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MONTEIRO, John Manuel. Os Guarani e a histéria do Brasil Meridional in: CU. NHA, Manuela Carneiro da, Histéria dos Indios no Brasil, Sao Paulo, Companhia das Letras/FAPESP/Secretaria Municipal de Cultura, 1992, p, 475-498. OLIVEIRA, Roberto Cardoso de. Do indio ao bugre. O processo de assimila Terena. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1976, PIMENTA BUENO, Francisco Antonio. Provincia de Matto Grosso. Rio de Janeiro Typ. Nacional, 1880. RIBEIRO, Darey. Os Indios e a Chilicagdo, Peirépolis, Vozes, 1982, RONDON, Cindido M. da. Relatério dos Trabalhos Realizados de 1900-1906 pela Comissdo de Linhas Telegrificas do Estado de Mato Grosso, apresentado as ‘autovidades do Minstério da Guerra. Ministério da Agricultura, Conselho Naci ‘onal de Proteglo aos [ndios, publicagZo 69-70, Rio de Janeiro, Depto. de Imprensa ‘Nacional, 1949, SCHADEN, Egon. Desenhos de (11):79-82, 1963, Mem. Aspectos Fundamentais da Cultura Guarani. Sao Paulo, EPUEDUSP, 1974 SEREIO, Hélio. Homens de Aco. 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Csploraglo dos recur aturais exsetes rea ede meager de subsite. O meio ambiente da reserva pos grande diverted e até mc sor snp neato anid Ccupao inigenaena-ndens. ila pos rae poten implemen de stviadesecondmias emaivesdeacodocom parm de desenvolvimento sistent, as como: mar Implememsao da pesca, aumento da prodoao arena benefcamento de algunas especies cvadasexloragocendmiade palmetas-na as artesanato ¢ ecoturismo. : Palavras-Chave: Indios; Guat6; Pantanal; Desenvolvimento Sustentavel. Recent research atthe Guat tv Reservation located in “Ih ns (nou sland, acetate nave people at ive tere are suri basicaly through exploration ofthe exaing natural resources ofthe are and rough sence agra The enitonnent tte Reser Contin get versiy and ha ily fered few negate impact as onsquene of he Ino and non Inton cup isd has eeu pent or he nplentton of erat econre actives according oparaeters of ssanable development sch a inreate ning citer and areare precio, Inprovenent of Sime ssn pan sat pam ee rl oe Key Wonds: Indians; Guat6; Pantanal; Sustainable Development. * Tradugdo de Martin Giesso. “Anda acredito que se houvesse um local destinado aos Guat6 na bein do rio, em pouco tempo formar-se-ia um aglomerado de familias, 0 que facilitaria no s6 a recuperaglo desse grupo em termos de valores huma- ros, como também o atendimento as suas necessidades imediatas” ‘Adair Pimentel Palieio (Palicio, 1984, p.2) ste artigo foi conclude a partir do texto que elaborei para uma palestra proferida no Semindrio “Areas de Desarrollo Indige- na”, realizado no periodo de 13 a 15 de agosto de 1997 no Insti- tuto de Estudios Indigenas da Universidad de la Frontera, em Temuco, Chile, Na ocasido foram apresentados os resultados preliminares das investigagdes realizadas pelos pesquisadores que participaram do pro- \gndstico Sécio-ambiental da Area Indigena Guaté — Ilha jeto fnsua. Oreferido projeto de pesquisa foi viabilizado através de um con- vénio de mitua cooperacio, firmado em 1996, entre a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) ¢ a organizago nio-governa- mental Ecologia & Agao (ECOA); esta tiltima entidade esteve repre- sentada pelo Centro de Ago Ambiental do Pantanal, sediado na cidade ‘de Corumbé (MS). 0 objetivo maior que norteou as atividades do proje- mi Re. s FMS,Cn Gn MS 8): jl 198 1s to foi a conclusio de um primeiro diagndstico sécio-ambiental da fea correspondente & Reserva Indigena Guats. Este diagnéstico, ainda que preliminar, poderd servir de base para 0 desenvolvimento de atividades econémicas sustentaveis a serem implementadas junto & comunidade indigena da reserva, isto é, constituir-se-4 em uma possibilidade para o ¢estabelecimento de pardimetros que possam orientar formas alternativas de desenvolvimento sustentavel para os Guats, sempre, éclaro,emcon- formidade com seus valores ¢ tradigdes culturais. A area de pesquisa limita-se & poredo da Ilha insua que com- preende a Reserva Indfgena Guaté, localizada no municipio de Corumbé, entre as lagoas Gafva (ou Gafba) e Uberaba, na regiéo do Pantanal Matogrossense, préxima a divisa com o Estado de Mato Grosso e situ- ada grosso modo entre os paralelos de 17°32’ a 1739" de latitude Sul e inos de 57°49" a 57°40" de longitude Oeste de Green! Para o desenvolvimento das pesquisas foi constituida uma equi- pe interdisciplinar que contou com a participagao de profissionais de vrias areas do conhecimento, em sua maioria docentes da Universi- dade Federal de Mato Grosso do Sul: Arqucologia (Pré-Histéria, Etnoarqueologia e Etnoist6ria), Biologia (Botinica, Ecologia e Educa- 40 Ambiental) e Geografia (Cartografia e Sensoriamento Remoto). As pesquisas de campo foram desenvolvidas ¢o relatério final est em. fase de conclusio, De maneira especifica, 0 projeto propds-se a atingir as seguin- tes metas a) Resgatar informagdes referentes & cultura tradicional e & his- t6ria Guats; b) Investigar as relagdes existentes entre os processos de pro- dugio ¢ a biodiversidade da drea; ©) Conhecer as formas tradicionais de produgao ¢ de comercializagio, principalmente a identificagio dos recursos que atu- almente so manejados pela comunidade; 4) Realizar um levantamento fitofisiondmico e de uso ¢ ocupa- ao da terra 126 seat Re ins UPS, Cop Gn MS 3 HB, ae. 86 Para atingir essas metas foram estabelecidos alguns principios metodol6gicos basicos, quais sejam: a) Coleta de dados sobre os usos da flora ¢ da fauna locais a partirde aportes da Etnobiologia; b) Resgate de dados gerais da histéria Guaté através de mages orais e da anélise da documentacdo textual dispontvel, ineluin- do aia bibliografia etnoldgicae arqueoldgica, c) Levantamento fitofisiondmico e de uso e ocupagao da terra s aéreas, imagens de satélite € mapas for por meio do estudo de fotografi existentes, cujos dados foram complementados com informagdes obti- das em campo; d) Registro fotogréfico da érea ¢ da comunidade. Isto posto, é importante deixar claro o seguinte: em nenhum ‘momento os pesquisadores do projeto tiveram a pretensio de gerar falsas expectativas junto & comunidade indfgena, isto 6, alimentar a idéia de que os resultados obtidos seriam a solucao para seus proble- ‘mas mais imediatos e urgentes (Aragjo, 1998). spera-se que as idéias aqui apresentadas possam estimular uma maior discussio acerca do assunto em pauta, pois o desenvolvimento de atividades econémicas alternativas € uma necessidade iminente para muitas populagdes indigenas que busca novos caminhos para sua sobrevivéneia diante da realidade sécio-econdmica, ceolégica e cultu- ral advinda do proceso de conquista e colonizagio. QUEM SAO 0S GUATO! Os Guaté constituem um grupo étnico diretamente filiado a0 nronde ¢ hipotético tronco lingiifstico Macro-J, do qual fazem parte uitos grupos que se estabeleceram na América Tropical, como os das familias lingilisticas Jé, Bororo, Botocudo, Karate Maxakalf;fi- caram conhecidos historicamente como fndios canoeiros devido a0 fato de sua mobilidade espacial depender, quase que exclusivamente, do uso de canoas como meio de transporte na planicie de inundagio do Pantanal. Tradicionalmente os Guaté organizam-se em familias nucle- a US, Cone Crd MS, 2052516, 98 17 ares ¢ auténomas umas em relagdo as outras, © que os distingue de outros grupos que se organizam em grandes aldeias, a exemplo dos Guarani e Terena. Estes indios canoeiros foram estudados pelo etnélogo alemio Max Schmidt (1912, 1942a ¢ 1942b) nos anos de 1901, 1910 ¢ 1928, ceujas obras publicadas sio referéncias obrigatérias para 0 conheci- ‘mento da Arqueologia da regio, Etnologia e Hist6ria do grupo. Poste- Fiormente, foram estudados por Palcio (1984) e, mais recentemente, or Oliveira (1996). Os Guaté encontram-se estabelecidos na regido pantancira ha ‘mais de 500 anos, sendo mencionados, por exemplo, nos conhecidos Comentarios do conquistador espanhol Alvar Nuiiez. Cabeza de Vaca (1984), que ali esteve em 1543. Todavia, dados arqueolégicos, etnogrificos ¢ hist6ricos contidos em Oliveira (1996), acrescidos de informagées obtidas através de pesquisas arqueolégicas ¢ etnoarqueolégicas que esto sendo realizadas na regio do Morro do Caracara (sub-regidio do Pantanal de Poconé, municipio de Poconé, em Mato Grosso), possbilitam pensar que tlver.os Guat estejam no Pantanal ha mais de 800 anos. No perfodo colonial, época em que espanhéis e portugueses pe- netraram na regio, sobretudo a partir da primeira metade do século XVIIL, 05 Guaté perderam grande parte de seu territério tradicional, apesar da resisténcia imposta aos conquistadores ibéricos. Mas esta resist@ncia tem sido negada pela historiografia, que normalmente os retrata como pacfficos, mansos e pacatos, sempre em oposi¢ao aos Payagué que, por sua vez, so retratados como bravos, selvagens € guerreiros. Trat de uma idgia simplista, uma invengio historiogrética, que tem sido repetida por historiadores e antropélogos, embora sempre sem maiores pesquisas que possam sustentar tal ponto de vista. Darcy Ribeiro, por exemplo, também corroborou esse pensa- ‘mento quando afirmou o seguinte: “Os eanoeiros Guaté jamais cons- titutram obstdculo tao sério como os Payagud ¢ foram logo domi- nnados” (Ribeiro, 1986, p.93) [grifo meu]. Contudo, em Oliveira (1996) 128 cater inl UMS, Cag ane MS, 21238, Le, 188 Fea a ame a _— ha citagGes de relatos de cronistas do perfodo colonial que questionam cesta idéia, Na verdade, um estudo especifico e aprofundado sobre a hist6ria dos Guat6 ainda esta por ser apresentado ao pico. ‘A partir do século XIX, esses indios passaram a manter um contato mais intenso com a sociedade envolvente, sobretudo com a brasileira; chegaram inclusive a participar, do lado do exército brasilei- 10, do episédio da chamada Guerra do Paraguai. Desde o inicio do século XX foram cada vez mais forgados a deixar seu territério tradi- cional, o qual na maioria das vezes deu lugar a fazendas de gado, iante desta situacdo, muitos Guat6 foram viver na periferia das cida- des da regio, como é 0 caso de Corumbé (MS) ¢ Céceres (MT), incorporando-se 4 massa de proletérios e subempregados. Outros indi- ‘os foram trabalhar nas fuzendas de gado ou passaram a viver nas imargens do rio Paraguai, mantendo um contato mais intenso com a sociedade nacional, fato este que causou a assimilagdo de muitos Guats importante registrar que parte da chamada populagdo tradi- cional do Pantanal € composta de descendentes diretos dos Guaté, Entre julho de 1997 e julho de 1998, tive a oportunidade de manter contato com algumas dessas familias que vivem as margens do rio Paraguai, desde Corumbé até sua confluéncia com 0 Sao Lourengo, ¢ cem algumas fazendas da regio. A maioria dessas familias ndo se iden- tifica como Guat6, mas reconhece que seus pais e/ou avés eram indi- 1s. HA casos em que as pessoas ja perceberam que ser descendente ‘de Guaté nao é algo pejorativo e passaram a se identificar como seus descendentes. Isto significa, dentre outras coisas, que o modo de vida da populagao tradicional do Pantanal também apresenta uma série de antecedentes indfgenas, sobretudo do ponto de vista da adaptabili- dade humana: subsistem basicamente da pesca (inclusive construindo canoas ao estilo Guaté) e de uma agricultura sazonal (mandioca, milho, abéboras etc.) Apesar disso tudo, surpreendente & que, entre 0 infcio da segun- da metade deste século e meados dos anos 70, 0s Guat6 foram oficial- Isto foi uma espé- mente tidos como extintos pelo governo brasile cin Re nia UMS, Cop ale MS. 205 B48, aie, 198 129 cie de etnocidio a esferogréfica, uma vez que 0 entio SPI (Servigo de Protegao ao Indio), atual FUNAI (Fundagio Nacional do indio), no havia realizado qualquer levantamento demogréfico na regio para verificar quantas pessoas (ou alas, como alguns gostam de mencio- nar) ali viviam, fato este que no estranhamente também ocorreu com otras etnias no Brasil. O proprio Darcy Ribeiro, em trabalho mais antigo do que o anteriormente citado, afirmou que na década de 50 os Guats jé estariam extintos: “Viviam a margem do rio Paraguai, su- bindo as vezes o rio Sdo Lourengo, no Estado de Mato Grosso. (Extintos)” (Ribeiro, 1957, p.74) [grifo meu]. A afirmagao de Ribeiro (1957) teve por base os dados contidos nos arquivos do SPI, o que no Justifica 0 equfvoco em confiar por demais em documentos oficiais e no fazer a devida critica a eles. Apesar disso tudo, em fins dos anos 70 e inicio da déeada de 80, sgragas ao apoio que inicialmente tiveram de missionérios salesianos (Ir. ‘Ada Gambarotto ¢ Pe, Osvaldo Scotti), os Guaté iniciaram um proceso de resgate e fortalecimento de sua identidade social, reorganizagao do grupo e reivindicagio pela posse da Ilha insua (que levou mais de uma_ ‘década até que o governo oficialmente reconhecesse a ilha como érea indigena Guat6). Um dos maiores impasses & transformagao da area em reserva indigena foi destacamento mi iado pelo exército brasileiro que, por possuir um ‘na rea (0 destacamento de Porto {ndio), posicionou- se contrétio &reivindicagio legitima dos indios; dentre outras alegagdes apresentadas, a principal foi a de que a ilha situa-se em uma regio de fronteira com a Bolivia e que a criagdo de uma reserva poderia colocar em risco a soberania nacional. A alegagdo apresentada faz pensar em um certo resquicio do velho discurso de seguranga nacional, caracterfs- tica dos regimes militares latino-americanos desta segunda metade de século. Mas o fato & que, passada a tempestade, as partes interessadas (o alto escaldo do exército e os indios Guat6) chegaram a um entendi- mento ¢ grande parte da ilha foi transformada em reserva indfgena e uma parte menor continua sendo ocupada pelo exército, Atualmente {ndios e militares ali viver, aparentemente, sem maiores conflitos, pois, a0 que se sabe, 0s Guat6 no reivindicaram a safda do destacamento militar da ilha; ao contrétio, nestes gltimos 20 anos sempre tiveram os militares de Porto {ndio como seus aliados. Registra-se ainda que durante proceso de reconhecimento da Ilha insua como rea indigena e da transformagao de parte dela na Reserva Indfgena Guat6, um fazendeiro que arrendava do exéreito um parte da ilha, e que ali constituiu a fazenda Bela Vista do Norte, teve de ot.andonar a érea, Atualmente, ha informagdes de que o fazendeiro havia retomado para a drea por determinagao judicial. Segundo infor- mages que recebi de moradores da reserva, na época em a referida fazenda estava em atividade houve alguns problemas com os indios devido, dentre outros motives, ao fato do gado do fazendeiro invadir as rogas das famflias Guats. Por tudo 0 quanto foi explicado, constata-se que a situagio dos Guaté é um tanto quanto sui generis na historia das populagdes indf- genas sul-americanas. Apés terem sido declarados extintos, renasce- ram das cinzas quase que como uma fénix; nao contentes, reorganiza- ram-se e conseguiram o que parecia impossfvel hé 30 anos: retornar para parte de seu territério tradicional usurpado pela chamada socie- dade nacional. Hoje em dia os Guats esto passando por um proceso de fortalecimento de sua etnicidade e, para aqueles que nascerarm ou viveram a maior parte de suas vidas no meio urbano, de resgate da prépria identidade soci AS ATIVIDADES REALIZADAS E AS AVALIAGOES PRELIMINARES Durante o més de jullho de 1997, duas expedigées cientificas ) realizadas para a Ilha fnsua. Nas duas ocasiées foram desen- volvidas as seguintes atividades: 1) Aplicagao de questiondrios a aproximadamente 70% das as que vivem na reserva, cujos dados obtidos estio sendo orga- terpretados no relatério final do fan nizados ¢ deverio estar contidos ¢ projeto; Ro ee UMS. Camp td MS, 20 25-14, oe, 16 131 b) Levantamento fitofisiondmico parcial e de uso ¢ ocupagao da terra; ©) Pesquisa botinica sobre 0 uso medicinal de plantas; 4) Avaliagao arqueolégica parcial da rea ocupada pelas fa- miflias. Cabe explicar que os questionérios aplicados tiveram o prop6si- to de coletar dados sobre questées espe icas, tais como: a) Caracterizagdo das familias: nome e idade das pessoas, filiagao, mimero de filhos, local de nascimento, se jé residiu ou possui algum parente na cidade, tempo de residéncia na ilha, dbitos e nasci- ‘mentos na reserva, escolaridade, doengas ¢ tipos de medicamentos utilizados em casos de enfermidade; b) Caracterizagdo das propriedades: tamanho da érea, ni- ero de casas, vias de acesso, meios de transporte, localizacao, aspi- ragGes e necessidades infra-estruturais, exploragao de recursos floristicos e faunisticos para a subsisténcia, técnicas empregadas no Cultivo, espécies cultivadas ¢ eriagio de animais; ©) Caracterizagéo da produgdo: tamanho da étea cuja vege- ‘acdo foi derrubada para o plantio, formas de desmatamento e apro- veitamento das drvores derrubadas, produgiio de artesanato, tipos de cultivos, consumo e comercializagdo da produgao, frutas mais cultiva- das, formas de preparar a terra, aspectos dos solos, dificuldades en- frentadas para a produgio, formas de comercializagao de produtos, aspiragdes e necessidades infra-estruturais para o aumento e diversif. cagio da produgdo; 4) Caracterizagao dos relacionamentos: parentes que re: dem na itha, formas de reciprocidade, organizagaio das pessoas para a produgao agricola, procedimentos em caso de parentes que adoecem, reunides festivas, participagio nas decisdes da comunidade e opiniao sobre o papel das liderangas para o bem-estar da comunidade; ©) Outras observagaes necessérias. Apesar do relatério final ainda ndo ter sido conclu‘do, algumas avaliagdes preliminares podem ser feitas. Em primeiro lugar, é fato 132 ome isi UPS, ang Ga 21 123.8 ae 8 {que as familias estio assentadas sobre sitios arqueolégicos associados diretamente a sua etnia, ou seja, esto ocupando pontos onde viveram seus antepassados desde tempos imemoriais. Sao sitios de grandes extensées, com milhares de metros quadrados, podendo apresentar em suas camadas arqueol6gicas evidéncias materiais da presenga pre- {érita de populagées acerdmicas que ocuparam a planicie de inunda- ‘so do Pantanal desde, a0 menos, hé 8.000 anos. Tais evidéncias, se realmente existem, esto sobrepostas por ocupagées de populagses canociras ceramistas mais recentes, cujas datas mais antigas podem estar entre 3.000 e 2,000 anos atrés, sendo os Guaté os tinicos sobre- viventes de todos os grupos canoeiros que ocuparam a regido platina, muitos dos quais mencionados nos importantfssimos estudos de Susnik (1972 ¢ 1978). A espessura do total das camadas culturais dos sitios localizados nas margens do canal D. Pedro II (também conhecido pe- Jos bolivianos como rio Pando) ¢ da lagoa Uberaba devem ultrapassar 2m, Nesses sitios hé grande quantidade de material arqueol6gico na superficie, sobretudo fragmentos de vasilhame, o que pode ser um, dicador da intensidade e continuidade da ocupagao indigena da érea: a ceramica que ali observei lembra a da Tradigéo Pantanal que ocorre nas sub-regides dos pantanais de Abobral ¢ Miranda e nas proximida- des das cidades de Corumbé e Ladério (MS). Hé ainda o registro da has cerdmicas em alguns pontos da reser- ocorréncia de grandes vas va, as quais lembram urnas funerdrias, mas que nao pertencem ds tradiges atualmente conhecidas para o Pantanal; uma dessas vasilhas, foi retirada da area nos anos 70 pelo Pe. Osvaldo Scotti ¢ encontra-se no Museu Dom Bosco, em Campo Grande, sendo, ao meu ver, um, indicador de que no passado outros grupos ocuparam a regia © © levantamento de sitios arqueoligicos nao foi um dos objetivos do projeto de pesauise. Por isto e por ainda ndo dispor de autorizagao do Instituto do PatrimOnio Historieo© Artstico Nacional (PHAN) e da FUNAI para a realizagio de pesquisas arqueol6gicas na regio, fir apenas uma prévia avaliagio do potencial da érea para futuras pesquisas arqueol6gicas e etnourqueol6gicas, sem realizar qualquer tipo de mee Ro. ih UMS, Cp Gre, MS, 23123. la, 1958 133 TAT AANA nein , Em toda a reserva somente uma pessoa fala a lingua Guat6; trata-se de Zulmira, uma india que possui mais de setenta anos de idade e que nao faz uso digrio de sua lingua nativa por ndo ter com quem conversar. Aqui se constata um sério problema a ser resolvido: caso nao se faga um trabalho de educagao bilingtie urgemte, é provavel ‘que a lingua Guat6 seja extinta e, com sua extingao, sera extinto tam- bém parte do modo de ser e pensar tradicionais dos Guat6. Foi possivel constatar ainda que algumas familias estavam com ‘um tipo de doenga dermatolégica chamada vulgarmente de cobreiro. Esta doenga pode estar associada com o contato direto que as pessoas ‘mantém com animais domésticos, como caes, ovelhas e porcos. A ce- gueira também apresenta-se como um grave enfermidade para algumas pessoas; cla parece ser decorrente de catarata adquirida a partir da exposigao excessiva dos olhos aos raios ultravioleta, sobretudo em mo- mentos de pescaria diurna. Ha um caso na ilha de uma india que esté cega, a Guaté Candida, e cuja pupila esté coberta por uma espécie de ‘membrana de coloragao cinza. Caso semelhante € 0 da india Hilia, uma anciai que vive na margem esquerda do rio Sao Lourengo, nas proximi- dades da sede do Parque Nacional do Pantanal Matogrossense. Os Guat6 Pedro (que foi meu informante) e Jo30 Quirino, jé falecidos, também sofreram de cegueita, Este tipo de doenga tem sido constatado desde muito tempo por viajantes e pesquisadores e pode ser explicado de vir as maneiras, segundo informagdes obtidas de um oftalmologista: os Guat6 podem ter uma predisposigdo genética para a catarata; trata-se de uma doenga consegiiente da agao de raios ultravioletas nos olhos dos indios; ou, o que talvez seja mais provével, as duas possibilidades associadas. ‘Outras pessoas ainda poderio ficar cegas decorrente da eatarata, como €0caso do indio José, irmiio e Veridiano e Filia, filho do conhecido Joao Caetano, que vive no Morro do Caracard, dentro da rea do referido Parque. Esta doenga é conhecida regionalmente como catarata de pes- cador e também foi registrada por Palacio (1984). Contudo, de uma maneira geral as familias aparentemente vi- vem bem, ao menos em termos de alimentagio; desenvolvem uma i oat Ret ini UPS, Com ade MS, 1282, le, 1956 ‘economia de subsisténcia que tem causado poucos impactos negativos ‘ indiretos) sobre o meio ambiente, pois cada familia desmatou em média cerea de dois hectares de terra para fins de cultivo. O maior impacto observado foi sobre a fauna da regitio, porque é comum as pessoas reclamarem da escassez de animais comumente utilizados na alimentagio, com destaque para a capivara (Hydrochaeris hydrochaeris), 0 mamifero mais apreciado e consumido na ilha. No entanto, uma das questées apontadas para explicar esta realidade foi ‘um grande incéndio ocorrido ha alguns anos na regio, motivo da mor- te de muitos animais. Mas hoje em dia ja é perceptivel a tecuperagaio da fauna que existia antigamente, como a de pequenos mamiferos, répteis e aves, Cada familia dailha vive separada das demais ¢ possui sua pré pria drea cultivada. Hé um caso em que o pai possui uma roga ¢ seu filho outra. Esta é uma das principais caracteristicas da forma tradici- onal de organizagao social dos Guat6: a de familias nucleares auténo- fencia ‘mas umas em relago as outras. Isso, todavia, nao significa a ines da reciprocidade como forma de coesio do grupo. {As familias subsistem basicamente da pesca (principal fonte para obtengiio de proteina animal), caga (principalmente capivara) e peque~ nas dreas de cultivo onde plantam absboras (cucurbitéceas), mandi ca (Manihot sp.), cana-de-agticar (Saccharum officinarum), bana- nas (Musa spp.), batata (Solanum tuberosum), feijées (Ieguminosas) ‘eoutras espécies; Bortolotto & Damasceno Jinior (1998) apresentam uma interessante relago de dezenas de espécies floristicas utilizadas pelos Guaté da Ilha {nsua. Nao raras vezes as pessoas reclamaram das dificuldades encontradas em pescar algumas espécies que mais apreciam, como 0 pacu (Piaractus mesopotamicus), antigamente abun- dante na lagoa Uberaba ¢ atualmente um tanto quanto escasso. Esta escassez de peixes considerados nobres, como € 0 caso do pacu, deu- se, dentre outros motivos, pelos impactos negativos que 0 turismo tra- dicional e desorganizado tem causado sobre os recursos ietiofaunisticos do Pantanal. romeo. in FMS, Cag ts MS 21): 12 10 pe 1 as 7, | Hé ainda outra questdo importante: tendo em vista que a densi- dade populacional da reserva tende a aumentar em curto espago de tempo, num futuro nao muito distante serd necessério um estudo meti- cculoso acerca da capacidade de suporte da drea para fins de desenvol- vimento de atividades econdmicas compativeis com as novas realida- des demograficas que existirdo em poucos anos. Cabe explicar que as pesquisas realizadas no ambito do projeto Diagnéstico Sécio-ambiental da Area Indigena Guaté - Ilha nsua tm despertado o interesse de outros profissionais que desen- volverdo pesquisas na reserva, Com isso, sera possivel concluir um diagndstico sécio-ambiental mais apurado da reserva e, futuramente, implementar outros projetos junto aos Guats. ELEMENTOS PARA DISCUSSOES Algumas idéias de projetos futuros que busquem viabilizar ativi- dades econdmicas alternativas e sustentéveis na reserva indigena fo- ram ¢ estio sendo discutidas pela equipe. Posteriormente, as idéias serio apresentadas aos Guat6 para um melhor amadurecimento de suas possibilidades ¢ limitagdes. ‘A primeira idéia ocorrida foi a possibilidade de aumentar a pro- dugdo e iniciar o beneficiamento de algumas espécies flori icas do- mesticadas, como as bananas, ¢ de algumas espécies de palmeiras “nativas” da regiio, como a bocaitiva (Acrocomia balansae) ¢, me- nos provavelmente, a acuri (Scheelea phalerata). Em ambos os ca s0s, sto espécies que possufam grande importéncia para a subsistén- ‘cia dos Guaté no perfodo anterior ao contato com as sociedades ibe cas. O aumento da produgao de bananas é uma possibilidade mais imediata, embora seu armazenamento e 0 processo de beneficiamento em vérios produtos, como a banana desidratada, implicard na implan- taco de recursos energéticos alternativos, a exemplo de placas sola- res ou cataventos destinados & produgo de energia, o que em um primeiro momento parece mais dificil face aos custos de um projeto desta envergadura. O escoamento € a comercializagao do excedente 136 eset HFS, Cp Gand MS 24:12 12 e198 da produgdo, por outro lado, poderé ser feito nas cidades da regiao ou para fins de exportagio através de canais estabelecidos com organiza- ges ndo-governamentais. No caso das palmeiras, serd preciso, dentre outras coisas, um estudo sobre 0 manejo, a conservagaio e a melhor forma de explorago dessas espécies, das quais & possfvel aproveitar 08 frutos (polpa e améndoa), 0 palmito, as palmas e as fibras contidas nos cachos, conforme se constata no trabalho de Oliveira (1998). Outra idéia levantada diz respeito & producdo de artesanatos tradicionais, Na ilha ha pessoas que possuem grande habilidade na fabricacdo de artefatos de madeira e cestaria, principalmente, para uso doméstico ¢ de subsisténcia. Caso as técnicas empregadas na fa- bricagdo desses artesanatos sejam ensinadas para um niimero maior de pessoas, serd possivel comercializar o artesanato nas cidades, além de ser uma forma de manutengdo de elementos da cultura material tradicional do grupo, fortalecendo dessa forma sua propria identidade social. Em Mato Grosso do Sul esta é uma prética entre 0s Kadiwéu, Terena ¢ Guarani, que comercializam artesanatos diversos em vérias cidades do Estado, A equipe também tem iniciado discusses sobre as possibilida- des futuras de viabilizagao de um projeto de ecoturismo (ou etnoturismo) para a reserva indigena, Esta parece ser a discusso mais delicada. Neste sentido, é pertinente explicitar 0 que se entende por ecoturismo: “ [ue] um segmento da atividade turfstica que utiliza, de forma sustenté- vel, 0 patrim@nio natural e cultural, incentiva sua conservagio e busca «formagio de uma conseiéncia ambientalista através da interpretacio do ambiente, promovendo 0 bem-estar das populagdes envolvidas” (Barros, 1995,p. 19) A reserva apresenta-se como uma érea de grande biodiversidade € até o presente momento sofreu poucos impactos ambientais negati- vos, isto 6, grande parte da itha esta preservada em termos faunisticos e floristicos, constituindo um potencial para a atividade de ecoturismo. Por outro lado, a propria cultura Guaté ainda & pouco conhecida pela populagdo nao-indigena. Este também é um elemento a ser considera- do para um turismo desse nivel, pois o conhecimento do outro & ques- ase ia FMS, Cg Grn MS 24:12 ja, 137 ‘0 importante em nossos dias, um elemento fundamental que estimula ‘0 turismo em diversas partes do mundo. A area ainda apresenta um grande potencial arqueoldgico que também pode favorecer a longo prazo a atividade de turismo, como alids ja ocorre no Nordeste do Brasil (principalmente em So Raimundo Nonato) e muitos outros pa- {ses americanos, como & 0 caso do México, Guatemala e Peru — locais ‘onde se desenvolveram as chamadas altas culturas ~, embora exija muitos estudos ¢ planejamento prévios. A idéia inicial é a de que o ecoturismo seja uma atividade de turismo contemplative direcionada para um piblico especifico, como por exemplo estudantes e professo- res universitétios, especialistas em questées indfgenas ¢ outras pesso- as que queiram conhecer a cultura Guat6 e a regio do Pantanal, isto 6, para pessoas que queiram realizar uma viagem responsdvel a uma fea indigena coma finalidade de conservar o meio ambiente e promo- ver o bem estar da populagio Guate. Por ser esta uma questo delicada, nao deve ser permitida a presenga de pessoas que queiram ir 3 érea como intuito de depredar 0 meio ambiente local (como € 0 caso de muitos turistas que anualmente visitam” o Pantanal para realizar pescarias), destruir o patriménio ar- qucolégico da Area ou com atitudes de intolerdncia e agressao em re- lagdo as diferengas culturais que existem entre as sociedades nao- indigenas e a etnia Guat6. ‘Mas como desenvolver uma atividade desse tipo na Ilha {nsua? Aqui nao tenho o propésito de apresentar uma férmula pronta e acabada sobre assunto e sim estimular o aprofundamento da discus- sio iniciada. O fato € que tudo deve ser pensado a partir do ponto de vista dos mais interessados ~ 0s proprios Guaté -, pois caso contrario corre-se 0 risco do insucesso total de um projeto desta natureza. No caso, 0 controle dessa atividade deve ser feito pela propria comunida- dea partir de uma orientagao e assessoria de profissionais especializados no assunto, Neste sentido, tormar-se-d fundamental uma estrutura mi- nima de transporte € hospedagem aos turistas: embarcagées, alimen- tagio, alojamento ete, De maneira alguma esta ser4 uma atividade que 138 igo isi UMS, Cap aS. 241230, 188 poderd causar impactos socioculturais diretos, indiretos e negativos & populacdo, a0 meio ambiente e a0 patriménio arqueolégico da reserva. 0 principio niio é que os Guaté sejam enquadrados aos valores cultu- rais dos turistas (nio-{ndios), mas que esses possam vivenciar o modo de ser Guat6 como ele de fato 6. Por isso, para exemplificar, no se pode pensar em hospedagens Iuxuosas, mas em habitagdes tipicas e confortéveis ao estilo local, construidas com matéria-prima existente na prpria reserva. Ademais a propria FUNAI deverd participar des- sas discussdes. Um exemplo interessante, ao menos em nivel de experiéncia, de um projeto deste nivel 6 0 Programa Piloto de Ecoturismo em Areas Indigenas que est4 sendo executado para a regidio ama- z6nica pela Associagio Brasileira de Ecoturismo (ECOBRASIL). Trata-se de um projeto promovido pelo Ministério do Meio Ambi- ente, dos Recursos e da Amaz6nia Legal, com apoio do Ministério da Justiga e da FUNAT, contando ainda com cooperagao técnica internacional da Organizagiio dos Estados Americanos (OEA) ¢ do Programa para Agdes Estratégicas para a Amazénia Brasileira (PRODEAM). “0 objetivo geral do projeto analisar-aviabilidade operacional eeco- nndmiea do ecoturismo em bases sustentaveis, em reas indigenas,atra- vvés do desenvolvimento de uma experiéncia piloto com comunidades que tenham interesse, potencial e voeagio, visando dar alternaivas econdmicas para a melhoria da qualidade de vida, promovendo a0 mesmo tempo a conservagio do patriménio ambiental ¢ cultural” (Mourko, 1997 p.1) A idéia é de que esta possa ser mais uma atividade econémica vidvel e sustentivel para a comunidade. Assim, as experiéncias adqui- ridas na Amaz6nia também serao de grande utilidade para a regio do Pantanal. De qualquer maneira, defendo a idéia de que a implementagao do ecoturismo na reserva deverd ser planejada a partir de Estudos de Impacto Ambiental — Relatério de Impacto Ambiental (EIA-RIMA), sob pena desta atividade econdmica causar sérios impactos sécio-eco- némicos ¢ culturais & comunidade indigena da ilha, b>» como ao nen i FS, Cg Gn MS 2): jan, 18 139 patrim6nio arqueolégico ali existente. Mais: a elaboragdo de EIA-RIMA deverd ser feito a partir de sé 1s estudos feitos por varios especialis- tas, exigéncia esta que extrapola os limites dos recursos humanos dis- ponfveis para a realizagao do projeto ora em discussio. Por outro lado, a pesca enquanto atividade econdmica vidvel ja é desenvolvida na reserva, Os Guaté pescam na lagoa Uberaba © adjacéncias e comercializam o pescado em Corumbé, usando como trans- porte uma embarcagdo prépria que possuem, a lancha “Guaté I". Uma das dficuldades enfrentadas pela comunidade neste tipo de atividade diz respeito ao armazenamento do pescado e, por isso, a implementagao de um projeto que possibilite a aquisigdo de uma camara frigorifica poderd sera solugo imediata para o problema, {As discussdes deste item estio abertas e as idéias so bem-vindas. CONSIDERAGOES FINAIS Os trabathos realizados foram de grande importancia para o pro- jeto de pesquisa ora em andamento; oferecem aportes para as préxi- ‘mas expedigdes de campo e sugesties para futuros projetos de pes- quisa que poderdo ser desenvolvidos na Iha {nsua. Para tanto, a ma- nutengo do convénio firmado entre a ECOA e a UFMS, que possibi- litou a realizagao do projeto Diagnéstico Sécio-ambiental da Area Indigena Guaté — Ilha insua, poder ser de grande importincia, desde que, € claro, haja interesse de ambas as partes. Do ponto de vista da Arqueologia, é possfvel realizar um levan- tamento de sitios arqueol6gicos existentes na drea, a partir de informa- (ges orzis c investigagtea em campo. F possfvel ainda realizar ura estudo etnoarqueolégico da cultura material Guats, de suas habitagdes, dos restos de alimentos relacionados ao processo de formagao de sft os arqueoldgicos, espécies floristicas manejadas na dea, dentre outras, questdes que possuem interesse para o conhecimento de sua adaptabi lidade ecolégica aos ecossistemas pantaneiros — questo esta que pode subsidiar futuros projetos de desenvolvimento de atividades eco- nOmicas alternativas e sustentaveis para a regido do Pantanal 140 mcs in UMS, Cap Ore MS. 21982, le, 186 No que se refere & Iingua Guat6, uma das tarefas urgentes seria ade iniciar um projeto que tenha por objetivo o resgate da lingua Guat6 para que ela possa ser ensinada as demais pessoas que nfo a domi nam, principalmente as criangas. Entretanto, como os que dominam a lingua Guaté sao téo poucos ¢ ja bastante idosos (geralmente ancifios), se um projeto dessa envergadura nao for concluido ainda nesta déca- da, talvez a Iingua do grupo venha a ser perdida para sempre, exceto pelos estudos realizados, como os de Palicio (1994), Por tudo 0 quanto foi dito, as perspectivas de novas pesquisas slo de grande estimulo e desafio, Ha pouco tempo somente dois pes- quisadores haviam tido interesse por realizar estudos junto aos Guaté, Hoje em dia existe um ntimero maior, com possibilidade de crescimen- to qualitativo. Os estudos jd concluidos e aqueles que o poderao ser ‘hum futuro nio muito distante, sao de grande importincia, pois podem subsidiar a implementagdo de projetos de pesquisa e politicas pablicas de apoio & comunidade Guats, REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS ARALIO,R.M.P. 1998, Relatrio Anua do Centro Ago Ambiental do Pantanal - 1997. ‘Corum: Centro de Asio Ambiental do Pantanal-ECOA. 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Entre outros avangos (ver Machado, 1984 para ‘um exemplo), estudos descritivo-tipoligicos deram lugar aandlises quantitativas ‘paseadas em estatstcas multivariadas, Mas, evido & escassez de material imteriorano, at © presente apenas amostas riundas do litoral centro-sul brasileio foram envolvidas nessasandlises. Nest trabalho, buscamos adicionar sj cconhecidssandlises multivariadas a respeito dos povos do litoral,dados relativos a0s povos pré-hist6ricos do interior da regido, Ressaltamos que os dados Aisponiveisatualmente sao quase que inexpressivos numericamente e que, portanto, ‘0s resultados desta anise devem ser vstos com muita cautela, Os resultados deste trabalho confirmam a hipétese de una interae0 tatdia entre os povos do interior e os do litoral (Neves, 1982, 1988), bem como trazem evidéncias que apoiam o Modelo das (Quatro Migragées para o povoamento das Américas (Neves et al, 1996b). Palavraschave: Sambaguis; Lagoa Sana; Tradigfo Hara; raniometri; Componentes Principais. {the first half ot the 80's there was a significant advancement inthe physical anthropological studies carried out in Brazil (see Machado, 1984 for an example). ‘Among other things. deseriptve-typological sudies gave place to quantitative ‘analyses based on multivariate statisti. Due tothe scarcity of human skeletal ‘remains inthe hinterlands ofthe country, only samples from the coast have been Involved so far in these analyses. In this work we have added tothe already known ‘mutivariare analyses ofthe coastal people data from pre-historic groups ofthe ‘countryside. However the human skeletal material from the interior is meager to say the leas, and consequently our results have 1 be seen carefully. Notwithstanding, these resuls seem to corroborate the hypothesis of alate interaction between the hinterland and the coastal groups (Neves, 1982, 1988) and provide more evidence supporting the Four Migration Model for the peopling ofthe Americas (Neves etal, 1996b) Key words: Shell Mounds; Lagoa Santa; lararé Tradition; Craniometry; ‘Main Components INTRODUGAO. ¢ forma bastante tardia, a primeira metade da década de 80 tes- temunhou no Brasil, entre outros avangos na Antropologia Biols- gica praticada no pafs (Machado, 1984), a transigdo entre os es- tudos descritivo-tipolégicos e os estudos matriciais-populacionais vol- tados para a exploracdo das afinidades biolégicas entre populagdes pré-hist6ricas e indigenas que ocuparam o territ6rio brasileiro. Exem- plos da sobrevivéncia extempordnea dos primeiros podem ser encon- trados em Mello e Alvim (1978), Mello e Alvim & Uch6a (1976, 1979/ 80); Mello e Alvim et al. (1975) e Aguiar (1986), enquanto que exem- plos de estudos quantitativos baseados em andlises estatisticas multivariadas podem ser encontracos em Neves (1982, 1986, 1989 a,b), Cocilovo & Neves (1988-89), Neves & Cocilovo (1989) ¢ Neves etal. (1985). Até 0 final dos anos 80, a maioria dos trabalhos quantitativos sobre afinidades biolégicas entre populagdes pré-histéricas brasileiras concentrou-se sobre 08 grupos que ocuparam o litoral centro-sul do pafs, analisando, primeiramente, as relagdes intrinsecas a essas popu- ages e, um pouco mais tarde, as relagdes entre elas e aquelas do litoral fluvial e maritimo patagénico da Argentina. Essa concentragao Ren ini UES, Cn Cane, MS, 2). ji 158 145 NO «de esforgos na linha litordnea foi determinada exclusivamente pelo fato de que amostras esqueletais pré-hist6ricas oriundas do litoral antes em museus ¢ i abun ‘ituigdes arqueolégicas brasileiras, ao passo que colegées de esqueletos oriundos de sitios do interior da mesma regitio so quase inexistentes (Prous, 1991) Excegilo a este segundo caso 6 a rea arqueolégica de Lagoa ‘Santa, que, nos tltimos cem anos, produziu amostras esqueletais hu- manas bastante expressivas numericamente relativas aos seus habi- tantes mais antigos (Paleo-indios e seus descendentes diretos) (Mello ¢ Alvim, 1977; Neves, 1992), Esses materiais foram, entretanto, 56 recentemente inclufdos em andlises multivariadas, tendo em vista que © livre acesso do autor senior deste artigo as colegdes esqueletais hu- rmanas de Lagoa Santa depositadas em instituigdes nacionais (Museu de Historia Natural da UFMG e Museu Nacional do Rio de Janeiro) s6 se viabilizou a partir de 1994, aps abruptas modificagdes no cenério a sociologia do poder académico na Antropologia Biolégica nacional. Além disso, por razies de competitividade académica internacional, as anélises multivariadas até o momento realizadas com os remanescen- tes 6sseos humanos da regido de Lagoa Santa priorizaram as relagdes cextra-continentais desses primeiros americanos (Neves & Pucciarelli, 1989; Neves & Pucciarelli, 1991; Neves et al., 1993, 1996, 1997, 1998) € nio as suas relagdes com populagdes geograficamente préximas (excegdes a isto podem ser, no entanto, encontradas em Munford et al,, 1995 e Neves et al., 1996). 0 objetivo deste trabalho € adicionars anélises multivariadas {4 empreendidas quanto ao litoral brasileiro uma investigagtio ainda ‘que preliminar sobre as relagdes dessas populagdes com aquelas que habitaram o interior do Brasil central meridional, bern como entre ‘essas segundas, apenas. Nesse sentido, estamos atendendo, entre ou- ttos, a um apelo efetuado por Prous (1991, p. 332). O eardter prelimi- nar deste trabalho decorre do fato de que as amostras dispontveis para 0 interior do centro-sul brasileiro estio longe de apresentar qualquer significdncia numérica, por qualquer recorte que se adote: cultural, cro- 146 mae Rex Hi UES, -—- nolégico e/ou espacial (geogréfico). Assim, este artigo deve ser enca- rado apenas como um experimento exploratério piloto, o melhor que se pode fazer diante do material esqueletal humano hoje dispontvel para 0 interior do Brasil central e meridional. MATERIAL E METODOS © material analisado neste trabalho consiste de remanescentes ‘6sscos humanos de origem arqueol6gica, do sexo masculino, exumados de sitios localizados no litoral e/ou no interior dos Estados de Minas Ge- rais, Sao Paulo, Parand e Santa Catarina, abrangendo, portanto, o que convencionalmente é definido como as regides Sudeste ¢ Sul do Brasil Cronologicamente, pode-se serem-se numa fi izer que os sftios utilizados in- ‘a de tempo de aproximadamente 12.000 anos, indo dos primeiros cacadores-coletores paleo-indios até os horticultores ceramistas que ocuparam o sul do Brasil até momen- tos proximos a conquista. No caso do litoral, materiais oriundos de varios sitios proximos espacial e temporalmente, foram, &s vezes, reunidos em séries m: inclusivas, com 0 objetivo de reduzir 0 efeito da variancia local sobre a anélise multivariada. Infelizmente, 0 mesmo nao pode ser efetuado para as amostras do interior, tendo em vista a exiguidade do material Um total de 14 séries foram definidas e analisadas em termos de suas afinidades biolégicas. A Tabela | mostra os sitios envolvidos na anali- se, suas cronologias relativas ¢ absolutas, quando existentes, bem al- gumas de suas caracterfsticas. Ela fornece, também, a composieao de cada série artificialmente reunida e a fonte dos dados craniométricos. ‘Varios dos sitios litoraneos aqui utilizados jé 0 foram em experimentos, anteriores, sobretudo em Neves (1982), Cocilovo & Neves (1988-89) e Neves & Cocilovo (1989). O mesmo se deu com a série Sumidouro, cujos dados craniométricos jé foram extensivamente explorados em Neves & Pucciarelli (1989, 1991), com outras finalidades. Algumas séries litoraneas, bem como as séries do interior do Parand so, entre- tanto, completamente inéditas. rie en i FMS, Cn Cade MS.) 18.10, en, 158 147 " °° | s dados eraniométricos foram reunidos da literatura antropo Igica nacional ou obtidos diretamente por um de nés (WAN) nos tilti- ‘mos 18 anos. Em ambos 0s casos, 0s critérios craniométricos utiliza- dos seguiram 0 preconizado em Pereira & Mello ¢ Alvim (1979), onde definigio pormenorizada de cada medida pode ser encontrada, Ten- do em vista que a andlise incluiu 14 séries, apenas 13 variveis craniométricas foram inclufdas na andlise multivariada, evitando desta forma problemas coma inversio da matriz original de dados (Chatfield & Collins, 1980) A Tabela 2 fornece nao s6 os nomes dessas 13 vari fveis, mas também seus respectivos valores médios para as 14 séries incluidas na andlise. As afinidades bioldgicas inter-séries foram investigadas através da aplicago de Anélise de Componentes Principais sobre os dados bru- tos apresentados na Tabela 2, bem como sobre os mesmos dados corri- idos quanto ao fator tamanho, utilizando-se para tanto 0 método sugeri- do por Darroch & Mosimann (1985), onde os valores de cada varidvel foram divididos pelo média geométrica entre todas as varidveis de cada série. Detalhes com referéncia & Andlise de Componentes Principais podem ser encontrados em Andrews & Williams (1973), Chatfield & Collins (1980) ¢ Neves (1982). O software utilizado foi o SPSS. RESULTADOS s resultados obtidos para ambas as anilises efetuadas estio apresentados da seguinte forma: a) A Tabela 3 fomece as caracterfsticas bisicas dos componen- tes principais gerados. Conforme pode ser observado na andlise baseada em forma e tamanho os dois primeiros somponentes prin- Cipais sintetizaram 43,2 % da informagao originalmente contida nas 13 varidveis originais. 14 na andli baseada apenas sobre forma, os dois primeiros componentes sintetizaram 45,9 da infor- magi original. Pode-se dizer, portanto, que as relagdes biolégi- cas expressadas através das anélises de componentes prineipais aqui efetuadas apresentam uma forga explanatt mediana, 148 sit-in UMS, cago b) As Tabelas 4 ¢ 5 apresentam as correlagdes entre as varié- veis craniométricas originalmente utilizadas com os dois primei- ros componentes principais gerados. No caso da anélise basea- da sobre tamanho e forma (Tabela 4), 0 primeiro componente apresenta-se altamente influenciado pelas varidveis CSF (Cor da sagital frontal), CSO (Corda sagital occipital), LFM (Diame- tro frontal minimo) e LMX (Largura maxima), com as quais apresentam correlagdes positivas. J4 0 segundo componente apresenta-se altamente influenciado pelas varidveis LNS (Lar- gura nasal), LCM (Largura bizigomética) e AOB (Altura da <6rbita), com as quais se correlaciona de forma positiva. Em sin- tese, 0 primeiro componente parece expressar as grandes di- mensées do crinio, a sagital e a transversal, ao passo que 0 segundo parece expressar medidas faciais, com certa énfase na Jargura da face. No caso da andlise baseada apenas sobre for- ma (Tabela 5), 0 primeiro componente foi afetado principalmen- te pelas varidveis AAR (Altura porio-bregma), CSO (Corda occipital), LMX (Largura maxima) LFM (Largura fron- tal minima). Com trés dessas varidveis (CSO, LMX ¢ LFM) 0 primeiro componente apresenta-se correlacionado de mancira positiva, ao passo que com duas outras (AAR) a correlagio é negativa, Este componente € muito semethante ao CP 1 da ané- lise baseada sobre forma ¢ tamanho, tendo expressado as ca- racteristicas de expansio sagital e transversal do cranio, as quais, acrescentou, também, a dimensao vertical do neurocranio (altu- ra). O segundo componente principal foi afetado principalmente pelas variéveis AOB (Altura da drbita), APS (Altura facial su- perior), AAR(Altura porion-bregma) ¢ CSF (Corda sagital fron- tal). A melhor interpretagdo para este componente é a de que ele concentrou as informagdes quanto & altura do cranio como, um todo, incluindo fac ©) A Figura 1 apresenta de forma espacial gréfica as afinidades. bioldgicas entre as séries investigadas referentes & anélise ba- re 212 68-10, 149 seada em tamanho ¢ forma, Dois grandes grupos, ainda que dlispersos, parecem emergir da anilise do grafico bidimensional: um a direita ¢ outro & esquerda do grafico. O grupo da dirvita é formado exclusivamente pelos sambaquis pré-ceramicos e é mais compacto, enquanto que 0 da esquerda, bem mais disperso, & composto pelas séries do interior (pré-ceramico e cerdimico) mais as séries cerdmicas do litoral de Santa Catarina, a excegio de Forte Marechal Luz que se encontra numa posigao intermedié- entre os dois clusters formados. No grupo formado exclusi- vamente pelos sambaguis p -cerdimicos, é impossivel distinguir sub-grupos. O mesmo niio acontece com o segundo cluster, mais disperso, Neste, dois sub-clusters parecem se esbogar: um com- posto por Sumidouro, Enseada e até certo ponto Forte Marechal Luze um segundo composto por Laranjeiras II, Estirio Compri- do, Itacoara e Sengés. E necessério salientar que neste segundo aso, insinuagiio de dois sub-clusters é basicamente provocada pela interveniéneia do segundo componente principal 4) A Figura 2 apresenta de forma espacial gratica as afinidades biol6gicas entre as séries investigadas referentes a andlise ba- seada sobre forma, apenas. Diferentemente da andilise anterior, neste caso parecem ter se definido seis diferentes grupos: um primeiro, formado apenas por Sengés; um segundo formado apenas por Sumidouro; um terceiro, formado por Estirdo Com- prido, Itacoara ¢ Laranjeiras I; um quarto, formado pelos sambaquis pré-cerdmicos do Litoral Norte de Santa Catarina e do Paranii; um quinto formado pelos sambaquis com compo- nentes ceramicos do Litoral Norte de Santa Catarina; e um tilt ‘mo, 0 mais inclusive de todos, que reine os sambaquis pré- cerdmicos do Litoral Central de Sao Paulo ¢ 0s do Litoral Sul e Central de Santa Catarina, Para a formagio desses cluster con- tribufram, ao mesmo tempo, tanto o pri \ciro componente princi- pal, quanto o segundo. Se a anélise se restringir ao primeiro componente apenas, pode-se dizer que ele continua diferenciando 150 eae Hiei UMS, Cap Grane S285 9.0 ae 94 prioritariamente os sambaquis pré-cerdmicos dos grupos interioranos. A diferenga, agora, é que Forte Marechal Luz ¢ Enseada I parecem mais integrados ao primeiro grupo, do que a0 segundo. DISCUSSAO E CONCLUSOES Conforme ressaltado no inicio deste trabalho, os resultados aleangados pela presente andlise devem ser vistos com imensa cautela, tum vez.que as amostras esqueletais de que dispomos para sua elaboracio estiio muito longe de atender os requisitos de uma andlise quantitativa de ‘qualidade insuspeita. Este fendmeno é extremamente eritico sobretudo para os grupos pré-hist6ricos que ocuparam o interior do pati Tendo em vista que os resultados aleangados, embora frigeis, iportantes para a elucidagio de apresentam algumas implicagdes processos microevolutivos ocorridos na pré-histéria brasileira em Aiversos niveis, tentaremos analisar essas conseqiiéncias trabalhando ‘com recortes geogrifico-temporais bem delineados. Acreditamos que organizar nossa leitura dos resultados e de suas implicagdes dessa maneira facilitaré a compreensdo por parte da comunidade antropolégica e arqueolégica brasileira. Antes, porém, de iniciarmos nossa construgao por recortes geogréfico-temporais mais especificos, gostariamos de salientar uma primeira implicacdo de caréter geral: as evidéncias geradas por este trabalho parecem indicar, de maneira bastante clara, que os processos microevolutivos ocorridos no litoral eno interior do centro-sul brasileiro © foram de forma bastante independente até pelo menos momentos, muito tardios do periodo pré-colonial De agora em diante vamos examinar as implicagdes dos resultados sob a seguinte estrutura: implicagdes para as relagdes entre 0 grupos pré-cerdimicos do iiiorat, implicagdes para as relagdes entre 08 grupos interioranos, implicagdes para as relagdes entre os grupos ceramistas do interior e do litoral,¢ implicagdes para as atuais di sobre a origem do homem americano, nit aE IMPLICAGOES PARA AS RELACOES ENTRE OS GRUPOS PRE-CERAMICOS DO LITORAL O debate sobre a homogeneidade ou a heterogeneidade das populagdes construtoras de sambaquis do sul Brasil ja se transformou. hnuma questio elissica nas pesquisas arqueolégicas efetuadas no lito- ral brasileiro (para uma revisio ver Schmitz, 1984; Neves, 1989; Prous, 1991; Gaspar, 1995). Em que medida os resultados aqui apresentados ccontribuem para 0 avango dessa discusso? A andlise baseada no fa- tor forma, apenas, parece indicar uma certa heterogeneidade entre os construtores de sambaquis do centro-sul brasileiro, Esses sambaquis parecem se agrupar, do ponto de vista genético, em dois grandes “bolsées” biolégicos: um formado pelos sambaquianos de Sao Paulo, Centro ¢ Sul de Santa Catarina e outro formado pelos sambaquianos do Parand e Norte de Santa Catarina. Este segundo bolsdo apresenta "uma l6gica geogrifica que realmente poderia ter facilitado a roca génica entre grupos humanos, tendo em vista sua contiguidade espacial, O ‘mesmo argument é, entretanto, invivel para explicar a similaridade entre os participantes do primeiro “bolso”. Como garantir uma troca Benica mais freqiiente entre grupos to separados geograficamente ‘como 05 construtores de sambaquis de So Paulo e aqueles do extre- ‘mo sul de Santa Catarina? Sobretudo quando entre ambos encontrava- se um outro enclave de troca génica preferencial (0 segundo bolsio constituido pelos sambaquianos do Litoral do Parané e do Norte de ‘Santa Catarina)? Num trabalho anterior, também com base em carac- terfsticas craniométricas, um de nés (WAN) jai havia detectado uma grande similaridade entre os construtores de sambaquis do Litoral de Siio Paulo, com aqueles do Litoral Sul e Central de Santa Catarina (Neves, 1982), mas infelizmente naquela oportunidade nao foi possivel incluir representantes do Litoral Norte de Santa Catarina, nem do Lito- ral do Parand, Num outro trabalho, desta vez baseado em caracteristi- cas ndo-métricas menores do crénio, Neves (1989) detectou uma mai or similaridade entre os sambaquis do Parand com os do Norte de ‘Santa Catarina, quando comparados aqueles do sul e do centro desse 152 ono Hint UP, Cap ad MS, 219.108, 154 mesmo Estado, Naquela ocasifio, entretanto, no puderam ser inclut- dos na analise, por razdes alheias & vontade do autor, os materiais de Sao Paulo, Nessa segunda anélise (caracteres néio-métricos), um de 1ngs (WAN) salientou a possibilidade de que no Litoral Central de San- ta Catarina, durante tempos pré-cerdmicos, também tenha havido uma intrusdo populacional do interior que trouxe para aquele trecho da cos- prépria. Os resultados aqui alcangados ile, jé que a série Ponta das ta uma composigdo gené no parecem falara favor dessa possiil ‘Almas aparece sempre muito bem integrada ao bolsio formado por Piagaguera, Buragao, Cabeguda € Litoral Sul de Santa Catarina. necessério ressaltar, entretanto, que a presente anélise nao incluiu os sepultamentos dos sitios Armagao do Sul, Laranjeiras I ¢ Pantano do Sul, o que ocorreu em Neves (1989). Nesse sentido, a elucidagao des se problema dependerd da medigao e incluso dos erdinios desses siti- ‘os em uma futura andlise Essa perspeetiva de uma certa heterogeneidade genética litoré- nea evidenciada pela andlise multivariada baseada no fator forma, ape- nas, 6 entretanto contrariada, até certo ponto, pela andlise baseada nos fatores tamanho e forma, ja que nesse caso todos os sambaquis pré- cerdmicos parecem ocupar uma mesma regifio do grafico bidimensional, em oposigao, indistinta, aos grupos do interior e ceramistas do litoral. Como conciliar esses dois resultados aparentemente conflitantes, ba- seados nos mesmos materiais? Dois modelos distintos podem ser su- geridos para acomodar esses resultados aparentemente conflitantes. (O primeiro deles é admitir que grupos com uma origem remota comum possam ter ocupado a costa centro-sul brasileira hé pelo menos 6000 anos e, com o passar do tempo, acabaram formando bolsdes preferen- de fluxo génico, mais ou menos coincidentes com as grandes baias lagunares, que acabaram por restringir, de certa forma, trocas ndo padrdes morfolégicos mais lo- génicas a longas distancias, produ: cais. A similaridade entre eles seria, portanto, explicada por uma ori- ‘gem comum remota, com trocas génicas modestas ou nulas ao longo de grandes extensdes da costa, ¢ com intensas trocas génicas dentro iat Re. i PMS, hp Gene MS, 24 18.0, aie, 18 153 —_-——( ee de bolsdes de menores extensGes. Caso tenha ocortido restrigiio de trocas génicas a longa distéin . deve ter havido uma razo muito es- pecial para isso, pois a costa litordnea é um eixo natural que estimula contato € ndo isolamento, A segunda possibilidade seria pensar em grupos com origens remotas distintas que convergiram para 6 litoral ¢ acabaram por trocar genes entre si ao longo dos milénios, promovendo luma certa, porém no completa, homogeneizagio morfoldgica. A es- colha entre essas duas possibilidades microevolutivas dependeré da aplicagao, no futuro, de modelos genético-populacionais complexos sobre colegdes esqueletais mais abundantes e melhor contextualizadas cronol6gica e culturalmente. IMPLICACOES PARA AS RELACOES ENTRE OS GRUPOS INTERIORANOS A interpretagdo dos resultados obtidos para as séries interioranas €extremamente dificil, na medida em que elas representam extremos cronolégicos da ocupagio do interior do Brasil central ¢ sul. Infeliz- mente, 0 fato de até 0 momento no dispormos de sepultamentos rela- cionados as trés grandes tradigdes pré-ceramistas (Itaparica, Umbu ¢ ‘Humaita) que ocuparam o mesmo territério entre esses extremos cro- nolégicos (Schmitz, 1985; Prous, 1991) pode tomnar qualquer tentativa de interpretago um exereicio de futilidade Ao peso desse risco, vamos, entretanto, tentar extrair algumas ligdes muito genéricas a parti da andlise aqui efetuada, Como disse- mos anteriormente, a anélise baseada nos fatores tamanho e forma no permitem delinear a formagdo de sub-clusters entre as séries interioranas. A tinica informagao que € possivel retirar dessa andlise 6 © fato de que essas séries se opdem aos grupos sambaquianos, quando © primeiro componente principal é levado em consideragao. Chama a atencdo, entretanto, nessa andlise, 0 fato de Sumidouro estar bem afas- tada das demais séries do interior. As implicages dessa relagio se entretanto, analisada de forma mais pormenorizada um pouco a frente. No momento, eremos ser suliciente ressaltar que este resultado apre- senta uma légica cronolégica, na medida que se as estimativas de ida- de para Sumidouro estiverem corretas, quase 10 mil anos separam esta série das demais séries interioranas. Sengés e Estirio Comprido parecem se associat, nesta anailise, a um sub-cluster, ainda que disper- so. Este resultado parece, em princfpio, incoerente com as informa- ‘gBes arqueol6gicas que associam Sengés & tradigdo tararé ¢ Estirio Comprido’ Tradig20 Tupi-Guarani. Entretanto, conforme Chmyz (1968, 1969) enfatizou, ha intrusdo da ceramica Itararé no sitio Estirio Com- prido. Além disso, os sepultamentos nesse sitio so majoritariamente, se nao exclusivamente, primérios e diretamente no solo. Nesse senti do, hauma possibilidade, ainda que pequena, de que os sepultamentos de ambos os sitios estejam ligados aos povos Itararé endo Tupi-Guarani ‘A anilise bascada sobre forma apenas confirma as tendéncias da anilise anterior. Aqui também Sumidouro, Sengés ¢ Estirdio Com- prido apresentam-se numa regio do grifico bi-dimensional oposta aos ‘grupos litordneos. Entretanto, cada uma dessas séries parece manter uma certa independéncia entre si. IMPLICAGOES PARA AS RELACOES ENTRE OS GRUPOS CERAMISTAS INTERIORANOS E LITORANEOS Conforme enfatizado na introdugio deste trabalho, esta é uma questo critica para a compreensdo dos fendmenos de mudanga cultu- ral na costa sul brasileira. Andlises anteriores, baseadas em caracte- risticas métricas (Neves, 1982) e caracteristicas nio-métricas (Ne- vves, 1989) favoreceram a hipstese de que as mudangas culturais ocor- ridas no litoral de So's Catarina a partir do ano 800 de nossa era (adogdo da ceramica, do anzol eda pesca como atividade principal de subsisténcia) podem ser methor explicadas por deslocamento populacional do interior para. litoral, na medida em que aquelas pes- quisas demostraram a concomitancia da chegada de uma nova ‘morfologia craniana naquela regio. Deve ser salientado, entretanto, que na andlise métrica efetua- da por nds em 1982 nio foram incluidas séries pré-cerdimicas do Lito Fri Rev His UFMS, Ca Gee MS.245 68, eee 98 155 —_— ral Norte de Santa Catarina, enquanto que na andlise efetuada em 1989, por raz6es alheias & vontade do autor, a série Forte Marechal ‘Luv nao foi inclufda nas andlises. Qual o quadro que emerge quando essas deficiéneias so solucionadas’?” Ao nosso ver, tanto na anilise com base em tamanho e forma Quanto na andlise baseada sobre forma, apenas, os resultados pare- ‘com confirmar as conclusdes obtidas por Neves (1982, 1989), Na p ‘meira, tanto Enseada I, quanto Laranjeiras Ile Itacoara apresentam- se no grande cluster que se opde aos grupos pré-ceramistas construto- resde sambaquis, ao passo que Forte Marechal Luz apresenta-se numa regido intermediéria entre ambos os clusters. Esta situagdo intermedi- ria de Forte Marechal Luz é esperada, na medida em que na anélise original de Mello e Alvim & Mello Fitho (1968), esqueletos dos niveis pré-cerimicos e ceramicos parecem ter sido tratados juntos. Na andlise baseada em forma, apenas, onde pudemos definir 6 clusters, tanto Laranjeiras II quanto Ttacoara, por um lado, e Enseada Te Forte Marechal Luz, por outro, formam clusters independentes da ueles dos sambaquis pré-cerémicos. Entretanto, o cluster formado Por Laranjeiras Ile Itacoara est muito mais afastado dos construto- res de sambaquis pré-cerémicos, do que Enseada I e Forte Marechal Luz. A melhor maneira de explicar esta diferenga é assumir que: a) no caso dos primeiros no tenha havido troca génica com os grupos pré- ceramistas locais; b) que no caso de Enseada I tenha havido algum fluxo génico com os sambaquianos locais, ainda que modesto e que; c) ‘no caso de Forte Marechal Luz esta relagao ¢ artificial, uma vez que é, Provavelmente, uma série mesclada, com esqueletos do nivel pré- ceramico e ceramico, A relagao entre os ceramistas litoraneos com os ceramistas interioranos em termos de tradigSes especificas nao permite, entretanto, ‘uma interpretagao simples. Na segunda anélise, por exemplo, onde s6 forma ¢ levada em consideracZo, Laranjeiras Hl, uma aldeia litordnea tipicamente Itararé (Schmitz, 1993) apresenta-se muito préxima a Estirdo Comprido e Itacoara, o primeiro uma aldeia Tupi-guarani interiorana, 0 156 Frn-Re Hira UPMS, Cg Gans M3 18, ie, 996 segundo um acampamento conchifero litoraneo cujo nivel cerdimico esta associado também & Tradigao Tupi-guarani (Chmyz, 1976). Nossa ex- pectativa nesse sentido, tendo em vista o que jé se sabe da biologiae da cultura dessas populagdes, & que se formasse um cluster muito claro composto por Sengés, Laranjeiras II, Enseada I e Forte Marechal Luz, todos Itararé, © um outro cluster, também muito claro, formado por Iacoara e Estirdo Comprido, ambos Tupi-guarani. Essas expectativas nao se cumpriram. E possfvel que se eumpram quando conhecermos melhor avaribilidade morfoldgica dos grupos ceramistas Iararée Tupi guaran no planalto, Ou eto, tendo em vista o fato de que nesses ii jos também foram encontrados cacos da tradigo Ttararé existentes estejam mos dois s (Chmyz, 1968, 1969, 1976), de que os esqueletos ; relacionados a povos dessa tradigo e nfo a povos Tupi-Guarani. Schmitz. etal, (1993) defenderam explicitamente esta posigdio para Itacoara. Para cles este sitio é uma aldeia da Tradigfo lararée ndo da Tradigao Tupi- Guarani, Nossos resultados parecem, portanto, apoiar mais esta posi¢ao do que a anteriormente expressada por Chmyz (1976). IMPLICACOES PARA AS ATUAIS DISCUSSOES SOBREA ORIGEM DO HOMEM AMERICANO, Apesar de pouco conhecida no Brasil, a andlise morfolégica ‘comparativa extra-continental dos primeiros habitantes de Lagoa San- ta tém levado & necessidade de uma releitura da ocupagio do conti- nente americano (ver Lahr, 1997 para uma revisio)-Uma revisiio com- pleta a respeito do assunto, em seus detalhes e implicagies, est fora do escopo desta publicagao. De forma sinttica,entretanto, desde 0 final dos anos 80, um de nés (WAN), em parceira com colegas brasi- Ieiros,argentinos © mais recentemente norte-americanos, vem postu- lando que a América foi primeiramente ocupada por grupos nao- mongoldides que foram substituidos no final do periodo Paleo-fndio e no inicio do Arcaico, por populagGes tipicamente mongolsides (Neves, & Pucciarelli, 1989, 1991; Neves et al., 1993, 1996a). Tais resultados foram posteriormente confirmados por pesquisas independentes reali ‘zlas sobre 0s poucos crénios Paleo-indios existentes da América do Norte (Stecle & Powell, 1992, 1993, 1994), Esses dados permitiram a tum de nds (WAN), recentemente, propor um novo modelo de ocupa- Gio da América, 0 Modelo das Quatro Migragées (Munford et ala, 1995; Nevesetal., 1994,1996b, 1997, 1998). Uma das questdes pendentes nesse novo quadro diz respeito & sobrevivéneia ou nio dos grupos ndo-mongoléides, apés a chegada dos tipicamente mongoldides, por volta de aproximadamente, 9-8 mil anos, na América do Sul. Lahr (1995) demonstrou, por exemplo, que pelo menos os fueguinos que sobreviveram em tempos hist6ricos nfo apresentavam uma morfologia completamente mongolizada, o que pode io de remanescéncia de caracteres Paleo-indios até tardi mente no continente, Neves et al, (1996b, 1997), mostrou, também, uma certa afinidade morfoldgica entre os indios Botocudos do Bra: central ¢ 0s primeitos paleo-indios que aqui chegaram, Em que as andlises efetuadas neste trabalho contribuem para esse novo panorama sobre a ocupagio do Novo Mundo? Ao nosso ver, tanto a andlise baseada em tamanho e forma, quanto a andlise baseada em forma, apenas, deixam claro a oposigao morfoldgica entre ‘Sumidouro os grupos arcaicos pré-ceramistas do litoral. Uma vez ue a ocupagao do litoral centro-sul brasileiro pode remontara mais de 6 mil anos, esses resultados parecem confirmar a idéia de que duas morfologias bastante distintas conviveram em nosso territério em tem- pos antigos, o que nao confirma diretamente, mas apoia o Modelo das Quatro Migragdes. Nossos resultados parecem contribuir pouco ou ‘quase nada para a discussio sobre a sobrevivéncia da morfologia nio- ‘mongoldide em tempos tardios, Embora Sumidouro se mantenha em ‘ambas as anélises integrada as demais séries interioranas e até mesmo uma série ceramista litorfinea (ENS), em uma das andlises, sua pos a0 no grafico nao nos autoriza, entretanto, postular uma relagao dire- ta de ancestralidade-descendéncia. Tal relagiio s6 poderd ser inferida quando estiverem disponiveis séries cronologicamente intermedisiias centre 0s Paleo-indios ¢ os grupos ceramistas tardios. Iss ise Min UPS, Camp Cae MS, 2) 13.08, ae, 158 AGRADECIMENTOS Queremos agradecer a Jorge Eremites de Oliveira pelo convite para elaborarmos este trabalho, a Danusa Munford pela ajuda no processamento dos programas SPSS e a Igor Chmyz por informages pessoais sobre arqueologia do interior do sul do Brasil. Nossos agrade- cimentos séo também estendidos a Pedro I. Schmitz e Maria Dulce Gaspar pela leitura critica do manuscrito. Um de nés (WAN) contou ‘com uma botsa de pesquisa do CNPq durante a elaboragaio do trabalho (Proceso 305918/85-0). REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS AGUIAR, N.V.0. (1986) Paleodemografia, morfologiae priticasfuneririas. Umestu- dade dos sitios arqueolégicos do Litoral de Santa Catarina, Brasil. Tese de Mestrado apresentada i Universidade de Sao Paulo, fi ANDREATTA, M.D, & MENEZES, M.J. (1968) Nota prévia sobre o sambaqui “B” do Guaraguagu, Revista do Centro de Ensino e Pesquisas Arqueoligicas da UFPR, 1:25.30. ANDREWS, P.& WILLIAMS, D.B. 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