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Shirley MacLaine

Minhas Vidas
Tradução de A. B. PINHEIRO DE LEMOS

Digitalização: Argo
www.portaldocriador.org

Para minha mãe e meu pai

Algumas pessoas que aparecem neste livro são apresentadas como
personagens compostas, a fim de proteger sua privacidade. A se-
qüência de alguns acontecimentos também está adaptada. Mas todos
os acontecimentos são reais.

"Jamais diga: Não conheço isso, portanto é falso. Devemos estudar
para conhecer, conhecer para compreender, compreender para julgar."

— Apotegma de Narada

"Horácio, Horácio, há mais coisas entre o céu e a terra, do que
sonha a tua vã filosofia."

— Hamlet, Shakespeare

Capítulo 1

"Os sonhos do homem antigo e moderno são escritos na mesma linguagem que os mi-
tos cujos autores viveram no amanhecer da história. ... Creio que a linguagem
simbólica é a única linguagem estrangeira que cada um de nós deve aprender. Sua
compreensão nos põe em contato com uma das mais significativas fontes de sa-
bedoria. ... Na verdade, tanto os sonhos como os mitos são importantes comunica-
ções de nós mesmos para nós mesmos."

— Erich Fromm, A Linguagem Esquecida

A areia estava fria e macia, eu corria pela praia. A maré su-
bia e ao pôr-do-sol alcançaria as estacas que sustentavam as casas
ao longo da Malibu Road. Eu adorava correr pouco antes do pôr-do-
sol, pois contemplar as nuvens magentas por cima das ondas ajudava
a desviar minha atenção da dor intensa nas pernas. Algum instrutor
de ginástica me dissera um dia que correr cinco quilômetros pela
areia macia equivalia a correr 10 quilômetros numa superfície du-
ra. E eu queria permanecer forte e saudável, não importava o quan-
to fosse doloroso. Quando não estava dançando, estava correndo pa-
ra me manter em forma.
Mas como era mesmo a história que eu ouvira no dia anterior...
sobre os dois irmãos? Um deles era obcecado por saúde e forma fí-
sica, corria pela avenida uns 10 quilômetros em todas as manhãs de
sua vida, independente de como estivesse se sentindo. O outro ja-
mais fazia qualquer exercício. E uma manhã o obcecado por saúde
estava correndo pela avenida, virou-se pára sacudir a mão para o
irmão preguiçoso e... pam! Ele não viu o caminhão...
Talvez não importe realmente o que façamos para nos preservar.
Sempre havia caminhões em algum lugar. O importante é não permitir
que isso o impeça de fazer as coisas, não deixar que controle a
sua vida.
Lembrei de uma ocasião à mesa de jantar, com meu pai e minha
mãe, na Virgínia, onde fui criada. Tinha 12 anos e acalentava o
pensamento de que não importava quanta felicidade pudesse ter, num
momento determinado, pois estava consciente da luta por baixo. O
"problema", como eu chamava então... tudo tinha algum problema i-
nerente. Lembrei que papai dissera que eu evocara inadvertidamente
um antigo princípio grego... pitagórico, se bem me lembro. Papai
era uma espécie de filósofo rural e quase tirara o seu diploma de
filosofia na Universidade John Hopkins. Adorava especular sobre o
sentido filosófico. Creio que herdei a mesma característica. Lem-
brei que ele comentara que o meu pensamento possuía um significado
profundo, que se aplicava a toda a vida. Não importava o quão boa
uma coisa pudesse parecer, sempre havia o fator negativo contrário
para se considerar. O contrário também era verdade, é claro, dis-
sera papai... mas ele parecia se concentrar no negativo. Para mim,
tornou-me consciente da dualidade na vida. E olhando para as ervi-
lhas em meu prato, eu sentira que compreendia alguma coisa, mas

sem saber direito o que era.

O vento começou a soprar, encarneirando as ondas pelo mar. Ma-
çaricos sobrevoavam as ondulações, saboreando o alimento que podi-
am encontrar na maré, enquanto seus graciosos irmãos pelicanos so-
brevoavam e depois mergulhavam, como loucos pilotos kamikazes, se
lançando contra os cardumes que nadavam em águas mais profundas.
Tentei imaginar como seria ser uma ave, sem nada na cabeça a-
lém de voar e comer. Lembrei de ter lido que o menor dos pássaros
podia viajar por milhares de quilômetros através do Pacífico, de-
sembaraçado e sozinho, precisando apenas de uma peça de bagagem...
um graveto. Pedia levar o graveto no bico; quando cansava, sim-
plesmente descia para o mar e flutuava até que estivesse pronto
para retomar a jornada. Ele pescava do graveto, comia do graveto,
dormia no graveto. Quem precisava do Queen Mary? Batia as asas,
pegava a sua balsa no bico e tornava a partir para conhecer mais
alguma coisa do mundo.
Uma vida e tanto. Especulei se aquele pássaro alguma vez se
sentia solitário. Mas mesmo se estivesse sozinho, parecia perceber
o rumo apropriado para a sua vida. Os pássaros aparentemente pos-
suíam bússolas inatas que os guiavam para onde desejassem ir. Pa-
reciam saber exatamente o que eram, como viver, por que estavam
vivos. Mas tinham sentimentos? Será que se apaixonavam? Por acaso
se isolavam com apenas um outro pássaro, como se fossem os dois
contra tudo? Os pássaros pareciam parte integrante de tudo. Espa-
ço, tempo, ar. Não, não era possível. Como poderiam excluir o mun-
do, se queriam voar sobre ele?
Lembrei de uma experiência que tivera. Chamo de experiência e
não de sonho, embora tenha ocorrido quando eu dormia. Senti que
estava suspensa sobre a terra, mergulhava e flutuava com as cor-
rentes de ar, exatamente como os pássaros. Enquanto era levada pe-
lo vento, as copas das árvores roçavam gentilmente por meu corpo.
Tomava o cuidado de não arrancar uma folha sequer do galho a que
pertencia, porque eu também pertencia a tudo o que existia. Queria
seguir mais adiante, mais depressa, mais alto, mais largo... e
quanto mais alto eu subia, mais me tornava integrada, meu ser se
concentrava e expandia ao mesmo tempo. Tinha a sensação de que es-
tava realmente acontecendo, de que meu corpo era irrelevante e de
que isso era parte da experiência. O verdadeiro eu estava flutuan-
do, livre e desimpedido, impregnado da paz da integração com tudo
o que existia.
Não era o sonho de vôo de fundo sexual que os psicólogos cos-
tumam descrever. Era mais do que isso. Havia outra dimensão. A pa-
lavra que estou procurando, pensei enquanto corria, é "extra". Era
por isso que eu me lembrava tão nitidamente. Sempre que me sentia
insatisfeita, solitária, desnorteada por algum motivo ou nervosa,
pensava naquela experiência e como me sentira serena, flutuando
fora do meu corpo físico, sentindo-me integrada com tudo o que ha-
via por cima e por baixo.
Essa sensação de pertencer a "tudo" me proporcionava mais pra-
zer do que qualquer outra coisa. Mais prazer do que trabalhar, do
que simplesmente fazer amor, do que ser bem-sucedida em qualquer

as pequenas células cinzentas. o que essa experiência fez para minha mente. que era algo mais do que o cérebro? A "mente" ou talvez a "personalidade" incluiria o que as pessoas chamavam de "alma"? Tudo estaria separado ou o ser humano era a soma de todas essas partes? Se assim era. Que pensamento arrogante! Mas se eu pudesse entrar em contato comigo. E qual era o verdadeiro eu? O que me levava a questionar. por minha paciência e convicção. dentro de mim. para mim. pois francamen- te acreditava que esse era o caminho para me compreender.. Estava enganada. Dirão então que estão velhas. As pessoas precisam cuidar de seus corpos todos os dias ou podem acordar uma manhã e descobrir que se recusam a fazer o que lhes mandam.. pro- curar. estava em contato com quem eu era. pois era o único que eu tinha. — É por isso que os músculos ficam doloridos — explicara o instrutor de ginástica. É por isso que fui uma ativista política. se queria compreender o mundo e se queria ser boa em meu trabalho. uma viajante incessante. Em algum lugar. a jornada mais im- portante era por mim mesma. — Jamais pare abruptamente depois de um exercício puxado. espírito.. Quando dançava. especialmente se eu passara 15 anos sem fazer praticamente qualquer exercício. poderia entrar em contato com o mundo. Queria fazê- lo durar. talvez mesmo com o universo. uma feminista. a experiência de entrar em contato comigo mesma quando tinha quarenta e poucos anos. pensei. E o que aprendi em decorrência permitiu-me en- frentar o resto da minha vida como um ser humano quase transforma- . Provavelmente foi esse o motivo pelo qual co- mecei a vida como dançarina. E o processo de integração com o meu cor- po me punha mais em contato com o verdadeiro eu dentro desse cor- po. É sobre a integração entre mente.. Eu sempre me senti velha quando não estava em contato com o meu corpo. Eu dava atenção a tudo o que se relacionava com a cultura fí- sica. Provavelmente foi também por isso que me tornei uma atriz.das atividades humanas a que as pessoas se devotam a fim de alcan- çar a felicidade. Eu adorava pensar. realmente entrar em contato co- migo. enquanto andava. Doerá menos depois. indulgência. achava que isso seria suficiente. corpo e espírito. pois compreendia que me punha mais em contato comigo mesma. Precisava me virar para dentro e entrar em con- tato comigo mesma.. Fui diminuindo a velocidade até passar a andar. Tivera o bom preparo formal de dançarina quando era jovem.. pensar. Durante todos aqueles anos de representação eu pensara que meu corpo não era importante. Mas podia ser extremamente doloroso. O que foi uma estupidez. como as partes se aglutinavam? É sobre isso que este livro versa. sentir? Seria apenas o cérebro físico. Respeitava meu corpo. Adorava me concentrar. uma espécie de repórter da humanidade mo- vida pela curiosidade. ou seria a mente. Vá diminuindo o esforço lentamente. estavam as respostas para tudo que causava ansiedade e confusão no mundo. lembrando que depois de um exercido puxado é sempre bom reduzir o ritmo gradativamente a fim de que o ácido láctico nos músculos não solidifique. Um vento frio levantou a areia em torno das minhas pernas en- quanto eu corria. O que quer que fosse. Adora- va me integrar com coisas que estavam fora de mim.

mais dos ruins do que dos bons. Adorava me apresentar ao vivo. como eu ressal- tara para ele. onde estavam seus interesses. a fim de lançar um dos meus filmes. de Castro ao Pa- pa. Trabalhara arduamente para alcançar o sucesso. a maioria das pessoas do mundo poderia ser incluída na categoria de oprimidos. os camponeses revolucionários dos barrios das Filipinas. no mundo inteiro). alguns bons. Viajara pelo mundo inteiro. podia dizer com toda objetividade que as coisas ha- viam piorado inexoravelmente. reis e rainhas (meu ativismo político fora devidamente noticiado. para mim. chefes de estado. pertenciam à ficção científica ou ao que eu des- creveria como o oculto. às vezes em caráter particular. mais eu me descobria identificada com os under- dogs. Eu devia estar pronta para o que aprendi porque era a momento certo. Quanto mais eu viajava e conhecia pessoas. o idealismo democrático parecia não ser mais possível. os sensos de humor dife- rentes. agora. Aconteceu aparentemente num ritmo que era todo meu. geralmente irreconhecível (porque eu assim o queria). E quanto mais se tornava ativada. porque me descobri gen- til mas firmemente exposta a dimensões de tempo e espaço que antes disso. porque as pessoas que eram parte da vida democrática estavam aparentemente mais preocupadas em servir . uma busca que me levou por uma longa jornada. descobri-me a pensar ca- da vez mais sobre o que estava acontecendo de errado no mundo. haviam sido traduzidos em quase toda parte). Comecei a viajar quando tinha 19 anos. Mas. primeiros-ministros. Seja como for. às vezes como artista (e nessas ocasiões eu queria ser reconhecida). acima de tudo. Tentei manter a mente aberta enquanto seguia pela jornada. mais minha cons- ciência social e política se tornava ativada. os sherpas dos Himalaias. o que pensavam. gente de cinema de cada país que produzia filmes. Eram pessoas nas artes. As pessoas progridem ao ponto para que estão preparadas. Para mim. Mas aconteceu comigo. Não se pode evitar quando se vê com os próprios olhos a miséria. pró e contra. fome e ódio. escrito- res (eu já escrevera dois livros sobre minhas viagens e aventuras na vida. mas mesmo assim me sentia afortunada e. até aprender a me fundir nelas confortavelmente. Assim. Aconteceu lentamen- te. este livro é sobre uma busca do meu eu. porque me permitia sentir as audiências. Não podia haver a menor dúvida de que eu era uma pessoa privilegiada.. como meu pai os chamava. para citar apenas alguns.. à Rainha da Inglaterra e outras altas autoridades. outros ruins. Creio que aprendi com cada um. eu adorava conhecer novas pessoas e me lançar de frente a culturas estrangeiras. como creio que acontece com todas as pessoas que passam por tais experiên- cias. os doentes e agonizantes da Índia. fazer um especi- al de televisão ou apresentar um espetáculo ao vivo. Passei a ter uma espécie de círculo de amigos longe de minha terra e no qual me sentia inteiramente à vontade. privilegiada por poder me en- contrar e conversar com qualquer um que quisesse. Eu já fizera cerca de 35 filmes. o que não é de surpreender. Mas. aos quarenta e poucos anos. que foi gradativamente reveladora e em todas as ocasiões simplesmente espantosa. os oprimidos.do. como eu disse.

ditadura. guerras inevitáveis. havia guerra. genocídio. tabelas. com todas as extensas implicações que isso acarretaria. Ao contrário. que por tanto tempo ficara à míngua de reconhecimento. constituíam a preocupação prioritária de governos e líde- res. Eles tinham soluções temporárias para problemas per- manentes. sem reconhecerem o seu relacio- namento profundo com uma necessidade mais ampla e mais universal: a necessidade arraigada de alcançar uma paz de espírito perene. Mas não éramos todos também espirituais? Descobri que mais e mais pessoas estavam se concentrando na questão da espiritualidade interior. quer se seguisse o cristianismo. como seres humanos. O fato de sermos criaturas mentais também era evidente. Com toda certeza. enquanto eu continuava a viajar. como se o impasse autocriado da humanidade nada tivesse a ver com soluções econômicas. inte- resseira e preocupada com a consecução dos ganhos pessoais e con- fortos mais luxuosos. pesqui- sas e programas industriais. o que só podia levar ao conflito humano. Parecia-me que as potências mundiais podiam reconhecer a necessidade para a unidade dos inte- resses humanos. O "pensamento político" no mundo parecia estar baseado no poder político e economia material. com a ascensão violenta do orgulho islâmico no mundo árabe. os lí- deres mundiais continuavam a examinar os problemas exclusivamente em termos dos próprios problemas. mas invisível? As religiões do mundo não pareciam satisfazer ou explicar nossas necessidades espirituais. o sionismo mili- . mas sempre recomendavam políticas econômicas mais altamente competitivas a fim de alcançar esse objetivo. alguma coisa estava faltando.. opressão. contrariavam a filosofia bá- sica do bem-estar da maioria. Em algum lugar do planeta. Passamos a especular sobre a busca interior do que nós realmente significá- vamos. violência. O mundo parecia até estar se encaminhando para uma era de Guerra Santa. sobre se a humanidade era fundamentalmente egoísta. a Igreja parecia mais dividir as pessoas do que uni-las. Descobri-me a dizer que a competição e o e- goísmo pessoal predominavam não apenas em detrimento da felicida- de. no mundo inteiro. como meu papai diria. O mundo da mente. islamismo. notei que algo estava mudando.a seus próprios interesses e. De«cobri-me empenhada em discussões intermináveis. Não eram muitas as pessoas que res- peitavam uma ética internacional. discórdias. Enquanto isso. Nossas necessidades físicas. mas também do sucesso pessoal. O tom da conversa deslocou-se da consternação e confusão para a consideração de que as respostas poderiam estar dentro de nós mesmos. Ou. crime. em todas as ocasiões. ciências. os centros do saber. fome. judaísmo ou budismo. um espe- táculo global de desespero e miséria humana. numa base individual. A confusão não derivava do fato de a espiritualidade não ser óbvia. assim. a dimensão mental. ar- tes. Depois. era atendido pela educação. "estão pondo Band-Aids em cân- cer". com soluções que se exprimiam em termos de gráficos.. o fundamentalismo cristão entre a chamada maioria moral da América. ignorando o ser humano individual. Para que estávamos aqui? Tínhamos um propósito ou éramos apenas um acidente transitório? O fato de ser- mos físicos era óbvio. As pessoas com quem eu conversava já começavam a especu- lar sobre o que estava faltando. pelo menos em teoria.

— A vida é a combustão dos dois. Eu o conhe- cera numa galeria de arte no Village. a continuar por muito tempo depois de julgarmos estar mortos. O Pacífico sempre me lembrava do meu amigo David. Havia a possibilidade maravilhosa de que a verdadeira realidade fosse muito mais. Quando ele estava na Califórnia. um sorriso suave e triste. pois era um observador da vida. Tente apenas sobrepujar o negativo com o po- sitivo e será muito mais feliz. Levantávamos questões sobre o propósito e significado humano em relação não apenas com a nossa perspectiva física de vida na ter- ra. em Nova York. Talvez o plano físico da existência não fosse o único plano de existência. os malares salientes. Talvez não existisse a coisa a que chamá- vamos de morte.. como seres humanos. Com 55 anos. sempre descon- certante. observando as pessoas e imaginando o que estariam pensando. talvez Buckminster Fuller estivesse certo quando dizia que 99 por cento da realidade eram invisíveis. indagando se a raça humana realmente começara no mar. Europa e América do Sul. passeávamos pela praia. David era um homem interessante.tante em Israel. Não lhe saía muito caro. Mas estou me antecipando. a contemplar as ondas se esboroando no Pacífico lá embaixo. o que aconte- cia com freqüência. David era pintor e poeta. minha vida mudou e o mesmo aconteceu com minha perspectiva. era terno e gen- til. em Malibu. Quando comecei a me formular essas perguntas e descobri uma afinidade autêntica com outros que estavam também envolvidos na busca interior. porque me levou a reavaliar o que significava estar vi- va. O sol estava se pondo e tremeluzindo além das colinas de Point Dume. — Não se precisa ser um cientista espacial para saber disso. Em outras palavras. nossa incapacidade de reconhecer essa realidade invisível era uma decor- rência do que agora se referia comumente como a nossa consciência perdida. às vezes assustador. ficávamos an- dando por horas a fio. Pintava e escrevia durante as viagens. sentia-se à vontade em qualquer lugar. da África e Índia ao Extremo Oriente. mas vivenciar é muito diferente — eu respondera. Descobri-me em contato com uma extensa rede de amigos no mundo inteiro que estavam empenhados em sua própria busca espiritual. Foi emocionante. Lembrei que já me postara naquelas colinas. mas também da perspectiva metafísica em relação ao tempo e es- paço. David tam- bém adorava viajar e já fora a muitos lugares. fôssemos realmente parte de uma experiência em andamento. O que ele dissera? Alguma coisa a respeito da necessidade espiritual de respeitar igualmente tanto o positivo como o negativo na vida. porque trabalhava em .. Ou talvez ele estivesse muito em meus pensamentos atualmente porque eu parecia estar chegando a um momento decisivo na minha vida e David fosse uma pessoa fácil da se conversar. — É impossível ter um sem o outro — afirmara David. Em Manhattan. Talvez. Começou a parecer possível que esta vida não fosse tudo o que existia. Firmamos uma amizade porque eu me sentia completamente à vontade em sua compa- nhia.

enquanto uma brisa mais fria começava a soprar. nas mais diversas atividades. Eu também não falava muito sobre a minha vida pessoal. meditação. Ficava no carpete. novos números para minhas apresenta- ções ao vivo. a fim de construir um prédio. auto-realização e só Deus sabe o que mais. Usavam-na e se tornavam parte dela. combinação de alimentos. fre- qüências vibracionais. emagrecer e Gerry. Como eram tão castigados pela natureza. Era como uma dor satisfeita. eu po- dia sentir o suor escorrendo dos cabelos pela nuca. Mas a maior parte me entrava por um ouvido e saía pelo outro.. esca- lavrada e abalada por marés e tempestades. depois da luta. desde que construíra o prédio de apartamentos. como reen- carnação. como fazíamos no Ocidente. Nunca se sabe. por causa das circunstâncias. Não costumava falar a respeito. até que trocaram o respeito pela natureza em favor do res- peito pelos negócios e lucros. Os anos que passara no Extremo Oriente. que o de- corador me dissera que jamais deveria colocar num apartamento à beira da praia. . Fizera uma corrida puxada. não podia con- versar com ninguém a respeito de Gerry. Adorava aquela escada. justiça cósmica. completo. recordação de vidas anteriores. como David dissera. Lancei um último olhar para o sol poente e depois subi a es- cada de madeira que levava à praia. Agora estou sozinho e feliz.. Sempre se precavenha contra o futu- ro. que eu mesma arrumara. haviam me in- fluenciado profundamente.. fosse o preço por tudo na vida.sua volta pelo mundo. não mais doeria. A primeira coisa que fiz foi obter um empréstimo. a vida movimentada. Não aceito mais os carros velozes. Não era essa a natureza do nosso relacionamento. Já fora casa- do. Talvez. com uma árvore bonsai de Ki- oto e um pequeno córrego que fluía constantemente. esclarecimento es- piritual.. Quando perguntei o que isso signifi- cava. nem mesmo com David. ele acenou com a mão e disse: — Está no passado. O senso espartano de respeito pela natu- reza que lá se encontra era algo que me comovia. de Alfred Hitch- cock. onde poderia alugar apartamentos e viver sem pagar aluguel. pois eu estava absorvida nos roteiros para fil- mes. especiais de televisão. mas era uma sensação agradável.. E quando se chegava ao lugar apropriado. As pernas doí- am. Mas. esse tipo de coisa. com o pagamento re- cebido por meu primeiro filme. mas comentou um dia que fora "alguém que vive às pressas". Não de- via entrar com areia no apartamento. para o caso de ser atropelada por um caminhão e não poder mais trabalhar. O Terceiro Tiro. Subi os degraus que levavam ao pátio. Lavei a areia dos pés num chuveiro no alto da escada. Não acreditavam em conquistá-la. especialmente no Japão. Queria conversar com David a res- peito de Gerry. Ele se dedicava também a uma porção de coisas para as quais eu não tinha tempo. Ele falava a sério a respeito de tudo isso e aparentemente com profundo conhecimento. Agora. E quando o Japão se tornou poluído. os japoneses não tinham outra opção que não a de se harmonizarem com ela. Isto é. Parei e contemplei o pá- tio. Acho que se trata de uma manifestação da minha criação de classe média.. Há 20 anos que a usava.

mas era assim que me parecia. ligaria de novo..parei de visitá-lo. — O que é? — Como está a sua campanha? Tem feito algum progresso? — Está tudo bem. Pode se encontrar comigo neste fim de semana em Honolulu? Tenho uma conferência sobre Economia Norte-Sul. As pessoas precisam ser instru- ídas e ensinadas com golpes firmes e suaves. — E como estão as coisas com Sua Majestade? — Estamos entrando em declínio na Inglaterra com toda classe — gracejou ele. Os telefones exer- ciam esse efeito sobre mim. — Gerry. — Era Gerry.. Limpei a garganta e disse: — Classe é uma qualidade que todos admiram. a fim de po- der ganhar mais dinheiro. O equilíbrio entre as duas coisas não é fácil. contente porque ele não podia ver como eu estava feliz por ouvir a sua voz. Quando? — Na sexta-feira. — É um processo longo e lento.. Mas não haverá muitos jornalistas presen- tes? — É evidente que sim. Estarei lá. aflo- rou em minha mente. mergulhei para o tele- fone no chão. — Estou muito bem — respondi. imaginando o que a pessoa no ou- tro lado da linha pensaria que eu estivera fazendo. O rosto de Gerry. Pude senti-lo pegar um cigarro e aspirar a fumaça suavemente. — E isso vai acontecer em breve? — Espero que sim. — Mas senti uma ligeira depressão na voz de- le. rápida e caprichosa. — Alô? — balbuciei ofegante. Mas falaremos sobre isso quando estiver- mos juntos. — Está disposto a correr o risco? — Estou. — Tem razão. Quem podia ser tão impor- tante assim? E se fosse. os cabelos caindo pela testa. com uma pontada de preocupação que eu já aprendera a perceber. se estivesse por perto quando tocava. Alguma coisa a ver com ser eficiente. Quase tropecei ao correr para atender antes que parasse de tocar.. Estou fazendo o que posso para evitar que o navio afunde completamente. Corri pela porta para a sala de estar.. pura e simplesmente desleixo e preguiça. — Como você está? Eu podia ouvir a telefonista internacional ao fundo. — Alô. Para mim isso era desleixo. Tive de rir de mim mesma. olhos pretos suaves. Eu era capaz de atender ao telefone dos outros. — Onde? . Imagino que se trata de uma posição sim- plista. — Muito bem. — E não há problema? — Nenhum. — Claro que posso. Ouvi o telefone tocar em meu apartamento.. Incomodavam-me as pes- soas que deixavam um telefone tocar quatro vezes antes de atende- rem. Especulava sobre quanto tempo se passaria an- tes que o mundo inteiro industrializasse a natureza.

acreditava que podia fazer a Inglaterra voltar a funcionar. eu disse que sim. E quando ficava andando de um lado para outro de uma sala. Os olhos eram úmidos e pretos. É claro que a Ca- lifórnia não era chamada de Big Orange de graça. mais devagar do que o habitual. Até o fim de semana. Quando fôramos apresentados pela primeira vez. Pare- cia inconsciente à própria imponência. um ano depois. Desliguei também. Preciso desligar agora. Na verdade. de inteligência penetrante. Lembrei da primeira noite que passáramos juntos em Nova York. Ele foi aos bastidores. Adorava pensar na Califór- nia. Ele está esperando. tinha-se a impressão de que a sala se inclinava ao seu peso. eu estava me apresentando no Palladium. passando em muito do l. peguei o carro e parti. — Está certo. um socialista.. Eu ficara im- pressionada com a sua fala suave e segura. para a minha casa grande em Encino. andava tão deli- beradamente que tropeçou numa cadeira. e me te- lefonou. — Kahala Hilton. Na Califórnia. Não era pomposo como tantos ingleses bem-educados que eu co- nhecia. era justamente o oposto. o que eu achava criativo e emocio- nante. pensando que era a porta de saída. Fomos a um restaurante indiano na Rua 58. eu já lhe fora apresentada diversas vezes antes. Ele não comeu muito. quando ele foi a Nova York. Não conhecia muito da política in- glesa. Adorava sentar ao volante num carro da Califórnia. procurando pela melhor maneira de apresentar um argumento. andando de- vagar pelas estradas largas e pensando. Mal parecia perceber que a comida estava ali. que adoraria jantar em sua companhia. Sim- patizei com ele imediatamente. Tenho uma reunião com meu subsecretário. Nova York era tão movimentada que só havia tempo para agir por instinto e sobrevivência. Muitas vezes tinha um bura- co na meia. Seu comportamento e hábito profissionais impediam es- se tipo de coisa. Faziam-me pensar em a- zeitonas pretas. a mente brilhante e á- gil. era para mim um lugar em que podia fazer as coisas em que pensara em Big Orange. em passadas lar- gas. A pessoa podia se tornar uma laranja se não tomasse cuidado. Assim. em Londres. Gerry não fora ainda capaz de ir à Califórnia desde que eu o conhecera. tomei um banho de chuveiro. — Até lá. como Nova York era conhecida. Ele desligou. a camisa se abri- a.80m de altura.. eu podia refletir. Big Apple. in- voluntariamente divertido. um homem imenso. mas ele me pareceu franco. Quando se sentia excitado com alguma coisa. Descontraído e exu- berante. E demonstrou o hábi- to de fixar os olhos em minha boca quando precisava pensar num ar- gumento que estava formulando. O corpo movia-se de maneira descuidada. uma mecha de cabelos caía pelos olhos. a gravata pendia torta para um lado. quan- do estava em Londres e novamente quando ele fora a Nova York para uma grande manifestação contra a guerra do Vietnam. Sua vida pessoal era outra coisa. Pensei que ele gostava dos meus lá- . Ao deixar meu camarim. Ele estava no Parlamento. porém. mas não antes de ter a- berto o armário embutido. ombros e braços que me fazi- am pensar num urso que queria abraçar o mundo. As despedidas pelo telefone com Gerry nunca eram prolongadas. Assim. Ao contrário.

Acertei tudo para ter as reuniões sobre o roteiro em Londres e ao mesmo tempo me encontrar com Gerry. Eu usava saltos altos e finos. Podia-se ver a ponte da Rua 59 pela janela. Precisava saber qual era a sensação. Mas o carro nunca apareceu. Foi as- sim que tudo começou. Gerry desviou o rosto da biografia de Marx que estava segurando. por cima da mesinha de café. Não era. mas era parte do e- nigma que eu iria montar mais tarde. Era o caso com aquele roteiro. pois assim a viagem a Londres não seria um total desperdí- cio. fitou-me nos olhos e depois enlaçou-me. passa- se muito tempo a discutir roteiros que nunca são convertidos em filmes. — E poderá me acompanhar a Paris na semana seguinte? Respondi que sim mais uma vez. seguimos a pé para o Elaine's. Não se despediu. Seja como for. Gerry tinha razão. toda Londres parecia estar em greve quando cheguei. Assim ficamos por um momento e senti-me comple- tamente perdida. E tinha uma bolha num pé. Quando estávamos prestes a sair. Não podia compreender na ocasião. Mas virou-se na direção correta e foi embora. nem mesmo olhou para trás. ele levantou-se e encaminhou-se para o que julgava ser a por- ta da frente do apartamento. política americana. apesar do terno amarfanhado e dos sapatos ar- ranhados de Gerry. O navio estava afundando. Mas eu não fui a única que notaram. mas eu duvidava que isso acontecesse com alguma classe. teoria marxista e balé. a fim de conversar sobre o roteiro de um novo filme. sentia-me desconfortável. Conversamos sobre Nova York e Londres. Estávamos sentados em minha cozinha ensolarada. aproveitaria para lhe telefonar. ninguém nos incomodou. No mundo do cinema. Depois do jantar. Pergunto-me às vezes se o roteiro não me pareceria melhor se não tivesse Gerry para distrair-me a atenção. E tão simples e facilmente como se nos conhecêssemos por toda a vida. Uma limusine deveria buscá-lo e levar para alguma conferência política no interior do estado. E as- sim ele foi para o meu apartamento. — Poderemos nos encontrar lá? Respondi que sim. informei-o que iria a Londres dentro de uma semana. cheias de livros sobre a China. mas no fundo pensava apenas no que ia dizer em seguida. servi-lhe chá e biscoitos. Terminou voltando ao quarto. As pessoas olharam quando entramos no Elaine's. Pedimos uma salada de lula e tomamos alguns drinques. Com uma determinação inabalá- vel. Gerry queria conhecer o lugar em que o pessoal da minha roda se reunia. Quando nos levantamos pela manhã. Senti-me contente por ter Gerry.bios. não conseguia acompanhar suas passadas longas. apesar do chá das cinco e dos passeios por manhãs . Ele estava discorrendo sobre a necessidade de liberdade numa sociedade socialista. Seja como for. Estendi a mão para tocar em seus cabelos. na esquina da Rua 58 com a Segunda Avenida. quando os cabelos caíram sobre os olhos. show business. Aquilo jamais me acontecera antes ou pelo menos não assim. esquadrinhando as minhas es- tantes. — Você vai a Londres na próxima semana? — perguntou Gerry. Respondi que sim.

mas ele não pensara em tudo isso quando começáramos? Gerry estava tão apavorado que me senti enternecida. Gerry era conhecido por apreciar a sua privacidade quando andava pelas ruas da cidade em que fora criado. Não era necessário. Respondi que já encontrara o caminho de volta de lugares mais selvagens que o in- terior francês. Eles sorriram e acenaram.. Gerry e eu jamais falávamos sobre a espo- sa dele ou a minha vida pessoal. não se mostrou absolu- tamente sentimental.de neblina em Hyde Park. enquanto ele comparecia a conferências e reuniões. precisávamos nos encontrar de novo. suplicante e exigente. Era algo raro. franco. a voz se alteou em desafio e ímpeto. quase como se estivesse experimentando com as muitas facetas de sua personalidade. Indagou se eu estaria bem voltando à América. até a noite em que ele me levou para jantar fora e uma mesa cheia de jornalistas ingleses nos re- conheceu. Parecia um expurgo emocional para Gerry. tudo ao mesmo tempo. Mas tudo o que realmente importava para mim era o cheiro de seu casaco de tweed. Abraçou-me tão forte que senti que ele não conseguia respirar. como ela seria incapaz de aceitar. os cabelos abundantes ca- indo pelo rosto. Ele disse que não podia suportar que eu fosse embora. Parecia desamparado e ponderado. Fui para Paris depois de alguns dias e Gerry se encontrou co- migo lá no dia seguinte.. Gerry ficou paralisado. E quando chegou o mo- mento de nos separarmos. Tomamos a precaução de não sermos vistos quando estávamos jun- tos (fiquei no apartamento de uma amiga). Depois que fazíamos amor. um pouco assustador. Ele não conseguiu dormir naquela noite. Germain pela janela do meu quarto de hotel. Além do mais. como deveríamos avançar mais devagar. em toda a sua vida. Ele se lançou sobre mim com beijos e carícias. Sentia-se confuso e terrivelmente culpado. parecendo excluir a realidade de que não apenas a Inglaterra e o meu roteiro estavam em perigo. a fim de que ele pu- desse recuperar o equilíbrio. fizera algo assim. em St. ja- mais conversávamos sobre o nosso relacionamento ou o que signifi- cávamos um para o outro. não pôde comer. mas também o mundo inteiro. Foi suave e sussurrante. real. Sentia uma terrível saudade de mim. a suavidade de seus dedos em meu rosto e a manei- ra como me envolvia em seus braços imensos. se os ricos estivessem dispostos a partilhar mais de suas riquezas.. Falou sobre os princípios democrata-socialistas e como era possível ter as duas coisas ao mesmo tempo. Nada indagou a meu respeito ou se havia outros homens que eu pudesse conhecer ou com os quais estivesse envolvi- da. não pre- cisávamos entrar nessas coisas. me telefonou. Falou sobre a situação do mundo e como queria dar uma contribuição para melhorá-lo. Eu disse que estava certo. Eu já esta- va mesmo planejando partir quando Gerry.. Ele explicou como isso magoaria sua esposa. Ficamos separados por um dia intei- ro. ele foi comedido.. Gerry pediu desculpas por seu comportamento em Pa- .. Germain en Laye. Fomos nos encontrar fora de Paris. Disse que sua mente era um turbilhão de confusão. Ofereci-me para sair. num desespero solitário. Contemplávamos os telhados de St. Disse que nunca antes. direto.

As proposições a que se chega por meios lógicos exclusivamente são comp etamente desprovidas de realidade. como dizer que uma pessoa na pior só tinha uma coisa a seu favor. ele abriu a porta do armário embutido e entrou." — Albert Einstein Filósofo-cientista Passei pelo Malibu Canyon e entrei na Venturs Freeway. A questão era só uma: Por quê? Capítulo 2 "O pensamento lógico puro não pode nos proporcionar qualquer co- nhecimento do mundo empírico. O Vale de San Fernando estendia-se à minha frente. fazendo as duas coisas. Senti que de alguma forma fora compelida a me envolver naquele relacionamento. Adorava aquelas árvores. Discutimos o dilema e resolvemos tentar converter o globo terrestre numa bola de golfe. Ele queria que eu ficasse. porém. Deixei a auto-estrada e entrei na minha rua. o fato de não viver no vale. antes do nosso divórcio. Sem movimentos supérfluos. Subindo pelo ca- minho longo. Lembrei-me de que haviam levado Kruschev ao vale quando ele estivera na Califórnia. fomos desenvolvendo vidas em separado.. Até que deu certo. E nenhum dos dois mencionara a pala- vra "amor". gradativamente. vivesse e trabalhasse na Ásia. sabia que não podia oferecer muito mais que obstáculos irreconciliáveis. Steve as plantara quando morava num bairro residencial de Tóquio chamado Shibuya. Afora isso. mas sim porque era a minha área profissional. Eu queria viver e tra- balhar na América.. como uma gigantesca caixa de jóias na noite. conseguiu sair pela porta certa. todo o conhecimento da realidade parte da experiência e nela termina. quando se olhava da perspectiva correta. sem dizer nada. por algum tempo. abriu a porta e sa- iu. O quarto a que déramos vida por dois dias pareceu ficar su- bitamente inativo e silencioso. Mas. Era mesmo um lugar bonito. todos faziam piadas a res- peito do Vale de San Fernando. Alegaram que era a Amé- rica em progresso. Só houve um problema: ao invés de sair. não porque tivesse nascido lá. podia sentir os galhos baixos das cerejeiras roçando no teto do carro. enquanto criávamos nossa filha Sachi.ris e disse que me procuraria em breve. Faziam-me lembrar as cerejeiras que meu ex-marido Steve e eu tínhamos na casa dele no Japão. as luzes das casas começando a piscar. Gerry riu. que passou os primeiros sete anos de . Permanecemos amigos. Não ha- via muito tráfego. As paredes davam a impressão de estar se fechando sobre mim. despediu-se em sua maneira inglesa espartana.

geralmente empregada para salvar o que poderia ser um comentário embaraçoso. A longo prazo. Meu amigo David gracejara que a montanha mais alta que estava escalando era eu mesma. braços e pernas desengonçados de uma ocidental que ela consegue de alguma forma orquestrar como se estivesse u- sando um quimono e obi restritivos. embora ela não tivesse a menor intenção de me ensinar. as vantagens e desvantagens. mas sim com im- . "MacLaine Mountain". que todos significávamos basi- camente algo importante uns para os outros. com o mapa da Irlanda estampado no rosto. — O que há com você? Por que não arruma o tempo necessário para olhar? David não chegou a falar isso com irritação. Isso era às vezes en- graçado. Sachi aprendeu a falar. tem a sua dualidade.sua vida comigo na América. come- çou a pensar e perceber como uma oriental. e se ela puder se ajustar. temperado com a ambigüidade asiática indireta. se abríssemos nossos corações e sentimentos. mesmo quando penso que a compreendo. como um dos meus amigos a chamara. Como na ocasião em que descascou uma laranja como uma flor e o suco da fruta escorreu por seu queixo enquanto a comia. será capaz de a- judar um a compreender o outro. O que tenho na verdade é uma combinação do pensamento ocidental. ler e escrever japonês (o que significava que podia ler a maioria das línguas orientais). indelicado ou insen- sível. Como acon- tece com tudo. David não tinha muito tempo para conversa fiada. David tantas vezes sugeriu que parei de "escalar" a mim mesma. qualquer que seja. franco e direto. mamãe. Ela ainda se ajoelha numa sala de estar e fica olhando com uma expressão de adoração para a pessoa que está falando. Ela pertence a es- sa nova espécie de pessoas cujo sangue e linhagem são ocidentais. aprazível e aconchegante. mas podia fazer com que o momento mais trivial parecesse importante. isso foi o resultado da convicção da "bola de golfe" que Steve e eu tivéramos no início do casamento. Quando ele estava na Califórnia.. não tivéssemos medo das conseqüências. No caso de Sachi. Disse que não havia acasos na vida. pois Sachi é uma loura sardenta. es- peculando se alguma vez eu cairia de lá. mas cuja psicologia e processos de pensamento são meio asiáticos. eu diria que as vantagens superam as desvanta- gens. quanto menos não seja pelo fato de que Sachi é uma combina- ção de dois mundos. quando anda e senta. passeávamos pela praia e almoçá- vamos num restaurante de comida natural. fazer uma reverência com a polidez japonesa e ao mesmo tempo dizer "vá tomar no rabo!" Minha casa estava no alto da colina. porém. Aprendi muita coisa da Ásia por intermédio de Sachi. Sachi estudou em Paris. A propósito da rudeza e cinismo parisienses. depois da aula de ioga. lançando-me em vez disso numa jornada para "dentro" de mim. ela dis- se: — Não é nada fácil.. os seis anos seguintes numa escola in- ternacional no Japão e os anos escolares restantes na Suíça e In- glaterra. É claro que ninguém podia imaginar que já me fizera muitas vezes a mesma indagação. Seu semblante de Alice-no-País-das-Maravilhas pode ser desconcertante. — É onde se encontra tudo o que você está procurando — disse ele. Diz que foi muito mais difícil alcançar o ajustamento sociológico e cultu- ral por lá.

especialmente quando po- dia aproveitar o tempo para ler ou escrever. gritei que ia tomar um banho e descansar um pouco antes do jantar. Mas. mas continuei a encarar tu- do de frente. Eu nunca tivera essa experiência na vida. feliz.. E talvez por causa disso eu devesse compreender que tinha um longo caminho a percorrer. Quando eu lhe perguntava. com a mente aberta. Subi a escada de dois em dois degraus... mas certamente era funcional. Senti o aroma da excelente comida francesa de Marie flutuando pelo caminho. Eu o projetara pessoalmente. Eu não compreendia realmente o que ele estava querendo dizer. Pensei muito em suas palavras. amplo. Os móveis eram estofados com veludo azul e a cama tinha uma colcha de cetim. E às ve- zes sentia-me justamente o contrário. Sempre pensara que era justamente o que estava fazendo. Gostava de ficar sozinha e além do mais me sentia contrafeita ao receber. Deu-me para ler livros de ensinamentos espirituais. montanhas que sempre me pegavam de surpresa num fim de tarde cla- ro. Sabia que podia trancar a porta e me iso- lar do mundo. embora não houvesse ne- cessidade de correr. Era possível que ele estivesse vendo em mim algo muito mais profundo do que eu podia perceber. com a sala de estar-escritório ad- jacente. Gostava dos meus lençóis comuns porque geralmente lia e escrevia na cama. que não precisava de ninguém. E sempre pensei que tinha uma boa noção da minha identidade. Mas eu já não tinha mais tanta certeza. É difícil saber que algo lá no fundo está faltando quando a gente se sente vitoriosa e ocupada. Mas lá estava o quarto que eu amava. Talvez David estivesse certo. mas vibrante o suficiente para dar vida tanto ao amanhe- cer como ao anoitecer. Tinha o melhor restaurante da cidade. era às vezes difícil me relacionar com as queixas dos movi- mentos feministas de que haviam sido destituídas de suas identida- des de mulher. sempre que não queria me . responsável e criativa. só que docil- mente convidava alguém para comer. azul. Parecia tão certa do que sentia e do que queria que havia quem se queixasse de que eu era liberada demais. ele jamais explicava. As cortinas eram finas. quebrei uma unha ao abrir a porta do quarto. comentavam. Era o que to- dos diziam a meu respeito. sem parecer impolida ou anti-social. Na ver- dade. sozinha. Dizia que bastava que eu pensasse a respeito e acabaria entendendo. porque já estava tão liberada. Batendo a porta da frente para Marie saber que eu chegara. li apressadamente os livros. revigorante. Nunca me sentia desliga- da naquele quarto. aparentemente. tanto quanto uma pessoa pode amar um cômodo.. Adorava o meu quarto azul. Podia não ser totalmente satisfatório.paciência. Passava ho- ras a fio ali. Já ouvira falar de uma artista de cinema que caíra da cama porque dormia em lençóis de cetim. de jeito nenhum. "Ela sabe quem é". Eu não era uma pessoa infeliz. O azul era bastan- te claro. Di- zia-me que eu devia entrar mais em contato com a minha verdadeira identidade. estendendo-se por uma parede corrediça de vidro sólido. que proporcionava uma vista espetacular do Vale de San Fernando e das montanhas mais além. Poderia viver ali e jamais querer qualquer outra coisa. à minha espera. David referia-se a um nível diferente.

bem quen- te.. embora o tivesse ganhado apenas por posar para um anúncio. Era todo espe- lhado. contra o qual Gerry fizera uma vigorosa campanha. .. Peguei um roupão e olhei ao redor. Eu o vira observar minha bagagem luxuosa no hotel em Paris. Talvez descobrisse a coisa a que ele se referia. plantas e flores tropicais. a meditar profundamen- te. Ela nem mesmo gosta que use luvas de couro no inverno. Imaginei o que ele pensaria se eu lhe dissesse que adorava a sensação de lindas pérolas em torno do meu pescoço. com todos os livros e anotações na cama. sem mais nada além de mim e qualquer coisa em que quisesse pensar. Certa vez lhe perguntara se a esposa tinha lindas roupas e ma- las que durariam uma vida inteira. dando para uma varanda com uma cascata. Eu queria conversar com ele. Entrei no meu quarto de vestir e tirei a roupa. atulhado de roupas dos filmes que eu fizera ou que com- prara em quase todas as grandes cidades do mundo. Tinha livros e cadernos de anotações es- palhados ao meu redor. mas a risada sar- dônica de Gerry cortara tal desejo pela raiz. tirava um pequeno cochilo. Lembrei co- mo Gerry me julgara tola quando eu lhe mencionara tal conceito pe- la primeira vez. Talvez David estivesse certo. Uma das paredes espelhadas era uma porta corrediça. pensei. Eu sentira vontade de prolongar a conversa. geralmente já encontrara a solução para o impas- se que me incomodava. — Plantas podem sentir? — Ele rira. Era uma sensação de plenitude e realização saber que me concentrara profundamente em alguma coisa e esquecera inteiramente de tudo a meu próprio respeito. como isso me fazia sentir da elite num mundo na miséria. a fim de pegar um roupão. Queria perguntar o que ele faria se pudesse exigir muito dinheiro por seus serviços. um monumento à vaidade. ligava o cobertor elétrico. porque não me im- portava muito com a minha aparência quando não estava trabalhando em algum filme. Ele pensaria que as manifestações físicas de riqueza ad- quirida violavam os princípios socialistas? O fato de nascer pobre fazia com que alguém se tornasse automaticamente bom? Eu gostaria de conversar com ele a respeito de tudo isso. mas raramente o usava. Ao acordar. Espelhos nas quatro paredes e no teto.. por saber que podia comprar qualquer coisa que desejasse. que as plantas realmente tinham emoções. — Pois estou contente que elas não possam responder. Imaginei o que ele pensaria se eu lhe dissesse que adorava me aconchegar num macio casaco de zibelina. explicar como ganhara muito di- nheiro. ao mesmo tempo em que me sentia ostentosa e deslocada quando as usava. Imaginei o que Geny pensaria de meu armário de estrela de cinema. Abri uma das portas espelhadas do meu armário. Sempre que embatucava numa transição ou em algum ponto de uma história. Tal- vez eu devesse mesmo aprender a meditar. uma coisa que me constrangia. mas não podia fazê- lo. Eram cuidadas por um jardineiro japo- nês que as amava como crianças e acreditava que Peter Tomkins es- tava correto. Minha esposa é uma marxista. Ao que Gerry me respondera: — Não.sentir uma profissional. por assim dizer.. Imaginei como ele se sentiria ao saber que eu adorava viajar no Concorde. Adorava me sentir sozinha em meu lindo quar- to.

um chuveiro em latão no alto da banheira.. dava para a cascata. Havia dois va- sos e duas pias de mármore rosa. que poderia se tornar um fato científico incontestável dentro de 20 anos. Lembrei como ela se acomodava na banheira e ficava pensan- do. afundada no chão. ao crepúsculo. E suas mãos ado- ráveis eram a sua parte mais expressiva. no outro lado do terraço. Mas havia uma contradição. Ela estava sempre ajeitando uma suéter de gola alta (a lã em contato com a pele a incomodava) ou brincando com as pulseiras de prata. O que deixava muitas possibilidades. dizia que nem precisaria de maquilagem para bancar o palhaço. Parecia que tudo o que mamãe fazia era por papai. Creio que o mesmo a- contece com a mãe de todo mundo. que nunca paravam de se retorcer ou de mexer com alguma coisa no pescoço ou nos pulsos. pegava o cachimbo e batia . onde a iluminação indireta fazia agora a água dançar. Eu sabia sempre como ela se sentia pela simples observação dos dedos compridos e esguios.. Uma banheira quadrada de mármore. pelos filhos. Ele enganchava uma perna por cima da outra. sair de sua vida. Mas Gerry era o tipo de homem que lidava apenas com as coisas de que tinha provas. como des- cascar batatas ou fazer um bolo. ela já se lançava a outro projeto. clamar que ela esclarecesse o que estava sentindo. Geralmente o fazia com o cachimbo. Sua cadeira vi- rava um palco e os amigos ou a família tornavam-se a platéia. Pensei em minha mãe. Ela também adorava banho quente. Sempre me perguntei se ela poderia estar pensando na maneira de sair. Os dois. antes que pudesse definir meu próprio pensamento. depois dele. Muitas vezes dava um jeito de queimar alguma coisa e então retorcia as mãos. Freqüentemente. E tinha um jeito de atrair as atenções como nenhuma outra pessoa que já conheci. na verdade. Inclinei-me e abri a torneira da banheira. Creio que pa- pai comentou uma vez que pensara em fugir com um circo quando ti- nha 14 anos de idade. mas quando mamãe alcan- çava um certo grau de desespero. uma banheira de água quente mudava o meu ânimo para a felicidade. bastou estender as mãos para o fluxo de água quente e já comecei a me sentir mais relaxada. Papai sabia que mamãe sonhara em ser uma atriz e por isso di- zia que a maior parte do que ela fazia era uma representação. o que podia assim parodiar ou comentar em termos sociológicos.. porque às vezes eu sentia que ela estava sufocan- do de frustração. eram como uma dupla de vaudeville. Suspirei de satisfação e entrei na água quente com a espuma de sabonete VitaBath. O banheiro era o meu cômodo predileto.. Ele adorava os trens e viajar. Queria compreender essa contradição. o que podia ver. O trabalho dela na cozinha era entremeado de suspiros profundos. Eu podia compreender que ela apreciava a sensualidade das pulseiras deslizando por seus dedos.Muitas vezes eu ansiara em esmiuçar alguma idéia metafísica esta- pafúrdia. não importava em que lugar do mundo estivesse. Agora. Eu adorava o fato da banheira ser tão funda que não pre- cisava de cortina para proteger o carpete dos respingos do chu- veiro. tornava-se o centro. Ficava ao lado do quar- to de vestir. Água quente sempre me fazia sentir melhor. Independente do lugar em que estivesse sentado numa sala. em seus acessos ocasionais de humor negro. E.

as pessoas na sala já se mostravam apreensiva- mente atentas. Mamãe se apresentara certa ocasião numa peça em teatro amador. Pouco a pouco. grunhia um pouco e se inclinava para resol- ver o que fazer com a cinza. o foco da atenção nas cinzas. Era um exercício cientificamente manipulado que exigia uma habilidade tão grande que seria a mesma coisa que entrar correndo no palco para ajudar Laurence Olivier a recuperar um adereço que ele largara proposi- talmente. a tampa da caixa de fósforos na outra. Um pouco de cinza se derramava do fornilho para o tapete. advertia-a de que a situação em casa estava se deteriorando gradativamente. papai se embriagava impla- cavelmente. como se estivesse impondo ordem a uma reunião. o que produzi- ria um gesto surpreso de compaixão de quem estivesse mais perto. Papai começou a se queixar de que não encontrava mais um jantar quente à sua espera quando chegava em casa e de que havia poeira na cornija da lareira. Não é de admirar que Warren e eu tenhamos nos tornado atores: aprendemos com os melhores. feliz. papai sugava o cachimbo e bebia lentamente do copo com uísque e leite. Contudo. pelo canto dos olhos.no calcanhar. tentando compreender por que uma peça devia ter mais de um personagem central. Mas se ninguém lhe prestava qualquer atenção. Papai então deixava escapar um suspiro profundo. a fim de cuidar da família. tomando cuidado para não desmanchá-la em poeira? Ou pe- garia a tampa de uma caixa de fósforos na estante de cachimbos ao lado de sua cadeira. Acei- tara a campanha de propaganda de papai e voltou para casa. Papai geralmente recolhia a cinza com a tampa da caixa de fós- foros. Largou a peça. Ele recolheria a cinza? Gentilmente pegaria o naco de cinza entre os dedos. Era o que mais atraía as atenções. so- quetes enroladas por cima das meias de nylon. descruzava as pernas. Enquanto isso. ele se sentia um homem realizado. Enquanto crescia. lenta mas firmemente. Usava blusas brancas padronizadas. dizendo que ela estava se tornando uma réplica da "cadela" que representava "naquela maldita peça". ainda meio encurvado. Dava . a fim de recolher a cinza? Nunca ocorreu a qualquer espectador se oferecer para ajudá-lo. Os en- saios afastavam-na de casa pelo menos quatro noites por semana. um fio solto no ombro de seu paletó. A esta altura. Encaminhando-se para a cozinha. Mamãe geralmente se levantava e ia ao banheiro. O nariz gracioso tremia quando ela tentava se expressar. sabendo que mamãe consegui- ra roubar a cena. sapatos sempre engraxados. que não misturava. ele descobria. eu também fazia o que se esperava de mim. Sugeria en- tão uma boa torta de maçã que ela própria fizera. enquanto todos na sala aguardavam na maior expectativa o destino da cinza. Consumada a conquista das atenções totais. Com o cachimbo nas mãos. Ela acabou concordando que já se tornara a perso- nagem e por isso não valia a pena continuar. a fala se tornou errática. só voltando depois que sentia que o ato de papai chegara ao final. saias pregueadas que ajeitava meticulosamente por baixo do corpo quando sentava. Caçoava de mamãe. ela podia esbarrar em algum móvel. qualquer fio solto que pudesse discernir. ele cuidava de remover. contando a história de uma mãe que lentamente enlouquecia. mamãe começou a sucumbir â pressão.

até que co- mecei a compreender que havia alguma coisa errada. Mas. Dava as minhas voltas. No final das contas. a tola esquila. porque eu ria prati- camente de tudo. Não pareciam interessados no motivo pelo qual eu rira tanto. Um dia. sempre provocando. comecei a gritar com o riso. Tinha um sorriso jovial para todos e jamais me mostrava abertamen- te irritada com quem quer que fosse. Meus amigos passaram a me chamar de "Silly Squirrely". Diziam que eu era uma "pirada". Por que todos os a- . algo que aceitei a princípio como um elogio. Sentia o coração es- tufar de orgulho quando ouvia o ressoar dos tambores da escola an- tes de um jogo importante. mas nunca indo às últimas conseqüências. usava as suas cores em todas as ocasiões. Encontrei certa vez um apartamento que ficava a dois ou três pontos do metrô e a 10 minutos a pé do escritório de Gerry.. Achavam que eu era uma eterna otimista e minha "despreocupação" era um tema de conversa. Que roupas levaria para Honolulu? Já me encontrara com Gerry em muitos lu- gares do mundo. pois nunca se podia saber de onde viria o voto crucial de popularidade na próxima eleição para Rainha do Baile da Escola. Eu ria muito.. E era a- inda mais difícil evitar que a imprensa me reconhecesse. mais por tensão.. como uma espécie de vazão para os meus sentimentos reprimidos. Ele morreu três anos depois. porque mamãe dissera que eu deveria estar virgem quando casasse caso contrário meu marido sa- beria.. Era uma boa aluna. sempre fazia os deve- res de casa e poderia ter me tornado a Rainha do Futebol Americano se meu namorado não ficasse doente no dia em que os jogadores a- presentaram suas candidatas. ao que pa- rece. com Gerry fazendo as viagens de metrô e eu esperando no apartamento escuro que ele viesse me visitar. Estava imbuída de um autêntico espírito da esco- la. Quando lá cheguei. na Coréia. iniciamos um idílio de 10 dias. Ri e ri. também transtornava as pessoas. Iria a qualquer lugar e a qualquer momento que ele sugerisse.cem escovadelas nos cabelos todas as noites. mas as viagens clan- destinas a Londres haviam se tornado sufocantes para mim. Com uma espécie de júbilo teatral. na neve e nos trópicos. Permaneci na banheira até que a água ficou morna. acabando assim com as minhas chances. Passava muito tempo depois das aulas a fumar e passear de carro com os garotos. eu estava de mãos dadas com Dick McNulty. papai e mamãe estavam mais preocupados com a minha reputação do que com o que eu pudesse estar realmente fazendo. até que o diretor apareceu e ordenou que a enfermeira me levasse para casa.. Papai e mamãe só quiseram saber por que eu estava de mãos dadas no corredor com um rapaz. que não queria controlar. mas jamais ia além de beijar. Ele me contou uma piada e desatei a rir. no cor- redor da escola. Não era fácil arrumar um apartamento por uma semana. Não consegui mais parar. mas apenas porque aprendera a colar muito bem. Mas o conflito emocional mais difícil era o de estarmos juntos em seu território doméstico. O riso era como um salva-vidas para mim. sempre que podia. freqüentemente chegando à beira da histeria.. Dick McNulty foi o primeiro rapaz a quem amei.

Respondi que não tinha a menor idéia do que elas estavam falando e me afastei. empoleirados no alto de um nariz tão-orgulhoso. Ele entrava no apartamento. que es- peculavam sobre o que ele estaria fazendo naquela parte de Lon- dres. Mas sempre que nos encontrávamos. — Morei neste bairro assim que me casei — disse ele na primei- ra vez. enquanto me levava para o quarto. Fui tão desastrado quanto em Paris. Um calafrio me percorreu o corpo. — Como as pessoas podem fazer assinatura de uma porcaria como esta? — disse ele. examinando as estantes e as peças de cerâmica nas mesas. Passamos algum tempo deitados lado a lado e depois Gerry disse que tinha de voltar ao trabalho. tropeçou na lata de lixo. E acrescentou que tivera sentimen- tos que nunca antes experimentara. Era Penthouse. Mas detesto a hipocrisia. Não usava nem mes- mo quando não estava com Gerry. Não falou muita so- bre os livros ou as gravuras nas paredes. Corri para o ar- mário. E sempre sorria cons- . — Minha filha abriu o armário para procurar alguma coisa no meu casaco e perguntou por que minhas roupas cheiravam a perfume. Perguntei no mesmo instante: — Qual é o problema? Gerry respirou fundo. em toda a sua vida. Ela se aproximou do armário e disse que tam- bém podia sentir o perfume. Desse dia em diante. Volta e meia Gerry era detido por adeptos.partamentos eram escuros? Eu ficava de pé na janela da frente. Gerry tinha mais tempo e parecia mais desamparado no dia se- guinte. Fui apanhado de surpresa e reagi como um culpado. mas ele estava preocupado. Contou-me que a alegria do nosso encontro fora tão intensa que mal conseguira dormir à noite. Mas não acha que pornografia é apenas uma questão de geografia ou criação? Muitas pessoas diriam que somos por- nográficos pelo que fazemos. observando-o a se aproxi- mar do prédio. Gerry me fitou nos olhos por um momento e depois sorriu. Fizemos amor. inclusive lavando os cabelos. mas pegou uma revista que acabara de chegar pelo correio. — Acho que está tudo bem agora. inclusive jantando fora. Ele apareceu no apartamento no quarto dia e sentou com um sor- riso contrafeito. Ele entrou na cozinha. Os óculos pareciam incongruentes. Mas deixei passar. Receava que aderisse a minhas rou- pas. Não soube lidar com a situação. ao invés de descartar o assunto como se não tivesse qual- quer importância. ele tomava um banho de chu- veiro depois. De- pois que ele saiu. liguei para um escritor amigo e me ausentei do apartamento pelo resto do dia. Eu o abraçava. Gerry soltou-me e deu uma volta pelo apartamento. — Não sei. Minha esposa estranhou a reação e pude sentir que ela me observava atentamente. Declarei que não sentia o cheiro de qualquer perfume. Não gosto de mentir. Disse que era uma maneira re- quintada de sentir-se exausto. não mais usei perfume. — E como ficaram as coisas? — indaguei. O incidente já foi esquecido. preparou um chá.

um lenço na cabeça. Ainda bem que ele conhecia perfeitamente as saídas da Câmara dos Comuns. Tornava a andar pelo plenário como se lhe pertencesse. quando finalmente foi sentar. Era a primeira vez que via Gerry em ação. chamou um de seus oponentes de meio homem. mexendo-se constantemente. perguntei-me se ele conseguiria algum dia levar seu partido à vitória.. Sentei na última fila da galeria. — E então. Nunca usava anota- ções. curvando-se para dentro. como se já fosse o primeiro-ministro.. É assim que se costuma fazer por aqui? . as mãos en- fiadas nos bolsos. os pés se viravam para dentro. Naquela noite. Estava tão seguro de si que misturava gracejos desafiadores e agressivos em seus discursos e réplicas. Talvez nem sempre ele se desempenhasse daquela manei- ra. dava de ombros pelo absurdo. inca- paz de apoiar uma posição impopular. com um brilho de interesse nos olhos. chamando-os de meio homens e coisas assim. — É mesmo? — Você me pareceu insensível a seus colegas. E quando pediu tempo para falar. fui ao Parlamento inglês.. clamando vigorosamente por atenção. quer versasse sobre sindica- tos. onde Gerry estava participando de um debate sobre a economia. ele me perguntou ime- diatamente o que eu achara. e quando o fazia. como se o número de pessoas a observá-lo da galeria fosse mais importante do que qual- quer um podia imaginar. por baixo da tribuna.. — Você sabia que eu estava lá desde o início? — Claro. Abria bem as pernas. Mas se os eleitores vissem seus pés. pas- sando por cima um do outro. Parecia esmurrar o ar. energia nuclear ou revisão dos impostos. contava a presença na casa. ao entrar no apartamento. Ele riu. Ele andava agressivamente pelo plenário. largou a xícara de café e se inclinou para a frente. as meias a- zuis sempre escorregando pelos tornozelos. junto com o primeiro-ministro e diversos líderes da oposição. Hesitei por um instante. Parecia brincar com o que julgava ser a inteligência inferior de seus co- legas e superiores políticos. eu pensava que ele não tivesse me reconhecido naquela tarde. também saberiam por que ele derrubou o conteúdo de sua pasta no chão. você agia como se fosse o primeiro-ministro. Levantava-se impacien- temente. Sentada lá em cima. Nem sempre sentava em seu lugar quando era a vez de outro par- lamentar falar. Talvez então ele estivesse se exibin- do para mim. Era agressivo e brilhante.trangido. o que você achou? — Estava se exibindo para mim ou sempre se comporta daquela maneira? Gerry ficou surpreso. Mas. como se fosse o dono do lugar. chapéu e lenço na cabe- ça. — Como assim? — Além de se exibir um pouco como Jacques Tati. cruzava as pernas. disse que era um hipócrita. Pus óculos. chapéu por cima do lenço. Com os óculos. como os de um colegial nervoso. Para mim. seria muito difícil deixar de reconhecê-la. com o cotovelo.

Indaguei se ele era tão agressivo para que seus e- leitores das classes trabalhadoras pudessem identificar o que de- sejavam ser ou porque realmente se sentia assim. Era como se ele se mostrasse agressivo por estar envergonhado. — Estou entendendo. — As duas coisas. Enquanto falava. — Para ser franca. qual seria o prazer? Percebi um brilho de dúvida passar por seu rosto. diga-se de passagem. Adoro fazê- los se contorcerem por suas próprias contradições. entende? E constitui a metade da diversão para mim. represento os trabalhadores. — Claro que me pedem para não me mexer tanto. Mas havia alguma coisa por trás que eu não podia definir. Pensava que era evidente que eu estava que- rendo saber por que ele se comportara daquela maneira. Gerry empurrou os cabelos que haviam caído sobre os olhos. O sorriso de Gerry tinha um jeito de contrafeito. Mas não me falam so- bre as coisas a que você está se referindo. — Você se comportaria da mesma maneira se soubesse que câmaras de televisão o estavam focalizando? Gerry empalideceu ligeiramente. mas foi logo ao ponto que o interessava. tentando compreender. — Não sei. Esse tipo de ati- tude sempre os agrada. — Gostaria de saber por quê. Além disso. Sei apenas que o seu sorriso e alguma coisa que está sentindo não com- binam muito com a maneira pela qual se defende. Para ser franco. — Nenhuma outra pessoa me dirá essas coisas — comentou Gerry. É parte do jo- go. ao mesmo tempo em que defendia o seu comportamento combativo. Gerry estava contrafeito. Gerry parecia consciente de que podia estar enganando a si mesmo. mas não recuou. — É um jogo. Fiquei em dúvida se deveria insistir em mi- nha crítica ou mesmo se meus sentimentos eram acurados. Eu não podia entender por quê. Mas eu introduzira o tema de con- versa e senti que deveria seguir adiante. — Por quê? Acha que sou veemente demais para a televisão? Acha que eu deveria atenuar o meu comportamento? Eu não podia acreditar que Gerry estivesse mesmo querendo dis- cutir o lado técnico. não sei muito bem do que estou falando. Que são absolutamente coerentes. mas desa- pareceu no mesmo instante. que nunca têm a oportunidade de falar com tanta veemência. Detesto o jeito como tentam evitar se comprometer com qualquer coisa. Talvez fosse algo quase como vergonha. Eu também me sentia contrafeita por discutir as suas atitudes políticas com tanta franqueza. Já conhecera muitos políticos e sabia que raramente e- ram capazes de uma auto-análise. . E são uns mentirosos. — Por que foi tão combativo com as pessoas que estava tentando convencer? — Já lhe disse. Se não fosse por isso. Detesto a hipocrisia daquela gente. Talvez ele não es- tivesse na verdade interessado em persuadir os parlamentares aos quais falava. E para não ficar an- dando sem parar quando outros estão falando. Ele era aberto à crítica. é a metade da política para mim. Escutei atentamente.

— Está dando sete telefonemas internacionais por semana com o dinheiro dos contribuintes. Isso deve ser levado em consideração. Gerry encaminhou-se para a porta. — Sei que você é coerente em termos políticos. Não sabia se devia continuar. Os óculos ficaram em cima da mesa. — O que há com eles? — Não faz as ligações do seu gabinete? — Claro. Pensei por um momento. mas não era disso que eu estava falando. — Santo Deus! — exclamou ele. passando a mão pelos cabelos. os cabelos caindo sobre os olhos. Tomei o resto do café que ele deixara. depois. como sempre. Acreditava nele. . Saí naquela noite com amigos e fiquei me divertindo até cinco horas da madrugada. Sempre direi a verdade. — Talvez você esteja sendo esperto demais para o seu próprio bem. Você chamou alguém de meio homem hoje e espera escapar impune. mesmo que isso possa me ser prejudicial. A autoconfrontação não era um dos pontos fortes de Gerry. É possível. — Onde está querendo chegar? — Estou querendo conhecer a verdade. Gerry me telefonou cedo. E quer seja verdade ou possa se traduzir na ausência de votos. Gerry. pela manhã. Pôs a capa que eu esperava que tivesse um forro para o in- verno e. — Está querendo dizer que eu acuso outros de hipocrisia pes- soal porque reconheço a mesma coisa em mim? — Não é o que todos fazemos? Na verdade. — E quem paga o governo? Gerry ficou me olhando fixamente. — Ambos sabemos disso. acusamos os outros das coisas de que estamos mais propensos a ser culpados. — Quem paga as ligações? — É um telefone do governo. — Como assim? Sou coerente com as minhas convicções políticas. — Talvez você seja agressivo com as contradições das outras pessoas porque também tem as suas. — Já estou atrasado para uma re- união do partido. E a diplomacia não era um dos meus. saiu sem se despedir. E. Falarei com você mais tarde. não acha que é a mesma coisa? — Não sei. Mas estava ata- cando-os num nível pessoal e aí não sei se é tão puro quanto se apresenta. — E de que eu sou culpado? — Provavelmente de mim. E se o homem resolver ve- rificar o seu registro telefônico e descobrir que as suas ligações para Reno e Las Vegas são para mim? O rosto de Gerry ficou absolutamente paralisado por um ins- tante. ele olhou para o relógio. não é mesmo? Mas o que isso tem a ver com a política? — O que me diz daqueles telefonemas que você me dá? Gerry parou de andar. Talvez sinta que é justamente isso o que as pessoas sentem a seu respeito. Gerry levantou-se e começou a andar de ura lado para outro da sala.

Sentei na cama ao seu lado. Converse apenas sobre o que há de errado entre vocês dois. — Pensei que tivesse vindo a Londres para me ver — disse ele. Afinal. — E com quem você dançou? — Espere um pouco. Mas já se acostumou. — Tem certeza de que ela se acostumou mesmo? — Não sei. — Ela nunca reclama de sentir-se solitária? — Claro. Gerry percebeu-o. — Pois então não fale com ela a meu respeito. — Mas estou me comportando como se fosse. Não temos um amor tempestuoso ou ardente. — E foi por isso mesmo. estou sempre viajando. — Mas sabemos que você se sente solitário. — E qual é a novidade? Gerry suspirou. Ele me fitou nos olhos. — Tem certeza de que ela não é solitária? — Ela nunca me disse nada. — Conte à sua mulher. — Sei disso. Mas está me deixando angustiado. Mas ela já se acostumou com isso há muito tempo. Tentei imaginar o que a mulher dele diria se alguém lhe fizesse a mesma pergunta. Tirou a ca- pa e seguiu para o quarto. Gerry? . — Não há nada de errado entre nós dois. — Mal posso esperar. Aparecerei mais tarde. Eu esperava que Gerry percebesse o sarcasmo. — Não sei. — Não posso. Preparei-lhe um scotch com soda. Não o abracei quando ele chegou. — Onde esteve ontem à noite? — Saí. — Não há nada de errado entre vocês? Como pode dizer uma coisa dessas? — Não há mesmo. Tentei imaginar o que eu sentiria se alguém dissesse a mesma coisa a meu respeito. – Não sou um homem enganador. Não falei nada. não é mesmo. Fiquei aturdida. Gerry. Onde você está querendo chegar? — A lugar nenhum. — O que havia de tão interessante no que fez durante a noite inteira? Não pôde encontrar coisas melhores para fazer com o seu tempo? — Como assim? — Onde você foi? — Saí para jantar no White Elephant com alguns amigos e fica- mos conversando por um longo tempo. Passamos depois pelo Annabel- le's para dançar. Estou bancando o mentiroso. Gerry largou-o na me- sinha-de-cabeceira. mas é satisfatório. Gerry tomou um gole do scotch. Estendeu-se na cama e ficou olhando pa- ra o teto. Deixe-me de fo- ra.

Eu tinha me acostumado até que você apareceu. exatamente como você.. . — Então por que não tenta descobrir se não pode ajudá-la a não se sentir tão solitária. não é mes- mo? Não fiz qualquer comentário. — Então sua mulher também deve se sentir assim. Ele me fitou de uma maneira estranha e depois concentrou-se no gelo do copo. a não se sentir tão infeliz? — Como assim? Eu estaria mentindo para ela. sim. O que eu represento para você? Diga-me para que eu possa saber. Gerry acordou algum tempo de- pois e disse: — Sei perfeitamente o que você representa para mim. — E o que ele disse? — Perguntou se havia mais alguma coisa que ele deveria saber. onde realmente vive. sim. está vivendo sozinho? A pergunta parecia ser algo novo para ele.. — Você me responderia a uma pergunta. Não me sinto solitário agora. — Você se sente como se estivesse vivendo sozinho? Lá no fun- do. depois. Talvez seja neces- sária às vezes. Gerry? Com toda sinceri- dade? — Claro. A impressão era de que nunca antes pensara a respeito. Ele virou-se de lado. — Falei a um dos meus assessores que nos conhecemos. — Portanto.. adormecemos juntos.. — É. sim. Gerry. E acres- centei que você estava em Londres.. não é mesmo? — É. — O que é? — Não fique assim.. Ela se sente feliz em criar nossos filhos.. — Estou falando como um desses porcos chauvinistas. estamos de volta à hipocrisia. Ele estendeu um braço por cima do rosto. — Talvez ela precise de outro relacionamento. Talvez seja esse o preço a pagar. Pedi-lhe para falar no meu lu- gar esta noite. — Ele pôs o braço por baixo da cabeça e acrescentou: — Mas eu tinha me acostumado. E como isso pode- ria fazê-la feliz? — Está mentindo para ela porque contar a verdade seria pior. a fim de que pudesse encontrá-la. — Gerry.. — E o que é? Gerry não respondeu. Estendi uma manta por cima de seu corpo e deitei-me ao lado. Gerry olhou pela janela. como se não quisesse mais falar.e se eu contasse. E.. — Oh. — Estou. — Não. — O que está querendo dizer com tinha? — Exatamente o que eu disse. Uma pausa e Gerry acrescentou: — . Sabe o que meu trabalho exige. ela não acreditaria.. Ele limpou a garganta.

Cerca de seis anos antes.. — Estou entendendo. enxuguei a pele toda enrugada. plenamente equipada e no fundo não me pertencia. Sentei na cama. pálido como um prato de aveia. pus uma calça roxa e uma suéter laranja. — Ele foi pôr o copo na pia da cozinha. Gerry tomou um banho de chuveiro. Sua irmã Louise.Respondi que você estava em Londres. Era moderna. Vol. Os olhos estavam fechados e ele . Entrei na cozinha. A dissolução de nos- sa forma limitada peio tempo na eternidade não acarreta uma perda do sentido. Jung. Voltei para a Califórnia no dia seguinte. — Não precisava. Marie. as mãos e braços tremiam quando ela servia. as pernas tendo a circunferência da maioria das pessoas. Pre- ciso estar presente para as perguntas e respostas. eu queria ficar em sua com- panhia e ponto final. — Você não precisava do banho de chuveiro. que estava na América há 20 anos e não falava uma só palavra de inglês. por volta das três horas da madruga- da. muito nervosa. sendo francesa e uma cozinheira de refi- nada competência. E é isso o que você quer dizer ao falar que sabe perfeitamente o que represento em sua vida? — Tenho de ir agora." — Carl G. Cartas. I Saí da banheira. Eu descera para o quarto deles. era a sombra de Marie. batendo na porta do meu quarto e gritando que havia alguma coisa errada com seu marido John. recebendo ordens e se queixando em desespero que nada dava certo. Os dedos eram retorcidos de artritismo. Usava chinelas com as pontas cortadas. lavando os cabelos. O discurso já deve estar terminando. reinava em seus domínios com uma autoridade pos- sessiva. fiquei contente por ser a porta certa. porque os pés eram deformados em decorrência de ferimentos sofri- dos durante a Segunda Guerra Mundial. John estava estendido na ca- ma. não é mesmo? Gerry pôs a capa e saiu pela porta. Não esta noite. Vestiu-se rapidamente.. não me deixando sequer arrumar um copo de Tab. Capítulo 3 "O que acontece depois da morte é tão indescritivelmente glorioso que nossa imaginação e nossos sentimentos não bastam para formar sequer uma concepção aproximada a respeito. Ela era pequena e frágil. desci para falar com Marie e jantar. — Tem razão. contrabandeando armas para os maquis franceses em luta contra os nazistas. Marie me acordara. Para o seu próprio bem. O calafrio familiar me percorreu o corpo.

Assisti ao jornal. ta- teando em busca de alças e salva-vidas para nos segurarmos. muito menos o nosso. Creio que foi nesse ins- tante que comecei a especular a sério se havia uma coisa a que se pudesse chamar de alma. na sala de estar. Mas que mundo. continuava a viver? A morte era dolo- rosa? Se a alma sobrevivia ao corpo. cheirar ou saborear. em francês e inglês. todos parecíamos estar andando como so- nâmbulos. Estava horrorizada e não queria tocá-lo. em meus braços. gutural. Sempre acalentávamos a esperança de que talvez as coisas melhorassem. para onde ia? E com que pro- pósito? Eu não conseguira dormir pelo resto da noite ou durante as três noites subseqüentes. subi para o meu quarto e me estendi na cama.. E me deixara profundamente assustada.. havia acabado. falando sem nos dirigirmos expressamente aos ou- tros.. De- pois. A princípio. Insistira que ele apenas des- maiara.. Tratávamos de nos concentrar nos desesperos profundos e numa paciência disciplinada. Estava depri- mida e não sabia por quê. Eu o sacudira. Ele morrera abruptamente. ansiando por respirar. Soara como um animal que eu não podia reconhecer.. ainda mais alto. não parecia capaz de aceitar sua morte simplesmente como o fim de sua vida. Sabia que de alguma forma havia algo mais. com receio de que o som tornasse a sair.. Fora a primeira vez que eu vira uma pessoa morta.. Tudo o que sabia era que John. e assim continuávamos. como se estivesse sufocado.tremia todo. depois do choque inicial. não compreendi que era o estertor da mor- te. Meu Amor. Eu não sabia o que fazer.. Parecia estar tateando em bus- ca do verdadeiro significado metafísico da morte. a sua "alma".. Contudo. Marie também não compreendera.. até que nossa inutilidade se tornava institucionalizada. apesar de estar trabalhando muito na o- casião. Um som horrível saíra dele. Ficara pen- sando em que momento exato ele morrera. de contato e compreensão.. Sa- bia também que não podia parar de pensar a respeito. esbarrando uns nos outros. Alguma coisa que era John.. Mas.. Marie. Havia um colapso de comu- nicação tão grande que todos estávamos famintos por confiança. a fim de não balançarmos os barcos dos outros. parara. Ou não? Eu gostava dele. não senti muita dor ou uma saudade desesperada.. dominada pelo vinho e por uma exaustão que não podia compre- ender. Informei que estava de partida pa- ra um fim de semana prolongado. Parecia impossível que eu tivesse amparado nos braços tudo o que podia restar de um homem. O que acontecera. Marie me serviu o jantar diante do aparelho de televisão.. quase como se tivesse se tornado mais seguro não saber o que nossas vidas realmente sig- . Levantara a sua cabeça para aplicar a respiração boca a boca. filmando Charity. Pensava a respeito cada vez que entrava na cozinha e ainda agora a situação não era diferente. tocar. com medo de nossas próprias palavras. E digo metafísi- co porque não era alguma coisa que eu pudesse ver. tanto quanto das pa- lavras que poderíamos ouvir dos outros. como eu o co- nhecera. com alguma dificuldade. um estrondo profundo. ouvir. E.. Louise e eu conversamos por algum tempo. mas sem jamais chegarmos a fazer um contato real com o que era verdadeiro. como estranhos cruéis e amigáveis. sempre imagináva- mos o que poderíamos fazer. depois.

Eu amara e respeitara suas peças intensamen- te... com gavetas e comparti- mentos de armário. que eu desejava que pudesse ser a minha casa móvel.. Ele tomou um pouco de leite de um recipiente de plástico e pediu-me que abrisse as janelas.nificavam. entrevistas coletivas. pensei. — Quero viver — murmurou ele — a fim de poder escrever para muitas pessoas sobre o prazer que se encontra em coisas que não são maiores que uma pulga. durante uma filmagem no México. pianos.. flashes.. ovações de pé. os Oscars da Academia e minha ansiedade por ganhar um com Irma la Douce.. os refletores quentes da televisão. quando achava que meu desempenho não merecia.. as azeitonas pretas caídas no caminho de cimento da árvore que eu mesma plantara.. enquanto eu especulava como conseguiam se manter em formação. a barriga estava inchada da doença. A cabeleira abundante já caíra. Eram 10 horas da manhã em Londres... coreógrafos. tubos pen- diam de seu nariz. a fim de que o ar frio pudesse esfriar o leite... os cenários de filmes tranqüilos.. porque me empenhara a fun- do. uma mãe masai na África. o rosto de Gerry quando eu lhe dissera que adorava viajar sozinha. mas podia ser juntado para me fazer sentir melhor.. Eu deve- ria me concentrar no prazer das pequenas coisas.... O copo na minha mão começou a pin- gar do calor do meu contato. Tentei me sentir sonolenta. uma longa extensão do Deserto do Saara que eu desejara atravessar.. a fim de nunca ter de viver permanentemente em qualquer lu- gar.. só para descobrir se era capaz de fazê-lo. especialmente de pessoas com vi- das insignificantes e não reconhecidas. Imagens da minha vida entravam e saíam da mente.. os vastos espaços do interior da China.... O câncer transformara sua cabeça em algo parecido com a de um pássaro murcho. morrendo de sífi- lis enquanto dava à luz um filho. meu desapontamento quando não ganhei com Se Meu Apartamento Falasse. enquanto todos os fre- gueses batiam palmas.. o rosto angustiado de George McGovern na noite em que Richard Ni- xon venceu por uma maioria esmagadora.. a corrida amanhã de manhã que me fa- ria sentir bem durante o dia inteiro. dançar com um lenço e um cam- ponês russo num restaurante de Leningrado. bailarinos. Lembrei-me de estar sentada na cama de Clifford Odets pouco antes de ele morrer.. O verde suave das folhas da palmeira além da janela. era tudo pequeno. o suor voando. As pequenas coisas. pensando se poderia me sentir responsável por alguma coisa crescendo. água quente e espuma de sabonete. para onde eu levara a primeira dele- gação de mulheres americanas. Senti-me sonolenta por volta das duas horas da madrugada. porque naquele ano Elizabeth Ta- . um bando de pássaros voando como se fosse apenas um. Ele era realmente capaz de escrever sobre a esperança humana e o triunfo contra a adversidade. perguntas difíceis... cam- panhas políticas. candidatos presunçosos mas bem-intencionados. todas vestidas no traje unissex chi- nês. uma arca grande mas compacta.

Sentados no quarto dele no hotel. o que vira. pobres e coloni- zadas. Apenas precisavam saber.. não se importavam muito com is- so. o paraíso dos compradores de sedas chinesas. deixá- lo deslumbrado. não como uma viagem humana. como se sentira. Ti- nha dúvidas se Gerry realmente aproveitaria o tempo. mais satisfatória.. mercadorias diversas e relógios. os relógios da Suíça e o distrito residencial em que viviam os seus conterrâneos. O que estava faltando? Será que eu. tive de interpretar o ambiente para ele. músculos doloridos e o chamado pavor do palco. na Ásia. — Como consegue isso? Co- mo pode ser tão flexível? E vê tantas coisas. percebi subitamente que não mencionava nunca o que comera. Eu lhe dissera que. procurava continuamente pela definição de minha própria iden- tidade através do relacionamento com um homem? Acreditava que a outra metade de mim poderia ser encontrada em amar alguém.ylor quase morrera com uma traqueotomia... inde- pendente da frustração e inutilidade inerentes? Hong Kong e Gerry me invadiram a mente. Em vez disso. Outra esperança que desta vez seria diferente. ele se limitava a comentar que não conseguira comer uma só refeição chinesa desde que chegara. Eu me encontrara com ele. coisas do mundo inteiro levadas para aquele porto livre visando ao lucro. Eu lhe falara sobre a Star Ferry e a própria baía. discussões profissionais. Mas quando falava a res- peito. os mi- lhões (cinco e meio) de habitantes se acumulando e derramando pela baía. não veria de verdade. pela qual deslizavam os juncos chineses de velas vermelhas. mas não como realmente viviam e como se sentiam. on- de os estandes de mercadorias transbordavam com quase tudo que a . o que tocara. Falava como as "massas" eram exploradas. Gerry nunca estivera antes em Hong Kong. as horas disciplinadas a escrever sobre o sentimento pessoal e permanente de uma longa busca por quem eu realmente era. os estúpidos executivos dos estúdios.. como tantas outras mulhe- res. todos sempre sabem de tudo que os estran- geiros fazem. Gerry não parecia apreender a confusão agitada e paradisíaca que era Hong Kong. Eu nunca tenho tem- po... que não tinha certeza se estava correndo para alguma coisa ou de mim mesma. Ele viajara pela África quando era jovem. — É maravilhoso como você adora arrumar as malas e viajar de um momento para outro — comentara Gerry. Falava sobre a África como uma viagem sociológica. passando pe- las lojas de sedas.. Gerry escutara como se eu estivesse contando um conto de fadas quando lhe descrevi como fora até o fundo de Kowloon. os longos ensaios.. Achava que ele não veria o que olhasse. o que cheirara. jóias e tóxicos. lá. se o tivesse. os cules de jirinquixá se misturando com os táxis. os britânicos. algodões indianos e rendas suíças. em outra de suas conferências. brocados japo- neses. perfumes e peças de jade e marfim. as fábricas de peças de jade.. alimentos. proce- dentes do território continental. as quatro outras vezes em que fui indicada para um Oscar e nem me importei.. Falara sobre a Cat's Street.. nada disso parecia impressionar Gerry. de qualquer maneira. Gerry nunca percebeu que eu não respondia. Estava preocupado com a possibilidade dos guardas que pa- trulhavam o seu andar nos reconhecerem e o julgarem mal.

Hong Kong era um lugar em que se ficava liso de tanto poupar dinheiro. africanos. obras de arte feitas por crianças d© menos de 12 anos. malaios. cules corriam. a pressa de comprar e ven- der no mínimo de tempo. no barco. E no último dia eu acertara para que um barco nos levasse aos Novos Territórios. Mas. Nunca lhe ocorrera que os pobres podiam ter uma riqueza de espírito que os ricos invejariam se a conhecessem.. japoneses. sem pretensões quanto ao motivo da existência de Hong Kong. ele voltara a falar sobre as condições miserá- veis em que vira os chineses vivendo. Como as mascates a apregoarem colares de plástico se agachavam de vez em quando para encherem a boca com arroz. tirado com pauzinhos de marfim esculpidos de tigelas delicadas de porcelana. mercadores corriam.. mas quando saía. enquanto esbanjava meu coração piedoso ape- nas com os pobres. comidas suculentas. Falara como subira ao topo de Victoria Peak e contemplara os barcos lá embaixo. ricos deviam volun- tariamente partilhar seus lucros com os que eram menos afortuna- dos. Gerry ficara extasiado com a minha descrição fascinante de diamantes. A verdade da acusação me deixara profundamente chocada. pérolas. onde conhecia um lugar ideal para um pique- nique. Os olhos de Gerry brilhavam e faiscavam enquanto eu lhe fa- lava. E. — Gerry. Eu lembrara como um amigo querido me surpreendera durante a minha fase de liberalismo total. Era apenas "os ricos". sem ilusões. E sempre se esperava por is- so. Nunca pensava em "uma pessoa rica".. objetos antigos. tão lindas e podendo ser des- frutadas até pelos pobres? Ele olhara. de alguma forma inexplicável. Turistas cor- riam. Descrevera as mul- tidões de turistas. interminavelmente.. durante a noite inteira. tudo funcionava. e assim por diante. ao me avisar de não ter a menor compaixão pelos ricos. poh tudo o que todos esperavam era fazer um bom negócio. Discorrera sobre a desigual- dade entre ricos e pobres. Descrevera para Gerry como o cheiro das especiarias pairava no ar. Era o que era. Se a pessoa parti- cipava. materiais feitos à mão.. Era como Las Vegas. Comentara como os. O que me diz da maneira como aquelas pessoas es- tão acenando para nós? . — Olhe também para aquelas sampanas de velas vermelhas. "os pobres".. — Ele parara de falar. Eu levara limonada. Todos ali estavam empenhados em ganhar dinheiro. americanos. Nunca lhe ocor- rera que uma pessoa rica podia ser miserável de outra maneira. in- dianos. desli- zando pela água. Não havia hipocrisia a respeito. mas isolada e alienada. do que fizera durante o dia intei- ro. Era verdade que Gerry não podia se ausentar tanto quanto gostaria. uma corrida para o tumulto.. enquanto ele comparecia a suas reuniões.. crianças corriam. europeus. sanduíches e tortas. todos procurando por uma barganha. que se empenhavam em negócios de adultos sem sequer o perceberem. como a música de rock se misturava com a ópera chinesa. — O que me diz daquelas co- linas que parecem ser de jade. tornava-se parte do esquema. um todo amorfo. ônibus corriam.imaginação podia conceber. era como se ele nunca tivesse deixado o quarto. na enseada.

sentindo que todos os músculos e tendões do meu corpo eram ativados. Eu me perguntava como Gerry poderia conciliar a si mesmo com o resto de sua vida. mas meu trabalho corria muito bem. Eu também tirara o vestido e entrara na água. voltáramos a pôr as roupas. embora exigisse concentração e um senso de relaxamento. Claro que me sen- tia frustrada com Gerry. — Não se afobe. Mas não me sentia particularmente serena. esbarrando uns nos outros. Nós nos abraçáramos e levantáramos ao mesmo tempo. Gerry se levantara. Gerry carregara os cestos do piquenique. não sei. Gerry. Ele estendera a manta no chão.. Gerry passara o braço por minha cabeça e gentilmente me puxara de encontro ao seu peito. — Desculpe. respeite o seu corpo e ele reagirá favoravel- . Es- tava num intervalo entre filmes. eu podia dizer que era uma pessoa relativamente feliz. mas havia muito mais que apenas isso. eu adorava a aula. Marie me serviu o café na manhã seguinte no pátio. não é mesmo? Entráramos numa das pequenas enseadas nos Novos Territórios e desembarcáramos. passarinhos voando entre arbustos floridos nos dois lados. Deitáramos e ficáramos olhando para o céu através da copa da árvore. E me chamara.. enquanto eu levava uma garrafa térmica e uma manta. David telefonou. Gerry murmurara: — Mas que merda! Como posso conciliar você com o resto da mi- nha vida? — Não sei. à beira da á- gua. Os tripulantes ficaram a bordo. Sentíramos a rocha escorregadia por baixo de nós e não nos impor- táramos quando a correnteza começara a nos arrastar lentamente. Gerry suspirara e esticara os braços para o sol quente. afun- dando os pés na terra. pondo os bra- ços em meus ombros. não é mesmo? — Ele sorria timidamente. Parara em cada árvore e flor silvestre.. Eu não sa- bia direito o que estava pensando. Combinei que me encontraria com ele lá. Voltáramos ao barco cerca de uma hora depois. Acabara de chegar à cidade e perguntou se £u iria à aula de ioga. enquanto nos encaminhávamos para as colinas de vegetação exu- berante. Em silêncio. Respiráramos o ar fragrante. estendera-se de costas na á- gua. os pensamentos eram confusos demais. Virando-se para mim.. Tiráramos os sapatos. As- sim. Gerry tirara a camisa e a calça. E tinha outro contrato para me apresentar em Las Vegas e Ta- hoe. as gotas escorrendo faiscantes dos cabelos. por todos os padrões comparativos. — Acho que estou falando como o Sunday Observer. assim que me considerasse pronta para o novo espetáculo. tumultuados. Pusera uma margarida em sua orelha. Eu adorava o hatha ioga porque era físico e não meditativo. Mas com o sol entrando pela janela e o som da voz do instrutor funcionando como um acompanhamento. Encontráramos um córrego faiscando ao sol. Não havia ninguém por per- to. Eu me torno tedioso às ve- zes. Eu me postara ao seu lado. Os passarinhos cantavam para nós das árvores. Árvores frondosas farfalhavam à brisa marinha. O esforço físico servia para me desanuviar o cérebro.

Eles possuem livros de todo tipo sobre o o- culto e metafísica. Pode entender o que estou querendo dizer? — Claro. Aprenda a viver dentro de você.mente — dizia o professor (que era hindu). Não faça uma emboscada contra os seus músculos. Quer me acompanhar? — A Bodhi Tree? Não é aquela árvore sob a qual Buda meditou por 40 dias ou algo assim? — Exatamente. — Não tenho nenhum. Um explorador sensato vai devagar. posso dizer que essa decisão simples. Basta que tenha qua- tro rodas e um pouco de gasolina para que eu me sinta satisfeita. O ioga proporciona amor-próprio porque a põe em con- tato com você mesma. indiana? — Mais ou menos. a próxima será mais fácil. pois nunca sabe o que pode encontrar além da próxima curva. — A realização do ioga exige quatro atitudes: fé. Eu estava ocupada demais em ser bem-sucedida para compreender que havia outras di- mensões na vida. Afinal.. Por que não? Olhando para trás. Garanto que vai gostar. Os músculos são como pessoas: precisam dos preparativos adequados. quando havia tantos roteiros a ler e tantos telefonemas a responder. — Está certo. E se você é boa e fiel em sua luta nesta vida. Estou surpreso por você ter passado tanto tempo na Índia sem absorver a espiritualização do país. — Se você se dá tão bem com o ioga. — Aluguei este carro — expliquei. Não pegue o seu corpo de surpresa. perto de La Cienega. foi uma das mais importantes de minha vida. encostado numa árvore. Minha malha estava molhada de suor. Somente quando se vai devagar é que dá para se pressentir antes de encon- trar de fato. Carros são uma chatice e não consigo compreendê-los. . Deve respeitar o ritmo deles. — E que tipo de livraria é. era hinduísta. — O ioga exige bom sen- so." Calculei que ele realmente acreditava nis- so. Ele sorriu quando acomodei meu Lincoln imenso numa vaga que mal dava para um Volkswagen. numa tarde ensolarada. essa mesma su- gestão pareceria um desperdício de uma tarde. Numa época anterior de minha vida. de visitar uma livraria diferente. mas confessei que nunca ouvira falar. E provavelmente melhor do que você imagina. Deve se aquecer antes dos exercícios. mais uma vez. É como a vida. Pense a respeito como um explorador que está penetrando em território desconhecido. Oferece uma paz interior. Nunca ouviu falar? Senti-me um pouco constrangida. gentilmente. Pus a saia e uma blusa de malha. — Acho que você vai gostar — disse David. Vamos nos encontrar lá. David dis- se: — Vou até a livraria Bodhi Tree. David já estava na Bodhi Tree quando cheguei. esperando por mim na calçada. A livraria fica na Melrose. caso contrário se assustam e se contraem. "Lute nesta vida e a pró- xima será mais fácil. paciência e amor.. saí com David. E. determina- ção. Andando sob o sol exuberante da Califórnia. Eu escutava as suas palavras nos intervalos entre as posturas. vai adorar algumas das obras dos antigos místicos. sou lembrada que efetuamos pequenos movimentos importantes quando estamos prepara- dos para isso.

mas ele continuou a agredir: — Essas porras de incenso. Por que vocês ficam passando as pessoas para trás. depois para o dono da loja (cujo nome era John). — Até que ponto absorveu a técnica da meditação? — perguntou ele. cartazes vistosos. Sorri meio murcha para David. Cartazes de Buda e de iogues de que eu nunca ouvira falar sorriam-me das paredes. O escritório parecia estar estourando com tantos livros... — Posso ajudar em alguma coisa? A voz era calma. com um sorriso pretensioso. conduziu-nos gentilmen- te para fora de seu escritório. como todos nós fazemos. vocês são cheios de merda. Sentia-me deslocada. de trinta e poucos anos. desejando não ter achado que era necessário dizer alguma coisa. — Não foi nada — disse David.. Quando me virei para fitá-la. É difícil acreditar que a paz é possível. David levou-me para uma imensa estante em que havia a indi- cação de "Reencarnação e Imortalidade". John indagou se podia ajudar o rapaz em alguma coisa. Talvez ele tenha um grande investimento emocional em hostilidade.. comentei para David: — Por que o rapaz acha que este lugar é tão ameaçador? — Não sei. Comecei a examinar as prateleiras. sen- ti o cheiro de incenso de sândalo se espalhando pelos diversos compartimentos da atravancada livraria. — Desculpem — murmurou ele. que ele não precisava se incomodar. Enquanto avançávamos. Olhou para mim e para David. usava barba. de profunda serenidade. ela reconheceu-me e sugeriu uma apresentação ao dono da livraria. ou talvez eu estivesse sendo tea- tral. Havia livros e mais livros sobre assuntos que variavam da vida após a morte a como comer na Terra enquanto aqui se vivia. David sorriu e nós a acompanhamos. tomando chá. — Ele tem de encontrar o seu próprio caminho. — É fascinante — murmurei. a indicar também que não me importava. Acenei com a cabeça. um pouco tola. para que serve toda essa merda de tentar fazer com que as pessoas pensem que são felizes? Afinal. — Usa a respiração Kampalbhati? Não acha que é muito eficaz. David disse que poderíamos encontrar sozinhos o que desejássemos. Ele me pegou pelo braço e entramos. O proprietário era jovem. ninguém pode ser feliz nesta porra deste mundo. Fregueses com livros na mão tomavam chás de ervas e fala- vam em voz baixa. Uma moça de sandálias e saia de gaze se aproximou para nos servir um chá. — Ei. levando-as a pensar que podem ser felizes? David pôs a mão em meu braço ao perceber como eu ficara so- bressaltada. John pegou no meu braço e no de David. cara. Olhei ao redor. apesar de tão difícil? Eu não tinha a menor idéia do que ele estava falando. Depois que John se afastou. Foi nes- se momento que um rapaz de cabelos curtos e blusão de malha entrou na sala. In- formou que lera os meus livros e estava especialmente interessado no que eu tinha a dizer sobre o período que passara nos Himalaias. chá de ervas. As obras ali iam do Bhaga- . que estava em seu escritó- rio. Ela estava em harmo- nia com o clima na livraria.

sem qualquer hesitação. — Todos eles acreditavam na reencarnação? — Claro. Goethe e Voltaire. Também penso as- sim. Fitei David nos olhos e perguntei: — Acredita em tudo isso? — Tudo o quê? — Não sei.. apren- de-se que não é uma questão de ser ou não verdade. — Quer que eu prepare uma lista de livros que você poderia ler? — indagou ele. E escreveram amplamente a respeito. Por que não? As pessoas também pensavam que . Contemplei mais atentamente o rosto ossudo e triste de David. E só porque uma coisa está escondida não significa que não existe. muito prático.vad Gita aos Livros dos Mortos dos egípcios antigos. Ralph Waldo Emer- son. Disse que não achava mais surpreendente nascer uma porção de vezes do que nascer apenas uma vez. David pegou um livro. Eu não tinha a menor idéia do que estava procurando. David continuou a examinar os livros. Se cada um de nós não tem uma alma. como magia negra e coisas assim.. — Está querendo dizer que acredita na reencarnação como um fa- to incontestável? David deu de ombros. mas não como se achasse a conversa desinteressante e sim como se estivesse pura e simples- mente procurando por um determinado livro. — Exatamente. — Tem razão. não é mesmo? Além do mais. Os olhos azuis de David estavam firmes e serenos. lembrando que tinha cinco roteiros para ler e também imaginando o que Gerry pensaria se me visse len- do livros assim. mas sim uma questão de como funciona. Acredita realmente na reencarnação? — Quando se estudou o oculto por tanto tempo quanto eu.. então por que estamos vivos? Quem sabe o que é verdade? É verdade se você acredita. e isso se aplica a tudo. É a única coisa que faz sentido.. mas também coisas de Pitágoras. Mas talvez todas as religiões sejam falsas tam- bém. a não ser quando percebeu que eu estava fazendo um esforço para compreender suas palavras. passando por interpretações da Bíblia Sagrada e da Cabala. E ele me perguntou: — Sabe o que é o ocultismo? — Não. Ele falou em tom sereno. Platão. deve haver alguma coisa no fato de que a crença na alma é a única coisa que todas as religiões têm em comum. Hesitei por um instante.. enquanto dizia: — Você devia ler não apenas algumas das obras que estão nesta estante. Fitei-o nos olhos. Mas tais obras sempre vão parar na seção de ocultismo. — Eu não pensara muito em religião desde que tinha 12 anos e ficava brincando de jogo-da-velha na escola dominical. Walt Whitman.. — Voltaire acreditava na reencarnação? — Acreditava. — Apenas o que está "escondido". — Claro que quero.

. Ao final da ado- lescência. a verdadeira inte- ligência é a capacidade de manter a mente aberta. mas eu não podia acreditar. Acho que de- vo ser curiosa sobre todas as possibilidades "escondidas".. Jesus Cristo parecia um homem inteligente. e fizera algumas coisas boas. se tivesse tempo. e considera- . descansar.. Descobri-me naquela noite a procurar o verbete sobre reencar- nação na enciclopédia. mitológico e de certa forma desconexo. Folheei alguns livros sobre ali- mentação. nem de longe tão estimulante co- mo algo real e divertido como as pessoas. mas nunca pensara realmente se existia um Deus ou não. mas eu encarava o que aprendera a seu respeito na Bíblia como filosófico. — Para mim. qualquer igreja. Eu me descobri a sorrir. de que Deus e religião eram coisas incontestavelmente mitológicas. Despedi-me de David e fui para casa. De vez em quando. à me- dida que me tornava mais velha. Ninguém insistia e eu achava o assunto aborrecido. Se as pessoas queriam acreditar. Eu viajaria para Honolulu no dia seguinte. Quem podia imaginar que havia bichos rastejando por toda a nossa pele até que alguém inventou o microscópio? — Meus parabéns — disse David. assim. David acrescentou: — Pique dando uma olhada por ai enquanto eu procuro os livres que você deve ler. Não me agra- dava o autoritarismo da igreja.. até que alguém provou o contrário. ainda me empenhava numa discussão confusa sobre os perigos dessas crenças mitológicas e como desvia- vam a atenção do verdadeiro problema da raça humana. não acreditava nem desacreditava. eu chegara à conclusão. sensato e certamen- te muito bom. como todos nós. a fim de pensar. eu imaginava se algum dia abriria um daqueles livros. meditação e outros assuntos simila- res que podia compreender.. Não podia acreditar em qualquer coisa que não pudesse ser pro- vada. fé em Deus ou a imortalidade da alma. Depois de meia hora. Além do mais. Ele apenas acontecera. En- quanto agradecia e saíamos para o sol da Califórnia. Se você está procurando por alguma coisa. arrumar as malas e. Imaginava o que aconteceria com o dinheiro na bandeja da coleta.. mas ape- nas porque o lugar era aceito para se ir aos domingos.. Devo ressaltar que não fui criada para ser uma pessoa religio- sa.. Encarava com restri- ções a afirmativa de que ele era Filho de Deus. Ele limpou os cantos da boca e com os olhos meio cerrados co- meçou a verificar as prateleiras.o mundo era plano. por que não tentar? — Tem toda razão. muito bem. Eu usava anáguas de crinolina e tentava não olhar demais para as letras no hinário que já deveria ter decorado. O que ele pregava não chegava a me tocar. David reunira um punhado de livros. não pensava muito em coisas como religião.. sozinha. não me sentia absolutamente angustiada pela necessidade de um propósito na vida ou de alguma coisa para acre- ditar além de mim mesma. Meus pais mandavam-me à igreja e à escola dominical. ler um pouco. Em suma. exercícios de ioga. há muito e muito tempo..

de tocar. A identidade parecia-me algo concreto. porque fazia com que as pessoas tivessem medo de queimar no inferno se não acreditassem no céu. até retornar à fonte e ori- gem comum de toda a vida. memória ou inspiração. que é a liberação pelo trabalho dos fardos interiores. Quem era eu? Quem era qualquer pessoa? Por que eu fazia as coisas que fazia? Por que os outros faziam? Por que eu me importava com algumas pessoas e não com outras? A análise de relacionamentos tornou-se um dos meus temas prediletos. como fazia a maioria dos ar- tistas. a oportunidade física de viver o carma. Dizia que os temas conjugados do carma. quando de- parei pela primeira vez com a noção de vida antes do nascimento. o relacionamento que eu tinha comigo mesma e com os outros. reencarnava vezes sem conta. Embora fosse impossível encontrar uma definição conclusiva. outra a aceitação da revelação sobrenatural e finalmente. era impossível não sentir curiosidade em explorá-la. escrevendo ou repre- sentando eu ficava espantada comigo mesma. a alma era considerada uma entidade pré-existente. Minha identidade e a de todas as pessoas que conhecia. havia diversas características que eram co- muns à maioria das religiões. entre muitas a mais. até que alcançava moral- mente a purificação. eu sempre relacionara vagamente a reencarnação com es- píritos sem corpos. mais amplamente aceitos que quase todos os conceitos religiosos do mundo. Nunca relacionara com qualquer reli- gião mais importante e mais séria. Por mais desinteressada que eu estivesse de Deus. Atribuía a um conceito nebuloso chamado processo criativo. Assim. que se alojava numa sucessão de cor- . Consistia na crença da ligação entre todas as coisas vivas e a gradativa puri- ficação da alma ou espírito do homem. religião e vida posterior.. intrigava-me a possibilidade de haver algo mais em mim do que a minha mente consciente podia perceber. Procurei por religião. com o ocultismo e coisas que fa- ziam barulho durante a noite. havia uma coisa pela qual me interes- sava profundamente. A enciclopédia dizia que a doutrina da reencarnação remontava aos princípios da história registrada.. Qual era a origem dessa chama? De onde vinha? E o que hou- vera antes? Sempre me interessei muito mais pelo que existira antes do que pelo que poderia vir depois. Creio que era por isso que não me in- teressava no que me aconteceria depois que morresse. que era Deus. Uma era a crença na existência da alma. a busca repetida pela salvação da alma. em meu trabalho com a expressão pessoal.va-o perigoso. Era a crença de que a alma era imortal. E muitas vezes. os fantasmas. no fundo de quem quer que eu fosse. no entanto. pelo menos. e da reencarna- ção. que eu apenas precisava procurar para encontrar.. Desde que era muito jovem que eu me interessa- va pela identidade. podia sentir uma chama que não era capaz de compreender. aturdida com a origem de um sentimento. Era uma novidade para mim. Talvez houvesse ou- tras identidades enterradas no fundo do meu subconsciente. eram duas das mais antigas crenças da história da humanidade.. Dos egípcios aos gregos. tanto quanto me interessava pelo que me tornara como eu era. Assim. talvez porque me interessava pela minha própria iden- tidade. Mas tenho de admitir que. dançando. budistas e hinduístas.

mas apenas se retiram de vista por algum tempo. Paulo. Não sei. Pensei também em minha ami- zade com David e imaginei com quantas outras pessoas já conversa- ra. Maomé ou Aristóteles também não estão mortos. esperando. tornando-se encarnada por um período. sabia que iria a qualquer lugar que fosse necessário para estar em sua companhia.. Preparei-me para ir ao encontro de Gerry imaginando o que mais poderia estar acontecendo no mundo sobre o qual eu nunca pensara antes. Em algum momento. depois passando algum tempo na forma astral como uma entidade desencarnada. mas acho que precisávamos de al- go. o que quer que is- so significasse. Lá estava eu. Registrei-me no Kahala Hilton com outro nome. Jesus não está morto: está bem vivo.. voltando mais tar- de. mas eu nem mesmo sa- bia o que isso significava. dando para o Pacífico cadenciado e embalador. Fui para o meu quarto e comecei a esperar. especialmente ao .. João. Cada religião tinha a sua própria crença sobre a origem da alma. por ter uma educação cristã. mas nenhuma religião estava desprovida da crença de que a alma existia como uma parte do homem e era imor- tal. Centenas de milhões de pessoas acreditavam na teoria da reen- carnação (ou qualquer outro termo possível). Capítulo 4 "O segredo do mundo é que todas as coisas subsistem e não morrem. Dormi e pensei em Gerry durante a maior parte da viagem. entre o judaísmo e o cristianismo.. Ninguém me reconhe- ceu. Honolulu é uma das minhas cidades prediletas.. Sei que eu precisava. Ambos éramos ocupados e tínhamos um trabalho cria- tivo para preencher nossas vidas. Sabia que era muito forte o que sentia por ele. parada na sacada de mais um quarto de hotel. Esperando por um homem. passeara e comera. Desde que podia me lembrar. Acreditamos em determinadas ocasiões que vemos a todos e podemos facilmente enunciar os nomes com os quais se apresentam. eu precisava estar apaixonada. Esperando por um homem a quem amava ou pensava que amava. Um homem parecia o alvo mais óbvio para tal sen- timento e desejo. mas sempre voltando a reencarnar. Mas talvez não. talvez eu precisasse apenas sen- tir amor. o sol vermelho se aninhando na água.. Nominalista e Realista O vôo de Los Angeles ao Havaí foi tranqüilo. o Oci- dente perdera o antigo conceito de reencarnação.pos. sem nunca chegar a conhecê-las realmente. Fechei a enciclopédia e fiquei pensando por algum tempo. talvez um objetivo mais profundo fosse o que parecia es- tar se me esquivando." — Ralph Waldo Emerson.

Mas eu me ressentia com o atra- so. com sua paisagem interna-externa. o bar por baixo d'água. suportando os invernos ingleses. nadara nas águas frias do Canal da Mancha. pois sabia que teríamos apenas 36 horas. prestes a rachar. Corri os olhos pelo quarto do hotel.pôr-do-sol. O dólar continuava a cair. Aspirei o ar suave do crepúsculo. Olhei para o relógio. Um coco maduro caíra. Sua mente podia relaxar quando estava sob uma árvore a pingar. Lá estava eu a pensar de novo em Gerry como se fosse e- le. O Ka- hala Hilton é um dos hotéis mais lindos do mundo. A colcha era verde-oliva. Além disso. Gerry chegaria em breve. como o tempo parecia ser meu inimigo! Não importava em que estivesse en- volvida. tufado. os vestidos soltos e estampados em co- res alegres das havaianas. O tempo estava bom e assim não havia atraso de qualquer vôo. Precisava fazer isso. O mundo era apenas uma bola de golfe. E o controle do aeroporto infor- mara que não havia problema de tempo na partida de Londres. usando muumuus. com um passarinho sacudindo as asas molhadas. Por que as cortinas sempre têm de combinar com a colcha? Especulei se Hilton faria um hotel na encosta de uma montanha na China. Eu queria que o presente fosse tudo o que existisse. Mas também ele fora criado no interior da Inglaterra. Fiquei escutando a toada da á- gua se desmanchando na praia. Teddy Kennedy estava abor- recido com Carter. A primeira providência de Gerry seria sa- ir para a sacada e contemplar tudo que o cercava. Os chineses haviam parecido . Ele gostaria da paz en- volvente. o futuro com seu mistério. os golfinhos pulando ale- gremente no tanque de água do mar. Passeara pelas campinas inglesas. O mundo era engraçado ou es- tava desmoronando. Seu espírito parecia abrandar com a certeza de que a natureza era bela. parecia que nunca dispunha de tempo suficiente. ele devia ter saído no horário. Eram 15 minutos que jamais podería- mos recuperar. E. Precisava de espaço e desafio natural. Mais 15 minutos passaram. Pierre Trudeau xin- gara alguém no Parlamento canadense. Santo Deus. Por- tanto. Nunca estivera lá. Eu queria tanto aproveitar e desfrutar tudo o que pudesse que me sentia con- tinuamente frustrada pelo tempo de que não dispunha. o passado com suas conseqüências. de certa forma. mais forte do que qualquer outra coisa. Não quisera chamar muita atenção e por isso pedira apenas um quarto. muito embora estivesse agora apinhada de turistas em convenções. voltei para o quarto e li- guei a televisão. Podia ouvir os coqueiros sussurra- rem. O carpete no quarto era marrom. ouvi um baque surdo. Já eram sete e meia. Gerry dissera que chegaria às seis e meia. não uma suíte. de repente. Mas era o suficiente para o tempo que Gerry e eu teríamos juntos. o passado e o futuro estavam sempre se interpondo. Carter estava aborrecido com Begin. Podia até parar de se preocupar com a situação do mundo e as perspectivas de sua reeleição quando o sol se erguia rosado. com flores marrons. Sen- tia-se calmo quando estava cercado pela natureza. Esperava que ele pudesse sentir a cidade. carregando máquinas fotográficas. Eu sabia que Gerry adoraria Honolulu. Eu me sentia contente por estarmos nos encontrando em Honolulu. dependendo do ponto de vista. A vida na cidade grande o sufoca- va. Olharia para Diamond Head e falaria sobre as palmeiras.

O telefone na mesinha-de-cabeceira tocou. mas também são bem-inten- cionadas. Quando você chegou? — Há algumas horas — respondi. Ele dizia que fumava porque estava sempre entrando em salas onde havia outra pessoa fumando. uma porção de vezes. Ele falava de maneira diferente quando estava longe de seu escritório. Mas sempre que tinha de tomar decisões importantes. mas não podia vê-lo porque a lã prendera no brinco. E já o fizera. — Tenho de me livrar de algumas mulheres ilustres que querem tomar um drinque com a nossa delegação. Acendi outro cigarro. — Oi! — exclamou Gerry. Gerry tentara deixar de fumar um ano an- tes e agora me censurava continuamente por nem sequer tentar. Talvez ele tivesse perdido o a- vião em Londres. Senti que ofegava. Senti os seus braços me en- laçarem pela cintura. Mas eu não podia ficar sem ele. Mas deixava-me a garganta dolo- rida e me provocava acessos de tosse. Sabia que ele estava ali. reprimi a minha irri- tação pelo comentário chauvinista de Gerry a respeito das mulhe- res. Muito bem. enquanto nos dizia para esperar. Não podia imaginar como Gerry chegaria ao meu quar- to sem ser reconhecido. Gerry beijou-me o pescoço. a fim de que Gerry não ti- vesse de bater e ficar esperando que eu atendesse.ridículos. eu deixaria de fumar quando Gerry chegasse e veria se ele era também capaz de fa- zê-lo. na recepção sino-americana. E como um bilhão de chine- ses poderiam mudar tanto em sua longa luta para alcançar a moder- nização? Valeria a pena? Eu já não sabia mais o que valia a pena. resolvi vestir a minha suéter verde predileta. Meus olhos estavam repletos de lã verde. O corredor fer- vilhava de agentes do Serviço Secreto e políticos visitantes do mundo inteiro. — Ficamos lá por uma hora. Diamond Head era um casco preto no reflexo do mar. alguma coisa que estivesse presente e ardesse lentamente. A lua estava agora se elevando sobre Waikiki. Alguém es- tava supostamente desembarcando nossa bagagem. sem querer dizer como contara cada minuto desperdiçado. E finalmente cuidei de tudo pessoalmente.. o mais depressa que puder. Eu podia entender. Desliguei. Eu estava pondo a suéter pela cabeça quando ouvi-o abrir a porta e entrar no quarto. Cuidarei disso e depois irei para aí. Eu não tragava e por isso o cigarro não me in- comodava quando cantava e dançava. como se não estivéssemos separados há semanas. Calculei que a reunião para discutir os problemas Norte-Sul poderia se realizar sem a sua presença. Estou ansioso em vê-la. Eram quase oito ho- ras. dançando aos acordes de Staying Alive. precisava de um companheiro silen- cioso. não apenas pelo ar- . Derreti-me ao ouvir a voz tão serena. de Saturday Ni- ght Fever. — Mulheres ilustres? — Isso mesmo. Abri a porta. Mas não havia ninguém. Elas são ridículas. deixando-a encostada. mas sem interferir. tornei a me olhar no espelho.. — Fomos para um salão de recepção assim que desembarcamos no aeroporto — explicou Gerry. Também podia deixar de fumar.

Parecia que ninguém mais sabia como escrever papéis femininos. Gerry soltou o brinco e depois beijou-me a orelha. — Gosto dessa cor. Sempre está. como era difícil encontrar roteiros de filmes com bons papéis para mulhe- res. Depois..dor de sua boca. Peguei o telefone e pedi dois Mai-Tais. Não quero parecer arrogante. — Como estão as coisas. não apenas o que as mulheres querem. Como está sua vida? Falei sobre a nova coreografia para o meu show. E agora dei- xe-me ajudá-la. mas também porque a suéter estava me rasgando a orelha perfurada. Gerry enfiou a mão por baixo da suéter e encontrou meu rosto através da lã: — Não se mexa — disse ele. Recuou um pouco. — Está com fome? Deve estar. Gerry tomou seu Mai-Tai através de uma cereja flutuando no co- po. além de alguma coisa para comer. passou-o por sua cintura. E não deve se preocupar comigo. E quem se importava com isso? Em termos de diversão. Mas já leu a respeito. E as mulheres que escreviam só sabiam mos- trar como as mulheres eram infelizes e insatisfeitas. — Olhe só para aquelas palmeiras — murmurou Gerry. mas temos uma economia que está desmoronando para todos e não tenho certeza se conseguiremos nos recuperar. sobre as dietas de alimentos naturais que vinha experimentando. Gerry indagou o que estava acontecendo na América. — E que mais? Isso é o que você sempre diz. Não podia me mexer. sim. Ou pelo menos os escritores do sexo masculino não sabiam. enquanto ele tomava banho. Hesitei por um instante e de- pois respondi que não sabia direito. sobre os exer- cícios que fazia todos os dias para me manter em forma. — Eu também. — Não acha que é um paraíso? — Ele pegou meu braço. Jogou a água quente cheia de espuma pelas pernas. quase pintadas no céu. Declarei que podia entender a posição dele. — Já estou com problemas demais tentando adivinhar o que as pessoas querem. — Gosto de você assim. mas é real. contemplou-me da cabeça aos pés. E como eu previra. quem pagaria para as- sistir a filmes assim? — A coisa é muito difícil — comentou Gerry. — Estou. Sentei no vaso. Aquilo é Diamond Head? — É. Era difícil decifrar o povo . porque ninguém sabia o que as mulheres realmente queriam. sim. — Parecem irreais. Vamos comer. encaminhou-se para a sacada em seguida e olhou para Diamond Head. Gerry? Você tem passado bem? — Muito bem. Aco- modou-se na banheira. Parece uma tela de fundo. — Estamos tendo problemas em Londres. Ele perguntou por que e respondi que devia ter alguma relação com uma reação ao feminismo militante. Achou graça de eu pedir abacaxi extra e foi ao banheiro para tomar um banho.. Cobri as travessas com a co- mida e levei os Mai-Tais para o banheiro. Eram compri- das demais para a banheira. Estava lá quando o garçom chegou. Gerry não sabia o que eram Mai-Tais. ele deu a volta pelo quarto e disse que era igualzinho ao seu. Fica muito bem em você.

Imaginei qual seria a sensação. Eu dizia alguma coisa sobre os campos petrolíferos do Irã e a necessidade dos trabalha- dores se sindicalizarem. Eu não queria me inclinar e tocá-lo ou beijá-lo. Talvez eles tenham alguma coisa. Ou melhor. inflação. O importante não era o que dizíamos.. porque sentia que era quase excessivamente explo- sivo. a alta dos preços da OPEP ou os papéis femininos nos filmes. — Pessoas que não po- dem aceitar a vida como é aqui e agora. — Por que você diz "Claro que não"? — Ora. — É possível. não queria entrar na banheira com ele. — Ele riu. Gostava da sensação de usar palavras para controlar o que havia por baixo. como se estivessem convencidos de que será melhor na próxima vez e que esta não é tão importante assim. o trabalho de pessoas como eu se tornaria muito mais fácil. Era disso que gostávamos. nas expressões. A espuma se acumu- lava nos contornos de sua pele.americano. Não posso culpá-los. porque é uma fantasia. Ele abriu os olhos. enquanto conversávamos. Ca- çoamos um do outro. Gerry recostou-se na banheira e fechou os olhos. o dólar. Contemplei o corpo de Gerry na água quente. no jeito em que um apoiava a cabeça na mão para tentar se concen- trar. em seus próprios termos. Observei como seu pênis flutuava. mas sim como dizíamos. Não importava se a conversa era sobre uma nova proposta fiscal. Ele escutava e ouvia as minhas pa- lavras. Gerry se derretia por trás dos olhos como manteiga na frigideira quente. Conversamos sobre Carter. Perguntei a ele o que estava acontecendo no mundo. — Como assim? — Eles não cuidam de suas vidas como se pudessem melhorá-las. — Talvez você este- ja certo. Era um artista mesmerizado por outro. derramando-se por seus olhos. sorríamos e escutávamos. Depois de um momento murmurei: — Gerry. esses pobres-diabos não têm qual- quer outra coisa na vida. Era como se estivéssemos fazendo amor com as nossas mentes num nível duplo. Encontrávamos al- go especial na maneira como nossas mãos se mexiam. mas de certa forma sentia que sa- bia. — O que é? — Você acredita na reencarnação? — Reencarnação? — Ele estava atônito. Ob- servávamos um ao outro com uma dupla fascinação. é claro. mas eu podia sentir um vulcão entrando lentamente em erup- ção dentro dele. per que pergunta isso? Claro que não. Mas se a- creditassem um pouco mais no aqui e agora. até mesmo sobre Idi Amin e energia solar.. — Deus do céu. — Claro que têm. apesar de estarmos falando sobre coisas que nada tinham a ver conosco. sentem a necessidade de acreditar em tais fantasias. cada palavra desencadeando pequenas centelhas e explosões em nossas cabeças. mas mais do que apenas uns poucos milhões de pessoas a- creditam nisso. Gostava da sensação de contenção e de comunicação no nível duplo. Mas o que eu . adorando nos saborear mutuamente. — Eu me sentia um tanto magoada por ele ter es- carnecido da teoria de maneira tão retumbante. Não sabia direito por quê. Apenas existem.

— Reilly? Como assim? — É apenas uma piada irlandesa. Eu não me sentia absolutamente amea- çada. papai. Lembrei o dia em que Warren caíra numa garrafa de leite quebrada e papai o levara correndo para o banheiro. um lugar para as coisas básicas. mexendo-se na água cheia de espuma. é o que eu respeito. Mas como se podia conciliar a injustiça do acaso de nascimento na pobreza e privação quando outros nasciam no conforto e luxo? A vi- da seria realmente tão cruel? A vida era simplesmente um acidente? Aceitar isso parecia de repente muito fácil. não é mesmo? Se você se sente à vontade com outra pessoa no banheiro. Um banheiro era um lugar íntimo e primitivo. mas é o melhor do mundo porque você está sentada aqui. mas é confortável. — Banheiros são lugares íntimos. Discutíramos no quarto por causa do ciúme dele. É tudo o que temos. Der- rubara violentamente os copos na pia. Não podia entender por quê. E antes de perceber o que estava acon- tecendo. se pode me entender. Todo o hotel é maravilhoso. Apenas uma piada irlan- desa para um inglês. é fazer alguma coisa pelo desespero das vidas das pessoas agora. Mamãe ficara furiosa. Pensei na ocasião. — O banheiro é ótimo. . em que um amante meu quebrara o banheiro de um quarto de hotel em Washington. então é porque há alguma coisa muito importante entre os dois. mas ele fora ao banheiro para se tornar violento. Lembrei o rosto suplicante de Warren a se fixar em papai. — Isto está maravilhoso — disse Gerry. até mesmo indolente. jogara meu secador de cabe- los no espelho. Que mal poderia fa- zer? Eu entendia a alegação de Gerry sobre as pessoas não assu- mirem a responsabilidade por seus próprios destinos aqui e agora. Tratei de afastar a mente dos meus pensamentos. Gerry sorriu e acenou com a cabeça. É apenas um banheiro. Shirl. Parecia uma boa dimensão para explorar. Ela pusera Warren na ba- nheira e eu ficara ouvindo os seus gritos angustiados.quero. enquanto dizia: — Não deixe doer. A metafísica é capaz de deixar as pessoas perturbadas. — Não sei. Ele passou uma das mãos pela água e tornou a fechar os olhos. os fragmentos caindo na banheira. Perdera o papel principal num balé na escola que sonhara em fazer por cinco anos. Gostaria que ele ti- vesse a mente bastante aberta para ao menos discutir o assunto. Ficara tão nervosa e incapaz de assumir o papel de anfitriã que sentara no banheiro até o jantar acabar. mas especi- almente este banheiro. anos antes. imaginando o que havia de errado comigo. Gerry. Mas por que perguntou? Acredita nessas bobagens? Fiquei desconcertada com a descortesia. estendendo o seu braço a sangrar sobre a banheira. A banheira é um pouco pe- quena. Mas Reilly também não acredita. vomitara na pia. Pensei depois num incidente da minha infância. Pensei no dia de inverno de frio intenso em que Warren e eu brincáramos em poças de lama congelada. Não exatamente. Eu tinha seis anos e ele estava com três. pensei. Lembrei de ter me olhado no espelho por cima da pia. Pensei no primeiro jantar formal que oferecera na Califórnia.

Lavou-se e pediu-me que lhe esfregasse as costas. esperanças e espí- rito. — Mas quer saber de uma coisa? Estou obcecado por sua voz e não gosto de me sentir obcecado. — Como assim? — indaguei. que poderia encher com água quente. Ele nem percebeu que eu estava comendo com a faca. em qualquer parte do mundo onde estivesse. O que ele estava querendo dizer? Deixava- me apreensiva. Ajudava-me a fazer as tran- sições da depressão. Punha-me para dormir. Despertava-me. acendia uma vela na banheira e re- zava. com ou sem contribuintes. — Minha filha jogou-os no lixo. E lembrei como o lugar mais importante. estremecendo ligeiramente. Entreguei-o a Ger- ry. — Não vai comer sua cereja? Parado ao lado da banheira. um sorriso quase perdido no rosto. Achou que eu deveria ter sapatos novos e por is- so jogou-os fora. Eu estou pagando as contas pessoal- mente. É doce demais para mim. Gerry terminou seu Mai-Tai e entregou-me o copo. era um banheiro bem iluminado. Fitei-o atentamente. Não tinha a menor idéia do . ele olhou para o meu copo vazio. ele disse: — Fico contente por existir essa coisa que se chama telefone. sentia-me feliz se sabia que havia uma linda banheira. confortável. observando-o enxugar as costas. crescido demais. enquanto começava a comer. à minha espera. Gerry parecia um querubim limpo. íntimo. E sempre que eu passava um dia inteiro fora. quando voltasse para casa. você estava absoluta- mente certa a esse respeito. a fim de que ele não sentisse frio. com uma banheira limpa. Coordenava meu corpo e mente. relaxante e necessário que eu podia encontrar. — Posso então comê-la? Dei a ele e depois peguei-lhe a mão. um tanto rude. — Todo o meu dia parece girar em torno do momento em que posso encontrar a privacidade necessária para falar com você. proporcionava-me uma explosão de novas idéias. O garçom trouxera apenas um garfo. Shirl? — Acenei com a cabeça. num lindo banheiro. Lembrei de uma empregada minha que se retirava para o banheiro todas as tardes. — Sua filha jogou fora os meus sapatos prediletos? — Isso mesmo. Ajudava-me a en- trar em contato comigo mesma. — Tam- bém seria difícil para mim. — Sei disso — murmurei. Aliviava as pernas doloridas. às seis horas. Isso esgo- ta a minha energia e não gosto da sensação. confusão e trabalho puxado. — Lembra daqueles sapatos velhos que você adorava me ver usar em todas as ocasiões. Saindo da banheira e come- çando a se enxugar. Seria muito difícil para mim se não pudesse falar com você durante todas essas semanas. cheia de água quente. Ajeitei mi- nha capa sobre os seus ombros. Por falar nisso. na expectativa do que eu di- ria. segurando a toalha. — Não. Gerry inclinou-se para a frente. enquanto me levava para o quarto. Sentamos para comer a refeição de frutos do mar que estava agora fria.

ele não escarneceu de minha noção. — Faça o que achar melhor para você. congelado. — Nunca antes tive uma experiência assim. — Acho que tenho de esfriar meus sentimentos. — Como consegue conservar as unhas tão compridas. extasia- do e abandonado. puxei. claro. recendia a VitaBath.. Nada sequer parecido. E se dissipar minhas energias agora. por estar obcecado demais por você.. meneando o dedo mínimo. Eu podia sentir que meu coração parava. E. A pele de Gerry era quente e cremosa. Não sei o que penso a respeito.. — Talvez tenhamos tido outra vida em comum. — Sabe. Shirl. Os cabelos roçavam em meu rosto. E quero que você saiba disso. a capa caindo dos ombros. Ele levantou a mão esquerda pelo ar. Sempre coloquei meu trabalho em primeiro lugar. Entendo perfeitamente. Te- . acho que tenho o artritismo porque estou esgo- tando a minha energia. Só recentemente é que se desenvolveu. Ergueu- me acima dos ombros e apertou-me com força. Acho que são lindas. E também não sei o que fazer. Mas devem ser muito fortes. O nariz colidiu com o meu e esmagou-o. — Entendo perfeitamente o que está dizendo. Curara tão bem que mal se percebia que havia algo errado no dedo. murmurei: — Talvez eles também recendessem a perfume. o rosto se desanuviou e ele sorriu. Depois. Ele tremia ligeiramente e me abraçou firme. Shirl? — Acha que são muito compridas? — Não. Sabia que a vida é constituída por insights pequenos pa- ra ofuscantes? — Claro. Estava atônito. Shirl. — Virei a cabeça rapidamente. Preciso re- cuperar o equilíbrio. E Gerry disse agora: — Tenho artritismo neste dedo e dói bastante. perderei tudo por que sempre trabalhei. falando sério. não sei por quê. Ficamos deitados juntos. por isso. — Provavelmente não teve vitamina C suficiente. não pos- so evitar. a fim de verificar a reação de Gerry. E não sei por que me sinto tão atraído por você. não sei o que quero fa- zer em relação a nós. perdida num acidente extravagante quando era pequeno. E não teve e- xercício. — Claro. É is- so mesmo. Um rubor de confusão espalhou-se pelo rosto de Gerry. Por um breve instante. Mas. tudo ao mesmo tempo. Mesmo contra a minha vontade.. — Talvez tenha- mos deixado coisas para resolver entre nós e precisamos defini-las nesta vida. do qual faltava quase a metade da articulação superior. a não ser quando ele próprio chamava atenção para o fato. Quero ser justo com todo mun- do. Abri os olhos e contemplei seu rosto. a observar o dedo subir e descer. Fiquei olhando para as minhas unhas compridas. Então por que não fazemos nada e por enquanto nos limi- tamos a desfrutar o que temos? — Mas quero ser justo com você. peguei seus cabelos. Ele se levantou de um pulo.que ele esperava que eu dissesse. Suas mãos quentes e macias estavam por toda parte de meu corpo. Sentei na cama. rindo e depois me jo- gando na cama.

Isso é um problema e tanto para mim. . O que você quer de mim? Ele me pegou desprevenida. como se soubesse durante todo o tempo: — Quero que sejamos felizes quando estivermos juntos. — Não posso. com convicção: — Não. Penso em tudo o mais que deveria estar fazendo. — Mas estou terrivelmente perturbado pela possibilidade de que possa ser um desapontamento para você. mais eu quero. Virei-me. Acho que pode ter tudo o que já possui e a mim também. — Mas o que faz consigo mesmo? Por que não se divertir mais quando pode? O que há de errado em se divertir? Por que acha que não merece momentos de prazer? — Porque tenho coisas melhores a fazer com a minha vida do que desfrutar momentos de prazer. — Talvez não custasse tanto se você dedicasse mais tempo a sentir que merece alguma felicidade. — Nunca pensei. com uma ansiedade genuína estampada no rosto: — Você pensou nisso? — Não — menti. — Talvez devesse. — Por quê? — Porque não tenho tempo para você e também para o resto da minha vida. Não posso pensar em mim mesmo em primeiro lugar. Não quero desapontá-la. Mas não quero que você te- nha de optar entre outra pessoa ou coisa e eu. fitei-o nos olhos. O que há de errado nisso? — Isso significaria renunciar a outra coisa. Pensou então em acabar tudo en- tre nós? Em se afastar? Ele respondeu prontamente. Shirl.nho muita coisa para fazer nos próximos 11 meses e reluto em me dividir. Gerry respirou fundo. Gerry. ele julgava que eu fora ingênua ao ficar tão impressionada com a revolução chinesa. — Por que não pensa apenas no que está fazendo? — Porque sempre sinto que deveria estar fazendo outra coisa. Talvez pudesse ajudar mais às pessoas se de- terminasse quem você é. — Pois então aproveite mais de mim. Também não compreendo por que estamos juntos. — E acrescentou. E não vou pensar. Ele se mostrara cético em relação ao meu entusiasmo pela maneira como os chineses haviam lutado para conquistar sua nova identidade. O que há de errado nisso? Talvez a vida devesse incluir todas as dimensões que ainda não ti- vemos a coragem de assumir. — Da mesma maneira como não quer desapontar os eleitores? — Tenho de lhe perguntar uma coisa. Eu explicara como os chineses haviam melhorado em comparação com o . — Mas quanto mais tenho você. Pensei por um momento e depois res- pondi. Não preciso de qualquer espécie de compromisso de você. suspirei.Já sei de tudo isso. Lembrei de um repórter que me entrevistara assim que eu vol- tara da China. Nem mesmo o quero. Como a maioria das pessoas. Basta apenas saber que vo- cê é feliz quando está comigo e de alguma forma acabaremos defi- nindo tudo. não é mesmo? Acrescente mais uma dimensão à sua vida. Pode ter tudo.

E é por isso que não acre- dito em mim mesmo. Foi por isso que fiquei tão transtornado com você. Ele dissera que ninguém tinha o direito de acreditar que po- dia fazer ou ter qualquer coisa. não podia confiar em si mesmo. ele também nunca acreditara em si mesmo. a fim de poder escarnecer de quem quer que espere. era um violinista excepcional. Isso deixara o repórter furioso. Mamãe me chamara. mais preocu- pada do que jamais ficara antes com a possibilidade de papai estar desta vez realmente se matando. No sono. Nenhum dos dois se importava. E era uma das pessoas mais talentosas que eu já conhecera. Naquele momento. julgara ter compreendido por que as pessoas ficavam tão transtornadas com o sucesso da revolução chinesa. Ele se sentia indigno. Assim. Até mesmo eu. para meu espanto. porque ao final acabaria sendo esmagado. ou pelo menos as- sim pensava. como posso levar a sério quem o faz? Eu respondera que esperava que ele escrevesse uma boa matéria e lhe desejara boa sorte. porque a mulher morrera no parto? O segundo casamento fora oportuno para ele e pessoalmente conveniente. desde o princípio da manhã. Mas ele se sentia culpado agora por pensar que estava enganando a si mesmo? Pensei numa conversa que tivera recentemente com meu pai. Minha mu- lher diz a mesma coisa. Além de ser um ator extraordinário da vida real. franca e abertamente. sem a ajuda do resto do mundo. Papai se con- frontara com a perspectiva do que faria sem ela e passara a beber muito... Com todo o seu domínio vigoroso. ele parecia extrema- mente vulnerável. Papai estava ao seu lado enquanto ela me falava pelo telefone. eles se atreviam a acreditar em si mesmos apenas.passado recente. tendo feito uma operação grande de bacia. minha mãe andava doente. um bom professor e um pensador perceptivo. In- dependente do sistema. E sempre bebera demais. Meus pensamentos se preocupavam com a incerteza interior daquele homem tão forte.. Há anos que todos tínhamos medo das conseqüências do . Fala que jamais poderemos chegar a algum lugar se eu não acreditar mais em mim mesmo. Eu perguntara ao repórter: se era apenas propaganda. Eu compreendera que ele estava falando a respeito de si mesmo. Ele se considerava de alguma forma responsável pela tragédia do seu primeiro e breve casamento. se eu não acreditar que posso ser feliz. Tenho medo de não ser capaz. afora isso. — O que está querendo insinuar com essa história de acredita- rem em si mesmos? Não passa de propaganda e você engoliu di- reitinho. sonhe ou se a- treva a ser o que quer. Ultimamente.. O que você disse é exatamen- te o motivo pelo qual meu casamento está desmoronando. acrescentando que a coisa que mais me comovera fora o modo como eles pareciam acreditar profundamente em si mes- mos. Dei- xara o meu apartamento em Nova York e cinco horas depois me tele- fonara: — Passei a noite inteira guiando. de não ser bastante forte. por que ele estava tão transtornado pela idéia de que se pode fazer e ter qualquer coisa? E. Gerry adormeceu a me abraçar. proporcionando uma mãe para o bebê. E armei uma série de posições cínicas e eloqüentes como jornalista. Ele estava agora chegando ao fim da vida. a ira se convertera em lágri- mas.

muito que papai bebia e o medo culminava naquele telefonema.
— Estou muito preocupada com ele, Shirl — dissera mamãe. — E
nada posso fazer para ajudá-lo. Você sabe que ele é um homem de
bem e de talento. Mas ele próprio não acredita nisso.
Eu pedira a ela que me deixasse falar com papai.
— Oi, Monkey — dissera ele, me chamando pelo apelido.
Eu o vira sentado em sua poltrona predileta, a estante de ca-
chimbo ao lado, o telefone ajeitado no ombro. Pudera senti-lo a
pegar o cachimbo e acender, com o isqueiro velho que eu lhe trou-
xera da Inglaterra.
— Vamos ser objetivos, está bem, papai?
— Claro.
— Por que está bebendo tanto agora?
Eu nunca lhe fizera essa pergunta. Jamais fora capaz, prova-
velmente porque tinha medo de que ele me respondesse.
Papai começara a chorar. Era disso que eu tinha medo. Jamais
quisera ver papai desmoronar abertamente. E, depois, ele dissera:
— Porque desperdicei a minha vida. Posso ter me comportado co-
mo se fosse forte, mas isso aconteceu porque nunca acreditei que
pudesse fazer alguma coisa. Minha mãe ensinou-me bem demais a ter
medo. E não consigo agüentar sempre que penso em todo o medo que
sinto. E por isso tenho de beber.
Quase que dera para eu ver suas mãos tremendo, como acontecia
sempre que ele queria se alienar de qualquer emoção que pudesse
estar demonstrando.
— Eu o amo, papai. — Eu também começara a chorar. Sentia de
alguma forma que nunca antes lhe dissera isso de verdade. — Pense
em tudo o que fez. Criou a Warren e a mim. Isso não significa na-
da?
— Mas sei que vocês dois não queriam ser como eu. É por isso
que se tornaram o que são. Não queriam ser como eu.
Estávamos ambos chorando e tentando falar em meio às lágrimas.
E eu ficara imaginando se não caíra alguma cinza no chão.
— Não é bem assim, papai. Nós apenas fizemos mais com a ajuda
que você nos deu do que você poderia fazer com a ajuda que nunca
teve.
— Mas eu me sinto imprestável quando comparo o que não fiz com
o que consegui.
— Mas ainda há tempo, papai.
— Como? De que maneira?
Ele tentara limpar a garganta. Eu me perguntara se mamãe esta-
ria observando-o.
— Por que não pega uma caneta e papel e anota os sentimentos
cada vez que se sente imprestável? Aposto que poderia oferecer al-
gumas idéias extraordinárias sobre o sentimento de se sentir im-
prestável.
Ele passara a soluçar.
— Penso às vezes que não conseguirei mais agüentar... e se eu
beber bastante, não terei de me incomodar em despertar pela manhã.
Eu engolira em seco, angustiada.
— Nunca lhe pedi para me prometer qualquer coisa, em toda a
minha vida, não é mesmo, papai?
— Não, Monkey, nunca me pediu isso.

— E poderia me prometer uma coisa agora?
— Qualquer coisa. O que você quer?
— Vai me prometer que, ao invés de beber, escreverá todos os
dias pelo menos uma página sobre o que está sentindo?
— Eu escrever? Ora, ficaria envergonhado demais se alguém les-
se.
— Pois então não deixe ninguém ler. Escreva apenas para você
mesmo.
— Mas não tenho coisa alguma para dizer!
— Como pode saber se nunca tentou?
Eu pudera vê-lo a tirar um fio do ombro esquerdo. E o ouvira
tossir.
— Não posso escrever a meu respeito. Nem mesmo posso pensar em
mim mesmo.
— Pois então escreva a meu respeito, de mamãe ou de Warren.
— Sobre você e Warren?
— Isso mesmo.
— Muitas pessoas gostariam de ler o que eu escrevesse, não é
mesmo?
O tom fora sarcástico, mas eu sabia que ele estava sorrindo.
— Apenas por ser pelo seu ponto de vista.
— Acha mesmo?
— Claro que sim.
Eu pudera vê-lo começar a se balançar na cadeira.
— A velha Sra. Hannah, minha professora no segundo ano, disse
certa ocasião que eu deveria escrever. Mais do que isso, disse que
eu deveria falar menos e escrever mais.
— É mesmo?
Jamais esquecera como papai sempre falava da Sra. Hannah quan-
do eu era pequena. Ela tinha um carro velho que papai adorava con-
sertar.
— A velha Sra. Hannah tinha um carro terrível. Estaria melhor
com um cavalo e uma charrete. Mas aquele maldito carro era como
uma pessoa para ela. E um dia, num campo de feno...
— Ei, papai, tem uma idéia aí... por que não começa escrevendo
sobre o carro da Sra. Hannah no campo de feno? Não desperdice a
história falando.
— É assim que funciona? — indagara ele, limpando a garganta e
parecendo divertido e malicioso. — Está querendo dizer que eu po-
deria ter feito um livro em todas as ocasiões que contei uma his-
tória?
— Exatamente. A Sra. Hannah não lhe dizia sempre que falava
demais e por muito tempo, sem nada para mostrar depois?
— Tem razão, ela dizia isso. Mas era uma mulher terrível.
Queimou o estábulo para receber o dinheiro do seguro e depois fu-
giu com o cara que lhe vendera a apólice.
— Ela parece uma boa personagem para se escrever a respeito.
— Você leria o que eu escrevesse?
— Claro. E já estou aguardando na maior ansiedade. Mande para
Nova York. Chegará às minhas mãos, onde quer que eu esteja.
— Acha mesmo que tenho alguma coisa para dizer?
— Há mais de 40 anos que venho escutando você, acho que é en-
graçado e comovente. Por que não escreve a respeito de seu cachim-

bo?
A esta altura, nós dois já paráramos de chorar.
— Vai escrever, papai? Vai tentar?
— Acho que tenho, não é mesmo, Monkey?
— Claro que tem.
— Pois então prometo.
— Eu o amo, papai.
— Eu a amo, Monkey.
Desligáramos. Eu ficara circulando pela casa, chorando, por
mais uma hora. Voltara depois ao telefone e ligara para um floris-
ta. Encomendara uma rosa por dia, durante um mês, com um bilhete
anexo: "Uma rosa por uma página. Eu o amo."
Papai tem escrito intermitentemente desde então. Não sei se
ele se tornou totalmente abstêmio. Mas também nenhum escritor que
eu conheço o é. Mas gostaria que a velha Sra. Hannah tivesse men-
cionado o talento de papai e a sua convicção nele com mais fre-
qüência.
Os bilhetes que ele me envia são curtos e cada um conta uma
história... uma história da vida de um homem que me influenciou
profundamente, porque inadvertidamente me ensinou a amar homens
brilhantes e complicados, que precisavam de alguém para ajudá-los
a se descobrirem.

Capítulo 5

"Duvido muito que algum de nós tenha a menor idéia do que se chama
de realidade da existência de qualquer coisa que não seja os nos-
sos próprios egos."

— A. Eddington, A Natureza do Mundo Físico

Gerry e eu dormimos. Sempre que nos mexíamos, ajustávamo-nos
ainda mais um ao outro, não deixando o menor espaço entre os cor-
pos. Em determinado momento, ele murmurou alguma coisa sobre um
telefonema para acordá-lo, a fim de que sua delegação não ficasse
especulando sobre o seu paradeiro pela manhã. Liguei para a tele-
fonista e depois fiquei esperando acordada pelo amanhecer, quando
Gerry teria de se retirar. Senti-me desamparada enquanto o obser-
vava dormir. Ele se fora. Os olhos fechados, estava perdido em seu
próprio inconsciente. Observei-o dormir até que finalmente voltei
a pegar no sono. Enquanto dormia, imagens de meu pai e Gerry se
esbarravam no sonho.
Quando a telefonista ligou, ao amanhecer, Gerry sentou na cama
abruptamente, como se uma corneta o chamasse para o cumprimento do
dever. Beijou-me rapidamente, vestiu-se e disse que voltaria assim
que se livrasse de seu assessor de imprensa e dos repórteres.

— Provavelmente tomarei o café da manhã com eles. Sendo assim,
Shirl, por que você não come agora? Direi a todos na delegação que
estou exausto da viagem e poderemos passar o dia inteiro juntos.
Ele saiu antes que eu percebesse que esquecera uma das meias.
Pedi papaia e torradas, comi na sacada. Lá embaixo, um atendente
estava alimentando os golfinhos. Lembrei como Sachi costumava mon-
tar em golfinhos, quando era pequena e nos encontráramos com Steve
no Havaí, no meio do caminho para o Japão. Ela costumava dizer que
compreendia os golfinhos e que eram seus companheiros de brinca-
deiras.
Lá embaixo, em algum lugar, podia ouvir jornalistas falando
sobre as boas matérias que se poderia conseguir no Havaí. Em meio
aos gracejos profissionais, houve especulações sobre as experiên-
cias do Dr. Lilly com golfinhos. Fiquei pensando se os golfinhos
seriam realmente tão inteligentes como os cientistas diziam ou se
podiam ter desenvolvido a sua própria linguagem. Lembrei de alguém
me dizer certa ocasião que nos cérebros grandes dos golfinhos es-
tavam alojados todos os segredos de uma vasta civilização perdida
chamada Lemúria. Eu já ouvira falar sobre Atlântida, mas Lemúria
era-me desconhecida.
Observei os agentes do Serviço Secreto e os jornalistas que
estavam observando os golfinhos. Não podia imaginar como Gerry e
eu conseguiríamos chegar ao fim do dia sem sermos reconhecidos.
Ele me telefonou cerca de uma hora depois:
— Encontre-se comigo na praia à esquerda do hotel. Quase todos
estarão ocupados no local da conferência. Estarei lá dentro de 15
minutos.
Vesti um jeans e uma blusa, por cima de uma roupa de banho.
Amarrei um lenço na cabeça e pus óculos escuros, de aros pretos.
Ninguém me notou quando atravessei o saguão e passei pela en-
trada do hotel. Mas fiquei com receio de parar por um instante e
observar os golfinhos, por causa dos jornalistas. Contornei apres-
sadamente a piscina e avancei pela areia quente, onde os turistas
já se acomodavam, os rádios tocando rock, estrondosamente. O chei-
ro de óleo de bronzear à base de coco pairava pelo ar.
Fui andando pela beira da praia, onde as ondas de um azul cla-
ro se desmanchavam na areia, seguindo para a esquerda. Ainda não
havia ninguém nadando. As palmeiras se inclinavam ao vento alísio
ameno. Fiz algumas flexões na água rasa, já que não fizera a minha
ginástica pela manhã. Meu show parecia estar a meia vida de dis-
tância.
Parei algumas centenas de metros adiante, na praia vazia, sen-
tei na areia, levantei a cabeça para o sol e fiquei esperando por
Gerry. A sensação era de uma coisa quase normal, quase humana.
Mais do que qualquer outra coisa, eu detestava o sigilo. Não gos-
tava de me sentir furtiva, clandestina, desonesta. Doía demais.
Esperava que Gerry não encontrasse nisso uma emoção perigosa, como
acontecia com algumas pessoas.
Ele usava uma calça caqui e camisa branca solta. Fiquei obser-
vando-o se aproximar, pela beira d'água. Os braços balançavam para
longe do corpo, uma das mãos segurava um par de sandálias. Ele não
acenou quando me viu. Levantei e fui ao seu encontro na água rasa,
a fim de continuarmos a andar.

— Então você tem mesmo outro par de sapatos, Gerry.
— Meus sapatos de férias.
Ele riu e me afagou o rosto.
— A sua delegação aceitou a história da exaustão da viagem?
— Claro. Todos estão fazendo a mesma coisa. Uma conferência no
Havaí é sempre uma tentação.
Gerry prendeu as sandálias juntas, pendurou-as no ombro e pe-
gou-me a mão, quando já estávamos bem longe do hotel. Encostei a
cabeça em seu ombro e fomos andando.
Encontramos um recife de coral que se projetava pelo mar. A
sensação era de que estávamos andando na água. Gerry gracejou, co-
mentando que todos julgavam que era isso o que ele alegava ser ca-
paz de fazer. O coral era afiado. Paramos e ficamos contemplando
as ondas grandes que quebravam mais além.
— Sabe deslizar nas ondas, Shirl?
— Fazia isso quando tinha 20 anos... antes de ficar bastante
velha para sentir medo.
Lembrei como era despreocupada com o meu corpo. Nunca me ocor-
rera que poderia fraturar alguma coisa ou que algo poderia sair
errado. Agora, tinha de pensar em tudo o que podia acontecer, mes-
mo quando saltava de um táxi. Se torcesse um tornozelo ou desse
uma pancada com o joelho, isso poderia interferir com a minha dan-
ça. Quando era mais jovem, eu dançava Com mais inconseqüência. A-
cho até que fazia tudo sem pensar muito. E também me divertia ma-
ravilhosamente. Com o ingresso na vida adulta, fora me tornando
cada vez mais consciente das conseqüências de tudo o que fazia,
quer fosse mergulhar nas ondas ou ter uma ligação amorosa.
A percepção não diminuía a diversão ou a admiração. Ao con-
trário, eu queria agora aprender a viver totalmente no agora... no
presente, com uma plenitude confirmada de que era tudo o que real-
mente existia. Se eu vivera outras vidas no passado e provavel-
mente viveria outras vidas no futuro, a crença nisso serviria ape-
nas para intensificar o empenho de coração e alma no presente.
A reencarnação era um conceito novo para mim, é claro, mas eu
descobria que, cada vez que pensava a respeito, extraía um grande
prazer das implicações. O tempo e o espaço eram tão irresistivel-
mente infinitos que serviam para mostrar à pessoa como eram pre-
ciosos todos e cada momento na Terra? Minha mente precisava dar
saltos quantitativos de imaginação para outras realidades possí-
veis, a fim de apreciar a alegria da realidade agora? Ou a verda-
deira alegria e felicidade estavam na inclusão de todas essas ou-
tras realidades, que na verdade expandiam a consciência da pessoa
da realidade do agora?
Expansão da percepção. Era essa a expressão que tantas pessoas
estavam usando cada vez mais. Não se precisava trocar uma percep-
ção antiga por outra nova. Podia-se simplesmente expandir e elevar
a percepção que já se possuía. Uma percepção expandida simplesmen-
te reconhecia a existência de dimensões anteriormente não reconhe-
cidas... dimensões de espaço, tempo, cor, som, sabor, alegria e
assim por diante. O conflito entre Gerry e eu seria simplesmente
uma diferença no movimento para uma percepção expandida? Talvez eu
estivesse tentando forçá-lo a um ritmo que era o meu e não o seu.
E também não se podia julgar o ritmo dele. Apenas era diferente.

Tirei o jeans e a blusa. fomos saindo da água. no lugar em que as ondas desmanchavam.. sob a árvore. Gerry? Sem responder. A onda chegou e ele deslizou na crista. — Tudo isto é tão bonito. — Não quer nadar na chuva. O sol mergulhou por trás das nuvens e os coqueiros começaram a se inclinar ao ven- to. A de Gerry parecia devotada às respostas. não é mesmo? Não falei nada. uma decorrência em parte da curiosidade intensa e em parte da impaciência. Gerry nadou em minha direção e pegou-me em seus braços. gritando um pouco. A chuva caía mais forte agora. colocou por baixo das sandálias.. mais Gerry me toca- va. só desejava ter tido o abandono para deslizar na onda com Gerry. Gerry me abraçou e olhou para o mar. acenando-me para que fosse atrás. ele me sufocou em seus ombros enormes. A chuva caiu. Apenas me virei e pensei que era o momento mais feliz que eu tivera em muito tempo. até que se desvaneceu. Era impa- ciente com outras pessoas que não se empenhavam na mesma busca. Gerry parou e ficou de costas. arrastando-nos para a areia úmida.. Tenho perdido muita coisa. Waikiki e Kahala. as ondas suaves deslizando sobre os nossos corpos.. uma dessas violentas tem- pestades tropicais.. eu teria de dizer que toda a . enquanto o sol nos secava os corpos. Permanecemos na água até que o sol ressurgiu. sentindo os borrifos se misturarem com as gotas da chuva. Depois. — Sabia que eu nunca tinha feito isso antes? Foi a primeira onda em que já deslizei. levantando os rostos para a chuva. Nadamos de volta à praia e deitamos juntos na água rasa. Beijei seu rosto salgado. — Gerry. Fomos nos afastando de Diamond Head. que parecem um lençol de água faiscante. Não demorou muito para que estivéssemos andando com os corpos colados. onde ficamos estendidos. quando você pensa em sua vida. acima do barulho das on- das.Eu sabia que podia ser por demais insistente. Ficamos debaixo de uma ár- vore a contemplar a chuva caindo sobre as azaléias roxas ao nosso redor. Mer- gulhávamos por baixo. a respiração profunda. qual foi o momento em que se sentiu mais feliz? Ele pensou por um momento e depois disse. Minha vida parecia devotada a uma sucessão de indagações. As ondas estavam mais altas agora. Quanto mais nos afastávamos das pessoas.. saiu correndo para o mar. — Aquilo. de cos- tas. Limpei o sal dos olhos. Gerry tirou a camisa e a calça. observando-o.. perto do lugar em que eu esperava. Estava de cal- ção por baixo. contente por não estar com maquilagem. encami- nhando-nos para o lado deserto da ilha. Gerry nadou para longe da praia. Um passarinho azul sacudiu as penas e voou para se abrigar sob uma moita. Ele me aconchegou ainda mais firme. Virou-se um momento depois e ficou esperando pela onda certa. Ha- via cocos maduros espalhados pelo chão. as cristas brancas. ocupado por arbustos den- sos. Enrolou as roupas numa bola. Fiquei com algum receio e comecei a boiar nas ondas.. foi a coisa mais feliz que já fiz — disse Gerry. corri atrás dele. Corremos da água para o abrigo das árvores... com uma expressão meio aturdida: — Agora que você me perguntou. Era maravilhoso demais para se conversar.

O havaiano que era dono da barraca estava lendo um livro de Raymond Chandler. — Quando perco. Continuamos a andar em torno da ilha e pouco depois encon- tramos uma pequena barraca. Estava na hora da alimenta- ção. Não gosta- . — Parece uma pena que você se sinta deprimido quando vence. Pássaros de todas as cores voavam e cantavam pelas exuberan- tes árvores tropicais. Eu estava em Hollywood há cinco anos e a maneira pela qual bons amigos brigavam entre si pelos melhores papéis estava me dei- xando arrasada. Gerry achou que não era justo. Fomos ver os golfinhos e as orcas. na praia. Disse que a civilização existia para is- so.. Gerry e eu conversamos sobre a Ásia. Lamentava os que não tinham condições de se defender por si mesmos. entre outras coisas. A or- ca interrompeu a refeição. E isso é sur- preendente para mim.. Acho que preciso nadar contra a correnteza. Talvez porque achasse que o trabalho era um dever. em que se vendia abacaxi e papaia.. mas nunca com o meu trabalho. de repente. A orca viu-a e deu um salto em sua direção. mas a todo instante levantava os olhos para o mar. Uma gaivo- ta mergulhou em vôo. caí em depressão por vários dias.. até encontrarmos o caminho para Sea Wor- ld. pegou o peixe e foi para o outro lado do tan- que. mas precisáva- mos de um facão. Esprememos limões sobre as papaias e comemos sentados na areia. Deus do céu. por que isso? — Não sei. não é mesmo? Levantei para me vestir. foi até a árvore sob a qual deixá- ramos as roupas. — Devo pensar a respeito. Um dos golfinhos teve mais para comer do que os outros. E o que sente quando perde? Gerry também se levantou. onde a orca não podia alcançá-la. para tornar o mundo um lugar mais aprazível. algumas ve- zes com as pessoas. ele errou um lançamento. Ele não me fez qualquer pergunta pessoal e também não lhe ofereci qualquer informação. na esperança de que a orca perdesse um dos peixes que o atendente. Continuamos a andar. vestindo um traje de mergulhador. o tempo que eu passara no Japão. Gerry riu alto e a orca voltou à refeição. E. a pensar na competição.. Uma orca estava sendo alimentada no tanque maior.minha felicidade esteve relacionada com a natureza. sinto-me desafiado. — Gerry levantou os olhos para o céu. Meus momentos mais felizes nunca estiveram relacionados com o meu trabalho. Acabara de ser indicada para outro Oscar e também não gostava da falsa pressão que isso parecia me impor. Comentou que a sobrevivência dos mais ap- tos era cruel e que devia haver um meio do homem reformular esse fato básico da natureza. Tentamos abrir um coco seco. Experimento um senso de luta e isso faz com que tudo valha a pena. Por exemplo: na última vez em que fui eleito. passando três minutos a olhar furiosa para a gaivota. Alugara uma casinha na Kona Coast e passava os dias sentada em rochas vulcânicas. — Mas me sinto deprimido mesmo quando venço. Deixamos o aquário e nos encaminhamos para as colinas acima do mar. A gaivota acomo- dou-se na beira do tanque. Gaivotas circulavam lá por cima.. Contei a Gerry sobre a ocasião em que fora para a ilha maior do Havaí apenas para ficar sozinha. Oriente Médio. jogava na boca imensa.

Precisava ficar sozinha. Eram organizadas e determinadas. até que chegamos a um ponto do qual se podia ver o hotel. Precisava de tempo para refletir. Não fi- caria deprimida como você diz que se sente quando vence. com festas e anúncios nos jornais profissionais. Não havia possibilidade. Ele nunca me fez qualquer pergunta a respeito do meu divórcio ou de relacio- namentos com outros homens. ele sabia muita coisa sobre a China. E acrescentou que era um dos livros pre- diletos de sua filha. enquanto a tarde chegava ao fim. Sentia-me con- fusa porque todos pensavam que Hollywood era justamente isso. de uma pedra para um esconderi- jo sob outra pedra. Foi então que nos separamos. Se era uma coisa que tinha de aflorar.. quando estivéssemos em Hong Kong. sorriu gentilmente. Acho que deveríamos nos preocupar apenas em competir contra o melhor que temos em nós mesmos. Mas os artistas não deveriam se envolver nesse tipo de competição. Mas ele não podia compreender que eu realmente não me importasse de vencer ou não. virou-o. porque não há outro meio de ser um político bem-sucedido. Ele disse que gostaria de ter arrumado tempo. Ele disse que i- maginara isso pelo meu primeiro livro. Conversamos sobre a revolução chinesa. Corremos juntos para a água. Mas não entendia por que alguém devia vencer ou perder. Paramos. Você precisa vencer. Gerry parou para jogar algumas pedrinhas chatas. mesmo que fosse por ape- nas uns poucos dias. Acho que não queria me sentir constrangida por vencer uma coisa que não fora uma competição para começar. que já fizera isso muitas vezes na vida. ficaria embaraçada. Pareciam altruístas. Res- pondi que estar sozinha era diferente de estar solitária. Gerry seguiu na frente e desapa- . Passaram dias a carregar diligentemente um pão doce dormido. isso ocorreria naquele momento. Gerry perguntou se eu já me sentira alguma vez solitária. Uma brisa fria soprava quando a- cordamos. de mãos dadas. Gerry parecia interessado no que eu estava dizendo. Embora nunca tivesse ido até lá. Eu não sabia se isso era bom. rindo e batendo de leve um no outro. Presumi que ele não estava prepa- rado para saber. Não eram in- dividuais. E continuo a não me importar. Res- pondi que sim. migalha por migalha. Adormecemos ao sol da tarde. Gerry pegou um graveto.va do sentimento de que ganhar uma estatueta de latão deveria ser mais gratificante do que realizar um bom trabalho. de atravessar a fronteira. que quicaram sobre a água. Contei como observara uma colônia de formigas perto da casinha em Kona. mas a- creditava que eu era basicamente uma pessoa solitária. ficamos observando os caranguejos escavarem buracos na areia. E depois fomos andando. Shirl? — Não sei. — Por que não se importava.. sentamos. Era o que Gerry pensava estar fazendo? Gerry me inter- rogou sobre a China. mas o fato é que não me importava. submeter os seus próprios interesses ao bem da espécie. porque é assim que opera a demo- cracia e o governo da maioria.. E odi- ava agora todo o dinheiro que era gasto na tentativa de influenci- ar votos. Don't Fall Of The Mountain (Não Caia da Montanha). Um dos caran- guejos caiu de costas. Gerry me perguntou se eu fora para lá realmente sozinha. Não gostava da maneira como as pessoas se sentiam abatidas quando perdiam..

Deixei o quarto na frente. Gerry não ficou muito animado com o peixe cru.. resolvemos jantar num restaurante ja- ponês que eu conhecia. enquanto delegados famosos entravam e saíam. Pedi- lhe em japonês uma sala de tatami privada. ao ar livre. começou a me fazer perguntas sobre musicais. Embarquei no táxi e pedi ao motorista que esperasse por um instante. — Onde esteve? — Está se sentindo melhor? Ouvi trechos da conversa enquanto passava. Fiquei contemplando o sol poente por algum tempo. melhor comigo. sentado no chão. Entrando no hotel. Era Gerry. . apresen- tando Sinatra. sorriu para uma câmara apontada em sua di- reção. Eu conhecia a gerente. mas comeu assim mesmo. avistei Gerry cercado no saguão por sua de- legação. Shirl. Seguimos para o restaurante japonês. — Meu amigo já está vindo — falei ao motorista. prova- velmente melhor também no casamento. viu-me acenar. mas fora detido por uma delegação vi- sitante. Se conseguíssemos pegar um táxi sem que ninguém nos visse. desapercebida. Pus-me a contar os segundos. além do ascensorista. Gerry es- tava com as pernas cruzadas. Ela levou-nos até lá. Ele disse que não poderia esperar por muito tempo. Fotógrafos espocavam seus flashes. Entrei no elevador. inclinado para a frente. — Como adorei este dia. contente por ser a única pessoa lá dentro. E me ocorreu de repente como Gerry parece- ra livre durante o dia inteiro. Estava tomando um banho de chuveiro quente. tirando o sal dos cabelos. A vela na mesa bruxuleava por baixo de seu rosto. no outro lado de Waikiki. Tranqüilamente. Gerry estava ali. quando o telefone tocou. O saguão estava repleto de jornalistas e agentes do Serviço Secreto. — Espere só mais um pouco. Sammy Davis Jr. Um táxi esperava na fila. O elevador que descia demorou tanto que Gerry teve de subir para não chegar ao saguão ao mesmo tempo que eu. Ninguém notara coisa alguma. Gerry conseguiu livrar-se dá delegação poucos minutos depois. saiu para preparar nosso sushi. como se mostrava i- nepto com quatro paredes ao seu redor. O motorista esperou.receu na multidão em torno da piscina. Era realmente uma pessoa diferente quando estava descontraído. Paul Anka e Ann-Margret. Havia um especial de TV transmitido de Las Vegas. encaminhou-se para o táxi e embarcou.. mas ela não estava interessada na pessoa que me acompanhava. — Por que ficou tanto tempo longe de mim? Cinco minutos depois ele estava em meu quarto. Os cantores realmente cantavam ou simplesmente mexiam a boca para um playback? Decoravam as letras ou liam cartazes com as palavras? Quantos ensaios faziam antes de começarem as apresentações? Enquanto conversávamos. não haveria problemas daí por diante. Sen- ti-me como música de fundo. Escondi o rosto por trás de uma revista e assim me manti- ve até sair. Olhei nervosamente para o saguão. serviu-nos saquê quente. Eu tinha certeza de que ele seria melhor em seu trabalho se conseguisse se soltar mais..

Digo com as mãos. por que é tão difícil para você dizer isso? Ele assumiu uma expressão solene. Shirl. Gerry. Apagamos a luz e tentamos dormir. Passeamos um pouco depois do jantar e voltamos ao hotel. Soltei uma risada. como estava sacrificando a sua cultura em favor do desenvolvimento industrial. Tentei absorver o que ele estava dizendo. Jantamos a conversar sobre o Japão. — E como adoro conversar com você. — Por quê? — Não sei. com seu andar determinado. Ele entrou no banheiro. E. Comecei a chorar. — Lamento que isso a faça infeliz. Isso é injusto? — Não posso saber como é para você. Gerry disse que tinha mui- to trabalho acumulado para os próximos dois dias e precisava se levantar bem cedo na manhã seguinte. — Porque digo de outra maneira que não por palavras. Os golfinhos saltavam gentilmente no aquário lá embaixo e as palmeiras sussurravam ao vento alísio. em táxis separados. É uma contradição. Sei apenas que me sinto muito bem ao me expressar fisicamente. Havia um banquete de convenção no salão do hotel. Eu sorri. Ele compre- endeu qual era a minha intenção. não estou muito certa se o amor é justo. Peguei um lenço de papel e assoei o nariz. Talvez seja porque tenho de manipular as palavras durante o dia inteiro em meu trabalho e não quero sentir que estou manipulando as palavras com você. Eu não podia falar. ao . — Pois eu preciso manipular as palavras para exprimir meus sentimentos. Meia hora depois estávamos na cama. Gerry inclinou-se e pegou-me a mão. Significava que não se podia realmente confiar nele? Ou significava que não queria se comprometer com palavras. Eu ia partir no final da ma- nhã. Tudo isso é novo para mim. — Acha que isso é ser justo comigo? — Acho. não é mesmo? Terei de pensar a respeito. — Não sei. Gerry levantou-se de repente e. — E como eu amo você. num arremedo de fastio. — E como adoro estar com você. Fui para o meu quarto e fiquei esperando. Shirl. fa- lei: — Oh. — De qualquer forma. porque não queria assumir a responsa- bilidade mais tarde? — Como então você poderá expressar quando estivermos longe um do outro? Gerry deu de ombros. — Acho que não sei coisa alguma sobre o amor. Sorri e revirei os olhos. ficou andando de um lado para outro. finalmente. Tornei a sorrir. com o corpo. saiu um instante depois. porque nunca tinha feito isso antes e porque uso pa- lavras durante todo o tempo. foi derrubar uma cadeira.

pé da cama.
— Qual é o problema, Gerry?
— Não sei o que estou pensando. Não sei o que fazer. E não es-
tou sequer preparado para pensar no que estou pensando.
Observei-o em silêncio. Ele pegou uma maçã no cesto de frutas.
Continuou a andar, com a maçã na mão. Voltou à cama, começou a co-
mê-la. Deliberadamente, com grande concentração, pôs-se a mastigar
interminavelmente cada pedaço, sem dizer uma só palavra. Era como
se não soubesse que eu estava presente. Não comeu a maçã como a
maioria das pessoas, deixando as duas extremidades. Comeu de alto
a baixo, finalmente devorou tudo o que restava, inclusive as se-
mentes.
Soltei uma risada e isso provocou-lhe um sobressalto.
— Não como muito... mas depois que começo, como tudo. — Gerry
apoiou-se num cotovelo. —- Não se esqueça disso.

Tentei dormir. Não sabia quando tornaria a vê-lo. Pensei como
seria pela manhã, quando ele saísse pela porta, fechando-a. Não
consegui me fazer confortável. Virei-me de um lado para outro.
Gerry me tocava a cada vez que eu virava. E assim a noite foi pas-
sando, eu me remexia e dormia, remexia e dormia. E Gerry me tocava
a cada vez que eu me remexia. O amanhecer logo se infiltrou pelas
cortinas. Gerry sentou na cama, puxou as cobertas ao meu redor,
levantou-me o rosto.
— Tivemos 36 horas de uma coisa maravilhosa demais para se
descrever com palavras, Shirl. A maioria das pessoas nunca têm is-
so. Pense no lado positivo. Sempre presumo que começo em zero... e
qualquer coisa acima disso já é lucro.
Engoli em seco.
– Não é o meu caso. Presumo que começo onde quero e posso ir
depois a qualquer lugar que quiser. Sinto que posso fazer qualquer
coisa acontecer, se quiser. Não me sinto grata por nossas 36 ho-
ras. Quero mais. Quero tudo o que puder obter.
Ele riu e levantou as mãos. Saiu da cama e pude senti-lo a se
preparar para um dia de trabalho. Já passara o seu tempo comigo,
considerava-se afortunado, agora tinha de atender ao seu senso de
obrigação britânico. Era muito simples para ele. Convertera a ne-
gação numa carreira.
Ele pensou por um momento, o rosto tornou-se grave.
— A vida seria desolada, triste, vazia. E agora me dê um beijo
comprido.
Ele pegou-me o rosto entre as mãos. Soergui-me e passei a mão
por seus cabelos. Gerry vestiu-se rapidamente. Antes que eu perce-
besse, já estava na porta.
— Telefonarei para você assim que voltar a Londres.
Ele não se despediu. Não se virou. Avançou direto para a por-
ta, abriu-a e saiu.
O quarto mudou. Era o momento que eu tanto temia. O silêncio
fez meus ouvidos zunirem. Senti-me tonta. Sentei, estendi as per-
nas pelo lado da cama. Olhei ao redor, à procura de alguma coisa
que ele pudesse ter esquecido. Não, pensei. Isso é ridículo. Não
vou me permitir chafurdar nisso. Levantei-me, tomei uma chuveirada

fria, pedi o café da manhã, arrumei as malas. Depois sentei e es-
crevi-lhe uma carta, dizendo que ele estava certo ao presumir que
um copo com água pela metade estava meio cheio e não meio vazio.
Dormi, um tanto irrequieta, no avião que me levou de volta a-
través do Pacífico.
— O que você quer de mim?
Podia ouvi-lo a indagar de novo. Gerry tinha razão. Eu queria
que ele destruísse sua vida pessoal, arriscasse o seu trabalho po-
lítico e renunciasse de um modo geral a tudo a que dedicara sua
vida por mim? Mas eu não queria pensar agora sobre isso.
— Tenho de concluir o trabalho que comecei há tanto tempo —
dissera Gerry.
Eu queria arriscar isso pelo que tínhamos? E o que tínhamos,
afinal? Seria mesmo amor? Seria aquilo pelo qual as pessoas renun-
ciavam a tudo? Ele seria capaz de chegar a esse ponto? E eu seria?
Poderia viver em Londres? E o que diriam os eleitores ingleses se
soubessem? Iria de fato arruiná-lo? Gerry alegava, com absoluta
convicção, que sua mulher não seria capaz de suportar. Mas o que
pensariam as outras pessoas? E, por isso, ele dissera:
– Tenho de me acalmar. Preciso me esfriar. Tenho estado obce-
cado demais por você. Preciso ser objetivo agora. Não quero pensar
no que estou pensando.
Ele me dissera todas essas coisas. E quando eu tentara ajudar,
assumindo uma atitude também mais fria, Gerry dissera:
— Você não vai se livrar de mim tão facilmente.
Eu também estava confusa... Desolado, triste e vazio, como ele
dissera. Haveria também desolação, tristeza e vazio para mim? Eu
poderia passar sem ele? Mas o que faria com ele? O que estava fa-
zendo comigo mesma?

Capítulo 6

"É muito difícil explicar esse sentimento a alguém que está total-
mente desprovido dele, ainda mais porque não há qualquer concepção
antropomórfica de Deus que lhe seja correspondente. O indivíduo
sente o nada dos desejos e objetivos humanos, a sublimidade e a
ordem maravilhosa que se revelam tanto na natureza como no mundo
do pensamento. Encara a existência individual como uma espécie de
prisão e quer experimentar o universo como um todo único signifi-
cante."

— Albert Einstein, O Mundo Como Eu O Vejo

Ao chegar em casa, eu estava irritada, frustrada, aborrecida
comigo mesma, mais contrafeita do que nunca por alguma coisa que
não podia definir muito bem. Estava perturbada por todos os pro-

blemas óbvios que se relacionavam com Gerry, é verdade, mas havia
mais do que isso.
Liguei para David. Ele ainda estava na Califórnia. E sentiu
imediatamente que alguma coisa estava errada. Perguntou como cor-
rera o meu fim de semana, sabendo que eu não diria muita coisa,
mas querendo ser amigo e proporcionar todo o apoio que pudesse.
Pedi-lhe que fosse se encontrar comigo em Malibu.
E ele foi imediatamente, levando um saco com pêssegos frescos.
Descemos para a praia. Os pêssegos estavam doces, suculentos.
— Qual é o problema? — perguntou David, sabendo que podia ir
direto ao ponto porque eu o convidara.
Engoli um pedaço grande de pêssego. Não sabia como começar a
contar o que estava sentindo.
— Não sei, David. Sinto que estou desligada... não exatamente
desligada. Apenas sinto que há alguma coisa por que estou viva que
não consigo perceber. Sou uma pessoa feliz, aproveito a vida ao
máximo... e não me sinto angustiada por causa desse negócio de
crise da meia-idade. É uma coisa que não posso explicar. Na verda-
de, a idade nada tem a ver com isso... a não ser pelo fato de que
depois de alguns anos finalmente se começa a formular as perguntas
certas.
Hesitei por um instante, esperando que David dissesse algo que
me lançaria a uma lucidez mais profunda. Mas ele ficou calado, es-
perando que eu falasse mais. E continuei:
— Talvez eu não esteja sequer falando a meu respeito. Tal-
vez... talvez seja o mundo. Por que o mundo não funciona direito?
E por que isso deveria me afetar? Por que você nunca parece angus-
tiado? Sabe de alguma coisa que eu ignoro?
— Está se referindo a por que estamos vivos e qual o nosso
propósito?
— Isso mesmo... acho que é isso. Quando se tem tanto quanto
eu, quando se viveu tanto quanto eu, ao final se tem de perguntar
muito a sério: O que significa tudo isso? E não estou perguntando
por infelicidade. Acho que sou bem-sucedida, pessoal e profissio-
nalmente, certamente me sinto feliz. Não sou viciada em tóxicos ou
bebida. Amo meu trabalho e amo meus amigos. Tenho uma vida pessoal
maravilhosa, apesar de alguns problemas complicados. Não... não é
sobre isso que estou querendo falar. Acho que deve haver algo mais
sobre o nosso verdadeiro propósito na vida que não consigo perce-
ber.
David limpou o sumo de pêssego que escorrera para seu queixo.
Era fascinante para mim que pudesse me sentir à vontade ao lhe fa-
zer tal pergunta, como se ele fosse capaz de respondê-la. Era uma
pergunta que não teria formulado sequer a Einstein, se o conheces-
se bastante bem para sentar na praia a seu lado, comendo pêssegos.
David limpou a areia dos seus dedos pegajosos.
— Acho que a felicidade está no nosso quintal dos fundos, para
citar Al Jolson.
— Que grande ajuda você está me prestando... — Soltei uma ri-
sada. — Olhe para o meu quintal dos fundos... é o Oceano Pacífico.
E daí?
— E daí que estou me referindo a você. Felicidade, propósito,
significado... tudo é você.

— Você é muito simpático e polido, David... mas podia sê-lo um
pouco menos e se tornar mais específico?
— Está certo — continuou David, sem se deixar afetar por minha
irritação. — Você é tudo. Tudo o que quer saber está dentro de vo-
cê. Você é o universo.
Santo Deus, pensei, esse jargão é demais. Ele vai recorrer a
frases que não integram o meu vocabulário realista. E por mais que
possa me sentir atraída pelo que ele está dizendo, não vai adian-
tar nada, porque não é parte do meu léxico filosófico ou intelec-
tual de compreensão. Mas também, pensei, minhas palavras, frases e
idéias são limitadas por meus próprios conceitos, por minhas es-
truturas de referência. Não fique contrariada com as idéias. Man-
tenha a mente aberta.
— Por favor, David, explique o que está querendo dizer. O que
você falou parece pomposo, solene e falso. Já tenho problemas su-
ficientes para compreender o que estou fazendo dia a dia. Devo a-
gora compreender que eu sou o universo?
— Está bem. — Ele riu gentilmente da minha sinceridade frus-
trada. — Vamos seguir por outro caminho. Quando você esteve na Ín-
dia e Butão, pensou muito no aspecto espiritual de sua vida? Ocor-
reu-lhe que o corpo e a mente podem não ser as únicas dimensões em
sua vida?
Pensei por um momento. Claro que isso me acontecera. Recordei
como ficara fascinada ao ver um lama butamês levitar na posição do
lótus (os joelhos cruzados), um metro acima do solo. Ou para ser
possivelmente mais acurada, eu pensara tê-lo visto levitar. Fora-
me explicado que ele conseguira aquilo pela inversão de suas pola-
ridades (o que quer que isso significasse), assim desafiando a
gravidade. Para mim, fizera algum sentido em termos científicos,
ao mesmo tempo que atraíra o lado metafísico da minha natureza.
Assim, ficara por aí. Por alguma razão, não tivera problema para
aceitar o que acontecera, mas não podia dizer sinceramente que
compreendera. Outro lama me dissera mais tarde:
— Você não teria testemunhado a levitação se não estivesse
preparada para isso.
Fora então que eu começara a pensar que talvez tivesse apenas
pensado que vira. Lembrei do tempo em que convivera com os masais
no Quênia e depois viajara para a Tanzânia. Encontrara outros ma-
sais que sabiam meu nome e que eu me tornara uma irmã de sangue
masai, sem que ninguém lhes dissesse. Aceitara as explicações dos
caçadores brancos do safari, que acreditavam que os masais haviam
desenvolvido a transmissão de pensamento. Disseram que os masais
não possuíam outra forma de comunicação entre si através da Áfri-
ca. Assim, por uma questão de necessidade e também porque eram
pensadores comunais, puderam realizar o que o mundo branco e civi-
lizado era competitivo demais para alcançar... a comunicação atra-
vés da telepatia mental e da transmissão de pensamentos para seus
irmãos.
Aceitara tudo o que os caçadores brancos haviam me dito. Pri-
meiro, porque eles tinham muita experiência e anos de observação
dos masais, seus hábitos e padrões de comportamento; e segundo,
apenas porque fazia sentido para mim. Não tinha qualquer dificul-
dade para compreender que a energia do pensamento humano podia vi-

e era um fato. Mas como poderia descobrir por mim mesma? Ou já estava consciente sem saber? Conheci. tais experiências haviam sido partilhadas por muitas e muitas pessoas.. Quando lá cheguei. E um dia depois descobri-me envolvida num bizarro golpe de Estado himalaio. explicando que seria necessário porque eu estaria em breve envolvida com problemas difíceis. acho que se pode dizer isso.. um lama nos Himalaias que vinha meditan- do em isolamento quase total há 20 anos. isolamento meditacional e certamente a expansão da percepção. mas me sentia mais à vontade relacio- nando essas coisas num nível intelectual ou científico.ver e se propagar fora do cérebro humano. estou dizendo que acre- . Era mais pragmática. quase todos já tinham ou- vido falar a respeito. Quando sabia que alguém estava em dificuldades. — Está querendo dizer que o aspecto espiritual de sua vida lhe parece real? — Isso mesmo. Estou pensando cada vez mais sobre o as- pecto espiritual de mim mesma. na Coréia. fui presa e passei dois dias sob a vista de baionetas. Pensei nos muitos momentos da minha vida quando sabia que algo estava para acontecer. Mas foi premonição dele ou presciência espiritual? Eu nunca pensara nesses termos. David. Quando sabia que alguém estava tentando me encontrar. ele me serviu um chá e me deu um pedaço de pano cor de açafrão que abençoara para me proteger.. do mundo ou como quer que você pre- fira chamar. E mesmo que o pedaço de pano servisse apenas para me proporcionar apoio moral. que pare- cia-me mais real. inacreditável para quem não estivesse presente.. por exemplo. fenômenos psíquicos. Para mim. Não me parecia algo es- tranho ou absurdo. com grande experiência das tribos primitivas. Simplesmente aconteciam.. Essas percepções me aconteciam com freqüência. e o lama que meditava na caverna da montanha acertara em cheio. Mas não parece ser uma parte real da vida realista que levamos. A experiência foi como um filme ru- im de classe B.. por exemplo. Subi mais de quatro mil metros até sua caverna na encosta da montanha.. E a se julgar pelas histórias populares. e eles eram estudiosos práticos e realistas. Mas eu nunca questionara realmente essas coisas.. Nunca me relacionara espiritualmente com essas coisas. Também não o era para os caçadores brancos. Tinha respeito pelas coisas que não compreendia. Claro que me interessava pelo controle da mente sobre a matéria. Sabia. David mudou de posição em torno do saco de pêssegos e dos ca- roços cobertos de areia que se empilhavam entre nós.. Tivera fre- qüentemente essas percepções em relação a pessoas que conhecia bem. di- ga-se de passagem. — É verdade. Na descida da montanha. E isso era tudo. que um amigo chegado acabara de se regis- trar no Hotel International. Telefonava imedi- atamente e ele atendia. em Seul. foi real. e acabava acontecendo.. Talvez porque eu não possa percebê-lo. enquanto meus captores tentavam tirar-me o guia e encarcerá-lo no dzong (uma masmorra himalaia em que os pri- sioneiros geralmente morriam). Pelo menos em relação ao perigo.. um leopardo matador de homens ata- cou-me e ao guia sherpa. e estava mesmo. Ele estava certo... Acho que. no fundo.. espantado por eu ter descoberto a sua pre- sença ali.

Vo- cê é o universo. embora até Einstein dis- sesse que acreditava que havia uma força maior em ação do que ele podia provar. mas não quis in- sistir. David? Como pode ter essa compreensão espiritual num mundo tão pragmático? É um ocidental. — Tem razão. — Creio que não importa como fa- zemos essas coisas. Acho que jamais consegui ficar parada no mesmo lugar. Nem sempre fui assim. — Eu também era assim. — Pedi carona. ver novos rostos. o que conta é por quê. David fitou-me de lado. Provavel- mente nós dois estávamos procurando pela mesma coisa. quando ficavam desequilibrados. relem- brando. Einstein vinha tentando provar a teoria do motivo pelo qual os passarinhos mecânicos que se punha na beira de um copo se enchiam de água e depois. mas não posso deixar de admitir que aproveitei ao máximo. — Mas ser um gênio e ser espiritual. É por isso que todos são essencialmente iguais. Na verdade. e nunca os dois haverão de se encontrar.dito nas coisas de que tenho provas. O idiota da aldeia pode estar mais perto de Deus do que Einstein. E adoro viajar. Como uma jornada por qualquer lugar era na verdade uma jornada através de mim mesma. já que ele dissera que me contaria no momento oportuno. Lembrei de uma história que alguém em Princeton me contara.. quase como se quisesse evitar uma res- posta. Como chegou a suas convicções? Ele limpou a garganta. — Então você viajou muito.. enquanto durou. — Poderíamos ambos ter poupado muitas passagens de avião se soubéssemos disso no início. — A maioria dos ocidentais se sente assim. mas acho que é verdade. atravessei os mares trabalhando nos cargueiros mais ordinários — continuou ele. indepen- dente da posição na vida em que tenham nascido. — Eu também. David? — Isso mesmo. Todos têm a si mesmos. o que quer que isso signifique.. mulheres bonitas. — O que me diz de você. vivendo sempre a mil. entornavam tudo . uma pessoa considerada estúpida pode ser muito mais espiritual do que alguém que é um gênio em termos da Terra. Adoro voar para novos lugares. com carros bonitos. só que por dois ângulos diferentes. em vez disso. Mas sabia que não podia fazê-lo. Mas pode estar certa de que eu era o típico americano. Eu lhe contarei a respeito algum dia. Essa é provavel- mente a diferença básica entre Ocidente e Oriente. David.. não é mesmo? Poderíamos ficar sen- tados no quintal dos fundos a meditar.. Mas algo me aconteceu certa ocasião. E era a isso que eu estava me referindo há poucos minutos quando falei que as respostas estão em você. Mas sempre pensei que procurava por mim mesma toda vez que viajava. não são coisas que se excluem mutuamente? — Não.. Não estava me levando a parte alguma. — Você está gracejando.. Os olhos de David ficaram enevoados enquanto falava.. Especulei sobre o que teria acontecido. — Simplesmente viajei e vagueei muito.

— Mas como sabemos que realmente aconteceu? David deu de ombros. O Primeiro Mandamento dado a Moisés. examine bem. Tudo o que Cristo ensinou estava re- lacionado com a compreensão do conhecimento da mente. igual a qualquer outro homem. mas não conseguia controlar a sua ansiedade pelo que não podia compreender. Aparentemente. — Em outras palavras. primeiro. Foi uma alma espiritual altamente desenvolvida. Cristo disse que o Primeiro Mandamento era o principal e in- terpretá-lo erroneamente seria fazer a mesma coisa com todas as outras leis universais subseqüentes. Lembrei de ter lido em algum lugar que Einstein era um leitor ávido da Bíblia. Além do mais. A bola superior do sorvete caiu na sarjeta. ele sabia mais que o resto da humanidade sobre a vida e a morte. corpo e es- pírito. como podemos saber se qualquer coisa na história de fato aconteceu se não a testemunhamos pessoalmente? Em algum ponto. cujo pro- pósito na Terra foi transmitir os ensinamentos de uma Ordem Su- perior. não perderíamos tempo a apren- der qualquer coisa do passado. Obviamente. foi um dia à cidade para tomar um sorvete duplo de morango. escute. Parecia não conseguir explicar como os passarinhos mecânicos funcionavam em termos matemáticos. pa- ra compreendê-lo plenamente.. — Antes de mais nada. escute de verdade. Acho que sua ressurreição provou isso. como se tivesse finalmente encontrado uma meada para desenredar. quando tropeçou ligeiramente. junto ao meio-fio.e recomeçavam. tínhamos de compreender que a alma e o espírito do homem possuíam vida eterna e que a busca da alma era se elevar cada vez mais alto na direção da perfeição. Mas ele disse também que. muitas pessoas testemunharam. . os restos de seu corpo jamais foram encontrados. o conhecimento da história exige um ato de fé. Ali estava um dos grandes gênios do mundo. a não ser que tinha um profundo respeito. Corpo e Espíri- to. — O que está querendo dizer com uma "Ordem Superior"? — Uma ordem espiritual superior. o que o homem disse. Nunca soube o que realmente pensava a respeito. a convicção de que os acontecimen- tos são verídicos. Especulava sobre o que ele teria pensado sobre a suposta imagem de Cristo deixada na Mortalha de Turim. Estava lambendo o sor- vete e passeando pela calçada. sobre Deus. por que não acreditar? — Exatamente. muito antes de Cris- to. se- ria difícil inventar um mito dessa magnitude. Em segundo lugar. — Cristo foi o mais adiantado ser humano que já pisou neste planeta. era o reconhecimento da Unidade Divina: Mente. relataram que ficaram espantadas. Mas.. Em terceiro. Alguns cientistas diziam que a imagem era causada por energia radiativa em alto nível. até ficarmos livres. — O que acha de Cristo? — descobri-me a perguntar a David. morango era o sabor predileto de Einstein. Frustrado. até mesmo aterrorizadas. enquanto os espiritualistas ex- plicavam que era uma expressão de energia espiritual de alto nível que Cristo adquirira. Einstein ficou tão abalado que chorou. Caso contrário. — Quem você pensa que ele realmente era? David se empertigou.

o respeito ao Primeiro Mandamento e todo o resto resolver a confusão em que lançamos este mundo? Eu não queria ficar perturbada. David? Por que não podemos apenas nos compreender em relação a nossos semelhan- tes? David sorriu. de passagem. Não haveria necessidade de guerras. a algum político? Os eleitores considerariam loucos nossos líderes políticos se expressassem tais idéias. — Mas é mais fácil se aprender primeiro quem é você.. se compreendêssemos nosso propósito in- dividual e significado em relação a Deus ou mesmo em relação à hu- manidade. estaríamos todos no caminho certo. — Todos os nossos "ismos". Creio que alguns anos antes eu o teria chamado de obcecado por Jesus. por um lado. Em vez disso.. pior vai se tornar. num contexto político. e deixando Deus de lado. — Ele fez uma pausa. — Como pode a crença na alma. Não era uma idéia nova. como David sugerira. ao se importar com a humanidade você está se relacionando com Deus. a Bíblia e os ensinamentos espirituais não se envol- vem com as questões sociais ou políticas. Tais conceitos espirituais. com a centelha divina em todos nós. Não podemos apenas nos relacionar com nossas vidas aqui e agora como se fossem as únicas que tivemos. — Mas como tudo isso se relaciona com o mundo em que estamos vivendo? — perguntei em vez disso. já teriam lhe ocorrido? Ou. E seria na verdade um bom começo. — Por que está dizendo que precisamos compreender nosso propó- sito individual e significado em relação a Deus. ao que me parece. pobreza e todas essas coisas. Jimmy Carter chegara mais perto que qualquer outro. acenando com a cabeça. mas a esta altura não ser a muito difícil. Se cada um de nós agir da maneira certa. — Em outras palavras. guerras virtuosas. tecnologia in- dustrial.. o indivíduo. competitivo.. A responsabilidade final do indivíduo era básica do pensamento quacre. individualmente. deixando Deus de fora por enquanto. masturbação intelectual e programas sociais compadecidos só têm contribuído para piorá-lo. isso levaria automa- ticamente à harmonia social e à paz. em termos sociais e políticos. Afinal. tentando absorver o que ele es- tava dizendo. o conceito era também básico na filoso- fia política do anarquismo de Kropotkin. Olhei atentamente para David. Ele dobrou as pernas por baixo do corpo e usou as mãos para reforçar seus argumentos. Somos os produtos de todas as vidas que já levamos. Pensei em Gerry e sua política. — Você poderia. passando a acusá-lo de propagar crenças que desviavam a atenção do que estava realmente errado no mundo. Está me entendendo agora? — Acho que sim. E quanto mais ignoramos o lado espiritual da vida. Porque é aí que entra a justiça cósmica. conflitos. a espiri- tualidade vai direto à raiz do problema. — Cristo. mas a maioria das pessoas "inteligentes" que eu conhecia preferiam pensar que ele estava fazendo "uma mé- . amedrontado ou violento. porque todos sa- beríamos que não havia necessidade de ser ganancioso. Todas as nossas vidas anteriores são o que nos moldaram.

dia" com Deus. tem uma conseqüência.. E se não o fizermos. Sabiam disso muito antes dos seus hippies. como nascer de novo. mas queriam que ele fosse um administrador melhor e um líder mais forte.. mesmo que a nossa ligação amorosa não o conseguisse. É justamente esse o ponto fundamental.. mas isso não significa que não sejam verdadeiras.. Há um propósito superior em ação. pois então reduziria em última análise a extensão em que pode prejudi- car a si mesma. pa- recia totalmente impossível. Se todos sentissem isso. Quanto à reencarna- ção. é muito simples.. — Justiça cósmica? — questionei. só que você não percebe. qualquer cristão nascido de novo escarneceria da idéia. por exemplo. toleravam suas i- diossincrasias.. a coisa parecia plausível. — E você acredita que seríamos mais generosos e responsáveis se levássemos nossas ações mais a sério nesse sentido cósmico? — Claro. até que finalmente endireitam? — Não acha que faz sentido? E certamente faz tanto sentido quanto qualquer outra coisa. como dizem os hippies? — Claro. Somos todos parte de um plano e verdade universais. — Mas isso já está acontecendo. Não sabiam o que pensar dele se realmente levava a sério todas as coisas que dizia.. — Acredita então que todos criamos o nosso próprio carma. E você deveria estar mais consciente disso. sarcasticamente. sumo de pês- sego pingando do meu queixo. Minha mente começou a se agitar com as idéias implícitas em nossa conversa. seremos todos mais generosos uns com os outros. acreditasse em Deus ou na reencarnação. É possível. . Assim. Tudo o que fazemos ou di- zemos em nossas vidas. se compreendessem em suas entranhas. Eu não tinha certeza se me agradavam. Não é algo tão difícil de compreender. — As grandes verdades estão escondidas. O que conta é como levamos as nossas vidas. Por outro.. As Ilhas Britânicas afun- dando no mar lentamente. Colheremos o que semearmos. enquanto a economia desmoronava.. — Acredita mesmo que nossas almas continuam a voltar fisica- mente. enquanto Deus sorria lá de cima. — Mas eu ficaria paralisada se me permitisse acreditar que ca- da uma das minhas ações tem uma conseqüência. cada um sofrerá as conseqüências em termos do pla- no universal. Não vivemos por acaso. todos os dias. o mundo seria muito melhor. e devemos estar conscientes disso. você sabe que não há aca- sos. Na verdade. limitavam-se a rir. Como eu disse antes. Por um lado.. que tudo não passava de encenação. de uma forma idealista. E se Gerry. o pon- to em que nos encontramos hoje é o resultado do que fizemos antes. dava para se imaginar as charges inglesas. Os indianos diziam isso há milhares de anos.. não. — Não sei. É o que Cristo estava tentando nos dizer. à brisa marinha. E quando vi- vermos assim. — É onde entra a sua reencarnação? — Claro. todos ficavam furiosos com sua fala de Deus. a legen- da dizendo: "Ânimo! Na próxima vez vocês farão tudo certo!" Era a garantia para Gerry perder a eleição. o mal ou o bem..

— Mas então. pelo menos em termos de responsabilidade individual.. Agiria como uma espécie de cola a agluti- nar o propósito de todas as outras ciências. E me pergunto como seis milhões de judeus mortos se sentem por se- rem parte de um desígnio de consciência cósmica superior.. quando rejeitou a reencarnação. quer tenha sido boa ou má. O que David estava dizendo talvez fizesse algum sentido. Qualquer ação que uma pessoa cometa acabará vol- tando a ela própria. E até onde me concer- ne. Mas por que um céu ou in- ferno hipotéticos são mais fáceis de acreditar do que a justiça da reencarnação na Terra? O que lhe parece mais razoável? — Oh. Mas. não no que podia sentir. Talvez a vida seja apenas um acidente sem sentido. e por isso. — Além do mais — disse David — até os cientistas ocidentais . — Pensei por um momento. da química à medici- na. — Ora.. E duvido muito que você possa algum dia me dar a resposta. A maioria das pessoas racionais acredita na causa e efei- to. Shirley. Mas eu sempre precisava de pro- vas.. Era o sistema ociden- tal.. Supo- nhamos que a dimensão espiritual da humanidade fosse reconhecida como uma possibilidade. aventou o céu e o inferno para cuidar de todos os efeitos que não se consumaram. ao final. Precisava me mexer. tocar ou ouvir. eu lhe responderei taxativamente: não posso.. talvez não na en- carnação desta vida. Mas pense mais adiante.. o que significa tudo isso? — Shirley. Não posso viver com um beco sem saída e creio que você também não pode. algo que pudesse ver. pelo amor de Deus. Deus. mas em algum momento do futuro. Talvez assim pensasse melhor. — Por que falar em seis milhões de judeus? Por que não acres- centar os 25 milhões de judeus? Ou os garotos da Cruzada das Cri- anças? Ou só Deus sabe quantos hereges queimados nas fogueiras? Se está me pedindo para responder a cada aparente injustiça e horror que o mundo já testemunhou. não me venha com essa! — Ei. então o fará quando? No céu? No inferno? Até a religião acredita na causa e efeito. — Ele fez uma pausa. — Causa e efeito. — Você pode acreditar nisso. Tudo acaba no indivíduo. Sentia-me como uma pessoa apanhada numa versão na vida real de The Twilight Zone. — Então ninguém é responsável por nada.. matemática e política? Não eram todas as nossas ciências uma parte da busca por harmonia e compreensão do significado e propó- sito da vida? Talvez o que estivesse faltando fosse a ciência do espírito... Éramos condicionados a respeitar as ciências físicas e psi- cológicas. só posso lhe dizer o que acredito. mas eu estou apenas perguntando.. não é mesmo? Diga à pessoa média "Você colhe o que semear" e ela certamente não vai contestar. Eu fora condicionada a acreditar apenas no que podia ver. espere um pouco! A própria ciência acredita na causa e efeito. na pessoa. É isso o que o carma sig- nifica. tudo depende de vo- cê.. E ninguém es- tá isento Levantei-me e espreguicei-me. é um beco sem saída. se vo- cê não colher nesta vida. Mas até mesmo as pessoas do mundo ocidental estavam a- prendendo que só porque uma coisa não se enquadrava em nossos con- ceitos isso não significava que não merecia ser respeitada. — Talvez eu não acredi- te em qualquer das opções.

quer se fosse um xeque árabe aumentando os preços do petróleo ou um judeu conduzido à câmara de gás? Quer se fosse um "chefão" da Máfia. minha busca pessoal era mais importante. Aceita qualquer coisa. recuava e se . compreenderia que minha vida tinha uma razão além do que podia perceber? Agiria mais responsavelmente ou mais generosamente em relação a mim mesma. Isso é tudo o que a morte física significa. tanto boas como más. seremos prejudica- dos na próxima. E é como Pitágoras disse: "É tudo necessário para o desenvolvimento da alma. Mas o que faze- mos conosco. afastei Gerry da minha mente. Se prejudicamos alguém nesta vida.. em relação aos outros. lenta- mente. E não importa quem somos. E escreveu muita coisa a respeito. tropeçava. eu teria uma atitude de responsabilidade mais profunda e um sentimen- to de justiça e participação em tudo o que fizesse? Se compreen- desse que minhas "ações" implicariam em dívidas a serem pagas. que aparentemen- te era compelida a alcançar de um jeito ou de outro. Como eu gostaria de poder conversar sobre essas coisas com Gerry. Apenas muda de forma. porque esse era o verdadeiro significado e propósito da vida? E tudo isso era verdadeiro. Os corpos são apenas casas temporárias para as nossas almas. de sua origem. Vamos supor por um momento que o comportamento de uma alma determinaria não apenas o que era herdado nesta vida. enquanto estamos vivos. As almas sim- plesmente deixam os corpos e assumem forma astral. é o que conta. Nossas almas. mas que esse corpo e mente eram ha- bitados por uma alma. E a ilusão cega é tão necessária às vezes que podemos até permitir que ofusque nossas verdadeiras identidades. além de incontáveis outros ocidentais.. David sorriu-me e recolheu os caroços de pêssego. O mesmo fez Pla- tão. além disso. Naquele momento. mas também explicaria nossas fortunas ou infortúnios.reconhecem que a matéria nunca morre. Firmemente. que minha alma existia antes do meu nascimento nesta vida e continuaria a existir depois da morte deste corpo. Nesse caso. pensei Mas a pessoa se acomoda quando está envolvida com outra. Qual é a relação? — Quando morremos. reconhecendo que se não fizes- se isso prolongaria a luta em busca da perfeição." Ele também disse: "Quem compreendeu essa verdade compreendeu o próprio cerne do Grande Mistério!" — Está falando de Pitágoras. porque tem medo de pôr em risco a ilusão cega do amor. um terrorista da OLP ou simplesmente um mendigo nas ruas de Calcutá? Minha mente girava vertiginosamente. Ou no tempo depois. Começamos a andar. Meteu no sa- co e depois colocou-o debaixo da casa. o grande matemático? — Exatamente. Tal conhecimento levaria a uma responsabilidade moral maior? Vamos supor que eu pudesse chegar a compreender que não era apenas um corpo com uma mente. — Ele acreditava em tudo isso? — Claro. — Não estou entendendo. independente da forma em que estejam. são permanentes. e de seu fim... Vamos supor que a humanidade (e este ser humano em particular) possa resolver o enigma de sua identidade. apenas nossos corpos morrem.

Um indivíduo só pode julgar o seu próprio comportamento. nin- guém pode julgar a outro. Comunique às fa- mílias daqueles seis milhões de afortunados que somente os corpos deles morreram. teria pregado Hitler na cruz! Percebi o que acabara de dizer e tratei de acrescentar: — E o que você teria feito com Hitler? — Minha voz estava ago- ra defensiva. por nossas próprias ações. Lembre-se de que todas as religi- ões falam da paciência como a grande virtude. realçar seu estilo de vida.. enquanto começava a perceber as implicações. A tristeza invadiu seu rosto. não tinha certeza se gostava ou não. E. como a nature- za. como você sabe muito bem. porque somente Deus pode julgar neste contexto. — Muita gente acredita que se os britânicos não ti- vessem se desarmado. por um momento. Hitler não é o único monstro que já viveu. é simplesmente uma questão de receber de volta o que aplica- mos. Pen- se um pouco. simples demais. O que me diz de Idi A- .. David.. Não quando está se falando num sentido global. Só que esta vida não é a única que devemos levar em consideração. enquanto ele olhava para o mar. fi- nalmente. — Pois se eu pudesse. Apenas seus corpos morreram. Vamos supor. se Hitler sentisse alguma responsabilidade moral como pessoa. Hitler poderia ter sido detido antes mesmo de começar. ab- surdo demais e. não acha? Não se pode deixar de fazer a coisa em termos pessoais. Eu poderia imaginar muitas pessoas que manipulariam essa crença para exaltar as suas próprias vidas. — Claro. Shirley. Isso significa paci- ência conosco e também com os nossos semelhantes. teria detido a si mesmo. É por isso que se deve começar por si mesmo. E é justamente esse o ponto fundamental. simples e objetiva. — Quanto tempo seria necessário para uma pessoa se tornar "bo- a" em relação à sua justiça cósmica? — O tempo não importa. — A crença na reencarnação faria com que o mundo se tornasse um lugar mais moral? — falei finalmente.. — Não necessariamente. David estremeceu como se eu o tivesse agredido fisicamente. Foi errado se desarmar? As coisas se complicam quando a gente envereda por esse caminho. disse. Respirei fundo. adquirir poder. estamos criando e ditando os termos de nossos futuros. Não acredito em matar nin- guém. — Muito bem. Além do mais. Vamos supor que a vida.. Vamos supor que em cada instante. depois de uma longa pausa: — Sei que é difícil de aceitar. se em vez disso desenvolvessem seus armamen- tos. qualquer coisa enfim. Em última análise.. em cada segundo de todos os dias. — Significa inclusive que devemos ser igualmente pacientes com os Hitlers do mundo? — Significa que seis milhões de judeus realmente não morreram. É onde entra a sua pergunta sobre Deus e o supremo desígnio. com o conhecimento de que já se viveu e que se continuará a levar muitas vidas. talvez... Mais uma vez. realmente sensacional.atolava nas possibilidades do que eu estava pensando. — Isso é maravilhoso. Mas também o é virar a outra face. — Tem razão. que toda a coisa é assim. Era novo demais. positivas e negativas.

. Em tudo e por tudo. Mas talvez você tenha uma idéia melhor.min. mas nunca soube que existisse al- guém como Cristo entre os meus contemporâneos. o pessoal do Khmer Vermelho ou Stalin? Genocídio é um antigo problema humano. pensei. acaba dando frutos. Acho que basta pensar a respeito. Quem poderia estar vivendo no corpo de uma pessoa que eu considerava minha fi- lha? Houvera muitos momentos em nosso relacionamento mãe-filha em que tivera a impressão de que ela me conhecia melhor do que eu a conhecia. sem terem o menor sentimento de que havia seres humanos lá embaixo? — Onde está querendo chegar? Que os seres humanos são cruéis uns com os outros? — Exatamente. — Por que então não admitir a possibilidade do que estou di- zendo? Afinal. descobri-me a pensar se mi- nha filha não seria alguma outra adulta reencarnada. Justiça Cósmica. Você está dizendo que nada tem qualquer propósito significativo.. — Isso mesmo. E se compreendessem as conseqüências de suas ações para si mesmos. o que está acontecendo no mundo agora não funciona muito bem. Há também con- seqüências positivas. Estava com dor de cabeça. Cartas Quando acordei. . E lem- bre-se de que esse é apenas o aspecto negativo. David beijou-me no rosto e disse que telefonaria depois. Fi- quei olhando para as ondas. na manhã seguinte." — Henry David Thoreau. passariam a pensar duas vezes. Creio naquela expressão que você abomi- na. — Como pode ter tanta certeza de que há conseqüências? Que provas tem? — Nenhuma. É por isso que me sinto tão sereno. em algum momento. Creio que tudo o que plantamos. É por isso. Que provas você tem de que não há conseqüências? — Nenhuma. em algum lugar. Só que individual. eu estou dizendo que tudo tem. E é claro que toda mãe sente que aprende com os filhos. bom ou mau. Você diz que não se sente serena e quer saber por que eu sou. Capítulo 7 "Vivi na Judéia há 1.800 anos. talvez eu preferisse ser um peixe. um auto-impedimento. Ou que dizer dos pilotos que largaram bombas em hospitais no Vietnam do Norte. — Como eu poderia fazer? — Não sei. — Isso faria com que a reencarnação se tornasse uma espécie de impedimento.

ela já teria vivido muitas vezes antes. Respondi que andara lendo. — Olá — disse ele. gos- taria agora de conversar com ele por alguns minutos. — Arrumou alguma boa leitura? Santo Deus. voltando à livraria Bodhi Tree. sobre reencarnação em relação a nossos filhos. que não devemos tratar os filhos como se fossem nossas posses. quando argumentava co- nosco para que lhe concedêssemos mais independência e auto- identidade. John. tantas dessas pessoas enfronhadas em me- tafísica eram formais. os princípios da reencarnação ajudam a explicar algumas das contradições absurdas nos relaciona- mentos pais-filhos. ela esquecera gradativamente a sua dimensão espiritual. e seu talento para línguas era baseado no fato de as ter falado em vidas anteriores. talvez já tivesse planejado antes de nascer. estaria respondendo a uma voz interior legítima. peguei o carro e segui para a cidade. mas gentilmente. quando nos desco- bríamos encerrados em corpos físicos? Quando ela fora viver com o pai. Assim. o proprietário.Era esse o milagre da criação dos filhos. tomando um chá de ervas e lendo. Quase que irritantemente pacientes. pensando e falando com David. no leito de hospital.. com outras mães? Ela própria já teria sido mãe? Seu rosto de uma hora de idade alojaria uma alma que talvez tivesse milhões de anos de idade? E ao crescer. por uma recordação da minha vida passa- . apenas pequenos corpos habitados por almas que já tiveram muitas experiências. que murmurava que ela já sabia quem era? Talvez os pais fossem apenas amigos antigos. Começou a falar em tom gentil: — Todos os ensinamentos nos dizem. formal. Pensei no documentário a que eu assistira sobre filhos cresci- dos que espancavam e maltratavam os pais. em outra vida.. Quem são os nossos filhos. no Japão. — Claro. na vida adulta. E mais tarde.. se cada alma já viveu muitas vidas antes? John sorriu e tirou os óculos. Mas se eu deixasse a mente vaguear e depois se focalizar na possibilidade da reencarna- ção. ao invés de figuras de autoridade. E talvez ainda os conflitos sem solu- ção de vidas anteriores contribuíssem para os antagonismos fre- qüentes demais que irrompiam agora entre pais e filhos. estava em seu escritório. numa tentativa de se ajustar ao mundo físico em que se encontrava vivendo? Era isso o que chamavam de "véu do esqueci- mento"? Era isso o que acontecia a todos nós. Quando o medico a levara para mim. Essas crianças estariam agindo assim porque haviam sido espancadas em vidas anteriores? Ou porque os pais haviam espancado alguém em vidas anteriores? Quem estava exercitando o carma de quem? Mas John já estava continuando a falar: — Posso lhe garantir. Talvez ela se tor- nasse japonesa quando falava japonês porque já fora japonesa. Tomei o café da manhã. Sobre o quê? — Sobre reencarnação. Eles são como você disse. pensei. passava a encarar Sachi sob uma perspectiva totalmente dife- rente.. formais e um tanto horrivelmente pacien- tes. de qualquer forma. que pensavam saber melhor que os filhos. naquela tarde de 1956.

. John estendeu a mão para uma estante e tirou alguns livros de Edgar Cayce. Mas todos estão sintonizados. Na verdade. — Pois é o que você vai ler em seguida. Sentei num banco. cada som.. reagimos. pensamento. — Já disse isso a seu filho? – Claro. emite ou cria car- gas de energia. pensei. — Está falando de cartomantes e essas coisas? — Há muitos charlatães. pode captar essas vibrações e até . sentiu ou fez. mas nunca li coisa alguma — respondi. Como você sabe. É isso o que ele faz. mas vou tentar explicar. Na verdade. religião ou filosofia.. Constituem uma espécie de placa magnética que atrai todas as vibrações. A única maneira que terei de ouvir a respeito será por intermédio do jargão "astral". mas também já houve alguns psíquicos respeitados por todos.. Está vendo agora como opera a Justiça Cósmica? Lá vamos nós outra vez. Ele riu e disse que eu deveria tomar cuidado. que meu filho de oito anos já foi meu pai. Akasha é uma palavra de sânscrito que significa "substância etérea fundamental do uni- verso". espiritual e psiquicamente. pen- samos. — Desculpe — murmurei. Sabe o que são as Gravações Akáshicas? Recostei-me no banco. com as Gravações Akáshicas.. Não pude deixar de rir. John levou os dedos aos lábios e sorriu. e- nergias gasosas que possuem diferentes propriedades vibratórias eletromagnéticas. mas o que exatamente significa etéreo? — O universo é supostamente composto de éteres. — As Gravações Akáshicas? — Isso mesmo. Como uma pessoa descobre quem foi numa vida anterior? — Basta ir à pessoa certa. — Ele era. Assim. murmurando: — Agora que estou com a cabeça saindo fumacinha. Cayce era um médium de tran- se.. – Não tenho certeza se posso perceber como funciona qualquer coisa. movimento ou ação reage em termos de vibrações nesses éteres eletromagnéticos. Pois está bem. Já leu alguma coisa de Edgar Cayce? — Já ouvi falar dele.. essencialmente. por causa do que pensara a respeito de Sachi naquela manhã. isso acontece com a maioria dos psíquicos. sabendo que na verdade também nunca ouvira falar a seu respeito. dizemos. luz. São conhecidas como "A Memória Universal da Natureza" ou "O Livro da Vida". Está entendendo? — Mais ou menos. E se a pessoa está mesmo sensitivamente sintonizada.. em termos físicos. nem mesmo conseguindo lembrar o nome que ele mencionara. Portanto. tudo o que somos.. como Edgar Cayce. as Gravações Akáshicas são uma espécie de gravação panorâmica de tudo o que já se pensou. As coisas ocultas têm tanto direito a uma verborragia própria quanto qualquer ciência. Essas cargas de energia são chamadas de "vibra- ções".da. O que são? — É difícil encontrar coisas escritas a respeito das Gravações Akáshicas. tudo o que fazemos. ou seja. — Você está o quê? — Que gravações são essas? — indaguei.. tudo é vibração eletromagnética. — Por exemplo? — Um psíquico. vemos. um homem inculto.

no senso cósmico. A ciência sabe certamente que existem. Moisés. entrar mais em contato e sin- tonia com nós próprios. É uma fonte de conhecimentos. Não há praticamente qualquer discrepância no que disseram. entre outros. o mais imparcialmente que podia. Assim. — O que disseram a respeito de não lembrar as vidas anterio- res? — Falaram sobre uma espécie de "véu do esquecimento" que exis- . sentiam que sua missão na vida era transmitir o conhecimento que tinham.. podemos consegui-lo. pode ver uma porção de coisas que já aconteceram. — Santo Deus! — exclamei. o que realmente significa. se não estivesse psiquicamente sintonizado? E a mesma coisa se aplica a Cristo. se a pessoa é bastante sensitiva para sintonizar as ondas de pensamento certas. — Eles também eram psíquicos? — falei. Buda. pois nenhuma energia jamais cessa de exis- tir... como acha que Moisés pôde escrever sobre a criação do mundo. Platão. Todas essas pes- soas possuíam um alto desenvolvimento espiritual. Se nossos poderes espirituais e mentais estão bastante desenvolvidos. — Como acha que eles puderam escre- ver todas aquelas coisas? Por exemplo. Es- tou falando demais? Sacudi a cabeça.. E se a pessoa está consciente da dor que sofreu no passado e também da dor que pode ter infligido a outra. Não é nada mais do que desenvolver a nossa ESP (percepção extra-sensorial). que a capacidade inerente de captar essas gravações existe em todos nós. — Já leu os antigos psíquicos. no começo. É apenas uma questão de desenvolver a capacidade. Nem sempre usaram as palavras carma ou reencarnação. tossi."ver" o passado.. — E se tivermos uma percepção mais consciente dessas outras dimensões saberemos mais a respeito de quem somos e o que são as nossas vidas? — Não é mais fantástico que as ondas de som ou as ondas de luz. Assim. algo que até a ciência encara agora como um fato. limpei a garganta. Está me entendendo? — Está querendo dizer que é apenas uma questão de expandir a nossa percepção? Senti-me grata por ser capaz de compreender o que estava di- zendo. – E tais pessoas falaram de reencarnação? – Nem todas usaram essa palavra. — Claro — respondeu John. mas o sentido foi o mesmo.. E quase todos os escritos de tais pessoas estão de acordo. — Exatamente. acho. só que neste caso são ondas de pensamento. Mas todas falaram amplamente sobre o relacionamento entre a alma eterna do homem e o Divino. Está entendendo? — Claro que estou — menti. Todas falaram das leis universais da moralidade. — Você acredita em tudo isso? — Claro que sim. som. que se ligam nas ondas vibracionais akáshicas. É por is- so que a Bíblia é tão valiosa. e todos os livros dizem isso. Além disso. um bom psíquico pode lhe informar como foram as suas vidas anteriores. tudo funciona como um processo educacional. Pitágoras. não é mesmo? — Os antigos psíquicos? Quem foram? — Foram muitos.

Deus. Mas jamais en- tendera direito por que me sentia assim. Já experimentou esses sentimentos ocasionais de que esteve em algum lugar antes. Uma alma realmente superior.te na mente consciente. Mas quando nos identificamos mais fortemente com a criação. a pessoa era recompensada com mais opções de como reencarnar. tudo com o propósito moral. por exemplo. Para pessoas como Pi- tágoras. Uma alma pode optar por avançar ou regredir. . Lembrava de haver me sentido familiar quando alcançara a caverna no topo da montanha em que vivia o mon- ge que me dera o pano cor de açafrão. aca- bará perdendo a humanidade e se tornará como animal. depois sentou no banco ao meu lado. destruidores. — Sei que estou falando demais. E há o inverso. significando a eternidade da alma e a consecução da plenitude moral.. Sempre sentira que significava algo a mais para mim do que apenas o que o monge dissera. a razão para que guardasse o pano até hoje. O sentimento familiar fora o motivo pelo qual levara a sério sua advertência.. deformidades. mais pode lembrar encarnações anteriores. Era um grande alívio saber do que ele estava falando. a reconciliação moral. es- colheria consumar o seu carma através de uma encarnação de auto- sacrifício. Podia me lembrar como me sentira nos Himalaias. sim. Mas cada identidade tem a sua coisa. — Significa reconciliação com o criador original ou com a cri- ação original.. É o que se refere como Inferno. todos os infortúnios da vida. apenas entremeada por aqueles senti- mentos de déjà-vu. E aparentemente quanto mais antiga e mais elevada é a alma em realização espiritu- al. — E se uma alma não quiser progredir? E se uma alma quiser es- quecer toda a coisa e dizer que tudo se dane? — Também já se escreveu muito sobre isso.. como se lá tivesse vivido sozinha por muito tempo. infelizmente. Se escolher pela regressão contínua. é claro. de consumar o carma individual. Entendo perfeitamente o que está dizendo.. Se não optar pela evolução espiritual. como doença. de que já passou por alguma coisa antes ou co- nhece alguém que jamais encontrara conscientemente nesta vida. Quando se começa a . injustiças e todo o resto. John pediu a um dos seus assistentes que trouxesse chá. Somos ao mesmo tempo criadores e. estamos mais perto da reconciliação. a alma perde a oportunidade depois de algum tempo e isso é o Inferno.. Platão ou qualquer uma das outras. uma espécie de terra da inexistência? — Claro. É tão importante. e- ram explicados pelo fato de que cada encarnação representava uma recompensa ou punição de uma encarnação anterior. logo abaixo de uma prateleira cheia de livros. a fim de não ficarmos continuamente trau- matizados pelo que possa ter ocorrido antes. — Era isso então o que estavam querendo dizer ao falarem que iria para o Inferno quem não acreditasse em Deus. mas quando entro no assunto não consigo mais parar. À medida que a alma progredia. Todas disseram que a vida presente é a importante. sem opções para avanço ou compensação moral. Sa- be o que isso significa? — Acho que não.. embora tenha certeza de que lá chegou pela primeira vez? — Já.

Era um homem simples. — Quer dizer que a reencarnação das almas faz com que até o pior mal e sofrimento tenham sentido? — Claro. eu tenha sido um monge himalaio que conhecia todos os mistérios da vida. Terminamos de tomar o chá. É por isso que a vida tem sen- tido. um devoto religioso (cristão). sentei com os livros novos e comecei a ler sobre Edgar Cayce. talvez por ver a expressão em meu rosto. se você quiser conversar mais um pouco. Todo sofrimento físico. no Ken- tucky. perto de Hopkinsville. Usava a palavra "nós" e começou a prescrever um tratamento para si mesmo. depois que os médicos tradicio- nais mostraram não ser capazes de ajudá-lo. — Muitas pessoas por aqui acreditam na reencarnação. mas pelo me- nos eu escutara e agora leria os livros. E por isso não importava que ela não me quisesse em sua cozinha. Estarei aqui. toda felicidade. Ela sempre guardava o Brie ao bom estilo francês. pão francês quente e queijo Brie. Quando a sessão . — Talvez. baixou o braço e disse simples- mente: — Vamos tomar o chá. em outra encarnação. Estou voltando para rea- preender o que já sei. com uma voz que não tinha qualquer semelhança com a sua. Entramos no escritório dele e fomos sentar a uma janela. John fez uma pausa. Vamos ver o que acontece dentro de uma semana ou mais. — John piscou e levantou-se. Justiça Cármica e tudo isso? — Claro. toda a tapeçaria passa a fazer sentido. Sob hipnose. en- sombreada por uma árvore grande lá fora. Tomei um gole do chá de gengibre quente. todo desespero e toda alegria acontecem em re- lação às Leis de Justiça Cármicas. Edgar Cayce nasceu em 1877. Marie serviu-me um chá. não terminara o curso secundário por preci- sar trabalhar. Sofria de asma crônica e procurara um hipnotizador experiente e respeitado.desenredar um pouco. começou a levantar o braço. Fui para minha casa em Encino. es- sencialmente inculto. Mas suspendeu o movimento no meio. mas não me importava. — Muito bem. na temperatura ambiente. E você sabe disso. uma coisa estranha aconteceu com Cayce. O que John queria acreditar era problema dele. você já tem os seus livros so- bre psiquismo. até que derretesse para a beirada da travessa de porcelana Limoge em que o colocava. Há muitos malucos por aí. Ele riu. em grandes detalhes. — Como passou a se interessar por tudo isso depois que esteve na Índia? — perguntou John. Levei tudo para o meu quarto. Eu ado- rava a atenção para os detalhes de Marie. Agradeci. paguei os livros e saí para o tráfego na Melrose A- venue. Tudo acontece por uma razão. Ele come- çou a falar na terceira pessoa. a fim de apre- sentar outro argumento. Eu sabia que não deveria estar comendo pão e queijo. em busca de alívio.

E Cayce era um homem que acreditava na Bíblia.terminou. Cayce passou a confiar no processo. se seguidos fiel- mente. — Qual é o propósito da vida? — Existe vida depois da morte? — A reencarnação da alma acontece? A Voz respondeu afirmativamente a todas essas perguntas. sempre davam certo. Se os tratamentos prescritos eram seguidos acuradamente. pas- sando a falar das vidas anteriores das pessoas que a interrogavam. ele resolveu consenti-la por algum tempo. o Times não podia fazer comentários. depois gente do país inteiro. Claro que não tinham provas de que haviam sido tais pes- soas. Ele não precisava ver ou se encontrar pessoalmente com os pacientes que procuravam ajuda. Não demorou muito para que pessoas começassem a interrogar a Voz de Cayce sobre questões mais cósmicas. explorar o estado em questão. que vivera nas condições idênticas do passado que ele des- crevera. Por exemplo: Uma mulher de 38 anos queixara-se de ser incapaz de assumir o . Mas ficou horrorizado quando o hipnotizador descreveu a "voz" que aparentemente estivera falando por intermé- dio dele. Muitas pessoas voltavam a procurá-lo com provas de que existira um Fulano de Tal. Mas Cayce também sentia uma profunda compaixão pelos outros. a fim de ajudar aos outros. The New York Times publicou uma ampla matéria investigativa sobre Cayce. Cayce experimentou. Não havia qualquer indício de que Cayce estivesse falando do próprio subconsciente (ele nada sabia da profissão médica). e quanto a entidades "espi- rituais". Mas sempre que investigavam em detalhes. mas considerava anti-religiosas as informações sobre vidas anteriores. Tais ligações cósmicas nunca haviam lhe ocorrido. ele se recusou a aceitar as informações. Mas logo passou a ter dúvida. O "nós" parecia capaz de penetrar em suas mentes e corpos. A Bíblia dizia que o homem nunca devia "consentir qualquer entidade espiritual que não fosse Deus". com exemplos suces- sivos de confirmação de identidades de vidas anteriores. A asma logo desapareceu. prescrever tratamentos que sempre davam certo. concluiu que não havia explicação. A notícia sobre o estranho poder de Cayce se espalhou. Por algum tempo. Cayce tornou-se outra vez aturdido e confuso. O tratamento médico era-lhe aceitável. um assunto sobre o qual Cayce nada sabia. Em desespero. A Bíblia nada dizia a respeito de tais coisas. o hipnotizador informou o que acontecera e sugeriu que Cayce seguisse as instruções. Cayce tornou-se famoso no mundo inteiro. tanto quanto as pessoas que iam procurá-lo. A moralidade do carma e reencarnação era intensamente ressal- tada em cada sessão. Pessoas de toda a sua comunidade começaram a procurá-lo. Como a Voz parecia servir para ajudar às pessoas. Relacionava experiências de vidas anteriores com determinadas do- enças que um indivíduo podia estar sofrendo agora. Considerou uma blasfêmia. sentiam-se estranha e intensamente familiares com o que ele escrevera. A Voz (que se descre- via como "nós") sempre usava terminologia médica e receitava do que era obviamente um vasto conhecimento de medicina. Cayce não demorou a aprender a se co- locar em transe. Eram es- tranhas demais.

Um rapaz de 21 anos queixava-se de ser um infeliz homossexual. As sessões revelaram que na corte real da França ele experimentava a maior satisfação em descobrir e denunciar homossexuais. E nos compete compreender quais podem ser as conseqüências. foi a necessidade de afirmação do livre-arbítrio. Lendo sobre Cayce e as "sessões" de outros psíquicos e médiuns de transe. carma de família. A Voz dizia que o erro básico do homem é a convicção de que sua vida é predeterminada e. E um bom sistema de valores para se viver. por causa de uma desconfiança dos homens profundamente arraigada. a fim de po- dermos alcançar alguma percepção de nossos propósitos na vida. Constatou-se que um marido numa reencarnação anterior a abandonara. acima de qualquer outra coisa.. O que condenares nos outros. carma vocacio- nal. para cada uso errôneo da vida. carma de anormalidade mental. a moral da mensagem de todos era inequívoca. deveríamos nos ver num mundo de natureza espiritual. descobri-me fascinada pela idéia de que tudo aquilo po- dia ser verdade." Os arquivos e registros compilados por Cayce estavam entre os mais amplos da história médica. Não importava de onde vinha a informação. talvez todos fossem apenas bons atores. carma psicológico. As sessões revelaram que duas vidas antes ela fora um atleta em Roma. Talvez fosse a manifestação de um subconsciente psíquico." — Immanuel Kant. é incapaz de mudá-la. passarás a ser. Uma moça de 18 anos tinha um terrível problema de gordura. portanto. Dizia que as vidas que levamos a- gora encerram a prioridade superior e a afirmação do livro- arbítrio em relação ao carma é a missão mais importante. para cada indiferença. Cabia-nos entrar em contato com nós mesmos. carma retributivo. a fim de se juntar às Cruzadas. mas escarnecia freqüentemente de quem era mais corpulento e não podia se movimentar tão bem. na me- dida em que fizesse sentido. somos em última análise responsáveis. — Basta procurar. Tirando a obesidade. Capítulo 8 "Se pudéssemos ver a nós mesmos e a outros objetos como são real- mente. com o qual nossa comunhão não começaria com o nascimento nem terminaria com a morte do corpo. espiritualmente. Os 14 mil registros apresentavam exemplos de carma de saúde.. de grande beleza e capaz de proezas atléticas.casamento. Mas o que se destacou. – Todas as respostas estão dentro de você — dizia ele. Mas mesmo que isso fosse verdade. que não conseguia controlar. Pa- ra cada ato. ela era extremamente atraente. As ses- sões diziam: "Não condenes. imediatamente depois do casamento. e assim por diante. Critica da Razão Pura .

Chegando lá em cima. Não falei nada por algum tempo. Cat era uma mulher grande e tão forte quanto as montanhas que escalava. As montanhas são es- carpadas e íngremes. Cat pareceu sentir que eu que- ria falar. Sempre me preocupei mais com a qualidade do trabalho. Ela fazia com que a dor e a disciplina fossem suportáveis. pois não se tem mesmo muito fôlego para se falar quando se está subindo por uma trilha nas montanhas. com uma vista espetacular do Pacífico. — Ou seja. divertida. Agora. Cat também não falou. Elas pareciam saber praticamente tudo que havia para se saber so- bre saúde. subindo pela trilha. Bastava eu olhar para Cat e já me sen- tia melhor. um avatar da Índia. E neste momento me importo mais com o que estou procurando.. Ela era alegre. inteli- gente. minha dama volúvel da fama. As suecas eram Anne Marie Benns- trom (que fundara The Ashram) e sua assistente. nós nos espre- guiçamos e contemplamos o Pacífico. — A mim mesma? Acha que me preocupo mais comigo? . mas não sabia como. Eu confiava nelas. sem saber direito por que sentia necessidade de fazê- lo. Era gentil mas vigorosa. com 10 quilos a mais. Eu caçoava dela. Ani- nhado lá no alto estava "The Ashram". não é mesmo? Cat tinha um jeito terrível de focalizar imediatamente o con- flito que uma pessoa podia estar sentindo. o nome do lugar de retiro religioso na Índia. entrando em contato com o que as suecas que dirigiam o lugar chamavam de "prana" no ar. Comia alimentos puros e crus. di- zendo que seu apelido era Cat por ser uma "cat"alisadora dos acon- tecimentos subseqüentes. responsáveis por uma mudança completa em minha vida. Fiquei lendo pela noite afora. muitos exercícios ao ar livre. — Está querendo dizer que me considera volúvel? Eu ri. você é mesmo volúvel. Chamava-a de Cat. sua personalidade contagiante conduzira-me através de um período de provação particularmente ár- duo. — Fama? Acho que nunca dei muita importância ao reconhecimen- to. deparei com Katerina. Fomos subindo juntas pela trilha. uma espécie de centro de saúde tosco.. com ca- racterísticas espirituais (o "spa" para quem tinha muito dinhei- ro). Levantei cedo na manhã seguinte e fui às montanhas Calabasas para pensar. — Exatamente. Não sa- be realmente o que quer. as duas estavam empenhadas na explo- ração espiritual e eram devotas de Sai Baba. como tem passado? "Dama volúvel da fama?" Era uma estranha maneira de se referir a mim. — E então. porque sempre me sentia muito bem depois do tratamento. serena. Em relação à fama. fazia longas caminhadas. assim como Anne Marie. a você mesma. Katerina Hedwig. Exuberante. Eu adorava as atividades em Ashram e muitas vezes fora até lá a fim de entrar em forma para um especial de televisão ou quando sabia que teria de fazer dois espetáculos por noite em Las Vegas ou Tahoe. a quem ado- rava. Eu me sentia contente por isso. até 15 quilômetros subindo pelas montanhas. Ela comandava um grupo de "internas" por uma das subidas tortuosas. quando eu voltara primeiro da campanha política por George McGovern e depois da China.

Shirley. não preciso de qualquer outra coisa. — Está falando de sua dimensão espiritual? Soava muito banal ouvir outra pessoa traduzir em palavras. mas quanto mais ouço a respeito.. Acho que se pode dizer que estou curiosa sobre essas coisas espirituais. — Se manifesta através? Está falando de manifestação em tran- se? — Mas é claro! — exclamou Cat. Lembrei como passara julgamento muitas vezes sobre as palavras que as pessoas escolhiam usar quando descreviam uma experiência profundamente comovente.. Shirley. É por isso que estamos aqui. Porque me descubro de repente numa dimensão de mim mesma que não sabia que existia.. É uma entidade forte. Não é verdade. — Atraída para o espírito? É isso o que estou experimentando? — Claro. — Oh. Se eu pudesse estar apaixonada por minha própria luz espiri- tual. É toda a explica- ção e o propósito da vida. Cat — falei. — Cat sorriu. e sueco arcaico. Cat riu. Tenho certeza de que você vai amá-lo. — Espere um pouco. diga-se de passagem. mas não sei direito como fazê-lo. — Acho que eu deveria seguir adiante. — Estocolmo? É um bocado longe para se falar com um espírito. e você sabe como eu era vi- gorosa. be- nevolente. Shirley.. isso me pouparia muitas viagens de avião e também bastante sofrimento. — Isso mesmo. — Deus e o reconhecimento es- piritual são tudo. mas Anne Marie ou eu traduziremos para você. isso é maravilhoso! — O riso alegre de Cat en- volvia cada palavra. Shirley? — É sim. poderosa. As coisas que ele diz são de uma beleza in- crível. — Não acha que é extremamente satisfatório ser atraída para o espírito? Enfiei as mãos nos bolsos do meu blusão de corrida. interrompendo o entusiasmo to- tal dela.. Sinto a minha própria luz espiritual e estou apaixonada por isso. Não me im- porto se nunca mais tiver um homem. Anne Marie está com ele agora na Suécia. mais quero ouvir. Shirley.. surpresa por eu não ter compre- endido. Você poderá então ter uma sessão. relacionada com alguma ocorrência abstrata em suas vidas. . – Talvez no ano que vem Anne Marie consiga trazer Sturé e a mulher para os Estados Unidos. Senti que estava apresentando a declaração como se formulasse uma pergunta. Mas está pensando em trazê-lo para cá. É só para isso que eu vivo.. Pois esqueci tudo. — Estou querendo dizer que parece mais preocupada em descobrir quem você é do que com a fama.. — Sturé é um carpinteiro muito simples que vive em Esto- colmo. Shirley. e é uma luta. — Uma entidade na Suécia? Que tipo de entidade? — Uma entidade espiritual. É claro que ele fala apenas em sueco. praticamente ja- mais explorada antes. O nome dele é Ambres e se manifesta através de um homem chamado Sturé Johanssen. Mas as palavras não eram mais refúgios seguros. Não sei o que está acontecendo. Uma entidade espiritual que se chama Ambres usa-o como ins- trumento para falar. Você tem de ouvi-lo. — Conheço uma entidade maravilhosa com quem você deveria se encontrar. pensei.

Qual- quer outra pergunta desconfiada que eu pudesse lhe fazer. Ao telefonar para ele. enquanto continuávamos a andar. De certa forma.. não. mas de jeito nenhum iria escarnecer das crenças de outro ser humano ou de sua "certeza". Eu tenho certeza. Os dois são canais em transe para a manifestação de entidades no outro lado. Eu estaria julgando ou questionando as próprias profundezas do que constituía seu caráter e personalidade. — Esse Ambres parece ser uma entidade interessante para se co- nhecer — comentei. como o meu outro mun- do real.. Podia me fantasiar como uma espécie de repórter aventureira da humanidade. — Acreditar. Mais do que isso. dali por diante. Não tinha vontade de ver outros amigos e dispunha de al- gum tempo livre antes de começarem os ensaios para o meu próximo show. experimentá-lo. prometendo mutuamente prosseguir por nossa exploração espiritual recentemente desencadeada. os meus novos interesses pareciam parcialmente inadequados e apenas compreendidos pela metade se não incluíssem "o" homem. como Cat aparen- temente a definia. – Não — respondeu ela. Mas eu queria conferir os sentimentos dela. Shirley. . chocando-me e fazendo-me estacar abrup- tamente. — Está perguntando se eu acredito? Acenei afirmativamente. própria identidade em relação ao homem na minha vida.Exatamente. E ela o dissera com profundo amor. compreendi que acabara de ouvir uma re- soluta declaração de fé. você acredita sinceramente que ha um "outro lado" e que entidades espirituais desencarnadas podem nos falar e ensinar. Andamos por algum tempo. Cat estava bastante animada pela perspectiva de eu me expor a uma dimensão da vida que ela já acei- tara há muito tempo. a minha busca. lembrando o que acabara de ler a respeito de Cayce. – Ele funciona da mesma maneira que Edgar Cayce? — indaguei. tocá-lo. É uma pena que você não tenha algum pretexto para ir a Estocolmo. – Cat. absolutamente não. Voltei imediatamente para casa. Era difícil admitir que eu precisava ratificar minha. os meus sentimentos. Por se tratar de Cat. Depois nos despedimos com um abraço. Não podia conversar com Gerry a respeito das coisas em que estava me lançan- do. mas era o . mas a sua simples presença me ajudaria a conferir minhas per- cepções. Não está precisando com- prar um par de esquis ou algo assim? Nós duas rimos. — Nós lhe telefonaremos assim que Anne Marie chegar aos Esta- dos Unidos com Sturé e a mulher.. Acho que queria ouvi-lo. sentindo-me como uma impostora ao ouvir a pala- vra "entidade" sair pela minha boca. Precisava falar com ele de qual- quer maneira. Iniciamos uma conversa sobre alimentos naturais e as últimas informações sobre o que os laticínios podiam fazer com o sistema digestivo. lembrei como fora condicionada a con- ferir meus sentimentos com o homem por quem estava apaixonada. indagações. sentia necessidade de vê-lo. todas essas coisas? Cat virou-se e fitou-me com uma expressão atônita.. sentindo um impulso forte de telefonar para Gerry em Londres. seria um reflexo da minha própria incapacidade de aceitar o sistema de valores fundamentais de Cat.

Senti que estava me comportando como uma colegial a perseguir seu herói. Gerry finalmente respondeu: — O problema é que estou de partida para Estocolmo. Gerry finalmente voltou a falar: – Também sinto muita saudade. — E por que eu não vou também para Estocolmo. Perturbado com o quê? — Perturbado de prazer. Gerry. mas insisti: — Então está combinado? Poderei me encontrar com você em Esto- colmo? Cuidarei de tudo. – Que história é essa de querer saber como eu me sinto real- mente? Ele parecia assustado. mexer em alguns papéis. Sinto muita saudade. Ele não disse nada. Preciso estar ao seu la- do. — Na Suécia? — balbuciei. — Gerry? – Pode falar. como uma idiota. Como penso a respeito hoje. Ouvi-o pedir polidamente a alguém que o deixasse sozinho. Gerry? Adoro a neve. Gerry continuou a falar de sua viagem a Estocolmo: — Isso mesmo. mas quero ir a Lon- dres para encontrá-lo. à me- dida que foram se desenrolando. no outro lado do Atlântico. – Que prazer? O que está querendo dizer? – Estou transtornado de prazer por saber o que significo para você. quando as coincidências se tornam múltiplas. Juro que sinto. Encontrei-o em seu escritório em Londres. É claro que se pode dizer que qua- se tudo na vida não passa de mera coincidência. – Qual é o problema. — Já percebi. Ele estava contrafeito. Fiquei esperando que ele dissesse alguma coisa. Tenho algumas semanas livres e quero passá- las em sua companhia. — Olá. Afinal. Pude sentir a hesitação dele. – Mas por que isso o deixa assim perturbado? . Gerry. Gerry? — Estou perturbado. E acho que preciso saber como você se sente realmente. Ele não ficou absolutamente surpreso pelo meu telefonema logo depois de nosso encontro em Honolulu. Senti que ele estava com pressa e fui logo dizendo: — Sei que você anda muito ocupado. completamente atur- dida. eu concordara pouco antes com Cat que era uma pena não ter algum pretexto para viajar até lá. mas depois de al- gum tempo. é necessá- ria uma redefinição do "acidental". Cada momento de silêncio parecia ter um significado horrivelmente an- gustiante. Tenho uma conferência econômica socialista e passarei uma semana lá.que acontecia. eu teria de dizer que isso foi o começo de uma sucessão de aconte- cimentos que me proporcionaram um senso de padrão definido. – Preciso conversar com você.

Estarei no Grand. Gerry dizia que não podia compreender por que era im- . por exigir demais? Ou seria de um baixo nível de amor-próprio dos homens? Lembrei de ter conversado a respeito com diversos psicólogos amigos e todos ressaltaram que. E a mãe era a presença a que o homem não podia corresponder. tornavam-me exigente demais. Mas Gerry não era o único que se queixara de sentir-se inade- quado comigo. Talvez eu não qui- sesse desapontar a mim mesma. o tempo ou qualquer dos mitos populares nas conversas em coquetéis. a maio- ria dos suicídios suecos era causada pelos padrões elevados e ex- pectativas que as mães suecas atribuíam aos filhos. Eu não sabia a que atribuir a responsa- bilidade por tais rompimentos. Em vez disso. os quais sim- plesmente sentiam que não podiam "corresponder". por causa disso. – Não posso compreender por que sou tão importante para você. Você deve se hospedar em outro hotel. os homens podiam estar sofrendo das pressões infantis que ex- punham uma carência básica de convicção em si mesmos. até onde podia me lembrar. Gerry? — Estou ansioso por me encontrar com você. em que as mulheres se quei- xavam do sentimento de serem viciadas na obrigação de ter um ho- mem.Até lá. — Talvez o importante seja não desapontar a si mesmo. Fiquei sentada a pensar no que deveria ser sentir-se inadequa- do para outra pessoa. Os padrões e objetivos que eu me fi- xava eram às vezes impossíveis de serem alcançados. de dupla imagem em relação às mulheres. — Ele hesitou por um instan- te e depois sussurrou. estava a imagem obsessiva da mãe. mas as inadequa- ções que geralmente sentia eram em relação a mim mesma. sentiam-se tão inadequados que recorriam ao suicídio. O elevado índice de suicídio não era causado pelo socialismo. mas receio desapon- tá-la. E pen- sando em ir à Suécia para me encontrar com Gerry. Talvez David estivesse certo. Já me sentira dependente da outros. especialmente em relação à síndrome do "homem". Era um sentimento que eu jamais experimenta- ra. E nesta era de liberação feminina. quando estudava o problema do suicídio sueco. Podere- mos conversar? — Apareça em Estocolmo dentro de dois dias. lembrei de um relatório de pesquisa bem documentado que lera há algum tempo. Não queria fazer o que ele fizera. por toda parte. mas ainda assim perturbador. Detesto esse pressentimento de que vou de- sapontá-la. o problema estava na identidade. o que lhes era igualmente devastador. E detesto isso. Nos dois casos. — Você quer me ver. E isso me faz sentir inadequado. Seria minha. Talvez os homens. Bem poucos homens percebiam lucidamente as suas próprias mulheres. passavam a se sentir constrangidos. por trás de cada mulher com quem um homem se envolvia. Lembrei de diversos relacionamentos importantes que haviam terminado porque os homens simplesmente ficavam com medo de não corresponder às minhas expectativas. o que po- dia ser igualmente terrível. estivessem sofrendo um senso não muito intenso. Não sabia o que ele estava realmente dizendo. A maioria só as percebia através do reflexo obsessivo da própria mãe. E por depressão e frustração. Eu não sabia o que dizer. antes de desligar: —.

Havia muitos exemplos em que a psiquiatria parecia ser incapaz de mergulhar bastante fundo para chegar à raiz de um distúrbio individual. ao. Telefonei para Cat e disse que estava de partida para Estocol- mo. Platão e todos os sábios religiosos e filosóficos. O que mais precisávamos realmente era de um completo relacionamento com nós mesmos. Se os homens fossem mais livres. Ele efetuara uma ampla pesquisa científica a respeito e dizia no livro que cada ser humano possui. Qual era a diferença entre memória celular desde o começo dos tem- pos e recordações de vidas anteriores? Uma forma de memória era pelo menos tão milagrosa quanto a outra. Creio que minha mente estava seguindo pelo mesmo caminho. por que experiências ante- riores não podiam fazer a mesma coisa? Lembrei de ter conversado com Paddy Chayevsky. Especulei se não poderia ter conhecido Gerry em outra vida. A liberação feminina era certamente importante. e se isso tivesse acontecido. Se mães. A verdadeira questão era o que ele pensava agora de si mesmo. cm termos cósmicos ou humanos. Ele era um homem bem-sucedido. antes de sua morte. moldavam e condicionavam como nos relacio- návamos com a vida e a realidade hoje. Talvez a compreensão da vida anterior pudesse. Cristo. Talvez esse problema.portante para mim. E me perguntei se estaríamos seguindo pelo caminho certo. não lhes se- ria tão necessário que colonizassem as mulheres a tal ponto em su- as vidas. Deu-me o endereço e telefone do médium . Ninguém se sentia pleno e com amor por si mesmo suficiente para compreender que a própria identidade era a resposta para uma felicidade consumada. em sua memória celu- lar. estava fazendo aflorar a sua insegurança pessoal. conheça a si mes- mo e essa verdade o libertará. E o simples reconheci- mento de que ele era importante para mim. Comecei a compreender. imaginei qual seria o nosso carma que nos levava a enfrentar tantos obstáculos em nosso relacionamento agora. a longo prazo. no meu caso. Esta parecia ser a ques- tão a se levantar para todos. ta- lentos e realizações. Mergulho no Sub- consciente. pais e experiências na infância. este inevitavelmente se dissolveria. E se havia resistência à verdadeira igualdade no rela- cionamento. Buda. óbvia e publicamente. sobre o livro que ele estava escrevendo... longo dos tempos. E como podia um homem sentir-se igual se não acreditasse que era digno de ser ama- do? Eu não sabia coisa alguma a respeito da mãe de Gerry. haviam tentado nos explicar. que a compre- ensão pessoal era a mais árdua e a mais importante de todas as buscas. desde os primórdios da criação. Ela não ficou surpresa. não merecesse a minha atenção. Vamos supor que um dos caminhos para compreender quem cada um de nós realmente era fosse o de ter conhecimento de quem podería- mos ter sido em vidas anteriores. num sentido muito pesso- al. Talvez. em nossas vidas atuais. como se ele. fosse o que Moisés. mas parecia-me que a liberação masculina era igualmente importante. por uma nova perspectiva. porque eu era pessoalmente tão in- colonizável. com toda a sua inteligência. mas isso não tinha a menor importância. em relação a quem realmente eram. Pi- tágoras. toda a experiência da raça humana. eles tivessem de analisar o verdadeiro significado de igualdade.

A cidade estava sob a neve quando cheguei. Mas descobrira que a imagem não era acurada. como um car- tão-postal de uma fantasia nórdica. Ouvira dizer que era um país de amor livre e que ninguém se importava se marido ou mulher resolvia dormir com outra pessoa. .e eu disse que iria procurá-lo. Meu amigo levou-me para jantar e depois para comer ostras e arenque. a Suécia era uma espécie de mistério social e físico para aqueles que tinham ouvido falar alguma coisa do pequeno país que optara pelo socialismo através do voto. o começo da lenta jornada para outro verão. Lembro da emoção que experimentei quando sentei no salão em que eram entregues os Prêmios Nobel da Paz. ao final dos anos 50. Durante aqueles dias. que muitos suecos não admitiam viver assim. "O verão caiu numa terça-feira no ano passado" era uma das piadas suecas prediletas. especialmente as mulheres.. são os elos invisíveis que ligam cada uma de nossas existências às outras — existências que só o espírito lembra. Eu estivera na Suécia durante o Festival das Luzes. ao ouvir que não havia lugares preferenciais ou distinção de classe na Suécia.. O inverno na Suécia não poderia animar meu re- lacionamento com Gerry. Um véu de neve caía e calculei que em breve estaria escuro durante o dia inteiro. As virtudes que adquirimos. como sempre acon- tecia no rigor dos famosos invernos suecos. virtudes que se desenvolvem lentamente dentro de nós. Já estivera na Suécia uma vez durante o inverno e quando o nariz escorria. Os su- ecos eram basicamente tão conservadores quanto qualquer outro povo do mundo. Uma espé- cie de depressão institucionalizada se abatia sobre o povo durante os meses de inverno.. Os suecos viviam para o sol e pareciam hibernar em suas mentes até que voltasse. Seraphita Eu já estivera várias vezes em Estocolmo e era um lugar que me intrigava. que se prolongavam pela maior parte do ano. chamado Santa Lúcia. que comemorava o final dos dias longos e escuros. Eram sete horas da noite. A sala tinha . Fui para o hotel em que ele me fizera uma reserva. Capítulo 9 "Uma vida inteira pode ser necessária apenas para adquirir as vir- tudes que anulam os erros da vida anterior de um homem." — Honoré de Balzac. insta- lando-me numa pequena suíte que dava para a enseada. o líquido congelava no rosto. pois a Matéria não tem memória para as coisas espirituais. embora a política governamental lhes concedesse mais li- berdade pessoal legítima que em qualquer outra parte do mundo.. Fui recebida no aeroporto por um amigo a quem telefonara.

que haviam reco- lhido das ruas durante a manhã. — Ontem à noite? Pensei que só chegaria por volta das cinco horas da tarde de hoje. Quando cheguei ao hotel. Posso ir até aí? — Claro. Até já. indagando se eu desejava alguma coisa. Ele entrou no quarto com imensas luvas de couro. Deixei a porta do quarto destrancada. Pararei em algum lugar pelo caminho. Eu tinha a sensação de que iria cair a cada passo. a gerente me procurou. — Oi. as mesmas que eu imaginava que sua esposa desaprovava. — Como você está? — Muito bem. o que fiz pelo resto da noite. dentro da baía.. — Não. mas os suecos não tinham qualquer dificuldade em transpor esquinas e mei- os-fios. O gelo escorregadio se espalhava por todas as ruas da cidade. Já comeu? — Não.. — Quando você chegou? — Ontem à noite. parecendo pálido e tenso.uma janela panorâmica e o quarto oferecia uma cama de casal. Atravessei o quarto para abraçá-lo. E assim você poderá chegar mais cedo. mas ele seguiu direto para a janela e olhou para fora. Os barcos de tu- rismo estavam aprisionados pelas águas congeladas. orientando-se sobre a posição do meu hotel em relação ao seu. A voz de Gerry parecia mais autoritária. Fora uma das ostras. Um lençol de gelo na baía. Eu lhe disse que viria no dia 16. O sol apareceu por volta das nove horas da manhã seguinte e depois o dia se tornou inteiramente encoberto. a gerente prometeu que as telefonistas protegeriam a minha identidade dos jornalis- tas. Além disso. Usava uma capa impermeável sem forro de pele. — Não precisa. garantindo que isso seria suficien- te para me deixar muito confortável. era rompi- do a cada hora por um rebocador. que circulava interminavelmente. a fim de que ele não ti- vesse de esperar depois que batesse. Queria estar no hotel quando Gerry telefonasse e por isso voltei apressadamente. no outro lado da rua. Tomei café e saí para dar uma pequena volta. Pedi um secador de cabelos com a volta- gem sueca e um cobertor extra. — Oi. Havia uma entrada particular por onde uma pessoa podia entrar ou sair do hotel sem ser notada. Gerry telefonou por volta das seis horas. como se ele estivesse no comando de si mesmo. — Está bem. com vonta- de de vomitar. — Ahn. com uma tênue ne- blina. E meia hora depois lá estava Gerry. Fiquei esperando no quarto pelo resto do dia. um terno de twe- ed que eu já vira no outono e sapatos de couro com grossas solas . Providenciarei alguma coisa aqui. Jo- guei-me na cama e acordei cerca de quatro horas depois. aguardando a chegada da primavera. enquanto filas de caminhões empilhavam a neve.

Continuamos a conversar. – Por que não me deixa lhe fazer uma massagem. junto à janela. Ainda esta- vam um pouco frios do tempo lá fora. roupas. Convidei-o a sentar ao meu lado. o rosto para baixo. Enquanto eu fa- lava. os braços caí- dos nos lados do corpo. Evitamos o assunto nós. Recostou a cabeça no encosto do sofá. Falou sobre os cortes iminentes no orçamento. um jornalista americano com quem conversara durante o dia inteiro.. que no final das contas não passavam de salada de alface e tomate entre torradas. Gerry riu.. Virei-o. corpo. mas não me tocou. Esperei que ele acabasse. Gerry acomodou-se no sofá e começou a devorar um dos sanduí- ches. Sentei junto e levei a mão aos seus cabelos. Perguntou como estavam os meus ensaios. sentia-me inti- midada demais para tocá-lo. Levantando a cabeça. sobre as pessoas que fugiam em barcos do Vietnam. Está bem? Ele se levantou no mesmo instante e se encaminhou para a cama. meus cabelos.. Encostei a cabeça em seu pei- to e fitei-o. Não estendeu as mãos para mim. Gerry virou-se e pôs a mão num dos meus seios. Os braços repousavam no colo. Gerry sorriu. Postei-me ao seu lado. Uma fieira de luzes parecendo um pênis para ele? Interessan- te. depois beijei-o gentilmente nos lábios.. — Está vendo aquela fieira de luzes parecendo um pênis? Meu hotel fica logo depois. empurrando-o gentilmente para a cama. os problemas de aumentar impostos num ano eleitoral. Peguei um pouco de creme Albolene e comecei a lhe mas- sagear as costas. — Minha avó se tornou famosa por patinar em gelo fino numa ba- ía como esta — disse ele — usando uma saia que caía apenas uns poucos centímetros abaixo dos joelhos.de borracha. mas não consegui desfazer o nó da gravata.. Ele suspirou de prazer e contraiu os braços por .. Por minha vez. Gerry tornou a se recostar e suspirou. Ele tirou a gravata e ficou imóvel em seguida. movimentos. até que ambos nos orientamos. Não fiz qualquer movimento para lhe tirar a calça. como seriam muito mais felizes na França. Ele recostou-se no sofá. Pedira dois sanduíches decker club. Foi até a outra janela. Gerry? Só pre- cisa ficar deitado. Respondi que começariam em breve. os olhos de Gerry me absorviam. se a Europa fosse o lugar para onde queriam ir. a camisa e a gra- vata. Virou-se e esperou que eu lhe tirasse o paletó. Bem que tentei. Sihanouk na ONU e o fato de que a esquerda inglesa estava dividida ao meio por causa da invasão vietnamita do Cambodja. — Talvez você se torne famoso por patinar em gelo fino usando calça. Ele não obje- tou. Senti também que ele sabia que não havia qualquer problema no fato de eu tomar conhecimento disso. Senti que estava exausto e que isso já vinha acontecendo há algum tempo. ele des- viou-se um pouco e estendeu a mão para o outro sanduíche. – Pensei que você tivesse dito que eu não precisaria fazer coisa alguma.

Passei mais creme Albolene nas mãos e desci pelas costas. mas posso agora perceber tudo claramente e quero ser justo com você. Eu me contenho subconscientemente. comprimindo-me contra as suas costas. na cintura. Ele virou o corpo. Shirl. Gerry passou também o outro braço ao meu redor. E. Ele me afagou os cabelos e sorriu timidamente. a fim de poder montar nele. fitou-me nos olhos. — Gerry. Antes que eu percebesse o que estava acontecendo. pois ainda não encontrei nenhuma. Ele ficou olhando para o teto por algum tempo. Toda a cena era irreal. esta é a primeira massagem que recebo. Massageei-lhe o pescoço até que o senti relaxar. Senti medo de repente. Eu sabia como ele devia estar sentindo as minhas mãos quentes. em termos políticos ou pessoais. Mas não vou oferecer qualquer solução. Acabei caindo por cima dele. Balbuciei ao falar. O que me ficou bem claro é que não sou bastante forte. Éramos perfeitamente livres para fazer amor. Eu sabia que ele estava dizendo a verdade. porque sei que não sou bastante forte para suportar as conseqüências do nosso relaciona- mento. Minhas unhas representavam um problema e por isso usei a base das mãos. Gerry come- çou a ondular por baixo de mim e jovialmente dei-lhe uma palmada. ainda lhe massageando as costas. ele descansou. usando a técnica de massagem que aprendera no Japão. Tenho me enfrentado até agora. mas metade de mim resiste.baixo do corpo. Sinto que entrei numa es- pécie de buraco mental e físico com este relacionamento. mi- nhas mãos pareciam ineficazes. Continuei a massagear-lhe as costas e cintura. — O que é? — Tenho medo. Tirei minha calça comprida e a suéter. Os braços dele me apertavam com tanta força que eu mal conseguia respirar. Os ombros e braços de Gerry eram muito musculosos. por mais incrível que pudesse parecer. quase como uma . Vou enunciar o problema.. Mas também havia muita coisa em matéria de prazer pessoal que Gerry desconhecia. Preciso conversar. depois. Gerry se virou e passou um braço por minha cintura. Nenhum dos dois falou. — Eu a amo. Sussurrei interminavel- mente que o amava. — Sabe. estendi-me ao lado dele. Sua única resposta foi respirar como se tivesse voltado para casa. — Tenho pensado muito todos os dias. Gerry agar- rou-me e estávamos fazendo amor. Tentei me desvencilhar de suas mãos. Mas ele suspirou fundo. como se nunca quisesse se mexer. em toda a minha vida. Shirl. Remexi-me por baixo dele. Shirl. mas por algum motivo ele queria que fosse como se não esti- vesse acontecendo. Eu sabia que ele estava can- sado. até a cintura. Senti o estômago se contrair. apertando-o com as pernas. soerguendo-se num dos braços. Gerry ficou imóvel. Gerry virou-se e puxou-me. Eu a amo profundamente. A pele dele estava fria. mas não se deteria. Depois..

— Você não compreende por que o amo ou que eu o amo? — Não compreendo nenhuma das duas coisas. E Gerry resolveu continuar: — O mundo está louco neste momento. você sente que sua família contém. assim como meus filhos. Isso é verdade? — É. Mas quando a vejo. Politicamente. Não exis- te uma paixão tempestuosa no relacionamento com minha mulher. mas ela tem sido uma força estabilizadora em minha vida. Entende a- gora como isso é moralmente inaceitável para mim? E mesmo que eu ignorasse os sentimentos de todos os outros. Ele fez uma longa pausa. — O que é? — Tenho a impressão de que. Amo acariciá-la. Não fiz qualquer comentário sobre o que ele acabara de dizer. Ele parecia estar com medo de ter me dado a deixa para ir embora. E fitou-me ainda mais fundo nos olhos. Tenho trabalhado durante a maior parte da minha vida. Amo você e amo amar você. Caso contrario. Minha mulher e meus filhos têm me aturado pacientemente. Gerry. se os magoasse ou prejudicasse a meu partido. não entendo. também é verdade. mas objetivamente. E agora.. amo escutar as coisas que me diz. — Não compreendo por que você me ama. Moralmente. — Queria que me dissesse uma coisa. Todos esses sen- timentos voltam e não posso contê-los. — Sem você. juntamente com a sua solidão.criança sorriria. — Vamos nos meter debaixo das cobertas. amo seu rosto. sinto que estou falando de um buraco. pessoalmente. mas eles sempre me agüentam. Gerry. embora não me conhecesse há muito tempo. não me afague os cabelos e não sorria ti- midamente. ao lhe dizer tudo. Ele ficou esperando que eu dissesse alguma coisa. Eles contam comigo para vencer outra vez. mas é a verdade. acho que sei. eu poderia ter me tornado uma erva daninha. Quero ajudar meu partido e meu país a ingressarem num período melhor. — Por favor. Não falei nada. sim. às ve- zes ao ponto da exaustão. sei que não sou bas- tante forte para tolerar meus próprios sentimentos. mas desse buraco vejo as coisas claramente. Também não quero perder meu lugar no Parlamento. Foi o que fizemos. Apenas me trate seriamente e me conte a verdade. Eu sentia vontade de chorar. que eu estava mais séria do que em qualquer outro momento de minha vida. Mas temos um relacionamento in- trincado e talvez tenha sido bom que eles me contivessem. Aí está. nosso relacionamento pode me fazer perder a eleição. O rosto dele ficou solene. Não vamos mais falar a respeito. não posso fazer coisa alguma para magoá- los. E não posso fazer isso com meu partido. reco- nhecer nosso amor tornaria tudo três vezes mais difícil para mim. Subjetivamente. Sei que é uma coisa terrível para se dizer. Mas. já enunciei o problema. Podia compreender... seus cabelos. soergui-me num braço e fitei- o nos olhos. sentindo-se culpado pela verdade do que estava dizendo. Virei-me por baixo das cobertas.. — Uma erva daninha? . Gerry. eu posso reprimir meus sentimentos.

. Acho que eu teria de dizer sim.. — Mas. acrescentei: — Acho que tenho de lhe perguntar. a fim de poder evitá-lo por mais algum tempo. Esperei por uma respos- ta. E talvez esteja legi- timamente se retirando para o seu buraco. mas sei que é muito for- te. não é mesmo? — Perguntar o quê? — Você poderia passar sem mim? Quer continuar sem mim? O rosto dele ficou tenso. por que aceita que ela seja imoral para você? — Não acho que ela esteja sendo imoral. afinal. Nunca fui capaz de compreender essa característica dela. querido. — Como assim? — Já lhe ocorreu que está com medo de explodir com uma nova liberdade? — Como assim? — Assumir uma nova liberdade implica muita angústia e respon- sabilidade. — Mas se você não está disposto a ser o que chamaria de imoral para ela. Eu certamente não estou. Dirige a família com mão de ferro. Lembrei como ficara impressionada ao ler certa ocasião que não existia tal coisa como erva daninha. — Ninguém está lhe sugerindo que faça alguma coisa. — Não sei. Compreenda isso. E acho que isso tem sido bom. Tentei apreender o que estava dizendo. particularmente porque não estava lhe pedindo qualquer compromisso. — Mão de ferro? — Isso mesmo. Ele estava que- rendo dizer que. — Talvez você esteja em seu buraco porque seu próprio potenci- al o assusta demais. Shirl. Não posso magoá-los agora. mas apenas uma planta no lugar errado.. o que é a imoralidade? Não é imoral ter um jul- gamento rigoroso com alguém a quem ama? — Mas todos têm sido ternos e pacientes. Poderia . A imagem me parecia completamente imprópria. livre da família. Depois de um momento. Uma nova liberdade para você pode significar inclusive um melhor relacionamento com a sua família. — Não sei. — Minha mulher é muito rigorosa com os outros. sufocaria tudo o que crescesse ao seu redor? Pois era isso o que as ervas daninhas faziam. Gerry não disse nada. Talvez você esteja preparado para fazer isso quando se encontra comigo. Por isso é que sei que ela nunca aceitaria nosso relacionamento. As pontadas de consciência que eu vinha sentindo se desvanece- ram rapidamente. Mas ela seria mui- to rigorosa na compreensão da minha necessidade de você. revolvendo-me por dentro porque ele estava demorando tanto e também porque ele estava fazendo um esforço sobre-humano para ser justo. angustiado. Estou mais preocupada com o que você pensa que está fazendo.. Ela é monopolista. mas apenas até certo ponto. Ou pensava que se tornaria descontrolado e desenfreado sem a disci- plina de uma família? Fiquei revirando a imagem na mente. Tenho a sensação de que me apaixonei por seu potencial e você tem medo disso. Ele empalideceu. intermi- navelmente. por favor.

— Ou pelo menos estamos falando a respeito. em qualquer nível. Nossos olhos se encontraram. — O que estou querendo dizer é o seguinte: você tem de amar a si mesmo. — Sei disso. então co- mo pode compreender como me ama? Se amasse mais a si mesmo. eu ficaria profundamente desolado se você me dei- xasse. — Escute.. eu ficaria feliz se você fosse mais livre quando estivesse comigo. — Sabe de uma coisa. Ele sentou ao meu lado e disse: — Muito bem. Tenho a impressão de que é a única conversa pessoal que já teve. Ele olhou pela janela. Gerry? Não sei se eu poderia suportar o quanto o faria solitário. podemos ganhar mais tempo. — Não estamos refletindo neste momento? Gerry riu. Gerry.. Ele não podia dizer expressamente "Deixar-me".. Ele saiu da cama. .renunciar a meus sentimentos e voltar à solidão que você reconhe- ceu. — Isso significa que não quer mais discutir o problema. ignorando completamente que não estava fazendo nada para ajudar a si mesmo. Dois: consumar a sua solu- ção. Isso é verdade? — É. sim. Parecia que me competia a- gora tornar as coisas mais fáceis para Gerry e deixá-lo. Shirl? Esta é a conversa pessoal mais longa que já tive na vida. porque ele me amava. Mas você está preparado para isso ou não estaria aqui.. Por es- se lado. — É como se você tivesse dedicado toda a sua vida a ajudar aos outros. Eu senti que tremia interiormente. Shirl. Você sabe. acho que poderia. antes de poder realmente amar qualquer outra pessoa.. — Mas há um limite para o que posso agüentar. — Implacável é o mundo. não quero arruinar seu casamento e não quero arruinar sua carreira política. — E três. e. — Acho que está enganado. — Ainda não compreendo. — Tem razão. há três soluções. — E se você não pode compreender que eu o amo tanto. e isso é tudo.. — Eis uma coisa que não posso mesmo entender. se o deixasse. esta- ria mais livre para amar a mim e aos outros. pelo que posso ver. encabulado. — O que devo fazer. Mas também não gosto de participar de uma fraude. Gerry? Ele riu e jogou-se por cima de mim... Reprimi as lágrimas. O rosto dele assumiu uma expressão irônica. Você é muito forte.. para não falar nada de mim mesma. Isso mesmo. quer seja pessoal ou política.. Um: con- tinuar essa fraude política e pessoal. — No que diz respeito a uma solução. Qual é a minha solução? — A solução que sugeriu há pouco. Gerry. — Espere um instante. refletir por mais algum tempo.

. Era uma pessoa maravilhosa para se conversar: não havia hostilidade. Pensei nisso a noite inteira. emitisse um julgamento rigoroso contra ele em público. murmurando so- bre o vigia noturno que podia reconhecê-lo. Mas tornaríamos a nos encontrar assim que ele vol- tasse. Ser ad- mirado pelas pessoas com quem se importa implica a responsabilida- de de corresponder a essa admiração. mas a longo prazo se tornava algo ameaçador. mas também destruiria todas as ilusões de Gerry sobre o quanto ela era realmente moral. o que o fa- ria não apenas perder a eleição. — Negócio fechado. Era mais do que relações pú- blicas.. por um longo período. E também não mencionei que desconfiava que a maior preocupação dele era a pos- sibilidade de a esposa. e eu pararei de ser impla- cável. se você continuar com a fraude por mais algum tempo. — Está bem. numa atitude zombe- teira de desespero.. Tentarei ser mais livre. que pudessem resistir a um escrutínio meticuloso e uma observação continuada. enquanto tentava dormir. Ele disse que tinha um encontro com jovens em outra cidade e só voltaria a Estocolmo de- pois de amanhã. Eu concordaria em participar da fraude. não havia contestação.. Passávamos a vida a procurar por outra pessoa que a parti- lhasse. pelo que seria um ano inteiro.. Por favor. — Gosto de ser admirado — dissera Gerry — mas não pelas pesso- as que significam alguma coisa para mim. E quando descobríamos alguém com potencial para atender a essa necessidade. rindo. observei-o afastar-se pela neve. se tomasse conhecimento de nossa ligação. ou não era. E foi então que me lembrei de uma coisa que ele dissera e que era complicada demais para que eu pudesse entender. não havia renúncia. Ele revirou os olhos e sacudiu a cabeça. mostrei como a chave funcionava. Você está certo ao dizer que há um limite a quão implacável devo ser. preferíamos recuar. A maioria das pessoas parecia não se permitir um contato pes- soal mais profundo. que era o empenho dele em ocultar a situação da esposa. pare de ser tão justo e apenas se divirta comigo. — Está certo — respondeu Gerry. era muito difícil de manter. talvez desse por alguns dias.. A ironia era que todos procurávamos por amor. Acompanhei-o até a entrada particular do hotel. Acarretava ansiedade demais. mas apenas um desejo profundo e desesperado de compreender o que estava acontecendo entre nós. Capítulo 10 . mas não queria men- cionar a verdadeira imoralidade. eu compreendo. Gerry vestiu-se e eu fiz a mesma coisa. Só tem mais uma coisa. exigia qualidades concretas. Mas há também um limite a quão "justo" você deve ser.

— E qual é o nome? — Ambres.. a "coincidência" não me passou desperce- bida. abstendo-se de perguntar o motivo da minha viagem a Es- tocolmo. mas também os suecos raramente deixam transpare- cer seus sentimentos. Gostaria de nos acompanhar e conhecer a entidade espiritual? — Um médium? — repeti. mais feliz e mais elevada. Lars e a mulher trabalhavam em propaganda. Repassei mentalmente toda a minha vida. Para não dizer mais. levando consigo apenas as memó- rias concretas do que foi antes. quando na América eu só ouvira falar dele re- centemente. Levaram-me para os arredores de Estocolmo. — disse Lars. especialmente sobre Edgar Cayce. — Ah. algumas horas depois. Conheço bastante sua obra. Telefonei para o amigo que fora me esperar no aeroporto. Li alguns dos li- vros que comprara na Bodhi Tree. quando estava me apresentando em Estocolmo. cada uma se tornando mais rica. Fechei-o agora." — Louisa May A'cott. Eles pareceram acei- tar a explicação. mas estava alheia ao frio. Eram da classe média superi- or. disse que adoraria ir. Deixei de dar passeios enregelantes pela neve. — Edgar Cayce. E as coisas começavam a se tornar interessantes. Estava na Sué- cia por outros motivos além de Gerry. pensando. a maneira como cada uma é vivida. Eles não me perguntaram o que eu fizera desde que chegara. Dormia cerca de quatro horas por noite. Eles haviam se mostrado bastante discretos ao me receberem no aeroporto."Creio que imortalidade é a passagem de uma alma através de muitas vidas ou experiências.. apro- veitada e aprendida. Finalmente peguei o endereço e telefone do médium sueco que era o canal para a manifestação de Ambres. Estava pronta quando Lars e Birgitta vieram me buscar. especialmente sobre as sessões psíquicas de Edgar Cayce.. onde o médium vivia . — Você anda vendo uma entidade espiri- tual. Eu os conhecera alguns anos antes.. Comentei que andara lendo alguns livros metafísicos. Lars? — Isso mesmo. Eu ficara folheando o livro de Cayce enquanto conversávamos. ajuda a seguinte. mas comentei que tinha uma idéia para um novo livro e es- tava passando algum tempo longe da minha vida agitada na América. Fiquei um pouco aturdida ao descobrir que Edgar Cayce era co- nhecido na Suécia. Cartas Não tornei a ver Gerry por três dias. Ele era muito perspicaz. — É estranho e uma coincidência que você o tenha mencionado — continuou Lars — porque esta noite vamos a uma sessão psíquica com um médium sueco. embora os suecos não gostassem de pensar que ainda tinham uma sociedade de classes. Conversamos um pouco pelo telefone. firmemente. Passei esse tempo em meu quarto no hotel. precisava da paz e sossego do inverno sueco. sim.

quase sempre encontram algum alívio." — Quer dizer que você e Birgitta acreditam mesmo que uma enti- dade espiritual autêntica está falando por intermédio de Sturé Jo- hanssen? — Claro — respondeu Birgitta. algumas estão com confusão psi- cológica. — Antes de mais nada. Fra- ses e trechos de livros lidos afloraram. tanto física como mentalmente. Da mesma forma que o mestre es- piritual Krishnamurti: "Somos capazes de tudo o que há e o reco- nhecimento de nosso poder espiritual aparentemente invisível a- pressaria nosso aperfeiçoamento. Que nós temos dimensões e uma compreensão de que não estamos cons- cientes. mas nós também somos. se reconhecermos e acreditarmos. — Como assim? — indaguei. mas também possui informações e remédios que já salvaram muitas vidas. então Sturé Johanssen é não apenas um magnífico ator. mental e es- piritualmente. — E esse Ambres pode fornecer respostas para todas essas coi- sas? — Se as pessoas seguem as suas orientações fielmente. lembrando que Cayce manifestara o que parecia ser a mesma coisa. — Apenas não o reconhecemos. A diferença é que não acreditamos nisso. a fim de que possa tentar fazê-lo pessoalmente ou pelo menos assumir os problemas emocionais envolvidos. como um ser espiritual. exata- mente como a dele. É basica- mente um processo holístico e espiritual. Sai Baba na Índia dissera o que parecia ser a mesma coisa. Fragmentos das palavras de David passaram-me pela mente. Claro que Ambres é altamente evo- luído. A maioria das instruções está rela- cionada com a compreensão do poder interior em cada um de nós de saber tudo. — Muitas pessoas estão vindo para as sessões de ensinamentos de Ambres. —. Algumas sofrem de problemas crônicos de saú- de. E também disse coisas tão pessoais . Somos seres espirituais de energia que por acaso es- tão no momento em corpo físico.com a mulher. sem um corpo no momento. Disseram-me que ele se chamava Sturé Johanssen e que o nome da mulher era Turid. Amores não produz nenhuma remissão — explicou Lars. porque ele ajuda a muitos com diagnósticos médicos — disse Lars. A entidade espiritual que Sturé rece- bia estava se tornando famosa em toda a Suécia. A diferença é que ele. enquanto nós ignoramos.As pessoas vêm de todos os cantos da Suécia com as mais di- versas necessidades. — E se alguém está sofrendo de câncer terminal? Amores pode produzir uma remissão? — Não. se ele não é uma entidade espiritual autêntica. sabe disso. de uma natureza altamente e- voluída. — E funciona? — A base do ensinamento de Ambres é de que possuímos o poder e o conhecimento para nos tornarmos qualquer coisa que quisermos. — Somos todos seres espirituais — disse Lars. — E o que é um ser espiritual? Não estou entendendo. algumas trazem apenas perguntas sobre a origem e o des- tino da humanidade. — Ele apenas ajuda cada pessoa a assumir o curso certo. Ele ensina que nossa energia positiva é espantosa. algumas têm doenças fatais.

Acho que em qualquer lugar. ao nos aproximarmos do final do milênio. Fiquei em silêncio por algum tempo. Tudo depende do indivíduo. que tinham ido apenas pela curiosidade de ob- servar como funcionava o fenômeno da comunicação espiritual. ao invés de nos concentrarmos no pre- sente. ele fala amplamente de vidas anteriores. Já com outros. bastando apenas que saibamos aproveitar. Ambres também fornece informações sobre vidas anteriores. Além do mais. Tendemos a nos afastar das pessoas que não estão pelo menos dispostos a manterem a mente aberta. Mas há muitos como nós e temos nos tornado amigos íntimos. Mas cada pessoa precisa ter fé em si mesma. a comunicação de entida- des espirituais está se tornando cada vez mais comum. — Alguns desses médiuns não são charlatães? Como se pode de- terminar a diferença entre quem está apenas representando e quem está realmente em transe? Lars ficou pensando em minha pergunta. Na verdade. — Imagino que dá para perceber se é fraude no momento em que está acontecendo. — Muitos colegas de vocês na agência de propaganda também es- tão envolvidos nisso? — Apenas uns poucos — explicou Lars. — Temos muitos amigos na América e Europa que estão interessa- dos na metafísica espiritual. O material transmitido é geralmente muito complicado ou muito pessoal para o médium ence- nar uma representação. no entanto. Olhou para Birgitta. — Mas Ambres faz questão de ressaltar que esta vida é a mais importante. Mais ainda: ninguém sabe de onde ele poderia tirar de si mesmo as informações médicas que usa em seus diagnósticos. E a outros. Muitas vezes ele avalia quem está perguntando e conclui que a análise do presente é muito mais necessária. — Não sabemos — disse ele. É quase como se. — Está se referindo a outros lugares do mundo? — indagou Lars.. Os dois deram de ombros. — Ou apenas aqui na Suécia? — Não sei.. a pessoa poderia distinguir a diferença pelos resultados. — Quer dizer que é possível conferir informações sobre vidas anteriores no relacionamento com a vida atual? — Exatamente — respondeu Lars. — Vocês acham que há muita coisa desse tipo acontecendo? — perguntei finalmente. — Ele sempre responde a indagações sobre vidas anteriores? Foi a vez de Birgitta responder: — Nem sempre. estivéssemos receben- do mais ajuda espiritual. ouvindo Birgitta e Lars relatando como Ambres fora útil na solução de problemas que ator- mentavam algumas das pessoas que o haviam procurado em busca de ajuda. Como nunca tivemos qualquer experiên- cia com uma fraude.a muita gente que seria difícil compreender como Sturé poderia ter conhecimento. Abri a janela do carro e respirei fundo. porque senão ficare- mos obcecados com o passado. Pessoas que estão procurando pela compreensão espiritual de si mesmas são a- . como se nunca tivesse cogitado da possibilidade. — Os que estão interessa- dos no crescimento espiritual. tão familiares às pessoas que exercem uma grande influência sobre as suas vidas hoje. não sabemos direito.

no instante em que entrava em discussões sobre o metafísico. Imagine como seria para você ou- vir inglês bíblico. ge- ralmente incompreensível para os leigos. através do avanço da astrofísica e da psicodinâmica. "plano astral". Esta vez não era exceção. Am- bres diz que não há qualquer linguagem para expressar alguns dos conhecimentos que ele gostaria de nos transmitir. E o mesmo se . maravilhas e milagres. É por isso que Ambres tem às vezes dificuldades para nos ajudar a compreender a vida do ponto de vista de um plano não- físico. — Nossas línguas faladas e escritas descrevem apenas as di- mensões que relacionamos com os cinco sentidos. Contudo. "vibrações cósmicas". — Desculpe. mas bom de verda- de. estamos começando a perceber as dimensões extraordinárias do que simplesmente e às vezes sardonicamente chamamos de mundo metafísico. — E não está absoluta- mente interessado no mundo espiritual. Nosso mundo fí- sico. ele diz que qualquer linguagem por si mesma já é uma limitação. "Deus". imaginando como seria não ser "físico". — E ele não se importa de ser um instrumento. — Claro que não. quando poderia aproveitar o tempo a construir estantes e outras coisas? Lars riu. Descobri que. Queria "experimentar" um médium pessoalmente. — Como assim? — Quando ele tenta nos ensinar dimensões ou conceitos sobre os quais nunca sequer pensamos. é um bom homem. No fundo. riso sarcástico. enquanto eu mantinha os o- lhos fechados: — Todas as ciências possuem o seu vocabulário próprio. — E como Ambres fala. Parecem estar vivendo na superfície da vida e não dentro dela. "memória eté- rea". Fechei os olhos enquanto seguíamos em frente. ouvindo pessoas usarem palavras como "oculto". se ajuda as pesso- as. Lars continuou a falar. que aceitamos por fé.quelas com quem podemos realmente nos comunicar. o vocabulário comum de um estudo tão antigo quanto o tempo. sem falar de seus misté- rios. Um homem simples. Lars assentiu. em comparação com o jeito de falar de Sturé? — Às vezes é muito difícil entender a linguagem de Ambres. quando não está recebendo? — Sturé é carpinteiro — informou Lars. mas não pode ser mais específico? Falei com sinceridade. — O que podem me dizer de Sturé Johanssen? Como ele é como pessoa. Tornei a respirar fundo o ar puro do inverno sueco. diferente até mesmo do sueco de hoje. porque ele fala em sueco arcaico. enquanto o carro continuava a avançar pelas ruas ge- ladas de Estocolmo. a perceber que precisamos desenvolver uma linguagem que se relacione com os mundos que nos são invisíveis. Os outros são a- penas conhecidos. "alma". eu queria saber mais. Pouco a pouco. desconfiança ou mesmo desprezo franco. mas devo ter dado a impressão de que estava em dúvida. eu reagia com escárnio nervoso. O fraseado é inteiramente diferente daquele que é usado por Sturé. Ele diz que está tudo bem. Mal estamos começando.

Mas o lado claro é inevitavelmen- te lindo. Aceitamos os milagres religiosos pela fé. A Suécia tinha os seus problemas. austero. enquanto Lars sorria pa- cientemente: — É quase impossível explicar a alguém que não tem a mente a- berta para considerar pelo menos possível. Não entendo por que nós. Lars e Birgitta começaram a falar ao mesmo tempo. com pessoas que acreditavam nas mesmas coisas. haviam feito inúmeras amizades novas.aplica a todas as religiões. Revirei os olhos mentalmente. Era um luxo confortável. Eu não queria ser desrespeitosa. E parecia não haver a menor dú- vida em alguém de que Ambres era mesmo uma entidade espiritual ge- nuína. cada árvore era um cartão- postal coberto de neve. É apavorante. — Muitas pessoas exploraram o ocultismo para se focalizarem no lado escuro do mundo metafísico. Cada esquina. Disseram que isso os tornava mais feli- zes. estariam naquele momento empenhados em exploração espiritual. mas perguntei mais uma vez. Eu não chamaria de ocultismo. Lars disse nesse momento: — Milhões de pessoas no mundo inteiro estão tão interessadas nessas coisas que sustentam toda uma indústria de livros. Espíritos dos mortos e todo o resto não têm nada de divertido. Olhei pela janela para os campos nos arredores de Estocolmo. Diria que se trata de um interesse pela dimensão espiritual da vida. indivíduos. escolas. mo- derno. falando do plano astral. O Bebê de Rosemary e coisas assim. Estava sendo num carro em Es- tocolmo com um homem e sua mulher que falavam igualzinho a David em Manhattan e Cat em Calabasas. em suas casas perfeitas de cartão-postal. Pode-se pegar qualquer coisa na natureza e se concentrar no negativo. tudo devotado à dimensão metafísica da vida. Era admirável para mim que um publicitário vitorioso e di- . no mundo ocidental. Califórnia. Perguntei-me quantos outros suecos. não é mesmo? Lars riu. Eu me perguntava se continuariam assim. Será que aquela coisa estava acontecendo no mundo inteiro? Como se tivesse ouvido meus pensamentos. O estofamento de couro do Volvo de Lars desprendia um cheiro tênue de novo. Aceitamos as maravilhas científicas sem chegarmos a compreendê-las. — E vocês acreditam sinceramente que Ambres é uma entidade es- piritual autêntica? Birgitta virou-se para mim e disse. passavam a amar mais as pessoas. mas individualistas em suas personalidades. ensina- mentos. Através de suas muitas ses- sões com Ambres. As casas suecas eram modernas e limpas. mas a beleza positiva pode mudar sua vida. Abri os olhos e disse: — Porque ao se pensar em "ocultismo" o que aflora em nossas mentes são forças sinistras. Eu me perguntava até que ponto eram prevalecentes ou profundos seus interesses espiri- tuais. Tornaram a ressaltar como seus interesses espirituais haviam se tornado "glo- riosamente envolventes". cada casa. temos tanta dificuldade com todo o conceito de experiência e pensamento que é popularmente conhecido como o "ocultismo". mas parecia estar se encaminhando para o século XXI com um equilíbrio meticuloso de socialismo e democra- cia. sem nada de opulentas.

Depois das amenidades iniciais na porta da frente. muito pa- recido com Edgar Cayce. Mesmo assim. comemos um pou- co de queijo e bolachas suecas. Lars parou o carro e eu saltei. depois comentei: — Eu provavelmente entraria na casa errada pelo menos uma vez por semana se morasse aqui. Portanto. de faces rosadas. Uma voz de mulher jovial soou lá dentro. — Ela diz que lamenta não fa- lar inglês. Lars sorriu. Nós três nos acomodamos. Conhece seus filmes e está muito feliz por você querer conhecer Ambres. Havia exóticos lampiões em cada esquina. homens de neve e decorações imagina- das pela família. — E como eles ganham dinheiro suficiente para viver? — As pessoas contribuem com o que consideram condizente com o que aprendem nas sessões. isso parecia não ter a menor importância para ela. Olhei ao redor. Com Lars servindo como intérprete. — Isso significa que Sturé renunciou completamente a seu trabalho regular como carpinteiro? — Quase isso. um abajur ao estilo Tiffany numa mesinha moderna. a fim de não cometer um erro. Havia pessoas sentadas em torno da mesa. Não mencionou meu sobrenome. prateleiras com livros. Caixas de areia e balanços enfeitavam casas. — Sturé fez pessoalmente todos os seus móveis — informou Lars. oferecendo-se como instrumento para comunicação de uma entidade espiritual. — Mas Turid está preocupada com a possibilidade de Sturé estar esvaindo suas energias nos transes. Abraão e alguns dos outros profetas antigos referidos na Bí- blia? Os padrões que ocorriam hoje seriam os mesmos daquela épo- . tudo servido na mesinha baixa. Seria similar ao que acontecera com Moi- sés. — Sturé e Turid estão agora devotando suas vidas a promover a comunicação espiritual — disse Lars. — Vai sair do quarto daqui a pouco. — Sturé está descansando — explicou ela. uma mulher rechonchuda. Turid apresentou-me a seus outros amigos como Shirley. — Por quê? — perguntei. eles querem ser úteis a tantas pessoas quan- to for possível. aquele carpinteiro sueco que subitamente descobrira uma voz espiritual a falar por seu intermédio renunciara à sua vi- da e trabalho normal para ajudar às pessoas. mas de alguma forma indivi- dualizadas. Ela nos convidou a sentar.nâmico estivesse me levando para uma sessão espiritual com um mé- dium. Obriga a pessoa a examinar mais aten- tamente a individualidade de cada casa. Hera verde derramava-se de vasos nas mesas. — Esta é Turid — informou Lars. abriu a porta e cumprimentou-nos com uma efusão de sueco. Cerca de 15 quilômetros além de Estocolmo entramos no que pa- recia ser uma sossegada comunidade residencial. que parecia uma versão sueca de uma pequena casa no Vale de San Fernando: um sofá baixo e moderno. tomar cerveja e comer queijo. Turid levou-nos à sua sala de estar. Um momento depois. construídas exatamente iguais. para o condomínio quase igual. Ele e Birgitta me conduziram para uma das casas e tocaram a campainha. com jardineiras.

respiran- do fundo.. preferindo geralmente fazer tudo em parti- cular. E não demorou muito para que eu come- çasse a experimentar um senso de união com os outros na sala. Sinto a mesma coisa. Apenas sentem que têm de fazer. lado a lado. Eu nunca fora muito de fazer as coisas comunalmente. E foi o que fizeram. Cerca de 10 minutos de silêncio transcorreram. E quem já se apresentou para uma audiência ao vivo. até que Turid gesticulou para que os dois sentassem. na escuridão iluminada por vela. em cadeiras de encosto reto. sentiu e partilhou essa comunidade de sen- timento. andar firme. Lars estava sentado diretamente por cima do gravador. Os olhos estavam fechados. Posso tomar decisões mais positivas e compassivas quando sei mais do meu propósito como ser humano. cumpri- mentando timidamente seus outros amigos. um copo de água numa mesa junto a Turid. em meu ritmo. Circulou por um momento. corpulento. tomando cerveja e comendo queijo. Todos inclinamos a cabeça e esperamos até que Sturé ficasse no estado de transe apropriado para receber Ambres. Sturé permaneceu sentado em silêncio. Parecia muito tímido. mais intensa e mais be- néfica e curativa em qualquer empreendimento humano. Algumas falavam de ocorrências em suas vidas. Compreendi que . Meu gravador zumbia baixinho ao meu lado. como se pedisse desculpas — porque temos outros para ver depois. Sturé entrou na sala. os livros diziam que uma energia positiva co- letiva aparentemente era muito mais forte. — Devemos começar imediatamente — disse ela. mas seu aperto de mão foi forte quando Lars nos apresentou. Estão cons- cientes de que o mundo está se deteriorando e sentem que é um meio de proporcionar conhecimento espiritual para impedir que esse cur- so humano continue. Na verdade. Es- cutamos o que Ambres diz e isso tem mudado a maneira como nos re- lacionamos com nossas vidas. à minha maneira. uma voz bem modulada. Qualquer artista ou orador tem conhecimento da energia da audiência. Devia ter em torno de l. O rosto era extremamente gentil. mas disse que tentaria a- companhar o ritmo. em voz baixa. Sentada ali. Cumprimentou-me em sueco. As outras pessoas conversavam entre si. Olhei para Sturé. Ele permanecia sentado bem quieto. tinha cerca de 35 anos. As mãos re- pousavam imóveis sobre as coxas grossas. Ela apagou as luzes e acendeu uma vela na mesinha baixa no centro da sala.ca. de acordo com o ponto de vista espiritual. imaginei o que Gerry pensaria se me visse. aparentemen- te preparando-se para relaxar. Outras discutiam verdades espirituais que diziam não com- preenderem direito. diga-se de passagem. — Podemos fazer um momento de meditação silenciosa — disse Tu- rid. Ele me lembrou mais uma vez que o sueco arcaico seria difícil de traduzir rapidamente. — Eles não sabem. Os cabelos castanhos crespos estavam cortados logo acima das orelhas. Lars? — perguntei. Ele era uma presença instrusiva e con- centrei-me deliberadamente na vela. Levantei os olhos. mas calmamente. só que em termos modernos? — Por que eles fazem isso..75m de altura. Mas em todos os livros que eu andara lendo dizia-se que a energia comunal beneficiava a todos mais do que a energia individual.

Os olhos se abriram. Descreveu os primeiros movimentos do pensamento de Deus e a criação da matéria. ele abriu a boca e disse alguma coisa em sueco. Lars traduzia o mais depressa que podia. Estavam interessados apenas nos "en- sinamentos" que Ambres transmitia.. Descobri-me a imaginar como Ambres devia estar se sentindo. Está se identificando e nos fazendo uma preleção sobre o nível de energia espiritual na sala. arcando com a limitação da linguagem terrena! Cerca de duas horas transcorreram.estava focalizando pequenos detalhes.. Turid pegou-lhe a mão. tremer como se uma carga elé- trica estivesse percorrendo seu corpo. Mas antes que pudesse formular as perguntas. com sua pró- pria energia. o humor. Lars traduzia em frases curtas. Tinha cer- teza de que Sturé nada tinha a ver com aquilo. Ambres falava depressa. e universos e universos dentro de uni- versos. o ritmo antigo dos pensamentos daquela entidade chamada Ambres. A cabeça inclinou-se pa- ra a frente e pendeu para o lado. através do qual uma entidade espiritual falava. a postura era formal. A voz não tinha qualquer relação com o homem a quem eu aca- bara de ser apresentada. Lars sussurrou em meu ouvido: — Por causa da energia eletromagnética da entidade espiritual de Ambres. ele começou a tremer ligeiramente. As costas estavam rígidas. Não sei o que pensei. qua- se como se estivesse proporcionando um terra pelo contato físico. Tinha vontade de perguntar a Lars como tais níveis de energia podiam ser obtidos por aquele Ambres. a sessão já progredira para uma conversa entre Ambres e as pessoas que tinham ido até ali para aprenderem com ele. Depois de uns 15 minutos. Era apenas uma es- pécie de telefone. mas com todo cuidado. Lars inclinou-se para mim e sussurrou: — Ambres está dizendo "Saudações" e que se sente feliz por es- tarmos reunidos. empertigou-se to- talmente na cadeira. formulava seus pontos de maneira sucinta e objetiva. Pelo menos era isso o que eu "sentia". Já haviam aceito o processo. Gesticulava e ria. Sturé precisa da energia terra de Turid para neutrali- zar seu corpo. Todo o corpo tremia. quando pa- rou. Ambres descreveu Deus como In- teligência. Compreendi então que a maioria dos presentes não estava interessada em como funcionava. Lars continuou a traduzir. E a julgar pelas perguntas. Eu podia "sentir" a personalidade. não com a energia de Sturé. numa voz gu- tural. Descreveu o nascimento de mundos e mundos dentro de mundos. Descreveu o amor de Deus por suas criações e sua necessi- dade de receber amor refletido em "sentimento". Apresentavam a Ambres perguntas sobre o início da Criação! Lars tentou acompanhar o ritmo com a tradução. em termos gerais. Falo Ambres porque "sentia" como Ambres. É por isso que eles necessitam trabalhar juntos. Ela sorriu. E descreveu a ne- cessidade de Deus de criar Vida. Eu podia entender agora o que Lars falara sobre as limitações da linguagem. O corpo de Sturé ficou subitamente rígido. Eu tentei acom- panhar o que estava acontecendo. muito diferente dos movimentos descontraídos do homem que eu ob- servara meia hora antes. também não pareciam interessadas em informações sobre vidas ante- riores ou níveis de energia. Ambres passou da ascensão e queda de civiliza- .

Eu po- dia apenas me sentir contente por ter lido Cayce antes de compare- cer à sessão. Mesmo com o relato monumental do começo da Criação. andava pela sala. muito me- nos as informações. figuras geométricas cósmicas e espirais para ilustrar suas descrições. meio encurvado. Ambres reconheceu a pre- sença na sala de outras "entidades". a entidade Ambres parecia ter uma compreensão do humor em nível humano. — O instrumento está perdendo sua energia — disse Ambres. Prontamente. Os olhos exibiam uma expressão gentil. Turid pôs um copo com água nas mãos do marido. Olhei ao redor. em sua língua antiga. E depois fez uma pre- ce. Permaneci em silêncio. Respondi que sim. Senti que podia visualizar o que ele estava dizendo. Censurava de vez em quando alguém que obviamente não fizera o seu dever de casa. Mas a sessão estava muito além das minhas indagações mundanas. Ambres-Sturé levantava de vez em quando. Mas elas pareceram compreender tudo mesmo sem eu dizer expressamente e comentaram que seria benéfico para mim. Às vezes ria profundamente. Fez perguntas ao grupo. mesmo que pudesse falar "outras línguas". — Espero que você esteja bem. mas sereno. fez diagra- mas. As pessoas conversavam em voz baixa. que falavam apenas "outra língua". Espe- culei sobre quanto tempo ele fora humano ou se algum dia o fora. Eu nunca ti- nha visto nada parecido. confuso às vezes com uma questão crucial. voltou a sentar ao lado de Tu- rid. sem saber o que pensar. Aproximei-me de Sturé. — Obrigada — falei. Ele parecia cansado. Sturé tomou tudo. gracejava para enfatizar um ponto. agradecendo a Deus pela oportunidade de servir. A carga elétrica conhecida como Ambres pareceu deixar seu corpo. Po- dia apenas sentir que todos os presentes estavam mais avançados do que eu. por causa do esforço para formar as palavras numa língua que ignorava por completo. como se fosse um professor conduzindo uma aula. que ele tornava a explicar. Ele acrescentou que esperava encontrar-se de novo com todos. que . Depois.ções para a criação da Grande Pirâmide. Não parecia absolutamente com o Sturé que eu co- nhecera. que parecia ter uma im- portância considerável e que ele descreveu como uma "biblioteca em pedra". Os outros na sala faziam perguntas em sueco. Disse que deveríamos cuidar uns dos outros. tentando absorver o que estava a- contecendo. não querendo admitir que levaria algum tempo para compreender o próprio processo. Benéfico? Era o suficiente para revolver-me o cérebro. Recuperou lentamente a sua própria consciência e levantou-se. Sturé tremeu. Disse que esperava que eu tivesse aprendido alguma coisa com Ambres. depois que considerasse aceitável. pa- cientemente. Perguntaram-me se eu compreendia sueco o bastante para acompanhar tudo. mas disse que era um sueco antigo e. — Deve agora revitalizar. Consumiria muito de sua energia. O grupo estava envolvido e excitado. o "instrumento" não seria tão adequado pa- ra fazê-lo. Sturé apertou-me a mão. enquanto Lars traduzia. Foi a um bloco de desenho pendurado na parede.

alterado pela neve recente. lá estavam as coincidências sucessivas do meu relacionamento com Gerry. desdobrando-se de acordo com a minha própria percepção e disposição para aceitar as coisas para as quais estava preparado. Podia sentir algum plano predeterminado. Jamais acreditara nessas coisas. E sentia que estava pouco a pouco desenvolvendo uma com- preensão dos dois pontos de vista que. se eu deixasse. Uma pausa prolongada e depois acrescentei: — Estou começando a sentir que fui de alguma forma guiada até aqui. tudo isso estava me forçando gentilmente a uma percepção de outras dimen- sões. Corpo e Espírito. Despedimo-nos de todos e partimos. Como se os eventos e inci- dentes estivessem destinados a acontecer. — Estou contente que você tenha podido ouvi-lo. O homem de ne- ve na caixa de areia era agora uma massa quadrada. comecei a pensar na sucessão de "coincidências" na minha vida. preconceituoso e provavelmente incorreto. com seu ponto de vista espiritual. Voltando para Estocolmo. disse que po- deríamos voltar a conversar no dia seguinte. Eu queria dizer alguma coisa profunda. Ela acompanhou Lars. Muita coisa está me acontecendo ultimamente para continuar a acreditar em coincidências. disse que me manteria em con- tato com eles. sua própria natureza. Turid passou o braço em tor- no de mim. Contudo.. O momen- to dependia de mim.. Lars e Birgitta sorriram. Birgitta e eu até a porta. Seguimos para o carro. — Ambres é um grande mestre — disse ela. coincidindo (de novo!) com a minha gradativa amizade e com- preensão de David. se quiséssemos. pensando bem. . E.ele próprio gostaria um dia de conversar com Ambres. cada um imerso nos próprios pen- samentos. enquanto nos aproximávamos do carro sob a neve a cair. Eu parecia ser uma observadora intermediária das realidades duplas. enquanto as crianças da vizinhança dormiam. Despedi-me de Lars e Birgitta. a realidade fundada na Terra e a realidade Espiritual Cósmica. — Acho que preciso de tempo para pensar. Não falamos mais nada. Era o legado deles.. realidades políticas e obstáculos negati- vos. A neve caía. como os grandes antigos haviam tentado nos dizer. sob o céu branco. baseada em frustrações materiais. — O que você achou? — perguntou Lars. Talvez todos os seres humanos fossem Mente. deu de ombros como se também não compreendesse o que estava acontecendo. Estava ficando cada vez mais evidente para mim que classificar um dos pontos de vista de única realidade absoluta era limitado. Fiquei impressionada com a sua simplicidade. mas a inevitabilidade parecia fixa e predesti- nada. Acho que eu estava fadada a vir para Estocolmo. Fiquei surpresa pelo que estava pensando. Sturé precisa descansar. pareciam re- presentar as dualidades na vida (algo similar ao que meu pai res- saltava). Talvez eu devesse reaprendê-lo. agora. Talvez as duas fossem necessárias para a felicidade huma- na..

deparei com seu corpo enorme encolhido na banheira. — Não foi nada. Ficarei esperando. Respondi que não estava usando perfume. Estava retraída quando Gerry chegou.Capítulo 11 "Há um princípio que é prova contra toda informação. — Oi. — É verdade. — Bom.. que é prova contra todos os argumentos. numa posição embriônica. — Como está se sentindo? — A neve nas ruas é o paraíso. Não podia me comunicar. O estômago dava a impressão de que tinha um imenso buraco.. Perguntei-me o que Edgar Cayce ou Ambres receitariam para aquilo. Gerry perguntou-me se eu achava que seus cabelos recendiam a perfume. há meses que não usava. que não pode deixar de falhar para manter um homem na ignorância permanente: esse princípio é o des- prezo antes da investigação. — Minha mulher veio de Londres. a fim de indagar se ele pre- cisava de alguma coisa. Concluí que eles eram cheios de merda quando se tratava de viver uma realidade na Terra. Quando abri a porta do banheiro. Aparecerei aí mais tarde. Entrei em parafuso. Ele não disse nada." — Herbert Spencer O telefone estava tocando quando entrei em meu quarto no ho- tel. Escrevi tudo o que estava sentindo. Sentia-me paralisada.. Fizemos amor. Ele sumiu pelos dois dias e noites seguintes.. Gerry. Senti que todo o ar me escapava dos pulmões. mas eu estava com medo. Não sabia o que dizer. Era Gerry. Dei um jeito de rir da vulgaridade do meu pensamento. Gerry sabia que ela estava vindo? Pe- dira a ela para vir? — Alô? Alô? — Ainda estou aqui. lavando-se e dando a impressão de que ainda não nascera. nem sobre a presença da mulher nem sobre a minha reação. — Desculpe ter me atrasado alguns dias. Como você está? — Muito bem. Também não fiz qualquer comentário. tentei forçar a mente a um espaço sereno e espiritual. Não consegui. Sentia-me angustiada e furiosa. Atendi prontamente. — Está bem. Sei que você estava ocupado. Escrevi. . — Os campos devem estar lindos.

— Eu a amo. O rosto pa- recia ter um século de idade. Eu não que- ria ir. mas a- chava que tinha a obrigação de ir para a esposa. Respondi que não havia problema. Revivi tudo o que estava aconte- cendo. queixo. Sempre que Gerry telefonava. Escrevi sobre a mi- nha vida. Isso fazia com que ele se sentisse menos culpado por não poder me ver. tirou-a. o que queria. cabelos e depois os lábios. Reagi. Escrevi até tarde da noite. como se estivesse experimentando o seu direito de tomar o que quisesse. Disse-lhe que não precisava se preocupar. Não falei nada. As mãos se des- locaram por toda parte. eu a amo. Eu era uma pessoa que sempre encontraria alguma coisa para fazer. Usava uma gravata turquesa fina. Ele tirou-me a suéter de lã grossa. o que iria fazer com ou sem Gerry. deteve-me. gentilmente. ele gritou: — Eu a amo. levantei às seis horas da manhã e continuei a escrever. Escrevi para compreender. sentiu meu corpo por baixo. Gerry apareceu na noite seguinte. Jantamos e conversamos. como se a mente tivesse vazado e es- corrido pelas faces. fitou-me. E no instante seguinte. como uma represa que se rompe. Envol- veu-me com os braços. até que alguma realidade entrou em foco. mas sem agressividade. Escrevi o que estava vivendo e sentindo. Gerry estava tomando a iniciativa e eu não tinha certeza se queria aquilo. Ele abriu minha calça. telefonou e disse que queria se encontrar comigo. Ele comeu melão. Gerry se incli- nou. Gerry sentou na cama. Atravessei o quarto para buscar-lhe mais chá. Continuei imóvel. Lentamente. eu lhe dizia que estava escre- vendo. puxou-me.. Tentei me ater a quem era.. Escrevi até a cabeça girar. ele beijou-me os olhos. ele levou-me para a cama. beijou-me longa e profundamente. Não deixei o quarto do hotel. Escrevi para tentar me compreender. olhou pela janela. um presente da cida- dezinha que visitara no dia anterior. Ele baixou-me para a cama. Com uma certeza irônica. — Eu disse que a amo. enquanto gesticulava com as mãos em concha. Fiquei imóvel. Ele comentou que estava contente por saber que eu fazia al- guma coisa. Deixei os meus caídos junto ao corpo.. Gerry terminou seu trabalho por volta das seis e meia. como um diário dilatado.. Não fiz qualquer menção de me aproxi- mar dele. Os cabelos caíam pela testa. Escrevi por dias a fio. Ele se comprimiu contra mim. eu a amo. Na sexta noite. Tornou a olhar para mim. Pegou-me a cabeça. alisou os cabelos. — Em que está pensando. dando a impressão de que recolhia punhados de ar. Shirl? Era a primeira vez que ele perguntava o que eu estava pensan- . Continuei calada. Senti- me depois culpada por estar escrevendo em parte a respeito dele e não informá-lo disso. Ficamos deitados juntos. Escrevi para decidir o que fazer. um meio de conversar comigo. pensamentos e indagações.

Enxuguei-o. que estava todo ocupa- do. — Mais do que qualquer outra coisa. Ou talvez soubesse. Gerry levantou-se e foi para o banheiro.. Shirl. não entendo a mai- or parte. — Também não consigo. Tenho escrito. obrigada. Shirl. Continuei deitada na cama. — Acho que isso acontece porque é algo que não pode ter agora. Mas ainda não sei o que vou fazer com tudo o que escrevi. Ainda não sei por que você me quer. Respondi que não tinha importância. Observei seis camadas de neve caírem na calçada lá embaixo. E foi direto para o chuveiro. Seus olhos escuros brilharam.. escrito e escrito. virou-se e disse: — Como estão as coisas que você vem escrevendo? — Muito bem. Levan- tou-se mais uma vez. rompendo o gelo. encaminhou-se para a porta. discutimos o seu programa nos dois dias seguintes. Fiquei neste quarto observando um rebocador a navegar em círculos. Seguida por sentimento de culpa.. — Eu a amo. Gerry sacudiu a cabeça. Ele tinha reuniões e entrevistas com a im- prensa.. E agora você está aqui. — É possível. Tornei-me o móvel. Gerry ficou radiante. quero tornar a pas- sar uma noite inteira com você. Enxuguei seus cabelos com o secador. — Eu também o amo. Ele me pegou nos braços. enquanto ele punha os sa- patos e meias. Gerry infor- mou que não poderia me ver no dia seguinte. Tenho comido bolachas suecas com manteiga e nada mais. Ele me piscou e disse. As palavras ressoaram pelo ar. Está aqui e é com- pletamente irreal para mim. Eu voltava a não sa- . — E a- gora você tem de voltar à sua irrealidade. — Sei que não é por isso. Ele me fitou nos olhos. Tornou a se encaminhar para o chuveiro. antes de sair e fechar a porta: — Ciao. — Obrigada. — Estou pensando como tudo isto é normal.. — Eu a amo. — Mas ainda não consigo entender por quê. até minhas mãos doerem. Ele me abraçou firme. Depois que Gerry estava vestido.do. Ele virou-se e correu de volta ao quarto. Uma confusão profunda me invadiu. Voltou molhado e frio. e depois uma espécie de visão dupla. Eu disse que tinha de voltar à América em breve. — Talvez devesse simplesmente desaparecer. Mas voltou outra vez. Eu não sabia o que ele estava querendo dizer.. Gerry balançou a cabeça com uma expressão muito séria. Para dizer a verdade. — Talvez o que estamos fazendo seja o que é mais real. Ao invés de sair direto. — Sacudi a cabeça para voltar ao normal. o tapete e o ar gelado. como sempre fazia. Ele pôs o casaco e as luvas.

Apenas eu. Eu escrevia como se estivesse conversando comigo mesma. a fim de definir nosso propósito mais claramente? Simplesmente usávamos a- queles a quem amávamos para fazer aflorar nossos potenciais ocul- tos. mas provavelmente ficaria patente em breve. Observava os dias se tornarem mais compridos a cada nevasca sucessiva. Seria essa a piada final? Talvez fosse essa a razão profunda para o humor. Shakespeare estaria escrevendo sobre reencarna- ção ao dizer isso? Mas se o hoje era uma representação. não tinha ninguém para falar além de mim mesma. Talvez a verdade fosse a de que tudo era real em cada nível. o que quer que fosse. Co- nheci de cor e salteado cada ciclo do rebocador a romper o gelo na baía lá embaixo. ríssemos. Shakespeare o dissera. Comecei a pensar que havia uma razão. Talvez amássemos. Recomecei a escrever. Não me sentia tão compulsivamente veemente em relação à confusão de Gerry ou à minha. Portanto. um pro- pósito definido por trás do que significássemos na vida um do ou- tro. Enquanto es- crevia a seu respeito. Se a morte jamais acontecesse. No plano da vida de Gerry ou no plano da minha vida o propósito podia não estar muito bem definido ago- ra. compreendi as coisas mais objetivamente. podíamos sorrir ao longo da vida. representar o que pensávamos que sentíamos. ao final de outra semana. até que atingíssemos o ponto cer- to. cada um de nós estaria usando outra pessoa como um ricochete. a vida era uma piada em cima de nós.. Se esse propósito fosse real. E agora. Seria de fato uma ilusão? A realidade física seria apenas o que eu pensava? Um dia comum na vida de al- guém era somente uma sucessão de representações. a cida- .ber o que era o real. Talvez toda a vida fosse uma colossal piada cósmica. Gerry tornou-se mais definido em minha mente. a fim de alcançarmos alguma definição pessoal? Estaríamos procurando pela fonte de outro tempo para nosso próprio significado? Ou já nos conhecêramos antes? Ger- ry e eu estaríamos consumando algum relacionamento que ficara por resolver em outra vida? Se assim fosse. As ho- ras se fundiam umas nas outras. Detestava esse sentimento. meu trabalho e o nosso mundo nem sequer existissem amanhã. Ou talvez o que estivesse me levando à loucura fosse a pressão para definir a realidade em termos físi- cos. E comecei a perceber o papel dele na minha vida com mais lucidez. Certamente não precisávamos temer a morte. Podia ser verdade que o ciclo recomeçasse. en- quanto nos encaminhávamos para o nosso propósito. trabalhássemos e representássemos num esforço consciente para lembrar a nos próprios que devíamos ter um propósito além desta realidade. Tudo parecia uma ilusão. Não deixava o quarto do hotel. então. Ser incerta sobre o horizonte emocional era a pior coisa que podia me acontecer. porque tudo era relativo e precisava ser levado em consideração. o ontem era uma ilusão? E o amanhã? Talvez Gerry e nossos encontros. talvez não precisássemos mais um do ou- tro. Talvez devêssemos apenas sorrir a caminho do fim. se chegássemos a compreen- der isso de alguma forma. nossas capacidades invisíveis. porque continuaria o seu curso independente do que fizéssemos ou deixássemos de fazer. porque talvez o fim fosse simplesmente o começo. Talvez toda a vida fosse um palco e nós não passássemos de atores representan- do nossos papéis. Não era tão ruim assim..

.de lá embaixo estava atapetada em branco. Decidi que estava na hora de comunicar a Gerry as coisas que estavam aconte- cendo a mim. Eu me acostumara à comunicação explosiva na vida. Sentir-se emocionalmente à míngua. ficava recolhido.. as coisas sobre as quais estivera escre- vendo (ele não perguntara)... Um homem passou à distância. quando ouvi a porta do quarto se abrir. Era como aquele ar. Devo ter percorrido uns oito quilôme- tros. fumando um cachimbo. como se podia pensar a princípio. O sol estava firme. Mas isso não seria uma reação legítima. discutindo os problemas econômicos do Terceiro Mundo.. sobrancelhas e pes- tanas falseando com neve derretida. Gerry dava a impressão de que correra por todo o caminho. aquele ambiente. Era como um ambiente em tom pastel. esperando para ser descoberto.. Eu já ouvira tudo aquilo antes. Gerry pairava silenciosamente no ar comigo. esperando pelo telefonema de Gerry. sobre o espetáculo de vari- edades que eu esperava apresentar em Pequim. Cinco cisnes voaram lá por cima. com sua paciência longa e silenciosa. Não seria oferecer à serenidade im- parcial uma oportunidade de aflorar. através da cidade e pelo jardim zoológico.. a nós. Na verdade. Saí andando pela neve. sem cores firmes ou carac- terísticas definidas. espalhando-se ao meu redor. animado e querendo saber o que achara de sua presença na televisão. o silêncio po- dia ser ainda mais pleno. o rosto congelado. O que estava experimentando agora era a comunicação implosiva. o silêncio se estendendo por quilômetros à minha volta. Eu estava lendo o Herald Tribune. aquele campo. ser percorrido e compreendido. os tornozelos afun- dando na neve. Ele se mostrou firme e confiante na apresentação das so- luções que propunha. Não era isso. Ele comeu dois biscoitos com recheio de chocolate e tomou o chá morno. Não se projetava. apenas aguardava em si mesmo. menos o que mais estava me preocupando. Conversamos sobre a maneira como ele estava aprendendo a explorar sua personalidade na televisão. outeiros ondu- lantes de creme de neve branca. enquanto um véu de neve caía. ao contrário. Con- versamos sobre Jimmy Carter e a China. mas mesmo assim prestei toda atenção. enquanto eu an- dava.. Ele ain- da estava "ligado". ser tocado. Conversamos sobre tu- do sob o sol. Era um ambiente que parecia encobrir suas intenções. E talvez a mesma coisa acontecesse com as pessoas. por causa da carência de clareza expressa e comunicação discernível era negar a riqueza in- terior de se comunicar com o silêncio. Não tinha exatamente medo de si mesmo. Levantei a cabeça para o sol. isso era problema meu. Beijei-o rapidamente. meio neutro. Três veados me observaram enquanto eu passava. como se o significado real estivesse oculto. Andei durante o dia inteiro e voltei ao hotel a tempo de ver Gerry na televisão sueca.. Tinha a impressão de que podia ouvir a própria res- piração. Es- tava totalmente sem fôlego. Ti- nha de descobrir o que estava dentro de mim e o mesmo acontecia com Gerry. se eu me sentia uma vítima da ausência de comunicação. porque provavelmente não era verdadeiro. que fazia com que aqueles que lhe eram novos pudessem se sentir rejeitados e excluídos de uma integração.

Shirley? — Não precisa falar como se fosse uma coisa obscena.... Mas por quê? Durante todo esse tempo com você tenho experimentado sentimentos precognitivos e de reconheci- mento. — O que é? — Não está curioso sobre o que tenho escrito? Ele ficou surpreso. se descobríssemos atra- vés de uma mediação. é uma coisa bo- a.. Gerry ficou consternado e depois muito preocupado. Gerry: você tem a impressão de que já me conhecera antes. Há uma coincidência de- pois da outra a nos aproximar. estou falando sobre nós. — Não. para descobrir todos os tipos de coisas. Há uma por- ção de pessoas. Gerry.. talvez pudéssemos determinar o que devemos ser agora. Sabemos que é muito mais do que apenas uma coisa física. porra! — Minha paciência subitamente se esgotara.. — Gerry.Estou me referindo a falar com espíritos desencarnados atra- vés de um médium. além do mais. — De que forma? — Uma porção de coisas estranhas me tem acontecido ultimamen- te. — Não é essa absolutamente a minha intenção. Responda sinceramente. — Não estou falando de camponeses famintos.. — Ele respirou .isto é... Mas. Shirley.. para começar. Há a força da atração entre nós.. — Não seja condescendente comigo! Quero apenas conversar a respeito. e daí? Que diferença isso poderia fazer. que acreditam na reencarnação. — Percebendo a expressão de alarme cui- dadosamente reprimido em seu rosto. que é ilógica nas circunstâncias.. de certa forma. para aqueles que precisam. Mas em que você está pensando.. Ele exibiu um sorriso irônico. ao longo dos tempos. Shirl. já que não podemos nos lembrar? — Poderia fazer uma grande diferença. — Você tem ido a médiuns.. — Claro que estou. em algum outro lugar? — Não estou entendendo. — E o que é mediação? Engoli em seco. há pessoas fazendo isso durante todo o tempo. apressei-me em acrescentar: — . Não estou com um esgotamento nervoso. — É sobre nós. Eu sabia que estava fazendo tudo errado. não sou estúpida. — Isso é provavelmente verdade. E. E parece haver muito mais neste mundo do que você está disposto a conhecer. especificamente? — Reencarnação. es- pecificamente. você passou tempo demais sozinha neste quarto. não sou doida. . pelo menos desde que nos conhecemos.. — Não tenho qualquer objeção à reencarnação. — Querida. que diferença isso faria? — Se pudéssemos definir o que fomos antes. — Pelo amor de Deus! Se está sugerindo que já tivemos alguma vida comum anterior. Ele respirou fundo. de alto a baixo de toda a escala social e intelec- tual.

ressentida por causa disso. era algo completamente além do seu alcance.. que querem ouvir coisas a- gradáveis absurdas a respeito de parentes mortos ou algo parecido. porque ele não tinha o menor conhecimento de medicina. ele fitou-me com constrangimento. não podia sequer começar a admitir a possível vali- dade de sua existência. Ou então a estão enganando. Creio que era lógico que assim fosse. — Eles não estão se comunicando. len- tamente.. Gerry? Ele sacudiu a cabeça. qualquer pes- soa que tenha meio cérebro para usar... — Tem razão. — Por que não? . Estão apenas servindo como meios de comunicação. — Espero mesmo que não! Escute. Gerry? É justamen- te sobre isso que tenho escrito. explorando pessoas crédulas. devemos mesmo conversar a respeito. enquanto eu ia contando tudo. querida (raramente Gerry usava palavras carinhosas e o fato de já tê-lo feito duas vezes naquela conversa indicava como estava transtornado).. o que foi uma surpresa para mim. vai despedaçá-la por com- . — Em que está pensando.Mas não é óbvio? Esses médiuns são psicóticos. E só Deus sabe o que o público pensaria se isso transpirasse. — Mas por que você tem de se meter com essas coisas? — pergun- tou ele. — Não sei o que dizer. O que exa- tamente você vem fazendo? Sentindo-me culpada e defensiva. os conselhos que dava e- ram procedentes e não vinham do inconsciente. — O que quer que façam. Não pode acreditar que eles estejam realmente se co- municando com espíritos. — O que está querendo dizer com transpirar. — Estou apenas tentando encontrar uma explicação para nós. das leituras que vinha fa- zendo. já que ele estava sempre consciente da importância da sua. Fazem apenas por dinheiro. Ele escutou em silêncio. Era muito interessante o fato de ele estar preocupado com a minha imagem pública. — Não pode fazer isso — disse ele. falei de Cat e Ambres.fundo. você não pode conti- nuar com essa coisa. Noventa por cento dessa gente são charlatães e todo mundo sabe disso. — Por que não? A inflexibilidade dele estava me levando a uma falsa posição. — Porque cada intelectual que você já conheceu. taxativamente. nem mesmo se lembram do que foi dito. ele não podia ver. Não vai ganhar nada com isso. malucos. não passa de asneira... Começo a pensar que não pode ser para nós. gen- te que tira as coisas do próprio inconsciente. Mas tenho certeza que você não pode es- tar falando sério. — Edgar Cayce não aceitava dinheiro.. — Não para ser publicado. Gerry fitou-me com uma expressão desolada. de Edgar Cayce. ou talvez só para mim. Mas ainda não considerara de forma alguma as possibilidades do mundo que eu es- tava explorando. todos os seus amigos vão pensar que você enlouqueceu. porque naquela altura eu não tinha a menor intenção de publicar. desesperado. Depois.

— Vamos esperar para ver o que acontece. mas conteve-se. Ajoelhei-me ao seu lado. Quando ele se encaminhou para o banheiro. — Quando acha que poderemos tornar a passar toda uma noite juntos? — acrescentou Gerry. Sorri. empurrou-me os cabelos para trás. Mas a rejeição sumária de tudo o que eu dissera parecia impossibilitar qualquer discussão adicional. ao mesmo tempo em que me senti comovida por sua a- flição evidente. no meio de uma palavra.pleto. — Eu a amo mais do que posso dizer. Nunca nos despíamos. Caí contra ele. Não poderia ser em setembro. Gerry? — Na terça-feira. Estaria viajando. — Estamos em janeiro. a calça empilhada nos tornozelos. Como soube? Respondi que tivera um pressentimento. Ele me levantou para si. Tenho de ir. Ele mexeu nos meus brincos. abri o négligé e deixei cair em torno dos nossos corpos. — Vai partir amanhã. Estava frio quando você chegou. Ele explicou que o aniversário do seu vice-líder era no mesmo dia.. deixando escapar um pequeno suspiro. que se dane tudo isso! — Beijei-lhe o nariz. — O que está quente? — Seu nariz. sim. . Gerry me ergueu e me colocou ao lado. se é que chegara a haver alguma! Inclinando-me para a frente. Gerry. — Não acha que foi uma manobra extremamente complicada? — Não tão complicada quanto nós. depois de sua eleição? Ele levantou o braço. Ele levantou meu rosto e. — Tenho de me levantar agora — disse ele.. não pude acreditar que ali estava o homem que que- ria ser primeiro-ministro da Inglaterra. escondeu o rosto por trás. beijou-me. Tive a sensação de que estava entrando num limbo triste. Onde você es- tará? Respondi que não sabia. Gerry beijou-me os olhos e o pescoço. Realmente adorável. o homem ficaria muito desapontado se Gerry não voltasse à In- glaterra para ajudá-lo a comemorar. Ele fez menção de levantar. depois se levan- tou. — Quando é seu aniversário. afagou-me os olhos. Shirl? — Vou.. Achei graça de sua pressuposição de que todas as pessoas inteligentes partilhariam suas opiniões. o prazer oculto das vistas. — Está quente.. murmurei: — Ora. Somos uma só pessoa e você sabe disso. — Caso contrário. Eu ainda estava no sofá quando ele voltou. Gerry observou o movimento. Contemplando-me por um momento. ficarei melancólico demais para conseguir suportar. Ele parou de falar. ele murmurou: — Você é linda. Fazíamos amor como estávamos levando nossas vidas. reprimiu um soluço. Olhou para os nossos corpos e murmurou: — O seu próximo movimento pode ser impossível. atordoado e infeliz.

Capítulo 12 . Tornei a sacudir-lhe o braço. gentilmente. depois. A rua estava vazia. Ele levantou o rosto e acenou. é preciso su- bir no galho. Shirley? — Nada. com uma veloci- dade ainda mais agressiva. com isso. — Não tem importância? Gerry. ficou curioso em verificar como saíra. Gerry me perguntou: — Quando é o seu aniversário? — No dia 24 de abril. determinado. pegou o casaco e as luvas. A neve turbilhonava ao seu redor quando ele saiu para a rua. Fiquei pa- rada onde estava. observando-a misturar-se com o vapor da minha res- piração.. E. Ele me fitou nos olhos e depois se afastou. Gerry posou de boa vontade. descobri que Gerry esquecera os óculos. ele se foi. — O que tem meu aniversário. a imagem foi adquirindo cores. Gerry apareceu no pátio. na noite sueca. sacudindo-o. Abrindo-a. Retribuí ao aceno. Ele foi quase cor- rendo ao vestíbulo. Acendi um cigarro e fui até a janela. ele disse: — O que acha que temos em comum? Suspirei e passei os dedos pelos cabelos que lhe caíam nos o- lhos. e o seu aniversário!!! Parei de falar abruptamente. como se estivesse gravando em sua memória como eu parecia naquele momento. Pôs as chaves do quarto na mesinha baixa. pegou sua pasta e depois. Olhei para a rua lá embaixo. Ouvi os passos dele voltando. Ele abriu a porta e virou-se para me fitar.. Parei de falar no meio de um pen- samento. usando o flash. Shirley. Gerry acrescentou: — Sei que. soprei a fu- maça para o ar. joguei-lhe um beijo. Corri para a porta e tranquei-a. Ele acenou com a cabeça. Ao pegar os ócu- los. Retornei ao vestí- bulo. Entrei e fechei a porta. — Está realmente linda. Ele tornou a levantar o rosto em minha di- reção e acenou. fria. — E a comemoração do seu aniversário? — Não tem importância. — Estou horrível. para se tirar a fruta de uma árvore. como a dizer que era outra data no futuro pela qual podia esperar. Ao voltar. Assoviei baixinho. silenciosa. Lentamente. pro- curando por um táxi. E. A neve caía agora intensamente. Senti que ele tomava a decisão de seguir a pé. As luvas de couro e o ca- saco preto se delineavam nitidamente contra um fundo branco total. Agarrei-o pelos braços. Não olhou para trás. branca. assoviando. Mas Gerry já desaparecera. sem fazer a menor menção de segui-lo. Tirei algumas fotografias dele com a minha Polaroid. encaminhou-se para a porta.

Além disso. era melhor que todos voltassem para suas casas. alguns confiavam na experiência passada. Havia algumas entida- des que se sobressaíam. mas ignoram o fato significativo de que um sistema telefônico não funciona até que alguém fale nele. Alguma coisa extraordinária estava ocorrendo em minha vida. Nas semanas e meses que se seguiram. alguns médiuns eram melhores do que outros. investiguei. A experiência com Ambres fora fascinante. a mediunidade era algo que vinha ocorrendo há bas- tante tempo e diversas pessoas famosas não apenas haviam "acredi- tado". nesses casos. mas sim de experiência. não tanto em termos de gracilidade." — Joseph Wood Krutch. um humor profundo e uma irre- verência ocasional em algumas das personalidades recebidas.Os fisiologistas gostam de comparar a rede dos nervos cerebrais com um sistema telefônico. que usava Carpenter (o médium vivia na Casa Branca com o presidente) para ..) Mas fiquei também impressionada pela variedade e força de per- sonalidade demonstrada pelas diferentes entidades que eram recebi- das. Mas a percepção é o mais evi- dente de todos os fatos (invisíveis). Mas não tinha nome. inclusive Abraham Lincoln. Havia. mas apesar disso eu tinha a impressão de que era precursora de uma nova era de pensamento para mim. Falava a alguma coisa muito antiga. li. principalmente em termos de clareza e coe- rência das mensagens transmitidas. quase nenhum dos médiuns era conhecido por seu no- me. esquivava-se a qualquer descrição. por exemplo. havia dias em que absolutamente nada saía direito. escutei gravações. Com a exceção de Edgar Cayce."A alma é na verdade um conceito vago e a realidade da coisa a que se refere não pode ser demonstrada. Quem quer ou o que quer que fossem essas entidades. estudei. transmitiam uma e- norme individualidade de caráter e aura. como acontece com quaisquer profissionais. Eu não sabia quem ou o que acabara de deixar. é um instru- mento que o pensamento acha útil. Como especialistas ou talentos em qualquer setor. para quem ou o que estava voltan- do. O clima nebuloso de gravidade que envolve o fenômeno da medi- unidade nas mentes da maioria das pessoas (talvez porque fosse um tanto sombrio o ânimo de cada um diante da perspectiva de uma con- versa com um espírito desencarnado?) parecia estar era contradição com a realidade. mas as indagações que eu apresentara a Lars e Birgitta ainda me atormentavam. Mais Vidas do Que Uma O vôo de volta à América foi bastante estranho. mas também praticado. A personalidade recebida era dominante. outros simulavam e vários diziam que nada estava dando certo. Fiz indagações e.. Uma filha pragmática do meu tempo. (Verifiquei também que. Descobri que havia uma quantidade impressionante de médiuns. sempre que possível.. O cérebro não cria pensamento (Sir Julian Huxley ressaltou recentemente esse fato). resolvi investigar o processo de media- ção.

. Concentrei minha atenção nos médiuns mais modernos e nas enti- dades que se comunicavam por seu intermédio. recebido por Alice Bailey e depois por Benjamin Creme. Desde 1963.. quan- do escrevia poesia. Roberts fora invadida uma noite. a prancheta em formato de coração e a tábua oui- ja. rece- bido por Jane Roberts. a coesão de toda matéria. a Sra. quando a Sra. assimilando os fluxos desconcertantes que recebia. Em se lidando com a mente e emoções. eram questões a que a maioria das pessoas não dava muita atenção. Roberts nos primeiros contatos com Seth (O Material Seth). era um caso particularmente interessante. ela e o marido (que desde o início tomara anotações de tudo o que Seth dizia) acumularam quase uma biblioteca sobre as sessões. por uma torrente de palavras que exigia ser passada para o papel. O que achei mais in- teressante foi a dúvida intensa demonstrada pela Sra. dos campos mais variados. Seth. oferecendo mais de uma faceta do fenômeno da mediunidade. nada sabendo de Seth. mas também as batidas na mesa.) Mas. e muitos e muitos outros. Era também evidente que algumas pessoas não podiam manipular o volume de informações transmitidas. J. (Verificou-se posteriormente que as anotações constituíam uma sín- tese do material que Seth desenvolveria. Nas semanas e meses subseqüentes.K. um bom di- vertimento. Roberts ficara apreensiva. William Randolph Hearst. por assim dizer. O Universo Físico como Elaboração de Idéia". P. Roberts foi abordada pela primeira vez por Seth. Ao contrário. mas também ficava igualmente evidente que muitas pes- soas respeitáveis e sérias levavam a sério a mediunidade. não apenas a mediunidade. que cada pessoa desenvolvia gradativamente. Escrevendo sem parar por horas a fio. muito menos a qualidade de sua natureza. atônita e transtornada. a Sra. Uma parte desse material aparecera em diversas obras pu- blicadas. a força concen- trada das informações não funcionava.. Esse tipo de coisa parecia ter estado quase em voga na virada do século. parecia haver um ritmo individual. As entidades que comunicavam tais informações freqüentemente pareciam não ter a menor idéia do quanto a parte no outro lado da linha telefônica. a estrutura do átomo. O trabalho de Sir Oliver Lodge e da Sra. E quando se entrava em detalhes sobre a vida extraterrena. depois que Seth virtualmente insistiu em "se manifestar". seria capaz de absorver. Piper era bastante conhecido. interesse ou crença nos fenômenos psíquicos. todo pensamento. na ocasião.consultas regulares. ela e o marido conduziram muitos tes- . O cosmos é um conceito atordoante: relacionar cada ser humano individual a tal vastidão era muitas vezes mais do que os ouvintes podiam suportar. Morgan (que usava Evangeline Adams).. Não restava a menor dúvida de que era interessante. A mais conhecida das entidades espirituais que se comunicavam atualmente parecia ser um mestre espiritual referido como D.. ela acabara dando um título ao que descreve como "aquela estranha ba- telada de anotações. uma delas ditada pelo próprio Seth. Em suma.. tanto pelo próprio evento como pelo conteúdo do que escrevera.. Não tendo qualquer contato anterior. parecia alie- nar muitas pessoas. e tudo o que isso implicava.

Pelo menos um aspecto das informações trans- mitidas sobre as quais eu lia aflorava repetidamente: era o que se relacionava com a recordação de vidas anteriores. em línguas diferentes. o talento. em muitos países. talvez a pensar pela primeira vez sobre valores e aspectos da existência que até aquele momento aceitava simplesmente. Na verdade. Mas o que realmente me atraiu a atenção. não havia tempo para nada. entidades se manifestando através de uma variedade de pessoas. demonstrava um talento (como tocar piano). ouvir o que se estava pensando. ao final de dois ou três meses de leituras e in- vestigações intensas. eu chegara à conclusão de que o processo era de relevância menor. O contato humano parecia superficial. no vasto volume de material disponível para estudo. se a pessoa não tivesse o cuidado de acompanhar o progresso do próximo. para não falar nada de ficar por cima. uma presença física na Terra atuando como um canal de comunicação para outro tipo de pre- sença. a mensagem me forçava a reexaminar motivos.tes para provar ou negar a existência dele como uma personalidade separada ou a entidade desencarnada que alegava ser. Olhem para si mesmos. tinha de se man- ter em movimento só para sobreviver. era difícil estabelecer. vocês são o Universo. Estava acostumada a viver num mundo em que. uma "prova" concreta de mediunidade. Provavelmente eu me sentia mais curiosa a esse respeito porque parecia que poderia aprender alguma coisa útil a meu relacionamento com Gerry. enquanto eu lia e pensava. tinha a impressão de que não passaria muito tempo e ficaria para trás. Se a pessoa era pobre. Nunca havia qualquer tempo só para a pessoa. estavam dizendo basicamente a mesma coisa. Seth levou muito tempo e precisou recorrer a algumas demonstrações espetaculares de faculdades especiais para provar à Sra. pela própria natu- reza da vida que levávamos. então parecia que a língua estrangei- ra. a prova do processo era o próprio conteúdo: se um médium falava em língua estrangeira. era quase impossível encontrar tempo para se olhar para dentro. observar uma abelha a zum- bir.) Mais do que isso. para desfrutar um pôr- do-sol.. parecia necessário assumir atitudes que eram justamente o oposto. (Durante um período subseqüente. a repensar. mas era como o preparo de uma boa refeição: a pessoa sentia-se grata por uma boa cozinheira. Em última análise. Mais e mais. muito menos o que outra pes- soa estivesse pensando. lutando por objetivos . em termos científi- cos. num plano diferente. explorem a si mesmos. eu haveria de deparar com muitos exemplos de tais "provas". não chegava a ser desimportante. Roberts que não era uma parte do subconsciente dela! Apesar de tudo. foi o fato de que tanto da mensagem pare- cia ser universal: ou seja. a habilidade profissional ou o conhecimento provi- nham de outra fonte. mas o que contava era a refeição. escutar um passarinho cantar.. mas a esta altura o processo já se tornara corriqueiro para mim. Uma pessoa bem- sucedida tinha de se manter em movimento na corrida desabalada só para conservar a posição.. Onde apenas para se manter com vida. praticava uma profissão específica (como a medicina) ou transmitia informações sobre um lugar distante ou alguma pessoa ou ocorrência particular de que não podia ter conhecimento..

Vários relacionamentos estavam desmoronando porque as pessoas envolvidas não sabiam quem eram. querendo-se um sentido mais profundo. como quer que se quisesse chamar — tinha de ir para algum lugar. Eu queria "ser".significativos. a sermos cria- turas vitoriosas e bem tratadas. sem reconhecimento do que significa- ria acabarmos sozinhos.. sem chegar a parte alguma. Mas isso poderia agora estar mudando? As pessoas estariam ago- ra começando a esquadrinhar as suas próprias profundezas. Leadbetter. alma.. Rudolf Steiner. então a nossa energia invisível — pensamento. como uma espécie de mecanismo de sobrevivência instintivo para compensar a polaridade de violência e distúrbio que estava obviamente dominan- do o mundo? Estariam descobrindo o potencial para uma alegria in- contida em si mesmas.... sem desafio de como isso podia nos ameaçar. não importava realmente com quem vivíamos ou dormíamos. sem desafios do que podia ser assustadoramente novo e des- conhecido. como Lars e Birgitta haviam descrito? Era possível que milhares de pessoas.. necessariamente. sozinhos com nós mesmos. o que podíamos significar uns para os outros. de conforto com proteção e acon- chego. personalidade. Eu estava achando cada vez mais difícil acreditar que essa energia meramente se dissipava quando o invólucro físico se deteriorava. Cayce e incontá- . Ele queria "fazer". E ao invés de nos aprofundarmos. a quem amávamos ou casávamos. tendo em vista o mundo em que vivíamos. da coisa que chamávamos de "alma".. quem podí- amos ser. estivessem se enfronhando no mistério de uma vida além da física e em decorrên- cia. Contudo. essa era a palavra terrível.. Qualquer coisa de uma natureza espiritual have- ria certamente de constrangê-los ou faria com que rissem. a importância da meditação. e era aí que o conflito começava.. A impressão era de que não podiam sobreviver ao escrutínio que lhes impúnhamos. mente. muito menos quem era a pessoa ou pessoas com quem estavam envolvidas. sem desafio do que a mais poderíamos compreender. Descobri- me a conceder um crédito cada vez maior aos ensinamentos espiritu- ais. mas apenas se dando voltas no pensamento. Eu começava a pensar que cada um de nós dispunha apenas da metade da equação. para aceitarmos apenas os limites e restrições impostos pela superficialidade segura. E aparentemente muitas outras pessoas pensavam da mesma forma. incluindo os meus. preferíamos reagir a impulsos para nos mantermos confortáveis.. as possibilidades ilimitadas da reali- dade metafísica. es- távamos todos sozinhos. A exis- tência competitiva não deixava tempo para o que éramos. Eu estaria sendo rapidamente atraída para um vagalhão de compreensão humana? Se Gerry representava o antigo. intelectual e um tanto ce- ticamente pragmático enfoque ao significado da vida. Eu conhe- cera bem poucos relacionamentos que possuíam um sentido real e du- radouro. sem desafios do que a mais poderíamos ser ou éramos. talvez fosse por isso que ambos descobríamos que o relacionamento era em última análise insatisfatório. Em última análise. a decência essencial e a integri- dade da mensagem emocional. Imaginava o que outros amigos meus pensariam do que eu vinha lendo e meditando. Sozinho. Todos tinham medo de ficar sozinhos.. Se toda a energia era eterna e infinita. no mundo inteiro. Mas os psíquicos que eu lia sempre diziam a mesma coisa..

assim como acontecia no nosso? Os antigos diziam: "Estude a si mesmo." Concluí que os videntes antigos não dizem nada diferente do que era apregoado pelos psicólogos modernos. que sentia que fo- ra aqueles personagens. mas sofria pessoalmente do que ele chamava de uma carência de co- nhecimento da própria identidade. E ele me confi- denciou que passara por uma experiência que ajudara a confirmar a convicção de que sua alma era de fato separada do corpo. Na minha opinião. Dizia que conhecia os persona- gens que representava melhor do que a si mesmo. é uma parcela do grande espírito global. diga-se de passagem. E se houvesse. Quando cheguei ao estúdio. Ele sempre se tornava os personagens que representa- va. religiões ou ciên- cia. É por isso que todas as respostas estão dentro de si mesmo.. E saiba que cada alma acabará encontrando a si mesma. de uma maneira que só podia ser descrita como "tendo vivido a todos no passado". Era tudo a mesma coisa: "Conheça a si mesmo. Um dia. talvez mesmo irrelevante. era parte de nós. Acabei sabendo que um ator extraordinário. Se encontrássemos vida em outros planetas. todos afirmavam a existência fundamental de uma Von- tade Divina.. Peter era um gênio. reconhecer a própria alma. em que ele tivera o papel de coadjuvante de um dos meus sete mari- dos. Voltáramos da locação em Asheville. e até mesmo Shakespeare. pois em si pode en- contrar as respostas a todos os problemas que venham a confrontá- lo. A tarefa era descobrir essa divindade em nós mesmos e viver de acordo. naquela manhã. . em alguma ocasião. Encontre a si mesmo agora. Seu destino e seu carma dependem do que sua alma tem feito com as coisas de que to- mou conhecimento. era uma dessas pessoas: Peter Sellers. com quem tivera uma experiência profissional maravilhosa e um relacionamento pessoal afetuoso." Conhecer a si mesmo talvez fosse necessário para simplesmente ter percepção. Éramos parte disso. em que eu tinha um papel secundário. tenha coragem de olhar para den- tro e isso haverá de libertá-lo. O outro foi Muito Além do Jardim. As possibilidades contra o seu não desen- volvimento pareciam remotas. Mas muitas pessoas que eu conhecia queriam esse conhecimento e ainda aceitavam a teoria da reencarnação tão facil- mente quando aceitavam o fato de que o sol se levantava todas as manhãs.. Não se pode escapar de nenhum problema. enquanto Peter tinha o trabalho mais extraordinário de sua carreira. quase ao final das filmagens de Muito Além do Jardim. O espírito do homem. conversamos a respeito. Um se chamava 7 Vezes Mulher. Eu fizera dois filmes com Peter. uma força de energia da qual tudo o mais derivava. na Ca- rolina do Norte. tanto na tela como fora. "eles" também sa- beriam a mesma coisa que nós ou teriam uma compreensão mais pro- funda? A ciência parecia virtualmente certa de que tinha de haver vida em outros planetas. físicos e mentais.veis outros.. com todos os seus atributos. estávamos filmando interiores no estúdio da Goldwyn em Hollywood. Conhecer a soma das vi- das que a alma experimentara parecia totalmente impossível. essa vida teria uma Vontade Divina diferente da nossa ou seria a mesma? A energia no centro do cosmos estava atendendo à vida em outros planetas.

as lembranças de Irma La Douce. . Provavelmente porque estava cansado. Ele assen- tiu e se afastou. em um momento ou outro". podia até parecer insignificante aos outros. Shirley. ou se estava acontecendo alguma coisa de que eu tomaria conhecimento mais tarde. — O que foi a dor que acabou de sentir. Chamei o gerente de produção e sussurrei-lhe que providenciasse um médico. o que era certo e errado para ele comer. — Mas qual é o motivo? Ele limpou o suor da testa. — Porque foi aqui que morri. respirou fundo. — Está querendo dizer que sente que aproveita as experiências e sentimentos que se lembra realmente de ter tido em outras vidas? — Falei de uma maneira quase indiferente.estava dominada pela sensação de que havia alguma coisa errada. Peter? — Provavelmente apenas uma pontada de indigestão. Ele trabalhava 10 horas por dia com um marca-passo no coração e nunca fora um candidato à maratona. Não sabia se era porque recordações dos filmes que fizera ali es- tavam me voltando. Não era uma atitude que chamasse muito a atenção. Infâmia e Se Meu Apartamento Falasse. — Não costumo conversar com muita gente sobre isso. Ele deu a impressão de que não queria conversar sobre isso i- mediatamente. Mas compre- endi que alguma coisa estava muito errada. partilhar a sua crença. Peter levou uma das mãos ao peito. num nível criativo. Pensariam que estou maluco. esperando que a iluminação fosse acertada. — É possível. Shirley. Peter continuou a falar sobre representação e papéis. Lembrava de ter lido nos jornais a história do seu terrível encontro com a . Peter não parecia em boa forma naquela manhã. Ele pareceu relaxar um pouco. compreendi que ele estava falando em ter vi- vido aqueles personagens em algumas de suas encarnações anterio- res. Escutei em silêncio. Mas enquan- to Peter continuava. Os olhos dele se iluminaram como se tivesse finalmente encon- trado alguém com quem podia conversar. como sentia que conhecia todos os personagens que repre- sentava. — Por quê? — Porque sim. enquanto a ou- tra me apertava o braço. — Eu também não. Foi bastante específico ao dizer que sentia que "fora ca- da um daqueles personagens. Fiz um esforço para não reagir de maneira exagerada.. — Este estúdio de som me dá arrepios. Dois na Gangor- ra. não entendi o que ele estava dizendo. Falou sobre comida. Mas provavelmente há mais pessoas que acredi- tam nas coisas cósmicas em segredo do que podemos imaginar. o que era viver com "esta maldita geringonça que tenho no coração". pensei. mas talvez fosse bom conversarmos a respeito. Sabia que ele ainda não chegara ao que queria dizer. — Provavelmente é por isso que você é um ator tão bom. Apenas possui uma melhor recorda- ção de vidas anteriores. A princípio. Sentamos juntos na traseira de uma limusine falsa. mais do que a maioria das pessoas. Subitamente.

— Fale sério. Flutuei para fora da minha for- ma física e vi levarem meu corpo para o hospital. Peter me fitou atentamente. Como já falei an- . creio que li- teralmente. Junto com outros." Tentei me elevar em sua direção. Acompanhei-o. Perguntava-me o que havia de errado comigo. Volte e termine. enquanto Rex continuava a trabalhar em meu coração. amor de verdade. da maneira que costumava usar para indagar abertamente se devia continuar a se aprofundar. Rex se recusava a aceitar que eu estava morto. de repente. intensa. curio- so. Vi quando o Dr. Mas. não me lembro de mais nada. — Não acha que estou doido. vi uma mão se estender a- través da luz. Fiz um es- forço para não pressioná-lo. aparentemente. Estou conseguindo um batimento.. pôs-se a fazer pressão em meu peito. Shirley? — Claro que não. Não falei em "você" porque se corria o risco de perder Peter quando se insistia demais nas questões pessoais. constatou que eu estava morto. — Rex Kennamer salvou-me a vida e o vi fazer isso. tentei continuar a parecer tranqüila: — Já li o que Elizabeth Kubler-Ross escreveu. di- zendo que não havia tempo de preparar-me para cirurgia cardíaca. Jamais quisera outra coisa com tanta inten- sidade. ele disse: — Senti que deixava meu corpo. Ele ordenou que alguém me abrisse o peito ali mesmo.morte. Não se pode dizer que todas estão doidas. Mas." A mão desapareceu no outro lado e me senti flutuar de volta ao cor- po. agarrá-la. segurá-la. Rex tirou-me o coração do peito. Fez tudo o que era possível. Ele sentiu meu pulso. no outro lado da luz que tanto me atraía. de incrível beleza. Ela tem muitos relatos documentados de pessoas que descreveram o mesmo fenômeno quando foram declaradas clinicamente mortas. Queria ir ao encontro daquela luz branca mais do que qualquer outra coisa. Ouvi Rex gritar com alguém. Como foi? Como uma pessoa relatando uma cena que acontecera com outra. Sabia que havia amor. já dentro de meu cor- po. por cima de mim. Era suave e aconchegante. Tentei tocá-la. Depois olhei ao redor e vi uma claridade branca. menos jogá-lo pelo ar. não conseguia me elevar. Tiraram toda merda que havia dentro de mim. Eu observava toda a cena. também não era o momento para essas pessoas e voltaram para con- tar. Não estava assustado ou qualquer outra coisa assim. Não é o momento.. Estava amargamente desapontado. E acho que o importante é determinar para que se volta. a fim de po- der me elevar pela luz. Só faltaram ficar pulando com os pés no meu peito para fazer meu coração bater de novo. Já ouvi muitas pessoas descrevendo o mesmo fenômeno. lembro de ter pensado: "Isso é Deus. mas também não queria que ele parasse de falar. por algum motivo. Estava curioso." No mesmo mo- mento. porque eu me sen- tia muito bem. E. até que recuperei a consciência. E então ouvi Rex gritar lá embaixo: "Está batendo de novo. Kennamer chegou. Quando Peter terminou. Depois disso. era só meu corpo que estava em dificuldade. uma voz ligada à mão que eu queria segurar com tanto empe- nho disse: "Não é o momento. massageou-o diretamente.

E sei que pensam que estou doido.. Ele tornou a respirar fundo. A vida era uma ilusão.... como Chauncey o teria feito. Senti vontade de dizer: "Você provavelmente pensa que ele está morto. este cenário. como se nada tivesse aconte- cido. — Sei que vivi muitas vezes antes. Claro que toda a conversa cessou. Tudo ficou pronto poucos minutos depois. Al Ashby. Virei-me e corri os olhos pela sala. Peter se contorceu no banco. observando-me dizer aquilo.. assim como muitos outros mistérios. Não sei por que estou aqui! Não sei pa- ra que voltei! É por isso que represento como faço. Era como se ele estivesse ali. Senti vontade de dizer ao repórter que ele estava enga- nado. E nesse ins- tante o telefone tocou. Queria saber a rea- ção dela. mas tudo isso.. Não consigo imaginar qual é o meu propósito. ainda mantendo a personalidade de Chauncey Gardiner. mas na verdade Peter apenas deixou seu último corpo.. — Estou. Conversávamos jovialmente quando de repente me levantei da ca- deira de um pulo. O que eu deveria estar fazendo? Os olhos dele se encheram de lágrimas... Peter enxugou os olhos com a manga do traje imaculado do per- sonagem de Chauncey Gardiner. Era um repórter de jornal — Eu gostaria de falar com Miss MacLaine. eu estava com alguns amigos em meu apartamento em Malibu.. Cerca de um ano e meio depois.. este carro. E não sei se elas estão. representando uma das almas mais gentis e ternas que já passaram por este mundo. não tinha a menor idéia.. Sou um chato para muitas pessoas. mas o amigo dela Peter Sellers acaba de morrer. sim. para que voltei. Não sei.. pude sentir a sua presença.tes. — Reação a quê? — Lamento muito se ainda não sabe. entrou no cenário e filmamos a cena. — Peter! — exclamei. Já dissera várias vezes aos repórteres que compreendia os seus personagens a fundo.. a câmara.. Estávamos filmando a primeira cena do filme no último dia das filmagens. Controlei a voz e atendi.. exatamente como os filmes. na minha sala de estar." Senti vontade de dizer: "Ele fez o melhor trabalho de sua vida em nosso filme. mas Sellers? Nada. as luzes. porque nesta vida senti o que era a alma deixar o corpo. A experiência con- firmou isso... Podia sentir Peter a me observar. Piscou os olhos e fungou. a identidade de "Peter Sellers" se lhe esquivava por comple- to. — Alguma coisa aconteceu com Peter Sel- lers! Quando falei isso. Estivera viajando e não sabia que Peter sofrera outro enfarte. Não restava mais nada a realizar. Shirley. Senti-me ridícula. Mas desde que voltei que não sei o que deveria estar fazen- do. o diretor. tudo me lembra que ainda não compreendi o que você acaba de dizer.. ele ... Mas estou doido pelas coisas certas. — Você está bem? — perguntei.. um suspiro longo e agoniado. E passou a sussurrar: — Mas sei o que é.

além disso. — Porque não há mais nada funcionando para as pessoas. Shirley! Isso é maravilhoso! Você vai escrever sobre a sua atração para a dimensão espiritual? Há muitas pessoas que adorariam ler sobre o que você está fazendo. Desliguei e virei-me.. Capítulo 13 "Por que se deve considerar inadmissível que a mesma alma venha a habitar em sucessão um número indefinido de corpos mortais.. Os olhos azuis de Cat se iluminaram co- mo pires de neón e ela bateu palmas.? Mesmo durante esta única vida. Embora saiba que Peter teria adorado. Assim. ele sentia saudade da mãe... vinda da Suécia.não podia provavelmente imaginar o que mais estava esperando. em The Ashram. comentei que tudo era tão desconcertante que vinha escrevendo a respeito para tentar chegar a alguma conclusão. assim que cheguei à Califór- nia." Mas é claro que não falei nada disso. Shir- ley. Andamos em silêncio por algum tempo e depois Cat acrescentou: . nossos corpos estão permanentemente mudando. Um repórter estava tentando me dizer que Peter Sellers acabou de morrer. — Grande. por isso deve ter se encaminhado para a luz branca. — Nada. Limitei-me a dizer: — Shirley não está. mesmo durante uma curta vida." — Francis Bowen.. cada ser humano habita sucessivamente em muitos corpos. Contei que estivera com Ambres em Estocolmo e queria conversar com ela. "Metempsicose Cristã" Liguei para Cat. Muitas sentem que tem de haver outro meio para levar suas vi- das. e. embora por um processo de deterioração e restauração que é tão gradativo que escapa à nossa atenção.. Mas eu lhe darei o recado. E durante a caminhada falei da minha experiência com Ambres. — O que aconteceu? — perguntaram meus amigos.. Nas colinas ondulantes de Cala- basas talvez eu pudesse definir as minhas intenções. e o caminho espiritual é praticamente o único que ainda não experimentaram. mas mesmo assim perguntei por que ela achava que alguém estaria inte- ressado.. Pedi-lhe que se encontrasse comigo pa- ra uma caminhada pelas montanhas. Pude sentir Pe- ter sorrir. E como estão! A conversa estava indo mais longe do que eu tencionara. E você sabe que estão prontas para ler a respeito dessas coisas.

entrando no espírito da coisa. olhos azuis diretos e gentis. Ele dava a impressão de estar um pouco indeciso. você precisa de um bom descanso espiritual — disse Cat. Por intermédio de Cat. Tinha um sobre- tudo (também bege) pendurado num dos ombros. por favor. Talvez possa fazer uma sessão com você. embora os calcanhares pisassem primeiro no . desencarnado ou não. Os mo- vimentos eram suaves. ajudá-la com diagnósticos físicos ou receitar dietas que são boas para as suas vibrações. mas virá de Santa Barbara para uma sessão em The Ashram. – Pois não. qualquer coisa que você quiser.. Três meses e uma minibiblioteca de livros lidos depois. As entidades po- dem lhe falar de suas vidas anteriores. marquei um encontro com Kevin Ryerson. — Abri a porta para deixá-lo entrar.. sem saber o que esperar. O sorriso era inocente e gentil. como se estivessem no quarto com você. sem perceber que o sobretudo bege estava quase caindo do ombro. Mas talvez fosse assim para ela. de um modo geral. A campainha do meu apartamento em Malibu tocou às 6:45 da tar- de seguinte. Ele está ocupado em receber durante todo o tempo. — En- tre e sente. — É mesmo? — Eu estava espantada outra vez por descobrir como Cat era uma catalisadora em minha vida. combinando com o chapéu. — Além do mais.. Imaginei como Cat podia comparar a mediunidade com repouso es- piritual. — Você já teve uma sessão com ele? — Oh. Ironicamente.. — Claro que sim! E você vai adorar a luz dele! Vai adorar as entidades espirituais que fa- lam por seu intermédio! Cat sempre falava em pontos de exclamação. Fitando-me sob um chapéu bege de aba caída estava um jovem em torno dos 29 anos. Kevin. — E o que eu devo fazer? — Basta perguntar qualquer coisa que quiser. – Olá? Sou Kevin. — Seria divertido — comentei.. — O tom dele dava a impressão de que sempre fazia uma pergunta. sorriu-me prontamen- te. senti que chegara o momento para que eu fizesse alguma investigação me- diúnica pessoal. — Você gostaria de ter uma experiência com uma entidade espi- ritual que fala inglês? Conheço um médium muito respeitado aqui na Califórnia. — Depois de ouvir o relato da criação do mundo que Ambres fez.. — O que acha que aconteceria? — Diversas entidades se manifestam. Possuía uma na- tureza tão radiosa que era difícil imaginá-la a não amar alguém. branda e diversas outras coisas que não sou. eu gostaria de escutar algo mais pessoal.. Só de contemplá-lo me dava vontade de comer uma imensa fatia de torta de coco bege. andando alegremente. enquanto ele passava pela porta. sapatos beges e meias beges. não parecia es- tar cônscio da sua aparência cômica. Shirley! — Cat pareceu abrir os braços e irradiar sua energia por todas as montanhas ao redor. Observei-o atentamente. O terno era bege. colete bege. embora lá no fundo relaxado. decidindo ao mesmo tempo que tentaria ser neutra. — Sou Kevin Ryerson. Abri a porta..

Terei o maior prazer em emprestá-los a você. Conversamos sobre o caso da Sra. em Londres. está se referindo a seu carro. O álcool inibe a minha acurácia. Você provavelmente sabe melhor do que eu. Talvez fosse isso o que acontecia quando se es- tava com um médium. Soltei uma risada.chão quando andava. firmemente. — Claro. Falei sobre Ambres na Suécia e de outras pessoas que me haviam descrito suas experiências.. . em Boston. — Isso mesmo. — E vão ter filhos imediatamente? — Não. Eu me saía muito bem na brigada do chicletes de bola antes de decidir assentar. — Quer dizer que casou recentemente? — perguntei. Ou talvez eu apenas estivesse interpretando tal impressão em seu es- tranho formalismo. — Você apresenta suas perguntas aos guias espirituais e eles determinarão o tempo necessário. dependendo dos períodos de tempo que estaríamos ocupando. Servi o chá a Kevin.. lá fora? — Seu veículo? Ah. Hesitei por um instante. Discutimos as pesquisas de Sir Oliver Lodge com a Sociedade Britânica de Pesquisa Psíqui- ca. Minha dama e eu temos vontade de sair por aí para mudar o mundo. — Tenho diversos livros de Cay- ce que são impossíveis de se encontrar. suas experiências de entrar em contato com a alma do filho morto. Ele parecia oscilar entre os Cavaleiros da Távola Redonda e a geração do rock. Perguntei-lhe se gostaria de tomar um drinque. Parecia afetado demais. Claro que pode. querendo pu- xar conversa e querendo saber como seria viver com um médium. fazia-me duvidar que pu- desse ser levado a sério. Não tem importância. — Posso deixar meu veículo onde está. Preparei o chá. — Não. E eu gostaria que ela pudesse perceber o veículo imediatamente. sem saber como reagir a esse uso da língua inglesa. para não con- fundir a mensagem com o mensageiro. Casamos recentemente e planejávamos um jantar de comemoração para esta noite. Minha dama pode aparecer à minha procura. dizendo a mim mesma. Combinando com a maneira como ele andava e o jeito de se vestir. Kevin disse modestamente que era um estudioso de Cayce e o admirava muito. Kevin parecia estranhamente fora do tempo. Piper. — Sua dama? — Isso mesmo.. — Está familiarizada com as sessões espíritas? — Um pouco. Não sei quanto tempo uma sessão assim pode durar. Mas chá seria ótimo.. orientação espiritual e diagnóstico médico através do fenômeno da mediunidade. Acrescentei que conhecia todo o mate- rial de Edgar Cayce. — Uma grande alma — disse ele. claro. um anacronismo. mas não temos condições de sustentar uma babá. sim. — Obrigado. Conversamos sobre Cayce. um café ou qualquer outra coisa. Kevin atravessou minha sala de estar e sentou um tanto formal- mente numa das cadeiras.

Ao final. pensei.. eu me senti uma aberração. recordando os outros casos que já lera. Cruzei os braços e me mantive em silêncio. — Sabia apenas que devia estar canalizando guias espi- rituais. — O espírito se manifestou durante uma das minhas meditações. pois eles nunca foram capazes de compreender. Depois. Cada indivíduo era justamente isso. Mas alguém foi buscar um gravador e registrou tudo. Por que eu deve- ria acreditar que ele não podia ou não queria simular vozes estra- nhas e inventar histórias intrincadas sobre vidas anteriores? Pen- sei em Ambres na Suécia. Minha irmã também é capaz de receber. o senso inato de ceticismo. — Também não sabia o que estava acontecendo comigo quando tudo isso começou — comentou ele. Kevin falava de uma maneira descontraída. Parecia extremamente modesto e despretensioso.. — Eu não poderia explicar de qualquer forma racional — conti- nuou Kevin. Tam- bém não conhecia as vozes que saíam por minha boca. estava invocando uma realidade invisível superior. Ficarei apenas escutando. Era difícil aceitar o que ele estava dizendo. Ele tomava o chá em pequenos goles. Como falaria ou pareceria um médium "típico"? Como seria um psi- quiatra ou médico "típico"? Havia médiuns que simulavam 90 por cento do que faziam.. E certamente não havia inventado as informações sobre vidas anteriores. até mesmo crianças de oito anos de ida- de.como suas informações sempre conferiam. quando um jogador de basquete fazia o sinal-da-cruz antes de arremessar um lance livre . Rezar a uma divindade chamada Deus era investir fé numa realidade invisível: quando um jogador de beisebol fazia o sinal-da-cruz antes de pisar na base. eram infalíveis. alguma coisa em que se tinha de a- creditar para que fosse verdadeira. com suas avaliações inteligentes das circunstâncias que descobria em si mesmo. por falar nisso. em decorrência de seus talentos metafísicos e psíquicos. quando tocaram. o que era a realidade invisível? Era. Se compreendesse ou falasse sueco. Olhei para Kevin. Eu nem mesmo soube que o estava rece- bendo.. aprendi a relaxar e deixar que acontecesse. Comecei a ler sobre outras pessoas que também eram capazes da mesma coisa. manifestando-se através de línguas que não falavam e coisas assim. dava a impressão de estar bem enfronhado nas questões metafísicas. Imaginei qual seria a minha impressão ideal de um médium digno de confiança. era objetivo e sur- preendentemente divertido. assim como havia praticantes de outras pro- fissões que cometiam erros ou eram descuidados nos dias "desli- gados" ou não se importavam com coisa alguma em qualquer dos dias da semana? Mas será que se podia julgar pelos resultados? A reali- dade invisível era algo que se podia provar? E. eu também poderia ter formulado perguntas. E tem ajudado muitas pessoas... Nada sabia das informa- ções médicas que haviam sido transmitidas por meu intermédio. ao mes- mo tempo em que simulava uma voz diferente.. a- pesar de estar vestido como se tivesse saído de uma loja de costu- mes exóticos. analisando mentalmente tudo o que ele disse- ra. E isso sempre dei- xou nossos pais muito nervosos.. um indivíduo. Eu sempre confiara no que um amigo meu descrevia co- mo "detector de merda" embutido. nos termos mais simples possíveis. Mas resolvi não interrogá-lo sobre o traje. com receio de intimidá-lo.

E o que vai acontecer aqui? —. O que alguém semeia.que podia desempatar uma partida. — Está brincando? Que igreja me aceitaria? Estou invadindo o território delas. A maioria dos cristãos aceita isso. Sinto-me perfeitamente orientado por meus amigos espirituais e continuo a desenvolver meus talentos metafísicos. Cristo ensinou que o comportamento de uma pes- soa determinaria os acontecimentos futuros. Fala numa linguagem bíblica. O fato de promover uma sessão com ele implicava acreditar no que estava dizendo? Seria um meio de pedir para ser convencida? Descobri-me a analisar minha "mente aberta" sob uma nova luz. Apenas tento compreender e aprender. Pensei no que ele acabara de dizer. Ninguém a contestava. Buda e as incontáveis pessoas que haviam professado o mesmo tipo de crença. Nada disso parecia exigir ceticismo para se tornar crível. Cada alma tem muitas mansões. conforme dizem os indianos. Estudou os ensinamentos de Buda e também se tornou um iogue. — O que quer que se pense de receber guias espirituais invi- síveis é uma decisão individual — disse Kevin. três ou talvez quatro en- tidades espirituais me usam para transmitir informações. A I- greja diz que Deus só está dentro dela. Na verdade.perguntei. Bom. o carma. O homem Jesus estudou por 18 anos na Índia antes de voltar a Jerusalém. — As pessoas geral- mente "sabem" se faz sentido ou não. Kevin? Ele quase engasgou com o chá. – Está bem. Pensei na semelhança entre as sessões Cayce. Milhões de pessoas passavam todos os domingos a participar da realidade invisível de orar por algo que não podiam provar. — Como sabe disso? — A maioria dos estudiosos metafísicos sérios da Bíblia sabe disso. — Você é religioso. Há uma frase na Bíblia que diz que nunca se deve receber outras entidades espirituais além de Deus. Uma mente aberta seria um ato de credulidade? Tomei um gole do chá. que geralmente se apresenta para cumprimentar as pessoas. que às . Kevin comeu um bolinho. Digo que as pessoas têm Deus dentro de si. enquanto continuo a receber. tinha um controle total sobre o corpo e compre- endia que o corpo era a única habitação para uma alma. A realidade invisível era aceita há séculos. Kevin comeu outro bolinho. Mas também a Bíblia nada diz a respeito da reencarnação e é um fato bem conhecido que o Concílio de Nicéia resolveu suprimir o ensinamento de reencarnação da Bíblia. Ambres.. duas. vou dizer. o espetáculo comovente de famílias rezando a um Deus invisí- vel num pronto-socorro de hospital era bastante familiar a todos. Comeu o bolinho em duas mordidas. O Concílio de Nicéia alterou muitas interpretações da Bí- blia. intitula-se John. Não o interroguei a respeito dessas pressuposições um tanto pretensiosas. O pri- meiro. ninguém nas arquibancadas ria dele. Não tento convencer ninguém. Você terá de to- mar a sua própria decisão.. Há quem ache que ele é o mais evoluído de todas as entidades desencarnadas. há de colher. —. Parecia gostar de açúcar. Obviamente.. a fé numa realidade invisível constituía o que se costumava chamar de reverência..

bem versado em assuntos médicos. em estado consciente. — Deixe que eu me ajuste. depois que deixa o corpo. E há também o Dr. A compreensão espiritual é justamente isso. Pensei em minhas experiências na África com uma força que parecia me proteger quando viajava sozinha. — Já. — Mas claro! É o que a alma faz. se quiser. Shangru. por assim dizer. Não estou cônscio da minha mente consciente. acima das nuvens. — Espere um momento — pedi. pensei. — Você ouve essas entidades quando estão falando por seu in- termédio? — Não. As almas que morreram. há quase 25 anos. conhecer uma pessoa ou ir a algum lugar. Mas acho que é por causa de seu senso de hu- mor. nos Himalaias. Mas o que isso . Muitas pessoas gostam de trabalhar com ele.vezes é difícil de entender. quando me senti impelida a indagar e inves- tigar o que os lamas estavam fazendo. Mas es- pere um pouco. — Acredita que todos possuem guias espirituais? Kevin ficou surpreso. — Devo admitir que me sen- ti guiada por alguma força. por uma força que não podia compreender? Pensei em todas as ocasiões na minha vida em que julgara estar escutando a minha intuição. então teriam personalidades individuais. ajudam as que ainda estão no corpo. Há gente que prefere que seus guias espirituais sejam solenes. em seus mosteiros a mais de cinco mil metros de altura. Ele ensina do ponto de vis- ta dessa vida. Se você preferir ou se John sentir alguma dificuldade na comunicação. — Nunca teve a sensação de que estava sendo guiada a fazer al- guma coisa. Por que ele gostou de ser um punguista? — Pergunte a ele. pois sua encarnação predileta foi a de um punguista irlandês há algumas centenas de anos. sim — respondi a Kevin agora. Essa força motivara a minha curiosidade e o meu im- pulso de questionar o que não podia ver. sentados a meditar. Está de acordo com tudo o que li. — O que é justamente a compreensão espiritual? Kevin empertigou-se na cadeira. Há ainda Obidaya.. cuja encarnação predileta foi a de um jamaicano que compreende os problemas raciais dos tempos modernos. Se as en- tidades são mesmo do "plano astral".. Disse que esse Tom McPherson foi um punguista irlandês? Isso significa que ele não foi mais nada? — Claro que não. Acontece apenas que a personalidade de pun- guista foi a sua encarnação predileta. com uma coleção de personagens excêntricos. assim como tínhamos no corpo. outra entidade se apresenta. Ou no período que passara em Butão. — Ahn. que parecia quase me compelir a tomar uma decisão determinada. Tinha a impressão de ter reconhecido uma força similar então. um paquistanês que viveu há algumas cen- tenas de anos. Senti que minha mente tentava protestar. Ele pode ser muito engraçado. quando estou dormindo. E posso senti-los a me guiarem quando estou desperto. Ou- tros acham que ele é humorístico demais para ser levado a sério. Intitula-se Tom McPherson. ao longo de minha vida. inclinou-se em minha direção. Mas posso falar com as entidades no plano astral. Parecia uma história em quadrinhos.

co- mo pensava em relação à política. Era mais uma questão de tomar cuidado para se abster de ser tão cética que se excluía automaticamente idéias desafiadoras e novas percepções. estava sendo guiada por seus amigos espirituais. o que fazia nas noites de sábado. — Eu gostaria às vezes de ser apenas um jardineiro. mas Kevin Ryerson viria a se tornar um dos telefones na minha vida. Capítulo 14 "Cada ser recém-nascido chega limpo e feliz à nova existência e a desfruta como uma dádiva: mas. por guias e mes- tres. ninguém pode ser o juiz do que é de fato essa realidade. juntamente com seu conhecimento intuitivo.. – Não — respondeu ele. E naquela noite de sexta-feira. Ficarei aqui. mas que continha a semente indestrutível da qual derivou a nova existência: são um só ser.. com a xícara de chá equilibrada nos joelhos beges." — Arthur Schopenhauer. eu estava prestes a conversar com alguns amigos novos. ao invés do guardião do jardim. mas estou sugerindo agora que se torne mais perceptiva na compreensão do que estava realmente acontecendo. Outros que haviam passado por uma especulação espiritual teriam efetuado a mesma personalização do que aprenderam? Eu não sabia na ocasião.. sentado ali. . Reais ou não. Liguei o gravador e perguntei a Kevin se pre- cisava de alguma coisa. Pode ter definido apenas como uma força. em- pertigado.significa? — Significa que. Todos te- mos os nossos papéis na vida. sua nova existência é paga com. — Acho que vou sair agora. em Malibu. O Mundo como Vontade e Representação Reduzi a iluminação na minha sala de estar. Mas talvez seja esse o meu carma. Levantei-me e indaguei: — Qual é a sensação de saber que essas entidades espirituais falam por seu intermédio? Kevin hesitou por um instante. eu estava sendo lembrada mais uma vez que cada pes- soa experimenta a sua própria realidade. Mas não era simplesmente uma questão de se acreditar no que se queria acreditar. Apresentar a ponte entre as duas existências seria certamente a solução de um grande enigma.. Kevin parecia subitamente muito vulnerável. Ima- ginei como seria a sua vida. O mar sussurrava gentilmente lá fora.. não é mesmo? Talvez o meu seja o de um telefone humano. uma existência consumida que pereceu. — Está certo..

mas estou lhe falando de Malibu. gentilmente. Meu nome é Shirley MacLaine. Cerca de 30 segundos mais se passaram. Depois. ele abriu a boca. — Ahn. Calculei que isso significava que estava bem. Lentamente.. Não tinham todos determinados talentos. — São então meus guias espirituais? É por isso que estou aqui? — Como tal. a cabeça descaiu para o peito. Sou uma atriz que também escreve.. Houve uma pausa. — Nós somos levados a concluir que você tem indagações. A respiração mudou de ritmo. Identifique-se. a soma de seus sentimentos são o que já experimentou antes. Meus cumprimentos. cruzou-as. não sei explicar por que realmente estou aqui. Isso está de acordo com a sua compreen- são? Contorci-me no tapete. deve compreender que é mais do que parece agora.. As mãos subiram para os braços da cadeira. a sua respiração foi se tornando mais profunda. Senti- mos o seu estado vibracional como tal e com ele estamos familiari- zados. — Muito bem. por favor. como se ele esperasse que eu fizesse uma per- gunta ou dissesse alguma coisa.. e tudo o que você é parte da unidade do todo. E ouvi-o falar num sussurro gutural. Limpei a garganta e mudei de posição no chão. nós somos aqueles que a conheceram em vidas ante- riores. Ca- lifórnia. como se eu devesse ter um conhecimento to- . Ele ficou imóvel por cerca de três minutos. Aproximei o gravador dele mais um pouco. que não parecia condizer com o alcance vocal de Kevin: — Salve. Tornou a levantar a cabeça. um sus- piro escapou da garganta. — Está bem. o corpo estremeceu. me dizer a quem se refere como "nós"? — Como tal.. Ele parou de falar. Esperei. Eu a verei daqui a pouco. Como tal. Sou John. — Como tal — disse a Voz. a boca assumiu um sorriso. junto à cadeira de Kevin. Fiquei aturdida. Sou de Richmond. — Vocês já me conheceram em vidas anteriores? — Como tal. pôs as mãos sobre o peito. A soma de seus talentos. Vir- gínia. nos Estados Unidos. Ele recostou-se. — Poderia. Eu não sabia por onde começar. por fa- vor.. As sobrancelhas se altea- ram. enuncie o propósito do encontro. — Para compreender a si mesma agora. Lem- brei que Kevin dissera que uma das entidades espirituais falava numa linguagem bíblica. Fechou os olhos. fazendo com que sua expressão se tornasse de surpresa momen- tânea. inclinou-a para um lado. Depois. mas em que baseia suas informações sobre mim ou sobre algo cósmico? Praticamente sem qualquer pausa. ele respondeu: — Naquilo que você chamaria de Gravações Akáshicas. Lentamente. a respiração cada vez mais pro- funda. sentimentos e pensamentos que não correspondiam à experiência da vida presente? — Desculpe.

tendo em vista a dimensão limitada da linguagem. — A mente é um reflexo da alma.. — Posso entender o que está querendo dizer. Não. na igreja somos ensinados que Deus criou tudo. Você é levada a considerar que a comunicação das referidas idéias é difícil. pensei. mas não é um tanto simples demais o que está di- zendo? — Toda verdade não é tão simples como é destinada a ser facil- mente revelada. Não posso provar qualquer das coi- sas. — Está querendo dizer que compreenderei tudo se compreender a mim mesma e de onde venho? — Correto. Eu me sentia neutra. — Ele continuou imediatamente. antes que ele dissesse: — Vou me empenhar em usar uma linguagem mais atualizada. Você. Não tenciono ser desrespeitosa. por que não a conhecemos? — O homem se recusa a aceitar que está de posse de toda a ver- dade e assim acontece desde o início do tempo e espaço. acumulado em ener- gia etérea. — Nunca tive certeza de que existisse uma coisa como Deus até recentemente.. como você consideraria. — Você tem uma mente? — Claro. — Desculpe. — Se é tão facilmente revelada. A alma é um reflexo de Deus. Sua alma é uma metáfora de Deus. Mas é claro que tenho certeza de que eu existo. Mas "John" já estava continuando: — Somente quando o homem aceita que é parte da verdade que es- tá procurando é que as verdades se tornam patentes. por que al- guém acreditaria em Deus? — Você está dizendo que precisa de prova de sua própria exis- tência? — Não entendo onde está querendo chegar. Essa energia pode ser classificada como a mente de Deus. — Então devo conhecer a mim mesma para saber o que é Deus? — Correto. Parecia distante. E já que estamos tratando disso. por que você fala desse jeito? Houve uma pausa. como indivíduo. — Poderia me tornar muito arrogante se realmente acreditasse que eu era uma metáfora de Deus. — Como? Espere um pouco. — Você é levada a considerar que Akasha é o que poderia clas- sificar de inconsciente coletivo da humanidade. Eu me sentia es- tranhamente embaraçada. — Isso é um jogo da humanidade e não de Deus. mas essa é uma maneira insidiosa de confirmar que há uma alma.tal de suas referências. A alma e Deus são eternos e unos. O homem é o co- criador com Deus do cosmos. O homem se recusa a aceitar a responsabilidade por si mesmo. alma ou Deus. E com o que está acontecendo no mundo. pseudobíblico. — Jamais confunda o caminho que você segue com a própria ver- . — Essa energia acumulada chamada de Gravações Akáshicas é como vastos pergaminhos alojados em vastas bibliotecas. seria consi- derada como um pergaminho singular dentro das bibliotecas ou como uma alma única dentro da mente de Deus..

Está querendo dizer que tenta ajustar suas vibrações de energia com as vibrações de energia de Kevin? — Absolutamente correto. sim. Geralmente demora um pouco para se chegar a esse ponto. — Os detalhes? — Absolutamente correto. Kevin tossiu. — Minha o quê? — Sua caixa de zumbido. — Desculpe. Os braços se acomodaram de outra forma. — Tiro o meu chapéu para você — disse uma voz completamente nova. tentando compreender o que estava aconte- cendo.. Kevin incli- nou a cabeça. A cabeça virou para o outro lado. — Essa não! — disse a voz de McPherson. Não pude conter uma risada. como se ele não estivesse realmente fazendo isso. Fiquei um pouco envergonhada e esperei que ele dissesse mais alguma coisa. — Eu não esperava uma reação assim tão cedo. — A xícara é muito pequena. eu não podia deixar de ficar impressio- nada com Kevin. isso. Era extraordinário como ele parecia tão apartado de Kevin.dade.. — Sua caixa de zumbido está funcionando? — perguntou McPher- son.. — Tenho. Olhei para o gravador. Como você está passando por aí? O sotaque era cômico. – Ahn. Fiquei de joelhos. — McPherson falando. — Como? Kevin mudou de posição na cadeira. Sendo uma atriz. Tem problema? — De jeito nenhum. Gostaria de tomar um pouco? — Claro. mas poderia me dizer o que há de errado com a gar- ganta de Kevin? — Não há nada — respondeu McPherson. Tem por aí um pouco da sua infusão? — Minha infusão? — Isso mesmo. E foi o que aconteceu: — Pausa. Não tem por uma aí uma infusão de ervas? — Está se referindo ao chá? — Absolutamente correto. era uma transição es- petacular. Tom McPherson. Limpou a garganta e tornou a tossir. Está. — Ah. Tive a im- pressão de que podia sentir a sua personalidade aflorando. A expressão em seu rosto me fazia especular sobre o motivo pelo qual o achava tão engraçado. Se ele estava representando. sim. Ele cobriu o rosto por um momento. Devo pôr na mão de Kevin? Poderá . era quase a presença de uma energia nova e distinta na sala. — Estou apenas tendo um pouco de dificuldade para me ajustar às vibrações do instrumento. Eu queria apenas ter certeza de que você está captando os detalhes. Operamos aqui com freqüências vibra- cionais. Outra entidade está desejando falar. depois cruzou as pernas. Kevin dissera que aquele McPherson era engraçado. Não era apenas o som da voz..

Ele tomou outro gole. Embora a punga fosse mais o que você classificaria como "ofício de cobertura". Também não gostava daquelas xícaras pe- quenas demais. já que naquele tempo havia um precon- . Não pude deixar de pergun- tar: — Pode sentir o sabor do chá? — Sinto mais do que saboreio. Levantei a mão direita de Kevin e ajeitei a xícara na palma. Os olhos permaneceram fechados. — Basta pôr na mão do jovem. — Um pouco do velho sentimento de pub. Só que nunca servia chá nelas. — Sou parcial com canecas — comentou McPherson. trocando-a pela xícara. — Absolutamente correto. Kevin levou a caneca aos lábios e tomou um gole. Na verdade. Enchi a xícara e estendi para a frente de Kevin. Voltei e servi mais chá na caneca. Eu era irlandês. Os olhos con- tinuavam fechados. — De qualquer forma. Não sentiria a dor. — Um espião diplomático? Para quem? — Para a Coroa Inglesa. — A xícara não é apenas pequena. você sentiria ou seria Kevin que sentiria? — Eu reagiria para proteger o instrumento. — Não tem uma caneca? — perguntou McPherson. Obrigado. — Posso chamá-lo de Tom? — Muito bom. Ele estava certo. — Ofício de cobertura? — Absolutamente correto. não é como o pub — disse McPherson. Ele não fez menção de levantar a mão. mas haveria empatia da minha parte. — E se estivesse realmente quente. fui até a cozinha e peguei a caneca. eu era o que você consi- deraria como um espião diplomático. o que você faria? — Provavelmente usaria um comando melhor do organismo do ins- trumento para atenuar a dor? Houve um silêncio. Eu tinha canecas de vidro. lamento dizer. Continuei a falar com McPherson enquanto fazia isso: — Então você é mesmo irlandês? Todos os irlandeses pensam me- lhor com canecas? — Absolutamente correto — disse McPherson para as minhas cos- tas. Pude sentir que McPherson esperava que eu falasse. — Por acaso não há canecas de vidro no seu armário? Olhei para a minha cozinha. Uso as faculdades orais do ins- trumento para adquirir um senso.segurá-la? — Claro. Levantei-me. Ele engoliu o chá. é minúscula. embora o nome Mc- Pherson seja escocês. — Se estivesse quente demais. — Soube que você foi um punguista. Ajuda-me a pensar com clareza. Soltei uma risada. Assumi o nome de McPherson para disfarçar minha identidade irlandesa. — Era um espião para a Inglaterra e é irlandês? — Absolutamente correto.

. atrain- do com um senso compulsivo de amor e paz. Contudo. agora que já teve tempo de refletir a respeito? — perguntou Tom.. — Absolutamente correto. — Eis aí um bom argumento — disse Tom. ... Estou liberando um pouco do meu carma agora ao lhe prestar um serviço. – Gostaria de fazer outras indagações? — perguntou Tom. Muitas pessoas do seu tempo já falaram publicamente de experiên- cias de saída do corpo. mas não con- seguindo ir muito longe. a fim de ajudar os outros por aqui? — Absolutamente correto. — Como você trataria o problema. cujos ancestrais jamais deixa- ram o ambiente em que viviam.. Lembrei quantas pessoas já haviam de fato descrito essa expe- riência.. — Não tem uma posição desfavorável por ter sido um punguis- ta. mas sabe que isso seria impossível. sim. Algumas não queriam voltar ao corpo. Acreditavam que apenas herdamos geneticamente a memória das coisas que nossos ancestrais poderiam ter experimenta- do. Eu me sentia alternadamente divertida e cética. — Tem mais um pouco dessa sua infusão? — Tenho.ceito maior contra os irlandeses do que contra os escoceses. Portanto. depois de passarem pelas portas da morte. como nas sociedades tribais da África. — Mas você também tem conhecimento de sua telepatia e experiências de saída do corpo.Mas por que você espionava para os ingleses.. se eles tinham tanto preconceito contra o seu povo? — Gosto de pensar em mim mesmo como um espião independente. enquanto se olhava para o próprio corpo agonizante. – Conversei outra noite com uma pessoa sobre a existência da alma.. usando o déjà vu como um exemplo de existência anterior. Ou quando sente no fundo da mente que uma experiência já aconteceu antes. A maioria des- crevia a mesma luz branca a que Peter Sellers se referira. Mas como você abordaria a questão da existência da alma? Houve um momento de silêncio. Eu era muito bom nessas coisas. Quando a pessoa sente que está num lugar que já visitou antes. Tomei um gole de chá tentando entender as coisas. Despejei mais chá quente na caneca. A si- tuação não mudou muito desde então. intitulo-me um punguista. – Algumas pessoas diziam que a memória celular ou memória an- cestral (como alguns cientistas também estão dizendo) era a verda- deira explicação. A Coroa simplesmente me contratava para surripiar documentos impor- tantes dos diplomatas espanhóis. Equilíbrio. — Acho que eu deveria ter dito que há casos de pessoas. É mais divertido para mim. tais pessoas têm memórias da América do Norte. Estavam na verdade experimentando suas al- mas como algo apartado do invólucro físico. carma e tudo isso. Servi-me de mais chá. — E agora você aplica o seu ofício mais positivamente. Índia etc. . — Entendo. diplomático ou não? — Absolutamente correto. pensando no que poderia ser uma linha produtiva.

Uma coisa que temos é tempo de sobra.perguntou McPherson. Mas talvez alguns dos ancestrais dele ti- vessem estado na Africa. é preci- so subir no galho. por favor. Eu me sentia totalmente aturdida. como os romanos. A alma não é uma coisa material. o material não está disponível. Lembra dessa experiência? Ele me fez parar abruptamente. Mas é o que um amigo seu disse recentemente: "Para se colher a fruta. há muitos indivíduos que possuíam padrões de me- mória de lugares em que seus ancestrais nunca estiveram. Nós estamos sendo pacientes com você.. Além disso. Isso dificilmente seria memória celular herda- da. — O déjà vu também ocorre no contexto moderno. por assim dizer. um pouco do velho vodu espiritual. Seria possível que determi- nados sonhos fossem projeções astrais da alma? — Tem mais indagações? —. Poderia ter sido uma adivinhação previsível? Ele dizia a mesma coisa a todos a que se dirigia? Reprimi uma tosse. Por exemplo: você pode ter um déjà vu quando entra numa casa que tem apenas uns poucos anos de construção. Como aquele sujeito podia saber de nós? E . o campo de estudo da alma tende a atrair desdém e escárnio. — Possivelmente. é muito fácil as reputações profissio- nais entrarem pelo cano. havia uma quantidade espantosa de pessoas que in- formavam terem passado pela experiência. McPherson continuou: — Você deve ser muito paciente com o seu Gerrv. Tom continuava a falar. Eu tomara todo cuidado para jamais mencionar Gerry a ninguém. atordoada. — Dê-me um momento. — Como soube disso? — Ora. se não fosse por uma coisa — disse Tom... — Mas por que é uma coisa tão desprezada? — Porque é considerado um desperdício de tempo absurdo. — Por que há tanta resistência ao estudo da alma como um fato realista? Por que não se investe tanto tempo e dinheiro em pesqui- sar a existência da alma como se aplica na fissão do átomo e na energia nuclear? — Por um lado. Raymond Moody. Em termos de meu conheci- mento pessoal. a memó- ria celular registrasse as reações e a prole herdasse essas me- mórias celulares. Eu precisava de um momento para me ajustar ao que acabara de acontecer.. Ele usara a mesma analogia que Gerry." Fiquei em silêncio. por assim dizer. — Está certo. — Foi o que falei. Nunca antes eu mencionara aqui- lo a ninguém. muito menos o que ele dizia.Muitas experiências assim estavam registradas em Life After Life (Vida Após Vida). Tratei de me controlar. — Quanto ao fato do déjà vu ser simplesmente uma forma de me- mória celular. — O que é então? — É o resultado da alma se projetando astralmente para a casa nova. Alguma coisa como a sua experiência no que chama de sonho flutuante.. por exemplo. do Dr.. Su- perstição e tudo o mais. Pessoas sérias que admitem tais investi- gações são levadas às vezes a se sentirem ridículas. Eu estava espantada. que tanto amava.

um trocadilho. assim se considera.. — A alma está sob o domínio apenas da Igreja? — Absolutamente correto.. Muito boa. — Você gosta de um jogo de palavras. pensando naquele chá absur- do. — E qual é a posição desses grupos de pesquisa que se dedicam exclusivamente à alma? — Fez uma bonita aí.. por assim dizer. Estava quase no fim. – Santo Deus! – Absolutamente correto — acrescentou ele. O gravador girava em silêncio. — Bom.não apenas sabia de Gerry. por assim dizer. do T. Pesquisar esses domínios da Igreja. essa coisa poderia ser real. Fiquei em silêncio por um momento. pensei. – Gostaria de continuar? — perguntou Tom. — O que está querendo dizer é que ao se pesquisar a eletrici- dade pode-se chegar à luz elétrica? Ou se chegar a uma bomba quan- do se pesquisa o átomo? — Absolutamente correto. (N. mas também o que Gerry dissera. a alma é. ahn. Deus do céu. Tomei mais um gole de chá e tentei me controlar.. – Temos uma revelação aqui? — perguntou Tom. é cla- ro) sente que se livrou dos grilhões da superstição religiosa e está agora desfrutando sua liberdade e era áurea. jovialmente. sinceramente. Perguntei muito séria: — Sabia que está representando para mim neste momento? — Para ser absolutamente franco. Esta é a minha natureza natural. E murmurei. Além disso. a antiga carcerei- ra da ciência.. uma questão altamente pessoal. A atitude é com- preensível. Diga-me uma coisa: por que há uma lacuna tão grande entre a ciência e a Igreja? – Porque a ciência só recentemente (em termos cósmicos.) . Isto é.. – Muito bem... devo dizer que sou sensacio- nalmente divertido em todas as ocasiões. Na verdade. não há muito dinheiro nesse tipo de pesquisa. — Mas a prova da existência da alma não alteraria radicalmente a atitude da ciência? — Claro que sim. É apenas uma extensão natural da minha personalidade. seria reconstituir a base de poder da algoz antiga e tradicional. Um momento se passou. acho que não estou sendo tão banal. a ciência acha que não há base para se investigar a existência da alma. solely for the soul. 1 Em inglês. — Mas não há proveito material quando se pesquisa a alma? — Absolutamente correto. — Como assim? — Exclusivamente à alma1. Perguntei-me se era tão crédula a ponto de engolir até uma ba- leia. Havia tantas perguntas que eu tinha de formular. não é mesmo? — Não. Eis outra muito boa: "natureza natural". Mas. Pode me dar mais um pouco da sua in- fusão? Servi mais chá. no senti- do ortodoxo.

Só um momento. — Absolutamente correto — disse Tom. Você está sendo testemunha desta verda- de simples na civilização atual da Terra. deve a alma permanecer para sempre ligada a es- te ponto do mundo-espaço. que à distância já provocam nossa curiosidade?" — Immanuel Kant. O telefone tocou. Eu gostaria que compreendesse agora um conceito da maior importância. Podia sentir John "ajustar suas vibrações". Você está sendo teste- . O nível de realização em qualquer civilização é julgado pela evolução espiri- tual. — Muito bom então. — Tem indagações a fazer sobre suas vidas anteriores? — Tenho. John reagiu. nossa terra? Nunca participará. tirei a caneca da mão de Kevin. como McPherson dissera. O instrumento tem algum álcool em seu organismo? — Não. Acho por isso que não bebeu nada. O telefone tornou a tocar. sentindo-me meio ridícula e atordoada. até que reassumiu a personalidade de John. História Geral da Natureza Um tremor percorreu o corpo de Kevin. verifiquei o gra- vador e tornei a me acomodar. — É mesmo? — murmurei. John disse: — Vai descobrir que. deve também compreender alguma coisa das civilizações ante- riores que conheceu. por favor.. Esperei. por favor? Levantei-me. Haveria problema? — Muito bom. mas se de- tém. O progresso tecnológico é importante e atraente.. Poderia pegar a caneca. — Você esteve encarnada várias vezes durante o período de 500 mil anos da civilização mais desenvolvida que o homem já conheceu. A compreensão espiritual tem as sementes de sua própria destruição. — Saudações — disse a voz de John.. inclinando a cabeça. subtrai ou desvia da compreensão espiritual.. Foi o que a Bíblia simbolizou como Jardim do Éden. — Eu gostaria de saber alguma coisa a respeito das minhas vi- das anteriores. Não atendi. para compreender a alma dentro de você hoje. Ele sacudiu a cabeça. Ele disse que inibia a recepção. tem as sementes de sua própria destruição. Capítulo 133 "Diante da duração interminável da alma imortal ao longo da infi- nidade do tempo. numa contemplação mais íntima das restantes maravilhas da criação? Quem sabe se a intenção não é que se torne um dia familiarizada intimamente com aqueles globos distantes do sistema cósmico.

descobrindo-me um pouco ofegante. a informação sobre uma das questões mais importantes da reencarnação. Ensinam que Deus assume esse papel. ficando um resíduo emocional e uma atração da encarnação anterior? . mas não ensinam que cada indivíduo é fundamentalmente o criador e contro- lador de seu próprio destino. A religião tem explorado o homem. Tornei a olhar para Kevin e a "entidade espiritu- al desencarnada" que ele estava recebendo. a fim de compreender sua divindade e sua associação com Deus. Duas vezes como homem e uma como mulher. O que estou me empenhando em explicar é que cada indivíduo é um co-criador.munha desta verdade simples na civilização atual da Terra. – Quer dizer que eu já vivi numa civilização antiga? — inda- guei. a fim de podermos ter uma empatia com o sexo oposto? – Correto. então para que estamos vivendo? — Uma pergunta boa e importante. por exemplo. sim. ansiosa. Como a humanidade poderia alcan- çar a compreensão de si mesma e de suas identidades sem as experi- ências físicas diversificadas? Tornei a me inclinar para a frente. Era algo inquietante. em conseqüência. há uma progressiva insanidade. ainda procuravam incessantemente pela verdade além desses preceitos? Olhei pela janela para o mar escuro. que nos leva de volta ao as- sunto do carma. — Desculpe. Recebi calmamente. – Já. indagando: — Isso poderia ser uma explicação metafísica para o homos- sexualismo? Talvez uma alma efetue uma transição hesitante de um corpo feminino para um masculino. – Todos experimentamos a vida como sexos diferentes. Perguntei-me quantas das grandes ver- dades da vida nunca poderiam ser vistas. As religiões ensinam religião. ao in- vés de ajudar a ensinar que a humanidade só pode se controlar a- través do autoconhecimento e do conhecimento de seu passado. — Então onde está a esperança para nós? Se estamos indo para trás e não para a frente. assim como do seu propósito no presente e futuro Eu sabia perfeitamente como tal conceito seria explosivo. tornando necessário que você tome conhecimento de sua identidade básica e tenha compreensão do poder de seu livre- arbítrio. confu- são de propósito e total desigualdade e desespero humano. As religiões do seu mundo estão basicamente no caminho certo. As luzes de um barco de pesca piscavam na escuridão. A com- preensão espiritual está muito aquém do conhecimento tecnológico.. mas posso perguntar onde a religião se enquadra em tudo isso? — Há muito do que estou dizendo que seria contestado por suas religiões terrenas.. mais uma vez. que preferem ter o controle sobre a humanidade. Mas não havia muitas pessoas dentro da Igreja que buscavam o auto- conhecimento? Não havia muitas pessoas que.. não espiri- tualidade. mesmo seguindo os pre- ceitos da Igreja. depressão. despertava a ansiedade. É exatamente isso. e várias vezes. A verdade só seria verdade quando pudéssemos "prová-la"? Eu não podia enfrentar o que estava pensando.. provadas ou confirmadas. Isso não é aceito por suas igrejas e religiões. de um modo geral. junto com Deus.

Não era uma coisa que precisasse sublimar ou reprimir. se é desfruta- do espiritualmente. — As almas consortes foram na verdade criadas uma para a ou- tra.. — Andróginas? — Isso mesmo.. — Mas o sexo é um assunto fas- cinante. — Ann. até mesmo para mim. De jeito nenhum. — E quem é você? Isto é. Soltei uma risada. — Desculpe.. — A preferência sexual de tal indiví- duo desempenha um papel importante na necessidade de compreensão de que todos somos basicamente os mesmos. — Não sei se estou pronta para isso. deixe-me começar por explicar o que são almas consortes. Nossas almas. O yin e yang esta- vam tão bem distribuídos que a sexualidade não lhes interessava. são basicamente andróginas. porque todos experimen- tamos ambos os sexos. — Assim é — disse John. Olhei para o gravador.. como Jesus. A elevada compreensão espiritual não conhece di- ferenças de sexualidade. geralmente em referên- cia a pessoas que diziam ter encontrado sua outra metade. tanto em corpo fe- minino como no masculino. Almas gê- meas são mais comuns de se encontrar porque já experimentaram mui- tas vidas juntas. há mais na teoria da Grande Explosão do que vocês imaginam.. já esteve alguma vez num corpo fí- sico? — Claro que sim. Seus profetas antigos e figuras de Cristo. no começo dos tempos ou o que vocês chamam no momento da Grande Explosão. mas o que queria mesmo era saber de tudo o que fosse possível a meu respeito. sim — admitiu John. O se- xo em termos humanos é também um caminho para Deus.. que me empenharei em fornecer mais tarde. não havia conflito e assim não havia tensão.. de uma forma ou de outra. é muito romântico. pois vibravam numa freqüência regular e perfeitamente equilibrada. John fez uma pausa. — E o que é exatamente uma alma gêmea? — Tal pergunta exige muita explicação. por causa de seu sereno nível espiritual de realização. Mas as almas consortes foram na verdade criadas no começo dos tempos como pares que se pertenciam. não acha? . digamos assim. porque os elementos de ambos os sexos es- tão simultaneamente presentes. — Não recomendamos a abstenção de sexo. mas não estamos nos afastando do assunto? — Estamos. — Mas quem eu fui em minhas vidas anteriores? — De acordo com as Gravações Akáshicas. Como pode ver. não eram tanto celibatários. Eu estava curiosa.. Vibram exatamente na mesma freqüência eletromag- nética. Buda e tantos outros. Mas ultimamente tenho permanecido em forma astral. além de fisicamente. Já encarnei muitas vezes. — Almas consortes? Eu já ouvira a expressão algumas vezes. você esteve encarnada com uma alma gêmea. As polaridades são igualmente opos- tas. porque são equivalentes idênticas uma da outra. Simplesmente não lhes interessa- va. Por enquanto.

como há agora. em tom um tanto estridente. Deus! — exclamei. a Voz. — Ahn? — Isso mesmo. – É isso o que significa Orientação Espiritual? — Correto. parecia estar ordenando seus pensamentos. Você foi um dos mais. Emiti um ruído neutro e John continuou: — Portanto. entre os quais estou incluído. Fomos mestres e discípulo. enquanto John. — Deus do céu! — Respirei fundo. pois respondeu mais firme- mente do que antes: — Assim é. — Extraterrenos? John pareceu sentir o meu espanto. Houve uma pausa. — Oh. — Pode me falar mais sobre isso? O que está realmente querendo dizer? Recebemos visitantes do espaço exterior desde o começo dos tempos? John respondeu imediatamente: — O único conhecimento importante é o conhecimento espiritual . envolvendo o intercâmbio cultural com os extraterrenos que se empenhavam em prestar uma ajuda tecnológica e espiritual. — O seu Gerry era então igualmente devotado ao trabalho. Havia extraterrenos visitando este planeta naquela ocasião. — Como? – Por sua própria necessidade de explicar seu comportamento indagações e busca da verdade. Corri os olhos pela sala. pela orientação psíquica daqueles entre nos que consideram que você está preparada para mais da sua própria verdade. Nós acha- mos que amadureceu para a compreensão de que não existe tal coisa como o acaso. Isso seria corre- to? — Gerry — murmurei. ele estava realizando um trabalho importante. — Então já nos conhecemos? — Correto. — Está querendo dizer que fui atraída para este momento de al- guma forma por você e esses guias? — Correto. deixe-me começar pelo ponto em que nos conhecemos. Não é por acaso que você está aqui hoje. desejando ter alguém com quem parti- lhar tudo aquilo. o que se chamaria hoje de "discípulo dileto". Também isolamos a vibração dele e constatamos que vocês foram marido e mulher numa vida anterior. talvez procurando definir uma informação. E de- vemos admitir que isso acontecia em detrimento da união de vocês. A Voz voltou a se manifestar um instante depois: — Isolamos sua vibração durante uma das vidas que passou com uma entidade com quem está também envolvida agora. — Está falando de Gerry? — Assim é. entre divertida e espantada. — Quem são "nós"? — Seus guias espirituais. Ou as duas coisas. Cremos que esta entidade está vivendo nas duas Ilhas Britânicas. Contudo. — E nós nos demos bem nessa outra vida? A comunicação entre nós foi melhor do que é agora? Houve outra pausa.

Não necessariamente. — Desculpe. mas será que eu poderia perguntar ape- nas sobre mim? Já estou encontrando bastante dificuldade para me relacionar com isso. Mas para os seres que possuem mais co- nhecimento. — Ótimo — murmurei. é basicamente boa. a luz é a mais alta e a mais rápida freqüência. assim como vocês do plano da Terra ensinarão um dia a outros. além de muitas outras ao longo da marcha do tempo. — Claro. Você teve diversas vidas com a entidade David du- rante aquele período antigo. Não podia me relacionar pessoalmente com o que John estava dizen- do. É isso o que os extraterrenos estavam ensinando. por exemplo. . verificava que sempre tivera problemas toda vez que fora contra a minha intuição. Todos os outros conhecimentos fluem dis- so. Em seu mundo físico. Talvez fosse por isso que eu me sentia agora tão à vontade na companhia de David. Mas John já continuava a falar: — O seu David é um bom mestre e você pode confiar nele. Você deve aprender a dar-lhe uma chance.. toda a vida. Mas a humanidade. depende da compreensão de freqüências vibracionais e como perten- cem ao universo. Os sentimentos são ilimitados. toda aquela conversa sobre "Deus" estava me deixando constrangida. Isso significa que éramos almas gêmeas? — Não. O intelecto como uma maravilha é limitado. Para ser franca. Mas sentimos que você já sente isso. o pensamento tem uma freqüência muito superior à da luz. O pensamento é parte de Deus. Confie em seu coração. Deve aprender a confiar mais em seus sentimentos e se abster de encarar tantas questões na vida de uma perspectiva rigorosamente intelectual. em qualquer maneira compreensível. — Está dizendo que todos estaremos bem se seguirmos o que está em nossos corações? — Não.. Isso está dentro de sua com- preensão? Eu não sabia como responder. Era algo que podia absorver. Confiar na minha intuição? Era algo que eu podia compreender. Há os sentimentos errados ou pre- judiciais a superar. quando o pensamento é amor su- as freqüências estão vibrando no alto nível de energia.. A vida representa o pensamento de Deus e Deus é amor. como a chama. — Também sabe de David? — Correto.de Deus dentro do homem. — E obrigada. detalhada ou específica. por favor. Queria voltar a mim. assim como o pen- samento é parte do homem. que é a mais alta de todas as fre- qüências vibracionais. Portanto. O conhecimento científico de vocês. Então Gerry e eu fomos marido e mulher. ou em sua intuição. Mas você era e é uma alma gêmea da entidade a que chama David. Deus é amor. Você deve seguir em seu próprio ritmo. — Todos os outros conhecimentos? — Correto.. aliviada. Repassando a minha vida. mais controle. As implicações do que ele dizia eram tão assombrosas que eu não con- seguia pensar numa boa pergunta. Limpei a garganta e tentei dilatar a mente para compreender.

A verdade real é a responsabilidade de cada alma por seu próprio comportamento. Não sabia direito o que realmente significava. de que todas as coisas são partes. — E qual era a verdade real? — A verdade real é o processo do progresso de cada alma ao longo dos tempos. — Reinterpretada por quem? — Por várias pessoas. — Espere um pouco. na consecução de sua própria divin- dade. porque não podíamos "ver". Olhei para as luzes a piscarem do barco pesqueiro. Mas deve-se compreender o processo de progresso de cada alma. — Haverá mais perguntas? — indagou John.. isto é. também não podia imaginar mais perguntas. de um modo geral. através dos tempos e de diversas lín- guas. Mas por que eu me sentia mais à vontade do que outros ao me . Não precisa de uma igre- ja. Não precisa de rituais. pela Igreja. Cada pessoa.Correto. O chá na mesa estava frio. no sentido em que há um equilíbrio. a reencarnação e purificação. Essa é a realiza- ção da Justiça Cósmica para a suprema harmonia. Ultimamente. Kevin continuava sentado na cadeira. Era inadmissível que eu caísse em tais esparrelas. sim. estratificações e cubículos onde se arrojar para obter a absolvição concedida pela Igreja. Era do interesse da Igreja "prote- ger as pessoas" da verdade real.. A Bíblia não é a Palavra de Deus? — É. mas de alguma forma me confirmava que havia mais dimensões na vida do que se podia compreender. Não sabia o que pensar. porque tal verdade tornaria o poder e a auto- ridade da Igreja desnecessários. — E a Igreja nos negaria essa verdade? — Claro que sim. Eu sempre respondera que estava apenas aprendendo. Digamos simplesmente que as autoridades da Igreja desejam "resguardar" a humanidade de uma verdade para a qual acham que as pessoas não es- tão preparadas. é a Energia Divina que criou o Universo e o mantém unido harmoniosa- mente. – Mas o que você chama de Deus? – Deus ou a força-Deus. É essa a palavra que vocês usam. im- passível. — Está se referindo à reencarnação? —. torna-se responsável por sua conduta. Pensei em algumas das pessoas com quem conversara e que me a- chavam ingênua e crédula por sequer admitir a possibilidade de mestres espirituais desencarnados falarem por intermédio de um mé- dium. Mas muita coisa que está em sua Bíblia hoje foi reinterpretada. — Descreveria o que está acontecendo por aqui como harmonioso? — No plano supremo da vida é harmonioso. — Está querendo dizer que é algo parecido com o espírito que os governos adotam hoje? — Assim é. da mesma forma como as dimensões de nossas persona- lidades eram um mistério até começarmos a explorar aqueles aspec- tos com os quais não estávamos familiarizados e não tínhamos per- cepção. Estendi-me no tapete. diziam essas pessoas. a fim de se compreender a harmonia. cada entida- de.

. — John. Mas a personalidade é mais do que isso. Também se sentiam ameaçados. Com is- so. Estão convencidas de que o homem é apenas um corpo e um cé- rebro. Não me ameaçava. Mas era mais do que isso. eu a acu- saria de ser uma escravizadora. Mas então por que alguns dos meus amigos. Chegará um tempo em que também vão querer sa- ber e serão atraídos a dimensões que são mais verdadeiras. Se não o fizesse. assim como eu também não queria. Não mudarão as suas percepções. através de médiuns e reencarnação. Não transtornava a minha aplicação emocional ao que já tinha certeza de que era real. estão seguras na posição de poder que ocupam. Conceda-lhes o privilégio de con- tinuarem em dúvida. Conceda aos céticos a liberdade de serem céticos. Mas é lamentável quando o ceticismo se torna tão profundo e desmoralizante que restringe o potencial de apren- der verdades gloriosas que seriam altamente favoráveis. pois isso implica- ria mudarem a si mesmas ou crescerem para uma percepção expandida . — Como assim? — A personalidade é o aspecto intangível da percepção que só está alojado no corpo por um breve período de tempo cósmico.. Era tudo o que podia di- zer. ao contrá- rio. que tem a mente aberta. Se as pessoas insistem em permanecer em seus sistemas de convicção "ló- gica". Não queriam que eu caísse no ridículo. parecia estar expandindo o que já eram as minhas percepções da realidade. Você. As pessoas pensam que a vida é a totalidade de tudo o que vêem. era tão ameaçadora em termos da minha credibilidade? Por que estavam tão preocupados comigo? Certamente por amor e um desejo de proteção. qualquer que se- ja esse poder. por caminhos espirituais. Apenas sentia que era certo. Por quê? Por que não formular indagações a sério e investigar em áreas e possibilidades que não eram necessariamente "comprováveis"? Que mal "real" isso podia causar? Destruiria as imagens condicionais que tinham de si mesmos? Confundiria as suas próprias percepções da "realidade"? Fiquei de joelhos. deve dizer simplesmente que é do seu ponto de vista. Procu- rarão um plano superior quando estiverem prontos para isso. por que tantas pessoas consideram inaceitável esse fe- nômeno de um mestre desencarnado como você se manifestar por in- termédio de um instrumento humano? Houve uma pequena pausa antes que ele respondesse: — Porque não se lembram da experiência de terem sido desencar- nados. – Mas não é bom questionar as coisas? A certeza absoluta em alguma coisa cria a egomania e o poder corruptor. própria realidade percebida. achavam que aquela busca de um novo conhecimento. Gerry em particular. Toda aquela exploração. – Isso é correto. — Mas as pessoas não acreditam que esse conceito seja real. não parecia destruir a imagem que tinha de mim mesma. — Real? Um pensamento não é real? Mas como se pode prová-lo cientificamente? Pensamento é energia. – Mas como eu posso transmitir às pessoas que manter a mente aberta é a atitude mais sensata? – Você não tem de fazer isso. Aqueles que contestam a e- xistência física de um pensamento ou de energia-pensamento estão contestando com profundo ceticismo as suas próprias identidades. ficam seguras em sua.permitir explorar dimensões de possibilidades incomprováveis? Eu não sabia.

ou não podiam ou não queriam entender. a fim de seguir adian- te. sentem-se embaraçadas em reconhecer a centelha de Divindade dentro de si mesmas. — Por que há guerras. Falam que é simplista demais para ser real.. — Mas não é isso o que as pessoas me dizem. — Mas meus amigos intelectuais dizem que acreditar que se co- nhece a verdade é o supremo ato de arrogância.. Mas o homem tem de complicá-la e esquecer que a conhece. conhece a verdade Divina. Você não pode me ver. É dentro do cora- ção que se encontra Deus. O ego. Mas a única verdade que importa é a verdade do relacionamento que se tem com a fonte ou força chamada Deus. como se aprendesse uma lição. confusos e infeli- zes. E essa verdade se torna limitada quando se aplica o ceticismo intelectual. Os céticos intelectuais evitam a si próprios. Aprender e experimentar a verdade por si mesma é uma luta. Apenas fazia sentido. — Como eu já lhe disse antes: a verdade é simples. E o homem não pode simplesmen- te aprender a verdade. mas pelo coração. Mas enquanto buscam. O caminho para a paz interi- or não é através do intelecto. porque é Divino. Confiam mais em seu intelecto do que na força-Deus dentro de si mesmos. todos os indivíduos são iguais. Isso está dentro de sua compreensão? Pensei por um momento. Mas se um tirano de mente fechada fica exposto ao conhecimento interior. As pessoas estão procurando por esses aspectos em si mes- mas todos os dias. Porque ninguém precisa do intelecto para conhecer Deus. Muitas pesso- as. a fim de se sentirem uma elite. Todas as pessoas procuram a paz. Uma luta para a percepção mais simples. E eu não podia compre- ender por que tantas pessoas tinham de se manter intransigentemen- te contra. sempre se chega à compreensão essencial de que há muito mais para se com- preender além do nosso alcance.. exigem que seus mundos permaneçam seguros. — Mas onde está a segurança do próprio ego. Acreditar que sou tão real quanto elas seria afastá-las de suas zonas de segurança. John? — A maioria das pessoas está sofrendo de ego alterado. — Cada pessoa conhece a sua própria verdade. Alegam que toda a teoria da reencarnação é certinha demais. senti que compreendia tudo. O verdadeiro ego co- nhece a verdade. o habitat natural dos seres huma- nos é o éter.. Lembre-se de que o habitat na- tural dos humanos não é a Terra. a Igreja e a educação. mas há muitos aspectos de si mesma que também não po- de ver.. E quando se começa a compreender mais. paz. as zonas que compreendem e podem controlar. alte- rado pela sociedade. Mas os céticos intelec- tuais são mais propensos a serem conflituados.de si mesmas. Sob esse aspecto. Os seus intelectuais procuram se apartar das massas. no entanto. logo perde a intenção de conquista. É o homem que insiste em torná-la complicada.. não apenas intelectuais. Ele deve ex- perimentar aspectos da verdade em si mesma. à percepção interi- or. Isso é correto. a si mesmo. Nada daqui- lo parecia religioso. Cada indivíduo já conhece a verdade Divina. John? O que leva pessoas a quererem do- minar outras? — Porque os que sentem a necessidade de dominar e conquistar não compreendem a verdade de si mesmos. Sou tão acreditável quanto qualquer um. Compreende como ele é re- .

Sempre aparecem quando são mais necessários. Visitaram a sua Terra ao longo dos tempos para trazer conhecimento e verdade espiritual. Suas religiões dogmáticas. mas eles estão empenhados na mesma luta de conhecimento interior? — Isso é correto. "Algo desconhecido para a nossa compreensão está visitando a terra. Todos os outros conhecimentos derivam disso.. Procure se manter em paz com você mesma. uma autorida- de exterior. que a compreensão espiritual do indivíduo é a única com- preensão exigida para a paz. — Estou aqui. John. andei em círculo diante dele. Deus a abençoe. quando experimenta uma expansão de dimensões em muitos níveis. — John. através da evolução. — E as referências a possíveis extraterrenos na Bíblia eram reais? Pode-se acreditar no que se lê em Ezequiel e todo o resto? — Isso é correto. são extremamente restritivas para a humanidade. quem quer que você seja. não precisa garantir a sua própria imortalidade pe- la conquista dos outros. com Deus e seu trabalho. Mitrov Zverev. pois é parte desse trabalho. — Alô? — disse ele. Levou as mãos aos olhos. num nível superior de percepção. Não sei muito bem o que pensar a respeito. tentando pôr em foco a sala ao seu redor. Servem como um símbolo de esperança e compreensão superior. A posição de conhecimento superior do ego assumida pelo cético é altamente restritiva. mais satisfeita. cientista soviético Kevin estremeceu. por e- xemplo. porque e- xigem uma reverência incontestada pela autoridade. pelo menos alguns. mais importante ainda.. . Você sabe que é Divino. — Obrigada. Tenho de absorver o que você disse. — Alô? Levantei-me. Não me ocorre mais nada no momento. você mencionou extraterrenos. assim como num nível superior de tecnologia. espreguicei-me. agir de acordo. como se estivesse despertando de um sono profundo. Mas deve conti- nuamente lembrar sua Divindade e. Isso será tudo por enquanto? Eu sentia a mente tão abarrotada que tive de dizer que sim. — Alô — falei.almente vasto." — Dr. São ape- nas mestres. Talvez estejam operando. porque descobriram. Você é Deus. Pense no que eu falei e no que você está disposta a aprender. — Chegarei a conhecer algum? Houve uma pausa. Esfregou-os. — Voltaremos a falar dessas questões em outra ocasião. sonolento. A mente humana se torna mais serena. cobriu-os.. a fim de trazer um conhecimento superior de Deus e amor es- piritual. Mas não podem ser reverenciados como deuses. tomo se a vibração do espírito de John pas- sasse através de seu corpo e depois se fosse. — Está bem. Eles apareceram naquele tempo em sua Terra..

Kevin tomou o que restava do chá frio. Não sei direito o que pensar. Olhou para a caneca. E o mesmo acontece com John e McPherson. — Você já viu um disco voador? — Não. Olhei atentamente para Kevin. — Eu estava segurando esta caneca? — Estava. Ele disse que precisava de uma caneca irlandesa para poder pensar melhor. — Tem razão — murmurei. — E sente que a reencarnação é uma coisa certa? — Não poderia deixar de ser. — De onde isto saiu? — McPherson. hesitante. Você acredita nisso? Kevin sentou. Sinto que é o mais certo. — Mas acredita assim mesmo? — Claro. Sentiu que era certo o que se manifestou? Eles me disseram para simplesmente confiar em meus sentimentos. – Poderemos voltar a nos encontrar em breve. Uma porção de coisas sobre pessoas que conheço agora e que teria conhecido também em outras vidas. co- nheço uma porção de pessoas que dizem já tê-los visto. Kevin empertigou-se na cadeira e depois levantou-se. – Também acho. Por que então não existiriam? Além do mais. Não há mais nada que se possa fazer.. — Claro que acredito. — Interessante. – Então vou pegar a minha dama. Por que não? Não apenas são mencionados na Bíblia. a existência da alma em muitas dimensões faz sentido pa- ra mim. mas aparecem de uma forma ou outra em quase todas as culturas da Terra. E até onde pos- so saber. não é mesmo? Afinal. — E que mais? — Você acredita em tudo isso? — Acredito no que sinto ser certo. não sou um instrumento através do qual tantas entidades espirituais falam? Portanto. Se não for assim. — Faça apenas o que julgar certo. — Como foi? — Foi uma coisa incrível. ainda não tive esse prazer. sou um ator ou um doido. Um pouco antes de 10 horas.. mas não poderia arruinar um horário para mim? . — Mas eles disseram coisas incríveis! — Por exemplo? — Sobre vidas anteriores.. mas a prova contrária também não existe.. a partir do mo- mento em que se começa a formular tais questões. Distraidamente. Kevin? Sei que anda muito ocupado. – Que horas seriam agora? – Boa pergunta. — Mas John também disse uma porção de coisas sobre extraterrenos que proporcionaram todos os tipos de informações espiritualmente avançadas à raça humana. não sou nenhuma das duas coisas. E quem sou eu para contes- tar todas as autoridades que dizem haver uma boa possibilidade de que existam realmente? Conheço muitas pessoas que negam a existên- cia dos discos voadores. Ele encaminhou-se para a porta.

E pergun- tei-me se os médiuns não precisariam ser involuntariamente tea- trais. que nós ajudávamos a criar. Fora isso o que acontecera a Walt Whitman. Se a experiên- cia da alma era tudo o que importava e a existência física fosse literalmente irrelevante. Reconstituí uma coreografia que já fizera muitas vezes a fim de pegar no sono. o marulhar das on- das. há 500 mil anos? Se eu realmente acreditasse em tudo isso. tentando neutralizar o fluxo magnético de energia. A sensação era física. Sentia que precisava de alguma forma me fixar no aqui e agora na Terra.. Imaginei o prazer de um sundae. o que uma dimensão espiritual adicional representava para o planeta e todos os seres humanos que nele viviam. então cada segundo a viver na Terra era precioso justamente por se relacionar com um desígnio mais am- plo. por não existir uma coisa como a morte de uma perspectiva cósmica. Que coisa espan- tosa e maravilhosa seria! A percepção da realidade de todos seria válida. Mudei de posição. a brisa que soprava do Pacífico e entrava pela janela. Eles eram criados na convicção da reen- carnação da alma de uma vida para outra. familiares. um desígnio global. em torno dos lábios. – Deixe-me verificar com a minha dama e depois lhe falarei. ele ajeitou o sobretudo bege nos ombros. eu podia compreender.. ao chegarem à conclusão de que a reencarnação não apenas era possível. Estendi os músculos das pernas. Observei-o encaminhar-se para seu "veículo" na rua. não havia a menor possibilidade de poder continuar a andar por este mundo como sempre fizera até agora. Se fosse esse o caso. Talvez ambos existam ao mesmo tempo. Aris- tóteles e Thoreau. Numa pose relaxada. Talvez. mas também provável? Não era de admirar que os asiáticos tivessem um conceito de tempo diferente do que predominava no Ocidente. como os filósofos e até mesmo alguns cientistas alegavam. Era uma energia muito estranha. A energia continuava a vibrar. então a rea- lidade tinha mais dimensões do que eu jamais considerara. Senti o significado da música na mente. numa escala colos- sal. Ri de mim mesmo. Pitágoras.. o passeio que eu faria pela manhã. a calda de chocolate escorrendo sobre o sorvete de baunilha. a fim de manter a própria identidade. Sentia a mesma vibração nas pontas dos dedos. Fui para a cama. Talvez o tempo e o espaço sejam tão relativos que não são mensuráveis. Contei cada passo e movimento da mú- sica. e precisamen- . O que estava acontecendo? O que era re- al? Eu teria mesmo vivido em algum lugar com Gerry e com David. Talvez a alma dentro do meu corpo esteja me dizendo que tudo é real. Abri a porta e agradeci-lhe. Eu estava quase com medo. Saiu e desceu a escada como um personagem de The Lodger (um filme antigo a que eu assistira na infância). Estava fadada a mudar minhas percep- ções. Não conseguia dormir. Não adiantou. mas também positiva. As pernas vibravam com uma energia interior estranha. mas ao mesmo tempo eu podia sentir a energia emanando de alguma forma da minha mente. quase magnética. a reali- dade fosse apenas o que a pessoa podia perceber. E se isso fosse verdade. entre as flores silvestres das montanhas. Tentei me concentrar em coisas pequenas.. por ser algo tão desconhecido. pensei.

(dúvida não há de que 10 mil vezes já morri antes. Meus pensamentos se concentraram na minha amiga Bella Azbug. numa civilização antiga. com al- guém por quem está apaixonada agora? — Não foi Kevin. fiquei me revirando na cama.te porque cada átomo tinha um propósito. Vida. Levei muito tempo e ela não me interrompeu uma só vez. e que é tanto uma parte de nós como também so- mos dela. E quanto a ti. Falei com duas enti- dades. essa foi a primeira coisa que me ocorreu. Voltando para casa. Tenho lido muita coisa sobre essa história de mediunidade e não acredito que esteja sendo enganada. O telefone estava tocando quando abri a porta. Qualquer coisa com pêssego sempre ajudava. Finalmente parei e Bella disse: — Vamos ver se entendi direito. remexendo-se na cama. com a mesma alegria. Era Bella. sei que és o resíduo de muitas mortes. Ele era apenas o canal. Esse tal de Kevin disse que você já tivera uma vida anterior. mas se era. Capítulo 16 "E quer a mim eu chegue hoje ou daqui a anos. comecei a imaginar como meus amigos reagi- ram ao que acontecera. Canção de Mim Mesmo Dormi até tarde no dia seguinte.. E é claro que pode ser verdade.. Imaginei se chegaria um tempo em que os políti- cos poderiam se empenhar em sua busca espiritual sem parecerem de- sequilibrados aos eleitores. Havíamos nos tornado íntimas.. Posso alegremente aceitar agora ou então esperar. uma chamada McPherson e outra John. 10 mil ou 10 milhões.)" — Walt Whitman. talvez o propósito daque- le conjunto particular de átomos. Eu a conhecera e trabalhara com ela na campanha presidencial de McGovern. Não conseguia me levantar. fosse o de transmitir a mensagem de que somos parte da força-Deus que criou todas as coisas... até que finalmente peguei no sono. fui direto ao Colony Market e comprei io- gurte de pêssego. — Ora. — Não importa qual era o nome. Bella. Esse tal de Kevin devia estar simplesmente inventando e representando. Imaginei o que ela pensaria. ele deveria receber um Oscar que ainda não inventaram. Trata-se de uma coisa que uma porção de pessoas experimentam todos .. Contei-lhe o que acontecera em minha sessão com Kevin. E quando finalmente o fiz. Numa bola de confusão a vibrar.

Bella. seguindo-se muitos outros.. Fora uma época que testemunhara Isaac Newton.os dias. mas você diria que teve uma experiência religiosa? — Mas claro que não! — Então o que é? Está querendo me dizer que acredita na reen- carnação? — Não sei. mas não da convicção na alma e uma divindade e sim uma rejeição da religião formalizada e pensamento autoritário. pensando que ali encontraria refutação e ceticismo. o poeta Dryden e o estadista-intelectual Joseph Addison. Sócrates e Aristóteles (que posteriormente contestou a reencarnação. Shirley. — Enquanto falava. Respondi que certamente o faria. já que era um assunto que me interessava parti- cularmente. mas também que notáveis pensadores do Oci- dente partilhavam essa visão do propósito cósmico da alma. — Minha querida — disse ela finalmente — não quero que você saia magoada dessa história. De Pitágoras a Platão.. enquanto à noite estudava cada livro que podia encontrar para me ajudar a definir meus sentimentos e pensamentos decorrentes das questões que vinha formulando sobre vida e propósito. O ceticismo havia de fato. Estava contente por ter um escritório na minha casa em Malibu que era particular o bastante para fechar e trancar a porta. Tenho de saber mais. não em pensar. De certa forma. a Idade da Razão. está bem? Respondi que estava e Bella arrematou: — E não deixe de me ligar. E eu sinto que as coisas di- tas pelas entidades espirituais podem ter realmente me acontecido. . compreendi uma coisa e acrescen- tei: — Não posso parar agora e esquecer tudo. Houve um silêncio prolongado.. Eu lia do a respeito. — Sem intenção de ser irônica.. Eu comparecia aos ensaios para uma tournée internacional com meu espetáculo ao vivo. Começou então um período interessante e multidimensional da minha vida. como se intitulava. Havia resmas de material sobre reencarnação somente. como John Milton. Minhas estantes começaram a ficar repletas com material me- tafísico esotérico. não a qualquer outra pessoa. fazia piadas com o pessoal da companhia durante o dia. Fiquei espantada ao descobrir que a reencarnação não apenas era uma parte integrante da maioria das crenças do Oriente (o que eu já sabia).. Só lhe peço para não fazer nada dra- mático ou público.. afastando-se de seu mes- tre platônico). representava. continuando por Plutarco e chegando ao século XVI- I. Não me sentia preparada para responder a perguntas sobre os livros que vinha lendo. cantava. Só posso descrevê-lo como um tempo de viver em vários níveis. Cheguei ao século XVIII. simplesmente não sei. A coisa toda parece se basear em "sentir". quando surgira toda uma escola de pensadores conhecida como os Platonistas de Cambridge. Houvera uma explosão de novo pensamento e uma ratificação do di- reito de pensar. é ver- dade que as convicções orientais estavam enraizadas na religião. enquanto os conceitos ocidentais pareciam derivar mais de raízes filosóficas. Dançava. é a mim mesma que estou escutando.

toda uma escola de arte moderna. mais uma vez. Sir Arthur Conan Doyle. Por acaso a alma de Gengis Khan anima agora um crítico que. Eu mal podia começar a arranhar a superfície. Heinrich Heine. Malevi- ch (teosofistas. Se me sentia atordoada. Fiquei deliciada ao encontrar personagens tão diferentes como Lorde Hugh Dowding (comandante aéreo britânico du- rante a Segunda Guerra Mundial). O que o século XX tinha a dizer? Descobri imediatamente.. Camille Flammarion (o astrônomo francês) e Gustaf Stomberg (o astrônomo e físico sueco-americano). Mark Twain. Voltaire.... Rainer Ma- ria Rilke.. Malcolm Cowley disse de Whitman: "O universo era uma trans- formação contínua para Whitman. Aos 25 anos. Carlyle e Wordsworth. o grande filósofo alemão Immanuel Kant. tinha de existir antes e depois da morte). Entre eles estavam homens com Thomas Edison. poe- tas.Benjamin Franklin. e a maioria dessas mentes ex- traordinárias acreditara no renascimento da alma. então certamente.. Jack London. ex- pressaram suas convicções no que escreveram. que havia uma massa enorme de material escrito sobre o assunto. o poeta lírico e crítico alemão. diariamente açoita a alma de seus fiéis Bashirs e Kalmucks nas páginas de algum jornal. para ci- tar apenas uns poucos. Louisa May Alcott. historiadores. encabeçada por Mondrian. o brilhante orientalista Sir William Jones.. estava descobrindo rapidamente que ti- nha boa companhia. apresentara uma "imagem" extraordinariamente consciente: Quem pode dizer qual o alfaiate que agora herda a alma de um Pla- tão. a litania de nomes era interminável. pela lógica. Leaves of Grass de Walt Whitman é um hino à reencarna- ção. Robert Frost. Havia também inúmeros cientistas. a que haviam chegado através de uma a- nálise pragmática da maravilha da vida neste mundo. um processo e não uma estrutura.. John Masefield. Kandinsky. Entre os muitos escritores estavam Henry Miller. (O Mar do Norte) Li também o material dos transcendentalistas americanos. Eram homens em revolta contra a re- ligião ocidental. convencional e autoritária. assim como Hermann Hesse. todos eles). Klee. Goethe manifestou su- as convicções em cartas. enca- beçados por Emerson e Thoreau. muitas vezes em combinação com o estudo dos orientalistas. todos no mesmo barco da reencarnação. qual o mestre-escola que é herdeiro do espírito de César?. McTaggart fora reconhecido como o mais . filósofos e cientistas.. pintores. assim como músicos. Schopenhauer. como haviam sido os seus precursores. Se o trabalho de alguém sobressaía do resto era o de John El- lis McTaggart. entre os quais Kant. Foi uma época do desabrochar do intelecto.." Ao longo dos séculos XVIII e XIX houve grandes homens das le- tras. Thomas Wolfe. ensaístas — e políticos — todos manifestando a convicção na reencarnação. Ernest Seton Thompson (fundador dos Escoteiros da América!). para outra vez indicar apenas uns poucos da lista extensa e eminente de pessoas que acre- ditavam na teoria da reencarnação. Pearl Buck. tinha de ser julgado do ponto de vista da eternidade. sem o saber. Lloyd George (político britânico) e até mesmo Henry Ford. mas reconhecendo que se existia uma alma imortal.. como William Blake e Goethe. o historiador e economista escocês David Hume (este último dedicou-se à razão.. Muitos escritores e poetas.

Se a filosofia de McTaggart fazia sentido para mim. mas não privado da crescente força e refinamento da mente que ganhara através da aquisição de conhecimento. num uso para a recordação da vida passada. O problema aqui é mais importante. muitas ho- ras de felicidade e pesar. como acredito.. Mas tais coisas não passaram sem deixar sua marca no presente. A ou- tra e mais provável alternativa é a de que o processo de me- lhoria gradativa pode continuar em cada um de nós depois da morte dos nossos corpos atuais.. como acontecia comi- go.. um homem pode levar para a próxima vida as disposições e tendências que adquiriu nas lutas morais desta vida. Sempre contribuem. o's psicólogos vinham usando a hipnose regressiva para desco- . para o amor presente. É desnecessário dizer que eu não conhecia nenhuma dessas obras extraordinárias. (que podia) ser comparado com justiça a Novenas de Plotino. E se assim é. que encontramos não apenas o supremo valor da vida. mas também encontravam um propósito para isso. mas também a suprema realidade da vi- da e até mesmo do universo. cada um deve ter deixado uma marca no meu caráter. que não está esquecido. um homem que morre depois de adqui- rir conhecimento – e todos os homens adquirem algum — pode entrar em sua nova vida privado de tal conhecimento... não podemos esquecer que o caráter pode permanecer determinado por algum evento que foi esquecido.. D. da morte. em Imortalidade Humana e Pré-Existência. embora este- jam esquecidas. Em particu- lar. seu valor não se perde se o mesmo amor é mais forte numa vida nova por causa de tudo que aconteceu antes. muitos serviços. se toda a memória do amor de uma vida é arre- batada na morte. A primeira é de que alguma tremenda melhoria — uma melhoria em total desproporção com qualquer coisa que se pode alcançar na vida — ocorre no momento. se é no amor e em nada mais.... Mc- Taggart. não apenas acredi- tavam.. A ausência de memória não precisa destruir a possibilidade de uma melhoria se estendendo por diversas vidas..eminente dialético e metafísico desde Hegel. dissera que McTaggart figurava "na primeira fila dos grandes filósofos históricos. Já esqueci a maior parte dos atos de bem e mal que cometi na minha vida a- tual. ele estará mais sábio na segunda vida por causa do que aconteceu na pri- meira. Muito se esquece em qualquer amizade que durou por vários anos dentro dos limites de uma única vida — muitas confidências. C.. Mas descobri que as palavras do próprio Mr. . faziam muito sentido: Até mesmo os melhores homens não estão. num es- tado de perfeição intelectual e moral que lhes permitiria en- trar no paraíso imediatamente. E permanece o amor. Broad. Assim.. Da mesma forma. descobri que havia também os que estavam interessados. Isso é geralmente reconhe- cido e de um modo geral se adota uma de duas alternativas em conseqüência. Ética de Spinoza e Enciclopédia de Hegel". em Cambridge. que su- cedera McTaggart como professor de Ciências Morais no Trinity Col- lege.. E. quando morrem. no entanto..

tipo de alimento ingerido. mas minha programação nunca se ajustava à disponibilidade dele e vice- versa. O trabalho era árduo. Pois eu ainda estava no meio de minha excursão. mas sim a estabelecer a valida- de de vidas anteriores. revelavam in- teresses ocultos pela reencarnação e sentimentos de memória que não podiam definir ou explicar. Descobri-me a lembrar que "John" dissera que eu de- veria permitir que as pessoas na minha vida conduzissem a sua ca- pacidade de percepção em seu próprio ritmo. lia e especulava.. em mais de mil pacientes.. Helen Wambach realizara uma série de experiências. situação social. A excursão foi uma alegria. Conversei com Gerry dos lugares mais exóticos do mundo. outras haviam recebido entidades espirituais. eu compreendia como Gerry esta- va profundamente absorvido na política e também que era de cres- cente impaciência a minha atitude em relação à sua relutância em manifestar qualquer interesse por minha preocupação com a expansão da percepção. estu- dava e lia. mas era difícil discutir meu crescente interesse pela metafísica espi- ritual em telefonemas internacionais. Este livro... ou seja.. Reliving Past Lives (Revi- vendo Vidas Anteriores). cada um dos quais fez pelo me- nos três "viagens". Sentia-me mais perceptiva e mais capaz de absorver i- déias da minha própria realidade interior. Na verdade. tudo se tornava agora uma questão de apro- fundar a investigação especial. mas ansiava por encontrar alguém que estivesse realmente envolvido para se in- teressar pelas possibilidades de outras dimensões. devia conce- der o ceticismo aos céticos. A cada conversa artificial. cada um recebendo as mesmas perguntas em cada viagem. mas relutavam em discutir com receio de parecerem excêntri- cas. eu não acreditava neces- sariamente em tudo o que estava lendo e aprendendo. Canadá. Uma certa Dra.. talvez mais do que qualquer outro. não visando originalmente a ajudar pacientes (embora em vários ca- sos esse fosse um dos resultados). ou de qualquer outra for- ma. durante o dia. como foi conduzida cada uma e os resultados ex- traordinários de suas investigações sobre recordação de vidas an- teriores. eram então correlacionados pelo perí- odo de tempo. muitas ti- nham recordações de vidas anteriores que tinham certeza de serem reais. Austrália. Para mim. raça. Algumas tiveram experiências fora do corpo. Eu ansiava para que pudéssemos nos encontrar pessoalmente. conheci pelo caminho algumas pessoas que pareciam discreta- mente empenhadas em sua busca por uma identidade mais profunda.. não deixava qualquer dúvida em minha mente de que vivêramos realmente vidas anteriores. arquitetura e outros pontos de referência. mas gratifi- cante. Apresentava-me em teatros à noite.. Em seu livro. Escandinávia e A- mérica. .brir traumas de vida anterior que estavam aflorando nesta vida. A realidade era uma verdade subjetiva e eu sabia que a minha realidade estava se expandindo. e é claro que eu queria conversar com alguém sobre tudo isso. anotados antes de se discutir qualquer via- gem com quem quer que fosse. Descobri que estava conhecendo pessoas que. acompanhada por malas de livros. Apresentei-me na Europa. ela descreve detalhadamente a gênese de suas experiências. vestuário. assim que encontrasse tempo para isso. Os resultados. em drinques e jantares depois cios espetáculos.

Estava passeando calmamente por uma rua de Kioto quando avistou um traje de samurai na vitrine de uma loja de anti- güidades. Eu o conhecia muito bem. Fiz uma tournée por diversos países.. E sem qualquer preâmbulo. Uma tarde. Parou abruptamente. Uma nova percepção pode ser bastante desconcertante assim que é descoberta. imaginando quando que eu própria começaria a recordar vidas anteriores que poderia ter levado. descreveu-me uma viagem recente que fi- zera ao Japão. Parado ali.. conversando com muitas pessoas e lendo.. vestia jeans. que havia eventos e traumas que eram anteriores à vida atu- al. a aparência meticulosa do sou-apenas-um- vagabundo-que-não-se-importa-com-nada. mas não es- tava à venda.. e seu brilho irônico fora um dos principais motivos que me haviam feito ficar interessada por ele durante alguns anos. Entrou na loja para comprar o traje. Voltei a Malibu para um descanso e para reexaminar minhas ano- tações.. Passei a me sentir mais livre ao aplicar as minhas novas idéias à vida e ao trabalho. fascinado. olhando para o traje antigo. cenas de batalha fluíram por sua memória. ele perguntou: — O que está acontecendo? Por onde você andou durante o último ano? — Estive por aí. no pe- queno parque perto do restaurante de alimentos naturais em Malibu. Experimentava novos pensamentos e novas pres- suposições a cada país que visitava. em Nova York. olhando para o traje. a sensação do material junto de sua pele. Disse como se lembrava da espada. Um episódio em particular me impressionou. a sua arrogância quando a usava.. Ao me relatar a história. Não sabia muito bem co- mo analisar o que havia em minha mente. A primeira coisa que senti foi uma pancadinha na cabeça. depois de tomar um suco de cenoura e comer um ham- burger de tofu. a quem eu não via há anos. Experimentei um espanto velado por descobrir que havia tantas pessoas pensando assim. ele disse que ficou sur- preso ao sentir-se bastante livre por ter manifestado que acredi- tava haver vivido uma vida no Japão. Podia-se perceber que ele era inte- ligente pelo traje.Muitas me disseram que a ajuda psiquiátrica não era bastante pro- funda. Muitos disseram que sentiam que o condicionamento e experiên- cia da infância não explicavam alguns dos seus temores e ansieda- des mais arraigados. Excursionei por cerca de três meses. Voltei há poucos dias. Era sele- tiva com as pessoas com quem discutia o que sentia. procurando definir meu pensamento. podia ser extremamente cáustico e cinicamente espirituoso.. que "sabia" que lhe pertencera. . pois foi ao mesmo tempo coerente e totalmente inesperado. Compreendi no mesmo instante que era Mike. fui encontrada sob a árvore por um amigo com quem eu tivera uma ligação amorosa profunda e que por ali passava por acaso. mas quase sem- pre descobria que isso não era necessário. Ele fumava um cachimbo. Ele era escritor e diretor de TV.. Um velho amigo da Irlanda. Andava muito pela praia. cami- sa de malha e blusão de couro. até que se recordou de ter morrido com aquele uniforme. que era geralmente a maneira como ele dizia alô. — Ainda está dominada por aquela ansiedade mística de viajar. Às vezes sentava com um livro sob uma árvore. Limitei-me a assentir e escu- tar.

Fiquei de joelhos. Às vezes o mundo era exageradamente uma bola de golfe. pensei. Não sei direito. Classifiquei de abstrata por algum tempo. não é mesmo? Isso é ótimo. amigo velho: acha que eu sou ingênua? Acha que sou o tipo de pessoa que acredita em tudo que lhe contam? Mike soprou uma baforada do cachimbo. Assim. . como se compreendesse (o que ele sempre fazia) que eu estava preocupada com traços do meu caráter que até então desconhecia. Admiro isso. — Ele falava com sinceridade e ime- diatamente continuou: — Tem alguma coisa na sua mente. Mike? — Não. — É bom ver você. — Gostaria que me dissesse uma coisa.hem? — Fiquei surpresa com a percepção de Mike. mas me fez procurar também pelas coisas mais profundas. Pode levar um cara à loucura. enquanto você queria saber o que havia no fundo da mente do lixeiro. claro que não. subitamente sério. — E o que queria me dizer pouco antes quando me chamou de mís- tica? — Shirley. – Não. — Claro que sim. pois não esperava real- mente que eu falasse de minha vida amorosa. acho que tendeu a ignorar as áreas em que havia problemas. Então é assim. pois logo acrescentou: — Tem sabido combinar o seu trabalho com essa ansiedade de viajar. — Isso é uma queixa. exceto por um namorado se- creto que vai encontrar na Europa em constantes viagens. Sempre quis saber o que havia por trás de tudo. em que todos sabiam de tudo. Mas acho que às vezes encontra algo bom onde realmente não existe nada. Muita honestidade da minha parte. – Como assim? — Quando você foi à China. — Tem razão. sorrindo um para o outro. Uma dupla de ex-amantes sorrindo satis- feita um para o outro. você sempre teve uma compreensão das coisas que me parecia de certa forma com a filosofia oriental. Shirley. queria que a revolução ali fosse bem-sucedida. — Sempre sabia mesmo quando isso estava acontecendo? Era um aspecto dele que não me fora evidente quando estávamos juntos. Ele sorriu. eu não diria que você é ingênua. E Mike também riu. Mas é isso aí o que es- tou querendo dizer. Mike inclinou-se para a frente e pegou o meu livro.. hem? Ficamos em silêncio por um momento. Tem uma mente implacável e inquisitiva. procurando um significado mais profundo. Eu sorri. posso compreender a sua avaliação positiva do que estava acontecendo por lá. Eu sempre quis saber quem recolhia o lixo. Soube que vem se mantendo praticamente isolada. enquanto Mike se acomodava ao meu lado. Mas não queria que você partisse e por isso jamais o mencionei. Shirley. mas ele não me deu muito tempo para pensar a respeito. Assim. — Repassei os relacionamentos em que ouvira a mesma reclamação. Mas apenas ri. É apenas a maneira como você é.. Você parecia atraída por idéias que não eram exatamente objetivas. É claro que sei que você viu apenas o que eles queriam que visse. por exemplo. Eu sempre podia dizer quando você estava que- rendo sair pelo mundo.

— Como assim? — Eu estava agradavelmente surpresa pela pers- pectiva de uma possibilidade de diálogo com Mike. Todo mundo por aqui está metido nessas coisas. mas não me aprofundei.. Austrá- lia. Mas encontrei o mesmo interesse em uma por- ção de outros lugares.. não é mesmo? — Acho que sim.. na virada do século? Ele entrou em contato com seu filho morto ou algo parecido.. — Então virou Califórnia. Soltei uma risada. Não estou interessado se já fui um escravo egípcio há cinco mil anos. E tenho lido muita coisa a respeito. a impressão era de que se estava num julgamento. — Que prova? — O Congresso dos Estados Unidos. — É mesmo? Quais? — Ora. Somente a Califórnia poderia eleger um governador pirado. — O que é isto? — Apenas um livro.. — Acho que pode ser verdade. — Estou entendendo. mas senti o estômago se contrair.. no mundo inteiro. — Por exemplo? Quando Mike resolvia fazer um interrogatório. Eu tenho provas de que existe vida depois da morte. ou às vezes aquela coisa do déjà vu. tentando decidir se devia ou não me lançar à discussão. — Muito engraçado.. Às vezes era apenas um sentimento que ti- nham. Vou agora receber o tratamento completo. — É isso aí. — Acho que já temos problemas demais no mundo. além do fato de que deve mesmo ter a- contecido. — E o que essas pessoas disseram? — Contaram histórias. — E o que você tem a ver com isso? Está mantendo contato com Chu En-lai por intermédio de um médium? Mike sabia que eu achava Chu En-lai atraente e que prova- velmente teria feito qualquer coisa para conhecê-lo. não é mesmo? — Exatamente. pensei. Claro que me descobri a especular por que ele apresentara a- quela imagem em particular. aqui e agora. — Engoli em seco. Mike. Mike fitou-me nos olhos... Algumas se lembravam de experiências re- ais de vidas anteriores. Mike. — Sobre reencarnação? — Isso mesmo. .. Lodge realizou uma porção de pesquisa psíquiCa que nunca foi explicada. — Por quê? — Não sei. hem? — Califórnia? – Isso mesmo. — Ahn. — Conversei a respeito com muitas pessoas na Europa. — Já ouviu falar da canalização em transe? — Está se referindo àquelas coisas sobre as quais Oliver Lodge escreveu na Inglaterra. Em todos os lugares a que fui. Canadá.

está lembrada? E estou do seu lado. É um processo de admitir novas dimensões. artistas. en- tende? Não falei nada.. — Quer me falar a respeito de tudo isso? Peguei um cigarro e acendi-o. Falei de Ambres na Suécia. Ele tirou o cachimbo dos dentes e ficou em silêncio por um mo- mento. Apenas continuei a fitá-lo. Sinto que qualquer coisa é possível. tirou uma baforada do cachimbo. da reencarnação. — As pessoas teriam de dizer o que aconteceu com a nossa Shir- ley. — Espere um momento! — protestou Mike. Estou no processo de descoberta de uma por- ção de coisas novas.. Mike. Falei das informações sobre vida anterior que ouvira a respeito de mim mesma. e fui bastante defensiva para concluir o relato ressaltando para Mike que eu estava em excelente companhia. — Não. para os quais a reencarnação era um fato aceito de suas vi- das. de John. não é mesmo? Mas lhe falam sobre vidas anteriores e extrater- renos.. e não vejo qualquer ingenuidade nisso. Sempre fui uma pessoa de mente aberta. até mesmo líderes religi- osos. Mas talvez seja possível entrar em contato com guias espirituais desencarnados.. Estou praticamente convencida da existência de vi- das anteriores. sim. Suguei o canudo. A realidade está me parecendo muito relativa. outra voz sai de sua boca e você acredita no que está ouvindo? Mantive o silêncio. que também sentiram a afinidade de terem vivido antes. sou Mike. Contei que lera muito sobre outras pessoas do mun- do. portanto. Cuidadosamente. e por que não? — Mas você acredita mesmo? — Não sei. Mencionei todas as pessoas famosas e inteli- gentes. — Shirl. É todo um mundo fascinante que não estou disposta a ignorar. Contei que muitas pessoas estavam apren- dendo tudo sobre o mundo através da mediunidade. filósofos. Quero saber. E não gosto de vê-la nessa posição. — Pois acho que é justamente isso o que continuo a ser. apoiado no cotovelo. que já estiveram num corpo físico e não estão mais. Deus e extraterrenos que teriam supostamente trazido a mesma mensagem. Isso é um absurdo. E que eu estava convencida de que alguns médiuns podiam ser embusteiros. Mike inclinou o corpo para trás. além dos ensinamentos de amor espiritual. sentindo o ruído do borbulhar no fundo do co- po vazio.. cientistas. — Quando um produtor de Hollywood tira o sangue de um roteirista. — Uma pessoa entra em transe. A úni- ca coisa é que neste momento estou um pouco confusa sobre a exis- tência de uma coisa a que se poderia chamar de "realidade" verda- deira.. .. apenas com base em evidências empíricas. não é mesmo? — É. mas isso não se aplicava a todos.. Estou investigando. não com Chu. McPherson e Kevin na Califórnia. isso é real. Você parece crédula e ridícula. no passado e no presente. — Foi por isso que perguntei se me julgava ingênua.. e.. descrevi o que estava acontecendo. A verdade é que não me sinto ingênua ou crédula.

que sempre tiveram tudo. Não aconteceu comigo. então a vida se torna uma questão de como assumir uma situação de injustiça. Mas ser privado de uma casa. Mas se acontecesse. É real para ele.. as melhores roupas. tudo isso é absolutamente sem sentido.. E talvez se torne real também para os filhos dele. essa coisa está acontecendo durante todo o tempo. carro. – Posso compreender sua atitude.. Além do mais. — Pode compreender. Portanto. acho que estou di- zendo que terei de ir à guerra se não quiser permitir que me ex- plorem. Talvez haja uma lição nisso. Mike. talvez mesmo uma autoridade religiosa.. pensando em todas essas besteiras de Deus e amor. não é real.. aparelho de TV. — Não. não é isso o que estou dizendo. — Qual é a lição que se pode encontrar num homem que não é ca- paz de dar de comer aos filhos? — Não sei. deixando-se ser oprimida? A eloqüência de Mike era às vezes comovente. Mas se nunca morremos realmente. as gaivotas gritaram. — Mas que merda. não . Shirl.. além de acumular muito carma desfavorável? Se a morte é final. Shirl! Está querendo dizer que ficaria de braços cruzados. para milhões de pessoas que nunca tiveram essas coisas. então o que você realizou. — Claro. Mas eu me pergunto se realmente matamos nossos inimigos. por experimentarem pela primeira vez na vida ca- rência ou privação. Uma nuvem passou diante do sol. a fim de me com- preender melhor. claro que sim. In- dependente do motivo para matar outra pessoa. Talvez o que pareça com opressão seja algo que eu precisava experimentar. E é igualmente irreal para um punhado de pessoas na outra extremidade. É certamente a solução habi- tual. quer se permita ou não. se a lei de causa e efeito está em operação. eu tentaria compreender. Ensinar às pessoas que devem virar a outra face é um convite aber- to à tirania. e essa é justamente a raiz da reencarnação. talvez não seja a parte do dinheiro que é importante. Talvez a vida seja constituída por lições e isso seja a re- alidade. Creio na autodeterminação e na revolução se algum filho da puta está me oprimindo. Mike recostou-se na árvore. Pode estender o exemplo a um cenário mundial de ricos e pobres. Mike. que todos os déspotas do mundo se aproveitaram desse tipo de pensamento e causaram um sofrimento in- compreensível? Apoiar essa filosofia é desprezivelmente farisaico. diz para fazê-lo. É o mesmo dilema. – Concorda então em matar se é você quem sente isso ser neces- sário? – Se algum cara está tentando me matar primeiro. se é pessoal ou por- que algum governo. boa comida. Procu- raria descobrir por que e não atribuiria toda a culpa a quem me sacaneou. como se tivessem tomado a decisão coletiva de partir. não é mesmo? — Guerra? — Exatamente. ao invés de apenas ficar ressentida. mas apenas que talvez eu não fosse realmente oprimida. Portanto. ao invés de não permitir que aconteça por meios violen- tos.

ao invés da ansiedade que estava demonstrando. Mike pegou minha mão e afagou-a. como se diz.. — Está querendo dizer que esta conversa é parte dessa defi- nição de problemas anteriores? . Sendo assim. Não posso deixar como está. é a coi- sa mais significativa em minha vida neste momento.. E. Mas as pessoas simplesmente deixam a coisa sem explicação.. Poderei descobrir se você e eu tivemos um relacionamento cármico numa vida antes desta. Mike. Mas o que isso poderá fazer a você? — Como assim? — As pessoas vão começar a imaginar o que lhe aconteceu. quem sabe? Mas o que me perturba é que as coisas que eles faziam eram tudo o que faziam.. tal como acontece- ra com Bella. E veja o que eles fizeram. Acho que uma parte é ape- nas a maldita curiosidade. Shirl. — Mas não acha que todos especulam sobre essas coisas. Não precisa- vam depender de audiências nem serem alienados para ganhar a vida. Mike... para dizer o mínimo. encontra- rei a identidade mais plena do que pode ter acontecido antes desta vida. pois sua mente é desse tipo. Eu não me preocupava apenas com Mike. Não quero que isso aconteça com você. Portanto. seja como for. eu sempre quis saber por que uma rosa era vermelha ou um pensamento era forte. Estivemos juntos desta vez prova- velmente porque restou alguma coisa para ser trabalhada de uma vi- da anterior. talvez mais do que umas poucas boas mentes passassem a procurar por ou- tras soluções. imagino que é ine- vitável que eu leve minha investigação até o fundo. As explicações superfici- ais nunca foram suficientes para mim. — Houve muitas pessoas que não puderam deixar as coisas como estavam. e até mesmo com Gerry. a exemplo de Louis Pasteur e Madame Curie. mas sim como motivo pelo qual ele não podia enfrentar a coisa com a mente aberta. não importa onde isso possa me levar. Mike. – Isso é um tanto esotérico. então de que adianta matar? Se pudéssemos "pro- var".. — Não creio que vá acontecer. que matar não é uma solução... Posso entender por que vo- cê se preocupa com isso. no sentido literal. Mike estava genuinamente preocupado comigo. E acho que é determinada o bastante para chegar a conclusões que a satisfaçam.é uma realidade. — Quem diz que estariam melhor se deixadas em paz? O que há de tão bom no status quo que o mundo quer preservar como está? Estou procurando por respostas melhores. mas sim uma atitu- de que se vira contra a própria pessoa.. Mas era outro problema por que tais conceitos pareciam tão pessoalmente ameaçadores para Mi- ke.. Por que você acha que precisa desenvolver todo um conjunto elaborado de crenças para explicar coisas que prova- velmente estariam melhor se deixadas em paz? Eu estava bastante defensiva para me sentir um tanto exaspera- da.. de um jeito ou de outro? Não acha que todos já tiveram alguma ex- periência que não podem explicar? — Claro que sim. Não a conhecem como eu e pensarão que ficou pirada de vez. E quando eu chegar ao limite de minha identidade ou da identidade de qualquer outro.

.. sim. preferindo concentrar sua atenção nos prédios. sorriu. Um vulto solitário caminhava pela beira d'água. Carregava um par de sandálias na outra mão e tinha o ombro esquerdo descaído. Era David. Sempre tenta- imaginar o que outras pessoas estavam pensando. poderiam me ajudar a levantar a fiança necessária para um amigo que foi preso por causa de cocaína. — Não quer dar uma volta? — Quero. ele parou. Olhei mais atentamen- te quando ele se aproximou. você fez vi- agens secretas à Europa para me ver? Eu me sentia extremamente cansada naquela noite. Algumas andavam com determinação.. muitas davam a impressão de que nem estavam andando. A maré baixa espelhada refletia o clarão entre rosa e laranja. talvez estivessem em algum outro lugar. Não olhava muito para o mar. Resolvi des- cansar. — Mas eu só posso cuidar desta vida. Já me oferece o bastante em que pensar. Capítulo 17 "Afirmo que o sentimento religioso cósmico é o mais forte e mais nobre estímulo à pesquisa científica. tornou a acenar e gritou para mim. Comia alguma coisa. Shirl. De braços dados. Ele me viu a fitá-lo lá de cima e ace- nou. Isso é tudo o que lhe peço. Perguntei-me se os peixes tinham almas. O Mundo Como Eu o Vejo — Oi! — gritou David. talvez não escrever nada. O vulto solitá- rio andava como se estivesse procurando por alguém. ao caminharem pela praia ao pôr-do-sol. Perguntei-me como o peixe-rei sabia que ti- nha de se afastar da Praia e em que momento. Mike levantou-se e espreguiçou-se. outras pa- reciam vaguear a esmo. O que vai ser agora? Chegando à frente do meu prédio.. Fiquei observando-o. en- quanto o sol se punha. pensei. Essa não. Ao final da tarde. sentei na va- randa e fiquei observando o vento a soprar rajadas de areia. está bem? — Está. fomos andando na direção das montanhas. Mike inclinou-se e sussurrou em meu ouvido: — Diga-me uma coisa: em nossa última vida juntos. — Está lindo aqui embaixo! Levantei e ." — Albert Einstein. E não sei compreender como essas coisas que você está me falando. a cerca de um quilômetro e meio de distância. uma maçã. — Tome cuidado. — É possível.

com David. é assustador a princípio. há espíritos em torno de suas cápsu- las? . David. David? Ele jogou o resto da maçã nas ondas. sim. Vai esfriar bastante. David usava um suéter por cima da camisa. – Você está fumando demais. — Sabia. Somos parceiros na vida ou algo assim. — Como vai. como tudo o que é novo. Mantive-me em silêncio por algum tempo... — Tem razão. — Tem pensa- do muito. inda- gando: — Você está bem? — Estou. Pensei depois que era melhor falar logo de uma vez. não é mesmo? – Não tenho tido muito tempo — murmurei. o verde. aprende-se a dessensibilizar.. enquanto David acrescentava: — Mas traga um suéter. que estava longe de haver su- perado. Ele acendeu um cigarro.. Ele deu uma tragada no cigarro e olhou para o sol poente. hum. Ainda me sentia magoada do encontro com Mike. sob certos aspectos. — Como soube? — Por aí. e. Fumar é um jeito de se conseguir isso. Por que fuma tanto. que Gerry adorava. — Estive pensando numa porção de coisas. Quando os as- tronautas viajam pelo espaço. Além do mais. Mas. Você não fumaria se estivesse com toda a coisa dentro de você? – Fumar? — Minha voz estava um pouco estridente.. hum. não querendo me com- prometer.. sou viciado. David observou-me atentamente quando cheguei perto. depois de algum tempo. — Começamos a andar. sentindo que via David pela primeira vez.. — Hum. não é mes- mo? — Hum. se está empenhado no desenvolvimento espiritual e também todo certinho consigo mesmo? – Não sei. Caso contrário estaria lá nas nuvens durante o tempo todo. — Desça e vamos dar uma volta. — Você já sabia que somos velhos amigos e já estivemos casados antes? David riu. Os maçaricos executavam o seu minueto ao sol poente. desejando nunca tê-lo conhecido. — Eu estaria fumando charutos do tamanho de sequóias se realmente acreditasse em tudo o que estou aprendendo. Iremos até o rochedo. Peguei o suéter de lã que já percorrera uma boa parte do mundo em minha companhia. Eu sentia que estava fazendo o meu pró- prio minueto. poderemos jantar na Holliday House.. se você estiver com vontade. Empertiguei-me lá em cima. ao sol poente. um par de meias brancas de ginástica pendia do bolso tra- seiro da calça. E depois. desci a escada de madeira para a areia. Ti- nha um jeito de se mostrar tão seguro das coisas que era quase pomposo. sim. Continuamos a andar pela areia fria.debrucei-me na grade da varanda. David. Acho que me ajuda a manter os pés no chão.

Apenas sinto e é suficien- te. por volta dos 30 anos. hesitou por um instante. porque o mundo espiritual está por toda parte. Acredito. David tornou a rir e tossiu. não é mesmo? Não se espanta às vezes de onde vieram determina- das idéias e inspirações? Não sente às vezes que está sendo clara- mente guiada por alguma força invisível? Tem alguma idéia de quan- tos grandes gênios declararam expressamente que sentiam uma espé- cie de força inspiradora invisível? Pois estou convencido de que são na verdade os guias espirituais. O plano espi- ritual é invisível para nós durante a maior parte do tempo. Ajeitei o suéter de gola rulê em torno do pescoço. até mesmo em torno de nós neste momento. porque nossa percepção é obtusa demais para percebê-lo. Quer saber de uma coisa? Estou convencido de que Cristo prega- va a teoria da reencarnação. David mergulhou os pés na água. Tudo me provocava calafrios atualmente. David fazia um sermão espiritual cada vez que abria a boca. — Não há qualquer dúvida para mim. Mas nós não somos invisíveis aos espíritos. Ele dizia que era . da mesma forma que se dissesse que Papai Noel existe. Claro que não há qual- quer prova.. Pérsia e Oriente Próximo. — Ele teve o bom humor de rir. David jamais elaborava a respeito.. — Ele me fitou nos olhos. o que você está dizendo é que a reencarnação é co- mo o show business. A descrição é similar por toda parte. até que tudo saia certo. — Ou algo pareci- do. Se todos compreendessem que suas almas jamais mor- rem. — Pode-se dizer que sim. — Tenho lido muito sobre as interpretações dos ensinamentos de Cristo além do que aparece na Bíblia. Tenho certeza. não ficariam tão assustados e ainda entenderiam por que estão vivos. Mozart provavelmente tocava piano aos quatro anos de idade porque se lembrava como. Isso é tudo. — Claro que você sabe que não há nada re- gistrado na Bíblia sobre Cristo desde o momento em que tinha 12 anos e até que começou a sua pregação. E daí? O que falta no mundo hoje é a ligação entre os planos físico e espiritual. rompendo o reflexo espelhado por baixo de nós. Eu já tinha ouvido falar sobre isso e calculei que ele não tinha muito o que dizer até ficar mais velho. Tibet. Quando formulava uma de suas de- clarações. — No fundo. Continua-se trabalhando. a alma é o elo que está fal- tando à vida. lembrando o que John me dissera a respeito da Bíblia. Para mim. — Muita gente pensa que esses 18 anos que estão faltando foram passados a viajar pela Índia. Pode-se parecer um idiota ao se apresentar essas teorias como se fossem genuínas. E você pode sentir isso de vez em quan- do. — Por que pensa assim? — perguntei. — Exatamente. Pode-se perceber isso em crianças-prodígio. Interrompi a dissertação: — Que prova existe de que tudo isso é verdadeiro. além da recordação de um ta- lento que tiveram numa vida anterior. Cer- to? — Certo. David? Real- mente verdadeiro. Há uma porção de legendas e histórias sobre um homem que parece com Cristo.

então eu teria me interessado desde que era bem pequena. David? — Acontece que estão. Cristo disse que havia apenas um juiz. ou seja.Filho de Deus e confirmou as crenças dos hinduístas de que a reen- carnação era uma coisa genuína. projetando uma claridade rosa-púrpura sobre as nuvens por cima do Pacífico. Compilaram pilhas de evidências pes- quisadas por respeitáveis arqueólogos. Ela e o mari- do haviam escrito um livro e produzido um filme documentário sobre os anos em branco na vida de Cristo. antes de continuar: — A Igreja precisava ser a única autoridade no tocante ao des- tino do homem. pois passara dois anos na índia pesquisando o mesmo assunto. falei a David sobre Janet e Richard.. Shirley. mas adoraria comparar anotações. Isso faria sentido para mim. a teoria da reencarnação. por volta do ano 553 da nossa era. em Constantinopla. — E quando a Igreja destruiu esses ensi- namentos. ao voltar a Israel. Dizem que ele se tornou um iogue perfeito e possuía um controle absoluto sobre o próprio corpo e o mundo físico ao seu redor. uma es- pécie de protegida de Sai Baba (um avatar da Índia). Mas Cristo ensinava que cada ser humano era respon- sável por seu próprio destino. Teria me dado uma razão para acreditar na dimensão espiritual do homem. realizou todos os mila- gres que foram posteriormente registrados na Bíblia e tentou ensi- nar às pessoas que podiam fazer a mesma coisa. E acres- centou que Cristo. haviam realizado amplas pesquisas sobre aquele período da vida de Cristo na Terra. que era Deus. se estivessem mais em contato com seus eus espirituais e com seu poder potencial. agora e no futuro. teólogos. a qualquer tipo de igreja formal que pudesse escravizar o livre-arbítrio do homem ou reprimir sua luta para encontrar a verdade. ensinara o que aprendera com os mestres indianos. Pensei que se a Igreja ensinasse que nossas almas estavam empenhadas numa encarnação física contínua a fim de se elevarem pela Justiça Cármica. opunha-se à formação de uma igreja de qualquer espécie. porque eu seria responsável por meu próprio destino (e o mesmo a- . Seus nomes eram Janet e Ri- chard Bock. O sol estava agora se pondo por trás das ondas. Ele disse que não os conhecia. prejudicou toda a humanidade daí por diante. estudiosos de ma- nuscritos sânscritos e hebraicos e assim por diante. — Mas por que esses ensinamentos não estão registrados na Bí- blia. David fez uma pausa breve. A teoria da reencarnação está devidamente registrada na Bíblia. Tudo parecia confirmar que Cristo realmente percorrera a Índia. Evidentemente. Os membros do concílio votaram pela supressão desses ensinamentos da Bíblia a fim de consolidar o con- trole da Igreja. Foi o Concílio de Nicéia. Enquanto andávamos. — Creio que era exatamente isso o que Cristo estava fazendo — acrescentou David.. Isso confirmava o que Kevin dissera. Mas parecia lógico que qualquer pessoa enfronhada na reencarnação já tivesse lido a res- peito daquele concílio famoso. Mas as interpretações adequadas foram suprimidas durante as reuniões de um concílio ecumênico da Igreja Católica. Não falei nada. David não tinha conhecimento de minha sessão com Kevin e John também ignorava que eu conhecera uma mulher em The Ashram.

e talvez o preceito áureo da Bíblia fosse o primeiro e último axioma pelo qual se de- via viver. Não pertencia necessariamente ao domínio das "autoridades" de qualquer tipo. quando es- . no sentido mais pro- fundo.. portanto. verde. Esse empe- nho pertencia a cada indivíduo. Sempre que con- versávamos. "O que um homem semeia é o que irá colher" passaria a ter um significado completamente diferente. porque manteríamos as nossas prioridades eternas em posição superior aos nossos proble- mas terrenos. mas também as complexidades cármicas de suas próprias vidas. onde ele dei- xara o seu carro. a cerca de cinco quilômetros de distância. Talvez todos os que tendiam a complicar a vida.. Creio que todas as pessoas estabelecem um conjunto de regras de comunicação. ou deixas para o caráter ou indicações de objetivos na vida. Mas. tais coisas não eram visí- veis. porque a "conversa pessoal" era ge- ralmente um caminho para o que ambos queríamos um do outro. amarrados com um barbante. Não via muito valor nas provas físicas quando se trata- va do esforço para compreender por que estávamos vivos. amor. provar. tácitas. de acordo com nossas ações e reações nas passagens pela Terra. nunca era sobre amenidades. não à Igreja. não eram tangíveis. eterna- mente. Por que a mesma lei não podia ser aplicada em relação à vida humana? Nem sempre as leis eram baseadas no que podíamos ver e. levados pelo medo. Eu não era uma conhecedora profunda da ciência ou de qualquer dos campos em que havia fatos comprováveis. Talvez fosse esse o significado de "os humildes herdarão a terra". ética. o que por toda a mi- nha vida me tornara desamparadamente incapaz de compreender ou al- terar. Talvez os humildes que não sentiam qualquer ne- cessidade de agir como "fortes" fossem os que se relacionavam com Deus e com a virtude da vida e da humanidade. E também ex- plicaria todo o sofrimento e horror no mundo. Não ha- via coisas como "Você gosta de Brahms?". E teria me proporcionado um conforto profundo por saber que vivíamos para sempre. Era excepcional para mim não ser pessoal em relação a um homem.. Competiria à consciência de cada um julgar o seu próprio comportamento. Moral. pessoalmente.. além de uma Bíblia. Fomos até a praia pública. gradativamente. Mas isso não significava que não exis- tissem. Estava interessada apenas no que ele tinha a di- zer. Mas aquilo era diferente. David e eu continuamos a andar em silêncio. ou "Como foi seu dia?" Era sempre uma conversa profunda. não formuladas expressamente.. Era um Dodge velho. mas nunca mesmo. no banco traseiro es- tava uma pilha de livros.conteceria com todas as pessoas). estivessem aumentando não apenas as complexidades cár- micas da própria terra. "Vire a outra face" também passaria a ter um novo signifi- cado. A lei da causa e efeito era aceita na ciência como fundamen- tal. começava a me perguntar por que esses campos adquiriam tanta im- portância. Eu não estava interessada em David por esse aspecto. Vai querer comer alguma coisa? Livros? Eu precisava de mais livros? Fomos sentar no restaurante por cima do mar. Seria até mais possível fazer isso. – Eu lhe trouxe mais alguns livros.. como se qualquer outra coisa fosse um desperdício de tempo. Leia e pense.

eu parava e escutava o que mi- nha intuição dizia que era real. Não é uma coisa em que se pense. em sua opinião. so- bre se a raça humana progredira por si mesma ou com a ajuda de al- guma espécie de "orientação" espiritual e. que me motivaram ainda mais. David comentou que essa abertura era. sobre a sa- bedoria de manter a mente aberta a todos os conceitos novos. Carter nunca me falou nada a respeito. Fora condicionado a acreditar no que pudesse provar e não no que pudesse sentir. Em vez disso. estimulado por uns poucos momentos específicos. verdade espiritual e extraterrenos no mesmo fôlego. quando era governador da Geórgia. Talvez sejam armas militares secre- tas sobre as quais ninguém fala. assim como também não me interessava especificamente pela maneira como ele viera a acreditar em tudo o que acreditava. tudo se tornou muito simples. Isso me deixava inteiramente à vontade. — Passei por muita confusão quando comecei a estabelecer mi- nhas conexões espirituais. mas existe e funciona. Shirley. que era parcialmente responsável por meu questionamento profundo de nossas percepções da realidade.tão reunidas. a ver- dadeira característica da inteligência. E quando ele falava. embora outros fregueses especulassem com quem eu estava. talvez sejam balões meteoroló- . Afinal. outra muito diferente era ter um amigo pessoal aparentemente prestes a estabelecer a mesma conexão. esse processo era geralmente uma evolução abstrata do pensamento. fosse uma experiência nova para mim. mais entrava em contato comi- go mesmo. E de repente. porque "somente uma pessoa de mente aberta pode adotar novas idéias e crescer". embora estivéssemos tomando um delicioso vinho Bordeaux e comendo um filé Wellington de primeira. David não parecia estar revisando as suas lutas pela convicção como uma espécie de roteiro com o qual eu pudesse me identificar. David também não parecia interessado em romper o que estava estabelecido. ele perguntou: — Você já viu um disco voador? Fiquei um tanto surpresa com a pergunta. Ou pelo menos fora no meu caso. mas vi o relatório que ele encaminhou ao jornal. embora houvesse velas na mesa e estivéssemos profundamente absorvidos no que o outro dizia. partindo de David. como a maioria dos relatórios de Jimmy Carter. no entanto. até que um dos dois rompe o que estava acertado e tenta levar a conversa para outro nível. Assim. Paradoxalmen- te. Mas sempre que me sentia meio "absurdo" no mundo "real" ao redor. conversa- mos sobre a necessidade ds fé e de um sentimento de propósito. quase ao final do jantar. Pareceu-me profissional e desprovido de emoção. — Mas o que você acha que são os discos? — Não tenho a menor idéia. Era mais simplesmente um mero relato do que ele passara. há tantas pessoas fazendo a mesma coisa que é isso o que se tornou real. Sabia ins- tintivamente que seríamos sempre o que éramos agora. Uma coisa era ouvir "John" falar sobre Deus. Agora. mas conheço algumas pessoas que já viram. isso criava um clima em que cada encontro com aquele homem. — Não. Quanto mais escu- tava minha voz interior. finalmente. duas a duas. Ao final. inclusive Jimmy Carter. nunca me sentia propensa a me relacionar com David num nível homem-mulher. era sempre com uma dignidade serena.

Observei atentamente à procu- ra de qualquer expressão que indicasse onde ele estava querendo chegar. – Há referências por todo o Antigo Testamento. sim. – Está se referindo ao Von Daniken de Eram os Deuses Astronau- tas? — Exatamente. Senti que a minha "mente aberta" estava ameaçando se fechar. e assim por diante. por que mencionara os discos voadores em relação ao que estávamos conversando. as pistas de pouso na Planí- cie de Nazca. ninguém se levantara para ir embora. talvez sejam embustes. mas creio que ele está no caminho certo.. porque no final acabou se desacreditando. O que mais me impressionara. mas sem saberem muito bem como deveriam reagir. ao assistir ao filme. enquanto as pessoas deixavam o cinema. culminando com a separação das águas do Mar Vermelho. Depois da sessão com "John". Lembrei-me outra vez de "John" e de muitas leituras que eu própria fizera. é claro. limpou os cantos da boca com o guardanapo. Ninguém fizera comentários sarcásticos ou escarnecera . Mas David já estava acrescentando: ] – Acho que Von Daniken é um pouco maluco. Mas o que isso tem a ver com o que ele des- cobriu? As pessoas estão cheias de contradições e foi errado o que ele fez. – Muitas pessoas já escreveram a respeito deles. Simplesmente não sei... Machu Picchu no Peru. – E muitos malucos. Estavam todos como que hipnotizados pela tela. apresentando desenhos nas cavernas e monu- mentos como provas de tal alegação. por exemplo. E acho ainda que nos visitam há muito tempo. com ajuda extraterrena: a Grande Pirâmi- de.. talvez sejam do espaço exterior.. E acho que os extraterrenos que os tripulam possuem um elevado desenvolvimento espiritual. e muitos outros também pensam assim. o material que descrevia a sua alegação de que muitas ruí- nas antigas haviam sido construídas na verdade por civilizações altamente desenvolvidas. fora a reação da audiência. que as descrições de Ezequiel das carruagens de fogo eram na verdade espaçonaves. Ele também alegava. que versava sobre a presença de extraterrenos ao longo de toda a história humana.. Há descrições de todos os tipos que me parecem de espaçonaves. Deveria ter encontrado outro meio de resolver seus pro- blemas. Stonehenge. — Acho que são do espaço exterior. Pareciam genuinamente fascinados pelas especulações. Eu assistira ao filme Chariots of the Gods (Carruagens dos Deuses). assim como a coluna de fogo que guiara Moisés e os israelitas no deserto por 40 anos. O que você acha? David tomou um gole do café e outro do conhaque.gicos. Eu escutara atentamente os comentários. Mas isso também não aconteceu necessariamente com a sua obra. Observei como seus olhos piscavam calmamente à luz das velas. — O que o faz pensar assim? Observei-o tomar outro gole do café. – Ele não passou algum tempo numa prisão suíça por emitir che- ques sem fundos? – Passou. eu lera toda a obra de Von Dani- ken. Ao terminar o filme. também no Peru.

. Lembrei que ficara mais interessada nas rea- ções dos outros ao filme do que em minha própria reação.. Os in- cas e os maias possuíam tanto conhecimento astronômico e astro- lógico como o que temos hoje. trazendo "ajuda e conhecimento e promessas de imortalida- de". eram na verdade pessoas de outro mundo? — Isso mesmo. Atlântida real- mente existiu.. seres que conheciam as verdades espirituais. Segundo Platão e Aris- tóteles. Cristo e Moisés. — Mas essa inteligência poderia ser a manifestação de civili- zações humanas extremamente adiantadas aqui mesmo da Terra. Posso lhe dar muito material a respeito para ler. Eu disse então a mim mesmo. assim como muitas outras grandes mentes. pensativas. Apenas saíram sem muito falar. ou pelo menos com a questão de Deus. de pessoas que eram adiantadas num sentido cósmico. ma- temáticas e físicas que só agora estamos começando a sondar. mas tudo indica que a nossa Terra tem sido ob- servada. por se- res que sabiam mais do que nós. que viveram dois mil anos antes de Cristo. Resolvi interrogá- lo mais a fundo: — Está querendo dizer que anjos e carruagens que cuspiam fogo. ajudada e instruída. que nossa ciência não pode explicar. assim como as verdades científicas... que desapareceram ou sumiram de alguma forma. há muita coisa de inteligência superior inexplicável na história antiga. ao longo da história humana. – Porque há indícios demais de que os seres humanos receberam ajuda de "deuses". Talvez até mais. astronômicas. exatamente como John fizera. tanto se relacionando com religião e espiritualidade. como uma civilização extremamente adiantada. Por que seres alienígenas avançados não poderiam tentar nos ensinar a verdade espiritual superior? Talvez a força- Deus seja na verdade científica. Não se sentiam ameaçadas ou intimidadas por qual- quer forma. assim como ou- tros. — Como chegou ao ponto de estabelecer uma ligação entre as possibilidades espirituais do homem e o espaço exterior? — Porque faz sentido. todas essas coisas que se encontram na Bíblia. depois de tomar o resto da água gela- da. — Mas por que os próprios seres humanos não poderiam ter a- prendido tudo isso? David seguiu em frente. Eu podia sentir que minha mente estava re- sistindo. David relacionava os discos voadores com a inteligência espiritual. como nós os cha- mamos. não é mesmo? Afinal. E agora.. Mas o problema é que não houve a- penas um exemplo de inteligência superior. Alguém men- cionara um hamburger. O conhaque acabara. em máquinas voadoras incandes- centes.. Só há uma explicação possível: essas pessoas tão dotadas conheciam alguma coisa que nós ignoramos. Muitos textos das culturas antigas falam sobre "deuses" que circulavam entre as estrelas. tinham a matemática e a as- tronomia altamente desenvolvidas. por que não? Nenhum cientista . Os sumérios.das informações.. eram capazes de realizar milagres físicos. E pessoas demais tes- temunharam esses "milagres" para se admitir que não passaram de mitos inventados. Por que a inteligência superior tem de provir necessariamente de outro mundo? — Também me perguntei isso.

Ezequiel descreveu como a Terra parecia de uma grande altitude. Na parte da Bíblia. o que quer que estivesse pensando. mas faz sentido. Referiu-se ao comandante da nave como "O Senhor".. Conversáramos em vida depois da morte. até sentir os olhos doerem. Ralph Waldo Emerson. alguém se mostrava mais inflexível do que eu.moderno de mentalidade saudável acredita que somos a única vida no universo. bem que pode ir mais ao fundo. Capítulo 163 "A verdadeira coragem e compreensão consiste em não permitir que as coisas que sabemos sejam embaraçadas pelo que não sabemos". Eu estava exausta. Falou como eram se- . Mas desculpe por estar sendo tão infle- xível. Como você começou a se enfronhar nessas coisas. Pagamos a conta (meio a meio) e levantamos. ao longo de um período de 19 anos. sempre para a minha própria orientação espiritual.. colunas de fogo e assim por diante. Concentrei-me agora num novo ponto de vista: a possibilidade de vida extraterrena e sua relação com a vida humana. David se classificara de inflexível? Era o termo que ele geralmente aplicava a mim. vida antes do nascimen- to e agora estávamos entrando em vida acima da vida! Agradeci-lhe e nos despedimos. uso a sua própria terminologia. quase como se levado por um ímã. minha frustração terrena com Gerry parecia uma boa coisa. – E não acha que vale a pena pensar sobre isso? Por que não levar a sério a possibilidade? Faz sentido. Li por dias a fio. Agora. como anjos. porque são palavras usadas pe- los antigos para descrever fenômenos nos termos compreensíveis em seu tempo. A esta altura. Eu é que costumava ser a inflexível. Segue-se uma sinopse muito sucin- ta de tudo o que li. O Cético Eu lera sistematicamente sobre a mediunidade e depois sobre reencarnação. Uma parcela considerável dessa pesquisa foi importante para mim em relação ao que me aconteceu posteriormente. No Antigo Testamento. David entregou-me a pilha de livros e largou-me em meu aparta- mento na praia. Ezequiel deparou com pessoas e naves assim em quatro ocasiões diferentes. certo? — Certo. Falou sobre o que era ser elevado num na- vio voador. Descreveu o movimento de ida e volta do veículo como algo tão rápido quanto o relâmpago. Pode parecer meio des- cabido nos termos de alguns pontos de vista comumente aceitos.

40:38).. os israelitas ficaram sem qualquer fonte de alimentação e sustento.. São Tiago. o Senhor. E- zequiel declarou que "O Senhor" demonstrou cuidado e respeito por ele.. Durante esse período de 40 anos. Abraão. os israelitas não chegavam a ter uma religião. a Bíblia mais do que sugere que os "anjos" e- ram missionários de outro mundo. A "coluna" que guiou os israelitas por 40 anos. Há "anjos" por toda a Bí- blia. proporcionou-lhes orien- tação religiosa durante todo esse período. Um grupo selecionado de pessoas foi devidamente instruído em questões de comportamento. Pedro. Disse que os anjos estavam muito preocupados com o sucesso da mensagem que traziam para a Terra. Cristo instruiu os discípulos a levarem a mensagem de seu mundo para todo o mundo deles. eu. Não havia sinal algum de "hostilidade ou atitudes inconseqüentes". enquanto vagueavam pelo deserto. Mas a "coluna de fogo" cuidava de tudo. um veículo que orientou os hebreus na fuga do Egito até o Mar Vermelho. dizendo: "Ouvi agora as minhas palavras. o Reino dos Céus. es- forçando-se ao máximo para evitar que sentissem qualquer medo. o povo se deslocava. 9:15-23). Jacó e assim por diante. os anjos implantaram o e- vangelho e a religião de outro mundo. ética e culto. No livro de Atos. eu sou lá de cima. à vista de toda a casa de Israel. Moisés. O livro de Números é mais específico. permitindo que os israelitas escapassem para o deserto.. Boca a boca falo com ele. Os ensinamentos visavam a que as pessoas na Terra aprendessem os valores do amor. 12:6-8). O Senhor falou a seu povo um dia. eu não sou deste mun- do" (João. em to- das as suas jornadas" (Êxodo. A coluna de nuvem orien- tava todos os movimentos dos israelitas. Ele disse que estava em contato constante com seres de seu mundo e que os chamava de "anjos". a Regra Áurea e a crença na vida eterna. foi descrito como "uma coluna de nu- vem durante o dia e uma coluna de fogo à noite". Jacó encontrou anjos em muitas ocasiões. e não em enigmas. No livro do Êxodo. Moisés mantinha um contato diário com um ser na "coluna de nu- vem". Um "anjo interior" transmitiu a Moisés os Dez Mandamentos. E Cristo disse ainda. o povo des- cansava e montava outro acampamento (Números.renas as pessoas das naves ao jazerem contato com os humanos. 8:23). O Senhor disse a Moisés: "Eis que vos farei cho- ver pão do céu" (Êxodo. pois ele vê a forma do Senhor" (Números. quando a nuvem parava. Não é assim com o meu servo Moisés. A coluna pairou sobre as águas e dividiu-as ao meio. em visão a ele me faço conhecer ou falo com ele em sonhos.. vós sois deste mundo. Mas durante um perío- do de 40 anos. se entre vós há profetas. 32:2).. que é fiel em toda a minha casa. na verdade. vagueando pelo deserto. Apenas acreditavam numa espécie de promessa. Eram tantos uma vez que ele disse: "Este é o exército de Deus" (Gênese. "De dia a nuvem do Senhor repousava sobre o tabernáculo e de noite havia fogo nele. no Novo Testamento: "Vós sois cá de bai- xo. claramente. . quando a nuvem se deslo- cava. Até o Êxodo. 16:4). A "coluna de nuvem" servia como um farol para as jornadas pelo deserto.

Textos cuneiformes e tábuas de Ur. em nosso tempo. passei para os outros livros que David me dera. quatro mil metros acima do nível do mar. para cima. falava de máquinas voadoras. Povos antigos levaram milhares de toneladas de pedra de um lu- gar para outro. babilônias e egípcias apresentavam o mesmo quadro: "deuses" vindo das estrelas e depois voltando. Há em Sacsahuaman um monumento de rocha de 20 mil toneladas. pássaros e um vulto com um capacete similar em formato aos que são usados pelos astronautas modernos. que podiam viajar para frente. havia constantes re- ferências a máquinas voadoras na pré-história. navegadas em grandes altitudes. A Lenda de Tiahuanaco falava de uma espaçonave dourada que vi- era das estrelas. os quatro pontos cardeais da bússola. Foram encontradas vitrificações de areia no Deserto de Gobi e em antigos locais arqueológicos iraquianos. falavam em deuses que percorriam os céus em "naves" ou deuses que vinham das estrelas com armas terríveis e poderosas. Tantyua e Kantyua. para baixo. em velocidades incríveis. depois vi- rada ao contrário. lua e outros planetas. similares às vitrifi- cações de areia produzidas pelas explosões atômicas no deserto a- mericano de Nevada. que foi extraída e transportada por uma boa distância. As pistas de aterrissagem e os desenhos só podem ser vistos de a- vião. Eram chamadas de "pérolas no céu". os construtores de Stonehenge trouxeram seus blocos de pedra do su- . a uma altitude considerável. No mesmo lo- cal. há desenhos de animais. encontra-se o que parecem ser pistas de aterrissagem com milhares de anos de idade. um dos mais antigos escri- tos da humanidade. Capítulos intei- ros do Samaranguva Sutradhara foram devotados a descrever aerona- ves cujas caudas cuspiam "fogo" e "mercúrio". Depois que terminei de ler as anotações da Bíblia. Os sábios dos mais antigos índios americanos mencionavam um pássaro do trovão que lhes trouxe fogo e frutos. Nos livros tibetanos. viajando em naves de fogo. registrava simboli- camente um conhecimento astrológico baseado na premissa de uma Terra redonda. As lendas maias contavam como os "deuses" eram capazes de co- nhecer tudo: o universo. estavam corretas. Os egípcios trouxeram seu obelisco de Asuan. As lendas religiosas do povo pré-incaico diziam que as estre- las eram habitadas e que os "deuses" vinham da constelação das Plêiades. em harmonia com o sol. há 27 mil anos. Nas Planícies de Nazca. possuindo armas ter- ríveis e prometendo imortalidade às pessoas. na cidade de Tiahuana- co. O calendário maia era tão desenvolvido que seus cálculos se projetavam por 64 milhões de anos. no Peru. Inscrições cuneiformes sumérias. Os dois livros ressaltavam que tais informações eram secretas. A mais antiga epopéia indiana. não estavam destinadas às massas. o formato redondo da Terra. O calendário astrológico de Tiahuanaco. para trás. Mahabarata. que tem cerca de cinco mil anos. assírias. Os esquimós falavam das primeiras tribos levadas para o norte por deuses com asas de metal. As revoluções da Terra. por longas distâncias.

. na manhã de do- . mas de certa forma era di- ferente encontrar tudo compilado e organizado. Não entendia por que tudo aquilo me parecia uma novidade tão grande. E o mesmo se aplicava à Igreja. muito menos para se ignorar. A época da grande inundação foi profetizada com toda precisão. O acúmulo de indícios era grande demais para não se levar a sério. Dava para imaginar um pregador fundamentalista dizendo de seu púlpito eletrônico. só que foram profetizados. assim como a ascensão e queda dos movimentos espi- rituais e seculares do homem. Mas nunca vira ninguém apresentar a um só tempo todo a- quele material impressionante. os grandes reinos. em relação ao V Concílio Ecumênico. a Grande Pirâmide estaria no epicentro exato. as guerras mais importantes entre nações. Vira ocasionalmente pela televisão um cientista ou alguém como Carl Sagan aludir à "inevitabilidade da vida extraterrena no cosmos". Em outras palavras. em Constantinopla. aos fragmentos. Só sei que não conseguia parar de pensar a respeito. por respeitáveis pesquisadores. de acordo com as modernas pesquisas científicas e geoló- gicas. Eu estava exausta quando terminei de ler o que David me dera. ao invés de simples- mente registrados. Suas medidas correspondem ao diâmetro polar e ao raio da Terra. A própria Enciclopédia Católica declara.. de muita coisa que lera. E isso é apenas o começo das maravilhas matemáticas incluídas na Pirâmide de Quéops. Nenhuma das chamadas "autoridades no assunto" parecia concordar com outra so- bre qualquer coisa. Tornei a ler que os ensinamentos de Cristo sobre a reencarna- ção haviam sido suprimidos da Bíblia durante o V Concílio Ecumêni- co. o desenvolvimento de movimentos religiosos e morais entre os povos. em forma escrita.doeste de Gales e de Marlborough. Não sei o que eu realmente pensava. no ano 553. com o apoio de cientistas. As anotações de David di- ziam que. Era verdade que já tomara conhecimento. ao longo de minha vida. assim como os respectivos acordos posteriores a cada uma. os escultores da Ilha da Páscoa (conhecida pelos nativos como Ilha do Homem-Pássaro) trouxeram as suas estátuas de pedreiras a quilômetros de distância. Eu sabia que qualquer argumento científico que um cientista pudesse apresentar era geralmente rejeitado por outro. As duas guerras mundiais estavam acuradamente profetiza- das no tempo. muito menos um tratamento unificado de to- das as ciências para esclarecer o problema. as medidas correspondem em tempo a acontecimentos históricos de extrema importância das civi- lizações da Terra. Nos corredores. Talvez fosse por isso que nunca houvera uma apresentação unificada. arqueó- logos e teólogos. parti- cularmente em relação à compreensão espiritual e ao nascimento do monoteísmo. Também correspondem acuradamente às medidas de tempo e movimento dos e- quinócios e ao ano solar. Lá estão o nascimento e crucificação de Cristo. que seria excomungado "qualquer um que defendesse a crença na pré-existência das almas". câma- ras e passagens da Grande Pirâmide. E a Grande Pirâmide de Giza continua inexplicável. a Grande Pirâmide está construída no exato centro geofísico da Terra. Eu não podia certa- mente ignorar. que parecia apontar para a necessi- dade de se levar mais a sério nosso passado extraterreno. se alguém juntasse as massas de ter- ra do planeta.

Depois disso. declarando o di- nheiro que levava. Shirl? — Sentada a pensar. Memórias de Johannes Falk No vôo noturno para o Peru. des- cobria-se que era muita arrogância de nossa parte presumir que é- ramos a única raça racional no universo.mingo. eu me sentia como nos velhos tem- pos. havia uma cidade costeira. — Como está. Tinha agora de aprender a pensar por conta própria. O homem é o diálogo entre a natureza e Deus. — Gostaria de fazer uma viagem? Respondi sem pensar: — Claro. eu não fora educada a pensar além dos perímetros do que meus professores tradicionais queriam que eu soubesse. Espero voltar mais mil vezes. sozinha. por que não? Ainda tenho duas semanas de fol- ga. vivendo na terra livre da democracia ameri- cana.. agora como uma adulta. Era absurdo. E fiquei imaginando como seria uma ditadura mi- . Não me importo para onde vou. olhando para o minue- to dos maçaricos. via- jando rapidamente. Como criança e como adolescente.. Quero apenas ir a algum lugar.. Aventura num súbito impulso. Estava sobrevoando Lima quando acordei. – Aos Andes? — Por que não? – Isso mesmo. mas Colombo não fora a primeira pessoa a di- zer que o mundo não era plano. Em outros planetas. Era pior do que Los Angeles. relaxei e dormi. W. mil vezes an- tes. o resto se seguirá. Comecei a rir.. Tudo estava pelo avesso. quando partia para qualquer lugar sempre que me dava vontade. desatei em gargalhadas. . David me telefonou.. era certa." — J. O que está faltando é Au- toconhecimento. com a cabeça pegando fogo. von Goethe. esse diálogo será certamente de caráter mais elevado e mais profundo. E quando se pensava nisso. Em algum lugar. Para onde? — Peru. – Está combinado. – Encontre-se comigo no aeroporto de Lima dentro de dois dias. Uma coisa.. Sentada em minha varanda. que Moisés fora guiado através do deserto por uma espaçona- ve. Satisfeita. Talvez tudo aquilo não pas- sasse de uma loucura. sob a massa de nevoeiro. Preenchi meu cartão de entrada no país. livre e desimpedida. Capítulo 19 "Tenho certeza que já estive aqui como estou agora. porém.

nada tendo a ver com uma ajuda altruísta aos pobres. Lá es- tava eu começando outra vez: uma liberal rica transbordando de compaixão. eu presumo? — Qualquer coisa que quiser. senti alguém me tirar a mala da mão. O aeroporto não poda ser mais de- pressivo. São pacíficas. quase sempre escusos. policiais. Eu nada sabia a respeito do Peru. mas que dava a impressão de que poderia me levar ao Sheraton local. madame. Os inspetores al- fandegários.. eu queria que tudo ficasse registrado por escrito. Arrumara uma mala de bom tamanho com roupas para o frio. ile- gais. Ninguém me reconheceu e não causei qualquer impressão quando apresentei meus documentos e passaporte. Salvaram-me a vida muitas vezes. Virei-me no mesmo instante e deparei com David. onde olharia ao redor mais um pouco.. O que quer que fosse me acontecer. Lima era um centro de negócios internacionais. usavam uniformes que pareciam sobras dos Keystone Cops. Fez uma boa viagem? — Foi tranqüila. Seria muito difícil evitar. todos enfim. Mister Livingstone. um par de botas de campanha. não apenas peruanos de volta ao país. E as pessoas a- giam como tal.. não precisando saber mais do que isso.. antes de me decidir a pegar um táxi e seguir para o centro da cidade. Não consegui arrumar um Land Rover. mas igualmente . O carrossel deu a volta e minha mala apareceu. Não reconheci ninguém. Apenas informara que estava deixando a ci- dade numa viagem. O Peru é os Andes. No instante em que o- lhei para um táxi velho e todo amassado. Não dissera a ninguém para onde estava in- do. Eu esperava um comportamento militar rígido. nada de inconveniente aconteceu. Estava bronzeado e sorridente. Não quisera dizer. pisan- do na pista de cimento.. muitas fitas e um gravador. Saí pela entrada principal do terminal. ao me- lhor estilo da Gestapo. Havia muitos viajantes internacionais no avi- ão. Desembarquei no Aeroporto Jorge Chavez numa manhã fria. São diferentes dos Himalaias. Shirley! Ele tinha um cachecol de lã enrolado no pescoço e usava um blusão com zíper na frente. Conhecia apenas a civilização inca. Peguei-a. A maioria dos meus amigos e meu agente estavam acostumados a isso. Não me sentia assustada. — Seja bem-vinda às montanhas que eu tanto amo. — Vamos embora.. — Oi. blocos para anotações. encaminhei-me para a rua. O sol acabara de subir para acabar com o frio da manhã quando olhei além do muro para o local em que as pessoas esperavam pelos recém- chegados. as Planícies de Nazca e que a maior parte do Peru era constituída por montanhas. Mas espere só até vê-los. — Oi. juntamente com a valise... Mas essa é a melhor maneira de se viajar nas montanhas. enquanto passei pela bar- reira da alfândega e fiquei esperando pela mala no outro lado. Obviamente. embora o governo fosse supostamente con- trolado por um grupo militar de esquerda. — As montanhas? Vamos direto para os Andes? — Claro. os guardas famosos do tempo do cinema mudo. carregadores. Fitei-o nos olhos. autoridades do aeroporto. Exceto pelo fato de não ter preenchido um documento em tripli- cata.litar sul-americana. E não se impressione com o meu calhambeque.

com um clima perfeito. Recorrera a essa técnica todas as noi- . Pensara em Lima como uma cidade de recreio à beira do mar. que eram os melhores localmente em termos de tempo. desolada. Ele sugeriu papel higiênico. os dentes chocalhando. fechara os olhos e encontrara em algum lugar do centro da mente o meu próprio sol laranja. mas desta vez não haverá sherpas. sim. — Ótimo. uma garrafa térmica e qualquer coisa a mais que pudesse me manter aquecida. o sol. eu tinha esquecido. os incas haviam orientado o exército invasor para o local em que estava agora a cidade de Lima. estacionado numa rua de terra. no entanto. — Comeu alguma coisa no avião? — Comi. até finalmente ter a impressão de que a luz do dia me inundava a cabeça. Pensei no tempo em que ficara numa cabana nos Himalaias. Ele pegou também a valise e me conduziu a um Plymouth vermelho muito velho. porque teríamos sorte se encontrássemos um lampião de querosene no lugar para onde íamos. afagando meu joelho. eu deitara num catre improvisado. misturada com o nevoeiro. ao lado do aeroporto. de aluguel. Mas ali estava uma cidade úmida. —.. eles mostra- ram a região aos conquistadores nos meses de janeiro e fevereiro. Concentrara-me ao máxi- mo que podia e não demorara muito para que sentisse o suor me es- correr pelo corpo. era sombrio. Então só vamos parar para comprar provisões. através de uma oferta de paz.deslumbrantes. me fez tossir. apenas relaxam e presumem que alguém sabe mais do que eles. Shirley. O resto do ano. alimentos enlatados. Os povos primitivos não combatem os milagres. O corpo todo tremendo. Ele avisou que também não havia aquecimento no lugar para onde es- távamos indo. Terá de se virar sozinha. E o tempo mudara assim que os conquistadores se instalaram. David acendeu um dos seus Camels e perguntou-me se havia alguma coisa especial que eu precisaria.. depri- mente. concentrando-me na coisa mais quente em que podia pensar. antes de seguirmos diretamente para Llocllapampa. — Alguém? David limitou-se a me piscar. as pessoas circulando em sarongues sul-americanos. David contou que havia uma lenda sobre Lima baseada em fatos. Os in- cas afirmaram que era apenas um acaso. Apontei para cima. equiparando-se aos mais amenos do mundo. inundada de sol. A poluição. David? Por que eles eram tão inteligentes? — Acho que eles eram simplesmente fáceis de ajudar.. Mas é claro que o tempo ja- mais melhorara e que não demorara muito para que a maioria dos soldados de Pizarro estivesse com pneumonia. — O que pode me dizer a respeito desses incas. carregadores ou quem quer que seja para fazer qualquer coisa para você. Meu único recurso fora o de utilizar uma técnica de controle da mente sobre a maté- ria. — Sei que está acostumada a regiões rudes.. Quando Pizarro invadira a civilização inca. quan- do tivera a certeza de que morreria congelada. Orgulhosamente.Ah.

Podia não chegar a ser como uma loja de delicatessen da Primeira Avenida. atum em lata. David comentou: — No fundo. Afinal. Parecia agora que eu poderia ter de fazer a mesma coisa outra vez e recea- va estar fora de forma. Não chegamos a atravessar Lima e assim não posso dizer como era exata- mente a cidade. Concorda? Limitei-me a assentir e David acrescentou: — E agora vamos a um supermercado peruano para comprarmos o que for necessário. é apenas uma questão de tempo. sacu- diu um pouco para tirar o gás e bebeu. Ele piscou-me e depois abriu a porta do velho Plymouth. Descobri-me a imaginar o que aconteceria se tivesse algum problema nas montanhas. comprei a- mendoim em lata. certo? Era uma sensação estranha estar num novo lugar e ao mesmo tem- po saber que não era o fato de ser novo que me trouxera até ali. durante as duas semanas que passara na neve himalaia.. O suposto supermercado era um pouco parecido com um pequeno armazém de propriedade individual de Nova York. — Só que nunca se pode prever o que farão os atores que não leram o roteiro. As carnes. Lembrando a minha taxa baixa de açúcar no sangue. mas os preços sobem sem parar. Shirley. As pessoas andavam calmamente em ternos velhos e me per- guntei a que escritórios estariam indo tão cedo. mas eu não podia comê-los. como sempre acontece. que es- perava poder cozinhar de alguma forma. Havia um refrigerante chamado Inca Co- la..Lima está à beira da revolução — comentou David.tes. David: parece saber como será o roteiro. que parecia ser a marca predileta de David. pães e massas estavam em balcões fechados por vidro. queijos. queijo e uma dúzia de ovos. Falando com o caixa. E. mas não disse nada. mas estava apinhada de caminhões que cuspiam uma fumaça negra e carros imundos. acho que se pode dizer que não sou exatamente um obcecado pela saúde. É terrível. Ao sair- mos da loja. — A taxa de inflação está subindo tão depressa que as pessoas estão descobrin- do ser impossível continuar a viver assim. o mundo não passa de um palco e somos todos atores nos apresentando diante do cenário. Havia muitos doces típicos peruanos. — Mais ou menos isso. são os pobres que mais sofrem. mas tive a impressão de que o proprietário podia aumentar os preços sempre que tivesse vontade. A estrada que levava ao centro de Lima era pavimentada. Fiquei surpresa. Abriu uma garrafa ali mesmo. . reconstituindo a civilização dos incas e até mesmo a pré-incaica. Mas não estou muito in- teressado nos descalabros do governo por aqui. E é sintomático do que está acontecendo com os governos do mundo inteiro. — Mas você tem uma vantagem. David falava espanhol fluentemente. o formato do rosto de David pare- cia quase se moldar às palavras peruanas. Ele comprou uma caixa e um abridor de garrafas. Sabia que havia um Sheraton em algum lugar e tam- bém o Museu de História Natural. . — David pôs a caixa de Inca Cola no ban- co traseiro. Seus salários não mudam. Ele parecia ter a faci- lidade de assumir a nacionalidade do lugar em que estava. — Entre os cigarros e esta deliciosa porcaria.

. por trilhos que se estendiam ao lado da estrada. O ar ficou mais fresco. eu estava sentindo calor no meu jeans. David não fez qualquer comentário sobre o meu casaco de couro de Ralph Lauren. Um trem transportando carvão passou por nós. pois era muito poeirenta e por demais api- nhada. Em nosso caminho. ostentando uma fotografia de Che Guevara no pára-brisa. se cruzavam por cima de nós. de uma cor de aveia que eu adorava. ou pelo que poderia me acontecer. Mas não ficaríamos em Huancayo. onde David sugeriu que eu comprasse um poncho de alpaca. — Porque ele morreu por suas idéias. seguindo em dire- ção contrária. Até mesmo os sorrisos nos rostos das pessoas eram mais acentuados ali. Pararíamos no caminho. Paramos num bazar fora da cidade. alguma comida. seguindo para o topo dos Andes. chamada Huancayo. Cerca de 45 minutos depois que saímos de Lima. sacudindo a cabeça. à exce- ção de uns poucos cactos. comprei também uma echarpe que combinava. Passou por nós um caminhão com colchões de molas usados. as árvores eram agora verdes. O preço dos dois artigos foi de 18 dólares. Fios de telefone. Ele tornou a me piscar ao descrever o lugar. Lembrei-me mais uma vez como nossas vidas haviam se tornado terrivelmente contaminadas nas grandes cidades. Passamos por uma comunidade Chosica a 43 quilômetros de Lima. Cartazes coloridos anunciavam a Inca Cola. David disse que já estivera muitas vezes no Peru. Por causa do terreno variado. um pouso para se dormir e a vista mais espetacular do firmamento que se po- dia ter na terra. Informou que o país tinha três vezes o tamanho da Califórnia. Além do poncho. o sol rompeu a camada de nuvens e o céu tornou-se azul-turquesa. havia três climas dife- rentes. — As pessoas vêm para as terras baixas à procura de uma vida melhor e terminam num lugar como este — comentou David. Começou a ventar na estrada.. No momento. As pessoas ao longo da estrada pareciam tibetanas. num lugar pequeno. Não havia relva. Seguimos para nordeste. sorvete e mais Inca Cola. . — Eles admiram Guevara por aqui — disse David.. sobressaindo apenas por sua água mineral. Disse que o próprio estilo do pon- cho seria extremamente apropriado. que mal existia. a terra era árida.. Senti-me feliz. mas já viajara bastante para saber que nada era suficientemente quente nas montanhas depois que o sol desapa- recia. deixando a cidade e nos encaminhando para os contrafortes dos Andes. havia uma cidade de cerca de 100 mil ha- bitantes. As colinas ao redor eram de rocha e a- reia. não havia árvores. servindo de agasalho e de co- bertor ao mesmo tempo. independente do lugar do mundo em que se vivesse. localizada no alto dos Andes. que tive a maior satisfação em cobrir. sem qualquer preocupação pelo que devia espe- rar. Pequenas barracas vendiam frutas. Em- bora o tempo nos arredores de Lima continuasse nublado e sombrio. Era lindo e macio. por onde se via índios metidos em seus ponchos. e tudo montanha acima. Huancayo ficava a 360 quilômetros de Lima. comecei a me sentir feliz.

Assim que acabou a pavimentação da estrada. Passamos por uma fundição. o- melete com um molho quente. O rio começou a se agitar sobre rochas. agora três quilômetros atrás de nós. Vi- vem e morrem fazendo apenas isso. Continuamos a subir. Burros apareciam ao longo da estrada. quando dispunha de um amplo su- . — São comunidades que se dedicam exclusivamente a isso. O leito do rio foi se tornando ainda mais ver- de. sentindo que esta- va prestes a levantar vôo. como David achava que o governo militar de esquerda não agüentaria por muito mais tempo. com índios tra- balhando nos campos ao redor. Pequenas comunidades afloravam por toda parte. mas no que me interessava a comida podia ser digna de um gourmet peruano. com flores colocadas na frente. por baixo das colinas vulcânicas. esburacada. Mas aspirei assim mesmo um pouco do oxigênio e deixei a máquina. mais a paisa- gem se tornava verde.400 metros sem qualquer problema. o gado pastando no fundo. que passou a ser de terra. que eram agora mais íngremes. — Espere só até vê-lo mais no alto. Santuários de um azul-turquesa estavam postados em posições estratégicas. cada vez mais. Havia pequenos vales entre os contrafortes. onde uma máquina de oxigênio aguardava. — Sempre que uma pessoa morre num acidente de carro aqui nos Andes é enterrada no próprio lugar em que ocorreu a tragédia. como o Peru importava quase todo o seu petróleo do Oriente Médio. — É o Mantaro — informou David. Estávamos viajando há mais de uma hora sem parar. ele in- formou que ainda teríamos cinco ou seis horas de estrada pela frente. O restaurante parecia uma lanchonete mexicana. Pequenas plantações eram agora visíveis. plenamente equipada. Comecei a me sentir um pouco sonolenta. com muitas costelas. Uma mulher num poncho rosa listrado carregava água para o seu destino. Começamos a seguir o começo de um rio. Comecei a respirar um pouco mais depressa. imaginava que não teria qualquer dificuldade. David sugeriu que parássemos num restaurante à beira da estrada e comêssemos arroz e feijão. A comunidade se chamava Rio Seco e por trás o solo era mais rico e mais preto. David pediu água mineral e nos acomodamos para comer arroz e feijão. conversamos principalmente sobre os costumes peruanos. Um túnel ferroviário atravessava os penhascos. Passamos por Cocachacra. Quanto mais subíamos. David percebeu e me levou para os fundos do restaurante. Durante o almoço. Como eu já dançara a uma altura de 2. — São túmulos — explicou David. — É aqui que aprontam o carvão extraído das montanhas — disse David.500 metros de altura. Havia pequenas pedras quadradas destacando-se no solo. batatas cozidas frias com uma espécie de maionese de amendoim. Estávamos agora a cerca de três mil metros de altura. Estava tudo delicioso. que David disse que devia ser Rio Seco. Estávamos agora a 1. para socorrer qualquer turista que sofresse enjôo da al- tura.

menos ver- . Eram mais horizontais.primento sob as montanhas. pretextando a altitude e a necessidade de se manter plenamente desperto para o longo e sinuo- so caminho que teríamos pela frente. — Há uma vasta riqueza em minérios nestas montanhas — comentou David. poderia encontrar mais oxigênio num centro minei- ro próximo. David disse que. Pessoas socavam pedras ao longo da estrada. — Não há combustão suficiente. E foi o que aconteceu. eu nada sentira de mais sério. curtidos. abas com fitas pretas. A extração de minério de ferro e outros minerais parecia ser o trabalho em torno do qual giravam as vidas de todos. dizendo que por todo o Peru havia civilizações soterradas há milhares de anos. em inglês. Eles não têm o res- peito devido pelo passado. usando pás manuais para encher os vagões. A folhagem desapareceu das montanhas e restou apenas uma argila vermelho- laranja. Até aquele momento. Mas não era necessário. Passamos agora por uma comunidade mineira chamada Chicla. chapéus brancos engomados. — Mas isso nunca vai acontecer. se o governo peruano pudesse dispor de dinheiro sufi- ciente para isso. Os vestidos eram de algodão. É por isso que estarão sempre condena- dos a cometer os mesmos erros no futuro. A fumaça do cano de descarga do Plymouth era agora azulada. Um deles tinha a inscrição "Para Llorar" e o outro "Para Reir". Até mesmo os ônibus que passavam por nós eram turque- sa.746 metros acima da superfície do mar. por baixo. feliz por eu es- tar também. flutuando em rostos bronzeados. Mais índios peruanos trabalhavam ao longo da estrada. lembrando-me do que eu vira nos Himalais. Vi um cartaz que informava que estávamos mos 3. parecia menos veemente que em Los Angeles. Talvez as pessoas estivessem querendo pintar a cor do céu. mas a meus olhos as feições podiam ser orientais ou mongóis. Não falamos sobre qualquer coisa pessoal e deixamos o restaurante assim que acabamos de co- mer. Ele discorreu por algum tempo sobre os deslocamentos geológi- cos sob os Andes. Mas não se preocupe que já vai pegar outra vez. estava escrito: "Sua mulher o ama?" Voltamos ao Plymouth e seguimos viagem. mas todos os outros prédios eram pintados de turquesa. David estava relaxado. — E são minérios que não se encontram em qualquer outro lu- gar da terra. Ha- via uma igreja branca. David comentou que 70 por cento dos peruanos eram índios. Pirâmides de terra mineral se destacavam nos vales em que os índios trabalha- vam. Muitas fumavam. Recusou um drinque oferecido pelo proprietário. se eu sentisse a náu- sea da altitude. As mulheres usavam tranças pretas compridas e grossas. — É a falta de oxigênio — explicou David. Shirley. Os contornos das montanhas mudaram. os olhos pareciam passas. parecendo a imagem de cartão- postal em que se escrevia "Gostaria que você estivesse aqui ago- ra". Passamos por uma pe- quena aldeia mineira. O carro rateou e morreu pouco antes de entrarmos num túnel. no momento em que ouvíamos uma manada de lhamas conduzida pelo túnel. esperando para serem reveladas em escavações. chamado Casapalca. Os cabelos eram de um preto azu- lado. Havia dois jarros no balcão perto da porta. de cores fortes.

Embora o sol fosse bastante quente. Podíamos ver a estrada sinuosa lá embaixo. — Deus do céu! – É. com um cartaz da Mobil Oil num lado e um da Coca Cola no outro. sombras púrpuras caindo. corria paralelo à estrada. Minério de ferro. – Aí está o Rio Mantaro. Respirei fundo. E a cerca de 4. Havia uma igreja católica em cada comunidade. a seis mil metros de altitude. franzindo as sobrancelhas. não pavimentada. Havia neve nos cumes. Passamos por sepulturas à beira da estrada. exatamente como eu queria que você o visse — disse David. usando chapéus brancos de palha. tremulava uma bandeira peruana. estavam sentadas a tricotar com lã de lhama. é exatamente por isso. — Viemos ver discos voadores? É por isso que estou aqui? — Talvez. As montanhas eram como colinas ondulantes. Flores silvestres cresciam por toda parte. Ele sorriu e dis- se: — Não sou o único maluco. David comentou que não raro um ônibus rolava pelo precipício. enquanto o sol da tarde descia para o que chamávamos nos filmes de Hora Mági- . Os camponeses peruanos vestiam-se como tibetanos a levarem rebanhos de cabras. misturado com laranja. que se tornava mais e mais quente. havia outro cartaz: "EXISTEN LOS PLATILLOS VOLADORES CONTACTO CON OVNIS". As cores eram uma mistura de amarelo e laranja.. O solo da montanha era agora de um vermelho profundo. A estrada era agora rochosa. — Já contemplou alguma coisa mais bonita? A planície mais à frente é o que chamamos de Vale do Rio Mantaro. Ali perto. estávamos descendo. sim. Durante o dia inteiro contemplavam os cumes nevados lá em cima. Um porco sel- vagem peludo passou entre duas construções. não é mesmo? — O que significa isso? — Significa que as pessoas vêem muitos discos voadores por a- qui e é do conhecimento comum. Roupas pendiam de varais ao sol. um rio magnífico. como se a associação básica deles com as montanhas fosse fria.. os homens usavam suéteres e gorros de lã. A temperatura estava mais fria agora. comecei a avistar eucaliptos e pinhei- ros. mas ninguém se perturba com isso.ticais. A estrada era mais suave agora. Seguimos em frente. Estava ao lado de uma ferrovia que cruzava a chamada Abra An- ticona e dizia: "PUNTO FERROVIARIO MAS ALTO DEL MUNDO". cor de cobre. As mulheres usavam um vermelho iridescente. no cume de uma montanha. A estrada era perigosamente estreita. adornadas com flo- res silvestres roxas. explicou David. E lá no alto. O sol era brilhante. o ar puro e rarefeito. As montanhas voltaram a exibir manchas verdes. Olhei para David.600 metros de altitude depara- mos com um cartaz. Duas mulheres. Passando por San Mateo. as cores se tornando mais brilhantes à medida que subíamos. à medida que subíamos.

a cerca de 20 metros de distân- cia... — É o nosso hotel. Mas eu deveria pôr alguma roupa mais quente. Eram contíguos. Se vai desfazer as malas. antes de sairmos para o nosso pri- meiro banho de água mineral. que era exatamente igual ao meu. relutante. Acenei com a cabeça. Ao lado do catre havia um caixote que servia como mesinha-de-cabeceira. Não havia hotel nenhum. Estou no quarto ao lado. não havia quaisquer outras construções ao redor. Bateu na parede fina e disse que o Rio Mantaro seria o nosso banheiro e me levaria até lá dentro de um momento. Havia uma manta na cama e um travesseiro encardi- do. — Seu armário. — Ahn. Ele falou-lhes em espanhol e gesticulou para mim. permitindo que se abrisse independentemente a parte de cima ou a de baixo. entramos num pátio de terra. Elas sorriram para nós e acenaram para David.. cinzento. enquanto um galo corria de um lado para outro. David desapareceu em seu quarto. Virei-me para Da- vid. mas não havia porta de ligação. mas é o Lar... O chão do quarto era de ter- ra batida. sem lençóis. David parou o Plymouth à beira da estrada. sem fronhas. Era indiscutivelmente algo saído de uma das minhas vidas antigas.. Vamos até lá.. . Eu não podia acreditar no que David estava dizendo. Aquilo não era ficção científica. — Estarei de volta num instante. tinha um catre baixo. — Isto é para valer? — É. pendurada de um barbante. sim. Abri a porta de um dos quartos. — murmurei. Ele apontou para uma construção de adobe no outro lado da es- trada. Shirley.. É onde vamos ficar. Três mulheres socavam uma pilha de grãos à beira da estrada. porque não conseguirá ver coisa alguma depois que o sol se puser.. Exceto por outra estrutura. onde dois homens ao lado de uma construção de adobe estavam juntando com as mãos bar- ras quadradas de argila. — É verdade. Havia uma passagem pavimentada que levava ao que descobri serem dois quar- tos. No outro lado da porta havia uma peça qualquer de algodão.ca. Ele pegou nossas malas no carro e me disse para segui-lo. como se estivesse nos apresen- tando. Não havia eletricidade e não havia banheiro. Não é grande coisa. — Isto é Llocllapampa. — Você tem uma grande imaginação. é melhor fa- zê-lo agora. — Em que lugar? — Ali. Nuvens intumescidas pairavam imóveis no céu claro quando tive a minha primeira visão de um Shangri-La andino. Ele sorriu.. Shirley. entre as suas saias. Através de uma porta de madeira separada no meio. dentro do prédio de adobe. — É aqui — disse David. Havia alguns pregos cravados na parede de adobe.

Tirei as fitas. A cada mo- mento do sol poente que passava eu compreendia como a noite seria fria. circulando entre as mesas. Ficaremos com a- zia das águas minerais se comermos agora. Uma índia velha. índios peruanos riam e aclamavam jovialmente. a fim de ter algum alimento dispo- . abanando o rabo. Jamais es- quecia de levar um chapéu de sol onde quer que fosse. Através da porta. Eu não estava mesmo com fome.." — E. Olhei para o relógio. não pode ser o mundo externo. Atravessamos o pátio e voltamos à estrada. sem qual- quer dente. que eu não podia ver. mas apenas a imagem projetada do ego. este uni- verso externo aparentemente real.. porque meu rosto se convertia num tomate depois de duas horas ao sol em gran- de altitude. ha- via uma construção de adobe em que se lia a palavra COMIDA. pendurei um suéter. Anotei rapidamente como o lugar parecia e sentia. armadas para a noite. Animais de terreiro. bem alto. parece a morte. acompanhada por três filho- tes. Misticismo Abri a mala que percorrera o mundo inteiro em minha companhia. pude ouvir um rádio cheio de estática a trans- mitir uma partida de futebol. Lá dentro. mas espere só para ver o que acontece depois. o gravador e blocos de anota- ções. entregou-me uma toalha e orientou- me a levar meu poncho e pôr as botas. Agradeci a Deus (ou a alguém) por mi- nha menstruação ter acabado recentemente. No outro lado da estrada. Isso significava que as pessoas lá dentro cozinhariam para nós.. Banhos minerais com aquele frio? — Exatamente — confirmou David.. Deixei as roupas de baixo na mala imaginando se teria a possibilidade de levá-las. gorgolejavam e cacarejavam. Os homens que trabalhavam nas barras de argila haviam desapa- recido. Não teria de me preocu- par com isso.. que por algum motivo sempre me fazia sentir segura. — Não — disse-me David — Vamos comer depois. o poncho novo e um chapéu de sol. — A princípio. para a nossa primeira visita aos banhos minerais. que este mundo dos sentidos.. perguntou se não gostaríamos de tomar a sopa. mas perguntei se alguém poderia cozinhar alguns ovos para mim. Underhill. As montanhas ao re- dor estavam envoltas por sombras púrpura. Uma cadela sarnenta aproximou-se de nós. David bateu na minha porta. A evidência dos sentidos não pode ser aceita como prova da natureza da suprema realidade. em frente ao nosso "hotel". embora possa ser útil e válido sob outros aspectos. A sopa fumegava num fogão a gás.Capítulo 20 "É imediatamente patente.

pude perceber que o rio era laranja. Havia alguns pequenos outeiros co- bertos de vegetação na descida até as águas. — Vamos logo — disse David. respingava os galhos pendentes das árvores enraizadas nas margens altas. estará mais quente do que se não tivesse entrado. a fim de poder me vestir depressa quando saís- se. levando-me para o que parecia ser um cercado de adobe. porque a esta altura estava tremendo de frio. Tentei imaginar o que as pes- soas faziam depois que saíam da água. Fui até o poço de água borbulhante e lentamente a- fundei a perna direita. – Por alguns minutos. Ela sorriu e assentiu. Mas. efervescente. que tudo se danasse! Deixei as roupas numa pequena pilha no banco de madeira. David pediu à índia que pegasse os ovos no Plymouth. E um momento depois. contemplan- do o sol a se pôr atrás das montanhas. coberto por folhas de zinco. mas espere só até sentir como é lá dentro. abriu-se diante de mim o glorioso Rio Mantaro. projetando sombras volúveis nas paredes frias. Estudei o melhor lugar para pendurar cada peça. Tirou uma lanterna do bolso e acendeu-a. Borbulhas picantes aderiam à . um poço borbu- lhante de água efervescente. Ele abriu uma tosca porta de madeira e entrou.. mas algum dia teria de voltar a dançar. Estava faiscando e parecia que não era ape- nas pela luz de vela. Chame-me quando estiver pronta. envoltos por seus ponchos. Podia estar em Shangri-La agora. Ora.. A mão estava congelando quando a retirei da água. Uma camada ligeira de vapor pairava por cima. Bem devagar. Mesmo com a pouca clarida- de. rindo. tirei rapidamente a calcinha e as meias. Ao lado do banco havia um buraco fundo. A chama da vela bruxuleava. A impressão era de ser da própria água.. – Os minerais fazem a água borbulhar — explicou David. Gostaria de poder entrar na água completamente vestida. em caso de necessidade. Eram íngremes e. Vai ver só. — Ficarei esperando lá fora. Como se costumava fazer ali? Eu de- veria tirar todas as roupas com David parado ao meu lado? – Pode se preparar — disse David. de- pois. – Devo entrar de corpo inteiro nesta água e não congelar até a morte quando sair? — perguntei. vai sentir um frio terrível. Podia ouvir a água correndo lá embaixo.nível. ao pôr-do- sol. senti-a quen- te e borbulhante. imaginan- do como pareceria a David quando ele voltasse. Corria pelos rochedos da montanha. Era um pouco escorregadio. — E é uma coisa maravilhosa para ossos e músculos doloridos. tirei o poncho e pendurei-o num dos cinco pregos na parede. acendeu-a e colocou-a num banco de madeira dentro do galpão. Fiquei de pé. na semi-escuridão. Olhei para o poço. Uns poucos índios es- tavam acocorados na margem. Ao final. meio constrangida. Tirei depois o suéter e o jeans. Perguntei-me quantas pessoas fariam aquilo à luz de ve- la. fiquei com receio de tropeçar. Não é grande coisa ao se olhar. — Este é um dos famosos banhos minerais dos Andes — comentou David. Ajoelhei-me no chão de terra e passei a mão pela água. Para minha surpresa. Tirou de outro bolso uma vela. David levou-me para os fundos do prédio. como champanha.. Descemos alguns degraus. Esperava encontrar um fundo e foi o que aconteceu.

David virou-se. — Pois focalize a chama fixamente e respire fundo. por onde a água escorria para o outro lado. energia e vivacidade. Seus olhos azuis estavam iluminados. Shir- ley. Shirley. — Respirar fundo? — Isso mesmo. Balancei os braços e a impressão era de duas varetas de coque- tel remexendo em champanha que acabara de ser derramado. Tive a impressão de que flutuava. pergun- tei: — Vem aqui com freqüência? David riu.minha pele. Passara o dia inteiro a respirar fundo. correndo os olhos ao re- dor. Este parecia mais brando e sereno. quase engasgando com alguma saliva. botas e meias em cerca de cinco segundos. Eu me sentia completamente ridícula. camisa. Tudo isso é muito súbito. Era difícil me firmar no fundo. David. Obedeci. — Balance os braços para cima e para baixo deste jeito. — Quer experimentar uma coi- sa? Pensei: Oh. — Posso largar os braços? — perguntei. Parecia que o movimento gerava o seu próprio calor. tirou o blusão. no outro lado do peque- no poço. Respirei fundo. Era como se tivesse a- cabado de mergulhar numa taça gigantesca de soda quente e bor- bulhante. calça. — Sei disso. — Espere só até sentir a água penetrar por sua pele. Parecia que estava andando na água. Respirei fundo outra vez. o suéter. Respirei fundo. tentei relaxar. David manteve-se imóvel. Ele estava na água. Havia um buraco quadra- do no outro lado. querendo dar a impres- . — Tem toda razão. a luz da vela bruxuleando na parede oposta. — Terá de me aturar um pouco. Nem mesmo tinha vontade de indagar o que ele estava querendo dizer. Aque- las águas possuíam o seu próprio vigor. Imaginei como eu estaria parecendo aos olhos dele. — Pronto. Vai sentir as borbulhas aderirem à sua pele. Tornei a me virar. Shirley. vai começar! — Em que está pensando? — indaguei. Ao que parecia. — Está vendo a chama da vela? — Claro. — Claro. A sensação era maravilhosa. pequenas gotas pinga- vam do queixo. Era diferente dos ba- nhos sulfurosos no Japão. Não podia pensar em qualquer comentário a fazer e. Afundei na água até o pescoço. — Ele olhou para a vela. dizendo: — Você vai se virar agora. simulando indiferença. — Pode entrar! — gritei para David. assim. mas tenho a sensação de que nada foi igual a isto. cue- cas. Sei que já fiz uma porção de coisas na vida. — Já estou na água e é sensacional! Ele passou pela porta. o poço era constantemente alimentado de algum lugar abaixo da superfície. merda.

olhando para a chama. Ri alto. Senti-me indignada. como se fosse o cen- tro do seu próprio ser. Shirl? — Eu. produzindo um eco nas paredes. nem mesmo quero. Pensei: Isto é um alívio. Eu me sentia ridícula agora.. seria muito difí- cil afundar nesta água. David? Por que não? — O que está querendo dizer com "por que não"? Não foi para isso que viemos até aqui. gen- tilmente: — Respire fundo outra vez. em mais nada. Permaneci imóvel.. David interrompeu-me o devaneio: — Se eu estivesse pensando nisso. pensei. — A mulher que está pa- rada atrás de você.. tudo o que teria de fazer seria sugerir. Shirl. zombeteiramente. com medo? – Não — murmurou ele. Além do mais. David pergun- tou suavemente: — De que está com medo. terá de ser pacien- te e me dar tempo. Pensei em todos os homens que ha- viam dito: Ei. Não pude conter uma tosse. — Claro.. não é mesmo? Ele riu também. quem quer que isso fosse. Senti que se elevavam ligeiramente. sim. conforme ele sugerira. Tinha certeza de que David poderia ouvi-lo reverberar através da água. Pelo menos não me afogarei se acon- tecer o pior. Até eu ser a chama da vela? Nem mesmo posso neste momento ser eu. — Pois não precisa hesitar. — É. Era evidente que David pensava que eu era uma idiota. estou hesitante. até sentir que é a própria cha- ma. Respirei fundo outra vez. concentre-se na chama da vela e respire fundo. pensei. O coração batia forte. que nunca poderei abaixá-los. quero apenas deitar com você e relaxar.. Concentrei-me e respirei ainda mais fundo. . Não quero fazer mais nada. Vão flutuar nesta água.são de que estava disposta a experimentar qualquer coisa. já tivemos du- as vidas juntos.É que. Acho que terei mes- .. como se não estivessem presos ao corpo. Ele nem mesmo queria? — Por que. Shirl. por cau- sa dessa maldita flutuação. Tentei outra vez me concentrar na chama da vela e David me orientou. Essa não!.. acho que não tem mal algum. Quero apenas que experimente uma coisa. Agora ele vai pular através do poço e me pegar por baixo dos braços. Larguei os braços. — E agora concentre-se na chama da vela. Na verdade. Ele deve estar brincando. Faça com que a vela seja você. Santo Deus!.. Olhei fixamente para a chama a oscilar. Afinal. Se pensou que fosse. sorri à luz da vela. é que. não é o que você está pensando. — Vamos. não é mesmo? Ele era mesmo direto. — Está bem. Tentei não piscar. – Concentre-se agora na vela. Pense ape- nas na vela.

Sentia as paredes frias que alojavam o poço de água quente. Eu gostava do som da voz de David por cima da água. mas agora começava a ser o centro da minha mente. a vela. medo ou qualquer outra coisa que se queira chamar levou-me a deter o fluxo de rela- xamento e a tentativa de me tornar "uma" com tudo. — Assim está bom — ouvi David dizer. O tempo foi se arrastando lentamen- te. A vela continuava a bruxulear. Eu estava totalmente consciente. tornei-me a água e cada borbu- lha que era uma parte componente da água. O próprio ar parecia vibrar. Concentrei-me com mais relaxamento. os dois ritmos pareciam sincronizados. até que podia dizer que os olhos estavam parcial- mente fechados. Senti que minha respiração se tor- nava cada vez mais lenta. muito embora es- tivesse perdida em algum lugar no meio. Na verdade. Elizabeth Arden deveria ensinar isso em seus cursos de beleza. Parei nesse ponto. as rochas por baixo da água. a água. — Não. Senti que a mente começava a relaxar. Podia ouvir David me falando. Você pode aprender a rejuvenescer assim instantaneamente. pensei. Ouvia a voz de David no fundo da minha mente. mas ao mesmo tempo era parte de tudo ao redor. Lembro da percepção de que cada borbulha era parte de toda a água que me cercava. mas ainda distanciada da minha própria respiração. eu era o ar. mas toda eu. O que importa é que você o es- queceu por algum tempo. Mas. até que eu não tinha mais consciência dele. quase como se a água não pudesse ser o que era sem que cada borbulha cumprisse a sua parte para manter o todo. O que achou de sua primeira tentativa de meditação respiratória? Estendi os braços para fora da água e perguntei que horas e- ram. acima de tudo. uma brisa amena. Sentia sombras. Se puder aprender a regulá-lo. Pergun- tei-lhe se eu fora hipnotizada. Além do mais. Outra vez a hesitação. Mas que merda. Respirar é um ato involuntário. Shirl. David está certo. numa espécie de sonho. as paredes. Não restava a menor dúvida. Parecia saltar junto com as borbulhas. — Foi ótimo. pensei. bem devagar. Senti as pálpebras um pouco pesadas. Respi- ração é vida. clarões. as bor- bulhas. Eu era o ar. Como eu era parte de tudo ao redor. E depois senti a interligação da minha respiração com a vibração de energia ao meu redor. Pa- recia ser uma entidade em movimento que escapava ao meu controle. sentindo plenamente o meu ser. mas ainda assim a vela era visível. Ele . a escuridão. Não sente que descansou profundamente? Era mesmo o que eu sentia. suavemente: — Assim está ótimo. Devagar. — O tempo não tem importância. permanecerá jovem por mais tempo. Pude sentir que tomava a decisão conscien- te de não seguir adiante. isso incluía David tam- bém.mo de fazer isso. não apenas os meus braços. Respirou de verdade. Você respirou. sentia o interior de mim mes- ma. E depois senti minha energia vibrar para Da- vid. percebi que o coração pulsava no mesmo ritmo da respiração. Sentia o reflexo involuntário da minha própria respiração. Era um sentimento duplo maravilhoso. Você está indo muito bem. até mesmo o som do rio correndo lá fora. Foi apenas uma expansão de percepção auto-rela- xante. De alguma forma. Gradativamente. To- do o meu corpo parecia também flutuar. Sou uma idiota e ele é de fato maravilhoso.

O ar frio da montanha devia estar em torno dos 15° C. que poderia estar ali. Essa água é de fato uma coisa sensacional. eu sabia que tinha de comer imediatamente ou a taxa de açúcar no sangue cairia abruptamente. sim. feito de carne.. fazendo aquilo. espe- .falava sobre os animais. Tornando a subir os frios degraus de pedra. David sorriu. E estou gelada agora. até sentir o sangue aflorar de novo à superfície e começar a formigar com um calor agradável. pés e tronco. Sentia as borbulhas de champanha em meu cére- bro. Sugeriu também que eu usasse o rio como banheiro agora. Havia alguma coisa na maneira como ele falou que me provocou um calafrio. O que você me diz? — Eu digo que está na hora de sairmos. pensei. Dois meses antes jamais poderia prever. — Viver por muito tempo? Não sei. explicando que os que viviam mais tempo eram os que respiravam menos. já inteiramente vestido. mas logo o calor do corpo refletiu-se por den- tro da lã do suéter e meias. Eles terão leite quente à nossa espera e um guisado índio. porque mais tarde estaria frio demais para realizar a jornada.. Mas tinha sangue quente e estava começando a me sentir trêmula. legumes e ervas das montanhas. esfregando as mãos e sorrindo. Dei a volta para o lado do galpão. mesmo nos delírios de imagina- ção. Meus dentes chocalhavam como se fossem postiços. De- pois. E você? — Eu? — Não. comentando que preci- saríamos dela mais tarde. Alguma coisa sobre tartarugas gigan- tes respirando apenas quatro vezes por minuto e vivendo por 300 anos. — Muito bem — disse David. Saí da água devagar. mas acho que isso não vai acontecer. Podia-se contar com eles. Ele virou o rosto para a parede. Lembro de ter pensado que eu também poderia respirar apenas quatro vezes por minuto se tivesse sangue frio. Minhas roupas estavam frias em contato com a pele. Ele apagou a vela e guardou-a no bolso. A vida era um romance. David. — Ninguém poderia viver neste frio por muito tempo. Sairei assim que acabar de me enxugar. — Vamos subir e comer alguma coisa. Senti-me subitamente faminta. com toda força que podia. Agachei-me por trás de um rochedo e usei o lenço de papel que metera no bolso.. esfreguei os braços. em nossos quartos. e quando aquelas pontadas surgi- am. E também aprendia que confiar nos melhores instintos dentro de mim tinha as suas virtudes. contemplei o rio e as montanhas escuras. mas eu me sentia muito bem. E o calafrio me surpreendeu. — Estou me sentindo maravilhosa agora. — Pegue a lanterna no meu bolso e fique me esperando lá fora. Shirl? Sacudi a cabeça. pernas. as mãos tremiam tanto que mal consegui pegar a toalha pendurada no prego da parede. — Está interessada em viver muito tempo. E estava adorando. — Se estou interessado em viver por um longo tempo? — Isso mesmo. O homem que está parado atrás de você. — Estou.

Imaginei o que Gerry pensaria se pudesse me ver naquele momento. Informei-o que já ouvira a maior parte antes. Uma jovem cozinheira tinha um filho agarrado nas saias e outro pendurado nas costas. Estava criticando os meus hábitos alimentares prejudiciais. A comida estava deliciosa. Respondi que sabia disso. Eu falei que não era muito boa em qualquer das duas coisas. eu presumiria que suas intenções eram outras. Comentei que adorava a "comida porcaria" e ele disse que era extremamente prejudicial comê-la. E lembrei-me da época mais feliz da mi- nha vida. embora fosse de noite. ou 10 pessoas. quando o mundo e a vida pareciam muito simples. enquanto David fazia a mesma coisa comigo. porque ao mesmo tempo se estaria cuidando do espírito. — Eu lhe mostrarei uma parte da região e poderá compreender porque amo tanto este lugar. mas ele próprio parecia tenso. — Vamos fazer uma longa caminhada amanhã — disse David. refleti sobre o seu comportamento durante to- da a noite. Usava o chapéu branco engomado costumeiro e a aba com a fita preta. mas ele também os tinha. Parecia às vezes não estar realmente desfrutando a vida que dizia que eu deveria relaxar e aproveitar. Ele me levou através da estrada de volta ao hotel. Pensei em minha canção-tema. Trazia leite quente e guisado. Crian- ças com o nariz escorrendo brincavam entre as mesas. Imaginei o que um público de Las Ve- gas pensaria se eu surgisse no palco e contasse algumas piadas so- bre descoberta espiritual nos Andes. David deu-me uma aula sobre alimentação natural. mas adorava assim mesmo.. Eu parecia mesmo ser duas pessoas. David pediu leite quente e guisado. Disse que era apenas uma questão de química. Passei pedaços do pão de fabricação doméstica no molho grosso. As estrelas estavam tão perto que eu tinha a impressão de que poderia estender . — Tudo acontecerá no de- vido momento. Ele comentou que era muito importante cuidar do corpo.. Enquanto ele falava. pare- cendo outra vez ler os meus pensamentos. não sabia muito bem. Conversamos sobre a comi- da. Seria uma atriz porque estava em contato mais profundo com alguns dos papéis que desempenhara em outras vidas? A mulher com a criança nas costas veio até nossa mesa. — Não se preocupe com o momento de dormir — disse David. temperada com ervas das montanhas de que eu nunca ouvira falar. Servi-me como se comer pudesse sair de mo- da a qualquer momento. David parecia às vezes quase pomposo e presunçoso. Se ele tivesse falado isso uma hora antes. Era muito engraçado: eu estava pressionando Gerry a se soltar e assim saber mais quem era.culei se não estaria muito frio quando quisesse dormir. que estavam armadas para os turistas que poderiam estar explorando a região e sentissem vontade de comer. David parecia compelido a me ensinar tudo o que podia. If They Could See Me Now (Se Eles Pudessem Me Ver Agora). A partida de futebol transmitida pelo rádio ainda continuava quando entramos no prédio de COMIDA na estrada lá em cima. Estava dizendo que eu deveria relaxar. o mais depressa possível. acampando na Virgínia.

a sensação era agradável. Meti-me sob o cobertor de lã na cama e rezei (por assim dizer) para me manter aquecida. Os pés estavam como gelo. ouvi porcos grunhindo. Como a lã de alpaca era macia. Os Andes não eram como os Himalaias butaneses. O corpo gera a sua própria aura de calor. por baixo do poncho. Pensei no que era ser uma grande estrela quando re- almente não se merecia. Era bom estar sem ele.. Era o espaço que estava quente. com os lamas butaneses. o cobertor elétrico era o meu item predileto da civilização moderna.. Capítulo 21 "Nenhuma teoria da física que cuide apenas da física poderá ex- . Shirl. Naquele momento. de jeito ne- nhum. Não demorei muito a perceber que os músculos estavam relaxando no espaço aquecido entre meu corpo e as cobertas. — Não faça isso. um pequeno aviso sobre dormir num clima frio: se deitar sem roupas.. com apenas o som do silêncio ao redor.a mão e arrancá-las do céu como se fossem ameixas. Acalmei a mente e os dentes chocalhando da melhor forma possível. E depois. peguei no sono. Tirei as roupas debaixo do poncho. Não pude entender. Senti que contemplava minha pró- pria caldeira. desejou- me boa noite. Pensei como se- ria impossível para mim descrever a Gerry em que estava empenhada. Pareciam mais baixos e mais espalhados. em algum lugar por trás do prédio. — Antes. eu não me sentia tão insignificante como acontecera no teto do mundo. Compreendi de repente que a maior parte das coisas que não entendíamos em nossas vidas era o que não podíamos ver. Nossos quartos eram úmidos e bolorentos. Ver não era acreditar. comendo cheese- burgers e comentando que os grandes astros não tinham tanto talen- to como eles. Pensei no cobertor elétrico à beira do mar e como adorava dormir em meio a uma chuva fria com as janelas abertas e o cobertor ligado no máximo. O ambiente não era tão isolado. Ex- perimente e compreenderá. no alto dos Andes. Contemplar era mais importante. A verdade invisível era a verdade que exigia mais empenho para se descobrir.. Imaginei se estaria de fato vendo onde se encontrava. Imaginei onde ele estaria agora. Onde estariam meus ciganos naquela noite? Meus dançarinos. Esperei. Estava com a intenção de vestir tudo o que tinha ali. vai descobrir que é muito mais quente. Despedi-me de David. David entregou-me a vela. informou que tinha outra. Pensei novamente em Gerry. Com uma espécie de tremor relaxado. Imaginei quem já te- ria dormida ali. no Joe Allen's. Não queria ouvir mais nada dele. A temperatura estava bem mais baixa quando en- trei. Pensei em meu show. não as cobertas. Esperei mais um pouco. E por causa da cultura difusa dos índios peruanos. Quase que podia ouvir as montanhas ao redor oscilarem sob as estrelas.

. Shirl. — Tem razão. piscando-me um olho. pensando na lógica contraditória que era me vestir agora. Pus o chapéu de sol da Califórnia e saí. e despir na noite fria. Estou convencido de que começamos a desconfiar que o homem não é apenas uma pequena engrenagem que não chega a fazer qualquer dife- rença na vasta máquina em funcionamento. há um vín- culo muito mais profundo entre o homem e o universo do que até ho- je suspeitamos. deparei com David sentado num muro de argila. Acho que . com uma compreensão implícita de que a li- gação amorosa de dois quartos que David e eu estávamos tendo era simplesmente outro estranho costume norte-americano.disse David. em algum sentido profundo.. Levantei-me. Contornando o Piymouth. mas foi o que aconteceu. Sentamos junto a uma janela e avistei as mulheres da tarde an- terior continuando a socar os grãos. Não entrou no meu quarto porque não havia janelas.plicar a física. Creio que à medida que continuamos tentando com- preender o universo estamos também tentando compreender o homem. Como passou a noite? — Exatamente como você disse. em vez disso. — Bom dia. — Qualquer coisa que fizermos é só da nossa conta e de mais nin- guém. não é mesmo? — Como assim? — Está finalmente acreditando porque é. ao ser humano" Dr. À claridade da manhã. Sabia que o ar da montanha estaria fresco e que o sol queimaria por causa da altitude. O poncho me envolvia confortavelmente. os pés descalços no chão de terra fria. A nudez representou calor. John A. O que temos para comer? — Seus ovos estão cozidos. Vamos pedir leite quente e pão Entramos na casa onde se comia. Podia sentir o cheiro de fumaça matutina saindo do outro lado da estrada... – É o começo de um hábito para você. o que era um hábito constante. Eu não teria acreditado. — Comeremos o pão daque- las espigas dentro de um ou dois dias. Assim. agora de uma bolsa e um pouco de sal. mas o contraste com o frio da noite era tão acentuado que pude sentir o calor dos primeiros raios mesmo através das paredes. reparei que as telhas do nosso hotel de adobe eram vermelhas. Wheeer O sol elevou-se acima das montanhas por volta das cinco e meia da manhã. você só precisa. A mulher com o filho nas cos- tas sorriu jovialmente. David recostou-se na cadeira e ficou me observando. o mundo físico está vinculado. — Eles não fazem perguntas pessoais por aqui — explicou David. quando o sol es- tava de fora. observando os mesmos homens do dia anterior a aprontarem tijolos que seriam usados numa casa que estavam construindo. — Estão separando o joio do trigo —. Os galos em torno das mulheres tinham penas da mesma cor. Passara a noite inteira bem aquecida.

. uma pessoa não precisava de muita coisa.. numa demonstração de pura alegria infantil. David saiu correndo na minha frente. Meu co- ração estava um pouco disparado por causa da altitude. luta. David? — Grande idéia. — Não está triste hoje. David? — Claro que não. Os cabelos grisalhos escorriam em torno do rosto. Shirl. Manchas brancas sulfu- rosas flutuavam na superfície. mas se mostravam pacientes e resignadas... recolheu alguma e bebeu. Saímos para o sol. meio espantada. balançando a cabeça de um lado para outro.. escovar os dentes ou se lavar. produzia novas borbulhas no centro. — Adoro este lugar — ouvi-o gritar para o rio. Limpa as impurezas e acerta a digestão. Descasquei um ovo cozido e comi-o. — Você.. Comemos o pão e tomamos o leite quente. mergulhei na água e depois provei com a lín- gua. O ar era revigorante em meu rosto. Para mim. Peguei a escova. Representavam todos os extremos em que eu podia pensar. Correu pela margem do rio. exceto talvez mais de si mesma. esta parecia pairar por cima com sua resiliência insuperável. recuperando-se depois que tudo acabava. Ele tinha um rosto realmente bonito. tudo. — Você tem de se acostumar ao gosto. E independente da adversidade que pu- desse se abater sobre uma montanha. grandeza. — Adoro a água. mesmo que qui- sesse. rindo e cuspindo ao sol. com os braços estendidos. Nunca fico triste quando estou ao ar livre. mas é sensacional para o organismo. corri para ele. Uma correnteza lenta. Num lugar como aquele.. saltando. insignificância. levantei o rosto para o sol. — Dormiu bem. topo.. ajoelhou-se. pois não se barbeara naquela manhã.ele resolvera deixar crescer a barba. sabiamente silenciosas. — Vamos dar uma volta pela beira do rio — disse David. por quê? Onde vai que tem de chegar no horário? Soltei uma risada. mesmo quando havia uma erupção dentro de si. Shirl? Teve algum sonho? — Não me lembro. enfim. as montanhas pareciam ter passado por muitas coisas. Ajoelhei-me ao lado do poço e olhei. — Não quer escovar os dentes? Eu estava com a escova no bolso de trás da calça. Ali tem outra fonte mineral para beber. está correndo tão depressa. Era como sal medicinal. Mas sei que me senti bastante satisfeita por estar aquecida. como altu- ra. . ele sorria com um abandono tão alegre que também me senti como uma criança. David baixou as mãos em concha para a água. Eu não tinha a sensação de estar sendo analisada. e provavelmente não poderia tê-lo feito. Adorava as montanhas mais do que qualquer outra parte da Ter- ra. — Podemos sair para uma volta. rio. não é mesmo. quase como um garoto de jardim de infância na hora do recreio.. vinda do fun- do. Estiquei os braços e respirei fundo.. profundidade. fundo. Mergu- lhou a cabeça na água e levantou-a um instante depois. Ele correu em grandes saltos para a água. Ao descermos os degraus de pedra e passar pelo galpão em que se tomava banho de água mineral. realização.

Termi- nei de escovar os dentes. Ele acreditava que a natureza humana era basicamente uma questão de educação. E parecera dar certo. Creio que nos ensinam quase tudo o que senti- mos. As grandes cidades me deixam triste porque as pessoas se importam demais com as coi- sas erradas. O povo era forçado a ser justo através da educação e reeducação. Fora um esforço gigantesco e monumental de terapia de grupo. O que havia de novidade nisso? Não estavam todos procurando pela mesma coisa. no seu passado amargo. mais generosos. E era tão necessária como comida e água. a atitude a ser adotada para se manter a hierarquia social do sistema de classes. E ficou ainda mais quando pensei que a beleza simplesmente existia por si mesma. conhecerem a si mesmos? Três passarinhos azuis estavam pousados no galho de uma árvore. A privacidade e o direito de não participar não eram respeitados. as mãos cruzadas atrás da cabeça... Mas Mao dissera que o povo chinês era um papel em branco no qual se poderia escrever alguma coisa bonita.Este lugar é real demais para se sentir triste. Fora essa viagem que me levara a chegar à mesma conclusão. A audácia deles me fez soltar uma risada al- ta. O Rio Mantaro borbulhava e corria ao nosso lado. olhando para o céu. Ao mesmo tempo em que falava. contemplando-me enquanto passava. A beleza não precisava de uma razão. piscando para o céu de um azul brilhante. — Acha que existe uma coisa a que se poderia chamar de natureza humana? Ele levantou os olhos. Não tinha nada a ver com ninguém. Continuei a arrastar o galho. Shirl? — Claro. Nem sequer piscaram. — Acho que não. Apenas era.. também se está em contato com as pessoas. Da- vid também se levantou e começamos a andar. com algumas nuvens brancas. Eu abria e fechava os olhos.. Quando se está em contato com isto. Creio que as pessoas podem fazer. Peguei um ga- lho e comecei a arrastá-lo por trás de nós. Usara uma espécie de tática militante da marreta na educação da justiça. Gostava da sensação de não ter nada para fazer além de arrastar um galho. podia- se educar o povo a adotar padrões de comportamento que fossem mais democráticos. Todos tinham de participar das sessões de autocrítica. — David? — Rompi o que sentia ser um devaneio dele. respirou fundo. E me senti como um clichê ambulante.. depende do que aprendemos. não podia ser explica- da. espreguicei-me ao sol. pensando em minha passagem pela China. mais justos. em todos os níveis. porque era esse o comportamento da época. mas também o país estava tão con- . Nin- guém podia se esquivar à participação. Os chineses haviam agido de forma brutal e cruel entre si... levantei-me. Ele sacudiu os cabelos molhados e depois se estendeu de cos- tas. A beleza era a beleza. imaginei como seria sentir-me totalmente bem. no empenho de mudar os padrões do passado. Era mesmo lindo. ser e pensar qualquer coi- sa. Senti que David ao meu lado estava relaxado e modesto. Estou me sentindo maravilhosa.. sentir-me totalmente eu mesma. sentir que me co- nhecia completamente. — Sente-se melhor. o ânimo do dia. Não precisava ser partilhada para ser apreciada.

Dizia que somente a mente metafísica do homem pode se comunicar. era o elo que faltava e que de- veria ser parte de nossas vidas cotidianas. eles estavam se permitindo uma rea- valiação total do sistema de valores que fora sagrado por séculos. para mim. Eu começava a acreditar que a coisa que estava errada em nós era a recusa em viver com o conhecimento de que Deus. era algo mais inquebrável que um par. Ele di- zia que 99 por cento da realidade só podiam ser compreendidos pela mente metafísica do homem.turbado que todos compreendiam que tinham de se unir.Dizia que o homem era mente metafísi- ca. só que não percebíamos isso. se nos permitíssemos a opção de confiar nas possibilidades de nosso potencial espiritual. E ao se manterem juntos. E se o nosso potencial fosse o de ser mais espiritual. E o cérebro era apenas um lugar para se acumular informações. mesmo que isso implicasse comer . E a grande lição para eles pare- cia ser o que estavam aprendendo sobre si mesmos. Pensei muitas vezes que devia se descobrir que não se é neces- sariamente competitivo. territorial. Mas o que ajudaria o homem a compreender não apenas de onde vinha.. a característica principal da Nova China fora a das pessoas trabalhando juntas para mudar o que acreditavam ser as suas natu- rezas básicas. angustiadas e ansiosas sobre nos- sas origens e nosso propósito? Como podia o Estado ser útil em nos pôr em contato maior com o motivo pelo qual estávamos vivos. mantidos juntos firmemente. porque usávamos a- penas um por cento de nossa capacidade de perceber a verdade. E que todas as informações sobre tudo. então onde entravam os novos chineses? Eu nada podia descobrir de espiritual na Nova China. Podia perceber a revolução chinesa seguindo o caminho de todas as revoluções modernas. a palavra que usamos para um conceito de energias es- pirituais incrivelmente complexas. mas sim o que poderíamos ser. A China moderna dizia agora que um punhado de pauzinhos de co- mer. se contestassem a necessidade do reconhe- cimento espiritual do homem. inodora e intangível. eles pa- reciam escarnecer dos conceitos espirituais. guiada por alguma coisa que apenas se podia sentir como verdade. inclusive Deus. Talvez o verdadeiro conflito humano não fosse pelo que realmente acreditávamos que éramos ou não éramos. invejoso ou materialista. O cérebro não podia. mas também para onde estava indo? Como podia o Estado res- ponder às indagações profundas. quase com medo de que as noções espirituais pudessem frustrar sua revolução. esta- vam sendo continuamente transmitidas e recebidas através das ondas eletromagnéticas. quan- do tinha medo de que seu poder pudesse se dissipar se assim agis- se? Eu podia compreender por que os comunistas nunca haviam conse- guido dominar a Índia. Assim. Começava agora a fazer sentido a teoria de Buckminster Fuller de que a maior parte do que transpira dentro da atividade humana da realidade é totalmente invisível. Na verdade. Seria impossível suprimir a espiritualidade profunda do povo indiano. Que o homem era um sistema auto-suficiente de microcomunicação e a humanidade era um sistema de macrocomunica- ção. Pareciam compreender que estavam revolucionando as prioridades que sempre haviam julgado imutáveis. Jamais permitiriam que o Estado substi- tuísse sua filosofia espiritual.

melhor. Suas convicções espirituais eram as mais antigas do mundo.
Os indianos haviam sido ensinados e condicionados a se manterem em
contato com suas naturezas espirituais desde que Krishna andara
sobre a terra, a tal ponto que isso era parte de tudo o que faziam
ou deixavam de fazer. Um regime comunista teria a maior dificulda-
de para levar o povo indiano a aceitar o materialismo revolucioná-
rio de Marx. Até mesmo o Mahatma Gandhi não conseguira tirar as
vacas das casas ou das ruas, porque os indianos ainda acreditavam
na transmigração das almas (que era a precursora animal da reen-
carnação em formas humanas). Talvez eles estejam certos a respeito
de tudo isso, pelo que podemos saber.
Era espantoso para mim como se processava o desenrolar do mis-
tério. Desde que houvesse um fio solto, era possível desenredar
toda a meada. Enquanto a raça humana continuasse a ser basicamente
infeliz em seu empenho para compreender o Grande Mistério, haveria
o impulso de frustrar toda e qualquer autoridade que se interpu-
sesse no caminho... quer fosse a Igreja, o Estado ou a própria so-
ciedade revolucionária. Não importava para onde olhássemos, a res-
posta parecia estar numa força que era mais inteligente, mais sá-
bia, mais compreensiva e mais benevolente do que nós. E antes de
podermos compreender essa força, teríamos de compreender a nós
mesmos. Nós passávamos assim a ser o Grande Mistério. Não era...
quem é Deus? Era... quem somos nós?

David e eu fomos subindo pela correnteza acima, ao longo da
margem rochosa do rio laranja. O sol da manhã estava quente e tre-
meluzente. Eu suava por baixo do poncho. Tirei-o e David carregou-
o para mim. O chapéu de sol da Califórnia parecia de repente o bem
mais precioso. As botas de solas de borracha eram sólidas e resis-
tentes ao encontro das rochas pontudas. Os pés estavam confortá-
veis. E quando sentia os pés confortáveis, eu me sentia confortá-
vel.
Sentei numa pedra e escrevi algumas anotações. David entrou no
rio.
Montanheses peruanos se espalhavam pelas margens do rio, la-
vando roupas ou simplesmente deitados, quase sempre ao sol. O sen-
so de tempo deles parecia lento, sem qualquer pressa, quase indi-
ferente ... e os movimentos do corpo correspondiam a essa impres-
são. Sorriam às vezes quando passávamos, mas geralmente se limita-
vam a reconhecer nossa presença com um aceno de cabeça. David cum-
primentava-os com seu espanhol afável. Ele não parecia ser um es-
trangeiro em parte alguma.
— Há um outro poço sulfuroso não muito longe daqui, rio acima,
Shirl. Não quer lavar os cabelos ou qualquer outra coisa? É sensa-
cional tomar banho ao sol.
A perspectiva era atraente. Levantei-me, imaginando se poderia
mais tarde reconstituir a despreocupação emocional que experimen-
tara ali nos Andes. Não sabia se seria capaz de lembrar como aqui-
lo estava próximo da paz suprema na próxima vez em que vivesse de-
tida num engarrafamento no centro de Nova York ou quando a ilumi-
nação não funcionasse direito durante um número dramático do meu
show, ou quando meu último filme fosse um fracasso de bilheteria.

Ou Gerry... permitiria que a amargura e a frustração me dominassem
por causa do curso de obstáculos humanos em que se convertera nos-
so relacionamento? Poderia compreender os obstáculos dele e também
os meus com mais perspectiva, se evocasse a imagem de um momento à
margem do Rio Mantaro, quando o sol estava quente e meus pensamen-
tos se elevam às alturas?
Continuei a arrastar o galho, enquanto subíamos para o poço
sulfuroso. Ouvia o canto de passarinhos se espalhando pelo ar ra-
refeito. Imaginei se algum dia seria possível ver música e ouvir
as cores do arco-íris.
— Em que está pensando, Shirl?
— Não sei... Estava apenas imaginando se não haveria alguma
espécie de técnica que uma pessoa pudesse usar para sentir paz in-
terior e felicidade profunda quando ao redor estiver desmoronar do
o seu pequeno mundo.
David deu de ombros.
— Não sei se daria certo para você, mas alguém já descreveu
uma técnica antiga a que chamavam de "O Sonho Dourado". Se você
está, por exemplo, tentando pegar no sono, mas não consegue porque
a mente se agita com supostos problemas de que não consegue se li-
vrar.. . Vou contar o que eu faço. Penso no que me tornaria naque-
le momento a pessoa mais feliz do mundo. Imagino tudo em deta-
lhes... o que estaria vestindo, com quem estaria, a impressão que
teria, o tempo que estaria fazendo, a comida que estaria em meu
prato, no que estaria tocando... todas essas coisas que me fariam
feliz, nos mínimos detalhes. E, depois, fico esperando. Tenho toda
a cena na mente... criada por minha vontade e fantasia. Acaba se
tornando tão real que me sinto feliz. Começo a relaxar e a vibrar
numa freqüência regular, não demora muito e estou dormindo... ou
"no plano astral", como gosto de chamar.
Escutei atentamente, imaginando-me a fazer o que ele descre-
via. Parecia perfeitamente possível.
— Então esse é o Sonho Dourado?
— Exatamente. Um bom título para uma canção.
— Tem razão. Muito melhor do que "O Sonho Impossível".
— Quando a pessoa se concentra no que a faria feliz, produz
uma freqüência eletromagnética que opera interiormente e a aquieta
literalmente para um sentimento de paz interior.
— Portanto, é simplesmente o predomínio da mente sobre a maté-
ria?
— Claro. Mas creio que há muito mais envolvido. Para mim,
creio que há uma demonstração de fé para mim mesmo e de fé em mim
mesmo. Em outras palavras, se eu tenho fé suficiente em alguma
coisa, particularmente através da concentração ou meditação, qual-
quer outro nome que você prefira chamar, então estou inconsciente-
mente irradiando energia positiva que pode em última análise re-
sultar na consecução.
— Mesmo que seja irrealista o que você quer?
— Quem pode saber o que é irrealista?
— Está querendo dizer que a fé move montanhas?
— Provavelmente. Acho que a mente positiva é ilimitada. Por-
tanto, incluiria até as montanhas. Aparentemente, é algo parecido
com o que Cristo fazia. Só que é mais do que apenas fé, concentra-

ção ou meditação. Ele tinha o conhecimento de como fazê-lo.
— E onde o desgraçado obteve esse conhecimento?
— Ele disse que era de Deus. Mas também disse que Ele era o
Filho de Deus. Assim, creio que estava nos dizendo que Ele apren-
dera através de Deus. É o que também dizem todos os avatares indi-
anos. Não dizem que eles são as razões que podem materializar pão
de pedra ou curar doenças. Dizem que Deus lhes concede o poder e o
conhecimento de realizar suas obras.
— Você é realmente um crente, não é mesmo, David?
— Creio que a maioria das pessoas não se conhece bastante bem
para saber o que quer. E que se nos conhecêssemos melhor estaría-
mos em melhor contato com Deus ou a Fonte Criativa.
Eu estava agora resfolegando, enquanto subíamos ao calor do
sol a pino. A altitude estava me dominando.
David adiantou-se um pouco, procurando pela trilha que levava
ao poço sulfuroso. Eu estava preparada para a água flutuante. Que-
ria sentar, imergir, pensar no meu sonho, pois descobria subita-
mente que não era capaz de defini-lo. Não tinha sonho. Não podia
imaginar o que me faria especificamente feliz. Não podia meditar
sobre os detalhes de cheiros, contatos ou sons de um sonho assim,
porque não sabia qual era o meu sonho.
Ele conduziu-me por uma trilha que subia paralela ao rio. Me-
nos de um quilômetro adiante chegamos a uma cabana de madeira, on-
de estava o começo de uma escada escavada na rocha que conduzia a
um nicho dentro da montanha. Paredões rochosos se elevavam ao nos-
so redor, enquanto descíamos pela escadaria estreita. Lá no fundo
estava um poço borbulhante. Três velhas estavam na água, com seus
chapéus engomados e os pitorescos vestidos nativos. Ao nos verem,
cobriram os rostos e se viraram.
— As anciãs da montanha são muito retraídas — explicou David.
— Possuem um certo recato em relação à nudez e precisam de sua
privacidade. Por isso, vamos virar as costas quando chegarmos ao
fundo. Creio que será o suficiente para que nos deixem em paz.
Um rapaz estava estendido no outro lado do poço, as pernas por
cima das pedras. Estava completamente vestido, de jeans e camisa.
— É uma concessão dele às velhas, David?
— Claro. Se não fosse assim, ele também teria de esperar que
elas se retirassem. Além disso, as roupas não constituem um pro-
blema para ele. Uma curta caminhada até sua casa e estarão secas.
David pegou um ovo cozido, descascou-o e entregou-me.
— Não é bom comer antes de um banho sulfuroso, mas não tem im-
portância.
As velhas saíram da água e subiram os degraus, acenando-nos
com a cabeça, estoicamente, ao se retirarem. O rapaz permaneceu
onde estava. Fomos até a beira d'água. Manchas brancas sulfurosas
faiscavam ao sol, o vapor pairava por cima da água, o calor se
pondo em contato com o ar da montanha. David largou no chão o meu
poncho e o saco com os ovos.
Estendi-me ao sol e fiquei observando o rapaz. Ele não fez
qualquer menção de se retirar, ficou simplesmente olhando para a
água.
— O que devemos fazer, David? Despir-nos ou o quê?
- Hum... Vamos ficar com as roupas de baixo. Isso tornará as

coisas mais fáceis para todos.
Tirei o jeans, as botas e as meias, ficando com a blusa até o
último momento, porque não estava usando soutien. Depois, numa
pressa de constrangimento, tirei-a abruptamente e entrei na água.
O rapaz continuava a olhar pára a água e David estava ocupado a se
despir. Ninguém se importava realmente se eu estava ou não semi-
nua.
A água estava quente e formigante, exatamente como na noite
anterior. Mas a experiência agora de senti-la ao sol era incandes-
cente. Em primeiro lugar, a superfície da água parecia prata dan-
çando. Havia alguma coisa na maneira como o sol incidia sobre as
manchas brancas de enxofre que fazia com que a água parecesse pra-
ta líquida por baixo. A rocha no fundo era escorregadia, com musgo
e algas, mas a densidade me proporcionava o equilíbrio. Perto do
centro, encontrei uma rocha confortável em que podia ficar senta-
da. Afundei até o pescoço. Agora, ao nível dos olhos, o reflexo de
prata líquida quase me ofuscava. Senti-me feliz por estar com os
óculos escuros e o chapéu. Mas isso é ridículo, pensei. Aqui es-
tou, envolta por tanta beleza natural deslumbrante, mas sinto que
tenho de me proteger dos efeitos prejudiciais. Balancei os braços
para cima e para baixo, dentro da água, até que todo meu corpo es-
tava coberto pelas borbulhas minerais. Aderiam à pele, provocando
uma comichão, ardendo ligeiramente, mas por isso mesmo dando a im-
pressão de que meu sangue corria mais depressa. Eu podia sentir o
poço ser alimentado de uma fonte subterrânea. A água aflorava gen-
tilmente à superfície numa correnteza quente. A superfície do poço
estava quente do sol da montanha. E a temperatura do meu corpo es-
tava em algum ponto intermediário. David entrou na água. Estava de
sunga. As pernas retas eram musculosas, a esquerda dava a impres-
são de que quebrara e fora encanada. Era algo que não se podia
perceber quando ele estava de calça. O tronco era esguio, não mui-
to musculoso, os ombros eram mais estreitos do que largos. Não pa-
recia um homem que se exercitava com levantamento de peso, mas a
impressão nítida era de que estava em boa forma.
Ele sorriu ligeiramente, como se soubesse que eu o estava exa-
minando, mas não disse nada, enquanto se adiantava e se ajoelhava,
imergindo até o pescoço. Respirou fundo e fechou os olhos de pra-
zer pelo calor da água no ar da montanha.
O rapaz não se mexeu. Parecia em transe. A prata líquida pro-
vavelmente era capaz de fazer isso a uma pessoa. Perguntei a Da-
vid.
— Pode, sim, Shirl. É por isso que é tão relaxante. Os monta-
nheses usam as águas tanto para os seus espíritos como para os
corpos. Só é uma pena que não tirem as roupas.
Enquanto a água começava a fazer efeito, lentamente, compreen-
di que estava ficando com azia. Começou com uma pequena contração
na parte superior do meu peito e foi se espalhando.
— Os problemas digestivos estão sendo acentuados pelo enxofre
e minerais — explicou David. — Por isso é que é melhor não comer
antes. Mas não faz mal algum. Apenas faz com que você saiba que
sua digestão está precária.
Ele se afastou para o outro lado do poço, a fim de pensar e
meditar. Sentou nas rochas por baixo da água e ficou olhando se-

junto às águas laranja do Rio Mantaro. — Em que está pensando.renamente para a superfície... Ele não se mexera. movendo o braço suavemente. Às vezes é mais fácil pensar quando se está em movimento. como se nada houvesse que fosse suspeito.. enxagüei-os. — Por Deus. Levantei a cabeça. eu estava meditando! Quanto tempo fiquei assim? Respondi que não sabia. Deus.. As três velhas esperavam no alto dos degraus. como posso condensar tudo em palavras? — Não sei. Especulei se ele era a sua alma ou se era o corpo. Observei-o por um longo tempo. — Estar no corpo pode ser um problema. O rapaz de jeans foi embora. é como eu desejava fi- car.. Mergulhei os cabelos na á- gua. Tudo acabará bem. E começamos a voltar. Tenho uma coisa para lhe dizer. entregando-me totalmente às ondas. se ele as- sim o quisesse. Desejei poder me entregar como ele parecia estar fazendo. Levantei os olhos fechados para o sol. Lembrei como sonhava em correr para o mar. O tempo não tinha mesmo qualquer importância. Tornei a olhar para David. Ele parecia totalmente em paz. Sempre fico melhor por lá. Era assim que o rosto dele parecia.. pedindo desculpas pelo tempo que passáramos na água. completamente alheio a qualquer coisa negativa. ao sol quente. . talvez mais de uma hora. Olhei para David. Queria me sentir totalmente aberta e abran- gente. — Ele apontou para o céu. limpou o queixo. isso deve significar que são nossas almas. Piscou para o sol. rapidamente. Maravilhoso. o corpo morreu. estava apenas pensando e imaginando coisas. como se não estivesse ali. a fim de me sentir livre de qualquer relutância.. Uma velha esperava no alto dos degraus que fôssemos embora. Provavelmente nem existia. Não. Os olhos dele não pis- cavam.. pensei. despedimo-nos da mulher... livre de qualquer relutância. pensei.. David abriu os olhos lentamente... Ima- ginando se um bebê nasce sabendo de tudo e pouco a pouco vai es- quecendo.. sentado ali. mas não sei como. Dava a impressão de que podia ser parte da água. Precisava afundar também a cabeça e o rosto.. sob a superfície da água.. Por- tanto. Uma mosca rastejou por cima de seu nariz. a energia da alma viveu eternamente. tão serenamente inerte. relutância em relação a tu- do. Shirl? Oh.. Tratamos de nos vestir. Subimos os degraus. Fui pôr o chapéu numa rocha seca... David en- tregou-me um ovo descascado. E tentei imaginar o que poderia estar ocor- rendo dentro dele. Tenha paciência. Perguntei-me por quanto tempo David meditaria na água borbu- lhante. não importava. Podia sentir o enxofre tornando os cabelos bem macios. As borbulhas aderiam a seus braços imó- veis. David saiu da água.. — Vamos dar uma volta. inclinando-me para trás. o rosto estava inexpressivo.. dizendo: — Vá com calma. Perguntei-me se a sua alma poderia deixar o corpo.. Sentia-me e- xultante. Mas só mergulhar o corpo na água não seria suficiente. sereno. David riu e sacudiu a cabeça. ele era a água. somente a sua forma era humana. o corpo apenas aloja a alma.

. Era evidente que ele adorava pular. Fiquei aturdida com a qualidade pessoal direta de suas pala- vras. ida e volta. atra- vés do rio. suados e exaustos. mas o tempo permanecia parado.. e quando as lembranças se tornavam nega- tivas eu as sufocava com a mesma luz interior que experimentara nos Himalaias. Pu- lei também. O tempo não era um sentimento. Passarinhos azuis e par- dais voavam entre as árvores. Havaí. As mochilas batiam em nossas costas. andávamos. com os quais fariam sua nova casa.. finalmente. fomos para o "refeitó- rio". David seguiu na minha frente. pessoas que eu conhecia. feita à mão.. a mulher com a criança nas costas separava o joio do trigo. Capítulo 22 .. Como acontecia naquele exato momento. O que fora mesmo que eu lera? Primeiro. — Espero que possa começar a sentir um pouco da felicidade e paz interior que estão aguardando para serem aproveitadas lá no fundo de você. meu mundo real. Não era uma ação. Ri e ri e no momento em que senti uma pontada de pensamento negativo tratei de afastá-la com uma vassourada mental. Levantou o rosto para o sol e suspirou. O sol quente no meu rosto proporcionava-me um prazer intenso.. ao sol da tarde.. enquanto três homens da aldeia mastigavam folhas de coca e juntavam barro e pa- lha em tijolos quadrados. tomando leite quente e comendo pão frio. Súbitas lembranças de Gerry. E agora podia dizer sinceramente que não me importava com o que fosse o tempo.. nós pulávamos. Descobri-me a rir junto com David.. porque o que falta somos nós mesmos. até que me lembrei que podia ficar com queima- duras se me expusesse por muito tempo. durante aquele momento ou na minha vida em geral. os filmes que eu fizera. ba- lançou por baixo de nós quando a atravessamos. Sentindo a minha reação. E você está começando a juntar as peças de si mesma. os joelhos verga- vam quando escorregávamos em seixos. David acrescentou: — Tudo é pessoal. estamos na luz. O tempo passava. fora da minha cabeça. eu aborta- ra o sentimento ao me lembrar dos negativos que ainda persistiam. E daí. esticando os braços. Eu po- dia dizer sinceramente que me sentia feliz. Se ao menos eu conseguisse manter os pensamentos negativos do meu outro mundo. Corremos para Llocllapampa. nós e a luz nos tor- namos uma só coisa. Hollywood. Na maioria das vezes. depois a luz está em nós e. Tornei a levantar o rosto para o sol e pensei nas poucas oca- siões em que podia dizer sinceramente que experimentara um senti- mento puro e total de felicidade. Nova York.. Ri de mim mesma. pessoas que eu preferia não conhecer. Era apenas tempo. Lá fora. guardamos as mochilas nos quartos e. o mundo. Passando por pequenos córregos que desaguavam no Mantaro. Uma ponte de corda. tornávamos a pular. se ficasse com o nariz vermelho e depois descascasse? E daí? David começou a pular.

blusa e suéter. A mulher viu meu anel- relógio. Desejei poder lhe providenciar uma dentadura do mundo real. entremeadas com freqüência por crianças pequenas a cambalearem. . Marcava nove ho- ras da manhã. ruas la- macentas. A luz da manhã nos Andes era diferente da que eu conhecera nos Himalaias. Davam a impressão de serem pla- nícies corcovadas. E me perguntei se minha visualização era real ou fantasia. 10 de julho. Ovelhas. antes de desa- parecer no restaurante. Hastes douradas de trigo oscilavam suavemente à brisa da ma- nhã. não é mesmo? Ele piscou-me e deu uma volta. Era a minha jóia predileta. Olhei para o meu anel-relógio."Não posso acreditar por um momento sequer que a vida em primeiro lugar originou-se nesta bolinha insignificante a que chamamos Ter- ra. Traduziu para mim. vacas e lhamas vagueavam indolentemente pela beira da estrada. David falou em espanhol com a mulher sentada no banco traseiro. Ela disse alguma coisa em espanhol e David me explicou: — Ela quer seu anel. Contemplei Gerry saindo de uma estação do metrô e se encaminhando a pé para o Parlamento. — Vamos levá-la — informou David." — Thomas A. antes. — Pensei em irmos até Ataura. acompanhara-me por todo o mundo. As partículas que se combinaram para evoluir em criaturas vivas neste planeta provavelmente vieram de algum outro corpo no universo. saí do hotel. Tocou-o. Ela disse que havia um uso médico para cada erva das colinas e que poderíamos comprar todas em Ataura. as pessoas de guarda-chuva. A mulher sem dentes e o bebê saíram. a mistura esquentada e colocada em sinusite para aliviar a pressão. Estendi o braço pelo alto do encosto. Ela estava falando sobre flores silvestres que podiam ser moídas numa pasta. David estava sentado no muro baixo no outro lado da estrada. Mas. Contemplei chuva. apoiado num pé. Comi os ovos. entregando-me um copo com leite quente e dois ovos descascados. As sombras eram mais largas e mais horizontais.. as mães carregando outras crianças em bolsas alaran- jadas nas costas. vou lhe pro- videnciar mais alguns ovos cozidos. porque as montanhas eram mais espalhadas. Não se encontra um cardápio de gourmet aqui por cima. com um cesto de legumes que ela foi pôr no carro. A mulher sorriu com uma felicidade desdentada e se acomodou no banco traseiro. senti as suas mãos bem quentes. Edison. Acha que é lindo e o quer. Calcei as botas.. — Ela precisa vender os le- gumes e não é sempre que arruma uma carona. O Diário e Observações Variadas A manhã seguinte foi revigorante e por alguma razão parecia esperançosa e nova. Imaginei como estaria o tempo em Lon- dres. pus a calça. O bebê dormia tão profundamente que parecia um peso morto em seu colo. Visualizei-o de alguma forma. Shirl.

sentindo-me envergonhada por estar com receio que ela não me devolvesse. E a mulher respondeu: — Anéis e coisas. os cumes cobertos por gelo e neve. sentindo que David me sen- tia a pensar. Podia contar com elas. ha- via altas montanhas. Mas não era apenas o anel-relógio. Era quase como se "as coisas" fossem extensões de um investimento em amor. O anel-relógio representava liga- ções e memórias pessoais. Nunca me deixavam. estavam sempre lá. — Claro que sim — disse ela. Pareciam muito acima do mundo real. A mulher pegou meu dedo e tirou o anel-relógio. Imaginei como seria o tempo nas montanhas. Ela virou-a interminavelmente. Depois. Era a liga- ção sentimental. Era qualquer "coisa" com a qual eu tivera uma experiência pessoal. Senti a mente reagir no mesmo instante. deixando os lenços de papel na caixa. Ela apertou-o na mão. Fiquei observando a cena. — Aqueles são os Picos Gelados de Huaytapallana — explicou Da- vid. estendeu a mão para a frente a con- templá-lo. sem muita convicção — porque sig- nificaria que minha família estava bem de vida. Tudo o que eu tinha a fazer era estender a mão e tocá-las. Você já esteve? — Oh. Não resisti. depois olhou para o sol. Quando o papel por baixo tomou o lugar do anterior. não! Mas muitas pessoas já viram os discos voadores que vêm de trás dos picos. — Já esteve nos Picos Gelados? — perguntou-me a mulher. Eram permanentes. Estavam serenos e ino- centes. O valor monetário da "coisa" nada tinha a ver com isso. Lá na frente. — É como papel higiênico? Entreguei-lhe a caixa. Ima- ginei se Shangri-La não estaria além. — O que é isto? — perguntou ela em seguida. — Pode perguntar a ela. . por favor? O que a faria realmente feliz? Ele perguntou. depois de mostrar como funcionava. Ela virou o anel no dedo. examinando cada beirada. Por que eu não podia dizer generosamente "o anel é seu. — Isso a faria mais feliz do que a felicidade? — insisti. que de alguma forma nunca temos em quan- tidade suficiente? Olhei para a manhã. comprarei ou- tro depois"? Mas não era capaz. sorrindo. Aquelas "coisas" estavam sempre lá quando eu as queria. Faziam-me sentir segura. — Não. tirou o primeiro lenço de papel. — O que a faria feliz? — perguntei a David. Vocês têm discos voadores em suas montanhas nos Estados Unidos? Virei-me no banco e fitei-a nos olhos. puros. porque por trás delas estavam as pessoas cujo amor eu mais queria. olhando para o a- nel-relógio. brancos. Seria essa a base para a ganância? Ou seria basicamente uma manifestação da ne- cessidade de amor humano. assomando entre as nuvens brancas. Daria minha jóia pre- dileta e minha ligação com o mundo real (porque era um relógio) àquela mulher que eu não conhecia? Observei David a me observar. lenta- mente. Imaginei como seria tentar chegar lá a pé. Mas ela não transformou isso numa brincadeira. Cruzou as mãos sobre o bebê em seu colo. apontando para a caixa de lenços de papel. Contemplei-os. ela pareceu ficar surpresa. Não falei nada. graciosos.

como os preços estavam subindo. Ela teve dificuldade em compreender quando falei em métodos de con- trole da natalidade. queria saber como poderia obtê-los. Aparecem à noite. Mais mulheres com bolsas magentas listradas nas costas apare- ceram pela estrada. A mulher falou sobre os filhos. O sol estava agora diretamente por cima dos Picos Gelados. Qualquer que fosse o caso. fazendo-os faiscarem. Havia mais pessoas à beira da estrada à medida que nos apro- ximávamos da cidade. Não se podia dizer que não queria falar a respeito. na casa dos 30 anos. Não tinha o menor conhecimento do próprio corpo. Comentou que ouvira dizer que os americanos usavam produtos químicos para tornar os legumes maiores. ela segurou a cabe- ça do bebê e lançou-se a uma conversa animada sobre a venda de seus legumes. Apenas escuto. Apenas não estava muito interessada pelo assunto e aparentemente já esgotara suas possibilidades. O terreno se expandia cada vez mais. eles ficam assustados e vão embora. De vez em quando avistávamos um homem num terno preto ocidental. quando está muito frio para a gente ficar obser- vando. — Eles deixam marcas quando pousam — informou a mulher. Esperei que ela dissesse mais alguma coisa. num esforço para evitar que as famílias aumentassem. — Acho que sim. — Eles estão de luto quando se vestem assim — explicou David. — Não tenho opinião. Era jovem. — Por quê? — Porque ele era muito maior. caminhando na direção de Ataura. assim como suas amigas. Três guardas nos pararam num cruzamento. Tentei absorver o que a mulher dissera. to- das com o mesmo problema. Ou talvez estivesse apenas sendo polida ao satisfazer a curiosidade de uma estrangeira. advertiram-nos para tomar cuidado com os distúrbios em Hu- ancayo (para onde não estávamos indo) e acenaram para que seguís- semos em frente. — Tem medo deles? — Não. — Mas o que acha que os discos estão fazendo? — Eles vêm de Vênus. Um amigo meu viu um disco pousar e foi até lá. Mas eu nunca vi nenhum. E falaram também que os discos estão estudando nosso planeta. Disse que não queria mais e por isso ela e o marido não tinham mais sexo. Constatando que éramos estran- geiros. Usavam os . perguntaram a David para onde estávamos indo e por quê. Tinha cinco. Mas o disco voou quando ele chegou perto. E dizem que nada somos em comparação com os discos. — Mas o que eles estão fazendo? — Cientistas vêm até aqui para olhar os discos. — O que você acha que eles são? — perguntei. O que não acon- teceu. As amigas também não faziam mais sexo. Os cientistas nos disseram. Muitos ficam voando de um lado para outro do céu. — De Vênus? — Isso mesmo. Tirei um lenço de papel da caixa e assoei o nariz. Ele pensou que as pessoas fi- caram com medo dele. Ela simplesmente olhou pela janela. — E se as pessoas chegam muito perto.

jovens esperavam que um cinema a- brisse. que imediatamente despejou no chapéu de feltro marrom. Havia cachorros por toda parte. banheiras de plásti- co. artigos diversos coloridos. Uma garrafa vazia de Inca Cola estufava o bolso traseiro da calça. A mulher que trouxéramos no carro nos alcançou e orientou para a barraca das ervas. comendo pipoca peru- ana feita com açúcar. tentando acompanhar um disco de Elvis Presley. parecendo extras vestidas a caráter para uma filmagem no lo- cal. havia sapatos. que ela assegurou que podiam curar praticamente qualquer doença que uma pessoa tivesse. David e eu continuamos a andar até nos sentirmos famintos. A primeira coisa que ouvimos. O cartaz anunciava Os Dez Mandamentos e um portão de ferro batido separava o público da bilheteria. ao entrar na cidade. Balançava-se gentilmente. com meu anel-relógio e seu bebê. Uma mulher trançava fios que acabara de comprar. No interior de um mercado de flores havia uma exposição de conto de fadas de gladíolos. Os bazares nas ruas vendiam de tudo. na mesma rua. David me observava. Três mulheres estavam sentadas num meio-fio. Mais adiante. feijão. Havia uma casca de árvore chamada Sangredanada que era boa para úlcera. Em todas as lojas havia imagens de Cristo. digestão. Aproximou-se de alguém no restaurante e pediu comida. chamado Maiz. Tentei não dar atenção. saias com anáguas bran- cas. Comprei um pouco dessa erva para fazer chá. enquanto andavam de um lado para outro. cobertos por cebolas e um molho quente chamado ro- . junquilhos e cri- sântemos que me deixou deslumbrada. Estendidas numa manta. bí- lis e azia. ao sol. um homem visivelmente embriagado gritava palavrões pa- ra a parede. margaridas. Eu deveria tê-la comprado também. Uma delas amamen- tava um bebê. comendo arroz e feijão. cravos. Sentado a uma mesa no outro lado. mas fora de ritmo. circulavam entre as flores. Sentamos num restaurante com mesas na calçada. Um homem esfrega- va pó de enxofre na aba do seu chapéu branco a fim de fazê-la du- ra. Crianças. Ao seu lado havia um pedaço de queijo feito do leite fervido chamado quesillo. valeriana para o sistema nervoso.chapéus brancos de aba larga costumeiros. à base de milho. Ainda estava com o meu anel-relógio. enquanto a terceira afagava um cachorro que roía um osso entre elas. de roupas de cama a café moído na hora e discos velhos. A mulher se afastou para vender seus legumes. com a mão no colo de uma amiga. diabetes. Tara para asma. sapatos de lona. O sol estava quente agora. com uma vela por baixo. Um velho numa calça surrada. Es- tendidos nas calçadas. havia pequenas pilhas de ervas. foi um disco de Neil Sedaka. Garotos alugavam revistas em quadrinhos. Estacionamos o carro e saímos a andar pela cida- de. mas era fresco à sombra dos prédios. Cachorros corriam entre as frutas e legumes. com uma flor por cima da orelha esquerda e um sué- ter cinzento rasgado estava parado ao lado da vitrola automática de um restaurante. Hircampuri para o fígado. A mulher afastou-se. ervilha. to- mando sopa. um chapéu de feltro marrom. As pessoas tomavam um refrigerante muito doce. Sabia que tornaria a vê-la mais tarde. Fiquei olhando para ela. tocando numa vi- trola automática.

Quer ouvi-lo? — Claro. — E como faz para superar? — Acho que se pode dizer que felicidade é saber em que acredi- tar. As pessoas não têm pretensões. encontra- ria o seu caminho. Ele limpou a garganta e. eu estava invadida por uma profunda percepção. Os suaves olhos azuis de David con- templavam-me lá no fundo. pôs-se a falar: — Trabalhe arduamente. eu teria de dizer que sim. David estendeu a mão e limpou uma lá- grima em meu queixo. — Acho que é justo o que acabou de dizer a meu respeito e acho também que os nossos problemas são inevitáveis. Mas ele não o faz. Eduquei-me a não esquecê-la. David? — Gosto muito. — Talvez as pessoas se magoem mais quando se tornam prósperas e confortáveis. — É isso o que está errado com você e seu amigo? Tentei falar claramente: — Meu amigo? — Isso mesmo. É isso aí. E são simples. É a mesma jornada que todos temos de fazer. E não tente prejudicar nin- guém. Mas uma pessoa assim quer que todos pensem da mesma forma. Quero que ele olhe para o que está fazendo. — Ele fez uma pausa. — Você acha que faço isso? — Faz o quê? — Quero as coisas ao meu modo? David largou o garfo. Lembro a mim mesmo essa filosofia de três pontos todos os dias. — Sente-se deprimido e solitário? — Claro. Senti como se ele tivesse me esbofeteado. — Como estou fazendo com você? — Isso mesmo. Se ele realmente olhasse. Meus olhos se encheram de lá- grimas. E isso está assustando-o. Talvez devêssemos todos permanecer pobres e pas- sando dificuldades. — O que houve.coto. — Esta viajou longe. Acho que quero que ele veja as coisas pelo meu lado. E. Pensei por um momento a respeito. mas não consegui. que devia ser o mais condimentado que o homem já inventara. Isto é real. Shirl? Tentei conter as lágrimas. Seria uma negação do progresso e do empenho por uma vida melhor. ao mesmo tempo. Mas ele não quer. Vivo assim. Shirl. — Tem razão. — Gosta daqui. Podia senti-las a escorrerem pelo meu rosto. Não minta. como se estivesse recitando uma lição decorada em aula. — Mas a ausência de dúvida é o que torna algumas pessoas arro- gantes e perigosas. antes de compreendermos quem somos. A resposta está em alguma coisa como o meu credo. . Deve haver algum homem por quem você está apai- xonada e com quem vai se encontrar nos lugares mais estranhos. São o que são. — Pelo que posso ver de você. — Não penso assim.

sendo implacável consigo mesma depois que percebe o que está fazendo. Cristo disse: "Conheça a ti mesmo. atividade e comportamento. sente vontade de chorar.Mas acho que tenho de aceitar. Sentia as pernas rígidas de tanto ficar sentada. aprontando-se para o pôr-do-sol. basicamente? Não é assim que se sente? — A impressão é que tudo o que vivi não passou de uma impostu- ra. E para aceitar a si mesma é preciso conhecer a si mesma. — E onde eu quero chegar? — Onde você vive. Por que a gentileza me fazia chorar? — Não fique assim. — Este molho é o pior de tudo — murmurei. Ri e engasguei. com que você es- tá preocupada? Terá de representar outro papel depois deste e ou- tro e mais outro. Se ele quer ignorar a verdade de si mesmo. Shirl. esticar o corpo. para chegar onde quer. David pagou a conta e saímos. Acreditava que a vida levada pela raça humana era real e física. — Deixa-me com von- tade de chorar. não é mesmo? Não está tentando alcançar onde você vive profundamente. — Por exemplo? — Pensava que seria o fim quando morresse. — A vida é como molho quente. Assim que começa a apreciar. apimentado. você tem a mente como uma perfuratriz de petróleo. Nas montanhas. Você tem a coragem ou qual- quer outra coisa que preferir chamar de se olhar com toda honesti- dade. andar.. E co- nhecer a si mesma é o mais profundo de todos os conhecimentos. comi mais um pouco da comida com o molho quen- te. não é mesmo? Creio que ele tem esse direito. Continuará a representar papéis até finalmente chegar ao ponto certo. uma imagem artificial. A mulher com os legumes e meu anel-relógio desaparecera. Recostei-me na cadeira e suspirei. Mas não deveria ser tão implacável.. E não me sinto muito feliz quando começo a pensar na maneira como representava meu papel. . E acontece que quase tudo por que vivi e acreditei era um mito. É uma dessas pessoas que podem incomodar os outros. Descubro agora que estávamos representando papéis em alguma peça espiritual. o sol regulava todo o comércio. — Não nos sentimos todos assim? Além do mais. Acreditava que não havia nada mais e nada menos do que o aqui e agora e que isso era tudo o que tinha de enfrentar. devo permitir-lhe esse privilégio. E não se pode aceitar coisa alguma até se aceitar a si mes- mo." E depois seja sincera ao que descobriu. pegando uma carona em outro carro ou resolvendo per- manecer na cidade. com um roteiro que vai se desenvolvendo espontaneamente. — Por outro lado. David tomou uma Inca Cola e eu comi uma tangerina. Acreditava que só existia o que eu podia ver. Como eu disse an- tes. seja paciente com você mesma. Porque você é um microcosmo do cosmo. Precisava levantar. O segredo é aceitar as combina- ções. As pessoas estavam recolhendo suas mercadorias. mas também vão ao fundo de si mesmas. Ficamos andando por algum tempo. Sabe muito bem que eu já passei por isso. Shirl. David inclinou-se através da mesa e pegou-me a mão. Você também tem de passar.

David. As planícies nos arredores de Ataura estavam coalhadas de pessoas que voltavam para suas casas pela noite. A luz do final de tarde era clara. então não era suficiente.. está bem? — Claro — respondi. mas eu teria de admitir muito mais. — Aqui em cima? Ahn.. David não o dis- sera como uma acusação. Que eu que- ria a vida à minha maneira. — Ela é geóloga. Então você teve o seu caso de amor nos banhos sulfurosos e ao longo das margens do borbulhante Mantaro? Compreendi como devia estar parecendo sarcástica. mas assim agira a fim de deixar David à vontade com a provocação. Senti o estômago se aquietar. O que ela fazia? Tinha alguma profissão? David acendeu um cigarro e abriu a janela para respirar mais fundo. Cachorros latiam à distância e alguns bebês choravam. Ele não reagiu. A respeito de uma garota chamada Mayan. mas ao mesmo tempo sentindo ser impos- sível contemplar a si mesmo por uma luz que me agradaria. mas não foi o que você chamaria de uma ligação amo- rosa típica. David e eu entramos no carro e iniciamos a viagem de volta a Llocllapampa. de um azul meio púrpura.. Olhava fixamente para a frente. Ele insinuara também que minha compul- são de insistir para que os outros se analisassem não era de todo injusta. eu também me aquietava.. E quando o estômago se aquietava. Ri interiormente. Esteve aqui em cima numa expedição mineira. Mas virou-se abruptamente para mim. se não o quisessem. pois os forçava a um grau de progresso. — Há uma coisa que preciso lhe dizer. amando-me e se importando muito com o que eu pensava. Ele dis- sera muitas vezes que se sentia inadequado em corresponder às mi- nhas expectativas. O que você quiser. — Faça-me algumas perguntas. Shirl. não o homem que eu queria que fosse. nos meus termos. se quisesse seguir em frente. Eu estava encontrando a maior dificuldade para contemplar a verdade em mim mesma. Gerry ti- nha de ser ele próprio. Teve um romance com ela? — Tive. pensando que todas as paixões pareciam cós- micas quando se as estava tendo. Mas eu deveria respeitar a incapacidade e relutância dos outros em fazerem isso. O sol desaparecera por completo agora. — Eis uma coisa que posso compreender. Que qualquer homem por quem estivesse apaixonada deveria olhar tão profundamente para si mesmo como eu estava tentando olhar para mim. a fim de que eu possa chegar onde quero. E se isso não fosse suficiente.. Por que não podia então respeitar o fato de que os outros podiam experimentar a mesma angústia? Gerry devia ter passado por um verdadeiro inferno. — Claro. Ele ficou em silêncio por um momento. gostando do jogo. Nenhum homem pode viver com esse tipo de desafio. sem dizer nada. Eu podia entender o que ele queria dizer com isso. — Vamos ver. . David mantinha-se em silêncio enquanto guiava. Pensei na verdade do que ele dissera. David parecia mesmerizado pela estrada. A vida nas montanhas girava em torno do sol.. Foi mais como uma ligação amorosa cósmica.

Não sei. cabelos pretos compridos. — Uma conquista na montanha? .... Acho que o efeito foi global. é que não dissemos nada um ao outro. que ela realmente a conhece e compreende? Pois era assim. nesta mesma estrada.. Deus. recordando.. Ela respondeu que estava com a sua gente. Quase que sentia que ela sabia o que eu estava pensando. David olhava para a frente. Depois de algum tempo. Fiquei siderado.. Era como se não precisássemos falar. E perguntei o que ela estava fazendo aqui em cima. a pele maravilhosa.. Eu estava andando sozinho uma manhã quando ela apareceu. apenas enviesados. Assim que a contemplei. — Como assim? -— indaguei. Eu não estava . pensei que deveria dizer alguma coisa.. Notei que o rosto de David relaxava enquanto ele descrevia seus sentimentos. sem fazer nada de específico. governos. — E você. não foi bem assim. David dava a impressão de que ficara ins- tantaneamente hipnotizado. quando a conheci. línguas. — Não foi isso. alva e transparente. David parou de falar por um momento.especulei. olhos muito escuros. Desvaneceu-se toda a tensão muscular que geral- mente era visível nele. E não lhe per- guntei mais nada. Não notei o que ela vestia. quando se encontra uma pessoa desconhecida. por alguma razão que não posso explicar senti que não ha- via necessidade que ela fizesse isso. Ela disse que também me contaria mais tarde. — E o que mais ela parecia. — Não. o mundo. Começamos a andar juntos. Ela falou que me diria mais tarde. — Sabe esse sentimento que se tem às vezes. Perguntei de onde ela era. enquanto recordava o seu encontro extraordinário. David? — Era pequena. atitudes diferentes em países di- ferentes.. Ela parecia quase translúcida. Em paz.. Não me incomodei. Senti que ela parecia saber tudo a meu respeito e que estava apenas me dando tempo para me acostumar à idéia. Eu jamais experimentara nada pa- recido antes e não pensei muito a respeito. embora assim não parecesse na ocasião. Era tudo grego para mim. do tipo mignon. Apro- ximou-se de mim. Mas David ainda não reagiu.. e me sentia perfeita e maravilhosamente sereno. Ela parou e saltou. jeans provavelmente. E o mais estranho de tudo. — David tornou a hesitar. David? Também sentia que a conhecia? Pensei que ele fosse me dizer que sentira já tê-la conhecido em outra vida ou algo assim. Ela começou então a me interrogar sobre mim mes- mo. Eu estava aqui em cima com dois outros caras. Mas não eram olhos orientais. A pele bri- lhava. quase como se soubesse que me encontraria ali. indo longe demais. mas a maneira como se movimentava era fluida. — Continu- amos a andar e logo ela se pôs a falar sobre uma porção de coi- sas. E depois sa- cudiu a cabeça com as lembranças. E lembro que não consegui desviar os olhos de seu rosto. efetuando estudos geoló- gicos nas montanhas. Perguntei-lhe quem era a sua gente. pensei que era a mulher mais linda que eu já vira. continuando: — Isso mesmo. pensando. guiando um velho Pontiac. Ele hesitou por um instante. Mas. quase amendoados. sentindo que David estava em algum outro mundo.. — Não foi bem assim.

— Talvez. mas se eu sen- tisse que estava aprendendo alguma coisa deveria então apenas re- laxar e aprender. Eu não podia en- tender o que estava acontecendo e lhe disse isso. sorrindo. foi há muito tempo.. Estava completamente absorvida na história sobre a tal Mayan e não me imaginava absolutamente como uma parte dela. David fez outra pausa. Jantamos e ela continuou a falar. Foi o que fiz. Essa não! Mas escutei atentamente e de- pois de algum tempo compreendi que ela parecia estar me transmi- tindo alguma informação científica importante. não importando o lugar para onde eu fosse. mas que tornaríamos a nos encontrar em breve. Shirl. — Eu fazia uma caminhada pelas colinas todos os dias. que o relacionamento mais importante era entre cada alma e Deus. Mas acho que ainda não estou entendendo uma coisa.. Eu estava adorando falar.. E almas?. Falou sobre a energia negativa de alguns dos nossos lí- deres mundiais e como as pessoas precisavam acreditar em si mes- mas. Aquela era mais do que uma simples . — E você anotou? — Claro. Conversávamos sobre muitas coisas. Sempre coisas importantes. — Quer dizer que foi há muito tempo? — Isso mesmo. Você gostaria de ler? — Gostaria muito. Ela disse que eu deveria anotar tudo. al- guma fanática religiosa. — Eu? Fiquei aturdida. Por que não me deu esse material junto com todos os livros que me mandou ler? — Por causa de quem ela é. E depois se fechou. Perguntei depois de algum tempo onde ela estava instalada. Estávamos sentados um dia à beira do rio e ela começou a falar especificamente sobre á alma humana e o que era. E todos os dias ela me encontrava. e talvez essa pessoa seja você. Mas acrescentou que se realmente compreendêsse- mos o que Cristo falara ninguém faria tal comentário desdenhoso. Ela disse que de certa forma era muito mais do que isso. a fim de poder olhar e mostrar aos outros. escutar e ficar em companhia dela. só que não podia imaginar para quem. eu não me impor- tava absolutamente se havia vida depois da morte ou se Deus estava vivo e feliz. Mas ela não me disse. — Faça-me outras perguntas. Quem ela é? David ficou corado. que cuidaria para que fosse devidamente divulgado. Comecei a pensar que ela era alguma espécie de espiã internacional. Antes de conhecer Mayan.interessado por tais coisas na ocasião. porque era capaz de absorver e um dia trans- mitiria à pessoa certa. Ela apareceu no dia seguinte e me encontrou. Ele parecia um pouco tenso. Ela disse que eu deveria registrar tudo que estava me ensinando. E não insisti. Perguntei se ela era alguma espécie de maníaca de Jesus. Saímos para outro passeio durante o dia inteiro e ela falou mais ainda. mas não enten- dia a maior parte do que me dizia. E disse também que deveria pôr tudo no papel. Ela disse que me contaria tudo quando chegasse o momento oportuno. — Não estou entendendo.. Ela falava e falava. Pouco depois ela sorriu e disse que precisava ir embora.

segurando o cigarro. afundei no assento e pus os pés no painel. depois de meses de súplica.. Mais a leste e mais para cima. seca e fria. conte-me logo. — Muito bem. mas eu sentia que ele não estava maluco. Fiquei fumando. Levantei os olhos. Teria mesmo ouvido direito o que David dissera? Ele era um homem em que eu confiava. Mas parecia agora que eu teria de fazer algum julgamento sobre um amigo. acendi. pois a coisa era tão espan- tosa que não podia deixar de sentir que David contava a verdade. Fomos seguindo em silêncio. — Como? — Isso mesmo que você disse. tirando as mãos do volante. — Certo! Você adivinhou. Isto é um jogo estúpido. — Eu não podia compreender o problema. Eu pelo menos acreditava que ele acreditava no que disse- ra. — Pelo que você descreveu. Mayan. Mais longe do que isso. Era alguma espécie de terapia. Fora um elemento da maior importância em minha crescente compreensão espi- ritual. Depois.. — Está querendo saber de que país ou cidade? — Isso mesmo. Lembrei das noites em que contemplara o céu através da luneta. mas nunca estivera em posição de lhes avaliar a sinceridade. China ou algum país por lá? — Não. Senti que tinha de trancar a boca. As estrelas pairavam no céu como zircões. mantendo-as sus- pensas no ar. agora é você quem está para fora. Mais para cima e para fora. O que está aconte- cendo? Do que você está falando? Vamos. Já ouvira antes falar de algumas pessoas que afirmavam terem mantido contatos com extraterrenos. Tirei do maço um dos cigar- ros de David.. De onde ela é? David apagou o cigarro. sentindo que era o lugar a que pertencia. dei uma tragada. Não era esse o . — Isso mesmo. Como assim? Mais longe a leste? Ela é do Ja- pão. Abri a janela do meu lado e soprei a fumaça para o ar noturno. — Mais para cima? Eu estava começando a parecer com o homem sério num ato de vaudeville. e agora conte tu- do. Por isso é que foi tão difícil contar. A noite estava clara. David também não falou. De onde ela poderia ser que é tão difícil dizer? De outro planeta? David virou-se. Não falei nada. Lembro em detalhes de cada movimento que fiz. — David. É isso mesmo.. É um nome exótico. com alucinações ou inventando coisas. E ela provou isso por di- versas vezes. ela parecia muito exótica. Mas é verdade. Juro por Deus que é verdade. — A tal Mayan era de outro planeta? — Exatamente. Você já fez indicações demais. o que lhe contarei mais tarde.história de paixão incandescente nas montanhas. Não poderia ser da Polinésia? — Não. Sei que deve parecer uma loucura. Fiquei olhando para as estrelas de cristal e lembrei da luneta de Natal que ganhara quando era pequena.. pura e simplesmente. Deixava isso aos cientistas ou psi- cólogos interessados.. — Mais longe.

A mulher com a criança não voltara. praticamente sem qualquer iluminação. que ainda não nos era muito claro por causa de nossa limitada percepção tridimensional? David e outros como ele deseja- vam tão intensamente compreender que passavam a acreditar que ha- viam mantido "contato" com outra peça do enigma cósmico? Fumei o cigarro e respirei fundo. apenas uma curiosidade que não afetava sua vida. — São extraterrenos. os extraterrenos na paisagem não eram importantes. Todo mundo sabe disso. A vida cotidiana. enquanto as crianças pequenas da família circulavam em torno da nossa mesa. como se estivesse aliviado pelo que ela dissera. A velha usava um fogão a gás para cozinhar. como nossa amiga no carro. David tornou a suspirar fundo. Ela trouxe pão quente para acompanhar o guisado e perguntou se gostáramos de Ataura. — O que acha que eles são? -— perguntei. Perto do nosso "hotel" estavam alguns bacorinhos em torno de um pneu velho. Dois lampiões de querosene pendiam de um cabide por cima de nós. tinha muito mais significado para ela. ilumi- nando a mesa. — E acha que eles são amistosos? — Não sei. saboreando o resto de trigo que constituía o seu jantar. a fim de que ninguém possa descobri-los. pertencíamos à vastidão mágica do cos- mo? Que éramos todos uma parte integrante de um gigantesco enigma universal. — Mas depois vários amigos lhe disseram que tinham visto a mesma coisa. Ele sentiu-se melhor. Assenti e sorri. Llocllapampa estava escura e serena quando chegamos. ela ter- minou de nos servir e afastou-se para cuidar de suas outras tare- . A mulher foi até o fogão. Mas ela não parecia parti- cularmente interessada em prosseguir no tema anterior da conversa. Acompanhei-a. O rádio transmitia uma partida de futebol. O pão quente era fresco. com manteiga se derramando pelas beiras. a fim de pegar guisado para nós. abastecido por um cano no lado da estrada. A mãe dela preparara um guisado de rim em molho de vinho para a refeição noturna. observando-nos comer. Agora depois de cumprir as amenidades de conversa. em espanhol: — Já viu algum disco voador? — Muitos.desejo obsedante de todos? O céu não era um lembrete fundamental de que nós. sentindo-me como uma dos milhares de turistas que deveriam ter feito a mesma pergunta. O fogão. Ele ficou assustado a princípio. — Uma linda noite — disse a velha a David. consciente da contradição de desejar ar puro e ao mesmo tempo estar poluindo os pulmões. E meu tio viu-os voarem direto para o Lago Titicaca e desaparecerem. Mas acho que sim. seres humanos. — Ela apontou a própria cabeça. — Seria uma boa noite para os astrônomos. David esticou os braços por cima da cabeça e suspirou. porque pensou que talvez estivesse louco. — Ela foi pôr o guisado na mesa. Eles vivem lá no alto das mon- tanhas e voam seus discos para baixo das montanhas. Depois perguntou. enquanto a mãe olhava pacientemente. tentando sobreviver. a pia e a ge- ladeira estavam numa só parede do restaurante.

Os montanheses não sabem por que eles estão aqui. A mão dele apertou-me gentilmente o ombro. David. sem exceção. tão maior do que a do homem quanto a dele é maior do que a de uma . Fitei-o nos olhos. — Eu próprio não consigo encontrar Mayan. — E muitas pessoas já os viram? — Shirley. E não entendem por que pessoas como nós ficam tão intrigadas. Olhei para David através do guisado fumegante. a pressuposição de que. Beijei-o no rosto e entrei no meu quarto escuro e úmido. E não deixe os percevejos lhe morderem. Estavam calmos e eu diria mesmo que alivia- dos. — Mas de qualquer forma. Dizem que as pessoas dos discos preferem ficar a sós e é assim que os montanheses os tra- tam. não pode haver inteligência. — É assim que todos se comportam por aqui — disse ele. E quero transmitir tudo isso a você. —. Capítulo 23 "Encarando o problema do ponto de vista mais rigorosamente cien- tífico. a voz dele parecia estar prendendo na garganta. como se pedisse desculpa. Todas. Não estava com fome. — Boa noite. em meio às miríades de mundos es- palhados pelo espaço interminável.Onde eu poderia encontrar a sua Mayan. obrigada por confiar em mim e ter contado tudo. No escuro.fas. Olhei pela janela do prédio chamado COMIDA para a noite escura dos Andes. porque estava um pouco assustada para me manter acordada e pensar em tudo que vinha acontecendo. Dizem que eles nunca fizeram mal a ninguém e até fogem quando alguém se aproxima. Dizem que os discos ja- mais aparecem quando eles estão aqui. mas muitos comentam que estão extraindo minerais das montanhas. Sinto uma saudade tremenda e estou sempre voltando às montanhas na esperança de en- contrá-la. Mayan é a razão por eu ter en- contrado tanta paz em mim. David? Os ombros de David descaíram. qualquer coisa que eu possa dizer sobre o que su- bitamente me descobri envolvida aqui seria uma obra-prima de in- compreensão. Ela mudou minha vida. todas as pessoas por aqui com quem conversei têm uma história de discos voadores. — E não sentem medo deles? — Parece que não. — David. Shirley. Deixamos o restaurante e atravessamos a estrada para o nosso "hotel". Levantei-me. Pe- guei no sono imediatamente. Tudo o que penso agora é uma de- corrência do que aprendi com ela. como se um imenso peso tivesse sido removido. Riem dos astrônomos que vêm até aqui para estudar e esperar. — Simplesmente estão acostumados.

ou nenhum ser dotado de poderes de influenciar o curso da natureza. — Ou seja.. firmemente. E sabe o que vi? — O que foi? Eu não tinha certeza se queria saber. Foi o que fiz.. Das Plêiades. David riu. é fácil povoar o cosmo com entidades. co- mo se tivesse dormido por uma semana. — E você alguma vez contestou a alegação dela de que era ex- traterrena? David riu e cuspiu um pedaço do pão. ao nascer do sol. Mayan disse que os vates entre os picos são inacessíveis por terra.. Huxley. E um dia. Mas devo dizer que ela me censurou por obrigá-la a usar a técnica de "ver para crer". — Não? (Por que então era assim que eu me sentia?) David fitou-me nos olhos. Ensaios Sobre Algumas Questões Controvertidas Saí para o sol na manhã seguinte completamente revigorada. Ou que ela tinha. — O que mais se esconde lá por cima além dos discos voadores de que os moradores locais tanto falam? — indaguei. em escala ascendente. ela não teve qualquer problema comigo. — Não — disse ele. — Está brincando? Pensei que tinha entrado num bode de um fumo errado. tão maiores do que os dele quanto os dele são maiores que os de uma lesma. até che- garmos a alguma coisa praticamente indistinguível da onipotência." — Thomas H. Claro que não acreditei. Olhei pelas planícies montanhosas na direção dos Picos Gela- dos no horizonte. É por isso que é mais seguro pa- ra eles. — O que está lhe acontecendo é . a verdadeira inteligência consiste em manter a mente aberta. mas também impertinente. Pensei que ia ficar doido. Mayan disse exatamente de onde era? — Claro. parece-me não apenas infundada. ela me instruiu a ir para a base de um dos contrafortes e ali observar um pico específico.. — Já que você pergunta.. mastigando um pedaço de pão. Quando ela me descreveu pela primeira vez. manter a mente a- berta. Providenciara para mim pão e um pouco do nosso famoso leite quente. Ela disse que eu deveria ser mais inteligente. muito cedo. — Olhei para o céu e exatamente por cima do pico indicado apa- receu um disco voador. parecia o Ho- rizonte Perdido. crédula como eu? — Eu lhe disse o começo.. Isso não faz com que você seja uma tola. onipresença e onisciência. Mais do que is- so: mostrei-me hostil depois que ela falou. David estava esperando. muito antes de qualquer pessoa por aqui estar de pé.. Desse momento em diante..barata. Bebemos e comemos enquanto andáva- mos. Sem ir além da analogia do que nos é conhecido. — David.

Há uma porção de provas externas de objetos voadores não-identificados. então alguém tem de estar controlando-os. estações de radar de rastreamento. Shir- ley.de fato espantoso. então esqueça. de "mente aberta". E se não são pessoas da Terra. Ela diz que a ciência. Se existem os discos voadores. — Não tem qualquer problema com a reencarnação. — Muito bem.. se você foi fundo na compreensão espiritual. literalmente centenas de visões múltiplas.. em que eu ficava estendida na relva com a luneta. Quando desempenho um papel assumo o manto emocional de outra pessoa. não depois de tudo o que li sobre o assunto e o que experimentei pessoalmente.. Talvez fosse por isso que me parecesse tão fami- liar. Contudo. Esquecer? Mas como era possível esquecer uma coisa assim? Da- vid ficou me observando pensar. estavam além de nossa estrutura de referências.. não é mesmo.. pessoalmente ou por controle remoto. — É uma pena que todos precisem de uma prova particular. de fontes como a Força Aé- rea. Sentia que eram familiares. Certo? — Certo. Para deixá-la completamente atordoada. a tal ponto que não podemos deixar de admitir que existe alguma coisa. Podia me lembrar dos muitos atores e atrizes que conhecera e manifestavam seu espanto pela origem de sua inspiração quando se confrontavam com papéis que eram totalmente estranhos a tudo o que já haviam experimentado. É por isso que parece tão sufocante. Mas não há jeito de se dizer essas coisas sem ir até o fim. por que não tentar fazer a ligação com a tecnologia superior? Mas se não lhe parece certo... O que me permite compreender que a alma pode fazer a mesma coisa cada vez que reencarna... Shirl.. Como aconteceu comigo... . então só podem ser extraterrenos. e quando éramos particularmente bons. Muitas vezes baseávamos sentimentos que devíamos expressar em ocorrências de nossas próprias vidas. e todos parecem concordar que os objetos fazem coisas que a nossa tecnologia ainda não sabe como. Portanto. Era como se eu lembrasse os "sentimentos" que experimentara ao contem- plar as estrelas. até onde podíamos saber. o milagre da inspira- ção levava-nos a alguma compreensão mais profunda. Minha mente tornou a vaguear para aquelas noites de verão ob- sedantes. Pelo que Mayan me disse. Ele me observava atentamente para verificar como eu estava ab- sorvendo o que dizia. pessoas que os viram no mesmo tempo e lugar jun- to com outras. como ele di- ria. e a compreensão espi- ritual são a mesma coisa. a ciência realmente avançada. E está ocorrendo terrivelmente depressa.. os extraterrenos são superiores por- que compreendem o processo do domínio espiritual da vida. Era tão simples as- . mas com uma freqüência maior tínhamos de extrair sentimentos e reações que jamais conhecêramos e. Até Einstein disse isso. Shirley? — Não. Talvez os atores fossem os reencenadores espirituais das expe- riências da alma. lembrando-nos que já passáramos emocionalmente por aqui- lo antes. havia uma tênue ressonância em nossas cons- ciências.

Era mais fácil naquele tempo. Senti que David fazia a mesma coisa.. na maior felicidade. haviam experimentado as mesmas circunstâncias. depois. David. Mas quem seriam "eles"? Mas que merda. E. durante a nossa longa luta através dos traumas do tempo? John. há uns 10 anos. Respiramos fundo por alguns minutos e ficamos olhando para o céu. Entregara-me três pe- . o rio murmurava. — Importa-se se eu gravar? — De jeito nenhum. Mc- Pherson e Ambres haviam dito isso. pensei. eles são espíritos desencarnados que acreditam que o mundo sempre foi visi- tado por extraterrenos. Verifiquei se a fita estava correndo direito e. cerca de dois anos depois da minha viagem africana. pensei. Mila- gres e maravilhas eram praticamente uma experiência cotidiana. lembra-se de um cara que apareceu em sua casa. que David julgava ter passado agora com a sua Mayan. todos acreditavam nessas coisas naquele tempo. Pensei por um momento. Cerca de meia hora deve ter passado. David é um espírito encarnado que acredita na mesma coisa. Perguntei a David se poderíamos ficar sentados ao sol por al- gum tempo. Deus. Encontramos um trecho coberto de relva entre as rochas da montanha e nos deitamos. há muitos séculos. em meados dos anos 60. Ele não se identifi- cara. E não me causara qualquer impressão. Olhei para ele.. Ela é seu problema. deixando a sua marca nu- ma moita e depois se afastou. Oh.. Peguei o gravador e apertei o botão de gravar.. ouvi David dizer alguma coi- sa. falei: — Pode me contar toda a história agora.. eu queria ser capaz de prová-lo mais tarde para alguém. Não falamos nada... A voz estava embargada.. Era a- gradável sentir-se em paz. pensei. — Como assim? — É por isso que precisamos conversar a respeito dela. Tentei apagar tudo de minha mente e apenas "ser". Ou talvez fosse eu que es- tivesse sonolenta. Passarinhos cantavam. — O que disse? David suspirou. David sorriu. Se aquilo esta- va realmente acontecendo. Um cachorro preto pequeno passou por nós. David? — Em primeiro lugar. por exemplo. sonolenta..sim.. embora possa ter criado problemas para você. exatamente como as pessoas por aqui. — Quer conversar sobre Mayan? Ela disse muita coisa a seu res- peito.. Estaria recordando um contato com o conhecimento da vida? Eu o~a qualquer outra pessoa que vivia na Terra hoje já teria experi- mentado o contato com os "ajudantes" de outros lugares celestiais. virou-se de lado e fitou-me... — A meu respeito? Não conheço qualquer Mayan. depois. — Ela não é um problema. com três pedras enviadas pelo chefe masai que você conheceu tão bem? Minha memória voltou ao passado. está perfeitamente claro. Minha mente pulou para a Bíblia e me perguntei se Ezequiel e Moisés. E recordei alguém tocando a campainha de minha casa em Encino..

— Como soube desse cara? — Era eu. Eu deveria agora escrever um relato sobre minhas vidas anteriores. beligerante. Fique calma. não tenho paciência. Há muito mais pessoas fazendo isso do que . Explicou o que significava. eu não sabia na ocasião o que estava acontecendo. Mayan me falou a respeito. Para dizer a verdade. — Mas o que está querendo dizer com isso? Não posso ensinar. — Mas você gosta de escrever. se há necessidade de prova. poderia escrever um relato interessante e informativo a respeito de sua incursão pessoal por essas questões. mesmo antes que qualquer dos dois soubesse de que se tratava.. Ele dissera que não. Tudo o que sabia era que o homem me dera as pedras e pedira para entregá-las a você. O chefe masai o encontrara num safari e lhe perguntara se era da América. Índia. E o chefe lhe pedira: "Pode entregar isto a ela?" E o cara dissera que sim.. — E o que mais? — indaguei. — Quem acreditaria se eu escrevesse para publicação a respeito de tudo isso? — Ficaria surpresa. que daria um jeito de me entregar. — Muito tempo depois. significa que você deve se tor- nar uma mestra. E depois Mayan tinha de convencer-me.. que dissera serem amuletos mágicos para a saúde. Sou apenas uma aprendiz. — Acho que faz sentido. sentindo-me de alguma forma invadida. e entreguei as pedras. Mas qual é o objetivo? O que significa tudo isso? — Em última análise.. show business e China. Butão. Ele respondera que sim e o chefe perguntara então se me conhecia. — Mas por que todo o segredo? Por que não me disse quem era durante todo esse tempo? Mesmo enquanto perguntava. Shirl. Isso fazia sentido? Meus outros dois livros haviam sido um re- lato pessoal de minhas viagens e pensamentos através da África.. E agora eu tenho de convencer você. Pensei simplesmente "até aí". — Você não estava pronta. não é mesmo? O importante era entre- gar as pedras. eu já sabia a resposta. Disse que eu fora encaminhado a você porque nos conhecêramos em vidas anteriores e algum dia você haveria de que- rer uma prova disso. Deus e ex- traterrenos!? Ri da lógica absurda da situação. E foi então que me ocorreu. — Isso mesmo. não é mesmo? Santo Deus!. Só que numa escala muito mais ampla. sabedoria e segurança. — Você? Minha voz se elevou num grito estrangulado. com sua propensão mental específica. talvez ensinar as pes- soas a fazer a mesma coisa. Como eu. Terei de escrever um livro sobre tudo is- to? Eu planejava fazer isso subconscientemente? Era por isso que levava o gravador a toda parte e tomava anotações ao final de cada dia? — Ela achava que você. América.. — Numa escala mais ampla? — Isso mesmo. mas já ouvi- ra falar de mim.dras coloridas. política. Shirley. pensei.

Shirley. Você acredita em Deus. Todos estão motivados pelo desejo de conhecer a verdade. queria ser um rosto perdido na multidão. Já experimentara o terrível pavor do palco. partilhando o relato de como compreendeu Deus através de si mesma. E a situação melhorara muito ultimamente. — Só há uma verdade. Deus é simplicidade. Quanto mais descobria do . Ansiava pelo anonimato. mas David estava certo. Shirley. Vo- cê simplesmente esqueceu o que já sabe. Havia uma grande diferença. pensar e escrever. A idéia de ter vidas anteriores me interessava porque oferecia uma explicação de quem eu era hoje. porque se apressou em acrescentar: — Não acha que escolheu o campo de trabalho errado se receia a humilhação pública? Ele me pegou desprevenida. a mente em turbilhão. Contudo. pela verdade por trás da complexidade. eu continuava a ser uma personalidade pública.. O problema. — Está querendo dizer que essa é a Grande Verdade? — Exatamente. é que é tão simples. Você pode ajudar outros a compreenderem Deus através de si mesmos. Shirley. O homem é complexidade. Nem mesmo tinha certeza se acreditava naquela coisa chamada Deus. estivesse tentando suprimir o medo. Mas parecia-me absurdo dizer agora que eu escreveria para relatar como encontrara Deus. que é Deus. — David. Era verdade que eu adorava partilhar minhas aventuras através do que escrevia. E conhecer a si mesmo é conhecer a Deus. Você conhece Deus. estava mais interessada em fazer perguntas do que ser interrogada e sempre que me envolvia com a exposição pública da profissão mal podia esperar para que tudo terminasse. Eu esquecera o que já sabia. Shirley. ao sol. não baseado na possibilidade do meu desempenho ser bom ou mau. posso assumir minha identidade pessoal e como passei a ser quem eu sou. como se lentamente.. — Já lhe ocorreu. ir para algum lugar. Fiquei sentada em silêncio. pouco a pouco. mas nunca chegara a admiti- lo para mim mesma. Não seria neces- sariamente a verdade.. a fim de poder voltar a ser uma reclusa. que escolheu uma profissão pública a fim de superar o seu medo de humilhação? Eu já pensara nisso muitas vezes. — Mas seria apenas a minha compreensão. A crença implica aceitação de alguma coisa desconhecida. — É isso mesmo.imagina. — A verdade? Que verdade? — A verdade simples de conhecer a si mesmo. Mas não posso dizer que acredito em Deus. David pareceu sentir o meu relance de medo. — Como assim? — Não se prepara para um fracasso cada vez que pisa no palco ou trabalha num filme? Eu jamais pensara a respeito dessa forma. E aqueles que começam a compreender desejam partilhar a sua compre- ensão. E todos mesmo. Estava interessada pelas pessoas. mas sim no que as pessoas pensariam a meu respeito. Senti um aperto no estômago e no coração. O homem se fez complexo. Mas anseia pela compreensão.

disse mesmo que essa Mayan é uma extraterrena? Pois muito bem: se você quer acreditar nisso.. como diria P. Creio que projetara uma personalidade pública tão distinta sob esse aspecto que as pessoas realmente acreditavam que eu não me importava absolutamente com o que os outros pudessem pensar. de barriga para baixo.meu eu interior. — Você está aí ou não? — Estou aqui. é pro- blema seu. Lembrei de ter dito uma vez ao meu agente de imprensa que queria parecer uma pessoa de espírito totalmente livre.. E. Barnum. frases como conhecimento interior. altas vibrações. alguma coisa que . mas acho que tudo isso parece um monte de merda! Era mais do que eu podia agüentar. com um tom irri- tantemente paciente. como se a conversa fosse crível. percepção superior. a uma pessoa que alegava ter tido um relacionamento com uma extraterrena. Depois se deitou. está pelo menos parcialmente convencida de que os discos voadores existem e também. — David! — Minha voz era áspera. David estaria me manipulando para escrever sobre tudo aquilo? — Pelo amor de Deus. paz interior. David soergueu-se. Era como tatear na escuridão. David. menos constrangida ficava com o que os outros pu- dessem pensar. A voz era suave. T. Queria ser mais do que agressiva. — E então o que. Shirley? Você parece ter aceitado a idéia da reencarnação. Ele respondeu prontamente. disse agora a David: — Pensa que planejei me tornar uma personalidade pública su- postamente de "espírito livre" a fim de poder escrever impunemente tudo aquilo que você e Mayan conversaram? — É impossível. sentindo-me ridícula por estar fazendo per- guntas honestas. sentia-me manipulada. na defensiva. — E então? Falei bem alto. Talvez esse seja o carma que você escolheu pa- ra si mesmo. serenamente. Não sentia nenhuma dessas coisas. assim. Ao contrário. David respirava calmamente. Era de- mais.. como se tra- vasse um diálogo interior comigo mesma a propósito da estúpida a- bertura da mente e da verdade terrível de que poderia estar inclu- ída entre os otários que nascem a cada minuto. esclarecimento e assim por diante. Senti o pulso acelerar e comecei a calcular quanto tempo levaria para descer das montanhas e pegar um avião para vol- tar ao mundo são que podia compreender. Escrever sobre aquilo? Eu não podia sequer continuar a pensar a respeito! Sentia que o cérebro estava a pique de explodir. Estava subitamente dominada pela desconfiança. parecendo despreocupado e alheio ao que estava acontecendo.. E me senti mais do que apenas um pouco hostil. contando apenas com a ajuda de clichês como lanternas para iluminar o caminho. Alcançara o limite da mente aberta. apoiado num cotovelo. Minha mente e hostilidade estavam em disparada. Por que não põe isso em fogo lento na sua mente. por enquanto? Em fogo lento? Eu estava tentando evitar que minha mente fer- vesse: Sentia que estava me estendendo muito além do que podia ab- sorver. David continuou sentado. em decorrência.

.. — Oh. Não é suficiente compreender intelectualmente o aspecto espiritual do . Isso me fez rir. uma mistificação absurda. Sei que é uma luta gran- de. quando entende. gentilmente.. Nós ainda estamos na Idade das Trevas. Passei pe- lo mesmo processo. — Sei que você. Mas a verdade é que ainda somos basicamente um tanto primitivos. E chama a isso de progresso? — É muito curioso. — É es- se o problema. — Respire fundo e concentre-se nisso. Queria cutu- cá-lo com o pé. — Mas se já passei antes por essa suposta luta espiritual. não é mesmo? Está transtornada porque eu acredito em você mais do que você própria. Fará mais progresso assim. sim — insistiu David. O sol estava sufocante. relaxe. Isso explica por que agimos como agimos. A pele coçava. — Tente manter a calma — disse David finalmente. — Está se sentindo melhor? — perguntou David. o tempo está se esgotando.. Comecei a me sentir fisicamente desconfortável.. Soltei um grunhido. Eu não que- ria estar ali. Levantei-me e comecei a andar em torno de David. Era justamente o que eu estava fazendo com Gerry. Santo Deus!. Eles pensam que as nossas prioridades não passam de mistificação. — E. no final das contas. Paciência e tolerância. só de correr os olhos pelo mundo. queria chutá-lo. Shirley. Ri de novo. Procure apenas continuar em seu próprio ritmo. pensei. Não.. en- tão tenho de fazer tudo de novo? — Porque há outros aspectos do progresso de sua alma que pre- cisam ser trabalhados. É de sobrecarga que está sofrendo. Você pode consegui-lo outra vez. — Tem toda razão. apresentando para substituir um mon- te de sandices metafísicas. — Não tenha medo. E isso a desafia a melhorar mais do que se julga capaz. E sei disso muito bem. — Sabe. Sobre carga de tudo. Tornei a me ajoelhar no chão. por exemplo. Mas o que a leva a pensar que a raça humana tem a ex- clusividade da vida no cosmo? Eu não sabia o que pensar. — Progresso? — Eu estava gritando. — Você está destruindo tudo em que a humanidade acredita. Mas o homem é prova- velmente apenas um animalista. é tudo uma questão de tempo — conti- nuou David. não sei do que você está falando. Lembre-se de que está no caminho certo ou não estaria aqui. ao lado dele. que acabou se transformando numa risada pela maneira como reduzia minha indignação cósmica a um e- xemplo pessoal. Por que então você apregoa essas idéias de que somos me- lhores do que na realidade? — Aí está! — exclamou David não tanto com um jeito de eu-não- disse e mais como se o seu argumento estivesse confirmado. — Mas como você pode verificar. É claro que o comportamento da raça humana me parece defensável. — E lembre-se de que você já passou por essa luta em muitas vidas. entende depressa. E tente prosseguir serenamente. Mas isso é a vida. Assim.os controla. merda! Não sei. Sei que o esforço é grande.

Outros também podem fazê-lo. — Em que está pensando? — perguntou David. E tem outra coisa. A voz de David soou como um murmúrio: — Mayan sempre diz: ame a Deus. limpando o suor do queixo. "O fenômeno dos discos voadores é um desafio à humanidade. Desculpe. por um longo tempo. senti David se mexer. Está me entendendo? — De que jeito? Como Jesus Cristo ou algo parecido? — Exatamente. Ele abriu os olhos. Mas o que está faltando na Terra é o nosso aspecto espiritual. ou- vindo David repetir a mesma imagem de McPherson e Gerry. Que a fim de colher o fruto você precisa ir até a ponta do galho. Os extraterrenos também estão ainda aprendendo sobre si mesmos. Você tem de vivê-lo. Estou me sentindo como uma idiota. Minha pele parara de comichar e outra vez os raios do sol eram agradáveis. Depois. E essa foi. David. tornou a esfregar os olhos. Os cientis- tas têm o dever de enfrentar esse desafio.. David sacudiu os braços pelo ar. — Há quanto tempo está deitada assim? — Há cerca de uma hora. Não se es- queça disso. pois você é uma parte dessa obra. Cada alma viva no cosmo precisa.homem.. Ele parou de falar. E tenho uma coisa para dizer. Ela me disse para não deixar de lhe dizer algo mais. Acho que devo ser uma crédula de primeira classe.. — Tudo isso é inacreditável. revelar a natureza dos discos voadores e estabelecer a verdade científica. Estava quase no fim da fita de 60 minu- tos. Suspirei interiormente e olhei para o gravador... mas me sinto tão sereno ao sol que vou até o fundo. ame ao próximo. Fiquei olhando para ele em silêncio. Virei-me e fitei-o. Mas tenho a fita. — Eu fui longe.. Ele suspirou e espreguiçou-se. Uma lágrima escorreu de um olho. Isso é tudo o que eles estão tentando ensi- nar. — E o que me diz dos seus extraterrenos? Eles também estão fa- zendo isso? E precisam? — Claro que sim. a mensagem de Cristo: todas as pessoas podem realizar o que ele rea- lizou. ame a si mesmo e ame a obra de Deus. protegeu- os do sol. Parecia que acabara de despertar de um sono profundo. Instituto de Aviação de Moscou Fiquei deitada ali. conheça o seu potencial." — Dr. na verdade. Já a escutei muitas vezes desde então. Ele levou a progressão de sua alma até quase a perfeição. isto é tudo que se torna neces- sário. Desliguei o gravador e deitei-me de cos- tas. Ao diabo com a inteligência de mente aberta. . Alguma coisa no meu tom de voz deve tê-lo despertado. Ele sen- tou e eu imitei-o. imóvel. Levantei os olhos para o sol. conheça todo o seu potencial. Esse é o propósito da vida. Shirley. Felix Zigel. murmurando: — Está tão quente e agradável.

— Está se referindo a Mayan. e como posso! Também passei por tudo isso. To- dos os seus ensinamentos e explicações sobre a reencarnação da vi- da. Eu odiava o que ela estava dizendo. exasperação e um sentimento muito mais profundo. ainda a fitá-lo. mulhe- res exuberantes e da minha vida em alta velocidade. — Mas eu não queria acreditar! Já lhe disse isso. como sabe que não estava apenas projetando alguma ne- cessidade que sentia no fundo do subconsciente e que se manifestou no fato de acreditar no que essa Mayan disse a respeito de si mes- ma? Talvez você precisasse acreditar. Foram neces- sárias duas viagens até aqui e meses de conversa antes de me mos- trar pelo menos cortês quando Mayan tentava me dizer essas coisas. Está me entendendo? Sei que se pode escarne- cer dos sentimentos e tudo o mais.. Senti vontade de pular na carga de carvão recentemente extraído e afundar.. não era isso. O que você acredita é problema seu. Simplesmente "senti" que ela estava dizendo a verdade. Eu gostava de carros bonitos. — Estou me referindo a tudo! Eu estava quase em lágrimas de indignação. Isso seria re- al. Até mesmo os cientistas precisam de um "sentimento" em relação a alguma coisa antes de se empenharem em prová-la. E eu não tinha como escapar. David parecia estar sendo sincero. Tumultuou todas as minhas convicções e até a mi- nha sanidade por algum tempo. David ficou atônito. David fitou-me com uma expressão triste. Mas quando se vai ao fundo. Nem mesmo me sentia infeliz. depois de algum tempo não pude mais ignorar que "sentia" cer- to o que ela dissera. até ficar preta com o resíduo. Queria marchar para os Picos Gelados Huaytapal- lana e passar por cima. Queria dançar a cada música que ouvira nas vitrolas automáti- cas peruanas.. pintado de amarelo.. Era isso que fazia sentido. de medo pela possibilidade de minha raiva estar errada. os "sentimentos" são tudo. E ela estava certa. a fim de poder verificar pessoalmente o . Eu já sei no que acredito.. E Mayan quase desistiu de mim. Não estava procurando por coisa algu- ma.. — Não quero convencê-la de coisa alguma. Mas. despreocupada. Fiquei parada. Queria também pular sobre as borbu- lhas laranja do Mantaro. os braços caindo pela relva. e ela percebeu-o e disse o que você queria acreditar. — David. Depois me levantei.. Não vai fazer qualquer dife- rença para a minha vida. — O que fazia sentido? O fato de ela ser uma pessoa das Plêia- des? — Não. Observei-o atentamente. as leis e a justiça cósmica. Apenas acho que deve considerar a sério a possibilidade do que estou dizendo. Isso seria real. Outro trem antigo. Mas acabei tendo de admitir que fazia sentido o que ela dizia. de uma forma ou de outra. Shirley. os braços imóveis nos lados do corpo. A mensagem espiritual fazia sentido. sem qualquer receio de que viesse a afundar.. Fitei-o em silêncio por algum tempo. — Posso entender. estava atravessando as montanhas. A última coisa que eu queria era renunciar a tudo isso e me tornar espiritual. Disse que minha hostilidade era quase impossível de suportar.

O que estava acontecendo? O que estava acon- tecendo comigo? David estaria simplesmente acreditando no que precisava acre- ditar? Meus pensamentos voltaram à Califórnia. Além disso. apenas deixando que todas as novas experiências fossem absorvidas. é um processo que toma e exige tempo. cheios de con- fusão. Lars e Birgitta estavam tão angustiados em suas vidas que precisavam acreditar que aquela entidade espiritual encarnada realmente os orientava? Certamente eles não pareciam angustiados. E.. assumir uma nova posição.que havia no outro lado. para se consumar. sem tentar definir coisa alguma. por assim dizer.. Caminhei sozinha pelo resto do dia. Turid. em alguma outra forma ou ambiente.." — Thomas Edison. esses enxames de unidades. Comecei a andar. nas mesmas coisas. Creio que são compostos por mi- ríades e miríades de indivíduos infinitesimalmente pequenos... David continuou onde estava. Capítulo 24 "Peguem os nossos próprios corpos. . David jamais os conhecera. E talvez as pessoas sempre precisem de alguma solidão. mas estavam todos pensando da mesma forma... Meus pensamentos cho- calhavam ruidosamente como correntes grossas. Estamos tão acostumados às coisas com que crescemos que nem sequer nos lembra- mos dos tempos de silêncio necessários. Creio também que essas unidades operam em equipes — ou enxames. apenas tempo. experimentava erupções de alegria. um conjunto total- mente diferente de perspectivas sobre a vida. a pensar. como prefiro chamar — e que vivem para sempre. da realidade da justiça cósmica cármi- ca à existência da espiritualidade extraterrena. tristeza e ressentimento. Absorver um pensamento real novo. medo. Eu precisava muito na- quele momento. deslocam-se para algum lugar e continuam em operação. Quando nós 'morremos'. cada um constituindo uma unidade de vida em si mesma. ou sem pensar realmente. como um enxame de abelhas. depois. Kevin Ryerson e Cat precisavam acreditar em entidades espirituais? Sturé. O Diário e Observações Diversas de Thomas Alva Edison Tornei a sair sozinha na manhã seguinte. A tarde já ia chegando ao fim quando voltei a me encontrar com David e sugeri: — Vamos aos banhos sulfurosos. os tempos solitários em que se está crescendo. os tempos de exclusão do mundo..

pen- durando as roupas nos pregos nas paredes recendendo a mofo. As dores muscu- lares começaram a se desvanecer só de pensar. E um pouco da minha confusão se dissipou. Senti que não poderia afundar. Enquanto seguíamos. É difícil dizer. — Mayan lhe deu as pulseiras? — Deu. É espantoso. através da claridade do final de tarde. Tratamos de nos despir rapidamente. quase como uma lingua- gem. O céu era real. A lua era verda- deira. sem entender onde ele estava querendo chegar. — Relaxe um pouco. to- camos nas pedras cobertas de musgos sob nossos pés. Pus a pulseira. mesmo que quisesse. Use-a em seu pulso durante todo o tempo em que estiver aqui. Prendeu a vela na cera derre- tida. — Não há problema. — Em primeiro lugar — disse David — vamos repassar o que você lembra da química da escola secundária e da constituição do átomo. sinto que os pensamentos se tornam de alguma forma amplificados. Sempre soube que queria ingres- sar no show business e por isso a matéria de nada me adiantaria. — Está bem. que um instante depois solidificou. Penso mais claramente ali e tentarei lhe transmitir o que ela me disse. acendeu a ve- la. Te- nho de lhe falar mais do que Mayan me ensinou. As águas eram úteis. — Mayan me deu isso. — Como assim? Funciona de que forma? Eu não tinha a menor idéia do que ele estava falando. David meteu a mão no bolso e entregou-me uma pulseira do que parecia ser prata. Está tensa que nem um tambor. Vai ajudá-la a compreender as coisas com mais clareza. O céu estava tão claro que se podia ver a lua pairando à luz do dia. Era igual à pulseira que ele usava constantemente. Parecia até que eu já não estava suficientemente espantada. como uma gigantesca bola cinzenta. E me perguntei se não estaria cheia de água antes da aventura terminar. — Mas como funciona? — Não sei exatamente. David? — Não sei. Vamos até a casa de banho. Pensei em imergir na água morna sulfurosa. Entra- mos na água. — De que é a pulseira. de tal forma que penso com mais clare- za. Senti a cabeça vibrar. Mas funciona. David riscou um fósforo. A temperatura já começava a cair quando descemos para o poço. o poncho de lã era tão importante para mim quanto o chapéu durante o dia. Shirley. À noite. David levava uma vela e eu estava com o meu gravador. Talvez fosse assim que a água falava. David. virou-a ao contrário a fim de pingar um pouco de cera derreti- da no chão de terra por cima de nós. — Está certo. Agitando os braços. Shirl. O frio era penetrante. que borbulhava ao nosso redor. Mas você sabe que o próton é a carga posi- . — Não estudei química. Estava bastante escuro. — Quando uso a minha. Não havia qualquer dúvida sobre esses fatos. Tem alguma coisa com o que ela chama de terceira força. Fiquei outra vez agradavelmente surpresa com a densidade da água. Estendi a mão para o gravador e liguei-o. o que também era um fato.

que cargas iguais se repelem. Esse oceano mantém os átomos juntos.. — Tenha um pouco de paciência e escute até o fim.. Pode falar o que bem quiser. Tudo o que é físico é constituído de átomos. elétrons e nêutrons. os plane- tas. água. os pêlos dos gatos.. o Universo. tudo unido em harmonia. começando a sentir uma estranha agitação na cabeça. — Já ouvi falar disso. o elemento pensante da natureza. árvores. E que mais? — Vou dividir os componentes do átomo.. — Claro. por um momento. Tudo na criação é constituído de átomos. Mas está querendo dizer que é uma espécie de oceano em que tudo flutua? — Isso mesmo. Essa energia é o que Mayan chamou de uma Força Divina. ou.. os elétrons e nêutrons gi- ram em torno dos prótons relativamente da mesma forma como a Terra e outros planetas do nosso sistema giram em torno do sol. uma força que é a or- ganizadora de toda a matéria no cosmo. — Lembro de ter lido isso. está bem. tudo. como você diz. "quarks". enfim. vamos com calma! Um elemento pensante? David ficou em silêncio por um momento. planetas. Certo? — Certo. elétrons e nêutrons? — Se você o diz.. Engoli em seco. — Foi isso o que Mayan lhe disse? — perguntei. . Você sabe que um único átomo é constituído de prótons. . Na verdade. permitin- do os movimentos do sistema planetário em miniatura. — Ei. é constituída de polari- dades equilibradas e contrastantes. Shirley? Li- mite-se a escutar por enquanto e esqueça se não fizer sentido. Polaridades de positivo e negativo. — Está bem. o átomo é um sistema planetário em miniatura. E leva a pensar se todo o universo não está numa gota d'água.. areia. O rosto de David se iluminou e ele continuou: — Há uma força que funciona como o elemento coesivo. — Deixe-me falar sobre isso mais tarde. — A Fonte ou "oceano". — Claro. Organiza o átomo. Em ou- tras palavras. David assentiu. — E sabe que negativo e positivo se atraem. yin e yctng. — Claro. Então essa Fonte é o elemento "pensante" da natureza. galáxias.. — Polaridades? — Isso mesmo. Acho sensacional que o átomo seja de certa forma o microcosmo de um sistema planetário. — E sabe que cada uma dessas cargas encerra uma energia equi- librada. que essa Fonte é o ele- mento coesivo que mantém juntos os prótons. — E pode compreender.. olhando para a chama da vela. como os cientistas dizem agora. Pode-se dizer que essa Força é a suprema Fonte. — Sabe que os elétrons giram em torno dos prótons constante- mente e em alta velocidade. as galáxias. — Está bem.tiva de energia e o elétron é a negativa.

então qual é o sentido de dividir seus componentes? Por que não aceitar a composição como uma questão de fé? Por que sequer levantar indagações sobre a mecânica da coisa? A mecânica só tem sentido porque pode ser provada. mas sim unidade de energia. Senti que um suor nervoso começava a escorrer do meu couro ca- beludo. a Fonte. Se e quan- do a ciência chegar a uma definição da Fonte. Dizem que há uma energia que povoa o espaço interatômico. — Mayan disse que é justamente isso o que está errado em nossa ciência. estará reconhecendo a espiritualidade como uma realidade física. O que David me transmitiu como as informações de Mayan desencadeou o reconhecimento em mim. Alguns dos nossos cientistas desconfiam que essa energia existe. parte da DNA.. É parte de cada célula. essa espécie de energia. não precisa ser provada. Sendo assim. mas não podem medi-la porque não é mole- cular. A alma poderia ser feita de uma força-energia tão real quanto a física? Era por isso que a alma vivia infinitamente? Mi- nha mente estava em turbilhão. Eu suava profusamente agora. Se temos de aceitar a sua existência básica pela fé. — Não me surpreende. no que me diz respeito.. nossas almas são feitas dessa energia-Fonte. Vou lhe dizer agora a parte difícil de entender. Por mais que re- agisse. é o que chamamos "Deus". — Mas você acredita mesmo que a alma é uma força física? — Claro que sim. está em nós. David riu. Essa energia é a energia que constitui a alma. em algum lu- gar no fundo da minha mente. Nossos corpos são constituídos por átomos. É uma força subatômica. David? Quem diz que essa Fonte. mas não sabem o que é. — Onde está querendo chegar. Portanto. As palavras de David vieram em meu socorro: — Nossa ciência não reconhece a existência da alma. especificamente? — Mayan diz que é a energia subatômica que constitui a Fonte. A alma não pode ser provada. um lugar em que jamais penetrava. e é o que fazemos pois não há qualquer prova. É por isso que não sabemos realmente o que é a eletricidade. aquilo me parecia real. dando o nome de "gluon".. Mas é uma espécie de força essencialmente di- ferente das forças físicas atômica e molecular que abrangem o cor- po. Sentia que estava me lembrando de alguma coisa. E me parece que não faz a menor diferença. Sabem que não é matéria. mas que é a mais im- portante.. é neces- sariamente a alma? Pode ser qualquer coisa. como um foco repentino em algo familiar a que se estava olhando sem ver. Senti que era verdade o que David . Portanto. é nós e tudo o que existe. Não posso expli- car. Mas não tente me vender a mecânica pela fé. parte de uma quarta dimensão. — Por quê? Será que não percebe como essa pressuposição é co- lossal. a energia inteligente que organiza a vida. absolutamente qualquer coisa.. a esta altura dos aconteci- mentos. não é molecular. Não sei por quê. se é que existe. Só sabemos que existe porque tem resultados físicos.. Não admite a existência de forças que parecem estar no reino espiritual.. espaço ou tempo. se sabemos ou não de que é constituída a alma... Até eles chamam-na de elemento coesivo do átomo. não pode reconhecer a constituição científica da Fonte.. sentia-me tonta.

É o Deus da Criação. Daí o que chamamos de reencarnação. é a combinação da estrutura molecular. Sentia a cabeça estonteada. Tinha a sensação física de que um tú- nel se abria em minha mente. Tornei-me o espaço em minha mente. Senti-me fluir para o espaço. — Tudo é energia. como se recitasse uma lição de física da escola secundária: — A energia não pode ser criada ou destruída. Foi crescendo como uma caverna de es- paço livre. — É isso. que é energia espiri- tual. queria descansar. que é matéria física. Não podia falar. mas o conhecimento incon- testável de uma percepção que existe fora. Queria não pensar. Atravessou o teto e pairou acima do rio. criado à nossa imagem. ao lado. E disse. Possui o seu livre- arbítrio e quando morre o corpo que a encerra simplesmente se in- dividualiza. Senti outra vez que eu me tornava a própria chama.. Era físico. saindo do corpo e su- bindo. Meu espírito. É o começo e o fim. Não podia sentir como pensamen- to. foi subindo pelo espaço. Pensei como era arrogante imaginar Deus como um ser humano com uma forma física como a nossa. E está em Nós. flutuar parecia uma pala- vra mais apropriada.. em algum tempo. voar não era a palavra certa. Respirei fundo.estava dizendo. O que ele estava que- rendo dizer era que essa energia espiritual orientadora da vida está por toda parte. Essa Fonte povoa e organiza toda a vida. até tomar a sua decisão cármica sobre a nova forma em que irá se alojar. portanto. Até mesmo os nossos conceitos religiosos da alma estavam baseados essencialmente em imagens fí- sicas. As propriedades moleculares são mais fáceis de se descobrir do que as unidades de energia. Olhei para a chama tremeluzente da vela. flutuar para fora. Aci- ma de tudo.. apenas transfor- mada. A energia espiritual vive para sempre. Alfa e ômega. gentilmente. o que quer que fosse.. E a al- ma é um acúmulo de unidades de energia. sem qualquer detrito. flutuar cada vez mais alto. A vida. cada vez mais alto. além e co- mo parte da vida que conhecemos. Estava consciente de que o corpo permanecia na água. antes. não tinha pernas.. Sen- tia que estava voando literalmente. em voz alta.. não tinha forma física. não. Mantive-me em silêncio. mente ou alma. a paisagem lá embaixo. Daí a vida antes do nascimento. ao crepúsculo.. A chama da vela lentamente se fundiu no espaço da minha mente. Tornei a me contrair. Mas a ciência só tra- ta com o que pode ver e provar. — Certo — disse David. A forma física morre.. David estava. Depois. Não tinha braços. Fiquei olhando fixamente para ele. reconhecendo o que . porque já conhecera tudo em algum lugar. — Quando Cristo disse que Deus está em toda parte — continuou David — de certa forma estava sendo literal.. Não era de admirar que negássemos o espírito. não tinha corpo. e a Fonte. Não era tanto a estrutura. até que podia contemplar as montanhas. era mais gentil do que isso. Daí a vida depois da morte. — Está entendendo agora? — acrescentou David. Olhei para baixo e o vi.. ou melhor. Queria pensar. limpei o suor do rosto. E a ciência não podia admitir a possibilidade de que uma forma espiritual pudesse existir concretamente. Não havia realmente nada para dizer. Cruzei os braços na cintura. povoá-lo. Uma espécie de bílis subiu-me pela garganta.

mas sabia que haveria de querer sair novamen- te. Eu fiz isso esta manhã.. sempre preso ao meu corpo. Estava consciente. Bem devagar. através do espa- ço.. Sabia que estava ali. Estava em dois lugares ao mesmo tempo e aceitava isso integralmente.. E ligado ao meu corpo havia um cordão prateado muito fino. Estava tão consciente do que sentia que naqueles momentos compreendi como meu corpo físico era irrelevan- te. suave. totalmente elástico. lentamente.. Observei o cordão prateado ligado ao meu corpo. da energia vibracional ao meu re- dor. Não queria subir mais. — Está querendo dizer que eu me projetei astralmente. Comecei a perceber ondas de conexões de energia e padrões ondulantes de energia de pensamento. Estava consciente de que não queria me ele- var para muito longe do meu corpo. As vibrações de energia se desva- neceram . a escuridão no outro lado do globo. fisicamente. Experimentando as duas entidades. Sentia-me indiscutivelmente li- gada ao corpo. Era a sensação de uma nova dimensão de percepção. cheirar. Não era um sonho. Tentei explicar a Da- vid e ele disse: — Sei como é. Não podia compreender o que acontecera.. Já lera a res- peito na literatura metafísica... Faço viagens por toda parte. Pa- rei o vôo no espaço. O espaço cercando o meu espírito era confortante. desajeitado. gentilmente. Creio que estava experimentando a separação. David? — Exatamente. a sensação das ondas de pensamentos ondulantes desapa- receu por cima de mim. puro..vira durante o dia. enquanto me elevava. ainda na água. — Da- . mas sa- bia também que meu corpo estava lá embaixo Era aquilo que todas as pessoas entrevistadas por Elizabeth Kubler-Ross haviam experimentado? Minha energia espiritual se se- parara da forma física? Eu estaria flutuando como a minha alma? Estava consciente das minhas indagações enquanto me elevava li- vremente acima da Terra. Fui descendo. e muito mais além disso. incômodo. e sua alma deixou o corpo. Mas era certo que sentia duas formas. que permanecia preso ao corpo.. descendo. conscientemente.. Estava consciente até de que não queria me elevar ainda mais.. Faiscava no ar. flutuando de volta à terra. Já podia perceber a curvatura da Terra. provar ou tocar. Orientei-me de volta ao meu corpo. que não tinha qualquer relação com ouvir. Minha visão provinha de alguma espécie de olho espiritual. Não era como ver com os olhos reais. enquanto você passeava. Não podia vê-la. Parecia ilimitado em comprimento. Percebe agora que a compreensão é um ato físico? O que você sentiu foi sua alma.. num contato suave. tornei a me fundir com o meu corpo.. a forma do corpo lá embaixo e a forma do espírito que se elevava. Não po- dia descrever para mim. Mas era evidente que ele estava deliciado. apenas flutuava gentilmente. mas experimentava um novo senso de "sentir". familiar. imagi- nando até que ponto poderia ir sem que o cordão arrebentasse. mas também o sentia restritivo. Sentia-me contente por estar de volta. descendo.. Eu subia cada vez mais alto. O cordão prateado não estava esticado. Poupo a despesa de combustível.. ver. Eu es- tava consciente de tudo. Isso é tudo.. Meu corpo estava confortável.

Só po- dia seguir em frente. ligado a todo volume. As pessoas jogavam pedras nas vitrines. nos Andes. flutuando e subindo para o mundo astral? — Isso mesmo. Tropeçamos em alguns pedregulhos. Queria mais leite quen- te. as pessoas não tinham condições de viver. pode-se ir a qualquer lugar que se quiser e também conhecer todas as espécies de almas. Mas quando se volta ao corpo e se desperta. alguma coisa familiar. Não sei dizer especificamente como é morrer.. por mais angustiante que pudesse ser. O chão frio de terra recendia a mofo. a cerca de uma hora de distância. com a mulher desdentada e as crian- ças. a alma simplesmente se eleva do corpo. numa emergência. Seria necessário suportar um desconforto básico a fim de aprender as coisas bási- . to- das as minhas percepções temporais. mas posso lhe garantir que o princípio é o mesmo da proje- ção astral. Não podia voltar a um quarto aconche- gante ou me refestelar numa banheira cheia de água quente. A partida de futebol em Lima era transmitida pelo rádio. Alguma coisa como sonhar. Lá fora. às pressas. Todas as minhas percepções estavam pelo avesso. O que experimentara tivera uma característica de sonho. David comentou que provavelmente haveria uma mudan- ça no governo em breve. porque os mesmos problemas continuariam.. Esfreguei a pele até formigar. sentindo que os dentes começavam a chocalhar. O locutor disse que eram os motins da "inflação". — Está certo. Mas pelo menos havia algum calor no quarto quando entrei e desabei na cama. Aconchegando-me no poncho. isto é. como uma artista do vaudeville.. Um manto de serenidade envolveu-me enquanto tomávamos o leite quente e comíamos o guisado. condicionadas. pelas montanhas. em ondas curtas. O corpo não pode mais manter a força vital. Comecei a tremer ligeiramente na água. não é sempre que se lembra de onde se esteve. Fora mais como uma nova dimensão. — No mundo astral. Mesmo ali. em protesto contra a alta do custo de vida. David abraçou- me com força. pensei que estaria muito mais a- berta a aprender se estivesse mais confortável. mas não fora um sonho.. — Acho que seria melhor sair da água — murmurei. David explicou que os manifestantes usavam a linha de pedregulhos na estrada como uma técnica para evitar o tráfego para Huancayo.vid sorriu. Eu tinha um lampião de querosene que desprendia um calor gaso- so. por um golpe de estado ou de outra forma. peguei as roupas e me vesti ra- pidamente. cujos 100 mil habitantes já estavam sujeitos a um toque de recolher às nove horas da noite. estavam trans- tornadas. um tanto fedorento. entremeada de notícias sobre os distúrbios cada vez maiores em Huancayo. Já estava escuro quando atravessamos a estrada de volta ao nosso "hotel".. As pedras impediam que as tropas governamentais lá chegassem. Vamos tomar um leite e comer alguma coisa. Mas provavelmente não faria a menor diferença. Minhas novas percepções estavam se tornando mais clara- mente simples. É realmente muito simples. A única diferença é que o cordão prateado arre- benta quando se morre. — É isso o que acontece quando se morre. como se eu tivesse acabado de me formar ou algo pa- recido. porque os salários não condiziam com os preços. só que não há corpo para se voltar..

Meu cérebro turbilhonava. os porcos grunhiam. do nascimento à morte. — Relaxe. — Tente dormir.cas? — Durma bem — disse David. olhando para a pa- rede cinzenta junto à minha cabeça... Você está precisando. Só que eu não me lembrava. Não podia pensar em qualquer coisa que fosse o meu sonho dourado. Ele piscou-me e se retirou.. não é por sua vez também um sonho. a pró- . com uma risada na voz: — Posso sentir o seu cérebro e está me mantendo acordado. ocasionalmen- te. Queria me abandonar. de cuja realidade não duvidamos somente porque não sabemos da outra vida mais real? Nossa vida é apenas um dos sonhos daquela vida mais real e assim é. Por acaso estava querendo correr. simplesmente porque era familiar? Poderia novamente relaxar na convicção de que a vida e a realidade eram simplesmente o que eu podia ver. a agonia familiar de buscar por propósito e razão. mas como? De que forma posso dormir quando sei que vou viver um milhão de anos? Não tenho certeza se sequer gosto disto. Mas se- rá que eu queria realmente de volta a minha vida antiga. ciúmes e lu- tas conduzindo para o que fosse verdade na realidade? Ansiava em ter de volta tudo o que me fazia infeliz ou extática. Fiquei olhando para o filamento prateado do lampião de querosene até que meus olhos doíam. — Relaxe. — Foi você quem me meteu nisto — murmurei. — E agora diz que eu o estou mantendo acordado. Ri também. — Está certo.. me esconder e esquecer tudo o que experimentara até aquele momento? Fora uma pessoa objetiva por toda a vida.. rastejava em torno de si mesmo. que tomamos como a vida real.. E isso era mais difícil do que qualquer outra coisa. toda a nossa vida. Não podia me imaginar sem estar envolvida na luta e confusão cotidiana. — David suspirou alto e acrescentou. interminavelmente. O si- lêncio das montanhas rochosas me envolvia. — Concentre-se. tocar e experimentar tudo o que podia.. Shirley.. E talvez nos encontremos no plano astral. Eu me sentia exausta. até a última. tocar e ouvir? Que a morte era a morte e simplesmente o fim? Eu queria voltar ao sentimento "seguro" de que nada merecia fé sem prova? Ouvi uma batida de leve na parede que separava o meu quarto do de David. que- rendo sentir. lembra-se? — Lembro. saltava. — Em quê? — No seu sonho dourado. Lá fora. meus medos. com todos os seus sonhos. Capítulo 25 ".

lu- cros. os eventos. outras não. Parecia bastante quente para se poder re- laxar. trabalho árduo.. Mas a palha é bem quente quando nos enterramos fundo. Se estiver muito frio. as roupas e provavelmente os pés tam- bém. Tinha no rosto uma expressão ansiosa. Poderia agora voltar ao meu mundo antigo? Seria duas pessoas? E. Sobrevivera em sua confusão tumul- tuada e sentia agora saudade." — Leon Tolstoi. eu não seria mais de uma pessoa? Parei de repente e soltei uma risada ao pensar nisso.. então ficava aquecida. Cartas Passei os dias seguintes andando e pensando. com mais palha ao redor.. filmes. Com uma pá de um dos trabalhadores que mastigavam coca. Mas também não queria mais sentir-me irrealizada. até mesmo da União Soviética. Tinha o hábito curioso de sentir saudade de cada país que já visitara.. competição. — Vamos experimentar.. notícias. David me observava passar pelo turbilhão emocional com uma se- rena compreensão. Deitamos por cima. Fi- camos olhando para o céu por cerca de uma hora. fra- cassos. Era isso que eu queria fazer com a minha vida. toda a pressa sem qualquer propó- sito aparente. Shirley. novas modas. Ficavam limpas. podere- mos entrar. A comida nos deixara aqueci- dos e com uma sensação de reforço contra o frio. de qualquer forma. voltar à América. a vida de Deus. mas aquela grandiosidade fazia com que o frio parecesse ridículo. Não era justamente essa a lição? Eu era todas as pessoas que já vive- ra. Fiquei imaginando como me sentiria em relação ao Peru quando fosse embora.. voltar à familiaridade do meu antigo mundo. humor negro. pisoteá-la até que ficasse limpa. Observava a mulher desdentada lavando as roupas a pi- soteá-las. Eram coisas a que estava acostumada. depois do guisado. As estrelas pareciam apenas meio metro acima de nossas cabe- ças. Alguma centelha em mim era sempre ateada quando ia a um no- vo lugar e geralmente me sentia obcecada quando partia. Estremeci um pouco.. — Tive de fazer a mesma coisa — comentou ele um dia. abri- mos um buraco retangular relativamente fundo na terra macia. TV a cores e sucesso. sucessos. Se eu pensava estar aquecida. sentado numa pedra. Provavelmente passara por aquela versão de drenagem do cérebro por mais de uma vez.pria vida real.. com seu envolvimento vertiginoso. e em si mesma está o universo. por trás do nosso "hotel". Eu sentia falta de tudo isso. de que não gostara muito. romance irrealista.. — Apenas conheça a si mes- ma. Perguntei- me em quantos países teria vivido nas minhas outras vidas. E não compreendia por que não podia me lembrar. Jogamos palha dentro. ele me perguntou se não gostaria de contemplar o céu por algum tempo.. . David contemplou o céu. Havia ocasiões em que eu queria voltar para casa. a olhar para uma margarida. Uma noite. artes. David me acompa- nhava às vezes. os relacionamentos con- flituosos. David estava em silêncio ao meu lado.

a fim de não poder dar certo. Lembrei da súbita revelação de Gerry um dia.. ao longo do Rio Manta- ro. Descobri-me a pensar em Gerry de uma maneira diferente. Um ego que acreditara que culpa. Comecei a sentir (mais do que pensar a respeito) uma nova ma- neira de encarar a vida e a mim mesma. De tarde. relaxados. En- quanto conversávamos. O nós.. Como minha vida aparentemente não terminaria quando morresse. que exigia que não apenas anulasse esses negativos. Quando meu conflito se aquietava. E quando tirei um cochilo. obsessão sexual e dúvida eram partes do ser humano. Eu chegara a um ponto em que aceitava a permanência dessas emo- ções. no alto de uma colina ou nas águas . como um meio para me conter. se não o fizesse. andamos mais um pouco. foi irrelevante para nós. Compramos iogurte na beira da estrada. eu falava com David. Para não ser realmente livre e expansiva. estendida na relva quente. meu condicionamento e contradições de jamais esquecer que era só minha a opção de alcançar uma nova liberdade e um novo pro- cesso de aprendizado. envolventes. su- bindo e descendo as encostas das montanhas. percorrendo as margens do Rio Mantaro. materialismo. Pensei em minha vida e nos relacionamentos que tinha. Se os discos voadores apareceram. As noções românticas faziam isso. era melhor começar a trabalhar logo de uma vez. que me lembrava de examinar os mo- tivos. Sentáva- mos e contemplávamos o sol nascer e se pôr. Tal conceito sem- pre fora estranho a tudo que eu já imaginara. fui compreendendo lentamente que sempre usa- ra meus relacionamentos com os homens. realisticamente ou de qual- quer outra forma. David. Assim. David e eu andávamos por quilômetros todos os dias. Mas David ajudou-me a compreender os meus próprios sentimentos. estava me desfa- zendo da resignação e me aventurando a um novo tipo de pensamento- vida. Obrigada.. teria de pagar em meu próprio carma mais tarde. olhei para David. sentia-me relativamente resignada. En- tramos no rio gelado. enquanto comíamos o pão e tomávamos o leite quente. Estava protegendo a mim mesma de meu próprio potencial. em nome do amor. Era a minha maneira de programar o relacionamento. atraves- sando os trigais. protetores. de casulo. portanto.. Corremos e pulamos. porque as noções românticas eram impossíveis de se manter. ciúme. Sentados ao sol. Despertamos com o nascer do sol e passe- amos pelas sombras do amanhecer durante duas horas. — Estou contente por ter vindo até aqui. Agora. ondulando sobre e ao meu redor. Quase não fa- lamos. mas tam- bém sabendo que. depois. quando dissera que eu o romantizara a tal ponto que ele não poderia possivelmente corresponder. E pouco depois adormecemos. jogamos a água cor de laranja um no outro. ao sol do fim de tarde. Tor- navam a vida impossível de se viver. a conversa foi sobre a tranqüilidade de se saber que nin- guém ou nada jamais morre. E. eu criava uma teia de suave segurança em torno de mim mesma e do homem em minha vida. senti que a mente e o coração eram como ondas suaves de veludo líquido. eu continuaria com isso pela eternidade. E mais tarde. Eu me sentia totalmente presente. Era como se estivesse re- nunciando a um ego antigo. fora mais impor- tante do que o eu.

Mas ela dissera que a ciência possuía uma tecnologia tão a- vançada na Terra que se despojaria de sua própria capacidade de controlá-la. Ela dissera que a humanidade segue uma projeção em espiral ascendente.. que nos é difícil romper as estruturas de referência e permitir que nossas imaginações efe- tuem saltos quantitativos para outras dimensões. As almas dos seres humanos. A cada renascimento e reflexão na vida posterior. até se aprender a romper esses gri- lhões por um conhecimento superior. mesmo com a independência que já alcançaram nos Estados Unidos. de serem ainda mais independentes e livres — dissera Mayan. A tecnologia em si mesma. e no valor dessa única alma viva estava o valor de todo o cosmo. Dizer que meu ponto de vista fora alterado era óbvio. o que ele repetiu com uma expressão tranqüila. Continuarão a sofrer. Agora. Em outra conversa. Mayan comentara que o homem tem o hábito de reduzir sua com- preensão às percepções da própria mente. Parecia dois anos e meio. Ela lembrara a David que as mulheres são mais espertas do que os homens. mas isso não corresponde à ver- dade. ela citara o sol como uma fonte ilimitada de e- nergia que deveríamos aprender a acumular e utilizar. Ela falara uma vez na necessidade de todas as mulheres a- creditarem em si mesmas como mulheres.. E jamais se che- gará a isso por outro caminho que não o próprio esforço. dissera ela. porque cada alma individual é tão importante assim. basta apenas que eu possa manter tu- do isso quando voltar à terra! E especulava se o meu novo ponto de . quer possamos ou não per- cebê-lo. Sentia que meu potencial esta- va se abrindo. só vale a pena aquilo que é conquistado pelo próprio esforço. a humani- dade se descobre num plano mais elevado. Assim. terra e amor limi- tado. E ela dissera ainda que a progressão de cada alma indivi- dual afeta a mecânica e o movimento de todo o cosmo. particularmente para si mesmas.borbulhantes.. Levava muito a sério tudo o que Mayan dissera. pensei. a tal ponto que a tecnologia se tornara totalmente ameaçadora à vida. Precisávamos desmontar nossas usinas de fissão nuclear e concentrar os recursos de pesquisa na solução dos pro- blemas dos perigosos desperdícios tecnológicos de todos os tipos. Na verda- de.. Como exemplo. David voltava constantemente às suas conversas com Mayan. Mayan descrevera a ciência como a criada de Deus. através da tecnologia.. transcendendo aos limites que nos eram impostos por vidas de pensamento estruturado. Eu podia senti-lo em tudo que pensava. especialmente as mulheres. estão acor- rentadas à terra através dos confortos do lar. — Nenhuma sociedade pode funcionar demo- craticamente até que as mulheres sejam consideradas iguais sob to- dos os aspectos. a ci- ência. a necessidade de se senti- rem seguras nisso. que pode pa- recer que não estamos progredindo. não era uma coisa nociva. Estávamos nos Andes há duas semanas e meia.. o negativo era a maneira como se usava e o propósito como se usa- va. serviria tanto ao homem como à Ter- ra. — As mulheres têm o direito. Mayan ressaltara continuamente que em todo o cosmo nada tinha um valor tão grande quanto uma única alma viva.

Continuávamos a ouvir as pessoas nas lojas e restaurantes a falarem de discos voadores. em Ataura. Quando eu fazia compras nos pequenos mercados. Parecia não haver muito medo nas testemunhas desses fa- tos. a fim de ven- der os artigos mais diversos. David me traduzia tudo. Como acontece em toda parte. pegou uma margarida no vaso que estava na mesa. os le- gumes e frutas não eram frescos e os preços absurdamente altos. apareciam pessoas de toda parte. Pensei no mesmo instante em minha amiga Bella Abzug. e muitas pessoas se lançaram às "compras de graça". o racismo voltará a ser um assunto da maior im- portância. — Santo Deus! Alguém foi morto. Haverá agora um grande clamor por mais lei e ordem. percorrendo às vezes centenas de quilômetros. ferido ou qualquer outra coi- sa? David leu mais alguma coisa da notícia. Ela perdera a eleição para o Senado por uma diferença in- ferior a meio por cento e muitos estavam convencidos de que era a mais forte candidata à prefeitura. Eu deveria partir de volta aos Estados Unidos. Pareciam estar em chamas em determinadas ocasiões. Pequenos gravado- res eram vendidos a 450 dólares. Com tudo isso. mas havia guardas por toda parte. Os preços de outros aparelhos e- létricos seriam exorbitantes mesmo para uma economia próspera. Encontravam-se poucos americanos. canetas e simplesmente para contemplarmos as multidões. do aeroporto de Lima. E todos que já tinham visto os objetos voadores não-identificados estavam convencidos de que pertenciam a seres do espaço exterior. Eu não me importava se as cebolas por cima de tudo me deixavam ou não com azia. "com o céu se iluminando". porque a maioria dos saqueadores era de pretos. Parecia que cada pessoa já tivera uma experiência com disco voador. Na feira aos domingos. Tinha dúvidas se ela venceria ou se deveria permanecer na Câmara dos De- putados. Ou se viam formações de discos voadores por cima. Estávamos sentados num café no meu último dia nos Andes. O sistema simplesmente desmoronou. Comía- mos feijão e arroz. Ela deve- ria estar lançando agora a sua campanha para a prefeitura. — Compras de graça? — Saquê. Uma única maçã custava o equivalente a 59 cents. David levantou-se. não houve mortos. ajeitou-a na orelha e saiu para comprar um jornal em espanhol. Não vimos quaisquer distúrbios. Olhando para os Picos Gelados. mas apenas respeito. — Não. às seis horas da manhã seguinte. papel. não era de admirar que houvesse rebeldes incipientes por toda parte. — Houve um grande blackout na cidade de Nova York. quase sempre universitá- rios em excursões pelos Andes. de antigas vitrolas a cabras. . Fazíamos viagens constantes a Ataura para comprar pilhas para o gravador. Quase todos tinham uma história sobre os Picos Gelados de Hu- aytapallana. descrevendo grandes espaçonaves em formato de charuto. Shirley. das quais saíam os discos ou então apenas os discos. Os preços eram astronômicos e os salários eram baixos. Percebi que seu rosto murchava ao ler as notícias na primeira pá- gina.vista também mudaria a minha vida.

da típica classe média peruana. Cumprimentou a David com um abraço e segurou-me pelo braço. mesmo no escuro. — Sânscrito? — repeti. mas ninguém entende como. Ela diz que não quer compreender. Usava um vestido estampado e sapatos surrados com os calcanhares cambaios. — E esses escritos já foram verificados? — Claro. Domina-a nas horas mais inesperadas. pensando na forte personalidade de Bella e como eu poderia ajudá-la na campanha. — O que uma peruana nos An- des está fazendo com sânscrito? — Ela também não compreende — explicou David. conduzindo-nos a uma sala de estar bem cuidada. Foi fan- tástica comigo. E ela se descobre. — Também gosto dela. na encosta da montanha. Contei a David o que estava pensando. O rosto era franco e amistoso. Creio que se pode dizer que as pessoas que não gostam de Bella são as pessoas de quem eu não gosto. Ficamos esperando por Maria num vestíbulo limpo e espartano.. espantada. — Quer perguntar a alguém? — Como assim? — Há uma mulher por aqui que é uma psíquica famosa. Vamos perguntar a ela sobre Bella. — Eu gostaria muito de saber se Bella vai vencer. — Nunca teve qualquer aula de sânscrito. Ela diz que não tem qualquer controle sobre a coisa. Ele disse que gostaria de falar com a mãe dela. Ela é conhecida como uma das mais renomadas co- nhecedoras de sânscrito. Quando ela apareceu. David. Uma moça abriu a porta e cumprimentou David como se já o co- nhecesse. com uma mesinha . só que ele era analfabeto. informando que a mãe passara a manhã inteira a trabalhar em seus textos de sânscrito. fiquei impressionada ao constatar que era uma mulher feia. Era modesta. Historiadores e estudiosos de sânscrito do mundo inteiro já confirmaram que os textos são genuínos. Acenei com a cabeça. Shirley. numa língua que ela não conhece. David guiou o carro para uma casa nos arredores da cidade.. se ganhasse a eleição. — Por que não? Bem que eu posso descobrir o que vou enfrentar quando voltar a Nova York. os cabelos exibiam os resquícios de uma permanente antiga. David mastigou a margarida. Mas entra em transe e a escrita automática começa a fluir a- través de seus dedos. de estuque branco. A gente sempre sabe em que ponto se está com Bella. A moça assentiu. — Está querendo dizer que alguma espécie de voz interior a inspira a escrever coisas de que ela nada sabe? — Isso mesmo. conscientemente não sabe ler ou escre- ver. Não sei se a ala liberal do Partido Democrata em Nova York vai se di- vidir novamente ou se deixarão que ela vença desta vez. a escrever longas passagens de ensinamentos es- pirituais. se estivesse em Nova York. Havia flores silvestres ao redor. bastando que ajude às pessoas. Algo parecido com a maneira pela qual Maomé escreveu o Corão. como gostava de Bella e como esperava que ela fosse eficiente.

Ela falava apenas espanhol. — E ela está numa competição para conquistar uma posição de liderança na sua cidade de Nova York. Eu não queria mais falar a respeito de mim mesma. Espero que compreenda o que estou dizendo. que David traduziu. será o vitorioso. Limitei-me a assentir. — Deve haver algum engano. Pisquei aturdida. mostrando o mundo do balé (Momento de Decisão ainda não fora lan- çado).. Fiquei em silêncio por um momento. que ganharia prêmios e era muito bonito. — Sua mulher não vai vencer. fechou os olhos e pare- ceu "sentir" as suas vibrações. mas não consegue perceber claramente o caminho para ficar com você. Olhei para David em confusão. Ela estendeu a mão. Era evidente que Maria nada sabia a res- peito da política de Nova York e estava se manifestando através de imagens. que ninguém ainda considerou.baixa de tampo de vidro e móveis da sucursal de Lima da Sears. Maria estava fazendo declarações. — O que me diz de Bella? Maria fitou-me com olhos tristes e redondos.. ao invés de perguntas.. — Porque preciso tocar as suas vibrações de energia. — Essa pessoa ainda não se manifestou. Ela respondeu que eu já fizera um bom filme. Não tinha a menor idéia de quem ela podia estar falando. . — Também vejo um homem de pé junto a uma janela — acrescentou Maria. Não sei quem está descrevendo. — Ele tem pensado muito a respeito. Um homem calvo. Tor- nei a assentir. Assim. Tirei o colar de diamantes que usara durante as filmagens de Momento de Decisão e que estava sempre comigo desde então. Senti uma gota de suor me escorrer pela barriga e tratei de mudar de assunto. Vejo no lugar dela um homem calvo. e conheço todas as pessoas que já apre- sentaram sua candidatura. Maria ajeitou o colar na mão direita. — Quer perguntar sobre Bella? — Claro.. — Em que posso ajudar? — perguntou ela. David olhou para mim. tossi baixinho. de dedos compridos. não a vejo ganhando a competição. Repassei mais uma vez os antecedentes de Bella e David tra- duziu para Maria. Nem mesmo participará da disputa. de dedos compridos. — Ele olha para a neve branca e compreende que é impossível para vocês ficarem juntos. alguma coisa não está se ajustan- do. — Você é uma boa amiga da mulher em questão — disse ela. pedindo: — Posso segurar alguma coisa que você esteja sempre usando? — Por quê? — perguntei. Ro- ebuck. — Tem certeza? — perguntei. Perguntei sobre filmes que poderia fazer. — Não.

. separados por mundos mas dizendo a mesma coisa. David manteve-se em silêncio e respeitei minha relutância em interromper seus pensamentos. Prendeu-me o co- lar no pescoço e disse que ficaria feliz em me ver de novo. — Não sei. principalmente porque ela parecera tão segura.. as liga- ções contínuas entre Deus. — Como ela pode ser tão definitiva? — perguntei a David en- quanto nos encaminhávamos para o carro. outros mundos.. que transformava a pequena cidade nas montanhas num lamaçal.. encontramos um perua- . Ela tinha obviamente outras coisas a fa- zer.. Jesus.. Regra Áurea. an- tes de mais nada? Nada tinha a ganhar por me conhecer. Quando chegamos. Justiça Cósmica. ao que parecia. civilizações avançadas. amor. Tal- vez ela tenha se enganado. Espere para ver o que vai acontecer. Mas o que eu ia fazer com tudo aquilo? Alguém acreditaria em mim se escrevesse a res- peito? Teria sido por isso que David entrara em minha vida? Ele dissera que eu seria capaz de me arriscar à humilhação se realmen- te acreditasse no que aprendera. isso seria demais.. Eu estava transtornada com o que ela dissera... Agradeci.. pessoas ao longo da história humana que haviam realizado milagres inexplicáveis. Ela nos abraçou e saímos.. Será que tudo isso estava começando a fazer sentido? Os seres humanos não seriam parte de um plano cósmico total que vinha se desenvolvendo há milhares e milhares de anos? Seria possível que até as pessoas que alegavam terem viajado em discos voadores es- tivessem dizendo a verdade. que não fora um mero acaso.. Mas tenho de admitir que isso raramente acontece. máquinas voadoras. Shirley. as dezenas de montanheses para as quais os discos voadores eram uma coisa comam. espírito. bondade básica. Pensei em tudo o que aprendera por causa de David.. David ligou o car- ro e seguimos para Llocllapampa. se eu quisesse... quem quer que fosse. os livros que David sugerira que eu lesse. a aven- tura maravilhosa daquela Mayan. se assim o desejássemos. Continuávamos a seguir para Llocllapampa. Tentei juntar tudo: as sessões com Ambres. carma. Pois eu estava. esclarecimento espiritual. "deuses" que se apresentavam em carruagens de fogo. o lembrete de que os grandes mistérios da vida podiam ser esclarecidos.. Por que ele me aparecera. Mas ele dissera também que minha credibilidade não seria afetada se as pessoas acreditassem que eu estava sendo sincera. Mas tinha um horrível senti- mento de indefinição sobre o que estava sendo sincera. sob uma chuva fina.... Levantei com Maria. Cada palavra que David dizia a- gora assumia um significado oculto. McPherson e John. o mundo do espírito em que ela e David me haviam introduzido.. a fim de apreciar o pôr-do-sol antes de partir para Lima. Mas não pude deixar de pensar novamente na sucessão de "coincidências" que haviam assinalado o crescimento do relacionamento profundo e muito especial que partilhávamos. apesar de suas histórias acabarem no National Enquirer? Não. Ela se mostrou afetuosa e triste. Há 10 anos me procurara como um estranho e depois desaparecera. Eu não era capaz de pensar em alguma coisa para dizer. Pensei em arrumar minhas coisas bem depressa. porém. Ele estremeceu ligeiramente e gesticulou para o carro. deixando-me as pedras do chefe masai para lembrar a nós dois.

E isso é tudo. que ficou na maior felicidade. mas também o a- . é melhor para você ficar sozinha. — Eu não compreendo. E tive uma vontade quase incontrolável de chorar. — Espere um pouco. Mas você precisa. um milhão de livros para ler. Não mais estaria com David. Ficarei aqui por mais algum tempo. Ele não fa- la inglês.no de uniforme esperando na frente do hotel. agora. está bem? Cocei a nuca. Shirley. Apenas isso. investigações a realizar. É apenas o começo para você. — Eu a amo. Não ouviria os porcos grunhindo no silêncio da montanha na- quela noite. David passou um braço por meus ombros.. Por que você vai ficar? Ele fitou-me nos olhos. Eu vou embora e você fica aqui? Quero conversar mais um pouco. enquanto abria a porta do carro. Mal podia falar. Embarquei. E confie em mim. Não escovaria os dentes no rio laranja pela manhã. Peguei o relógio. Faça isso. Acenei com a cabeça e sorri para ela. — Tem razão — balbuciei. As lágrimas me afloraram aos olhos. fechei-lhe a mão. O que é a liberdade? E. Peguei sua mão com as minhas e apertei com força. mas merece confiança absoluta. Não chegara a especular sobre o futuro. David se inclinou e me pegou a mão. Agora. Senti o estômago cair para os pés. Pense bem nas coisas que aconteceram durante as últimas semanas. Virei-me para David! Gentilmente. Tem suas anotações e gravações. Ansiava por outro banho mine- ral. Shirley. Eu não sabia o que dizer. E lembre-se de que nada é mais importante que o amor. fiz um esforço para não chorar. ele me levou até o Plymouth. vá arrumar suas coisas. Shirl. fitas e anotações na mala.. Saí para o sol poente quando terminei de arrumar minhas coi- sas. pus na sua palma. David ba- teu a porta e inclinou-se para mim. ele me pegou o queixo e sacudiu-o de le- ve. — Tornaremos a nos encontrar. — Não preciso voltar. Olhei para David. Precisa agora de algum tempo sozinha. Eu sentia um aperto insuportável na garganta. Guardei as roupas. en- quanto o amigo de David punha a mala no banco traseiro. Absorva lentamente. no entanto. Não tornaria a passear à tarde pela montanha. Corri os o- lhos pelas montanhas de tonalidade púrpura. A mulher desdentada estava esperando junto ao Plymouth com o meu anel-relógio. Entrei no meu quarto frio e escuro pela última vez. David. Segurando-me a mão. David virou-se para mim e disse: — Um amigo meu vai levá-la na descida da montanha. — Olhe para o céu. Prometo. Lembre-se de que já passamos juntos por muitas vidas. mas subitamente o futuro começara. com o receio de perder o controle. Você pegará seu avião para Nova York. que deu de ombros e sorriu. — Devo ir agora? Apenas assim? Apenas partir? — Isso mesmo. Creio que é melhor você voltar à sua vida real para se firmar um pouco.

Chegar a Lima foi como entrar num mundo atrasado. que precisamos de uma nova fé para unir o passado ao futuro. mas não tão inebriante. não tenha medo e ame o mundo.que aprofundamento maravilhoso da capacidade emocional não se poderia adquirir com o reconhecimento da idéia da preexistência. as conversas desconcertantes com David ao sol. — Isso é ótimo. Não olhei para trás. enquanto obser- vava o carro se afastar." — Lafcadio Hearn. Deixamos a cidade. passando por pequenas cidades mineiras. obscurecendo a beleza deslumbrante do mundo lá por cima. ao longo do grande paralelo do presente.mo.. Isso é tudo.. Tentei atenuar a dor na garganta pela contemplação da paisagem familiar. Os barracões dos pobres se enfileiravam à beira da estrada.. que não era uma cidade. menos rarefeito. vá em frente. Nuvens pairavam sobre a cidade. Agradeci-lhe e achei que era me- lhor não lhe dar uma gorjeta.. que temos pen- sado apenas meios pensamentos. Depois de acertar tudo. contemplei no hori- . ". subindo a montanha. O motorista peruano logo deu a partida outra vez e seguiu em frente. a relva quente e lânguida da montanha. Acabei cochilando. agora. para tornarem a descer no dia seguinte carregados de carvão.. passando por mulheres em chapéus brancos de aba larga. Fomos descendo os Andes pela estrada sinuosa. A noite caíra completamente agora e as estrelas peruanas cintilavam como fragmentos de cristal. Tentei não olhar. que fora como um lar nas montanhas. e muito simples. Pessoas andavam a esmo. o ombro esquerdo arriado. Trocamos um aperto de mão e ele me sorriu efusivamente. mais denso. O amigo dele ligou o carro e pisou no acelerador. Kokoro O homem ao volante disse alguma coisa em espanhol.. Seja você mesma. densas e pú- tridas. Minha mente era um turbilhão de imagens: águas sulfurosas bor- bulhantes. Senti um calafrio e vesti o blusão de couro de Ralph Lauren. passando por rebanhos de lhamas. mas podia sentir David acenando. Senti-me aliviada por não poder conversar com ele. Fábricas cuspiam fumaça escura para o ar noturno já poluído. convertendo assim o nosso mundo emocional numa esfera perfeita. O sol se pôs além das monta- nhas por trás de nós. Acordei com um sobressalto numa parada súbita na estrada. aprendemos que temos vivido apenas num hemisfério. O homem parou diante do escritório da Varig e ajudou-me com a mala. E. passando pelo cartaz dos discos voadores no cruzamento da ferrovia. A duas ho- ras de Lima. Acenei com a cabeça e sorri. segui direto para o avião. mais fácil de respirar. Caminhões vazios passavam por nós. o rio cor de la- ranja. preparando-me para Nova York. O ar tornou-se mais poeirento. depois afastou-se no velho calhambeque. os camponeses mastigando coca para terem mais energia. a uma altitude de 10 mil metros.

O que era noite lá fora se transformara em dia de relâmpagos e trovoadas.. medo da morte. mantida no lugar pelo cinto de se- gurança. que sempre tínhamos outra chance. sem limitações. guerra e do ato de matar. Talvez nossa crença na morte fosse a mais grave de todas as irrealidades. A força colossal da eletricidade me fazia encolher no assento.... que força- vam a pessoa a pensar e projetar sua percepção além do que lhe fo- ra ensinado. Se pudéssemos ter a certeza absoluta de que nunca morríamos.. Talvez a tragédia da raça humana fosse o fato de ter esquecido que cada um era Divino. muito tensa. Talvez uma alma humana fosse tudo. O avião sacudia violentamente em meio à demonstra- ção terrível e espetacular de força natural. queria realmente conhecer es- ses mundos.. Era possível que os seres humanos estivessem usando o seu talento para a com- plexidade como uma desculpa para evitar a responsabilidade de ser o que realmente compreendíamos que éramos desde o início. um terreno astral de cor- rentes de ar e chuva. Ninguém gritou. pode- ríamos acabar com o medo em nossas vidas. talvez bem poucos e muito . visível de cada jane- la.. muitos e muitos outros estavam conven- cidos de que nada era tão poderoso quanto a mente humana coletiva. a acreditar que qualquer coisa é possível. essa teia de força infinitamente elástica chamada consciência hu- mana. medo de ser desamada. medo da humi- lhação. E se voltássemos a compreender isso. representada pela energia comum a que as pessoas se referiam como suas almas. Eu não sabia se isso tinha alguma importância. medo de fracasso. esta- ríamos nos livrando da ganância. O medo era insidioso. talvez pudéssemos compreender que nada havia a temer. Não tínhamos opção. Os relâmpagos riscavam o céu e deixavam-no tão claro quanto o dia. pensei. E muito mais... vazava de um ponto de irrealidade para impregnar todas as nossas vidas.. Talvez a realidade fosse apenas o que se acreditasse. Acabando com o medo. a acreditar que se pode fazer qualquer coisa. Ambres. Nada parecia tão poderoso como a natureza. tornar-se tudo. E cabia a cada um de nós reaprender essa realidade. medo de dor.. como eu agora compreendia. tão insignificante como uma pulga. humilhação ou perda jamais era final... E eu queria fazê-lo. Talvez nunca se pudesse provar fisicamente se a alma existia ou não. o medo do medo. Parecia que havia mundos intermináveis que eu po- deria explorar. Com o fim do medo.. revelando nuvens e cores. Talvez fosse essa a lição que eu estava aprendendo. po- deríamos acabar com o ódio. Fiquei imóvel. a resposta do homem à tempestade elétrica que explodia ao nosso redor. até onde eu podia ver. medo da solidão. aprendendo a pensar de maneira ilimitada. O medo era a raiz e o círculo em torno dos quais giravam as nossas vi- das. Eram momentos como aquele. John. Cayce e. em última análise. que nenhuma dor. contagioso. turbilhonando em torno do nosso pequeno ar- tefato. Mas David. Cat. medo de nós mes- mos. se elevar a qualquer lugar. Isso faria com que todas as realidades percebidas se tornassem reais. ninguém chorou. donos do nosso próprio potencial divino. basi- camente parte do que chamávamos de "Deus". McPherson. total e para sempre. Até onde pude perceber. Mayan.zonte uma tempestade elétrica que dava a impressão de que o Reino dos Céus estava explodindo contra si mesmo. Eram momentos como aquele.

uma mente positiva. antes do amanhecer. insistindo em não ter medo. que agiam como um catalisador para a nossa compreensão do controle interno de que éramos capazes. meu fragmento subconsciente e in- dividualizado da energia universal. Depois fui subindo. Apenas era. Falei que descansara bastante na cabana e Bella riu. que era ilimitada em sua compre- ensão de que até aquilo constituía uma parte da aventura a que chamamos vida. subi a colina e contemplei o céu apinhado. O coração deixou de bater tão depressa.. Tomei a decisão de relaxar. até mesmo da tempestade tumultuosa lá fora. não importava o que pudesse acontecer ao corpo. Ela lera meus livros e estava con- vencida de que eu era capaz das mais estranhas aventuras. revirando os . com- preendendo que controlara o medo ao usar a mente para controlar o corpo. Capítulo 26 "Neste dia. Ninguém no avião podia combater a tempestade. Minha alma. partilhando sem necessidade de uma só palavra. De qual- quer forma. Era o aniversário dela e a equipe que trabalhava em sua campa- nha estava promovendo uma festa de levantamento de fundos no Stu- dio 54. E aquela crise nos unira a todos. E o que estava controlando a minha mente? Só posso dizer que era minha al- ma. plexo solar. começando pelos pés. imediatamen- te. mas temos de nos elevar a esse nível e continuar além.. Minha alma sabia que sobreviveria. estaremos então realizados e satisfeitos? E meu espírito disse: Não. Ninguém podia se- quer compreendê-la. não era o momento apropriado para uma conversa a dois. mãos. O suor no peito e testa esfriou. A alma sabia que estava tudo bem.espaçados. Respondo que não posso responder. Minha respiração tornou-se mais regular. Bella já sabia que eu estivera no Peru. pernas. Você também me jaz perguntas e escuto. Ninguém podia superá-la. fui me encontrar com Bella. ali encontrando o prazer e o conhecimento de tudo. acreditava que era parte de tudo. Deu certo. braços. que era eterna. peito. E disse ao meu espírito: Quando nos tornarmos os envoltórios dessas órbitas. — Walt Whitman. Canção de Mim Mesmo Chegando a Nova York. Contei que ficara me- ditando numa cabana nos Andes. Adormeci. Comecei a sentir que era parte do avião a sacudir e ranger. em paz e exausta. por si mesmo você deve descobrir. Parei então. tornozelos.

Com o acúmulo dos eventos que levaram à minha viagem ao Peru e com os eventos no próprio Peru. Percorri to- da a Europa. Quanto mais viajava.. falsos profetas e místicos impostores. mais aprendia sobre as dimensões espiri- tuais da vida que estava começando a compreender. Desejei ter per- guntado mais coisas a Maria. As pessoas para as quais a espiritualidade e a percepção superior são realmente importantes eram as que menos queriam ser enganadas por charlatães. um homem alto e calvo. E sempre que eu me aprofundava. através da re- encarnação. Austrália. Fazia filmes. México e fui a muitas cidades dos Estados Unidos. Ca- nadá. Escandinávia. em qualquer conversa informal. As pessoas geralmente concluíam com a declaração de que era ótimo ter um diálogo sério sobre tais teorias com alguém que não pensava que fossem loucas. Mas outras ocupavam posições influentes nos círculos políticos e jornalísticos. Com minhas no- vas perspectivas. Passou então a falar de sua estratégia de campanha. estendendo-se pelos sécu- . assim como de mim mesma. indagação. eram confirmadas onde quer que eu fosse. num nível mais sério. de dedos compridos. nas lutas políticas e pelos direitos humanos. remontando às antigas tábuas cuneiformes sumérias. às vezes ao longo de períodos de muitos anos. Procurei primeiro em lei- turas e descobri que os céticos mais vigorosos estavam entre os que tinham as crenças mais sérias. Não sei por que isso me surpre- endeu. mas descobrira que preferia muito mais viajar e pensar. Descobri que haviam sido efetuadas experiências de pesquisa. apenas para voltar a um tipo de insanidade familiar. crítica. Mas eu não queria estar falando para mim mesma.olhos. Algumas pessoas eram apenas cidadãos comuns em seus respectivos países. es- perando por alguma coisa que confirmasse ou negasse o que Maria dissera nos Andes. Japão. Minhas convic- ções tomavam forma. Os últimos to- mavam o cuidado de manter discrição a respeito de suas convicções e o lamentavam profundamente. excursionava com o meu es- petáculo ao vivo. comecei a levar uma vida além da que era óbvia para a maioria dos meus amigos. mas também em todo o mundo ocidental. Ela não conseguiu sequer ser escolhida pelo partido como a sua candidata. dança- va e cantava em especiais de televisão. O vencedor foi Ed Koch. Descobri que a teoria da progressão das almas. tornara-se parte do sistema de pensamento da nova era. Sudeste Asiático. Ainda me mantinha relativamente ativa no movi- mento feminista. A campanha malograda de Bella para a prefeitura de Nova York pertence agora à história. certamente em todas as áreas dos fenômenos psíquicos. O relacionamento com Gerry esfriou e terminou. até demais. não apenas na Califórnia. parecia uma coisa de outra vida. Acompanhei atentamente o desenrolar dos acontecimentos. O assunto sempre aflorava. Queria e pre- cisava de oposição. Adorava viajar. descobria que as pes- soas estavam ansiosas em comparar anotações sobre seus sentimentos a respeito de recordação de vidas anteriores e percepção espiritu- al. porque me ajudava a adquirir uma visão mais acurada e objetiva do mundo.. A literatura sobre o assunto era vasta.

. uma necessidade das pessoas se unirem e partilharem suas energias em alguma coisa que funcionasse. pessoas envolvidas com mediunidade. dispostas e ansiosas em irem ao limite. Era uma posição que eu podia compreender. como a Findhorn. desenvolvimento da per- cepção espiritual e até mesmo contatos com discos voadores. escrituras indianas. tradição druídica. estavam surgindo por todo o mundo. comecei a constatar que havia outro ti- po de rejeição aos valores espirituais. O impulso espiritual. pessoas que não eram capazes de irem além de seu reflexo condicionado. Henry Thoreau.. Mas. Pierre Trudeau exortava a uma "conspiração de amor" para a hu- manidade. Zbigniew Brzezinski falava de "um crescente anseio por alguma coisa espiritual". Haviam aceitado este mundo como era. não tinha conotações políticas. eu interrogava as mais diversas pessoas a respeito de suas crenças. a fim de permi- tir-lhe viver mais plenamente.. Juntamente com as leituras. Eram essas as duas palavras mais usadas para descrever os sentimentos ligados às descobertas da nova era. Bronson Alcott (pai de Louisa M. astral.. portanto. Mas. Desco- bri que comunidades espirituais. Cora- josamente. A busca e o ponto de vista eram sempre para reconhecer o potencial para a expansão da percepção no homem. num mundo de tecnologia em que o mate- rialismo demonstrara ser insatisfatório. mas sempre dentro da bússola de que esta vida é tudo o que existe. Eram as pessoas que tinham as reações mais bruscas à simples menção de palavras como psiquismos. dimensão espiritual. Em muitas ocasiões. sempre encontrava uma neces- sidade profunda de espiritualidade e expansão da percepção. Alguns dos líderes mundiais falavam em termos espirituais. literatura de Essene. Toda uma dimensão adicional que podia. Depois de algum tempo. Especulei se o ingresso na Era de Aquário (como os astrólogos e astrônomos chamavam) também significava que estávamos entrando numa era de Amor e Luz. ser crucial para seus males e alegrias era simplesmente a gota d'água adicional que não podiam e não queriam suportar. recordação de vida anterior. como eu já imaginava que nunca tivera.. ou não podia.. mais serenamente. tais pessoas abrangiam tudo. Descobri pessoas que haviam passado por experiências parecidas com as minhas. E o impulso também não era para transcender o plano material da nova existência. Algumas das pessoas envolvidas no movimento eram Ralph Waldo Emer- son. aceitado a maravilha e alegria que a vida na terra proporciona. os precon- ceitos mais fortes que encontrei estavam firmemente estabelecidos nas mentes daqueles que se julgavam intelectuais pragmáticos..los através dos registros egípcios. Visitei várias e lá permaneci por dias. aceitado também o horror. registros de sociedades secretas como a Maçonaria e muitas outras.. uma rejeição que era uma necessidade real de determinadas pessoas. por toda parte a que eu ia. Haviam se rebelado contra o excesso de intelectualismo e o costume linear de se acre- ditar apenas no que se podia ver ou provar.. com e através de sua dimensão espiritual. que alcançou a fama com Little Women) e dezenas de outros. sofrimento e agonia. oráculos gregos. Achavam que isso era . Li mais ainda sobre o movimento transcendentalista americano. até as obras de Carl Jung e até mesmo as investigações parapsicológicas mais recentes.

Enfatizavam insistentemente a necessidade de trans- formação pessoal. compreendi o quanto havíamos esquecido de como os revolucionários haviam sido metafi- sicamente arrojados. Mas o sistema de apoio espiritual de nossos antepassados revo- lucionários se fixara na arte e literatura. Ao serem acusados de desdém pela história. todos eram transcendentalistas. mas também dos filósofos alemães e gregos e das religiões orientais. Executivos de estúdios.. Thomas Paine... Gandhi. Emily Dickinson.. todos acreditavam profunda- mente em dimensões metafísicas que acabariam por explicar os mis- térios da vida. Muitos compareciam a sessões de mediunidade. considerava as revoluções america- na e francesa como os primeiros passos para uma revolução espiri- tual em escala mundial. procurando respostas do "outro lado". jornalistas. Acreditavam que toda a ob- servação era relativa. Comecei a ler mais a respeito desses homens e compreendi como haviam ameaçado profundamente as ordens dos tempos mais antigos com o seu pensamento novo. George Washington. Todos ressaltavam que a reforma interior devia preceder a re- forma social. John Dewey. em cujo reverso se pode ler "Uma Nova Ordem dos Tempos Começa". Nossos grandes antepassados Thomas Jefferson. junto com o terceiro olho. os transcendentalistas desco- briram-se cada vez mais isolados e incompreendidos. Martin Luther King. Thoreau. os livros de história mal mencionavam os princípios místicos. ele passou a influenciar escritores.. Viam através dos olhos e não com os olhos. por exemplo. conversei cada vez mais livremente com as pessoas so- bre as minhas experiências na busca espiritual. Li e li. O país entrara plenamente no caminho do materia- lismo. Os transcendentalistas extraíam seus ensinamentos não apenas das tradições quacres e puritanas. artistas e políticos por muitos anos. Assim como Blake fora influenciado pelo místico escritor e fi- lósofo alemão Jacob Boehme e por Emanuel Swedenborg. que também aparece no topo da Grande Pirâmide de Gize na nota de um dólar! Todo esse simbolismo foi projetado pelos fundadores transcendentalistas da República dos Estados Unidos.. O significado de suas convicções no Grande Sinete da América.restritivo e em última análise um desperdício. Mas à medida que a Revolução Americana encami- nhou-se para a Revolução Industrial. presidentes de banco. Herman Melville. Relendo alguma coisa daquele período da história americana. a- . Ao final do século XIX se consumaram os piores receios dos fundadores da repú- blica americana. Um fato muito interessante era de que a própria Revolução Ame- ricana fora concebida e iniciada por homens cuja crença no mundo espiritual era uma parte integrada de suas vidas. William Blake. Benjamin Franklin. Na- thaniel Hawthorne. responderam que a huma- nidade devia ser libertada da história. Nossa herança espiritual fora sufocada pela industrializa- ção. Muitas outras pa- reciam estar igualmente procurando por um equilíbrio entre suas vidas interiores e suas vidas exteriores. John Adams. já que assim nunca se poderia desenvolver todo o potencial do homem. mas não ir- reais. Acreditavam que as verdades essenciais eram invisíveis. intocáveis.

as que não estavam em um corpo) tornavam-se amigas e confidentes. Disseram como pareciam vazias as vidas dos amigos que não partilhavam a busca. extraíam grande felicidade e alegria do fato de estarem aprofundando o contato com seus egos espirituais. Assim. escritores. para grande consternação da maioria dos cientistas. tudo o que se podia pensar em perguntar. A Bíblia apregoara a explosão e os cientistas estavam tendo de admi- ti-la. Mas. Assim. Era apenas que não ter a per- cepção espiritual significava a mesma coisa que não ter pernas e braços. O universo fora criado por uma explosão colossal. Cuidavam apenas das informações que recebiam. porque suas convicções e va- lores espirituais não podiam ser partilhados. humores e compreensão. Li em The New York Times que os cientistas haviam sido força- dos a chegarem à teoria da "grande explosão" na criação do univer- so. por medo de ameaçar aqueles a quem amavam. aos quais não po- diam falar em termos espirituais. há cerca de 20 bilhões de anos. científicos e bíblicos do Gênese coincidiam agora. Os cientistas haviam sido capazes de levantar as origens da humanidade no planeta. Falaram-se de predições trans- mitidas em sessões e que haviam se consumado. acima de tudo. a questão que os cientistas formulavam agora era "O que veio antes do começo?" E estavam concluindo que "Deve ter havido uma Vontade Divina constituindo a natureza do nada". como se estivessem fisicamente presentes. os teólogos estavam certos. Cuidavam de suas vidas cotidianas com o conhecimento e o apoio de que tinham uns aos outros. que a achavam "ir- ritante". Algumas tinham indagações céticas quando deparavam com al- gum problema mais difícil. a ciência estava empenhada em sua própria lu- ta. médicas e científicas. talvez uma explicação teológica pudesse oferecer uma resposta. Não se mostravam absolutamente reticentes quando eu os in- terrogava.. Alguns relacio- namentos e amizades antigas acabaram. Contaram como algu- mas informações sobre vidas anteriores haviam alterado suas pers- pectivas sobre a vida presente.. O universo estava se expandindo em alguns lugares até a velocidade de 150 milhões de quilômetros por hora. Alguns diziam que achavam necessário levar duas vi- das. músicos. Nin- guém mais contestava a validade do processo. Absolutamente. Parecia que no final das contas. jamais desistissem. Não se tratava de um sentimento religioso. As pessoas discuti- am suas personalidades. Isso significava que houvera um começo.. Conversando com centenas de pessoas que compareciam a essas sessões. sobre vidas anteriores. para dizer o mínimo. alimentares. os ingredientes químicos da própria vi- . extraterrenos.tores. mas diziam que era muito difícil se relacionarem com outros que não compreendiam.. "num mo- mento do tempo". Os relatos astro- nômicos. Eu dizia a todas que sempre continuas- sem em frente.. chefes de família e donas-de-casa com- pareciam às sessões de mediunidade a que eu fora introduzida. As entidades espirituais (ou seja. Ao mesmo tempo. Mas eles também não podiam se deixar sufocar pelas limitações céticas e intelectuais do passado. compreendi que se sentiam mais à vontade e francas entre si do que com as pessoas em suas vidas que ainda não haviam reco- nhecido a necessidade da espiritualidade.. a criação do cosmo. psicológicas. sobre Atlântida e Lemúria.

À medida que aumentavam meus interesses e experiências espiri- tuais. Mais do que isso. Estávamos experimen- tando uma forma de dilatação do tempo. Nos últimos cem anos progredira mais longe e mais depressa que em todos os tempos anteriores. era numa escala maciça. a formação das estrelas das nuvens primevas. uma aceleração da descoberta espiritual começando a igualar a energia da descoberta em outras áreas. a certeza interior que relaxa e concentra nossa vitalidade. E o que eu sempre gostara possuía agora uma dimen- são adicional. transbordando com novas descobertas. não apenas reagir com uma resposta de adrenalina aos estímulos externos. está prestes a conquistar o pico mais alto. eu sempre gostara de escrever sobre o que estava fazendo. A energia concentrada nesse período. eu não precisava de guias espirituais para saber as prováveis reações de muitos intelectuais que conheço. eu escrevia mais e mais a respeito.. essa crise. procurando por uma integridade que fora perdi- da no turbilhão de energia vibrando em suas vidas. Só que essa dilatação. Além disso. (A esta altura. mais as pessoas precisavam controlar as suas energias. confron- tando-nos diariamente em cada aspecto de nossas vidas. para a qual ler era difícil e escrever uma coisa incômoda. Já outras haviam sido criadas na era da televisão e telefone. E o rápido crescimento era um processo contínuo. ao se elevar para a rocha final. esse senso da dimensão espi- ritual. Não era de admirar que mais e mais pessoas estivessem se virando para a di- mensão do espírito. mas às vezes me perguntava como os leitores reagiriam ao que eu estava pondo no papel. a espécie de sensação indu- zida pela adrenalina que ocorre num momento de crise intensa. escrevia basicamente para mim mesma. Ele escalou as montanhas da ig- norância. a fim de podermos orientar nossas próprias energias. Ajudava-me a esclarecer o que estava pensando. Parecia-me agora que essa busca. Toda a minha vida estava começando a se iluminar. As pessoas se lembra- vam de um mundo inteiramente diferente que haviam conhecido na in- fância. era algo inevi- tável. Quanto mais in- tensa a vida se tornava. . Precisávamos daquela serenidade central. particu- larmente nas áreas da tecnologia igualadas apenas pelas várias disciplinas científicas. uma geração dos computado- res. Um artigo do cientista Robert Jastrow (diretor do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da NASA) disse: "Para os cientistas que viveram por sua fé no poder da razão. essa volta a uma fonte de força interior. alterara o tempo. ele é saudado por um bando de teólogos que ali está instalado há séculos. pela aceleração da desco- berta em todas as frentes. Mas esbarravam agora numa barreira sólida. a história termina como um pesadelo. se algum dia convertesse os escritos num livro. quando a vida avançava no ritmo que usavam para andar até a casa ao lado para conversar com o vizinho. um processo da humanidade se encontrando consigo mesma. a descoberta es- piritual parecia-me um componente essencial. se não queríamos fi- car desorientados com as outras energias que estávamos liberando." Parecia que o mundo inteiro estava se encaminhando para uma confrontação consigo mesmo..da. A princípio.

com a compreensão de que a vida levada até aquele momento era apenas parte da verdade? Eu nunca fora de me deixar excluir de qualquer coisa. Bella pôs as mãos no colo. pedira desculpas em público. É justamente isso o que os políticos têm de enfrentar. Ainda tinha de enfrentar o receio particular de escrever sobre esse material do novo ponto de vista da convicção. olhando para a salada em seu prato. embora tivesse sido uma confrontação gradativa. Crescera em público. Eu era pública. estivera apaixonada em público. Cometera muitos erros em público. Era essa a minha perso- nalidade.. visitando centros psíquicos. acho que todos nos tornamos escravos do nosso próprio medo.. E a própria vida parece estar desmoronando ao nosso redor. que estava trabalhando com médiuns. Pensara muito a respeito em cada es- tágio da minha vida. em tudo o que acreditava ser injustiça. — Muito bem. Bella. escrevera em público. — E daí? — disse Bella. Fora certa e errada em público. Agora. Rira e chorara em públi- co.. Quanto à imagem pública. — Não seria possível que eles estivessem tão ocupados a en- . Mas eu me sentia cansada da filosofia do beco sem saída. Também não podia culpá-los por isso. Conversei a respeito com Bella. Estávamos sentadas num restaurante de Manhattan que passava a noite inteira aberto. — Não podemos continuar assim. as coisas estão ficando cada vez mais difíceis. Ficamos esperando pelas dificuldades..de. Ela sabia que eu conti- nuava a me aprofundar nos novos conceitos. tentando expandir minha percepção consciente de dimensões que haviam até agora permanecido além da nossa compreen- são. no aqui e agora. Estamos todos apavora- dos.. chegara a uma espécie de encru- zilhada. lendo clássicos. Podemos explodir o planeta a qualquer momento. eu já me tornara pública em polí- tica. todos os que não tinham sequer o fermento da amizade pessoal para atenuar suas opiniões. pensei. — Para começar. direitos da mulher. — Qual é a solução que você propõe? Hesitei por um instante. guerra.) Quanto a mim. como tinha a tendência de fa- zer com todas as coisas que importavam. mais gastos militares.. curandeiros e meditação. que talvez fosse chegado o momento de todas as pessoas do mundo encararem a vida por outra perspectiva. com um dos seus olhares penetrantes. mas as únicas solu- ções que podemos apresentar são mais lei e mais ordem. ao ponto em que quase experimentamos um senso de satisfação quando se consu- mam. mudança social. Não ia assumir tal atitude agora. Pois que assim fosse. teria de dizer em público o que pensava sobre a espiritualidade humana e extra-terrena. Não estava acostumada a ocultar o que me interessava ou as coisas em que acreditava. Há muito que eu já lhe contara tudo o que me acontecera no Peru. Tentei agora explicar que as soluções políticas que ela procu- rava pareciam estar resultando nos mesmos fracassos do passado. de- pois de assistirmos a mais um filme que explorava a violência e o medo. e não queria renunciar à raça humana. O que po- dia uma pessoa fazer quando confrontada.

acredito que todos têm. que todos são uma alma. — Quer dizer então que devemos ficar de braços cruzados e dei- xar tudo ao desígnio cósmico ou algo assim? — Não. de origem divina. brigam entre si pelo que o próximo está fa- zendo. Shirley. — Vamos com calma. melhor do que ninguém. movimento de libertação feminina e tudo o mais? — Não tem a menor possibilidade. como uma realidade.. porque nos tornamos capazes. que viveu muitas vezes antes e tornará a viver muitas vezes depois. Estou encarando tudo por uma nova perspectiva. Não estou dizendo que é errado ter medo.. alienando-nos de nós mesmos e uns dos outros. apáticas. vão se tornar mais gentis e tolerantes. — Então qual é a diferença? — A diferença é como me sinto em relação a tudo isso. que não inclui o medo. o esforço que se precisa para levar os eleitores às urnas.. eu não diria assim. medo do holocausto produzido pelo próprio homem. O medo. o fato de eu estar convencida da e- xistência da alma. a consideração dos amigos e vizinhos. de destruir literalmente o mundo. são as pessoas . Acho que estou dizendo que cada um terá de começar por si mesmo. — Está certo.. Mas. É preciso se estar enfronhado na política para se saber disso. Mas é onde estou agora. Se alguma coisa acontecer. medo do futuro ou medo de não termos nenhum. como perder o emprego. a humanidade não teria che- gado onde está se sempre deixasse que o medo ditasse as suas a- ções. Por- tanto. Medo da morte.. você própria sabe.. A humanidade não teria chegado onde está sem o medo. — Como assim? — Para ser franca. que são elas próprias que estão se ex- cluindo. mas apenas que é perigoso permitir que o medo controle nossas vidas. Assim. O medo é que nos prejudicou. Há tantas pessoas que são indiferentes. Bella retorceu as mãos. E tem mais o fato muito importante de que a maioria desses medos é desnecessá- ria. Não se trata de uma coisa a que cheguei facilmente. medo de coisas muito meno- res. e em algumas situações é até saudável. pela primeira vez na histó- ria. porque em primeiro lugar is- so é tudo o que pode controlar. — Não é uma coisa que se possa argumentar com generalidades. onde você está querendo chegar? — O medo. Contudo. Incontáveis pessoas sentem medo demais para se importarem com as coisas ou acreditam que não faria a menor diferença.. a família. Bella. ora. Ao contrário. da mesma forma. E tudo sempre acaba no indivíduo. estarei ainda mais preocupada e envolvida. Acho que é realmente uma questão de cuidar do próprio eu. — Isso significa que você está renunciando ao envolvimento na política. À medida que as pessoas tiverem mais contato consigo mesmas. sabendo que tudo o que fizerem sempre voltará. Não compreendem que é com elas próprias que não se atrevem a se preocupar.frentar a confusão que não dispõem de tempo para imaginar como dissipá-la? Bella deu de ombros. Bella. Ter medo é perfeitamente na- tural. Em vez disso. ou melhor.. fez toda a diferença.

que se fecham em si mesmas.. E esses valores em que eles acreditavam. Com o mundo do jeito que está. na verdade. Thoreau. em qualquer coi- sa. diga-se de passagem. por medo. — Não estou entendendo. reencarnação. quase que involun- tariamente: — Anuar Sadat. Martin Luther King. Posso compreender que estejam distraí- das com toda a confusão atual. largou o fósforo no cinzeiro. a crença na existência da alma. e muitos outros. o que teria um efeito espan- toso. — Está querendo dizer que todos acreditavam na reencarnação? Tomei um gole do vinho tinto. Madre Teresa de Calcutá. — Ou seja. Cristo. Gandhi. Washington.. podem começar a agir imediatamente. você acredita que os seres humanos se enquadram num . Foi por isso que puseram a Grande Pirâmide na nota de um dó- lar. alma. — Claro que mostrarei. pelo me- nos na terra. Mas só estou mencionando agora porque esses homens foram os nossos políticos originais. Ben- jamin Franklin. a maioria dos homens que assinou a Declaração dos Direitos do Homem e elaborou a Constituição dizia que queria formar uma nova república baseada nos valores espiritu- ais. isso poderia influenciar como votam agora e quais as prioridades que considerariam mais im- portantes. na verdade. deixando que suas imagina- ções as ajudem a se importar com as coisas. O sentimento tornou-se a nossa mais preciosa dimensão perdida. — Mostre-me a pesquisa. Enfatizaram o positivo. — Não necessariamente. Mas se alguns tomassem conhecimento das verdadeiras intenções de nossos antepassados.. Todas essas pessoas acreditavam pessoalmente num desígnio cósmico superior que lhes permitia assu- mirem uma convicção positiva no potencial humano. por exemplo. que era parte de um de- sígnio maior que não se relacionava apenas com esta experiência de vida. Bella acendeu um cigarro. reconhecendo-a e alcançando uma percepção superior. Dê-me um exemplo.. Mas nenhuma das pessoas que estão envolvidas hoje na política parece conhecer as origens de sua democracia. seu envolvimento com seitas e ensinamentos místicos. Buda. Shirley. Mas Jefferson. Bella. E mesmo que não consi- gam ir mais adiante. — Mas no que exatamente eles acreditavam? — Numa espécie de harmonia superior. a nota de um dólar e o Grande Sinete estão re- pletos de símbolos espirituais que datam de um período muito ante- rior à revolução. os que não acreditam na espiritualidade. Na minha opinião. remontavam às crenças das escrituras hinduístas e misticismo egíp- cio. Toda a outra vida. floresce com "sentimentos". Mas o que acredito pessoalmente é que cada pessoa pode se livrar do medo pe- la compreensão honesta da própria espiritualidade. quem é um exemplo desse tipo de comportamento? Pensei por um momento e depois respondi. o mundo já seria um lugar melhor. lembrando de tudo o que lera sobre os líderes da revolução americana. E todas as crenças pré-cristãs estavam relacio- nadas com a reencarnação.. Vol- taire.. E o mesmo aconteceu com Thomas Jefferson. se pudessem se identificar com os princípios antigos. Poderiam até dar um jeito de suspender o curso destru- tivo em que nos encontramos.

Shirley. deu uma tragada no cigarro. Se eu vivi muitas vidas. Bella pensou por um momento. é como você se meteu em tudo isso. mas creio que o desafio existiria de qual- quer forma. nos intervalos entre vidas. Não teria de lutar tanto para melhorar as coisas. so- prou a fumaça. É onde entram os seres desencarnados.. — Eu nunca a ouvira dizer isso antes. à medida que se consumam as leis de causa e efeito.. E talvez eu precise do desafio. acreditar na reencarnação é outra. — E qual é essa parte importante? — A pré-existência da alma. É possível que todos nós tenhamos os nossos papéis a desempenhar.. em épocas diferentes.plano mais amplo do que a maioria imagina. Mas se pessoas como eu não lutarem para cumprir o seu papel. De alguma estranha maneira podemos todos nos conhecer. — Mas acreditar na alma é uma coisa. Bella observou-me atentamente. Nossas idéias e convic- ções estão de tal forma distorcidas que é o motivo pelo qual esta- mos tanto estragando o mundo? — Tem toda razão. Bella? — Porque nesse caso eu poderia acreditar que tudo daria certo. em sua opinião. Só está enganada na questão da maioria. Quantas vezes você já se en- controu com uma pessoa e teve um reconhecimento instantâneo do que chamamos de um "espírito irmão"? — Tem razão. o que fiz então nos intervalos entre essas vidas? Onde eu estava? Se minha alma-energia foi passar algum tempo no éter. Sei que eu devo ter sido muitas pessoas diferentes. como sugerem os textos místicos. — Por que. Ou talvez nesta vida seja necessário que você perceba as coisas dessa maneira. Ao contrário do que você pensa. São os ocidentais que costumam excluir a parte importante. — Está querendo dizer que. É por isso que me sinto tão à vontade em muitos lugares do mundo. Sinto que já estive lá antes.. mas eu não tenho condições de acompanhá-la. Talvez você esteja certa no que pode sen- tir e acreditar. o fato de que já vivemos muitas vezes e viveremos muitas outras. é bem possível que as coisas não saiam bem. Senti lágrimas me aflorarem aos olhos. — Bella parecia cautelosa. que meu intelecto poderia dizer que eram ridículos. então qual seria a diferen- ça entre mim. todos somos parte uns dos outros. — Fui educada na tradição ortodoxa judaica e uma crença pro- funda num ser espiritual não me é estranha. Mas vou lhe dizer uma coisa: eu gostaria muito de poder. e também parte de um desígnio maior? — Exatamente. Como tudo isso aconteceu? Sei que você e todas . — Acho que sim. O fato é que se tudo isso me a- conteceu. E estou aprendendo a confiar nesses sentimentos. que se diz uma entidade falando por intermédio de Kevin? Talvez existam as mais diversas dimensões da realidade e a vida no plano da terra seja apenas uma delas. então deve ter acontecido a outros. e Tom McPherson agora. — O que estou tentando compreender. Está me entendendo? Assoei o nariz. a maioria das pessoas no mundo acre- dita na reencarnação. mesmo que eu nada fizesse.

não apenas porque estou curiosa. No fundo da minha mente. — Eis uma coisa que posso aceitar. a lição real é de que toda a vida é eterna. A natureza desaparece se a destruímos. Proporciona-me o sentimento de que estou vivendo num agora universal. não é mes- mo? Não poderia ser em outra forma? Assim. que o passado... o plano da terra. Talvez a vida seja uma piada cósmica em cima de nós. Bella. O que estou dizendo é que muita coisa existe porque nós assim o fazemos.. Esse é o poder real que temos de mudar. não sei que mais. li e senti. mas também porque isso está me fazendo feliz. Se você quer pensar assim. . Mas sempre volta. qualquer con- tribuição que eu dê. E. equivalentes. Creio que posso estar percebendo de uma forma integral. minha querida. o plano astral. são. finalmente. realmente. Claro que os ani- mais matam. mas saber que existe uma lei de causa e efeito em ação me faz sentir como é precioso cada movimento de ca- da dia. Como uma e- nergia real. E por que deveria? Algumas das maiores mentes que este planeta já co- nheceu acreditavam no que estou começando a compreender. falei: — É estranho. não porque odeiam ou por "esporte". O que então está acontecendo? Recostei-me na cadeira. Não vejo a natureza julgar a destruição que estamos lhe infligindo. Estou consciente de que tudo tem Uma razão para acontecer.. Creio que as almas. literalmente nada. — Mas como isso funciona? – Nada. entidades invisíveis... Cada pensa- mento. — Mas o negativo existe. Tentamos legislar a mo- ral. Nenhuma jamais morre. é insignificante. independe de quão insensatamente nos compor- temos. cada gesto. para comer. mesmo que seja um simples "bom dia!" para al- guém. Portanto. Talvez tudo seja real.as outras pessoas famosas e inteligentes que acreditaram nessas coisas não estavam piradas. Cada segundo se torna importante. ao invés de vivê-la.. porque acreditar fará com que seja. apenas muda de forma. Sei apenas que não posso ignorar o que aprendi. estou constantemente consciente de que existe uma harmonia.. vai me voltar. quando talvez não exista uma só realidade. Não é uma questão da boa ação do escoteiro. Levamos tudo muito a sério. Bella. — Não sei. é possível que isso seja ciência e não misticismo. Precisamos acreditar numa realidade positiva aqui na terra. Mas quero que me diga qual a diferença que tudo isso está fazendo em sua vida. Bellitchka. tentando encontrar as palavras que tranqüi- lizassem a minha amiga. são uma parte da harmonia cíclica da natureza.. Apenas faz com que eu me sinta muito me- lhor. Pensei um pouco. É o que real- mente me interessa. Preste atenção. de alguma forma algum dia. Use a natureza co- mo guia. um recurso que posso usar. Também sei que qualquer bem que eu faça.. tudo o que eu digo e faço. Não há moral ou julgamento na natureza. E não precisa ser en- frentado? — Claro. possui uma energia que é esperançosamente positiva. presente e futuro são interdependentes. qualquer diversão que eu possa partilhar. Bella sorriu. vou continuar a investigar. Julgamos a todos que pensam de maneira diferente.

então conhece tudo. Observei-a entrar no carro e se afastar pela Segunda Avenida.. ao final das contas. — É esse o jeito que você tem para se tornar senadora? — Não sei. — Deus do céu! — exclamou Bella. Bella.. Ser uma senadora é ser melhor do que você mesma? — Está me julgando. incas. — Não posso assumir uma coisa assim. gregos. o que vai ser agora? — Vem da palavra latina disastrum e da palavra grega disas- trato. — Desculpe.. não. Nenhuma das du- as disse qualquer coisa. se é certo para você. Não me preocupo com o passado e não me preocupo com o futuro. Ela beijou-me.. Bella levantou os olhos para o céu.. o que leva à compreensão do que é agora. Levantei os olhos e contemplei as estrelas. Pela primeira vez na vida. índios americanos e nativos do Oriente. a Ursa Maior e depois a Ursa Menor... E acho também que estou querendo me tornar in- tegral. um desas- tre. Mas não importa. Lembrei das ligações das Plêiades nas pesqui- sas que eu realizara. as Sete Irmãs. procurando até que encontrei a Es- trela do Norte. Parei outra vez e contemplei a constelação das Plêia- des. uma pessoa que é "disastrato" foi separada dos corpos celestes ou arrancada das estrelas. — Você nunca foi capaz de fazer nada pela metade. depois voltou a fixá-los em mim. Percorremos alguns quarteirões antes que Bella se decidisse a fazer sinal para um táxi. Portanto. — Ei. Penso. Os cientistas diziam que era impossível atravessar tais distâncias. vivo para o presente. Se você conhece a si mesma. É como diz Krishna-murti. Procurei então pelas Plêiades. a descoberta de que o poder da mente espiritual é o maior de todos os poderes. sabe qual é a etimologia da palavra "desastre"? — Ali. Aprender a traba- . A garçonete trouxe a conta. Particularmente quando envolve o reco- nhecimento de tudo o que você já foi. Shirl? — Acho que não. Lembrei de ter lido sobre as Plêia- des no Livro de Jó. estou começando a compreender o que significa ser integral. Dis é definido como "arrancado ou separado de" e astrot significa "as estrelas". não é mesmo.. indicando um aparente relacionamento com a Grande Pirâmide. que o passado criou e que está criando o futuro. Fomos andando pela noite clara de Manhattan. Voltei a meu apartamento.. E ex- perimenta o que a língua latina define como disastro. que se morreria de velhice antes de chegar lá. Madame Natureza? Peguei a mão de Bella e afaguei-a. ajo.. Ainda estou aprendendo. em termos que pudesse compreender.. — Sabe. Mas o pensamento não era mais rápido que a ve- locidade da luz? Seria possível viajar pela projeção dos pensa- mentos? O pensamento poderia controlar e impulsionar a matéria fí- sica? Talvez isso. fosse a ligação entre a mente espiritual e a tecnologia. piscando. maias. cada pessoa é um universo. de mãos dadas com Bella. tentando imaginar o quão distantes estavam aquelas estrelas. minha querida — murmurou ela — talvez haja um meio de evitar o desastre para o mundo..

em Gerry e suas soluções políticas humanitárias. enviadas anos antes pelo chefe masai. muito antes de saber que tinham algum significado para mim. Pus a mão nas pedras. em Cat e Anne Marie. vi um táxi derrapar e ultrapassar o sinal de trânsi- to vermelho. em meus amigos na Suécia. Em outras palavras: se aprendêssemos a elevar nosso pensamento espi- ritual. tão determinada e sistemática em seu esforço para tornar o mundo um lugar melhor. muito antes de David sig- nificar alguma coisa para mim ou mesmo de eu saber quem ele era. com sua perso- nalidade explosiva e desafiadora.lhar com isso desenvolveria uma tecnologia ainda mais superior. subi a escada e encontrei as pedras que David me entregara. Observei um ônibus parar na esquina do quarteirão em que fica o meu prédio. Pensei em Mike e seu ceticismo de bom coração. Depois me sentei e comecei a organizar um livro. que haviam contribuído para me mostrar o outro mundo da realidade.portaldocriador. Escrevi até as cinco horas da manhã. Talvez um dia eu pudesse fazer uma viagem às Plêiades e desco- brir o que havia no outro lado. Seria tão repleta de maravilhas quanto a jornada interior que eu estava começando a empreender? * * * Revisão: Argo – www.org . talvez pudéssemos localizar nossos corpos onde quer que desejássemos estar. Pensei em Bella e no que ela significava para mim. Dei uma última olhada nas estrelas. E soltei uma risada pelo caos insano e doce que é Ma- nhattan. Pensei de- pois em David e me perguntei se tornaria a vê-lo. pensando em todos os seres humanos que haviam participado da minha nova maneira de pensar. Eu as empilhara em forma piramidal. em Kevin e sua fé pura e inabalá- vel. Segui a pé para o meu apartamento.

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