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RECORDAÇÃO PERIGOSA Mary Higgins Clark Título Original: I Heard That Song Before Tradução de Ana Duarte BERTRAND EDITORA Lisboa 2008 Depósito legal nº 269 358/07 ISBN: 978-972-25-1643-3

Badana da capa:

Mary Higgins Clark é autora de vinte e cinco romances de suspense, três colectâneas de pequenos contos, um romance histórico e um livro de memórias. Juntamente com Carol Higgins Clark, é co- autora de três romances de suspense. Só nos Estados são impressos mais de oitenta milhões de exemplares dos seus livros, que constituem best-sellers a nível mundial.

Contracapa:

A mansão da família Lansing do século XVII - que foi transportada, pedra a pedra, do País de

Gales, em 1848 - tem uma capela secreta. Um dia, acompanhando o pai ao trabalho, Kay, então com seis anos, sucumbe à curiosidade e entra na capela às escondidas. Aí, ouve uma discussão entre um homem e uma mulher que lhe exige dinheiro. Quando ela diz que essa será a última vez que o fará, a resposta sarcástica do homem é: "Já ouvi essa canção". Nessa mesma noite, os Carrington dão uma festa com baile, após a qual Peter Carrington, estudante em Princeton, leva a casa Susan Althorp, a filha de dezoito anos dos seus vizinhos. Embora os pais ouçam Susan entrar em casa, de manhã não a encontram no quarto, nunca mais a vêem. Kay Lansing, que agora vive em Nova Iorque e trabalha como bibliotecária vai encontrar-se com Peter Carrington, para lhe pedir autorização para fazer uma festa na propriedade dele. Peter concorda. Depois da festa, apaixona-se por ele e casam, uns meses depois Kay descobre que o marido é sonâmbulo Recordação Perigosa confirma mais uma vez a reputação mundial de Mary Higgins Clark como uma sublime contadora de histórias.

AGRADECIMENTOS

A escrita é essencialmente uma ocupação solitária. Abençoado o escritor que tem pessoas que o

apoiam e encorajam durante todo o processo. Quando começo a escrever uma história, o meu editor de sempre, Michael V. Korda, e o meu editor sénior, Chuck Adams animam-me e aconselham-me. Os meus agradecimentos vão sempre para eles, e também para Lisl Cade, minha publicista, para o meu

agente, Sam Pinkus, e para o director-associado do departamento de revisão, Gypsy da Silva, e para a sua equipa muito especial: Joshua Cohen e Jonathan Evans. Kudos e agradecimentos para a minha família, filhos e netos, para Ele-próprio, o sempre perfeito John Conheeney, para o meu grupo restrito de apoiantes, Agnes Newton, Nadine Petry e Irene Clark. São um grupo espantoso e adoro-vos a todos.

E agora, meus caros leitores, espero que gostem desta história.

Para Marilyn A minha primogénita e muito querida amiga com amor

PRÓLOGO

O meu pai foi o paisagista da propriedade dos Carrington. Com cinquenta hectares, esta é uma das últimas propriedades privadas que restam dessa envergadura em Englewood, Nova Jérsia, pequena cidade rica a cinco quilómetros a oeste de Manhattan, vindo pela George Washington Bridge. Numa tarde de sábado de Agosto, há vinte e dois anos, quando eu tinha seis anos, o meu pai decidiu que, embora fosse o seu dia de folga, tinha de lá ir, para verificar a nova iluminação exterior, acabada de instalar. Os Carrington estavam, nessa noite, a dar um jantar de gala para duzentas pessoas. Já metido em sarilhos com os seus empregadores devido aos problemas com a bebida, o papá sabia que se as luzes espalhadas pelos jardins cuidados não funcionassem devidamente, isso poderia implicar o fim do seu contrato. Como vivíamos sozinhos, não teve escolha senão levar-me com ele. Colocou-me num banco do jardim, perto da entrada, com instruções muito estritas para ficar até ele regressar. Depois, acrescentou: - Posso demorar algum tempo; por isso, se precisares de ir à casa de banho, entra por aquela porta, naquele canto. Verás os lavabos do pessoal assim que entrares. Este tipo de autorização era precisamente aquilo de que eu precisava. Ouvira o meu pai descrever o interior da grande mansão de pedra à minha avó, e a minha imaginação delirara a tentar visualizá-la. Tinha sido construída no País de Gales, no século XVM, e tinha até uma capela escondida, onde um padre podia viver e celebrar missa em segredo, durante a era de Oliver Cromwell e da sangrenta tentativa deste para apagar quaisquer traços de catolicismo em Inglaterra. Em 1848, o primeiro Peter Carrington mandou demolir a mansão e depois reconstruiu- a, pedra a pedra, em Englewood. Sabia, pela descrição do meu pai, que a capela tinha uma pesada porta de madeira, e que estava situada ao fundo do segundo andar. Tinha de a ver. Esperei cinco minutos depois de ele desaparecer nos jardins, e depois corri para a porta que me tinha indicado. A escada ficava logo à minha direita, e subi-a silenciosamente. Se realmente encontrasse alguém, tinha planeado dizer que estava à procura de uma casa de banho, coisa de que me persuadi que seria parcialmente verdade. No segundo andar, com uma ansiedade crescente, caminhei pé ante pé por um corredor atapetado após outro, tendo dado com um labirinto de cantos e esquinas inesperados. Mas depois, vi-a: lá estava a porta de madeira pesada que o meu pai tinha descrito, parecendo completamente deslocada do resto da casa, totalmente modernizada. Sentindo-me mais ousada devido ao facto de não ter encontrado ninguém na minha aventura, corri os últimos passos e apressei-me a abrir a porta. Rangeu quando a empurrei, mas abriu-se o suficiente para me deixar entrar. Estar naquela capela era como andar para trás no tempo. Era muito mais pequena do que eu tinha pensado. Tinha-a imaginado semelhante à Capela de Nossa Senhora, na Catedral de São Patrício, onde a minha avó parava sempre, para acender uma vela pela minha mãe, nas raras ocasiões em que íamos às compras a Nova Iorque. A minha avó nunca deixava de me contar como a minha mãe estava linda no dia em que tinha casado com o meu pai, naquela igreja. As paredes e o chão desta capela eram de pedra, e o ar que estava a respirar era húmido e frio. Uma estátua da Virgem Maria, cheia de falhas e com a pintura a descascar, era o único artefacto religioso da sala, e uma vela votiva a pilhas, à frente dela, proporcionava a única luz fraca. Duas filas de bancos de madeira ficavam diante de uma pequena mesa de madeira que devia ter servido de altar. Enquanto absorvia tudo isto, ouvi a porta começar a ranger, e percebi que alguém a estava a

abrir. Fiz a única coisa que podia: corri por entre os bancos e atirei-me para o chão, cobrindo depois

a cara com as mãos, como uma avestruz. Pelas vozes, pude perceber que um homem e uma mulher tinham entrado na capela. Os seus sussurros, secos e irritados, faziam eco nas pedras. Discutiam sobre dinheiro, assunto que eu conhecia bem. A minha avó estava sempre a ralhar com

o meu pai, dizendo-lhe que, se ele continuasse a beber assim, daí a pouco não teria um tecto sobre a cabeça dele, nem sobre a minha. A mulher estava a exigir dinheiro, e o homem estava a dizer que já lhe tinha pago o suficiente. Depois, disse: - Esta é a última vez, juro. E ele respondeu: - Já ouvi essa canção mais do que uma vez.

Sei que a minha recordação desse momento é exacta. Desde os tempos em que percebera que, ao contrário dos meus colegas do infantário, não tinha mãe, implorara sempre à minha avó que me

falasse dela, que me contasse as coisas mais ínfimas de que se lembrasse. Entre as memórias que a minha avó partilhou comigo havia uma em que a minha mãe era a estrela na festa de fim de ano do liceu, onde cantara uma canção chamada Já ouvi essa canção.

- Ah, Kathryn, ela cantava essa canção tão bem

Tinha uma voz maravilhosa. Toda a gente

aplaudiu longamente e gritou "bis, bis". Teve de a cantar de novo. Depois, a minha avó trauteava a canção para mim. Depois da resposta do homem, não consegui ouvir o resto do que foi dito, excepto a mulher a murmurar "Não te esqueças", enquanto saía da capela. O homem ficou ali; conseguia ouvir a sua respiração agitada. Depois, muito devagar, começou a assobiar baixinho a melodia da canção que a minha mãe tinha cantado na sua festa do liceu. Olhando agora para trás, penso que devia estar a tentar acal-mar-se. Depois de assobiar por um momento, começou a andar e saiu da capela. Esperei durante algum tempo que me pareceu uma eternidade, e depois saí também. Apressei-me

a descer as escadas e a voltar para o jardim e, claro, nunca disse ao meu pai que tinha estado dentro da casa, ou aquilo que tinha ouvido na capela. Mas a recordação nunca se desvaneceu, e tenho a certeza daquilo que ouvi. Quem eram aquelas pessoas, não sei. Agora, vinte e dois anos mais tarde, é importante descobri-

lo. A única coisa de que vim a ter a certeza, de todos os relatos dessa noite, é que havia uma série de convidados que passou a noite na mansão, bem como cinco criados da casa e o fornecedor do jantar

e o seu pessoal. Mas esse conhecimento pode não ser suficiente para salvar a vida do meu marido, se

é que realmente essa vida merece ser salva.

CAPÍTULO UM

Cresci à sombra do rapto do bebé dos Lindbergh. Quero com isto dizer que nasci e cresci em Englewood, Nova Jérsia. Em 1932, o neto do cidadão mais proeminente de Englewood, o embaixador Dwight Morrow, foi raptado. Mais ainda, o pai da criança era o homem mais famoso do mundo nessa época: o coronel Charles Lindbergh, que fizera o primeiro voo solitário sobre o Oceano Atlântico no seu avião monomotor, o Spirit of St. Yjouís. A minha avó, que tinha oito anos nessa época, lembra-se das grandes manchetes nos jornais, das multidões de jornalistas que se reuniam diante de Next Day Hill, que era a propriedade dos Morrow, da prisão e do julgamento de Bruno Hauptmann.

O tempo passou, as memórias desvaneceram-se. Hoje, a residência mais proeminente de

Englewood é a mansão Carrington, a estrutura de pedra em forma de castelo que eu invadi quando era criança. Todos estes pensamentos me passaram pela cabeça quando, pela segunda vez na minha vida,

passei pelos portões da propriedade dos Carrington. Vinte e dois anos

criança inquisitiva de seis anos que tinha sido. Talvez fosse a recordação do meu pai a ser demitido pelos Carrington, apenas algumas semanas mais tarde, que me fez sentir subitamente desajeitada e embaraçada. A brilhante manhã de Outubro transformara-se numa tarde húmida e ventosa, e desejei ter vestido um casaco mais quente. Aquele que tinha escolhido parecia agora demasiado leve, quer em cor, quer em material. Instintivamente, estacionei o meu carro em segunda mão num dos lados do caminho imponente, não desejando que este fosse objecto do escrutínio de alguém. Duzentos mil quilómetros marcados no conta-quilómetros são coisa que tira muito brilho a um carro, mesmo no caso de um carro recentemente lavado e, felizmente, sem mossas. Tinha apanhado o cabelo, mas o vento fazia-o esvoaçar enquanto subia os degraus e tocava à campainha. Um homem que parecia estar nos seus cinquenta e poucos anos, com a linha do cabelo a

recuar e uns lábios finos isentos de sorriso, veio abrir a porta. Vestia um fato escuro, e não tive a certeza se seria um mordomo ou um secretário, mas antes que eu pudesse dizer alguma coisa, sem se apresentar, o homem disse que o senhor Carrington estava à minha espera e que eu devia entrar. O vasto átrio estava iluminado por uma luz coada por janelas com vitrais. Uma estátua de um cavaleiro de armadura estava ao lado de uma tapeçaria medieval que mostrava uma cena de batalha. Estava desejosa de examinar a tapeçaria, mas, em vez disso, segui obedientemente o meu guia por um corredor, até à biblioteca.

,

pensei, relembrando a

- Está aqui a menina Lansing, senhor Carrington - disse o homem. -

Estarei no escritório. Desse comentário, presumi que era um secretário particular. Quando era pequena, costumava fazer desenhos do tipo de casa em que adoraria viver. Uma das salas favoritas da minha imaginação era aquela em que passaria as minhas tardes a ler. Nessa sala, havia sempre uma lareira e estantes. Uma das versões incluía uma marquesa confortável, e eu desenhava-me a mim própria, enrolada num canto, com um livro nas mãos. Não estou a sugerir que seja uma espécie de artista, porque não sou. Desenhava figuras toscas e as estantes nunca eram direitas; a carpete era uma cópia, num borrão multicolor, de uma carpete que vira na montra de uma qualquer loja de carpetes antigas. Não era capaz de pôr a imagem exacta do que tinha na minha mente no papel, mas sabia o que queria. Queria uma sala do estilo daquela em que me encontrava agora. Peter Carrington estava sentado num vasto cadeirão de couro, com os pés num banco. O candeeiro na mesa ao seu lado não só iluminava o livro que estava a ler, como destacava o seu perfil elegante. Estava com óculos para ler, que repousavam na ponta do nariz, e que escorregaram quando olhou para cima. Pegando nos óculos, colocou-os na mesa, retirou os pés de cima do banco e pôs-se de pé.

Já o entrevira ocasionalmente na cidade, e vira fotografias dele nos jornais, e por isso tinha ideia de como ele era; mas estar na mesma sala que ele era diferente. Peter Carrington exalava uma autoridade tranquila, que manteve mesmo quando sorriu e me estendeu a mão.

- Escreve cartas muito persuasivas, Kathryn Lansing.

- Obrigada por me deixar vir até cá, senhor Carrington.

O seu aperto de mão era firme. Eu sabia que ele estava a estudar-me, tal como eu o estava a estudar a ele. Era mais alto do que eu me apercebera, tendo o corpo esguio de um corredor. Os olhos eram mais cinzentos do que azuis. O rosto magro, de feições harmoniosas, era emoldurado por cabelo castanho-escuro um pouco comprido, mas que lhe ficava bem. Vestia um casaco de malha

castanho-escuro com uma orla cor de ferrugem ao longo das abas. Se tivesse de adivinhar a profissão dele apenas pela aparência, teria dito que era um professor universitário. Sabia que ele tinha quarenta e dois anos. Isso significava que teria cerca de vinte nesse dia em que eu tinha entrado sorrateiramente na sua casa. Interroguei-me se teria estado em casa na noite dessa festa. Era possível, evidentemente: no final de Agosto, poderia ainda não ter regressado a Princeton, onde estudava. Ou, se já tivesse começado as aulas, poderia ter vindo a casa para o fim- de-semana. Princeton ficava apenas a uma hora e meia de distância, de carro. Convidou-me a sentar-me num dos dois cadeirões que faziam conjunto, perto da lareira.

- Tenho andado desejoso de ter uma desculpa para acender a lareira -

disse ele. - Esta tarde, o tempo cooperou. Fiquei mais consciente do que nunca de que o meu casaco verde era mais adequado a uma tarde de Agosto do que a uma tarde de meados de Outono. Senti uma mecha de cabelo escorregar-me pelo ombro e tentei remetê-la de novo para o rabo-de- cavalo que deveria segurá-la. Tenho uma licenciatura de bibliotecária, tendo-me a minha paixão pelos livros proporcionado uma escolha de carreira natural. Desde que me licenciei, há cinco anos, tenho trabalhado na Biblioteca Pública de Englewood, e estou fortemente envolvida no projecto de alfabetização da nossa comunidade. Agora, estava nesta biblioteca impressionante, "com o chapéu na mão", como diria a minha avó.

Estava a planear um evento de recolha de fundos para o projecto de alfabetização, e queria fazer uma coisa espectacular. Havia uma maneira que eu tinha a certeza de que conseguiria levar as pessoas a pagarem trezentos dólares por uma recepção com cocktail, e essa seria se a festa fosse dada nesta casa. A mansão Carrington tinha-se tornado parte do folclore de Englewood e das comunidades circundantes. Toda a gente sabia a sua história, e que tinha sido transportada desde o País de Gales. Tinha a certeza de que a perspectiva de estar dentro desta mansão faria toda a diferença quanto a termos ou não um evento com lotação esgotada. Geralmente, sinto-me bastante bem na minha pele, mas, ali sentada, sentindo que aqueles grandes olhos cinzentos estavam a avaliar-me, sentime desconfortável e pouco à vontade. Subitamente, senti- me, de novo, como a filha do paisagista que bebia de mais. Deixa-te disso, disse para comigo, e pára com essas tolices sem sentido. Dando a mim própria um rápido abanão mental, iniciei a minha solicitação bem ensaiada.

- Senhor Carrington, conforme lhe escrevi, há muitas boas causas, o que significa que há muitas

boas razões para as pessoas assinarem cheques. Claro que é impossível que toda a gente apoie todas as causas. Muito francamente, hoje em dia,

até as pessoas mais abastadas se vêem obrigadas a fazer escolhas. É por isso que é essencial arranjar maneiras de levar as pessoas a passarem-nos esses cheques. Foi então que me lancei no meu pedido para que nos permitisse fazer a festa nesta casa. Observei-o enquanto a expressão dele mudava, e vi o "não" a formar-se-lhe nos lábios. Pôs a questão

de forma elegante: - Menina Lansing

- começou.

- Por favor, chame-me Kay.

- Pensei que o seu nome fosse Kathryn.

- Na minha certidão de nascimento e para a minha avó é.

Ele riu-se.

- Percebo - depois, recomeçou a sua recusa educada. - Kay, terei muito gosto em passar-lhe um

cheque Interrompi-o.

- Tenho a certeza de que sim. Mas, tal como lhe escrevi, trata-se de mais do que apenas dinheiro.

Precisamos de voluntários para ensinarem as pessoas a ler, e a melhor maneira de os arranjarmos é fazermos com que queiram vir a um evento, e depois levá-los a ins-creverem-se. Conheço o dono de uma boa empresa de catering que me prometeu fazer um preço especial se o evento for aqui. Seria apenas por um par de horas, e significaria tanto para tantas pessoas.

- Terei de pensar no assunto - respondeu Peter Carrington, levantando-se.

A reunião terminara. Pensei rapidamente e decidi que não havia nada a perder se acrescentasse

uma última coisa: - Senhor Carrington, fiz muita investigação acerca da sua família. Durante várias gerações, esta foi uma das casas mais hospitaleiras de Bergen County. O seu pai,

o seu avô e o seu bisavô apoiaram as actividades da comunidade e as obras de caridade. Ajudando-

nos agora, poderia fazer tanto bem como eles, e para si seria tão fácil Não tinha o direito de me sentir tão terrivelmente desapontada, mas sentia-me. Ele não respondeu

e, sem esperar que ele ou o secretário me indicassem o caminho da rua, fiz o caminho de regresso até

à porta. Fiz uma pausa para deitar um olhar rápido às traseiras da casa, pensando nas escadas que

tinha subido sorrateiramente, há tantos anos. Depois, saí, certa de que tinha feito a minha segunda e última visita à mansão. Dois dias mais tarde, a fotografia de Peter Carrington estava na capa da Celeb, uma revista de mexericos semanal. Mostrava-o a sair da esquadra da polícia, vinte e dois anos antes, depois de ter sido interrogado acerca do desaparecimento de Susan Althorp, de dezoito anos, que desaparecera após um jantar formal a que fora na mansão dos Carrington. O cabeçalho espalhafatoso - "Estará Susan Althorp viva?" - era seguido pela legenda por baixo da fotografia de Peter: "O industrial ainda

é suspeito no caso do desaparecimento da jovem debutante Susan Althorp, que celebraria esta semana o seu quadragésimo aniversário."

A revista tinha passado um dia a fazer os trabalhos de casa, reunindo os pormenores da procura

de Susan e, dado que o pai da jovem fora embaixador, comparando o caso dela com o rapto do bebé de Lindbergh.

O artigo incluía um resumo das circunstâncias que tinham rodeado a morte da mulher grávida de

Peter Carrington, Grace, há quatro anos. Grace Carrington, conhecida por beber muito, dera uma festa para comemorar o aniversário do meio-irmão de Carrington, Richard Walker. Carrington chegara a casa após vinte e três horas de voo desde a Austrália, vira o estado em que ela estava, tirara-lhe o copo da mão, despejara o conteúdo na carpete e perguntara, irritado: - Não consegues sequer ter um pouco de piedade pela criança que trazes dentro de ti? Depois, pretextando cansaço, fora deitar-se. De manhã, a governanta encontrara o corpo de Grace Carrington, ainda com o vestido de cetim da noite anterior, no fundo da piscina. A autópsia demonstrara que Grace tinha álcool no sangue três vezes acima do limite legal. O artigo concluía:

"Carrington afirmou que se foi deitar e adormeceu imediatamente, e que só acordou quando a polícia respondeu ao pedido de assistência, talvez. Estamos a fazer uma sondagem de opinião. Vá ao nosso sítio na Internet e diga-nos o que pensa."

Uma semana mais tarde, na biblioteca, recebi uma chamada de Vincent Slater, que me recordou que nos tínhamos conhecido quando eu me encontrara com Peter Carrington.

- O senhor Carrington - disse Slater - decidiu permitir a utilização da casa para o seu evento de recolha de fundos. Sugere que trate dos pormenores comigo.

CAPÍTULO DOIS

Vincent Slater desligou o telefone e recostou-se, ignorando o ligeiro ranger da sua cadeira, som que o começara a incomodar e já por diversas vezes tomara mentalmente nota de que teria de mandar arranjá-la. O gabinete de Slater na mansão fora originariamente uma das salas de estar raramente usadas, na parte de trás da casa. Para além de ser afastada, escolhera-a porque as portas duplas não só davam para os jardins, como serviam de entrada privada, por onde podia entrar e sair sem ser visto. O problema era que a madrasta de Peter, Elaine, que vivia numa casa dentro da propriedade, não tinha qualquer pejo em vir até ao gabinete e entrar sem bater à porta. Nesse momento, acabara de o fazer mais uma vez. Não perdeu tempo com saudações: - Vincent, ainda bem que o apanho. Haverá alguma maneira de você persuadir Peter a desistir da ideia de dar aquela recepção de caridade aqui em casa? Seria de esperar que, depois de toda a terrível publicidade da semana passada naquele pasquim da Cekb, a relembrar a morte de Grace e o desaparecimento de Susan, Peter fosse suficientemente sensato para não chamar tanto as atenções. Vincent levantou-se, numa cortesia que desejava poder abandonar quando Elaine entrava assim de rompante. Agora, embora estivesse intensamente irritado por aquela intrusão, não podia deixar de notar, contrariado, como ela era requintadamente atraente. Aos sessenta e seis anos, Elaine Walker Carrington, com o seu cabelo louro, olhos azuis como safiras, feições clássicas e corpo esguio, ainda conseguia atrair os olhares. Movia-se com a graça do modelo que em tempos fora, mesmo quando, sem ser convidada, se sentava no cadeirão antigo em frente à secretária de Vincent. Vestia um fato escuro que Slater calculou ser um Armani, que sabia ser o costureiro favorito dela. As jóias consistiam em brincos de diamantes, um colar de pérolas curto e a grande aliança com diamantes que continuara a usar, apesar de o marido, o pai de Peter, ter morrido há quase vinte anos. A fidelidade dela à memória do marido, como Vincent sabia, tinha tudo a ver com o acordo pré-

nupcial que tinham feito, e que lhe permitia viver ali para o resto da sua vida, a não ser que voltasse a casar, e que lhe garantia um estipêndio de meio milhão de dólares anuais. E, claro, gostava de ser tratada por senhora Carrington, com todos os privilégios correspondentes. O que não lhe dá o direito de entrar aqui e comportar-se como se eu não tivesse considerado muito cuidadosamente os prós e os contras de termos um evento público nesta casa, pensou Vincent.

- Elaine, eu e Peter discutimos este assunto exaustivamente - começou, com um tom que revelava

irritação. - Claro que a publicidade é terrível e embaraçosa, e é por isso mesmo que Peter tem de dar algum passo para mostrar que não se está a esconder. Essa é precisamente a ideia que é preciso mudar.

- Pensa mesmo que ter estranhos a meter o nariz nesta casa vai mudar a percepção que as pessoas têm de Peter? - perguntou Elaine, num tom cheio de sarcasmo.

- Elaine, sugiro que fique fora deste assunto - disparou Slater.

- Posso recordar-lhe que a empresa da família entrou em bolsa há dois anos, e que há um lado negativo em ter de responder perante os accionistas? Embora Peter seja, de longe, o maior

accionista, o facto é que existe uma opinião corrente e cada vez mais forte de que devia de-mitir-se da presidência e do cargo que ocupa. Sendo "suspeito" no desaparecimento de uma mulher e na morte de outra, dificilmente pode ter uma boa imagem enquanto patrão de uma empresa internacional. Peter pode não querer falar disso, mas sei que está profundamente preocupado. É por isso que, a partir de agora, tem de ser visto como uma pessoa activa nos assuntos da comunidade e, por muito que não goste, os seus muito generosos gestos filantrópicos têm de ser publicitados.

- A sério? - Elaine levantou-se ao mesmo tempo que falava.

- Vincent, você é um tolo. Note o que lhe digo: isto não vai funcionar. O

que você está a fazer é expor Peter, e não a protegê-lo. Em termos de sociabilidade, Peter é um zero. Pode ser um génio nos negócios, mas como você com certeza bem sabe, não se sente

confortável com conversas fúteis. Longe do escritório, Peter sente-se muito melhor com um livro nas mãos e com a porta da biblioteca fechada do que em qualquer festa ou jantar. "Nunca se está menos só do que quando se está só", como diz o provérbio. Quando é que este evento vai ter lugar?

- Na quinta-feira, seis de Dezembro. Kay Lansing, a mulher que está a organizar o evento, precisa de cerca de sete semanas para tratar de o publicitar.

- Há algum limite para o número de entradas que podem ser vendidas?

- Duzentas.

- Vou assegurar-me de que consigo comprar uma. E Richard também. Estou de saída para a

galeria. Richard está a dar uma festa para um dos seus novos artistas. Com um gesto displicente da mão, abriu as portas duplas e saiu. Slater observou-a a afastar-se, com a boca cerrada numa linha fina. Richard Walker era filho de Elaine, do primeiro casamento. Quem vai pagar as entradas é ela, pensou. O dinheiro dos Carrington é que tem sustentado aquele falhado do filho dela desde os seus vinte anos. Lembrava-se de como Grace ficava fora de si por Elaine presumir que podia entrar na casa principal sempre que queria. A coisa mais acertada que Peter fez, foi precisamente não deixar que Elaine se mudasse de novo para a mansão, depois de Grace ter morrido. Sem ser a primeira vez, Vincent Slater interrogou-se se não haveria algo mais na tolerância que Peter Carrington mostrava pela sua madrasta do que aquilo que parecia à primeira vista.

CAPÍTULO TRÊS

Estava na biblioteca quando recebi a chamada de Vincent Slater. Era o fim da manhã de uma quinta-feira, e eu estava prestes a decidir-me a fazer o evento de recolha de fundos no Glenpointe Hotel, em Teaneck, uma cidade vizinha de Englewood. Já lá fui a outros eventos, e eles fazem realmente um bom trabalho, mas continuava desiludida pela recusa de Peter Carrington. Escusado será dizer que fiquei absolutamente encantada pela mensagem de Slater, e decidi partilhar o meu entusiasmo com Maggie, a avó materna que me criou e que ainda vive na mesma casa modesta de Englewood onde cresci. Faço o caminho inverso ao da maior parte das pessoas, nas horas de ponta. Vivo na West Seventy-ninth Street, em Manhattan, num pequeno apartamento de segundo andar numa casa de cidade remodelada. É minúsculo, mas tem uma lareira que funciona, tectos altos, um quarto grande o suficiente para uma cama e um roupeiro, e uma área de cozinha separada da sala de estar. Mobilei-a com coisas compradas em vendas de garagem nas zonas mais recônditas de Englewood, e adoro o aspecto que tem. Também adoro trabalhar na biblioteca de Englewood e, evidentemente, isso significa que posso ver muitas vezes a minha avó, Margaret O'Neil, a quem eu e

o meu pai sempre tratámos por Maggie. A filha dela, que foi a minha mãe, morreu quando eu tinha apenas duas semanas. Aconteceu num fim de tarde. Estava sentada na cama, dando-me de mamar, quando uma embolia lhe atacou o coração. O meu pai telefonou pouco depois e ficou alarmado

quando ela não atendeu o telefone. Correu para casa, para encontrar o seu corpo, sem vida, com os braços ainda a abraçarem-me. Eu estava a dormir, com os lábios a sugar consoladamente o peito dela.

O meu pai era um engenheiro que, depois de um ano passado numa empresa de construção de

pontes, se despedira e fizera do paisagismo, sua anterior vocação, uma carreira a tempo inteiro.

Usava a sua mente arguta para conseguir um tipo diferente de triunfo da engenharia nas propriedades locais, criando jardins com paredes de pedra, quedas de água e caminhos serpenteantes. Essa foi a razão por que foi contratado pela madrasta de Peter Carrington, Elaine, que abominava a teimosa rigidez do gosto da sua antecessora em matéria de paisagismo.

O papá era oito anos mais velho que a minha mãe, e tinha trinta e dois anos quando ela morreu.

Por essa altura, já ele tinha ganho uma reputação sólida neste campo.

Podia ter corrido tudo muito bem, não fora o facto de o meu pai, depois da morte da minha mãe, ter começado a beber em excesso. Por causa disso, comecei a passar cada vez mais tempo com a minha avó. Consigo lembrar-me dela a ralhar com ele:

- Por amor de Deus, Jonathan, precisas de ajuda. O que pensaria Annie acerca do que estás a

fazer a ti próprio? Então, e Kathryn? Ela não merece melhor do que isso? Depois, certa tarde, após Elaine Carrington o ter despedido, não regressou a casa da minha avó

para me ir buscar. O carro dele foi encontrado estacionado numa margem do rio Hudson, uns trinta quilómetros a norte de Englewood. As chaves de casa, a carteira e o livro de cheques estavam no banco do condutor. Nem um bilhete. Nem um adeus. Nada que indicasse que sabia o quanto eu precisava dele. Interrogo-me sobre o quanto ele me culparia pela morte da minha mãe, e se, de certa forma, não pensaria que eu tinha sugado a vida dela. Mas certamente que não. Eu amava-o ferozmente, e ele sempre parecera amar-me da mesma forma. Uma criança percebe isso.

O corpo nunca foi encontrado.

Ainda me lembro de como, quando chegávamos a nossa casa, vindos da casa de Maggie, fazíamos o jantar juntos. Ele falava das suas recordações da minha mãe.

- Como muito bem sabes, Maggie não tem nada de cozinheira, Kathryn -

dizia ele. - Por isso, a tua mãe pegou num livro de cozinha e aprendeu a cozinhar, levada pelo

puro desespero. Ela e eu costumávamos experimentar receitas juntos, e agora és tu e eu a fazer isso. Depois, falava-me da minha mãe.

- Nunca te esqueças de que ela teria dado tudo para te ver crescer.

Manteve a tua caminha junto da nossa cama durante um mês inteiro, antes de tu nasceres. Tens perdido tanta coisa por não a teres, por não a conheceres. Ainda agora não lhe consigo perdoar por não se ter lembrado de tudo isto quando decidiu pôr fim

à sua vida. Todos estes pensamentos corriam no meu cérebro enquanto conduzia desde a biblioteca até à casa de Maggie, para lhe contar as novidades. Maggie tem uma bela árvore vermelha no seu pequeno jardim. Dá um ar especial ao sítio. Tive pena de ver as últimas folhas a partirem, levadas pelo vento. Sem a protecção delas, a casa parece, de certa forma, mais exposta, e um pouco decadente. É uma casa de um só piso, típica de Cape Cod, com um sótão inacabado onde Maggie armazena a parafernália acumulada dos seus oitenta e três anos. Caixas de fotografias que nunca chegou a ter

oportunidade para colocar em álbuns, caixas de cartas e de cartões de Natal de gente que apreciava e que nunca terá tempo para reler, a mobília que substituiu pelo recheio da casa dos meus pais, mas que não foi capaz de deitar fora, roupas que não usa há mais de vinte ou trinta anos. Lá em baixo, é tudo muito melhor. Está tudo limpo, mas Maggie cria desarrumação só por entrar numa sala. A camisola está numa cadeira, os artigos de jornal que sempre insiste em que há-de ler estão noutra; os livros estão empilhados perto da cadeira reclinada; os estores que abriu de manhã estão sempre tortos e irregulares; os chinelos que nunca consegue encontrar estão metidos entre a cadeira e o banquinho. É um verdadeiro lar. Maggie não corresponderia à ideia de boa dona de casa de Martha Stewart, mas tem muitos pontos a seu favor. Reformou-se do ensino para me poder criar, e ainda dá explicações a três miúdos todas as semanas. Conforme eu própria pude descobrir pela minha experiência, Maggie é capaz de tornar a aprendizagem numa coisa cheia de alegria. Mas quando entrei e lhe contei as minhas novidades, Maggie desapontou-me. Pude perceber o olhar de desaprovação na cara dela assim que mencionei o nome Carrington.

- Kay, não me tinhas dito que estavas a pensar pedir-lhes para te deixarem fazer o evento naquele lugar. Maggie perdeu um par de centímetros de altura nos últimos anos. Costuma dizer, em brincadeira, que está a desaparecer; mas quando olhei para ela, de cima, pareceu-me de repente formidável.

- Maggie, é uma excelente ideia - protestei. - Já estive em dois ou três eventos feitos em casas particulares e foram grandes sucessos. A mansão dos Carrington vai ser de certeza uma grande

atracção. Vamos cobrar trezentos dólares por cabeça. Em nenhum outro local poderíamos conseguir isso. Depois, percebi que Maggie estava preocupada; genuinamente preocupada.

- Maggie, Peter Carrington não podia ter sido mais simpático comigo quando me encontrei com ele para falar do evento.

- Não me tinhas dito que te tinhas encontrado com ele.

Porque não lho dissera? Talvez porque sabia instintivamente que ela não aprovaria a minha ida

até lá; depois, como ele tinha recusado, não tinha havido necessidade de falar acerca disso. Maggie estava convencida de que Peter Carrington era responsável pelo desaparecimento de Susan Althorp, e de que podia muito bem estar implicado no afogamento da sua mulher na piscina.

- Talvez ele não tenha empurrado a mulher para a piscina, Kay - dissera-me Maggie. - Mas

aposto que, se a viu a cair, não fez o mínimo esforço para a salvar. E quanto a Susan, foi ele quem a levou a casa. Por mim, apostava tudo em como ela saiu de novo às escondidas e foi ter com ele depois de os pais pensarem que estava na cama. Maggie tinha oito anos em 1932, quando o bebé de Lindbergh foi raptado, e considera-se a maior especialista do mundo nesse tema, bem como no assunto do desaparecimento de Susan Althorp. Desde os tempos em que eu era criança, sempre me falou acerca do rapto de Lindbergh, salientando que Anne Morrow Lindbergh, a mãe do bebé, fora criada em Englewood, a menos de dois quilómetros de nossa casa, e que o pai de Anne, Dwight Morrow, fora embaixador no México. Susan Althorp também cresceu em Englewood, e o pai era embaixador na Bélgica. Para Maggie, o paralelo era óbvio e assustador. O rapto do bebé Lindbergh foi um dos crimes mais sensacionais do século XX. Era o filho de ouro do casal de ouro, e havia todas aquelas perguntas sem resposta. Como terá Bruno Hauptmann sabido que os Lindbergh tinham decidido ficar na sua nova casa de campo nessa noite, porque o bebé estava constipado, em vez de regressarem à propriedade dos Morrow, conforme tinham planeado

inicialmente? Como soube Hauptmann exactamente onde colocar a escada para chegar à janela aberta do quarto do bebé? Maggie estava sempre a ver semelhanças entre os dois casos.

- O corpo do bebé dos Lindbergh foi encontrado por acidente - explicava-me ela. - Foi terrível,

mas pelo menos isso significou que a família não teve de passar o resto das suas vidas a interrogar- se se a criança estaria a crescer algures com alguém que poderia estar a fazer-lhe mal. A mãe de Susan Althorp tem de se levantar todas as manhãs interrogando-se se será este o dia em que o

telefone vai tocar, e que será a sua filha. Sei que seria assim que eu me sentiria se fosse um filho meu a desaparecer. Se ao menos o corpo dela tivesse sido encontrado, a senhora Althorp poderia ir vê-la na sepultura. Maggie não falava do caso Althorp há muito tempo, mas aposto qualquer coisa em como se ela estivesse na fila do supermercado e visse aquela revista, a Celeb, com a fotografia de Peter Carrington na capa, a compraria. O que explica o seu súbito mal-estar perante a ideia de me ver na presença dele. Beijei-lhe a testa.

- Maggie, estou com fome. Vamos sair e comer uma pasta. Pago eu.

Quando a deixei em casa, uma hora e meia mais tarde, Maggie hesitou, e depois disse: - Kay, entra um bocadinho. Quero ir a esse evento. Vou passar-te um cheque para a entrada.

- Maggie, isso é um disparate - protestei. - Isso é demasiado dinheiro para ti.

- Eu vou - afirmou Maggie. E a sua expressão determinada não deixava margem para dúvidas.

Uns minutos mais tarde, estava a conduzir pela George Washington Bridge, de regresso ao meu apartamento, com o cheque de Maggie na minha carteira. Sabia a razão por que ela insistira em ir. Maggie au-tonomeara-se minha guarda-costas enquanto eu estivesse sob o tecto da mansão dos Carrington.

CAPÍTULO QUATRO

Enquanto esperava que o seu visitante chegasse, Gladys Althorp estudava a fotografia da sua filha desaparecida. Fora tirada no terraço da mansão dos Carrington, na noite em que ela desaparecera. Estava com um vestido de noite de chiffon que se colava ao seu corpo magro. Os cabelos louros compridos, ligeiramente arranjados, caíam-lhe pelos ombros. Não tinha noção de que estava a ser captada pela câmara, e tinha uma expressão pensativa e séria. No que estaria Susan a pensar naquele momento? Gladys perguntou-o a si própria, mais uma vez, enquanto os seus dedos seguiam o contorno da boca da filha. Teria tido alguma premonição daquilo que lhe iria acontecer? Ou teria finalmente percebido nessa noite que o seu pai andara envolvido com Elaine Carrington? Gladys soluçou enquanto se levantava lentamente, pousando uma mão no braço da cadeira, para se apoiar. Brenda, a nova governanta, tinha-lhe servido o jantar num tabuleiro, e depois regressara ao seu apartamento, por cima da garagem. Infelizmente, Brenda não era grande cozinheira. Não que estivesse com muita fome, pensou Gladys enquanto levava o tabuleiro para a cozinha. A visão da comida intacta fê-la sentir-se ligeiramente enjoada, e apressou-se a despejá-la no triturador; depois, passou os pratos por água e colocou-os na máquina de lavar. Sabia que Brenda protestaria na manhã seguinte: "Deixe isso comigo, senhora Althorp." E eu respondo-lhe que demora apenas um minuto a arrumar as coisas, pensou Gladys. Arrumar as coisas. Essa é a maneira correcta para descrever o que estou afazer agora. A. tentar

arrumar o assunto mais importante da minha vida, antes de a perder.

- Talvez seis meses - tinham concordado os médicos, ao entre-garem-lhe o veredicto que Gladys

ainda não partilhara com ninguém. Regressou ao escritório, que era a sua divisão favorita das dezassete de toda a casa. Há anos que ando a querer mudar para uma casa mais pequena, e agora sei que Charles o fará, quando eu desaparecer. Gladys sabia bem a razão por que não o fizera. Era ali que estava o quarto de Susan, com tudo exactamente no mesmo lugar onde estivera quando ela saíra nessa noite, depois de bater à porta, para que Charles soubesse que já estava em casa. Deixei-a dormir até tarde, na manhã seguinte, pensou Gladys, revendo mais uma vez esse dia na sua mente. Depois, por fim, ao meio-dia fui à procura dela. A cama ainda estava feita. As toalhas da casa de banho não tinham sido usadas. Deve ter saído imediatamente de casa, logo depois de nos ter anunciado que tinha chegado. Antes de morrer, tenho de tentar saber o que lhe aconteceu, disse, assumindo um compromisso. Talvez este investigador possa encontrar algumas respostas. O nome dele era Nicholas Greco. Vira-o na televisão a falar acerca dos crimes que tinha resolvido. Depois de se ter reformado como

detective do Departamento de Polícia de Nova Iorque, tinha aberto a sua própria agência e tornara-se bem conhecido por resolver crimes que inicialmente pareciam insolúveis.

- As famílias das vítimas precisam de um ponto final - dissera numa entrevista. - Para elas, não

há paz enquanto não o têm. Felizmente, há novas técnicas, e novos métodos estão a ser desenvolvidos todos os dias, que permitem que se olhe com novos olhos para casos que ainda estão em aberto. Gladys pedira-lhe que viesse às oito horas dessa noite, por duas razões. O facto de saber que Charles estaria ausente era uma delas. A segunda era que não queria que

Brenda estivesse por perto quando ele lá estivesse. Duas semanas antes, Brenda entrara no escritório quando Gladys estava a ver uma gravação de Greco na televisão.

- Senhora Althorp, penso que os casos verdadeiros de que ele fala são mais interessantes do que

aqueles que eles inventam nos filmes - dissera Brenda. - Basta olhar para ele para se ver que é esperto. As campainhas da porta da frente retiniram devidamente às oito horas em ponto. Gladys apressou-se a ir abrir a porta. A primeira impressão que teve de Greco foi ao mesmo tempo reconfortante e tranquilizadora. Pelas intervenções dele na televisão, Gladys sabia que era um homem que vestia de forma conservadora, dos seus cinquenta e muitos anos, de estatura mediana, com cabelo cor de areia e olhos castanhos. Mas ao vê-lo pessoalmente, agradou-lhe o facto de o aperto de mão ser firme e de a olhar directamente nos olhos. Tudo nele instigava confiança. Gladys interrogou-se sobre a impressão que poderia provocar em Greco. Provavelmente, veria nela apenas uma mulher de sessenta e tal anos, demasiado magra, com a palidez de uma doença terminal estampada no rosto.

- Obrigada por ter vindo - disse-lhe. - Sei que deve ter muitos pedidos de gente como eu.

- Tenho duas filhas - respondeu Greco. - Se uma delas desaparecesse, não teria paz até a

encontrar - ficou à espera, e depois acrescentou calmamente -, mesmo que aquilo que descobrisse não fosse o que esperava descobrir.

- Acredito que Susan está morta - disse Gladys Althorp, com a voz calma.

Mas a expressão dos seus olhos tornou-se subitamente mortiça e sombria. - Mas não desapareceria sozinha. Alguma coisa lhe aconteceu, e acredito que Peter Carrington foi responsável pela morte dela. Seja qual for a verdade, tenho de a saber. Está interessado em ajudar-me?

- Sim, estou.

- Juntei, para si, todos os meus dossiês acerca do desaparecimento de Susan. Estão no meu

escritório. Enquanto Nicholas Greco seguia Gladys Althorp pelo vasto átrio, ia deitando olhares às pinturas que havia pelo caminho. Alguém nesta família era coleccionador, pensou. Não sei se são peças com qualidade de museu, mas são decerto muito requintadas. Tudo o que Greco podia ver naquela casa tinha um ar de bom gosto e de qualidade. A carpete verde-esmeralda era grossa e dava um pisar suave. Os rebordos que coroavam as paredes brancas em tom de casca de ovo proporcionavam uma moldura adicional aos quadros. O tapete do escritório para onde Gladys Althorp o conduzira era de um padrão suave azul e vermelho. O tom de azul do

sofá e das cadeiras condizia com o azul do tapete. Viu a fotografia de Susan Althorp na secretária. Ao lado, estava um saco de papel de uma loja, cheio de documentos. Avançou até à secretária e pegou na fotografia. Desde que decidira aceitar o caso, tinha feito alguma investigação preliminar, e já vira aquela fotografia na internet.

- Isto era o que Susan tinha vestido na noite em que desapareceu? - perguntou.

- Era o que ela tinha vestido no jantar dos Carrington. Não me estava a sentir bem, e eu e o meu marido viemos embora antes do fim da festa. Peter prometeu que a levava - Ainda estava acordada quando ela chegou?

- Sim, cerca de uma hora depois. Charles estava a ver as notícias da meia-noite no quarto dele. Ouvi-a bater à porta dele.

- Isso não é um pouco cedo para chegar a casa, tratando-se de uma rapariga de dezoito anos? Greco não deixou de reparar nos lábios de Gladys Althorp, que se cerraram. A pergunta suscitara-lhe alguma irritação.

- Charles era um pai ultraprotector. Insistia em que Susan o acordasse sempre que chegava a

casa. Gladys Althorp era mais uma daquelas mães marcadas pela dor que Nicholas Greco tinha encontrado ao longo da sua carreira. Mas, ao contrário de tantas outras, suspeitou de que Gladys teria de alguma forma conseguido manter sempre as suas emoções rigidamente no plano privado. Apercebeu-se de que, para ela, contratá-lo era um passo difícil, um grande passo na direcção de um território assustador. Com um olhar profissional, observou a extrema palidez da compleição dela, o ar de fragilidade que todo o seu corpo denunciava. Suspeitou fortemente de que Gladys poderia estar com uma doença terminal, e de que essa poderia ser a razão por que o tinha contratado. Quando saiu, meia hora mais tarde, Greco levava consigo o saco com as pastas contendo toda a informação que Gladys Althorp lhe pudera dar acerca das circunstâncias que rodeavam o desaparecimento da filha: as histórias dos jornais, o diário que tinha mantido enquanto a investigação decorria, e o exemplar recente da Celeb, com uma fotografia de Peter Carrington na capa. Na sua pesquisa preliminar, Greco tinha tomado nota do endereço da propriedade dos Carrington. Num impulso, decidiu passar por lá. Embora já soubesse que não ficava longe do sítio onde os Althorp viviam, ficou surpreendido ao perceber como as duas casas ficavam próximas. Peter Carrington não devia ter demorado mais do que cinco minutos a deixá-la em casa nessa noite, se é que o tinha feito, e não mais do que cinco minutos a regressar a casa. Enquanto conduzia de regresso a Manhattan, percebeu que o caso já o tinha "agarrado". Estava ansioso por começar. Era um clássico corpus delicti, pensou, lembrando-se depois da dor nos olhos de Gladys Althorp. Sentiu-se

envergonhado. Vou resolver este caso por ela, pensou sombriamente, enquanto sentia aquela familiar onda de energia que o assolava quando sabia que estava prestes a começar a trabalhar num caso que sabia que viria a mos-trar-se fascinante.

CAPÍTULO CINCO

Gladys Althorp esperou no escritório que o marido chegasse. Ouviu-o abrir e fechar a porta da

frente pouco depois de as notícias das onze horas terem começado. Desligou a televisão e apressou- se pelo corredor. Ele já ia a meio das escadas.

- Charles, tenho uma coisa para te dizer.

O rosto dele, já vermelho, ficou ainda mais corado, e a voz começou a subir de tom, enquanto, depois de ouvir que Gladys tinha contratado Nicholas Greco, perguntou: - Sem me consultares? Sem

teres em consideração que os nossos filhos também serão forçados a reviver esses tempos terríveis? Sem perceberes que qualquer nova investigação vai atrair as atenções dos meios de comunicação? Aquela história repugnante da semana passada não te bastou?

- Consultei os nossos filhos, e eles concordaram com a minha decisão -

respondeu Gladys, calmamente. - Tenho mesmo de saber a verdade acerca do que aconteceu a Susan. Isso preocupa-te, Charles?

CAPITULO SEIS

A primeira semana de Novembro foi amena, depois disso, o tempo tornou-se frio e cortante, com aquele tipo de dias de Inverno que nos faz querer ficar na cama, ou então voltar para lá com os jornais e uma chávena de café; e eu não podia dar-me ao luxo de fazer nenhuma dessas coisas. Praticamente todos os dias, faço exercício de manhã cedo num ginásio da Broadway, depois tomo um duche, visto-me, e dirijo-me para a biblioteca de Nova Jérsia. As reuniões acerca do evento para recolha de fundos eram sempre feitas após o horário normal de trabalho. Evidentemente que os bilhetes para o evento se venderam rapidamente, o que era gratificante, mas a história recuperada do desaparecimento de Susan Althorp despertara um novo interesse pelo caso. Então, quando Nicholas Greco, o detective privado, revelou no programa de rádio "Imus in the Morning" que tinha sido contratado pela família Althorp para investigar o desaparecimento da sua filha, as notícias saltaram de novo para as primeiras páginas. Na sequência das declarações de Nicholas Greco, Barbara Krause, a formidável procuradora de Bergen County, disse à imprensa que receberia de braços abertos quaisquer novas provas que pudessem trazer uma conclusão para o caso. Quando interrogada acerca de Peter Carrington, respondeu de forma crítica: - Peter Carrington foi sempre considerado como uma "pessoa de interesse" no desaparecimento de Susan Althorp. Na sequência desta declaração, as colunas de mexericos começaram a imprimir relatos de que o Conselho de Administração da Carrington Enterprises estava a pressionar Peter para que se demitisse de presidente e director-geral, muito embora ele fosse, de longe, o maior accionista. Segundo os relatos, os outros administradores sentiam que, tratando-se agora de uma empresa cotada em bolsa, não era adequado ter alguém designado como "implicado" em dois potenciais homicídios à cabeça de uma organização internacional no valor de vários biliões de dólares.

Fotografias de Peter começaram a aparecer regularmente nas secções de negócios dos principais jornais, bem como nas revistas mais sensacionalistas. Em resultado disto, ao longo de todo o mês de Novembro, fui fazendo figas, já quase à espera de, a qualquer momento, receber uma chamada de Vincent Slater a dizer-me que a recepção estava cancelada e que me enviariam um cheque para compensar a perda de fundos do projecto. Mas essa chamada nunca chegou. No dia a seguir ao dia de Acção de Graças, dirigi-me à mansão com o responsável pelo catering que tínhamos contratado, para vermos os pormenores. Slater veio ao nosso encontro e entregou-nos ao casal que eram os governantes da casa, Jane e Gary Barr. Pareciam andar pelos sessenta anos, e era óbvio que estavam com os Carrington há muitos anos. Pensei se estariam a trabalhar na mansão na noite do famoso jantar, mas não tive coragem para perguntar. Soube mais tarde que tinham vindo trabalhar para o pai de Peter depois de a primeira mulher deste, mãe de Peter, ter morrido, mas que depois tinham saído, quando Elaine Carrington entrara em cena. No entanto, tinham depois sido chamados de volta, após a mulher de Peter, Grace, se ter afogado. Pareciam saber tudo acerca do local. Disseram-nos que a sala de estar se dividia, na realidade, em duas salas, e que, quando as portas de separação estavam abertas o espaço, era suficiente para receber duzentas pessoas. O bufete deveria ser disposto na sala de jantar formal. Pequenas mesas e cadeiras seriam dispostas pelo piso térreo, para que as pessoas não tivessem

de andar a equilibrar os pratos nas mãos. Antes de sairmos, Vincent Slater jun-tou-se de novo a nós, para dizer que o senhor Carrington contribuiria pagando do seu bolso todas as despesas da recepção. Antes que eu pudesse sequer agradecer, Slater acrescentou: - Temos um fotógrafo que tirará as fotografias. Pedimos apenas que os seus convidados se abstenham de usar as suas próprias máquinas fotográficas.

- Como provavelmente já terá adivinhado, daremos uma pequena palestra acerca da campanha

pela alfabetização - respondi-lhe. - Seria muito importante se o senhor Carrington pudesse dizer algumas palavras de boas-vindas.

- Ele já está a planear fazer isso - retorquiu Slater. Depois, acrescentou: - Antes que me esqueça,

evidentemente que as escadas para o piso superior estarão fechadas por um cordão. Eu tinha estado esperançada em poder dar uma escapadela lá acima, para uma visão adulta da capela. Por vezes, ao longo dos anos, indagara-me sobre se deveria ter contado a Maggie a conversa irada que ali tinha ouvido, mas ela zangar-se-ia comigo por ter entrado na casa e, além disso, que lhe poderia eu dizer? Tinha ouvido um homem e uma mulher a discutir por causa de dinheiro. Se tivesse pensado que essa discussão tinha alguma coisa a ver com o desaparecimento de Susan Althorp, decerto a teria relatado, mesmo sendo anos mais tarde. Mas se havia coisa que Susan Althorp nunca tinha tido de fazer, era pedir dinheiro a alguém. Por isso, a única coisa que a minha revelação poderia ajudar a definir era que eu tinha sido uma criança muito bisbilhoteira aos seis anos. Antes de o homem do catering e eu sairmos, nesse dia, ainda olhei de relance pelo corredor, esperando ver a porta da biblioteca aberta e Peter Carrington a sair dela. Tanto quanto sabia, Peter até podia estar a meio-mundo de distância. Mas como muitos executivos tiram a sexta-feira após o dia de Acção de Graças, fantasiei que, se estivesse em casa, poderia dar de caras com ele. Mas não aconteceu. Contentei-me com saber que o dia seis de Dezembro estava a menos de duas semanas de distância, e que o veria nessa altura. Depois, tentei sacudir a constatação de que, se por qualquer razão Peter não viesse à festa, ficaria terrivelmente desapontada. Tenho andado a sair com Glenn Taylor, doutorado, professor associado de Ciências na Universidade de Columbia, com uma regularidade cada vez mais certa.

Conhecemo-nos quando tomávamos café num Starbucks, ajudando à reputação da casa de ser um local óptimo para pessoas solteiras fazerem novos conhecimentos. Glenn tem trinta e dois anos, veio de Santa Barbara, e é tão descontraído como qualquer outro californiano. Até parece continuar a ser de lá; após seis anos a viver no Upper West Side de Manhattan, o cabelo dele continua a manter aquele aspecto dourado pelo sol. É apenas mais alto do que eu o suficiente para não ficarmos à mesma altura quando uso saltos altos, e partilha da minha paixão pelo teatro. Penso que ao longo dos dois últimos anos devemos ter ido a todos os espectáculos da Broadway e fora da Broadway, usando, evidentemente, bilhetes com desconto. Nunca nenhum jornalista da secção de negócios de um jornal escreveu uma peça acerca do bónus de fim de ano recebido por uma bibliotecária; e Glenn ainda está a acabar de pagar os empréstimos que contraiu para concluir os estudos. De certa forma, amamo-nos, e certamente que contamos um com o outro. Por vezes, Glenn até se dedica a especular que, com o meu lado do cérebro virado para a literatura e o dele virado para a ciência, teríamos grandes hipóteses de produzir uma prole espantosa. Mas sei que estamos muito longe do nível emocional de Jane Eyre e do senhor Rochester, ou de Cathy e Heathcliff. Pode ser que eu tenha colocado a fasquia demasiado alta, mas desde muito nova que sou admiradora das histórias de amor clássicas das irmãs Brontê. Desde o início que havia alguma coisa acerca de Peter Carrington que me intrigava, e penso que comecei a perceber o que era. Vê-lo ali sentado sozinho naquela louca mansão em forma de castelo

era uma imagem aterradora. Desejei ter percebido que livro ele estava a ler. Se fosse um livro que eu própria tivesse lido, talvez tivesse podido ficar por mais uns momentos a falar dele. "Ah, vejo que está com a nova biografia de Isaac Bashevis Sin-ger", poderia ter-lhe dito. "Concorda com a interpretação que o autor faz da personalidade dele? Eu achei-a um bocadinho "

injusta, porque Por aqui se pode ver o caminho que a minha mente estava a tomar. Depois, na noite anterior à da recepção, fui a casa de Maggie, para a ir buscar para um dos nossos jantares de pasta. Quando cheguei, Maggie estava a pôr pó-de-arroz, no espelho do átrio, cantarolando alegremente. Quando lhe perguntei o que se passava, disse-me com simplicidade que Nicholas Greco, o detective que estava a tratar do desaparecimento de Susan Althorp, lhe tinha telefonado e vinha visitá- la. Estava à espera dele a qualquer momento. Fiquei estupefacta. - Maggie, por amor de Deus, mas por que razão esse tipo quererá falar contigo? Mas antes mesmo de ela me responder, soube que Greco ia vê-la porque o meu pai tinha trabalhado para os Carrington na época do desaparecimento de Susan Althorp. Comecei automaticamente a arrumar a sala de estar. Ajustei os estores das janelas de forma a ficarem todos ao mesmo nível, apanhei os jornais que estavam espalhados pelo chão, pendurei uma camisola no armário do corredor e levei o tabuleiro com a chávena de chá e bolachas, que estava na mesa, para a cozinha. Greco chegou quando eu estava a apanhar uns fios prateados soltos para os prender no apanhado de cabelo da cabeça de Maggie. Sou uma admiradora de Dashiell Hammett, e Sam Spade, principalmente em O Falcão de Malta; é o protótipo da minha imagem mental de um detective privado. Aplicando essa bitola, Nicholas Greco era um desapontamento. Na aparência e nas maneiras, fez-me lembrar o perito

da seguradora que veio a minha casa quando um cano rebentou no apartamento por cima do meu. Essa ilusão foi rapidamente desfeita, porém, quando, depois de Maggie me ter apresentado como sendo sua neta, Greco disse: - Deve ser aquela que acompanhou o seu pai à propriedade dos Carrington no mesmo dia em que Susan Althorp desapareceu. Quando fiquei a olhar para ele, sorriu: - Tenho estado a rever os dossiês do processo. Há vinte e dois anos, o seu pai disse ao gabinete do procurador que tinha ido à propriedade inesperadamente nesse dia, por causa de um problema com a iluminação, e que a tinha levado com ele. Um dos empregados da empresa de catering também mencionou tê-la visto sentada num banco do jardim. Ter-me-ia alguém visto a esgueirar-me para dentro da casa? Esperei não parecer tão culpada como me sentia quando convidei Greco a sentar-se. Irritou-me ver que Maggie estava obviamente a divertir-se. Sabia que este homem - que agora já

não me fazia lembrar um perito de seguros - tinha sido contratado para provar que Peter Carrington fora o responsável pelo desaparecimento de Susan Althorp, e isso irritava-me. Mas a pergunta seguinte dele surpreendeu-me. Não foi acerca dos Carrington, nem dos Althorp; foi acerca do meu pai. Perguntou a Maggie: - O seu genro alguma vez tinha demonstrado sinais de depressão?

- Se chamar à bebida em excesso um sinal de depressão, diria que sim -

respondeu Maggie, olhando depois para mim como se estivesse receosa de que eu ficasse zangada com a resposta que dera. Apressou-se a corrigir: - Quero dizer, nunca se recompôs da morte

de Annie. Era a minha filha, mas um par de anos depois da morte dela, comecei a implorar a Jonathan que começasse a sair com outras mulheres. Deixe que lhe diga que havia muitas mulheres por aqui que teriam agarrado uma oportunidade para saírem com ele. Mas ele nunca o fez. Dizia sempre: "Kathryn é a única rapariga de que eu preciso." - Depois, Maggie acrescentou, de certa forma sem necessidade: - Quando tinha dez anos, Kathryn decidiu que queria que a tratassem por Kay.

- Pensa, portanto, que o excesso de bebida era um sinal da depressão dele, e que isso o levou a acabar com a própria vida?

- Tinha perdido uma série de trabalhos de paisagismo. Penso que ter sido despedido pelos

Carrington o pode ter levado a passar dos limites. A apólice de seguro dele estava prestes a expirar. Depois de ter sido declarado oficialmente morto, esse seguro pagou a educação de Kay.

- Mas não deixou nenhum bilhete de suicídio, e o corpo nunca foi encontrado. Vi a fotografia dele. Era um homem muito elegante. Percebi onde aquela linha de interrogatório ia dar.

- Está a sugerir que o meu pai não se suicidou, senhor Greco? -

perguntei.

- Menina Lansing, não estou a sugerir coisa nenhuma. Sempre que um corpo não é recuperado, há

sempre uma questão em aberto acerca da forma como a pessoa terá morrido. Há inúmeros casos documentados de pessoas que se pensava estarem mortas e que depois apareceram ou foram localizadas, vinte ou trinta anos mais tarde. Essas pessoas simplesmente

tinham-se afastado de uma vida que, por qualquer razão, se tinha tornado demasiado insuportável. Acontece com alguma frequência.

- Então, presumo que acredite que Susan Althorp poderá ter feito o mesmo?

- disparei, em resposta. - O corpo dela nunca foi encontrado. Talvez a vida dela se tivesse

tornado subitamente insuportável.

- Susan era uma mulher jovem, bela e saudável, uma estudante dotada que estava a acabar uma

licenciatura em Arte, em Princeton, e era a beneficiária de um fundo que significava que levaria uma vida de riqueza e privilégios. Era muito popular e atraía facilmente os homens. Receio não ver qualquer comparação aí.

- Peter Carrington fez qualquer coisa a essa rapariga. Aposto que tinha ciúmes dela - agora, Maggie soava como o Juiz Principal do Supremo Tribunal do Reino Unido, a pronunciar um

veredicto. - Dei-lhe o benefício da dúvida até a mulher dele se ter afogado, mas isso só demonstra que quando se mata alguém, se é capaz de voltar a matar. Quanto ao meu genro, penso que ele estava deprimido o suficiente para acreditar que estava a fazer um favor a Kay, assegu-rando-lhe a educação. Nessa noite, a pasta ficou-me atravessada na garganta, e de nada serviu sequer que Maggie tivesse reavaliado a visita de Greco.

- Devia ser um tipo esperto, mas está muito longe da realidade se pensa sequer que o teu pai seria

capaz de te abandonar. Não, ele não me abandonaria assim, pensei. Mas não era por aí que Greco queria ir. Greco estava a pensar se o meu pai não teria tido de encenar o seu próprio desaparecimento por causa do que tinha acontecido a Susan Althorp.

CAPÍTULO SETE

Tinha começado a nevar. Nicholas Greco mal se apercebia dos leves flocos húmidos que pairavam até lhe caírem no rosto enquanto olhava para as janelas da galeria de arte, no segundo andar da West Fifty-seventh Street. A galeria tinha o nome de Richard Walker. Greco fizera o seu trabalho de casa sobre Walker. Com quarenta e seis anos, divorciado por duas

vezes, filho de Elaine Walker Carrington, Walker tinha uma reputação indiferente no mundo da arte, e era indubitavelmente sustentado pela sorte de a sua mãe ter casado com a fortuna de família dos Carrington. Estivera no jantar formal naquela noite em que Susan Althorp desaparecera. De acordo com os relatos dos dossiês do gabinete do procurador, saíra de lá, dirigindo-se ao seu apartamento em Manhattan, quando a festa acabara. Greco abriu a porta do edifício, foi identificado por um segurança, e subiu o lance de escadas único que levava à galeria, no segundo piso. Foi logo recebido por uma recepcionista sorridente que abriu a porta.

- O senhor Walker está à sua espera - disse ela. - É só um minuto, enquanto ele acaba uma

chamada de teleconferência. Porque não aproveita para visitar a nossa nova exposição? Estamos a expor uma excelente jovem artista que os críticos têm elogiado muito. Se já alguma vez ouvi um discurso preparado, este é um deles, pensou Greco. Walker deve estar afazer as palavras cruzadas no seu gabinete. A galeria, que lhe pareceu fria, com as paredes brancas e a alcatifa cinzenta, não tinha nenhum visitante. Avançou de quadro para quadro, fingindo examiná- los. Todos representavam cenas de esqualidez urbana. Greco estava junto do penúltimo de uma vintena de quadros, quando uma voz lhe perguntou por cima do ombro: - Este aqui, em especial, não lhe faz lembrar um Edward Hopper? Nem de perto nem de longe, pensou Greco. E, com um resmungo que poderia ser interpretado como um assentimento, virou-se para enfrentar Richard Walker. Parece ter menos de quarenta e seis anos, foi o primeiro pensamento de Greco. Os olhos de Walker eram o seu traço mais marcante: cor de safira e bastante afastados. As feições eram grosseiras. Era de estatura mediana, com um corpo

sólido e os braços grossos de pugilista. Não pareceria deslocado num ginásio, decidiu Greco. O fato azul-escuro de Walker era obviamente caro, mas naquele corpo forte não lhe caía muito bem. Quando se tornou claro que Greco não estava interessado em discutir arte, Walker sugeriu que

fossem para a privacidade do seu gabinete. De caminho, foi desenvolvendo um comentário acerca de como as fortunas de família se baseavam em as pessoas terem a capacidade de detectar o génio num pintor ainda desconhecido.

- Claro que isto se vê em qualquer área - disse, enquanto contornava a secretária e apontava a Greco a cadeira à sua frente. - O meu avô costumava contar a história de como Max Hirsch, o lendário criador de cavalos, recusou a oportunidade de comprar o melhor cavalo de corrida da história, o Man O'War, por cem dólares. Gosta de corridas, senhor Greco?

- Receio não ter muito tempo para passatempos - respondeu Greco, com a voz a soar como se o lamentasse. Walker sorriu afavelmente.

- Nem para conversa fiada, presumo. Muito bem. Em que lhe posso ser útil?

- Em primeiro lugar, queria agradecer-lhe por me ter deixado vir até cá.

Como provavelmente saberá, a mãe de Susan Althorp contratou-me para investigar o desaparecimento da filha.

- Calculo que, pelo menos em Englewood, já toda a gente tenha ouvido falar disso - respondeu

Walker.

- Passa muito tempo em Englewood, senhor Walker?

- Não sei o que significa "muito tempo". Vivo em Manhattan, na East Seventy-third Street. Como

certamente deve saber, a minha mãe, Elaine Carrington, tem uma casa dentro da propriedade dos Carrington, e vou lá visitá-la. E ela também vem a Manhattan com grande frequência.

- Estava na propriedade na noite em que Susan Althorp desapareceu?

- Estava na festa, juntamente com mais duzentas pessoas. A minha mãe tinha casado com o pai do

actual Peter Carrington três anos antes. A verdadeira intenção da festa era comemorar os setenta anos

feitos por Carrington sénior nesse ano. Ele era muito sensível ao facto de a minha mãe ser muito mais

nova

de aniversário - Walker ergueu uma sobrancelha. - Se fizer umas contas, verá que o velho Carrington se especializou em mulheres bastante mais novas. Tinha quarenta e nove anos quando Peter nasceu. A mãe de Peter também era muito mais nova. Greco fez que sim com a cabeça e olhou à sua volta. O gabinete de Walker não era muito grande, mas estava mobilado com gosto, com um pequeno sofá às riscas azuis e encarnadas, com paredes de um branco creme e uma carpete azul-escura. Achou o quadro por cima do sofá, com velhos a jogar às cartas em redor de uma mesa, mais interessante do que as cenas de desolação que vira na exposição da galeria. Um armário de canto mostrava várias fotografias de Walker no campo de pólo, bem como uma bola de golfe encastrada numa travessa de prata.

Vinte e seis anos mais nova, para ser exacto, e por isso a festa não foi designada como festa

- Foi um hole in one? - perguntou, apontando para a bola.

- Sim, em St. Andrews - respondeu Walker, sem tentar disfarçar o orgulho da voz.

Greco pôde ver que a recordação desse feito tinha ajudado Walker a descontrair-se, que era precisamente o que esperara conseguir. Recostando-se na sua cadeira, disse: - Estou a tentar formar uma imagem geral de Susan Althorp. Que impressão tinha dela?

- Comecemos pelo facto de que só a conhecia superficialmente. Tinha dezoito ou dezanove anos.

Eu tinha vinte e quatro, tinha um emprego a tempo inteiro na Sotheby's, e vivia na cidade. Para além disso, para ser totalmente franco, eu não tinha especial afeição pelo marido da minha mãe, Peter Carrington IV, nem ele por mim.

- Em que é que chocavam?

- Não era propriamente que chocássemos. Peter ofereceu-me emprego numa empresa de

corretores que possuía, onde, tal como ele apresentou a questão, eu poderia acabar por ganhar dinheiro a sério, em vez de viver na corda bamba. Sentiu-se desprezado quando declinei a sua proposta.

- Estou a ver. Mas visitava, de qualquer forma, a sua mãe com frequência, em casa dele?

- Evidentemente. Nesse Verão, há vinte e dois anos, estava muito calor, e houve festas junto à piscina com grande frequência. A minha mãe adorava receber. Convidava os amigos dela

regularmente. Peter e Susan andavam ambos em Princeton, e os amigos deles de Princeton estavam sempre por lá. Geralmente, diziam-me para levar também um ou dois convidados. Era muito agradável.

- Peter e Susan eram considerados como um casal?

- Tinham-se encontrado muitas vezes. Pelo que vi, pensei que estariam a apaixonar-se, ou, pelo

menos, que ele estaria a apaixonar-se por ela.

- Quer dizer que Peter não era correspondido? - perguntou Greco, com voz suave.

- Não quero dizer coisa nenhuma. Ela era muito extrovertida. Peter era sempre muito sossegado.

Mas sempre que eu lá passava, nos fíns-de-semana, parecia que ela estava lá sempre, a jogar ténis, ou a apanhar sol junto da piscina.

- Ficou na mansão Carrington na noite da festa?

- Não. Tinha marcado um jogo de golfe as quatro na manhã seguinte, e vim-me embora no fim do jantar. Não fiquei para o baile.

- A mãe de Susan está convencida de que o seu meio-irmão foi responsável pela morte de Susan. Acredita nisso? Houve uma ponta de irritação nos olhos de Richard Walker quando olhou directamente para Greco.

- Não, não acredito - retorquiu bruscamente.

- E quanto a Grace Carrington? O senhor estava no jantar na mansão, na noite em que ela se

afogou. Na verdade, o jantar até era em sua honra, não era?

- Peter viajava muito. Grace era o tipo de mulher extrovertida que não gosta de estar sozinha.

Estava sempre a convidar pessoas para o jantar. Quando percebeu que o meu aniversário estava a aproximar-se, decidiu que o jantar dessa noite

seria uma festa de aniversário em minha honra. Estávamos apenas seis pessoas. Peter só chegou perto do final. O avião dele tinha-se atrasado, no regresso da Austrália.

- Julgo saber que Grace bebeu bastante nessa noite.

- Grace bebia sempre muito. Esteve várias vezes em reabilitação, mas nunca chegou a conseguir

manter-se sóbria por muito tempo. Depois, quando finalmente conseguiu levar uma gravidez por

diante, após vários abortos espontâneos, ficámos todos preocupados com a possibilidade de uma síndrome alcoólica fetal.

- Alguém tentou impedi-la de beber nessa noite?

- Ela tinha um jeito extraordinário para disfarçar. Toda a gente pensava que estava a beber

refrigerante, quando afinal era vodca puro. Estava realmente embriagada quando Peter chegou a casa

e, evidentemente, isso deixou-o fora de si, ao vê-la naquele estado. Mas quando lhe tirou o copo das

mãos, o despejou na carpete e gritou com ela, isso pareceu ter tido um efeito arrasador. Quando Peter correu escada acima, lembro-me de a ouvir dizer: "Parece-me que a festa acabou."

- "A festa acabou" pode significar mais do que o fim de uma festa - disse Greco.

- Suponho que sim. Grace parecia muito triste. A minha mãe e eu fomos os últimos a sair. Ia ficar

em casa da minha mãe nessa noite. Grace disse que se ia deitar no sofá por uns momentos. Creio que não queria ter de enfrentar Peter.

- E o senhor e a sua mãe saíram juntos?

- Fomos a pé até casa da minha mãe. Na manhã seguinte, a governanta telefonou, histérica. Tinha encontrado o corpo.

- Acredita que Grace Carrington poderá ter caído na piscina acidentalmente, ou então ter

cometido suicídio?

- Só posso responder a essa pergunta de uma maneira: Grace queria aquele bebé, e sabia que

Peter o queria também. Teria ela acabado com a sua vida deliberadamente? Não, a não ser que se sentisse esmagada pela sua incapacidade de deixar a bebida, e entrasse em pânico com a possibilidade de já ter causado lesões ao feto. Os modos de Nicholas Greco tornaram-se ainda mais amistosos quando perguntou, casualmente: - Acha que Peter Carrington estava irritado o suficiente para ter ajudado a esposa a acabar com a vida, talvez depois de ela ter desmaiado no sofá? Desta vez, era óbvio para Greco que a resposta irada de Richard Walker era tão falsa como forçada: - Isso é completamente ridículo, senhor Greco. Não é isso que ele pensa, reflectiu Greco, enquanto se levantava para sair. Mas é nisso que ele quer que eu pense que acredita.

CAPITULO OITO

Peter Carrington e eu casámos na Capela de Nossa Senhora da Catedral de São Patrício, onde há trinta anos a minha mãe e o meu pai trocaram os seus votos. A ironia disto, para Maggie, foi que ela acabou por ser o catalisador que nos veio a juntar. A festa em prol da alfabetização na propriedade dos Carrington foi um sucesso completo. O casal de empregados, Jane e Gary Barr, tinha trabalhado comigo e com o homem do catering, para nos assegurarmos de que tudo estaria perfeito. Elaine Walker Carrington e o meio-irmão de Peter, Richard, estiveram muito presentes, derramando um gentil charme enquanto cumprimentavam as pessoas. À excepção daqueles belos olhos, fiquei espantada por ver como mãe e filho eram tão pouco parecidos fisicamente. Por qualquer motivo, eu tinha esperado que o filho de Elaine Carrington se parecesse com Douglas Fairbanks Jr., mas nada poderia andar mais longe da verdade. Vincent Slater estava omnipresente, mas manteve-se sempre nos bastidores. Com a minha habitual necessidade de perceber tudo o que se passa à minha volta, entretive-me a tentar adivinhar como teria ele entrado na vida de Peter. Seria filho de alguém que tinha trabalhado para o pai de Peter? Duvidei. Afinal de contas, eu própria era filha de alguém que tinha trabalhado para o pai de Peter. Ou talvez fosse um colega de faculdade, convidado a entrar para o negócio da família? Nelson Rockefeller convidou o seu companheiro de quarto em Dartmouth, um estudante bolseiro do Midwest, a ir trabalhar para a sua família. Esse homem acabou multimilionário. Quando o breve programa começou, apresentei Peter. Não havia nada nos seus modos que

sugerisse a pressão em que se encontrava quando deu as boas-vindas aos convidados e falou da importância do nosso projecto de alfabetização.

- É muito bom que se dê dinheiro para ajudar - disse Peter -, mas é igualmente importante haver pessoas, pessoas como todos vós, que ofereçam um pouco de tempo para, cara a cara, ajudarem

outros a aprender a ler. Como provavelmente saberão, viajo muito, mas gostaria de ser um voluntário pela alfabetização de outra forma. Assim sendo, façamos deste evento um evento anual aqui em minha casa - Depois, enquanto a pequena multidão aplaudia, virou-se para mim: - Acha bem, Kathryn? Terá sido esse o momento em que me apaixonei por ele? Ou estaria já apaixonada?

- Seria maravilhoso - disse eu, com o coração a derreter. Nesse mesmo dia, tinha saído outra

notícia na secção de negócios do New York Times que colocava a questão: "Será o momento de Peter Carrington sair?" Peter fez-me o sinal de OK e depois, sorrindo para as pessoas e apertando a mão a algumas delas, seguiu pelo corredor fora, em direcção à sua biblioteca. Reparei, porém, que não entrou na biblioteca. Pensei que teria escapado pela escada do fundo, ou teria mesmo saído de casa. Eu tinha andado dentro e fora da casa todo o dia, para supervisionar o trabalho do catering e da florista, e para me assegurar de que as pessoas que andavam a mudar as mobílias de sítio não faziam mossas ou riscos. Os Barr tornaram-se meus amigos nesse dia. A hora do almoço, enquanto bebíamos uma chávena de chá e comíamos apressadamente uma sanduíche, fizeram-me ver o Peter Carrington que eles conheciam: o rapaz de doze anos que tinha sido mandado para Choate depois de a mãe ter morrido, o jovem finalista de Prin-ceton que aos vinte e dois anos fora interrogado sem descanso acerca da morte de Susan Althorp, e o marido de trinta e oito anos cuja mulher grávida fora encontrada morta no fundo da piscina. Graças em grande parte à ajuda do casal Barr, correu tudo na perfeição. Esperei para ter a certeza de que os últimos convivas estavam de saída, a limpeza acabada e a mobília recolocada no seu lugar, antes de eu própria sair. Embora nunca parasse de esperar que ele o fizesse, Peter não voltou a aparecer, e na minha cabeça estava já a tentar arranjar uma maneira de o voltar a ver em breve. Não queria esperar até ser altura de planear a recepção do ano seguinte. Mas depois, inadvertidamente, e decerto sem intenção, Maggie acabou por nos juntar. Eu tinha-a levado à festa, e por isso, claro, esperou por mim para a levar a casa. Então, enquanto Gary Barr nos abria a porta da frente para sairmos, Maggie prendeu a ponta do sapato no pequeno rebordo do caixilho da porta e caiu com força, quase rebolando pelos degraus de mármore da entrada. Gritei. Maggie é a minha mãe e o meu pai, e a minha avó e a minha amiga e mentora, tudo ao mesmo tempo. É tudo o que eu tenho. E tem oitenta e três anos. A medida que os anos passam, preo- cupo-me cada vez mais, enfrentando o facto inevitável de que ela não é imortal, por muito que saiba que há-de dar luta antes de se deixar levar calmamente pelas trevas. Depois, caída no chão, Maggie ralhou-me: - Oh, por amor de Deus, Kay, fica calma. A única coisa que magoei, provavelmente, foi a minha dignidade. Ergueu-se um pouco, apoiando-se num cotovelo, e tentou pôr-se de pé. Depois, desmaiou. Os acontecimentos da hora seguinte são uma névoa. Os Barr chamaram uma ambulância, e suponho que terão informado Peter Carrington do que se tinha passado, porque de repente ali estava ele, ajoelhado ao lado de Maggie, com os dedos a tentarem sentir a pulsação na garganta de Maggie, com uma voz tranquilizadora: - Kathryn, o coração dela parece forte. Penso que o maior impacto foi na testa. Está a ficar inchada.

Seguiu a ambulância até ao hospital e esperou comigo na sala das urgências até eu ser tranquilizada, pelo médico, de que Maggie tinha apenas sofrido um ligeiro traumatismo, embora a quisessem manter lá naquela noite. Depois de Maggie estar instalada num quarto, Peter levou-me até casa dela. Acho que eu devia estar a tremer tanto, de alívio e de choque ao mesmo tempo, que teve de me tirar a chave da mão e abrir a porta. Depois, entrou comigo, encontrou o interruptor e disse: - Você está com cara de quem precisa de uma bebida. A sua avó tem alguma bebida em casa? Esta pergunta fez com que me começasse a rir, um pouco histérica, calculo. - Maggie afirma que se toda a gente seguisse o seu regime de um bom chocolate quente com uma gota de whisky todas as noites, as farmacêuticas iam à falência. Foi então que eu senti que estava a piscar os olhos, tentando sacudir as lágrimas de alívio. Peter estendeu-me o seu lenço e disse: - Compreendo como se sente. Bebemos ambos um uísque. No dia seguinte, Peter mandou flores a Maggie e telefonou-me para sugerir que jantássemos juntos. A partir daí, comecei a vê-lo todos os dias. Estava apaixonada, e ele também. Maggie, porém, estava inconsolável. Continuava certa de que ele era um assassino. A madrasta de Peter sugeriu que esperássemos, avisando-nos de que era demasiado cedo para termos a certeza do nosso amor. Gary e Jane Barr, no entanto, ficaram felicíssimos por nós. Vincent Slater trouxe à baila o assunto de um acordo pré-nupcial, e ficou obviamente muito aliviado quando eu lhe disse que assinaria um tal acordo. Peter ficou furioso, e Slater recuou. E eu disse a Peter que já tinha lido sobre acordos em que, se o casamento fosse muito breve, as compensações seriam bastante limitadas. E dis-selhe que, por mim, estava tudo bem. Também lhe disse que não estava preocupada com isso, porque sabia que ficaríamos juntos para sempre, e que haveríamos de ter uma família. Mais tarde, naturalmente, Peter e Slater fizeram as pazes, e o advogado de Peter elaborou um acordo bastante generoso. Peter insistiu em que eu tivesse um advogado da minha parte para rever o acordo, para que pudesse ter a certeza de que era justo. Assim se fez e, uns dias mais tarde, assinei o documento. No dia seguinte, fomos a Nova Iorque e tratámos discretamente dos preparativos do casamento. A oito de Janeiro, casámos na Capela de Nossa Senhora da Catedral de São Patrício, onde jurámos solenemente amar-nos, respeitar-nos e cuidarmos um do outro até que a morte nos separasse.

CAPITULO NOVE

A procuradora Barbara Krause estudou a fotografia que os paparasgi tinham tirado de Peter Carrington e da sua nova esposa, Kay, passeando numa praia da República Dominicana. Feliz a noiva sobre quem hoje brilha o sol, pensou, sarcasticamente, enquanto afastava o jornal para o lado. Agora com cinquenta e dois anos, Barbara formara-se em Direito e começara a sua carreira como ajudante de um juiz criminal de Bergen County; ao fim de um ano, mudara-se para o tribunal, tornando-se procuradora-assistente do Ministério Público. Durante os vinte e sete anos seguintes, trabalhara para subir no gabinete da procuradoria, tornando-se procuradora-adjunta e, finalmente, após a reforma do seu antecessor, há três anos, procuradora. Era um mundo que adorava, e um entusiasmo que partilhava com o marido, juiz de um tribunal cível no vizinho condado de Essex. Susan Althorp desaparecera quando Barbara estava em funções há apenas alguns anos. Devido à proeminência, quer da família Althorp, quer da família Carrington, o caso tinha sido investigado em todos os ângulos possíveis. A incapacidade para o resolver, ou sequer para acusar o principal arguido, Peter Carrington, ficara como um osso entalado na garganta dos antecessores de Barbara, tal como na dela.

De tempos a tempos, ao longo dos anos, pegara no dossiê de Susan Althorp e revirara-o, tentando vê-lo com um olhar renovado, sublinhando um ou outro testemunho, colocando um ponto de interrogação adiante de certas declarações. Infelizmente, nada disso tinha levado a lado nenhum. Agora, enquanto estava sentada à sua secretária, algumas das declarações de Peter Carrington vinham-lhe à mente. Peter afirmara que tinha deixado Susan à porta de casa nessa noite: - Não esperou que eu lhe

abrisse a porta do carro. Correu pelos degraus da entrada, pôs a mão na maçaneta da porta, disse-me adeus e entrou.

- Foi a última vez que a viu?

- Sim.

- E que fez depois?

- Fui para casa. Ainda havia pessoas a dançar no terraço. Tinha estado a jogar ténis toda a tarde,

e estava cansado. Estacionei o carro na garagem e entrei em casa pela porta lateral; fui de imediato

para cima e meti-me na cama. Adormeci logo. Olhos que não vêem, coração que não sente, pensou Barbara. O interessante era que ele usara a mesma história na noite em que a sua própria mulher se afogara na piscina. Barbara olhou para o relógio. Eram horas de ir. Tinha estado a assistir a um julgamento por homicídio, apenas como observadora. Iam começar as alegações finais. Neste caso, a identidade do assassino não estava em questão; era antes uma questão de se saber se os jurados iriam considerar o acusado culpado de homicídio doloso ou de homicídio por negligência. Uma discussão doméstica tornara-se violenta, e agora o pai de três crianças pequenas acabaria provavelmente por passar os próximos vinte e cinco a trinta anos na prisão, por ter morto a mãe dessas mesmas crianças. Pois que assim seja! Por causa dele, as crianças ficaram sem nada, pensou Barbara, enquanto se levantava para regressar à sala de audiências. Devia ter aceite o acordo de vinte e cinco anos que lhe propusemos. Com quase um metro e oitenta, e sempre em luta contra um problema de excesso de peso, Barbara sabia que a sua alcunha no tribunal era o Tractor. Bebeu um último gole de café da caneca que estava na secretária. Ao fazê-lo, a fotografia do jornal onde apareciam Peter Carring-ton e a mulher voltou a chamar- lhe a atenção. "Teve vinte e dois anos de liberdade desde que Susan Althorp desapareceu, senhor Car-rington", disse Barbara, em voz alta. "Se alguma vez conseguir deitar-lhe a mão, uma coisa lhe prometo: não haverá hipótese de dizer que foi homicídio involuntário. Hei-de acusá-lo de homicídio qualificado, e há-de ser condenado por isso."

CAPITULO DEZ

As duas semanas que passámos de lua-de-mel foram idílicas. Tínhamo-nos casado tão depressa que ainda estávamos a descobrir coisas novas acerca um do outro todos os dias; coisas pequenas, como a de eu querer sempre um café a meio da manhã, ou o facto de Peter adorar trufas, enquanto eu

as detesto. Não me tinha apercebido do quanto eu tinha estado basicamente sempre sozinha até passar

a ter Peter ali ao meu lado durante todo o tempo. Por vezes, acordava a meio da noite e ficava a ouvir a respiração regular dele, e pensava em como era incrível que fosse agora sua mulher.

Tinha-me apaixonado por ele com tanta intensidade

E Peter parecia sentir o mesmo por mim.

Quando começámos a ver-nos diariamente, perguntara-me: - Tens a certeza de que estás interessada num homem que é suspeito em dois casos de morte?

A minha resposta fora que, muito antes de o conhecer, acreditara sempre que ele tinha sido vítima

das circunstâncias, e sabia como isso devia ter sido horrível, e, claro, devia continuar a sê-lo.

- E é, de facto - respondera-me. - Mas não vamos falar disso. Kay, dás-me tanta felicidade que

acredito mesmo que há-de haver um futuro, um momento em que a resposta quanto ao desaparecimento de Susan será conhecida e as pessoas saberão que eu nada tive a ver com isso. E assim, durante o nosso namoro, nunca falávamos de Susan Alt-horp, ou da primeira mulher de

Peter, Grace. Peter falava, isso sim, muitas vezes da mãe, com carinho - era óbvio que deviam ter sido muito chegados.

- O meu pai andava constantemente em viagens de negócios. A minha mãe tinha-o sempre

acompanhado. Mas depois de eu nascer, passou a ficar em casa comigo - recordava. Perguntei-me se teria sido depois de ter perdido a mãe que aquela expressão de dor se tinha instalado nos seus olhos. Na nossa lua-de-mel fiquei um pouco surpreendida por não haver chamadas do seu escritório. Mais tarde, soube porquê. Os paparasgi estavam sempre junto ao portão da casa que Peter tinha alugado e, com excepção de um rápido passeio pela praia, tínhamo-nos mantido sempre no interior da propriedade. Eu telefonava todos os dias para saber de Maggie, e ela admitira com relutância que as histórias acerca de Peter tinham desaparecido das revistas de mexericos. Comecei a ter esperança de que Nicholas Greco tivesse ido dar a um beco sem saída na sua investigação acerca do desaparecimento de Susan Althorp; um beco sem saída, pelo menos, no que dizia respeito a Peter. Não demorei muito a descobrir que estava a viver numa falsa esperança. Regressámos a casa. Casa? Parecia-me impossível que alguma vez viesse a chamar "casa" à mansão dos Carrington. Enquanto éramos conduzidos através dos portões, no regresso da nossa lua- de-mel, pensei na criança que eu era quando tinha subido sorrateiramente a escada até à capela, e na emoção que sentira no passado mês de Outubro, quando viera pedir a Peter para me deixar organizar a festa naquela casa. Sentira-me pouco à vontade quando, no voo de regresso, Peter se tornara cada vez mais taciturno,

mas pensava que sabia qual era a razão. Peter voltaria a estar sob os holofotes da imprensa e, devido às exigências da sua posição, não teria maneira de o evitar. Eu tinha-me demitido relutantemente das minhas funções na biblioteca, porque adorava o meu trabalho. Por outro lado, tinha andado a pensar seriamente na melhor maneira de ajudar Peter. Ia sugerir-lhe que planeasse viajar muito pela sua empresa. Haveria menos interesse na investigação em curso de Greco, se o alvo principal não estivesse por perto, não podendo ser seguido constantemente pelos meios de comunicação. Claro, eu viajaria com ele.

- Ainda se usa o noivo carregar a noiva ao colo ao entrar em casa? - perguntou-me Peter quando o carro parou diante da porta.

Senti imediatamente que ele se sentiria muito desconfortável se a resposta fosse sim, e perguntei- me se teria levado Grace ao colo quando se tinham casado, havia doze anos.

- Preferia que entrássemos de mãos dadas - respondi; e soube que a resposta lhe tinha agradado.

Depois das nossas duas abençoadas semanas nas Caraíbas, essa primeira noite na mansão foi estranhamente desconfortável. Num gesto falhado de "boas-vindas a casa", Elaine encomendara um jantar gastronómico servido por uma empresa de catering, relegando os Barr para a cozinha. Em vez da pequena sala de jantar que dava para o terraço, mandara servir o jantar na grande sala formal. Embora tenha sido sensata o suficiente para nos sentar de frente um para o outro ao centro da mesa comprida de banquetes, o jantar foi desconfortável e estranho, com dois empregados sempre a pairar

à nossa volta. Ficámos ambos contentes quando o jantar terminou e pudemos ir para cima. A suite de Peter consistia em dois grandes quartos, cada um com a sua própria casa de banho,

separados por uma bela sala de estar. Tudo no quarto do lado direito fazia dele, indesmentivelmente,

o domínio de um homem. Tinha dois roupeiros maciços trabalhados à mão, um elegante sofá de couro

avermelhado e cadeiras a condizer junto à lareira; uma cama de tamanho gigante com prateleiras de livros por cima da cabeceira, e um ecrã de televisão que podia ser descido do tecto com o pressionar de um botão. As paredes eram brancas, a colcha tinha quadrados brancos e pretos, a carpete era cinzento-carvão. Vários quadros que ilustravam diversas cenas de caça à raposa nos campos ingleses adornavam as paredes. O quarto do outro lado tinha sempre sido ocupado pela dona da casa Carrington. A mulher de

Peter, Grace, fora a última a usá-lo. Antes disso, fora Elaine a viver ali, e antes dela, a mãe de Peter,

e todas as suas antecessoras maternas desde 1848. Era muito feminino, com paredes cor de pêssego

claro e cortinados verdes, bem como a cabeceira da cama e a coberta. Uma senhorinha e uma pequena chai-se-longue junto da lareira faziam o quarto ter um ar acolhedor e confortável. Um quadro verdadeiramente belo de uma cena de jardim estava por cima da lareira. Sabia que depressa haveria de querer deixar a minha própria marca naquele quarto, porque gosto de cores mais vibrantes; mas divertiu-me pensar que poderia ter metido todo o meu pequeno apartamento ali dentro. Peter já me tinha advertido de que tinha insónias com frequência, e de que quando isso

acontecesse, iria para o outro quarto, para ler. Dado que, por mim, tenho a certeza de que sou capaz de dormir nem que o mundo acabe, disse-lhe que isso não seria necessário, mas que aquilo que o fizesse sentir-se melhor estaria bem para mim. Nessa noite, deitámo-nos no meu quarto, eu com a cabeça cheia de devaneios perante a perspectiva de começar finalmente a sério a minha vida como mulher de Peter. Não sei o que me acordou durante a noite, mas alguma coisa foi. Peter não estava lá. Embora soubesse que provavelmente estaria no seu quarto, a ler, senti subitamente um tremendo ataque de ansiedade. Enfiei os pés nos chinelos, vesti um roupão e deslizei pela sala. A porta dele estava fechada. Abri-a silenciosamente. Estava escuro, mas havia já suficiente luz do alvorecer a passar pelos estores da janela para poder ver que o quarto estava vazio. Não sei o que me impeliu a fazer isso, mas corri para a janela e olhei para baixo. Dali, a piscina era claramente visível. Claro que, como estávamos em Fevereiro, estava coberta, mas Peter estava lá, ajoelhado ao lado dela, com uma mão pousada na borda, e a outra a deslizar por baixo da pesada capa de vinil, dentro da água. Movia o braço inteiro para trás e para a frente, como se estivesse a tentar empurrar alguma coisa para dentro da água, ou então a puxá-la de lá. Porquê? Que estaria ele afazer?, interroguei-me. Depois, enquanto o observava, pôs-se de pé, virou-se e regressou lentamente para casa. Uns minutos mais tarde, abriu a porta da casa de banho, acendeu a luz, secou o braço a uma toalha e desceu a manga do pijama. Depois, apagou a luz, voltou

a entrar no quarto e ficou de frente para mim. Era óbvio que não tinha consciência da minha presença ali, e percebi então o que se estava a passar. Peter estava a ter um ataque de sonambulismo. Uma rapariga do nosso dormitório na universidade era também sonâmbula, e tínhamos todas sido avisadas para nunca a acordarmos de repente. Enquanto Peter seguia o seu caminho pela sala, segui-o silenciosamente. Voltou a meter-se na cama, no meu quarto. Despi o roupão, descalcei os chinelos e meti-me na cama suavemente, ao lado dele. Uns minutos mais tarde, o braço dele envolveu-me e ouvi a sua voz

murmurar: - Kay.

- Estou aqui, querido - respondi.

Senti o corpo dele a descontrair-se e, daí a pouco, a sua respiração regular disse-me que estava a dormir. Mas, durante o resto da noite, fiquei acordada. Peter era sonâmbulo, percebia isso agora; mas com que frequência aconteceria isto? E, muito mais importante ainda, por que razão, nesse estado alterado, ia ele até à piscina e fazia aquele gesto de estar a empurrar alguma coisa, ou a tentar puxar alguma coisa de lá? Alguma coisa ou alguém?

CAPITULO ONZE

Nicholas Greco conduziu ao longo de Cresskill, uma vila perto de Englewood, observando os topónimos das ruas e lembrando a si próprio, mais uma vez, que estava na altura de comprar um sistema de navegação para o carro. Francês está sempre a dizer-me que, para alguém tão bom a resolver crimes, sou incapaz de ir à mercearia sem me perder, pensou. E tem razão. Vila simpática, pensou depois, enquanto, seguindo as direcções que tinha tirado da MapQuest, virou à direita para a County Road. Estava prestes a interrogar Vincent Slater, o homem que tinha sido considerado "indispensável" pelo pai de Peter Carrington. Greco tinha feito uma investigação exaustiva acerca de Slater antes de ter pedido aquele encontro, mas não tinha havido muita coisa de interesse a retirar dessa investigação. Slater tinha agora cinquenta e quatro anos, era solteiro, ainda vivia na casa da sua infância, que tinha comprado aos pais quando estes se tinham mudado para a Florida. Tinha frequentado a universidade local. O seu primeiro e único emprego fora na Carrington Enterprises. Ao fim de um par de anos de estar lá empregado, chamara a atenção do pai de Peter e tornara-se uma espécie de ajudante-de-campo dele. Depois de a mãe de Peter ter morrido, Slater tornara-se uma mistura de empregado de confiança e pai substituto de Peter. Doze anos mais velho do que Peter, durante os anos de adolescência do

herdeiro dos Carrington, Slater levava-o a Choate, a escola secundária no Connecticut, e ia visitá-lo regularmente; ficava com ele na mansão durante as férias e levava-o a esquiar e a velejar durante as férias grandes. O passado de Slater era interessante, mas o que era de interesse primordial para Greco era o facto de ter estado na festa, na noite em que Susan Althorp tinha desaparecido, como convidado. Concordara relutantemente com a entrevista, mas insistira em que esta tivesse lugar em sua casa. Não me quer minimamente ver dentro da mansão, pensou Greco. Devia saber que já lá estive, ou pelo menos que estive na casa de hóspedes , para falar com os Barr. Viu os números de porta das casas e parou em frente da casa de Slater, que era de dois pisos, do tipo tão em voga nos anos 1950. Quando tocou à porta, Slater veio imediatamente abrir. Gostava de saber se ele estaria atrás da porta, pensou Greco. E, mesmo nunca o tendo visto antes, porque penso eu que ele é esse tipo de pessoa?

- Muito obrigado por me receber, senhor Slater - disse Greco amavelmente, estendendo a mão. Slater ignorou a mão estendida.

- Entre - disse secamente.

Era capaz de me orientar aqui dentro de olhos fechados, pensou Greco. Cozinha logo em frente, ao fim do átrio. Sala à direita, abrindo para uma pequena sala de jantar. Três quartos lá em cima. A sala familiar ficava meio andar abaixo da cozinha. Greco sabia que era assim, porque crescera numa casa exactamente igual, em Hampstead, Long Island.

Era mais que óbvio que o gosto de Slater pendia para o minimalista. As paredes beges pareciam monótonas, combinando com a alcatifa castanha. Greco seguiu Slater até à sala de estar, escassamente mobilada. Um sofá e cadeiras modernistas estavam dispostos num conjunto em volta de uma mesa larga de vidro com pernas de metal. Nada de quente e acolhedor neste sítio, nem neste tipo, pensou Greco enquanto se sentava na cadeira que Slater lhe apontara. Era demasiado baixa para seu gosto. Uma maneira subtil de me colocar numa posição de desvantagem, considerou. Antes que pudesse fazer os seus habituais comentários de agradecimento a Slater por ter

concordado em recebê-lo, Vincent Slater disse: - Senhor Greco, sei por que razão está aqui. Está a investigar o desaparecimento de Susan Althorp, a pedido da mãe dela. Isso é muito louvável, não fosse um pequeno problema: a sua incumbência consiste, de alguma forma, em provar que Peter Carrington é criminalmente responsável pelo desaparecimento de Susan.

- A minha incumbência consiste em descobrir o que aconteceu a Susan e, se possível, dar paz à

sua mãe - retorquiu Greco. - Reconheço que, por ter sido a última pessoa a vê-la antes de ter desaparecido, Peter Carrington tem vivido sob uma nuvem de suspeições durante vinte e dois anos.

Como seu amigo e secretário, suponho que o senhor estaria interessado em desfazer essa nuvem, caso fosse de alguma forma possível fazê-lo.

- Isso é obviamente verdade.

- Então, ajude-me. Qual é a recordação que tem dos acontecimentos dessa noite?

- Tenho a certeza de que neste momento o senhor já sabe exactamente qual foi o testemunho que

prestei quando a investigação foi aberta. Estive como convidado no jantar. Foi um evento muito agradável. Susan chegou com os pais.

- Chegou com eles, mas foi Peter quem a levou depois a casa.

- Sim.

- A que horas saiu da festa?

- Como certamente sabe, fiquei lá em casa nessa noite. Desde há muitos anos que tenho um quarto

para mim na mansão. Noventa e nove por cento das vezes, regresso a esta casa, mas nessa ocasião

decidi passar lá a noite, tal como alguns outros convidados. Elaine, a madrasta de Peter, estava a planear um pequeno-almoço às dez horas da manhã, e era mais fácil ficar lá do que vir para casa e depois voltar.

- A que horas se retirou para o seu quarto?

- Quando Peter saiu para ir levar Susan a casa.

- Como descreveria o seu relacionamento com a família Carrington?

- Exactamente da forma como o senhor já deve ter percebido a partir das suas várias entrevistas:

nunca me esqueço que sou empregado deles, mas sou também, espero, um amigo de confiança.

- De tanta confiança que faria tudo para os ajudar, e especialmente a Peter, que é quase como um filho ou um irmão para si?

- Nunca tive de me preocupar com fazer o que quer que fosse por Peter que não pudesse ser feito

às claras, senhor Greco. Agora, se não tiver mais perguntas, tenho de regressar a Englewood de imediato.

- Apenas uma pergunta: Também estava presente na noite em que Grace Carrington morreu, não estava?

- Na noite em que Grace morreu num acidente, quer o senhor dizer. Sim.

Peter tinha estado na Austrália durante algumas semanas. Esperávamo-lo em casa a tempo do

jantar, e a mulher dele, Grace, tinha convidado Elaine, o filho desta, Richard, e alguns amigos e eu próprio para jantarmos lá. Como o aniversário de Richard estava próximo, Grace resolveu dizer que era uma festa de aniversário em honra dele.

- Quando Peter chegou, ficou muito irritado com o que viu?

- Senhor Greco, nada mais há a acrescentar àquilo que o senhor obviamente já sabe acerca dessa situação. Peter ficou compreensivelmente desagradado por ver que Grace tinha estado a beber copiosamente.

- Ficou zangado.

- Eu diria desagradado, mais do que zangado.

- O senhor ficou na mansão, nessa noite?

- Não. Eram cerca das onze da noite quando Peter chegou. Estávamos já todos de saída, de qualquer forma. Peter foi para cima. Elaine e Richard ficaram com Grace.

- Havia empregados em casa?

-Jane e Gary Barr tinham sido contratados depois da morte da mãe de Peter. Elaine tinha-os

dispensado quando casou com o pai de Peter. Após a morte do pai, porém, Elaine mudou-se para a casa mais pequena dentro da propriedade, e Peter voltou a contratar os Barr. Têm lá trabalhado desde então.

- Mas se tinham sido despedidos, porque estavam na mansão na noite em que Susan desapareceu?

O pai de Peter ainda era vivo. Na verdade, o jantar era até para celebrar o septuagésimo aniversário dele.

- Elaine Walker Carrington não hesita em usar as pessoas de acordo com as suas conveniências.

Muito embora tivesse dispensado os Barr porque queria contratar um còef da moda, um mordomo e um par de criadas, pediu-lhes para ajudarem a servir o jantar dessa noite, e depois, a servirem o

pequeno-almoço da manhã seguinte. Os Barr eram dez vezes mais eficientes do que o novo pessoal, e tenho a certeza de que lhes há-de ter pago muito bem.

- Depois, foram contratados de novo, e presumo que tenham servido o jantar na noite em que

Grace Carrington morreu. Ainda estariam a pé à hora a que Peter regressou a casa?

- Tanto Peter, como Grace eram muito atenciosos com eles. Depois de o café ter sido servido, e

de as chávenas terem sido levantadas, os Barr retiraram-se para os seus aposentos. Tinham voltado a instalar-se na antiga casa da portaria da propriedade.

- Senhor Slater, falei com Jane e Gary Barr na semana passada. Revimos as recordações deles do

jantar dessa noite, e do pequeno-almoço do dia seguinte. Discuti com Gary uma coisa que notei nos dossiês. Há vinte e dois anos, ele disse aos investigadores que na manhã seguinte, ao pequeno- almoço, ouviu Peter Carrington dizer-lhe a si que Susan tinha deixado ficar a bolsa no carro dele, na

noite anterior, e que lhe pediu que lha fosse entregar, porque podia lá ter alguma coisa que lhe fizesse falta. Gary lembrava-se de ter feito essa declaração e de ter ouvido essa troca de palavras entre si e Peter.

- Pode ser que ele se lembre, mas se o senhor continuou a ver as anotações, deve saber que nessa

altura eu também disse que as declarações de Gary só eram parcialmente verdade - respondeu Slater

com calma. - Peter não me disse que Susan tinha deixado a bolsa no carro dele. Disse-me que ela era capaz de ter lá deixado a bolsa. Mas não estava no carro, e por isso, obviamente, Peter estava enganado. Em todo o caso, não percebo onde quer chegar.

- É apenas um comentário. A senhora Althorp tem a certeza de que ouviu Susan fechar a porta do

quarto nessa noite. É claro que Susan não pretendia ficar lá por muito tempo. Mas nessa altura, se se tivesse dado conta de que tinha deixado a bolsa no carro de Peter, e se estivesse a planear encontrar-

se com ele, não se preocuparia com isso. Caso contrário, se se fosse encontrar com outra pessoa

qualquer, não seria natural que escolhesse outra bolsa, lá metesse um estojo de maquilhagem e um lenço, aquelas coisas que as mulheres geralmente trazem consigo?

- Está a fazer-me perder tempo, senhor Greco. Não está realmente a sugerir que a mãe de Susan sabia exactamente quantos lenços ou, já agora, quantas bolsas havia no quarto da filha? Nicholas Greco levantou-se.

- Obrigado pelo seu tempo, senhor Slater. Receio que haja um desenvolvimento de que deve

tomar conhecimento. A senhora Althorp foi entrevistada pela revista Celeb; a edição vai aparecer amanhã nos quiosques. No artigo, a senhora Althorp acusa concretamente Peter Carrington do assassinato da filha, Susan. Greco ficou a observar enquanto as cores de Vincent Slater mudavam para assumir um tom amarelado e doentio.

- Isso é uma acusação caluniosa - disparou Slater. - Calúnia pura e simples.

- Exactamente. É a reacção normal de um homem inocente como Peter Carríngton consistirá em

dar instruções aos seus advogados para processarem Gladys Althorp. Isso será seguido pelo habitual processo de averiguações e testemunhos, até haver, ou uma retracta-ção, ou um acordo, ou um

julgamento. Em sua opinião, acha que Peter Carríngton vai exigir uma retractação imediata por parte de Gladys Althorp, e, caso esta não seja feita, avançará com um processo contra ela para limpar o seu nome? Os olhos de Slater tornaram-se gélidos, mas não sem que antes Greco entrevisse neles um súbito olhar de medo.

- O senhor já estava de saída, senhor Greco - disse Slater. Nenhum dos homens disse mais uma

palavra, enquanto Nicholas Greco saía da casa. Percorreu o caminho até ao carro, entrou e pô-lo a trabalhar. Com quem estará Slater a falar agora ao telefone?, interrogou-se enquanto seguia pela rua fora. Com Carríngton? Com os advogados? Com a nova senhora Carríngton? Uma imagem da defesa acalorada que Kay fizera de Peter Carríngton quando a conhecera em casa da avó veio-lhe à ideia. Kay, devia ter dado ouvidos à sua avó, pensou.

CAPÍTULO DOZE

De manhã, Peter não mostrou quaisquer sinais de ter consciência de que tinha caminhado durante o sono nessa noite. Eu não tinha a certeza se devia ou não tocar no assunto. Que lhe poderia eu dizer? Que parecia que ele estava a tentar empurrar alguém ou alguma coisa para dentro da piscina, ou a puxar alguém ou alguma coisa de dentro dela? Pensei que tinha a explicação para isso. Peter estava a ter um pesadelo acerca de Grace a afogar- se na piscina. Estava a tentar resgatá-la de lá. Fazia sentido, mas falar com ele acerca disso parecia-me inútil. Ele não se lembraria de nada. Levantámo-nos às sete horas. Os Barr chegariam às oito, para preparar o pequeno-almoço, mas espremi laranjas e fiz café, porque tínhamos decidido fazer um pouco de jogging pelos terrenos da propriedade. Por estranho que pareça, até essa altura quase não tínhamos falado acerca do papel do meu pai como o paisagista que concebera os jardins. Eu tinha dito a Peter o quanto a morte da minha mãe tinha afectado o meu pai, e o quanto o suicídio dele me tinha abalado. Não mencionei, evidentemente, as coisas horríveis que Nicholas Greco tinha dito. Tinha ficado furiosa com a

sugestão que ele fizera de que o meu pai poderia ter escolhido desaparecer por ter tido alguma coisa

a ver com o desaparecimento de Susan Althorp. Enquanto corríamos, Peter começou a falar do meu pai.

- A minha mãe nunca mudou nada nos jardins depois de a minha avó ter morrido - disse ele. -

Depois, há que reconhecer que Elaine, quando casou com o meu pai, disse que todo o local parecia

ter sido concebido como um cemitério. Disse que havia aqui tudo menos uma lente - disse eu, menos uma placa a dizer "Repouse em Paz". O teu pai fez um excelente trabalho ao criar os jardins tal como são hoje.

- Elaine despediu-o por causa do problema dele com a bebida - disse eu, tentando dar um tom casual.

- Isso é o que ela diz - disse Peter, calmamente. - Elaine sempre foi dada a casos, mesmo quando

o meu pai ainda era vivo. Atirou-se ao teu pai e ele repeliu-a. Essa é que foi realmente a razão por que ela o despediu. Parei de correr tão bruscamente que ele já ia seis ou sete passos à minha frente, antes de conseguir parar e voltar para trás.

- Desculpa, Kay. Eras uma criança, ainda. Como é que poderias ter sabido?

Fora Maggie, evidentemente, quem me dissera que tinha sido o problema de bebida do meu pai que lhe custara esse contrato. Atribuía as culpas de tudo o que tinha acontecido aos problemas dele com a bebida: a perda deste contrato, e até mesmo o suicídio. Apercebi-me de que, subitamente,

estava furiosa com ela. O meu pai tinha sido demasiado cavalheiro para lhe dizer a verdadeira razão por que tinha sido despedido, e depois, tendo Maggie a mania de que sabia sempre tudo, decidira também que sabia a razão. Não é justo, Maggie, pensei. Não é justo.

- Kay, não te queria perturbar - a mão de Peter segurou na minha e entrelaçámos os dedos.

Olhei para ele. O rosto aristocrático de Peter era fortalecido pelo seu queixo firme, mas eram

sempre os olhos dele o que eu via quando olhava para ele. Agora, estavam preocupados, perturbados por me ter magoado sem intenção.

- Não, não me perturbaste, nada disso. Na verdade, esclareces-te-me algo importante. Durante

todos estes anos, tive uma imagem mental do meu pai, cambaleando por aqui, embrutecido pelo álcool, e sempre me senti envergonhada por causa dele. Agora, posso apagar essa imagem para sempre. Peter percebeu que eu não queria falar mais desse assunto.

- Muito bem, então - respondeu. - Vamos retomar a passada?

Ao correr pelos caminhos de pedra que serpenteavam pelos jardins, e depois percorrendo-os no sentido inverso um par de vezes, fizemos um quilómetro e meio, e depois decidimos fazer uma última volta até ao fim do caminho do lado oeste, que acabava junto à estrada. Aí tinham sido plantadas sebes altas. Peter explicou-me que a propriedade tinha instalado uma conduta de gás perto da curva, há muitos anos, e que, quando o meu pai tinha preparado os desenhos dos jardins, sugerira desviar a

sebe para trás uns quinze metros. Depois, se alguma vez fosse necessário fazer reparações no cano de gás, não seria preciso danificar as plantas. Quando chegámos aos arbustos, conseguimos ouvir vozes e o som de maquinaria do outro lado da sebe. Espreitando pelo meio das sebes, percebemos que uma equipa de obras públicas estava a montar um desvio na estrada e a descarregar equipamento dos camiões.

- Parece que é precisamente aquilo que o meu pai previu - disse eu.

Peter respondeu: - Parece que sim - e depois virou-se e recomeçou a correr. - Uma corrida até casa? - gritou por cima do ombro.

- Não é justo - gritei, quando ele fugiu. Uns minutos mais tarde, sem fôlego, mas sentindo-nos

bem connosco - ou pelo menos assim pensei -, voltámos a entrar em casa. Os Barr estavam na cozinha, e senti o cheiro a queques de milho a cozer no forno. Para alguém cujo pequeno-almoço normal é café forte e meio croissant sem manteiga ou queijo-creme, percebi que seria necessária uma firme autodisciplina, se me quisesse manter em forma. Mas não me iria preocupar com isso nessa manhã, no nosso primeiro pequeno-almoço em casa. Há uma coisa nas mansões: é realmente possível termos as nossas preferências em matéria de locais. A sala do pequeno-almoço é como um pequeno jardim interior aconchegado, com paredes pintadas a verde e branco, uma mesa redonda de tampo de vidro, cadeiras de verga almofadadas e uma cristaleira cheia de porcelanas verdes e brancas. Olhando para as louças percebi de novo quantos tesouros havia nesta casa, recolhidos desde o

início do século XIX. Passou-me pela ideia a interrogação sobre quem manteria, se era que alguém o fazia, o registo de todos esses tesouros. Consegui aperceber-me de que havia qualquer coisa a perturbar Jane Barr.

A calorosa saudação dela não fora capaz de esconder a preocupação que tinha no olhar. Alguma

coisa estava errada, mas não lhe quis perguntar o que era em frente de Peter. Sei que ele também sentiu o mesmo.

O New York Times estava na mesa, ao lado do lugar dele. Pegou no jornal, mas depois afastou-o

para o lado.

- Kay, estou tão habituado a ler os jornais ao pequeno-almoço, que por um momento me esqueci de que agora tenho uma muito boa razão para os deixar esperar.

- Não precisas de o fazer - respondi. - Podes ficar com o primeiro caderno. Eu fico com o

segundo. Foi depois de nos ter servido a segunda chávena de café que Jane Barr regressou à sala do

pequeno-almoço. Desta vez, não fez nenhum esforço por esconder a preocupação que estava a sentir. Diri-giu-se a Peter.

- Senhor Carrington, não quero ser a portadora de más notícias, mas, quando passei esta manhã

pelo supermercado, estavam a receber exemplares da Celeb. O artigo da capa é sobre si. Sei que vai começar a receber chamadas, e por isso achei que devia avisá-lo, mas também queria que tomasse primeiro o seu pequeno-almoço em paz. Vi que Jane tinha um exemplar da revista, ainda dobrada a meio, debaixo do braço. Entregou-a a Peter. Ele desdobrou-a, olhou para a capa, e depois os olhos fecharam-se-lhe como se estivesse a afastar o olhar de uma visão que fosse demasiado dolorosa para ser vista. Estendi o braço por cima da mesa e peguei na revista. O cabeçalho, a toda a largura, dizia: "Peter Carrington matou a minha filha." Abaixo do cabeçalho havia duas fotografias, lado a lado. Uma era uma fotografia formal de Peter, do tipo de fotografias de agência que os jornais usam quando querem fazer uma peça sobre um executivo. Não tinha uma expressão sorridente, o que não me surpreendeu. O meu Peter, tímido por natureza,

não é o tipo de homem que sorri para as câmaras. No entanto, nesta infeliz fotografia, em particular, parecia realmente frio, até mesmo sobranceiro e desdenhoso.

A fotografia de Susan Althorp estava ao lado da dele. Uma Susan radiante no seu vestido de

debutante, os longos cabelos louros cain-do-lhe pelos ombros, os olhos brilhantes, um rosto jovem e belo, cheio de alegria. Não me atrevendo a olhar de novo para Peter, virei a página. A página dupla no interior era igualmente má. "Mãe moribunda exige justiça." Havia uma fotografia de uma Gladys

Althorp marcada pela dor, rodeada de fotografias da filha em cada fase da sua breve vida. Sei o suficiente de leis para perceber que, se Peter não exigisse uma retractaçao ou não a conseguisse, a sua única alternativa seria processar Gladys Althorp. Olhei para ele e agora não

conseguia ler a expressão do seu rosto. Mas tinha a certeza de que a última coisa que ele queria era ouvir inúteis declarações de indignação da minha parte.

- Que vais fazer? - perguntei. Jane Barr desapareceu na cozinha.

Peter parecia estar a ser atingido por uma dor forte, como se tivesse sido fisicamente agredido. Os olhos brilharam-lhe e a voz denunciava sofrimento, quando me respondeu: - Kay, durante vinte e dois anos respondi a todas as perguntas que me fizeram acerca do desaparecimento de Susan. Poucas horas após terem dado pela falta dela, o gabinete do procurador caiu-nos em cima, interrogando-me. Vinte e quatro horas mais tarde, mesmo antes de terem perguntado, o meu pai deu autorização para que usassem cães pisteiros nos jardins. Permitiu que fizessem uma busca à casa. Apreenderam o meu carro. Não conseguiram encontrar um átomo que fosse de uma prova que

sugerisse que eu soubesse o que tinha acontecido a Susan depois de a ter ido levar a casa nessa noite. Fazes alguma ideia do pesadelo que seria se eu exigisse uma retractaçao da mãe de Susan, não a obtivesse, e tivesse de avançar com um processo? Eu digo-te o que aconteceria. Seria um circo para a imprensa, e esta pobre mulher estaria morta muito antes de se chegar sequer a marcar uma data para o julgamento. Levantou-se. Estava a tremer e a lutar para conter as lágrimas. Corri para ele, rodeando a mesa, e lancei os braços em volta dele. A única maneira que tinha de o ajudar era demonstrando-lhe o quanto o amava. Penso que as minhas palavras o reconfortaram um pouco, pelo que, pelo menos, não se sentia completamente sozinho. Mas depois, numa voz triste, até mesmo um pouco desligada, disse: - Não te fiz bem nenhum em casar contigo, Kay. Não precisavas de te ver metida nesta embrulhada.

- Nem tu - respondi. - Peter, penso que, por muito horrível que seja, tens de exigir uma retractaçao da senhora Althorp, e se necessário, processá-la por difamação. Lamento por ela, mas foi ela que provocou isto.

- Não sei

- retorquiu. - Simplesmente, não sei.

Vincent Slater chegou quando Peter estava no duche. Eu sabia que iriam para o escritório de Peter juntos, nessa manhã.

- Tens de convencer Peter de que tem de exigir uma retractação - disselhe.

- Isso é um assunto que temos de ver com os nossos advogados, Kay -

respondeu-me, num tom de quem dá pouca importância. Olhámos um para o outro. Desde o primeiro minuto em que o tinha conhecido, quando ali tinha

ido para pedir que o evento fosse feito na mansão, sentira a animosidade de Slater contra mim. Mas sabia que tinha de ser cuidadosa. Ele era uma parte importante da vida de Peter.

- Foi dada a Peter a hipótese de limpar o seu nome, de mostrar que não há a mínima prova que o

ligue ao desaparecimento de Susan - disse a Vincent.

- Se ele não exigir uma retractação, mais vale pendurar um cartaz ao pescoço a dizer: "Fui eu.

Sou culpado." Vincent não respondeu. Depois, Peter desceu as escadas, deu-me um beijo de despedida e saíram os dois. Nessa tarde, enquanto estavam a escavar para colocarem novos cabos subterrâneos, os homens das obras desenterraram o esqueleto de uma mulher, firmemente embrulhado em sacos de plástico, enterrado na área não vedada à beira das sebes da propriedade dos Car-rington. Vestígios de algo

que parecia ser sangue eram visíveis na parte da frente do vestido de chiffon branco em decomposição. Gary Barr foi quem correu a dizer-me o que se estava a passar. De regresso de uma ida às compras, passara pelo local das escavações, e estava lá quando o primeiro grito foi dado pelo operário cujo equipamento tinha posto o corpo a descoberto. Gary disse-me que tinha estacionado o carro e vira a chegada dos carros da polícia ao local, com as sirenes ligadas. Pelas câmaras de segurança fora da mansão, pude ver uma multidão a juntar-se. Creio que nem por um momento duvidei de que o corpo seria identificado como sendo o de Susan Althorp. O som da campainha da porta fez-me lembrar o repique dos sinos da igreja, na missa em memória do meu pai. Ainda me lembro do som triste quando, de mão dada com Maggie, saímos da igreja e ficámos, rodeadas de amigos, nos degraus da igreja de Santa Cecília. Lembro-me de Maggie a dizer algo como: - Quando e se encontrarem os restos mortais de Jonathan, teremos um funeral como deve ser, evidentemente. Mas isso nunca tinha acontecido. Enquanto uma aflita Jane Barr corria para nos informar de que os detectives estavam à porta para falarem com o senhor Carrington, tive o pensamento incongruente de que em breve haveria um funeral como devia ser para Susan Althorp.

CAPÍTULO TREZE

- Sabemos que foi ele, mas não temos provas suficientes para o acusar? -

Barbara Krause disparou a pergunta para o procurador-adjunto Tom Moran, chefe da sua brigada de homicídios. Tinham-se passado seis dias desde que os restos mortais de Susan Althorp tinham sido encontrados nos terrenos não vedados da propriedade dos Carrington. Tinha sido feita uma autópsia, e tinha sido confirmada a identidade. A causa da morte tinha sido estrangulamento. Moran, um veterano com vinte e cinco anos no gabinete do procurador, a ficar calvo e um pouco obeso, partilhava da frustração da sua chefe. Desde que o corpo tinha sido encontrado, a força e riqueza da família Carrington tinham-se tornado evidentes. Carrington tinha arregimentado uma equipa de advogados conhecidos em todo o

país, especialistas em direito criminal, e estes já estavam a trabalhar, preparando-se para o defender de uma eventual acusação. Os factos puros e duros eram que o gabinete da procuradoria de Bergen Coun-ty possuía, de facto, provas suficientes para estabelecer uma causa provável numa acusação de homicídio contra Peter Carrington, e que um grande júri quase de certeza que o acusaria. Mas as hipóteses eram de que um júri de tribunal normal, onde o ónus da prova era que houvesse indícios para além de qualquer dúvida razoável, teria certamente de o ilibar, ou acabaria num júri empatado. Nicholas Greco era esperado no gabinete da procuradora daí a pouco. Tinha telefonado e pedira uma reunião com Barbara Krause, e esta convidara Moran a assistir.

- Ele diz que é capaz de ter dado com qualquer coisa útil - disse Krause a Moran. - Esperemos

que sim. Não tenho grande apreço por gente de fora a meter o nariz nos nossos casos, mas desta vez até terei muito gosto em lhe dar todo o crédito que ele queira, se nos ajudar a condenar Carrington. Krause e Moran tinham passado a manhã toda a discutir os pontos fortes e os pontos fracos do caso, e não tinham encontrado nada de novo. O facto de Carrington ter levado Susan a casa e de ter sido a última pessoa a tê-la visto com vida era desvalorizado pelo facto de tanto a mãe, como o pai a terem ouvido a chegar a casa, e por ela ter até gritado "boa-noite" para ambos. Quando se começara

a suspeitar de haver um crime, Carrington, que tinha então vinte anos, respondera a todas as

perguntas que o gabinete lhe fizera. Quando se apercebera de que o filho era suspeito no caso, o pai de Carrington permitira, e até exigira, uma busca minuciosa à mansão, aos jardins e ao carro de Peter. As buscas nada tinham descoberto. Ao fim do primeiro dia em que Susan não entrara em contacto com a sua família, o smoking de Verão e os sapatos de Carrington tinham sido examinados, em busca de quaisquer provas, com resultados negativos. A camisa de cerimónia que Carrington usara não fora encontrada. Carrington afirmara que a tinha colocado no cesto da roupa, como habitual, e a nova empregada jurara que a tinha entregue ao serviço de recolha da lavandaria na manhã seguinte. O dono da lavandaria afirmara ter recebido apenas uma camisa de cerimónia: a que pertencia ao pai de Carrington. Mas essa pista não dera em nada. A investigação acabou por mostrar que essa lavandaria, em particular, tinha uma longa história de extravio de roupas e de trocas de entregas.

- Na verdade, a entrega que fizeram na mesma altura em que, supostamente, recolheram a camisa,

trazia um casaco de um vizinho à mistura - disse Krause, com a exasperação evidente na voz. - Essa camisa que Carrington tinha vestida é a prova de que sempre precisámos. Aposto tudo em como tinha sangue. O besouro do intercomunicador de Krause soou. Nicholas Greco tinha chegado. Greco já tinha travado conhecimento com Moran, quando, inicialmente, revira os dossiês do caso Althorp. Agora, não perdia tempo a chegar ao motivo da sua visita.

- Podem imaginar como a senhora Althorp se sente neste momento - disse. -

Pelo menos, disse-me ela, agora sabe finalmente que dentro de pouco tempo ela e Susan estarão

deitadas lado a lado no cemitério. Mas evidentemente que a descoberta do corpo na propriedade dos Carrington reforçou nela a necessidade de ver Peter Carrington a ser levado perante a justiça.

- Exactamente a mesma reacção que nós tivemos - disse Krause amargamente.

- Como sabem, tenho vindo a entrevistar pessoas próximas dos Carrington, incluindo algum do

pessoal da casa. Por vezes, as recordações podem ser depuradas, muito tempo depois de passadas as emoções da investigação inicial. Vi nos vossos dossiês que, na altura do desaparecimento, interrogaram Gary e Jane Barr, antigos e actuais empregados dos Carrington.

- Claro que interrogámos - Barbara Krause inclinou-se ligeiramente para a frente, o que indicava que pressentira que ia ouvir alguma coisa de interesse.

- Está escrito nos vossos dossiês que Gary Barr mencionou ter ouvido Carrington a dizer a

Vincent Slater que Susan tinha deixado ficar a bolsa no carro dele, e que pediu a Slater para a ir lá levar, para o caso de lhe estar a fazer falta. Isto pareceu-me um pedido bastante invulgar, dado que Susan era esperada na manhã seguinte para o pequeno-almoço, e a mãe lembra-se de que ela usara apenas uma bolsa muito pequena durante o jantar. Slater disse que tinha procurado no carro e que a bolsa não estava lá. Quando o pressionei, Barr disse-me que se lembrava de que quando Carrington ouviu essa resposta de Slater, terá dito: "Isso é impossível. Tem mesmo de lá estar."

- A bolsinha foi encontrada junto do corpo de Susan - disse Barbara Krause. - Está a sugerir que

Carrington lha foi devolver depois de, supostamente, ter ido para a cama, e que depois se esqueceu de que o tinha feito? Isso não faz sentido.

- Havia alguma coisa na bolsa que possa ser significativo?

- O material estava podre. Uma escova, um lenço, batons, um estojo de pó-

de-arroz - os olhos de Barbara Krause semicerraram-se. - Acredita mesmo nesse súbito reavivar da memória de Gary Barr? Greco encolheu os ombros.

- Acredito, porque falei com Slater. Ele confirmou essa conversa, embora com uma ênfase

diferente. Insiste que Carrington lhe terá dito que Susan "era capaz" de se ter esquecido da bolsa. Permito-me acrescentar duas observações pessoais: a pergunta deixou Slater incomodado, e Barr pareceu-me muito nervoso. Não se esqueçam de que falei com ele antes de o corpo ter sido encontrado. Sei que ele e a mulher ajudaram em festas em casa dos Althorp ocasionalmente. Portanto, terá tido contacto com Susan em casa dela, bem como na propriedade dos Carrington.

- Jane Barr jura que, após a festa, ela e Gary foram imediatamente para sua casa, que não ficava dentro dos terrenos da propriedade - disse Tom Moran a Greco.

- Barr está a esconder qualquer coisa - disse Greco sem subterfúgios. - E

aposto convosco o que quiserem em como saber se Susan Althorp tinha ou não consigo a malinha

quando saiu do carro de Peter Carrington é significativo, e pode ter muito a ver com a resolução deste caso.

- Estou ainda mais interessada na camisa de cerimónia desaparecida que Carrington usou na noite da festa - disse Barbara Krause.

- Essa era a outra coisa que queria discutir convosco. Tenho um contacto nas Filipinas. Ele

conseguiu dar com Maria Valdez, a empregada que prestou essas declarações acerca da camisa.

- Sabe onde ela está?! - exclamou Krause. - Cerca de um mês após a nossa investigação inicial, a empregada despediu-se, regressou às Filipinas e casou. Até aí, sabemos. Tinha prometido manter-nos informados de qualquer mudança de endereço, mas depois perdemos-lhe o rasto. O máximo que conseguimos descobrir foi que se tinha divorciado e desaparecera.

- Maria Valdez voltou a casar e tem três filhos. Vive em Lancas-ter, na Pensilvânia. Estive com

ela ontem. Sugiro que alguém com poderes para fazer um acordo com ela me acompanhe a Lancaster

amanhã. Com isto, quero dizer uma garantia por escrito de que nunca será processada por ter mentido quando foi interrogada, há muitos anos.

- Estava a mentir acerca da camisa! - Krause e Moran gritaram em simultâneo.

Greco sorriu.

- Digamos apenas que, como mulher madura que agora é, já não consegue mais viver com a

consciência de que a sua declaração de há vinte anos impediu um assassino de ter recebido o justo castigo.

CAPÍTULO CATORZE

O funeral de Susan Althorp foi notícia de primeira página em todo o país.

A fotografia da urna coberta de flores, levada até Santa Cecília pelos pais enlutados, deve ter

vendido toneladas de jornais e melhorado os índices das estações de televisão. Maggie foi ao funeral, juntamente com um grupo de amigas. Um jornalista do Channel 2, mais alerta, deu com ela e correu para conseguir uma entrevista.

- A sua neta casou recentemente com Peter Carrington. Acredita na inocência dele e apoia-o, agora que o corpo foi descoberto na propriedade dele?

A resposta sincera de Maggie foi como pão para a boca da imprensa. Olhou directamente para a

câmara e disse: - Estou ao lado da minha neta.

- Lamento - disse eu a Peter, quando ouvi esta resposta.

- Não lamentes - respondeu-me. - Sempre dei valor à sinceridade. Aliás, se ela não tivesse caído naquela festa, tu não estarias agora aqui sentada ao meu lado -

e sorriu, com um daqueles seus sorrisos enigmáticos, com calor, mas sem entusiasmo. - Ora, Kay,

por amor de Deus, não te preocupes. A tua avó deixou bem claro desde o início que não queria ter nada a ver comigo, e que também não me queria na tua vida. Talvez estivesse certa. Seja como for, estamos a fazer o melhor que podemos para lhe mostrar que estava enganada, não estamos? Tínhamos jantado e tínhamos ido para cima, para a sala entre os dois quartos. Os aposentos tinham-se tornado cada vez mais o nosso refúgio. Com a imprensa constantemente acampada junto aos portões, e com advogados de semblante

sério sempre a entrar e a sair, sentia-me como se estivesse numa zona de guerra. Ir a algum lado sem ser seguida pela imprensa era impossível. Tinha havido um debate nessa semana entre Peter, Vincent Slater e os advogados, sobre se Peter deveria ou não emitir algum tipo de declaração expressando simpatia pela família de Susan.

- Seja o que for que se diga em meu nome, será sempre mal interpretado -

dissera Peter. No fim, a sua breve declaração exprimindo profunda tristeza foi escarnecida e desfeita por Gladys Althorp e pela imprensa. Eu tinha falado com Maggie, mas não a vira desde que tínhamos chegado a casa depois da nossa lua-de-mel. Estava ao mesmo tempo zangada e preocupada com ela. Antes de termos casado, Maggie não cedera um milímetro na sua opinião de que Peter tinha morto Susan e a própria mulher; agora, estava praticamente a anunciar isso publicamente na televisão. Mas havia algo mais que me preocupava. O veneno que Nicholas Greco injectara na minha consciência, ao sugerir que o meu pai poderia ter tido alguma coisa a ver com a morte de Susan, andava a fermentar dentro de mim. Depois, a revelação de Peter, na manhã em que tínhamos ido correr juntos nos jardins, só viera piorar as coisas. O meu pai não tinha sido despedido por causa da bebida. Tinha sido dispensado por não ter correspondido aos avanços de Elaine Walker Carrington. E isso levantava a questão: o que o tinha então levado ao suicídio? Sabia que tinha de me esgueirar para ir visitar Maggie sem ser perseguida pela imprensa. Tinha de falar com ela. Sabia, no fundo da minha alma e do meu coração, que Peter era incapaz de ferir alguém - era aquele tipo de convicção primordial que faz parte de nós. Mas também sabia, com igual certeza, que o meu pai nunca teria desaparecido por sua própria vontade, e estava mais convencida do que nunca de que ele não cometera suicídio. Era-me quase impossível acreditar que Peter e eu tivéssemos desfrutado de duas semanas tão idílicas e que agora, casados apenas há três semanas, tivéssemos sido mergulhados neste pesadelo. Tínhamos estado a ver as notícias das dez, e eu estava prestes a desligar a televisão, quando, por qualquer razão, decidi esperar para ver os títulos das principais notícias do noticiário das onze. O pivot começou: - Uma fonte no gabinete da procuradoria de Bergen County diz-nos que Maria Valdez, uma antiga empregada da mansão Carring-ton, terá admitido que mentiu quando afirmou ter mandado para a lavandaria uma camisa de cerimónia que Peter Carrington usou na noite em que foi

levar Susan Althorp a casa, há vinte e dois anos. Essa camisa foi considerada pelos investigadores, na época, como um elemento-chave para a resolução do caso.

- Está a mentir - disse Peter secamente. - Mas acaba de selar o meu destino. Kay, agora já não há qualquer hipótese de não vir a ser formalmente acusado.

CAPÍTULO QUINZE

Aos trinta e oito anos, Conner Banks era o mais jovem advogado da equipa milionária de

advogados de topo dos Carrington; mas ninguém, nem mesmo os seus mais consagrados e publicitados pares, poderia negar o seu brilhantismo em tribunal. Filho, neto e sobrinho de abastados advogados, especializados em Direito Comercial, deixara bem claro durante os seus anos em Yale - para horror colectivo de toda a sua família - que pretendia seguir carreira como advogado especializado em casos criminais. Depois da licenciatura na Faculdade de Direito de Harvard, fora estagiar com um juiz de direito criminal de Manhattan, e depois fora contratado por Walter Markinson, advogado criminalista célebre que tinha defendido todo o tipo de arguidos, e que era especialmente famoso por conseguir manter celebridades de grande projecção fora das grades. Um dos primeiros casos de Banks na firma de Markinson exigira que convencesse um júri de que a exótica mulher de um bilionário estava mentalmente doente quando disparara contra uma amiga de longa data do marido. O veredicto de "inocente por razão de insanidade mental" tinha sido lido após menos de duas horas de deliberação do júri, o que fora quase um recorde em matéria de decisões de júris em casos de homicídio, com esse tipo de defesa. Esse caso fizera a reputação de Conner Banks, e nos dez anos que se seguiriam a sua reputação continuaria a crescer. Com os seus modos exuberantes, estatura possante e uma boa aparência céltica, Banks tornara-se uma espécie de celebridade, conhecido pela agilidade mental e pelas belas mulheres que levava a eventos mediáticos. Quando Gladys Althorp acusou directamente Peter Carrington de ter morto a sua filha, Vincent Slater telefonara a Walter Markinson e pedira-lhe que reunisse uma equipa de advogados de excelência, para avaliarem a estratégia de processar a senhora Althorp, e para depois tratarem do caso, na eventualidade de decidirmos avançar com o processo. Peter Carrington decidira que preferia que os advogados reunissem na sua mansão, e não em Manhattan, para que pudesse estar presente sem ter de abrir caminho por entre as garras da imprensa estacionada à porta de sua casa. Agora, uma semana mais tarde, Conner Banks tornara-se um visitante regular da propriedade Carrington. Da primeira vez em que tinham passado pelos portões e visto a mansão, o colega sénior de Banks comentara desdenhosamente: - Quem diabo é que gostaria de ter de se amanhar com uma coisa deste tamanho? Sendo um estudioso apaixonado de história, Banks retorquira: - Por acaso, eu gostava. É magnífica. Quando os advogados chegaram à sala de jantar formal, onde as conferências iriam ter lugar, Slater já lá se encontrava. Café, chá, garrafas de água e bolinhos estavam dispostos num aparador. Havia blocos e canetas em cada lugar à mesa. Os outros dois advogados de defesa, Saul Abramson, de Chicago, e Arthur Robbins, de Boston, ambos com pouco mais de sessenta anos e currículos formidáveis em matéria de casos criminais, chegaram minutos depois de Conner Banks e de Markinson. Depois, Peter Carrington entrou na sala. Para surpresa de Banks, vinha acompanhado pela mulher. Banks não era dado a fiar-se nas primeiras impressões, mas era impossível não reconhecer que Peter Carrington tinha um certo carisma. Ao contrário da sua equipa de defesa e de Slater, todos vestindo fatos tipicamente conservadores, Peter vestia uma camisa de colarinho aberto e um casaco de malha. Apresentado aos advogados, disse de imediato: - Esqueçam o "senhor Carrington". Sou Peter. A minha mulher é Kay. Tenho a sensação de que nos vamos encontrar todos muitas vezes, durante

bastante tempo; por isso, deixemo-nos de formalidades. Conner Banks não sabia o que esperar da noiva de Carrington. Já a tinha, de alguma forma, avaliado de antemão: uma bibliotecária que tinha casado com um bilionário após um romance arrebatado. Apenas mais uma história de uma caça-fortunas com sorte. Viu imediatamente que Kay Lansing Carrington não se encaixava nada nesse perfil. Como o marido, estava vestida de forma simples, com uma camisola e umas calças largas. Mas o tom púrpura da camisola de gola alta emoldurava um rosto dominado por uns olhos de um

tom azul tão escuro que quase pareciam tão pretos como o longo cabelo apanhado na nuca e que caía depois solto pelas costas. Durante essa primeira reunião, e nas que se seguiram, Kay sentava-se sempre à direita de Peter, que estava à cabeceira da mesa. O lugar de Slater era à esquerda de Peter. Sentando-se ao lado de Slater, Conner Banks podia aperceber-se da relação entre Peter Carrington e a mulher. Tocavam as mãos frequentemente com ternura, e a expressão de afecto nos olhos de ambos quando olhavam um para o outro faziam-no interrogar-se se seria realmente assim tão bom ser-se descomprometido e despreocupado, como ele próprio era. Por mera curiosidade, Banks fizera alguma investigação sobre o caso, mesmo antes de ter sido contratado para ajudar a considerar a hipótese de um processo contra Gladys Althorp.

- Ela nunca se retractará dessa acusação - disse Markinson. - Esta é a forma de eles o forçarem a

si a dar o próximo passo. Terá de responder a interrogatórios e de prestar declarações. Estão à espera de o apanhar em contradição quando tiver de depor sob juramento. Neste momento, a procuradora não tem provas suficientes para o acusar. Peter, você namorava com Susan ocasionalmente. Eram amigos de família de longa data. Levou-a a casa nessa noite. Infelizmente, ao

regressar a casa e ao entrar pela porta lateral, ficou sem ninguém que corrobore a sua declaração de que foi imediatamente para cima. Ninguém?, perguntou Conner Banks para si. Um tipo com vinte anos, pouco depois da meia-noite, com uma festa em casa, e vai-se meter na cama? O nosso cliente está inocente, pensou sarcasticamente. Claro que está. É minha função defendê- lo. Mas isso não significa que tenha de acreditar nele.

- Eu diria que a única coisa que tem ajudado a manter este caso em aberto é o facto de a sua

camisa ter desaparecido - declarou Markinson. - O facto de a empregada ter declarado que a retirou do cesto e que a entregou ao serviço de recolha

da lavandaria significa que, se tentarem usar a camisa desaparecida como prova de culpabilidade, o tiro sai-lhes pela culatra. Nada tem a perder ao avançar com o processo e, se o caso chegar a tribunal, em permitir que o público perceba que este caso se baseia, todo ele, em acusações sem qualquer sustentação. A terceira reunião teve lugar no dia a seguir ao funeral de Susan Althorp, e depois da revelação bombástica de que Maria Valdez, a empregada que dissera ter entregue a camisa de Peter à lavandaria, estar agora a voltar atrás com a sua história. Desta vez, quando os Carrington entraram na sala de jantar, a tensão nos rostos de ambos era evidente. Sem se preocupar com cumprimentar os advogados, Peter disse: - Ela está a mentir. Não posso prová-lo, mas sei que está a mentir. Coloquei a camisa no cesto. Não faço a menor ideia do porquê de ela me estar a fazer isto.

- Vamos tentar provar que está a mentir, Peter - disse Markin-son. -

Vamos investigar tudo o que andou a fazer nestes últimos vinte e dois anos. Talvez descubramos que andou metida em alguma coisa que a faça parecer uma testemunha menos credível.

Conner Banks tinha inicialmente suspeitado fortemente de que Peter Carrington era efectivamente culpado da morte de Susan Althorp. Agora, reunindo todas as provas, tinha praticamente a certeza. Ninguém vira Carrington regressar a casa na noite da festa. Com vinte anos, fora directamente para a cama, quando a casa ainda estava cheia de convidados a dançar no terraço? Ninguém o vira a estacionar o carro. Ninguém o vira a entrar. Susan estava desaparecida na manhã seguinte, e a camisa de cerimónia que Carrington tinha vestida na noite anterior também desaparecera. Agora, o corpo dela tinha sido encontrado na propriedade dele. A. procuradoria vai de certeza prendê-lo. Peter, vou fazer o meu melhor para o safar, pensou, enquanto olhava para o homem que agora estava de mãos dadas com a mulher. Mas vi as imagens do funeral nas notícias de ontem à noite. De certa forma, quem me dera estar antes a fazer a acusação deste caso. E sei que os meus colegas pensam e sentem o mesmo. Kay estava a piscar os olhos, lutando contra as lágrimas. Ela vai ficar ao lado do seu homem, pensou Banks, ainda bem. Mas se ele for responsável pela morte de Susan Althorp, então toda a gente terá razões para suspeitar acerca do afogamento da primeira mulher dele. Será um psicopata? E, se assim for, será que esta nova esposa não vai atravessar-se no seu caminho? E porque seria que também sentia que havia algo de estranho - e talvez mesmo de tremendamente suspeito - no facto de Carrington ter corrido para o altar para casar com uma mulher que apenas conhecia há tão pouco tempo?

CAPÍTULO DEZASSEIS

Está nervoso, decidiu Pat Jennings, quando olhou para o patrão, Richard Walker. Aposto o que se quiser em como andou outra vez a fazer apostas nas corridas de cavalos. Com o dinheiro todo que ganha nesta casa - ou melhor, que não ganha - mais lhe vale realmente tentar a sorte nos cavalos. Pat estava a trabalhar como recepcionista e secretária da Walker Art Gallery desde há seis meses. Quando aceitara o emprego, parecera-lhe uma situação de part-time perfeita para uma mulher com dois filhos na escola primária. Tinha um horário das nove às três, com um acordo no sentido de que, se houvesse alguma inauguração de uma exposição, voltaria mais tarde. Mas isso só acontecera uma vez desde que estava a trabalhar ali, e tinha aparecido pouca gente. O problema era que a galeria não estava a vender o suficiente para compensar as despesas fixas. Richard afundar-se-ia se não fosse a mãe, pensou Pat, enquanto o via andar nervoso de um quadro para outro, endireitando-os. Hoje está mesmo agitado, concluiu. Ouvi-o a fazer apostas nestes últimos dias; deve ter perdido muito dinheiro. Claro que o facto de terem descoberto o corpo daquela rapariga na propriedade do meio-irmão também deve ser bastante perturbador. No dia anterior, Richard tinha ligado a televisão para ver a cobertura em directo do funeral de Susan Althorp. Ele também a conhecia, pensou Pat.

Embora tenha sido há muito tempo, ver o caixão dela a ser levado para a igreja deve ter-lhe trazido muitas recordações dolorosas. Nessa manhã, Pat perguntara a Richard como estava o seu meio-irmão a reagir a toda aquela publicidade. - Não estive com Peter - respondera-lhe ele. - Mas telefonei-lhe e disselhe que os meus pensamentos estavam com ele. Isto tudo a acontecer-lhe logo depois de ter regressado da lua-de-

mel

Há-de ser difícil. Mais tarde, a galeria estava tão sossegada que, quando o telefone tocou, Pat deu um salto. Este

sítio anda a dar-me cabo dos nervos, pensou, enquanto estendia o braço para pegar no auscultador.

- Walker Art Gallery. Boa tarde.

Pôde ver Richard Walker a vir na sua direcção, sacudindo os braços. Leu-lhe os lábios: "Não estou cá. Não estou cá."

- Passe-me ao Walker - era uma ordem, e não um pedido.

- Lamento, mas o senhor Walker teve de sair para uma reunião. Não deve voltar mais esta tarde.

- Dê-me o número de telemóvel dele.

Pat sabia o que tinha de dizer: - Quando está em reunião, o senhor Walker desliga o telemóvel. Se me quiser dar o seu nome e número de telefone, eu

O auscultador do outro lado da linha foi desligado com tanta força que Pat afastou o seu do

ouvido. Walker estava de pé ao lado da secretária, com a testa suada, as mãos a tremer. Antes que ele perguntasse, Pat disse logo: - Não disse o nome, mas uma coisa lhe posso dizer, Richard: estava

bastante irritado. - Depois, como sentia pena dele, deu-lhe um conselho não solicitado: - Richard, a sua mãe tem muito dinheiro. Se fosse a si, pedia-lhe para lhe dar o que precisa. Este tipo era assustador. E um último conselho: pare de apostar nos cavalos. Duas horas mais tarde, Richard Walker estava em casa da mãe, na propriedade dos Carrington.

- Tem de me ajudar - suplicou. - Matam-me, se eu não pagar. Sabe bem que o farão. Esta é a última vez, juro.

Elaine Carrington olhou para o filho, com fúria nos olhos: - Richard, já me limpaste tudo. Recebo um milhão por ano do fundo. No ano passado, entre as despesas da galeria e o jogo, levaste -me quase metade disso.

- Mãe, estou a suplicar-lhe.

Elaine desviou o olhar. Ele sabe bem que eu tenho de lho dar, pensou Elaine. E sabe onde é que, se estiver desesperada, posso ir buscar qualquer quantia de que precise.

CAPITULO DEZASSETE

O ex-embaixador Charles Althorp bateu à porta do quarto da mulher. Na véspera, após o funeral,

Gladys viera para casa e fora directamente para a cama. Charles Althorp ainda não sabia se ela teria ou não ouvido que Maria Valdez, a antiga empregada da mansão dos Carrington, tinha alterado a versão dos acontecimentos que tinha dado na altura do desaparecimento de Susan. Encontrou a mulher sentada na cama. Embora já fosse quase meio-dia, Gladys Althorp não tinha ainda, como era evidente, feito qualquer tentativa para sair da cama.

O tabuleiro do pequeno-almoço, intacto, estava na mesa-de-cabeceira. A televisão estava ligada,

embora o som estivesse tão baixo que era apenas um murmúrio. Olhando para a mulher emagrecida, de quem andara tão afastado durante anos, Althorp sentiu uma

onda inesperada e avassaladora de ternura em relação a ela. Na sala funerária, a urna tinha estado rodeada de fotografias que mostravam momentos dos quase dezanove anos de vida de Susan. Viajei tanto, pensou.

A maior parte das fotografias, especialmente as mais recentes, era quase sempre só de Susan e

Gladys. Apontou para a televisão: - Ouviste obviamente acerca de Maria Valdez.

- Nicholas Greco telefonou-me, e depois vi a notícia na CNN. Greco disseme que o testemunho dela pode ser a chave para condenar Peter Carrington pela morte de Susan. Só gostava de poder estar no julgamento para o ver a ser levado, algemado.

- Espero que lá estejas nesse dia, minha querida. E posso garan-tir-te que eu hei-de lá estar.

Gladys Althorp abanou a cabeça.

- Sabes perfeitamente que estou a morrer, Charles, mas isso agora já não importa. Agora que sei

onde está Susan, e que dentro em pouco estarei ao lado dela, tenho de confessar uma coisa. Sempre acreditei que Peter matou Susan, mas também tive sempre uma pequenina dúvida na minha mente:

ouviste-a sair nessa noite? Seguiste-a? Estavas muito zangado com ela. Vocês dois tinham discutido por causa de ela ter descoberto que andavas envolvido com Elaine? Susan era tão protectora em relação a mim

- Elaine foi um erro, e já estava tudo acabado na altura em que ela casou com o pai de Peter -

respondeu Charles amargamente. - Quando andei com ela, era divorciada e estava livre, e essa é que é a verdade.

- Ela podia estar livre, Charles, mas tu não estavas.

- Não é já um bocadinho tarde para discutirmos sobre isto, Gladys?

- Ainda não me respondeste. Sobre que foi que tu e Susan discutiram nessa noite?

- Tenta descansar, Gladys - disse Charles Althorp enquanto se virava e saía do quarto da mulher.

CAPÍTULO DEZOITO

Pela primeira vez, os advogados iam ficar para o almoço. Com dedos ágeis, Jane Barr preparou uma travessa de sanduíches e fez café. Vira, revoltada, as notícias da televisão, de que Maria Valdez tinha mudado o seu depoimento. E tudo culpa de Elaine, pensou. Se não nos tivesse despedido, eu teria cá estado para recolher a roupa suja na manhã seguinte. Eu teria sabido exactamente o que estava ou não estava no cesto da roupa, e o que teria ido ou não para a lavandaria. Como se atreve aquela mulher a mudar agora o que disse? Quem lhe estará a pagar?, interrogou-

se.

É uma pena que eu não estivesse cá quando esse detective, Nicholas Greco, veio falar com Gary.

Ele tem andado tão nervoso, desde então

que Peter ficou chocado quando soube que a bolsa de Susan não estava no seu carro.

Acha que pode ter prejudicado Peter, ao di^er a Greco

- Que mal pode isso fazer? - perguntara Jane a Gary, na altura. Mas agora, tinha dúvidas. Talvez

esse bocadinho de informação tivesse mesmo algum significado. Mas Jane conhecia Peter Carring- ton, e sabia que ele nunca seria capaz de fazer mal a alguém. Ela e Gary tinham ido à missa de corpo presente de Susan Alt-horp. Era uma rapariga tão doce e bonita, pensou Jane, enquanto retirava pratos e copos do armário. Adorava vê-la toda bem-vestida para sair, quando trabalhávamos nas festas da senhora Althorp. A porta da igreja, antes de o carro funerário e as limusinas da família saírem para o enterro privado, os Althorp tinham permanecido no cimo das escadas, a receber as condolências dos amigos. Porque se teria Gary escondido por trás da pequena multidão, em vez de ter ido falar com eles? - interrogava-se Jane. Susan tinha sido sempre tão amável com ele. Pelo menos por uma dúzia de vezes nesse último ano de vida dela, Gary tinha servido de motorista para a levar a festas, em alturas em que o embaixador não queria que ela ou as amigas dela conduzissem a horas tardias até casa sozinhas. Mas Jane sabia que o marido não era homem para mostrar emoções, e talvez dvesse sentido que aquele não era o local certo para falar aos Althorp, com todos os dignitários da igreja de volta deles. Gary tinha estado a aspirar o andar de cima enquanto Jane preparava o almoço. Entrou na cozinha mesmo a tempo de evitar que ela tivesse de ir chamá-lo.

- Bom dia - disse Jane.,- Podes levar os pratos, os copos e as travessas para a sala. Não te esqueças de bater à porta antes de entrares.

- Acho que sei o suficiente para saber que devo fazer isso - respondeu Gary, com sarcasmo.

- Claro que sabes - respondeu ela, suspirando. - Desculpa. Parece que não estou em mim. Não consigo parar de pensar no dia de ontem e no funeral. Susan era uma rapariga tão bonita, não era?

Enquanto o observava, o rosto do marido de Jane ficou profundamente corado, e ele virou-lhe costas.

- Era, sim - murmurou Gary, enquanto pegava no tabuleiro e saía da cozinha.

CAPÍTULO DEZANOVE

Os advogados só saíram depois das três horas, após cinco horas seguidas de interrogatório a Peter, em preparação para algo que parecia vir a ser inevitável: uma acusação de homicídio no caso da morte de Susan Althorp. Nem sequer parámos para almoçar, fizemos apenas uma pausa para trincar umas sanduíches e beber um café. Durante todo esse tempo, todos os pormenores do jantar e do pequeno-almoço, há tantos anos, foram esmiuçados. Uma vez por outra, Vincent Slater contradizia Peter acerca de um pormenor ou outro. Um desses pormenores, em particular, surpreen-deu-me: - Peter, Susan estava sentada ao seu lado ao jantar, e Grace estava noutra mesa. Até essa altura, eu não me tinha apercebido de que Gracej Meredith, a mulher com quem Peter

casara quando tinha trinta anos, tinhaestado nesse jantar. Mas, vendo bem, porque não havia de estar? Uns vinte amigos de Peter, de Princeton, tinham lá estado. Peter explicou que ela tinha vindo ao jantar como companhia de outra pessoa qualquer.

- Quem era essa outra pessoa? - perguntou Conner Banks.

- Gregg Haverly, um meu companheiro de residência em Princeton.

- Já se tinha encontrado com Grace Meredith alguma vez, antes dessa noite? - perguntou Banks. Nessa altura, já eu conseguia ver que Peter estava a ficar exausto devido ao constante bombardeamento de perguntas.

- Nunca tinha visto Grace antes dessa noite - respondeu, num tom gelado.

- Na verdade, nem voltei a vê-la nos nove anos seguintes. Dei de caras com ela por acaso, num

jogo entre Princeton e Yale. Estávamos ambos com um grupo de amigos, mas nenhum de nós tinha par, e acabámos por ficar ao lado um do outro.

- Há mais pessoas que saibam que você não a tinha visto durante todos esses anos? - perguntou

Banks. Calculo que Banks se tenha apercebido da expressão no rosto de Peter, porque acrescentou: - Peter, estou a tentar antecipar-me às perguntas da acusação. Este é o tipo de perguntas que lhe vão

fazer. Uma vez que a sua primeira mulher estava nessa festa, eles poderão pensar que talvez você se tenha interessado por ela e que Susan tenha notado isso. Depois, talvez você e Susan tivessem tido uma discussão, mais tarde, e essa discussão poderia ter-se tornado violenta. Foi então que Peter afastou a cadeira da mesa e se pôs de pé.

- Meus senhores - disse então -, acho que já são horas de darmos o dia por terminado.

Reparei que Peter foi deliberadamente frio para com Conner Banks na altura das despedidas. Depois de os advogados se terem ido embora, Peter disse: - Acho que não quero aquele tipo, o

Banks, na minha equipa de defesa. Despacha-o, Vince. Eu sabia que Peter estava a cometer um erro, e felizmente Vincent também o sabia. Vincent

percebia que Banks estava apenas a prepará-lo para o tipo de interrogatório duro que vinha a caminho.

- Peter, vão interrogar-te acerca de tudo - respondeu. - E vão fazer insinuações. Tens de começar a habituar-te a isso.

- O que estás a dizer é que o facto de eu ter conhecido Grace nessa noite poderá ser usado contra mim; que eu talvez me tenha apaixonado loucamente por ela e decidido matar Susan? Obviamente, não estava à espera de uma resposta. Desejei que Vincent Slater fosse para casa; queria ter algum tempo em paz, sozinha com Peter. Ambos precisávamos disso. Mas então, Peter anunciou que ia para o escritório.

- Kay, tenho de me afastar de presidente e director-geral da empresa, ainda que continue a ter

uma voz activa nas principais decisões. Toda a minha atenção tem de se concentrar em manter-me

fora da prisão - Depois, acrescentou, quase desoladamente: - Aquela mulher está a mentir. Juro-te; lembro-me de meter a camisa no cesto. Aproximou-se, para me beijar. Suponho que eu própria devia estar com um ar bastante cansado, porque me sugeriu: - Porque não tentas dormir um pouco, Kay? Isto foi um dia dos diabos. Mas descansar era a última coisa que me passaria pela cabeça.

- Não - respondi. - Vou ver Maggie.

Calculo que o dia tenha realmente sido duro para Peter, porque me respondeu: - Não te esqueças de lhe dar os meus cumprimentos, e pergunta-lhe se gostaria de prestar depoimento a meu favor no julgamento.

CAPÍTULO VINTE

Juntando-se a Nicholas Greco e a Tom Moran, Barbara Krause apanhou o avião para Lancaster, na Pensilvânia, onde alugaram um carro e se dirigiram a\casa de Maria Valdez Cruz; era uma casa modesta de estilo campestre, não muito longe do aeroporto. Tinha estado a nevar e as estradas estavam escorregadias, mas Greco, como já tinha visitado antes a antiga empregada, encarregou-se de conduzir. Krause estava furiosa por a informação de que Maria Valdez tinha alterado as suas declarações

ter surgido na imprensa. Tinha jurado descobrir de onde saíra essa fuga de informação, e despedir a pessoa responsável por isso.

- Quando aqui estive, há dois dias, aconselhei Maria a ter o seu próprio advogado presente

quando a viéssemos visitar - lembrou-lhes Greco quando tocaram à porta. E foi esse advogado, Duncan Armstrong, um homem alto, magro, com setenta e poucos anos, que veio abrir a porta. Depois de os visitantes estarem dentro de casa, manteve-se protectoramente ao lado da sua minúscula cliente, e exprimiu imediatamente a sua indignação por causa da fuga de informação para a imprensa. Moran tinha estado presente quando Maria Valdez fora interrogada, há vinte e dois anos. Era apenas uma garota, nessa altura, pensou Moran. Com os seus dezanove anos, mais ou menos da mesma idade que Susan Althorp. Mas tinha sido teimosa, e não cedera um milímetro na história que contara de que tinha entregue a camisa à lavandaria. Estranhamente, a firmeza e a determinação que então tinha mostrado estavam agora ausentes.

Parecia nervosa quando convidou os visitantes a sentarem-se na sala de estar acolhedora, impecavelmente limpa.

- O meu marido levou as nossas filhas ao cinema - afirmou. - São adolescentes. Disse-lhes que os

senhores vinham cá e expli-quei-lhes que tinha cometido um erro e tinha mentido às autoridades quando era jovem, mas que nunca é tarde de mais para se corrigir as coisas.

- O que a Maria quer dizer é que pode ter-se enganado quando a interrogaram na altura do

desaparecimento de Susan Althorp - interrompeu Armstrong. - Antes que avancemos mais, tenho de ver que documentos os senhores prepararam.

- Estamos prontos a oferecer à menina Cruz imunidade contra qualquer acusação, em troca de

verdadeira e completa cooperação connosco no que diz respeito a esta investigação - respondeu Barbara Krause com firmeza.

- Quero dar uma olhadela a esses documentos - disse Armstrong. Leu-os com atenção. - Muito

bem, Maria, sabe que isto significa que no julgamento será chamada a testemunhar, e que os advogados de defesa vão contestar, dizendo que agora é que você está a mentir. Mas o que é

importante é que não será processada sob a acusação de ter prestado antes falsas declarações.

- Tenho três filhas - respondeu Cruz. - Se uma delas desaparecesse e depois fosse encontrada

morta, o meu coração ficaria destruído. Quando ouvi que o corpo dessa rapariga tinha sido encontrado, senti-me horrivelmente por as minhas declarações poderem ter ajudado o assassino a

fugir à justiça. No entanto, admito que não teria tido coragem para avançar agora, se o senhor Greco não me tivesse encontrado.

- Está a dizer que nunca viu essa camisa, e que nunca a entregou à lavandaria? - perguntou Moran.

- Nunca vi a camisa. Sabia que o senhor Peter Carrington tinha dito que estava no cesto da roupa

suja, e tive medo de o contradizer. Estava cá há pouco tempo e não queria perder o emprego. Mandei as camisas que estavam no cesto para a lavandaria, mas tinha quase a certeza de que a camisa dele não estava lá. Nessa altura a polícia estava a interrogar-me, e achei que podia estar enganada, mas lá no fundo sabia que não estava. Não estava nenhuma camisa de cerimónia no cesto. Mas disse à polícia que estava, e que se devia ter extraviado na lavandaria.

- O homem que era dono da lavandaria jurou sempre que não receberam a camisa - disse Barbara Krause. - Esperemos que ainda esteja vivo.

- Se tiver de testemunhar, vão pensar que agora é que estou a mentir? -

perguntou Maria, timidamente. - É que posso provar que não estou.

- Provar? Que quer dizer com isso de que pode provar? - perguntou Moran.

- Deixei o emprego cerca de um mês depois de ter sido interrogada pela polícia. Regressei a

Manila porque a minha mãe estava muito doente. O senhor Carrington sénior sabia disso, e deu-me uma gratificação de cinco mil dólares, como lhe chamou, antes de eu me vir embora. Estava muito agradecido por eu ter apoiado a história que o filho

tinha contado. Verdade seja dita que acredito que pensava realmente que eu estava a dizer a verdade.

- Acho que está a ser demasiado benevolente - disse Krause. - Esse dinheiro foi um suborno.

- Levantei o cheque, mas tive medo de que, quando chegasse a casa, as pessoas pudessem pensar,

ao ver-me com tanto dinheiro, que eu o tivesse roubado. Por isso, fiz uma cópia, de frente e verso, do cheque, antes de ir ao banco levantá-lo - Maria meteu a mão no bolso do casaco. - Aqui está a cópia

-

disse. Barbara Krause pegou na cópia do cheque, observou-a atentamente, e depois entregou-a a Moran.

Era evidente para Greco que ambos tinham acreditado que aquela seria a prova definitiva.

- Agora sabemos que essa camisa nunca foi para a lavandaria - disse Krause. - São horas de prender Peter Carrington e de irmos apresentar o caso diante de um grande júri.

CAPÍTULO VINTE E UM

Pela primeira vez em vários dias, não havia imprensa à espera diante do portão quando saí. Suponho que, se lá tinham estado, tinham visto Peter e Vincent sair, e possivelmente tê-los-iam

seguido. Eu tinha telefonado a Maggie e tinha-lhe dito que ia a caminho da sua casa, para a visitar. Pareceu-me mortificada, provavelmente por ter percebido que aquilo que tinha dito ao jornalista tinha sido um golpe baixo, e que eu haveria de estar furiosa. Mas já se tinham passado mais de três semanas desde a última vez que a vira, e assim que entrei em casa percebi as saudades que tinha dela. A sala de estar estava ainda mais atravancada do que o habitual, mas Maggie estava com óptimo aspecto. Estava sentada na sua cadeira favorita, a ver O JUIZ Decide, acenando com a cabeça em sinal de concordância com o veredicto que tinha acabado de ser lido, com um sorriso no rosto. Adorava ver os ralhetes do juiz aos acusados. A televisão estava muito alta porque Maggie nunca põe o aparelho auditivo, mas ouviu a porta a fechar-se atrás de mim e pôs-se imediatamente de pé, para nos abraçarmos. Claro que, sendo Maggie a pessoa que é, a primeira palavra era dela.

- Como está ele? - perguntou-me.

- Com esse "ele", presumo que se esteja a referir ao meu marido, Peter.

Está sob uma boa dose de pressão e a lidar com isso de forma maravilhosa.

- Kay, estou preocupada contigo. Ele é um Interrompi-a.

- Maggie, se alguma vez usares, para descrever Peter, a palavra que penso que ias usar, saio daqui e nunca mais cá volto. Maggie sabia que eu estava a falar a sério.

- Vamos tomar um chá - sugeriu.

Uns minutos mais tarde, eu estava sentada no sofá e Maggie estava de novo na sua cadeira. Ambas segurávamos chávenas de chá, e o ambiente parecia familiar e confortável, agradável. Perguntei-lhe pelas amigas dela e contei-lhe tudo sobre a nossa lua-de-mel. Não falámos da acusação de Gladys Althorp, ou do facto de a antiga empregada ter mudado o seu

depoimento. Tinha a certeza de que Maggie estaria ao corrente de tudo isso. Mas conduzi, de facto, a conversa para onde eu queria.

- Maggie, por muito horroroso que seja para os Althorp, estou contente por o corpo de Susan ter aparecido. Pelo menos, isso dará à mãe um pouco de paz.

- Foi encontrado na propriedade dos Carrington

- Tecnicamente, foi na propriedade, mas foi do lado de fora da vedação.

Qualquer pessoa a podia ter colocado ali - não dei a Maggie uma oportunidade para responder, e

- Maggie não resistiu a dizer isso.

disse de imediato: - Sabia que foi o meu pai quem teve a ideia de colocar a vedação mais para trás, para que o arranjo do jardim nunca fosse afectado, caso houvesse obras nas canalizações daquela área?

- Sim. Lembro-me de o teu pai falar disso na altura. Pretendia fazer qualquer coisa no terreno da propriedade fora da vedação, mas nunca chegou a fazê-lo.

- Maggie, estavas enganada em relação a uma coisa. O meu pai não foi despedido por causa dos

problemas com a bebida. Foi despedido porque Elaine Carrington se atirou a ele, e como ele não

correspondeu aos avanços dela, pô-lo a andar. Peter disse-me isso. Aonde foste buscar a ideia de que tinha sido por causa da bebida?

- Não me interessa o que te disse o teu marido. O teu pai tinha realmente um problema com a

bebida em excesso, Kay.

- Bem, segundo Peter, decerto que ele não bebia quando estava a trabalhar.

- Kay, quando o teu pai me disse que tinha sido dispensado estava perturbado, terrivelmente

perturbado.

- Isso foi apenas umas semanas depois de Susan Althorp ter desaparecido, não foi?

- Sim, se bem me lembro, foi exactamente quinze dias depois disso.

- Então, a polícia há-de ter interrogado também o meu pai. Ele ainda lá estava a trabalhar.

- Interrogaram toda a gente que trabalhava na propriedade e até toda a gente que a tinha visitado.

Tu tinhas ficado aqui comigo nessa noite em que Susan desapareceu. O teu pai ia receber uns amigos em casa para jogarem póquer, nessa noite. Estiveram a jogar até à meia-noite, e calculo que quando acabaram deviam estar todos já bastante

alegres. Esse tipo, o Greco, passou completamente das marcas quando insinuou que o suicídio do teu pai podia ter alguma coisa a ver com o desaparecimento de Susan Althorp.

- Tenho a certeza que sim. Mas numa coisa ele tinha razão. O corpo do meu pai nunca foi

encontrado. Porque é que tiveste tanta certeza de que se tinha suicidado?

- Kay, eu fui com ele ao cemitério no sexto aniversário da morte da tua mãe. Isso foi apenas um

mês antes de se ter suicidado. Tinham passado seis anos, e mesmo assim foi-se abaixo e chorou como uma criança. Disse-me que sentia a falta dela a cada dia que passava, e que isso nunca desapareceria. Uma coisa fora do vulgar. Adorava trabalhar na propriedade dos Carrington. Claro que havia por aí outras famílias para

quem ele trabalhava, mas os Carrington eram os únicos que o deixavam fazer tudo exactamente como ele queria. Quando o despediram, isso foi um golpe terrível para ele. Maggie levantou-se da cadeira, veio para perto de mim e pôs os braços à minha volta.

- Kay, ele adorava-te loucamente, mas estava com uma depressão muito grande; e quando uma

pessoa anda deprimida e começa a beber, acontecem coisas terríveis. Chorámos juntas.

- Maggie, estou tão assustada - admiti. - Tenho tanto medo do que possa acontecer a Peter.

Maggie não respondeu, mas foi o mesmo que se gritasse o que estava a pensar: Kay, eu estou com medo é do que te possa acontecer a ti!

Telefonei para o telemóvel de Peter. Ainda estava na cidade, e não chegaria a casa antes das dez horas.

- Leva Maggie a jantar fora - disse-me. Depois, até se riu e acrescentou: - Diz-lhe que pago eu.

Maggie e eu saímos para "um prato de pasta", como ela diz. A nossa conversa levou-a a recordar

coisas da minha mãe, e mais uma vez contou-me a história de como ela tinha feito a casa vir abaixo quando cantara aquela canção.

disse Maggie,

com os olhos a brilhar enquanto trauteava a melodia desafinadamente. Estive mesmo quase a contar-lhe acerca da minha visita à capela naquele fim de tarde, há tantos anos". Mas contive-me. Não me apetecia ouvir uma reprimenda por ter sido tonta. A seguir ao jantar, deixei-a à porta de casa, esperei até que entrasse, e depois conduzi até casa. Havia luzes acesas na portaria, por isso presumi que os Barr estavam lá. Porém, nunca consigo

- Cantou aquela canção, chamada "Já ouvi essa canção", de forma tão pungente

,

perceber se Elaine está porque a sua casa fica demasiado distante, quer do portão, quer da mansão, para que se veja quaisquer luzes. Ainda eram só nove horas. Dava uma sensação realmente assustadora, entrar na mansão sozinha. Quase conseguia imaginar alguém escondido dentro da armadura, no átrio principal. As luzes exteriores criavam sombras estranhas ao passarem pelos vitrais. Por um instante, interroguei-me se

seriam as mesmas luzes que o meu pai tinha instalado, as mesmas luzes que o tinham feito vir a correr até cá nesse fim de tarde em que me trouxera com ele. Senti-me mais confortável depois de vestir o roupão e calçar os chinelos, enquanto esperava por Peter. Tive relutância em acender a televisão, com medo de dar com mais alguma notícia acerca do caso Althorp e do seu mais recente desenvolvimento, o da empregada que agora alterava o seu depoimento. Tinha começado a ler um livro no avião, quando vínhamos de regresso, e peguei nele de novo. Mas de nada serviu; as palavras pareciam não ter qualquer significado. Estava a pensar no meu pai. Todas as boas recordações estavam a encher-me os pensamentos. Ainda tinha saudades dele. Peter chegou a casa um pouco depois das onze. Parecia exausto.

- A partir de hoje, já não faço parte da administração - disse-me. - Mas manterei um gabinete na

empresa. Disse-me que Vincent tinha mandado vir o jantar para o escritório, mas admitiu que nem lhe tinha

tocado. Fomos lá abaixo, à cozinha, e encontrei canja de galinha feita por Jane Barr no frigorífico. Aqueci-lhe um pouco. Ele pareceu arrebitar um bocadinho, levantou-se, foi buscar uma garrafa de vinho tinto e dois copos ao bar. Serviu o vinho e ergueu o copo.

- Vamos fazer o mesmo brinde juntos todas as noites - disse-me então. - Havemos de ultrapassar isto. A verdade há-de vir ao de cima.

- Amen - disse eu, fervorosamente.

Depois, Peter olhou directamente para mim, e os olhos dele estavam pensativos e tristes.

- Aqui estamos os dois sozinhos, Kay - disse. - Se alguma coisa te acontecesse esta noite, eles haviam certamente de atirar as culpas para mim, não era?

- Não me vai acontecer nada - disse-lhe eu. - O que te leva a dizer uma coisa dessas?

- Kay, sabes se eu tenho andado a ter crises de sonambulismo desde que regressámos a casa?

A pergunta dele surpreendeu-me.

- Sim. Aconteceu na primeira noite. Nunca me tinhas dito que sabias que eras sonâmbulo, Peter.

- Era, em miúdo. Começou depois de a minha mãe ter morrido. O médico deu-me um remédio

qualquer, e durante uns tempos passou completamente. Mas tive um pesadelo em que metia o braço

na piscina e tentava tirar de lá qualquer coisa, e isso não me sai da cabeça. Não sabes se isso aconteceu mesmo, não?

- Sim, aconteceu, Peter. Acordei por volta das cinco da manhã e tu não estavas na cama. Fui à tua

procura no outro quarto e dei comigo a olhar pela janela. Consegui ver-te ajoelhado junto da piscina. Tinhas o braço metido dentro de água. Depois, voltaste para dentro de casa e meteste-te na cama. Eu sabia que não te devia acordar.

- Kay

- começou Peter, com voz hesitante. Depois, disse qualquer coisa num tom tão baixo que

não consegui ouvi-lo bem. A voz falhou-lhe e mordeu o lábio. Percebi que estava quase a chorar. Levantei-me, dei a volta à mesa e aninhei-o nos meus braços.

- O que é, Peter? Que queres tu dizer-me?

- Não

Não é nada.

Mas alguma coisa era. E era terrivelmente importante. Poderia jurar que Peter tinha murmurado: - Tive outros pesadelos, e talvez tenham realmente acontecido

CAPITULO VINTE E DOIS

Barbara Krause, Tom Moran e Nicholas Greco só chegaram de Lancaster ao fim da tarde. Krause

e Moran foram directamente para os seus gabinetes, no Tribunal de Bergen County, e passaram várias horas depois disso a preparar uma queixa-crime que resumia as provas recolhidas até ali pela investigação. Na sequência dessa queixa-crime, seria emitido um mandado de busca. A queixa-crime acusaria Peter Carrington do assassinato de Susan Althorp, e o mandado autorizaria as buscas nas casas e nos terrenos da propriedade dos Carrington.

- Quero que passem o terreno a pente fino com os cães pisteiros - disse Krause a Moran. - Como

é possível que não a tenham encontrado há vinte e dois anos, quando o rasto teria sido muito mais

forte? Poderá ele tê-la enterrado noutro local qualquer e depois tê-la trazido para o terreno quando pensou que nunca mais seria alvo de buscas?

- Talvez - disse Moran. - Eu estava lá quando os cães passaram por aquela área onde ela foi

agora encontrada. Não vejo como é que os cães poderiam não ter dado pelo rasto, e não consigo

imaginar como é que os nossos homens, e eu próprio, poderíamos não ter dado pelos vestígios de terra acabada de revolver.

- Vou já alertar o juiz Smith - disse Barbara Krause. - E vou pedir-lhe que nos permita que

passemos por casa dele amanhã de manhã, às cinco horas, para ele poder rever os mandados de busca.

- O juiz vai adorar isso - comentou Moran -, mas vai dar-nos tempo para reunirmos a equipa esta

noite e chegar lá com os mandados por volta das seis e meia da manhã, altura em que tenho a certeza de que Carrington há-de estar enroscadinho na sua nova esposa, na cama. Vai dar-me prazer ser a chamada de despertar dele. Já passava das duas horas quando acabaram de preparar a papelada necessária. Moran espreguiçou-se e pôs-se de pé.

- Parece-me que não nos lembrámos de jantar - disse.

- Bebemos ambos umas oito canecas de café - disse-lhe Krau-se. - Pago-te o jantar amanhã à noite, depois de termos este tipo em prisão preventiva.

CAPÍTULO VINTE E TRÊS

Acho que não cheguei a fechar os olhos, nessa noite. Peter estava tão cansado que adormeceu imediatamente, mas eu fiquei ali ao lado, com um braço à volta dele, tentando perceber aquilo que acreditava tê-lo ouvido dizer. Quereria ele dizer que acontecimentos que pensava serem pesadelos eram, na realidade, coisas que tinham acontecido enquanto estava a ter um ataque de sonambulismo? Peter acordou às seis horas. Sugeri que fôssemos correr um pouco, para começar o dia. Quase nunca tenho dores de cabeça, mas estava a começar a sentir uma. Peter concordou e vestimo-nos rapidamente. Descemos à cozinha, e ele espremeu laranjas enquanto eu fazia café e colocava uma fatia de pão na torradeira para ele. Não nos demos ao trabalho de nos sentarmos à mesa; limitámo- nos a ficar ali de pé, enquanto bebíamos o sumo e o café. Esse acabaria por ser o último minuto de vida normal que teríamos juntos. O repicar insistente da campainha da porta fez-nos dar um salto. Olhámos um para o outro; ambos

sabíamos o que estava para acontecer. A polícia tinha vindo prendê-lo.

É uma loucura as coisas que fazemos quando acontece algo de catastrófico.

Corri para a torradeira e apanhei a torrada no momento em que esta saltou. Queria que Peter comesse qualquer coisa antes de o levarem. Peter abanou a cabeça quando lhe entreguei a torrada.

- Peter, não podes ficar sem comer nada durante muito tempo - disse-lhe.

- Já ontem quase não comeste nada.

A campainha da porta ecoava pela casa toda, e nós a falar de comida. Mas ele lá acabou por

aceitar a torrada e começou a comê-la. Com a outra mão, voltou a encher a chávena de café e, apesar de o café estar muito quente, começou a bebê-

lo em grandes goles.

Corri para abrir a porta. Havia pelo menos seis homens e uma mulher à porta. Consegui ouvir o ladrar dos cães dentro de um dos muitos carros e carrinhas estacionados no acesso.

- Senhora Carrington?

- Sim.

- Sou o procurador-adjunto Tom Moran. O senhor Carrington está em casa?

- Estou, sim - Peter tinha-me seguido até ao átrio.

- Senhor Carrington, tenho um mandado que me autoriza a efectuar buscas nos terrenos da sua

propriedade e nas casas. - Moran entregou o mandado a Peter e depois continuou: - O senhor está também detido, sob acusação de homicídio de Susan Althorp. Tem o direito de permanecer em

silêncio. Tudo o que disser poderá ser, e será, usado contra si em julgamento. Tem o direito de ter um advogado presente enquanto estiver a ser interrogado. Se optar por responder às perguntas, poderá deixar de o fazer a qualquer momento. Sei que pode pagar a um advogado, por isso não vou explicar como poderá ter um advogado oficioso nomeado pelo tribunal para o representar. Racionalmente, eu sabia desde o dia anterior que isto iria com certeza acontecer. Mas antecipar uma coisa, e depois vê-la acontecer realmente, é tão diferente como um pesadelo é diferente da realidade. Dois detectives passaram por mim e puseram-se um de cada lado de Peter. Percebendo o que eles iam fazer, Peter entregou-me o mandado de busca e depois esticou as mãos para a frente. Ouvi o clique das algemas. O rosto de Peter estava pálido como o de um cadáver, mas estava calmo. Um dos detectives abriu as portas da frente outra vez. Era evidente que iam levar Peter de imediato.

- Deixe-me ir buscar o casaco dele - disse eu a Moran. - Está frio lá fora. Jane e Gary Barr tinham acabado de chegar.

- Eu vou buscar, senhora Carrington - disse Jane, com a voz a tremer.

- Para onde levam o meu marido? - perguntei a Moran.

- Para a prisão de Bergen County.

- Sigo-te no meu carro - disse eu a Peter.

- Senhora Carrington, eu sugeria-lhe que esperasse aqui - disse Moran. -

O senhor Carrington terá de ser fotografado, e terão de lhe tirar as impressões digitais.

Durante esse tempo, não lhe será permitido vê-lo. Está previsto que seja ouvido, para confirmação da medida de coacção, pelo juiz Harvey Smith, às três horas da tarde, no Tribunal de Bergen County. Nessa altura será definida a fiança.

- Kay, telefona a Vincent e diz-lhe que esteja a postos para pagar a fiança - disse Peter. Enquanto

os detectives o empurravam para a frente, Gary Barr colocou-lhe o casaco pelos ombros, e Peter inclinou-se para me beijar. Os lábios dele estavam frios na minha cara, e a voz estava rouca quando

me disse: - Às três horas. Vemo-nos lá, Kay. Amo-te. Moran e um dos detectives saíram com ele. Quando a porta se fechou atrás deles, fiquei ali parada, incapaz de me mover. A atmosfera mudou. Ainda havia pelo menos seis detectives no átrio. Enquanto eu os observava, todos menos a única mulher vestiram luvas de látex: a busca à casa ia

começar. Do lado de fora, o ladrar dos cães tornava-se mais intenso; estavam a começar as buscas no terreno. Senti Jane Barr segurar-me o braço.

- Senhora Carrington, venha comigo para a cozinha - disse-me.

- Tenho de telefonar a Vincent. Tenho de falar com os advogados - a minha voz soava-me estranha; baixa, mas aguda.

- Sou a detective Carla Sepetti - disse a mulher, com alguma simpatia. -

Vou precisar que os senhores fiquem juntos, e eu ficarei convosco. Se quiser, podemos esperar

na cozinha até eles acabarem as buscas no resto da casa. Depois, mudamos de sítio, porque também vão querer fazer buscas na cozinha.

- Deixe a Jane arranjar-lhe qualquer coisa para comer, senhora Carrington - insistiu Gary Barr.

A comida é vista como uma forma de reconfortar, de dar forças em momentos de crise, pensei eu distraída. Estão a tentar alimentar-me pela mesma razão que eu insisti com Véter para comer a torrada. Fiz que sim com a cabeça e dirigi-me com os Barr pelo corredor fora, até à cozinha; a detective Sepetti vinha logo atrás de nós. Passámos pela biblioteca de Peter. Estavam lá dois detectives: um estava a retirar livros das estantes, o outro estava a remexer nos papéis da secretária. Pensei em como Peter me parecera seguro naquele dia, há menos de quatro meses, em que me tinha sentado na biblioteca com ele, admirando o ambiente. Na cozinha, tentei beber uma chávena de café, mas as minhas mãos tremiam tanto que o café se

derramou no pires. Jane colocou uma mão no meu ombro por um breve instante enquanto me retirava

a chávena e a substituía por outra limpa. Eu sabia o quanto ela gostava de Peter. Conhecia-o desde o tempo em que ele era apenas um rapaz sem mãe. Tinha a certeza de que também ela estaria de coração destroçado. Telefonei a Vincent Slater. Recebeu as notícias com serenidade.

- Era inevitável - respondeu-me, calmo. - Mas estará em casa esta noite, isso prometo-lhe. Em

Nova Jérsia, os juízes têm de fixar fiança. Tenho a certeza de que será da ordem dos milhões, mas estaremos prontos para pagar. Os advogados deviam chegar às nove horas. Sem nenhuma razão em especial, telefonei a Conner Banks, e não a qualquer um dos outros três.

- Já estávamos à espera disto, Kay - respondeu-me. - Mas sei como é terrível para vocês. Vamos

pedir uma cópia do mandado de detenção, e Markinson e eu estaremos no tribunal às três horas. Encontramo-nos lá.

Quando desliguei, fui até à janela. Havia previsões de chuva e granizo por volta do meio-dia, mas enquanto olhava vi as primeiras gotas de chuva começarem a cair. Depois, pequenas bolas de granizo começaram a bater no vidro.

- Acho que li algures que os cães pisteiros não podem trabalhar quando chove, não é? - perguntei

à detective Sepetti.

- Depende daquilo de que andarem à procura - respondeu. - Se continuar assim, calculo que

tenham de os recolher.

- Mas de que andam eles à procura? - perguntei-lhe. Sabia que havia irritação na minha voz. A

pergunta que eu queria realmente fazer era se estariam a pensar que Peter era uma espécie de serial killer, e se estavam à espera de encontrar corpos enterrados por toda a propriedade.

- Não sei, senhora Carrington - respondeu calmamente, e eu olhei para ela. Andaria pelos seus

quarenta e muitos anos, calculei. O cabelo, que lhe chegava ao queixo, tinha um ondulado natural que suavizava o rosto um pouco redondo. Vestia um casaco azul-escuro e calças pretas. Uns brincos em forma de xis eram os únicos adornos que lhe podia ver, se bem que tenha a certeza de que também devia estar a usar um relógio, que agora estaria tapado pela manga do casaco. Era completamente absurdo estar a concentrar-me em pormenores como esses, sem qualquer importância para quem quer que fosse. Virei-me e afastei-me da janela. Havia uma pequena televisão na cozinha, e liguei-a precisamente no momento em que estavam a mostrar Peter a sair do carro da polícia e a ser levado para a prisão de Bergen County. "Enquanto Carrington é detido sob acusação de homicídio, as provas continuam a amontoar-se

contra ele, dizem-nos as nossas fontes", dizia o jornalista. "A antiga empregada, Maria Valdez Cruz, não só confessou que mentiu quando afirmou ter visto a camisa de Carrington no cesto da roupa, como também tem provas de que o pai de Carrington a subornou, com um pagamento de cinco mil dólares." Desliguei imediatamente a televisão.

- Oh, meu Deus - dizia Jane Barr. - Não acredito nisto. Nunca tal poderia ter acontecido. O

senhor Carrington, o pai, era um homem honradíssimo. Nunca subornaria ninguém. Nem mesmo para salvar o filho da prisão?, perguntei a mim mesma. O que teria eu feito, se estivesse no lugar dele? Não tinha a certeza da resposta a esta pergunta.

CAPITULO VINTE E QUATRO

Elaine Carrington ainda estava na cama quando os funcionários do gabinete da procuradoria lhe bateram à porta de casa, pouco depois das seis e meia. Estremunhada, vestiu um roupão e correu a abrir a porta. Teria acontecido alguma coisa a Richard?, interrogou-se, aflita. Teria sido incapaz de saldar as dívidas de jogo a tempo e horas? Em pânico com o que poderia ouvir, abriu a porta de rompante. Quando lhe foi entregue o mandado de busca, a reacção imediata de Elaine foi quase de alívio. Depois, acompanhada por um detective cuja presença ignorou, dirigiu-se para o escritório e ligou a televisão. Uns minutos mais tarde, a visão de Peter Carrington a sair de um carro da polícia, algemado, à porta da prisão de Bergen County, fê-la estremecer. Ele sempre foi amável comigo, reflectiu enquanto o via a tentar virar a cara, fugindo dos fotógrafos. <Aos vinte e dois anos, após a morte súbita do pai, Peter Carrington assumiu a direcção do império familiar", dizia o pivot do noticiário. Uma fotografia de pai e filho, tirada pouco antes do ataque cardíaco fatal que levara o pai de Peter, apareceu no ecrã, provocando imediatamente uma reacção de irritação em Elaine. Por muito jovem que Peter fosse, percebeu como era, para mim, ter de viver com aquele miserável unhas-de- fome, pensou. Um dos homens mais ricos do mundo, e mesmo assim até discutia sobre dinheiro no dia da sua própria festa de aniversário. Estava sempre a ameaçar que não pagaria as contas. "Paga-as

tu. Arranja tu maneira de as pagar"; essa era sempre a conversa dele. Nos cinco anos em que fui casada com ele, queixou-se sempre de cada tostão que eu gastava, pensou, com amargura. Quando o segmento do noticiário acerca de Peter acabou, Elaine carregou no botão para desligar do controlo remoto. Quando casei com ele, tudo neste lugar tinha sido negligenciado durante anos, recordou. A única coisa que nunca contestou foi o arranjo dos jardins. Ele próprio era um rapaz do campo. Elaine deu-se conta de que sempre que estava nervosa ou perturbada, a cabeça enchia-se-lhe de raiva contra a rigidez do acordo pré-nupcial que tinha sido pressionada a assinar. Depois, um ruído

lá fora fê-la correr para a janela. O granizo estava a começar a bater contra os estores, mas estava também a ouvir outra coisa qualquer.

- Andam cães lá fora? - perguntou, incrédula, ao jovem detective que estava sentado numa cadeira à entrada do escritório.

- São os cães que andam a fazer uma busca nos terrenos, senhora Carrington - respondeu o homem, num tom oficial.

- Já encontraram o corpo de Susan Althorp. De que andam à procura agora?

Julgam que isto aqui é algum cemitério? - disparou. O detective não lhe respondeu. Ao meio-dia, a equipa de buscas saíra já de casa de Elaine, e ela foi para o piso de cima, para o seu quarto. Enquanto tomava duche e se vestia, as ideias corriam-lhe pela cabeça, avaliando as possibilidades após a prisão de Peter. Que acontecerá se Peter for preso para o resto da vida?, interrogou-se. Decidiriam ele e Kay vender a propriedade? Poderão fazer isso enquanto eu for viva? Isso poderia violar o meu acordo pré-nupcial, ou pelo menos teriam de me compensar. O acordo pré-nupcial que tinha assinado era o melhor que o seu advogado tinha conseguido. Dez milhões de dólares quando Carrington morresse; direito de residência vitalícia na propriedade e no mais pequeno dos dois apartamentos dos Carrington, em Park Avenue. Um rendimento de um milhão de dólares por ano para o resto da sua vida. Mas claro que havia um senão: o usufruto da casa e do apartamento, bem como o rendimento anual, cessariam se voltasse a casar. Os dez milhões já tinham desaparecido há muitos anos, a maior parte deles perdida num péssimo investimento, recordou Elaine amargamente. "Devia ter conseguido mais dez milhões." Fiz mal em tentar levar Peter a não casar com Kay, preocupou-se, enquanto enfiava umas calças e uma camisola de caxemira. Ela vai provavelmente ficar sempre com isso contra mim. Suponho que devia ter ido visitá-los quando regressaram da lua-de-mel, mas simplesmente não me apeteceu vê-la a andar pela mansão como dona da casa. Voltou a ligar a televisão. Segundo as reportagens, Peter compareceria perante o juiz às três horas. Pegou no telefone. Quando Kay atendeu, Elaine disse: - Kay, minha querida, estou absolutamente devastada por si e por Peter. Quero ir consigo ao tribunal. Kay reagiu de imediato aos protestos de solidariedade de Elaine: - Não, não venha ao tribunal - respondeu. - Mas, partindo do princípio de que Peter possa vir para casa após ser ouvido, e depois de pagar a fiança, seria simpático que a Elaine e o Richard viessem jantar connosco. Vou convidar Vincent para jantar connosco, também. Acho que Peter precisa de olhar à sua volta, esta noite ao jantar, e de ter a certeza de estar com pessoas que gostam dele e que o apoiam - depois, Kay foi-se abaixo e soluçou. - Estou com tanto medo por causa dele, Elaine. Tenho tanto receio por ele. E sei que você também tem.

Kay, eu faria tudo, mas tudo mesmo, tudo o que pudesse para ajudar Peter. Vemo-nos esta noite, querida. Elaine pousou o auscultador. Kay, se ao menos soubesses tudo o que eu jáfi^para ajudar Peter pensou.

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CAPÍTULO VINTE E CINCO

- Tem a certeza de que quer mesmo fazer isto, senhora Alborg? - disse Nicholas Greco. - Lá fora, está mesmo um tempo horrível.

- Eu já lhe disse isso, senhor Greco - interveio Brenda, a governanta, com o rosto marcado pela

preocupação, enquanto ajudava Gladys Althorp a vestir o casaco.

- Vou assistir ao interrogatório de confirmação do assassino de Susan, e não se discute mais este assunto. Senhor Greco, iremos no meu carro. Presumo que o meu motorista nos poderá deixar à porta do tribunal. Quando ela diz que não se discute mais o assunto, está a falar a sério, pensou Greco. Viu que Brenda ia continuar a protestar, e abanou a cabeça para a desincentivar. O motorista estava à espera lá fora, segurando um chapéu-de-chuva aberto. Sem trocarem uma palavra, Greco e o motorista deram o braço à frágil mulher e ajudaram-na a

entrar para o carro. Quando já iam a caminho do tribunal, Gladys Althorp perguntou: - Senhor Greco, diga-me como é que as coisas se irão passar. Demora muito tempo?

- Não. Peter Carrington comparecerá com o seu advogado diante do juiz. Até lá, estará à espera numa cela ao lado da sala de audiências. O

representante da procuradoria lerá as acusações que tiverem sido aduzidas.

- Como estará ele vestido?

- Com um uniforme da prisão.

- Usará algemas?

- Sim. Depois de lida a acusação, o juiz perguntar-lhe-á se se considera culpado ou inocente. O advogado responderá por ele. Evidentemente que vai dizer que está inocente.

- Pois, com certeza que será de esperar que ele diga isso - respondeu Gladys com amargura.

Greco pôde ver que a sua cliente estava a morder o lábio, para impedir que este lhe tremesse.

- Senhora Althorp - disse -, isto não vai ser fácil para si. Gostava que tivesse alguém da sua família consigo neste momento.

- Os meus filhos nunca poderiam cá chegar a tempo. Vivem ambos na Califórnia. O meu marido

já estava a caminho de Chicago esta manhã, quando se soube que Peter Carrington tinha sido detido. Mas sabe uma coisa, senhor Greco? De certa forma, não tenho grande pena de ser a única pessoa da família hoje aqui. Ninguém sofreu tanto com a morte de Susan quanto eu, durante todos estes anos. Éramos muito chegadas. Fazíamos tantas coisas juntas! Desde os tempos em que ela era apenas uma

criança, adorava ir a museus, e ao ballet e à ópera comigo. Estava no curso de Belas Artes, tal como eu própria. Quando escolheu esse curso, disse na brincadeira que isso nos daria ainda mais coisas em comum, como se precisássemos delas. Era bonita e inteligente, e carinhosa e amável; era um ser humano perfeito, completamente perfeito. Charles e os rapazes irão ao julgamento de Peter Carrington. Eu já cá não estarei para assistir a isso. Este é o meu dia para representar Susan no tribunal. Quase sinto como se Susan estivesse aqui, em espírito. Isso parece-lhe tolice?

- Não, não parece - respondeu Greco. - Já assisti a muitos julgamentos, e a presença das vítimas

faz-se sempre sentir enquanto os amigos e os familiares testemunham acerca delas. Hoje, quando a

acusação formal de homicídio for lida, toda a gente na sala estará a pensar nas imagens de Susan que viu nos jornais. Susan estará bem viva nas mentes de toda a gente.

- Nunca lhe poderei demonstrar o quanto lhe estou agradecida por ter localizado Maria Valdez. O

testemunho dela, e a cópia do cheque do pai de Peter serão decerto provas suficientes para condenar Carrington.

- Estou convencido de que Carrington acabará por ser condenado -

respondeu Greco. - Foi uma honra ter podido ser-lhe útil, senhora Althorp, e espero realmente que, a partir de hoje, possa encontrar um pouco de paz.

- Também espero.

Encostou-se no assento e fechou os olhos, obviamente exausta. Vinte minutos mais tarde, o carro parou em frente ao tribunal.

CAPÍTULO VINTE E SEIS

Embora estivesse a usar um sobretudo, Conner Banks sentia-se gelado enquanto corria do parque de estacionamento para a prisão de Bergen County, em Hackensack, Nova Jérsia. O parque estava

completo, e o lugar de estacionamento que finalmente conseguira encontrar era o mais distante da prisão que podia haver. Começou a andar mais depressa, e Walter Markinson, com a cara já molhada pela chuva, repreendeu-o: - Vai com calma. Eu não costumo correr três quilómetros todas as manhãs, como tu.

- Desculpa.

- E também não tinhas feito mal em ter trazido um chapéu-de-chuva.

- Desculpa.

No caminho desde Manhattan, tinham vindo a debater os termos exactos da declaração que

haviam de fazer à imprensa: "O senhor Carrington está inocente destas acusações, e a sua inocência será demonstrada no julgamento." Ou então: "O nosso cliente tem mantido firmemente a sua declaração de que está inocente. As acusações contra ele baseiam-se em suposições, em insinuações

e numa mulher que, ao fim de vinte e dois anos, vem alterar as declarações que na altura fez sob

juramento." Tendo em conta a forma como este caso se tem vindo a desenrolar, mais valia estarmos a defender Jack, o Estripador, pensou Conner amargamente. Nunca, até então, se tinha visto envolvido num circo mediático daquela magnitude. Já houve alguns casos bastante sensacionais julgados neste tribunal, pensou, enquanto chegavam finalmente ao abrigo do edifício. Tinha havido o caso do chamado Sapateiro, um tipo de Filadélfia que atravessara Bergen County

a atacar mulheres, arrastando consigo o filho de doze anos. A última vítima, aquela que acabara por

matar, era uma enfermeira de vinte e um anos que tinha passado pela casa que estava a assaltar, e aonde ia ajudar uma pessoa inválida que lá vivia. Depois, tinha havido os assassínios de Robert Reldan. Esse tipo, elegante e de boas famílias, fazia lembrar Peter Carrington. Tinha raptado e morto duas mulheres jovens. Durante o julgamento, dominara o guarda de serviço que lhe estava a retirar as algemas, saltara pela janela, roubara um carro e gozara de cerca de trinta minutos de liberdade. Agora, vinte ou trinta anos mais tarde, o Sapateiro estava morto, e Reldon ainda estava a apodrecer na prisão. E é muito provável que Peter Carrington passe o resto da sua vida perto dele, pensou Conner.

O interrogatório teria lugar na sala de audiências do juiz Harvey Smith, o mesmo que assinara o

mandado de detenção contra Peter Carrington. Tal como Banks já esperava, quando ele e Markinson lá chegaram, a sala já estava cheia de curiosos e de gente da imprensa. Os operadores de câmara estavam todos concentrados numa mulher sentada na secção central da sala. Para seu desconcerto, viu que a mulher era Gladys Althorp, a mãe da vítima. Conner e Markinson correram para a frente da sala. Ainda eram apenas vinte para as três, mas Kay Carrington já lá estava, sentada na primeira fila da assistência, com Vincent Slater ao lado. Para alguma surpresa de Conner, reparou que Kay vestia

um fato de treino. Depois, percebeu, ou julgou ter percebido, a razão para isso: Slater tinha-lhe dito que Carrington ia fazer uma corrida matinal com a mulher quando lhe tinham apresentado o mandado de detenção. É isto que ela quer ter vestido quando lhe fixarem a fiança e ele for para casa, pensou Banks. Quer mostrar uma frente unida.

A expressão mal-humorada de Markinson transformara-se num ar de figura paternal benevolente.

As sobrancelhas aliviaram-se, os olhos encheram-se de compreensão; deu umas palmadinhas no ombro de Kay e disse-lhe, num tom reconfortante: - Não se preocupe. Vamos desfazer essa mulher, Maria Valdez, quando a apanharmos no banco das testemunhas. Kay sabe o quanto isto é mau, pensou Banks. Walter devia dar-lhe um pouco mais de crédito. Percebeu um relance de irritação no olhar de Kay, quando esta olhou para cima, para Markinson. Numa voz que era ao mesmo tempo baixa e tensa, respondeu-lhe: - Walter, não preciso de ser confortada. Sei bem o que estamos a enfrentar. E outra coisa que sei é que há algures lá fora alguém que matou esta rapariga, e que devia estar nesta sala neste momento, em vez do meu marido. Peter

está inocente. Seria incapaz de fazer mal a alguém. O que eu quero é sentir que você também acredita exactamente nisso mesmo. "Abençoados os que não viram, e porém acreditam." As palavras das escrituras correram pela mente de Conner Banks, enquanto cumprimentava Kay e Vincent.

- Peter estará em casa esta noite, Kay - disse Conner. - Isso posso prometer-lhe.

Depois, ele e Markinson foram sentar-se nos seus lugares. Atrás deles, Banks conseguia ouvir a

sala a encher. Já era de esperar: tratava-se do tipo de caso de grande carisma que até muito do pessoal do próprio tribunal vinha ver.

- Levantem-se todos! - anunciou o oficial de justiça.

Todos se levantaram quando o juiz entrou, em passos rápidos, na sala de audiências, e se sentou no seu lugar. Banks tinha feito os seus trabalhos de casa assim que soubera quem seria o juiz a

conduzir a sessão. Soubera que o juiz Harvey Smith era conhecido por ser bastante justo, mas muito duro quando tocava a fixar as penas.

O melhor que somos capazes de poder fazer por Carrington é arrastar o processo o máximo

possível, porque, assim que for condenado, vai directo para a prisão, pensou Banks. Depois de ser libertado sob fiança, pelo menos poderá dormir na sua própria cama até o julgamento acabar.

O caso de Peter Carrington não era o único da agenda do dia: havia outros detidos à espera de

lhes serem fixadas as fianças. O oficial de justiça leu as acusações, uma após outra, enquanto os outros detidos eram trazidos à barra. Coisas comparativamente menores, pensou Banks. O primeiro era acusado de ter passado cheques sem cobertura. O segundo, tinha furtado bens numa loja. Peter Carrington era o terceiro a ser apresentado. Quando foi trazido à sala, vestindo um uniforme cor de laranja e algemas, Banks e Markinson levantaram-se e puseram-se um de cada lado dele.

A procuradora Krause leu as acusações contra Peter. As câmaras disparavam ininterruptamente,

com o ruído típico, enquanto, olhando directamente para o juiz, com expressão grave e voz firme, Peter respondeu às acusações: "Inocente." Era óbvio para Conner Banks que Barbara Krause estava a salivar perante a perspectiva de ser ela própria a fazer a acusação deste caso. Quando o juiz ia fixar a fiança, Krause dirigiu-se-lhe: - Meritíssimo, estamos perante um arguido com meios ilimitados à sua disposição. Há um risco muito elevado de que pague a fiança e depois saia do país. Pedimos que a fiança seja proporcional às suas

posses; que o passaporte lhe seja confiscado; que lhe seja imposta uma pulseira electrónica; que seja mantido em prisão domiciliária; e que qualquer saída da sua propriedade seja limitada à ida a serviços religiosos, a visitas ao médico, ou a reuniões com os advogados, e que todas essas saídas sejam permitidas apenas após notificação e com permissão de quem estiver a monitorizar a pulseira electrónica. Esta mulher vai ser dura de roer no julgamento, pensou Banks, enquanto observava Krause. O juiz dirigiu-se a Peter: - Tenho consciência, senhor Carrington, de que, com a sua grande riqueza, não faz diferença absolutamente nenhuma que eu fixe a fiança em um dólar ou em vinte e cinco milhões de dólares. A fiança fica, portanto, fixada em dez milhões de dólares. O juiz releu depois a lista de condições que a acusação tinha apresentado e aprovou-as todas.

- Meritíssimo - disse Peter, em voz alta e clara -, obedecerei escrupulosamente a todas as

condições. Posso garantir-lhe que estou ansioso por ver o meu nome ilibado em tribunal e por ver terminado este horror para mim e para a minha mulher.

- A tua mulher!? Então e a mulher que afogaste? Então e ela? - estas palavras foram gritadas com ira em cada sílaba. Como toda a gente na sala, Banks virou-se imediatamente. Um homem bem vestido estava de pé

no meio da sala. O seu rosto con-torcia-se de raiva, e batia com os punhos nas costas do banco à sua frente.

- Grace era minha irmã! Estava grávida de sete meses e meio. Mataste a criança que a nossa

família nunca chegará a conhecer. Grace não era alcoólica antes de casar contigo. Foste tu que a

levaste à depressão. E depois livraste-te dela porque não quiseste correr o risco de ter um filho deficiente. Assassino! Assassino! Assassino!

- Ponham esse homem lá fora! - mandou o juiz. - Levem-no daqui imediatamente - batia com o

martelo fortemente. - Silêncio no tribunal! Um silêncio inquieto seguiu-se à saída do homem. Depois, o silêncio foi quebrado pelos soluços agonizantes de Gladys Althorp, que estava sentada com o rosto escondido nas mãos.

CAPÍTULO VINTE E SETE

Eram sete horas e estava escuro como breu quando finalmente chegámos a casa. Lá fora, ainda chovia copiosamente. Um polícia estava de guarda junto à área, delimitada por cordas, que os cães ainda não tinham podido farejar. Graças à acção rápida de Vincent, Peter não teve de passar a noite na prisão. Assim que eu lhe tinha telefonado para lhe dizer que Peter tinha sido preso, tratara de tudo para que pudesse ter qualquer quantia que o juiz exigisse disponível para ser transferida para o banco ao lado do tribunal, em Hackensack. Assim que a audiência terminou, Vincent correu para o banco, apresentou um cheque visado no valor de dez milhões de dólares e regressou ao tribunal para entregar o dinheiro na secretaria.

Enquanto ele tinha ido tratar disso, e nós tínhamos ficado à espera de que Peter fosse posto em liberdade, foi-me permitido ficar com Conner Banks e Walter Markinson na sala vazia dos jurados, ao lado da sala de audiências do juiz Smith. Penso que eles estavam quase tão chocados e surpreendidos com o ataque do irmão de Grace,

Philip Meredith, como eu própria. Depois, ver tudo aquilo ser seguido pelas lágrimas lancinantes da mãe de Susan deu um ar surrealista a toda a cena. Observei Peter, enquanto ouvia as acusações de Meredith e os soluços de Gladys Althorp. Não creio que a expressão do rosto dele pudesse ter demonstrado mais dor se estivesse a ser esquartejado vivo. Disse isso mesmo a Markinson e a Banks. Estes exprimiram as suas preocupações de que, aos olhos de toda a gente no tribunal, tudo o que tinha acontecido era prejudicial para Peter, e avisaram-me de que a cobertura mediática do acontecimento ia ser absolutamente terrível. Até Markinson se absteve de me dar a sua habitual palmadinha conciliadora no ombro. Depois, Conner Banks fez uma pergunta que me deixou absolutamente espantada: - Sabe se algum membro da família Meredith alguma vez ameaçou processar Peter, exigindo indemnização pela morte de Grace? Fiquei chocada.

- Não - respondi logo. E depois corrigi a minha resposta: - Pelo menos, Peter nunca me falou

disso.

- Vou ser cínico - prosseguiu Banks. - Philip Meredith pode muito bem ser um irmão desejoso de

algo que vê como sendo justiça, ou pode apenas estar a tentar chegar a um acordo de indemnização com Peter. Na verdade, provavelmente até serão as duas coisas. Ele sabe com certeza que a última coisa de que Peter precisa é de outra batalha legal em curso, coincidente com este processo por homicídio. Quando Peter foi libertado, Markinson e Banks falaram com ele por uns minutos, antes de

regressarem a Nova Iorque. Sugeriram-lhe que tentasse descansar o máximo possível e disseram-lhe que passariam lá por casa no dia seguinte, ao início da tarde. Agarrando a mão de Peter, apercebi-me da presença da pulseira electrónica colocada no seu pulso. Descemos o longo corredor em direcção ao carro estacionado lá fora. Tinha esperado, ingenuamente, que já não houvesse imprensa, quando saíssemos do tribunal. Estava enganada. Estava lá, e em força. Dei comigo a interrogar-me se estas seriam as mesmas pessoas que tinham filmado Peter, nessa manhã, a caminho da prisão, ou se se trataria de um novo grupo de jornalistas. Começaram a disparar perguntas para ambos: - Senhor Carrington, tem alguma coisa a

declarar

?

- Kay, alguma vez conheceu

?

Vince estava de pé ao lado do carro, com a porta aberta. Corremos para o banco de trás, ignorando as perguntas. Quando finalmente já estávamos fora do alcance dos jornalistas, Peter e eu abraçámo-nos. Quase não trocámos uma palavra no caminho para casa. Peter foi logo para cima. Não precisou de me dizer que queria tomar um duche e mudar de roupa. Tenho a certeza de que depois da experiência de estar numa cela, a necessidade de deitar litros e litros de água quente por cima dele era um imperativo quase físico. Vincent ia ficar para o jantar. Dizendo que tinha chamadas de negócios para fazer, retirou-se para o seu gabinete no fundo da casa.

Eu fui para a cozinha. Pensava que nada me poderia animar, mas o odor do assado no forno aqueceu-me o coração e deu-me uma genuína injecção de vigor, quanto mais não fosse porque Peter me tinha dito que aquele era o seu prato favorito. Senti-me agradecida pela ideia de Jane Barr, por se ter lembrado disso e por ter feito esse assado para essa noite. Gary Barr estava na cozinha, a ver a televisão. Desligou-a assim que me viu, mas não foi rápido

o suficiente. No ecrã, pude ver que Philip Meredith estava a ser entrevistado. Por um instante, senti- me tentada a ouvir o que estaria a dizer, mas depressa mudei de ideias. Fosse o que fosse, já tinha ouvido o suficiente da boca dele nesse dia.

- Onde quer que sirva os aperitivos, senhora Carrington? - perguntou Gary.

Quase me tinha esquecido de que tinha convidado Elaine e Ri-chard para o jantar.

- Na sala principal, suponho.

Elaine e eu não tínhamos combinado horas, pela simples razão de que não sabíamos, na altura, a que horas Peter estaria em casa, mas das vezes que eu viera jantar à mansão, antes de Peter e eu termos casado, os aperitivos tinham sido sempre servidos por volta das sete. Corri para o andar de cima, para ir tomar um duche e mudar de roupa. Interroguei-me por um instante sobre a razão por que teria Peter fechado a porta que ligava a salinha ao outro quarto, e depois decidi que devia apenas querer estender-se na cama por uns momentos. Já era tarde, mas demorei um pouco a lavar o cabelo. O espelho mostrou que a minha cara estava pálida e cansada, e por isso tive algum cuidado especial com a maquilhagem; pus sombra nos

olhos, um pouco de rímel, um toque de blush e gloss nos lábios. Sei que Peter gosta de me ver com o cabelo pelos ombros, por isso decidi usá-lo assim nessa noite. Pensei que as minhas calças de veludo pretas com uma camisa cor-de-rosa pareceriam um pouco animadoras, apesar de não haver nada de animador na ocasião. Quando estava pronta, ainda não tinha ouvido um único som do lado de Peter. Interrogando-me se ele teria adormecido, atravessei a salinha e abri lentamente a porta do outro quarto. Fiquei sem fôlego quando vi Peter de pé, ao lado da cama, com uma expressão transtornada no rosto, a olhar fixamente para uma mala aberta.

- Peter, o que foi? - corri para ele. Peter agarrou-me os braços.

- Kay, quando cheguei aqui, deitei-me. Queria apenas descansar por uns minutos. Devo ter

adormecido. Sei que estive a sonhar que estava a ir a qualquer sítio, e depois acordei. E olha. Apontou para o interior da mala. Roupa interior e meias estavam arrumadas cuidadosamente dentro da mala. Nos quarenta minutos desde que tínhamos chegado a casa, Peter tivera mais um episódio de sonambulismo.

CAPÍTULO VINTE E OITO

Às sete horas, Nicholas Greco estava regaladamente a desfrutar do jantar com a esposa, Francês, na sua casa de Syosset, em Long Is-land. Normalmente, ela não lhe fazia perguntas sobre o caso em que estava a trabalhar, mas, depois de ver o noticiário das seis, com a história da apresentação de Peter Carrington ao juiz, queria saber todos os pormenores do que se tinha passado no tribunal. Tinha-lhe preparado a sua refeição favorita: salada de alface e macarrão com queijo e presunto. Greco percebeu que, embora quisesse colocar aquele dia cansativo para trás das costas, devia à

mulher a consideração de reflectir em voz alta sobre as suas impressões dos acontecimentos do dia.

- No lugar dos advogados de Carrington, estaria a preparar um pedido de acordo - disse Greco. -

Aquela explosão do irmão de Grace no tribunal causou uma impressão terrível nas pessoas. Tanto quanto sei, Philip Meredith não é nada dado a demonstrações emotivas. Mandei Beth, lá do gabinete, investigá-lo enquanto vinha para cá. Vive em Filadélfia, que é onde os Meredith vivem desde há várias gerações. Bom historial familiar, mas não muito dinheiro. Ele e a irmã, Grace, foram para a universidade graças a bolsas de estudo. Philip é um executivo de nível médio numa empresa de marketing e está casado com a

namorada dos tempos de juventude; três filhos, dois deles na universidade. Tem agora quarenta e oito anos. A irmã era seis anos mais nova. Francês passou-lhe o tacho do macarrão.

- Come mais um bocadinho. Tens andado para cá e para lá, a correr para Lancaster, não deves ter comido nada de jeito.

Greco sorriu para a mulher e, contrariando o que devia fazer, pegou na colher para se servir. Aos cinquenta e cinco anos, Francês pesava exactamente o mesmo que pesava aos vinte e cinco. O cabelo ainda era do mesmo tom castanho, alourado, mas, evidentemente, agora era ajudado por idas regulares ao cabeleireiro. Mesmo assim, aos olhos carinhosos dele, não tinha mudado muito nos últimos trinta anos.

- Li sobre o modo como o corpo de Grace Carrington foi encontrado na piscina - disse Francês,

mordendo um gressino. - Houve muitos artigos acerca disso há quatro anos, quando aconteceu. A

revista Peop/e fez um grande artigo. Lembro-me de que levantaram a questão de Peter Carrington ter sido arguido no desaparecimento de Susan Althorp. Mas, na altura, tenho quase a certeza de que a família Meredith fez uma declaração afirmando que a morte de Grace não tinha sido um mistério, mas sim uma tragédia. Porque achas que o irmão começou agora a fazer acusações? Nicholas Greco teria adorado poder levar a conversa noutro sentido, mas lembrou a si próprio que, tal como acontecia com o corpo e a cor do cabelo, Francês mantivera também a sua curiosidade aguçada.

- Tanto quanto sei, os pais de Grace Carrington estavam, também eles, muito desgostosos com o

alcoolismo da filha, e também gostavam muito de Peter. Na altura, não suspeitaram de que houvesse

crime, mas agora que o pai morreu e que a mãe está num lar, sofrendo de Alzheimer, Philip Meredith pode ter decidido que é tempo de exprimir os seus próprios sentimentos.

- Bem, se não tivesses conseguido encontrar o rasto de Maria Valdez, não teria havido audiência

hoje - observou Francês. - Espero que a senhora Althorp tenha noção de que foste capaz de fazer algo que mais ninguém conseguiu.

- Maria tinha desaparecido dos radares quando o gabinete da procuradoria a procurou para voltar

a falar com ela. O tipo com quem trabalhamos nas Filipinas reviu as antigas relações dela, e por

acaso aconteceu ela ter restabelecido contacto com uma prima afastada. Foi preciso ter muita sorte para se conseguir encontrá-la.

- Mesmo assim, foi tua a ideia da senhora Althorp vir acusar Peter Carrington na Celeb. Todas as

minhas amigas concordaram que ele teria de processá-la por causa disso. Se não tivesses localizado Maria Valdez, mesmo assim terias obrigado Peter Carrington a responder às perguntas sob juramento. E tenho a certeza de que ele acabaria por se contradizer em algum momento. Seria? Teria Peter entrado em contradição?, interrogou-se Greco. Ainda havia uma irritante peça do quebra-cabeças em falta: a bolsa desaparecida. Teria Susan levado a bolsa consigo depois de sair do carro de Peter Carrington? Por qualquer razão, essa pergunta não o largava.

- Obrigado por seres a minha admiradora número um, querida - disse Greco à mulher. - Agora, se não te importas, falemos de outra coisa qualquer. O telefone tocou. Francês correu a ir buscá-lo e voltou com ele ao terceiro toque.

- Não reconheço este número - disse ao marido.

- Então, deixa que o atendedor responda - respondeu Greco. A mensagem começava: "Senhor

Greco, fala Philip Meredith. Sei que esteve hoje no tribunal com a senhora Althorp. Estive a falar com ela. Gostaria muito de contratá-lo para investigar a morte da minha irmã, Grace Meredith Carrington. Sempre acreditei que foi assassinada pelo marido, Peter Carrington e, se isso for

possível, queria que o senhor encontrasse provas que sustentem esse facto. Espero que me telefone.

O

meu número é

Greco tirou o telefone das mãos da mulher e carregou no botão Talk.

- Daqui fala Nicholas Greco, senhor Meredith - disse.

"

CAPÍTULO VINTE E NOVE

Se alguém tivesse espreitado pelas janelas nessa noite e nos tivesse observado, a beber os aperitivos na sala da mansão, tenho a certeza de que pensaria que éramos uns felizardos. Claro que Peter e eu nada dissemos acerca do breve episódio de sonambulismo, mas ficámos sentados lado a lado, em frente à lareira. Elaine e o filho, Richard Walker, estavam sentados nos cadeirões dos dois lados da lareira, e Vincent Slater, que preferia sempre cadeiras de costas direitas, tinha puxado uma delas para perto de nós. Gary Barr estava a servir as bebidas. Peter e eu bebemos um copo de vinho, os outros beberam cocktails. Sem que ninguém lhe tivesse pedido para o fazer, Gary tinha fechado as portas que separavam as duas metades da sala, tornando o nosso lado mais íntimo, se é que se pode chamar íntima a uma sala com sete metros de comprimento. Na nossa lua-de-mel, Peter dissera-me que queria contratar um decorador para fazer qualquer coisa que eu quisesse para remodelar a casa. Raramente Peter falava de Grace, mas lembro-me de ter feito um comentário acerca dela, a propósito da decoração: "Quando Elaine casou com o meu pai, fez muitas alterações, e tenho de dizer que sabia o que estava a fazer. Tinha um grande decorador a trabalhar para ela. Claro que esbanjou imenso dinheiro nesse processo. Devias ter ouvido o meu pai a ralhar-lhe por causa disso. Já Grace não alterou nada. Preferia ficar no apartamento de Nova Iorque. Durante os oito anos em que fomos casados, passou a maior parte do tempo lá." Tudo isto me estava a passar pela cabeça enquanto estávamos sentados naquela bela sala, vendo o fogo na lareira. Elaine estava bonita como sempre, cuidadosamente maquilhada, com os seus olhos de safira muito solidários e carinhosos quando olhava para Peter. Eu gostava de Richard Walker. Não era bem parecido no sentido tradicional do termo, mas tinha um certo magnetismo, que tenho a certeza de que atrairia as mulheres. A não ser pelos olhos, ninguém suspeitaria, tendo em conta os traços grosseiros e o físico avantajado, de que tinha saído do ventre de Elaine Walker Carrington. Peter tinha-me dito que o pai de Richard, primeiro marido de Elaine, nascera na Roménia e viera para os Estados Unidos com os pais quando tinha cinco ou seis anos. Tinha anglicizado o nome quando fora para a universidade e era um empresário de sucesso quando casara com ela.

"Elaine nunca casaria com um tipo que não tivesse bom dinheiro", dissera-me Peter. "Mas, de certa forma, não teve muita sorte de ambas as vezes. Julgo que o pai de Richard era esperto e bastante atraente, mas perdeu tudo no jogo. O casamento não durou muito, e ele morreu quando Richard era adolescente. Depois, Elaine casou com o meu pai, que era tão forreta que a piada acerca dele entre os amigos era que ainda tinha o dinheiro que lhe tinha sido oferecido na Primeira Comunhão." Obviamente, Richard devia ter recebido a maior parte dos seus traços físicos do pai, e também

algo do seu charme, suponho. Durante os aperitivos, falou-nos acerca da primeira vez em que tinha vindo jantar à mansão, e de como o pai de Peter lhe tinha parecido formidável.

- Peter estava no primeiro ano em Princeton, Kay - disse Richard para mim. - Por isso, estava fora. Eu tinha acabado o curso em Columbia e tinha arranjado o meu primeiro emprego como estagiário num dos departamentos da empresa Carrington. Já nem me lembro em qual deles. Vincent Slater, que não era decerto pessoa dada a grandes conversas, começou a rir.

- Deve ter sido na divisão de corretagem. Foi onde eu próprio comecei.

- Seja como for, desiludi-o - disse Richard -, e isso foi o princípio do fim de uma bela relação. O teu pai sempre achou que eu andava a desperdiçar o meu tempo, Peter.

- Eu sei - Peter também sorriu, e consegui perceber que a tentativa de Richard de o distrair da sombria realidade do dia estava, pelo menos em parte, a dar resultado. Sentámo-nos para jantar e fiquei agradecida por ver Peter aderir ao assado de Jane Barr, dizendo: - Não pensava estar com fome, mas este assado tem um óptimo aspecto. Enquanto comíamos, Richard falou da sua primeira visita à mansão.

- O teu pai disse-me para andar por aí - disse Richard. - Contou-me acerca da capela, e fui lá

acima para a ver. É incrível pensar que um padre vivia mesmo ali no século XVII. Lembro-me de me interrogar se estaria assombrada. Que acha, Kay?

- A primeira vez que a vi, tinha seis anos - disse eu. Depois, reparando na expressão espantada

dele, expliquei: - Já contei isto a Peter, na noite em que a minha avó caiu depois do jantar, e em que ele ficou comigo toda a noite no hospital e depois me trouxe a casa.

- Sim. Kay era uma criança aventureira - disse Peter.

Hesitou, e percebi que ele não queria falar acerca do meu pai. Facilitei-lhe as coisas.

- O meu pai tinha cá vindo num sábado para verificar a iluminação do jardim. Havia imensos

convidados que vinham cá nessa noite para um jantar de gala. Fui deixada sozinha por uns momentos, e por isso resolvi ir explorar um pouco.

A atmosfera à mesa mudou. Eu tinha mencionado inadvertidamente a noite em que Susan Althorp

tinha desaparecido. Tentando mudar de assunto, apressei-me a dizer: - Estava tão frio e tão húmido

na capela

Depois ouvi alguém a entrar, e por isso escondi-me entre os bancos.

- Ah, sim? - exclamou Vincent Slater. - E foi apanhada?

- Não. Baixei-me. Escondi a cara nas mãos. Sabe como são as crianças ingénuas: "Se eu não te vejo, tu também não me vês."

- Apanhou algum par de amantes? - perguntou Vincent.

- Não, as pessoas que entraram estavam a discutir sobre dinheiro. Elaine desatou a rir, com um riso rouco e sarcástico.

- Peter, o teu pai e eu andávamos pela casa toda a discutir sobre dinheiro, nesse dia - disse. - Mas não me lembro de irmos à capela.

- A mulher estava a prometer-lhe que seria a última vez - e eu estava desesperada por mudar de assunto.

- Isso também parece coisa minha - disse Elaine.

- Bom, decerto não tem importância. Nem me lembraria mais disso

Mas como começou a falar

da capela, Richard

Gary Barr estava de pé atrás de mim, prestes a servir-me mais vinho. Um segundo depois, para espanto geral, o vinho estava a escorrer-me do pescoço.

- disse eu.

CAPÍTULO TRINTA Tal como Barbara Krause tinha prometido a Tom Moran, na noite do interrogatório em tribunal fizeram um jantar de comemoração no Stony Hill Inn, um dos seus restaurantes favoritos em

Hackensack. Enquanto se atiravam a um borrego assado, discutiram o súbito aparecimento e a tirada emotiva de Philip Meredith.

- Sabes, se conseguíssemos levar Carrington a admitir o homicídio da mulher, bem como o de

Susan Althorp, estaria tentada a propor-lhe um acordo - disse Krause subitamente.

- Pensei que essa seria a última coisa que farias, chefe - protestou Moran.

- Eu sei. Mas por muito que pense que conseguiremos uma condenação no caso de Althorp, não é, de forma alguma, um caso simples. Continua a haver o facto de Maria Valdez ter realmente

modificado o seu testemunho. E Carrington tem o melhor patrocínio legal que o dinheiro pode pagar. Vai ser duro. Moran assentiu.

- Eu sei. Vi-os os dois com Carrington hoje. Aquilo que eles recebem por um dia de trabalho

dava para pagar os aparelhos dos dentes dos meus miúdos.

- Vamos falar disso - disse Krause. - Se ele confessasse tanto o assassinato de Susan, como o da

mulher, poderíamos propor-lhe trinta anos, sem direito a condicional, em cúmulo jurídico. Sejamos sinceros: não temos o suficiente para o acusarmos da morte da mulher neste momento, mas ele sabe que outras provas poderão surgir. Seria libertado ainda com setenta e poucos anos, e ainda lhe restaria dinheiro de sobra. Se aceitasse este acordo, conseguíamos as condenações e, presumindo que ele viva esse tempo todo, ainda teria esperanças de sair da prisão. Sabes perfeitamente bem que adorava levar este caso a julgamento - continuou Krause. - Mas há outra questão. Neste momento, estou a pensar nas famílias das vítimas. Viste e ouviste as duas hoje mesmo. A senhora Althorp não viverá o suficiente para assistir ao julgamento, mas, se Carrington confessar, viverá provavelmente o suficiente para o ver condenado. E há outra coisa. Se ele confessar, abrirá a porta aos processos para indemnizações.

- Não me parece que os Althorp precisem de dinheiro - disse Moran secamente.

- São milionários pobres - disse Krause. - Não adoras essa expressão?

Aplica-se a qualquer pessoa que tenha menos de cinco milhões. Li isso numa daquelas revistas Uma indemnização choruda significaria que poderiam fazer uma importante contribuição em nome de Susan para um hospital ou uma universidade.

Daquilo que sabemos de Philip Meredith, nunca teve grande êxito e tem três filhos para sustentar.

- Então, estás mesmo a falar a sério quando falas em propor um acordo aos advogados de Carrington? - perguntou Moran.

- Digamos que estou a começar a mudar de ideias. Uma espécie de

começar a gostar da ideia. Seja como for, o borrego estava delicioso. Diabos para as calorias. Vamos em frente, a todo o vapor. Venha a sobremesa.

CAPÍTULO TRINTA E UM

Sei que o jantar descontraiu Peter um pouco. Assim que acabou, e depois de termos tomado café

na biblioteca, os outros levantaram-se, para se irem embora. Por vezes, Richard ficava em casa de Elaine, mas disse-nos que ia para Manhattan, para beber um copo no Carlyle, após a sessão do teatro, com uma jovem artista.

- É muito dotada, penso eu - disse-nos Richard. - E muito bonita, acrescente-se. As duas coisas

raramente vêm juntas.

- Vê lá, não te apaixones, Richard - disse Elaine maliciosamente. - E se decidires fazer-lhe uma

festa na galeria, que seja ela a pagar o champanhe. Quando Elaine disse isto, Vincent ergueu o sobrolho para Peter, e este respondeu com um sorriso disfarçado. Peter e eu fomos com eles até à porta. Os carros de Vincent e de Richard estavam estacionados mesmo em frente à mansão. Os dois homens abriram os chapéus-de-chuva, e Elaine

agarrou-se ao braço do filho. Depois, desceram apressados os degraus, dirigindo-se para os carros. Peter fechou a porta à chave e depois, quando estávamos a começar a subir as escadas, Gary Barr apareceu.

- Senhora Carrington, vamo-nos embora. Só queria dizer-lhe mais uma vez o quanto lamento por

causa da sua camisa. Não consigo acreditar que tenha sido tão desastrado. Acho que nunca tive um acidente como este em tantos anos que tenho de serviço. Claro que, quando o vinho foi entornado por cima de mim, aceitei as desculpas dele e fui lá acima mudar rapidamente de camisa. Creio que Peter já estava farto de desculpas, porque antes que eu pudesse garantir de novo a Gary que estava desculpado, Peter disse com brusquidão: - Acho que a senhora Carrington já deixou bem claro que compreendeu que foi um acidente infeliz. Não estou realmente interessado em ouvir falar mais disso. Boa noite, Gary. Até então, eu só tinha visto pequenas fracções do lado formal - digamos até formidável - de Peter, e de certa forma fiquei contente por ter testemunhado este episódio. Os meses que se seguiriam, até ao julgamento, iriam ser tão humilhantes e assustadores para ele Tinha exposto a sua vulnerabilidade diante de mim, porque confiava em mim. Mas neste momento percebi que o papel que eu estava a assumir, menos de mulher do que de protectora, não era digno da essência do homem. Enquanto subíamos as escadas, por qualquer estranha razão, pensei numa noite, talvez há uns dez anos, em que chegara da faculdade. Maggie e eu tínhamos visto o velho filme To Catch a Thief, com

Grace Kelly e Cary Grant, na televisão. Durante um dos intervalos, Maggie disse-me que Grace Kelly tinha conhecido o príncipe Rainier quando estava a fazer esse filme, no Mónaco.

- Kay, li sobre o dia em que o príncipe foi visitar os pais dela, em Filadélfia. Foi nessa altura

que pediu a mão dela em casamento ao pai. No dia seguinte, a mãe de Grace disse a um jornalista

que Rainier era uma pessoa simpática, e que era muito fácil esquecer que se tratava de um príncipe. Um jornalista das colunas sociais troçou de imediato: "Não compreenderá a senhora Kelly que casar com um monarca-regente não é o mesmo que casar com alguém que é apenas mais um príncipe?" Hoje, eu vira um Peter acossado no tribunal, a que se seguira um Peter assustado, de pé diante de uma mala, e não conseguia lembrar-se de ter começado a arrumá-la.

E agora, tinha visto um Peter imperial, que já tinha ouvido suficientes desculpas de um

empregado. "Quem será o Peter completo?", perguntei-me enquanto nos preparávamos para ir para a

cama.

E

percebi que não tinha uma resposta.

CAPÍTULO TRINTA E DOIS

O tempo na manhã seguinte quase não se modificara. A temperatura tinha subido, e por isso já

não havia granizo, mas a chuva continuava, num aguaceiro imparável e desolador.

- Parece que os nossos cães vão ter mais um dia de folga - observou Moran quando entrou no

gabinete de Krause, poucos minutos depois das nove horas. - Não vale a pena pô-los a farejar a propriedade dos Carrington hoje.

- Eu sei. Seria apenas um desperdício de dinheiro dos contribuintes -

concordou Krause. - E, aliás, não vamos encontrar lá nada. Tenho estado a rever as poucas provas que trouxeram da mansão e da casa da madrasta. Todas as buscas parecem ter resultado num enorme nada. Mas também não esperávamos encontrar grande coisa, ao fim de vinte e dois anos,

suponho. Se Peter Carrington foi esperto o suficiente para se ver livre da camisa logo depois de ter morto Susan, o mais provável é que não houvesse mais nada com que se preocupar.

- Calculo que, se houvesse alguma coisa, tê-la-íamos encontrado logo da primeira vez - disse Moran, encolhendo os ombros.

- Só há uma coisa que me interessa um pouco. Olha para isto - Krause entregou uma folha de

papel a Moran. Era um esboço de um arranjo dos jardins. Moran olhou para o papel com cuidado.

- Que tem?

- Estava numa gaveta de um armário, num quarto do andar de cima da mansão. Aparentemente, ao

longo dos anos, a família tratou alguns dos quartos lá de cima como se fossem um sótão, um daqueles sítios onde se encafuam coisas que não nos queremos dar ao trabalho de arrumar. Os rapazes disseram-me que tudo o que havia lá em cima dava para mobilar uma casa, desde cadeiras a sofás, a

carpetes e louças, a pratas e quadros e bugigangas, e até cartas de família que vinham desde o século

XIX.

-

Parece que nunca ouviram falar de vendas de garagem, ou do eBay -

comentou Moran. - Espera lá. Estou a ver o que isto é. É um desenho da área exterior da

propriedade dos Carrington, o local onde o corpo da rapariga foi encontrado; só que aqui há plantas lá colocadas.

- Exactamente. Na verdade, é uma cópia de um desenho original.

- E que tem de especial?

- Olha para o nome no canto, em baixo.

Moran segurou o papel mais perto do candeeiro de secretária de Krause.

- Jonathan Lansing! Esse era o paisagista, o tipo que se atirou ao Hudson não muito depois de Susan Althorp ter desaparecido. Era o pai da actual senhora Carrington.

- Exacto. Foi despedido pelos Carrington umas semanas depois de Susan ter desaparecido, e

aparentemente cometeu suicídio. E digo aparentemente, porque o corpo nunca foi encontrado. Moran ficou a olhar para a sua chefe.

- Não estás a sugerir que haja uma ligação entre ele e Susan Althorp?

- Não, não estou. Temos o tipo que a matou. O que estou a ver é que Lansing foi quem sugeriu que

a vedação fosse afastada uns quinze metros da rua. Olhando para isto, parece que não pretendia

deixar essa área entre a rua e a vedação sem arranjo. Este desenho mostra a intenção de plantar algumas espécies perenes do lado de fora da vedação.

- Mas depois foi despedido, e a família não se preocupou com fazer nada, a não ser lançar umas sementes de relva no terreno - disse Moran conclusivo.

- Assim parece - concordou Barbara Krause. Voltou a colocar o papel na pasta. - Mas não sei acrescentou, mais para si própria do que para Moran. - Simplesmente, não sei

CAPÍTULO TRINTA E TRÊS

-

Na terça-feira de manhã, no dia após a audiência, Philip Meredith apanhou o comboio de Filadélfia para Nova Iorque. Ciente de que a sua fotografia poderia estar estampada nas primeiras páginas dos tablóides, tomou a precaução de usar óculos escuros. Não tinha desejo nenhum de ser reconhecido e talvez até de ter desconhecidos a dirigirem-lhe a palavra. Não queria a simpatia de ninguém. Não voltara a pôr os olhos em Peter Carrington desde o funeral da irmã. Tinha ido ao tribunal simplesmente pelo prazer de o ver algemado e acusado de homicídio. Ficara tão surpreendido pela sua explosão emotiva como todas as outras pessoas. Mas agora que isso tinha acontecido, pretendia seguir em frente com as suas acusações. Se Nicholas Greco tinha conseguido encontrar uma testemunha-chave contra Peter Carrington no caso de Susan Althorp, talvez também pudesse encontrar alguma prova que demonstrasse que Grace também tinha sido morta. Saiu do comboio em Penn Station, entre a Thirty-third Street e a Seventh Avenue. Mas o facto de estar a chover copiosamente acabou por fazê-lo seguir para a fila dos táxis. Dias com o tempo assim faziam-no lembrar-se do dia em que Grace tinha sido enterrada. Não estava frio nesse dia, porque se estava no início de Setembro, mas estava a chover. Grace repousava agora no talhão da família Carrington no cemitério Gate of Heaven, em Westchester County. Isso era outra coisa que Philip queria: trazer os restos mortais da irmã para Filadélfia. Grace deveria estar junto de pessoas que a tinham amado, pensava. Os seus pais e avós. Finalmente, chegou ao primeiro lugar na fila para os táxis. Entrou no primeiro carro disponível e deu a morada. Havia muito tempo que não vinha a Manhattan, e ficou surpreendido com o trânsito congestionado. A corrida custou-lhe quase nove dólares, e percebeu que o motorista não ficara satisfeito quando não acrescentara mais dinheiro à nota de dez dólares que lhe entregara para pagar. Entre o preço do comboio e dos táxis para lá e para cá, este dia estava a começar a ficar caro, antes mesmo de falar com Greco, pensou Philip. Ele e a mulher, Lisa, já tinham tido uma discussão por causa disso.

- Fiquei para morrer quando soube o que tinhas feito no tribunal -

dissera-lhe a mulher. - Sabes bem que eu adorava Grace, mas andas obcecado com isto desde há quatro anos. Contratar um detective privado custa muito dinheiro, que não temos, mas, por amor de Deus, vai em frente. Pede um empréstimo, se for preciso, mas vê se acabas com isto de uma vez por todas. O número 342 da Madison Avenue era um prédio estreito com apenas oito pisos; o escritório de Greco ficava no quarto andar. Era um espaço pequeno, com uma recepção acanhada. A recepcionista disse a Meredith que ele estava à sua espera, e acompanhou-o de imediato ao gabinete de Greco. Após uma saudação cordial e um breve comentário acerca do tempo, Greco foi directo ao

assunto: - Quando me ligou ontem à noite para casa, disse-me que poderia ter algumas provas de que a morte da sua irmã poderia não ter sido um acidente. Fale-me acerca disso.

- "Provas" talvez seja uma palavra demasiado forte - admitiu Meredith. -

A palavra que talvez devesse ter usado era "motivos". Algo que vai para além de Peter se preocupar com o facto de Grace poder vir a ter uma criança deficiente. Estamos a falar de muito dinheiro como o motivo para matar Grace.

- Estou a ouvi-lo - incentivou Greco.

- O casamento nunca foi um daqueles encontros de amor feitos no céu.

Peter e Grace eram pessoas muito diferentes. Ela adorava Nova Iorque e a vida de sociedade; ele, não. De acordo com os termos do acordo pré-nupcial, Grace receberia uma soma de vinte

milhões de dólares se se divorciassem, a não ser - e isto é um grande "a não ser" - que ela desse à luz um filho dele. Então, no caso de se virem a divorciar, ela receberia vinte milhões de dólares por ano, para que a criança pudesse ser educada de forma adequada a um Carrington.

- Na altura da morte da sua irmã, Peter Carrington prontificou-se a submeter-se a um detector de

mentiras, e passou no teste - disse Greco. - Os rendimentos dele são estimados em oito milhões de dólares por semana. Números tão exorbitantes parecem incríveis para si e para mim. No entanto, mesmo uma soma muito elevada a pagar anualmente, nos termos do acordo pré-nupcial, a uma ex-mulher, não é um motivo imperativo

para matar um filho ainda por nascer. Mesmo que se desse o caso de a criança nascer com síndrome alcoólica fetal, haveria muitos recursos disponíveis para tratar bem de uma criança com esse problema.

- A minha irmã foi assassinada - disse Philip Meredith. - Nos oito anos em que foi casada com

Peter, teve três abortos. Queria desesperadamente ter um filho. Nunca se suicidaria estando grávida. Sabia que sofria de alcoolismo e tinha começado discretamente a ir aos Alcoólicos Anónimos. Estava determinada a deixar de beber.

- Os testes do nível de álcool no sangue mostraram que estava três vezes acima do limite legal, quando foi encontrada. Muitas pessoas não conseguem mesmo deixar a bebida, senhor Meredith. Decerto sabe disso. Philip Meredith hesitou e depois encolheu os ombros.

- Vou contar-lhe uma coisa que prometi aos meus pais que nunca revelaria a ninguém. Eles

achavam que isto mancharia irreparavelmente a memória que as pessoas tinham de Grace. Mas o meu pai já morreu e a minha mãe está num lar. Como lhe disse, tem Alzhei-mer e é completamente incapaz de se aperceber do que se passa à sua volta. Meredith baixou a voz, como se estivesse receoso de ser ouvido: - Na altura em que morreu, Grace tinha um caso amoroso. Era muito cuidadosa, no sentido de o bebé que trazia no ventre ser seguramente de Peter. Grace queria dar à luz, e depois divorciar-se de Peter. O homem com quem

estava envolvida não tinha dinheiro, e Grace gostava do estilo de vida a que se acostumara, com o

dinheiro dos Carrington por trás. Acredito que, na noite dessa festa, a sua primeira bebida estava adulterada, com o objectivo de a embriagar. Porque se ela bebesse uma só bebida com álcool, era o fim; já não era capaz de parar.

- Grace já estava embriagada quando Peter Carrington chegou a casa. Quem teria então adulterado a bebida?

Philip Meredith olhou Greco nos olhos: - Vincent Slater, claro. Esse faria tudo pelos Carrington, e quero dizer tudo mesmo. E um daqueles sicofantas que adoram dinheiro e fazem tudo o que os patrões pedem.

- E ele teria então adulterado a bebida da sua irmã, com a ideia de a embriagar, e depois afogá- la? Isso é ir um bocado longe de mais, senhor Meredith.

- Grace estava grávida de sete meses e meio. Se tivesse entrado em trabalho de parto

subitamente, haveria uma grande hipótese de a criança ter sobrevivido. Já tinha tido alguns falsos

alarmes. Não havia tempo a perder. Peter não era esperado em casa senão na noite seguinte. Acredito que Slater adulterou o refrigerante de Grace, misturando-lhe vodca, planeando embriagá-la e deixá- la cair na piscina, depois de ela ter desmaiado. Quando Peter chegou a casa, retirou o copo da mão da minha irmã e despejou-o na carpete, com o mesmo tipo de reacção espontânea que eu próprio tive ontem no tribunal. Aposto que ainda hoje se recrimina por ter perdido as estribeiras com ela. Se tivesse tido tempo para pensar, teria sido o marido benevolente e compreensivo que era habitualmente, quando Grace se embriagava.

- Está a dizer-me que acredita que Slater adulterou a bebida da sua irmã, e que foi Peter quem a afogou na piscina mais tarde, depois de ela ter desmaiado?

- Ou foi Peter, ou foi Slater; um deles deitou-a à piscina, estou convencido disso. Só temos a

palavra de Slater para nos dizer que foi para casa nessa noite. Não me admiraria nada que Slater tivesse ajudado Peter a desfazer-se do corpo de Susan Althorp, também. Não me espantaria que

tivesse sido ele a desfazer-se da camisa de Peter depois de ele a ter morto. Slater é dedicado a esse ponto. E amoral a esse ponto, também.

- Porque não se dirige ao gabinete do procurador com a sua teoria, agora que a sua mãe não terá consciência de que está a quebrar a promessa que lhe fez?

- Porque não quero o nome da minha irmã arrastado pela lama, se calhar sem qualquer resultado.

Posso dar-lhes um motivo e uma teoria, mas inevitavelmente haveria uma fuga de informação, e um jornalista qualquer haveria logo de dar a notícia. Nicholas Greco pensou na entrevista que tivera com Slater, em casa deste. Slater estava nervoso nesse dia. Há qualquer coisa que ele está a esconder, qualquer coisa que

ele tem medo que venha ao de cima. Será o facto de ter participado na morte de Susan Althorp, ou de Grace Carrington, ou até mesmo de ambas?

- Estou interessado em aceitar o caso, senhor Meredith - disse Greco. -

Tenho uma ideia das suas condições financeiras actuais, e estou disposto a reduzir os meus honorários de forma a que se coadunem com elas. Poderemos incluir uma cláusula no sentido de que, caso o senhor receba uma indemnização substancial, eu receberei uma soma adicional.

CAPÍTULO TRINTA E QUATRO

Quase como se tivesse sido empurrado o máximo que era possível, vi que qualquer coisa mudara

em Peter. Ambos dormimos bem, porque estávamos exaustos, mas também, creio eu, porque ambos

tínhamos a sensação de estar no meio de uma guerra. A primeira batalha tinha sido vencida pelo inimigo, e agora tínhamos de reunir forças para aquilo que aí vinha. Quando descemos, às oito e meia da manhã, Jane Barr já tinha a mesa posta para o pequeno- almoço, na sala de jantar mais pequena, com sumo de laranja e café no aparador.

- Porque não? - concordámos, quando ela sugeriu ovos mexidos com bacon, embora eu tivesse prometido a mim própria que não iria render-me a estas ementas. Os jornais da manhã habituais não estavam na mesa.

- Vemo-los mais tarde - sugeriu Peter. - Já sabemos o que lá vai estar.

Jane serviu-nos o café e depois regressou à cozinha para fazer os ovos. Peter esperou que ela saísse antes de voltar a falar.

- Kay - começou -, não preciso de te dizer que isto vai ser um cerco prolongado. O grande júri vai considerar-me arguido, isso já ambos sabemos. Depois, será marcada uma data para o

julgamento, que pode ser daqui a um ano ou mais. Usar a palavra "normal" é simplesmente ridículo, mas vou usá-la de qualquer forma. Quero que a nossa vida seja tão normal quanto for humanamente possível, até eu ir a julgamento e um júri dar um veredicto. Não me deu tempo para comentar estas palavras, antes de ele continuar: - É-me permitido sair daqui para ir a reuniões com os meus advogados. Vou ter de me reunir muitas vezes com eles, e vou fazê-lo em Park Avenue. Vince terá de ser os meus olhos e os meus ouvidos na sede. Vai também passar lá muito tempo. Peter bebeu mais um gole de café. No breve momento em que parou de falar, apercebi-me de que, em menos de duas semanas, me tinha acostumado de tal maneira a ter Vincent Slater constantemente presente, que agora ia parecer esquisito não o ter sempre por ali.

- Gary pode conduzir-nos a Manhattan, e depois trazer-nos de volta -

dizia Peter. - Pretendo conseguir a autorização necessária para ir a Nova Iorque pelo menos três vezes por semana. Havia determinação e orientação na forma como Peter falava, e na sua expressão também. Depois, acrescentou: - Kay, eu sei que nunca seria capaz de fazer mal a alguém. Acreditas nisso?

- Acredito, e tenho a certeza disso - respondi-lhe. Estendemos as mãos por cima da mesa e os

nossos dedos cruzaram-se.

- Acho que me apaixonei por ti no mesmo instante em que te vi pela primeira vez - disse eu. -

Estavas tão embrenhado no teu livro, e parecias tão confortável no teu cadeirão. Depois, quando te levantaste, os óculos escorregaram-te.

- E eu apaixonei-me pela bonita rapariga cujos cabelos estavam a escorregar-lhe do rabo-de-

cavalo. Veio-me à ideia uma passagem de The Highwayman: "E Bess, a filha do senhor das terras, a filha de olhos negros do senhor daquelas terras, estava ali a colocar um laço vermelho nos seus longos cabelos negros." Lembras-te disto, dos tempos do Liceu?

- Claro. O ritmo desse poema tinha uma cadência como a dos cascos dos cavalos. Mas olha que eu era a filha do paisagista, e não do senhor das terras - lembrei-lhe.

- E não tenho olhos negros.

- Mas andas muito perto.

Era estranho, mas, nessa manhã, o meu pai nunca andou longe dos meus pensamentos. Pensei em Maggie a dizer-me, apenas uns dias antes, o quanto ele adorava trabalhar na propriedade dos Car- rington, e o quanto apreciava, em especial, a liberdade de ter a oportunidade de conceber uns jardins

magníficos, sem olhar a custos.

Enquanto devorava os ovos mexidos com o bacon pecaminosamente cheio de colesterol, falei a Peter sobre isso.

- O meu pai era simultaneamente um forreta e um tipo que tinha acessos de generosidade -

respondeu-me. - E é mesmo isso que pretendo fazer ver aos nossos caríssimos advogados. Se Maria

Valdez ia regressar às Filipinas porque tinha a mãe muito doente, era muito natural que o meu pai lhe passasse um cheque para ajudar a pagar as despesas médicas. Porém, nesse mesmo dia, o meu pai é capaz de ter feito um escândalo por causa do preço de um serviço de louça-da-china que Elaine tenha encomendado. Pensei em Peter a dizer-me para contratar um decorador e fazer o que quisesse para redecorar a casa.

- Não me parece que sejas nada parecido com ele - disse-lhe. - Pelo menos, no que toca a fazer mudanças na casa, como me disseste para fazer.

- Em certas coisas, sou como ele, suponho - disse Peter. - Por exemplo, ele detestou quando

Elaine contratou o cozinheiro, o mordomo e a governanta, e as criadas. Tal como o meu pai, eu prefiro ter um casal como os Barr, que vêm todos os dias, mas depois

vão para casa deles à noite. Por outro lado, no entanto, nunca consegui perceber por que razão o meu pai se irritava por causa do dinheiro gasto no dia-a-dia aqui. Creio que o meu pai deve ter herdado alguma parte do velho Carrington que começou apenas com a camisa que tinha no corpo e que fez fortuna com os poços de petróleo; dizem que esse é que era mesmo um unhas-de-fome. Duvido que tivesse pago para ter sementes de relva, quanto mais para ter hectares de plantas caras. Acabámos o pequeno-almoço e Peter começou a organizar o seu dia, tal como tinha planeado. Telefonou a Conner Banks, para o telemóvel, e pediu-lhe para conseguir autorização para ir a Nova Iorque nessa tarde, para uma reunião na firma dos advogados. Depois, passou várias horas ao telefone com Vincent Slater e com executivos da sua empresa. Apercebi-me de que estava desejosa de ir à cidade com Peter. Nesta altura, não fazia sentido eu estar ao lado dele durante as reuniões com os advogados. Queria usar esse tempo para visitar o meu pequeno apartamento. Algumas das minhas roupas de Inverno ainda lá estavam, e havia molduras com fotografias da minha mãe e do meu pai que queria trazer para a mansão. Peter obteve a permissão necessária para sair de casa, e partimos para Nova Iorque ao início da tarde.

- Kay, embora o teu apartamento fique em caminho, acho que vou dizer ao Gary para seguir

directamente para a Park e a Fifty-fourth Street - disse Peter. - Se por qualquer razão estivermos a ser seguidos pela polícia ou pela imprensa, e se alguém tirar uma fotografia do carro a parar à porta do teu apartamento, isso poderia levantar uma questão relativamente a uma infracção às medidas de coacção. Talvez eu esteja a ficar paranóico, mas não posso correr o risco de voltar para a prisão. Compreendi inteiramente, e foi assim que fizemos. Na altura em que chegámos à porta do edifício dos advogados, a chuva tinha, pelo menos, abrandado um pouco. A previsão meteorológica era de que o céu ia limpar, e tudo indicava que essa previsão ia ser exacta. Peter estava vestido com um fato escuro, camisa e gravata. O sobretudo de caxemira azul-escura era de corte impecável, e Peter estava com todo o aspecto do director executivo que era. Quando Gary lhe abriu a porta, deu-me um .beijo breve e disse: - Vem buscar-me às quatro e meia, Kay. É melhor tentarmos fugir ao trânsito da hora de ponta.

Enquanto o via avançar a passos rápidos pelo passeio, não pude deixar de pensar em como era absolutamente incongruente terem-se passado apenas vinte e quatro horas desde que o vira de pé, num fato-macaco laranja, de mãos algemadas, a ouvir a acusação de homicídio ser-lhe lida. Não tinha ainda regressado ao meu apartamento desde o dia em que nos tínhamos casado. Agora, por um lado, parecia-me acolhedor e familiar, mas por outro lado, via, com outros olhos, como era, de facto, pequeno. Peter estivera ali algumas vezes durante o nosso arrebatado e curto namoro. Na nossa lua-de-mel, tinha-me sugerido, casualmente, que eu pagasse o resto do empréstimo e, com excepção de coisas pessoais, me desfizesse de tudo o resto. Eu sabia que ainda não estava preparada para fazer isso. Sim, tinha uma nova vida, mas uma parte de mim não queria cortar completamente com tanta coisa da minha antiga vida. Verifiquei as mensagens no atendedor. Nenhuma era importante, excepto uma que tinha sido deixada nessa mesma manhã por Glenn Taylor, o rapaz com quem andara antes de conhecer Peter. Claro que lhe contara tudo acerca de Peter assim que começara a sair regularmente com ele. "E eu que estava mesmo para

te levar às compras, para te comprar um anel de noivado", dissera Glenn, rindo. Mas eu sabia que só estava meio a brincar. Depois, acrescentara: "Kay, vê se tens a certeza do que estás a fazer. Carrington traz uma grande bagagem às costas." A mensagem de Glenn dessa manhã era simplesmente aquilo de que eu já estava à espera dele - demonstrava preocupação e apoio: "Kay, lamento o que se está a passar com Peter. Que maneira de

começar um casamento

coisa, avisa-me." Foi agradável ouvir a voz de Glenn, e pensei em como tínhamos adorado ir juntos ao teatro, e que

talvez um dia ele e Peter e eu pudéssemos sair para jantar e ir ver uma peça. Depois, percebi que não ia haver noites fora para Peter, a não ser que fosse absolvido no julgamento. Eu estava igualmente detida, percebi de repente, porque soube nesse momento que nunca deixaria Peter sozinho à noite. Recolhi algumas das roupas do armário e coloquei-as na cama. Quase todas tinham etiquetas de lojas baratas. Elaine não vestiria nenhuma daquelas peças, nem morta, pensei. Na nossa lua-de-mel, Peter tinha-me oferecido um cartão American Express Platinum. - Faz compras até caíres para o lado, ou lá como se costuma dizer - dissera-me com um sorriso. Dei comigo a chorar. Não queria um monte de roupa. Se tivesse poder para isso, trocaria de bom grado todo o dinheiro dos Carrington por ter Peter ilibado das acusações de ter morto Susan e Grace. Dei até comigo a desejar que ele se pudesse mudar para o meu pequeno apartamento, e que tivéssemos de nos esforçar para pagar empréstimos para os estudos, tal como Glenn ainda estava a fazer. Tudo para simplificar as nossas vidas. Esfreguei os olhos e fui buscar as fotografias à estante. Havia uma do meu pai e da minha mãe, comigo, no hospital, logo depois de eu ter nascido. Pareciam tão felizes, juntos, sorrindo para a câmara. Eu estava embrulhada num cobertor, era uma criança com o rosto ainda congestionado, espreitando para eles. A minha mãe parecia tão jovem e bonita, com o cabelo espalhado na

almofada

nos olhos. Tinham tanto por que viver, e no entanto ela tinha apenas duas semanas de vida à sua frente, antes daquela embolia que a levou para longe de nós. Quando soube das circunstâncias da sua morte, e que eu ainda estava a mamar no seu peito quando o meu pai a encontrou, tinha cerca de doze anos. Lembro-me de ter cerrado os lábios com força e de tentar imaginar qual seria a sensação de ser amamentada por ela. Tinha mostrado a fotografia do hospital a Peter, da primeira vez que ele ali estivera, e ele tinha

Sei que dás conta do recado, mas lembra-te, se eu puder ajudar em alguma

O meu pai tinha então trinta e dois anos, e ainda tinha uma elegância juvenil e um brilho

dito: - Espero que um dia possamos tirar fotografias como essa, Kay. Depois, pegara na fotografia do meu pai comigo, tirada dias antes de o papá ter levado o carro até àquele local remoto e ter desaparecido no rio Hudson. Peter dissera-me: - Lembro-me muito bem do teu pai, Kay. Interessou-me muito saber as razões por que escolhia esta ou aquela planta. Chegámos a ter algumas conversas muito interessantes.

Ainda a esfregar os olhos, atravessei a sala e fui até à lareira, para ir buscar essa fotografia, para a levar também para casa. Nessa noite, com a anuência de Peter, mudei a fotografia da mãe dele, e outra dele em criança com o pai e a mãe, e coloquei-as por cima da lareira da salinha entre os nossos quartos. Acrescentei as dos meus pais, que tinha trazido do apartamento.

- Os avós

- disse Peter. - Um dia, haveremos de contar tudo sobre eles aos nossos filhos.

- Que lhes hei-de eu contar acerca dele? - perguntei, apontando para a fotografia do meu pai. - Deverei dizer que este é o avô que desistiu da vida e da filha?

- Tenta perdoar-lhe, Kay - disse Peter com suavidade.

- Eu bem tento - murmurei. - Mas não consigo. Simplesmente não consigo.

Fiquei a olhar para a fotografia do meu pai e, embora saiba que parece delirante, nesse momento senti como se ele pudesse ouvir o que eu estava a dizer me estivesse a repreender. Na manhã seguinte, tal como o homem do boletim meteorológico prometera, o Sol brilhava e a temperatura subiu bastante. Às nove horas, ouvi o som de latidos lá fora, e percebi que os cães pisteiros estavam de regresso.

CAPÍTULO TRINTA E CINCO

Nicholas Greco marcara uma reunião com Barbara Krause no gabinete da procuradora às três e meia da tarde de quarta-feira.

- Não estava à espera de a vir visitar tão depressa quando chegou.

- Nem eu, para ser sincera, estava à espera de o voltar a ver tão depressa - disse Krause. - Mas é sempre bem-vindo.

- Estou aqui porque Philip Meredith me contratou para investigar a morte por afogamento da irmã, Grace Meredith Carrington. Krause tinha aprendido há muito a manter uma expressão impenetrável no tribunal, mas não conseguiu disfarçar a surpresa perante esta notícia.

- Senhor Greco, se puder encontrar alguma coisa que nos ajude a ligar essa morte a Peter

Carrington, ficar-lhe-ei muito agradecida - disse-lhe.

- Não sou mágico, senhora Krause. O senhor Meredith confiou-me uma informação que não tenho

permissão para discutir neste momento. O que posso dizer é que proporciona um motivo bastante

forte para Carrington se querer desembaraçar da mulher. No entanto, apesar desse facto, estou seguro de que, em tribunal, nenhum júri sensato o consideraria culpado, para além de qualquer dúvida razoável, baseando-se apenas nesta informação. E por isso que gostaria de ver os vossos dossiês do caso, e que me fosse permitido falar com os investigadores que estiveram no local.

- Isso é fácil. Foi Tom Moran quem chefiou a investigação. Moran está neste momento num

julgamento, mas deve estar disponível dentro de uma ou duas horas. Se quiser, pode esperar no gabinete dele e ver lá o dossiê.

- Isso seria óptimo.

Depois de carregar no botão do intercomunicador e mandar um assistente ir buscar os

documentos, Barbara Krause disse: - Senhor Greco, passámos esse dossiê a pente fino. Nada encontrámos que pudesse servir de prova em tribunal. Por aquilo que me está a dizer, Philip

Meredith andou todo este tempo a reter informações que nos ajudariam no nosso caso. Quer encontre ou não alguma coisa no nosso dossiê que pareça relevante, sugiro que o encoraje a ser totalmente franco connosco. Pode lembrar-lhe que uma admissão de culpa por parte de Carrington abriria a porta a um processo legal de indemnização gigantesco para a família Meredith.

- Tenho a certeza absoluta de que Philip Meredith tem plena noção disso.

E também creio que, por fim, mesmo que eu não encontre nada de novo no dossiê, ele poderá ser persuadido a revelar-lhe aquilo que já me disse a mim.

- Senhor Greco, já me fez ganhar o dia.

Durante a hora e meia seguintes, Nicholas Greco ficou sentado na única cadeira disponível no pequeno gabinete de Tom Moran, para além da dele, fazendo anotações cuidadosas no seu bloco de notas, que trazia sempre na mala. De especial interesse para Greco, nas notas de Moran, era uma referência ao facto de que tinha sido encontrado um papel dobrado no bolso do fato de noite de Grace Carrington, uma página da edição de 25 de Agosto de 2002 da revista Peopk, que continha uma entrevista com a lendária estrela da Broadway, Ma-rian Howley. "Howley tinha acabado de estrear um espectáculo só seu", diziam as notas de Moran. "Embora as páginas estivessem molhadas, eram identificáveis, e continham duas palavras garatujadas na letra de Grace Carrington: "Reservar bilhetes". A folha está agora no dossiê de provas." Grace Carrington planeara ir a um espectáculo da Broadivay, pensou Greco enquanto anotava a data da revista. Isso não era coisa em que uma mulher prestes a cometer suicídio pensaria. Tinha estado outro casal no jantar, na noite em que Grace Carrington se afogara: Jeffrey e Nancy Hammond, que há quatro anos viviam em Englewood. Greco esperou que ainda lá vivessem. Se assim fosse, tentaria falar com eles nos dias seguintes. Gary Barr servira os cocktails e o jantar nessa noite, reparou. Interessante, este senhor Barr, pensou Greco. Trabalhara para os Althorp ocasionalmente, servira até de motorista ocasional de Susan Althorp e das suas amigas. Estivera a servir no jantar de gala na propriedade dos Carrington na noite em que Susan desaparecera, e no pequeno-almoço do dia seguinte. Também estivera na propriedade, na casa da portaria, na noite em que Grace se tinha afogado. O senhor Barr era ubíquo. Pode bem valer a pena fazer-lhe outra visita, pensou Greco. Eram cinco horas, e Moran ainda não tinha voltado ao escritório. Tem estado no tribunal, pensou Greco. Agora, há-de querer ir para casa. Telefono-lhe amanhã e marco uma reunião para uma hora mais conveniente. Percorreu o corredor até ao gabinete de Barbara Krause, para devolver o dossiê de Grace Carrington. Moran estava lá com ela. Krause olhou para Greco como se se tivesse esquecido de que ele existia. Depois, disse: - Senhor Greco, receio que tenhamos de deixar quaisquer outras conversas sobre isto, por agora. Tom e eu estamos de saída para a propriedade dos Carrington. Parece que os cães pisteiros encontraram lá mais ossadas humanas.

CAPÍTULO TRINTA E SEIS

Por vezes, quando eu passava uma hora a contar histórias às crianças mais pequenas na biblioteca, recitava-lhes um dos meus poemas favoritos. Era "A Hora das Crianças", de Harry

Wadsworth Longfellow, e que começa assim: "Entre a escuridão e a luz do dia, quando a noite "

começa a chegar

A luz do dia começava a desaparecer quando ouvi os cães pisteiros a ladrar lá fora; o som vinha do lado oeste da propriedade. Peter tinha ido ao escritório dos advogados, em Manhattan, mais uma vez, mas eu tinha preferido ficar em casa. Sentia-me extremamente cansada e, na verdade, passei a maior parte do dia na cama, a dormitar. Eram quatro da tarde quando finalmente me levantei. Depois, tomei um duche, vesti-me e desci

para a biblioteca de Peter, onde me sentei a ler na sua confortável cadeira, à espera que ele chegasse a casa. Ao ouvir o som do ladrar dos cães, corri para a cozinha. Jane vinha a entrar, vinda da casa da portaria, para fazer o jantar.

- Há mais carros da polícia junto ao portão, senhora Carrington - disse Jane, nervosa. - Gary foi até lá para ver o que se passa. Os cães devem ter encontrado alguma coisa, pensei. Sem me preocupar com vestir um casaco,

corri lá para fora, para o frio anoitecer, e segui o caminho que levava até aos latidos dos cães. Já havia detectives a vedar uma área do lado mais próximo do lago que, no Verão, se enchia de peixes. Havia carros da polícia avançando pelo relvado gelado, com as luzes a piscar.

- Um dos cães desenterrou um osso de uma perna - sussurrou-me Gary Barr.

- Um osso de uma perna?! E acham que é humano? - perguntei. Ali parada, apenas com uma camisola leve, os meus dentes batiam com o frio.

- Estou convencido disso.

Ouvi o som de sirenes que se aproximavam. Vinham mais polícias a caminho. Quem poderia estar ali enterrado? Toda aquela área tinha sido em tempos habitada por tribos índias. Já se tinham encontrado vestígios de túmulos índios por ali, de vez em quando. Talvez fosse um osso de um desses antigos nativos, o que tinham encontrado. Depois, ouvi um dos treinadores dos cães a dizer: - E estava embrulhado no mesmo tipo de plástico que a rapariga Senti as pernas fraquejarem e ouvi alguém a gritar: - Segurem-na! Não desmaiei, mas um detective agarrou-me por um braço, e Gary Barr por outro, enquanto me levavam de regresso a casa. Pedi-lhes que me levassem até à biblioteca de Peter. Estava a tremer quando me deixei cair na cadeira, e Jane foi buscar um cobertor e tapou-me com ele. Disse a Gary para continuar lá fora e me ir trazendo notícias do que se estava a passar. Daí a pouco, lá voltou para me dizer que tinha ouvido alguém a dizer que tinham encontrado um esqueleto humano completo, e que havia uma corrente com um medalhão em volta do pescoço da vítima. Um medalhão! Já tinha suspeitado de que aqueles restos mortais poderiam ser do meu pai. Quando ouvi falar do medalhão, soube imediatamente que tinha de ser um que o meu pai sempre usara, com uma fotografia da minha mãe lá dentro. Nesse momento, soube com toda a certeza que os restos que os cães tinham descoberto eram de carne da minha carne, ossos dos meus ossos.

CAPÍTULO TRINTA E SETE

- Não preciso de mais nenhuma prova de que Carrington matou a minha irmã - disse Philip

Meredith a Nicholas Greco, na manhã depois de os ossos de Jonathan Lansing terem sido encontrados na propriedade dos Carrington. - A minha mulher e eu já falámos sobre isso. Vou ao gabinete da procuradora dizer-lhes tudo. Esse tipo é um assassino em série.

Greco não ficou surpreendido por receber o telefonema de Meredith.

- Acho que é uma ideia muito sensata - respondeu. - E é possível que não venha a ser preciso

tornar pública qualquer informação relativa ao relacionamento da sua irmã com outro homem. Se

Carrington for persuadido a admitir a culpa da morte dela, o público presumirá decerto que ele estava a tentar impedir o nascimento de uma criança com problemas.

- Mas os advogados dele saberão disto, não acha?

- Claro. Mas como com certeza compreenderá, enquanto estiverem a tentar obter o melhor acordo

possível para o seu cliente, não quererão que o público saiba que um homem com a fortuna fabulosa de Carrington seria capaz de cometer um homicídio para poupar dinheiro.

- E assim que ele admita ter morto Grace, posso avançar com um processo de indemnização?

- Sim.

- Sei que pode parecer que o meu primeiro interesse é o dinheiro, mas tem-me custado milhares

de dólares por mês manter a minha mãe no lar, e preciso de ajuda. Não quero ter de a mudar de sítio.

- Compreendo.

- Obrigado pela sua disponibilidade para me ajudar, senhor Greco. Suponho que agora a

procuradora tomará as rédeas. Este é capaz de ser o serviço mais curto que já tive, pensou Nicholas Greco, enquanto concordava amigavelmente com Philip Meredith. Mas, depois de pousar o auscultador, reclinou-se na cadeira. Na Internet, conseguira obter uma cópia da página da revista People que tinha sido encontrada no corpo de Grace Carrington, na noite em que se tinha afogado. Grace usara um fato de noite em cetim, de grávida, quando fora encontrada na piscina. Porque teria posto aquela página no bolso do casaco, em vez de ter deixado a revista aberta sobre a mesa? Greco ficou intrigado. Por vezes, quando tentava visualizar uma situação, Greco perguntava a si próprio: O que teria feito Francês? Neste caso, sabia a resposta. Uma mulher preocupada com a moda nunca teria criado um chumaço desnecessário no bolso de um casaco de cetim de um fato de noite. Em sua própria casa, se visse numa revista alguma coisa que lhe interessasse, Francês colocaria uma marca qualquer na página, ou viraria a revista em cima da mesa, aberta naquela página. Não havia qualquer menção, no dossiê da procuradora, de a revista ter sido levada juntamente com as provas recolhidas pelos investigadores. Tenho de ver em que dia essa edição saiu para as bancas, ou em que dia foi entregue pelo correio, pensou Greco. E estou ainda mais desejoso de ter uma reunião com as visitas que estiveram nesse jantar, o casal de Engle-wood, Nancy e Jeffrey Hammond. Vou seguir este caso, mesmo quebrando uma das minhas regras de ouro, que é nunca trabalhar de graça, pensou Greco, sorrindo para consigo. Como a minha mãe sempre me lembrava, o bom trabalhador merece o seu pagamento.

CAPÍTULO TRINTA E OITO

Cinco dias depois de terem encontrado os ossos do meu pai, deram-me o medalhão e o fio que tinham encontrado à volta do pescoço dele. Tinham-no fotografado e analisado, em busca de possíveis provas, mas depois tinham concordado em entregarem-mo. O laboratório forense tinha limpo vinte e dois anos de verdete do medalhão, até o revestimento a prata aparecer de novo. O medalhão estava fechado, mas a humidade tinha conseguido abrir caminho até ao interior, e a fotografia da minha mãe estava escurecida, embora as feições ainda fossem perceptíveis. Usei a

corrente e o medalhão no dia do funeral do meu pai. Claro que deitaram as culpas da morte do meu pai para cima de Peter. Vincent Slater tinha levado e trazido Peter a Manhattan na tarde em que os ossos tinham sido descobertos, e tinham chegado pouco depois de a descoberta ter sido feita. Slater telefonou imediatamente a Conner Banks, que contactou de imediato com a procuradora Krause. Esta disse-lhe que tinha contactado com o juiz Smith, e que o juiz tinha marcado uma audiência de urgência para as oito horas dessa noite. Disse-lhe também que, embora não fosse apresentar outro mandado de detenção contra Peter, por este recém-descoberto homicídio, isso poderia seguir-se dentro em breve.

Esta noite, planeava apenas requerer ao juiz que elevasse o montante da fiança de Peter e alterasse as medidas de coacção, de forma a que já não lhe fosse permitido sair da propriedade, a não ser em caso de emergência médica grave. Banks disse a Vincent que se encontraria com ele e com Peter na sala de audiências. Eu quis ir com eles, mas Peter recusou-se terminantemente a permitir que eu fosse. Tentei fazê-lo perceber que, após esse terrível primeiro choque, a minha segunda reacção fora de imenso arrependimento por, durante tantos anos, ter estado zangada com o meu pai. Disse-lhe que a raiva que sentira ao ver-me abandonada se transformara agora em profunda piedade por ele, acompanhada por um feroz desejo de descobrir quem o teria morto. Sentada ao colo de Peter, com o cobertor ainda enrolado à minha volta, com a porta da biblioteca fechada, disse-lhe que sabia que ele estava inocente, que sabia disso até ao mais fundo de mim, com cada fibra do meu ser. Maggie telefonou-me assim que viu as notícias locais. Quando Peter percebeu que era ela ao telefone, disse-me para a convidar a vir até nossa casa. Felizmente, Maggie chegou depois de ele e Vincent terem partido para o tribunal. Depois, mandei Jane Barr, que tinha ficado visivelmente perturbada com a descoberta dos ossos do meu pai, para casa.

- O seu pai era um homem adorável, senhora Carrington - disse-me ela, chorando. - E pensar que

esteve ali enterrado todos estes anos Fiquei agradecida por ela ter claramente tanto apreço pelo meu pai, mas não queria ouvi-la. Disse a Gary que fosse para casa com ela. Maggie e eu sentámo-nos na cozinha. Fez-me chá e torradas; nenhuma de nós queria mais do que isso. Enquanto bebíamos o chá e mordiscávamos as torradas, ambas estávamos bem cientes dos

homens que continuavam a escavar a terra no jardim, e conseguíamos ouvir os cães a ladrar enquanto eram levados para trás e para diante pela propriedade. Nessa noite, Maggie aparentava ter cada um de todos os seus dias, dos seus oitenta e três anos. Sabia que ela estava preocupada comigo, e compreendia-a perfeitamente. Ela achava que eu era louca por acreditar na inocência de Peter. E eu sabia que nada que pudesse dizer-lhe a deixaria mais tranquila. Vincent telefonou às nove horas, para me dizer que o juiz tinha aumentado a fiança de Peter em mais dez milhões de dólares, e que um estafeta estava a caminho com um cheque visado desse valor, vindo de Manhattan.

- É melhor ires andando, Maggie - disse eu. - Não gosto que andes a conduzir sozinha à noite, e sei que não queres dar de caras com Peter.

- Kay, não te quero deixar aqui sozinha com ele. Meu Deus, porque hás-de ser tão cega e tão

tonta?

- Porque há-de haver outra explicação para tudo o que aconteceu, e eu vou encontrá-la. Maggie,

assim que saibamos que o corpo do meu pai tenha sido posto à disposição, faremos uma missa de corpo presente privada. Deves ter contigo a escritura do túmulo.

- Sim, está no cofre do banco. Irei buscá-la. Não tragas o teu marido ao funeral, Kay. Estarias a

fazer o teu pai dar voltas no túmulo, se Peter Carrington estivesse lá a fingir que lamenta a morte dele. Foi precisa coragem para Maggie fazer uma declaração como esta, sabendo que isso poderia levar-me a nunca mais lhe falar.

- Peter não poderá ir ao funeral - respondi-lhe -, mas se pudesse, estaria lá, ao meu lado.

Enquanto nos dirigíamos para a porta, disse-lhe: - Maggie, escuta-me. Pensaste que o meu pai

tinha sido despedido por causa da bebida. Isso não era verdade. Pensaste que ele se tinha suicidado por estar deprimido. Isso também não era verdade. Sei que, quando ele desapareceu, ficaste encarregada de vender a casa e de te desfazeres de muita coisa que lá havia.

- Mudei a mobília da sala de estar, do quarto e da sala de jantar para a minha casa - respondeu Maggie. - Sabes disso, Kay.

- E enfiaste a maior parte das tuas coisas no sótão. Mas que mais levaste para tua casa? Que foi feito dos arquivos dos negócios do meu pai?

- Só há um móvel de arquivo. O teu pai nunca foi de guardar coisas.

Mandei os homens das mudanças porem também o arquivo no sótão. Mas era muito alto, por isso puseram-no deitado. O meu antigo sofá está deitado, de pernas para o ar, em cima dele. Não admirava que eu nunca tivesse dado por ele, pensei.

- Vou querer ver esse arquivo dentro em breve - disse-lhe. Parámos junto do bengaleiro e eu dei- lhe o casaco. Ajudei-a a vesti-lo, apertei-lhe os botões e beijei-a.

- E agora, vê se chegas a casa em segurança - avisei. - Pode ainda haver algum gelo na estrada.

Não te esqueças de trancar o carro. E não te esqueças do que te digo: um dia, tu e Peter ainda vão ser grandes amigos.

- Oh, Kay - respondeu-me, suspirando profundamente, enquanto abria a porta e saía. - Não há pior cego do que aquele que não quer ver.

CAPÍTULO TRINTA E NOVE

Durante os últimos dias, Pat Jennings não tinha sabido o que pensar do seu patrão, Richard

Walker. Na segunda-feira, chegara com aquele ar de alívio habitual, que geralmente significava que a mãe lhe tinha pago as dívidas de jogo. Nesse mesmo dia, o meio-irmão de Richard, Peter Carrington, tinha sido acusado de homicídio. No dia seguinte, terça-feira, Walker falara descontraidamente acerca do meio-irmão: - Jantámos com Peter depois de ele ter regressado a casa - contou a Pat. Pat perguntara-lhe acerca da antiga empregada, Maria Valdez.

- Naturalmente, Peter está deprimido com tudo o que aconteceu - explicou Walker. - É

absolutamente desprezível essa mulher vir agora mudar a história que contou, e vir manchar a memória do meu padrasto. Espero que me chamem a depor. Poderei dizer em primeira mão como o velhote tinha acessos de generosidade espontânea. Lembro-me de uma noite em que estava a jantar no 21, com ele e a mãe. Alguém veio até à nossa mesa falar de uma causa nobre qualquer, e Carrington sénior puxou do livro de cheques e passou logo um cheque de dez mil dólares, ali mesmo. Depois, no fim do jantar, deixou uma gorjeta miserável ao empregado. Walker também falara a Pat sobre a mulher de Peter, Kay.

- Uma rapariga absolutamente maravilhosa - elogiou. - Precisamente aquilo de que Peter

precisava há anos. Por aquilo que vi, mesmo com todo o dinheiro que tem, nunca teve muita felicidade. Na quarta-feira de manhã, Walker chegara à galeria com uma bonita e jovem artista atrelada,

Gina Black. Tal como as suas antecessoras, Gina foi apresentada a Pat como sendo um brilhante talento, alguém cuja carreira ia desabrochar sob a direcção de Walker.

- Hum, hum

- fora a reacção de Pat.

Tinha ouvido as notícias acerca da descoberta dos ossos nos terrenos da propriedade na quinta- feira à noite, quando ela e o marido estavam a ver os noticiários. O facto de se tratar do corpo do pai de Kay Carrington foi-lhe revelado na manhã seguinte por Walker.

- Ainda não estão a divulgar nenhuns pormenores - confiden-ciara-lhe -, mas os ossos tinham uma corrente com um medalhão em volta do pescoço, com uma fotografia da mãe de Kay lá dentro. A

minha mãe está a ficar em pânico. Estava no apartamento dela em Nova Iorque e soube disto quando ligou a televisão. Disse-me que quando tinham andado a fazer buscas com os cães na propriedade, antes de começar a chover, há dias, perguntou aos detectives se achavam que aquele lugar era algum cemitério

- Dois corpos encontrados na propriedade

- disse Pat. - Nem que me pagassem eu vivia lá.

- Nem eu - concordou Walker, enquanto passava pela secretária dela e se dirigia para o seu gabinete.

- Vou estar ao telefone por um bom bocado. Não me passe chamadas.

Jennings viu Walker fechar a porta do gabinete com força suficiente para se ouvir um clique decidido. Vai estar ao telefone com o corretor de apostas, pensou. Vai andar outra vez enfiado em dívidas de jogo até às orelhas, não tarda nada. Gostava de saber quando é que a mãe vai finalmente deitar as mãos à parede e dizer-lhe que se desenrasque sozinho. Pegou no seu exemplar do New York Post, que tinha enfiado na última gaveta da secretária. No

autocarro em que viera até à Fifty-seventh Street, lera por alto a página seis, mas agora estava a lê-la linha a linha. Coitada da Kay Carrington, pensou. Como será estar casada com um homem que é obviamente um assassino em série? Deve estar sempre preocupada com a possibilidade de um dia acordar morta. Só houve uma chamada na hora seguinte, de uma mulher que dera como nome Alexandra Lloyd. Tinha telefonado na semana anterior, e Walker não tinha retribuído a chamada. Perguntou se ele tinha recebido a sua mensagem.

- Recebeu a mensagem, sem dúvida nenhuma - disse Jennings com firmeza. -

Mas vou relembrá-lo.

- Por favor, fique de novo com o meu número e diga-lhe que é muito importante, sim?

- Com certeza.

Trinta minutos mais tarde, quando Walker abriu a porta do gabinete, Pat pôde aperceber-se da

excitação na cara dele, muita corada. Não deve haver um único cavalo a correr hoje, seja onde for, em que ele não tenha apostado, pensou.

- Richard - disse Pat -, deixei um bilhete na sua secretária na semana passada a avisar de que

uma tal Alexandra Lloyd tinha telefonado. Acabou agora de telefonar de novo e disse que era muito importante que lhe telefonasse. Entregou-lhe o papel com o número da mulher. Richard pegou no papel, rasgou-o e regressou ao

gabinete. Desta vez, fechou a porta com estrondo.

CAPÍTULO QUARENTA

- A força do golpe que matou Jonathan Lansing foi tão grande que a parte de trás do crânio ficou

metida para dentro - disse Barbara Krause, enquanto lia o relatório da autópsia. - Gostava de saber em que pensará agora Kay Lansing, quando olha para o marido. Tom Moran encolheu os ombros.

- Se não ficar nervosa quando fica em casa sozinha à noite com aquele tipo, começo a interrogar- me se será mentalmente sã.

- Desta vez, podemos ter a certeza de que Carrington teve alguém a ajudá-

lo - continuou Krause. - Não deixou o carro de Lansing naquele local remoto para depois trazer o corpo para casa à boleia. Alguém teve de o trazer para casa.

- Estive a ver o nosso dossiê da altura em que Lansing desapareceu e o caso foi arquivado como

provável suicídio. A companhia de seguros suspeitou que se tratasse de uma fraude. Mandaram os seus próprios investigadores bater toda a área onde o carro foi encontrado. Um tipo como Peter Carrington dá sempre nas vistas. Tem aquele ar especial. Nem que estivesse vestido com roupas usadas do Exército de Salvação, seria sempre reconhecido. Ninguém correspondente à descrição de Carrington foi visto a entrar num autocarro, nem alugou nenhum carro naquela zona. No mínimo, se

foi ele que levou o carro de Lansing até lá, alguém estava aí à espera dele para regressarem juntos.

- Lansing foi despedido, supostamente, por causa dos problemas de alcoolismo - disse Krause. -

Mas suponhamos que havia outra razão. Suponhamos que alguém tivesse receio de que ele pudesse vir a constituir uma ameaça. Foi despedido duas semanas depois de Susan Althorp ter desaparecido. Supostamente, suicidou-se duas

semanas mais tarde. Nessa altura, a polícia já tinha passado revista minuciosa aos terrenos com os cães pisteiros, incluindo os terrenos fora da vedação. Krause tinha a cópia dos desenhos de Lansing na secretária.

- A questão é saber se ele fez estes desenhos depois de o corpo de Susan ter sido enterrado

naquele terreno. Se o fez, assinou a sua própria sentença de morte. Olhou para o relógio.

- É melhor ires andando. O funeral de Lansing é às sete horas. Mantém os olhos bem abertos para veres quem aparece por lá.

CAPÍTULO QUARENTA E UM

Fiz as diligências necessárias para que a missa de corpo presente do meu pai fosse celebrada na igreja mais próxima do cemitério Ma-ryRest, onde a minha mãe está sepultada. Fica em Mahwah, uma vila a cerca de vinte minutos a nordeste de Englewood. Tinha esperança de que conseguiria manter o local e a hora da missa e do funeral privados, mas, quando chegámos à igreja, os fotógrafos estavam lá em força. Maggie e eu tínhamos sido levadas pelo motorista da agência funerária. No caminho pela nave da igreja, vi caras familiares: Vincent Slater, Elaine, Richard Walker, os Barr. Sabia que estavam a planear ir ao funeral, mas não quis chegar em grupo com eles. Eu não fazia parte do mundo deles quando o meu pai morreu. Durante estas últimas horas, quis separar-me deles. Quis manter o meu pai só para mim. Na minha dor, até me sentia isolada de Maggie. Sabia que ela tinha amado o meu pai, e que tinha

ficado muito feliz quando ele e a minha mãe casaram. Acredito que, depois da morte da minha mãe, Maggie encorajou-o a sair com outras mulheres, mas, conhecendo-a, tenho a certeza de que tinha secretamente prazer em que ele não tivesse podido, ou não tivesse querido, fazê-lo. Por outro lado, Maggie sempre me falara mal dele por causa da bebida, se bem que eu pense que exagerava essas histórias, para assim poder dar algum sentido ao seu desaparecimento. A igreja estava cheia de gente, principalmente amigos de Maggie, e por isso soube que ela não

fora capaz de manter a promessa que me tinha feito, de que não revelaria onde o funeral iria ter lugar. Mas depois, vi as lágrimas nos olhos dela e o meu coração condoeu-se. Dissera-me uma vez que nunca conseguia ir a um funeral sem que acabasse por reviver a dor do funeral da minha mãe. Sentei-me no banco da frente, na igreja, a apenas uns centímetros da urna, com os dedos a tocar na corrente com o medalhão que, até então, tinha estado ao pescoço do meu pai, durante todos aqueles anos. Não conseguia parar de pensar que devia ter sabido que ele não se podia ter suicidado. Que nunca me teria abandonado. Maggie começou a chorar quando a solista começou a cantar o Ave Maria, tal como tinha sido cantado na missa pela minha mãe. Ave, Ave, Ave Maria. Quantas vezes, ao longo dos anos, eu ouvira já esta canção? Já tinha ouvido esta canção antes. Enquanto as últimas e belas notas se desvaneciam no silêncio, comecei, por qualquer razão, a pensar naquele episódio, há tantos anos, na capela da mansão. Poderia aquela cena entre um homem e uma mulher ter mais significado e importância do que eu alguma vez me apercebera? Este pensamento passou-me pela cabeça, e depois desapareceu. A missa terminou. Segui o caixão pela nave central. Fora da igreja, a imprensa acercou-se de mim. Um dos jornalistas perguntou: - Senhora Carrington, incomoda-a o facto de o seu marido não poder estar consigo, neste dia difícil da sua

vida?

Olhei directamente para a câmara. Sabia que Peter teria a televisão ligada, para o caso de os media cobrirem o funeral.

- O meu marido, como devem saber muito bem, não está autorizado a sair da nossa propriedade.

Está inocente da morte de Susan Althorp, inocente da morte da primeira mulher, e inocente da morte do meu pai. Desafio Barbara Krause, a procuradora de Bergen Coun-ty, a lembrar-se do princípio legal e moral de que, neste país, uma pessoa é sempre considerada inocente até prova em contrário. Senhora Krause, presuma que o meu marido está inocente de qualquer crime, e depois olhe com uma visão mais distanciada para os factos que rodeiam estas mortes. Asseguro-lhe que é isso que eu própria pretendo fazer. Nessa noite, quando nos fomos deitar, Peter chorou enquanto eu o segurava nos meus braços.

- Não te mereço, Kay - sussurrou-me. - Não te mereço.

Três horas mais tarde, acordei. Peter já não estava na cama. Com uma terrível sensação de premonição, atravessei a correr a salinha, e fui ao outro quarto. Também não estava lá. Depois, no acesso à casa, ouvi o som de pneus a chiar. Corri para a janela mesmo a tempo de ver o Ferrari de Peter avançando a grande velocidade para

o portão. Quinze minutos mais tarde, carros da polícia, alertada pelo sistema de monitorização que seguia

a pulseira electrónica de Peter, convergiram na direcção dele, enquanto ele se ajoelhava na relva gelada da residência dos Althorp. Quando um polícia tentou prendê-lo, Peter deu um salto e

esmurrou-lhe a cara.

- Estava a ter um episódio de sonambulismo - disse eu a Con-ner Banks, mais tarde nessa manhã, no interrogatório em tribunal. - Nunca sairia da propriedade se assim não fosse. Mais uma vez, Peter foi trazido à sala de audiências vestido com um fato cor de laranja da prisão. Desta vez, para além das algemas, tinha correntes nos tornozelos.

Escutei, num estado quase de dormência, enquanto lhe eram lidas as novas acusações: Infracção

às regras de fiança

agressão a um agente da autoridade

risco comprovado de fuga

O juiz não demorou muito a chegar a uma decisão. A fiança de vinte milhões de dólares foi

revogada. Peter ficaria sob prisão.

- Ele é sonâmbulo - insisti junto de Banks e de Markinson. - Ele é sonâmbulo.

- Baixe a voz, Kay - apressou-se Banks a censurar-me. - O sonambulismo não é defesa neste país.

Na verdade, até há dois tipos no país a cumprirem penas de prisão perpétua porque mataram alguém durante episódios de sonambulismo.

CAPÍTULO QUARENTA E DOIS

A gravação chocante que a polícia tinha feito de Peter Carring-ton, ajoelhado no relvado da

residência dos Althorp, e depois a agredir o polícia que se aproximara dele, fez Nicholas Greco interrogar-se se faria algum sentido manter o encontro que tinha marcado com Nancy e Jeffrey Hammond, o casal que tinha estado como convidado no jantar da noite em que Grace Carrington se afogara. Explicando que tinham estado ausentes, de visita a familiares na Califórnia, Nancy Hammond telefonara-lhe depois de ouvir a mensagem no atendedor, e convidara-o para ir lá a casa.

O casal vivia numa rua agradável de Englewood, onde a maior parte das casas era mais antiga e

tinha grandes alpendres e toldos; eram casas do tipo que se construía no final do século xix. Greco subiu os cinco degraus que separavam a casa do passeio e tocou à porta. Nancy Hammond veio abrir a porta, apresentou-se e convidou-o a entrar. Era uma mulher pequena, que parecia estar no seus quarenta e poucos anos, com um cabelo prateado que lhe emoldurava e suavizava de forma feliz as feições um pouco quadradas.

- Jeff acabou de chegar a casa há uns minutos - disse ela. - Desce já.

Ah, aí vem ele

Jeffrey Hammond vinha a descer do andar de cima.

- É assim que a minha mulher me apresenta? - disse, com os olhos muito abertos. - Aí vem ele?

A impressão imediata de Greco foi de um homem alto, de quarenta e muitos anos, que lhe fazia

- acrescentou.

lembrar o astronauta John Glenn. Tal como Glenn, tinha rugas de expressão nos cantos dos olhos. Estava a ficar calvo, e não fazia quaisquer tentativas para disfarçar isso. Uma embirração particular de Greco era ver homens que não conseguiam lidar com a inevitabilidade da sua estrutura de ADN. Conseguia detectar uma cabeleira postiça a um quilómetro; e, pior ainda aos seus olhos, era ver um homem com aqueles penteados em que se puxa o cabelo de um lado para tapar o alto da cabeça, com uma camada de brilhantina. Greco fizera um perfil completo do casal antes de lá ir, e achava que a história da família era aquilo que seria de esperar em amigos de Grace Carrington. Boas e sólidas famílias de ambos os lados: o pai dela tinha sido senador; o avô dele, membro do gabinete da presidência. Ambos eram bem-educados, e tinham um filho de dezasseis anos que estava actualmente num colégio interno. Jeffrey Hammond trabalhava como angariador de fundos numa fundação. Nancy Hammond trabalhava

em part-time no gabinete do congressista local, em funções administrativas. Tinha explicado, tanto na mensagem que deixara, como na conversa telefónica, por que razão

queria falar com eles. Enquanto os seguia até à sala de estar, observou os pormenores da casa. Um deles era, obviamente, músico. Um grande piano com livros de música dominava a sala. Fotografias de família cobriam a superfície do tampo do piano. A mesinha tinha diversas revistas, todas empilhadas ordenadamente: National Geographic, Time, Newsweek. Greco reparou que todas as revistas tinham aspecto de terem sido efectivamente lidas. O sofá e as cadeiras eram de boa qualidade, mas precisavam de ser forrados de novo. A impressão geral com que ficou foi a de uma casa agradável, com pessoas inteligentes. Assim que se sentaram, foi direito à razão da sua visita.

- Há quatro anos, prestaram declarações à polícia acerca do comportamento de Grace Carrington, no jantar que partilharam com ela, na noite em que morreu. Jeffrey Hammond olhou para a mulher.

- Nancy, pensei que Grace parecia completamente sóbria quando chegámos.

Mas tu não concordaste.

- Estava agitada, até mesmo inquieta - disse Nancy Hammond. - Nancy estava grávida de sete

meses e meio, e tinha por vezes dores de parto falsas. Estava a esforçar-se por se manter afastada da bebida. Estava esgotada. A maior parte das amigas dela estava na cidade, e entrava e saía do apartamento a toda a hora. E Grace adorava festas. Mas o médico tinha-lhe dito para descansar muito e penso que ela se sentiu mais segura na mansão do que em Nova Iorque. Mas claro que aí aborrecia- se.

- Obviamente, a senhora conhecia-a bastante bem - comentou Greco.

- Foi casada com Peter durante oito anos. Durante todo esse tempo, fomos sócias do mesmo

ginásio em Englewood. Sempre que ficava na mansão, ia fazer exercício para o ginásio. Tornámo- nos amigas.

- Ela entrava em confidências consigo?

- Confidências é uma palavra demasiado forte. Só houve uma vez em que baixou a guarda e

chamou a Peter um génio rico e um cara de pau.

- Então, não crê que ela estivesse deprimida?

- Grace andava preocupada com o problema da bebida. Sabia que tinha um problema. Queria

aquele bebé desesperadamente, e tinha sempre consciência de que já tinha tido três abortos

espontâneos. Calculo que já tivesse tomado uma bebida antes de lá termos chegado, e depois, de alguma maneira, lá foi conseguindo beber outras disfarçadamente. Por uma série de razões, queria que o bebé que traria no ventre vivesse, pensou Greco. A menor das quais não seria, possivelmente, o facto de o bebé ser o seu bilhete de passagem para um rendimento vitalício de vinte milhões de dólares por ano. Virou-se para Jeffrey Ham-mond.

- E o senhor, o que acha, senhor Hammond? Jeffrey Hammond pareceu pensativo.

- Estou constantemente a rever essa noite na minha cabeça - disse Jeffrey. - Concordo que Grace parecia inquieta quando lá chegámos, e depois, infelizmente, ao longo da noite, começou a entaramelar as palavras e começou a ter dificuldade em manter-se direita.

- Alguém tentou fazê-la parar de beber?

- Quando me apercebi disso, já era demasiado tarde. Ia ao bar e deitava vodca puro directamente

no copo. Antes do jantar, afirmara estar apenas a beber refrigerante com uma rodela de limão.

- Disse isso apenas para nos convencer - disse Nancy Hammond secamente. -

Tal como a maior parte dos alcoólicos, devia ter uma garrafa escondida algures. Talvez no lavabo.

- Estava à espera de que o marido chegasse a horas do jantar? - perguntou Greco.

- Lembre-se de que este jantar não foi um acontecimento planeado - disse Jeffrey Hammond. -

Grace só telefonou a Nancy na noite anterior para perguntar se estaríamos livres. Ao princípio da

noite, disse-nos que o aniversário de Richard Walker estava a aproximar-se, e que por isso diríamos que era uma festa de aniversário em honra dele. Não havia lugar posto à mesa para Peter.

- Grace referiu um artigo que tinha lido na People acerca da actriz Marian Howley? - perguntou Greco.

- Sim, referiu - respondeu Nancy Hammond prontamente. - Na verdade, tinha a revista aberta

nessa página quando chegámos, e deixou-a aberta. Comentou que Marian Howley era uma actriz espantosa, e disse que ia reservar bilhetes para a nova peça dela, que conhecera pessoalmente Howley em festas de beneficência, e que ela tinha um imenso bom gosto. Depois do jantar, quando estávamos a tomar o café, voltou a falar muito de Howley, e repetiu-se muitas vezes, como é costume as pessoas embriagadas fazerem, insistindo repetidamente que a actriz tinha um gosto excelente.

Depois, rasgou essa página da revista, enfiou-a no bolso do casaco e atirou a revista para o chão.

- Não a vi fazer isso - disse Jeffrey Hammond.

- Nessa altura, tu e todos os outros já não lhe prestavam atenção nenhuma. Isto foi apenas uns

minutos antes de Peter chegar, e de se ter zangado com ela. Viemos embora uns minutos mais tarde. Greco percebeu que estava desiludido. Tinha ali vindo esperançoso de apanhar qualquer coisa mais, de perceber se haveria algum significado especial na página amarrotada no bolso de Grace Carring-ton. Levantou-se para partir.

- Não vos roubo mais tempo - disse-lhes. - Foram muito amáveis.

- Senhor Greco - disse Nancy Hammond -, nestes últimos quatro anos, nunca acreditei que a

morte de Grace fosse mais do que um simples acidente, mas depois de ver as imagens de Peter Carring- ton a agredir o polícia em frente à casa dos Althorp, mudei de ideias. Aquele homem é um

tarado, e consigo perfeitamente imaginá-lo a pegar em Grace, depois de ela ter desmaiado no sofá, e a levá-la até à piscina, para a deitar para a água. Gostava de lhe poder dizer alguma coisa que o ajudasse a incriminá-lo pela morte dela.

- Também eu - concordou Jeffrey com firmeza. - É uma pena que Nova Jérsia vá, quase de

certeza, eliminar a pena de morte. Greco ia para concordar quando viu qualquer coisa que lhe fez um arrepio. Era uma expressão de angústia em estado puro nos olhos de Jeffrey Hammond. Com um instinto que raramente lhe falhava, Greco supôs que tinha dado com a identidade do homem que tinha sido amante de Grace Carrington.

CAPÍTULO QUARENTA E TRÊS

Depois da audiência, a procuradora permitiu-me regressar à cela onde Peter estava detido, antes de regressar à prisão. Continuava algemado e com correntes nos tornozelos. Tinha a cabeça caída, os olhos fechados e, enquanto eu o estudava, o meu coração parecia rebentar. Todo o corpo dele parecia tão abatido que dava a impressão de ter perdido dez quilos desde o dia anterior. Tinha o cabelo em desalinho e uma palidez assustadora, por detrás da barba que lhe despontava na cara.

A cela tinha um lavatório encardido a um canto, e um cheiro desagradável pairava na área onde estava situada. Peter deve ter sentido a minha presença, porque levantou a cabeça e abriu os olhos. Com uma voz composta, mas com os olhos implorando compreensão, disse-me: - Kay, eu não estava a tentar fugir,

ontem à noite. Sonhei que tinha de encontrar qualquer coisa, e depois que alguém me estava a atacar. Kay, eu bati realmente no polícia, ontem à noite. Aleijei-o. Talvez eu seja Interrompi-o.

- Eu sei que não estavas a tentar fugir, Peter. Vamos fazê-los compreender isso.

Peter tinha dado um passo atrás, como se estivesse com medo de que eu o rejeitasse. Mas depois aproximou-se das grades e ergueu as mãos, para cruzar os dedos dele com os meus. Reparei que a pulseira electrónica já não estava no pulso dele. Cumprira a sua missão, pensei, com amargura.

Alertara a polícia de que Peter tinha saído da propriedade. Era dinheiro bem gasto pelo estado de Nova Jérsia.

- Kay, quero que te divorcies de mim e sigas com a tua vida.

Foi então que me fui completamente abaixo e comecei a soluçar descontroladamente, irritando- me comigo própria por estar apenas a tornar tudo ainda mais difícil para ele.

- Oh, Peter! Peter! Não digas isso Tentou acalmar-me.

Nem sequer penses numa coisa dessas

- Kay, eles estarão aí daqui a um minuto. Escuta-me. Não te quero sozinha em casa. Leva a tua avó, ela que fique lá contigo. Abanei a cabeça: - Não! Foi então que um agente do xerife entrou.

- Lamento, senhora Carrington, vai ter de sair - disse-me o agente.

Ainda a tentar calar os meus soluços, disse a Peter: - Vou saber quando te poderei visitar. Vou

- Kay, tens de tratar do seguinte imediatamente - disse Peter. - Quero que digas a Vincent para

contratar uma empresa de segurança hoje mesmo. Quero vigilância em casa vinte e quatro horas por dia. Não podes ficar lá sozinha se não houver segurança. Era uma declaração de um marido protector. Peter receava por mim. Olhei para ele com atenção. O agente agarrou-me pelo cotovelo para me levar dali. Mas não me

mexi. Tinha uma coisa que precisava de dizer, e não me importava nada de que o agente estivesse ali a ouvir: - Peter, vou dar uma festa de boas-vindas de arromba para ti quando este pesadelo tiver acabado. Fui recompensada por um sorriso triste. Depois, Peter disse-me: - Ah, Kay, queira Deus que eu possa acreditar que isso vai acontecer mesmo. Na manhã seguinte, todo o contingente da equipa legal de defesa de Peter se reuniu na mansão. Walter Markinson e Conner Banks estavam lá, evidentemente. Os outros dois advogados principais tinham vindo de avião: Saul Abramson de Chicago, e Arthur Robbins de Boston. Vincent Slater tomou o seu lugar habitual à mesa. Os Barr tinham colocado o habitual chá, café e bolinhos, bem como garrafas de água, no aparador. Tudo era igual, com a excepção de que Peter não estava sentado à cabeceira da mesa. Em vez disso, tomei o lugar dele. Se a atmosfera já era negra na semana anterior, desta vez era definitivamente sombria. Conner Banks abriu o debate.

- Kay, se isso puder servir-lhe de algum conforto, o relatório da polícia da noite de anteontem

indica que Peter estava desorientado e confuso, que tinha uma expressão alheada nos olhos, e que não respondeu às ordens para se mexer depois de ter sido algemado. Quando iam no carro da polícia, começou a perguntar aos agentes o que se tinha passado e por que razão estava ali. Até disse: "Não me é permitido sair de casa, não me quero ver metido em sarilhos." Fizeram testes para drogas, mas ele não tinha nada no organismo, e por isso penso, pelo menos, que eles não acham que Peter estivesse a fazer uma encenação.

- E não estava.

- Temos de ter acesso ao historial clínico de Peter - disse Markinson. -

Ele tem uma história de episódios de sonambulismo? Antes que eu pudesse responder, Vincent Slater disse: - Sim, tem. Conseguia ver gotas de suor na testa e no lábio superior de Slater. "Os cavalos suam; os homens transpiram; as senhoras brilham", recitava sempre Maggie durante a minha juventude, quando eu

chegava a casa depois de um jogo de ténis e dizia qualquer coisa acerca de transpiração. Lembrar- me disso neste momento em particular fez-me pensar que quem estava numa espécie de estado de alienação total era eu.

- O que sabe acerca do sonambulismo de Peter? - estava Markinson a perguntar a Slater.

- Como sabem, tenho trabalhado para a família Carrington desde o dia em que saí da faculdade.

A mãe de Peter morreu quando ele tinha doze anos. Nessa altura, eu tinha vinte e quatro anos, e o senhor Carrington pai nomeou-me como uma espécie de irmão mais velho de Peter. Em vez de o mandarmos para a escola com um motorista, seria eu a levá-lo e a trazê-lo, ajudando-o a adaptar-se. Esse tipo de coisas. Quando chegavam as férias, o pai de Peter, muitas vezes, estava ausente, e se Peter não fosse convidado para ficar em casa de algum amigo, era eu que o levava a esquiar, ou a velejar. Ouvi, com o coração apertado, a história acerca daquele rapazinho que tinha de ter alguém destinado a mantê-lo ocupado durante os momentos em que a maior parte dos miúdos regressa a casa

para estar com a família. Interroguei-me se Slater teria gostado desse trabalho, ou se apenas o usara para cair nas boas graças do pai de Peter e, por fim, do próprio Peter.

- Isto é um assunto que eu nunca teria mencionado, a não ser como agora, para ajudar Peter -

disse Slater. - Eu próprio presenciei pelo menos três episódios de sonambulismo.

- Que idade tinha Peter, nessa altura? - Banks disparou-lhe a pergunta.

- Tinha treze anos, da primeira vez. Foi aqui em casa. Tinha ido para a cama, e eu estava a ver

televisão na sala que hoje uso como escritório. Ouvi um ruído e saí para investigar o que seria. Peter estava na cozinha, sentado à mesa, com um copo de leite e bolachas à frente. O pai dele tinha-me avisado de que ele já tinha tido alguns episódios de sonambulismo, e calculei imediatamente que estava a presenciar um desses episódios.

Peter bebeu o leite, comeu as bolachas, colocou o prato e o copo no lava-loiças e saiu da cozinha. Passou apenas a centímetros de mim e não me viu. Segui-o até lá acima e vi-o meter-se de novo na cama.

- Ouve algum episódio em que ele tenha demonstrado violência? - perguntou Conner Banks.

- Quando Peter tinha dezasseis anos, eu e ele estávamos em Snowbird, a esquiar durante umas

férias escolares. Tinha uma suite de dois quartos na estalagem. Tínhamos passado o dia a esquiar, e fomos para a cama por volta das dez horas. Cerca de uma hora depois, ouvi-o a pé e fui ao seu quarto. Estava completamente vestido, com a roupa de esqui. Percebi que não devia acordá-lo, por isso fui atrás dele, para me assegurar de que não se magoava. Desceu as escadas. Ainda havia gente no bar, mas ignorou as pessoas e foi para o

exterior. Eu tinha vestido um casaco grosso por cima do pijama, por isso segui-o no exterior; mas

descalço. Os seus esquis estavam guardados lá fora, mas ele tinha a chave do cadeado e pegou neles.

- Destrancou um cadeado enquanto estava a dormir? - perguntou Markinson, incrédulo.

- Sim. Depois, começou a caminhar em direcção ao elevador. Não podia deixá-lo ir. Tinha a

certeza de que o elevador era seguro, mas, por outro lado, não fazia ideia do que ele poderia fazer a seguir. E lembrem-se de que eu estava descalço. Corri atrás dele e chamei-o pelo nome. Tive receio de ouvir o que Vincent ia dizer-nos a seguir.

- Peter girou sobre os calcanhares e, quase da mesma forma como atacou ontem o polícia, atacou-

me a mim também. Consegui des-viar-me, mas a ponta de um dos esquis apanhou-me na testa, mesmo acima do olho - Slater apontou para a sobrancelha esquerda. - Esta cicatriz é a prova do que aconteceu nessa noite.

- Houve mais alguns episódios de sonambulismo de Peter depois dessa noite? Desta vez, a pergunta viera de Arthur Robbins, o advogado de Boston.

- Não, de que eu tenha conhecimento. Só falo nisto porque talvez, de alguma forma, isso possa mostrar um padrão que poderá ser útil na defesa de Peter.

- Foi seguido por algum médico depois desse incidente alarmante na estância de esqui? -

perguntou Conner Banks.

- Foi, por um médico já de idade do Hospital de Englewood. Isso foi há vinte e cinco ou vinte e

seis anos, por isso duvido de que ainda esteja vivo, mas talvez os registos médicos dele ainda estejam arquivados algures.

- Tanto quanto sei, os rapazes têm mais probabilidades de ser sonâmbulos do que as raparigas, e parece que isso começa geralmente na adolescência - disse Markinson.

- No entanto, não tenho a certeza de que dar à acusação a informação de que Peter teve um

incidente violento de sonambulismo há vinte e seis anos o possa ajudar de alguma maneira.

- Houve outro incidente na semana passada - disse-lhes eu. - Foi logo depois de termos

regressado do tribunal. Expliquei-lhes que Peter tinha ido descansar um pouco e que, quando eu fora ver se estava bem, o tinha encontrado de pé, com uma mala aberta à frente, parcialmente já cheia, em cima da cama. Não lhes contei do incidente de sonambulismo na noite em que tínhamos regressado da lua-de- mel. Não conseguiria pôr por palavras o facto de ele ter o braço mergulhado na piscina como se estivesse a empurrar ou a puxar qualquer coisa. Pensei que estes advogados estavam a ser pagos principescamente para defenderem o meu marido, mas também que a minha informação poderia, na verdade, levá-los a acreditar que ele tinha sido responsável pela morte de Grace. Receei que, mesmo estando a trabalhar para o conseguirem absolver, nas suas cabeças pudessem pensar: "Culpado!"

CAPÍTULO QUARENTA E QUATRO

- Os advogados vão ficar para o almoço - disse Jane Barr ao marido, quando este regressou dos

recados que o tinha mandado fazer. - Não achas que três horas seguidas já deviam bastar? A senhora Carrington está com um aspecto terrível. Acredita: aquela rapariga vai ficar doente.

- Tem sido muito duro para ela - concordou Gary Barr, enquanto pendurava o casaco no armário

perto da porta da cozinha.

- Fiz uma canja - disse Jane, desnecessariamente. O odor da galinha cozida, da cebola e do aipo

enchia toda a cozinha. - Vou fazer uns biscoitos e uma salada com queijo. Nenhum deles é vegetariano. Gary Barr conhecia bem a mulher. Durante as duas últimas semanas, desde que os restos mortais

de Susan Althorp tinham sido encontrados, Jane andara agitada. Observou-a enquanto ela se dirigia para o lava-loiças e começava a lavar a alface. Aproximou-se por detrás dela.

- Sentes-te bem? - perguntou, timidamente.

Jane virou-se de repente, com o rosto contorcido de raiva e culpa.

- Não há melhor pessoa no mundo que Peter Carrington, e está agora na prisão porque

- Não digas isso, Jane - ordenou Gary Barr, com o rosto, também ele, num esgar de raiva. - Não

digas isso, e nem sequer penses nisso. Porque não é verdade. Juro pela minha alma imortal que não é verdade. Acreditaste em mim há vinte e dois anos. É melhor continuares a acreditar em mim agora, ou podemos bem vir a viver debaixo do mesmo tecto que Peter Carrington outra vez, mas não me refiro a esta casa.

CAPITULO QUARENTA E CINCO

- Não encontrei no dossiê qualquer referência à revista que Gtace Carrington esteve a ler antes de ter morrido - disse Nicholas Greco a Barbara Krause, sentando-se no gabinete desta.

- Tanto quanto sei, tinha sido deitada fora - disse Krause. - Grace tinha rasgado uma folha da revista porque queria reservar bilhetes para um espectáculo que tinha acabado de estrear na Broadway.

- Sim, foi o que eu percebi também. Encontrei-me com os Hammond, o casal que esteve no jantar dessa noite, e falámos disso.

- Interrogámo-los, na altura - respondeu Krause. - Nas declarações deles, ambos confirmaram

que Grace tinha estado a beber e que Peter chegou depois a casa e fez uma cena. Os Hammond saíram pouco depois disso. É uma pena que Philip Meredith não nos tenha dito logo, há quatro anos, que Grace estava envolvida com outro homem, embora ela nunca lhe tenha dito quem era esse homem. Era óbvio para Greco que Krause não partilhava das suas suspeitas de que Jeffrey Hammond tinha sido esse "outro homem" com quem Grace planeara casar, e também não era nada que Greco pretendesse partilhar com ela. Não havia necessidade de arrastar Hammond para isto. Pelo menos, por enquanto. Calculava que o homem deveria estar a viver o seu próprio inferno privado, se

acreditava que Peter Carrington tinha sabido do caso, e que esse conhecimento teria contribuído para as razões que Peter tinha tido para matar a mulher.

- A senhora Hammond tem certeza absoluta de que a revista ficou em cima da mesa quando se

vieram embora - disse Greco a Krause. - Tomei a liberdade de telefonar à senhora Barr, a

empregada, esta manhã. Ela lembra-se claramente de que não deitou a revista fora, e diz que ela e o marido foram para a sua residência na casa da portaria antes de os Hammond se terem ido embora. De manhã, foi ela quem encontrou o corpo na piscina. Ligou para o 112 mesmo antes de acordar Peter Carrington.

- Ele teria tido tempo para se desfazer da revista antes de a polícia lá chegar, mas por que razão haveria de ter feito isso? - perguntou Krause.

- Seria muito fácil obter outro exemplar da revista. Não vejo qual seja o significado disso. Greco percebeu que a procuradora estava a ficar irritada. Pôs-se imediatamente de pé.

- Não quero estar a ocupá-la - disse. - Queria simplesmente ter a certeza de ter todos os factos correctos.

- Com certeza - Krause pôs-se de pé e estendeu a mão. - Senhor Greco, o senhor tirou um coelho

da cartola. Não tenho relutância em dizer-lhe que estamos a seguir todas as pistas possíveis para ver se conseguimos saber quem era o amante de Grace Carrington. Mesmo que o encontremos, o testemunho dele não será suficiente para condenar Carrington pelo homicídio da mulher, mas dar- nos-á seguramente um motivo muito forte. Quanto mais soubermos desta situação, melhores serão as hipóteses de levar Peter a abrir o jogo e a negociar uma condenação. Isto não tem a ver com quem era o amante, pensou Greco. Tem a ver com a revista. Greco tinha vindo àquele gabinete neste dia apenas por uma razão: confirmar o facto de que a revista tinha desaparecido, logo antes ou logo após Grace Carrington se ter afogado.

CAPÍTULO QUARENTA E SEIS

É uma altura em que Kay precisa mais de mim do que nunca e, no entanto, está a afastar-se de mim, pensou Maggie, enquanto andava de um lado para o outro sem destino, em casa. Se ao menos

me tivesse dado ouvidos e não se tivesse casado com Peter Carrington, para começar. Graças a Deus que ele está preso; ao menos aí não lhe pode fazer mal. Até me deu vómitos ver a gravação que os polícias fizeram quando ele estava à porta da casa dos Althorp, e especialmente a forma como ele saltou e agrediu o polícia. Espero que o metam atrás das grades para o resto da vida. São nove horas, pensou Maggie. Kay levanta-se sempre cedo; vou telefonar-lhe. Ontem, quando telefonei, estavam lá os advogados, mas ela depois também já não me ligou. Com o coração doente por ver a distância entre ela e a sua neta a crescer, Maggie marcou o número do telemóvel de Kay. Não atendia. Talvez esteja outra vez com os advogados, decidiu. Vou tentar o número de casa. Desta vez, Jane Barr atendeu.

- A senhora Carrington ficou toda a manhã na cama - disse Jane. - Fui lá acima para ver se estava

tudo bem, e ela disse-me que não se tinha sentido bem durante a noite. Os advogados não vão estar cá hoje.

- Diga-lhe que, quer ela queira ou não, vou aí jantar - disse Maggie com firmeza.

A campainha da porta começou a tocar assim que pousou o telefone. Através dos quadrados de vidro, pôde ver dois homens lá fora. Quando a viram, ambos mostraram distintivos que os identificavam como sendo detectives do gabinete da procuradora. Relutantemente, Maggie abriu a porta e convidou-os a entrar.

- Senhora O'neil - começou o detective mais velho, educadamente -, sabemos que, quando Jonathan Lansing desapareceu, o recheio da casa dele foi trazido para aqui.

Por acaso havia alguns registos ou dossiês do seu escritório incluídos nessa mudança? E, se assim for, ainda os tem consigo? Maggie pensou no seu sótão atafulhado.

- Dei as suas roupas - hesitou. - A mobília ficou para mim. Era melhor que a minha, e afinal de contas a filha dele, Kay, estava a viver comigo. Fazia uma casa melhor para ela. Será que pensam que eu roubei a mobília?, interrogou-se Maggie, nervosa. Se calhar tinha de pagar algum imposto por isso.

- Com certeza, compreendemos isso - disse o detective mais jovem, tranquilizando-a. - Mas

havia alguns registos de negócios, ou dossiês pessoais pertencentes a Jonathan Lansing, que a

senhora possa ter guardado?

- Isso é precisamente o mesmo que Kay me perguntou. Há um daqueles arquivadores de três

gavetas, metálico, que estava no quarto que Jonathan usava como escritório. Agora, está deitado no chão do sótão, com o meu antigo sofá por cima. Kay disse-me que queria

vê-lo e que viria cá para isso, mas terei de arranjar alguém forte que desloque as coisas para haver espaço para o sofá noutro sítio qualquer, e para depois se poder pôr o arquivador de pé.

- Se nos der autorização para examinarmos o conteúdo desse arquivador, teremos todo o gosto em colocá-lo onde for mais conveniente para a senhora Carrington o ver. Não é obrigada a dar-nos autorização, mas gostaríamos de vê-lo.

- Não vejo nada de errado nisso - respondeu Maggie.

Conduziu os detectives até ao sótão, e depois pediu desculpa pela desarrumação e pelo pó.

- Estou sempre a prometer que hei-de vir cá acima e que me desfarei de muitas destas coisas -

explicou, enquanto os homens, sem grande esforço, arranjavam espaço e punham o arquivador de pé.

- Mas já se sabe como é. Há coisas que acabamos por nunca nos decidirmos a fazer. Kay diz que eu

sou como os ratos de porão, e tem razão. Os detectives não responderam. Cada homem tinha na mão um dossiê da gaveta de cima, e estava

a folhear o conteúdo. Com um mal-estar crescente, Maggie observava-os, interrogando-se se teria feito bem ao deixá- los ir ali acima. Talvez devesse ter confirmado primeiro com Kay, pensou. Não quero que ela tenha mais uma razão para ficar cangada comigo. Mas, por outro lado, se Peter

Carrington foi o homem que matou o pai dela, e se encontrarem provas disso aqui, ela seria louca se perdesse mais um minuto que fosse a preocupar-se com ele.

- Olha para isto - disse o detective mais velho para o colega, enquanto lhe entregava uma folha de papel. Era uma cópia de um bilhete e de um esboço paisagístico enviados a Peter Carrington por Jonathan Lansing. O bilhete dizia: Caro Peter, Parece-me uma pena não se completar o projecto. Como deve saber, o seu pai e eu considerámos a criação de um plano simples para os terrenos exteriores à vedação. Como já não sou empregado dele, e dado que a senhora Elaine Carrington não me deixa ter

contacto com o seu pai, gostaria de saber se o Peter poderia ter a gentileza de lhe entregar este esboço. Mando em anexo um cartão-de-visita de um paisagista que conheço, que poderia executar este plano de acordo com as especificações do seu pai. Apreciei muito as nossas conversas, e desejo-lhe felicidades. Jonathan Lansing. Enquanto o detective mais novo lia o bilhete, o mais velho olhou para Maggie.

- Nunca se lamente por ser um rato de porão, senhora O'Neil - disse-lhe o detective.

CAPITULO QUARENTA E SETE

Conner Banks estava sentado do outro lado da mesa, em frente ao seu cliente, na pequena sala

reservada para as conferências entre detidos e advogados da prisão de Bergen County. Tinha sido o elemento da equipa de advogados escolhido para rever as opções de Pe-ter Carrington com ele.

- Peter, o que estamos a enfrentar é isto - disse Banks. - As boas notícias são que, embora tenha

sido considerado suspeito na morte da sua falecida mulher, Grace, essa é uma questão separada. Não será permitido que seja mencionada neste julgamento, uma vez que não podem ligar este caso às mortes anteriores.

No entanto, mantém-se o facto de os corpos de Jonathan Lansing e de Susan Alt-horp terem sido

encontrados nos terrenos da sua propriedade, o que significa que a acusação vai tentar julgar esses casos em conjunto. Mesmo assim, e no fim de tudo, pensamos que não conseguirão provar a sua culpabilidade para além de qualquer dúvida razoável.

- O que é isso de "dúvida razoável", tendo em conta tudo o que se tem vindo a amontoar contra

mim? - perguntou Peter, calmamente. - Fui a última pessoa a ver Susan viva. Maria Valdez vai testemunhar que a camisa que eu usei nessa noite e que pus no cesto não estava lá, e que o meu pai lhe pagou para ficar calada. Agora, você diz-me que o pai de Kay me mandou um bilhete com um esboço do desenho para a área exterior à vedação, onde o corpo de Susan foi encontrado. Se eu fosse

culpado da morte de Susan, teria ficado aterrorizado, porque executar esse plano significaria que o corpo seria encontrado. Isso dar-me-ia razão para me ver livre de Jonathan Lansing. Não tenho escapatória.

- Peter, eu sei que parece muito mau, mas ouça-me. Outra pessoa qualquer pode ter interceptado

esse bilhete. Não há provas de que você o tenha recebido.

- Mas têm provas de que o meu pai deu cinco mil dólares a Maria Valdez.

- Peter, é a sua palavra contra a dela, na questão de se saber se a camisa estava ou não no cesto, e

não se esqueça de que ela está agora a contradizer o seu próprio testemunho sob juramento. Os júris são muito cépticos em relação a pessoas que mudam os seus depoimentos. E, sim, o seu pai deu-lhe um cheque, mas apresentaremos outros casos em que a generosidade espontânea dele poderá mostrar que ele podia apenas estar a ser simpático e a ajudá-la porque a mãe dela estava a morrer.

- O júri não acreditará nisso - disse Peter.

- Peter, lembre-se apenas disto: só precisamos de deixar um jurado na incerteza da sua culpa para além de qualquer dúvida razoável, para que o júri fique bloqueado. Se não conseguirmos uma absolvição imediata, pelo menos isso tenho a certeza de que conseguiremos.

- Um júri inconclusivo

Não é grande esperança - Peter Car-rington olhou o advogado nos olhos;

desviou o olhar, e depois, com um esforço evidente, voltou a fitá-lo.

- Nunca acreditei que pudesse ser capaz de violência física contra outra pessoa - disse, escolhendo cuidadosamente cada palavra enquanto falava. - Aquilo que fiz àquele polícia fez-me entender que isso simplesmente não é verdade. Vincent Slater não lhe contou que também o ataquei a ele quando tinha dezasseis anos?

- Contou, sim.

- O que acontecerá se, apesar dos vossos melhores esforços, eu não conseguir um júri inconclusivo, e se não for ilibado?

- Peter, a acusação provavelmente pediria e conseguiria duas penas perpétuas consecutivas. Nunca sairia da prisão.

- Suponha que conseguem de alguma forma ligar-me à morte de Grace. O que aconteceria nesse caso?

- Seria sem dúvida mais uma pena perpétua. Mas Peter, não há qualquer hipótese de alguém

conseguir provar que você a matou.

- Conner, não me trate como um tolo. Esse seu "não há hipótese" é coisa que não existe. Até

agora, sempre acreditei em absoluto na minha inocência. Agora, já não tenho tanta certeza. Sei,

realmente, que nunca faria intencionalmente mal a ninguém, mas causei alguns ferimentos graves a

esse polícia no outro dia noutras ocasiões, também.

Fiz a mesma coisa a Vincent Slater há muitos anos. Talvez o tenha feito

Conner Banks sentiu a boca secar-lhe.

- Peter, não tem de me responder a esta pergunta, e pense bem antes de o fazer. Acredita mesmo

que, num estado mental alterado, poderia ter morto Susan Althorp e Jonathan Lansing?

- Não sei. Na outra noite, pensei que estava a procurar o corpo de Susan no relvado da casa dos

pais dela. Tinha de me assegurar de que estava morta. Terá sido um sonho, ou estaria eu a reviver alguma coisa que aconteceu? Não tenho a certeza. Banks vira a expressão de Carrington nos rostos de outros clientes, de pessoas que sabiam que estavam quase de certeza a enfrentar uma vida inteira na prisão.

- Mas há mais - a voz de Peter tornou-se mais grave e lenta. - Kay disselhe que na noite em que

regressámos da lua-de-mel me viu junto da piscina, noutro episódio de sonambulismo, com um braço metido na água, por debaixo da cobertura?

- Não, não disse.

- Mais uma vez, pode ter sido apenas um pesadelo, ou talvez eu estivesse a reencenar qualquer coisa que tenha realmente acontecido. Não sei.

- Peter, nada disso será mencionado no julgamento. Vamos apostar na dúvida razoável.

- Pode ficar com a sua dúvida razoável. Quero que a minha defesa seja a de que, se realmente

cometi esses crimes, estava a ter um episódio de sonambulismo e não tinha consciência do que estava

a fazer.

Banks ficou a olhar para ele.

- Não! De forma alguma! Não há nenhuma hipótese de não ser condenado com uma defesa dessas. Estaria a entregar a sua cabeça à acusação numa bandeja.

- E eu digo-lhe que não tenho hipótese nenhuma de escapar a uma condenação com a defesa que

vocês estão a planear. Mas, mesmo que haja, veja as coisas pelo meu lado. O meu julgamento terá muita publicidade. Esta é uma oportunidade de fazer as pessoas perceberem que, se uma pessoa sofrer desta maldição do sonambulismo, e se cometer inconscientemente um crime, pode não ser responsável por isso.

- Não pode estar a falar a sério!

- Nunca falei mais a sério na minha vida. Pedi a Vince que visse as estatísticas por mim. No

sistema legal britânico, e no canadiano, um crime cometido durante um episódio de sonambulismo é chamado "automatismo não-insano". De acordo com as leis desses países, um acto não faz de um homem culpado, a não ser que a sua mente seja culpada. Se, no momento do crime, houver uma

ausência de controlo mental, e se por isso for cometida qualquer acção de forma automática, então, por lei, essa defesa por via do automatismo torna-se possível.

- Peter, ouça-me. Isso pode ser verdade no sistema legal britânico, e no canadiano, mas aqui não

funciona. Eu seria um louco a cumprir ordens de outro louco se fosse para tribunal usar essa defesa. Temos dois casos neste país de homens condenados por terem morto pessoas de quem gostavam muito enquanto estavam a ter episódios de sonambulismo. Um homem espancou a mulher até à morte,

e depois atirou o corpo para a piscina. Outro conduziu vários quilómetros até casa dos sogros. Era

muito amigo deles, mas estava também sob muita pressão. Espancou brutalmente o sogro e esfaqueou

a sogra até os matar. Acordou quando ia a conduzir de regresso a casa, dirigiu-se à esquadra de

polícia mais próxima e disse-lhes que algo de terrível devia ter acontecido, porque estava cheio de sangue e tinha uma vaga recordação de ter visto a cara de uma mulher.

- Vince já me falou desses casos, Conner. Não se esqueça de que eu tenho sido considerado

suspeito desde os vinte anos. Mesmo que seja absolvido, serei tratado como um espertalhão que conseguiu vencer o sistema legal e se safou com o homicídio. Não tenho coragem para continuar a

viver assim. Se você não me defender nestes termos, arranjarei quem o faça. Houve um longo silêncio, e depois Banks perguntou: - Já falou acerca disto com Kay?

- Sim, já.

- Então, ela está de acordo, presumo?

- Com relutância, mas está. E também concordou com outra condição.

- E qual é?

- Permitirei que ela esteja a meu lado durante o julgamento. Mas depois, se for condenado, e

tenho consciência de que provavelmente o serei, concordou em divorciar-se de mim e começar uma nova vida sozinha. Se ela não concordasse com isto, ter-lhe-ia recusado quaisquer visitas.

CAPÍTULO QUARENTA E OITO

Pode parecer tolice, mas depois dos dois ou três primeiros dias, começou a agradar-me estar sozinha à noite. Se Peter não podia estar comigo, então preferia estar só. Havia qualquer coisa em Jane e Gary Barr que me começava a fazer sentir pouco à vontade. Jane andava sempre de volta de mim. Sei que estava preocupada comigo, por eu me sentir tão mal, mas mesmo assim também não queria sentir-me como se andassem a observar-me como a um insecto ao microscópio. Depois da visita dos detectives, Maggie tinha vindo a correr ter comigo, em lágrimas, tentando explicar que nunca os teria deixado ir ao sótão se pensasse que isso me ia deixar zangada. Devo-lhe demasiado, e amo-a demasiado, para ser capaz de a fazer sentir-se ainda pior do que já se sentia. Conforme os advogados me explicaram, muito embora o bilhete estivesse dirigido a Peter,

não havia qualquer prova de que não tivesse sido aberto e lido por qualquer outra pessoa. Durante as buscas à casa, outra cópia do esboço tinha sido encontrada entre os papéis do pai de Peter. Lá consegui tranquilizar Maggie e assegurar-lhe que não estava a evitá- la, e fi-la perceber por que razão não podia deixar que viesse viver comigo. Finalmente, concordou que se sentia mais confortável em sua casa, na sua própria cadeira de braços, na sua própria cama. Fiz-lhe ver que eu estava perfeitamente segura na mansão: havia seguranças sempre presentes ao portão, e percorrendo a pé os terrenos. Ficou subentendido que, como Peter estava na prisão, não precisava de se preocupar com a minha segurança. As minhas visitas a Peter foram dolorosas. Ele deixara-se convencer de tal forma que era culpado das mortes de Susan e do meu pai que o interesse pela sua própria defesa começou a assumir um distanciamento estranho. O grande júri tinha decidido acusá-lo de ambos os crimes, e o julgamento tinha ficado marcado para Outubro. Os advogados, e principalmente Conner Banks, encontravam-se com ele na prisão, e por isso, agora, eu via-os menos. E comecei a ter notícias de pessoas com quem trabalhava na biblioteca, e de outros amigos, daqui e de Manhattan. Eram todos muito cuidadosos na forma como falavam comigo, solícitos, mas embaraçados, sem saberem o que dizer. "Lamento muito pelo teu pai. Devia ter ido ao funeral, mas não sabia onde era

"

"Kay, se houver alguma coisa que possa fazer "

Quer dizer, talvez te apeteça sair para jantar, ou

ir ao cinema

Sabia o que passava pela cabeça de toda esta boa gente: é difícil lidar com este tipo de coisas de uma maneira racional. Eu era a senhora Carrington, mulher de um dos homens mais ricos do país, e era também a senhora Carrington, mulher de um duplo - ou talvez mesmo triplo - assassino. Recusei quaisquer marcações de encontros. Sabia que até mesmo o mais simples almoço seria

desconfortável para toda a gente. Porém, a única pessoa que eu tinha pena de não ver era Glenn.

Pareceu-me muito normal quando me telefonou: - Kay, deves estar a passar por um inferno - disse- me. Mais uma vez, era bom ouvir a voz dele. Não tentei disfarçar.

- Estou, realmente.

- Kay, isto pode parecer esquisito, mas tenho estado a tentar descobrir o que quereria, se

estivesse no teu lugar. E tenho a resposta.

- E que resposta é essa?

- Jantar com um velho amigo como eu. Olha, eu sei que nunca fui mais do que isso para ti, e por

mim está tudo bem. Tu é que ditas a conversa. Glenn sentia o que estava a dizer. Sabia bem que nunca tinha havido um futuro para nós, no que

me dizia respeito. Na verdade, acho que também não havia um futuro para nós na mente dele, sequer. Teria adorado aceitar a proposta dele para jantar, mas, por outro lado, não conseguia sequer imaginar como me sentiria, se pudesse trocar de lugar com Peter, e depois lesse que ele tinha ido jantar fora com uma antiga namorada.

- Glenn, é muito tentador, mas não é boa ideia - respondi-lhe. E depois surpreendi-me por me

ouvir a acrescentar: - Pelo menos, por enquanto. A partir de que momento começara eu a acreditar que Peter tinha razão, que num estado alterado cometera os crimes de que estava a ser acusado? Comecei a pensar que, se ele próprio acreditava nisso, como poderia eu recusar-me a aceitá-lo? E, claro, esse pensamento estava a dilacerar-me. Comecei a imaginar o meu pai nas últimas semanas da sua vida. Sempre perfeccionista, tinha andado ansioso por ver a última parte do seu trabalho na propriedade completada, embora não pudesse ser ele próprio a fazer esse trabalho. De acordo com o relatório da polícia, o golpe que o atingira na cabeça fora tão forte que o crânio estava metido para dentro. Teria sido Peter a pessoa que desferira esse golpe com um objecto pesado? Depois, memórias agradáveis do meu pai inundaram-me a mente, recordações que eu sempre tentara suprimir porque supusera que tinha sido abandonada por ele. Recordações como a de, aos domingos de manhã, depois da igreja, ele me levar ao Parque Van Saun, para andar num pónei. Ou nós os dois a cozinharmos juntos, e ele a dizer-me que Maggie não nascera para a cozinha, e que, por simples necessidade de sobrevivência, a minha mãe tinha tido de

aprender a cozinhar através de receitas de livros. Maggie ainda não aprendeu a cozinhar, pai, pensei. Ou o bilhete que tinha escrito a Peter: "Apreciei muito as nossas conversas, e desejo-lhe felicidades." E o dia em que eu tinha entrado nesta mesma casa e me tinha esgueirado até à capela. Durante estes dias sozinha, comecei a ir até à capela quase todos os dias. Não mudou em nada durante todos estes anos. A mesma estátua descolorida da Virgem Maria ainda lá está, tal como a mesa que deve ter servido de altar, e as duas filas de bancos. Levei para lá uma nova vela votiva a pilhas, para colocar à frente da estátua. Ficava ali sentada por quinze ou vinte minutos, numa espécie de oração, misturada com recordações dessa breve zanga que ouvira naquele dia, há vinte e dois anos. Foi aí que uma possibilidade começou a ganhar raízes na minha mente. Nunca me tinha ocorrido que talvez Susan Althorp tivesse sido a pessoa que eu tinha ouvido a implorar dinheiro. A família dela era rica. Sempre ouvira dizer que ela tinha um grande fundo financeiro em seu nome.

Mas

supondo que era mesmo Susan? Então, quem seria o homem que tinha troçado dela,

dizendo "Já ouvi essa canção antes?" Depois de ela ter saído da capela, o homem tinha lá ficado a assobiar o último compasso da melodia. Mesmo sendo criança, eu percebera o quanto ele estava zangado. Foi na capela que a minha esperança mais louca ganhou raízes, uma esperança de que conseguiria encontrar outra solução, uma solução que esclareceria os crimes de que Peter era acusado. Tinha receio de dar a Peter uma sugestão daquilo que andava a pensar. Se ele começasse a acreditar em mim, e decidisse que ele próprio estava completamente inocente, o seu pensamento

seguinte seria que, quem quer que fosse o culpado, poderia muito bem ainda estar por perto. E então iria começar a preocupar-se por minha causa. Tal como estavam as coisas, embora ele estivesse a cooperar activamente na preparação da sua defesa, consegui perceber que os advogados o tinham convencido de que era impossível esperar outra coisa que não fosse um veredicto de culpado. Nas minhas visitas, começou a insistir para que me afastasse dele, para me divorciar dele discretamente.

- Kay, à tua maneira, estás tão presa como eu próprio - dizia-me. - Sei perfeitamente que não

podes ir a lado nenhum sem teres gente a olhar para ti e a falar de ti. Amava-o tanto! Estava fechado numa cela minúscula da prisão, e preocupava-se comigo, que estava retida numa mansão. Recordei-lhe que tínhamos feito um acordo. Eu poderia visitá-lo na prisão e estar ao seu lado no julgamento.

- Por isso, não vamos deixar estragar o nosso pouco tempo para estarmos juntos a falar acerca de

eu te deixar - dizia-lhe. Evidentemente, não tinha qualquer intenção de cumprir a minha parte desse "acordo". Se Peter fosse condenado, sabia que nunca seria capaz de me divorciar dele ou de o abandonar, ou de deixar de acreditar na sua inocência. Mas ele não parava de puxar por esse assunto.

- Por favor, Kay, suplico-te, segue em frente com a tua vida - disse-me durante uma visita em

finais de Fevereiro. Eu tinha uma coisa para lhe dizer, uma coisa de que tinha a certeza desde há uns dias, mas ainda não decidira qual a melhor altura para lhe comunicar. Depois, percebi que nunca haveria uma altura ideal para isso, pelo que lho disse logo: - Vou mesmo seguir com a minha vida, Peter - disse-lhe. - Vou ter o nosso bebé.

CAPITULO QUARENTA E NOVE

O part-time que Pat Jennings tinha na Walker Art Gallery começara a fazer dela uma pequena celebridade. Agora que Peter Carrington não só tinha sido acusado de homicídio, mas também tinha sido apanhado a violar as medidas de coacção e a atacar um polícia, todas as amigas de Pat andavam ansiosas por receber pequenos fragmentos de mexericos que ela pudesse contar acerca de todos os que faziam parte da família Carrington. Pat manteve a boca fechada com toda a gente, excepto com Trish, a sua melhor amiga desde há vinte anos. Tinham sido colocadas no mesmo dormitório quando eram caloiras na faculdade, e tinham achado o máximo que cada uma delas tivesse escolhido ser conhecida por uma variante diferente do nome que partilhavam: Patrícia. Agora, Trish trabalhava nos escritórios de uma grande loja, a Bergdorf Goodman, situada entre a a Fifth Avenue e a Fifty-seventh Street, que ficava apenas a um quarteirão da galeria. Uma vez por semana, as duas juntavam-se para um almoço rápido e, na maior das confidências, Pat punha a amiga

a par dos mexericos que ia ouvindo. Confidenciou-lhe que achava que Richard Walker estava a ter um caso com uma nova jovem artista, Gina Black.

- Fez uma festa de apresentação para os quadros dela, mas nem as moscas apareceram. Quando

ela passa lá pela galeria, dá para perceber que está louca por ele. Tenho pena dela, porque aposto que não vai durar muito. Pela maneira como ele fala, há-de ter tido muitas namoradas ao longo dos anos. Pensa nisso: tem duas ex-mulheres, e ambos os casamentos não duraram um fósforo. Aposto que ambas se cansaram depressa de ele andar sempre a namoriscar outras e a jogar. Na semana seguinte, Pat falou de Elaine Carrington: - Richard disse-me que a mãe dele tem ficado no apartamento de Nova Iorque a maior parte do tempo. Sente-se magoada, porque pensa que

a nova mulher de Peter Carrington, Kay, não quer mesmo que ela apareça na mansão, a não ser que

tenha sido especificamente convidada. E também não me parece que Richard tenha ido muito a Nova

Jérsia - prosseguiu. - Disse-me que compreende como isto tudo deve estar a ser difícil para Kay, sabendo que muito provavelmente foi o marido quem matou o pai dela, mesmo que possa não se lembrar disso. Richard disse-me que acredita que se pode ter passado tudo da mesma forma, como quando Peter atacou o polícia. Bem, todos vimos a gravação na televisão. Dá perfeitamente para perceber que Peter Carrington estava completamente alheado. Foi assustador.

- Se foi

- concordou Trish. - Que pena que deve ser casar com um tipo com todo aquele

dinheiro, para depois descobrir que ele é completamente louco. E, para além dessa jovem artista, há sinais de alguma coisa nova na vida de Richard?

- Bem, há uns sinais, mas não tenho a certeza de que seja algo de novo.

Há uma mulher que tem andado a telefonar-lhe e que deve ser uma antiga paixão. Chama-se Alexandra Lloyd.