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II Encontro Regional da Associação Brasileira de Etnomusicologia

II Colóquio Amazônico de Etnomusicologia

Etnomusicologia na contemporaneidade:

Diálogos disciplinares e interdisciplinares

Belém, 22 a 24 de junho de 2016

REALIZAÇÃO

na contemporaneidade: Diálogos disciplinares e interdisciplinares Belém, 22 a 24 de junho de 2016 REALIZAÇÃO APOIO

APOIO

na contemporaneidade: Diálogos disciplinares e interdisciplinares Belém, 22 a 24 de junho de 2016 REALIZAÇÃO APOIO

ANAIS

ADRIANA COUCEIRO, LILIAM BARROS COHEN, PAULO MURILO GUERREIRO DO AMARAL, SONIA CHADA (Orgs.)

ISBN 978-85-67528-01-4

Disponível em: <http://www.labetno.ufpa.br>

http://iienabetnorte.wix.com/iienabetnorte

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ Reitor Carlos Edilson de Almeida Maneschy Vice-Reitor Horácio Schneider Pró-reitora de

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ

Reitor Carlos Edilson de Almeida Maneschy Vice-Reitor Horácio Schneider Pró-reitora de Ensino de Graduação Maria Lúcia Harada Pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação Emmanuel Zagury Tourinho Pró-reitor de Extensão Fernando Arthur de Freitas Neves Pró-reitor de Administração Edson Ortiz de Matos Pró-reitora de Planejamento Raquel Trindade Borges Pró-reitor de Relações Internacionais Flávio Augusto Sidrim Nassar Pró-Reitora de Desenvolvimento e Gestão de Pessoal Edilziete Eduardo Pinheiro de Aragão

INSTITUTO DE CIÊNCIAS DA ARTE

Diretora Geral

Adriana Azulay

Diretor Adjunto

Joel Cardoso

BIBLIOTECA CENTRAL

Coordenadoria de Desenvolvimento de Coleções Nelma Maria da Silva Maia de Lima Coordenadoria de Processamento de Material Informacional Ana Maria Pereira Gomes da Cruz Coordenadoria de Serviços aos Usuários Carmecy Ferreira de Muniz Coordenadoria de Gestão de Produtos Informacionais Albirene de Sousa Aires Coordenadoria de Planejamento e Marketing (Sistema de Bibliotecas - SIBI/UFPA) Hilma Celeste Alves Melo

LABETNO

Coordenadoras Líliam Cristina Barros Cohen Sonia Maria Moraes Chada

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO PARÁ Reitor Juarez Antonio Simões Quaresma Vice-Reitor Rubens Cardoso da Silva

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO PARÁ

Reitor Juarez Antonio Simões Quaresma Vice-Reitor Rubens Cardoso da Silva Pró-Reitora de Pesquisa e Pós-Graduação Hebe Morganne Campos Ribeiro Pró-Reitora de Graduação Ana da Conceição Oliveira Pró-Reitor de Gestão e Planejamento Carlos Capela Pró-Reitora de Extensão Mariane Franco

CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E EDUCAÇÃO

Diretor Anderson Madson Oliveira Maia Vice-Diretor Jairo de Jesus Nascimento da Silva

EDITORA DA UEPA

Coordenação e Chefia de Edição:

Paulo Murilo Guerreiro do Amaral

GEMAM

Coordenador Paulo Murilo Guerreiro do Amaral

COMISSÃO ORGANIZADORA Adriana Couceiro Líliam Barros Cohen Paulo Murilo Guerreiro do Amaral Sonia Chada

COMISSÃO CIENTÍFICA Jorgete Lago José Ruy Henderson Liliam Barros Lívia Negrão Maria José Moraes Paulo Murilo Guerreiro do Amaral Rosa Maria Mota da Silva Sônia Blanco Sonia Chada

ASSISTENTES DE PRODUÇÃO

COORDENAÇÃO Jucélia Estumano Henderson Tainá Maria Magalhães Façanha

Alice Alves Anderson Clayton Gonçalves Sandim André W.Louzada D'Albuquerque Bárbara Lobato Batista Dayse Maria Pamplona Puget Ednésio Teixeira Pimentel Canto Edson Santos da Silva Evandro Williams da Cruz Silva Laura Vicunha Paraense Guimarães Natália Lobato da Silva Paulo Roberto da Costa Barra Ricardo Smith Rodrigo Pinto de Macedo Thomas Rafael Alves Teixeira

ARTE

Josi Mendes

EDIÇÃO E REVISÃO Tainá Maria Magalhães Façanha

DIAGRAMAÇÃO Tainá Maria Magalhães Façanha

ARTE Josi Mendes EDIÇÃO E REVISÃO Tainá Maria Magalhães Façanha DIAGRAMAÇÃO Tainá Maria Magalhães Façanha 6

Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP)

Biblioteca Central UFPA

Encontro Regional da Associação Brasileira de Etnomusicologia (2: 2016 jun. 22-24: Belém, PA)

Anais [do] II Encontro Regional da Associação Brasileira de Etnomusicologia [e] II Colóquio Amazônico de Etnomusicologia / Encontro Regional da Associação Brasileira de Etnomusicologia, Colóquio Amazônico de Etnomusicologia. Belém:

LABETNO: GEMAM, 2016.

ISBN ISBN 978-85-67528-01-4

<http://iienabetnorte.wix.com/iienabetnorte>

1. Etnomusicologia. I. Colóquio Amazônico de Etnomusicologia (2: 2016 jun. 22- 24: Belém,PA). II. Título.

CDD - 23. ED. 780.89

O conteúdo publicado é de inteira responsabilidade dos respectivos autores.

Apresentação

O Laboratório de Etnomusicologia (LabEtno) da Universidade Federal do Pará e o Grupo de Estudos sobre a Música na Amazônia (GEMAM) da Universidade do Estado do Pará realizaram o II Encontro Regional Norte da Associação Brasileira de Etnomusicologia ABET e o II Colóquio Amazônico de Etnomusicologia, apoio das Universidades Federal e Estadual do Pará. Os encontros aconteceram no período de 22 a 24 de junho, no Auditório do Programa de Pós-Graduação em Artes da UFPA, com o tema: “Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares", reflexões sobre a Etnomusicologia na contemporaneidade, a disciplinaridade/interdisciplinaridade da área e investigações em seus modi operandi que distinguem, identificam contextos e suas culturas. Conferências, Mesas Redondas, Sessões de Comunicações e Apresentações artísticas foram realizados, envolvendo convidados nacionais e da Amazônia, estudantes, professores, músicos, mestres da cultura popular, constituindo-se em espaços institucionalizados de debates e de socialização de pesquisas na área da Etnomusicologia, mais um passo em direção a consolidação da área na Região Norte do Brasil. Comissão organizadora

, mais um passo em direção a consolidação da área na Região Norte do Brasil. Comissão
II ENCONTRO REGIONAL NORTE DAASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ETNOMUSICOLOGIA II COLÓQUIO AMAZÔNICO DE ETNOMUSICOLOGIA

II ENCONTRO REGIONAL NORTE DAASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ETNOMUSICOLOGIA

II COLÓQUIO AMAZÔNICO DE ETNOMUSICOLOGIA

ETNOMUSICOLOGIA II COLÓQUIO AMAZÔNICO DE ETNOMUSICOLOGIA Etnomusicologia na Contemporaneidade: diálogos

Etnomusicologia na Contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares

PROGRAMAÇÃO GERAL

Horários

22 de junho

23 de junho

24 de junho

16:00

INSCRIÇÃO E CREDENCIAMENTO

   
 

ABERTURA Dr. Fernando Arthur Neves (Pró-reitor de Extensão UFPA)

   

17:30

LANÇAMENTOS REVISTA TUCUNDUBA PROEX/UFPA MIXAGENS EM CAMPO PPGMUS/UFRGS

MESA REDONDA 2 DIÁLOGOS DISCIPLINARES Dra. Alice Satomi (UFPB) Dr. Bernardo Mesquita (UEAM) Mestre Lucas Bragança (SANCARI) Coordenação Dra. Rosa Maria Mota da Silva (UFPA)

18:00

CONFERÊNCIA ETNOMUSICOLOGIA NA CONTEMPORANEIDADE Dra. Marilia Stein (UFRGS) Coordenação Dr. Paulo Murilo Guerreiro do Amaral (UEPA)

MESA REDONDA 3 DIÁLOGOS INTERDISCIPLINARES Dr. Paulo Tiné (UNICAMP) Dra. Giselle Guilhon (UFPA) Dr. Miguel Santa Brígida (UFPA) Mestre Nego Ray (COISAS DE NEGRO Coordenação Dra. Maria José Pinto da Costa de Moraes (UFPA)

19:00

MESA REDONDA 1 REFLEXÕES SOBRE GÊNERO, RELAÇÕES ETNICORACIAIS E SEXUALIDADES NA ETNOMUSICOLOGIA BRASILEIRA E ESTUDOS MUSICAIS DA AMAZÕNIA Dra. Laila Rosa (UFBA) Ms. Jorgete Lago (UFPA) Dr. Rafael Noleto (UFT) Dr. Paulo Murilo Guerreiro do Amaral (UEPA) Coordenação Dra. Lívia Negrão (UEPA)

SESSÕES DE COMUNICAÇÃO ORAL

19:20

SESSÕES DE COMUNICAÇÃO ORAL

20:50

COQUETEL

APRESENTAÇÃO ARTÍSTICA CACIQUE SMALL BAND

APRESENTAÇÃO ARTÍSTICA GRUPO COISAS DE NEGRO

II ENCONTRO REGIONAL NORTE DAASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ETNOMUSICOLOGIA II COLÓQUIO AMAZÔNICO DE ETNOMUSICOLOGIA

II ENCONTRO REGIONAL NORTE DAASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ETNOMUSICOLOGIA

II COLÓQUIO AMAZÔNICO DE ETNOMUSICOLOGIA

ETNOMUSICOLOGIA II COLÓQUIO AMAZÔNICO DE ETNOMUSICOLOGIA Etnomusicologia na Contemporaneidade: diálogos

Etnomusicologia na Contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares

SESSÕES DE COMUNICAÇÃO

 

23.06.2016

   

SESSÃO 1

 

SESSÃO 2

 

SESSÃO 3

HORÁRIO

Coordenação: Edson Santos Silva

Coordenação: Tainá Façanha

 

Coordenação: Ricardo Smith

 

BANDA DE MÚSICA DA POLÍCIA MILITAR NO OESTE PARAENSE Andréa Reni Mendes Mardock Anderson Levy Mardock Corrêa

CIDADE E CULTURA MUSICAL: A FEIRA PIXINGUINHA EM BELÉM DO PARÁ (1980)

A

PRÁTICA DO CARIMBÓ NO ESPAÇO

CULTURAL COISAS DE NEGRO: POR UMA

19:10

 

ETNOMUSICOLOGIA COLABORATIVA

Nélio Ribeiro Moreira

 

Carina Malaquias de Lima / Liliam Barros Cohen

 

JURUNAS: DA PERSPECTIVA DE SEIS REPRESENTANTES

O FENÔMENO DA LAMBADA: REFLEXÕES SOBRE PROCESSOS DE EXPANSÃO, DESTERRITORIALIZAÇÃO E MUDANÇA CULTURAL/MUSICAL Francinaldo Gomes Paz Júnior

O ACERVO DE TCCS DA UEPA

DA

MÚSICA LOCAL

19:30

Bárbara Lobato Batista / Ediel Rocha de Sousa / Erica Caroline

Bárbara Lobato Batista / Sonia Chada

Paixão / Lana Luisa Aragão / Nathália Lobato da Silva / Pedro Miranda dos Santos Júnior / Sonia Chada

 

FUNDAMENTOS DO BOI DE TOQUINHO: BRINQUEDO DE ENCANTADO Luiz Antonio de Albuquerque Lins Filho / Luana Bagarrão Guedes

MESTRE SEVERINO GRAVA UM CD: MAS O PRODUTOR É QUEM FAZ A MÚSICA

 

MAPEANDO CENAS E CENÁRIOS MUSICAIS

19:50

NO

BAIRRO DO GUAMÁ, EM BELÉM-PA

 

Kleber Moreira / Agostinho Lima

 

Jucélia Estumano Henderson / Sonia Chada

 

CORDÃO DE PEIXE BACU: ESTUDO DE UMA PRÁTICA MUSICAL EM ICOARACI-PARÁ

CATEGORIAS E PRÁTICAS MUSICAIS EM CARUARU (PE): O MUNDO DO FORRÓ

OLHAR E ESCUTAR COM ATENÇÃO:

TRANSMISSÃO E ASSIMILAÇÃO DO SABER NAS PRÁTICAS MUSICAIS DO POVO KA'APOR

20:10

Luany Guilherme Ferreira / Lívia Alexandra Negrão Braga

Philipe Moreira Sales Silva / Carlos Sandroni

 
 

Hugo Maximino Camarinha / Claudia Leonor López Garcés

 

O

CORAL EDGARD MORAES ALIANDO TRADIÇÃO E

CONSIDERAÇÕES SOBRE A DESCENDÊNCIA DA

OS

TUPINAMBÁ NO BRASIL COLONIAL:

INOVAÇÃO NO FREVO-DE-BLOCO: O ÁLBUM CANTOS E ENCANTOS

MÚSICA

ARMORIAL

NA

SABER-FAZER INSTRUMENTOS MUSICAIS

20:30

CONTEMPORANEIDADE:

MUDANÇA

E

 

CONTINUIDADE

Rafael Severiano / Liliam Barros

Alice E. da Silva Alves / Carlos Sandroni

Marília Paula dos Santos / Carlos Sandroni

 
II ENCONTRO REGIONAL NORTE DAASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ETNOMUSICOLOGIA II COLÓQUIO AMAZÔNICO DE ETNOMUSICOLOGIA

II ENCONTRO REGIONAL NORTE DAASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ETNOMUSICOLOGIA

II COLÓQUIO AMAZÔNICO DE ETNOMUSICOLOGIA

ETNOMUSICOLOGIA II COLÓQUIO AMAZÔNICO DE ETNOMUSICOLOGIA Etnomusicologia na Contemporaneidade: diálogos

Etnomusicologia na Contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares

SESSÕES DE COMUNICAÇÃO

 

24.06.2016

HORÁRIO

 

SESSÃO 4 Coordenação: Jucélia Henderson

SESSÃO 5 Coordenação: Dayse Puget

 

A

ENGENHARIA DE SOM E A AUTORIA DA OBRA FONOGRÁFICA EM MÚSICA

PESQUISA EM MÚSICA: METODOLOGIA EM HISTÓRIA ORAL

POPULAR

19:25

Tainá Maria Magalhães Façanha

Ricardo Smith / Sonia Chada

 

UNIVERSO DE SI: O CANTO E A FOTOGRAFIA COMO FONTES DE

A GUITARRADA E MESTRE VIEIRA: DOIS CASOS DE CONVERSÃO SEMIÓTICA

19:45

IDENTIDADE

Yvana Crizanto

Saulo Christ Caraveo

20:05

MÚSICA SMART: UM ESTUDO ETNOGRÁFICO SOBRE A ESCUTA MUSICAL EM DISPOSITIVOS MÓVEIS

PONTOS RITUAIS: A RELIGIOSIDADE AFRO-BRASILEIRA NAS COMPOSIÇÕES DE WALDEMAR HENRIQUE

José Ruy Henderson Filho

Edson Santos da Silva / Sonia Chada

 

A

HIERARQUIA COMO MÉTODO: EQUIDADE NA PRODUÇÃO DA MÚSICA DE

PRESENÇA DOS PONTOS DE RAIZ DA UMBANDA E DO CANDOMBLÉ NA M.P.B.

20:25

CONCERTO, UM RELATO ETNOGRÁFICO

Hudson Cláudio Neres Lima / José Alberto Salgado

Dayse Maria Pamplona Puget

CONCERTO, UM RELATO ETNOGRÁFICO Hudson Cláudio Neres Lima / José Alberto Salgado Dayse Maria Pamplona Puget
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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. SUMÁRIO

Belém 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares.

SUMÁRIO

APRESENTAÇÕES MUSICAIS:

CACIQUE SMALL BAND

16

GRUPO CARIMBÓ DE ICOARACI

17

CONFERÊNCIA: ETNOMUSICOLOGIA NA CONTEMPORANEIDADE

MARÍLIA RAQUEL ALBORNOZ STEIN

19

MESA REDONDA 1: REFLEXÕES SOBRE GÊNERO, RELAÇÕES ETNICORACIAIS E SEXUALIDADES NA ETNOMUSICOLOGIA BRASILEIRA E ESTUDOS MUSICAIS DA AMAZÕNIA

“O JAMBU TREME!”: ESTUDOS, FECHAÇÕES ETNOMUSICOLÓGICAS E A(R)TIVISMOS MUSICAIS PIONEIROS E NECESSÁRIOS DA AMAZÔNIA LAILA ROSA CAIPIRA, MULATA, SIMPATIA E GAY: REFLEXÕES SOBRE GÊNERO, RAÇA E SEXUALIDADE NOS CONCURSOS DE MISS DAS FESTAS JUNINAS EM BELÉM PARÁ RAFAEL DA SILVA NOLETO ENSAIO SOBRE RELAÇÕES DE GÊNERO EM GABY AMARANTOS,A RAINHA DO TECNOBREGAPAULO MURILO GUERREIRO DO AMARAL.

52

66

75

MESA REDONDA 2: DIÁLOGOS DISCIPLINARES

ORGANOLOGIA, ARQUIVOS ONLINE E ETNOMUSICOLOGIA ALICE LUMI SATOM

88

PALESTRA DE MESTRELUCAS BRAGANÇA

99

TRANSCRIÇÃO: TAINÁ FAÇANHA (MESTRANDA DO PPGARTES UFPA) SUPERVISÃO: PROF. DR. PAULO MURILO GUERREIRO DO AMARAL (UEPA)

MESA REDONDA 3: DIÁLOGOS INTERDISCIPLINARES

DESDE QUE O SAMBA É SAMBA: REFLEXÕES E CRIAÇÕES SOBRE O GÊNERO

103

PAULO JOSÉ DE SIQUEIRA TINÉ OUVIR-DANÇAR-ESCREVER: A DANÇA” [RAQ] COMO AUDIÇÃO[SAMÂ] NA COSMOPOESIA DE RUMI

119

GISELLE GUILHON ANTUNES CAMARGO ETNOCORPOGRAFANDO SONS E GESTOS NA AMAZÔNIA MIGUEL SANTA BRIGIDA

136

PALESTRA DE MESTRENEGO RAY

143

TRANSCRIÇÃO: PAULO ROBERTO DA COSTA BARRA (BOLSISTA PIBIC/CNPQ UEPA) SUPERVISÃO: PROF. DR. PAULO MURILO GUERREIRO DO AMARAL (UEPA)

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. COMUNICAÇÕES

Belém 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares.

COMUNICAÇÕES ORAIS

SESSÃO 1

BANDA DE MÚSICA DA POLÍCIA MILITAR NO OESTE PARAENSE ANDRÉA RENI MENDES MARDOCK ANDERSON LEVY MARDOCK CORRÊA

147

JURUNAS: DA PERSPECTIVA DE SEIS REPRESENTANTES DA MÚSICA LOCAL BÁRBARA LOBATO BATISTA EDIEL ROCHA DE SOUSA ERICA CAROLINE PAIXÃO LANA LUISA ARAGÃO NATHÁLIA LOBATO DA SILVA PEDRO MIRANDA DOS SANTOS JUNIOR SONIA CHADA

154

FUNDAMENTOS DO BOI DE TOQUINHO: BRINQUEDO DE ENCANTADO LUIZ ANTÔNIO DE ALBUQUERQUE LINS FILHO LUANA BAGARRÃO GUEDES

162

CORDÃO DE PEIXE BACU: ESTUDO DE UMA PRÁTICA MUSICAL EM ICOARACI PARÁ LUANY GUILHERME FERREIRA PROF.ª DR.ª LÍVIA ALEXANDRA NEGRÃO BRAGA

171

O CORAL EDGARD MORAES ALIANDO TRADIÇÃO E INOVAÇÃO NO FREVO-DE-BLOCO: O ÁLBUM CANTOS E

ENCANTOS ALICE E. DA SILVA ALVES CARLOS SANDRONI

182

SESSÃO 2

CIDADE E CULTURA MUSICAL: A FEIRA PIXINGUINHA EM BELÉM DOPARÁ (1980) NÉLIO RIBEIRO MOREIRA

192

O FENÔMENO DA LAMBADA: REFLEXÕES SOBRE PROCESSOS DE EXPANSÃO, DESTERRITORIALIZAÇÃO E MUDANÇA

CULTURAL/MUSICAL FRANCINALDO GOMES PAZ JÚNIOR

203

MESTRE SEVERINO GRAVA UM CD, MAS O PRODUTOR É QUEM FAZ A MÚSICA KLEBER MOREIRA AGOSTINHO LIMA

214

CATEGORIAS E PRÁTICAS MUSICAIS EM CARUARU (PE):O MUNDO DO FORRÓ PHILIPE MOREIRA SALES SILVA CARLOS SANDRONI

223

CONSIDERAÇÕES SOBRE A DESCENDÊNCIA DA MÚSICA ARMORIAL NA CONTEMPORANEIDADE: MUDANÇA E CONTINUIDADE

231

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. M ARÍLIA P AULA

Belém 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares.

MARÍLIA PAULA DOS SANTOS CARLOS SANDRONI

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. SESSÃO 3 A

Belém 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares.

SESSÃO 3

A PRÁTICA DO CARIMBÓ NO ESPAÇO CULTURAL COISAS DE NEGRO: POR UMA ETNOMUSICOLOGIA

COLABORATIVA CARINA MALAQUIAS DE LIMA LILIAM BARROS COHEN

239

O

ACERVO DE TCC’S DA UEPA

245

BÁRBARA LOBATO BATISTA SONIA CHADA

MAPEANDO CENAS E CENÁRIOS MUSICAIS NO BAIRRO DO GUAMÁ, EM BELÉM-PA JUCÉLIA ESTUMANO HENDERSON SONIA CHADA

254

OLHAR E ESCUTAR COM ATENÇÃO: TRANSMISSÃO E ASSIMILAÇÃO DO SABER NAS PRÁTICAS MUSICAIS DO POVO KA'APOR HUGO MAXIMINO CAMARINHA CLAUDIA LEONOR LÓPEZ GARCÉS

263

OS TUPINAMBÁ NO BRASIL COLONIAL: SABER-FAZERINSTRUMENTOS MUSICAIS

273

Rafael Severiano

LILIAM BARROS

SESSÃO 4

AENGENHARIA DE SOM E A AUTORIA DA OBRA FONOGRÁFICA EM MÚSICA POPULAR RICARDO SMITH SONIA CHADA

284

UNIVERSO DE SI:O CANTO E A FOTOGRAFIA COMO FONTES DE IDENTIDADE YVANA CRIZANTO

290

MÚSICA SMART: UM ESTUDO ETNOGRÁFICO SOBRE A ESCUTA MUSICAL EM DISPOSITIVOS MÓVEIS JOSÉ RUY HENDERSON FILHO

299

A HIERARQUIA COMO MÉTODO: EQUIDADE NA PRODUÇÃO DA MÚSICA DE CONCERTO, UM RELATO ETNOGRÁFICO.

306

HUDSON CLÁUDIO NERES LIMA JOSÉ ALBERTO SALGADO

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. SESSÃO 5 P

Belém 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares.

SESSÃO 5

PESQUISA EM

MÚSICA: METODOLOGIA EMHISTÓRIA ORAL

315

TAINÁ MARIA MAGALHÃES FAÇANHA

A

GUITARRADA E MESTRE VIEIRA:DOIS CASOS DE CONVERSÃO SEMIÓTICA

321

SAULO CHRIST CARAVEO

PONTOS RITUAIS:A RELIGIOSIDADE AFRO-BRASILEIRA NAS COMPOSIÇÕES DE WALDEMAR HENRIQUE EDSON SANTOS DA SILVA SONIA CHADA

330

A

PRESENÇA DOS PONTOS DE RAIZ DA UMBANDA E DO CANDOMBLÉ NA M.P.B

339

DAYSE MARIA PAMPLONA PUGET

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. APRESENTAÇÕES

Belém 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares.

APRESENTAÇÕES MUSICAIS

CACIQUE SMALL BAND

APRESENTAÇÕES MUSICAIS CACIQUE SMALL BAND Small Band integrada por músicos do norte do Brasil que se

Small Band integrada por músicos do norte do Brasil que se dedicam a execução de música autoral e arranjos já criados para esta formação. O grupo nasceu num ambiente de cooperação e troca de ideias, que marcava os encontros de músicos de metal para o estudo de improvisação. Com o passar do tempo, firmou-se como uma Small band com repertório de música instrumental brasileira de influência jazzística. Os traços marcantes na identidade do Cacique Small Band é a música autoral e os arranjos feitos pelos próprios músicos. Nos saxofones, Elias Coutinho (alto), Thiago Levy (tenor) e Rafael Oliva (barítono). Nos trompetes, Johab Quadros e Gerson Levi, e no trombone, Adnelson Azevedo. Na base, Adelbert Carneiro ao contrabaixo, Isac Almeida ao piano e Tiago Belém na bateria.

trombone, Adnelson Azevedo. Na base, Adelbert Carneiro ao contrabaixo, Isac Almeida ao piano e Tiago Belém
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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. GRUPO CARIMBÓ DE

Belém 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares.

GRUPO CARIMBÓ DE ICOARACI

e interdisciplinares. GRUPO CARIMBÓ DE ICOARACI O Grupo Carimbo de Icoaraci surgiu no Espaço Cultural

O Grupo Carimbo de Icoaraci surgiu no Espaço Cultural Coisas de Negro, local de referência para a prática musical do carimbó em Icoaraci-PA, oportunizando várias atividades culturais/musicais à comunidade do seu entorno, incluindo a Roda de Carimbó, representando a resistência da cultura africana e amazônica no Estado paraense. O Grupo Carimbó de Icoaraci atua com formações instrumentais variadas, apresentando características particulares na sua prática musical, cujos processos criativos, de aquisição e transmissão de música, de construção de conhecimento e de significado musical acontecem socialmente, por meio da participação na prática musical. Os instrumentos utilizados pelo grupo são dois curimbós - um grave e outro médio, um banjo, uma flauta transversal, dois pares de maracas, um milheiro, um par de claves, um contrabaixo elétrico e uma guitarra. A utilização de instrumentos artesanais com instrumentos elétricos é uma das características desse grupo, resultando em uma sonoridade particular, algumas vezes considerada pelo grupo “uma questão de modernidade”, na formação instrumental.

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. CONFERÊNCIA:

Belém 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares.

CONFERÊNCIA: ETNOMUSICOLOGIA NA CONTEMPORANEIDADE

Coordenação Dr. Paulo Murilo Guerreiro do Amaral (UEPA)

CONFERÊNCIA: ETNOMUSICOLOGIA NA CONTEMPORANEIDADE Coordenação – Dr. Paulo Murilo Guerreiro do Amaral (UEPA) 18
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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. Etnomusicologia na

Belém 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares.

Etnomusicologia na contemporaneidade

Marília Raquel Albornoz Stein UFRGS - mariliaste@gmail.com

Resumo: Este artigo apresenta alguns temas para se pensar a entomusicologia contemporânea no Brasil, levantando questões metodológicas, apontando produções escritas publicadas e aspectos de coletivos de pesquisa na área. Pretende-se, assim, instigar o debate e a curiosidade, de ouvintes e leitores, no enfrentamento de desafios que atingem aqueles que praticam a etnografia da música, historicamente e especialmente no momento atual no Brasil, no âmbito das universidades e em outros contextos.

Palavras-chave: Etnomusicologia no Brasil. Etnografia da Música. Universidade.

Abertura- diálogos interdisciplinares transdisciplinares Esta apresentação tem por objetivo instigar o debate e a curiosidade, de ouvintes e leitores, no enfrentamento de desafios etnomusicológicos que nos atingem historicamente e especialmente no momento atual no Brasil, no âmbito das universidades, dos centros de cultura, dos espaços de formação e atuação de professores da educação básica, das instâncias de defesa dos direitos das minorias, dos núcleos de apoio aos jovens pesquisadores e também aos mais experientes. Durante esta semana, teremos oportunidade de discutir, de forma mais aprofundada, os diálogos disciplinares e interdisciplinares que a etnomusicologia vem realizando, ou já realizou, ou que acreditamos que deveria realizar. Neste momento, levantarei alguns aspectos que me parecem relevantes para instigar esta conversa. Não se trata de pensar o positivo e o negativo da etnomusicologia, ou suas condições de possibilidade (pois sabemos que para isso não existe uma fórmula), nem de traçar uma história linear de acontecimentos. Pretendo abordar fragmentos desta ciência a partir de uma escuta, de um olhar, de uma experiência do coletivo que dá suporte para algumas interpretações de continuidades e mudanças na área. Apesar do título generoso que me foi sugerido a etnomusicologia contemporânea -, sem limites geopolíticos pré-estabelecidos, optei por tratar do estado da arte em nosso território nacional (sobreposto e tensionado pelos territórios dos povos originários). Compreendo o contexto de grande florescimento das pesquisas e de simultânea crise políticano Brasil- que envolve ameaças às instituições públicas voltadas à cultura, à educação e à ciência - como um inevitável momento de reflexão e de busca de

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. fortalecimento

Belém 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares.

fortalecimento coletivo de etnomusicólogos, atuantes e em formação, junto a seus interlocutores e parceiros. Minha fala pretende se somar a esta reflexão e a esta busca. Neste sentido, primeiro serão descritos paradigmas históricos e mudanças metodológicas em etnomusicologia, assim como o caso do projeto Encontro de Saberes (INCTI, 2015), para se pensarem alguns dilemas da etnomusicologia em busca de se enriquecer o debate. Na segunda parte da apresentação, revisarei brevemente a trajetória de institucionalização da etnomusicologia no Brasil, comentarei a produção de livros e periódicos no âmbito desta ciênciae trareidados, alguns panorâmicos e outros pontuais, dos coletivos brasileiros de pesquisa em etnomusicologia.

1. Diálogos Com quem? Quem somos? De paradigmas históricos e dilemas

político-epistêmicos O conhecimento etnomusicológico tem sido produzido em diálogoentre os pares tanto da área como de outras áreas de pesquisa. A própria entomusicologia, como nos lembram Lühninget al., é oriunda de um caminho interdisciplinar e dinâmico (2013, p. 7). Também parecem estar em curso, cada vez mais, importantes parcerias com diferentes setores da sociedade brasileira, co-responsáveis pelo desenvolvimento da disciplina. Desafiam-nos os esforços de ampliar as redes de pesquisa em âmbito internacional, na

América Latina e nos outros continentes, não apenas colocando o Brasil como receptor de informações e paradigmas, mas também como propositor em etnomusicologia (ver LÜHNING, 2014a). Dessa forma, no campo da etnomusicologia, a construçãode estudos, reestudos, diagnoses de campos emergentes e atendimento a demandas sócio musicais pode seguir colaborando na promoção da qualificação do ensino e da pesquisa nas escolas de educação básica e superior, e também na melhora da qualidade de vida de todos no Brasil e na defesa de nossos princípios democráticos. Assim, com diferentes aportes interdisciplinares, em diálogo com a sociedade brasileira e também com a comunidade internacional, o próprio campo da etnomusicologia brasileira se consolida, qualifica e diversifica. A etomusicologia no Brasil, especialmente desde sua organização em torno da Associação Brasileira de Etnomusicologia(ABET), criada em 2001, e certamente muito antes disso - pelo esforço de pesquisadores, movimentos sociais, coletivos de agentes culturais, professores, etc. - vem-se pautando pela ampliação da pesquisa no país, não

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. apenas através de

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apenas através de sua institucionalização, mas também de ações investigativas articuladas em torno da inclusão social, do respeito à diferença e da valorização da interdisciplinaridade e da transdisciplinaridade. Interdisciplinaridade seria “acapacidade de cruzar as fronteiras da segmentação moderna, recombinando linguagens, conhecimentos e metodologias” (INCTI, 2015, p. 14). Transdisciplinaridade, por sua vez, seria “uma perspectiva de reflexão aberta sobre problemas concretos, capaz de reconciliar as Ciências Exatas com as Humanidades, bem como incluir saberes externos ao paradigma moderno e ao cânone acadêmico” (ibid.). Uma etnomusicologia incipiente, eurocêntrica e simultaneamente nacionalista, ocorria através das ações de folcloristas como Mario de Andrade 1 , entre muitos outros, na primeira metade do século XX no Brasil. Apesar de seu caráter exotizante e evolucionista, até hoje seus frutos permanecem de valor incalculável - desde que interpretados de forma crítica -em livros e fonogramas digitalizados, pelos acervos que constituíram, pois permitiram, com base em novos paradigmas, reestudos e avanços etnomusicais entre o passado e o futuro. A nascente etnomusicologia brasileira, baseava-sepor um lado na musicologia comparada e na “psico-musicologia” (MENEZES BASTOS, 1990) alemã e por outro lado inspirava-se, em meados do século XX, na perspectiva norte-americana da etnomusicologia, de forte matriz antropológica, metodologicamente marcada pelo trabalho de campo, cindida, no entanto, entre a musicologia histórica e a musicologia semântica. Os dilemas de então parecem ser ainda os de hoje: como evitar isolar a música de seu contexto? Como descrever conteúdos musicais sem separá-los de outros, sociais (serão outros?)? Como tratar as descrições pela perspectiva dos músicos e dos outros participantes do evento musical sem se abster de uma posição de pesquisador na narrativa? É certo que muito se transformou o projeto de fazer etnomusicologia com a virada hermenêutica, ou seja, com o reconhecimento do campo interpretativo na construção do conhecimentodos sujeitos da pesquisa, opondo-se à tradição descritivista. Mais do que isso, o próprio questionamento sobre quem pesquisa e para que se pesquisa estimula uma mudança radical nas maneiras de se pensarem as escolhas temáticas e metodológicas na etnomusicologia. Em diversos países, e também no Brasil. O aspecto colaborativo se torna central. A ciência não é feita pelo cientista para o cientista. Ou melhor, o cientista não é só quem está com o

1 Sobre o acervo sonoro e documental da Missão de Pesquisas Folclóricas, consultar:

http://ww2.sescsp.org.br/sesc/hotsites/missao/. Acessado em: 22 jun. 2016.

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. título

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título reconhecido pela academia. Divide-se a notoriedade e reconhece-se a expertise dos sujeitos que produzem as sonoridades e performances no mundo, que fazem soar e pulsar o mundo, que permitem haver o mundo. Além disso, a música não é mais compreendida como sons unicamente, nem mesmo só como as pessoas que fazem a música em relação com o contexto do fazer musical e com os sons. Trata-se de um acontecimento, analisado em sua singularidade performativa a partir das perspectivas de seus realizadores, em contexto específico e cujas convenções e intencionalidades são ora repetidas, ora inovadas. Para Finnegan (2008), o complexo multimodal que é observado e vivenciado pelo pesquisador nas experiências de campo extrapola o conceito de “música”, envolvendo pessoas, memórias, cheiros, gostos, objetos, movimentos, palavras, olhares, intenções, identidades. As resistências interpretativas de muitos contextos sonoro-preformáticos - como muitos em que se realiza a música ameríndia - aos modelos ocidentais de realização musical ede criação de vocabulário musical (que, apesar de não serem a-corpóreos e também integrarem um fenômeno holístico, persistem sob um discurso de que a música se restringe a sons ou mesmo ao registro gráfico dos sons) são parte dos fatores que criama necessidade, emum grande número de pesquisas etnomusicológicas, de trabalhar com o multimodalismo, única forma de se obterem soluções aproximativas às teorias nativas do universo sonoro-performático destes grupos (por exemplo, ver STEIN, 2009). Piedade enfatiza esta característica das práticas sonoro-performáticas originárias:

os sistemas musicais nativosimbricam-se nos domínios dos saberes,

havendoportanto necessidade da compreensão da músicapara além da ordem sônica, tomando-a como um"sistema significante de relevância estratégicapara a

construção do real" (MENEZES BASTOS e LAGROU, 1995, p. 2). A música amazônica lançadesafios ao próprio conceito de música, enriquecendo, portanto, todo o campo da Musicologia, Teoria Musical e Filosofia daMúsica. (PIEDADE, 2006, p. 67).

] [

No entanto, não se trata apenas de reconhecer o caráter holístico multimodal do fenômeno sonoro-performático. Também está em jogo na pesquisa aqueles que não são pesquisadores nativos superarem dicotomias que escondem preconceitos baseados na hierarquização de aspectos e práticas sociais, que justifiquem dominações, invisibilizações, negações, silenciamentos. A complexidade das formas de registro e transmissão musical, que não se encaixam em padrões de apenas oralidade ou apenas escrita, assim como o caráter discursivo das categorizações da música como tradicional ou nova/moderna, foram

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tratados por Araújo em encontro de etnomusicologia de 2000 na UFMG (descrito adiante) e encontra-se em capítulo do livro resultante do encontro (ARAÚJO, 2006b).

Movimentos sociais, políticas públicas e a etnomusicologia mais sobre a necessária mudança de paradigmas e nossa inspiração antropológica

Próximo à fundação da ABET -no contexto da reabertura democrática no Brasil e do estabelecimento da nova Constituição Federal (1988) - projetos importantes com presença de etnomusicólogos foram sendo constituídos no país, ora com apoio financeiro do governo federal, 2 ora por iniciativas variadas, como as inspiradas no pioneirismo de órgãos de cultura e educação, como o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa (INCTI), 3 que propôs o projeto Encontro de Saberes, marcandoo cenário acadêmico brasileiro de forma definitiva. No último encontro da ABET 4 , em 2015, foi muito significativa a presença de mestres latino-americanos representantes de povos originários das Terras Baixas e Andinos da América do Sul, de comunidades quilombolas e de movimentos jovens populares. A conferência de abertura foi proferida pelo compositor indígena e pesquisador musical colombiano da etnia Nasa, Inocêncio Ramos. Em mesas redondas sobre diferentes temáticas, assim como em outros momentos músico-performáticos, apresentaram suas reflexões sobre etnomusicologia, práticas sonoro-performáticas e políticas culturais e territoriais: o músico do grupo de rap KaiováBroMC's, Bruno Verón, do Mato Grosso do

2 Por exemplo, projetos de extensão como Saberes Indígenas na Escola e outros, de formação continuada para indígenas e para não indígenas, e Programa de Educação TutorialIndígena, ocorreram com financiamento Ministério da Educação (MEC) / Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI); o projeto de extensão Intervivências, entre comunidades populares e tradicionais e universidade, ocorreu com financiamento Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA); etc.

3 O INCTI se consolidou em 2009, através do Programa dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (Portaria MCT nº 429/2008), selecionado no Edital nº 015/2008 do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), por intermédio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em parceria com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES, com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), com a Fundação Carlos Chagas de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), e com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). O INCTI contribui para consolidar uma rede nacional de pesquisadores, realizando pesquisas sobre as políticas de ações afirmativas nas universidades brasileiras. “O projeto resulta de uma parceria estabelecida junto à UnB, ao CNPq, ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), ao MEC e ao Ministério da Cultura (MinC) sendo o último o órgão financiador da proposta, bem como um aliado fundamental desde a sua criação.” (INCTI, 2015, p. 3). 4 Programação disponível em<http://www.enabet-2015.ufsc.br/wp- content/uploads/2015/05/CADERNO-programacao-copia1.pdf> e os Anais em<http://abetmusica.org.br/conteudo.php?&sys=downloads>.

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. Sul; a professora,

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Sul; a professora, pesquisadora e cantora Mapuche Elisa Avendaño Curaqueo, do Chile; e o músico e líder da comunidade quilombola da Manga, Nazário Frazão de Almeira, coordenador geral da Festa do Congo, entre outros participantes identificados com práticas culturais e territórios tradicionais no Brasil e em outros países da América Latina. Em diferentes planos do evento, estes intelectuais e artistas trouxeram perspectivas não hegemônicas sobre o estudo da música como prática cultural, político-performática. Entre metáforas sobre a força da música Nasa como condutora de alegria e sobre o pesquisarcomo pescar, em conexão com a crítica à destruição dos territórios e a poluição das águas (Ramos); realização de cantos Mapuche inspirados em cenas de repressão e violência cotidianas, como a do jovem assassinado em conflito étnico-territorial, junto à reflexão sobre a organização comunitária Mapuche e suas formas de educação musical (Curaqueo); a apresentação de composições de rap Kaiová como afirmação identitária e espiritual e denúncia de violências, injustiças, preconceito e negligência dos órgãos públicos (responsáveis pela demora na efetivação de seus direitos territoriais) para com os Kaiová no Mato Grosso do Sul (Verón) - sonoridades, performances, projetos políticos, resistências culturais foram imprimindo força e beleza discursiva ao encontro, potencializando a reflexão sobre diversidade musical e direitos territoriais, sobre relações entre seres humanos e extra humanos esobre formas desistematização de conhecimentos musicais, motivando continuidades e novas abordagens de pesquisa entre os diferentes pesquisadores presentes. Foi um encontro novo neste sentido, pois a área - apesar de há anos haver um crescimento das pesquisas participativas, dialógicas, colaborativas, aplicadas sobre temas das práticas musicais tradicionais e populares brasileiras 5 - produz suas programações de difusão majoritariamente entre os pares com formação universitária, etnomusicólogos em geral não indígenas, não quilombolas, não de outras comunidades tradicionais e não juventude e outros grupos de perfil popular. Mas, como veremos, este mapa de visibilidade/audibilidade epistêmica vem se reconfigurando, por conta das demandas dos movimentos sociais e de grupos populares e tradicionais, das políticas de cotas nas universidades, doingresso de mestres tradicionais no ensino universitário (por ex.,

5 Sobre o tema da enotmusicologia participativa, dialógica, aplicada e/ou colaborativa, ver Lühning (2003; 2006; 2014), Araújo (2006a), Cambria (2008), Lucas (2011), Stein e Silva (2014), Guazina (2015) e os artigos no último número da revista World of Music, recentemente publicada (2016).

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. Encontro de

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Encontro de Saberes, desde 2010) eda formação - por diferentes projetos e programas - de pesquisadores indígenas, quilombolas e de outras minorias étnico-raciais. Na edição anterior do Encontro Nacional da ABET (VI ENABET, João Pessoa, 2013), um grupo de mestres indígenaspesquisadores das práticas sonoro-performáticas dos povos Krahô, Guarani-Kaiová, Guarani-Mbyá, Maxakali/Tikmũ’ũn e Baniwa havia participado do evento. Estes pesquisadores apresentaram, em colaboração com etnomusicólogos não indígenas, resultados parciais da pesquisa ProDocSon Memória através dos Cantos, desenvolvida a partir de 2011, pelo Museu do Índio do Rio de Janeiro e pela UNESCO. 6 Nas outras edições do ENABET (assim como em outros eventos científicos nacionais e internacionais; por exemplo, nas Reuniões Brasileiras de Antropologia - RBAs), outros pesquisadores já vinham representando nos eventos as próprias comunidades em investigação. Por exemplo, os estudantes da Maré, do projeto Música, memória e sociabilidade da Maré, coordenado por Samuel Araújo e Vicenzo Cambria (Laboratório de Etnomusicologia/UFRJ) 7 ; e o mestre Guarani-Mbyá Vherá Poty, da equipe de coordenadores musicais do projeto Salvaguarda do patrimônio musical indígena:

registro etnográfico multimídia da cultura musical em comunidades Mbyá-Guarani da Grande Porto Alegre, RS, coordenado por Maria Elizabeth Lucas (Grupo de Estudos Musicais [GEM]/Universidade Federal do Rio Grande do Sul [UFRGS]) 8 e pesquisador do projeto ProDocSon, acima mencionado. Reflete-se nestes encontros científicos o esforço da sociedade, dos movimentos sociais, das instâncias públicas de formação educacional e

6 O Projeto de Documentação de Sonoridades (ProDocSon), vinculado ao Projeto de Documentação de Línguas e Culturas Indígenas Brasileiras (ProgDoc), do Museu do Índio do Rio de Janeiro/UNESCO, intitulado Memória através dos cantos,écoordenado por Rogângela Tugny e conta com a participação de equipes regionais, constituídas por pesquisadores indígenas Guarani-Mbyá (RS); Kaiowá (MS); Baniwa (AM); Krahô (TO); Enawene Nawe (MT); Tikmũ’ũn/Maxakali (MG), entre outros, e por etnomusicólogos não-indígenas. Pretendecriarinstâncias de troca de conhecimento entre povos vizinhos com passado comum, estimular a transmissão e a manutenção dos conhecimentos musicais tradicionais (TUGNYet al., 2010) e pesquisar pela perspectiva etnomusicológica junto a estes povos indígenas (para maior detalhamento sobre o projeto ver: LIMA RODGERS et al., 2016). 7 Os pesquisadores Samuel Araújo e Vicenzo Cambria, com outros membros do Laboratório de Etnomusicologia da UFRJ, desenvolvem desde 2005 este projeto etnomusicológico colaborativo com jovens moradores no bairro da Maré, RJ. 8 Projeto desenvolvido no âmbito do Edital nº 1/2007 Apoio e Fomento ao Patrimônio Cultural Imaterial, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), 2008-2009. Além de Vherá Poty, mestre de música, professor de Guarani e liderança Guarani-Mbyá, participaram deste projeto outras lideranças Guarani e familiares das tekoá (aldeias) Nhundy (Estiva, Viamão, RS), Jataity (Terra Indígena do Cantagalo, Porto Alegre, RS) e Pindó Mirim (Terra Indígena de Itapuã, Viamão, RS) e diversos integrantes do GEM, entre os quais a antropóloga Janaina Lobo, que atuou centralmente na equipe executiva.

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. dos pesquisadores

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dos pesquisadores etnomusicólogos de superar a perspectiva colonialista de pesquisar pelo Outro, com o Outro objetificado, ou de superar ainda a perspectiva que reconhece a subjetividade do Outro, mas apenas como “informante” ou “colaborador”. Em vez disso, pretende-se que os diferentes pesquisadores/nativos da comunidade pesquisada, de fora da comunidade pesquisada negociem seus espaços de construtores de conhecimento, tomem suas decisões metodológicas e interpretativas e conduzam os resultados da pesquisa em camadas e abrangências diversificadas de divulgação e aplicação (STEIN e SILVA,

2014).

No plano da experiência etnográfica, a etnomusicologia divide perspectivas metodológicas pós-coloniais com a antropologia, entre outras áreas, pelas quais reconhece os conflitos sociais, as hegemonias e as resistências, como pano de fundo da constituição do campo e dos conhecimentos nele construídos. Para entender este movimento de “descolonização”, remeto a alguns pensadores que o historicizam e sobre ele refletem:

James Clifford analisa “a formação e desintegração da autoridade etnográfica na antropologia social do século XX” (1999: 18), que apresenta o dilema da interpretação intercultural “associado à desintegração e à redistribuição do poder colonial” (1999: 18) a partir da metade do século XX, quando o Ocidente reconhece não ser mais possível “se apresentar como o único provedor de conhecimento antropológico sobre o outro” (1999:18-19). Para Clifford, neste mundo “ambíguo, multivocal, torna-se cada vez mais difícil conceber a diversidade humana como culturas independentes, delimitadas e inscritas” (1999, p. 19). Se “a escrita etnográfica não pode escapar inteiramente do uso reducionista de dicotomias e essências, ela pode ao menos lutar conscientemente para evitar representar ‘outros’ abstratos e a-históricos” (1999, p. 19). Desta maneira, diferentes povos terão condições de “formar imagens complexas e concretas uns dos outros, assim como das relações de poder e de conhecimento que os conectam” (1999, p. 19). Tais imagens serão formadas “a partir de relações históricas específicas de dominação e diálogo”, envolvendo um debate político-epistemológico mais geral sobre a escrita e a representação da alteridade. No mesmo sentido, de explicitar os contextos e as relações de poder inerentes às produções de conhecimento, Boaventura de Souza Santos (2010) propõe uma “ecologia de saberes”que promova uma revisão do conhecimento instituído na sociedade atual e o questionamento da legitimidade do resultado das ciências modernas (dominadas por uma

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. reflexão

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reflexão epistemológica desprovida de contexto cultural e político da produção e reprodução do conhecimento) nos territórios colonizados.

Ao encontro da “antropologia simétrica” de Bruno Latour (1994), Eduardo Viveiros de Castro reivindica que a antropologia seja tomada como uma prática de sentido em continuidade epistêmica com as práticas sobre as quais discorre, “não para fulminá-la por colonialista, exorcizar seu exotismo, minar seu campo intelectual, mas para fazê-la dizer outra coisa” (VIVEIROS DE CASTRO, 2002, p. 2). Tal reflexão, como as anteriores, não explicita as maneiras concretas de proceder na pesquisa que corresponderiam a estas novas posições epistêmicas (interepistêmicas, como diria CARVALHO, 2016), mas fornece bases sólidas éticas, filosóficas e políticas - para a constituição de debates, para redefinições metodológicas, para a constituição de campos, disputas e diálogos, com consequências tanto na esfera da legitimação de saberes e de processos de fazer pesquisa, quanto na valorização de sujeitos, de coletivos humanos e da defesa de territórios simbólicos e materiais vitais à constituição ontoepistêmica de cada sujeito e de cada comunidade.

A análise do antropólogo Sergio Baptista da Silva, que aponta a existência de um

necessário “constrangimento cosmológico”no fazer antropológico de pesquisadores que entram em experiências entográficas em contextos nos quais não têm familiaridade prévia com as sociocosmologias dos sujeitos socializados no campo, ajuda a construirmos essa imagem do antropólogo, e do etnomusicólogo, que, ao invés de principalmente falar do Outro, fala com o Outro, percebendo-se movido por sua diferença, por esta relação que o tempo todo tensiona o fazer científico.

A presença no VII ENABET dos mestres latino-americanos de culturas tradicionais

e urbanas populares como tecedores de contrapontos epistêmicos nos domínios de uma etnomusicologia eurocentrada, que historicamente os excluiu, simboliza um reconhecimento da grandeza de seu acervo de conhecimentos, a potencialidade de interlocução, aprendizagem e a incompletude das perspectivas, mesmo que diversas, mas hegemonicamente ocidentalizadas. A mudança de paradigma está em curso, mas é necessário estar atento para manter, mesmo que em fragmentos, ensaios, ações pontuais e em redes - locais, nacionais e transnacionais -, a vitalidade da tarefa de seguir produzindo uma etnomusicologia latino-americana cada vez mais plural e, assim, inclusiva. O

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. intelectual Ailton

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intelectual Ailton Krenak descreve encontros míticos e históricos coloniais no Brasil, observando sobre o necessário protagonismo dos povos originários que

mais do que um esforço pessoal de contato com o Outro, nós precisamos influenciar de maneira decisiva a política pública do Estado brasileiro.[ ]Esses gestos de aproximação e de reconhecimento, eles podem se expressar também numa abertura efetiva e maior dos lugares na mídia, nas universidades, nos centros de estudo, nos investimentos e também no acesso das nossas famílias e do nosso povo àquilo que é bom e àquilo que é considerado conquista da cultura brasileira, da cultura nacional. Se continuarmos sendo vistos como os que estão para serem descobertos e virmos também as cidades e os grandes centros e as tecnologias que são desenvolvidas somente como alguma coisa que nos ameaça e que nos exclui, o encontro continua sendo protelado. (KRENAK, 2016[1999]).

Ao encontro de saberes

Não mais protelar este encontro foi o objetivo do projeto de ensino universitário Encontro de Saberes, implementadorecentemente na UFRJ e já vivido por seis outras instituições de ensino superior no Brasil, além de uma na Colômbia. Na ocasião de sua abertura, seu mentor, o antropólogo e etnomusicólogo José Jorge de Carvalho, destacou que a valorização da separação dos saberes em compartimentos é um aspecto que está na base das universidades. O Encontro de Saberes seria um movimento de busca de ampliação do universo de saberes na universidade, fundamentado em um diálogo interepistêmico entre os conhecimentos eurocêntricos dominantes na instituição e os saberes tradicionais promovidos por mestres indígenas e afrodescendentes convidados a ministrar aulas regulares (INCTI, 2015). Uma retomada da integração entre saberes e entre intelecto e sentimento (mente e coração). Para tanto, os mestres precisam estar “em presença” (CARVALHO, 2016), são insubstituíveis. É indispensável trazê-los, e não apenas seus saberes. Carvalho menciona a adequação de uma expressão japonesa, constituída pelo

ideograma “Shin” (), para definir esse processo, pois denota não apenas a compreensão

cognitiva, senão também a conexão afetiva entre os sujeitos da construção do conhecimento mestres e aprendizes. A palavra representariatanto a mente quanto o coração epoderia ser traduzida como“mente a mente”, ou “mente-corpo e também coração”. Carvalho explica o fundamento pedagógico que está em questão: “Minha mente sabe o que sua mente está pensando e meu coração sente o que seu coração está sentindo” (CARVALHO, 2016). A presença dos mestres é imprescindível, pois são eles que estão sentindo e pensando, falando com os alunos. Não pode alguém ficar no lugar deles. Trata- se de um conhecimento diferente do ocidental, que se poderia retransmitir fora de contexto.

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. Trata- se de um

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Trata-se de um “saber direto”. Introduzir o Encontro de Saberes é fazer com que a universidade retome um saber que foi reduzido com base na Revolução Científica europeia, que foi regressiva, pois anulou a validade de vários saberes que anteriormente eram válidos naquela sociedade (CARVALHO, 2016). 9 Como na psicanálise, informa Carvalho, a presença dos mestres na construção da aprendizagem é fundamental, por se tratar de um ato único, envolvente das subjetividades na experiência epistêmica. No Brasil ocorreram experiências deste tipo naUnB (primeiro oferecimento, em 2010), UFMG, UFJF, UECE, UFPA 10 e UFSB e no exterior, na Pontifícia Universidad Javeriana, Colômbia. Na UFRGS, será iniciada em agosto de 2016 a primeira turma da nova disciplina, proposta pelo Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros, Indígenas e Africanos (NEAB) 11 e implementada no currículo do curso de Música, oferecida para toda a universidade como Curso 2 12 e com possibilidade de ser inserida nos currículos de outros cursos já em 2017. Ressalte-se que, apesar do caráter transdisciplinar do projeto na UFRGS, contaremos com professores mediadores dos cursos de Economia, Música, Letras, Educação, Museologia, Agronomia, Antropologia -, há um contingente importante de etnomusicólogos atuando no Encontro de Saberes desde sua origem 13 , o que provavelmente esteja relacionado com o entendimento político e epistemológico de um grande número de etnomusicólogos brasileiros - envolvidos nesta perspectiva descolonizadora, inclusiva e atuando em pesquisas colaborativas/participativase também com a potência transdisciplinar das práticas sonoro-performáticas de grupos tradicionais,

9 Encontram-se aqui os vídeos da palestra de José Jorge de Carvalho no lançamento do projeto Encontro de Saberes da UFRJ (28 jan. 2016). Parte I: https://www.youtube.com/watch?v=R_0rIcsrvF0; Parte II:

https://www.youtube.com/watch?v=rUx6n3V3cXI. No youtube estão também os demais registros

Parte VII).

10 A este respeito, ver o número 5 da Revista Tucunduba, lançado neste evento (TUCUNDUBA, 2016), exclusivamente sobre o projeto Encontro de Saberes na UFPA em 2014.

11 Os grupos apoiadores são: Grupo de Estudos Musicais GEM (PPGMUS/PPGAS); Laboratório de Ensino de História e EducaçãoLHISTE; Núcleo de Antropologia das Sociedades Indígenas e Tradicionais NIT (PPGAS); Núcleo de Estudos em Desenvolvimento Rural Sustentável DESMA; Grupo de Estudos em Memória, Patrimônio e Museus GEMMUS; Programa Saberes Indígenas na Escola/UFRGS SIE (FACED); RIMP AbyaYala: Epistemologias Ameríndias em Rede (ILEA); RIMP Estudos Africanos (ILEA).

12 Chama-se Curso 2 a modalidade de disciplina que pode ser cursada e validada como crédito complementar para o estudante.

13 Dados muito relevantes são expostos no relatório (2015), apresentando a maioria dos professores parceiros (ou mediadores) como pertencentes às áreas de conhecimento Ciências Humanas e Linguística, Letras e Artes. Note-se que a etnomusicologia pode ser pensada como pertencente aos dois campos ou construtora deles. Ao mesmo tempo, o relatório chama a atenção para a multiplicidade de pertencimentos da equipe de professores, pois, “com exceção das Engenharias, todas as demais áreas delimitadas pelo CNPq estão contempladas, através da participação dos acadêmicos, em diálogo com os mestres e mestras tradicionais” (INCTI, 2015: 51), o que indica o diálogo interdisciplinar em curso.

a

(até

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. centrais nas

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centrais nas constituições de seus mundos. Tais experiências têm oportunizado que pesquisadores da área tenham conhecido, nos seus trabalhos de campo, mestres qualificados para o Encontro de Saberes, podendo, assim, colaborar na mediação de sua presença nas universidades. A disciplina Encontro de Saberes atende, entre muitas outras instâncias legais, às leis 10.639/03 e 11.645/08que tornam obrigatórioo ensino, respectivamente,da história e da cultura afro-brasileira e africana e da história e da cultura indígena nos currículos escolares no Brasil -e à meta da Câmara Interministerial de Educação e Cultura, regulamentada pela Portaria Normativa Interministerial nº 1/2007, de incorporar os mestres de ofício e das artes tradicionais nos vários níveis de ensino(PRASS et al., 2016: 7). Assim,

ressalta-se ainda a afinação da proposta com potencialidades importantes para a formação de professores da Educação Básica, no sentido de possibilitar que construam conhecimentos que subsidiem suas práticas pedagógicas na escola. Ao terem oportunidade de cursar a disciplina e vivenciar e perceber que saberes populares e acadêmicos se interconectam de diferentes e inúmeras formas, convergindo para importantes aspectos de uma formação interepistêmica, os licenciandos poderão igualmente promover a ampliação de critérios de seleção e de modos de desenvolvimento de temas e conteúdos atuais nas escolas, laborando currículos plurais em uma perspectiva inclusiva, não dicotômica e crítica. (PRASS et al., 2016, p. 6).

No último número da revista World of Music, Carvalho, Barros, Corrêa e Chada refletem sobre o Encontro de Saberes como campo interdisciplinar e transdisciplinar que possibilita confluências entre muitas áreas, entre elas a entomusicologia e a educação musical (CARVALHO et al., 2016). Este número da revista consiste em um dossiê intitulado Ethnomusicology in Brazil 14 , organizado por Angela Lühning e Rosângela Tugny (2016), e pode ser visto como um marco na etnomusicologia brasileira, pois nele se esboça um panorama atualizado de pesquisas e ações entomusicológicas no Brasil. Além da introdução, os seis artigos reunidos neste volume foram escritos coletivamente, por grupos de pesquisadores agregados em torno de temas de especialização ou de experiências comuns desenvolvidas através de redes interinstitucionais, etc. Entre as temáticas abordadas, encontram-se a pesquisa colaborativa e participativa em etnomusicologia; a pesquisa colaborativa em enotmusicologia ameríndia, sobre o projeto ProDocSon, do Museu do Índio do Rio de Janeiro; o já referido artigo sobre o projeto Encontro de Saberes;

14 Disponível em: http://www.journal-the-world-of-music.com/current.html. Acessado em: jun. 2016.

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Belém 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares.

interfaces etnográficas entre práticas e pedagogias musicais em contextos musicais afro- descendentes; e as perspectivas dos músicos praticantes e dançantes do forró sobre mudanças nos festivais de rua no Nordeste brasileiro.

2 Dados sistematizados um sobrevoo

A etnomusicologia no Brasil é uma área complexa, diversificada, que se congrega, reforça, transforma e revisa em encontros científicos, publicações e ações em rede. A fim de contribuir de alguma maneira no mapeamento da pesquisa etnomusicológica contemporânea dos últimos anos no Brasil, optei por revisaro estado da arte, revisitando artigos que anteriormente o fizeram, assim como listando alguns livros e revistas e exemplos de coletivos de pesquisa em etnomusicologia no Brasil.

Panoramas sobre a etnomusicologia no Brasil

Encontram-se disponíveis, em anais de encontros científicos (ABET, Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música [ANPPOM], Associação Brasileira de Antropologia [ABA], etc.) e periódicos científicos, uma série de artigos em que pesquisadores nos apresentam o estado da arte do fazer etnomusicológico no Brasil nos últimos anos, reunindo aspectos como a história da institucionalizaçãodo campo, tendências metodológicas, dilemas, etc. Entre estes textos, destacamos os de Gerard Béhague (1987), Angela Lühning (1991, 2014a, 2015), Elizabeth Travassos (2003), Carlos Sandroni (2008), Rafael de Menezes Bastos (2004, 2014[2006]) e Richard Rautman(2015). Abrem-se aqui parênteses necessários, para lembrar que outros autores se ocuparam mais especificamente das interfaces da etnomusicologia com a educação musical, como Lucas (1992, 1994, 1994-1995), Béhague (1997), Reginaldo Braga (1997, 2005), Luciana Prass (1998, 2005), Stein (1998), Margareth Arroyo (1999, 2000), Sandroni (2000), Lucas, Arroyo, Stein e Prass (2001), Travassos (2002), Luiz Ricardo Queiroz (2004, 2010), Acácio Tadeu Piedade (2006), Samuel Araújo (2006b), Líliam Barros (2008), André Luiz Pereira (2011) e AngelaLühning (2014b). Essa interlocução entre etnomusicologia e educação musical vem-se mostrando um campo profícuo para ambas as áreas, contendo um conjunto significativo de produções brasileiras em torno do tema. Recentemente esta articulação foi tratada no VII ENABET (Florianópolis, 2015), em mesa redonda

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Belém 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares.

organizada por Líliam Barros, assim como foi constituída esta interlocução em mesa redonda organizada por Jusamara Souza e Luciana Prass, em 2016, no encerramento do projeto Música na Escola (Porto Alegre). 15 Nestes espaços se colocaram questões sobre as intersecções entre estudos sobre músicas tradicionais e suas formas de transmissão - em seus contextos criativos, nas escolas diferenciadas e na educação básica em geral -, tendo em vista não só o reconhecimento das especificidades destas práticas musicais e de seus contextos e sua riqueza, expressa em múltiplas produções e demandas sócio-musicais, mas considerando também a legislação já referida (as leis 10.639/2003 e 11.645/2008), assim como a lei 11.769/2008, que trata da obrigatoriedade do ensino de Música nas escolas brasileiras. Retomando textos que promoveram panorama da etnomusicologia no Brasil:

Travassos (2003) realiza um balanço da área pela perspectiva de sua institucionalização em Esboço de balanço da etnomusicologia no Brasil (2003, reapresentado na XV Reunião da ANPPOM, 2005), pontuando processos importantes para isso: fundação da ABET em 2001 (durante a 36ª Conferência do International Council for Traditional Music-ICTM); I ENABET em 2002, em Recife; criação de Laboratórios de Etnomusicologia (UFRJ e UFMG); constituição de outros grupos de pesquisa em etnomusicologia (Florianópolis, Porto Alegre, Salvador). Analisa a parcial superação do paradigma da estética do nacional- popular e uma ampliação dos estudos no âmbito de música e mídia. Em artigo de interesse para a área da etnomusicologia indígena, Música nas Terras Baixas da América do Sul: estado da arte (escrito em 2006 como artigo de periódico e publicado em coletânea de 2013), Menezes Bastos apresenta a produção de dissertações e tese em etnologia indígena voltada às práticas sonoro-performáticas das terras baixas ameríndias. Antes disso, em 2004, o autor publicou Etnomusicologia no Brasil: algumas tendências hoje, em que propunha um panorama mais amplo, de pesquisas enotmusicológicas naquele momento, atendo-se, por fim, aos resultados de seu grupo de pesquisa, especialmente voltados aos campos sonoros ameríndios. Sandroni (2008) descreve a institucionalização e a ampliação dos profissionais etnomusicólogos no Brasil, destacando haver nos anos 1990 doze doutores identificados com o campo da Etnomusicologia, formados no exterior (SANDRONI, 2008, p. 69). Os

15 Projeto de extensão (ForProf/MEC) voltado à formação continuada de professores em atuação na área de música no Rio Grande do Sul.

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primeiros mestrados em música no país foram criados nos anos 1980 (assim como data daquela década a fundação da ANPPOM, 1988) e os primeiros doutorados surgem do final dos anos 1990. Localiza em 2000, durante o “Encontro Internacional de Músicas Africanas e Indígenas no Brasil”, organizado por Rosângela Pereira de Tugny e Ruben de Queiroz em Belo Horizonte, a maturidade de uma organização nacional da etnomusicologia, 16 expressa pelo grande número de participantes e peloprotagonismo de mestres de cultura popular nos debates. Esse encontro deu origem ao livro Músicas Africanas e Indígenas no Brasil (TUGNY e QUEIROZ, 2006), anteriormente mencionado. Em abril de 2001, no XIII Encontro da ANPPOM, em Belo Horizonte, um grupo de trabalho (“Etnomusicologia no Brasil – Balanço e Perspectivas”) relançou o debate sobre a criação da associação. Em julho do mesmo ano, no 36º Congresso do ICTM, no Rio de Janeiro, fez-se a assembleia de fundação da ABET, contando com mais de 50 pessoas presentes, e definiu-se para o ano seguinte (2002) a ocorrência do I ENABET, em Recife (SANDRONI, 2008: 71-72). Depois deste primeiro encontro, foram realizados Encontros Nacionais da ABET em 2004 (Salvador), 2006 (São Paulo), 2008 (Maceió), 2011 (Belém), 2013 (João Pessoa) e 2015 (Florianópolis). Ocorreu também uma série de Encontros Regionais (ver a esse respeito LÜHNING, 2014b; RAUTMAN, 2015). Lühninget al. (2013) analisam a formação de etnomusicólogos no Brasil no âmbito dos pós-graduações. Remete ao texto de Sandroni (2008), sobre a trajetória histórica da institucionalização da entomusicologia no Brasil; assim como a Travassos (2003), enfatizando que a autora interpreta que a formação e a atuação do etnomusicólogo não se confinam às Instituições de Ensino Superior (IES) (LÜHNING et al., 2013: 2). Atualiza o conjunto denúcleos com produção relevante em etnomusicologia. Além dos mencionados por Travassos (Salvador, Florianópolis e Porto Alegre), propõe João Pessoa, Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte como novos polos desta produção, até o ano de seu artigo. Acrescentaria que, neste ínterim, outros polos vêm sendo constituídos, entre eles em Belém, Manaus, Porto Seguro, Pelotas e Curitiba. Em 2014, Lühning produziu mais dois artigos que colaboram para a configuração deste panorama, atendo-se à trajetória histórica e a sua representação disciplinar no Brasil, em relação ao desenvolvimento internacional da área, considerando nesta comparação

16 Previamente, Manuel Veiga e outros etnomusicólogos já haviam buscado esta organização, a partir da experiência sistemática das Jornadas Nacionais de Etnomusicologia, bianuais, do final dos anos 1980 até 1993, na UFBA, organizadas por Veiga.

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aspectos como compromisso social, relação com políticas públicas e identidade cultural (LÜHNING, 2014a: 1). Oferece uma aguçada interpretação das trajetórias históricas da etnomusicologia na Alemanha e nos EUA, desde seu surgimento, no início do século XX, ao que vem se tornando: áreas menos centrais e mais dialógicas com outras disciplinas - como a educação musical e a sociologia da música, na Alemanha, e a antropologia e diversas outras áreas, nos EUA (1914ª, p. 10-13). Passa então a refletir sobre a etnomusicologia no Brasil e sua trajetória contrastante com a destes dois países em especial, considerando que vimos construindo um caminho próprio (LÜHNING, 1991). Desde o primeiro programa de pós-graduação nesta área, instituído na Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 1990, realizaram-se etnografias musicais majoritariamente em contextos brasileiros, diferentemente dos países europeus e norte-americanos, que em geral produziram conhecimento etnomusicológico a partir de contextos externos a seus próprios países. 17 A autora destaca também que a área dialoga com as demandas sociais e reflete sobre os desafios desta sociedade complexa nas suas diferenças e contradições (2014a: 15), constituindo-se como uma “etnomusicologia brasileira” (LÜHNING, 2014a). Crítico preciso de uma série de limites que percebe na constituição da etnomusicologia nos anos 1970-1980 no Brasil, Gerhard Béhague já atentava na década de 1980 para a necessidade de uma configuração no país de uma etnomusicologia com características próprias, contrária a uma orientação etnocêntrica:

Nem o folclore musical brasileiro nem a incipiente etnomusicologia têm contribuído muito para a

teoria etnomusicológica em geral. Isso não quer dizer que a etnomusicologia brasileira deva seguir

cegamente as lições da etnomusicologia européia ou norte-americana, mas sim que os etnomusicólogos

brasileiros devem tentar formular os seus próprios objetivos teóricos, baseados na sua própria conceituação

da problemática de pesquisa e na sua finalidade, conforme vêm fazendo, por exemplo, Rafael José de

Menezes Bastos, José Jorge Carvalho, Elizabeth Travassos e Maria Elizabeth Lucas. A atitude ou posição

sócio-política do etnomusicólogo brasileiro ainda está por ser definida. O problema da hegemonia cultural e

do populismo cultural atuante deve ser enfrentado com a devida honestidade. Basta reafirmar aqui a

necessidade de abandonar de uma vez por todas a orientação etnocêntrica e as atitudes um tanto neo-

colonialistas que herdamos do velho folclore musical e da musicologia comparada. (BÉHAGUE, 1987: 200).

Por outro lado, a busca de uma internacionalização da etnomusicologia brasileira é um esforço relevante, tanto em direção a interlocuções com países consolidados em termos

17 Semelhante constatação fazem Travassos (2003), Sandroni (2008), Barros et al. (2015) e Richard (2015). No entanto, os motivos interpretados e as consequências aferidas pelos autores são bastante diferentes e por vezes mesmo contrastantes, o que neste contexto não será abordado.

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de pesquisa em etnomusicologia, como em direção a outros países, especialmente na América Latina, em que esta área está, como aqui, em construção. No âmbito da instituição em que atuo como docente há dois grupos de pesquisa em etnomusicologia. Participo do Grupo de Estudos Musicais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (GEM/UFRGS), coordenado pela Profa. Maria Elizabeth Lucas. Criado em 1991 e registrado no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq desde 1992, constitui-se como um coletivo interdisciplinar de formação acadêmica e atuação profissional na área de Etnomusicologia/Antropologia da Música, integrado por estudantes dos Programas de Pós- Graduação em Música e em Antropologia Social da UFRGS, cujas pesquisas tratam de repertórios musicais tradicionais, populares e eruditos, a partir dos métodos e técnicas de pesquisa arquivística e trabalho de campo etnográfico. Representando um esforço do GEM de produção de conhecimento musical pela etnografia na América Latina, para além do território nacional brasileiro,no sentido de desencadear interpretações sobre uma “cosmo- sônica” (STEIN, 2009) ameríndia, destaco os trabalhos recentemente defendidos de Ivan Fritzen Andrade, Os cantos das copleras em Amaichadel Valle: performatividadevoco- sonora, corpos e sentido de lugar no noroeste argentino (2016), e de Juan Carlos Molano Zuluaga, Damaciri y Jaury: laper formatividad sonora EmberáChamíenel resguardo indígena de San Lorenzo. Caldas (Colombia) (2016), ambos com orientação de Maria Elizabeth Lucas. Outro coletivo de pesquisa em etnomusicologia do PPGMUS-UFRGS, o Núcleo de Etnomusicologia da UFRGS, foi criado em 2014 e é coordenado por Reginaldo Gil Braga. Visa a contribuir para o estudo do patrimônio musical brasileiro e latino-americano, especialmente do chamado cone sul, a partir da pesquisa em torno de questões de memória e patrimônio musical, bem como de estudos em música do Brasil e América Latina. No mesmo sentido da abertura da universidade aos mestres tradicionais e seus saberes e da internacionalização das pesquisas, em 2013 na UFRGS criou-se o coletivo AbyaYala 18 : epistemologias ameríndias em rede, uma rede interdisciplinar de pesquisa- extensão composta por professores e estudantes das áreas de Música, Antropologia,

18 Termo utilizado pelo povo Kuna (Colômbia e Panamá) para referir-se ao território do continente, antes da conquista europeia. Líderes indígenas de diferentes etnias defendem hoje o emprego desta expressão para designar a América em declarações e documentos, argumentando que seu emprego remete à primazia da identidade ancestral. Esta rede do ILEA foi aprovada em abril de 2014 no âmbito do edital do Instituto Latino-americano de Estudos Avançados (ILEA)/PROPESQ /UFRGS (nº 001/2013, de 18 nov. 2013), e deverá submeter novo projeto em 2017 ao ILEA, condição de sua continuidade neste âmbito.

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Educação e Letras, cujo objetivo é divulgar as pesquisas e ações extensionistas das áreas envolvidas e desenvolver novos projetos conjuntos, relacionados aos modos de estar ameríndios, como apoio dos grupos de pesquisa aos quais estamos ligados. Esta rede pretende, ainda, possibilitar a articulação de pesquisas que vêm sendo desenvolvidas em instituições de ensino superior do Brasil, Uruguai, Colômbia, Peru e México; discutir algumas relações entre os processos de aprendizagem e as sócio-mito-cosmo-ontologias ameríndias; e criar um espaço institucional de interlocução entre vários especialistas oriundos de diferentes áreas do conhecimento e filiados a diversas instituições.

Livros e revistas emetnomusicologia no Brasil

Os mecanismos de difusão da produção científica são muitos (ver a este respeito GARCIA, 2013, p. 39). Livros organizados em torno do tema etnografia da música, com exposição de pesquisas, interpretação de contextos etnomusicológicos e com reflexão crítica sobre questões metodológicas, que tenham superado o mero nível descritivo, são especialmente relevantes para estabelecer uma espécie de “zona franca de conhecimento” (ibid.). Convocam leitores ao diálogo em uma “rede interpessoal e interinstitucional”, “contribuindo para a sustentabilidade do conhecimento” (ibid.). Por esta perspectiva podem ser pensados os livros coletâneas produzidos nos últimos 10 anos no Brasil, como por exemplo: Música indígena e africana no Brasil (TUGNY e QUEIROZ, 2006), Música Popular na América Latina (ULHÔA e OCHOA, 2005), Música em Debate (ARAÚJO; PAZ e CAMBRIA, 2008), Palavra Cantada (MATOS et al., 2008) e Mixagens em Campo (LUCAS, 2013). Os quatro primeiros livros foram organizados a partir de trabalhos apresentados em encontros científicos. Já esta última publicação reúne artigos sobre pesquisas etnográficas (mestrado e doutorado) em Etnomusicologia desenvolvidas no âmbito do GEM, nos Programas de Pós-Graduação de Antropologia e de Música da UFRGS, sob orientação de Maria Elizabeth Lucas, organizadora da publicação, sobre temas diversos, tais como a relação entre música e território, gênero e música, práticas musicais urbanas edireitos autorais coletivos na música indígena, entre outros. A publicação de monografias etnomusicológicas tem aumentado consideravelmente no Brasil. Em seu artigo de 2003, Travassos elege três livros etnomusicológicos que considera modelares para se compreender o caminho da disciplina, por serem atuais

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naquele momento: Feitiço decente, de Carlos Sandroni (2001); Os sons do Rosário, de Glaura Lucas (2002); e Voices of the Magi, de Suzel Ana Reily (2003). Relembra etnografias paradigmáticas, como A musicológica Kamayurá, de Rafael de Menezes Bastos (1999[1978]); Ubatuba nos cantos das praias, de Kilza Setti (1985); e Why Suyá Sing, de Anthony Seeger (1987), à época conhecido no Brasil na 1ª versão da edição inglesa. Sobre este livro, cabe destacar que em 2004 foi lançada a 2ª edição em língua inglesa e, em 2015, uma tradução atualizada do livro em Português (trad. Guilherme Werlang), uma iniciativa muito importante para as áreas de etnomusicologia e de etnologia indígena, pois permitiu que mais profissionais e estudantes tivessem acesso a este estudo pioneiro de um pesquisador norte-americano que muito produziu no Brasil e em parceria com instituições nacionais 19 .Outro livro etnomusicológico mencionado por Travassos é Contribuição bantu na música popular brasileira, de Kazadi Wa Mukuna (2000). Destaco a publicação, posterior a este artigo, de A música dos Caboclos nos candomblés baianos, de Sônia Chada (2006, apresentada como tese de doutorado em 2001, pela UFBA, orientada por Manuel Veiga), além de A festa da Jaguatirica. Uma partitura crítico-interpretativa, de Rafael José de Menezes Bastos (2014, fruto de sua pesquisa de doutorado finalizada em 1990). Estas duas obras ajudam a compor este panorama de pesquisas precursoras no enraizamento da etnomusicologia no Brasil, publicadas em livro. Atualmente uma nova geração de etnomusicólogos tem publicado suas etnografias, contribuindo de forma ímpar com o amadurecimento da reflexão metodológica na área, a partir da difusão mais ampla da produção de conhecimento sobre realidades sonoro- performáticas no Brasil e a partir da exposição depossibilidades investigativas, comparativas, políticas e sistematizadoras no fazer etnomusicológico. Cito alguns autores e seus trabalhos publicados: Deise Lucy OliveiraMontardo, Através do “Mbaraka”: música, dança e xamanismo Guarani(2009); Rosângela Tugny, dois volumes de cantos traduzidos,

19 Para a tradução recente do livro de Seeger, Por que cantam os Kisêdjê uma antropologia musical de um povo amazônico (2015[1987]), foi feita uma resenha porPrass e Stein (2016) - El oído pensante, v. 4, n. 1. (Disponível em: http://ppct.caicyt.gov.ar/index.php/oidopensante/issue/current. Acessado em: maio 2016). Nonato (2015) também publicou uma resenha desta obra - Mana, v. 21, n. 3, Rio de Janeiro, dez. 2015. (Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/0104-93132015v21n3p675. Acessado em: maio 2016) e posiciona- se como conhecedor não só do texto lido, mas também de experiências performáticas vividas anos depois da etnografia de Seegerentre os Kisêdjê, pois desenvolveu um reestudo entre os Kisêdjê. Isto lhe permitiu uma interpretação comparativa que engrandece o campo da etnomusicologia. Não temos por objetivo falar especialmente sobre reestudos, porém cabe destacar que se trata de processos investigativos importantes, que demonstram a continuidade e a complexificação dos saberes musicais sistematizados, potencializando o amadurecimento da área. Ver sobre reestudo: Sandroni (2005), Prass (2013[2009]) eIyanaga (2013).

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realizados em colaboração com os especialistas Tikmũ’ũn, Yamĩyxop Xũnĩmyog Kutex xi agtux xi hemexyog Kutex/Cantos e histórias do morcego-espírito e do hemex(2009a) e Mogmokayog Kutex xi agtux/ Cantos e histórias do gavião-espírito (2009b); de Toninho Maxakali e Eduardo Pires Rosse (Orgs.), Escuta e Poder na Estética Tikmũ’ũn Maxakali; Kõmãyxop: Cantos Xamânicos Maxakali/Tikimũ’ũn(2011); Rosângela PereiraTugny, Escuta e poder na estética Tikmu'un (2011); Werner Ewald, “Walkingand Singingand Following the Song”: Musical Practice in the Acculturation of German Brazilian in South Brazil Ethnomusicological and Historical Perspectives (2011); Ivan Paolo de Paris Fontanari, 20 Os “DJs da Perifa”: música eletrônica, trajetórias e mediações culturais em São Paulo (2013); LucianaPrass, Maçambiques, quicumbis e ensaios de promessa:

musicalidades quilombolas do sul do Brasil (2013); Luiz Fernando Hering Coelho, Os músicos transeuntes: de palavras e coisas em torno de uns Batutas (2013); Reginaldo Gil Braga, Tamboreiros de Nação: música e modernidade religiosa no Extremo Sul do Brasil (2013); e Álvaro Neder, “Enquanto este novo trem atravessa o litoral”: música popular urbana, latino-americanismo e conflitos sobre modernização em Mato Grosso do Sul (2014). Essa produção publicada em livro vem-se ampliando de forma significativa no Brasil, sendoestes apenas alguns de seus exemplos. A profusão de etnografias etnomusicológicas descritivo-reflexivas certamente também é responsável pelo amadurecimento da área. Talvez seja cedo para apontar quais dessas etnografias musicais publicadas nos últimos anos que sejam especialmente basilares para a constituição do campo, e é importante que sejam muitas bases, diversificadas, pois os campos, as demandas e as perguntas de pesquisas também são de variadas ordens, precisando dialogar com diferentes referenciais, conforme o caso, Há, ainda, as incontáveis monografias etnomusicológicas finalizadas ou em curso que não foram publicadas, mas estão disponíveis em diferentes repositórios digitais na internet. Pode-se afirmar sem receio que essa diversificação, proliferação e descentralização da construção do conhecimento etnomusicológico via etnografia é significativo de um saudável enriquecimento e amadurecimento deste campo. Assim como os livros, revistas especializadas e números especiais em etnomusicologia nos últimos anos vêm colaborando na disseminação de etnografias musicais e potencializando reflexões sobre questões metodológicas inerentes às

20 A respeito deste último livro, consultar: http://www.editorasulina.com.br/img/sumarios/621.pdf.

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experiências etnográficas-intervencionistas no Brasil. Periódicos dedicados a artigos etnomusicológicos nos apresentam a diversidade do pensamento brasileiro nesta área. Por um lado, existem revistas especializadas, como a da ABET Música e Cultura- 21 cujo último volume até o momento foi o 9, número 1, de 2014. 22 Por outro lado, revistas científicas em áreas que investem no caráter interdisciplinar do fazer científico, em alguns de seus números dedicaram-se à etnomusicologia, como, por exemplo, a Revista da USP (n. 77, organizado por Francisco Costa, 2008); 23 Anthropológica, dossiê especial sobre “etnomusicologia” (organizado por Carlos Sandroni, ano 10, v. 17, n. 1, 2006) 24 e outro sobre “música e festa”, também com etnografias entomusicológicas(organizado por Sandroni e Michael Iyanaga, 2015, v. 26, n. 1). 25

Dos coletivos em etnomusicologia no Brasil

Conforme Sandroni:

Os etnomusicólogos brasileiros estiveram presentes nos grupos de pesquisa repertoriados pelo CNPq desde o primeiro “censo” realizado pela instituição, em 2000. No site do CNPq, é possível fazer buscas textuais sobre os censos realizados de dois em dois anos desde então. Os resultados para a palavra “etnomusicologia”, considerando-se os campos “nome do grupo”, “nome da linha de pesquisa” e “palavras-chave da linha de pesquisa”, mostram um crescimento de 250% desde a fundação da Abet em 2001: 2000 4 grupos; 2002 7 grupos; 2004 11 grupos; 2006 14 grupos (SANDRONI, 2008, p. 72).

Em busca de atualização destas informações, nos deparamos com duas possibilidades de acessar os Grupos de Pesquisa no site do CNPq: por “busca textual” e por “consulta parametrizada” (“base corrente”). Considerando os mesmos campos adotados por Sandroni, fazendo no site do CNPq “busca textual” no censo de 2008 com a palavra-chave “etnomusicologia”, encontramos 15 grupos; e, em 2010, também, 15

21 Disponível em: http://musicaecultura.abetmusica.org.br/index.php/revista.Acessado em: maio 2016.

22 Disponível em: http://musicaecultura.abetmusica.org.br/index.php/revista/issue/current. Acessado em: maio

2016.

23 Disponível em: http://www.revistas.usp.br/revusp/issue/view/1078. Acessado em: maio 2016.

24 Disponível em:

Acessado em: maio 2016.

25

http://www.revista.ufpe.br/revistaanthropologicas/index.php/revista/issue/view/55/showToc.

maio 2016.

http://www.revista.ufpe.br/revistaanthropologicas/index.php/revista/issue/view/13.

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grupos, 26 indicando um leve incremento no número de grupos. Atribuímos este resultado nos dados a um provável maior rigor na contagem dos censos mais atuais. No entanto, pela “consulta parametrizada” no site do CNPq, adotando ainda os mesmos campos e a mesma palavra-chave, os grupos de pesquisa totalizam 49, indicando, nesta situação, um acréscimo considerável de grupos de pesquisa relacionados à etnomusicologia no Brasil. Estes grupos estão vinculados às seguintes instituições: 27 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro, Instituto Federal do Ceará-Reitoria, Pontifícia Universidade Católica de Goiás, 2 grupos na Universidade Anhembi Morumbi, Universidade de Caxias do Sul, 3 grupos na Universidade de São Paulo, Universidade do Contestado, Universidade do Estado da Bahia, Universidade do Estado de Santa Catarina, Universidade do Estado do Pará, Universidade do Vale do Itajaí, 2 grupos na Universidade Estadual de Campinas, Universidade Estadual de Londrina, Universidade Estadual do Ceará, Universidade Estadual do Paraná, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Universidade Federal da Bahia, Universidade Federal da Integração Latino-Americana, 2 grupos na Universidade Federal da Paraíba, 2 grupos na Universidade de Brasília, Universidade Federal de Goiás, 2 grupos na Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade Federal de Pelotas, Universidade Federal de Pernambuco, Universidade Federal do Acre, Universidade Federal do Amazonas, Universidade Federal do Cariri, Universidade Federal do Ceará, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, 2 grupos na Universidade Federal do Pará, Universidade Federal do Paraná, 2 grupos na Universidade Federal do Piauí, Universidade Federal do Recôncavo Baiano, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 3 grupos na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade Federal do Sul da Bahia, Universidade Federal do Tocantins, Universidade Federal Fluminense. Estes dados indicam que, nos últimos oito anos, o incremento na organização institucional de pesquisadores em Etnomusicologia continua ocorrendo, ao mesmo tempo em que, comparativamente, os dados censitários e os dados obtidos também no CNPq, porém por consulta parametrizada (busca corrente), apresentam uma defasagem de

26 Para acompanhar o censo atual, sobre grupos de pesquisa no Brasil, consultar:

http://lattes.cnpq.br/web/dgp/censo-atual/. 27 Há também a opção de se procurar por grupos de pesquisa registrados que estejam atualizados. Neste caso, aparecem 32 grupos de pesquisa na mesma consulta parametrizada.

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informação, talvez relacionada à metodologia censitária e ao ritmo de atualização dos dados pelos grupos, entre outros motivos. Um polo que exemplifica o desenvolvimento em pesquisa etnomusicológica é do estado do Pará. Líliam Barros, em Pontos sobre a Pesquisa em Música no Pará (2011), descreve aspectos da constituição de grupos de pesquisa no estado do Pará e pesquisas etnomusicológicas no âmbito daquele estado. Aprovado em 2008, o Programa de Pós- Graduação em Artes inaugurou o primeiro Mestrado em Artes na Amazônia, que congrega três linguagens artísticas Artes Visuais, Artes Cênicas e Música. Naquele momento, 90% dos estudos estavam voltados a temáticas que atendessem a demandas dos grupos musicais locais, porém respondendo a necessidades e interesses mais amplos, em nível nacional e internacional (BARROS, 2011: 42). Apesar do interesse predominante nas pesquisas pelos temas das músicas tradicionais dos povos originários amazônicos, assim como por aspectos patrimoniais e pedagógicos vinculados, os estudos têm uma grande abrangência e diversidade, como se percebe tomando como exemplos as teses dos pesquisadores paraenses Líliam Barros, Repertórios Musicais em Trânsito: música e identidade indígenas em São Gabriel da Cachoeira, AM (2006), e Paulo Murilo Guerreiro do Amaral, Estigma e Cosmopolitismo na constituição de uma música popular urbana de periferia: etnografia da produção do tecnobrega em Belém do Pará (2009). Barros, Severiano e Chada realizam em 2015 uma revisão da produção etnomusicológica na Universidade Federal do Pará (UFPA), no artigo Pesquisa e o Laboratório de Etnomusicologia da Universidade Federal do Pará: uma análise interpretativa. Além dos grupos de pesquisa Grupo de Estudos e Pesquisas em Música (GEPEM) e Grupo de Estudos sobre Música na Amazônia (GEMAM), da Universidade do Estado do Pará (UEPA), e do Grupo de Pesquisa Música e Identidade na Amazônia (GPMIA), da UFPA, criou-se em 2011 o Grupo de Estudos sobre Música no Pará (GEMPA), também disposto a “produzir conhecimento sobre as práticas musicais existentes no Pará e na Amazônia, à luz da etnomusicologia” (BARROS, 2015: 2- 3), contribuindo para uma crescente produção de teses e dissertações no viés etnomusicológico no Pará. Os autores destacam entre os aspectos marcantes desta produção a abordagem de temáticas regionais, a busca de compreensão da diversidade de práticas musicais paraenses, o caráter interdisciplinar de suas pesquisas e a ênfase na etnomusicologia colaborativa como busca de consolidação de trocas de saberes interculturais (idem: 3). Recentemente foi criado o Laboratório de Etnomusicologia da

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. UFPA (LabEtno),

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UFPA (LabEtno), pelo qual se pretende contribuir ainda mais para o aprofundamento das pesquisas em andamento e para estimular novos estudantes à pesquisa etnomusicológica. Conforme Barros et al., o LabEtno se junta aos já existentes Laboratório de Etnomusicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG, criado em 2000), da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e o Laboratório de Etnomusicologia Elizabeth Travassos da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) (BARROS et al.: 4).

Considerações finais

Este artigo pretendeu apresentar alguns temas pertinentes para se pensar a entomusicologia contemporânea no Brasil, levantando questões metodológicas e dilemas, apontando percursos da área, produções escritas publicadas e exemplos de redes e grupos de pesquisa na área e em campos interdisciplinares. Outros temas foram tangenciados, sem o aprofundamento com que merecerão ser tratados em outras oportunidades: educação musical, projetos sociais em Música, patrimonialização, registros sonoros e audiovisuais e materiais didático-pedagógicos- etnomusicológicos 28 . Em síntese, creio que a etnomusicologia na contemporaneidade parece continuar se institucionalizando, mas também se inclina a abrir seus núcleos institucionalizados à sociedade, criando opções metodológicas que implicam a escuta à sociedade e o enfrentamento de seus dilemas, no exercício cotidiano do diálogo - dentro dos coletivos de pesquisa, em redes interdisciplinaresinter e intrainstitucionais. Conforme Lühning (2014a) a etnomusicologia deveria buscar temas que abordem a composição da sociedade brasileira, a inserção de segmentos sociais, identidades, questões de gênero, políticas educacionais e culturais, direitos coletivos de propriedade intelectual ou conhecimentos tradicionais e do uso de tecnologias (2014a: 18), e também a educação

28 Penso ser urgente o debate não só sobre a produção, mas também sobre o acompanhamento das formas de produção, divulgação e utilização dos materiais etnomusicológicos no ensino escolar e não escolar. Este tema é instigante e, por exemplo, Lühning vem refletindo sobre ele: “Especialmente os professores das escolas públicas, atuando na área de música ou não, precisam de materiais fundamentados para trabalhar as questões das identidades locais e regionais, em vez de manter a ideia teórica de uma cultura nacional única que na prática nunca existiu. Estes materiais deveriam ser fruto da participação maciça dos pesquisadores na assim chamada divulgação científica como compromisso social e ético das universidades, mantidas com dinheiro público, materiais que não necessariamente precisam ser didáticos.” (LÜHNING, 2014ª, p. 20).

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. musical (2014a:

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musical (2014a: 19) e, principalmente, que tenham relevância para um conjunto de pessoas na sociedade. “Seguindo esta lógica, não seria mais o ineditismo do ponto de vista acadêmico de um tema que o torna relevante, mas a sua necessidade política e até urgência social/ cultural que, pelo menos, devem ser cogitadas como aspectos importantes na delimitação dos possíveis temas” (ibid.). Nesta perspectiva, temas emergentes seriam:

temas que lidam com tradições ou expressões musicais em constante diálogo com as pessoas envolvidas nelas, o que pode ocorrer em contextos urbanos comunitários em situação de vulnerabilidade social, grupos minoritários, como grupos indígenas, quilombolas ou ribeirinhas, processos educacionais escolares ou não escolares, em contextos geográficos e sociais periféricos ou não, questões de transmissão e processamento de informações através dos mais diversos meios, novas formas e processos criativos, hoje tão relacionados com novas tecnologias e processos midiáticos, entre muitos outros possíveis temas. (LÜHNING, 2014a:

19).

Com base na interdisciplinaridade e na transdisciplinaridade, parece-nos necessário eurgente traçarcaminhos para contemplar - pela chave da sonoridade e da performance, a diversidade de etnoteorias, etnometodologias (STEIN, 1998), sociocosmo-ontologias dos mundos sonoros - os conflitos e as interrogações suscitadas nos encontros de alguns destes mundos. Esse esforço de ouvir e criar novas relações poderá ajudar a constituição de universidades ampliadas por diferentes concepções de ciência e cosmos, em que diferentes corpos, performances e processos de construção da pessoa se tornem pensáveis, na educação superior e na educação básica, assim como em diferentes contextos. Conseguiremos assim evitar a violência, nas palavras de Vherá Poty (comunicação oral, 2012), da “puni-diversidade”? Ou seja, conseguiremos que a universidade deixe de ser um espaço exclusivo - centrado em formas específicas de fazer ciência e de se relacionar entre as pessoas, com o mundo - para que se torne uma pluriversidade, aberta à sociedade, inclusiva, crítica e auto-crítica? Para isso, é importante que não só os etnomusicólogos estranhos a seus contextos de trabalho de campo estudem músicas tradicionais e outras, mas também que os cursos e os grupos de pesquisa se abram para que, cada vez mais, os atores sociais familiarizados com os temas e terrenos da pesquisa etnográfica musical os estudem. Tomando emprestada uma afirmação de Eduardo Viveiros de Castro acerca da vocação da antropologia, penso que, se há algo que cabe de direito à etnomusicologia, não é certamente a tarefa de explicar o mundo de outrem, mas a de multiplicar nosso mundo (VIVEIROS DE CASTRO, 2002, p. 11).

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. Referências:

Belém 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares.

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Antropologia (RBA), Natal/RN,03-06 ago. 2014. Anais

TRAVASSOS, Elizabeth. “Etnomusicologia, educação musical e o desafio do relativismo

ABEM,

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[Reapresentado: XV Reunião da ANPPOM, 2005.]

. “Poder e valor das listas nas políticas de patrimônio e na música popular”. Mesa-

redonda.PPGMUS-PROREXT/UFRGS, 2006.

TUCUNDUBA: Arte e Cultura em Revista. Universidade Federal do Pará, n. 5, 2016.

;

SILVA,

Vherá

Poty

Benites

da.

“Refletindo

sobre

experiências

Natal: RBA, 2014.

Uberlândia:

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. TUGNY, Rosângela

Belém 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares.

TUGNY, Rosângela Pereira et al

apresentação do projeto ao Museu do Índio. Rio de Janeiro: Museu do Índio, 2010.

O

trabalho

da

memória

através

dos cantos:

. Escuta e poder na estética Tikmu'un. Rio de Janeiro: Museu do Índio, 2011.

; QUEIROZ, Ruben de (Orgs.). Músicas africanas e indígenas no Brasil. Belo

Horizonte: UFMG, 2006.

et al. Yamĩyxop Xũnĩmyog Kutex xi agtux xi hemexyog Kutex/Cantos e histórias do

morcego-espírito e do hemex. Rio de Janeiro: Azougue, 2009a. Inclui 2 DVDs.

agtux/ Cantos e histórias do gavião-espírito. Rio de

Janeiro: Azougue, 2009b. Inclui 1 DVD.

ULHÔA, Marta; OCHOA, Ana Maria (Orgs.). Música popular na América Latina pontos de escuta. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2005.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. “O nativo relativo”. Mana, v. 8, n. 1, p. 113-148,

2002.

ZULUAGA, Juan Carlos Molano. Damaciri y Jaury: la performatividad sonora Emberá Chamí en el resguardo indígena de San Lorenzo. Caldas (Colombia). Dissertação (Mestrado em Música) PPGMUS, UFRGS, 2016.

et al. Mogmokayog Kutex xi

Lorenzo. Caldas (Colombia). Dissertação (Mestrado em Música) – PPGMUS, UFRGS, 2016. et al . Mogmokayog Kutex
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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. MESA REDONDA 1

Belém 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares.

MESA REDONDA 1

MESA REDONDA 1: REFLEXÕES SOBRE GÊNERO, RELAÇÕES ETNICORACIAIS E SEXUALIDADES NA ETNOMUSICOLOGIA BRASILEIRA E ESTUDOS MUSICAIS DA AMAZÕNIA

Coordenação Dra. Lívia Negrão (UEPA)

NA ETNOMUSICOLOGIA BRASILEIRA E ESTUDOS MUSICAIS DA AMAZÕNIA Coordenação – Dra. Lívia Negrão (UEPA) 51
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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. “O jambu

Belém 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares.

“O jambu treme!”: estudos, fechações etnomusicológicas e a(r)tivismos musicais pioneiros e necessários da Amazônia

Laila Rosa

Universidade Federal da Bahia - lailarosamusica@gmail.com

Resumo: Neste artigo sigo pelos caminhos de um breve panorama das epistemologias feministas descoloniais no campo da etnomusicologia brasileira aos “a(r)tivismos, estudos pioneiros e necessários da Amazônia”. Para trilhar esta rota, inicio situando a minha própria fala enquanto cantautora pernambucana, pesquisadora e professora feminista, para então considerar as atuações, pesquisas e a(r)tivismos de jovens pesquisadorxs do Pará e do Maranhão que, de perspectivas, lugares e identidades distintas, vêm se debruçando sobre o campo dos estudos sobre mulheres, feminismos, feminismo negro, gênero, raça e sexualidade em música popular, antropologia e na etnomusicologia, especificamente. A ideia é dialogar com estas perspectivas que são recentes e pioneiras, reiterando a relevância das mesmas para os campos dos estudos e a(r)tivismos da etnomusicologia brasileira e dos estudos sobre música popular.

Palavras-chave:

Etnomusicologia Brasileira. Estudos sobre música da Amazônia. Epistemologias

feministas.

Situando a minha fala: das reflexões sobre gênero, relações étnico-raciais e

sexualidades na etnomusicologia brasileira e nos estudos musicais da Amazônia

“Se você quiser saber o que a jamburana faz O tremor do jambu É gostoso demais.

O jambu treme

Vai descendo, Vem subindo, Chega até o céu da boca, boca fica muito louca Com o tremor do jambu

O jambu treme Dona Onete

Gostaria de iniciar junto ao canto de Dona Onete, cantora e compositora paraense

para dizer que sim, é preciso tremer e fazer tremer como o jambu. 29 Tremer o que ainda

29 “Planta cultivada na região norte do país, onde é utilizada como condimento culinário amazônico, principalmente para ao preparar o famoso “molho-de-tucupi”. As folhas e inflorescência são empregadas na medicina caseira na região norte do país, para tratamento de males da boca e garganta, além de tuberculose e litíase pulmonar. As folhas e flores quando mastigadas dão uma sensação de formigamento nos lábios e na

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. está por ser

Belém 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares.

está por ser tremido, o que está de certo modo conformado, seja por não identificação ou aprofundamento, percepção teórica e política de que falar sobre categorias estruturantes das desigualdades sociorraciais e de gênero na sociedade brasileira tais quais gênero, raça e etnia, sexualidades, geração, classe social, dentre outras, numa perspectiva interseccional, é diluir ou excluir a questão da desigualdade da classe social. É preciso compreender que estas categorias articuladas auxiliam na compreensão inclusive do contexto de análise do etnocídio, trazendo a questão do feminicídio para a pauta, por exemplo, como aponta Rita Segato (2014). Por quê tremer? Porque infelizmente ainda se nutre uma perspectiva de que falar sobre gênero e feminismos é se engajar em “especificidades” ou “isolamentos” políticos que excluem os homens, também subalternos e que, portanto, não contemplaria o “todo”. Outra crítica comum é de que, ao falarmos sobre gênero e feminismos no campo da etnomusicologia, estaríamos ocidentalizando culturas tradicionais que não se pautam por parâmetros ocidentais. Importante lembrar que os movimentos feministas e de mulheres indígenas, negras, trans, lésbicas, bissexuais, trabalhadoras rurais e tantas várias sempre foram estigmatizados por esta perspectiva de que há uma suposta “setorização” na luta feminista, antirracista e LGBTTI. O oposto, no entanto, não é devidamente observado, de que historicamente as mulheres e outras “minorias” são sujeitxs invisíveis (SCOTT, 1992 e 1989; BUTLER, 2004; CURIEL, 2010; LOURO, 1997). A questão da invisibilização recai sobre a materialidade do musical, como bem pontuam Ana Maria Ochoa (2006) e Talitha Couto Moreira (2012), pois a mesma implica pensar sobre as materialidades/corpos/vivências/conhecimentos que são heterogêneos e desiguais no campo da etnomusicologia brasileira, quais as questões colocadas, hierarquizadas ou invisibilizadas, quais as interlocuções construídas ou negligenciadas, firmando aí a importância de reconhecer com os movimentos sociais, incluindo os movimentos de mulheres, feministas e LGBTTI.

língua devido sua ação anestésica local, sendo por isso usada para dor-de-dente como anestésico e como estimulante do apetite.” Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jambu.

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. Consi derando o

Belém 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares.

Considerando o campo da “Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares”, tema deste importante Encontro Regional da Associação Brasileira de Etnomusicologia ABET e I Encontro de Estudos Musicais da Amazônia, no âmbito da universidade pública e de qualidade, no caso, a Universidade Federal do Pará, é fundamental ainda trazer a perspectiva da formação em etnomusicologia. Tomando como ponto de partida a formação do primeiro Programa de Pós- Graduação em Música- Etnomusicologia em 1990, na Universidade Federal da Bahia, que formou parte considerável de etnomusicólogxs que se tornaram pesquisadorxs e docentes pelas universidades brasileiras, formando também novos programas, e também, a criação da ABET em 2001 e a realização do I Encontro Nacional que ocorreu em Recife, PE, em 2002, 30 como importante espaço de encontro, produção de conhecimento, formação e atuação política na área. Ainda sobre a dimensão da formação, é importante trazer os termos da dialogicidade freireana, engajada e participativa em contextos comunitários propostas e vivenciadas de formas diferenciadas por Samuel Araújo e o grupo Musicultura (2006), Angela Lühning (2006), Rosângela Tugny (2006), José Jorge de Carvalho e o projeto Encontro de Saberes debatido por Laize Guazina (2015), dentre outrxs que pensam a perspectiva de engajamento, interlocução e ética, como Angela Lühning e eu discutimos também no texto sobre invisibilidades e inaudibilidades de sujeitxs musicais que estejam fora das hegemonias diversas (LÜHNING e ROSA, 2010). Contudo, penso ser fundamental enquanto pesquisadora, pessoa e educadora, trazer a pedagogia feminista, lembrando, por exemplo, Nísia Floresta, autora potiguar que mais de 100 anos antes de Paulo Freire, já defendia a igualdade de gênero no acesso à educação, e infelizmente é pouco conhecida ou lembrada no campo da educação e educação musical. 31 Na mesma linha mais de cem anos depois, e com a mesma atualidade, trazendo

30 Sobre o perfil institucional da etnomusicologia no Brasil ver Carlos Sandroni (2008). Faço questão de mencionar ainda atuação politizada de interlocução com os grupos/sujeitxs construída, da qual me considero diretamente formada pelo meu ex-orientador e amigo querido, o Prof. Dr. e compositor Carlos Sandroni, durante 3 anos consecutivos na iniciação científica enquanto graduanda do curso de licenciatura em música da UFPE, do Núcleo de Etnomusicologia e da Associação Respeita Januário, fundada em 1999. A mesma articulava encontros, apresentações, oficinas, dentre outras ações sempre em parceria com grupos tradicionais populares pernambucanos, tais quais, diversos grupos de cavalo-marinho, coco e maracatu, dentre outros. 31 O livro Direitos das mulheres e injustiça dos homens foi publicado por Dionísia Gonçalves Pinto (1810- 1885), mais conhecida como Nísia Floresta, em 1832. Tal obra foi considerada uma tradução livre de A Vindication of the rights of woman de Mary Wollstonecraft (1759-1797), autora inglesa que se tornou o principal nome em defesa dos direitos das mulheres no século XIX.” (CAMPOI, 2011, p. 1).

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. a perspectiva da

Belém 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares.

a perspectiva da interseccionalidade, a pensadora negra estadunidense bell hooks 32 (2013) propõe uma educação feminista e antirracista da transgressão e do entusiasmo, com a qual, particularmente me identifico e procuro trabalhar cotidianamente nas minhas aulas e demais espaços pelos quais transito, inclusive nos contextos comunitários de Salvador. É neste sentido de pedagogia feminista antirracista sugerido por bell hooks (2013) e Nísia Floresta (CAMPOI, 2011) e também de uma etnomusicologia feminista e da diferença defendida por Debora Wong (2006) que, desde 2012, venho trabalhando com a Feminaria Musical: grupo de pesquisa e experimentos sonoros (ROSA et alli, 2013), que integra a linha de pesquisa Gênero, Arte e Cultura do Núcleo de Estudos Interdisciplinares

da Mulher NEIM/UFBA, histórico Núcleo feminista que desde seu surgimento em 1984,

associa a produção de conhecimento à práxis feminista articulada com os movimentos

sociais e de mulheres.

É importante compreender que nem toda etnomusicologia engajada é feminista, mas que toda etnomusicologia feminista é engajada, pois não se compreende uma práxis feminista que não seja igualmente politizada voltada com os dois pés para fora do âmbito

da universidade e que retorne para ela, juntamente com xs protagonistas historicamente

invisibilizadas inclusive por vários dos estudos etnomusicológicos, que são as mulheres negras, indígenas, trans, lésbicas, bissexuais, deficientes, velhas, bem como as crianças. Claro que todo movimento contempla fissuras, conflitos e heterogeneidades e por esta razão, falamos em feminismos no plural, mas sim, é preciso tremer e encarar as importantes articulações, interlocuções e protagonismos.

Neste sentido, para seguir adiante, proponho aqui relembrar o breve panorama das epistemologias feministas descoloniais no campo da etnomusicologia brasileira que tratei em outro momento (ROSA, SOBRAL e CARDOSO, 2015), trazendo para dialogar com os nomes como os de Rita Laura Segato (2014, 2002, 1999, 1995 e 1984), Maria Ignez Cruz Mello (2005) e a pioneira coletânea Estudos de Gênero, Corpo e Música organizada pelas musicólogas e compositoras feministas Isabel Nogueira e Susan Campos Fonseca (2013).

A partir deste breve panorama, seguimos finalmente para os “a(r)tivismos, estudos

musicais pioneiros, *fechativos* e necessários da Amazônia”. Para trilhar esta rota, considero as atuações, pesquisas e ativismos de jovens pesquisadorxs do Pará e Maranhão

32 bell hooks é o pseudônimo de Gloria Jean Watkins e é adotado pela autora propositalmente com as iniciais em minúsculo, como denúncia da invisibilidade das mulheres negras na sociedade.

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. que, de

Belém 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares.

que, de perspectivas, lugares e identidades distintos, vêm se debruçando sobre o campo dos estudos sobre mulheres, feminismos, feminismo negro, gênero, raça e sexualidade em música popular e na etnomusicologia, especificamente. A ideia é dialogar com estas perspectivas que são recentes e pioneiras, reiterando a relevância das mesmas para os campos dos estudos e a(r)tivismos da etnomusicologia brasileira e dos estudos sobre música popular. Como não tenho uma inserção no campo dos estudos musicais da Amazônia, fiquei pensando sobre qual seria a minha contribuição, desde este lugar “outsider” para este encontro e este artigo, especificamente, e então decidi contextualizar um pouco sobre a nossa proposta de simpósio temático “Reflexões sobre gênero, relações étnico-raciais e sexualidades na etnomusicologia brasileira e nos estudos musicais da Amazônia” no presente encontro. O mesmo surgiu de um esboço de desejo ainda em Havana, Cuba, durante o encontro da seção Latino-Americana da Associação Internacional dos Estudos Sobre Música Popular (IASPM), que aconteceu em março desde ano de 2016. Foi um encontro histórico para todxs nós que, igualmente esquerdistas, sonhávamos um dia visitar Cuba, e nos encontramos todxs ali emocionadxs pela primeira vez. 33 Neste encontro, tive a alegria de coordenar o GT “Gênero, corpo e pós-colonialidade na música popular,” juntamente com Francisca Helena Marques (UFRB), Jorgete Lago (UEPA e UFBA) e Bernardo Mesquita (UEA). A partir dali, num grupo maior, falamos sobre o desejo de trocar figurinhas de pesquisa, projetos e interlocuções, e também de discutir sobre a importância do debate de gênero no campo da etnomusicologia brasileira e dos estudos amazônicos, fortalecendo a nossa própria interlocução em âmbito Norte-Nordeste. Neste encontro de Belém, a ideia do simpósio é de articular as nossas diferentes abordagens e experiências sobre aspectos teóricos das epistemologias feministas e dos estudos de gênero e queer numa perspectiva interseccional e descolonial, e suas contribuições para o campo da etnomusicologia e dos estudos amazônicos, a partir do compartilhamento de pesquisas e vivências com distintas temáticas que vêm sendo realizadas neste contexto. O simpósio nasce do encontro entre pesquisadorxs e artistas

33 Prontamente formamos um grupo Norte-Nordeste, compreendendo pesquisadorxs e professorxs de Manaus, Belém, Salvador, Maceió e Recife: além da minha pessoa, Alice Alves (UFPE), Andrey Faro (UEPA), Bernardo Mesquita (UEA), Francisca Marques (UFRB), Jorgete Lago (UEPA/UFBA), Maria Aida (UFPE), Nadir Nóbrega (UFAL), Paulo Murilo Amaral (UEPA) e Tony Leão Costa (UEPA).

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. inseridxs no campo

Belém 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares.

inseridxs no campo da etnomusicologia e da antropologia, que têm se debruçado sobre o tema no Brasil e especificamente, no contexto amazônico. Para esta empreitada nos articulamos conforme nossas atuações e produções, onde eu abordo uma parte mais teórica desta perspectiva com referenciais importantes da etnomusicologia e fora dela, e um pouco sobre a experiência com a Feminaria Musical: grupo de pesquisas e experimentos sonoros, grupo que integra a linha de pesquisa Gênero, Arte e Cultura, do Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Mulher, UFBA, do qual faço parte como pesquisadora desde o final de 2010.

Entre interlocuções, fechações, militâncias e a(r)tivismos

Premissa feminista 1:

O pessoal é político Premissa feminista 2:

Nem toda política é feminista, mas todo feminismo é político Premissa feminista 3:

Nem toda etnomusicologia engajada é feminista, mas toda etnomusicologia feminista é engajada

Para tremer com “o sabor do jambu”, seguindo a receita da maravilhosa Dona Onete, nada melhor que o conceito de fechação para traduzir as experiências, identidades e corpos de sujeitxs, movimentos, práticas musicais e performáticas que permanecem invisibilizadas, bem como, as produções de conhecimento dissidentes que procuram pensar música e a etnomusicologia brasileira a partir destas “outras” experiências, para dialogar com a perspectiva de alteridades históricas problematizada por Rita Segato (2002). Quando trago o termo fechação articulado aos a(r)tivismos, feminismos, e engajamentos diversos, proponho que, ao tratar desta perspectiva dissidente, alcançamos outros olhares e estratégias para pensar sobre os movimentos sociais, os protagonismos de artistas como Gaby Amarantos, das mestras da cultura popular e/ou das travestis na quadrilhas juninas beleneses, a questão da formação em etnomusicologia e/ou pesquisa/atuação em música em geral, da educação popular e indígena, etc., perspectivas que estarão presentes no nosso GT, que, de modo diferentes e tratando de contextos diferentes, abordam protagonismos que são historicamente periféricos. Acredito que, a partir desta perspectiva dissidente, é possível pensar também em estratégias de ação, intervenção e interlocução.

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. Um exemplo bacana

Belém 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares.

Um exemplo bacana da perspectiva da fechação enquanto dissidência epistemológica e política foi a realização do I Encontro sobre Gênero e Música da Amazônia, organizado pelo compositor, baterista e Prof. Dr. Bernardo Paiva Mesquita, que aconteceu na Universidade do Estado do Amazonas, nos dias 1 e 2 de setembro de 2015, em Manaus, que considero um marco pioneiro e fundamental dos estudos musicais da Amazônia e do Brasil. Tive a honra de ser convidada como musicista e palestrante da mesa de abertura “Música e gênero no contemporâneo: panorama e desafios”, juntamente com a Profa Dra Iraildes Caldas, da área da antropologia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), que tratou e o próprio Bernardo Mesquita que recentemente tem se debruçado sobre os “trânsitos, crimes e prazeres” na história da música popular da Amazônia, problematizando o meretrício como importante espaço de trânsito de música popular, onde emerge o protagonismo não somente dos músicos que tocavam nestes espaços, como das próprias prostitutas que consumiam discos de música popular e atuavam como importantes mediadoras no consumo e trânsito desta produção fonográfica que à época era de acesso restrito. Uma outra articulação importante e dissidente no âmbito de Belém do Pará se refere ao projeto Encontro de Saberes, coordenado pelo Prof. Dr. José Jorge de Carvalho, que conta com a participação dxs colegas da UEPA e UFPA, Jorgete Lago, Liliam Barros, Sonia Chada, Paulo Murilo Amaral. Contudo, foi o olhar feminista e negro da Profa Ms. Jorgete Lago que constatou e questionou a desproporcionalidade entre a presença de mestres e mestras neste evento de referência e na produção de conhecimento sobre o universo da cultura popular paraense, questionamento que a pesquisadora trouxe para sua tese de doutorado em construção sobre a invisibilidade das mestras no cenário da música popular paraense, o que contradiz a realidade de seus protagonismos desde sempre. Na qualidade de doutoranda do PPGMUS- UFBA, Jorgete é também tutora e colaboradora da Feminaria Musical, tendo participado de diversas de suas intervenções e performances poético-musicais em Salvador e também em Recife, durante o encontro da Redor Rede Feminista Norte e Nordeste, em 2014, bem como, tem produzido textos interessantes sobre a sua pesquisa (LAGO, 2015a e b; LAGO, 2014; LAGO e ROSA, 2014). Outra dissidência teórica e política que tem reverberado não somente na sua pesquisa de doutorado, como na sua inserção no campo da etnomusicologia brasileira e, especificamente da Associação Brasileira de Etnomusicologia ABET, é que, ao retornar a

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. Belém, Jorgete

Belém 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares.

Belém, Jorgete vem se articulando enquanto colaboradora de grupos de referência sobre estudos de gênero no Estado, como o Nós Mulheres – grupo “Pela equidade de gênero e étnico-racial, coordenado pela Profa Dra Mônica Conrado, na UFPA 34 e o GEPEM – Grupo de Estudos e Pesquisas “Eneida de Moraes” 35 , grupo igualmente e referência no Estado do Pará no campo dos estudos sobre gênero. Menciono esta articulação para problematizar como precisamos sair do campo teórico da música para podermos nos apropriar de ferramentas epistemológicas que deem conta da complexidade das relações de gênero, étnico-raciais, das sexualidades dissidentes e outros marcadores que também estão presentes no campo do musical, mas que ainda são pouco abordados. O Prof. Ms. Rafael Noleto, por sua vez, tem se engajada nas dissidências de gênero, raça e sexualidades em música, dentro do campo da Antropologia, onde tem mestrado e está cursando o doutorado sob orientação da Profa Dra Laura Moutinho, na USP. Contudo, Rafael, que é maranhense radicado em Belém por vários anos, sendo atualmente professor da Universidade Federal do Tocantins UFT, tem formação em Licenciatura em Música pela UFPA, sendo também cantor e compositor. Desde o seu mestrado que conclui em 2013 com a dissertação “Poderosas, divinas e maravilhosas: o imaginário e a sociabilidade homossexual masculina construídos em torno das cantoras de MPB” (UFPA), que nos brinda com um título altamente fechativo, vem produzindo e publicando importantes trabalhos sobre o tema (NOLETO, 2013). Atualmente o mesmo nos brinda com uma nova fechação que é seu projeto de doutorado sobre as travestis nas festas juninas "Brilham estrelas de São João!": gênero, sexualidade e raça nas festas juninas de Belém Pará, projeto pioneiro que tem se dedicado a analisar o protagonismo feminino, homossexual, travesti e transgênero nas festas juninas do Estado do Pará.

34 O Grupo Nós mulheres é coordenado pela professora Mônica Conrado, da Faculdade de Ciências Sociais, e nasceu em 2009, a partir do Observatório da Lei Maria da Penha. Com o objetivo de discutir questões que se tencionam em torno da temática das relações de gênero e raça, o Grupo agrega pesquisadores de diversas áreas, como Direito, Psicologia e Ciências Sociais, que desenvolvem seus trabalhos baseados nessa perspectiva. O Grupo tem o papel de articulador estratégico e propulsor de iniciativas que reinscrevam a cor/raça e etnia como componente simbólico que institui sujeitos sociais inter-relacionados com gênero, classe e sexualidade. Ele possui a meta de fornecer instrumentos sociais por meio de pesquisa, extensão e ações estratégicas para formação de uma rede com as universidades, instituições públicas, ONGs, órgãos e entidades comunitárias nacionais e internacionais sob a tematização das relações sociais e de gênero. Disponível em: http://www.organizacaonosmulheres.com.br/nosmulheres.php

35 O Gepem é constituído por docentes, discentes, técnico-administrativos, pesquisadores e profissionais da UFPA e de outras instituições públicas e privadas, e dos movimentos de mulheres interessados na temática mulher e gênero. O Gepem tem uma coordenação colegiada exercida pelas professoras doutoras Maria Luzia Miranda Álvares (FACS/IFCH/UFPA) e Eunice Ferreira dos Santos (ICED/UFPA). Disponível em:

https://bibliotecaqueer.wordpress.com/2012/03/02/grupo-de-estudos-e-pesquisa-eneida-de-moraes-gepem-

ufpa/

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. O Prof. Dr. Paulo

Belém 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares.

O Prof. Dr. Paulo Murilo do Amaral, por outro lado, além de ter trazido para o foco o tecnobrega paraense, gênero musical que, por si só, é estigmatizado e periférico como bem problematiza em sua tese de doutorado, traz ainda o protagonismo de Gaby Amarantos, cantora negra paraense (AMARAL, 2009). Vale ressaltar que Paulo guarda em seu repertório ressalvas em tom de crítica sobre ser paraense e estudar tecnobrega, “ao invés” de se dedicar ao estudo das músicas indígenas tradicionais do Estado, sendo o primeiro considerado como algo “menor” ou simplesmente música de “má qualidade”, discussão que ele tece brilhantemente na sua tese de doutorado. Sob a orientação da Profa Dra Maria Elizabeth Lucas, a tese de doutorado “Estigma e cosmopolitismo na constituição de uma música popular urbana de periferia: etnografia da produção do Tecnobrega Belém do Pará” tornou-se referência importante no campo dos estudos sobre música popular no Brasil, a partir de uma perspectiva da etnomusicologia. Por fim, compartilho um pouco dos a(r)tivismos nossos com a Feminaria Musical:

grupo de pesquisa e experimentos sonoros, enquanto um espaço de produção de conhecimento que existe há 5 anos, de formação, a partir dos parâmetros da etnomusicologia engajada e da pedagogia feminista, pois temos construídos um espaço coletivo e colaborativo onde trabalhamos nossos corpos, trocamos experiências e saberes, realizamos oficinas, acompanhamos ações diversas em interlocução com os movimentos sociais, sobretudo de mulheres e feministas. Para citar algumas importantes ações temos o ato do 17 de maio, dia internacional contra a homofobia, realizado em 2014, que contou com a parceria do coletivo Kiu! Pela diversidade sexual, da UFBA, que reuniu cerca de 100 pessoas, incluindo a participação de Viviane Vergueiro, intelectual e ativista transfeminista negra (FERNANDES, ROSA, SOBRAL e FIUZA, 2015 e 2014; VERGUEIRO, 2014); o ato contra a mortalidade materna, em parceria com o Odara, Organização de Mulheres Negras da Bahia, também em 2014; ato contra a redução da maioridade penal e 20 de novembro de 2015, com o histórico Grupo de Mulheres do Alto das Pombas, bairro periférico de Salvador, com quem temos cultivado uma importante interlocução que tem se estendido para o campo institucional de estágio docente de licenciatura em música na Escola Municipal Nossa Senhora de Fátima, recentemente compartilhado pela formanda Priscila Graziela Mascarenhas, sob minha (des)orientação, onde estamos trabalhando com práticas musicais e encontros sobre temas diversos como

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. Lei Maria da

Belém 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares.

Lei Maria da Penha, Zika, genocídio da população negra, saúde da mulher negra, etc. com

turmas de EJA e com o próprio GRUMAP (MASCARENHAS, 2016), dentre outras ações.

Assumindo o campo da etnomusicologia brasileira, bem como, dos estudos musicais

amazônicos, tema deste encontro na querida Belém do Pará, não vejo como ignorar o

diálogo com a pauta de gênero, sexualidades, relações étnico-raciais e outros marcadores

sociais da diferença tanto nas nossas produções de conhecimento sobre música, como na

forma com as quais pensamos projetos e interlocuções. A invisibilização é também uma

forma de violência traduzida por um silenciamento epistêmico já denunciado pela

feminista indiana Gayatri Spivak (2010). Então, é mesmo preciso tremer, como sugere

tremer jamais seja de

Dona Onete “toda se querendo”, como se diz no Pará, mas que esse

medo ou de invisibilização.

“E o jambu treme

Tremo por acreditar. Tremo por desejar. Tremo para colorir e ser colorida pelas cores do arco-íris da diversidade.

Referências

Tremo dissidente. Tremo poética. Tremo bruxa. Tremo feminista. Tremo fechativa.

Tremo Fora do Objeto. Tremo com o jambu de Dona Onete “Toda se querendo” Para não Temer jamais.

ForaTemer.

AMARAL, Paulo Murilo do. “Estigma e cosmopolitismo na constituição de uma música popular urbana de periferia: etnografia da produção do Tecnobrega Belém do Pará”. Tese (Doutorado em Pós-Graduação em Música Mestrado e Doutorado UFRGS) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: UFRGS, 2009.

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/ Belém – 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares. ANZALDÚA, Gloria.

Belém 2016 Etnomusicologia na contemporaneidade: diálogos disciplinares e interdisciplinares.

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