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EPSJV- Fiocruz

ESTÁGIO ESTIGMA E USO DE DROGAS

SEMINÁRIO DE CLÍNICA

REDUÇÃO DE
DANOS

JULHO 2010
Constituição Federal - 1988

Art. 196
A saúde é direito de todos e
dever do Estado, garantido
mediante políticas sociais e
econômicas que visem à
redução do risco de doença e de
outros agravos e ao acesso
universal e igualitário às ações e
serviços para sua promoção,
proteção e recuperação.
REDUÇÃO DE DANOS

Constitui um conjunto de
estratégias de saúde pública
que têm por objetivo reduzir
e/ou prevenir as
consequências negativas
associadas ao uso de drogas.
CONCEITO REDUÇÃO DE
DANOS
“ A RD constitui uma estratégia de
abordagem das questões relativas
ao uso de drogas, que não
pressupõe a extinção do uso de
drogas seja no âmbito coletivo, seja
no de cada indivíduo, mas que
formula práticas que diminuem os
danos para aqueles que usam
drogas e para os grupos sociais
com os quais convivem” (Cruz,
2006)
EFEITOS DA ALOCAÇÃO DA RD
COMO ESTRATÉGIA DE SAÚDE PÚBLICA

∙ O usuário deixa de ser estigmatizado como


“criminoso” e passa a ser real beneficiário de
políticas sociais e de saúde.

∙ Redução dos índices de infecção por HIV entre


usuários de drogas injetáveis - Exemplo:
número de casos de AIDS notificados ente UDI
maiores de 13 anos caiu de 29,5% do total em
1993, para 13% do total em 2003.
RD - Histórico
• Estratégias de RD começaram a ser
desenvolvidas por especialistas,
autoridades locais e representantes de
usuários de drogas, em algumas cidades
européias.
• Contexto: graves problemas com
farmacodependentes, rede de
atendimento inadequada, sensação de
impotência e ineficácia da força policial.
(Buning, 2006)
Estratégia RD - princípios
• Pragmatismo - enquanto prática de saúde pública
preserva a vida de milhares de pessoas e diminui
gastos com tratamento.
• Tolerância - respeita os usuários de drogas em suas
escolhas individuais.
• Respeito à diversidade - entende que a forma
diferenciada de interação entre fatores biológicos,
psicológicos e socioculturais resulta em múltiplos
modos de fazer uso de substâncias psicoativas.
APROXIMAÇÃO RD E SAÚDE COLETIVA

Entender a RD como uma estratégia


de intervenção, que deve se adaptar
aos padrões de consumo de drogas
nos diferentes contextos, procurando
alternativas criativas para reduzir os
danos decorrentes desse uso, sejam
eles biológicos, psíquicos, sociais ou
econômicos.
AMSTERDÃ – UM EXEMPLO
PARADIGMÁTICO
Contexto: 1978 – aumenta o número
de usuários de heroína, devido à
crise econômica na Holanda
(decorrente da crise do petróleo);
aumento da imigração do Suriname,
após independência deste; aumento
de “turistas”, que vinham buscar
clima “tolerante” em Amsterdã.
AMSTERDÃ – UM EXEMPLO
PARADIGMÁTICO
• Constatação: poucas instituições
para dar ajuda e suporte para essa
clientela.
• Ações:
Solicitação de ajuda à Secretaria
Municipal de Saúde – dando à
questão um status de problema de
saúde pública.
AMSTERDÃ – UM EXEMPLO
PARADIGMÁTICO
Estratégia desenvolvida:
• É preciso entrar em contato com todas as
pessoas que usam drogas e causam
problemas a si e/ou aos outros.
• É preciso escutá-los para entender qual é o
problema e que tipo de ajuda precisam.
• É preciso desenvolver um sistema de registro
para acompanhar os pacientes.
• É preciso mapear todas as instituições de
assistência e otimizar seu uso.
AMSTERDÃ – UM EXEMPLO
PARADIGMÁTICO
Ações desenvolvidas:
• Programa de redutores de danos
nas ruas
• Terapia de substituição
• Troca de seringas
PROGRAMA DE REDUTORES DE
DANOS NAS RUAS
• Partiu do desinteresse dos usuários de
frequentarem serviços orientados para
abstinência.
• Características dos redutores: são
próximos do ambiente as drogas, por
causa de seu estilo de vida ou por causa de
sua própria história de uso de drogas.
• Representam uma ponte entre o sistema
estabelecido e a clientela
• Ações: fornecem intervenção em crise, dão
informação e suporte, encaminham os
usuários às instituições de tratamento.
TERAPIA DE SUBSTITUIÇÃO

• Substituição de uma droga ilícita por uma


lícita. No caso holandês, metadona em
substituição da heroína.
• Vantagens: menor entorpecimento; uso
via oral; meia vida mais longa (24 a 36
horas em relação a 4 horas da heroína)
• Vantagens em RD: afastar do ambiente de
drogas ilícitas, eliminar comportamento
criminal, eliminar ou reduzir o uso de
drogas injetáveis, maior permanência no
tratamento, contato permanente com um
equipe de saúde.
PROGRAMA DE TROCA DE
SERINGAS
• Construído para diminuir os riscos de
infecção por HIV e hepatites.
• Vantagens: protege o ambiente do
material contaminado (é necessário
entregar uma seringa para receber outra)
e protege o usuário da infecções.
• Vantagem RD: drástica redução de
compartilhamento de seringas e agulhas,
aumento de contato com a rede de
atendimento. Não houve impacto
significativo sobre padrão de uso.
POSSÍVEIS
R A Z Õ E S PA R A A
RESISTÊNCIA ÀS
E S T R AT É G I A S D E
REDUÇÃO DE
DANOS
“No Brasil, vivemos hoje ampla discussão sobre as diversas
formas de abordagem dos problemas relacionados ao uso de
álcool e outras drogas. (…) Esses problemas incluem dimensões
tão amplas, como o uso médico de substâncias que podem
provocar dependência, o consumo de drogas lícitas (o álcool e o
tabaco) que podem produzir danos muitos graves, até o uso de
drogas ilícitas (a maconha, a cocaína, o crack e as novas drogas
sintéticas). A complexidade e a gravidade dos problemas
envolvidos convocam ações da sociedade, que incluem amplo
espectro de atividades, indo da prevenção à repressão, passando
pela definição de práticas de assistência e pela atuação dos
sistemas jurídico e educacional do País. Essa diversidade de
práticas e problemas exige a ação de atores sociais de formação
extremamente diversificada, como é o caso dos profissionais de
saúde, educadores, religiosos, familiares de usuários de drogas,
ex-usuários, usuários atuais de drogas, etc. As questões
discutidas envolvem aspectos técnicos, éticos, políticos, sociais e
culturais.”
Cruz,M.S. “Considerações sobre possíveis razões para a resistencia às estratégias de redução de danos”, In: Cirino O.
e Mediros R. - Álcool e outras Drogas: Escolhas, Impasses e Saídas Possíveis. Belo horizonte, Autentica, 2006.
“O insucesso das iniciativas de prevenção
é enfocar a questão numa única
pespectiva, uma vez que „usar drogas de
forma abusiva e danosa é geralmente
fruto de uma dinâmica descontínua,
complexa e plurideterminada.‟(Bastos, 2003)”
(CRUZ, 2006)
"Tolerância zero”

OU

“É proibido proibir"?
“IMAGINAR UMA SOCIEDADE
SEM DROGAS É COMO
IMAGINAR O MUNDO SEM
SEXO.” FHC
É POSSIVEL
ESPERARMOS UMA
SOCIEDADE SEM
DROGAS?
Comissão Brasileira Sobre Drogas e Democracia (CBDD)
“ Vamos quebrar o tabu e falar muito claramente,
imaginar um mundo sem drogas é um objetivo muito
difícil de se alcançar. É como imaginar um mundo sem
sexo. Mudou o paradigma, a meta é reduzir os danos e
deslocar o foco. Toda droga faz mal inclusive o tabaco e o
álcool. Eles fazem mal, mas há uma regulamentação que
permite que, numa certa quantidade, possam ser
consumidos. Temos que avançar culturalmente na
compreenção desse processo.” FHC
AMSTERDÃ: abstinência e redução de danos
“Os partidários da redução de danos estavam prontos para rotular
os paridários das Terapêuticas Tradicionais como intolerantes,
dogmáticos e ineficazes. (…) elementos para um grande conflito.
Com bases nos boatos que os programas de redução de danos
desmotivavam as pessoas a ingressar nos tratamentos orientados
para a abstinência, nós decidimos monitorar, de um lado, o número
de pessoas que ingressavam nos programas de metadona e, de
outro lado, o número de pacientes orientados para a abstinência.
No período de 1981 a 1988, inicialmente, o número de pessoas nos
programas de metadona aumentou drasticamente e entào se
tornou estável. No mesmo período, o números de pessoas
orientados para a abstinência cresceu mais de 200%. Assim, em vez
de afastar os pacientes dos tratamentos, parecu que o programa de
redução de danos realmente atraíam as pessoas para a rede de
tratamento e motivavam-nas para os programas orientados para a
abstinência.”
RESISTÊNCIAS
•Reprodução de um modelo conhecido;
•Incompreensões sobre as premissas e as
práticas;
•Radicalização por ideologias;
•Idéia de que a única forma de cura é a
abstinência; (Cruz, 2006)

•IDEAL DA SOCIEDADE SEM DROGAS.


COMPREENÇÃO EQUIVOCADA DE
QUE A REDUÇÃO DE DANOS:

1. É contraditória ou dispensa ações preventivas e não dirige


ações para redução de oferta nem de demanda.

REDUÇÃO DA OFERTA : Na estratégia de RD pode-se restringir


locais de venda, não podendo-se vender ao redor de escolas,
rodovias, postos de gasolinas.
REDUÇÃO DA DEMANDA: Realizar atividades alertando sobre os
risco de consumo e restringir a propaganda do álcool.
COMPREENÇÃO EQUIVOCADA DE
QUE A REDUÇÃO DE DANOS:
2. Interessa a produtores e vendedores de drogas.

RD só é contrária ao Proibicionismo – medidas repressivas


tornaram o mercado ilegal um negócio milionário. ISTO SIM
INTERESSA AOS PRODUTORES E VENDEDORES DE DROGAS.

3. Produz inércia em relação aos quadros de dependência.

RD quer fazer algo com os dependentes que não conseguem


interromper, ela não quer excluir, expulsar, agredir… REDUÇÃO DE
DANOS NÃO DESISTE, PROPÕE ESTRATÉGIAS PARA LIDAR COM AS
EXPECTATIVAS E FRACASSOS
COMPREENÇÃO EQUIVOCADA DE
QUE A REDUÇÃO DE DANOS:

4. É uma estratégia permissiva.

As instituições que trabalham com a RD também possuem regras, como


não poder usar droga na instituiçào, chegar em condições de fazer o
programa terapeutico acordado. A RD NÃO Ë PERMISSIVA, ELA
TRABALHA COM LIMITES NO MOMENTO E TEMPO NECESSÁRIO.
COMPREENÇÃO EQUIVOCADA DE
QUE A REDUÇÃO DE DANOS:

5. Passa uma mensagem de descrédito de que é possível


interromper o uso de drogas (no âmbito individual) ou de que os
problemas relacionados ao uso podem ser minimizados (no
âmbito coletivo)

A utilização das estratégias de RD, ao contrário de DESCRÉDITO, se apoia


na compreensão de que mudanças nos padros de consumo de drogas são
necessárias e factíveis. Pode-se significar a interrupção do uso para
muitos pacientes e a diminuiçào dos problemas no âmbito social, mas
pressupõe que impor essas metas é irrealístico e contraproducente.

(Cruz, 2006)
RADICALIDADE DE ALGUNS PARTIDÁRIOS DA
REDUÇÃO DE DANOS:

TODAS AS PESSOAS PODEM A VIR A USAR


DROGAS DE MANEIRA MODERADA E
CONTROLADA?
Alguns pacientes que são dependentes de drogas têm a
necessidade de interromper completamentamente o uso para que
cessem os demais problemas a ele associados e para que possam
se beneficiar do tratamento oferecido. Estes reiniciam o uso
compulsivo com graves perdas cada vez que tentam fazer o uso de
forma controlada. (Cruz, 2006)

SINGULARIDADE – INDIVIDUALIDADE