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Resolução de Problemas II Apropriação Cultural na Cidade de São Paulo Orientadora: Profa. Dra. Claudia

Resolução de Problemas II Apropriação Cultural na Cidade de São Paulo

Orientadora: Profa. Dra. Claudia Regina Garcia Vicentini

Gustavo Mota nº USP 9761419 Larissa Shirata nº USP 9844731 Camila Ferreira nº USP 9844710 Natalia Carvalho nº USP 9778449

São Paulo

2016

Resumo

Este trabalho analisa, utilizando de conceitos de uma pesquisa bibliográfica, pontos de vista, a partir de um questionário, sobre o que é apropriação cultural no mundo do século XXI, com a globalização e a difusão do multiculturalismo. Com uma base fundamentada em autores como Pierre Bourdieu, Michel Nicolau Netto, Boaventura de Sousa Santos e Michel Adier, esta pesquisa se propõe a buscar pela cidade de São Paulo, em bairros com diferentes estruturas, como se dá essa apropriação e como as pessoas enxergam esse fenômeno a partir do que observam ao seu redor e nas mídias no geral.

Palavras-chave: Apropriação cultural; Mídia; Globalização.

Abstract

Based on a previously driven quiz, this assignment analyses points of view about what cultural appropriation is on a 21st century scenario, including globalization and propagation of multiculturalism, utilizing concepts of a bibliographical research. Based on authors such as Pierre Bourdieu, Michel Nicolau Netto and Michael Adier, this research proposes the search for ways of how this appropriation happens throughout the city of São Paulo, on different neighborhoods of different structures, and how people perceive this phenomenon based on what they observe, whether on social media or around themselves on their daily lives.

Keywords: Cultural appropriation; Media; Globalization.

Introdução

A globalização abriu ainda mais caminhos e espaços para as trocas entre culturas e tradições distintas. O fácil acesso a outras culturas proporciona um problema, onde pessoas de grupos socialmente dominados - grupos que historicamente foram oprimidos por uma cultura dominante, como o exemplo dos negros que tiveram a cultura europeia imposta em suas expansões de território - começaram a questionar a utilização de adornos que remetem a cultura deles, o símbolo que para eles é político, de resistência e empoderamento, ganha outro significado. “Vivemos num mundo onde há séculos uma cultura é dominante e imposta, o modelo a ser seguido é o europeu, consequentemente, o padrão estético é o ocidental e branco. Quando se nota o interesse nos casos citados , esses símbolos sofrem um processo de embranquecimento, elitização e exclusão dos costumes. O turbante que sua empregada fazia não era interessante até aquela amarração sair numa revista. O pior lado disso tudo é que a exclusão vem quando a tradição se torna um bem de consumo caro e de acesso restrito, ou seja, vira “modinha”. É totalmente diferente ser branco – ou passar como branco – e usar um turbante/dread, e ser negro usando as mesmas coisas; os olhares são outros, exatamente porque quando usado pelo protagonista daquela tradição, o símbolo ganha outro significado, ele é político, de resistência e empoderamento.”(RIBEIRO, 2015) A cultura europeia dota de uma grande aceitação na sociedade ocidental, mas o mesmo não acontece com todas as outras culturas e seus elementos que estão presentes em nossas vidas. As estampas e artigos da cultura africana são usados por muitas pessoas, mas geralmente são vistos com bons olhos somente dependendo de quem os usa - como por exemplo, a campanha da marca Arezzo que usou atrizes brancas . A cultura indígena, muitas vezes tida como não civilizada, é cada vez mais

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1 A autora anteriormente fala sobre o uso de turbantes e dreads.

2 Campanha da Arezzo para o verão de 2009, na qual as atrizes Cláudia Raia, Mariana Ximenes e Patrícia Pillar protagonizaram vestindo turbantes, devido à evidencia que tinham por causa da atuação delas na novela A Favorita, exibida pela Rede Globo, na época que a campanha foi lançada.

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reproduzida por pessoas ditas “padrão de beleza” - como por exemplo, a campanha #NossaOrigemGuerreira que utilizou da blogueira e modelo Gabriela Pugliese no dia do índio . O mesmo acontece com as vestes e artigos indianos e de países orientais no geral - como quando, no ano de 2013 a cantora pop norte-americana Selena Gomez usou o bindi na testa, símbolo religioso hindu considerado o terceiro olho, em algumas performances musicais . “O que trazem de peculiar estes exemplos é a proposta de universalidade dos discursos. Por mais que haja uma aceitação do diverso (expressa nas oposições), tal ocorre de maneira negativa, ou seja, como algo a ser evitado ou mesmo excluído.” (NETTO, 2011) Por esse motivo, casos onde elementos de culturas dominadas são usados livremente são chamados não mais de assimilação, mas sim, apropriação. Apropriação cultural é um conceito antropológico e se refere ao uso de elementos de uma cultura dominada por uma cultura dominante sem sua permissão ou distorcendo seus significados. É bastante claro que existe um padrão do que é considerado belo e certo. É só olhar nas capas de revistas, jornais e programas de televisão. Há uma cultura sendo disseminada. Mulheres e homens brancos são maioria na TV, num país onde 53,6% da população é negra (IBGE, 2014). Até mesmo personagens que viviam no antigo Egito e outros países da África são retratados por atores brancos (vide a série novelística José do Egito, exibida pela rede Record) . A mídia coloca a cultura indígena como inferior a todo momento e muitos de nós, cidadãos brasileiros, nem nos damos conta de que ainda há, segundo o IBGE, 305 etnias indígenas no Brasil tentando manter suas tradições.

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3 O padrão de beleza aqui considerado é o padrão europeu

4 Campanha #NossaOrigemGuerreira da marca de jóias Guerreiro que no Dia do Índio (19 de abril) de 2016, onde usuários da rede social Instagram postaram fotos usando pinturas faciais e cocares, a modelo branca Gabriela Pugliesi foi uma das personalidades famosas que promoveram essa campanha.

5 A performance da música “Come & Get It” da Selena Gomez ocorreu na premiação MTV Movie Awards, que aconteceu em 14 de abril de 2013, na cidade de Los Angeles, California, EUA.

6 José do Egito, minissérie produzida pela Rede Record, exibida originalmente de 30 de janeiro a 9 de outubro de 2013. Escrita por Vivian de Oliveira e com direção geral de Alexandre Avancini, direção de Vivianne Jundi, Hamsa Wood e Armê Manente. Composta de 38 capítulos.

A mídia tem grande influência nesses casos. Indígenas e orientais são representados pelo estereótipo da cultura atrasada, religiões e hábitos de origem africana vistos como ruins. Mas, em um certo momento, uma modelo branca aparece usando turbante e estampa étnica. Outra modelo branca e magra aparece usando penas, e outra aparece com pinturas corporais. Não demora a população seguir o mesmo caminho. O que antes era visto com maus olhos, agora é a tendência do momento. Será que todas as pessoas que usam estes objetos e acessórios que agora são tendência sabem o significado que eles têm para sua cultura de origem? Qual é a visão das pessoas em relação a isso mediante ao que é retratado na Mídia? Seria ou não “permitido” utilizar determinada peça de roupa ou acessório? Há como utilizar-se dos adornos sem que haja Apropriação Cultural e não desrespeitar o grupo que utiliza estes?

Por esses motivos tentaremos, com este trabalho, entender de forma mais aprofundada a apropriação na cidade de São Paulo através de entrevistas, levantamento de dados e análises em centros urbanos. Utilizaremos da análise e comparação de mídia e concentrações urbanas para verificar se o uso apropriado de peças de roupa, acessórios, ornamentos representantes de uma cultura é feita de modo diferente dependendo da renda, hábitos locais, posição geográfica de tais locais e, em caso afirmativo, quais são essas diferenças. Tomaremos conhecimento de movimentos raciais e culturais na cidade para compreender suas opiniões e verificar se há e como é feito o combate à apropriação em São Paulo.

Objetivo Geral

Investigar como a apropriação cultural ocorre na cidade de São Paulo e levantar informações a respeito. Comparar o uso de peças e acessórios pertencentes a outra cultura, associando em como a mídia retrata isto.

Objetivos Específicos 1. Levantar informações da opinião das pessoas sobre o assunto, e verificar como estas fazem o uso desses acessórios;

2. Comparar informações midiáticas comerciais a cerca da apresentação de objetos de culturas dominadas nestas.

Metodologia

O formato desse projeto é de pesquisa exploratória, segundo DOXSEY & DE RIZ, porque através do levantamento de informações pretendemos entender como, na cidade de São Paulo, as pessoas enxergam e se posicionam sobre a apropriação cultural. A pesquisa bibliográfica será utilizada para fundamentação teórica sobre o tema e tem como finalidade ajudar na compreensão dos complexos conceitos de apropriação cultural e globalização para colhimento de dados. Para entender sobre a opinião das pessoas, foi utilizada uma pesquisa de levantamento (survey), com o uso de questões mistas, e as entrevistas foram aplicadas como principais ferramentas para a realização deste trabalho. O questionário foi aplicado de maneira online, pois o assunto tem uma maior aceitação pelo público mais jovem que é facilmente encontrado nesta plataforma. Este foi aplicado e dividido em três partes: a primeira para definir o perfil dos entrevistados, como idade, lugar em que mora e se trabalha e/ou estuda; na segunda parte foi questionado se a pessoa sabia o

que era a termologia ‘Apropriação Cultural’; na última parte foi questionado especificamente sobre apropriação cultural, focando em saber como cada pessoa entende do assunto tratado, como ela vê isso na sociedade que está inserida e como a mídia coloca isso para ela. Como base para os resultados, foi usado o número de habitantes da cidade de São Paulo dado no último senso realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2010. Sendo 11.253.503 o número desses habitantes, e tendo um número de amostra de 201 pessoas entrevistadas, a pesquisa apresenta 91% de confiabilidade com, aproximadamente, 6% de margem de erro. Para a análise midiática foi feita uma pesquisa de levantamento quantitativo analisando capas de revistas, verificando se houve propagandas que apresentam itens de culturas dominadas, e o que e/ou quem está representando estas culturas. Para realizar essa análise foram utilizadas duas revistas como representantes de dois públicos-alvo diferentes. Para representar um público mais específico e voltado para área de moda, foi escolhida a Revista Vogue e como representante de um público geral da cidade de São Paulo, foi escolhida a Revista Caras. O período analisado foi escolhido baseado nos meses representantes da coleção Primavera/Verão, sendo estes representantes do intervalo de tempo entre o mês de Setembro de 2015 à Fevereiro de 2016.

Resultados e Discussão

Análise do Questionário

Após a aplicação de questionário foram feitos os gráficos, os quais retratam o comportamento de nossa amostra, tanto da posição perante ao tema, quanto a visão a cerca da mídia, foi realizada uma análise a partir dos resultados obtidos. Na amostra em que foi realizada a pesquisa a maioria das pessoas, 75%, estava na faixa de idade entre 18 e 25 anos.

pessoas, 75%, estava na faixa de idade entre 18 e 25 anos. Em relação a moradia,

Em relação a moradia, a maioria das pessoas moram na zona leste da cidade de São Paulo, 36,8%. A zona oeste e o centro apresentaram cada uma 18,4% dos moradores pesquisados.

Quando questionado se trabalhavam quase 60% das pessoas responderam não. Isto pode estar ligado também

Quando questionado se trabalhavam quase 60% das pessoas responderam não. Isto pode estar ligado também com a faixa etária mais presente nesta pesquisa, ja que também se tem uma maioria estudante.

pode estar ligado também com a faixa etária mais presente nesta pesquisa, ja que também se
Na parte do questionário mais voltada para o tema aqui tratado, 81,1% dos entrevistados respondeu

Na parte do questionário mais voltada para o tema aqui tratado, 81,1% dos entrevistados respondeu que sabia do que se tratava o termo ‘Apropriação Cultural’. Consideramos que a maioria das pessoas alegou saber o que é apropriação cultural devido a baixa faixa etária dos entrevistados.

cultural devido a baixa faixa etária dos entrevistados. Após essa questão, o entrevistado que respondesse

Após essa questão, o entrevistado que respondesse “Sim” era orientado a explicar em poucas palavras o que entendia pelo conceito de Apropriação Cultural, e 55,2% dessas pessoas explicaram corretamente. Analisando as respostas, percebe-se

que boa parte, 44,8% dos entrevistados acredita saber o que é apropriação cultural, porém quando questionado sobre o que a caracteriza, poucos sabem responder corretamente segundo a definição de que apropriação cultural é a utilização de objetos, que caracterizam uma cultura dominada, por uma cultura dominante.

uma cultura dominada, por uma cultura dominante. A próxima questão orientava a pessoa dar um número

A próxima questão orientava a pessoa dar um número de 1 a 5, 1 significando Muito Ruim e 5 Muito Bom. Nessa pergunta, 37,7% das pessoas responderam o número 3, significando Intermediário e 24,6% respondeu que achava ruim. Concluindo-se que por mais que as pessoas saibam o que significa apropriação cultural, elas não se posicionam sobre o que acham disso. Respondendo o número 3, as pessoas se abstiveram de declarar a apropriação como algo bom ou ruim.

Na última questão dessa parte da pesquisa as pessoas selecionaram objetos que para elas representam

Na última questão dessa parte da pesquisa as pessoas selecionaram objetos que para elas representam uma cultura. Os objetos que mais foram escolhidos, foi o turbante, o Bindi(terceiro olho hinduísta) e o kimono.

uma cultura. Os objetos que mais foram escolhidos, foi o turbante, o Bindi(terceiro olho hinduísta) e

Foi questionado também a cerca de onde as pessoas enxergam a Apropriação Cultural na mídia, 62,8% das pessoas responderam que já viram algum tipo de apropriação em algum veículo midiático, e dessas a maioria viu isso em campanhas publicitárias e/ou novelas. Nessa questão também, houve um grande número de pessoas que não responderam ou responderam algo ou que não cabia como resposta ou uma resposta confusa.

número de pessoas que não responderam ou responderam algo ou que não cabia como resposta ou
número de pessoas que não responderam ou responderam algo ou que não cabia como resposta ou

Foi realizada uma avaliação midiática na qual procuramos por representantes de culturas dominadas e possíveis casos de apropriação dos objetos representantes de culturas, de acordo com nossa pesquisa, em capas de revistas de grande circulação na cidade de São Paulo. Para se ter um panorama maior, escolhemos as revistas “Caras” e “Vogue” e as capas analisadas pertencem ao período de setembro de 2015 à fevereiro de 2016.

Revista Vogue

Das oito pessoas presentes nas seis capas, apenas duas não eram representantes do modelo europeu de beleza. A modelo negra Naomi Campbell acompanhava o estilista Riccardo Tisci e a modelo Mariacarla Boscono, ambos brancos e de nacionalidade italiana, na capa da edição de outubro de 2015.

italiana, na capa da edição de outubro de 2015. 7 7 Imagem retirada de < ​

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Já a modelo negra Jourdan Dunn, eleita por duas vezes a melhor modelo do ano

na Inglaterra, segundo a Vogue Brasil, estampou a capa da edição de fevereiro de

2016.

Brasil, estampou a capa da edição de fevereiro de 2016. 8 Também em fevereiro, ocorreu o

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Também em fevereiro, ocorreu o Baile de Carnaval da revista, cujo tema era “Africa Pop”. Na festa, além da perceptível falta de convidados negros, diversas celebridades, em sua maioria brancas utilizaram diversos elementos representantantes de culturas de matriz africana.

Amplamente criticadas na internet e endeusadas pela crítica, as imagens mostram a europeização da estética afro, espécie de

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crivo da moda ao que lhe é diferente, ou, para citar uma palavra ainda mais perigosa empregada no círculo fashion, ‘exótico’.” (Pedro Diniz, colunista da Folha de S. Paulo)

Na capa da edição de novembro de 2015, a modelo branca brasileira Carol Trentini posa utilizando dreadlocks no cabelo. Em nossa pesquisa, 103 das 201 pessoas disseram que dreadlocks são representantes de uma cultura. Especificamente do movimento rastafari, que tem origem na Jamaica, país com 92.1% de população declarada como negra. (The World Factbook, 2016)

população declarada como negra. (The World Factbook, 2016) 9 9 Imagem retirada de < ​

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Revista Caras

A revista Caras é uma revista semanal voltada para o entretenimento e tem um público bem amplo. No período escolhido para análise das capas há pelo menos 20 amostras e depois de analisadas percebe-se que das 50 pessoas em todas as capas somente uma é representante de uma etnia que não seja a dominante. Isso chama atenção para um ponto importante. Nas respostas do questionário base para a pesquisa 18,9% das pessoas responderam que não sabiam o que é apropriação cultural, isso é um percentual alto se pensarmos que apropriação cultural é um tema de debate atual e mostra que apesar de atual não está sendo discutido por todos. Com a falta de diversidade nas escolhas de pessoas para compor suas capas a revista não abre espaço para o público refletir sobre o tema.

não abre espaço para o público refletir sobre o tema. 10 1 0 Imagem retirada de

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Imagens

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foram

encontradas

no

período

pesquisado, porém em uma das capas há uma referência a um ator branco que atua como Faraó em uma novela. De acordo com o questionário 13,4% das respostas trouxeram a novela como propagadora de apropriação cultural nas mídias brasileiras.

Como forma de nos aprofundarmos ainda mais nas questões de como a apropriação cultural é vista, procuramos também uma representante de um movimento de uma cultura dominada, para expressar sua opinião sobre o assunto. Para isso, realizamos uma entrevista, via email, transcrita abaixo com a Cynthia Mariah Estilista e coordenadora de estudos e pesquisas da ANAMAB (Associação Nacional de Moda Afro-brasileira)

1) O que você entende por apropriação cultural? Apropriação cultural é quando as pessoas de um grupo social passam a utilizar de algum elemento de caracterização de um outro grupo no seu dia-a-dia.

2) De que modo você enxerga apropriação cultural? A Apropriação cultural pode ser entendida de duas formas:

Positiva= quando quem passa a utilizar aquele elemento simbólico da outra cultural com um total entendimento sobre a simbologia daquele artigo para o outro grupo e utiliza com respeito às características aplicadas. Negativa = quando quem passa a utilizar não tem a menor importância sobre o uso do elemento, fazendo seu uso apenas por questões estética e como um elemento de Moda apenas.

3)Quais objetos você considera representantes de uma cultura? Todo objeto simbólico de tradição, religioso ou etnológico que caracteriza um povo, pode ser entendido como um objeto cultural.

4) Você acha que nos últimos anos há um levante na luta de culturas dominadas, estética e socialmente? Se sim, você acha que isso ocorre de forma geral ou somente no movimento negro? Essa questão de culturas dominadas, leva muito pela questão do poder, que como aponta Foucaut manda quem tem o domínio da retórica, mas nesse levantamento prefiro colocar como culturas oprimidas, por uma classe, que se falando principalmente de Brasil, etnologicamente se julgava dominante. Na questão dos grupos de movimentos negros, talvez fosse porque eram composta por uma parcela da população que tivesse menos visibilidade e não acarretava tanto impacto como nos últimos anos, isso sempre aconteceu, os grupos de militância sempre apresentaram resistência no seu posicionamento social e estético. E existem outros grupos que fazem esse tipo de posicionamento etnológico, no Brasil talvez ainda com pouca visibilidade.

5) Por que você acha que há pouca representatividade de pessoas pertencentes às culturas dominadas em mídias publicitárias ainda que elas façam parte do público-alvo da marca? Apesar de já existirem pesquisas mercadológicas que apontem esses dados de consumo por esses grupos sociais oprimidos e excluídos socialmente, a área das grandes produções publicitárias ainda possui uma doutrina ultrapassada da estética de padrões impostos pelos grupos sociais dominantes e opressores. Mas vendo pelos últimos anos os novos talentos da área estão vindo com uma nova visão, entendo a mudança do mundo e aceitando trabalhar com os dados dessas pesquisas.

Contraponto pela globalização

Difícil definir o momento em que o uso de símbolos e costumes de um povo torna-se uma ofensa, o antropólogo João Batista de Jesus Felix, professor da Universidade Federal do Tocantins e coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas da África e dos Afro-Brasileiros (Neaf/UFT) defende que não há uma imposição cultural de um povo em relação a outro, e sim uma troca entre povos. “Eu discordo de que você tenha uma cultura negra e uma cultura branca. O que existem são práticas culturais. No Brasil, nós temos o samba e a capoeira que, a princípio, podem ter sido iniciados por negros, mas que hoje estão aí para o uso de todos. Eu não sou adepto da ideia de que você tem uma cultura de um grupo.” A globalização pode ser entendida como um conjunto de diferentes relações sociais, que dão origem a diferentes fenômenos de globalização, porém essas relações sociais envolvem conflitos e, por isso, vencedores e vencidos, segundo Boaventura de Sousa Santos em seu texto “Por uma Concepção Multicultural de Direitos Humanos“, continua dizendo que o discurso, quase sempre, sobre globalização é a história dos vencedores contada pelos próprios e a vitória é aparentemente tão absoluta que os derrotados acabam por desaparecer totalmente de cena. Boaventura propõe a seguinte definição: “a globalização é o processo pelo qual determinada condição ou entidade local estende a sua influência a todo o globo e, ao fazê-lo, desenvolve a capacidade de designar como local outra condição social ou entidade rival.” Segundo essas condições de sistema-mundo ocidental não existe globalização genuína, o que chamamos de globalização é sempre a globalização bem sucedida de determinado localismo, não existe condição global para a qual não consigamos encontrar uma raiz local, uma imersão cultural específica. Em seu texto, Boa Ventura distingue a globalização em quatro modos de produção, já que ele a entende como algo plural, porém apenas dois serão importante para a discussão sobre apropriação cultural. A primeira é o localismo globalizado, que

consiste no processo pelo qual determinado fenômeno local é globalizado com sucesso, seja a atividade mundial das multinacionais, a globalização do fast food. O segundo é o globalismo localizado que consiste no impacto específico de práticas e imperativos transnacionais nas condições locais, uso turístico de tesouros históricos, lugares ou cerimônias religiosas, etnicização do local de trabalho (desvalorização do salário pelo fato de os trabalhadores serem de um grupo étnico considerado inferior ou menos exigente). Os camponeses da Bolívia, do Peru e da Colômbia, ao cultivarem coca, contribuem decisivamente para um cultura mundial da droga, mas eles permanecem localizados nas suas aldeias e montanhas como desde sempre estiveram e ainda sim contribuem fortemente para a globalização, mesmo presos em seu tempo-espaço local. Há também os moradores das favelas do Rio, que permanecem prisioneiros da vida urbana marginal, enquanto as suas canções e suas danças, sobretudo o samba, constituem hoje parte de uma cultura musical globalizada. Segundo o sociólogo Stuart Hall, em seu livro “A Identidade Cultural na Pós-Modernidade”, ele fala sobre a fragmentação das identidades provocada pelo processo de globalização, Hall diz ainda que “somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar”

Conclusão

Neste presente trabalho percebemos que o conceito de apropriação cultural é muito mais complexo do que pensávamos a priori. Tentamos trazer para o mesmo as várias opiniões sobre o assunto e as relacionar à globalização, troca de informações e como a mídia a retrata. Por ser um assunto que ganhou evidência recentemente, sem ser pelos meios convencionais de mídia, observamos que o público jovem está mais ativo na discussão. Concluímos que a apropriação está mais relacionada ao esvaziamento de significado, quando pessoas pertencentes a culturas dominantes se apropriam de símbolos de culturas dominadas com a supervalorização da estética do elemento, do que com o simples uso de elementos culturais globalmente disseminados. Analisando as respostas, vimos que apesar do conceito ser corretamente entendido pela maioria, o posicionamento perante a questão está ligado à opinião pessoal. Há pessoas que entendem o conceito e o consideram como ruim e desrespeitoso com as culturas dominadas assim como há pessoas que, apesar de também entenderem o conceito, o enxergam com neutralidade.

Anexo 1 - Capas da Revista Vogue - Setembro/2015 à Dezembro/2016

Anexo 1 - Capas da Revista Vogue - Setembro/2015 à Dezembro/2016
Anexo 1 - Capas da Revista Vogue - Setembro/2015 à Dezembro/2016
Anexo 1 - Capas da Revista Vogue - Setembro/2015 à Dezembro/2016
Anexo 1 - Capas da Revista Vogue - Setembro/2015 à Dezembro/2016

Anexo 2 - Capas da Revista Vogue - Janeiro/2016 e Fevereiro/2016

Anexo 2 - Capas da Revista Vogue - Janeiro/2016 e Fevereiro/2016
Anexo 2 - Capas da Revista Vogue - Janeiro/2016 e Fevereiro/2016

Anexo 3 - Capas da revista Caras - Setembro/2015 e Outubro/2015

Anexo 3 - Capas da revista Caras - Setembro/2015 e Outubro/2015
Anexo 3 - Capas da revista Caras - Setembro/2015 e Outubro/2015
Anexo 3 - Capas da revista Caras - Setembro/2015 e Outubro/2015
Anexo 3 - Capas da revista Caras - Setembro/2015 e Outubro/2015

Anexo 4 - Capas da revista Caras - Outubro/2015 e Novembro/2015

Anexo 4 - Capas da revista Caras - Outubro/2015 e Novembro/2015
Anexo 4 - Capas da revista Caras - Outubro/2015 e Novembro/2015
Anexo 4 - Capas da revista Caras - Outubro/2015 e Novembro/2015
Anexo 4 - Capas da revista Caras - Outubro/2015 e Novembro/2015

Anexo 5 - Capas da revista Caras Novembro/2015 e Dezembro/2015

Anexo 5 - Capas da revista Caras Novembro/2015 e Dezembro/2015
Anexo 5 - Capas da revista Caras Novembro/2015 e Dezembro/2015
Anexo 5 - Capas da revista Caras Novembro/2015 e Dezembro/2015
Anexo 5 - Capas da revista Caras Novembro/2015 e Dezembro/2015

Anexo 6 - Capas da revista Caras - Dezembro/2015 e Janeiro/2016

Anexo 6 - Capas da revista Caras - Dezembro/2015 e Janeiro/2016
Anexo 6 - Capas da revista Caras - Dezembro/2015 e Janeiro/2016
Anexo 6 - Capas da revista Caras - Dezembro/2015 e Janeiro/2016
Anexo 6 - Capas da revista Caras - Dezembro/2015 e Janeiro/2016

Anexo 7 - Capas da revista Caras - Fevereiro/2016

Anexo 7 - Capas da revista Caras - Fevereiro/2016
Anexo 7 - Capas da revista Caras - Fevereiro/2016

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