Antes de iniciar o estudo deste curso, reflita sobre a matéria veiculada pela RBSTV, em 24 de novembro

de 2014.
MP flagra rede de exploração sexual de adolescentes no Norte do RS
Três pessoas foram presas durante ação de promotoria, em Machadinho. Esquema envolvia pelo
menos seis garotas entre 12 e 16 anos, diz MP.
O Ministério Público Estadual (MP) prendeu nesta segunda-feira (24) três homens suspeitos de
participar de uma rede de exploração sexual de adolescentes em Machadinho, município com cerca de 5,5 mil
moradores localizado no Norte do Rio Grande do Sul. A ação ainda encaminhou seis jovens entre 12 e 16 anos
para um abrigo, informou a Promotoria de Justiça do município de São José do Ouro.
De acordo com o MP, as investigações apontam que vários moradores de Machadinho são suspeitos
de contratar meninas para programas sexuais, que ocorriam no período da tarde. Automóveis, casas
abandonadas, margens de um rio e até o cemitério da cidade eram usados pelos envolvidos no esquema.
Responsável pelas apurações, o promotor Francisco Saldanha Lauenstein detalhou que duas das
adolescentes recebiam comissão para recrutar outras garotas. A mãe de uma delas, conforme o MP, também é
investigada por fazer parte do esquema. Em um dos casos, outra mulher teria contratado uma das jovens para
fazer programa com o marido.
Durante a operação foi apreendido um revólver calibre 38 com numeração raspada na casa de um dos
presos. Na residência de outro investigado, foi localizada munição de espingarda calibre 12. Os presos foram
encaminhados para o Presídio de Lagoa Vermelha, na mesma região.
Fonte: http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2014/11/mp-flagra-rede-de-exploracao-sexual-de-
adolescentes-no-norte-do-rs.html

Os temas relacionados à violência contra as crianças e os adolescentes começaram a ganhar relevância
a partir da Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948. Onze anos depois, em 1959, surge a Declaração
Universal dos Direitos das Crianças, mas só nas duas últimas décadas que o assunto passou a aparecer nas
agendas do governo brasileiro e, em 2000, adotou-se um Plano Nacional de Enfrentamento da Violência
contra Crianças e Adolescentes que, embora tenha sido revisto por duas vezes (2006 e 2013), ainda revela a
falta de capacitação específica dos vários atores envolvidos com o tema, dentre eles, alguns órgãos policiais.
Portanto, este curso foi pensado para que você tenha acesso aos conhecimentos teóricos relacionados
à temática e auxilie nas ações de enfrentamento e prevenção desse problema tão grave.

Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma
de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e

2
opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou
omissão, aos seus direitos fundamentais. (art. 5º, ECA).

Bons estudos!

Objetivo do curso

Ao final do curso, o aluno será capaz de:

• Compreender a doutrina de proteção integral;
• Conceituar violência sexual contra crianças e adolescentes;
• Distinguir as modalidades de exploração sexual de crianças e adolescentes;
• Identificar o perfil das vítimas, dos agressores e as causas da exploração sexual de crianças e
adolescentes;
• Descrever e executar abordagens das vítimas de violência sexual de forma adequada e respeitosa;
• Identificar a legislação aplicável ao tema;
• Desenvolver ações preventivas sobre o tema.

Estrutura do curso

O presente curso foi dividido nos seguintes módulos:

• Módulo 1 – Conceitos importantes sobre a temática;
• Módulo 2 – Aspectos relacionados à exploração sexual de crianças e adolescentes;
• Módulo 3 – Aspectos legais sobre a temática;
• Módulo 4 – Sistemas de Garantias dos Direitos da Criança e do Adolescente e ações de prevenção.

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MÓDULO
CONCEITOS IMPORTANTES SOBRE A TEMÁTICA
1

Apresentação do módulo

“(...) as nossas lágrimas regarão com esperança o chão da dura realidade para sempre sonhar com a
utopia de uma sociedade justa e igual, ameaçando com dureza todo o poder que gera opressã̃o.
Acreditamos numa sociedade sem racismo, sem machismo, sem sexismo e sem homofobia. Cremos no
fim de todas as prisões, no fim de todas as formas de extermínio, na construção de outras formas de organização
da sociedade e na utopia de um mundo sem oprimidos/as e sem opressores.”
Carta das Pastorais da Juventude do Brasil
maio de 2009, Guararema – SP

As campanhas contra a exploração sexual de crianças e adolescentes crescem a cada dia, mas ao mesmo
tempo, infelizmente, parecem não dar conta de pôr um fim neste problema. Por que isto acontece? Quais
aspectos estão presentes nesta problemática?

O Módulo 1 do curso de Enfrentamento à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes tem por
finalidade situá-lo no âmbito dos conceitos que envolvem a temática.

Objetivo do módulo

Ao final do módulo, você será capaz de:

• Identificar como se estabelecem as relações interpessoais e o papel exercido pelo poder/dever
de pais e responsáveis em relação às crianças e adolescentes;
• Conceituar violência sexual praticada contra crianças e adolescentes e compreender suas
modalidades;
• Correlacionar a violência sexual com os papéis culturais estabelecidos pela educação dentro da
lógica da masculinidade;
• Enumerar as causas da violência sexual;
• Conceituar e distinguir abuso e exploração sexual.

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Estrutura do Módulo

Este módulo está dividido nas seguintes aulas:

• Aula 1 – Perspectiva histórica da proteção à infância;
• Aula 2 – A violência sexual contra crianças e adolescentes.

Aula 1 – Perspectiva histórica da proteção à infância

De acordo com Azambuja (2006), o tratamento legislativo que a humanidade tem dispensado à criança
se coaduna com a compreensão do significado da infância presente em cada momento histórico.

Se você analisar a história da humanidade por uma perspectiva sociológica, verá facilmente que as
nossas relações se baseiam em poder. Estabelecem-se pela força (física, psicológica ou outras), com a
obrigatória submissão do “menos” pelo “mais”, é sempre o menos forte, o menos representativo que será
submetido. A família é o primeiro grupo social onde se vivencia essa relação de poder.

Para refletir
Pense no seu papel dentro da sua família.
Você é homem ou mulher?
É cisgênero ou é transgênero?
É heterossexual ou é homossexual?
Você contribui financeiramente para a manutenção da sua família?
Como suas respostas a essas perguntas determinam quem você é e qual papel você exerce dentro do
seu núcleo familiar?

1.1 A percepção da infância na antiguidade

Na antiguidade, a autoridade paterna não conhecia limites, o pai no exercício do pátrio poder tinha o
direito de punir, de expor, de vender o filho e até mesmo o direito de matá-lo. Nesse sentido Azambuja (2004,
p.181) registra que:

Em Roma (449 a. C), a Lei das XII Tábuas permitia ao pai matar o filho que nascesse
disforme mediante o julgamento de cinco vizinhos (Tábua Quarta, nº 1), sendo que
o pai tinha sobre os filhos nascidos de casamento legítimo o direito de vida e de
morte e o poder de vendê-los (Tábua Quarta, nº 2). Em Roma e na Grécia Antiga a
mulher e os filhos não possuíam qualquer direito. O pai, o Chefe da Família, podia
castigá-los, condená-los e atá excluí-los da família.

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A infância ficou ignorada por muitos anos ainda, até começar a receber alguma distinção por volta do
século XVIII, quando então, na Europa, começa-se a compreender que ela é uma fase de vida distinta das
demais, merecendo, portanto, tratamento e atenção diferenciados.
Ainda, consoante Azambuja (2006):

É no final do século XVIII que a infância começa a ser vista como uma fase distinta
da vida adulta. Até então, participavam das mesmas atividades. As escolas eram
frequentadas por crianças, adolescentes e adultos. Com o surgimento do
entendimento de que a infância era uma fase distinta da vida adulta também passam
a ser utilizados os castigos, a punição física, os espancamentos através de chicotes,
paus e ferros como instrumentos necessários à educação. Na Inglaterra, em 1780, as
crianças podiam ser condenadas à pena de enforcamento por mais de duzentos
tipos penais.

1.2 A construção da percepção da infância no Brasil

No Brasil não foi diferente, desde o descobrimento até ao alcance da maturidade legislativa trazida
pela Constituição da República em 1988, a infância era tratada ao sabor do pouco ou nenhum discernimento
cultural no qual se vivia.
A história triste recontada por Azambuja (2006) ilustra bem a ótica da infância na chegada dos
navegantes-descobridores.

Os órfãos do Rei
Os órfãos do Rei eram as crianças, que junto com os marinheiros, vinham de Portugal nos navios para
prestar serviços de toda ordem, inclusive sexuais aos adultos, e, em caso de naufrágio normalmente eram
deixados para traz para afundarem com o navio ou eram os primeiros a serem lançados ao mar para aliviar o
peso da nau. (AZAMBUJA, 2006)

Saiba Mais...
Para saber mais sobre essa face escondida da nossa história, leia o texto A história dos excluídos a
bordo das caravelas e naus dos descobrimentos: grumetes, órfãos e degredados.
Disponível em: http://fabiopestanaramos.blogspot.com.br/2011/06/historia-dos-excluidos-bordo-
das.html

Acompanhe, a seguir, os principais fatos históricos pertinentes à construção da percepção da infância no Brasil
até os dias atuais.

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1830
Na evolução do direito destinado à tutela da infância e da juventude no Brasil, as suas primeiras
aparições restringiram-se à determinação da maioridade penal, às penas aplicáveis em caso de crimes e à
dosimetria dessas. Nas Ordenações Filipinas, que vigoraram no Brasil até 1830, a responsabilidade criminal
começava aos 7 anos de idade e até os 17 anos incompletos era utilizado o critério biopsicológico (idade +
capacidade de autodeterminação) para determinar a apenação pelo cometimento de crimes. Aos menores de
17 anos era vedada a aplicação da pena de morte, mas havia possibilidade de, ao arbítrio do juiz, serem aplicadas
outras penas.
Em 1830 entrou em vigor o Código Penal do Império que instituiu a inimputabilidade do menor de 14
anos, mas que permitiu a internação desse em casa de correção desde que provado que agiu com
discernimento, limitando a internação à idade de 17 anos. Entre 14 e 17 anos eram considerados imputáveis,
mas tinham penas abrandadas e, entre 17 e 21 anos, contavam com atenuante em função da idade.

1890
Em 1890 entrou em vigor o Código Criminal da República que inaugurou uma nova fase do
ordenamento jurídico penal, abolindo a pena de morte e instituindo um regime penitenciário de caráter
correcional. Quanto à maioridade penal:
• O menor de 9 anos era considerado absolutamente inimputável.
• Entre 9 e 14 anos, o critério adotado era o do discernimento, ficando a critério do juiz verificar e
decidir se a criança tinha agido com capacidade de entender e agir livremente na prática do ato.
• E entre 14 e 17 anos, a pena aplicada era reduzida de 1/3 e cumprida em estabelecimento
prisional industrial.

Início do século XX
No início do século XX, o Brasil foi marcado por várias iniciativas legislativas que tinham por intuito
alcançar as crianças e adolescentes pobres, abandonados e em situação de delinquência. Em meio à
efervescência dos conflitos político-sociais e à crise econômica, o Estado se viu compelido a tomar alguma
iniciativa para tratar das crianças e adolescentes que viviam nessas situações.
Nesse contexto, nasceu a Doutrina da Situação Irregular que tinha como proposta retirar os
“menores” das ruas ou das famílias que não lhes assistiam e colocá-los sob a tutela do Estado.

1964
Em 1964, a Lei Federal nº 4.513 criou a Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor – FUNABEM que
ficou incumbida de formular e implantar a Política Nacional do Bem-Estar do Menor em todo o território
nacional. A partir daí, tem-se a criação das Fundações Estaduais do Bem-Estar do Menor, que deveriam implantar
as políticas formuladas pela FUNABEM.

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1979
Em 1979 há uma reformulação do Código de Menores, entretanto, o seu foco continua sendo as
crianças e adolescentes considerados em situação irregular, conforme se pode observar nas previsões
inseridas em seu art. 2o.
O código de menores (Lei nº 6697/79), em seu artigo 2º, definia a situação irregular da seguinte forma:
Art. 2º Para os efeitos deste Código, considera-se em situação irregular o menor:
I - privado de condições essenciais à sua subsistência, saúde e instrução obrigatória, ainda que
eventualmente, em razão de:
a) falta, ação ou omissão dos pais ou responsável;
b) manifesta impossibilidade dos pais ou responsável para provê-las;
II - vítima de maus tratos ou castigos imoderados impostos pelos pais ou responsável;
III - em perigo moral, devido a:
a) encontrar-se, de modo habitual, em ambiente contrário aos bons costumes;
b) exploração em atividade contrária aos bons costumes;
IV - privado de representação ou assistência legal, pela falta eventual dos pais ou responsável;
V - Com desvio de conduta, em virtude de grave inadaptação familiar ou comunitária;
VI - autor de infração penal.
Parágrafo único. Entende-se por responsável aquele que, não sendo pai ou mãe, exerce, a qualquer
título, vigilância, direção ou educação de menor, ou voluntariamente o traz em seu poder ou companhia,
independentemente de ato judicial.

1988
A Constituição da República de 1988 inaugurou um novo momento, de uma legislação moderna, em
consonância com a Convenção Internacional sobre Direitos das Crianças, onde as pessoas de até 18 anos de
idade incompletos passam, legalmente, a serem merecedoras de atenção especial da família, da sociedade e
do Estado, para que se desenvolvam em todo seu potencial físico, psíquico e social.
Com a equivalência de poderes e deveres entre homens e mulheres legalmente instituída no Brasil a
partir de 1988, o pátrio poder passou a ser denominado poder familiar e, mais que uma faculdade, passou a
ser um dever legal dado à família e em especial aos pais para garantirem o desenvolvimento saudável dos filhos.
É um instrumento protetivo que tutela a vida e o patrimônio dos filhos.
Sendo que pode inclusive ser perdido em casos específicos determinados judicialmente, conforme
previsão do Código Civil:
Art. 1.637: Se o pai, ou a mãe, abusar de sua autoridade, faltando aos deveres a eles inerentes ou
arruinando os bens dos filhos, cabe ao juiz, requerendo algum parente, ou o Ministério Público, adotar a medida
que lhe pareça reclamada pela segurança do menor e seus haveres, até suspendendo o poder familiar, quando
convenha.
Parágrafo único - Suspende-se igualmente o exercício do poder familiar ao pai ou à mãe condenados
por sentença irrecorrível, em virtude de crime cuja pena exceda a dois anos de prisão (Lei nº 10.406/02).

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O Estado, assim, declara ter interesse em assegurar as gerações futuras, pois dessa forma assegura a
Sua própria existência. No Brasil da atualidade, a proteção à criança e ao adolescente estabelece-se como
decorrência da adoção da doutrina da proteção integral inserida nas previsões da Convenção sobre os Direitos
da Criança, da Constituição da República e do Estatuto da Criança e do Adolescente.

Saiba Mais...
Veja o Estatuto da Criança e do Adolescente na íntegra e os comentários técnicos.

Todos esses documentos normativos estabelecem regras especiais para o tratamento das pessoas de
até 18 anos incompletos, visando ao seu pleno desenvolvimento, deixando clara a posição do Estado Brasileiro
em reconhecer suas crianças e adolescentes como Sua garantia de continuidade e, portanto, detentoras de
direito à proteção diferenciada.
A Constituição da República de 1988 prevê no seu art. 227 os pilares da Doutrina da Proteção Integral
obrigando conjuntamente família, sociedade e Estado no dever de garantir à criança e ao adolescente os
cuidados necessários ao seu pleno desenvolvimento:
Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com
absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura,
à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda
forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.
O Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei nº 8.069/90, reafirma a previsão do art. 227 da Constituição
e, em seus primeiros artigos, engloba o espectro da proteção integral, colocando a criança e o adolescente como
centro das atenções no que diz respeito à proteção da pessoa humana, priorizando o atendimento de suas
necessidades nas esferas privada e pública.
Da legislação apresentada, verifica-se que por se reconhecer o menor de 18 anos como um ser humano
em desenvolvimento, não plenamente pronto e suficientemente desenvolvido para as lides da vida, há
necessidade de que as leis o protejam, uma vez que suas condições físicas e mentais o colocam em situação de
fragilidade frente ao mundo adulto.
Dito isso, é possível concluir que a legislação voltada à proteção das crianças e adolescente é,
genuinamente, norma de Direitos Humanos, visto que sua principal característica é a proteção dos mais
vulneráveis, sejam eles minorias ou não.

Saiba Mais...
No vídeo (disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=fMBNL4HFEOQ) “O que são Direitos
Humanos?”, a professora Glenda Mezaroba, mestre e doutora em Ciência Política, explica quais são as condições
mínimas que nos concedem uma vida digna e qual é o conceito geral dos direitos humanos. Assista-o, pois ele
o ajudará a compreender por que a legislação voltada à proteção das crianças e adolescente é, genuinamente,
norma de Direitos Humanos.
Aproveite e leia também o texto o Jogo dos Ricochetes do PRF Fabrício da Silva Rosa.

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Pode-se concluir que os conceitos que na antiguidade tratavam filhos como bens submetidos ao pai,
evoluíram para tratar os menores de 18 anos como pessoas em desenvolvimento e merecedoras de
tratamento especial e prioritário.
O reconhecimento da posição de fragilidade das crianças e adolescentes reforça o aspecto da legislação
que os protege como sendo essencialmente de direitos humanos, qualificando esse arcabouço normativo como
garantidor do desenvolvimento saudável do ser humano, implicando na adoção de posturas públicas e privadas
de garantias desse tratamento protetivo.

Saiba Mais...
Antes de prosseguir nos seus estudos, assista ao vídeo Parte 1 - Proteção integral à criança e ao
adolescente: responsabilidade coletiva (disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zsJitcDRbcI), do
Promotor Paulo Afonso Garrido de Paula, e responda:
Você tem conhecimento de ações voltadas à efetivação da doutrina da proteção integral na sua cidade?
Busque alguma ação do governo local, identifique o objetivo da ação e o perfil dos atendidos e
relacione como a ação atende aos princípios da doutrina da proteção integral.

Aula 2 – A Violência sexual contra crianças e adolescentes

Cabecinha boa de menino triste,
De menino triste que sofre sozinho,
Que sozinho sofre – e resiste.
Cabecinha boa de menino ausente,
Que de sofrer tanto se fez pensativo,
E não sabe mais o que sente…
Cabecinha boa de menino mudo,
Que não teve nada, que não pediu nada,
Pelo medo de perder tudo.
Cabecinha boa de menino santo
Que do alto se inclina sobre a água do mundo
Para mirar seu desencanto
Para ver passar numa onda lenta e fria
A estrela perdida da felicidade
Que soube eu não possuiria.
Cecília Meireles

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2.1 Compreendendo o conceito de violência

Antes de você estudar especificamente a violência sexual contra crianças e adolescentes, é necessário
conhecer alguns conceitos para uma construção sólida do entendimento do assunto.
Você estudou que as relações sociais se baseiam em papéis e se estabelecem pelo poder. Discorrendo
sobre as relações de poder, Foucault (1979, p.250) esclarece que “na medida em que as relações de poder são
uma forma desigual e relativamente estabilizada de forças, é evidente que implica de um em cima e um embaixo,
uma diferença de potencial”.
Ainda Foucault coloca o poder como correlação de forças e tensões dinâmicas que se exercem e se
reafirmam a todo momento:

(...) que o poder não é́ algo que se adquire, arrebate ou compartilhe, algo que se
guarde ou deixe escapar; o poder se exerce a partir de inúmeros pontos e em meio
a relações desiguais e moveis; que as relações de poder não se encontram em
posição de exterioridade com respeito a outros tipos de relações (processos
econômicos, relações de conhecimentos, relações sexuais), mas lhe são imanentes;
são os efeitos imediatos das partilhas, desigualdades e desequilíbrio que se
produzem nas mesmas e, reciprocamente, são as condições internas destas
diferenciações (FOUCAULT, 2009, p.104).

Pensando as relações de poder como se conhece e vivencia, e entendendo que elas normalmente se
estabelecem pela força (física ou psicológica), você é levado a pensar que em determinados momentos o ser
humano estará confrontando atos de violência em nome da aquisição ou manutenção de um status.

De olho na realidade...
Pare um minuto, vá até a internet e nos sites de notícias (UOL, G1, TERRA) verifique quantas notícias de
violência compõem a “primeira página” desses sites. Faça breves anotações sobre os tipos de violências
noticiados. Agora, escreva um conceito de violência para comparar com o que estudará a seguir.

Organização Mundial de Saúde (OMS) define violência como sendo:
“O uso intencional da força física ou poder, em uma forma de ameaça ou efetivamente, contra
si mesmo, outra pessoa, ou grupo ou comunidade que ocasiona ou tem grandes probabilidades de
ocasionar lesão, morte, dano psíquico, alterações do desenvolvimento ou privações” (OMS, 2002).

A violência é presença perene na história das civilizações. Não se encontra exceção à sua existência,
estando sempre relacionada, de alguma forma, à aquisição ou manutenção de poder. Neste sentido, Leal (1999,
p. 8) afirma que “a violência é um fenômeno antigo, produto de relações sociais construídas de forma desigual
e geralmente materializada contra aquela pessoa que se encontra em alguma desvantagem física, emocional e
social”.

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Importante!
É importante entender que violência sexual é gênero, da qual o abuso e a exploração sexual são
espécies. A diferença entre eles você verá mais a frente ainda nesta aula.

2.2 Discutindo os conceitos e as características da violência sexual

Para compreender a violência sexual é necessário aprofundar a conceituação de violência, adjetivá-la e
caracterizá-la, isso servirá de parâmetro para problematizar o assunto. As definições postas por Landini (2003)
no seu artigo “Pedófilo, quem és? A pedofilia na mídia impressa” são apresentadas, a seguir, divididas
didaticamente, a fim de ajudar na compreensão.

1 - Etimologia da palavra violência
Ao iniciar uma discussão a respeito da violência sexual, torna-se necessário problematizar, ainda que
rapidamente, ambos os termos: violência e sexual.
Tanto Zaluar (1999), quanto Michaud (1986), concordam que o termo violência vem do latim violentia,
o que, nas palavras de Michaud (1986 p. 4) – as quais estão de acordo com Zaluar – significa “violência, caráter
violento ou cruel, força. O verbo violare significa tratar com violência, profanar, transgredir. Esses termos devem
ser relacionados a vis (...). Mais profundamente, essa palavra vis significa a força em ação, o recurso de um corpo
para exercer sua força, e portanto a potência, o valor, a força vital”.

2 - Caracterização da Violência
Segundo a antropóloga brasileira, “essa força torna-se violência quando ultrapassa um limite ou
perturba acordos tácitos e regras que ordenam relações, adquirindo carga negativa ou maléfica. É, portanto, a
percepção do limite e da perturbação (e do sofrimento que provoca) que vai caracterizar um ato como violento,
percepção essa que varia cultural e historicamente” (Zaluar, 1999 p. 28). Em outras palavras, é possível dizer que
existe uma construção histórica e cultural a respeito do que é ou não considerado violência.

3 - Consideração da construção sobre a sexualidade
Entretanto, em se tratando de um tipo de violência específico – a violência sexual –, é preciso levar em
consideração que existe também uma construção a respeito da sexualidade.

4 - Diferenças culturais sobre sexualidade
Para Heilborn & Brandão (1999), o debate teórico sobre esse tema encontra-se dividido em duas
posições: de um lado, o essencialismo, cuja característica é a convicção em algo inerente à natureza humana,
um instinto ou energia sexual que conduz as ações e, de outro, o construtivismo social, que procura
problematizar a universalidade desse instinto, contrapondo a ideia de que os contatos corporais entre pessoas

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– que a sociedade ocidental chama de sexualidade – têm significados radicalmente distintos para as diferentes
culturas ou até para diferentes grupos da mesma cultura.

5 - A compreensão e interpretação das diferenças culturais
Richard Parker (1999, p. 131-132), concordando com essa segunda tendência, adiciona: “a
compreensão, surgida nos últimos anos, da sexualidade como socialmente construída tem redirecionado grande
parte da atenção da pesquisa antropológica e sociológica não apenas para os sistemas sociais e culturais que
modelam nossa experiência sexual, mas também para as formas através das quais interpretamos e
compreendemos essa experiência”.

O Caderno 5 da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD/MEC),
intitulado Proteger para Educar: a escola articulada com as redes de proteção de crianças e adolescentes traz a
seguinte definição para a violência sexual contra crianças e adolescentes:

A violência sexual é todo ato ou jogo sexual (homo ou heterossexual), entre adultos
e criança ou adolescente, que tem por finalidade obtenção da satisfação sexual do
adulto por meio da estimulação sexual do infante ou do jovem. Nessa situação, o
agressor pode se impor pela força, ameaça ou indução da vontade da vítima
(AMORIM, no prelo). Esse tipo de violência compromete a integridade física e
psicológica de crianças e adolescentes, interferindo no seu desenvolvimento físico,
psicológico, moral e sexual. No âmbito da família, constitui-se em uma violação ao
direito à sexualidade e à convivência familiar protetora. É um ato delituoso que
desestrutura a identidade da pessoa vitimada. (Caderno SECAD/MEC, 2007).

No site do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios encontra-se a seguinte definição de
violência sexual:
A violência sexual contra crianças e adolescentes é o envolvimento destes em
atividades sexuais com um adulto, ou com qualquer pessoa um pouco mais velha
ou maior, nas quais haja uma diferença de idade, de tamanho ou de poder, em que
a criança é usada como objeto sexual para gratificação das necessidades ou dos
desejos do adulto, sendo ela incapaz de dar um consentimento consciente por causa
do desequilíbrio no poder ou de qualquer incapacidade mental ou física.
Crianças e adolescentes não estão preparados física, cognitiva, emocional ou
socialmente para enfrentar uma situação de violência sexual. A relação sexualmente
abusiva é uma relação de poder entre o adulto que vitima e a criança que é
vitimizada.

Você deve ter observado, a partir da leitura e interpretação das definições apresentadas, alguns pontos
em comuns, não foi?

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• Uma criança ou adolescente vulnerável (sem condições físicas ou psicológicas de defesa ou
reação);
• Imposição da vontade de um adulto ou pessoa mais velha;
• Uso da força física ou psicológica; e
• O caráter sexual da ação.

Reunindo esses elementos, você irá se deparar com situações de violações de direitos, e em especial
de direitos sexuais, mas que normalmente vêm acompanhadas de outras violações decorrentes de um contexto
no qual a criança ou adolescente vive.
A violência contra crianças e adolescentes, principalmente a violência sexual, é multifatorial. Não é fruto
de uma única causa, mas de uma soma delas. Envolve aspectos culturais, sociais, econômicos e políticos,
apresentando raízes nas relações sociais de classe, gênero e etnia, o que possibilita concluir, com o respaldo de
Leal (1999, p.7) que a violência sexual é um fenômeno social, multifacetado e de enfrentamento complexo,
pois demanda análise profunda das variáveis que o compõem.

[...] a análise da violência contra crianças e adolescentes no Brasil deve ter como
referência as questões histórico-estrutural e cultural para compreensão do
fenômeno. Deve, ainda, considerar a dimensão territorial, a densidade demográfica
e a diversidade cultural, econômica e social, em função de o fenômeno apresentar-
se de diferentes formas em cada região.

2.3 Causas da violência sexual

Figueiredo e Bochi (2010), analisando a exploração sexual (uma espécie do gênero violência sexual
contra crianças e adolescentes), reafirmam que suas causas são várias e não estão necessariamente ligadas
à pobreza:

Considerada uma violação dos direitos de crianças e adolescentes, a exploração
sexual comercial se manifesta de maneira complexa e tem inúmeras interfaces. Trata-
se de um fenômeno mundial, que não está associado apenas à pobreza e à miséria.
Ao contrário do que muita gente imagina, a exploração sexual atinge todas as classes
sociais e está ligada também a aspectos culturais, como as relações desiguais entre
homens e mulheres, adultos e crianças, brancos e negros, ricos e pobres. Ao avaliar
esse fenômeno, é preciso considerar ainda fatores como a dimensão territorial do
Brasil e a densidade demográfica, pois a situação se apresenta de diversas maneiras
em cada região. Além disso, por ser ilegal e clandestina, a exploração sexual ainda
tem pouca visibilidade, sendo difícil de ser quantificada. (2010, p. 55)

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E que ao contrário do que se tende a pensar, a vulnerabilidade está muito mais ligada às construções
sociais dos papéis do feminino e do masculino, do adulto e do infantil na família e na sociedade do que à
classe social.

Geralmente materializada contra pessoas que estão em desvantagem física,
emocional e social, a violência é́ um fenômeno antigo, produto de relações
construídas de forma desigual. Historicamente, a violência vem sendo denunciada
no ambiente domestico/familiar contra mulheres, crianças e adolescentes de ambos
os sexos, sendo que as pesquisas têm confirmado que a incidência é maior entre as
meninas e as mulheres – daí a questão de gênero ser compreendida como um
conceito estratégico na análise desse fenômeno. (FIGUEIREDO; BOCHI, 2010, p. 56)

Várias pesquisas sobre a violência sexual apontam sua origem na lógica da masculinidade, na cultura
patriarcal, onde as mulheres e as crianças são tidas como objetos de propriedade e de satisfação do homem. A
educação nas sociedades patriarcais ensina comportamentos para meninos e meninas, separando-os pelo sexo,
criando papéis que 'deverão' seguir pela vida e, dentro dessas regras postas, encontram-se as que franqueiam
ao homem – o macho - a satisfação dos seus instintos naturais, ou seja, a satisfação de seu impulso sexual faz
parte das regras da natureza e apresenta-se como um direito legítimo.
Os valores e prerrogativas culturais que definem o papel sexual masculino tradicional são o poder, a
dominação, a força, a virilidade e a superioridade. Os valores e prerrogativas culturais que definem o papel
sexual feminino são a submissão, a passividade, a fraqueza e a inferioridade [...] Com o estereótipo da
supremacia masculina, os homens aprendem a ter expectativas sobre o seu nível de necessidades sexuais e
sobre a acessibilidade feminina. A dominação e a subordinação são sexualizadas, o que leva a ideia de que os
homens têm o direito aos serviços sexuais da mulher. Implicitamente o abusador assume que é sua prerrogativa
fazer sexo com qualquer mulher que ele escolhe. Ele tem o direito de usar as mulheres como objeto para seu
prazer. Uma vez que o uso das mulheres como objeto pelos homens esteja legitimado e enraizado na cultura, o
terreno está preparado para todas as formas de tráfico, prostituição, sexo turismo e abuso sexual de crianças e
adolescentes do sexo feminino e de mulheres (MAHONEY apud CECRIA, p. 4, 1997).

Saiba Mais...
Veja o filme “Anjos do Sol” (disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=r88WqyseFes), se não
puder ver tudo, concentre-se entre 15’ e 20’ 4”, reflita sobre as questões a seguir:
A história relatada, do filho que ao completar 15 anos é iniciado na vida sexual com a compra do sexo
pelo pai, é (ou foi) comum em nossa sociedade? As meninas, tão jovens quanto o menino, como são vistas e
tratadas pelos adultos?

Em uma pesquisa desenvolvida no Panamá e República Dominicana e apoiada pelo Programa
Internacional para Eliminação do Trabalho Infantil (IPEC) e pela Organização Internacional do Trabalho - OIT,
chamada Masculinidad y explotación sexual comercial. Un estudio cualitativo com hombres de la
populación general vários aspectos importantes são conclusivos sobre as causas da exploração sexual de
15
crianças e adolescentes, dentre as quais se destacam as que parecem mais relevantes e que corroboram a lógica
da masculinidade.
• O sexo com pessoas menores de idade confere prestígio ao homem, que se sente revigorado ao
praticá-lo, e lhe confere distinção frente aos outros homens, especialmente se a criança ou o adolescente for
virgem;
• A criança ou o adolescente é mais facilmente manipulável;
• O corpo da criança/adolescente é visto como objeto passível de aquisição;
• O sexo praticado principalmente com adolescentes é visto como direito do homem, pois seria
parte do ser masculino;
• Na concepção dos homens pesquisados, a idade da pessoa, ainda que seja menor, é irrelevante,
pois o que vale é a sua compleição física. Sendo assim, evidencia-se, nesse pensamento, o conceito de “corpo
mínimo” e não de “idade mínima”.
As conclusões apresentadas pelo estudo confirmam a lógica da masculinidade como elemento cultural
determinante na existência e perpetuação da violência sexual que afeta crianças e adolescentes.

2.4 Dados e informações sobre a violência sexual

Embora não haja números oficiais que quantifiquem quantas crianças e adolescentes sejam vítimas
desse tipo de violência ao redor do mundo, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) estima que,
anualmente, cerca de um milhão de menores de 18 anos sofram algum tipo de violência sexual. E, segundo
pesquisas da área médica, 1 em cada 3 ou 4 meninas e 1 em cada 7 ou 8 meninos irá sofrer algum tipo de
violência sexual até atingir 18 anos de idade (SADOCK apud AZAMBUJA et al., 2011).

Todo pedófilo é um abusador?
Não necessariamente. Pedofilia é uma doença, consta na Classificação Internacional de Doenças e
Problemas Relacionados à Saúde (CID) e diz respeito aos transtornos de personalidade causados pela
preferência sexual por crianças e adolescentes. O pedófilo, que pode ser um homem ou uma mulher,
heterossexual ou homossexual, não necessariamente pratica o ato de abusar sexualmente de crianças e
adolescentes. E nem todo abusador sofre do transtorno da pedofilia.
Por mais improvável que possa nos parecer, existem pedófilos que vivem uma vida inteira sem nunca
tocar sexualmente em uma criança.
Fonte: Programa Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual Contra Crianças e Adolescentes

No Brasil é possível se valer, como parâmetro de análise do problema, dos números de denúncias
recebidos pelo Disque 100. O serviço, criado em 1997 por ONGs ligadas à defesa de crianças e adolescentes,
passou a ser responsabilidade do governo federal em 2003. Com relação às denúncias, registra-se que foram
recebidas 120 em 2004 e, só no primeiro semestre de 2015, esse número passou para 21 mil, sendo que mais

16
de 4 mil diziam respeito à violência sexual contra crianças e adolescentes. Veja, a seguir, outros dados
relacionados ao Disque 100.

Números do Disque 100

No ano de 2013, o Disque 100 recebeu e encaminhou 124.079 denúncias de violação de direitos de
crianças e adolescentes. Desse total, 31.761 denúncias estão descritas em alguma modalidade de violência
sexual.
Até novembro 2014, foram recebidas 88.091 denúncias relacionadas a crianças e adolescentes. Dessas,
25% informam casos de violência sexual. Considerando os números da violência sexual, 84% são denúncias de
abuso sexual e 24% de exploração sexual.
No primeiro trimestre de 2015, o Disque 100 recebeu 21 mil denúncias de violência contra crianças e
adolescentes, das quais 4.480 (21%) foram de violência sexual. Em 85% dos casos, a denúncia dizia respeito a
abuso sexual.
No ranking das regiões que mais ofereceram denúncias de violência sexual contra crianças e
adolescentes em 2014 estão: Nordeste 30,7%; Sudeste 32,45 %; Sul 16,44 %; Norte 9,36 %; Centro-Oeste 10,41%.

Há ainda, o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) vinculado ao Ministério da
Saúde e em cuja base de dados são inseridas informações de doenças, agravos e eventos de saúde pública de
notificação compulsória que fornecem ao Poder Público informações importantes para tomada de decisões e
intervenções com o intuito de salvaguardar a vida da população.
Entretanto, os casos de abuso e violência doméstica só passaram a ser inseridos nesse sistema em
2009. Diferentes dos dados do Disque 100, que demandam ainda apuração para confirmação da violência e
identificação da vítima e dos responsáveis, os números do Sinan oferecem dados mais concretos, nos quais a
suposta vítima já se encontra identificada, oferecendo condições de uma intervenção mais rápida e requerendo
ação imediata.
Assim, na medida da competência de cada órgão, é necessário acessar esses dados e baseados neles,
estabelecer estratégias e rotinas de trabalho, para otimizar os recursos e oferecer proteção efetiva às crianças
e adolescentes vítimas de violência.
No Mapa da Violência – Crianças e Adolescentes do Brasil 2012 está registrado, com dados extraídos
do Sinan para o ano de 2011, 98.115 casos de violência doméstica/intrafamiliar, dos quais 39.281, ou seja, 40%
atingiu pessoas entre <1 e 19 anos de idade.

2.4.1 Exploração sexual X Abuso sexual

Você estudou que a violência sexual é gênero, da qual o abuso e a exploração sexual são espécies.
Agora irá compreender a diferença existente entre os dois.
Na página da Organização Não-Governamental Childhood há um quadro muito esclarecedor com as
principais diferenças entre a exploração sexual e o abuso sexual, observe:

17
Exploração sexual Abuso sexual
Pressupõe uma relação de mercantilização, na
qual o sexo é fruto de uma troca, seja ela Não envolve dinheiro ou gratificação
financeira, de favores ou presentes
Acontece quando uma criança ou
Crianças ou adolescentes são tratados como
adolescente é usado para estimulação ou
objetos sexuais ou como mercadorias
satisfação sexual de um adulto
É normalmente imposto pela força física, pela
Pode estar relacionada a redes criminosas
ameaça ou pela sedução
Pode acontecer dentro ou fora da família Pode acontecer dentro ou fora da família
Fonte: Chilhood (ONG)

Segundo o Guia de Referência – Construindo uma Cultura de Prevenção à Violência Sexual da
Childhood, o abuso sexual pode se dar com ou sem contato físico.

Abuso sexual sem contato físico
Abuso sexual sem contato físico normalmente envolverá o uso da violência psicológica, com ou sem
coerção, tendo em vista que o consentimento da criança ou adolescente é irrelevante. E suas modalidades serão:
• Abuso sexual verbal, que se materializará através de conversas (presenciais ou virtuais) sobre
atividades sexuais, destinadas a despertar o interesse ou a chocar a criança ou o adolescente.
• Exibicionismo, que será caracterizado pela exibição dos órgãos genitais ou pelo ato de se
masturbar em frente a crianças ou adolescentes.
• Voyeurismo, que é o ato de observar atos sexuais e os órgãos sexuais de outras pessoas quando
elas não desejam ser vistas. Normalmente, a situação é muito perturbadora para a criança ou adolescente que
se vê observado.
• A pornografia (como abuso e não como subespécie da exploração) é considerada abuso sexual
quando um adulto mostra material pornográfico à criança ou ao adolescente.

Abuso sexual com contato físico
Abuso sexual com contato físico corresponde a carícias nos órgãos genitais, tentativas de relações
sexuais, masturbação, sexo oral, penetração vaginal e anal. Essas violações possuem tipificação penal e, uma
vez comprovadas, implicam na apenação do abusador. Nos casos mencionados de abuso sem contato físico,
também é possível, se restar comprovado, a ocorrência do crime de Satisfação de lascívia mediante presença de
criança ou adolescente (art. 218 - A do CPB).

18
Importante!
Tanto o abuso quanto a exploração sexual podem acontecer dentro ou fora da família da vítima,
contudo, vale destacar que os números de denúncias recebidas pelo Disque 100 indicam que os casos
de abuso são mais recorrentes nas relações intrafamiliares.

Você sabe como proceder nos casos de suspeita de ocorrência de violência sexual ou outros tipos
de maus tratos contra crianças e adolescentes?
Conforme previsão do art. 13 do ECA, o Conselho Tutelar da localidade deve ser notificado
imediatamente.
Ressalta-se, ainda, que no art. 245 do ECA, há a previsão de infração administrativa para o médico,
professor ou responsável por estabelecimento de atenção à saúde e de ensino fundamental, pré-escola ou
creche que tenha conhecimento de maus tratos e não faça a comunicação à autoridade competente.

Para refletir..
“TJ considera prostituta e absolve fazendeiro”. (matéria disponível em:
http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/brasil/2014/07/03/interna_brasil,514051/tj-considera-
adolescente-prostituta-e-absolve-fazendeiro.shtml). Leia a reportagem e reflita sobre a situação colocada.
Em sua opinião, sem uma profunda mudança cultural é possível a modificação do quadro de violência
contra crianças e adolescentes?

Finalizando...

Neste módulo, você estudou que:

• A infância ficou ignorada por muitos anos, até começar a receber alguma distinção por volta do
século XVIII, quando então, na Europa, começa-se a compreender que ela é uma fase de vida distinta das demais,
merecendo, portanto, tratamento e atenção diferenciados;
• No Brasil não foi diferente, desde o descobrimento até ao alcance da maturidade legislativa
trazida pela Constituição da República em 1988, a infância era tratada ao sabor do pouco ou nenhum
discernimento cultural no qual se vivia;
• O Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei nº 8.069/90, reafirma a previsão do art. 227 da
Constituição e, em seus primeiros artigos, engloba o espectro da proteção integral, colocando a criança e o
adolescente como centro das atenções no que diz respeito à proteção da pessoa humana, priorizando o
atendimento de suas necessidades nas esferas privada e pública;
• É importante entender que violência sexual é gênero, da qual são espécies o abuso e a exploração
sexual;
• A violência contra crianças e adolescentes, principalmente a violência sexual, é multifatorial. Não
é fruto de uma única causa, mas de uma soma delas. Envolve aspectos culturais, sociais, econômicos e políticos,
apresentando raízes nas relações sociais de classe, gênero e etnia;

19
• Uma das diferenças entre exploração e abuso sexual é que a primeira pressupõe uma relação de
mercantilização, na qual o sexo é fruto de uma troca, seja ela financeira, de favores ou presentes;
• O abuso sexual pode se dar com ou sem contato físico;
• Várias pesquisas sobre a violência sexual apontam sua origem na lógica da masculinidade, na cultura
patriarcal, na qual as mulheres e as crianças são tidas como objetos de propriedade e de satisfação do
homem.

Exercícios

1. Considerando a doutrina da proteção integral adotada pela Constituição Federal e pelo
Estatuto da Criança e do Adolescente, leia atentamente os artigos abaixo.

CF - Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com
absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura,
à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda
forma de negligência, ______________, exploração, violência, crueldade e opressão.

ECA - Art. 3º. A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa
humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros
meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral,
espiritual e social, em condições de ______________ e de dignidade.

ECA - Art. 4º. É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar,
com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao
esporte, ao lazer, à ______________, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e
comunitária.

Os termos suprimidos dos textos acima são, respectivamente:
a) liberdade; prioridade; distração
b) perversidade; saciedade; atenção
c) profissionalização; qualidade; igualdade
d) discriminação; liberdade; profissionalização

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2. De acordo com Cançado Trindade, as normas protetivas de crianças e adolescentes podem ser
consideradas normas de Direitos Humanos, porque o Direito dos Direitos Humanos não rege as relações
entre iguais; opera precisamente na defesa:

a) da mobilização da sociedade
b) das barganhas da reciprocidade
c) dos ostensivamente mais fracos
d) de um equilíbrio abstrato entre as partes

3. A violência sexual é todo ato ou jogo sexual (homo ou heterossexual) entre adultos e criança
ou adolescente que, por meio da estimulação sexual do infante ou do jovem, tem por finalidade:

a) indução da vontade da vítima
b) violação ao direito à sexualidade
c) obtenção da satisfação sexual do adulto
d) desestruturação da identidade da pessoa vitimada

4. Você concorda com a afirmação: “a pobreza é a principal causa da exploração sexual de
crianças e adolescentes”?

21
Gabarito

1. Resposta Correta: Letra D
2. Resposta Correta: Letra C
3. Resposta Correta: Letra C
4. Orientação de resposta: Quando abordamos o assunto, a causa que normalmente se relaciona como
principal fator é a pobreza, entretanto, a pobreza não constitui, por si só, fator determinante para
identificarmos a criança e/ou o adolescente como vítima em potencial de exploração sexual.
Elementos culturais presentes em determinadas comunidades são, normalmente, mais relevantes no
momento de identificar a vulnerabilidade de determinados grupos do que a falta de recursos
materiais que possam envolvê-los.

22
MÓDULO
ASPECTOS RELACIONADOS À EXPLORAÇÃO
2 SEXUAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Apresentação do módulo
(...)
Lembranças de minha infância
Que eu não queria lembrar!
Lamentos já tão distantes,
Que eu não posso sufocar!
(...)
Quem disse que a meninice é tempo de se cantar?
Correr, pular, sonhar e brincar? ... (ALBERTON, 2005, pg. 122).

Neste módulo você estudará mais especificamente os conceitos, as características, os fatores, as
modalidades, as causas e os perfis (vítimas e exploradores) das pessoas envolvidas na exploração
sexual de crianças e adolescentes.

Objetivo do módulo

Ao final do módulo, você será capaz de:
• Conceituar, caracterizar e distinguir as modalidades de exploração sexual de crianças e adolescentes;
• Identificar os perfis das possíveis vítimas e dos exploradores;
• Identificar fatores de vulnerabilidade e risco para a ocorrência da exploração sexual de crianças e
adolescentes.

Estrutura do Módulo

Este módulo possui as seguintes aulas:

Este módulo está dividido nas seguintes aulas:

• Aula 1 – A exploração sexual de crianças e adolescentes: compreendendo a questão;
• Aula 2 – Vítimas, exploradores e causas da exploração sexual de crianças e adolescentes.

23
Aula 1 – A exploração sexual de crianças e adolescentes:
compreendendo a questão

1.1 Elementos do cenário
Em 1996, a humanidade avançou com a realização do I Congresso Mundial contra a Exploração Sexual
Comercial de Crianças e Adolescente. A partir daquele momento, criou-se um referencial teórico e uma
agenda para a ação que deveria ser cumprida pelos países signatários com a finalidade de erradicar e punir
severamente esse tipo de crime.
Bochi e Figueiredo, referindo-se ao evento, confirmam essa visão:

No mundo, o enfrentamento desse fenômeno ganhou maior impulso em 1996,
quando foi realizado o I Congresso Mundial contra a Exploração Sexual Comercial
de Crianças e Adolescentes, em Estocolmo, na Suécia. O congresso teve como
preocupação central construir um referencial que, estrategicamente, colocasse esse
problema numa dimensão dialética, que permitisse um entendimento a partir dos
pontos de vista histórico, cultural, econômico, social e jurídico. De acordo com a
Agenda de Ação de Estocolmo, esse fenômeno pode ser compreendido como todo
tipo de atividade em que as redes, os aliciadores e os clientes usam o corpo de um
menino ou menina para tirar vantagem ou proveito de caráter sexual com base numa
relação de exploração comercial e poder. A agenda também declara que o problema
é um crime contra a humanidade. (2010, p.58)

Do conceito adotado pela Agenda de Ação de Estocolmo é possível extrair os seguintes elementos que,
juntos, comporão o cenário para a configuração da exploração sexual de crianças e adolescentes:
• Sujeitos (vítima, explorador e abusador);
• Ação (exploração/abuso); e
• Lucro.

Leal (2003, p.8) conceitua a exploração sexual de crianças e adolescentes correlacionando demanda e
oferta agregadas por outros elementos constitutivos do fenômeno, o que guarda consonância com o conceito
da Agenda de Estocolmo:

Uma relação de mercantilização (exploração/dominação) e abuso (poder) do corpo
de crianças e adolescentes (oferta) por exploradores sexuais (mercadores),
organizados em redes de exploração local e global (mercado), ou por pais ou
responsáveis e por consumidores de serviços sexuais pagos (demanda).

24
Fica, portanto, evidente que para ocorrer a exploração a relação de poder é indispensável. É o adulto,
o mais forte, que se aproveita da fragilidade física e psíquica da criança ou adolescente e oferece-a como
mercadoria no comércio sexual, e esse comércio somente ocorre porque há demanda.

1.2 Modalidades de exploração sexual

Para Costa e Leite (2005, p.4), “a exploração sexual inclui o abuso sexual, as diversas formas de
prostituição, o tráfico e venda de pessoas, todo o tipo de intermediação e lucro com base na oferta/demanda
de serviços sexuais das pessoas, turismo sexual e pornografia infantojuvenil.”
Na Agenda de Ação de Estocolmo, a exploração sexual comercial de meninos, meninas e de
adolescentes é compreendida em quatro modalidades:
• Prostituição Infantil*
• Pornografia;
• Exploração sexual no contexto do turismo;
• Tráfico.
* É necessário observar que o termo “prostituição infantil” está aqui utilizado, pois trata-se de cópia das
modalidades conforme constam na Agenda de Estocolmo, mas é um termo em desuso e, em seu lugar deve-se
utilizar “exploração sexual de criança e adolescente”.)

Estude a seguir, sobre cada uma delas.

Prostituição
Atividade do mercado do sexo na qual atos sexuais são negociados em troca de dinheiro, da satisfação
de necessidades básicas (alimentação, vestuário, moradia) ou acesso ao consumo de bens e serviços. Trata-se
de prática pública e visível utilizada amplamente em todas as classes sociais e justificada pelo mito machista de
que a sexualidade masculina é incontrolável e é a profissão mais antiga do mundo. (CASTANHA, 2008, p.16).
A prostituição infantil é uma forma de exploração sexual comercial ainda que seja uma opção
voluntária da pessoa que está nesta situação (…) As crianças e os adolescentes por estarem submetidos às
condições de vulnerabilidade e risco social são considerados prostituídos (as) e não prostitutas (os). A
prostituição consiste em uma relação de sexo e mercantilização e num processo de transgressão”. (CECRIA,1997).
É válido ressaltar que, embora a classificação seja intitulada “prostituição”, quando falamos de
adolescente (porque quando o assunto é sexo com menores de 14 anos é considerado crime por violência
presumida), a vontade e o discernimento não estão plenamente desenvolvidos, por isso, não se pode
considerar que fizeram a opção livre e consciente para o exercício dessa profissão.
Figueiredo e Bochi (2010) reforçam esse entendimento relembrando o posicionamento da ONG
europeia Agência Internacional Católica para a Infância (BICE):

(...) quando se trata de crianças e adolescentes, que estão em processo de
crescimento e desenvolvimento, a prostituição não pode ser entendida como
qualquer outro trabalho, porque implica deteriorização física e psicológica da

25
pessoa, afeta sua individualidade, sua satisfação sexual e sua integridade moral. Essa
forma de troca de favores sexuais converte a pessoa prostituída em produto de
consumo, organizado em razão dos princípios econômicos de oferta e da demanda
(2010, p. 58).

É oportuno mencionar a fala da Procuradora do Trabalho de Minas Gerais, Maria Amélia Barcks Duarte,
prefaciando o Plano Nacional de Trabalho do Enfrentamento à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes
do Ministério Público do Trabalho:

Para início de conversa, fique claro: crianças não se prostituem; crianças são
prostituídas pela sociedade, pela pobreza dos seus pais, pela herança de violência
doméstica, pela impunidade que campeia na legislação penal e nos tribunais
brasileiros. A idade das crianças exploradas é cada vez menor, entre sete e dez anos.
Além de explorar as necessidades econômicas das vítimas, os homens, na sua
maioria, tiram proveito da vulnerabilidade social das meninas e adolescentes, que
fogem da miséria de suas casas e dos maus-tratos de pais, padrastos, irmãos e das
próprias mães. (...)
Essas meninas, chamadas de prostitutas por uma sociedade hipócrita, vendem a sua
virgindade, a sua ingenuidade e a sua infância por um prato de comida, um pacote
de bolacha, um chocolate, um caramelo, um tênis ou um batom. Essas crianças, que
nunca brincaram de bonecas, são violentadas em boleias de caminhão e
abandonadas nas madrugadas frias das rodovias que transportam a riqueza do País.
Os homens que usam essas meninas são pais de famílias que se apressam para
proteger seus filhos das desgraças que os rodeiam. São indivíduos que fecham as
portas de suas casas atemorizados com a violência dos bandidos. São
caminhoneiros, vereadores, prefeitos, doutores, sacerdotes, cidadãos acima de
qualquer suspeita. São homens em quem confiaríamos os destinos de nossas filhas.

Pornografia

A definição para esse termo é difícil porque os conceitos de criança e pornografia
diferem de país para país e referenciam convicções morais, culturais, sexuais, sociais
e religiosas que nem sempre se traduzem nas respectivas legislações. No entanto,
atualmente a pornografia infantil é considerada pelos especialistas como “todo
material audiovisual utilizando crianças num contexto sexual” ou, segundo a
INTERPOL, é “a representação visual da exploração sexual de uma criança,
concentrada na atividade sexual e nas partes genitais dessa criança”. Para os
especialistas participantes do Encontro sobre Pornografia Infantil na Internet,
realizado em maio de 1999 em Lyon, na França, significa “uma exposição sexual de
imagens de crianças, incluindo fotografias de sexo explícito, negativos, filmes,

26
projeções, revistas, vídeos e discos de computadores”. (FIGUEIREDO; BOCHI, 2010,
p. 58-59)

A definição jurídica adotada em nosso país é dada pelo Art. 2 alínea c do Protocolo Facultativo à
Convenção sobre os Direitos da Criança referente à venda de crianças, à prostituição infantil e à pornografia
infantil, adotado em Nova York em 25 de maio de 2000 e Ratificado pelo Brasil através do DECRETO Nº 5.007,
DE 8 DE MARÇO DE 2004, que a descreve assim:

Pornografia infantil significa qualquer representação, por qualquer meio, de uma criança envolvida em
atividades sexuais explícitas reais ou simuladas, ou qualquer representação dos órgãos sexuais de uma criança
para fins primordialmente sexuais.

Exploração sexual no contexto do Turismo

É a inclusão da exploração sexual nas atividades econômicas da cadeia do turismo,
envolvendo turistas nacionais e internacionais (demanda) e crianças, adolescentes e
jovens de setores pobres e/ou excluídos (oferta). O turismo pode ser autônomo ou
vinculado a pacotes turísticos que são vendidos aos clientes com serviço de prazer
sexual incluído nas atividades de entretenimento. (...) Os serviços sexuais
comercializados nas atividades econômicas do turismo é prostituição, que também,
muitas vezes, está associado ao tráfico de pessoas para fins sexuais ou para o
trabalho escravo. (CASTANHA, 2008, p.16- 17)

Tráfico de Pessoas para Fins Sexuais

a) A expressão "tráfico de pessoas" significa o recrutamento, o transporte, a
transferência, o alojamento ou o acolhimento de pessoas, recorrendo à ameaça
ou uso da força ou a outras formas de coação, ao rapto, à fraude, ao engano,
ao abuso de autoridade ou à situação de vulnerabilidade ou à entrega ou
aceitação de pagamentos ou benefícios para obter o consentimento de uma
pessoa que tenha autoridade sobre outra para fins de exploração. A exploração
incluirá, no mínimo, a exploração da prostituição de outrem ou outras formas
de exploração sexual, o trabalho ou serviços forçados, escravatura ou práticas
similares à escravatura, a servidão ou a remoção de órgãos;
b) (...)
c) O recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o acolhimento
de uma criança para fins de exploração serão considerados "tráfico de pessoas"
mesmo que não envolvam nenhum dos meios referidos da alínea a) do presente

27
Artigo; (Protocolo de Palermo, complementar à convenção das Nações Unidas
contra o Crime Organizado Transnacional)

Para refletir...
Se você investiu tempo assistindo ao filme “Anjos do Sol”, releia os conceitos acima e procure identificar
cada uma dessas modalidades de exploração sexual comercial dentro da narrativa do filme. Estão todas lá. O
pai que vende a filha. Aquele que compra como aliciador. O caminhoneiro que a transporta. O dono da boate
que a mantém em cárcere privado. A cafetina que leiloa as meninas e a outra que explora a prostituição através
da internet. Enfim, todas essas formas degradantes estão presentes nesse retrato fictício, mas inteiramente
baseado na nossa realidade social.

As quatro modalidades de exploração conceituadas também estão presentes em todo o país, variando
na forma de apresentação e na intensidade da ocorrência, de acordo com as características de cada região.

1.2.1 Mapeamento das modalidades de exploração sexual comercial de crianças e adolescentes
no Brasil

O Relatório final sobre a Exploração Sexual Comercial de Meninos e Meninas e de Adolescentes
na América Latina e Caribe (2001) mapeou as cinco regiões do Brasil e identificou as principais modalidades
de exploração sexual de crianças e adolescentes e suas formas de ocorrência, que são apresentadas a seguir.

Mapeamento das modalidades de exploração sexual comercial de crianças e adolescentes no
Brasil

Norte
- Exploração sexual (garimpos prostíbulos, portuária, cárcere privado, fazendas e garimpos);
- Prostituição nas ruas;
- Leilão de virgens.

Nordeste
- Turismo sexual;
- Exploração sexual comercial em prostíbulos;
- Pornoturismo;
- Prostituição de meninas e meninos de rua;
- Prostituição nas estradas.

28
Centro-Oeste
- Exploração sexual comercial em prostíbulos;
- Exploração sexual comercial nas fronteiras/redes de narcotráfico (Bolívia, Brasília, Cuiabá́ e municípios
do Mato Grosso);
- Prostituição de meninas e meninos de rua;
- Rede de prostituição (hotéis, etc.);
- Prostituição através de anúncios de jornais;
- Turismo sexual, ecológico e náutico;
- Prostituição nas estradas.

Sudeste
- Pornoturismo;
- Exploração sexual comercial em prostíbulos/cárcere privado - Exploração sexual comercial de meninos
e meninas de rua;
- Prostituição nas estradas do Sudeste.

Sul
- Exploração sexual comercial de meninos e meninas de rua/redes de narcotráfico;
- Denúncia de trafico de crianças;
- Prostituição nas estradas.

A análise do mapa permite inferir que a modalidade de exploração sexual apresentará variações de
acordo com as características da região e será influenciada pelos componentes da economia local, bem como
pelas questões culturais locais.
O aparecimento, o desaparecimento e a mudança das modalidades de exploração também são
influenciados pelas variações da economia local.

1.2.2 Formas de expressão da exploração sexual de crianças e adolescentes no Brasil

De acordo com o Relatório, a exploração sexual de crianças e adolescentes no Brasil é categorizada
em quatro formas de expressão, conforme atividade econômica:

Prostíbulo fechado

(...) prostíbulos fechados, principalmente onde há um mercado regionalizado com
atividades econômicas extrativistas em garimpos e que se apresenta sob formas
bárbaras, como cárcere privado, venda, tráfico, leilões de virgens, mutilações e
desaparecimento. Prostituição nas estradas (postos de gasolina) e portos marítimos.

29
Fonte: Relatório Final sobre a Exploração Sexual Comercial de Meninos e Meninas e
de Adolescentes na América Latina e Caribe (2001)

Menores em situação de rua

(...) Violência sofrida por crianças e adolescentes em situação de rua. Geralmente
saem de casa, onde foram vítimas de violência física e/ou sexual ou foram
submetidas a situações de extrema miséria ou negligência e passam a sobreviver nas
ruas usando o corpo como mercadoria para obter afeto e sustento. Trata-se,
principalmente, de adolescentes do sexo feminino, sendo comum também, entre
jovens do sexo masculino. Esta é uma situação observada nos grandes centros
urbanos e em cidades de porte médio.
Fonte: Relatório Final sobre a Exploração Sexual Comercial de Meninos e Meninas e
de Adolescentes na América Latina e Caribe (2001)

Turismo sexual

(...) Turismo sexual e a pornografia, principalmente nas regiões litorâneas de intenso
turismo, como as capitais da Região Nordeste do país. É marcadamente comercial,
organizada numa rede de aliciamento que inclui agências de turismo nacionais e
estrangeiras, hotéis, comércio de pornografia, taxistas e outros. Trata-se de
exploração sexual, principalmente de adolescentes do sexo feminino, pobres, negras
ou mulatas. Inclui o tráfico para países estrangeiros.
Fonte: Relatório Final sobre a Exploração Sexual Comercial de Meninos e Meninas e
de Adolescentes na América Latina e Caribe (2001)

Turismo portuário e de fronteira

(...) “Turismo portuário e de fronteiras, que acontece em regiões banhadas por rios
navegáveis da Região Norte, fronteiras nacionais e internacionais da Região Centro-
Oeste e zonas portuárias. Essa prática está voltada para a comercialização do corpo
infantojuvenil e começa a desenvolver-se para atender aos turistas estrangeiros. Mas
é a própria população local a principal usuária da prostituição de crianças e
adolescentes, nas regiões ribeirinhas. Nos portos, destina-se, principalmente, à
tripulação de navios cargueiros.
Fonte: Relatório Final sobre a Exploração Sexual Comercial de Meninos e Meninas e
de Adolescentes na América Latina e Caribe (2001)

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Importante!
É importante entender que na medida que as pesquisas e o próprio enfrentamento da violência sexual
contra crianças e adolescentes amadurecem, os conceitos e terminologias vão se adequando. Assim,
embora apareça na literatura estudada termos como “Prostituição Infantil”, “Turismo Sexual” e
“menor”, quando formos nos referir a crianças e adolescentes nesse contexto, devemos utilizar o termo
“exploração sexual”, e ao invés de “menor”, devemos usar “criança e adolescente”.

De olho na realidade...
Você conhece a realidade da exploração sexual comercial de crianças e adolescentes na sua região?
Pesquise a respeito e baseado nas modalidades apontadas acima, identifique as que ocorrem na sua cidade ou
na região onde você trabalha.

Aula 2 – Vítimas, exploradores e causas da exploração sexual de
crianças e adolescentes

2.1 O perfil das vítimas

As variações de incidência das modalidades de exploração sexual sugerem que a abordagem e o
enfrentamento da questão, para se tornarem efetivos, devem levar em conta a diversidade em que esta se
apresenta, pois o perfil das vítimas e dos exploradores poderá apresentar variações consideráveis que
requisitarão abordagens distintas.
Identificar o perfil das vítimas de exploração sexual representa um passo muito importante,
principalmente para a atuação preventiva no enfrentamento da exploração sexual de crianças e adolescentes.
As crianças e adolescentes vítimas de exploração sexual carregam consigo o estigma que pesa sobre a
infância, segundo o qual a criança e o adolescente são seres sem capacidade de expressão, são seres
subalternos.
Corroborando esse pensamento Cordeiro e Coelho (2006) em pesquisa sobre origens e evolução do
conceito de infância lecionam:

Recorrendo-se a definição da palavra infância, oriunda do latim infantia, significa
“incapacidade de falar”. Considerava-se que a criança, antes dos 7 anos de idade,
não teria condições de falar, de expressar seus pensamentos, seus sentimentos.
Desde a sua gênese, a palavra infância carrega consigo o estigma da incapacidade,
da incompletude perante os mais experientes, relegando-lhes uma condição

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subalterna diante dos membros adultos. Era um ser anônimo, sem um espaço
determinado socialmente.
Ao serem representadas, principalmente através de pinturas, geralmente aparecia
numa versão miniatura do adulto. Seus trajes não diferiam daqueles destinados aos
já crescidos. Notamos trata-se de crianças pelo fato dessas figuras se apresentarem
em tamanho reduzido, embora com rostos e musculatura de pessoas maduras
(CORDEIRO; COELHO, 2006, p.884).

Ampliando o que você já estudou sobre a infância no módulo 1, Faleiros (1997) ressalta que sua
conceituação se dá de acordo com os sistemas culturais vivenciados, sendo que a característica de incapacidade
e obrigação de submissão daqueles que se encontram nesse período da vida até muito pouco tempo era
legitimada inclusive juridicamente.

Nem sempre a infância foi vista como uma fase específica e própria da vida, e nem
a criança sempre foi considerada um sujeito de direitos. Até recentemente, no limiar
deste século, ela foi definida, inclusive juridicamente, como fase da incapacidade, da
tutela, da menoridade, com as obrigações de obediência e submissão (FALEIROS,
1997, p.4).

Na atualidade, o art. 2º do Estatuto da Criança e do Adolescente, lei nº 8.069/90, distingue a criança do
adolescente pela idade: Art. 2º Considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade
incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade. (grifo nosso). E, no art. 3º reconhece-
os, titulares de direitos e, principalmente, de cuidados especiais dadas às condições de desenvolvimento físico
e psíquico que se encontram, conforme já estudado anteriormente:

Art. 3º A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes
à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei,
assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e
facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual
e social, em condições de liberdade e de dignidade.

As vítimas de exploração sexual de crianças e adolescentes serão, portanto, pessoas de até 18 anos
incompletos, sendo consideradas crianças as que tenham até 12 anos incompletos e adolescentes os que
estejam entre 12 e 18 anos.
Estabelecida a faixa etária das pessoas que são o centro deste debate é necessário indagar se existe um
perfil que identificaria alguém como vítima em potencial da exploração sexual.

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Para refletir...
Existe um perfil de crianças e adolescentes que os tornariam mais propensos a serem vítimas de
violência sexual, em especial de exploração sexual? Com o que você estudou até agora somado às suas
experiências pessoais, anote em seu caderno (físico ou virtual) características que você considera como sendo
“marcas” de vulnerabilidade para a ocorrência desse tipo de crime.

Alguns outros dados trazidos do Sinan* pelo Mapa da Violência contra Crianças e Adolescentes (2012)
ajudam a traçar o perfil das vítimas e merecem nossa atenção:
• 60,3% das vítimas de violência são do sexo feminino, mas se refinarmos a pesquisa especificamente
para a violência sexual, as meninas (crianças e adolescentes) foram vítimas em 83,2% dos casos.
• Em 63,1% dos casos, a violação de direitos ocorre na própria residência das vítimas.
• 31,8% dos atendimentos decorrentes de violação de direitos foram de vítimas reincidentes.
• Das violências atendidas, 40,5% foram físicas e 19,9% sexuais. Nas violações sexuais, 30,3% das vítimas
tinham entre 5 e 9 anos; 28,3% entre 10 e 14 anos; 21,8% entre 1 e 4 anos; 10,9% entre 15 e 19 anos e 4,8%
menos de 1 ano.
*Sistema de Informação de Agravos de Notificação

Das pesquisas apresentadas, verifica-se a predominância das vítimas do sexo feminino, fato que
corrobora a vulnerabilidade feminina e a influência da cultura sexista.

2.1.1 perfil das vítimas na modalidade turismo sexual

A cartilha do Programa Turismo Sustentável e Infância (2007) traça um perfil das vítimas da exploração
na modalidade turismo sexual:
• É pobre, negra e mulher;
• Tem baixa escolaridade;
• Sai do interior do estado em busca de melhores condições de vida;
• É vítima de vários tipos de violência (psicológica ou física).

A partir dos dados apresentados, conclui-se que qualquer criança ou adolescente, devido às
fragilidades que as envolvem, podem ser vítimas de violência sexual. No entanto, em se tratando de exploração
sexual, as meninas adolescentes e em situação de vulnerabilidade social estão mais expostas a serem
vitimizadas.

2.2 Perfil dos Exploradores

Segundo o Guia de Referência da Childhood – Construindo uma Cultura de Prevenção à Violência
Sexual (2009, p.39) analisando o perfil de indivíduos que praticam violência sexual contra crianças e

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adolescentes, as conclusões apontam que os violadores não são necessariamente pessoas que têm hábitos
que os destaquem da população comum e permitam ser identificados com facilidade.

Estudos vêm apontando que o indivíduo que é adepto e/ou pratica pedofilia é
aparentemente normal, inserido na sociedade. Muitos desenvolvem atividades
sexuais normais com adultos, não têm uma fixação erótica única por crianças, mas
são fixados no sexo. Portanto, o desejo independe do objeto. Costumam ser
“pessoas acima de qualquer suspeita” aos olhos da sociedade, o que facilita a sua
atuação. Geralmente, não praticam atos de violência física contra a criança. Agem de
forma sedutora, conquistando a confiança da criança.

Considerando a pesquisa da Abrapia, realizada no triênio 2000-2003, o agressor aparece como sendo,
em mais de 90% dos casos, do sexo masculino, e em mais de 80% dos casos com mais de 18 anos de idade,
fixando-se a faixa etária preponderante entre 31 e 45 anos. Em um universo de 418 denúncias, dentro da mesma
pesquisa, foi identificado que em 54,55% dos casos o agressor tinha vínculo familiar com a vítima.
Nos casos de violência ocorrida no âmbito extrafamiliar em 17% dos casos o abusador era vizinho; em
21% dos casos o abusador mantinha algum tipo de relação de poder com a criança ou adolescente (professor,
babá, policial, médico, etc.) e em 45,32% dos casos eram mulheres ou homens que abusavam ou aliciavam a
vítima para satisfação própria.
No Mapa da Violência contra Crianças e Adolescentes (2012), os pais biológicos aparecem como os
principais violadores com 39,1% dos casos registrados, somando aos casos em que o autor da violência foi o
padrasto ou a madrasta, eleva-se esse índice para 44,5% dos casos registrados pelo sistema de saúde. Se forem
somados outros familiares e pessoas com vínculos afetivos, como namorados, chega-se a 52,8% dos casos. Só
em 12,1% dos casos o agressor é um completo desconhecido.

Para refletir...
Que conclusão você tira sobre os dados e as informações apresentados?

2.3 Causas da exploração sexual de crianças e adolescentes

Identificar as causas da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes significa identificar as fragilidades
que contribuem para que nossas crianças sejam vitimizadas. Quando se aborda o assunto, a causa que
normalmente se relaciona como principal fator é a pobreza, entretanto, a pobreza não constitui, por si só,
fator determinante para identificarmos a criança e/ou o adolescente como vítima em potencial de
exploração sexual.
Para Barros (2005, p.24), a associação da pobreza com a violência constitui uma perversidade, uma vez
que, mais ainda se estigmatiza os pobres como seres perigosos. Segundo Soares apud Barros (op. cit) é mais

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provável que haja um entrelaçamento de fatores nos quais a pobreza se encontra imbricada, mas, ela, por si só
e isoladamente, não pode ser apontada como causa da violência.
Tendo isso em vista, veja a seguir, os demais fatores que podem ser apontados como causa:

a) pobreza; (b) menor escolaridade; (c) menor acesso a oportunidades de trabalho;
(d) maior chance de sofrer o desemprego e o desamparo econômico e social; (e)
angústia e insegurança; (f) depressão da autoestima; (g) alcoolismo; (h) violência
doméstica; (i) geração de ambiente propício ao absenteísmo, à desatenção e à
rejeição dos filhos; (j) vivência da rejeição na infância, o que fragiliza o
desenvolvimento psicológico, emocional e cognitivo, rebaixa a autoestima, estilhaça
as imagens familiares que serviriam de referência positiva na construção da
identidade e na absorção de valores positivos da sociedade; (l) crianças e
adolescentes com esse histórico tendem a apresentar maior propensão a
experimentar deficiências de aprendizado (tanto por razões psicológicas quanto
pelo fato de que as limitações econômicas dos pais impedem a oferta de acesso a
escolas mais qualificadas, inclusive para lidar com essas deficiências e para estimular
os alunos, valorizando-os); (m) dificuldades na família, na escola e pressão para o
ingresso precoce no mercado de trabalho (mesmo que seja por uma participação
intermitente e informal) tendem a precipitar o abandono da escola, sobretudo no
contexto de desconforto e inadaptação, e de falta de motivação; (n) a saída da escola
reduz as chances de acesso a empregos e amplia a probabilidade de que o círculo
da pobreza se reproduza por mais uma geração; (o) configurando-se este quadro,
aumentam as probabilidades de que o adolescente experimente a degradação da
autoestima, especialmente se considerarmos o contexto social e cultural em que
prosperam os preconceitos, o padrão da dupla-mensagem e as artimanhas da
invisibilização (SOARES, 2004, p. 139).

Os fatores de risco existentes podem existir isoladamente em relação à criança ou envolver sua família,
comunidade e mesmo a sociedade na qual vive. Elementos culturais presentes em determinadas comunidades
são, normalmente, mais relevantes no momento de identificar a vulnerabilidade de determinados grupos do
que a falta de recursos materiais que possam envolvê-los.
Várias dimensões devem ser analisadas para que se chegue às causas da violência sexual e, em especial,
da exploração sexual de crianças e adolescentes. A obra Exploração Sexual Comercial de Meninos e Meninas e
de Adolescentes na América Latina e Caribe (Relatório Final – Brasil) sugere o estudo de dimensões que
contribuiriam para a ocorrência do fenômeno, categorizando-as da seguinte forma:
- Histórico Estruturais (Capitalismo/Globalização) – que impactaria nas relações de trabalho, na
geração de novas pobrezas, no aumento das desigualdades sociais, na construção da cultura de consumo, etc.;
- Culturais (multiculturais) – estão inseridos os conceitos e preconceitos decorrentes de gênero, etnia
e raça, e as interações sociais decorrentes da adoção desses conceitos e preconceitos;

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- Psicossociais (comportamento) – o não reconhecimento e por conseguinte a não legitimação do
grupo composto por crianças e adolescentes levaria a sociedade a excluí-los e estigmatizá-los, resultando em
sua exclusão;
- Legal – perpassa os aspectos de repressão, responsabilização e legislação, com seus mecanismos;
- Valores (ética) – os valores adotados socialmente influenciam decisivamente sobre a forma como as
relações pessoais e interpessoais se processam; dentro da cultura capitalista há uma mercantilização das
relações sociais, que passam a ser regidas pela lógica do consumo;
- Política (políticas públicas) – mobiliza a capacidade de resposta governamental e social na
prevenção do fenômeno e na atenção dirigida às crianças e adolescentes.

Investigar as dimensões apresentadas, correlacionando-as aos casos verificados, facilitaria uma
intervenção eficaz para fazer cessar a violência verificada e mudar o rumo da história das vítimas. Mas, para
além dos casos em concreto, é preciso extrair lições para as ações de prevenção.
Na mesma linha de entendimento do fenômeno da exploração sexual de crianças e adolescentes, o
Training Manual to Fight Trafficking in Children for Labour, Sexual and Other Forms of Exploitation
enumera, exemplificando, fatores que devem ser estudados. São eles:
• Individual;
• Familiar;
• Comunitário; e
• Institucional.

Segundo o autor, esses fatores podem apresentar-se como fator de risco e colocar em vulnerabilidade
determinada criança/adolescente ou determinado grupo.

A seguir estude sobre cada um deles.

Em termos individuais, como fatores de risco pessoal, podem ser considerados aspectos relacionados
a (ao):
• Sexo;
• Idade,
• Grupo Étnico;
• Registro de Nascimento;
• Separação da Família;
• Deficiência;
• Nível Educacional;
• Posição Hierárquica Familiar;
• Falta de conhecimento sobre a vida extrafamiliar;
• Exposição à pressão negativa de companheiro.

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Em termos familiares, podem ser identificados os fatores relacionados aos seguintes aspectos:
• Família monoparental ou ausência continuada de um dos pais;
• Famílias com muitos filhos;
• Renda insuficiente;
• Grupo Étnico ou casta;
• Doença ou morte na família;
• Preferência por crianças do sexo feminino ou masculino;
• Violência intrafamiliar;
• Dívidas;
• Tradições discriminatórias ou práticas culturais;
• Tradição de migração.

Como fatores de risco comunitários, as seguintes situações podem influenciar na ocorrência da
exploração de crianças e adolescentes:
• Desemprego juvenil;
• Violência na comunidade;
• Localização;
• Acessibilidade a escolas e centros de treinamento;
• Conexão viária e transportes;
• Liderança comunitária e estruturas governamentais;
• Policiamento, serviços localizados;
• Centros de entretenimento e centros comunitários;
• Histórico de migração.

No aspecto institucional, os seguintes aspectos podem ser considerados para identificação de fatores
de risco:
• Geografia;
• Desastres naturais;
• Estado de paz ou conflito;
• Economia;
• Regime de serviços sociais;
• Discriminação;
• Nível de corrupção;
• Força normativa.

Pelo que você estudou até aqui é possível concluir que o enfrentamento da exploração sexual de
crianças e adolescentes, para ser feito de forma adequada e eficaz, demanda conhecimento do local em que
ocorre, dos costumes e hábitos dos grupos sociais envolvidos na exploração, das condições em que vivem as

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crianças e adolescentes explorados, entre outros aspectos pontuais. E, em posse de tais conhecimentos, viabiliza-
se a identificação das causas específicas e permite que sejam criadas estratégias adequadas de prevenção.

Saiba Mais...
Antes de prosseguir, leia o texto “Quando as putas são nossas” (disponível em:
http://www.dialogosdosul.org.br/quando-as-putas-sao-nossas/31052015/) de autoria de Ilka Olívia Corado.

Finalizando...

Neste módulo, você estudou que:

• Em 1996 a humanidade avançou com a realização do I Congresso Mundial contra a Exploração Sexual
Comercial de Crianças e Adolescente. A partir daquele momento, criou-se um referencial teórico e uma agenda
para a ação.
• Do conceito adotado pela Agenda de Ação de Estocolmo é possível extrair os seguintes elementos
que, juntos, comporão o cenário para a configuração da exploração sexual de crianças e adolescentes: sujeitos
– vítima, explorador e abusador –; ação (exploração/abuso) e lucro.
• Na Agenda de Ação de Estocolmo, a exploração sexual comercial de meninos, meninas e de
adolescentes é compreendida em quatro modalidades: prostituição infantil; pornografia; turismo sexual e tráfico.
• A modalidade de exploração sexual apresentará variações de acordo com as características da região
e será influenciada pelos componentes da economia local, bem como pelas questões culturais locais.
• De acordo com o Relatório final sobre a Exploração Sexual Comercial de Meninos e Meninas e de
Adolescentes na América Latina e Caribe (2001), a exploração sexual de crianças e adolescentes no Brasil é
categorizada em quatro formas de expressão, conforme atividade econômica: prostíbulo fechado; menores em
situação de rua; turismo sexual e pornografia; e turismo portuário e de fronteira.
• Das pesquisas apresentadas verifica-se a predominância das vítimas do sexo feminino, fato que
corrobora a vulnerabilidade feminina e a influência da cultura sexista.
• Considerando a pesquisa da Abrapia, realizada no triênio 2000-2003, o agressor aparece como sendo,
em mais de 90% dos casos, do sexo masculino, e em mais de 80% dos casos com mais de 18 anos de idade,
fixando-se a faixa etária preponderante entre 31 e 45 anos. Em um universo de 418 denúncias, dentro da mesma
pesquisa, foi identificado que em 54,55% dos casos o agressor tinha vínculo familiar com a vítima.
• Os fatores de risco existentes podem existir isoladamente em relação à criança ou envolver sua família,
comunidade e mesmo a sociedade na qual vive. Elementos culturais presentes em determinadas comunidades
são, normalmente, mais relevantes no momento de identificar a vulnerabilidade de determinados grupos do
que a falta de recursos materiais que possam envolvê-los.

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Exercício

1. De acordo com a Agenda de Ação de Estocolmo, a exploração sexual comercial de crianças e
adolescentes é um fenômeno que pode ser compreendido como todo tipo de atividade em que as redes,
os aliciadores e os clientes usam o corpo de um menino ou menina para tirar vantagem ou proveito de
caráter sexual com base numa relação de exploração comercial é:

a) poder.
b) prazer.
c) hipocrisia.
d) prostituição.

2. Na Agenda de Ação de Estocolmo, a exploração comercial de meninos, meninas e de
adolescentes é compreendida nas seguintes modalidades:

a) Prostituição Infantil, Pornografia, Turismo Sexual e Tráfico.
b) Vulnerabilidade, Mercantilização, Satisfação Sexual e Tráfico.
c) Prostituição Infantil, Vitimização, Mercantilização e Violação.
d) Vulnerabilidade, Turismo Sexual, Vitimização e Violação.

3. Na Agenda de Ação de Estocolmo, a exploração comercial de meninos, meninas e de adolescentes é
compreendida em quatro modalidades. Encontre-as neste diagrama: (Esperar o Rafa fazer para a
diagramação)
V I O P I Ç Ã O T E S
T N T R Á F I C O N P
U D R O T I X L U B O
R U A S V A O N T R I
I Ç I T I Ç A E U U S
S Ã O I T Ã N R R N M
M O P T I O X A I Z E
O S R U M E I B S E R
S E O I A L E I M B C
E X S Ç O Ã I L O R A
X U T Ã P O D I R A N
U A I O Z I U D U L T
A L B I Ç Ã O A A E I
L T U N E L M D R T L
E L L F A F I O M E I
M F O A V I L T A R Z
P O R N O G R A F I A
C R A T M D I D Ç L Ç
I M V I O L A Ç Ã O Ã
A V I L T A Ç Ã O T O

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4. No enfrentamento da exploração sexual de crianças e adolescentes, identificar o perfil das
vítimas de exploração sexual representa um passo muito importante principalmente para:
a) punir os exploradores.
b) atuar preventivamente.
c) desbaratar redes de aliciadores.
d) processar as famílias envolvidas.

40
Gabarito

1. Resposta Correta: Letra A
2. Resposta Correta: Letra A
3. Resposta Correta:

4. Resposta Correta: Letra B

MÓDULO
ASPECTOS LEGAIS SOBRE A TEMÁTICA
41
3
Apresentação do módulo

Neste módulo você estudará a legislação vigente aplicável aos casos de violência sexual.

Objetivo do módulo

Ao final do módulo, você será capaz de:

• Acompanhar a evolução normativa nacional e internacional de enfrentamento à violência sexual
contra crianças e adolescentes;
• Identificar os artigos do Código Penal Brasileiro e do Estatuto da Criança e do Adolescente relativos
ao enfrentamento da violência sexual.

Estrutura do Módulo

Este módulo é composto pela seguinte aula:

• Aula 1 – A proteção normativa

Aula 1 – A Proteção Normativa

1.1 Marcos legais nacionais e internacionais

A base normativa que apoia o enfrentamento à violência contra crianças e adolescentes vem sendo
fortalecida e adequada ao longo dos anos, fruto do amadurecimento e do entendimento do problema. Nesse
cenário, o Brasil vem, aos poucos, adequando-se normativamente aos princípios declarados pela Constituição
de 1988.
Com o objetivo de auxiliá-lo na compreensão dessa base, o infográfico a seguir apresenta, lado a lado,
os marcos legais nacionais e internacionais, com o respectivo ano de promulgação.

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Foram considerados marcos legais: planos e políticas governamentais decorrentes da assinatura, pelo
Brasil, de convenções, tratados e outros instrumentos nacionais e internacionais.

Marcos Nacionais

1940 - Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 – Código Penal – Dos Crimes Contra os
Costumes.
1988 - Constituição da República Federativa do Brasil.
1990 - Estatuto da Criança e do Adolescente.
1996 - Plano Nacional de Direitos Humanos.
2001 - Política Nacional de Redução da Morbimortalidade Por Acidentes e Violências.
2002 - Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual Infanto-juvenil.
2003 - Programa Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes
(PNEVSCA).
2004
• Política Nacional de Assistência Social.
• Plano Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil e Proteção ao Trabalhador
Adolescente.
• Plano Nacional de Política Para Mulheres.
2006
• Plano Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Seres Humanos.
• Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo.
• Política Nacional de Educação Infantil: Pelos Direitos de Crianças de 0 a 6 anos à Educação.
• Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa do Direito de Crianças e Adolescentes à
Convivência Familiar e Comunitária.
• Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual Infanto-juvenil: uma política em
Movimento.
2007
• Programa de Ações Integradas e Referenciais de Enfrentamento à Violência Sexual contra
Crianças e Adolescentes no Território Brasileiro.
• Plano Decenal dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes.
2008
• Plano Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas.
• CPI da Pedofilia.
• Lei nº 11.829/08 – Altera o ECA para redefinir e ampliar crimes relativos à pornografia envolvendo
crianças e adolescentes.
2009 - Lei nº 12.015/09 – Altera, entre outros, o Título VI do Código Penal Brasileiro, passando a
denominá-lo “Crimes contra a Dignidade Sexual”.
2010

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• Plano Nacional dos Direitos Humanos – PNDH3.
• Plano Nacional pela Primeira Infância.
2013
• Publicação da segunda revisão do Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual contra
Crianças e Adolescentes

Marcos Internacionais

1948 - Declaração Universal dos Direitos Humanos.
1959 - Declaração Universal dos Direitos das Crianças.
1989 - Convenção da ONU sobre os Direitos das Crianças.
2000 - Protocolos Facultativos à Convenção:
• Relativo à participação de crianças em conflitos armados;
• Relativo à venda de crianças, à prostituição infantil e à pornografia infantil;
• Convenção 182 da OIT – focada na proibição e ação imediata para eliminação das piores formas de
trabalho infantil;
• Convenção contra a Criminalidade Organizada – Protocolo adicional para prevenção, repressão e
punição do tráfico de pessoas.

Todas as normas enumeradas guardam relação entre si, umas apoiam ou instrumentalizam as outras,
na sequência cronológica de aparição. Não obstante, é bem possível que se for revê-las, ainda encontrará
lacunas que permitam ou facilitem a ocorrência de violência sexual*, mas os esforços têm sido grandes para
fazer materializar a doutrina da proteção integral e da prioridade absoluta para crianças e adolescentes na
sociedade brasileira.
* mais adiante você estudará sobre a exploração sexual no contexto da prostituição sem intermediários
de adolescentes entre 14 e 18 anos.

Leia, a seguir, os comentários sobre as legislações ou normas que merecem destaques no conjunto
apresentado.

1.1.1 O Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Infanto-Juvenil (PNEVIJ)

Dos Planos mencionados, merece destaque a estruturação trazida pelo PNEVIJ de 2000 (e confirmada
nas suas revisões), que diz respeito à definição dos seis eixos estratégicos que devem orientar a estruturação
de ações no enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes.

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Análise da Situação: Conhecer o fenômeno da violência sexual contra crianças e adolescentes em todo
o país, o diagnóstico da situação do enfrentamento da problemática, as condições e garantia de financiamento
do Plano, o monitoramento e a avaliação do Plano e a divulgação de todos os dados e informações à sociedade
civil brasileira.
Mobilização e Articulação: Fortalecer as articulações nacionais, regionais e locais de combate e pela
eliminação da violência sexual; comprometer a sociedade civil no enfrentamento dessa problemática; divulgar
o posicionamento do Brasil em relação ao sexo turismo e ao tráfico para fins sexuais e avaliar os impactos e
resultados das ações de mobilização.
Defesa e Responsabilização: Atualizar a legislação sobre crimes sexuais, combater a impunidade,
disponibilizar serviços de notificação e capacitar os profissionais da área jurídico-policial; implantar e
implementar os Conselhos Tutelares, o SIPIA e as Delegacias especializadas de crimes contra crianças e
adolescentes.
Atendimento: Efetuar e garantir o atendimento especializado, e em rede, às crianças e aos
adolescentes em situação de violência sexual e às suas famílias, por profissionais especializados e capacitados.
Prevenção: Assegurar ações preventivas contra a violência sexual, possibilitando que as crianças e
adolescentes sejam educados para o fortalecimento da sua auto defesa; atuar junto à Frente Parlamentar no
sentido da legislação referente à internet.
Protagonismo Infanto-juvenil: Promover a participação ativa de crianças e adolescentes pela defesa
de seus direitos e comprometê-los com o monitoramento da execução do Plano Nacional.

O mais interessante desses eixos é que há a possibilidade de alinhamento das ações desenvolvidas
dentro das Instituições definindo o foco do enfrentamento à violência sexual, potencializando assim, ainda
que em ações pontuais, a atuação estatal no enfrentamento desse problema.

Exemplo
Dentro do eixo da defesa e responsabilização houve a atualização do Código Penal Brasileiro (CPB) que
mudou o objeto jurídico dos crimes sexuais. O que antes era tutelado pela moralidade e o pátrio-poder, com a
mudança, passou a tutelar a integridade física e psíquica da pessoa humana. Outra característica marcante da
legislação revogada foi o foco na mulher como vítima, o que em tese não deveria ser ruim, uma vez que,
historicamente, a mulher sempre se viu em situação de vulnerabilidade, entretanto, as razões do olhar sobre a
mulher dizia mais respeito à concepção sexista dos papéis desempenhados por homens e mulheres na
sociedade, do que pela proteção de que seria merecedora
Outra situação relevante recaiu sobre o fato de que, antes da mudança da lei, os artigos de 213 a 218
do CPB, nos quais estão descritos crimes considerados contra os costumes, tratavam a violência sexual, em
grande parte, como sendo assunto da esfera privada. Dessa forma, o Estado era impedido de agir de ofício. O
interessado deveria provocá-lo se tivesse interesse, vez que a ação penal era privada. O dono da ação era o
ofendido ou seu representante legal e, no caso da vítima ser criança ou adolescente, o abusador saía impune
caso o representante legal optasse por não oferecer a queixa-crime.

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As exceções ocorriam no caso da família ser pobre quando a ação penal tornava-se pública
condicionada e no caso do crime ter sido cometido com abuso do pátrio poder ou por alguém na qualidade de
tutor ou curador, em que a ação passava a ser pública incondicionada.

1.1.2 Outras mudanças advindas da Lei n° 12.015/09

Com o advento da Lei n° 12.015, de 07 de agosto de 2009, profundas reformulações foram feitas,
representando um avanço na proteção às vítimas e principalmente rompendo com alguns conceitos
sexistas que impregnavam as normas penais que tratavam dos crimes sexuais.
O Título VI do Decreto Lei nº 2828/40 recebeu a denominação de “Dos Crimes Contra a Dignidade
Sexual”, mudando o objeto jurídico de proteção, tratando os direitos sexuais como direitos humanos, focando
a proteção na dignidade do ser humano.
Nesse sentido, visando ao combate da exploração sexual, várias mudanças foram implementadas,
criando-se alguns tipos específicos aplicáveis a crianças e adolescentes, que podem ser constatados pelo
fato de: o CPB referir-se a isso expressamente, ou por tratar o vulnerável como vítima (situação que abrange
crianças e adolescentes por conta de suas especificidades, conforme já visto).

Veja, a seguir, uma comparação entre o texto anterior do CPB e o atual. Observe as diferenças.

CPB antes da Lei nº 12.015/09 CPB após a Lei nº 12.015/09

Estupro Estupro
Art. 213 - Constranger mulher à conjunção carnal, Art. 213. Constranger alguém, mediante violência ou
mediante violência ou grave ameaça: grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar
Pena - reclusão, de 6 (seis) a 10 (dez) anos. ou permitir que com ele se pratique outro ato
libidinoso:
Pena - reclusão, de 6 (seis) a 10 (dez) anos.
§ 1º - Se da conduta resulta lesão corporal de
natureza grave ou se a vítima é menor de 18
(dezoito) ou maior de 14 (catorze) anos:
Pena - reclusão, de 8 (oito) a 12 (doze) anos.
§ 2º - Se da conduta resulta morte:
Pena - reclusão, de 12 (doze) a 30 (trinta) anos.

Posse sexual mediante fraude Violação sexual mediante fraude
Art. 215 - Ter conjunção carnal com mulher, Art. 215. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato
mediante fraude: libidinoso com alguém, mediante fraude ou outro
Pena - reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos. meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de
vontade da vítima:
Pena - reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos.

46
Parágrafo único - Se o crime é praticado contra Parágrafo único. Se o crime é cometido com o fim de
mulher virgem, menor de 18 (dezoito) e maior de 14 obter vantagem econômica, aplica-se também multa.
(catorze) anos:
Pena - reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos.

Assédio sexual Assédio sexual
Art. 216-A. Constranger alguém com o intuito de Art. 216-A. ....................................................................
obter vantagem ou favorecimento sexual, § 2º - A pena é aumentada em até um terço se a
prevalecendo-se o agente da sua condição de vítima é menor de 18 (dezoito) anos.
superior hierárquico ou ascendência inerentes
ao exercício de emprego, cargo ou função86.
Pena - detenção, de 1 (um) a 2 (dois) anos.
Parágrafo único. (VETADO)

Estupro de vulnerável
Art. 217-A. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato
libidinoso com menor de 14 (catorze) anos:
Pena - reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos.
§ 1º - Incorre na mesma pena quem pratica as ações
descritas no caput com alguém que, por
enfermidade ou deficiência mental, não tem o
necessário discernimento para a prática do ato, ou
que, por qualquer outra causa, não pode oferecer
resistência.
§ 2º - (VETADO)
§ 3º - Se da conduta resulta lesão corporal de
natureza grave:
Pena - reclusão, de 10 (dez) a 20 (vinte) anos.
§ 4º - Se da conduta resulta morte:
Pena - reclusão, de 12 (doze) a 30 (trinta) anos

CAPÍTULO II CAPÍTULO II
DA SEDUÇÃO E DA CORRUPÇÃO DE MENORES DOS CRIMES SEXUAIS CONTRA VULNERÁVEL
Art. 218 - Corromper ou facilitar a corrupção de Art. 218. Induzir alguém menor de 14 (catorze) anos
pessoa maior de 14 (catorze) e menor de 18 a satisfazer a lascívia de outrem:
(dezoito) anos, com ela praticando ato de Pena - reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos.
libidinagem, ou induzindo-a a praticá-lo ou
presenciá-lo:
Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos.

Satisfação de lascívia mediante presença de
criança ou adolescente
Art. 218 - A. Praticar, na presença de alguém menor
de 14 (catorze) anos, ou induzi-lo a presenciar,

47
conjunção carnal ou outro ato libidinoso, a fim de
satisfazer lascívia própria ou de outrem:
Pena - reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos.

Favorecimento da prostituição ou outra forma de
exploração sexual de vulnerável
Art. 218-B. Submeter, induzir ou atrair à prostituição
ou outra forma de exploração sexual alguém menor
de 18 (dezoito) anos ou que, por enfermidade ou
deficiência mental, não tem o necessário
discernimento para a prática do ato, facilitá-la,
impedir ou dificultar que a abandone:
Pena - reclusão, de 4 (quatro) a 10 (dez) anos.
§ 1° Se o crime é praticado com o fim de obter
vantagem econômica, aplica-se também multa.
§ 2° Incorre nas mesmas penas:
I - quem pratica conjunção carnal ou outro ato
libidinoso com alguém menor de 18 (dezoito) e
maior de 14 (catorze) anos na situação
descrita no caput deste artigo;
II - o proprietário, o gerente ou o responsável pelo
local em que se verifiquem as práticas referidas no
caput deste artigo.
§ 3° Na hipótese do inciso II do § 2o, constitui efeito
obrigatório da condenação a cassação da licença de
localização e de funcionamento do estabelecimento.

Ação penal Ação penal
Art. 225 - Nos crimes definidos nos capítulos Art. 225. Nos crimes definidos nos Capítulos I e II
anteriores, somente se procede mediante queixa. deste Título, procede-se mediante ação penal
§ 1º - Procede-se, entretanto, mediante ação pública: pública condicionada à representação.
I - se a vítima ou seus pais não podem prover às Parágrafo único. Procede-se, entretanto, mediante
despesas do processo, sem privar-se de recursos ação penal pública incondicionada se a vítima é
indispensáveis à manutenção própria ou da família; menor de 18 (dezoito) anos ou pessoa vulnerável.
II - se o crime é cometido com abuso do pátrio
poder, ou da qualidade de padrasto, tutor ou
curador.
§ 2º - No caso do nº I do parágrafo anterior, a ação
do Ministério Público depende de
representação.

48
CAPÍTULO V CAPÍTULO V
DO LENOCÍNIO E DO TRÁFICO DE PESSOAS DO LENOCÍNIO E DO TRÁFICO DE PESSOA PARA
FIM DE PROSTITUIÇÃO OU OUTRA FORMA DE
EXPLORAÇÃO SEXUAL

Favorecimento da prostituição Favorecimento da prostituição ou outra forma de
Art. 228 - Induzir ou atrair alguém à prostituição, exploração sexual
facilitá-la ou impedir que alguém a abandone: Art. 228. Induzir ou atrair alguém à prostituição ou
Pena - reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos. outra forma de exploração sexual, facilitá-la, impedir
§ 1º - Se ocorre qualquer das hipóteses do § 1º do ou dificultar que alguém a abandone:
artigo anterior: Pena - reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa.
Pena - reclusão, de 3 (três) a 8 (oito) anos. § 1° Se o agente é ascendente, padrasto, madrasta,
§ 2º - Se o crime é cometido com emprego de irmão, enteado, cônjuge, companheiro, tutor ou
violência, grave ameaça ou fraude: curador, preceptor ou empregador da vítima, ou se
Pena - reclusão, de 4 (quatro) a 10 (dez) anos, além assumiu, por lei ou outra forma, obrigação de
da pena correspondente à violência. cuidado, proteção ou vigilância:
§ 3º - Se o crime é cometido com o fim de lucro, Pena - reclusão, de 3 (três) a 8 (oito) anos.
aplica-se também multa.

Casa de prostituição
Art. 229 - Manter, por conta própria ou de terceiro, Art. 229. Manter, por conta própria ou de terceiro,
casa de prostituição ou lugar destinado a encontros estabelecimento em que ocorra exploração sexual,
para fim libidinoso, haja, ou não, intuito de lucro ou haja, ou não, intuito de lucro ou mediação direta do
mediação direta do proprietário ou gerente: proprietário ou gerente:
Pena - reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa.

Rufianismo Rufianismo
Art. 230 - Tirar proveito da prostituição alheia, Art. 230. .....................................................................
participando diretamente de seus lucros ou fazendo- § 1º - Se a vítima é menor de 18 (dezoito) e maior de
se sustentar, no todo ou em parte, por quem a 14 (catorze) anos ou se o crime é cometido por
exerça: ascendente, padrasto, madrasta, irmão, enteado,
Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa. cônjuge, companheiro, tutor ou curador, preceptor
§ 1º - Se ocorre qualquer das hipóteses do § 1º do ou empregador da vítima, ou por quem assumiu, por
art. 227: lei ou outra forma, obrigação de cuidado, proteção
Pena - reclusão, de 3 (três) a 6 (seis) anos, além da ou vigilância:
multa. Pena - reclusão, de 3 (três) a 6 (seis) anos, e multa.
§ 2º - Se há emprego de violência ou grave ameaça: § 2º - Se o crime é cometido mediante violência,
Pena - reclusão, de 2 (dois) a 8 (oito) anos, além da grave ameaça, fraude ou outro meio que impeça ou
multa e sem prejuízo da pena correspondente à dificulte a livre manifestação da vontade da vítima:
violência. Pena - reclusão, de 2 (dois) a 8 (oito) anos, sem
prejuízo da pena correspondente à violência.

49
Para refletir...
A partir da leitura do quadro comparativo, você conseguiu perceber as diferenças? Em sua opinião,
fugiu alguma coisa ao olhar do legislador? Ou todas as situações que implicam em violência sexual contra
crianças e adolescentes foram bem contempladas nos tipos penais?

Ao realizar o exercício proposto você deve ter percebido que profundas mudanças foram feitas e
todas com um apelo protetivo muito forte, veja algumas:
• Nos tipos onde a vítima era somente a mulher, passou a abranger também o homem;
• Foram criados aumentos de pena em razão da idade da vítima;
• Alguns tipos novos foram criados considerando a situação de vulnerabilidade da vítima;
• A ação penal no caso da vítima menor de 18 anos passou a ser pública incondicionada;
• Foi instituído o segredo de justiça como regra nos processos que apuram esses crimes.

Se você analisar bem o texto, verá que algumas questões precisam ser melhoradas:
• nos artigos 231 e 231-A, considera-se que a redação não ficou exatamente como se pretendia.
Observe que se você eliminar a palavra “prostituição”, o texto ficará dúbio:

Art. 231. Promover ou facilitar a entrada, no território nacional, de alguém que nele venha a exercer a
prostituição ou outra forma de exploração sexual, ou a saída de alguém que vá exercê-la no estrangeiro.
Art. 231-A. Promover ou facilitar o deslocamento de alguém dentro do território nacional para o
exercício da prostituição ou outra forma de exploração sexual:

Em ambos os casos, considera-se que o legislador pretendeu punir aquele que promove o tráfico de
pessoa com a finalidade da exploração sexual, entretanto, em ambos os artigos, a redação dúbia dá a entender
que a pessoa exercerá uma forma de exploração sexual, e não será a vítima a ser explorada. Assim sendo, seria
interessante a correção da redação desses artigos.
Outro ponto muito importante: para configurar crime, o sexo com adolescentes entre 14 e 18 anos
necessita de um intermediário aliciador. Se você estiver frente a uma situação onde a garota ou o garoto “optou
pela prostituição”, em tese, não há crime. Soa meio absurdo, não?
Veja algumas jurisprudências que confirmam esse entendimento:

TJ-SC - Apelacão Criminal : APR 191162 SC 2004.019116-2
APELAÇÃO CRIMINAL - ARTIGO 244-A DA LEI N. 8.069/90 - SUBMETER CRIANÇA OU ADOLESCENTE À
PROSTITUIÇÃO OU EXPLORAÇÃO SEXUAL - SENTENÇA ABSOLUTÓRIA QUE RECONHECEU A ATIPICIDADE DO
FATO (ARTIGO 386, INCISO III, DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL)- RECURSO MINISTERIAL - MANUTENÇÃO DO
DECISUM - RÉU QUE NÃO SUJEITA OU OBRIGA A VÍTIMA À PRATICAR PROSTITUIÇÃO - ADOLESCENTE JÁ
ENTREGUE A TAIS PRÁTICAS - RECURSO CONHECIDO E IMPROVIDO.

50
Não comete o crime do artigo 244-A do Estatuto da Criança e do Adolescente o agente que, como
"usuário", se vale dos "serviços" de adolescente já entregue à prostituição. O verbo núcleo do tipo ("submeter")
reflete a conduta daquele que põe a criança ou adolescente em situação de exploração sexual, não a daquele
que se vale de condição preexistente para satisfazer seus desejos sexuais.

TJ-RS - Apelação Crime : ACR 70052760691 RS
APELAÇÃO CRIMINAL. ARTIGO 244-A DO ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. SUBMISSÃO
DE ADOLESCENTE À PROSTITUIÇÃO. PRELIMINARES DE NULIDADE PREJUDICADAS. MÉRITO. ABSOLVIÇÃO POR
INSUFICIÊNCIA DE PROVAS.
A prova produzida nos autos evidencia um agir voluntário da adolescente em se prostituir, conduta
que não se coaduna com o elemento nuclear do tipo previsto no art. 244-A, caput, do ECA, que exige a
submissão para a sua incidência. APELO DEFENSIVO PROVIDO. PRELIMINARES PREJUDICADAS. UNÂNIME.
(Apelação Crime Nº 70052760691, Sexta Câmara Criminal, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Ícaro Carvalho de
Bem Osório, Julgado em 12/07/2013)

Apesar desse entendimento ser também o entendimento dos tribunais, na maioria absoluta dos casos,
existe um aliciador, um intermediário, que irá lucrar com a exploração daquela adolescente. Assim, na
verificação de uma situação como essas, é essencial identificar essa terceira figura, para que se configure a
exploração sexual e possa-se capitulá-la dentro de alguma das previsões legais.

1.1.3 A exploração sexual no âmbito do Estatuto da Criança e do Adolescente

Dentro do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, as previsões voltadas a responsabilizar os que
exploram ou se beneficiam de alguma forma da exploração sexual de crianças e adolescentes sofreram várias
alterações no ano de 2008, com foco muito acentuado na responsabilização da produção, reprodução e
divulgação de material pornográfico através dos novos meios tecnológicos. Veja a seguir os artigos seguidos
pelos comentários:

Art. 240
Comentário:
Sobre o aumento de pena, Digiácomo (2010, p. 303) esclarece que:

A lei pune com maior rigor aqueles que, prevalecendo-se de sua função ou da
relação de parentesco ou proximidade com a criança ou adolescente, a induz à
prática das condutas que o dispositivo visa coibir. Em qualquer caso, o eventual
“consentimento” da vítima e/ou o fato de já ter se envolvido em situações similares
no passado é absolutamente irrelevante para caracterização do crime.

51
Art. 241
Comentário:
O julgado proferido pelo STJ. 5ª T. R.Esp. nº 617221/RJ. Rel. Min. Gilson Dipp. J. em 19/10/2004 esclarece
que, para a ocorrência do crime, o dano em potencial já é suficiente:

VI. Se os recorridos trocaram fotos pornográficas envolvendo crianças e
adolescentes através da internet, resta caracterizada a conduta descrita no tipo penal
previsto no art. 241 do Estatuto da Criança e do Adolescente, uma vez que
permitiram a difusão da imagem para um número indeterminado de pessoas,
tornando-as públicas, portanto. VII. Para a caracterização do disposto no art. 241 do
Estatuto da Criança e do Adolescente, ‘não se exige dano individual efetivo,
bastando o potencial. Significa não se exigir que, em face da publicação, haja dano
real à imagem, respeito à dignidade etc. de alguma criança ou adolescente,
individualmente lesados. O tipo se contenta com o dano à imagem abstratamente
considerada. VIII. O Estatuto da Criança e do Adolescente garante a proteção integral
a todas as crianças e adolescentes, acima de qualquer individualização.

Art. 241-A Art. 241-B Art. 241-C Art. 241-D Art. 244-A
Comentário:
É importante ressaltar que mesmo aquelas crianças e adolescentes que sobrevivam da exploração
sexual estão inseridas na proteção que este artigo pretende dar. A experiência prévia pouco importa. Quem é
julgado não é a criança ou a adolescente, mas o adulto que se aproveitando de sua vulnerabilidade a submete
e explora. Digiácomo confirma esse pensamento com a seguinte fala:

A garantia da cidadania plena de todas as crianças e adolescentes, em especial
daquelas que se encontram em condição de maior vulnerabilidade, sem dúvida
passa pelo reconhecimento de que, nos casos de exploração sexual,
independentemente de qualquer "experiência prévia" da vítima (e crianças e
adolescentes sujeitas à exploração sexual como tal sempre devem ser tratadas), a
mesma invariavelmente se encontra em posição de inferioridade em relação ao
agente, restando, portanto, sempre presente uma relação desigual de poder e de
"submissão" que, necessariamente, levará à caracterização do tipo penal do art. 244-
A, do ECA, sendo para tanto absolutamente irrelevante a conduta da vítima que,
quando muito, poderá ser considerada (e ainda assim, sem qualquer carga de
preconceito ou discriminação) apenas para fins de "dosimetria da pena", a teor do
disposto no art. 59 do CP. (2010, p. 308)

52
Art. 244 – B
Comentário:
Interessante ressaltar aqui que o crime se configura independentemente da criança ou adolescente ter
antecedentes na prática de infração penal. Veja o julgado proferido pelo STJ nesse sentido:

Ordem denegada. (STJ. 5ª T. HC nº 128267/DF. Rel. Min. Felix Fischer. J. em
05/05/2009) e PENAL E PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO
ESPECIAL. CORRUPÇÃO DE MENORES. CRIME FORMAL. PRESCINDIBILIDADE DE
PROVA DA EFETIVA CORRUPÇÃO DO MENOR. DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL.
OCORRÊNCIA. RECURSO ESPECIAL PROVIDO. AGRAVO REGIMENTAL A QUE SE
NEGA PROVIMENTO. PRESCRIÇÃO DECLARADA DE OFÍCIO. ART. 61 DO CPP. 1. É
assente neste Superior Tribunal de Justiça, bem como no Supremo Tribunal Federal,
o entendimento no sentido de que o crime tipificado no artigo 1o da revogada Lei
2.252/54, atual artigo 244-B do Estatuto da Criança e do Adolescente, é formal, ou
seja, a sua caracterização independe de prova da efetiva e posterior corrupção do
menor. 2. Agravo regimental a que se nega provimento, declarando-se, porém, nos
termos do artigo 61 do Código de Processo Penal, a extinção da punibilidade do
recorrido, apenas no que concerne ao delito ora em discussão, em virtude da
prescrição da pretensão punitiva. (STJ. 6ª T. Ag.Rg. no R.Esp. nº 696849/SP. Rel. Min.
Maria Thereza de Assis Moura. J. em 29/09/2009).

Importante!
Observada a ocorrência de quaisquer das situações descritas nos artigos acima, tanto do CPB como do
ECA, é primordial que a intervenção policial, ou outra, ocorra no sentido de fazer a violência cessar e
minimizar os impactos para a vítima, conforme você estudará no módulo 4.

1.1.4 Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual

Na Revisão do Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes,
iniciada já em 2003 e publicada em 2008, ainda persistiu a percepção de necessidade de mudança da legislação
para resguardar e responsabilizar de forma mais adequada as situações de violência sexual. [...] “o país
ainda carece de uma ampla reforma de sua legislação penal, a fim de se adequar ao paradigma dos direitos
humanos sexuais”. Entretanto, ressalvadas algumas questões pontuais, parece-nos que a lei nº 12.015/09
representou um passo dos mais importantes no sentido da adequação legal ao enfrentamento pretendido.
Em 2013, houve a publicação da segunda revisão do Plano Nacional de Enfrentamento da Violência
Sexual contra Crianças e Adolescentes que, aproveitando-se de tudo que já havia sido feito, optou por começar
fazendo um levantamento de toda a legislação, nacional e internacional, correlata ao assunto, para a partir
daí, traçar os objetivos para os anos vindouros. Essa revisão traz, como aspectos mais importantes, os seguintes
pontos:
53
• Monitoramento das ações de enfrentamento à Violência Sexual, considerando os 6 eixos desenhados
já no primeiro Plano publicado;
• Criação de indicadores para as ações de enfrentamento à violência sexual; e
• Fazer interface com o Plano Decenal dos Direitos de Crianças e Adolescentes.

Para refletir...
Em sua opinião, as normas penais apresentadas são suficientes para proteger nossas crianças e
adolescentes e punir abusadores e exploradores?

Finalizando...

Neste módulo, você estudou que:

• A base normativa que apoia o enfrentamento à violência contra crianças e adolescentes vem sendo
fortalecida e adequada ao longo dos anos, fruto do amadurecimento e do entendimento do problema. Nesse
cenário, o Brasil vem, aos poucos, adequando-se normativamente aos princípios declarados pela Constituição
de 1988.
• Com o advento da Lei nº 12.015, de 07 de agosto de 2009, profundas reformulações foram feitas,
representando um avanço na proteção às vítimas e principalmente rompendo com alguns conceitos sexistas
que impregnavam as normas penais que tratavam dos crimes sexuais.
• Dentro do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, as previsões voltadas a responsabilizar os que
exploram ou se beneficiam de alguma forma da exploração sexual de crianças e adolescentes sofreram várias
alterações no ano de 2008, com foco muito acentuado na responsabilização da produção, reprodução e
divulgação de material pornográfico através dos novos meios tecnológicos.
• Em 2013, houve a publicação da segunda revisão do Plano Nacional de Enfrentamento da Violência
Sexual contra Crianças e Adolescentes que, aproveitando-se de tudo que já havia sido feito, optou por começar
fazendo um levantamento de toda a legislação, nacional e internacional, correlata ao assunto, para a partir daí,
traçar os objetivos para os anos vindouros.

Exercícios
54
1. No Brasil da atualidade, a proteção à criança e ao adolescente, inserida nas previsões da
Convenção sobre os Direitos da Criança, da Constituição Federal e do Estatuto da Criança e do
Adolescente, é decorrente da adoção da doutrina do seguinte tipo de proteção:

a) integral
b) paritária
c) equilibrada
d) circunstancial

2. Considerando a conceituação das quatro modalidades de exploração comercial de meninos,
meninas e de adolescentes explicitada na Agenda de Ação de Estocolmo, correlacione as informações
abaixo.

1. Prostituição
2. Pornografia
3. Turismo sexual
4. Tráfico de pessoas

( ) consiste em uma relação de sexo e mercantilização e num processo de transgressão.
( ) recrutamento, transporte, transferência, alojamento ou acolhimento de uma criança para fins de
exploração.
( ) trata-se de produção, divulgação, exibição, distribuição, venda, compra, posse e utilização de material
assim classificado.
( ) pode ser autônomo ou vinculado a pacotes que são vendidos aos clientes com serviço de prazer
sexual incluído nas atividades de entretenimento.

O resultado é:
a) 1 – 3 – 4 – 2
b) 1 – 4 – 2 – 3
c) 3 – 2 – 1 – 4
d) 4 – 1 – 3 – 2

3. Com base na Lei nº 8.069/90 - Estatuto da Criança e do Adolescente, associe as informações
abaixo:

1. Pena: reclusão, de 1 a 4 anos, e multa
2. Pena: reclusão, de 4 a 8 anos, e multa
3. Pena: reclusão, de 3 a 6 anos, e multa

55
( ) Art. 241. Vender ou expor à venda fotografia, vídeo ou outro registro que contenha cena de sexo
explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente
( ) Art. 241-B. Adquirir, possuir ou armazenar, por qualquer meio, fotografia, vídeo ou outra forma de
registro que contenha cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente
( ) Art. 241-A. Oferecer, trocar, disponibilizar, transmitir, distribuir, publicar ou divulgar por qualquer
meio, inclusive por meio de sistema de informática ou telemático, fotografia, vídeo ou outro registro que
contenha cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente

56
Gabarito

1. Resposta Correta: Letra A
2. Resposta Correta: Letra B
3. Resposta Correta: Letra C

57
MÓDULO
SISTEMA DE GARANTIA DOS DIREITOS DA CRIANÇA
4 E DO ADOLESCENTE E AÇÕES DE PREVENÇÃO

Apresentação do módulo

Neste módulo você estudará o Sistema de Garantia dos Direitos de Crianças e Adolescentes e a Rede
de Proteção encarregada de dar os encaminhamentos legais e sociais aos casos de violência sexual contra
crianças e adolescentes; o mapeamento de pontos vulneráveis à ocorrência de Exploração Sexual de Crianças e
Adolescente efetuado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF); orientações para atendimento à crianças e
adolescentes vítimas de violência sexual e, finalmente, breves aspectos da atuação preventiva.

Objetivo do módulo

Ao final do módulo, você será capaz de:
• Identificar instituições e órgãos do sistema de proteção dos direitos da criança e do adolescente, bem
como as suas atribuições.
• Conhecer o trabalho desenvolvido pela PRF no enfrentamento à violência contra crianças e
adolescentes e, em especial, o mapeamento de pontos vulneráveis à ocorrência de Exploração Sexual de
Crianças e Adolescentes ao longo das rodovias federais.
• Reconhecer a postura adequada no encaminhamento de ocorrências que envolvam violência sexual
contra crianças e adolescentes.
• Reconhecer a importância das ações preventivas.

Estrutura do Módulo

Este módulo está dividido nas seguintes aulas:

• Aula 1- O Sistema de Garantias dos Direitos da Criança e do Adolescente;
• Aula 2 – A Polícia Rodoviária Federal e o Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e
Adolescentes;
• Aula 3 – Intervenção nos Casos de Violência Sexual Contra Crianças e Adolescentes;
• Aula 4 - Ações Preventivas.

58
Aula 1 – O Sistema de Garantias dos Direitos da Criança e do
Adolescente

1.1 Compreendendo o Sistema de Garantias dos Direitos da Criança e do Adolescente

Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente constitui-se na articulação e integração
das instâncias públicas governamentais e da sociedade civil, na aplicação de instrumentos normativos e no
funcionamento dos mecanismos de promoção, defesa e controle para a efetivação dos direitos humanos da
criança e do adolescente, nos níveis Federal, Estadual, Distrital e Municipal. (Art. 1º da Res. 113, Conanda)
A pirâmide ao lado é uma representação proposta pela conteudista para que você possa visualizar o
Sistema de Garantias dos Direitos das Crianças e Adolescentes, baseado na Doutrina da Proteção Integral e na
Prioridade Absoluta. Observe que no topo estão as crianças e os adolescentes, logo abaixo a família e a
sociedade e, na base estão as estruturas formais do Estado. O acionamento do Sistema de Garantias dos Direitos
das Crianças e Adolescentes pode se dar de qualquer um desses níveis, mas é obrigação absoluta da base fazê-
lo funcionar.
No site da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR), dentro do PNEVSCA,
você encontrará o Programa de Ações Integradas e Referenciais de Enfrentamento à Violência Sexual
Infanto-juvenil no território brasileiro (PAIR), com início em 2002 e cuja missão, como seu próprio nome
enuncia, é fomentar o trabalho de forma integrada da rede de proteção, maximizando os resultados na busca
do cumprimento da Doutrina da Proteção Integral.
O enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes agrega várias frentes de atuação
que perpassam, entre outras: o fomento à pesquisa sobre o fenômeno da violência sexual contra crianças e
adolescentes; a integração das Rede de Proteção à criança e ao adolescente; a abertura de canais de escuta do
cidadão para oferecimento de denúncias anônimas, bem como para pedidos de ajuda.
Como você já estudou, em 2000, o Brasil aprovou um Plano Nacional de Enfrentamento da Violência
Sexual Infanto-juvenil que só veio a ser publicado em 2002. Em 2003 surge o Programa Nacional de
Enfrentamento da Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes (PNEVSCA), integrado à Secretaria de
Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR).
Já no ano de 2006, foi publicado o Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual infanto-juvenil:
uma política em movimento, como resultado do monitoramento feito no Plano de 2000, nos anos de 2003 e
2004. E em 2013, foi feita nova revisão, com o objetivo de alinhar as diretrizes das políticas existentes e
monitorar as ações com vistas a aferir seus resultados
Dentre as necessidades levantadas dentro desses documentos e das ações neles propostas, tem-se
como uma das principais a criação e mobilização de redes para lidarem com o tema. Considerando a
complexidade do assunto, a proposta é de integrar os vários atores sociais, bem como agentes e organismos
estatais nacionais e internacionais na busca de respostas efetivas aos problemas da exploração sexual de
crianças e adolescentes.

59
1.1.1 Entidades, instituições e serviços

Seguindo o eixo da articulação e mobilização – instituído no Plano Nacional de Enfrentamento da
Violência Infanto-juvenil – somado ao comprometimento da sociedade civil; à divulgação do posicionamento
do Brasil em relação a exploração sexual no contexto do turismo e ao tráfico para fins sexuais e o eixo do
atendimento (que tem por finalidade efetuar e garantir o atendimento especializado às crianças e aos
adolescentes em situação de violência sexual e às suas famílias), vários órgãos e entidades vêm sendo
estruturados com finalidade de enfrentar esta problemática.
De acordo com Teixeira (2000), os órgãos componentes do Sistema de Garantia dos Direitos se dividem
em três espécies: defesa, promoção e controle, em função das suas atribuições prioritárias, sendo que Defesa e
Controle se sobrepõem em determinados momentos.

Defesa Controle Promoção
Poder Judiciário; Serviços e programas das políticas
Ministério Público; públicas;
Defensoria Pública; Conselho Nacional (CONANDA); Serviços e programas de execução de
Segurança Pública e Conselhos Estaduais; medidas de proteção de direitos
Conselhos Tutelares; Conselhos Municipais (CMDCA). humanos;
Centros de Defesa Serviços e programas de execução de
(CEDECAS). medidas socioeducativas.

Na atualidade, em razão dos modelos adotados pelos órgãos de controle, é comum se ver atores dos
órgãos de defesa participando ativamente das atividades dos órgãos de controle. E essa articulação é
absolutamente necessária e benéfica para o enfrentamento da violência sexual.
Dentro dessa rede, determinados atores ganham uma maior visibilidade no enfrentamento diário do
problema vez que suas atribuições são de caráter prático. São ações que interferem diretamente em ocorrências
reais. Dessa forma, é importante conhecê-los, ainda que brevemente, para entender as atribuições e o alcance
da atuação de cada um deles.
Dentro da proposta de atuação sistêmica de órgãos governamentais e não governamentais na busca
de fazer valer a Doutrina da Proteção Integral – em casos reais de ocorrências envolvendo crianças e
adolescentes, na condição de vítimas de violência ou de autores de atos infracionais – o primeiro órgão a ser
acionado será o Conselho Tutelar, salvo se a criança ou adolescente necessitar de atendimento médico
imediato, quando o acionamento das estruturas de socorro se fará antes do Conselho Tutelar.

Veja a seguir, de forma resumida, a especificidade de alguns órgãos e serviços da rede de
proteção às crianças e adolescentes em situação de violência.

60
• Conselho Tutelar
Segundo o Guia Prático do Conselheiro Tutelar do Ministério Público do Estado de Goiás (2008), o
Conselho Tutelar é um órgão inovador na sociedade brasileira, com a missão de zelar pelo cumprimento
dos direitos da criança e do adolescente e o potencial de contribuir para mudanças profundas no atendimento
à infância e adolescência.
O Conselho Tutelar é um órgão municipal, permanente e autônomo, não jurisdicional, encarregado
pela sociedade de zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e do adolescente, definidos na Lei Federal nº
8.069 de 13 de Julho de 1990, que dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente.
É criado por Lei Municipal, subordinado ao ordenamento jurídico do país, e vinculado à Prefeitura do
Município, porém, no âmbito de suas decisões, não se subordina a ninguém senão ao texto da Lei (Estatuto
da Criança e do Adolescente) que é a fonte de sua autoridade.
Seus componentes são escolhidos pela comunidade local, em processo eleitoral definido por Lei
Municipal e conduzido sob a responsabilidade do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente
– CMDCA, para executar atribuições constitucionais e legais no campo da proteção à infância e à juventude.
Entre as atribuições do Conselho Tutelar, encontra-se a aplicação de medidas protetivas (art. 101, ECA)
às crianças e adolescentes em situação de risco ou em conflito com a lei:

I - encaminhamento aos pais ou responsável, mediante termo de responsabilidade;
II - orientação, apoio e acompanhamento temporários;
III - matrícula e frequência obrigatórias em estabelecimento oficial de ensino
fundamental;
IV - inclusão em programa comunitário ou oficial de auxílio à família, à criança e ao
adolescente;
V - requisição de tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico, em regime
hospitalar ou ambulatorial;
VI - inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento
a alcoólatras e toxicômanos;
VII - acolhimento institucional; (Redação dada pela Lei nº 12.010, de 2009)
VIII - inclusão em programa de acolhimento familiar;

Resumindo, pode-se destacar, como principais funções do Conselho Tutelar:

• Receber a comunicação dos casos de suspeita ou confirmação de maus tratos e determinar as medidas
de proteção necessárias;
• Determinar matrícula e frequência obrigatória em estabelecimento oficial de Ensino fundamental,
garantido assim que crianças e adolescentes tenham acesso à escola;
• Requisitar certidões de nascimento e óbito de crianças ou adolescentes, quando necessário;
• Atender e aconselhar pais ou responsáveis, aplicando medidas de encaminhamento a programas de
promoção à família, tratamento psicológico ou psiquiátrico e tratamento de dependência química;
• Orientar pais ou responsáveis para que cumpram a obrigação de matricular seus filhos no Ensino
Fundamental, acompanhando sua frequência e aproveitamento escolar;
61
• Requisitar serviços públicos nas áreas de saúde, educação, serviço social, previdência, trabalho e
segurança;
• Encaminhar ao Ministério Público as infrações contra os direitos de crianças e adolescentes.

Sousa et al. (2008, p. 24) resume de forma prática o que é e o que não é atribuição e responsabilidade
dos Conselhos Tutelares:

CONSELHO TUTELAR

O QUE FAZ
Atende reclamações, reivindicações e solicitações feitas por crianças, adolescentes, famílias, cidadãos
e comunidades.
Exerce as funções de escutar, orientar, aconselhar, encaminhar e acompanhar os casos.
Aplica as medidas protetivas pertinentes a cada caso.
Faz requisições de serviços necessários à efetivação do atendimento adequado de cada caso.
Contribui para o planejamento e a formulação de politicas e planos municipais de atendimento à
criança, ao adolescente e às suas famílias.

O QUE NÃO FAZ E O QUE NÃO É
Não é uma entidade de atendimento direto (abrigo, internato, etc.).
Não assiste diretamente às crianças, aos adolescentes e às suas famílias.
Não presta diretamente os serviços necessários à efetivação dos direitos da criança e do adolescente.
Não substitui as funções dos programas de atendimento à criança e ao adolescente.

• Orgãos de Segurança Pública
Os órgãos da Segurança Pública, bem como as suas macros atribuições, estão definidos no art. 144 da
Constituição da República.
Todos os órgãos de segurança pública citados, cada um em sua esfera de atuação, são primordiais ao
enfrentamento da violência sexual. As Guardas Municipais são de extrema importância na verificação desse
fenômeno, assim como as Polícias Militares e Bombeiros Militares em âmbito estadual e as Polícias Rodoviárias
Estaduais e Federal nas rodovias e estradas, pois todas são capazes de identificar, no dia a dia, a presença de
crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.
As Polícias Civis e Federal atuam, normalmente, após os crimes, na apuração dos ilícitos para subsidiar
e facilitar os procedimentos judiciais. Nas Polícias Civis encontram-se Delegacias Especializadas no
atendimento de crianças e adolescentes. Embora essas delegacias ainda existam em número inferior ao ideal,
a criação e manutenção de órgãos especializados facilita o enfrentamento dos problemas que atingem essa
população, e deve ser estimulado junto às Secretarias de Segurança Públicas nos estados.

62
• Disque 100
O Disque 100 é essencialmente um serviço de promoção de Direitos Humanos. Segundo definição
disponível na página da internet da SDH/PR:

O Departamento de Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos tem a competência
de receber, examinar e encaminhar denúncias e reclamações, atuar na resolução de
tensões e conflitos sociais que envolvam violações de direitos humanos, além de
orientar e adotar providências para o tratamento dos casos de violação de direitos
humanos, podendo agir de ofício e atuar diretamente ou em articulação com outros
órgãos públicos e organizações da sociedade. As denúncias poderão ser anônimas
ou, quando solicitado pelo denunciante, é garantido o sigilo da fonte das
informações.

O “Disque-100” virou referência nacional para o envio e recebimento de denúncias de violências
contra crianças e adolescentes. O que gera um fluxo rápido de atendimento, bem como, a possibilidade do
denunciante acompanhar o andamento da situação através de um número de protocolo. O serviço é gratuito e
funciona ininterruptamente durante os 7 dias da semana.

• Central de Atendimento à Mulher
A Central de Atendimento à Mulher, assim como o Disque 100, é um serviço de promoção de Direitos
Humanos. Portanto, nos casos em que a vítima de violência for uma menina ou uma adolescente é possível
acionar esse outro canal de atendimento, denominado “Ligue-180”, cuja definição inscrita na página da SDH/PR
é a seguinte:

O Ligue 180 foi criado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência
da República (SPM-PR), em 2005, para servir de canal direto de orientação sobre
direitos e serviços públicos para a população feminina em todo o país (a ligação é
gratuita).
Ele é a porta principal de acesso aos serviços que integram a rede nacional de
enfrentamento à violência contra a mulher, sob amparo da Lei Maria da Penha, e
base de dados privilegiada para a formulação das políticas do governo federal nessa
área.
O Ligue 180 desempenha papel central, ao lado do programa ‘Mulher, Viver sem
Violência’, lançado em março de 2013, com o objetivo de cobrir o país com serviços
públicos integrados, inclusive nas áreas rurais latu sensu, mediante a utilização de
unidades móveis para o campo, a floresta e as águas.
Em março de 2014, o Ligue 180 transformou-se em disque-denúncia, com
capacidade de envio de denúncias para a Segurança Pública com cópia para o
Ministério Público de cada estado.

63
A página mencionada ainda traz dados sobre a Rede de Atendimento à Mulher em todos os estados
da federação. Basta acessar o endereço eletrônico e selecionar a unidade da federação de interesse.

• CRAS - Centro de Referência de Assistência Social
O Centro de Referência de Assistência Social - CRAS integra a Política Nacional de Assistência Social. É
uma entidade pública descentralizada dessa política e é responsável pela oferta da proteção social básica.

O Centro de Referência de Assistência Social (Cras) é uma unidade pública estatal
descentralizada da Política Nacional de Assistência Social (PNAS).
O Cras atua como a principal porta de entrada do Sistema Único de Assistência Social
(Suas), dada sua capilaridade nos territórios e é responsável pela organização e
oferta de serviços da Proteção Social Básica nas áreas de vulnerabilidade e risco
social.
Além de ofertar serviços e ações de proteção básica, o Cras possui a função de
gestão territorial da rede de assistência social básica, promovendo a organização e
a articulação das unidades a ele referenciadas e o gerenciamento dos processos nele
envolvidos.
O principal serviço ofertado pelo Cras é o Serviço de Proteção e Atendimento
Integral à Família (Paif), cuja execução é obrigatória e exclusiva. Este consiste em um
trabalho de caráter continuado que visa fortalecer a função protetiva das famílias,
prevenindo a ruptura de vínculos, promovendo o acesso e usufruto de direitos e
contribuindo para a melhoria da qualidade de vida. (Ministério do Desenvolvimento
Social.)

A atuação do CRAS inclui ações gerais de assistência social básica.

• CREAS - Centro de Referência Especializada de Assistência Social
O Centro de Referência Especializada de Assistência Social é integrante do sistema único de assistência
social e constitui-se em uma unidade pública estatal. É responsável pela oferta de orientação e apoio
especializados e continuados a famílias e indivíduos com direitos violados, porém sem rompimentos dos
vínculos familiares. Desenvolve ações de combate ao trabalho infantil e enfrentamento de situações de abuso e
exploração sexual contra crianças e adolescentes, como o Serviço de Enfrentamento à Violência, ao Abuso e a
Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.

O Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) configura-se
como uma unidade pública e estatal, que oferta serviços especializados e
continuados a famílias e indivíduos em situação de ameaça ou violação de direitos
(violência física, psicológica, sexual, tráfico de pessoas, cumprimento de medidas
socioeducativas em meio aberto, etc.).

64
A oferta de atenção especializada e continuada deve ter como foco a família e a
situação vivenciada. Essa atenção especializada tem como foco o acesso da família
a direitos socioassistenciais, por meio da potencialização de recursos e capacidade
de proteção.
O Creas deve, ainda, buscar a construção de um espaço de acolhida e escuta
qualificada, fortalecendo vínculos familiares e comunitários, priorizando a
reconstrução de suas relações familiares. Dentro de seu contexto social, deve focar
no fortalecimento dos recursos para a superação da situação apresentada.
Para o exercício de suas atividades, os serviços ofertados nos Creas devem ser
desenvolvidos de modo articulado com a rede de serviços da assistência social,
órgãos de defesa de direitos e das demais políticas públicas. A articulação no
território é fundamental para fortalecer as possibilidades de inclusão da família em
uma organização de proteção que possa contribuir para a reconstrução da situação
vivida.
Os Creas podem ter abrangência tanto local (municipal ou do Distrito Federal)
quanto regional, abrangendo, neste caso, um conjunto de municípios, de modo a
assegurar maior cobertura e eficiência na oferta do atendimento. (Ministério do
Desenvolvimento Social)

As situações de violência sexual encontram guarida na atuação do CREAS.

• Defensoria Pública
A Defensoria Pública está prevista dentro da Constituição da República de 1988, em seu art. 134 e
cumpre com o dever do estado democrático de assistir aos mais vulneráveis e que não tenham condição
financeira de arcar com a promoção da defesa de seus direitos.

Art. 134. A Defensoria Pública é instituição permanente, essencial à função
jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe, como expressão e instrumento do regime
democrático, fundamentalmente, a orientação jurídica, a promoção dos direitos
humanos e a defesa, em todos os graus, judicial e extrajudicial, dos direitos
individuais e coletivos, de forma integral e gratuita, aos necessitados, na forma do
inciso LXXIV do art. 5º desta Constituição Federal.

Essa redação do art. 134 é recente, foi dada pela Emenda Constitucional nº 80 de 2014, e veio fortalecer
a importância da Defensoria Pública, reforçando sua essencialidade para o estado democrático de direito e sua
vocação para a defesa dos direitos humanos.

Para refletir...
Qual a importância de uma rede de atendimento à criança e ao adolescente vítima de exploração
sexual? Você conhece os órgãos e serviços apresentados?

65
Aula 2 – A Polícia Rodoviária Federal e o Enfrentamento da
Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes

À Polícia Rodoviária Federal, órgão permanente, integrante da estrutura regimental
do Ministério da Justiça, no âmbito das rodovias federais, compete: efetuar a
fiscalização e o controle do tráfico de menores nas rodovias federais, adotando as
providências cabíveis contidas na Lei nº 8.069 de 13 junho de 1990 (Estatuto da
Criança e do Adolescente). (Art. 1º, inciso IX do Decreto 1.655/95)

A atuação da Polícia Rodoviária Federal (PRF) no enfrentamento ESCCA já acontecia de forma não
sistemática, entretanto, quando a Instituição foi chamada a atuar formalmente em campanhas sobre o assunto,
principalmente na campanha do dia 18 de maio (o Dia Nacional de Luta contra o Abuso e a Exploração Sexual
de Crianças e Adolescentes) o tema passou a integrar a programação anual de ações do Departamento de
Polícia Rodoviária Federal - DPRF e suas Regionais.
A integração do tema à agenda anual da PRF não se deu por acaso, mas seguindo a tendência de
atuação governamental. Tomando de empréstimo a justificativa da campanha elaborada pela SDH/PR, em 2007,
é possível compreender o contexto e a evolução da atuação governamental e social em relação ao assunto:

O 18 de Maio foi instituído pela Lei Federal Nº. 9970/00 como do Dia Nacional de
Luta contra o Abuso e a Exploração sexual. A motivação para criação de uma data,
como mais um elemento de reforço ao enfrentamento à violência sexual contra
crianças e adolescentes, foi criar capacidade de mobilização dos diferentes setores
da sociedade e dos governos e da mídia para formação de uma forte opinião pública
contra a violência sexual de criança e adolescente(...)

(....) Por outro lado a intenção é estimular e encorajar as pessoas a
denunciarem/revelarem situações de violência sexual, bem como criar possibilidades
e incentivos para implantação e implementação de ações de políticas públicas
capazes de fazer o enfrentamento ao fenômeno, no âmbito do combate à
impunidade e de proteção e promoção às pessoas em situação de vítimas ou
vitimização, conforme estabelece o Plano Nacional de Enfrentamento à Violência
Sexual contra Criança e Adolescente.
A data foi escolhida porque em 18 de maio de 1973 em Vitória-ES um crime bárbaro
chocou todo o país e ficou conhecido como o “Crime Araceli”. Esse era o nome de
uma menina de apenas 08 anos de idade que foi raptada, drogada, estuprada, morta
e carbonizada por jovens de classe média alta daquela cidade. Esse crime, apesar de
sua natureza hedionda prescreveu impune.
Desde a criação da Lei do 18 de maio a sociedade civil organizada promove atos de
mobilização social e política na perspectiva de avançar no processo de

66
conscientização da população sobre a gravidade da violência sexual e ao mesmo
tempo impulsionar a implementação do Plano Nacional de Enfrentamento à
Violência Sexual contra Criança e Adolescente, aprovado pelo CONANDA em 2000
no marco dos 10 anos do ECA.
A partir de 2003 a mobilização do 18 de maio passou a ser coordenada
conjuntamente pelo Comitê Nacional e o governo federal por meio da Secretaria
Especial dos Direitos Humanos, contando com a parceria da Frente Parlamentar dos
Direitos de Criança e do Adolescente do Congresso Nacional.

Em 2003, a PRF já tinha iniciado uma atividade de identificação de pontos de risco para ocorrência da
ESCCA. Foi o início do Projeto Mapear. Como o assunto assumiu relevância dentro do governo federal, a partir
desse momento, essa atividade foi sendo aprimorada e seus resultados utilizados não apenas pela Instituição,
mas por órgãos do governo e da sociedade civil organizada sempre com a finalidade de dar efetividade à
Doutrina da Proteção Integral.
A coleta dos dados referentes aos pontos de vulnerabilidade, que a princípio era feita de forma quase
empírica, contando com comandos genéricos e, principalmente, com a experiência do policial que efetuava o
levantamento e registrava dados gerais sobre o local (localização e identificação do estabelecimento), vem
ganhando rigor científico, e a cada biênio, modificações são implementadas na metodologia para que se
obtenha dados mais confiáveis.
O mapeamento, que é realizado a cada biênio, envolve a PRF, a SDH/PR, a OIT, Childhood e o Programa
na Mão Certa, e a análise dos dados qualifica os pontos de vulnerabilidade em 4 categorias, considerando o
grau de risco que reúnem para a ocorrência da ESCCA. Essa categorização permite focar os esforços tanto
preventivos quanto repressivos da Rede de Proteção.

Saiba Mais...
Para conhecer mais sobre o assunto leia o artigo “Exploração sexual de crianças e adolescentes nas
rodovias federais: o olhar da Polícia Rodoviária Federal” (disponível em:
http://www.abmp.org.br/media/files/biblioteca/00002262_violencia_sexual_childhood_final.pdf)

Navegue pelo site da PRF (https://www.prf.gov.br/portal/policiamento-e-fiscalizacao/atuacao-em-
direitos-humanos/denuncia-de-ponto-de-exploracao-sexual) e tenha acesso a todos os mapeamentos feitos
entre 2007 e 2014.

Aula 3 – Intervenção nos casos de violência sexual contra crianças
e adolescentes

67
3.1 Orientações para o atendimento a crianças vítimas de violência sexual
A intervenção no caso de identificação ou suspeita da ocorrência de violência sexual contra criança ou
adolescente é primordial no início do processo de resgate a dignidade dessas vítimas, mas, para que se consiga
minimizar as sequelas desses crimes, é necessário agir não só observando as regras legais, mas também e
principalmente, de forma acolhedora, não preconceituosa, respeitosa e, principalmente, sensível à
situação, para que não ocorra a revitimização dessa pessoa.
Ainda que se trate de criança ou adolescentes que já foram retirados de situações de violências
anteriores e que voluntariamente tenham voltado ao ambiente de exploração, julgamentos morais sobre a
postura da vítima, não são desejados e precisam ser evitados.
O Ministério da Educação e Cultura e a SDH/PR desenvolveram, em 2003, um Guia Escolar denominado
Métodos para Identificação de Sinais de Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, no qual
são feitas sugestões aos professores na abordagem de crianças e adolescentes em situação de violência escolar.
Embora o enfoque dado seja aos educadores, as sugestões são plenamente aplicáveis à abordagem da
vítima por policiais, ou outros profissionais de áreas afetas ao assunto, na verificação de ocorrências de
violências sexuais envolvendo crianças e adolescentes.

Veja, a seguir, algumas das orientações para o atendimento a crianças vítimas de violência sexual,
contidas no Guia.

Busque um ambiente apropriado. Se está conversando com uma criança que, possivelmente, está
sendo abusada, lembre-se de lhe propiciar um ambiente tranquilo e seguro. A criança/adolescente deve ser
ouvida sozinha, pois é fundamental o respeito à sua privacidade.
Observação
Em uma delegacia ou em um posto policial nem sempre se dispõe de um ambiente adequado, assim, busque
o lugar onde ela se sinta protegida.

Ouça, atenta e exclusivamente, a criança ou adolescente. Não permita interrupções, caso contrário,
corre-se o risco de fragmentar todo o processo de descontração e confiança já adquiridas. Se necessário,
converse primeiro sobre assuntos diversos, podendo inclusive contar com o apoio de jogos, desenhos, livros e
outros recursos lúdicos.

Leve a sério tudo que disserem. A violência sexual é um fenômeno que envolve medo, culpa e
vergonha. Por isso, é fundamental não criticar a criança/adolescente, nem duvidar de que esteja falando a
verdade. Por outro lado, a criança/adolescente sentir-se-á encorajada a falar sobre o assunto se demonstrado o
interesse do educador pelo relato.
Importante!

68
Sobre levar a sério o que as vítimas dizem, esse mesmo guia reforça a mensagem, afirmando que
raramente a criança mente. “Apenas 6% dos casos são fictícios e, nessas situações, trata-se, em geral,
de crianças maiores que objetivam alguma vantagem.” (2003, p. 55).

Fique calmo, pois reações extremas poderão aumentar a sensação de culpa, e evite “rodeios” que
demonstrem insegurança por parte do educador.
É muito importante manter a calma, mesmo que a situação nos cause emoção, a manutenção de uma
postura profissional é imprescindível.

O educador não pode deixar que sua ansiedade ou curiosidade leve-o a pressionar a
criança/adolescente para obter informações. Procure não perguntar diretamente os detalhes da violência
sofrida, nem fazer a criança repetir sua história várias vezes, pois isso poderá perturbá-la e aumentar seu
sofrimento.

Importante!
Esse é um ponto complicado para os profissionais de segurança pública. Diante de um crime,
normalmente se pergunta e se repergunta várias vezes as mesmas coisas, para ter certeza sobre o
ocorrido. Quando o assunto é violência sexual contra crianças e adolescentes e se está tratando com as
vítimas, os parâmetros precisam ser outros. Informe-se dentro da sua instituição sobre quais são os
procedimentos recomendados, a maioria das instituições de segurança pública já tem algum tipo de
orientação nesse sentido. Caso não haja, use a Cartilha “Atuação Policial na Proteção dos Direitos
Humanos de Pessoas em Situação de Vulnerabilidade”, da Senasp.

Confirme com a criança se você está, de fato, compreendendo o que ela está relatando. E jamais
desconsidere os sentimentos da criança ou adolescente com frases do tipo “isso não foi nada”, “não precisa
chorar”, pois, no momento que falam sobre o assunto, revivem sentimentos de dor, raiva, culpa e medo.

Proteja a criança ou o adolescente e reitere que ela não tem culpa pelo que ocorreu. É comum a
criança sentir-se responsável por tudo que está acontecendo. Seu relato deve ser levado a sério, já que é raro
uma criança mentir sobre essas questões. Diga à criança que, ao contar, ela agiu corretamente.

Lembre-se de que é preciso coragem e determinação para uma criança ou adolescente contar a um
adulto se está sofrendo ou se sofreu alguma violência. As crianças podem temer a ameaça de violência contra
elas mesmas ou contra membros de sua família, ou temer serem levadas para longe do lar.

O educador só deve expressar apoio e solidariedade por meio do contato físico com a criança e/ou
adolescente se ela/ele assim o permitir. O toque pode ser um grande fortalecimento de vínculos e,
principalmente, para transmitir segurança e quebrar ansiedade.

69
Observação
Se precisar tocar na criança ou adolescente tenha certeza de que o contato físico não parecerá outro
abuso. Use o bom senso. E avise à criança ou adolescente o que irá fazer, antes de tocá-la. Algo assim:
“Vou pegar na sua mão para atravessarmos a rua com segurança, tudo bem?”.

Não trate a criança como uma “coitadinha”, a criança quer ser tratada com carinho, dignidade e
respeito.

Anote o mais cedo possível tudo que lhe foi dito: esse relato poderá ser utilizado em procedimentos
legais posteriores. É importante também anotar como a criança se comportou e como contou o que aconteceu,
pois isso poderá indicar como estava se sentindo. No relatório, deverão constar as declarações fiéis do que lhe
foi dito, não cabendo ali o registro de sua impressão pessoal.

Por ter caráter confidencial, essa situação deverá ser relatada somente a pessoas que precisam ser
informadas para agir e apoiar a criança sexualmente abusada.
Explique à criança o que irá acontecer em seguida, como você irá proceder, ressaltando sempre que
ela estará protegida.

Proteger a identidade da criança e do adolescente sexualmente abusado deve ser um compromisso
ético profissional. As informações referentes à criança/adolescente só deverão ser socializadas com as pessoas
que puderem ajudá-las. Mesmo assim, use codinomes e mantenha o nome verdadeiro da criança restrito ao
menor número possível de pessoas.
Observação
Essa orientação visa não revitimizar a criança ou adolescente e minimizar as consequências da
violência sofrida, vez que a maioria se sente muito envergonhada e, não raro, sentem-se culpadas. Sem
contar que é obrigação legal prevista no art. 17 do ECA.

Para refletir...
Você concorda que tudo o que foi sugerido serve ao menos de referência para a atuação de qualquer
profissional que atue na efetivação dos princípios da Doutrina da Proteção Integral?

3.2 Atuação em situações de flagrante

A atuação policial nos casos de identificação de ocorrência de exploração sexual de crianças e
adolescentes, principalmente em casos de flagrante, são situações bastante delicadas para as vítimas, em

70
especial nos casos em que as instituições e órgãos especializados no atendimento dessas pessoas localizem-se
distantes do local da ocorrência e a criança ou adolescente tenha que ser transportado.

Na medida do possível, é essencial utilizar da doutrina adotada pelo Ministério da Justiça que orienta
a condução de ocorrências envolvendo pessoas em situação de vulnerabilidade e dedica um capítulo para as
ocorrências que abrangem crianças e adolescentes.
Seguindo essas orientações, quando você se deparar com crianças e adolescentes vítimas de violência,
procure:
• Demonstrar interesse na ocorrência;
• Perguntar às pessoas envolvidas o que ocorreu;
• Avaliar o risco da vítima no ambiente, com objetivo de proteger a criança ou o adolescente de novas
agressões.

Procure entrevistar as pessoas, com o objetivo de identificar:
• Quem é o agressor e o grau de parentesco ou o relacionamento deste com a vítima;
• A existência de agressões anteriores;
• Se o agressor ingeriu drogas ou bebidas alcoólicas;
• Se o agressor ofereceu drogas ou bebidas alcoólicas à vítima;
• Se foi utilizada arma de fogo ou arma branca;
• Se o agressor já ameaçou a vítima de morte.

3.3 Outras observações

Para além das recomendações descritas, pode-se acrescentar que toda intervenção profissional (policial
ou não) que envolva crianças e adolescentes, deverá observar alguns aspectos para atender às disposições
legais e, sobretudo, o melhor interesse desses:
• Se se trata de criança ou de adolescente (as medidas variam em caso de criança ou de adolescente
em conflito com a lei, por isso é importante identificar a idade da pessoa em questão);
• Estando a criança ou adolescente em logradouros públicos e espaços comunitários a abordagem deve
respeitar seu direito de ir, vir e estar;
• Identificar condições que sugiram risco pessoal, buscando minimizá-lo e providenciar atendimento
adequado;
• Identificar pais ou responsáveis;
• Não conduzir a criança ou adolescente em compartimento fechado da viatura;
• Nos casos de atos infracionais, não utilizar algemas em crianças e evitar o uso em adolescentes. Se
for necessário usá-las, que seja feito no melhor interesse de proteção do adolescente e devidamente
fundamentado no relatório que descreva a ocorrência. Embora haja hoje um profundo receio sobre o uso das
algemas, as regras previstas na Súmula Vinculante n. 11 do STF, que regulam o uso das algemas, são também
aplicáveis aos adolescentes;

71
• Estando a criança ou adolescente sob efeito de substância entorpecente, encaminhá-la imediatamente
para uma unidade de saúde, e comunicar à assistente social do local a entrada da criança ou do adolescente
para que ela entre em contato com o Conselho Tutelar;
• Na hipótese de não existir na localidade Instituição ou Órgão apropriado para receber a criança ou
adolescente, ou durante a noite ou em finais de semana, o art. 262 do ECA preleciona que enquanto não
existirem conselhos tutelares instalados e em funcionamento, as atribuições a eles conferidas serão exercidas
pela autoridade judiciária, devendo o Agente Policial fazer a entrega da criança ou adolescente a qualquer
autoridade judiciária na localidade. Observa-se que em muitas localidades a autoridade judiciária admite a
entrega da criança ou adolescente à Delegacia de Polícia. É importante ressaltar que, neste caso, não poderá
nem a criança, tampouco o adolescente, ser colocado em compartimento com adultos e o fato deve ser
comunicado pelo Agente, ao Juiz de Direito tão logo se faça possível.

Para refletir...
A intervenção quando mal conduzida pelos agentes da rede de proteção pode trazer danos à criança
ou adolescente vítima de violência sexual? Que tipo de danos você imagina que podem advir?

Aula 4 – Ações Preventivas

4.1 Esferas da prevenção

É dever de todos prevenir a ocorrência de ameaça ou violação dos direitos da criança
e do adolescente. Art. 70, ECA, 1990.

Consoante o título III da parte geral do ECA, a prevenção das violações contra crianças e
adolescentes deve ser o cerne da atuação social e governamental. Em vários artigos, partindo do artigo 70,
o aspecto protetivo das ações é enfatizado e pormenorizado, sempre com foco na garantia do desenvolvimento
físico e psíquico adequado.
As ações repressivas são normalmente as mais comuns na atuação policial, entretanto, quando o
assunto recai sobre fazer valer a doutrina da proteção integral e da prioridade absoluta, as ações preventivas
devem ser o foco das atenções.
É preferível evitar a ocorrência e garantir um desenvolvimento saudável às crianças e adolescentes a
tratá-las dos traumas e problemas físicos e psíquicos que podem e normalmente advém da vitimização de
violência sexual.

A prevenção pode se apresentar em três esferas:

Prevenção primária: Age nas causas da violência antes que ela se instaure e requer envolvimento da
comunidade, podendo ser feita através de palestras e capacitação específica de profissionais e agentes

72
multiplicadores para que o debate das causas da violência se amplie e propicie reflexão generalizada sobre o
assunto.
Prevenção secundária: Envolve a identificação precoce da população vulnerável, e recursos
estratégicos para prover cuidados médico-sociais aos pais e filhos, e encaminhamentos diversos (Departamento
de Assistência Social, programas de creches, clínica-escola, etc.) buscando cessar as causas de violência.
Prevenção terciária: Dirigida às vítimas e agressores, com o objetivo de reduzir as consequências da
violência sexual, por intervenções terapêuticas de diversas modalidades. Nesse momento, há acionamento da
rede de serviços públicos e atuação do Conselho Tutelar e Vara da Infância e Juventude, viabilizando
encaminhamentos necessários para a garantia de direitos, sejam eles na esfera da saúde, educação, geração de
renda, proteção jurídica, etc.

4.2 A prevenção no âmbito do Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Infanto-Juvenil
Dentro do Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Infanto-juvenil, nos seis eixos estratégicos
definidos, foram fixados objetivos, ações, metas, cronograma de execução, parcerias e indicadores como
orientadores de cada uma das frentes de atuação.
É importante conhecer os objetivos estabelecidos no eixo da prevenção para que se possa, como
participante do sistema de enfrentamento à exploração sexual, agregar a sua contribuição no cumprimento
específico de suas funções:
1. Educar crianças e adolescentes sobre seus direitos, visando ao fortalecimento da sua autoestima e à
defesa contra a violência sexual.
2. Enfrentar os fatores de risco da violência sexual.
3. Promover o fortalecimento das redes familiares e comunitárias para a defesa de crianças e
adolescentes contra situações de violência sexual.
4. Informar, orientar e capacitar os diferentes atores envolvidos a respeito da prevenção à violência
sexual.
5. Promover a prevenção à violência sexual na mídia e em espaço cibernético.
Na atuação policial, em especial da Polícia Rodoviária Federal, a realização de palestras quer para
crianças, quer para trabalhadores dos transportes, ou mesmo para outros públicos é sempre uma grande
oportunidade de ampliar o debate sobre a violência e suas causas, executando o trabalho de prevenção
primária.
Da mesma maneira, o monitoramento dos pontos identificados como vulneráveis, através de rondas
diárias e em horários diferentes, pode funcionar como prevenção secundária, uma vez que permite identificar a
existência de crianças ou adolescentes no local e acionar o órgão da rede de proteção responsável pelo
encaminhamento daquela criança ou adolescente.
Ações de fiscalização ao longo das rodovias feitas pela PRF com a presença de outros parceiros da rede
de enfrentamento, como os Conselhos Tutelares e o Ministério Público, costumam ter resultados muito positivos,
principalmente no sentido de despertar a responsabilidade nos proprietários de estabelecimentos
comerciais onde haja risco de ocorrência de exploração sexual de crianças e adolescentes.

73
Concluindo...
Neste curso você teve a oportunidade de estudar sobre os principais conceitos e aspectos relacionados
à exploração sexual de crianças e adolescentes. Analisou a legislação pertinente aos crimes relacionados à
questão e verificou como deve ser feita a abordagem policial.
Teve acesso a informações que mostram que existe uma rede composta por instituições e órgãos
governamentais e não governamentais, dentre eles a PRF, e que muitas ações de prevenção já estão sendo
executadas.
Mas, apesar de todos os avanços e resultados significativos, muito ainda resta a fazer, por isto a sua
atuação na prevenção e enfrentamento à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes é imprescindível!

Finalizando...
Neste módulo, você estudou que:
• Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente constitui-se na articulação e integração
das instâncias públicas governamentais e da sociedade civil, na aplicação de instrumentos normativos e no
funcionamento dos mecanismos de promoção, defesa e controle para a efetivação dos direitos humanos da
criança e do adolescente, nos níveis Federal, Estadual, Distrital e Municipal. (Art. 1º da Res. 113, Conanda)
• O enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes agrega várias frentes de atuação
que perpassam, entre outras: o fomento à pesquisa sobre o fenômeno da violência sexual contra crianças e
adolescentes; a integração das rede de proteção à criança e ao adolescente; a abertura de canais de escuta do
cidadão para oferecimento de denúncias anônimas, bem como para pedidos de ajuda.
• De acordo com Teixeira (2000), os órgãos componentes do Sistema de Garantia dos Direitos se
dividem em três espécies: defesa, promoção e controle, em função das suas atribuições prioritárias, sendo que
Defesa e Controle se sobrepõem em determinados momentos.
• A coleta dos dados referentes aos pontos de vulnerabilidade que a princípio era feita de forma quase
empírica, contando com comandos genéricos e, principalmente, com a experiência do policial que efetuava o
levantamento e registrava dados gerais sobre o local (localização e identificação do estabelecimento) vem
ganhando rigor científico, e a cada biênio, modificações são implementadas na metodologia para que se
obtenha dados mais confiáveis.
• A intervenção no caso de identificação ou suspeita da ocorrência de violência sexual contra criança
ou adolescente é primordial no início do processo de resgate a dignidade dessas vítimas, mas, para que se
consiga minimizar as sequelas desses crimes, é necessário agir não só observando as regras legais, mas também
e principalmente, de forma acolhedora, não preconceituosa, respeitosa e, principalmente, sensível à situação,
para que não ocorra a revitimização dessa pessoa.
• Consoante o título III da parte geral do ECA, a prevenção das violações contra crianças e adolescentes
deve ser o cerne da atuação social e governamental.
• A prevenção pode se apresentar em três esferas: primária; secundária e terciária.

74
Exercícios

1. De acordo com o Artigo 1º., Inciso IX, do Decreto nº. 1.655/95, compete à Polícia Rodoviária
Federal, adotando as providências cabíveis contidas no Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº.
8.069/90), efetuar a fiscalização e o controle, nas rodovias federais, de:

a) tráfico de menores
b) exploração e trabalho infantil
c) combate ao abuso sexual infantojuvenil
d) violência contra crianças e adolescentes

2. Constitui-se em uma unidade pública estatal; é responsável pela oferta de orientação e apoio
especializados e continuados a famílias e indivíduos com direitos violados, porém, sem rompimento dos
vínculos familiares; desenvolve ações de combate ao trabalho infantil e enfrentamento de situações de
abuso e exploração sexual contra crianças e adolescentes, como o Serviço de Enfrentamento à Violência,
ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e de Adolescentes.

Essas são características do seguinte órgão:
a) Conselho Tutelar
b) Central de Atendimento à Mulher
c) Escritório de Atendimento às Vítimas de Tráfico
d) Centro de Referência Especializada de Assistência Social

3. Considerando as sugestões para professores usarem na abordagem de crianças e adolescentes
em situação de violência, descritas no guia escolar denominado Métodos para Identificação de Sinais de
Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, elaborado pelo Ministério da Educação e Cultura
e pela Secretaria Especial de Direitos Humanos, em 2003, julgue a veracidade das afirmações abaixo.
• A violência sexual é um fenômeno que envolve medo, culpa e vergonha, por isso, é fundamental não
criticar nem duvidar de que a criança/adolescente esteja falando a verdade.
• É preciso coragem e determinação para uma criança ou um adolescente contar a um adulto se está
sofrendo ou se sofreu alguma violência.
O resultado é:

a) F-F
b) F-V
c) V-F
d) V-V

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4. Dirigida às vítimas e aos agressores, com o objetivo de reduzir as consequências da violência
sexual, por intervenções terapêuticas de diversas modalidades. Nesse momento, há acionamento da rede
de serviços públicos e atuação do Conselho Tutelar e da Vara da Infância e Juventude, viabilizando
encaminhamentos necessários para a garantia de direitos, sejam eles na esfera da saúde, educação,
geração de renda, proteção jurídica, etc.
Essas são características da seguinte esfera da prevenção:

a) terciária
b) primária
c) secundária
d) quaternária

5. Qual o contexto de existência das redes de enfrentamento da exploração sexual de crianças
e adolescentes?

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Gabarito

1. Resposta correta: Letra A
2. Resposta correta: Letra D
3. Resposta correta: Letra D
4. Resposta correta: Letra A
5. Orientação de resposta: Seguindo o eixo da articulação e mobilização instituído no Plano Nacional
de Enfrentamento da Violência Infantojuvenil, que institui o fortalecimento das articulações nacionais, regionais
e locais de combate e pela eliminação da violência sexual; o comprometimento da sociedade civil no
enfrentamento dessa problemática; a divulgação do posicionamento do Brasil em relação ao sexo turismo e ao
tráfico para fins sexuais e a avaliação dos impactos e resultados das ações de mobilização e o eixo do
atendimento que tem for finalidade efetuar e garantir o atendimento especializado, e em rede, às crianças e
aos adolescentes em situação de violência sexual e às suas famílias, por profissionais especializados e
capacitados, vários órgãos e entidades vêm sendo estruturados para o atendimento de vítimas de violência
sexual em suas diversas modalidades.

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