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Shirley MacLaine

Minhas Vidas
Tradução de A. B. PINHEIRO DE LEMOS

Digitalização: Argo
www.portaldocriador.org

Para minha mãe e meu pai

Algumas pessoas que aparecem neste livro são apresentadas como
personagens compostas, a fim de proteger sua privacidade. A se-
qüência de alguns acontecimentos também está adaptada. Mas todos
os acontecimentos são reais.

"Jamais diga: Não conheço isso, portanto é falso. Devemos estudar
para conhecer, conhecer para compreender, compreender para julgar."

— Apotegma de Narada

"Horácio, Horácio, há mais coisas entre o céu e a terra, do que
sonha a tua vã filosofia."

— Hamlet, Shakespeare

Capítulo 1

"Os sonhos do homem antigo e moderno são escritos na mesma linguagem que os mi-
tos cujos autores viveram no amanhecer da história. ... Creio que a linguagem
simbólica é a única linguagem estrangeira que cada um de nós deve aprender. Sua
compreensão nos põe em contato com uma das mais significativas fontes de sa-
bedoria. ... Na verdade, tanto os sonhos como os mitos são importantes comunica-
ções de nós mesmos para nós mesmos."

— Erich Fromm, A Linguagem Esquecida

A areia estava fria e macia, eu corria pela praia. A maré su-
bia e ao pôr-do-sol alcançaria as estacas que sustentavam as casas
ao longo da Malibu Road. Eu adorava correr pouco antes do pôr-do-
sol, pois contemplar as nuvens magentas por cima das ondas ajudava
a desviar minha atenção da dor intensa nas pernas. Algum instrutor
de ginástica me dissera um dia que correr cinco quilômetros pela
areia macia equivalia a correr 10 quilômetros numa superfície du-
ra. E eu queria permanecer forte e saudável, não importava o quan-
to fosse doloroso. Quando não estava dançando, estava correndo pa-
ra me manter em forma.
Mas como era mesmo a história que eu ouvira no dia anterior...
sobre os dois irmãos? Um deles era obcecado por saúde e forma fí-
sica, corria pela avenida uns 10 quilômetros em todas as manhãs de
sua vida, independente de como estivesse se sentindo. O outro ja-
mais fazia qualquer exercício. E uma manhã o obcecado por saúde
estava correndo pela avenida, virou-se pára sacudir a mão para o
irmão preguiçoso e... pam! Ele não viu o caminhão...
Talvez não importe realmente o que façamos para nos preservar.
Sempre havia caminhões em algum lugar. O importante é não permitir
que isso o impeça de fazer as coisas, não deixar que controle a
sua vida.
Lembrei de uma ocasião à mesa de jantar, com meu pai e minha
mãe, na Virgínia, onde fui criada. Tinha 12 anos e acalentava o
pensamento de que não importava quanta felicidade pudesse ter, num
momento determinado, pois estava consciente da luta por baixo. O
"problema", como eu chamava então... tudo tinha algum problema i-
nerente. Lembrei que papai dissera que eu evocara inadvertidamente
um antigo princípio grego... pitagórico, se bem me lembro. Papai
era uma espécie de filósofo rural e quase tirara o seu diploma de
filosofia na Universidade John Hopkins. Adorava especular sobre o
sentido filosófico. Creio que herdei a mesma característica. Lem-
brei que ele comentara que o meu pensamento possuía um significado
profundo, que se aplicava a toda a vida. Não importava o quão boa
uma coisa pudesse parecer, sempre havia o fator negativo contrário
para se considerar. O contrário também era verdade, é claro, dis-
sera papai... mas ele parecia se concentrar no negativo. Para mim,
tornou-me consciente da dualidade na vida. E olhando para as ervi-
lhas em meu prato, eu sentira que compreendia alguma coisa, mas

sem saber direito o que era.

O vento começou a soprar, encarneirando as ondas pelo mar. Ma-
çaricos sobrevoavam as ondulações, saboreando o alimento que podi-
am encontrar na maré, enquanto seus graciosos irmãos pelicanos so-
brevoavam e depois mergulhavam, como loucos pilotos kamikazes, se
lançando contra os cardumes que nadavam em águas mais profundas.
Tentei imaginar como seria ser uma ave, sem nada na cabeça a-
lém de voar e comer. Lembrei de ter lido que o menor dos pássaros
podia viajar por milhares de quilômetros através do Pacífico, de-
sembaraçado e sozinho, precisando apenas de uma peça de bagagem...
um graveto. Pedia levar o graveto no bico; quando cansava, sim-
plesmente descia para o mar e flutuava até que estivesse pronto
para retomar a jornada. Ele pescava do graveto, comia do graveto,
dormia no graveto. Quem precisava do Queen Mary? Batia as asas,
pegava a sua balsa no bico e tornava a partir para conhecer mais
alguma coisa do mundo.
Uma vida e tanto. Especulei se aquele pássaro alguma vez se
sentia solitário. Mas mesmo se estivesse sozinho, parecia perceber
o rumo apropriado para a sua vida. Os pássaros aparentemente pos-
suíam bússolas inatas que os guiavam para onde desejassem ir. Pa-
reciam saber exatamente o que eram, como viver, por que estavam
vivos. Mas tinham sentimentos? Será que se apaixonavam? Por acaso
se isolavam com apenas um outro pássaro, como se fossem os dois
contra tudo? Os pássaros pareciam parte integrante de tudo. Espa-
ço, tempo, ar. Não, não era possível. Como poderiam excluir o mun-
do, se queriam voar sobre ele?
Lembrei de uma experiência que tivera. Chamo de experiência e
não de sonho, embora tenha ocorrido quando eu dormia. Senti que
estava suspensa sobre a terra, mergulhava e flutuava com as cor-
rentes de ar, exatamente como os pássaros. Enquanto era levada pe-
lo vento, as copas das árvores roçavam gentilmente por meu corpo.
Tomava o cuidado de não arrancar uma folha sequer do galho a que
pertencia, porque eu também pertencia a tudo o que existia. Queria
seguir mais adiante, mais depressa, mais alto, mais largo... e
quanto mais alto eu subia, mais me tornava integrada, meu ser se
concentrava e expandia ao mesmo tempo. Tinha a sensação de que es-
tava realmente acontecendo, de que meu corpo era irrelevante e de
que isso era parte da experiência. O verdadeiro eu estava flutuan-
do, livre e desimpedido, impregnado da paz da integração com tudo
o que existia.
Não era o sonho de vôo de fundo sexual que os psicólogos cos-
tumam descrever. Era mais do que isso. Havia outra dimensão. A pa-
lavra que estou procurando, pensei enquanto corria, é "extra". Era
por isso que eu me lembrava tão nitidamente. Sempre que me sentia
insatisfeita, solitária, desnorteada por algum motivo ou nervosa,
pensava naquela experiência e como me sentira serena, flutuando
fora do meu corpo físico, sentindo-me integrada com tudo o que ha-
via por cima e por baixo.
Essa sensação de pertencer a "tudo" me proporcionava mais pra-
zer do que qualquer outra coisa. Mais prazer do que trabalhar, do
que simplesmente fazer amor, do que ser bem-sucedida em qualquer

Fui diminuindo a velocidade até passar a andar. Um vento frio levantou a areia em torno das minhas pernas en- quanto eu corria. para mim. Eu dava atenção a tudo o que se relacionava com a cultura fí- sica. Queria fazê- lo durar. a jornada mais im- portante era por mim mesma. É por isso que fui uma ativista política. Eu sempre me senti velha quando não estava em contato com o meu corpo. Mas podia ser extremamente doloroso. O que quer que fosse. Provavelmente foi esse o motivo pelo qual co- mecei a vida como dançarina. se queria compreender o mundo e se queria ser boa em meu trabalho. ou seria a mente. pensar. pois compreendia que me punha mais em contato comigo mesma. o que essa experiência fez para minha mente. — É por isso que os músculos ficam doloridos — explicara o instrutor de ginástica. Dirão então que estão velhas.. estavam as respostas para tudo que causava ansiedade e confusão no mundo. que era algo mais do que o cérebro? A "mente" ou talvez a "personalidade" incluiria o que as pessoas chamavam de "alma"? Tudo estaria separado ou o ser humano era a soma de todas essas partes? Se assim era. O que foi uma estupidez. Adora- va me integrar com coisas que estavam fora de mim. Doerá menos depois.. por minha paciência e convicção. corpo e espírito. realmente entrar em contato co- migo. Vá diminuindo o esforço lentamente. dentro de mim. lembrando que depois de um exercido puxado é sempre bom reduzir o ritmo gradativamente a fim de que o ácido láctico nos músculos não solidifique. pro- curar. E qual era o verdadeiro eu? O que me levava a questionar. Em algum lugar. talvez mesmo com o universo.. sentir? Seria apenas o cérebro físico. pensei.. Precisava me virar para dentro e entrar em con- tato comigo mesma. Tivera o bom preparo formal de dançarina quando era jovem. a experiência de entrar em contato comigo mesma quando tinha quarenta e poucos anos. É sobre a integração entre mente. uma feminista. achava que isso seria suficiente.. Estava enganada. As pessoas precisam cuidar de seus corpos todos os dias ou podem acordar uma manhã e descobrir que se recusam a fazer o que lhes mandam. Respeitava meu corpo. pois era o único que eu tinha. Provavelmente foi também por isso que me tornei uma atriz. E o processo de integração com o meu cor- po me punha mais em contato com o verdadeiro eu dentro desse cor- po.. uma viajante incessante. as pequenas células cinzentas. estava em contato com quem eu era. enquanto andava. E o que aprendi em decorrência permitiu-me en- frentar o resto da minha vida como um ser humano quase transforma- . Adorava me concentrar. como as partes se aglutinavam? É sobre isso que este livro versa. indulgência. pois francamen- te acreditava que esse era o caminho para me compreender. uma espécie de repórter da humanidade mo- vida pela curiosidade. Durante todos aqueles anos de representação eu pensara que meu corpo não era importante. Quando dançava. poderia entrar em contato com o mundo. espírito. Que pensamento arrogante! Mas se eu pudesse entrar em contato comigo. — Jamais pare abruptamente depois de um exercício puxado.das atividades humanas a que as pessoas se devotam a fim de alcan- çar a felicidade. Eu adorava pensar. especialmente se eu passara 15 anos sem fazer praticamente qualquer exercício.

os oprimidos. Trabalhara arduamente para alcançar o sucesso. pró e contra. como eu disse. à Rainha da Inglaterra e outras altas autoridades. como eu ressal- tara para ele. que foi gradativamente reveladora e em todas as ocasiões simplesmente espantosa. Aconteceu lentamen- te. como creio que acontece com todas as pessoas que passam por tais experiên- cias. porque me permitia sentir as audiências. pertenciam à ficção científica ou ao que eu des- creveria como o oculto. mais minha cons- ciência social e política se tornava ativada. o idealismo democrático parecia não ser mais possível. para mim. este livro é sobre uma busca do meu eu. o que não é de surpreender. As pessoas progridem ao ponto para que estão preparadas. Assim. para citar apenas alguns. descobri-me a pensar ca- da vez mais sobre o que estava acontecendo de errado no mundo.. Aconteceu aparentemente num ritmo que era todo meu. mas mesmo assim me sentia afortunada e. os camponeses revolucionários dos barrios das Filipinas. escrito- res (eu já escrevera dois livros sobre minhas viagens e aventuras na vida. até aprender a me fundir nelas confortavelmente. no mundo inteiro). eu adorava conhecer novas pessoas e me lançar de frente a culturas estrangeiras. Eu já fizera cerca de 35 filmes. a maioria das pessoas do mundo poderia ser incluída na categoria de oprimidos. Mas. mais eu me descobria identificada com os under- dogs. mais dos ruins do que dos bons. a fim de lançar um dos meus filmes. às vezes em caráter particular. privilegiada por poder me en- contrar e conversar com qualquer um que quisesse. como meu pai os chamava. Seja como for. Para mim. Quanto mais eu viajava e conhecia pessoas. Comecei a viajar quando tinha 19 anos. outros ruins. Não se pode evitar quando se vê com os próprios olhos a miséria. os doentes e agonizantes da Índia. os sherpas dos Himalaias. o que pensavam. de Castro ao Pa- pa. Não podia haver a menor dúvida de que eu era uma pessoa privilegiada. os sensos de humor dife- rentes. podia dizer com toda objetividade que as coisas ha- viam piorado inexoravelmente. Eu devia estar pronta para o que aprendi porque era a momento certo. às vezes como artista (e nessas ocasiões eu queria ser reconhecida). gente de cinema de cada país que produzia filmes. E quanto mais se tornava ativada. primeiros-ministros. chefes de estado.. aos quarenta e poucos anos. fazer um especi- al de televisão ou apresentar um espetáculo ao vivo. onde estavam seus interesses. Eram pessoas nas artes. haviam sido traduzidos em quase toda parte). Passei a ter uma espécie de círculo de amigos longe de minha terra e no qual me sentia inteiramente à vontade. porque me descobri gen- til mas firmemente exposta a dimensões de tempo e espaço que antes disso. Viajara pelo mundo inteiro. Tentei manter a mente aberta enquanto seguia pela jornada. uma busca que me levou por uma longa jornada. Creio que aprendi com cada um. Mas aconteceu comigo. geralmente irreconhecível (porque eu assim o queria). acima de tudo. alguns bons. Adorava me apresentar ao vivo. Mas. reis e rainhas (meu ativismo político fora devidamente noticiado.do. porque as pessoas que eram parte da vida democrática estavam aparentemente mais preocupadas em servir . fome e ódio. agora.

violência. judaísmo ou budismo. que por tanto tempo ficara à míngua de reconhecimento. O "pensamento político" no mundo parecia estar baseado no poder político e economia material. sem reconhecerem o seu relacio- namento profundo com uma necessidade mais ampla e mais universal: a necessidade arraigada de alcançar uma paz de espírito perene.. O mundo da mente. tabelas. havia guerra. como meu papai diria. os lí- deres mundiais continuavam a examinar os problemas exclusivamente em termos dos próprios problemas. Nossas necessidades físicas. O tom da conversa deslocou-se da consternação e confusão para a consideração de que as respostas poderiam estar dentro de nós mesmos. alguma coisa estava faltando. constituíam a preocupação prioritária de governos e líde- res. "estão pondo Band-Aids em cân- cer".a seus próprios interesses e. Ao contrário. ciências. pelo menos em teoria. como se o impasse autocriado da humanidade nada tivesse a ver com soluções econômicas. como seres humanos. genocídio. Para que estávamos aqui? Tínhamos um propósito ou éramos apenas um acidente transitório? O fato de ser- mos físicos era óbvio. O fato de sermos criaturas mentais também era evidente. o que só podia levar ao conflito humano. fome. era atendido pela educação. Eles tinham soluções temporárias para problemas per- manentes. mas invisível? As religiões do mundo não pareciam satisfazer ou explicar nossas necessidades espirituais. Em algum lugar do planeta. discórdias. Não eram muitas as pessoas que res- peitavam uma ética internacional. quer se seguisse o cristianismo. numa base individual. contrariavam a filosofia bá- sica do bem-estar da maioria. enquanto eu continuava a viajar. sobre se a humanidade era fundamentalmente egoísta. Depois. a dimensão mental. Descobri-me a dizer que a competição e o e- goísmo pessoal predominavam não apenas em detrimento da felicida- de. ar- tes. A confusão não derivava do fato de a espiritualidade não ser óbvia. O mundo parecia até estar se encaminhando para uma era de Guerra Santa. ignorando o ser humano individual. Enquanto isso. islamismo.. Com toda certeza. mas sempre recomendavam políticas econômicas mais altamente competitivas a fim de alcançar esse objetivo. com todas as extensas implicações que isso acarretaria. As pessoas com quem eu conversava já começavam a especu- lar sobre o que estava faltando. Passamos a especular sobre a busca interior do que nós realmente significá- vamos. notei que algo estava mudando. com soluções que se exprimiam em termos de gráficos. Mas não éramos todos também espirituais? Descobri que mais e mais pessoas estavam se concentrando na questão da espiritualidade interior. pesqui- sas e programas industriais. o sionismo mili- . a Igreja parecia mais dividir as pessoas do que uni-las. Parecia-me que as potências mundiais podiam reconhecer a necessidade para a unidade dos inte- resses humanos. inte- resseira e preocupada com a consecução dos ganhos pessoais e con- fortos mais luxuosos. crime. mas também do sucesso pessoal. ditadura. no mundo inteiro. guerras inevitáveis. os centros do saber. o fundamentalismo cristão entre a chamada maioria moral da América. De«cobri-me empenhada em discussões intermináveis. um espe- táculo global de desespero e miséria humana. com a ascensão violenta do orgulho islâmico no mundo árabe. assim. opressão. Ou. em todas as ocasiões.

Tente apenas sobrepujar o negativo com o po- sitivo e será muito mais feliz. nossa incapacidade de reconhecer essa realidade invisível era uma decor- rência do que agora se referia comumente como a nossa consciência perdida. Talvez o plano físico da existência não fosse o único plano de existência. Em outras palavras. como seres humanos. David era pintor e poeta. o que aconte- cia com freqüência. da África e Índia ao Extremo Oriente. O Pacífico sempre me lembrava do meu amigo David. Talvez não existisse a coisa a que chamá- vamos de morte. ficávamos an- dando por horas a fio. em Nova York. Quando ele estava na Califórnia. O que ele dissera? Alguma coisa a respeito da necessidade espiritual de respeitar igualmente tanto o positivo como o negativo na vida. Em Manhattan. sempre descon- certante. a contemplar as ondas se esboroando no Pacífico lá embaixo.tante em Israel. — A vida é a combustão dos dois. Talvez. Pintava e escrevia durante as viagens. minha vida mudou e o mesmo aconteceu com minha perspectiva. Europa e América do Sul. Levantávamos questões sobre o propósito e significado humano em relação não apenas com a nossa perspectiva física de vida na ter- ra.. Havia a possibilidade maravilhosa de que a verdadeira realidade fosse muito mais. passeávamos pela praia. às vezes assustador. Eu o conhe- cera numa galeria de arte no Village. pois era um observador da vida. era terno e gen- til. — Não se precisa ser um cientista espacial para saber disso. David era um homem interessante. fôssemos realmente parte de uma experiência em andamento. a continuar por muito tempo depois de julgarmos estar mortos. Não lhe saía muito caro. Ou talvez ele estivesse muito em meus pensamentos atualmente porque eu parecia estar chegando a um momento decisivo na minha vida e David fosse uma pessoa fácil da se conversar. sentia-se à vontade em qualquer lugar. indagando se a raça humana realmente começara no mar. observando as pessoas e imaginando o que estariam pensando. Com 55 anos. os malares salientes.. Começou a parecer possível que esta vida não fosse tudo o que existia. David tam- bém adorava viajar e já fora a muitos lugares. — É impossível ter um sem o outro — afirmara David. em Malibu. Mas estou me antecipando. Firmamos uma amizade porque eu me sentia completamente à vontade em sua compa- nhia. um sorriso suave e triste. porque trabalhava em . talvez Buckminster Fuller estivesse certo quando dizia que 99 por cento da realidade eram invisíveis. mas também da perspectiva metafísica em relação ao tempo e es- paço. Foi emocionante. porque me levou a reavaliar o que significava estar vi- va. O sol estava se pondo e tremeluzindo além das colinas de Point Dume. mas vivenciar é muito diferente — eu respondera. Lembrei que já me postara naquelas colinas. Descobri-me em contato com uma extensa rede de amigos no mundo inteiro que estavam empenhados em sua própria busca espiritual. Quando comecei a me formular essas perguntas e descobri uma afinidade autêntica com outros que estavam também envolvidos na busca interior.

Acho que se trata de uma manifestação da minha criação de classe média. mas comentou um dia que fora "alguém que vive às pressas". Agora estou sozinho e feliz. os japoneses não tinham outra opção que não a de se harmonizarem com ela. Agora. especiais de televisão. que o de- corador me dissera que jamais deveria colocar num apartamento à beira da praia. com o pagamento re- cebido por meu primeiro filme. E quando se chegava ao lugar apropriado. Sempre se precavenha contra o futu- ro. Subi os degraus que levavam ao pátio. Não aceito mais os carros velozes. esse tipo de coisa.. a fim de construir um prédio. Eu também não falava muito sobre a minha vida pessoal. . auto-realização e só Deus sabe o que mais. Não acreditavam em conquistá-la. Lavei a areia dos pés num chuveiro no alto da escada. como fazíamos no Ocidente. que eu mesma arrumara. a vida movimentada. por causa das circunstâncias.. ele acenou com a mão e disse: — Está no passado. meditação. de Alfred Hitch- cock. recordação de vidas anteriores. fosse o preço por tudo na vida.. haviam me in- fluenciado profundamente. Como eram tão castigados pela natureza.. combinação de alimentos. Já fora casa- do. mas era uma sensação agradável. Quando perguntei o que isso signifi- cava. nem mesmo com David. Fizera uma corrida puxada. esclarecimento es- piritual. Era como uma dor satisfeita. nas mais diversas atividades. O senso espartano de respeito pela natu- reza que lá se encontra era algo que me comovia. Os anos que passara no Extremo Oriente. até que trocaram o respeito pela natureza em favor do res- peito pelos negócios e lucros. A primeira coisa que fiz foi obter um empréstimo. não mais doeria.. Mas. As pernas doí- am. Mas a maior parte me entrava por um ouvido e saía pelo outro. completo. esca- lavrada e abalada por marés e tempestades.. onde poderia alugar apartamentos e viver sem pagar aluguel. enquanto uma brisa mais fria começava a soprar. justiça cósmica. Nunca se sabe. como David dissera. Não era essa a natureza do nosso relacionamento. depois da luta. desde que construíra o prédio de apartamentos. como reen- carnação. O Terceiro Tiro. Não costumava falar a respeito.sua volta pelo mundo. para o caso de ser atropelada por um caminhão e não poder mais trabalhar. E quando o Japão se tornou poluído. novos números para minhas apresenta- ções ao vivo. Queria conversar com David a res- peito de Gerry. Usavam-na e se tornavam parte dela. emagrecer e Gerry. não podia con- versar com ninguém a respeito de Gerry. Não de- via entrar com areia no apartamento. Ele falava a sério a respeito de tudo isso e aparentemente com profundo conhecimento. Adorava aquela escada. Isto é. pois eu estava absorvida nos roteiros para fil- mes. Talvez. especialmente no Japão. com uma árvore bonsai de Ki- oto e um pequeno córrego que fluía constantemente. Ele se dedicava também a uma porção de coisas para as quais eu não tinha tempo. eu po- dia sentir o suor escorrendo dos cabelos pela nuca. fre- qüências vibracionais. Ficava no carpete. Parei e contemplei o pá- tio. Há 20 anos que a usava. Lancei um último olhar para o sol poente e depois subi a es- cada de madeira que levava à praia.

Os telefones exer- ciam esse efeito sobre mim. Tive de rir de mim mesma. — O que é? — Como está a sua campanha? Tem feito algum progresso? — Está tudo bem. Pude senti-lo pegar um cigarro e aspirar a fumaça suavemente. Limpei a garganta e disse: — Classe é uma qualidade que todos admiram. — Alô. Ouvi o telefone tocar em meu apartamento. Alguma coisa a ver com ser eficiente. — Muito bem. se estivesse por perto quando tocava.parei de visitá-lo.. — Está disposto a correr o risco? — Estou. — Claro que posso. Estarei lá. Para mim isso era desleixo. — Era Gerry. — E não há problema? — Nenhum.. — Como você está? Eu podia ouvir a telefonista internacional ao fundo. — Gerry. Pode se encontrar comigo neste fim de semana em Honolulu? Tenho uma conferência sobre Economia Norte-Sul. contente porque ele não podia ver como eu estava feliz por ouvir a sua voz. ligaria de novo. Especulava sobre quanto tempo se passaria an- tes que o mundo inteiro industrializasse a natureza. mergulhei para o tele- fone no chão.. rápida e caprichosa. os cabelos caindo pela testa. pura e simplesmente desleixo e preguiça. As pessoas precisam ser instru- ídas e ensinadas com golpes firmes e suaves.. a fim de po- der ganhar mais dinheiro. olhos pretos suaves. — É um processo longo e lento.. aflo- rou em minha mente. — Mas senti uma ligeira depressão na voz de- le. Mas não haverá muitos jornalistas presen- tes? — É evidente que sim. Corri pela porta para a sala de estar. Imagino que se trata de uma posição sim- plista. Eu era capaz de atender ao telefone dos outros. mas era assim que me parecia. — Alô? — balbuciei ofegante. Mas falaremos sobre isso quando estiver- mos juntos. — E isso vai acontecer em breve? — Espero que sim. Quando? — Na sexta-feira. imaginando o que a pessoa no ou- tro lado da linha pensaria que eu estivera fazendo. Incomodavam-me as pes- soas que deixavam um telefone tocar quatro vezes antes de atende- rem. — Onde? . O equilíbrio entre as duas coisas não é fácil. com uma pontada de preocupação que eu já aprendera a perceber. O rosto de Gerry. — E como estão as coisas com Sua Majestade? — Estamos entrando em declínio na Inglaterra com toda classe — gracejou ele.. Quase tropecei ao correr para atender antes que parasse de tocar. — Tem razão. Estou fazendo o que posso para evitar que o navio afunde completamente. — Estou muito bem — respondi. Quem podia ser tão impor- tante assim? E se fosse.

Ele desligou. Gerry não fora ainda capaz de ir à Califórnia desde que eu o conhecera. um homem imenso.. uma mecha de cabelos caía pelos olhos. Ao contrário. Fomos a um restaurante indiano na Rua 58. eu já lhe fora apresentada diversas vezes antes. eu disse que sim. Adorava pensar na Califór- nia. e me te- lefonou. As despedidas pelo telefone com Gerry nunca eram prolongadas. Tenho uma reunião com meu subsecretário. Big Apple. que adoraria jantar em sua companhia. eu podia refletir. ombros e braços que me fazi- am pensar num urso que queria abraçar o mundo. Eu ficara im- pressionada com a sua fala suave e segura. E demonstrou o hábi- to de fixar os olhos em minha boca quando precisava pensar num ar- gumento que estava formulando. in- voluntariamente divertido. Pensei que ele gostava dos meus lá- . Pare- cia inconsciente à própria imponência. Preciso desligar agora. Descontraído e exu- berante. — Até lá. Lembrei da primeira noite que passáramos juntos em Nova York. pensando que era a porta de saída. Adorava sentar ao volante num carro da Califórnia. peguei o carro e parti.. Seu comportamento e hábito profissionais impediam es- se tipo de coisa. Os olhos eram úmidos e pretos. Ao deixar meu camarim. Mal parecia perceber que a comida estava ali. E quando ficava andando de um lado para outro de uma sala. andando de- vagar pelas estradas largas e pensando. o que eu achava criativo e emocio- nante. eu estava me apresentando no Palladium. a gravata pendia torta para um lado. passando em muito do l. Sim- patizei com ele imediatamente. acreditava que podia fazer a Inglaterra voltar a funcionar. Sua vida pessoal era outra coisa.80m de altura. quan- do estava em Londres e novamente quando ele fora a Nova York para uma grande manifestação contra a guerra do Vietnam. Até o fim de semana. Assim. andava tão deli- beradamente que tropeçou numa cadeira. Ele foi aos bastidores. um ano depois. em passadas lar- gas. tinha-se a impressão de que a sala se inclinava ao seu peso. a camisa se abri- a. era para mim um lugar em que podia fazer as coisas em que pensara em Big Orange. Faziam-me pensar em a- zeitonas pretas. Quando se sentia excitado com alguma coisa. mais devagar do que o habitual. tomei um banho de chuveiro. como Nova York era conhecida. Ele está esperando. mas ele me pareceu franco. Muitas vezes tinha um bura- co na meia. — Kahala Hilton. Na Califórnia. — Está certo. um socialista. era justamente o oposto. É claro que a Ca- lifórnia não era chamada de Big Orange de graça. Desliguei também. de inteligência penetrante. porém. Não era pomposo como tantos ingleses bem-educados que eu co- nhecia. procurando pela melhor maneira de apresentar um argumento. mas não antes de ter a- berto o armário embutido. quando ele foi a Nova York. Na verdade. para a minha casa grande em Encino. Ele não comeu muito. Nova York era tão movimentada que só havia tempo para agir por instinto e sobrevivência. a mente brilhante e á- gil. Ele estava no Parlamento. Não conhecia muito da política in- glesa. Assim. Quando fôramos apresentados pela primeira vez. em Londres. A pessoa podia se tornar uma laranja se não tomasse cuidado. O corpo movia-se de maneira descuidada.

Era o caso com aquele roteiro. servi-lhe chá e biscoitos. Seja como for. Estávamos sentados em minha cozinha ensolarada. apesar do terno amarfanhado e dos sapatos ar- ranhados de Gerry. E tinha uma bolha num pé. na esquina da Rua 58 com a Segunda Avenida. Mas o carro nunca apareceu. Depois do jantar. mas eu duvidava que isso acontecesse com alguma classe. passa- se muito tempo a discutir roteiros que nunca são convertidos em filmes. política americana. por cima da mesinha de café. pois assim a viagem a Londres não seria um total desperdí- cio. Não podia compreender na ocasião. aproveitaria para lhe telefonar. show business. Respondi que sim. Mas virou-se na direção correta e foi embora. não conseguia acompanhar suas passadas longas. As pessoas olharam quando entramos no Elaine's. Eu usava saltos altos e finos. a fim de conversar sobre o roteiro de um novo filme. Conversamos sobre Nova York e Londres. Quando nos levantamos pela manhã. seguimos a pé para o Elaine's. Não era. — E poderá me acompanhar a Paris na semana seguinte? Respondi que sim mais uma vez. Gerry desviou o rosto da biografia de Marx que estava segurando. Assim ficamos por um momento e senti-me comple- tamente perdida. Seja como for. Ele estava discorrendo sobre a necessidade de liberdade numa sociedade socialista. esquadrinhando as minhas es- tantes. quando os cabelos caíram sobre os olhos. Com uma determinação inabalá- vel. Não se despediu. Pergunto-me às vezes se o roteiro não me pareceria melhor se não tivesse Gerry para distrair-me a atenção. Podia-se ver a ponte da Rua 59 pela janela. Gerry queria conhecer o lugar em que o pessoal da minha roda se reunia. Acertei tudo para ter as reuniões sobre o roteiro em Londres e ao mesmo tempo me encontrar com Gerry. E tão simples e facilmente como se nos conhecêssemos por toda a vida. mas era parte do e- nigma que eu iria montar mais tarde. nem mesmo olhou para trás. Estendi a mão para tocar em seus cabelos. Mas eu não fui a única que notaram. ninguém nos incomodou. toda Londres parecia estar em greve quando cheguei. Pedimos uma salada de lula e tomamos alguns drinques. Foi as- sim que tudo começou. — Poderemos nos encontrar lá? Respondi que sim. — Você vai a Londres na próxima semana? — perguntou Gerry. apesar do chá das cinco e dos passeios por manhãs . Quando estávamos prestes a sair. No mundo do cinema. Gerry tinha razão.bios. informei-o que iria a Londres dentro de uma semana. E as- sim ele foi para o meu apartamento. O navio estava afundando. Precisava saber qual era a sensação. sentia-me desconfortável. ele levantou-se e encaminhou-se para o que julgava ser a por- ta da frente do apartamento. Aquilo jamais me acontecera antes ou pelo menos não assim. fitou-me nos olhos e depois enlaçou-me. teoria marxista e balé. Terminou voltando ao quarto. mas no fundo pensava apenas no que ia dizer em seguida. Uma limusine deveria buscá-lo e levar para alguma conferência política no interior do estado. Senti-me contente por ter Gerry. cheias de livros sobre a China.

Eu disse que estava certo. Fui para Paris depois de alguns dias e Gerry se encontrou co- migo lá no dia seguinte. quase como se estivesse experimentando com as muitas facetas de sua personalidade. como ela seria incapaz de aceitar. Disse que sua mente era um turbilhão de confusão. Foi suave e sussurrante. Ele disse que não podia suportar que eu fosse embora. Gerry pediu desculpas por seu comportamento em Pa- . tudo ao mesmo tempo. Eles sorriram e acenaram. mas também o mundo inteiro. em toda a sua vida. a voz se alteou em desafio e ímpeto.. enquanto ele comparecia a conferências e reuniões.. ele foi comedido. Ofereci-me para sair. Ele não conseguiu dormir naquela noite. como deveríamos avançar mais devagar. direto. Ficamos separados por um dia intei- ro. Disse que nunca antes. Depois que fazíamos amor. E quando chegou o mo- mento de nos separarmos. suplicante e exigente. Além do mais. os cabelos abundantes ca- indo pelo rosto. Fomos nos encontrar fora de Paris. Parecia desamparado e ponderado. Parecia um expurgo emocional para Gerry. fizera algo assim. Nada indagou a meu respeito ou se havia outros homens que eu pudesse conhecer ou com os quais estivesse envolvi- da. a suavidade de seus dedos em meu rosto e a manei- ra como me envolvia em seus braços imensos. um pouco assustador. Gerry ficou paralisado.. não pre- cisávamos entrar nessas coisas. Não era necessário. franco. parecendo excluir a realidade de que não apenas a Inglaterra e o meu roteiro estavam em perigo. a fim de que ele pu- desse recuperar o equilíbrio. Germain pela janela do meu quarto de hotel. Germain en Laye. mas ele não pensara em tudo isso quando começáramos? Gerry estava tão apavorado que me senti enternecida. me telefonou. Eu já esta- va mesmo planejando partir quando Gerry.de neblina em Hyde Park. Gerry era conhecido por apreciar a sua privacidade quando andava pelas ruas da cidade em que fora criado. Mas tudo o que realmente importava para mim era o cheiro de seu casaco de tweed. se os ricos estivessem dispostos a partilhar mais de suas riquezas. até a noite em que ele me levou para jantar fora e uma mesa cheia de jornalistas ingleses nos re- conheceu... não se mostrou absolu- tamente sentimental. ja- mais conversávamos sobre o nosso relacionamento ou o que signifi- cávamos um para o outro. precisávamos nos encontrar de novo. Gerry e eu jamais falávamos sobre a espo- sa dele ou a minha vida pessoal. Abraçou-me tão forte que senti que ele não conseguia respirar. Ele se lançou sobre mim com beijos e carícias. Sentia uma terrível saudade de mim.. Contemplávamos os telhados de St. Falou sobre os princípios democrata-socialistas e como era possível ter as duas coisas ao mesmo tempo. Indagou se eu estaria bem voltando à América. Tomamos a precaução de não sermos vistos quando estávamos jun- tos (fiquei no apartamento de uma amiga). real. Era algo raro. Sentia-se confuso e terrivelmente culpado. Falou sobre a situação do mundo e como queria dar uma contribuição para melhorá-lo. num desespero solitário. em St. Respondi que já encontrara o caminho de volta de lugares mais selvagens que o in- terior francês. Ele explicou como isso magoaria sua esposa. não pôde comer.

O quarto a que déramos vida por dois dias pareceu ficar su- bitamente inativo e silencioso. vivesse e trabalhasse na Ásia. A questão era só uma: Por quê? Capítulo 2 "O pensamento lógico puro não pode nos proporcionar qualquer co- nhecimento do mundo empírico. fomos desenvolvendo vidas em separado. Permanecemos amigos. Eu queria viver e tra- balhar na América. Afora isso. despediu-se em sua maneira inglesa espartana. Discutimos o dilema e resolvemos tentar converter o globo terrestre numa bola de golfe. Adorava aquelas árvores. como dizer que uma pessoa na pior só tinha uma coisa a seu favor. Era mesmo um lugar bonito. mas sim porque era a minha área profissional. Steve as plantara quando morava num bairro residencial de Tóquio chamado Shibuya. Ele queria que eu ficasse. que passou os primeiros sete anos de . todos faziam piadas a res- peito do Vale de San Fernando. conseguiu sair pela porta certa. as luzes das casas começando a piscar. sabia que não podia oferecer muito mais que obstáculos irreconciliáveis. O Vale de San Fernando estendia-se à minha frente.ris e disse que me procuraria em breve. As paredes davam a impressão de estar se fechando sobre mim. ele abriu a porta do armário embutido e entrou. Senti que de alguma forma fora compelida a me envolver naquele relacionamento. E nenhum dos dois mencionara a pala- vra "amor". como uma gigantesca caixa de jóias na noite. antes do nosso divórcio. quando se olhava da perspectiva correta. gradativamente. fazendo as duas coisas. abriu a porta e sa- iu. todo o conhecimento da realidade parte da experiência e nela termina.. As proposições a que se chega por meios lógicos exclusivamente são comp etamente desprovidas de realidade. enquanto criávamos nossa filha Sachi. Não ha- via muito tráfego.. Faziam-me lembrar as cerejeiras que meu ex-marido Steve e eu tínhamos na casa dele no Japão. por algum tempo. porém. podia sentir os galhos baixos das cerejeiras roçando no teto do carro. Sem movimentos supérfluos. Subindo pelo ca- minho longo. Alegaram que era a Amé- rica em progresso. o fato de não viver no vale. Só houve um problema: ao invés de sair. Até que deu certo." — Albert Einstein Filósofo-cientista Passei pelo Malibu Canyon e entrei na Venturs Freeway. sem dizer nada. Mas. Deixei a auto-estrada e entrei na minha rua. Lembrei-me de que haviam levado Kruschev ao vale quando ele estivera na Califórnia. Gerry riu. não porque tivesse nascido lá.

É claro que ninguém podia imaginar que já me fizera muitas vezes a mesma indagação. e se ela puder se ajustar. braços e pernas desengonçados de uma ocidental que ela consegue de alguma forma orquestrar como se estivesse u- sando um quimono e obi restritivos. O que tenho na verdade é uma combinação do pensamento ocidental. qualquer que seja. mas sim com im- . quando anda e senta. aprazível e aconchegante. Aprendi muita coisa da Ásia por intermédio de Sachi. não tivéssemos medo das conseqüências. Sachi aprendeu a falar. depois da aula de ioga. mesmo quando penso que a compreendo. No caso de Sachi. quanto menos não seja pelo fato de que Sachi é uma combina- ção de dois mundos. franco e direto. fazer uma reverência com a polidez japonesa e ao mesmo tempo dizer "vá tomar no rabo!" Minha casa estava no alto da colina.sua vida comigo na América. que todos significávamos basi- camente algo importante uns para os outros. A longo prazo. mas cuja psicologia e processos de pensamento são meio asiáticos. mas podia fazer com que o momento mais trivial parecesse importante. Sachi estudou em Paris. porém. Isso era às vezes en- graçado. os seis anos seguintes numa escola in- ternacional no Japão e os anos escolares restantes na Suíça e In- glaterra. A propósito da rudeza e cinismo parisienses. Seu semblante de Alice-no-País-das-Maravilhas pode ser desconcertante. Disse que não havia acasos na vida. tem a sua dualidade. come- çou a pensar e perceber como uma oriental. — O que há com você? Por que não arruma o tempo necessário para olhar? David não chegou a falar isso com irritação. geralmente empregada para salvar o que poderia ser um comentário embaraçoso. isso foi o resultado da convicção da "bola de golfe" que Steve e eu tivéramos no início do casamento. com o mapa da Irlanda estampado no rosto. Quando ele estava na Califórnia. indelicado ou insen- sível. passeávamos pela praia e almoçá- vamos num restaurante de comida natural. embora ela não tivesse a menor intenção de me ensinar. temperado com a ambigüidade asiática indireta. Ela pertence a es- sa nova espécie de pessoas cujo sangue e linhagem são ocidentais. mamãe. Meu amigo David gracejara que a montanha mais alta que estava escalando era eu mesma. Como na ocasião em que descascou uma laranja como uma flor e o suco da fruta escorreu por seu queixo enquanto a comia. pois Sachi é uma loura sardenta. — É onde se encontra tudo o que você está procurando — disse ele. Diz que foi muito mais difícil alcançar o ajustamento sociológico e cultu- ral por lá. Como acon- tece com tudo. será capaz de a- judar um a compreender o outro.. "MacLaine Mountain". es- peculando se alguma vez eu cairia de lá. ela dis- se: — Não é nada fácil.. as vantagens e desvantagens. Ela ainda se ajoelha numa sala de estar e fica olhando com uma expressão de adoração para a pessoa que está falando. eu diria que as vantagens superam as desvanta- gens. lançando-me em vez disso numa jornada para "dentro" de mim. se abríssemos nossos corações e sentimentos. David não tinha muito tempo para conversa fiada. como um dos meus amigos a chamara. ler e escrever japonês (o que significava que podia ler a maioria das línguas orientais). David tantas vezes sugeriu que parei de "escalar" a mim mesma.

mas vibrante o suficiente para dar vida tanto ao amanhe- cer como ao anoitecer. amplo. Gostava dos meus lençóis comuns porque geralmente lia e escrevia na cama. Eu não compreendia realmente o que ele estava querendo dizer. Na ver- dade. que proporcionava uma vista espetacular do Vale de San Fernando e das montanhas mais além.. Mas eu já não tinha mais tanta certeza. só que docil- mente convidava alguém para comer. Nunca me sentia desliga- da naquele quarto. comentavam. Os móveis eram estofados com veludo azul e a cama tinha uma colcha de cetim. sempre que não queria me . Mas lá estava o quarto que eu amava.. David referia-se a um nível diferente. especialmente quando po- dia aproveitar o tempo para ler ou escrever. Adorava o meu quarto azul. "Ela sabe quem é". Dizia que bastava que eu pensasse a respeito e acabaria entendendo. gritei que ia tomar um banho e descansar um pouco antes do jantar. embora não houvesse ne- cessidade de correr. E às ve- zes sentia-me justamente o contrário. Pensei muito em suas palavras. Parecia tão certa do que sentia e do que queria que havia quem se queixasse de que eu era liberada demais. Subi a escada de dois em dois degraus. sozinha. tanto quanto uma pessoa pode amar um cômodo.. Quando eu lhe perguntava. Sabia que podia trancar a porta e me iso- lar do mundo. mas continuei a encarar tu- do de frente. Eu não era uma pessoa infeliz. azul. Di- zia-me que eu devia entrar mais em contato com a minha verdadeira identidade. de jeito nenhum. Era o que to- dos diziam a meu respeito. com a sala de estar-escritório ad- jacente. É difícil saber que algo lá no fundo está faltando quando a gente se sente vitoriosa e ocupada. com a mente aberta. sem parecer impolida ou anti-social.paciência. Eu nunca tivera essa experiência na vida. Batendo a porta da frente para Marie saber que eu chegara. Sempre pensara que era justamente o que estava fazendo. Era possível que ele estivesse vendo em mim algo muito mais profundo do que eu podia perceber.. revigorante. As cortinas eram finas. à minha espera. Gostava de ficar sozinha e além do mais me sentia contrafeita ao receber. porque já estava tão liberada. Já ouvira falar de uma artista de cinema que caíra da cama porque dormia em lençóis de cetim. estendendo-se por uma parede corrediça de vidro sólido. Talvez David estivesse certo. Passava ho- ras a fio ali. aparentemente. Senti o aroma da excelente comida francesa de Marie flutuando pelo caminho. Deu-me para ler livros de ensinamentos espirituais. O azul era bastan- te claro. que não precisava de ninguém. mas certamente era funcional. feliz. Mas. Podia não ser totalmente satisfatório. responsável e criativa. quebrei uma unha ao abrir a porta do quarto. li apressadamente os livros. era às vezes difícil me relacionar com as queixas dos movi- mentos feministas de que haviam sido destituídas de suas identida- des de mulher. Poderia viver ali e jamais querer qualquer outra coisa. montanhas que sempre me pegavam de surpresa num fim de tarde cla- ro. E sempre pensei que tinha uma boa noção da minha identidade. Eu o projetara pessoalmente. E talvez por causa disso eu devesse compreender que tinha um longo caminho a percorrer. Tinha o melhor restaurante da cidade. ele jamais explicava.

mas a risada sar- dônica de Gerry cortara tal desejo pela raiz. pensei. ligava o cobertor elétrico. uma coisa que me constrangia. explicar como ganhara muito di- nheiro. Ao que Gerry me respondera: — Não.. contra o qual Gerry fizera uma vigorosa campanha. bem quen- te. mas não podia fazê- lo. Eu queria conversar com ele. Tal- vez eu devesse mesmo aprender a meditar. Imaginei o que Geny pensaria de meu armário de estrela de cinema. Peguei um roupão e olhei ao redor. — Pois estou contente que elas não possam responder. com todos os livros e anotações na cama. Eu o vira observar minha bagagem luxuosa no hotel em Paris. Ele pensaria que as manifestações físicas de riqueza ad- quirida violavam os princípios socialistas? O fato de nascer pobre fazia com que alguém se tornasse automaticamente bom? Eu gostaria de conversar com ele a respeito de tudo isso. embora o tivesse ganhado apenas por posar para um anúncio. plantas e flores tropicais. Ela nem mesmo gosta que use luvas de couro no inverno. Sempre que embatucava numa transição ou em algum ponto de uma história. por assim dizer. geralmente já encontrara a solução para o impas- se que me incomodava. Queria perguntar o que ele faria se pudesse exigir muito dinheiro por seus serviços. Uma das paredes espelhadas era uma porta corrediça. Talvez David estivesse certo. Imaginei o que ele pensaria se eu lhe dissesse que adorava me aconchegar num macio casaco de zibelina.. Adorava me sentir sozinha em meu lindo quar- to. Certa vez lhe perguntara se a esposa tinha lindas roupas e ma- las que durariam uma vida inteira. Talvez descobrisse a coisa a que ele se referia. Era todo espe- lhado. por saber que podia comprar qualquer coisa que desejasse. sem mais nada além de mim e qualquer coisa em que quisesse pensar. Tinha livros e cadernos de anotações es- palhados ao meu redor. Espelhos nas quatro paredes e no teto.. tirava um pequeno cochilo. Eu sentira vontade de prolongar a conversa. que as plantas realmente tinham emoções. Ao acordar. Eram cuidadas por um jardineiro japo- nês que as amava como crianças e acreditava que Peter Tomkins es- tava correto. Imaginei como ele se sentiria ao saber que eu adorava viajar no Concorde. Abri uma das portas espelhadas do meu armário. . atulhado de roupas dos filmes que eu fizera ou que com- prara em quase todas as grandes cidades do mundo. porque não me im- portava muito com a minha aparência quando não estava trabalhando em algum filme. Era uma sensação de plenitude e realização saber que me concentrara profundamente em alguma coisa e esquecera inteiramente de tudo a meu próprio respeito. dando para uma varanda com uma cascata. — Plantas podem sentir? — Ele rira.sentir uma profissional.. Minha esposa é uma marxista. Lembrei co- mo Gerry me julgara tola quando eu lhe mencionara tal conceito pe- la primeira vez. a meditar profundamen- te. Imaginei o que ele pensaria se eu lhe dissesse que adorava a sensação de lindas pérolas em torno do meu pescoço. ao mesmo tempo em que me sentia ostentosa e deslocada quando as usava. a fim de pegar um roupão. Entrei no meu quarto de vestir e tirei a roupa. mas raramente o usava. como isso me fazia sentir da elite num mundo na miséria. um monumento à vaidade.

onde a iluminação indireta fazia agora a água dançar. E suas mãos ado- ráveis eram a sua parte mais expressiva. O trabalho dela na cozinha era entremeado de suspiros profundos. Muitas vezes dava um jeito de queimar alguma coisa e então retorcia as mãos.. Papai sabia que mamãe sonhara em ser uma atriz e por isso di- zia que a maior parte do que ela fazia era uma representação. E tinha um jeito de atrair as atenções como nenhuma outra pessoa que já conheci. Eu podia compreender que ela apreciava a sensualidade das pulseiras deslizando por seus dedos. Lembrei como ela se acomodava na banheira e ficava pensan- do. O que deixava muitas possibilidades. Uma banheira quadrada de mármore. depois dele. o que podia ver. no outro lado do terraço. Geralmente o fazia com o cachimbo. O banheiro era o meu cômodo predileto. Sua cadeira vi- rava um palco e os amigos ou a família tornavam-se a platéia. Independente do lugar em que estivesse sentado numa sala. eram como uma dupla de vaudeville. Freqüentemente.. não importava em que lugar do mundo estivesse. bastou estender as mãos para o fluxo de água quente e já comecei a me sentir mais relaxada. porque às vezes eu sentia que ela estava sufocan- do de frustração. Ficava ao lado do quar- to de vestir. Eu sabia sempre como ela se sentia pela simples observação dos dedos compridos e esguios. Parecia que tudo o que mamãe fazia era por papai. Havia dois va- sos e duas pias de mármore rosa. Ela estava sempre ajeitando uma suéter de gola alta (a lã em contato com a pele a incomodava) ou brincando com as pulseiras de prata. Creio que pa- pai comentou uma vez que pensara em fugir com um circo quando ti- nha 14 anos de idade. Água quente sempre me fazia sentir melhor. uma banheira de água quente mudava o meu ânimo para a felicidade. que nunca paravam de se retorcer ou de mexer com alguma coisa no pescoço ou nos pulsos. como des- cascar batatas ou fazer um bolo. ao crepúsculo. Os dois.. um chuveiro em latão no alto da banheira. antes que pudesse definir meu próprio pensamento. dizia que nem precisaria de maquilagem para bancar o palhaço. Suspirei de satisfação e entrei na água quente com a espuma de sabonete VitaBath. afundada no chão. o que podia assim parodiar ou comentar em termos sociológicos. tornava-se o centro.Muitas vezes eu ansiara em esmiuçar alguma idéia metafísica esta- pafúrdia. Creio que o mesmo a- contece com a mãe de todo mundo. clamar que ela esclarecesse o que estava sentindo. Pensei em minha mãe. ela já se lançava a outro projeto.. Ela também adorava banho quente. Mas Gerry era o tipo de homem que lidava apenas com as coisas de que tinha provas. Ele adorava os trens e viajar. Queria compreender essa contradição. pelos filhos. na verdade. mas quando mamãe alcan- çava um certo grau de desespero. Inclinei-me e abri a torneira da banheira. Sempre me perguntei se ela poderia estar pensando na maneira de sair. Mas havia uma contradição. Ele enganchava uma perna por cima da outra. sair de sua vida. que poderia se tornar um fato científico incontestável dentro de 20 anos. Agora. E. pegava o cachimbo e batia . em seus acessos ocasionais de humor negro. dava para a cascata. Eu adorava o fato da banheira ser tão funda que não pre- cisava de cortina para proteger o carpete dos respingos do chu- veiro.

Enquanto crescia. Dava . o que produzi- ria um gesto surpreso de compaixão de quem estivesse mais perto. dizendo que ela estava se tornando uma réplica da "cadela" que representava "naquela maldita peça". descruzava as pernas. sabendo que mamãe consegui- ra roubar a cena. Papai então deixava escapar um suspiro profundo. que não misturava. ele cuidava de remover. eu também fazia o que se esperava de mim. Mas se ninguém lhe prestava qualquer atenção. o foco da atenção nas cinzas. pelo canto dos olhos. saias pregueadas que ajeitava meticulosamente por baixo do corpo quando sentava. lenta mas firmemente. a fim de recolher a cinza? Nunca ocorreu a qualquer espectador se oferecer para ajudá-lo. Papai começou a se queixar de que não encontrava mais um jantar quente à sua espera quando chegava em casa e de que havia poeira na cornija da lareira. Papai geralmente recolhia a cinza com a tampa da caixa de fós- foros. a fim de cuidar da família. sapatos sempre engraxados. Enquanto isso. a tampa da caixa de fósforos na outra. Usava blusas brancas padronizadas. Acei- tara a campanha de propaganda de papai e voltou para casa. Pouco a pouco. tentando compreender por que uma peça devia ter mais de um personagem central. Ela acabou concordando que já se tornara a perso- nagem e por isso não valia a pena continuar. contando a história de uma mãe que lentamente enlouquecia. mamãe começou a sucumbir â pressão. advertia-a de que a situação em casa estava se deteriorando gradativamente. Com o cachimbo nas mãos. como se estivesse impondo ordem a uma reunião. Mamãe se apresentara certa ocasião numa peça em teatro amador. papai sugava o cachimbo e bebia lentamente do copo com uísque e leite. Contudo. Um pouco de cinza se derramava do fornilho para o tapete. Era um exercício cientificamente manipulado que exigia uma habilidade tão grande que seria a mesma coisa que entrar correndo no palco para ajudar Laurence Olivier a recuperar um adereço que ele largara proposi- talmente. grunhia um pouco e se inclinava para resol- ver o que fazer com a cinza. Sugeria en- tão uma boa torta de maçã que ela própria fizera. um fio solto no ombro de seu paletó. papai se embriagava impla- cavelmente. O nariz gracioso tremia quando ela tentava se expressar. Consumada a conquista das atenções totais. qualquer fio solto que pudesse discernir. Ele recolheria a cinza? Gentilmente pegaria o naco de cinza entre os dedos. as pessoas na sala já se mostravam apreensiva- mente atentas. Largou a peça. a fala se tornou errática. ele se sentia um homem realizado. Encaminhando-se para a cozinha. Os en- saios afastavam-na de casa pelo menos quatro noites por semana. ela podia esbarrar em algum móvel. enquanto todos na sala aguardavam na maior expectativa o destino da cinza. Era o que mais atraía as atenções. Não é de admirar que Warren e eu tenhamos nos tornado atores: aprendemos com os melhores. ele descobria. só voltando depois que sentia que o ato de papai chegara ao final. Mamãe geralmente se levantava e ia ao banheiro. tomando cuidado para não desmanchá-la em poeira? Ou pe- garia a tampa de uma caixa de fósforos na estante de cachimbos ao lado de sua cadeira.no calcanhar. Caçoava de mamãe. ainda meio encurvado. so- quetes enroladas por cima das meias de nylon. feliz. A esta altura.

... Era uma boa aluna. porque eu ria prati- camente de tudo. ao que pa- rece. na Coréia. Não pareciam interessados no motivo pelo qual eu rira tanto. Encontrei certa vez um apartamento que ficava a dois ou três pontos do metrô e a 10 minutos a pé do escritório de Gerry. Ri e ri.. pois nunca se podia saber de onde viria o voto crucial de popularidade na próxima eleição para Rainha do Baile da Escola. como uma espécie de vazão para os meus sentimentos reprimidos. Ele morreu três anos depois. papai e mamãe estavam mais preocupados com a minha reputação do que com o que eu pudesse estar realmente fazendo. Eu ria muito. freqüentemente chegando à beira da histeria. sempre fazia os deve- res de casa e poderia ter me tornado a Rainha do Futebol Americano se meu namorado não ficasse doente no dia em que os jogadores a- presentaram suas candidatas. Meus amigos passaram a me chamar de "Silly Squirrely". mas as viagens clan- destinas a Londres haviam se tornado sufocantes para mim. Um dia. mas apenas porque aprendera a colar muito bem. Diziam que eu era uma "pirada". Iria a qualquer lugar e a qualquer momento que ele sugerisse. porque mamãe dissera que eu deveria estar virgem quando casasse caso contrário meu marido sa- beria. Permaneci na banheira até que a água ficou morna. algo que aceitei a princípio como um elogio. Sentia o coração es- tufar de orgulho quando ouvia o ressoar dos tambores da escola an- tes de um jogo importante. que não queria controlar. Por que todos os a- . sempre que podia. Ele me contou uma piada e desatei a rir. até que o diretor apareceu e ordenou que a enfermeira me levasse para casa. até que co- mecei a compreender que havia alguma coisa errada. Passava muito tempo depois das aulas a fumar e passear de carro com os garotos. Papai e mamãe só quiseram saber por que eu estava de mãos dadas no corredor com um rapaz.cem escovadelas nos cabelos todas as noites. eu estava de mãos dadas com Dick McNulty. acabando assim com as minhas chances. Não consegui mais parar. Com uma espécie de júbilo teatral. iniciamos um idílio de 10 dias. mas jamais ia além de beijar. Mas. também transtornava as pessoas. na neve e nos trópicos. no cor- redor da escola. Achavam que eu era uma eterna otimista e minha "despreocupação" era um tema de conversa. Quando lá cheguei. Não era fácil arrumar um apartamento por uma semana. mas nunca indo às últimas conseqüências. sempre provocando. comecei a gritar com o riso. Que roupas levaria para Honolulu? Já me encontrara com Gerry em muitos lu- gares do mundo.. Dava as minhas voltas. a tola esquila. Dick McNulty foi o primeiro rapaz a quem amei. No final das contas. Tinha um sorriso jovial para todos e jamais me mostrava abertamen- te irritada com quem quer que fosse. Estava imbuída de um autêntico espírito da esco- la. mais por tensão.. com Gerry fazendo as viagens de metrô e eu esperando no apartamento escuro que ele viesse me visitar. usava as suas cores em todas as ocasiões. Mas o conflito emocional mais difícil era o de estarmos juntos em seu território doméstico. O riso era como um salva-vidas para mim. E era a- inda mais difícil evitar que a imprensa me reconhecesse.

— Morei neste bairro assim que me casei — disse ele na primei- ra vez. De- pois que ele saiu. empoleirados no alto de um nariz tão-orgulhoso. Os óculos pareciam incongruentes. Minha esposa estranhou a reação e pude sentir que ela me observava atentamente. — Acho que está tudo bem agora. Mas deixei passar. Era Penthouse. Não gosto de mentir. — Minha filha abriu o armário para procurar alguma coisa no meu casaco e perguntou por que minhas roupas cheiravam a perfume. mas pegou uma revista que acabara de chegar pelo correio. examinando as estantes e as peças de cerâmica nas mesas. Gerry soltou-me e deu uma volta pelo apartamento. enquanto me levava para o quarto. O incidente já foi esquecido. inclusive lavando os cabelos. — E como ficaram as coisas? — indaguei. preparou um chá. — Não sei. E sempre sorria cons- . Perguntei no mesmo instante: — Qual é o problema? Gerry respirou fundo. Mas sempre que nos encontrávamos. Um calafrio me percorreu o corpo.partamentos eram escuros? Eu ficava de pé na janela da frente. Ela se aproximou do armário e disse que tam- bém podia sentir o perfume. Gerry me fitou nos olhos por um momento e depois sorriu. Ele apareceu no apartamento no quarto dia e sentou com um sor- riso contrafeito. Corri para o ar- mário. ele tomava um banho de chu- veiro depois. Contou-me que a alegria do nosso encontro fora tão intensa que mal conseguira dormir à noite. Ele entrava no apartamento. em toda a sua vida. Não usava nem mes- mo quando não estava com Gerry. tropeçou na lata de lixo. E acrescentou que tivera sentimen- tos que nunca antes experimentara. Não falou muita so- bre os livros ou as gravuras nas paredes. Declarei que não sentia o cheiro de qualquer perfume. Receava que aderisse a minhas rou- pas. Mas não acha que pornografia é apenas uma questão de geografia ou criação? Muitas pessoas diriam que somos por- nográficos pelo que fazemos. Fui tão desastrado quanto em Paris. liguei para um escritor amigo e me ausentei do apartamento pelo resto do dia. ao invés de descartar o assunto como se não tivesse qual- quer importância. Fui apanhado de surpresa e reagi como um culpado. Desse dia em diante. não mais usei perfume. Ele entrou na cozinha. Respondi que não tinha a menor idéia do que elas estavam falando e me afastei. Mas detesto a hipocrisia. mas ele estava preocupado. observando-o a se aproxi- mar do prédio. Fizemos amor. que es- peculavam sobre o que ele estaria fazendo naquela parte de Lon- dres. Volta e meia Gerry era detido por adeptos. — Como as pessoas podem fazer assinatura de uma porcaria como esta? — disse ele. inclusive jantando fora. Disse que era uma maneira re- quintada de sentir-se exausto. Não soube lidar com a situação. Passamos algum tempo deitados lado a lado e depois Gerry disse que tinha de voltar ao trabalho. Gerry tinha mais tempo e parecia mais desamparado no dia se- guinte. Eu o abraçava.

junto com o primeiro-ministro e diversos líderes da oposição. Era a primeira vez que via Gerry em ação. E quando pediu tempo para falar. Pus óculos.. por baixo da tribuna. Mas. Parecia brincar com o que julgava ser a inteligência inferior de seus co- legas e superiores políticos. Parecia esmurrar o ar. Ele andava agressivamente pelo plenário. também saberiam por que ele derrubou o conteúdo de sua pasta no chão. Ainda bem que ele conhecia perfeitamente as saídas da Câmara dos Comuns. fui ao Parlamento inglês. Sentada lá em cima. com um brilho de interesse nos olhos. como se já fosse o primeiro-ministro. — Você sabia que eu estava lá desde o início? — Claro. Nunca usava anota- ções. você agia como se fosse o primeiro-ministro. onde Gerry estava participando de um debate sobre a economia. É assim que se costuma fazer por aqui? . ao entrar no apartamento. Sentei na última fila da galeria. Com os óculos. — É mesmo? — Você me pareceu insensível a seus colegas.. Talvez então ele estivesse se exibin- do para mim. as meias a- zuis sempre escorregando pelos tornozelos. Mas se os eleitores vissem seus pés. contava a presença na casa. curvando-se para dentro. Abria bem as pernas. — E então.. Para mim. Naquela noite. chamando-os de meio homens e coisas assim. como se o número de pessoas a observá-lo da galeria fosse mais importante do que qual- quer um podia imaginar.. Talvez nem sempre ele se desempenhasse daquela manei- ra. chapéu e lenço na cabe- ça. um lenço na cabeça. eu pensava que ele não tivesse me reconhecido naquela tarde. seria muito difícil deixar de reconhecê-la. chamou um de seus oponentes de meio homem. o que você achou? — Estava se exibindo para mim ou sempre se comporta daquela maneira? Gerry ficou surpreso. como se fosse o dono do lugar. Hesitei por um instante.trangido. clamando vigorosamente por atenção. os pés se viravam para dentro. pas- sando por cima um do outro. largou a xícara de café e se inclinou para a frente. cruzava as pernas. ele me perguntou ime- diatamente o que eu achara. chapéu por cima do lenço. com o cotovelo. energia nuclear ou revisão dos impostos. como os de um colegial nervoso. perguntei-me se ele conseguiria algum dia levar seu partido à vitória. Ele riu. Nem sempre sentava em seu lugar quando era a vez de outro par- lamentar falar. mexendo-se constantemente. — Como assim? — Além de se exibir um pouco como Jacques Tati. disse que era um hipócrita. Era agressivo e brilhante. Tornava a andar pelo plenário como se lhe pertencesse. Levantava-se impacien- temente. inca- paz de apoiar uma posição impopular. Estava tão seguro de si que misturava gracejos desafiadores e agressivos em seus discursos e réplicas. as mãos en- fiadas nos bolsos. quer versasse sobre sindica- tos. dava de ombros pelo absurdo. quando finalmente foi sentar. e quando o fazia.

Que são absolutamente coerentes. — Estou entendendo. Escutei atentamente. mas desa- pareceu no mesmo instante. Eu não podia entender por quê. — Nenhuma outra pessoa me dirá essas coisas — comentou Gerry. Indaguei se ele era tão agressivo para que seus e- leitores das classes trabalhadoras pudessem identificar o que de- sejavam ser ou porque realmente se sentia assim. Já conhecera muitos políticos e sabia que raramente e- ram capazes de uma auto-análise. Ele era aberto à crítica. — As duas coisas. mas foi logo ao ponto que o interessava. Talvez fosse algo quase como vergonha. — Para ser franca. — Claro que me pedem para não me mexer tanto. — É um jogo. Enquanto falava. — Por que foi tão combativo com as pessoas que estava tentando convencer? — Já lhe disse. Talvez ele não es- tivesse na verdade interessado em persuadir os parlamentares aos quais falava. ao mesmo tempo em que defendia o seu comportamento combativo. Gerry estava contrafeito. é a metade da política para mim. É parte do jo- go. — Por quê? Acha que sou veemente demais para a televisão? Acha que eu deveria atenuar o meu comportamento? Eu não podia acreditar que Gerry estivesse mesmo querendo dis- cutir o lado técnico. E para não ficar an- dando sem parar quando outros estão falando. mas não recuou. Eu também me sentia contrafeita por discutir as suas atitudes políticas com tanta franqueza. Adoro fazê- los se contorcerem por suas próprias contradições. . represento os trabalhadores. O sorriso de Gerry tinha um jeito de contrafeito. Mas não me falam so- bre as coisas a que você está se referindo. diga-se de passagem. tentando compreender. Gerry empurrou os cabelos que haviam caído sobre os olhos. Gerry parecia consciente de que podia estar enganando a si mesmo. Detesto a hipocrisia daquela gente. Para ser franco. não sei muito bem do que estou falando. Além disso. — Não sei. entende? E constitui a metade da diversão para mim. Esse tipo de ati- tude sempre os agrada. Sei apenas que o seu sorriso e alguma coisa que está sentindo não com- binam muito com a maneira pela qual se defende. qual seria o prazer? Percebi um brilho de dúvida passar por seu rosto. Se não fosse por isso. — Gostaria de saber por quê. que nunca têm a oportunidade de falar com tanta veemência. — Você se comportaria da mesma maneira se soubesse que câmaras de televisão o estavam focalizando? Gerry empalideceu ligeiramente. Era como se ele se mostrasse agressivo por estar envergonhado. Fiquei em dúvida se deveria insistir em mi- nha crítica ou mesmo se meus sentimentos eram acurados. Pensava que era evidente que eu estava que- rendo saber por que ele se comportara daquela maneira. Mas eu introduzira o tema de con- versa e senti que deveria seguir adiante. Mas havia alguma coisa por trás que eu não podia definir. E são uns mentirosos. Detesto o jeito como tentam evitar se comprometer com qualquer coisa.

Gerry encaminhou-se para a porta. os cabelos caindo sobre os olhos. Os óculos ficaram em cima da mesa. — E de que eu sou culpado? — Provavelmente de mim. — O que há com eles? — Não faz as ligações do seu gabinete? — Claro. Gerry me telefonou cedo. Falarei com você mais tarde. Saí naquela noite com amigos e fiquei me divertindo até cinco horas da madrugada. — Ambos sabemos disso. mas não era disso que eu estava falando. — Onde está querendo chegar? — Estou querendo conhecer a verdade. — Está dando sete telefonemas internacionais por semana com o dinheiro dos contribuintes. É possível. — Quem paga as ligações? — É um telefone do governo. E a diplomacia não era um dos meus. — Como assim? Sou coerente com as minhas convicções políticas. Acreditava nele. — E quem paga o governo? Gerry ficou me olhando fixamente. — Talvez você seja agressivo com as contradições das outras pessoas porque também tem as suas. — Está querendo dizer que eu acuso outros de hipocrisia pes- soal porque reconheço a mesma coisa em mim? — Não é o que todos fazemos? Na verdade. Pôs a capa que eu esperava que tivesse um forro para o in- verno e. A autoconfrontação não era um dos pontos fortes de Gerry. — Talvez você esteja sendo esperto demais para o seu próprio bem. — Já estou atrasado para uma re- união do partido. — Sei que você é coerente em termos políticos. Você chamou alguém de meio homem hoje e espera escapar impune. acusamos os outros das coisas de que estamos mais propensos a ser culpados. ele olhou para o relógio. não é mesmo? Mas o que isso tem a ver com a política? — O que me diz daqueles telefonemas que você me dá? Gerry parou de andar. Isso deve ser levado em consideração. depois. saiu sem se despedir. E se o homem resolver ve- rificar o seu registro telefônico e descobrir que as suas ligações para Reno e Las Vegas são para mim? O rosto de Gerry ficou absolutamente paralisado por um ins- tante. Tomei o resto do café que ele deixara. não acha que é a mesma coisa? — Não sei. como sempre. E quer seja verdade ou possa se traduzir na ausência de votos. . pela manhã. Não sabia se devia continuar. Talvez sinta que é justamente isso o que as pessoas sentem a seu respeito. E. Gerry levantou-se e começou a andar de ura lado para outro da sala. Mas estava ata- cando-os num nível pessoal e aí não sei se é tão puro quanto se apresenta. Sempre direi a verdade. mesmo que isso possa me ser prejudicial. — Santo Deus! — exclamou ele. Pensei por um momento. Gerry. passando a mão pelos cabelos.

Aparecerei mais tarde. Não temos um amor tempestuoso ou ardente. — E com quem você dançou? — Espere um pouco. — Tem certeza de que ela não é solitária? — Ela nunca me disse nada. Não falei nada. Deixe-me de fo- ra. — Onde esteve ontem à noite? — Saí. Preparei-lhe um scotch com soda. mas é satisfatório. Ele me fitou nos olhos. Gerry. — Tem certeza de que ela se acostumou mesmo? — Não sei. Mas ela já se acostumou com isso há muito tempo. — O que havia de tão interessante no que fez durante a noite inteira? Não pôde encontrar coisas melhores para fazer com o seu tempo? — Como assim? — Onde você foi? — Saí para jantar no White Elephant com alguns amigos e fica- mos conversando por um longo tempo. — Não posso. Sentei na cama ao seu lado. — Não sei. Mas já se acostumou. Não o abracei quando ele chegou. não é mesmo. Gerry percebeu-o. Estou bancando o mentiroso. estou sempre viajando. — E qual é a novidade? Gerry suspirou. Eu esperava que Gerry percebesse o sarcasmo. Afinal. — E foi por isso mesmo. — Pensei que tivesse vindo a Londres para me ver — disse ele. Onde você está querendo chegar? — A lugar nenhum. Tentei imaginar o que a mulher dele diria se alguém lhe fizesse a mesma pergunta. — Conte à sua mulher. Tirou a ca- pa e seguiu para o quarto. Tentei imaginar o que eu sentiria se alguém dissesse a mesma coisa a meu respeito. — Ela nunca reclama de sentir-se solitária? — Claro. Gerry largou-o na me- sinha-de-cabeceira. Gerry tomou um gole do scotch. Passamos depois pelo Annabel- le's para dançar. Estendeu-se na cama e ficou olhando pa- ra o teto. Converse apenas sobre o que há de errado entre vocês dois. — Sei disso. — Mas estou me comportando como se fosse. — Mas sabemos que você se sente solitário. Gerry? . — Não há nada de errado entre nós dois. Fiquei aturdida. – Não sou um homem enganador. Mas está me deixando angustiado. — Pois então não fale com ela a meu respeito. — Mal posso esperar. — Não há nada de errado entre vocês? Como pode dizer uma coisa dessas? — Não há mesmo.

Ela se sente feliz em criar nossos filhos.. — O que é? — Não fique assim. — Você me responderia a uma pergunta. E como isso pode- ria fazê-la feliz? — Está mentindo para ela porque contar a verdade seria pior. — É. estamos de volta à hipocrisia. Ele limpou a garganta. E. a não se sentir tão infeliz? — Como assim? Eu estaria mentindo para ela. sim. A impressão era de que nunca antes pensara a respeito. — Portanto. — E o que é? Gerry não respondeu... . — Estou. — Talvez ela precise de outro relacionamento. — Falei a um dos meus assessores que nos conhecemos.. adormecemos juntos. — Gerry. — Ele pôs o braço por baixo da cabeça e acrescentou: — Mas eu tinha me acostumado. — E o que ele disse? — Perguntou se havia mais alguma coisa que ele deveria saber. Ele virou-se de lado. Uma pausa e Gerry acrescentou: — .. Talvez seja neces- sária às vezes. está vivendo sozinho? A pergunta parecia ser algo novo para ele. a fim de que pudesse encontrá-la. Sabe o que meu trabalho exige. ela não acreditaria. sim. Gerry. sim. — Oh... Pedi-lhe para falar no meu lu- gar esta noite. Eu tinha me acostumado até que você apareceu. — Estou falando como um desses porcos chauvinistas. E acres- centei que você estava em Londres. Talvez seja esse o preço a pagar.. Gerry? Com toda sinceri- dade? — Claro. — Então por que não tenta descobrir se não pode ajudá-la a não se sentir tão solitária. O que eu represento para você? Diga-me para que eu possa saber. Estendi uma manta por cima de seu corpo e deitei-me ao lado. — Então sua mulher também deve se sentir assim. onde realmente vive. não é mesmo? — É. — Você se sente como se estivesse vivendo sozinho? Lá no fun- do. depois. — Não. como se não quisesse mais falar. Ele me fitou de uma maneira estranha e depois concentrou-se no gelo do copo.. não é mes- mo? Não fiz qualquer comentário. Ele estendeu um braço por cima do rosto. Gerry acordou algum tempo de- pois e disse: — Sei perfeitamente o que você representa para mim.e se eu contasse.. exatamente como você. Gerry olhou pela janela. — O que está querendo dizer com tinha? — Exatamente o que eu disse. Não me sinto solitário agora.

O discurso já deve estar terminando. John estava estendido na ca- ma. enxuguei a pele toda enrugada. reinava em seus domínios com uma autoridade pos- sessiva. Os olhos estavam fechados e ele . porque os pés eram deformados em decorrência de ferimentos sofri- dos durante a Segunda Guerra Mundial. — Ele foi pôr o copo na pia da cozinha. Sua irmã Louise. pálido como um prato de aveia. recebendo ordens e se queixando em desespero que nada dava certo. Marie me acordara. Sentei na cama. Vestiu-se rapidamente. fiquei contente por ser a porta certa. não me deixando sequer arrumar um copo de Tab. Cartas. Jung. Os dedos eram retorcidos de artritismo. Gerry tomou um banho de chuveiro. — Tem razão. E é isso o que você quer dizer ao falar que sabe perfeitamente o que represento em sua vida? — Tenho de ir agora. que estava na América há 20 anos e não falava uma só palavra de inglês. — Você não precisava do banho de chuveiro. era a sombra de Marie. as pernas tendo a circunferência da maioria das pessoas. Não esta noite. sendo francesa e uma cozinheira de refi- nada competência.. não é mesmo? Gerry pôs a capa e saiu pela porta. Usava chinelas com as pontas cortadas. plenamente equipada e no fundo não me pertencia.Respondi que você estava em Londres. Ela era pequena e frágil. desci para falar com Marie e jantar. Marie. Entrei na cozinha. muito nervosa. O calafrio familiar me percorreu o corpo. Capítulo 3 "O que acontece depois da morte é tão indescritivelmente glorioso que nossa imaginação e nossos sentimentos não bastam para formar sequer uma concepção aproximada a respeito. por volta das três horas da madruga- da. A dissolução de nos- sa forma limitada peio tempo na eternidade não acarreta uma perda do sentido. lavando os cabelos. contrabandeando armas para os maquis franceses em luta contra os nazistas." — Carl G. batendo na porta do meu quarto e gritando que havia alguma coisa errada com seu marido John. as mãos e braços tremiam quando ela servia. — Estou entendendo. Voltei para a Califórnia no dia seguinte. eu queria ficar em sua com- panhia e ponto final. Eu descera para o quarto deles.. pus uma calça roxa e uma suéter laranja. I Saí da banheira. — Não precisava. Era moderna. Cerca de seis anos antes. Para o seu próprio bem. Vol. Pre- ciso estar presente para as perguntas e respostas.

Ele morrera abruptamente. Ficara pen- sando em que momento exato ele morrera. Eu o sacudira. Levantara a sua cabeça para aplicar a respiração boca a boca.. Meu Amor. Eu não sabia o que fazer. como estranhos cruéis e amigáveis. quase como se tivesse se tornado mais seguro não saber o que nossas vidas realmente sig- . Tudo o que sabia era que John. filmando Charity.. Mas que mundo. Estava depri- mida e não sabia por quê. Pensava a respeito cada vez que entrava na cozinha e ainda agora a situação não era diferente. Insistira que ele apenas des- maiara. Fora a primeira vez que eu vira uma pessoa morta.. Contudo. esbarrando uns nos outros. ansiando por respirar. dominada pelo vinho e por uma exaustão que não podia compre- ender.. ta- teando em busca de alças e salva-vidas para nos segurarmos. até que nossa inutilidade se tornava institucionalizada. um estrondo profundo. Alguma coisa que era John. como eu o co- nhecera. subi para o meu quarto e me estendi na cama. E me deixara profundamente assustada.. Creio que foi nesse ins- tante que comecei a especular a sério se havia uma coisa a que se pudesse chamar de alma. Parecia impossível que eu tivesse amparado nos braços tudo o que podia restar de um homem. Informei que estava de partida pa- ra um fim de semana prolongado. tocar.. Mas. E. falando sem nos dirigirmos expressamente aos ou- tros. Estava horrorizada e não queria tocá-lo. havia acabado. Um som horrível saíra dele. em francês e inglês. Soara como um animal que eu não podia reconhecer. muito menos o nosso. mas sem jamais chegarmos a fazer um contato real com o que era verdadeiro. De- pois. a fim de não balançarmos os barcos dos outros. depois.. de contato e compreensão. Assisti ao jornal. Marie também não compreendera. para onde ia? E com que pro- pósito? Eu não conseguira dormir pelo resto da noite ou durante as três noites subseqüentes. Marie me serviu o jantar diante do aparelho de televisão. parara. em meus braços. O que acontecera. Ou não? Eu gostava dele. com medo de nossas próprias palavras.. Sabia que de alguma forma havia algo mais. Marie. com receio de que o som tornasse a sair. Parecia estar tateando em bus- ca do verdadeiro significado metafísico da morte. Louise e eu conversamos por algum tempo.. continuava a viver? A morte era dolo- rosa? Se a alma sobrevivia ao corpo. não compreendi que era o estertor da mor- te. Sa- bia também que não podia parar de pensar a respeito. E digo metafísi- co porque não era alguma coisa que eu pudesse ver. como se estivesse sufocado. depois do choque inicial. ouvir. e assim continuávamos.. gutural.. todos parecíamos estar andando como so- nâmbulos. não senti muita dor ou uma saudade desesperada. com alguma dificuldade. a sua "alma". apesar de estar trabalhando muito na o- casião. tanto quanto das pa- lavras que poderíamos ouvir dos outros.. Sempre acalentávamos a esperança de que talvez as coisas melhorassem...tremia todo. não parecia capaz de aceitar sua morte simplesmente como o fim de sua vida. cheirar ou saborear. sempre imagináva- mos o que poderíamos fazer. A princípio. na sala de estar. ainda mais alto.. Havia um colapso de comu- nicação tão grande que todos estávamos famintos por confiança.. Tratávamos de nos concentrar nos desesperos profundos e numa paciência disciplinada.

o rosto de Gerry quando eu lhe dissera que adorava viajar sozinha. todas vestidas no traje unissex chi- nês.. candidatos presunçosos mas bem-intencionados. os vastos espaços do interior da China. cam- panhas políticas. pensando se poderia me sentir responsável por alguma coisa crescendo. O câncer transformara sua cabeça em algo parecido com a de um pássaro murcho. que eu desejava que pudesse ser a minha casa móvel. O copo na minha mão começou a pin- gar do calor do meu contato. coreógrafos... bailarinos. era tudo pequeno. a barriga estava inchada da doença. os refletores quentes da televisão... perguntas difíceis.. enquanto todos os fre- gueses batiam palmas. Senti-me sonolenta por volta das duas horas da madrugada. para onde eu levara a primeira dele- gação de mulheres americanas. porque naquele ano Elizabeth Ta- . Imagens da minha vida entravam e saíam da mente.. a fim de que o ar frio pudesse esfriar o leite. Ele era realmente capaz de escrever sobre a esperança humana e o triunfo contra a adversidade. tubos pen- diam de seu nariz.. pianos. dançar com um lenço e um cam- ponês russo num restaurante de Leningrado..... Ele tomou um pouco de leite de um recipiente de plástico e pediu-me que abrisse as janelas. água quente e espuma de sabonete. com gavetas e comparti- mentos de armário. enquanto eu especulava como conseguiam se manter em formação... os Oscars da Academia e minha ansiedade por ganhar um com Irma la Douce. As pequenas coisas. uma arca grande mas compacta. uma longa extensão do Deserto do Saara que eu desejara atravessar. Eu amara e respeitara suas peças intensamen- te.. a fim de nunca ter de viver permanentemente em qualquer lu- gar.. quando achava que meu desempenho não merecia. só para descobrir se era capaz de fazê-lo. Tentei me sentir sonolenta. porque me empenhara a fun- do. os cenários de filmes tranqüilos. — Quero viver — murmurou ele — a fim de poder escrever para muitas pessoas sobre o prazer que se encontra em coisas que não são maiores que uma pulga. as azeitonas pretas caídas no caminho de cimento da árvore que eu mesma plantara. o suor voando. Eu deve- ria me concentrar no prazer das pequenas coisas. ovações de pé. mas podia ser juntado para me fazer sentir melhor.. morrendo de sífi- lis enquanto dava à luz um filho... a corrida amanhã de manhã que me fa- ria sentir bem durante o dia inteiro. durante uma filmagem no México. O verde suave das folhas da palmeira além da janela. Lembrei-me de estar sentada na cama de Clifford Odets pouco antes de ele morrer.nificavam.. uma mãe masai na África. A cabeleira abundante já caíra.... especialmente de pessoas com vi- das insignificantes e não reconhecidas. pensei. Eram 10 horas da manhã em Londres.. o rosto angustiado de George McGovern na noite em que Richard Ni- xon venceu por uma maioria esmagadora. um bando de pássaros voando como se fosse apenas um. flashes. meu desapontamento quando não ganhei com Se Meu Apartamento Falasse.. entrevistas coletivas....

mais satisfatória. como se sentira. coisas do mundo inteiro levadas para aquele porto livre visando ao lucro. não veria de verdade. os cules de jirinquixá se misturando com os táxis. os britânicos. — Como consegue isso? Co- mo pode ser tão flexível? E vê tantas coisas. alimentos. Falara sobre a Cat's Street. lá. em outra de suas conferências. se o tivesse. Ele viajara pela África quando era jovem. todos sempre sabem de tudo que os estran- geiros fazem. o que cheirara. não como uma viagem humana. as horas disciplinadas a escrever sobre o sentimento pessoal e permanente de uma longa busca por quem eu realmente era. Eu me encontrara com ele. os relógios da Suíça e o distrito residencial em que viviam os seus conterrâneos. percebi subitamente que não mencionava nunca o que comera... Falava sobre a África como uma viagem sociológica. não se importavam muito com is- so. Sentados no quarto dele no hotel. na Ásia. procurava continuamente pela definição de minha própria iden- tidade através do relacionamento com um homem? Acreditava que a outra metade de mim poderia ser encontrada em amar alguém. como tantas outras mulhe- res. Outra esperança que desta vez seria diferente. perfumes e peças de jade e marfim. ele se limitava a comentar que não conseguira comer uma só refeição chinesa desde que chegara.. on- de os estandes de mercadorias transbordavam com quase tudo que a . proce- dentes do território continental. jóias e tóxicos. inde- pendente da frustração e inutilidade inerentes? Hong Kong e Gerry me invadiram a mente. Mas quando falava a res- peito. — É maravilhoso como você adora arrumar as malas e viajar de um momento para outro — comentara Gerry.. mercadorias diversas e relógios. o que tocara. o paraíso dos compradores de sedas chinesas. Apenas precisavam saber.. O que estava faltando? Será que eu. o que vira. pobres e coloni- zadas. os longos ensaios. tive de interpretar o ambiente para ele. Gerry escutara como se eu estivesse contando um conto de fadas quando lhe descrevi como fora até o fundo de Kowloon. Achava que ele não veria o que olhasse. Gerry nunca estivera antes em Hong Kong. discussões profissionais. os mi- lhões (cinco e meio) de habitantes se acumulando e derramando pela baía. pela qual deslizavam os juncos chineses de velas vermelhas. brocados japo- neses. de qualquer maneira. algodões indianos e rendas suíças.. Ti- nha dúvidas se Gerry realmente aproveitaria o tempo.ylor quase morrera com uma traqueotomia.. os estúpidos executivos dos estúdios. Eu lhe dissera que.. mas não como realmente viviam e como se sentiam... Gerry nunca percebeu que eu não respondia. que não tinha certeza se estava correndo para alguma coisa ou de mim mesma. passando pe- las lojas de sedas. deixá- lo deslumbrado. as quatro outras vezes em que fui indicada para um Oscar e nem me importei.. nada disso parecia impressionar Gerry. Falava como as "massas" eram exploradas.. músculos doloridos e o chamado pavor do palco. Eu lhe falara sobre a Star Ferry e a própria baía. as fábricas de peças de jade. Gerry não parecia apreender a confusão agitada e paradisíaca que era Hong Kong. Estava preocupado com a possibilidade dos guardas que pa- trulhavam o seu andar nos reconhecerem e o julgarem mal. Em vez disso. Eu nunca tenho tem- po.

todos procurando por uma barganha.. — Olhe também para aquelas sampanas de velas vermelhas. ele voltara a falar sobre as condições miserá- veis em que vira os chineses vivendo. Era verdade que Gerry não podia se ausentar tanto quanto gostaria. a pressa de comprar e ven- der no mínimo de tempo. Mas. Era apenas "os ricos".. enquanto ele comparecia a suas reuniões.. de alguma forma inexplicável. ao me avisar de não ter a menor compaixão pelos ricos. que se empenhavam em negócios de adultos sem sequer o perceberem. e assim por diante. E. — Ele parara de falar. Eu lembrara como um amigo querido me surpreendera durante a minha fase de liberalismo total. um todo amorfo. Todos ali estavam empenhados em ganhar dinheiro. materiais feitos à mão.. malaios.. Era como Las Vegas. Se a pessoa parti- cipava. objetos antigos. comidas suculentas. desli- zando pela água. Nunca lhe ocor- rera que uma pessoa rica podia ser miserável de outra maneira. japoneses. O que me diz da maneira como aquelas pessoas es- tão acenando para nós? .. pérolas. — O que me diz daquelas co- linas que parecem ser de jade. uma corrida para o tumulto. Como as mascates a apregoarem colares de plástico se agachavam de vez em quando para encherem a boca com arroz. tirado com pauzinhos de marfim esculpidos de tigelas delicadas de porcelana. na enseada. cules corriam. Eu levara limonada. Descrevera para Gerry como o cheiro das especiarias pairava no ar. durante a noite inteira. E sempre se esperava por is- so. — Gerry. Não havia hipocrisia a respeito. poh tudo o que todos esperavam era fazer um bom negócio. Nunca pensava em "uma pessoa rica". mas isolada e alienada. tornava-se parte do esquema. sanduíches e tortas. crianças corriam. mercadores corriam.imaginação podia conceber. Descrevera as mul- tidões de turistas. africanos. Gerry ficara extasiado com a minha descrição fascinante de diamantes. Era o que era. Falara como subira ao topo de Victoria Peak e contemplara os barcos lá embaixo. A verdade da acusação me deixara profundamente chocada. sem ilusões. enquanto esbanjava meu coração piedoso ape- nas com os pobres. Comentara como os.. Os olhos de Gerry brilhavam e faiscavam enquanto eu lhe fa- lava. E no último dia eu acertara para que um barco nos levasse aos Novos Territórios. tão lindas e podendo ser des- frutadas até pelos pobres? Ele olhara. onde conhecia um lugar ideal para um pique- nique. ricos deviam volun- tariamente partilhar seus lucros com os que eram menos afortuna- dos. americanos. do que fizera durante o dia intei- ro. no barco. mas quando saía. tudo funcionava. Turistas cor- riam. Discorrera sobre a desigual- dade entre ricos e pobres. obras de arte feitas por crianças d© menos de 12 anos. interminavelmente. ônibus corriam. Nunca lhe ocorrera que os pobres podiam ter uma riqueza de espírito que os ricos invejariam se a conhecessem. Hong Kong era um lugar em que se ficava liso de tanto poupar dinheiro. "os pobres". como a música de rock se misturava com a ópera chinesa.. sem pretensões quanto ao motivo da existência de Hong Kong. europeus. era como se ele nunca tivesse deixado o quarto. in- dianos.

Marie me serviu o café na manhã seguinte no pátio. eu adorava a aula. eu podia dizer que era uma pessoa relativamente feliz. Eu não sa- bia direito o que estava pensando. Gerry se levantara. embora exigisse concentração e um senso de relaxamento. Mas com o sol entrando pela janela e o som da voz do instrutor funcionando como um acompanhamento. Eu adorava o hatha ioga porque era físico e não meditativo. assim que me considerasse pronta para o novo espetáculo. Mas não me sentia particularmente serena. Virando-se para mim. respeite o seu corpo e ele reagirá favoravel- .. Eu me perguntava como Gerry poderia conciliar a si mesmo com o resto de sua vida. Gerry murmurara: — Mas que merda! Como posso conciliar você com o resto da mi- nha vida? — Não sei. afun- dando os pés na terra. Eu me torno tedioso às ve- zes. Em silêncio. Gerry carregara os cestos do piquenique.. não é mesmo? Entráramos numa das pequenas enseadas nos Novos Territórios e desembarcáramos. Encontráramos um córrego faiscando ao sol. E me chamara. esbarrando uns nos outros. Os tripulantes ficaram a bordo. — Não se afobe. Acabara de chegar à cidade e perguntou se £u iria à aula de ioga. Tiráramos os sapatos. não é mesmo? — Ele sorria timidamente. mas meu trabalho corria muito bem. mas havia muito mais que apenas isso. enquanto eu levava uma garrafa térmica e uma manta. Sentíramos a rocha escorregadia por baixo de nós e não nos impor- táramos quando a correnteza começara a nos arrastar lentamente. à beira da á- gua.. Gerry. Não havia ninguém por per- to. Combinei que me encontraria com ele lá. Os passarinhos cantavam para nós das árvores. Gerry suspirara e esticara os braços para o sol quente. Es- tava num intervalo entre filmes. — Acho que estou falando como o Sunday Observer. Nós nos abraçáramos e levantáramos ao mesmo tempo. Gerry passara o braço por minha cabeça e gentilmente me puxara de encontro ao seu peito. as gotas escorrendo faiscantes dos cabelos. passarinhos voando entre arbustos floridos nos dois lados. tumultuados. estendera-se de costas na á- gua. Respiráramos o ar fragrante. E tinha outro contrato para me apresentar em Las Vegas e Ta- hoe. Eu me postara ao seu lado. Voltáramos ao barco cerca de uma hora depois. Parara em cada árvore e flor silvestre. sentindo que todos os músculos e tendões do meu corpo eram ativados. voltáramos a pôr as roupas. Deitáramos e ficáramos olhando para o céu através da copa da árvore.. Árvores frondosas farfalhavam à brisa marinha. — Desculpe. enquanto nos encaminhávamos para as colinas de vegetação exu- berante. pondo os bra- ços em meus ombros. Ele estendera a manta no chão. Claro que me sen- tia frustrada com Gerry. não sei. David telefonou. os pensamentos eram confusos demais. Gerry tirara a camisa e a calça. O esforço físico servia para me desanuviar o cérebro. por todos os padrões comparativos. Pusera uma margarida em sua orelha. Eu também tirara o vestido e entrara na água. As- sim.

gentilmente. — E que tipo de livraria é. Não pegue o seu corpo de surpresa. — Se você se dá tão bem com o ioga. quando havia tantos roteiros a ler e tantos telefonemas a responder. E provavelmente melhor do que você imagina.. a próxima será mais fácil. — Acho que você vai gostar — disse David. posso dizer que essa decisão simples. Deve se aquecer antes dos exercícios. indiana? — Mais ou menos. A livraria fica na Melrose. Basta que tenha qua- tro rodas e um pouco de gasolina para que eu me sinta satisfeita. mais uma vez. Não faça uma emboscada contra os seus músculos. Os músculos são como pessoas: precisam dos preparativos adequados. Pode entender o que estou querendo dizer? — Claro. era hinduísta. Eu escutava as suas palavras nos intervalos entre as posturas. . numa tarde ensolarada.mente — dizia o professor (que era hindu). Carros são uma chatice e não consigo compreendê-los. vai adorar algumas das obras dos antigos místicos. sou lembrada que efetuamos pequenos movimentos importantes quando estamos prepara- dos para isso. Vamos nos encontrar lá. Numa época anterior de minha vida. esperando por mim na calçada. Afinal. David dis- se: — Vou até a livraria Bodhi Tree. Eles possuem livros de todo tipo sobre o o- culto e metafísica. Somente quando se vai devagar é que dá para se pressentir antes de encon- trar de fato. mas confessei que nunca ouvira falar. — Aluguei este carro — expliquei. saí com David. E se você é boa e fiel em sua luta nesta vida. caso contrário se assustam e se contraem. — A realização do ioga exige quatro atitudes: fé. Deve respeitar o ritmo deles. Aprenda a viver dentro de você. É como a vida. Pense a respeito como um explorador que está penetrando em território desconhecido. Andando sob o sol exuberante da Califórnia. paciência e amor. Eu estava ocupada demais em ser bem-sucedida para compreender que havia outras di- mensões na vida.. "Lute nesta vida e a pró- xima será mais fácil. Ele sorriu quando acomodei meu Lincoln imenso numa vaga que mal dava para um Volkswagen. essa mesma su- gestão pareceria um desperdício de uma tarde. Nunca ouviu falar? Senti-me um pouco constrangida. pois nunca sabe o que pode encontrar além da próxima curva. — O ioga exige bom sen- so. Pus a saia e uma blusa de malha. David já estava na Bodhi Tree quando cheguei. Garanto que vai gostar. encostado numa árvore. Por que não? Olhando para trás. — Não tenho nenhum. de visitar uma livraria diferente. Minha malha estava molhada de suor." Calculei que ele realmente acreditava nis- so. perto de La Cienega. Quer me acompanhar? — A Bodhi Tree? Não é aquela árvore sob a qual Buda meditou por 40 dias ou algo assim? — Exatamente. Oferece uma paz interior. O ioga proporciona amor-próprio porque a põe em con- tato com você mesma. — Está certo. foi uma das mais importantes de minha vida. E. Um explorador sensato vai devagar. determina- ção. Estou surpreso por você ter passado tanto tempo na Índia sem absorver a espiritualização do país.

sen- ti o cheiro de incenso de sândalo se espalhando pelos diversos compartimentos da atravancada livraria. — Não foi nada — disse David. John indagou se podia ajudar o rapaz em alguma coisa. Cartazes de Buda e de iogues de que eu nunca ouvira falar sorriam-me das paredes. chá de ervas. Sentia-me deslocada. a indicar também que não me importava. É difícil acreditar que a paz é possível. que estava em seu escritó- rio. David sorriu e nós a acompanhamos. ou talvez eu estivesse sendo tea- tral. David levou-me para uma imensa estante em que havia a indi- cação de "Reencarnação e Imortalidade". ela reconheceu-me e sugeriu uma apresentação ao dono da livraria. Depois que John se afastou. apesar de tão difícil? Eu não tinha a menor idéia do que ele estava falando.. O escritório parecia estar estourando com tantos livros. — Ei. — Posso ajudar em alguma coisa? A voz era calma. In- formou que lera os meus livros e estava especialmente interessado no que eu tinha a dizer sobre o período que passara nos Himalaias. John pegou no meu braço e no de David. Fregueses com livros na mão tomavam chás de ervas e fala- vam em voz baixa. Ela estava em harmo- nia com o clima na livraria. Foi nes- se momento que um rapaz de cabelos curtos e blusão de malha entrou na sala. — Ele tem de encontrar o seu próprio caminho. — Até que ponto absorveu a técnica da meditação? — perguntou ele. Quando me virei para fitá-la. Havia livros e mais livros sobre assuntos que variavam da vida após a morte a como comer na Terra enquanto aqui se vivia. Acenei com a cabeça. de profunda serenidade. que ele não precisava se incomodar. um pouco tola. Enquanto avançávamos. cartazes vistosos. — Desculpem — murmurou ele. conduziu-nos gentilmen- te para fora de seu escritório. — Usa a respiração Kampalbhati? Não acha que é muito eficaz. Talvez ele tenha um grande investimento emocional em hostilidade. desejando não ter achado que era necessário dizer alguma coisa.. levando-as a pensar que podem ser felizes? David pôs a mão em meu braço ao perceber como eu ficara so- bressaltada. tomando chá. para que serve toda essa merda de tentar fazer com que as pessoas pensem que são felizes? Afinal. David disse que poderíamos encontrar sozinhos o que desejássemos. comentei para David: — Por que o rapaz acha que este lugar é tão ameaçador? — Não sei.. Ele me pegou pelo braço e entramos.. vocês são cheios de merda. de trinta e poucos anos. Comecei a examinar as prateleiras. como todos nós fazemos. Uma moça de sandálias e saia de gaze se aproximou para nos servir um chá. As obras ali iam do Bhaga- . mas ele continuou a agredir: — Essas porras de incenso. depois para o dono da loja (cujo nome era John). Olhou para mim e para David. Olhei ao redor. com um sorriso pretensioso. usava barba. — É fascinante — murmurei. ninguém pode ser feliz nesta porra deste mundo. Por que vocês ficam passando as pessoas para trás. Sorri meio murcha para David. cara. O proprietário era jovem.

David pegou um livro. mas sim uma questão de como funciona. David continuou a examinar os livros. Walt Whitman. Mas talvez todas as religiões sejam falsas tam- bém.vad Gita aos Livros dos Mortos dos egípcios antigos.. mas não como se achasse a conversa desinteressante e sim como se estivesse pura e simples- mente procurando por um determinado livro.. passando por interpretações da Bíblia Sagrada e da Cabala. — Eu não pensara muito em religião desde que tinha 12 anos e ficava brincando de jogo-da-velha na escola dominical. — Tem razão. Fitei-o nos olhos. Platão. Hesitei por um instante.. Acredita realmente na reencarnação? — Quando se estudou o oculto por tanto tempo quanto eu.. Goethe e Voltaire.. Por que não? As pessoas também pensavam que . Se cada um de nós não tem uma alma. Mas tais obras sempre vão parar na seção de ocultismo. — Quer que eu prepare uma lista de livros que você poderia ler? — indagou ele. Ralph Waldo Emer- son. Ele falou em tom sereno. — Apenas o que está "escondido". Contemplei mais atentamente o rosto ossudo e triste de David. — Todos eles acreditavam na reencarnação? — Claro. lembrando que tinha cinco roteiros para ler e também imaginando o que Gerry pensaria se me visse len- do livros assim. — Está querendo dizer que acredita na reencarnação como um fa- to incontestável? David deu de ombros. — Claro que quero. E escreveram amplamente a respeito. deve haver alguma coisa no fato de que a crença na alma é a única coisa que todas as religiões têm em comum. enquanto dizia: — Você devia ler não apenas algumas das obras que estão nesta estante.. sem qualquer hesitação. — Exatamente. e isso se aplica a tudo. É a única coisa que faz sentido. Disse que não achava mais surpreendente nascer uma porção de vezes do que nascer apenas uma vez. Os olhos azuis de David estavam firmes e serenos. — Voltaire acreditava na reencarnação? — Acreditava. E só porque uma coisa está escondida não significa que não existe. mas também coisas de Pitágoras. E ele me perguntou: — Sabe o que é o ocultismo? — Não. apren- de-se que não é uma questão de ser ou não verdade. não é mesmo? Além do mais. Fitei David nos olhos e perguntei: — Acredita em tudo isso? — Tudo o quê? — Não sei. Eu não tinha a menor idéia do que estava procurando. então por que estamos vivos? Quem sabe o que é verdade? É verdade se você acredita. muito prático. a não ser quando percebeu que eu estava fazendo um esforço para compreender suas palavras. Também penso as- sim. como magia negra e coisas assim.

David reunira um punhado de livros. eu imaginava se algum dia abriria um daqueles livros.. há muito e muito tempo. à me- dida que me tornava mais velha. por que não tentar? — Tem toda razão. se tivesse tempo. Descobri-me naquela noite a procurar o verbete sobre reencar- nação na enciclopédia. Eu me descobri a sorrir. Encarava com restri- ções a afirmativa de que ele era Filho de Deus. — Para mim. Despedi-me de David e fui para casa. Não me agra- dava o autoritarismo da igreja.o mundo era plano. Ele apenas acontecera. de que Deus e religião eram coisas incontestavelmente mitológicas. a fim de pensar.... não pensava muito em coisas como religião. ler um pouco. En- quanto agradecia e saíamos para o sol da Califórnia. eu chegara à conclusão. Ninguém insistia e eu achava o assunto aborrecido. Eu viajaria para Honolulu no dia seguinte. e considera- . até que alguém provou o contrário. David acrescentou: — Pique dando uma olhada por ai enquanto eu procuro os livres que você deve ler.. arrumar as malas e. não me sentia absolutamente angustiada pela necessidade de um propósito na vida ou de alguma coisa para acre- ditar além de mim mesma. não acreditava nem desacreditava. Em suma. descansar... sensato e certamen- te muito bom. fé em Deus ou a imortalidade da alma. O que ele pregava não chegava a me tocar. qualquer igreja. Quem podia imaginar que havia bichos rastejando por toda a nossa pele até que alguém inventou o microscópio? — Meus parabéns — disse David. meditação e outros assuntos simila- res que podia compreender.. Ele limpou os cantos da boca e com os olhos meio cerrados co- meçou a verificar as prateleiras. Meus pais mandavam-me à igreja e à escola dominical. Não podia acreditar em qualquer coisa que não pudesse ser pro- vada. nem de longe tão estimulante co- mo algo real e divertido como as pessoas. Jesus Cristo parecia um homem inteligente. Depois de meia hora. assim. a verdadeira inte- ligência é a capacidade de manter a mente aberta. Ao final da ado- lescência. como todos nós. mas ape- nas porque o lugar era aceito para se ir aos domingos. mitológico e de certa forma desconexo. muito bem. Se as pessoas queriam acreditar. mas eu não podia acreditar. e fizera algumas coisas boas.. ainda me empenhava numa discussão confusa sobre os perigos dessas crenças mitológicas e como desvia- vam a atenção do verdadeiro problema da raça humana. mas eu encarava o que aprendera a seu respeito na Bíblia como filosófico. mas nunca pensara realmente se existia um Deus ou não. exercícios de ioga. Além do mais. Se você está procurando por alguma coisa. Devo ressaltar que não fui criada para ser uma pessoa religio- sa. Acho que de- vo ser curiosa sobre todas as possibilidades "escondidas". Imaginava o que aconteceria com o dinheiro na bandeja da coleta. Eu usava anáguas de crinolina e tentava não olhar demais para as letras no hinário que já deveria ter decorado. Folheei alguns livros sobre ali- mentação. sozinha.. De vez em quando.

Uma era a crença na existência da alma. Assim. tanto quanto me interessava pelo que me tornara como eu era. havia uma coisa pela qual me interes- sava profundamente.. dançando. podia sentir uma chama que não era capaz de compreender.. até retornar à fonte e ori- gem comum de toda a vida. até que alcançava moral- mente a purificação. que era Deus. eram duas das mais antigas crenças da história da humanidade. era impossível não sentir curiosidade em explorá-la. memória ou inspiração. Consistia na crença da ligação entre todas as coisas vivas e a gradativa puri- ficação da alma ou espírito do homem. que eu apenas precisava procurar para encontrar. religião e vida posterior. em meu trabalho com a expressão pessoal. Por mais desinteressada que eu estivesse de Deus. porque fazia com que as pessoas tivessem medo de queimar no inferno se não acreditassem no céu. Nunca relacionara com qualquer reli- gião mais importante e mais séria. a alma era considerada uma entidade pré-existente. Era uma novidade para mim. aturdida com a origem de um sentimento. e da reencarna- ção. Minha identidade e a de todas as pessoas que conhecia. entre muitas a mais. Atribuía a um conceito nebuloso chamado processo criativo. A identidade parecia-me algo concreto. Talvez houvesse ou- tras identidades enterradas no fundo do meu subconsciente. Quem era eu? Quem era qualquer pessoa? Por que eu fazia as coisas que fazia? Por que os outros faziam? Por que eu me importava com algumas pessoas e não com outras? A análise de relacionamentos tornou-se um dos meus temas prediletos. budistas e hinduístas. a busca repetida pela salvação da alma. com o ocultismo e coisas que fa- ziam barulho durante a noite. a oportunidade física de viver o carma. Qual era a origem dessa chama? De onde vinha? E o que hou- vera antes? Sempre me interessei muito mais pelo que existira antes do que pelo que poderia vir depois. Dizia que os temas conjugados do carma.. que é a liberação pelo trabalho dos fardos interiores. pelo menos. mais amplamente aceitos que quase todos os conceitos religiosos do mundo. Assim. os fantasmas. talvez porque me interessava pela minha própria iden- tidade. de tocar. Era a crença de que a alma era imortal. eu sempre relacionara vagamente a reencarnação com es- píritos sem corpos. intrigava-me a possibilidade de haver algo mais em mim do que a minha mente consciente podia perceber. Dos egípcios aos gregos. como fazia a maioria dos ar- tistas. A enciclopédia dizia que a doutrina da reencarnação remontava aos princípios da história registrada.. Embora fosse impossível encontrar uma definição conclusiva. E muitas vezes. Procurei por religião.va-o perigoso. o relacionamento que eu tinha comigo mesma e com os outros. Creio que era por isso que não me in- teressava no que me aconteceria depois que morresse. no fundo de quem quer que eu fosse. Desde que era muito jovem que eu me interessa- va pela identidade. escrevendo ou repre- sentando eu ficava espantada comigo mesma. quando de- parei pela primeira vez com a noção de vida antes do nascimento. havia diversas características que eram co- muns à maioria das religiões. que se alojava numa sucessão de cor- . Mas tenho de admitir que. reencarnava vezes sem conta. outra a aceitação da revelação sobrenatural e finalmente. no entanto.

talvez eu precisasse apenas sen- tir amor. Centenas de milhões de pessoas acreditavam na teoria da reen- carnação (ou qualquer outro termo possível). o Oci- dente perdera o antigo conceito de reencarnação. Nominalista e Realista O vôo de Los Angeles ao Havaí foi tranqüilo. Jesus não está morto: está bem vivo. entre o judaísmo e o cristianismo. Capítulo 4 "O segredo do mundo é que todas as coisas subsistem e não morrem. Lá estava eu. sem nunca chegar a conhecê-las realmente. Preparei-me para ir ao encontro de Gerry imaginando o que mais poderia estar acontecendo no mundo sobre o qual eu nunca pensara antes. talvez um objetivo mais profundo fosse o que parecia es- tar se me esquivando. o que quer que is- so significasse. Sabia que era muito forte o que sentia por ele. passeara e comera. Paulo. Honolulu é uma das minhas cidades prediletas. voltando mais tar- de. Sei que eu precisava. João." — Ralph Waldo Emerson. o sol vermelho se aninhando na água. mas sempre voltando a reencarnar.. Desde que podia me lembrar. Fechei a enciclopédia e fiquei pensando por algum tempo.. Em algum momento. Fui para o meu quarto e comecei a esperar. mas nenhuma religião estava desprovida da crença de que a alma existia como uma parte do homem e era imor- tal. Mas talvez não. dando para o Pacífico cadenciado e embalador. parada na sacada de mais um quarto de hotel.. por ter uma educação cristã. Esperando por um homem. Maomé ou Aristóteles também não estão mortos. Um homem parecia o alvo mais óbvio para tal sen- timento e desejo. especialmente ao . mas apenas se retiram de vista por algum tempo. depois passando algum tempo na forma astral como uma entidade desencarnada. tornando-se encarnada por um período. Esperando por um homem a quem amava ou pensava que amava. Ambos éramos ocupados e tínhamos um trabalho cria- tivo para preencher nossas vidas. eu precisava estar apaixonada.pos. esperando. Ninguém me reconhe- ceu.. sabia que iria a qualquer lugar que fosse necessário para estar em sua companhia... Não sei. Registrei-me no Kahala Hilton com outro nome. Cada religião tinha a sua própria crença sobre a origem da alma. mas eu nem mesmo sa- bia o que isso significava. Pensei também em minha ami- zade com David e imaginei com quantas outras pessoas já conversa- ra. Dormi e pensei em Gerry durante a maior parte da viagem. mas acho que precisávamos de al- go. Acreditamos em determinadas ocasiões que vemos a todos e podemos facilmente enunciar os nomes com os quais se apresentam.

Pierre Trudeau xin- gara alguém no Parlamento canadense. E. prestes a rachar. suportando os invernos ingleses. Olharia para Diamond Head e falaria sobre as palmeiras. Seu espírito parecia abrandar com a certeza de que a natureza era bela. Mas eu me ressentia com o atra- so. voltei para o quarto e li- guei a televisão. os golfinhos pulando ale- gremente no tanque de água do mar. A colcha era verde-oliva. O mundo era apenas uma bola de golfe. Precisava de espaço e desafio natural. Podia ouvir os coqueiros sussurra- rem. Olhei para o relógio. Eu queria que o presente fosse tudo o que existisse. o futuro com seu mistério. com sua paisagem interna-externa. Um coco maduro caíra. E o controle do aeroporto infor- mara que não havia problema de tempo na partida de Londres. Mais 15 minutos passaram. nadara nas águas frias do Canal da Mancha. O dólar continuava a cair. Fiquei escutando a toada da á- gua se desmanchando na praia. o bar por baixo d'água. Lá estava eu a pensar de novo em Gerry como se fosse e- le. Ele gostaria da paz en- volvente. Santo Deus. com flores marrons. Não quisera chamar muita atenção e por isso pedira apenas um quarto. Sen- tia-se calmo quando estava cercado pela natureza. Eram 15 minutos que jamais podería- mos recuperar. os vestidos soltos e estampados em co- res alegres das havaianas. Por- tanto. Aspirei o ar suave do crepúsculo. dependendo do ponto de vista. de repente.pôr-do-sol. O Ka- hala Hilton é um dos hotéis mais lindos do mundo. Eu me sentia contente por estarmos nos encontrando em Honolulu. Gerry chegaria em breve. muito embora estivesse agora apinhada de turistas em convenções. Os chineses haviam parecido . de certa forma. Sua mente podia relaxar quando estava sob uma árvore a pingar. parecia que nunca dispunha de tempo suficiente. O tempo estava bom e assim não havia atraso de qualquer vôo. Além disso. Carter estava aborrecido com Begin. O mundo era engraçado ou es- tava desmoronando. Teddy Kennedy estava abor- recido com Carter. Eu queria tanto aproveitar e desfrutar tudo o que pudesse que me sentia con- tinuamente frustrada pelo tempo de que não dispunha. Eu sabia que Gerry adoraria Honolulu. Gerry dissera que chegaria às seis e meia. Podia até parar de se preocupar com a situação do mundo e as perspectivas de sua reeleição quando o sol se erguia rosado. o passado e o futuro estavam sempre se interpondo. Mas também ele fora criado no interior da Inglaterra. Esperava que ele pudesse sentir a cidade. Já eram sete e meia. como o tempo parecia ser meu inimigo! Não importava em que estivesse en- volvida. Passeara pelas campinas inglesas. usando muumuus. Precisava fazer isso. mais forte do que qualquer outra coisa. o passado com suas conseqüências. com um passarinho sacudindo as asas molhadas. pois sabia que teríamos apenas 36 horas. ouvi um baque surdo. Corri os olhos pelo quarto do hotel. tufado. não uma suíte. O carpete no quarto era marrom. Mas era o suficiente para o tempo que Gerry e eu teríamos juntos. ele devia ter saído no horário. A vida na cidade grande o sufoca- va. carregando máquinas fotográficas. Nunca estivera lá. A primeira providência de Gerry seria sa- ir para a sacada e contemplar tudo que o cercava. Por que as cortinas sempre têm de combinar com a colcha? Especulei se Hilton faria um hotel na encosta de uma montanha na China.

mas também são bem-inten- cionadas. O telefone na mesinha-de-cabeceira tocou. — Ficamos lá por uma hora. na recepção sino-americana. A lua estava agora se elevando sobre Waikiki. resolvi vestir a minha suéter verde predileta. não apenas pelo ar- . Muito bem. — Oi! — exclamou Gerry. Eu não tragava e por isso o cigarro não me in- comodava quando cantava e dançava. Eu estava pondo a suéter pela cabeça quando ouvi-o abrir a porta e entrar no quarto. Acendi outro cigarro. Quando você chegou? — Há algumas horas — respondi.. precisava de um companheiro silen- cioso. Cuidarei disso e depois irei para aí. Não podia imaginar como Gerry chegaria ao meu quar- to sem ser reconhecido. E já o fizera. Gerry tentara deixar de fumar um ano an- tes e agora me censurava continuamente por nem sequer tentar.. Alguém es- tava supostamente desembarcando nossa bagagem. E finalmente cuidei de tudo pessoalmente. Diamond Head era um casco preto no reflexo do mar. Mas não havia ninguém. enquanto nos dizia para esperar. Eu podia entender. mas não podia vê-lo porque a lã prendera no brinco. a fim de que Gerry não ti- vesse de bater e ficar esperando que eu atendesse. o mais depressa que puder. reprimi a minha irri- tação pelo comentário chauvinista de Gerry a respeito das mulhe- res. Talvez ele tivesse perdido o a- vião em Londres. sem querer dizer como contara cada minuto desperdiçado. Sabia que ele estava ali.ridículos. como se não estivéssemos separados há semanas. Estou ansioso em vê-la. Desliguei. Derreti-me ao ouvir a voz tão serena. — Fomos para um salão de recepção assim que desembarcamos no aeroporto — explicou Gerry. Abri a porta. mas sem interferir. — Mulheres ilustres? — Isso mesmo. — Tenho de me livrar de algumas mulheres ilustres que querem tomar um drinque com a nossa delegação. alguma coisa que estivesse presente e ardesse lentamente. Ele dizia que fumava porque estava sempre entrando em salas onde havia outra pessoa fumando. tornei a me olhar no espelho. O corredor fer- vilhava de agentes do Serviço Secreto e políticos visitantes do mundo inteiro. Mas sempre que tinha de tomar decisões importantes. Mas deixava-me a garganta dolo- rida e me provocava acessos de tosse. Mas eu não podia ficar sem ele. Ele falava de maneira diferente quando estava longe de seu escritório. dançando aos acordes de Staying Alive. E como um bilhão de chine- ses poderiam mudar tanto em sua longa luta para alcançar a moder- nização? Valeria a pena? Eu já não sabia mais o que valia a pena. deixando-a encostada. Meus olhos estavam repletos de lã verde. uma porção de vezes. Senti que ofegava. Calculei que a reunião para discutir os problemas Norte-Sul poderia se realizar sem a sua presença. de Saturday Ni- ght Fever. Eram quase oito ho- ras. eu deixaria de fumar quando Gerry chegasse e veria se ele era também capaz de fa- zê-lo. Também podia deixar de fumar. Elas são ridículas. Gerry beijou-me o pescoço. Senti os seus braços me en- laçarem pela cintura.

ele deu a volta pelo quarto e disse que era igualzinho ao seu. — Não acha que é um paraíso? — Ele pegou meu braço. Vamos comer. quem pagaria para as- sistir a filmes assim? — A coisa é muito difícil — comentou Gerry. Fica muito bem em você. Era difícil decifrar o povo . quase pintadas no céu. Parecia que ninguém mais sabia como escrever papéis femininos. Ou pelo menos os escritores do sexo masculino não sabiam. — Estamos tendo problemas em Londres. sim. Gerry? Você tem passado bem? — Muito bem. — Parecem irreais. mas também porque a suéter estava me rasgando a orelha perfurada. além de alguma coisa para comer. — Está com fome? Deve estar. — E que mais? Isso é o que você sempre diz. Como está sua vida? Falei sobre a nova coreografia para o meu show. — Eu também. Peguei o telefone e pedi dois Mai-Tais. Gerry não sabia o que eram Mai-Tais. porque ninguém sabia o que as mulheres realmente queriam. Gerry tomou seu Mai-Tai através de uma cereja flutuando no co- po. — Gosto dessa cor. Sempre está. contemplou-me da cabeça aos pés. Aquilo é Diamond Head? — É. Estava lá quando o garçom chegou. sim. Eram compri- das demais para a banheira. — Já estou com problemas demais tentando adivinhar o que as pessoas querem. E quem se importava com isso? Em termos de diversão. sobre os exer- cícios que fazia todos os dias para me manter em forma. Gerry enfiou a mão por baixo da suéter e encontrou meu rosto através da lã: — Não se mexa — disse ele. Cobri as travessas com a co- mida e levei os Mai-Tais para o banheiro. encaminhou-se para a sacada em seguida e olhou para Diamond Head. Declarei que podia entender a posição dele. enquanto ele tomava banho. Hesitei por um instante e de- pois respondi que não sabia direito. Recuou um pouco. — Olhe só para aquelas palmeiras — murmurou Gerry. Mas já leu a respeito. Achou graça de eu pedir abacaxi extra e foi ao banheiro para tomar um banho. Não podia me mexer. E agora dei- xe-me ajudá-la. Parece uma tela de fundo. Gerry soltou o brinco e depois beijou-me a orelha. não apenas o que as mulheres querem. E as mulheres que escreviam só sabiam mos- trar como as mulheres eram infelizes e insatisfeitas. Jogou a água quente cheia de espuma pelas pernas. Gerry indagou o que estava acontecendo na América. como era difícil encontrar roteiros de filmes com bons papéis para mulhe- res... sobre as dietas de alimentos naturais que vinha experimentando. — Gosto de você assim. — Estou. E não deve se preocupar comigo. — Como estão as coisas. Aco- modou-se na banheira. mas temos uma economia que está desmoronando para todos e não tenho certeza se conseguiremos nos recuperar. Depois. passou-o por sua cintura. Não quero parecer arrogante. mas é real. E como eu previra.dor de sua boca. Ele perguntou por que e respondi que devia ter alguma relação com uma reação ao feminismo militante. Sentei no vaso.

— Talvez você este- ja certo.. — Por que você diz "Claro que não"? — Ora. mas mais do que apenas uns poucos milhões de pessoas a- creditam nisso. não queria entrar na banheira com ele. Não posso culpá-los.. mas de certa forma sentia que sa- bia.americano. Talvez eles tenham alguma coisa. Ca- çoamos um do outro. derramando-se por seus olhos. esses pobres-diabos não têm qual- quer outra coisa na vida. Depois de um momento murmurei: — Gerry. como se estivessem convencidos de que será melhor na próxima vez e que esta não é tão importante assim. enquanto conversávamos. Conversamos sobre Carter. porque sentia que era quase excessivamente explo- sivo. — Deus do céu. em seus próprios termos. — O que é? — Você acredita na reencarnação? — Reencarnação? — Ele estava atônito. O importante não era o que dizíamos. Mas se a- creditassem um pouco mais no aqui e agora. Gerry recostou-se na banheira e fechou os olhos. — Pessoas que não po- dem aceitar a vida como é aqui e agora. Ob- servávamos um ao outro com uma dupla fascinação. Gostava da sensação de contenção e de comunicação no nível duplo. Mas o que eu . adorando nos saborear mutuamente. sentem a necessidade de acreditar em tais fantasias. Ou melhor. até mesmo sobre Idi Amin e energia solar. inflação. nas expressões. o dólar. porque é uma fantasia. é claro. Era um artista mesmerizado por outro. a alta dos preços da OPEP ou os papéis femininos nos filmes. Apenas existem. mas sim como dizíamos. Ele escutava e ouvia as minhas pa- lavras. Eu não queria me inclinar e tocá-lo ou beijá-lo. cada palavra desencadeando pequenas centelhas e explosões em nossas cabeças. Não importava se a conversa era sobre uma nova proposta fiscal. per que pergunta isso? Claro que não. — Como assim? — Eles não cuidam de suas vidas como se pudessem melhorá-las. Observei como seu pênis flutuava. Eu dizia alguma coisa sobre os campos petrolíferos do Irã e a necessidade dos trabalha- dores se sindicalizarem. Era disso que gostávamos. Gostava da sensação de usar palavras para controlar o que havia por baixo. no jeito em que um apoiava a cabeça na mão para tentar se concen- trar. — Eu me sentia um tanto magoada por ele ter es- carnecido da teoria de maneira tão retumbante. — Claro que têm. Contemplei o corpo de Gerry na água quente. — É possível. A espuma se acumu- lava nos contornos de sua pele. o trabalho de pessoas como eu se tornaria muito mais fácil. Perguntei a ele o que estava acontecendo no mundo. sorríamos e escutávamos. mas eu podia sentir um vulcão entrando lentamente em erup- ção dentro dele. Não sabia direito por quê. Era como se estivéssemos fazendo amor com as nossas mentes num nível duplo. apesar de estarmos falando sobre coisas que nada tinham a ver conosco. Gerry se derretia por trás dos olhos como manteiga na frigideira quente. Imaginei qual seria a sensação. Encontrávamos al- go especial na maneira como nossas mãos se mexiam. — Ele riu. Ele abriu os olhos.

Lembrei o rosto suplicante de Warren a se fixar em papai. Que mal poderia fa- zer? Eu entendia a alegação de Gerry sobre as pessoas não assu- mirem a responsabilidade por seus próprios destinos aqui e agora. É apenas um banheiro. jogara meu secador de cabe- los no espelho. Parecia uma boa dimensão para explorar. Todo o hotel é maravilhoso. — Isto está maravilhoso — disse Gerry. Pensei no primeiro jantar formal que oferecera na Califórnia. anos antes. Ela pusera Warren na ba- nheira e eu ficara ouvindo os seus gritos angustiados. Lembrei o dia em que Warren caíra numa garrafa de leite quebrada e papai o levara correndo para o banheiro. — Não sei. é fazer alguma coisa pelo desespero das vidas das pessoas agora. Apenas uma piada irlan- desa para um inglês. Um banheiro era um lugar íntimo e primitivo. Ficara tão nervosa e incapaz de assumir o papel de anfitriã que sentara no banheiro até o jantar acabar. Der- rubara violentamente os copos na pia. Eu não me sentia absolutamente amea- çada. Pensei no dia de inverno de frio intenso em que Warren e eu brincáramos em poças de lama congelada. mas é confortável. . enquanto dizia: — Não deixe doer. Não podia entender por quê. se pode me entender. Mas como se podia conciliar a injustiça do acaso de nascimento na pobreza e privação quando outros nasciam no conforto e luxo? A vi- da seria realmente tão cruel? A vida era simplesmente um acidente? Aceitar isso parecia de repente muito fácil. Mas Reilly também não acredita.quero. é o que eu respeito. É tudo o que temos. Mas por que perguntou? Acredita nessas bobagens? Fiquei desconcertada com a descortesia. Lembrei de ter me olhado no espelho por cima da pia. A metafísica é capaz de deixar as pessoas perturbadas. Pensei na ocasião. A banheira é um pouco pe- quena. Gerry sorriu e acenou com a cabeça. mexendo-se na água cheia de espuma. imaginando o que havia de errado comigo. vomitara na pia. os fragmentos caindo na banheira. Tratei de afastar a mente dos meus pensamentos. Eu tinha seis anos e ele estava com três. — Reilly? Como assim? — É apenas uma piada irlandesa. mas é o melhor do mundo porque você está sentada aqui. Não exatamente. papai. Perdera o papel principal num balé na escola que sonhara em fazer por cinco anos. Gostaria que ele ti- vesse a mente bastante aberta para ao menos discutir o assunto. em que um amante meu quebrara o banheiro de um quarto de hotel em Washington. E antes de perceber o que estava acon- tecendo. — O banheiro é ótimo. mas especi- almente este banheiro. — Banheiros são lugares íntimos. não é mesmo? Se você se sente à vontade com outra pessoa no banheiro. estendendo o seu braço a sangrar sobre a banheira. um lugar para as coisas básicas. Shirl. Discutíramos no quarto por causa do ciúme dele. até mesmo indolente. Gerry. Pensei depois num incidente da minha infância. Ele passou uma das mãos pela água e tornou a fechar os olhos. mas ele fora ao banheiro para se tornar violento. então é porque há alguma coisa muito importante entre os dois. pensei. Mamãe ficara furiosa.

— Sua filha jogou fora os meus sapatos prediletos? — Isso mesmo. — Não. observando-o enxugar as costas. Achou que eu deveria ter sapatos novos e por is- so jogou-os fora. era um banheiro bem iluminado. Ajudava-me a fazer as tran- sições da depressão. É doce demais para mim. Ajudava-me a en- trar em contato comigo mesma. — Todo o meu dia parece girar em torno do momento em que posso encontrar a privacidade necessária para falar com você. Gerry inclinou-se para a frente. — Lembra daqueles sapatos velhos que você adorava me ver usar em todas as ocasiões. sentia-me feliz se sabia que havia uma linda banheira. — Posso então comê-la? Dei a ele e depois peguei-lhe a mão. na expectativa do que eu di- ria. íntimo. — Minha filha jogou-os no lixo. relaxante e necessário que eu podia encontrar. Ele nem percebeu que eu estava comendo com a faca. a fim de que ele não sentisse frio. — Tam- bém seria difícil para mim. às seis horas. Aliviava as pernas doloridas. num lindo banheiro. Coordenava meu corpo e mente. Saindo da banheira e come- çando a se enxugar. com uma banheira limpa. crescido demais. um tanto rude. enquanto me levava para o quarto. — Como assim? — indaguei. um sorriso quase perdido no rosto. você estava absoluta- mente certa a esse respeito. segurando a toalha. — Mas quer saber de uma coisa? Estou obcecado por sua voz e não gosto de me sentir obcecado. Despertava-me. enquanto começava a comer. E sempre que eu passava um dia inteiro fora. Fitei-o atentamente. em qualquer parte do mundo onde estivesse. — Sei disso — murmurei. quando voltasse para casa. Eu estou pagando as contas pessoal- mente. com ou sem contribuintes. Gerry terminou seu Mai-Tai e entregou-me o copo. Lembrei de uma empregada minha que se retirava para o banheiro todas as tardes. esperanças e espí- rito. Punha-me para dormir. ele disse: — Fico contente por existir essa coisa que se chama telefone. Shirl? — Acenei com a cabeça. estremecendo ligeiramente. proporcionava-me uma explosão de novas idéias. — Não vai comer sua cereja? Parado ao lado da banheira. Por falar nisso. Seria muito difícil para mim se não pudesse falar com você durante todas essas semanas. Ajeitei mi- nha capa sobre os seus ombros. acendia uma vela na banheira e re- zava. O garçom trouxera apenas um garfo. confortável. Não tinha a menor idéia do . Isso esgo- ta a minha energia e não gosto da sensação. Sentamos para comer a refeição de frutos do mar que estava agora fria. ele olhou para o meu copo vazio. cheia de água quente. Entreguei-o a Ger- ry. O que ele estava querendo dizer? Deixava- me apreensiva. Gerry parecia um querubim limpo. E lembrei como o lugar mais importante. Lavou-se e pediu-me que lhe esfregasse as costas. à minha espera. confusão e trabalho puxado. que poderia encher com água quente.

Mesmo contra a minha vontade. a não ser quando ele próprio chamava atenção para o fato. a capa caindo dos ombros. Por um breve instante. Shirl. Ergueu- me acima dos ombros e apertou-me com força. ele não escarneceu de minha noção. Mas. Suas mãos quentes e macias estavam por toda parte de meu corpo. Então por que não fazemos nada e por enquanto nos limi- tamos a desfrutar o que temos? — Mas quero ser justo com você. Eu podia sentir que meu coração parava. E também não sei o que fazer. por isso. — Faça o que achar melhor para você. — Como consegue conservar as unhas tão compridas. — Acho que tenho de esfriar meus sentimentos. a observar o dedo subir e descer. E se dissipar minhas energias agora. a fim de verificar a reação de Gerry. — Sabe. peguei seus cabelos.. meneando o dedo mínimo. Mas devem ser muito fortes. — Nunca antes tive uma experiência assim. Nada sequer parecido. falando sério. recendia a VitaBath. não pos- so evitar. do qual faltava quase a metade da articulação superior. Depois. Ficamos deitados juntos.. acho que tenho o artritismo porque estou esgo- tando a minha energia. Te- . — Talvez tenha- mos deixado coisas para resolver entre nós e precisamos defini-las nesta vida. E não teve e- xercício. O nariz colidiu com o meu e esmagou-o. Quero ser justo com todo mun- do. E não sei por que me sinto tão atraído por você. — Provavelmente não teve vitamina C suficiente. não sei por quê. — Virei a cabeça rapidamente. Sabia que a vida é constituída por insights pequenos pa- ra ofuscantes? — Claro. por estar obcecado demais por você. Preciso re- cuperar o equilíbrio. Estava atônito.que ele esperava que eu dissesse. congelado. Fiquei olhando para as minhas unhas compridas. Ele se levantou de um pulo. Não sei o que penso a respeito. Abri os olhos e contemplei seu rosto.. o rosto se desanuviou e ele sorriu. — Talvez tenhamos tido outra vida em comum. — Entendo perfeitamente o que está dizendo. Curara tão bem que mal se percebia que havia algo errado no dedo. A pele de Gerry era quente e cremosa. Shirl. Acho que são lindas. Sempre coloquei meu trabalho em primeiro lugar. claro. rindo e depois me jo- gando na cama. Ele levantou a mão esquerda pelo ar. É is- so mesmo. E quero que você saiba disso. Sentei na cama. E Gerry disse agora: — Tenho artritismo neste dedo e dói bastante. Entendo perfeitamente. puxei. tudo ao mesmo tempo. Shirl? — Acha que são muito compridas? — Não. perdida num acidente extravagante quando era pequeno. perderei tudo por que sempre trabalhei.. Os cabelos roçavam em meu rosto. Só recentemente é que se desenvolveu. murmurei: — Talvez eles também recendessem a perfume. extasia- do e abandonado. Um rubor de confusão espalhou-se pelo rosto de Gerry. Ele tremia ligeiramente e me abraçou firme. não sei o que quero fa- zer em relação a nós. E. — Claro.

Isso é um problema e tanto para mim. — Pois então aproveite mais de mim. Como a maioria das pessoas. fitei-o nos olhos. Ele se mostrara cético em relação ao meu entusiasmo pela maneira como os chineses haviam lutado para conquistar sua nova identidade. Penso em tudo o mais que deveria estar fazendo. Pensei por um momento e depois res- pondi. Não posso pensar em mim mesmo em primeiro lugar. — Não posso. O que há de errado nisso? — Isso significaria renunciar a outra coisa. ele julgava que eu fora ingênua ao ficar tão impressionada com a revolução chinesa. Não quero desapontá-la. — Por que não pensa apenas no que está fazendo? — Porque sempre sinto que deveria estar fazendo outra coisa. E não vou pensar. — Talvez devesse. Não preciso de qualquer espécie de compromisso de você. Talvez pudesse ajudar mais às pessoas se de- terminasse quem você é. — E acrescentou. com convicção: — Não. — Talvez não custasse tanto se você dedicasse mais tempo a sentir que merece alguma felicidade. O que há de errado nisso? Talvez a vida devesse incluir todas as dimensões que ainda não ti- vemos a coragem de assumir. suspirei. mais eu quero. Pode ter tudo. . Basta apenas saber que vo- cê é feliz quando está comigo e de alguma forma acabaremos defi- nindo tudo. Gerry respirou fundo. Pensou então em acabar tudo en- tre nós? Em se afastar? Ele respondeu prontamente. — Mas quanto mais tenho você. — Nunca pensei. não é mesmo? Acrescente mais uma dimensão à sua vida. Acho que pode ter tudo o que já possui e a mim também. — Por quê? — Porque não tenho tempo para você e também para o resto da minha vida. — Mas o que faz consigo mesmo? Por que não se divertir mais quando pode? O que há de errado em se divertir? Por que acha que não merece momentos de prazer? — Porque tenho coisas melhores a fazer com a minha vida do que desfrutar momentos de prazer. — Mas estou terrivelmente perturbado pela possibilidade de que possa ser um desapontamento para você. O que você quer de mim? Ele me pegou desprevenida.Já sei de tudo isso. Eu explicara como os chineses haviam melhorado em comparação com o . Também não compreendo por que estamos juntos. com uma ansiedade genuína estampada no rosto: — Você pensou nisso? — Não — menti. Lembrei de um repórter que me entrevistara assim que eu vol- tara da China. — Da mesma maneira como não quer desapontar os eleitores? — Tenho de lhe perguntar uma coisa. Nem mesmo o quero. Mas não quero que você te- nha de optar entre outra pessoa ou coisa e eu. Shirl. como se soubesse durante todo o tempo: — Quero que sejamos felizes quando estivermos juntos.nho muita coisa para fazer nos próximos 11 meses e reluto em me dividir. Gerry. Virei-me.

Nenhum dos dois se importava. afora isso. E é por isso que não acre- dito em mim mesmo. Ele estava agora chegando ao fim da vida. ele parecia extrema- mente vulnerável.. Até mesmo eu. era um violinista excepcional. proporcionando uma mãe para o bebê.. Mas ele se sentia culpado agora por pensar que estava enganando a si mesmo? Pensei numa conversa que tivera recentemente com meu pai. minha mãe andava doente.. sem a ajuda do resto do mundo. Com todo o seu domínio vigoroso.. sonhe ou se a- treva a ser o que quer. eles se atreviam a acreditar em si mesmos apenas. julgara ter compreendido por que as pessoas ficavam tão transtornadas com o sucesso da revolução chinesa. Gerry adormeceu a me abraçar. ou pelo menos as- sim pensava. Mamãe me chamara. Há anos que todos tínhamos medo das conseqüências do . não podia confiar em si mesmo. In- dependente do sistema. Fala que jamais poderemos chegar a algum lugar se eu não acreditar mais em mim mesmo. Ele se sentia indigno. E armei uma série de posições cínicas e eloqüentes como jornalista. Meus pensamentos se preocupavam com a incerteza interior daquele homem tão forte. porque ao final acabaria sendo esmagado. No sono. Papai estava ao seu lado enquanto ela me falava pelo telefone. a ira se convertera em lágri- mas. O que você disse é exatamen- te o motivo pelo qual meu casamento está desmoronando. Naquele momento. franca e abertamente. Eu perguntara ao repórter: se era apenas propaganda. se eu não acreditar que posso ser feliz. Assim. Ele se considerava de alguma forma responsável pela tragédia do seu primeiro e breve casamento. — O que está querendo insinuar com essa história de acredita- rem em si mesmos? Não passa de propaganda e você engoliu di- reitinho. por que ele estava tão transtornado pela idéia de que se pode fazer e ter qualquer coisa? E. para meu espanto. E sempre bebera demais. Dei- xara o meu apartamento em Nova York e cinco horas depois me tele- fonara: — Passei a noite inteira guiando. Ultimamente. Isso deixara o repórter furioso. Eu compreendera que ele estava falando a respeito de si mesmo. Minha mu- lher diz a mesma coisa. ele também nunca acreditara em si mesmo. um bom professor e um pensador perceptivo. Foi por isso que fiquei tão transtornado com você. Além de ser um ator extraordinário da vida real. acrescentando que a coisa que mais me comovera fora o modo como eles pareciam acreditar profundamente em si mes- mos. porque a mulher morrera no parto? O segundo casamento fora oportuno para ele e pessoalmente conveniente. Ele dissera que ninguém tinha o direito de acreditar que po- dia fazer ou ter qualquer coisa. de não ser bastante forte. tendo feito uma operação grande de bacia. E era uma das pessoas mais talentosas que eu já conhecera. desde o princípio da manhã. Papai se con- frontara com a perspectiva do que faria sem ela e passara a beber muito.passado recente. como posso levar a sério quem o faz? Eu respondera que esperava que ele escrevesse uma boa matéria e lhe desejara boa sorte. mais preocu- pada do que jamais ficara antes com a possibilidade de papai estar desta vez realmente se matando. a fim de poder escarnecer de quem quer que espere. Tenho medo de não ser capaz.

muito que papai bebia e o medo culminava naquele telefonema.
— Estou muito preocupada com ele, Shirl — dissera mamãe. — E
nada posso fazer para ajudá-lo. Você sabe que ele é um homem de
bem e de talento. Mas ele próprio não acredita nisso.
Eu pedira a ela que me deixasse falar com papai.
— Oi, Monkey — dissera ele, me chamando pelo apelido.
Eu o vira sentado em sua poltrona predileta, a estante de ca-
chimbo ao lado, o telefone ajeitado no ombro. Pudera senti-lo a
pegar o cachimbo e acender, com o isqueiro velho que eu lhe trou-
xera da Inglaterra.
— Vamos ser objetivos, está bem, papai?
— Claro.
— Por que está bebendo tanto agora?
Eu nunca lhe fizera essa pergunta. Jamais fora capaz, prova-
velmente porque tinha medo de que ele me respondesse.
Papai começara a chorar. Era disso que eu tinha medo. Jamais
quisera ver papai desmoronar abertamente. E, depois, ele dissera:
— Porque desperdicei a minha vida. Posso ter me comportado co-
mo se fosse forte, mas isso aconteceu porque nunca acreditei que
pudesse fazer alguma coisa. Minha mãe ensinou-me bem demais a ter
medo. E não consigo agüentar sempre que penso em todo o medo que
sinto. E por isso tenho de beber.
Quase que dera para eu ver suas mãos tremendo, como acontecia
sempre que ele queria se alienar de qualquer emoção que pudesse
estar demonstrando.
— Eu o amo, papai. — Eu também começara a chorar. Sentia de
alguma forma que nunca antes lhe dissera isso de verdade. — Pense
em tudo o que fez. Criou a Warren e a mim. Isso não significa na-
da?
— Mas sei que vocês dois não queriam ser como eu. É por isso
que se tornaram o que são. Não queriam ser como eu.
Estávamos ambos chorando e tentando falar em meio às lágrimas.
E eu ficara imaginando se não caíra alguma cinza no chão.
— Não é bem assim, papai. Nós apenas fizemos mais com a ajuda
que você nos deu do que você poderia fazer com a ajuda que nunca
teve.
— Mas eu me sinto imprestável quando comparo o que não fiz com
o que consegui.
— Mas ainda há tempo, papai.
— Como? De que maneira?
Ele tentara limpar a garganta. Eu me perguntara se mamãe esta-
ria observando-o.
— Por que não pega uma caneta e papel e anota os sentimentos
cada vez que se sente imprestável? Aposto que poderia oferecer al-
gumas idéias extraordinárias sobre o sentimento de se sentir im-
prestável.
Ele passara a soluçar.
— Penso às vezes que não conseguirei mais agüentar... e se eu
beber bastante, não terei de me incomodar em despertar pela manhã.
Eu engolira em seco, angustiada.
— Nunca lhe pedi para me prometer qualquer coisa, em toda a
minha vida, não é mesmo, papai?
— Não, Monkey, nunca me pediu isso.

— E poderia me prometer uma coisa agora?
— Qualquer coisa. O que você quer?
— Vai me prometer que, ao invés de beber, escreverá todos os
dias pelo menos uma página sobre o que está sentindo?
— Eu escrever? Ora, ficaria envergonhado demais se alguém les-
se.
— Pois então não deixe ninguém ler. Escreva apenas para você
mesmo.
— Mas não tenho coisa alguma para dizer!
— Como pode saber se nunca tentou?
Eu pudera vê-lo a tirar um fio do ombro esquerdo. E o ouvira
tossir.
— Não posso escrever a meu respeito. Nem mesmo posso pensar em
mim mesmo.
— Pois então escreva a meu respeito, de mamãe ou de Warren.
— Sobre você e Warren?
— Isso mesmo.
— Muitas pessoas gostariam de ler o que eu escrevesse, não é
mesmo?
O tom fora sarcástico, mas eu sabia que ele estava sorrindo.
— Apenas por ser pelo seu ponto de vista.
— Acha mesmo?
— Claro que sim.
Eu pudera vê-lo começar a se balançar na cadeira.
— A velha Sra. Hannah, minha professora no segundo ano, disse
certa ocasião que eu deveria escrever. Mais do que isso, disse que
eu deveria falar menos e escrever mais.
— É mesmo?
Jamais esquecera como papai sempre falava da Sra. Hannah quan-
do eu era pequena. Ela tinha um carro velho que papai adorava con-
sertar.
— A velha Sra. Hannah tinha um carro terrível. Estaria melhor
com um cavalo e uma charrete. Mas aquele maldito carro era como
uma pessoa para ela. E um dia, num campo de feno...
— Ei, papai, tem uma idéia aí... por que não começa escrevendo
sobre o carro da Sra. Hannah no campo de feno? Não desperdice a
história falando.
— É assim que funciona? — indagara ele, limpando a garganta e
parecendo divertido e malicioso. — Está querendo dizer que eu po-
deria ter feito um livro em todas as ocasiões que contei uma his-
tória?
— Exatamente. A Sra. Hannah não lhe dizia sempre que falava
demais e por muito tempo, sem nada para mostrar depois?
— Tem razão, ela dizia isso. Mas era uma mulher terrível.
Queimou o estábulo para receber o dinheiro do seguro e depois fu-
giu com o cara que lhe vendera a apólice.
— Ela parece uma boa personagem para se escrever a respeito.
— Você leria o que eu escrevesse?
— Claro. E já estou aguardando na maior ansiedade. Mande para
Nova York. Chegará às minhas mãos, onde quer que eu esteja.
— Acha mesmo que tenho alguma coisa para dizer?
— Há mais de 40 anos que venho escutando você, acho que é en-
graçado e comovente. Por que não escreve a respeito de seu cachim-

bo?
A esta altura, nós dois já paráramos de chorar.
— Vai escrever, papai? Vai tentar?
— Acho que tenho, não é mesmo, Monkey?
— Claro que tem.
— Pois então prometo.
— Eu o amo, papai.
— Eu a amo, Monkey.
Desligáramos. Eu ficara circulando pela casa, chorando, por
mais uma hora. Voltara depois ao telefone e ligara para um floris-
ta. Encomendara uma rosa por dia, durante um mês, com um bilhete
anexo: "Uma rosa por uma página. Eu o amo."
Papai tem escrito intermitentemente desde então. Não sei se
ele se tornou totalmente abstêmio. Mas também nenhum escritor que
eu conheço o é. Mas gostaria que a velha Sra. Hannah tivesse men-
cionado o talento de papai e a sua convicção nele com mais fre-
qüência.
Os bilhetes que ele me envia são curtos e cada um conta uma
história... uma história da vida de um homem que me influenciou
profundamente, porque inadvertidamente me ensinou a amar homens
brilhantes e complicados, que precisavam de alguém para ajudá-los
a se descobrirem.

Capítulo 5

"Duvido muito que algum de nós tenha a menor idéia do que se chama
de realidade da existência de qualquer coisa que não seja os nos-
sos próprios egos."

— A. Eddington, A Natureza do Mundo Físico

Gerry e eu dormimos. Sempre que nos mexíamos, ajustávamo-nos
ainda mais um ao outro, não deixando o menor espaço entre os cor-
pos. Em determinado momento, ele murmurou alguma coisa sobre um
telefonema para acordá-lo, a fim de que sua delegação não ficasse
especulando sobre o seu paradeiro pela manhã. Liguei para a tele-
fonista e depois fiquei esperando acordada pelo amanhecer, quando
Gerry teria de se retirar. Senti-me desamparada enquanto o obser-
vava dormir. Ele se fora. Os olhos fechados, estava perdido em seu
próprio inconsciente. Observei-o dormir até que finalmente voltei
a pegar no sono. Enquanto dormia, imagens de meu pai e Gerry se
esbarravam no sonho.
Quando a telefonista ligou, ao amanhecer, Gerry sentou na cama
abruptamente, como se uma corneta o chamasse para o cumprimento do
dever. Beijou-me rapidamente, vestiu-se e disse que voltaria assim
que se livrasse de seu assessor de imprensa e dos repórteres.

— Provavelmente tomarei o café da manhã com eles. Sendo assim,
Shirl, por que você não come agora? Direi a todos na delegação que
estou exausto da viagem e poderemos passar o dia inteiro juntos.
Ele saiu antes que eu percebesse que esquecera uma das meias.
Pedi papaia e torradas, comi na sacada. Lá embaixo, um atendente
estava alimentando os golfinhos. Lembrei como Sachi costumava mon-
tar em golfinhos, quando era pequena e nos encontráramos com Steve
no Havaí, no meio do caminho para o Japão. Ela costumava dizer que
compreendia os golfinhos e que eram seus companheiros de brinca-
deiras.
Lá embaixo, em algum lugar, podia ouvir jornalistas falando
sobre as boas matérias que se poderia conseguir no Havaí. Em meio
aos gracejos profissionais, houve especulações sobre as experiên-
cias do Dr. Lilly com golfinhos. Fiquei pensando se os golfinhos
seriam realmente tão inteligentes como os cientistas diziam ou se
podiam ter desenvolvido a sua própria linguagem. Lembrei de alguém
me dizer certa ocasião que nos cérebros grandes dos golfinhos es-
tavam alojados todos os segredos de uma vasta civilização perdida
chamada Lemúria. Eu já ouvira falar sobre Atlântida, mas Lemúria
era-me desconhecida.
Observei os agentes do Serviço Secreto e os jornalistas que
estavam observando os golfinhos. Não podia imaginar como Gerry e
eu conseguiríamos chegar ao fim do dia sem sermos reconhecidos.
Ele me telefonou cerca de uma hora depois:
— Encontre-se comigo na praia à esquerda do hotel. Quase todos
estarão ocupados no local da conferência. Estarei lá dentro de 15
minutos.
Vesti um jeans e uma blusa, por cima de uma roupa de banho.
Amarrei um lenço na cabeça e pus óculos escuros, de aros pretos.
Ninguém me notou quando atravessei o saguão e passei pela en-
trada do hotel. Mas fiquei com receio de parar por um instante e
observar os golfinhos, por causa dos jornalistas. Contornei apres-
sadamente a piscina e avancei pela areia quente, onde os turistas
já se acomodavam, os rádios tocando rock, estrondosamente. O chei-
ro de óleo de bronzear à base de coco pairava pelo ar.
Fui andando pela beira da praia, onde as ondas de um azul cla-
ro se desmanchavam na areia, seguindo para a esquerda. Ainda não
havia ninguém nadando. As palmeiras se inclinavam ao vento alísio
ameno. Fiz algumas flexões na água rasa, já que não fizera a minha
ginástica pela manhã. Meu show parecia estar a meia vida de dis-
tância.
Parei algumas centenas de metros adiante, na praia vazia, sen-
tei na areia, levantei a cabeça para o sol e fiquei esperando por
Gerry. A sensação era de uma coisa quase normal, quase humana.
Mais do que qualquer outra coisa, eu detestava o sigilo. Não gos-
tava de me sentir furtiva, clandestina, desonesta. Doía demais.
Esperava que Gerry não encontrasse nisso uma emoção perigosa, como
acontecia com algumas pessoas.
Ele usava uma calça caqui e camisa branca solta. Fiquei obser-
vando-o se aproximar, pela beira d'água. Os braços balançavam para
longe do corpo, uma das mãos segurava um par de sandálias. Ele não
acenou quando me viu. Levantei e fui ao seu encontro na água rasa,
a fim de continuarmos a andar.

— Então você tem mesmo outro par de sapatos, Gerry.
— Meus sapatos de férias.
Ele riu e me afagou o rosto.
— A sua delegação aceitou a história da exaustão da viagem?
— Claro. Todos estão fazendo a mesma coisa. Uma conferência no
Havaí é sempre uma tentação.
Gerry prendeu as sandálias juntas, pendurou-as no ombro e pe-
gou-me a mão, quando já estávamos bem longe do hotel. Encostei a
cabeça em seu ombro e fomos andando.
Encontramos um recife de coral que se projetava pelo mar. A
sensação era de que estávamos andando na água. Gerry gracejou, co-
mentando que todos julgavam que era isso o que ele alegava ser ca-
paz de fazer. O coral era afiado. Paramos e ficamos contemplando
as ondas grandes que quebravam mais além.
— Sabe deslizar nas ondas, Shirl?
— Fazia isso quando tinha 20 anos... antes de ficar bastante
velha para sentir medo.
Lembrei como era despreocupada com o meu corpo. Nunca me ocor-
rera que poderia fraturar alguma coisa ou que algo poderia sair
errado. Agora, tinha de pensar em tudo o que podia acontecer, mes-
mo quando saltava de um táxi. Se torcesse um tornozelo ou desse
uma pancada com o joelho, isso poderia interferir com a minha dan-
ça. Quando era mais jovem, eu dançava Com mais inconseqüência. A-
cho até que fazia tudo sem pensar muito. E também me divertia ma-
ravilhosamente. Com o ingresso na vida adulta, fora me tornando
cada vez mais consciente das conseqüências de tudo o que fazia,
quer fosse mergulhar nas ondas ou ter uma ligação amorosa.
A percepção não diminuía a diversão ou a admiração. Ao con-
trário, eu queria agora aprender a viver totalmente no agora... no
presente, com uma plenitude confirmada de que era tudo o que real-
mente existia. Se eu vivera outras vidas no passado e provavel-
mente viveria outras vidas no futuro, a crença nisso serviria ape-
nas para intensificar o empenho de coração e alma no presente.
A reencarnação era um conceito novo para mim, é claro, mas eu
descobria que, cada vez que pensava a respeito, extraía um grande
prazer das implicações. O tempo e o espaço eram tão irresistivel-
mente infinitos que serviam para mostrar à pessoa como eram pre-
ciosos todos e cada momento na Terra? Minha mente precisava dar
saltos quantitativos de imaginação para outras realidades possí-
veis, a fim de apreciar a alegria da realidade agora? Ou a verda-
deira alegria e felicidade estavam na inclusão de todas essas ou-
tras realidades, que na verdade expandiam a consciência da pessoa
da realidade do agora?
Expansão da percepção. Era essa a expressão que tantas pessoas
estavam usando cada vez mais. Não se precisava trocar uma percep-
ção antiga por outra nova. Podia-se simplesmente expandir e elevar
a percepção que já se possuía. Uma percepção expandida simplesmen-
te reconhecia a existência de dimensões anteriormente não reconhe-
cidas... dimensões de espaço, tempo, cor, som, sabor, alegria e
assim por diante. O conflito entre Gerry e eu seria simplesmente
uma diferença no movimento para uma percepção expandida? Talvez eu
estivesse tentando forçá-lo a um ritmo que era o meu e não o seu.
E também não se podia julgar o ritmo dele. Apenas era diferente.

eu teria de dizer que toda a . uma decorrência em parte da curiosidade intensa e em parte da impaciência. ocupado por arbustos den- sos. Fomos nos afastando de Diamond Head. uma dessas violentas tem- pestades tropicais. Waikiki e Kahala. foi a coisa mais feliz que já fiz — disse Gerry. Não demorou muito para que estivéssemos andando com os corpos colados. Ha- via cocos maduros espalhados pelo chão.. saiu correndo para o mar. observando-o. sob a árvore. Gerry me abraçou e olhou para o mar. Fiquei com algum receio e comecei a boiar nas ondas.. Tirei o jeans e a blusa. — Não quer nadar na chuva. Era maravilhoso demais para se conversar. Era impa- ciente com outras pessoas que não se empenhavam na mesma busca. Apenas me virei e pensei que era o momento mais feliz que eu tivera em muito tempo.. Gerry? Sem responder. A chuva caiu. As ondas estavam mais altas agora. A onda chegou e ele deslizou na crista. Gerry nadou para longe da praia. O sol mergulhou por trás das nuvens e os coqueiros começaram a se inclinar ao ven- to.. Estava de cal- ção por baixo. Nadamos de volta à praia e deitamos juntos na água rasa. A de Gerry parecia devotada às respostas. Gerry parou e ficou de costas. Ele me aconchegou ainda mais firme. qual foi o momento em que se sentiu mais feliz? Ele pensou por um momento e depois disse. Mer- gulhávamos por baixo. acenando-me para que fosse atrás.. colocou por baixo das sandálias. Corremos da água para o abrigo das árvores. as ondas suaves deslizando sobre os nossos corpos. Beijei seu rosto salgado. gritando um pouco. Gerry nadou em minha direção e pegou-me em seus braços. mais Gerry me toca- va. sentindo os borrifos se misturarem com as gotas da chuva.. — Aquilo. — Gerry... Enrolou as roupas numa bola. Ficamos debaixo de uma ár- vore a contemplar a chuva caindo sobre as azaléias roxas ao nosso redor. Depois..Eu sabia que podia ser por demais insistente. arrastando-nos para a areia úmida. ele me sufocou em seus ombros enormes. com uma expressão meio aturdida: — Agora que você me perguntou. até que se desvaneceu. onde ficamos estendidos. perto do lugar em que eu esperava. corri atrás dele. Virou-se um momento depois e ficou esperando pela onda certa. levantando os rostos para a chuva. Quanto mais nos afastávamos das pessoas. — Sabia que eu nunca tinha feito isso antes? Foi a primeira onda em que já deslizei.. A chuva caía mais forte agora. a respiração profunda. que parecem um lençol de água faiscante. no lugar em que as ondas desmanchavam. de cos- tas. só desejava ter tido o abandono para deslizar na onda com Gerry. contente por não estar com maquilagem. Limpei o sal dos olhos. acima do barulho das on- das. fomos saindo da água. Gerry tirou a camisa e a calça. encami- nhando-nos para o lado deserto da ilha. as cristas brancas. quando você pensa em sua vida. — Tudo isto é tão bonito. Tenho perdido muita coisa. enquanto o sol nos secava os corpos. não é mesmo? Não falei nada. Minha vida parecia devotada a uma sucessão de indagações. Permanecemos na água até que o sol ressurgiu. Um passarinho azul sacudiu as penas e voou para se abrigar sob uma moita.

sinto-me desafiado. onde a orca não podia alcançá-la. vestindo um traje de mergulhador. — Devo pensar a respeito. Alugara uma casinha na Kona Coast e passava os dias sentada em rochas vulcânicas. Eu estava em Hollywood há cinco anos e a maneira pela qual bons amigos brigavam entre si pelos melhores papéis estava me dei- xando arrasada. mas nunca com o meu trabalho. Não gosta- . Lamentava os que não tinham condições de se defender por si mesmos. Talvez porque achasse que o trabalho era um dever. mas precisáva- mos de um facão. em que se vendia abacaxi e papaia. para tornar o mundo um lugar mais aprazível. Gaivotas circulavam lá por cima. caí em depressão por vários dias. o tempo que eu passara no Japão. E isso é sur- preendente para mim. Meus momentos mais felizes nunca estiveram relacionados com o meu trabalho.minha felicidade esteve relacionada com a natureza. na praia. Estava na hora da alimenta- ção. Gerry riu alto e a orca voltou à refeição. O havaiano que era dono da barraca estava lendo um livro de Raymond Chandler. Uma orca estava sendo alimentada no tanque maior. até encontrarmos o caminho para Sea Wor- ld. foi até a árvore sob a qual deixá- ramos as roupas. Continuamos a andar. Acabara de ser indicada para outro Oscar e também não gostava da falsa pressão que isso parecia me impor. — Mas me sinto deprimido mesmo quando venço. ele errou um lançamento. Disse que a civilização existia para is- so. A orca viu-a e deu um salto em sua direção. Gerry achou que não era justo. Gerry e eu conversamos sobre a Ásia. A or- ca interrompeu a refeição. A gaivota acomo- dou-se na beira do tanque. jogava na boca imensa. passando três minutos a olhar furiosa para a gaivota. algumas ve- zes com as pessoas. Uma gaivo- ta mergulhou em vôo. Ele não me fez qualquer pergunta pessoal e também não lhe ofereci qualquer informação. Acho que preciso nadar contra a correnteza. E o que sente quando perde? Gerry também se levantou.. Experimento um senso de luta e isso faz com que tudo valha a pena. na esperança de que a orca perdesse um dos peixes que o atendente. por que isso? — Não sei. entre outras coisas.. Tentamos abrir um coco seco. — Gerry levantou os olhos para o céu.. — Quando perco. — Parece uma pena que você se sinta deprimido quando vence. Pássaros de todas as cores voavam e cantavam pelas exuberan- tes árvores tropicais.. Por exemplo: na última vez em que fui eleito. pegou o peixe e foi para o outro lado do tan- que.. E. Deixamos o aquário e nos encaminhamos para as colinas acima do mar. de repente. Comentou que a sobrevivência dos mais ap- tos era cruel e que devia haver um meio do homem reformular esse fato básico da natureza. Oriente Médio. a pensar na competição. Fomos ver os golfinhos e as orcas.. Continuamos a andar em torno da ilha e pouco depois encon- tramos uma pequena barraca. Contei a Gerry sobre a ocasião em que fora para a ilha maior do Havaí apenas para ficar sozinha. Esprememos limões sobre as papaias e comemos sentados na areia. Um dos golfinhos teve mais para comer do que os outros. Deus do céu. mas a todo instante levantava os olhos para o mar. não é mesmo? Levantei para me vestir.

enquanto a tarde chegava ao fim. migalha por migalha. ele sabia muita coisa sobre a China. Don't Fall Of The Mountain (Não Caia da Montanha). Não fi- caria deprimida como você diz que se sente quando vence. até que chegamos a um ponto do qual se podia ver o hotel. Se era uma coisa que tinha de aflorar. Passaram dias a carregar diligentemente um pão doce dormido. — Por que não se importava. Ele disse que i- maginara isso pelo meu primeiro livro. Presumi que ele não estava prepa- rado para saber. Adormecemos ao sol da tarde. Era o que Gerry pensava estar fazendo? Gerry me inter- rogou sobre a China. Acho que deveríamos nos preocupar apenas em competir contra o melhor que temos em nós mesmos. Ele disse que gostaria de ter arrumado tempo. Gerry parou para jogar algumas pedrinhas chatas. Embora nunca tivesse ido até lá. quando estivéssemos em Hong Kong. Mas não entendia por que alguém devia vencer ou perder. Contei como observara uma colônia de formigas perto da casinha em Kona. isso ocorreria naquele momento.. Eu não sabia se isso era bom. mas a- creditava que eu era basicamente uma pessoa solitária. Res- pondi que sim. Não gostava da maneira como as pessoas se sentiam abatidas quando perdiam. Gerry parecia interessado no que eu estava dizendo. Gerry me perguntou se eu fora para lá realmente sozinha.. que quicaram sobre a água. de mãos dadas. Conversamos sobre a revolução chinesa. virou-o. sentamos. Uma brisa fria soprava quando a- cordamos. que já fizera isso muitas vezes na vida. ficamos observando os caranguejos escavarem buracos na areia. E continuo a não me importar. Precisava de tempo para refletir. rindo e batendo de leve um no outro. mas o fato é que não me importava. de uma pedra para um esconderi- jo sob outra pedra.. submeter os seus próprios interesses ao bem da espécie.va do sentimento de que ganhar uma estatueta de latão deveria ser mais gratificante do que realizar um bom trabalho. mesmo que fosse por ape- nas uns poucos dias. Gerry pegou um graveto. Gerry seguiu na frente e desapa- . Acho que não queria me sentir constrangida por vencer uma coisa que não fora uma competição para começar. Não havia possibilidade. porque é assim que opera a demo- cracia e o governo da maioria. Gerry perguntou se eu já me sentira alguma vez solitária. Eram organizadas e determinadas. Mas ele não podia compreender que eu realmente não me importasse de vencer ou não. sorriu gentilmente. com festas e anúncios nos jornais profissionais.. Res- pondi que estar sozinha era diferente de estar solitária. Você precisa vencer. ficaria embaraçada. E acrescentou que era um dos livros pre- diletos de sua filha. Pareciam altruístas. E odi- ava agora todo o dinheiro que era gasto na tentativa de influenci- ar votos. E depois fomos andando. Um dos caran- guejos caiu de costas. Foi então que nos separamos. Shirl? — Não sei. Sentia-me con- fusa porque todos pensavam que Hollywood era justamente isso. porque não há outro meio de ser um político bem-sucedido. de atravessar a fronteira. Precisava ficar sozinha. Ele nunca me fez qualquer pergunta a respeito do meu divórcio ou de relacio- namentos com outros homens. Não eram in- dividuais. Paramos. Mas os artistas não deveriam se envolver nesse tipo de competição. Corremos juntos para a água.

no outro lado de Waikiki. Sen- ti-me como música de fundo. Se conseguíssemos pegar um táxi sem que ninguém nos visse. Eu tinha certeza de que ele seria melhor em seu trabalho se conseguisse se soltar mais. O motorista esperou. Gerry não ficou muito animado com o peixe cru. Era realmente uma pessoa diferente quando estava descontraído. Pus-me a contar os segundos. Shirl. Ela levou-nos até lá. saiu para preparar nosso sushi. viu-me acenar. encaminhou-se para o táxi e embarcou. Era Gerry. Gerry conseguiu livrar-se dá delegação poucos minutos depois. começou a me fazer perguntas sobre musicais. quando o telefone tocou.. O elevador que descia demorou tanto que Gerry teve de subir para não chegar ao saguão ao mesmo tempo que eu. mas ela não estava interessada na pessoa que me acompanhava. Gerry estava ali. serviu-nos saquê quente. como se mostrava i- nepto com quatro paredes ao seu redor. Eu conhecia a gerente. melhor comigo. Os cantores realmente cantavam ou simplesmente mexiam a boca para um playback? Decoravam as letras ou liam cartazes com as palavras? Quantos ensaios faziam antes de começarem as apresentações? Enquanto conversávamos.. Seguimos para o restaurante japonês. Deixei o quarto na frente. Paul Anka e Ann-Margret. Olhei nervosamente para o saguão. A vela na mesa bruxuleava por baixo de seu rosto.. Entrei no elevador. além do ascensorista. Pedi- lhe em japonês uma sala de tatami privada. — Como adorei este dia. mas comeu assim mesmo. Escondi o rosto por trás de uma revista e assim me manti- ve até sair. resolvemos jantar num restaurante ja- ponês que eu conhecia. tirando o sal dos cabelos. contente por ser a única pessoa lá dentro. Fiquei contemplando o sol poente por algum tempo. — Onde esteve? — Está se sentindo melhor? Ouvi trechos da conversa enquanto passava. . — Por que ficou tanto tempo longe de mim? Cinco minutos depois ele estava em meu quarto. desapercebida. não haveria problemas daí por diante. — Espere só mais um pouco. Gerry es- tava com as pernas cruzadas. Sammy Davis Jr. sorriu para uma câmara apontada em sua di- reção. Fotógrafos espocavam seus flashes. Ninguém notara coisa alguma. enquanto delegados famosos entravam e saíam. ao ar livre. Tranqüilamente. — Meu amigo já está vindo — falei ao motorista. E me ocorreu de repente como Gerry parece- ra livre durante o dia inteiro.receu na multidão em torno da piscina. Embarquei no táxi e pedi ao motorista que esperasse por um instante. Ele disse que não poderia esperar por muito tempo. apresen- tando Sinatra. sentado no chão. prova- velmente melhor também no casamento. avistei Gerry cercado no saguão por sua de- legação. mas fora detido por uma delegação vi- sitante. Havia um especial de TV transmitido de Las Vegas. Entrando no hotel. inclinado para a frente. Estava tomando um banho de chuveiro quente. O saguão estava repleto de jornalistas e agentes do Serviço Secreto. Um táxi esperava na fila.

Sei apenas que me sinto muito bem ao me expressar fisicamente. como estava sacrificando a sua cultura em favor do desenvolvimento industrial. não é mesmo? Terei de pensar a respeito. Comecei a chorar. — Porque digo de outra maneira que não por palavras. Tentei absorver o que ele estava dizendo. Gerry inclinou-se e pegou-me a mão. — E como adoro conversar com você. — Não sei. foi derrubar uma cadeira. — De qualquer forma. Havia um banquete de convenção no salão do hotel. — Por quê? — Não sei. É uma contradição. Gerry. Significava que não se podia realmente confiar nele? Ou significava que não queria se comprometer com palavras. E. Peguei um lenço de papel e assoei o nariz. Shirl. num arremedo de fastio. Gerry levantou-se de repente e. porque não queria assumir a responsa- bilidade mais tarde? — Como então você poderá expressar quando estivermos longe um do outro? Gerry deu de ombros. Talvez seja porque tenho de manipular as palavras durante o dia inteiro em meu trabalho e não quero sentir que estou manipulando as palavras com você. saiu um instante depois. — Lamento que isso a faça infeliz. — Pois eu preciso manipular as palavras para exprimir meus sentimentos. Apagamos a luz e tentamos dormir. com seu andar determinado. Eu não podia falar. — Acha que isso é ser justo comigo? — Acho. fa- lei: — Oh. Fui para o meu quarto e fiquei esperando. Soltei uma risada. Isso é injusto? — Não posso saber como é para você. Ele entrou no banheiro. Sorri e revirei os olhos. Shirl. Digo com as mãos. Passeamos um pouco depois do jantar e voltamos ao hotel. Eu ia partir no final da ma- nhã. com o corpo. — E como adoro estar com você. Os golfinhos saltavam gentilmente no aquário lá embaixo e as palmeiras sussurravam ao vento alísio. Tudo isso é novo para mim. em táxis separados. porque nunca tinha feito isso antes e porque uso pa- lavras durante todo o tempo. por que é tão difícil para você dizer isso? Ele assumiu uma expressão solene. finalmente. — Acho que não sei coisa alguma sobre o amor. Jantamos a conversar sobre o Japão. Gerry disse que tinha mui- to trabalho acumulado para os próximos dois dias e precisava se levantar bem cedo na manhã seguinte. ficou andando de um lado para outro. Tornei a sorrir. não estou muito certa se o amor é justo. Ele compre- endeu qual era a minha intenção. ao . Meia hora depois estávamos na cama. — E como eu amo você. Eu sorri.

pé da cama.
— Qual é o problema, Gerry?
— Não sei o que estou pensando. Não sei o que fazer. E não es-
tou sequer preparado para pensar no que estou pensando.
Observei-o em silêncio. Ele pegou uma maçã no cesto de frutas.
Continuou a andar, com a maçã na mão. Voltou à cama, começou a co-
mê-la. Deliberadamente, com grande concentração, pôs-se a mastigar
interminavelmente cada pedaço, sem dizer uma só palavra. Era como
se não soubesse que eu estava presente. Não comeu a maçã como a
maioria das pessoas, deixando as duas extremidades. Comeu de alto
a baixo, finalmente devorou tudo o que restava, inclusive as se-
mentes.
Soltei uma risada e isso provocou-lhe um sobressalto.
— Não como muito... mas depois que começo, como tudo. — Gerry
apoiou-se num cotovelo. —- Não se esqueça disso.

Tentei dormir. Não sabia quando tornaria a vê-lo. Pensei como
seria pela manhã, quando ele saísse pela porta, fechando-a. Não
consegui me fazer confortável. Virei-me de um lado para outro.
Gerry me tocava a cada vez que eu virava. E assim a noite foi pas-
sando, eu me remexia e dormia, remexia e dormia. E Gerry me tocava
a cada vez que eu me remexia. O amanhecer logo se infiltrou pelas
cortinas. Gerry sentou na cama, puxou as cobertas ao meu redor,
levantou-me o rosto.
— Tivemos 36 horas de uma coisa maravilhosa demais para se
descrever com palavras, Shirl. A maioria das pessoas nunca têm is-
so. Pense no lado positivo. Sempre presumo que começo em zero... e
qualquer coisa acima disso já é lucro.
Engoli em seco.
– Não é o meu caso. Presumo que começo onde quero e posso ir
depois a qualquer lugar que quiser. Sinto que posso fazer qualquer
coisa acontecer, se quiser. Não me sinto grata por nossas 36 ho-
ras. Quero mais. Quero tudo o que puder obter.
Ele riu e levantou as mãos. Saiu da cama e pude senti-lo a se
preparar para um dia de trabalho. Já passara o seu tempo comigo,
considerava-se afortunado, agora tinha de atender ao seu senso de
obrigação britânico. Era muito simples para ele. Convertera a ne-
gação numa carreira.
Ele pensou por um momento, o rosto tornou-se grave.
— A vida seria desolada, triste, vazia. E agora me dê um beijo
comprido.
Ele pegou-me o rosto entre as mãos. Soergui-me e passei a mão
por seus cabelos. Gerry vestiu-se rapidamente. Antes que eu perce-
besse, já estava na porta.
— Telefonarei para você assim que voltar a Londres.
Ele não se despediu. Não se virou. Avançou direto para a por-
ta, abriu-a e saiu.
O quarto mudou. Era o momento que eu tanto temia. O silêncio
fez meus ouvidos zunirem. Senti-me tonta. Sentei, estendi as per-
nas pelo lado da cama. Olhei ao redor, à procura de alguma coisa
que ele pudesse ter esquecido. Não, pensei. Isso é ridículo. Não
vou me permitir chafurdar nisso. Levantei-me, tomei uma chuveirada

fria, pedi o café da manhã, arrumei as malas. Depois sentei e es-
crevi-lhe uma carta, dizendo que ele estava certo ao presumir que
um copo com água pela metade estava meio cheio e não meio vazio.
Dormi, um tanto irrequieta, no avião que me levou de volta a-
través do Pacífico.
— O que você quer de mim?
Podia ouvi-lo a indagar de novo. Gerry tinha razão. Eu queria
que ele destruísse sua vida pessoal, arriscasse o seu trabalho po-
lítico e renunciasse de um modo geral a tudo a que dedicara sua
vida por mim? Mas eu não queria pensar agora sobre isso.
— Tenho de concluir o trabalho que comecei há tanto tempo —
dissera Gerry.
Eu queria arriscar isso pelo que tínhamos? E o que tínhamos,
afinal? Seria mesmo amor? Seria aquilo pelo qual as pessoas renun-
ciavam a tudo? Ele seria capaz de chegar a esse ponto? E eu seria?
Poderia viver em Londres? E o que diriam os eleitores ingleses se
soubessem? Iria de fato arruiná-lo? Gerry alegava, com absoluta
convicção, que sua mulher não seria capaz de suportar. Mas o que
pensariam as outras pessoas? E, por isso, ele dissera:
– Tenho de me acalmar. Preciso me esfriar. Tenho estado obce-
cado demais por você. Preciso ser objetivo agora. Não quero pensar
no que estou pensando.
Ele me dissera todas essas coisas. E quando eu tentara ajudar,
assumindo uma atitude também mais fria, Gerry dissera:
— Você não vai se livrar de mim tão facilmente.
Eu também estava confusa... Desolado, triste e vazio, como ele
dissera. Haveria também desolação, tristeza e vazio para mim? Eu
poderia passar sem ele? Mas o que faria com ele? O que estava fa-
zendo comigo mesma?

Capítulo 6

"É muito difícil explicar esse sentimento a alguém que está total-
mente desprovido dele, ainda mais porque não há qualquer concepção
antropomórfica de Deus que lhe seja correspondente. O indivíduo
sente o nada dos desejos e objetivos humanos, a sublimidade e a
ordem maravilhosa que se revelam tanto na natureza como no mundo
do pensamento. Encara a existência individual como uma espécie de
prisão e quer experimentar o universo como um todo único signifi-
cante."

— Albert Einstein, O Mundo Como Eu O Vejo

Ao chegar em casa, eu estava irritada, frustrada, aborrecida
comigo mesma, mais contrafeita do que nunca por alguma coisa que
não podia definir muito bem. Estava perturbada por todos os pro-

blemas óbvios que se relacionavam com Gerry, é verdade, mas havia
mais do que isso.
Liguei para David. Ele ainda estava na Califórnia. E sentiu
imediatamente que alguma coisa estava errada. Perguntou como cor-
rera o meu fim de semana, sabendo que eu não diria muita coisa,
mas querendo ser amigo e proporcionar todo o apoio que pudesse.
Pedi-lhe que fosse se encontrar comigo em Malibu.
E ele foi imediatamente, levando um saco com pêssegos frescos.
Descemos para a praia. Os pêssegos estavam doces, suculentos.
— Qual é o problema? — perguntou David, sabendo que podia ir
direto ao ponto porque eu o convidara.
Engoli um pedaço grande de pêssego. Não sabia como começar a
contar o que estava sentindo.
— Não sei, David. Sinto que estou desligada... não exatamente
desligada. Apenas sinto que há alguma coisa por que estou viva que
não consigo perceber. Sou uma pessoa feliz, aproveito a vida ao
máximo... e não me sinto angustiada por causa desse negócio de
crise da meia-idade. É uma coisa que não posso explicar. Na verda-
de, a idade nada tem a ver com isso... a não ser pelo fato de que
depois de alguns anos finalmente se começa a formular as perguntas
certas.
Hesitei por um instante, esperando que David dissesse algo que
me lançaria a uma lucidez mais profunda. Mas ele ficou calado, es-
perando que eu falasse mais. E continuei:
— Talvez eu não esteja sequer falando a meu respeito. Tal-
vez... talvez seja o mundo. Por que o mundo não funciona direito?
E por que isso deveria me afetar? Por que você nunca parece angus-
tiado? Sabe de alguma coisa que eu ignoro?
— Está se referindo a por que estamos vivos e qual o nosso
propósito?
— Isso mesmo... acho que é isso. Quando se tem tanto quanto
eu, quando se viveu tanto quanto eu, ao final se tem de perguntar
muito a sério: O que significa tudo isso? E não estou perguntando
por infelicidade. Acho que sou bem-sucedida, pessoal e profissio-
nalmente, certamente me sinto feliz. Não sou viciada em tóxicos ou
bebida. Amo meu trabalho e amo meus amigos. Tenho uma vida pessoal
maravilhosa, apesar de alguns problemas complicados. Não... não é
sobre isso que estou querendo falar. Acho que deve haver algo mais
sobre o nosso verdadeiro propósito na vida que não consigo perce-
ber.
David limpou o sumo de pêssego que escorrera para seu queixo.
Era fascinante para mim que pudesse me sentir à vontade ao lhe fa-
zer tal pergunta, como se ele fosse capaz de respondê-la. Era uma
pergunta que não teria formulado sequer a Einstein, se o conheces-
se bastante bem para sentar na praia a seu lado, comendo pêssegos.
David limpou a areia dos seus dedos pegajosos.
— Acho que a felicidade está no nosso quintal dos fundos, para
citar Al Jolson.
— Que grande ajuda você está me prestando... — Soltei uma ri-
sada. — Olhe para o meu quintal dos fundos... é o Oceano Pacífico.
E daí?
— E daí que estou me referindo a você. Felicidade, propósito,
significado... tudo é você.

— Você é muito simpático e polido, David... mas podia sê-lo um
pouco menos e se tornar mais específico?
— Está certo — continuou David, sem se deixar afetar por minha
irritação. — Você é tudo. Tudo o que quer saber está dentro de vo-
cê. Você é o universo.
Santo Deus, pensei, esse jargão é demais. Ele vai recorrer a
frases que não integram o meu vocabulário realista. E por mais que
possa me sentir atraída pelo que ele está dizendo, não vai adian-
tar nada, porque não é parte do meu léxico filosófico ou intelec-
tual de compreensão. Mas também, pensei, minhas palavras, frases e
idéias são limitadas por meus próprios conceitos, por minhas es-
truturas de referência. Não fique contrariada com as idéias. Man-
tenha a mente aberta.
— Por favor, David, explique o que está querendo dizer. O que
você falou parece pomposo, solene e falso. Já tenho problemas su-
ficientes para compreender o que estou fazendo dia a dia. Devo a-
gora compreender que eu sou o universo?
— Está bem. — Ele riu gentilmente da minha sinceridade frus-
trada. — Vamos seguir por outro caminho. Quando você esteve na Ín-
dia e Butão, pensou muito no aspecto espiritual de sua vida? Ocor-
reu-lhe que o corpo e a mente podem não ser as únicas dimensões em
sua vida?
Pensei por um momento. Claro que isso me acontecera. Recordei
como ficara fascinada ao ver um lama butamês levitar na posição do
lótus (os joelhos cruzados), um metro acima do solo. Ou para ser
possivelmente mais acurada, eu pensara tê-lo visto levitar. Fora-
me explicado que ele conseguira aquilo pela inversão de suas pola-
ridades (o que quer que isso significasse), assim desafiando a
gravidade. Para mim, fizera algum sentido em termos científicos,
ao mesmo tempo que atraíra o lado metafísico da minha natureza.
Assim, ficara por aí. Por alguma razão, não tivera problema para
aceitar o que acontecera, mas não podia dizer sinceramente que
compreendera. Outro lama me dissera mais tarde:
— Você não teria testemunhado a levitação se não estivesse
preparada para isso.
Fora então que eu começara a pensar que talvez tivesse apenas
pensado que vira. Lembrei do tempo em que convivera com os masais
no Quênia e depois viajara para a Tanzânia. Encontrara outros ma-
sais que sabiam meu nome e que eu me tornara uma irmã de sangue
masai, sem que ninguém lhes dissesse. Aceitara as explicações dos
caçadores brancos do safari, que acreditavam que os masais haviam
desenvolvido a transmissão de pensamento. Disseram que os masais
não possuíam outra forma de comunicação entre si através da Áfri-
ca. Assim, por uma questão de necessidade e também porque eram
pensadores comunais, puderam realizar o que o mundo branco e civi-
lizado era competitivo demais para alcançar... a comunicação atra-
vés da telepatia mental e da transmissão de pensamentos para seus
irmãos.
Aceitara tudo o que os caçadores brancos haviam me dito. Pri-
meiro, porque eles tinham muita experiência e anos de observação
dos masais, seus hábitos e padrões de comportamento; e segundo,
apenas porque fazia sentido para mim. Não tinha qualquer dificul-
dade para compreender que a energia do pensamento humano podia vi-

Pelo menos em relação ao perigo. por exemplo. E um dia depois descobri-me envolvida num bizarro golpe de Estado himalaio. Quando sabia que alguém estava tentando me encontrar. um leopardo matador de homens ata- cou-me e ao guia sherpa. foi real.. e estava mesmo. do mundo ou como quer que você pre- fira chamar. estou dizendo que acre- . que pare- cia-me mais real. — É verdade. acho que se pode dizer isso. Quando lá cheguei. Subi mais de quatro mil metros até sua caverna na encosta da montanha. Acho que. Tinha respeito pelas coisas que não compreendia. Pensei nos muitos momentos da minha vida quando sabia que algo estava para acontecer. fui presa e passei dois dias sob a vista de baionetas. di- ga-se de passagem.. com grande experiência das tribos primitivas. espantado por eu ter descoberto a sua pre- sença ali. Mas como poderia descobrir por mim mesma? Ou já estava consciente sem saber? Conheci.. na Coréia... Quando sabia que alguém estava em dificuldades. — Está querendo dizer que o aspecto espiritual de sua vida lhe parece real? — Isso mesmo. ele me serviu um chá e me deu um pedaço de pano cor de açafrão que abençoara para me proteger. e era um fato. Na descida da montanha.ver e se propagar fora do cérebro humano. Claro que me interessava pelo controle da mente sobre a matéria.. Talvez porque eu não possa percebê-lo. por exemplo... E mesmo que o pedaço de pano servisse apenas para me proporcionar apoio moral. Simplesmente aconteciam. David.. fenômenos psíquicos... em Seul. inacreditável para quem não estivesse presente. isolamento meditacional e certamente a expansão da percepção. explicando que seria necessário porque eu estaria em breve envolvida com problemas difíceis.. um lama nos Himalaias que vinha meditan- do em isolamento quase total há 20 anos. Não me parecia algo es- tranho ou absurdo. que um amigo chegado acabara de se regis- trar no Hotel International. Mas foi premonição dele ou presciência espiritual? Eu nunca pensara nesses termos. e acabava acontecendo. Telefonava imedi- atamente e ele atendia. A experiência foi como um filme ru- im de classe B. Nunca me relacionara espiritualmente com essas coisas.. enquanto meus captores tentavam tirar-me o guia e encarcerá-lo no dzong (uma masmorra himalaia em que os pri- sioneiros geralmente morriam). Mas não parece ser uma parte real da vida realista que levamos. no fundo. Tivera fre- qüentemente essas percepções em relação a pessoas que conhecia bem. quase todos já tinham ou- vido falar a respeito. Estou pensando cada vez mais sobre o as- pecto espiritual de mim mesma. Era mais pragmática. e eles eram estudiosos práticos e realistas. Para mim. Também não o era para os caçadores brancos.. Sabia. e o lama que meditava na caverna da montanha acertara em cheio. Essas percepções me aconteciam com freqüência. E a se julgar pelas histórias populares. E isso era tudo. mas me sentia mais à vontade relacio- nando essas coisas num nível intelectual ou científico. Mas eu nunca questionara realmente essas coisas. Ele estava certo. David mudou de posição em torno do saco de pêssegos e dos ca- roços cobertos de areia que se empilhavam entre nós. tais experiências haviam sido partilhadas por muitas e muitas pessoas.

Eu lhe contarei a respeito algum dia. — Tem razão. o que quer que isso signifique.. — O que me diz de você. David fitou-me de lado. mas não quis in- sistir. Especulei sobre o que teria acontecido. — Eu também era assim. Mas pode estar certa de que eu era o típico americano. Mas sempre pensei que procurava por mim mesma toda vez que viajava. enquanto durou. vivendo sempre a mil. o que conta é por quê. embora até Einstein dis- sesse que acreditava que havia uma força maior em ação do que ele podia provar. — Poderíamos ambos ter poupado muitas passagens de avião se soubéssemos disso no início. — Você está gracejando.dito nas coisas de que tenho provas. — A maioria dos ocidentais se sente assim. mulheres bonitas. Como chegou a suas convicções? Ele limpou a garganta. Como uma jornada por qualquer lugar era na verdade uma jornada através de mim mesma. atravessei os mares trabalhando nos cargueiros mais ordinários — continuou ele.. David. relem- brando. mas não posso deixar de admitir que aproveitei ao máximo. quando ficavam desequilibrados. mas acho que é verdade. É por isso que todos são essencialmente iguais. David? — Isso mesmo. Lembrei de uma história que alguém em Princeton me contara. uma pessoa considerada estúpida pode ser muito mais espiritual do que alguém que é um gênio em termos da Terra. Vo- cê é o universo. entornavam tudo . não são coisas que se excluem mutuamente? — Não.. Não estava me levando a parte alguma. ver novos rostos.. — Simplesmente viajei e vagueei muito. Na verdade. Essa é provavel- mente a diferença básica entre Ocidente e Oriente. Einstein vinha tentando provar a teoria do motivo pelo qual os passarinhos mecânicos que se punha na beira de um copo se enchiam de água e depois. — Eu também. Acho que jamais consegui ficar parada no mesmo lugar. David? Como pode ter essa compreensão espiritual num mundo tão pragmático? É um ocidental. com carros bonitos. — Pedi carona.. Adoro voar para novos lugares. Mas sabia que não podia fazê-lo. só que por dois ângulos diferentes. E era a isso que eu estava me referindo há poucos minutos quando falei que as respostas estão em você. Nem sempre fui assim. O idiota da aldeia pode estar mais perto de Deus do que Einstein. — Então você viajou muito. indepen- dente da posição na vida em que tenham nascido. Provavel- mente nós dois estávamos procurando pela mesma coisa. — Mas ser um gênio e ser espiritual. E adoro viajar. Mas algo me aconteceu certa ocasião. Todos têm a si mesmos. já que ele dissera que me contaria no momento oportuno. e nunca os dois haverão de se encontrar. em vez disso. quase como se quisesse evitar uma res- posta. — Creio que não importa como fa- zemos essas coisas. não é mesmo? Poderíamos ficar sen- tados no quintal dos fundos a meditar.... Os olhos de David ficaram enevoados enquanto falava.

como podemos saber se qualquer coisa na história de fato aconteceu se não a testemunhamos pessoalmente? Em algum ponto. — Em outras palavras. Mas ele disse também que. não perderíamos tempo a apren- der qualquer coisa do passado. examine bem. corpo e es- pírito. Corpo e Espíri- to. relataram que ficaram espantadas.. . primeiro.e recomeçavam.. por que não acreditar? — Exatamente. mas não conseguia controlar a sua ansiedade pelo que não podia compreender. escute de verdade. Nunca soube o que realmente pensava a respeito. Cristo disse que o Primeiro Mandamento era o principal e in- terpretá-lo erroneamente seria fazer a mesma coisa com todas as outras leis universais subseqüentes. Em terceiro. cujo pro- pósito na Terra foi transmitir os ensinamentos de uma Ordem Su- perior. os restos de seu corpo jamais foram encontrados. Parecia não conseguir explicar como os passarinhos mecânicos funcionavam em termos matemáticos. Foi uma alma espiritual altamente desenvolvida. Caso contrário. A bola superior do sorvete caiu na sarjeta. — O que está querendo dizer com uma "Ordem Superior"? — Uma ordem espiritual superior. como se tivesse finalmente encontrado uma meada para desenredar. o que o homem disse. até mesmo aterrorizadas. Aparentemente. Especulava sobre o que ele teria pensado sobre a suposta imagem de Cristo deixada na Mortalha de Turim. — Cristo foi o mais adiantado ser humano que já pisou neste planeta. até ficarmos livres. pa- ra compreendê-lo plenamente. Alguns cientistas diziam que a imagem era causada por energia radiativa em alto nível. a convicção de que os acontecimen- tos são verídicos. foi um dia à cidade para tomar um sorvete duplo de morango. — Quem você pensa que ele realmente era? David se empertigou. — O que acha de Cristo? — descobri-me a perguntar a David. Estava lambendo o sor- vete e passeando pela calçada. muitas pessoas testemunharam. ele sabia mais que o resto da humanidade sobre a vida e a morte. O Primeiro Mandamento dado a Moisés. Além do mais. escute. junto ao meio-fio. se- ria difícil inventar um mito dessa magnitude. era o reconhecimento da Unidade Divina: Mente. morango era o sabor predileto de Einstein. Acho que sua ressurreição provou isso. a não ser que tinha um profundo respeito. Einstein ficou tão abalado que chorou. Ali estava um dos grandes gênios do mundo. o conhecimento da história exige um ato de fé. Em segundo lugar. quando tropeçou ligeiramente. muito antes de Cris- to. — Mas como sabemos que realmente aconteceu? David deu de ombros. Obviamente. igual a qualquer outro homem. Frustrado. enquanto os espiritualistas ex- plicavam que era uma expressão de energia espiritual de alto nível que Cristo adquirira. — Antes de mais nada. Tudo o que Cristo ensinou estava re- lacionado com a compreensão do conhecimento da mente. tínhamos de compreender que a alma e o espírito do homem possuíam vida eterna e que a busca da alma era se elevar cada vez mais alto na direção da perfeição. sobre Deus. Lembrei de ter lido em algum lugar que Einstein era um leitor ávido da Bíblia. Mas.

Não era uma idéia nova. deixando Deus de fora por enquanto. Olhei atentamente para David. Está me entendendo agora? — Acho que sim. o respeito ao Primeiro Mandamento e todo o resto resolver a confusão em que lançamos este mundo? Eu não queria ficar perturbada. a algum político? Os eleitores considerariam loucos nossos líderes políticos se expressassem tais idéias. em termos sociais e políticos. masturbação intelectual e programas sociais compadecidos só têm contribuído para piorá-lo. como David sugerira. Não podemos apenas nos relacionar com nossas vidas aqui e agora como se fossem as únicas que tivemos. estaríamos todos no caminho certo. por um lado. Ele dobrou as pernas por baixo do corpo e usou as mãos para reforçar seus argumentos. passando a acusá-lo de propagar crenças que desviavam a atenção do que estava realmente errado no mundo. — Você poderia. E quanto mais ignoramos o lado espiritual da vida. Em vez disso. porque todos sa- beríamos que não havia necessidade de ser ganancioso. com a centelha divina em todos nós. amedrontado ou violento. — Mas como tudo isso se relaciona com o mundo em que estamos vivendo? — perguntei em vez disso. o indivíduo. Creio que alguns anos antes eu o teria chamado de obcecado por Jesus. a Bíblia e os ensinamentos espirituais não se envol- vem com as questões sociais ou políticas. a espiri- tualidade vai direto à raiz do problema. ao se importar com a humanidade você está se relacionando com Deus. e deixando Deus de lado. se compreendêssemos nosso propósito in- dividual e significado em relação a Deus ou mesmo em relação à hu- manidade. — Todos os nossos "ismos". tentando absorver o que ele es- tava dizendo. já teriam lhe ocorrido? Ou. Afinal. pobreza e todas essas coisas. — Ele fez uma pausa. guerras virtuosas. num contexto político. Não haveria necessidade de guerras. competitivo. mas a maioria das pessoas "inteligentes" que eu conhecia preferiam pensar que ele estava fazendo "uma mé- . isso levaria automa- ticamente à harmonia social e à paz. Pensei em Gerry e sua política. — Em outras palavras. Porque é aí que entra a justiça cósmica. Jimmy Carter chegara mais perto que qualquer outro. Todas as nossas vidas anteriores são o que nos moldaram.. de passagem. — Mas é mais fácil se aprender primeiro quem é você. A responsabilidade final do indivíduo era básica do pensamento quacre. Somos os produtos de todas as vidas que já levamos. individualmente. acenando com a cabeça. ao que me parece. — Por que está dizendo que precisamos compreender nosso propó- sito individual e significado em relação a Deus. pior vai se tornar.. David? Por que não podemos apenas nos compreender em relação a nossos semelhan- tes? David sorriu. Tais conceitos espirituais.. — Cristo. E seria na verdade um bom começo. mas a esta altura não ser a muito difícil. o conceito era também básico na filoso- fia política do anarquismo de Kropotkin. — Como pode a crença na alma. Se cada um de nós agir da maneira certa. conflitos. tecnologia in- dustrial..

— Acredita então que todos criamos o nosso próprio carma. Não vivemos por acaso.. até que finalmente endireitam? — Não acha que faz sentido? E certamente faz tanto sentido quanto qualquer outra coisa. se compreendessem em suas entranhas. É justamente esse o ponto fundamental. a coisa parecia plausível. pois então reduziria em última análise a extensão em que pode prejudi- car a si mesma. como nascer de novo. . sumo de pês- sego pingando do meu queixo. mas isso não significa que não sejam verdadeiras. — Não sei. Por outro. o mundo seria muito melhor. cada um sofrerá as conseqüências em termos do pla- no universal... e devemos estar conscientes disso. Não é algo tão difícil de compreender. É o que Cristo estava tentando nos dizer. — Justiça cósmica? — questionei. Somos todos parte de um plano e verdade universais. Se todos sentissem isso.. — Mas isso já está acontecendo. Na verdade. por exemplo. acreditasse em Deus ou na reencarnação.. que tudo não passava de encenação. o mal ou o bem. pa- recia totalmente impossível. Colheremos o que semearmos. E se Gerry. a legen- da dizendo: "Ânimo! Na próxima vez vocês farão tudo certo!" Era a garantia para Gerry perder a eleição. Sabiam disso muito antes dos seus hippies. seremos todos mais generosos uns com os outros. Como eu disse antes. Tudo o que fazemos ou di- zemos em nossas vidas. só que você não percebe. o pon- to em que nos encontramos hoje é o resultado do que fizemos antes. toleravam suas i- diossincrasias. como dizem os hippies? — Claro. Por um lado. de uma forma idealista. tem uma conseqüência. limitavam-se a rir. E se não o fizermos. — É onde entra a sua reencarnação? — Claro. As Ilhas Britânicas afun- dando no mar lentamente. E quando vi- vermos assim. Os indianos diziam isso há milhares de anos. — Acredita mesmo que nossas almas continuam a voltar fisica- mente. você sabe que não há aca- sos. — E você acredita que seríamos mais generosos e responsáveis se levássemos nossas ações mais a sério nesse sentido cósmico? — Claro. Há um propósito superior em ação. todos os dias.. Eu não tinha certeza se me agradavam. Não sabiam o que pensar dele se realmente levava a sério todas as coisas que dizia. enquanto a economia desmoronava. não. E você deveria estar mais consciente disso. sarcasticamente.. qualquer cristão nascido de novo escarneceria da idéia. Minha mente começou a se agitar com as idéias implícitas em nossa conversa. mas queriam que ele fosse um administrador melhor e um líder mais forte. Quanto à reencarna- ção.... O que conta é como levamos as nossas vidas. — As grandes verdades estão escondidas. todos ficavam furiosos com sua fala de Deus. mesmo que a nossa ligação amorosa não o conseguisse. — Mas eu ficaria paralisada se me permitisse acreditar que ca- da uma das minhas ações tem uma conseqüência. Assim..dia" com Deus. é muito simples. enquanto Deus sorria lá de cima. à brisa marinha. É possível. dava para se imaginar as charges inglesas..

— Você pode acreditar nisso. Mas por que um céu ou in- ferno hipotéticos são mais fáceis de acreditar do que a justiça da reencarnação na Terra? O que lhe parece mais razoável? — Oh. Deus. na pessoa. — Por que falar em seis milhões de judeus? Por que não acres- centar os 25 milhões de judeus? Ou os garotos da Cruzada das Cri- anças? Ou só Deus sabe quantos hereges queimados nas fogueiras? Se está me pedindo para responder a cada aparente injustiça e horror que o mundo já testemunhou.. o que significa tudo isso? — Shirley. Talvez a vida seja apenas um acidente sem sentido. tudo depende de vo- cê. E até onde me concer- ne. e por isso. pelo menos em termos de responsabilidade individual. matemática e política? Não eram todas as nossas ciências uma parte da busca por harmonia e compreensão do significado e propó- sito da vida? Talvez o que estivesse faltando fosse a ciência do espírito. É isso o que o carma sig- nifica. — Mas então. — Ele fez uma pausa.. então o fará quando? No céu? No inferno? Até a religião acredita na causa e efeito. Era o sistema ociden- tal. Tudo acaba no indivíduo.. Sentia-me como uma pessoa apanhada numa versão na vida real de The Twilight Zone. Mas. Agiria como uma espécie de cola a agluti- nar o propósito de todas as outras ciências. Talvez assim pensasse melhor. eu lhe responderei taxativamente: não posso... — Pensei por um momento. só posso lhe dizer o que acredito. Shirley. Mas pense mais adiante.. algo que pudesse ver. Supo- nhamos que a dimensão espiritual da humanidade fosse reconhecida como uma possibilidade. tocar ou ouvir.. quer tenha sido boa ou má. O que David estava dizendo talvez fizesse algum sentido. E ninguém es- tá isento Levantei-me e espreguicei-me. Éramos condicionados a respeitar as ciências físicas e psi- cológicas.. Precisava me mexer. não no que podia sentir.. Mas até mesmo as pessoas do mundo ocidental estavam a- prendendo que só porque uma coisa não se enquadrava em nossos con- ceitos isso não significava que não merecia ser respeitada. ao final. — Ora. talvez não na en- carnação desta vida. Qualquer ação que uma pessoa cometa acabará vol- tando a ela própria. mas em algum momento do futuro. — Além do mais — disse David — até os cientistas ocidentais . A maioria das pessoas racionais acredita na causa e efei- to. Eu fora condicionada a acreditar apenas no que podia ver. E me pergunto como seis milhões de judeus mortos se sentem por se- rem parte de um desígnio de consciência cósmica superior. é um beco sem saída. — Talvez eu não acredi- te em qualquer das opções. mas eu estou apenas perguntando. — Então ninguém é responsável por nada.. da química à medici- na. pelo amor de Deus.. — Causa e efeito. se vo- cê não colher nesta vida. E duvido muito que você possa algum dia me dar a resposta. não me venha com essa! — Ei. aventou o céu e o inferno para cuidar de todos os efeitos que não se consumaram. espere um pouco! A própria ciência acredita na causa e efeito.. Mas eu sempre precisava de pro- vas. Não posso viver com um beco sem saída e creio que você também não pode. não é mesmo? Diga à pessoa média "Você colhe o que semear" e ela certamente não vai contestar. quando rejeitou a reencarnação.

Naquele momento.. lenta- mente. tropeçava. E a ilusão cega é tão necessária às vezes que podemos até permitir que ofusque nossas verdadeiras identidades. Tal conhecimento levaria a uma responsabilidade moral maior? Vamos supor que eu pudesse chegar a compreender que não era apenas um corpo com uma mente.. enquanto estamos vivos. Nossas almas. Como eu gostaria de poder conversar sobre essas coisas com Gerry. que aparentemen- te era compelida a alcançar de um jeito ou de outro. quer se fosse um xeque árabe aumentando os preços do petróleo ou um judeu conduzido à câmara de gás? Quer se fosse um "chefão" da Máfia. Ou no tempo depois. independente da forma em que estejam. Firmemente. além disso. eu teria uma atitude de responsabilidade mais profunda e um sentimen- to de justiça e participação em tudo o que fizesse? Se compreen- desse que minhas "ações" implicariam em dívidas a serem pagas. Se prejudicamos alguém nesta vida. — Não estou entendendo. tanto boas como más. Qual é a relação? — Quando morremos. em relação aos outros. mas que esse corpo e mente eram ha- bitados por uma alma. afastei Gerry da minha mente. porque tem medo de pôr em risco a ilusão cega do amor. um terrorista da OLP ou simplesmente um mendigo nas ruas de Calcutá? Minha mente girava vertiginosamente. Meteu no sa- co e depois colocou-o debaixo da casa. é o que conta." Ele também disse: "Quem compreendeu essa verdade compreendeu o próprio cerne do Grande Mistério!" — Está falando de Pitágoras. recuava e se . Apenas muda de forma.. Mas o que faze- mos conosco. Vamos supor que a humanidade (e este ser humano em particular) possa resolver o enigma de sua identidade. compreenderia que minha vida tinha uma razão além do que podia perceber? Agiria mais responsavelmente ou mais generosamente em relação a mim mesma. além de incontáveis outros ocidentais. porque esse era o verdadeiro significado e propósito da vida? E tudo isso era verdadeiro. o grande matemático? — Exatamente. pensei Mas a pessoa se acomoda quando está envolvida com outra. reconhecendo que se não fizes- se isso prolongaria a luta em busca da perfeição. — Ele acreditava em tudo isso? — Claro. Aceita qualquer coisa. que minha alma existia antes do meu nascimento nesta vida e continuaria a existir depois da morte deste corpo. são permanentes. E escreveu muita coisa a respeito. As almas sim- plesmente deixam os corpos e assumem forma astral. minha busca pessoal era mais importante. David sorriu-me e recolheu os caroços de pêssego. de sua origem. E não importa quem somos. Vamos supor por um momento que o comportamento de uma alma determinaria não apenas o que era herdado nesta vida. E é como Pitágoras disse: "É tudo necessário para o desenvolvimento da alma. Começamos a andar. O mesmo fez Pla- tão. Isso é tudo o que a morte física significa.reconhecem que a matéria nunca morre. apenas nossos corpos morrem. Nesse caso. mas também explicaria nossas fortunas ou infortúnios. Os corpos são apenas casas temporárias para as nossas almas.. e de seu fim. seremos prejudica- dos na próxima.

teria pregado Hitler na cruz! Percebi o que acabara de dizer e tratei de acrescentar: — E o que você teria feito com Hitler? — Minha voz estava ago- ra defensiva. Respirei fundo. Shirley. teria detido a si mesmo. Apenas seus corpos morreram. porque somente Deus pode julgar neste contexto. com o conhecimento de que já se viveu e que se continuará a levar muitas vidas. Hitler poderia ter sido detido antes mesmo de começar. em cada segundo de todos os dias. se Hitler sentisse alguma responsabilidade moral como pessoa. Pen- se um pouco. É onde entra a sua pergunta sobre Deus e o supremo desígnio.. E é justamente esse o ponto fundamental. se em vez disso desenvolvessem seus armamen- tos. Vamos supor.. simples demais. nin- guém pode julgar a outro. depois de uma longa pausa: — Sei que é difícil de aceitar. — Muito bem. Era novo demais.. por nossas próprias ações. fi- nalmente. — Não necessariamente.. Comunique às fa- mílias daqueles seis milhões de afortunados que somente os corpos deles morreram. talvez. como a nature- za. Mais uma vez. — A crença na reencarnação faria com que o mundo se tornasse um lugar mais moral? — falei finalmente. Isso significa paci- ência conosco e também com os nossos semelhantes. Só que esta vida não é a única que devemos levar em consideração. enquanto começava a perceber as implicações. David. ab- surdo demais e. Mas também o é virar a outra face. — Muita gente acredita que se os britânicos não ti- vessem se desarmado. não acha? Não se pode deixar de fazer a coisa em termos pessoais. positivas e negativas. qualquer coisa enfim. Não quando está se falando num sentido global. — Claro. Além do mais. realmente sensacional. que toda a coisa é assim. Vamos supor que em cada instante.. enquanto ele olhava para o mar. Em última análise. Vamos supor que a vida. é simplesmente uma questão de receber de volta o que aplica- mos. — Tem razão. Eu poderia imaginar muitas pessoas que manipulariam essa crença para exaltar as suas próprias vidas.... Um indivíduo só pode julgar o seu próprio comportamento. adquirir poder. Foi errado se desarmar? As coisas se complicam quando a gente envereda por esse caminho. A tristeza invadiu seu rosto. simples e objetiva. David estremeceu como se eu o tivesse agredido fisicamente. por um momento. — Pois se eu pudesse. — Significa inclusive que devemos ser igualmente pacientes com os Hitlers do mundo? — Significa que seis milhões de judeus realmente não morreram. Lembre-se de que todas as religi- ões falam da paciência como a grande virtude. não tinha certeza se gostava ou não. — Quanto tempo seria necessário para uma pessoa se tornar "bo- a" em relação à sua justiça cósmica? — O tempo não importa. — Isso é maravilhoso. realçar seu estilo de vida. É por isso que se deve começar por si mesmo. Hitler não é o único monstro que já viveu. estamos criando e ditando os termos de nossos futuros.atolava nas possibilidades do que eu estava pensando. O que me diz de Idi A- . disse. como você sabe muito bem. Não acredito em matar nin- guém. E.

É por isso que me sinto tão sereno. Justiça Cósmica. Quem poderia estar vivendo no corpo de uma pessoa que eu considerava minha fi- lha? Houvera muitos momentos em nosso relacionamento mãe-filha em que tivera a impressão de que ela me conhecia melhor do que eu a conhecia. E se compreendessem as conseqüências de suas ações para si mesmos. . o que está acontecendo no mundo agora não funciona muito bem. Acho que basta pensar a respeito. em algum lugar. — Como eu poderia fazer? — Não sei.800 anos.min. Creio naquela expressão que você abomi- na. Há também con- seqüências positivas. descobri-me a pensar se mi- nha filha não seria alguma outra adulta reencarnada. em algum momento. Creio que tudo o que plantamos. o pessoal do Khmer Vermelho ou Stalin? Genocídio é um antigo problema humano. — Como pode ter tanta certeza de que há conseqüências? Que provas tem? — Nenhuma. E lem- bre-se de que esse é apenas o aspecto negativo. pensei. Cartas Quando acordei. — Por que então não admitir a possibilidade do que estou di- zendo? Afinal." — Henry David Thoreau. um auto-impedimento.. Que provas você tem de que não há conseqüências? — Nenhuma. Estava com dor de cabeça. É por isso. Ou que dizer dos pilotos que largaram bombas em hospitais no Vietnam do Norte. Fi- quei olhando para as ondas. Você está dizendo que nada tem qualquer propósito significativo. talvez eu preferisse ser um peixe. — Isso faria com que a reencarnação se tornasse uma espécie de impedimento. bom ou mau. Mas talvez você tenha uma idéia melhor. eu estou dizendo que tudo tem. passariam a pensar duas vezes. Só que individual. Capítulo 7 "Vivi na Judéia há 1. acaba dando frutos. na manhã seguinte. mas nunca soube que existisse al- guém como Cristo entre os meus contemporâneos. — Isso mesmo. David beijou-me no rosto e disse que telefonaria depois. Em tudo e por tudo. E é claro que toda mãe sente que aprende com os filhos. Você diz que não se sente serena e quer saber por que eu sou.. sem terem o menor sentimento de que havia seres humanos lá embaixo? — Onde está querendo chegar? Que os seres humanos são cruéis uns com os outros? — Exatamente.

com outras mães? Ela própria já teria sido mãe? Seu rosto de uma hora de idade alojaria uma alma que talvez tivesse milhões de anos de idade? E ao crescer. Eles são como você disse. na vida adulta. Quase que irritantemente pacientes. formal. — Olá — disse ele. E talvez ainda os conflitos sem solu- ção de vidas anteriores contribuíssem para os antagonismos fre- qüentes demais que irrompiam agora entre pais e filhos. sobre reencarnação em relação a nossos filhos.. Pensei no documentário a que eu assistira sobre filhos cresci- dos que espancavam e maltratavam os pais. peguei o carro e segui para a cidade.. Mas se eu deixasse a mente vaguear e depois se focalizar na possibilidade da reencarna- ção. e seu talento para línguas era baseado no fato de as ter falado em vidas anteriores. Começou a falar em tom gentil: — Todos os ensinamentos nos dizem. quando argumentava co- nosco para que lhe concedêssemos mais independência e auto- identidade. no Japão. — Arrumou alguma boa leitura? Santo Deus. naquela tarde de 1956. Quando o medico a levara para mim. se cada alma já viveu muitas vidas antes? John sorriu e tirou os óculos. ela já teria vivido muitas vezes antes. — Claro. apenas pequenos corpos habitados por almas que já tiveram muitas experiências. ela esquecera gradativamente a sua dimensão espiritual. em outra vida. gos- taria agora de conversar com ele por alguns minutos. Quem são os nossos filhos. estaria respondendo a uma voz interior legítima. Respondi que andara lendo. estava em seu escritório. E mais tarde. que murmurava que ela já sabia quem era? Talvez os pais fossem apenas amigos antigos. no leito de hospital. voltando à livraria Bodhi Tree.Era esse o milagre da criação dos filhos. numa tentativa de se ajustar ao mundo físico em que se encontrava vivendo? Era isso o que chamavam de "véu do esqueci- mento"? Era isso o que acontecia a todos nós. tomando um chá de ervas e lendo. ao invés de figuras de autoridade. tantas dessas pessoas enfronhadas em me- tafísica eram formais. que pensavam saber melhor que os filhos. por uma recordação da minha vida passa- . os princípios da reencarnação ajudam a explicar algumas das contradições absurdas nos relaciona- mentos pais-filhos. pensei. o proprietário. Talvez ela se tor- nasse japonesa quando falava japonês porque já fora japonesa. pensando e falando com David. Assim. Sobre o quê? — Sobre reencarnação.. Essas crianças estariam agindo assim porque haviam sido espancadas em vidas anteriores? Ou porque os pais haviam espancado alguém em vidas anteriores? Quem estava exercitando o carma de quem? Mas John já estava continuando a falar: — Posso lhe garantir. mas gentilmente. formais e um tanto horrivelmente pacien- tes. John. talvez já tivesse planejado antes de nascer. de qualquer forma.. quando nos desco- bríamos encerrados em corpos físicos? Quando ela fora viver com o pai. que não devemos tratar os filhos como se fossem nossas posses. passava a encarar Sachi sob uma perspectiva totalmente dife- rente. Tomei o café da manhã.

— Pois é o que você vai ler em seguida. Já leu alguma coisa de Edgar Cayce? — Já ouvi falar dele. mas nunca li coisa alguma — respondi.. sabendo que na verdade também nunca ouvira falar a seu respeito. O que são? — É difícil encontrar coisas escritas a respeito das Gravações Akáshicas. — As Gravações Akáshicas? — Isso mesmo. Pois está bem. São conhecidas como "A Memória Universal da Natureza" ou "O Livro da Vida". mas o que exatamente significa etéreo? — O universo é supostamente composto de éteres. — Por exemplo? — Um psíquico. Portanto.. pensei. vemos. pensamento. reagimos. Sentei num banco. que meu filho de oito anos já foi meu pai. — Ele era.. dizemos. — Já disse isso a seu filho? – Claro. Akasha é uma palavra de sânscrito que significa "substância etérea fundamental do uni- verso".. John levou os dedos aos lábios e sorriu. luz. Está entendendo? — Mais ou menos. Constituem uma espécie de placa magnética que atrai todas as vibrações. movimento ou ação reage em termos de vibrações nesses éteres eletromagnéticos. tudo o que fazemos. por causa do que pensara a respeito de Sachi naquela manhã. Não pude deixar de rir. Como você sabe. Essas cargas de energia são chamadas de "vibra- ções". Está vendo agora como opera a Justiça Cósmica? Lá vamos nós outra vez.da. Mas todos estão sintonizados. em termos físicos. com as Gravações Akáshicas. É isso o que ele faz. — Desculpe — murmurei. A única maneira que terei de ouvir a respeito será por intermédio do jargão "astral". Ele riu e disse que eu deveria tomar cuidado. Na verdade. — Você está o quê? — Que gravações são essas? — indaguei. isso acontece com a maioria dos psíquicos. Sabe o que são as Gravações Akáshicas? Recostei-me no banco. Na verdade. tudo é vibração eletromagnética. espiritual e psiquicamente. religião ou filosofia. mas vou tentar explicar. John estendeu a mão para uma estante e tirou alguns livros de Edgar Cayce. essencialmente. as Gravações Akáshicas são uma espécie de gravação panorâmica de tudo o que já se pensou. — Está falando de cartomantes e essas coisas? — Há muitos charlatães... ou seja. pen- samos. como Edgar Cayce. sentiu ou fez.. Cayce era um médium de tran- se. nem mesmo conseguindo lembrar o nome que ele mencionara.. As coisas ocultas têm tanto direito a uma verborragia própria quanto qualquer ciência. Como uma pessoa descobre quem foi numa vida anterior? — Basta ir à pessoa certa. E se a pessoa está mesmo sensitivamente sintonizada. pode captar essas vibrações e até . tudo o que somos. Assim. – Não tenho certeza se posso perceber como funciona qualquer coisa. murmurando: — Agora que estou com a cabeça saindo fumacinha. um homem inculto. emite ou cria car- gas de energia.. mas também já houve alguns psíquicos respeitados por todos. e- nergias gasosas que possuem diferentes propriedades vibratórias eletromagnéticas.. cada som.

— O que disseram a respeito de não lembrar as vidas anterio- res? — Falaram sobre uma espécie de "véu do esquecimento" que exis- . Está entendendo? — Claro que estou — menti. se não estivesse psiquicamente sintonizado? E a mesma coisa se aplica a Cristo. não é mesmo? — Os antigos psíquicos? Quem foram? — Foram muitos. — Você acredita em tudo isso? — Claro que sim. – E tais pessoas falaram de reencarnação? – Nem todas usaram essa palavra. E quase todos os escritos de tais pessoas estão de acordo. um bom psíquico pode lhe informar como foram as suas vidas anteriores. Todas falaram das leis universais da moralidade. entrar mais em contato e sin- tonia com nós próprios. Platão. o que realmente significa.. que se ligam nas ondas vibracionais akáshicas. limpei a garganta. tudo funciona como um processo educacional.. Moisés. pode ver uma porção de coisas que já aconteceram. — E se tivermos uma percepção mais consciente dessas outras dimensões saberemos mais a respeito de quem somos e o que são as nossas vidas? — Não é mais fantástico que as ondas de som ou as ondas de luz. Não é nada mais do que desenvolver a nossa ESP (percepção extra-sensorial). — Exatamente. E se a pessoa está consciente da dor que sofreu no passado e também da dor que pode ter infligido a outra.. como acha que Moisés pôde escrever sobre a criação do mundo. sentiam que sua missão na vida era transmitir o conhecimento que tinham. Es- tou falando demais? Sacudi a cabeça. É por is- so que a Bíblia é tão valiosa. tossi. mas o sentido foi o mesmo. Todas essas pes- soas possuíam um alto desenvolvimento espiritual. — Claro — respondeu John."ver" o passado. — Já leu os antigos psíquicos. — Santo Deus! — exclamei.. Está me entendendo? — Está querendo dizer que é apenas uma questão de expandir a nossa percepção? Senti-me grata por ser capaz de compreender o que estava di- zendo. podemos consegui-lo. Pitágoras. É apenas uma questão de desenvolver a capacidade. só que neste caso são ondas de pensamento. se a pessoa é bastante sensitiva para sintonizar as ondas de pensamento certas. Além disso. Nem sempre usaram as palavras carma ou reencarnação. pois nenhuma energia jamais cessa de exis- tir. Se nossos poderes espirituais e mentais estão bastante desenvolvidos. Assim. e todos os livros dizem isso. entre outros. acho. algo que até a ciência encara agora como um fato. Buda. no senso cósmico. Mas todas falaram amplamente sobre o relacionamento entre a alma eterna do homem e o Divino. no começo. — Eles também eram psíquicos? — falei. Assim. É uma fonte de conhecimentos. — Como acha que eles puderam escre- ver todas aquelas coisas? Por exemplo.. Não há praticamente qualquer discrepância no que disseram. som. o mais imparcialmente que podia. A ciência sabe certamente que existem.. que a capacidade inerente de captar essas gravações existe em todos nós.

Somos ao mesmo tempo criadores e. infelizmente. destruidores. depois sentou no banco ao meu lado. de que já passou por alguma coisa antes ou co- nhece alguém que jamais encontrara conscientemente nesta vida. logo abaixo de uma prateleira cheia de livros. Todas disseram que a vida presente é a importante. À medida que a alma progredia. é claro. Era um grande alívio saber do que ele estava falando. embora tenha certeza de que lá chegou pela primeira vez? — Já. apenas entremeada por aqueles senti- mentos de déjà-vu. Sa- be o que isso significa? — Acho que não. Para pessoas como Pi- tágoras. significando a eternidade da alma e a consecução da plenitude moral. Uma alma pode optar por avançar ou regredir. de consumar o carma individual. Lembrava de haver me sentido familiar quando alcançara a caverna no topo da montanha em que vivia o mon- ge que me dera o pano cor de açafrão. deformidades. E há o inverso. — Era isso então o que estavam querendo dizer ao falarem que iria para o Inferno quem não acreditasse em Deus.. Uma alma realmente superior. Mas quando nos identificamos mais fortemente com a criação. aca- bará perdendo a humanidade e se tornará como animal. e- ram explicados pelo fato de que cada encarnação representava uma recompensa ou punição de uma encarnação anterior. por exemplo. a reconciliação moral. injustiças e todo o resto. como se lá tivesse vivido sozinha por muito tempo. — Significa reconciliação com o criador original ou com a cri- ação original. Sempre sentira que significava algo a mais para mim do que apenas o que o monge dissera..te na mente consciente. uma espécie de terra da inexistência? — Claro.. a razão para que guardasse o pano até hoje. Se não optar pela evolução espiritual. a fim de não ficarmos continuamente trau- matizados pelo que possa ter ocorrido antes. O sentimento familiar fora o motivo pelo qual levara a sério sua advertência. es- colheria consumar o seu carma através de uma encarnação de auto- sacrifício. a pessoa era recompensada com mais opções de como reencarnar. . Quando se começa a . — Sei que estou falando demais.. Platão ou qualquer uma das outras. sem opções para avanço ou compensação moral. a alma perde a oportunidade depois de algum tempo e isso é o Inferno. todos os infortúnios da vida. tudo com o propósito moral.. Mas cada identidade tem a sua coisa. John pediu a um dos seus assistentes que trouxesse chá. É o que se refere como Inferno.. estamos mais perto da reconciliação. Entendo perfeitamente o que está dizendo. E aparentemente quanto mais antiga e mais elevada é a alma em realização espiritu- al. Mas jamais en- tendera direito por que me sentia assim. Podia me lembrar como me sentira nos Himalaias. Já experimentou esses sentimentos ocasionais de que esteve em algum lugar antes.. sim. Se escolher pela regressão contínua. mas quando entro no assunto não consigo mais parar. como doença. — E se uma alma não quiser progredir? E se uma alma quiser es- quecer toda a coisa e dizer que tudo se dane? — Também já se escreveu muito sobre isso. Deus. mais pode lembrar encarnações anteriores. É tão importante.

E por isso não importava que ela não me quisesse em sua cozinha. talvez por ver a expressão em meu rosto. um devoto religioso (cristão). paguei os livros e saí para o tráfego na Melrose A- venue. em outra encarnação. Usava a palavra "nós" e começou a prescrever um tratamento para si mesmo. eu tenha sido um monge himalaio que conhecia todos os mistérios da vida. É por isso que a vida tem sen- tido. O que John queria acreditar era problema dele. Vamos ver o que acontece dentro de uma semana ou mais. Sofria de asma crônica e procurara um hipnotizador experiente e respeitado. não terminara o curso secundário por preci- sar trabalhar. E você sabe disso. pão francês quente e queijo Brie. — Como passou a se interessar por tudo isso depois que esteve na Índia? — perguntou John. — John piscou e levantou-se. Mas suspendeu o movimento no meio. todo desespero e toda alegria acontecem em re- lação às Leis de Justiça Cármicas. a fim de apre- sentar outro argumento. mas não me importava. Marie serviu-me um chá. Fui para minha casa em Encino. Justiça Cármica e tudo isso? — Claro. Estarei aqui. Quando a sessão . em grandes detalhes. Ela sempre guardava o Brie ao bom estilo francês. — Talvez. John fez uma pausa. sentei com os livros novos e comecei a ler sobre Edgar Cayce. — Muitas pessoas por aqui acreditam na reencarnação. Eu ado- rava a atenção para os detalhes de Marie. mas pelo me- nos eu escutara e agora leria os livros. — Muito bem. Edgar Cayce nasceu em 1877. no Ken- tucky. Há muitos malucos por aí. se você quiser conversar mais um pouco. até que derretesse para a beirada da travessa de porcelana Limoge em que o colocava. Todo sofrimento físico. Entramos no escritório dele e fomos sentar a uma janela. — Quer dizer que a reencarnação das almas faz com que até o pior mal e sofrimento tenham sentido? — Claro. Tudo acontece por uma razão. Estou voltando para rea- preender o que já sei. Ele riu. Tomei um gole do chá de gengibre quente. Era um homem simples. na temperatura ambiente. toda felicidade. baixou o braço e disse simples- mente: — Vamos tomar o chá. Levei tudo para o meu quarto. depois que os médicos tradicio- nais mostraram não ser capazes de ajudá-lo. Eu sabia que não deveria estar comendo pão e queijo.desenredar um pouco. toda a tapeçaria passa a fazer sentido. Terminamos de tomar o chá. Ele come- çou a falar na terceira pessoa. Agradeci. es- sencialmente inculto. em busca de alívio. en- sombreada por uma árvore grande lá fora. com uma voz que não tinha qualquer semelhança com a sua. Sob hipnose. você já tem os seus livros so- bre psiquismo. perto de Hopkinsville. começou a levantar o braço. uma coisa estranha aconteceu com Cayce.

o Times não podia fazer comentários.terminou. Por algum tempo. Se os tratamentos prescritos eram seguidos acuradamente. Muitas pessoas voltavam a procurá-lo com provas de que existira um Fulano de Tal. tanto quanto as pessoas que iam procurá-lo. A Bíblia dizia que o homem nunca devia "consentir qualquer entidade espiritual que não fosse Deus". pas- sando a falar das vidas anteriores das pessoas que a interrogavam. Relacionava experiências de vidas anteriores com determinadas do- enças que um indivíduo podia estar sofrendo agora. — Qual é o propósito da vida? — Existe vida depois da morte? — A reencarnação da alma acontece? A Voz respondeu afirmativamente a todas essas perguntas. com exemplos suces- sivos de confirmação de identidades de vidas anteriores. Pessoas de toda a sua comunidade começaram a procurá-lo. Tais ligações cósmicas nunca haviam lhe ocorrido. e quanto a entidades "espi- rituais". Cayce tornou-se outra vez aturdido e confuso. O tratamento médico era-lhe aceitável. ele resolveu consenti-la por algum tempo. E Cayce era um homem que acreditava na Bíblia. A Voz (que se descre- via como "nós") sempre usava terminologia médica e receitava do que era obviamente um vasto conhecimento de medicina. A Bíblia nada dizia a respeito de tais coisas. o hipnotizador informou o que acontecera e sugeriu que Cayce seguisse as instruções. O "nós" parecia capaz de penetrar em suas mentes e corpos. sempre davam certo. Mas Cayce também sentia uma profunda compaixão pelos outros. Mas ficou horrorizado quando o hipnotizador descreveu a "voz" que aparentemente estivera falando por intermé- dio dele. Em desespero. um assunto sobre o qual Cayce nada sabia. Ele não precisava ver ou se encontrar pessoalmente com os pacientes que procuravam ajuda. Cayce experimentou. Claro que não tinham provas de que haviam sido tais pes- soas. que vivera nas condições idênticas do passado que ele des- crevera. Não havia qualquer indício de que Cayce estivesse falando do próprio subconsciente (ele nada sabia da profissão médica). ele se recusou a aceitar as informações. Cayce não demorou a aprender a se co- locar em transe. prescrever tratamentos que sempre davam certo. Mas logo passou a ter dúvida. Mas sempre que investigavam em detalhes. A moralidade do carma e reencarnação era intensamente ressal- tada em cada sessão. concluiu que não havia explicação. a fim de ajudar aos outros. mas considerava anti-religiosas as informações sobre vidas anteriores. Cayce passou a confiar no processo. A asma logo desapareceu. Não demorou muito para que pessoas começassem a interrogar a Voz de Cayce sobre questões mais cósmicas. Cayce tornou-se famoso no mundo inteiro. Considerou uma blasfêmia. se seguidos fiel- mente. depois gente do país inteiro. The New York Times publicou uma ampla matéria investigativa sobre Cayce. Eram es- tranhas demais. sentiam-se estranha e intensamente familiares com o que ele escrevera. A notícia sobre o estranho poder de Cayce se espalhou. Por exemplo: Uma mulher de 38 anos queixara-se de ser incapaz de assumir o . Como a Voz parecia servir para ajudar às pessoas. explorar o estado em questão.

com o qual nossa comunhão não começaria com o nascimento nem terminaria com a morte do corpo. mas escarnecia freqüentemente de quem era mais corpulento e não podia se movimentar tão bem. Cabia-nos entrar em contato com nós mesmos. Os 14 mil registros apresentavam exemplos de carma de saúde. carma retributivo. a fim de po- dermos alcançar alguma percepção de nossos propósitos na vida. para cada indiferença. O que condenares nos outros. que não conseguia controlar. somos em última análise responsáveis." Os arquivos e registros compilados por Cayce estavam entre os mais amplos da história médica. descobri-me fascinada pela idéia de que tudo aquilo po- dia ser verdade." — Immanuel Kant. A Voz dizia que o erro básico do homem é a convicção de que sua vida é predeterminada e. espiritualmente. Não importava de onde vinha a informação. Um rapaz de 21 anos queixava-se de ser um infeliz homossexual. Talvez fosse a manifestação de um subconsciente psíquico. deveríamos nos ver num mundo de natureza espiritual. Constatou-se que um marido numa reencarnação anterior a abandonara. foi a necessidade de afirmação do livre-arbítrio.. Lendo sobre Cayce e as "sessões" de outros psíquicos e médiuns de transe. e assim por diante. Dizia que as vidas que levamos a- gora encerram a prioridade superior e a afirmação do livro- arbítrio em relação ao carma é a missão mais importante. Capítulo 8 "Se pudéssemos ver a nós mesmos e a outros objetos como são real- mente. – Todas as respostas estão dentro de você — dizia ele. de grande beleza e capaz de proezas atléticas. As sessões revelaram que na corte real da França ele experimentava a maior satisfação em descobrir e denunciar homossexuais. Mas mesmo que isso fosse verdade. a fim de se juntar às Cruzadas. na me- dida em que fizesse sentido.casamento. carma vocacio- nal. por causa de uma desconfiança dos homens profundamente arraigada. é incapaz de mudá-la. Critica da Razão Pura . portanto. a moral da mensagem de todos era inequívoca. Uma moça de 18 anos tinha um terrível problema de gordura. Mas o que se destacou. carma de anormalidade mental. ela era extremamente atraente. carma psicológico.. passarás a ser. — Basta procurar. para cada uso errôneo da vida. carma de família. As ses- sões diziam: "Não condenes. Tirando a obesidade. E um bom sistema de valores para se viver. Pa- ra cada ato. talvez todos fossem apenas bons atores. imediatamente depois do casamento. E nos compete compreender quais podem ser as conseqüências. acima de qualquer outra coisa. As sessões revelaram que duas vidas antes ela fora um atleta em Roma.

— A mim mesma? Acha que me preocupo mais comigo? . nós nos espre- guiçamos e contemplamos o Pacífico. Chegando lá em cima. sem saber direito por que sentia necessidade de fazê- lo. fazia longas caminhadas. Comia alimentos puros e crus. minha dama volúvel da fama. — Está querendo dizer que me considera volúvel? Eu ri. As suecas eram Anne Marie Benns- trom (que fundara The Ashram) e sua assistente. Agora. E neste momento me importo mais com o que estou procurando. — Exatamente. Ani- nhado lá no alto estava "The Ashram". porque sempre me sentia muito bem depois do tratamento. Cat pareceu sentir que eu que- ria falar. como tem passado? "Dama volúvel da fama?" Era uma estranha maneira de se referir a mim. Chamava-a de Cat. as duas estavam empenhadas na explo- ração espiritual e eram devotas de Sai Baba. Eu me sentia contente por isso. com 10 quilos a mais. Eu caçoava dela. Katerina Hedwig. Ela comandava um grupo de "internas" por uma das subidas tortuosas. Eu adorava as atividades em Ashram e muitas vezes fora até lá a fim de entrar em forma para um especial de televisão ou quando sabia que teria de fazer dois espetáculos por noite em Las Vegas ou Tahoe. com uma vista espetacular do Pacífico.. Sempre me preocupei mais com a qualidade do trabalho. muitos exercícios ao ar livre. As montanhas são es- carpadas e íngremes. — Ou seja. Bastava eu olhar para Cat e já me sen- tia melhor. mas não sabia como. inteli- gente. Era gentil mas vigorosa. Cat era uma mulher grande e tão forte quanto as montanhas que escalava. Em relação à fama. Ela era alegre. Não sa- be realmente o que quer. sua personalidade contagiante conduzira-me através de um período de provação particularmente ár- duo. uma espécie de centro de saúde tosco. responsáveis por uma mudança completa em minha vida. divertida. serena. a você mesma. não é mesmo? Cat tinha um jeito terrível de focalizar imediatamente o con- flito que uma pessoa podia estar sentindo. Não falei nada por algum tempo. Levantei cedo na manhã seguinte e fui às montanhas Calabasas para pensar. a quem ado- rava. subindo pela trilha. até 15 quilômetros subindo pelas montanhas. Fiquei lendo pela noite afora. você é mesmo volúvel. di- zendo que seu apelido era Cat por ser uma "cat"alisadora dos acon- tecimentos subseqüentes. entrando em contato com o que as suecas que dirigiam o lugar chamavam de "prana" no ar. Eu confiava nelas. com ca- racterísticas espirituais (o "spa" para quem tinha muito dinhei- ro). Ela fazia com que a dor e a disciplina fossem suportáveis. — E então. deparei com Katerina. Exuberante. — Fama? Acho que nunca dei muita importância ao reconhecimen- to. Cat também não falou.. quando eu voltara primeiro da campanha política por George McGovern e depois da China. pois não se tem mesmo muito fôlego para se falar quando se está subindo por uma trilha nas montanhas. o nome do lugar de retiro religioso na Índia. assim como Anne Marie. Elas pareciam saber praticamente tudo que havia para se saber so- bre saúde. Fomos subindo juntas pela trilha. um avatar da Índia.

– Talvez no ano que vem Anne Marie consiga trazer Sturé e a mulher para os Estados Unidos. Você poderá então ter uma sessão. Shirley. Não é verdade. mas quanto mais ouço a respeito. e sueco arcaico. — Oh... — Atraída para o espírito? É isso o que estou experimentando? — Claro. Shirley. mas não sei direito como fazê-lo. Mas as palavras não eram mais refúgios seguros. Lembrei como passara julgamento muitas vezes sobre as palavras que as pessoas escolhiam usar quando descreviam uma experiência profundamente comovente. Cat riu. É por isso que estamos aqui. poderosa. Se eu pudesse estar apaixonada por minha própria luz espiri- tual. Senti que estava apresentando a declaração como se formulasse uma pergunta.. diga-se de passagem.. relacionada com alguma ocorrência abstrata em suas vidas. — Sturé é um carpinteiro muito simples que vive em Esto- colmo. — Está falando de sua dimensão espiritual? Soava muito banal ouvir outra pessoa traduzir em palavras. Não sei o que está acontecendo. — Se manifesta através? Está falando de manifestação em tran- se? — Mas é claro! — exclamou Cat. Mas está pensando em trazê-lo para cá. — Deus e o reconhecimento es- piritual são tudo. — Estou querendo dizer que parece mais preocupada em descobrir quem você é do que com a fama. Acho que se pode dizer que estou curiosa sobre essas coisas espirituais. surpresa por eu não ter compre- endido. isso me pouparia muitas viagens de avião e também bastante sofrimento. Cat — falei.. não preciso de qualquer outra coisa. É só para isso que eu vivo. Shirley. Shirley? — É sim. — Uma entidade na Suécia? Que tipo de entidade? — Uma entidade espiritual. É claro que ele fala apenas em sueco. e é uma luta. — Estocolmo? É um bocado longe para se falar com um espírito. praticamente ja- mais explorada antes. — Espere um pouco.. Uma entidade espiritual que se chama Ambres usa-o como ins- trumento para falar. É toda a explica- ção e o propósito da vida. É uma entidade forte. Pois esqueci tudo. Você tem de ouvi-lo. — Conheço uma entidade maravilhosa com quem você deveria se encontrar. pensei. . Shirley. — Isso mesmo. Anne Marie está com ele agora na Suécia. Shirley. mais quero ouvir. isso é maravilhoso! — O riso alegre de Cat en- volvia cada palavra. As coisas que ele diz são de uma beleza in- crível.. interrompendo o entusiasmo to- tal dela. — Não acha que é extremamente satisfatório ser atraída para o espírito? Enfiei as mãos nos bolsos do meu blusão de corrida. Não me im- porto se nunca mais tiver um homem. O nome dele é Ambres e se manifesta através de um homem chamado Sturé Johanssen. Porque me descubro de repente numa dimensão de mim mesma que não sabia que existia.. mas Anne Marie ou eu traduziremos para você. Tenho certeza de que você vai amá-lo. be- nevolente. e você sabe como eu era vi- gorosa. — Cat sorriu. — Acho que eu deveria seguir adiante. Sinto a minha própria luz espiritual e estou apaixonada por isso.

compreendi que acabara de ouvir uma re- soluta declaração de fé. sentindo um impulso forte de telefonar para Gerry em Londres. É uma pena que você não tenha algum pretexto para ir a Estocolmo. mas de jeito nenhum iria escarnecer das crenças de outro ser humano ou de sua "certeza". dali por diante. — Esse Ambres parece ser uma entidade interessante para se co- nhecer — comentei. — Acreditar.. os meus novos interesses pareciam parcialmente inadequados e apenas compreendidos pela metade se não incluíssem "o" homem. os meus sentimentos. como Cat aparen- temente a definia. Os dois são canais em transe para a manifestação de entidades no outro lado. Acho que queria ouvi-lo. Iniciamos uma conversa sobre alimentos naturais e as últimas informações sobre o que os laticínios podiam fazer com o sistema digestivo. — Nós lhe telefonaremos assim que Anne Marie chegar aos Esta- dos Unidos com Sturé e a mulher. todas essas coisas? Cat virou-se e fitou-me com uma expressão atônita. chocando-me e fazendo-me estacar abrup- tamente. Eu estaria julgando ou questionando as próprias profundezas do que constituía seu caráter e personalidade. Qual- quer outra pergunta desconfiada que eu pudesse lhe fazer. você acredita sinceramente que ha um "outro lado" e que entidades espirituais desencarnadas podem nos falar e ensinar. não. . Podia me fantasiar como uma espécie de repórter aventureira da humanidade.Exatamente. Não podia conversar com Gerry a respeito das coisas em que estava me lançan- do. sentindo-me como uma impostora ao ouvir a pala- vra "entidade" sair pela minha boca. – Cat. prometendo mutuamente prosseguir por nossa exploração espiritual recentemente desencadeada. – Ele funciona da mesma maneira que Edgar Cayce? — indaguei. absolutamente não. seria um reflexo da minha própria incapacidade de aceitar o sistema de valores fundamentais de Cat. experimentá-lo.. Mais do que isso. Mas eu queria conferir os sentimentos dela. Cat estava bastante animada pela perspectiva de eu me expor a uma dimensão da vida que ela já acei- tara há muito tempo. mas a sua simples presença me ajudaria a conferir minhas per- cepções.. tocá-lo. Precisava falar com ele de qual- quer maneira. Shirley. Voltei imediatamente para casa. De certa forma. Por se tratar de Cat. Não tinha vontade de ver outros amigos e dispunha de al- gum tempo livre antes de começarem os ensaios para o meu próximo show. Não está precisando com- prar um par de esquis ou algo assim? Nós duas rimos. lembrando o que acabara de ler a respeito de Cayce. Ao telefonar para ele. – Não — respondeu ela. enquanto continuávamos a andar. mas era o . a minha busca. Eu tenho certeza. própria identidade em relação ao homem na minha vida. Andamos por algum tempo.. lembrei como fora condicionada a con- ferir meus sentimentos com o homem por quem estava apaixonada. — Está perguntando se eu acredito? Acenei afirmativamente. indagações. como o meu outro mun- do real. Era difícil admitir que eu precisava ratificar minha. sentia necessidade de vê-lo. E ela o dissera com profundo amor. Depois nos despedimos com um abraço.

é necessá- ria uma redefinição do "acidental". Como penso a respeito hoje. Senti que estava me comportando como uma colegial a perseguir seu herói. Perturbado com o quê? — Perturbado de prazer. Fiquei esperando que ele dissesse alguma coisa. Cada momento de silêncio parecia ter um significado horrivelmente an- gustiante. mexer em alguns papéis. mas insisti: — Então está combinado? Poderei me encontrar com você em Esto- colmo? Cuidarei de tudo. – Que história é essa de querer saber como eu me sinto real- mente? Ele parecia assustado. no outro lado do Atlântico.que acontecia. mas quero ir a Lon- dres para encontrá-lo. Preciso estar ao seu la- do. – Preciso conversar com você. Pude sentir a hesitação dele. Gerry finalmente respondeu: — O problema é que estou de partida para Estocolmo. — E por que eu não vou também para Estocolmo. Gerry continuou a falar de sua viagem a Estocolmo: — Isso mesmo. Encontrei-o em seu escritório em Londres. Gerry finalmente voltou a falar: – Também sinto muita saudade. Juro que sinto. — Gerry? – Pode falar. Ouvi-o pedir polidamente a alguém que o deixasse sozinho. Gerry. mas depois de al- gum tempo. – Mas por que isso o deixa assim perturbado? . E acho que preciso saber como você se sente realmente. Ele não disse nada. É claro que se pode dizer que qua- se tudo na vida não passa de mera coincidência. Ele não ficou absolutamente surpreso pelo meu telefonema logo depois de nosso encontro em Honolulu. Senti que ele estava com pressa e fui logo dizendo: — Sei que você anda muito ocupado. Gerry? — Estou perturbado. como uma idiota. Tenho algumas semanas livres e quero passá- las em sua companhia. — Olá. à me- dida que foram se desenrolando. Ele estava contrafeito. eu teria de dizer que isso foi o começo de uma sucessão de aconte- cimentos que me proporcionaram um senso de padrão definido. Tenho uma conferência econômica socialista e passarei uma semana lá. Sinto muita saudade. quando as coincidências se tornam múltiplas. — Na Suécia? — balbuciei. — Já percebi. – Que prazer? O que está querendo dizer? – Estou transtornado de prazer por saber o que significo para você. Gerry? Adoro a neve. eu concordara pouco antes com Cat que era uma pena não ter algum pretexto para viajar até lá. Afinal. completamente atur- dida. Gerry. – Qual é o problema.

o problema estava na identidade. Talvez eu não qui- sesse desapontar a mim mesma. Não sabia o que ele estava realmente dizendo. Os padrões e objetivos que eu me fi- xava eram às vezes impossíveis de serem alcançados. estivessem sofrendo um senso não muito intenso. E a mãe era a presença a que o homem não podia corresponder. de dupla imagem em relação às mulheres. Bem poucos homens percebiam lucidamente as suas próprias mulheres. Não queria fazer o que ele fizera. mas as inadequa- ções que geralmente sentia eram em relação a mim mesma. o tempo ou qualquer dos mitos populares nas conversas em coquetéis. a maio- ria dos suicídios suecos era causada pelos padrões elevados e ex- pectativas que as mães suecas atribuíam aos filhos. os quais sim- plesmente sentiam que não podiam "corresponder". o que po- dia ser igualmente terrível. o que lhes era igualmente devastador. por trás de cada mulher com quem um homem se envolvia. estava a imagem obsessiva da mãe. — Talvez o importante seja não desapontar a si mesmo. E pen- sando em ir à Suécia para me encontrar com Gerry. Seria minha. por exigir demais? Ou seria de um baixo nível de amor-próprio dos homens? Lembrei de ter conversado a respeito com diversos psicólogos amigos e todos ressaltaram que. Gerry dizia que não podia compreender por que era im- . A maioria só as percebia através do reflexo obsessivo da própria mãe.Até lá. E por depressão e frustração. Eu não sabia a que atribuir a responsa- bilidade por tais rompimentos. Talvez os homens. E detesto isso. por toda parte. Talvez David estivesse certo. – Não posso compreender por que sou tão importante para você. E nesta era de liberação feminina. Já me sentira dependente da outros. Detesto esse pressentimento de que vou de- sapontá-la. especialmente em relação à síndrome do "homem". E isso me faz sentir inadequado. passavam a se sentir constrangidos. por causa disso. Eu não sabia o que dizer. lembrei de um relatório de pesquisa bem documentado que lera há algum tempo. quando estudava o problema do suicídio sueco. Você deve se hospedar em outro hotel. Era um sentimento que eu jamais experimenta- ra. Fiquei sentada a pensar no que deveria ser sentir-se inadequa- do para outra pessoa. Estarei no Grand. — Você quer me ver. — Ele hesitou por um instan- te e depois sussurrou. Em vez disso. tornavam-me exigente demais. Mas Gerry não era o único que se queixara de sentir-se inade- quado comigo. Nos dois casos. Lembrei de diversos relacionamentos importantes que haviam terminado porque os homens simplesmente ficavam com medo de não corresponder às minhas expectativas. sentiam-se tão inadequados que recorriam ao suicídio. em que as mulheres se quei- xavam do sentimento de serem viciadas na obrigação de ter um ho- mem. mas ainda assim perturbador. mas receio desapon- tá-la. os homens podiam estar sofrendo das pressões infantis que ex- punham uma carência básica de convicção em si mesmos. até onde podia me lembrar. Podere- mos conversar? — Apareça em Estocolmo dentro de dois dias. antes de desligar: —. O elevado índice de suicídio não era causado pelo socialismo. Gerry? — Estou ansioso por me encontrar com você.

Buda. no meu caso. cm termos cósmicos ou humanos. estava fazendo aflorar a sua insegurança pessoal. não lhes se- ria tão necessário que colonizassem as mulheres a tal ponto em su- as vidas. Talvez a compreensão da vida anterior pudesse. num sentido muito pesso- al. E o simples reconheci- mento de que ele era importante para mim. Vamos supor que um dos caminhos para compreender quem cada um de nós realmente era fosse o de ter conhecimento de quem podería- mos ter sido em vidas anteriores. longo dos tempos. ao. Cristo. toda a experiência da raça humana. Mergulho no Sub- consciente. conheça a si mes- mo e essa verdade o libertará. em sua memória celu- lar. antes de sua morte. Ela não ficou surpresa. Telefonei para Cat e disse que estava de partida para Estocol- mo. não merecesse a minha atenção. pais e experiências na infância.. por que experiências ante- riores não podiam fazer a mesma coisa? Lembrei de ter conversado com Paddy Chayevsky. E me perguntei se estaríamos seguindo pelo caminho certo. Esta parecia ser a ques- tão a se levantar para todos. Comecei a compreender. A verdadeira questão era o que ele pensava agora de si mesmo. Platão e todos os sábios religiosos e filosóficos. mas parecia-me que a liberação masculina era igualmente importante. em nossas vidas atuais. Se mães. E como podia um homem sentir-se igual se não acreditasse que era digno de ser ama- do? Eu não sabia coisa alguma a respeito da mãe de Gerry.portante para mim. imaginei qual seria o nosso carma que nos levava a enfrentar tantos obstáculos em nosso relacionamento agora. haviam tentado nos explicar. Qual era a diferença entre memória celular desde o começo dos tem- pos e recordações de vidas anteriores? Uma forma de memória era pelo menos tão milagrosa quanto a outra. fosse o que Moisés. desde os primórdios da criação. Creio que minha mente estava seguindo pelo mesmo caminho.. eles tivessem de analisar o verdadeiro significado de igualdade. Havia muitos exemplos em que a psiquiatria parecia ser incapaz de mergulhar bastante fundo para chegar à raiz de um distúrbio individual. óbvia e publicamente. O que mais precisávamos realmente era de um completo relacionamento com nós mesmos. Se os homens fossem mais livres. Especulei se não poderia ter conhecido Gerry em outra vida. que a compre- ensão pessoal era a mais árdua e a mais importante de todas as buscas. ta- lentos e realizações. por uma nova perspectiva. Deu-me o endereço e telefone do médium . Talvez esse problema. a longo prazo. sobre o livro que ele estava escrevendo. Pi- tágoras. Ele efetuara uma ampla pesquisa científica a respeito e dizia no livro que cada ser humano possui. Talvez. mas isso não tinha a menor importância. Ninguém se sentia pleno e com amor por si mesmo suficiente para compreender que a própria identidade era a resposta para uma felicidade consumada. Ele era um homem bem-sucedido. em relação a quem realmente eram. E se havia resistência à verdadeira igualdade no rela- cionamento. A liberação feminina era certamente importante. porque eu era pessoalmente tão in- colonizável. como se ele. este inevitavelmente se dissolveria. e se isso tivesse acontecido. moldavam e condicionavam como nos relacio- návamos com a vida e a realidade hoje. com toda a sua inteligência.

Ouvira dizer que era um país de amor livre e que ninguém se importava se marido ou mulher resolvia dormir com outra pessoa.. como sempre acon- tecia no rigor dos famosos invernos suecos. . Os su- ecos eram basicamente tão conservadores quanto qualquer outro povo do mundo. embora a política governamental lhes concedesse mais li- berdade pessoal legítima que em qualquer outra parte do mundo. A sala tinha . Durante aqueles dias.e eu disse que iria procurá-lo. pois a Matéria não tem memória para as coisas espirituais. Capítulo 9 "Uma vida inteira pode ser necessária apenas para adquirir as vir- tudes que anulam os erros da vida anterior de um homem." — Honoré de Balzac. como um car- tão-postal de uma fantasia nórdica.. Fui recebida no aeroporto por um amigo a quem telefonara. a Suécia era uma espécie de mistério social e físico para aqueles que tinham ouvido falar alguma coisa do pequeno país que optara pelo socialismo através do voto. As virtudes que adquirimos. Mas descobrira que a imagem não era acurada. que comemorava o final dos dias longos e escuros. insta- lando-me numa pequena suíte que dava para a enseada.. que muitos suecos não admitiam viver assim. que se prolongavam pela maior parte do ano. o líquido congelava no rosto. Seraphita Eu já estivera várias vezes em Estocolmo e era um lugar que me intrigava. "O verão caiu numa terça-feira no ano passado" era uma das piadas suecas prediletas. especialmente as mulheres. são os elos invisíveis que ligam cada uma de nossas existências às outras — existências que só o espírito lembra. o começo da lenta jornada para outro verão. Um véu de neve caía e calculei que em breve estaria escuro durante o dia inteiro. Lembro da emoção que experimentei quando sentei no salão em que eram entregues os Prêmios Nobel da Paz. Já estivera na Suécia uma vez durante o inverno e quando o nariz escorria.. A cidade estava sob a neve quando cheguei. Fui para o hotel em que ele me fizera uma reserva. virtudes que se desenvolvem lentamente dentro de nós. ao ouvir que não havia lugares preferenciais ou distinção de classe na Suécia. O inverno na Suécia não poderia animar meu re- lacionamento com Gerry. Eu estivera na Suécia durante o Festival das Luzes. chamado Santa Lúcia. Meu amigo levou-me para jantar e depois para comer ostras e arenque. Os suecos viviam para o sol e pareciam hibernar em suas mentes até que voltasse. ao final dos anos 50. Uma espé- cie de depressão institucionalizada se abatia sobre o povo durante os meses de inverno. Eram sete horas da noite.

orientando-se sobre a posição do meu hotel em relação ao seu. era rompi- do a cada hora por um rebocador. — Não precisa. Eu lhe disse que viria no dia 16. Usava uma capa impermeável sem forro de pele. garantindo que isso seria suficien- te para me deixar muito confortável. a fim de que ele não ti- vesse de esperar depois que batesse. Até já. Já comeu? — Não. — Ahn. Providenciarei alguma coisa aqui. Ele entrou no quarto com imensas luvas de couro. com uma tênue ne- blina. Pedi um secador de cabelos com a volta- gem sueca e um cobertor extra. — Não. com vonta- de de vomitar. mas os suecos não tinham qualquer dificuldade em transpor esquinas e mei- os-fios. que circulava interminavelmente. Gerry telefonou por volta das seis horas. — Está bem. Queria estar no hotel quando Gerry telefonasse e por isso voltei apressadamente. parecendo pálido e tenso. Jo- guei-me na cama e acordei cerca de quatro horas depois. as mesmas que eu imaginava que sua esposa desaprovava. — Oi. Fora uma das ostras.. A voz de Gerry parecia mais autoritária. Um lençol de gelo na baía. enquanto filas de caminhões empilhavam a neve. Os barcos de tu- rismo estavam aprisionados pelas águas congeladas. Havia uma entrada particular por onde uma pessoa podia entrar ou sair do hotel sem ser notada. dentro da baía. Deixei a porta do quarto destrancada. Eu tinha a sensação de que iria cair a cada passo. O sol apareceu por volta das nove horas da manhã seguinte e depois o dia se tornou inteiramente encoberto. a gerente prometeu que as telefonistas protegeriam a minha identidade dos jornalis- tas.. que haviam reco- lhido das ruas durante a manhã. Posso ir até aí? — Claro. a gerente me procurou. um terno de twe- ed que eu já vira no outono e sapatos de couro com grossas solas . no outro lado da rua. indagando se eu desejava alguma coisa. — Ontem à noite? Pensei que só chegaria por volta das cinco horas da tarde de hoje. como se ele estivesse no comando de si mesmo. O gelo escorregadio se espalhava por todas as ruas da cidade. — Como você está? — Muito bem.uma janela panorâmica e o quarto oferecia uma cama de casal. aguardando a chegada da primavera. o que fiz pelo resto da noite. E assim você poderá chegar mais cedo. Atravessei o quarto para abraçá-lo. Tomei café e saí para dar uma pequena volta. — Quando você chegou? — Ontem à noite. — Oi. Fiquei esperando no quarto pelo resto do dia. mas ele seguiu direto para a janela e olhou para fora. Além disso. Quando cheguei ao hotel. Pararei em algum lugar pelo caminho. E meia hora depois lá estava Gerry.

Senti que estava exausto e que isso já vinha acontecendo há algum tempo. que no final das contas não passavam de salada de alface e tomate entre torradas. Sihanouk na ONU e o fato de que a esquerda inglesa estava dividida ao meio por causa da invasão vietnamita do Cambodja. Continuamos a conversar. mas não consegui desfazer o nó da gravata. Ele recostou-se no sofá.de borracha. movimentos. Gerry riu. Falou sobre os cortes iminentes no orçamento. Peguei um pouco de creme Albolene e comecei a lhe mas- sagear as costas. Virou-se e esperou que eu lhe tirasse o paletó. Convidei-o a sentar ao meu lado. Levantando a cabeça. se a Europa fosse o lugar para onde queriam ir. – Por que não me deixa lhe fazer uma massagem. Foi até a outra janela. Sentei junto e levei a mão aos seus cabelos. Esperei que ele acabasse. um jornalista americano com quem conversara durante o dia inteiro. Pedira dois sanduíches decker club.. — Minha avó se tornou famosa por patinar em gelo fino numa ba- ía como esta — disse ele — usando uma saia que caía apenas uns poucos centímetros abaixo dos joelhos. sobre as pessoas que fugiam em barcos do Vietnam. Encostei a cabeça em seu pei- to e fitei-o. Gerry acomodou-se no sofá e começou a devorar um dos sanduí- ches. até que ambos nos orientamos. junto à janela. Senti também que ele sabia que não havia qualquer problema no fato de eu tomar conhecimento disso.. Perguntou como estavam os meus ensaios. meus cabelos. os problemas de aumentar impostos num ano eleitoral. — Talvez você se torne famoso por patinar em gelo fino usando calça. Bem que tentei. Ainda esta- vam um pouco frios do tempo lá fora.. Ele tirou a gravata e ficou imóvel em seguida. Recostou a cabeça no encosto do sofá.. empurrando-o gentilmente para a cama. Não fiz qualquer movimento para lhe tirar a calça. sentia-me inti- midada demais para tocá-lo. os braços caí- dos nos lados do corpo. como seriam muito mais felizes na França. depois beijei-o gentilmente nos lábios. Uma fieira de luzes parecendo um pênis para ele? Interessan- te. Os braços repousavam no colo. — Está vendo aquela fieira de luzes parecendo um pênis? Meu hotel fica logo depois. corpo. Gerry? Só pre- cisa ficar deitado. Gerry tornou a se recostar e suspirou. Virei-o. Está bem? Ele se levantou no mesmo instante e se encaminhou para a cama. roupas.. a camisa e a gra- vata. os olhos de Gerry me absorviam. Não estendeu as mãos para mim. Por minha vez. Gerry sorriu. Ele suspirou de prazer e contraiu os braços por . Gerry virou-se e pôs a mão num dos meus seios.. o rosto para baixo. mas não me tocou. Respondi que começariam em breve. – Pensei que você tivesse dito que eu não precisaria fazer coisa alguma. Ele não obje- tou. Enquanto eu fa- lava. ele des- viou-se um pouco e estendeu a mão para o outro sanduíche. Evitamos o assunto nós. Postei-me ao seu lado.

Mas não vou oferecer qualquer solução. Eu sabia que ele estava can- sado. Tirei minha calça comprida e a suéter. — Eu a amo. a fim de poder montar nele. mas não se deteria. — Gerry. usando a técnica de massagem que aprendera no Japão. A pele dele estava fria. Massageei-lhe o pescoço até que o senti relaxar.baixo do corpo. porque sei que não sou bastante forte para suportar as conseqüências do nosso relaciona- mento. em toda a minha vida. como se nunca quisesse se mexer. soerguendo-se num dos braços. Senti o estômago se contrair. Shirl. Mas também havia muita coisa em matéria de prazer pessoal que Gerry desconhecia. na cintura. até a cintura. Eu sabia que ele estava dizendo a verdade. Acabei caindo por cima dele.. Ele ficou olhando para o teto por algum tempo. Balbuciei ao falar.. esta é a primeira massagem que recebo. mas metade de mim resiste. — Sabe. Minhas unhas representavam um problema e por isso usei a base das mãos. Nenhum dos dois falou. Sussurrei interminavel- mente que o amava. Éramos perfeitamente livres para fazer amor. por mais incrível que pudesse parecer. O que me ficou bem claro é que não sou bastante forte. Vou enunciar o problema. E. Eu a amo profundamente. Os ombros e braços de Gerry eram muito musculosos. mas por algum motivo ele queria que fosse como se não esti- vesse acontecendo. Gerry passou também o outro braço ao meu redor. pois ainda não encontrei nenhuma. ele descansou. quase como uma . Tenho me enfrentado até agora. Gerry agar- rou-me e estávamos fazendo amor. Remexi-me por baixo dele. Toda a cena era irreal. ainda lhe massageando as costas. — Tenho pensado muito todos os dias. Shirl. mas posso agora perceber tudo claramente e quero ser justo com você. Gerry virou-se e puxou-me. Tentei me desvencilhar de suas mãos. Mas ele suspirou fundo. Depois. Shirl. Gerry ficou imóvel. Continuei a massagear-lhe as costas e cintura. apertando-o com as pernas. estendi-me ao lado dele. depois. mi- nhas mãos pareciam ineficazes. Os braços dele me apertavam com tanta força que eu mal conseguia respirar. Sinto que entrei numa es- pécie de buraco mental e físico com este relacionamento. Eu me contenho subconscientemente. Gerry come- çou a ondular por baixo de mim e jovialmente dei-lhe uma palmada. Eu sabia como ele devia estar sentindo as minhas mãos quentes. Ele me afagou os cabelos e sorriu timidamente. Passei mais creme Albolene nas mãos e desci pelas costas. Senti medo de repente. Preciso conversar. Antes que eu percebesse o que estava acontecendo. — O que é? — Tenho medo. Ele virou o corpo. em termos políticos ou pessoais. Sua única resposta foi respirar como se tivesse voltado para casa. Gerry se virou e passou um braço por minha cintura. comprimindo-me contra as suas costas. fitou-me nos olhos.

Foi o que fizemos. às ve- zes ao ponto da exaustão. Minha mulher e meus filhos têm me aturado pacientemente. — O que é? — Tenho a impressão de que. Moralmente.criança sorriria. acho que sei. Também não quero perder meu lugar no Parlamento. já enunciei o problema. Amo você e amo amar você. Amo acariciá-la. sentindo-se culpado pela verdade do que estava dizendo. Não vamos mais falar a respeito. sim. assim como meus filhos. O rosto dele ficou solene. — Vamos nos meter debaixo das cobertas. não posso fazer coisa alguma para magoá- los. Eu sentia vontade de chorar. Apenas me trate seriamente e me conte a verdade. seus cabelos. Virei-me por baixo das cobertas. Ele parecia estar com medo de ter me dado a deixa para ir embora. amo seu rosto. mas desse buraco vejo as coisas claramente. Sei que é uma coisa terrível para se dizer. sinto que estou falando de um buraco. Gerry. se os magoasse ou prejudicasse a meu partido. embora não me conhecesse há muito tempo. eu poderia ter me tornado uma erva daninha. — Sem você.. amo escutar as coisas que me diz. — Você não compreende por que o amo ou que eu o amo? — Não compreendo nenhuma das duas coisas. mas eles sempre me agüentam. Todos esses sen- timentos voltam e não posso contê-los. sei que não sou bas- tante forte para tolerar meus próprios sentimentos. — Uma erva daninha? . Entende a- gora como isso é moralmente inaceitável para mim? E mesmo que eu ignorasse os sentimentos de todos os outros. Subjetivamente. Não fiz qualquer comentário sobre o que ele acabara de dizer. mas objetivamente. eu posso reprimir meus sentimentos. mas é a verdade. não me afague os cabelos e não sorria ti- midamente. mas ela tem sido uma força estabilizadora em minha vida. Não exis- te uma paixão tempestuosa no relacionamento com minha mulher. ao lhe dizer tudo.. juntamente com a sua solidão. nosso relacionamento pode me fazer perder a eleição. Gerry. Isso é verdade? — É. Gerry. — Por favor. pessoalmente. E Gerry resolveu continuar: — O mundo está louco neste momento. Caso contrario. Mas temos um relacionamento in- trincado e talvez tenha sido bom que eles me contivessem. Podia compreender. Não falei nada. Ele ficou esperando que eu dissesse alguma coisa. Aí está. também é verdade. Quero ajudar meu partido e meu país a ingressarem num período melhor. Mas. Ele fez uma longa pausa. E não posso fazer isso com meu partido. você sente que sua família contém. Eles contam comigo para vencer outra vez. soergui-me num braço e fitei- o nos olhos. — Queria que me dissesse uma coisa.. que eu estava mais séria do que em qualquer outro momento de minha vida. E agora. Mas quando a vejo. Politicamente.. não entendo. — Não compreendo por que você me ama. E fitou-me ainda mais fundo nos olhos. Tenho trabalhado durante a maior parte da minha vida. reco- nhecer nosso amor tornaria tudo três vezes mais difícil para mim.

particularmente porque não estava lhe pedindo qualquer compromisso. Talvez você esteja preparado para fazer isso quando se encontra comigo. — Minha mulher é muito rigorosa com os outros. por favor. Tentei apreender o que estava dizendo. Acho que eu teria de dizer sim. acrescentei: — Acho que tenho de lhe perguntar. Shirl. E talvez esteja legi- timamente se retirando para o seu buraco. Ela é monopolista. Poderia . Esperei por uma respos- ta. E acho que isso tem sido bom. — Não sei. Ou pensava que se tornaria descontrolado e desenfreado sem a disci- plina de uma família? Fiquei revirando a imagem na mente. — Talvez você esteja em seu buraco porque seu próprio potenci- al o assusta demais. querido. angustiado. livre da família. Estou mais preocupada com o que você pensa que está fazendo. Eu certamente não estou. Dirige a família com mão de ferro. não é mesmo? — Perguntar o quê? — Você poderia passar sem mim? Quer continuar sem mim? O rosto dele ficou tenso. mas apenas até certo ponto. Tenho a sensação de que me apaixonei por seu potencial e você tem medo disso. — Mas se você não está disposto a ser o que chamaria de imoral para ela. — Como assim? — Já lhe ocorreu que está com medo de explodir com uma nova liberdade? — Como assim? — Assumir uma nova liberdade implica muita angústia e respon- sabilidade. Não posso magoá-los agora. a fim de poder evitá-lo por mais algum tempo. Gerry não disse nada. revolvendo-me por dentro porque ele estava demorando tanto e também porque ele estava fazendo um esforço sobre-humano para ser justo. Nunca fui capaz de compreender essa característica dela. Uma nova liberdade para você pode significar inclusive um melhor relacionamento com a sua família.. mas sei que é muito for- te. Depois de um momento. As pontadas de consciência que eu vinha sentindo se desvanece- ram rapidamente. — Mas. Mas ela seria mui- to rigorosa na compreensão da minha necessidade de você. — Não sei. Lembrei como ficara impressionada ao ler certa ocasião que não existia tal coisa como erva daninha. afinal.. sufocaria tudo o que crescesse ao seu redor? Pois era isso o que as ervas daninhas faziam. — Mão de ferro? — Isso mesmo. intermi- navelmente. A imagem me parecia completamente imprópria. Ele empalideceu. Compreenda isso. Por isso é que sei que ela nunca aceitaria nosso relacionamento. — Ninguém está lhe sugerindo que faça alguma coisa. o que é a imoralidade? Não é imoral ter um jul- gamento rigoroso com alguém a quem ama? — Mas todos têm sido ternos e pacientes.. mas apenas uma planta no lugar errado. Ele estava que- rendo dizer que.. por que aceita que ela seja imoral para você? — Não acho que ela esteja sendo imoral.

então co- mo pode compreender como me ama? Se amasse mais a si mesmo.. — Não estamos refletindo neste momento? Gerry riu. se o deixasse. Nossos olhos se encontraram.. Você sabe.. — Escute. encabulado. porque ele me amava.. e. Shirl. Reprimi as lágrimas.. Gerry? Não sei se eu poderia suportar o quanto o faria solitário. Por es- se lado.. esta- ria mais livre para amar a mim e aos outros.. Ele olhou pela janela.. Ele não podia dizer expressamente "Deixar-me".renunciar a meus sentimentos e voltar à solidão que você reconhe- ceu. — O que estou querendo dizer é o seguinte: você tem de amar a si mesmo. Eu senti que tremia interiormente. Qual é a minha solução? — A solução que sugeriu há pouco.. — Tem razão. — Ou pelo menos estamos falando a respeito. antes de poder realmente amar qualquer outra pessoa. Um: con- tinuar essa fraude política e pessoal. Isso é verdade? — É. — Sabe de uma coisa. acho que poderia. Ele sentou ao meu lado e disse: — Muito bem.. refletir por mais algum tempo. para não falar nada de mim mesma. Ele saiu da cama. Gerry. não quero arruinar seu casamento e não quero arruinar sua carreira política. — Eis uma coisa que não posso mesmo entender. e isso é tudo. . — Mas há um limite para o que posso agüentar. Você é muito forte. Shirl? Esta é a conversa pessoal mais longa que já tive na vida. Isso mesmo. quer seja pessoal ou política. Parecia que me competia a- gora tornar as coisas mais fáceis para Gerry e deixá-lo. podemos ganhar mais tempo. Gerry. eu ficaria feliz se você fosse mais livre quando estivesse comigo. — Espere um instante. Dois: consumar a sua solu- ção. O rosto dele assumiu uma expressão irônica. sim. — Acho que está enganado. — É como se você tivesse dedicado toda a sua vida a ajudar aos outros. Gerry? Ele riu e jogou-se por cima de mim. — Sei disso. em qualquer nível. — Isso significa que não quer mais discutir o problema. ignorando completamente que não estava fazendo nada para ajudar a si mesmo. — O que devo fazer. — Implacável é o mundo. — E se você não pode compreender que eu o amo tanto. Tenho a impressão de que é a única conversa pessoal que já teve. — Ainda não compreendo. eu ficaria profundamente desolado se você me dei- xasse. — E três. há três soluções. Mas também não gosto de participar de uma fraude. Mas você está preparado para isso ou não estaria aqui. — No que diz respeito a uma solução. pelo que posso ver.

Era uma pessoa maravilhosa para se conversar: não havia hostilidade.. Você está certo ao dizer que há um limite a quão implacável devo ser. Ele disse que tinha um encontro com jovens em outra cidade e só voltaria a Estocolmo de- pois de amanhã.. Gerry vestiu-se e eu fiz a mesma coisa.. Só tem mais uma coisa. E foi então que me lembrei de uma coisa que ele dissera e que era complicada demais para que eu pudesse entender. talvez desse por alguns dias. E quando descobríamos alguém com potencial para atender a essa necessidade. enquanto tentava dormir. mas não queria men- cionar a verdadeira imoralidade. murmurando so- bre o vigia noturno que podia reconhecê-lo. observei-o afastar-se pela neve. Pensei nisso a noite inteira. Por favor. Ele revirou os olhos e sacudiu a cabeça. Eu concordaria em participar da fraude. — Está bem.. pare de ser tão justo e apenas se divirta comigo. era muito difícil de manter. mas também destruiria todas as ilusões de Gerry sobre o quanto ela era realmente moral. e eu pararei de ser impla- cável. se você continuar com a fraude por mais algum tempo. Capítulo 10 . numa atitude zombe- teira de desespero. E também não mencionei que desconfiava que a maior preocupação dele era a pos- sibilidade de a esposa. — Gosto de ser admirado — dissera Gerry — mas não pelas pesso- as que significam alguma coisa para mim. pelo que seria um ano inteiro. mas apenas um desejo profundo e desesperado de compreender o que estava acontecendo entre nós. Passávamos a vida a procurar por outra pessoa que a parti- lhasse. — Está certo — respondeu Gerry. A maioria das pessoas parecia não se permitir um contato pes- soal mais profundo. mas a longo prazo se tornava algo ameaçador. Mas há também um limite a quão "justo" você deve ser. eu compreendo. exigia qualidades concretas. se tomasse conhecimento de nossa ligação.. não havia renúncia. Acompanhei-o até a entrada particular do hotel. Ser ad- mirado pelas pessoas com quem se importa implica a responsabilida- de de corresponder a essa admiração. Tentarei ser mais livre. que era o empenho dele em ocultar a situação da esposa. emitisse um julgamento rigoroso contra ele em público. Era mais do que relações pú- blicas. que pudessem resistir a um escrutínio meticuloso e uma observação continuada. preferíamos recuar.. mostrei como a chave funcionava. Mas tornaríamos a nos encontrar assim que ele vol- tasse. o que o fa- ria não apenas perder a eleição. não havia contestação. rindo. ou não era. Acarretava ansiedade demais. A ironia era que todos procurávamos por amor. por um longo período. — Negócio fechado.

especialmente sobre Edgar Cayce. sim. disse que adoraria ir. quando na América eu só ouvira falar dele re- centemente. Fiquei um pouco aturdida ao descobrir que Edgar Cayce era co- nhecido na Suécia. — É estranho e uma coincidência que você o tenha mencionado — continuou Lars — porque esta noite vamos a uma sessão psíquica com um médium sueco. mais feliz e mais elevada. onde o médium vivia . E as coisas começavam a se tornar interessantes. especialmente sobre as sessões psíquicas de Edgar Cayce... Ele era muito perspicaz. abstendo-se de perguntar o motivo da minha viagem a Es- tocolmo. — disse Lars. Gostaria de nos acompanhar e conhecer a entidade espiritual? — Um médium? — repeti. quando estava me apresentando em Estocolmo. Eles pareceram acei- tar a explicação. Telefonei para o amigo que fora me esperar no aeroporto. Lars? — Isso mesmo. apro- veitada e aprendida. Deixei de dar passeios enregelantes pela neve. — Ah. — Você anda vendo uma entidade espiri- tual. Fechei-o agora. Dormia cerca de quatro horas por noite. Passei esse tempo em meu quarto no hotel. Li alguns dos li- vros que comprara na Bodhi Tree.. mas também os suecos raramente deixam transpare- cer seus sentimentos. Eles haviam se mostrado bastante discretos ao me receberem no aeroporto." — Louisa May A'cott. levando consigo apenas as memó- rias concretas do que foi antes. a "coincidência" não me passou desperce- bida. embora os suecos não gostassem de pensar que ainda tinham uma sociedade de classes. Para não dizer mais. ajuda a seguinte. Finalmente peguei o endereço e telefone do médium sueco que era o canal para a manifestação de Ambres. a maneira como cada uma é vivida. Lars e a mulher trabalhavam em propaganda. mas comentei que tinha uma idéia para um novo livro e es- tava passando algum tempo longe da minha vida agitada na América. mas estava alheia ao frio."Creio que imortalidade é a passagem de uma alma através de muitas vidas ou experiências. — E qual é o nome? — Ambres. Repassei mentalmente toda a minha vida. Conversamos um pouco pelo telefone.. — Edgar Cayce. Eles não me perguntaram o que eu fizera desde que chegara. Levaram-me para os arredores de Estocolmo. Eu os conhecera alguns anos antes. Eu ficara folheando o livro de Cayce enquanto conversávamos. firmemente. precisava da paz e sossego do inverno sueco. cada uma se tornando mais rica. algumas horas depois. Estava pronta quando Lars e Birgitta vieram me buscar. Estava na Sué- cia por outros motivos além de Gerry. Cartas Não tornei a ver Gerry por três dias. Eram da classe média superi- or. pensando. Comentei que andara lendo alguns livros metafísicos. Conheço bastante sua obra.

sabe disso. quase sempre encontram algum alívio. mas nós também somos. — E o que é um ser espiritual? Não estou entendendo. Somos seres espirituais de energia que por acaso es- tão no momento em corpo físico. então Sturé Johanssen é não apenas um magnífico ator. A diferença é que ele. —. como um ser espiritual. Fra- ses e trechos de livros lidos afloraram.As pessoas vêm de todos os cantos da Suécia com as mais di- versas necessidades. Sai Baba na Índia dissera o que parecia ser a mesma coisa. — Ele apenas ajuda cada pessoa a assumir o curso certo." — Quer dizer que você e Birgitta acreditam mesmo que uma enti- dade espiritual autêntica está falando por intermédio de Sturé Jo- hanssen? — Claro — respondeu Birgitta. A diferença é que não acreditamos nisso. Da mesma forma que o mestre es- piritual Krishnamurti: "Somos capazes de tudo o que há e o reco- nhecimento de nosso poder espiritual aparentemente invisível a- pressaria nosso aperfeiçoamento. — Muitas pessoas estão vindo para as sessões de ensinamentos de Ambres. — Antes de mais nada. porque ele ajuda a muitos com diagnósticos médicos — disse Lars.com a mulher. A entidade espiritual que Sturé rece- bia estava se tornando famosa em toda a Suécia. A maioria das instruções está rela- cionada com a compreensão do poder interior em cada um de nós de saber tudo. E também disse coisas tão pessoais . lembrando que Cayce manifestara o que parecia ser a mesma coisa. Disseram-me que ele se chamava Sturé Johanssen e que o nome da mulher era Turid. algumas estão com confusão psi- cológica. — E esse Ambres pode fornecer respostas para todas essas coi- sas? — Se as pessoas seguem as suas orientações fielmente. Que nós temos dimensões e uma compreensão de que não estamos cons- cientes. Fragmentos das palavras de David passaram-me pela mente. — Apenas não o reconhecemos. mas também possui informações e remédios que já salvaram muitas vidas. — Somos todos seres espirituais — disse Lars. — Como assim? — indaguei. exata- mente como a dele. algumas trazem apenas perguntas sobre a origem e o des- tino da humanidade. Claro que Ambres é altamente evo- luído. Amores não produz nenhuma remissão — explicou Lars. enquanto nós ignoramos. algumas têm doenças fatais. É basica- mente um processo holístico e espiritual. tanto física como mentalmente. sem um corpo no momento. a fim de que possa tentar fazê-lo pessoalmente ou pelo menos assumir os problemas emocionais envolvidos. mental e es- piritualmente. se ele não é uma entidade espiritual autêntica. — E se alguém está sofrendo de câncer terminal? Amores pode produzir uma remissão? — Não. Ele ensina que nossa energia positiva é espantosa. se reconhecermos e acreditarmos. — E funciona? — A base do ensinamento de Ambres é de que possuímos o poder e o conhecimento para nos tornarmos qualquer coisa que quisermos. de uma natureza altamente e- voluída. Algumas sofrem de problemas crônicos de saú- de.

porque senão ficare- mos obcecados com o passado. bastando apenas que saibamos aproveitar. Acho que em qualquer lugar. Tendemos a nos afastar das pessoas que não estão pelo menos dispostos a manterem a mente aberta. É quase como se. Tudo depende do indivíduo. estivéssemos receben- do mais ajuda espiritual. Muitas vezes ele avalia quem está perguntando e conclui que a análise do presente é muito mais necessária. Na verdade. — Vocês acham que há muita coisa desse tipo acontecendo? — perguntei finalmente. Ambres também fornece informações sobre vidas anteriores. Fiquei em silêncio por algum tempo. — Quer dizer que é possível conferir informações sobre vidas anteriores no relacionamento com a vida atual? — Exatamente — respondeu Lars. Mais ainda: ninguém sabe de onde ele poderia tirar de si mesmo as informações médicas que usa em seus diagnósticos. Já com outros. que tinham ido apenas pela curiosidade de ob- servar como funcionava o fenômeno da comunicação espiritual. Pessoas que estão procurando pela compreensão espiritual de si mesmas são a- . — Temos muitos amigos na América e Europa que estão interessa- dos na metafísica espiritual. ele fala amplamente de vidas anteriores. — Mas Ambres faz questão de ressaltar que esta vida é a mais importante. a comunicação de entida- des espirituais está se tornando cada vez mais comum. a pessoa poderia distinguir a diferença pelos resultados. no entanto. Os dois deram de ombros. Além do mais. ao nos aproximarmos do final do milênio. — Não sabemos — disse ele. — Está se referindo a outros lugares do mundo? — indagou Lars. — Ou apenas aqui na Suécia? — Não sei. E a outros. O material transmitido é geralmente muito complicado ou muito pessoal para o médium ence- nar uma representação. — Ele sempre responde a indagações sobre vidas anteriores? Foi a vez de Birgitta responder: — Nem sempre. Abri a janela do carro e respirei fundo. Como nunca tivemos qualquer experiên- cia com uma fraude. — Os que estão interessa- dos no crescimento espiritual. tão familiares às pessoas que exercem uma grande influência sobre as suas vidas hoje. Mas cada pessoa precisa ter fé em si mesma. — Alguns desses médiuns não são charlatães? Como se pode de- terminar a diferença entre quem está apenas representando e quem está realmente em transe? Lars ficou pensando em minha pergunta.a muita gente que seria difícil compreender como Sturé poderia ter conhecimento. Olhou para Birgitta. — Imagino que dá para perceber se é fraude no momento em que está acontecendo.. Mas há muitos como nós e temos nos tornado amigos íntimos. não sabemos direito. como se nunca tivesse cogitado da possibilidade. ao invés de nos concentrarmos no pre- sente. — Muitos colegas de vocês na agência de propaganda também es- tão envolvidos nisso? — Apenas uns poucos — explicou Lars. ouvindo Birgitta e Lars relatando como Ambres fora útil na solução de problemas que ator- mentavam algumas das pessoas que o haviam procurado em busca de ajuda..

O fraseado é inteiramente diferente daquele que é usado por Sturé. mas devo ter dado a impressão de que estava em dúvida. enquanto eu mantinha os o- lhos fechados: — Todas as ciências possuem o seu vocabulário próprio. Mal estamos começando. ouvindo pessoas usarem palavras como "oculto". Parecem estar vivendo na superfície da vida e não dentro dela. o vocabulário comum de um estudo tão antigo quanto o tempo. através do avanço da astrofísica e da psicodinâmica. mas não pode ser mais específico? Falei com sinceridade. No fundo. Os outros são a- penas conhecidos. Pouco a pouco. que aceitamos por fé. quando não está recebendo? — Sturé é carpinteiro — informou Lars. Lars assentiu. Um homem simples. Nosso mundo fí- sico. — E não está absoluta- mente interessado no mundo espiritual. diferente até mesmo do sueco de hoje. "plano astral". "Deus". enquanto o carro continuava a avançar pelas ruas ge- ladas de Estocolmo. se ajuda as pesso- as. — Nossas línguas faladas e escritas descrevem apenas as di- mensões que relacionamos com os cinco sentidos. "alma". É por isso que Ambres tem às vezes dificuldades para nos ajudar a compreender a vida do ponto de vista de um plano não- físico. — E como Ambres fala. Queria "experimentar" um médium pessoalmente. Fechei os olhos enquanto seguíamos em frente. "vibrações cósmicas". maravilhas e milagres. ele diz que qualquer linguagem por si mesma já é uma limitação. eu reagia com escárnio nervoso. Esta vez não era exceção. porque ele fala em sueco arcaico. quando poderia aproveitar o tempo a construir estantes e outras coisas? Lars riu. imaginando como seria não ser "físico".quelas com quem podemos realmente nos comunicar. — Claro que não. E o mesmo se . ge- ralmente incompreensível para os leigos. — O que podem me dizer de Sturé Johanssen? Como ele é como pessoa. Lars continuou a falar. eu queria saber mais. em comparação com o jeito de falar de Sturé? — Às vezes é muito difícil entender a linguagem de Ambres. é um bom homem. a perceber que precisamos desenvolver uma linguagem que se relacione com os mundos que nos são invisíveis. riso sarcástico. estamos começando a perceber as dimensões extraordinárias do que simplesmente e às vezes sardonicamente chamamos de mundo metafísico. Am- bres diz que não há qualquer linguagem para expressar alguns dos conhecimentos que ele gostaria de nos transmitir. — Desculpe. — E ele não se importa de ser um instrumento. sem falar de seus misté- rios. — Como assim? — Quando ele tenta nos ensinar dimensões ou conceitos sobre os quais nunca sequer pensamos. Imagine como seria para você ou- vir inglês bíblico. mas bom de verda- de. desconfiança ou mesmo desprezo franco. "memória eté- rea". Tornei a respirar fundo o ar puro do inverno sueco. Descobri que. no instante em que entrava em discussões sobre o metafísico. Contudo. Ele diz que está tudo bem.

Aceitamos os milagres religiosos pela fé. — E vocês acreditam sinceramente que Ambres é uma entidade es- piritual autêntica? Birgitta virou-se para mim e disse. sem nada de opulentas. haviam feito inúmeras amizades novas. Através de suas muitas ses- sões com Ambres. passavam a amar mais as pessoas. As casas suecas eram modernas e limpas. escolas. no mundo ocidental. enquanto Lars sorria pa- cientemente: — É quase impossível explicar a alguém que não tem a mente a- berta para considerar pelo menos possível. Revirei os olhos mentalmente. Califórnia. Disseram que isso os tornava mais feli- zes. estariam naquele momento empenhados em exploração espiritual. A Suécia tinha os seus problemas. não é mesmo? Lars riu. falando do plano astral.aplica a todas as religiões. Estava sendo num carro em Es- tocolmo com um homem e sua mulher que falavam igualzinho a David em Manhattan e Cat em Calabasas. — Muitas pessoas exploraram o ocultismo para se focalizarem no lado escuro do mundo metafísico. Será que aquela coisa estava acontecendo no mundo inteiro? Como se tivesse ouvido meus pensamentos. Não entendo por que nós. Mas o lado claro é inevitavelmen- te lindo. ensina- mentos. mas a beleza positiva pode mudar sua vida. O Bebê de Rosemary e coisas assim. Eu não chamaria de ocultismo. Lars e Birgitta começaram a falar ao mesmo tempo. Tornaram a ressaltar como seus interesses espirituais haviam se tornado "glo- riosamente envolventes". Perguntei-me quantos outros suecos. cada casa. austero. Lars disse nesse momento: — Milhões de pessoas no mundo inteiro estão tão interessadas nessas coisas que sustentam toda uma indústria de livros. Eu me perguntava se continuariam assim. Eu não queria ser desrespeitosa. Pode-se pegar qualquer coisa na natureza e se concentrar no negativo. com pessoas que acreditavam nas mesmas coisas. Olhei pela janela para os campos nos arredores de Estocolmo. Diria que se trata de um interesse pela dimensão espiritual da vida. mas perguntei mais uma vez. em suas casas perfeitas de cartão-postal. Cada esquina. indivíduos. Espíritos dos mortos e todo o resto não têm nada de divertido. É apavorante. Eu me perguntava até que ponto eram prevalecentes ou profundos seus interesses espiri- tuais. Abri os olhos e disse: — Porque ao se pensar em "ocultismo" o que aflora em nossas mentes são forças sinistras. tudo devotado à dimensão metafísica da vida. cada árvore era um cartão- postal coberto de neve. mas individualistas em suas personalidades. Aceitamos as maravilhas científicas sem chegarmos a compreendê-las. mas parecia estar se encaminhando para o século XXI com um equilíbrio meticuloso de socialismo e democra- cia. Era um luxo confortável. mo- derno. E parecia não haver a menor dú- vida em alguém de que Ambres era mesmo uma entidade espiritual ge- nuína. temos tanta dificuldade com todo o conceito de experiência e pensamento que é popularmente conhecido como o "ocultismo". Era admirável para mim que um publicitário vitorioso e di- . O estofamento de couro do Volvo de Lars desprendia um cheiro tênue de novo.

Lars parou o carro e eu saltei. eles querem ser úteis a tantas pessoas quan- to for possível. — Sturé fez pessoalmente todos os seus móveis — informou Lars. depois comentei: — Eu provavelmente entraria na casa errada pelo menos uma vez por semana se morasse aqui. tudo servido na mesinha baixa. para o condomínio quase igual. mas de alguma forma indivi- dualizadas. Havia exóticos lampiões em cada esquina. muito pa- recido com Edgar Cayce. que parecia uma versão sueca de uma pequena casa no Vale de San Fernando: um sofá baixo e moderno. a fim de não cometer um erro. homens de neve e decorações imagina- das pela família. Não mencionou meu sobrenome. de faces rosadas. Obriga a pessoa a examinar mais aten- tamente a individualidade de cada casa. Ela nos convidou a sentar. — Sturé e Turid estão agora devotando suas vidas a promover a comunicação espiritual — disse Lars. uma mulher rechonchuda. — Por quê? — perguntei. aquele carpinteiro sueco que subitamente descobrira uma voz espiritual a falar por seu intermédio renunciara à sua vi- da e trabalho normal para ajudar às pessoas. Depois das amenidades iniciais na porta da frente. Seria similar ao que acontecera com Moi- sés. — Ela diz que lamenta não fa- lar inglês. com jardineiras. construídas exatamente iguais. Conhece seus filmes e está muito feliz por você querer conhecer Ambres. Uma voz de mulher jovial soou lá dentro. — Isso significa que Sturé renunciou completamente a seu trabalho regular como carpinteiro? — Quase isso. Lars sorriu. Turid levou-nos à sua sala de estar. Com Lars servindo como intérprete. Cerca de 15 quilômetros além de Estocolmo entramos no que pa- recia ser uma sossegada comunidade residencial. isso parecia não ter a menor importância para ela. comemos um pou- co de queijo e bolachas suecas. prateleiras com livros. Abraão e alguns dos outros profetas antigos referidos na Bí- blia? Os padrões que ocorriam hoje seriam os mesmos daquela épo- . Olhei ao redor. Portanto. tomar cerveja e comer queijo. Turid apresentou-me a seus outros amigos como Shirley. Nós três nos acomodamos. um abajur ao estilo Tiffany numa mesinha moderna. Havia pessoas sentadas em torno da mesa. Um momento depois. — Vai sair do quarto daqui a pouco. Hera verde derramava-se de vasos nas mesas. oferecendo-se como instrumento para comunicação de uma entidade espiritual. — E como eles ganham dinheiro suficiente para viver? — As pessoas contribuem com o que consideram condizente com o que aprendem nas sessões. Ele e Birgitta me conduziram para uma das casas e tocaram a campainha. Mesmo assim.nâmico estivesse me levando para uma sessão espiritual com um mé- dium. — Mas Turid está preocupada com a possibilidade de Sturé estar esvaindo suas energias nos transes. — Sturé está descansando — explicou ela. — Esta é Turid — informou Lars. abriu a porta e cumprimentou-nos com uma efusão de sueco. Caixas de areia e balanços enfeitavam casas.

Lars estava sentado diretamente por cima do gravador. Meu gravador zumbia baixinho ao meu lado. lado a lado. Sentada ali. Posso tomar decisões mais positivas e compassivas quando sei mais do meu propósito como ser humano. Devia ter em torno de l. tomando cerveja e comendo queijo. Sturé permaneceu sentado em silêncio. à minha maneira. Sturé entrou na sala. — Eles não sabem. cumpri- mentando timidamente seus outros amigos. Os cabelos castanhos crespos estavam cortados logo acima das orelhas. E quem já se apresentou para uma audiência ao vivo. preferindo geralmente fazer tudo em parti- cular.ca. diga-se de passagem. Olhei para Sturé. aparentemen- te preparando-se para relaxar. Ele era uma presença instrusiva e con- centrei-me deliberadamente na vela. os livros diziam que uma energia positiva co- letiva aparentemente era muito mais forte. E foi o que fizeram. Lars? — perguntei. Ele permanecia sentado bem quieto. Outras discutiam verdades espirituais que diziam não com- preenderem direito. Algumas falavam de ocorrências em suas vidas. — Podemos fazer um momento de meditação silenciosa — disse Tu- rid. andar firme.75m de altura. mas calmamente.. Estão cons- cientes de que o mundo está se deteriorando e sentem que é um meio de proporcionar conhecimento espiritual para impedir que esse cur- so humano continue. na escuridão iluminada por vela. como se pedisse desculpas — porque temos outros para ver depois. — Devemos começar imediatamente — disse ela. As mãos re- pousavam imóveis sobre as coxas grossas. Qualquer artista ou orador tem conhecimento da energia da audiência. imaginei o que Gerry pensaria se me visse. Cumprimentou-me em sueco. tinha cerca de 35 anos. Parecia muito tímido. um copo de água numa mesa junto a Turid. Ele me lembrou mais uma vez que o sueco arcaico seria difícil de traduzir rapidamente. uma voz bem modulada. E não demorou muito para que eu come- çasse a experimentar um senso de união com os outros na sala. corpulento. em meu ritmo. em voz baixa.. Os olhos estavam fechados. em cadeiras de encosto reto. Circulou por um momento. Apenas sentem que têm de fazer. só que em termos modernos? — Por que eles fazem isso. mas seu aperto de mão foi forte quando Lars nos apresentou. de acordo com o ponto de vista espiritual. O rosto era extremamente gentil. Compreendi que . Es- cutamos o que Ambres diz e isso tem mudado a maneira como nos re- lacionamos com nossas vidas. até que Turid gesticulou para que os dois sentassem. Ela apagou as luzes e acendeu uma vela na mesinha baixa no centro da sala. Levantei os olhos. sentiu e partilhou essa comunidade de sen- timento. Eu nunca fora muito de fazer as coisas comunalmente. respiran- do fundo. Cerca de 10 minutos de silêncio transcorreram. As outras pessoas conversavam entre si. mas disse que tentaria a- companhar o ritmo. Todos inclinamos a cabeça e esperamos até que Sturé ficasse no estado de transe apropriado para receber Ambres. mais intensa e mais be- néfica e curativa em qualquer empreendimento humano. Sinto a mesma coisa. Na verdade. Mas em todos os livros que eu andara lendo dizia-se que a energia comunal beneficiava a todos mais do que a energia individual.

Já haviam aceito o processo. a postura era formal. Está se identificando e nos fazendo uma preleção sobre o nível de energia espiritual na sala. Lars traduzia o mais depressa que podia. Depois de uns 15 minutos. numa voz gu- tural. com sua pró- pria energia. Sturé precisa da energia terra de Turid para neutrali- zar seu corpo. Os olhos se abriram. Falo Ambres porque "sentia" como Ambres. Descreveu os primeiros movimentos do pensamento de Deus e a criação da matéria. Eu podia "sentir" a personalidade. É por isso que eles necessitam trabalhar juntos. Descreveu o nascimento de mundos e mundos dentro de mundos. Lars sussurrou em meu ouvido: — Por causa da energia eletromagnética da entidade espiritual de Ambres. Apresentavam a Ambres perguntas sobre o início da Criação! Lars tentou acompanhar o ritmo com a tradução. através do qual uma entidade espiritual falava. e universos e universos dentro de uni- versos. Ambres passou da ascensão e queda de civiliza- . a sessão já progredira para uma conversa entre Ambres e as pessoas que tinham ido até ali para aprenderem com ele. Ambres descreveu Deus como In- teligência. Compreendi então que a maioria dos presentes não estava interessada em como funcionava. tremer como se uma carga elé- trica estivesse percorrendo seu corpo. Todo o corpo tremia. arcando com a limitação da linguagem terrena! Cerca de duas horas transcorreram. Era apenas uma es- pécie de telefone. Lars continuou a traduzir. quando pa- rou. o humor. não com a energia de Sturé. mas com todo cuidado. As costas estavam rígidas. Tinha cer- teza de que Sturé nada tinha a ver com aquilo. formulava seus pontos de maneira sucinta e objetiva. Pelo menos era isso o que eu "sentia". Turid pegou-lhe a mão. E descreveu a ne- cessidade de Deus de criar Vida. Descreveu o amor de Deus por suas criações e sua necessi- dade de receber amor refletido em "sentimento". Ambres falava depressa. Ela sorriu.estava focalizando pequenos detalhes. Tinha vontade de perguntar a Lars como tais níveis de energia podiam ser obtidos por aquele Ambres.. Eu podia entender agora o que Lars falara sobre as limitações da linguagem. empertigou-se to- talmente na cadeira. Lars traduzia em frases curtas. O corpo de Sturé ficou subitamente rígido. também não pareciam interessadas em informações sobre vidas ante- riores ou níveis de energia. Gesticulava e ria. o ritmo antigo dos pensamentos daquela entidade chamada Ambres. E a julgar pelas perguntas.. ele abriu a boca e disse alguma coisa em sueco. Não sei o que pensei. Eu tentei acom- panhar o que estava acontecendo. ele começou a tremer ligeiramente. Mas antes que pudesse formular as perguntas. Estavam interessados apenas nos "en- sinamentos" que Ambres transmitia. muito diferente dos movimentos descontraídos do homem que eu ob- servara meia hora antes. qua- se como se estivesse proporcionando um terra pelo contato físico. A cabeça inclinou-se pa- ra a frente e pendeu para o lado. Descobri-me a imaginar como Ambres devia estar se sentindo. em termos gerais. Lars inclinou-se para mim e sussurrou: — Ambres está dizendo "Saudações" e que se sente feliz por es- tarmos reunidos. A voz não tinha qualquer relação com o homem a quem eu aca- bara de ser apresentada.

Sturé apertou-me a mão. Mas elas pareceram compreender tudo mesmo sem eu dizer expressamente e comentaram que seria benéfico para mim. Não parecia absolutamente com o Sturé que eu co- nhecera. muito me- nos as informações. As pessoas conversavam em voz baixa. mas sereno. andava pela sala. — O instrumento está perdendo sua energia — disse Ambres. depois que considerasse aceitável. — Deve agora revitalizar. figuras geométricas cósmicas e espirais para ilustrar suas descrições. Ambres-Sturé levantava de vez em quando. por causa do esforço para formar as palavras numa língua que ignorava por completo. Foi a um bloco de desenho pendurado na parede. em sua língua antiga. Perguntaram-me se eu compreendia sueco o bastante para acompanhar tudo. que ele tornava a explicar. o "instrumento" não seria tão adequado pa- ra fazê-lo. Os olhos exibiam uma expressão gentil. sem saber o que pensar. meio encurvado. como se fosse um professor conduzindo uma aula. Recuperou lentamente a sua própria consciência e levantou-se. tentando absorver o que estava a- contecendo. Depois. mas disse que era um sueco antigo e. Consumiria muito de sua energia. Olhei ao redor. Disse que esperava que eu tivesse aprendido alguma coisa com Ambres. Turid pôs um copo com água nas mãos do marido. A carga elétrica conhecida como Ambres pareceu deixar seu corpo.ções para a criação da Grande Pirâmide. Aproximei-me de Sturé. Eu po- dia apenas me sentir contente por ter lido Cayce antes de compare- cer à sessão. Às vezes ria profundamente. — Espero que você esteja bem. Ambres reconheceu a pre- sença na sala de outras "entidades". Ele acrescentou que esperava encontrar-se de novo com todos. Disse que deveríamos cuidar uns dos outros. Ele parecia cansado. Benéfico? Era o suficiente para revolver-me o cérebro. Respondi que sim. Permaneci em silêncio. que falavam apenas "outra língua". mesmo que pudesse falar "outras línguas". Eu nunca ti- nha visto nada parecido. voltou a sentar ao lado de Tu- rid. Sturé tomou tudo. Senti que podia visualizar o que ele estava dizendo. pa- cientemente. enquanto Lars traduzia. Os outros na sala faziam perguntas em sueco. — Obrigada — falei. agradecendo a Deus pela oportunidade de servir. Mesmo com o relato monumental do começo da Criação. a entidade Ambres parecia ter uma compreensão do humor em nível humano. Censurava de vez em quando alguém que obviamente não fizera o seu dever de casa. E depois fez uma pre- ce. Espe- culei sobre quanto tempo ele fora humano ou se algum dia o fora. que . gracejava para enfatizar um ponto. confuso às vezes com uma questão crucial. Mas a sessão estava muito além das minhas indagações mundanas. Fez perguntas ao grupo. fez diagra- mas. Sturé tremeu. O grupo estava envolvido e excitado. Po- dia apenas sentir que todos os presentes estavam mais avançados do que eu. que parecia ter uma im- portância considerável e que ele descreveu como uma "biblioteca em pedra". Prontamente. não querendo admitir que levaria algum tempo para compreender o próprio processo.

se quiséssemos. Fiquei surpresa pelo que estava pensando. cada um imerso nos próprios pen- samentos. desdobrando-se de acordo com a minha própria percepção e disposição para aceitar as coisas para as quais estava preparado.. Acho que eu estava fadada a vir para Estocolmo.. preconceituoso e provavelmente incorreto. O homem de ne- ve na caixa de areia era agora uma massa quadrada. Muita coisa está me acontecendo ultimamente para continuar a acreditar em coincidências.. — Ambres é um grande mestre — disse ela. Ela acompanhou Lars. E. sob o céu branco. Talvez as duas fossem necessárias para a felicidade huma- na. pensando bem. tudo isso estava me forçando gentilmente a uma percepção de outras dimen- sões. Eu queria dizer alguma coisa profunda. disse que po- deríamos voltar a conversar no dia seguinte. Uma pausa prolongada e depois acrescentei: — Estou começando a sentir que fui de alguma forma guiada até aqui. Era o legado deles. — Acho que preciso de tempo para pensar. A neve caía. Não falamos mais nada. enquanto as crianças da vizinhança dormiam. mas a inevitabilidade parecia fixa e predesti- nada. Voltando para Estocolmo. realidades políticas e obstáculos negati- vos. coincidindo (de novo!) com a minha gradativa amizade e com- preensão de David. — Estou contente que você tenha podido ouvi-lo. Contudo. Turid passou o braço em tor- no de mim. Como se os eventos e inci- dentes estivessem destinados a acontecer. Jamais acreditara nessas coisas. com seu ponto de vista espiritual. sua própria natureza. se eu deixasse..ele próprio gostaria um dia de conversar com Ambres. E sentia que estava pouco a pouco desenvolvendo uma com- preensão dos dois pontos de vista que. deu de ombros como se também não compreendesse o que estava acontecendo. como os grandes antigos haviam tentado nos dizer. Estava ficando cada vez mais evidente para mim que classificar um dos pontos de vista de única realidade absoluta era limitado. — O que você achou? — perguntou Lars. a realidade fundada na Terra e a realidade Espiritual Cósmica. pareciam re- presentar as dualidades na vida (algo similar ao que meu pai res- saltava). Corpo e Espírito. enquanto nos aproximávamos do carro sob a neve a cair. Birgitta e eu até a porta. lá estavam as coincidências sucessivas do meu relacionamento com Gerry. . Seguimos para o carro. agora. Lars e Birgitta sorriram. Despedimo-nos de todos e partimos. Talvez todos os seres humanos fossem Mente. O momen- to dependia de mim. disse que me manteria em con- tato com eles. Despedi-me de Lars e Birgitta. alterado pela neve recente. Talvez eu devesse reaprendê-lo. comecei a pensar na sucessão de "coincidências" na minha vida. Fiquei impressionada com a sua simplicidade. Podia sentir algum plano predeterminado. Sturé precisa descansar. Eu parecia ser uma observadora intermediária das realidades duplas. baseada em frustrações materiais.

Respondi que não estava usando perfume. nem sobre a presença da mulher nem sobre a minha reação. — Os campos devem estar lindos. numa posição embriônica... — Desculpe ter me atrasado alguns dias." — Herbert Spencer O telefone estava tocando quando entrei em meu quarto no ho- tel. a fim de indagar se ele pre- cisava de alguma coisa. mas eu estava com medo.. Perguntei-me o que Edgar Cayce ou Ambres receitariam para aquilo. lavando-se e dando a impressão de que ainda não nascera. que é prova contra todos os argumentos.Capítulo 11 "Há um princípio que é prova contra toda informação. . Escrevi tudo o que estava sentindo. Ele não disse nada. Ficarei esperando. Sentia-me paralisada. Não consegui. — Não foi nada. Entrei em parafuso. Não sabia o que dizer. Gerry sabia que ela estava vindo? Pe- dira a ela para vir? — Alô? Alô? — Ainda estou aqui. Sei que você estava ocupado. Fizemos amor. — É verdade. que não pode deixar de falhar para manter um homem na ignorância permanente: esse princípio é o des- prezo antes da investigação. Como você está? — Muito bem. — Bom. Estava retraída quando Gerry chegou. Atendi prontamente. há meses que não usava. Escrevi. O estômago dava a impressão de que tinha um imenso buraco. tentei forçar a mente a um espaço sereno e espiritual. — Minha mulher veio de Londres. — Oi. Dei um jeito de rir da vulgaridade do meu pensamento. Gerry perguntou-me se eu achava que seus cabelos recendiam a perfume. Aparecerei aí mais tarde. — Como está se sentindo? — A neve nas ruas é o paraíso. Quando abri a porta do banheiro. Sentia-me angustiada e furiosa. deparei com seu corpo enorme encolhido na banheira. Senti que todo o ar me escapava dos pulmões. Também não fiz qualquer comentário. Não podia me comunicar. Ele sumiu pelos dois dias e noites seguintes. Era Gerry. — Está bem. Concluí que eles eram cheios de merda quando se tratava de viver uma realidade na Terra. Gerry..

telefonou e disse que queria se encontrar comigo. Ele comentou que estava contente por saber que eu fazia al- guma coisa. Gerry sentou na cama. Fiquei imóvel. Eu não que- ria ir. Ficamos deitados juntos. alisou os cabelos. cabelos e depois os lábios. mas a- chava que tinha a obrigação de ir para a esposa. Escrevi até a cabeça girar. Na sexta noite. As mãos se des- locaram por toda parte. Gerry terminou seu trabalho por volta das seis e meia. E no instante seguinte. deteve-me. fitou-me. Disse-lhe que não precisava se preocupar. Jantamos e conversamos. como se a mente tivesse vazado e es- corrido pelas faces.. Shirl? Era a primeira vez que ele perguntava o que eu estava pensan- . Atravessei o quarto para buscar-lhe mais chá.. pensamentos e indagações. Senti- me depois culpada por estar escrevendo em parte a respeito dele e não informá-lo disso. um meio de conversar comigo. como um diário dilatado. um presente da cida- dezinha que visitara no dia anterior. Escrevi o que estava vivendo e sentindo. até que alguma realidade entrou em foco. Usava uma gravata turquesa fina. ele beijou-me os olhos. o que queria. Envol- veu-me com os braços. Tornou a olhar para mim. — Eu disse que a amo. Escrevi por dias a fio. Eu era uma pessoa que sempre encontraria alguma coisa para fazer. Escrevi para decidir o que fazer. eu a amo. levantei às seis horas da manhã e continuei a escrever. puxou-me.. ele gritou: — Eu a amo. Escrevi sobre a mi- nha vida. dando a impressão de que recolhia punhados de ar. beijou-me longa e profundamente. eu lhe dizia que estava escre- vendo. Não fiz qualquer menção de me aproxi- mar dele. Isso fazia com que ele se sentisse menos culpado por não poder me ver. Escrevi para tentar me compreender. Ele se comprimiu contra mim. eu a amo. Escrevi para compreender.. Revivi tudo o que estava aconte- cendo. Os cabelos caíam pela testa. como se estivesse experimentando o seu direito de tomar o que quisesse. Tentei me ater a quem era. Não falei nada. Reagi. Respondi que não havia problema. Sempre que Gerry telefonava. Lentamente. Não deixei o quarto do hotel. queixo. olhou pela janela. — Eu a amo. Ele baixou-me para a cama. Continuei calada. mas sem agressividade. O rosto pa- recia ter um século de idade. Gerry apareceu na noite seguinte. como uma represa que se rompe. Continuei imóvel. Gerry se incli- nou. Ele comeu melão. ele levou-me para a cama. sentiu meu corpo por baixo. enquanto gesticulava com as mãos em concha. Deixei os meus caídos junto ao corpo. Gerry estava tomando a iniciativa e eu não tinha certeza se queria aquilo. o que iria fazer com ou sem Gerry. — Em que está pensando. Ele tirou-me a suéter de lã grossa. gentilmente. tirou-a. Pegou-me a cabeça. Escrevi até tarde da noite. Com uma certeza irônica. Ele abriu minha calça.

e depois uma espécie de visão dupla. rompendo o gelo. — Sei que não é por isso. Uma confusão profunda me invadiu. até minhas mãos doerem. obrigada. Ou talvez soubesse. Ele me piscou e disse.do. Fiquei neste quarto observando um rebocador a navegar em círculos. Voltou molhado e frio. — Sacudi a cabeça para voltar ao normal. Tenho comido bolachas suecas com manteiga e nada mais. Seus olhos escuros brilharam. escrito e escrito. Gerry balançou a cabeça com uma expressão muito séria. Gerry ficou radiante. Gerry sacudiu a cabeça. Mas voltou outra vez. Eu não sabia o que ele estava querendo dizer.. As palavras ressoaram pelo ar. — Obrigada. Ele virou-se e correu de volta ao quarto. Eu voltava a não sa- . o tapete e o ar gelado. Continuei deitada na cama. que estava todo ocupa- do. E agora você está aqui.. Levan- tou-se mais uma vez. — Mais do que qualquer outra coisa. não entendo a mai- or parte.. — Talvez o que estamos fazendo seja o que é mais real. E foi direto para o chuveiro. Enxuguei-o. — Eu a amo. Shirl. Mas ainda não sei o que vou fazer com tudo o que escrevi.. Ele me fitou nos olhos. Ainda não sei por que você me quer. — É possível. Ele me abraçou firme. — Eu também o amo. enquanto ele punha os sa- patos e meias. Tornou a se encaminhar para o chuveiro. — Também não consigo. Tornei-me o móvel. encaminhou-se para a porta. Gerry levantou-se e foi para o banheiro. — Acho que isso acontece porque é algo que não pode ter agora. — Estou pensando como tudo isto é normal. Ele tinha reuniões e entrevistas com a im- prensa. como sempre fazia. Observei seis camadas de neve caírem na calçada lá embaixo. — Eu a amo. Ele pôs o casaco e as luvas. Respondi que não tinha importância. discutimos o seu programa nos dois dias seguintes. Tenho escrito. Ele me pegou nos braços. Seguida por sentimento de culpa.. Shirl. Eu disse que tinha de voltar à América em breve. Para dizer a verdade. Está aqui e é com- pletamente irreal para mim. Ao invés de sair direto. Enxuguei seus cabelos com o secador. antes de sair e fechar a porta: — Ciao. — Mas ainda não consigo entender por quê.. — Talvez devesse simplesmente desaparecer. Gerry infor- mou que não poderia me ver no dia seguinte. — E a- gora você tem de voltar à sua irrealidade. Depois que Gerry estava vestido. quero tornar a pas- sar uma noite inteira com você. virou-se e disse: — Como estão as coisas que você vem escrevendo? — Muito bem.

a vida era uma piada em cima de nós. Seria de fato uma ilusão? A realidade física seria apenas o que eu pensava? Um dia comum na vida de al- guém era somente uma sucessão de representações. As ho- ras se fundiam umas nas outras. compreendi as coisas mais objetivamente. Talvez a verdade fosse a de que tudo era real em cada nível. se chegássemos a compreen- der isso de alguma forma. E comecei a perceber o papel dele na minha vida com mais lucidez. porque continuaria o seu curso independente do que fizéssemos ou deixássemos de fazer. meu trabalho e o nosso mundo nem sequer existissem amanhã. Observava os dias se tornarem mais compridos a cada nevasca sucessiva. Gerry tornou-se mais definido em minha mente. Talvez devêssemos apenas sorrir a caminho do fim. o que quer que fosse. Ser incerta sobre o horizonte emocional era a pior coisa que podia me acontecer. nossas capacidades invisíveis. Talvez toda a vida fosse uma colossal piada cósmica. Apenas eu. ríssemos. não tinha ninguém para falar além de mim mesma.. Enquanto es- crevia a seu respeito. Shakespeare estaria escrevendo sobre reencarna- ção ao dizer isso? Mas se o hoje era uma representação. então. ao final de outra semana.. mas provavelmente ficaria patente em breve. podíamos sorrir ao longo da vida. até que atingíssemos o ponto cer- to. Se esse propósito fosse real. E agora. Certamente não precisávamos temer a morte. o ontem era uma ilusão? E o amanhã? Talvez Gerry e nossos encontros. trabalhássemos e representássemos num esforço consciente para lembrar a nos próprios que devíamos ter um propósito além desta realidade. Podia ser verdade que o ciclo recomeçasse. en- quanto nos encaminhávamos para o nosso propósito. Shakespeare o dissera. talvez não precisássemos mais um do ou- tro. Não me sentia tão compulsivamente veemente em relação à confusão de Gerry ou à minha.ber o que era o real. Seria essa a piada final? Talvez fosse essa a razão profunda para o humor. Detestava esse sentimento. Recomecei a escrever. a cida- . Ou talvez o que estivesse me levando à loucura fosse a pressão para definir a realidade em termos físi- cos. a fim de alcançarmos alguma definição pessoal? Estaríamos procurando pela fonte de outro tempo para nosso próprio significado? Ou já nos conhecêramos antes? Ger- ry e eu estaríamos consumando algum relacionamento que ficara por resolver em outra vida? Se assim fosse. Não deixava o quarto do hotel. Não era tão ruim assim. Talvez toda a vida fosse um palco e nós não passássemos de atores representan- do nossos papéis. cada um de nós estaria usando outra pessoa como um ricochete. a fim de definir nosso propósito mais claramente? Simplesmente usávamos a- queles a quem amávamos para fazer aflorar nossos potenciais ocul- tos. Se a morte jamais acontecesse. Eu escrevia como se estivesse conversando comigo mesma. No plano da vida de Gerry ou no plano da minha vida o propósito podia não estar muito bem definido ago- ra. um pro- pósito definido por trás do que significássemos na vida um do ou- tro. Talvez amássemos. porque tudo era relativo e precisava ser levado em consideração. Co- nheci de cor e salteado cada ciclo do rebocador a romper o gelo na baía lá embaixo. porque talvez o fim fosse simplesmente o começo. representar o que pensávamos que sentíamos. Tudo parecia uma ilusão. Portanto. Comecei a pensar que havia uma razão.

E talvez a mesma coisa acontecesse com as pessoas. quando ouvi a porta do quarto se abrir. Não era isso. outeiros ondu- lantes de creme de neve branca. Gerry pairava silenciosamente no ar comigo. Não tinha exatamente medo de si mesmo. Eu estava lendo o Herald Tribune. ser percorrido e compreendido. espalhando-se ao meu redor. Era como aquele ar.. que fazia com que aqueles que lhe eram novos pudessem se sentir rejeitados e excluídos de uma integração. . ao contrário.. Cinco cisnes voaram lá por cima. Um homem passou à distância. através da cidade e pelo jardim zoológico.de lá embaixo estava atapetada em branco. ficava recolhido. Eu já ouvira tudo aquilo antes. Ele ain- da estava "ligado". o rosto congelado. Ti- nha de descobrir o que estava dentro de mim e o mesmo acontecia com Gerry. Na verdade. Não seria oferecer à serenidade im- parcial uma oportunidade de aflorar. O sol estava firme. Não se projetava. Gerry dava a impressão de que correra por todo o caminho.. mas mesmo assim prestei toda atenção. como se podia pensar a princípio. Saí andando pela neve. isso era problema meu. como se o significado real estivesse oculto. Decidi que estava na hora de comunicar a Gerry as coisas que estavam aconte- cendo a mim.. o silêncio po- dia ser ainda mais pleno. sobrancelhas e pes- tanas falseando com neve derretida. Sentir-se emocionalmente à míngua. sobre o espetáculo de vari- edades que eu esperava apresentar em Pequim. o silêncio se estendendo por quilômetros à minha volta. ser tocado. Três veados me observaram enquanto eu passava. esperando para ser descoberto.. as coisas sobre as quais estivera escre- vendo (ele não perguntara). animado e querendo saber o que achara de sua presença na televisão. Devo ter percorrido uns oito quilôme- tros. menos o que mais estava me preocupando. os tornozelos afun- dando na neve. enquanto um véu de neve caía. Conversamos sobre a maneira como ele estava aprendendo a explorar sua personalidade na televisão. Era um ambiente que parecia encobrir suas intenções. O que estava experimentando agora era a comunicação implosiva.. fumando um cachimbo. Mas isso não seria uma reação legítima. sem cores firmes ou carac- terísticas definidas. enquanto eu an- dava. discutindo os problemas econômicos do Terceiro Mundo. Tinha a impressão de que podia ouvir a própria res- piração. Eu me acostumara à comunicação explosiva na vida. aquele campo. porque provavelmente não era verdadeiro. Levantei a cabeça para o sol. a nós. apenas aguardava em si mesmo. com sua paciência longa e silenciosa. Ele se mostrou firme e confiante na apresentação das so- luções que propunha. Con- versamos sobre Jimmy Carter e a China. meio neutro. Ele comeu dois biscoitos com recheio de chocolate e tomou o chá morno. se eu me sentia uma vítima da ausência de comunicação. Beijei-o rapidamente. Era como um ambiente em tom pastel.. Es- tava totalmente sem fôlego. por causa da carência de clareza expressa e comunicação discernível era negar a riqueza in- terior de se comunicar com o silêncio. esperando pelo telefonema de Gerry. Conversamos sobre tu- do sob o sol.. aquele ambiente. Andei durante o dia inteiro e voltei ao hotel a tempo de ver Gerry na televisão sueca.

de alto a baixo de toda a escala social e intelec- tual. — Você tem ido a médiuns. E. que diferença isso faria? — Se pudéssemos definir o que fomos antes. — Querida. .Estou me referindo a falar com espíritos desencarnados atra- vés de um médium. E parece haver muito mais neste mundo do que você está disposto a conhecer. — Gerry. para começar. Mas por quê? Durante todo esse tempo com você tenho experimentado sentimentos precognitivos e de reconheci- mento. Há a força da atração entre nós. que acreditam na reencarnação. e daí? Que diferença isso poderia fazer. — De que forma? — Uma porção de coisas estranhas me tem acontecido ultimamen- te. não sou estúpida. apressei-me em acrescentar: — .isto é... — O que é? — Não está curioso sobre o que tenho escrito? Ele ficou surpreso.. porra! — Minha paciência subitamente se esgotara. — Ele respirou . Eu sabia que estava fazendo tudo errado.. não sou doida. para aqueles que precisam. Ele exibiu um sorriso irônico. há pessoas fazendo isso durante todo o tempo. Shirl. — Percebendo a expressão de alarme cui- dadosamente reprimido em seu rosto. — Pelo amor de Deus! Se está sugerindo que já tivemos alguma vida comum anterior... — É sobre nós. Há uma por- ção de pessoas. Mas.. — Não é essa absolutamente a minha intenção. além do mais.. você passou tempo demais sozinha neste quarto. — E o que é mediação? Engoli em seco. pelo menos desde que nos conhecemos.. se descobríssemos atra- vés de uma mediação. de certa forma. — Claro que estou. Ele respirou fundo. Gerry ficou consternado e depois muito preocupado. Gerry. Há uma coincidência de- pois da outra a nos aproximar. Gerry: você tem a impressão de que já me conhecera antes. talvez pudéssemos determinar o que devemos ser agora. Responda sinceramente. já que não podemos nos lembrar? — Poderia fazer uma grande diferença.. em algum outro lugar? — Não estou entendendo. — Não. — Isso é provavelmente verdade.. Sabemos que é muito mais do que apenas uma coisa física. ao longo dos tempos. Não estou com um esgotamento nervoso. é uma coisa bo- a.. — Não tenho qualquer objeção à reencarnação. — Não seja condescendente comigo! Quero apenas conversar a respeito. que é ilógica nas circunstâncias. — Não estou falando de camponeses famintos.. Shirley.. Mas em que você está pensando. Shirley? — Não precisa falar como se fosse uma coisa obscena. es- pecificamente. para descobrir todos os tipos de coisas. estou falando sobre nós.. especificamente? — Reencarnação.

— Espero mesmo que não! Escute. len- tamente. ele não podia ver. não podia sequer começar a admitir a possível vali- dade de sua existência. Gerry? É justamen- te sobre isso que tenho escrito.. ou talvez só para mim. era algo completamente além do seu alcance.. malucos. — Em que está pensando. porque naquela altura eu não tinha a menor intenção de publicar. de Edgar Cayce. desesperado.. ressentida por causa disso.. — Edgar Cayce não aceitava dinheiro. ele fitou-me com constrangimento. — Eles não estão se comunicando. Noventa por cento dessa gente são charlatães e todo mundo sabe disso. Creio que era lógico que assim fosse. Ou então a estão enganando. O que exa- tamente você vem fazendo? Sentindo-me culpada e defensiva. enquanto eu ia contando tudo... Depois. não passa de asneira. Não pode acreditar que eles estejam realmente se co- municando com espíritos. você não pode conti- nuar com essa coisa. gen- te que tira as coisas do próprio inconsciente. — Tem razão. porque ele não tinha o menor conhecimento de medicina. Começo a pensar que não pode ser para nós. explorando pessoas crédulas. Gerry? Ele sacudiu a cabeça. — Porque cada intelectual que você já conheceu. — Por que não? . Ele escutou em silêncio. — Não pode fazer isso — disse ele. já que ele estava sempre consciente da importância da sua. devemos mesmo conversar a respeito. — Mas por que você tem de se meter com essas coisas? — pergun- tou ele. os conselhos que dava e- ram procedentes e não vinham do inconsciente. das leituras que vinha fa- zendo. — Não para ser publicado. qualquer pes- soa que tenha meio cérebro para usar. E só Deus sabe o que o público pensaria se isso transpirasse. nem mesmo se lembram do que foi dito. Não vai ganhar nada com isso. Mas ainda não considerara de forma alguma as possibilidades do mundo que eu es- tava explorando.fundo. que querem ouvir coisas a- gradáveis absurdas a respeito de parentes mortos ou algo parecido. Gerry fitou-me com uma expressão desolada. todos os seus amigos vão pensar que você enlouqueceu. taxativamente. — Não sei o que dizer. — Por que não? A inflexibilidade dele estava me levando a uma falsa posição. — O que está querendo dizer com transpirar. Fazem apenas por dinheiro. — Estou apenas tentando encontrar uma explicação para nós. querida (raramente Gerry usava palavras carinhosas e o fato de já tê-lo feito duas vezes naquela conversa indicava como estava transtornado). Mas tenho certeza que você não pode es- tar falando sério.. — O que quer que façam. falei de Cat e Ambres.Mas não é óbvio? Esses médiuns são psicóticos. o que foi uma surpresa para mim. vai despedaçá-la por com- .. Estão apenas servindo como meios de comunicação. Era muito interessante o fato de ele estar preocupado com a minha imagem pública.

Gerry observou o movimento. Gerry beijou-me os olhos e o pescoço. Ele me levantou para si. escondeu o rosto por trás. no meio de uma palavra. — Quando é seu aniversário. ficarei melancólico demais para conseguir suportar. deixando escapar um pequeno suspiro. — Está quente. Gerry me ergueu e me colocou ao lado. — Estamos em janeiro. que se dane tudo isso! — Beijei-lhe o nariz. — Caso contrário.. Contemplando-me por um momento. se é que chegara a haver alguma! Inclinando-me para a frente. — Vamos esperar para ver o que acontece. — Eu a amo mais do que posso dizer. — O que está quente? — Seu nariz. . Ele explicou que o aniversário do seu vice-líder era no mesmo dia. Realmente adorável. Sorri. beijou-me. empurrou-me os cabelos para trás. o prazer oculto das vistas. depois de sua eleição? Ele levantou o braço. Caí contra ele. Olhou para os nossos corpos e murmurou: — O seu próximo movimento pode ser impossível. Gerry. Nunca nos despíamos.. Quando ele se encaminhou para o banheiro. — Não acha que foi uma manobra extremamente complicada? — Não tão complicada quanto nós. ao mesmo tempo em que me senti comovida por sua a- flição evidente. Ele parou de falar. Tenho de ir. afagou-me os olhos. Ajoelhei-me ao seu lado. Estaria viajando. — Quando acha que poderemos tornar a passar toda uma noite juntos? — acrescentou Gerry. reprimiu um soluço. Achei graça de sua pressuposição de que todas as pessoas inteligentes partilhariam suas opiniões.pleto. Ele mexeu nos meus brincos. Estava frio quando você chegou. Como soube? Respondi que tivera um pressentimento. Onde você es- tará? Respondi que não sabia. Mas a rejeição sumária de tudo o que eu dissera parecia impossibilitar qualquer discussão adicional. Fazíamos amor como estávamos levando nossas vidas. a calça empilhada nos tornozelos. Gerry? — Na terça-feira. Somos uma só pessoa e você sabe disso. Ele fez menção de levantar. — Tenho de me levantar agora — disse ele. depois se levan- tou. Shirl? — Vou. mas conteve-se... Tive a sensação de que estava entrando num limbo triste. — Vai partir amanhã. murmurei: — Ora. abri o négligé e deixei cair em torno dos nossos corpos. o homem ficaria muito desapontado se Gerry não voltasse à In- glaterra para ajudá-lo a comemorar. sim. ele murmurou: — Você é linda. não pude acreditar que ali estava o homem que que- ria ser primeiro-ministro da Inglaterra. Eu ainda estava no sofá quando ele voltou. Ele levantou meu rosto e. Não poderia ser em setembro. atordoado e infeliz.

— E a comemoração do seu aniversário? — Não tem importância. determinado. As luvas de couro e o ca- saco preto se delineavam nitidamente contra um fundo branco total. Não olhou para trás. joguei-lhe um beijo. Ao voltar. Olhei para a rua lá embaixo. E. silenciosa. sem fazer a menor menção de segui-lo. — Estou horrível. ficou curioso em verificar como saíra. Ele foi quase cor- rendo ao vestíbulo. e o seu aniversário!!! Parei de falar abruptamente. para se tirar a fruta de uma árvore. Abrindo-a. fria. Parei de falar no meio de um pen- samento. Shirley? — Nada. encaminhou-se para a porta. Retornei ao vestí- bulo. E. Agarrei-o pelos braços. Ele tornou a levantar o rosto em minha di- reção e acenou. soprei a fu- maça para o ar. — Não tem importância? Gerry. é preciso su- bir no galho. Mas Gerry já desaparecera. Ele levantou o rosto e acenou.. como se estivesse gravando em sua memória como eu parecia naquele momento. Gerry apareceu no pátio. Tirei algumas fotografias dele com a minha Polaroid. pegou o casaco e as luvas. usando o flash. na noite sueca. Capítulo 12 . Ele abriu a porta e virou-se para me fitar. Gerry posou de boa vontade. — Está realmente linda. com isso. pro- curando por um táxi. observando-a misturar-se com o vapor da minha res- piração. a imagem foi adquirindo cores. assoviando. Fiquei pa- rada onde estava. ele disse: — O que acha que temos em comum? Suspirei e passei os dedos pelos cabelos que lhe caíam nos o- lhos. gentilmente. como a dizer que era outra data no futuro pela qual podia esperar. sacudindo-o. descobri que Gerry esquecera os óculos. Ao pegar os ócu- los. — O que tem meu aniversário. Shirley. A neve turbilhonava ao seu redor quando ele saiu para a rua. Ele acenou com a cabeça. ele se foi. Acendi um cigarro e fui até a janela. branca.. depois. Senti que ele tomava a decisão de seguir a pé. Corri para a porta e tranquei-a. Lentamente. Gerry acrescentou: — Sei que. Entrei e fechei a porta. A rua estava vazia. Ouvi os passos dele voltando. Assoviei baixinho. A neve caía agora intensamente. Ele me fitou nos olhos e depois se afastou. Pôs as chaves do quarto na mesinha baixa. Retribuí ao aceno. Gerry me perguntou: — Quando é o seu aniversário? — No dia 24 de abril. com uma veloci- dade ainda mais agressiva. Tornei a sacudir-lhe o braço. pegou sua pasta e depois.

Nas semanas e meses que se seguiram. escutei gravações. por exemplo. nesses casos."A alma é na verdade um conceito vago e a realidade da coisa a que se refere não pode ser demonstrada. Falava a alguma coisa muito antiga. Com a exceção de Edgar Cayce. principalmente em termos de clareza e coe- rência das mensagens transmitidas. A experiência com Ambres fora fascinante. Eu não sabia quem ou o que acabara de deixar. sempre que possível.. quase nenhum dos médiuns era conhecido por seu no- me. resolvi investigar o processo de media- ção. para quem ou o que estava voltan- do. mas apesar disso eu tinha a impressão de que era precursora de uma nova era de pensamento para mim. como acontece com quaisquer profissionais. Alguma coisa extraordinária estava ocorrendo em minha vida. inclusive Abraham Lincoln. Mas não tinha nome. esquivava-se a qualquer descrição." — Joseph Wood Krutch. Descobri que havia uma quantidade impressionante de médiuns. Mais Vidas do Que Uma O vôo de volta à América foi bastante estranho. mas sim de experiência. Havia. não tanto em termos de gracilidade. Uma filha pragmática do meu tempo. outros simulavam e vários diziam que nada estava dando certo. (Verifiquei também que. O clima nebuloso de gravidade que envolve o fenômeno da medi- unidade nas mentes da maioria das pessoas (talvez porque fosse um tanto sombrio o ânimo de cada um diante da perspectiva de uma con- versa com um espírito desencarnado?) parecia estar era contradição com a realidade. transmitiam uma e- norme individualidade de caráter e aura. Mas a percepção é o mais evi- dente de todos os fatos (invisíveis). Além disso.) Mas fiquei também impressionada pela variedade e força de per- sonalidade demonstrada pelas diferentes entidades que eram recebi- das. mas também praticado. Como especialistas ou talentos em qualquer setor. mas as indagações que eu apresentara a Lars e Birgitta ainda me atormentavam. li. alguns confiavam na experiência passada.. a mediunidade era algo que vinha ocorrendo há bas- tante tempo e diversas pessoas famosas não apenas haviam "acredi- tado". havia dias em que absolutamente nada saía direito.Os fisiologistas gostam de comparar a rede dos nervos cerebrais com um sistema telefônico. O cérebro não cria pensamento (Sir Julian Huxley ressaltou recentemente esse fato). é um instru- mento que o pensamento acha útil. A personalidade recebida era dominante. investiguei. estudei. Fiz indagações e. mas ignoram o fato significativo de que um sistema telefônico não funciona até que alguém fale nele. Havia algumas entida- des que se sobressaíam. era melhor que todos voltassem para suas casas. um humor profundo e uma irre- verência ocasional em algumas das personalidades recebidas.. Quem quer ou o que quer que fossem essas entidades. que usava Carpenter (o médium vivia na Casa Branca com o presidente) para . alguns médiuns eram melhores do que outros.

que cada pessoa desenvolvia gradativamente. Escrevendo sem parar por horas a fio. a estrutura do átomo. a Sra.. por assim dizer. era um caso particularmente interessante. por uma torrente de palavras que exigia ser passada para o papel. J. Uma parte desse material aparecera em diversas obras pu- blicadas. Não tendo qualquer contato anterior.K.. atônita e transtornada. Piper era bastante conhecido. ela acabara dando um título ao que descreve como "aquela estranha ba- telada de anotações. quan- do escrevia poesia.consultas regulares. ela e o marido (que desde o início tomara anotações de tudo o que Seth dizia) acumularam quase uma biblioteca sobre as sessões. Desde 1963. nada sabendo de Seth. muito menos a qualidade de sua natureza. a prancheta em formato de coração e a tábua oui- ja. O trabalho de Sir Oliver Lodge e da Sra. na ocasião.. Concentrei minha atenção nos médiuns mais modernos e nas enti- dades que se comunicavam por seu intermédio. interesse ou crença nos fenômenos psíquicos. mas também ficava igualmente evidente que muitas pes- soas respeitáveis e sérias levavam a sério a mediunidade. (Verificou-se posteriormente que as anotações constituíam uma sín- tese do material que Seth desenvolveria. Roberts ficara apreensiva. Seth.. O cosmos é um conceito atordoante: relacionar cada ser humano individual a tal vastidão era muitas vezes mais do que os ouvintes podiam suportar. Roberts fora invadida uma noite. ela e o marido conduziram muitos tes- . O Universo Físico como Elaboração de Idéia". a Sra. não apenas a mediunidade. A mais conhecida das entidades espirituais que se comunicavam atualmente parecia ser um mestre espiritual referido como D. Esse tipo de coisa parecia ter estado quase em voga na virada do século.) Mas. e tudo o que isso implicava. a força concen- trada das informações não funcionava.. Morgan (que usava Evangeline Adams). mas também as batidas na mesa. recebido por Alice Bailey e depois por Benjamin Creme. As entidades que comunicavam tais informações freqüentemente pareciam não ter a menor idéia do quanto a parte no outro lado da linha telefônica. oferecendo mais de uma faceta do fenômeno da mediunidade. William Randolph Hearst. parecia haver um ritmo individual. eram questões a que a maioria das pessoas não dava muita atenção. dos campos mais variados. Nas semanas e meses subseqüentes. assimilando os fluxos desconcertantes que recebia. todo pensamento. Era também evidente que algumas pessoas não podiam manipular o volume de informações transmitidas. Em se lidando com a mente e emoções. E quando se entrava em detalhes sobre a vida extraterrena. uma delas ditada pelo próprio Seth. um bom di- vertimento. depois que Seth virtualmente insistiu em "se manifestar". Roberts foi abordada pela primeira vez por Seth. a coesão de toda matéria. e muitos e muitos outros. Em suma. Roberts nos primeiros contatos com Seth (O Material Seth). Não restava a menor dúvida de que era interessante. seria capaz de absorver. parecia alie- nar muitas pessoas. O que achei mais in- teressante foi a dúvida intensa demonstrada pela Sra.. tanto pelo próprio evento como pelo conteúdo do que escrevera.. quando a Sra. rece- bido por Jane Roberts. P. Ao contrário.

Onde apenas para se manter com vida. para desfrutar um pôr- do-sol. mas o que contava era a refeição. explorem a si mesmos.) Mais do que isso. (Durante um período subseqüente. a habilidade profissional ou o conhecimento provi- nham de outra fonte. para não falar nada de ficar por cima. O contato humano parecia superficial. Em última análise. tinha de se man- ter em movimento só para sobreviver. uma "prova" concreta de mediunidade. não chegava a ser desimportante. estavam dizendo basicamente a mesma coisa. Se a pessoa era pobre. era quase impossível encontrar tempo para se olhar para dentro. ouvir o que se estava pensando. lutando por objetivos . muito menos o que outra pes- soa estivesse pensando. num plano diferente. Mais e mais. tinha a impressão de que não passaria muito tempo e ficaria para trás. então parecia que a língua estrangei- ra.. Estava acostumada a viver num mundo em que. era difícil estabelecer. Uma pessoa bem- sucedida tinha de se manter em movimento na corrida desabalada só para conservar a posição. Nunca havia qualquer tempo só para a pessoa. se a pessoa não tivesse o cuidado de acompanhar o progresso do próximo. Provavelmente eu me sentia mais curiosa a esse respeito porque parecia que poderia aprender alguma coisa útil a meu relacionamento com Gerry. a prova do processo era o próprio conteúdo: se um médium falava em língua estrangeira. Olhem para si mesmos. Seth levou muito tempo e precisou recorrer a algumas demonstrações espetaculares de faculdades especiais para provar à Sra. demonstrava um talento (como tocar piano). pela própria natu- reza da vida que levávamos. em línguas diferentes. enquanto eu lia e pensava.. entidades se manifestando através de uma variedade de pessoas. mas era como o preparo de uma boa refeição: a pessoa sentia-se grata por uma boa cozinheira. a repensar. eu haveria de deparar com muitos exemplos de tais "provas". Pelo menos um aspecto das informações trans- mitidas sobre as quais eu lia aflorava repetidamente: era o que se relacionava com a recordação de vidas anteriores. Mas o que realmente me atraiu a atenção. no vasto volume de material disponível para estudo. não havia tempo para nada. ao final de dois ou três meses de leituras e in- vestigações intensas. observar uma abelha a zum- bir. praticava uma profissão específica (como a medicina) ou transmitia informações sobre um lugar distante ou alguma pessoa ou ocorrência particular de que não podia ter conhecimento. escutar um passarinho cantar. Roberts que não era uma parte do subconsciente dela! Apesar de tudo. em termos científi- cos. mas a esta altura o processo já se tornara corriqueiro para mim. em muitos países. eu chegara à conclusão de que o processo era de relevância menor. parecia necessário assumir atitudes que eram justamente o oposto.. talvez a pensar pela primeira vez sobre valores e aspectos da existência que até aquele momento aceitava simplesmente.. Na verdade. a mensagem me forçava a reexaminar motivos. vocês são o Universo. uma presença física na Terra atuando como um canal de comunicação para outro tipo de pre- sença. foi o fato de que tanto da mensagem pare- cia ser universal: ou seja. o talento.tes para provar ou negar a existência dele como uma personalidade separada ou a entidade desencarnada que alegava ser.

a sermos cria- turas vitoriosas e bem tratadas.. Eu estaria sendo rapidamente atraída para um vagalhão de compreensão humana? Se Gerry representava o antigo. Mas os psíquicos que eu lia sempre diziam a mesma coisa. Eu queria "ser". sem reconhecimento do que significa- ria acabarmos sozinhos. a quem amávamos ou casávamos. a importância da meditação. intelectual e um tanto ce- ticamente pragmático enfoque ao significado da vida. Vários relacionamentos estavam desmoronando porque as pessoas envolvidas não sabiam quem eram. sem desafios do que a mais poderíamos ser ou éramos. então a nossa energia invisível — pensamento. Em última análise. es- távamos todos sozinhos. mas apenas se dando voltas no pensamento. sozinhos com nós mesmos. E ao invés de nos aprofundarmos.. Contudo. Sozinho.. as possibilidades ilimitadas da reali- dade metafísica. Se toda a energia era eterna e infinita. sem desafios do que podia ser assustadoramente novo e des- conhecido. Ele queria "fazer". Qualquer coisa de uma natureza espiritual have- ria certamente de constrangê-los ou faria com que rissem. E aparentemente muitas outras pessoas pensavam da mesma forma. incluindo os meus. Mas isso poderia agora estar mudando? As pessoas estariam ago- ra começando a esquadrinhar as suas próprias profundezas. Todos tinham medo de ficar sozinhos. talvez fosse por isso que ambos descobríamos que o relacionamento era em última análise insatisfatório. Descobri- me a conceder um crédito cada vez maior aos ensinamentos espiritu- ais. para aceitarmos apenas os limites e restrições impostos pela superficialidade segura. a decência essencial e a integri- dade da mensagem emocional. essa era a palavra terrível. necessariamente. Eu estava achando cada vez mais difícil acreditar que essa energia meramente se dissipava quando o invólucro físico se deteriorava. Imaginava o que outros amigos meus pensariam do que eu vinha lendo e meditando. Cayce e incontá- . sem desafio de como isso podia nos ameaçar.. Rudolf Steiner. como Lars e Birgitta haviam descrito? Era possível que milhares de pessoas..... preferíamos reagir a impulsos para nos mantermos confortáveis. Leadbetter. querendo-se um sentido mais profundo. personalidade. mente. e era aí que o conflito começava. como quer que se quisesse chamar — tinha de ir para algum lugar. estivessem se enfronhando no mistério de uma vida além da física e em decorrên- cia. o que podíamos significar uns para os outros.. Eu conhe- cera bem poucos relacionamentos que possuíam um sentido real e du- radouro. A exis- tência competitiva não deixava tempo para o que éramos. de conforto com proteção e acon- chego.. no mundo inteiro. sem chegar a parte alguma.significativos.. como uma espécie de mecanismo de sobrevivência instintivo para compensar a polaridade de violência e distúrbio que estava obviamente dominan- do o mundo? Estariam descobrindo o potencial para uma alegria in- contida em si mesmas. A impressão era de que não podiam sobreviver ao escrutínio que lhes impúnhamos. tendo em vista o mundo em que vivíamos. sem desafio do que a mais poderíamos compreender. da coisa que chamávamos de "alma".. não importava realmente com quem vivíamos ou dormíamos. alma. Eu começava a pensar que cada um de nós dispunha apenas da metade da equação. quem podí- amos ser. muito menos quem era a pessoa ou pessoas com quem estavam envolvidas.

O espírito do homem. Éramos parte disso. "eles" também sa- beriam a mesma coisa que nós ou teriam uma compreensão mais pro- funda? A ciência parecia virtualmente certa de que tinha de haver vida em outros planetas. A tarefa era descobrir essa divindade em nós mesmos e viver de acordo. todos afirmavam a existência fundamental de uma Von- tade Divina. diga-se de passagem. . quase ao final das filmagens de Muito Além do Jardim. físicos e mentais. Era tudo a mesma coisa: "Conheça a si mesmo. Na minha opinião." Concluí que os videntes antigos não dizem nada diferente do que era apregoado pelos psicólogos modernos. Um se chamava 7 Vezes Mulher. em que eu tinha um papel secundário. O outro foi Muito Além do Jardim. Ele sempre se tornava os personagens que representa- va. de uma maneira que só podia ser descrita como "tendo vivido a todos no passado". é uma parcela do grande espírito global. Peter era um gênio. estávamos filmando interiores no estúdio da Goldwyn em Hollywood. As possibilidades contra o seu não desen- volvimento pareciam remotas. Eu fizera dois filmes com Peter. com quem tivera uma experiência profissional maravilhosa e um relacionamento pessoal afetuoso. talvez mesmo irrelevante. reconhecer a própria alma. era uma dessas pessoas: Peter Sellers. Quando cheguei ao estúdio. assim como acontecia no nosso? Os antigos diziam: "Estude a si mesmo. e até mesmo Shakespeare. em que ele tivera o papel de coadjuvante de um dos meus sete mari- dos. E saiba que cada alma acabará encontrando a si mesma." Conhecer a si mesmo talvez fosse necessário para simplesmente ter percepção. na Ca- rolina do Norte. enquanto Peter tinha o trabalho mais extraordinário de sua carreira. naquela manhã. Mas muitas pessoas que eu conhecia queriam esse conhecimento e ainda aceitavam a teoria da reencarnação tão facil- mente quando aceitavam o fato de que o sol se levantava todas as manhãs. tenha coragem de olhar para den- tro e isso haverá de libertá-lo. Conhecer a soma das vi- das que a alma experimentara parecia totalmente impossível. que sentia que fo- ra aqueles personagens. E ele me confi- denciou que passara por uma experiência que ajudara a confirmar a convicção de que sua alma era de fato separada do corpo. E se houvesse. Dizia que conhecia os persona- gens que representava melhor do que a si mesmo.. Se encontrássemos vida em outros planetas. era parte de nós. Seu destino e seu carma dependem do que sua alma tem feito com as coisas de que to- mou conhecimento. religiões ou ciên- cia. conversamos a respeito. pois em si pode en- contrar as respostas a todos os problemas que venham a confrontá- lo. em alguma ocasião. Não se pode escapar de nenhum problema. Acabei sabendo que um ator extraordinário.veis outros. com todos os seus atributos. tanto na tela como fora. Voltáramos da locação em Asheville.. É por isso que todas as respostas estão dentro de si mesmo. uma força de energia da qual tudo o mais derivava. Encontre a si mesmo agora... mas sofria pessoalmente do que ele chamava de uma carência de co- nhecimento da própria identidade. essa vida teria uma Vontade Divina diferente da nossa ou seria a mesma? A energia no centro do cosmos estava atendendo à vida em outros planetas. Um dia.

— Não costumo conversar com muita gente sobre isso. — Este estúdio de som me dá arrepios. Shirley. o que era viver com "esta maldita geringonça que tenho no coração". Não sabia se era porque recordações dos filmes que fizera ali es- tavam me voltando. pensei. Peter não parecia em boa forma naquela manhã.. podia até parecer insignificante aos outros. Os olhos dele se iluminaram como se tivesse finalmente encon- trado alguém com quem podia conversar. — Está querendo dizer que sente que aproveita as experiências e sentimentos que se lembra realmente de ter tido em outras vidas? — Falei de uma maneira quase indiferente. Dois na Gangor- ra. Ele deu a impressão de que não queria conversar sobre isso i- mediatamente. enquanto a ou- tra me apertava o braço. — Mas qual é o motivo? Ele limpou o suor da testa. Falou sobre comida. Ele trabalhava 10 horas por dia com um marca-passo no coração e nunca fora um candidato à maratona. em um momento ou outro". Pensariam que estou maluco. Subitamente. Sentamos juntos na traseira de uma limusine falsa. — Por quê? — Porque sim. ou se estava acontecendo alguma coisa de que eu tomaria conhecimento mais tarde. — É possível. Apenas possui uma melhor recorda- ção de vidas anteriores. Peter continuou a falar sobre representação e papéis. .estava dominada pela sensação de que havia alguma coisa errada. — Provavelmente é por isso que você é um ator tão bom. Mas enquan- to Peter continuava. — Eu também não. não entendi o que ele estava dizendo. Ele assen- tiu e se afastou. Sabia que ele ainda não chegara ao que queria dizer. Mas provavelmente há mais pessoas que acredi- tam nas coisas cósmicas em segredo do que podemos imaginar. Shirley. compreendi que ele estava falando em ter vi- vido aqueles personagens em algumas de suas encarnações anterio- res. como sentia que conhecia todos os personagens que repre- sentava. num nível criativo. Provavelmente porque estava cansado. — O que foi a dor que acabou de sentir. Infâmia e Se Meu Apartamento Falasse. mas talvez fosse bom conversarmos a respeito. Chamei o gerente de produção e sussurrei-lhe que providenciasse um médico. Peter levou uma das mãos ao peito. Não era uma atitude que chamasse muito a atenção. Escutei em silêncio. Fiz um esforço para não reagir de maneira exagerada. mais do que a maioria das pessoas. — Porque foi aqui que morri. A princípio. as lembranças de Irma La Douce. partilhar a sua crença. respirou fundo. Peter? — Provavelmente apenas uma pontada de indigestão. esperando que a iluminação fosse acertada. Ele pareceu relaxar um pouco. Lembrava de ter lido nos jornais a história do seu terrível encontro com a . o que era certo e errado para ele comer. Foi bastante específico ao dizer que sentia que "fora ca- da um daqueles personagens. Mas compre- endi que alguma coisa estava muito errada.

" A mão desapareceu no outro lado e me senti flutuar de volta ao cor- po. massageou-o diretamente. tentei continuar a parecer tranqüila: — Já li o que Elizabeth Kubler-Ross escreveu. não conseguia me elevar. não me lembro de mais nada.. porque eu me sen- tia muito bem. Mas. Não estava assustado ou qualquer outra coisa assim. Peter me fitou atentamente. Acompanhei-o. Estava curioso. Quando Peter terminou. também não era o momento para essas pessoas e voltaram para con- tar. Eu observava toda a cena. Tiraram toda merda que havia dentro de mim. enquanto Rex continuava a trabalhar em meu coração.. Perguntava-me o que havia de errado comigo. da maneira que costumava usar para indagar abertamente se devia continuar a se aprofundar." No mesmo mo- mento. pôs-se a fazer pressão em meu peito. Mas. de incrível beleza. E. Fez tudo o que era possível. aparentemente. di- zendo que não havia tempo de preparar-me para cirurgia cardíaca. Ele ordenou que alguém me abrisse o peito ali mesmo. — Não acha que estou doido. Vi quando o Dr. Já ouvi muitas pessoas descrevendo o mesmo fenômeno. Não se pode dizer que todas estão doidas. Estou conseguindo um batimento. intensa." Tentei me elevar em sua direção. Tentei tocá-la. amor de verdade.morte. — Fale sério. segurá-la. Depois disso. Junto com outros. vi uma mão se estender a- través da luz. Kennamer chegou. Shirley? — Claro que não. Depois olhei ao redor e vi uma claridade branca. Como já falei an- . lembro de ter pensado: "Isso é Deus. no outro lado da luz que tanto me atraía. Jamais quisera outra coisa com tanta inten- sidade. E acho que o importante é determinar para que se volta. mas também não queria que ele parasse de falar. — Rex Kennamer salvou-me a vida e o vi fazer isso. ele disse: — Senti que deixava meu corpo. até que recuperei a consciência. era só meu corpo que estava em dificuldade. por cima de mim. a fim de po- der me elevar pela luz. Não falei em "você" porque se corria o risco de perder Peter quando se insistia demais nas questões pessoais. já dentro de meu cor- po. Como foi? Como uma pessoa relatando uma cena que acontecera com outra. Ele sentiu meu pulso. Fiz um es- forço para não pressioná-lo. curio- so. creio que li- teralmente. Rex se recusava a aceitar que eu estava morto. constatou que eu estava morto. Ouvi Rex gritar com alguém. Sabia que havia amor. agarrá-la. Era suave e aconchegante. Não é o momento. Flutuei para fora da minha for- ma física e vi levarem meu corpo para o hospital. Volte e termine. Rex tirou-me o coração do peito. Queria ir ao encontro daquela luz branca mais do que qualquer outra coisa. Estava amargamente desapontado. Só faltaram ficar pulando com os pés no meu peito para fazer meu coração bater de novo. E então ouvi Rex gritar lá embaixo: "Está batendo de novo. uma voz ligada à mão que eu queria segurar com tanto empe- nho disse: "Não é o momento. Ela tem muitos relatos documentados de pessoas que descreveram o mesmo fenômeno quando foram declaradas clinicamente mortas. de repente. menos jogá-lo pelo ar. por algum motivo.

— Estou. Era como se ele estivesse ali. Não sei por que estou aqui! Não sei pa- ra que voltei! É por isso que represento como faço.. ele . representando uma das almas mais gentis e ternas que já passaram por este mundo. Senti vontade de dizer ao repórter que ele estava enga- nado. A vida era uma ilusão. sim. exatamente como os filmes... Não consigo imaginar qual é o meu propósito. ainda mantendo a personalidade de Chauncey Gardiner. — Alguma coisa aconteceu com Peter Sel- lers! Quando falei isso. Peter se contorceu no banco. Senti vontade de dizer: "Você provavelmente pensa que ele está morto. como se nada tivesse aconte- cido. eu estava com alguns amigos em meu apartamento em Malibu. Al Ashby. mas na verdade Peter apenas deixou seu último corpo. — Peter! — exclamei. assim como muitos outros mistérios.. Claro que toda a conversa cessou. Não sei... mas Sellers? Nada. mas tudo isso. um suspiro longo e agoniado.. Estávamos filmando a primeira cena do filme no último dia das filmagens. não tinha a menor idéia." Senti vontade de dizer: "Ele fez o melhor trabalho de sua vida em nosso filme. Podia sentir Peter a me observar.. pude sentir a sua presença. Mas desde que voltei que não sei o que deveria estar fazen- do. A experiência con- firmou isso.. Ele tornou a respirar fundo.. E não sei se elas estão.tes. Peter enxugou os olhos com a manga do traje imaculado do per- sonagem de Chauncey Gardiner. Era um repórter de jornal — Eu gostaria de falar com Miss MacLaine. Virei-me e corri os olhos pela sala. Não restava mais nada a realizar. Piscou os olhos e fungou. — Você está bem? — perguntei. o diretor. Tudo ficou pronto poucos minutos depois. E nesse ins- tante o telefone tocou. a câmara. Controlei a voz e atendi. Queria saber a rea- ção dela.. Conversávamos jovialmente quando de repente me levantei da ca- deira de um pulo.. E sei que pensam que estou doido. as luzes. mas o amigo dela Peter Sellers acaba de morrer. — Sei que vivi muitas vezes antes. tudo me lembra que ainda não compreendi o que você acaba de dizer.. Mas estou doido pelas coisas certas. este cenário. observando-me dizer aquilo.. como Chauncey o teria feito. para que voltei. Cerca de um ano e meio depois. a identidade de "Peter Sellers" se lhe esquivava por comple- to.. Shirley... porque nesta vida senti o que era a alma deixar o corpo. na minha sala de estar. — Reação a quê? — Lamento muito se ainda não sabe. Estivera viajando e não sabia que Peter sofrera outro enfarte.. O que eu deveria estar fazendo? Os olhos dele se encheram de lágrimas. este carro. Já dissera várias vezes aos repórteres que compreendia os seus personagens a fundo. entrou no cenário e filmamos a cena.... Sou um chato para muitas pessoas. E passou a sussurrar: — Mas sei o que é.. Senti-me ridícula.

. Assim. — Porque não há mais nada funcionando para as pessoas. E como estão! A conversa estava indo mais longe do que eu tencionara. mas mesmo assim perguntei por que ela achava que alguém estaria inte- ressado. em The Ashram. ele sentia saudade da mãe. Um repórter estava tentando me dizer que Peter Sellers acabou de morrer. e o caminho espiritual é praticamente o único que ainda não experimentaram." — Francis Bowen..? Mesmo durante esta única vida.. vinda da Suécia. além disso. Embora saiba que Peter teria adorado. E você sabe que estão prontas para ler a respeito dessas coisas." Mas é claro que não falei nada disso. — O que aconteceu? — perguntaram meus amigos. Capítulo 13 "Por que se deve considerar inadmissível que a mesma alma venha a habitar em sucessão um número indefinido de corpos mortais. cada ser humano habita sucessivamente em muitos corpos.. Shirley! Isso é maravilhoso! Você vai escrever sobre a sua atração para a dimensão espiritual? Há muitas pessoas que adorariam ler sobre o que você está fazendo.. "Metempsicose Cristã" Liguei para Cat. Pedi-lhe que se encontrasse comigo pa- ra uma caminhada pelas montanhas. — Nada. comentei que tudo era tão desconcertante que vinha escrevendo a respeito para tentar chegar a alguma conclusão. Mas eu lhe darei o recado. assim que cheguei à Califór- nia. Andamos em silêncio por algum tempo e depois Cat acrescentou: . por isso deve ter se encaminhado para a luz branca.não podia provavelmente imaginar o que mais estava esperando. Limitei-me a dizer: — Shirley não está. embora por um processo de deterioração e restauração que é tão gradativo que escapa à nossa atenção. Desliguei e virei-me. nossos corpos estão permanentemente mudando. — Grande. Shir- ley.. Muitas sentem que tem de haver outro meio para levar suas vi- das. Pude sentir Pe- ter sorrir.. e. Os olhos azuis de Cat se iluminaram co- mo pires de neón e ela bateu palmas. E durante a caminhada falei da minha experiência com Ambres. Nas colinas ondulantes de Cala- basas talvez eu pudesse definir as minhas intenções. mesmo durante uma curta vida. Contei que estivera com Ambres em Estocolmo e queria conversar com ela..

por favor. embora os calcanhares pisassem primeiro no . marquei um encontro com Kevin Ryerson.. desencarnado ou não. Tinha um sobre- tudo (também bege) pendurado num dos ombros. combinando com o chapéu. Abri a porta. sem saber o que esperar. branda e diversas outras coisas que não sou. olhos azuis diretos e gentis.. — Além do mais. Possuía uma na- tureza tão radiosa que era difícil imaginá-la a não amar alguém. — É mesmo? — Eu estava espantada outra vez por descobrir como Cat era uma catalisadora em minha vida. — Claro que sim! E você vai adorar a luz dele! Vai adorar as entidades espirituais que fa- lam por seu intermédio! Cat sempre falava em pontos de exclamação.. Mas talvez fosse assim para ela. andando alegremente. O terno era bege. — Abri a porta para deixá-lo entrar. Imaginei como Cat podia comparar a mediunidade com repouso es- piritual. Ele dava a impressão de estar um pouco indeciso. As entidades po- dem lhe falar de suas vidas anteriores.. — Você já teve uma sessão com ele? — Oh. — Você gostaria de ter uma experiência com uma entidade espi- ritual que fala inglês? Conheço um médium muito respeitado aqui na Califórnia. Três meses e uma minibiblioteca de livros lidos depois. Ironicamente. — Depois de ouvir o relato da criação do mundo que Ambres fez. de um modo geral.. enquanto ele passava pela porta. O sorriso era inocente e gentil. — O tom dele dava a impressão de que sempre fazia uma pergunta. ajudá-la com diagnósticos físicos ou receitar dietas que são boas para as suas vibrações. — O que acha que aconteceria? — Diversas entidades se manifestam. Os mo- vimentos eram suaves. como se estivessem no quarto com você.. Kevin. Só de contemplá-lo me dava vontade de comer uma imensa fatia de torta de coco bege. você precisa de um bom descanso espiritual — disse Cat. Shirley! — Cat pareceu abrir os braços e irradiar sua energia por todas as montanhas ao redor. embora lá no fundo relaxado. Talvez possa fazer uma sessão com você. não parecia es- tar cônscio da sua aparência cômica. — En- tre e sente. — Sou Kevin Ryerson. eu gostaria de escutar algo mais pessoal. – Pois não. sapatos beges e meias beges. — E o que eu devo fazer? — Basta perguntar qualquer coisa que quiser. qualquer coisa que você quiser. Ele está ocupado em receber durante todo o tempo. Observei-o atentamente. sem perceber que o sobretudo bege estava quase caindo do ombro. A campainha do meu apartamento em Malibu tocou às 6:45 da tar- de seguinte. colete bege. sorriu-me prontamen- te.. decidindo ao mesmo tempo que tentaria ser neutra. Fitando-me sob um chapéu bege de aba caída estava um jovem em torno dos 29 anos. – Olá? Sou Kevin. — Seria divertido — comentei. mas virá de Santa Barbara para uma sessão em The Ashram.. Por intermédio de Cat. entrando no espírito da coisa. senti que chegara o momento para que eu fizesse alguma investigação me- diúnica pessoal.

em Londres. Acrescentei que conhecia todo o mate- rial de Edgar Cayce. — Você apresenta suas perguntas aos guias espirituais e eles determinarão o tempo necessário. mas não temos condições de sustentar uma babá. Mas chá seria ótimo. Não sei quanto tempo uma sessão assim pode durar. sim. Conversamos sobre o caso da Sra. — Quer dizer que casou recentemente? — perguntei. Kevin atravessou minha sala de estar e sentou um tanto formal- mente numa das cadeiras. Perguntei-lhe se gostaria de tomar um drinque. claro. — Não. um café ou qualquer outra coisa. Falei sobre Ambres na Suécia e de outras pessoas que me haviam descrito suas experiências. para não con- fundir a mensagem com o mensageiro. Piper. Minha dama pode aparecer à minha procura.. . — Isso mesmo. Talvez fosse isso o que acontecia quando se es- tava com um médium. Claro que pode. fazia-me duvidar que pu- desse ser levado a sério. Hesitei por um instante.. — Obrigado. Terei o maior prazer em emprestá-los a você.. Servi o chá a Kevin. Conversamos sobre Cayce. Casamos recentemente e planejávamos um jantar de comemoração para esta noite. — Claro. — Posso deixar meu veículo onde está. — Sua dama? — Isso mesmo. orientação espiritual e diagnóstico médico através do fenômeno da mediunidade. — E vão ter filhos imediatamente? — Não. O álcool inibe a minha acurácia. Discutimos as pesquisas de Sir Oliver Lodge com a Sociedade Britânica de Pesquisa Psíqui- ca. Parecia afetado demais. dizendo a mim mesma. Kevin disse modestamente que era um estudioso de Cayce e o admirava muito. — Uma grande alma — disse ele. sem saber como reagir a esse uso da língua inglesa. Preparei o chá. dependendo dos períodos de tempo que estaríamos ocupando. um anacronismo. Você provavelmente sabe melhor do que eu. Ele parecia oscilar entre os Cavaleiros da Távola Redonda e a geração do rock. querendo pu- xar conversa e querendo saber como seria viver com um médium. suas experiências de entrar em contato com a alma do filho morto. — Está familiarizada com as sessões espíritas? — Um pouco. — Tenho diversos livros de Cay- ce que são impossíveis de se encontrar. Soltei uma risada. lá fora? — Seu veículo? Ah. Combinando com a maneira como ele andava e o jeito de se vestir.chão quando andava. E eu gostaria que ela pudesse perceber o veículo imediatamente. Kevin parecia estranhamente fora do tempo. Ou talvez eu apenas estivesse interpretando tal impressão em seu es- tranho formalismo. em Boston. firmemente. Minha dama e eu temos vontade de sair por aí para mudar o mundo.. Eu me saía muito bem na brigada do chicletes de bola antes de decidir assentar. Não tem importância. está se referindo a seu carro.

— Eu não poderia explicar de qualquer forma racional — conti- nuou Kevin. — Também não sabia o que estava acontecendo comigo quando tudo isso começou — comentou ele. analisando mentalmente tudo o que ele disse- ra. Olhei para Kevin. Minha irmã também é capaz de receber. Mas resolvi não interrogá-lo sobre o traje. Eu nem mesmo soube que o estava rece- bendo. pensei. assim como havia praticantes de outras pro- fissões que cometiam erros ou eram descuidados nos dias "desli- gados" ou não se importavam com coisa alguma em qualquer dos dias da semana? Mas será que se podia julgar pelos resultados? A reali- dade invisível era algo que se podia provar? E. Como falaria ou pareceria um médium "típico"? Como seria um psi- quiatra ou médico "típico"? Havia médiuns que simulavam 90 por cento do que faziam.como suas informações sempre conferiam. Ao final. a- pesar de estar vestido como se tivesse saído de uma loja de costu- mes exóticos. Imaginei qual seria a minha impressão ideal de um médium digno de confiança. o que era a realidade invisível? Era.. — O espírito se manifestou durante uma das minhas meditações. um indivíduo. Se compreendesse ou falasse sueco. — Sabia apenas que devia estar canalizando guias espi- rituais. Cruzei os braços e me mantive em silêncio. eram infalíveis. quando tocaram... E isso sempre dei- xou nossos pais muito nervosos. Parecia extremamente modesto e despretensioso. pois eles nunca foram capazes de compreender. Cada indivíduo era justamente isso. Ele tomava o chá em pequenos goles. ao mes- mo tempo em que simulava uma voz diferente. nos termos mais simples possíveis. Por que eu deve- ria acreditar que ele não podia ou não queria simular vozes estra- nhas e inventar histórias intrincadas sobre vidas anteriores? Pen- sei em Ambres na Suécia. Ficarei apenas escutando.. Rezar a uma divindade chamada Deus era investir fé numa realidade invisível: quando um jogador de beisebol fazia o sinal-da-cruz antes de pisar na base. Kevin falava de uma maneira descontraída. estava invocando uma realidade invisível superior. eu me senti uma aberração. por falar nisso. alguma coisa em que se tinha de a- creditar para que fosse verdadeira. recordando os outros casos que já lera. em decorrência de seus talentos metafísicos e psíquicos. com receio de intimidá-lo.. Depois. E tem ajudado muitas pessoas. Mas alguém foi buscar um gravador e registrou tudo.. o senso inato de ceticismo. Comecei a ler sobre outras pessoas que também eram capazes da mesma coisa. E certamente não havia inventado as informações sobre vidas anteriores. Tam- bém não conhecia as vozes que saíam por minha boca. dava a impressão de estar bem enfronhado nas questões metafísicas.. aprendi a relaxar e deixar que acontecesse. Eu sempre confiara no que um amigo meu descrevia co- mo "detector de merda" embutido. era objetivo e sur- preendentemente divertido.. manifestando-se através de línguas que não falavam e coisas assim. eu também poderia ter formulado perguntas. Era difícil aceitar o que ele estava dizendo. com suas avaliações inteligentes das circunstâncias que descobria em si mesmo. quando um jogador de basquete fazia o sinal-da-cruz antes de arremessar um lance livre . Nada sabia das informa- ções médicas que haviam sido transmitidas por meu intermédio. até mesmo crianças de oito anos de ida- de.

Milhões de pessoas passavam todos os domingos a participar da realidade invisível de orar por algo que não podiam provar. Pensei no que ele acabara de dizer. —. Ninguém a contestava. Uma mente aberta seria um ato de credulidade? Tomei um gole do chá. — Você é religioso. Na verdade. — Está brincando? Que igreja me aceitaria? Estou invadindo o território delas. Bom. Ambres. Há quem ache que ele é o mais evoluído de todas as entidades desencarnadas. Buda e as incontáveis pessoas que haviam professado o mesmo tipo de crença. O Concílio de Nicéia alterou muitas interpretações da Bí- blia. Fala numa linguagem bíblica.E o que vai acontecer aqui? —. Comeu o bolinho em duas mordidas. Pensei na semelhança entre as sessões Cayce. Cristo ensinou que o comportamento de uma pes- soa determinaria os acontecimentos futuros. Não o interroguei a respeito dessas pressuposições um tanto pretensiosas. A maioria dos cristãos aceita isso. Kevin comeu um bolinho. Há uma frase na Bíblia que diz que nunca se deve receber outras entidades espirituais além de Deus. que geralmente se apresenta para cumprimentar as pessoas. Mas também a Bíblia nada diz a respeito da reencarnação e é um fato bem conhecido que o Concílio de Nicéia resolveu suprimir o ensinamento de reencarnação da Bíblia.que podia desempatar uma partida. Obviamente. O homem Jesus estudou por 18 anos na Índia antes de voltar a Jerusalém. Cada alma tem muitas mansões. O que alguém semeia. Não tento convencer ninguém. vou dizer. o espetáculo comovente de famílias rezando a um Deus invisí- vel num pronto-socorro de hospital era bastante familiar a todos. O fato de promover uma sessão com ele implicava acreditar no que estava dizendo? Seria um meio de pedir para ser convencida? Descobri-me a analisar minha "mente aberta" sob uma nova luz. Você terá de to- mar a sua própria decisão. três ou talvez quatro en- tidades espirituais me usam para transmitir informações. Digo que as pessoas têm Deus dentro de si. — Como sabe disso? — A maioria dos estudiosos metafísicos sérios da Bíblia sabe disso.. conforme dizem os indianos. que às . Kevin comeu outro bolinho.perguntei. intitula-se John. enquanto continuo a receber. há de colher. o carma. Kevin? Ele quase engasgou com o chá.. A I- greja diz que Deus só está dentro dela. O pri- meiro. – Está bem. ninguém nas arquibancadas ria dele. — O que quer que se pense de receber guias espirituais invi- síveis é uma decisão individual — disse Kevin.. Estudou os ensinamentos de Buda e também se tornou um iogue.. tinha um controle total sobre o corpo e compre- endia que o corpo era a única habitação para uma alma. a fé numa realidade invisível constituía o que se costumava chamar de reverência. A realidade invisível era aceita há séculos. Apenas tento compreender e aprender. duas. — As pessoas geral- mente "sabem" se faz sentido ou não. Nada disso parecia exigir ceticismo para se tornar crível. Parecia gostar de açúcar. Sinto-me perfeitamente orientado por meus amigos espirituais e continuo a desenvolver meus talentos metafísicos.

ajudam as que ainda estão no corpo. Pensei em minhas experiências na África com uma força que parecia me proteger quando viajava sozinha. Se você preferir ou se John sentir alguma dificuldade na comunicação. Há gente que prefere que seus guias espirituais sejam solenes. Está de acordo com tudo o que li. conhecer uma pessoa ou ir a algum lugar.. outra entidade se apresenta. em estado consciente. As almas que morreram. Mas es- pere um pouco. Intitula-se Tom McPherson. Se as en- tidades são mesmo do "plano astral". Por que ele gostou de ser um punguista? — Pergunte a ele. nos Himalaias. Disse que esse Tom McPherson foi um punguista irlandês? Isso significa que ele não foi mais nada? — Claro que não. — Deixe que eu me ajuste. — Devo admitir que me sen- ti guiada por alguma força. — Acredita que todos possuem guias espirituais? Kevin ficou surpreso. Acontece apenas que a personalidade de pun- guista foi a sua encarnação predileta. acima das nuvens. Essa força motivara a minha curiosidade e o meu im- pulso de questionar o que não podia ver. quando estou dormindo.vezes é difícil de entender. por uma força que não podia compreender? Pensei em todas as ocasiões na minha vida em que julgara estar escutando a minha intuição. — Já.. Tinha a impressão de ter reconhecido uma força similar então. inclinou-se em minha direção. que parecia quase me compelir a tomar uma decisão determinada. pensei. assim como tínhamos no corpo. E posso senti-los a me guiarem quando estou desperto. pois sua encarnação predileta foi a de um punguista irlandês há algumas centenas de anos. — Nunca teve a sensação de que estava sendo guiada a fazer al- guma coisa. Shangru. há quase 25 anos. Ou- tros acham que ele é humorístico demais para ser levado a sério. — Espere um momento — pedi. com uma coleção de personagens excêntricos. ao longo de minha vida. Não estou cônscio da minha mente consciente. em seus mosteiros a mais de cinco mil metros de altura. Ele ensina do ponto de vis- ta dessa vida. A compreensão espiritual é justamente isso. E há também o Dr. cuja encarnação predileta foi a de um jamaicano que compreende os problemas raciais dos tempos modernos. Parecia uma história em quadrinhos. bem versado em assuntos médicos. — Mas claro! É o que a alma faz. Senti que minha mente tentava protestar. — O que é justamente a compreensão espiritual? Kevin empertigou-se na cadeira. Mas o que isso . — Ahn. — Você ouve essas entidades quando estão falando por seu in- termédio? — Não. Mas acho que é por causa de seu senso de hu- mor. um paquistanês que viveu há algumas cen- tenas de anos. Muitas pessoas gostam de trabalhar com ele. Mas posso falar com as entidades no plano astral. então teriam personalidades individuais. sim — respondi a Kevin agora. sentados a meditar. se quiser. Há ainda Obidaya. Ele pode ser muito engraçado. quando me senti impelida a indagar e inves- tigar o que os lamas estavam fazendo. depois que deixa o corpo. Ou no período que passara em Butão. por assim dizer.

Pode ter definido apenas como uma força.. Levantei-me e indaguei: — Qual é a sensação de saber que essas entidades espirituais falam por seu intermédio? Kevin hesitou por um instante. mas que continha a semente indestrutível da qual derivou a nova existência: são um só ser. em Malibu. Mas não era simplesmente uma questão de se acreditar no que se queria acreditar. Kevin parecia subitamente muito vulnerável. mas estou sugerindo agora que se torne mais perceptiva na compreensão do que estava realmente acontecendo. O Mundo como Vontade e Representação Reduzi a iluminação na minha sala de estar. uma existência consumida que pereceu.. – Não — respondeu ele. co- mo pensava em relação à política. E naquela noite de sexta-feira. com a xícara de chá equilibrada nos joelhos beges. estava sendo guiada por seus amigos espirituais. O mar sussurrava gentilmente lá fora. mas Kevin Ryerson viria a se tornar um dos telefones na minha vida.significa? — Significa que. eu estava prestes a conversar com alguns amigos novos." — Arthur Schopenhauer. juntamente com seu conhecimento intuitivo. sua nova existência é paga com. eu estava sendo lembrada mais uma vez que cada pes- soa experimenta a sua própria realidade. Reais ou não. Todos te- mos os nossos papéis na vida.. — Acho que vou sair agora.. o que fazia nas noites de sábado.. Mas talvez seja esse o meu carma. ninguém pode ser o juiz do que é de fato essa realidade. — Está certo. Liguei o gravador e perguntei a Kevin se pre- cisava de alguma coisa. Outros que haviam passado por uma especulação espiritual teriam efetuado a mesma personalização do que aprenderam? Eu não sabia na ocasião. Ima- ginei como seria a sua vida. em- pertigado. . Ficarei aqui.. — Eu gostaria às vezes de ser apenas um jardineiro. por guias e mes- tres. não é mesmo? Talvez o meu seja o de um telefone humano. Era mais uma questão de tomar cuidado para se abster de ser tão cética que se excluía automaticamente idéias desafiadoras e novas percepções. Capítulo 14 "Cada ser recém-nascido chega limpo e feliz à nova existência e a desfruta como uma dádiva: mas. ao invés do guardião do jardim. sentado ali. Apresentar a ponte entre as duas existências seria certamente a solução de um grande enigma.

gentilmente. Eu não sabia por onde começar. nós somos aqueles que a conheceram em vidas ante- riores. e tudo o que você é parte da unidade do todo. As mãos subiram para os braços da cadeira. — Ahn. a respiração cada vez mais pro- funda. por favor. a cabeça descaiu para o peito. — São então meus guias espirituais? É por isso que estou aqui? — Como tal. Não tinham todos determinados talentos.. — Nós somos levados a concluir que você tem indagações. junto à cadeira de Kevin. Vir- gínia. Fechou os olhos. Sou John. Lentamente. Houve uma pausa. Lem- brei que Kevin dissera que uma das entidades espirituais falava numa linguagem bíblica. Depois. pôs as mãos sobre o peito. Senti- mos o seu estado vibracional como tal e com ele estamos familiari- zados. — Para compreender a si mesma agora.. ele respondeu: — Naquilo que você chamaria de Gravações Akáshicas. Ca- lifórnia. cruzou-as. — Poderia. Fiquei aturdida. A respiração mudou de ritmo. Ele recostou-se. Limpei a garganta e mudei de posição no chão. As sobrancelhas se altea- ram. — Está bem. não sei explicar por que realmente estou aqui. o corpo estremeceu. — Muito bem. a sua respiração foi se tornando mais profunda. me dizer a quem se refere como "nós"? — Como tal. Ele parou de falar. Cerca de 30 segundos mais se passaram.. — Como tal — disse a Voz. — Vocês já me conheceram em vidas anteriores? — Como tal.. Tornou a levantar a cabeça. fazendo com que sua expressão se tornasse de surpresa momen- tânea. Esperei. que não parecia condizer com o alcance vocal de Kevin: — Salve. Como tal. Sou de Richmond. Calculei que isso significava que estava bem.. como se eu devesse ter um conhecimento to- . deve compreender que é mais do que parece agora. Depois. Meu nome é Shirley MacLaine. Isso está de acordo com a sua compreen- são? Contorci-me no tapete. Lentamente. Ele ficou imóvel por cerca de três minutos. a soma de seus sentimentos são o que já experimentou antes. um sus- piro escapou da garganta. inclinou-a para um lado. A soma de seus talentos. Aproximei o gravador dele mais um pouco. nos Estados Unidos. Identifique-se. Eu a verei daqui a pouco. mas estou lhe falando de Malibu. como se ele esperasse que eu fizesse uma per- gunta ou dissesse alguma coisa. por fa- vor. Meus cumprimentos. mas em que baseia suas informações sobre mim ou sobre algo cósmico? Praticamente sem qualquer pausa. ele abriu a boca. sentimentos e pensamentos que não correspondiam à experiência da vida presente? — Desculpe. Sou uma atriz que também escreve. E ouvi-o falar num sussurro gutural.. enuncie o propósito do encontro. a boca assumiu um sorriso.

Sua alma é uma metáfora de Deus. como indivíduo. seria consi- derada como um pergaminho singular dentro das bibliotecas ou como uma alma única dentro da mente de Deus. na igreja somos ensinados que Deus criou tudo. Eu me sentia neutra. — Essa energia acumulada chamada de Gravações Akáshicas é como vastos pergaminhos alojados em vastas bibliotecas.. como você consideraria. acumulado em ener- gia etérea. — Você tem uma mente? — Claro. — Você é levada a considerar que Akasha é o que poderia clas- sificar de inconsciente coletivo da humanidade. pensei. — Poderia me tornar muito arrogante se realmente acreditasse que eu era uma metáfora de Deus. E já que estamos tratando disso. O homem é o co- criador com Deus do cosmos. — Nunca tive certeza de que existisse uma coisa como Deus até recentemente. pseudobíblico. antes que ele dissesse: — Vou me empenhar em usar uma linguagem mais atualizada. A alma e Deus são eternos e unos. por que al- guém acreditaria em Deus? — Você está dizendo que precisa de prova de sua própria exis- tência? — Não entendo onde está querendo chegar. Mas é claro que tenho certeza de que eu existo. Não posso provar qualquer das coi- sas. — Então devo conhecer a mim mesma para saber o que é Deus? — Correto. E com o que está acontecendo no mundo. Mas "John" já estava continuando: — Somente quando o homem aceita que é parte da verdade que es- tá procurando é que as verdades se tornam patentes. Eu me sentia es- tranhamente embaraçada. — Como? Espere um pouco. alma ou Deus. — Ele continuou imediatamente. O homem se recusa a aceitar a responsabilidade por si mesmo. Parecia distante. — Desculpe. tendo em vista a dimensão limitada da linguagem. — Se é tão facilmente revelada. — Isso é um jogo da humanidade e não de Deus. — Jamais confunda o caminho que você segue com a própria ver- . — Está querendo dizer que compreenderei tudo se compreender a mim mesma e de onde venho? — Correto. Você. mas não é um tanto simples demais o que está di- zendo? — Toda verdade não é tão simples como é destinada a ser facil- mente revelada.. A alma é um reflexo de Deus. Você é levada a considerar que a comunicação das referidas idéias é difícil. por que não a conhecemos? — O homem se recusa a aceitar que está de posse de toda a ver- dade e assim acontece desde o início do tempo e espaço. — A mente é um reflexo da alma.. Não. Essa energia pode ser classificada como a mente de Deus. — Posso entender o que está querendo dizer. por que você fala desse jeito? Houve uma pausa. Não tenciono ser desrespeitosa.tal de suas referências. mas essa é uma maneira insidiosa de confirmar que há uma alma.

era uma transição es- petacular.. Eu queria apenas ter certeza de que você está captando os detalhes. Gostaria de tomar um pouco? — Claro. eu não podia deixar de ficar impressio- nada com Kevin. Não tem por uma aí uma infusão de ervas? — Está se referindo ao chá? — Absolutamente correto. Os braços se acomodaram de outra forma. Não era apenas o som da voz. E foi o que aconteceu: — Pausa. depois cruzou as pernas. Operamos aqui com freqüências vibra- cionais. — Essa não! — disse a voz de McPherson. Ele cobriu o rosto por um momento. Era extraordinário como ele parecia tão apartado de Kevin. Está. Não pude conter uma risada. Se ele estava representando. A expressão em seu rosto me fazia especular sobre o motivo pelo qual o achava tão engraçado. — Os detalhes? — Absolutamente correto.. sim. Fiquei um pouco envergonhada e esperei que ele dissesse mais alguma coisa. mas poderia me dizer o que há de errado com a gar- ganta de Kevin? — Não há nada — respondeu McPherson. Outra entidade está desejando falar. Tive a im- pressão de que podia sentir a sua personalidade aflorando. tentando compreender o que estava aconte- cendo. — Desculpe. — McPherson falando. — Ah. Kevin dissera que aquele McPherson era engraçado. A cabeça virou para o outro lado. sim. isso. Tem por aí um pouco da sua infusão? — Minha infusão? — Isso mesmo. — Como? Kevin mudou de posição na cadeira. Tom McPherson. — Eu não esperava uma reação assim tão cedo. Geralmente demora um pouco para se chegar a esse ponto. Fiquei de joelhos.. — Minha o quê? — Sua caixa de zumbido. — Tiro o meu chapéu para você — disse uma voz completamente nova. Tem problema? — De jeito nenhum.. como se ele não estivesse realmente fazendo isso. era quase a presença de uma energia nova e distinta na sala. Devo pôr na mão de Kevin? Poderá . Limpou a garganta e tornou a tossir. Como você está passando por aí? O sotaque era cômico. Sendo uma atriz. – Ahn.dade. Olhei para o gravador. Está querendo dizer que tenta ajustar suas vibrações de energia com as vibrações de energia de Kevin? — Absolutamente correto. Kevin tossiu. — Estou apenas tendo um pouco de dificuldade para me ajustar às vibrações do instrumento. — Tenho. — A xícara é muito pequena. Kevin incli- nou a cabeça. — Sua caixa de zumbido está funcionando? — perguntou McPher- son.

lamento dizer. — Sou parcial com canecas — comentou McPherson. — Posso chamá-lo de Tom? — Muito bom. Não pude deixar de pergun- tar: — Pode sentir o sabor do chá? — Sinto mais do que saboreio. — Não tem uma caneca? — perguntou McPherson. — Por acaso não há canecas de vidro no seu armário? Olhei para a minha cozinha. Na verdade. mas haveria empatia da minha parte. trocando-a pela xícara. Obrigado. não é como o pub — disse McPherson. — E se estivesse realmente quente. — De qualquer forma. Também não gostava daquelas xícaras pe- quenas demais. — Absolutamente correto. já que naquele tempo havia um precon- . Eu era irlandês. — Se estivesse quente demais. Embora a punga fosse mais o que você classificaria como "ofício de cobertura". Os olhos permaneceram fechados. Só que nunca servia chá nelas. Levantei a mão direita de Kevin e ajeitei a xícara na palma. — Era um espião para a Inglaterra e é irlandês? — Absolutamente correto. — A xícara não é apenas pequena. embora o nome Mc- Pherson seja escocês. Voltei e servi mais chá na caneca. Levantei-me. Ele estava certo. — Basta pôr na mão do jovem. Os olhos con- tinuavam fechados. eu era o que você consi- deraria como um espião diplomático. Soltei uma risada. Não sentiria a dor. Enchi a xícara e estendi para a frente de Kevin. — Soube que você foi um punguista. Continuei a falar com McPherson enquanto fazia isso: — Então você é mesmo irlandês? Todos os irlandeses pensam me- lhor com canecas? — Absolutamente correto — disse McPherson para as minhas cos- tas.segurá-la? — Claro. Ele engoliu o chá. — Ofício de cobertura? — Absolutamente correto. Ele não fez menção de levantar a mão. Assumi o nome de McPherson para disfarçar minha identidade irlandesa. Uso as faculdades orais do ins- trumento para adquirir um senso. você sentiria ou seria Kevin que sentiria? — Eu reagiria para proteger o instrumento. o que você faria? — Provavelmente usaria um comando melhor do organismo do ins- trumento para atenuar a dor? Houve um silêncio. Pude sentir que McPherson esperava que eu falasse. fui até a cozinha e peguei a caneca. Kevin levou a caneca aos lábios e tomou um gole. — Um pouco do velho sentimento de pub. é minúscula. Ele tomou outro gole. Ajuda-me a pensar com clareza. — Um espião diplomático? Para quem? — Para a Coroa Inglesa. Eu tinha canecas de vidro.

Ou quando sente no fundo da mente que uma experiência já aconteceu antes. carma e tudo isso. — Entendo. mas sabe que isso seria impossível. mas não con- seguindo ir muito longe. Tomei um gole de chá tentando entender as coisas. Muitas pessoas do seu tempo já falaram publicamente de experiên- cias de saída do corpo. usando o déjà vu como um exemplo de existência anterior.Mas por que você espionava para os ingleses. — Eis aí um bom argumento — disse Tom. Lembrei quantas pessoas já haviam de fato descrito essa expe- riência. depois de passarem pelas portas da morte. .. — E agora você aplica o seu ofício mais positivamente. pensando no que poderia ser uma linha produtiva. Índia etc. – Algumas pessoas diziam que a memória celular ou memória an- cestral (como alguns cientistas também estão dizendo) era a verda- deira explicação. — Como você trataria o problema. Quando a pessoa sente que está num lugar que já visitou antes. Estou liberando um pouco do meu carma agora ao lhe prestar um serviço. A maioria des- crevia a mesma luz branca a que Peter Sellers se referira. Eu era muito bom nessas coisas.. Portanto. diplomático ou não? — Absolutamente correto. É mais divertido para mim.. Contudo. Despejei mais chá quente na caneca.. Acreditavam que apenas herdamos geneticamente a memória das coisas que nossos ancestrais poderiam ter experimenta- do.. se eles tinham tanto preconceito contra o seu povo? — Gosto de pensar em mim mesmo como um espião independente. intitulo-me um punguista. A Coroa simplesmente me contratava para surripiar documentos impor- tantes dos diplomatas espanhóis. Mas como você abordaria a questão da existência da alma? Houve um momento de silêncio. atrain- do com um senso compulsivo de amor e paz. a fim de ajudar os outros por aqui? — Absolutamente correto. como nas sociedades tribais da África. – Conversei outra noite com uma pessoa sobre a existência da alma. A si- tuação não mudou muito desde então. Equilíbrio.. Servi-me de mais chá. Eu me sentia alternadamente divertida e cética. – Gostaria de fazer outras indagações? — perguntou Tom. — Tem mais um pouco dessa sua infusão? — Tenho. cujos ancestrais jamais deixa- ram o ambiente em que viviam. — Absolutamente correto. enquanto se olhava para o próprio corpo agonizante. sim.. — Acho que eu deveria ter dito que há casos de pessoas.. — Mas você também tem conhecimento de sua telepatia e experiências de saída do corpo. tais pessoas têm memórias da América do Norte. Algumas não queriam voltar ao corpo. agora que já teve tempo de refletir a respeito? — perguntou Tom.ceito maior contra os irlandeses do que contra os escoceses. . — Não tem uma posição desfavorável por ter sido um punguis- ta. Estavam na verdade experimentando suas al- mas como algo apartado do invólucro físico.

Lembra dessa experiência? Ele me fez parar abruptamente. por assim dizer. — Foi o que falei. Além disso. por assim dizer. Nós estamos sendo pacientes com você. A alma não é uma coisa material. muito menos o que ele dizia. do Dr.. Pessoas sérias que admitem tais investi- gações são levadas às vezes a se sentirem ridículas.." Fiquei em silêncio. que tanto amava. Em termos de meu conheci- mento pessoal. Mas talvez alguns dos ancestrais dele ti- vessem estado na Africa.. Mas é o que um amigo seu disse recentemente: "Para se colher a fruta. a memó- ria celular registrasse as reações e a prole herdasse essas me- mórias celulares. é preci- so subir no galho. se não fosse por uma coisa — disse Tom.perguntou McPherson. — Está certo. é muito fácil as reputações profissio- nais entrarem pelo cano. um pouco do velho vodu espiritual. o campo de estudo da alma tende a atrair desdém e escárnio. — O déjà vu também ocorre no contexto moderno. — Como soube disso? — Ora. Por exemplo: você pode ter um déjà vu quando entra numa casa que tem apenas uns poucos anos de construção. Isso dificilmente seria memória celular herda- da. Nunca antes eu mencionara aqui- lo a ninguém. Eu tomara todo cuidado para jamais mencionar Gerry a ninguém.Muitas experiências assim estavam registradas em Life After Life (Vida Após Vida). Su- perstição e tudo o mais. — Por que há tanta resistência ao estudo da alma como um fato realista? Por que não se investe tanto tempo e dinheiro em pesqui- sar a existência da alma como se aplica na fissão do átomo e na energia nuclear? — Por um lado. por favor. Eu me sentia totalmente aturdida. Eu precisava de um momento para me ajustar ao que acabara de acontecer. Alguma coisa como a sua experiência no que chama de sonho flutuante.. Poderia ter sido uma adivinhação previsível? Ele dizia a mesma coisa a todos a que se dirigia? Reprimi uma tosse. Raymond Moody. Uma coisa que temos é tempo de sobra. — Possivelmente. Ele usara a mesma analogia que Gerry.. Como aquele sujeito podia saber de nós? E . há muitos indivíduos que possuíam padrões de me- mória de lugares em que seus ancestrais nunca estiveram. Tom continuava a falar. — Dê-me um momento. por exemplo. McPherson continuou: — Você deve ser muito paciente com o seu Gerrv. havia uma quantidade espantosa de pessoas que in- formavam terem passado pela experiência. Eu estava espantada. Tratei de me controlar.. — Quanto ao fato do déjà vu ser simplesmente uma forma de me- mória celular. como os romanos. o material não está disponível. Seria possível que determi- nados sonhos fossem projeções astrais da alma? — Tem mais indagações? —. — O que é então? — É o resultado da alma se projetando astralmente para a casa nova. atordoada. — Mas por que é uma coisa tão desprezada? — Porque é considerado um desperdício de tempo absurdo.

do T. não é mesmo? — Não. pensei. Fiquei em silêncio por um momento. sinceramente. Além disso. – Santo Deus! – Absolutamente correto — acrescentou ele. um trocadilho. seria reconstituir a base de poder da algoz antiga e tradicional. Perguntei muito séria: — Sabia que está representando para mim neste momento? — Para ser absolutamente franco. – Gostaria de continuar? — perguntou Tom. — Você gosta de um jogo de palavras. Tomei mais um gole de chá e tentei me controlar. 1 Em inglês. Havia tantas perguntas que eu tinha de formular. assim se considera. (N. — E qual é a posição desses grupos de pesquisa que se dedicam exclusivamente à alma? — Fez uma bonita aí. – Muito bem. A atitude é com- preensível. E murmurei. ahn.. O gravador girava em silêncio.não apenas sabia de Gerry. pensando naquele chá absur- do.. acho que não estou sendo tão banal.. por assim dizer. no senti- do ortodoxo. — Mas não há proveito material quando se pesquisa a alma? — Absolutamente correto. Perguntei-me se era tão crédula a ponto de engolir até uma ba- leia. – Temos uma revelação aqui? — perguntou Tom. Isto é. solely for the soul. Eis outra muito boa: "natureza natural". jovialmente. Esta é a minha natureza natural. — Como assim? — Exclusivamente à alma1.. Pesquisar esses domínios da Igreja. Diga-me uma coisa: por que há uma lacuna tão grande entre a ciência e a Igreja? – Porque a ciência só recentemente (em termos cósmicos. devo dizer que sou sensacio- nalmente divertido em todas as ocasiões. por assim dizer. não há muito dinheiro nesse tipo de pesquisa. — Mas a prova da existência da alma não alteraria radicalmente a atitude da ciência? — Claro que sim.) . uma questão altamente pessoal.. mas também o que Gerry dissera. Deus do céu. Na verdade. Estava quase no fim.. — A alma está sob o domínio apenas da Igreja? — Absolutamente correto. É apenas uma extensão natural da minha personalidade.. Muito boa. a antiga carcerei- ra da ciência. Mas. — O que está querendo dizer é que ao se pesquisar a eletrici- dade pode-se chegar à luz elétrica? Ou se chegar a uma bomba quan- do se pesquisa o átomo? — Absolutamente correto. a alma é. é cla- ro) sente que se livrou dos grilhões da superstição religiosa e está agora desfrutando sua liberdade e era áurea. a ciência acha que não há base para se investigar a existência da alma. — Bom.. essa coisa poderia ser real. Pode me dar mais um pouco da sua in- fusão? Servi mais chá. Um momento se passou.

História Geral da Natureza Um tremor percorreu o corpo de Kevin. Podia sentir John "ajustar suas vibrações". O nível de realização em qualquer civilização é julgado pela evolução espiri- tual. — Saudações — disse a voz de John. mas se de- tém. até que reassumiu a personalidade de John.. A compreensão espiritual tem as sementes de sua própria destruição. Ele disse que inibia a recepção. nossa terra? Nunca participará. tirei a caneca da mão de Kevin. deve a alma permanecer para sempre ligada a es- te ponto do mundo-espaço. — Absolutamente correto — disse Tom. deve também compreender alguma coisa das civilizações ante- riores que conheceu. — Você esteve encarnada várias vezes durante o período de 500 mil anos da civilização mais desenvolvida que o homem já conheceu. subtrai ou desvia da compreensão espiritual. tem as sementes de sua própria destruição. O progresso tecnológico é importante e atraente. John disse: — Vai descobrir que. O telefone tornou a tocar. Você está sendo teste- . Foi o que a Bíblia simbolizou como Jardim do Éden. John reagiu.. Eu gostaria que compreendesse agora um conceito da maior importância. verifiquei o gra- vador e tornei a me acomodar. Não atendi. Você está sendo testemunha desta verda- de simples na civilização atual da Terra. — Eu gostaria de saber alguma coisa a respeito das minhas vi- das anteriores.. Haveria problema? — Muito bom. — Muito bom então. Acho por isso que não bebeu nada. que à distância já provocam nossa curiosidade?" — Immanuel Kant. como McPherson dissera. inclinando a cabeça. por favor. Capítulo 133 "Diante da duração interminável da alma imortal ao longo da infi- nidade do tempo. sentindo-me meio ridícula e atordoada. Ele sacudiu a cabeça. O telefone tocou. para compreender a alma dentro de você hoje.. Esperei. — É mesmo? — murmurei. por favor? Levantei-me. Poderia pegar a caneca. — Tem indagações a fazer sobre suas vidas anteriores? — Tenho. Só um momento. numa contemplação mais íntima das restantes maravilhas da criação? Quem sabe se a intenção não é que se torne um dia familiarizada intimamente com aqueles globos distantes do sistema cósmico. O instrumento tem algum álcool em seu organismo? — Não.

munha desta verdade simples na civilização atual da Terra. a fim de podermos ter uma empatia com o sexo oposto? – Correto. As religiões ensinam religião. — Então onde está a esperança para nós? Se estamos indo para trás e não para a frente. ansiosa. O que estou me empenhando em explicar é que cada indivíduo é um co-criador. A verdade só seria verdade quando pudéssemos "prová-la"? Eu não podia enfrentar o que estava pensando. então para que estamos vivendo? — Uma pergunta boa e importante. confu- são de propósito e total desigualdade e desespero humano.. por exemplo. a informação sobre uma das questões mais importantes da reencarnação. despertava a ansiedade. não espiri- tualidade. mas posso perguntar onde a religião se enquadra em tudo isso? — Há muito do que estou dizendo que seria contestado por suas religiões terrenas. Isso não é aceito por suas igrejas e religiões. que nos leva de volta ao as- sunto do carma. — Desculpe. assim como do seu propósito no presente e futuro Eu sabia perfeitamente como tal conceito seria explosivo. Tornei a olhar para Kevin e a "entidade espiritu- al desencarnada" que ele estava recebendo. Mas não havia muitas pessoas dentro da Igreja que buscavam o auto- conhecimento? Não havia muitas pessoas que. sim. Recebi calmamente. – Já. ficando um resíduo emocional e uma atração da encarnação anterior? . que preferem ter o controle sobre a humanidade. A com- preensão espiritual está muito aquém do conhecimento tecnológico. tornando necessário que você tome conhecimento de sua identidade básica e tenha compreensão do poder de seu livre- arbítrio. mas não ensinam que cada indivíduo é fundamentalmente o criador e contro- lador de seu próprio destino. Era algo inquietante. indagando: — Isso poderia ser uma explicação metafísica para o homos- sexualismo? Talvez uma alma efetue uma transição hesitante de um corpo feminino para um masculino. As luzes de um barco de pesca piscavam na escuridão. Duas vezes como homem e uma como mulher. As religiões do seu mundo estão basicamente no caminho certo. há uma progressiva insanidade.. ao in- vés de ajudar a ensinar que a humanidade só pode se controlar a- través do autoconhecimento e do conhecimento de seu passado. depressão. A religião tem explorado o homem. ainda procuravam incessantemente pela verdade além desses preceitos? Olhei pela janela para o mar escuro. mais uma vez. de um modo geral. – Todos experimentamos a vida como sexos diferentes. descobrindo-me um pouco ofegante. – Quer dizer que eu já vivi numa civilização antiga? — inda- guei. mesmo seguindo os pre- ceitos da Igreja. em conseqüência. e várias vezes. junto com Deus.. Ensinam que Deus assume esse papel. a fim de compreender sua divindade e sua associação com Deus.. É exatamente isso. provadas ou confirmadas. Perguntei-me quantas das grandes ver- dades da vida nunca poderiam ser vistas. Como a humanidade poderia alcan- çar a compreensão de si mesma e de suas identidades sem as experi- ências físicas diversificadas? Tornei a me inclinar para a frente.

— As almas consortes foram na verdade criadas uma para a ou- tra. deixe-me começar por explicar o que são almas consortes. são basicamente andróginas. — Assim é — disse John.. — Desculpe. que me empenharei em fornecer mais tarde. — Mas o sexo é um assunto fas- cinante. você esteve encarnada com uma alma gêmea. Nossas almas. John fez uma pausa. já esteve alguma vez num corpo fí- sico? — Claro que sim. não acha? . no começo dos tempos ou o que vocês chamam no momento da Grande Explosão. até mesmo para mim. digamos assim. Eu estava curiosa. Como pode ver. — Não sei se estou pronta para isso. Não era uma coisa que precisasse sublimar ou reprimir. — Almas consortes? Eu já ouvira a expressão algumas vezes. As polaridades são igualmente opos- tas. não havia conflito e assim não havia tensão. tanto em corpo fe- minino como no masculino. — Andróginas? — Isso mesmo. como Jesus. por causa de seu sereno nível espiritual de realização. — Mas quem eu fui em minhas vidas anteriores? — De acordo com as Gravações Akáshicas. sim — admitiu John. — Ann. porque todos experimen- tamos ambos os sexos. de uma forma ou de outra.. Buda e tantos outros. é muito romântico.. Mas as almas consortes foram na verdade criadas no começo dos tempos como pares que se pertenciam. — E o que é exatamente uma alma gêmea? — Tal pergunta exige muita explicação. além de fisicamente.. há mais na teoria da Grande Explosão do que vocês imaginam. não eram tanto celibatários. porque os elementos de ambos os sexos es- tão simultaneamente presentes. pois vibravam numa freqüência regular e perfeitamente equilibrada. Olhei para o gravador. O se- xo em termos humanos é também um caminho para Deus. — E quem é você? Isto é.. O yin e yang esta- vam tão bem distribuídos que a sexualidade não lhes interessava.. mas o que queria mesmo era saber de tudo o que fosse possível a meu respeito. geralmente em referên- cia a pessoas que diziam ter encontrado sua outra metade. Seus profetas antigos e figuras de Cristo. Já encarnei muitas vezes. — Não recomendamos a abstenção de sexo. A elevada compreensão espiritual não conhece di- ferenças de sexualidade. Mas ultimamente tenho permanecido em forma astral. Vibram exatamente na mesma freqüência eletromag- nética. mas não estamos nos afastando do assunto? — Estamos. Simplesmente não lhes interessa- va. se é desfruta- do espiritualmente.. porque são equivalentes idênticas uma da outra. De jeito nenhum. Almas gê- meas são mais comuns de se encontrar porque já experimentaram mui- tas vidas juntas. Por enquanto. — A preferência sexual de tal indiví- duo desempenha um papel importante na necessidade de compreensão de que todos somos basicamente os mesmos.. Soltei uma risada.

E de- vemos admitir que isso acontecia em detrimento da união de vocês. – É isso o que significa Orientação Espiritual? — Correto. — O seu Gerry era então igualmente devotado ao trabalho. como há agora. ele estava realizando um trabalho importante. — Está falando de Gerry? — Assim é. Ou as duas coisas. em tom um tanto estridente. — Extraterrenos? John pareceu sentir o meu espanto. Fomos mestres e discípulo. Havia extraterrenos visitando este planeta naquela ocasião. Contudo. Nós acha- mos que amadureceu para a compreensão de que não existe tal coisa como o acaso. — Deus do céu! — Respirei fundo. pois respondeu mais firme- mente do que antes: — Assim é. — Oh. Você foi um dos mais. a Voz. — Quem são "nós"? — Seus guias espirituais. entre os quais estou incluído. A Voz voltou a se manifestar um instante depois: — Isolamos sua vibração durante uma das vidas que passou com uma entidade com quem está também envolvida agora. desejando ter alguém com quem parti- lhar tudo aquilo. parecia estar ordenando seus pensamentos. deixe-me começar pelo ponto em que nos conhecemos. — Está querendo dizer que fui atraída para este momento de al- guma forma por você e esses guias? — Correto. — Ahn? — Isso mesmo. enquanto John. Isso seria corre- to? — Gerry — murmurei. — Pode me falar mais sobre isso? O que está realmente querendo dizer? Recebemos visitantes do espaço exterior desde o começo dos tempos? John respondeu imediatamente: — O único conhecimento importante é o conhecimento espiritual . envolvendo o intercâmbio cultural com os extraterrenos que se empenhavam em prestar uma ajuda tecnológica e espiritual. — Como? – Por sua própria necessidade de explicar seu comportamento indagações e busca da verdade. talvez procurando definir uma informação. Também isolamos a vibração dele e constatamos que vocês foram marido e mulher numa vida anterior. Corri os olhos pela sala. pela orientação psíquica daqueles entre nos que consideram que você está preparada para mais da sua própria verdade. Deus! — exclamei. — Então já nos conhecemos? — Correto. Houve uma pausa. entre divertida e espantada. Cremos que esta entidade está vivendo nas duas Ilhas Britânicas. Emiti um ruído neutro e John continuou: — Portanto. Não é por acaso que você está aqui hoje. — E nós nos demos bem nessa outra vida? A comunicação entre nós foi melhor do que é agora? Houve outra pausa. o que se chamaria hoje de "discípulo dileto".

além de muitas outras ao longo da marcha do tempo. Queria voltar a mim. Confie em seu coração. Para ser franca. que é a mais alta de todas as fre- qüências vibracionais. Limpei a garganta e tentei dilatar a mente para compreender. — Desculpe. Há os sentimentos errados ou pre- judiciais a superar. Deve aprender a confiar mais em seus sentimentos e se abster de encarar tantas questões na vida de uma perspectiva rigorosamente intelectual. O pensamento é parte de Deus. aliviada. Não necessariamente. Mas para os seres que possuem mais co- nhecimento. Isso está dentro de sua com- preensão? Eu não sabia como responder. Mas você era e é uma alma gêmea da entidade a que chama David. Você teve diversas vidas com a entidade David du- rante aquele período antigo. é basicamente boa. quando o pensamento é amor su- as freqüências estão vibrando no alto nível de energia. Confiar na minha intuição? Era algo que eu podia compreender. — Ótimo — murmurei. assim como vocês do plano da Terra ensinarão um dia a outros. detalhada ou específica. A vida representa o pensamento de Deus e Deus é amor. como a chama. depende da compreensão de freqüências vibracionais e como perten- cem ao universo. Talvez fosse por isso que eu me sentia agora tão à vontade na companhia de David. — E obrigada. o pensamento tem uma freqüência muito superior à da luz. É isso o que os extraterrenos estavam ensinando. Repassando a minha vida. As implicações do que ele dizia eram tão assombrosas que eu não con- seguia pensar numa boa pergunta. por favor. ou em sua intuição. mais controle. Os sentimentos são ilimitados. Em seu mundo físico. mas será que eu poderia perguntar ape- nas sobre mim? Já estou encontrando bastante dificuldade para me relacionar com isso.. — Também sabe de David? — Correto. verificava que sempre tivera problemas toda vez que fora contra a minha intuição... assim como o pen- samento é parte do homem. Mas John já continuava a falar: — O seu David é um bom mestre e você pode confiar nele. O intelecto como uma maravilha é limitado. Você deve aprender a dar-lhe uma chance.de Deus dentro do homem. Mas sentimos que você já sente isso. — Está dizendo que todos estaremos bem se seguirmos o que está em nossos corações? — Não. Mas a humanidade. Não podia me relacionar pessoalmente com o que John estava dizen- do. Você deve seguir em seu próprio ritmo. Então Gerry e eu fomos marido e mulher. a luz é a mais alta e a mais rápida freqüência. Portanto. . toda aquela conversa sobre "Deus" estava me deixando constrangida. por exemplo. — Todos os outros conhecimentos? — Correto. O conhecimento científico de vocês. Todos os outros conhecimentos fluem dis- so. — Claro. Deus é amor. Isso significa que éramos almas gêmeas? — Não. toda a vida. Era algo que podia absorver. em qualquer maneira compreensível..

– Mas o que você chama de Deus? – Deus ou a força-Deus. de um modo geral. — Espere um pouco. Ultimamente. — Está se referindo à reencarnação? —. cada entida- de. Não sabia o que pensar. Essa é a realiza- ção da Justiça Cósmica para a suprema harmonia. im- passível. porque não podíamos "ver". Mas por que eu me sentia mais à vontade do que outros ao me .. da mesma forma como as dimensões de nossas persona- lidades eram um mistério até começarmos a explorar aqueles aspec- tos com os quais não estávamos familiarizados e não tínhamos per- cepção. através dos tempos e de diversas lín- guas. A Bíblia não é a Palavra de Deus? — É. isto é. Não precisa de rituais. — E qual era a verdade real? — A verdade real é o processo do progresso de cada alma ao longo dos tempos. Cada pessoa. também não podia imaginar mais perguntas. — Descreveria o que está acontecendo por aqui como harmonioso? — No plano supremo da vida é harmonioso. a fim de se compreender a harmonia. é a Energia Divina que criou o Universo e o mantém unido harmoniosa- mente. — Está querendo dizer que é algo parecido com o espírito que os governos adotam hoje? — Assim é. porque tal verdade tornaria o poder e a auto- ridade da Igreja desnecessários.. a reencarnação e purificação. Kevin continuava sentado na cadeira. — E a Igreja nos negaria essa verdade? — Claro que sim. Mas muita coisa que está em sua Bíblia hoje foi reinterpretada. mas de alguma forma me confirmava que havia mais dimensões na vida do que se podia compreender. É essa a palavra que vocês usam. O chá na mesa estava frio. — Reinterpretada por quem? — Por várias pessoas. estratificações e cubículos onde se arrojar para obter a absolvição concedida pela Igreja. Não precisa de uma igre- ja. diziam essas pessoas. de que todas as coisas são partes. Era do interesse da Igreja "prote- ger as pessoas" da verdade real. Estendi-me no tapete. no sentido em que há um equilíbrio. na consecução de sua própria divin- dade. Pensei em algumas das pessoas com quem conversara e que me a- chavam ingênua e crédula por sequer admitir a possibilidade de mestres espirituais desencarnados falarem por intermédio de um mé- dium. Digamos simplesmente que as autoridades da Igreja desejam "resguardar" a humanidade de uma verdade para a qual acham que as pessoas não es- tão preparadas. Eu sempre respondera que estava apenas aprendendo. Olhei para as luzes a piscarem do barco pesqueiro.Correto. A verdade real é a responsabilidade de cada alma por seu próprio comportamento. — Haverá mais perguntas? — indagou John. Era inadmissível que eu caísse em tais esparrelas. pela Igreja. Não sabia direito o que realmente significava. Mas deve-se compreender o processo de progresso de cada alma. torna-se responsável por sua conduta. sim.

Apenas sentia que era certo. através de médiuns e reencarnação. Se as pessoas insistem em permanecer em seus sistemas de convicção "ló- gica". estão seguras na posição de poder que ocupam. As pessoas pensam que a vida é a totalidade de tudo o que vêem. – Mas não é bom questionar as coisas? A certeza absoluta em alguma coisa cria a egomania e o poder corruptor. – Mas como eu posso transmitir às pessoas que manter a mente aberta é a atitude mais sensata? – Você não tem de fazer isso. Aqueles que contestam a e- xistência física de um pensamento ou de energia-pensamento estão contestando com profundo ceticismo as suas próprias identidades. Mas então por que alguns dos meus amigos. Toda aquela exploração. Não transtornava a minha aplicação emocional ao que já tinha certeza de que era real. qualquer que se- ja esse poder. Era tudo o que podia di- zer.permitir explorar dimensões de possibilidades incomprováveis? Eu não sabia. assim como eu também não queria. — Como assim? — A personalidade é o aspecto intangível da percepção que só está alojado no corpo por um breve período de tempo cósmico. era tão ameaçadora em termos da minha credibilidade? Por que estavam tão preocupados comigo? Certamente por amor e um desejo de proteção. Por quê? Por que não formular indagações a sério e investigar em áreas e possibilidades que não eram necessariamente "comprováveis"? Que mal "real" isso podia causar? Destruiria as imagens condicionais que tinham de si mesmos? Confundiria as suas próprias percepções da "realidade"? Fiquei de joelhos. Mas a personalidade é mais do que isso. por que tantas pessoas consideram inaceitável esse fe- nômeno de um mestre desencarnado como você se manifestar por in- termédio de um instrumento humano? Houve uma pequena pausa antes que ele respondesse: — Porque não se lembram da experiência de terem sido desencar- nados. Também se sentiam ameaçados. Não queriam que eu caísse no ridículo. deve dizer simplesmente que é do seu ponto de vista. – Isso é correto. Estão convencidas de que o homem é apenas um corpo e um cé- rebro. Mas era mais do que isso. ficam seguras em sua.. Você. parecia estar expandindo o que já eram as minhas percepções da realidade. achavam que aquela busca de um novo conhecimento. que tem a mente aberta. — Real? Um pensamento não é real? Mas como se pode prová-lo cientificamente? Pensamento é energia. Gerry em particular. própria realidade percebida. por caminhos espirituais. Conceda-lhes o privilégio de con- tinuarem em dúvida.. pois isso implica- ria mudarem a si mesmas ou crescerem para uma percepção expandida . Não mudarão as suas percepções. Conceda aos céticos a liberdade de serem céticos. — Mas as pessoas não acreditam que esse conceito seja real. Mas é lamentável quando o ceticismo se torna tão profundo e desmoralizante que restringe o potencial de apren- der verdades gloriosas que seriam altamente favoráveis. Se não o fizesse. Não me ameaçava. Chegará um tempo em que também vão querer sa- ber e serão atraídos a dimensões que são mais verdadeiras. Com is- so. ao contrá- rio. não parecia destruir a imagem que tinha de mim mesma. Procu- rarão um plano superior quando estiverem prontos para isso. eu a acu- saria de ser uma escravizadora. — John.

— Como eu já lhe disse antes: a verdade é simples. paz. à percepção interi- or. Mas o homem tem de complicá-la e esquecer que a conhece. E eu não podia compre- ender por que tantas pessoas tinham de se manter intransigentemen- te contra. As pessoas estão procurando por esses aspectos em si mes- mas todos os dias. alte- rado pela sociedade. como se aprendesse uma lição. Cada indivíduo já conhece a verdade Divina. — Mas onde está a segurança do próprio ego. O ego. Aprender e experimentar a verdade por si mesma é uma luta. E quando se começa a compreender mais. Lembre-se de que o habitat na- tural dos humanos não é a Terra. conhece a verdade Divina. Mas se um tirano de mente fechada fica exposto ao conhecimento interior. John? O que leva pessoas a quererem do- minar outras? — Porque os que sentem a necessidade de dominar e conquistar não compreendem a verdade de si mesmos. — Mas meus amigos intelectuais dizem que acreditar que se co- nhece a verdade é o supremo ato de arrogância. não apenas intelectuais. — Cada pessoa conhece a sua própria verdade. Ele deve ex- perimentar aspectos da verdade em si mesma.. Falam que é simplista demais para ser real. E essa verdade se torna limitada quando se aplica o ceticismo intelectual. O caminho para a paz interi- or não é através do intelecto... ou não podiam ou não queriam entender. Confiam mais em seu intelecto do que na força-Deus dentro de si mesmos. Porque ninguém precisa do intelecto para conhecer Deus. mas pelo coração. a Igreja e a educação. sempre se chega à compreensão essencial de que há muito mais para se com- preender além do nosso alcance. a fim de se sentirem uma elite. Mas enquanto buscam. Nada daqui- lo parecia religioso. as zonas que compreendem e podem controlar. É dentro do cora- ção que se encontra Deus. John? — A maioria das pessoas está sofrendo de ego alterado. porque é Divino. Sob esse aspecto. confusos e infeli- zes. Isso é correto. Os seus intelectuais procuram se apartar das massas. no entanto. Uma luta para a percepção mais simples. É o homem que insiste em torná-la complicada.de si mesmas. — Por que há guerras. Compreende como ele é re- . Os céticos intelectuais evitam a si próprios. Apenas fazia sentido. Mas os céticos intelec- tuais são mais propensos a serem conflituados. Acreditar que sou tão real quanto elas seria afastá-las de suas zonas de segurança. a fim de seguir adian- te. O verdadeiro ego co- nhece a verdade. Muitas pesso- as. a si mesmo. Isso está dentro de sua compreensão? Pensei por um momento. exigem que seus mundos permaneçam seguros. E o homem não pode simplesmen- te aprender a verdade.. Sou tão acreditável quanto qualquer um. Todas as pessoas procuram a paz. todos os indivíduos são iguais. Mas a única verdade que importa é a verdade do relacionamento que se tem com a fonte ou força chamada Deus. Alegam que toda a teoria da reencarnação é certinha demais.. logo perde a intenção de conquista. — Mas não é isso o que as pessoas me dizem. sentem-se embaraçadas em reconhecer a centelha de Divindade dentro de si mesmas.. senti que compreendia tudo. Você não pode me ver. mas há muitos aspectos de si mesma que também não po- de ver. o habitat natural dos seres huma- nos é o éter.

Deus a abençoe. Tenho de absorver o que você disse. — Alô? Levantei-me.. Esfregou-os. — Chegarei a conhecer algum? Houve uma pausa. como se estivesse despertando de um sono profundo. porque e- xigem uma reverência incontestada pela autoridade. com Deus e seu trabalho. tentando pôr em foco a sala ao seu redor. A posição de conhecimento superior do ego assumida pelo cético é altamente restritiva. John. Todos os outros conhecimentos derivam disso. agir de acordo. por e- xemplo." — Dr. Procure se manter em paz com você mesma. Mas deve conti- nuamente lembrar sua Divindade e. através da evolução. mais satisfeita. você mencionou extraterrenos.. porque descobriram. — Está bem.. pois é parte desse trabalho. não precisa garantir a sua própria imortalidade pe- la conquista dos outros. num nível superior de percepção. quem quer que você seja. A mente humana se torna mais serena. andei em círculo diante dele. são extremamente restritivas para a humanidade. . — Alô — falei. — Alô? — disse ele. quando experimenta uma expansão de dimensões em muitos níveis. Suas religiões dogmáticas. Levou as mãos aos olhos. a fim de trazer um conhecimento superior de Deus e amor es- piritual. — Voltaremos a falar dessas questões em outra ocasião. Você sabe que é Divino. cobriu-os. Eles apareceram naquele tempo em sua Terra. espreguicei-me. Visitaram a sua Terra ao longo dos tempos para trazer conhecimento e verdade espiritual. Não sei muito bem o que pensar a respeito.. Talvez estejam operando. — John. mas eles estão empenhados na mesma luta de conhecimento interior? — Isso é correto. Isso será tudo por enquanto? Eu sentia a mente tão abarrotada que tive de dizer que sim. Não me ocorre mais nada no momento. uma autorida- de exterior. Mitrov Zverev.almente vasto. mais importante ainda. "Algo desconhecido para a nossa compreensão está visitando a terra. sonolento. São ape- nas mestres. Sempre aparecem quando são mais necessários. tomo se a vibração do espírito de John pas- sasse através de seu corpo e depois se fosse. — Estou aqui. cientista soviético Kevin estremeceu. assim como num nível superior de tecnologia. Mas não podem ser reverenciados como deuses. Pense no que eu falei e no que você está disposta a aprender. que a compreensão espiritual do indivíduo é a única com- preensão exigida para a paz. Servem como um símbolo de esperança e compreensão superior. — Obrigada. — E as referências a possíveis extraterrenos na Bíblia eram reais? Pode-se acreditar no que se lê em Ezequiel e todo o resto? — Isso é correto. pelo menos alguns. Você é Deus.

Ele encaminhou-se para a porta. mas a prova contrária também não existe. Olhei atentamente para Kevin. — Tem razão — murmurei... Você acredita nisso? Kevin sentou. ainda não tive esse prazer. não sou um instrumento através do qual tantas entidades espirituais falam? Portanto. — Mas acredita assim mesmo? — Claro. Kevin empertigou-se na cadeira e depois levantou-se. — Mas John também disse uma porção de coisas sobre extraterrenos que proporcionaram todos os tipos de informações espiritualmente avançadas à raça humana. – Também acho. — Claro que acredito. – Que horas seriam agora? – Boa pergunta. Kevin? Sei que anda muito ocupado. Sentiu que era certo o que se manifestou? Eles me disseram para simplesmente confiar em meus sentimentos. — Como foi? — Foi uma coisa incrível. — Mas eles disseram coisas incríveis! — Por exemplo? — Sobre vidas anteriores. Distraidamente. — Interessante. – Então vou pegar a minha dama. E quem sou eu para contes- tar todas as autoridades que dizem haver uma boa possibilidade de que existam realmente? Conheço muitas pessoas que negam a existên- cia dos discos voadores. Não sei direito o que pensar. Por que não? Não apenas são mencionados na Bíblia. Por que então não existiriam? Além do mais. a partir do mo- mento em que se começa a formular tais questões. — Você já viu um disco voador? — Não. não sou nenhuma das duas coisas. — Faça apenas o que julgar certo. mas não poderia arruinar um horário para mim? . — E que mais? — Você acredita em tudo isso? — Acredito no que sinto ser certo. Sinto que é o mais certo. a existência da alma em muitas dimensões faz sentido pa- ra mim. hesitante.. E o mesmo acontece com John e McPherson. sou um ator ou um doido. não é mesmo? Afinal. — Eu estava segurando esta caneca? — Estava. Se não for assim. Olhou para a caneca. Não há mais nada que se possa fazer. Ele disse que precisava de uma caneca irlandesa para poder pensar melhor. Uma porção de coisas sobre pessoas que conheço agora e que teria conhecido também em outras vidas. Um pouco antes de 10 horas.. Kevin tomou o que restava do chá frio. – Poderemos voltar a nos encontrar em breve. co- nheço uma porção de pessoas que dizem já tê-los visto. — De onde isto saiu? — McPherson. E até onde pos- so saber. — E sente que a reencarnação é uma coisa certa? — Não poderia deixar de ser. mas aparecem de uma forma ou outra em quase todas as culturas da Terra.

a fim de manter a própria identidade. O que estava acontecendo? O que era re- al? Eu teria mesmo vivido em algum lugar com Gerry e com David. familiares. a brisa que soprava do Pacífico e entrava pela janela. Contei cada passo e movimento da mú- sica. As pernas vibravam com uma energia interior estranha.. A energia continuava a vibrar. a calda de chocolate escorrendo sobre o sorvete de baunilha. Eu estava quase com medo.. mas ao mesmo tempo eu podia sentir a energia emanando de alguma forma da minha mente. eu podia compreender. então a rea- lidade tinha mais dimensões do que eu jamais considerara. mas também positiva. mas também provável? Não era de admirar que os asiáticos tivessem um conceito de tempo diferente do que predominava no Ocidente. Observei-o encaminhar-se para seu "veículo" na rua. o passeio que eu faria pela manhã. Não conseguia dormir. Estava fadada a mudar minhas percep- ções. Não adiantou. Talvez o tempo e o espaço sejam tão relativos que não são mensuráveis. Talvez a alma dentro do meu corpo esteja me dizendo que tudo é real. Fui para a cama. – Deixe-me verificar com a minha dama e depois lhe falarei. como os filósofos e até mesmo alguns cientistas alegavam. e precisamen- . A sensação era física. Saiu e desceu a escada como um personagem de The Lodger (um filme antigo a que eu assistira na infância). Talvez ambos existam ao mesmo tempo. ao chegarem à conclusão de que a reencarnação não apenas era possível. Senti o significado da música na mente. Fora isso o que acontecera a Walt Whitman. Talvez. E pergun- tei-me se os médiuns não precisariam ser involuntariamente tea- trais. Sentia a mesma vibração nas pontas dos dedos. Que coisa espan- tosa e maravilhosa seria! A percepção da realidade de todos seria válida. Se fosse esse o caso. que nós ajudávamos a criar. em torno dos lábios. não havia a menor possibilidade de poder continuar a andar por este mundo como sempre fizera até agora. Aris- tóteles e Thoreau. há 500 mil anos? Se eu realmente acreditasse em tudo isso. quase magnética. Ri de mim mesmo. o que uma dimensão espiritual adicional representava para o planeta e todos os seres humanos que nele viviam. o marulhar das on- das. por ser algo tão desconhecido. Numa pose relaxada. E se isso fosse verdade. Reconstituí uma coreografia que já fizera muitas vezes a fim de pegar no sono. ele ajeitou o sobretudo bege nos ombros. Tentei me concentrar em coisas pequenas. a reali- dade fosse apenas o que a pessoa podia perceber. tentando neutralizar o fluxo magnético de energia. Mudei de posição. por não existir uma coisa como a morte de uma perspectiva cósmica. Estendi os músculos das pernas. Imaginei o prazer de um sundae. então cada segundo a viver na Terra era precioso justamente por se relacionar com um desígnio mais am- plo. Sentia que precisava de alguma forma me fixar no aqui e agora na Terra. numa escala colos- sal. entre as flores silvestres das montanhas. Se a experiên- cia da alma era tudo o que importava e a existência física fosse literalmente irrelevante. Era uma energia muito estranha.. um desígnio global. Eles eram criados na convicção da reen- carnação da alma de uma vida para outra. Pitágoras.. pensei. Abri a porta e agradeci-lhe.

Canção de Mim Mesmo Dormi até tarde no dia seguinte. mas se era. 10 mil ou 10 milhões. remexendo-se na cama. — Ora. até que finalmente peguei no sono. Trata-se de uma coisa que uma porção de pessoas experimentam todos .)" — Walt Whitman. ele deveria receber um Oscar que ainda não inventaram. Vida. Ele era apenas o canal. (dúvida não há de que 10 mil vezes já morri antes.. Imaginei se chegaria um tempo em que os políti- cos poderiam se empenhar em sua busca espiritual sem parecerem de- sequilibrados aos eleitores.. Levei muito tempo e ela não me interrompeu uma só vez. e que é tanto uma parte de nós como também so- mos dela.. uma chamada McPherson e outra John. Numa bola de confusão a vibrar. Havíamos nos tornado íntimas.. Era Bella.. essa foi a primeira coisa que me ocorreu. Voltando para casa. fosse o de transmitir a mensagem de que somos parte da força-Deus que criou todas as coisas. E é claro que pode ser verdade. Bella. Capítulo 16 "E quer a mim eu chegue hoje ou daqui a anos. — Não importa qual era o nome. fui direto ao Colony Market e comprei io- gurte de pêssego.te porque cada átomo tinha um propósito. sei que és o resíduo de muitas mortes. talvez o propósito daque- le conjunto particular de átomos. Meus pensamentos se concentraram na minha amiga Bella Azbug. Imaginei o que ela pensaria. com al- guém por quem está apaixonada agora? — Não foi Kevin. Contei-lhe o que acontecera em minha sessão com Kevin. fiquei me revirando na cama. Não conseguia me levantar.. comecei a imaginar como meus amigos reagi- ram ao que acontecera. O telefone estava tocando quando abri a porta. numa civilização antiga. Esse tal de Kevin disse que você já tivera uma vida anterior. Tenho lido muita coisa sobre essa história de mediunidade e não acredito que esteja sendo enganada. Esse tal de Kevin devia estar simplesmente inventando e representando. E quanto a ti. Falei com duas enti- dades. Posso alegremente aceitar agora ou então esperar. Finalmente parei e Bella disse: — Vamos ver se entendi direito. com a mesma alegria. Qualquer coisa com pêssego sempre ajudava. E quando finalmente o fiz. Eu a conhecera e trabalhara com ela na campanha presidencial de McGovern.

. afastando-se de seu mes- tre platônico). enquanto os conceitos ocidentais pareciam derivar mais de raízes filosóficas.. é a mim mesma que estou escutando. seguindo-se muitos outros. a Idade da Razão. Minhas estantes começaram a ficar repletas com material me- tafísico esotérico. Bella. A coisa toda parece se basear em "sentir". Houvera uma explosão de novo pensamento e uma ratificação do di- reito de pensar. Tenho de saber mais. está bem? Respondi que estava e Bella arrematou: — E não deixe de me ligar. Fiquei espantada ao descobrir que a reencarnação não apenas era uma parte integrante da maioria das crenças do Oriente (o que eu já sabia). Eu comparecia aos ensaios para uma tournée internacional com meu espetáculo ao vivo.os dias. Eu lia do a respeito. De Pitágoras a Platão. — Enquanto falava. Cheguei ao século XVIII. — Minha querida — disse ela finalmente — não quero que você saia magoada dessa história.. Começou então um período interessante e multidimensional da minha vida. como John Milton. compreendi uma coisa e acrescen- tei: — Não posso parar agora e esquecer tudo. não em pensar. Houve um silêncio prolongado. Estava contente por ter um escritório na minha casa em Malibu que era particular o bastante para fechar e trancar a porta. Havia resmas de material sobre reencarnação somente. pensando que ali encontraria refutação e ceticismo. fazia piadas com o pessoal da companhia durante o dia. quando surgira toda uma escola de pensadores conhecida como os Platonistas de Cambridge. O ceticismo havia de fato. Não me sentia preparada para responder a perguntas sobre os livros que vinha lendo. mas você diria que teve uma experiência religiosa? — Mas claro que não! — Então o que é? Está querendo me dizer que acredita na reen- carnação? — Não sei. o poeta Dryden e o estadista-intelectual Joseph Addison.. Só lhe peço para não fazer nada dra- mático ou público. representava. cantava. De certa forma. enquanto à noite estudava cada livro que podia encontrar para me ajudar a definir meus sentimentos e pensamentos decorrentes das questões que vinha formulando sobre vida e propósito. Só posso descrevê-lo como um tempo de viver em vários níveis.. simplesmente não sei. Shirley. E eu sinto que as coisas di- tas pelas entidades espirituais podem ter realmente me acontecido. — Sem intenção de ser irônica. é ver- dade que as convicções orientais estavam enraizadas na religião. Respondi que certamente o faria. Dançava. já que era um assunto que me interessava parti- cularmente. mas não da convicção na alma e uma divindade e sim uma rejeição da religião formalizada e pensamento autoritário. continuando por Plutarco e chegando ao século XVI- I. Sócrates e Aristóteles (que posteriormente contestou a reencarnação. como se intitulava.. não a qualquer outra pessoa.. Fora uma época que testemunhara Isaac Newton. mas também que notáveis pensadores do Oci- dente partilhavam essa visão do propósito cósmico da alma.

Havia também inúmeros cientistas. Se o trabalho de alguém sobressaía do resto era o de John El- lis McTaggart. para outra vez indicar apenas uns poucos da lista extensa e eminente de pessoas que acre- ditavam na teoria da reencarnação.. Goethe manifestou su- as convicções em cartas. historiadores. Aos 25 anos. Voltaire.. o grande filósofo alemão Immanuel Kant.. e a maioria dessas mentes ex- traordinárias acreditara no renascimento da alma. filósofos e cientistas. Camille Flammarion (o astrônomo francês) e Gustaf Stomberg (o astrônomo e físico sueco-americano).. poe- tas. Malcolm Cowley disse de Whitman: "O universo era uma trans- formação contínua para Whitman.. Mark Twain. Se me sentia atordoada. o poeta lírico e crítico alemão. como haviam sido os seus precursores. Carlyle e Wordsworth. um processo e não uma estrutura. como William Blake e Goethe. assim como Hermann Hesse. apresentara uma "imagem" extraordinariamente consciente: Quem pode dizer qual o alfaiate que agora herda a alma de um Pla- tão.Benjamin Franklin. Klee. John Masefield. todos no mesmo barco da reencarnação.. que havia uma massa enorme de material escrito sobre o assunto. mas reconhecendo que se existia uma alma imortal. todos eles). Sir Arthur Conan Doyle. Schopenhauer. convencional e autoritária. a que haviam chegado através de uma a- nálise pragmática da maravilha da vida neste mundo. diariamente açoita a alma de seus fiéis Bashirs e Kalmucks nas páginas de algum jornal. o historiador e economista escocês David Hume (este último dedicou-se à razão. assim como músicos. então certamente. Por acaso a alma de Gengis Khan anima agora um crítico que.. ex- pressaram suas convicções no que escreveram. Malevi- ch (teosofistas. Eu mal podia começar a arranhar a superfície. Thomas Wolfe. ensaístas — e políticos — todos manifestando a convicção na reencarnação. mais uma vez. Rainer Ma- ria Rilke. Robert Frost. qual o mestre-escola que é herdeiro do espírito de César?. Muitos escritores e poetas. Fiquei deliciada ao encontrar personagens tão diferentes como Lorde Hugh Dowding (comandante aéreo britânico du- rante a Segunda Guerra Mundial). muitas vezes em combinação com o estudo dos orientalistas. estava descobrindo rapidamente que ti- nha boa companhia. entre os quais Kant. pela lógica. toda uma escola de arte moderna. para ci- tar apenas uns poucos.. Lloyd George (político britânico) e até mesmo Henry Ford. (O Mar do Norte) Li também o material dos transcendentalistas americanos.. Eram homens em revolta contra a re- ligião ocidental. Ernest Seton Thompson (fundador dos Escoteiros da América!). Jack London. Entre eles estavam homens com Thomas Edison. enca- beçados por Emerson e Thoreau. o brilhante orientalista Sir William Jones. Foi uma época do desabrochar do intelecto. Louisa May Alcott. Heinrich Heine. a litania de nomes era interminável." Ao longo dos séculos XVIII e XIX houve grandes homens das le- tras.. Kandinsky. Pearl Buck. tinha de ser julgado do ponto de vista da eternidade. McTaggart fora reconhecido como o mais .. pintores. Entre os muitos escritores estavam Henry Miller. O que o século XX tinha a dizer? Descobri imediatamente. sem o saber.. tinha de existir antes e depois da morte). encabeçada por Mondrian. Leaves of Grass de Walt Whitman é um hino à reencarna- ção.

mas também encontravam um propósito para isso.. num uso para a recordação da vida passada. que encontramos não apenas o supremo valor da vida. um homem que morre depois de adqui- rir conhecimento – e todos os homens adquirem algum — pode entrar em sua nova vida privado de tal conhecimento. faziam muito sentido: Até mesmo os melhores homens não estão.. descobri que havia também os que estavam interessados. da morte.. Muito se esquece em qualquer amizade que durou por vários anos dentro dos limites de uma única vida — muitas confidências. Isso é geralmente reconhe- cido e de um modo geral se adota uma de duas alternativas em conseqüência. seu valor não se perde se o mesmo amor é mais forte numa vida nova por causa de tudo que aconteceu antes. num es- tado de perfeição intelectual e moral que lhes permitiria en- trar no paraíso imediatamente. Broad. muitos serviços. ele estará mais sábio na segunda vida por causa do que aconteceu na pri- meira. Sempre contribuem. mas não privado da crescente força e refinamento da mente que ganhara através da aquisição de conhecimento. A ou- tra e mais provável alternativa é a de que o processo de me- lhoria gradativa pode continuar em cada um de nós depois da morte dos nossos corpos atuais. não apenas acredi- tavam. (que podia) ser comparado com justiça a Novenas de Plotino.eminente dialético e metafísico desde Hegel. para o amor presente. Em particu- lar. C... Mc- Taggart. Da mesma forma. Se a filosofia de McTaggart fazia sentido para mim. E. O problema aqui é mais importante. se toda a memória do amor de uma vida é arre- batada na morte. como acontecia comi- go. no entanto. que não está esquecido. muitas ho- ras de felicidade e pesar. É desnecessário dizer que eu não conhecia nenhuma dessas obras extraordinárias. como acredito. D.. em Imortalidade Humana e Pré-Existência.. Já esqueci a maior parte dos atos de bem e mal que cometi na minha vida a- tual. Mas descobri que as palavras do próprio Mr.. dissera que McTaggart figurava "na primeira fila dos grandes filósofos históricos. não podemos esquecer que o caráter pode permanecer determinado por algum evento que foi esquecido.. Mas tais coisas não passaram sem deixar sua marca no presente... A ausência de memória não precisa destruir a possibilidade de uma melhoria se estendendo por diversas vidas.. E permanece o amor. . E se assim é. embora este- jam esquecidas. cada um deve ter deixado uma marca no meu caráter. que su- cedera McTaggart como professor de Ciências Morais no Trinity Col- lege.. um homem pode levar para a próxima vida as disposições e tendências que adquiriu nas lutas morais desta vida.. mas também a suprema realidade da vi- da e até mesmo do universo. A primeira é de que alguma tremenda melhoria — uma melhoria em total desproporção com qualquer coisa que se pode alcançar na vida — ocorre no momento. se é no amor e em nada mais. Assim.. quando morrem. o's psicólogos vinham usando a hipnose regressiva para desco- . Ética de Spinoza e Enciclopédia de Hegel". em Cambridge.

Este livro. mas sim a estabelecer a valida- de de vidas anteriores.. Descobri-me a lembrar que "John" dissera que eu de- veria permitir que as pessoas na minha vida conduzissem a sua ca- pacidade de percepção em seu próprio ritmo. situação social. não deixava qualquer dúvida em minha mente de que vivêramos realmente vidas anteriores. talvez mais do que qualquer outro. A cada conversa artificial.. em mais de mil pacientes. mas gratifi- cante.. Na verdade. Austrália. lia e especulava. Descobri que estava conhecendo pessoas que. Para mim. Reliving Past Lives (Revi- vendo Vidas Anteriores). acompanhada por malas de livros. durante o dia.. Helen Wambach realizara uma série de experiências. Algumas tiveram experiências fora do corpo. muitas ti- nham recordações de vidas anteriores que tinham certeza de serem reais. devia conce- der o ceticismo aos céticos. Apresentei-me na Europa. não visando originalmente a ajudar pacientes (embora em vários ca- sos esse fosse um dos resultados). Os resultados.brir traumas de vida anterior que estavam aflorando nesta vida. ela descreve detalhadamente a gênese de suas experiências. Em seu livro. assim que encontrasse tempo para isso. ou seja. O trabalho era árduo. estu- dava e lia. Canadá. mas minha programação nunca se ajustava à disponibilidade dele e vice- versa. cada um dos quais fez pelo me- nos três "viagens". revelavam in- teresses ocultos pela reencarnação e sentimentos de memória que não podiam definir ou explicar. eu não acreditava neces- sariamente em tudo o que estava lendo e aprendendo. vestuário. arquitetura e outros pontos de referência. Conversei com Gerry dos lugares mais exóticos do mundo.. tudo se tornava agora uma questão de apro- fundar a investigação especial. anotados antes de se discutir qualquer via- gem com quem quer que fosse. Eu ansiava para que pudéssemos nos encontrar pessoalmente. tipo de alimento ingerido. conheci pelo caminho algumas pessoas que pareciam discreta- mente empenhadas em sua busca por uma identidade mais profunda. eram então correlacionados pelo perí- odo de tempo. . A realidade era uma verdade subjetiva e eu sabia que a minha realidade estava se expandindo. raça. A excursão foi uma alegria. mas relutavam em discutir com receio de parecerem excêntri- cas. cada um recebendo as mesmas perguntas em cada viagem. eu compreendia como Gerry esta- va profundamente absorvido na política e também que era de cres- cente impaciência a minha atitude em relação à sua relutância em manifestar qualquer interesse por minha preocupação com a expansão da percepção. e é claro que eu queria conversar com alguém sobre tudo isso. mas era difícil discutir meu crescente interesse pela metafísica espi- ritual em telefonemas internacionais.. Sentia-me mais perceptiva e mais capaz de absorver i- déias da minha própria realidade interior. Uma certa Dra. como foi conduzida cada uma e os resultados ex- traordinários de suas investigações sobre recordação de vidas an- teriores. ou de qualquer outra for- ma. Pois eu ainda estava no meio de minha excursão. mas ansiava por encontrar alguém que estivesse realmente envolvido para se in- teressar pelas possibilidades de outras dimensões. Escandinávia e A- mérica. em drinques e jantares depois cios espetáculos. Apresentava-me em teatros à noite... outras haviam recebido entidades espirituais.

no pe- queno parque perto do restaurante de alimentos naturais em Malibu.. Voltei há poucos dias. Uma tarde. Estava passeando calmamente por uma rua de Kioto quando avistou um traje de samurai na vitrine de uma loja de anti- güidades. Parou abruptamente. Passei a me sentir mais livre ao aplicar as minhas novas idéias à vida e ao trabalho. Voltei a Malibu para um descanso e para reexaminar minhas ano- tações.. Experimentava novos pensamentos e novas pres- suposições a cada país que visitava. que era geralmente a maneira como ele dizia alô. descreveu-me uma viagem recente que fi- zera ao Japão. E sem qualquer preâmbulo. mas não es- tava à venda. Uma nova percepção pode ser bastante desconcertante assim que é descoberta. Experimentei um espanto velado por descobrir que havia tantas pessoas pensando assim. a quem eu não via há anos. Parado ali. . Excursionei por cerca de três meses. olhando para o traje antigo. olhando para o traje. mas quase sem- pre descobria que isso não era necessário. a sua arrogância quando a usava. pois foi ao mesmo tempo coerente e totalmente inesperado. Eu o conhecia muito bem. em Nova York. a sensação do material junto de sua pele.. imaginando quando que eu própria começaria a recordar vidas anteriores que poderia ter levado. Às vezes sentava com um livro sob uma árvore.. — Ainda está dominada por aquela ansiedade mística de viajar. procurando definir meu pensamento. vestia jeans. Era sele- tiva com as pessoas com quem discutia o que sentia. cami- sa de malha e blusão de couro. Ele era escritor e diretor de TV. Fiz uma tournée por diversos países. Ele fumava um cachimbo.Muitas me disseram que a ajuda psiquiátrica não era bastante pro- funda. Um velho amigo da Irlanda.. Não sabia muito bem co- mo analisar o que havia em minha mente. Compreendi no mesmo instante que era Mike.. Entrou na loja para comprar o traje. ele disse que ficou sur- preso ao sentir-se bastante livre por ter manifestado que acredi- tava haver vivido uma vida no Japão. e seu brilho irônico fora um dos principais motivos que me haviam feito ficar interessada por ele durante alguns anos. A primeira coisa que senti foi uma pancadinha na cabeça. Limitei-me a assentir e escu- tar.. que "sabia" que lhe pertencera. fui encontrada sob a árvore por um amigo com quem eu tivera uma ligação amorosa profunda e que por ali passava por acaso. ele perguntou: — O que está acontecendo? Por onde você andou durante o último ano? — Estive por aí.. Um episódio em particular me impressionou. Andava muito pela praia. fascinado. depois de tomar um suco de cenoura e comer um ham- burger de tofu. Podia-se perceber que ele era inte- ligente pelo traje. que havia eventos e traumas que eram anteriores à vida atu- al. Ao me relatar a história. podia ser extremamente cáustico e cinicamente espirituoso. até que se recordou de ter morrido com aquele uniforme. Disse como se lembrava da espada. a aparência meticulosa do sou-apenas-um- vagabundo-que-não-se-importa-com-nada. cenas de batalha fluíram por sua memória. conversando com muitas pessoas e lendo. Muitos disseram que sentiam que o condicionamento e experiên- cia da infância não explicavam alguns dos seus temores e ansieda- des mais arraigados.

pois não esperava real- mente que eu falasse de minha vida amorosa. Sempre quis saber o que havia por trás de tudo. Tem uma mente implacável e inquisitiva. sorrindo um para o outro. Ele sorriu. enquanto Mike se acomodava ao meu lado. Assim.. Eu sempre podia dizer quando você estava que- rendo sair pelo mundo. — Sempre sabia mesmo quando isso estava acontecendo? Era um aspecto dele que não me fora evidente quando estávamos juntos. não é mesmo? Isso é ótimo. Eu sorri. – Não. procurando um significado mais profundo. Mas apenas ri. Mike? — Não. — Repassei os relacionamentos em que ouvira a mesma reclamação. — Claro que sim. em que todos sabiam de tudo. Assim. pensei. você sempre teve uma compreensão das coisas que me parecia de certa forma com a filosofia oriental. Mas é isso aí o que es- tou querendo dizer. mas ele não me deu muito tempo para pensar a respeito. enquanto você queria saber o que havia no fundo da mente do lixeiro. pois logo acrescentou: — Tem sabido combinar o seu trabalho com essa ansiedade de viajar. — Ele falava com sinceridade e ime- diatamente continuou: — Tem alguma coisa na sua mente. É claro que sei que você viu apenas o que eles queriam que visse. Fiquei de joelhos. acho que tendeu a ignorar as áreas em que havia problemas. Não sei direito. exceto por um namorado se- creto que vai encontrar na Europa em constantes viagens. Mike inclinou-se para a frente e pegou o meu livro. Soube que vem se mantendo praticamente isolada. Às vezes o mundo era exageradamente uma bola de golfe. Mas não queria que você partisse e por isso jamais o mencionei. — E o que queria me dizer pouco antes quando me chamou de mís- tica? — Shirley. claro que não. — É bom ver você. subitamente sério. Eu sempre quis saber quem recolhia o lixo. Você parecia atraída por idéias que não eram exatamente objetivas. . mas me fez procurar também pelas coisas mais profundas. Então é assim. por exemplo. Classifiquei de abstrata por algum tempo. Shirley. Admiro isso. – Como assim? — Quando você foi à China.. Mas acho que às vezes encontra algo bom onde realmente não existe nada. Muita honestidade da minha parte. amigo velho: acha que eu sou ingênua? Acha que sou o tipo de pessoa que acredita em tudo que lhe contam? Mike soprou uma baforada do cachimbo. como se compreendesse (o que ele sempre fazia) que eu estava preocupada com traços do meu caráter que até então desconhecia. Pode levar um cara à loucura. E Mike também riu. hem? Ficamos em silêncio por um momento.hem? — Fiquei surpresa com a percepção de Mike. Uma dupla de ex-amantes sorrindo satis- feita um para o outro. — Tem razão. posso compreender a sua avaliação positiva do que estava acontecendo por lá. Shirley. É apenas a maneira como você é. — Isso é uma queixa. eu não diria que você é ingênua. — Gostaria que me dissesse uma coisa. queria que a revolução ali fosse bem-sucedida.

. Mike. — É isso aí.. Canadá.. aqui e agora. — Por exemplo? Quando Mike resolvia fazer um interrogatório. Mike fitou-me nos olhos. — E o que essas pessoas disseram? — Contaram histórias. — Muito engraçado. Claro que me descobri a especular por que ele apresentara a- quela imagem em particular. — E o que você tem a ver com isso? Está mantendo contato com Chu En-lai por intermédio de um médium? Mike sabia que eu achava Chu En-lai atraente e que prova- velmente teria feito qualquer coisa para conhecê-lo. tentando decidir se devia ou não me lançar à discussão. na virada do século? Ele entrou em contato com seu filho morto ou algo parecido. no mundo inteiro. hem? — Califórnia? – Isso mesmo.. — Acho que já temos problemas demais no mundo. Todo mundo por aqui está metido nessas coisas. . Eu tenho provas de que existe vida depois da morte. E tenho lido muita coisa a respeito. — Engoli em seco. — Como assim? — Eu estava agradavelmente surpresa pela pers- pectiva de uma possibilidade de diálogo com Mike. não é mesmo? — Exatamente. — Então virou Califórnia.. Vou agora receber o tratamento completo. Soltei uma risada. Às vezes era apenas um sentimento que ti- nham. mas não me aprofundei... — Acho que pode ser verdade.. — Por quê? — Não sei. — Já ouviu falar da canalização em transe? — Está se referindo àquelas coisas sobre as quais Oliver Lodge escreveu na Inglaterra. Austrá- lia. — É mesmo? Quais? — Ora. mas senti o estômago se contrair. além do fato de que deve mesmo ter a- contecido. Lodge realizou uma porção de pesquisa psíquiCa que nunca foi explicada. Mas encontrei o mesmo interesse em uma por- ção de outros lugares. Algumas se lembravam de experiências re- ais de vidas anteriores. ou às vezes aquela coisa do déjà vu. — Sobre reencarnação? — Isso mesmo. — Ahn. Somente a Califórnia poderia eleger um governador pirado. — Conversei a respeito com muitas pessoas na Europa.. não é mesmo? — Acho que sim.. — O que é isto? — Apenas um livro. — Que prova? — O Congresso dos Estados Unidos. Não estou interessado se já fui um escravo egípcio há cinco mil anos. Mike. — Estou entendendo. pensei. a impressão era de que se estava num julgamento. Em todos os lugares a que fui.

Apenas continuei a fitá-lo. Contei que lera muito sobre outras pessoas do mun- do. Mike. — As pessoas teriam de dizer o que aconteceu com a nossa Shir- ley. outra voz sai de sua boca e você acredita no que está ouvindo? Mantive o silêncio. de John. — Quando um produtor de Hollywood tira o sangue de um roteirista. Sinto que qualquer coisa é possível. E não gosto de vê-la nessa posição. — Quer me falar a respeito de tudo isso? Peguei um cigarro e acendi-o. A úni- ca coisa é que neste momento estou um pouco confusa sobre a exis- tência de uma coisa a que se poderia chamar de "realidade" verda- deira. Deus e extraterrenos que teriam supostamente trazido a mesma mensagem. apoiado no cotovelo. sentindo o ruído do borbulhar no fundo do co- po vazio. sou Mike. e por que não? — Mas você acredita mesmo? — Não sei. A realidade está me parecendo muito relativa. está lembrada? E estou do seu lado.. Falei de Ambres na Suécia. Estou investigando. cientistas.. Suguei o canudo. não é mesmo? Mas lhe falam sobre vidas anteriores e extrater- renos.. É um processo de admitir novas dimensões. e. Mas talvez seja possível entrar em contato com guias espirituais desencarnados. no passado e no presente. Contei que muitas pessoas estavam apren- dendo tudo sobre o mundo através da mediunidade.. artistas. descrevi o que estava acontecendo. portanto. Quero saber.. Isso é um absurdo. Você parece crédula e ridícula.. e não vejo qualquer ingenuidade nisso. filósofos. E que eu estava convencida de que alguns médiuns podiam ser embusteiros. da reencarnação. Sempre fui uma pessoa de mente aberta. para os quais a reencarnação era um fato aceito de suas vi- das. Cuidadosamente.. Estou praticamente convencida da existência de vi- das anteriores. e fui bastante defensiva para concluir o relato ressaltando para Mike que eu estava em excelente companhia. en- tende? Não falei nada. McPherson e Kevin na Califórnia. É todo um mundo fascinante que não estou disposta a ignorar. que também sentiram a afinidade de terem vivido antes. não com Chu. — Uma pessoa entra em transe. Mencionei todas as pessoas famosas e inteli- gentes.. Ele tirou o cachimbo dos dentes e ficou em silêncio por um mo- mento. Falei das informações sobre vida anterior que ouvira a respeito de mim mesma. — Pois acho que é justamente isso o que continuo a ser. apenas com base em evidências empíricas. não é mesmo? — É. — Não.. Mike inclinou o corpo para trás. A verdade é que não me sinto ingênua ou crédula. isso é real. tirou uma baforada do cachimbo. — Foi por isso que perguntei se me julgava ingênua. Estou no processo de descoberta de uma por- ção de coisas novas. que já estiveram num corpo físico e não estão mais. . mas isso não se aplicava a todos. sim. além dos ensinamentos de amor espiritual. até mesmo líderes religi- osos. — Espere um momento! — protestou Mike.. — Shirl.

boa comida. e essa é justamente a raiz da reencarnação. que sempre tiveram tudo.. Talvez a vida seja constituída por lições e isso seja a re- alidade. diz para fazê-lo. a fim de me com- preender melhor. – Posso compreender sua atitude.. Pode estender o exemplo a um cenário mundial de ricos e pobres. as melhores roupas. não é mesmo? — Guerra? — Exatamente. – Concorda então em matar se é você quem sente isso ser neces- sário? – Se algum cara está tentando me matar primeiro. eu tentaria compreender. E é igualmente irreal para um punhado de pessoas na outra extremidade. Mike. — Claro. essa coisa está acontecendo durante todo o tempo. se a lei de causa e efeito está em operação.. Mas eu me pergunto se realmente matamos nossos inimigos. aparelho de TV. Mas se nunca morremos realmente. É o mesmo dilema. Mas se acontecesse.. as gaivotas gritaram. não . É certamente a solução habi- tual. ao invés de apenas ficar ressentida. para milhões de pessoas que nunca tiveram essas coisas. Portanto. carro. É real para ele. se é pessoal ou por- que algum governo. — Pode compreender. Ensinar às pessoas que devem virar a outra face é um convite aber- to à tirania. não é real. pensando em todas essas besteiras de Deus e amor. Mike recostou-se na árvore.. ao invés de não permitir que aconteça por meios violen- tos. Não aconteceu comigo. acho que estou di- zendo que terei de ir à guerra se não quiser permitir que me ex- plorem. Mike. Creio na autodeterminação e na revolução se algum filho da puta está me oprimindo. deixando-se ser oprimida? A eloqüência de Mike era às vezes comovente. — Não. tudo isso é absolutamente sem sentido. que todos os déspotas do mundo se aproveitaram desse tipo de pensamento e causaram um sofrimento in- compreensível? Apoiar essa filosofia é desprezivelmente farisaico. E talvez se torne real também para os filhos dele. Uma nuvem passou diante do sol. Talvez haja uma lição nisso. claro que sim. então a vida se torna uma questão de como assumir uma situação de injustiça. Shirl. talvez não seja a parte do dinheiro que é importante. — Qual é a lição que se pode encontrar num homem que não é ca- paz de dar de comer aos filhos? — Não sei. Talvez o que pareça com opressão seja algo que eu precisava experimentar. Além do mais. Procu- raria descobrir por que e não atribuiria toda a culpa a quem me sacaneou. então o que você realizou. além de acumular muito carma desfavorável? Se a morte é final. talvez mesmo uma autoridade religiosa. mas apenas que talvez eu não fosse realmente oprimida. quer se permita ou não. por experimentarem pela primeira vez na vida ca- rência ou privação. — Mas que merda. Portanto. não é isso o que estou dizendo. In- dependente do motivo para matar outra pessoa. como se tivessem tomado a decisão coletiva de partir. Shirl! Está querendo dizer que ficaria de braços cruzados.. Mas ser privado de uma casa.

... como se diz. Sendo assim. Mike. Não a conhecem como eu e pensarão que ficou pirada de vez. As explicações superfici- ais nunca foram suficientes para mim. Por que você acha que precisa desenvolver todo um conjunto elaborado de crenças para explicar coisas que prova- velmente estariam melhor se deixadas em paz? Eu estava bastante defensiva para me sentir um tanto exaspera- da.. tal como acontece- ra com Bella... Mas era outro problema por que tais conceitos pareciam tão pessoalmente ameaçadores para Mi- ke. a exemplo de Louis Pasteur e Madame Curie. Mas as pessoas simplesmente deixam a coisa sem explicação. Não posso deixar como está. Shirl.. — Não creio que vá acontecer. – Isso é um tanto esotérico. Acho que uma parte é ape- nas a maldita curiosidade.. Poderei descobrir se você e eu tivemos um relacionamento cármico numa vida antes desta. E acho que é determinada o bastante para chegar a conclusões que a satisfaçam. mas sim como motivo pelo qual ele não podia enfrentar a coisa com a mente aberta. E. então de que adianta matar? Se pudéssemos "pro- var". Não precisa- vam depender de audiências nem serem alienados para ganhar a vida. encontra- rei a identidade mais plena do que pode ter acontecido antes desta vida. não importa onde isso possa me levar. que matar não é uma solução. para dizer o mínimo. E veja o que eles fizeram. no sentido literal. talvez mais do que umas poucas boas mentes passassem a procurar por ou- tras soluções. eu sempre quis saber por que uma rosa era vermelha ou um pensamento era forte. Estivemos juntos desta vez prova- velmente porque restou alguma coisa para ser trabalhada de uma vi- da anterior. pois sua mente é desse tipo.. — Está querendo dizer que esta conversa é parte dessa defi- nição de problemas anteriores? . quem sabe? Mas o que me perturba é que as coisas que eles faziam eram tudo o que faziam. e até mesmo com Gerry. — Houve muitas pessoas que não puderam deixar as coisas como estavam. Mike pegou minha mão e afagou-a. imagino que é ine- vitável que eu leve minha investigação até o fundo..é uma realidade. — Quem diz que estariam melhor se deixadas em paz? O que há de tão bom no status quo que o mundo quer preservar como está? Estou procurando por respostas melhores. — Mas não acha que todos especulam sobre essas coisas. Mike estava genuinamente preocupado comigo. Mike... ao invés da ansiedade que estava demonstrando. é a coi- sa mais significativa em minha vida neste momento. Mike. de um jeito ou de outro? Não acha que todos já tiveram alguma ex- periência que não podem explicar? — Claro que sim. E quando eu chegar ao limite de minha identidade ou da identidade de qualquer outro. mas sim uma atitu- de que se vira contra a própria pessoa. Não quero que isso aconteça com você. Portanto. Mas o que isso poderá fazer a você? — Como assim? — As pessoas vão começar a imaginar o que lhe aconteceu. Posso entender por que vo- cê se preocupa com isso. Eu não me preocupava apenas com Mike. seja como for.

uma maçã. poderiam me ajudar a levantar a fiança necessária para um amigo que foi preso por causa de cocaína. muitas davam a impressão de que nem estavam andando. Carregava um par de sandálias na outra mão e tinha o ombro esquerdo descaído. Algumas andavam com determinação. O vulto solitá- rio andava como se estivesse procurando por alguém. en- quanto o sol se punha. fomos andando na direção das montanhas. Mike inclinou-se e sussurrou em meu ouvido: — Diga-me uma coisa: em nossa última vida juntos.. Ele me viu a fitá-lo lá de cima e ace- nou. está bem? — Está. De braços dados. Olhei mais atentamen- te quando ele se aproximou. Fiquei observando-o. pensei. sim. talvez estivessem em algum outro lugar. — É possível. — Mas eu só posso cuidar desta vida. Capítulo 17 "Afirmo que o sentimento religioso cósmico é o mais forte e mais nobre estímulo à pesquisa científica. Ao final da tarde. a cerca de um quilômetro e meio de distância. O Mundo Como Eu o Vejo — Oi! — gritou David. — Está lindo aqui embaixo! Levantei e . Não olhava muito para o mar. você fez vi- agens secretas à Europa para me ver? Eu me sentia extremamente cansada naquela noite. E não sei compreender como essas coisas que você está me falando. A maré baixa espelhada refletia o clarão entre rosa e laranja. Já me oferece o bastante em que pensar.. Comia alguma coisa. Perguntei-me se os peixes tinham almas. Isso é tudo o que lhe peço. Um vulto solitário caminhava pela beira d'água. Essa não. preferindo concentrar sua atenção nos prédios. — Não quer dar uma volta? — Quero. sorriu." — Albert Einstein. tornou a acenar e gritou para mim. — Tome cuidado. talvez não escrever nada. outras pa- reciam vaguear a esmo.. Mike levantou-se e espreguiçou-se. sentei na va- randa e fiquei observando o vento a soprar rajadas de areia.. Era David. Perguntei-me como o peixe-rei sabia que ti- nha de se afastar da Praia e em que momento. Resolvi des- cansar. Sempre tenta- imaginar o que outras pessoas estavam pensando. ao caminharem pela praia ao pôr-do-sol. Shirl. ele parou. O que vai ser agora? Chegando à frente do meu prédio.

que Gerry adorava. desejando nunca tê-lo conhecido. Continuamos a andar pela areia fria..debrucei-me na grade da varanda. Somos parceiros na vida ou algo assim. Fumar é um jeito de se conseguir isso. David? Ele jogou o resto da maçã nas ondas. ao sol poente. Vai esfriar bastante. — Desça e vamos dar uma volta. inda- gando: — Você está bem? — Estou. David. — Como vai. Ainda me sentia magoada do encontro com Mike. não querendo me com- prometer. Eu sentia que estava fazendo o meu pró- prio minueto. — Tem pensa- do muito. David observou-me atentamente quando cheguei perto.. — Eu estaria fumando charutos do tamanho de sequóias se realmente acreditasse em tudo o que estou aprendendo. — Tem razão. que estava longe de haver su- perado.. há espíritos em torno de suas cápsu- las? . — Começamos a andar. aprende-se a dessensibilizar. Quando os as- tronautas viajam pelo espaço. Além do mais. com David. – Você está fumando demais. se você estiver com vontade. enquanto David acrescentava: — Mas traga um suéter.. um par de meias brancas de ginástica pendia do bolso tra- seiro da calça. Ele deu uma tragada no cigarro e olhou para o sol poente.. é assustador a princípio. — Você já sabia que somos velhos amigos e já estivemos casados antes? David riu. Por que fuma tanto. Peguei o suéter de lã que já percorrera uma boa parte do mundo em minha companhia. — Sabia. hum. se está empenhado no desenvolvimento espiritual e também todo certinho consigo mesmo? – Não sei. — Estive pensando numa porção de coisas. sentindo que via David pela primeira vez. David. David usava um suéter por cima da camisa. Caso contrário estaria lá nas nuvens durante o tempo todo. desci a escada de madeira para a areia. não é mesmo? – Não tenho tido muito tempo — murmurei. — Como soube? — Por aí. sou viciado. Acho que me ajuda a manter os pés no chão. e. poderemos jantar na Holliday House. E depois. não é mes- mo? — Hum. Ele acendeu um cigarro. depois de algum tempo. — Hum. Pensei depois que era melhor falar logo de uma vez. Mantive-me em silêncio por algum tempo. Os maçaricos executavam o seu minueto ao sol poente. Empertiguei-me lá em cima. Você não fumaria se estivesse com toda a coisa dentro de você? – Fumar? — Minha voz estava um pouco estridente.. como tudo o que é novo. hum... sob certos aspectos. o verde. Mas. sim. sim. Iremos até o rochedo. Ti- nha um jeito de se mostrar tão seguro das coisas que era quase pomposo.

da mesma forma que se dissesse que Papai Noel existe. Interrompi a dissertação: — Que prova existe de que tudo isso é verdadeiro. David tornou a rir e tossiu. Mozart provavelmente tocava piano aos quatro anos de idade porque se lembrava como. A descrição é similar por toda parte. — Muita gente pensa que esses 18 anos que estão faltando foram passados a viajar pela Índia. — Tenho lido muito sobre as interpretações dos ensinamentos de Cristo além do que aparece na Bíblia. Quando formulava uma de suas de- clarações. hesitou por um instante. Claro que não há qual- quer prova. — Exatamente. — Claro que você sabe que não há nada re- gistrado na Bíblia sobre Cristo desde o momento em que tinha 12 anos e até que começou a sua pregação. Acredito. E daí? O que falta no mundo hoje é a ligação entre os planos físico e espiritual.. Eu já tinha ouvido falar sobre isso e calculei que ele não tinha muito o que dizer até ficar mais velho. — Por que pensa assim? — perguntei. a alma é o elo que está fal- tando à vida. Apenas sinto e é suficien- te. O plano espi- ritual é invisível para nós durante a maior parte do tempo. Pode-se perceber isso em crianças-prodígio. Cer- to? — Certo. — Ou algo pareci- do.. Para mim. Há uma porção de legendas e histórias sobre um homem que parece com Cristo. — Ele teve o bom humor de rir. Continua-se trabalhando. Tenho certeza. por volta dos 30 anos. — Não há qualquer dúvida para mim. Ajeitei o suéter de gola rulê em torno do pescoço. o que você está dizendo é que a reencarnação é co- mo o show business. Tibet. não ficariam tão assustados e ainda entenderiam por que estão vivos. Quer saber de uma coisa? Estou convencido de que Cristo prega- va a teoria da reencarnação. rompendo o reflexo espelhado por baixo de nós. Pérsia e Oriente Próximo. — No fundo. porque nossa percepção é obtusa demais para percebê-lo. David fazia um sermão espiritual cada vez que abria a boca. até mesmo em torno de nós neste momento. Pode-se parecer um idiota ao se apresentar essas teorias como se fossem genuínas. não é mesmo? Não se espanta às vezes de onde vieram determina- das idéias e inspirações? Não sente às vezes que está sendo clara- mente guiada por alguma força invisível? Tem alguma idéia de quan- tos grandes gênios declararam expressamente que sentiam uma espé- cie de força inspiradora invisível? Pois estou convencido de que são na verdade os guias espirituais. Tudo me provocava calafrios atualmente. Se todos compreendessem que suas almas jamais mor- rem. Ele dizia que era . Mas nós não somos invisíveis aos espíritos. além da recordação de um ta- lento que tiveram numa vida anterior. E você pode sentir isso de vez em quan- do. lembrando o que John me dissera a respeito da Bíblia. até que tudo saia certo. — Ele me fitou nos olhos. David mergulhou os pés na água. Isso é tudo. — Pode-se dizer que sim. David? Real- mente verdadeiro. David jamais elaborava a respeito. porque o mundo espiritual está por toda parte.

Cristo disse que havia apenas um juiz. por volta do ano 553 da nossa era. se estivessem mais em contato com seus eus espirituais e com seu poder potencial. a teoria da reencarnação. estudiosos de ma- nuscritos sânscritos e hebraicos e assim por diante. David? — Acontece que estão. em Constantinopla. pois passara dois anos na índia pesquisando o mesmo assunto. — E quando a Igreja destruiu esses ensi- namentos. Evidentemente. a qualquer tipo de igreja formal que pudesse escravizar o livre-arbítrio do homem ou reprimir sua luta para encontrar a verdade. Ela e o mari- do haviam escrito um livro e produzido um filme documentário sobre os anos em branco na vida de Cristo. teólogos. Isso confirmava o que Kevin dissera. Os membros do concílio votaram pela supressão desses ensinamentos da Bíblia a fim de consolidar o con- trole da Igreja. haviam realizado amplas pesquisas sobre aquele período da vida de Cristo na Terra. David fez uma pausa breve. Isso faria sentido para mim. falei a David sobre Janet e Richard. Mas parecia lógico que qualquer pessoa enfronhada na reencarnação já tivesse lido a res- peito daquele concílio famoso. opunha-se à formação de uma igreja de qualquer espécie. porque eu seria responsável por meu próprio destino (e o mesmo a- . projetando uma claridade rosa-púrpura sobre as nuvens por cima do Pacífico. — Creio que era exatamente isso o que Cristo estava fazendo — acrescentou David. Foi o Concílio de Nicéia.. uma es- pécie de protegida de Sai Baba (um avatar da Índia). Dizem que ele se tornou um iogue perfeito e possuía um controle absoluto sobre o próprio corpo e o mundo físico ao seu redor. Mas Cristo ensinava que cada ser humano era respon- sável por seu próprio destino. E acres- centou que Cristo. — Mas por que esses ensinamentos não estão registrados na Bí- blia. Shirley. realizou todos os mila- gres que foram posteriormente registrados na Bíblia e tentou ensi- nar às pessoas que podiam fazer a mesma coisa. Ele disse que não os conhecia. agora e no futuro.Filho de Deus e confirmou as crenças dos hinduístas de que a reen- carnação era uma coisa genuína. Teria me dado uma razão para acreditar na dimensão espiritual do homem. Tudo parecia confirmar que Cristo realmente percorrera a Índia. ou seja. Pensei que se a Igreja ensinasse que nossas almas estavam empenhadas numa encarnação física contínua a fim de se elevarem pela Justiça Cármica. então eu teria me interessado desde que era bem pequena. Não falei nada. antes de continuar: — A Igreja precisava ser a única autoridade no tocante ao des- tino do homem. Seus nomes eram Janet e Ri- chard Bock. Enquanto andávamos. mas adoraria comparar anotações. O sol estava agora se pondo por trás das ondas.. ao voltar a Israel. prejudicou toda a humanidade daí por diante. David não tinha conhecimento de minha sessão com Kevin e John também ignorava que eu conhecera uma mulher em The Ashram. A teoria da reencarnação está devidamente registrada na Bíblia. Mas as interpretações adequadas foram suprimidas durante as reuniões de um concílio ecumênico da Igreja Católica. ensinara o que aprendera com os mestres indianos. que era Deus. Compilaram pilhas de evidências pes- quisadas por respeitáveis arqueólogos.

não formuladas expressamente. e talvez o preceito áureo da Bíblia fosse o primeiro e último axioma pelo qual se de- via viver. portanto. Não pertencia necessariamente ao domínio das "autoridades" de qualquer tipo. Talvez fosse esse o significado de "os humildes herdarão a terra". ou deixas para o caráter ou indicações de objetivos na vida. estivessem aumentando não apenas as complexidades cár- micas da própria terra. onde ele dei- xara o seu carro. mas nunca mesmo. Vai querer comer alguma coisa? Livros? Eu precisava de mais livros? Fomos sentar no restaurante por cima do mar.. Era excepcional para mim não ser pessoal em relação a um homem. Fomos até a praia pública. nunca era sobre amenidades. Não ha- via coisas como "Você gosta de Brahms?". o que por toda a mi- nha vida me tornara desamparadamente incapaz de compreender ou al- terar. amarrados com um barbante. Leia e pense. David e eu continuamos a andar em silêncio. gradativamente. Esse empe- nho pertencia a cada indivíduo. Mas aquilo era diferente. E teria me proporcionado um conforto profundo por saber que vivíamos para sempre. no banco traseiro es- tava uma pilha de livros. de acordo com nossas ações e reações nas passagens pela Terra. como se qualquer outra coisa fosse um desperdício de tempo. A lei da causa e efeito era aceita na ciência como fundamen- tal. Era um Dodge velho. Talvez os humildes que não sentiam qualquer ne- cessidade de agir como "fortes" fossem os que se relacionavam com Deus e com a virtude da vida e da humanidade. verde. – Eu lhe trouxe mais alguns livros. Mas. Eu não estava interessada em David por esse aspecto. Talvez todos os que tendiam a complicar a vida. quando es- . Competiria à consciência de cada um julgar o seu próprio comportamento. E também ex- plicaria todo o sofrimento e horror no mundo. ética. Mas isso não significava que não exis- tissem. tais coisas não eram visí- veis. Estava interessada apenas no que ele tinha a di- zer. Sempre que con- versávamos. porque manteríamos as nossas prioridades eternas em posição superior aos nossos proble- mas terrenos. porque a "conversa pessoal" era ge- ralmente um caminho para o que ambos queríamos um do outro. Moral.. Não via muito valor nas provas físicas quando se trata- va do esforço para compreender por que estávamos vivos. tácitas. não à Igreja. "O que um homem semeia é o que irá colher" passaria a ter um significado completamente diferente. Seria até mais possível fazer isso. no sentido mais pro- fundo.. ou "Como foi seu dia?" Era sempre uma conversa profunda. mas também as complexidades cármicas de suas próprias vidas. eterna- mente. Por que a mesma lei não podia ser aplicada em relação à vida humana? Nem sempre as leis eram baseadas no que podíamos ver e. começava a me perguntar por que esses campos adquiriam tanta im- portância. levados pelo medo.. não eram tangíveis. além de uma Bíblia. pessoalmente. Eu não era uma conhecedora profunda da ciência ou de qualquer dos campos em que havia fatos comprováveis. amor..conteceria com todas as pessoas). Creio que todas as pessoas estabelecem um conjunto de regras de comunicação. a cerca de cinco quilômetros de distância. provar.. "Vire a outra face" também passaria a ter um novo signifi- cado.

Isso me deixava inteiramente à vontade. — Passei por muita confusão quando comecei a estabelecer mi- nhas conexões espirituais. Uma coisa era ouvir "John" falar sobre Deus. embora houvesse velas na mesa e estivéssemos profundamente absorvidos no que o outro dizia. Talvez sejam armas militares secre- tas sobre as quais ninguém fala. Quanto mais escu- tava minha voz interior. duas a duas. mas vi o relatório que ele encaminhou ao jornal. — Mas o que você acha que são os discos? — Não tenho a menor idéia. Agora. Pareceu-me profissional e desprovido de emoção. Shirley. embora outros fregueses especulassem com quem eu estava.tão reunidas. ele perguntou: — Você já viu um disco voador? Fiquei um tanto surpresa com a pergunta. inclusive Jimmy Carter. esse processo era geralmente uma evolução abstrata do pensamento. há tantas pessoas fazendo a mesma coisa que é isso o que se tornou real. E de repente. nunca me sentia propensa a me relacionar com David num nível homem-mulher. em sua opinião. Era mais simplesmente um mero relato do que ele passara. outra muito diferente era ter um amigo pessoal aparentemente prestes a estabelecer a mesma conexão. Sabia ins- tintivamente que seríamos sempre o que éramos agora. — Não. Em vez disso. era sempre com uma dignidade serena. finalmente. mais entrava em contato comi- go mesmo. David não parecia estar revisando as suas lutas pela convicção como uma espécie de roteiro com o qual eu pudesse me identificar. estimulado por uns poucos momentos específicos. E quando ele falava. Afinal. no entanto. quando era governador da Geórgia. conversa- mos sobre a necessidade ds fé e de um sentimento de propósito. Assim. eu parava e escutava o que mi- nha intuição dizia que era real. talvez sejam balões meteoroló- . como a maioria dos relatórios de Jimmy Carter. porque "somente uma pessoa de mente aberta pode adotar novas idéias e crescer". sobre a sa- bedoria de manter a mente aberta a todos os conceitos novos. partindo de David. isso criava um clima em que cada encontro com aquele homem. Carter nunca me falou nada a respeito. Ou pelo menos fora no meu caso. que era parcialmente responsável por meu questionamento profundo de nossas percepções da realidade. fosse uma experiência nova para mim. Ao final. Fora condicionado a acreditar no que pudesse provar e não no que pudesse sentir. embora estivéssemos tomando um delicioso vinho Bordeaux e comendo um filé Wellington de primeira. quase ao final do jantar. mas conheço algumas pessoas que já viram. David também não parecia interessado em romper o que estava estabelecido. so- bre se a raça humana progredira por si mesma ou com a ajuda de al- guma espécie de "orientação" espiritual e. Mas sempre que me sentia meio "absurdo" no mundo "real" ao redor. que me motivaram ainda mais. verdade espiritual e extraterrenos no mesmo fôlego. David comentou que essa abertura era. assim como também não me interessava especificamente pela maneira como ele viera a acreditar em tudo o que acreditava. mas existe e funciona. Não é uma coisa em que se pense. tudo se tornou muito simples. até que um dos dois rompe o que estava acertado e tenta levar a conversa para outro nível. Paradoxalmen- te. a ver- dadeira característica da inteligência.

mas sem saberem muito bem como deveriam reagir.. Lembrei-me outra vez de "John" e de muitas leituras que eu própria fizera. – Está se referindo ao Von Daniken de Eram os Deuses Astronau- tas? — Exatamente. Ao terminar o filme. – Ele não passou algum tempo numa prisão suíça por emitir che- ques sem fundos? – Passou. E acho que os extraterrenos que os tripulam possuem um elevado desenvolvimento espiritual. ao assistir ao filme. culminando com a separação das águas do Mar Vermelho. Ele também alegava.. – Há referências por todo o Antigo Testamento.. talvez sejam embustes.gicos. Depois da sessão com "John". enquanto as pessoas deixavam o cinema. apresentando desenhos nas cavernas e monu- mentos como provas de tal alegação.. as pistas de pouso na Planí- cie de Nazca. que versava sobre a presença de extraterrenos ao longo de toda a história humana. o material que descrevia a sua alegação de que muitas ruí- nas antigas haviam sido construídas na verdade por civilizações altamente desenvolvidas. eu lera toda a obra de Von Dani- ken. Há descrições de todos os tipos que me parecem de espaçonaves. Eu escutara atentamente os comentários. por que mencionara os discos voadores em relação ao que estávamos conversando. Observei atentamente à procu- ra de qualquer expressão que indicasse onde ele estava querendo chegar. fora a reação da audiência. Mas o que isso tem a ver com o que ele des- cobriu? As pessoas estão cheias de contradições e foi errado o que ele fez. Ninguém fizera comentários sarcásticos ou escarnecera .. limpou os cantos da boca com o guardanapo. e assim por diante. Estavam todos como que hipnotizados pela tela. Simplesmente não sei. também no Peru. – Muitas pessoas já escreveram a respeito deles. Machu Picchu no Peru. — Acho que são do espaço exterior. Stonehenge.. Observei como seus olhos piscavam calmamente à luz das velas. Deveria ter encontrado outro meio de resolver seus pro- blemas. e muitos outros também pensam assim. E acho ainda que nos visitam há muito tempo. O que você acha? David tomou um gole do café e outro do conhaque. por exemplo. com ajuda extraterrena: a Grande Pirâmi- de. Pareciam genuinamente fascinados pelas especulações. O que mais me impressionara. talvez sejam do espaço exterior. assim como a coluna de fogo que guiara Moisés e os israelitas no deserto por 40 anos. Mas isso também não aconteceu necessariamente com a sua obra. que as descrições de Ezequiel das carruagens de fogo eram na verdade espaçonaves. ninguém se levantara para ir embora. mas creio que ele está no caminho certo. Mas David já estava acrescentando: ] – Acho que Von Daniken é um pouco maluco. é claro. – E muitos malucos. Eu assistira ao filme Chariots of the Gods (Carruagens dos Deuses). — O que o faz pensar assim? Observei-o tomar outro gole do café. Senti que a minha "mente aberta" estava ameaçando se fechar. sim. porque no final acabou se desacreditando.

como uma civilização extremamente adiantada.. por se- res que sabiam mais do que nós. Por que seres alienígenas avançados não poderiam tentar nos ensinar a verdade espiritual superior? Talvez a força- Deus seja na verdade científica. que viveram dois mil anos antes de Cristo. por que não? Nenhum cientista ... assim como as verdades científicas.. Eu disse então a mim mesmo... assim como ou- tros. que nossa ciência não pode explicar. mas tudo indica que a nossa Terra tem sido ob- servada. Posso lhe dar muito material a respeito para ler. Resolvi interrogá- lo mais a fundo: — Está querendo dizer que anjos e carruagens que cuspiam fogo. — Mas essa inteligência poderia ser a manifestação de civili- zações humanas extremamente adiantadas aqui mesmo da Terra. que desapareceram ou sumiram de alguma forma. ou pelo menos com a questão de Deus. Os sumérios. Muitos textos das culturas antigas falam sobre "deuses" que circulavam entre as estrelas. como nós os cha- mamos. exatamente como John fizera. seres que conheciam as verdades espirituais. todas essas coisas que se encontram na Bíblia. Os in- cas e os maias possuíam tanto conhecimento astronômico e astro- lógico como o que temos hoje. assim como muitas outras grandes mentes. astronômicas. há muita coisa de inteligência superior inexplicável na história antiga. ma- temáticas e físicas que só agora estamos começando a sondar. E agora. David relacionava os discos voadores com a inteligência espiritual. pensativas. — Como chegou ao ponto de estabelecer uma ligação entre as possibilidades espirituais do homem e o espaço exterior? — Porque faz sentido. trazendo "ajuda e conhecimento e promessas de imortalida- de". não é mesmo? Afinal. Não se sentiam ameaçadas ou intimidadas por qual- quer forma. Mas o problema é que não houve a- penas um exemplo de inteligência superior. Alguém men- cionara um hamburger. Lembrei que ficara mais interessada nas rea- ções dos outros ao filme do que em minha própria reação. em máquinas voadoras incandes- centes. Talvez até mais. ajudada e instruída. Por que a inteligência superior tem de provir necessariamente de outro mundo? — Também me perguntei isso. Só há uma explicação possível: essas pessoas tão dotadas conheciam alguma coisa que nós ignoramos. tanto se relacionando com religião e espiritualidade. Segundo Platão e Aris- tóteles. Atlântida real- mente existiu. — Mas por que os próprios seres humanos não poderiam ter a- prendido tudo isso? David seguiu em frente.. depois de tomar o resto da água gela- da. de pessoas que eram adiantadas num sentido cósmico. ao longo da história humana. eram capazes de realizar milagres físicos. tinham a matemática e a as- tronomia altamente desenvolvidas. Cristo e Moisés. Apenas saíram sem muito falar. O conhaque acabara. – Porque há indícios demais de que os seres humanos receberam ajuda de "deuses". E pessoas demais tes- temunharam esses "milagres" para se admitir que não passaram de mitos inventados. Eu podia sentir que minha mente estava re- sistindo.das informações.. eram na verdade pessoas de outro mundo? — Isso mesmo.

O Cético Eu lera sistematicamente sobre a mediunidade e depois sobre reencarnação. até sentir os olhos doerem. colunas de fogo e assim por diante. porque são palavras usadas pe- los antigos para descrever fenômenos nos termos compreensíveis em seu tempo.. certo? — Certo. Pode parecer meio des- cabido nos termos de alguns pontos de vista comumente aceitos. Referiu-se ao comandante da nave como "O Senhor". Na parte da Bíblia. Segue-se uma sinopse muito sucin- ta de tudo o que li. Uma parcela considerável dessa pesquisa foi importante para mim em relação ao que me aconteceu posteriormente. Falou como eram se- . como anjos. Eu é que costumava ser a inflexível. bem que pode ir mais ao fundo. Ezequiel deparou com pessoas e naves assim em quatro ocasiões diferentes. David se classificara de inflexível? Era o termo que ele geralmente aplicava a mim. Descreveu o movimento de ida e volta do veículo como algo tão rápido quanto o relâmpago. Falou sobre o que era ser elevado num na- vio voador. A esta altura. Li por dias a fio.moderno de mentalidade saudável acredita que somos a única vida no universo. vida antes do nascimen- to e agora estávamos entrando em vida acima da vida! Agradeci-lhe e nos despedimos. Ralph Waldo Emerson. Como você começou a se enfronhar nessas coisas. – E não acha que vale a pena pensar sobre isso? Por que não levar a sério a possibilidade? Faz sentido. No Antigo Testamento. Eu estava exausta. sempre para a minha própria orientação espiritual. Pagamos a conta (meio a meio) e levantamos. Conversáramos em vida depois da morte. ao longo de um período de 19 anos. Mas desculpe por estar sendo tão infle- xível. uso a sua própria terminologia. Concentrei-me agora num novo ponto de vista: a possibilidade de vida extraterrena e sua relação com a vida humana. minha frustração terrena com Gerry parecia uma boa coisa. Ezequiel descreveu como a Terra parecia de uma grande altitude. mas faz sentido. alguém se mostrava mais inflexível do que eu. David entregou-me a pilha de livros e largou-me em meu aparta- mento na praia. o que quer que estivesse pensando. Agora. Capítulo 163 "A verdadeira coragem e compreensão consiste em não permitir que as coisas que sabemos sejam embaraçadas pelo que não sabemos". quase como se levado por um ímã..

. pois ele vê a forma do Senhor" (Números. Não é assim com o meu servo Moisés. eu sou lá de cima. Abraão. um veículo que orientou os hebreus na fuga do Egito até o Mar Vermelho. eu não sou deste mun- do" (João. Até o Êxodo. em to- das as suas jornadas" (Êxodo. Disse que os anjos estavam muito preocupados com o sucesso da mensagem que traziam para a Terra. ética e culto. E Cristo disse ainda. 32:2). eu. na verdade.. 16:4). a Regra Áurea e a crença na vida eterna. vós sois deste mundo. Mas a "coluna de fogo" cuidava de tudo. e não em enigmas. que é fiel em toda a minha casa. o Senhor. Os ensinamentos visavam a que as pessoas na Terra aprendessem os valores do amor. proporcionou-lhes orien- tação religiosa durante todo esse período.. São Tiago. claramente. Moisés mantinha um contato diário com um ser na "coluna de nu- vem". Mas durante um perío- do de 40 anos. Jacó e assim por diante. No livro do Êxodo. A coluna pairou sobre as águas e dividiu-as ao meio. enquanto vagueavam pelo deserto.. quando a nuvem parava. "De dia a nuvem do Senhor repousava sobre o tabernáculo e de noite havia fogo nele. dizendo: "Ouvi agora as minhas palavras. 12:6-8).. à vista de toda a casa de Israel. o povo des- cansava e montava outro acampamento (Números. Durante esse período de 40 anos. foi descrito como "uma coluna de nu- vem durante o dia e uma coluna de fogo à noite". A "coluna de nuvem" servia como um farol para as jornadas pelo deserto. E- zequiel declarou que "O Senhor" demonstrou cuidado e respeito por ele. Pedro. Apenas acreditavam numa espécie de promessa. os anjos implantaram o e- vangelho e a religião de outro mundo. 9:15-23).renas as pessoas das naves ao jazerem contato com os humanos. A "coluna" que guiou os israelitas por 40 anos. es- forçando-se ao máximo para evitar que sentissem qualquer medo. Há "anjos" por toda a Bí- blia. quando a nuvem se deslo- cava. a Bíblia mais do que sugere que os "anjos" e- ram missionários de outro mundo. O livro de Números é mais específico. vagueando pelo deserto. permitindo que os israelitas escapassem para o deserto. No livro de Atos. Não havia sinal algum de "hostilidade ou atitudes inconseqüentes". se entre vós há profetas. os israelitas não chegavam a ter uma religião. os israelitas ficaram sem qualquer fonte de alimentação e sustento. Jacó encontrou anjos em muitas ocasiões. 8:23). O Senhor disse a Moisés: "Eis que vos farei cho- ver pão do céu" (Êxodo. o povo se deslocava. Cristo instruiu os discípulos a levarem a mensagem de seu mundo para todo o mundo deles. Eram tantos uma vez que ele disse: "Este é o exército de Deus" (Gênese. Moisés. Ele disse que estava em contato constante com seres de seu mundo e que os chamava de "anjos". no Novo Testamento: "Vós sois cá de bai- xo. Boca a boca falo com ele. o Reino dos Céus.. Um grupo selecionado de pessoas foi devidamente instruído em questões de comportamento.. Um "anjo interior" transmitiu a Moisés os Dez Mandamentos. 40:38). em visão a ele me faço conhecer ou falo com ele em sonhos. A coluna de nuvem orien- tava todos os movimentos dos israelitas. O Senhor falou a seu povo um dia.

babilônias e egípcias apresentavam o mesmo quadro: "deuses" vindo das estrelas e depois voltando. Os sábios dos mais antigos índios americanos mencionavam um pássaro do trovão que lhes trouxe fogo e frutos. A Lenda de Tiahuanaco falava de uma espaçonave dourada que vi- era das estrelas. O calendário astrológico de Tiahuanaco. assírias. havia constantes re- ferências a máquinas voadoras na pré-história. falava de máquinas voadoras. Textos cuneiformes e tábuas de Ur. que foi extraída e transportada por uma boa distância. por longas distâncias. que tem cerca de cinco mil anos. Inscrições cuneiformes sumérias. depois vi- rada ao contrário. estavam corretas. registrava simboli- camente um conhecimento astrológico baseado na premissa de uma Terra redonda. os quatro pontos cardeais da bússola. As lendas religiosas do povo pré-incaico diziam que as estre- las eram habitadas e que os "deuses" vinham da constelação das Plêiades. o formato redondo da Terra. quatro mil metros acima do nível do mar. que podiam viajar para frente. viajando em naves de fogo. Mahabarata. encontra-se o que parecem ser pistas de aterrissagem com milhares de anos de idade. Eram chamadas de "pérolas no céu". em velocidades incríveis. para cima. pássaros e um vulto com um capacete similar em formato aos que são usados pelos astronautas modernos. Os egípcios trouxeram seu obelisco de Asuan. Capítulos intei- ros do Samaranguva Sutradhara foram devotados a descrever aerona- ves cujas caudas cuspiam "fogo" e "mercúrio". para baixo. passei para os outros livros que David me dera. há 27 mil anos. A mais antiga epopéia indiana. Tantyua e Kantyua. similares às vitrifi- cações de areia produzidas pelas explosões atômicas no deserto a- mericano de Nevada. Os dois livros ressaltavam que tais informações eram secretas. a uma altitude considerável. Os esquimós falavam das primeiras tribos levadas para o norte por deuses com asas de metal. os construtores de Stonehenge trouxeram seus blocos de pedra do su- . lua e outros planetas. As revoluções da Terra. há desenhos de animais. Nas Planícies de Nazca. possuindo armas ter- ríveis e prometendo imortalidade às pessoas. na cidade de Tiahuana- co. Há em Sacsahuaman um monumento de rocha de 20 mil toneladas. As pistas de aterrissagem e os desenhos só podem ser vistos de a- vião. para trás. As lendas maias contavam como os "deuses" eram capazes de co- nhecer tudo: o universo. O calendário maia era tão desenvolvido que seus cálculos se projetavam por 64 milhões de anos. No mesmo lo- cal. no Peru. não estavam destinadas às massas. Depois que terminei de ler as anotações da Bíblia. em nosso tempo. navegadas em grandes altitudes. Nos livros tibetanos. falavam em deuses que percorriam os céus em "naves" ou deuses que vinham das estrelas com armas terríveis e poderosas. Foram encontradas vitrificações de areia no Deserto de Gobi e em antigos locais arqueológicos iraquianos. um dos mais antigos escri- tos da humanidade. em harmonia com o sol. Povos antigos levaram milhares de toneladas de pedra de um lu- gar para outro.

Só sei que não conseguia parar de pensar a respeito. assim como os respectivos acordos posteriores a cada uma. de muita coisa que lera. Tornei a ler que os ensinamentos de Cristo sobre a reencarna- ção haviam sido suprimidos da Bíblia durante o V Concílio Ecumêni- co. Em outras palavras. ao longo de minha vida. na manhã de do- . E a Grande Pirâmide de Giza continua inexplicável. se alguém juntasse as massas de ter- ra do planeta. Nenhuma das chamadas "autoridades no assunto" parecia concordar com outra so- bre qualquer coisa. só que foram profetizados. câma- ras e passagens da Grande Pirâmide. Talvez fosse por isso que nunca houvera uma apresentação unificada. Não sei o que eu realmente pensava. Eu não podia certa- mente ignorar. arqueó- logos e teólogos. Nos corredores. O acúmulo de indícios era grande demais para não se levar a sério. Eu estava exausta quando terminei de ler o que David me dera. em Constantinopla. Era verdade que já tomara conhecimento. a Grande Pirâmide estaria no epicentro exato. As anotações de David di- ziam que. A época da grande inundação foi profetizada com toda precisão. Também correspondem acuradamente às medidas de tempo e movimento dos e- quinócios e ao ano solar. Lá estão o nascimento e crucificação de Cristo. A própria Enciclopédia Católica declara. que seria excomungado "qualquer um que defendesse a crença na pré-existência das almas". muito menos um tratamento unificado de to- das as ciências para esclarecer o problema. a Grande Pirâmide está construída no exato centro geofísico da Terra. Mas nunca vira ninguém apresentar a um só tempo todo a- quele material impressionante. as medidas correspondem em tempo a acontecimentos históricos de extrema importância das civi- lizações da Terra. Dava para imaginar um pregador fundamentalista dizendo de seu púlpito eletrônico. que parecia apontar para a necessi- dade de se levar mais a sério nosso passado extraterreno. muito menos para se ignorar. as guerras mais importantes entre nações. As duas guerras mundiais estavam acuradamente profetiza- das no tempo. em forma escrita. Eu sabia que qualquer argumento científico que um cientista pudesse apresentar era geralmente rejeitado por outro. os grandes reinos. mas de certa forma era di- ferente encontrar tudo compilado e organizado. de acordo com as modernas pesquisas científicas e geoló- gicas. em relação ao V Concílio Ecumênico. com o apoio de cientistas. os escultores da Ilha da Páscoa (conhecida pelos nativos como Ilha do Homem-Pássaro) trouxeram as suas estátuas de pedreiras a quilômetros de distância. por respeitáveis pesquisadores. parti- cularmente em relação à compreensão espiritual e ao nascimento do monoteísmo. ao invés de simples- mente registrados. E o mesmo se aplicava à Igreja. Suas medidas correspondem ao diâmetro polar e ao raio da Terra.. Vira ocasionalmente pela televisão um cientista ou alguém como Carl Sagan aludir à "inevitabilidade da vida extraterrena no cosmos". Não entendia por que tudo aquilo me parecia uma novidade tão grande. aos fragmentos. assim como a ascensão e queda dos movimentos espi- rituais e seculares do homem. no ano 553. o desenvolvimento de movimentos religiosos e morais entre os povos.doeste de Gales e de Marlborough.. E isso é apenas o começo das maravilhas matemáticas incluídas na Pirâmide de Quéops.

. Estava sobrevoando Lima quando acordei. eu me sentia como nos velhos tem- pos. Uma coisa. mas Colombo não fora a primeira pessoa a di- zer que o mundo não era plano. via- jando rapidamente. Depois disso. E quando se pensava nisso.. esse diálogo será certamente de caráter mais elevado e mais profundo.. livre e desimpedida. Como criança e como adolescente. quando partia para qualquer lugar sempre que me dava vontade. – Está combinado. Em outros planetas. olhando para o minue- to dos maçaricos. E fiquei imaginando como seria uma ditadura mi- . mil vezes an- tes. Comecei a rir. Shirl? — Sentada a pensar. — Gostaria de fazer uma viagem? Respondi sem pensar: — Claro. havia uma cidade costeira. com a cabeça pegando fogo. Aventura num súbito impulso. Não me importo para onde vou. Capítulo 19 "Tenho certeza que já estive aqui como estou agora. – Aos Andes? — Por que não? – Isso mesmo. sob a massa de nevoeiro. eu não fora educada a pensar além dos perímetros do que meus professores tradicionais queriam que eu soubesse. Sentada em minha varanda. David me telefonou. Satisfeita. vivendo na terra livre da democracia ameri- cana. Era absurdo. Preenchi meu cartão de entrada no país. desatei em gargalhadas. Espero voltar mais mil vezes. o resto se seguirá. declarando o di- nheiro que levava. sozinha. Talvez tudo aquilo não pas- sasse de uma loucura. era certa. Memórias de Johannes Falk No vôo noturno para o Peru. — Como está. que Moisés fora guiado através do deserto por uma espaçona- ve. O que está faltando é Au- toconhecimento. Para onde? — Peru. Tudo estava pelo avesso.. relaxei e dormi. Tinha agora de aprender a pensar por conta própria. des- cobria-se que era muita arrogância de nossa parte presumir que é- ramos a única raça racional no universo. Em algum lugar.. O homem é o diálogo entre a natureza e Deus.mingo. W. porém. Quero apenas ir a algum lugar.. por que não? Ainda tenho duas semanas de fol- ga. – Encontre-se comigo no aeroporto de Lima dentro de dois dias. agora como uma adulta." — J. von Goethe. . Era pior do que Los Angeles.

antes de me decidir a pegar um táxi e seguir para o centro da cidade. São diferentes dos Himalaias. Fez uma boa viagem? — Foi tranqüila. Salvaram-me a vida muitas vezes. Desembarquei no Aeroporto Jorge Chavez numa manhã fria. O Peru é os Andes. quase sempre escusos. ile- gais. — Vamos embora... mas que dava a impressão de que poderia me levar ao Sheraton local. Não reconheci ninguém. onde olharia ao redor mais um pouco.. Arrumara uma mala de bom tamanho com roupas para o frio. Lima era um centro de negócios internacionais. Saí pela entrada principal do terminal. enquanto passei pela bar- reira da alfândega e fiquei esperando pela mala no outro lado. Mas espere só até vê-los. Mas essa é a melhor maneira de se viajar nas montanhas. eu queria que tudo ficasse registrado por escrito.. usavam uniformes que pareciam sobras dos Keystone Cops. Eu esperava um comportamento militar rígido. O carrossel deu a volta e minha mala apareceu.. No instante em que o- lhei para um táxi velho e todo amassado. encaminhei-me para a rua. E não se impressione com o meu calhambeque. Não consegui arrumar um Land Rover. Obviamente.. Mister Livingstone. os guardas famosos do tempo do cinema mudo. um par de botas de campanha. São pacíficas. blocos para anotações. Ninguém me reconheceu e não causei qualquer impressão quando apresentei meus documentos e passaporte. — Seja bem-vinda às montanhas que eu tanto amo. Peguei-a. Virei-me no mesmo instante e deparei com David. — As montanhas? Vamos direto para os Andes? — Claro. Não quisera dizer. nada de inconveniente aconteceu. Eu nada sabia a respeito do Peru. ao me- lhor estilo da Gestapo. autoridades do aeroporto. não apenas peruanos de volta ao país. Shirley! Ele tinha um cachecol de lã enrolado no pescoço e usava um blusão com zíper na frente. Seria muito difícil evitar. juntamente com a valise. Os inspetores al- fandegários. Não dissera a ninguém para onde estava in- do. madame. Apenas informara que estava deixando a ci- dade numa viagem. E as pessoas a- giam como tal. nada tendo a ver com uma ajuda altruísta aos pobres.litar sul-americana. embora o governo fosse supostamente con- trolado por um grupo militar de esquerda. carregadores. Fitei-o nos olhos.. Havia muitos viajantes internacionais no avi- ão.. O aeroporto não poda ser mais de- pressivo. senti alguém me tirar a mala da mão. A maioria dos meus amigos e meu agente estavam acostumados a isso. — Oi. eu presumo? — Qualquer coisa que quiser. — Oi. policiais. Exceto pelo fato de não ter preenchido um documento em tripli- cata. Estava bronzeado e sorridente. mas igualmente . não precisando saber mais do que isso. pisan- do na pista de cimento. as Planícies de Nazca e que a maior parte do Peru era constituída por montanhas. Conhecia apenas a civilização inca. muitas fitas e um gravador. O sol acabara de subir para acabar com o frio da manhã quando olhei além do muro para o local em que as pessoas esperavam pelos recém- chegados. Lá es- tava eu começando outra vez: uma liberal rica transbordando de compaixão. Não me sentia assustada. todos enfim. O que quer que fosse me acontecer.

alimentos enlatados. concentrando-me na coisa mais quente em que podia pensar. Pensara em Lima como uma cidade de recreio à beira do mar. os dentes chocalhando. carregadores ou quem quer que seja para fazer qualquer coisa para você. —. O corpo todo tremendo. no entanto. — Comeu alguma coisa no avião? — Comi. Apontei para cima.Ah. E o tempo mudara assim que os conquistadores se instalaram. os incas haviam orientado o exército invasor para o local em que estava agora a cidade de Lima. mas desta vez não haverá sherpas.deslumbrantes. sim. Os in- cas afirmaram que era apenas um acaso. antes de seguirmos diretamente para Llocllapampa. Quando Pizarro invadira a civilização inca. afagando meu joelho. me fez tossir. Orgulhosamente. Concentrara-me ao máxi- mo que podia e não demorara muito para que sentisse o suor me es- correr pelo corpo. — O que pode me dizer a respeito desses incas. era sombrio. Ele avisou que também não havia aquecimento no lugar para onde es- távamos indo. inundada de sol. as pessoas circulando em sarongues sul-americanos. ao lado do aeroporto. — Alguém? David limitou-se a me piscar. até finalmente ter a impressão de que a luz do dia me inundava a cabeça. uma garrafa térmica e qualquer coisa a mais que pudesse me manter aquecida. — Sei que está acostumada a regiões rudes. David contou que havia uma lenda sobre Lima baseada em fatos. David acendeu um dos seus Camels e perguntou-me se havia alguma coisa especial que eu precisaria. Shirley. depri- mente. quan- do tivera a certeza de que morreria congelada. com um clima perfeito. Então só vamos parar para comprar provisões. eu tinha esquecido. Mas ali estava uma cidade úmida. estacionado numa rua de terra.. Ele pegou também a valise e me conduziu a um Plymouth vermelho muito velho. Meu único recurso fora o de utilizar uma técnica de controle da mente sobre a maté- ria.. eu deitara num catre improvisado. Mas é claro que o tempo ja- mais melhorara e que não demorara muito para que a maioria dos soldados de Pizarro estivesse com pneumonia. Ele sugeriu papel higiênico. o sol. fechara os olhos e encontrara em algum lugar do centro da mente o meu próprio sol laranja. através de uma oferta de paz. O resto do ano. eles mostra- ram a região aos conquistadores nos meses de janeiro e fevereiro. Pensei no tempo em que ficara numa cabana nos Himalaias. desolada. que eram os melhores localmente em termos de tempo. Recorrera a essa técnica todas as noi- . apenas relaxam e presumem que alguém sabe mais do que eles. misturada com o nevoeiro. de aluguel. equiparando-se aos mais amenos do mundo. porque teríamos sorte se encontrássemos um lampião de querosene no lugar para onde íamos. David? Por que eles eram tão inteligentes? — Acho que eles eram simplesmente fáceis de ajudar. — Ótimo. Os povos primitivos não combatem os milagres. A poluição... Terá de se virar sozinha.

— Mais ou menos isso. mas não disse nada. David: parece saber como será o roteiro. o mundo não passa de um palco e somos todos atores nos apresentando diante do cenário. Não chegamos a atravessar Lima e assim não posso dizer como era exata- mente a cidade. mas estava apinhada de caminhões que cuspiam uma fumaça negra e carros imundos. Sabia que havia um Sheraton em algum lugar e tam- bém o Museu de História Natural. reconstituindo a civilização dos incas e até mesmo a pré-incaica.Lima está à beira da revolução — comentou David. É terrível. queijo e uma dúzia de ovos. Fiquei surpresa.tes. queijos. atum em lata. comprei a- mendoim em lata. que es- perava poder cozinhar de alguma forma. é apenas uma questão de tempo. certo? Era uma sensação estranha estar num novo lugar e ao mesmo tem- po saber que não era o fato de ser novo que me trouxera até ali. Descobri-me a imaginar o que aconteceria se tivesse algum problema nas montanhas. — Só que nunca se pode prever o que farão os atores que não leram o roteiro. David comentou: — No fundo. — Entre os cigarros e esta deliciosa porcaria. mas eu não podia comê-los. o formato do rosto de David pare- cia quase se moldar às palavras peruanas. Ele parecia ter a faci- lidade de assumir a nacionalidade do lugar em que estava. Seus salários não mudam. Concorda? Limitei-me a assentir e David acrescentou: — E agora vamos a um supermercado peruano para comprarmos o que for necessário. Havia muitos doces típicos peruanos. mas os preços sobem sem parar. A estrada que levava ao centro de Lima era pavimentada. sacu- diu um pouco para tirar o gás e bebeu. Parecia agora que eu poderia ter de fazer a mesma coisa outra vez e recea- va estar fora de forma. Ao sair- mos da loja. pães e massas estavam em balcões fechados por vidro. — David pôs a caixa de Inca Cola no ban- co traseiro. Podia não chegar a ser como uma loja de delicatessen da Primeira Avenida.. As carnes. As pessoas andavam calmamente em ternos velhos e me per- guntei a que escritórios estariam indo tão cedo. Mas não estou muito in- teressado nos descalabros do governo por aqui. Ele comprou uma caixa e um abridor de garrafas. durante as duas semanas que passara na neve himalaia. Falando com o caixa.. Lembrando a minha taxa baixa de açúcar no sangue. Shirley. Abriu uma garrafa ali mesmo. E. O suposto supermercado era um pouco parecido com um pequeno armazém de propriedade individual de Nova York. mas tive a impressão de que o proprietário podia aumentar os preços sempre que tivesse vontade. . E é sintomático do que está acontecendo com os governos do mundo inteiro. David falava espanhol fluentemente. acho que se pode dizer que não sou exatamente um obcecado pela saúde. — A taxa de inflação está subindo tão depressa que as pessoas estão descobrin- do ser impossível continuar a viver assim. como sempre acontece. . que parecia ser a marca predileta de David. Ele piscou-me e depois abriu a porta do velho Plymouth. — Mas você tem uma vantagem. são os pobres que mais sofrem. Afinal. Havia um refrigerante chamado Inca Co- la.

Cartazes coloridos anunciavam a Inca Cola. Seguimos para nordeste. . que mal existia. ou pelo que poderia me acontecer. não havia árvores.. as árvores eram agora verdes. seguindo em dire- ção contrária. David disse que já estivera muitas vezes no Peru. — Eles admiram Guevara por aqui — disse David. Paramos num bazar fora da cidade. comprei também uma echarpe que combinava. independente do lugar do mundo em que se vivesse. sorvete e mais Inca Cola. Em nosso caminho. Não havia relva. Lembrei-me mais uma vez como nossas vidas haviam se tornado terrivelmente contaminadas nas grandes cidades.. à exce- ção de uns poucos cactos. Um trem transportando carvão passou por nós. Ele tornou a me piscar ao descrever o lugar. Fios de telefone. Mas não ficaríamos em Huancayo. Além do poncho. havia uma cidade de cerca de 100 mil ha- bitantes. Em- bora o tempo nos arredores de Lima continuasse nublado e sombrio. por trilhos que se estendiam ao lado da estrada. deixando a cidade e nos encaminhando para os contrafortes dos Andes. sacudindo a cabeça. Passou por nós um caminhão com colchões de molas usados. As pessoas ao longo da estrada pareciam tibetanas. localizada no alto dos Andes. David não fez qualquer comentário sobre o meu casaco de couro de Ralph Lauren. Começou a ventar na estrada. o sol rompeu a camada de nuvens e o céu tornou-se azul-turquesa. Cerca de 45 minutos depois que saímos de Lima. pois era muito poeirenta e por demais api- nhada. Por causa do terreno variado. O preço dos dois artigos foi de 18 dólares. Senti-me feliz. Era lindo e macio. seguindo para o topo dos Andes. comecei a me sentir feliz. Até mesmo os sorrisos nos rostos das pessoas eram mais acentuados ali. por onde se via índios metidos em seus ponchos. As colinas ao redor eram de rocha e a- reia. eu estava sentindo calor no meu jeans. Informou que o país tinha três vezes o tamanho da Califórnia. mas já viajara bastante para saber que nada era suficientemente quente nas montanhas depois que o sol desapa- recia. sobressaindo apenas por sua água mineral. Disse que o próprio estilo do pon- cho seria extremamente apropriado. a terra era árida. O ar ficou mais fresco. sem qualquer preocupação pelo que devia espe- rar. num lugar pequeno. servindo de agasalho e de co- bertor ao mesmo tempo. de uma cor de aveia que eu adorava. ostentando uma fotografia de Che Guevara no pára-brisa. — Porque ele morreu por suas idéias. um pouso para se dormir e a vista mais espetacular do firmamento que se po- dia ter na terra. se cruzavam por cima de nós. chamada Huancayo. No momento. e tudo montanha acima. Passamos por uma comunidade Chosica a 43 quilômetros de Lima. Pequenas barracas vendiam frutas. havia três climas dife- rentes. alguma comida. que tive a maior satisfação em cobrir. Pararíamos no caminho. onde David sugeriu que eu comprasse um poncho de alpaca.. — As pessoas vêm para as terras baixas à procura de uma vida melhor e terminam num lugar como este — comentou David. Huancayo ficava a 360 quilômetros de Lima..

O restaurante parecia uma lanchonete mexicana. Estávamos agora a 1. Santuários de um azul-turquesa estavam postados em posições estratégicas. — São túmulos — explicou David. Burros apareciam ao longo da estrada. Passamos por Cocachacra. esburacada. Assim que acabou a pavimentação da estrada. Como eu já dançara a uma altura de 2. Comecei a me sentir um pouco sonolenta. Uma mulher num poncho rosa listrado carregava água para o seu destino. Havia pequenas pedras quadradas destacando-se no solo. — São comunidades que se dedicam exclusivamente a isso. mais a paisa- gem se tornava verde. conversamos principalmente sobre os costumes peruanos. Estava tudo delicioso. com índios tra- balhando nos campos ao redor. por baixo das colinas vulcânicas. Havia pequenos vales entre os contrafortes. — Espere só até vê-lo mais no alto. que eram agora mais íngremes. Começamos a seguir o começo de um rio. Vi- vem e morrem fazendo apenas isso.400 metros sem qualquer problema. — É o Mantaro — informou David. Mas aspirei assim mesmo um pouco do oxigênio e deixei a máquina. cada vez mais. — Sempre que uma pessoa morre num acidente de carro aqui nos Andes é enterrada no próprio lugar em que ocorreu a tragédia. Estávamos agora a cerca de três mil metros de altura. Durante o almoço. A comunidade se chamava Rio Seco e por trás o solo era mais rico e mais preto. O leito do rio foi se tornando ainda mais ver- de. para socorrer qualquer turista que sofresse enjôo da al- tura. David percebeu e me levou para os fundos do restaurante. ele in- formou que ainda teríamos cinco ou seis horas de estrada pela frente. Pequenas plantações eram agora visíveis. imaginava que não teria qualquer dificuldade. o- melete com um molho quente. que passou a ser de terra. Estávamos viajando há mais de uma hora sem parar. como David achava que o governo militar de esquerda não agüentaria por muito mais tempo. David pediu água mineral e nos acomodamos para comer arroz e feijão. quando dispunha de um amplo su- . Continuamos a subir.500 metros de altura. que David disse que devia ser Rio Seco. com muitas costelas. Um túnel ferroviário atravessava os penhascos. com flores colocadas na frente. Quanto mais subíamos. David sugeriu que parássemos num restaurante à beira da estrada e comêssemos arroz e feijão. Pequenas comunidades afloravam por toda parte. mas no que me interessava a comida podia ser digna de um gourmet peruano. — É aqui que aprontam o carvão extraído das montanhas — disse David. onde uma máquina de oxigênio aguardava. batatas cozidas frias com uma espécie de maionese de amendoim. Passamos por uma fundição. Comecei a respirar um pouco mais depressa. sentindo que esta- va prestes a levantar vôo. O rio começou a se agitar sobre rochas. o gado pastando no fundo. como o Peru importava quase todo o seu petróleo do Oriente Médio. plenamente equipada. agora três quilômetros atrás de nós.

Pessoas socavam pedras ao longo da estrada. Mas não era necessário. curtidos. se o governo peruano pudesse dispor de dinheiro sufi- ciente para isso. os olhos pareciam passas. Passamos agora por uma comunidade mineira chamada Chicla. Talvez as pessoas estivessem querendo pintar a cor do céu. Mas não se preocupe que já vai pegar outra vez. lembrando-me do que eu vira nos Himalais. parecendo a imagem de cartão- postal em que se escrevia "Gostaria que você estivesse aqui ago- ra". esperando para serem reveladas em escavações. menos ver- . se eu sentisse a náu- sea da altitude. Pirâmides de terra mineral se destacavam nos vales em que os índios trabalha- vam. É por isso que estarão sempre condena- dos a cometer os mesmos erros no futuro. chamado Casapalca. Passamos por uma pe- quena aldeia mineira. Ha- via uma igreja branca. David disse que. Havia dois jarros no balcão perto da porta. Vi um cartaz que informava que estávamos mos 3. Eram mais horizontais. eu nada sentira de mais sério. — E são minérios que não se encontram em qualquer outro lu- gar da terra. — Não há combustão suficiente. Os contornos das montanhas mudaram. Muitas fumavam. Até aquele momento. usando pás manuais para encher os vagões. Shirley. pretextando a altitude e a necessidade de se manter plenamente desperto para o longo e sinuo- so caminho que teríamos pela frente. A fumaça do cano de descarga do Plymouth era agora azulada. Um deles tinha a inscrição "Para Llorar" e o outro "Para Reir". estava escrito: "Sua mulher o ama?" Voltamos ao Plymouth e seguimos viagem. de cores fortes. As mulheres usavam tranças pretas compridas e grossas. Não falamos sobre qualquer coisa pessoal e deixamos o restaurante assim que acabamos de co- mer. — É a falta de oxigênio — explicou David. Recusou um drinque oferecido pelo proprietário. dizendo que por todo o Peru havia civilizações soterradas há milhares de anos. A folhagem desapareceu das montanhas e restou apenas uma argila vermelho- laranja.746 metros acima da superfície do mar. David estava relaxado. Até mesmo os ônibus que passavam por nós eram turque- sa. no momento em que ouvíamos uma manada de lhamas conduzida pelo túnel. feliz por eu es- tar também. em inglês. — Há uma vasta riqueza em minérios nestas montanhas — comentou David.primento sob as montanhas. flutuando em rostos bronzeados. chapéus brancos engomados. E foi o que aconteceu. Eles não têm o res- peito devido pelo passado. mas a meus olhos as feições podiam ser orientais ou mongóis. mas todos os outros prédios eram pintados de turquesa. por baixo. Os vestidos eram de algodão. David comentou que 70 por cento dos peruanos eram índios. Mais índios peruanos trabalhavam ao longo da estrada. A extração de minério de ferro e outros minerais parecia ser o trabalho em torno do qual giravam as vidas de todos. abas com fitas pretas. O carro rateou e morreu pouco antes de entrarmos num túnel. Ele discorreu por algum tempo sobre os deslocamentos geológi- cos sob os Andes. Os cabelos eram de um preto azu- lado. — Mas isso nunca vai acontecer. parecia menos veemente que em Los Angeles. poderia encontrar mais oxigênio num centro minei- ro próximo.

As mulheres usavam um vermelho iridescente. A estrada era agora rochosa. — Deus do céu! – É. Os camponeses peruanos vestiam-se como tibetanos a levarem rebanhos de cabras. franzindo as sobrancelhas. tremulava uma bandeira peruana. Ali perto. Um porco sel- vagem peludo passou entre duas construções. Olhei para David. o ar puro e rarefeito. Roupas pendiam de varais ao sol. havia outro cartaz: "EXISTEN LOS PLATILLOS VOLADORES CONTACTO CON OVNIS". Estava ao lado de uma ferrovia que cruzava a chamada Abra An- ticona e dizia: "PUNTO FERROVIARIO MAS ALTO DEL MUNDO". sombras púrpuras caindo. Durante o dia inteiro contemplavam os cumes nevados lá em cima. — Viemos ver discos voadores? É por isso que estou aqui? — Talvez. exatamente como eu queria que você o visse — disse David. corria paralelo à estrada. não pavimentada. Minério de ferro. os homens usavam suéteres e gorros de lã. A estrada era perigosamente estreita. Havia neve nos cumes. David comentou que não raro um ônibus rolava pelo precipício. à medida que subíamos. Duas mulheres. usando chapéus brancos de palha.600 metros de altitude depara- mos com um cartaz. Havia uma igreja católica em cada comunidade. E lá no alto. As montanhas voltaram a exibir manchas verdes. misturado com laranja. estávamos descendo. – Aí está o Rio Mantaro. O sol era brilhante. Embora o sol fosse bastante quente. cor de cobre.. Ele sorriu e dis- se: — Não sou o único maluco. Passando por San Mateo. A temperatura estava mais fria agora. — Já contemplou alguma coisa mais bonita? A planície mais à frente é o que chamamos de Vale do Rio Mantaro. comecei a avistar eucaliptos e pinhei- ros. Flores silvestres cresciam por toda parte. enquanto o sol da tarde descia para o que chamávamos nos filmes de Hora Mági- . Seguimos em frente. E a cerca de 4. explicou David. mas ninguém se perturba com isso. que se tornava mais e mais quente. não é mesmo? — O que significa isso? — Significa que as pessoas vêem muitos discos voadores por a- qui e é do conhecimento comum. As cores eram uma mistura de amarelo e laranja. um rio magnífico. as cores se tornando mais brilhantes à medida que subíamos. Passamos por sepulturas à beira da estrada. adornadas com flo- res silvestres roxas. O solo da montanha era agora de um vermelho profundo. é exatamente por isso. sim. como se a associação básica deles com as montanhas fosse fria. com um cartaz da Mobil Oil num lado e um da Coca Cola no outro. Respirei fundo. no cume de uma montanha. A estrada era mais suave agora. Podíamos ver a estrada sinuosa lá embaixo. estavam sentadas a tricotar com lã de lhama.ticais. As montanhas eram como colinas ondulantes.. a seis mil metros de altitude.

Havia uma passagem pavimentada que levava ao que descobri serem dois quar- tos. Estou no quarto ao lado. Três mulheres socavam uma pilha de grãos à beira da estrada. porque não conseguirá ver coisa alguma depois que o sol se puser. que era exatamente igual ao meu. enquanto um galo corria de um lado para outro. — Estarei de volta num instante. Eu não podia acreditar no que David estava dizendo. Era indiscutivelmente algo saído de uma das minhas vidas antigas. Ele apontou para uma construção de adobe no outro lado da es- trada. Abri a porta de um dos quartos.. mas não havia porta de ligação.. tinha um catre baixo. cinzento. como se estivesse nos apresen- tando. pendurada de um barbante. — murmurei. Através de uma porta de madeira separada no meio. entramos num pátio de terra.ca. Eram contíguos. — Isto é Llocllapampa. a cerca de 20 metros de distân- cia. Elas sorriram para nós e acenaram para David. Ele pegou nossas malas no carro e me disse para segui-lo. Virei-me para Da- vid. dentro do prédio de adobe.. Ao lado do catre havia um caixote que servia como mesinha-de-cabeceira. O chão do quarto era de ter- ra batida. Bateu na parede fina e disse que o Rio Mantaro seria o nosso banheiro e me levaria até lá dentro de um momento. David parou o Plymouth à beira da estrada. sem fronhas. Aquilo não era ficção científica. Shirley. Não havia eletricidade e não havia banheiro. Acenei com a cabeça. — É verdade. entre as suas saias. . Nuvens intumescidas pairavam imóveis no céu claro quando tive a minha primeira visão de um Shangri-La andino. David desapareceu em seu quarto.. — Em que lugar? — Ali.. No outro lado da porta havia uma peça qualquer de algodão. Havia alguns pregos cravados na parede de adobe. Vamos até lá. mas é o Lar. Exceto por outra estrutura.. — Ahn. Se vai desfazer as malas. é melhor fa- zê-lo agora. Havia uma manta na cama e um travesseiro encardi- do. Não havia hotel nenhum. — É o nosso hotel. sim. — Você tem uma grande imaginação. onde dois homens ao lado de uma construção de adobe estavam juntando com as mãos bar- ras quadradas de argila.. sem lençóis. Não é grande coisa. Ele falou-lhes em espanhol e gesticulou para mim. antes de sairmos para o nosso pri- meiro banho de água mineral. — Isto é para valer? — É.. — Seu armário. Shirley. — É aqui — disse David.. Ele sorriu. relutante. não havia quaisquer outras construções ao redor.. É onde vamos ficar. permitindo que se abrisse independentemente a parte de cima ou a de baixo. Mas eu deveria pôr alguma roupa mais quente.

As montanhas ao re- dor estavam envoltas por sombras púrpura. Isso significava que as pessoas lá dentro cozinhariam para nós. Atravessamos o pátio e voltamos à estrada. embora possa ser útil e válido sob outros aspectos. armadas para a noite. este uni- verso externo aparentemente real. Eu não estava mesmo com fome. gorgolejavam e cacarejavam. pude ouvir um rádio cheio de estática a trans- mitir uma partida de futebol. que eu não podia ver. porque meu rosto se convertia num tomate depois de duas horas ao sol em gran- de altitude. acompanhada por três filho- tes. Ficaremos com a- zia das águas minerais se comermos agora... A cada mo- mento do sol poente que passava eu compreendia como a noite seria fria. entregou-me uma toalha e orientou- me a levar meu poncho e pôr as botas.. Os homens que trabalhavam nas barras de argila haviam desapa- recido.Capítulo 20 "É imediatamente patente. Olhei para o relógio. A evidência dos sentidos não pode ser aceita como prova da natureza da suprema realidade. Underhill. Jamais es- quecia de levar um chapéu de sol onde quer que fosse. o gravador e blocos de anota- ções.. parece a morte. David bateu na minha porta. mas espere só para ver o que acontece depois. perguntou se não gostaríamos de tomar a sopa. sem qual- quer dente. mas apenas a imagem projetada do ego. a fim de ter algum alimento dispo- . Misticismo Abri a mala que percorrera o mundo inteiro em minha companhia. Animais de terreiro. Lá dentro. Uma cadela sarnenta aproximou-se de nós. o poncho novo e um chapéu de sol. em frente ao nosso "hotel". circulando entre as mesas. não pode ser o mundo externo. No outro lado da estrada. Tirei as fitas." — E. Anotei rapidamente como o lugar parecia e sentia. A sopa fumegava num fogão a gás. abanando o rabo. Uma índia velha. índios peruanos riam e aclamavam jovialmente. bem alto. Agradeci a Deus (ou a alguém) por mi- nha menstruação ter acabado recentemente. — A princípio. Não teria de me preocu- par com isso. Banhos minerais com aquele frio? — Exatamente — confirmou David. Deixei as roupas de baixo na mala imaginando se teria a possibilidade de levá-las. para a nossa primeira visita aos banhos minerais.. que este mundo dos sentidos. mas perguntei se alguém poderia cozinhar alguns ovos para mim. que por algum motivo sempre me fazia sentir segura. Através da porta. pendurei um suéter.. ha- via uma construção de adobe em que se lia a palavra COMIDA. — Não — disse-me David — Vamos comer depois.

que tudo se danasse! Deixei as roupas numa pequena pilha no banco de madeira. um poço borbu- lhante de água efervescente. Ele abriu uma tosca porta de madeira e entrou. Uma camada ligeira de vapor pairava por cima. projetando sombras volúveis nas paredes frias. — E é uma coisa maravilhosa para ossos e músculos doloridos. Tirou de outro bolso uma vela. abriu-se diante de mim o glorioso Rio Mantaro. fiquei com receio de tropeçar. efervescente. Podia estar em Shangri-La agora. Eram íngremes e. David pediu à índia que pegasse os ovos no Plymouth. A mão estava congelando quando a retirei da água. Estava faiscando e parecia que não era ape- nas pela luz de vela. envoltos por seus ponchos.. Perguntei-me quantas pessoas fariam aquilo à luz de ve- la. A chama da vela bruxuleava. — Este é um dos famosos banhos minerais dos Andes — comentou David. — Vamos logo — disse David. Vai ver só.nível. A impressão era de ser da própria água. de- pois. Borbulhas picantes aderiam à . vai sentir um frio terrível. na semi-escuridão. Descemos alguns degraus. Não é grande coisa ao se olhar. em caso de necessidade. E um momento depois. Mesmo com a pouca clarida- de.. Mas. Para minha surpresa. Fui até o poço de água borbulhante e lentamente a- fundei a perna direita. mas espere só até sentir como é lá dentro. Ao lado do banco havia um buraco fundo. como champanha. Havia alguns pequenos outeiros co- bertos de vegetação na descida até as águas. — Ficarei esperando lá fora. Ela sorriu e assentiu.. Tirou uma lanterna do bolso e acendeu-a. – Os minerais fazem a água borbulhar — explicou David. Ora. Chame-me quando estiver pronta. – Por alguns minutos. contemplan- do o sol a se pôr atrás das montanhas. acendeu-a e colocou-a num banco de madeira dentro do galpão. Como se costumava fazer ali? Eu de- veria tirar todas as roupas com David parado ao meu lado? – Pode se preparar — disse David. Corria pelos rochedos da montanha. mas algum dia teria de voltar a dançar. Estudei o melhor lugar para pendurar cada peça. porque a esta altura estava tremendo de frio. Esperava encontrar um fundo e foi o que aconteceu. coberto por folhas de zinco. a fim de poder me vestir depressa quando saís- se. Tentei imaginar o que as pes- soas faziam depois que saíam da água. senti-a quen- te e borbulhante. Bem devagar. tirei rapidamente a calcinha e as meias. Ao final. imaginan- do como pareceria a David quando ele voltasse. rindo. – Devo entrar de corpo inteiro nesta água e não congelar até a morte quando sair? — perguntei. Gostaria de poder entrar na água completamente vestida. Uns poucos índios es- tavam acocorados na margem.. Fiquei de pé. Olhei para o poço. David levou-me para os fundos do prédio. Ajoelhei-me no chão de terra e passei a mão pela água. ao pôr-do- sol. meio constrangida. pude perceber que o rio era laranja. Tirei depois o suéter e o jeans. Era um pouco escorregadio. Podia ouvir a água correndo lá embaixo. tirei o poncho e pendurei-o num dos cinco pregos na parede. respingava os galhos pendentes das árvores enraizadas nas margens altas. estará mais quente do que se não tivesse entrado. levando-me para o que parecia ser um cercado de adobe.

cue- cas. camisa. Shir- ley. querendo dar a impres- . a luz da vela bruxuleando na parede oposta. por onde a água escorria para o outro lado. Não podia pensar em qualquer comentário a fazer e. Aque- las águas possuíam o seu próprio vigor. vai começar! — Em que está pensando? — indaguei. dizendo: — Você vai se virar agora. David virou-se. Afundei na água até o pescoço. correndo os olhos ao re- dor. — Está vendo a chama da vela? — Claro. — Pode entrar! — gritei para David. o suéter. — Balance os braços para cima e para baixo deste jeito. Parecia que estava andando na água. pequenas gotas pinga- vam do queixo. Balancei os braços e a impressão era de duas varetas de coque- tel remexendo em champanha que acabara de ser derramado. Ao que parecia. Tive a impressão de que flutuava. energia e vivacidade. merda. Respirei fundo. — Tem toda razão. Respirei fundo. — Quer experimentar uma coi- sa? Pensei: Oh. A sensação era maravilhosa. Imaginei como eu estaria parecendo aos olhos dele. tentei relaxar. pergun- tei: — Vem aqui com freqüência? David riu. Era diferente dos ba- nhos sulfurosos no Japão. Vai sentir as borbulhas aderirem à sua pele. Parecia que o movimento gerava o seu próprio calor. — Pronto. — Respirar fundo? — Isso mesmo. — Ele olhou para a vela. — Sei disso. Este parecia mais brando e sereno. David manteve-se imóvel. Shirley. Passara o dia inteiro a respirar fundo. Era como se tivesse a- cabado de mergulhar numa taça gigantesca de soda quente e bor- bulhante. Obedeci. Seus olhos azuis estavam iluminados. — Claro. Havia um buraco quadra- do no outro lado. Era difícil me firmar no fundo. — Pois focalize a chama fixamente e respire fundo. Shirley. o poço era constantemente alimentado de algum lugar abaixo da superfície. Respirei fundo outra vez. calça. no outro lado do peque- no poço. Sei que já fiz uma porção de coisas na vida. Tudo isso é muito súbito. tirou o blusão. mas tenho a sensação de que nada foi igual a isto.minha pele. — Espere só até sentir a água penetrar por sua pele. simulando indiferença. Nem mesmo tinha vontade de indagar o que ele estava querendo dizer. quase engasgando com alguma saliva. — Posso largar os braços? — perguntei. Eu me sentia completamente ridícula. Ele estava na água. Tornei a me virar. botas e meias em cerca de cinco segundos. — Terá de me aturar um pouco. David. — Já estou na água e é sensacional! Ele passou pela porta. assim.

Pense ape- nas na vela. terá de ser pacien- te e me dar tempo. produzindo um eco nas paredes. Acho que terei mes- . não é mesmo? Ele riu também. Tinha certeza de que David poderia ouvi-lo reverberar através da água. sorri à luz da vela. Senti-me indignada. — Está bem. — E agora concentre-se na chama da vela. Quero apenas que experimente uma coisa. Não quero fazer mais nada. gen- tilmente: — Respire fundo outra vez. Além do mais. David interrompeu-me o devaneio: — Se eu estivesse pensando nisso. Olhei fixamente para a chama a oscilar. não é o que você está pensando. . Na verdade. olhando para a chama.. seria muito difí- cil afundar nesta água. — Pois não precisa hesitar. Faça com que a vela seja você.É que. sim. David pergun- tou suavemente: — De que está com medo. como se não estivessem presos ao corpo. Tentei não piscar. pensei. por cau- sa dessa maldita flutuação. Pelo menos não me afogarei se acon- tecer o pior. — Claro. Santo Deus!. Ri alto. já tivemos du- as vidas juntos.. Se pensou que fosse. Agora ele vai pular através do poço e me pegar por baixo dos braços. Tentei outra vez me concentrar na chama da vela e David me orientou. – Concentre-se agora na vela. como se fosse o cen- tro do seu próprio ser. concentre-se na chama da vela e respire fundo. em mais nada. pensei. Shirl? — Eu. Eu me sentia ridícula agora. — É. Shirl. nem mesmo quero. até sentir que é a própria cha- ma. Era evidente que David pensava que eu era uma idiota. tudo o que teria de fazer seria sugerir. Concentrei-me e respirei ainda mais fundo. é que. quem quer que isso fosse. Larguei os braços. — A mulher que está pa- rada atrás de você. — Vamos.. Não pude conter uma tosse. Afinal.. estou hesitante. conforme ele sugerira. Pensei: Isto é um alívio. Pensei em todos os homens que ha- viam dito: Ei.. não é mesmo? Ele era mesmo direto. quero apenas deitar com você e relaxar. Vão flutuar nesta água. que nunca poderei abaixá-los. acho que não tem mal algum. zombeteiramente. David? Por que não? — O que está querendo dizer com "por que não"? Não foi para isso que viemos até aqui.. O coração batia forte. Ele deve estar brincando. Até eu ser a chama da vela? Nem mesmo posso neste momento ser eu. Senti que se elevavam ligeiramente.. Permaneci imóvel. Respirei fundo outra vez.são de que estava disposta a experimentar qualquer coisa.. Shirl. com medo? – Não — murmurou ele. Ele nem mesmo queria? — Por que. Essa não!.

mo de fazer isso. Elizabeth Arden deveria ensinar isso em seus cursos de beleza. quase como se a água não pudesse ser o que era sem que cada borbulha cumprisse a sua parte para manter o todo. a vela. Lembro da percepção de que cada borbulha era parte de toda a água que me cercava. Se puder aprender a regulá-lo. Respi- ração é vida. Além do mais. O próprio ar parecia vibrar. Devagar. percebi que o coração pulsava no mesmo ritmo da respiração. Pergun- tei-lhe se eu fora hipnotizada. Outra vez a hesitação. eu era o ar. — O tempo não tem importância. permanecerá jovem por mais tempo. isso incluía David tam- bém. Sentia sombras. bem devagar. Eu era o ar. os dois ritmos pareciam sincronizados. Não sente que descansou profundamente? Era mesmo o que eu sentia. as bor- bulhas. Você pode aprender a rejuvenescer assim instantaneamente. a água. até que eu não tinha mais consciência dele. mas toda eu. Você respirou. Ele . até mesmo o som do rio correndo lá fora. David está certo. pensei. uma brisa amena. To- do o meu corpo parecia também flutuar. Sou uma idiota e ele é de fato maravilhoso. as rochas por baixo da água. Parecia saltar junto com as borbulhas. clarões. Era um sentimento duplo maravilhoso. De alguma forma. suavemente: — Assim está ótimo. Ouvia a voz de David no fundo da minha mente. sentindo plenamente o meu ser. a escuridão. muito embora es- tivesse perdida em algum lugar no meio. Na verdade. Foi apenas uma expansão de percepção auto-rela- xante. Mas que merda. Parei nesse ponto. — Não. Não restava a menor dúvida. Gradativamente. Podia ouvir David me falando. E depois senti minha energia vibrar para Da- vid. mas agora começava a ser o centro da minha mente. O que importa é que você o es- queceu por algum tempo. Sentia as paredes frias que alojavam o poço de água quente. — Assim está bom — ouvi David dizer. as paredes. não apenas os meus braços. Concentrei-me com mais relaxamento. Senti que a mente começava a relaxar. Pude sentir que tomava a decisão conscien- te de não seguir adiante. Eu gostava do som da voz de David por cima da água. Como eu era parte de tudo ao redor. Shirl. O tempo foi se arrastando lentamen- te. pensei. Senti que minha respiração se tor- nava cada vez mais lenta. numa espécie de sonho. Pa- recia ser uma entidade em movimento que escapava ao meu controle. Sentia o reflexo involuntário da minha própria respiração. sentia o interior de mim mes- ma. mas ainda assim a vela era visível. medo ou qualquer outra coisa que se queira chamar levou-me a deter o fluxo de rela- xamento e a tentativa de me tornar "uma" com tudo. Respirar é um ato involuntário. Você está indo muito bem. A vela continuava a bruxulear. Respirou de verdade. Mas. mas ao mesmo tempo era parte de tudo ao redor. E depois senti a interligação da minha respiração com a vibração de energia ao meu redor. tornei-me a água e cada borbu- lha que era uma parte componente da água. mas ainda distanciada da minha própria respiração. acima de tudo. Senti as pálpebras um pouco pesadas. — Foi ótimo. O que achou de sua primeira tentativa de meditação respiratória? Estendi os braços para fora da água e perguntei que horas e- ram. Eu estava totalmente consciente. até que podia dizer que os olhos estavam parcial- mente fechados.

Shirl? Sacudi a cabeça.falava sobre os animais. Sairei assim que acabar de me enxugar. O que você me diz? — Eu digo que está na hora de sairmos. Lembro de ter pensado que eu também poderia respirar apenas quatro vezes por minuto se tivesse sangue frio. — Estou. Havia alguma coisa na maneira como ele falou que me provocou um calafrio. Sugeriu também que eu usasse o rio como banheiro agora. legumes e ervas das montanhas. Eles terão leite quente à nossa espera e um guisado índio. David. mas acho que isso não vai acontecer. pernas.. eu sabia que tinha de comer imediatamente ou a taxa de açúcar no sangue cairia abruptamente. pensei. — Ninguém poderia viver neste frio por muito tempo. — Se estou interessado em viver por um longo tempo? — Isso mesmo. espe- . comentando que preci- saríamos dela mais tarde. Agachei-me por trás de um rochedo e usei o lenço de papel que metera no bolso. O ar frio da montanha devia estar em torno dos 15° C. Meus dentes chocalhavam como se fossem postiços. com toda força que podia. E você? — Eu? — Não. Dei a volta para o lado do galpão. mas eu me sentia muito bem. sim. esfregando as mãos e sorrindo. contemplei o rio e as montanhas escuras. Sentia as borbulhas de champanha em meu cére- bro. — Pegue a lanterna no meu bolso e fique me esperando lá fora. — Vamos subir e comer alguma coisa. feito de carne. David sorriu. E também aprendia que confiar nos melhores instintos dentro de mim tinha as suas virtudes. já inteiramente vestido. fazendo aquilo. Ele virou o rosto para a parede. De- pois. Ele apagou a vela e guardou-a no bolso. E o calafrio me surpreendeu.. Minhas roupas estavam frias em contato com a pele. mas logo o calor do corpo refletiu-se por den- tro da lã do suéter e meias. porque mais tarde estaria frio demais para realizar a jornada. pés e tronco. as mãos tremiam tanto que mal consegui pegar a toalha pendurada no prego da parede. Essa água é de fato uma coisa sensacional. Senti-me subitamente faminta. Tornando a subir os frios degraus de pedra. — Estou me sentindo maravilhosa agora. O homem que está parado atrás de você. — Viver por muito tempo? Não sei. em nossos quartos. E estava adorando. Dois meses antes jamais poderia prever.. Alguma coisa sobre tartarugas gigan- tes respirando apenas quatro vezes por minuto e vivendo por 300 anos. explicando que os que viviam mais tempo eram os que respiravam menos. — Está interessada em viver muito tempo. Podia-se contar com eles. mesmo nos delírios de imagina- ção. esfreguei os braços. Saí da água devagar. — Muito bem — disse David. até sentir o sangue aflorar de novo à superfície e começar a formigar com um calor agradável. A vida era um romance. E estou gelada agora. e quando aquelas pontadas surgi- am. Mas tinha sangue quente e estava começando a me sentir trêmula. que poderia estar ali.

Imaginei o que um público de Las Ve- gas pensaria se eu surgisse no palco e contasse algumas piadas so- bre descoberta espiritual nos Andes. temperada com ervas das montanhas de que eu nunca ouvira falar. If They Could See Me Now (Se Eles Pudessem Me Ver Agora). Uma jovem cozinheira tinha um filho agarrado nas saias e outro pendurado nas costas.. David pediu leite quente e guisado. David parecia às vezes quase pomposo e presunçoso. Estava criticando os meus hábitos alimentares prejudiciais. ou 10 pessoas. Ele comentou que era muito importante cuidar do corpo. enquanto David fazia a mesma coisa comigo. — Vamos fazer uma longa caminhada amanhã — disse David. Conversamos sobre a comi- da. quando o mundo e a vida pareciam muito simples. Eu falei que não era muito boa em qualquer das duas coisas. David deu-me uma aula sobre alimentação natural. acampando na Virgínia.culei se não estaria muito frio quando quisesse dormir. Era muito engraçado: eu estava pressionando Gerry a se soltar e assim saber mais quem era. Pensei em minha canção-tema. Crian- ças com o nariz escorrendo brincavam entre as mesas. Informei-o que já ouvira a maior parte antes. Passei pedaços do pão de fabricação doméstica no molho grosso. Trazia leite quente e guisado. A comida estava deliciosa. — Eu lhe mostrarei uma parte da região e poderá compreender porque amo tanto este lugar. As estrelas estavam tão perto que eu tinha a impressão de que poderia estender . Usava o chapéu branco engomado costumeiro e a aba com a fita preta. Respondi que sabia disso. não sabia muito bem. refleti sobre o seu comportamento durante to- da a noite. A partida de futebol transmitida pelo rádio ainda continuava quando entramos no prédio de COMIDA na estrada lá em cima. Eu parecia mesmo ser duas pessoas. Seria uma atriz porque estava em contato mais profundo com alguns dos papéis que desempenhara em outras vidas? A mulher com a criança nas costas veio até nossa mesa. mas ele também os tinha. Se ele tivesse falado isso uma hora antes. Comentei que adorava a "comida porcaria" e ele disse que era extremamente prejudicial comê-la. Ele me levou através da estrada de volta ao hotel. Estava dizendo que eu deveria relaxar. mas ele próprio parecia tenso. eu presumiria que suas intenções eram outras.. — Tudo acontecerá no de- vido momento. Disse que era apenas uma questão de química. mas adorava assim mesmo. Parecia às vezes não estar realmente desfrutando a vida que dizia que eu deveria relaxar e aproveitar. Imaginei o que Gerry pensaria se pudesse me ver naquele momento. Servi-me como se comer pudesse sair de mo- da a qualquer momento. — Não se preocupe com o momento de dormir — disse David. E lembrei-me da época mais feliz da mi- nha vida. David parecia compelido a me ensinar tudo o que podia. pare- cendo outra vez ler os meus pensamentos. o mais depressa possível. embora fosse de noite. porque ao mesmo tempo se estaria cuidando do espírito. Enquanto ele falava. que estavam armadas para os turistas que poderiam estar explorando a região e sentissem vontade de comer.

desejou- me boa noite. Era bom estar sem ele. — Não faça isso. com os lamas butaneses. Esperei. no Joe Allen's. no alto dos Andes. Imaginei onde ele estaria agora.. em algum lugar por trás do prédio. Os pés estavam como gelo. o cobertor elétrico era o meu item predileto da civilização moderna. Quase que podia ouvir as montanhas ao redor oscilarem sob as estrelas. Pensei em meu show. O ambiente não era tão isolado. informou que tinha outra. Esperei mais um pouco.a mão e arrancá-las do céu como se fossem ameixas. Meti-me sob o cobertor de lã na cama e rezei (por assim dizer) para me manter aquecida. eu não me sentia tão insignificante como acontecera no teto do mundo. não as cobertas. Não pude entender. E por causa da cultura difusa dos índios peruanos. Nossos quartos eram úmidos e bolorentos. Despedi-me de David. Ex- perimente e compreenderá. A verdade invisível era a verdade que exigia mais empenho para se descobrir. Shirl. Tirei as roupas debaixo do poncho. de jeito ne- nhum. Pensei novamente em Gerry. Senti que contemplava minha pró- pria caldeira. Imaginei se estaria de fato vendo onde se encontrava. vai descobrir que é muito mais quente. um pequeno aviso sobre dormir num clima frio: se deitar sem roupas. com apenas o som do silêncio ao redor. Como a lã de alpaca era macia. — Antes. Não demorei muito a perceber que os músculos estavam relaxando no espaço aquecido entre meu corpo e as cobertas. David entregou-me a vela. Pensei no cobertor elétrico à beira do mar e como adorava dormir em meio a uma chuva fria com as janelas abertas e o cobertor ligado no máximo. Era o espaço que estava quente. Acalmei a mente e os dentes chocalhando da melhor forma possível. O corpo gera a sua própria aura de calor. Capítulo 21 "Nenhuma teoria da física que cuide apenas da física poderá ex- . Estava com a intenção de vestir tudo o que tinha ali. comendo cheese- burgers e comentando que os grandes astros não tinham tanto talen- to como eles. peguei no sono. Pensei como se- ria impossível para mim descrever a Gerry em que estava empenhada. Não queria ouvir mais nada dele. Compreendi de repente que a maior parte das coisas que não entendíamos em nossas vidas era o que não podíamos ver. Contemplar era mais importante. ouvi porcos grunhindo. por baixo do poncho. Ver não era acreditar. Com uma espécie de tremor relaxado... a sensação era agradável. Pensei no que era ser uma grande estrela quando re- almente não se merecia. E depois.. Os Andes não eram como os Himalaias butaneses. A temperatura estava bem mais baixa quando en- trei. Imaginei quem já te- ria dormida ali. Onde estariam meus ciganos naquela noite? Meus dançarinos. Pareciam mais baixos e mais espalhados. Naquele momento.

há um vín- culo muito mais profundo entre o homem e o universo do que até ho- je suspeitamos. pensando na lógica contraditória que era me vestir agora. Estou convencido de que começamos a desconfiar que o homem não é apenas uma pequena engrenagem que não chega a fazer qualquer dife- rença na vasta máquina em funcionamento. O que temos para comer? — Seus ovos estão cozidos. Shirl. mas o contraste com o frio da noite era tão acentuado que pude sentir o calor dos primeiros raios mesmo através das paredes. — Bom dia.. — Estão separando o joio do trigo —. deparei com David sentado num muro de argila. Não entrou no meu quarto porque não havia janelas. Contornando o Piymouth.. Assim. agora de uma bolsa e um pouco de sal. Como passou a noite? — Exatamente como você disse. David recostou-se na cadeira e ficou me observando.. Vamos pedir leite quente e pão Entramos na casa onde se comia.plicar a física. Sentamos junto a uma janela e avistei as mulheres da tarde an- terior continuando a socar os grãos. Podia sentir o cheiro de fumaça matutina saindo do outro lado da estrada. A mulher com o filho nas cos- tas sorriu jovialmente. – É o começo de um hábito para você. em vez disso. o que era um hábito constante. Passara a noite inteira bem aquecida.. — Qualquer coisa que fizermos é só da nossa conta e de mais nin- guém. você só precisa. O poncho me envolvia confortavelmente. Levantei-me. quando o sol es- tava de fora. A nudez representou calor. Pus o chapéu de sol da Califórnia e saí. Eu não teria acreditado. observando os mesmos homens do dia anterior a aprontarem tijolos que seriam usados numa casa que estavam construindo. — Comeremos o pão daque- las espigas dentro de um ou dois dias. Wheeer O sol elevou-se acima das montanhas por volta das cinco e meia da manhã. Os galos em torno das mulheres tinham penas da mesma cor. À claridade da manhã. — Eles não fazem perguntas pessoais por aqui — explicou David. os pés descalços no chão de terra fria. Sabia que o ar da montanha estaria fresco e que o sol queimaria por causa da altitude. Creio que à medida que continuamos tentando com- preender o universo estamos também tentando compreender o homem. piscando-me um olho. Acho que . não é mesmo? — Como assim? — Está finalmente acreditando porque é. reparei que as telhas do nosso hotel de adobe eram vermelhas. John A. o mundo físico está vinculado. ao ser humano" Dr. em algum sentido profundo.disse David. — Tem razão. com uma compreensão implícita de que a li- gação amorosa de dois quartos que David e eu estávamos tendo era simplesmente outro estranho costume norte-americano. mas foi o que aconteceu. e despir na noite fria.

— Podemos sair para uma volta. mesmo quando havia uma erupção dentro de si.. David saiu correndo na minha frente. — Vamos dar uma volta pela beira do rio — disse David. Ele correu em grandes saltos para a água. tudo. mas é sensacional para o organismo. Os cabelos grisalhos escorriam em torno do rosto. Ao descermos os degraus de pedra e passar pelo galpão em que se tomava banho de água mineral. Era como sal medicinal. Shirl? Teve algum sonho? — Não me lembro. e provavelmente não poderia tê-lo feito.. .. Correu pela margem do rio. enfim. — Você.. — Não está triste hoje. — Você tem de se acostumar ao gosto. está correndo tão depressa. luta. não é mesmo. Mas sei que me senti bastante satisfeita por estar aquecida. saltando.. Limpa as impurezas e acerta a digestão. insignificância. E independente da adversidade que pu- desse se abater sobre uma montanha.. produzia novas borbulhas no centro. Shirl. rio. Eu não tinha a sensação de estar sendo analisada. profundidade. Meu co- ração estava um pouco disparado por causa da altitude. Para mim. Ali tem outra fonte mineral para beber. Descasquei um ovo cozido e comi-o. por quê? Onde vai que tem de chegar no horário? Soltei uma risada. realização. O ar era revigorante em meu rosto. levantei o rosto para o sol. como altu- ra.. recuperando-se depois que tudo acabava.ele resolvera deixar crescer a barba.. — Dormiu bem. Adorava as montanhas mais do que qualquer outra parte da Ter- ra. Ele tinha um rosto realmente bonito. vinda do fun- do. topo. rindo e cuspindo ao sol. David baixou as mãos em concha para a água. sabiamente silenciosas.. escovar os dentes ou se lavar. fundo. Estiquei os braços e respirei fundo. mas se mostravam pacientes e resignadas. recolheu alguma e bebeu. Mergu- lhou a cabeça na água e levantou-a um instante depois. as montanhas pareciam ter passado por muitas coisas. uma pessoa não precisava de muita coisa. corri para ele. Uma correnteza lenta. pois não se barbeara naquela manhã. meio espantada. balançando a cabeça de um lado para outro. numa demonstração de pura alegria infantil. — Adoro este lugar — ouvi-o gritar para o rio. — Adoro a água.. Saímos para o sol. grandeza. esta parecia pairar por cima com sua resiliência insuperável. Manchas brancas sulfu- rosas flutuavam na superfície. Ajoelhei-me ao lado do poço e olhei. — Não quer escovar os dentes? Eu estava com a escova no bolso de trás da calça. com os braços estendidos. ajoelhou-se. Peguei a escova. Comemos o pão e tomamos o leite quente. Num lugar como aquele. David? — Grande idéia. exceto talvez mais de si mesma. mesmo que qui- sesse. quase como um garoto de jardim de infância na hora do recreio. mergulhei na água e depois provei com a lín- gua. Nunca fico triste quando estou ao ar livre. David? — Claro que não. Representavam todos os extremos em que eu podia pensar. ele sorria com um abandono tão alegre que também me senti como uma criança.

O que havia de novidade nisso? Não estavam todos procurando pela mesma coisa.. Não precisava ser partilhada para ser apreciada. levantei-me. A beleza não precisava de uma razão. a atitude a ser adotada para se manter a hierarquia social do sistema de classes. Ao mesmo tempo em que falava. Fora um esforço gigantesco e monumental de terapia de grupo. no seu passado amargo. Nin- guém podia se esquivar à participação. E era tão necessária como comida e água. Creio que as pessoas podem fazer.. Todos tinham de participar das sessões de autocrítica. conhecerem a si mesmos? Três passarinhos azuis estavam pousados no galho de uma árvore. — David? — Rompi o que sentia ser um devaneio dele. Os chineses haviam agido de forma brutal e cruel entre si. respirou fundo. O povo era forçado a ser justo através da educação e reeducação. sentir-me totalmente eu mesma. Gostava da sensação de não ter nada para fazer além de arrastar um galho. — Sente-se melhor. Era mesmo lindo. A beleza era a beleza. As grandes cidades me deixam triste porque as pessoas se importam demais com as coi- sas erradas. espreguicei-me ao sol. Mas Mao dissera que o povo chinês era um papel em branco no qual se poderia escrever alguma coisa bonita. Apenas era. olhando para o céu. A audácia deles me fez soltar uma risada al- ta. não podia ser explica- da.. ser e pensar qualquer coi- sa. Da- vid também se levantou e começamos a andar. Ele acreditava que a natureza humana era basicamente uma questão de educação. mais justos.. também se está em contato com as pessoas. Senti que David ao meu lado estava relaxado e modesto. Termi- nei de escovar os dentes.. Fora essa viagem que me levara a chegar à mesma conclusão. — Acho que não.Este lugar é real demais para se sentir triste. A privacidade e o direito de não participar não eram respeitados. Peguei um ga- lho e comecei a arrastá-lo por trás de nós. Nem sequer piscaram. Quando se está em contato com isto. — Acha que existe uma coisa a que se poderia chamar de natureza humana? Ele levantou os olhos. O Rio Mantaro borbulhava e corria ao nosso lado. com algumas nuvens brancas. Creio que nos ensinam quase tudo o que senti- mos. Ele sacudiu os cabelos molhados e depois se estendeu de cos- tas. o ânimo do dia. E ficou ainda mais quando pensei que a beleza simplesmente existia por si mesma. Shirl? — Claro. em todos os níveis. pensando em minha passagem pela China. mas também o país estava tão con- . podia- se educar o povo a adotar padrões de comportamento que fossem mais democráticos. no empenho de mudar os padrões do passado. porque era esse o comportamento da época. Usara uma espécie de tática militante da marreta na educação da justiça. as mãos cruzadas atrás da cabeça. Estou me sentindo maravilhosa.... E me senti como um clichê ambulante. imaginei como seria sentir-me totalmente bem. contemplando-me enquanto passava. Eu abria e fechava os olhos. depende do que aprendemos. mais generosos. Não tinha nada a ver com ninguém. Continuei a arrastar o galho. sentir que me co- nhecia completamente. E parecera dar certo. piscando para o céu de um azul brilhante.

só que não percebíamos isso. invejoso ou materialista. Dizia que somente a mente metafísica do homem pode se comunicar. Talvez o verdadeiro conflito humano não fosse pelo que realmente acreditávamos que éramos ou não éramos. E que todas as informações sobre tudo. Mas o que ajudaria o homem a compreender não apenas de onde vinha. A China moderna dizia agora que um punhado de pauzinhos de co- mer. a característica principal da Nova China fora a das pessoas trabalhando juntas para mudar o que acreditavam ser as suas natu- rezas básicas.Dizia que o homem era mente metafísi- ca. eles pa- reciam escarnecer dos conceitos espirituais. Eu começava a acreditar que a coisa que estava errada em nós era a recusa em viver com o conhecimento de que Deus. eles estavam se permitindo uma rea- valiação total do sistema de valores que fora sagrado por séculos. a palavra que usamos para um conceito de energias es- pirituais incrivelmente complexas. Que o homem era um sistema auto-suficiente de microcomunicação e a humanidade era um sistema de macrocomunica- ção. Seria impossível suprimir a espiritualidade profunda do povo indiano. então onde entravam os novos chineses? Eu nada podia descobrir de espiritual na Nova China. E a grande lição para eles pare- cia ser o que estavam aprendendo sobre si mesmos. inodora e intangível. Assim. Ele di- zia que 99 por cento da realidade só podiam ser compreendidos pela mente metafísica do homem. era algo mais inquebrável que um par. Podia perceber a revolução chinesa seguindo o caminho de todas as revoluções modernas. angustiadas e ansiosas sobre nos- sas origens e nosso propósito? Como podia o Estado ser útil em nos pôr em contato maior com o motivo pelo qual estávamos vivos. mas sim o que poderíamos ser. mesmo que isso implicasse comer . Pareciam compreender que estavam revolucionando as prioridades que sempre haviam julgado imutáveis. esta- vam sendo continuamente transmitidas e recebidas através das ondas eletromagnéticas.. era o elo que faltava e que de- veria ser parte de nossas vidas cotidianas. Na verdade.turbado que todos compreendiam que tinham de se unir. mas também para onde estava indo? Como podia o Estado res- ponder às indagações profundas. E o cérebro era apenas um lugar para se acumular informações. Começava agora a fazer sentido a teoria de Buckminster Fuller de que a maior parte do que transpira dentro da atividade humana da realidade é totalmente invisível. se contestassem a necessidade do reconhe- cimento espiritual do homem. O cérebro não podia. mantidos juntos firmemente. E se o nosso potencial fosse o de ser mais espiritual. guiada por alguma coisa que apenas se podia sentir como verdade. quase com medo de que as noções espirituais pudessem frustrar sua revolução. porque usávamos a- penas um por cento de nossa capacidade de perceber a verdade. territorial. se nos permitíssemos a opção de confiar nas possibilidades de nosso potencial espiritual. E ao se manterem juntos. Jamais permitiriam que o Estado substi- tuísse sua filosofia espiritual. quan- do tinha medo de que seu poder pudesse se dissipar se assim agis- se? Eu podia compreender por que os comunistas nunca haviam conse- guido dominar a Índia. inclusive Deus. Pensei muitas vezes que devia se descobrir que não se é neces- sariamente competitivo. para mim.

melhor. Suas convicções espirituais eram as mais antigas do mundo.
Os indianos haviam sido ensinados e condicionados a se manterem em
contato com suas naturezas espirituais desde que Krishna andara
sobre a terra, a tal ponto que isso era parte de tudo o que faziam
ou deixavam de fazer. Um regime comunista teria a maior dificulda-
de para levar o povo indiano a aceitar o materialismo revolucioná-
rio de Marx. Até mesmo o Mahatma Gandhi não conseguira tirar as
vacas das casas ou das ruas, porque os indianos ainda acreditavam
na transmigração das almas (que era a precursora animal da reen-
carnação em formas humanas). Talvez eles estejam certos a respeito
de tudo isso, pelo que podemos saber.
Era espantoso para mim como se processava o desenrolar do mis-
tério. Desde que houvesse um fio solto, era possível desenredar
toda a meada. Enquanto a raça humana continuasse a ser basicamente
infeliz em seu empenho para compreender o Grande Mistério, haveria
o impulso de frustrar toda e qualquer autoridade que se interpu-
sesse no caminho... quer fosse a Igreja, o Estado ou a própria so-
ciedade revolucionária. Não importava para onde olhássemos, a res-
posta parecia estar numa força que era mais inteligente, mais sá-
bia, mais compreensiva e mais benevolente do que nós. E antes de
podermos compreender essa força, teríamos de compreender a nós
mesmos. Nós passávamos assim a ser o Grande Mistério. Não era...
quem é Deus? Era... quem somos nós?

David e eu fomos subindo pela correnteza acima, ao longo da
margem rochosa do rio laranja. O sol da manhã estava quente e tre-
meluzente. Eu suava por baixo do poncho. Tirei-o e David carregou-
o para mim. O chapéu de sol da Califórnia parecia de repente o bem
mais precioso. As botas de solas de borracha eram sólidas e resis-
tentes ao encontro das rochas pontudas. Os pés estavam confortá-
veis. E quando sentia os pés confortáveis, eu me sentia confortá-
vel.
Sentei numa pedra e escrevi algumas anotações. David entrou no
rio.
Montanheses peruanos se espalhavam pelas margens do rio, la-
vando roupas ou simplesmente deitados, quase sempre ao sol. O sen-
so de tempo deles parecia lento, sem qualquer pressa, quase indi-
ferente ... e os movimentos do corpo correspondiam a essa impres-
são. Sorriam às vezes quando passávamos, mas geralmente se limita-
vam a reconhecer nossa presença com um aceno de cabeça. David cum-
primentava-os com seu espanhol afável. Ele não parecia ser um es-
trangeiro em parte alguma.
— Há um outro poço sulfuroso não muito longe daqui, rio acima,
Shirl. Não quer lavar os cabelos ou qualquer outra coisa? É sensa-
cional tomar banho ao sol.
A perspectiva era atraente. Levantei-me, imaginando se poderia
mais tarde reconstituir a despreocupação emocional que experimen-
tara ali nos Andes. Não sabia se seria capaz de lembrar como aqui-
lo estava próximo da paz suprema na próxima vez em que vivesse de-
tida num engarrafamento no centro de Nova York ou quando a ilumi-
nação não funcionasse direito durante um número dramático do meu
show, ou quando meu último filme fosse um fracasso de bilheteria.

Ou Gerry... permitiria que a amargura e a frustração me dominassem
por causa do curso de obstáculos humanos em que se convertera nos-
so relacionamento? Poderia compreender os obstáculos dele e também
os meus com mais perspectiva, se evocasse a imagem de um momento à
margem do Rio Mantaro, quando o sol estava quente e meus pensamen-
tos se elevam às alturas?
Continuei a arrastar o galho, enquanto subíamos para o poço
sulfuroso. Ouvia o canto de passarinhos se espalhando pelo ar ra-
refeito. Imaginei se algum dia seria possível ver música e ouvir
as cores do arco-íris.
— Em que está pensando, Shirl?
— Não sei... Estava apenas imaginando se não haveria alguma
espécie de técnica que uma pessoa pudesse usar para sentir paz in-
terior e felicidade profunda quando ao redor estiver desmoronar do
o seu pequeno mundo.
David deu de ombros.
— Não sei se daria certo para você, mas alguém já descreveu
uma técnica antiga a que chamavam de "O Sonho Dourado". Se você
está, por exemplo, tentando pegar no sono, mas não consegue porque
a mente se agita com supostos problemas de que não consegue se li-
vrar.. . Vou contar o que eu faço. Penso no que me tornaria naque-
le momento a pessoa mais feliz do mundo. Imagino tudo em deta-
lhes... o que estaria vestindo, com quem estaria, a impressão que
teria, o tempo que estaria fazendo, a comida que estaria em meu
prato, no que estaria tocando... todas essas coisas que me fariam
feliz, nos mínimos detalhes. E, depois, fico esperando. Tenho toda
a cena na mente... criada por minha vontade e fantasia. Acaba se
tornando tão real que me sinto feliz. Começo a relaxar e a vibrar
numa freqüência regular, não demora muito e estou dormindo... ou
"no plano astral", como gosto de chamar.
Escutei atentamente, imaginando-me a fazer o que ele descre-
via. Parecia perfeitamente possível.
— Então esse é o Sonho Dourado?
— Exatamente. Um bom título para uma canção.
— Tem razão. Muito melhor do que "O Sonho Impossível".
— Quando a pessoa se concentra no que a faria feliz, produz
uma freqüência eletromagnética que opera interiormente e a aquieta
literalmente para um sentimento de paz interior.
— Portanto, é simplesmente o predomínio da mente sobre a maté-
ria?
— Claro. Mas creio que há muito mais envolvido. Para mim,
creio que há uma demonstração de fé para mim mesmo e de fé em mim
mesmo. Em outras palavras, se eu tenho fé suficiente em alguma
coisa, particularmente através da concentração ou meditação, qual-
quer outro nome que você prefira chamar, então estou inconsciente-
mente irradiando energia positiva que pode em última análise re-
sultar na consecução.
— Mesmo que seja irrealista o que você quer?
— Quem pode saber o que é irrealista?
— Está querendo dizer que a fé move montanhas?
— Provavelmente. Acho que a mente positiva é ilimitada. Por-
tanto, incluiria até as montanhas. Aparentemente, é algo parecido
com o que Cristo fazia. Só que é mais do que apenas fé, concentra-

ção ou meditação. Ele tinha o conhecimento de como fazê-lo.
— E onde o desgraçado obteve esse conhecimento?
— Ele disse que era de Deus. Mas também disse que Ele era o
Filho de Deus. Assim, creio que estava nos dizendo que Ele apren-
dera através de Deus. É o que também dizem todos os avatares indi-
anos. Não dizem que eles são as razões que podem materializar pão
de pedra ou curar doenças. Dizem que Deus lhes concede o poder e o
conhecimento de realizar suas obras.
— Você é realmente um crente, não é mesmo, David?
— Creio que a maioria das pessoas não se conhece bastante bem
para saber o que quer. E que se nos conhecêssemos melhor estaría-
mos em melhor contato com Deus ou a Fonte Criativa.
Eu estava agora resfolegando, enquanto subíamos ao calor do
sol a pino. A altitude estava me dominando.
David adiantou-se um pouco, procurando pela trilha que levava
ao poço sulfuroso. Eu estava preparada para a água flutuante. Que-
ria sentar, imergir, pensar no meu sonho, pois descobria subita-
mente que não era capaz de defini-lo. Não tinha sonho. Não podia
imaginar o que me faria especificamente feliz. Não podia meditar
sobre os detalhes de cheiros, contatos ou sons de um sonho assim,
porque não sabia qual era o meu sonho.
Ele conduziu-me por uma trilha que subia paralela ao rio. Me-
nos de um quilômetro adiante chegamos a uma cabana de madeira, on-
de estava o começo de uma escada escavada na rocha que conduzia a
um nicho dentro da montanha. Paredões rochosos se elevavam ao nos-
so redor, enquanto descíamos pela escadaria estreita. Lá no fundo
estava um poço borbulhante. Três velhas estavam na água, com seus
chapéus engomados e os pitorescos vestidos nativos. Ao nos verem,
cobriram os rostos e se viraram.
— As anciãs da montanha são muito retraídas — explicou David.
— Possuem um certo recato em relação à nudez e precisam de sua
privacidade. Por isso, vamos virar as costas quando chegarmos ao
fundo. Creio que será o suficiente para que nos deixem em paz.
Um rapaz estava estendido no outro lado do poço, as pernas por
cima das pedras. Estava completamente vestido, de jeans e camisa.
— É uma concessão dele às velhas, David?
— Claro. Se não fosse assim, ele também teria de esperar que
elas se retirassem. Além disso, as roupas não constituem um pro-
blema para ele. Uma curta caminhada até sua casa e estarão secas.
David pegou um ovo cozido, descascou-o e entregou-me.
— Não é bom comer antes de um banho sulfuroso, mas não tem im-
portância.
As velhas saíram da água e subiram os degraus, acenando-nos
com a cabeça, estoicamente, ao se retirarem. O rapaz permaneceu
onde estava. Fomos até a beira d'água. Manchas brancas sulfurosas
faiscavam ao sol, o vapor pairava por cima da água, o calor se
pondo em contato com o ar da montanha. David largou no chão o meu
poncho e o saco com os ovos.
Estendi-me ao sol e fiquei observando o rapaz. Ele não fez
qualquer menção de se retirar, ficou simplesmente olhando para a
água.
— O que devemos fazer, David? Despir-nos ou o quê?
- Hum... Vamos ficar com as roupas de baixo. Isso tornará as

coisas mais fáceis para todos.
Tirei o jeans, as botas e as meias, ficando com a blusa até o
último momento, porque não estava usando soutien. Depois, numa
pressa de constrangimento, tirei-a abruptamente e entrei na água.
O rapaz continuava a olhar pára a água e David estava ocupado a se
despir. Ninguém se importava realmente se eu estava ou não semi-
nua.
A água estava quente e formigante, exatamente como na noite
anterior. Mas a experiência agora de senti-la ao sol era incandes-
cente. Em primeiro lugar, a superfície da água parecia prata dan-
çando. Havia alguma coisa na maneira como o sol incidia sobre as
manchas brancas de enxofre que fazia com que a água parecesse pra-
ta líquida por baixo. A rocha no fundo era escorregadia, com musgo
e algas, mas a densidade me proporcionava o equilíbrio. Perto do
centro, encontrei uma rocha confortável em que podia ficar senta-
da. Afundei até o pescoço. Agora, ao nível dos olhos, o reflexo de
prata líquida quase me ofuscava. Senti-me feliz por estar com os
óculos escuros e o chapéu. Mas isso é ridículo, pensei. Aqui es-
tou, envolta por tanta beleza natural deslumbrante, mas sinto que
tenho de me proteger dos efeitos prejudiciais. Balancei os braços
para cima e para baixo, dentro da água, até que todo meu corpo es-
tava coberto pelas borbulhas minerais. Aderiam à pele, provocando
uma comichão, ardendo ligeiramente, mas por isso mesmo dando a im-
pressão de que meu sangue corria mais depressa. Eu podia sentir o
poço ser alimentado de uma fonte subterrânea. A água aflorava gen-
tilmente à superfície numa correnteza quente. A superfície do poço
estava quente do sol da montanha. E a temperatura do meu corpo es-
tava em algum ponto intermediário. David entrou na água. Estava de
sunga. As pernas retas eram musculosas, a esquerda dava a impres-
são de que quebrara e fora encanada. Era algo que não se podia
perceber quando ele estava de calça. O tronco era esguio, não mui-
to musculoso, os ombros eram mais estreitos do que largos. Não pa-
recia um homem que se exercitava com levantamento de peso, mas a
impressão nítida era de que estava em boa forma.
Ele sorriu ligeiramente, como se soubesse que eu o estava exa-
minando, mas não disse nada, enquanto se adiantava e se ajoelhava,
imergindo até o pescoço. Respirou fundo e fechou os olhos de pra-
zer pelo calor da água no ar da montanha.
O rapaz não se mexeu. Parecia em transe. A prata líquida pro-
vavelmente era capaz de fazer isso a uma pessoa. Perguntei a Da-
vid.
— Pode, sim, Shirl. É por isso que é tão relaxante. Os monta-
nheses usam as águas tanto para os seus espíritos como para os
corpos. Só é uma pena que não tirem as roupas.
Enquanto a água começava a fazer efeito, lentamente, compreen-
di que estava ficando com azia. Começou com uma pequena contração
na parte superior do meu peito e foi se espalhando.
— Os problemas digestivos estão sendo acentuados pelo enxofre
e minerais — explicou David. — Por isso é que é melhor não comer
antes. Mas não faz mal algum. Apenas faz com que você saiba que
sua digestão está precária.
Ele se afastou para o outro lado do poço, a fim de pensar e
meditar. Sentou nas rochas por baixo da água e ficou olhando se-

sob a superfície da água. entregando-me totalmente às ondas. ao sol quente. é como eu desejava fi- car. Sempre fico melhor por lá. tão serenamente inerte. como se nada houvesse que fosse suspeito. Levantei a cabeça. sereno. a energia da alma viveu eternamente. pensei. — Por Deus. Ele não se mexera.. — Ele apontou para o céu. isso deve significar que são nossas almas. como se não estivesse ali. Uma mosca rastejou por cima de seu nariz. Era assim que o rosto dele parecia. limpou o queixo. Levantei os olhos fechados para o sol. pensei. Perguntei-me se a sua alma poderia deixar o corpo. O tempo não tinha mesmo qualquer importância.. Especulei se ele era a sua alma ou se era o corpo.. não importava. — Estar no corpo pode ser um problema. Dava a impressão de que podia ser parte da água. Shirl? Oh. .. David riu e sacudiu a cabeça.. como posso condensar tudo em palavras? — Não sei. Tornei a olhar para David. mas não sei como. Queria me sentir totalmente aberta e abran- gente. o corpo apenas aloja a alma. somente a sua forma era humana. Podia sentir o enxofre tornando os cabelos bem macios. Tenho uma coisa para lhe dizer. estava apenas pensando e imaginando coisas. E tentei imaginar o que poderia estar ocor- rendo dentro dele. se ele as- sim o quisesse. relutância em relação a tu- do. junto às águas laranja do Rio Mantaro. pedindo desculpas pelo tempo que passáramos na água. Por- tanto... David saiu da água... Sentia-me e- xultante. o rosto estava inexpressivo. dizendo: — Vá com calma... Perguntei-me por quanto tempo David meditaria na água borbu- lhante. Fui pôr o chapéu numa rocha seca. Observei-o por um longo tempo.. a fim de me sentir livre de qualquer relutância. E começamos a voltar... eu estava meditando! Quanto tempo fiquei assim? Respondi que não sabia.. Precisava afundar também a cabeça e o rosto.. Olhei para David. — Em que está pensando.. ele era a água. o corpo morreu. movendo o braço suavemente. Tratamos de nos vestir. livre de qualquer relutância. Ima- ginando se um bebê nasce sabendo de tudo e pouco a pouco vai es- quecendo...renamente para a superfície. — Vamos dar uma volta. completamente alheio a qualquer coisa negativa. Lembrei como sonhava em correr para o mar. Não. Mergulhei os cabelos na á- gua. Piscou para o sol. Desejei poder me entregar como ele parecia estar fazendo. Maravilhoso. Tenha paciência. O rapaz de jeans foi embora. Às vezes é mais fácil pensar quando se está em movimento. enxagüei-os. Mas só mergulhar o corpo na água não seria suficiente. Os olhos dele não pis- cavam.. David en- tregou-me um ovo descascado. Ele parecia totalmente em paz. Subimos os degraus. inclinando-me para trás. sentado ali. As três velhas esperavam no alto dos degraus.. David abriu os olhos lentamente. Tudo acabará bem. talvez mais de uma hora.. Provavelmente nem existia. Uma velha esperava no alto dos degraus que fôssemos embora. rapidamente. As borbulhas aderiam a seus braços imó- veis. despedimo-nos da mulher. Deus.

depois a luz está em nós e. atra- vés do rio. fora da minha cabeça. porque o que falta somos nós mesmos. O tempo passava.. Nova York. Eu po- dia dizer sinceramente que me sentia feliz. tomando leite quente e comendo pão frio. fomos para o "refeitó- rio". Havaí. Lá fora. os filmes que eu fizera. nós pulávamos.. nós e a luz nos tor- namos uma só coisa.. meu mundo real. Uma ponte de corda. O que fora mesmo que eu lera? Primeiro. ba- lançou por baixo de nós quando a atravessamos. os joelhos verga- vam quando escorregávamos em seixos. durante aquele momento ou na minha vida em geral. Passarinhos azuis e par- dais voavam entre as árvores. O tempo não era um sentimento. E agora podia dizer sinceramente que não me importava com o que fosse o tempo. finalmente. até que me lembrei que podia ficar com queima- duras se me expusesse por muito tempo. ao sol da tarde. Era evidente que ele adorava pular. enquanto três homens da aldeia mastigavam folhas de coca e juntavam barro e pa- lha em tijolos quadrados. ida e volta.. Descobri-me a rir junto com David. Tornei a levantar o rosto para o sol e pensei nas poucas oca- siões em que podia dizer sinceramente que experimentara um senti- mento puro e total de felicidade. a mulher com a criança nas costas separava o joio do trigo... Era apenas tempo. Ri e ri e no momento em que senti uma pontada de pensamento negativo tratei de afastá-la com uma vassourada mental. Hollywood. o mundo. Levantou o rosto para o sol e suspirou. O sol quente no meu rosto proporcionava-me um prazer intenso. pessoas que eu preferia não conhecer. Passando por pequenos córregos que desaguavam no Mantaro. Fiquei aturdida com a qualidade pessoal direta de suas pala- vras. e quando as lembranças se tornavam nega- tivas eu as sufocava com a mesma luz interior que experimentara nos Himalaias. Se ao menos eu conseguisse manter os pensamentos negativos do meu outro mundo. suados e exaustos. guardamos as mochilas nos quartos e.. — Espero que possa começar a sentir um pouco da felicidade e paz interior que estão aguardando para serem aproveitadas lá no fundo de você. esticando os braços. Não era uma ação.. Na maioria das vezes. Súbitas lembranças de Gerry. E você está começando a juntar as peças de si mesma. se ficasse com o nariz vermelho e depois descascasse? E daí? David começou a pular. mas o tempo permanecia parado. com os quais fariam sua nova casa. pessoas que eu conhecia. Como acontecia naquele exato momento. eu aborta- ra o sentimento ao me lembrar dos negativos que ainda persistiam. Capítulo 22 . Pu- lei também.. As mochilas batiam em nossas costas.. Sentindo a minha reação. David seguiu na minha frente. feita à mão. estamos na luz. andávamos. David acrescentou: — Tudo é pessoal. tornávamos a pular. Corremos para Llocllapampa. Ri de mim mesma. E daí.

Ela disse alguma coisa em espanhol e David me explicou: — Ela quer seu anel. E me perguntei se minha visualização era real ou fantasia. Ovelhas. Hastes douradas de trigo oscilavam suavemente à brisa da ma- nhã. — Vamos levá-la — informou David." — Thomas A. . Calcei as botas. A mulher sorriu com uma felicidade desdentada e se acomodou no banco traseiro. saí do hotel. — Pensei em irmos até Ataura. Era a minha jóia predileta. David estava sentado no muro baixo no outro lado da estrada. ruas la- macentas."Não posso acreditar por um momento sequer que a vida em primeiro lugar originou-se nesta bolinha insignificante a que chamamos Ter- ra. entremeadas com freqüência por crianças pequenas a cambalearem. senti as suas mãos bem quentes. não é mesmo? Ele piscou-me e deu uma volta. as pessoas de guarda-chuva.. O Diário e Observações Variadas A manhã seguinte foi revigorante e por alguma razão parecia esperançosa e nova. Marcava nove ho- ras da manhã. 10 de julho. Não se encontra um cardápio de gourmet aqui por cima. vou lhe pro- videnciar mais alguns ovos cozidos. — Ela precisa vender os le- gumes e não é sempre que arruma uma carona. Traduziu para mim. Shirl. porque as montanhas eram mais espalhadas. A luz da manhã nos Andes era diferente da que eu conhecera nos Himalaias. Olhei para o meu anel-relógio. A mulher sem dentes e o bebê saíram. Imaginei como estaria o tempo em Lon- dres. Tocou-o. antes de desa- parecer no restaurante. vacas e lhamas vagueavam indolentemente pela beira da estrada. Ela estava falando sobre flores silvestres que podiam ser moídas numa pasta. entregando-me um copo com leite quente e dois ovos descascados. A mulher viu meu anel- relógio. antes. a mistura esquentada e colocada em sinusite para aliviar a pressão. David falou em espanhol com a mulher sentada no banco traseiro. Mas.. Desejei poder lhe providenciar uma dentadura do mundo real. Contemplei chuva. Visualizei-o de alguma forma. Davam a impressão de serem pla- nícies corcovadas. acompanhara-me por todo o mundo. blusa e suéter. Estendi o braço pelo alto do encosto. com um cesto de legumes que ela foi pôr no carro. Ela disse que havia um uso médico para cada erva das colinas e que poderíamos comprar todas em Ataura. O bebê dormia tão profundamente que parecia um peso morto em seu colo. As partículas que se combinaram para evoluir em criaturas vivas neste planeta provavelmente vieram de algum outro corpo no universo. apoiado num pé. Edison. Comi os ovos. as mães carregando outras crianças em bolsas alaran- jadas nas costas. Contemplei Gerry saindo de uma estação do metrô e se encaminhando a pé para o Parlamento. As sombras eram mais largas e mais horizontais. Acha que é lindo e o quer. pus a calça.

O valor monetário da "coisa" nada tinha a ver com isso. lenta- mente. puros. deixando os lenços de papel na caixa. E a mulher respondeu: — Anéis e coisas. Faziam-me sentir segura. — O que é isto? — perguntou ela em seguida. sorrindo. Pareciam muito acima do mundo real. brancos. Contemplei-os. Lá na frente. Seria essa a base para a ganância? Ou seria basicamente uma manifestação da ne- cessidade de amor humano. apontando para a caixa de lenços de papel. Quando o papel por baixo tomou o lugar do anterior. — Aqueles são os Picos Gelados de Huaytapallana — explicou Da- vid. Nunca me deixavam. estavam sempre lá. Eram permanentes. Não resisti. Ela apertou-o na mão. ela pareceu ficar surpresa. — Claro que sim — disse ela. — Já esteve nos Picos Gelados? — perguntou-me a mulher. Mas não era apenas o anel-relógio. ha- via altas montanhas. — O que a faria feliz? — perguntei a David. Imaginei como seria tentar chegar lá a pé. Cruzou as mãos sobre o bebê em seu colo. Não falei nada. Era quase como se "as coisas" fossem extensões de um investimento em amor. não! Mas muitas pessoas já viram os discos voadores que vêm de trás dos picos. os cumes cobertos por gelo e neve. Aquelas "coisas" estavam sempre lá quando eu as queria. depois olhou para o sol. — Não. estendeu a mão para a frente a con- templá-lo. comprarei ou- tro depois"? Mas não era capaz. Era a liga- ção sentimental. Podia contar com elas. graciosos. assomando entre as nuvens brancas. Por que eu não podia dizer generosamente "o anel é seu. Estavam serenos e ino- centes. por favor? O que a faria realmente feliz? Ele perguntou. sem muita convicção — porque sig- nificaria que minha família estava bem de vida. — É como papel higiênico? Entreguei-lhe a caixa. sentindo que David me sen- tia a pensar. O anel-relógio representava liga- ções e memórias pessoais. Depois. Ima- ginei se Shangri-La não estaria além. Ela virou-a interminavelmente. olhando para o a- nel-relógio. sentindo-me envergonhada por estar com receio que ela não me devolvesse. Ela virou o anel no dedo. Mas ela não transformou isso numa brincadeira. Você já esteve? — Oh. — Isso a faria mais feliz do que a felicidade? — insisti. Era qualquer "coisa" com a qual eu tivera uma experiência pessoal. A mulher pegou meu dedo e tirou o anel-relógio. . Vocês têm discos voadores em suas montanhas nos Estados Unidos? Virei-me no banco e fitei-a nos olhos. examinando cada beirada. Imaginei como seria o tempo nas montanhas. tirou o primeiro lenço de papel. depois de mostrar como funcionava. Fiquei observando a cena. que de alguma forma nunca temos em quan- tidade suficiente? Olhei para a manhã. — Pode perguntar a ela. Senti a mente reagir no mesmo instante. porque por trás delas estavam as pessoas cujo amor eu mais queria. Daria minha jóia pre- dileta e minha ligação com o mundo real (porque era um relógio) àquela mulher que eu não conhecia? Observei David a me observar. Tudo o que eu tinha a fazer era estender a mão e tocá-las.

E dizem que nada somos em comparação com os discos. advertiram-nos para tomar cuidado com os distúrbios em Hu- ancayo (para onde não estávamos indo) e acenaram para que seguís- semos em frente. Ela teve dificuldade em compreender quando falei em métodos de con- trole da natalidade. Havia mais pessoas à beira da estrada à medida que nos apro- ximávamos da cidade. Constatando que éramos estran- geiros. Mais mulheres com bolsas magentas listradas nas costas apare- ceram pela estrada. Não se podia dizer que não queria falar a respeito. Ela simplesmente olhou pela janela. — Mas o que acha que os discos estão fazendo? — Eles vêm de Vênus. E falaram também que os discos estão estudando nosso planeta. — Eles estão de luto quando se vestem assim — explicou David. na casa dos 30 anos. Disse que não queria mais e por isso ela e o marido não tinham mais sexo. As amigas também não faziam mais sexo. Era jovem. O terreno se expandia cada vez mais. Qualquer que fosse o caso. — O que você acha que eles são? — perguntei. Tirei um lenço de papel da caixa e assoei o nariz. num esforço para evitar que as famílias aumentassem. — Por quê? — Porque ele era muito maior. Mas eu nunca vi nenhum. queria saber como poderia obtê-los. Mas o disco voou quando ele chegou perto. — Acho que sim. Os cientistas nos disseram. Tentei absorver o que a mulher dissera. O que não acon- teceu. A mulher falou sobre os filhos. eles ficam assustados e vão embora. ela segurou a cabe- ça do bebê e lançou-se a uma conversa animada sobre a venda de seus legumes. Apenas escuto. — Não tenho opinião. to- das com o mesmo problema. Apenas não estava muito interessada pelo assunto e aparentemente já esgotara suas possibilidades. Muitos ficam voando de um lado para outro do céu. — Tem medo deles? — Não. perguntaram a David para onde estávamos indo e por quê. Comentou que ouvira dizer que os americanos usavam produtos químicos para tornar os legumes maiores. assim como suas amigas. — Eles deixam marcas quando pousam — informou a mulher. como os preços estavam subindo. De vez em quando avistávamos um homem num terno preto ocidental. O sol estava agora diretamente por cima dos Picos Gelados. fazendo-os faiscarem. Não tinha o menor conhecimento do próprio corpo. Ou talvez estivesse apenas sendo polida ao satisfazer a curiosidade de uma estrangeira. Usavam os . Ele pensou que as pessoas fi- caram com medo dele. quando está muito frio para a gente ficar obser- vando. Aparecem à noite. — E se as pessoas chegam muito perto. Esperei que ela dissesse mais alguma coisa. Tinha cinco. Três guardas nos pararam num cruzamento. caminhando na direção de Ataura. — Mas o que eles estão fazendo? — Cientistas vêm até aqui para olhar os discos. Um amigo meu viu um disco pousar e foi até lá. — De Vênus? — Isso mesmo.

Mais adiante. Ao seu lado havia um pedaço de queijo feito do leite fervido chamado quesillo. As pessoas tomavam um refrigerante muito doce. saias com anáguas bran- cas. enquanto a terceira afagava um cachorro que roía um osso entre elas. Sentado a uma mesa no outro lado. ao entrar na cidade. Uma garrafa vazia de Inca Cola estufava o bolso traseiro da calça. banheiras de plásti- co. cravos. parecendo extras vestidas a caráter para uma filmagem no lo- cal. tocando numa vi- trola automática. O cartaz anunciava Os Dez Mandamentos e um portão de ferro batido separava o público da bilheteria. Sabia que tornaria a vê-la mais tarde. sapatos de lona. à base de milho. com meu anel-relógio e seu bebê. Três mulheres estavam sentadas num meio-fio. margaridas. na mesma rua. bí- lis e azia. Comprei um pouco dessa erva para fazer chá. Ainda estava com o meu anel-relógio. to- mando sopa. havia sapatos. enquanto andavam de um lado para outro. A mulher se afastou para vender seus legumes. Balançava-se gentilmente. Aproximou-se de alguém no restaurante e pediu comida. Estacionamos o carro e saímos a andar pela cida- de. que imediatamente despejou no chapéu de feltro marrom. havia pequenas pilhas de ervas.chapéus brancos de aba larga costumeiros. que ela assegurou que podiam curar praticamente qualquer doença que uma pessoa tivesse. Cachorros corriam entre as frutas e legumes. circulavam entre as flores. Garotos alugavam revistas em quadrinhos. Uma mulher trançava fios que acabara de comprar. mas fora de ritmo. Uma delas amamen- tava um bebê. de roupas de cama a café moído na hora e discos velhos. Tentei não dar atenção. Os bazares nas ruas vendiam de tudo. Fiquei olhando para ela. Eu deveria tê-la comprado também. No interior de um mercado de flores havia uma exposição de conto de fadas de gladíolos. feijão. um homem visivelmente embriagado gritava palavrões pa- ra a parede. A mulher que trouxéramos no carro nos alcançou e orientou para a barraca das ervas. um chapéu de feltro marrom. comendo pipoca peru- ana feita com açúcar. diabetes. junquilhos e cri- sântemos que me deixou deslumbrada. Crianças. David e eu continuamos a andar até nos sentirmos famintos. Estendidas numa manta. A mulher afastou-se. mas era fresco à sombra dos prédios. comendo arroz e feijão. valeriana para o sistema nervoso. Um homem esfrega- va pó de enxofre na aba do seu chapéu branco a fim de fazê-la du- ra. ervilha. Sentamos num restaurante com mesas na calçada. Um velho numa calça surrada. foi um disco de Neil Sedaka. jovens esperavam que um cinema a- brisse. Havia cachorros por toda parte. A primeira coisa que ouvimos. com a mão no colo de uma amiga. com uma vela por baixo. Em todas as lojas havia imagens de Cristo. tentando acompanhar um disco de Elvis Presley. cobertos por cebolas e um molho quente chamado ro- . Es- tendidos nas calçadas. digestão. David me observava. com uma flor por cima da orelha esquerda e um sué- ter cinzento rasgado estava parado ao lado da vitrola automática de um restaurante. Hircampuri para o fígado. chamado Maiz. Havia uma casca de árvore chamada Sangredanada que era boa para úlcera. O sol estava quente agora. ao sol. Tara para asma. artigos diversos coloridos.

Mas uma pessoa assim quer que todos pensem da mesma forma. Não minta. Lembro a mim mesmo essa filosofia de três pontos todos os dias. Senti como se ele tivesse me esbofeteado. Shirl. Vivo assim. ao mesmo tempo. — Você acha que faço isso? — Faz o quê? — Quero as coisas ao meu modo? David largou o garfo. E são simples. É a mesma jornada que todos temos de fazer. Isto é real. Eduquei-me a não esquecê-la. — Gosta daqui. — Como estou fazendo com você? — Isso mesmo. David estendeu a mão e limpou uma lá- grima em meu queixo. Seria uma negação do progresso e do empenho por uma vida melhor. Pensei por um momento a respeito. É isso aí. Se ele realmente olhasse. As pessoas não têm pretensões. Ele limpou a garganta e. Quero que ele olhe para o que está fazendo. E isso está assustando-o. Mas ele não quer. — Mas a ausência de dúvida é o que torna algumas pessoas arro- gantes e perigosas. eu estava invadida por uma profunda percepção. como se estivesse recitando uma lição decorada em aula. . — É isso o que está errado com você e seu amigo? Tentei falar claramente: — Meu amigo? — Isso mesmo. Meus olhos se encheram de lá- grimas. mas não consegui. E. David? — Gosto muito. encontra- ria o seu caminho. — Esta viajou longe. São o que são. Os suaves olhos azuis de David con- templavam-me lá no fundo. A resposta está em alguma coisa como o meu credo. Talvez devêssemos todos permanecer pobres e pas- sando dificuldades. — Acho que é justo o que acabou de dizer a meu respeito e acho também que os nossos problemas são inevitáveis. Deve haver algum homem por quem você está apai- xonada e com quem vai se encontrar nos lugares mais estranhos. eu teria de dizer que sim. — Sente-se deprimido e solitário? — Claro. — E como faz para superar? — Acho que se pode dizer que felicidade é saber em que acredi- tar. Shirl? Tentei conter as lágrimas. que devia ser o mais condimentado que o homem já inventara. — Tem razão. Acho que quero que ele veja as coisas pelo meu lado. Podia senti-las a escorrerem pelo meu rosto. — Talvez as pessoas se magoem mais quando se tornam prósperas e confortáveis. pôs-se a falar: — Trabalhe arduamente.coto. — Pelo que posso ver de você. E não tente prejudicar nin- guém. — Ele fez uma pausa. Mas ele não o faz. — O que houve. antes de compreendermos quem somos. Quer ouvi-lo? — Claro. — Não penso assim.

As pessoas estavam recolhendo suas mercadorias. esticar o corpo. devo permitir-lhe esse privilégio. o sol regulava todo o comércio. Recostei-me na cadeira e suspirei. basicamente? Não é assim que se sente? — A impressão é que tudo o que vivi não passou de uma impostu- ra. — Por exemplo? — Pensava que seria o fim quando morresse. não é mesmo? Não está tentando alcançar onde você vive profundamente. Mas não deveria ser tão implacável. para chegar onde quer. com um roteiro que vai se desenvolvendo espontaneamente. David pagou a conta e saímos. David inclinou-se através da mesa e pegou-me a mão. Como eu disse an- tes. Cristo disse: "Conheça a ti mesmo. apimentado. David tomou uma Inca Cola e eu comi uma tangerina. andar." E depois seja sincera ao que descobriu. E acontece que quase tudo por que vivi e acreditei era um mito. Continuará a representar papéis até finalmente chegar ao ponto certo. Sentia as pernas rígidas de tanto ficar sentada. Shirl. Assim que começa a apreciar. Ficamos andando por algum tempo. Você também tem de passar. Porque você é um microcosmo do cosmo. aprontando-se para o pôr-do-sol. Sabe muito bem que eu já passei por isso. pegando uma carona em outro carro ou resolvendo per- manecer na cidade. — Não nos sentimos todos assim? Além do mais.. Acreditava que não havia nada mais e nada menos do que o aqui e agora e que isso era tudo o que tinha de enfrentar. Precisava levantar. — Por outro lado. Descubro agora que estávamos representando papéis em alguma peça espiritual. Você tem a coragem ou qual- quer outra coisa que preferir chamar de se olhar com toda honesti- dade. E não se pode aceitar coisa alguma até se aceitar a si mes- mo. Nas montanhas. E co- nhecer a si mesma é o mais profundo de todos os conhecimentos. seja paciente com você mesma. É uma dessas pessoas que podem incomodar os outros. Shirl. uma imagem artificial. com que você es- tá preocupada? Terá de representar outro papel depois deste e ou- tro e mais outro.. atividade e comportamento. A mulher com os legumes e meu anel-relógio desaparecera. Acreditava que a vida levada pela raça humana era real e física. comi mais um pouco da comida com o molho quen- te. — Este molho é o pior de tudo — murmurei. — E onde eu quero chegar? — Onde você vive. O segredo é aceitar as combina- ções. E para aceitar a si mesma é preciso conhecer a si mesma. Ri e engasguei. você tem a mente como uma perfuratriz de petróleo. sente vontade de chorar. sendo implacável consigo mesma depois que percebe o que está fazendo. mas também vão ao fundo de si mesmas. não é mesmo? Creio que ele tem esse direito. — Deixa-me com von- tade de chorar. Acreditava que só existia o que eu podia ver. .Mas acho que tenho de aceitar. Por que a gentileza me fazia chorar? — Não fique assim. Se ele quer ignorar a verdade de si mesmo. E não me sinto muito feliz quando começo a pensar na maneira como representava meu papel. — A vida é como molho quente.

David. amando-me e se importando muito com o que eu pensava. Olhava fixamente para a frente. Ele não reagiu. E quando o estômago se aquietava. eu também me aquietava.. mas ao mesmo tempo sentindo ser impos- sível contemplar a si mesmo por uma luz que me agradaria. Cachorros latiam à distância e alguns bebês choravam. Eu estava encontrando a maior dificuldade para contemplar a verdade em mim mesma. Ri interiormente. O que você quiser. Nenhum homem pode viver com esse tipo de desafio. mas eu teria de admitir muito mais. não o homem que eu queria que fosse. A luz do final de tarde era clara. Por que não podia então respeitar o fato de que os outros podiam experimentar a mesma angústia? Gerry devia ter passado por um verdadeiro inferno. mas não foi o que você chamaria de uma ligação amo- rosa típica. David não o dis- sera como uma acusação. se não o quisessem. mas assim agira a fim de deixar David à vontade com a provocação. — Ela é geóloga. Shirl. Ele dis- sera muitas vezes que se sentia inadequado em corresponder às mi- nhas expectativas. de um azul meio púrpura. A respeito de uma garota chamada Mayan. Eu podia entender o que ele queria dizer com isso. David e eu entramos no carro e iniciamos a viagem de volta a Llocllapampa. está bem? — Claro — respondi. David parecia mesmerizado pela estrada. — Há uma coisa que preciso lhe dizer. — Faça-me algumas perguntas... a fim de que eu possa chegar onde quero. . então não era suficiente. se quisesse seguir em frente. Então você teve o seu caso de amor nos banhos sulfurosos e ao longo das margens do borbulhante Mantaro? Compreendi como devia estar parecendo sarcástica. Ele ficou em silêncio por um momento. nos meus termos. Gerry ti- nha de ser ele próprio. Senti o estômago se aquietar. — Eis uma coisa que posso compreender. Que eu que- ria a vida à minha maneira. Que qualquer homem por quem estivesse apaixonada deveria olhar tão profundamente para si mesmo como eu estava tentando olhar para mim.. Teve um romance com ela? — Tive. Ele insinuara também que minha compul- são de insistir para que os outros se analisassem não era de todo injusta. pensando que todas as paixões pareciam cós- micas quando se as estava tendo. E se isso não fosse suficiente. — Vamos ver. David mantinha-se em silêncio enquanto guiava. gostando do jogo.. — Aqui em cima? Ahn. sem dizer nada. Mas virou-se abruptamente para mim. A vida nas montanhas girava em torno do sol. O que ela fazia? Tinha alguma profissão? David acendeu um cigarro e abriu a janela para respirar mais fundo. Esteve aqui em cima numa expedição mineira. O sol desaparecera por completo agora. Pensei na verdade do que ele dissera. Foi mais como uma ligação amorosa cósmica. — Claro. pois os forçava a um grau de progresso. Mas eu deveria respeitar a incapacidade e relutância dos outros em fazerem isso. As planícies nos arredores de Ataura estavam coalhadas de pessoas que voltavam para suas casas pela noite..

Perguntei-lhe quem era a sua gente.. E o mais estranho de tudo. jeans provavelmente. Assim que a contemplei. Não notei o que ela vestia. David parou de falar por um momento. nesta mesma estrada. Quase que sentia que ela sabia o que eu estava pensando.. a pele maravilhosa. quase amendoados.. Ela parecia quase translúcida. línguas. do tipo mignon. governos. — E o que mais ela parecia.. Eu jamais experimentara nada pa- recido antes e não pensei muito a respeito. — David tornou a hesitar. pensei que deveria dizer alguma coisa. pensei que era a mulher mais linda que eu já vira. enquanto recordava o seu encontro extraordinário.. Ela começou então a me interrogar sobre mim mes- mo. Acho que o efeito foi global. Ela parou e saltou. pensando. atitudes diferentes em países di- ferentes. Ela falou que me diria mais tarde. A pele bri- lhava.especulei. David? Também sentia que a conhecia? Pensei que ele fosse me dizer que sentira já tê-la conhecido em outra vida ou algo assim. cabelos pretos compridos. Mas não eram olhos orientais. — E você. — Não foi isso. Não sei. E depois sa- cudiu a cabeça com as lembranças.. E lembro que não consegui desviar os olhos de seu rosto. David dava a impressão de que ficara ins- tantaneamente hipnotizado. embora assim não parecesse na ocasião. quase como se soubesse que me encontraria ali.. Ele hesitou por um instante. é que não dissemos nada um ao outro. — Como assim? -— indaguei. Era tudo grego para mim. Em paz.. continuando: — Isso mesmo. alva e transparente. Mas David ainda não reagiu. — Continu- amos a andar e logo ela se pôs a falar sobre uma porção de coi- sas. Ela disse que também me contaria mais tarde. que ela realmente a conhece e compreende? Pois era assim. — Não foi bem assim. sem fazer nada de específico. não foi bem assim. Mas. Começamos a andar juntos. Era como se não precisássemos falar. Eu não estava . efetuando estudos geoló- gicos nas montanhas. quando a conheci. guiando um velho Pontiac. David? — Era pequena. David olhava para a frente. Notei que o rosto de David relaxava enquanto ele descrevia seus sentimentos. olhos muito escuros. sentindo que David estava em algum outro mundo. Perguntei de onde ela era.. por alguma razão que não posso explicar senti que não ha- via necessidade que ela fizesse isso. Apro- ximou-se de mim.. Eu estava andando sozinho uma manhã quando ela apareceu. E perguntei o que ela estava fazendo aqui em cima. E não lhe per- guntei mais nada. indo longe demais. e me sentia perfeita e maravilhosamente sereno. Depois de algum tempo. Não me incomodei. apenas enviesados. quando se encontra uma pessoa desconhecida. Ela respondeu que estava com a sua gente. Desvaneceu-se toda a tensão muscular que geral- mente era visível nele. mas a maneira como se movimentava era fluida. Senti que ela parecia saber tudo a meu respeito e que estava apenas me dando tempo para me acostumar à idéia. Eu estava aqui em cima com dois outros caras. — Sabe esse sentimento que se tem às vezes. Fiquei siderado. — Não.. o mundo. recordando. Deus.. — Uma conquista na montanha? .

. Jantamos e ela continuou a falar. — Quer dizer que foi há muito tempo? — Isso mesmo. E disse também que deveria pôr tudo no papel. porque era capaz de absorver e um dia trans- mitiria à pessoa certa. a fim de poder olhar e mostrar aos outros. — Talvez. E não insisti. Mas acrescentou que se realmente compreendêsse- mos o que Cristo falara ninguém faria tal comentário desdenhoso. Comecei a pensar que ela era alguma espécie de espiã internacional.. Ela apareceu no dia seguinte e me encontrou. Ela disse que de certa forma era muito mais do que isso. E todos os dias ela me encontrava. que o relacionamento mais importante era entre cada alma e Deus. — E você anotou? — Claro. David fez outra pausa.interessado por tais coisas na ocasião. Mas ela não me disse. Quem ela é? David ficou corado. Shirl. — Não estou entendendo. mas se eu sen- tisse que estava aprendendo alguma coisa deveria então apenas re- laxar e aprender. Perguntei depois de algum tempo onde ela estava instalada. Você gostaria de ler? — Gostaria muito. Mas acho que ainda não estou entendendo uma coisa. Ele parecia um pouco tenso. Eu estava adorando falar. Ela falava e falava. Ela disse que eu deveria anotar tudo. E depois se fechou. Perguntei se ela era alguma espécie de maníaca de Jesus. Pouco depois ela sorriu e disse que precisava ir embora.. — Eu? Fiquei aturdida. escutar e ficar em companhia dela. Ela disse que me contaria tudo quando chegasse o momento oportuno. Eu não podia en- tender o que estava acontecendo e lhe disse isso. Estava completamente absorvida na história sobre a tal Mayan e não me imaginava absolutamente como uma parte dela. Saímos para outro passeio durante o dia inteiro e ela falou mais ainda. Foi o que fiz. que cuidaria para que fosse devidamente divulgado. Conversávamos sobre muitas coisas. sorrindo. mas não enten- dia a maior parte do que me dizia. Sempre coisas importantes. — Faça-me outras perguntas.. — Eu fazia uma caminhada pelas colinas todos os dias. foi há muito tempo. Aquela era mais do que uma simples . Antes de conhecer Mayan. eu não me impor- tava absolutamente se havia vida depois da morte ou se Deus estava vivo e feliz. Estávamos sentados um dia à beira do rio e ela começou a falar especificamente sobre á alma humana e o que era. só que não podia imaginar para quem. Falou sobre a energia negativa de alguns dos nossos lí- deres mundiais e como as pessoas precisavam acreditar em si mes- mas. E almas?. Por que não me deu esse material junto com todos os livros que me mandou ler? — Por causa de quem ela é. e talvez essa pessoa seja você. Essa não! Mas escutei atentamente e de- pois de algum tempo compreendi que ela parecia estar me transmi- tindo alguma informação científica importante. mas que tornaríamos a nos encontrar em breve. não importando o lugar para onde eu fosse. Ela disse que eu deveria registrar tudo que estava me ensinando. al- guma fanática religiosa.

. — A tal Mayan era de outro planeta? — Exatamente. Mais longe do que isso. agora é você quem está para fora. mas nunca estivera em posição de lhes avaliar a sinceridade. — Como? — Isso mesmo que você disse. Tirei do maço um dos cigar- ros de David. Mais a leste e mais para cima. Fora um elemento da maior importância em minha crescente compreensão espi- ritual. Já ouvira antes falar de algumas pessoas que afirmavam terem mantido contatos com extraterrenos. acendi. Fiquei fumando. depois de meses de súplica. mantendo-as sus- pensas no ar. conte-me logo. Fomos seguindo em silêncio. tirando as mãos do volante. Eu pelo menos acreditava que ele acreditava no que disse- ra. segurando o cigarro. Lembrei das noites em que contemplara o céu através da luneta. ela parecia muito exótica. — Mais longe. Era alguma espécie de terapia. Mais para cima e para fora. — Mais para cima? Eu estava começando a parecer com o homem sério num ato de vaudeville. Mas é verdade. pura e simplesmente. seca e fria.. Deixava isso aos cientistas ou psi- cólogos interessados. Mas parecia agora que eu teria de fazer algum julgamento sobre um amigo. Depois. dei uma tragada. afundei no assento e pus os pés no painel. A noite estava clara.. Não era esse o . Sei que deve parecer uma loucura. Levantei os olhos. — Muito bem.. De onde ela é? David apagou o cigarro. — Certo! Você adivinhou. Senti que tinha de trancar a boca. e agora conte tu- do. — Isso mesmo. sentindo que era o lugar a que pertencia. — David. David também não falou. Isto é um jogo estúpido. China ou algum país por lá? — Não. Como assim? Mais longe a leste? Ela é do Ja- pão. É isso mesmo. — Pelo que você descreveu. Juro por Deus que é verdade.. mas eu sentia que ele não estava maluco. É um nome exótico. As estrelas pairavam no céu como zircões. pois a coisa era tão espan- tosa que não podia deixar de sentir que David contava a verdade. o que lhe contarei mais tarde. Não poderia ser da Polinésia? — Não. Você já fez indicações demais. Não falei nada. De onde ela poderia ser que é tão difícil dizer? De outro planeta? David virou-se.história de paixão incandescente nas montanhas. Teria mesmo ouvido direito o que David dissera? Ele era um homem em que eu confiava. Mayan. Por isso é que foi tão difícil contar. Fiquei olhando para as estrelas de cristal e lembrei da luneta de Natal que ganhara quando era pequena. Abri a janela do meu lado e soprei a fumaça para o ar noturno. Lembro em detalhes de cada movimento que fiz. com alucinações ou inventando coisas. O que está aconte- cendo? Do que você está falando? Vamos. — Eu não podia compreender o problema. — Está querendo saber de que país ou cidade? — Isso mesmo. E ela provou isso por di- versas vezes..

David esticou os braços por cima da cabeça e suspirou. pertencíamos à vastidão mágica do cos- mo? Que éramos todos uma parte integrante de um gigantesco enigma universal. A vida cotidiana. Perto do nosso "hotel" estavam alguns bacorinhos em torno de um pneu velho. ela ter- minou de nos servir e afastou-se para cuidar de suas outras tare- . observando-nos comer. Mas acho que sim. como se estivesse aliviado pelo que ela dissera. Todo mundo sabe disso. enquanto a mãe olhava pacientemente. praticamente sem qualquer iluminação. Agora depois de cumprir as amenidades de conversa. tinha muito mais significado para ela. a fim de pegar guisado para nós. sentindo-me como uma dos milhares de turistas que deveriam ter feito a mesma pergunta. Ele sentiu-se melhor. — Ela foi pôr o guisado na mesa. a pia e a ge- ladeira estavam numa só parede do restaurante. Assenti e sorri. — Ela apontou a própria cabeça. saboreando o resto de trigo que constituía o seu jantar. Dois lampiões de querosene pendiam de um cabide por cima de nós. consciente da contradição de desejar ar puro e ao mesmo tempo estar poluindo os pulmões. enquanto as crianças pequenas da família circulavam em torno da nossa mesa. com manteiga se derramando pelas beiras. que ainda não nos era muito claro por causa de nossa limitada percepção tridimensional? David e outros como ele deseja- vam tão intensamente compreender que passavam a acreditar que ha- viam mantido "contato" com outra peça do enigma cósmico? Fumei o cigarro e respirei fundo. O fogão. abastecido por um cano no lado da estrada. Depois perguntou.desejo obsedante de todos? O céu não era um lembrete fundamental de que nós. Ele ficou assustado a princípio. Mas ela não parecia parti- cularmente interessada em prosseguir no tema anterior da conversa. — O que acha que eles são? -— perguntei. como nossa amiga no carro. Llocllapampa estava escura e serena quando chegamos. apenas uma curiosidade que não afetava sua vida. — Mas depois vários amigos lhe disseram que tinham visto a mesma coisa. A mulher foi até o fogão. em espanhol: — Já viu algum disco voador? — Muitos. O rádio transmitia uma partida de futebol. tentando sobreviver. Ela trouxe pão quente para acompanhar o guisado e perguntou se gostáramos de Ataura. porque pensou que talvez estivesse louco. A mulher com a criança não voltara. David tornou a suspirar fundo. O pão quente era fresco. — Uma linda noite — disse a velha a David. ilumi- nando a mesa. os extraterrenos na paisagem não eram importantes. — E acha que eles são amistosos? — Não sei. Eles vivem lá no alto das mon- tanhas e voam seus discos para baixo das montanhas. E meu tio viu-os voarem direto para o Lago Titicaca e desaparecerem. a fim de que ninguém possa descobri-los. — Seria uma boa noite para os astrônomos. Acompanhei-a. — São extraterrenos. A mãe dela preparara um guisado de rim em molho de vinho para a refeição noturna. seres humanos. A velha usava um fogão a gás para cozinhar.

— E não sentem medo deles? — Parece que não. Todas. Tudo o que penso agora é uma de- corrência do que aprendi com ela. Estavam calmos e eu diria mesmo que alivia- dos. Dizem que os discos ja- mais aparecem quando eles estão aqui. tão maior do que a do homem quanto a dele é maior do que a de uma . A mão dele apertou-me gentilmente o ombro. em meio às miríades de mundos es- palhados pelo espaço interminável. a pressuposição de que. sem exceção. — E muitas pessoas já os viram? — Shirley. Beijei-o no rosto e entrei no meu quarto escuro e úmido. não pode haver inteligência. a voz dele parecia estar prendendo na garganta. E não deixe os percevejos lhe morderem. qualquer coisa que eu possa dizer sobre o que su- bitamente me descobri envolvida aqui seria uma obra-prima de in- compreensão. Levantei-me. Capítulo 23 "Encarando o problema do ponto de vista mais rigorosamente cien- tífico. Ela mudou minha vida. E quero transmitir tudo isso a você. David. —. No escuro. Dizem que as pessoas dos discos preferem ficar a sós e é assim que os montanheses os tra- tam. Os montanheses não sabem por que eles estão aqui. — David. — Eu próprio não consigo encontrar Mayan. — Mas de qualquer forma.Onde eu poderia encontrar a sua Mayan. — É assim que todos se comportam por aqui — disse ele. Shirley. — Simplesmente estão acostumados.fas. Riem dos astrônomos que vêm até aqui para estudar e esperar. obrigada por confiar em mim e ter contado tudo. Deixamos o restaurante e atravessamos a estrada para o nosso "hotel". mas muitos comentam que estão extraindo minerais das montanhas. — Boa noite. Pe- guei no sono imediatamente. todas as pessoas por aqui com quem conversei têm uma história de discos voadores. porque estava um pouco assustada para me manter acordada e pensar em tudo que vinha acontecendo. David? Os ombros de David descaíram. Fitei-o nos olhos. como se um imenso peso tivesse sido removido. como se pedisse desculpa. Mayan é a razão por eu ter en- contrado tanta paz em mim. Não estava com fome. Sinto uma saudade tremenda e estou sempre voltando às montanhas na esperança de en- contrá-la. Olhei pela janela do prédio chamado COMIDA para a noite escura dos Andes. Dizem que eles nunca fizeram mal a ninguém e até fogem quando alguém se aproxima. Olhei para David através do guisado fumegante. E não entendem por que pessoas como nós ficam tão intrigadas.

David estava esperando. E um dia. Providenciara para mim pão e um pouco do nosso famoso leite quente. — Não? (Por que então era assim que eu me sentia?) David fitou-me nos olhos. É por isso que é mais seguro pa- ra eles. manter a mente a- berta. co- mo se tivesse dormido por uma semana. — Não — disse ele. muito cedo. — David.." — Thomas H. Sem ir além da analogia do que nos é conhecido. Ela disse que eu deveria ser mais inteligente. — Olhei para o céu e exatamente por cima do pico indicado apa- receu um disco voador. mas também impertinente... parece-me não apenas infundada. Mais do que is- so: mostrei-me hostil depois que ela falou. firmemente. Claro que não acreditei. ela não teve qualquer problema comigo. Pensei que ia ficar doido. tão maiores do que os dele quanto os dele são maiores que os de uma lesma. Ou que ela tinha. Das Plêiades. — E você alguma vez contestou a alegação dela de que era ex- traterrena? David riu e cuspiu um pedaço do pão. — Já que você pergunta. muito antes de qualquer pessoa por aqui estar de pé. — Está brincando? Pensei que tinha entrado num bode de um fumo errado. em escala ascendente. a verdadeira inteligência consiste em manter a mente aberta. Isso não faz com que você seja uma tola.barata. Bebemos e comemos enquanto andáva- mos. ao nascer do sol. Desse momento em diante. E sabe o que vi? — O que foi? Eu não tinha certeza se queria saber.. ou nenhum ser dotado de poderes de influenciar o curso da natureza. crédula como eu? — Eu lhe disse o começo. Huxley.. ela me instruiu a ir para a base de um dos contrafortes e ali observar um pico específico. Mayan disse que os vates entre os picos são inacessíveis por terra. — O que está lhe acontecendo é . Mas devo dizer que ela me censurou por obrigá-la a usar a técnica de "ver para crer". Olhei pelas planícies montanhosas na direção dos Picos Gela- dos no horizonte. — Ou seja. Mayan disse exatamente de onde era? — Claro.. parecia o Ho- rizonte Perdido. é fácil povoar o cosmo com entidades. David riu.. onipresença e onisciência. Foi o que fiz. — O que mais se esconde lá por cima além dos discos voadores de que os moradores locais tanto falam? — indaguei. Ensaios Sobre Algumas Questões Controvertidas Saí para o sol na manhã seguinte completamente revigorada.. mastigando um pedaço de pão. Quando ela me descreveu pela primeira vez. até che- garmos a alguma coisa praticamente indistinguível da onipotência.

. Podia me lembrar dos muitos atores e atrizes que conhecera e manifestavam seu espanto pela origem de sua inspiração quando se confrontavam com papéis que eram totalmente estranhos a tudo o que já haviam experimentado. os extraterrenos são superiores por- que compreendem o processo do domínio espiritual da vida. Esquecer? Mas como era possível esquecer uma coisa assim? Da- vid ficou me observando pensar. O que me permite compreender que a alma pode fazer a mesma coisa cada vez que reencarna. Minha mente tornou a vaguear para aquelas noites de verão ob- sedantes. então só podem ser extraterrenos. e todos parecem concordar que os objetos fazem coisas que a nossa tecnologia ainda não sabe como.. e quando éramos particularmente bons. Shirl. Até Einstein disse isso. Mas não há jeito de se dizer essas coisas sem ir até o fim. literalmente centenas de visões múltiplas. até onde podíamos saber. — Não tem qualquer problema com a reencarnação. de fontes como a Força Aé- rea. estavam além de nossa estrutura de referências.. estações de radar de rastreamento. . lembrando-nos que já passáramos emocionalmente por aqui- lo antes. pessoalmente ou por controle remoto. Portanto. pessoas que os viram no mesmo tempo e lugar jun- to com outras. a tal ponto que não podemos deixar de admitir que existe alguma coisa. Certo? — Certo.de fato espantoso.. Shirley? — Não. Era como se eu lembrasse os "sentimentos" que experimentara ao contem- plar as estrelas.. como ele di- ria. então alguém tem de estar controlando-os. Se existem os discos voadores. o milagre da inspira- ção levava-nos a alguma compreensão mais profunda. Muitas vezes baseávamos sentimentos que devíamos expressar em ocorrências de nossas próprias vidas. Para deixá-la completamente atordoada. Sentia que eram familiares.. — É uma pena que todos precisem de uma prova particular. se você foi fundo na compreensão espiritual. Talvez os atores fossem os reencenadores espirituais das expe- riências da alma. Ele me observava atentamente para verificar como eu estava ab- sorvendo o que dizia. Era tão simples as- . Há uma porção de provas externas de objetos voadores não-identificados. Contudo. por que não tentar fazer a ligação com a tecnologia superior? Mas se não lhe parece certo. em que eu ficava estendida na relva com a luneta. — Muito bem.. Ela diz que a ciência. Talvez fosse por isso que me parecesse tão fami- liar. Pelo que Mayan me disse.. a ciência realmente avançada. Quando desempenho um papel assumo o manto emocional de outra pessoa. E está ocorrendo terrivelmente depressa. não é mesmo. Como aconteceu comigo. Shir- ley..... de "mente aberta". É por isso que parece tão sufocante. E se não são pessoas da Terra.. não depois de tudo o que li sobre o assunto e o que experimentei pessoalmente. mas com uma freqüência maior tínhamos de extrair sentimentos e reações que jamais conhecêramos e. e a compreensão espi- ritual são a mesma coisa. então esqueça. havia uma tênue ressonância em nossas cons- ciências.

Peguei o gravador e apertei o botão de gravar. David sorriu. pensei. Passarinhos cantavam. com três pedras enviadas pelo chefe masai que você conheceu tão bem? Minha memória voltou ao passado. lembra-se de um cara que apareceu em sua casa. Mila- gres e maravilhas eram praticamente uma experiência cotidiana. — Quer conversar sobre Mayan? Ela disse muita coisa a seu res- peito. Entregara-me três pe- . Ou talvez fosse eu que es- tivesse sonolenta. embora possa ter criado problemas para você. virou-se de lado e fitou-me. Cerca de meia hora deve ter passado. Olhei para ele..... Pensei por um momento. sonolenta. Senti que David fazia a mesma coisa. Ela é seu problema. E recordei alguém tocando a campainha de minha casa em Encino. Verifiquei se a fita estava correndo direito e. Minha mente pulou para a Bíblia e me perguntei se Ezequiel e Moisés. — A meu respeito? Não conheço qualquer Mayan. Perguntei a David se poderíamos ficar sentados ao sol por al- gum tempo. durante a nossa longa luta através dos traumas do tempo? John. Tentei apagar tudo de minha mente e apenas "ser". Deus.. Era a- gradável sentir-se em paz. David é um espírito encarnado que acredita na mesma coisa.sim. por exemplo. deixando a sua marca nu- ma moita e depois se afastou.. eu queria ser capaz de prová-lo mais tarde para alguém. depois. eles são espíritos desencarnados que acreditam que o mundo sempre foi visi- tado por extraterrenos. o rio murmurava.. E não me causara qualquer impressão.. Ele não se identifi- cara. há muitos séculos. Encontramos um trecho coberto de relva entre as rochas da montanha e nos deitamos. pensei.. Era mais fácil naquele tempo. David? — Em primeiro lugar. A voz estava embargada. pensei. ouvi David dizer alguma coi- sa. todos acreditavam nessas coisas naquele tempo. na maior felicidade. — Como assim? — É por isso que precisamos conversar a respeito dela. Mc- Pherson e Ambres haviam dito isso. depois. Mas quem seriam "eles"? Mas que merda. em meados dos anos 60.. Oh. Não falamos nada. — Ela não é um problema. E. haviam experimentado as mesmas circunstâncias.. Um cachorro preto pequeno passou por nós. que David julgava ter passado agora com a sua Mayan. Se aquilo esta- va realmente acontecendo. David. Respiramos fundo por alguns minutos e ficamos olhando para o céu.. cerca de dois anos depois da minha viagem africana.. falei: — Pode me contar toda a história agora. há uns 10 anos. — O que disse? David suspirou. Estaria recordando um contato com o conhecimento da vida? Eu o~a qualquer outra pessoa que vivia na Terra hoje já teria experi- mentado o contato com os "ajudantes" de outros lugares celestiais.. exatamente como as pessoas por aqui. está perfeitamente claro. — Importa-se se eu gravar? — De jeito nenhum.

talvez ensinar as pes- soas a fazer a mesma coisa. Há muito mais pessoas fazendo isso do que . beligerante. significa que você deve se tor- nar uma mestra. Butão. — Mas você gosta de escrever. Isso fazia sentido? Meus outros dois livros haviam sido um re- lato pessoal de minhas viagens e pensamentos através da África. — Mas por que todo o segredo? Por que não me disse quem era durante todo esse tempo? Mesmo enquanto perguntava. poderia escrever um relato interessante e informativo a respeito de sua incursão pessoal por essas questões. que dissera serem amuletos mágicos para a saúde. pensei. — Acho que faz sentido. não é mesmo? Santo Deus!.. não tenho paciência. Shirl. Disse que eu fora encaminhado a você porque nos conhecêramos em vidas anteriores e algum dia você haveria de que- rer uma prova disso. — Quem acreditaria se eu escrevesse para publicação a respeito de tudo isso? — Ficaria surpresa. América. eu não sabia na ocasião o que estava acontecendo. E depois Mayan tinha de convencer-me. se há necessidade de prova. Terei de escrever um livro sobre tudo is- to? Eu planejava fazer isso subconscientemente? Era por isso que levava o gravador a toda parte e tomava anotações ao final de cada dia? — Ela achava que você. — Isso mesmo. Sou apenas uma aprendiz. eu já sabia a resposta. não é mesmo? O importante era entre- gar as pedras. — Numa escala mais ampla? — Isso mesmo. mesmo antes que qualquer dos dois soubesse de que se tratava.. — Como soube desse cara? — Era eu. — Mas o que está querendo dizer com isso? Não posso ensinar. E foi então que me ocorreu. política. E agora eu tenho de convencer você. mas já ouvi- ra falar de mim. Só que numa escala muito mais ampla. Fique calma. sentindo-me de alguma forma invadida. Para dizer a verdade. Deus e ex- traterrenos!? Ri da lógica absurda da situação. e entreguei as pedras.. — E o que mais? — indaguei. E o chefe lhe pedira: "Pode entregar isto a ela?" E o cara dissera que sim. O chefe masai o encontrara num safari e lhe perguntara se era da América. Pensei simplesmente "até aí". Tudo o que sabia era que o homem me dera as pedras e pedira para entregá-las a você. Ele respondera que sim e o chefe perguntara então se me conhecia. com sua propensão mental específica. Mas qual é o objetivo? O que significa tudo isso? — Em última análise.dras coloridas. Ele dissera que não. — Você? Minha voz se elevou num grito estrangulado. Como eu. — Você não estava pronta. Eu deveria agora escrever um relato sobre minhas vidas anteriores. show business e China. — Muito tempo depois.. Shirley. sabedoria e segurança. Mayan me falou a respeito. Explicou o que significava. Índia... que daria um jeito de me entregar.

Você conhece Deus. Senti um aperto no estômago e no coração. Você pode ajudar outros a compreenderem Deus através de si mesmos. estivesse tentando suprimir o medo. Shirley. Quanto mais descobria do . O homem é complexidade. — Está querendo dizer que essa é a Grande Verdade? — Exatamente. Estava interessada pelas pessoas. — Como assim? — Não se prepara para um fracasso cada vez que pisa no palco ou trabalha num filme? Eu jamais pensara a respeito dessa forma. Fiquei sentada em silêncio. A crença implica aceitação de alguma coisa desconhecida. Não seria neces- sariamente a verdade. eu continuava a ser uma personalidade pública. queria ser um rosto perdido na multidão.. Mas anseia pela compreensão. O homem se fez complexo. A idéia de ter vidas anteriores me interessava porque oferecia uma explicação de quem eu era hoje. mas nunca chegara a admiti- lo para mim mesma. Shirley. que escolheu uma profissão pública a fim de superar o seu medo de humilhação? Eu já pensara nisso muitas vezes. Todos estão motivados pelo desejo de conhecer a verdade. porque se apressou em acrescentar: — Não acha que escolheu o campo de trabalho errado se receia a humilhação pública? Ele me pegou desprevenida. Mas não posso dizer que acredito em Deus. posso assumir minha identidade pessoal e como passei a ser quem eu sou. Mas parecia-me absurdo dizer agora que eu escreveria para relatar como encontrara Deus. — David. Ansiava pelo anonimato. E conhecer a si mesmo é conhecer a Deus. estava mais interessada em fazer perguntas do que ser interrogada e sempre que me envolvia com a exposição pública da profissão mal podia esperar para que tudo terminasse. Já experimentara o terrível pavor do palco. pouco a pouco. Era verdade que eu adorava partilhar minhas aventuras através do que escrevia. pensar e escrever. partilhando o relato de como compreendeu Deus através de si mesma.imagina. Shirley. Nem mesmo tinha certeza se acreditava naquela coisa chamada Deus. ir para algum lugar. — Mas seria apenas a minha compreensão. David pareceu sentir o meu relance de medo. Eu esquecera o que já sabia. E a situação melhorara muito ultimamente... Você acredita em Deus. — Já lhe ocorreu. é que é tão simples. O problema. mas sim no que as pessoas pensariam a meu respeito. a mente em turbilhão. pela verdade por trás da complexidade. não baseado na possibilidade do meu desempenho ser bom ou mau. E aqueles que começam a compreender desejam partilhar a sua compre- ensão. — É isso mesmo. Contudo. como se lentamente. que é Deus. Shirley. ao sol. Deus é simplicidade. Vo- cê simplesmente esqueceu o que já sabe. mas David estava certo. E todos mesmo. Havia uma grande diferença. a fim de poder voltar a ser uma reclusa. — Só há uma verdade. — A verdade? Que verdade? — A verdade simples de conhecer a si mesmo.

David estaria me manipulando para escrever sobre tudo aquilo? — Pelo amor de Deus. sentia-me manipulada. Lembrei de ter dito uma vez ao meu agente de imprensa que queria parecer uma pessoa de espírito totalmente livre. percepção superior. altas vibrações.. na defensiva. Barnum.. — E então o que. paz interior. serenamente. Escrever sobre aquilo? Eu não podia sequer continuar a pensar a respeito! Sentia que o cérebro estava a pique de explodir. está pelo menos parcialmente convencida de que os discos voadores existem e também. Alcançara o limite da mente aberta. Por que não põe isso em fogo lento na sua mente. Depois se deitou. Não sentia nenhuma dessas coisas. contando apenas com a ajuda de clichês como lanternas para iluminar o caminho. assim. Shirley? Você parece ter aceitado a idéia da reencarnação. Creio que projetara uma personalidade pública tão distinta sob esse aspecto que as pessoas realmente acreditavam que eu não me importava absolutamente com o que os outros pudessem pensar. — Você está aí ou não? — Estou aqui. David soergueu-se. — David! — Minha voz era áspera. disse mesmo que essa Mayan é uma extraterrena? Pois muito bem: se você quer acreditar nisso. Ele respondeu prontamente. como se tra- vasse um diálogo interior comigo mesma a propósito da estúpida a- bertura da mente e da verdade terrível de que poderia estar inclu- ída entre os otários que nascem a cada minuto. em decorrência. por enquanto? Em fogo lento? Eu estava tentando evitar que minha mente fer- vesse: Sentia que estava me estendendo muito além do que podia ab- sorver. é pro- blema seu. como diria P. parecendo despreocupado e alheio ao que estava acontecendo. Senti o pulso acelerar e comecei a calcular quanto tempo levaria para descer das montanhas e pegar um avião para vol- tar ao mundo são que podia compreender. menos constrangida ficava com o que os outros pu- dessem pensar. David. E me senti mais do que apenas um pouco hostil. apoiado num cotovelo. frases como conhecimento interior. — E então? Falei bem alto. de barriga para baixo. como se a conversa fosse crível. a uma pessoa que alegava ter tido um relacionamento com uma extraterrena. disse agora a David: — Pensa que planejei me tornar uma personalidade pública su- postamente de "espírito livre" a fim de poder escrever impunemente tudo aquilo que você e Mayan conversaram? — É impossível. David continuou sentado. Minha mente e hostilidade estavam em disparada.. T. Era como tatear na escuridão.. David respirava calmamente. com um tom irri- tantemente paciente. Era de- mais. alguma coisa que . Talvez esse seja o carma que você escolheu pa- ra si mesmo.meu eu interior. Ao contrário. Queria ser mais do que agressiva. esclarecimento e assim por diante. Estava subitamente dominada pela desconfiança. A voz era suave. sentindo-me ridícula por estar fazendo per- guntas honestas. mas acho que tudo isso parece um monte de merda! Era mais do que eu podia agüentar. E.

Não é suficiente compreender intelectualmente o aspecto espiritual do . — Respire fundo e concentre-se nisso. Ri de novo.. Queria cutu- cá-lo com o pé. uma mistificação absurda. Mas a verdade é que ainda somos basicamente um tanto primitivos. não sei do que você está falando. — Sabe. Procure apenas continuar em seu próprio ritmo. Era justamente o que eu estava fazendo com Gerry. — Mas se já passei antes por essa suposta luta espiritual. Tornei a me ajoelhar no chão.. só de correr os olhos pelo mundo. Santo Deus!. E tente prosseguir serenamente. Soltei um grunhido. E isso a desafia a melhorar mais do que se julga capaz. A pele coçava. E sei disso muito bem. que acabou se transformando numa risada pela maneira como reduzia minha indignação cósmica a um e- xemplo pessoal. sim — insistiu David. Nós ainda estamos na Idade das Trevas. ao lado dele. O sol estava sufocante. É de sobrecarga que está sofrendo. apresentando para substituir um mon- te de sandices metafísicas. E chama a isso de progresso? — É muito curioso. — Não tenha medo. É claro que o comportamento da raça humana me parece defensável. en- tão tenho de fazer tudo de novo? — Porque há outros aspectos do progresso de sua alma que pre- cisam ser trabalhados. Você pode consegui-lo outra vez. Comecei a me sentir fisicamente desconfortável. — Tem toda razão. Mas o homem é prova- velmente apenas um animalista... — Progresso? — Eu estava gritando. por exemplo.. Assim. o tempo está se esgotando. gentilmente. Lembre-se de que está no caminho certo ou não estaria aqui. Sei que o esforço é grande. Mas o que a leva a pensar que a raça humana tem a ex- clusividade da vida no cosmo? Eu não sabia o que pensar. — Tente manter a calma — disse David finalmente. — Sei que você.os controla. Mas isso é a vida. Não. Passei pe- lo mesmo processo. Eles pensam que as nossas prioridades não passam de mistificação. Shirley. Isso explica por que agimos como agimos. quando entende. relaxe. — E lembre-se de que você já passou por essa luta em muitas vidas.. — Está se sentindo melhor? — perguntou David. — Você está destruindo tudo em que a humanidade acredita. — Mas como você pode verificar. — E. merda! Não sei. pensei. Sobre carga de tudo. Fará mais progresso assim. Sei que é uma luta gran- de. é tudo uma questão de tempo — conti- nuou David. entende depressa. não é mesmo? Está transtornada porque eu acredito em você mais do que você própria. no final das contas. Isso me fez rir. Levantei-me e comecei a andar em torno de David. — Oh. — É es- se o problema. Paciência e tolerância. queria chutá-lo. Eu não que- ria estar ali. Por que então você apregoa essas idéias de que somos me- lhores do que na realidade? — Aí está! — exclamou David não tanto com um jeito de eu-não- disse e mais como se o seu argumento estivesse confirmado.

Fiquei olhando para ele em silêncio. E essa foi. conheça todo o seu potencial. Ele sen- tou e eu imitei-o. Ele suspirou e espreguiçou-se.. E tenho uma coisa para dizer. Virei-me e fitei-o. David sacudiu os braços pelo ar. Estou me sentindo como uma idiota. E tem outra coisa. Ele parou de falar.homem. Já a escutei muitas vezes desde então.. pois você é uma parte dessa obra. ou- vindo David repetir a mesma imagem de McPherson e Gerry. Levantei os olhos para o sol. Que a fim de colher o fruto você precisa ir até a ponta do galho. ame a si mesmo e ame a obra de Deus. Outros também podem fazê-lo. Shirley. Acho que devo ser uma crédula de primeira classe. Desculpe. Ele levou a progressão de sua alma até quase a perfeição. imóvel. Está me entendendo? — De que jeito? Como Jesus Cristo ou algo parecido? — Exatamente. — Eu fui longe... Não se es- queça disso. mas me sinto tão sereno ao sol que vou até o fundo. senti David se mexer. Estava quase no fim da fita de 60 minu- tos. Parecia que acabara de despertar de um sono profundo. Suspirei interiormente e olhei para o gravador. Uma lágrima escorreu de um olho. Ele abriu os olhos. Alguma coisa no meu tom de voz deve tê-lo despertado. protegeu- os do sol. tornou a esfregar os olhos. Esse é o propósito da vida. — Há quanto tempo está deitada assim? — Há cerca de uma hora." — Dr. por um longo tempo. Ela me disse para não deixar de lhe dizer algo mais. Cada alma viva no cosmo precisa. — Em que está pensando? — perguntou David. murmurando: — Está tão quente e agradável. Você tem de vivê-lo. a mensagem de Cristo: todas as pessoas podem realizar o que ele rea- lizou.. Mas tenho a fita. — Tudo isso é inacreditável. Os extraterrenos também estão ainda aprendendo sobre si mesmos. Isso é tudo o que eles estão tentando ensi- nar. Os cientis- tas têm o dever de enfrentar esse desafio. "O fenômeno dos discos voadores é um desafio à humanidade. A voz de David soou como um murmúrio: — Mayan sempre diz: ame a Deus. Desliguei o gravador e deitei-me de cos- tas. na verdade. Ao diabo com a inteligência de mente aberta. Instituto de Aviação de Moscou Fiquei deitada ali. revelar a natureza dos discos voadores e estabelecer a verdade científica. Mas o que está faltando na Terra é o nosso aspecto espiritual.. isto é tudo que se torna neces- sário. conheça o seu potencial. David. Depois. Felix Zigel. ame ao próximo. . Minha pele parara de comichar e outra vez os raios do sol eram agradáveis. — E o que me diz dos seus extraterrenos? Eles também estão fa- zendo isso? E precisam? — Claro que sim. limpando o suor do queixo.

Observei-o atentamente.. sem qualquer receio de que viesse a afundar. Simplesmente "senti" que ela estava dizendo a verdade. despreocupada. Eu já sei no que acredito. Mas.. — Estou me referindo a tudo! Eu estava quase em lágrimas de indignação. Queria marchar para os Picos Gelados Huaytapal- lana e passar por cima. — Posso entender. — O que fazia sentido? O fato de ela ser uma pessoa das Plêia- des? — Não. E ela estava certa. David fitou-me com uma expressão triste. Isso seria real. as leis e a justiça cósmica. os braços imóveis nos lados do corpo. e ela percebeu-o e disse o que você queria acreditar. A última coisa que eu queria era renunciar a tudo isso e me tornar espiritual. ainda a fitá-lo. os "sentimentos" são tudo. Disse que minha hostilidade era quase impossível de suportar. pintado de amarelo. mulhe- res exuberantes e da minha vida em alta velocidade.. a fim de poder verificar pessoalmente o . Mas acabei tendo de admitir que fazia sentido o que ela dizia. O que você acredita é problema seu. — Está se referindo a Mayan. Nem mesmo me sentia infeliz. Queria também pular sobre as borbu- lhas laranja do Mantaro. exasperação e um sentimento muito mais profundo. Shirley. — Mas eu não queria acreditar! Já lhe disse isso. — Não quero convencê-la de coisa alguma... David parecia estar sendo sincero. estava atravessando as montanhas.. depois de algum tempo não pude mais ignorar que "sentia" cer- to o que ela dissera. Eu gostava de carros bonitos. e como posso! Também passei por tudo isso. Eu odiava o que ela estava dizendo. Fitei-o em silêncio por algum tempo. To- dos os seus ensinamentos e explicações sobre a reencarnação da vi- da. os braços caindo pela relva. Outro trem antigo. E eu não tinha como escapar. A mensagem espiritual fazia sentido. não era isso. Não vai fazer qualquer dife- rença para a minha vida. até ficar preta com o resíduo. de uma forma ou de outra. Tumultuou todas as minhas convicções e até a mi- nha sanidade por algum tempo. Mas quando se vai ao fundo. Apenas acho que deve considerar a sério a possibilidade do que estou dizendo. Isso seria re- al. David ficou atônito. Queria dançar a cada música que ouvira nas vitrolas automáti- cas peruanas. — David. Foram neces- sárias duas viagens até aqui e meses de conversa antes de me mos- trar pelo menos cortês quando Mayan tentava me dizer essas coisas. Senti vontade de pular na carga de carvão recentemente extraído e afundar. E Mayan quase desistiu de mim. Fiquei parada. Até mesmo os cientistas precisam de um "sentimento" em relação a alguma coisa antes de se empenharem em prová-la.. de medo pela possibilidade de minha raiva estar errada. Era isso que fazia sentido. como sabe que não estava apenas projetando alguma ne- cessidade que sentia no fundo do subconsciente e que se manifestou no fato de acreditar no que essa Mayan disse a respeito de si mes- ma? Talvez você precisasse acreditar. Não estava procurando por coisa algu- ma.. Está me entendendo? Sei que se pode escarne- cer dos sentimentos e tudo o mais. Depois me levantei.

A tarde já ia chegando ao fim quando voltei a me encontrar com David e sugeri: — Vamos aos banhos sulfurosos.. Além disso. medo. um conjunto total- mente diferente de perspectivas sobre a vida.. Creio também que essas unidades operam em equipes — ou enxames. Absorver um pensamento real novo. por assim dizer. Capítulo 24 "Peguem os nossos próprios corpos.. Comecei a andar. Meus pensamentos cho- calhavam ruidosamente como correntes grossas. depois. os tempos solitários em que se está crescendo. . Caminhei sozinha pelo resto do dia. esses enxames de unidades. cada um constituindo uma unidade de vida em si mesma. experimentava erupções de alegria. mas estavam todos pensando da mesma forma. apenas tempo. cheios de con- fusão. Turid. a pensar. David jamais os conhecera. como prefiro chamar — e que vivem para sempre. E. O que estava acontecendo? O que estava acon- tecendo comigo? David estaria simplesmente acreditando no que precisava acre- ditar? Meus pensamentos voltaram à Califórnia. Quando nós 'morremos'. David continuou onde estava. da realidade da justiça cósmica cármi- ca à existência da espiritualidade extraterrena. Lars e Birgitta estavam tão angustiados em suas vidas que precisavam acreditar que aquela entidade espiritual encarnada realmente os orientava? Certamente eles não pareciam angustiados..que havia no outro lado. em alguma outra forma ou ambiente. Estamos tão acostumados às coisas com que crescemos que nem sequer nos lembra- mos dos tempos de silêncio necessários. ou sem pensar realmente.. deslocam-se para algum lugar e continuam em operação. Creio que são compostos por mi- ríades e miríades de indivíduos infinitesimalmente pequenos." — Thomas Edison.. Kevin Ryerson e Cat precisavam acreditar em entidades espirituais? Sturé. apenas deixando que todas as novas experiências fossem absorvidas. O Diário e Observações Diversas de Thomas Alva Edison Tornei a sair sozinha na manhã seguinte. E talvez as pessoas sempre precisem de alguma solidão. assumir uma nova posição. tristeza e ressentimento. sem tentar definir coisa alguma... Eu precisava muito na- quele momento. como um enxame de abelhas. os tempos de exclusão do mundo. é um processo que toma e exige tempo. para se consumar. nas mesmas coisas.

como uma gigantesca bola cinzenta. Entra- mos na água. acendeu a ve- la. o poncho de lã era tão importante para mim quanto o chapéu durante o dia. — Relaxe um pouco. Senti a cabeça vibrar. Use-a em seu pulso durante todo o tempo em que estiver aqui. — Como assim? Funciona de que forma? Eu não tinha a menor idéia do que ele estava falando. Vai ajudá-la a compreender as coisas com mais clareza. sinto que os pensamentos se tornam de alguma forma amplificados. A temperatura já começava a cair quando descemos para o poço. pen- durando as roupas nos pregos nas paredes recendendo a mofo. — De que é a pulseira. Senti que não poderia afundar. que um instante depois solidificou. mesmo que quisesse. — Mayan lhe deu as pulseiras? — Deu. to- camos nas pedras cobertas de musgos sob nossos pés. Mas você sabe que o próton é a carga posi- . Era igual à pulseira que ele usava constantemente. — Em primeiro lugar — disse David — vamos repassar o que você lembra da química da escola secundária e da constituição do átomo. É difícil dizer. Tratamos de nos despir rapidamente. As águas eram úteis. Não havia qualquer dúvida sobre esses fatos. As dores muscu- lares começaram a se desvanecer só de pensar. Está tensa que nem um tambor. A lua era verda- deira. O céu estava tão claro que se podia ver a lua pairando à luz do dia. através da claridade do final de tarde. Fiquei outra vez agradavelmente surpresa com a densidade da água. Mas funciona. David? — Não sei. Agitando os braços. Estava bastante escuro. David meteu a mão no bolso e entregou-me uma pulseira do que parecia ser prata. — Está certo. — Quando uso a minha. E um pouco da minha confusão se dissipou. — Não estudei química. Shirl. Pus a pulseira. virou-a ao contrário a fim de pingar um pouco de cera derreti- da no chão de terra por cima de nós. Tem alguma coisa com o que ela chama de terceira força. Sempre soube que queria ingres- sar no show business e por isso a matéria de nada me adiantaria. Te- nho de lhe falar mais do que Mayan me ensinou. o que também era um fato. Parecia até que eu já não estava suficientemente espantada. sem entender onde ele estava querendo chegar. Vamos até a casa de banho. E me perguntei se não estaria cheia de água antes da aventura terminar. — Não há problema. que borbulhava ao nosso redor. Enquanto seguíamos. — Mas como funciona? — Não sei exatamente. Prendeu a vela na cera derre- tida. O céu era real. — Mayan me deu isso. David riscou um fósforo. O frio era penetrante. Estendi a mão para o gravador e liguei-o. David levava uma vela e eu estava com o meu gravador. de tal forma que penso com mais clare- za. quase como uma lingua- gem. À noite. Pensei em imergir na água morna sulfurosa. Talvez fosse assim que a água falava. David. É espantoso. Penso mais claramente ali e tentarei lhe transmitir o que ela me disse. — Está bem. Shirley.

Tudo o que é físico é constituído de átomos. os plane- tas.. é constituída de polari- dades equilibradas e contrastantes. — A Fonte ou "oceano". — Está bem. Tudo na criação é constituído de átomos. David assentiu. — Claro. água.. que cargas iguais se repelem. — E pode compreender. — Polaridades? — Isso mesmo. por um momento. uma força que é a or- ganizadora de toda a matéria no cosmo. enfim. — Lembro de ter lido isso. E leva a pensar se todo o universo não está numa gota d'água.. Certo? — Certo. Essa energia é o que Mayan chamou de uma Força Divina. — Foi isso o que Mayan lhe disse? — perguntei.. E que mais? — Vou dividir os componentes do átomo. Em ou- tras palavras. — Já ouvi falar disso. o elemento pensante da natureza. o Universo. — E sabe que negativo e positivo se atraem. Você sabe que um único átomo é constituído de prótons. começando a sentir uma estranha agitação na cabeça. — Claro. está bem. . elétrons e nêutrons. Organiza o átomo. — Está bem..tiva de energia e o elétron é a negativa. Engoli em seco. Shirley? Li- mite-se a escutar por enquanto e esqueça se não fizer sentido. permitin- do os movimentos do sistema planetário em miniatura. vamos com calma! Um elemento pensante? David ficou em silêncio por um momento. Polaridades de positivo e negativo. tudo unido em harmonia. Na verdade. o átomo é um sistema planetário em miniatura. os elétrons e nêutrons gi- ram em torno dos prótons relativamente da mesma forma como a Terra e outros planetas do nosso sistema giram em torno do sol. — Sabe que os elétrons giram em torno dos prótons constante- mente e em alta velocidade. elétrons e nêutrons? — Se você o diz. O rosto de David se iluminou e ele continuou: — Há uma força que funciona como o elemento coesivo. como os cientistas dizem agora. — Ei. os pêlos dos gatos. ou. — Tenha um pouco de paciência e escute até o fim. Mas está querendo dizer que é uma espécie de oceano em que tudo flutua? — Isso mesmo. — E sabe que cada uma dessas cargas encerra uma energia equi- librada. tudo. Pode-se dizer que essa Força é a suprema Fonte.. Pode falar o que bem quiser. yin e yctng. — Deixe-me falar sobre isso mais tarde. "quarks". como você diz.. Então essa Fonte é o elemento "pensante" da natureza. areia. Esse oceano mantém os átomos juntos. as galáxias. que essa Fonte é o ele- mento coesivo que mantém juntos os prótons. Acho sensacional que o átomo seja de certa forma o microcosmo de um sistema planetário.. olhando para a chama da vela. . — Claro. árvores.. planetas. galáxias.

. A alma poderia ser feita de uma força-energia tão real quanto a física? Era por isso que a alma vivia infinitamente? Mi- nha mente estava em turbilhão. no que me diz respeito. — Mayan disse que é justamente isso o que está errado em nossa ciência. Por mais que re- agisse. se é que existe. mas que é a mais im- portante. essa espécie de energia. sentia-me tonta. Só sabemos que existe porque tem resultados físicos. — Onde está querendo chegar. O que David me transmitiu como as informações de Mayan desencadeou o reconhecimento em mim. David riu. nossas almas são feitas dessa energia-Fonte. Sabem que não é matéria... As palavras de David vieram em meu socorro: — Nossa ciência não reconhece a existência da alma. Nossos corpos são constituídos por átomos. É por isso que não sabemos realmente o que é a eletricidade.. É uma força subatômica. Sentia que estava me lembrando de alguma coisa. Vou lhe dizer agora a parte difícil de entender. Mas é uma espécie de força essencialmente di- ferente das forças físicas atômica e molecular que abrangem o cor- po.. A alma não pode ser provada. mas não podem medi-la porque não é mole- cular. Dizem que há uma energia que povoa o espaço interatômico. David? Quem diz que essa Fonte. Portanto. mas não sabem o que é. em algum lu- gar no fundo da minha mente. Se e quan- do a ciência chegar a uma definição da Fonte. Essa energia é a energia que constitui a alma. mas sim unidade de energia. Senti que era verdade o que David . É parte de cada célula. a energia inteligente que organiza a vida. especificamente? — Mayan diz que é a energia subatômica que constitui a Fonte.. um lugar em que jamais penetrava.. Mas não tente me vender a mecânica pela fé. aquilo me parecia real. Não posso expli- car. a Fonte. a esta altura dos aconteci- mentos. não pode reconhecer a constituição científica da Fonte.. e é o que fazemos pois não há qualquer prova. parte de uma quarta dimensão. — Por quê? Será que não percebe como essa pressuposição é co- lossal. Senti que um suor nervoso começava a escorrer do meu couro ca- beludo.. estará reconhecendo a espiritualidade como uma realidade física. é nós e tudo o que existe. Até eles chamam-na de elemento coesivo do átomo. é neces- sariamente a alma? Pode ser qualquer coisa. Portanto. dando o nome de "gluon". Alguns dos nossos cientistas desconfiam que essa energia existe. Não admite a existência de forças que parecem estar no reino espiritual. está em nós. não é molecular. Se temos de aceitar a sua existência básica pela fé. é o que chamamos "Deus".. Sendo assim. se sabemos ou não de que é constituída a alma. Eu suava profusamente agora. absolutamente qualquer coisa. — Não me surpreende. E me parece que não faz a menor diferença. como um foco repentino em algo familiar a que se estava olhando sem ver. espaço ou tempo. parte da DNA. então qual é o sentido de dividir seus componentes? Por que não aceitar a composição como uma questão de fé? Por que sequer levantar indagações sobre a mecânica da coisa? A mecânica só tem sentido porque pode ser provada. Não sei por quê. — Mas você acredita mesmo que a alma é uma força física? — Claro que sim. não precisa ser provada.

. Sen- tia que estava voando literalmente.. A chama da vela lentamente se fundiu no espaço da minha mente. Sentia a cabeça estonteada. Até mesmo os nossos conceitos religiosos da alma estavam baseados essencialmente em imagens fí- sicas. cada vez mais alto. E está em Nós. mente ou alma. A energia espiritual vive para sempre. Possui o seu livre- arbítrio e quando morre o corpo que a encerra simplesmente se in- dividualiza.. Pensei como era arrogante imaginar Deus como um ser humano com uma forma física como a nossa. E disse. Não tinha braços. apenas transfor- mada. A forma física morre. Atravessou o teto e pairou acima do rio.. E a ciência não podia admitir a possibilidade de que uma forma espiritual pudesse existir concretamente. Olhei para baixo e o vi. queria descansar. Cruzei os braços na cintura. — Está entendendo agora? — acrescentou David.estava dizendo. que é energia espiri- tual. reconhecendo o que . As propriedades moleculares são mais fáceis de se descobrir do que as unidades de energia. voar não era a palavra certa. flutuar para fora. em voz alta. Mantive-me em silêncio. Olhei para a chama tremeluzente da vela. Essa Fonte povoa e organiza toda a vida. Depois. Daí a vida depois da morte. a paisagem lá embaixo. sem qualquer detrito. até que podia contemplar as montanhas. ao lado. portanto. Tornei a me contrair. não tinha corpo. em algum tempo. — Certo — disse David. Aci- ma de tudo. é a combinação da estrutura molecular. Não era tanto a estrutura. Estava consciente de que o corpo permanecia na água. até tomar a sua decisão cármica sobre a nova forma em que irá se alojar. Senti outra vez que eu me tornava a própria chama. Senti-me fluir para o espaço. não. antes. — Tudo é energia. Meu espírito.. David estava. — Quando Cristo disse que Deus está em toda parte — continuou David — de certa forma estava sendo literal. porque já conhecera tudo em algum lugar. além e co- mo parte da vida que conhecemos. É o começo e o fim. Uma espécie de bílis subiu-me pela garganta. Era físico. Tinha a sensação física de que um tú- nel se abria em minha mente. povoá-lo. o que quer que fosse. Não era de admirar que negássemos o espírito.. que é matéria física. como se recitasse uma lição de física da escola secundária: — A energia não pode ser criada ou destruída. Não havia realmente nada para dizer. saindo do corpo e su- bindo. Não podia sentir como pensamen- to. É o Deus da Criação.. — É isso.. O que ele estava que- rendo dizer era que essa energia espiritual orientadora da vida está por toda parte.. Daí o que chamamos de reencarnação. ao crepúsculo. Queria não pensar. A vida. E a al- ma é um acúmulo de unidades de energia. Daí a vida antes do nascimento. não tinha pernas. e a Fonte. limpei o suor do rosto. criado à nossa imagem. Respirei fundo. Não podia falar. ou melhor. gentilmente. Foi crescendo como uma caverna de es- paço livre. Queria pensar. não tinha forma física. flutuar parecia uma pala- vra mais apropriada. foi subindo pelo espaço. Fiquei olhando fixamente para ele. flutuar cada vez mais alto. mas o conhecimento incon- testável de uma percepção que existe fora. era mais gentil do que isso. Alfa e ômega.. Tornei-me o espaço em minha mente. Mas a ciência só tra- ta com o que pode ver e provar.

Faço viagens por toda parte. E ligado ao meu corpo havia um cordão prateado muito fino... Não podia vê-la. Meu corpo estava confortável... desajeitado. — Está querendo dizer que eu me projetei astralmente.. enquanto você passeava. Bem devagar. Eu fiz isso esta manhã. Comecei a perceber ondas de conexões de energia e padrões ondulantes de energia de pensamento.. Mas era certo que sentia duas formas. Minha visão provinha de alguma espécie de olho espiritual. a sensação das ondas de pensamentos ondulantes desapa- receu por cima de mim. Creio que estava experimentando a separação. Já podia perceber a curvatura da Terra. Estava consciente de que não queria me ele- var para muito longe do meu corpo. que permanecia preso ao corpo. a escuridão no outro lado do globo.. através do espa- ço. apenas flutuava gentilmente. Estava consciente. totalmente elástico. Sentia-me contente por estar de volta. Pa- rei o vôo no espaço. Poupo a despesa de combustível. ainda na água. Sentia-me indiscutivelmente li- gada ao corpo. descendo. e sua alma deixou o corpo. Experimentando as duas entidades. — Da- . Era a sensação de uma nova dimensão de percepção.. Não po- dia descrever para mim. Estava tão consciente do que sentia que naqueles momentos compreendi como meu corpo físico era irrelevan- te. Não era como ver com os olhos reais. Faiscava no ar. O cordão prateado não estava esticado. ver. flutuando de volta à terra. fisicamente. Eu subia cada vez mais alto. da energia vibracional ao meu re- dor. mas sabia que haveria de querer sair novamen- te. Orientei-me de volta ao meu corpo. a forma do corpo lá embaixo e a forma do espírito que se elevava. Observei o cordão prateado ligado ao meu corpo. Parecia ilimitado em comprimento... mas também o sentia restritivo.. Sabia que estava ali. provar ou tocar. familiar. conscientemente. Eu es- tava consciente de tudo. Isso é tudo. Estava consciente até de que não queria me elevar ainda mais. David? — Exatamente. Fui descendo... Já lera a res- peito na literatura metafísica. enquanto me elevava. As vibrações de energia se desva- neceram . cheirar. Percebe agora que a compreensão é um ato físico? O que você sentiu foi sua alma.. descendo. gentilmente. mas sa- bia também que meu corpo estava lá embaixo Era aquilo que todas as pessoas entrevistadas por Elizabeth Kubler-Ross haviam experimentado? Minha energia espiritual se se- parara da forma física? Eu estaria flutuando como a minha alma? Estava consciente das minhas indagações enquanto me elevava li- vremente acima da Terra.. suave. O espaço cercando o meu espírito era confortante. Não queria subir mais. incômodo. Estava em dois lugares ao mesmo tempo e aceitava isso integralmente. num contato suave. lentamente. Não era um sonho. Não podia compreender o que acontecera.vira durante o dia. Mas era evidente que ele estava deliciado. mas experimentava um novo senso de "sentir". tornei a me fundir com o meu corpo. que não tinha qualquer relação com ouvir.. imagi- nando até que ponto poderia ir sem que o cordão arrebentasse. Tentei explicar a Da- vid e ele disse: — Sei como é. puro. e muito mais além disso. sempre preso ao meu corpo.

Não podia voltar a um quarto aconche- gante ou me refestelar numa banheira cheia de água quente. — No mundo astral. Queria mais leite quen- te. Mas quando se volta ao corpo e se desperta. porque os mesmos problemas continuariam. Um manto de serenidade envolveu-me enquanto tomávamos o leite quente e comíamos o guisado. flutuando e subindo para o mundo astral? — Isso mesmo. peguei as roupas e me vesti ra- pidamente. Eu tinha um lampião de querosene que desprendia um calor gaso- so. sentindo que os dentes começavam a chocalhar. entremeada de notícias sobre os distúrbios cada vez maiores em Huancayo. como se eu tivesse acabado de me formar ou algo pa- recido. Alguma coisa como sonhar. Já estava escuro quando atravessamos a estrada de volta ao nosso "hotel". — Acho que seria melhor sair da água — murmurei. numa emergência.vid sorriu. Tropeçamos em alguns pedregulhos. mas posso lhe garantir que o princípio é o mesmo da proje- ção astral. As pedras impediam que as tropas governamentais lá chegassem. David abraçou- me com força. por mais angustiante que pudesse ser. as pessoas não tinham condições de viver. em protesto contra a alta do custo de vida. David explicou que os manifestantes usavam a linha de pedregulhos na estrada como uma técnica para evitar o tráfego para Huancayo. condicionadas. como uma artista do vaudeville. Mesmo ali.. porque os salários não condiziam com os preços. É realmente muito simples. por um golpe de estado ou de outra forma. alguma coisa familiar.. estavam trans- tornadas. David comentou que provavelmente haveria uma mudan- ça no governo em breve. — Está certo. Lá fora. O chão frio de terra recendia a mofo. nos Andes.. A única diferença é que o cordão prateado arre- benta quando se morre. em ondas curtas. pelas montanhas. a alma simplesmente se eleva do corpo. mas não fora um sonho. Fora mais como uma nova dimensão. às pressas.. Aconchegando-me no poncho. Esfreguei a pele até formigar. Só po- dia seguir em frente. não é sempre que se lembra de onde se esteve. — É isso o que acontece quando se morre. isto é. com a mulher desdentada e as crian- ças. Mas pelo menos havia algum calor no quarto quando entrei e desabei na cama. Seria necessário suportar um desconforto básico a fim de aprender as coisas bási- . O locutor disse que eram os motins da "inflação". ligado a todo volume.. pensei que estaria muito mais a- berta a aprender se estivesse mais confortável. O que experimentara tivera uma característica de sonho. Mas provavelmente não faria a menor diferença. to- das as minhas percepções temporais. cujos 100 mil habitantes já estavam sujeitos a um toque de recolher às nove horas da noite. um tanto fedorento. As pessoas jogavam pedras nas vitrines. Comecei a tremer ligeiramente na água. Não sei dizer especificamente como é morrer. Todas as minhas percepções estavam pelo avesso.. Minhas novas percepções estavam se tornando mais clara- mente simples. a cerca de uma hora de distância. pode-se ir a qualquer lugar que se quiser e também conhecer todas as espécies de almas. Vamos tomar um leite e comer alguma coisa. só que não há corpo para se voltar. A partida de futebol em Lima era transmitida pelo rádio. O corpo não pode mais manter a força vital.

com todos os seus sonhos. que- rendo sentir.. a agonia familiar de buscar por propósito e razão. a pró- . ocasionalmen- te. Meu cérebro turbilhonava. — Foi você quem me meteu nisto — murmurei. tocar e experimentar tudo o que podia. os porcos grunhiam. simplesmente porque era familiar? Poderia novamente relaxar na convicção de que a vida e a realidade eram simplesmente o que eu podia ver. — E agora diz que eu o estou mantendo acordado. E talvez nos encontremos no plano astral. — Em quê? — No seu sonho dourado. Fiquei olhando para o filamento prateado do lampião de querosene até que meus olhos doíam. até a última. meus medos. — Concentre-se. de cuja realidade não duvidamos somente porque não sabemos da outra vida mais real? Nossa vida é apenas um dos sonhos daquela vida mais real e assim é.. tocar e ouvir? Que a morte era a morte e simplesmente o fim? Eu queria voltar ao sentimento "seguro" de que nada merecia fé sem prova? Ouvi uma batida de leve na parede que separava o meu quarto do de David. Queria me abandonar. Shirley. — Tente dormir. Você está precisando. ciúmes e lu- tas conduzindo para o que fosse verdade na realidade? Ansiava em ter de volta tudo o que me fazia infeliz ou extática.. E isso era mais difícil do que qualquer outra coisa. Não podia me imaginar sem estar envolvida na luta e confusão cotidiana. saltava.. O si- lêncio das montanhas rochosas me envolvia. rastejava em torno de si mesmo. mas como? De que forma posso dormir quando sei que vou viver um milhão de anos? Não tenho certeza se sequer gosto disto. me esconder e esquecer tudo o que experimentara até aquele momento? Fora uma pessoa objetiva por toda a vida. do nascimento à morte. lembra-se? — Lembro. interminavelmente.cas? — Durma bem — disse David. toda a nossa vida. — Relaxe. Por acaso estava querendo correr. — Está certo. Capítulo 25 ". Ele piscou-me e se retirou. Só que eu não me lembrava. não é por sua vez também um sonho. — Relaxe. Lá fora. — David suspirou alto e acrescentou.. Mas se- rá que eu queria realmente de volta a minha vida antiga... Eu me sentia exausta. Ri também. com uma risada na voz: — Posso sentir o seu cérebro e está me mantendo acordado.. olhando para a pa- rede cinzenta junto à minha cabeça. Não podia pensar em qualquer coisa que fosse o meu sonho dourado. que tomamos como a vida real.

Poderia agora voltar ao meu mundo antigo? Seria duas pessoas? E. David me observava passar pelo turbilhão emocional com uma se- rena compreensão. lu- cros. voltar à América. Fi- camos olhando para o céu por cerca de uma hora. — Tive de fazer a mesma coisa — comentou ele um dia. as roupas e provavelmente os pés tam- bém. Eram coisas a que estava acostumada.. David me acompa- nhava às vezes. Se eu pensava estar aquecida. os eventos. toda a pressa sem qualquer propó- sito aparente. Observava a mulher desdentada lavando as roupas a pi- soteá-las. Parecia bastante quente para se poder re- laxar. Era isso que eu queria fazer com a minha vida. a vida de Deus.. até mesmo da União Soviética. de que não gostara muito. voltar à familiaridade do meu antigo mundo. novas modas. Provavelmente passara por aquela versão de drenagem do cérebro por mais de uma vez. Mas também não queria mais sentir-me irrealizada. filmes. As estrelas pareciam apenas meio metro acima de nossas cabe- ças. E não compreendia por que não podia me lembrar. então ficava aquecida.. competição. sucessos. Tinha no rosto uma expressão ansiosa. humor negro. Shirley.. depois do guisado. outras não.pria vida real. Havia ocasiões em que eu queria voltar para casa. Deitamos por cima. notícias. — Apenas conheça a si mes- ma. mas aquela grandiosidade fazia com que o frio parecesse ridículo. Uma noite. Mas a palha é bem quente quando nos enterramos fundo... e em si mesma está o universo. Estremeci um pouco. romance irrealista. fra- cassos.. — Vamos experimentar. Tinha o hábito curioso de sentir saudade de cada país que já visitara. TV a cores e sucesso. Não era justamente essa a lição? Eu era todas as pessoas que já vive- ra. a olhar para uma margarida." — Leon Tolstoi. Perguntei- me em quantos países teria vivido nas minhas outras vidas. trabalho árduo. eu não seria mais de uma pessoa? Parei de repente e soltei uma risada ao pensar nisso. Se estiver muito frio. por trás do nosso "hotel". com mais palha ao redor. A comida nos deixara aqueci- dos e com uma sensação de reforço contra o frio. podere- mos entrar. Cartas Passei os dias seguintes andando e pensando. pisoteá-la até que ficasse limpa. os relacionamentos con- flituosos. Jogamos palha dentro. David contemplou o céu.. Com uma pá de um dos trabalhadores que mastigavam coca. artes. ele me perguntou se não gostaria de contemplar o céu por algum tempo. Eu sentia falta de tudo isso. sentado numa pedra.. abri- mos um buraco retangular relativamente fundo na terra macia. com seu envolvimento vertiginoso.. de qualquer forma. Fiquei imaginando como me sentiria em relação ao Peru quando fosse embora. Ficavam limpas. Sobrevivera em sua confusão tumul- tuada e sentia agora saudade. . Alguma centelha em mim era sempre ateada quando ia a um no- vo lugar e geralmente me sentia obcecada quando partia. David estava em silêncio ao meu lado.

realisticamente ou de qual- quer outra forma. Para não ser realmente livre e expansiva. Agora. envolventes. Tor- navam a vida impossível de se viver. meu condicionamento e contradições de jamais esquecer que era só minha a opção de alcançar uma nova liberdade e um novo pro- cesso de aprendizado. Quando meu conflito se aquietava. David. Mas David ajudou-me a compreender os meus próprios sentimentos. atraves- sando os trigais. porque as noções românticas eram impossíveis de se manter. ao sol do fim de tarde. E pouco depois adormecemos. depois. Tal conceito sem- pre fora estranho a tudo que eu já imaginara. Era a minha maneira de programar o relacionamento. Compramos iogurte na beira da estrada. Despertamos com o nascer do sol e passe- amos pelas sombras do amanhecer durante duas horas. mas tam- bém sabendo que. E quando tirei um cochilo. sentia-me relativamente resignada. ondulando sobre e ao meu redor. que exigia que não apenas anulasse esses negativos. eu criava uma teia de suave segurança em torno de mim mesma e do homem em minha vida. — Estou contente por ter vindo até aqui.. senti que a mente e o coração eram como ondas suaves de veludo líquido. protetores. Assim. teria de pagar em meu próprio carma mais tarde. O nós.. As noções românticas faziam isso. En- quanto conversávamos. a fim de não poder dar certo. Sentados ao sol. de casulo. Sentáva- mos e contemplávamos o sol nascer e se pôr. En- tramos no rio gelado. era melhor começar a trabalhar logo de uma vez. Corremos e pulamos. portanto. E mais tarde. Se os discos voadores apareceram. eu falava com David. obsessão sexual e dúvida eram partes do ser humano. E. andamos mais um pouco. Descobri-me a pensar em Gerry de uma maneira diferente. que me lembrava de examinar os mo- tivos. estendida na relva quente. fui compreendendo lentamente que sempre usa- ra meus relacionamentos com os homens. su- bindo e descendo as encostas das montanhas. ao longo do Rio Manta- ro. olhei para David. jogamos a água cor de laranja um no outro. Obrigada. Eu chegara a um ponto em que aceitava a permanência dessas emo- ções. Eu me sentia totalmente presente. enquanto comíamos o pão e tomávamos o leite quente. Comecei a sentir (mais do que pensar a respeito) uma nova ma- neira de encarar a vida e a mim mesma. David e eu andávamos por quilômetros todos os dias. De tarde. foi irrelevante para nós.. estava me desfa- zendo da resignação e me aventurando a um novo tipo de pensamento- vida. Pensei em minha vida e nos relacionamentos que tinha. ciúme. Quase não fa- lamos. se não o fizesse. relaxados. eu continuaria com isso pela eternidade. em nome do amor. Estava protegendo a mim mesma de meu próprio potencial. materialismo. percorrendo as margens do Rio Mantaro. Como minha vida aparentemente não terminaria quando morresse.. Era como se estivesse re- nunciando a um ego antigo. como um meio para me conter. no alto de uma colina ou nas águas . fora mais impor- tante do que o eu. Um ego que acreditara que culpa. Lembrei da súbita revelação de Gerry um dia. a conversa foi sobre a tranqüilidade de se saber que nin- guém ou nada jamais morre. quando dissera que eu o romantizara a tal ponto que ele não poderia possivelmente corresponder.

terra e amor limi- tado. especialmente as mulheres. não era uma coisa nociva. Eu podia senti-lo em tudo que pensava. o negativo era a maneira como se usava e o propósito como se usa- va. E jamais se che- gará a isso por outro caminho que não o próprio esforço. David voltava constantemente às suas conversas com Mayan. mas isso não corresponde à ver- dade.borbulhantes. Estávamos nos Andes há duas semanas e meia. A cada renascimento e reflexão na vida posterior. Dizer que meu ponto de vista fora alterado era óbvio. Ela falara uma vez na necessidade de todas as mulheres a- creditarem em si mesmas como mulheres. particularmente para si mesmas. ela citara o sol como uma fonte ilimitada de e- nergia que deveríamos aprender a acumular e utilizar. basta apenas que eu possa manter tu- do isso quando voltar à terra! E especulava se o meu novo ponto de . dissera ela. As almas dos seres humanos. o que ele repetiu com uma expressão tranqüila. Levava muito a sério tudo o que Mayan dissera. a tal ponto que a tecnologia se tornara totalmente ameaçadora à vida. E ela dissera ainda que a progressão de cada alma indivi- dual afeta a mecânica e o movimento de todo o cosmo. a ci- ência. a necessidade de se senti- rem seguras nisso. Na verda- de. Agora. estão acor- rentadas à terra através dos confortos do lar. Precisávamos desmontar nossas usinas de fissão nuclear e concentrar os recursos de pesquisa na solução dos pro- blemas dos perigosos desperdícios tecnológicos de todos os tipos. transcendendo aos limites que nos eram impostos por vidas de pensamento estruturado. e no valor dessa única alma viva estava o valor de todo o cosmo. Mas ela dissera que a ciência possuía uma tecnologia tão a- vançada na Terra que se despojaria de sua própria capacidade de controlá-la. Mayan ressaltara continuamente que em todo o cosmo nada tinha um valor tão grande quanto uma única alma viva. quer possamos ou não per- cebê-lo. que pode pa- recer que não estamos progredindo. Mayan comentara que o homem tem o hábito de reduzir sua com- preensão às percepções da própria mente.. — As mulheres têm o direito. Ela dissera que a humanidade segue uma projeção em espiral ascendente. de serem ainda mais independentes e livres — dissera Mayan.. Sentia que meu potencial esta- va se abrindo. pensei. Assim. até se aprender a romper esses gri- lhões por um conhecimento superior. A tecnologia em si mesma. que nos é difícil romper as estruturas de referência e permitir que nossas imaginações efe- tuem saltos quantitativos para outras dimensões. — Nenhuma sociedade pode funcionar demo- craticamente até que as mulheres sejam consideradas iguais sob to- dos os aspectos. Como exemplo... através da tecnologia.. Continuarão a sofrer. porque cada alma individual é tão importante assim. Mayan descrevera a ciência como a criada de Deus. só vale a pena aquilo que é conquistado pelo próprio esforço. serviria tanto ao homem como à Ter- ra. mesmo com a independência que já alcançaram nos Estados Unidos.. Parecia dois anos e meio. Ela lembrara a David que as mulheres são mais espertas do que os homens. Em outra conversa. a humani- dade se descobre num plano mais elevado.

o racismo voltará a ser um assunto da maior im- portância. não houve mortos. Tinha dúvidas se ela venceria ou se deveria permanecer na Câmara dos De- putados. Na feira aos domingos. Shirley. Ela deve- ria estar lançando agora a sua campanha para a prefeitura. Não vimos quaisquer distúrbios. Continuávamos a ouvir as pessoas nas lojas e restaurantes a falarem de discos voadores. Com tudo isso. ajeitou-a na orelha e saiu para comprar um jornal em espanhol. Como acontece em toda parte. Eu deveria partir de volta aos Estados Unidos. Comía- mos feijão e arroz. Pareciam estar em chamas em determinadas ocasiões. mas havia guardas por toda parte. Pequenos gravado- res eram vendidos a 450 dólares. Estávamos sentados num café no meu último dia nos Andes. Quando eu fazia compras nos pequenos mercados. percorrendo às vezes centenas de quilômetros. Olhando para os Picos Gelados. Os preços de outros aparelhos e- létricos seriam exorbitantes mesmo para uma economia próspera. em Ataura. descrevendo grandes espaçonaves em formato de charuto. apareciam pessoas de toda parte. Pensei no mesmo instante em minha amiga Bella Abzug. Ou se viam formações de discos voadores por cima. não era de admirar que houvesse rebeldes incipientes por toda parte. a fim de ven- der os artigos mais diversos. David levantou-se. Ela perdera a eleição para o Senado por uma diferença in- ferior a meio por cento e muitos estavam convencidos de que era a mais forte candidata à prefeitura. "com o céu se iluminando". quase sempre universitá- rios em excursões pelos Andes. canetas e simplesmente para contemplarmos as multidões. Encontravam-se poucos americanos. Quase todos tinham uma história sobre os Picos Gelados de Hu- aytapallana. e muitas pessoas se lançaram às "compras de graça". . os le- gumes e frutas não eram frescos e os preços absurdamente altos. Percebi que seu rosto murchava ao ler as notícias na primeira pá- gina. ferido ou qualquer outra coi- sa? David leu mais alguma coisa da notícia. do aeroporto de Lima. às seis horas da manhã seguinte. Uma única maçã custava o equivalente a 59 cents. David me traduzia tudo. — Compras de graça? — Saquê. — Houve um grande blackout na cidade de Nova York. E todos que já tinham visto os objetos voadores não-identificados estavam convencidos de que pertenciam a seres do espaço exterior.vista também mudaria a minha vida. Parecia que cada pessoa já tivera uma experiência com disco voador. porque a maioria dos saqueadores era de pretos. Eu não me importava se as cebolas por cima de tudo me deixavam ou não com azia. mas apenas respeito. Os preços eram astronômicos e os salários eram baixos. papel. — Santo Deus! Alguém foi morto. — Não. O sistema simplesmente desmoronou. de antigas vitrolas a cabras. Parecia não haver muito medo nas testemunhas desses fa- tos. pegou uma margarida no vaso que estava na mesa. Fazíamos viagens constantes a Ataura para comprar pilhas para o gravador. das quais saíam os discos ou então apenas os discos. Haverá agora um grande clamor por mais lei e ordem.

Creio que se pode dizer que as pessoas que não gostam de Bella são as pessoas de quem eu não gosto. Historiadores e estudiosos de sânscrito do mundo inteiro já confirmaram que os textos são genuínos.. espantada. Ele disse que gostaria de falar com a mãe dela. na encosta da montanha. Mas entra em transe e a escrita automática começa a fluir a- través de seus dedos. David mastigou a margarida. bastando que ajude às pessoas. conscientemente não sabe ler ou escre- ver. Cumprimentou a David com um abraço e segurou-me pelo braço. Ela diz que não tem qualquer controle sobre a coisa. só que ele era analfabeto. A gente sempre sabe em que ponto se está com Bella. de estuque branco. Shirley. Ela é conhecida como uma das mais renomadas co- nhecedoras de sânscrito. — Quer perguntar a alguém? — Como assim? — Há uma mulher por aqui que é uma psíquica famosa. Não sei se a ala liberal do Partido Democrata em Nova York vai se di- vidir novamente ou se deixarão que ela vença desta vez. da típica classe média peruana. com uma mesinha . — Está querendo dizer que alguma espécie de voz interior a inspira a escrever coisas de que ela nada sabe? — Isso mesmo. David guiou o carro para uma casa nos arredores da cidade. a escrever longas passagens de ensinamentos es- pirituais. — Também gosto dela. E ela se descobre. — Sânscrito? — repeti. Algo parecido com a maneira pela qual Maomé escreveu o Corão. — O que uma peruana nos An- des está fazendo com sânscrito? — Ela também não compreende — explicou David. os cabelos exibiam os resquícios de uma permanente antiga. se ganhasse a eleição.. Acenei com a cabeça. — E esses escritos já foram verificados? — Claro. mesmo no escuro. Ficamos esperando por Maria num vestíbulo limpo e espartano. conduzindo-nos a uma sala de estar bem cuidada. pensando na forte personalidade de Bella e como eu poderia ajudá-la na campanha. — Nunca teve qualquer aula de sânscrito. Quando ela apareceu. Contei a David o que estava pensando. mas ninguém entende como. Havia flores silvestres ao redor. Foi fan- tástica comigo. numa língua que ela não conhece. informando que a mãe passara a manhã inteira a trabalhar em seus textos de sânscrito. — Por que não? Bem que eu posso descobrir o que vou enfrentar quando voltar a Nova York. Ela diz que não quer compreender. Era modesta. Domina-a nas horas mais inesperadas. fiquei impressionada ao constatar que era uma mulher feia. A moça assentiu. Uma moça abriu a porta e cumprimentou David como se já o co- nhecesse. Vamos perguntar a ela sobre Bella. O rosto era franco e amistoso. Usava um vestido estampado e sapatos surrados com os calcanhares cambaios. como gostava de Bella e como esperava que ela fosse eficiente. — Eu gostaria muito de saber se Bella vai vencer. se estivesse em Nova York. David.

— Porque preciso tocar as suas vibrações de energia. mas não consegue perceber claramente o caminho para ficar com você. não a vejo ganhando a competição. ao invés de perguntas. Um homem calvo. Tirei o colar de diamantes que usara durante as filmagens de Momento de Decisão e que estava sempre comigo desde então. Não sei quem está descrevendo. Vejo no lugar dela um homem calvo. Pisquei aturdida. — Ele olha para a neve branca e compreende que é impossível para vocês ficarem juntos.. — Em que posso ajudar? — perguntou ela. Tor- nei a assentir. alguma coisa não está se ajustan- do. — Não. Maria estava fazendo declarações. Fiquei em silêncio por um momento. Maria ajeitou o colar na mão direita. que ninguém ainda considerou. Eu não queria mais falar a respeito de mim mesma.. — Tem certeza? — perguntei. — Sua mulher não vai vencer. Ela falava apenas espanhol. será o vitorioso. Ela estendeu a mão.. mostrando o mundo do balé (Momento de Decisão ainda não fora lan- çado). Senti uma gota de suor me escorrer pela barriga e tratei de mudar de assunto. — Também vejo um homem de pé junto a uma janela — acrescentou Maria. pedindo: — Posso segurar alguma coisa que você esteja sempre usando? — Por quê? — perguntei. — Você é uma boa amiga da mulher em questão — disse ela. Era evidente que Maria nada sabia a res- peito da política de Nova York e estava se manifestando através de imagens. que David traduziu. de dedos compridos. Olhei para David em confusão. fechou os olhos e pare- ceu "sentir" as suas vibrações. — Ele tem pensado muito a respeito. Não tinha a menor idéia de quem ela podia estar falando. — Essa pessoa ainda não se manifestou. — Deve haver algum engano. . Perguntei sobre filmes que poderia fazer.baixa de tampo de vidro e móveis da sucursal de Lima da Sears. Ela respondeu que eu já fizera um bom filme. David olhou para mim. que ganharia prêmios e era muito bonito. tossi baixinho. Assim. — O que me diz de Bella? Maria fitou-me com olhos tristes e redondos. — E ela está numa competição para conquistar uma posição de liderança na sua cidade de Nova York. Limitei-me a assentir. de dedos compridos. Nem mesmo participará da disputa. Repassei mais uma vez os antecedentes de Bella e David tra- duziu para Maria. Ro- ebuck. Espero que compreenda o que estou dizendo. e conheço todas as pessoas que já apre- sentaram sua candidatura.. — Quer perguntar sobre Bella? — Claro.

Cada palavra que David dizia a- gora assumia um significado oculto. outros mundos. espírito. Pois eu estava. Prendeu-me o co- lar no pescoço e disse que ficaria feliz em me ver de novo. Eu estava transtornada com o que ela dissera. Mas ele dissera também que minha credibilidade não seria afetada se as pessoas acreditassem que eu estava sendo sincera.. Justiça Cósmica. Quando chegamos.. Espere para ver o que vai acontecer. principalmente porque ela parecera tão segura. Mas tinha um horrível senti- mento de indefinição sobre o que estava sendo sincera. Regra Áurea. Há 10 anos me procurara como um estranho e depois desaparecera. ao que parecia. separados por mundos mas dizendo a mesma coisa.. as liga- ções contínuas entre Deus. Mas tenho de admitir que isso raramente acontece. as dezenas de montanheses para as quais os discos voadores eram uma coisa comam. se assim o desejássemos.. Mas o que eu ia fazer com tudo aquilo? Alguém acreditaria em mim se escrevesse a res- peito? Teria sido por isso que David entrara em minha vida? Ele dissera que eu seria capaz de me arriscar à humilhação se realmen- te acreditasse no que aprendera.. Tentei juntar tudo: as sessões com Ambres. Jesus. que transformava a pequena cidade nas montanhas num lamaçal. Eu não era capaz de pensar em alguma coisa para dizer. Pensei em tudo o que aprendera por causa de David. Shirley. Continuávamos a seguir para Llocllapampa.. Agradeci. apesar de suas histórias acabarem no National Enquirer? Não.. Pensei em arrumar minhas coisas bem depressa... quem quer que fosse. an- tes de mais nada? Nada tinha a ganhar por me conhecer.. esclarecimento espiritual. "deuses" que se apresentavam em carruagens de fogo. Ela tinha obviamente outras coisas a fa- zer. civilizações avançadas. que não fora um mero acaso. a aven- tura maravilhosa daquela Mayan. deixando-me as pedras do chefe masai para lembrar a nós dois. Por que ele me aparecera.. amor. David manteve-se em silêncio e respeitei minha relutância em interromper seus pensamentos. isso seria demais. máquinas voadoras. se eu quisesse. McPherson e John. Ele estremeceu ligeiramente e gesticulou para o carro.. David ligou o car- ro e seguimos para Llocllapampa.. Ela se mostrou afetuosa e triste. Levantei com Maria. carma. — Como ela pode ser tão definitiva? — perguntei a David en- quanto nos encaminhávamos para o carro. pessoas ao longo da história humana que haviam realizado milagres inexplicáveis. Mas não pude deixar de pensar novamente na sucessão de "coincidências" que haviam assinalado o crescimento do relacionamento profundo e muito especial que partilhávamos... — Não sei. sob uma chuva fina. o lembrete de que os grandes mistérios da vida podiam ser esclarecidos.. Tal- vez ela tenha se enganado. a fim de apreciar o pôr-do-sol antes de partir para Lima.. porém. os livros que David sugerira que eu lesse.. o mundo do espírito em que ela e David me haviam introduzido.. encontramos um perua- .. Ela nos abraçou e saímos. Será que tudo isso estava começando a fazer sentido? Os seres humanos não seriam parte de um plano cósmico total que vinha se desenvolvendo há milhares e milhares de anos? Seria possível que até as pessoas que alegavam terem viajado em discos voadores es- tivessem dizendo a verdade. bondade básica.

investigações a realizar. É apenas o começo para você. As lágrimas me afloraram aos olhos. David virou-se para mim e disse: — Um amigo meu vai levá-la na descida da montanha. Ficarei aqui por mais algum tempo. David passou um braço por meus ombros. en- quanto o amigo de David punha a mala no banco traseiro. — Eu não compreendo. que ficou na maior felicidade. fitas e anotações na mala. Você pegará seu avião para Nova York. — Espere um pouco. Não ouviria os porcos grunhindo no silêncio da montanha na- quela noite.. — Olhe para o céu. Apenas isso. que deu de ombros e sorriu.no de uniforme esperando na frente do hotel. David se inclinou e me pegou a mão. Shirley. Peguei o relógio. Virei-me para David! Gentilmente. Peguei sua mão com as minhas e apertei com força. é melhor para você ficar sozinha. no entanto. um milhão de livros para ler. Tem suas anotações e gravações. ele me levou até o Plymouth. Entrei no meu quarto frio e escuro pela última vez. Senti o estômago cair para os pés. Guardei as roupas. Acenei com a cabeça e sorri para ela. mas subitamente o futuro começara. Shirley. A mulher desdentada estava esperando junto ao Plymouth com o meu anel-relógio. — Não preciso voltar. Absorva lentamente. Precisa agora de algum tempo sozinha. O que é a liberdade? E. Eu não sabia o que dizer. agora. Embarquei. mas também o a- . — Devo ir agora? Apenas assim? Apenas partir? — Isso mesmo.. Shirl. Mas você precisa. vá arrumar suas coisas. está bem? Cocei a nuca. Eu sentia um aperto insuportável na garganta. Olhei para David. pus na sua palma. — Tem razão — balbuciei. Faça isso. Ansiava por outro banho mine- ral. David. — Eu a amo. enquanto abria a porta do carro. com o receio de perder o controle. Não escovaria os dentes no rio laranja pela manhã. Ele não fa- la inglês. Prometo. Pense bem nas coisas que aconteceram durante as últimas semanas. ele me pegou o queixo e sacudiu-o de le- ve. Não tornaria a passear à tarde pela montanha. Saí para o sol poente quando terminei de arrumar minhas coi- sas. Eu vou embora e você fica aqui? Quero conversar mais um pouco. Não chegara a especular sobre o futuro. mas merece confiança absoluta. E confie em mim. E tive uma vontade quase incontrolável de chorar. Creio que é melhor você voltar à sua vida real para se firmar um pouco. Lembre-se de que já passamos juntos por muitas vidas. David ba- teu a porta e inclinou-se para mim. Agora. Mal podia falar. E lembre-se de que nada é mais importante que o amor. fechei-lhe a mão. Não mais estaria com David. E isso é tudo. fiz um esforço para não chorar. — Tornaremos a nos encontrar. Corri os o- lhos pelas montanhas de tonalidade púrpura. Segurando-me a mão. Por que você vai ficar? Ele fitou-me nos olhos.

Não olhei para trás. mas podia sentir David acenando. Agradeci-lhe e achei que era me- lhor não lhe dar uma gorjeta. segui direto para o avião. Depois de acertar tudo.. agora. Acenei com a cabeça e sorri. o ombro esquerdo arriado. Isso é tudo. Fomos descendo os Andes pela estrada sinuosa. O homem parou diante do escritório da Varig e ajudou-me com a mala.que aprofundamento maravilhoso da capacidade emocional não se poderia adquirir com o reconhecimento da idéia da preexistência. contemplei no hori- . O sol se pôs além das monta- nhas por trás de nós. Tentei não olhar. A duas ho- ras de Lima. enquanto obser- vava o carro se afastar. o rio cor de la- ranja. e muito simples. densas e pú- tridas. Minha mente era um turbilhão de imagens: águas sulfurosas bor- bulhantes. a uma altitude de 10 mil metros. que precisamos de uma nova fé para unir o passado ao futuro. ao longo do grande paralelo do presente. não tenha medo e ame o mundo. Senti-me aliviada por não poder conversar com ele. O motorista peruano logo deu a partida outra vez e seguiu em frente. Kokoro O homem ao volante disse alguma coisa em espanhol. que não era uma cidade. depois afastou-se no velho calhambeque. Fábricas cuspiam fumaça escura para o ar noturno já poluído. Nuvens pairavam sobre a cidade. Caminhões vazios passavam por nós. para tornarem a descer no dia seguinte carregados de carvão..mo. convertendo assim o nosso mundo emocional numa esfera perfeita. as conversas desconcertantes com David ao sol. Seja você mesma. Senti um calafrio e vesti o blusão de couro de Ralph Lauren. Acabei cochilando.. que fora como um lar nas montanhas. Acordei com um sobressalto numa parada súbita na estrada. que temos pen- sado apenas meios pensamentos. mais fácil de respirar. Trocamos um aperto de mão e ele me sorriu efusivamente. passando por pequenas cidades mineiras. passando pelo cartaz dos discos voadores no cruzamento da ferrovia. preparando-me para Nova York. os camponeses mastigando coca para terem mais energia. mais denso. obscurecendo a beleza deslumbrante do mundo lá por cima. passando por rebanhos de lhamas. — Isso é ótimo. aprendemos que temos vivido apenas num hemisfério. Chegar a Lima foi como entrar num mundo atrasado. E. a relva quente e lânguida da montanha. passando por mulheres em chapéus brancos de aba larga. O ar tornou-se mais poeirento.. O amigo dele ligou o carro e pisou no acelerador. Pessoas andavam a esmo." — Lafcadio Hearn. Os barracões dos pobres se enfileiravam à beira da estrada. vá em frente. Deixamos a cidade. mas não tão inebriante. Tentei atenuar a dor na garganta pela contemplação da paisagem familiar.. subindo a montanha. menos rarefeito. A noite caíra completamente agora e as estrelas peruanas cintilavam como fragmentos de cristal. "..

E cabia a cada um de nós reaprender essa realidade. se elevar a qualquer lugar. como eu agora compreendia.. talvez pudéssemos compreender que nada havia a temer. tornar-se tudo. Fiquei imóvel. medo de fracasso. esta- ríamos nos livrando da ganância. humilhação ou perda jamais era final. Eu não sabia se isso tinha alguma importância. sem limitações. a resposta do homem à tempestade elétrica que explodia ao nosso redor. medo da humi- lhação. que nenhuma dor. Os relâmpagos riscavam o céu e deixavam-no tão claro quanto o dia. Isso faria com que todas as realidades percebidas se tornassem reais.. medo da morte. Acabando com o medo.. medo de ser desamada. Ambres. E se voltássemos a compreender isso. Era possível que os seres humanos estivessem usando o seu talento para a com- plexidade como uma desculpa para evitar a responsabilidade de ser o que realmente compreendíamos que éramos desde o início. Talvez uma alma humana fosse tudo.. Cat. contagioso. O medo era insidioso. a acreditar que se pode fazer qualquer coisa. Se pudéssemos ter a certeza absoluta de que nunca morríamos. tão insignificante como uma pulga.. vazava de um ponto de irrealidade para impregnar todas as nossas vidas. representada pela energia comum a que as pessoas se referiam como suas almas. Talvez nunca se pudesse provar fisicamente se a alma existia ou não... Talvez fosse essa a lição que eu estava aprendendo. Com o fim do medo.. medo de dor.. John. em última análise. até onde eu podia ver. McPherson. essa teia de força infinitamente elástica chamada consciência hu- mana. o medo do medo. donos do nosso próprio potencial divino. medo da solidão. Parecia que havia mundos intermináveis que eu po- deria explorar. Não tínhamos opção.. mantida no lugar pelo cinto de se- gurança.. revelando nuvens e cores. Nada parecia tão poderoso como a natureza. queria realmente conhecer es- ses mundos. Talvez a realidade fosse apenas o que se acreditasse.. muitos e muitos outros estavam conven- cidos de que nada era tão poderoso quanto a mente humana coletiva. aprendendo a pensar de maneira ilimitada. O medo era a raiz e o círculo em torno dos quais giravam as nossas vi- das. pode- ríamos acabar com o medo em nossas vidas. O avião sacudia violentamente em meio à demonstra- ção terrível e espetacular de força natural. ninguém chorou. Ninguém gritou. Eram momentos como aquele. Cayce e. visível de cada jane- la. turbilhonando em torno do nosso pequeno ar- tefato. Até onde pude perceber. medo de nós mes- mos. a acreditar que qualquer coisa é possível. po- deríamos acabar com o ódio. basi- camente parte do que chamávamos de "Deus". um terreno astral de cor- rentes de ar e chuva. Mas David. E muito mais. talvez bem poucos e muito . Mayan. Talvez a tragédia da raça humana fosse o fato de ter esquecido que cada um era Divino. total e para sempre. E eu queria fazê-lo. que sempre tínhamos outra chance. Talvez nossa crença na morte fosse a mais grave de todas as irrealidades.. que força- vam a pessoa a pensar e projetar sua percepção além do que lhe fo- ra ensinado. O que era noite lá fora se transformara em dia de relâmpagos e trovoadas. guerra e do ato de matar. Eram momentos como aquele.. muito tensa.zonte uma tempestade elétrica que dava a impressão de que o Reino dos Céus estava explodindo contra si mesmo. pensei. A força colossal da eletricidade me fazia encolher no assento.

De qual- quer forma. em paz e exausta. Ninguém podia se- quer compreendê-la. que era ilimitada em sua compre- ensão de que até aquilo constituía uma parte da aventura a que chamamos vida. insistindo em não ter medo. E aquela crise nos unira a todos. antes do amanhecer. mãos. A alma sabia que estava tudo bem. Você também me jaz perguntas e escuto. Ninguém podia superá-la. Tomei a decisão de relaxar. braços. Minha alma. não era o momento apropriado para uma conversa a dois. Canção de Mim Mesmo Chegando a Nova York. Capítulo 26 "Neste dia. Ninguém no avião podia combater a tempestade. não importava o que pudesse acontecer ao corpo. E o que estava controlando a minha mente? Só posso dizer que era minha al- ma. Deu certo. começando pelos pés. revirando os . subi a colina e contemplei o céu apinhado.espaçados. Adormeci. que agiam como um catalisador para a nossa compreensão do controle interno de que éramos capazes. uma mente positiva. O suor no peito e testa esfriou. Era o aniversário dela e a equipe que trabalhava em sua campa- nha estava promovendo uma festa de levantamento de fundos no Stu- dio 54.. Ela lera meus livros e estava con- vencida de que eu era capaz das mais estranhas aventuras. por si mesmo você deve descobrir. com- preendendo que controlara o medo ao usar a mente para controlar o corpo. O coração deixou de bater tão depressa. Comecei a sentir que era parte do avião a sacudir e ranger. Falei que descansara bastante na cabana e Bella riu. até mesmo da tempestade tumultuosa lá fora. fui me encontrar com Bella. partilhando sem necessidade de uma só palavra. Respondo que não posso responder. Depois fui subindo. Minha alma sabia que sobreviveria. ali encontrando o prazer e o conhecimento de tudo. acreditava que era parte de tudo. Minha respiração tornou-se mais regular.. imediatamen- te. pernas. peito. que era eterna. plexo solar. Bella já sabia que eu estivera no Peru. — Walt Whitman. Contei que ficara me- ditando numa cabana nos Andes. tornozelos. mas temos de nos elevar a esse nível e continuar além. Parei então. meu fragmento subconsciente e in- dividualizado da energia universal. estaremos então realizados e satisfeitos? E meu espírito disse: Não. Apenas era. E disse ao meu espírito: Quando nos tornarmos os envoltórios dessas órbitas.

Ela não conseguiu sequer ser escolhida pelo partido como a sua candidata. Japão. um homem alto e calvo. As pessoas geralmente concluíam com a declaração de que era ótimo ter um diálogo sério sobre tais teorias com alguém que não pensava que fossem loucas. num nível mais sério. O relacionamento com Gerry esfriou e terminou. Desejei ter per- guntado mais coisas a Maria. crítica. parecia uma coisa de outra vida. Mas outras ocupavam posições influentes nos círculos políticos e jornalísticos. Ca- nadá. remontando às antigas tábuas cuneiformes sumérias. excursionava com o meu es- petáculo ao vivo. comecei a levar uma vida além da que era óbvia para a maioria dos meus amigos. O assunto sempre aflorava. Escandinávia. descobria que as pes- soas estavam ansiosas em comparar anotações sobre seus sentimentos a respeito de recordação de vidas anteriores e percepção espiritu- al. Mas eu não queria estar falando para mim mesma. em qualquer conversa informal. dança- va e cantava em especiais de televisão. Descobri que a teoria da progressão das almas. nas lutas políticas e pelos direitos humanos. Queria e pre- cisava de oposição.. Sudeste Asiático. A literatura sobre o assunto era vasta. Quanto mais viajava. certamente em todas as áreas dos fenômenos psíquicos. Acompanhei atentamente o desenrolar dos acontecimentos. E sempre que eu me aprofundava. Austrália. até demais. às vezes ao longo de períodos de muitos anos. Percorri to- da a Europa. Procurei primeiro em lei- turas e descobri que os céticos mais vigorosos estavam entre os que tinham as crenças mais sérias. Descobri que haviam sido efetuadas experiências de pesquisa.olhos. México e fui a muitas cidades dos Estados Unidos. A campanha malograda de Bella para a prefeitura de Nova York pertence agora à história. falsos profetas e místicos impostores. mas também em todo o mundo ocidental. es- perando por alguma coisa que confirmasse ou negasse o que Maria dissera nos Andes. eram confirmadas onde quer que eu fosse. Não sei por que isso me surpre- endeu. indagação. Fazia filmes. mais aprendia sobre as dimensões espiri- tuais da vida que estava começando a compreender. Minhas convic- ções tomavam forma. Adorava viajar. Com o acúmulo dos eventos que levaram à minha viagem ao Peru e com os eventos no próprio Peru. não apenas na Califórnia. Com minhas no- vas perspectivas. Os últimos to- mavam o cuidado de manter discrição a respeito de suas convicções e o lamentavam profundamente. O vencedor foi Ed Koch. estendendo-se pelos sécu- . apenas para voltar a um tipo de insanidade familiar. porque me ajudava a adquirir uma visão mais acurada e objetiva do mundo. de dedos compridos. através da re- encarnação. As pessoas para as quais a espiritualidade e a percepção superior são realmente importantes eram as que menos queriam ser enganadas por charlatães.. mas descobrira que preferia muito mais viajar e pensar. Passou então a falar de sua estratégia de campanha. tornara-se parte do sistema de pensamento da nova era. assim como de mim mesma. Ainda me mantinha relativamente ativa no movi- mento feminista. Algumas pessoas eram apenas cidadãos comuns em seus respectivos países.

a fim de permi- tir-lhe viver mais plenamente.. que alcançou a fama com Little Women) e dezenas de outros. Toda uma dimensão adicional que podia. sofrimento e agonia.los através dos registros egípcios. Eram as pessoas que tinham as reações mais bruscas à simples menção de palavras como psiquismos. tradição druídica.. Pierre Trudeau exortava a uma "conspiração de amor" para a hu- manidade. Descobri pessoas que haviam passado por experiências parecidas com as minhas. Algumas das pessoas envolvidas no movimento eram Ralph Waldo Emer- son. mais serenamente. Juntamente com as leituras. Zbigniew Brzezinski falava de "um crescente anseio por alguma coisa espiritual". não tinha conotações políticas. estavam surgindo por todo o mundo.. Bronson Alcott (pai de Louisa M. como eu já imaginava que nunca tivera. Eram essas as duas palavras mais usadas para descrever os sentimentos ligados às descobertas da nova era. O impulso espiritual. ou não podia. literatura de Essene. Cora- josamente. Era uma posição que eu podia compreender. uma necessidade das pessoas se unirem e partilharem suas energias em alguma coisa que funcionasse. astral. recordação de vida anterior. Mas. Mas. desenvolvimento da per- cepção espiritual e até mesmo contatos com discos voadores. Henry Thoreau. eu interrogava as mais diversas pessoas a respeito de suas crenças. Depois de algum tempo.. Achavam que isso era . os precon- ceitos mais fortes que encontrei estavam firmemente estabelecidos nas mentes daqueles que se julgavam intelectuais pragmáticos. até as obras de Carl Jung e até mesmo as investigações parapsicológicas mais recentes. dimensão espiritual. pessoas envolvidas com mediunidade. Desco- bri que comunidades espirituais. como a Findhorn. aceitado a maravilha e alegria que a vida na terra proporciona.. uma rejeição que era uma necessidade real de determinadas pessoas. Haviam se rebelado contra o excesso de intelectualismo e o costume linear de se acre- ditar apenas no que se podia ver ou provar. escrituras indianas. comecei a constatar que havia outro ti- po de rejeição aos valores espirituais.. Visitei várias e lá permaneci por dias. tais pessoas abrangiam tudo. mas sempre dentro da bússola de que esta vida é tudo o que existe. pessoas que não eram capazes de irem além de seu reflexo condicionado. registros de sociedades secretas como a Maçonaria e muitas outras. por toda parte a que eu ia. Alguns dos líderes mundiais falavam em termos espirituais. com e através de sua dimensão espiritual. num mundo de tecnologia em que o mate- rialismo demonstrara ser insatisfatório. dispostas e ansiosas em irem ao limite. Li mais ainda sobre o movimento transcendentalista americano.. Haviam aceitado este mundo como era. sempre encontrava uma neces- sidade profunda de espiritualidade e expansão da percepção. Especulei se o ingresso na Era de Aquário (como os astrólogos e astrônomos chamavam) também significava que estávamos entrando numa era de Amor e Luz. ser crucial para seus males e alegrias era simplesmente a gota d'água adicional que não podiam e não queriam suportar. Em muitas ocasiões. portanto. oráculos gregos.. aceitado também o horror.. E o impulso também não era para transcender o plano material da nova existência. A busca e o ponto de vista eram sempre para reconhecer o potencial para a expansão da percepção no homem.

Ao serem acusados de desdém pela história. intocáveis.restritivo e em última análise um desperdício. artistas e políticos por muitos anos. Nossos grandes antepassados Thomas Jefferson. Gandhi. Comecei a ler mais a respeito desses homens e compreendi como haviam ameaçado profundamente as ordens dos tempos mais antigos com o seu pensamento novo. Nossa herança espiritual fora sufocada pela industrializa- ção. os livros de história mal mencionavam os princípios místicos. Relendo alguma coisa daquele período da história americana. ele passou a influenciar escritores. que também aparece no topo da Grande Pirâmide de Gize na nota de um dólar! Todo esse simbolismo foi projetado pelos fundadores transcendentalistas da República dos Estados Unidos. Mas o sistema de apoio espiritual de nossos antepassados revo- lucionários se fixara na arte e literatura. Muitos compareciam a sessões de mediunidade. compreendi o quanto havíamos esquecido de como os revolucionários haviam sido metafi- sicamente arrojados. presidentes de banco. Li e li. mas também dos filósofos alemães e gregos e das religiões orientais. Thomas Paine. por exemplo. jornalistas.. Thoreau. todos eram transcendentalistas.. Enfatizavam insistentemente a necessidade de trans- formação pessoal.. Benjamin Franklin.. Muitas outras pa- reciam estar igualmente procurando por um equilíbrio entre suas vidas interiores e suas vidas exteriores. a- . considerava as revoluções america- na e francesa como os primeiros passos para uma revolução espiri- tual em escala mundial. em cujo reverso se pode ler "Uma Nova Ordem dos Tempos Começa". Todos ressaltavam que a reforma interior devia preceder a re- forma social. Herman Melville. William Blake. Viam através dos olhos e não com os olhos. mas não ir- reais. já que assim nunca se poderia desenvolver todo o potencial do homem. Acreditavam que toda a ob- servação era relativa. procurando respostas do "outro lado".. Mas à medida que a Revolução Americana encami- nhou-se para a Revolução Industrial. Emily Dickinson. responderam que a huma- nidade devia ser libertada da história. os transcendentalistas desco- briram-se cada vez mais isolados e incompreendidos. O país entrara plenamente no caminho do materia- lismo. O significado de suas convicções no Grande Sinete da América. Assim como Blake fora influenciado pelo místico escritor e fi- lósofo alemão Jacob Boehme e por Emanuel Swedenborg.. Martin Luther King. Ao final do século XIX se consumaram os piores receios dos fundadores da repú- blica americana. conversei cada vez mais livremente com as pessoas so- bre as minhas experiências na busca espiritual. Executivos de estúdios. John Dewey. Na- thaniel Hawthorne. George Washington. Os transcendentalistas extraíam seus ensinamentos não apenas das tradições quacres e puritanas. Um fato muito interessante era de que a própria Revolução Ame- ricana fora concebida e iniciada por homens cuja crença no mundo espiritual era uma parte integrada de suas vidas. junto com o terceiro olho. todos acreditavam profunda- mente em dimensões metafísicas que acabariam por explicar os mis- térios da vida. John Adams. Acreditavam que as verdades essenciais eram invisíveis.

psicológicas.. Absolutamente. os ingredientes químicos da própria vi- . a questão que os cientistas formulavam agora era "O que veio antes do começo?" E estavam concluindo que "Deve ter havido uma Vontade Divina constituindo a natureza do nada". médicas e científicas. Assim. Não se mostravam absolutamente reticentes quando eu os in- terrogava. Li em The New York Times que os cientistas haviam sido força- dos a chegarem à teoria da "grande explosão" na criação do univer- so. como se estivessem fisicamente presentes. extraíam grande felicidade e alegria do fato de estarem aprofundando o contato com seus egos espirituais.. mas diziam que era muito difícil se relacionarem com outros que não compreendiam. tudo o que se podia pensar em perguntar. Parecia que no final das contas. As pessoas discuti- am suas personalidades. Disseram como pareciam vazias as vidas dos amigos que não partilhavam a busca. que a achavam "ir- ritante". há cerca de 20 bilhões de anos. os teólogos estavam certos. jamais desistissem.tores. Cuidavam apenas das informações que recebiam. extraterrenos. Eu dizia a todas que sempre continuas- sem em frente. O universo fora criado por uma explosão colossal. Os relatos astro- nômicos. compreendi que se sentiam mais à vontade e francas entre si do que com as pessoas em suas vidas que ainda não haviam reco- nhecido a necessidade da espiritualidade. científicos e bíblicos do Gênese coincidiam agora. Contaram como algu- mas informações sobre vidas anteriores haviam alterado suas pers- pectivas sobre a vida presente. Alguns diziam que achavam necessário levar duas vi- das. escritores. Mas. "num mo- mento do tempo". Cuidavam de suas vidas cotidianas com o conhecimento e o apoio de que tinham uns aos outros.. Isso significava que houvera um começo. Nin- guém mais contestava a validade do processo. sobre vidas anteriores. por medo de ameaçar aqueles a quem amavam. Ao mesmo tempo. A Bíblia apregoara a explosão e os cientistas estavam tendo de admi- ti-la. Não se tratava de um sentimento religioso. Conversando com centenas de pessoas que compareciam a essas sessões. as que não estavam em um corpo) tornavam-se amigas e confidentes. a ciência estava empenhada em sua própria lu- ta. As entidades espirituais (ou seja.. para dizer o mínimo. Algumas tinham indagações céticas quando deparavam com al- gum problema mais difícil. Era apenas que não ter a per- cepção espiritual significava a mesma coisa que não ter pernas e braços.. músicos. Alguns relacio- namentos e amizades antigas acabaram. a criação do cosmo. O universo estava se expandindo em alguns lugares até a velocidade de 150 milhões de quilômetros por hora. para grande consternação da maioria dos cientistas. talvez uma explicação teológica pudesse oferecer uma resposta. Falaram-se de predições trans- mitidas em sessões e que haviam se consumado. Mas eles também não podiam se deixar sufocar pelas limitações céticas e intelectuais do passado. chefes de família e donas-de-casa com- pareciam às sessões de mediunidade a que eu fora introduzida. acima de tudo. aos quais não po- diam falar em termos espirituais. porque suas convicções e va- lores espirituais não podiam ser partilhados. Assim. sobre Atlântida e Lemúria.. alimentares. humores e compreensão. Os cientistas haviam sido capazes de levantar as origens da humanidade no planeta.

. Só que essa dilatação. eu não precisava de guias espirituais para saber as prováveis reações de muitos intelectuais que conheço. Mas esbarravam agora numa barreira sólida. Estávamos experimen- tando uma forma de dilatação do tempo. Ajudava-me a esclarecer o que estava pensando. uma geração dos computado- res. Nos últimos cem anos progredira mais longe e mais depressa que em todos os tempos anteriores. está prestes a conquistar o pico mais alto. A energia concentrada nesse período. pela aceleração da desco- berta em todas as frentes.da. era algo inevi- tável. Já outras haviam sido criadas na era da televisão e telefone. mas às vezes me perguntava como os leitores reagiriam ao que eu estava pondo no papel. transbordando com novas descobertas. A princípio. uma aceleração da descoberta espiritual começando a igualar a energia da descoberta em outras áreas. se não queríamos fi- car desorientados com as outras energias que estávamos liberando. . Não era de admirar que mais e mais pessoas estivessem se virando para a di- mensão do espírito. confron- tando-nos diariamente em cada aspecto de nossas vidas. era numa escala maciça." Parecia que o mundo inteiro estava se encaminhando para uma confrontação consigo mesmo. Quanto mais in- tensa a vida se tornava. quando a vida avançava no ritmo que usavam para andar até a casa ao lado para conversar com o vizinho. particu- larmente nas áreas da tecnologia igualadas apenas pelas várias disciplinas científicas. a formação das estrelas das nuvens primevas. esse senso da dimensão espi- ritual. E o que eu sempre gostara possuía agora uma dimen- são adicional. a certeza interior que relaxa e concentra nossa vitalidade. mais as pessoas precisavam controlar as suas energias. Mais do que isso. Precisávamos daquela serenidade central. Além disso. eu escrevia mais e mais a respeito. E o rápido crescimento era um processo contínuo. a fim de podermos orientar nossas próprias energias. procurando por uma integridade que fora perdi- da no turbilhão de energia vibrando em suas vidas. a espécie de sensação indu- zida pela adrenalina que ocorre num momento de crise intensa. essa volta a uma fonte de força interior. se algum dia convertesse os escritos num livro. um processo da humanidade se encontrando consigo mesma. ele é saudado por um bando de teólogos que ali está instalado há séculos. essa crise. escrevia basicamente para mim mesma. a história termina como um pesadelo. Um artigo do cientista Robert Jastrow (diretor do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da NASA) disse: "Para os cientistas que viveram por sua fé no poder da razão. eu sempre gostara de escrever sobre o que estava fazendo. Toda a minha vida estava começando a se iluminar. À medida que aumentavam meus interesses e experiências espiri- tuais. ao se elevar para a rocha final. não apenas reagir com uma resposta de adrenalina aos estímulos externos. para a qual ler era difícil e escrever uma coisa incômoda. As pessoas se lembra- vam de um mundo inteiramente diferente que haviam conhecido na in- fância. a descoberta es- piritual parecia-me um componente essencial. Ele escalou as montanhas da ig- norância. alterara o tempo.. (A esta altura. Parecia-me agora que essa busca.

Conversei a respeito com Bella. acho que todos nos tornamos escravos do nosso próprio medo. — Não podemos continuar assim. — Para começar. tentando expandir minha percepção consciente de dimensões que haviam até agora permanecido além da nossa compreen- são. Era essa a minha perso- nalidade. olhando para a salada em seu prato.. estivera apaixonada em público. pensei. que estava trabalhando com médiuns. Crescera em público. com um dos seus olhares penetrantes. Há muito que eu já lhe contara tudo o que me acontecera no Peru. mas as únicas solu- ções que podemos apresentar são mais lei e mais ordem. eu já me tornara pública em polí- tica. Não estava acostumada a ocultar o que me interessava ou as coisas em que acreditava. que talvez fosse chegado o momento de todas as pessoas do mundo encararem a vida por outra perspectiva. É justamente isso o que os políticos têm de enfrentar. Ela sabia que eu conti- nuava a me aprofundar nos novos conceitos. — Qual é a solução que você propõe? Hesitei por um instante. — E daí? — disse Bella.) Quanto a mim. Também não podia culpá-los por isso.. Mas eu me sentia cansada da filosofia do beco sem saída. escrevera em público. Pensara muito a respeito em cada es- tágio da minha vida. Tentei agora explicar que as soluções políticas que ela procu- rava pareciam estar resultando nos mesmos fracassos do passado. Fora certa e errada em público. curandeiros e meditação. Ficamos esperando pelas dificuldades. Cometera muitos erros em público. as coisas estão ficando cada vez mais difíceis. e não queria renunciar à raça humana. — Muito bem. no aqui e agora. com a compreensão de que a vida levada até aquele momento era apenas parte da verdade? Eu nunca fora de me deixar excluir de qualquer coisa.. em tudo o que acreditava ser injustiça. Estávamos sentadas num restaurante de Manhattan que passava a noite inteira aberto. direitos da mulher.. Pois que assim fosse. mais gastos militares. Estamos todos apavora- dos. O que po- dia uma pessoa fazer quando confrontada.. Quanto à imagem pública. de- pois de assistirmos a mais um filme que explorava a violência e o medo. Rira e chorara em públi- co. todos os que não tinham sequer o fermento da amizade pessoal para atenuar suas opiniões. pedira desculpas em público. Podemos explodir o planeta a qualquer momento. mudança social. Ainda tinha de enfrentar o receio particular de escrever sobre esse material do novo ponto de vista da convicção. Não ia assumir tal atitude agora. como tinha a tendência de fa- zer com todas as coisas que importavam. visitando centros psíquicos. Eu era pública.de. Bella. — Não seria possível que eles estivessem tão ocupados a en- . embora tivesse sido uma confrontação gradativa. chegara a uma espécie de encru- zilhada. Bella pôs as mãos no colo. lendo clássicos. ao ponto em que quase experimentamos um senso de satisfação quando se consu- mam. teria de dizer em público o que pensava sobre a espiritualidade humana e extra-terrena. Agora. guerra.. E a própria vida parece estar desmoronando ao nosso redor.

você própria sabe. Acho que estou dizendo que cada um terá de começar por si mesmo. eu não diria assim. Acho que é realmente uma questão de cuidar do próprio eu. fez toda a diferença. que não inclui o medo. sabendo que tudo o que fizerem sempre voltará.. estarei ainda mais preocupada e envolvida. movimento de libertação feminina e tudo o mais? — Não tem a menor possibilidade. medo de coisas muito meno- res.. É preciso se estar enfronhado na política para se saber disso. Mas. Bella. — Como assim? — Para ser franca. E tem mais o fato muito importante de que a maioria desses medos é desnecessá- ria. — Quer dizer então que devemos ficar de braços cruzados e dei- xar tudo ao desígnio cósmico ou algo assim? — Não.. Em vez disso. da mesma forma. Medo da morte. de destruir literalmente o mundo. Incontáveis pessoas sentem medo demais para se importarem com as coisas ou acreditam que não faria a menor diferença. Estou encarando tudo por uma nova perspectiva. ora. Se alguma coisa acontecer. — Não é uma coisa que se possa argumentar com generalidades. Ter medo é perfeitamente na- tural. são as pessoas . Bella. Não se trata de uma coisa a que cheguei facilmente.frentar a confusão que não dispõem de tempo para imaginar como dissipá-la? Bella deu de ombros. — Vamos com calma.. Não estou dizendo que é errado ter medo. vão se tornar mais gentis e tolerantes. Bella retorceu as mãos. como perder o emprego.. A humanidade não teria chegado onde está sem o medo. que todos são uma alma. Há tantas pessoas que são indiferentes. de origem divina. Ao contrário. ou melhor. apáticas. acredito que todos têm. — Isso significa que você está renunciando ao envolvimento na política. brigam entre si pelo que o próximo está fa- zendo. Contudo. Não compreendem que é com elas próprias que não se atrevem a se preocupar. o fato de eu estar convencida da e- xistência da alma. a humanidade não teria che- gado onde está se sempre deixasse que o medo ditasse as suas a- ções. À medida que as pessoas tiverem mais contato consigo mesmas. Por- tanto.. que viveu muitas vezes antes e tornará a viver muitas vezes depois. medo do futuro ou medo de não termos nenhum. como uma realidade. porque nos tornamos capazes. a família. que são elas próprias que estão se ex- cluindo. onde você está querendo chegar? — O medo. Shirley. a consideração dos amigos e vizinhos. pela primeira vez na histó- ria. o esforço que se precisa para levar os eleitores às urnas. e em algumas situações é até saudável. — Então qual é a diferença? — A diferença é como me sinto em relação a tudo isso. E tudo sempre acaba no indivíduo. alienando-nos de nós mesmos e uns dos outros. Mas é onde estou agora. mas apenas que é perigoso permitir que o medo controle nossas vidas. O medo. Assim. medo do holocausto produzido pelo próprio homem. — Está certo.. porque em primeiro lugar is- so é tudo o que pode controlar. O medo é que nos prejudicou.. melhor do que ninguém.

Vol- taire. — Está querendo dizer que todos acreditavam na reencarnação? Tomei um gole do vinho tinto. o que teria um efeito espan- toso. Enfatizaram o positivo. E o mesmo aconteceu com Thomas Jefferson. Gandhi.. por medo. Todas essas pessoas acreditavam pessoalmente num desígnio cósmico superior que lhes permitia assu- mirem uma convicção positiva no potencial humano. Madre Teresa de Calcutá. E todas as crenças pré-cristãs estavam relacio- nadas com a reencarnação. Mas só estou mencionando agora porque esses homens foram os nossos políticos originais. Mas o que acredito pessoalmente é que cada pessoa pode se livrar do medo pe- la compreensão honesta da própria espiritualidade. alma. Mas se alguns tomassem conhecimento das verdadeiras intenções de nossos antepassados. Foi por isso que puseram a Grande Pirâmide na nota de um dó- lar. deixando que suas imagina- ções as ajudem a se importar com as coisas. quem é um exemplo desse tipo de comportamento? Pensei por um momento e depois respondi.. por exemplo. Martin Luther King. Shirley. lembrando de tudo o que lera sobre os líderes da revolução americana. Bella acendeu um cigarro. floresce com "sentimentos". Poderiam até dar um jeito de suspender o curso destru- tivo em que nos encontramos.. Bella. E mesmo que não consi- gam ir mais adiante. a maioria dos homens que assinou a Declaração dos Direitos do Homem e elaborou a Constituição dizia que queria formar uma nova república baseada nos valores espiritu- ais. Toda a outra vida. você acredita que os seres humanos se enquadram num . largou o fósforo no cinzeiro. O sentimento tornou-se a nossa mais preciosa dimensão perdida. Buda. a crença na existência da alma. e muitos outros. Washington. — Mas no que exatamente eles acreditavam? — Numa espécie de harmonia superior. na verdade. os que não acreditam na espiritualidade. Mas Jefferson. Na minha opinião. — Mostre-me a pesquisa. reconhecendo-a e alcançando uma percepção superior.. Com o mundo do jeito que está. Thoreau. Dê-me um exemplo. Cristo. se pudessem se identificar com os princípios antigos. remontavam às crenças das escrituras hinduístas e misticismo egíp- cio. — Não necessariamente. Ben- jamin Franklin. — Ou seja.. diga-se de passagem. seu envolvimento com seitas e ensinamentos místicos. na verdade.que se fecham em si mesmas. podem começar a agir imediatamente. em qualquer coi- sa. o mundo já seria um lugar melhor. isso poderia influenciar como votam agora e quais as prioridades que considerariam mais im- portantes. E esses valores em que eles acreditavam. que era parte de um de- sígnio maior que não se relacionava apenas com esta experiência de vida. — Não estou entendendo. — Claro que mostrarei. reencarnação. Mas nenhuma das pessoas que estão envolvidas hoje na política parece conhecer as origens de sua democracia. Posso compreender que estejam distraí- das com toda a confusão atual.. quase que involun- tariamente: — Anuar Sadat. a nota de um dólar e o Grande Sinete estão re- pletos de símbolos espirituais que datam de um período muito ante- rior à revolução. pelo me- nos na terra.

Sinto que já estive lá antes. Só está enganada na questão da maioria. à medida que se consumam as leis de causa e efeito. em épocas diferentes. nos intervalos entre vidas. Shirley. deu uma tragada no cigarro.. é como você se meteu em tudo isso. — Está querendo dizer que. e também parte de um desígnio maior? — Exatamente.. — E qual é essa parte importante? — A pré-existência da alma. Talvez você esteja certa no que pode sen- tir e acreditar. Não teria de lutar tanto para melhorar as coisas. Quantas vezes você já se en- controu com uma pessoa e teve um reconhecimento instantâneo do que chamamos de um "espírito irmão"? — Tem razão. então qual seria a diferen- ça entre mim. é bem possível que as coisas não saiam bem. De alguma estranha maneira podemos todos nos conhecer. Se eu vivi muitas vidas. Ou talvez nesta vida seja necessário que você perceba as coisas dessa maneira. Sei que eu devo ter sido muitas pessoas diferentes. — Bella parecia cautelosa. — Fui educada na tradição ortodoxa judaica e uma crença pro- funda num ser espiritual não me é estranha. Mas se pessoas como eu não lutarem para cumprir o seu papel. O fato é que se tudo isso me a- conteceu. o fato de que já vivemos muitas vezes e viveremos muitas outras. Nossas idéias e convic- ções estão de tal forma distorcidas que é o motivo pelo qual esta- mos tanto estragando o mundo? — Tem toda razão. Mas vou lhe dizer uma coisa: eu gostaria muito de poder. que se diz uma entidade falando por intermédio de Kevin? Talvez existam as mais diversas dimensões da realidade e a vida no plano da terra seja apenas uma delas. É por isso que me sinto tão à vontade em muitos lugares do mundo. mas eu não tenho condições de acompanhá-la. Ao contrário do que você pensa. São os ocidentais que costumam excluir a parte importante. Bella? — Porque nesse caso eu poderia acreditar que tudo daria certo. mesmo que eu nada fizesse. E estou aprendendo a confiar nesses sentimentos. Bella observou-me atentamente. — Mas acreditar na alma é uma coisa. É onde entram os seres desencarnados. so- prou a fumaça. o que fiz então nos intervalos entre essas vidas? Onde eu estava? Se minha alma-energia foi passar algum tempo no éter. Bella pensou por um momento..plano mais amplo do que a maioria imagina. que meu intelecto poderia dizer que eram ridículos. — Eu nunca a ouvira dizer isso antes. em sua opinião. acreditar na reencarnação é outra. E talvez eu precise do desafio.. todos somos parte uns dos outros. Como tudo isso aconteceu? Sei que você e todas . — Acho que sim. e Tom McPherson agora. É possível que todos nós tenhamos os nossos papéis a desempenhar. mas creio que o desafio existiria de qual- quer forma. Senti lágrimas me aflorarem aos olhos. então deve ter acontecido a outros. como sugerem os textos místicos. Está me entendendo? Assoei o nariz. — Por que. a maioria das pessoas no mundo acre- dita na reencarnação. — O que estou tentando compreender.

Nenhuma jamais morre. mas também porque isso está me fazendo feliz. Como uma e- nergia real. Pensei um pouco. No fundo da minha mente. E. o plano astral. vou continuar a investigar. o plano da terra.. Claro que os ani- mais matam. mas saber que existe uma lei de causa e efeito em ação me faz sentir como é precioso cada movimento de ca- da dia.. Bella.. Preste atenção. são. é possível que isso seja ciência e não misticismo. Levamos tudo muito a sério. Apenas faz com que eu me sinta muito me- lhor. Mas sempre volta. entidades invisíveis. — Mas como isso funciona? – Nada. não é mes- mo? Não poderia ser em outra forma? Assim. Creio que posso estar percebendo de uma forma integral. Proporciona-me o sentimento de que estou vivendo num agora universal.. E por que deveria? Algumas das maiores mentes que este planeta já co- nheceu acreditavam no que estou começando a compreender. — Eis uma coisa que posso aceitar. Bella. É o que real- mente me interessa. Esse é o poder real que temos de mudar. qualquer con- tribuição que eu dê. finalmente.. . são uma parte da harmonia cíclica da natureza.... equivalentes. O que então está acontecendo? Recostei-me na cadeira. E não precisa ser en- frentado? — Claro. ao invés de vivê-la. não porque odeiam ou por "esporte". Cada pensa- mento. que o passado. independe de quão insensatamente nos compor- temos. minha querida. de alguma forma algum dia. Creio que as almas. realmente.. Estou consciente de que tudo tem Uma razão para acontecer. Tentamos legislar a mo- ral. li e senti. Precisamos acreditar numa realidade positiva aqui na terra. cada gesto. O que estou dizendo é que muita coisa existe porque nós assim o fazemos. Use a natureza co- mo guia. Não há moral ou julgamento na natureza. apenas muda de forma. um recurso que posso usar. Mas quero que me diga qual a diferença que tudo isso está fazendo em sua vida. — Mas o negativo existe. — Não sei. para comer. Não é uma questão da boa ação do escoteiro. porque acreditar fará com que seja. Se você quer pensar assim. a lição real é de que toda a vida é eterna. é insignificante. Portanto. Julgamos a todos que pensam de maneira diferente. mesmo que seja um simples "bom dia!" para al- guém. tentando encontrar as palavras que tranqüi- lizassem a minha amiga. Cada segundo se torna importante.. possui uma energia que é esperançosamente positiva. Bella sorriu. Sei apenas que não posso ignorar o que aprendi. Talvez tudo seja real. A natureza desaparece se a destruímos. falei: — É estranho. vai me voltar. Bellitchka. quando talvez não exista uma só realidade. literalmente nada.as outras pessoas famosas e inteligentes que acreditaram nessas coisas não estavam piradas. Talvez a vida seja uma piada cósmica em cima de nós. presente e futuro são interdependentes. Não vejo a natureza julgar a destruição que estamos lhe infligindo. Também sei que qualquer bem que eu faça. qualquer diversão que eu possa partilhar. estou constantemente consciente de que existe uma harmonia. não apenas porque estou curiosa. tudo o que eu digo e faço. não sei que mais.

— Não posso assumir uma coisa assim. Procurei então pelas Plêiades. Se você conhece a si mesma. Bella. procurando até que encontrei a Es- trela do Norte. de mãos dadas com Bella. que o passado criou e que está criando o futuro.. Madame Natureza? Peguei a mão de Bella e afaguei-a. se é certo para você. Mas o pensamento não era mais rápido que a ve- locidade da luz? Seria possível viajar pela projeção dos pensa- mentos? O pensamento poderia controlar e impulsionar a matéria fí- sica? Talvez isso. a Ursa Maior e depois a Ursa Menor. não é mesmo. Levantei os olhos e contemplei as estrelas... Ela beijou-me. fosse a ligação entre a mente espiritual e a tecnologia.. em termos que pudesse compreender. estou começando a compreender o que significa ser integral. Penso. — Sabe. então conhece tudo.. a descoberta de que o poder da mente espiritual é o maior de todos os poderes. Pela primeira vez na vida. vivo para o presente. ajo.. É como diz Krishna-murti. Lembrei de ter lido sobre as Plêia- des no Livro de Jó. Bella levantou os olhos para o céu.. índios americanos e nativos do Oriente. um desas- tre. Nenhuma das du- as disse qualquer coisa. as Sete Irmãs.. Ser uma senadora é ser melhor do que você mesma? — Está me julgando. Os cientistas diziam que era impossível atravessar tais distâncias.. Aprender a traba- . Ainda estou aprendendo. não.. Parei outra vez e contemplei a constelação das Plêia- des. E acho também que estou querendo me tornar in- tegral.. que se morreria de velhice antes de chegar lá. ao final das contas. gregos. piscando. Percorremos alguns quarteirões antes que Bella se decidisse a fazer sinal para um táxi. Portanto. cada pessoa é um universo. tentando imaginar o quão distantes estavam aquelas estrelas. o que leva à compreensão do que é agora. minha querida — murmurou ela — talvez haja um meio de evitar o desastre para o mundo. o que vai ser agora? — Vem da palavra latina disastrum e da palavra grega disas- trato. Particularmente quando envolve o reco- nhecimento de tudo o que você já foi.. maias. A garçonete trouxe a conta. depois voltou a fixá-los em mim. Shirl? — Acho que não. — É esse o jeito que você tem para se tornar senadora? — Não sei. Fomos andando pela noite clara de Manhattan. Voltei a meu apartamento. Lembrei das ligações das Plêiades nas pesqui- sas que eu realizara. E ex- perimenta o que a língua latina define como disastro. uma pessoa que é "disastrato" foi separada dos corpos celestes ou arrancada das estrelas. Observei-a entrar no carro e se afastar pela Segunda Avenida. Mas não importa. Não me preocupo com o passado e não me preocupo com o futuro. — Desculpe. indicando um aparente relacionamento com a Grande Pirâmide. — Deus do céu! — exclamou Bella. — Você nunca foi capaz de fazer nada pela metade. incas. — Ei. Dis é definido como "arrancado ou separado de" e astrot significa "as estrelas". sabe qual é a etimologia da palavra "desastre"? — Ali.

tão determinada e sistemática em seu esforço para tornar o mundo um lugar melhor.org . subi a escada e encontrei as pedras que David me entregara. Pensei de- pois em David e me perguntei se tornaria a vê-lo. pensando em todos os seres humanos que haviam participado da minha nova maneira de pensar. com sua perso- nalidade explosiva e desafiadora.lhar com isso desenvolveria uma tecnologia ainda mais superior. Pensei em Bella e no que ela significava para mim. Talvez um dia eu pudesse fazer uma viagem às Plêiades e desco- brir o que havia no outro lado. Seria tão repleta de maravilhas quanto a jornada interior que eu estava começando a empreender? * * * Revisão: Argo – www. Escrevi até as cinco horas da manhã.portaldocriador. que haviam contribuído para me mostrar o outro mundo da realidade. Pus a mão nas pedras. em Kevin e sua fé pura e inabalá- vel. em meus amigos na Suécia. Dei uma última olhada nas estrelas. vi um táxi derrapar e ultrapassar o sinal de trânsi- to vermelho. Depois me sentei e comecei a organizar um livro. em Cat e Anne Marie. Pensei em Mike e seu ceticismo de bom coração. enviadas anos antes pelo chefe masai. E soltei uma risada pelo caos insano e doce que é Ma- nhattan. muito antes de David sig- nificar alguma coisa para mim ou mesmo de eu saber quem ele era. Em outras palavras: se aprendêssemos a elevar nosso pensamento espi- ritual. Observei um ônibus parar na esquina do quarteirão em que fica o meu prédio. talvez pudéssemos localizar nossos corpos onde quer que desejássemos estar. Segui a pé para o meu apartamento. em Gerry e suas soluções políticas humanitárias. muito antes de saber que tinham algum significado para mim. Eu as empilhara em forma piramidal.

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