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1.

O NOVO PADRÃO AGRÍCOLA BRASILEIRO: DO COMPLEXO RURAL AOS


COMPLEXOS AGROINDUSTRIAIS

1.1 — INTRODUÇÃO

Existem três conceitos que muitas vezes são usados como sinônimos e na verdade não o
são: modernização da agricultura, industrialização da agricultura e formação dos complexos
agroindustriais. Por modernização da agricultura se entende basicamente a mudança na base
técnica da produção agrícola. É um processo que ganha dimensão nacional no pós- guerra com a
introdução de máquinas na agricultura (tratores importados), de elementos químicos (fertilizantes,
defensivos etc.), mudanças de ferramentas e mudanças de culturas ou novas variedades. É uma
mudança na base técnica da produção que transforma a produção artesanal do camponês, à base da
enxada, numa agricultura moderna, intensiva, mecanizada, enfim, numa nova maneira de produzir.
A modernização da agricultura no Brasil é, pois, um processo “antigo”. Nesta transformação da
forma de produzir houve substituição de determinadas culturas por outras e, dentro da mesma
cultura, por outras variedades modernas. A “industrialização da agricultura” envolve a idéia de que
a agricultura acaba se transformando num ramo de produção semelhante a uma indústria, como
uma “fábrica” que compra determinados insumos e produz matérias-primas para outros ramos da
produção, O camponês produzia em “interação com natureza” como se esta fosse o seu “laboratório
natural”. Trabalhava a terra com os insumos e ferramentas que tinha a seu alcance, quase sempre
produzidos em sua própria propriedade. A agricultura industrializada, ao contrário, está conectada
com outros ramos da produção; para produzir ela depende dos insumos que recebe de determinadas
indústrias; e não produz mais apenas bens de consumo final, mas basicamente bens intermediários
ou matérias primas para outras indústrias de transformação. A industrialização da agricultura
brasileira é um processo relativamente recente, pós-65. O processo de industrialização da
agricultura é qualitativamente diferente o que torna o processo de modernização irreversível. A
partir do momento em que a agricultura se industrializa, a base técnica não pode regredir mais: se
regredir a base técnica, também regride a produção agrícola. O longo processo de transformação da
base técnica — chamado de modernização — culmina na própria industrialização da agricultura.
Esse processo representa a subordinação da Natureza ao capital que, gradativamente, liberta o
processo de produção agropecuária das condições naturais dadas, passando a fabricá-las sempre
que se fizerem necessárias.

Três transformações básicas diferenciam a modernização da agricultura desse processo de


“industrialização”. Primeiro não se trata apenas de usar crescentemente insumos modernos, mas
também — e principalmente — de mudar as relações de trabalho. Mesmo com a modernização
havia espaço para pequena produção independente onde o proprietário (ou o parceiro ou
arrendatário), utilizando insumos modernos, seguia produzindo de maneira artesanal. Ele
modernizava seu processo de produção e estabelecia uma nova divisão de trabalho dentro da
família. Na agricultura industrializada, a relação de trabalho é basicamente uma relação de trabalho
coletivo (cooperativo); não há mais o trabalhador individual, há um conjunto de trabalhadores
assalariados que trabalham coletivamente ou cooperativamente numa determinada atividade. O
trabalhador não mais cuida do plantar ou colher: ele se especializa; são turmas que plantam, são
turmas que colhem. Existe uma divisão do trabalho, como uma posição dentro da empresa para o
trabalhador braçal, para o trabalhador técnico, com diferentes níveis de qualificação, mas é um
trabalho coletivo. A segunda mudança qualitativa é a mecanização. A modernização da agricultura
brasileira no pós-guerra e basicamente pelo trator, que passa de substituto da força animal para
substituto da mão do homem, da força de trabalho. Aí há então um salto qualitativo no processo de
produção: as atividades passam a ser mecanizadas não mais em função da substituição da força
física, mas substituindo, por exemplo, a habilidade manual, substituindo a destreza do trabalhador.
Este salto qualitativo no processo de modernização da agricultura brasileira ocorre nos anos 60,
quando se introduz a mecanização de todo o processo produtivo, do plantio à colheita (inclusive
carregamento e transporte) e à mecanização dos tratos culturais se soma a quimificação. A terceira
transformação que muda qualitativamente o processo de modernização da agricultura brasileira nos
anos 60 é a internalização do D1, ou seja, dos setores produtores de insumos, máquinas e
2

equipamentos para a agricultura. Em seu início, a modernização se viabiliza por meio de


importações, de forma que a capacidade de modernização da agricultura brasileira estava limitada
pela sua capacidade de exportar. Com a implantação da indústria de base (siderurgia, petroquímica,
borracha, plásticos, química fina, bioquímica, etc.) nos anos 50-60, os setores que produzem
insumos modernos, máquinas e equipamentos para agricultura foram internalizados no país e, a
partir daí, a capacidade de modernização da agricultura passou a ser endógena.

É partir dessas três transformações que ocorrem nos anos 60 que o processo de
modernização da agricultura brasileira se torna irreversível, iniciando-se assim a industrialização da
agricultura.

Finalmente, no período pós-75 temos a constituição do que se vem chamando de


complexos agroindustriais. São vários complexos que se constitui, ao mesmo tempo em que a
atividades agrícolas se especializa continuamente. 1

Na verdade, pode-se dizer que hoje não existe mais apenas uma agricultura; existem vários
complexos agroindustriais. E a dinâmica desses segmentos da agricultura é a dos complexos. Em
todos eles existe um elemento aglutinador “administrando-os”, que são as políticas do Estado. O
Estado assume o papel do capital em geral, do capital financeiro, o que coloca uma questão
importante num regime democrático, que é o controle desse Estado. Esta é a questão política de
fundo que, no entanto, não será tratada neste trabalho.

Este estudo tem a preocupação central de contribuir, na linha conceitual exposta, para a
melhor compreensão da nova agricultura brasileira. Não tratamos dos efeitos sociais dos processas
de modernização e industrialização da agricultura, na grande maioria problemáticos e de difícil
administração no atual contexto político do país.

Será feita a seguir uma rápida descrição do novo padrão agrícola brasileiro, a partir de uma
periodização que se inicia com a crise do complexo rural. Nas seções seguintes serão analisados os
elementos relevantes que viabilizaram esse novo padrão, com ênfase na internalização do D1 para a
agricultura e nas novas funções do Estado nesse padrão.

1.2 — O Novo Padrão Agrícola Brasileiro

1.2.1 — A Crise do Complexo Rural (1850-1945)

A idéia central que vamos desenvolver nesta seção é que a principal modificação na
dinâmica da agricultura brasileira consiste num processo histórico de passagem do chamado
“complexo rural” para urna dinâmica comandada peles “complexos agroindustriais” (CAIs). Esse
processo envolve a substituição da economia natural por atividades agrícolas integradas à indústria,
a intensificação da divisão do trabalho e das trocas inter-setoriais, a especialização da produção
agrícola e a substituição das exportações pelo mercado interno como elemento central da alocação
dos recursos produtivos no setor agropecuário.

A dinâmica do complexo rural era muito simples, determinada fundamentalmente pelas


flutuações do comércio exterior. Havia geralmente apenas um produto de valor comercial em todo
o circuito produtivo: era o produto destinado ao mercado externo. Se seu preço estivesse “bom”, os
recursos da fazenda (homens, animais de trabalho, terras) eram alocados de modo a incrementar a
produção de exportação. Se o preço rio mercado internacional caísse, esses recursos eram
deslocados para as atividades internas, destinadas basicamente à subsistência da força de trabalho e

1
Estamos utilizando o termo cemplexo para identificar coniuntos de at vi- dados fortemente relacionadas entre si (por compras e
vendas) e fracamente relacionadas com o resto das atividades. Esses conjuntos são vistos de forma dinàm[ca, o que torna sua
delimitação menos rfgida do que seria uma tipologia ou uma análise sistômica
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à reprodução das condições materiais da unidade produtiva. No interior das fazendas produziam-se
não só as mercadorias agrícolas para exportação, mas também manufaturas, equipamentos simples
para produção, transportes e habitação. A divisão social do trabalho era incipiente, as atividades
agrícolas e manufatureiras encontravam-se indissoluvelmente ligadas, grande parte dos bens
produzidos só tinha valor de uso, não se destinando ao mercado. O mercado interno praticamente
inexistia, já que grande parte das atividades que deveriam resultar na formação do mercado interno
estavam “internalizadas” no âmbito do próprio complexo rural.

O passo fundamental que desencadeia a crise do complexo rural é a transição para o


trabalho livre, a partir da suspensão efetiva do tráfico negreiro pós-1850.

A crise do complexo rural e o surgimento do novo complexo cafeeiro paulista —


simultâneo ao processo de substituição de importações significou o desenvolvimento do mercado
de trabalho e a constituição do mercado interno. Foi um longo processo que ganhou impulso a
partir de 1850, acelerou- se após a grande crise de 1929 com a orientação clara da economia no
sentido da industrialização e se consolidou nos anos 50 com a internalização do departamento
produtor de bens de capital (D,). A partir daí completa-se o processo geral de industrialização e se
inicia o processo específico de industrialização da agricultura, qual seja, o de montagem do D
agrícola e do proletariado rural, que responderão pelo fornecimento de capital e força de trabalho,
que sustentam a nova dinâmica da acumulação de capital no campo. O novo centro dinâmico da
economia — a indústria e a vida urbana — impõe suas demandas ao setor agrícola e passa a
condicionar suas transformações, que vão culminar, no periodo recente, com a constituição dos
complexos agroindustriais.

O longo período de decomposição do complexo rural inicia-se pois em 1850 com a lei de
terras e a proibição do tráfico, terminando em 1955 com a implantação do D1 em bases industriais
modernas. Ao longo do processo vão se separando, gradativamente, novas atividades que
constituíram novos setores a partir do complexo rural:

a) o período 1850/1690 se caracteriza pela gradativa redução do trabalho escravo e a


introdução do trabalho livre nas fazendas de café do Oeste paulista. O resultado final é a
constituição de um novo complexo — o cafeeiro — que mantêm ainda internalizada (em bases
artesanais) a produção de meios de produção para as fazendas de café (casas, equipamentos,
animais de trabalho etc.) e de parte da força de trabalho (a roça de subsistência do colono). Todavia
algumas atividades já se separam do complexo cafeeiro, quebrando aquela rígida estrutura
autárquica do complexo rural: cria-se um setor independente de formadores de fazendas de café;
separam-se também alguns pequenos produtores de alimentos e de pequenas indústrias rurais
(principalmente aguardente) para abastecimento das cidades e vilas que se formavam; desenvolve-
se a produção de algodão com base nas relações de parceria e articulada com a indústria têxtil, que
já nasce como grande indústria em 1880, e criam-se atividades manufatureiras nas cidades (oficinas
de reparo, manufaturas de louças, chapéus e outros bens de consumo não-duráveis);

b) o período 1890/1930 constitui a fase de auge do complexo cafeeiro até a grande crise.
Ampliam-se as atividades tipicamente urbanas e outros setores começam a emergir do seio do
complexo cafeeiro: cria-se um segmento de produção artesanal de máquinas e equipamentos
agrícolas fora das fazendas de café para produção de secadores, despolpadoras, enxadas, arados
etc., aumentam as oficinas de reparo e manutenção; estabelecem-se as primeiras agroindústria
(distintas das indústrias rurais, que eram um mero prolongamento das atividades agrícolas
propriamente ditas de óleos vegetais, açúcar e álcool), consolida-se a indústria têxtil como a
primeira grande Indústria nacional; e se inicia a substituição de importações de urna ampla gama de
bens de consumo “leves”;
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c) o período 1930/60 é a fase de integração dos mercados nacionais (de alimentos, de


trabalho e de matérias-primas). Ele termina com a implantação do 0, industrial a partir de 1955, na
chamada fase de industrialização pesada.

Ao longo desses 30 anos, o processo de industrialização, que a principio ocupou uma


brecha aberta pelo complexo cafeeiro, ganha dinamismo próprio dado pelas novas possibilidades
que se abriram com a substituição de importações deslocando o setor agrícola como pólo dinâmico
da economia. A despeito disso o setor agrícola — e particularmente o complexo cafeeiro —
continuou desempenhando um papel fundamental, quer através de transferências financeiras quer
viabilizando a importação de bens de capital e insumos para a indústria em expansão.

Uma vez consolidada a indústria nacional, o que ocorreu com a plena formação de
mercados nacionais para produtos agrícolas e para a força de trabalho e, principalmente com a
constituição da indústria de base, a agricultura brasileira iniciou sua própria industrialização.

1.2. 2 — A Transição no Pós-Guerra: A Modernização da Agricultura

A partir do pós-guerra, ao lado do crescimento extensivo da produção a agricultura


brasileira passa a implementar de forma mais decisiva especialmente do ponto de vista da ação
estatal — um processo de modernização de sua base técnica.

O termo modernização tem tido uma utilização muito ampla, referindo-se ora às
transformações capitalistas na base técnica da produção ora à passagem de uma agricultura
‘natural” para uma que utiliza insumos fabricados industrialmente.

Aqui o termo modernização será utilizado para designar o processo de transformação na


base técnica da produção agropecuária no pós-guerra, a partir das importações de tratores e
fertilizantes num esforço de aumentar a produtividade.

Assim, embora do lado da produção os determinantes da dinâmica da agricultura


estivessem sendo deslocados para o mercado interno, do ponto de vista das transformações de sua
base técnica ela ainda permanecia atrelada ao setor externo, pois sua modernização dependia da
capacidade para importar máquinas e insumos. Ao contrário do complexo rural, que tinha sua
produção de equipamentos rudimentares e de insumos internalizada e seu mercado final no
exterior, nesse período de transição parte crescente da produção agrícola é consumida
internamente, mas a agricultura continua a depender do exterior e portanto das exportações, da
capacidade de endividamento externo e das políticas comerciais e cambial para importar máquinas
e insumos. Em outras palavras, as decisões de produzir se internalizavam gradativamente em
função das exigências do mercado nacional, mas os instrumentos necessários para produzir
dependiam cada vez mais da abertura para o exterior. Note-se que essa abertura significava, nesse
período, apenas uma dependência da importação de máquinas e insumos, mas as decisões de
“como” produzir eram restritas às iniciativas individuais e pioneiras dos produtores. Hoje, ao
contrário, é a própria forma de produzir que é imposta por instâncias externas à unidade produtiva
(como os pacotes tecnológicos difundidos a partir da economia norte-americana) que se vê
impelida a adotá-las sob pena de não sobreviver no mercado.

O processo de modernização, ao mesmo tempo que implica a integração técnica intra-


setorial e a mercantilização da agricultura, promove a substituição de elementos internos do
complexo rural por compras extra-setoriais (máquinas e insumos), abrindo espaço para a criação de
indústrias de bens de capital e insumos para a agricultura, como se verá mais adiante. Mas
enquanto depende da importação dos elementos de sua nova base técnica, a modernização vê-se
5

restringida pela capacidade de importar2. Isto, por sua vez, restringe em certa medida o
desenvolvimento pleno das ligações intersetoriais ‘para a frente”, isto é, da agricultura enquanto
fornecedora de matérias-primas para a agroindústria. Embora desde o início da industrialização
brasileira algumas agroindústrias notadamente a têxtil e a alimentar — tenham tido peso relevante,
só a partir da internalização do D1 é que elas deslanchariam de forma ampla, abrangendo
praticamente todos os segmentos fundamentais da produção agropecuária.

O processo de modernização pode ser visualizado pela elevação do consumo intermediário


na agricultura, que indica a crescente dependência da agricultura de compras industriais para a
produção de suas mercadorias. O consumo intermediário é o valor de todos os insumos que entram
no processo de produção (excetuando a força de trabalho). Inclui as despesas com sementes,
defensivos, fertilizantes, rações e medicamentos para animais, aluguel de máquinas, embalagens e
outros itens que possam ser considerados matérias-primas ou insumos produtivos.

O aumento da participação do consumo intermediário no valor bruto da produção significa


que a atividade agropecuária depende cada vez mais de compras (intra e inter-seloriais) para que
possa se efetivar. Em outras palavras, o processo de produzir torna-se cada vez mais dependente da
produção de outros setores da economia, mais intensivo no uso de capital fixo e circulante. A
participação do consumo intermediário no valor da produção pode então ser vista como um
indicador síntese do processo de modernização: quanto mais complexa se torna a base técnica da
produção, com a utilização crescente de insumos (químicos, físicos e biológicos), maior tende a ser
a proporção do consumo intermediário na produção.

A Tabela II. 1 mostra o crescimento do consumo intermediário como porcentagem do valor


bruto da produção agropecuária. De pouco mais de 10%, em 1949, ele passa a representar 25% no
final dos anos 60, saltando para quase 40% em 1980. Note-se que a intensificação do crescimento
(relativo) do consumo intermediário na agricultura dá-se a partir de meados dos anos 60, já na fase
que denominamos “industrialização da agricultura”. Entre 1959 e 1965 o Indico cresce 7% ao ano,
principalmente porque a base em 1959 é ainda pequena. Após 1965 nota-se um crescimento mais
firme do índice, mesmo partindo de uma base maior, nesse período que a “industrialização do
campo” deslancha, com efeitos qualitativamente mais complexos sobre o processo de produção
agrícola. Como se Verá adiante, o Estado desempenhou um papel crucial nesta arrancada: de um
lado estimulando a expansão das indústrias por meio de vários incentivos; de outro, assegurando-
lhes mercados por meio da política de financiamento rural.

TABELA 1.1

CONSUMO INTERMEDIÁRIO NA AGRICULTURA, COMO Z DO VALOR BRUTO DA


PRODUÇÃO. BRASIL, 1939/80

Ano Consumo Intermediário/VP Taxa Anual de Variação


1939 10.0 -
1949 11.1 1.0
1954 13.2 3.5
1959 14.3 1.6
1965 21.5 7.0
1968 25.1 5.3
1970 27.6 4.9
1975 34.4 4.5
1980 38.7 2.4

2
Na realidade, a restrição era potencial, uma vez que a generalização da modernização certamente esbarraria
no estrangulamento externo.
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1.2.3 — A Industrialização da Agricultura (1965 em diante)

A partir de meados dos anos 60 o processo de modernização atinge uma fase mais
avançada, a de industrialização da agricultura.

O processo de industrialização da agricultura não se resume à utilização de insumos


industriais na produção agrícola, embora esse elemento seja um de seus componentes. A
industrialização do campo é um momento especifico do processo de modernização: a “reunificação
agricultura-indústria” num patamar mais elevado do que o do simples consumo de bens industriais
pela agricultura. É um momento da modernização a partir do qual a indústria passa a comandar a
direção, as formas e o ritmo da mudança na base técnica agrícola, o que ela só pode fazer após a
implantação do D1, para a agricultura no país.

A industrialização da agricultura supõe, além da existência do D1 (departamento produtor


de bens de capital e insumos para a agricultura), a própria agricultura moderna. Pelo
aprofundamento da divisão do trabalho a agricultura se converte assim num ramo da produção, que
compra insumos e vende matérias-primas para outros ramos industriais, O processo de produção
deixa em grande medida de ser artesanal e passa a ser regido (pelo menos) pela cooperação
simples, como na manufatura; o processo de trabalho deixa de ser individual para se tornar
coletivo, no sentido de que o trabalho agrícola converte-se em parte alíquota do trabalho social e
seu produto parte alíquota do valor global produzido na sociedade. A terra deixa de ser o
“laboratório natural”, para se converter em mercadoria. Os equipamentos utilizados deixam de ser
meros instrumentos de trabalho, para representar partes do capital a ser valorizado.

A produção agrícola passou então a constituir um elo de uma cadeia, negando as antigas
condições do complexo rural fechado em si mesmo e em grande parte as do complexo agro-
comercial prevalecente até os anos 60. Esse processo desemboca na constituição dos complexos
agroindustriais, que também se efetivam a partir da implantação da ‘indústria para a agricultura” e
da estruturação da agroindústria processadora.

Com a constituição e consolidação dos CAIs, a dinâmica da agricultura só pode ser


apreendida a partir da dinâmica conjunta da indústria para a agricultura/agricultura/agroindústria, o
que remete ao domínio do capital industrial e financeiro e ao sistema global de acumulação.

O elemento que dá unidade às diversas atividades dos complexos agroindustriais é que


todas elas são atividades do capital, com uma regulação macroeconômica mais geral. As ligações
intercapitais não são apenas técnicas, mas sobretudo financeiras. A compra de insumos pela
agricultura, por exemplo, impõe-se a princípio como necessidade técnica, mas implica de imediato
a necessidade de financiamento. Este não será mais feito a partir de agentes isolados (como era o
comerciante-prestamista), e sim através do sistema financeiro instalado, o qual se torna um
parâmetro a soldar o movimento da agricultura com o movimento geral da economia. Em outros
termos, a modernização da ‘agricultura requer a existência de um sistema financeiro constituído (no
caso, concretizado no SNCR) para que possa ser viabilizada e, ao mesmo tempo, esse sistema passa
a ser fundamental na soldagem dos CAIs com o movimento global da acumulação.

Um conceito-chave por trás desse padrão mais recente de desenvolvimento da agricultura é


o de integração de capitais, isto é, o processo de “centralização de capitais industriais, bancários,
agrários etc., que por sua vez fundir-se-iam em sociedades anônimas, condomínios cooperativas
rurais e, ainda, empresas de responsabilidade limitada, integradas verticalmente (agroindustriais ou
agrocomerciais), que imprimem direção à aplicação dos capitais em distintos mercados. É
importante lembrar que um desses mercados - o de terras - passa a ter papel de destaque nesse
processo, ou seja, a propriedade da terra, ao permitir ganhos especulativos e ganhos de fundação
(nas novas áreas de fronteira incorporadas ao mercado), tornou-se um ativo alternativo para o
7

grande capital. Este processo, conhecido como “territorialização do capital”, pode ser ilustrado
pelos dados seguintes [ver Kageyama (1986b, pp. 63-6)]:

- Considerando os maiores proprietários rurais em cada estado do país (o 0,1% maior,


incluindo todas as propriedades de 10.000 hectares ou mais), destacam-se várias empresas
industriais, financeiras e comerciais, como por exemplo a Light Serviços de Eletricidade S,A., a
Cia. Siderúrgica Belgo-Mineira, o Banco Bamerindus, a Mannesmann S.A., a S,A. White Martins,
além das grandes reflorestadoras ligadas a indústrias (Aracruz Celulose S.A., Florestas Rio Doce
S.A., Klabin Florestal);

- seis das 10 primeiras empresas privadas nacionais em 1965 são também grandes
proprietárias de terras - tão grandes a ponto de aparecer entre o 0,1% superior no estado onde está
instalada a propriedade, ou por ter esta mais de 10.000 ha;

- duas das 10 primeiras empresas estrangeiras no país (com atividades na metalurgia e na


química) controlam grandes extensões de terra, especialmente no polo urbano-industrial do centro-
sul.

Também Delgado, no trabalho citado (Tabelas 18 a 23), apresenta várias informações sobre a
participação do grande capital na atividade agrícola e no mercado de terras. Por exemplo, entre os
principais grupos empresariais com atividades rurais, muitos possuem empreendimentos em outros
setores de atividades, como indica a amostra seguinte:

— possuem empresas industriais de equipamentos e insumos para a agricultura (mistura de


fertilizantes e rações); Copersucar, Biagi-Zanini, Dedini, Moinhos Cruzeiro do Sul, Perdigão,
Natron;

— ligados ao mercado imobiliário: Ometto, tigoiini, Bueno-Vidigal, Guatapará-Silva Gordo,


Bozano-Si monsen, Fischer, Andrade Gutierrez;

— com empresas industriais (metal-mecânica, siderurgia, metalurgia, têxteis, cimento, química,


plásticos etc.); Biagi-Zanini, Belgo-Mineira, Ugolini, Bezerra de Meio, João Santos, Vale do Rio
Doce, 8ueno-Vidigal, Hering, Barreto Figueiredo, Natron;

— bancos: Bozano-Simonsen, Barreto Figueiredo, Bamerindus, ltaú, Bandeirantes;

— transportes; Sadia Concórdia S.A., Vaie do Rio Doce, Fischer;

— financeiras, seguradoras; Bueno-Vidigal, Bozano-Simonsen, Bezerra de Melo, APLUB,


Bamerindus, Sul América, Bandeirantes, ltaú.

Em quase todas essas empresas os investimentos agropecuários constituem tração


importante do patrimônio imobiliário dos conglomerados, embora não se possa dizer o mesmo em
relação á geração dos lucros.

Além do novo caráter da propriedade fundiária quando o capital financeiro penetra no setor
agropecuário, também o Estado passa a desempenhar novos papéis nesse novo padrão de
desenvolvimento agrícola, que podem ser sintetizados na idéia de uma regulação estatal visando a
financiar, patrocinar e administrar as expectativas e a captura das margens de lucro na agricultura,
no sentido de beneficiar os capitais integrados e garantir sua valorização.

As colocações anteriores procuraram pôr em evidência que na década de 60,


particularmente em seus anos finais, havia um conjunto de condições macroeconômicas e políticas
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internas que ensaiaram uma grande mudança qualitativa no padrão de desenvolvimento da


agricultura e no lugar que ela passa a ocupar no padrão geral de acumulação do pais.
Resumidamente, essa mudança qualitativa se concretizou nos Complexos Agroindustriais e no
processo de fusão/integração de capitais intersetoriais pelo capital financeiro.

A idéia de que os CAIs são um fato recente na economia brasileira, um fenômeno dos anos
70, só pode ser entendida a partir da diferença entre modernização da agricultura e constituição dos
CAIs. È claro que antes das décadas de 60 e 70 mudanças técnicas importantes se fizeram presentes
na agricultura e é claro, também, que sempre houve um segmento importante de processamento
agroindustrial no pais. Mas enquanto a modernização dependia da importação de insumos
químicos, equipamentos e máquinas, ela tinha um limite claro, dado pela capacidade de importar.
Assim como o complexo rural dependia das exportações para se expandir, a modernização, no seu
inicio, dependia da capacidade para importar a fim de poder se generalizar. A internalização da
produção de insumos e máquinas para a agricultura rompe esse limite; a partir daí a modernização
da agricultura caminha com seus próprios pés e os limites agora são colocados por ela mesma, isto
é, pelo próprio capital inserido na atividade agrícola. Vale lembrar que, além disso, houve também
naquele momento condições internacionais excepcionais que viabilizaram a implantação dos CAIs,
incluindo ai os casos da laranja, aves e soja.

A partir da constituição dos CAIs o desenvolvimento da agricultura passa a depender da


dinâmica da indústria; não se pode mais falar da agricultura como “grande setor” na economia
(como na divisão tradicional agricultura-indústria-serviços), porque grande parte das atividades
agrícolas integrou-se profundamente na matriz de relações interindustriais, sendo seu
funcionamento determinado de forma conjunta. Enfim, não há mais uma dinâmica geral da
agricultura, mas agora têm lugar várias dinâmicas, próprias de cada um dos complexos particulares.
Em alguns a parte industrial a montante pode ter peso maior, em outros pode ter maior importância
a indústria a jusante, em outros o mercado interno, em outros o mercado externo, o que somente se
pode apreender a partir de estudos dos casos concretos.

Tem-se, no entanto, três resultados gerais mais visíveis;

a) do ângulo do CAI, tem-se um estreitamento das relações intersetoriais, um reforço dos


elos técnicos e dos fluxos econômicos entre as atividades agrícolas e as industriais e um crescente
movimento de subordinação da agricultura à dinâmica industrial;

b) do ângulo da industrialização da agricultura o resultado mais visível é que a mudança da


base técnica torna-se irreversível, tanto do ponto de vista da reorganização do processo de
trabalho (a nível das unidades produtivas pela divisão técnica e especialização e, a nível social,
pela criação de um proletariado rural desqualificado) como do ponto de vista da base técnica (em
que não é mais possível manter uma escala mínima viável de produção sem recorrer ao uso de
insumos industriais). Do ponto de vista do processo de trabalho, isto se mostra de maneira clara na
agricultura brasileira a partir da metade da década de 60, com a formação de um setor de
assalariados rurais em substituição às formas antigas de relações familiares e dependência pessoal.
Esses assalariados, além de se diferenciarem pelo aspecto formal da relação assalariada, estão
inseridos no processo produtivo de forma distinta dos antigos colonos, parceiros etc. Os
assalariados estão em geral vinculados a somente algumas fases específicas do, processo de
produção (especialização) e destinados ou a manejar máquinas ou a colher produtos manualmente.
O ritmo é imposto, neste último caso, por um sistema de pagamento que exige um trabalho intenso
para alcançar a diária mínima (desqualificação). É o caráter social e irreversível da industrialização
da agricultura que permite a criação de um verdadeiro proletariado rural, estreitando-se a
possibilidade de reprodução de formas independentes da pequena produção ou de formas em que o
trabalhador mantém o controle do processo de trabalho. Em outras palavras, a industrialização da
agricultura determina a passagem da subordinação indireta para a subordinação direta do trabalho
ao capital;
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c) finalmente, do ângulo da integração de capitais constitui-se o SNCR que viria a formar o


elo do capital financeiro com a agricultura. Até 1979 o crédito rural era um crédito específico
regido por índices particulares do setor agrícola, destinado a desencadear e sustentar a
modernização agrícola, com linhas de financiamento a insumos químicos, sementes selecionadas e
investimentos rurais. Na década de 80, esse padrão de financiamento particular da agropecuária é
rompido, inserindo-se o crédito rural num sistema financeiro geral, sujeito aos mesmos índices de
atualização monetária, apenas com taxas de juros e prazos de carência diferenciados. Isto faz com
que agricultores e pecuaristas se vejam sujeitos — embora em condições mais brandas — às
mesmas regras de outros setores atados ao capital financeiro.

O Gráfico 2.1 mostra a periodização proposta e os elementos fundamentais conectados com


o processo de industrialização da agricultura. Nos itens seguintes iremos aprofundar três desses
elementos: a forma como se concretizou a internalização do D2 para a agricultura, a estruturação da
nova agroindústria e a nova segmentação da agricultura.

1.3 — Nova Segmentação da Agricultura: Os Complexos Agroindustriais

Nos itens precedentes procuramos apontar os elementos centrais que, a partir da década de
70, ensejaram a constituição dos complexos agroindustriais. Esses elementos reforçam à
internalização da indústria e máquinas e insumos agrícolas, à modernização e expansão do parque
agroindustrial e, permeando esses processos, a montagem de um aparato de política - econômica
voltada à “soldagem” dos componentes dos CAIs (agricultura e indústrias a montante e a jusante).

Embora os movimentos de modernização e industrialização da agricultura tenham sido


intensos e dominantes nas últimas décadas, isto não significa a homogeneização das formas de
produzir na agricultura e nem a integração intersetorial completa em todos os tipos de atividades.

Ao contrário, a agricultura ainda comporta amplos segmentos tecnicamente atrasados e


dominados pelo capital comercial.
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Uma tipologia, tendo como critério a forma de inserção da atividade no novo padrão de
desenvolvimento agrícola, ou, se preferir, a forma de inserção nos CAIs e no processo de
industrialização do campo, é a seguir proposta. Privilegiamos o grau das relações intersetoriais a
montante e a jusante, porque julgamos que esse elemento é de crucial importância na determinação
da dinâmica da produção agrícola. Assim, essa tipologia se pretende que seja não apenas descritiva
mas que sirva como ponto de partida para um novo esquema analítico da dinâmica da agricultura.

No novo padrão que emergiu em fins da década de 60 a dinâmica agrícola não pode mais
ser explicada pela segmentação “mercado interno x mercado externo”, porque esses mercados
gerais deixaram de ser o elemento-chave do próprio funcionamento da agricultura para dar lugar
aos complexos agroindustriais e com eles às garantias de mercado para as indústrias de máquinas e
insumos agrícolas, à exportação de produtos agrícolas processados industrialmente, à fusão e
incorporação de capitais sob o domínio do capital financeiro.

Estes são fenômenos novos e importantes, que não se resolvem analiticamente em termos
de destino da produção, e que têm influências específicas nas dinâmicas dos diferentes segmentos
que compõem a agricultura brasileira a partir dos anos 70.

Em termos descritivos, pode-se dizer que o setor agrícola hoje é formado pelo menos por 4
segmentos diferenciados (ver Gráfico 11.3):

a) O segmento mais moderno e industrializado, integrado verticalmente e formado por complexos


agroindustriais completos, ou seja, complexos com três “pés” — a indústria a montante, a
produção agrícola (ou pecuária) e a agroindústria processadora. Para exemplificar, podem-se citar
os complexos avícola (milho-rações-aves-frigoríficos) e de açúcar e álcool (implementos agrícolas
e carregadeiras mecânicas-cana-usina e destilaria), como os mais típicos. Além desses, estariam
nesse grupo: as carnes, a soja e o trigo, o milho híbrido e o arroz irrigado, a produção de ovos. No
caso dos ovos1 as cooperativas (que embalam, classificam e distribuem) tomam o lugar da agro-
indústria propriamente dita.

Gráfico II.3 – Relações intersetoriais

A dinâmica, nesses casos, não pode ser vista unicamente isolando o produto agrícola, mas é
o conjunto Integrado de atividades que tem ritmo próprio e estratégias de crescimento combinadas,
pois há soldagens especificas da atividade agrícola “para a frente” e “para trás”, isto é, com a
indústria a montante e a agroindústria processadora.
11

b) Um segmento plenamente integrado à frente, isto é, às agroindústrias processadoras e


que, embora altamente tecnificado, não mantém vínculos específicos com as indústrias a montante.
Esse segmento talvez seja um dos grandes responsáveis pela demanda de máquinas e insumos
agrícolas em geral, mas sem integrar-se verticalmente com essas indústrias. Aqui estão, por
exemplo, as fibras (algodão), as frutas (laranja para suco), os laticínios, parte dos grãos (milho) e
oleaginosas (amendoim), legumes (tomate, ervilha),

A diferença com o segmento anterior é que neste segundo caso a indústria a montante não
se encontra especificamente ligada num tripé, como fornecedora de um mercado delimitado e
específico, mas funciona como setor genérico de oferta de equipamentos e insumos agrícolas. A
idéia de “complexo” fica aqui restrita às inter-relações agricultura-agroindústria de processamento,
aí sim havendo uma dinâmica integrada. Pode-se dizer que aqui se encontram os CAis
“incompletos”, isto é, com soldagens específicas “para a frente”, porém sem soldagens específicas
“para trás”, embora as ligações intersetoriais (mesmo para trás) sejam mais ou menos fortes e
irreversíveis.

c) Um conjunto de atividades modernizadas que dependem do fornecimento de máquinas e


insumos extra-setoriais mas sem estabelecer soldagens específicas nem “para a frente” nem “para
trás”, isto é, sem tomar a forma de complexos. Poderiam ser incluídos neste grupo o feijão em São
Paulo, o arroz no Centro-Oeste, a cebola, hortaliças e frutas de mesa.

Aqui também são fundamentais as atividades de classificação e embalagem, que passam a


desempenhar papel semelhante ao da agroindústria.

O café também poderia ser incluído neste grupo, pois o mais importante nesse CAI não são
propriamente as agroindústrias de torrefação e moagem e sim o segmento de exportação/
embalagem/classificação. As torrefadoras, que constituem a agroindústria neste caso, são quase
sempre pequenas e locais, sem poder de pressão sobre os produtores que, além de grandes,
possuem expressivo poder político e “lobbies” dentro do aparelho de Estado (Associação Nacional
do Café, IBC). O café, a partir do complexo cafeeiro antes referido, especializou-se e, após a
erradicação (1962/67) e o problema da ferrugem, está criando vínculos cada vez mais fortes “para
trás”, com a indústria de equipamentos e defensivos.

d) Finalmente, há um conjunto e atividades agrícolas onde ainda prevalece a produção em


bases quase que artesanais, isto é, o “resto” da agricultura, ainda não modernizado nem com
ligações íntersetoriais fortes. Entram aqui os “produtos de pobre” da agricultura, como mandioca e
banana e, nas regiões menos dinâmicas (Nordeste, p. ex.), os alimentos básicos (arroz de sequeiro,
milho e feijão).

2 AGRIBUSINESS

2.1. Visão e conceito de Agribusiness

Podemos definir agribusiness como um sistema integrado; uma cadeia de


negócios, pesquisa, estudos, ciência, tecnologia, etc., desde a origem vegetal/animal
até produtos finais com valor agregado, no setor de alimentos, fibras, energia, têxtil,
bebidas, couro e outros. “Na década de 50, os professores Ray Goldberg e John Davis,
da Universidade de Harvard, constataram que “as atividades rurais e aquelas ligadas a
elas não poderiam viver isoladas”. Utilizando fundamentos de teoria econômica sobre
as cadeias integradas, construíram uma metodologia para estudo da cadeia agro
alimentar e cunharam o termo agribusiness, que sintetizava sua nova visão” (MEGIDO
& XAVIER, 1998: 35).
12

Foi estudando as transformações e a reestruturação da agricultura que os dois


economistas norte americanos cunharam este termo em 1957, que pela definição diz-se
que é a soma total das operações de produção e distribuição de suprimentos
agrícolas; as operações de produção nas unidades agrícolas; e o armazenamento,
processamento e distribuição dos produtos agrícolas e itens produzidos com eles.
Dessa forma, o agribusiness engloba:

. os fornecedores de bens e serviços à agricultura,

. os produtores agrícolas, os processadores, transformadores e distribuidores


envolvidos na geração e no fluxo dos produtos agrícolas até o consumidor final.

Participam também nesse complexo, os agentes que afetam e coordenam o fluxo


dos produtos, tais como o governo, os mercados, as entidades comerciais,
financeiras e de serviços. O agribusiness incorpora em seu conceito os agentes que
imprimem dinâmica a cada elo da cadeia que sai do mercado de insumos e fatores de
produção (antes da porteira), passa pela unidade agrícola produtiva (dentro da
porteira) e vai até o processamento, marketing, transformação e distribuição (depois da
porteira).

Resumindo, o termo agribusiness engloba toda a atividade econômica envolvida


com a produção, estocagem, transformação, distribuição e comercialização de
alimentos, fibras industriais, biomassa, fertilizantes e defensivos. Importante frisar o
foco na gestão, fator fundamental para o sucesso e desenvolvimento do agronegócio.
Com o estudo do agribusiness, não se pretende enfatizar processos técnicos de
produção, mas sim enfatizar os aspectos gerenciais, administrativos do agronegócio.
Enfim, é a visão de negócio que norteia essa disciplina.

Conforme pesquisas realizadas por Departamentos de Agricultura de diversos


países, o agribusiness representa um quarto da economia mundial e responde por cerca
da metade de seus empregos. Nos Estados Unidos o setor responde por mais de 20% do
PNB e cerca de 22% dos empregos. O Agronegócio no Brasil representa hoje 40%
do PIB nacional, sendo o setor de maior movimentação de bens do país, gerando
mais de 17 milhões de empregos diretos e indiretos. O gigantismo de nosso país, suas
riquezas naturais, seu clima tropical favorecem efetivamente no desenvolvimento
agrícola. Em nível mundial, a cadeia de agribusines é responsável por cerca de 59% dos
empregos e envolve ao redor da metade dos ativos empregados na atividade econômica
internacional.

No caso de nosso país, vemos que agricultores e pecuaristas necessitam de recursos


e informações para desenvolver com competitividade seu negócio. Muitas vezes são
eles excelentes produtores rurais mas não têm formação para serem gestores de
agronegócios.
“O cenário mudou bastante a partir do momento em que não é suficiente
conseguir produzir produtos. A abertura externa e a globalização contribuíram para
disponibilizar máquinas e equipamentos, sementes, fertilizantes e defensivos com
tecnologia de ponta aos agricultores de quase todo o mundo. Competitividade passou a
ser condição decisiva para continuar na atividade. A disponibilidade de mão-de-obra
barata deixou de ser vantagem comparativa expressiva. Os países foram induzidos a
13

explorar intensamente todos os recursos de que dispõem. A área plantada por cultura
aumentou para se adaptar à economia de escala das máquinas. E a sustentabilidade
passou a depender bem mais da capacidade da pesquisa em prever, identificar e
solucionar os problemas que vão surgindo, tais como pragas e doenças, e de baixar
custos de produção. Todos estes fatores interferem e contribuem para que se de maior
atenção ao agribisiness nacional e entra em cena o conceito de cadeia produtiva como
seu instrumento de análise.
O termo Cadeias de Produção (Análise de Filières) surgiu na escola francesa
de economia industrial. Esta cadeia de produção pode ser segmentada em três macros
segmentos: Comercialização, Industrialização e Produção de matérias-primas.

a) Comercialização: São as empresas que estão em contato com o cliente final


da cadeia de produção, que viabilizam o consumo e o comércio dos produtos finais
(supermercados, cantinas, restaurantes, mercearias e outros). Também pode ser
incluído neste macro-segmento as empresas de logística de distribuição.

b) Industrialização: São as empresas responsáveis pela transformação das


matérias- primas em produtos finais ao consumidor. Este consumidor pode ser uma
unidade familiar ou outra agroindústria.
c) Produção de matérias-primas: São as empresas responsáveis pelas matérias-
primas iniciais para que outras empresas avancem no processo de produção do
produto final (agricultura, pecuária, pesca, piscicultura, etc).

2.1 Principais Setores do Agribusiness

O maior negócio do mundo. Um conglomerado de atividades que tem e terá


grande aspecto “multiplicador” na economia do planeta. Dentro destas atividades do
agronegócio podemos identificar três setores dentro da cadeia agroalimentar:

1. “Antes da Porteira”: insumos, bens de produção e serviços para a


agropecuária;

2. “Dentro da Porteira”: Produção agropecuária;

3. “Depois da Porteira”: Processamento agroindustrial e distribuição.

As empresas que atuam no setor “antes da porteira” estão investindo pesado


em tecnologia e pesquisa para aumentar sua competitividade. Meia dúzia de empresas
transnacionais dominam este setor, sendo uma das maiores a empresa Monsanto dos
Estados Unidos. Outra característica forte neste segmento são as fusões, acordos de
cessão de tecnologia e compras de empresas.

“Dentro da Porteira”, a produção rural também vem passando por significativo


processo de concentração produtiva e aumento de eficiência e de produtividade. Este
processo evolutivo tem levado milhões de agricultores abandonarem suas propriedades
no mundo todo, bem como a concentração da oferta de matérias-primas vegetais e
animais nas mãos de menos propriedades – muito bem gerenciadas, altamente
14

produtivas e integradas eficazmente com o sistema que vem depois da porteira. Como
exemplo, pesquisas mostram que no Brasil 75% da produção de grãos originam-se de
25% dos estabelecimentos rurais considerados modernos, revelando a rápida e forte
mudança no perfil tecnológico da produção rural.

Finalmente, “depois da porteira” é onde se concentra o maior potencial de


mercado e desenvolvimento dos negócios. A eficiência cada vez maior da cadeia
competitiva do agribusiness, indo da franquia urbano ao pesquisador de tecnologia,
barateia o produto final, estimula o consumo e contribui para o aumento do consumo de
alimentos.

2.3. O agribusiness no Mundo

Conforme MEGIDO & XAVIER (1998: 303), “os negócios no mundo crescem
e são concentrados. 100 multinacionais controlam 1/3 do investimento global. Apenas
40.000 empresas controlam 2/3 da economia mundial. A atividade agropecuária foi a
que maior ganho de produtividade apresentou na economia mundial do século que
findou”. Alguns aspectos do cenário mundial precisam ser considerados:

a) Novas tecnologias liberam o tempo do agricultor para que este possa dedicar-
se a gestão e fatores de marketing da atividade e o prendem menos a práticas
tradicionais agronômicas ou veterinárias.

b) A intensificação tecnológica associada à maior vocação gerencial e de


visão integradora provoca um efeito seletivo intensivo entre a classe produtora,
diminuindo a número de produtores rurais, aumentando as áreas e a produtividade.

c) Cresce intensamente o hábito de comer fora de todas as populações do mundo.

d) Desenvolve-se uma consciência ambientalista e de compromisso com a


saúde, onde empresas de cigarros são obrigadas a pagar bilhões de dólares de
indenização por danos físicos aos consumidores dos Estados Unidos, por exemplo.

e) Surge a agricultura de precisão integrando os agentes do “antes da porteira”


em pacotes de tecnologia.

f) As companhias químicas dominam a engenharia genética.

g) A concepção dos produtos das companhias de alimentos e bebidas nasce


na concepção da engenharia de genes.

h) É crescente a consciência de preservação do meio ambiente e a combate à


fome tornou-se missão internacional.

Em nível mundial, o agribusiness é um setor econômico que envolve metado


da força de trabalho e dos ativos produtivos, além de representar 50% das despesas
dos consumidores. Com toda esta magnitude, o agribusiness aparece no centro das
15

mudanças em curso no mundo.

2.4. O Agribusiness Brasileiro

O complexo agroindustrial brasileiro:

a) movimenta mais de30% do PIB (cerca de R$ 600 bilhões);

b) mais de 40% da receita de exportação (cerca de US$ 50 a 60 bilhões);

c) cerca de 37% da mão de obra ou do total de empregos no país

d) utilização de mais de 50% da frota de caminhões

Neste cenário, o agribusiness brasileiro tem condições de ampliar ainda mais a


sua contribuição para o desenvolvimento econômico e social do Brasil. O agribusiness
brasileiro tem capacidade para crescer muito acima da média de outros países nesta
nova década. O aumento maior da produção permitirá, ao mesmo tempo, atender o
aumento de consumo e viabilizar saldo jamais visto na balança comercial, aliviando as
contas externas do País. Com políticas agrícolas adequadas e iniciativas de valor,
haverá crescimento do agronegócio e do interior do país, com redução das
desigualdades pessoais, setoriais e regionais na distribuição da renda e no
fortalecimento da proteção social.

Atualmente, o complexo agroindustiral tem sido o único setor da economia a


apresentar superávit na balança comercial. Os benefícios econômicos e sociais do
agronegócio são muito importantes e devem motivar a adesão da sociedade brasileira
aos programas que são criados visando o crescimento e desenvolvimento do setor. O
brasileiro das grandes cidades sabe pouco sobre o assunto, apesar da presença contínua
de produtos agropecuários no seu dia-a-dia, industrializados ou não.

A década de 1990 confirmou a competitividade do agribusiness brasileiro.


Mesmo com as perdas e dores provocadas pelos diversos planos econômicos, o setor
produtivo – e o agronegócio em particular – reafirmou a vocação de crescimento com
eficiência e eficácia.

O aumento maior da produção fez as crises históricas de abastecimento de


alimentos ficaram para trás, na poeira do passado. O consumidor tem muito mais
oportunidade de escolha, de construir uma dieta variada, mais barata e com alimentos de
qualidade.

A tecnologia continua avançando e modernizando o campo. O uso de


fertilizantes praticamente dobrou nos últimos dez anos. A genética animal e vegetal
jamais incorporou tanta produtividade e ainda traz consigo um leque de alternativas
biotecnológicas. O plantio direto é exemplo mundial de modificação no processo
produtivo: economiza insumos, reduz a necessidade de máquinas e protege o solo e o
meio ambiente.
16

No teste do mercado global, o agronegócio se consolida como o maior gerador


de saldo comercial no Brasil, pela competitividade em custos e qualidade de produtos,
apesar do protecionismo internacional, apesar da timidez do nosso marketing.
(Congresso Brasileiro de Agribusiness).

2.5. Análise Setorial do Agribusines

Faremos a análise setorial do Agribusiness sob o aspecto “Antes da Porteira”,


“Dentro da Porteira” e “Depois da Porteira”.

Se analisarmos o quadro e reunirmos os setores do agribusines, veremos


excelentes oportunidades de investimento em todos os setores, sendo que alguns têm
buscado pesados investimento em pesquisa e tecnologia, como os vinculados ao setor
“antes da porteira”, com a finalidade de maior competitividade e para proporcionar
maior produtividade para aqueles que atuam “dentro da porteira”. Um desses setores é o
de insumos agrícolas.

Vários segmentos da economia estão vinculados com o agronegócio, com alguns


exemplos que veremos a seguir:

No “antes da porteira” temos o setor de insumos agrícolas, preparação de


sementes, pesquisas realizadas pelas empresas visando dar maior produtividade no
campo, política de crédito disponibilizada pelo Governo para financiar a produção
agropecuária, fabricação de máquinas e implementos agrícolas para facilitar o trabalho
no campo, entre outros.

No “dentro da porteira” está o segmento da produção agropecuária, que são


agricultores e pecuaristas que trabalham dentro de suas propriedades plantando e
colhendo alimentos “in-natura”.
No “depois da porteira” teremos todos os segmentos que atuam na distribuição,
industrialização e comercialização e consumo de alimentos. Empresas de transporte,
agroindústrias, supermercados são segmentos da economia vinculados ao agronegócio
após a saída da matéria-prima do campo. É o setor de processamento e manufaturados.

2.6. Gestão da Produção Rural no Agronegócio

Desde a década de setenta tem-se observado crescentes e rápidas mudanças e


quebra de paradigmas na sociedade. Em todos os setores houve uma crescente
competição global, fragmentação e pulverização de mercado, além da recomposição
da escala de produção com orientação focada no cliente. No agronegócio, as margens
de lucro ficaram cada vez mais estreitas e a crise dos mecanismos tradicionais de
política agrícola mudou radicalmente.

Dessas transformações está surgindo um novo posicionamento para as


propriedades rurais, onde se busca praticar uma agropecuária moderna e intimamente
ligada às agroindústrias ou canais de distribuição. Diante desta busca de
competitividade, as propriedades rurais estão procurando novos modelos para o padrão
gerencial e operacional, considerando o consumidor como principal agente definidor
dos padrões de qualidade. Redução de custos e maior faturamento fazem parte
17

deste novo modelo produtivo de propriedades rurais. O segredo é agregar maior valor
possível ao produto. Nos dias de hoje convivem lada a lado empreendimentos rurais
destinados à subsistência familiar e empreendimentos modernos economicamente
saudáveis e tecnificados.

No Brasil de hoje, convivem empreendimentos rurais nos mais diversos estágios


de evolução. Conforme censo agropecuário do IBGE de 1995/1996, 64% das
propriedades rurais fazem parte da agricultura tradicional com pouca utilização de
tecnologia. Embora todos os empreendimentos rurais sejam constituídos por elementos
de caráter técnico, econômico e gerencial, são por eles afetados com diferente
intensidade dependendo de seus respectivos estágios de evolução.

A resistência do produtor à adoção de inovações tecnológicas e pouco


dinamismo na implementação das inovações é comum à grande parte dos
empreendimentos rurais, mesmo quando estas alterações são técnicas ou
economicamente necessárias. Também quando ao suporte técnico existe resistência,
pois mesmo estando disponível a grande parte dos produtores rurais, esta assistência
técnica se mostra incapaz de atender suas necessidades. Falta infra-estrutura mínima,
os técnicos não são adequadamente remunerados e os sistema de geração e difusão de
conhecimentos, na maioria dos casos, não permitem que as informações sejam
transmitidas aos técnicos e produtores.

Outro ponto crítico diz respeito aos aspectos creditícios ou financeiros. A


atividade rural apresenta maior risco com relação às outras devido as suas peculiaridades.
A atividade rural está sujeita à sazonalidade da produção, variações climáticas, tipos de
solos e formas de manejo. Além disso, os preços dos produtos agrícolas, em geral,
oscilam muito em função de pequenas variações na oferta.

O capital necessário é, em grande parte, constituído por recursos próprios,


normalmente insuficientes, e por recursos institucionais, privados ou estatais. Os
recursos institucionais são obrigatórios e seu valor é definido pelo Conselho
Monetário Nacional, onde 25% de tosos os depósitos ä vista da rede bancária devem
ser direcionados para a atividade rural. Existem alguns programas do Governo
Federal como o PRONAF(Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar), que
é onde há interesse do estado em promover algum tipo de política agrícola. Só que
estes recursos são escassos existe irregularidade na liberação de tais financiamentos
e estão sujeitos à pressões políticas internas e externas, às variações orçamentárias
e nos mecanismos de repasse, lentos e burocráticos.

Outro aspecto relevante diz respeito a gestão. A gestão do empreendimento


rural, que compreende a coleta de dados, geração de informação, tomada de decisão
e ações decorrentes, é insuficientemente tratada na literatura. Os trabalhos existentes
nesta área estão restritos aos aspectos econômicos da gestão do empreendimento
(custos, finanças e contabilidade). São incipientes os esforços dedicados a outras
ferramentas de gestão tais como definição do produto e do processo de produção,
sistema de qualidade, planejamento e controle da produção e logística, entre outras.
Além disso, os mecanismos de divulgação não são suficientes para capacitar o
produtor na implementação e utilização das técnicas disponíveis. Um grande
obstáculo está na cultura do produtor que privilegia os investimentos para a
produção.
18

É preciso mudar, principalmente “dentro da porteira”, seja por “modo próprio”


ou por imposições descidas via cadeia agroalimentar. São essenciais: dinamismo do
produtor buscando maior competitividade; racionalização de custos, adotando manejo
de pragas, rotação de lavouras, genética dos animais; planejamento escalonado de
plantio; informações sobre tecnologias e mercados, buscando a criação e ativação de
informações capaz de abrir janelas para o mercado mundial ou para as fronteiras da
tecnologia agronômica e da gestão econômico-financeira da produção.

Dentro deste contexto, vimos a necessidade dos empreendimentos rurais


assumirem características empresariais, pois as alterações no ambiente sócio-econômico
e institucional vem impondo às cadeias produtivas agroindustriais significativas
mudanças. Provavelmente, a mudança mais difícil seja a da própria cultura do
produtor rural. As possibilidades de viabilização do empreendimento rural passam
necessariamente pela mudança de atitude dos produtores. Sem acreditar que essas
mudanças sejam realmente necessárias para enfrentar a intensa competição dos
mercados, a chance de sucesso é bastante reduzida.

O produtor precisa compreender esta nova realidade comercial, que impõe


articulação com os segmentos “antes” e “depois” da porteira, novas formas de
negociação e práticas de gestão do processo produtivo. Além disso, é necessário
encontrar um ponto de equilíbrio entre a articulação com os agentes da cadeia de
produção e a conseqüente perda de poder de decisão, em troca de maior
rentabilidade e estabilidade proporcionadas.

Nos empreendimentos rurais de pequeno porte, deve ser levado em consideração


os aspectos artesanais de produção, que atendem a uma demanda diferenciada e
específica, pois não são produtos sofisticados do ponto de vista tecnológico mas
carregam características de produtos saudáveis.

Para os empreendimentos rurais de grande porte, os esforços dever ser dirigidos


no sentido de avaliar o potencial de mercado e sua capacidade para a adoção da
melhor estratégia ou combinações delas.

Independentemente do porte do empreendimento rural, as tendências de


consumo indicam excelentes perspectivas para a produção rural. O mercado interno
apresenta significativo potencial, as exportações mundiais tendem a se especializar e há
significativa diversidade de oportunidades agropecuárias ainda não suficientemente
exploradas.

Como regra geral, vemos que o grande valor para viabilizar a propriedade rural
está na qualidade gerencial. Isto significa a administração das compras de insumos e
fatores de produção, a condução do processo de produção e comercialização dos
produtos e o uso da informação no processo de inovação e aperfeiçoamento das
propriedades rurais.

O objetivo constando dos agricultores é a busca da melhor eficiência, através


da economia de escala e de ganhos de produtividade, para manter a unidade produtiva
viável técnica e economicamente.