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UNIVERSIDADE CATÓLICA DE GOIÁS

DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS


CURSO DE DIREITO

A PRIVATIZAÇÃO DO SISTEMA PENITENCIÁRIO


Goiânia
2001

A PRIVATIZAÇÃO DO SISTEMA PENITENCIÁRIO


MARIANNE DOS REIS PEREIRA

A PRIVATIZAÇÃO DO SISTEMA PENITENCIÁRIO

Monografia Jurídica apresentada para


conclusão do Curso de Direito no
Departamento de Ciências Jurídicas da
Universidade Católica de Goiás sob
orientação do Prof. Ernesto Martim S.
Dunck.
Goiânia
2001

Banca Examinadora: Nota para a monografia jurídica:

Professor-orientador:

Professor-membro:
Agradeço a todas as pessoas que contribuíram
para a realização deste trabalho, em especial
aos meus professores Ernesto e Rosângela,
pelo apoio e aos meus pais pelo estímulo
constante no aprimoramento do saber.
“Olhar o mundo através das grades permite
mais que uma simples visão, proporciona,
primeiramente, o contato com um ser reduzido
à sua ínfima condição e, conseqüentemente,
possibilita a constatação da existência do
abismo existente entre a aplicação da lei e a
realidade”.
SUMÁRIO

RESUMO ...................................................................................................ix

INTRODUÇÃO ..............................................................................................1

1. HISTÓRICO ...........................................................................................4
1.1. Cárcere. Síntese Histórica das Punições...........................................4
1.2. Privatização dos Presídios. Surge uma nova idéia ............................8

2. O SISTEMA PRISIONAL NA EUROPA...............................................10

3. A PRIVATIZAÇÃO DO SISTEMA PENITENCIÁRIO BRASILEIRO ..17


3.1. Obstáculos à Proposta de Privatização do sistema Penitenciário .....18
3.1.1. Obstáculos Éticos................................................................18
3.1.2. Obstáculos Jurídicos ...........................................................19
3.1.3. Obstáculos Políticos............................................................20
3.2. Formas de Terceirização da Atividade Penitenciaria ......................20
3.3. A Privatização dos Presídios nos EUA ..........................................23
3.4. A Proposta de Privatização do Sistema Penitenciário no Brasil.......24

4. EXPERIÊNCIAS BRASILEIRAS NO CAMPO DA CHAMADA


TERCEIRIZAÇÃO................................................................................28
CONCLUSÃO..............................................................................................31

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS............................................................36

ANEXOS......................................................................................................38
RESUMO

A crise que afeta o sistema penitenciário nacional nos últimos


tempos, requer urgentemente o estudo e adoção de novas alternativas
para a pena de prisão, e nos casos em que a segregação do indivíduo
se mostre necessária, a prisão tem de estar preparada para a tarefa de
reabilitação para, ao final, devolver à sociedade pessoas preparadas
para a convivência harmônica com os demais cidadãos.
A idéia de privatização dos presídios é nova tanto no Brasil como no
mundo. Entretanto, diversos países já adotam tal modelo, o qual vêm
dando mostras incomparáveis de sucesso.
À primeira vista, o termo privatização dos presídios pode dar a idéia
de transferência do poder estatal para a iniciativa privada, que
visando o lucro, utilizaria a mão-de-obra dos encarcerados. Mas é
possível a transferência da administração das prisões, sem que isto
implique na retirada da função jurisdicional do Estado, a qual é
indelegável. A iniciativa privada se encarregaria apenas dos aspectos
de hotelaria (alimentação, vestuário, limpeza etc.). O trabalho do
detento seria utilizado mediante uma justa remuneração, que se
destinaria para a reparação do dano por ele causado ou para a vítima.
Assim, o modelo penitenciário tradicional, onde impera de maneira
gritante o ócio, já deu mostras de insucesso, restando doravante a
busca de novas alternativas, que efetivem uma punição construtiva,
buscando de fato a recuperação do indivíduo para a sociedade. Tais
alternativas, podem ser buscadas, tendo como base a análise dos
estabelecimentos penitenciários privatizados de alguns países da
Europa, que demonstram ainda existir solução para este grave
problema que é a administração do sistema penitenciário brasileiro.
INTRODUÇÃO

Face à crise generalizada que assola o


sistema penitenciário brasileiro, urge fazer
uma abordagem comparativa de alguns
modelos penitenciários existentes em alguns
países, para desta maneira tentarmos apontar
possíveis soluções para esse grave problema
que tem afetado diversos setores da
sociedade.

A atual situação penitenciária é crítica e calamitosa, sua realidade está a


dispensar considerações, posto que se trata de fato público e notório. São
exemplos dessa trágica realidade: superlotação dos presídios, falta de
reeducação do detento, falta de profissionalização do preso, falta de assistência
ao egresso, falta de funcionários especializados, corrupção carcerária, falta de
separação dos reeducandos por grau de periculosidade, falta de recursos nos
presídios, reincidência, falta de melhor remuneração para os funcionários, e
principalmente, falta de presídios.
As péssimas condições de encarceramento
que caracterizam a quase totalidade dos
estabelecimentos penitenciários brasileiros
têm despertado a atenção da sociedade como
um todo. Ela passou a exigir providências
urgentes das autoridades face à crescente
onda de rebeliões ocorridas nos últimos anos.
A falta de espaço e as condições insalubres
dos presídios se tornaram uma rotina na vida
dos presidiários, pois a maioria dos
estabelecimentos são imundos e fétidos,
infestados de insetos e ratos, imperando de
maneira gritante a ociosidade entre os
detentos.

As prisões, atualmente, não recuperam. Sua situação é tão degradante


que são rotuladas com expressões como: sucursais do inferno, universidades do
crime e depósitos de seres humanos.

O encarceramento puro e simples não apresenta condições para a


harmônica integração social do condenado, como preconizado na lei de
execução penal (Lei n° 7.210, de 11.07.1984).

Punir, encarcerar e vigiar não bastam, é necessário que se conceda à


pessoa de quem o Estado retirou o direito à liberdade o acesso a meios e formas
de sobrevivência que lhe proporcionem as condições de que precisa para
reabilitar-se moral e socialmente.

Diante deste estado de coisas, a violência se torna freqüente tanto entre


detentos como entre agentes penitenciários. Entre detentos, com graus e
requintes unusuais. Espancamentos, violência sexual e esfaqueamentos são
práticas recorrentes. No entanto a manifestação mais grotesca da violência é o
assassinato como forma de protesto contra as condições de encarceramento.

É precisamente num contexto de explosão da população penitenciária, de


escalada dos gastos, da degradação das condições de alojamento, que a
sociedade, ao mesmo tempo em que exige penas mais duras para os violadores
da lei penal, recusa-se a autorizar os recursos necessários à construção de novos
estabelecimentos. Dentro dessa triste realidade, o fenômeno privatização do
sistema carcerário tem sido proposto e apresentado como uma das prováveis
soluções da crise do sistema penitenciário.

A inércia estatal à solução dos graves


problemas que afetam o complexo carcerário
brasileiro, compactua com a idéia de
privatização, posto que trata-se, na verdade,
de uma forma de gestão mista, envolvendo a
administração pública e a administração
privada.
1. HISTÓRICO

1.1. Cárcere. Síntese Histórica das Punições

O sistema penal, a partir do século XII, até o


ano de 1854, era baseado no princípio de que
o crime é absolutamente contrário aos
interesses da comunidade, preceito claro e
normal em qualquer nação politicamente
organizada. No entanto, à época, vigia uma
espécie de barbárie humana, um tipo de
incivilização, já que a morte era a penalidade
imposta para muitas das ofensas aos
costumes, sendo aplicadas várias formas de
selvageria precedentemente às execuções
públicas dos criminosos, porque o preso não
podia ser condenado sem antes confessar o
crime.
Naquela época, eram freqüentes as penalidades envolvendo mutilações,
seja pelo corte de uma orelha ou amputação de uma das mãos. Os corpos
ficavam pendurados em locais a significar um aviso à população para não agir
inadequadamente. A menor transgressão, uma blasfêmia ou perjúrio já era
motivo para o corte da língua ou mesmo sua perfuração. As pessoas condenadas
eram queimadas ou enterradas vivas, enforcadas, decapitadas, afogadas e seus
corpos colocados em óleo fervente ou dissolvidos em soda.

O cárcere, para castigar os homens, é uma invenção do direito canônico.


A prisão, dizia, faz expiar o réu de seu crime. Pelo sofrimento e na solidão, a
alma do homem se depura e purga do pecado. Assim, mais que uma instituição
jurídica, a prisão tinha um conceito religioso. O homem, a sós, com a
repercussão de seu crime, limpa sua consciência mediante o exercício
sistemático do sentimento do remorso. O réu, a sós com sua culpa, é obrigado a
meditar sobre ela, durante a maior parte da jornada e estará retificando seus
sentimentos e edificando para si um novo conceito de moralidade.

A palavra cárcere nos leva a evocar fortalezas do século XV, quando


eram famosas as prisões de Toscana. Lá se aprendia cerâmica, trabalhos com
madeira, peças de couro e teciam-se notáveis obras de flanela, lã e seda, com
matéria prima importada da África e dos países Orientais, como a China e Índia.
Isto, sem dúvida, vem significar, que naquela remota época o sistema penal já
executava a educação dos presidiários através de uma ocupação útil. Manter o
preso em atividade constante, como meio de esperança futura somente poderia
ser o intuito das velhas casas de prisão.
Cronologicamente e independente das prisões canônicas, as primeiras
experiências penitenciárias tiveram lugar na Europa. A partir do século XVI
começaram a estabelecer-se casas de força, nas quais eram internados e sujeitos
a regime obrigatório de trabalho, os delinqüentes, os mendigos, os vagabundos,
as prostitutas e os jovens entregues a uma vida desonesta ou dissoluta.

Nos séculos XVII e XVIII, organizaram-se por várias partes da Europa


estabelecimentos de detenção para condenados, com distintos nomes e sem que
a sua criação obedecesse a qualquer sistema penitenciário. Nestes
estabelecimentos se prescindia de toda norma higiênica, pedagógica ou moral.
Os detidos eram amontoados numa promiscuidade intolerável, submetidos a
duros regimes, a penas disciplinares corporais e obrigados a trabalhos penosos e
cruéis.

Até o século XVIII, o aprisionamento era pouco usado enquanto prática


para punir os criminosos. A partir da Revolução Francesa, os castigos e os
suplícios utilizados com certo sucesso na sociedade daquela época , são
substituídos, pouco a pouco, por castigos privados, através do aparelho prisional.

Neste contexto histórico, surgiram uma série de castigos novos no


sistema penal da Europa, no qual já se previa penas mais humanas. Embora a
pena de morte não tivesse sido descartada, nas execuções já não se empregava a
brutalidade ou eliminação dos corpos. Uma das inovações consistia na pena de
prisão que a Corte poderia impor, ficando limitada a 20 anos. Tal restrição
visava coibir uma atitude arbitrária de parte do judiciário, ao mesmo tempo em
que se tentava a promoção de reformas (ressocialização) do criminoso.
Nas palavras de Ary Saruby e Afonso Celso F. Rezende, 1em meados do
século XIX, o encarceramento já era parte essencial do sistema, o qual abrigava
o princípio de que presos deveriam ser empregados com produtividade para os
gastos e seus custos eliminados ao mínimo possível@.

Destacando as prisões dentro do marco dessa nova sociedade, podemos


dizer que as técnicas de disciplina e vigilância tornaram-se realmente eficazes na
concretização desse novo projeto social. Coube à prisão a tarefa de transformar
os indivíduos maus, vagabundos, modelando os condenados, buscando
sobretudo, proteger a sociedade desses malfeitores. Na prisão, eles seriam
pacificados, ressocializados, reeducados e estimulados a uma vida de virtude por
meio de exercícios cotidianos nas atividades laborativas.

A prisão moderna surge na América do Norte como instituição na qual


se priva da liberdade o homem que dela tenha abusado, para prevenir novos
crimes de sua parte e para desviar dele os demais homens, pelo terror e pelo
exemplo, mas completa essa idéia com o conceito de que se trata, também, duma
casa de correção que se deve propor a reformar os costumes das pessoas, nela
reclusas, a fim de que a sua volta à liberdade não constitua uma desgraça para a
sociedade e para o libertado.

A reforma penitenciária americana inicia a prisão moderna com o


solitary confinement, em que o preso é isolado em sua cela, recebe um

1
SARUBY, Ary e REZENDE, Afonso Celso F. Sistema Prisional na Europa. Modelo para o Brasil? Peritas
Editora e Distribuidora Ltda. Ano 1997, Campinas,SP. p. 47.
tratamento digno e humano e, ali, separado dos demais, entregue à solidão, às
reflexões e aos pesares, espera, impaciente, o fim da sua reclusão.

Atualmente, o sistema penal punitivo tem por justificativa a teoria da


coação psicológica, bem como a do tratamento ressocializador. Pela primeira, o
medo da pena (castigo) inibe a opção pela conduta criminosa. A segunda
entende que a pena tem por objetivo propiciar condições para a harmônica
integração social do condenado.

Entretanto, é visível a crise que este sistema


tem enfrentado nos últimos tempos.
Nos cárceres de nosso país, a ressocialização do condenado tornou-se um
mito, uma utopia, uma ilusão enganosa e financeiramente irrealizável.

Na superfície desta crise, na sua parte mais visível percebe-se o alto


custo social da prisão, a superlotação e precariedade dos estabelecimentos
penais, a situação de desumanidade, as constantes rebeliões, além da elevada
taxa de reincidência.

Enfim, nossos presídios tornaram-se universidades às avessas, onde se


diploma o profissional do crime.

1.2. Privatização dos Presídios. Surge uma Nova Idéia


A partir de meados da década de 80, primeiramente nos EUA e a seguir,
em outros países industrializados, a idéia de privatização das prisões torna-se
uma realidade no combate à crise generalizada do sistema penitenciário das
sociedades capitalistas avançadas do Ocidente. Em 1992, já na esteira da
experiência internacional, discute-se também no Brasil, a viabilidade da adoção
das prisões privadas como resposta à crise que assola o sistema penitenciário
brasileiro.

As péssimas condições de encarceramento caracterizam a quase


totalidade dos estabelecimentos penitenciários brasileiros, e faz enxergar que o
nosso sistema prisional se encontra falido. Necessário, pois, se torna a busca de
novas alternativas para a pena de prisão no Brasil.

A política de privatização dos presídios é nova tanto no Brasil como no


mundo. Porém, países dentre os quais podemos citar EUA, Itália, Inglaterra,
França e até mesmo no Brasil (como é o caso da penitenciária de Guarapuava,
no estado do Paraná) já desenvolvem experiências com tal modelo. Ele deve ser
observado atentamente pelo governo, visto que dá mostras de sucesso, através
da baixa reincidência, pouca ou nenhuma tentativa de fuga, ausência de
rebeliões, entre outros resultados positivos.

É da ordem do dia em todo mundo o tema da


privatização do Sistema Penitenciário. Trata-
se de um assunto polêmico com opiniões
divergentes. As relações entre particulares e
Estado encontram-se em um período de
extrema mutabilidade, os conceitos do que é
competência privativa estatal e o que pode
ser feito por particulares estão se
transformando a cada dia. E é neste contexto
que o tema privatização das prisões se torna
atual, ele nada mais é do que uma parte
dentro de um assunto mais genérico, que se
refere à forma de cooperação e interação
entre particulares e o Estado em prol da
coletividade.
2. O SISTEMA PRISIONAL NA EUROPA

Os países mais organizados da Europa tem


conseguido manter um invejável sistema
prisional que serve de parâmetro para países
como o Brasil. Nesse país o sistema
penitenciário se mostra em processo de
decadência e sem possibilidades de
recuperação. Vejamos então como funciona
o modelo carcerário europeu.

Assim que o condenado chega na prisão, ele é informado de seus direitos


e deveres. A seguir, ele é submetido a uma revisão médica, e caso constate-se
alguma deficiência física ou mental, ele é encaminhado a tratamento. Recebe
todo o vestuário a que tem direito, até mesmo o que irá utilizar quando tiver que
comparecer aos tribunais.

Cada preso, de modo geral, fica em cela individual, pois é rigorosa a


separação entre um e outro reeducando, sendo a divisão feita por idade, saúde e
periculosidade. Os demais são colocados em recintos para duas pessoas. O
detento que causa desordem dentro do estabelecimento é colocado em regime de
confinamento solitário por razões disciplinares e de segurança, caso seja
necessário, para se evitar influência prejudicial sobre os demais presos.

Há o firme propósito das autoridades em se tratar o preso com dignidade


e respeito, não se admitindo qualquer discriminação social, racial ou religiosa. O
apenado tem o direito de enviar consultas, requerimentos e apelos por escrito de
próprio punho.

No que concerne às recreações, lazeres e


esportes, tais atividades não são consideradas
como simples passatempos ou distrações,
pois a direção deve permitir ao detento uma
ocupação inteligente. Existe uma equipe
médico-social, que realiza animações
teatrais, conferências, círculos de estudo e
cinema uma vez por semana.

Com relação ao ensino, também existe uma diretriz invejável, uma vez
que o preso recebe ensinamentos condicionados ao seu temperamento. Existem
setores especiais orientados a melhorar a formação escolar do detento. No
campo profissional, o preso inexperiente, mais conhecido como aprendiz, tem
condições de conhecer os seguintes ofícios: compositor tipográfico, mecânico de
carros e máquinas agrícolas, montador eletricista, entre outros.
Os religiosos encarregados dos serviços pastorais ficam a disposição de
qualquer preso, cuidando, dentro da instituição, unicamente dos aspectos morais
e religiosos.

Para o dirigente europeu, o trabalho no estabelecimento prisional não é


concebido como sendo uma punição, mas como elemento essencial na
reeducação do homem. Nas prisões européias, o recluso tem o direito e o dever
de trabalhar, sem procedimentos coercitivos e na medida do possível, indicado
para determinado serviço de acordo com sua aptidão e talento.

A remuneração é fixada como taxa diária ou pagamento por peça


elaborada, sendo o montante de seu salário informado todo final de mês através
de extrato bancário em seu nome. O detento incapacitado para o trabalho, por
razões de saúde ou qualquer incapacidade física, recebe uma verba diária para
seus gastos. O preso exerce controle total sobre o dinheiro ganho pelo seu
trabalho, desde que isto não venha a frustrar os fins da detenção.

Existe possibilidade de trabalho externo ao detento, desde que não lhe


tenha sido imposta pena grave, que tenha adquirido confiança da direção do
presídio e esteja em regime aberto de prisão. Normalmente o trabalho nessas
condições mostrou-se isento de conflitos, inexistindo discriminação ou
marginalização a respeito dos trabalhadores penitenciários.

Os europeus, basicamente as pessoas do governo encarregadas do


sistema prisional, consideram o trabalho um dos fatores mais sérios à obtenção
do sucesso no controle do preso e sua conseqüente recuperação.
O cardápio dos alimentos servidos ao preso é diário, sendo planejada
uma dieta variada e devidamente balanceada. A pessoa acometida por alguma
doença ou que necessite de alimentação especial recebe pratos condizentes com
sua situação. Como toda alimentação é preparada na instituição pelos próprios
detentos, ao diretor compete supervisioná-la, prová-la antes de ser servida e
também consumi-la junto a eles.

As autoridades governamentais tem um rigoroso programa de


reabilitação dirigido aos menores e jovens infratores, principalmente quando há
o envolvimento de drogas. A destacar que a imputabilidade penal na Inglaterra
começa aos 08 (oito) anos de idade e na Irlanda do Norte ao 10 (dez) anos.

Quanto ao ensino, recreação, serviços religiosos e atividades sociais


relacionados ao preso, as autoridades européias ligadas ao sistema prisional,
mantém um esquema altamente exemplar. Sabem que os contatos com a família,
autoridades e instituições de caráter social poderão auxiliar consideravelmente
na recuperação do detento.

Apesar de toda assistência a que tem direito o preso durante sua


permanência na prisão, da obtenção de amplas oportunidades para mostrar sua
ressocialização, as autoridades de alguns países da Europa tem encontrado
algumas dificuldades por ocasião do retorno do preso à sociedade, em razão da
existência de uma antipatia ou aversão que às vezes acontece entre empresários,
que evitam contratar os egressos em razão da existência de antecedentes
criminais. No entanto, em compensação, há outros até que auxiliam no setor de
reintegração dos ex-presidiários.

A Suíça é exemplo de sucesso na administração do sistema carcerário na


Europa. Naquele país existem vários estabelecimentos prisionais de alto gabarito
funcional e administrativo.

As prisões na Suíça são verdadeiras fazendas e não estabelecimentos


prisionais. No setor administrativo encontram-se assistentes sociais,
enfermeiros, psicólogos, médicos, dentistas, entre outros.

Nestas fazendas encontram-se modernas máquinas agrícolas, granjas


para criação de frangos e frigorífico para abate, sendo uma parte do produto
utilizada no próprio estabelecimento e outra para venda junto a restaurantes,
além da produção de trigo, milho, criação de suínos entre outros. As cozinhas
que servem os presidiários são consideradas excelentes, tamanho o espaço e
condições de higiene.

Nas diversas oficinas apesar do trabalho não ser obrigatório (a maioria


exerce um labor) existem setores para mecânica geral, hidráulica, eletricidade,
encadernação, confecção de material escolar, calçados, móveis, padaria, estando
toda a manutenção dos edifícios a cargo dos próprios detentos.

Vários detentos se dedicam ao estudo por correspondência e há uma


apreciável freqüência junto às bem montadas bibliotecas.
Outro modelo de presídio europeu está situado na Alemanha. É chamado
de prisão de STRAUBING. Segundo seu diretor, a instituição de nada depende
do governo alemão. Ela possui autonomia, uma vez que tudo o que os detentos
produzem nas oficinas de trabalho é aplicado no estabelecimento, e o restante do
que possa sobrar serve para beneficiar os próprios reeducandos e suas famílias.

Destaca-se o processo psicológico adotado pela direção do


estabelecimento no relativo aos presos, com a aplicação de ensinamentos
condicionados ao temperamento de cada um. Os presos são organizados em
grupos de acordo com os crimes praticados, sejam ele sexuais, passionais,
latrocínio, ou assassinatos políticos. Para cada um desses grupos existe
tratamento específico, já que o sistema jurídico alemão tende a consertar o
homem desvirtuado de sua missão social.

Em Straubing, o trabalho, o ensino profissionalizante e o lazer entre os


detentos têm capital importância, pois, através deles, a possibilidade de
ressocialização fica sensivelmente aumentada, existindo diversas modalidades
como jogos de xadrez, trabalhos manuais, música, cinema, televisão e rádio.

São ministrados cursos especiais aos detentos que ali chegam sem uma
profissão definida, e após seu término, são feitos exames para avaliação, quando
todos ganham certificados de conclusão para poderem utilizar quando em
liberdade.

Após a condenação, os detentos são transferidos para institutos especiais,


de acordo com o plano de execução, tendo em vista sua reintegração após o
cumprimento da pena, observados diversos cuidados desde sua admissão ao
estabelecimento, com os contatos com parentes, avaliação da personalidade,
apreciação médica, alojamento digno, entre outros.

O ingresso da mulher no estabelecimento


prisional é o mesmo dispensado aos homens,
guardadas as devidas diferenças. A recepção
é burocrática. Ela passa pelo exame da
documentação, entrada na chamada câmara
onde se despe, para procura de utensílios
escondidos no corpo, banho e vestimenta de
uniforme. Todas passam por uma
conscientização e são estimuladas ao
desenvolvimento de uma profissão, para que
após o cumprimento da pena possam ter
maiores oportunidades fora do
estabelecimento penal.

Antes do retorno ao meio social, o detento é devidamente preparado. São


providenciados trabalho e alojamento, roupas próprias e condizentes com a nova
situação e colocado à sua disposição um crédito de saída e até mesmo uma
pequena ajuda de custo para despesas de viagem à terra natal.
3. A PRIVATIZAÇÃO DO SISTEMA PENITENCIÁRIO
BRASILEIRO

Não sendo novidade que o sistema penitenciário brasileiro encontra-se


em franca decadência e não recupera ninguém, ao lado da enorme carência de
vagas nos estabelecimentos já existentes, torna-se de extrema importância o
aparecimento de alternativas novas para solucionar este grave problema social.
É dentro deste contexto que surgiu o fenômeno privatização do sistema
carcerário, hoje em dia, já adotado em diversos países.

Tal idéia é nova no Brasil, como também no mundo, pois somente a


aproximadamente 10 anos é que se criaram os chamados presídios privados.

A apresentação da idéia que chama a iniciativa privada a cooperar com o


Estado na fase da execução penal tem se revelado um assunto muito polêmico
no ramo jurídico.

Aliás, a chamada privatização dos presídios é uma denominação


inadequada, pois não se trata de vender em Bolsa ações dos estabelecimentos
prisionais, mas tão somente chamar e admitir a participação da sociedade, da
iniciativa privada, que viria colaborar com o Estado nessa importante e arriscada
função que é a de gerir nossas unidades prisionais, vez que a gestão privada
poderia oferecer soluções onde a burocracia estatal tem demonstrado sua total
ineficácia.

3.1. Obstáculos à Proposta de Privatização do Sistema Penitenciário


Brasileiro

3.1.1. Obstáculos Éticos

Do ponto de vista ético, seria intolerável que um indivíduo, além de


exercer domínio sobre outro, aufira vantagem econômica do trabalho carcerário.
Este ofício, faz parte da natureza da pena e somente ao Estado será moralmente
lícito obter receita do mesmo.

Segundo João Marcello de Araújo Junior2, em sua obra Privatização das


Prisões, este princípio ético está consagrado nas Regras Mínimas para o
Tratamento dos Reclusos, estabelecidas pela Organização das Nações Unidas
em 1955. Tais regras determinam que o trabalho penitenciário, embora
obrigatório, não deverá ter caráter aflitivo (Regra 71.1) e que a organização do
trabalho penitenciário deverá assemelhar-se o mais possível ao que se aplicam a
um trabalho similar fora do estabelecimento (Regra 72.1).

O respeito aos preceitos da ONU é tradicional no Brasil, assim como, é


tradicional, também, o respeito aos preceitos éticos, em matéria de trabalho
prisional.

2 JÚNIOR, João Marcelo de Araújo. Privatização das Prisões apud Execução Penal (Lei 7210, de 11.07.84),
elaborada pela Subsecretaria de Edições Técnicas do Senado Federal, Brasilia, 1985.
Seria, portanto, intolerável enriquecer sobre a base do quantum de
castigo que seja capaz de inflingir a um condenado.

3.1.2. Obstáculos Jurídicos

No Brasil, a execução penal sempre pretendeu ser uma atividade


jurisdicional. Atualmente, com a Lei de Execução Penal (Lei n° 7.210 de
11/07/84), o caráter jurisdicional e processual da execução ficou perfeitamente
marcado.

Daí decorre que a administração penitenciária participa da atividade


jurisdicional do Estado e é indelegável.

Assim, verifica-se que a Lei de Execução Penal, além de proibir que o


trabalho carcerário seja gerenciado por empresas privadas, proíbe, também a
delegação da gestão penitenciária aos particulares.

O princípio da jurisdição única atribui ao Estado o monopólio da


imposição e da execução de penas ou outras sanções. Inconcebível seria que o
Estado executasse a tutela jurisdicional, representado por autoridade que não se
reveste de poderes suficientes para tanto. O Estado não está legitimado para
transferir a uma pessoa física ou jurídica, o poder de coação de que está
investido e que é exclusivamente seu.

A violação de indelegabilidade da atividade jurisdicional importa em


inconstitucionalidade.
3.1.3. Obstáculos Políticos

Privatizar prisões significa consagrar um modelo penitenciário que a


ciência criminológica revelou fracassado, e além disso, considerado violador dos
direitos fundamentais do Homem.

Vale ressaltar que o antigo liberalismo político preconizado por Adam


Smith, mesmo com todo estímulo à participação privada na vida econômica,
jamais colocou em dúvida o monopólio do Estado com referência às atividades
de segurança pública, administração da justiça e defesa nacional. Transferir
essas atividades aos particulares seria negar existência ao próprio órgão político,
seria desvirtuar-lhe o seu ser, o seu próprio significado.

Pelos motivos expostos, a proposta de privatização dos presídios, além


de violar os modernos princípios da política criminal humanista, é imoral, ilegal,
e só serviria para engordar os cofres já abarrotados das empresas privadas.

O objetivo teórico da administração penitenciária é combater a


criminalidade, e não, obter lucros; ora, as empresas que desejam participar da
administração penitenciária visam obter lucros e retirar esse lucro da própria
existência da criminalidade; logo, tais empresas não iriam lutar contra a
criminalidade, e se não tem tal interesse, não devem administrar prisões.

3.2. Formas de Terceirização da Atividade Penitenciária

Faz-se necessário distinguir as diferentes formas de participação das


empresas privadas no setor carcerário:
a. Uma companhia privada edifica, gerencia e comanda a prisão,
recebendo os presos diretamente do Estado (privatização total pela
empresa privada);

b. A companhia privada edifica a prisão e a aluga ao Estado que a


gerirá com seu próprio pessoal;

c. Certos serviços na prisão são contratados com companhias


privadas, tais como, fornecimento de alimentação, educação e
assistência médica (a chamada terceirização);

d. Prisões-industriais em que o trabalho do preso passa a ser objeto do


lucro das empresas particulares, tais estabelecimentos são
construídos por empresários, ou os presos podem ser contratados
para trabalhar em companhias vizinhas.

Estas são algumas das maneiras pelas quais as prisões privadas


apresentam-se como possíveis soluções econômicas e eficientes aos graves
problemas penitenciários que temos atravessado no Brasil. Trata-se de captar,
explicar e criticar a emergência do discurso privatizante no campo prisional
como ideologia, isto é, não como mera ficção ou ilusão, porém, antes como uma
promessa, cujos termos e condições de possibilidade são possivelmente
determinados, mas que ao mesmo tempo e contraditoriamente não pode ser
realizada nestes mesmos termos, face ao grande número de obstáculos propostos
que chegam até mesmo a declarar a inconstitucionalidade de tal medida.

Em nosso país não seria viável uma proposta de privatização total dos
estabelecimentos prisionais, como acontece em alguns poucos Estados
industrializados dos EUA, mas a idéia da privatização no Brasil poderia se
tornar uma realidade aos poucos, através da terceirização, onde o Estado, ao
contratar a execução do serviço ao setor privado, continuaria responsável por
seu financiamento, regulação, avaliação e controle, mas se beneficiaria do
acesso a novas tecnologias, redução dos gastos com pessoal, da burocracia, e
dos atrasos nas construções de novos estabelecimentos.

De acordo com P. Greenwood3, um analista americano contratado por


uma empresa de segurança privada

O governo não irá nos proporcionar melhores prisões,


melhores programas ou um quadro funcional mais eficiente.
Ele tem se esforçado, mas simplesmente não pode mais... É
tempo de tirar o governo do negócio das prisões. Quem
poderia assumi-lo? A mesma gente que administra grandes
instituições, tais como hospitais e escolas. A mesma gente
que tem desenvolvido técnicas para propiciar milhares de
refeições e hospedaria para os viajantes. A mesma gente
que administra a maioria dos programas de treinamento de
pessoal neste país: a Indústria Privada.

A adoção das prisões privadas tem sido em boa parte legitimada pelo
argumento de que a introdução da competição e o emprego de técnicas e
estratégias de gestão empresarial no sistema penitenciário permitiriam,
simultaneamente, reduzir custos e aperfeiçoar os serviços.

O setor privado desburocratizaria a gestão dos presídios, reduziria


encargos trabalhistas; aos Estados estaria garantida a possibilidade de expandir e
acelerar a política de construção de novos estabelecimentos; as empresas teriam

3. MINHOTO, Laurindo Dias. Privatização de Presídios e Criminalidade apud P. Greenwood, analista da


empresa de segurança privada Rand Corporation, apud M. P. Sellers, The History and Politics of Private
mais agilidade e flexibilidade, o que se poderia comprovar a partir de algumas
experiências de conversão de residências e hospitais desativados em
estabelecimentos penitenciários. Tudo seria feito com o alívio do bolso do
contribuinte e do governo ao mesmo tempo.

3.3. A Privatização dos Presídios nos EUA

Nos EUA, após décadas de monopólio, as prisões públicas


experimentam nova guinada em direção ao envolvimento do setor privado no
sistema. A partir da década de 70 começou a ocorrer a integração do setor
privado na provisão de uma vasta gama de serviços de bem-estar, destinados a
melhorar as condições de vida da população marginalizada.

O impacto da tendência à expansão do setor privado na área do sistema


prisional revelou-se através do movimento de desencarceramento, que defendia
a adoção de penas alternativas à prisão e que questionava o papel reabilitativo
da instituição prisional. Tal fator, convergiu para a expansão do envolvimento
do setor privado na esfera correcional.

A emergência das chamadas prisões privadas nos EUA se revela de


forma clara, vez que há uma crença populacional na incapacitação do cárcere e
um descrédito crescente na sua função reabilitativa, o que implicou num
aumento brutal dos gastos do governo com o sistema penitenciário.

Nos EUA, a administração privada total dos estabelecimentos tem sido


pouco empregada, face às demais modalidades existentes. A privatização tem se

Prisons, Cranbury, NJ, Associated University Presses, 1993, p. 47.


concentrado na ponta leve do sistema, sobretudo nos setores de imigrantes e de
jovens criminosos, detentos, estes, que não apresentam um alto grau de
periculosidade.

As prisões privadas nos EUA, tem operado aquém dos termos em que
tem sido proposta e, no entanto, o setor continua em franca expansão. Se de um
lado, há evidências fundadas de que a gestão privada dos estabelecimentos
correcionais não tem executado um serviço eficiente, nem tampouco mais
barato, como também não tem conseguido fazer frente aos objetivos internos do
sistema de justiça criminal, notadamente o alívio da superpopulação e a
reabilitação dos detentos, é certo que paradoxalmente as prisões privadas vêm se
expandindo e as companhias ampliando largamente suas margens de
lucratividade.

Se no início das operações a percepção era de que as prisões privadas


não seriam um negócio muito lucrativo, ultimamente, depois de mais de dez
anos de atividade no setor, esse quadro se reverteu e as empresas privadas têm
faturado alto.

3.4. A Proposta de Privatização do Sistema Penitenciário no Brasil

No ano de 1992, o Conselho Nacional de Política Criminal e


Penitenciária (CNPCP), órgão subordinado ao Ministério da Justiça, propôs
formalmente a adoção das prisões privadas no Brasil.

A proposta oriunda de reflexões sobre as modernas e recentes


experiências, que, nesse sentido, vêm sendo colocadas em prática em
estabelecimentos prisionais dos EUA, da França, da Inglaterra e da Austrália,
representaria uma verdadeira retomada de sonhos, destinada entre outras coisas:
reduzir os encargos e gastos públicos, introduzir no sistema penitenciário um
modelo administrativo de gestão moderna, atender ao preceito constitucional de
respeito à integridade física e moral do preso e aliviar, enfim, a dramática
situação de superpovoamento do conjunto penitenciário nacional.

Tal proposta previa ainda a criação de um Sistema Penitenciário


Federal, ao qual caberia a responsabilidade pelo cumprimento da pena privativa
de liberdade em regime fechado (estabelecimento de segurança máxima),
permanecendo com os Estados a responsabilidade pelo cumprimento da pena
privativa de liberdade em regime médio, semi-aberto e aberto.

A admissão das empresas seria feita por concorrência pública e os


direitos e obrigações das partes seriam regulados por contrato.O setor privado
passaria a prover serviços penitenciários, tais como alimentação, saúde, trabalho
e educação aos detentos, além de poder construir e administrar os
estabelecimentos. A administração se faria em sistema de gestão mista, ficando
a supervisão geral dos estabelecimentos com o setor público, cuja atribuição
básica seria a de supervisionar o efetivo cumprimento dos termos fixados em
contrato.

Tal como os norte-americanos o argumento central da proposta dizia


respeito à suposta redução de custos que a privatização acarretaria para o Estado
e para os contribuintes.
Ainda que alguns Estados, sob a liderança de São Paulo, tenham
demonstrado interesse na adoção das prisões privadas, houve uma enorme
oposição à proposta do governo. A Ordem dos Advogados do Brasil condenou a
proposta da privatização, alegando que tal experiência estaria longe de ser
moderna, antes, constituindo um retrocesso histórico em termos de
desenvolvimento da política criminal; que a execução da pena é uma função
pública intransferível; que a política de privatização dos presídios daria margem
a uma contínua exploração do trabalho prisional e que a proposta violaria
direitos e garantias constitucionais dos presos.

Tal proposta, que parecia uma viável solução para a crise do setor
penitenciário brasileiro, foi, simplesmente, arquivada.

Em Goiás, foi apresentado um projeto de lei na Câmara dos Deputados


pelo então deputado estadual Sandro Mabel (projeto de lei n 1.727 de 1996), o
qual dispunha, entre outras coisas, sobre a permissão a particulares para a
prestação de serviços penitenciários durante a execução da pena, bem como
sobre a participação, com igual objetivo, da comunidade e de associações sem
fins lucrativos durante o mesmo período.

A justificativa do referido projeto de lei, enfocava a emergência da


adoção de prisões privadas no Estado de Goiás, vez que a triste realidade do
CEPAIGO (Centro Penitenciário Agrícola e Industrial de Goiás), em Aparecida
de Goiânia, demonstrava a falta total de condições em absorver o grande
contingente de condenados pela justiça criminal goiana.
O Projeto alcançava somente os condenados ao regime semi-aberto e ao
regime aberto, faixa na qual se concentra grande parte dos presos, reservando ao
Estado a custódia daqueles de maior periculosidade.

É a justificativa apresentada pelo Deputado Sandro Mabel4 no projeto de


lei n 1.727/96:

Destarte, em relação à fonte de recursos, o estado arcará


com um percentual mínimo para a manutenção do sistema,
que receberá, ainda, recursos advindos do trabalho dos
próprios condenados, da colaboração das suas famílias e
da comunidade (...)

Com a medida ora proposta, espera-se iniciada a solução


de um dos mais delicados problemas da sociedade, qual
seja a situação prisional do país, de forma a assegurar
tranqüilidade à comunidade com a efetiva aplicação da
pena aos criminosos, sem, contudo, deixá-los à mercê da
desumanidade que hoje é encontrada no interior das
prisões.

4. Projeto de Lei n1 1.727/96. Justificativa. 1996. Brasília/DF.


4. EXPERIÊNCIAS BRASILEIRAS NO CAMPO DA
CHAMADA TERCEIRIZAÇÃO

A primeira experiência no país de terceirização dos serviços


penitenciários teve lugar no Paraná, e mais especificamente, na Penitenciária
industrial de Guarapuava (PIG).

Trata-se de um exemplo de parceria entre a segurança pública e privada,


onde o presídio, administrado pelo governo do estado, obedece ao modelo de
terceirização dos serviços, a cargo de empresas privadas, que inclui segurança
interna, assistência social, médica e psicológica, entre outras.

Uma empresa, Humanitas (Administração Prisional Privada S/C Ltda)


atua no presídio, sendo responsável por todas as atividades lá exercidas, tendo
convênio com uma fábrica de móveis que emprega os detentos, garantindo-lhes
rendimento e auxiliando-os em sua recuperação.

Com capacidade para 240 presos, a Penitenciária Industrial de


Guarapuava iniciou suas atividades em 1999 e o êxito da experiência resultou
em mais um novo projeto, já em desenvolvimento no Ceará (Penitenciária de
Juazeiro do Norte – Vale do Cariri).
A Penitenciária de Guarapuava oferece ampla assistência ao condenado.
As dependências para serviços técnicos são dotadas de parlatório privativo para
advogados, consultório médico, enfermaria, ambulatório, gabinete dentário,
farmácia, gabinete psicológico, salas de aula, setor de informática e biblioteca.

As dependências para serviços gerais contam com cozinha, refeitório,


lavanderia, rouparia e padaria.

O estabelecimento é dotado de espaços destinados ao lazer e visitas,


inclusive de natureza íntima, sendo todo o aparato material necessário
proporcionado pela empresa contratada (roupa de cama, uniforme, material de
higiene e limpeza etc.).

A todos os internos, além do trabalho remunerado, é propiciada a


educação gratuita da alfabetização ao ensino médio.

Todo material escolar é fornecido pela Secretaria de Educação, e todas


as atividades desenvolvidas são acompanhadas por técnicos em pedagogia.

A assistência laborterápica é exercida através do encaminhamento do


preso aos canteiros de trabalho internos e externos, de acordo com a
possibilidade e aptidão de cada um.

Ao ingressarem na penitenciária, os internos são informados quanto às


condições legais em que se encontram, recebendo orientações concernentes aos
seus direitos e deveres e cópia das normas específicas da legislação sobre
execução penal.
A terceirização tem se revelado uma barreira eficaz à corrupção que nas
demais prisões prolifera.

O argumento contrário à terceirização dos serviços penitenciários vêm


sendo objeto de contestação, devido ao elevado custo dos internos neste sistema.

Segundo o Ministério da Justiça, o custo-mês de um preso neste modelo


terceirizado sobre 40%, mas este aumento é compensado ao longo do tempo
com a remissão de penas e a remota possibilidade de rebeliões.

Enfim, a terceirização dos presídios é uma alternativa e não implica na


perda de direção do estabelecimento pelo Estado, e sim, que determinados
serviços sejam executados pela iniciativa privada.

Quanto mais rápido o governo multiplicar essas experiências pelo país,


maior será a possibilidade de retomar o controle do sistema prisional, hoje
dominado por criminosos que dirigem, de dentro das cadeias, os seus comparsas
livres.
CONCLUSÃO

A busca de soluções para o problema do Sistema Penitenciário Brasileiro


se tornou emergencial. A experiência dos países estrangeiros pode vir a ser útil
neste momento em que idéias reformadoras devem ser amoldadas.

A privatização de nossos estabelecimentos


penais, poderia, sim, ser uma provável
resposta à crise que enfrentamos, mas tal
medida, deveria ser colocada em prática aos
poucos. Por exemplo, a participação privada
poderia ocorrer na forma de fornecimento de
certos serviços e bens para os presos
(terceirização), desde que obedecidos os
mandamentos legais referentes às licitações
públicas.

Temos consciência de que uma reorganização de todo o sistema prisional


jamais poderá ser feita com um simples estalar de dedos, tampouco
modestamente operada com simples remendos, principalmente nas condições
em que se encontra. No entanto, a sociedade precisa despertar, ficar parceira fiel
do governo, apoiando-o nas ações para conhecer mais de perto o problema, e,
assim, colaborar na reformulação de nossos cárceres.

Compreendemos que existem situações extremamente tristes quando são


noticiadas ações delituosas absolutamente descabidas dentro de nossos
presídios, muitas vezes sem nexo algum e comungamos na amargura. Mas
também reiteramos que todo delito cometido deve receber a justa e necessária
punição e jamais alguém poderia apoiar algo diverso. Contudo, é necessário
colocarmos um ponto final nessa tragédia que estamos vivendo, sem um apoio
sólido, consistente e inabalável@ da nossa boa gente, que sempre soube cooperar
nas grandes causas, a questão ficará ainda mais difícil de ser resolvida.

Fácil se torna visualizar que para a efetivação de um programa que desse


fim à falência do sistema carcerário brasileiro, seriam imprescindíveis estudos
técnicos altamente especializados, encadeamento jurídico, dotações financeiras
de grande porte e demais ações próprias de uma administração pública.
Contudo, se não quisermos que o mundo desabe sobre nós, uma ligeireza na
ação, nesse caso, é de vital importância.

Complementando a injustiça, o sistema punitivo, além de atuar


seletivamente, promove a degradação da figura social do condenado, e, assim,
não raras vezes, acaba por condicionar carreiras criminosas, em vez de preveni-
las.

Diante da conscientização de que o atual Direito Penal intimidatório, que


tem por fundamento a coação psicológica e o tratamento ressocializador, não
recupera ninguém, emergiu a Lei nº 9.099/95 - parte criminal (Lei dos Juizados
Especiais Criminais).

A Lei nº 9.099/95 veio tentar amenizar a crise generalizada enfrentada


pelo sistema penitenciário nacional, pois ela se traduz em uma proposta de
mudança à nefasta prática punitiva.
Este novo modelo penal não tem por
pressuposto ideológico a necessidade de
aplicação de castigo (prisão ou qualquer
outra medida retributiva).

A Lei dos Juizados Especiais Criminais nega a crença na necessidade e


eficácia da punição na prevenção da criminalidade. A pena, neste novo sistema,
não é castigo nem oportunidade de tratamento, mas missão social aplicada por
meio de consenso entre as partes, nos limites legais.
O artigo 62 da lei em estudo é taxativo: (...) objetivando sempre que
possível, a reparação dos danos sofridos pela vítima e a aplicação da pena não
privativa de liberdade@.

Daí se conclui que esta lei surgiu como provável solução para a
superlotação de nossos presídios, vez que engloba vários tipos penais, até então
punidos com prisão.

O Direito Penal/prisão deve ser limitado às situações de reconhecida


necessidade para evitar mal maior.

Trata-se do princípio da intervenção mínima: o Direito Penal somente


tem legitimidade para atuar nos casos de grave lesão a bens jurídicos
fundamentais para as relações sociais.

Em resumo, o Direito Penal mínimo aponta para a descriminalização


(abolição de vários tipos penais) e a despenalização (criação de vias alternativas
que solucionem penal sem aplicação de pena).

É uma mudança profunda e que deve ser


assimilada rapidamente para não se continuar
reproduzindo um sistema punitivo caro,
ineficaz e injusto.

Claro, que o ideal mesmo, seria a vida junto à família, casamento feliz,
filhos na escola, saúde, trabalho bem remunerado, lazer, clima geral sadio e
perspectivas de um mundo melhor e não dentro de uma prisão, por mais
eficiente e adequada que seja sua estrutura. Ou, como bem afirmou Heitor
Piedade Júnior, Professor de Direito Penal da Universidade Federal do Rio de
Janeiro, citado por Ary Saruby e Afonso Celso F. Rezende na obra Sistema
Prisional na Europa. Modelo para o Brasil? Ao ideal em sociedade, é que não
existissem o crime, o criminoso, a Justiça Criminal, a pena, o sistema
penitenciário.

É dentro deste contexto que a proposta de privatização dos presídios


deve ser melhor estudada, vez que através dela poderíamos minimizar os efeitos
maléficos do cárcere, que ficaria restrito aos crimes de maior gravidade e aos
condenados de alta periculosidade.

Nas prisões privadas, o trabalho do preso deve ser ponto de honra, onde
todos os presos trabalhem, mas o resultado auferido pelo seu labor não poderia
reverter em favor do empreendedor privado, destinando-se aos familiares do
condenado e ao ressarcimento dos prejuízos que o condenado provocou.

E, mais, na verdade, não se estaria transferindo a função jurisdicional do


Estado para o empreendedor privado, que cuidaria exclusivamente da função
material da execução da pena. O administrador particular seria responsável pela
comida, pela limpeza, pelas roupas, pela hotelaria, enfim, por serviços que são
indispensáveis num presídio.

A terceirização dos serviços penitenciários tem se revelado um modelo


em franco desenvolvimento e deve ser expandido pelo resto do Brasil.

O modelo de Guarapuava dá mostras de sucesso e há mais de um ano


este mesmo sistema foi implantado na Penitenciária Regional do Cariri, e está
funcionando perfeitamente.
Segundo a secretária nacional de justiça, Elizabeth Sussekind, as
experiências nestes dois presídios comprovam que os presos reduziram seu
tempo de pena e que a administração teve êxito.

O que não se pode admitir é afastar a experiência, pois nada que se possa
substituir a prisão foi apresentado até agora e milhares de jovens estão
apodrecendo em nossos cárceres, sem que a sociedade possa lhes ouvir a voz.

Basta de tanta injustiça e indiferença em nossa sociedade.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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ANEXOS