traduzo exatamente as
palavras gondas, e isso dá bem "bomba terrestre". No entanto, ao mesmo
tempo, substituirei este termo pelo seu equivalente: "bomba atômica".
— Nasci — continuou Eléa — na 5ª Profundidade. Subi à Superfície pela
primeira vez quando tinha sete anos, no dia seguinte da minha Designação. Eu
não podia subir enquanto não tivesse recebido minha chave. Hoover:
— Mas enfim que diabo de chave é essa? Para que serve?

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Voz impessoal da tradutora: "Não posso traduzir "diabo de chave". A


palavra "diabo" neste sentido articular não tem equivalente no vocabulário que
me foi programado."

Esta máquina é uma verdadeira sarna! — disse Hoover.


A mão direita de Eléa descansava sobre a mesa, os dedos alongados.
Lanson focalizou a câmara dois sobre a mão e aumentou ainda mais a imagem.
A pequena pirâmide apareceu sobre a grande tela, ocupando-a. Ela era de ouro,
e, nesta escala, podia-se ver que sua superfície era estriada e entalhada de
sulcos minúsculos e de cavidades de formas irregulares, estranhas.
— A chave serve para tudo — prosseguiu Eléa. — Ela é estabelecida no
nascimento de cada um. Todas as chaves têm a mesma forma, mas elas são tão
diferentes quanto os indivíduos. A disposição interna de seus...
A voz impessoal da tradutora interrompeu:
"A última palavra pronunciada não figura no vocabulário que me foi
programado. Mas aí encontro a mesma consoante que..."
— Deixe-nos em paz! — gritou Hoover. — Diga aquilo que sabe e, quanto
ao resto, não aborreça mais...
Calou-se, antes de deixar escapar o palavrão que lhe subia aos lábios, e
terminou mais calmamente:
— Não nos faça transpirar!
— Sou uma tradutora — replicou a máquina -, não sou um aquecedor. Toda
a sala riu-se a bandeiras despregadas. Hoover sorriu e virou-se para Lukos.
— Dou-lhe os parabéns, sua filha tem espírito, mas ela é um pouco
enjoada,
não?
— Ela é meticulosa, é seu dever...
Eléa escutava, sem procurar compreender essas brincadeiras dos
selvagens que jogavam com as palavras como crianças com as pedrinhas das
praias subterrâneas. Que rissem, que chorassem, que se irritassem, tudo isso
para ela era indiferente. Também lhe era indiferente continuar quando lhe
pediram. Explicou que a chave levava, inscrita na sua substância, toda a

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bagagem hereditária do indivíduo e suas características físicas e mentais. Era


enviada ao computador central que a classificava e a modificava cada seis
meses, depois de um novo exame da criança. Aos sete anos, o indivíduo já se
tinha definido. A chave também. Então se dava a Designação.
A designação, o que é isto? — perguntou Leonova. O computador central
possui todas as chaves de todos os seres vivos de Gondawa, e também dos
seus antepassados. Aquelas que nós levamos são apenas cópias. Cada dia, o
computador compara, entre elas, as chaves de sete anos. Conhece tudo de
todos. Sabe quem eu sou e também o que serei. Encontra entre os rapazes
aqueles que são e que serão, o que me convém, aquele que me falta, aquele do
qual precisarei, aquele que eu desejo. E entre esses rapazes encontra aquele
para o qual eu sou e serei o que lhe falta, o que ele precisa o que ele
necessitará e o que ele desejará. Então, ele nos designa um ao outro. Fez uma
ligeira pausa e continuou:
— O rapaz e eu, eu e o rapaz, nós somos como um seixo que tenha sido
partido ao meio e que tenha sido lançado entre todos os seixos partidos do
mundo. O computador encontra as duas metades e as une.
— É razoável — disse Leonova.
— Pequeno comentário da formiguinha — acrescentou Hoover.
— Deixem-na continuar... — interferiu Lukos.
Eléa, indiferente, recomeçou a falar, sem olhar para ninguém.
— São educados juntos. Ora na família de um, ora na família do outro.
Juntos têm o mesmo gosto, os mesmos hábitos. Aprendem juntos a ter as
mesmas alegrias. Conhecem juntos como é o mundo, como é a menina, como é
o menino. Quando vem o momento em que os sexos florescem, há união pelo
sexo e o seixo reunido torna a soldar-se numa só matéria.
— Soberbo! — disse Hoover. — E isto sempre tem sucesso? Seu
computador não se engana jamais?
— O computador não pode errar. Às vezes um rapaz ou uma moça mudam,
ou se desenvolvem de uma maneira imprevista. Então os dois pedaços de seixo
não são mais a metade. E um se afasta do outro.
— Eles se separam?
— Sim.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

— E aqueles que ficam juntos são muito felizes?


— Nem todo o mundo é capaz de ser feliz. Há casais que, simplesmente,
não são infelizes. Há aqueles que são felizes e os que são muito felizes. E há
alguns que a Designação obteve um sucesso absoluto, e cuja união parece ter
começado no início da vida do mundo. Para estes, a palavra felicidade não é
suficiente. Eles são...
A voz impessoal da tradutora declarou em todas as línguas que ela
conhecia:
— Não há palavra na sua língua para traduzir a palavra que foi
pronunciada.
— E você — perguntou Hoover -, você não era infeliz, feliz, muito feliz, ou
bem... bolas... isso inexprimível?
A voz de Eléa estancou, tornou-se dura como metal.
— Eu não era — disse ela. — Nós éramos...
Os detectores imersos ao largo da costa do Alasca, anunciaram ao Estado-
Maior americano que 23 submarinos atômicos da frota polar russa haviam
ultrapassado o estreito de Behring, dirigindo-se para o sul. Não houve reação
americana.
As redes de observações fizeram saber ao Estado-Maior russo que a sétima
esquadra americana de satélites estratégicos modificara sua órbita de espera e
inclinara-se para o sul.
Não houve reação russa.
O porta-aviões submarino europeu Netuno-I, em cruzeiro nas costas da
África ocidental, mergulhou e tomou a direção do sul.
As ondas chinesas começaram a gritar, revelando à opinião mundial esses
movimentos que todo o mundo ignorava ainda e denunciando a aliança dos
imperialistas que vagavam de comum acordo em direção ao continente
antártico para aí destruir a maior esperança da Humanidade.
Aliança, não era a palavra exata. Acordo teria sido mais justo. Os governos
dos países ricos tinham concordado, fora das Nações Unidas, em proteger os
seus sábios e os seus maravilhosos e ameaçados tesouros, contra um ataque
possível do mais poderoso dos países pobres, cuja população acabara de
ultrapassar o bilhão. Protegeriam-nos mesmo de um país menos poderoso,

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

menos armado e menos decidido. Mesmo a Suíça, havia dito Rochefoux. Não,
claro, não a Suíça. Era a nação mais rica: a paz a enriquecia, a guerra a
enriquecia, ameaça de guerra ou de paz a tornava rica. Talvez, isso sim, contra
algum tirano negro, árabe ou oriental, reinando pela força sobre a miséria, que
intentasse contra a EPI um golpe de força desesperado para apoderar-se de
Coban ou para matá-lo.
O acordo secreto tinha chegado até os estados-maiores. Um plano comum
havia sido redigido. As esquadras da Marinha, submarinos e porta-aviões se
dirigiam para o círculo polar austral para construir um conjunto, ao largo do
ponto 612, um bloco defensivo e, se necessário, ofensivo.
Os generais e almirantes pensavam com desprezo nesses sábios ridículos e
suas pequenas metralhadoras. Cada chefe de esquadra tinha como instrução
não deixar, por preço algum, este Coban passar-se para o seu vizinho. Para isto,
o melhor não era estarem lá todos juntos e se vigiarem?
Havia outras instruções mais secretas, que não vinham nem dos governos
nem dos estados-maiores.
A energia universal, energia que há em toda a parte, que não custa nada e
que fabrica tudo, era a ruína dos trustes do petróleo, do urânio, de todas as
matérias-primas. Era o fim dos empresários!
Essas instruções mais secretas não foram os chefes de esquadra que as
haviam recebido, e sim alguns homens anônimos, misturados entre as
tripulações.
Diziam, elas também, que não era possível deixar Coban ir para o vizinho.
Acrescentavam que ele não devia ir a lugar algum.
— Você é um bruto! — disse Simon a Hoover. — Abstenha-se de fazer
perguntas pessoais.
— Uma pergunta sobre sua felicidade, não pensava...
— Sim! Você pensava! — retrucou Leonova. — Mas você gosta de fazer
sofrer!
— Quer fazer o favor de se calar? — pediu Simon. Virou-se para Eléa e
perguntou-lhe se ela desejava continuar.
— Sim — disse Eléa, com sua indiferença costumeira. — Vou-lhes mostrar
minha Designação. Essa cerimônia tem lugar uma vez por ano, na árvore-e-o-

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Espelho. Há uma Árvore-e-o-Espelho em cada profundidade. Fui designada para


a Quinta Profundidade, onde eu tinha nascido... Pegou o círculo de ouro
colocado diante dela, levou-o acima de sua cabeça, colocou-o.
Lanson cortou as câmaras, desligou o cabo do pódio e ligou o canal-som
sobre a tradutora.
Eléa, a cabeça entre as mãos, fechou os olhos.
Uma onda violenta invadiu a grande tela, afastada e substituída por uma
chama laranja. Uma imagem confusa e ilegível tentou aparecer. As ondas a
rasgaram. A tela tornou-se de cor vermelha e começou a palpitar como um
coração desesperado. Eléa não conseguia dominar suas emoções. Viram-na
esticar o busto sem abrir os olhos, inspirar profundamente e retomar a posição.
Bruscamente, apareceu na tela um casal de crianças.
Eram vistos de costas e de frente para um imenso espelho que refletia uma
árvore. Entre o espelho e a árvore, sob esta última, havia uma multidão. E em
frente ao espelho, distantes alguns metros uns dos outros, havia uns vinte
casais de crianças. Todos de pé o dorso nu, com coroas e pulseiras de flores
azuis, vestidos com uma roupa azul curta e calçados de sandálias. Sobre cada
um de seus tenros dedos e nos lóbulos de suas orelhas estava colada uma leve,
delicada e dourada pluma de pássaro.
A menina no primeiro plano, a mais bela de todas, era Eléa, reconhecível
mas diferente. Diferente não por causa da idade e sim da paz e da alegria que
iluminava seu rosto. O menino que estava a seu lado olhava-a, e ela lhe
retribuía o olhar. Ele era louro como o trigo maduro ao sol. Seus cabelos lisos
caíam-lhe retos em volta do rosto até os ombros finos onde os músculos já
começavam a mostrar seu garbo. Seus olhos amendoados fixavam o espelho de
onde os olhos azuis de Eléa lhe sorriam.
Eléa, adulta, fala, e a máquina traduz:
— Quando a Designação é perfeita, no momento em que as duas crianças
designadas se vêem pela primeira vez, se reconhecem...
Eléa na infância trocara olhares com o menino. Eram felizes e belos. Eles se
reconheciam como se tivessem andado sempre à procura um do outro, sem
pressa e tranqüilos com a certeza de que iam-se encontrar. Chegado o

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

momento do encontro, estavam juntos e se olhavam, se descobriam, felizes e


maravilhados.
Atrás de cada casal de crianças estavam as duas famílias. Outras crianças
com suas famílias esperavam atrás deles. A árvore tinha um tronco castanho
cujos primeiros galhos quase tocavam no chão e os mais altos escondiam O
teto, se é que havia algum. Suas folhas espessas, de um verde vivo estriadas de
vermelho, poderiam esconder um homem da cabeça aos pés. Um grande
número de adultos e de crianças descansavam deitados ou sentados sobre os
tralhos, ou sobre suas folhas que se arrastavam sobre o solo. Crianças saltavam
de um galho para outro, como pássaros. Os adultos usavam roupas de cores
diversas, alguns inteiramente vestidos, outros — mulheres ou homens —
somente dos quadris aos joelhos. Outros levavam apenas uma faixa leve ao
redor das cadeiras. Havia mulheres inteiramente nuas, mas os homens, todos,
estavam vestidos. Nem todos os rostos eram belos, mas todos os corpos eram
harmoniosos e sadios. De modo geral tinham, com ligeira diferença, a mesma
cor de pele. Havia um pouco mais de variedade nos cabelos, que iam do ouro
puro ao ruivo e ao castanho-dourado. Alguns casais adultos se davam a mão.
No fundo do espelho apareceu um homem vestido com uma roupa
vermelha que lhe caía até os pés. Aproximou-se do casal de crianças, parecia se
entregar a uma cerimônia leve. Depois mandou-as de volta, de mãos dadas.
Duas outras crianças vieram substituí-las.
Outros homens de vermelho apareceram à beira do espelho, se dirigiram
para os outros casais de crianças que esperavam, e que partiram alguns
instantes mais tarde, de mãos dadas.
Um homem de vermelho chegou à beira do espelho e aproximou-se de
Eléa. Ela o olhou no espelho. Ele lhe sorriu, colocou-se por detrás dela,
consultou uma espécie de disco que estava na sua mão direita e pousou sua
mão esquerda sobre o ombro de Eléa.
— Sua mãe lhe deu o nome de Eléa — disse ele. — Hoje, você foi
Designada. Seu número é 3-19-07-91. Repita.
— 3-19-07-91 — disse Eléa menina.
— Você vai receber sua chave. Estenda sua mão.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Ela estendeu a mão esquerda, aberta, a palma para cima. A extremidade


dos seus dedos veio tocar sobre o espelho a extremidade de sua imagem.
— Diga quem é você. Diga seu nome e seu número.
— Sou Eléa. 3-19-07-91.
A imagem da mão no espelho palpitou e se abriu, descobrindo uma
claridade logo apagada e fechou-se de novo, de onde caiu um objeto na palma
da mão que estava estendida. Era um anel. Um anel para um dedo de criança,
encimado por uma pirâmide truncada, cujo volume não excedia um terço do
que usava Eléa adulta.
O homem de vermelho pegou-o e colocou-o no dedo médio da mão direita.
— Não o tire nunca. Ele crescerá com você. Cresça com ele.
Depois veio se colocar atrás do menino. Eléa olhava o homem e o menino-
rapaz com olhos imensos, cada um contendo a metade da aurora. Seu rosto
grave estava iluminado de confiança e de entusiasmo. Ele era semelhante a
uma planta nova cheia de mocidade e de vida, que acaba de brotar no solo curo
e estende para a claridade a confiança perfeita e tenra da sua primeira folha,
com a certeza de que breve, folha após folha, ela atingirá o sol...
O homem consultou seu disco, pousou sua mão esquerda sobre o ombro
esquerdo do menino e disse:
— Sua mãe lhe deu o nome de Paikan...
Uma explosão vermelha rasgou a imagem, invadiu a tela, cobriu o rosto de
Eléa menina, apagou o céu dos seus olhos, sua esperança, e sua alegria. A tela
extinguiu-se. No pódio, Eléa acabara de arrancar de sua cabeça o círculo de
ouro.
— Continuamos não sabendo para o que serve o diabo dessa chave —
resmungou Hoover.

Tentei te chamar para o nosso mundo. Embora tenhas aceitado colaborar


conosco, talvez por isso mesmo, eu te via um pouco mais cada dia recuar no
passado, para um abismo. Não havia passarela para atravessar o
despenhadeiro. Não havia nada atrás de ti, senão a morte.
Fiz trazerem do Cabo, para ti, cerejas e pêssegos.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Fiz trazer um carneiro do qual o nosso chefe tirou, para te oferecer,


algumas costeletas acompanhadas de folhas de alface romana, tenras como
uma polpa de fruto. Olhaste as costeletas com horror. E me disse:
— É um pedaço cortado de um bicho?
Nunca tinha pensado nisso. Até aquele dia, para mim, uma costeleta não
era senão uma costeleta. Respondi meio sem jeito:
— Sim.
Olhaste a carne, a salada, as frutas e me disseste:
— Você come bicho!... você come mato!... você come árvore!... Tentei
sorrir. Respondi:
— Nós somos bárbaros...
Mandei buscar rosas. Você pensou que isto também nós comêssemos...

A chave continha a explicação de tudo, dissera Eléa.


Foi esta a conclusão a que os sábios e os jornalistas chegaram, reunidos na
Sala de Conferências, no decorrer das reuniões seguintes. Eléa havia se tornado
um pouco mais dona de suas emoções, e pôde contar e mostrar a sua vida e a
de Paikan, a vida de um casal de crianças que se tornou um casal de adultos, e
tomou seu lugar na sociedade.
Depois da guerra de uma hora, o povo de Gondawa tinha ficado enterrado.
Os abrigos haviam demonstrado sua eficiência. Apesar do Tratado de Lampa,
ninguém ousava jamais acreditar que a guerra não recomeçaria. A sabedoria
aconselhava a ficar no abrigo e nele viver. A superfície estava devastada. Era
necessário reconstruir tudo. A sabedoria aconselhava a reconstruir o abrigo.
O subsolo foi ampliado em profundidade e extensão. Sua arrumação
englobava cavernas naturais, os lagos e os rios subterrâneos. A utilização da
energia universal permitia-lhes dispor de uma potência sem limites, e que
poderia tomar todas as formas. Era utilizada para recriar sobre o solo uma
vegetação mais rica e mais bela que a que havia sido destruída embaixo. Numa
claridade semelhante à luz do dia, as cidades subterrâneas transformaram-se
em jardins, bosques, florestas. Novas espécies foram criadas, crescendo numa
rapidez, na qual era visível o desenvolvimento de uma planta ou de uma árvore.
Máquinas flexíveis e silenciosas se deslocavam para baixo e em todas as

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

direções, fazendo desaparecer a terra diante delas, bem como a rocha. Elas se
arrastavam pelo chão, pelas abóbadas e pelas paredes, deixando atrás de si
tudo polido e mais duro do que o aço.
A superfície não era senão uma tampa, da qual tiravam partido. Cada
parcela que tinha permanecido intacta, foi preservada, limpa, arrumada para
ser um lugar de descanso. Lá, era um pedaço de floresta que haviam repovoado
com animais; mais longe, um curso d'água de rios preservados, um vale, uma
praia sobre o oceano. Aí construíram edifícios para jogos e para quem quisesse
arriscar a vida exterior que a nova geração considerava como uma aventura.
Embaixo, a vida se organizava e se desenvolvia, dentro da alegria e da
razão. As usinas silenciosas continuavam fabricando tudo de que o homem
tinha necessidade. A chave era a base do sistema de distribuição.
Cada ser vivo de Gondawa recebia anualmente uma parte igual de crédito,
calculada segundo a produção total das usinas silenciosas. Esse crédito estava
escrito a seu favor numa conta gerada pelo computador central. Era mais do
que o suficiente para lhes permitir viver e aproveitar tudo o que a sociedade
podia oferecer-lhes. Cada vez que um gonda desejava qualquer coisa de novo
— roupas, uma viagem, objetos — pagava com sua chave. Dobrava o dedo
maior, enfiava sua chave no lugar já previsto para este resultado, e sua conta,
no computador central, era logo diminuída do valor da mercadoria ou serviço
pedido.
Alguns cidadãos, de uma qualidade excepcional, como Coban, diretor de
uma universidade, recebia um crédito suplementar. Mas este não lhes servia
praticamente para nada. Um número muito pequeno de gondas chegava a
gastar seu crédito anual. Para evitar a acumulação das possibilidades de
pagamento entre as mesmas mãos, o que restava dos créditos era
automaticamente anulado no fim de cada ano. Não havia pobres nem ricos,
havia somente cidadãos que podiam obter todos os bens que desejassem. O
sistema da chave permitia distribuir a riqueza nacional, respeitando ao mesmo
tempo a igualdade de direitos dos gondas e a desigualdade de suas naturezas,
cada um gastando seu crédito segundo seu gosto e suas necessidades.
Uma vez construídas e começando a funcionar, as usinas trabalhavam sem
mão-de-obra e com seu próprio cérebro, Mas não dispensavam completamente

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

os homens, pois, se asseguravam a produção, restava sempre alguma coisa em


que era necessário a mão e a inteligência para realizar. Cada gonda tinha que
dar ao trabalho a metade de um dia durante os cinco dias, e este tempo poderia
ser repartido em pedaços. Ele podia, se desejasse, trabalhar mais. Podia, se
quisesse, trabalhar menos ou nada. O trabalho não era remunerado. Aquele que
escolhesse trabalhar menos, via seu crédito diminuir. Ao que escolhesse não
trabalhar nada, restava com o que subsistir e se oferecer um mínimo de
supérfluo.
As usinas eram colocadas no fundo das cidades, na sua parte mais
profunda. Ficavam reunidas, juntas, ligadas entre si. Cada usina era parte de
um conjunto que se ramificava sem cessar em novas usinas germinantes e que
reabsorviam aquelas que não davam mais um serviço satisfatório.
Os objetos que as usinas fabricavam não eram produtos de conjunto e sim
de síntese. A matéria-prima era a mesma em todo o lugar. Energia universal. A
fabricação de um objeto no interior de uma máquina imóvel, parecia o
desenvolvimento, nas entranhas de uma mulher, do organismo incrivelmente
complexo de uma criança a partir desse quase nada, que é um óvulo
fecundado. Mas, nas máquinas, não havia o quase, havia somente o nada. E a
partir desse nada subia para a cidade subterrânea numa onda múltipla, distinta
e ininterrupta, tudo o que era preciso às necessidades e às alegrias da vida. O
que não existe existe, concluía-se.
A chave tinha uma outra utilidade, também importante: impedia a
fecundação. Para conceber uma criança, o homem e a mulher deveriam tirar os
anéis. Se um dos dois o conservasse, a fecundação era impossível. A criança
não podia nascer senão quando desejada pelos dois.
A partir do grande dia da Designação, quando ele o recebia, um gonda não
podia mais tirar seu anel. E, no correr dos dias este lhe fornecia tudo o de que
ele tinha necessidade, tudo o que ele desejava. Era a chave da sua vida, e
quando a vida terminava, o anel continuava no seu dedo no momento em que
ele entrava na máquina imóvel que devolvia os mortos à energia universal. O
que não existe, existe.
Também o instante em que os dois esposos tiravam o seu anel, antes de se
juntarem para fazer uma criança, era banhado de uma emoção excepcional.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Eles se sentiam mais que nus, como se tivessem tirado ao mesmo tempo que o
anel a própria pele. Dos pés à cabeça, eles se tocavam ao vivo e a fundo.
Entravam numa comunhão total. Ele penetrava nela e os dois se fundiam. Para
os dois corpos o espaço tornava-se o mesmo. A criança era concebida numa
única alegria.
A chave era suficiente para manter a população de Gondawa num nível
constante. Enisorai não tinha a chave e não a queria. Enisorai pululava. Enisorai
conhecia a equação de Zoran e sabia utilizar a energia universal, mas servia-se
dela para a proliferação e não para o equilíbrio. Gondawa se organizava,
Enisorai e multiplicava. Gondawa era um lago, Enisorai era um rio. Gondawa era
a sabedoria, Enisorai a força. Essa força não podia se desenvolver e se exercer
senão fora dela mesma. Eram os engenhos de Enisorai que se tinham colocado
em primeiro lugar na Lua. Gondawa logo a havia seguido, para não se deixar
dominar. Segundo os cálculos de balística a face leste da Lua convinha
perfeitamente à partida dos engenhos de exploração em direção ao sistema
solar. Enisorai aí construiu uma base, Gondawa também. A terceira guerra
acendeu-se neste lugar, de um incidente entre as guarniçoes das duas bases.
Enisorai queria ser a única sobre a Lua.
O medo pôs fim à guerra. O Tratado de Lampa dividiu a Lua em três zonas,
uma gonda, uma enisor e uma internacional. Esta ficava a leste. As duas nações
tinham feito um acordo para construírem juntas uma base de partida.
Os outros povos não tinham direito à partilha da Lua. Os outros povos
viviam à margem, mas tiravam proveitos. Recebiam de Enisorai ou de Gondawa
promessas de produção de suas máquinas imóveis que supriam as suas
necessidades. Os mais hábeis recebiam dos dois lados. Tinham recebido
também, dos dois lados, muitas bombas durante a terceira guerra. Menos de
Gondawa, muito mais de Enisorai.
Enisorai tinha uma população muito numerosa para poder ser abrigada.
Porém sua fecundidade numa geração tinha substituído os mortos.
Pelo Tratado de Lampa, Enisorai e Gondawa tinham prometido não utilizar
mais as "bombas terrestres"; as que restaram foram jogadas no espaço,
colocadas em órbita ao redor do Sol. As duas grandes nações tinham também

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

tomado um outro compromisso, de não fabricar armas que ultrapassassem em


força destrutiva aquelas que acabavam de ser proscritas.
Mas uma formidável força de expansão desenvolvia-se em Enisorai.
Enisorai começou a fabricar armas individuais utilizando a energia universal.
Cada uma dessas armas tinha força de choque limitado. Mas nada poderia
resistir à sua multidão. E cada dia aumentava o número dos exércitos. O rio
impetuoso da vida em expansão enchia de novo seu leito, prestes a
transbordar.
Então o Conselho Diretor de Gondawa decidiu sacrificar a vila central,
Gonda-1. Ela foi evacuada e reabsorvida, e, no seu lugar subterrâneo, as
máquinas começaram a trabalhar. E o Conselho Diretor de Gondawa fez saber
ao Conselho do Governo de Enisorai que, se uma nova guerra estourasse, seria
A ÚLTIMA.
Assim, reunião após reunião, através das lembranças diretas de Eléa
projetadas sobre a tela, e pelas múltiplas perguntas que lhe faziam, os sábios
da EPI aprenderam a conhecer este mundo desaparecido, que havia resolvido
certos problemas que tanto preocupavam o nosso. Mas aquele mundo também
parecia arrastado de maneira inelutável para disputas que nada de razoável
justificava.
Viu-se logo que não era possível deixar aparecer nas telas da tevê
publicamente as lembranças diretas de Eléa. Era necessário fazer uma escolha,
entre as imagens projetadas, pois ela evocava sem o menor constrangimento os
momentos mais íntimos de sua vida com Paikan. De um lado, ela associava à
beleza
de Paikan, à sua e à união dos dois o orgulho e a alegria, jamais a
vergonha; de outro lado ela parecia recordar cada vez mais suas lembranças
para si mesma.
Sem se preocupar com a assistência que procurava perscrutar todos os
detalhes. Aliás, os homens de hoje eram tão diferentes dela, tão atrasados, e
bizarros na maneira de pensar e no comportamento, que lhe pareciam tão
distantes, ausentes, quanto animais ou objetos.
Eléa evocava os momentos mais importantes de sua existência, os mais
felizes, os mais dramáticos, para revivê-los uma segunda vez. Entregava-se

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

interminavelmente à sua memória, como a uma droga de ressurreição, e só às


vezes as ondas escarlates da emoção conseguiam tirá-la desse estado. Os
sábios descobriram pouco a pouco, em torno dela e de Paikan, o mundo
fabuloso de Gondawa.
No seu cavalo branco de crinas compridas, delgada como um galgo, Eléa
galopava rumo à Floresta Poupada. Adiante de Paikan, corria rindo para ter a
felicidade de se deixar alcançar!
Paikan havia escolhido um cavalo azul porque seus olhos tinham a cor dos
olhos de Eléa. Ele galopava logo atrás dela, alcançava-a pouco a pouco, fazia
durar a alegria. Seu cavalo estendia as narinas azuis para a longa cauda branca
que flutuava ao vento. A extremidade dos longos pêlos penetrou nas narinas
delicadas. O cavalo azul sacudiu sua cabeça, ganhou um pouco mais de terreno,
alcançou o outro com a boca, mordendo-lhe a crina.
O cavalo branco saltou, relinchou, escoiceou. Eléa o segurava firme e o
apertava com suas coxas robustas. Ela ria, saltava, dançava junto com ele...
Paikan acariciou o cavalo azul e o fez largar sua presa. Entraram a passo
curto na Floresta, o branco e o azul, lado a lado, acalmados, maliciosos, se
olhando com o canto do olho. Seus cavaleiros se seguravam pela mão. As
árvores imensas, escapadas da terceira guerra, erguiam em enormes colunas
seus troncos couraçados de escamas castanhas. Ao sair do solo, elas pareciam
hesitar, ensaiando uma ligeira curva preguiçosa, mas que era apenas um
impulso para se lançar vertiginosamente num salto vertical e absurdo em
direção à luz que suas próprias folhas repeliam. Muito alto, suas palmas
entrelaçadas faziam um teto que o vento agitava sem cessar, com um barulho
longínquo de multidão em marcha, abrindo frestas por onde o sol se filtrava. As
plantas rasteiras cobriam o solo num tapete áspero. As corças esfregavam as
patinhas para descobrir as folhas mais tenras que depois erguiam com a ponta
dos lábios e arrancavam num movimento brusco de pescoço. O ar quente
cheirava a resina e a cogumelo.
Eléa e Paikan chegaram à beira do lago. Deixaram-se escorregar de seus
cavalos, que voltaram para a floresta a galope, se perseguindo como escolares.
Havia pouca gente na praia. Uma tartaruga enorme, exausta, de casco com os

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

bordos gastos, arrastava sua massa pesada na areia, carregando um menino nu


às costas.
Ao longe, na outra margem que a guerra havia destruído, se abria o grande
orifício da Boca. Aí via-se elevar ou descer uma quantidade de bolhas de toda as
cores. Eram os engenhos de mudança a curta ou longa distância que saíam de
Gonda pelas chaminés de partida, ou que para aí voltavam. Alguns passavam a
uma altitude baixa em cima do lago, dando a impressão de fazer um barulho de
seda acariciada.
Eléa e Paikan dirigiram-se para os elevadores que atravessavam a areia,
extremidade da praia.
— Atenção! — disse uma voz enorme.
Ela parecia vir ao mesmo tempo da floresta, do lago e do céu.
— Atenção, escutem! Todos os seres vivos de Gondawa receberão a partir
de amanhã, pelo correio, a arma G e o Grão Negro. Haverá sessões para o
ensino do uso da arma G em todos os centros de recreação da Superfície e das
Profundezas. Os faltosos verão sua conta debitada de um cêntimo por dia a
partir do décimo primeiro dia da convocação. Escutem bem, está terminado.
— Estão loucos — disse Eléa. A arma G era para matar; o Grão, para
morrer.
Nem Eléa nem Paikan tinham vontade de matar nem de morrer. Depois de
terem feito os mesmos estudos haviam escolhido a mesma carreira. A de
Engenheiro do Tempo, a fim de viveram na superfície. Moravam numa Torre do
Tempo acima de Gonda-7.
Para chegarem a casa, teriam que tomar um veículo. Preferiam voltar pela
cidade, escolheram um elevador para dois cujo cone verde brilhava suavemente
acima da areia. Cada um enfiou sua chave na placa de comando e o elevador
abriu-se como um fruto maduro. Entraram no seu interior cor-de-rosa. O cone
desapareceu no solo e fechou-se em cima deles. Saíram na Primeira
Profundidade de Gonda-7. Serviram-se novamente de suas chaves para abrir as
portas transparentes de acesso à décima segunda avenida. Era uma estrada
principal. Suas múltiplas pistas de relva florida se deslocavam numa velocidade
crescente do exterior para o centro. Árvores baixas serviam de cadeira e
ofereciam o apoio de seus galhos aos viajantes que preferiam permanecer de

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

pé. Pássaros amarelos semelhantes a gaivotas voavam velozmente, lutando


com a pista central, grasnando de prazer.
Eléa e Paikan saíram na Avenida da Encruzilhada do Lago e tomaram a
alameda que levava ao elevador de sua Torre. Um riacho partia da encruzilhada
e corria ao longo do caminho. Pequenos mamíferos ruivos, de ventre branco,
menores do que um gato doméstico, brincavam na relva ou se escondiam atrás
dos tufos para pegar os peixes. Tinham uma cauda curta e chata e um bolso
ventral de onde saía às vezes uma pequenina cabeça com olhos meigos e
maliciosos, que roía uma espinha. Fazendo um ruído sibilante, vieram brincar
entre os pés de Paikan e de Eléa. Ágeis e espertos, se desvencilhavam quando o
bico de uma sandália estava a ponto de pisar-lhe uma pata ou a cauda.
Gonda-7 subterrânea tinha sido feita sobre as ruínas de Gonda-7 da
superfície. Da antiga cidade não restava mais do que as gigantescas ruínas,
acima das quais a Torre do Tempo se erguia como uma flor no meio de
destroços.
No cimo da sua longa haste se espalhavam as pétalas do terraço circular,
com árvores, gramados, piscina e um cais de atracação, abrigado do vento, que
neste local, soprava do oeste.
Rodeado pelo terraço, o apartamento abria-se sobre ele por todos os lados.
Meias repartições curvas, mais ou menos altas, interrompidas, o dividiam em
peças redondas, ovóides, irregulares, íntimas e no entanto não separadas.
Acima do apartamento, a cúpula observadora coroava a Torre com uma calota
transparente, ligeiramente esfumaçada de azul. O elevador chegava na peça do
centro, perto da fonte baixa.
Ao entrar, Eléa abriu com um gesto todos os vidros. O apartamento formou
um só terraço, e a brisa ligeira da tarde o visitou. Algas multicores se
balançavam nas correntes móveis da piscina. Eléa jogou sua roupa e
escorregou para dentro d’água. Um cardume de peixes-agulha, negros e
vermelhos, vieram-lhe beliscar a pele, depois, assustados, despareceram num
arrepio.
Na cúpula, Paikan assegurou-se com um olhar de que tudo estava bem. Aí
não havia aparelhagem complicada, a cúpula em si mesma era um instrumento,

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

obedecendo aos gestos e aos contatos das mãos de Paikan, trabalhando quando
ele lhe ordenava.
Tudo ia bem, o céu estava azul, a cúpula ronronava docemente. Paikan
despiu-se e juntou-se a Eléa na piscina. Vendo-o chegar ela riu-se mergulhou.
Ele a encontrou atrás dos véus irisados de um peixe-cortina preguiçoso que os
olhava com um olho redondo, coral.
Paikan ergueu os braços e deixou-se escorregar por trás dela. Ela se apoiou
de encontro a ele, sentada, flutuando, leve. Ele apertou-a contra seu ventre,
enlaçou-a com os braços e seu desejo erguido a penetrou. Reapareceram na
superfície como um só corpo. Ele estava atrás dela, e ela enroscada e apoiada
nele, que a pressionava com o braço contra seu peito. Colocando-a de lado com
ele, com o braço esquerdo começou a nadar. Cada tração o empurrava mais
dentro dela, enquanto levava os dois para a margem de areia. Eléa estava
passiva como um destroço quente, numa inércia amorosa. Chegaram à borda e
se colocaram meio fora dágua. Ele a mantinha cercada, encerrada, assediada:
havia entrado como o conquistador desejado diante do qual são abertas todas
as portas. E ele percorreu lentamente, docemente, longamente todos os seus
segredos.
Sobre o rosto e ouvido, ela sentia a água morna e a areia subir e descer,
descer e subir. A água vinha acariciar o canto de sua boca entreaberta. Os
peixes-agulha arrepiavam a parte submersa de sua coxa.
No céu onde a noite começava, algumas estrelas se acenderam. Paikan
quase não se mexia. Ele era nela um tronco de árvore liso, duro, palpitante e
macio, um tronco de carne bem-amado, sempre lá, tornado mais forte, mais
rijo, mais quente, subitamente queimando, imenso, abrasado, vermelho,
queimando no seu ventre inteiro, toda carne e os ossos incendiando até o céu.
Ela apertou com as suas mãos as mãos fechadas ao redor dos seus seios e
gemeu longamente na noite que chegava.
Uma paz imensa substituiu a claridade. Ela ficou ao redor de Paikan. Ele
continuava sempre dentro dela, duro e sereno. Ela repousou em cima dele
como um pássaro que adormece. Muito lentamente, muito docemente, ele
começou a lhe preparar uma nova alegria.

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Eles dormiam sobre a grama do seu quarto, tão fina e tão macia quanto
pelo do ventre de um gato. Uma coberta branca, apenas colocada sobre eles,
sem peso, morna, adaptava sua forma e sua temperatura às necessidades de
sua quietude. Eléa acordou um instante, procurou a mão aberta de Paikan e
nela colocou seu punho fechado. A mão de Paikan fechou-se sobre ele. Eléa
suspirou de felicidade e tornou a adormecer.
O uivo prolongado de uma sirena fez com que eles se levantassem,
espantados.
— O que é? Não é possível! — exclamou Eléa.
Paikan enfiou sua chave na placa de imagem. Diante deles, a parede
iluminou-se e se abriu. O rosto familiar do locutor, de cabelos vermelhos,
apareceu no vídeo:
— Alarma geral. Um satélite não identificado dirige-se para Gondawa sem
responder às perguntas de identificação. Vai penetrar no espaço territorial. Se
ele continuar não respondendo, nosso dispositivo de defesa vai entrar em ação.
Todos os que se encontram fora devem regressar imediatamente à cidade.
Apaguem todas as luzes. Nossas emissões da superfície vão ser suspensas.
Escutem, está terminado.
A imagem na parede achatou-se, veio colar-se à superfície e desapareceu.
— É preciso descer? — perguntou Eléa.
— Não. Venha por aqui...
Pegou a coberta, embrulhou Eléa e levou-a para o terraço. Meteram-se
entre as folhas baixas de uma palmeira de seda e apoiaram-se à altura da
rampa da extremidade.
O céu estava escuro, sem lua. As numerosas estrelas brilhavam com um
esplendor perfeito. As bolas luminosas dos engenhos voadores pareciam
maiores ou menores segundo sua altitude. A certa altura modificaram suas
rotas e pareceram ser aspirados por uma corrente que os levou todos na
direção da Boca.
No solo, o sinal de alerta havia acordado os habitantes das casas de
repouso amarradas na planície, ou entre as ruínas, nos limites dágua e do
serviço. Seus casulos translúcidos mostravam na noite a claridade de suas
formas: peixe de ouro, flor azul, ouro vermelho, funil verde, esfera, estrelas,

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poliedro, gota... Alguns estavam prestes a voar e a tomar o caminho da Boca.


Outros apagaram-se rapidamente. Uma serpente branca continuou acesa
iluminando uma muralha destruída.
— O que é que aqueles lá estão esperando para apagar? — murmurou Eléa.
— De qualquer maneira, é inútil... se é uma arma de ataque, ela terá outros
meios de encontrar seus objetivos.
— Você acredita que seja uma?
— Sozinha, é pouco provável...
Diante deles, de repente, um traço luminoso subiu no horizonte. Depois
dois, três, quatro.
— Estão atirando!... — disse Paikan.
Os dois olharam para o céu onde mais nada aparecia senão a indiferença
das estrelas no fundo do infinito. Eléa estremeceu, abriu a coberta e apertou
Paikan contra ela. Houve, muito alto, bruscamente, uma nova estrela,
gigantesca, que se rasgou e se espalhou numa cortina lenta de claridade rósea,
ionizada.
— Olhe lá!... Eles não podiam errar!...
— O que você acha que era?
— Não sei, reconhecimento talvez. Ou então simplesmente um cargueiro
infeliz cujos emissores estavam em pane, em todo o caso estavam, não estão
mais.
O alarma fez com que eles ficassem novamente sobressaltados. Ninguém
se acostumava com tão horrível barulho. Ao fim do alerta, as casas de repouso
voltaram a se acender, umas depois das outras. Ao longe, um bando de
engenhos elevou-se da Boca como um facho de faíscas.
Na parede do quarto, a imagem renasceu e atravessou o muro. Eléa e
Paikan desejavam ter notícias. Mas depois dessa instrução de absurdo e de
horror na doçura da noite, esta lhes pareceu tão frágil, tão preciosa, que eles
não quiseram mais deixá-la. Paikan enfiou sua chave numa placa da rampa. A
imagem desapareceu na parede do quarto e saiu. Paikan a dirigiu virando a
placa móvel e instalou-a na folhagem da palmeira de seda. Sentou-se no
gramado, as costas na rampa, Eléa apertada contra ele. A brisa do oeste,
apenas fresca, soprava em volta da torre e vinha banhar seus rostos. As folhas

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de seda estremeciam e flutuavam no vento ligeiro. A imagem estava luminosa e


estável nas suas três dimensões e nas suas cores. O locutor de cabelos
vermelhos falava com gravidade, mas não se entendia nenhuma das palavras
que ele pronunciava. Um cubo negro nasceu do fundo da imagem, invadiu todo
o feixe receptor e apagou a imagem. O rosto nervoso de um homem, muito
jovem, apareceu no cubo. Seus olhos castanhos brilhavam de paixão, seus
cabelos lisos, quase negros, caíam-lhe até a altura das orelhas.
— Um estudante! — disse Eléa.*
Ele falava com veemência:
—... a paz! Dê-nos a paz! Nada justifica a guerra! Nunca! Mas nunca ela
será mais atroz e mais absurda do que hoje, no momento em que os homens
estão a ponto de ganhar a batalha contra a morte! Vamos nos massacrar por
causa de pratos floridos na Lua? Por causa de rebanhos em Marte e seus
pastores negros? Absurdo! Absurdo! Há outros caminhos para as estrelas!
Deixem os enisores pilharem no espaço! Eles não comerão tudo. Deixem-nos se
baterem contra o infinito! Nós travamos aqui uma batalha, bem mais
importante! Por que o Conselho Diretor vos deixa na ignorância dos trabalhos
de Coban? Digo, em nome de todos aqueles que há anos trabalham a seu lado:
ele ganhou! Está resolvido! No laboratório 17 da universidade, embaixo da
campânula 42, uma mosca vive há 545 dias! Seu tempo normal de vida é de 40
dias! Ela vive, está jovem, está soberba. Há um ano e meio ela bebeu a primeira
gota.
O autor faz questão de frisar que esta história foi escrita durante o verão
de 66. A revolta dos estudantes ar já constava. Sua redação definitiva foi
terminada no dia 10 de março de 68. Depois desse dia nada mais foi
acrescentado nem retirado. Os episódios nos quais os estudantes tomaram
parte, a concepção da universidade independente, não foram portanto
inspirados pelos acontecimentos de maio de 68, pois lhes são anteriores
experimental do soro universal de Coban! Deixem Coban trabalhar. Seu soro
está quase pronto! As máquinas vão logo poder fabricá-lo! Vocês não
envelhecerão mais! A morte será infinitamente distante! A não ser que os
matem! A não ser em caso de guerra! Exijam do Conselho Diretor que recuse a

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guerra! Que ele declare a paz com Enisorai! Que ele deixe Coban trabalhar! Que
ele...
Com uma piscada, sua imagem reduziu-se ao tamanho de uma noz, e
desapareceu. O homem de cabelos vermelhos foi primeiro um fantasma
transparente, depois uma imagem sólida.
— Queiram desculpar esta emissão pirata...
O cubo absorveu-o num bloco, revelando novamente o menino veemente.
— ... lançados em órbita longínqua, mas inventaram o pior! O Conselho
Diretor poderá nos dizer que arma monstruosa ocupa agora Gonda-1 ? Os
enisores são homens como nós! Que restará de nossas esperanças e de nossas
vidas, se estas...
O cubo tornou-se negro, achatou-se em duas dimensões e o busto do
locutor retomou seu lugar.
— O presidente do Conselho Diretor vai falar.

O Presidente Lokan apareceu. Seu rosto magro estava sério e triste. Seus
cabelos brancos caíam até os ombros cujo lado esquerdo estava nu. Sua boca
fina, seus olhos de um azul muito claro fizeram esforço para sorrir enquanto
pronunciava as palavras de confiança. Sim, haviam acontecido incidentes na
zona internacional da Lua, sim, os dispositivos de defesa do continente tinham
destruído um satélite suspeito, sim, o Conselho Diretor teve que tomar medidas,
mas nada disto era verdadeiramente grave. Ninguém dava mais importância à
paz que os homens que tinham por dever dirigir os destinos de Gondawa.
Tudo será feito para preservá-la. Coban é meu amigo, quase meu filho.
Estou a par dos seus trabalhos. O conselho espera o resultado de suas
experiências sobre o homem para ordenar, se ele for positivo, a construção da
máquina que fabricará o soro universal. E uma esperança imensa, mas ela não
deve nos desviar de nossa vigilância. Quanto àquilo que ocupa o lugar de
Gonda-1, Enisorai sabe e eu vos direi somente o seguinte: é uma arma tão
terrífica, que só a sua existência já é o bastante para garantir a paz.
Paikan colocou a mão sobre a placa de comando, e a imagem desapareceu.
O dia nascia. Um pássaro que parecia com um melro, mas cuja plumagem era
azul e a cauda frisada, começou a cantar do alto da árvore de seda. De todas as

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árvores do terraço e das moitas floridas, pássaros de todas as cores lhe


responderam. Para eles não havia angústia, nem de dia nem de noite. Não
havia caçadores em Gondawa. Os prados floridos da Lua... os rebanhos de
Marte e seus pastores negros.
Os sábios do EPI pediram explicações. Eléa tinha ido à Lua, numa viagem
de recreio com Paikan. Ela pôde mostrar-lhes. Eles viram os "prados floridos" e
as florestas de árvores frágeis, fracas, de troncos finos intermináveis, se
desabrochando em espigas ou em tufos que as faziam parecer com imensas
gramíneas.
Viram Eléa e Paikan, depois de terem descido da nave que os havia levado
junto com outros passageiros, brincar como crianças na pouca gravidade.
Tomavam impulso com alguns passos gigantes, saltavam juntos de mãos dadas,
atravessavam os riachos com um salto, subiam ao cimo das colinas e passavam
por cima das árvores, descansavam sobre suas espigas cobertas de grãos de
pólen grandes como laranjas, que sacudiam para fazê-las voar em nuvens
multicores e caírem numa chuva de flocos.
Todos os viajantes faziam a mesma coisa, e a nave parecia ter
desembarcado uma carga de borboletas fugazes que se afastavam dela em
todas as direções, pousando aqui e ali, no campo verde, sob o céu de um azul
profundo.
Apesar do pouco esforço de que necessitavam, essas brincadeiras acabam
muito rápido, pois o ar ratificado trazia o cansaço. Os viajantes acalmavam seus
corações sentando-se à beira dos riachos ou caminhando em direção ao
horizonte que parecia sempre próximo, sempre fácil de atingir, e que fugia
como todos os horizontes. Mas sua proximidade e sua curvatura visível
proporcionavam aos passeantes uma sensação que as dimensões da Terra não
lhes permitiam experimentar: a sensação ao mesmo tempo excitante e
apavorante de caminhar sobre uma bola perdida no infinito.
Os sábios não viram, em lugar nenhum, nessas imagens, traços de
crateras, nem grandes nem pequenas...
Eléa não conhecia Marte, onde não tinham ido até então senão as naves
dos exploradores ou dos militares. Mas ela havia visto "os pastores negros" E
havia reconhecido um, aqui mesmo, no EPI!

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A primeira vez que ela havia encontrado Shanga o africano, havia


manifestado sua surpresa, e o havia designado por palavras que a tradutora
havia dado a seguinte interpretação: "o pastor vindo do nono planeta". Foi
preciso um longo diálogo para compreender primeiro o hábito gonda de contar
os planetas não a partir do Sol, mas a partir do exterior do sistema solar. Em
seguida, que o dito sistema não compreendia para eles nove planetas mas sim
doze, ou seja, três planetas além do maléfico e distante Plutão.
Esta novidade lançou os astrônomos do mundo inteiro num abismo de
cálculos, de vãs observações e de discussões amargas. Que esses planetas
existissem ou não, o nono, em todo o caso, no espírito de Eléa, era Marte. Ela
afirmou que ele era habitado por uma raça de homens de pele negra e que os
navios gonda e enisores haviam trazido algumas famílias. Antes disso, não
existia na Terra nenhum homem de cor negra. Shanga ficou transtornado, e
com ele todos os negros do mundo, que souberam rapidamente da notícia. Raça
infeliz, sua vida errante não tinha então começado com os mercadores de
escravos! Já do fundo dos tempos seus infelizes ancestrais arrancados da África
tinham sido eles mesmos arrancados de sua pátria no céu. Quando terminaria
tanta infelicidade? Os negros americanos se juntaram nas igrejas e cantaram:
"Senhor fazei cessarem as minhas atribulações! Senhor, levai-me de volta para
a minha pátria celeste". Uma nova nostalgia nascia no grande coração coletivo
da raça negra.

Depois de terem se alimentado e se banhado, Eléa e Paikan subiram pela


pequena rampa interna para a cúpula de trabalho. Acima da prateleira
horizontal em semi-círculo que corria ao longo da parede transparente, faixas
de onda mostravam imagens de nuvens diversas em evolução. Uma delas
inquietou Paikan. Depois de consultar Eléa, chamou a Central do Tempo. Uma
imagem nova iluminou-se acima da mesa. Era o rosto do seu chefe de serviço,
Mikan. Ele parecia cansado. Seus longos cabelos grisalhos estavam sem brilho,
despenteados, e seus olhos vermelhos. Saudou-o.
Você estava em casa esta noite?
Sim.

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Você viu aquilo? Lembrou-me coisas muito tristes! É verdade que vocês
não tinham nascido, nem um nem outro. Mas não se pode deixar que eles ajam
assim, esses sem-vergonhas! Por que você me chamou? Alguma novidade?
Uma turbulência. Olhe!...
Paikan abriu três dedos e fez um gesto. Uma imagem desapareceu,
enviada à Central do Tempo.
— Estou vendo... — disse Mikan. — Não gosto disto... Se a deixarmos
agir, ela vai misturar todo o nosso dispositivo. Quais as possibilidades que você
tem nesse setor?
— Posso derivá-la ou apagá-la.
— Então faça, apague,apague, não gosto nada disso...
A imagem de Mikan desapareceu. A Torre do Tempo de Gonda-7 e todas as
outras semelhantes mantinham acima do continente uma rede de condições
meteorológicas controladas, cujo fim era reconstituir o clima transformado pela
guerra, a fim de permitir que renascesse a vegetação.
Um sistema automático assegurava a manutenção das condições previstas.
Era muito raro que Paikan ou Eléa tivessem que intervir. Na ausência de um
deles, outra torre teria feito o necessário para destruir no ovo este pequeno
ciclone perturbador.
Uma casa de repouso em forma de cone azul-pálido chegou até a altura da
cúpula e foi pousar perto da auto-estrada quebrada, cujas doze pistas
arrancadas se espalhavam como um buquê virado em direção ao céu. Não
haviam consertado as auto-estradas. As usinas não fabricavam mais veículos de
rodas ou de esteiras. Os transportes enterrados, pistas, avenidas ou elevadores,
eram todos coletivos, e os da superfície todos aéreos... Podiam sobrevoar o solo
a alguns centímetros ou em altitudes consideráveis, a qualquer velocidade e
pousar em qualquer lugar.
Os casais da geração de pós-guerra que utilizavam as casas de repouso
não aproveitavam nada de suas possibilidades. Não ousavam se aventurar mais
longe do que as Bocas, que os pequenos marsupiais longe do bolso materno.
Era por essa razão que se viam tantas concentrações de casas móveis na beira
ou mesmo no meio das ruínas das cidades antigas, que geralmente cobriam as
cidades subterrâneas. Os gondas mais idosos, que ainda se lembravam da vida

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

exterior, percorriam o continente em todos os sentidos, à procura de


fragmentos de superfície ainda vivos, e voltavam a se enterrar com a visão
horrível dos espaços vitrificados, e o pungente pesar de um mundo
desaparecido.
Eléa olhou se o correio havia chegado. A caixa transparente continha duas
armas G com seu cinto e duas esferas minúsculas que deviam conter, cada
uma, um Grão Negro. Havia ainda três plaquetas-correio, das quais duas de cor
vermelha, a cor das comunicações oficiais.
Eléa abriu a caixa com sua chave, pegou com repugnância as armas e os
grãos, e colocou-os sobre uma mesa.
— Você vem ouvir o correio? — perguntou a Paikan.
Este deixou a Cúpula continuar sozinha o trabalho e aproximou-se.
Pegou as placas vermelhas, franzindo as sobrancelhas. Uma trazia o seu
nome e o selo do Ministério da Defesa, a outra o nome de Eléa e o selo da
universidade.
— O que é isso? — perguntou ele.
Mas Eléa já havia introduzido na fenda de leitura a plaqueta verde sobre a
qual havia reconhecido o retrato de sua mãe. O rosto dela se materializou
acima da tela-leitura. Era um rosto um pouco mais idoso que o de Eléa, e
parecia-se muito com ela, com uma qualquer coisa de mais frívolo.
— Escute, Eléa — disse ela — espero que estejas bem; eu estou. Parto para
Gonda-41, não tenho notícias do seu irmão. Ele foi mobilizado em plena noite
para levar um comboio de tropas para a Lua e não deu mais sinal de vida há
oito dias. É claro, tudo isto são histórias militares. Eles não podem deslocar uma
formiga sem fazer um mistério de mamute. Mas Anéa, está sozinha com seu
bebê, e muito inquieta. Eles bem poderiam ter esperado um pouco antes de
tirar suas chaves! Há somente dez anos que foram designados. Trate de não
fazer como eles, vocês tem bastante tempo, agora não é de maneira alguma o
momento de fazer filhos! Enfim, é assim, não há nada a fazer, vou até lá.
Mandarei notícias. Cuide um pouco do seu pai, ele não pode me acompanhar,
está mobilizado em seu trabalho. Creio que o conselho e os militares estão
todos loucos! Enfim, não se pode fazer nada, vá visitá-lo e preste atenção no
que ele come, quando ele está sozinho aperta a máquina-de-comer de qualquer

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

maneira, não presta atenção a nada, é uma criança. Escute, Eléa, está
terminado.
— Forkan mobilizado. Seu pai também! Isto é incrível! O que é que eles
estão preparando?
Nervosamente, Paikan enfiou uma das plaquetas vermelhas no leitor. O
emblema da defesa apareceu acima do quadro: um ouriço redondo cujos
espinhos lançavam chamas.
—Escute, Paikan — disse uma voz indiferente...
Era uma ordem de mobilização no local do seu trabalho. A segunda placa
vermelha introduzida no leitor materializou acima do quadro o emblema da
universidade, que não era outro senão o sinal da equação de Zoran.
— Escute, Eléa — disse uma voz grave -, sou Coban!
— Coban!
Seu rosto apareceu no lugar da Equação de Zoran. Todos os seres vivos de
Gondawa o conheciam. Era o homem mais célebre do continente. Tinha dado a
seus compatriotas o soro 3 que os tornava refratários a todas as doenças, e o
soro 7, que os permitia recuperar tão rapidamente suas forças depois de
qualquer esforço que tivessem feito. Graças a isso o equivalente da palavra
fadiga estava em vias de desaparecer da língua gonda.
No seu rosto magro de faces encovadas, seus grandes olhos negros
brilhavam com a chama do amor universal. Este homem não pensava senão nos
outros homens, e, acima dos homens, na própria vida, nas suas maravilhas e
nos seus horrores, contra os quais lutava permanentemente, com toda a sua
inteligência e todas as suas forças. Tinha os cabelos negros cortados curto, na
altura das orelhas. Tinha 32 anos, mas parecia tão jovem quanto seus
estudantes, que o veneravam e copiavam seu corte de cabelo.
— Escute, Eléa, sou Coban. Quis informá-la pessoalmente de que, a meu
pedido, você estará, em caso de mobilização total, convocada para um posto
especial na universidade, junto a mim. Não a conheço e desejo conhecê-la.
Peço-lhe que esteja no laboratório 51, o mais cedo possível. Deve dar seu nome
e número e ser trazida à minha presença. Escute, Eléa, eu a espero.
Eléa e Paikan se entreolharam sem nada compreender. Havia nesta
mensagem dois elementos contraditórios: "Estará convocada a meu pedido" e

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

"não a conheço..." E havia sobretudo a ameaça de serem mobilizados e postos


afastados um do outro. Desde a sua designação eles nunca mais haviam se
separado. E não podiam encarar esta perspectiva. Isto lhes parecia
inimaginável.
— Irei com você ver Coban. Se ele realmente tem necessidade de você, lhe
pedirei para me convocar também. Na torre qualquer um pode me substituir.
Era simples, era possível se Coban quisesse. A universidade era a primeira
força do Estado. Nenhum poder administrativo ou militar imperava sobre ela.
Ela possuía seu orçamento autônomo, sua guarda independente, seus próprios
emissores e não tinha que dar contas a ninguém. Quanto a Coban, embora não
ocupasse nenhum posto político, o Conselho Diretor de Gondawa não tomava
decisão grave sem consultá-lo. E se ele tinha necessidade de Eléa, Paikan, que
havia recebido exatamente a mesma educação e a mesma instrução, poderia
também ser-lhe útil.
De qualquer maneira, nada urgia, a idéia mesmo da guerra sendo uma
monstruosidade absurda, não se deveriam deixar dominar pelo nervosismo
oficial. Todos esses burocratas fechados nos seus palácios subterrâneos não
tinham mais noção da realidade.
— Eles deveriam subir mais vezes para ver tudo isto — disse Eléa.
O sol da manhã clareava o caos das ruínas dominado a oeste pela massa
enorme do estádio quebrado e revirado. A este, a auto-estrada retorcida
afundava-se na planície nos reflexos de vidro sobre a qual nenhuma graminha
tinha conseguido nascer.
Paikan passou seus braços ao redor dos ombros de Eléa e apertou-a contra
ele.
— Vamos até a floresta — disse ele.
Enfiou sua chave na placa de comunicação, chamou o parqueamento da
Profundidade-1, e chamou um táxi. Alguns minutos mais tarde uma bolha
transparente vinha parar no lugar de encostar. Passando diante da mesa,
Paikan pegou as duas armas e os cintos.
Voltou para informar à Central do Tempo sobre a sua ausência e dizer
aonde ia. Não podia mais se ausentar sem prevenir. Estava mobilizado.
— Perceberam? Eles são todos canhotos! — disse Hoover.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Falava em voz baixa para Leonova, escondendo seu microfone na mão.


Leonova compreendia muito bem o inglês.
Era verdade. Agora que Hoover lhe havia chamado a atenção isto saltava
aos seus olhos. Estava irritada por não ter sido ela a perceber sozinha. Todos os
gondas eram canhotos. As armas encontradas no pedestal de Eléa, e no de
Coban que também tinha sido aberto, eram em forma de luva para a mão
esquerda. E a imagem da grande tela, neste momento mesmo, mostrava Eléa e
Paikan treinando com os outros gondas manejar armas semelhantes. Todos
atiravam com a mão esquerda sobre alvos de metal de formas diversas, que
surgiam bruscamente do solo e que ressoavam sob o impacto dos golpes de
energia. Era um exercício de habilidade e principalmente de controle. Sob a
pressão exercida pelos três dedos dobrados, a arma G podia curvar um ramo de
grama ou pulverizar um rochedo, triturar um adversário ou somente derrubá-lo.
Um alvo oval ergueu-se subitamente dez passos diante de Paikan. Era azul,
o que significava que ele deveria atirar com um mínimo de força. Com a rapidez
de um raio Paikan dirigiu sua mão esquerda para a arma presa à sua cintura por
uma placa magnética, arrancou-a, ergueu o braço e atirou. O alvo suspirou
como uma corda de harpa atingida e desapareceu.
Paikan começou a rir. Tinha se reconciliado com a arma. Este exercício era
uma brincadeira agradável.
Um alvo vermelho apareceu logo em seguida, ao mesmo tempo que um
verde erguia-se à esquerda de Eléa. Eléa atirou fazendo um quarto de volta.
Paikan, surpreso, teve o tempo exato de atirar antes que os alvos
desaparecessem. O vermelho ressoou como uma tempestade, o verde como um
sino. De todas as partes surgiam alvos que recebiam golpes violentos, piparotes
ou carícias. A clareira cantava como um enorme xilofone sob os martelos de um
louco.
Um engenho da universidade sobrevoou o local, abriu um espaço e pousou
suavemente atrás dos atiradores. Era um engenho rápido. Parecia com um ferro
de lança tendo na parte de cima um casulo transparente onde estava cunhada a
equação de Zoran.
Daí saíram dois guardas universitários, de peitoral e saias verdes, a arma G
do lado esquerdo do ventre, uma granada S sobre a anca direita, a máscara

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

nasal pendurada como um colar. Usavam o penteado de guerra, os cabelos


trançados atrás, seguros por um grampo magnético contra o capacete cônico
de bordas largas. Foram de um grupo a outro, interrogando os atiradores que os
olhavam com espanto e inquietação: nunca tinham visto guardas verdes tão
bem armados.
Os dois guardas procuravam alguém. Quando chegaram perto de Eléa
disseram: procuramos Eléa 3-19-07-91. Tinham passado pela torre e,
encontrando-a vazia, haviam indagado na Central do Tempo. Coban queria ver
Eléa sem demora.
— Vou com ela — disse Paikan.
Os guardas não tinham ordens para se opor. O engenho atravessou o lago
como uma flecha até a Boca e deixou-se cair verticalmente na chaminé verde
da universidade. Diminuiu ao chegar no teto do parqueamento, aproximou-se
do solo acima da pista central, tomou uma pista especial e parou diante da
porta dos laboratórios que se abriu e fechou-se atrás dele.
As ruas e os edifícios da Universidade chamavam a atenção pela sua
simplicidade em contraste com a exuberância vegetal do resto da cidade. Aqui,
as paredes eram nuas, os arcos sem uma flor ou uma folha. Não havia nem um
só ornamento nas portas trapezoidais, o menor riacho no solo da rua branca
onde o engenho prosseguia sua corrida, nem um pássaro no ar, nem um
bichinho surpreendido num dobrar de esquina, nenhuma borboleta, nenhum
coelho branco. Era a severidade do conhecimento abstrato. As pistas de
transporte tinham cadeiras fabricadas e rampas metálicas.
Eléa e Paikan ficaram espantados pela atividade anormal que reinava na
rua debaixo deles. Os guardas verdes em roupa de guerra, cabelos trançados e
capacetes na cabeça, se deslocavam em todas as pistas, sem se espantar dever
passar acima de suas cabeças esse engenho para o qual a rua, normalmente,
era interditada. Sinais de cor palpitavam acima das portas, chamadas de nomes
e de números ressoavam, laboratoristas em roupa salmão corriam pelos
corredores, seus longos cabelos envolvidos em mantilhas herméticas. Não era o
quarteirão dos estudos mas sim o dos trabalhos e pesquisas. Nenhum estudante
passeava por ali seus pés descalços e seus cabelos curtos.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

O engenho pousou sobre a ponta de uma encruzilhada em feitio de estrela.


Um dos guardas conduziu Eléa ao laboratório 51. Paikan seguiu-os.
Foram introduzidos numa peça vazia no meio da qual um homem em roupa
salmão, esperava, de pé. A equação de Zoran, carimbada em vermelho do lado
direito do seu peito indicava que ele era o chefe do laboratório.
— Você é Eléa? — perguntou ele.
— Eu sou Eléa.
— E você?
— Eu sou Paikan.
— Quem é Paikan?
— Eu sou de Eléa — respondeu Paikan.
— Eu sou de Paikan — disse Eléa. O homem pensou um instante.
— Paikan não foi convocado. Coban quer ver Eléa.
— Eu quero ver Coban — replicou Paikan.
—Vou lhe dizer que está aqui. Vai ter que esperar.
— Acompanho Eléa.
— Eu sou de Paikan — disse Eléa.
— Houve um momento de silêncio, depois o homem falou:
— Vou prevenir Coban... Antes de vê-lo, Eléa deve passar pelo teste geral
Eis a cabina...
Abriu uma porta translúcida. Eléa reconheceu a cabina padrão na qual
todos os seres de Gondawa tinham que se fechar ao menos uma vez por ano
para conhecer sua evolução fisiológica, e modificar, em caso de necessidade,
sua atividade e sua alimentação.
— É preciso? — perguntou ela.
— É preciso.
Ela entrou na cabina e sentou-se na cadeira.
A porta fechou-se. Os instrumentos se acenderam ao redor dela, claridades
de cores saltaram diante de seu rosto, os analisadores ronronaram, o
sintetizador estalou. Estava terminado. Ela levantou-se e empurrou a porta. A
porta continuou fechada. Espantada, ela empurrou com mais força, sem
resultado.
Chamou, inquieta:

145
PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Paikan!
Do outro lado da porta Paikan gritou:
— Eléa!
Ela tentou mais uma vez abrir. Adivinhou que havia nesta porta fechada
algo de terrível. Gritou:
— Paikan! A porta!
Ele se atirou. Ela viu sua silhueta estourar contra o material translúcido. A
cabina foi sacudida, os instrumentos quebrados caíram ao chão, mas a porta
não cedeu.
Nas costas de Eléa, a divisão da cabina se abriu.
— Venha, Eléa — disse a voz de Coban.
Duas mulheres estavam sentadas diante de Coban. Uma era Eléa. A outra,
morena, muito linda, de formas mais redondas, mais opulenta. Eléa era o
equilíbrio dentro da medida perfeita. A outra era o desequilíbrio que dá o élanra
a fecundidade. Enquanto que Eléa protestava, reclamava Paikan, e exigia ir
encontrá-lo, a outra estava calada, olhando-a com calma e simpatia.
— Espere, Eléa — disse Coban -, espere para saber.
Usava a severa roupa salmão dos laboratoristas. Porém a equação de
Zoran, sobre seu peito, estava impressa em branco. Andava de um lado para
outro, pés descalços como um estudante, entre suas mesas e escrivaninhas e
as paredes de alvéolos que continham várias dezenas de milhares de. bobinas
de leitura.
Eléa calou-se, muito positiva para teimar num esforço inútil. Escutou.
— Você não sabe ainda — disse Coban — o que ocupa o lugar de Gondawa.
Vou lhe dizer. É a Arma Solar. Apesar dos meus protestos, o conselho está
decidido a utilizá-la se Enisorai nos atacar. E Enisorai está decidida a nos atacar
para destruir a Arma Solar antes que nós a utilizemos. Visto a complexidade e
enormidade de suas dimensões, seria necessário quase doze horas entre o
momento de dar a partida e o momento em que a arma sairá do seu
alojamento. É durante esse meio dia que se jogará a sorte do mundo. Pois se a
arma voa e atinge, será como se o sol mesmo caísse sobre Enisorai. Enisorai
queimará, afundará, desaparecerá... Mas a Terra inteira sofrerá o choque. Que
restará de nós depois de alguns segundos? Que restará da vida?...

146
PDL – Projeto Democratização da Leitura

Coban calou-se. Seu olhar trágico passava acima das duas mulheres.
Murmurou:
— Talvez nada... mais nada...
Recomeçou sua caminhada de animal prisioneiro que procura uma saída.
— E se os enisores conseguirem impedir a partida da arma, eles a
destruirão e nos destruirão também. São dez vezes mais numerosos que nós, e
mais agressivos. Não poderemos resistir à sua multidão. Nossa única defesa
contra eles era meter-lhes medo. Mas nós lhes metemos MEDO DEMAIS!...
Eles vão atacar com todos os meios que possuem e se ganharem não
deixarão nada de uma raça e uma civilização capaz de fabricar a Arma Solar. E
é por esta razão que o Grão Negro foi distribuído aos seres de Gondawa. Para
que os prisioneiros escolham, se querem morrer por suas próprias mãos, ou
então nas fogueiras de Enisorai...
Eléa endireitou-se, combativa.
— É absurdo! É horrível! É imundo! Temos que impedir esta guerra! Por
que vocês não fazem alguma coisa, em vez de gemer? Sabotem a arma! Vão a
Enisorai! Eles lhe escutarão! Você é Coban!
Coban parou diante dela, olhou-a gravemente, com satisfação.
— Você foi bem escolhida — disse ele.
— Escolhida por quem? Escolhida para quê? Ele não respondeu a estas
perguntas, mas sim à precedente.
— Eu faço alguma coisa. Tenho emissários em Enisorai que entraram em
contato com os sábios do Distrito de Conhecimento. Eles compreendem os
riscos da guerra. Se puderem assumir o governo, a paz estará salva. Mas resta
pouco tempo. Tenho um encontro com o Presidente Lokan. Vou tentar
convencer o conselho a renunciar ao uso da Arma Solar e de fazer com que
Enisorai saiba disso. Mas tenho contra mim os militares, que pensam somente
na destruição do inimigo, e o Ministro Mozran, que construiu a arma e que tem
vontade de vê-la funcionar!
Se eu fracassar, vamos tentar uma outra coisa. É por isso que vocês foram
escolhidas, vocês duas e mais três outras mulheres de Gondawa. Eu quero
SALVAR A VIDA.
— A vida de quem?

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

— A vida simplesmente, A VIDA!... Se a Arma Solar funcionar alguns


segundos mais do que o previsto, a Terra será afetada de tal modo, que os
oceanos sairão de suas fossas, os continentes se abrirão, a atmosfera atingirá o
calor do aço fundido e queimará tudo, até mesmo nas profundezas do solo. Não
se sabe onde pararão os desastres. Por causa do seu poder tremendo, Mozran
nunca pôde experimentar a arma, mesmo em escala reduzida. Não se sabe,
mas pode-se prever o pior. Foi o que eu fiz...
— Escute, Coban — disse uma voz. — Quer saber as últimas notícias?
— Sim — respondeu Coban.
— Eis aqui: as tropas enisores em guarnição na Lua invadiram a zona
internacional. Um comboio militar que partiu de Gonda-3 para a nossa zona
lunar foi interceptado por forças enisores antes de sua alunissagem. Destruiu
uma parte dos assaltantes. A batalha continua. Nossos serviços de observação
longínqua têm a prova de que Enisorai mandou buscar suas bombas nucleares
que estavam em órbita ao redor do Sol e as leva para Marte e para a Lua.
Escute Coban, está terminado.
— Está começando... — comentou Coban.
— Quero voltar para perto de Paikan — disse Eléa. — Você não nos dá
outra esperança senão morrer ou morrer. Quero morrer com ele.
— Eu fiz uma coisa — disse Coban. — Fiz um abrigo que resistirá a tudo. Eu
o guarneci com todas as espécies de plantas, óvulos fecundados de todas as
espécies de animais e incubadores para desenvolvê-lo, medi dez mil bobinas de
conhecimentos, de máquinas silenciosas, de instrumento, de móveis, de todas
as amostras da nossa civilização, de tudo o que é necessário para fazer
renascer uma semelhante. No centro, colocarei um homem e uma mulher. O
computador escolheu cinco mulheres, por seu equilíbrio psíquico e físico, por
sua saúde e sua beleza perfeita. Elas receberam o número de um a cinco por
ordem de perfeição. A um morreu anteontem em um acidente. A número quatro
está em viagem em Enisorai, não poderá voltar. A número cinco mora em
Gonda-62. Mandei buscá-la também. Temo que ela não esteja aqui a tempo. A
número dois é você, Lona, a número três é você, Eléa.
Calou-se durante um segundo, deu uma espécie de sorriso fatigado, virou-
se para Lona, e continuou:

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Naturalmente, não haverá senão uma mulher no abrigo. Será você,


Lona. Você viverá...
Lona ergueu-se, mas antes que tivesse tempo de falar, uma voz adiantou-
se:
— Escutai, Coban, fiz os testes de Lona n.° 2. Todas as qualidades pedidas
presentes ao máximo, mas o metabolismo em evolução e o período hormonal
em vias de perturbação: Lona n.° 2 está grávida de duas semanas.
— Você sabia? — perguntou Coban.
— Não — respondeu Lona. — Mas esperava. Tiramos nossas chaves na
terceira noite da primavera.
— Tenho pena por você — disse Coban — separando as mãos. Isto a exclui.
O homem e a mulher colocados no abrigo serão postos em hibernação de frio
absoluto. É possível que a sua gravidez atrapalhe o sucesso da operação. Não
posso assumir esse risco. Volte para casa. Peço que não diga nada durante um
dia, sobre o que ouviu aqui, mesmo junto ao seu Designado. Dentro de um dia
tudo já terá acontecido.
— Eu me calarei — disse Lona.
— Eu acredito em você. O computador definiu-a da seguinte maneira:
sólida, lenta, calada, defensiva, implacável.
Fez um sinal aos dois guardas verdes que estavam diante da porta. Eles se
afastaram para deixar sair Lona. Coban virou-se para Eléa.
— Então será você — disse ele.
Eléa sentiu-se transformar num bloco de pedra. Depois sua circulação
restabeleceu-se com violência e seu rosto enrubesceu. Controlou-se para ficar
calma e sentou-se. Ouviu novamente a voz de Coban:
— O computador definiu-a assim: equilibrada, rápida, obstinada, ofensiva,
eficaz.
Ela se sentiu novamente capaz de falar. Atacou:
— Por que não deixou entrar Paikan? Não irei sem ele para o seu abrigo.
— O computador escolheu as mulheres pela beleza e pela saúde, e
também, bem entendido, pela inteligência. Escolheu os homens pela saúde e
pela inteligência, mas antes de tudo pelos seus conhecimentos. É preciso que o
homem que saia do abrigo dentro de alguns anos, talvez mesmo dentro de um

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

século ou dois seja capaz de compreender tudo aquilo que está impresso nas
bobinas, e mesmo, se possível, saber mais que elas. Seu papel não será apenas
o de fazer filhos. O homem que for escolhido deve ser capaz de fazer renascer o
mundo. Paikan é inteligente, mas seus conhecimentos são limitados. Ele não
saberia nem mesmo interpretar a equação de Zoran.
— Então, quem é o homem?
— O computador escolheu cinco.
— Quem é o número um?
— Sou eu — disse Coban.

— Enisorai já era vocês — disse Leonova a Hoover. — Vocês já eram os


americanos sujos, imperialistas, tentando engolir o mundo inteiro e seus
acessórios.
— Minha bela — replicou Hoover -, nós, os americanos de hoje, não somos
senão os europeus deslocados, seus priminhos de viagem... Gostaria bem que
Eléa nos mostrasse um pouco a cara dos primeiros ocupantes da América.
Não vimos senão gondas, até agora. Na próxima sessão, pediremos a Eléa
para nos mostrar os enisores.
Eléa lhes mostrou os enisores. Ela tinha ido com Paikan numa viagem até
Diedohu, a capital de Enisorai Central, para a Festa da Nuvem. Fez aparecer
para eles as imagens de sua memória.
Eles chegaram com Eléa, num transporte de longa distância. No horizonte
uma cadeia de montanhas gigantescas escalava o céu. Quando chegaram mais
perto viram que a montanha e a vila formavam um só bloco. Construída em
enormes blocos de pedra, a cidade agarrava-se à montanha, cobria-a, superava-
a apoiava-se nela para projetar para cima sua lança terminal: o monólito do
templo, cujo cimo se perdia numa nuvem eterna.
Viram os enisores trabalhar e se divertir. As necessidades da população
eram tão consideráveis e seu crescimento tão rápido, que, mesmo nesse dia da
Festa da Nuvem, não podiam parar de construir. Sem cessar, incansavelmente,
como formigas, os construtores aumentavam a cidade, abriam ruas, escadas e
praças nos flancos ainda virgens da montanha, construíam rampas, casas e
palácios. Não utilizavam outras ferramentas senão suas mãos. Traziam no peito,

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

um colar de ouro, a efígie da serpente-chama, símbolo enisor da energia


universal. Este não era somente um símbolo, mas principalmente um
transformador. Dava a quem o usasse o poder de controlar simplesmente nas
suas mãos todas as forças naturais.
Sobre a grande tela, os sábios do EPI viram os construtores enisores
levantarem sem esforço blocos rochosos que deviam pesar toneladas, colocar
uns sobre os outros, ajustá-los uns aos outros, modelá-los, modificá-los com o
gume da mão e alisá-los com a palma. Entre as mãos dos construtores a
matéria, como um betume, tornava-se imponderável, maleável, dócil. Do
momento em que eles paravam de tocá-la a pedra reencontrava sua dureza,
sua consistência de pedra.
Os estrangeiros convidados para assistir à Festa da Nuvem, não estavam
autorizados a pousar. Os seus engenhos ficavam numa estação aérea perto de
Diedohu. Suas filas curvas arrumadas compunham no céu as bancadas
multicores de um estranho circo pousado sobre o vazio.
Diante deles erguia-se o templo, cuja torre, feita de um só bloco de pedra,
mais alta que o mais alto arranha-céu da América contemporânea, enfiava sua
ponta na nuvem. Uma escadaria monumental, talhada na sua massa,
contornava em espiral o templo. Sobre essa escadaria, depois de horas, uma
multidão subia em direção ao cimo do edifício. Subia lentamente, todos
vergados sob o próprio peso, enquanto em todos os outros lugares, nas ruas e
nas escadarias da cidade, os enisores se deslocavam com uma leveza e uma
rapidez que traíam seu domínio da gravidade. A multidão na escadaria
compunha, pelo colorido de suas roupas, a efígie da serpente-chama. A cabeça
da serpente ondulava sobre a escadaria, à esquerda, à direita, e continuava a
subir. Seu corpo seguia enroscando-se nos degraus ao redor da torre. Devia se
compor de várias centenas de milhares de pessoas, talvez acima do milhão.
Através das vigias abertas dos engenhos entrava a música que ritmava os
movimentos da serpente. Era uma espécie de lento arfar que parecia emanar
da montanha e da cidade, e que a multidão, a da torre a das escadarias e das
ruas, a que subia, a que olhava, a que trabalhava, acompanhava com um ruído
gutural de suas bocas semi-abertas. Quando a cabeça da serpente atingiu a
nuvem, o sol desaparecia atrás da montanha: a cabeça da serpente entrou na

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

nuvem com o crepúsculo. A noite caiu em poucos minutos. Projetores,


instalados em toda a cidade, iluminaram a torre e a multidão que a envolvia. O
ritmo da música e do canto se aceleraram. E a torre começou a se mover.
Viram a torre enfiar-se na nuvem, ou a nuvem abaixar-se sobre a torre, se
retirar, recomeçar, cada vez mais depressa, como se fosse uma enorme cópula
da Terra com o Céu.
O arfar e a música se aceleravam, aumentavam de força, atingiam os
engenhos estacionados no céu, como ondas, e deslocavam o seu alinhamento.
No solo, todos os trabalhadores abandonavam seus trabalhos. Nos palácios,
nas casas, nas ruas, nas praças, os homens se aproximavam das mulheres e as
mulheres dos homens, ao acaso, simplesmente porque estavam próximos, sem
saber se eram bonitos ou feios, velhos ou jovens e o que ele era e o que ela era,
se abraçavam e se apertavam, deitavam-se ali mesmo, no lugar
queencontravam, entravam todos juntos no ritmo único que sacudia a
montanha e a cidade. A torre entrou toda na nuvem, até as suas bases. A
montanha estalou, a cidade levantou-se liberta de seu peso, prestes a se enfiar
no céu até o infinito. A nuvem brilhou, explodiu em toneladas de cataclismos,
depois extinguiu e retirou-se. A cidade pesou de novo sobre a montanha. A torre
estava nua. Não havia mais ninguém na grande escadaria de pedra. Todos os
casais deitados se desuniram e se separaram. Homens e mulheres se
levantaram, estonteados e se afastaram. Outros dormiram ali mesmo. Durante
alguns instantes de uma brevidade sufocante, haviam todos participado do
mesmo prazer cósmico. Cada uma delas tinha sido toda a Terra, cada um deles
tinha sido todo o Céu. Era assim uma vez por ano, em todas as cidades de
Enisorai. Durante o resto dos dias e das noites, os homens enisores não se
aproximavam das mulheres.
Os sábios de EPI interrogaram Eléa. O que tinha acontecido com a multidão
da escadaria?
— A torre a tinha dado à nuvem — disse Eléa. — A nuvem a tinha dado a
energia universal. Todos aqueles que a compunham eram voluntários. Tinham
sido escolhidos desde a sua infância, ou porque apresentassem deficiência de
espírito ou de corpo, mesmo ínfima, seja, ao contrário, porque eram mais
inteligentes, mais fortes, mais belos que a média dos enisores. Educados em

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

função desse sacrifício haviam aprendido a desejá-lo com todo o corpo e alma.
Tinham O direito de se abster, mas um número muito pequeno usava esse
direito. Assim, a raça enisor se mantinha dentro de uma qualidade de nível
constante. Mas este sacrifício, por outro lado, não era suficiente para
compensar a natalidade que provocava. Durante a Festa da Nuvem, eram
concebidos vinte vezes mais enisores do que pereciam sobre todas as torres do
continente.
— Mas — disse Hoover — todas estas mulheres vão ter filhos no mesmo
dia!
— Não — retrucou Eléa. — O tempo de gravidez, em Enisorai, variava de
duas a três estações, segundo o desejo da mãe e segundo sua idade. Conforme
vocês viram, não havia Designação, e portanto não havia casais, nem famílias.
Os homens e mulheres viviam misturados, em estado de igualdade absoluta de
direitos e de deveres, nos palácios comuns ou nas casas individuais, como
desejassem. As crianças eram educadas pelo Estado. Não conheciam sua mãe
e, bem entendido, menos ainda seu pai.
Embora o engenho de Eléa ficasse bem acima da multidão, pela janela
próxima os sábios puderam ver muito detalhadamente um grande número de
rostos de enisores. Todos tinham os cabelos negros e lisos, os olhos
amendoados, as maçãs salientes, o nariz arqueado em cima e achatado em
baixo. Incontestavelmente eram os ancestrais comuns dos maias, dos astecas,
e de outros índios da América; talvez também dos japoneses, dos chineses e de
todas as raças mongólicas.
— Eis aí, seus imperialistas — disse Hoover a Leonova. Sorriu, depois
acrescentou:
— Espero que nos queiram menos mal, agora, por ter de certa maneira
maltratado os seus descendentes...
— Não é a vida que você quer salvar — disse Eléa -, mas a sua vida. E você
fez procurar, pelo computador, as cinco mais belas mulheres do continente,
para escolher aquela que o acompanhará!
— Olhe - replicou Coban com uma seriedade triste -, quem eu escolheria
para salvar comigo, se tivesse esse direito...

153
PDL – Projeto Democratização da Leitura

Ele ativou um feixe de ondas. Acima da mesa surgiu a imagem de uma


menina que se parecia extraordinariamente com Coban. De joelhos sobre um
gramado perto de um lago da 9ª Profundidade, acariciava uma corça de olhos
pintados. Seus longos cabelos negros de menina caíam-lhe até os ombros nus.
Seus braços graciosos se enroscavam em torno do pescoço do bicho que lhe
mordiscava a orelha.
— É Doa, minha filha — disse Coban. — Tem 12 anos e vive só. Todas as
meninas da sua idade há muito tempo já têm um companheiro. Mas ela é só...
Porque é, como eu, uma não designada... O computador não pôde encontrar
uma companheira que pudesse me suportar sem me irritar pela lentidão do seu
espírito. Uma certa vivacidade das faculdades mentais condena à solidão. Vivi
alguns períodos com viúvas, separadas, e não designadas também. A mãe de
Doa era uma. Sua inteligência era grande mas seu gênio atroz. O computador
não quis sobrecarregar homem nenhum. Por causa da sua inteligência, e da sua
beleza, eu lhe pedi para conceber um filho meu. Ela aceitou, na condição de
ficar a meu lado para educá-lo. Pensei que fosse possível. Tiramos nossas
chaves. Alguns dias mais tarde tivemos que nos separar. Ela era bastante
inteligente para compreender que não podia encontrar a felicidade perto de
ninguém, nem mesmo junto de seu filho. Quando este nasceu, ela o mandou
para mim. Era Doa...
— Doa, por sua vez, recebeu do computador uma resposta negativa. Seu
caráter era meigo, mas sua inteligência superior à minha. E ela não encontrará
seu igual em parte alguma. Se ela viver...
A voz de Coban calou-se emocionada. Apagou a imagem.
— Não acredita que ame Doa tanto quanto você ama Paikan? Não acredita
se eu obedecesse aos meus motivos egoístas, seria ela quem eu fecharia
comigo no abrigo? Ou que ficaria perto dela, deixando com prazer meu lugar ao
número 2? Mas conheço o número 2, sei o que valem seus conhecimentos e o
que valem os meus. O computador teve razão ao me designar. Não se trata de
amor, nem de sentimentos, nem mesmo de nós mesmos. Estamos diante de um
dever que nos supera. Temos, você e eu, que preservar a vida universal e
refazer o mundo.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Escute bem, Coban — disse Eléa -, estou pouco me incomodando com o


mundo, estou pouco me incomodando com a vida, a dos homens e a do
universo. Sem Paikan, não há universo, não há vida. Dê-me Paikan no abrigo, e
eu o bendirei até o fim da eternidade!
— Não posso — respondeu Coban.
— Dê-me Paikan! Fique com sua filha! Não a deixe morrer sozinha abando
nada por você!
— Não posso — repetiu Coban em voz baixa.
Seu rosto exprimia ao mesmo tempo uma resolução e uma tristeza infinita.
Este homem estava no fim das forças de um combate que o deixava arrasado.
Mas sua decisão estava tomada de uma vez por todas. Não tinha podido
construir um abrigo maior. O governo, todo absorvido por Gonda-1. o monstro
colossal que aí estava, havia se desinteressado do projeto de Coban, tinha-o
deixado agir mas se negara a ajudá-lo. A universidade sozinha havia feito todo o
abrigo. Esta fabricação, esta concepção havia mobilizado toda a sua força
energética, todos os recursos de suas máquinas, dos seus laboratórios, dos seus
créditos. Era fruto único de uma planta enorme... Não conteria senão dois grãos.
Um terceiro o condenaria a morrer. Mesmo pequeno, mesmo Doa. Não podia
receber senão um homem e uma mulher.
— Então, escolha outra mulher! — gritou Eléa. — Existem milhões!
— Não — disse Coban -, não há milhões, só existe cinco, e não existe senão
você... O computador escolheu-a porque você é excepcional. Não, não há outra
mulher, e nenhum outro homem. É você e eu! Não falemos mais, Peço-lhe por
favor, está decidido.
— Você e eu? — perguntou Eléa. Você e eu! — respondeu Coban.
— Eu o detesto — disse Eléa.
— Eu também não a amo — retrucou Coban. — Isto não importa.
— Escute, Coban — disse uma voz -, o Presidente Lokan quer lhe falar vê-
lo.
— Eu o escuto e o vejo — disse Coban.
A imagem de Lokan surgiu num canto da peça. Coban deslocou-a para que
ela ficasse à sua frente, do outro lado da mesa. Lokan parecia arrasado pela
angústia.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Escute, Coban — disse ele. — Onde estão os seus contatos com os


homens do Distrito de Conhecimento de Enisorai?
— Espero uma notícia a qualquer momento.
— Não podemos esperá-los mais! Não é possível. Os enisores bombardeiam
nossas guarniçoes de Marte e da Lua com bombas nucleares. Os nossos estão a
caminho, vamos responder. Mas, por mais atroz que seja, isto é nada. exército
de invasão enisor está em vias de sair de suas montanhas e de instalar nas
bases de partida. Dentro de algumas horas ele vai cair sobre Gondawa Ao
primeiro vôo assinalado pelos nossos satélites, tenho que ligar e deixar partir a
Arma Solar! Mas sou como você, Coban, tenho medo desse horror! Ainda é
tempo de salvar a paz! O governo enisor sabe que o envio do seu exército
significará a morte do seu povo. Mas, ou ele não está ligando, ou ele espera
destruir a arma antes que ela parta! Kutiyu está louco! Só os homens do distrito
podem tentar convencê-lo ou derrubá-lo! Não temos nem a metade de um
instante a perder, Coban! Suplico-lhe, tente encontrá-los!
— Mas não posso encontrá-los diretamente! Vou chamar Partao em
Lamoss. A imagem do presidente se apagou. Coban enfiou sua chave numa
placa
— Escute — falou -, quero ver e falar com Partao em Lamoss.
— Partao em Lamoss — repetiu uma voz. — Chamarei. Coban explicou a
Eléa:
— Lamoss é o único país que ficará neutro neste conflito. Por uma vez, não
terá tempo para aproveitar... Partao é o chefe da Universidade Lamo. Ele é o
meu contato com os homens do distrito.
Partao apareceu e disse a Coban que havia contatado Soutako no distrito.
— Ele não pode fazer nada, está desamparado. Vai chamar diretamente.
Uma imagem descorada iluminou-se ao lado da de Partao. Era Soutako, com
roupa e toga de professor. Tinha um ar transtornado, falava fazendo gestos,
batia no peito e designava com um dedo esticado alguma coisa ou alguém ao
longe. Não se entendia uma palavra do que ele dizia. Imagens de cores
mutáveis cortaram a sua imagem em pedaços, tremiam, juntavam-se,
afastavam-se. Ele desapareceu.
— Não posso lhes dizer mais nada — disse Partao. — Talvez boa sorte?...

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Desta vez — sussurrou Coban — não haverá sorte para ninguém


Chamou Lokan para pô-lo ao corrente. Lokan pediu-lhe para encontrá-lo no
conselho que ia se reunir.
— Eu vou — afirmou Coban.
Virou-se para Eléa que havia assistido à cena sem dizer uma palavra, sem
fazer um gesto.
— Eis aí — ele disse com uma voz glacial. — Agora você sabe qual é a
situação. Não há lugar para sentimentos. Esta noite entraremos no abrigo. Meus
assistentes vão prepará-la. Você vai, entre outros cuidados, receber única dose
existente do soro universal. Ela foi sintetizada, molécula por molécula no meu
laboratório pessoal, há seis meses. A dose precedente, fui eu quem a
experimentou. Estou pronto. Se por milagre nada acontecer, você e eu
ganhamos pois seremos as primeiras pessoas a gozar da juventude eterna.
Neste caso, eu lhe prometo que a dose seguinte será para Paikan. O soro nos
permitirá sem dificuldades através do frio absoluto. Vou confiá-la a meus
homens. Eléa levantou-se e correu para a porta. Com sua mão esquerda
fechada tingiu com um golpe terrível um guarda na têmpora. O homem caiu. O
outro agarrou o punho de Eléa e a derrubou de costas.
— Deixem-na! — gritou Coban. — Proíbo-lhes de tocá-la! Faça o que fizer!
O guarda deixou-a. Ela correu novamente para a porta, mas esta não se
abriu.
— Eléa — disse Coban -, se você aceitar o tratamento sem se debater, sem
tentar fugir, autorizarei a que você veja Paikan antes de entrar no abrigo. Ele foi
levado de volta à torre e está informado do que vai lhe acontecer. Espera
notícias suas. Eu lhe prometi que ele a veria novamente. Se você resistir, se
você protestar, se você lutar a ponto de comprometer os preparativos, eu a
farei adormecer, e você não o verá jamais.
Ela o olhou um instante em silêncio, respirou profundamente para retomar
o controle dos seus nervos.
— Pode fazer virem seus homens — disse ela. — Não farei nada. Coban
apoiou-se sobre uma placa. Uma parte da parede escorregou, deixando ver um
laboratório ocupado por guardas e laboratoristas, entre os quais Eléa
reconheceu o chefe de laboratório que os havia recebido.

157
PDL – Projeto Democratização da Leitura

O homem designou-lhe uma cadeira diante dele.


— Venha.
Eléa entrou no laboratório. Antes de deixar o escritório de Coban, virou-se
para ele.
— Eu o detesto — disse ela.
— Quando sairmos do abrigo sobre a Terra morta — disse Coban — não
haverá mais nem ódio nem amor. Existirá somente o nosso trabalho que
acabara de receber do Japão. Tratava-se principalmente de projetores de luz
coerente com a do meio ambiente com os quais ele esperava iluminar a sala do
motor, através da laje transparente, e fotografá-la. Ao parar, o motor do fio
havia se apagado e a sala embaixo da laje tinha se tornado um bloco escuro. A
temperatura tinha subido rapidamente, a neve e a geada tinham-se fundido, a
água tinha sido aspirada, a parede e o solo secados com ar quente. Enquanto
que seus assistentes suspendiam os projetores em tripés, Hoi-To,
maquinalmente, olhava a seu redor. A superfície da parede pareceu-lhe curiosa,
não era polida, não era baça, era meio ondeada. Passou sobre a superfície a
ponta de seus dedos longos e sensíveis e depois as unhas. Elas arranharam.
Assestou um projetor sobre a parede, com luz rasante, olhou por alto,
introduziu uma espécie de microscópio com teleobjetiva e pequenas lentes.
Breve não teve mais dúvida: a superfície da parede estava gravada de inúmeras
estrias. E cada uma dessas estrias era uma linha de escrita gonda. As bobinas
de leituras das salas dos alvéolos tinham sido decompostas pelo tempo, mas o
muro do ovo, inteiramente impresso em sinais microscópicos, representava o
equivalente de uma considerável biblioteca.
Hoi-To tirou logo algumas fotografias, ampliou-as ao máximo, em
diferentes pontos da parede, afastadas umas das outras. Uma hora mais tarde,
ele as projetava sobre uma grande tela. Lukos, muito excitado, identificou
fragmentos de discursos históricos e tratados científicos, uma página de
dicionário, um poema, um diálogo que talvez fosse uma peça de teatro ou uma
discussão filosófica.
O muro do ovo parecia ser uma verdadeira enciclopédia de conhecimentos
de Gondawa.

158
PDL – Projeto Democratização da Leitura

Um dos clichês projetados comportava numerosos signos isolados, nos


quais Lukos reconheceu símbolos matemáticos, que cercavam o símbolo da
equação de Zoran.

Eléa acordou estendida sobre um tapete de peles. Repousava sob uma


coberta morna e macia pousada sobre nada. Flutuava num estado de descanso
total.
Havia sido examinada da cabeça aos pés, pesada quase que célula por
célula,alimentada, massageada, impregnada, equilibrada, balanceada até não
ser mais que um corpo no peso exatamente requerido e de uma passividade
perfeita. Depois Coban, tendo voltado, explicou-lhe o mecanismo da abertura e
do fechamento do abrigo, ao mesmo tempo que administrava ele mesmo, em
fumaças para respirar, em óleo sobre a língua, em neblina nos olhos, em longas
modulações de infra-sons sobre as têmporas, os diversos elementos do soro
universal. Ela havia sentido uma energia nova, luminosa, invadir todo o seu
corpo, limpar todos os recantos de cansaço, encher até sua pele de um
entusiasmo semelhante ao das florestas na primavera. Ela se sentia tornar dura
como uma árvore, forte como um touro, equilibrada como um lago. A força, o
equilíbrio e a paz haviam-na irresistivelmente conduzido ao sono.
Adormecera na poltrona do laboratório, acabava de abrir os olhos sobre
este tapete, numa peça redonda e nua. A única porta encontrava-se diante
dela. Diante da porta um guarda verde, sentado sobre um cubo, olhava-a.
Segurava na ponta dos dedos um objeto de vidro feito de tubos minúsculos
entrelaçados em volteios complicados. Os tubos frágeis estavam cheios de um
líquido verde.
Já que a senhora não dorme mais - disse o guarda - vou preveni-la: se
tentar sair à força, abro os dedos, isto cai e quebra, e a senhora dormirá como
uma pedra.
Eléa não respondeu. Olhou-o. Mobilizava todos os recursos do seu espírito
com um só fim: sair e encontrar Paikan.
O guarda era grande de ombros largos, cintura grossa. Seus cabelos
trançados tinham a cor do bronze novo. Estava com a cabeça descoberta e sem

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arma. Seu pescoço grosso era quase tão largo quanto seu rosto maciço.
Constituía um sério obstáculo diante da porta única. Na ponta do seu braço
musculoso, da sua mão rude, segurava esse objeto infinitamente frágil,
obstáculo ainda mais forte.
— Escute, Eléa — disse uma voz. — Paikan pede para lhe falar e vê-la. Nós
permitiremos.
A imagem de Paikan apareceu entre ela e o guarda. Eléa saltou e ficou de
pé.
— Eléa!
— Paikan!
Ele estava de pé na cúpula de trabalho. Ela via perto dele um fragmento da
mesa e a imagem de uma nuvem.
— Eléa! Onde está você? Onde? Por que você vai me abandonar?
— Eu recusei! Eu sou sua! Eu não sou deles! Coban obrigou-me! Eles me
prenderam!
— Vou buscá-la! Quebrarei tudo! Matarei todos! Sacudiu sua mão esquerda
enfiada na arma.
— Você não pode! Você não sabe onde é que estou!... Eu também não sei!
Espere, eu voltarei! De qualquer maneira!...
— Acredito em você, estou esperando — disse Paikan. A imagem
desapareceu.
O guarda, sempre sentado, olhava Eléa. Em pleno centro da peça redonda,
ela o olhava e avaliava. Deu um passo na sua direção. Ele pegou a máscara que
estava pendurada como um colar e ajustou-a sobre o nariz.
— Atenção! — disse com uma voz nasal.
Sacudiu ligeiramente, com todo o cuidado, os entrelaçamentos frágeis dos
tubos de vidro.
— Eu o conheço — disse ela. Ele a olhou surpreso.
— Você e seus semelhantes. Vocês são simples, vocês são corajosos.
Fazem tudo o que lhes dizem e não lhes explicam nada.
Ela fez escorregar a extremidade da faixa azul do busto, e começou a
desenrolá-la.
— Coban não lhe disse que você ia morrer.

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O guarda deu um sorriso pequeno. Ele era guarda. Estava nas profundezas,
não acreditava na sua própria morte.
— Vai haver uma guerra e não haverá sobreviventes. Você sabe que eu
digo a verdade: você vai morrer. Vocês todos vão morrer, exceto eu e Coban.
O guarda soube que ela não mentia. Ela não era daquelas que se
rebaixavam a mentir fossem quais fossem as circunstâncias. Mas ela devia
estar enganada, há sempre sobreviventes. Os outros morrem, eu não, pensou.
Agora sua cintura estava nua e ela começou a soltar a faixa em diagonal do
lado do ombro.
— Todo o mundo vai morrer em Gondawa. Coban sabe disso. Ele construiu
um abrigo que nada pode destruir, para nele se encerrar. Encarregou o
computador de escolher a mulher que ele encerraria com ele. Esta mulher sou
eu. Você sabe por que o computador me escolheu entre milhões? Porque sou a
mais bela. Você não viu senão meu rosto, olhe.
Ela desnudou seu seio direito. O guarda olhou aquela carne maravilhosa,
flor e fruto, e ouviu o barulho do sangue latejar nos seus ouvidos.
— Você me deseja? — perguntou Eléa.
Ela continuava lentamente a descobrir seu busto. O seio esquerdo ainda
estava meio encoberto pela fazenda.
— Eu sei qual o gênero de mulher que o computador escolheu para você.
Ela pesa três vezes o meu peso. Uma mulher como eu, você nunca viu...
A faixa inteira caiu ao solo, liberando o seio esquerdo. Eléa deixou seus
braços caírem ao longo do corpo, as palmas da mão meio viradas para a frente,
os braços um pouco afastados, oferecendo seu busto nu, o esplendor vindo dos
seios bem proporcionados, cheios, macios, gloriosos.
— Antes de morrer, você me deseja?
Ela ergueu a mão esquerda, e, com um único gesto, fez cair a roupa que
estava presa nas cadeiras.
O guarda levantou-se, pousou sobre o cubo o perigoso, frágil, ameaçador
objeto de vidro, arrancou sua máscara e sua túnica. Conjunto perfeito de
músculos equilibrados e fortes, seu torso nu era magnífico.
— Você é de Paikan — disse ele.
— Eu lhe prometi: de qualquer maneira.

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— Eu lhe abrirei a porta e a levarei para fora.


Ele tirou a roupa. Estavam de pé, nus, um diante do outro. Ela recuou
lentamente e, quando sentiu o tapete sob seus pés, agachou-se e deitou-se. Ele
se aproximou, poderoso e pesado, precedido por seu desejo soberbo. Deitou-se
sobre ela e ela se abriu.
Ela o sentiu encostar, cruzou suas pernas sobre seus rins e esmagou-o
contra ela. Ele a penetrou como uma lâmina. Ela teve um espasmo de horror.
— Eu sou de Paikan — gritou.
E enfiou seus dois polegares ao mesmo tempo nas carótidas dele.
Ele sufocava e se torcia. Mas ela era forte como dez homens e o segurava
com seus pés apertados, seus joelhos, seus cotovelos, seus dedos enfiados nos
seus cabelos trançados. E seus polegares inexoráveis, duro como aço pela
vontade de matar, privavam seu cérebro da menor gota de sangue.
Foi uma luta selvagem: enlaçados, ligados um ao outro e um no outro,
rolavam sobre o solo em todas as direções. As mãos do homem agarravam-se
às mãos de Eléa e puxavam, tentando arrancar a morte que se enfiava no seu
pescoço. A parte de baixo do seu ventre ainda queria viver, viver ainda um
pouco, viver o bastante para ir até o fim do seu prazer. Seus braços e seu torso
lutavam para sobreviver, e seus rins e suas coxas lutavam, se apressavam para
ganhar a morte em rapidez, para gozar, gozar antes de morrer.
Uma convulsão terrível o sacudiu. Ele enfiou-se até o fundo da morte
enroscada em volta dele e nela esvaziou, num gozo fulgurante,
interminavelmente, toda a sua vida. A luta parou. Eléa esperou que o homem se
tornasse passivo e pesado como um bicho morto. Então retirou seus polegares
enfiados na sua ca rne mole. Suas unhas estavam cheias de sangue. Ela abriu
suas pernas crispadas e escorregou para fora do peso do homem. Arquejava de
nojo. Teria querido se virar do avesso como uma luva e se lavar toda por dentro
dela mesma até os cabelos. Pegou a túnica do guarda, enxugou com ela seu
rosto, o peito e o ventre, jogou-a longe molhada, e vestiu-se rapidamente.
Aplicou a máscara sobre o nariz, pegou a frágil construção de vidro e, com
precaução, empurrou a porta, que se abriu.

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ava sobre o laboratório onde Eléa havia recebido os preparativos. O chefe


do laboratório e dois laboratoristas estavam inclinados sobre uma mesa. Um
guarda armado estava em pé diante de uma porta. Viu Eléa primeiro. Disse:
— Ei!
Ergueu a mão para colocar sua máscara.
Eléa jogou o objeto de vidro a seus pés. Ele se quebrou sem barulho.
Instantaneamente a peça ficou cheia de uma bruma verde. O guarda e os três
homens de roupa salmão caíram sobre eles mesmos.
Eléa dirigiu-se para a porta, e pegou as armas do guarda.

Não sou um adolescente romântico. Não sou um bruto governado pelo


estômago e pelo sexo. Sou razoavelmente sensato, sentimental e sensual,
capaz de controlar minhas emoções e meus instintos. Pude rapidamente
suportar a visão de tua vida mais intima, pude suportar ver esse bruto se deitar
em cima de ti e penetrar na maravilha do teu corpo. O que me transtornou foi o
que li sobre o teu rosto.
Poderias não ter morto este homem. Ele havia dito que te levaria para fora.
Talvez mentisse, mas não foi para assegurar a tua fuga que tu o mataste, foi
porque ele estava no teu ventre e não podías suportá-lo. Tu o mataste. por
amor a Paikan. Amor. Esta palavra que a tradutora utiliza porque não encontra
o equivalente, não existe na tua língua. Depois que te vi viver junto de Paikan,
compreendi que era uma palavra insuficiente. Nós dizemos "eu amo", dizemos
da mulher, mas também da fruta que comemos, da gravata que escolhemos, e
a mulher o diz falando sobre o seu batom. Ela diz do seu amante: "ele é meu".
Tu dizes o contrário: "eu sou de Paikan". E Paikan diz "eu sou de Eléa". Tu és
dele, és uma parte dele mesmo. Chegarei eu jamais a te desprender? Tento te
interessar no nosso mundo, te fiz ouvir Mozart e Bach, mostrei-te fotografias de
Paris, de Nova Iorque, de Brasília, te falei da história dos homens, pelo menos
da que nós conhecemos e que é o nosso passado, tão curto ao lado da
durabilidade imensa do teu sono. Em vão, tu escutas, olhas, mas nada te
interessa. Estás por trás do muro. Não estás em contato com o nosso tempo.
Teu passado te seguiu no consciente e no subconsciente da tua memória. Não

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pensas senão em nele mergulhar de novo, e encontrá-lo, e revivê-lo. O presente


para ti é ele.

Um engenho rápido da universidade estava pousado sobre o braço de


atraca- mento da torre. Os guardas que dele haviam saído vasculharam o
apartamento e a cúpula. No terraço, perto da árvore de seda, Coban falava a
Paikan. Acabava de lhe explicar por que tinha necessidade de Eléa e lhe
comunicava sua evasão.
— Ela destruiu tudo o que a impedia de passar. Homens, portas e paredes!
Pude seguir sua pista como a de um projétil até a rua, onde ela tornou-se um
transeunte livre.
Os guardas interromperam Coban para lhe dizer que Eléa não estava no
apartamento nem na cúpula. Ele ordenou-lhes que procurassem no terraço.
— Eu tinha minhas dúvidas de que ela já tivesse chegado — disse ele a
Paikan. — Ela sabia que eu viria diretamente aqui. Mas sei que ela só tem um
desejo: o de encontrá-lo. Virá, ou então fará com que você vá aonde ela estiver,
para que se encontrem. Então nós a prenderemos. É inevitável. Mas vamos
perder muito tempo. Se ela o chamar, faça-lhe compreender, diga-lhe para
voltar à universidade.
— Não — disse Paikan.
Coban olhou-o com seriedade e tristeza.
— Você não é um gênio, Paikan, mas você é inteligente. Você é de Eléa?
— Eu sou de Eléa!
— Se ela entrar no abrigo, ela viverá. Se ela não entrar ela morrerá. Ela é
inteligente e resoluta. O computador a escolheu bem, ela acaba de prová-lo.
Pode ser que apesar da nossa vigilância ela consiga encontrá-lo. Então, é você
quem tem de convencê-la a voltar para nós. Comigo, ela viverá; com você ela
morrerá. No abrigo é a vida. Fora do abrigo, é a morte, dentro de alguns dias,
talvez dentro de algumas horas. O que é que você prefere? Que ela viva sem
você, ou que ela morra com você?
Abalado, torturado, furioso, Paikan gritou:
— Por que não escolhem uma outra mulher?

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— Não é mais possível. Eléa recebeu a única dose disponível de soro


universal. Sem esse soro, nenhum organismo humano poderá atravessar o frio
absoluto sem sofrer graves conseqüências e talvez até morrer.
Os guardas vieram dizer a Coban que Eléa não estava no terraço.
— Ela está nalgum lugar nas proximidades, espera que partamos. A torre
ficará sob vigilância. Vocês não poderão se encontrar sem que nós o saibamos.
Mas se por um milagre vocês conseguirem fazê-lo, lembre-se de que você tem a
escolha entre sua vida e sua morte...
Coban e os guardas voltaram para o engenho que se elevou alguns
centímetros acima do braço de atracação, girou sobre o mesmo lugar e afastou-
se na velocidade máxima.
Paikan aproximou-se da rampa e olhou para cima. O engenho com a marca
da equação de Zoran descrevia círculos lentos em volta da vertical da torre.
Paikan ligou a tela de proximidade e dirigiu-a para as casas de repouso
colocadas no solo todas ao redor da torre. Em todas via rostos de guardas que
olhavam através de suas próprias telas.
Entrou no apartamento, abriu o elevador. Um guarda estava de pé na
cabina. Fechou a porta, enraivecido, e subiu para a cúpula. Plantou-se no meio
da cúpula transparente, olhou o céu puro onde o engenho da universidade
continuava a girar lentamente, ergueu os braços em cruz, dedos afastados, e
começou a fazer gestos estranhos.
Diante dele, uma pequena nuvem branca cheinha nasceu no azul do céu.
Espalhadas pelo céu perto da torre, nasceram pequenas nuvens brancas
encantadoras, que transformavam o azul num grande prado florido.
Rapidamente elas se desenvolveram e se juntaram, formando uma massa que
se tornava mais espessa e negra, e pôs-se a girar em torno dela mesma com
seus trovões represados que ribombavam. O vento curvou as árvores do
terraço, atingiu o solo, gritou ao rasgar-se sobre as ruínas, e sacudiu as casas
de repouso.
O rosto do chefe de serviço apareceu em cima da mesa. Parecia
perturbado.
— Escute, Paikan! O que é que está acontecendo aí? O que é este furacão?
O que é que você está fazendo? Você está louco?

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— Não fiz nada — respondeu Paikan. — A cúpula está bloqueada! Mande-


me o engenho da oficina! Rápido! Isto não é senão um furacão, e vai se tornar
um ciclone! Mande rápido.
O chefe de serviço cuspiu palavras desagradáveis e desapareceu.
A nuvem giratória tinha ficado verde, com bruscas iluminações internas
púrpuras ou rosadas. Um barulho terrível, contínuo, caía sobre a Terra, o
barulho de mil trovões retidos. Um feixe de raios arrombou sua superfície e
atingiu o engenho da universidade, que desapareceu numa chama.
Na confusão que se seguiu e atingiu a torre, Paikan desceu correndo para o
apartamento e para o terraço e mergulhou na piscina.
Eléa estava lá, no fundo, enfiada na areia, o rosto recoberto pela máscara e
dissimulado sob as algas. Ela viu chegar Paikan que lhe fazia sinal. Saiu então
do esconderijo e subiu com ele para a superfície. Trombas d'água caíam da
nuvem, carregadas pelo vento que sacudia loucamente as casas de repouso
agarradas às suas âncoras. Uma rajada enroscou-se na torre e tentou arrancá-
la. A torre gemeu e resistiu. O vento carregou a árvore de seda que subiu,
descabelada, para a nuvem, e desapareceu numa boca negra.
Paikan havia levado Eléa para a cúpula. A parte de baixo da nuvem
acabava de atingi-la e rasgava-se sobre ela, mistura de vento que uivava, de
bruma opaca, de chuva de granizo, iluminado pela sucessão dos relâmpagos. Ao
atingirem uma saída da cúpula, ajustaram suas armas na cintura. Paikan abriu a
porta de uma nave. Dois mecânicos saltaram na torre, acompanhados dos uivos
e do canhoneio do furacão.
— O que é que está acontecendo? — perguntou um deles, espantado.
Em vez de responder, Paikan mergulhou sua mão na arma e atirou na
estrutura da cúpula que ressoou, gemeu e desmoronou. Ele pegou Eléa,
empurrou-a em direção ao veículo, entrou atrás dela e decolou rápido,
enquanto ela, com esforço, conseguia fechar o vidro cônico. A nave
desapareceu na espessura da nuvem.
Era um engenho pesado, lento, de pouco manejo, mas que não temia
nenhuma forma de furacão. Paikan quebrou o emissor que assinalava sem
cessara posição do aparelho, virou na nuvem que crepitava ao redor deles, e foi
para o centro que se deslocava para oeste, seguindo o impulso que ele lhe tinha

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dado. Com a cúpula destruída, seria necessária a intervenção das outras torres
para modificar o curso do furacão e neutralizá-lo. Isto dava bastante tempo para
executar o início do plano que Paikan expunha a Eléa.
A única solução para eles era abandonar Gondawa e ir para Lamoss, a
nação neutra. Para isso, era necessário invadir a pista, pousar, e pegar um
engenho de longa distância. Somente poderiam encontrar um no parqueamento
da vila subterrânea.
Os engenhos da universidade não ousariam se arriscar numa tal
tempestade, com medo de ver seu campo de não gravidade perturbado, e cair
como pedra. Mas deviam montar uma boa guarda no local. Teriam portanto de
ir ao local de um elevador, ficar camuflados pela nuvem e protegidos pela ronda
da tempestade.
Paikan fez a nave descer até o limite inferior da nuvem. O sol, varrido pelas
torrentes de chuva, brilhava a baixa altura, sobre a claridade dos relâmpagos.
Era a grande planície vitrificada. Os últimos elevadores de Gonda-7 não
deveriam estar longe. Eléa viu surgir um na bruma. Paikan pousou brutalmente.
Apenas no chão, saíram correndo e ambos apontaram para ele suas armas, ao
mesmo tempo. O vento zunindo levantava nuvens de poeira.
Era um elevador rápido, que ia diretamente à 5ª Profundidade. Isto não
tinha grande importância. Cada profundidade possuía seus parqueamentos.
Foram para a cabina de serviços expressos. Quando o elevador se abriu para
deixá-los passar, estavam secos, lavados, penteados, escovados. Haviam
utilizado para isso suas chaves.
Na avenida de transportes a multidão parecia ao mesmo tempo nervosa e
espantada. Imagens surgiam por todos os lados para dar as últimas noticias. Era
preciso enfiar a chave na placa de som para ouvir as palavras. Apoiados num
galho de uma árvore, sobre a pista de alta velocidade, viram e ouviram o
Presidente Lokan fazer declarações tranqüilizadoras. Não, não era a guerra.
Ainda não. O conselho faria todo o possível para evitá-la. Mas cada habitante de
Gondawa não deveria se afastar do seu posto de mobilização. A nação poderia
precisar de todos de um momento para o outro.
A maior parte dos homens e mulheres usava o cinturão com a arma, e, sem
dúvida, dissimulado em alguma parte do seu corpo, o Grão Negro.

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Os pássaros não conheciam as notícias: cantavam, pipilando de prazer,


batendo em rapidez a pista central. Eléa sorriu e ergueu o braço esquerdo na
vertical, acima de sua cabeça, o punho fechado, o indicador horizontal. Um
pássaro amarelo freou em pleno vôo e pousou sobre o seu dedo estendido. Eléa
baixou-o à altura do seu rosto e encostou-o contra sua face. Era morno macio.
Sentia seu coração bater tão rápido que mais parecia uma vibração. Ela lhe
cantou algumas palavras de amizade. Ele respondeu com um assobio agudo,
saltou do dedo de Eléa para sua cabeça, deu-lhe algumas bicadas nos cabelos,
bateu as asas e se deixou conduzir por um bando que passava. Eléa pousou sua
mão na de Paikan.
Desceram da Avenida no parqueamento. Era uma floresta em feitio de
leque. Os galhos das árvores se reuniam acima das filas de engenhos
estacionados ali As pistas convergiam para a rampa da chaminé de partida. Da
chaminé de chegada, que se abria no centro da floresta, surgiam engenhos de
todos os tamanhos que seguiam nas pistas de volta, para se abrigar sob as
folhas como bichos na hora do repouso depois de uma corrida.
Paikan escolheu um veículo rápido de dois lugares, de longa distância,
sentou-se numa das cadeiras. Eléa a seu lado.
Enfiou sua chave na placa de comando, esperando para indicar sua
designação e que se acendesse um sinal azul na placa que começou a piscar. O
sinal não se iluminou.
— O que é que está acontecendo?
Retirou sua chave da placa e enfiou-a novamente. O sinal não respondeu.
— Experimente a sua...
Eléa por sua vez enfiou sua chave no metal elástico, sem mais sucesso.
— Há um enguiço qualquer — disse Paikan. — Um outro, rápido!... No
momento em que ele se preparava para sair, o emissor do engenho começou a
falar. A voz fez com que eles parassem petrificados. Era a de Coban.
— Eléa, Paikan, sabemos onde vocês estão. Não se movam. Vou mandar
buscá-los. Vocês não poderão ir a lugar nenhum,fiz anular suas contas no
computador central. Vocês não obterão mais nada com suas chaves. Elas não
poderão mais lhes ajudar. Só vos assinalar. O que estão esperando ainda? Não
se mexam, vou mandar buscá-los...

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Eles não tiveram necessidade de se combinarem. Saltaram fora do


aparelho e afastaram-se rapidamente. De mãos dadas, atravessaram uma pista
diante do nariz de um aparelho que freou rápido, e afundaram-se sob as
árvores. Milhares de passarinhos cantavam nas folhagens verdes ou vermelhas,
ao redor dos galhos luminosos. Os pios apenas audíveis dos motores mais
lentos compunham um barulho de fundo tranqüilizante que incitava a não fazer
nada, a esperar, a se confundir com a alegria dos pássaros e das folhas. Na
claridade verde-dourada, chegaram ao fim de uma longa fila de engenhos de
longa distância. O último acabara de pousar e tomar seu lugar. Um viajante
descia. Paikan ergueu sua arma e atirou com potência fraca. O homem foi
projetado ao solo, espantado. Paikan correu em sua direção, segurou-o sobre os
braços, arrastou-o para baixo de um ramo e ajoelhou-se a seu lado. Teve um
trabalho enorme para lhe arrancar sua chave. O homem era gordo, seu anel
ficara afundado na carne. Teve que cuspir nos dedos para conseguir fazê-lo
escorregar. Quando finalmente o anel cedeu, ele estava pronto a cortar o dedo,
a garganta, não importa o que para carregar Eléa para longe de Coban e da
guerra.
Subiram para o aparelho ainda quente e Paikan enfiou a chave na placa de
comando. Em vez do sinal azul, foi um sinal amarelo que começou a palpitar. A
porta do aparelho fechou-se batendo e o emissor de bordo começou a gritar:
"Chave roubada! chave roubada!" Do exterior do aparelho um aviso guinchava.
Paikan atirou na porta. Correram para fora e afastaram-se para o abrigo
das árvores. Atrás deles o sinal de alarme continuava a lançar seu grito de
apelo: "Chave roubada! chave roubada!"
Os viajantes que se dirigiam para os outros engenhos ou que saíam
prestavam pouca atenção ao incidente. Preocupações mais graves faziam com
que eles se apressassem. Acima da entrada das Treze Ruas, uma enorme
imagem mostrava a batalha da Lua. Os dois campos a bombardeavam com
suas armas nucleares, arrepiando-a com cogumelos, abrindo gigantescas
crateras, fissurando seus continentes, vaporizando seus mares, dispersando sua
atmosfera no vazio. Os passantes paravam, olhavam um instante, e saíam mais
depressa. Cada família tinha um amigo ou um parente nas guarnições da Lua ou
de Marte.

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No momento em que Eléa e Paikan entravam na décima primeira rua, a


chaminé de chegada do parqueamento abriu passagem para uma frota de
aparelhos da universidade que se dirigiram para todas as pistas e todas as
entradas.
A décima primeira rua estava cheia de uma multidão febricitante. Grupos
se aglomeravam diante das imagens oficiais que transmitiam as notícias da Lua
ou a última declaração do presidente. De tempos em tempos, alguém que ainda
não havia ouvido suas declarações enfiava sua chave na placa de som e Lokan
pronunciava mais uma vez. as mesmas palavras tranqüilizadoras: "Ainda não é
a guerra..."
— O que mais que eles querem? — gritou um rapaz magro, de torso nu,
cabelos curtos. — Se vocês aceitam, já é a guerra! Digam que não com os
estudantes! Não para a guerra! Não! Não! Não!
Seu protesto não ergueu eco nenhum. As pessoas que estavam mais
próximas dele se afastaram e se dispersaram isoladas ou de mãos dadas.
Tinham consciência de que gritar não ou sim ou qualquer outra palavra, no
momento não adiantava mais, fosse para o que fosse.
Eléa e Paikan se apressaram em direção à porta do elevador comum,
esperando se misturar no meio da multidão a fim de chegar à superfície. Uma
vez lá fora, eles combinariam. Agora, não tinham tempo para pensar. Os
guardas verdes surgiram no fim da rua. Eles fizeram uma fila tripla em toda a
largura da rua e avançavam verificando a identidade de cada um. A multidão se
inquietava e se irritava.
— O que é que estão procurando?
— Um espião!
— Um enisor!
— Tem um enisor na 5ª Profundidade!
— Todo um destacamento de enisores! Sabotadores!
— Atenção! Escutem e vejam!
A imagem de Coban acabava de surgir no meio da rua. Ela se repetia em
cada 50 metros, dominando a multidão e as árvores, repetindo os mesmos
gestos e pronunciando as mesmas palavras.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Escutem e vejam. Sou Coban. Procuro Eléa 3-19-07-91. Eis aqui seu
rosto.
Um retrato de Eléa tomado algumas horas antes no laboratório surgiu no
lugar de Coban. Eléa virou-se para Paikan e escondeu seu rosto no seu peito.
— Não tenha medo de nada! — disse ele docemente.
Acariciou o seu rosto, escorregou uma mão sobre seu braço, desfez a
extremidade da faixa que passava pelo busto, desnudou-lhe um ombro e, com a
parte da faixa assim livre, envolveu-lhe o pescoço, o queixo, a testa e os
cabelos. Era um traje que os homens e as mulheres às vezes adotavam, que
não faria com que ela fosse notada e que lhe dava poucas possibilidades de ser
reconhecida.
— Procuro esta mulher para salvá-la. Se vocês souberem onde ela está,
avisem, mas não a toquem... Escute, Eléa! Sei que você está me ouvindo.
Assinale-se com sua chave, enfiando-a em qualquer placa. Assinale e não se
mexa. Escutem e vejam, procuro esta mulher, Eléa 3-19-0791...
Um homem, um sem-chave, a reconheceu. Reconheceu seus olhos: não
havia azul tão azul nos olhos de outra mulher, nem em Gonda-7, talvez nem em
todo o continente. O homem estava apoiado no muro, entre dois troncos tortos,
sobre os galhos de onde pendem máquinas distribuidoras de água, de alimentos
e de mil objetos necessários ou supérfluos que se podem obter com suas
chaves. Ele não podia obter nada. Era um pária, um sem-chave, não tinha mais
conta, só podia viver de mendicância. Estendia a mão, e as pessoas que vinham
se servir na floresta das máquinas multicores, lhe davam um pouco de alimento
que ele comia ou guardava num saco pendurado na cintura. Para esconder a
vergonhosa nudez do seu dedo sem anel, trazia em volta da falange do dedo
médio uma fita preta.
Ele viu Eléa esconder o rosto no peito de Paikan, e este dissimular-lhe o
rosto. Mas quando ela ergueu a cabeça para olhar Paikan, viu seus olhos e
reconheceu os olhos azuis da, imagem.

Os guardas verdes se aproximavam lenta e inexoravelmente. Cada pessoa


interrogada enfiava sua chave numa placa fixada no punho do guarda. A de

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

qualquer pessoa procurada aí ficaria enfiada e fixa, tornando-a prisioneira. Eléa


e Paikan se afastaram. O sem-chave os seguiu.
Eles nunca haviam tomado o elevador comum, freqüentado principalmente
pelas pessoas menos-bem-designadas, aqueles que não andavam de mãos
dadas e tinham necessidade da companhia dos outros. Sabiam agora que não o
tomaram nunca: as portas de correr não deixavam passar senão uma pessoa de
cada vez, após introduzir a chave na placa...
Não tomariam nem esse elevador ou nenhum outro, nem as avenidas de
transporte, nem alimento, nem bebida. Nada. Não poderiam obter mais nada.
Uma imagem gigantesca de Eléa encheu bruscamente toda a largura da rua.
— A universidade procura esta mulher, Eléa 3-19-07-91. Procura-a para
salvá-la. Se você encontrá-la, não a segure, não a toque. Siga-a e assinale-a.
Nós a procuramos para salvá-la. Escute, Eléa, sei que você está me ouvindo...
Assinale sua presença com sua chave!
— Estão me olhando! estão me olhando!
— Não — disse Paikan — não podem reconhecê-la.
— Vocês a reconhecerão — dizia o aviso — pelos seus olhos, seja qual for o
disfarce. Olhem nos olhos desta mulher. Nós a procuramos para salvá-la.
— Abaixe as pálpebras! Olhe para o chão!...
Uma fila tripla de guardas verdes surgiu na encruzilhada da décima
primeira rua e da transversal e avançou ao encontro das outras. Não havia mais
escapatória. Paikan olhou ao seu redor, desesperado.
— Olhem bem os olhos desta mulher...
Cada um dos olhos da imagem era grande como uma árvore, e o azul da
íris era uma porta aberta no céu da noite. Neles, as lantejoulas de ouro
brilhavam como fogos. A imagem girava lentamente para que cada um pudesse
vê-la de frente e de perfil. Arrasada por esta presença dividida dela mesma,
Eléa baixava a cabeça, curvava os ombros, crispava sua mão na mão de Paikan
que a dirigia para a porta da avenida, na esperança de aí conseguir se insinuar
para a saída. A imagem intocável barrava-lhes a rua. Chegaram bem perto dela.
Eléa parou e ergueu a cabeça. Do alto do seu rosto gigantesco, seus olhos
imensos olharam-na nos olhos.
— Vem... — disse Paikan carinhosamente.

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Ele a puxou para si, ela recomeçou a andar. Um nevoeiro de mil cores
tremeluzentes envolveu-a: tinham entrado dentro da imagem. Caíram dentro
das portas da avenida. Os batentes da saída se abriram bruscamente sobre a
pressão de uma multidão de estudantes que corriam. Rapazes e moças, todos
tinham o torso nu, extremamente magros. As moças tinham pintado sobre cada
seio um grande X vermelho, para negar sua feminilidade. Não havia mais nem
moças nem rapazes, somente revoltados. Desde o início de sua campanha, que
eles jejuavam um dia em cada dois, sendo que no segundo não comiam senão a
ração energética. Tinham se tornado duros e ágeis como flechas.
Corriam gritando a palavra "Pao" que significava "não" nas duas línguas
gondas. Paikan e Eléa misturaram-se entre eles, contra a onda, para atingir os
batentes antes que se fechassem.
— Pao!... Pao!... Pao!... Pao!...
Os estudantes lhes davam encontr]oes e os empurravam, eles tornavam a
andar para a frente, Paikan afastando a multidão como um aríete. Os
estudantes passavam por eles, empurravam à esquerda e à direita, pareciam
não os ver, alucinados pela fome e pelo grito repetido.
— Pao!... Pao!... Pao!... Pao!...
Finalmente chegaram à porta. Porém um grupo a encheu e transbordou,
fazendo-os recuar diante deles. Era uma companhia de guardas brancos da
polícia do Conselho, de braços colados, cotovelo com cotovelo, a mão esquerda
ar Fria, eficiente, sem emoção, a polícia branca não aparecia a não ser para
agir. Seus membros eram escolhidos pelo computador antes da idade de
Designação. Não recebiam chave, não tinham nem mesmo conta de crédito.
Eram educados e treinados num campo especial, abaixo da 9ª Profundidade,
abaixo mesmo do complexo das máquinas imóveis. Não se mostravam jamais
na superfície. Raramente acima das máquinas. Seu universo era o do Grande
Lago Selvagem, cujas águas se perdiam nas trevas de uma caverna
inexplorável. Sobre suas margens minerais, eles treinavam sem cessar em
batalhas impiedosas uns contra os outros. Lutavam, dormiam, comiam,
lutavam, dormiam, comiam. A alimentação que recebiam transformava em
atividades de combate sua energia sexual não empregada. Quando o conselho
tinha necessidade deles, injetava-lhes uma quantidade mais ou menos grande

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onde a necessidade se fazia sentir, como um organismo mobiliza seus fagócitos


contra o furúnculo e tudo entrava rapidamente em ordem. Estavam cobertos,
da cabeça aos pés, inclusive por um colante de matéria branca semelhante ao
couro, que deixava livres somente o nariz e os olhos. Ninguém nunca soube
qual era o comprimento dos seus cabelos. Carregavam duas armas G,
igualmente de cor branca, uma para a mão esquerda, a outra sobre o ventre, do
lado direito. Eram os únicos a poder atirar com as duas mãos. O conselho os
havia soltado na cidade para liquidar a revolta dos estudantes.
— Pao!... Pao!... Pao!... Pao!...
O grupo dos guardas brancos continuavam a sair compacto pelas portas da
avenida e avançava em direção aos estudantes cujas roupas multicores
esvoaçavam na rua, escalavam as árvores. A multidão, pressentindo chegar o
choque, escondia-se em todas as saídas possíveis. Bloqueada pelos guardas
verdes nas duas extremidades da rua, ela refluía para a entrada dos elevadores
da avenida. Uma nova imagem do presidente surgiu na abóbada horizontal,
longa como a rua, acima da multidão, e falou.
Uma imagem falante sem chave era tão excepcional que todo o mundo
parou para ouvir, até mesmo os guardas.
— Escutem e olhem!... Eu vos informo que o conselho decidiu enviar o
Conselheiro da Amizade Internacional a Lamoss, e pedimos ao governo enisor
para também enviar seu ministro equivalente. Nossa finalidade é de tentar
acantonar a guerra nos territórios exteriores e impedir que ela se estenda à
Terra. A paz ainda pode ser salva!... Todos os seres vivos das categorias de 1 a
26 devem se apresentar imediatamente nos seus lugares de mobilização.
A imagem apareceu de corpo inteiro e recomeçou o seu discurso.
— Escutem e olhem!... Quero informar-lhes...
— Pao!... Pao!... Pao!... Pao!...
Os estudantes haviam formado uma pirâmide. No cimo, uma moça com os
seios pintados, ardente de fé, gritava, os braços em cruz:
— Pao! Pao! Não escutem! Não ide aos vossos lugares de mobilização!
Recusem a guerra seja como for! Dizei NÃO! Obriguem o conselho a declarar a
paz. Sigam-nos!...

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Um guarda branco atirou. A moça atingida desapareceu na face da imagem


de Eléa.
— Procuramos esta mulher...
Os guardas continuaram atirando.
— Pao!... Pao!... Pao!... Pao!
A pirâmide desapareceu em pedaços compostos de rapazes e moças
mortos. Paikan quis pegar sua arma, mas ela não estava mais na sua cintura.
Ele a havia perdido, sem dúvida, no momento em que acreditava tê-la colocado
no lugar ao saltar do aparelho. A massa compacta branca dos guardas ia atingi-
los, a multidão fugia, os estudantes gritavam seu brado de revolta. Paikan
deitou Eléa no chão e atirou-se por cima dela. Um guarda branco tropeçou nele
ao correr. Paikan pegou no vôo a ponta de um pé e virou-o com um golpe seco.
O tornozelo estalou. O guarda caiu sem gritar. Paikan esmagou com seu joelho
suas vértebras cervicais e puxou a cabeça para trás com as duas mãos. As
vértebras estalaram. Paikan ergueu a mão esquerda armada inerte e dobrou
bem os dedos enfiados na arma. Um grupo de guardas voou e chocou-se contra
a parede e a parede pulverizada desapareceu numa nuvem. Por trás da brecha
aberta, a pista da avenida apareceu. A multidão meteu-se por ela, gritando.
Paikan e Eléa no meio deles. Paikan carregava a arma do morto. Os guardas
brancos, indiferentes, prosseguiam com calma sua tarefa de exterminação.
Abandonaram a avenida no ponto circular do parqueamento. O
parqueamento era a única esperança, a única saída. Paikan havia pensado
numa outra maneira de arranjar um aparelho. Mas era preciso chegar até ele...
No centro do ponto circular erguiam-se os 12 troncos de uma árvore
vermelha. Unidos pela base, eles se erguiam em corola, segurando-se por seus
galhos comuns como crianças que fazem uma roda. Muito alto, suas folhas
vermelhas escondiam a abóbada e se uniam sobre a multidão das patas e das
asas dos pássaros ali escondidos. Em volta do seu pé corria um riacho de onde
pequenas tartarugas luminosas erguiam suas cabeças chatas quase
transparentes para procurar vermes e larvas. Ofegante de sede, Eléa ajoelhou-
se à beira do riacho. Pegou a água na concha de suas mãos e nela mergulhou a
boca. Cuspiu-a com horror.

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— Ela vem do lago da Primeira Profundidade — disse Paikan. — Você bem


sabe...
Ela o sabia, mas estava com sede. Essa maravilhosa água clara era
amarga, salgada, pútrida e morna. Era imbebível, mesmo na hora da morte.
Paikan ergueu docemente Eléa e apertou-a contra ele. Ele estava com sede e
com fome; estava mais esgotado do que ela, pois não tinha para se manter o
soro universal. Dos galhos acima deles pendiam mil máquinas que lhe
propunham, em mil cores mutantes, bebidas, alimentos, jogos, prazeres, tudo o
que era de necessidade. Sabia que ele não tinha nem o recurso de quebrar uma
ou outra, pois no interior não havia nada. Cada uma fabricava o que tinha de
fabricar a partir do nada. Com a chave.
— Vem — disse carinhosamente Paikan.
De mãos dadas, eles se aproximaram da entrada do parqueamento, que
estava barrada por três filas de guardas verdes. Em cada rua que terminava no
ponto circular, uma fila tripla avançava, empurrando diante dela multidões
irritadas, e cada vez mais densas. Paikan afundou sua mão na arma, tirou-a da
cintura, virou-se para a entrada o parqueamento e ergueu o braço.
— Não! — disse Eléa. — Eles têm granadas.
Cada guarda tinha na cintura uma granada S, transparente, frágil, cheia de
um líquido verde. Era suficiente uma só para que toda a multidão ficasse
adormecida imediatamente. Eléa trazia em feitio de colar a máscara que já lhe
havia servido na universidade e nas profundezas da piscina, mas Paikan não
tinha.
— Posso ficar dois minutos sem respirar — disse Paikan. — Ponha a
máscara, no momento em que eu atirar, corra.
Um retrato de Eléa iluminou-se bruscamente no meio da árvore vermelha a
voz de Coban elevou-se:
— Vocês não poderão deixar a cidade. Todas as saídas estão guardadas,
Eléa onde você estiver você me ouve. Assinale sua presença com a chave.
Paikan, pense nela e não em você. Comigo é a vida, com você é a morte!
— Atire! — gritou Eléa.
Ele respirou fundo e atirou a meia potência.

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Os guardas caíram. Granadas se quebraram. Uma brisa verde encheu de


um só golpe o ponto circular até em cima. A multidão dobrou o joelho, foi
escorregando, ficou deitada. De cima das folhas das doze árvores, dezenas de
milhares de pássaros caíram como flocos de todas as cores velados pela bruma,
Paikan já estava puxando Eléa, correndo para o parqueamento. Corria, saltava
corpos estendidos, e substituía pouco a pouco o ar que lhe enchia os pulmões.
Tropeçou contra um joelho erguido. Deu um ai e respirou sem querer.
Adormeceu como uma pedra e, ainda no impulso da corrida, caiu de cabeça
sobre uma barriga deitada. Eléa o virou, segurou-o por baixo dos braços e
começou a puxar.
— Não conseguirá nunca sozinha! — disse uma voz anasalada.
Perto dela estava o sem-chave, seu rosto escondido por uma máscara de
odeio antigo, remendada e presa de qualquer maneira. Abaixou-se e segurou os
pés de Paikan.
— Por aqui — falou ele.
Conduziu Eléa e seu fardo em direção ao muro, num canto entre dois
troncos retorcidos. Pousou Paikan e olhou ao redor. Não havia nenhum ser vivo
diante da porta. Tirou do seu saco um pedaço de ferro, enfiou-o no buraco do
muro, virou e empurrou. O pedaço de muro entre os dois troncos abriu-se como
uma porta.
— Depressa! depressa!...
Um aparelho da universidade estava descendo à entrada do
parqueamento. Eles ergueram Paikan e entraram dentro daquele buraco negro
O despertar era tão brusco quanto a queda no sono. Logo que ficou longe
da influência da bruma verde, Paikan abriu os olhos e viu o rosto de Eléa. Ela
estava ajoelhada ao seu lado, segurava sua mão direita entre suas duas mãos,
e o olhava angustiada. Vendo-o despertar, suspirou de alegria, deu-lhe um
sorriso, abandonou suas mãos e afastou-se para que ele pudesse olhar ao redor.
Ele olhou e só viu cinzento. Paredes cinzas, chão cinza, abóbada cinza. E
diante dele a escadaria cinza. Bastante larga para deixar passar uma multidão,
subia, deserta, vazia, nua, interminavelmente, dentro do cinza e do silêncio e
nele desaparecia.

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A esquerda, uma outra escadaria tão larga e vazia descia virando no cinza
que a absorvia. Alguns lances mais estreitos de corredores em rampa cruzavam
as paredes em todas as direções, para baixo e para cima. Uma camada de
poeira cinzenta cobria, uniformemente, as paredes, o solo e os arcos.
— A escadaria! — disse Paikan. — Tinha me esquecido.
— Todos a esqueceram — acrescentou o sem-chave.
Paikan levantou-se e olhou o homem. Ele também era cinzento. Suas
roupas e seus cabelos eram cinzentos, sua pele de um rosa acinzentado.
— Foi você que me trouxe aqui?
— Sim, com ela... É ela que estão procurando, não é? Ele falava a meia voz,
sem timbre, sem entonação.
— Sim, sou eu — disse Eléa.
— Eles não pensarão logo na escadaria. Ninguém a utiliza há muito tempo.
As portas foram condenadas e camufladas. E eles terão trabalho para encontrá-
las.
Três homens cinzentos surgiram silenciosos num corredor inclinado. Vendo
o grupo, pararam alguns instantes, se aproximaram, olharam Eléa e Paikan, e
partiram novamente sem dizer uma palavra pelos degraus principais para cima.
Era um pouco de cinza se movendo no cinza imóvel. Tornavam-se cada vez
menos visíveis, cada vez menores em direção ao alto, cinza sobre cinza,
indiscerníveis. De repente foi possível adivinhá-los porque um deles em vez de
continuar em frente, deu um passo para o lado. Um ponto cinza que mexia
sobre cinza depois mais nada que o cinza que não se mexia. Seus pés sobre os
degraus haviam esmagado a poeira sem deslocá-la. Ela se reagrupava
lentamente atrás deles, apagando o vestígio dos seus passos, de sua passagem,
de sua vida. A poeira não era pulverulenta e sim como um feltro, compacta,
soli- dária. Uma espécie de tapete arejado, frágil e estável, era o forro deste
lado do avesso do mundo.
— Se você quiser subir até a superfície — disse o homem com sua voz que
era apenas suficientemente forte para que o ouvissem — tem trinta mil
degraus. Será necessário um dia ou dois.

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Paikan respondeu abafando instintivamente sua voz. O silêncio era como


um mata-borrâo no qual tinham medo de ouvir as palavras se enfiarem e
desaparecerem.
— O que nós queremos é chegar ao parqueamento.
— O da Quinta Profundidade está cheio de guardas. Seria necessário subir
ou descer uma profundidade. Descer será mais fácil.
O sem-chave mergulhou a mão no bolso, tirou algumas esférulas de
alimento e lhes deu. Enquanto as deixava desmanchar na boca, ele enxugou
com as costas da mão a poeira de uma espécie de cilindro que corria à altura de
um homem ao longo da parede, e aí enfiou duas vezes uma lâmina. Um duplo
jato de água começou a correr.
Eléa, a boca aberta, jogou-se sobre a fina coluna transparente. Engasgou-
se, tossiu, espirrou, riu de felicidade. Paikan bebia com suas mãos em concha.
Tinham apenas acabado de matar a sede quando o jato duplo secou: o conduto
de água havia reparado seu defeito.
— Vocês beberão novamente mais longe — disse o homem. — Apressemo-
nos, são trezentos degraus para descer a fim de atingir a Sexta Profundidade.
Tomou uma escada à direita. Os dois o seguiram. Ele quase corria sobre os
degraus, com uma segurança nascida na longa freqüência da escada e da sua
roupa de poeira. Atravessou um estreito patamar, pegou uma escada
perpendicular, depois uma outra, outra, outra. Depois à esquerda, à direita,
bifurcava, ziguezagueava, sem hesitação, descendo de andar em andar, sempre
mais baixo. De mãos dadas, Eléa e Paikan desciam atrás dele, enfiando-se pela
espessura cinza. Às vezes encontravam, cruzavam ou ultrapassavam outros
sem-chave silenciosos, que caminhavam sem pressa, sozinhos ou em grupos
pequenos. O complexo da escadaria era seu universo. Esse corpo abandonado,
esvaziado, esse esqueleto oco, vivia da presença furtiva deles. Haviam feito
aberturas clandestinas e reaberto portas desconhecidas no subsolo: aqueles
homens viviam no mundo do barulho e da cor, o tempo necessário para
encontrar o indispensável pela mendicidade ou pelo roubo. Depois voltavam a
penetrar no interior cinzento do qual eles haviam pouco a pouco assimilado a
cor. A poeira do chão engolia o barulho dos passos, a dos muros o barulho das
palavras. O silêncio que os cercava penetrava neles e os fazia calar.

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Atordoados, correndo, saltando degraus, Eléa e Paikan seguiam seu guia


que se afundava cada vez mais. O homem lhes explicava tudo, em algumas
palavras, pedaços de frases, apenas falados, quase segredados. Falava da fome
quando as pessoas-da-cor não queriam dar. Então ficavam reduzidos a comer os
pássaros-redondos. Mostrou um diante deles que se escondeu. Era gordo como
uma mão fechada, cinzento e não tinha asas. Para atravessar um patamar
corria a toda pressa sobre suas pernas magras. Chegado ao alto dos degraus,
atirou-se, escondeu a cabeça e as patas sob as plumas, e rolou, caindo como
uma bola até embaixo.
Viram muitos outros que bicavam o chão e arrancavam com a ponta do
bico alguns vermes cinzentos que habitavam a galeria dentro da camada de
poeira e se alimentavam dela.
Eléa conservava suas forças e seu fôlego, mas Paikan teve que parar.
Descansaram alguns instantes, sentados embaixo de um lance de degraus.
Num canto do patamar, brilhava uma pequena chama. Três silenciosos
agachados assavam pássaros-redondos, que seguravam pelas patas acima de
um fogo de poeira. O cheiro horrível da carne assada chegou até eles e Paikan
ficou de coração apertado.
— Continuemos — disse ele.
No momento em que se levantava, o barulho de dois golpes ressoou numa
das paredes. Os três silenciosos fugiram levando suas presas meio cruas. Um
fragmento do muro voou em pedaços.
— Rápido! — disse o sem-chave. — Eles a encontraram! É uma antiga
porta!...
Empurrou-os na sua frente, para cima. Voltaram a subir o lance de degraus
quatro a quatro. No patamar, um pedaço do muro desmanchou-se, e os guardas
verdes entraram.
Os três fugitivos corriam a toda velocidade por um corredor em rampa,
enxotando um bando de pássaros-redondos que rolavam e que para aumentar
sua velocidade botavam as patas para fora e se atiravam de novo, cada vez
mais rápido, sem um pio de medo, redondos, rolantes, silenciosos e cinzentos.

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Do fundo do corredor, diante deles, ergueu-se a voz de Coban. Estava


abafada, desencarnada pelos feltros da poeira, parecia próxima e vir,
extenuada, do fim do mundo.
— Escute, Eléa, sabemos onde você está. Você vai se perder. Não se mexa.
Iremos encontrá-la. Não se mexa. O tempo urge...
A marcha surda dos guardas vinha da frente deles, por trás deles, acima
deles. O sem-chave parou.
— Eles estão em todos os lados — falou. Paikan enfiou a mão na sua arma.
— Espere! — disse o homem.
Ajoelhou-se, fez um buraco com as mãos no tapete de poeira, colou seu
ouvido ao solo e escutou. Ergue-se com um salto.
— Sim, atire aí!
Veio refugiar-se atrás de Paikan e mostrou o solo desnudo. Paikan atirou, o
solo tremeu. Nuvens de poeira voaram pelo corredor.
— Mais forte!
Paikan atirou de novo. O solo se abriu gemendo.
— Saltem!
O sem-chave deu o exemplo e saltou no abismo de onde se ouvia um
barulho de rio. Eles saltaram atrás, caíram na água amarga e morna. Uma
corrente forte os levou. Eléa voltou à superfície e procurou Paikan. A água era
ligeiramente fosforescente, mais brilhante nos redemoinhos e nos turbilhões.
Viu o rosto de Paikan que saía da água. Seus cabelos brilhavam com uma luz
verde. Ele lhe sorriu e estendeu-lhe a mão. O teto em rampa afundava-se na
corrente, que corria como por um sifão. No centro do turbilhão apareceu uma
bola brilhante: a cabeça do sem-chave. Ele ergueu a mão, fez sinal de que
mergulhava, e desapareceu. Eléa e Paikan começaram a rodar sobre si mesmos
e foram aspirados pela profundidade. Mão na mão, pernas largadas, sem peso,
afundavam-se na enorme espessura de um músculo de água palpitante e
morno. Caíam a uma velocidade fantástica, giravam estendidos em volta de
suas mãos unidas, faziam viradas que os jogavam contra as paredes forradas
por milhares de pequenas raízes, emergiam no cimo de uma curva, respiravam,
aspirados, carregados, sempre mais para baixo. A água tinha gosto de podridão
e de sais químicos. Era o grande lago corrente, oriundo do lago da Primeira

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Profundidade. À saída do lago, ele atravessava uma máquina imóvel, que lhe
acrescentava os alimentos reclamados pelas plantas. Descia em seguida de
andar em andar, nas paredes e nos solos e banhava as raízes de todas as
vegetações enterradas.
A queda vertical terminou por uma curva larga e uma subida que os atirou
no meio de um gêiser de bolhas fosforescentes. Encontraram ar na superfície de
um lago que corria lentamente para um pórtico sombrio. Uma quantidade de
colunas retorcidas, umas largas como dez homens, outras finas como um punho
de mulher, desciam do teto e se enfiavam na água onde se ramificavam e
desabrochavam. Era um polvo brilhante de raízes.
Sobre uma delas, tortuosa, estava o sem-chave. Gritou-lhes:
— Subam! Rápido!
Eléa ergueu-se até a altura de um tronco quase horizontal e puxou Paikan
sobre quem o cansaço pesava. A água brilhava e corria sobre as longas
serpentes vegetais com um barulho de carícia. Do pórtico sombrio vinha de
tempos em tempos o barulho surdo de redemoinhos mais fortes. Uma claridade
pálida subia da água, corria pelas raízes, fria, viscosa, verde. De todas as partes
do lago pontas redondas luminosas, de um rosa vivo corriam em direção ao
redemoinho deixado pelos três fugitivos. Formou-se pouco depois abaixo deles
umaebulição frenética de claridade rósea. De tempos em tempos, algumas
dessas gotas vivas saltavam para fora da água, como faíscas, tentando colar-se
às pernas nuas que pendiam para fora do seu alcance. Eram peixes minúsculos,
quase cortados em dois por sua boca aberta.
— Os peixes-amargos — disse o sem-chave. — Se eles lhe mordem, comem
tudo, até os ossos.
Eléa estremeceu.
— Mas normalmente, o que é que eles comem?
— Raízes mortas, e todos os restos que a corrente traz. São limpadores,
quando não há mais nada, se comem entre si.
Virou-se para Paikan, bateu no teto que se encostava na sua cabeça, e
disse:
— Parqueamento!...

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As raízes que mergulhavam no lago eram as da floresta do parqueamento


da Sexta Profundidade.

Paikan ergueu sua arma, e atirou entre duas raízes. Uma parte do teto caiu.
Pela brecha, uma árvore gigante desceu lentamente. Seus galhos seguravam
um aparelho no qual se agitavam duas silhuetas claras. Ele caiu no lago, e a
árvore inclinada afundou-se e o manteve embaixo da água. Era um barco de
intervenção da polícia do conselho, ocupado por dois guardas brancos. Num
relâmpago cor-de-rosa os milhões de peixes lenticulares caíram sobre eles e os
atacaram pela parte descoberta de seu rosto, entraram pelos olhos para dentro
das suas cabeças e, pelo nariz, para o peito e para o ventre. O aparelho encheu-
se de água vermelha.
Seguidos pelo sem-chave, Eléa e Paikan subiram pelas raízes e galhos, e
tomaram pé no solo do parqueamento. Os estudantes aí lutavam uma batalha
sem esperança com os guardas brancos. Tinham encontrado, num engenho
cargueiro bloqueado pela guerra, barras e bolas de ouro que deviam servir para
edificar sobre a Lua máquinas e móveis. Bombardeavam os policiais e corriam
escondendo-se atrás das árvores e dos aparelhos. Eram armas irrisórias. Às
vezes uma delas atingia o alvo e quebrava um crânio num lampejo de ouro. Mas
a maior parte não atingia o alvo.
As filas de policiais avançavam entre as árvores como serpentes brancas e
atiravam. Colhiam os estudantes em plena corrida e os jogavam, deslocados,
contra os troncos ou nas folhagens. Os galhos estalavam e caíam. Aparelhos
ficavam despedaçados. Todos os pássaros do parqueamento haviam
abandonado a floresta e voavam sobre a abóbada em círculo aloucado,
acompanhado de pios de pavor. Apresentaram a imagem do conselheiro militar,
de cabelos negros trançados, que anunciava a recusa do governo enisor em
enviar um ministro a Lamoss. Convocava todos os seres de Gondawa para se
apresentarem ao seu posto de mobilização. A imagem sinistrado homem magro
apagou-se, reapareceu um pouco mais longe, recomeçou seu anúncio.
Acima da entrada das doze ruas, uma imagem de Eléa girava. Um quarto
para a esquerda, um quarto para a direita, à esquerda, à direita...

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— A universidade procura esta mulher, Eléa 3-19-07-91. Vocês a


reconhecerão por causa de seus olhos. Nós a procuramos para salvá-la. Eléa,
assinale sua presença com sua chave...
Na extremidade de uma pista, perto da torre de vôo, uma pequena
multidão havia bloqueado um aparelho de forma oblonga, inusitado em
Gondawa. Um cidadão de Lamoss, que o ocupava, dele foi arrancado
violentamente. Gritava que não era um enisor, que não era um espião, que não
era um inimigo. Mas a multidão não compreendia a língua lamoss. Via as roupas
diferentes, cabelos curtos, o rosto claro, e gritava: "Espião!" "Morte!"
Começaram a bater. Os estudantes voaram em socorro do homem. Os guardas
brancos os seguiram. O lamoss estava machucado, rasgado, em frangalhos,
completamente amassado pelos pés da multidão enraivecida. Os estudantes
furiosos berravam contra o horror e contra a bobagem. A multidão louca gritou:
"Estudantes! Espiões! Vendidos! Morte!" A multidão em fúria rasgou as roupas
dos estudantes, arrancou-lhes os cabelos, as orelhas, os seios, os sexos. Os
guardas-brancos atiraram, limparam todo o local, todo o canto, todo mundo.
O sem-chave deu um sorriso triste, fez um gesto de amizade aos seus dois
companheiros, e afastou-se em direção das doze ruas. Eléa e Paikan
apressaram-se para o lado de uma região mais calma do parqueamento. A
segunda fila de aparelhos de longa distância estava quase deserta, em calma.
Um desses aparelhos que acabara de descer procurava vaga. Parou, pousou, a
porta abriu, um homem apareceu. No momento de descer, estancou, surpreso,
para escutar os gritos de violência e o choque surdo das armas. As árvores o
impedi de ver, mas o tumulto chegava até ele. Saltou em terra.
— O que é que está acontecendo? — perguntou a Paikan.
Este, como resposta, ergueu para ele sua mão esquerda enluvada da arma
branca, e com a mão direita arrancou-lhe a arma e jogou-a longe.
— Suba outra vez! Rápido!
Compreendendo cada vez menos, o homem obedeceu. Paikan o fez sentar,
legou-lhe a mão e enfiou sua placa na chapa elástica...
Espera interminável num instante de silêncio. Depois, bruscamente, o
mostrador palpitou. Paikan deu um profundo suspiro e com sua mão direita
fechou a boca do homem.

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— Destino? — perguntou o emissor.


— Lamoss, primeiro parque.
— Houve um pequeno ronronar seguido de um estalo.
— Crédito suficiente. Destino registrado. Retire sua chave... Partida...
Paikan arrancou o homem de sua cadeira e jogou-o para fora, enquanto lhe
gritava seus agradecimentos e suas desculpas. No mesmo momento a porta
fechava-se, o aparelho decolava, girava sobre si mesmo e ganhava a pista.
Pegou a da rampa de saída.
O emissor de bordo falou:
— A universidade procura Eléa 3-19-07-91. Eléa, assinale-se com sua
chave...
A torre de partida comandou o engenho que decolou em direção ao alto.
Saiu da boca e subiu na noite exterior.
Depois que viviam na superfície, Eléa e Paikan tinham perdido o hábito da
luz perpetuamente acesa nas vilas enterradas. Era dia quando deixaram o
parqueamento. Pensavam encontrar dia no exterior. Mas a Terra e o Sol tinham
continuado seu curso, e a noite tinha chegado com sua multidão de estrelas.
Eles se deitaram lado a lado sobre o leito da nave, e, de mãos dadas, sem dizer
uma palavra, se deixaram invadir pela doçura e pelo silêncio infinitos. Subiam
na noite e na paz em direção ao céu estrelado, esqueciam a Terra e seus
horrores absurdos. Estavam juntos, estavam bem, cada instante de felicidade
era uma eternidade.
Colocaram na cabeça os círculos de ouro com os quais estava munido o
leito, e os dois abaixaram a placa frontal. Tinham adquirido de tal maneira o
hábito de se comunicar assim, que cada um podia receber do outro o conteúdo
da sua memória, ao mesmo tempo que, sem ter necessidade de pensar,
contava- lhe o que continha a sua. A troca se efetuava numa velocidade
instantânea. Eles colocavam o círculo, fechavam os olhos, abaixavam a placa, e
logo havia uma só memória, um só passado. Cada um se lembrava das
recordações do outro como se fossem suas. Não eram mais dois seres que
crêem se conhecer e se enganam, mas um só ser, sem sombra de dúvida,
solidários e sólidos diante do mundo. Assim Paikan soube tudo do projeto do
Abrigo, e de cada instante vivido por Eléa entre o momento em que se haviam

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separado e o que ela o havia reencontrado. Assim conheceu ele a maneira pela
qual ela havia recuperado sua liberdade. Sabendo-o por ela mesma, ele sofreu
por ela sem recriminação e sem ciúme. Não havia entre eles lugar para
sentimento dessa ordem, pois cada um, conhecendo tudo do outro, o
compreendia completamente.
Tiraram ao mesmo tempo seus círculos de ouro e se sorriram, numa união
total, numa felicidade perfeita por estarem juntos. Eram um único ser e eram
dois para dividir e multiplicar suas alegrias. Como duas mãos do mesmo corpo
que acariciam o mesmo objeto, como dois olhos que dão ao mundo sua
profundidade.
O emissário de bordo falou.
— Atingimos o nível 17. Vamos começar o vôo horizontal em direção a
Lamoss. Velocidade autorizada: 9 a 17. Que velocidade desejam?
— A máxima — respondeu Paikan.
— Máxima, velocidade 17, registrada. Atenção à aceleração!
Apesar do aviso, o deslocamento horizontal pressionou Eléa contra o alto, e
rolou Paikan por baixo dela. Ela começou a rir, tomou nas suas mãos os longos
cabelos louros ainda úmidos, mordiscou-lhe o nariz, as faces, os lábios.
Não pensavam mais nas suas provas, nas ameaças, nem na guerra.
Voavam para um porto de paz. Talvez momentânea, precária, ilusória, e onde
múltiplos problemas se colocariam em todo o caso diante deles. Mas essas
precauções eram para amanhã e não para agora. Viver antecipadamente as
infelicidades é sofrê-las duas vezes. O momento presente era momento de
alegria, era preciso não envenená-lo.
Aquele momento de paz foi cortado bruscamente por um grito de alerta no
emissor.
Gelados, se endireitaram. Um sinal vermelho piscava na placa de comando.
— Alerta geral — disse o emissor. — Todos os vôos estão cancelados.
Voltareis ao parqueamento pelo caminho mais curto. Deveis ir imediatamente
aos vossos locais de mobilização.
O aparelho virou-se e começou uma descida vertiginosa oblíqua. No solo,
através da carlinga transparente, viam um balé louco de casas de repouso se

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aproximando a uma velocidade que aumentava cada vez mais, e o funil da Boca
aspirar as bolas luminosas que giravam em cima dela esperando sua vez.
O aparelho diminuiu e veio tomar seu lugar na roda. Todos os aparelhos na
superfície tinham recebido ordem de voltar. Casas ou engenhos, eles eram
milhares a girar em cima da Boca que aspirava os mais próximos em plena
abertura. Sua roda cobria todo o lago e a floresta.
— Está nos levando de volta para a cidade! Para a armadilha! — gritou
Eléa. — É preciso saltar!
Estavam quase sobrevoando o lago em velocidade reduzida, a uma altura
razoável para um salto. Mas as portas ficavam bloqueadas durante o vôo. Logo,
deixaram o lago e sobrevoaram a massa compacta das árvores. Paikan atirou
na placa de comando. O aparelho curvou-se e começou a subir, descer, subir
oscilando, perdendo cada vez mais altitude, como uma folha de outono que cai.
Passou rasante sobre o cimo da floresta, subiu mais um pouco, desceu e atingiu
o cimo de um tronco gigante coroado de folhas de palmeiras. Ficou plantado aí
como uma maçã num lápis.
Estavam deitados lado a lado à beira do lago, sobre a grama que descia
direção à areia. A mão de Eléa estava na mão de Paikan. Seus grandes olhos
abertos olhavam a noite limpa. A Boca havia absorvido os últimos retardatá-
rios. o céu não oferecia nada além de suas estrelas. Não viam outra coisa senão
elas, prosseguiam no meio delas, na imensa paz indiferente dos pássaros, sua
viagem de esperança interrompida.
Diante deles, ao nível do lago, a lua se erguia em seu último quarto. Estava
inchada, como se estivesse envolta em algodão, deformada, avermelhada.
Fulguraçôes vermelhas iluminavam sem cessar sua parte sombria. Ela brilhava
às vezes inteira num rápido esplendor semelhante ao do sol. Era a imagem
silenciosa da destruição do mundo, proposta aos homens pelos homens. Aqui
mesmo, antes do fim da noite...
Sem se mexerem muito, sem se olhar, enlaçaram os dedos e colaram suas
palmas uma contra outra, bem apertadas.
Atrás deles, na floresta, um cavalo relinchou suavemente como para se
queixar. Um pássaro perturbado no seu sono, pipilou e voltou a dormir. Um
pouco de vento ligeiro passou pelos seus rostos.

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Poderíamos partir a cavalo... — murmurou Paikan.


— Ir para onde? - sussurrou Eléa. — Nada mais é possível... Está acabado...
Ela sorriu dentro da noite. Ela estava com ele. Acontecesse o que acontecesse,
aconteceria a ele com ela, e a ela com ele.
Houve um relincho mais próximo, e o barulho abafado das patas do cavalo
sobre a erva.
Levantaram-se. O cavalo, branco de lua, veio até eles, parou e sacudiu a
cabeça.
Ela enfiou sua mão nos longos pêlos e o sentiu tremer.
— Está com medo — disse ela.
— Ele tem razão...
Ela viu a silhueta de seu braço estendido fazer a volta do horizonte. Em
todas as direções, a noite se iluminava de breves claridades, como tempes-
tades distantes.
— A batalha... Gonda-17... Gondawa-41... Enawa... Zenawa... Eles
desembarcaram por todos os lados...
Um ribombar surdo começava a seguir os clarões. Era ininterrupto,
provinha de todo o círculo em redor, do qual eles eram o centro. Tornava o solo
sensível sob seus pés.
O ruído acordou os bichos da floresta. Os pássaros voavam, aflitos, aflitos
por ainda encontrar a noite, tentavam voltar para seus ninhos, se chocavam nos
galhos e nas folhas. As corças saíram do bosque e vieram se juntar ao redor do
casal humano. Veio também um cavalo azul, invisível na noite, e os pequenos
ursos lentos das árvores com seus coletes claros, e os coelhos negros de
orelhas curtas, cuja cauda branca remexia-se no solo.
— Antes do fim da noite — disse Paikan — não restará mais nada de vivo
aqui, nem um bicho, nem um talo de grama. E aqueles que se crêem protegidos
lá em baixo, têm somente uma prorrogação de alguns dias, talvez de algumas
horas... Quero que você vá para o abrigo... Quero que você viva!...
— Viver? Sem você?...
Apoiou-se contra ele e levantou a cabeça. Ele via a noite dos seus olhos
refletir as estrelas.

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— Não ficarei sozinha no abrigo. Tem Coban. Você já pensou? Ele sacudiu a
cabeça como para recusar esta imagem.
— Quando acordarmos, deverei lhe dar filhos. Eu que ainda não tive filhos
de você... Eu que esperava... este homem dentro de mim, sem cessar, para me
semear filhos, você não se incomoda?
Ele apertou-a bruscamente contra si, depois reagiu, fez um esforço para
ficar calmo.
— Estarei morto... há muito tempo... depois desta noite...
Uma voz imensa e descarnada saiu da floresta. Os pássaros fugiram,
chocando-se no seu vôo com todos os obstáculos da noite. Todos os emissores
da floresta falavam a voz de Coban. Ela se misturava e se superpunha a ela
mesma, vibrava e ecoava sobre a superfície das águas. O cavalo azul levantou a
cabeça para o céu e soltou um relincho agudo.
— Eléa, Eléa, escute Eléa... Sei que você está no exterior... está em
perigo... o exército invasor desce sem parar... breve ocupará toda a superfície...
assinale-se para um elevador com sua chave... nós iremos buscá-la onde você
estiver... não demore mais... Escute Paikan, pense nela!... Eléa, Eléa, este é o
meu último apelo. Antes do fim da noite, o abrigo será fechado, com ou sem
você.
Depois foi o silêncio.
— Eu sou de Paikan — disse Eléa numa voz baixa e grave. Pendurou-se no
seu pescoço.
Ele passou seus braços à Volta dela, ergueu-a e deitou-a sobre a coberta
macia de grama, entre os bichos, que se afastaram e fizeram um círculo ao
redor deles. Chegavam outros vindos da floresta, todos os cavalos brancos,
cavalos azuis e os cavalos negros, menores, que não se viam nem mesmo sob a
luz da lua. E lentas tartarugas saíam dágua para os encontrar. A claridade dos
horizontes palpitava à volta deles até as extremidades do mundo. Estavam
sozinhos no meio de uma praça viva, fortificada pelos bichos que os protegiam
e os confortavam. Ele passou a mão por baixo da faixa que cobria o peito de
Eléa e fez florescer um seio entre duas pregas da fazenda. Pousou sobre ele a
palma arredondada da sua mão, e o acariciou com um gemido de felicidade, de
amor, de respeito, de admiração, de ternura, com um reconhecimento infinito,

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para a vida que havia criado tanta beleza perfeita e a havia lhe dado para que
ele provasse e sentisse que ela era bela.
E agora, era a última vez.
Colou sobre o seio sua boca entreaberta e sentiu a ponta macia tornar-se
dura entre seus lábios.
— Eu sou sua... — murmurou Eléa.
Ele libertou o outro seio e o apertou carinhosamente, depois desfez a roupa
dos quadris. Sua mão correu ao longo das ancas, ao longo das coxas, e todas as
descidas levavam ao mesmo ponto, ao cimo da pequena floresta dourada, à
nascente do vale fechado. Eléa resistia ao desejo de se abrir. Era a última vez.
Era preciso eternizar cada impaciência e cada entrega. Ela se entreabriu o
suficiente para deixar mão dele escorregar, procurar, encontrar, no cimo do
monte e do vale, na confluência de todas as rampas, protegido, escondido,
coberto, ah!... descoberto! O centro abrasador dos seus prazeres.
Ela gemeu e por sua vez colocou suas mãos sobre Paikan.
O horizonte estremeceu. Uma claridade verde ofuscou uma manada de
cavalos brancos que dançavam no local, assustados.
Eléa não via mais nada. Paikan via Eléa, olhava-a com seus olhos, com suas
mãos, com seus lábios, enchia a mente com sua carne e com sua beleza e com
o prazer que a percorria, fazia-a gemer, arrancava-lhe suspiros e gritos. Ela
parou de acariciá-lo. Suas mãos sem forças se desprenderam dele. Os olhos
fechados, os braços pendidos, ela não pesava mais, não pensava mais. Ela era o
capim e o lago e o céu, ela era um rio e um sol de prazer. Mas não eram ainda
senão ondas antes da onda única, a grande estrada luminosa múltipla para o
único cimo, o maravilhoso caminho que ela nunca havia tão longamente
percorrido, que ele desenhava e redesenhava com suas mãos e com seus lábios
sobre todos os tesouros que ela lhe dava. Ele lastimava não ter mais mãos,
mais lábios para lhe proporcionar no corpo todo mais prazeres ao mesmo
tempo. E no seu coração ele lhe agradecia por ser tão bela e tão feliz.
De repente o céu todo tornou-se vermelho. O rebanho vermelho dos
cavalos partiu a galope em direção à floresta.
Eléa queimava. Ofegante, impaciente, tomou entre suas mãos a cabeça de
Paikan com seus doces cabelos cor de trigo que ela não via, que ela não podia

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mais ver, aproximou-o de si, sua boca sobre a boca dele, depois suas mãos
desceram novamente e pegaram a árvore amada, a árvore oferecida,
aproximada e recusada e a conduziram para seu vale aberto até a alma.
Quando ele entrou, ela gemeu, morreu, derreteu-se, espalhou-se sobre os
bosques, sobre o lago, sobre a carne da terra. Mas ele, Paikan, estava nela, ele
a chamava para si, com longos apelos poderosos que a transportavam aos
píncaros do mundo — Paikan — chamavam-na, atraíam-na, congregavam-na,
condensavam-na, apertavam-na até que o meio de seu ventre transpassado de
chamas — Paikan! — explodisse num gozo prodigioso, indizível, divino, bem-
amado, abrasante, até a extremidade da menor parcela do seu corpo, que a
excedia. Seus rostos calmos repousavam encostados um no outro. O de Eléa
estava virado em direção ao céu vermelho. O de Paikan banhava-se na erva
fresca. Ele ainda não queria se retirar dela. Era a última vez. Ele pesava sobre
ela o necessário para tocá-la e senti-la ao longo de sua pele. Quando ele a
deixasse, seria para sempre. Não havia mais amanhã. Nada recomeçaria. Ele
quase se deixou levar pelo desespero, e começou a berrar contra a absurda,
atroz e insuportável separação. O pensamento da sua morte próxima o
acalmou. Uma detonação pesada fez estremecer o solo. Uma parte da floresta
afundou-se de um só golpe. Paikan levantou a cabeça e olhou, na claridade
dançante, o rosto de Eléa. Estava banhada por uma grande doçura, a grande
paz que conhecem depois do amor as mulheres que receberam e deram em
toda a sua plenitude. Ela repousava sobre a grama o seu corpo inteiramente
relaxado. Apenas respirava. Estava mais além da vigia e do sonho. Ela estava
toda bem, e ele o sabia. Sem abrir os olhos perguntou muito carinhosamente:
— Você está me olhando?
Ele respondeu:
— Você é bela...
Lentamente a boca e os olhos fechados se transformaram num sorriso.
O céu palpitou e se fendeu. Num urro, uma nuvem de soldados enisores
seminus, pintados de vermelho, montados sobre seus carros de ferro, surgiu
nas alturas da noite incandescente, e correu obliquamente por cima do lago, em
direção à Boca. De todas as chaminés, as armas de defesa atiraram. O exército
aéreo foi destroçado, dispersado, desmantelado, mandado de volta para as

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estrelas em milhares de cadáveres desconjuntados que tombavam no lago e na


floresta. Os animais corriam em todas as direções, jogavam-se na água, saíam,
rodavam ao redor do casal gritando loucamente. Uma série de explosões
terríveis ergueu a floresta incendiada e atirou-a para todos os lados. Um galho
em chamas caiu sobre uma corça que deu um salto fantástico e mergulhou. Os
cavalos em fogo galopavam e escoiceavam. Do céu um novo exército descia
gritando. Paikan quis erguer Eléa. Ela o segurou. Abriu seus olhos. Olhou-o. Ela
estava feliz.
— Vamos morrer juntos — disse ela.
Ele escorregou sua mão dentro da arma abandonada sobre a grama,
levantou-se e endireitou-se. Ela teve tempo de ver a arma apontada em sua
direção. Gritou:
— Você!
— Você vai viver — disse ele.
E atirou.

O que se seguiu, Eléa descobriu ao mesmo tempo que os sábios da EPI. A


arma a havia atingido mas os seus sentidos tinham continuado a receber
impressões, e sua memória inconsciente as registraram.
Seus ouvidos haviam ouvido, seus olhos entreabertos haviam visto, seu
corpo havia sentido Paikan arrumarem volta dela algumas roupas, tomá-la nos
braços e andar em direção ao elevador no meio daquele inferno desencadeado.
Ele havia enfiado sua chave na placa, mas o elevador não subia. Então ele
gritou:
— Coban! Estou chamando! Sou Paikan! Estou lhe trazendo Eléa!... Houve
um silêncio. Ele gritou de novo o nome de Coban e o nome de Eléa. O sinal
verde começou a palpitar abaixo da porta e a voz de Coban ressoou
embrulhada, cortada, às vezes abafada, às vezes vibrante com o som de uma
lâmina de aço.
— Tarde... bem tarde... inimigo... penetrou em Gonda-7... seu grupo de
elevadores... isolado... vou tentar... desça... estou enviando um grupo... atacar

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inimigo... ao seu encontro... assinale-se... seu anel... todas as placas... repito...


envio...
A cabina do elevador chegou e abriu-se.
O solo ergueu-se numa explosão assustadora, a parte de cima do elevador
foi pulverizada, Eléa arrancada dos braços de Paikan, um e outro erguidos,
projetados, jogados por terra. Os olhos de Eléa inconsciente viam o céu
vermelho de onde descia sem cessar a nuvem dos homens vermelhos. E seus
ouvidos ouviam seus berros que enchiam a noite em chamas. Seu corpo sentiu
a presença de Paikan. Ele a havia encontrado. Ele a tocava. Seus olhos viram
seu rosto angustiado esconder o céu e inclinar-se sobre ela. Viram sua testa
machucada, seus cabelos louros manchados de sangue. Mas a sua consciência
estava ausente e ela não sentiu emoção nenhuma. Seus ouvidos ouviram sua
voz lhe falar para tranqüilizá-la.
— Eléa... Eléa... estou aqui... vou levá-la... ao... abrigo... você viverá... Ele a
ergueu e a colocou sobre os ombros.
O busto de Eléa pendia nas costas de Paikan, e seus olhos não viram mais
nada. E sua memória não registrou mais que barulhos, sensações difusas,
profundas, que entram no corpo por toda a superfície e espessura da sua carne,
e que a consciência ignora.
Paikan lhe falava, e ela ouvia sua voz no meio das explosões e dos estalos
da floresta que queimava.
— Vou levá-la... Vou descer no elevador... Pela escada... Eu sou eu... Não
tenha medo de nada... Estou com você...
Na grande tela da sala do conselho não havia mais imagens precisas. Na
mesa do pódio, Eléa, os olhos fechados, a cabeça entre as mãos, deixava sua
memória se entregar ao que ela havia registrado. Os emissores estalavam com
o barulho dos estrondos, das explosões, dos gritos horríveis, dos
desmoronamentos e tremores de terra. Sobre a tela, o circuito-imagem
mostrava os impulsos recebidos pelos desabamentos de cores gigantescas,
quedas intermináveis em direção ao abismo sulfuroso, das erupções de trevas.
Era o retorno de um mundo fracassado para o caos que precedeu todas as
criações.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Depois foi uma sucessão de golpes surdos e abafados, cada vez mais
próximos, cada vez mais fortes.
Eléa ficou pouco à vontade, perturbada. Reabriu os olhos e arrancou o
círculo de ouro.
A tela se apagou.
Os golpes surdos continuaram e, de repente, ouviu-se a voz de Lebeau:
— Vocês estão ouvindo? Ê o seu coração!
Ele falava diretamente da sala de reanimação, através de todos os
transmissores.
— Conseguimos! Ele vive! Coban vive!
Hoover levantou-se de um salto, gritou "Bravos!" e pôs-se a aplaudir. Todo
mundo o imitou. Os velhos sábios e mesmo os mais jovens, os homens e
também as poucas mulheres entre eles, disfarçavam por meio de gestos e com
grandes gritos e constrangimento que sentiram ao se encontrarem reunidos a
se olhar uns aos outros, depois de terem ouvido e visto juntos sobre a tela as
cenas as mais íntimas evocadas pela memória de Eléa. Fingiam não dar
importância nenhuma, serem calejados, considerá-las dentro de um puro
espírito científico, ou de diversão. Mas cada um estava profundamente
perturbado no seu espírito e na sua carne. E, encontrando-se de repente no
mundo de hoje, não ousavam olhar seu vizinho que, por sua vez, desviava os
olhos. Tinham vergonha do seu pudor e vergonha da sua vergonha. A
maravilhosa, a total inocência de Eléa mostrava-lhe a que ponto a civilização
cristã tinha — depois de São Paulo e não depois de Cristo — pervertido ao
condenar as alegrias mais belas que Deus dera ao homem. Todos eles se
sentiam, mesmo os mais jovens, semelhantes aos velhos lascivos, impotentes e
tarados. O coração de Coban, ao acordar, vinha poupá-los deste momento de
penoso embaraço coletivo, onde a metade dentre eles começava a enrubescer
e a outra metade a censurar.
O coração de Coban batia, parava, recomeçava, irregular, ameaçado. Os
eletrodos de um estimulador fixado no seu peito por meio de ataduras
intervinham automaticamente quando a parada se prolongava, e a surpresa de
um choque elétrico fazia o coração recomeçar, num sobressalto.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Os médicos ao redor da mesa de reanimação mostravam rostos


preocupados.
De repente, o que eles temiam aconteceu. A respiração de Coban tornou-se
difícil, e as ataduras se mancharam de sangue no lugar da boca.
— Coagulante! Soro! Deite-o de lado. Libere a boca. Sonda bucal... Os
pulmões sangravam.
Sem cessar nem por um instante os atenciosos cuidados, acima do corpo
que eles desprendiam, libertavam, manipulavam, aliviavam, os reanimadores
fizeram um conselho.
Se a hemorragia não cessava era porque as queimaduras do tecido
pulmonar haviam sido muito graves para cicatrizarem. Nesse caso, seria
necessário fazer um transplante de pulmões.
Mas para isso havia as seguintes objeções:
Atraso para fazer virem os pulmões novos (três partes, por medida de
segurança) do Banco Internacional de Órgãos; chamada pelo rádio, embalagem,
transporte de avião, travessia Genebra-Sidney, transbordo, travessia Sidney -
EPI: total, 20 horas.
— Não esqueçam as chatices militares... os papéis de alfândega...
— Não vão querer...
— Tudo é possível. Dobre o atraso.
— Quarenta horas.
Manter Coban vivo durante todo esse tempo. Necessidade de sangue para
a transfusão. Teste do sangue de Coban, imediatamente. Grupo e subgrupo
vermelhos, grupo e subgrupos brancos.
Um enfermeiro desamarrou-lhe a mão e sangrou a esquerda.
Mesmo problema para a operação: sangue, em quantidade. Prever o dobro.
Outro problema para a operação: uma equipe cirúrgica especialista em
transplante de órgãos.
Moissov: — Nós temos...
Forster: — Nós podemos...
Zabrec: — No meu país...
Lebeau: — Impossível. Muito arriscado. Nada de mãos novas aqui.
Principalmente mãos armadas de facas. Operaremos nós mesmos, em rede de

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

televisão com as equipes francesa, americana e do Cabo. Podemos fazê-lo.


Pulmões, isto não é um diabo.
Pulmão artificial para nele ramificar os circuitos sanguíneos durante a
operações.
Havia um na enfermaria.
Então por que não utilizar logo esse aparelho e deixar repousar os pulmões
de Coban e permitir-lhes cicatrizar?
— Eles não se cicatrizarão se não receberem sangue. Devem continuar a
funcionar. Ficarão bons ou não, é um jogo.
Resultados dos Testes Sanguíneos: Grupos e Subgrupos Desconhecidos. O
sangue testado (Coban) coagula todos os outros sangues.
Surpreendente!
É um sangue fóssil! Não esqueçam que este tipo é um fóssil! Vivo, porém
fóssil! Há novecentos mil anos, o sangue evoluiu, meus filhos.
Sem sangue, nada de operação. A situação está simplificada. Ou ele fica
bom ou ele morre.
— Tem a moça...
— Que moça?
— Eléa... seu sangue talvez servisse!
— Mas nunca o bastante para uma operação! Seria necessário sangrá-la
sem saber quanto, e isto não seria suficiente.
— Talvez. Ligando tudo, e muito rápido. Com o pulmão artificial no circuito
logo em seguida...
— Mas não vamos, por isso, assassinar esta moça!
— Ela suportaria... Vocês viram como ela se recupera...
— É sua alimentação...
— Ou o soro universal...
— Ou os dois...
Eu me oponho! Vocês sabem bem que ela não poderia refabricar seu
sangue suficientemente tão depressa. Estão pedindo que a sacrifiquemos. Eu
me recuso a isso!
— Ela é bela, isto é verdade, mas diante do cérebro deste sujeito, ela não
tem importância nenhuma.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Bela ou não, esta não é a questão: ela está viva. Nós somos médicos. Não
somos vampiros.
— Mas pode-se de qualquer maneira testar seu sangue com o de Coban. Isto
não nos compromete em nada. Teremos sem dúvida necessidade de que ela
nos dê um pouco, caso ele continue a sangrar. Sem falar em operação.
— De acordo. Quanto a isso, estou de acordo, completamente de acordo.
No mesmo dia, Coban ressuscitado, Coban em perigo de morte, a equação
de Zoran explicada, ou para sempre perdida. As multidões as mais obtusas
compreenderam que alguma coisa de fabulosamente importante para elas
estava em vias de ser jogada perto do Pólo Sul, no interior de um homem que a
morte segurava pela mão.
— Tentem compreender o que se passa no interior deste homem. O tecido
de seus pulmões está queimado, em parte até destruído. Para que ele possa
recomeçar a respirar novamente, a sobreviver e viver, é preciso que o que resta
desse tecido regenere o que não existe mais. Ele ainda dorme. Começou a
dormir a novecentos mil anos e continua. Mas a carne do seu corpo está
acordada e se defende. E se ele mesmo estivesse acordado isto não mudaria
nada. Não é ele quem comanda. Seu corpo não tem necessidade dele. As
células do tecido pulmonar, as maravilhosas pequenas usinas vivas, estão
prestes a fabricar a toda pressa novas usinas que se lhes assemelhem para
substituir aquelas que o frio ou o fogo destruiu. Ao mesmo tempo, elas fazem
seu trabalho comum, múltiplo, incrivelmente complexo no domínio da química,
física, eletrônica, vitalidade. Recebem, escolhem, transformam, fabricam,
destroem, seguram, rejeitam, reservam, dosam, obedecem, ordenam,
coordenam com uma segurança e uma inteligência espantosa. Cada uma delas
sabe mais que mil engenheiros, médicos e arquitetos. São células comuns num
corpo vivo. Somos construídos por milhares delas, milhares de mistérios,
milhares de complexos microscópicos obstinadamente agarrados à sua tarefa
fantasticamente complicada. Quem comanda estas maravilhosas pequenas
células? Será você, Vignont?
— Oh! Senhor...
— Não as de Coban, mas as suas? As do seu fígado? Será que é você que
lhes ordena para fazer o seu trabalho de fígado?

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Não, senhor.
— Então, quem comanda suas pequenas células? Quem lhes ordena a fazer
o que elas fazem? Quem as construiu como deveria para que elas pudessem
fazê-lo? Quem colocou cada uma no seu lugar, no seu fígado, no seu pequeno
cérebro, na retina dos seus lindos olhos? Quem? Responda, Vignont, responda!
— Eu não sei, senhor.
— Você não sabe?
— Não, senhor.
— Nem eu, Vignont. O que é que você sabe fora disso?
— Bem...
— Você não sabe nada, Vignont...
— Não, senhor.
— Diga: "Eu não sei nada".
— Eu não sei nada, senhor.
— Bravo! Olhem para ele, os outros, riem, caçoam, pensam saber alguma
coisa. O que é que eles sabem, Vignont?
— Não sei não senhor.
— Eles não sabem nada, Vignont. O que é isto que estou desenhando no
quadro, você reconhece?
— Sim, senhor.
— O que é? Diga.
— É a equação de Zoban, senhor.
—Escute só como riem, esses idiotas só porque você se enganou numa
consoante. Você acredita que eles saibam mais do que você? Pensa que eles
sabem lê-la?
— Não, senhor.
— E no entanto eles estão orgulhosos, caçoam, se divertem; acreditam-se
inteligentes e tomam você por um idiota. Será que você é idiota, Vignont?
— Estou pouco me incomodando, senhor.
— Muito bem, Vignont, mas isso não é verdade. Você está inquieto. Você se
diz: "Eu talvez seja um idiota". Eu lhe asseguro: você não é idiota! Você é feito
das mesmas pequenas células que um homem cujos pulmões estão prestes a
sangrar no ponto 612, exatamente as mesmas com que era feito Zoran, o que

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

encontrou a chave do campo universal. Milhares de pequenas células


supremamente inteligentes. Exatamente as mesmas que as minhas, Senhor
Vignont, e as minhas são agregadas de filosofia. Você vê bem que não é um
idiota!
— Sim, senhor.
— Olhe, eis aí o idiota: Jules-Jacques Ardillon, primeiro em todas as
matérias desde a sexta classe, cabeça, grande! Pensa que sabe alguma coisa,
julga-se inteligente. Você é inteligente, Sr. Ardillon?
— Bem... eu...
— Sim... você pensa. Pensa que estou brincando e que na realidade
acredito e sei que você é inteligente. Não, Sr. Ardillon, creio e sei que você é um
idiota. Será que você sabe ler a equação de Zoran?
— Não, senhor.
— E se você soubesse, será que saberia o que ela significa?
— Penso que sim, senhor.
— Você pensa!... você pensa!... Que idéia! Você é um Ardillon-pensador!
Você teria no bolso a chave do universo, a chave do bem e do mal, a chave da
vida e da morte. O que é que você faria, Sr. Ardillon-pensador?
— Eu...
— Eis aí, Sr. Ardillon, eis aí...
— General, o senhor ouviu as notícias?
— Sim, Sr. Presidente.
— Este Co... como é mesmo?
— Coban.
— Coban, foi acordado.
— Eles o acordaram...
— Talvez consigam salvá-lo?
— Talvez...
— Estão loucos!
— Estão loucos...
— A equação desse troço, o senhor compreende alguma coisa?
— Eu, sabeis, as equações...
— Mesmo no C.N.R.S.*, eles não compreendem nada!

199
PDL – Projeto Democratização da Leitura

Centre National de Recherches Scientifiques. (N. do T.)

— Nada!...
— Mas é pior do que a bomba!
— Pior...
— E por outro lado, pode ser bom...
— Pode...
— Mas mesmo esse bom pode ser mau.
— Mau, muito mau...
— Pensai na China!
— Estou pensando.
— Colocai-vos no seu lugar!
— É um pouco grande...
— Fazei um esforço! O que pensaríeis?
— Vós pensaríeis: "São esses sem-vergonhas dos brancos que vão meter a
mão nesse negócio. No momento em que nós ousemos igualar, talvez
ultrapassá-los, eles vão novamente tomar mil anos adiante. Não pode ser. De
maneira nenhuma". E eis aí o que pensaríeis se fosseis a China.
— Evidentemente... acreditais que eles vão sabotar?
— Sabotar, raptar, atacar, massacrar, não sei de nada. Talvez não façam
nada mesmo. Como saber com os chineses?
— Como saber?
— Como! Como saber? É sua obrigação de saber! Vós dirigis os S.I.I Os S.I.
são os Serviços de Informação! Isso é um pouco esquecido! Vigiai a China,
general! Vigiai a China! É de lá que virá...
A força internacional aeronaval estacionada no Norte de Terra Adélia
deslocou-se nas três dimensões em forma de escudo, e ficou em estado de
alerta permanente. Tinha dois olhos virados para o ar e acima do ar, e ouvidos
que iam até o fundo do oceano.

200
PDL – Projeto Democratização da Leitura

Quando os olhos de Eléa viram novamente, o Presidente Lokan estava de


pé no centro da imagem. À esquerda, na direção do olho esquerdo, estava
Coban que olhava Lokan e o escutava. E à direita, metade do rosto de Paikan
inclinava-se para ela.
Lokan parecia afogado de cansaço e de pessimismo.
— Eles ocuparam todas as cidades do centro — dizia ele — e Gonda-7 até a
2ª Profundidade... Nada consegue detê-los. Nós matamos, matamos, suas
perdas são fantásticas, mas seu número é incrível... eles chegam em ondas e
mais ondas, sem cessar... agora todas as suas forças convergem para Gonda-7
a fim de destruir o conselho e a universidade, e se dirigem para a Arma Solar,
na esperança de impedi-la de partir. Destruímos todas as avenidas que
conduzem à arma, mas eles abrem covas de todos os lados, aos milhares, cada
um cava seu pequeno túnel. Não posso acelerar o lançamento. Honestamente,
não sei dizer se conseguiremos para-los por bastante tempo, ou se eles
conseguirão chegar à arma antes que esta tenha levantado vôo.
— Eu o espero! — disse Coban. — Se devemos ser destruídos, ao menos
que os outros vivam! Quem somos nós para condenar à morte a Terra inteira?
— Você é pessimista, Coban, não será assim tão terrível...
— Será pior do que tudo o que possais imaginar, e vós bem o sabeis!...
— Já não sei mais, já não imagino mais, já não penso mais! Fiz tudo o que
poderia fazer sendo o responsável por Gondawa, e agora ninguém pode parar
mais nada nem saber o que fará parar ou não... Estou exausto...
— É o peso da Terra morta que vos esmigalha!
— É fácil, Coban! É fácil dizer as belas frases quando se está fora da ação...
Preste atenção, Coban, eles acabam de desembarcar um novo exército em
Gonda. Vão nos atacar com fúria, nada posso fazer por você, preciso de todas
as forças de que disponho. Você tem sua guarda...
— Ela está no combate — replicou Coban. — Nós os rechaçaremos.
— Adeus, Coban... eu...
Lokan desapareceu. Não era senão uma imagem.
Coban tornou-se o centro da visão e aproximou-se de Eléa. Fez sinal para
alguém que ela não via.

201
PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Escute, Eléa, se você me entende, não tenha medo — disse ele. —


Vamos fazê-la beber um licor de paz, que adormecerá não somente o seu
espírito, mas cada parcela de seu corpo, a fim de que nem uma célula
estremeça quando o frio a possuir.
— Estou perto de você — disse Paikan.
O corpo de Eléa sentiu que eles introduziam uma espécie de sonda macia
na boca, garganta, estômago e que aí faziam correr um líquido. Sua revolta foi
tão grande que lhe devolveu a consciência. Quis sentar-se e protestar. Mas de
repente não sentiu mais necessidade disso. Sentia-se bem. Tudo estava bem,
maravilhosamente bem. Ela não tinha mais nem vontade de falar. Não era
necessário. Cada um devia compreendê-la como ela compreendia a cada um e
a todos.
— Você está bem? — perguntou Coban. Ela nem o olhou. Sabia que ele
sabia.
— Você vai adormecer totalmente, muito suavemente. Não será um sono
longo. Mesmo se você dormir durante alguns séculos, não será mais longo que
uma noite.
Uma noite, uma doce noite de sono, de repouso...
— Você entendeu? Nada mais que uma noite... e quando você acordar...
estarei morto há tanto tempo, que você não terá mais pena... estou com você...
estou perto de você.
— Dispam-na e levem-na — ordenou Coban aos seus assistentes. Paikan
rugiu.
— Não a toquem!
Inclinou-se para ela e tirou-lhe as faixas de roupa que ainda lhe restavam.
Depois espalhou sobre seu corpo um pouco de água morna, lavou-a docemente,
com todos os cuidados de uma mãe pelo seu recém-nascido. Ela sentiu sobre o
corpo suas mãos amadas, estava feliz, Paikan, sou sua, dormir...
Via a sala ao seu redor, estreita, de teto baixo, com uma parede convexa
de ouro furada por uma porta redonda. Ouvia o barulho da batalha que se
aproximava na espessura da terra. Tudo estava bem. A imagem sangrenta do
chefe dos guardas apareceu. Tinha perdido seu capacete e metade da pele da
sua cabeça.

202
PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Atravessaram a Terceira Profundidade... dirigem-se para o abrigo...


— Defendam o abrigo! Reúnam todas as forças em volta dele! Abandonem
todo o resto!
O guarda verde-vermelho desapareceu. A terra tremia.
— Paikan, carregue-a. Venha comigo.
— Vem, Eléa, vem, eu lhe carrego, você está nos meus braços. Sou eu
quem te carrego. Você vai dormir. Estou com você.
Ela não queria dormir, ainda não, já não, tudo era tão bom ao redor dela,
tudo era tão bom nos braços de Paikan.
Nos seus braços, ela desceu uma escada de ouro e atravessou uma porta
de ouro. Ainda alguns degraus.
— Deite-se aqui, a cabeça na minha direção — disse Coban -, os braços
sobre o peito. Bem... Escute, Moissan, você me ouve?
— Ouço.
— Envie-me a imagem de Gonda-I. Quero ficar a par dos acontecimentos
até o fim.
— Vou enviá-la.
A abóbada do abrigo tornou-se uma imensa planície. Do céu de fogo caíam
guerreiros vermelhos. Na sua multidão vertical o choque das armas de defesa
abria lacunas enormes, porém dos céus surgiam outras, outras e outras.
Chegados ao solo eles eram atingidos pelos fogos cruzados das armas
enterradas. Os novos cadáveres iam se juntar à multidão dançante dos mortos,
sacudida sem cessar pelos choques das armas. Os que escapavam enfiavam-se
imediatamente no solo, agachados sobre seus assentos que lhes abria caminho.
O solo defendia-se, explodia, erguia-se em molhos, e projetava entre os restos
da sua própria carne seus agressores deslocados.
Eléa pensava que tudo isto estava bem. Tudo estava maravilhosamente
bem... bem... bem...
— Ela começa a dormir — disse Coban. — Vou-lhe colocar a máscara. Diga-
lhe adeus.
Ela viu a planície se abrir de uma ponta a outra do horizonte, rejeitando
para suas bordas as quantidades de mortos e de vivos, com os rochedos e com
a terra. Uma maravilhosa flor gigantesca de metal e de vidro saiu da terra

203
PDL – Projeto Democratização da Leitura

aberta e subiu para o céu. O exército que caía do céu foi afastado e rejeitado
como poeira. A flor fantástica subiu e desabrochou, abriu à volta dela suas
pétalas de todas as cores, desvendando seu centro, seu coração mais
transparente que a água mais clara. Encheu o céu, no qual ela continuava a
subir e começavaa virar docemente, depois mais depressa, mais depressa, cada
vez mais depressa... Estava maravilhosamente bem, estou bem, vou dormir.
O rosto de Paikan tapou a flor e o céu. Ele a olhava. Ele era belo. Paikan.
Não havia senão ele. Sou de Paikan.
— Eléa... sou seu... você vai dormir... estou com você.
Ela fechou os olhos e sentiu a máscara pousar-se sobre o seu rosto. O bocal
respiratório pousou sobre seus lábios, afastou-os, entrou na sua boca. Ouviu
ainda a voz de Paikan...
— Eu não a dou a você, Coban! Eu a trouxe mas eu não a dou! Ela não é
sua! Ela nunca será sua!... Eléa, minha vida, seja paciente... Nada mais que
uma noite... estou com você... para a eternidade.
Ela não ouviu mais nada. Não sentiu mais nada. Sua consciência estava
submersa. Seus sentidos se fecharam. Seu subconsciente desapareceu. Ela não
era mais que uma bruma luminosa, dourada, leve, sem forma e sem fronteiras.
Que se apagou...
Eléa havia tirado o círculo de ouro. Seu busto erguido, encostado à cadeira,
o olhar fixo perdido no infinito, apesar do presente, silenciosa, imóvel como uma
estátua de pedra, oferecia um rosto de tal força trágico que ninguém ousava
mexer, dizer uma palavra, romper seu silêncio com um pigarro ou com um
ranger de cadeira.
Foi Simon quem se levantou, colocou-se atrás dela, pousou suas mãos
sobre seus ombros, e disse carinhosamente:
— Eléa...
Ela não se mexeu. Ele repetiu:
— Eléa...
Sentiu os ombros dela tremerem sob suas mãos.
— Eléa, venha...
O calor da sua voz, o calor das suas mãos atravessaram as barreiras do
horror.

204
PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Descansar...
Ela levantou-se, virou-se para ele e olhou-o como se ele fosse o único ser
vivo no meio de mortos. Ele estendeu-lhe a mão. Ela olhou esta mão estendida,
hesitou um instante, depois nela colocou a sua. A mão de Paikan... uma mão... a
única mão no mundo, o único socorro.
Simon fechou lentamente seus dedos ao redor da palma gelada pousada
na sua. Depois começou a andar e levou Eléa.
De mãos dadas, desceram do pódio, atravessaram juntos a sala, seu
silêncio e seus olhares. Henckel, sentado na última fila, ergueu-se e abriu-lhes a
porta.
Do momento em que eles saíram, as vozes se ergueram, o zunzum encheu
a sala, discussões nasceram de todos os lados.
Cada um tinha reconhecido as últimas imagens da cena que havia sido
transmitida a Simon quando ele colocara o círculo receptor. E cada um
adivinhava o que devia ter se passado em seguida: Paikan saindo do abrigo,
Coban bebendo o licor da paz, despindo-se e estendendo-se no seu caixão,
colocando sobre seu rosto a máscara de ouro, o abrigo se fechando, o motor do
frio começando a funcionar.
Durante aquele tempo, a Arma Solar, prosseguindo sua rota aérea, atingia
os limites de Enisorai e entrava em ação. Qual havia sido exatamente o seu
efeito? Não se podia senão conjeturar. "Como se o sol pousasse sobre
Enisorai..." havia dito Coban. Sem dúvida um raio dessa temperatura fantástica
fundindo a terra e as pedras, liquidificando os montes e as cidades, rasgando
continentes até suas raízes, cortando-lhes pedaços, revirando e girando como
uma roda de ferro, e jogando tudo nas águas.
E o que Coban temera havia acontecido: o choque tinha sido tão violento
que havia repercutido sobre a massa terrestre. A Terra tinha perdido o equilíbrio
da sua rotação e tinha enlouquecido como um pião inclinado, antes de
encontrar um novo equilíbrio sobre bases diferentes. Suas mudanças de marcha
tinham fendido a crosta, provocando em tudo sismos e erupções, projetado fora
das fossas oceânicas as águas inertes cuja massa fantástica havia submergido e
inunda- do as terras. Viam sem dúvida nesse acontecimento a origem do mito
do dilúvio que se encontra hoje na tradição de povos de todas as partes do

205
PDL – Projeto Democratização da Leitura

mundo. As águas se tinham retirado, mas não todas. Gondawa se encontrava


colocada, pelo novo equilíbrio da Terra, ao redor do novo Pólo Sul. O gelo havia
tomado e imobilizado as águas dessa elevação súbita que sacudia o continente.
E, sobre esse talude, os anos, os séculos, os milênios haviam acumulado
fantásticas espessuras de neve transformadas por sua vez em gelo pelo seu
próprio peso.
Isto, Coban não havia previsto. Seu abrigo devia se reabrir quando as
circunstâncias tivessem tornado a vida novamente possível na superfície. O
motor do frio devia parar, a máscara devia dar respiração e calor aos dois que
jaziam ali, a perfuratriz abriria seu caminho para o ar e para o sol. Mas as
circunstâncias não tinham nunca se tornado favoráveis. O abrigo tinha se
tornado um grão perdido no fundo do frio, e que não teria jamais germinado
sem o acaso e a curiosidade dos exploradores. Hoover levantou-se.
— Proponho — disse ele — que rendamos homenagem, numa declaração
solene, à intuição, inteligência e obstinação dos nossos amigos das Expedições
Polares Francesas que souberam não somente interpretar os dados tão
diferentes das suas sondas e tirar as conclusões que vós sabeis, mas sacudir a
indiferença e a inércia das nações até que elas se juntassem e nos enviassem
aqui!
A assembléia levantou-se e aprovou Hoover por aclamação.
— É preciso também — lembrou Leonova — render homenagem ao gênio
de Coban e ao seu pessimismo que, conjugado, fizeram-no construir um abrigo
à prova da eternidade.
— O.K., minha boneca — replicou Hoover. — Mas ele foi muito pessimista.
Foi Lokan quem tinha razão. A arma solar não destruiu toda a vida terrestre.
Visto que estamos aqui! Houve sobreviventes vegetais, animais, e homens.
Poucos sem dúvida, mas era o suficiente para que tudo recomeçasse. As casas,
as fábricas, os motores, a energia engarrafada, toda a quinquilharia da qual eles
viviam tinha sido destruída, fracassada. Os que se salvaram caíram de bunda no
chão! Nus! Eram quantos? Talvez algumas dezenas, dispersadas pelos cinco
continentes. Mais nus do que vermes porque não sabiam fazer nada! Tinham
mãos das quais não sabiam mais se servir! O que é que eu sei fazer com
minhas mãos. eu, Sr. Hoover cabeça grande? A não ser acender o meu cigarro e

206
PDL – Projeto Democratização da Leitura

dar uma palmada no traseiro das moças? Nada! Zero. Se eu tivesse que pegar
um coelho correndo para poder comer, vocês vêm o quadro? O que é que eu
faria se estivesse no lugar do sobrevivente? Mataria para encher a barriga com
insetos, frutas quando fosse a ocasião, animais mortos quando eu tivesse a
sorte de encontrá-los. E eis aí o que eles fizeram. Eis aí onde eles caíram! Mais
baixo que os primeiros homens que haviam começado tudo para eles, mais
baixo do que as bestas. Sua civilização desaparecida, eles se encontraram como
caramujos dos quais um menino quebrou e tirou a casca para ver como era feito
por dentro. Ora, caramujos eles devem ter consumido muitos, e isso não anda
depressa. Espero que tenham encontrado muitos caramujos. Você gosta
decaramujos, boneca? Eles partiram novamente do degrau mais baixo da
escada, e refizeram toda a subida, recaíram no caminho, subiram mais ainda, e
re-recaídos, obstinados e cabeçudos, e nariz para cima, recomeçavam sempre a
subir, e irão até em cima, mais alto ainda, nas estrelas! E eis aí! Eles estão lá!
Eles somos nós! Eles repovoaram o mundo, e são tão trouxas quanto antes, e
prontos a fazer explodir tudo de novo. Não é bonito, isto? É o homem!
Foi um grande dia de exaltação e de sol. Do lado de fora o vento no chão
tinha caído na sua velocidade mínima. Não era mais de que 120 por hora, com
momentos de calmaria quase total, inverossímeis, de uma doçura inesperada.
Desencadeava suas fúrias muito alto no céu, limpava-o da menor mancha de
nuvem, do menor grão de poeira e de bruma, fazia-o brilhar de um azul intenso,
todo novo, alegre. E a neve e o gelo estavam quase tão azuis quanto ele. Na
Sala do Conselho, a assembléia fervia. Leonova havia proposto aos sábios
prestarem um juramento solene de consagrar sua vida a lutar contra a guerra e
suas formas mais ferozes, a besteira política e a besteira nacional.
— Abrace-me, pequena irmã vermelha! — aparteara Hoover — e acrescen-
temos a besteira ideológica.
Ele a havia apertado de encontro ao seu ventre. Ela havia chorado. Os
sábios, de pé, braços estendidos, haviam jurado em todas as suas línguas e a
tradutora havia multiplicado os juramentos. Hoi-To pusera então os seus
colegas ao corrente dos trabalhos de equipe da qual ele fazia parte com Lukos,
e que mostrava o relevo fotográfico dos textos gravados no muro do abrigo.
Tinha acabado o relevo de um texto reparado desde o primeiro dia do qual ela

207
PDL – Projeto Democratização da Leitura

havia encontrado e traduzido o título: Tratado das Leis Universais e que parecia
ser a explicação da equação de Zoran. Diante da sua importância, Lukos tinha
se encarregado ele mesmo de projetar os duzentos clichês fotográficos na tela
analisadora da máquina tradutora.
Era uma notícia de uma importância extraordinária. Mesmo que Coban
morresse, podia se esperar compreender um dia o tratado e decifrar a equação.
Heath levantou-se e pediu a palavra.
— Sou inglês, e feliz por sê-lo. Penso que não seria um homem completo se
não fosse inglês.
Ouviram-se risos e apupos. Heath continuou sem sorrir:
— Alguns continentais pensam que consideramos todos aqueles que não
nasceram na ilha da Inglaterra como macacos apenas descidos de um coqueiro.
Os que pensam assim exageram. Ligeiramente...
Desta vez os risos dominaram.
— É por ser inglês, feliz por ter nascido na ilha da Inglaterra, que posso me
permitir fazer-lhes a seguinte proposta. Escrevamos nós também um tratado,
ou melhor uma Declaração da Lei Universal. A lei do homem universal. Sem
demagogia, sem blá-blá como dizem os franceses, sem palavras ambíguas, sem
frases majestosas. Existe a declaração da ONU. Não passa de uma solene
merda. Ninguém liga. Não há um homem em cem mil que conheça sua
existência. Nossa declaração a nós deverá atingir ao coração de todos os
homens vivos. Não terá senão um parágrafo, talvez uma só frase. Será preciso
procurar bem, para pôr o menor número de palavras possível. Ela dirá
simplesmente qualquer coisa assim: "Eu homem, sou inglês ou patagônico, e
feliz de sê-lo, mas sou antes de tudo um ser vivo, não quero matar nem quero
que me matem. Recuso a guerra, sejam quais forem as suas razões". É tudo.
Sentou-se e encheu seu cachimbo com tabaco holandês.
— Viva a Inglaterra! — gritou Hoover.
Os sábios riram, se abraçavam, davam-se palmadinhas nas costas. Evoli,
físico italiano, soluçava. Henckel, metodista alemão, propôs uma comissão
encar- regada de redigir o texto da Declaração do Homem Universal. No
momento em que as vozes começavam a propor nomes, a de Lebeau surgiu em
todos os emissores.

208
PDL – Projeto Democratização da Leitura

Anunciava que os pulmões de Coban tinham parado de sangrar. O homem


estava muito fraco e ainda inconsciente, seu coração irregular, mas agora
tinham esperanças de salvá-lo. Era verdadeiramente um grande dia. Hoover
pediu a Hoi-To se sabia dentro de quanto tempo Lukos teria acabado de injetar
na tradutora as fotos do Tratado das Leis Universais.
— Dentro de algumas horas — respondeu Hoi-To.
— Então, dentro de algumas horas já deveremos saber, em dezessete
línguas diferentes, o que significa a equação de Zoran?
— Não creio — disse Hoi-To com um pequeno sorriso. — Conhecemos os
textos de ligação, o raciocínio e o comentário, mas o significado dos símbolos
matemáticos e físicos nos escapará, como escapa à tradutora. Sem a ajuda de
Coban, será necessário um certo tempo para encontrar o sentido. Mas
evidentemente conseguiremos, e sem dúvida bastante rápido, graças aos
computadores.
— Proponho — disse Hoover — anunciar pelo Trio que faremos amanhã
uma comunicação ao mundo inteiro. E prevenir às universidades e centros de
pesquisas que eles terão que gravar um longo texto científico cujas imagens
nós transmitiremos em inglês e em francês, com símbolos originais na língua
gonda. Esta difusão geral de um tratado que leva à compreensão da equação
de Zoran tornará de um só golpe impossível a exclusividade do seu
conhecimento. Dentro de poucos instantes ela terá se tornado o bem comum de
todos os pesquisadores do mundo inteiro. Nesse mesmo golpe desaparecerão
as ameaças de destruição e de rapto que pesam sobre Coban, e poderíamos
convidar esta repugnante assembléia de ferragem militar flutuante e voadora
que nos supervisiona sob o pretexto de nos proteger a se dispersar e a voltar
para seus covis.
A proposta de Hoover foi adotada por aclamação. Foi um grande dia, um
dia longo sem noite e sem nuvem, com um sol dourado que passeava seu
otimismo à volta do horizonte. Na hora em que ele se eclipsava atrás da
montanha de gelo, os sábios e técnicos prolongaram sua euforia no bar e no
restaurante de EP1-2. A provisão de champanha e de vodca da base, naquela
tarde, foi seriamente atingida. E o scotch, e o bourbon, a aquavit e a shlivovitsa
verteram sua ração de otimismo no caldeirão borbulhante da alegria geral.

209
PDL – Projeto Democratização da Leitura

Irmãzinha — disse Hoover a Leonova -, sou um enorme e aborrecido


celibatário, e você é um horrível cérebro marxista magricela... Não lhe direi que
a amo porque seria abominavelmente ridículo. Mas se você aceitar se tornar
minha mulher, prometo-lhe que perderei minha barriga e que chegarei mesmo
a ler O Capital.
— Você é horrível — dizia Leonova soluçando sobre seu ombro — você é
horrível...
— Ela tinha bebido champanha. Não estava acostumada.
Simon não tinha se reunido à alegria geral. Havia acompanhado Eléa até a
enfermaria e não a havia deixado. Entrando no quarto, ela veio direta para a
máquina de comer, tocou três botões brancos, e obteve uma esférula cor de
sangue que logo engoliu, acompanhada de um copo dágua. Depois, com sua
indiferença habitual à presença de outrem, tinha se despido, tinha rodado, toda
nua, feito sua toalete e se deitado, já meio adormecida, sem dúvida, sob o
efeito da esférula vermelha. Depois que havia tirado seu círculo de ouro, não
pronunciara mais nenhuma palavra. A enfermeira tinha seguido o último
episódio da lembrança na Sala de Conferência. Olhou Eléa com piedade. O rosto
da jovem mulher adormecida estava petrificado numa gravidade trágica que
parecia além de todos os sofrimentos...
— Coitadinha... — disse a enfermeira. — Talvez fosse melhor que eu lhe
vestisse seu pijama, ela poderá sentir frio.
Não a toque, ela dorme, está em paz — disse Simon a meia voz. Cubra-a
bem e vigie-a. Vou dormir um pouco, ficarei de guarda à meia-noite. Acorde-
me...
Regulou o termostato para aumentar ligeiramente a temperatura do quarto
e esticou-se todo vestido sobre seu leito estreito. Mas do momento em que
fechou os olhos, as imagens começaram a desfilar sob suas pálpebras, Eléa e
Paikan, Eléa nua, o céu de fogo, a agitação dos soldados mortos, Eléa nua, Eléa
sem Paikan, o solo esmigalhado, a planície fendida, a arma no céu, Eléa, Eléa.
Levantou-se bruscamente, consciente de que não poderia dormir.
Soporífero? A máquina de comer estava ali sobre a mesinha, ao alcance de
sua mão. Aflorou os três botões brancos, a gaveta se abriu, ofertando-lhe uma
esférula vermelha.

210
PDL – Projeto Democratização da Leitura

A enfermeira o olhava agir, com ar de reprovação:


— O senhor vai comer isso? Talvez seja veneno!
Ele não respondeu. Se fosse veneno, Eléa o havia tomado, e, se Eléa
morresse, ele não teria mais vontade de viver. Mas não acreditava que fosse.
Pegou a esférula entre o polegar e o indicador e colocou-a na boca. Ela estalou
sob seus dentes como uma cereja sem caroço. Pareceu-lhe que todo o interior
de sua boca, de seu nariz, de sua garganta, estava salpicado de uma ofensiva
doçura. Não era doce de gosto, não tinha gosto nenhum. Era como um veludo
líquido, um contato, uma sensação de uma doçura infinita que se espalhava e
penetrava no interior da sua carne, atravessava-lhe as faces e o pescoço para
chegar até a pele e invadir o interior da cabeça. Quando ele engoliu, desceu-lhe
pelo corpo todo e o encheu. Voltou a deitar-se lentamente. Não tinha a
impressão de estar com sono. Parecia que poderia andar até o Himalaia e
escalá-lo dando cambalhotas.
A enfermeira o sacudiu.
— Doutor! Depressa! Levante-se depressa!
— O quê? O que é que há?
— Olhou o relógio luminoso. Marcava 23 horas e 37 minutos.
— Bem que eu lhe disse que era veneno! Beba isto, rápido! É ipeca.
Ele afastou o copo que ela lhe estendia. Nunca tinha se sentido tão bem,
eufórico, repousado como se tivesse dormido dez horas.
— Então, se não é veneno, o que é que ela tem? Ela, Eléa.
Ela estava acordada, os olhos abertos, o olhar fixo, os maxilares fechados.
Acessos bruscos de tremura lhe sacudiam todo o corpo. Simon desvestiu-a e
tocou-lhe nos músculos dos braços e das coxas. Estavam crispados, tensos,
tetanizados. Passou-lhe a mão diante dos olhos, que não piscaram. Achou
dificilmente seu pulso sob os músculos endurecidos do punho. Sentiu-o, forte,
acelerado.
— O que é isto, doutor? O que é que ela tem?
— Nada — murmurou Simon puxando novamente as cobertas. — Nada... a
não ser o desespero...
— Pobre pequena... o que é que podemos fazer?
— Nada — repetiu Simon — nada...

211
PDL – Projeto Democratização da Leitura

Tinha guardado a mão gelada de Eléa nas suas mãos. Pôs-se a acariciá-la,
massageá-la docemente, massagear o braço endurecido subindo para o ombro.
— Vou ajudá-lo — disse a enfermeira.
Deu a volta no leito e pegou a outra mão de Eléa. O braço desta recuou
sustado.
— Deixe-a — pediu Simon. — Deixe-me com ela. Deixe-nos. Vá dormir o
seu quarto...
— O senhor tem certeza?
— Sim... deixe-nos...
A enfermeira juntou suas coisas e saiu lançando a Simon um longo olhar de
suspeita. Ele não se apercebeu. Olhava Eléa, seu rosto endurecido, seus olhos
fixos, nos quais a luz brilhava sobre dois lagos de lágrimas imóveis.
— Eléa... — disse ele muito baixinho. — Eléa, Eléa... estou com você...
Pensou bruscamente que não era sua voz que ela escutava, mas sim a voz
estranha da tradutora. A sua própria voz que chegava no outro ouvido, não era
senão um barulho confuso, estranho, que sua tensão esforçava-se por eliminar.
Com precaução, tirou-lhe o escutador de orelha. Seu microemissor estava
preso às suas roupas pousadas sobre uma cadeira. Tirou o seu, alfinetado num
suéter, e enfiou no fundo do bolso. Agora, não havia mais máquina, mais voz
estranha, entre ela e ele.
— Eléa... estou com você... sozinho com você... pela primeira vez... talvez a
última... E você não me compreende... Então posso lhe dizer... Eléa meu amor...
minha bem-amada... eu a amo... meu amor... meu amor... queria estar perto de
você... em cima de você... dentro de você muito docemente... dar-lhe
confiança... esquentá-la e acalmá-la... consolá-la... eu a amo... não sou senão m
bárbaro... um selvagem atrasado... eu como bichos... e ervas e árvores... não a
terei nunca... mas eu a amo, amo você... Eléa, meu amor... você é bela... você é
bela... você é o pássaro, a fruta, a flor, o vento do céu... nunca a terei... eu sei,
eu sei... mas eu amo você...
As palavras de Simon pousavam sobre ela, sobre seu rosto, sobre seus
braços, sobre seus seios descobertos, pousavam nela como pétalas macias,
como uma nuvem de calor. Ele sentia nas suas mãos a mão dela se amolecer,
via seu rosto se distender, seu peito erguer-se mais calmo e profundamente. Via

212
PDL – Projeto Democratização da Leitura

suas pálpebras se abaixarem muito lentamente sobre os olhos trágicos e


finalmente s lágrimas correrem.
Eléa, Eléa, meu amor... volte do mal, volte da dor... volte, a vida está aqui,
eu amo você... você é bela... nada é tão belo quanto você... a criança nua,... a
nuvem... a cor... a corça... a onda, a folha... a rosa que se abre... o cheiro da
pesca e de todo o mar... nada é tão belo como você... o sol de maio sobre as
nossas margaridas... o filhote de leão... os frutos redondos... os frutos
maduros... os frutos quentes ao sol... nada é tão belo quanto você... Eléa, Eléa,
eu amor, minha bem-amada...
Sentiu a mão de Eléa apertar a sua, e viu sua outra mão se erguer, pousar-
se sobre o lençol, tocá-lo, pegá-lo e com um gesto não habitual, um gesto
incrível trazê-lo para ela e cobrir seus seios nus.
Ele se calou.
Ela falou.
Disse, em francês:
— Simon, eu o compreendo...
Houve um curto silêncio, depois ela acrescentou:
— Sou de Paikan...
Dos seus olhos fechados, lágrimas continuavam a rolar.

Tu me compreendes, tu me compreendeste, talvez não todas as palavras,


mas o suficiente para saber quanto, quanto eu te amava. Eu te amo, o amor,
amor, estas palavras não têm sentido na tua língua, mas as havia
compreendido, sabias o que queriam dizer, o que eu queria te dizer, e se elas
não te trouxeram o esquecimento e a paz, te deram, trouxeram, colocaram em
ti bastante calor para te permitir chorar.
Compreendeste. Como era possível? Não tinha contado, ninguém de nós
contava com as faculdades excepcionais da tua inteligência. Nós nos
acreditamos no cimo do progresso humano, nós somos os mais evoluídos! Os
mais afiados! Os mais capazes! O brilhante resultado extremo da evolução.
Depois de nós, haverá talvez, haverá, sem dúvida melhores, mas antes,

213
PDL – Projeto Democratização da Leitura

vejamos, não é possível! Apesar de todas as realizações de Gondawa que tu nos


mostraste, não podia vir ao nosso espirito que vocês fossem superiores. O
sucesso de vocês não poderia ser senão acidental. Vocês nos eram inferiores,
posto que tinham vindo antes.
Esta convicção de que o-homem-enquanto-espécie se aperfeiçoa com o
tempo vem sem dúvida de uma confusão inconsciente com o homem-enquanto-
indivíduo. O homem é primeiro uma criança antes de se tornar um adulto. Nós,
homens de hoje, somos adultos. Os que viveram antes de nós não podiam ser
senão crianças.
Mas talvez fosse bom, talvez fosse tempo de se perguntar se a perfeição
não está na infância, se o adulto não é senão uma criança que já começou a
apodrecer...
Vocês, as infâncias do homem, vocês novos, puros, vocês não usados, não
cansados, não rasgados, deteriorados, estufados, vocês, o que não podiam com
as suas inteligências?
Há semanas que ouves num ouvido as frases da língua desconhecida, a
minha, pela minha voz que te falava, todo o dia de manhã à noite de ti, do
momento em que não dormias, e mesmo quando dormias porque as palavras
que eu te dizia eram uma maneira de estar contigo mais perto de ti meu amor,
minha bem-amada.
E no outro ouvido ouvias as mesmas frases traduzidas. O sentido das
palavras te chegava sem cessar ao mesmo tempo que as palavras, e tua
maravilhosa inteligência, consciente, subconsciente, não sei, comparava,
classificava, traduzia, compreendia.
Tu me compreendias...
Eu também, eu também, meu amor, compreendi e sabia... Tu eras de
Paikan...

Lukos tinha terminado. A tradutora tinha engolido, assimilado e traduzido


em dezessete línguas o texto do tratado de Zoran. Mas obedecendo às
instruções dadas por Lukos por decisão do Conselho, guardou as traduções na
sua memória, para imprimi-las ou difundi-las mais tarde, quando lhe pedissem.

214
PDL – Projeto Democratização da Leitura

Ela havia somente inscrito sobre o fio magnético as imagens das traduções
inglesas e francesas. Os filmes esperavam dentro de um armário o momento da
difusão mundial.
A hora se aproximava. Os jornalistas pediram para visitar a tradutora a fim
de poder descrever aos seus leitores e auditores a maravilha que havia
decifrado os segredos da mais velha ciência humana. Na ausência de Lukos,
que prosseguia no ovo, com Hoi-To, o levantamento fotográfico dos tipos
gravados, foi seu adjunto, o engenheiro Mourad, quem os guiou nos meandros
da máquina. Hoover havia insistido para acompanhar e Leonova acompanhava
Hoover. Em alguns momentos, ele segurava sua mão miúda na sua manopla.
Ou então era ela que pendurava seus dedos frágeis a seus enormes dedos. E
avançavam assim, sem prestar atenção, nas salas e nos corredores da
tradutora, de mãos dadas como dois amantes de Gondawa.
— Eis aqui — disse Mourad — o dispositivo que permite inscrever as
imagens sobre os filmes. Sobre esta tela as linhas dos tipos aparecem em
caracteres luminosos. Esta câmara de tevê, as vê, analisa e as transforma em
sinais eletromagnéticos que ela inscreve sobre um filme. Como vocês estão
vendo, é muito simples, é o velho sistema de magnetoscópio. O que é menos
simples, é a maneira como se comporta a tradutora para fabricar os caracteres
luminosos. É...
Mourad estava falando em turco e japonês, Hoover havia distribuído aos
jornalistas receptores de orelha, a fim de permitir a cada um entender as
explicações na sua própria língua. E Louis Deville entendeu em francês:
— ... é... merda... que é isso?
Num centésimo de segundo, ele admirou que a tradutora tivesse um
conhecimento tão familiar da língua francesa, e se prometeu perguntar a
Mourad qual era a palavra turca correspondente. Deveria ser sonora e
pitoresca. No centésimo de segundo seguinte, ele já não pensava mais nessas
futilidades. Via Mourad falar no ouvido de Hoover, Hoover fazer sinal de que não
compreendia, em seguida Mourad puxar Hoover pela manga e mostrar-lhe
qualquer coisa por trás da câmara registradora de tevê. Alguma coisa que
Hoover compreendeu logo e que os jornalistas mais próximos, que olhavam ao
mesmo tempo que ele, não compreenderam.

215
PDL – Projeto Democratização da Leitura

Hoover virou-se para eles:


— Senhores, tenho necessidade de falar, em particular, com o engenheiro
Mourad. Não posso fazê-lo a não ser por intermédio da tradutora. Não desejo
que vocês ouçam nossa conversa. Peço-lhes que me devolvam vossos
receptores de ouvido, e que tenham a bondade de sair.
Foi uma explosão de protestos, uma tempestade verbal que reboou pela
sala. Cortar a fonte de informação logo no momento onde ela ia talvez se tornar
sensacional? De jeito nenhum! Nunca na vida! Pensavam que eles eram O quê?
Hoover ficou rubro de fúria. Berrou:
— Vocês estão me fazendo perder tempo! Cada segundo talvez tenha uma
importância fantástica! Se vocês discutirem mais, eu os farei embarcar num jato
e os mando de volta a Sidney! Dêem-me isto.
Estendeu as mãos em concha.
No estado em que estava, ele, o brincalhão, todos compreenderam que era
grave.
— Prometo que os porei ao corrente, logo que tudo estiver resolvido. Todos
passaram diante dele e lhe devolveram as conchas multicores ainda quentes do
calor de suas cabeças. Leonova fechou a porta sobre o último e voltou-se
vivamente para Hoover?
— O que é? O que é que está acontecendo?
Os dois homens já estavam inclinados sobre as entranhas da câmara e
discutiam rapidamente em termos técnicos.
— Adulterada! — disse Hoover. — A câmara foi adulterada! Está vendo este
fio aqui, aqui! Não é o do magnetoscópio! Foi acrescentado!
Colado ao do magnestoscópio, confundia-se com ele e o fio clandestino
enfiava-se ao mesmo tempo que ele num buraco da divisão metálica.
Rapidamente, Mourad percebeu as quatro roscas de cabeça cruzada, e puxou
em sua direção a placa de alumínio polido. As entranhas do magnetoscópio
apareceram. Eles logo viram um objeto insólito: uma valise de tamanho médio,
de falso couro ordinário, cor de tabaco. Um fio suplementar entrava nela e um
outro saía, subia num esconso, furava o teto, e encontrava sem dúvida, através
de um artifício astucioso, uma massa metálica externa que deveria servir de
antena.

216
PDL – Projeto Democratização da Leitura

— O que é isto? — perguntou novamente Leonova, lamentando-se por ser


apenas uma antropóloga ignorante de todas as técnicas.
— Um emissor — respondeu Hoover.
Estava abrindo a valise. Ela revelava um admirável agenciamento de
circuitos, de tubos e de semicondutores: não era um canal radioemissor, mas
sim uma verdadeira estação emissora de televisão, uma obra-prima de
miniaturização.
Num rápido olhar, Hoover reconheceu peças japonesas, tchecas, alemãs,
americanas, francesas, e admirava contra a vontade o extraordinário arranjo
que conseguia ter em tão pouco espaço tanta eficiência. O homem que havia
construído este emissor era um gênio. Ele não o havia ligado no circuito
eletrônico geral. Uma pilha e um transformador lhe davam a potência
necessária. Isto limitava sua duração e seu alcance. Não poderia ser recebido
além de um raio de mil quilômetros.
Hoover explicou rapidamente tudo isto a Leonova. Testou a pilha. Estava
quase vazia. O emissor já havia funcionado. Incontestavelmente havia emitido
para um receptador situado sobre o continente antártico, ou perto de suas
costas, as imagens de tradução inglesa ou francesa ou talvez as duas. Era
absurdo. Por que procurar clandestinamente traduções, quando elas iam, dentro
de algumas horas, ser difundidas no mundo inteiro? A lógica levava uma
resposta aterradora:
Se um grupo, se uma nação esperava se assegurar a exclusividade do
conhecimento a equação de Zoran, ele ou ela tinha que tornar impossível,
fosse como fosse, o conhecimento do Tratado das Leis Universais, ou qualquer
outra explica- ção da fórmula. Para isto, aqueles que haviam instalado o emissor
e expedido para o desconhecido as imagens do tratado, deveriam igualmente,
no momento imediato:
— Destruir os fios magnéticos sobre os quais essas imagens estavam
registradas.
—Destruir os filmes originais sobre os quais o texto gravado havia sido
fotografado; Destruir o próprio texto gravado;
— destruir as memórias da tradutora que guardava as dezessete
traduções; MATAR COBAN.

217
PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Nossa Senhora: — exclamou Hoover. — Onde estão os filmes? Mourad os


conduziu rapidamente para a sala dos arquivos, abriu o armário de alumínio,
pegou uma dessas caixas em forma de biscoito, que depois da invenção do
cinema servem de receptáculo para os filmes de todas as espécies, e que são
atravancadoras, incômodas, ridículas e que nunca foram melhoradas. Teve,
como se tem sempre, muita dificuldade para abri-la, quebrou uma unha,
blasfemou em turco, e blasfemou uma segunda vez quando conseguiu e viu
conteúdo: era uma papa viscosa de onde subiam fumacinhas.
Haviam jogado ácido dentro de todas as caixas. Filmes originais e
magnéticos não eram mais do que uma pasta malcheirosa que começava a
escorrer pelos buracos das caixas cujo metal, por sua vez, havia sido atacado e
destruído.
— Com mil diabos! — exclamou Hoover mais uma vez, em francês. Preferia
praguejar em francês. Sua consciência de americano protestante ficava menos
atormentada.
— As memórias? Onde estão as memórias da puta dessa máquina?
Por um longo corredor de trinta metros, cujo muro da direita era de gelo
filtrado acolchoado e o da esquerda constituído por uma grade metálica onde
cada malha tinha a dimensão de um décimo de milésimo de milímetro. Cada
cruzamento era uma célula de memória. Havia dez milhões de milhares. Esta
realização da técnica eletrônica, apesar da sua capacidade prodigiosa era
mesmo assim apenas um grão de areia ao lado de um cérebro vivo. Sua
superioridade sobre o vivo era a rapidez. Mas esta capacidade era o finito ao
lado do infinito. Ao entrar, num primeiro olhar, descobriram as incongruências
que haviam sido acrescentadas à obra-prima.
Quatro caixas, redondas, bastante semelhantes com as caixas dos filmes,
Quatro minas semelhantes às que defendiam a entrada da esfera. Quatro
monstruosos horrores grudados contra a parede metálica, seguros a ela por seu
campo magnético, e que iam pulverizá-la, com toda a tradutora, se tentassem
arrancá-la, ou talvez mesmo só pelo fato de alguém se aproximar delas.
— Filho do filho do filho da puta! — gritou Hoover. — Você tem um
revólver?
Dirigia-se a Mourad...

218
PDL – Projeto Democratização da Leitura

—Não.
— Leonova, dê-me o seu!
— Mas...
— Dê! Ora bolas! Você acha que este é o momento de discutir?
Leonova estendeu sua arma a Mourad.
— Feche a porta — disse Hoover. — Fique na frente, não deixe entrar
ninguém, e se insistirem, atire!
— E se isto explodir? — perguntou Mourad.
— Bem, você explodirá junto! E também não será o único... Onde está este
cretino do Lukos?
— No ovo.
— Vem, irmãzinha...
Arrastou-a na velocidade do vento que soprava do lado de fora.
A tempestade tinha se levantado no momento em que o sol estava no
ponto mais alto do horizonte. Nuvens verdes o haviam engolido, e depois ao
céu. O vento se batia contra todos os obstáculos, arrancava a neve do solo para
misturá-la com a que ele trazia e fabricar com ela uma mistura afiada, cortante.
Trazia os restos, os lixos, as caixas abandonadas, os tonéis vazios e cheios, as
antenas, os jipes, arrasava tudo.
O guarda da porta impediu-os de sair. Aventurar-se lá fora sem proteção,
era morrer. O vento ia cegá-los, asfixiá-los, quebrá-los, rolá-los, levá-los até o
fim do frio e do branco mortal.
Hoover arrancou o boné do homem e enfiou-o sobre a cabeça de Leonova.
Tirou-lhe os óculos, as luvas, seu capote e envolveu a moça magra, empurrou-a
sobre uma plataforma elétrica carregada de tonéis de cerveja, e apontou seu
revólver sobre o guarda.
— Abra!
O homem, aturdido, apertou o botão de abrir. A porta correu. O vento
lançou um clamor de neve turbilhante até o fundo do corredor. A plataforma
paciente e lenta entrou na tormenta.
— Mas você — gritou a voz aguda de Leonova — você não está protegido!
— Eu — respondeu a voz grossa de Hoover no meio da tempestade —
tenho minha barriga!

219
PDL – Projeto Democratização da Leitura

Na frente e atrás deles tudo era branco. Tudo era branco, à esquerda, à
direita, na frente, atrás, em cima, em baixo. A plataforma afundava num oceano
branco que se deslocava berrando como mil carros de corrida. Hoover sentiu a
neve grudar no seu rosto, petrificar-lhes as orelhas e o nariz. O edifício do
elevador estava a trinta metros bem em frente. Trinta vezes o tempo de se
perder e de se deixar levar pela goela do vento. Era preciso manter a
plataforma sob uma trajetória retilínea. Ele não pensava senão nisto, esqueceu
seu rosto, suas orelhas e seu nariz, e a pele do seu crânio que começava a gelar
sob seus cabelos cobertos de neve. Trinta metros. O vento vinha da direita e
devia desviá-los. Apoiou em direção ao vento e de repente pensou que o óleo
do seu revólver iria gelar e travá-lo durante horas.
— Agarre-se bem na direção! Com as duas mãos! Assim! Muito bem! Não
desvie nem um milímetro! Segure-se bem!
Pegou nas suas mãos nuas, que quase já não sentia mais, as duas mãos
enluvadas de Leonova, fechou-as sobre a barra da direção, achou tateando seu
revólver no estojo pendurado na sua cintura, tirou-o, conseguiu abrir o fecho da
sua calça. Pareceu que uma horda de lobos mordia-lhe o ventre. Escondeu a
arma dentro de sua calça e tentou fechá-la. O puxador do fecho escapou dos
seus dedos inchados, a neve bloqueou os dentes, entrou pela abertura. O frio
tomou conta de suas coxas, indo para seu sexo, para a arma que ele quis
colocar ao abrigo, no lugar mais quente dele mesmo. Apertou-se contra
Leonova, comprimiu-a contra sua barriga, como defesa, como obstáculo, como
muralha contra a tempestade. Envolveu-a com seus braços e pousou suas mãos
sobre as dela ao redor da barra da direção. O vento tentava arrancá-los da sua
trajetória para jogá-los não importa aonde, longe de tudo. Longe de tudo, não
eram quilômetros. Alguns metros bastavam para perdê-los fora do mundo na
tormenta sem limite, sem assistência, sem indício, e cujo paroxismo estava em
toda parte. Poderiam ficar gelados a dez passos de uma porta. A do edifício do
elevador continuava sempre invisível. Estaria ela ali, bem perto, na frente,
escondida pela espessura da neve trazida? Ou teriam eles passado e a
plataforma estava em vias de enveredar para o deserto mortal que começava a
cada passo.

220
PDL – Projeto Democratização da Leitura

Hoover teve de repente a certeza de que eles haviam passado da sua meta
e que se continuassem, por menos que fosse, estavam perdidos. Pesou sobre as
mãos de Leonova e freou bruscamente, de frente para o vento.
O vento de pé enfiou-se por baixo da plataforma e ergueu-a. Os tonéis de
cerveja e a barriga de Hoover a jogaram no solo. Leonova aflita, largou a barra.
Sentiu-se carregada e gritou. Hoover agarrou-a e colou-a contra ele. A
plataforma abandonada a si mesma ficou girando, de costas para o vento. Dois
barris de cerveja jogados desapareceram rolando na tempestade branca. O
vento enfiava seus ombros sobre o veículo desamparado. Ergueu-o de novo e
virou-o. Hoover rolou sobre o gelo sem largar Leonova. Um barril de cerveja
passou a poucos centímetros do seu crânio. A plataforma revirada, rolada,
carregada, desapareceu como uma folha. O vento rolou Hoover e Leonova
agarrada a ele. Bateram brutalmente num obstáculo que ressoou. Era uma
grande superfície vermelha vertical. Era a porta do edifício do elevador...

O elevador estava aquecido. A neve e o gelo agarrados a todas as dobras


de suas roupas se fundiam. Leonova tirou suas luvas, suas mãos estavam
mornas.
Hoover soprava as suas, que continuavam imóveis, azuladas. Ele não
sentia nem suas orelhas nem o seu nariz. Dentro de alguns minutos seria
necessário agir. Ele não seria capaz.
— Vire-se — disse ele.
— Por quê?
— Vire-se, por Deus! É preciso sempre que você discuta!
Ela ficou vermelha de raiva, tentou recusar, depois obedeceu cerrando os
dentes. Ele por sua vez virou-lhe as costas, e conseguiu enfiar suas duas mãos
dentro da calça, agarrou o revólver entre suas duas palmas, e tirou-o para fora.
Ele escapou-lhe e caiu. Leonova assustou-se.
— Não se vire!

221
PDL – Projeto Democratização da Leitura

Empurrou para dentro a fralda de sua camisa, pegou o puxador do fecho


entre seus dois indicadores. Sabia que o segurava, mas não o sentia. Puxou
para cima. Ele lhe escapou. Recomeçou duas vezes, dez vezes, ganhando cada
vez alguns dentes do seu fecho. Finalmente ficou com aspecto mais
apresentável. Olhou o indicador de descida. Estavam a menos 980. Iam chegar.
— Pegue o revólver — disse ele — eu não posso. Ela virou-se para ele,
ansiosa.
— Suas mãos...?
— Sim, minhas mãos! Não temos tempo!... Pegue este troço... Você sabe
usá-lo?
— Por quem me toma você?
Ela manejava a arma com desembaraço. Era um revólver de repetição
degrosso calibre, uma arma de assassino profissional.
— Tire o trinco de segurança.
— Você acredita que...?
— Não acredito em nada... temo... tudo dependerá talvez de um décimo de
segundo.
O elevador freou nos últimos metros e parou. A porta abriu-se.
Era Heath e Shanga que estavam de guarda nas minas. Viram com espanto
sair da cabine Hoover encharcado, hirsuto, levando na ponta dos seus braços
suas mãos como pacotes inertes, e Leonova sacudindo um enorme revólver
negro.
— O que é que há? — perguntou Heath.
— Não há tempo!... Dê-me a sala, rápido!
Heath já havia reencontrado sua fleuma. Chamou a sala de reanimação.
— O Sr. Hoover e a Srta. Leonova querem entrar...
— Esperem! — gritou Hoover.
Tentou segurar o aparelho, mas sua mão parecia um pacote de algodão e o
instrumento lhe escapou. Leonova o pegou e segurou diante dos seus lábios.
— Alô! Aqui Hoover. Quem me escuta?
— Moissov escuta — respondeu uma voz em francês.
— Responda! Coban está vivo?
— Sim! Está. Claro.

222
PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Não tire os olhos de cima dele! Controle todo o mundo! Que cada um
vigie seu vizinho! Vigie Coban. ALGUÉM VAI MATÁ-LO!
— Mas...
— Não posso confiar somente em você. Passe-me Forster.
Repetiu seu grilo de alarme a Forster, depois a Lebeau. A cada um ele
repetia:
— ALGUÉM VAI MATAR COBAN! Não deixem ninguém se aproximar NÃO
IMPORTA QUEM!
Acrescentou:
— O que está acontecendo no ovo? O que é que vocês estão vendo na tela
de vigilância?
— Nada — disse Lebeau.
— Nada? Como, nada?
— A câmara está em pane.
— Em pane? Uma ova! Abram as minas. Rápido!
Leonova devolveu o receptor a Heath. O pisca-pisca vermelho apagou-se. O
campo de minas estava desativado. Mas Hoover desconfiava. Levantou o joelho
e estendeu sua bota para Shanga com a displicência causada por vinte
gerações de escravatura.
— Tire minha bota, pequeno.
Shanga teve um sobressalto e recuou. Leonova ficou furiosa.
— Não é o momento de se sentir negro! — gritou ela.
Pousou o revólver no chão, pegou a bota com as duas mãos e puxou. Não
tentava mais compreender, depositava confiança total em Hoover, e sabia a
que ponto cada fração ínfima de tempo era essencial.
— Obrigado, irmãzinha. Deitem-se todos!
Deu o exemplo. Shanga, apavorado, imitou-o logo. Heath também, com ar
de quem não entendia nada. Leonova, de joelhos, segurava sempre a bota.
— Jogue-a no buraco!
O buraco era a abertura da escada que ligava o fundo do poço ao acesso
da esfera. As minas estavam na escada, sob os degraus. Leonova jogou a bota.
Não aconteceu nada.

223
PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Vamos — disse Hoover. — Tire a outra e tire as suas. Temos que ser
silenciosos como a neve. Heath, não deixe entrar mais ninguém, entendeu?
Ninguém.
— Mas o que é que...?
— Daqui a pouquinho...
Os braços afastados do corpo, para que suas mãos dolorosas não tocassem
em nada, enfiou-se pela escada e Leonova atrás dele.
No ovo havia um homem deitado e um homem em pé. O homem deitado
tinha uma faca de neve enfiada no peito, e seu sangue compunha no chão uma
pequena poça em forma de balão de história em quadrinhos. O homem em pé
usava um capacete de soldador que lhe escondia o rosto e pesava sobre seus
ombros. Segurava com as duas mãos o cano do plaser, e dirigia o lança-chamas
para o muro gravado. O ouro fundia e escorria.
Leonova segurava o revólver na mão direita. Teve medo de não o fazer
bastante solidamente. Acrescentou sua mão esquerda e atirou. As três
primeiras balas arrancaram o plaser das mãos do homem e a quarta quebrou-
lhe um pulso, quase seccionando a mão. O choque jogou-o por terra, a chama
do plaser queimou-lhe um pé. Ele berrou. Hoover se precipitou e, com o
cotovelo, desligou a corrente.
O homem com a faca no peito era Hoi-To.
O homem com a máscara de soldador era Lukos. Hoover e Leonova o
haviam reconhecido logo que o viram. Não havia dois homens com a sua
estatura em EPI. Com um chute, Hoover arrancou-lhe o capacete, descobrindo
seu rosto suado e os olhos revirados. Sob a dor horrível do seu pé reduzido a
cinzas, o colosso tinha desmaiado.

— Simon, você que é amigo dele tente! Simon tentou.


Inclinou-se para Lukos deitado numa cama de enfermaria, e pediu-lhe que
lhe dissesse como tirar as minas coladas nas memórias da tradutora, e para
quem ele havia feito esse trabalho insensato, e se ele estava sozinho ou se
tinha cúmplices. Lukos não respondeu.
Interrogado sem cessar por Hoover, Evoli, Henckel, Heath, Leonova, depois
que havia recobrado a consciência, ele havia somente confirmado que as minas

224
PDL – Projeto Democratização da Leitura

explodiriam se lhes tocassem, e que explodiriam igualmente se não lhes


tocassem. Mas recusou-se a dizer dentro de quanto tempo, e recusou-se a
responder a qualquer outra pergunta. Inclinado sobre ele, Simon olhava este
rosto inteligente, ossudo, os olhos negros que o encaravam sem medo nem
vergonha, nem bazófia.
— Por que, Lukos? Por que você fez isso?
— Lukos o olhava e não respondia nada.
— Foi por dinheiro? Você não é um fanático? E então?...
Lukos não respondia nada.
Simon evocou a batalha contra o tempo que eles haviam conduzido juntos,
que Lukos havia dirigido, para compreender as três pequenas palavras que
permitiriam salvar Eléa. Este trabalho extenuante, genial, este devotamento
totalmente desinteressado, era bem ele, Lukos, que os havia prodigalizado.
Como pode ele, depois, assassinar um homem e conspirar contra os homens?
Como? Por que? Para quem?
Lukos olhava Simon e não respondia nada.
— Estamos perdendo tempo — disse Hoover. — Dê-lhe uma injeção de
pentotal. Ele dirá muito gentilmente tudo o que sabe sem sofrer.
Simon levantou-se. No momento em que ia se afastar, Lukos, com sua mão
sã, forte como a de quatro homens, segurou-o pelo braço, inclinou-o sobre o seu
leito, arrancou-lhe seu revólver enfiado na cintura, apoiou-o contra sua própria
cabeça e atirou. O tiro era oblíquo. A parte de cima do seu crânio se abriu e a
metade do seu cérebro fez um feixe rosa que pousou em oval espalhado sobre
o muro. Lukos havia encontrado um meio de se calar antes do pentotal.
Os responsáveis pelo EPI, no decorrer de uma reunião dramática,
decidiram, apesar de sua repulsa, fazer um apelo à força internacional com
base ao largo da costa, para procurar capturar ou destruir quem ou o que
pudesse ter recebido a emissão clandestina. Se bem que os edifícios mais
avançados fossem muito longe para poder recolher as imagens, era provável
que fosse um elemento secreto desligado de uma das frotas que se tinha
aproximado a uma distância suficiente para captar a emissão.
Provavelmente. Mas não certo. Um pequeno submarino ou um anfíbio ar-
mar poderia ter se escondido entre as malhas da rede de vigilância. Mas mesmo

225
PDL – Projeto Democratização da Leitura

que fosse um elemento da Força Internacional, só a Força mesmo poderia


encontrar. Era preciso contar com as rivalidades nacionais que iam aguçar o
zelo das procuras, e da vigilância recíproca.
Rochefoux entabolou com o Almirante Houston, que estava de guarda, um
diálogo pelo rádio que era difícil e grotesco pelas interrupções da tempestade
magnética que acompanhava a tempestade com seus escárnios. Mesmo assim
Houston acabou entendendo e alertou toda a aviação e toda a frota. Mas a
aviação nada podia fazer no meio da tempestade branca desencadeada. Os
porta-aviões estavam cobertos por uma camada, em todas as suas
superestruturas acolchoadas de uma espessura dez vezes maior de gelo.
Netuno-I tinha se abrigado mergulhando. Não havia hipótese de trazê-lo à
superfície. Angustiado, Houston compreendeu que não lhe restava outro meio
de ação senão a frota de submarinos soviéticos. Se fosse para eles que Lukos
tinha trabalhado, que ironia enviá-los à caça! E se fosse para nós, se Lukos
fosse um agente do F.B.I., e o Pentágono ignorava, não era horrível largar os
turbulentos russos contra pessoas que defendiam o Ocidente e a Civilização?
E se fosse para os chineses? para os indianos? para os negros? para os
judeus? para os turcos? se fosse, se fosse...
A um militar, por maior que seja seu grau, se oferece sempre o
apaziguamento da disciplina. Houston parou de fazer perguntas a si mesmo,
parou de pensar, e aplicou o plano previsto. Acordou seu colega, o Almirante
Voltov. E deixou-o ao corrente da situação. Voltov não hesitou um segundo. No
mesmo instante, deu ordem de alerta. Os 23 submarinos atômicos e suas 115
vedetes de patrulha rumaram para o sul, aproximaram-se das costas até o
limite da imprudência, e cobriram cada metro de rochedo ou de gelo imersos
numa rede de ondas detetoras. Sob 1.500 quilômetros, nem um tremor de
sardinha podia-lhes escapar.
Houve um buraco na tempestade. O vento soprava com a mesma força
porém as nuvens e a neve desapareceram no profundo céu azul. Netuno-I
recebeu ordem de entrar em ação. Veio para a superfície, com lâminas na proa.
Os dois primeiros helicópteros saídos do porão foram jogados ao mar antes
mesmo de abrir suas hélices. O almirante alemão Wentz, comandante do
Netuno, empregou sua última arma: dois aviões foguetes acachapados no fundo

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

de seus tubos. Levavam um rosário de bombas H em miniatura e, sob seu nariz,


os dois olhos de uma câmara estereoscópica emissora. Eles se enfiaram no
vento, como balas. Suas câmaras enviavam para os receptores do Netuno duas
fitas contínuas de imagens em cores e em relevo.
Todo o estado-maior do Netuno estava presente na sala de observações.
Houston e Voltov tinham arriscado suas vidas para vir, para ver e para vigiar.
Assim como todos os oficiais presentes, eles não eram capazes de reconhecer o
que quer que fosse nas imagens que desfilavam na tela da esquerda ou da
direita, nem de distinguir um albatroz de uma baleia branca. Porém os
detetores eletrônicos, estes, eram capazes. E de repente, duas flechas brancas
apareceram sobre a tela da direita. Duas flechas em ângulo reto que
convergiam uma para outra e designavam o mesmo ponto, e se deslocavam
com ele e com a imagem, da esquerda para a direita da tela.
— Pare — gritou Wentz. — Ampliação máxima.
Sobre a mesa, diante dele, uma tela horizontal iluminou-se. Ele colou seu
rosto à lupa estereoscópica. Viu um pedaço de rio afundar na sua direção,
aumentar, aumentar. Viu, numa pequena enseada dilacerada, no fundo de uma
baía, a alguns metros abaixo da água clara e espumante, um foguete oval,
muito regular e muito calmo para ser um peixe...
No minúsculo submarino, dois homens colados um contra o outro se
banhavam num odor úmido de suor e de urina. Não tinham previsto para eles
uma bexiga receptora. Tinham que se controlar. Não tinham podido, por causa
da tempestade que os bloqueava há doze horas, cinco metros abaixo da água.
Para sair da enseada, seria preciso passar acima de um fundo de dois metros. Ir
à superfície e navegar rente. Com este vento, era uma manobra desesperada
que tinha tantas chances de êxito quanto uma moeda lançada para o mar tinha
de cair em pé. Mesmo agachado na parte mais profunda do riacho, o pequeno
submarino não estava abrigado. Batia contra as rochas, o fundo se chocava,
rangia, gemia. O precioso receptador que havia registrado as confidências da
tradutora ocupava um terço do volume do submersível. Os dois homens, pés
com cabeça, um no comando do engenho, outro nas manivelas do receptor, não
tinham lugar para se virar nem mesmo um pouquinho sobre eles mesmos. A
sede secava-lhes a garganta, a transpiração grudava seus macacões, os sais da

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urina lhes afetavam as carnes. O reservatório de oxigênio assobiava


suavemente. Não tinha para mais que duas horas. Decidiram sair desse
impasse custasse o que custasse.
Na sala de reanimação, os médicos e as enfermeiras não se aproximavam
mais de Coban, senão dois de cada vez, cada um vigiando o outro.
No ovo, os desgastes causados pela chama do plaser eram consideráveis.
O texto do trabalho havia quase completamente desaparecido. Quase.
Restavam ainda alguns trechos. Talvez o bastante para fornecer a um gênio
matemático material para fazer brotar a luz que iluminava a equação de Zoran.
Talvez sim. Talvez não.
E não havia um extrator de minas em nenhum dos prédios da Força
Internacional. Um apelo lançado pelo Trio havia alertado os especialistas dos
exércitos russo, americano e europeu. Três jatos rumaram para EPI, trazendo
seus melhores militares especialistas em minas. Vinham do outro hemisfério, na
maior das velocidades. Eles não poderiam pousar sobre a pista de EPI.
Deveriam parar em Sidney e confiar seus ocupantes a jatos menores. Mesmo a
estes últimos, a tempestade opunha dificuldades terríveis. Talvez pudessem
pousar. Talvez não. E dentro de quanto tempo? Muito tempo. Tempo demais. O
engenheiro-chefe da pilha atômica que fornecia energia e luz à base chamava-
se Maxwell. Tinha 31 anos e cabelos grisalhos. Não bebia senão água. Água
americana, que chegava congelada em blocos de 25 libras: os Estados Unidos
enviavam para o Pólo gelo esterilizado, vitaminado, adicionado de flúor e de
oligo-elementos, e de um pouquinho de euforizante.
Maxwell e os outros americanos de EPI consumiam uma grande
quantidade, como bebida, e também para lavar os dentes. Pára a higiene
externa toleravam a água da fonte do gelo polar. Maxwell media um metro e 91
e pesava 69 quilos. Mantinha-se muito ereto e olhava os outros seres humanos
de alto a baixo, através do segundo andar dos seus óculos, sem o menor
desprezo pelo seu tamanho inferior. Prestavam muita atenção a suas opiniões
visto que ele falava pouco.
Veio encontrar Heath, que havia acompanhado Lukos na Europa para a
compra das armas, e perguntou-lhe com desinteresse fatos precisos sobre a
potência explosiva das minas coladas à tradutora. Heath nada podia afirmar,

228
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pois tinha sido Lukos quem havia concluído o negócio com o traficante belga.
Mas Lukos havia dito que cada uma dessas minas continha três quilos de P.N.K.
Maxwell assobiou. Conhecia o novo explosivo americano. Mil vezes mais
forte que o T.N.T. As três bombas correspondiam a nove quilos de P.N.K. e a
nove toneladas de T.N.T. Uma bomba de nove toneladas explodindo dentro da
tradutora, quais seriam os seus efeitos sobre a pilha atômica vizinha, apesar de
sua espessa blindagem de betume e de algumas dezenas de metros de gelo?
Em princípio, por trás do escudo de gelo, o betume deveria agüentar o golpe,
mas havia uma probabilidade de que a onda de choque enfraquecesse a
arquitetura da pilha, fizesse saltar as conexões, provocasse rachaduras e
escape de líquido de gás radioativo, e, talvez, estimulasse uma reação
incontrolável de urânio...
— É preciso evacuar EPI-2 e 3 — disse Maxwell sem levantar a voz. — Aliás
seria até mais prudente evacuar a base inteira...
Alguns minutos mais tarde, as sirenas de alerta urgente que nunca haviam
funcionado, berraram nos três EPI. E todos os postes telefônicos, todos os
emissores, todos os receptores de ouvido em todas as línguas pronunciaram as
mesmas palavras: "Retirada urgente. Preparem-se para retirada imediata."
Dar a ordem de preparar, era evidentemente alguma coisa. Mas retirar
como?
A tempestade azul continuava. O céu estava claro como uma íris. O vento
soprava a 220 km a hora. Mas não trazia a neve a não ser no nível do solo,
arrastando-a com tudo que podia pegar.
Lebeau, que deixara a sala de reanimação há apenas uma hora e havia
adormecido, foi tirado do seu leito por Henckel que o pôs a par da situação.
Hirsuto, exausto de cansaço, telefonou para a sala. Embaixo, na outra ponta do
fio, Moissov blasfemava em russo e repetia em francês:
— Impossível! Você sabe bem! O que é que você está me pedindo? É
impossível!
Sim, Lebeau bem o sabia. Retirar Coban. Impossível. Arrancá-lo, no seu
estado atual, do bloco de reanimação, era matá-lo tão certamente como
cortando-lhe a garganta.

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Mil metros de gelo o colocavam ao abrigo de qualquer explosão, mas se as


instalações da superfície explodissem em dez minutos ele morreria.
Moissov e Lebeau tiveram ambos a mesma idéia. A mesma palavra lhes
veio aos lábios ao mesmo tempo: transfusão. Podiam tentá-la. O teste de
sangue de Eléa tinha dado positivo.
Vendo que o estado de Coban se estabilizava, depois melhorava
lentamente, os médicos haviam deixado esta operação para no caso de um
agravamento brutal ou de uma necessidade urgente. Necessidade urgente, era
bem o caso. Se tentassem a operação imediatamente, Coban podia, dentro de
alguns quartos de hora, ser transportado.
— E se a pilha queimar antes? — perguntou Moissov. — As minas podem
explodir a qualquer momento, a qualquer segundo!...
— Merda, que explodam! — gritou Lebeau. — Vou ver a moça. Ainda é
preciso que ela aceite...
Ele estava, juntamente com os outros reanimadores, alojado na enfermaria
e teve que dar apenas alguns passos para chegar ao quarto de Eléa.
A enfermeira, apavorada, estava começando a fazer suas malas. Três
valises abertas sobre duas camas, cem objetos e roupas espalhadas que ela
pegava, rejeitava, deixava cair, juntava, com suas mãos trêmulas.
Simon dizia a Eléa:
— Melhor! É monstruoso prendê-la aqui. Você finalmente vai conhecer
nosso mundo. O tempo de hoje não é só um pacote de gelo. Não pretendo que
seja um paraíso, mas...
— O paraíso?
— O paraíso é... é muito longe, muito difícil, e de qualquer maneira não é
absolutamente certo, isto é.
— Não compreendo.
— Nem eu. Nem ninguém. Não pense mais. Não vou levá-la ao paraíso.
Paris! Paris, é para onde vou levá-la! Eles dirão o que quiserem, eu vou levá-la a
Paris! É, é...
Ele não pensava no perigo. Sabia somente que levaria Eléa para longe do
seu túmulo de gelo, para o mundo vivo. Tinha vontade de cantar. Falava de
Paris com gestos, como um dançarino.

230
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— É... você verá, é Paris... Não tem flores a não ser nas lojas atrás dos
vidros, mas tem também roupas-flores, chapéus-flores, o jardim das lojas, por
todos os lados, em todas as ruas, flores de meias, nylon-pantalonas calcinhas-
pétalas, guarda-chuvas de todas as cores, sapatos arco-íris, margaridas-roupas
um pouco-muito-apaixonadamente, jamais, nada de nada, jamais-jamais o mais
belo jardim do mundo para a mulher, ela entra, escolhe, ela mesma é flor flor
florida de outras flores. Paris é a maravilha, é para lá que eu vou levá-la!
— Não compreendo nada.
— Não é preciso compreender. É preciso ver. Paris vai curar você. Paris vai
curá-la do seu passado!
Foi neste momento que Lebeau entrou.
— Você concorda — perguntou ele a Eléa — em dar um pouco do seu
sangue a Coban? Só você poderá salvá-lo. Não é grave nem doloroso. Se você
aceitar, nós poderemos transportá-lo. Se você recusar, ele morrerá. É uma
intervenção sem nenhuma gravidade que não lhe fará mal algum...
Simon explodiu. De jeito nenhum! Ele se opunha! Era monstruoso! Coban
que se dane! Nem uma gota de sangue, nem uma gota perdida, Eléa ia partir no
primeiro helicóptero, no primeiro jato, no primeiro seja lá o que for! Ela já não
deveria estar mais lá, ela não voltaria a descer no poço, vocês são uns
monstros, vocês não têm coração, nem tripas, vocês são uns açougueiros,
voces...
— Aceito — disse Eléa.
Seu rosto estava sério. Ela havia refletido durante alguns segundos, mas
seu cérebro ia mais rápido do que o cérebro lento dos tempos de hoje. Havia
refletido e havia decidido. Aceitava dar seu sangue a Coban, o homem que a
havia separado de Paikan e a havia jogado, ao fim de uma eternidade, num
mundo selvagem e frenético. Ela aceitava.
Os dois homens dentro do submarino-de-bolso, pés com cabeça, a cabeça
entre os pés do outro, os pés suando, os pés cheirando, os dois homens, entre
eles dois uma rede metálica acolchoada de espuma sintética, macia, suave,
elástica porém transpirável, terrivelmente transpirável, os dois homens
bloqueados no seu suor, na sua urina, a pele queimada, as narinas queimadas
pelo odor, os dois homens arriscavam tudo ou nada. Se ficassem lá, o

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reservatório de oxigênio esgotado, não poderiam mais partir, nem mergulhar.


Estavam presos. Impensável, horrível, dizer tudo, confessar, monstruoso. Se
não falam, aplicam pentotal. Mesmo sem pentotal, eles olham, e fazem falar,
um chute nas canelas, grito, insulto, não se pode ficar eternamente sem falar.
Partir, é preciso partir.
Duas horas de oxigênio. Cinco minutos mortais para atravessar a
passagem. Resta uma hora e 55 de mergulho. É uma chance, pequena, estreita.
O grande submarino nos engole, ou o grande avião nos descobre. Salvos. Se
eles nos falham, talvez a tempestade pare e nos possamos continuar na
superfície. Não tem outra alternativa. Partir...
Partir. Uma onda jogou-os contra a rocha. Caíram e bateram na rocha
defronte. Voltaram a cair de encontro ao fundo. O choque foi tamanho que o
homem-que-tinha-a-cabeça-virada-para-trás partiu quatro dentes incisivos. Ur-
rou de dor, cuspiu seus dentes e seu sangue. O outro não viu nada. Nas suas
lunetas receptadoras via o horror desencadeado. O vento arrancava a superfície
do mar e a jogava, toda branca, para o azul do céu. No momento em que ela
voltava a cair, ele crispava suas duas mãos sobre o comando de aceleração A
parte de trás do foguete de aço cuspiu um enorme chafariz de fogo e
mergulhou nas ondas propulsado velozmente com sua própria energia.
Porém o jato não estava mais direito. O choque contra as rochas havia
torcido o motor de arranque. O jato desviava para a esquerda e rugia torcido
como um saca-rolhas. O submarino pôs-se a rodar sobre si mesmo,
desgovernado, colando os dois homens contra suas paredes, virou a cem graus
e atirou-se contra uma muralha de gelo. Nela penetrou um metro. A barreira
caiu sobre ele e esmigalhou-o. O vento e o mar levaram numa espuma
vermelha os restos de carne e de metal.
As câmaras dos dois aviões-foguetes registraram e expediram a imagem
de toda a cena.
A base formigava. Os sábios, os técnicos, os cozinheiros, os varredores, as
enfermeiras, as empregadas haviam arrumado rapidamente seus bens mais
preciosos em valises e fugiam de EPI-2 e 3. Os snodogs os recolhiam nas saídas
dos prédios e os transportavam até a entrada de EPI-1. No coração da

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montanha de gelo eles retomavam fôlego, seu coração se acalmava, sentiam-se


abrigados. Acreditavam-se...
Maxwell sabia bem que não era verdade. Mesmo se a pilha não explodisse,
se ficasse somente fissurada e começasse a cuspir seus líquidos e seus gases
mortais, o vento ia trazê-los e espalhá-los na paisagem até a montanha de gelo
que os pararia no seu curso horizontal e ficaria bloqueado. O vento, aqui,
soprava mais ou menos forte. Mas soprava somente na mesma direção, do
centro do continente para o mar. De EPI-2 para EPI-1, inexoravelmente.
Ninguém podia mais sair das galerias da montanha. E, rapidamente, as
radiações aí entrariam, pelo sistema de ventilação que colhia o ar por meio de
23 chaminés. Seria um prazer colher ao mesmo tempo todas as sujeiras
corrosivas cuspidas pela pilha destroçada.
Maxwell repetiu calmamente:
— É muito simples! É preciso fazer uma retirada...
— Como? Nenhum helicóptero podia levantar vôo. Os caminhões, a rigor,
podiam se enfiar na tempestade. Mas havia 17 e era preciso guardar três para
Coban, Eléa e as equipes de reanimadores.
— É melhor quatro. E ficarão lotados.
— Melhor ainda, assim ficam quentes.
— Restam 13.
— Mau número.
— Não sejamos burros...
— Treze, ou então quatorze, com dez pessoas por veículo.
— Colocaremos vinte!
— Bem, vinte.
— Vinte vezes quatorze, isto dá: dá quanto?
— Duzentos e oitenta...
— O efetivo da base, depois do fim dos maiores trabalhos, foi reduzido a
1.749 pessoas. Isto dá quantas viagens? 1.749 dividido por 280...
— Sete ou oito viagens, digamos dez.
— Bom, é exeqüível. Organizaremos um comboio, os snodogs vão deixar
seus passageiros e voltam para buscar os outros...
— Vão deixá-los onde?

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— Como, onde?
— O abrigo mais próximo é a Base Scott. A seiscentos quilômetros. Se não
tiverem problemas, levarão duas semanas para chegar lá. E se os deixam fora
de um abrigo, gelarão em três minutos. A não ser que o vento se acalme...
— Então?
— Então... wait and see...
— Esperar! esperar! Quando isto pode saltar...
— O que é que nós sabemos?
— Como, o que é que nós sabemos?...
— Quem disse que essas minas iam explodir, mesmo se não tocássemos
nelas? Foi Lukos. Quem nos prova que ele disse a verdade? Que elas não
explodem a não ser que sejam tocadas? Nós não a tocaremos! E mesmo que
elas explodam, quem nos prova que a pilha sofrerá seus efeitos? Maxwell, você
pode afirmar?
— Claro que não. Afirmo somente que receio. E penso que é preciso fazer a
retirada.
— Mas ela talvez nem se mexa! Você não pode fazer alguma coisa?
Protegê-la melhor? Tirar o urânio? Esvaziar o circuito? Fazer alguma coisa, seja
o que for?
Maxwell olhou Rochefoux, que lhe fazia esta pergunta, como se
perguntasse se ele podia, levantando o nariz, sem sair de sua cadeira, cuspir na
Lua.
— Bom... você não pode, já imaginava isto. Uma pilha é uma pilha... Pois
bem, esperaremos... A calmaria... os desarmadores de minas... eles certamente
vão chegar. Mas a calmaria...
— Onde estão eles, esses diabos de especialistas em minas?
— O mais próximo está a três horas. Mas pousará como?
— Que diz a meteorologia?
— A meteorologia somos nós que fornecemos os detalhes para as suas
previsões. Se nós lhe anunciamos que o vento enfraquece, ela nos dirá que há
uma melhora...

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Deitada paralela ao longo do corpo do homem embrulhado, Eléa esperava,


calma, os olhos fechados. Seu braço esquerdo estava nu e o braço do homem
tinha sido descoberto alguns centímetros para o lugar da transfusão. Esses
poucos centímetros de pele estavam cheios de placas vermelhas das
queimaduras em vias de cicatrizarão. Estavam todos lá, os seis reanimadores,
seus assistentes, enfermeiras, técnicos, e Simon. Ninguém tinha tido durante
um instante a idéia de ir se abrigar na montanha de gelo. Se as minas e a pilha
explodissem o que aconteceria na entrada do poço? Haveria chance de sair?
Nem pensavam nisso. Tinham vindo de todos os horizontes da Terra para dar
vida a este homem e a esta mulher, tinham conseguido com a mulher,
tentavam com o homem a operação da última chance dentro dos limites de um
tempo desconhecido. Dispunham talvez de algumas horas, talvez de alguns
minutos, não sabiam, era preciso não perder nem um segundo, era preciso não
comprometer nada se apressando. Estavam todos ligados a Coban pelas cordas
do tempo, para o sucesso ou para o fracasso, ou talvez para a morte.
— Atenção, Eléa — disse Forster -, relaxe-se. Vou espetar seu braço, mas
não doerá.
Passou sobre o lugar do braço um algodão embebido em éter e enfiou a
agulha pontuda na veia inchada pela borracha que a manietava. Eléa não tinha
estremecido. Forster tirou a borracha. Moissov começou a transfusão. O sangue
de Eléa, vermelho, quase dourado, apareceu no tubo de plástico. Simon teve
um arrepio e sentiu sua pele se eriçar. Suas pernas ficaram fracas, seus ouvidos
latejaram, e tudo o que ele via tornou-se branco. Fez um esforço enorme para
ficar de pé, para não desmaiar. As cores voltaram ao fundo dos seus olhos, seu
coração falhou e voltou a encontrar seu ritmo.
O emissor estalou e anunciou em francês:
— Aqui Rochefoux. Uma boa notícia. O vento diminuiu. Velocidade da
ultima rajada: 208 km a hora. Onde estão vocês?
— Estamos começando — disse Lebeau. — Coban vai receber as primeiras
gotas de sangue dentro de alguns segundos.
Enquanto respondia, libertava as têmporas do homem-múmia, limpava
comdelicadeza a pele queimada e colocava-lhe na cabeça o círculo de ouro e
estendia o outro a Simon. As queimaduras profundas do couro cabeludo e da

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nuca tornavam difícil a aplicação dos eletrodos do encefalograma. Os círculos


de ouro, com um médico na recepção, podiam substituí-los com vantagem.
— No momento em que o cérebro recomece a funcionar, você o saberá —
disse Lebeau. — O subconsciente acordará antes do consciente, sobre sua
forma mais elementar, mais imóvel, que é a memória. O sonho do pré-despertar
virá depois. Logo que você tiver uma imagem, avise.
Simon sentou-se na cadeira de ferro. Antes de baixar a placa frontal diante
de suas pálpebras, olhou Eléa.
Ela havia aberto os olhos e o olhava e havia no seu olhar como uma
mensagem, um calor, uma comunicação que ele jamais tinha visto. Com... não
era piedade, mas compaixão. Sim, era isto. A piedade pode ser indiferente ou
mesmo acompanhar a raiva. A compaixão reclama uma espécie de amor. Ela
parecia querer reconfortá-lo. Dizer-lhe que não era grave e que ele se curaria
Por que um tal olhar num tal momento?
— Então? — perguntou Lebeau, aborrecido.
A última imagem que ele recebeu foi a da mão de Eléa, bela como uma
flor, aberta como um pássaro, que se abria e pousava sobre a máquina-de-
comer colocada ao seu alcance a fim de que pudesse usá-la para o sustento
para suas forças.
E depois não houve nada mais do que aquele negro interior da visão
fechada, que não é a escuridão, mas uma claridade adormecida.
— Então? — repetiu Lebeau.
— Nada — respondeu Simon.
— O vento está a 190 — disse o difusor. — Se ele amainar um pouco mais,
vamos começar a retirada. Onde estão vocês?
— Ficaríamos muito gratos se não fôssemos mais interrompidos — disse
Moissov.
— Nada — disse Simon.
— Coração?
— Trinta e um.
— Temperatura?
— Trinta e quatro e sete.
— Nada — repetiu Simon.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Um primeiro helicóptero partiu, carregado de mulheres. O vento não


ultrapassava mais de 150 km a hora e às vezes caía para 120. Ao mesmo tempo
um helicóptero partiu da Base Scott para vir buscar os passageiros na metade
do caminho. Os dois aparelhos tinham encontro marcado sobre uma geleira que
corria num vale bastante abrigado, perpendicular ao vento. Porém a Base Scott
só podia servir de local de espera. Não tinha sido feita para abrigar uma
multidão. Todas as unidades da Força Internacional capazes de se aproximar
das costas sem muito perigo dirigiam-se para o continente. Os porta-aviões
americanos e o Netuno lançaram seus aviões verticais que foram direto para
EPI. Três submarinos cargueiros porta-helicópteros, russos, subiram à superfície
ao largo da Base Scott. Um quarto, quando subia, foi cortado em dois pela proa
submersa de um iceberg. Seu motor atômico envolto em cimento desceu
lentamente para o fundo tranqüilo das grandes profundidades. Alguns afogados
subiram entre os poucos destroços, foram envolvidos pelas ondas e voltaram a
descer.
— Coração, 41.
— Temperatura, 35.
— Nada — disse Simon.
A primeira equipe de desarmadores de minas tinha descido em Sidney e
havia continuado a viagem. Eram os melhores, os ingleses.
— Agora — gritou Simon. — Imagens!
Ouviu a voz furiosa de Moissov e no outro ouvido a tradutora que lhe
traduzia para não gritar. Ouvia ao mesmo tempo no interior da sua cabeça,
nascido diretamente no seu cérebro, sem a intervenção dos nervos acústicos,
um ronco surdo, tiros, explosões e vozes apagadas, como envolvidas de
brumas, algodoadas.
As imagens que via estavam embaçadas, desmanchavam-se, deformavam-
se constantemente, pareciam vistas através de um veio de água tinto de leite.
Mas como ele já havia visto os lugares que elas representavam, ele as
reconheceu. Era o abrigo, o coração do abrigo, o ovo.
Tentou dizer o que via em voz alta, porém moderada.

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— Que se dane tudo o que você vê! — disse Moissov. — Diga-me


simplesmente: "não nítido", "não nítido", depois "nítido", quando estiver
"nítido". E depois fique calado enquanto sonha. Quando este tiver se tornado
delirante, alucinante, não será mais a memória passiva, será a memória
loucura: o sonho. E será o momento antes do acordar. Faça sinal.
Compreendeu?
— Sim.
— Você diz "não nítido" depois "nítido" e depois "sonho". Isto é o bastante.
Compreendeu?
— Compreendi — disse Simon.
E alguns segundos mais tarde, disse:
— Nítido...
Ele via, e ouvia nitidamente. Não compreendia pois não havia circuito para
a tradutora intercalado entre os dois círculos de ouro, e os dois homens que ele
via falavam em gonda. Mas não tinha necessidade de compreender. Estava
claro. Havia no primeiro plano Eléa nua deitada no caixão, a máscara de ouro
cobrindo seu rosto, e Paikan que se inclinava para ela, e Coban que batia no
ombro de Paikan e lhe dizia que era hora de partir. E Paikan virava-se para
Coban e o empurrava, jogava-o longe. E inclinava-se novamente para Eléa,
pousava docemente seus lábios sobre suas mãos, sobre seus dedos, pétalas
alongadas, repousadas, douradas, pálidas, flores-de-lis e de rosa-castanha e
sobre a ponta dos seios descansados, apaziguados, doces sob seus lábios
como... nenhuma maravilha no mundo das maravilhas não é assim tão doce e
macia e morna sob os lábios... depois colocava sua face no ventre de seda,
acima da relva de ouro discreta, tão proporcional, tão perfeita... no mundo das
maravilhas nenhuma maravilha era tão discreta e justa, de medida e de cor, no
seu lugar e de doçura, na medida da sua mão que ele aí pousou, e sua mão o
cobriu e ele se encaixou na sua palma com a candura de um carneiro, de uma
criança. Então Paikan começou a chorar e suas lágrimas corriam sobre o ventre
de ouro e de seda, e o troar surdo da guerra que esmigalhava a terra ao redor
do abrigo entrava pela porta aberta, chegava até ele, pousava em cima dele, e
ele não o ouvia.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Coban voltou na sua direção, falou-lhe e mostrou-lhe a escada e a porta, e


Paikan não compreendia. Coban pegou-o pelo braço e ergueu-o, mostrou-lhe
acima do ovo a imagem monstruosa da Arma, que enchia o negro do espaço e
abria novas camadas de pétalas que cobria as constelações. O barulho da
guerra enchia o ovo como o ronco de um ciclone. Era um barulho que não
parava, um barulho de furor contínuo que encerrava o ovo e a esfera e que fazia
um caminho em direção a eles através da terra reduzida a poeira de fogo.
Estava na hora, estava na hora, na hora, na hora de fechar o abrigo. Coban
empurrou Paikan para a escadaria de ouro. Paikan sacudiu seu braço e se
libertou. Ergueu sua mão direita à altura do peito, e com o polegar, fez inclinar a
pirâmide do seu anel. A chave. A chave podia se abrir. A pirâmide girava em
volta de um de seus lábios. Na cabeça de Simon ele viu em primeiro plano, uma
imensa figura do anel aberto. E na base libertada, num pequeno receptáculo
retangular, viu o pequeno Grão Negro. Uma pílula. Negra. O Grão Negro. O grão
da morte. O primeiro plano foi varrido pelo gesto de Coban. Coban empurrava
Paikan para a escada. Sua mão segurou o cotovelo de Paikan, a pílula saltou
para fora do seu lugar, tornou-se enorme na cabeça de Simon, encheu todo o
campo de sua visão interna, voltou a cair minúscula, imperceptível, perdida,
desaparecida.
Paikan roubado de Eléa, roubado de sua morte, Paikan no auge do
desespero, explodiu num furor incontrolável, cortou o ar com sua mão em feitio
de machado e bateu, depois bateu com a outra mão, depois com as duas mãos,
depois a cabeça de Coban caiu.
Um ronco furioso de guerra tornou-se um urro. Paikan ergueu a cabeça. A
porta do ovo estava aberta e, lá em cima da escadaria, a da esfera também
estava aberta. Do outro lado do buraco de ouro, chamas ardiam. Lutava-se no
laboratório. Era preciso fechar o abrigo, salvar Eléa. Coban havia explicado a
Eléa todo o funcionamento do abrigo, e toda a memória de Eléa tinha passado
para a de Paikan. Ele sabia como fechar a porta de ouro.
Voou pela escadaria, rápido, furioso, rosnando como um tigre. Quando
chegou sobre os últimos degraus, viu um guerreiro enisor se meter pela entrada
da porta. Atirou. O guerreiro vermelho o viu e atirou quase ao mesmo tempo,
atrasado de uma fração de tempo infinitesimal. Acrescentada a cada dia

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

durante os milhares de séculos, ela não teria dado para acrescentar um


segundo a mais ao fim de um ano. Mas foi o bastante para salvar Paikan. A
arma do homem vermelho soltava uma energia térmica pura. De calor total.
Mas quando ele apoiou sobre o comando, seu dedo não era mais que uma gaze
mole que voava para trás com seu corpo estraçalhado. O ar ao redor de Paikan
tornou-se incandescente e apagou-se ao mesmo tempo. Os cílios, as
sobrancelhas, os cabelos, as roupas de Paikan tinham desaparecido. Um
milésimo de segundo a mais e nada teria sobrado dele, nem mesmo um traço
de suas cinzas. A dor da sua pele ainda não tinha atingido seu cérebro e ele já
batia com o punho no comando da porta.
Depois caiu sobre os degraus. O corredor de três metros de ouro fechou-se
como um olho de galinha com mil pálpebras simultâneas.
Simon via e ouvia. Ouviu a imensa explosão provocada pelo fechamento da
porta, que fazia explodir o laboratório e todos os acessos ao abrigo sobre
quilômetros, pulverizando os agressores e defensores e os enterrando na
torrente das rochas vitrificadas.
Ouviu as vozes dos técnicos e reanimadores que, de repente, tinham se
tornado inquietos:
— Coração, 40...
— Temperatura 34,8.
— Pressão arterial?
— Oito-tres-oito-dois-sete-dois-seis-um...
— Meu Deus! O que é que está acontecendo? Ele está decaindo! Está se
acabando!
Era a voz de Lebeau.
— Simon, continuam as imagens?
— Sim.
— Nítidas?
— Sim...
Ele via nitidamente Paikan descer outra vez dentro do ovo, inclinar-se
sobre Coban, sacudi-lo em vão, escutar seu coração, compreender que o
coração havia parado e Coban estava morto.

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Via Paikan olhar o corpo inerte, olhar Eléa, erguer Coban, carregá-lo, jogá-
lo fora do ovo... Via e compreendia e sentia na sua cabeça o horrível sofrimento
enviado pela pele queimada de Paikan. Via Paikan descer os degraus, titubear
até o túmulo vazio e nele se estender. Viu a luz verde iluminar o ovo, e a porta
começar lentamente a se abaixar enquanto que o anel suspenso aparecia sobre
o solo transparente. Viu Paikan, num último esforço, puxar sobre o seu rosto a
máscara de metal.
Simon arrancou o círculo de ouro e gritou:
— Eléa!
Moissov insultou-o em russo. Lebeau, inquieto, furioso, perguntou:
— O que que lhe deu?
Ele não respondeu. Ele via...
Ele via a mão de Eléa, bela como uma flor, aberta como uma pássaro,
pousar sobre a máquina-de-comer...
Com o engaste de seu anel inclinado, a pirâmide de ouro deitada de lado, e
a pequena cavidade retangular vazia. Lá, dentro daquele esconderijo, deveria
se encontrar o Grão Negro, o grão da morte. Não estava mais lá, Eléa o havia
engolido, levando à sua boca as esférulas de alimento tiradas da máquina.
Ela havia engolido o Grão Negro para envenenar Coban, dando-lhe seu
sangue envenenado.
Mas era Paikan que ela estava prestes a matar.

Tu ainda podias ouvir. Podias saber. Não tinhas mais forças para manter
tuas pálpebras abertas, tuas têmporas se afundavam, teus dedos se tornavam
brancos, tua mão escorregava e caia da máquina-de-comer, mas ainda estavas
presente e compreendias.
Eu teria podido gritar a verdade, gritar o nome de Paikan, terias sabido
antes de morrer que ele estava perto de ti, que vocês morreriam juntos como
sempre haviam desejado. Mas que arrependimentos cruéis, quando vocês
poderiam ter vivido! Que horror de saber que no momento de acordar de um tal
sonho, ele morria com o teu sangue que o poderia salvar...

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Gritei teu nome e ia gritar: "É Paikan!", mas vi tua chave aberta, o suor das
tuas têmporas, a morte já pousada sobre ti, pousada sobre ele. A mão
abominável da infelicidade fechou-me a boca...
Se eu tivesse falado...
Se tivesse sabido que o homem perto de ti era Paikan, terias morrido num
sobressalto de desespero? Ou poderias ainda se salvar e a ele contigo? Não
conhecias um remédio, não poderias fabricar com teus toques milagrosos da
máquina-de-comer um antídoto que teria rechaçado a morte para fora de vosso
sangue comum, de vossas veias ligadas? Mas te restavam ainda bastantes
forças? Podias tu somente olhá-la?
Tudo isto, eu me perguntei em alguns instantes, num segundo tão breve e
tão longo quanto o longo sono do qual nós te tiramos. E depois enfim, gritei
novamente. Mas não disse o nome de Paikan. Gritei para esses homens que
viam vocês dois morrer e que não sabiam por que e se afobavam. Gritei-lhes:
"Vocês não vêem que ela se envenenou!" E insultei-os, peguei o mais próximo,
já nem sei mais quem era, sacudi-o, bati-lhe, eles não haviam visto nada,
tinham te deixado fazer aquilo, eram imbecis, uns asnos pretensiosos, mas
cretinos cegos...
E eles não me compreendiam. Respondiam-me cada um na sua língua, e
eu não os compreendia. Só Lebeau me havia compreendido e arrancava a
agulha do braço de Coban. E ele também gritava, mostrava com o dedo, dava
ordens e os outros não compreendiam.
Ao redor de ti e Paikan, imóveis e em paz, era a loucura das vozes e dos
gestos, e o balé das blusas verdes, amarelas, azuis.
Cada um se dirigia a todos, gritava, mostrava, falava e não compreendia.
Aquela que compreendia tudo e que todos compreendiam não falava mais nos
ouvidos. Babel tinha caído novamente sobre nós. A tradutora acabara de
explodir.

Moissov, vendo Lebeau arrancar a agulha do braço do homem, pensou que


ele havia enlouquecido ou que queria matá-lo. Segurou-lhe o pulso e bateu-lhe.
Lebeau defendeu-se gritando: "Veneno, veneno!"

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Simon, mostrando a chave aberta, a boca de Eléa, dizia: "Veneno!


Veneno!"
Forster compreendeu, gritou em inglês para Moissov, arrancando-lhe das
mãos o maltratado Lebeau. Zabrec cessou a transfusão. O sangue de Eléa parou
de correr sob os curativos de Paikan. Depois de alguns minutos de confusão
total, a verdade atravessou a barreira das línguas e de novo todas as atenções
convergiram para o mesmo fim: salvar Eléa, salvar aquele que todos, com
exceção de Simon, ainda acreditavam ser Coban.
Mas eles já estavam muito longe na sua viagem, já quase no horizonte.
Simon pegou a mão nua de Eléa e colocou-a na mão do homem enfaixado.
Os outros olhavam com espanto, porém ninguém dizia mais nada. A química
analisava o sangue envenenado.
De mãos dadas, Eléa e Paikan deram seus últimos passos. Os dois corações
pararam ao mesmo tempo.
Quando teve certeza de que Eléa não podia mais ouvi-lo, Simon mostrou
com o dedo o homem deitado e disse:
— Paikan.
Foi nesse momento que as luzes se apagaram. O difusor tinha começado a
falar em francês. Ele havia dito: "A tra..." Calou-se. A tela de tevê que
continuava a vigiar o ovo fechou seu olho cinzento e todos os aparelhos que
ronronavam, estalavam, estremeciam, crepitavam, se calaram. A mil metros
sob o gelo, a escuridão total e o silêncio invadiram a sala. Os vivos, de pé,
ficaram pregados nos lugares. Para os dois seres deitados no meio deles, o
silêncio e a escuridão não existiam mais. Mas para os vivos, as trevas que os
envolviam de repente na tumba profunda eram a espessura compreensível da
morte. Cada um ouvia o barulho de seu próprio coração e da respiração dos
outros, exclamações contidas, palavras cochichadas, e acima de tudo a voz de
Simon, que tinha se calado, mas que todos continuavam a ouvir:
— Paikan... Eléa e Paikan...
Sua história trágica tinha se prolongado até esse minuto, onde a fatalidade
furiosa os havia atingido pela segunda vez. A noite os havia reunido no fundo do
túmulo de gelo e envolvia os vivos e os mortos, ligava-os num bloco de

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infelicidade inevitável cujo peso ia afundá-los juntos até o fundo dos séculos e
da terra.
A luz voltou, pálida, amarela palpitante, apagou-se de novo e reacendeu
um pouco mais viva. Eles se olharam, se reconheceram, respiraram, mas
sabiam que não eram mais os mesmos. Voltavam de uma viagem que quase
não havia durado, mas todos, agora, eram irmãos de Orfeu.
— A tradutora explodiu! Toda EPI-2 está nos ares, o muro do hangar está
aberto como uma avenida!
Era a voz de Brivaux que estava de guarda no alto do elevador.
— A eletricidade pifou, a pilha deve ter sofrido um golpe. Eu os liguei no
circuito do poço. Vocês fariam bem de subir o mais depressa possível! Mas não
contem com o elevador, não tem bastante força, é preciso gastar os sapatos na
escada. Onde é que vocês estão com os dois espécimes? Já podem ser
transportados?
— Os dois espécimes morreram — respondeu Lebeau com a calma de um
homem que acaba de perder numa catástrofe sua mulher, seus filhos, sua
fortuna e sua fé.
— Merda! Depois de tanto trabalho! Bem, agora pensem em vocês! E se
apressem antes que a pilha comece a dançar a bourree*
Forster traduzia em inglês para aqueles que não tinham compreendido em
francês. Os que não compreenderam nem uma nem outra, compreenderam os
gestos. E aqueles que não compreenderam nada já tinham compreendido que
precisavam sair do buraco. Forster desligou definitivamente as minas de
entrada. Já alguns técnicos subiam em direção à abertura da esfera. Havia três
enfermeiras, entre elas a assistente de Lebeau que tinha cinquenta e três anos.
As outras duas, mais jovens, chegariam sem dúvida lá em cima.
Os médicos não se conformavam com a idéia de deixar Eléa e Paikan.
Moissov fez sinal dando a entender que poderiam amarrá-los nas costas,
acrescentou algumas palavras num inglês horrível que Forster interpretou como
querendo dizer: "Cada um por sua vez."
Mil metros de escada. Dois mortos.
— A pilha está fissurada! — gritou o emissor. — Está rachada, cospe e fuma
por todo canto! Nos retiramos numa confusão total! Apressem-se!

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Desta vez, era a voz de Rochefoux.


— Saindo do poço, dirijam-se para o sul, virem as costas ao lugar de EPI-2.
O vento leva as radiações na outra direção. Helicópteros vão recolhê-los. Deixo
uma equipe aqui para esperá-los, mas se isso explodir antes e vocês saírem não
se esqueçam: diretamente para o sul! Vou tratar dos outros. Andem depressa...
Van Houcke falou em holandês e ninguém o compreendeu. Então, repetiu
em francês que na sua opinião deveriam deixá-los lá. Estavam mortos, não se
podia fazer mais nada por eles, nem deles. E encaminhou-se para a porta.
— O mínimo que podemos fazer — disse Simon — é recolocá-los onde os
encontramos...
— Também acho — disse Lebeau.
Explicou-se em inglês com Forster e Moissov, que concordaram.
Pegaram primeiro Paikan sobre seus ombros, e fizeram-no descer
novamente o caminho por onde o haviam içado para as suas esperanças, e o
colocaram no seu caixão.
Depois foi a vez de Eléa. Os quatro a carregaram, Lebeau, Forster, Moissov
e Simon. Colocaram-na no outro caixão, perto do homem com o qual ela havia
dormido durante novecentos mil anos sem o saber, e com quem ela havia, sem
o saber, mergulhado num novo sono que não teria fim.
No momento em que todo o seu peso descansou no caixão, um brilhante
raio azul brotou do solo transparente, invadiu o ovo e a esfera e atingiu os
homens e as mulheres agarrados às escadas. O anel suspenso recomeçou seu
curso imóvel, o motor recomeçou sua tarefa um instante interrompida: envolver
com um frio mortal o fardo que lhe haviam confiado, e guardá-lo através do
tempo interminável.
Rapidamente, pois o frio já os oprimia, Simon desamarrou em parte a
cabeça de Paikan, cortou e tirou as ataduras a fim de que seu rosto ficasse nu
ao lado do rosto nu de Eléa.

* Dança rústica francesa. (N. do T.)

O rosto livre apareceu, muito belo. Quase não se percebiam mais suas
queimaduras. O soro universal trazido pelo sangue de Eléa tinha curado sua

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carne antes que o veneno lhe tirasse a vida. Eles estavam incrivelmente belos e
em paz. Uma névoa gelada invadia o abrigo. Da sala de reanimação, chegaram
pedaços da voz anasalada do difusor:
— Alô!... Alô!... ainda alguém?... Apressem-se!...
Eles não podiam demorar mais. Simon saiu por último, subiu os degraus de
costas, apagou o projetor. Teve primeiro a impressão de uma escuridão
profunda, depois seus olhos se acostumaram à luz azul que banhava
novamente o interior do ovo com sua claridade noturna. Uma estreita faixa
transparente começava a envolver os dois rostos nus, que brilhavam como duas
estrelas. Simon saiu e fechou a porta.

Um verdadeiro carrossel tinha se estabelecido entre os porta-aviões, os


submarinos, as bases mais próximas e as costas de EPI. Sem cessar, os
helicópteros pousavam, se enchiam e partiam outra vez. Um funil retalhado,
sujo de todas espécies de restos, brilhando de reflexos de gelo, marcava o lugar
do EPI-2. Rolos de fumaça subiam no vento enraivecido que os colhia no nível
do chão e levava para o norte.
Pouco a pouco, todo o pessoal foi evacuado, e a equipe do poço saiu por
sua vez e foi toda recolhida. A enfermeira qüinquagenária foi das primeiras a
chegar lá em cima. Ela era magra e escalava os degraus como uma cabra.
Hoover e Leonova embarcaram com os reanimadores, no último vôo do
último helicóptero. Hoover, de pé diante de uma escotilha apertava contra ele
Leonova que tremia de desespero. Olhava com horror a base devastada e
resmungava baixinho:
— Que confusão, meu Deus, que confusão!...
Os sete membros da Comissão encarregados de redigir a Declaração do
Homem Universal encontravam-se embarcados sobre sete navios diferentes, e
não tiveram mais ocasião de se encontrar. Não tinha mais ninguém em terra.
No céu aviões prudentes, em vôo muito alto, rodavam ao longe, conservando
EPI-2 dentro do campo de suas câmaras. O vento soprava novamente numa
tempestade furiosa, mais forte a cada segundo. Varria os escombros da base,

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

carregava os pedaços de qualquer coisa, multicores, para os horizontes


brancos, a distâncias desconhecidas.
A pilha explodiu.
As câmaras viram o cogumelo gigantesco carregado pelo vento, torcido,
rasgado, estripado até o vermelho do seu sangue de inferno, carregado aos
pedaços na direção do oceano e das terras longínquas. A Nova Zelândia, a
Austrália, todas as ilhas do Pacífico se encontravam ameaçadas. E em primeiro
lugar os prédios da Força Internacional. Os aviões voltaram para bordo, os
submarinos mergulharam, os navios de superfície deram toda velocidade contra
o vento.
A bordo do Netuno, Simon contou aos sábios e aos jornalistas que aí se
encontravam, o que ele havia visto durante a transfusão, e como Paikan havia
tomado o lugar de Coban.
Todas as mulheres do mundo choraram diante das telas. A família Vignont
comia à sua mesa de meia-lua olhando o cogumelo descabelado em serpentes
como medusas que marcava o fim da generosa aventura. A Sra. Vignont havia
aberto uma grande lata de ravióli com molho de tomate, tinha-a aquecido em
banho-maria e servido dentro da própria lata, porque assim se mantinha mais
quente, dizia ela, mas na realidade era porque assim andava mais depressa e
não sujava prato.
Depois da explosão, apareceu a cabeça de um homem que assumiu um ar
melancólico para pronunciar palavras de condolências, e passou a outras
notícias. Infelizmente, elas não eram boas. No front da Mandchúria esperavam...
Na Malásia, uma nova ofensiva... Em Berlim, a fome devida ao bloqueio... No
Pacífico, as duas frotas... No Kuwait, o incêndio dos poços... No Cabo os
bombardeios da aviação negra... Na América do Sul... no Oriente Médio... Todos
os governos faziam o impossível para evitar o pior. Enviados especiais
cruzavam os mediadores em todas as altitudes, em todas as direções.
Esperava-se, esperava-se muito. A mocidade se agitava um pouco em todos os
lados. Não se sabia o que ela queria. Ela também não, é claro. Os estudantes,
os jovens trabalhadores, os jovens camponeses, e os bandos cada vez mais
numerosos de jovens que não eram nada e não queriam ser nada se reuniam,
se misturavam, invadiam as ruas das capitais, paravam o trânsito, atacavam a

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polícia, gritando: "Não! Não! Não! Não! Em todas as línguas isso se exprime por
uma pequena palavra explosiva, fácil de gritar. Todos eles a gritavam, sabiam
disso, sabiam que não queriam. Não se sabe exatamente quais foram o? que
começaram a gritar o "não!" dos estudantes gondas: "Pao! Pao! Pao! Pao!" mas
em poucas horas toda a mocidade do mundo gritava, diante de todos os
policiais.
— Pao! Pao! Pao! Pao!...
Em Pequim, em Tóquio, em Washington, em Moscou, em Praga, em Roma,
na Argélia, no Cairo:
— Pao! Pao! Pao! Pao!...
— Esses moços, eu, eu os poria todos dando duro... — disse o pai.
— O governo se esforça... — falou o rosto na tela.
O filho se levantou, pegou seu prato e atirou-o na imagem, gritando:
— Velho burro! Vocês são todos uns velhos burros! Vocês os deixaram
morrer com suas burrices!
O molho escorria sobre o vídeo inquebrável. O rosto triste falava por trás
do molho de tomate.
O pai e a mãe, surpresos, olhavam seu filho transfigurado. A filha não
olhava para nada, não ouvia nada, estava toda ao redor do seu ventre que não
parava de se lembrar da noite precedente passada num hotel da Rua Monge.
— com um espanhol magro. Todas essas palavras, essas palavras, será que
adiantam alguma coisa?
Seu irmão gritava:
— Voltaremos lá. Nós os salvaremos! Encontraremos o contraveneno. Eu,
eu sou um idiota, mas há os que saberão! Nós os tiraremos da morte! Não
queremos saber da morte! Não queremos a guerra! Não queremos as burrices
de vocês!
— Pão! Pão! Pão! Pão! — gritava a rua cada vez mais alto.
E os apitos da polícia, os estouros abafados das bombas de gás
lacrimogêneo.
— Eu, eu sou um idiota, mas não sou burro!
— As manifestações... — continuava o rosto na tela.
Jogou em cima dele toda a lata de ravióli e saiu. Bateu a porta, gritando:

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— Pão! Pão!
Ouviram-no na escada, depois ele se confundiu com os outros.
— Como este menino é bobo! — gritou o pai.
—Como é bonito! — disse a mãe.

Rene Barjavel

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Filho de um padeiro, René Barjavel foi o primeiro de sua família a não


exercer uma profissão manual. Nascido em Nyons (Drome), França, em 1911,
quando começou a escrever, com menos de 20 anos, levantava-se às 4 da
manhã para trabalhar em seus textos, antes de ir para o escritório. Fazia então
diálogos para filmes, adaptações e crítica de cinema e teatro.
Casou-se em 1936 e nos três anos que se sucederam chegam os seus dois
filhos e a guerra.
Desmobilizado, em 1942, no ano seguinte lança seu primeiro romance:
Ravage. Depois publica, sempre com sucesso: Tarendol (1949), Journal d'un
homme simple (1950), Jour de feu (1957), Le voyageur imprudent (1958), Le
diable Vemporte (1959), Colombe de la lune (1962) e outros.
Seu último livro, Les chetnins de Kathmandou, foi transformado em filme
por André Cayatte, com diálogos do próprio Barjavel, que é também autor de
um livro de ensaios sobre a Sétima Arte: Cinema total.

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