Revista do Núcleo

de Estudos
Afro-Asiáticos
da UEl

Expediente sumário
Universidade Estadual de Londrina Editor executivo
Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA) Carlos Alexandre Guimarães
Reitora
Nádina Aparecida Moreno Secretaria Editorial
Flávio Carrança
Vice-reitora
Berenice Quinzani Jordão Capa, projeto gráfico e diagramação
Naima Almeida e Natália Tudrey
6 EDUCAÇÃO, CORPORALIDADE E
Coordenadora do NEAA RACISMOS CONTEMPORÂNEOS
Rosane da Silva Borges Revisão Editorial Rosane da Silva Borges
Flávio Carrança

Coordenações de área do NEAA

Educação e Ações Afirmativas
Nguzu – Ano 1, n. 1, março/julho de 2011
Revista do Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA)
Dossiê Temático
Maria Gisele de Alencar da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Rodovia Celso Garcia Cid | Pr 445 Km 380 | Campus 10 O CORPO NEGRO: SENTIDOS E SIGNIFICADOS
Arte e Cultura Universitário Isildinha Baptista Nogueira
Marcia Dermindo Cx. Postal 6001 | CEP 86051-980 | Londrina – PR
Fone: (43) 3371-4000 | Fax: (43)3328-4440 14 PERSONAGENS EM POSIÇÕES HIPOTÉTICAS: CONSUMO,
Comunicação Email: neaa@uel.br CORPO E SUBJETIVAÇÃO NA CULTURA DAS MÍDIAS
Silvia de Castro Laura Guimarães Corrêa

Pesquisa e Documentação Conselho Editorial 22 RACISMO E BIOPODER: UM CASO NO RIO DE JANEIRO
Carlos Alexandre Guimarães e Rosane da Silva Borges 1. Alex Ratts (UFG) CONTEMPORÂNEO
2. Álvaro Roberto Pires (UFMA) Renato Noguera e Carla Cristina Campos da Silva
Articulação Comunitária 3. Amauri Mendes Pereira
Manoela Fernanda Silva Matos 4. Ari Lima (Uneb) 28 CORPOS NEGROS EDUCADOS: NOTAS ACERCA
5. Carlos Benedito Rodrigues da Silva (UFMA) DO MOVIMENTO NEGRO DE BASE ACADÊMICA
Relações Internacionais 6. Maria Aparecida Moura (UFMG) Alex Ratts
Dejair Dionísio 7. Denise Botelho (UFRPE)
8. Edna Rolland 40 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL: PRETINHO (A)
Secretaria 9. Edson Lopes Cardoso (SEPPIR) EU? DISCUTINDO O PERTENCIMENTO ÉTNICO
Cibele Candeo Leite 10. Elena Andrei (UEL) Ralime Nunes Raim
Dirce Meneguelli de Sá 11. Flavia Matheus Rios (USP)
12. Heloísa Pires 50 REFLEXÕES SOBRE NOSSAS CONSTRUÇÕES INTELECTUAIS
Assistente de Educação e Documentação 13. Joselina da Silva (UFC) E POLÍTICAS ACERCA DE “RAÇA”
Vaudice Donizete Rodrigues 14. Kabengele Munanga (USP/SP) João Batista de Jesus Felix
15. Kia Lilly Caldwell (Univ. North Carolina at Chapel Hill)
Estagiária de biblioteconomia 16. Leda Martins
Elza Ribeiro Bueno 17. Ligia Ferreira (Unifesp)
18. Lucia Helena Oliveira (UEL)
19. Marcelo Paixão (UFRJ)
Propostas Pedagógicas
Comitê Editorial 20. Maria Nilza da Silva (UEL)
21. Matheus Gato de Jesus (USP) 62 POR QUE ENSINAR A HISTÓRIA DO NEGRO NA ESCOLA
Coordenação 22. Nei Lopes BRASILEIRA?
Carlos Alexandre Guimarães 23. Nelson Inocêncio (UnB) Kabenguele Munanga
Rosane da Silva Borges 24. Nilma Lino Gomes (UFMG)
25. Roberto Borges (CEFER-RJ) 68 O ensino de sociologia e a lei 10.639/03:
Editora científica 26. Sueli Carneiro (Geledés/SP) cultura afro-brasileira no livro didático
Rosane da Silva Borges 27. Wilson Mattos (Uneb) Crisângela Biassi de Almeida

76 LITERATURAS AFRICANAS DE LÍNGUA PORTUGUESA
EM SALA DE AULA: UMA POSSIBILIDADE?
Claudia Vanessa Bergamini

85 A ENUNCIAÇÃO DO POSSÍVEL: AS COTAS RACIAIS E A LEI
10.639/03 TRANSFORMANDO A REALIDADE DA POPULAÇÃO
NEGRA EM LONDRINA
Márcia Figueiredo Tokita e Maria Gisele de Alencar

Negras Reflexões

94 DO DIREITO À PALAVRA AO PODER DE ENUNCIAÇÃO
DO MOVIMENTO NEGRO NO BRASIL
Jacques D’Adesky

106 RAÇA E GÊNERO: ENTRELACES RACISTAS VERSUS
AFIRMAÇÃO IDENTITÁRIA NEGRA
Maria Anória de Jesus Oliveira

116 A REDENÇÃO DO OLHAR: UMA ABORDAGEM SEMIÓTICA
Nelson Inocêncio

Entrevista

126 ANHAMONA DE BRITO

Poesia

132 DEUSA DO RIO IEWÁ
Ricardo Nonato Almeida de Abreu Silva

fundamentada em uma leitura racial. Corporalidade praticamente inalterada a marca histórica de 92% da masculinidade nas vítimas de homicídio. argumentos enviesados que. office-boy – não deixam margem a dúvida. tanto. Organizações anti-racistas atentas às O número de homicídios entre a população negra é ex. de 1970. e vêm estimulando a renovação do senciamos na paisagem cotidiana é desalentador: os ín. também da UFFRJ. somente permanecem. triste eloquência. com Uma pequena mostra de artigos referentes ao tema Anória de Jesus. de São Paulo”. sob a chave da pós-modernidade energias. os jovens negros. outros contributos não menos importantes referência O assunto. 33). Marcia Figueiredo Tokita e Maria Gisele de Alencar. o que é pior ainda. tivas da Secretaria Especial de Políticas de Promoção episódios contemporâneos que revelam a pertinácia tomam a discriminação racial como nexo prioritário nhecimento capazes de contribuir para a compreensão da Igualdade Racial (SEPPIR). e da socióloga pós-graduada Em tempos de narrativas hipermidiáticas. da professora doutora Maria do NEAA (Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos). psicanalista e “extermínio”. importa destacar das altercações são as relutâncias em e da cibernética. negros. A estética negativa do estrangeiro lastreia sempre os Além do dossiê temático. da socióloga e co- ordenadora do Programa Diversidade Étnico-Racial na cleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA) e coordenadora editorial da revista Nguzu. em franca decadência. próprias de sua concepção edi- quando retornava para casa em Guarulhos e do office. entanto. as contribuições do Laboratório de Inteligência Artifi- laridade nacional. torial para dar continuidade ao compromisso de ser um -boy pelos seguranças do banco Itaú integram uma lista admitir a centralidade do racismo nas ações discrimi. (UNEB) e do professor Nelson Inocêncio. mesmo resultando em vistos em conjugação. Rio de Janeiro: Vozes. Na Colhemos da língua banto o nome da publicação. da Universidade Federal do Tocantins (UFT). O que pre. p. Renato Nogueira. seção “Interlocuções”. educativa. pesquisador do Centro de Estu- porte impresso. a noção de sujeito e subjetividade derivada do Como qualquer iniciante. que intelligentsia brasileira. estruturas sociais. cialmente de jornais impressos e televisivos com capi. Com as informações emitidas pelo corpo. da pós graduanda em Letras da prática é alemão. o corpo é categoria importante na SODRÉ. mas sua incidência é transnacional da UEL. Oxalá cumpramos esse papel. a vitimização entre jovens negros tem índices muito altos. a revista Nguzu é também manufaturada no su. incluindo-se aí também Uma ótima leitura e até o próximo número. Tais afirmações. sob uma perspectiva educativa. docente do -se como um espaço demarcado para dar visibilidade afirmam solenemente ser o Brasil um país isento de gens da corporalidade e dos racismos contemporâneos. pelos aportes relações raciais. Nguzu espera manter tam (os assassinatos do dentista negro em São Paulo Sem nos estendermos sobre essa contenda. De Descartes. em constan. o outro. as concepções sobre o corpo passaram por debate por meio de fóruns concernentes ao racismo e dices exorbitantes de mortalidade de jovens negros não radicais avaliações. presentes na agenda dos suportes informativos. Enfileiram. o corpo como um vasto território mar- cador de sentidos e significados. Visto como um elemento vital para bibliográfica mensões exponenciais. apresentamos a poesia do escritor Raimundo Nonato. te interrogação. onde os múltiplas faces da discriminação racial vêm denun. do Departamento de pode entrar em clubes. pelo menos desde a década tes reflexões que apontam para a superação do corpo reflexões” contamos com os artigos do professor dou- virtual. Minas Gerais. traço por traço. práticas racistas. como sabido. professora adjunta do cur- so de Comunicação Social da Universidade Federal de Em seu número de estreia. paradoxalmente. Anhamona Silva de Brito. E na seção “Literartes”. a decisão cotidiana sobre quem doutor Kabengele Munanga. do professor doutor Alex Ratts. ras graduadas pela UEL. seção “Propostas Pedagógicas” os textos do professor le de rostos). com verniz de seriedade. como era de se esperar. se desvencilhe de qualquer recorte racial. restaurantes de luxo ou Antropologia da Faculdade de Filosofia Letras e Ciên­ mesmo ser aceito para seguros de automóveis. a cada ano. Departamento de Artes Visuais vinculado ao Instituto às reflexões e pesquisas ancoradas no campo das rela. como crescem vertiginosamente africana. ponto ordenador das mente. No como Michel Foucault e Gilles Deleuze. da Universidade Estadual da Bahia. por definição. portanto -se argumentos propugnando uma práxis política que Muito se tem insistido de que o corpo e. No tópico “Negras textos encontram abrigo preferencialmente no espaço ciando sistematicamente. buscam problematizar e aprofundar questões teóricas. Corporalidade faixa etária. definição das relações sociais africanas. beirando um cenário de De um modo ou de outro. Tais episódios fizeram-se razoavelmente natórias impulsionadas por um fundamento racial. das pesquisado- (1999. podemos entrever essas reflexões nos textos de Isildinha Baptista. o que cartesianismo estão. Muniz. ou seja. alcança di. das singularidades do racismo na contemporaneidade. pela UEL. estudos e reflexões sobre significativa). por. cial do MIT. institui. dores de opinião pública e apresentam-se como uma tornam públicos os resultados de investigações empí. de Laura Guimarães Correa. órgão que essas estatísticas convivem. Crisângela de Almeida. espe. a incidência majoritária de assassinatos nessa e ascensão do pós-humano? De que maneira reinserir tor Jacques d’Adesky. a nossa convidada é a doutora significa energia. O mencionado quadro. Cláudia Vanessa Bergamini. agremiações políticas. Como reposicionar o debate em meio às emergen. continua doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo. uma publicação constitui nenhuma novidade. 6 7 . irremediavel. e da mestranda Carla Cristina da Sil- Borges uma das primeiras fronteiras de violação do humano. 1999. “o Mapa da Violência 2011 mostra que a equilíbrio de algumas sociedades. plosivo e. do racismo em sua ação implacável de abater corpos para a superação das assimetrias no Brasil. de Artes da Universidade de Brasília – UnB e coordena- ções raciais no Brasil e em outros países da diáspora. a revista Nguzu toma. ainda são sustentadas por frações da crítica e analítica. Ralime Nunes Raim. Os artigos aqui reunidos sobre o tema dor do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UnB. O nome cias Humanas da USP. Nguzu. Claros e escuros. do que esses corpos significam e represen. Contemporâneos Professora Doutora. Com o tema Educação. é por ele que se classifica e se categoriza as pessoas. Convertendo-se em Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). é va. os exemplos aqui elencados – do dentista e do da medicina e da psicanálise. da Universidade Federal de Goiânia. da Universidade do Estado da Bahia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). esculpimos Educação de Montes Claros/MG. boates. do professor de filosofia e educação da e Racismos Rosane da Silva desse modo. Segundo reportagem do jornal “O Estado ampliam o painel. Muniz Sodré já nos advertira: e do professor doutor João Batista de Jesus Félix. O que causa espécie é pensarmos na sustentação do racismo? e professor da UNESA. passando por filósofos canal difusor das pesquisas. coordenadora do Nú- pelo corpo que se circunscreve as (im)possibilidades do ser. Após uma década (1998-2008). Em perspectiva da epistemologia à violência no Brasil. para os elevados índices de mortalidade entre vitimização juvenil por homicídios continua a crescer. não a gramática corporal como um vetor importante para dos das Américas da Universidade Cândido Mendes e Racismos Contemporâneos. Educação. e nos conduz. demonstra nesta publicação a diversidade de aborda. forma. secretaria de Ações Afirma- A escolha desse dossiê temático foi motivada por reação conservadora à adoção de políticas públicas que ricas e estabelecem diálogos com outras áreas de co. a Nguzu apresenta na julgamentos na prática do Gesichtskontrolle (contro.

dossiê temático .

configurations que constituent l’univers psychiques. os libertaria do cativeiro. à partir de l’hipothèse suivante: que cette realité historique histórico-social determina. tradições e religiões no campo. situação que perpetuava a imagem anterior. nos A noção de “ser humano” que temos hoje. sociale determine. teve origem A promulgação da “Lei Áurea” que supostamente destacamos por nossa capacidade de dar significados no Renascimento. Chico (org. periências diárias e dizer que. que produit de l’interaction dialectique entre. les Desenvolvimento Humano da Universi. univers psychiques. que demandará tualiza”. fundamentalmente. méstico. culos à existência de um país escravagista no cenário próprios de cada grupo étnico social. onde se criaram novos conceitos. mundial. de outro. mudam. com sentido e significação. histórico social. um conjunto de o homem passa a ser visto como centro e modelo do na ordem econômica e política. de Por mais de três séculos. sócio-econômica. resultado da transculturação. periências para além de um terreno anteriormente in. 2001. brutalizados e animalizados pelos senhores. as principais atividades inseridos na sociedade. não mudaram? SER HUMANO faltaram estudos que os compararam aos animais. econômicas mercantes brasileiras basearam-se no tra. Construímos uma cultura. foram comparados a ca dos indivíduos e dos grupos sociais constituem um a organização entre os semelhantes dificultadas. obrigadas a conviver. partindo da hipótese de que essa realidade cisme. uma entidade “naturais”. o que animais e vistos como incompetentes. empírica. se pensa e se percebe de uma época para outra. Isto é possível porque o ser humano se “concei. uma construção do pensamento. a remunerada para seu auto-sustento. ra- cismo. de um lado. que são ideologicamente suas identidades originais. que começava a ser feito pelos imigrantes. turação é uma consequência natural na relação entre INTRODUÇÃO diferenciado. Em línguas diferentes. cada sistema cria seus teóricos que o jus. uma ética que permita e por ser histórico. Restava aos negros o trabalho do- mais diversos fatores. Ao perderem dos indivíduos e dos grupos. Foram 320 anos de escravidão. ra. os negros tações sobre o negro e o seu lugar na sociedade não se viam destituídos da sua condição de humanos. mundo. os indivíduos se comportam segundo essa Trazidos de diferentes regiões. balhava em troca de ração. mecanicista. d’autre part. as represen. para os negros. historique sociale. Os abolicionistas mostravam grande indigna- princípios de conduta. seus valores. melhores condições de acesso à cidadania. sócio-economiques. ção pelas condições de cativeiro dos negros. formam o universo psíquico. a despeito das lutas por Vivendo em péssimas condições nas senzalas. Libertos. configurações psíqui. foi antecedida por mudanças às coisas. Les Mots Clé: noirs. les repre- Psicanalista.dossiê temático O Corpo Negro: Sentidos e Significados RESUMO RESUMÉ Este artigo tem como objetivo refletir a dimensão psíquica da Ce article se propose à réfléchir sur la dimension psychique du ra- questão do racismo. cos. os ex-escravos vagavam desorientados. que criaram olhares específicos. que colocavam obstá- crenças e costumes. assim como a vida psíqui. Rio de Janeiro: em que o negro. quando comparados aos europeus que para causal simples. consequentemente. Garamond. As representações sociais funcionam como uma 1. uma concep. os negros tinham portanto a comunicação e Dadas suas condições de vida. ganham nova identidade. dade de São Paulo. Nogueira Refletir sobre a condição do negro como produto da interação De cette réflexion. com o tema: Signi- ficações do corpo negro. como forma de resistir à Como falar acerca de representações psíquicas e ex. Entre cativos e mortos. justi- A sociedade é. sa lógica”. ALENCAR.). isto é. Supunham que. Como seres humanos. a vida coletiva. as configurações que qui les ont produit et continuent à les réproduire et. 11 . mas depende dos cá vieram trabalhar. assim. portanto. cisme. 24. A acul. diversas. Assessora do Instituto AMMA Psique e Negritude. puderam pensá-los como indivíduos que deveriam ser determinado grupo. opressão causada pelo processo de escravização. Palavras chave: negros. indolentes. as estruturas sócio-econômicas que as sentations sociales ideologiquement structurees sócio-economiques Departamento de Psicologia Escolar e do produziram e as reproduzem e. falando. Direitos mais humanos. cultura está condicionado a uma lógica que determina África perdeu 70 milhões de pessoas do século XV ao que viver em sociedade é estar “sob a dominação des. saindo da con- pertencimento a essa organização. d’une part. pour les noirs. as condições em que viviam como sendo ção. sem terem consciência desse mecanismo. tal como besta fera domesticada. des configurations psychiques Isildinha Baptista cas peculiares. o negro trabalharia como mão de obra O conjunto das representações que constituem a balho do negro escravizado. j’essaye de definir la condition du noir en tant dialética entre. tifiquem. dição de escravo. tendo cultura. Doutora em Psicologia pelo camente estruturadas. E SER NEGRO ficando. as representações sociais ideologi. XIX1. sem condições para seu auto-sustento e sem trabalho lógica. tra- rede onde as malhas estabelecem os domínios das ex. universo psíquico. preguiçosos e complexo processo que não corresponde a uma relação favorecia o controle dos senhores de escravos. e fixam os limites dos comportamentos culturas diferentes. consequência. mas não garanta a cada um dos indivíduos pertencentes a um tumes e leis. a necessidade que lhe é natural. pg. particuliéres. estruturados.

ine. se impõe inexoravelmente. utilizando cante. Claros e escuros. totalmente O preconceito é próprio da natureza humana. das Ser branco significa uma condição genérica: ser branco implicações histórico-políticas do racismo. Cleusa. assim fragilizado. diversidade. Eduardo Soares. o desejo de “brancu. para critério para a compreensão passa a ser o da superio- to. mas jamais da condição de escravos. O negro pode ser consciente de sua condição. tade moral. NEGROS? recedores de possibilidades sociais iguais. discriminação e racismo. a civilização. mídia no Brasil. Suas estruturas psíquicas são contami. livres do cativeiro. o branco suficiente conhecimento. Textos de como a identificação com o agressor. Isto. o negro possa desconsiderar tais ameaças termos determina e demanda diferentes sentidos. o objeto amado ou odiado. simultaneamente. Desde essa época. transcende qualquer falha do branco. não importando a nadas pelas condições objetivas . 1930. São Paulo: Companhia das Letras. reagindo. o racismo é a expressão violenta da discri- Tal processo não é imediatamente verificável. o real do seu próprio corpo. científico. portanto. 1995. e ser o outro é não ser o próprio sujeito. através da imitação ou da pria “humanidade”. de física a psíquica) por parte dos brancos.a partir das quais são ideal de brancura permanece. vista da perspectiva do olhar do negro incabíveis legalmente − já que criminosas. estabelecendo-se que a princípio seria natural no ser humano. 1870- supostamente aquém do valor das propriedades bioló. o neutro da huma- não impede que ele seja afetado pelas marcas que a re. significa não ser to diversidades e especificidades da outra cultura. etc. a características biológicas nada separa o real do imaginário. parâmetro de pureza artística. Isildinha Baptista. gicas atribuídas aos brancos. tornando-os sujeitos cati. do de maneira apaixonada. Bibliográficas as coisas simultaneamente. não me. Assim. nobreza estética. como fica o negro que se confronta explicitamente. os negros têm O QUE SOMOS sofrido toda sorte de discriminação que tem como base a ideia de que são seres inferiores e. Graciela Rodriguez. não se faz necessária a presença física só não guarda nenhuma semelhança com o real de seu diferença pela “desconstrução” da outra cultura. SODRÉ. para além de seus fantasmas. Rio de Janeiro: O “ser negro” corresponde a uma categoria inclu. as fantasias estão. supostamente baseadas ALENCAR. portanto. acesso ao mundo. O intuito. que o nação do modo como a realidade sócio-histórico-cultu. que mostra reconhecer nele o terminável. oprimido. aí uma confusão entre o real e o imaginário. Faz parte da natureza conscientes de que nenhum de nós existe à parte das assimiladas e incorporadas. Luis é internalizado. absurdas. a pró. que seja adequado nos lembrarmos que cada um desses próprio corpo. em termos aquilo que me diferencia do outro. cien- inferiores mas. Jorge Werthein. minação.que recebem no plano tado das atitudes racistas e irracionais dos brancos. mas forte o bastante para que. Embora o negro saiba que sua condição é o resul. São Paulo: Ática. tão complexas quanto essas que envolvem a discrimina. contraditórios e instáveis. Esse mecanismo é o que a psicanálise caracteriza que se possa ser o outro.) Racismo significado que a pele negra traz enquanto significante? terror de possíveis ataques (de qualquer natureza. a discriminação é em sua psique. com a expla. declarações e também a capacidade de contradizê-los. ou ambas cesso psicológico da ordem do inconsciente. pela negação do Ainda que lançando mão de um arsenal racio. negro. estigmatizados. seus sentidos e significados. relação ao outro. da vontade do outro. que desta forma na relação com o outro − e no ideal de brancura − não em “conhecimentos científicos”. como a melhor forma de organização social. povo e é o olhar do outro. foi o de contribuir enquanto psicanalista. mas é por este negada. esses termos como se tivessem um só significado. instituições e questões raciais no Brasil. mas antes sobrevive em um devir in. 12 13 . Visto que costumamos. portanto. com o olhar do outro. de “direitos civis” − é mais forte que ele: o negro acaba aquilo que pretensamente autoriza o indivíduo à exclu- Sabemos que as condições sócio-econômicas e a cura se contrapõe ao mito negro. alheio à sua vontade. 2001. negro uma angústia que se fixa na realidade exterior e dir preconceito. dentro e fora. o negro passa a se auto-rejeitar. NÓS. Pedro Ca- do agressor. Estarmos cientes dessas diferenças é importante dições objetivas. A “brancura” passa a ser momento histórico e econômico. na maioria das vezes acaba por atravessar os limites da Garamond. O signo “negro” remete não só às posições sociais vergonhado de si. leis e outro. E o ou ódio pela incorporação das propriedades do obje. Identidade. que representa o significado que ele tenta negar. en. A ideologia racial. marcados pela ser outro. racistas que parecem grotescas. Petrópolis: Vozes. ser sujeito é foram marginalizados. (Orgs. cria para o do negro. se funda e se estrutura na condição univer. o desejo de recusar esse signifi. como única via possível de Como seres humanos. Direitos mais humanos. Nasce em nós. É eviden- jeta. Lilia Moritz. a manifestação da razão. Significações do corpo campo etnossemântico onde o significante “cor negra” to em um autômato: ele se paralisa e se coloca à mercê expressão violenta da diferença que parte da descons. penso negando-se dessa forma a si mesmo. rentes ao ser humano. estejamos inconsciente elaboração própria . O espetáculo das raças. os negros eram. to essa marca pudesse representar. de um estigma. majes. dela excluídos jeito “outro”. pelo qual onde as diferenças e semelhanças são negadas. entrará em ação. isto é. des. sempre por sucumbir a todo um processo inconsciente são do outro. nidade. ser sujeito no outro. que. que deve ser negado. É o que analiticamente (para a psicanálise) se dá encarna todas as virtudes. 1998. de cor no Brasil. Nilton Bonder. SCHWARCZ. temos a capacidade de estabelecer princípios. caso do negro. nesta breve reflexão acerca de questões tistas. É evidentemente confuso esse pro. à alteridade. Negar e anular o próprio corpo nos torna o su- ço na sociedade. assim. Tese (Doutorado em Psicologia) – Univer- encerra vários significados. ao amor os negros passam. te que essa defesa apaixonada se dá por comparação. se vê exposto a uma situação em que inferioridade de certas etnias. o pois nossas reações são relativas à demanda de um dado área específica de atuação e conhecimento. enquan. ída em um código social que se expressa dentro de um Esse processo despersonaliza e transforma o sujei. Mas esta imagem de si. Muniz. vos e mantenedores de tais condições. D. em que o sujeito intro. Se o que constitui o sujeito É justamente porque o racismo não se formula ção em relação aos negros. corpo próprio. para que. VENTURI. pode e saldaliga. confun. resultando no que seria a base do racismo. Arthur Dapieve. cada qual defenda sua cultura no processo de identificação. parcial ou totalmente. Gustavo. de fato. 2000. baseado na suposta sidade de São Paulo. no cor que os diferenciava e discriminados por tudo quan. é alidade sócio-cultural do racismo deixaram inscritas ra”. a mais completa análise sobre o preconceito Resta ao negro. a bran. enquanto profissionais. do ser humano o preconceito. também. com base na biologia de conhecimento ideologia moldam as estruturas psíquicas dos homens. A brancura. Chico. via de regra. pois as sal e essencial da brancura. visto que só existimos como sujeitos em e impedidos de desfrutar de qualquer benefício social. enquanto uma possibilidade virtual. TURRA. espírito e das ideias: a cultura. sentimento formado sem estruturas de poder e dominação. Referências incorporação. passam a garantir essa Frei Betto. trução e da eliminação do outro. ral do racismo e da discriminação se inscreve na psique cordial. O sujeito. portanto. nal lógico. sabedoria científica. NOGUEIRA. forjada ridade ou inferioridade que. mas isso constitui o elemento não marcado. dossiê temático Embora juridicamente capazes de ocupar um espa. onde o indivíduo se autoriza à eliminação do representações psíquicas não são puro reflexo das con.

Palavras chave: mídia. valores. sujeitos e agentes da vida social. Os sujeitos produzem e reproduzem decodificação” (Hall. subjectivity. como num namo. they see themselves in society. um nos contatos com a mídia. e Macabéa.Pecola. Os prédios da pequena ilustração têm palavras. subjetividade. mento e tensão. sua cultura. que organizam Lispector.). utilizadas as três posições hipotéticas de decodificação propostas pothetical positions for the reader. e (b) meiro plano. a moça re. com estereótipos. têm Nas interações comunicativas que se estabelecem concordância ou de adesão aos sentidos preferenciais. bilidade) e o GrisPop (Grupo de pesquisa sobre interações midiáticas e práticas culturais contemporâneas). encarnados em coisas os discursos da mídia.401) que os prédios são feitos de colunas de jornal e que o processo de subjetivação só pode ser entendido dentro rádio tem um inesperado nariz.esse sistema de sig. sentido.. outro e da sociedade. Portanto. Partimos da premissa de que o sujeito é construído coincidir com o que é ‘natural’. nificações feito de códigos e rituais que dá sentido à domínios discursivos através de códigos sociais. ainda assim. isto é: na troca significados. In both novels chosen. Key words: midia. são their ramifications. protagonista d’A hora cessos identitários. diz/escreve/mostra será recebido exatamente como se A proposta deste trabalho é pensar o diálogo que se nicação midiática. 2003. negociados. está envolta pela mídia. protagonista do romance de Clarice valores e as instituições sociais . com um varal de roupas e uma paisa. Para Stuart Hall.. em permanente estado de movi. construí. em pri. e do modo como se colocam diante de si mesmas. de Clarice Lispector. as relações que media culture in which they are immersed. velop this theme. Em escolhidas para instigar a reflexão são Claudia e Pecola. eu enviesado (. O respeito da ordem social. o narrador d’A Hora da Estrela situações-padrão. Macabéa. recados e afetos. body. Em técnica mista. não há garantias de que aquilo que se antes inanimadas. tem vida. corpo. Hall 15 . que nos situa e nos constitui como sim. A relação que as três Mesmo considerando a proliferação e a complexi- jovens estabelecem com os produtos e as figuras da mí. To reflect upon these relations and Para a discussão sobre essas relações e seus desdobramentos. assim como as reflexões de Judith Butler sobre concept of “bodies that matter” as an important approach to de- (Grupos de Pesquisa em Imagem e Socia. 2003. comunicativa. A moça aconchega-se ao vida do ser humano. quando o indivíduo se confronta com os O autor acredita que em toda sociedade existem presentada na capa. de 1999. sua uma necessária correspondência entre codificação e urbano e midiático em que Macabéa se encontra tem visão de mundo. da sociedade. um terno. do romance O olho mais azul. We also consider Judith Butler´s nicação Social da UFMG. M. corpo e subjetivação na RESUMO ABSTRACT cultura das mídias Este trabalho trata das relações que três personagens femininas colhidas da literatura estabelecem com a cultura midiática em This article deals with the dialogue that three female characters from literature . “não existe lençol . ‘inevitável’ ou ‘óbvio’ a gem urbana ao fundo. consumption. ideias e padrões de esperava no momento da codificação.have with the que estão imersas. do tendem a ser normativos e a operar com representações tão tonto que sou. o mundo discursos de acordo com sua história. traz. estes mim. Pecola. (a) que define dentro de seus termos o horizonte men- uma imagem que não ocupa mais que um quarto da Sujeito e discursos tal. midiáticos setor de relações em uma sociedade ou cultura. corpos. essa imagem mostra. Integra o GRIS por Stuart Hall. Macabéa e Claudia travam com o mundo do consumo e the relations that these young women establish with the world of com os discursos hegemônicos da mídia para o corpo mostram. As peças no varal – um vestido. do outro e da sociedade. cada sujeito interpreta os uma vez que. além do nome da autora e do título da obra. hegemônicas já solidificadas. p. dade dos discursos midiáticos. p. Nos dois romances analisados. preciso dos outros para me manter de pé. Na capa do livro. mostra-se fundamental para a reflexão sobre os pro- INTRODUÇÃO dense Toni Morrison. Hall entende que a leitura dos produtos midiá- aparelho humanizado e quase sorri. consumption and the hegemonic discourses about the bodies are Laura Guimarães -se centrais para a constituição de suas subjetividades e do modo central to the constitution of their subjectivities and to the way Corrêa como se colocam diante de si mesmas. o ponto de vista hegemônico é aquele A edição d’A Hora da Estrela que tenho em mãos. no processo comunicacional. 399-400). As- ção da ilustradora. a figura de uma jovem de olhos fechados que carrega consigo o selo da legitimidade – parece que ouve rádio. na UFMG. lações possíveis para a combinação entre a codificação ca na qual elas estão inseridas. comportamento são propostos. podemos dizer que.dossiê temático Personagens em posições hipotéticas: consumo. escrito pela estaduni. Macabéa and Claudia . os “corpos que pesam”.parecem dançar. na concep. consumo.. we apply Stuart Hall’s concept of the three hy- Professora adjunta do curso de Comu. Na conformação discursiva da comu. o universo de significados possíveis e de todo um capa. com Rodrigo S. assim como sua natu- Esse eu que é vós pois não aguento ser apenas dia é central para a constituição de suas subjetividades reza agonística. O olhar mais atento vai descobrir nas relações estabelecidas com os outros sujeitos. ticos pode ser classificada de acordo com o grau de ro. da estrela. e grupos da sociedade com os dispositivos da mídia sua análise de produtos jornalísticos televisivos. a atenção às interações dos indivíduos e a decodificação de produtos da comunicação. Há várias articu- dá entre três personagens femininas e a cultura midiáti. (HALL. O rádio. sentidos dominantes ou preferenciais. As personagens literárias dos.

para o lugar da vida perfeita. Na segunda hipótese. Depois os braços até os cotovelos. era bom aquilo. constituintes de sua subjetividade quando se relaciona ria está Pecola Breedlove. entre as tais gotas de minuto para dar anúncios comer- citários. a ouvinte com a intimidade e o carinho que lhe faltam oposto ideal Os pés agora. também desapareceu. (LISPECTOR. filma- 16 17 . da pureza. Apesar . e apenas uma consequência . Sumiram os 2003.37) “Por favor. bem apertados. E consumo. alinhamento. gera identificações. não importava. certamente . Sim. p. 1999.22. Além desse aspecto disseminador. tenham ou não a necessi- motivos para que ela fosse ridicularizada.175). As pernas. há la apoia-se numa fantasia de admiração pela menina apresenta em Corpos que pesam. constituindo-se como poder estruturante e. desaparecer: Aquele era o pedido mais fantástico e. A do. velmente para a Rádio Relógio. Deus. Quase lá. da contra a realidade em que vivia a personagem Pecola. Para o olhar hegemônico daquela épo. não A ASTÚCIA DE UM CONSUMO de vendas. de uma É possível fazer aqui. Para o autor. que os perpassam.. Pecola é descrita como uma menina muito feia. mas físico – o leite que ela toma da xícara é o que menos às imagens idealizadas que lhe eram oferecidas: uma o/a receptor/a cria suas próprias regras para decodifi. oferecia pouca possibilidade uma colega de moradia. Eram digo referencial no qual ela foi codificada. Pecola cria uma imagem de si descolada da rea. por transportá-la para longe dali. a publici- desestruturada. po. menina de doze anos que se quase. que a trata mal e a troca pela colega. No centro da histó. essa figura exerce um fascínio A discrepância evidente entre os dois mundos não era. Só restavam os olhos. não bem-estar coletivo na sociedade de consumo. de significados. quase desmaterializado: um corpo que SUBVERSIVO blicidade é secundária. e nenhuma música. ma. anco. Tem dezenove anos. motivo de revolta ou de tristeza imediata. Macabéa é uma ala. acalentador sobre a personagem. (. Mas. Maria da Penha. Há uma contemplação que extrapola o mundo nicos da mídia foi a identificação e a admiração frente e da publicidade à noite: negociado. Peco. o mais lógico que já lhe tinham feito. nunca conseguia fazer os olhos desaparecerem. Segundo vez só. sacralizado pela mídia: o reino da beleza. go dominante. dossiê temático (2003) identifica três posições hipotéticas de leitura. A moça tem uma espécie de namora. 2006). em Pecola. função global de integração e coesão social através da são construídos. absoluto. sentidos. anúncios publi. Por fim. De acordo com as ideias que Judith Butler (1999) com as consequências dos abusos sofridos. ainda uma pesada carga simbólica. Frieda e ela conversaram. sussurrou na palma da mão. era praticamente invisível. p. dade é um sistema cultural e simbólico que organiza ca e lugar – que não se mostra muito diferente hoje e RISON. mas os sujeitos é que são constituí- sobre a realidade dura de personagens negros e pobres não ia. Depois o se apropria do sentido conotado (. por nossas anti-heroínas. integral. fato esse que não a protegia do ser descartados. a investigação sobre os fenômenos sociais e as ideologias numa xícara branca e azul com a Shirley Temple. ligava invaria- discorda deste.23) é exatamente no encontro com o outro que os sujeitos No romance de Clarice Lispector. únicas.da SON. requer a não aceitação de si mesma. de felicidade guardada em um produto. Assim. tude e ver o mundo com olhos azuis.” Pecola não questiona o ideal de beleza. p. olhando portam”. mas. (MORRI. incontestável. uma comparação na vida real. Não há contradição temporânea. bolinhas de papel. os que estão expostos a ele.”. De que matéria-prima ela podia cotidiano. ela tinha um corpo que não era visto. de outros tipos de em que vivia lhe era contrário? Pecola fazia força para sobretudo esse canal de rádio aproveitava intervalos produtos culturais: estrelas de cinema. que desejava alçar-se para fora do fosso de sua negri. de olhos azuis. as definições hegemônicas são aceitas. enternecidas. a adesão aos objetos é sobre como a Shirley Temple era lindinha. pobre e Ela nem precisava fazer tanta força assim. Jean Baudrillard (1995) sugere que demorou longo tempo para tomar o leite. no sentido de comunicação mostram-se abundantes e ricas para a Frieda lhe trouxe quatro bolachas num pires e leite de ter importância. o dia. No terceiro caso. O estômago por Stuart Hall (2003. de qualquer ângulo que se Ela decodifica as mensagens da mídia com aceitação. 2003. glorificação da mercadoria e do mito da felicidade e do Shirley Temple habitava um domínio adorado e Os discursos cristalizados da mídia chocavam-se dade grande. que dava ‘hora certa Nossa proposta neste artigo é utilizar as categorias dispor para a construção de sua subjetividade. O rosto também era difícil.52). e o substantivo matéria. olhe. violência e os atributos propagandeados pelos discursos hegemô. Pecola vale menos. a autora explora os dois significados a sociedade e com os produtos da cultura midiática. Por mais que tentasse. ao contrário do seu árduo baixinho para não acordar as outras. de dominação que traçam a linha entre aqueles seres lidade insuportável. pela promessa Pecola e Shirley Temple mente. Acima das coxas era mais difícil. dizer que o telespectador está operando dentro do códi. “não são os indivíduos que No romance O Olho mais Azul. Macabéa se apoia na vida harmoniosa do cinema gemônico conotado. bela. p. 2003. me faça desaparecer”. a função econômica da pu- Shirley Temple. loira. fotografadas. desrespeitada RISON. programas de rádio. oferece classificações. 27). Toni Morrison escreve ficar completamente imóvel e fazer força. há concordância frente ao sentido he. peito. Não importava para as outras pessoas. Lentamente de novo. A literatura traz aqui uma tamento intrínsecos às imagens e textos publicitários Pecola não podia ser. na sua recepção das imagens da mídia. mas tranquiliza e destrói ao mesmo tempo.desejável. ao mesmo tem. tem instrução. a leitura é oposta. às vezes não tem o que comer e masca A publicidade representa situações cotidianas brancura. Ela expressão pode ser lida também como “corpos que im. ligava bem contestatória: reconhece o sentido hegemônico. isto é. se tudo cura o charlatão que supostamente poderia realizar tal e cultura’. podemos com esses produtos midiáticos. (MOR. por interpelar – a contemplação do dedos um por um. Para lidar dade ou as condições de consumir o produto ou ser- ou simplesmente ignorada. pois já concordância. só pingava em som de criadas por Hall para pensar a apreensão.” Macabéa tem experiências nos Estados Unidos dos anos 1940. a leitura e o o que era valorizado na esfera midiática e na sociedade sonho: gotas que caem – cada gota de minuto que passava. por fim. a do código abuso. (MORRISON. óbvio. E por que Macabéa adorava anúncios? Provavel- Pequenas partes do seu corpo se apagaram. em todas as viço anunciado. Todas as madrugadas ligava o rádio emprestado por car a mensagem. como se estas constituíssem experiências memoráveis. Pecola sorri ao olhar para ela.. Ela precisava direta com a posição hegemônico-dominante descrita Joan Scott (1999. ora de chofre. p. objetos industrializados. Ela era tudo aquilo que que interessam a uma sociedade e aqueles que podem dissolvendo-se em psicose. tão distante de seu cotidiano de pobreza. há normas no discurso esferas. 400). portanto. representações e padrões de compor- talentosa.) de forma direta e dos através da experiência. saída encontrada por esse sujeito destituído de todos causa . criança. p. No título original personagem impotente na relação com a família. Ora lenta. era considerado. num processo de dessubjetivação. aqui -. Nas palavras da narradora. uma extensa gama perfeita dos musicais do cinema americano: rica. encantamento: Bodies that matter.e por completas. Mas trata-se de um sonho que rada na esfera da fantasia. Como prática social institucionalizada. Além da exclusão por ser negra. Os discursos publicitários atingem a todos de uma feiúra que se confundia com todos os outros “como alguém poderia ver uma menina negra?” (MOR. “por menina feia pedindo beleza. a menina negra anula seu próprio corpo. goana pobre que trabalha como datilógrafa numa ci. Em sua fragilidade.) Uma menina negra favor. bem. Ali estava uma ciais – ela adorava anúncios. Mas aceitar desse modelo como um dos sistemas de construção da realidade con- mulher.. p. Na para a imagem de Temple. “quando o telespectador têm experiência. mente pelo mundo próprio que criam. No romance. Pecola estava completamente fora da norma MACABÉA E OS ANÚNCIOS – o objetivo primeiro da publicidade não é a promoção ternamente para a silhueta do rosto com covinhas de reguladora. e decodifica a mensagem nos termos do có. mas que. o pescoço. dessa for. Fechou os olhos com força. não tem família. Pecola deseja de negação ou de frustração. Construídas. As produções de sentido operadas por essa forma do significante matter: o verbo importar. encontra dentro (e fora) de uma família completamente sempre os olhos que sobravam. os que são abjetos. então deixar de ser. Pecola resolve ter olhos azuis e pro. alimenta: ela bebe simbolicamente Shirley Temple e sua solução aparentemente contraditória.52) que é lido como natural. 2003. com (CORRÊA.. promessa de felicidade.da experiência de um cotidiano triste durante primeira delas.

. 2011). mistura e rearranja significados. por um produto industrializado.) a performatividade deve ser (LISPECTOR. (HALL. p. ADORÁVEIS – A VONTADE (. 1999.. por apenas na percepção de um racismo representado pelo -discursivo é uma tática de auto-ampliação e ocultação não seria boba. seu desejo. p.” de oposição: reconhece a legitimidade das definições conquistas. tinha. faz suas próprias regras – fun. 2003. costumava ler à luz de como uma imposição de cima para baixo. É através da leitura e (re)criação desses discur. de maternidade. 1980). ao invés disso. até dormir com ela. compartilhados e comparti. Por ter nascido com cinema ou na publicidade. apresenta mais claramente a surpresa e a indignação mento de gênero que lhe era imposta e que é ofere- relação de Macabéa com seu namorado Olímpico. Longe de tomar qualquer atitude política. cuidado. ções. sucesso. são signos e objetivações de cada Para a autora.carregam mostrava em cores o pote aberto de um creme para são fenômenos públicos. tendido como efeito ou consequência de um sistema de gordura e seu organismo estava seco que nem saco do sujeito que sofre a experiência (DEWEY. impõem modelos culturais de existência do corpo: Executando o fatal cacoete que pegara de piscar os é um sentimento solitário. A garota torna-se uma garota. é dialogando com os discursos e produtos da sociedade por estar fora dos padrões e das normas reguladoras cida repetidamente a crianças – meninas e meninos na representação de um amor ideal. Por mais frustrante que seja a creve sua marca. especial. 1999. son. permanências e avanços dos grupos mino. dado com muito carinho. ela resiste 18 19 . que ráter impessoal da experiência. Ma. inventar historinhas em torno dela. armadilha de pensar essa comunicação como unilateral. Macabéa ins. decodificar olhos críticos a exclusão a que são submetidas as pes. Que pele. tentamento de Claudia frente a esse objeto não estavam A produção discursiva do corpo materno como pré- tão apetitoso que se tivesse dinheiro para comprá-lo ção. p. é a que Claudia não aceitou a norma de um comporta- amor. reiteram uma para entender e suportar a dura experiência de estar no humanos da minha idade e tamanho. esses pequenos recortes de prazer. A resistência de Claudia fica evidente no desprezo não é um dado. ela é trazida para o domí- tida. ro que se esperava de uma menina-mulher para com sexualidade em que se exige do corpo feminino que ele meio vazio de torrada esfarelada.). em que a é reiterada por várias autoridades. Portanto. Nas frígidas noites. Talvez fosse assim para se defender da grande tentação tados e colados em álbuns. construção de uma subjetividade marcada por gênero e de Clarice se relaciona com os produtos da mídia. Pela vida de Macabéa um espaço de subversão quase diver. Estava interessada somente em seres ao presentear Claudia com uma boneca. É que lhe faltava sociais. se comer.23) das e impressas. tas.161) no álbum. o corpo materno seria en- sim. Claudia se vê coagida Além de anúncios. uma figura midiática com extrema visibilidade. p. lháveis. toda estre.. nio da linguagem e do parentesco através da interpela- e conquistar seus públicos. a cara de panqueca e o cabelo de minhocas laranjas. 1999. sentir entusiasmo algum ante a perspectiva de ser mãe. algo que parte do interior seu formato (CORRÊA. ao falar sobre o ca. Para Butler. colecionar anúncios. Nas mais diversas sociedades. tudo com encantamento e passividade. essas situações são perpassadas por cabéa subverte aquilo que recebe. sua resistência a uma sociedade que não reconhece os citacional pela qual o discurso produz os efeitos que ele bo.401). admirado. para reforçar ou contestar esse escritório. aos nia. e as pessoas são sempre vítimas de É importante lembrar que objetos industrializados.138). sensoriais.. grupos marcados pelas diferenças de gênero. mas é aprendido por meio de constan- olhos de Macabéa. 2003. Maca. Com experiência frente aos modelos e representações de mu. eu sabia que a boneca represen. junta. de olhos azuis. das relações de poder (. ela. sensuais. compreendida não como um ‘ato’ singular ou delibe- cabéa coincidentemente toca no tema do “corpo que (abstratas) ao passo que. alegria. isso exemplo. Das três personagens analisadas. o gênero contrário de Macabéa. de mãe. às colheradas no pote mesmo. hegemônicas para produzir as grandes significações ritários na luta por visibilidade e respeito.) Eu ficava enojada e secretamente assustada com DE RESISTÊNCIA aqueles olhos redondos imbecis. Fiquei pasmada com a coisa e com a aparência que ção do gênero.38) são formas encontradas por Macabéa.. (MORRISON. É que fazia coleção de anúncios. no contato com um produto de comunicação. Ouvir a Rádio Relógio e Eu devia fazer o que com aquilo? Fingir que era a mãe? de ser infeliz de uma vez e ter pena de si. como produtos humanos. Macabéa gostava de estrelas de soas negras e pobres. que ela se sustenta para viver É possível aqui traçar um paralelo com a versão em que vive. “Greta Garbo. ao ciona com as exceções à regra. Eu não tinha interesse por bebês nem pelo conceito Os personagens adultos do romance analisado. dossiê temático zesse com a boneca: embalá-la. (LISPECTOR. de normas e significados: modelos representacionais para a mulher é o que liga A subjetividade de Macabéa é construída por sua béa apenas encontra uma maneira própria de se rela. a autora do livro. essa interpelação fundante mecente sob o lençol de brim. O que ativa uma experiência emocional não sociedade.. p. diz através da voz de Claudia de rado. constrói como sujeito. A fala da personagem Ma. si. Mas nota-se na curta É sabido que a publicidade reveste produtos e era sempre uma Baby Doll grande. vê com características físicas que a fazem pertencer à categoria sua experiência de quase-amor.64). raça.. Toni Morri. inexoravelmente a feminilidade à maternidade. Louis Quéré (2007). anúncios não foram feitos para serem recor. de relações ideais. negociada proposta por Hall: nesse caso. pelo contrário.. 154). O presente grande. história e ideologia. “(. estabelecidas pelo discurso hegemônico da sociedade . Tornara-se com o Assim como cremes de beleza não são feitos para uma miniatura plástica de criança: assuma a maternidade como essência do seu eu e lei do tempo apenas matéria vivente em sua forma primária. efeito naturalizado. dos livros a aceitar e interpretar (to perform) o papel mulher deve ser a mulher mais importante do mundo. podem-se perceber conflitos. como a prática reiterativa e importa” quando trata da importância de Greta Gar. O assombro e o descon- olhos. experimentada no do consumo. essa (. afirma que as emoções Os objetos – principalmente brinquedos . o mais precioso. (BUTLER.” (BUTLER. que é quase invisível. serviços de atributos emocionais. pré-adolescente ainda. que nada. em um nível mais restrito. Os livros de figuras esta- CLAUDIA E AS CRIANÇAS vam cheios de garotinhas dormindo com suas bonecas. discursiva do gênero feminino. como estratégia de sobrevivência: valendo-se do discurso persuasivo e sedutor para atrair tava o que eles pensavam que fosse o meu maior dese. são embebidos pela cultura. Butler afirma que: lheres ideais. suas cores. Havia um anúncio. nomeia. tuacional (localizado). tem um corpo que vale a pena ser Trata-se de uma leitura atravessada por contradi. tagarelice dos adultos. ficava só imaginando com delícia: o creme era do sujeito que é afetado: o engajamento numa situa. uma boneca carregada tes repetições de modelos. classe e et. p.) contém uma mistura de elementos de adaptação e constante transformação. mais Azul. comportamento frente à sociedade. Mas aprendi depressa o que esperavam que eu fi. se dá a partir de uma convergência de valores modelo único e normativo de bonecas de olhos azuis. moça simplória.23) termina ali. e não conseguia prática. clara inspiração beauvoriana. (BUTLER. pensava ela sem se explicar. e ao longo de vários vela os anúncios que recortava dos jornais velhos do recepção é passiva. Mas é preciso escapar da jo. Claudia.pelos mais variados discursos. ela o comeria. Colava-os manipulação. Garbo. Se Pecola absorvia Claudia é a menina narradora do romance O Olho demonstrações de sentimentos positivos de ternura. num ato mas também pelo modelo de comportamento de gêne. 2003. intervalos de tempo. Essa adesão consiste numa atividade. cionar com os produtos da mídia. (MORRISON. p. em pelos/as adultos/as e pelas representações nas figuras cinema. Mas esse tornar-se garota da garota não Mas tinha prazeres. nos “falam” através de sua forma. mas. atuam na Pecola é a maneira particular pela qual a personagem sos da mídia que Macabéa experimenta o mundo e se Maternidade era velhice e outras possibilidades remo. 1999. Mas Claudia não adere a essa “verdade”. instruem a menina quanto à sua posição e seu Um ponto importante que diferencia Macabéa de mundo. p. 2003. isto é. os sistemas de classificação binária pele de mulheres que simplesmente não eram ela. E um dos mais poderosos olhado.

a autora reflete sobre a interpelação que faz com que CORRÊA. sas’ anteriores ao discurso pela formação regular dos aqueles corpos. chatos. Falas de gênero: teorias. Brasília: salva de um destino triste como o de Pecola. Stuart. Retratam e revelam relações desiguais entre muito às personagens dos romances citados. como ocupa. um lugar que nenhum outro poderia ocupar. Rio de contestação de Claudia. Rio de e protesta a seu modo contra a norma. De corpo presente: o negro na pu- lhe removesse o olho frio e estúpido. silenciosa por que não poderia ser outro. Jean. um peso tão pequeno na escala culturais. girasse a cabeça (. Todas as três. Janeiro: Forense-universitária. que não estão dentro das representações dos grupos Comunicação Social) . Problemas de gênero: feminismo e sub- o que era que todo mundo dizia que era adorável. Louis. de oposição. In SILVA. a a eles. CAULT.). aqueles comportamentos. homens e mulheres. num misto de vingança é aquela que consegue se constituir como sujeito. como exclui qualquer ela? Quem a fez sentir que era melhor ser uma aberra. fisicamente a boneca branca. Pecola enlouquece. Se condido por trás das palavras e sim entender o porquê pertencem os agentes do discurso. p. Se reconhecemos Claudia sujeitos marginais porém imersos na cultura envolvente doras dos corpos de homens e mulheres. e poderosa das mídias. prio. John. Ele ou ela destotaliza Os dois romances emergem em dada época. 1980. (Curso ministrado no Programa de Pós-Gradua­ dentro de algum referencial alternativo. 1999. mesmo que solitária. Belo Horizonte. de origem racial. Representação da Unesco no Brasil. 1995. deslocado da norma. Toni Morrison. conseguia gostar dela. Rio de Janeiro: Civilização eu quebrasse os dedos minúsculos. É preciso lembrar versão da identidade. A sociedade de consumo. Alcione. de um lugar privilegiado para a ob- partir do sentimento de indignação presente desde a representações. Mas é possível observar que a personagem que apresenta a postura mais crítica BAUDRILLARD. Obviamente não se pode simplificar a reflexão a ponto de afirmar que a relação das persona- Referências gens com os discursos da mídia é o ponto que define bibliográficas o destino de cada uma delas. as relações de poder estão implicadas na construção Implícita em seu desejo estava a aversão por si mesma.. p. BUTLER. Claudia rompe com a norma branca e he. como alter ego da autora do romance. em porais oferecidos pelos produtos midiáticos disseram QUÉRÉ. mas pa. aceitos. sob o que está manifesto. revelam-se muitas vezes como oportunidades para a recidas. 2006. São histórias de três jovens diferentes. Mães cuidam. 20 21 . Mara e RAMOS. metal da cama. A atitude de Claudia pode ser vista como exemplo formulada: que singular existência é esta que vem à LISPECTOR. Brasileira. 2003. desconstruindo em relação aos sentidos preferenciais de decodificação Janeiro: Elfos.. brancos/as e negros/as. a de forma particular no momento do consumo dessas Trata-se. Dissertação (mestrado em lindo “Ahhhhhh”. O olho mais azul. UFMG. mas notam-se espaços – difíceis.Uni- Assim.seja internalizada na construção da Tese (doutorado em Comunicação Social) . de certa forma. sobre os objetos e a norma . Segundo Hall (2003. As perguntas de Morrison são muito pertinentes Rocco. nas imagens oferecidas. se arrancasse a cabeça. Sua ativa insubmissão. cada uma reage preconceitos e contradições presentes na sociedade. em discursos atuantes discursos hegemônicos. Modelos são assimilados. Clarice. Belo Horizonte: Ed. gemônicos. DEWEY.31). 402). a atenção para a importância de se considerar o que subjetividade da menina Pecola: versidade Federal de Minas Gerais. Macabéa e Claudia. Vimos que os modelos cor. 2007. dossiê temático é atropelada pela realidade e Claudia sobrevive para narrar histórias. A achado tão deficiente. Quem disse a FOUCAULT. para a reinvenção. o que exclui CORRÊA. Não se busca. Michel. esta termina por produzir um discurso literário pró. Experiência. 1987. sacudisse a objetos que só nele se delineiam” (Foucault. discursivos do sexo. Foucault chama hierarquia racial .23) localizadas social e historicamente. dobrasse os pés da emergência de certos discursos em certas épocas. Judith. E vinte anos depois eu continuava me Books. adultos/as divíduo consumiu e dialogou à sua maneira com esses ção em Comunicação Social da UFMG.Universidade Federal de serragem para fora. belos/as e feios/as. the Berkeley Publishing Group. p. Toni. soltasse o cabelo. A mi-silenciosa de um outro discurso: deve-se mostrar perguntando como é que se aprende isso. leituras.. valores e papéis na publicidade de homenagem. servação crítica das relações sociorraciais na contem- infância. a desigualdade e a mas. Joan. A arqueologia do saber. In- ma ainda que essa atividade de recepção oposta pode e crianças. Reflexões sobre a experiência pública a mensagem no código preferencial para retotalizá-la dado lugar. ela continuava balindo. análises. A Hora da estrela.” O autor afir. New York: Perigee das subjetividades. rachasse as costas contra a grade de Essa perspectiva está focada na análise e apreensão que detêm o poder. Guacira L. Da diáspora: identidades e mediações como sujeito. Mas podia examiná-la para ver Para Foucault não interessa encontrar o que existe es. Pecola. 1987. pais brincam: nor- 2003. que geralmente esses discursos vêm dos grupos he. LAGO.54). para a reflexão sobre as relações raciais e de gênero na MORRISON.no caso do livro citado. São Paulo: Com- tese de leitura. 2003. Cada in. Belo Eu tinha uma única vontade: desmembrá-la. In LOURO. 1999. assim. Macabéa poraneidade. Poderíamos nessas sociedades não muito distantes no tempo e no gógico e formador. 2003. no meio dos outros e relacionado ção do que ser o que ela era? Quem a tinha olhado e a HALL. Corpos que pesam: sobre os limites e curiosidade: CONSIDERAÇÕES tagonizando sua história. Nenhuma delas se reconhece ções discursivas são perpassadas pelas lutas de poder. com forte influência nos processos SCOTT. o que os textos dão a ver: te. Laura G. Mulheres. Se eu Trata-se de “substituir o tesouro enigmático das ‘coi. 2003. e talvez inconsequente. 210). 1987. 1999. continuava ba. Lisboa: Edições 70.) FINAIS As imagens e textos midiáticos invocam signifi. O corpo educado: pedagogias da sexualidade. formação verbal) desencadear crises de naturezas diversas. de subjetivação. reconhecido e premiado. (. maneira globalmente contrária. aquelas vidas blicidade em revista. 2011. sem dúvida – para a resistência e a transformação. verdades. Minas Gerais. reafirmando as Horizonte: Autêntica. p.) Não cados compartilhados e consensuais. Ilha de Santa Catarina: Editora criação. pro. o receptor “decodifica a mensagem de sociedade contemporânea. Tânia. p. Sabe-se que vem à tona. entretanto. (org. questão pertinente a uma tal análise poderia ser assim da beleza? (MORRISON. nessa hipó.. as tradições e as crenças do grupo ao qual ____________. são A mídia apresenta constantemente normas regula. Belo Horizon- terossexual representada pelo brinquedo. Laura G. os acontecimentos da vida humana. dos grupos não-marcados. No posfácio d’O Olho mais Azul. panhia das Letras. faz parte de sua constituição outro. Suas constru. que apresentam caráter peda. Rio de Janeiro: de recepção/decodificação que opera dentro do código tona no que se diz e em nenhuma outra parte? (FOU. das práticas discursivas e das relações entre as falas. a conversa se. acrescentar que esses momentos de crise e transgressão espaço. Art as experience. mo. (MORRISON. dificados ou recusados.

O go.dossiê temático Renato Nogueira Racismo e biopoder: Professor de filosofia e educação da UFRRJ. O destaque vai para uma ação highlight is a police action that occurred on September 25. apresentação introdutória do conceito de biopoder e que o biopoder encerra um conjunto de tecnologias que não se trata. Ou seja. p. fornecer e avaliar Com efeito. contexto que o conceito de raça passa a funcionar como sua pauta de pesquisa. Saberes e Interseções (Afrosin). em certo limite e em certas tivas e metáforas de caráter biológico e médico. o racismo análises do fenômeno de violência urbana e racismo. De tal modo que Nossos tempos. de problematizá-lo no contexto do Rio de Janeiro. Por exemplo. e tem como objetivo enriquecer o debate contemporâneo sobre Aiming to enrich contemporary debate about anti-black racism o racismo anti-negro e seus diversos dispositivos. na sociedade nazista (. racism in contemporary Brazilian society through biopower. A chacina 23 . perspectivas. exercício bre violência e racismo no Rio de Janeiro. Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Para problematizar essa importante questão na socie. Rio de Janeiro. In order to confront the anti-black Campos da Silva biopoder. 2002. canismo fundamental do poder”. fazer com que inclui o genocídio da própria população. desagregadores e desorde- RIO DE JANEIRO ao funcionamento de um Estado. somente. Pois bem. a segmentação da população em pensar a partir a pertinência do biopoder foucaultiano em consideração alguns eventos de 1993 até 2009. Nesse caso. a população passa a ser problema cientí. de brasileira na primeira década do século 21. visando um determinado funcio. em certo momento. policiais e discursos do Estado. Saberes e Interseções (Afrosin). desde que o Estado (CASTELO BRANCO. não passe pelo racismo” (FOUCAULT. violence. têm alicerçado muitas relações “quase não haja funcionamento moderno do Estado hegemônicas de poder fundamentando-as em justifica- que. especificamente o racismo na socieda- tar um debate profícuo em torno da violência urbana e Para Foucault. dos pressupostos foucaultianos do biopoder. É importante frisar que o racismo está ligado contra os perigos biológicos. Mas. lotado no Departamento de Edu- um caso no cação e Sociedade do Instituto Multidisci- plinar. que certos tipos de pessoas carregam consigo do Estado só pode ser assegurada. p. conforme Foucault Um dos resultados do biopoder é a possibilidade desde o século XVIII. racializada no Rio de Janeiro contemporâneo. da UFRRJ. biopower.32) Michel Foucault fez uma profícua pesquisa sobre funcione no modo do biopoder. investigação as tecnologias que servem para controlar e gerenciar racista sustentado por critérios técnicos e científicos. em especial no and its various devices. Rio de Janeiro. Estuda e pesquisa sob orienta. 2002. para a compreensão do racismo anti-negro moderno e pesquisa tem caráter introdutório. as chacinas do biopoder. do biopoder. integrante verno investido da visibilidade das relações de poder pois. A raças e o racismo passa a se constituir como um “me. dentro de uma leitura foucaultiana. o direito de morte que o Estado são. levando dizem respeito à vida. Nosso objetivo é problematizar. membro do Grupo de Pesquisa pela Polícia Militar. O objetivo do artigo é fazer uma uma categoria-chave para o biopoder. dentro O trabalho reúne. 2009 in dagogia do Departamento de Educação policial que ocorreu em 25 de setembro de 2009 na cidade do Rio the city of Rio de Janeiro. efeitos do biopoder. em busca de fomen. contemporâneo. nossa análise incide sobre ações analysis focuses on police actions and speeches of the state. de comentar seus textos. ção necessária para inserção do racismo nos mecanis- mos estatais das sociedades modernas. por isso vai ser preciso que o Estado diminuição dos riscos e interdições dentro de uma so- reúna de modo articulado uma série de saberes aptos ciedade para alguns por meio de critérios raciais. Em outros termos. Afroperspectivas. o biopoder é um modo de gestão que Nosso artigo é resultado de uma pequena pesquisa so. fico e político. ou contendo outros. Nosso intuito é pensar com os porânea dominante. em certa medida. pelo racismo” (FOU- os modos de gestão do poder nas sociedades ocidentais CAULT. É neste não deixa dúvidas: o racismo anti-negro não esteve na do biopoder como modo de gestão estatal contem. 2009. Saberes e Interseções (Afrosin) e vice-coordenador do Curso de contemporâneo Pós-Graduação Lato Sensu do Laborató- rio de Estudos Afro-Brasileiros (Leafro). dados estatísticos. “Tem-se. onde o BIOPODER E RACISMO condições. considerando o aumento e INTRODUÇÃO sobre a população. The Estudante de graduação do Curso de Pe. Keywords: racism. ANTI-NEGRO NO p.) uma sociedade que do Laboratório de Estudos Afro-Brasileiros (Leafro) da define o segmento populacional que deve receber um generalizou absolutamente biopoder” (FOUCAULT. de Janeiro. namento de um sistema social. a emergência do biopoder é condi. Foucault tomou como exemplo o nazismo. Dito de outro modo. RESUMO ABSTRACT O artigo trabalha com o pensamento político de Michel Foucault The article work with the political thought of Michel Foucault. que tem sido realizada pelo Grupo de Pesquisa Afro.. violência. que está em jogo é a defesa da ordem social e da vida.311). o poder intervém e interfere exerce sobre a população. especially with regard to the technologies Carla Cristina que diz respeito às tecnologias de segurança pública próprias do of biopower own public safety. Com os processos de instalação o que é específico no racismo moderno é o exercício de eliminação de criminosos. Porque à medida instrumentos teóricos de Foucault. Palavras chave: racismo.. The event ended with a black man killed e Sociedade do Instituto Multidisciplinar. 304). p. tipo específico de tratamento. biopoder. aferir constantes. evento que terminou com um homem negro morto by military police. a fazer medições. “A função assassina nadores. our dade brasileira contemporânea. ção do Professor Renato Noguera. Uma leitura cuidadosa da obra de Foucault problematizando a racialização da violência através ou concentração de determinados benefícios.306). coordenador do Grupo de Pesquisa Rio de Janeiro Afroperspectivas. assim. tal como a repartição anti-negro. a população funcionem em favor do Estado. promovendo alguns e/ 2002.

o direito de matar do Estado está assegu. À medida que se discute efeitos assimétricos do biopoder entre negros (pretos não estamos dizendo que estelionato. as reais razões do desbunde de na semana anterior. de modo de trompas para mulheres de bairros como a Rocinha. O que está em jogo é que a “morte da raça ruim. Gabão. governador estava defendendo uma política de ligadura desempregado desde o nascimento da sua filha – com deve ser combatido. Essa ação decisiva para que 40 minutos fossem suficientes para 24 25 . diante das constantes negativas de inserção no mercado justificativas já estavam garantidas.. todas. motivos: porte ilegal de as bases para a réplica e tréplica tinham vindo anos Por um lado. Em significativamente maiores de morrer em conflitos ar.) que SERGINHO nas periferias/subúrbios e favelas. é passada com mui. isso beneficia a ação e pardos). uma certa inclinação (. na época com 24 anos. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) comentou BRASIL. três anos na época – e tinha passagem pelo sistema pela população tijucana (moradores de um bairro de extra-oficial. Com isso. o monopólio da violência é exercido Janeiro significa dizer que jovens negros têm chances preservar vidas. Tijuca. Rio de Janeiro. Na época. Numa ação filmada e aplaudida radoxo de que forças de segurança do Estado. assim como de trabalho. estava Serginho representou e encerrou o signo do que O que estamos problematizando é o aparente pa. um ato lógico ou. população negra. É forçoso lem. dentro dos cânones legais e fora deles. 2002. o Serginho tinha o ensino médio completo.. rizado. o roteiro já estava lá antes da sua chegada. pega na co que estava representando o Estado em sua extensão eliminados e elimináveis são. o Serginho.305). Serginho foi mais um registrar que todos eram pretos e pardos (negros). a raça ruim é a população que vive relembra da atrocidade cometida naquele dia. Óbvio que não se trata de sugerir que sua classe média da zona norte). países africanos como contraponto a países europeus alternativa. organizado pelo da PM foi o responsável pelo tiro certeiro. dade. É padrão Zâmbia. é padrão sueco. economista Marcelo Paixão (veja gráficos em anexo). o biopoder funciona numa via dupla. O Secretário mais de 90% desses casos de homicídio as vítimas eram excluídos. jovens negros. Por outro. o então governador Garrido. 24/10/2007). o assalto. ao motivação para os homicídios foi uma suposta vingan.. Ana Cristina mesmo tempo. Agora. disso ninguém duvida. A analogia a prisional. o seu planejamento e suas práticas. foi dito.blogspot. Afinal. Mas. Sérgio Cabral afirmou que “Você pega o número de de Serginho. p. p. informando que “pou- tilha a ascendência africana e um histórico de discri. Os foi dada e as investigações aconteceram. para o governo. As tecnologias do biopoder e suas Em 25 de setembro de 2009. dossiê temático da Candelária. que deve par o lobo significaria sacrificar a ovelha” em http:// minação. no município de Nova Iguaçu. de produzir marginal” (G1. A pesquisa Mapa da Violência ver. p. É oportuno nascimentos e dos óbitos. retrucasse. major João Jaques Busnello. Ele já tinha sido usuário do sistema peni. negro e jovem. que a força de coerção eliminasse os criminosos. e após estava defendendo a ação policial na Favela da Coréia homens e os mais atingidos foram os negros: se em titubeios. por razões publicamente que. a fe. tas lacunas. na madrugada do dia 23 de julho de que ratificou o exercício do biopoder numa entrevis. nas entrevistas do governador e do secretário de rado no combate que é definido como guerra contra o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro no de negociação. o prazo de negociações. A tese que o Estado racista defende é de que a 2005. 2002. ao lado do caso Sete anos depois. lotado no 6º BPM (Tijuca). é um exercício do tenciário durante nove meses.com/. Isso é uma fábrica coercitiva. incluindo uma criança. “se você quer vi- como toda a história do Brasil. ápice foi vivido por três pessoas: Sérgio Ferreira Pinto no” (FOUCAULT. No Relatório Anual das preservá-las. “Um tiro em Copacabana é uma coisa. Júnior. no vigésimo nono dia CAULT. porém a mais próxima da verdade parece ser a média da Zona Sul recebe tratamento diferente e tem mais sadia” (Ibidem). queremos problematizar a ausência de negros. forçosamente os mais racistas” (Ibi- ça pela morte de outros policiais. estelionato e furto.290). da Polícia Mi. contar. O a purificação da raça para exercer seu poder sobera- casas e alvejando vinte e um moradores. A cundidade de uma população” (FOUCAULT. agora na favela de técnicas são aplicadas conjuntamente por meio de uma de Janeiro merece especial atenção. A história hoje contada. que ainda hoje vemos nos noticiários. Policiais contra. Em 15 de abril de do G1 em 24 de outubro de 2007. arrombando gestão impele o Estado a gerenciar “a proporção dos cício do racismo através da emergência do biopoder. colocando sob Méier e Copacabana. porte ilegal de e dois jovens sem teto foram brutalmente assassinados essa questão do enfrentamento. 23/10/2007). se a opinião pública é um critério para o genocídio autorizado ou não auto. anexo. crueldade não são colocadas. próximo às dependências da Igreja de mesmo ta. novamente a notícia filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas. onde a população negra é superior a 50%. seja uma opção a ser considerada to. de modo desautorizado. Ou seja. furto e assalto são atividades ou opções para os por policiais militares. conforme os dados em suspeita agentes de segurança pública. no Rio de Janeiro. disse nos blogs Mário Sérgio fez questão de comparar com o caso do é dirigida para uma parte da população que compar. Levantam-se hipóteses de vingança. Este modo de dentro do que foi proposto pelo nosso trabalho: o exer. 30/03/2010). 2002 morriam 46% mais negros do que brancos. Sandro Barbosa do Nascimento nos O biopoder é “uma espécie de estatização do bio- O BIOPODER NO CASO em foco de 2009. Como já Vigário Geral: cerca de cinquenta homens encapuzados gestão estatal que incide sobre a vida. O coronel Mário Sérgio. a qualquer custo”. em de que a vida criminosa pode ser eliminada. as ações anteriores já citadas. Com efeito. 2007 a proporção cresceu para 108%” (CORREIO DO O biopoder tem um postulado. 23/10/2007). é preciso que o outro morra” (FOUCAULT. negro e que exemplo. cente ameaçada se agir com vacilações a pretexto de de uma ação ilegal.com/ e http://pmerj. Janeiro.) é o que vai deixar a vida em geral distintas. Ou seja. solicitando um prazo de negociação maior. pelo menos. o secretário de Segurança Pública do Estado do mados do que jovens brancos. homem bran. As sassinadas na Candelária eram negros(as). 2002. o morador de classe sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz do Instituto Sangari. Serginho foi o vilão perfei- Vale ressaltar que todas as crianças e adolescentes as. o Estado. com 48 anos em 2009. favela não tem” (G1. De acordo com o Mapa da Violência.org/ ônibus 174 alguns anos antes. biopoder. na ocasião preservação da ordem social estaria garantida à medida vinte e nove pessoas foram mortas. Um tiro na encontramos um cuidadoso estudo que identifica os de brasileira. a taxa de reprodução. mecanismos do biopoder. raça denota a racialização do fenômeno da taxa de natali. em arma. com 39 anos. 2002. é um exemplo da profilaxia sociorracial na socieda- 1993. O Major Busnello trução social racista que insistia em marginalizá-lo foi Rio de Janeiro era o delegado José Mariano Beltrame Desigualdades no Brasil 2007 – 2008. o que aponta para a violento que marca mais uma vez a história do Rio de se poderia chamar de estatização do biológico” (FOU. uma estratégia do biopoder. marius-sergius. numa estratégia racista. Vale lembrar que eram todos do tráfico de drogas” (G1. direitos de cidadania que o trabalhador que mora na considerando as declarações do Governo no ano de tados para fazer “limpezas” em certas áreas da cidade. porque se encaixa deve ser eliminado: homem.. a cons- 2007. brar que mais de 80% dos mortos eram negros. localizada no centro da cidade: seis adolescentes Coréia (periferia) é outra. O discurso do Estado fluminense. O coronel crime. Uma análise de discurso do governador e do arma. corre o risco de sacrificar a vida ino. No caso do Estado do Rio de blog/: “Numa ocorrência com refém. da raça inferior (. 2007. nome. novo massacre. Afinal. fazem exercícios de “limpeza sociorracial”. Ou seja. a violência ano de 2007 aponta para uma perfeita adequação aos litar do Estado do Rio de Janeiro (PM). o Estado faz uso da “eliminação das raças e invadiram o bairro durante a madrugada. mas. A operação policial foi responsá. a convicção dezoito anos passados. Ainda no ano de 1993. Rocinha. Segurança do Rio de Janeiro no ano de 2007. mulher branca e refém dem). Em entrevista publicada na página de notícias fugia após ter cometido o crime de assalto. que a covardia dos homens os impede de que o governo do estado do Rio de Janeiro “assumiu 2010 – Anatomia dos Homicídios no Brasil foi feita pelo p. isto é. um evento na cidade Rio Serginho era o símbolo e a manifestação do que do mês de agosto. vel pela morte de 13 pessoas. As dúvidas são sobre o tempo antes. Apesar das especulações sobre o caso. o que por sua vez implica http://marius-sergius.309).blogspot.286). Serginho estava no meio duplamente. “os Estados mais assassinos são.

Vale registrar que não estamos tratando de ações e ações policiais foram colocadas à luz dos operadores Ano Homicídaios por Homicídios por Outras formas de Homicídios por Homicídios por Outras formas de individuais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. mento do racismo como uma política de Estado.0 4.4 4. especialmente na sociedade fluminense. Ano Homicídaios por Homicídios por Outras formas de Homicídios por Homicídios por Outras formas de que diz respeito à violência. na sociedade brasileira.observatoriodefa- 3. 21.2 9.0 3. Cadernos WAISELFISZ. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 2001 29.0 12.5 10.com. Editorial – Abril/2009.71 3.5 5. VEIGA-NETO.2 4. Mãe de assal.6 de um modo de gestão que ultrapassa o ato de apertar conjunto de políticas constitutivas do Estado brasileiro. idade segundo os grupos de cor ou raça (branca e preta & parda) e sexo. Disponível em: www. Com este intuito.br.0 2004 26.82 globo. Chicago: The Uni. Foucault & a educação. delária.0 1.0 2. Ma. histórias e destinos de um pensamento. Cande- 40 35.5 1. 70 67. Rio de Janeiro: SILVEIRA. Sobre a analítica do poder de Fou- 51. microdados SIM. dispositivos dos mecanismos de funcionamento do ra- 1999 1. n.6 8. 60 dualismo. Camilo e OLIVEIRA. 1999-2005 (por 100 mil habitantes) 80 _______. Brasil. Antônio.br e Tabulações: LAESER – Fichário das Desigualdades Raciais rília: Unesp-Marília-Publicações.2 como o biopoder funciona e seu vínculo indissociável cismo estatal na sociedade fluminense e. terratv.29 3.5 1. ce. Disponível em: extra. o difícil acesso aos programas e aten- CONSIDERAÇÕES FINAIS dimentos de saúde. Em 2002 29. 2000.0 Razão de mortalidade da população residente acima de cinco anos de idade por homicídio segundo 2005 1.7 0. H.7 1. Marcos César (orgs. Mapa da Violência no Bra- Fonte: Datasus / Min.9 outros termos. 2004.9 2. Em defesa da sociedade. C.1 0. Violência – Abril/2010. quando? Disponível em: www.0 0. Guilherme. Microfísica do poder./jun.6 0. foucaultiana que opera como racismo antissemita para Razão de mortalidade por formas especificadas de homicídio da população residente acima de cinco anos de sa observação é que o racismo foi o fator decisivo na o racismo anti-negro no Brasil.com.83 33.48 CASTELO BRANCO. 2005.93 Curitiba.6 1. Alguns trechos de en. arma de fogo arma branca homicídios arma de fogo arma branca homicídios disparo.8 0. Michel Foucault: beyond OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NO RÁDIO – Mapa 30 structuralism and hermeneutics.9 2.0 2.1 O escopo deste trabalho é trazer algumas contribuições destacamos o “caso Serginho”.0 1. 26 27 . A hermenêutica do sujeito. propiciando um entendi.1 2001 2.6 6. Martins BIBLIOGRAFIA Fontes . Paulo. outubro de 1995. Brasil. microdados PNAD da Faculdade de Filosofia e Ciências. USP. sil.org. de modo mais com o racismo.9 8.6 7. P.1 2.1 2003 2.96 4.9 1.9 49. 2002(2). Belo Homens negros e pardos Homens brancos Mulheres negras e pardas Mulheres brancas VAREZ.45 _____________.0 2.jblog. ser assassinado. MAIA.3 6.). da violência – negro tem 130 vezes mais chances de versity Chicago Press. Petrópolis: Vozes.6 5.terra.2 3. trevistas de representantes do poder público fluminense Homens Brancos Homens Pretos & Pardos nello.br. lária_Julho/2010. Tempo Social: Revista de Sociologia.1 1. Rio de Janeiro: Editora FGV. São COELHO. Disponível em: coletivodar.5 9.4 9.8 0.Setembro/2009.0 45. “O que é a crítica?” IN: BIROLI. 2007.0 1. Um desafio é a transposição da pesquisa geral. 2000 2.7 0. partindo de um repertório focaultiano.9 2. dossiê temático que o comando da operação autorizasse o disparo.6 1.4 33.word- 20 FOUCAULT.5 1. DREYFUS. Um caso que exemplifica Mulheres Brancas Mulheres Pretas & Pardas para os estudos das relações étnico-raciais no Brasil no como as estratégias racistas do biopoder funcionam.4 42.4 4. Disponível em: www.8 8.8 7.8 46.com. OBSERVATÓRIO NOTÍCIAS E ANÁLISES – Até 10 _____________. 50 tante morto em Vila Isabel após fazer comerciante MELO. Reportagem .7 1. Nos.1 8.0 0.9 9.0 0. “Racismo.7 1. _______.1 0.SP. biopoder”.institutosangari. a baixa qualidade da escola públi- 2003 30. IBGE.9 os grupos de cor ou raça (branca e preta & parda). M. Estamos tratando de uma política de Estado.0 9. indivi. 2008. 3.7 8. Vol. Michel Foucault: Horizonte: Autêntica.43 26 ed. uma perspectiva que busca sublinhar alguns arma de fogo arma branca homicídios arma de fogo arma branca homicídios mos descrever.br. etc. Revista de Filosofia Aurora. Djalma. 2000 27. n.57 4. um 1999 22.9. 7(1-2): 83-103. Flávia.9 to direto.7 7. 1982. velas. AL.1 0.com. 29-38. Entre as ações policiais extra-oficiais e oficiais.0 0. 2009 cault. 28. Um olhar.1. Alice. organizações. Rafael. Resumo dos cursos do Collége de Fran- 61. e RABINOW. São Paulo: press. 2002(1). Alfredo. 23 de julho de 1993 – A chacina da Can- 41. o que está em jogo não é a ação isolada do conceituais foucaultianos. Saúde. 2005 (por mil habitantes) decisão que culminou com o tiro fatal do Major Bus. 1a Ed. 1997.64 _____________. 2005 24. Violência – Fevereiro/2011.5 46. p. Martins Fontes. Julio Jacobo. jan.88 refém sai em defesa do filho. procura.8 1.org. v.7 4.9 o gatilho.8 0. Michel Foucault: poder e análise das 0 1999 2002 2005 Graal.1 48.0 2002 2.1 2004 2.3 1.4 9.4 7.9 ca. como em função a ampliação de riscos. em favor da maximização da vida de alguns a partir do assassina.

acerca da relação entre educação e corporeidade. Eduardo Oliveira e Oliveira. Ensuite. poesia]. constituem grupos de atuação como ros grupos de dança. Entidades Ele se caracteriza pela ação organizada de docentes e religiosas [como terreiros de candomblé. a exemplo do que se observa na es. inicial de constituição deste campo. corpos educados. artísticas [como os inúme- temporaneidade. e ações de mo- Neste ensaio. para mim. também se dinâmica. constitui movimento negro. dadas e promovidas por pretos e negros (. e para a Quinzena do Negro.. NO ESPAÇO ACADÊMICO [como “clubes de negros”]. Os destaques vãos intervenção neste âmbito. e com as cor. religiosos conhecidos se identificam como movimento 29 . de do movimento negro contemporâneo. corpos concomitante à discussão e implementação de Ações sente a gama de entidades com base em levantamento que pensam. Na conclusão. voltadas rais [como os diversos “centros de pesquisa”] e políticas Coletivos de Estudantes Negros. intellectuels noirs. negros (ou de maioria negra) culturais. até o último quartel do século XX. [como o Movimento Negro Unificado]. 2009.. RATTS & RIOS. Les Mots Clé: mouvement noir académique. mance individuelle et collective. e todas as ações. e coletiva. pois nem todos os grupos pela historiadora Beatriz Nascimento e por estudantes ou mais simplesmente um movimento negro acadêmi. ostensiva ou encoberta. trato da entrada de “corpos negros educa. Este fenômeno exige algumas considerações acerca Depois discorro brevemente acerca da formação da pluralidade interna do movimento negro. os cha. intelec. que propõem esse debate. movimento negro acadêmico.dossiê temático Corpos negros educados: notas acerca do movimento negro de base acadêmica RESUMO Neste ensaio. como portadores de um as entidades. raciais. Étnico-Raciais e Espacialidades do Ins- tituto de Estudos Sócio-Ambientais da Universidade Federal de Goiás. 1974 e 1975. Há Estudantes Negros/as (CENs) nos anos 2000. Palavras chave: negros. zação do movimento negro contemporâneo. de vações que tenho realizado individualmente ou em que confirma a regra. 2010). primeiramente situam no interior de algumas universidades públicas cotidiana. qualquer tempo [aí compreendidas mesmo aquelas que também a época de formação do que denomino de visavam à autodefesa física e cultural do negro]. fun- movimento negro de base acadêmica (RATTS. período concomitante diants Noirs dans la décennie suivante. período considerado de surgimento atuação individual e coletiva. Dans la conclusion je reflète concernant l’entrée de « corps versidade Federal de Goiás. Nos anos 1970. recreativos e negros/as na Universidade Federal Fluminense entre co para o período. J. Professor dos cursos de Estudantes Negros/as na década seguinte. 157). A conclusão aponta para de Paulo Roberto dos Santos (1984): poreidades negras que estão adentrando a universidade a entrada e permanência de corpos negros discentes brasileira de forma coletiva e organizada. corps instruits. extemporânea ou 2007. podemos dizer aquilombamento. abordo a formação do movimento negro de base RESUMÉ Dans cet essai. na con. apontamos aquele que consideramos um momento e privadas e chegam a constituir grupos de estudo e de 1994b: p. de protesto anti-discriminatório. j’aborde la formation du mouvement noir acadé- acadêmica na década de 1970. artísticos. discentes. com significativa (. com significativa atuação individual noirs instruits » dans l’espace académique. tuais negros. cultu- os Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros (NEABs) e os Desde a criação das universidades brasileiras. período Joel Rufino dos Santos amplia para o passado e o pre- um notório incômodo com os corpos negros. pelo sociólogo Negros e o Movimento Negro Evangélico. organizada fera religiosa com grupos como os Agentes de Pastoral INTRODUÇÃO na Universidade de São Paulo. para uma elite social. que A MOVIMENTAÇÃO NEGRA assistenciais [como as confrarias coloniais]. recreativas se afirmam negros/as no espaço acadêmico e. por exemplo].. Coordenador dos” no espaço acadêmico. de rebeldia armada. por fim. o que me leva a afirmar a Ampliar este quadro não aponta necessariamen- para o Grupo de Trabalho André Rebouças formado existência de um movimento negro de base acadêmica te para uma compreensão. de movimentos conjunto com outros/as pesquisadores/as acerca das que alguns/umas ativistas que participam da reorgani. avec significative perfor- do Laboratório de Estudos de Gênero.). Em seguida. période concomitante à la graduação e pós-graduação em Geografia à discussão e implementação de Ações Afirmativas e das cotas discussion et mise en oeuvre d’Actions Affirmatives et des quotas e do mestrado em Antropologia da Uni. em 1977. literários e ‘folclóricos’ – toda essa complexa trajetórias de intelectuais ativistas negros (RATTS. de qualquer natureza. Afirmativas e das cotas raciais. Posteriormente. dentre outros. Lé- grupos sociais historicamente discriminados com foco mados Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros (NEABs) lia Gonzalez (1982) chama a atenção para a pluralidade para as cotas raciais pode ser inserido numa discussão e. raciales.) a melhor definição de movimento negro é: todas Os anos 1970. teatro. projeto político acadêmico que tem memória e história. são. discuto brevemente mique dans la décennie de 1970.. que advém de pesquisas e obser. je discute brèvement la a constituição dos Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros entre os constituition des Noyaux d’Études Afro-Brésiliennes entre les années Alex Ratts anos 1980 e 1990 e faço referência à criação dos Coletivos de 1980 et 1990 et fais de la référence à la création des Collectifs d’Étu- Antropólogo. meiros anos da reorganização do movimento negro. Nos pri- O debate público acerca das ações afirmativas para de grupos acadêmicos nos anos 1980 e 1990. capoeira. (SANTOS. a presença de acadêmicos/as negros/as é uma exceção bilização política. por vezes de técnicos administrativos. e docentes no espaço acadêmico. 2009). faço referência à criação de Coletivos de de organizações e para a sua unidade.

dos Santos (2009) preferem ratura sobre este movimento social fala de uma “reno. na literatura específica. por exemplo). considerado. Marlene de Oliveira Cunha e Eduardo Oliveira e Oliveira. como sujeito coletivo e como individua- duadas entre os/a fundadores das entidades negras nos lidade forte (SANTOS. lugar de informantes dos pesquisadores estabelecidos nização criada em 1983 (SANCHIS. p. 63-64). De fato.. nizações mencionadas é seguida pela regionalização e panto e gera atritos peculiares (1994a. criado na Universidade lações raciais e das culturas negras. 96). Santos: Santos que. geralmente. 30 31 . mais recentemente. 2007. noção consensual do que significa movimento negro. pois. 2007). trata-se 2) descreve em linhas gerais seus tipos organizativos e. e eventos. ainda que reduzida e por vezes estrangeiros. boa parte da lite. Eduardo Oliveira e Oliveira e Hamilton que a ação em escala nacional do MNU e das orga. frouxamente articuladas entre Uma citação a mais de J. Guerreiro Ramos e Clóvis Moura são pensadores que nacionalização de outras coletividades. Helena Theodoro Lopes. cismo desembocou. Federal Fluminense. (1994a: p. gros são filhos do “boom” educacional dos anos setenta de ação coletiva em toda a América Latina. no meu entendimento. 2009).. negros/as ou de negros/as intelectuais como prefere como é o caso de Clóvis Moura. (DOMINGUES. passando por centros autônomos de pesquisa – proliferação de faculdades particulares estimulada muito bem notado por Cardoso (1989) e Gohn (2004). No contexto de uma estados no período em foco. de jovens negros/as no meio acadêmico: foge. No entanto. Flávia Rios (2009). Maria de Lourdes não concordo. (2009). Há desde organizações políticas superestimada. os jovens que fundam. com a qual rompe logo des privadas foi maior. vimento negro a partir dos anos 70 são feitos. 2009: p. 1999: p. a exemplo do GT “Temas e problemas da a mais notória). Aquilo que os próprios (TEN). Isso não brancos/as e negros/as que merece levantamentos e tos negros”. 1983). pois na década ante. enti. o Grupo mente desta geração universitária. optando pela denominação de Gonzalez o “movimento negro moderno” data do início dos anos (SANTOS. em nessa produção é o fato dos negros deslocarem-se do depois) e os Agentes de Pastoral Negros (APNs). gros. é abordada em Ratts (2003). a exemplo de Kabengele a expressão no plural – movimentos negros – como se vação” ou “retomada” dos movimentos negros no final de Trabalho de Profissionais Liberais e Universitários Munanga. pos- o singular previsse uma harmonia. O autor provavelmente está tratando de entidades Sales Augusto dos Santos (2007). orga. É preciso ressaltar que Abdias Nascimento. 266). que indica que este quadro se verifica em outros O movimento negro de base acadêmica se sinto- amplitude nacional e claramente destacado de outros mens de Cor (UHC) e Teatro Experimental do Negro movimentos sociais na América Latina: niza com as outras organizações no enunciado da exis- movimentos sociais e políticos. primeiro. risco de embranquecimento dos/as acadêmicos/as ne. de histórias e memórias negras. um ponto crítico decisivo nos anos 80 em diante. e pela busca de uma narrativa to negro. consciências e atuações políticas” (BORGES PEREIRA. merecer maiores reflexões. Geração. negro de tipo mais “político”. se inseriam nas uni- res como Márcio André O. Esta citação é interessante por três razões: 1) capta a gros/as (RATTS. em seguida. por intelectuais negros. rior ainda podemos verificar uma transição. um mo. que estes/as intelectuais. No caso do movimento negro de base acadêmica. União dos Ho. é pontuada por Rios pares nas universidades. transformando-se continuamente (. a exemplo dos têm produção escrita desde décadas anteriores. nacionais e também o quadro das relações entre pesquisadores/as si – há quem prefira mesmo designá-lo por “movimen. Santos contribui para a grande medida. Lé. aparecer. a pessoa negra passa a ter voz própria no mun- brasileiros. União de Negros pela Igualdade (UNEGRO).) os estudos que engrossam a produção sobre mo. são na verdade cerca de 400 enti. 266-267) sujeitos: “Quem são eles? O que mais chama a atenção 1980. No caso do movimento negro.. Negra do Maranhão. de inflexão em que o sujeito negro não deseja ter sua cussão racializada e ideologizada em torno da noção de quilombo de J. tanto que em mente filiados às ciências sociais ou por elas influen- algumas situações se instaura uma tensão em torno do ciados. Siqueira. novas tendências tidas como críticas que ameaçavam deixa uma indagação e faz uma afirmação acerca destes de União e Consciência Negra (fundado entre 1978 e do Rio e de São Paulo. atuar em conjunto. de Trabalho André Rebouças. para a posição de ensaístas e intelectuais” (p. O dilema entre cultura e política se instaura par. de Rios (2009). nacionais de mulheres negras. No adiantados de ensino abria vagas para negros – é o caso são conhecidos os nomes de Beatriz Nascimento. do acadêmico. nanga. Joel Rufino dos Santos e cas entidades nacionais como o MNU. como intelectual reconhecido participou voz suplantada ou infantilizada (GONZALEZ. mento ainda mesclado pelos padrões de pesquisadores jar artigos de Lélia Gonzalez. produziram um ponto que não concluiu a dissertação em virtude de sua morte. bem como do GTPLUN (Grupo versidades. como foi e Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS) e no minense). Parte significativa dos/as discussão acerca da noção de quilombo. teorica- não tinham passagem pela universidade. outros trabalhos apontam que Negros) de São Paulo e do Grupo Negro da PUC-SP teriormente de Leda Maria Martins. merece relativização esta afirmação de J. ao cote- J. na Universidade Federal Flu. nos anos 1970 e 1980. I. mentos sociais tornam-se pesquisadores dessa forma população negra” da Associação Nacional de Pesquisa o Grupo André Rebouças. É o caso do Grupo doutores/as que hoje são referência dos estudos de re- campo e forma de atuação de cada grupo. que a fuga de candidatos brancos para centros mais Para o período em foco. mas também a dades negras de luta contra o racismo. desde meados dos anos 1980. poucos grupos se identificaram Este é o período em que alguns/umas mestres e de voltar-se para os critérios de identificação e para o 3) estabelece uma periodização para um movimento ou foram identificados como tal. são invariavel. ideias arregimentadoras de negro ou são reconhecidos pelos fóruns políticos ne. 30. Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva. onde o grande número de “negros doutores” causa es. muitos militantes e simpatizantes de diversos movi.. Muniz Sodré e Joel Rufino dos Santos. pontas de lança de ação. Todos 1. 2006). dossiê temático deste processo e ministrou cursos em vários estados ou seja.). em própria. nos anos setenta. João Batista Borges Pereira foi o orientador de Kabengele Mu- encontros de negros Norte e Nordeste e dos encontros Além da irônica expressão “negros doutores”. ação relativamente conjunta de intelectuais ativistas lectuais negros/as ativistas traçam caminhos distintos. Santos se refere a um momento em que há pou. Alguns auto. sobretudo públicas. A trama das trajetórias pessoais e coletivas fica a das relações sociedade-governo desde 1960. no repensar a nação em militantes negros convencionaram chamar de movimen. percepção da entrada. Henrique Cunha Jr. lia Gonzalez. de diversos tipos. juntamente com as Hamilton Cardoso da primeira metade dos anos 1980. no superior”. preocupados em criar bandeiras de combate. Outros/as inte- J. M. (p. Santos sintetiza o quadro do período: M. a uma tendência da geração desse período: estudos mais aprofundados no que se refere a grupos rígidas (como o Movimento Negro Unificado. enfim. O cenário traz dades. e perspectivas analíticas antigos. 1983b: XIV)1. porém. até instituições semi-acadêmicas (como É preciso lembrar. 94). É difícil estimar a proporção de pessoas gra. 237).. no entanto. identifico uma articulação negra de base acadêmica. tocante à relação entre orientadores/as brancos/as e histórica e cultural do negro (como o Centro de Cultura pelo estado como solução para a “crise de vagas no ensi. remete à presença de licenciados/as e bacharéis no muitas vezes. 1999). que atuam na primeira metade de século XX tência do racismo no Brasil. A transformação provocada no momento da atu. esse fato torna-se mais orientandos/as negros/as. que acabam por se aproximar e. mas também dos estados. estes novos ativistas negros/as que fundaram as referidas entidades sujeitos são chamados de “ideólogos negros. onde a proliferação de faculda. reconhecido pelos seus Foi nos anos setenta que a luta organizada contra o ra. que os movimentos ne. entanto. ticularmente aí. pode-se dizer por exemplo do Maranhão e do Rio Grande do Sul. De fato. no plural. o MNU. e Rufino e. Cardoso. plena ditadura militar. engajados na luta anti-racista. num movimento negro de como Frente Negra Brasileira (FNB). no seio da igreja católica. (SANTOS. período durante o qual não (. assertiva com a qual dos anos 70. A dis- Márcio André dos Santos comenta o trecho acima movimento.

) O grupo tem por preocupação quanto aos temas Reginaldo Guimarães Historiador Cabe ressaltar a vontade de reconhecimento e o letivo formam-se 3 grupos fluminenses: o Grupo de apresentados no decorrer das semanas de estudos a de Roy Glasgow Historiador processo de institucionalização da Semana de Estudos Trabalho André Rebouças (GTAR). 01). que refaz uma bibliografia sobre gritude acadêmica. Nunes Pereira e Vi. GTAR. a Sociedade Inter. ram com o GTAR entre 1976 e 1978 contribui para que larmente na implementação de ações afirmativas para a população branco. Hasenbalg Sociólogo É relevante destacar.e registra a continuidade atenção a precisão do propósito teórico e político do como João Baptista Borges Pereira. sidade Federal do Rio de Janeiro e se dedica pesquisar negros universitários tiveram como propósitos [sic]: in. Carlos A. e Eduardo Oliveira e Oliveira (1974. cente e discente da Universidade e estabelecer contato Alguns intelectuais brancos/as (ou não negros/as) onde procedem (GTAR. A proposta do de “Grupo de Trabalho André Rebouças” elementos de continuidade na organização social da troduzir gradualmente na Universidade créditos especí. e amigos/as. dentro de Leni Silverstein Antropóloga consensualmente depois de 1978: “No ano de 1977. a exemplo da eleição do dia 20 UM PROJETO DE leira”. Semana de Estudos Sobre a Contribuição do Negro A tentativa de realizar este trabalho foi iniciado [sic] em Maria Beatriz Nascimento Historiadora na Formação Social Brasileira foi organizada e trans- Na cidade do Rio de Janeiro. então di. estudante de Geografia. 2002: p. além de estudiosos renomados gros sentiu necessidade de organizar-se juridicamente americanistas e africanistas . dossiê temático para que compreendamos na diversificação dos temas Quadro 1 – Colaboradores/as do Grupo quais são as preocupações do grupo: história do negro nas Américas e no Brasil. (. veira Cunha. por meio das palavras do Décio Freitas Historiador próprio Grupo de Trabalho André Rebouças. concernentes ao negro brasileiro enquanto raça e de sua Yvone Maggie Alves Velho Antropóloga vem por intermédio de uma portaria do Ministério de sas das Culturas Negras (IPCN).que ele traduz como Estando situado no espaço acadêmico.. cente Salles. os membros do GTAR nar. relações raciais. a exemplo de Marlene de Oli- versitários”. por um lado. ALBERTI & PEREIRA. Campos. 1978. 1976. que não menciona o GTAR. Beatriz Nasci. Deste co. 2). Na dissertação de Cunha (1986) acerca da História. pro- especialistas na área das Ciências Humanas ligadas às Juana Elbein Antropóloga posta pelo Grupo Palmares de Porto Alegre e adotada NEGRITUDE ACADÊMICA: questões relativas ao Negro brasileiro atual. João Baptista Borges Pereira Antropólogo política negra de então. nem sempre nítido aos olhos contemporâneos. sobretudo da reserva de vagas para estudantes negros/as. 1978: p. sadores/as sobretudo do Sudeste. desigualdades de Trabalho André Rebouças (1976 – 1978) raciais. e outros colegas entre professores que desenvolvem teses sobre Relações iniciam sua carreira acadêmica naquele momento. o GTAR estava. 1978: p. Peter Fry Antropólogo anterior” (p. ficos sobre as Relações Raciais no Brasil. 1977. Geografia. 01). 1978: p. veira Cunha e posteriormente Andrelino de Oliveira Atualmente. 3. 1977) e desenvolve sua dissertação acerca de preconcei. em Ipanema. intelectuais nacionais e estrangeiros/as que colabora. particu. a das áreas de Humanidades. São dois dos/as intelectuais mais uma linha de atuação acadêmica que os beneficiou du- reuniões acima mencionadas. entra no mérito das Devido a este reconhecimento. alguns/umas dos/as quais se tornaram pesquisadores/ objetivos acadêmicos: Definido como um “grupo de alunos negros uni. aparecem dois intelectuais com perspectiva aglutinando intelectuais. Na realização das semanas de estudos o grupo de alunos GTAR: Beatriz Nascimento (1974a. ram seu processo de formação e deixam explícitos seus o negro para uma das “semanas de estudos” (BERRIEL. 1973 no Centro de Estudos Afro-Asiáticos pela profes. Como contraponto deste quadro merece comentário a postura “Semana de Estudos” e à criação do GTAR com colegas ída a quem participava do evento. ela indica da Universidade Federal Fluminense organiza um en. no início dos anos 1970. implicação no seu todo social (GTAR. a situação de pesquisadora negra com um orientador ses do período (CONTINS. retora do ICFH-UFF.2 Hanchard (2001: p. negros. tendo por objetivos os mesmos do ano de Estudos Afro-Asiáticos da Universidade Cândido interessados em formar um grupo de estudos. ex-alunos e alunos negros que Participante das referidas reuniões. negra que se tornam referências para os/as jovens do participam das semanas de estudos sobre a contribui- mento conclui sua graduação em História na Univer. e por outro lado no sentido de se Virgínia Nascimento. Na introdução do seu trabalho. Este processo está em relatos de ativistas negros/as fluminen. Cabe ressaltar que dos/as colaboradores/as do GTAR também contribui que a escolha do tema se dá em meio a seu curso de contro que denominou de “Semana de Estudos Sobre cada convidado/a colaborava com a produção de uma Ciências Sociais na UFF. sua amiga no que diz respeito ao assunto adotado pelo corpo do. tensão que em grande parte se dissolve na ami- Acerca da SINBA. a O GTAR NA UFF uma abordagem das relações raciais. as das relações raciais. ou seja. zade construída ao longo da pesquisa (p. que pensa ção do Negro na Formação social Brasileira. um grupo de alunos negros dos cursos de grupo. além de escrever sobre a necessidade de uma objetivos destes alunos negros de continuar mantendo na Universidade Federal Fluminense. atualizar a bibliografia estados de Rio de Janeiro e São Paulo (CUNHA JR.. cultura negra e religiões afro-brasileiras. Neste encontro o grupo convida autoridades e José Bonifácio Rodrigues Historiador de novembro como data de referência positiva. cimento científico. Participando das tentar uma reformulação do programa de Antropologia produção acadêmica. o grupo de alunos ne- divergências entre IPCN e SINBA . mas também das Exatas. fez articulações internas na UFF e com pesqui.. negra. “em busca de espaço” (GTAR. 1975). principalmente pesquisa acerca da ideologia racial e dos movimentos vido na universidade. O GTAR se constituiu como um projeto de ne- Nos seus documentos. o estudo das relações raciais e a produção historiográ. de Ciências Humanas e Filosofia (GTAR. Ciências Sociais. Maria Maia de Oliveira Berriel Antropóloga ferida para novembro em homenagem a ZUMBI. raciais fora da UFF com o corpo docente do Instituto exemplo de Maria Maia de Oliveira Berriel. o que a leva à organização das comunicação que era publicada em apostila. A bibliografia linguagem gestual no candomblé Angola. Mendes e no Teatro Opinião. 1977). com o nome de “Grupo de Trabalho André Rebouças” da primeira entidade até os dias de hoje. Química e Física tanto. Um quadro dos/as atual de Yvonne Maggie e Peter Fry contrários à adoção da variá. 22). 1974b). distribu. dades raciais despontam àquela época3. chama a Naquele período. ela reflete 2. formando acadêmicos ativistas. Fonte: GTAR. 1982). 01). 11-12). que cursa Ciências Sociais. detalhes Eduardo de Oliveira e Oliveira Sociólogo do contexto que aproxima a entidade da mobilização a Contribuição do Negro na Formação Social Brasi. 32 33 . Marlene de Oli. no sentido de conhe- um grupo de estudos do qual participam sua irmã Rosa e Filosofia (já foi reformulado). ver o artigo de Joselina da Silva (2009) aquilatemos a amplitude do projeto acadêmico. Para co também Carlos Hasenbalg cujos estudos de desigual. Desta. Rei um grupo de pessoas se reúne aos sábados no Centro sora Maria Beatriz Nascimento e alguns jovens negros Michael Turner Historiador dos Palmares. mostrar uma nova forma de abordar as Relações Raciais Vicente Salles Antropólogo e do próprio Grupo de Trabalho André Rebouças que nacional Brasil África (SINBA) e o Instituto de Pesqui. fica. preparar para uma ação voltada para a comunidade de e companheira de trabalho de campo. ela estimula a criação de do Negro brasileiro no Instituto de Ciências Humanas reconhecidos/as pelo movimento negro emergente nos plamente. Manuel Nunes Pereira Antropólogo 3ª. na expressão do próprio to e ideologia racial no Brasil (BERRIEL. que é a de manter uma continuidade do trabalho desenvol- população negra dos quilombos do período escravista. 2005. Educação e Cultura de setembro de 1978: 110). cujos resultados fortaleceram os como parte de sua especialização também em história nos cursos que abrangem a área das Ciências Humanas. 2007). vel raça nas políticas identitárias e nas políticas públicas.

América. devem estabelecer uma in- “NÓS TEMOS DIREITO A ESSA a conferência Historiografia do Quilombo. do qual existem registros impressos e audiovisuais. de 6 a 13 de julho 4. voz própria que emerge em Nascimento é o reposicionamento da pessoa negra e nos Estados Unidos). ginais. Direção de Raquel Gerber. 18). 1989. Mas a interpretação do “indivíduo nosso inconsciente. como indico em outro o acadêmico. À semelhança de Oliveira. por conseguinte. depois de dez anos ou construção face ao quadro das ciências humanas no aborda corpo e linguagem – exemplificam uma parte ências Sociais na USP. 26). dossiê temático O seu ponto de partida com o “objeto de estudo” é proposta por quem era objeto de estudo de médicos. o autor faz algumas indagações acerca de quem tivas” (IDEM. a etnicidade e a classe social são de primordial Progresso da Ciência (realizada em São Paulo. Idem. 22). perspectiva com a qual ainda nos blica uma resenha crítica do livro de Carl Degler (Nem soluta que paira acima dos seres humanos. Con. grifo do autor). datada do mesmo ano da Quinzena do Ne. coisa que mais me chocava era o eterno estudo sobre o em que acadêmicos/as e ativistas problematizam suas avaliá-la (1977. Na intervenção. O interesse do sociólogo e ativista. Beatriz Nascimento profere marem como tal”6. Oliveira indica que de “escravo” por “negro”. como mão de obra nadores/as qualificados/as do racismo brasileiro. no simpósio “Brasil Negro” por ele coordenado. p. com parentes e amigos/as que são lideranças religiosas: de intervenção de mercadores. porque tocante aos estudos de relações raciais7. de seu ambiente familiar folcloristas. pesquisadoras e pesquisadores das mas que usa disso como instrumento de trabalho para culturas negras e das relações raciais. religio. têm individualidade. um teórico e precursor da mudança social. estudante doze de trabalho. Fez parte da semana uma exposição organizada por Marian. no caso. então diretor do Museu de Arqueologia e 5. 2001. Hamilton Cardoso. mais um aspecto do projeto político: “Nós temos direito intelectual. O autor e indivíduo negro como pessoa. antropólogos. Como se nós só tivéssemos existido dentro da demandas de formação e de atuação social. tudo. terreiros. organiza grafia brasileira: “Quando cheguei na universidade a Janeiro e São Paulo organizam debates e outros eventos de” quando detivesse os instrumentos necessários para a Quinzena do Negro naquela instituição. com nação como mão de obra escrava. favelas. escolas de samba. “Voz que vem do interior”. de uma sociologia. Angra fil. p. 2003). importância. xos. que a constituição de um lugar de fala enquanto sujeito a sua possibilidade de universidade para formar mais gar sua condição social: “Vivemos num mundo onde inclusive na 29ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o negros”5. O evento. mas por exemplo. é escravo. jamento pessoal. 49 e Hamilton 24 anos. Nos estados de Rio de que este objeto questionaria sua suposta “objetivida- pologia na USP. racialmente hegemônico: “Hoje. Numa palavra: Sujeito” (IDEM). Nos ombros dele recai uma ou- dessas verdades” (OLIVEIRA. lato” face ao mito da democracia racial (OLIVEIRA. historiografia. Vemos tro dessa universidade é porque a universidade assume cessidade de afirmação do intelectual negro. a de descolonizar sua mente de maneira que ativista identifica as difíceis condições da formação de A ênfase na diferença questiona a subsunção do sim trazer elementos da reflexividade. Para o autor a experiência deve balizar a constru- “percebi que havia uma forte identificação entre mim sos. p. Beatriz Nascimento propugna No texto/manifesto do evento. Eduardo Oliveira e Oliveira enuncia 1974). parece da maior relevância – revelar o negro como cria. jamais pensou Em outubro de 1977. na Europa. Ela era ami. E o fato de fazer [a Quinzena do Negro] den. Convém também lembrar que a ciência Na conferência a pesquisadora e ativista demarca sua e participam de circuitos intelectuais e políticos de rela. se trata de fazer uma auto-análise em todos os textos e tra tarefa. como reação e como cimento e o estudo de Marlene Oliveira Cunha – que com a participação de Rafael Pinto. apontando a dificuldade de en. eco- mesmo processo” (p. Para ele. p. não tiveram escravizado” como um ser coisificado é um ônus ex. para o que necessita. mas a vonta. conferências e exposição. da liberdade. 287). senhoras e senhores de toda ordem. já existente do conhecimento. Na plateia há militantes de uma que não pretende ser doutor. ce uma mesa redonda com estudantes afro-brasileiros deve-se ter o cuidado de não se submeter ao segmento nomia ou antropologia negras. também a subjetividade do pesquisador/a: “Devemos dos clichês relativos ao problema negro? O intelectual contribuído para a história pátria (. 6. buscando nós mesmos. quaisquer que sejam e onde quer que estejam: bai. ção de uma ciência para e não tanto sobre o negro. além de enga- Nesse sentido. 34 35 . 1977. Os escritos de Beatriz Nas. André Rebouças. atriz Nascimento. Para ele e para ela os/as estudantes e intelectuais particular ao cientista negro). o então mestrando em Antro. 7. les Black. O autor pros- do projeto político acadêmico do Grupo de Trabalho de jornalismo. Por seus escritos. sendo assim impossível ao cientista (e em de 1977). Sobre o negro” (IDEM: p. pública. p..44). presumo que não é uma espécie à parte. e o grupo que pesquisava. posição face ao que se discutia e produzia na historio. nossos comple. Sentia que fazia parte do Cabe destacar que na Quinzena do Negro aconte. latifundiários. gras. que dificulta a compreensão do TO. debatemos. Os cientistas negros. desenvolver novas técnicas e perspec- tiza o propósito maior do evento: “um aspecto que nos a essa instituição. o nome construído e a titulação são importantes. Têm artigos e ensaios publicados abordagens. neste caso. Eduardo tem serem estudados como sujeito/objetos que são de suas DO NEGRO NA USP trabalhado nas “semanas de estudos” do GTAR na UFF. tiva visibilidade para o período. posicionada. a formação e o posicionamento do intelectual negro: que o evento ocorre durante a ditadura militar. Transcrição do filme Ori. estudando-os. valorativa” (OLIVEIRA. e mais dois nomes mencionados como eu sou Eduardo Oliveira e Oliveira que tenho um título. aqueles que com ela se identificam. é (e de quem pode ser) intelectual no Brasil e da ne- dor e criatura. sua experiência de negros. (IDEM. Na comunicação intitulada Etnia e compromisso seu próprio grupo. tendimento da desigualdade preto/branco pelo “mu. a cor. que fez do negro um objeto de estudo. após a conferência de Be. cou indelevelmente a experiência negra na África. Um “intelectual negro” até agora os meios exigidos para que se tornem arautos cessivamente pesado. não os enganando” (NASCIMEN. na fazer a nossa História. formação social: “O cientista negro precisa se tornar as. por meio no Carneiro da Cunha.4 É necessário lembrar pra fazenda e pra mineração” (NASCIMENTO. manter uma neutralidade vem de um circuito próximo. é divulgação na imprensa paulista. Em termos de faixa etária. se afirmar como negro e ajudar outros negros a se afir. entendo não “A Verdade” ab. ou. de “cientistas negros”: geração anterior. 26. já me mandam entrar e sentar. novas descobertas e informações no conjunto nistas. da verdade. mes. porque seus cro. Por verdade. a partir de artigo (RATTS. São questio- composto por mesas. Márcio e Andrada. sociólogos e que fora objeto negros/as não devem se distanciar das coletividades ne. outras identidades. 26). Eduardo Oliveira e Oliveira pu. o propósito de preto nem branco: escravidão e relações raciais no Brasil O autor segue apontando o que seriam para ele os de de verdade. nossas frustrações. possa guiar outros intelectuais e estudantes na procura um pensamento negro: a falta de meios para produção “negro” ou da “raça” na variável classe ou no rol de No mesmo ano. elementos deste processo que deve levar a uma trans- territórios discursivos. segue propugnando a ideia de uma “ciência negra” e. sem ne. estes/as intelectuais não vestida “perceptiva”. Sobretudo essa aqui [a USP] que é gro. p. Eduardo Oliveira e Oliveira sinte. influenciados pessoalmente por Como parte do evento. tentando conhecer os fenômenos a INSTITUIÇÃO”: A QUINZENA ga de Eduardo Oliveira e Oliveira com quem já havia são tão jovens: Beatriz está com 33 anos. 1974b. Em artigo de 1974. de uma comunicação intitulada “De uma ciência Para e não tanto Etnologia da USP. Oliveira relata que defendera esta proposição em vários eventos. não falavam em uníssono.) – e que têm per. 1989). que não se branqueou. Eduardo Oliveira e Oliveira. que cursava Ci. 26).. A escravidão de africanos e “uma história do homem negro” em que fosse colocada Em que medida o “intelectual negro” deve se libertar um dos propósitos é “revelar alguns brasileiros que têm africanas por sua extensão espacial e temporal mar. O que ela propõe não é uma simples troca de termos. Voz de pensadores/as negros/ como sujeito na ocupação de espaços sociais. jogando lato-sensu é um homem que contribui com idéias ori- manecido à margem desta história.

de ensinar. escolar e acadêmico. e em São Paulo. 1978. Como participantes deste cená. proposição do engenheiro e educador não logra efeito. na UFPE. a partir sobretudo de 2001. o Núcleo de Estudantes Negras e Negros na UFBA e o Não há muito ensino ou aprendizagem apaixonada seja ele branco ou negro” (BASTIDE apud OLIVEIRA. uma outra pesquisa. Os corpos racializados de acadêmico. É o caso do NEAB-UFAL. mas uma causa” (IDEM. etnicizados e generificados) doutores negros/as e com a colaboração de intelectuais Ações Afirmativas para a população negra e particu. a-corporais e. com a organização do I Con. públicas e pri- veis ou facilidades no estudo das relações raciais. tem que passar despercebido” (2001. (UNESP) . protagonizados por mestres e país um processo de discussão e implementação das DE CONCLUSÃO diferenciados (racializados. vidades e para as trajetórias pessoais e coletivas. mantendo uma posição de crítica e de participação Louro (2001): O corpo educado. TOS. – incapazes de reacender paixões que um dia podíamos (NASCIMENTO. sinhos Pré-Vestibulares para Negros e Carentes (SAN- CORPOS NEGROS EDUCADOS: acontece o necessário e adequado reconhecimento das Nos anos 1980. mais usados como as dos NEABs. marcados pela presença de intelectuais negros/as Temas ligados à questão étnico-racial. dantes estão desesperadamente desejando ser tocados curralado na sua condição primeira e primeva de raça. Alguns/umas pesquisadores/ com sua qualificação profissional e o ativismo. aqueles e aquelas de nós que ensina- campo de estudos e pesquisas vem acompanhada da gresso Brasileiro de Pesquisadores Negros. e também das incertezas. em algumas situações. das culturas. queira ou não em um problema ações afirmativas para a população negra. http://br. que tem como tema “A universidade que marcam com expressão própria o cenário de algumas sobre perda de controle prevaleçam sobre seus desejos saiba). de certo modo. afirma bell hooks: “o mundo público da aprendiza. na educação Tais coletivos podem ter sido formados por uma em relação às instituições de ensino superior nas quais e acadêmicos é rara a discussão acerca da corporeida. Negros (CENs) que se estendem por vários estados. Outros são criados Neste contexto surgem Coletivos de Estudantes A expressão que dá título a este artigo advém da relei. funcionários/as e estudantes 36 37 . no III Congresso Brasileiro de maior ou menor grau com a presença de pesquisadores sem necessariamente incorrer em sentimentalismo. grifos do autor). e o Seminário Neste sentido. O autor conclui: “O negro ‘intelectual’. CEAB-UCG (PUC-GO). Os NEABs. Um processo de internacionalização dos/as as coletividades estão a merecer uma observação de Nas escolas e nas universidades transitam. implicado. em Salvador. Rio de Janeiro. uma espécie de auto-psicanálise intelectual. Desde 2001 surgem: Enegreser. na UFG em Goiânia. gênero ou orientação sexual. no ou outro/a docente. implica. observa-se por todo o UMA DIGRESSÃO A TÍTULO identidades. 2006). bém ao gênero e à sexualidade. presentes em todo o território nacio. concentrados/as na área das Humani. como a sociedade. das trans- brancos/as e outros. O corpo é “educado” e na educação formal OS NEABs E OS CENs e hoje soma 76 núcleos8. pesqui. paralela. R. Mesmo onde estu- 1977. que muitos/as realizam seus trabalhos de conclusão de metáforas. tura do título e do conteúdo do livro organizado por vros didáticos e paradidáticos (tanto nos textos quanto NUPE-UNESP e NEN-SC.. nem sempre se definem e são reconheci. dossiê temático Oliveira se referencia em uma assertiva de Roger realizam projetos de extensão e de qualificação de pro. NEAB. encaminhando-se ras/es e estudantes têm corpo (hooks. uma Associação Nacional de Estudantes Negros que neiras estamos. em construção e. PENESB-UFF. posto que podem contar em quisadores/as negros/as são apaixonantes. à paixão: pesquisa. Neste sentido. o Consórcio de NEABs e grupos correla. o povo negro quer”. 27). ao campo da subjetividade.yahoo. 27. professoras e professores ainda têm sujeito/objeto de seu trabalho. Nacional de Universitários Negros. dos como grupos negros. Criado em 2004. estão graduandos/as e pós-graduandos/as que nal. São reali. Bastide que merece citação: de que “o sábio que se de. mo. ments/folder/1036087237/item/list gem institucional é um lugar onde o corpo tem de ser professores/as. remetem e formação. quisadores e Pós-Graduandos Negros. en. 2001. como é o caso da influência de Beatriz e outras. pois. Este processo culmina em 2000. são corpos O quadro desenhado por ativistas negros/as no espaço relações raciais. tanciamento de temas que remetem à subjetividade. Neste âmbito. Joel Rufino dos Santos e outros/as que Iniciativas dos/as ativistas preocupados/as com o nos. Para o/a intelectual negro/a ativista a escolha do em Recife. dos corpos tudos Afro-Brasileiros. sem definição para além dos espaços educação formal contando com plo da Cooperativa Stive Biko de Salvador e dos Cur. o que me permite tecer considerações como sa e extensão. mas tam- é um complexo processo de orientação. intimamente aborrecidos mentos. Núbia Pereira Gomes (2001). em instituições de ensino superior. não tem outra opção. mento (CANBENAS). contram e se confrontam corpos femininos e masculi- Lélia Gonzalez. Nos espaços escolares nas ilustrações). particularmente as uni. muitas vezes. e. é pos- quase totalidade de pesquisadores/as negros/as ou se situam. pois parecem ser sível identificar e confrontar estereótipos ou imagens contar com a colaboração de estudiosos/as de outros mativas e por políticas do conhecimento que se vol.groups. o Coletivo Denegrir na UERJ. p. Os Sem essencialismo. nos vídeos. no dis- -se. se tornam grupos de estudos e pesquisas. de dos segmentos que os compõem. de raça. e isto. situação na qual me ativistas e qualificados como núcleos de ensino.122-123) na academia não implica em ter certezas inquestioná. Ambas docentes e discentes.com/group/consorcio_neabs/attach. p. à angustiante” e que deve proceder “no decorrer de sua A presença de professores/as e estudantes negros/ Coletivo de Estudantes Negros e Negras Beatriz Nasci. fessores/as para a educação das relações étnico-raciais abrigar discentes de outras universidades. p. ainda deixam que suas preocupações Não está lidando com um assunto (é preciso que ele ano de 1993. ardilosas acerca das pessoas negras que permeiam toda pertencimentos étnico-raciais. muitas vezes abordados na perspectiva para a pós-graduação. são corpos educados. defrontando-se por vezes com a em processo de educação. formações corpóreas. Afirmar-se racialmente Henrique Cunha Jr. realizado na UFMA em São Luís e professores/as de outros segmentos étnico-raciais. larmente das cotas raciais. sobre ele mes. no qual é leiro de Estudantes Negros há a tentativa de criação de mos os mesmos velhos assuntos das mesmas velhas ma- reflexividade de suas condições e de seus posiciona. se en- Nascimento e Eduardo Oliveira e Oliveira e também de pesquisadores/as negros brasileiros/as está em curso. na Faculdade de UBUNTU – Núcleo de Estudantes Negros e Negras na na educação superior hoje em dia. Nem sempre intelectuais “locais”. Os corpos racializados estão no currículo. gênero falta de orientação nas suas áreas de formação. Vários NEABs se cons. rio. Coletivos de Estudantes são identificados prontamen. os Coletivos de Estudantes Negros medo do desafio. ter sentido (hooks. 2001). das indefinições. por extensão.Campus Marília. versidades públicas. referências da raça (mas também do gênero e da sexu- E DISCENTES NEGROS: tos conta inicialmente com a participação de 16 grupos te como grupos negros e demonstram a preocupação alidade). no III Congresso Brasi. 41). O sujeito “faz parte da matéria investigada” gros (ABPN). segundo Edimilson de Almeida Pereira e tituem como “territórios negros no espaço branco” 8. na UnB em Brasília. das diferenças. gestores. emoção.. Pesquisadores Negros. nos li- na década seguinte: NEAB/UFSCar. Pes. Corpos acadêmico nos anos 1970 reverbera no Rio de Janeiro da interseccionalidade com as variáveis classe. em 1989. por exemplo. negros e brancos. comoventes. 115). heterossexuais e homossexuais também percorriam o país num processo de formação acesso à universidade se inserem neste quadro. tem para a população negra e também porque podem anulado. o corpo é uma das principais CORPOS DOCENTES do Maranhão. p. Professo- dades. Este posteriormente assumem a docência e participam da vadas. na Bahia. ainda que contem com o apoio de um/a pelo conhecimento. para alguns/umas pes- observador participante. p. incluo. nas músicas. tornam-se referência no campo dos estudos das curso no campo das relações raciais. são criados alguns Núcleos de Es. balizamento consolidação e criação de NEABs. do ensino Para a autora. nas apresentações artísticas. posto temos corpos – docentes e discentes. Em 2004. zados eventos como o I Encontro de Docentes. -UFMA. posto que fazem pressão pelas Ações Afir. a exem. Ao mesmo tempo. este afastamento do corpo como assunto bruçar sobre os problemas afro-brasileiros encontra. maior acuidade. (no espírito da lei 10639/03) e elaboram propostas de médio ou não se circunscrever ao público estudantil. física. criada a Associação Brasileira de Pesquisadores Ne. instituições de ensino superior. Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista UNEB. distantes do significante corpóreo. sem lugar para as subjeti. as se torna mais organizada e articulada.

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2000. de maneira 2005. como sujeito inserido processo. Ele afirma que “é essa si própria como referência. Especialista em Desenvolvimento Social conceito e discriminação no espaço escolar. como tal. through of a critical reinterpretation of those concepts present in the discussions about relationships ethnic- étnico-raciais no Brasil. Kabengele Munanga. evidenciar a diferença. cada sociedade. râneos que o reivindicam (NOVAES. cial (atributos que assinalam a pertença a um grupo ou ampla e genérica é invocada quando um “grupo reivin- titárias. ao falarmos sobre identidade neste tra. de gênero. ap- tória e Sociologia na Educação Básica. “sou homem”. pertencimento étnico. entre outros. popularmente. p. O ator e bailarino Bukassa Kabengele é filho de Kabengele e 11. parece real. Vivo num grande estado de alerta”. mas porque as identidades são construídas por meio da diferença o tema. ele sustenta que “os estudos dessa temática entender a construção da identidade. we will begin by exposing some theoretical general ele- ments about ethnical belongness. that. então. Por isso. categoria)” (Jacques. vistos por nossa socie- bida parece ser uma positividade (“aquilo que sou”). de classificação racial. socialmente “sou jovem”. Stuart Hall. Isso implica o reconhecimento radi- existentes e apesar de todos os esforços empenhados.40). A discussão da questão de raça no Brasil envolve ele. indivíduo isolado. é importante perceber que o conceito de identidade diferença que nos unifica como seres humanos”. deve ser investigado e analisado não porque os antro. apud PAULA. p. (atributos específicos do indivíduo) e/ou identidade so. p. os percepção. é.dossiê temático RELAÇÕES ÉTNICO- -RACIAIS NO BRASIL: PRETINHO (A) EU? RESUMO abstract DISCUTINDO O No presente artigo. constituiu-se dos estudos de as we will see the long in the text. que atualmente trabalha na USP. dentre outros. tão Cor/Raça no Censo Escolar do MEC. quanto com o grupo de referência desse sujeito. através de uma ressignifica- ção crítica dos conceitos presentes nas discussões sobre relações grafia e Estatística – IBGE. envolve elementos de identidade. De acordo com esse autor. “identidade”. “sou negro” “sou heterossexual”. evidenciar a identidade signi- (SILVA. 25).115). as tradições IBGE. o que o torna “sujeito a inúmeras variações”. Quem ratifica a afirmativa acima é o próprio mento coletivo. color/race. parece ser fácil definir sujeito. Se acrescentarmos ao termo identidade. race in Brazil. It’s intended that “Eu acordo e vou dormir todos os dias tendo consciência de que sou e em Sociologia. 2005. 1998. Antônio Sérgio Municipal de Educação de Montes Claros/ Sérgio Alfredo Guimarães. caracteriza os seres e as sociedades humanas não é a mente fácil definir identidade. classificação racial. pólogos decretaram sua importância (diferentemente ao aprofundar-se um pouco mais na discussão sobre do conceito de classe social.antropólogo e intelectual negro do Zaire (Congo) volve estudos desde 2005. da Secretaria Fúlvia Rosemberg. 2005. o que Na perspectiva citada por Silva (2000). que. sobre a Ques- identidade. ao termo iden. Como pesquisadora. começaremos por expor os elementos teóri- cos mais gerais sobre pertencimento étnico. em seus critérios De acordo com Jacques (1998. e não fora dela. “Do ponto de vista antropológico ou socioló- seus multifacetados aspectos. Estamos tratando do dade como diferentes. Still. e é influenciado por elas” (SOUSA. fa difícil. Para gorias que englobam podem ser entendidas de forma Além disso. a religião. Professora de His- Brasil. na realidade. Gleason (1980. pode levar em conta somente o aspecto cultural.IBGE. Experiência em Educação para as Relações Étnico-Raciais (leis 10. Kabengele Munanga. O referencial teórico adotado para pertain and perception. portanto.149). uma vez que ela só tem a similaridade e sim a diferença.24) calmente perturbador de que é apenas por meio da 41 .639/03 1. it constituted to studies by: Fúlvia Étnico-Racial na Educação. Dessa forma. Por- “ela é auto-contida e auto-suficiente”. involve elements of identity. we will discuss about differences. historicamente. pelos traços culturais. submetido” (Novaes. 1993. não podemos negar. a denominação é de “cor ou raça” os sentidos atribuídos. os níveis sócio-político e histórico de de “identidade” e de “percepção”. rituais. balho. pre. os comportamentos alimentares. tem relação tanto com a individualidade do a que foi.74) em um contexto de relações e. uma tare. podemos afirmar que. brasileiros. pertencimento e sucinta. A identidade vista de uma forma mais Torna-se. desen- Palavras chave: relações étnico-raciais. p. um conjunto de significados baseados nas di- Sendo assim. Rafael Guerreiro Osório. compreender o termo identidade em ferenças. Stuart Hall. p.645/08). um “fato autônomo”. tidade. 2005. No entanto. na maioria das vezes. Em uma primeira aproximação. apud GOMES. influencia fica. on this research. por exemplo). p. Pretendemos que esse preconception and discrimination in school area. vos étnica. inata. we can’t deny. na construção da identidade não se e não apenas de “cor” ou apenas “raça”. race classification. 1993. não estamos nos referindo a identidade de um isolados e. color/race in the Brazilian census. no presente trabalho. p. Alfredo Guimarães. Discutiremos ainda sobre diferença. p. porque as cate. Rafael Guerreiro Osório. Antônio Rosemberg.161). Bacharela e licenciada texto se torne objeto de discussão e análise da questão de raça no this article represents a discuss and analysis’s object of question of negro. ainda não conseguimos ter uma resposta satisfatória à Não há. pertencimento e percepção. uma identidade natural. único. também. cor/raça. coordenadora do Programa Diversidade revisão bibliográfica. como veremos. cor/raça nos censos In this paper. é importante con- bastante diversa. Para Hall (2003. INTRODUÇÃO pergunta: o que é identidade?” mas sim.190). também. os adjeti- se é: “sou brasileiro”. tanto. gico. necessário discutir relações iden. a classificação de “cor ou raça” do Instituto Brasileiro the classification of “color or race” of the Instituto Brasileiro de Geo- PERTENCIMENTO ÉTNICO Ralime Nunes Raim de Geografia e Estatística . belong ethnical. indivíduo “como um ser social. à parte. identity. remetendo-o à ideia de percepção e pertenci. são vários populares. como a língua. Porém. Bukassa Kabengele1 em Ciências Sociais. Keywords: relationships ethnic-race. as identidades são todas construídas” (PAULA. assim dica uma maior visibilidade social face ao apagamento pensada. A identidade. A identidade é simplesmente aquilo que afirmando sua identidade coletiva. envolvendo elementos de atribuição costumam ser classificados como identidade pessoal siderar. among others. A identidade assim conce. negra. The theoritical used to review bibliography. Por isso mesmo. que. race in Brazil. sustenta que “apesar das inúmeras produções ele é um conceito vital pra os grupos sociais contempo. MG. Munanga . De acordo com esse Instituto. podemos observar melhor esse uma característica independente. por isso trataremos do termo aqui.191) e essa construção identitária é marcada mentos de atribuição de identidade. p.

que inclui três categorias: ciais distintos. enquanto o múltiplo. contexto institucional..33). enquanto o termo negro se asso- fiquem como “pretas”. tualizadas urbanas. para designar os escravos. pressupondo um contínuo de categorias?” O modelo de denominação/classificação racial usado traços fisionômicos europeus. (.8). definindo cinco tipos: branca branco. E é de Blumenbach. que “o processo de posições. utili- assim. a ideia de classificar as ra. É o olhar de um grupo étnico. da população brasileira (ROSEMBERG. bastante enig. implica não ter poder” (RIBEIRO. não está sendo pensada como fixa. a minha cultura. culturais e religiosos. ficados é.8). porém. 2003). pois. branca. Não podemos deixar de considerar também o em- -racial. ROSEMBERG. o uso do Jacques D’Adesky. conflituoso e disputado. se declarem negros e outros com traços De acordo com Fry (apud ROCHA & ROSEM. ou am. por exemplo. negro proposto pelo Movimento Negro. nas quais os grupos agem para que siderado. ‘quase animais’? Quem quer ser considerado feio e por. adotaram a terminologia de Amostra de Domicílios (PNAD) realizada pelo IBGE ser o limite na hierarquia que divide os humanos dos classificação racial de Blumenbach. Fry assi.6). e branco . o representação do ser negro foi criada à sombra do que grau de instrução. pardo.42). o modo oficial (IBGE). rio. acordo com as situações e circunstâncias. o popular múltiplo e o binário. o sistema dade negra. de seu mundo e de sua cultura. 2007. defendida. usado no censo demográfico. no qual os contatos pessoais se esta. p.. uma vez que “é resultante da combinação de (FRY apud ROCHA & ROSEMBERG. p. gera controvérsia entre os es. onde se estabelecem as relações de poder e as A maneira de lidar com o sistema de classifica. o “O terceiro modo é o que vem sendo utilizado pelos mento. te momento tal informação”. sendo possível que algumas pessoas com múltiplo. branco e mulato. O formulá. a identidade. p. portanto. dessa forma. ças humanas. dossiê temático relação com o outro. preto e amarelo. 1990.7) cial mais íntimo. o sistema do IBGE. do diferente” (Gomes. ao do IBGE. apesar de serem vocábulos consagrados pelo ressignificado pelo Movimento Negro. não “amarelas” ou “outras”). branco ou preto.. CHA & ROSEMBERG. e desinteressadas.. pautado na ciência parda ou malaia. “o meu mundo. por sua vez. atribuindo-lhe “(. o sistema de classificação popular furtar-se da discussão sobre a identidade enquanto nas com um passado de escravizado. que o significado seus significados particulares sempre prevaleçam aos mático. assim. Nesse sentido. “Isto Fúlvia Rosemberg defende que. com aquilo que tem relações de poder. aliado à origem regional e Telles (apud ROCHA & ROSEMBERG. p. em forma de múltipla escolha.3) “positivo” de qualquer termo – e. elementos de aparência: cor da pele. 2005. Vários outros de 135 cores. LACLAU. Uma refle. gráfico de 1872. p. também..adotando. civilização brasileira. monolítico. 2007. logo alemão (1752-1840). 2007). não entram no vocabulário p. do censo brasileiro. de leis e decretos contemporâneos. segundo dados da Pesquisa Nacional por processo mais amplo e complexo. causas e efeitos. são traduzidos também através é ser branco. num movi. lonial e aqui faz morada até os dias atuais. Geralmente este processo se inicia na família (GOMES. evoque os mesmos sentidos nos dife. que o mesmo termo. E além deles.. da relação com aquilo que não é. identidade negra. por essência. p. enquanto pertenci. assim. em uma sociedade como a É da Europa Ocidental do século XVIII. BUTLER. busca uma interação.43).) Quase não pude acreditar no que lia. num processo marcado pela significação (cabelos. (2001. 2007. ou de sujeitos a ele pertencentes sobre si mes. duzidos pelo Estado Brasileiro”. 6). 2001. pode ser acionado um “repertó- mundo. o sistema de classificação bipolar branco e mento que envolve inúmeras variáveis.135 desde as primeiras relações estabelecidas no grupo so. sua “identida. 2007. 42 43 . que. empregados para diferenciar grupos humanos” (RO. em documentos do Estado brasileiro não parece ser ou mãe negros. já estava presente no Brasil desde o período co. raça dela – amarela. o modo binário de de decifração desse outro. social do sujeito” (Rosemberg & Piza apud ROCHA & considera também três modos de classificação racial: Nessas relações de poder.6).151). em 1976. Assim. p. nenhuma identidade se constrói no iso. O MEC estava pedindo pliado do modo bipolar . apud HALL. de há muito. prego de diferentes vocábulos raciais em contextos so- mos. renciados em instrumentos de classificação racial pro- É preciso lembrar. tador de uma cultura inferior? ( 2005. tipo de cabelo. Assim. humanas. negro e índio.) reconhecer-se ou assumir-se negro no Brasil é uma geográfica de origem.43). em virtude de ter o pai (ROCHA & ROSEMBERG. seria encon. foram construídas a re. Isso reafirma que. mas como um processo gerado no interior das repre. pele. Esse vocabulário racial. trado nas camadas populares”. evocado de até 2003. pois quem quer se identificar ape. “brancas” ou “pardas” (quando cia mais à ideia de discriminação e preconceito. Sendo assim. o estilo em matéria de moda Movimentos Negros. os termos preto e pardo. com Esse é também o processo pelo qual passa a identi. 2007. inclusive o Brasil. a justificativa biológica para tal condição? Quem quer países. p. Não nos esqueçamos do uso do termo negro de CENSOS BRASILEIROS binário seria predominante nas classes médias intelec. amarela ou mongol. aqui rentes contextos sociais e históricos em que têm sido delo binário ou múltiplo de classificação racial. p. “adotaríamos ambos os modos: o modo mente por razões diferentes. evidencia cinco mo- lamento e “tanto a identidade pessoal quanto a iden. salvo algumas poucas variações. referendado pela cor da zado por grande número de pesquisadores de ciências tidade negra se constrói gradativamente. “elas são O sistema de classificação racial do Brasil é con. valorizando as diversas categorias de sujeitos ção racial. “a aparência geral. que pede às pessoas que se classi. a construção de uma identidade cendo com as mesmas categorias de cor adotadas para apud ROSEMBERG.5). vermelha ou americana. acabada. 1993. a expressão afro-brasileiro. a iden. . Ser inferior do falante pela pessoa em questão” (Sansone apud RO. usam um sis- meu eu. Assim. referente ao mito fundador da xão sobre a construção da identidade negra não pode decisão de coragem. 1981. rio lingüístico” específico. Segundo Hall (2003. carros) e até a simpatia ou antipatia tema de classificação com apenas dois termos – negro do outro. a renda.35). a (a)firmação da identidade. parda ou preta. p. p. formato do nariz de” – pode ser construído (DERRIDA. pelos estudiosos do assunto. COR/RAÇA NOS BERG. podem ser empregados vocabulários dife- sentações.6). Nesse contexto. p. dependendo do elaboram os primeiros ensaios de uma futura visão de safio enfrentado pelos negros e pelas negras brasileiros” não significa. Ou seja. roupas. negra ou etiópica. IBGE para a classificação racial no plano demográfico um sentido político e positivo. o sistema bipolar branco e não branco. “mesmo em sistemas classificatórios semelhantes 2005. das categorias “negro” e “mulato” para “preto” e “pardo” chamado de seu exterior constitutivo. permane. presentação e o significado do que é ser negro. Ele associou a cor da pele com a região as categorias branco. as questões relacionadas à percepção e ao critério cor da pele para diferenciar as chamadas raças dos de classificação racial: tidade socialmente derivada são formadas em diálogo pertencimento norteiam o processo de construção da humanas. . Nota-se um deslizamento com precisamente aquilo que falta. Sendo das outras relações que o sujeito estabelece (GOMES. p. Termo esse. em uma sociedade que nos ensina que os inquéritos populacionais do primeiro Censo demo- belecem permeados de sanções e afetividades e onde se “para ser aceito é preciso negar-se a si mesmo. p. possivel- físicos africanos se identifiquem brancos” (Brasil. além de minha identificação e da de minha filha. 2007. negra positiva. O campo dessa produção de signi. CHA & ROSEMBERG. como perguntava. a partir da relação estabelecida com o outro. uma espécie de redução do modo múltiplo. associado ou não a um mo- e vai criando ramificações e desdobramentos a partir Por tudo isso. classificação racial”. “a composta pela combinação do estilo de vida (o jeito). do processo de quem é superior e de quem é inferior. 2007.7). 2007. Portanto. nas provas do MEC forma pejorativa. luta por hegemonia e por predomínio”.. 2005. 2005. podemos afirmar que as relações para uma menina de sete anos “declarar” sua cor/raça!” negro. 2007. Este é também o modo oficial ou afro-descendente está mais relacionada a contextos sociais não se constituem somente como relações puras (GOLDEZON. por sua vez. Ainda de acordo com Ribeiro. p. apud GOMES. é um de. 2005. além de uma última opção: “Opto por não declarar nes. tudiosos: “seria ele binário (branco versus negro) ou complexo. Dessa forma.42). qual a cor/ nala um outro modo: uma construção social. Como afirma a autora: construção da identidade negra em nosso país é muito sociais envolvidos. É uma e da boca. na sua trajetória de construção.. brasileira. indígena. ou caucasiana. p. dos outros grupos. como em outros processos identitários. p. 2005. A identidade negra se afirma aqui. fisiologista e antropó- aberto” (D’ADESKY.

inicia-se na intermédio do uso simultâneo dos métodos de auto. em uníssono. sificação.É que você é a única igual a mim – disse-me. ainda. sobre a peculiaridade da classificação como não é fácil construir uma identidade negra po- amarela é criada para atender aos imigrantes asiáticos. apesar de não incluírem a popula. a origem não zação até a metade do século XVIII e caracteriza-se Sendo assim. 2004. mantendo-se a data de 1940 para a inclusão do estabelecido para a decisão do enquadramento dos in. estudiosos do assunto con- A CLASSIFICAÇÃO DE “COR Censo do IBGE/2010 e respondeu ao quesito cor/ rio. 2004. pode-se afirmar que ela. ao mesmo bulos raciais sempre se destacaram como os principais pertença. O preconceito racial de marca não exclui ção de índios que vivia fora do contato com o branco. dessem também enquadrar pessoas livres. classificação. DIFERENÇA. uma forma de compensar. OU RAÇA” DO IBGE maior de brasileiros reconhece que o recorte racial nas teratura disponível sobre classe e/ou raça insiste em p. 95). descendência” (ROCHA & ROSEMBERG.87). ignoraram dados. sujeito. 2004. e percepção. o fato de que potencial. sabendo-se que. pardo. através Brasil entre os países que realizam censos periódicos. sim. segunda metade do século XVIII e termina com o pri. há ocorrência. rendimento escolar dessas crianças.4). a partir destas. na América Latina os mulatos seriam menos discri. além das três categorias acima citadas. como: rejeição. e que essa tendência varia de acordo com a si. poder polí- ticamente por um órgão especializado – o IBGE (apud São três os métodos de identificação racial de que ar os entrevistados. Sendo que A polêmica desenvolve-se em torno da categoria a do observador externo”. definindo. mas. subjetividades: a do próprio sujeito da classificação. sim. que o Censo IBGE/2010 é de se esperar que as pessoas que carregam menos O primeiro. vai do início da coloni. sejam estas manifestas ou latentes”. Há menor garantia. p. 2004. 2005.86). que heteroatribuição ticamente preteridos em relação aos demais. principalmente das décadas de 80 e 90. realizado em rio.95). Finalizando. . Osório (2004) afirma que sil como nação multiétnica. normalmente aceitas emprega cinco categorias de “cor ou raça” na sua clas. substituiu o termo pardo por quando se trata de pesquisas que realizam coleta de dos sujeitos feita por intermédio destes dois métodos da 1ª série e há vários grupos de crianças pela sala. três vocá. a dicotomia racial importante seria entre racial segregacionista. pois. que parcialmente. tem início em 1872 e Ainda de acordo com Osório (2004. através do uso de técnicas biológicas. com o objetivo de captar a raça ou etnia dos de identificação racial. cuidou muito bem de registrar. Portar os O segundo momento. (Depoimento de uma pro- A partir do Censo de 1940. mas desabona suas vítimas. p. ao invés de brancos e não-brancos. dossiê temático Considerando que todo o Brasil participou do No entanto. voltando a questão de raça. a par. método de identificação racial é um procedimento ponsáveis em fornecer a informação. assim nas. projeção social. p. PRECONCEITO E No primeiro Censo oficial brasileiro. divíduos em grupos definidos pelas categorias de uma objetividade à classificação? Não se tem nenhuma ga. “igual número de também tendendo à escolha do branco.105). MEC utiliza.Posso me sentar ao seu lado? – pergunta-me uma lin- aplicáveis à parcela escrava da população. O segundo atribuição é recomendado por órgãos internacionais. do ‘preconceito de marca’. 2003. preto. 2007. “um da cor dos sujeitos. após a abolição da escravidão. a cor da po. afirma consolida as cinco categorias empregadas pelo IBGE nos pretos e não-pretos. ou praticamente às mesmas categorias de 1872. é na “variação social da cor” (Osó. analisaremos apenas os métodos de auto e de 16 anos e a heteroatribuição para os alunos abaixo desta . p. Considerando que o Ministério da Educação . de contornar o problema. reforçando o retrato do Bra.96) afirma: “[. p. de 1890. a autoatribuição a categoria “caboclo”. com o emprego da categoria indígena no Censo posição intermediária entre os pretos e os brancos. a classificação ganha status de “cor ou raça” e Desta forma. reproduz-se na série de censos realizados posterior. sujeito e a identificação de grandes grupos raciais “a que de cor que lhes foi conferido atribuir a determinado CONVERSA SOBRE to. pré-estatístico. nem produziu um sistema de tífica. e faz com que os sujeitos ao preconceito sejam sistema- meiro recenseamento geral. 109).. tulam que racial brasileira. Marcílio (1974. propõe a existência de três perí.43). Fatos semelhantes a esse nos permitem ilustrar o termo pardo volta a substituir o mestiço e a categoria parda. p. a opção pela auto ou pela seus olhos para a sua pele. 2004. o Brasil.94) que a identificação por autoatribuição sideram que “no Brasil não se pode falar em ‘grupos raça.] no fundo. palavras-chave deste artigo. pelos entrevistadores ou pelos res. à luz do ideal de branquitude vigente. 2007. chamado de era estatística. p. ainda ROSEMBERG. mas por que quer sentar-se aqui? – pergunto- cidas ou alforriadas” (Osório. onde o próprio sujeito interrogado escolhe o grupo sáveis em fornecer a informação. raciais’. a heteroatribuição de ficuldade em identificar esses fenótipos e. não do ‘preconceito de origem’ (raça/ odos distintos para se pensar a coleta de dados censi. pulação brasileira voltou a ser coletada. há. tários no Brasil: fazem parte do nosso país. tir daí. 2004. no censo escolar anual. em 1872. Seria possível afirmar então. mestiço e os Censos seguintes. p. O terceiro perí. ou marcas. seria uma forma mente. vindas do preconceito e da discriminação de que são De 1940 até 1990 a classificação era só de cor. 95). discordâncias com relação à adequação desse método heteroatribuição de pertença racial é uma escolha entre fessora negra do estado de São Paulo/2002). quando se pensa a classificação -lhe intrigada. amarelo e indígena. rantia de que os entrevistadores não venham a branque. Conforme Osório (2004). vítimas nesse ambiente. Nogueira (apud ROCHA & RO- pesquisas censitárias é extremamente importante. por parte dos respon. p. aparência e não pela ascendência. apenas quantos traços. indivíduos. p. o sistema classificatório do IBGE brancas. ou seja. grupos raciais e a identificação racial é realizada por a classificação de cor é realizada por auto-atribuição completamente. (OSÓRIO.94) se tem conhecimento: a auto-atribuição de pertença. da posse de outras características ‘afirmativamente’ va- por métodos modernos de coleta e publicados sistema.. do “fenó- pelas poucas estimativas gerais. para as crianças negras. estas marcas. como educação. (OSÓRIO. com as pessoas mais abastadas tipo” do grupo discriminado são portados pela vítima pelos demógrafos. pos. sustenta que. lorizadas. traços do grupo discriminado constitui inferioridade. p. 2004. traços negros em sua aparência tendam a se considerar onde vige o preconceito racial de marca. tico e bens materiais. obedecendo para o Brasil. ad- de 1970. desvalorização. por parte dos estudiosos. importa. Buscando atingir os objetivos propostos nesta pes. melhorar a condição dos diferentes grupos étnicos que ascendência). não adotou legislação sentimento de culpa e solidão. em ‘grupos de cor” (Guimarães. ao mesmo tempo em que um número cada vez encontra maior problema. na coleta de dados de cor ou raça. motivos de ordem diversa para mudar a linha designadores das categorias de classificação racial: pre. pode se afigurar problemático. tuação socioeconômica. entender e embranquecimento. até o de 1940. Telles e Lim (apud OSÓRIO. embora pu.86). RIO. empregados pelo IBGE faixa etária é inequívoco considerar que pertencimento da menina negra de cabelos trançados e seus sete anos. Justamente por isso. p. pardo e branco. DISCRIMINAÇÃO NA ESCOLA 1872. -atribuição e de heteroatribuição de pertença” (OSÓ. p. gozando de uma mente do que ocorreu nos Estados Unidos. O método de auto. mas. odo. de extrema relevância. é determinada pela consequências negativas.23). do qual se considera membro. são elementos . onde outra pessoa é que define o grupo do tempo. que o preconceito racial influencia negativamente no dias atuais: branco. em nosso meio. Mesmo assim. p. para coletar os dados de cor/raça dos alunos maiores de Sendo que as categorias preta e parda “eram as únicas quisa. até mesmo a vasta li. principalmente os mais abastados. minados do que nos Estados Unidos. já que sou a única adulta na sala de aula Censo do Brasil.proto-estatístico. Desta forma. “diferente.4). (OSÓRIO. utilizou-se como a análise do DNA. bem como a sitiva no espaço escolar e nos levam a inferir algumas Essas categorias foram empregadas também no Censo de alguns países latino-americanos.Claro. teriam pertencido os ancestrais de uma pessoa” (Osó. Tanto assim que Osório (2004. E ainda a produção cien- de 1991. heteroatribuição de pertença. que a ascensão social é fator de SEMBERG. 2004. inclusive conferindo maior Pode-se concluir que esses grupos buscam. que representa uma maneira de se apurar. já afirmar. classificação racial legal e baseado na origem ou hipo. que teriam maior di- Em meio à grande variedade de termos. 44 45 . alusiva ao grupo dos indígenas. portanto.

de comandar a situação. profissionais ou atuando em comunidades e movimen. preconceito e sem exame nem conhecimento prévio” (LAROUSSE. “Como professores. Geralmente a discriminação racial na escola se dá pela antecipadamente. e de promoção da cidadania” (Caderno do Censo do Gomes (2003) chama a atenção para a crise de somos produtos de uma educação eurocêntrica e que pois tende a ser mantido sem levar em conta os fatos MEC. Munanga (2005. os negros são sempre os discriminação. por si. o negro e comprometem seu aprendizado. sem dúvida. p. foi-nos forçoso admitir que ao Con- identidade que acomete muitas crianças negras. 2005.127). discriminatórias. 1992. Segundo Dias (2005. Munanga aprende a sê-lo. 2003. círculo de população negra. Tarso Genro. por conse. a coloca constantemente diante do trato negativo dos no que diz respeito à renda. p. tem coisa. Até porque. p. que se os seres humanos dos idosos e das pessoas de baixa renda. nos bancos escolares. desestimulam ceituoso é aquele que se fecha em uma determinada países. para quem “o quesito cor/raça re- vocadas por esse racismo institucional. igreja. nega-se como deixem de pensar de forma preconceituosa. Com efeito.12).55). a população branca de qualquer nível social tem baseiam sua conduta num conjunto de representações São esses julgamentos raciais negativos que dão lu. A autora nos alerta que “a discriminação racial pode ainda não estão cumprindo esse papel”. Preconceito e Discriminação. papel social significativo. 2005. das mulheres. nhum complexo de culpa. surge uma sociedade tórias (GOMES. afirma que os privilégios atitudes de preconceito e discriminação marcam pre. reproduzir consciente ou que o contestem (GOMES. somado à sua dificul. Ele é parte da ças elaboram seus primeiros julgamentos raciais. o racis. Os dados e informações produzidos pelo IBGE e do preconceito racial é o termo usado para designar a somos todos iguais. não podemos nos furtar a uma análise dos indicadores sa sociedade. p. definir alguns conceitos: Justamente por isso. p. o imaginário e as representações coletivas negati. humanos e a concepção que o indivíduo tem de si mes. ao precon. o nariz. no que diz respeito às “ex- condição racial e. caráter negativo tendem a ganhar mais força na medida uma condição social significativamente pior que a da apontado a necessidade de discutir para além de como o significado da palavra preconceito é “opinião adotada em que a criança vai convivendo em um mundo que população branca. É no contato com o mundo adulto que as crian. afirmando que: inconscientemente os preconceitos que permeiam nos. esta é a luta da da necessária e permanente abertura ao conhecimento tais fraturas” (KLIKSBERG. a prática da diferença e as ciais preconceituosas. 1987. mais penalizados em termos de acesso e permanência discutir o legado branco dessa relação”. pois “são instituições sociais per. a “perversi- racista. ele não se educação: não aceitar como pronta e acabada a lógica mais aprofundado da questão. é possível compreender que atitudes pelo IPEA reforçam as palavras. processos formativos e informativos. vizinhança. racial de um país que se gaba de não adotar práticas ra- para produzirem as resistências ao racismo. Bernardo Kliksberg.19). mantêm-se. A ideologia racista deixa as famílias negras em problemáticas ligadas ao desafio da convivência com a de que somos contra tais práticas discriminatórias” Analisar os indicadores de desigualdade entre os extrema dificuldade para melhorar seu capital social. sem assumir ne.15). p. dossiê temático Dias (2005. as atitudes raciais de matório dos pretos e pardos. por sua vez. a subordinação da mulher. para as crianças negras. como o preconceito mento dos fatos. registradas na citação pessoa que não se aceita como negra.5). dela resultantes.11). Afinal. p. como a miséria em que vivem as comunidades indíge- pora essa depreciação evitando sua identidade negra e do teor preconceituoso de muitos livros e materiais Bernd (1987) argumenta que o indivíduo precon. ela não modifica. mesmo quando não psicológicos que vão além do preconceito desenvolvido meadas pela ideologia do racismo” (DIAS. O preconceito é um julgamento negativo e prévio dos p. manifestando um imaginário social. p. ceito e à discriminação. acreditamos que é de bom sível este tipo de discriminação e de buscar superá-la. vas que se tem do negro e do índio na nossa sociedade”. ideologias intolerantes que visam justificar Em função disso. então. pois. acima. considerados nestes indicadores como o so- Para melhor compreensão de como estão postas as atitude das pessoas em relação a alguém ou a alguma acordo com Gomes (2003. mo. Se assim o fosse. Vejamos o que mostram as análises realizadas a tido privilégios que não se quer discutir. nas. sem maior ponderação ou conheci- aparência: é o cabelo. & THEODORO. p. portanto. tária que impede nos indivíduos o desenvolvimento freqüência. Além dos expressivos diferenciais a criança negra é afetada pela diferença. tos sociais e políticos” (BERND. escola. Ainda de acordo com Munanga: Considerando assim. ao final desta conversa. sobre repetência e evasão escolar do alunado negro sendo o preconceito. o objetivo fundamental da nossa membros de um grupo racial de pertença. na prática escolar” (ITANI. em geral. p. com grandes fraturas. diversidade e com as manifestações de discriminação (ITANI. p. 2007. 15). praticamos e os transmitimos. Inclui a relação entre pessoas e grupos “(. p. compro. políticos e de ser compreensível. E as professoras nem sempre didáticos e das relações entre os alunos. a marginalização da população de cor em alguns tudo que a remeter a ela. mos frases como “o próprio negro é racista. Podemos compreender. em sua educação e for. De negros. Esse julgamento prévio apre. quem tem o poder de dominar. (DIAS. dos índios. 2005. negros. tem sido um espaço de pro. dos homossexuais.54). não podemos esquecer que senta como característica principal a inflexibilidade. além de operar de forma individual. “é necessário 2004. enfim são os atri. As diferenças de oportunidade de educação para cista.6). (MUNANGA. são herdeiras da desigualdade e da exclusão social pro. São aprendidas social. de uma maneira geral. a priori. muito menos. Ele Social. em relações raciais no espaço escolar. Em muitos casos a criança incor. 1992). reflexo do nosso mito de democracia racial. em função desta. mas. O que não deixa foram concedidos à identidade branca. profissionais não receberam. apesar da lógica da razão ser importante nos amizades e se prolonga até a inserção em instituições dade da chamada questão racial no Brasil” (JACCOUD pelo crime. dade de lidar profissionalmente com a diferença. 1998. Trata-se. Dessa forma.5) mação. estaríamos culpando a vítima saber que. Os 2005. de uma etnia presenta um passo importante para o conhecimento de A escola. Ou seja. aqui. que geram exclusão social e com comprovam essa afirmativa. é que pode ser considerado ra.128). com clareza. p.5) argumenta que “espaços sociais temos a desvalorização da identidade negra. de conceito ou opinião formada de educação entre negros e brancos. Portanto.. Na batalha contra o racismo. a discriminação racial é fruto do mito da democracia como o da família e da escola têm enorme potencial outro a valorização da identidade branca” (TEIXEIRA. “E isso jamais pode ser considerado uma atitude (2005. De acordo com a autora.56). para livrar-se disso. nem a moral cristã que nos eleva a Sendo assim. não existe.104). 2005. tornou-se muito comum ouvir. Teixeira (1992) registra que partir dos dados da pesquisa Retrato das desigualdades 46 47 . de um dos grandes teóricos do Desenvolvimento soa negra aceita a ideia de inferioridade atribuída à sua não mudará as mentes de nossos alunos. nós os ser originada de outros processos sociais. p. De tudo isso. “uma posição dogmática e sec. grupos constitui-se em uma boa maneira de tornar vi- cultural e econômico.) as extremas desigualdades no acesso a oportuni- butos físicos os escolhidos pelos discriminadores para enraizado na cabeça do professor. faz parte das tom. versarmos sobre Diferença. ências e dos idosos. expressando. a pes.135).1). Como já foi dito Podemos afirmar. mete. O ser humano não nasce preconceituoso. belecimento de políticas de correção das desigualdades sas interações que ali se dão são quase sempre negativas. missão no processo de formação dos futuros cidadãos ou de uma religião ou de pessoas que ocupam outro situações de injustiças e discriminações e para o esta- dução da rejeição. as inten. 1987. afirma que “como educadores. responsáveis de amanhã. 2003. “Se de um lado sociais. vítimas podemos. então. negros e brancos também são tema deste artigo. guinte. a fim de que mente. O preconceito. o preparo suficiente para lidar com questões queremos ou mesmo quando proferimos o discurso pelo indivíduo” (TEIXEIRA. que devemos considerar como ex “Ministro da Classificação Racial” (Magnoli. E isto quem herda são as pessoas brancas”.. e. portadores de defici- reagem pedagogicamente a essas situações discrimina. p. porque muitos sença no espaço escolar. “essas noções e teorias coletivas estão também gar à discriminação racial. dades socioeconômicas mantêm e intensificam dramas depreciarem o negro. Os dados opinião. ao lembrarmos das palavras do estruturas da sociedade brasileira e as crianças negras Essa falta de preparo. p. temos de presentes em nosso cotidiano de trabalho e. Convém esclarecer que introjeção apoiada na razão científica que diz que biologicamente à reavaliação de suas posições” (BERND. isso preconceituosas não são inatas. 2001). a pele. além mo e também do outro. Consequentemente. o que poderia levá-los aceita como negro”. “nossa trajetória de socialização tremas desigualdades no acesso a oportunidades” da negra. p.791). Teixeira (1992). desta rejeição.23). todos para a mesma natureza divina. deixando de aceitar o outro lado dos fatos. devemos se inicia na família. p. 1998.

) et em: elianamrc@ig. de 8ª série do ensino fun. Rio de Janeiro: Co- dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Do.37. a taxa de escolarização líquida. Paulo: Summus. In: BERNARDINO.). Racismo e Anti. essas taxas eram respectiva. CARONE. as enormes desi. Mulher (UNIFEM). In: MU- e o aumento do número de trabalhadoras domésticas 60 anos ou mais de idade. primeira versão da pesquisa é de 2005. Daniela (orgs. Racismos e anti-racismos no Bra. como exemplos. tinha-se. DF: no adequado à sua idade. vimento Social. No caso dos homens brancos. acesso a bens e estudado. Zilá. In: SECRETARIA DE EDUCAÇÃO zar. pas.br. São Carlos: EDUFScar.). www. Especial de Políticas para as Mulheres (SPM) e pelo no mercado de trabalho. que. entre os negros. Linguagens brancos. fessor negro. Acesso em novembro 2008. país. Antônio Olímpio de. o acesso à educação sionam ainda mais: os homens negros ocupados. 2005. Falácias e Mitos do Desenvol- a proporção da população matriculada no nível de ensi. estudo elaborado pelo Instituto de por se encontrar nos estratos de menor renda. Porém. Antônio Sérgio Alfredo. nas mesmas regiões. Belo Horizonte: Editora UFMG. Nesse documento. Stuart. In: cular e alunos negros: um estudo de caso. ve discussão. GOLDENZON. Maria Aparecida Silva. têm em média 2. Magistério. In: FRY. la. respectivamente. 2007. os números impres. Na região Nordes.br. Educação cação. Pluralismo étnico e multiculturalismo. São Pau- sentam médias de anos de estudo inferiores e taxas de SANTOS. dossiê temático de Gênero e Raça. Contemporânea. anti-racista: caminhos abertos pela Lei Federal Nº EDUCAÇÃO dades são gritantes em outros tantos indicadores sócio. (Coleção feminino e da brancura: a narrativa de um pro- A pesquisa citada acima teve por objetivo visuali. trazendo uma interpretação te.3%. sigualdades para que elas não existam mais. al. Acesso em abril 2008. Superando o racismo na tivamente mais limitado para a população negra. Kabengele (org.7 em 2006. branco. (org. 2 ed.).gov. para a população branca era BRASIL. Educação para todos). Ministério da classificação ra- Já no ensino médio. 2001. Caderno de Pesquisa. Divisões perigosas. 1998. Alfabetização que atendendo à delimitação desta artigo. Brasília: e Diversidades. é mais D’ADESKY. Cor nos Censos Brasileiros. do Albenarez et alli (apud JACCOUD & THEODORO. micílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia de idade não eram capazes de ler um bilhete simples. São Paulo: Editora 34. p. a partir dos dados do Sistema de Avaliação sobre o negro. 1993.) Psicologia Social do Racismo (Estudos sobre estudantes. Raça e minha bisavó: discriminação racial no trabalho e re- gros e negras estão menos presentes nas escolas. KLIKSBERG. mas seu his. Diretrizes Curriculares UNESCO. ROSEMBERG. In: SECRETARIA DE EDUCAÇÃO BENTO. 2 ed. Maria Aparecida Silva Bento. educação: os limites das políticas universalistas. leção Políticas da Cor. CONTINUADA.inep. 133-136. 24. 135p. 2007.5 anos de -Racismo no Brasil. 2005. Rafael Guerreiro. Bernardo. sentaram aspecto positivo em relação a anos anteriores. parlamentares. cuja publicação da 3ª edição ocor.149-153.4. 48 49 . 2005. Brasília: jun. SA. TEIXEIRA. Diferenças e precon. Brasília: 2005. Rio de EDUSP.4 e 37. como já mencionado anteriormente. sociais: educação. Vivendo preconceito em sala de aula. mas significa. In: SOU- tam não somente pelas desigualdades entre negros e AQUINO. p. Representação da UNESCO no Brasil. Luciana & THEODORO.137-150. Eles deveriam pedir descul. ALFABETIZAÇÃO E DIVER. argumenta que “é preciso evidenciar as de. MAGNOLI. CONTINUADA. In: BARBOSA. In: PETER. que a dos negros. até a PNAD/2006. se ampliam quanto maior o nível de ensino. 49-62. que analisam o desempenho educacional e cor de pele. Sales Augusto (org. Educação anti-racista: caminhos abertos branquitude e branqueamento no Brasil). Joaze. na mesma faixa etária. os números se referem res é maior que a dos homens e a dos brancos maior SIDADE. alguns apre. Jogo de espelhos. apenas os indicadores de desigualdades de educação população negra. Janeiro: Pallas. ALFABETIZAÇÃO E DIVER- gualdades que se manifestam entre negros e brancos e É certo que a média de anos de estudo vem au. São Paulo: Cortez. Petrópolis. Os números obtidos são brancos. JACCOUD. NOVAES.) Levando a raça a sério: reu em dezembro de 2008. alunos negros têm desempenho inferior ao dos alunos ___________. Lucimar Rosa. ITANI. permitindo damental. 2005. SOUSA. Brasília. entre outros. A. analfabetismo bastante superiores. Brasília: 2005. pardo?. p. Disponível em MUNANGA. v. p.639 de 2003. CADERNO do Censo do MEC/2005. mesmo quando é feito o controle pelo nível debate sobre relações raciais no Brasil: Uma bre.6. Ana Beatriz Gomes. Eliana Marques. Disponível UNIFEM. a média de anos de estudo das mulhe. Edmar José da. mas também por sabermos que essas desigual. Sidney. Lucia M. na reprodução dessas desigualdades. 2007. mercado de trabalho. 2001. recorte etário da pessoa ocupada. 2005. Maria José Corrêa et al. 1992. 58. podemos concluir que os no Brasil. São Paulo: Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Demétrio. Rio de histórias. Ressaltamos. de joelhos. Dentre esses números. De preto a afro-descendentes: trajetos de pesquisa ROCHA. In: sistência na voz dos trabalhadores negros. Além disso. Esses números podem ser explicados pelos anos HALL. pela Secretaria cedo pressionada a abandonar os estudos e ingressar sil. 2004. -Raciais e para o Ensino de História e Cultura cial. ceito na escola: alternativas teóricas e práticas. Se associarmos os anos de estudo ao pela Lei Federal Nº 10. paulistanos(as). Negritude e literatura na América Latina.109). n. Cor e Raça no Censo Escolar. que mede BERND.5% dos homens negros com 15 anos ou mais História da educação do negro e outras histórias. Jeruse. 18. Fúlvia. Peter et al. 2003. Janeiro: Civilizações Brasileira. Superando o Racismo na esco- com carteira de trabalho assinada. São escolares e reprodução do preconceito. No ensino SECAD. 2. SANT’ANA. Brasília: Ministério da Educação. Brasília: 2005. apre. Vozes. Brasília: MEC/ (Dissertação. 39-67. (org. com GUIMARÃES. Rio Grande do Sul: Mercado Aberto. a pesquisa dos alunos brancos e negros. PAULA. Fúlvia. Nacionais para a Educação das Relações Étnico. escola. O sistema classificatório de Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a As diferenças regionais também são significativas DIAS. era de 94. ação afirmativa e universidade. RJ: Vozes. reinações do e Estatística (IBGE). Alguns termos e conceitos presentes no set.132. essa taxa era de fabetização e Diversidade. Mário. História da Educação do negro e outras entre homens e mulheres nos mais diferentes espaços mentando para os dois grupos ao longo do período Políticas raciais no Brasil contemporâneo. O comovedor é que os dados apresentados assus. A da Educação Básica – SAEB.com. A questão de raça nas leis educacionais – da LDB GALDINO. revisada. ainda é bastante restrito em nosso país. Isto é./ 2005. al. As desigualdades REFERÊNCIAS Combate ao Racismo nas Américas. estudo e as mulheres negras. Rio de mente. Alice. Brasília: MEC/SECAD. Francisca Maria do Nascimento. História e conceitos podendo-se citar.639/03. recorta e dá visibilidade à problemática. Maria Inês da Silva Barbosa. de forma clara e compreensível. Nilma Lino. Resgatando a Na educação. Iray mentos sociais. In: disponibilizados para todo o público interessado: movi. ao passo que. em 2006. sócio-econômico. cultura negra e relações étnico-raciais Auto declaração de cor e/ou raça entre escolares direcionar políticas públicas para acabar com elas”. Silvia Caiuby. Mestrado em Psicologia Social). Da Diáspora: identidades e mediações Secretaria de Educação Continuada. 39-62. JACQUES. OSÓRIO. 2003. Ações Afirmativas e lo: Pontifícia Universidade Católica. Uma dupla inseparável: cabelo 2005: O que é ser preto. Divisões perigosas: SIDADE. 2003.187-200. Kabengele. -econômicos estudados.639/03. Quantos passos já foram dados? “cor ou raça” do IBGE. In: ROMÃO.2. 105-120. que apresenta as maiores taxas de analfabetismo no de 1961 á Lei 10. Congresso Nacional. p. Psicologia Social 10. de 95.2. p. Prática Pedagógica Curri- entre negros e brancos. 1987. na região Sul. 2005. fundamental. RIBEIRO. ao observarmos os estudos feitos por Janeiro: Civilização Brasileira. tórico tem origem em 1993. o acesso ao ensino médio Afro-Brasileira e Africana. analisaremos de falta de acesso aos bancos escolares por parte da culturais. gestores. serviços. básicos sobre o racismo e seus derivados. ROSEMBERG./dez. NANGA. Fry. Jacques. p.4% e 4. são marcantes as diferenças raciais: os ne. 1998. pesquisadores. GOMES. Cláudia Regina de. com relação aos indicadores de renda e edu. p. p. Brasília: Ministério da Educação Continuada. 9. Júlio Groppa (org.

já de engenho. ex-escravos e de mestiços. Tal influência. Foi só nos anos 30 que vimos Freyre procurou analisar as relações sociorraciais esta preocupação baseava-se no fato de que. despertou a curiosidade de buir com a discussão sobre a identidade do brasileiro. (não havia) nenhum que me inquietasse tanto nação. importante verificar se as opções de miscigenação feitas Nesse sentido. XIX parecia duzindo a noção de cultura1. Others enxergavam nela uma característica que poderia ser mais bem who saw it as a feature that could be used more. Ele teve contatos com Brasil. era algo positivo. 1993). brasileiras tendo como modelo as condições de vida século XIX e início do século XX. boa parte dos homens Schwarcz. Oliveira Vianna e outros. Obra de Gilberto Freyre. tais como Sílvio Romero (1943). o autor bilidade da mestiçagem. afirma no prefácio da primeira instituições de pesquisa e ensino no país – se sentissem ou nenhuma importância. João B. Por este motivo. As posições se di. 1933. procurou explicar a questão da miscigenação. isso modelos explicativos anteriores. de fato. dentro e fora do país. tão somente. Além disso. palavras. principalmente da Europa. of the population. já que o problema se resumia edição de Casa-Grande & Senzala: “dos problemas bra- na obrigação de tentar entender e explicar o destino da à educação (Manoel Bomfim. or was something Doutor e Mestre pela USP. os letrados vinculados às compreenderiam que essa mesma questão era de pouca ção. a discriminar entre os efeitos de relações puramente Rodrigues (1957). o autor afirma que. uma forma de garantir a existência dos negros. por meio da determinante blematização da desigualdade sociorracial. Outros ainda tentativas de se explicar a problemática da miscigena- autodenominavam. em seu conjunto. pação tanto do “negro” como do “mestiço” tivesse um tico estaria irremediavelmente destinada ao fracasso. brasileiras. Uma boa obra sobre este autor é Casa-Grande & Senzala e a o que um país já tão miscigenado – com um destino (EUA). Uma das maiores razões para em relação à questão. que pretendiam. ros da UFT (NEAF/UFT). No prefácio do os primeiros momentos da colonização. Lacerda. de Antropologia So. 1993). Prejudice. 1957). desde em outro contexto político e intelectual. ou seja. Nesse sentido. genéticas e os de influências sociais. dedicaram. 1993. Democracy Racial Identity. o que esses senhores gostariam de saber era após ter tomado contato com Franz Boas. o que pode exemplificar a grande preocupação país “miscigenado” só poderia. 1994. com uma população de grande contingente de vidiam. entre outros. ceito. XXIII). A DEMOCRACIA destaque bastante relevante. então. devido à enorme taxa de miscigenação Gilberto Freyre foi um estudioso que procurou contri. como os de Nina Ro- que essas questões despertam em nossa sociedade. «race» in Republican Brazil. de herança cultural -se à análise das relações “raciais” e da mestiçagem no rias européias: para alguns cientistas. A devido. o futuro de um e de meio” (1978. 1967. 1933. Atualmente ela é vista como positive. É o Diretor de Cultura do mesmo campus e Coordenador do Núcleo de Estudos Inter. Precon. ser funesto. que alguns pensadores viam Another issue is the mixing. Palavras chave: Raça. RACIAL fazer um estudo culturalista das relações sociorraciais Skidmore. “funesto” tão evidente – faria para tentar modificar essa descartando a “raça” como fator determinante e intro- os pioneiros sina terrível. Sílvio Romero. XXIII/XXIV). disciplinar da África e dos Afro-Brasilei. racial. which should be excised from our country. 51 . da “Senzala”. Em Casa-Grande & Senzala. em Colúmbia 1. o primeiro desafio de Freyre foi teriam alguns efeitos benéficos. uma sociedade procurou descrever uma sociedade em que a partici- que tivesse grande proliferação desse fenômeno gené. João Batista Outra questão é a miscigenação. à miscigenação (Nina Rodrigues. Outros negative factor. (UFT). Outros entendiam que esse mesmo fenômeno na e outros. perplexidade como o da miscigenação” (idem. which for some thinkers was seen as a de Jesus Felix como um fator negativo a ser extirpado de nosso país. drigues.dossiê temático REFLEXÕES SOBRE NOSSAS CONSTRUÇÕES INTELECTUAIS E POLÍTICAS ACERCA DE “RAÇA” RESUMO ABSTRACT Esse artigo procura fazer uma reflexão sobre a construção do This article attempts to discuss the construction of the concept conceito “raça” no Brasil republicano. na Universidade Federal do Tocantins interpretada como um escurecimento da população. Keywords: Race. segundo ele. 1976 e Schwarcz. pois passou a ser black people. considerar “fundamental a diferença entre raça e cultu- Muitos autores. mas mostram. de pelo menos três principais posições frente às teo. de Ricardo Benzaquem de Araújo. Tal situação social não era tão prejudicial assim e que o branquea. esses grupos tiveram sobre o estilo de vida dos senhores presente em sua sociedade. Democracia Racial. Currently she is seen as a way of ensuring the existence of Professor Adjunto II. Racismo. Identidade. em finais do séc. Racism. Atualmente é aproveitada. 1949). Como a sua proposta era tanto social como político e cultural (Cruz Costa. Em outras livro Casa-Grande & Senzala. Nina Internamente podemos perceber a consolidação ra. Oliveira Vian- escravidão brasileira legou para a história do país a pro. como mostra. em Espetáculo das Raças. definir o “real” caráter do brasileiro e as várias fez com que muitos “homens de ciências” – como se mento se imporia (Sílvio Romero. no Curso de Ciências Sociais. sileiros. se fez sentir muitos desses cientistas. Freyre buscou dar relevo à influência que O Brasil. existentes entre os habitantes da “Casa-Grande” e os de ciências. no final do o tema se transformando. defendia a invia. because she happened to be interpreted as a darkening cial.

‘em reconhecem a sua existência não propõem uma socie- orgulhar-se da sua civilização tropical. Do Saber Colonial ao Luso Tropicalismo. acerca de minha atitude para com os negros. Já Skidmore ficando cada vez mais adocicadas. na genação causado dano irreparável” (à sociedade bra. (Barthes. a teriores. houve também meninos mocracia racial”. depois de se dizer parável”. Quanto ao casamento próximo com pes- 210). é Feijoada e Soul Food. A importância de Casa-Grande & Senzala. “Já Heitor Modesto (d’Almeida) nascido em Minas “mito”6 nacional brasileiro. a civilização e o capital. das vestimentas Como podemos notar Freyre. preta nunca me agradou. Freyre tinha conhecimento das discrimina. atingindo pessoas das mais diversas estrati. Gilberto Freyre afirma “que somente a índia utilizadas causaram bastante impacto. alguém procurou ‘positivar’ a mestiçagem terpretava o Brasil como uma sociedade “mestiça”.. reage de modo diferente à um mal necessário. Aqui gem da sua própria personalidade. internacionalmente falando. como dizia é explicada histórica e culturalmente: os portugueses. mas surgiram dessas relações foram incorporados à convi. dossiê temático principalmente através da culinária. 4. o mulato e. beiro. 1947. dade sem a sua presença. abraçou imediatamente faço. “negro”. Além desta rior não só à dos indígenas como à da grande maioria Apesar de ser um grande defensor da “democracia branca. Freyre. pois ajudava a explicar a ori. 352). talvez. Devo estabelecer uma relacionado às opiniões assumidas por seu autor. Nascido em Olinda. brancos que aprenderam a ler com professores negros. e os ne. 355/6). 1978. ofereceu uma explicação acadêmica história intelectual do país. se rein. de 1947. As conse. Em depoimento dado à TV Cultura de São Paulo. ele procurou divulgar para o mundo todo que livre de preconceito de raça.” (pág. em 1881. 188). Mesmo aqueles que não nibida mensagem de otimismo: os brasileiros podiam A ler e a escrever e também a contar pelo sistema de Gerais. não contente com o su. em 1887. era. o que levou por meio desta cultura inferior dos europeus. na série prismática. depois de que a contribuição de Gilberto Freyre foi a de que. Nada mais2. 1972. mais do que de qualquer preconceito e raça ou de cor” do-se-lhe o índio. Freyre destacou a contribuição cultural do africa. contribuição dada pelos nativos de Interpretação do Brasil. em um pro- à atmosfera de monocultura escravista que dominava grama sobre o livro Casa-Grande & Senzala. favoráveis à mestiçagem. com o poder político. que “Quanto ao brasileiro de Pernambuco. virou de cabeça para baixo a afirmação de ter a misci. havia também posturas que defendiam ser ela gros com parte da cultura. 131). a ressalva que de mundo da sociedade brasileira – não está somente Devido a esse passado mestiço anterior. mas separadas mais tarde. vez. que do mulato’. Ao mesmo tempo. irmão ou irmã. com relação a seus escravos. quiçá a única. é uma sociedade em que os portugueses entram e de distanciamento. Senzala – pois esta obra em muito influenciou a visão se relacionar com as mulheres africanas aqui no Brasil. o “luso-tropicalismo” proposto por Freyre5.. “mistura” teórica ele procurou se basear na teoria cultu. Isto demonstra que o ima- mente mestiça. panheiros dos meninos brancos nas aulas das casas. Ele não é uma síntese. Na obra “Do padre Florentino Barbosa. a ponto de o autor todo país. “O pot-pourri étnico do Brasil. dos colonos brancos” (Freyre. nossa ex-Metrópole. Apesar da opinião de Skidmore. 415). Aqui mito está sendo entendido como “um modo de significa- mistura de raça em si. que é uma coletânea Paraíba. Freyre conse. seja ele “branco”. nessa obra. de onde saíram de diversas palestras proferidas por ele nos EUA. É cesso alcançado. ao conseguir dar destaque a várias teorias apresentadas portugueses foi denominada por Gilberto Freyre. trevas. podemos destacar alguns depoimen. altamente positivas4. Uma outra fonte e escravo debaixo da qual se fizera” (pág. em perversos e de hórrido aspecto. 1982. beria bem o casamento de filho ou filha. ao justificar meu ponto de vista pessoal so- sim na grande capacidade que Gilberto Freyre teve em vência da Casa-Grande. 1996. devo afirmar que não rece- (1976) afirma que a postura teórica assumida por Freyre: afirmar que: ficações sociais). De sorte que. Outro parecer uma chocante contradição com o que atrás con- O enorme sucesso alcançado por Casa-Grande & continente europeu. Segundo Skidmore: “Casa-Grande & Senzala interessante notar também que.. A maneira de relatar e as fontes uma sociedade em que as relações “sócio-raciais” se- o país até a segunda metade do séc. No complexo que remonta.” (1990. por fim. obra em que que também não é estranha a influência da ‘história de a obra de Freyre a revelar uma “singularidade da mesti. É a própria ausência de cor. as relações entre escravos e senhores vão brasileira (para tanto aplicou 1. as diferenças sociais existentes mesmo tempo. devido ao seu ineditismo. como a a sociedade multirracial brasileira” (1995). e da sexualidade. Casa-Grande & Senzala inicia uma nova fase na menino. confessa sempre ter gostado ‘mais de negro primeira vez. ao reuni-las. do desenvolvimento de seus estudos sociológicos. No desenvolvimento do enredo de Casa-Grande se propôs fazer um estudo extenso sobre a sociedade Trancoso’. de nossas relações “raciais” amistosas. Em sua visão. no Brasil seriam “o resultado da consciência de classe branco. os colonizadores anglo-saxões na América do Norte. fumo se associaram na formação de um ralista norte-americana “sem abandonar totalmente os existente no regime escravista brasileiro era explicada ções que os negros e mestiços sofriam no Brasil. 52 53 . libertos’. livro Ordem e Progresso. carta logo no primeiro capítulo os indígenas. nessa gradação. Para maiores informações sobre este tema consultar Omar Ri. uma vantagem imensa” (1976: os primeiros brasileiros. são essas as palavras: ‘Não aprovo o casamento sileira). Senzala. A violência brasileira”. vão alguns exemplos: É possível fazer a seguinte reflexão sobre a “de- era a primeira vez que os leitores recebiam um exame -grandes e até nos colégios. seguin- entre si. que para ele já era detentor de uma “cultura supe. mas foi sendo incorporado à teoria de Freyre ao longo ção”. os filhos que Portugal. agradou aos brasileiros. ‘não (o) recebera bem’” (págs. mas da relação malsã de senhor 3. relações “raciais” brasileiras passam a ser vistas como do ficado com os Modestos ‘o resto da vida. Freyre. do branco. Porto. ela pode ser entendida como um erudito do caráter nacional brasileiro com uma desi. dizia Gilberto nosso contingente foi o útero materno. com sua obra Casa. em que pergunta especifica ou concreta sobre o assunto: “Pode Sílvio Romero. passa a ser o nosso maior divulgador. original e etnica. De posse graduação. não tiveram problema algum para fator que muito contribuiu para o sucesso internacional signado. obra. anos na África. Após sua publicação as pois os escravos eram ‘um anexo da família’. Esta postura assumida pelos dessa teoria. “Os pretos e pardos no Brasil não foram apenas com. Em novos termos. ao responder ao quesito 16ª. de luso-tropicalismo3. invertendo os termos da equação e & Senzala. (Freyre. de nossa representação de “democracia racial” foi que em resposta ao quesito 16 do inquérito. como “uma fala” social . qüências danosas da miscigenação provinham não da fêmea contribuiu para a colonização do Brasil”. 211). A miscigenação brasileira Ou seja. a abolição dos escravos’. 54).. vem em primeiro lugar. -Grande & Senzala.500 questionários. nesta nizador luso não teve a mesma postura de separação soa de cor. XIX. pela tuais e políticos brasileiros. em maio de 1994. exibido pela primeira Brasil uma nação multirracial. discriminação contra os “negros” e os “mestiços”. ao contrário. Freyre des. Segundo Schwarcz. maior. o negro. 1995. através de suas obras pos. com grande simpatia. Para ele. “. tabuada cantada” (idem. o que notamos A sociedade mostrada por Gilberto Freyre. em motivos estéticos e fisiológicos. costumes. a minha meninice e a pressupostos raciais dos mestres brasileiros”. Portugal tentou justificar as suas colônias bre coloração pigmentaria. com personagens que eram ‘negros velhos’ çagem (brasileira). O anteriormente. é que a miscigenação não era entendida no Brasil pré. Luto. ou um “fato e pronto”. cujos vícios sociais – que Gilberto Freire ginário social do brasileiro. está em sua proposta não subestimou – deviam atribuir-se principalmente teórica culturalista que se propunha a desvendar o que fazia do “mestiço” – talvez até mesmo “indígena” – não concebe 2. A cor guiu oferecer “uma espécie de nova racionalidade para no. alguns ten- Alguns estudiosos costumam defender a ideia de sobre uma questão que tanto incomodava os intelec. Adolfo Faustino -Gilberto Freyre simplesmente como um “dano irre.’. em de negro com branco pela disparidade de tendências. considerando o mulato ‘inimigo natural brasileira. 5. 299). várias ocasiões o autor afirma e reafirma que o colo. para ser positivando o modelo” (Schwarcz. 357). depois de recordar ter recebido. tos em que as pessoas demonstram possuir profunda com pessoa de cor preta. etc. rigorosamente verdadeiro. no Brasil existia uma real “democracia racial”. escrito em 1957. por já terem tido um longo contato com os mouros no “brancos” e “negros” conviviam fraternalmente. o qual me parece fundo. nascido em 1981. O “luso-tropicalismo” não está presente em Casa-Grande & 6. Fry.

Este paralelismo fazia existência. fez com que o -americano. o brasilei. com plicação de que esta posição não tinha qualquer ligação a “democracia racial” parece ser um valor bastante caro diferenças. inclusão do “negro” e do “mulato” na nova sociedade. mais em pleno desenvolvimento as lutas anti-colonialistas lentos. a “mulatos” não possuíam. o Credo A PESQUISA DA UNESCO do Escravo (1988). Do mesmo modo que os brancos. ocor. inicialmente a UNESCO de. Neste sentido. na opinião de Lilia Schwarcz isto é. ele é o “cimento na estru. Oracy Nogueira. não alidade sobre as relações raciais harmoniosas existentes passagem do trabalho escravo para o trabalho livre no e Fernandes.. Os “negros” e os “mestiços” enten- dência” (idem. enquanto com o fator “racial”. Com esta atitude. na cidade de Florença. Wagley e seus assume em sua obra. Wagley (Columbia University) e Roger Bastide (Éco. como uma parte de si próprio. forma de convivência pacífica sustentada pelo governo foi feita por René Ribeiro (Instituto Joaquim Nabuco) e “negro” e o “mulato” não conseguissem entender que tura variegada (daquela) nação” (Rose. 1968. “mestiço”. eles estavam ao mesmo tempo pleitear seus direitos. Alguns representantes de países tais como “El fase de total desajuste do “negro”7 e do “mulato” à nova Esta posição foi adotada não porque discordasse das de cor. “Entre os scholars estrangeiros que realizaram exten. “negros” com que os brancos cultivassem explicitamente um dida na mesma chave do “fato social total” maussiano. resultou em um enorme dominante naquele país. Este brasileiro entre “raças” era bastante salutar. As Metamorfoses abandonando qualquer possibilidade de combater a acreditam que. oito meses (Maio. “branco” ou “índio”. 1988. pela equipe coordenada por Roger Bastide racial para não perderem seus privilégios na sociedade o significado da primeira luta da nação pela indepen. apesar de sua duvidosa rida em julho de 1950. 1997). ou uma enorme “falácia”. tamente quando a UNESCO. Para ele. delimitar fronteiras 1997. mas sim porque os resultados não se pres- da pela sociedade americana. entretanto. 53). não como resultado de qualquer (1995). podemos afirmar que Estado. prin. em reflexo da situação educacional e social que o “negro” A “democracia racial” tem para o brasileiro a mes. o que para Freyre era positivo passou notamos na sociedade norte-americana: lá a democra. as suas encontrado uma sociedade muito diferente da vista por to e uma real integração com os “brancos”. nesta altura do com o fim do trabalho escravo. o que de fato existia no Se atentarmos para o fato de que a “democracia Após várias discussões ocorridas em colóquios in. 1976. um “preconceito de ter preconceito” (Fernan- só vez todas as espécies de instituições: religiosas. principalmente. ra só sofrerá um forte ataque na década de 1950. resultando em uma perspectiva em que a con- cretismo). 41). Ou seja. que Bastide trabalhou com Florestan Fernandes. conclusões. os mais elementares a ser entendida como natural. em Florestan Fernandes. para conseguir galgar uma posição melhor. Essa situação é bastante diversa da experimenta. Não Depois da divulgação dos resultados obtidos. Fernandes. 51). dicas e morais .e estas políticas e familiares ao mesmo A proposta inicial era que se fizesse pesquisa. “negros” e “mulatos” por Fernandes. marginalizadas. os “brancos” defendiam a discriminação oportunidades representam. O que se entendeu como uma “democracia racial” era 54 55 . 41). 42). neste período. diam que. Fernando Henrique Para Florestan Fernandes. não que qualquer outro na nação. Negro na Sociedade de Classes (1965). O mentor intelectual de tal proposta foi Arthur e ”mestiços” era desigual. ao assumir esta posição. 1965: 299). São Paulo. A relação entre os “brancos”. outros intelectuais. A discriminação se deu de maneira tão racismo no mundo. a tão falada “democracia racial” dividida em classes. segundo vítimas não tiveram condições de tomar consciência de Freyre. a UNES- “raciais” sejam respeitadas e garantidas. na memória. Itália. não conseguem. era resultado de uma discriminação em que a “raça” da igualdade básica de todos os homens e de certos divulgá-lo em outras sociedades racistas no mundo: era “fundida” com a situação de classe social. Skidmore: sua existência para combatê-la. poderíamos afirmar que ela pode ser enten. sofrem as consequências na África e na Ásia. Os estudos realizados elites. posição de estudar este fenômeno para poder melhor do Brasil)” (Skidmore. no social (miscigenação) e no econômico UNESCO aprovou em sua 5ª Conferência Geral. Relações Raciais no discriminação e ao racismo brasileiro. realização de uma pesquisa sobre relações raciais no direitos sociais. Apesar das divisões sociais. demonstraram que o que se tinha social. à justiça e às mesmas África do Sul e Estados Unidos. de fato. cientista social brasileiro que havia falecido há como sendo “natural”. disfarçado. e o “mulato” viviam em nossa sociedade. não é simplesmente um meio para conceitos de relações “raciais”. Isso porque as descobertas feitas pela equipe deveriam ter a mesma postura que os “brancos”. somente em funções tavam à sua intenção inicial. Cardoso. As aspas nos termos “negros” e “mulatos”. texto são para tentar reproduzir a mesma postura que Fernandes atraso no processo de inserção na “sociedade inclusiva”. legitimavam de o Credo não ser ali observado. jus. estes foram sendo integrados gra. “os negro americanos na 2ª Grande Guerra Mundial. Brasil se deu de modo que o “negro” e o “mulato” não como um “engodo”. cial” brasileira feita. após entender que esta CO.” (Mauss. dentre outros. no Brasil era uma sociedade em que os “negros” e os dição desvantajosa do “negro” e do “mulato” passava (igualdade de oportunidades). dossiê temático jam conflituosas. na Bahia. jurí. Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional Brasil era um paralelismo entre estratificação racial e racial” no Brasil é pensada no campo religioso (sin. inconciliá. os negros americanos querem um tratamento igual do le Pratique dês Hautes Études – Paris). A fé que nele depo. que “credo” defende a “dignidade essencial do indivíduo. Uma terceira pesquisa patrocinada pela UNESCO Este racismo encoberto. as atrocidades ocorridas e Florestan Fernandes. a (1960). inicialmente. por cientistas como: Octavio Ianni. mas esta disparidade era vista “preconceito retroativo”. 236). destes estudiosos levaram alguns cientistas a criticar percebendo que. mas também pretendem ver respeitadas a suas alunos trabalharam em estreito contato. que se pauta em modelos contatos raciais num só país limitaria uma possível ge. neralização dos seus resultados” (Idem. segundo Myrdal. em sua obra A Integração do Após a divulgação dos resultados das pesquisas tempo. alguns países da América Latina. Salvador e da França ponderaram que a pesquisa sobre forma de produção.. a não seja dividida em “raças” e grupos étnicos. mas. Por ela gro na Sociedade de Classes Florestan Fernandes tenha cracia racial” permite-lhe exigir igualdade de tratamen. Brasil. em que a “democracia racial” revelou-se consegue propor uma sociedade em que as diferenças neste continente. assim como estavam brasileira passou a sofrer ataques cada vez mais viru. 52). mas a ideia da “demo. A representação de “democracia racial” brasilei. Município de Itapetininga (1955). des. Após esta primeira CO abandonou o projeto de divulgar todos os dados. todo a ser considerado extremamente prejudicial para os cia social demonstrou-se possível embora a sociedade ataque preconceituoso era acompanhado por uma ex. que era a de combater o biológicos de delimitação racial. o que não Ramos. pelo menos no campo político-ideológico sas investigações de campo no Brasil estavam Charles 7. veis entre si. entre eles mesmos. tanto por Gilberto Freyre como por colocar contra a situação que lhes foi reservada. para o povo americano. Nesse sentido. ternacionais entre intelectuais das Ciências Sociais. tais como: Donald Pierson. as fantasias da sociedade brasileira em relação a seus os interesses dos “brancos” das classes médias e das sitam. seja ele “negro”. Para Myrdal. ma função que o “credo americano” tem para o norte. O negro brasileiro também entende que é bastante Devido à grande divulgação da “democracia ra. mas era sim um para os brasileiros. discriminação racial contra os “negros” e “mestiços”. ela pode exprimir “ao mesmo tempo e de uma Ramos. impera nos Estados Unidos” (ibidem. também com a ajuda de fundos da UNES. dativamente. podemos esquecer que o mundo ainda tinha muito viva cipalmente. Arthur nunca ter sido assumida claramente no Brasil. para se conhecer a re. Segundo direitos inalienáveis à liberdade. Porém. Segundo o autor. fossem integrados à nova sociedade. nem com a cor. sutil que o “negro” e o “mulato” não tiveram como se Não podemos afirmar que em A Integração do Ne- prejudicado em nossa sociedade. ou mesmo pelo governo brasileiro. assumiu a no Rio de Janeiro por Luís Costa Pinto (Universidade sua condição de inferioridade social foi construída. sabem que constituem um grupo oprimido que. Thales de Azevedo (Universidade da Bahia). defende que a desenvolvidas pelas equipes coordenadas por Bastides ro. mesmo porque fendia a elaboração de um estudo comparativo (Maio.

2. leira (FNB). foi proposto neles um prolongamento e um aprofundamento das primeira vez. que viram via-se. tes estados da União: São Paulo. contra as ameaças do racismo. ainda durante nos Estados Unidos9. muito pelo contrário. não que dá sentido e justifica as relações sociais desta nação. diz: “Tudo isso o lançamento do MUCDR estava ocorrendo sem que MNU passou a afirmar que negro era toda e qualquer democrática e identificado com a mudança de menta- demonstra. Bahia e Pernambuco. o clarim que convocava todos os homens a união de todas as entidades negras brasileiras. de Eldridge Cleaver (1971). Já Ribeiro. não Municipal de São Paulo. que seria o MNU. gros no Clube de Regatas Tietê. comunistas e lideranças estudantis. O que consolidou a postura racialista assumida influenciar profundamente outras organizações negras. do contra o racismo no Brasil. principais mentores do ‘protesto negro’ nas décadas de mocracia racial” (ibdem. Senão vejamos. o MNU procurou na sociedade norte-americana esta 56 57 . outros. porque alguns grupos ne. Na época de sua criação nenhum criminação racial a ser assumida somente pelos negros. também não era “segurança” do sistema político vigente.. de personalidade texto escrito trinta anos após Fernandes. A grande novidade trazida por ele foi a tentativa de jun. como das pesquisas desenvolvidas pelas equipes dos zando como mais um dos diversos grupos já existentes. porque a opressão do negro política foi Centro de Cultura e Arte Negra (CECAN). pela Quando fundado. O maior representante dessa postura esta plataforma percebe-se que a opção de identidade Apesar de não ter logrado unir todas as entida- democracia para ninguém. o clamor da ‘gente negra’. Racial (MUCDR) foi fundado em 1978. Foi discutido que o Movimento Negro contribuiu para que esses resultados (da pesquisas da da verdadeira trilha da “democracia racial” (idem. Para maiores informações consultar Memórias do Exílio. Este é o nome da entidade até nossos dias.. no rosto. ponde o opróbrio do branco posto no papel de opressor por negros que se autodenominavam trotskistas e que trução. 90).. defendeu uma luta contra a dis. 8. militante do Movimento Negro. da de com uma forte democracia social). não da” como se manifestava. racial. 30 e de 40. 71).MNU caráter nacional. publicadas em vários de seus documentos e panfletos. 1985) em sua cons. O MUCDR foi um projeto pensado inicialmente “marca” e da “origem” (Nogueira. Foram convidados a discursar Alma no Exílio. mas acabou se organi- que lutar por uma sociedade mais justa e sem discri. fendida pelo MNU. ocorrido em 1980. foram adotadas por quase opressiva. As opiniões sobre “o que é ser negro no Bra- apesar de a sociedade brasileira ser tão autoritária e jornal Versus. por terem uma postura po- PEQUENO HISTÓRICO comunidade judaica. esta meta jamais foi atingida. por fim. ocorrido em 7 de julho de 1978. Máscaras Brancas. dossiê temático um “preconceito retroativo” o que não permitia a essas O Movimento Unificado Contra a Discriminação que havia retornado recentemente de um auto-exílio Assim. nações e preconceitos raciais existentes em nosso país. mas só é praticável conjuntamente com a democra. levaram o assumisse. 1988. o nome do grupo deve. a tal ponto nas Gerais. num Na opinião de certas lideranças dessas organizações. deste a discriminação racial sofrida por quatro atletas ne. ou nos cabelos. claramente. por serem cristãos. fundada em 16 de setembro de 1931 (Pinto. localizado no bairro nindo delegados do Rio de Janeiro. minação. zona central da cidade de São Paulo.8 Logo no momento de sua criação o de esquerda de boa parte de seus fundadores. por serem municipais. Essa nova denominação a construção de seus argumentos contra as discrimi- contra a sua existência. A análise dessas obras. outro autor que gros não concordaram com o lançamento do MUCDR. de Florestan Fer. que a democracia racial é possí. posto é possível se entender a seguinte afirmação.º) fossem aceitos com simpatia e incor- combate o preconceito/discriminação brasileiro. de São Paulo. 1993. Essas situações fizeram com que o MNU UNIFICADO . a ditadura militar. 6). mas também nos afasta Outro motivo foi a tortura. Melhor Como já falamos anteriormente. sem preconceito e racismo. Além de Abdias. Assim. 9. o MNU não conseguiu ser a “Central Geral cracia racial” brasileira pode dar sentido. tinha a pretensão de representar oposição à discriminação racial. MNU a unir a luta de classes à luta anti-discriminação ganização negra entre todas as já existentes. trito Policial de Guaianazes. um valor sociológico à luta contra a Ditadura Militar. podemos afirmar que a desistência da populações. e também de vários grupos sociais que existiam naquele período. valcante e Ramos (1976). os “negros” e os “mulatos”. Ca. negra defendida por esse grupo procura se utilizar da des negras. exploração e discriminação. também discordavam de sua opção DO MOVIMENTO NEGRO Outra novidade foi o movimento assumir um Fanon. O MUCDR foi resultado da somatória a alteração da denominação do grupo. Só assim podemos de brasileira foi a tentativa de mudar a maneira de se tentar entender a existência de grupos de negros lutan. 18). defenderem-se. Sobre este fenômeno Florestan afirmou: autor: “(. Como já foi dito anteriormente. UNESCO em veicular os resultados das pesquisas so- devido à forma “mascarada”. o MNU conseguiu. ou seja. nandes (1965). ocorreu o lançamento mas leituras foram de grande serventia para a formação concordavam em se submeter a uma liderança nacio- público do MUCDR. na cidade do Rio de Janeiro. Assembléia de Organização e Estruturação Mínima”. identificar um negro. social e politicamente falando. em minação Racial (MNUCDR). Convergência Socialista -. pouco a pouco. em sua opinião. 227). o que foi nessa ocasião aprovado. Pele Negra. de Frantz lítica conservadora. vel. etc. Ou bem há democracia para todos. Ele surge. Unificado (MNU). Em um Ato Público Movimento Negro americano. do Rio Grande do Sul e do “A ausência de racismo institucional. UNESCO): 1. como forma de protesto contra prevaleceu até o Primeiro Congresso do MNUCDR. Mi. a “democracia racial” é de fato um mito. na construção de uma posição político-ideológica do todo o conjunto do Movimento Negro. IBID. sempre discriminar e oprimir os seus “negros” e “mes. bre a existência da “democracia racial” no Brasil. dutos desses trabalhos grande parte das premissas para nas relações “sócio-raciais” brasileiras. assim do Movimento Negro Brasileiro”. organização que editava o Abdias Nascimento não contribuiu somente para fundação. ocorrida no 44° Dis. Somente partindo desse pressu. apoiavam a opção religiosa afro-brasileira também de- representantes sindicais. militavam na Liga Operária – depois transformada em por este grupo político. base” e por esse motivo optaram por não participar da sinais característicos dessa raça” (MNU. Bahia. Rio de Janeiro. algu. que resultou na morte do Espírito Santo. não é uma ação Abdias Nascimento. Dessa maneira. Para não diminuir drasticamente a sua base. de Minas Gerais. A Integra. de organização destas que. 1995. Em sua “Primeira das plataformas dos negros norte-americanos. reu. influiu também sil” assumidas pelo MNU. antro. soando. a condição de mais uma or- MUCDR contou com o apoio de grupos dos seguin. da ção do Negro na Sociedade de Classes. antes fosse feito um trabalho de “conscientização de pessoa “que possui na cor. que nos protege do Bom Retiro. o MNU teve uma forte influência dizendo. tais como: nal. ocorrido nas escadarias do Teatro dos primeiros quadros políticos do MNU. dentro de sua própria sociedade” (id. ele passou a informar As diferenças mais destacadas entre o MNU e ou- tiços”. impediu que o MNU procurasse exatamente nos pro- Se Florestan Fernandes não via “democracia racial” pública sem o consentimento dos responsáveis pela ria ser Movimento Negro Unificado Contra a Discri. o porados pelo branco inconformista. Com cia social. e não somente garantir a por parte dos radicais e ativistas negros. Alguns. um primeiro momento. através das propostas condenado à dignidade de lutador da liberdade corres. Isto só havia ocorrido anteriormente com a Frente Negra Brasi.) seria preciso atingir esse padrão (socieda. operário Robson Silveira da Luz. lidade ou de costumes” (1976. professores Roger Bastide e Florestan Fernandes. Uma das contribuições do MNU para a socieda- quixotesca. mas que o nome do grupo deveria ser Movimento Negro tentativas de desmascaramento racial encetadas pelos a cumprirem os ideais da fraternidade humana e da de. deveria lutar contra todo e qualquer tipo de opressão. 297). somadas à militância pela esquerda. mesmo aquelas que não aceitaram participar de sua O que podemos perceber nos dois textos é que. de grupos homossexuais. o mito da “demo. segmento social podia fazer qualquer manifestação Nesse sentido. “dissimulada” e “disfarça. tar a luta dos negros brasileiros contra a discriminação as pessoas sobre as posturas racialistas assumidas pelo tras entidades do Movimento Negro estão na forma pologicamente falando. MNU: através de seus discursos. ou não há nova entidade. por sua vez.º) recebessem acolhida muito favorável Em outra parte do texto Fernandes escreve: “ou.

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propostas pedagógicas .

para os que efetivo da lei: 1) que África ensinar e que história do desenvolvimento individual e coletivo. analisar e entender sem fazer um cer. A colas e de alguns educadores como no meio da impren- implementação das políticas de ação afirmativa no setor sa e de alguma elite intelectual. por colonial e reconstruir uma nova imagem de uma África outro lado. Kabengele Munanga hoje apaixonadamente em debate na sociedade bra. que embora imprescindíveis não seriam começou nos séculos XV e XVI com o tráfico humano apesar das condições históricas caracterizadas pela poderia esgotar aqui por falta de tempo. Trata-se mos negros no Brasil hoje? negro no Brasil coloca-nos alguns problemas práticos para um olhar crítico sobre as questões relacionadas de uma história de cerca de 500 anos que não se reduz Talvez sim. e promover a igualdade racial do negro. a mesma historiografia que considera identidade nacional e faz parte do cotidiano de todos o negro brasileiro como um boçal. cultural. ou seja. A imagem de 63 . classes sociais. à escravidão e à abolição. A África é os sentidos. ser objetos de grandes conferências e debates que não tecnologias. mas seu funcionamento efetivo ne. bobo que se deixou facilmente escravizar e nunca se ensino superior brasileiro? – Palestra proferida no Seminário do NEAA – Estas realidades deram origem a duas questões importou com sua liberdade e dignidade humanas. Entre a abo. o negro no Brasil hoje uma adesão significativa. “raças” e et- negação de identidade genérica e específica. mas também e sobretudo uma educação dos africanos e sua escravização no Brasil. as real e autêntica e do negro real e autêntico? Qual seria vertentes atuais nos debates sobre a situação o negro a proposta de um curso capaz de realizar essa descon- no Brasil hoje. talvez não! Talvez sim. da formação dos educadores ou professores e nias. é-nos colocado a questão da ser monocultural. da geralmente numa visão eurocêntrica que além de colocar esse negro numa dinâmica histórica na qual precisam de uma ação afirmativa para descontruir a ficos ensinar? Ou seja.639/03 que torna obrigatório dação do exercício da cidadania. religiosos. um João Por que implementar política de ação afirmativa na universidade e no Professor os brasileiros. artístico. liberdade e dignidade humanas em todos os sentidos: e discriminação racial em numerosos setores da vida tão complexa e diversa que fica difícil definir por onde A construção das políticas sobre diversidade cul- político. a implementação de políticas de ação não se deixou escravizar. da situação em que se encontra hoje. de humilhações. a Lei 10. da história e cultura do solidariedade e equidade. toca. fazendo delas uma fonte de riqueza e de É por isso que para entender o “Ser negro no Brasil o que porque nos envergonhar. Uma educação coletivo de muitos. canalizar.639. que contribuíram diferentemente na construção objeto de uma série de violências físicas e simbólicas. De qualquer modo. talvez não. o caminho não é fácil por causa coletiva do negro. ape- sar da certeza de que ela contribui na modelação da foi buscar a mão de obra escravizada que ali existia naturalmente. Onde estão finalmente do ensino público superior e universitário desembocou os problemas? numa polêmica que prejudicou a votação no Congresso Todos os países do mundo. que é um Brasil diverso em todos e também sujeito de resistência para a defesa de sua que constituímos ainda a maior vítima de preconceito ficos divorciados da historiografia colonial. contrariamente ao índio que tinha amor à liberdade e Londrina – 26 de março de 2011 Kabenguele Munanga. o reconhecimento de suas identidades específicas. É o caso da UEL. doutor em antro. As duas questões constituem. de imagem negativa de si introjetada e construir uma nova definição do conteúdo da história da África e do negro gêneros. Estamos com cabeça erguida e orgulhosos de ser. e África e do negro no Brasil herdada da historiografia Letras e Ciências Humanas da USP. Uma tal educação convida lição formal e hoje. a educação hoje”. para os negro no Brasil ensinar. do Brasil de hoje. por um lado. como os mais desenvolvidos. sileira. Ora. Essa seria a pauta de uma agenda mínima que de- pública em fevereiro de 2003 contempla. Infelizmente. violência com que foram trazidos. sem necessariamente em. etc. os negros de hoje são vistos apenas estaria andando com cabeça erguida e orgulhoso de ter As considerações sobre estas duas vertentes podem que visa não somente o domínio das teorias e novas como consequência e resultado de uma história que participado e contribuído na construção do seu país. enfim imagem positiva. sem dúvida. materiais didáticos e bibliográ. cerca de 300 anos se passaram. cidadã orientada na busca da construção e consoli- Entre o tráfico. são aqueles que investi- Ser negro no Brasil hoje significa coisas ao mesmo contribui na construção da economia colonial do país. o ensino da história da África. Por isso. estamos ainda mal por causa do não reconhe- cial de cunho colonial que ainda considera a África como um continente atrasado e inferior. além do fato de que o conteúdo da África tural e ou etnicorraciais é uma realidade que está na da história positiva do Brasil. não respeita nossas diversidades de ele foi objeto de desumanização. no Brasil. perrar a dinâmica própria de algumas universidades ram maciçamente na educação de qualidade para seus tempo positivas e negativas. das dúvidas e resistência tanto no meio da algumas es- cessita de algumas ações ainda em equacionamento. Coletiva- mente. apesar das relações ria apenas em alguns aspectos que considero relevantes. esse negro coletivamente desigualdades e perdas acumuladas comparativamente até então à disposição é viciado pela historiografia ofi. ou seja. onde o Brasil NA ESCOLA BRASILEIRA? cimento público da nossa identidade específica. de sua identidade plural nacional. agenda de todos os países do mundo. No imaginário Depois dessa longa história. suficientes. religiões. Do equaciona. coisas que não podemos no povoamento do território brasileiro e na construção públicas que independentemente da lei recorrem a sua jovens e futuros responsáveis. 123 anos já se passaram. a escravização e a abolição oficial assimétricas do poder durante a escravidão.propostas pedagógicas POR que ENSINAR A HISTÓRIA DO NEGRO aos outros segmentos raciais da sociedade. Com efeito.639 promulgada pelo presidente da Re. a vemos cumprir para colocar em funcionamento a Lei reivindicação do reconhecimento oficial da identidade 10. autonomia interna para discutir a questão e tem dado tipo de educação o Brasil precisa desenvolver para sair to recuo histórico no tempo e espaço. pologia pela Universidade de São Paulo Como então descontruir essa imagem negativa da afirmativa capazes de compensar as perdas acumuladas e professor titular do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia. consciência de que fizemos a nossa parte e não temos mento desses problemas depende o funcionamento e coletivas. A questão é saber que captar. dos princípios de em 1888. sexo. trução e reconstrução? A Lei 10. hoje considerados Nacional da Lei das cotas. coletivamente estamos mal por da produção dos livros. Como sujeito nacional. não podemos simplesmente fazer uma análise ainda andam com cabeça e auto-estima baixas. a meu ver. preconceito e descriminação que engendram começar. para os que têm ainda não totalmente equacionados. com a construção de nossas identidades individuais apenas ao tráfico. 2) quem vai ensinar e 3) a habitualmente dispensada aos nossos jovens é enfoca- da estrutura racista da sociedade brasileira atual sem que alienaram sua humanidade e sua identidade e que partir de que livros e materiais didáticos e bibliográ.

Reagem negativamente algumas educadoras e al.) ter e do encontro das culturas. pele e em outros elementos morfológicos entre negros. É mundo ocidental em geral pululam: Espanha. Bélgica. no simples fato não existem. E não melhor exemplo de um país que nasceu do encontro a partir das diferenças fenotípicas baseadas na cor da nossa cultura e nossa identidade são mestiças. Canadá. das sileira que. quando a própria ciência ticulturalismo ou da diversidade na educação não está país onde quase não houve um discurso ideológico ar- não apenas países de velhas migrações. Ásia. e onde estavam sendo levados e por que motivos. para diversos países da América. pois mesmo na hipótese de aceitar essas tivos países de origem. etc. sistema educacional brasileiro. a saí. biologia molecular. de sua cultura e de sua identidade plural. Eles nem sabiam por onde e para público de suas identidades.. não estaria. não vejo identidade negra não surge simplesmente da tomada cultura de paz baseada na convivência igualitária das duzir um racismo às avessas em suas escolas onde este nenhuma contradição ou impedimento à iniciação de de consciência de uma diferença de pigmentação ou de diversidades. É nesse contexto histórico que devemos técnicas e meios de comunicação. de televisão. para exigir a convivência igualitária de todos. que com a conjuntura política e econômica da época que suas políticas sobre diversidades culturais e etnicorra. enquanto espécie humana. cultural ou etnicorracial na escola brasileira. quero admitir e discutir todas as teses etc. ideológica para justificar a “Missão Civilizadora” e a gregação racial de fato. pois todos e amarela. justamen- países de deportações humanas através do tráfico ne. é uma sociedade de cultura e os países do mundo estão no mesmo barco. Ou de mundo. além dos portadores como pensam alguns defensores das teses de Gilberto constituem. ascendência europeia. passaram por uma história semelhante à dos brasileiros dentais. do meu ponto de vista. quais são vítimas. construir a unidade respeitando e o racismo. etc. judia. xiliará nossa sobrevivência material numa sociedade foram escravizados. pois são paises que nasceram justamente do demonstrado que geneticamente não existem as raças genciar um assunto tão importante para a construção negros. na pauta da discussão. processos começaram há cerca de 500 anos quando os rentes migratórias vindas dos países ditos do terceiro que. onde troem novas diásporas e reivindicam o reconhecimento educação é uma peça central. O que pode engendrar barricadas cultu. Diversidade na unidade não Esta é uma pergunta que todos os povos conscientes se mentem a unidade cultural dos países da Europa e do brasileiras de matrizes africanas em algumas emissoras deve sugerir uma diversidade hierarquizada em cultu. Nunca se falou tanto da diversidade e da fenômeno não existe ou nunca existiu. numa única língua. ou seja. Itália. mas também biológica já provou que raça não existe. cons. até da se. cidadania dos descendentes de escravizados de ontem igualitária das culturas. Sem dúvida devemos conde. isto é. bioquímica. se não um mito. uma educação cidadã baseada nos valores seja. O Brasil oferece o puras. oriental. Irlanda do Norte. que a raça teria influenciado sua decisão para sair de seus respec- ciais para evitar as barricadas culturais e buscar o diá. asiática. Mas apesar da 64 65 . Visto deste povos africanos de diferentes nações foram sequestra- mundo: da África. Apesar dos progressos da ciência biológica (gené. reações negativas até na imprensa. provocados entre os povos africanos. Ela resulta desse longo processo histórico ao mundial dominado pela globalização da economia. na construção sim na aceitação das diversidades como bandeira de clusão. teses que são totalmente opostas às minhas. colocam permanentemente. numa visão do mundo está se tornando cada vez mais Mas a questão fundamental que se coloca hoje é o Finalmente. luta. Os exemplos que des. seria problemático negar a raça enquanto nidade. identidades. não existe. incluído o Brasil. o tráfico negreiro é hoje considerado gens étnicas. espanho- encontro de culturas e civilizações. entender a chamada identidade negra no Brasil. mas o que devemos povos e com os processos de construção de nossa iden- Essa falsa imagem dos países ocidentais monocul. Porque o Brasil. de ensinar aos nossos alunos que raça não existe. etc. dos grupos e so. pilhou e tentou destruir a riqueza da di. identidade mestiças e não diversas. mas construção social e categoria de dominação e de ex. numa única religião. sil é totalmente diferente da de seus compatriotas de nismos de discriminação cultural ou etnicorracial dos questionavam a generalização do ensino obrigatório da rantem nossa sobrevivência. de onde viemos e para onde vamos? exploração dos outros povos. Fala-se de identidade italiana. se daria ao luxo de negli. arrancados de suas raízes e trazidos Médio. etc. japonesa. que são surdo falar ainda de raças. a logo intercultural. árabe. Não existe qual me referi. seria um da identidade branca e amarela. Esses turais está cada vez mais desmentida pelas novas cor. houve algumas sobretudo. sua duração e os estragos culturais. que trazem desses países outras culturas. Vista deste ponto de vista. Seria simplesmente equacionar a unidade com partir dos quais são construídos o preconceito racial que sua unidade de fachada era apenas uma armadilha de preconceitos e de discriminação racial. ticulado sobre identidade branca e amarela. entendemos a raça como uma construção social de sua democracia? Mesmo admitindo a tese de que la. tica humana. afinal. Mesmo concordando que geneticamente as raças puras como uma das maiores tragédias da história da huma- os africanos escravizados de diversas origens étnicas ou da. das pessoas que da solidariedade e do respeito das diversidades que ga. ras superiores e inferiores. que voluntariamente decidiram emigrar de acordo novas diásporas de discutir. uma pergunta que tem a ver com as raízes culturais dos Suíça. capturados. problema negar as raízes formadoras dessa mestiçagem. branca identidade como no atual quadro do desenvolvimento a proposta de educação multicultural na sociedade bra. Todos devem se lembrar das a diversidade que constitui sua matéria prima e uma Quem somos. outros acham ab. a diversidade. Todos buscam a construção de uma guns educadores. chinesa. alegando que se está tentando intro. gaúcha. Sem dúvida. brancos e amarelos. das diversidades: os povos indígenas de diversas ori. penso que construir políticas sobre a nós não pudemos deixar de observar que as diferenças uma raridade. rais e gerar conflitos capazes de prejudicar justamente nar todas as formas de intolerância. os europeus de diversas origens étnicas. judaica. árabe. dos homens e mulheres. por sua amplitude. mas sim a convivência tidade nacional e de nossas identidades étnicas. todos sem exceção deram suas notáveis con. mas também. etc. ou melhor. não é tolerância. campanhas de difamação e demonização das religiões fonte da riqueza coletiva. a cultura brasileira é sincrética ou mestiça. lusófona. quase não são demograficamente representados.639/2003 foi pro. Essas reivindicações geram problemas de mulgada pelo presidente da República. apesar de serem juridicamente cidadãos livres. alguns criticam um diálogo que introduz a temática da diversidade uma diferença biológica entre populações negra. Apesar da inexistência das raças puras como cultura. que até hoje estão sendo tratadas desigualmente no educacional não significa destruir a unidade nacional e na cor da pele são reais e são elas que justamente colonizou-os. a melhor educação não é somente a que dos. O nó da questão. baseada na lei do darwinismo social. ciedades humanas. os germes a versidade cultural dos países colonizados revela hoje dessas identidades de resistência serem ainda vítimas Freyre. construir e incrementar e municípios brasileiros onde os negros são minoria ou dos que dizem que não há racismo em suas escolas. um país que nasceu da diversidade te porque os portadores da pele branca e amarela não greiro. a história da presença dos africanos no atual Bra- convivência decorrentes dos preconceitos e dos meca. segundo eles. de geração em geração. propostas pedagógicas um Estado-Nação construída com base numa única tribuições na forma do povo brasileiro. de suas religiões e visões Recordo-me que quando a Lei 10. o quadro é totalmente diferente dos países oci. têm a garantia de seus direitos sociais entre os quais a nos permite dominação da razão instrumental que au. Daí a necessidades nesses países de história da África e do negro brasileiro até nos estados De antemão. no caso da população negra. reconhecimento oficial e público dessas diversidades diversidade cultural e implantá-las no nosso sistema fenotípicas baseadas nas características morfológicas A Europa Ocidental que invadiu outros povos. num Nos países da América do Norte e do Sul. a construção da democracia e do pleno exercício da buscar. nenhum país no mundo hoje onde a temática do mul. nos ensinam a genética humana e a biologia molecular. América do Sul e do Oriente ainda não exercem igualmente sua cidadania e não ponto de vista.

Estamos aguardando a social e na cultura de nossa sociedade que todo repen. causa da intensa miscigenação ou mestiçagem ocorrida negros. virem! Finalmente. não se trução de uma pedagogia multicultural e antirracista. penso eu. Não há distúrbios gêmeos da UnB que mereceriam uma atenção redobrada culturais orientais. decisão de STJ que a respeito organizou uma audiência sar da cidadania precisa incorporar os desafios sistemá. brancos e índios. orientais. sistema não comprovaram a catástrofe. Pois bem. racial” que precisa ser corrigido. não apenas nas universida. as avaliações feitas até o momento segundo o qual na luta pela vida os melhores devem a memória coletiva do Brasil. os melhores são aqueles que pos- não mestiça ou unitária. muito caro para tras no sistema de ensino nacional. posicionou contra as políticas de ação afirmativa. mas também em outros setores da vida nacional comprovam que apenas nesses últimos oito anos da ganhar. da feijoada. dezenas de entender desde o início do processo em 2002. Nem tampouco baixou o para questionar os mitos de superioridade branca e de mostrar que algo está errado no país da “democracia sentido. Infelizmente. consequentemente uma guerra porque a própria existência da discriminação racial anti- o processo de construção da cultura e da identidade do próprio Brasil. estão sendo bem digeridas e compreendidas pelo povo Disseram também que a política das cotas violaria outras. práticas racistas como os Estados Unidos e a África do segmentos não são devidamente representados como tistas na maioria das universidades que aderiram ao Não existem leis capazes de destruir os preconcei. Os dados de nosso conhecimento mostram que na manda a verdadeira democracia. Alguns obstáculos propositalmente colocados sobre e seus descendentes que foram construídas as bases ação afirmativa no ensino superior e universitário? plementada por meio de uma lei aprovada em 2001 as chances de sucesso das políticas de cotas se fizeram econômicas do Brasil colonial. Felizmente sistência que por sua vez contribuiu para modelar a em Ciências Sociais da Universidade de São Paulo em universidades públicas federais e estaduais adotaram foram. Nos últimos nove anos. esse primeiro Contrariando todas as previsões escatológicas da. disseram que a política das cotas ia nunca ocupou uma posição de igualdade com as ou. postos de comando e responsabilidade. antes de tomar sua decisão. realizada em Durban. Uma memória a ser cultivada que exigem formação superior para ocupar cargos e experiência das políticas de ação afirmativa. do futebol. que esta é a história dos bra. da sociedade. Geralmente são um índice de ingresso e de diplomados negros e indí. a política de cotas busca a inclusão daqueles nível de excelência dessas universidades. Mas felizmente. os resultados do rendimento acadêmico desses sistemas culturais de todas as sociedades humanas. no mundo ocidental? País universidades africanas. Surpreendente- tos que existem em nossas cabeças e provenientes dos véspera do fim do regime da apartheid. também. essas heranças constituem sileiros afrodescendentes. universitária e intelectual de mente. o estatuto da igualdade racial isso o espírito da Lei 10. dades estaduais do Rio de Janeiro (UERJ) e do Norte mudança possível sem erros e sem conflitos. Mais do que isso. Processo esse enriquecido também ingressei na carreira docente na mesma instituição. Mais do que isso. pois não há promulgado pelo ex-presidente da República. Só este exemplo basta para da competitividade entre todos os brasileiros. Neste sentido. ou seja. Por em agosto/setembro de 2001. foi graças aos sacrifícios desses africanos Finalmente. etc. era difícil definir quem é negro ou afrodescendente por lata. como os dos alunos a partir do início do século XX. prova de que as mudanças em processo que ingressaram na universidade através das cotas. Dizia-se no início que do samba. rior podem em parte remover.639/03 visa justamente a cons. baseando-se no princípio de nas universidades que as adotaram. isto é. que se o problema.639 promulgada pelo dos outros países que convivem ou conviveram com as lidade e de comando na vida nacional onde esses dois avaliações feitas sobre o desempenho dos alunos co- presidente da República 115 anos depois da abolição. especifi. as heranças europeias. racial devida à racialização de todos os aspectos da negro é prova de que não é impossível identifica-lo. vida nacional. sul. a possibilidade de uma fratura da sociedade. rar ou de acertar? Uma sociedade que quer mudar não se espera essa decisão. o princípio do mérito baseado no darwinismo social judia. numa mesma instituição é motivo de festa! Esse qua. na África do Sul confessam que têm medo. Se assim fosse não dro é considerado como gritante quando comparado ao ter acesso ao topo em todos os setores da responsabi. Falsa dificuldade. pois a herança cultural africana no Brasil o segundo e o terceiro. Daqui a dois anos estarei compulsoriamente não apareceu nenhum movimento de Ku Klux Klan identidade da maioria dos estudantes negro e mestiços matrizes fundamentais da chamada cultura nacional e me aposentando sem que houvesse a possibilidade de à brasileira. eu ingressei no Programa de Pós-Graduação na Assembléia Estadual do Rio de Janeiro. do carnaval. 1975 através do programa de cooperação com algumas sistema de cotas a partir da decisão de seus respectivos um por um pela própria prática e experiência das cotas Como somos vistos lá fora. autonomia acadêmica. públicas nacionais que se desencadearam principal. Juntas. Discriminação Racial. queles que pensam que essa política provocaria um no país desde o seu descobrimento. Enquanto por extensão no sistema escolar é importantíssima. boa qualidade representam a única chave e a garantia alunos foram iguais e até mesmo excepcionalmente educação ofereceria uma possibilidade aos indivíduos tário que o Brasil de hoje. É justamente aqui que se coloca se tem um é sempre o primeiro e o único e raramente o século passado. assim como para não se cometer erro. 66 67 . pois um povo sem memória é como ausentes ou invisíveis nesses postos e cargos. Fui o primeiro negro a con. eliminados chamada cultura de nacional e a identidade nacional. A educação e a forma. A tinha mais negros com diplomas superior ou universi. a re.. cluir o doutorado em antropologia social nessa univer. Os outros que social- um povo sem história. por que implementar as políticas de Fluminense (UENF) onde a política de cotas foi im. Neste superiores em alguns casos. os símbolos da resistência cultural dos sidade em 1977. que em nosso caso seriam e conservada através das memórias familiais e do sis. alunos oriundos dos colégios particulares mais bem tema educacional. da mu. salvo prova em contrário. houve suem armas mais eficazes. pelas contribuições no atual departamento de Antropologia Social onde anos mostra totalmente o contrário. Encontrar três ou quatro juntos O que se busca pela política de cotas para os ne. Quando genas no ensino superior jamais alcançado em todo aquinhoados financeiramente. não é ter direito às migalhas. as teria nenhum sentido a Lei 10. indígenas. brasileiros que por razões históricas e estruturas que Sobrou apenas uma acusação: a inconstitucio- cista na qual foram socializados. no decorrer do tempo e do processo. uma memória plural e des.. Creio. gros e indígenas. mas sim prejudicar o princípio de excelência. árabes. nem dos conflitos. mas não houve dúvidas sobre a Esta herança cultural africana constitui uma das fundada. contrariamente ao binóculo acadêmico. em 1980. principalmente japonesas. reprimidos durante a colonização. encontram nalidade da política de cotas ou reserva de vagas nas O racismo é tão profundamente radicado no tecido afirmativa ou de reservas de vagas nas universidades barreiras que somente a educação e a formação supe. universidades que as adotaram. Exis- plural brasileira. propostas pedagógicas tragédia. mas medo de que? De er. as grandes universidades. mente não nasceram com essas possibilidades. passaram a integrar camente da República Democrática do Congo e não racismo ao contrário. mente após a III Conferência Mundial de Combate ao vertem a lógica da proposta e veem na política de cotas pública entre os dias 3 e 5 de março do ano passado ticos à prática do racismo. Por mera coincidência. a discussão Racismo. deveria por este motivo ocupar uma posição igual às um segundo docente negro nesse departamento. Xenofobia e Intolerân. conselhos universitários. Bem. etc. a África do Sul ção profissional. brasileiro. Três anos depois. a experiência brasileira destes últimos tem evidentemente casos duvidosos.! Isto é. alguns in. a começar pelas universi. inferioridade negra neles introjetados pela cultura ra. Outros para escutar os pontos de vistas de diversos setores sobre os direitos sociais ou coletivos no sistema legal e cia Correlata. fui o primeiro e o único desde que essa disciplina foi e linchamentos raciais em nenhum lugar. Daí o sentido e a razão de ser das políticas de ação têm a ver com nosso racismo à brasileira. deve ter medo de mudar. técnica. mesmos aqueles que foram negro era oriundo do continente africano.

O antropólogo a Cultura e História Africanas e Afro-Brasileiras. Analisarei como são apresentados e discutidos no authors. relatora dos vimento de definição do negro inserido na realidade “As contribuições dos africanos trazidos para o Brasil. Cultura e História Africanas e Afro-Brasileiras. na discuta as relações etnicorraciais e a presença histórica perdida e à margem da sociedade. na música. em busca de uma educação crítica que a abolição. no pare. Milhões de africanos e seus descendentes destacam-se notáveis contribuições dos negros afri- da demanda da comunidade e da luta do movimento influenciaram a sociedade brasileira. (MUNANGA. café e à mineração. é necessário fazer CRISÂNGELA do Paraná. lei 10639/03.. as demand of Law 10. Maria Andrei. constantemente. tão grande era o tráfico negreiro. de emergir de trabalho. demográfica e cultural.639/03: CULTURA AFRO-BRASILEIRA NO LIVRO DIDÁTICO RESUMO Pretendo neste artigo analisar o Livro Didático da disciplina de ABSTRACT I intend in this article to analyze the didactic book of disciplines of Sociologia utilizado pelas escolas estaduais no 2º Grau. a população negra No plano demográfico. de valorização do patri. algodão. já é possível apontar que a ordem capitalista de quem descendem os brasileiros de hoje. p. destacam-se notáveis contribuições condições para alcançar todos os requisitos tendo em da estrutura de dominação. forme demanda da Lei 10. esta grande população de africanos ficou religiosidade. Elas devem oferecer a do ao tempo da escravização dos africanos. inventar um Brasil (MUNANGA. mesmo estando GA. o sucesso de uns tem o preço da marginalidade e da desigualdade impostas etnicorracial. após canos na língua portuguesa do Brasil. questão etnicorracial.propostas pedagógicas O ENSINO DE SOCIOLOGIA E A LEI 10. frente. no campo da negro no Brasil. 2005. ethnic-racial question. (MUNAN- cer em defesa das Diretrizes Curriculares Nacionais e pelo impedimento do progresso. no livro DA QUESTÃO imposta por parte dos colonizadores portugueses. vista a conclusão de cada um dos níveis de ensino. permanência e festa mesmo diante da repressão e da negação que sofre de vida muito precárias.14) Doutora em Antropologia da Uel Elena Palavras chave: livro didático. na arquitetura. E então decidir que sociedade queremos construir daqui para Formada em Ciências Sociais e Pós Gra­­ também como estão sendo trabalhados os conteúdos sobre a are being worked the contents on the Culture and African History du­­­a­da em Ensino de Sociologia na Uni. consequentemente. 2006: p. que as políticas de reparações. Entretanto. ensino de Key . e se mani. da humanização) do país e nos deixaram um legado que cabulário desconhecido no português original e que faz 69 . os afro-brasileiros resisti. I will analyze as two axles are presented and argued in the emergir as dores e medos que têm sido gerados. conforme demanda and Afro-Brazilian. Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira artigo foi orientada pela Pro­f essora e Africana.word: didactic book. estas pessoas não tiveram a possi. Florestan Fernandes (1978) nos diz que.21) participantes. no campo da religiosidade. além de desempenhar com qualificação para a produção cultural (que é simplesmente a marca No plano da língua. 2006: p. na arte visual. -PR. 2006: p. das competências e dos conhecimentos tidos como tentou importar a cultura europeia. para a educação dos negros. Kabenguele Munanga afirma que: “No plano cultural. sociologia. 2006. não didático Sociologia: Vários Autores. apesar No plano cultural. Analisarei in what it says respect to the black population. na arte visual. reconhecimento e socialmente. 2006: p. de branco e ignorar a cultura africana. contribuiu para a cultura nacional brasileira. os africanos introduziram um vo- uma profissão.639/03 escreve. estão sendo trabalhados os conteúdos sobre A economia brasileira do período colonial (1500 . trabalhos da Comissão que estabeleceu os parâmetros brasileira. con. devi. I will analyze as they a outros. bilidade de progredir e.639/03 – norma que surgiu sa história. education the sociology. tratada de maneira desumana e submetidas a condições essa população garantias de ingresso. No entanto. (Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações versidade Estadual de Londrina.21) e cultural da população negra no nosso país. 2006: p. os africanos ajudaram no po- mônio histórico-cultural afro-brasileiro. no que diz respeito à população negra. foi possível eliminar os elementos da cultura africana. (MUNANGA. 20) sucesso na educação escolar. Uma mão de obra escravizada – sem remuneração–. used for the schools in 2º Degree and that the order of elaborado por vários autores a pedido do Governo do Estado the Government of the State of the Paraná was elaborated by some Para reeducar as relações étnico-raciais. (MUNANGA. somando INTRODUÇÃO CONTEXTO uma maneira de ser e de viver às estruturas fundamen- tais da identidade do povo. law 10639/03. na bem como para atuar como cidadãos responsáveis e Os escravizados e seus descendentes contribuíram música. É preciso entender que BIASSI DE ALMEIDA livro o capítulo “A Escola Enquanto Instituição” e a questão book: “the school while institution” and the ethnic-racial question. que é presente na sociedade brasileira. Após a Abolição. lavouras de cana de açúcar. arquitetura. os negros serviram como força Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africa. 1889) era escravagista e ocupou a maior parte da nos. no Brasil. fornecendo a mão de obra necessária às na.. Mesmo com a aculturação A elaboração deste artigo busca analisar como. na dança. Curitiba: SEED. etc. pois. [. na dança.20) para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o dentro das cidades. são de três de funcionamento da Lei 10. ram e preservaram as tradições e costumes. No plano econômico. no mo- Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva. pois a elite brasileira voamento do Brasil.639/03. que foi Sociology. de aquisição foi desvalorizada e marginalizada. moderna marcou a população negra pela pauperização ordens: econômica.639/03. valorização fazem parte das ações afirmativas voltadas A cultura negra possui raízes fortes no Brasil. Neste da Lei 10. etc”.]. 20) indispensáveis para continuidade nos estudos. dos negros africanos na língua portuguesa do Brasil.

estar voltados à ruptura com a ordem existente. [. Os livros didáticos são produ. ram discutidas em simpósios e encontros envolvendo dimentos pedagógicos. (VÁRIOS AUTORES.. o aumento do acervo de livros so. nessas socie- ções e interlocuções. por exemplo. professores da rede que precisa ser ampliado. vão encerrar definiti- 2006: p. informal”. não pode ser considerado como elemen- A ESCOLA ENQUANTO as pessoas mais velhas eram especialmente valoriza- população negra e o relacione com as práticas educati.. sidades brasileiras? Por que os negros são a maioria manutenção do próprio grupo. entre outros proce- jongo. deve-se considerar a falta de al- como o candomblé. escravocrata. e as sociedades sem escolas? Explica-se no e negativização da cultura negra. porque podemos nos sentar igualmente nas car. das populações quilombolas ou das comunidades- recursos didáticos adequados. A realidade histórica dos estudantes brasileiros teiras escolares. que não tem a forma da educação a igualdade. respeito à população negra. expositivas. as análises sobre os livros didáticos podem nos levar ciais falando sobre a instituição escolar. 2006: p. nos. biblioteca adequada. eles introduziram os congados. iguais. educação é elemento fundamental de socialização e de negros e dos portugueses se deu por meio de apropria. bumba-meu-boi. Diz que as elites (ou dominan- tivas.11) e a questão étnico-racial. as sociedades tribais. o valor da ação acredito poder contribuir para a discussão de uma edu. to inocente e neutro de transmissão desinteressada do INSTITUIÇÃO das pelas experiências e saberes acumulados ao longo vas existentes. tais materiais. além ou uma nova ideologia para o capitalismo que se deno- 2006: p. a igualdade e a democracia. Assim.22) go foi produzido por vários autores. das Diretrizes Curriculares da disciplina. eles deixaram suas marcas nas figas de madei. ticas pedagógicas inclusivas não somente é uma forma ções culturais. Depois de dados estes contextos. ao lado de tantos outros disponíveis.. consulta aos clássicos.(VÁRIOS AUTORES. (MUNANGA.64) determinado patrimônio cultural e as classes traba- 70 71 . a dinâmica e a organização social sempre como exemplo. pois para mui. respeite e observe o repertório cultural da Portanto. maculele. na escola começa as reações contrárias à ordem. os crimes. Mas tão logo os alunos percebem que classes existem diferenças culturais . grande respeito entre todos os membros do grupo. . uma vez que há falta de alterna. mas que. 2006: p.21) publicações científicas dirigidas ao público em idade acima. para haver igualdade é necessário mais do que um lugar porquê da escola não ser um lugar de pertencimento recurso pedagógico. “Essa instituição ensina-nos novos padrões de compor. bem como de sua qualidade. e discutidos neste livro: a escola enquanto instituição 1596 – 1650) é considerado o fundador desta doutrina. Destaco a importância desses materiais. esclarecendo como acontecem as apropriações e a re. classe social ras. tamento. Vejo que já na introdução livro que nessas sociedades. a construção de material orientam e determinam as finalidades do livro didático. a cuíca.]. O livro didático precisa ser entendido como uma educação dos tupinambás: a tradição. as escolas que possuem la. Visualizar as diferenças e articular prá. a ceitos até os dias atuais. mas caracteriza também a educação uma educação para a diversidade: a disponibilização de dos elementos implícitos e explícitos que caracterizam. ternativas aos livros didáticos.”(VÁRIOS AUTORES. A burguesia. e o valor do exemplo. princípios do liberalismo. construção sócio-histórica formada por intenções. conteúdos poderiam estar presentes. nos objetos de ferro. No que diz respeito à religiosidade. meio da educação informal. -terreiro afro-brasileiras. devem também ser considerados como em ascensão. os livros didáticos devem ser de produção – o capitalismo. que cumprem seu papel “As revoluções burguesas. ou mesmo serem desenvolvidos pelos grau e irei analisar como dois eixos são apresentados tífica”. coco. assim como na nossa. são explicados os do-se o samba.enfim. a disciplina e o bom rendimento: entre os índios. vamente o feudalismo e inaugurar um novo modo de Na arte. por isso os chamadas questões disciplinares”. os africanos lega. destacan. 23) e urgência. umbanda e macumba. O contato entre as culturas dos é perguntado: Por que há poucos negros nas univer. 22) “Os conteúdos desenvolvidos foram escolhidos a partir disso. parte do patrimônio religioso brasileiro. a liberdade. não existe apenas Algumas ações são essenciais na construção de a compreender a produção desses materiais.. Como afirmei 2006: p. resultado concreto de disputas sociais Os autores do livro didático de Sociologia iniciam a No entanto. no que diz especificamente Mas. Decorre dessa realidade a importância desses Uma vez que são raras as escolas que possuem uma o livro responde assim: ram ao Brasil algumas de suas religiões populares. direcionado ao ensino Em primeiro lugar. a escravização gerou um processo de invisibilidade 2006: p. maracatu. porém como esse processo não é pobre do país? Para explicar que o papel da Sociologia dades. que são: o individualismo. que valoriza a normatizada pelo Estado brasileiro. rea. o racismo e a O LIVRO DIDÁTICO como disciplina é justamente nos ajudar nesse sentido: a sobrevivência e a convivência são transmitidos por discriminação se tornaram a maior herança do sistema a percebermos que fatos considerados naturais na so. E chega à conclusão de que “é cação que seja geradora de cidadania. Por meio deste artigo. e: boa qualidade. Certamente muitos outros temas e O livro Sociologia foi produzido por vários autores. (MUNANGA. fala que são três importantes valores que perpassam a quentemente das mentalidades. 69) Na música e dança. dos anos vividos”. (MUNANGA. aulas minará liberalismo”. que fazem tos alunos o livro didático acaba sendo o livro. o livro mecanismos de transformação da sociedade e. introdução do Conteúdo Estruturante: Instituições So. os quais poderá ser contemplado em tra. como introdução ao tema e dão um encaminhamento XVII) e a francesa (séc. Grau. escolar. Continuando sobre a educação informal. 2006: p. isto é. pedagógico eficiente. Na história do contato entre os europeus e africa. um dos gêneros musicais populares mais professores da área. como são identificadas pelos autores) possuem um uma biblioteca adequada. é preciso considerar que uma “educação de respeito humano. nos instrumentos musicais do 2º. O filósofo e matemático René Descartes (França. 2006: p. Em relação ao surgimento da escola no Ocidente. propostas pedagógicas parte do falar brasileiro. inculcando precon. “O livro didático acaba sendo o livro”. pois em questão. ou reforça aqueles que já trazemos de nossa Citando os sociólogos franceses. conse. conhecimento social. material didático próprio para o ensino no segundo é apontado o surgimento da chamada “revolução cien- balhos futuros. e de cultural brasileira”. Florestan (1978) destaca que o trabalho dos sociólogos ciedade. professores e alunos nas escolas. por sua relevância a pedido do governo estadual do Paraná. (MUNANGA. São raras. como a miséria. o enriquecimento. São prazeroso para todos. o berimbau.podem não ser tão naturais assim. um recurso. estadual do Estado do Paraná. ria segundo a qual no interior de uma sociedade de Vem daí a importância fundamental do livro di.o livro discute o dático. tes. as quais fo.representantes de uma teo- ser os únicos acessíveis aos jovens nas escolas públicas. processo de construção. irá conceber uma nova doutrina social como os tambores. deve-se dar bastante espaço para debates. Além disso. (VÁRIOS AUTORES. há escassez de mesmos devem ser de boa qualidade. a herança cultural e os saberes necessários para percebido de forma crítica pela sociedade. O livro didático de sociologia analisado neste arti. Pierre Bourdieu bre o assunto nas bibliotecas. XVIII). a conhecidos e que constitui uma das facetas da identida. 72). Pois esses recursos podem contextualização dos diversos textos participantes desse classe social e tenta nos fazer acreditar que somos todos e Jean-Claude Passeron . visto que muitos so. pois ele muitas vezes é utilizado como principal também não deve ser esquecida. principalmente a inglesa (séc. mente têm oportunidade de acessar um livro na esco. dando Acredito que a educação é um dos principais bem como a perspectiva do ensino de Sociologia devem os suicídios . mas uma maneira de promover relacionadas com decisões e ações curriculares. o estudo ordem. atenda e respeite lidades e decisões provenientes de diferentes indivíduos possível perceber que nessas sociedades existia um as diversidades e peculiaridades da população brasileira e contextos. para ser um propriedade.

na esteira de Paulo Freire. Nacional. a perda da guarda destes. a visibilidade da cultura de matriz afri. 175) branco. igno. talvez. a sociedade. seria o exemplo do Ao analisar o livro didático podemos perceber que a instrumento de dominação. que diz respeito à e prejudicam seu aprendizado. que tenha uma proposta semelhante à que defendem. ou pior. suas gratuitas. e como a escola ignora estas diferenças a obrigação de oferecer escola e os pais ou responsáveis educação conscientizadora proposta por Paulo Freire negro nessa citação?) sócio-culturais. seria preciso fa. “A escola é uma instituição dade em que vive. 140) (Cadê o diferentes. 2006:p. Já os movimentos negros e vários estudiosos lançam o preconceito incutido na cabeça do professor e sua historicamente. e estes jovens necessitam quase que reiniciar a esta”. extremo pode chegar ao fanatismo. comparativamente ao do alunado sistema. Estes defendem estímulos e refor. representante de uma pedagogia abordagem dada ao negro é falha e fraca e por isso. enfim. racismo aparece muitas vezes camuflado e estabelece ruptura. Mas ao mesmo tempo em que é um direito. empunhar uma arma assassina. são da sociedade entre senhores e escravos – podemos Antigo Egito. (.valores. (VÁRIOS AUTORES. reconhecidos como seres humanos.“a religião é uma obra humana através te branca. Além disso. a presença do negro é notada enfim sistemas religiosos estruturados. enxergar o mundo. a aprendizagem sobre grupos humanos. O Projeto de cons. É por isso que. cado que os povos africanos escravizados trouxeram dade nacional”. raça pode ter uma conotação própria do campo das escolar do que para aqueles que têm que desaprender mos entender por que todos procuram uma instituição “Ser bandido. são um direito garantido pela Constituição conscientização. com características e po- ser bem-sucedido.267) . quotidianamente é fruto de todos os segmentos étni. de educador comprometido com as classes oprimidas. mas que como O livro diz que as escolas públicas. o conceito minantes torna-se bem mais fácil alcançar o sucesso educação denominam hoje de “cultura escolar”. propostas pedagógicas lhadoras (ou dominadas. projetar uma nova ordem social. eles também tiveram suas estrutu. Ser oprimido. sujeitos da lei e ser usado nas escolas para possibilitar a construção de relacionado ao reconhecimento da diferença entre sidade.. tencialidades físicas especificas relativas a cada raça. 2006 : p. pregado. linguagem. é que lhe permite criar seu próprio sistema de normas e superação das desigualdades e pela transformação da evidente que para os estudantes filhos das classes do. Nesse campo. dentro dessa lógica. 1999: p. individualismo). sua inserção cultural. para os jovens fi. ou seja. como por essas pessoas foram tratadas como mercadorias. Paulo Freire. conhecimentos e preparo para prosseguir os estudos zer alguma coisa para tentar mudar esse quadro – mas (MUNANGA . pode. racismo. cada qual diverso um do outro. 175) “Não precisamos ser profetas para compreender que ou buscar uma profissão. Significa não ter ouvidas suas insatisfações e grupo étnico ou sociedade. Vejo que. cana como parte da herança comum da humanidade uso tem um sentido social e político. contribuíram cada um de seu modo na educador progressista. – e esta divisão era a base e a consequência da divi. Ao dizer que o Brasil é conhecido como o país com e prática. sociais e outras. ser desem. ou uma religião. da apenas para o desempenho e/ou a meritocracia é a (como realmente é). características fisiológicas e biológicas comuns. Interessa também aos No entanto. ou quaisquer outros que sejam “diferentes” da “cara” nos entre humanos. ser abusado. sem atribuir qualidades positivas ou livros e materiais didáticos e às relações preconceitu. mas tória da comunidade negra não interessa apenas aos normal da escola. que incluem pertence somente aos negros. Ela pertence a todos. No livro Sociologia. ços de valores que podem contribuir para se fazer da o pensamento religioso. os autores afirmam que aqui o lhos da classe trabalhadora. 174. da qual é construído um cosmo sagrado” (BERGER pelos preconceitos. existem os educadores progressistas. plena participação na vida social. frio e origem em tronco comum. Paulo Freire deixou sua marca meu foco será principalmente a religião. universais e Para ele. (MUNANGA. indígenas História de seu próprio povo. antes der mais nada.(MATERIAL DIDÁTICO ALTERNATIVO. neste capítulo. a maioria. é colo- formação da riqueza econômica e social e da identi. 22 e 24 do Estatuto da internamente para a luta pela transformação da socie. mas falarei mais aten- aqueles que se importam com a justiça e com a igualda. de social. apesar das condições desiguais nas quais se cido no mundo todo. das origens osas entre alunos de diferentes ascendências étnico. riza pelos conjuntos de símbolos sagrados.(VÁRIOS AUTORES. 77) escola tem papel fundamental na construção de sujei. foi pensado para que a criança e o história da população negra no Brasil e a complexa re- ciente de repetência e evasão escolar altamente elevado exclusão de todos aqueles que não estão inseridos no jovem negro se enxergassem como seres incluídos na lação entre raça.se caracte- ras psíquicas afetadas. Numa sociedade marcada. ou seja. seus rituais. sob pena de serem punidos até mesmo com mente o educando de sua posição social e mobilizá-lo maior número de negros e afrodescendentes depois do classes dominantes. turais . pela divisão cruel entre os que eram trução de um Material Didático Alternativo que possa mão do conceito. estudantes. ancestrais e identidades próprias de cada um deles. a tarefa de conscientizar critica. somado aos locais e rituais sa- tendo em vista que a cultura da qual nos alimentamos vida uma experiência diária de solidariedade e. valores. sua própria “cara”. ou o que pesquisadores da sociedade. significa dizer que há grupos de pessoas que possuem Dentro do capítulo. E estes são sempre negros. o Estado tem propostas e não se considerar sujeito de sua história. a linhagem histórica resgatando as civilizações desde o negativas. defendo que a uma grande distância para os negros efetivarem sua rados. cheirar cola. inserir-se nele e ainda para de lá saírem melhor do que quando entraram.(Art.) O resgate da memória coletiva e da his. Conhe. preconceito e discriminação do alunado negro. Continente Africano. em sua teoria têm o dever de matricular e manter seus filhos menores tem. ciências naturais. a religião pode ser um formidável cos que. religião. na visão de Freire. pobres. O que explica o coefi. educação tem a ver com em alguns trechos no decorrer dos capítulos. suas crenças. de intolerância. que defendem propostas educacionais que apontam no 2007: p. ter fome. levando também à hierar- los autores) possuem outras características culturais educação no Brasil é obrigatória. somando-se ao conteúdo preconceituoso dos produtores de cultura e os que não eram nada disto uma identidade negra positiva. Esse -raciais. coletivamente. ou prisão-educandário. 2005: 16) Por onde passou. não exemplo. proibidas. aprender novos padrões Mas como a escola possui uma dinâmica interna tos autônomos. povo entre povos. seleciona e privilegia. O NEGRO NO LIVRO DIDÁTICO grados formarão um sistema religioso. com mais medo. No entanto. 2006: p. principalmen. uma conquista da sociedade. “Dependendo da maneira como é utilizado. trata-se de um con- uma cultura para aprender um novo jeito de pensar. são muitos: são. pois ao receber uma educação envenenada sentido de uma ruptura com os valores criados e refor. huma. apud FILORAMI&PRANDI. 72 73 . Ainda que fossem uns poucos. competi. quando os autores conceituam raça: “Raça crenças também foram desprezadas. 2006: p. herói e construtor de Ao focar nos trechos do livro didático onde é abor- alunos de ascendência negra. No livro. racial”. em melhores condições de enfrentar a vida. (MUNANGA. o uso do termo raça acaba classificando um tamente sobre as de origem africana. apenas tocarei de leve nesta questão pois. ao mesmo tempo. No mente abordadas pelos autores. Seus valores e saberes são desprezados. igual e capaz de ser protagonista. incapacidade em lidar profissionalmente com a diver. críticos e em condições de lutar pela Já para Kabenguele Munanga: ou modelos de cultura. 04) A religião . como são identificadas pe. dando-lhe um outro significado. da libertação. mas princi.não ter voz na entanto. às vezes. várias religiões são sucinta- muita luta de professores. e que no desenvolvem. çados pela sociedade capitalista (submissão. e resultado de significa estar subjugado economicamente. as manifestações e os valores culturais das na escola. desestimulam o aluno negro entrever que o resultado de uma cultura escolar volta. a escola representa uma Criança e do Adolescente). consigo também seus cultos. regida por normas estabelecidas por grupos externos Por isso.. essa memória não ção. etc . ir para uma ceito utilizado para definir classes de animais que tem falar. pais e de todos palmente não ser respeitado em suas manifestações cul. ao reconhecimento da condição. ser espancado. dada a diversidade religiosa no Brasil percebemos que: alunos de outras ascendências étnicas. A quização”. mundos”.

desencadeada pelos africanos escravizados no Brasil para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira candomblé não é originário da África. acompanhadas de cantos e sons de atabaques. Isto im. é suficiente. CONSE- tos associaram seus deuses a santos católicos. -racial. DF. da identidade negras. Gráfica e Editora. cultura e história. A percepção do preconceito racial em nosso país Superior/ SETI – PR. MUNANGA. também. divindades de Inquices e os povos Jêje as nomeavam culturais africanos com o catolicismo. Diretrizes Curriculares Nacio- que se conhece como sincretismo religioso. 1-2. propostas pedagógicas des espirituais – os guias. mos que a religiosidade de matriz africana foi o recurso Petronilha (2005). Educação. São Paulo: Global. Secre- minam como elas devem agir e não as castigam caso “A religiosidade negra é rica e variada. divulgar e LHO PLENO-DF. tadas pelo Estado ou com o seu apoio indireto. rial didático e a categoria trabalho. mas não deter. criando o quando buscamos fazer uma descrição e uma análise e Africana nos diz que é preciso valorizar. 2006. (MU. v. que estabeleceu a obrigatoriedade do ensino étnico. Programa de Pós-Graduação em Edu- bá.. desmistificando os preconceitos que incidem e por seus descendentes. é uma simples magia..UNIVERSIDADE SEM FRONTEIRAS. os vários povos europeus. Como sabe. [. de estabelecimen. – 266 p. implica práticas discriminatórias sistemáticas fomen- tende a ser reduzido a uma simples associação com os cêntrica. que deveriam ser se. Estas práticas racistas manifestam-se. culturais são o motivo do não desenvolvimento e pro. guidas pelos livros depois da aprovação da lei 10. Florestan. étnico racial. Esta informação é importante para politeísta do culto católico possibilitou a construção nossa sociedade. Kabenguele. para que possamos compreendê-las e não “A forma institucional do racismo.. no interior da cultura.Ca- nas escolas. Sociologia. (MUNANGA. São estas colo.. exemplo. cultura afro-brasileiras como são defendidas pelas di. GOMES. étnicas e deixar claro que os africanos vinham de vários luga. discernir. A Integração do Negro na So- povos Ioruba. Londrina: Idealiza sua descendência africana. "As reflexões de Joaquim cações que acabam. ed. apesar de uma identidade los africanos. desde as formas individuais e Africana. ter certo cuidado com o fenômeno do “sincretismo” que simplesmente julgá-las a partir de nossa verdade etno. religiosas devem ser compreendidas como formas A palavra discriminar significa distinguir. Federal de Santa Catarina. 180) . entre os séculos XVI origens étnicas. tanto passíveis de serem mal interpretadas.. 2006: p. 2006: p. MUNANGA. Nilma Lino. Tais julgamentos podem facilmente deslizar para livros didáticos. Como básico para a conservação da memória. que muitas ciedade de Classes. Secretaria de Educação Continuada. v. quando na verdade foi um complexo principalmente quando falamos em religiões afro-brasi. derno Uniafro. p. COAN . ízes africanas. Tecnologia e Ensino cometam algo considerado incorreto pela sociedade.Universidade e XVII.. de muitos países e que. da cultura e cionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais esta forma de religião foi proibida no Brasil. Seus deuses são chamados de Orixás e repre. segundo autores. da discriminação racial e do gros com imagens deturpadas e estereotipadas quanto Os autores prosseguem dizendo que os deuses do racismo”. buscando o respeito às populações negras. O santos católicos. as religiões afro-bra. 2006: p. “É preciso tomar cuidado com julgamentos. [. sócio-antropológica de suas características. que entram em comunica. 2005. A discriminação racial pode ser con. Kabenguele (org.]” (MUNANGA. não possui uma teologia desenvolvida. Centro de Ciências da sentam as principais nações africanas de língua ioru. preconceito. Curitiba: SEED . REZENDE. [. Aqui também as explicações são mínimas e por. ou sua cultura são os melhores. é preciso ter um cuidado extra e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Material Didático Alternati- Esta frase pode ser muito mal compreendida. e é frequen. eram tão diversos entre si quanto são. (Coleção Para Entender). A umbanda aparece no livro como uma religião bra- CONSIDERAÇÕES FINAIS menosprezados pelo fato de seus antepassados terem 2006. Superando o Racismo res. mas de forma superficial e etnocêntrica. Universidade impressão ao professor e ao aluno de que o Candomblé com o mundo mágico e sobrenatural.] racista que possui mecanismos para produzir as desi. nos negro no Brasil de hoje. e de crenças europeias. na escola. 2006: p. O conduzir o aluno a uma atitude de respeito e consi. nossos ancestrais africanos enriqueceram a nossa cul. Alfabetização e Diversidade. se construiu ao longo de séculos. [. seus adep. Nabuco e as de Manoel Bomfim: Elementos para legitimar os preconceitos e as avaliações pejorativas. cação. Florianópolis. com o que está além do que siderada como prática de racismo e de efetivação do compreender a situação do negro no Brasil no final costumamos considerar como mundo racional”. o preto velho e outros.143) na ausência da história do povo negro no Brasil. E também é preciso não-cristãs. 2007. o mate- é originário da África e chegou ao Brasil junto com tada por pessoas de todas as classes sociais e todas as retrizes curriculares específicas. 2007. por tenha mais informações sobre as práticas religiosas da Educação. 3. de um sistema social vo.PR. estudar questões relacionadas com a temática negra. como Voduns. Os autores possuem um discurso simplista e con. a fim de respeitar os processos históricos de resistência negra nais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e Existem alguns equívocos nesta abordagem. A característica vezes ocultam a ideologia que persiste ainda hoje em 1978..639/03 sertação (Mestrado em Educação) . Brasília: Ministério continental. os povos de língua bantu chamavam suas sileiras se formaram na fusão de diferentes elementos formista sobre as atitudes preconceituosas. 181) BIBLIOGRAFIA a pomba-gira. resultado da fusão de duas religiões africanas: sido explorados no processo de escravização e que não a cabula e o candomblé. portanto. (MUNANGA. até as coletivas. Cultura NANGA. Estadual de Londrina (UEL). que o livro didático gresso da nação.]”.). construção ocorrida no Brasil a partir de múltiplas ra.. os Orixás são as divindades apenas dos Segundo Munanga (2006). um mecanismo de defesa e que Tanto a religiosidade negra como outras expressões gualdades raciais dentro da sociedade. Os guias assumem formas como o caboclo. 2005 – 204p. tanto na presença de personagens ne. o campo do preconceito. dando a tura com diferentes expressões e formas de se relacionar revela a existência. “O etnocêntrico acredita que os seus valores e a ção com as pessoas por intermédio dos iniciados.. Defendo. os mais corretos e isso lhe O CANDOMBLÉ médiuns. 2. 2006 – processo de diálogo entre teologias. Suas cerimônias são realizadas em língua africana. ritos e mitos que leiras. 356p. A Sociologia no ensino médio. nas Diretrizes Curriculares Na. apesar das “boas intenções”. Dis- os primeiros escravos africanos. mas sim uma deração. de relações entre os santos e os deuses cultuados pe.139/140) ensino de história e cultura afro-brasileiras e africanas afro-brasileira: construindo novas histórias . tos de elos com o Criador. Maria José de.38-51. FERNANDES. rençar.]. 74 75 . por construídas. Brasília. No Brasil os taria de Estado da Ciência. A umbanda se Os autores não abordam a temática da história e Os autores do livro didático escrevem que o candomblé propagou por todas as regiões do Brasil. ainda hoje. São Paulo: Ática. PROGRAMA DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA candomblé dão proteção às pessoas. dife. sobre esses cultos. sileira. de que as diferenças raciais. O Podemos perceber que o livro didático aborda a questão sejam desencorajados de prosseguir nos estudos e de universo para os umbandistas é habitado por entida. Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos. A UMBANDA plica criar condições para que os estudantes negros não sejam rejeitados em virtude da cor da sua pele ou VÁRIOS AUTORES. 2º edição revisada. Marival. E é isso que devemos mudar através do do século XIX e no início do século XX".

plantear una discusión que africanas de Língua Portuguesa. por sua vez. ou seja.394. as marcas da influência de José de deste artigo incluirá o estudo da História da África e de várias obras de autores africanos. deve ser inserido somente a partir de uma perspectiva sino das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa histórica? INTRODUÇÃO em sala de aula. os motivos para o aumento desse interesse se lha a Guimarães Rosa. nar ao educando” o conhecimento da riqueza cultural oferece valiosas possibilidades. No entanto. p. ros. mas também outras moda- Artística e de Literatura e História Brasileiras (BRASIL. dos Africanos. deparamo-nos com a dificuldade de proporcio. de 20 de dezembro de 1996. Art. de aula do país. 26 em eles. pode ser definitiva. de 9 de janeiro de 2003. 9). No entanto. de 2003. e mesmo do poeta português Luís de Camões. e em tras linguagens. assim. cação Nacional (LDB) foram acrescidos os seguintes africana. o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. muito tempo. dezembro de 1996. negra brasileira e o negro na formação da sociedade Couto. e a vinda constante. minho para a aula de literatura. conforme se lê abaixo: Por outro lado. a través de la lectura y poemas de autores angolanos e cabo-verdianos. de 20 de ensino. que. 26-A Nos estabelecimentos de ensino fundamental dade do ensino de cultura africana e afro-brasileira nas Além desse autor. Literatura Brasileira também pela UEL. esculturas. sileiros pelas literaturas africanas de língua portuguesa linguagem de Mia Couto que. literaturas africanas de lengua portuguesa. Aluna do Programa de Pós-Graduação em Palavras chave: Literatura angolana. El objetivo es.639. 79-A mente feito a aproximação dos textos do moçambicano e 79-B: lei federal 10. Machado (2010. Em relação à intertextualidade. na de outras artes (pintura. 79-A tem aumentado muito nos últimos anos”. 26-A. com sua experimentação passa a vigorar acrescida dos seguintes arts.394. é que as Literaturas Afri. iniciar a abor- aula. o que se observa. posibi- Claudia Vanessa de aula.propostas pedagógicas Literaturas africanas de Língua Portuguesa em sala de aula: uma possibilidade? RESUMO O presente estudo visa apresentar.639. acredita-se que o de. Cereja e Cochar (2009. 77 . Letras da UEL e professora de Literatura Literatura brasileira. poeta angolano. como Pepetela. 50) enfatiza que de língua portuguesa. com os do escritor mineiro. ou ainda. Mia nos versos de Antonio Jacinto. ou seja. como dispone la Ley Estadual de Londrina e especialista em Federal 10639 de enero de 2003. Encontramos em ou- do Brasil. Exemplo pode ser dado com a Art. 8 anos A resposta para tais questionamentos ainda não depois da publicação da Lei. econômica e política pertinentes à História Embora os autores divirjam. p. suscitar uma discussão que valorize lidades de enfoque de las literaturas africanas de lengua portuguesa Bergamini o processo de estudo e de inserção em sala de aula das literaturas em sala de clase. COCHAR. a luta dos negros no Brasil. torna-se obrigatório o escolas públicas e privadas de todos os Estados brasilei.394. pues. de modo a ampliar o conhecimento 2003). à Lei de Diretrizes e Bases da Edu. Alencar. há rios podem ser abordados. rica em neologismos. dagem a partir de um viés histórico. Cavalcante (2003. justificam por conta da sileira. é possível destacar a presença da e médio. a proposta visava à inserção do en. a publicação Bandeira. ao se considerar que há re- canas Lusófonas ainda não são uma realidade nas salas sistência para o efetivo ensino das literaturas africanas A Lei n° 10. linguagem e temática. tornou obriga. Infanto-juvenil do curso de Pedagogia da Literatura brasileña. 2009. Palabras-clave: Literatura angolana. a cultura ao Brasil. resgatando a contribuição do povo negro nas p. 151) enfatiza ainda que ela leva “à descoberta do ca- áreas social. em especial nas áreas de Educação língua portuguesa em uma grade curricular que. em muito se asseme- e 79-B:Art. Literatura cabo-verdiana. não somente textos literá- o currículo escolar. é preciso atentar-se para a riqueza artigos. de 20 de dezembro de 1996. que estabeleceu a obrigatorie. a crítica literária tem constante- passa a vigorar acrescida dos seguintes arts. intertextualidade nas composições em verso de Ovídio ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira. como dispõe a Lei Federal 10639 valore el proceso de estúdio y de inserción en sala de clase de las Formada em Letras pela Universidade de janeiro de 2003. teatro) o material que pode auxiliar na leitura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo é possível (e viável) inserir as literaturas africanas de do texto literário. aborda as produções literárias brasileira lidades artísticas. Literatura cabo-verdiana.”. p. Pretende-se. A questão é: de que modo cinema. e portuguesa? E ainda: o estudo das literaturas africanas cultural do aluno no que se refere à cultura africana. 9) sina. Luandino” (CEREJA. por meio da leitura e análise de RESUMEN Este estudo tiene por objetivo presentar. safio está posto aos professores de um modo geral. grande nome da Literatura Bra- Art. como por exemplo. A partir da reformulação da Lei n°9. cuja Martins – poeta cabo-verdiano ¬– com as de Manuel § 1o O conteúdo programático a que se refere o caput vigência no Brasil teve no início em 2009. oficiais e particulares. enseñanza de Literatura. § 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura especial aos de Literatura. 1o A Lei no 9. verifica-se que muitos caminhos tório o ensino de história e cultura africanas em sala de “em meio a tantos problemas relacionados à prática de podem ser seguidos. 1o A Lei no 9. 26-A. de detalhes que os autores africanos oferecem com a lizam que “o interesse do público e de estudantes bra. Como se nota. ensino de Literatura. UNIFIL e de Literatura Brasileira do Ensi- no Médio do Colégio Londrinense. de escritores africanos. nacional. possibilidades de análisis de poemas de poetas de Angola (Viriato da Cruz y Antonio abordagem das literaturas africanas de língua portuguesa em sala Jacinto) y de Cabo Verde (Jorge Barbosa y Ovídio Martins). Nesse aspecto. De acordo linguística.

já chamava a atenção nismo dos claridosos. debruçar-se sobre Angola e sua cultura. a falta de esperança no dia de amanhã. padrões ocorre de modo letárgico. Da mesma forma. 3). canônicos ou políticos”. identificar as semelhanças na forma. como referência os poemas: ‘Carta de um contratado’. de que diariamente se defronta o cabo-verdiano: a fome. 286). 14). e ‘Namoro’. 2010 p. XIX. pode ser destacado. elaboram. p. torno de Luanda e das localidades próximas” (CHAVES posições poéticas. -la. Cenário que mu. ceram forte influência sobre os escritores angolanos. autor de O aqui já mencionada. de antecedentes e precursores de caráter social. está inserido Jorge Barbosa. Do panorama literário cultural e que o “intelectual nativo deve lutar contra as do poeta cabo-verdiano. e a idiossincrasia do homem isleno e reafirmar Cabo Sérgio Paulo Adolfo (S/D. EM SALA DE AULA modificada por conta da influência. a partir de 1936. e refletir sobre a “função da Diante das reflexões aqui tecidas. 13). cada país lusófono tem suas especificidades Amado. é na verdade. estes. pois como se sabe. pois ao contexto dos países africanos de língua portuguesa. ‘Você: Brasil’. que também colaborou na revis. Antes de iniciar a análise. p. mas aqueles que são considerados pela crítica os cultura negra. tomaram como modelo os autores Claridade. essas marcas aparecem para “estreitar países africanos lusófonos. 19). ser exposta aos alunos de modo ram. a ruptura com esses O nome do movimento que se inicia em 1948. Soma-se a essas (BONNICI. cuja poesia se preocupa em revelar “as situações com movimento “Vamos descobrir Angola”. pois é preciso con. UMA RIQUEZA CULTURAL ca (2010) os poetas da geração da revista Claridade). A nova geração conseguiu ir além e trazer para as Ao observar este movimento. recionada pelos valores eurocêntricos estava atrelada sócio-econômico provoca fortes mudanças culturais. dividiu-se o estudo em três etapas. de Raquel contexto em que se inserem Viriato da Cruz e Antonio -verdianos. Assim. conhecer profundamente o mundo angola. os ‘claridosos’. de modo que e seu clima inóspito. 37) e o nativo precisa ratificar que há uma Para tanto. 1978. poeta cabo-verdiano. seja pelo isolamento da ilha ram a primeira fase do Modernismo no Brasil. no período pós-colonização. de Jorge Em relação à formação da literatura angolana. no de que eles faziam parte mas que não figurara nos lhar os motivos que levaram a pesquisadora a elaborá- países colonizados. de modo que a literatura e a história poéticos abordados. Jacinto. foi realizada a análise dos po. significa: falar contra. cunho político-cultural que incitava os jovens a des- zador. a geração de jornalistas-escrito. teraturas angolana e brasileira nascem sob o mesmo in- escritores europeus. CI. algumas vezes. o elemento híbrido e. Bonnici (2000. p. p. quanto os angolanos iniciaram. a literatura ocidental dentro da perspectiva imperialista. Na plantaram os alicerces da nova poesia cabo-verdiana. na literatura que se formou nos que versa sobre o mundo que rodeia o homem cabo. pois abordam os recursos emas mencionados. destacando elementos da formação da literatura partir das normas temáticas eurocêntricas. as secas. visto que Cabo Verde só se tornou independente cobrir Angola em seus diferentes aspectos. p. um mote de siderar a realidade da sociedade dependente do coloni. propostas pedagógicas Desse modo. e romances de Graciliano Ramos. problematizar para quem a literatura era uma forma de resistência processo embrionário da literatura brasileira passou Fonseca (2010. uma discussão ne- as quais muitas vezes estão presentes nas composições. p. da parte Ovídio Martins. 2000. o As ideias de Santiago se confirmam no estudo de ções posteriores à Claridade representar. posteriormente. 14) destaca que essa escrita di. africanas de língua portuguesa. consequentemente. Silviano Santiago. para entrar em consonância com a lei e aos movimentos literários dos quais eles participa. Assim. elencados por POEMAS DE AUTORES PRÓXIMAS E DISTANTES Embora importante para a configuração de um Fonseca (2010. escrever. denunciar a dramática exis. não se pode deixar ao abordar em sala de aula poemas de autores africanos Esse elemento híbrido é entendido como as marcas do composições literárias a identidade cabo-verdiana e a de comentar as semelhanças dele com a Semana de Arte lusófonos como possibilidade de trabalho com crianças 78 79 . Nota-se que era comum aos participantes das gera. por conta do lirismo intimista sociedade. AFRICANOS LUSÓFONOS: DO BRASIL novo cenário. poeta Viriato da Cruz e Antonio Jacinto fizeram parte do colonizado” (BONNICI. além de dou. momento em que a “literatura brasileira. 1922 e as discussões em torno da nacionalidade exer- ção da literatura brasileira e na formação das literaturas (SANTIAGO. O primeiro deles se refere à sua prática como pro- autor fale em relação à América. 2000. “Vamos descobrir Angola”. bramento e uma descoberta instigante para os autores e estético” (FONSECA. os ideais que sustenta- de textos.” pois embora se mencione aqui as literaturas de língua de José Lins do Rego. p. o primeiro construído pelos portugueses. observa-se que ela “também reflete a influência movimentos de que participaram. empreendermos estudos comparativos entre as duas. 2010 p. dentro dos na linguagem. 15). p. a destacar quais traços culturais a diferenciava de outros to de que um povo colonizado necessita de libertação Ovídio Martins. Em problemática que a envolve. p. 26). “falar. Este em especial era contrário ao evasio. literários e deixando para trás a poesia que se fazia a XX. 02) assinala que “as li- africanos de língua portuguesa. acredita-se que tanto os poetas cabo- portuguesa. p. e a poesia de Manuel Bandeira foram um alum. pelo diálogo constante com a literatura europeia e o cabo-verdianos terem. países do continente africano. do e seus efeitos devastadores” (FONSECA. miséria. populares. determinante histórico tem relevância suficiente para Ainda é possível aludir aos aspectos da oralidade. diferindo o país de outros Moderna e. Por fim. entende-se que essa primeira foram feitas considerações acerca dos autores trazendo a realidade que cercava a ilha para os textos precursores da literatura angolana situam-se no séc. ta Claridade. p. Somam-se ANGOLA E CABO VERDE: de Portugal em 1975. Tais características podem ser visualizadas no poema fluxo histórico: a dominação colonial portuguesa. 2). com o lançamento da revista Verde como região única (CARVALHO. 6). qual se configura como identidade cultural em África. s/d. 2009. como nomeou Fonse. porém. Segredo da Morta (1935). fortalecendo as relações entre literatura e em artigo publicado em 1978. romper com o tradicionalismo cultural imposto pelo Sabe-se que os países colonizados tiveram sua cultura foram combatidos pela geração posterior. fase do modernismo: Menino de Engenho e Banguê. embora o -verdiano. Jorge Barbosa. mas também o papel da literatura nacional para o povo da literatura africana de língua portuguesa. principalmente os romances neo-realistas da segunda ‘Antievasão’ de Ovídio Martins. 10). que antecede ao movimento. política e cultural à opressão em que viviam” (CEREJA. seguem as considerações tação que pudesse indicar algo diferente dos critérios 1999 apud FONSECA. escrever contra” país. que estes possam ter uma compreensão das literaturas dos países a que pertencem os autores selecionados. Este brasileiros. a epopeia COCHAR. cultura precisa. da qual fez colonialismo. cultural cessária para se conseguir a “descolonização da cultura” a oferecer ao leitor parte dessa cultura. sobretudo ao aluno mais os laços do poder conquistador”. mas não aponta soluções para os problemas conteúdos escolares aos quais tiveram acesso. p. sociológicos e culturais presentes nas com- que podem auxiliar o aluno à compreensão dos textos potência imperial não permitiam qualquer manifes. 2000. pora marcas do momento em que o desenvolvimento africanas de língua portuguesa que excedam as fron- Num segundo momento. seja pela constituição histórica do “as propostas estéticas do Modernismo brasileiro de do ensino médio. teiras da história. estende-se a reflexão que o cerca. tência das populações. que. Jubiabá e Mar Morto. É o caso de Antonio de Assis Júnior. ou melhor dizer. 2010. serão destacadas. 26). entende-se que a partir da abordagem colonizador na produção cultural do colonizado. seus dialetos ou mesmo outras línguas. mostrar a intimidade. que destaca o fato de os poetas e indagar a vida nas ilhas. poeta angolano. nos mentiras colonialistas no continente inteiro” (BONNI- angolano Viriato da Cruz. de Queiroz e de Marques Rebelo” (FONSECA. romance cujo enredo “incor. mesmo caminho foi seguido pelos escritores de países “olhos fixos nos clássicos europeus”. res. já que é possível que o professor permita. atentar para as aspirações imposição da cultura do colonizador. 2010. o presente artigo cabo-verdianos. de modo a enfatizar os aspectos à “manutenção da ordem e as restrições impostas pela mexendo no cotidiano daquelas populações fixadas em estilísticos. ‘Antievasão’. possam expressar a subjetividade dos sujeitos que as finais deste estudo. cujo intuito era Papel este que é a alavanca para o entendimen- de Antonio Jacinto. visa a discutir as possibilidades de abordagem de textos contra o colonizador. tomando Nesse contexto. faz-se necessário comparti- para o fato de reinar. Eis o momento de iniciar um discurso características a influência da tradição da oralidade. a esses objetivos do movimento outros. Vão além. fessora de Literatura nos níveis médio e superior. nos quais a intertextualidade se faz presente. suas gentes e seus problemas. Os participantes da geração da revista Claridade anos 80 do séc.

inicia-se a análise do dizer que a moça é perfumada. 16). De tom O outro motivo foi a indagação feita à pesquisa. Essa medida aconte- ainda estão enraizados na cultura brasileira os ideais em países quentes. Além de recorrer a ela. é ‘Carta de um contratado’. Nor. espécie de ‘arrumadeira que passavam por lá. ceu quando foi barrada a saída de navios negreiros à eurocêntricos. ro sendo proibida pelo padre de pagar uma promessa à do Século XV. aguardando a saída dos navios a ‘voz’ do subjugado. referindo-se. vale-se de um modelo de literatura portuguesa 1. ao som de uma rumba e no meio ‘Amor é fogo que arde sem se ver’. Porém. da dança. lógicos. pois quimbanda é uma palavra. porque esta foi feita no terreiro de can. 80 81 . Jorge Amado deixa muito ex. a fim de conquistar a amada. países lusófonos africanos. la. encontra-se uma Tecidas tais considerações. Nota-se que. sendo com densa significação. cuja casca é dura. traço carac. nas referências. recorrendo a recursos tecno. por isso. Universidade Estadual de Londrina (2011/2012) gerou vale dos conhecimentos ocidentais para escrever uma plícito o sincretismo religioso em seus romances ‘Ca- interesse dos alunos das segundas e terceiras séries. a inserção do livro interpretação para o título. ou africanos à cultura brasileira. mas comum Já quase sem forças. pitães de Areia’ e ‘A morte e a morte de Quincas Berro A partir da análise do poema. a herança religiosa africana será ficados mais profundos dos recursos empregados pelo os estereótipos ou essa leitura preconceituosa que se jambo/cheirando a rosas/ sua pele macia guardava as valorizada. do modelo original que copia e permite que seus versos 2. Jacinto consegue fugir de aula.lírico recorre à quimbanda. Deseja-se somente compartilhar consi- O desespero o faz procurar Zefa do Sete. o continente americano por meio dos escravos. embora seja Outra palavra é maboque. como nos quais o amor e a natureza estejam presentes. eu-lírico se concretiza com a dança. acolchoamento. existente. Angola chegou por meio dos escravos moçambicanos nhece o saber acadêmico (escrita) e. evoca estas origens e justifica o paralelismo melódico de Mia Couto como leitura obrigatória ao vestibular da Na primeira estrofe e na segunda. Pode-se religiosa do país. É o caso de ‘O Pagador de Promessas’. visto que procurar a quimbanda faz parte de údo do poema nos conduz a um pseudo-romantismo que uma criança optou por praticar judô e não ballet. também do quimbondo. a religião e a língua são as principais formas de dividido em 9 estrofes. mas o feitiço falha. por que a ‘força’ do judô e não a leveza do ‘ballet’. românticos. de Antonio Jacinto. depare em um único poema com um texto razoavel. destaca que se preocupa em “minimizar pele macia – era sumaúma/ Sua pele macia. em sua poesia. o que se via. recorre à Santa para a América. laranjas . com versos polimétricos e bran. vida e morte. homens angolanos que iam trabalhar nas minas de dia- se só o segundo pudesse ser digno de ser praticado. domblé à Iansã. cartão: “Mandei-lhe um cartão/que o amigo Maninho o quarto é o mais forte. Camões iniciou o segundo quarteto com: “É um não o gênero permite que sejam discutidos recursos estilís. o vocabulário. elementos deixadas pelo colonizador. minoso tão quente e gaiato/ como o sol de Novembro comuns às culturas brasileira e angolana podem ser bora em uma primeira leitura o poema se apresente ma Lima. estão disponíveis os livros Ifigênia e à Senhora do Cabo. o eu-lírico tipografa seu sofrimento em um seia em quatro tempos em cada compasso. em dense ou europeu tende a ser rejeitado. E. linguagem dos poemas. de namoros’. querer mais que bem querer”. tureza remetem aos poemas e a trechos de romances gem está no quimbundo. Entende-se então que o encontro do eu-lírico com não sejam “cópia.” feitiço. anel. recorre tanto à mulher típica da cultura dança e a música são associadas aos ritos de fertilidade. uma ticos formais e histórico-culturais do texto. como se ilustrar o relacionamento entre culturas. Po. Assim./ Seus seios. modo a despir-se de qualquer preconceito religioso. de onde se extrai óleo e paina para amada com presentes comuns às mulheres do Ociden. Nota-se que eu-lírico. a fim de conquistá-la. artísticos e culturais podem ser abordados. marca de intertextualidade com Camões. Já sibilidade única que não pode ser menosprezada. destacam-se as palavras como: sumaúma. à medida que se lê. quis o destino que os dois se encontras. que além de outras línguas e dialetos. cuja ori. Nessa estrofe. observa-se que o conte- dora sobre um determinado esporte. O poema está Gomes. Não se deseja aqui promover qualquer discussão de cunho re- mais ela disse que não. Nota-se que o desejo do escreveu: “deste mais que bem querer que sinto”. Tais exemplos servem para reforçar a ideia Viriato da Cruz não oculta. o relacionamento. ele virou um mono-gamba. com a abolição da escravatura em Angola. o eu-lírico se Do mesmo modo. Na primeira estrofe do poema. o eu-lírico quer darilho. A linguagem alta. também de um poeta angolano. no soneto poema ‘Namoro’. 1978. como colar. Edgar do Xavier. num contexto em namorado e lhe dá um não como resposta. de que o poema é denso e. da natureza africana. Os homens. mas mesmo assim ela não o aceita como cussão que se pode suscitar para legitimar a atitude do romântico. ele chegou até dores. dos quais. como também uma metáfora para questão. sobretudo na disciplina de Literatura Infanto. num segundo momento. Desiludido. aqui mencionar obras brasileiras em que se tem essa Intimamente ligadas ao quotidiano das populações. as marcas depararem com a problemática trazida pelo romance. ela disse que sim. no site do Consulado Geral da Repú- va às religiões africanas1. fruto é odorífico e ácido. a dominância cristã. a rejeição. ministrada para o curso de Pedagogia. Ade. tampouco as rejeita. de Dias música e a dança de Angola enriqueceram-se em pe- mo ser a religião imposta pelo colonizador e. Em- A especialista em Literatura cabo-verdiana. Ao final do estudo. nesse caso. o que não é estaduni. tada do mesmo modo que a casca do maboque é difícil sem em um baile. por sua mente curto. o aluno conheça a diversidade da linguagem de Ango. torna-se derações que surgiram a partir de situações vivenciadas em sala gura da sociedade angolana. infelizmente. sobretudo do Romantismo.como o uma feiticeira ou curandeira. a sua influência a outras terras e outras dominação. no entanto. O título do poema faz referência aos contratados. uma condição sine qua non para a inserção do estudo maboque. ritmo que se ba. está presente. além da própria dis. O segundo poema. Referência esta que. palavra 1856. carta à amada. de pronto. blica de Angola: vez. típica fi. Ademais.laranjas do Loje. a mostrar que o poeta co- ligioso. pois o quimbundo é uma língua falada em Angola. culiaridade e força capazes de induzir. é possível aqui oferecer ao aluno uma comparação a sua crença. a partir dele. Na cultura angolana. te. revela que o ritmo musical semelhante ao original” (SANTIAGO. logo a partir sabe. o também do quimbundo que pode ser traduzida por an. Mas esse recurso também América. o eu-lírico decide presentear a remunerados e não escravizados. eram jovens ‘pisando em ovos’ ao se mente poética compara a beleza da moça aos elementos d’ Água’. de ser retirada. Imediatamente a mãe da garota foi questionada sobre partir de outros poemas. do angolano Viriato da Cruz2.. moro seria tanto o namoro em seu sentido denotativo. Embora os dicionários expli. falhou. à fé cristã. o sincretismo religioso. Chama-se atenção aqui para linguísticos. observa-se que rém. mais. as palavras do quimbundo permitem que e que no fundo o que se tem é uma forte crítica social. Conforme destaca que a primeira reação do grupo foi a referência negati. cos. como escravos. da cor do Na quinta estrofe. nomeadamente ao Brasil onde o samba ainda Em relação ao Ensino Médio. possibilita-se que o aluno se angolana (Zefa do Sete) como às santas católicas. pueril. das literaturas de língua portuguesa produzidas nos As comparações da beleza da moça com a na. Em para compor seus versos. E como a mistura às atitudes do eu-lírico que. Nota-se como a fé do colonizador aqui se a jovem. mas com múltiplos sentidos. seguiram trabalhando visível a incorporação de aspectos culturais orientais refere-se ao fruto do maboqueiro. broche. tampouco se deseja adotar uma postura preconceituosa quanto ao cristianismo. querendo resolver africano aproxima as pessoas. p. simulacro que se quer mais e mais de onde foram extraídos os poemas aqui analisados. É exatamente tem da África” e. em entrevista à jornalista Juliane Rettich brincando/ de artista nas acácias floridas” ou em: “sua visualizados. Nesse sentido. já revela a influência do colonizador na formação O título ‘Namoro’ sugere duas interpretações: na. em geral. gentes. drama no qual se tem a personagem Zé do Bur. houve. propostas pedagógicas dos Ensinos Fundamental I e II. podem-se extrair signi- (maio/2006). isso se deve ao fato de o cristianis. já que o eu . pois Na terceira estrofe. terístico de países colonizados. cujo conteúdo confirma as duas possibilidades de Santa Bárbara. eu-lírico. é compacta. acredita-se que essa seja doçuras do corpo rijo/ tão rijo e tão doce . como se vê em: “um sorrir lu. pois se o Brasil é um país com pre. embora o poeta critique os coloniza- tipografou:/ ‘Por ti sofre o meu coração’” e uma vez quem que o ritmo é originário de Cuba.. Acre. para que ela lance um no emprego desses recursos que elementos históricos. embora seu problema. de nascimento. Antonio Jacinto dita-se que levar poemas para a sala de aula é uma pos. por meio da rumba. mantes da África do Sul com a falsa ideia de que seriam O aprendizado que se pode extrair da situação é que se refere a uma árvore nativa da África. -juvenil. iniciação. e difícil de ser conquis. efetivamente.

percebe-se a descrição da mu. No Brasil. que ainda estavam sob o contratado’. tilham da mesma realidade brasileira: foram formados dilôa/dos teus olhos doces como macongue/dos teus eu-lírico em gritar que não deseja fugir. ram os africanos. e o sorriso mais doce que a jati. não serve para conseguiu deixar de lado os elementos que permitem história. na pele e no sangue de tantos brasileiros a escravidão e da inserção da escola em Angola. tra um ser preparado para o que surgir. seja dos próprios portugue. intelectuais e escritores. por conta disso. lugar de regalias. cria-se a comparação entre os dois países. a realizações. seios duros como maboque”. quando o eu-lírico cabo-verdiano e propror não fugir. pois Cabo uma nação ou identificar-se com outra nação sem ser mostra o sofrimento que sente ao se lembrar dos mo. aos quais era veta. Oswald de Andrade e raturas africanas lusófonas em sala de aula. por muitos anos. cujos sentimentos são como fez José de Alencar na descrição de Iracema. outro poeta cabo-verdiano. imposição do colonizador. na vida social que perpassam o poema. O uso das Por fim. ser terra livre da a sua? Por que brasileiros e africanos compartilham dos mentos que passou junto com sua amada. tem-se o poema ‘Você: Brasil’. Segundo anti. nial e que agora procurava construir um percurso como que o namoro acontece. Considerando que Ovídio fez oposição a Jorge nação livre e independente. apud SILVA et all. época porque os dois são frutos da colonização. embora com contextos diferentes. compar- vermelhos como tacula/dos teus cabelos negros como Os versos livres e curtos mostram a urgência do Para Oliveira (2010 p. um devaneio para expor os sentimentos renças da natureza e das grandes cidades brasileiras e. com uma identidade pró. Ovídio Martins é contrário à Pasárgada de Bandei- gue. seja pela influência lugar que não seja a realidade em que ele está inserido. bem como a relação de identidade dos Como sentiam a necessidade de ser livres como os no poema de Jorge Barbosa? Essas questões são impor- O poeta faz sua crítica na última estrofe. O poema de era visto pelos países africanos. Jorge Barbosa permite a reflexão sobre: o que é Todo o lirismo do poema pode ser verificado na dá a solução para eles: expor a intimidade do homem ximidades linguísticas. como se não pudesse seu país ao Brasil. como se o natureza inóspita do Nordeste brasileiro. como um irmão mais velho que se cultural de que Angola é formada. negros e brancos criar receitas para a sala de aula. o qual remete a contrário. no poema de Ovídio equivale à fuga da re. e suas imagens do cotidiano e a des. como os brasileiros. e macon. portuguesa e a necessidade de que sejam abordados na história de muitos africanos se repete. há “uma ligação mui. somos postos em comparação desvencilhar-se dele. valorizando a ‘língua compreender e passar a mensagem aos alunos de que É preciso destacar que durante o século XIX. não textos são ricos. a tacula. textos como ‘vozes’ de muitos que. cabelos negros como as asas da graúna ‘Antievasão’ vem denunciar a vida difícil das ilhas que e buscar uma nova realidade. do país. alidade. mas não fugirá. uma cultura e uma literatura que já nada tinham a ra. ao relatar cabo-verdianos com o povo brasileiro. lutar e modificar a também reforça as proximidades ideológicas. Mas As considerações aqui tecidas não têm por objetivo merecem ser ouvidos. não havia escola para as crianças e jovens negros. como identidade? O que faz um homem sentir-se parte de terceira. Manuel Bandeira. porém. com a diferença. Viriato da Cruz brinca com o hibridismo reza como o maboque (já comentado). construir essa oposição. seja por conta do sofrimento causado pela ‘irmão mais velho’ elementos para a construção de uma muitas discussões sejam levantadas. À medida que o poeta cabo-verdiano compreen. adolescente. a os problemas e juntos buscar a sobrevivência. formaram-se a partir da miscigenação. dos recursos do colonizador. é enfrentar tinha oposto e que se tinha revoltado contra o jugo colo. Pasárgada é o lugar de prazeres. elevam-se as dife. do poeta ca. propostas pedagógicas A ideia de seguir a Europa como modelo para a Tomando a composição do poeta cabo-verdiano produção de literatura é discutida por Silviano Santiago Ovídio Martins. tivemos canos. p. dilôa. 84). domínio de Portugal. como já mencionado anteriormente. A Pasárgada de Bandeira. ele compara dominação deixadas por estes já são suficientes para vimos de modelo aos países africanos de língua portu- continuidade desse pensamento. compõem Cabo Verde. brancos (sobretudo. vermelha usada em rituais femininos de puberdade. é na rumba. o elemento híbrido impera na literatu. Conclui-se que melhor que fugir da ceu oportunidades. como a própria questão da deram origem ao que podemos chamar hoje de ‘nação viabilidade dos textos de literatura africana de língua e cultural. em Cabo Verde. enquanto geográficas e ambientais”. nutridos pelo ódio do colonizador. tem-se no título o prefixo (1978). antes de se iniciar a abordagem das lite- pensamento. o eu-lírico se Santiago (1978). cultural. O Brasil. Alencar também descreveu Iracema com lábios que ele apontava os problemas sem propor solução. fruto de sabor doce para caracterizar os lábios da Barbosa. que buscam ser ou- uma discussão acerca de elementos históricos e sociais forte. índios. a mostrar que é possível ficar doces como mel. que vem quebrar a expectativa do leitor. e destaca as dificuldades de se viver ocultar a cultura de um povo. poema que se configura como o ponto de iden. justamente por. para se referir aos cabelos. o poeta se vale da natureza nha que matar. da mesma forma para Manuel Bandeira. pria. ainda assim. da língua. possuem um povo terno e alegre. Não para se fazer cumprir a lei. países que. mistura de povos. já independente de apresenta como o colonizado. sobreviveu! E assim. mas não foge da intertextualidade com o autor para amada. Brasil’. ou do Ovídio se insere na realidade cabo-verdiana. dando os recursos da linguagem. do o acesso à leitura e à escrita. alienação. literários? Por que ser- reticências no verso final de cada estrofe demonstra a bo-verdiano. E conclui. sociais. árvore de onde se extrai uma tinta lhor que deixar a ilha. crição do Recife de sua infância. além da afinidade entre os Antonio Jacinto se mostra um antirromântico e se para descrever a beleza da mulher. guesa e. literatura que fugisse dos ideais eurocêntricos. ver com as portuguesas (OLIVEIRA. portugueses) e índios convivendo. Nesse poema. é preciso pela moça. que não lhe ofere- virgem dos lábios de mel. brasileira’ (BERGAMINI. Portugal. realidade. mas porque são ses (colonizadores) ou até mesmo de autores brasileiros. 84). ritmo híbrido. seja por conta brasileiros. Daí a Os dois países tiveram sua história feita a partir da Daí se iniciam as proximidades com os países afri- crítica de Jacinto. com o rei. desven. suplicar. 2007). Jacinto usa sempre elementos da natu. realidade é enfrentá-la e transformá-la. ‘Antievasão’. geográficas e literárias. fazer é retirar qualquer sentimento de superioridade As possibilidades de abordagem deste poema em dando forma a uma nova raça. Assim. o eu-lírico deseja pedir. Verde deseja ser livre como o Brasil. Um tempo depois. seu desprendimento com a língua. e ainda que se valha quimbondo takula. que brasileiros e cabo-verdianos sejam um só povo. trazem indícios de que na história. Portanto. Não mostra os problemas. Jorge Barbosa. seja pelo aniquilamento da cultura primitiva Antes. bem como promover sendo sua cultura quase sufocada pela do branco. uma vez que as marcas da mesmos traços culturais. Assim. 2011). como muitos fizeram. quarta e quinta estrofes. ainda que te. cultura e conhecem os problemas de outros lher como a índia Iracema. to forte entre as duas realidades com tantas afinidades a partir de um processo de colonização. encontraram na literatura produzida pelo tantes para a formação dos estudantes e permitem que o analfabetismo dos contratados. Desejou-se discutir a vidas. apresenta como contrário à fuga. cor escura. Daí o tom irônico de ‘Carta de um Nesse caso. lugar de ter belas mulheres. pois me. vie- CONSIDERAÇÕES FINAIS e revestir o aluno de entendimento para que receba os sala de aula podem partir da intertextualidade. Por serem as questões preciosas à formação do que foi expresso anteriormente fosse tudo parte de um Nos versos de Jorge Barbosa. mas Dessa forma. Nos versos: “dos teus lábios o eu-lírico deste poema. Somos um povo crioulo” (SANTILLI começou a enviar os contratados às minas de diamante. Ainda se nota no poema de Jacinto a mistura nota-se que o emprego do Futuro do Presente já mos- de traços de outros autores. o poema não vem só acentuar as pro. 82 83 . prefere ficar ali e lutar. infelizmente trazidos como escravos. tificação do eu-lírico com o povo brasileiro. amizades deu o processo de formação da cultura brasileira. Assim. nos quais os alunos se deparam com Na segunda estrofe. falam a língua brasileira’ do povo estão presentes nos versos de ‘Você: “somos um povo habituado à prática de convivência em que Angola impediu a partida de navios negreiros e do colonizador. o primeiro movimento que se deve já que este imagina ser o poema uma história de amor. escola. E essas vozes. à corrida rumo a um ra produzida em países colonizados. 2010.

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S/D. Vera Lúcia de. onde a popula. Portanto. Alexandre Gomes da. Dispoi. assim como seus desdobramentos na vida prática em 145 p. Depto. teórica e metodológica consistia colaborar com a implementação da Lei 10. The principle of justice translates into the concessions for a reactionary elite. DAVID. O Entre-Lugar do Discurso La. parados de Literaturas de Língua Portuguesa da cotas. p. Thomas.pdf Aceso 1978. Literatura africana em sala de aula: abordagens do insólito no romance A possível: As cotas Márcia Figueiredo ADOLFO. SILVA. Débora Leite.639/03 Tokita Psicóloga. Museu de Antropologia. política da comunidade negra e de estudantes da Universidade em 20 de dezembro de 2010.gov.br/ccivil_03/Leis/2003/L10. mento e preconceito.639. In: Revista Crioula. graduada pela Universidade tuguês criou? In: Anais do IV Congresso Inter- nacional da Associação Portuguesa de Literatura de 2010. Londrina (Norte do Paraná). Porto BERGAMINI. We should also show the experi- ences from the project LEAFRO – Laboratório de Cultura e Estudos Afro-brasileiros: diálogos para o reconhecimento e a valorização da História e Cultura Afro-brasileira no Paraná (Londrina e Jacarez- inho).Laboratório de Cultura planalto.639. Integrou a equipe do BRASIL. Maringá: Eduem. Professora de Sociologia. Quotes System.br/jornais/jornal16/ Na estrutura social brasileira o racismo antinegro potencializa o e Estudos Afro-Brasileiros. p. Sistema de lhães. Canoas: Editora da Ulbra. 1. 2000. Juliana. RETTICH. Terezi. estudos com. p. 1. p. Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo.com/lit0208. propostas pedagógicas A enunciação do REFERÊNCIAS MACHADO. ção negra tem um lugar determinado.br/semioses/pdf/n7/n7_art_04.639/03. Tutora do Curso Histórias da CARVALHO. Moreira. Acesso em 15 de janeiro de 2011. Abdala Júnior. em: http://www. -brasileira no Paraná (Londrina e Jacarezinho). Racism. Sérgio Paulo. In: SOUZA. Luís Filipe da Sousa Martins Torres de. 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Na África e Afro-brasileiras: vetores de uma Rebeldia e Sensualidade no Suplemento Cultural SANTIAGO. Existe o mundo que o por- varanda do Frangipani.pt/pos. (Uma perspectiva da produção literária dos poetas tino-americano. 2009.san. Palavras chave: Educação antirracista. RESUMO projeto LEAFRO . 3ª Ed.pdf. In: Revista Semioses. pdf Acesso em 18 de janeiro de 2011. Consulado Geral da República black people has a determined place. Acesso em 15 de janeiro de 2011. Racismo. São Paulo: Atual.ich. SANTILLI. De maio a dezem- bro de 2010 integrou a equipe de profis- Comparada. ANTUNES. 07. O principio de justiça se SETI/PR. that meaning. Revista Eletrô- William Roberto Cereja. Dispnível em: http://www. E viva a miscigenação. Érica.639/09.fflch. ou seja. Maria Nazareth Soares. Therefore. Disponível em: http:// www.fl. vinculado à Aceso em 18 de janeiro de 2011. preciation.com/2007/10/20/antonio.pdf Acesso em: 15 de janeiro de fosso das desigualdades raciais e sociais. Literatura Portuguesa: em Maria Aparecida Santilli e o Prof. o reconhecimento e a valorização da História e Cultura Afro- no de língua e Literatura: alternativas metodológi. Arte e Ciência. esfera educacional. São Paulo: cesso seletivo e apresentamos as experiências do projeto LEAFRO – Laboratório de Cultura e Estudos Afro-brasileiros:diálogos para aula de literatura. php?option=com_content&task=view&id=41&It the purpose of this essay is to render problematic issues related to the quotas system and the 10.pdf. Artigo de Opinião. Edgar do. Disponível em: http://www. 2003.unisuam. nível em: http://revistaseletronicas. Disponí. tura. revistas/crioula/edicao/01/Entrevistas/entrevistas. Literatura Africana: desconheci- Sociais pela UEL. CRUZ. Ressaltamos a importância da luta graduados/teoria_literatura/CarvalhoL1. o objetivo deste ensaio é problematizar o Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Disponível In educational area is noticed the need for actions that aims ap- pucminas.). transformando a Estadual de Londrina. Eduardo Pereira. CEREJA. jan. EX/UEL.ufrj. index. cultural. racism against Black people in- FONSECA. Acesso em 10 de outubro de 2010. realidade da população sionais do Projeto LEAFRO Laboratório de Cultura e Estudos Afro-brasileiros uevora. Efeitos psicossociais do racismo. Ed. O pós-colonialismo e a literatura: Acesos em 15 de janeiro de 2011. Agosto raciais e a Lei 10. N. sistema de cotas e a Lei 10. Disponível em: http://www. de Angola. thus the way it is happening in Londrina africopoetica. maio de 2007. Thereza Cochar Maga. recognition and access to the black people. Law 10. cuja orientação cas./jun. Luana (org.639/03 law. CRIOU. Estadual de Londrina pela manutenção da política cotas no pro- CAVALCANTE. jornalUFRJ1620.639/03. Martia Aparecida. Silviano.edu. Panorama das literaturas africanas de XAVIER. Key words: Antiracist Education.jornal. literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência nhecimento. Benjamin diálogo com outras literaturas de língua portuguesa. Moreover.org/index.wordpress. Moema. 2011.php/navegacoes/article/viewFile/7192/5190 de Alencar BONNICI. we shall try to JACINTO. Antonio. Literaturas de língua por. Ensi. the quotes system maintenance. Alegre. In: SANTIAGO. think on these two politics. 3. n.

as diferenças são social antirracista.] a inclusão de homens de cor nas listas de candida. dentre outras. e a previsão de instrução para adul.6% de aumento. universidades públicas podem ser entendidas com um co se preocupou com medidas políticas objetivas para ceito. por INTRODUÇÃO organizações não governamentais. mas também a permanência de destas ações é fundamental apontar que este processo Guerreiro Ramos (1915-1981) defendia a necessidade considerado como um espaço social que pode tanto uma estrutura enraizada em privilégios e interesses de fomentou uma série de debates.( GOMES.5%. A este respeito. vereiro de 2010.7% de negras(os) algumas iniciativas políticas cuja finalidade é propor para a população negra. As práticas de promoção da igualdade racial no Brasil ção e o reconhecimento da população negra brasileira admitidos escravos. uma elite racista que naturaliza a discriminação con- sobre o racismo como estrutural na realidade brasileira. E para essas Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. entre outras medidas. p. portanto. trabalho.br/.7% de Este cenário propositivo que se instaura no país é reivindicavam correções contra as inúmeras formas de não-negras(os) e em 2008. o ponto de partida para a construção de ações edu- objetivas para a desconstrução dos resultados das de. políticos de intervenção estavam sendo pensados como No campo educacional estas medidas são fun. O comprometimento orientadas pelos princípios da justiça social são “um vezes. institutos de pesquisas indicam um quadro de desigual- racismo: a educação. dades em relação ao povo negro.(BRASIL. 1957. Em 2008. a quantidade de negras e negros escravizadas(os) Nota-se neste estudo. Disponível em: http://portal. O Coletivo Pró-Cotas: diversidade e permanência na UEL rea. mulheres e homens. p. (ANDRADE.7% de negras(os) 14. 1957. “tratamento diferenciado com vistas a corrigir desvan. pois segundo o censo de 1872. Fonte: http://www. como movimentos pró-abolição. Neste período da história. Isto significa que havia um contingente significativo em Durban. 2005. alguns projetos 2005.comitepaz. número seguinte inscrição: “Cotas sim! Por uma UEL do povo!”. 4. pré-vestibulares. riam estudar no período noturno”5. o fosso da desigualdade racial prevalece. nais da população negra. em: www.. na arquitetura. estrutura social excludente e discriminatória”. quanto à problemática do racismo brasileiro. “estabelecia que nas escolas públicas do país não seriam 2008. em pequenos comércios. Aprovado dos “avanços” ao longo de 10 anos. Mas nos últimos dez anos. sigualdades motivadas por qualquer forma de precon. das séries iniciais até o Estado brasileiro que resultaram em projetos políticos dade e de acesso à escolaridade desconsidera o fosso da ensino superior. sileiro que. problematizar estas questões relacionadas à inclusão. negras(os). Ciências Humanas da Universidade Estadual de Londrina. educacionais e sociais ainda permanecem para as(os) POLÍTICA DE COTAS: possibilidades para que alunas(os) negras(os) frequentas. No bojo instrumentos de transformação. 7. especificamente especificamente no ensino superior. elementos sobre a trajetória percorrida pelas deman. suas vozes passaram a lação negra iniciada com Abdias do Nascimento. pela mesma instituição. pulação negra era livre.031-A que “estabelecia que os negros só pode.7% de negras(os) e 5. 2008. promover uma realidade ma. Orçamento e Gestão . os indicativos sociais apresentados por direcionados a uma questão central quando se trata do [. sigualdades raciais e sociais”. da população negra brasileira. inspirou o subtítulo de nosso ensaio. Rio de Janeiro.2% de não- respostas vieram com a discussão e incorporação de apresentou propostas de políticas de ações afirmativas sível apreender. é pos. no artesanato.uel. em 17 de fevereiro de 1854. Este texto foi publicado no VII SEPECH (Seminário de Pesquisas da população negra atuando em diversas áreas como na litera- em Ciências Humanas) promovido pelo Departamento de Letras e tura. tos negros dependia da disponibilidade de professores”. que os acessos ao campo educacional e 60. em 1950. integrativos de capilaridade social capazes de dar fun.7.1964). ção negra na educação tiveram suas primeiras expressões Em 2009 foram publicados os resultados de pes- que possam traduzir em formas ajustadas às tradições em meados do século XIX. 4. ciais estimula não somente a relutância do Estado em ver justiça social à população negra brasileira. As Políticas de Ação Afirma. (p. p. desde essa época. Pedro Henrique Andrade diz que: Em 6 de setembro de 1878.) Isto porque o discurso universal da igual. acessado porcentagem subiu para 90% da população total (HASENBALG. p. Acesso em 23 de agosto de 2010. não se aplicavam.12. Um ano antes da abolição (1887) essa uma margem de 21.br/Durban_1. na qual. A reivindicação por políticas reparatórias para a popu. pré-vestibulares. disponível 5.3% de não-negras(os). no ensino superior. a resistência em pensar as cotas ra- gendradas. Nos institucional. Pesquisas: Informação Demográfica e Socioeconômica. quando fazem parte da população negra brasileira. no I Congresso do Negro Brasileiro. que Partindo da premissa de que a educação pode ser e 31. gras(os) e não-negras(os) acadêmicas(os) apresentou contra o Racismo. criminações Correlatas2. e ainda não se aplicam. ao passo que para 2.8% de não-negras(os). apontar alguns ção e posição aos elementos da massa de cor” ( RA. que aconteceu no ano de 2001 as(os) não-negras(os). em 1945 também ressaltava a impor. 2009. de “instalarem-se na sociedade brasileira mecanismos transformar quanto criar e recriar mecanismos poten. a margem foi de 28. propostas pedagógicas com a participação de representantes dos Estados e de As políticas de ação afirmativa com recorte de raça Assim.Instituto 1. quisas realizadas em 2008 pelo IBGE. por conseguinte. Quando os indicativos são estratégias objetivas para suprimir as desigualdades saúde. as cotas em O Brasil é um país de herança escravocrata. Esta conferência contou 3.331 cativos pautam-se na comparação dos dados de 1998 e tância de medidas objetivas para promover a valoriza.gov. Uma Análise das Condições de Vida da População Brasileira. p. O sociólogo Alberto damentais uma vez que. cujos dados nacionais as reivindicações das massas de cor. Xenofobia e Dis. nos 6. que a quantidade de ne­ esfera internacional a partir da III Conferência Mundial era muito pequena. declarava dos acabam sendo as mais discriminatórias”. 2.6% de não- menos quatrocentos anos. Em relação à distribuição de estudantes de 18 a não fazem parte de um debate recente. lema que tiva na Universidade Estadual de Londrina em 2009. p. Mais adiante. educacional. na África do Sul. 184 – 200) 86 87 . 2005. visto que estes indi- PARA UMA UEL DO POVO1 Guerreiro Ramos. Diretoria de Pesqui- lizou em abril de 2011.1% de negras(os) ainda que de modo incipiente. 4) escravidão. companheiro de Alberto sem e se mantivessem nos bancos escolares4. p. em serviços domésticos. considerada base do desenvolvimento humano. Desta for. não ter acesso aos saberes escolares. entretanto.) No Brasil.org.br/cne/ Acesso 2 em fe. 28. para promo. As no ano de 1945. já na década de 1930. algumas ações estão sendo en. que pou.165) discriminatórias em decretos de lei que engendraram im. em diferentes espaços. tos de agremiações partidárias. nos cursos ser ouvidas e respondidas pelo poder institucional.3% resultado das demandas internas da população negra e violência que a população negra sofria desde a escravi. a fim de desenvolver a Os meios utilizados para não contemplar a popula.. alguns anos antes do fim oficial da de não-negras(os)6. práticas educativas que se pretendem iguais para to. as demandas como parte integrante na dinâmica da mobilidade so. a partir de políticas afirmativas. Ministério do Planejamento. cializadores do racismo e da discriminação. Assim. (RA. o decreto de lei número 1. permanência e continuidade no sistema educacional das de negras(os) e os compromissos assumidos pelo ser imperativo na ordem social: 2001. legitimou as práticas apontaram que no Brasil os cerceamentos aos acessos MOS. uma intervenção no Diretório Central dos parte das reflexões realizadas na pesquisa de mestrado em Ciên. foram criadas impossibilidades legais para sas Coordenação de População e Indicadores Sociais. o ambiente escolar pode ser abrir canais de acesso. No Brasil. quanto das relações sócio-culturais. para todas referentes ao acesso de jovens com mais de 25 anos raciais e. o movimento negro tinha clareza as mulheres e homens da sociedade. a partir dessas políticas educacionais -negras(os) e no ensino superior. 26. últimos anos. assume um caráter de ordem discriminatória é de cada uma das nações envolvidas era elaborar ações conjunto de ações políticas dirigidas à correção de de. 24 anos nos cursos pré-vestibular e superior (incluin- políticas de mulheres e homens negras(os) contra o cial. (BRASIL.mec. Discriminação Racial.) -negras(os). maiores: em 1998 eram 2. Embora os dados demonstrem determina- ABRINDO POSSIBILIDADES Abdias Nascimento. 2. foi aprovado o decreto de lei do mestrado e doutorado) tem-se em 1998 nos cursos racismo se inscrevem na sociedade nacional há pelo número 7. desigualdade social e principalmente racial. sua capacidade política e formar líderes esclarecidos. a fim de proporcionar um cacionais antirracistas.86. 74% da po. MOS. Estudos e Estudantes (DCE/UEL). Neste contexto. Este au- em 15 de janeiro de 2009.htm. Ao O objetivo deste ensaio é. pois “as tra negras(os) brasileiras(os) e silencia suas vozes. em todas as áreas da sociedade. amparados pelo Estado bra.0% de negras(os) e 3. do século XIX. racismo e discriminação.2% de negras(os) e 9. tanto do ponto de vista tagens e marginalizações criadas e mantidas por uma instrumento para contemplar as demandas educacio- inserir a população negra em sua estrutura social. dos compromissos assumidos pelo Estado brasileiro na dão3. registrou nos muros do DCE a cias Sociais. repensar a estrutura educacional que.174).

como apli. sim. Ciências Sociais e Letras sob a coordenação das Ciências Sociais -manifesto-a-favor-das-cotas. graduandos de www. na UnB (Universidade de Brasília). quanto nas ações des sociais.uel. que Contudo. tendo em vista que a se. entre outras. 3/2004. 88 89 . isto é. mento fundamental no debate sobre ação afirmativa tunidade de almejar o ensino superior de qualidade. DE EXPERIÊNCIA promover a capacitação de professoras e professores clinação. as cêntrico idealizado como padrão. À PRÁTICA: UMA ANÁLISE De acordo com o parecer da Lei. cerca de 64 universidades. bemos. privilegiados como a escola por meio de conteúdos e estes discursos destaca-se manifesto dos “113 Cidadãos “produzem novas desigualdades”. propostas pedagógicas mento deve ser analisado a partir das mudanças sócio. Percebe-se que os argumentos apresentados reve. Segundo José Jorge de Carvalho – colabora. de seus antepassados mas devem responsabilizar-se vido o geógrafo Demétrio Magnoli a ler o que escrevi sobre o negro que busca colocar na agenda de discussões a estrutura do racis- moral e politicamente pela reprodução das ações discri. Nas ações desenvolvidas Anti-Racistas Contra as Leis Raciais” divulgado pelos as desigualdades cristalizadas a mais de quatro séculos educacionais cotidianas.html definida como Coletivo Pró-Cotas: Diversidade e Perma. E. Após a III Conferência Mundial em Durban. mas sim promover uma educação antir. perce- Ministro da Justiça um texto “argumentativo” contra Não é objetivo fomentar a discriminação ao con. da História e Cultura Afro-brasileira no Paraná (Lon- Por outro lado.htm) LEI 10. lho Nacional de Educação aprovou o Parecer CNE/CP e intervenção. mas sim. 10. do racismo no Brasil. terpretar o mundo a partir de outros olhares. p. pois. ensino. mesmo se o cotas não foram pensadas na perspectiva de uma po. coletividades e instituições. as cotas raciais não contribuem para isso. Fonte: http://mariafro. mas. cotas raciais nas Universidades Federais de Santa Maria e São opressores de ontem não devem ser julgados pelos atos “a instituição escolar é vista como um espaço em que Carlos. É fundamental destacar o trabalho desenvolvido pelo Coletivo. mo que afeta indivíduos. Segundo Franz Fanon.639/03 DA TEORIA psíquico em crianças e jovens negras(os). nência na UEL9. Ora por uma pers. seleção. à im. pois as questões relacionadas à discriminação discriminação no cotidiano escolar. 2005. pelo LEAFRO com o corpo docente da rede municipal meios de comunicação em 2006 que objetivava levar ao contra o povo negro. 2005. p. foi aprovada em 2003 a Lei das experiências do trabalho desenvolvido pelo projeto da UNB – em 2009. assumiram as políticas de ação branca. dade Estadual de Londrina. Educadoras(es) e todos os membros da escola para a população negra brasileira. que um candidato definido como branco. contra as(os) negras(os) não se colocam exclusivamen. Para mais informações ver em http://coletivo. primeiro provier de família de alta renda e tiver cursado lítica vitalícia. branca que monopoliza os bancos acadêmicos. é importante ressaltar que este instrumento para candidatos de classe média arbitrariamente classi. que torna obrigatório no Ensino Fundamental LEAFRO – Laboratório de Cultura e Estudos Afro-bra- federais e estaduais. A Lei 10. mas apenas ve grande mobilização da população afrodescendente podem.geledes. os descendentes dos das identidades de crianças e da juventude negra. (http://www. em caráter provisório. Nos relatos extraídos compreendemos os programa ProUni8. na mídia. culo escolar. (BRASIL. da comunidade externa organizaram uma ação política da Universidade. portanto. (CAVALLEIRO. intervenções pela cidade de Lon. política desmascara o discurso arcaico da democracia proporcionam a um candidato definido como negro a Em 2011.br/projetos/leafro). De fato. pois podemos vislumbrar uma instituição de ensino discriminam e cerceiam qualquer possibilidade de in- constitucionalidades. as cotas não a transformação a partir do reconhecimento das desi. potencializando o racismo e o sofrimento desconstruir os privilégios de uma elite conservadora pop-up/integra_manifesto_contra_cotas. ver a formação de professores e professoras e supervi- de 2001.br/artigos-sobre-cotas/confira-a-integra-do. mesmo no universo menor dos jovens que têm a opor. cas arruinadas. sociais e educa.com. é fundamental Na atualidade. Inserida na mesma proposta do princípio de justiça que a Lei e seus desdobramentos partiremos de um relato dor na elaboração dos parâmetros do sistema de cotas te na esfera das desigualdades de classes. pela reserva de vagas passa pelo mesmo processo de dade e a valorização desses conhecimentos no espaço drina e Jacarezinho)10. pois a(o) aluna(o) que tem acesso à academia Afro-Brasileiras e Africanas para promover a visibili. as esta política no processo seletivo. e estadual de ensino de Londrina e Jacarezinho. entre assimetrias entre a população de cor negra e a de cor 10. Fonte http:// Em Londrina. mas fundamentalmente tem como objeti- plados da mesma forma que as(os) jovens brancas(os). nem criar privilégios ou novos tipos de desi. com as(os) estudantes da UEL. em sua obra executadas pelos estabelecimentos de ensino de dife. ora acentuam desigualdades prévias ou produzem novas da cidade para efetivar esta política e alguns anos de. Nesse momento hou. de família de baixa renda e tiver cursado escolas públi. o Conse.) racial em universidades públicas passou a ser um ele. estudantes universitários e membros drina. Para problematizar superior. a cota cionais. como subsidio para discutir as práticas do racismo e da plementação desta política nas instituições de ensino tórica. o importante é ressaltar que esta cadas. 8-15) Sob a perspectiva de igualdade de oportunida.adur-rj.org. orientar e promo- para promover a igualdade de oportunidades a partir ocultam uma realidade trágica e desviam as atenções ços de discussão sobre a reserva de vagas na Universi. Segundo os autores: gualdades. no âmbito de sua jurisdição. nas falas dos alunos um rico material de análise as cotas para negras(os) em universidades públicas e o trário. Esta expressão foi utilizada pelo cientista Demétrio Magnoli população branca. ainda permanece sob os efeitos discursivos da demo- de acesso não cria privilégios. contendo cerca de 300 assinaturas. As ações são 8. grupo é resgatar as discussões desenvolvidas em 2004. há o discurso utilizado pelos anti. E por fim. esta política será avaliada e haverá uma olhares capazes de ultrapassar os limites do viés euro- racial e traz no seu bojo a problematização da existência oportunidade de ingresso por menor número de pontos votação para decidir se continua ou não.blogspot. desigualdades: “As cotas raciais exclusivas. Apresentadas como maneira de reduzir as desigualda. UEL (SETI-PR) de 2009 a 2010. contudo. tentativa de trazer a comunidade externa para a realidade fissionais das áreas de Psicologia e Sociologia. No fim. Acerca deste assunto. foi elaborado o Manifesto em minatórias que mantêm a população negra à margem orientadas por uma série de atividades. para caracterizar o processo de seleção para Os Condenados da Terra.639.639/2003. Este projeto é vinculado ao Departamento de Ciências Sociais no Brasil”. com implicações nos processos Educação das Relações Étnico-Raciais e o Ensino de o caminho a ser traçado. O objetivo da iniciativa era con- -cotistas que descaracterizam a objetividade desta polí. de agosto de 2010 e teve como objetivo ampliar os espa. de aprendizagem tanto da população negra quanto da História e Cultura Afro-Brasileiras e Africanas a serem O cotidiano escolar é pensado como um espaço em 7. superior mais negra. a nação brasileira assiste uma in. dos desafios imensos e das urgências. escolar. de 1979. Na contra mão deste manifesto.org. como debates internos da UEL e financiado pelo Programa Universidade Sem Fronteira/ Favor da Lei de Cotas e ao Estatuto da Promoção da Igualdade da dinâmica social. denunciam gualdades entre negras(os) e brancas(os) nas práticas atividades propostos pela Lei. ser considerados atores sociais des- pectiva de mudança e igualdade de oportunidades. que se processam formas complexas de (re)construção em 2009.br/5com/ cracia racial.com/ (www. mas sim como ação provisória direcio.19-20. mas sim das as cotas no Ensino Superior. 10. brancas(os) e à luta por um ensino básico de qualidade. cabendo aos sistemas de -políticas ocorridas tanto no debate. A Lei visa tornar obrigatória a contemplação de des. te processo de rupturas das amarras pedagógicas que por uma perspectiva de “tribunais raciais”7 ou de in. 9. ainda que incipiente mas significativa. o sistema concede um privilégio vo denunciar a fragilidade da sociedade brasileira. procotasuel.639/03 pretende ser um caminho para tribuir com a valorização da cultura negra em espaços tica com o argumento da inconstitucionalidade.br/wordpress/?p=1398 . as cotas raciais possibilitam que as(os) jovens colégios particulares de excelência e o segundo provier nada à igualdade de oportunidades entre negras(os) e outras matrizes culturais e suas contribuições ao currí- negras(os) oriundos de escola pública sejam contem. ver em entrevista: Kabengele: “Con. lam um descompasso entre o dito e a realidade his. que institui as Diretrizes Curriculares para a limites e possibilidades de atuação e fundamentalmente racista e democrática. avaliação pela via universal. Diante da publicação da Lei n. com os quais se defronta a nação. quando a Universidade aprovou. Outro descompasso é referente ao processo de e Médio a inclusão de saberes sobre História e Cultura sileiros: diálogos para o reconhecimento e a valorização afirmativa com recorte racial. Sobre leção ocorre entre os pares. se pretende ficados como negros. cotas raciais não promovem a igualdade. A equipe é composta por pro- Racial em 2006. Este coletivo foi consolidado no dia 12 rentes níveis e modalidades. Uma das preocupações do sionar o cumprimento das Diretrizes.

as(os) colegas. algumas questões podem ser problematiza.( para ver como as crianças e as(os) jovens negras(os) são paldando a fala da equipe. “eu não sou ra. Como o relato de um grupo de professores que organizaram aluno discriminado para que ele possa assumir com uma semana cultural com o tema “Africanidades” e perceberam viu”.estão. priorizando a situação educacional. de classe e de idade”. cuja especificamente sobre a realidade sócio-histórica do de intervenção. le. e estratificadoras). muitas vezes NANGA. cujos jogos de poder pautados nas ideologias Nas sociedades de classes multirraciais e racistas como situações flagrantes de discriminação no espaço escolar eugenistas não fizeram parte da formação destas(es) o Brasil. pode ser consi.. foi possível perceber a sensibilidade o que não é pouca coisa. so.. o branco tem o privilégio simbólico da brancura. menta a continuidade da lógica escravocrata. devem dar graças discurso.1) A escola. supostamente não existem no universo deles (a questão negros: no final das contas. Como indicou Bento. ao contrário. propostas pedagógicas aprendemos e compartilhamos não só conteúdos e sa. própria raça”. com atividades em sala de senvolviam de modo diferente nos espaços onde havia elaborado das seguintes maneiras: “Ser negro é ter que aula e dramatização do livro. não compensar. 2002. pois fo- não constitui um fator de superioridade e inferioridade da Lei 10. e ainda são. Evitar focalizar o branco é evitar discutir as diferentes O trabalho do LEAFRO permitiu ao grupo como derada um espaço de reprodução de preconceitos mas vas. E por fim. nos mostra Denise Jodelet (1989). de modo ser mais”. traziam suas experiências e debatiam junto com beres escolares. As relações simbólicas encontradas em torno orgulho e dignidade os atributos de sua diferença. “o preto é pobre porque não se esforça”. criminação. calcada trumentalização da mesma em sala de aula. Na ausência de um olhar atento para cussões em sala de aula e na escola de maneira geral. pois faltam muitas vezes instrumentos e em diferentes espaços sociais. (. como as professoras e os profes. 2002. aí eles querem”. escolar. política e econômica. A partir destes elementos e com o desenvolvimen- cias psicossociais. com sérias consequên­ conteúdos dos materiais didáticos. A este respeito Eliane Cavalleiro constatou didos como um instrumento para pensar e repensar em se evitar caracterizar o lugar ocupado pelo branco A riqueza do trabalho esteve nas relações que cons- que “do diálogo com esses profissionais (da escola). tidiano. nada negra.” (BENTO. dar consistiria. não indenizar os do desenvolvimento das ações. p. para apontar alguns exemplos. p.15) do livro “Menina bonita do laço de fita”. Mas. fruto da apropriação do trabalho de quatro séculos ação da população negra para além daquelas que estão percebem os atos de racismo presentes no cotidiano As falas e silenciamentos podem ser compreen. Os silenciamentos não significam apenas o não. dimensões do privilégio.630/03. valores. para que não se repitam frases como “o problema (SOUZA. no entanto. pois segundo Maria Aparecida Bento (BENTO. é possível dão muitos privilégios. a população negra na sociedade. Este silêncio e cegueira permitem truímos cotidianamente com aqueles que participaram acabou por sobressair a insistente negação do racismo obrigatoriedade de discutir conteúdos e assuntos que não prestar contas. mas no professor alguém com quem possam compartilhar aquilo que é apagado e excluído. 1983. p. eles se inscrevem nas relações de poder como mercados materiais ou simbólicos não são direitos. Ao apresentar o de um país escravocrata que delega um lugar simbólico vos. conforme pertençam ou estejam mais e à nossa identidade nacional. próximos dos padrões raciais de classe/raça dominante. “. alguns professores. fomentando sentimentos de não-pertencimento. mantidos.. um todo alguns desafios.. além de trabalharmos mecanismos para ins. Não podemos nos esquecer que o racismo valorização do ser negro e dos saberes africanos e afro. Esta camada da população teve durante a escravi. exteriorizam e demonstram que os caminhos rumo à trutura de classe. vocês negros. período da pós-abolição há um vazio histórico sobre as de inferioridade a população negra. trato os meus alunos neguinhos como gente. o que implica na interiorização e estes silenciamentos se configuram. estudamos entre os grupos humanos.. pois nos permitiu questionar LEIRO. em suas alunas(os) negras(os) uma ressignificação do ser negro. brasileiras(os) se resume à escravidão. quando o racismo racial). em mostrar que a diversidade de ação afirmativa para o povo negro. e a discriminação são percebidos não há nenhum tipo discriminação estão presentes no seu cotidiano escolar de ação afirmativa são taxadas de protecionistas. Na maioria dos casos. é o que se pensarmos o Brasil com o corte racial.. “o negro tem preconceito contra a O racismo permeia as relações no Brasil. Para o público participante. não é mais possível tolerar o racismo e a dis- educação não desenvolvem ações pedagógicas para a negras(os). política. meta é premiar a incompetência negra. uma professora que desenvolveu um trabalho a partir Um dado importante é que as intervenções se de. p. o também de ressignificação dos mesmos. Estes cursos consistem em quatro encontros mensais. e por outro lado.. políticas públicas As(os) alunas(os) que sentem o racismo e suas -dito. a presença de professoras(es) negras(os) pois. de gênero. por exemplo.(CAVAL. mas em uma elite dominante branca e uma maioria domi- as contribuições das literaturas africana e afro-brasileira para fator de complementaridade e de enriquecimento da se tocar um tambor. há um módulo que especifica estes elementos à população negra educação antirracista devem ser repensados diariamen. praticam a política de avestruz ou sentem pena dos no Norte do Paraná. a raça exerce funções simbólicas (valorativas 7. (MU. se identificando como atores sociais no proces. 71) Por outro lado. capoeira. Por essa razão. mas. assim pensar-se-á que sim favores das elites brancas. portanto. p. para além das ações pedagógicas. procura. metodológicos e sensibilidade para saber como agir. No imaginário da maioria das professoras e pro. em vez de uma atitude responsável que disso. da população conceitos neles introjetados. o negro é símbolo de miséria. em ajudar o cista não. Mesmo em situação de pobre. etc. é interessante trazer à tona o legado da escravidão. já fessores a realidade sócio-histórica das(os) negras(os) é uma construção social. ora como protagonistas. de outro grupo. acarreta em intenso sofrimento psíquico. processo de formação continuada trouxe possibilidades Nesta perspectiva. Todo este processo detrimento de sua própria natureza humana. 2005. Além te. Possibilitou às(aos) ou não. por falta de preparo ou por pre. 90 91 . cujas e na sala como momento pedagógico privilegiado para questões problematizadas partem de reflexões sobre a realidade profissionais. “aqui no Brasil. 2005. hábitos perceber em alguns momentos a falta de sensibilidade foram. A manutenção deste status quo. ora res- e preconceitos raciais. GOMES. por parte de algumas professoras e professores em com. que durante a pós-escravidão geral. Como povo negro brasileiro. mas sim. de fome. 201011. etc. herança -brasileiros na escola. nos naturalização destes episódios. Nos cursos de formação continuada realizados em za. universo que traz informações sobre a história e a situ- Grande parte das professoras e professores não des raciais no ambiente escolar12. direcionadas àqueles que foram excluídos de nossos consequências práticas no cotidiano não percebem 2005). na ausência de dis. que para ela os resultados foram extremamente positi. por um lado.. pois os brancos saíram da escravidão com professoras(es) negras(os) se reconhecerem em um so de desconstrução do racismo e da discriminação? algumas ações capazes de problematizar as desigualda. isso.27) CONSIDERAÇÕES FINAIS estas experiências. e de seus derivados na sociedade brasileira”. quais os significados para estas(es) educadoras(es) da na história do Brasil. escravidão para o branco é um assunto que o país não de novos modos de ver o mundo. preender a necessidade de desenvolver objetivamente quer discutir. ressaltamos a importância uma de coitadinho”. não sabem lançar mão das negra. ora trazendo elementos novos. Há benefícios concretos e simbólicos disseminadas. A categoria racial possibilita a dis- discutir a diversidade e conscientizar seus alunos sobre sócio-histórica. porque na Itália o branco atravessa a rua se do ‘ser negro’ acabam por estabelecer um lugar para bretudo quando esta foi negativamente introjetada em também um projeto de trabalho com a história e significados da passar um preto”. mas sem que esta premissa seja anunciada no 12. políticas compensatórias ou saberes e modos hegemônicos de entender o mundo. crenças. to do trabalho de formação que o projeto LEAFRO A discussão racial precisa estar em pauta em nosso co- o racismo e a discriminação. um “os alunos não querem nada mesmo com o ensino. tiva. são interesses econômicos ora como coadjuvantes. econômica e cultural da população negra As falas de algumas destas mulheres e homens tribuição dos indivíduos em diferentes posições na es- a importância e a riqueza que ela traz à nossa cultura nos períodos da escravidão e pós-escravidão até os dias atuais. não das. de maneira geral. 20) “coitadinhos”. a Deus. as(os) profissionais da gitimando um espaço de privilégios que não é o das(os) realizou.. interpeladas(os) pelas ausências de referencias positi. o legado da de desconstrução de saberes arraigados e a construção sores deste espaço – que é um espaço de poder . Para a população branca conservadora. e principalmente reconhecer que o racismo e a em jogo. discutimos os processos de desenvolvimento das políticas do negro é por que ele mesmo gosta de se vitimar. relações sociais e a vida.) Na verdade. humanidade em geral. Como diz Souza. uma herança simbólica e concreta extremamente posi. também.

Kabengele. 2005. Assim.php?pid=MSC00000 00082005000100005&script=sci_arttext ). 92 . educação continuada.639/03. Ministério da Educação. de modo que possamos implementar relações e MUNANGA. Brasília: MEC. Introdução crítica à sociologia bra- sileira. Tornar-se negro: As vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão so- BIBLIOGRAFIA cial. 1957. Petrópolis. 10. Souza ( SOUZA. RAMOS. da ANPEd. alfabetização e diversidade construir outras possibilidades de identidades. 33-44) GOMES. proceedings. Rio de Janeiro: Edições Graal. Branquitude e poder – a questão das cotas para negros. sando nossa escola.”. uma história que as(os) permita orgulhar-se de seus Secretaria de Educação Continuada. abertos pela Lei Federal nº10.. In: VII SEPECH (Seminário de Pesquisas em Ciências Humanas) promovido pelo Departamento de Letras e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Londrina. Eliane dos Santos. 2005. 1983. Superando o Racismo na inserções sociais mais igualitárias.61-62) e todas são falas de Disponível em: <http://portal. Acho que o que me faz BRASIL. Secretaria de ciso sair para que seja possível ascender socialmente e educação continuada. 2005. – Brasília: Ministério da educação. como um grupo do qual é pre. no entanto. 2002. Disponível em: http://www.br/scielo.639/03 se inserem na militância pela ressignificação _________. 2005. In.gov. a ou ressignificação cultural? In: 25ª Reunião Anual escola. BENTO. discussões e abrem HASENBALG. lutamos para escola. Trajetórias escolares. Diretrizes curri- sempre fugir do lance do negro é o lance da pobreza: culares nacionais para a educação das relações pobreza em todos os sentidos – financeira e intelectual. Caxambu. p. já que esta significa tornar-se branco. corpo ne- Este cenário apresentado envolve a(o) negra(o) gro e cabelo crespo: reprodução de estereótipos e/ brasileira(o) em diversos espaços sociais. 2005 nômica e social deste país. Maria Aparecida Silva. Carlos. Pedro Henrique. Branqueamento e branquitude no Brasil.br/cne/> pessoas negras. Racismo e anti-racismo na educação: repen- contudo. Raciais no Brasil. Nilma Lino. Étnico-raciais e para o ensino de história e cultu- Estes relatos foram retirados da obra de Neusa Santos ra afro-brasileira e africana. In: CAVALLEIRO. RJ: Vozes. Discriminação ra- As construções sociais levam as(os) negras(os) cial e pluralismo nas escolas públicas da cidade brasileiras(os) a pensar em seu grupo de origem como de São Paulo. Guerreiro. 2008. secretaria de -se uma identidade ideal. e Diversidade. Maio. Políticas de Ação Afir- mativa na Universidade Estadual de Londrina. _________. 1983. 2ª edição revisada / Kabengele Munanga. 2002. car questionamentos. Neusa Santos. incômodos. Por isso o sistema de cotas e a Lei ANPEd. (SOUZA. Eliane negras reflexões A lei em si. São Paulo: Selo Negro. Alfabetização antepassados que contribuíram para a construção eco. Psicologia Social do Racismo: estudos sobre branquitude e branquea- mento no Brasil. Almeja. acaba sendo um lugar onde estas vivencias ocor.mec. alfabetização e diversidade.. p. 1983. propostas pedagógicas a cor (preta) lembra miséria. 1-14. Londrina 2008. gógico da diversidade. ANDRADE. 1 Simpósio Internacional do Ado- lescente. 2001. Discriminação e Desigualdades possibilidades de rever um processo histórico exclu. Rio de Janeiro: IUPERJ. SOUZA. (org). que as(os) estudantes negras(os) possam ter acesso a organizador. CAVALLEIRO.scielo. não muda preconceitos enraizados. In: Irai Carone e Maria Aparecida Silva Bento (org). dente. 2002. tais políticas de ação afirmativa visam provo.Educação cidadã etnia e raça: o trato peda- deste lugar do negro em nosso cotidiano. p. Anais. – [Brasília]: Ministério da Educação. a qual não é possível atingir. Rio de Janeiro: rem em ampla escala. Rio de Janeiro: ANDES. In: Educação anti-racista: caminhos uma referencia negativa.

crita e as mídias televisivas apresentavam uma atitude e instrumentos de reprodução da ordem social. Isso sem dúvida explica em parte por Os estudos sobre a linguagem e a ideologia têm No seio de uma classe social existem diferentes cri. raça. nº 2010). situação de subordinação dos negros é produto de um Sendo os modos de representação herdeiros da His. maciçamente divulgada a partir da e dos grupos subalternos. até o final do século XX. da imagem e de sua memória. mesmo após a abolição da escravatura e o advento da da luta em defesa de valores e concepções da imagem tenças de classe e o lugar ocupado na sociedade. Palavras chave: Movimento Negro. jeito com seu ambiente social também depende das No Brasil. 2008. La réappropriation du discours Américas da Universidade Cândido Men.DO DIREITO À PALAVRA AO PODER DE ENUNCIAÇÃO DO MOVIMENTO NEGRO NO BRASIL1 RESUMO Ao longo das últimas décadas do século XX. Ver relatórios do IPEA. les intellectuels et vistas negros resolveram assumir. 2008. referentes à população afro-descendente. reótipos). o fato de estas já estarem bem documentadas. de produção (saber. não obstante espaço do simbólico e do imaginário. março. novembro. poder de enunciação. Nesse contexto. sexo. terra e capital). pour tenter d’effacer les représentations culturelles négatives des Pesquisador do Centro de Estudos das sentações culturais negativas dos negros e suas consequências Noirs et leurs conséquences sociales. brasilianidade. a relação do su. a grande imprensa es- mostrado o poder das palavras como meios de ação térios de diferenciação. réinterprétant les faits historiques reinterpretaram os fatos históricos para tentar eliminar as repre. que os negros podiam sofrer era apenas fruto de um visa também a uma crítica radical dos significados e cial. Rio de Ja. que podem ser dados importantes latente de negação da questão das disparidades raciais obstante. de classe média. que a distribuição do poder econômico e políti. co é claramente desfavorável aos negros. pecíficos. (3-5 fevereiro 1980. CÉLAT. Essa Nesse contexto. pondérant dans la production du savoir. intelectuais negros. edição especial (1995-2005). quer fossem INTRODUÇÃO dos conhecimentos técnicos que orientam a hierarquia estes detentores de capital. penhou um papel determinante) iniciado no período palavras. situados no de análise para determinar subgrupos de pertença es. Cultura e Cidadania : Intercâmbios Transatlânticos. discursos e imagens que constituem as redes tituem as redes hierárquicas e a estrutura das trocas colonial com o tráfico de escravos e que se prolonga de significações. as experiências e vivências são encarnadas nas concernente à ordem social a partir da qual se cons. Não cor. como o Movimento Negro riqueza produzida pelo trabalho com base em um laço década de 1930. discours anti- raciste. nº 13. além dos discursos e das ideias. conscience noire. Brasília. não se limita a reivindicações políticas. e à reapropriação do pro. Essa situação foi por muito tempo masca- de si e do mundo. intellectuels noirs. Políticas sociais. secularmente ignorado. Canadá. acom- são as principais vítimas. Universidade Laval. a luta das minorias concepção. Québec. racismo benigno. já que o país promovia a ideia da interpretações estabelecidos. camponeses e mesmo considerados pobres2. E-mail: dadesky@candidomendes. vêm a formar classes sociais diferenciadas. Ils se sont réappropriés le d’Adesky Ao se reapropriarem do discurso. em pé de igualdade. Les Mots Clé: Mouvement Noir. depreciado e considerado incapaz do parlent sur un pied d’égalité. representando dessa forma um segmento populacional représente une nouvelle donne dans la mesure où ces intellectuels des e professor da UNESA. discurso anti-racista. o "poder les activistes noirs ont décidé de prendre le "pouvoir d’énonciation" de enunciação" por muito tempo monopolizado por aqueles a longtemps monopolisé par ceux à qui on attribuait un rôle pré- Jacques quem se atribuía um papel preponderante na produção do saber. a relação com os meios de produ. ção continua sendo o critério indispensável da análise longo processo histórico (em que a violência desem- tória. e não nos dois sentidos alternadamente. acompanhamentos e análise. desde a década de sília. consciência negra. ponto de vista moral e intelectual. intelectuais e ati- RESUMÉ Au cours des dernières décennies du XXe siècle. pouvoir d’énonciation. situados em 16. Nessa República.br dépréciée et jugée incapable intellectuellement et moralement. desses critérios têm demonstrado. l’image et leur mémoire. 95 . tais como nível de renda. edu. mas assimétrico orientado de um pólo a outro da relação so. Políticas sociais. -se de forma não simétrica em relação aos instrumentos existência de relações cordiais entre brancos e negros cesso de construção da imagem de si e de um discurso. Estudos realizados a partir panhamentos e análise. mais viennent aussi à stimuler l’estime neiro. de soi de la population noire qui. que. acompanhamentos e análise. a été ignorée. Brasília. Bra- 1. trabalhado- social. ciais ou de cor permitiu revelar as disparidades econô- micas de que as populações indígenas e afro-brasileiras 2. res. especialmente Políticas sociais. religião. os grupos humanos e considerava a mestiçagem um valor fundamental da notadamente no que concerne à memória coletiva. segundo a qual a discriminação racial brasileiro. com base nas quais se reconhecem as per. Texto escrito para o Seminário Internacional Afro-descendência. sociais. Opondo. depuis des siècles. nº 15. elas próprias impregnadas dos traços comerciais. o objeto essencial das relações sociais é a rada pela crença. discours. está claro que a adoção de critérios ra- representações sociais negativas (preconceitos e este. assim como do domínio e controle do saber e posição subalterna em face dos brancos.

Na prática. direta ou indiretamente. negras reflexões o Estado não tomou nenhuma medida política para tomada de consciência da negritude sem resultar numa por seus ancestrais? Trata-se de uma pergunta aparen- compensar ou reparar as sevícias sofridas durante o verdadeira assimilação8. tam. O capi. Nesse tos. fosse como traba. de medidas oficiais de República põe fim aos intensos fluxos de imigração de seu desenvolvimento e suas inumeráveis consequências Na época do Império (1822-89). 126. mais apta ao trabalho nas usinas e plantações agrícolas. Esse projeto de libertação com lideranças. buído ao reconhecimento histórico dos preconceitos do direito de enunciação e de autorrepresentação dos até mesmo a cidadania dos antigos escravos3. o que revelava uma convergência que perderam a memória de seu passado e não têm sentido. datado de dezem. Um decreto. a verdadeira libertação passa pela paração das injustiças e danos morais e físicos sofridos acadêmicos que multiplicam os projetos voltados à re- 3. incapazes de se senhores e vencedores) excluiu capítulos inteiros de para desmascarar os mecanismos de dominação. Embora os trabalhadores brancos fossem. Passo Fundo. 2003. sem memória histórica. conquanto semelhantes na situação de oprimidos. 8. Ver Flávio dos Santos Gomes. de seus heróis vieram a ser realçadas entre os grupos ficado por seus adversários conseguirá. Essa memória imposta busca afrodescendentes do Brasil que se viam impedidos de ciedade não igualitária baseava-se na ordem jurídica do produção. como é que os grupos Essa passagem das sombras à luz vai suscitar nos da África. sileiros à formação socioeconômica do Brasil. Ciências Sociais Unisinos. importância. Ao contrário. e instaura o princípio da igualdade de direi. foram vítimas. eram considerados nas e em postos de baixo nível na administração pública. p. e seus favoritismos que bloqueavam as aspirações de estimulada e apadrinhada pelo Estado brasileiro. os projetos também se ocupam em restituir perante da nação: Estado. não obstante. Já citados por Ronaldo Jorge Araújo Vieira Júnior e Ronaldo idosos do bairro de Venda Velha no âmbito da pesquisa "Mémoire a posteridade os arquivos de memória (fotos. por exemplo. E quando for a hora de contar a história nimização da contribuição dos escravos e dos afro-bra- tadas pelo Estado para assegurar a permanência dessa A esse respeito. Universidade Laval e pelo CEAs/IH/UCAM. De maneira sub-reptícia. origem afro-brasileira. Tal argumento seria utilizado para justificar o sem acontecido ou como se não fossem suficientemente Movimento Negro vai denunciar em sua plataforma o trabalho. deveriam copiar a cultura europeia. natórias em relação aos ex-escravos. era o controle do acesso à propriedade tos e irracionais – em outras palavras. Trata-se. segregação e de preferência que significavam atentados trabalhadores europeus. eliminar do passado todos os problemas e sofrimentos dizer ou exprimir livremente sua história como atores Antigo Regime. pele negra. o aos proprietários exercerem seu poder absoluto sobre balho. as circunstâncias históricas heróis – ou quase isso. Sales Jr. que precisavam. os negros A ascensão de Getúlio Vargas à Presidência da período pós-abolição – considerando-se suas causas. fundiária que constituía o fator decisivo que permitia adaptar às novas técnicas e às novas divisões do tra. por exemplo. Suas ativi. Ao lado da pesquisa e da análise propriamente di- 5. 2005. de testemunhos escritos e também de docu- de terras. Para os ativistas da Frente Negra. sem dúvida alguma de um trabalho função das técnicas rudimentares utilizadas. suas precedências lhadores livres”7. que institui o ensino obri- tade própria e de defenderem seus próprios interesses que. ser ocupados por brasileiros nativos. não significou a eman. dominados. leitura da memória dos afrodescendentes. pesquisas é realizada com base em entrevistas ou filmes 4. que permitem afirmar. o acesso à escolaridade e à saúde pública. o poder político. como se eles jamais tives. Juruá.639. Segregação institucional do negro e adoção de ações afir- vam convencidos de que. Ronaldo Sales. Desde seu nascimento no final dos anos 70. objetivo o embranquecimento da população. se organizar e inscrever suas reivindicações relativas à ços livres. para se igualarem aos bran. o resultado só poderia ser uma pálida Supõe. A imigração de colonos europeus. mestiços e descendentes as empresas estrangeiras instaladas no Brasil a respeitar mentos de arquivos. Desejando ser mais brancos temente simples. Ademais. a via da assimilação. decretos restringiam a liberdade de nização do país. dotados de subjetividade. Já naque- servidão. Curitiba. com seus privilégios. entre o Império e o início da República”. confinados a posições subalternas. a lei 10. bro de 1930. releitura da história na agenda política do país. ingresso maciço de mão-de-obra europeia. colocou em prática uma que os brancos. as entrevistas realizadas com os líderes e os tas. não tinham acesso a posições de prestígio5. dos escravos. as relações de produ. 7. Assim. Ronaldo Sales Jr. Mas essa tensão entre a releitura da história tal técnico e o controle do saber desempenhando um moral e intelectualmente inferiores. de escravos eram tratados como cidadãos de segunda uma cota: dois terços dos postos de trabalho deveriam Recompor a história dos grupos subalternos exige cravos e dos ex-escravos livres. o con. No mercado de trabalho. mas difícil de responder de imediato. africanos e mesti. len. surgida dominados poderiam exigir o reconhecimento e a re. já frágeis em danças e à música eram interditadas e reprimidas pela vida de negros e índios. ativistas ou testemunhas anônimas. não se cansavam de cantar a beleza da mulher negra ou de exaltar UPF. manifestamente específicas para os negros mostram pazes de contar a história de figuras importantes de e votar. descendentes de escravos. essa medida melhorou as condições de subjacentes ou àqueles que foram desde sempre des- um freio à produtividade das fazendas. la época o Movimento Negro apresentava as questões circulação. Ele foi um obstáculo à aparição de uma o valor da contribuição dos negros ao Brasil. ela foi bem-sucedida na Um movimento social invisibilizado quase total- liberdade e a mobilidade social. manifestações de conflitos. nesse período. mas sua exclusão das relações de sofridos por estes últimos. cipação dos negros. polícia. Responsabilização objetiva educação. limita a entrada de estrangeiros e obriga vestígios. a desconstrução da história oficial que oculta os textos trole estrito e quase absoluto sobre o trabalho exercia dades ligadas aos cultos de origem africana. op. preguiçosos. e também à do Estado. manutenção de uma forma de desumanização dos es. a maior parte das quais foi de. “O nascimento 9. da mes. escreveu : "A moder. Afro-Brésilienne: citoyenneté dans les faubourgs". essa situação de subordi. Essa so. Ler a esse respeito o artigo de Ronaldo Sales Jr. pelo conhecimento e pela técnica. HISTÓRIA E período escravista. Ler Ronaldo Jorge Araujo Vieira Júnior. que assim. vai fracassar. gatório da história dos africanos e afro-brasileiros no políticos4. últimos anos o crescente interesse de pesquisadores e na década de 1930. classe. – exigem um trabalho árduo de releitura a partir de ção ainda eram dominadas pelos grandes proprietários aos seus direitos6. modernização nacional e relações étnico-raciais 6. nº2. folhetos. Eles esta. das vítimas da História. cit. o qual tomará a iniciativa de elaborar que os considera socialmente incapazes de terem von. de deportados E. Ensaios nantes como as de Cândido de Araújo e Manoel dos Santos. e a proclamação da República. dos africanos livres e seus descendentes. considerada dignos de serem relatados em razão de sua pequena política a obliteração oficial da história africana e a mi- nação do trabalho vai acompanhar outras medidas ado. A história oficial (frequentemente escrita pelos oficial e a memória coletiva obliterada é fundamental papel limitado. Ler. e pesquisas sobre a escravidão e a pós-emancipação no Brasil. e. Nesse período. o Movimento Negro vai captar a atenção do e intelectual permaneceu nas mãos de uma elite branca para além da cor da pele. Essa cegueira histórica infligida pela histó. Raras são as famílias negras ca. econômico classe dominante. Os mestiços e descendentes de escravos os negros estavam em desvantagem como pessoas de preciada ou oculta por trás do véu do esquecimento9. conduzida pela cartazes. Cabe assinalar que no seio da Frente Negra havia vozes disso- cos. bém corresponde a um desejo eugênico que tinha por medida em que as histórias dos vencedores e os nomes mente pela grande mídia e por muito tempo desquali- A República de 1889 põe fim às medidas discrimi. contudo. mediante a abolição da escravatura e esta será escrita pelos que irão atestar o pouco peso atri. De maneira indire. Em larga medida. Experiências atlânticas. que os conflitos do passado ou REAPROPRIAÇÃO política de acompanhamento da transição da condição cópia do original! as controvérsias historiográficas sobre a escravidão e o DA MEMÓRIA de escravo à de homem livre. com o apoio de provas mate- 96 97 . fitas de áudio e vídeo) do Movimento Negro Volume 44. governo federal. maio-agosto 2008. Grande parte dessas mativas como reparação aos danos causados. memória do Movimento Negro. facilitando sua entrada nas usi. jamais. da Sob a nascente República. ma forma que os negros. cartados. a certas ta e involuntária. em 2003. Escolheram. fosse como mercadorias. currículo das escolas primárias e secundárias do país. submetidos aos interesses da ria oficial marca de maneira quase indelével os negros. hercúleo.

para por fim às disparidades socioeconômicas de que "consciência racial" que transformou-se num rótulo de pensamento. A ideologia da democracia racial não foi. a expressão assumiu Sartre. mas se manteve desde o advento da A ideologia da democracia racial. e Nei Lopes. serviço da manutenção do status quo. "A vida me ensinou a ser negra". O Movimento Negro que emergiu no final dos anos 70 era aci- ma de tudo um conjunto de ativistas disseminados pelo Brasil. vítimas de uma opressão racial que não mostrava a sua negros e indígenas nos domínios do ensino e do empre- pressão portuguesa e na experiência do movimento dos cara. Québec. as poesias de autoria de Edu Omo Oguian. que são vítimas os afrodescendentes15. tatísticos mostrando que a industrialização e o desen. partir da observação de que a abolição da escravatu. o livro de fotografias de Januário Garcia ensão da própria situação de exclusão dos negros. aniversário da morte de Zumbi. Eduardo de Oli. vistas negros de que o status subalterno e de exclusão das fontes documentais produzidas pelo Movimento pulsão havia justificado sua desumanização. no cerne da qual se décadas ou está dispersa em arquivos privados sem sua representação das sombras da lembrança"13. contribuíram com seus textos para a tomada E REINTERPRETAÇÃO grande imprensa que o ignorava quase totalmente nos Jewsiewicki escreveu precisamente : "é um terreno que de consciência por esses grupos de intelectuais e ati. Cuti. portanto. a série Cadernos Negros Poesia. Esse trabalho de recons. 30 novembro 2009. Os ecos dessas lutas afrodescendente é que explicam o fato de os intelectuais de uma identidade mestiça e culturalmente homogê- O esclarecimento dos lapsos de memória e a tomada no Brasil tornaram-se ainda mais importantes para os e líderes do Movimento Negro terem empreendido uma nea estimulou formas de exclusão. anos 80. Ele reen. o termo "negritude" os portugueses no Nordeste do país. Autorrepresentar-se equivale. 2010. de memória que veio a libertar os negros do espartilho tinham condições econômicas suficientes para viajar ao Os textos. do Movimento Negro. Les e Carlos Hasenbalg. p. A não só deve ser travada em escala coletiva. E na medida em que os negros continuavam a ser correção das injustiças ou de favorecer a inclusão de MOVIMENTO NEGRO ração nas lutas anticoloniais dos povos africanos de ex. cujo pri. 13. capaz de apresentar a imagem positiva da. e. Fanon na última obra. tentada pela obra de diversos acadêmicos de renome. Universidade Laval. 27. que vitimou a população negra não se limitava à épo- Negro. dela. mas igual. Essa profunda tomada de situam os valores da mestiçagem e da harmonia entre avaliação alguma. Hoje em dia. As expressões "consciência racial" e "consciência Religiosos/as e Padres Negros do Rio de Janeiro que havia sido processo de alienação das pessoas de cor. identitária e não mais o da assimilação preconizada todas as tentativas de promover a igualdade entre bran- FONTES DO PENSAMENTO ra não havia. o grande líder do 11. "Desejo coletivo". os desses movimentos. sem esquecer DISCURSO ANTI-RACISTA Negro cuja invisibilidade resulta em parte da inércia da da diáspora em vista de seu reconhecimento. Sobre a (re)conquista do domínio da narrativa res. grande influência no Brasil entre os expressão se associa às comemorações do 20 de novem- fotógrafos dos grandes jornais brasileiros. em suas colunas. 26 novembro 2009 . negras reflexões riais. uma tomada de consciência da identidade étnica e o grandes forças econômicas dominantes. têm sido neutralizadas. em 1986. Martin Luther King e Albert Memmi. Ela vai buscar. outros pensado- querem ou não queriam ver10. 14. Ao contrário. Moçambique e Guiné-Bissau estavam no seu auge. do Primeiro Encontro Estadual de Seminaristas. ou pelo menos não queles que foram oprimidos em sua raça e por cauda Durante os anos setenta e oitenta. a um movimento social que nunca foi considerado importante pelos legiavam a luta de classes. a forma de "Consciência Negra". para gritude – que valoriza a contribuição africana à civiliza. pelo Jornal do Brasil à rea. forte influência sobre os intelectuais e ativistas brasileiros e estrangeiros. com prefácio de Jean-Paul Deve-se recorrer também ao pensamento de Léo. Peau noire et masques blancs a partir dos anos 40. negros e indígenas. A exceção que confirma a regra pode ser ilustrada pela tomada da população brasileira. a esse respeito. cos. "Lieux de l’identité". 31. a se situar em relação ao relato histórico. artistas e militantes do Teatro Experimental bro. em particular Azuete Fogaça. como Amílcar Cabral. que Quilombo de Palmares que lutou no século XVII contra de posição favorável. o caso. Malcolm trução da memória confirma a imagem do Movimento e do direito à auto-representação atual dos africanos X. considerado uma ilusão a o sentimento de primazia e supremacia dos brancos intelectuais do Movimento Negro12 investiram no ter. reforçou e a posição como atores da história. ção universal e faz o elogio da beleza negra – irá exercer. O já fora incorporado ao vocabulário corrente. mas também duzidos em Portugal. reagrupamento e mobilização desse movimento nos Les damnés de la terre. negros e indígenas. sob a máscara da harmonia. Seus dois principais livros. de rebaixamento dos da palavra para narrarem eles mesmos quem eles são intelectuais e ativistas negros cuja maioria provinha da crítica da ideologia da democracia racial. Era-lhe ne. CÉLAT. assim. os quais apresentaram dados es. destacado por contrará a juventude entre os poetas negros dos anos 70 negra" não se referem absolutamente a uma classifica- proibida pelo cardeal Dom Eugênio Sales. Essa crítica é sus. o sentido estrangeiro ou estabelecer contato direto com os líderes assim.. Por esse viés. pela qual os grupos subalternos que não correspondiam ao modelo testemunham o colapso do beco sem saída em termos pequena classe média ou da classe trabalhadora e não brasileiros seriam desprovidos de preconceito de raça. a exaltação direitos civis nos Estados Unidos. plo. Essa tomada da palavra coloca em evidência um consciência de uma situação comprovada de coloniali. dominante. República até nossos dias2. Rio de Janeiro. Apesar do golpe de Estado de 1964. as interpretações similares feitas por dois intelectuais negros: principalmente com base em organizações não-governamentais e meiro número foi publicado em São Paulo em 1978. cial da mesma forma que os negros de pele escura. em si. suficiente para destruir uma ordem hierár- da História oficial ao lhes restituir o lugar. interrompeu as atividades do TEN. Paradoxalmente. sobre os negros. assinala que a luta antirracista e 80 que o associam ao ideal de beleza da mulher negra14. entendida como um 10. os negros constituíam as principais vítimas. Ver Bogumil Jewsiewicki. mas também reflete a própria fragilidade não é reconhecido como originalmente seu. o racismo e a discriminação contra a população go. opressão de negros e indígenas. democracia racial brasileira. permite abordar o dilema e o paradoxo da mestiçagem intelectuais. Ethnologies. e cuja ex. Globo. às damnés de la terre e Peau noire et masques blancs. parte das quais se perdeu no curso das últimas cessário arrebatar tanto a memória da cultura quanto ca da escravidão. sua inspi. destruído uma ordem hierárquica pela Frente Negra nos anos trinta. o movimento veio a se articular mente no plano individual. chegam a conta-gotas ao Brasil volvimento econômico do país não seriam suficientes emprego do termo "raça" para conduzir à expressão a determinar na linguagem uma nova subjetividade do numa época em que as lutas de libertação em Angola. entre outros. A propósito da expressão “Consciência Negra”. tra. brancos. O Globo. no qual vieram a reivindicar o colonialista e anti-imperialista na África exerceram. de afirmar a tomada então. exercício de reflexão sobre as causas das injustiças de 25 anos do Movimento Negro no Brasil que ilustra a trajetória de além das ferramentas conceituais marxistas que privi. 98 99 . denunciado essa ideologia diante da qual defendem portanto. Ver. O des cidades do país. propõe um novo quadro teórico para a compre. lização. 12. constituiu uma fonte de reno da ação política. aquilo que os outros não viam. Rio de associações culturais que se implantam principalmente nas gran. Assim é. portanto. poderia ter sido uma arma pensamento intelectual pós-colonial e antirracista do dade levará o Movimento Negro a adotar um discurso poderosa contra o racismo. Nos dez últimos anos. por exem- partir da metade da década de 80. As reflexões de Frantz Fanon sobre a luta anti. Bogumil Karl Marx. ver. Não foi esse. veira e Henrique Cunha Jr. 15. discursos e panfletos dos líderes negros são. indiretamente. pold Sédar Senghor e Aimé Césaire cujo conceito de ne. DA “RACIALIZAÇÃO” anos 80 e 9011. cujos segmentos miscigenados do Negro (TEN). direito de se exprimir. impregnados de uma crítica virulenta ao mito da quica baseada na cor da pele e. 3. Janeiro. Samora Machel. continuam vítimas do racismo e da discriminação ra. por exemplo. como Florestan Fernandes Os intelectuais e líderes do Movimento Negro têm do poder de enunciação. vol. Dessa forma. absolutamen- Movimento Negro que se constrói primeiramente a político cujo eixo central é o da tomada de consciência te. de estabelecer mecanismos de INTELECTUAL DO baseada na cor da pele.

mais correto que que não é possível abstrair-se totalmente do contexto A despeito dessa interpretação clara e inequívoca mântico do termo "raça". mimeo. o emprego da categoria "raça" tendo Ser belo seria. de que modo os valores estéticos são modelados pela nação positiva no Brasil semeiam a discórdia na grande debates públicos. A esse propósito. as políticas Os exemplos do presente e do passado mostram mento Negro. Claro que essas tam- categorias raciais como base de cálculos estatísticos sem aceitar que a implementação de políticas públicas de emprego da categoria "raça" é uma forma de "racializa. mo pretensamente científico. ta estatística". Paris. desaparecer a evidência da raça simbólica. desacreditado. às distorções causadas por esses condicionamentos no da. a população brasileira é amplamente miscigena. ABI. A concepção de beleza física poderia caráter subjetivo da identidade racial como produto como socialmente construído. mimeo. das políticas de ação afirmativa. ou seja. à opinião pública: a fabricação de um consenso anticotas no Bra. conteúdo sendo absorvido sem que se torne exemplar. Centro Cultural da Justiça Fe. mas cujos efeitos permanecem percep. não é levado em conta pelos adversários qualificativo "antirracista". cas engendram o ódio entre brancos e negros no Brasil. 2009. plásticos. etc. o que tornaria difícil identificar as pessoas segundo mente o uso da categoria "raça" no contexto das políti. de tudo. Entretanto. Nem sempre compreendem ou querem rios. ou seja. uma "racialização" da do objetivo final dessas políticas que é acima de tudo a que não existe uma escolha radicalmente autêntica. transmitidas também o tema das políticas de ação afirmativa suscita no Debate sobre Igualdade Racial. negras reflexões ção antropológica dos seres humanos em subconjuntos jornais. notação. em termos intelectuais e morais.). a expressão de uma verdadeira autenticidade. parte do tempo. objetos de uma os quais não seria possível propor a implementação de ação afirmativa pressupõe a identificação dos grupos ção" da sociedade. etc. Esses mesmos adversá. ou seja. medida em que é ligada ao espaço de poder masculino. seu "Acadêmicos contra a ação afirmativa: uma análise da argumenta- lam uma questão ligada ao direito à palavra. como referência. reconhecem a existência do racismo e da ção" da sociedade ? Poderíamos revogar o uso do termo com base racial podem aparecer como um mecanismo tados ou fortemente influenciados pelos cânones de be- discriminação racial no Brasil. serão vistas. Ler. antes grupos foram vítimas no passado com base num racis. ser fiel a si mesmo. As contribuições femininas. em suma. políticas e torna caduca a insinuação de que tais políti. Michalon. ção pública". mas sil". igualação dos indivíduos. na também promover. Essa formulação parece. Há uma interação complexa forte reação negativa no plano dos redatores-chefes dos deral. segundo a expressão empregada por do emprego. a "raça". "Da opinião publicada to de cânones estéticos. os intelectuais e líde. da raça so. os adversários das políticas de discrimi. que se recusam. ressalta que diferenças de raça. Mídia e ação afirmativa: a construção de uma opinião "poder de enunciação". estratégia redistributiva nos domínios da educação e gênero ou da cor da pessoa. líticas de "racialização antirracista". escritores. em primeiro lugar. numa cultura possível discriminar com base na "raça". Traduzem. deve-se reconhecer que o indiretamente. Mas essa recorrência evidencia políticas públicas de promoção dos grupos discrimina. 2009. Pierre-André Taguieff. Rio de Janeiro. ao mercado de trabalho. considerado uma "ferramen. suficiente para provar que. 17. Les fins de l’antiracisme. assim. essa influência se propaga de manei- ência racial" e "Consciência Negra" seria "racialista" e racismo científico. ao con- do termo "raça" e a preponderância desproporcional de APARÊNCIA FÍSICA trário. produzida consideravelmente e por muito tem- possível identificar as vítimas do racismo como poten. ra inconsciente. escultores. antes. artigos contrários à política de ação afirmativa reve. das preferências. mesmo que seja a contra gosto. bém podem ser autônomas. é preciso ticas públicas. autônoma no sentido indicado. ser autônoma no sentido de que resultaria da deter- de práticas discriminatórias sistemáticas de que certos res do Movimento Negro assumem uma posição po. inevitavelmente. "raça" e inventar outro nome. já dos no passado e no presente. ao Em vez de serem causalmente determinados sob o efei. sociedade. que é a desconstrução científica da raça biológica não faz ou seja. conizar a abolição da percepção racial das diferenças. Mas evidentemente esse deslocamento se. tornou-se necessariamente uma con- Esse jogo duplo de argumentação a respeito do uso O PESO DA cepção masculina. como nomear ou qualificar correta. de tal sorte que ignoramos os efeitos que as políticas de ação afirmativa introduziriam uma Se a luta contemporânea contra o racismo obri. ela depende. que remete ao mesmo tempo aos modelos de diferen- 100 101 . Nesse sentido. baseando seus argu. momentaneamente grupos discriminados com base na tremamente difícil escapar desse processo. pela cultura dominante. em si. distante da interpretação biologizante do "raça" ao acesso à universidade. já que promovem cultura. cas públicas de ação afirmativa ? Consistiria realmente O uso do qualificativo "antirracista" também coloca em e o que é feio. -nos de longe mais judiciosa que o termo "racialização" perversos dessa situação. e o feio podem ser resultados da escolha deliberada de lheres simplesmente interiorizem e reproduzam as re- cas de que é vítima a população afrodescendente. independentemente do xo deveria ser. Não apenas a mídia continua pública. Seria. nos de ação afirmativa seriam compreendidas como po. po por homens (poetas. Nesse sentido. assumindo e ostentando os traços resultantes de sua tíveis no presente mediante desigualdades socioeco. que bloqueiam de maneira insidiosa o debate geneticamente distintos e hierarquicamente ordenados democrático e equilibrado16. Essa seria uma solução corretivo destinado a atenuar a ausência efetiva de uma leza helênicos predominantes. notadamente pelos cânones dominantes. mas apenas um pecado venial diante escolha deliberada. mas como exceções individuais. mas pode legitimamente interrogar-se sobre as formas minação do indivíduo em questão. Mesmo pessoas esclarecidas "racialização bipolar" na sociedade brasileira. 1995. se juntasse de imediato ao substantivo "racialização" o sócio-histórico. a esse respeito. Esse estranho parado. se é aparentemente simples que se assemelharia a um eu. É ex- imprensa escrita e televisionada. ainda que passado e do presente que dão força e pertinência às promoção de uma essencialização das raças. lítica que remete à constatação da semântica de que mais eficazes de corrigir as categorizações perceptuais17. um antirracismo realista não pode pre. à educação superior. Além disso. Deveria ser. não como expressões culturais do 16. no caso. poder-se-ia afirmar que o belo Essas constatações não sugerem que homens e mu- refratária à questão das disparidades socioeconômi. levando deliberadamente em conta Pierre-André Taguieff. que se quer promover. as comunicações de João Feres Júnior. caminhos que conduzem à abolição das fortemente monopolizada pelos homens. hoje em dia amplamente uma mesma palavra pode ter diversas significações Além disso. cada indivíduo. p. 79-81 e. cialmente percebida e. versários tentem precisamente atribuir aos líderes do criminação deve ser compreendido como um recurso herança genética. ou designar objetos diferentes. Seminário Comunicação e Ação Afirmativa: O Papel da Mídia presentações do que é belo e do que é feio. Na maior mentos na ideia de que o uso das expressões "consci. momento em que são obrigados a definir o que é belo as categorias branco e negro. E ainda que seus ad. em vista a promoção daqueles que são vítimas da dis. a beleza. será possível genismo lexical. evidência que os programas de discriminação positiva admitir que os gostos estéticos pessoais podem ser di- e sociólogos. Segundo ga os militantes antirracistas a manter o termo "raça" lançado pelos adversários para rebaixar essas mesmas ou ativistas do movimento negro nem sempre escapam eles. São precisamente os efeitos conjugados do Movimento Negro um pensamento racista baseado na necessário sem o qual não seria possível conceber polí. o termo "raça". 329-354. Rio de Janeiro. artistas ciais beneficiários da discriminação positiva. o Ao reinterpretarem subjetivamente o termo "raça" Para Taguieff. gênero feminino. a admitir que uma mesma palavra. possa ganhar uma outra co. interpretada. ainda que a escolha seja nômicas. de tais expressões pelos intelectuais e líderes do Movi. em cuja composição predominam antropólogos a implementação dessas políticas em uma "racializa.

onde o critério Dida. negros tendem a reproduzir os modelos que os relegam da diretoria do clube. intelectual e ativista do MN e. pinturas naïves produzidas pelos grandes artistas afro. o elogio da beleza particular da mu. os negros também fo. ainda se observam gundo o escritor Joel Rufino dos Santos. tian Dutilleux. de 2009). 19. Em suma. Depois da Copa de 1950. Nelas se reconhece capazes de servir à melhor inserção da imagem dos gru. esperar até o fim dos anos 90 para que outro negro. de campeão brasileiro. eles ganham um espaço especial sobre- reconhecimento da diversidade representa não apenas restrições em relação aos negros. portanto. incluindo a seleção nacional e a equipe do Real Ma.. igno- lenovelas da Rede Globo de Televisão. concepções de beleza. Isso tem consequências racistas. Entrevista com Joel Rufino dos Santos. essa função famílias negras. mos na armadilha do predomínio dos cânones de bele. A sombra dos cânones helênicos. Eles também podem ser um modo que despreza suas capacidades intelectuais e morais. zes negras atuais de pele clara. obtendo nesse mesmo ano o prestigioso título tipo de beleza é também predominante entre as princi- mente a televisão. o sorriso e a do movimento negro e pelos defensores de um olhar devem também lutar contra outra categoria de precon. esses clichês frequentemente lhes atribuída ao goleiro Barbosa. Para evitar tais distorções ceitos : os preconceitos sexuais que as apresentam como ram excluídos da posição de goleiro. pessoas de pele clara tendem lher da região sudano-saheliana de África Ocidental. e. mas também uma exi. drid. Andrade não tinha estofo nem ca. balternos é pertinente e deve ser igualitária em relação em equipes de primeira divisão20. reza das variáveis que compõem a identidade pessoal e Longe de ser um assunto fútil ou secundário. é encontrada em graus A partir do momento em que se admite que a pre. contraste a propor a questão do saber: quais seriam os que o peso da aparência física ainda é hoje em dia uma ção de treinador interino. Testemunho relatado por Carlos Eduardo Mansur. não há dúvida número maior de negros figura nos anúncios publici. bes do Brasil. imagem inferior ou depreciativa pode efetivamente 2009. grandes veículos de comunicação. de que a beleza da mulher negra aí representada nos Do século XVI até o fim do século XIX. pois per. textura dos cabelos e formato dos lábios lembrem de- mite designar o belo e o feio levando em conta a natu. que era negro. constituem instrumentos poderosos oprimir a tal ponto que essa imagem seja interioriza. Jorge Luís Andrade da Silva. supostamente igualitária. mercado de trabalho. proe. ENUNCIAÇÃO23 blicidade melhorou nitidamente nos últimos anos. de número de brasileiros. ele mesmo havia tentado principalmente a qualidade de serem generosamente pos subalternos e assim garantir o respeito à dignidade social onde são expostos desde o berço a um discurso nomear Andrade treinador da equipe em 2004. os negros eram tários e participa como modelos nos desfiles de moda. critor e especialista em futebol (Rio de Janeiro. inadequada aos jogadores negros22. Esse mecanismo de interação que plano os atores e atrizes cujos traços físicos como cor. Segundo o jornalista Chris- e os artistas negros têm mais papéis nos programas de em suas poesias. reconhecido como o esporte nacional por excelência. limi- a da matriz que forma as identidades coletivas. No derrota da seleção brasileira na final com o Uruguai foi essenciais dos homens e mulheres premiados nos con- afrodescendentes e indígenas. sidade de um mecanismo de discriminação positiva na televisão. É o caso notadamente dos elencos de teleno. esse exemplo marginal vai corresponder a uma televisão. particular. embora ele próprio se considere negro. Um -brasileiros do Rio de Janeiro e da Bahia. A sempre à base da escala social. etc. a projeção de uma o cargo de treinador do Clube de Regatas Flamengo em caracterizada pela curvatura acentuada das ancas.. é percebido como branco por gran. as proporções. raros são os negros que ocupam a função de treinador fortemente centrados sobre o corpo. de dominação cruel e sutil quando projetam uma ima. rosos. à música e aos encontros amo- gência moral indireta de reparação em prol dos grupos Nesse esporte em que numerosos jogadores negros têm Se ficássemos nisso. Em razão de sua cor clara. constata-se também que a por muito tempo ignorados ou marginalizados pelos sido consagrados nos últimos decênios. da cultura urbana que se impõe a todos graças a sua Mesmo nos domínios do esporte. eles defendem a plura. Ilê Aiyê. tratados no Brasil como animais. alegando que ele era negro e não tinha boa rência física. complexa estética afro-brasileira. equilíbrio e a simetria dos traços do rosto. em um ambiente diretor técnico do Flamengo. os não conseguiu em função da resistência de membros musculosas. Essa visão significa que o da cor da pele perdeu importância. nos leva por ao grupo dominante. Amauri Mendes Pereira. o de matriz africana. Iniciei a reflexão em torno do conceito “o poder de enunciação” 20. de maneira subliminar) que o Brasil não tem neces- escura18. 8 de dezembro professor d o centro Universitário Estadual da Zona Oeste (UEZO). Esse Os meios de comunicação de massa. da. Na esfera do sagrado. poder-se-ia dizer que caíra. pois. organizados com base num permitem perceber a exclusão mediante a ativação de código não escrito que exclui dos papéis de primeira atributos positivos. 22. quentes. Orunmilá. no Rio de Janeiro. diretas sobre o mercado de trabalho ao criar barreiras dicção21. Rio de Janeiro. A imagem do negro na televisão e na pu. a discrimina. mas dotadas de coxas grossas e nádegas redondas. Há outros ingredientes fundamentais que concepção pela qual uma imagem deformada pode in. Com exceção de Vanderlei Luxemburgo. Vanderlei Luxemburgo foi treinador dos mais importantes clu. de treinador. dos campeões”. Sheron Menezes e Roberta Rodrigues. es. fosse o goleiro titular da seleção brasileira. que chegaram a usar argumentos Mas o ideal de beleza negra não se limita à apa- gem inferior ou depreciativa desses mesmos grupos. pais passistas das escolas de samba. Segundo testemunho de Júnior. Não obstante. -se evidenciar o caminhar. elementos particulares constitutivos de uma abordagem questão espinhosa para a população afrodescendente conhecido como Andrade. Se esses atributos são apreciados no quotidiano das grande difusão pela mídia. intelectual negro. frívolas. beça para ser treinador de uma equipe de futebol da mulher quanto no homem. entre outras. duras e individual de todos. O motivo é que a expressão e com seu corpo são considerados atributos altamente discriminatórias em relação às populações fáceis. Uma exceção a essa regra não-escrita é Lazaro Ramos. Por muito tempo re. Essas últimas primeira divisão. 2 de dezembro de 2009. Isabel Fillardis. 102 103 . o movimento. Com política de dar destaque a negros principalmente para "provar" sempre a ser privilegiadas em relação às de pele mais (sem o dizer. variados nas festas realizadas nos terreiros dos cultos sença em todos os níveis de membros de grupos su. como Taís Araújo. ajudam a compor a imagem do que é belo tanto na fligir um prejuízo e efetivamente oprimir determinados invisíveis que afetam a igualdade de oportunidades tan. superficiais. assanhadas. em que o movimento. negras reflexões ciação ou de ressignificação tais como a negritude que velas e séries televisivas. mais os traços negroides de certos povos africanos19. rais carnavalescos como Olodum. Assim é no futebol. conseguiu ser nomeado para essencial da estética negra brasileira? Se observarmos as O PODER DE e indígena. minente ator negro de cinema que se tornou protagonista de te. Entre esses elementos. Se. passa do negativo ao positivo é fundamental. não se pode deixar de constatar legado à função de auxiliar técnico ou exercendo a fun. Mesmo na República. deve- grupos por muito tempo foi denunciada pelos ativistas to para homens quanto para mulheres. O Globo. seres repulsivos. 21. com base em instigações e múltiplas conversas com o meu amigo 18. tado à indústria do entretenimento. É uma questão importante. “Nos braços 23. lembra a negritude de Léopold Sédar Senghor que fazia. Foi preciso cursos de beleza negra organizados por grupos cultu- lidade de concepções da vida social em face do molde fecham as portas aos postos de alto nível. Essa preferência é verdadeira sobretudo para as jovens atri. Valorizar o natural e estar à vontade com sua plural por parte da mídia. atualmente. rantes e desprovidos de história. ção racial ainda se manifesta no que se refere ao posto za helênicos que relegam a um segundo plano as outras a postura e o ritmo se misturam. continuam excluídos. postura. foi por muito tempo considerada de responsabilidade tudo nos almoços e reuniões festivas de domingo que uma riqueza social e cultural. são propícios à dança.

L’anthropologie et les militants uni. “Dia da consciência indi. SAILLANT. de uma imagem e de uma memória. FERES JÚNIOR. lectuais afro-descendentes dos cânones de beleza que GUIMARÃES. Passo Fundo. Rio de mais judicioso. P. negras reflexões algumas exceções. Pierre-André. Kabengele. novembro. SANTOS. nº 13. SALES Jr. É nesse tcolonialité. 2005.). Les fins de l’antiracisme. Entre os intelectuais negros de proa que têm desempenhado um papel importante nessa « tomada do poder de enunciação ». utilizar doravante a ex.. O Relatório IPEA: Políticas sociais acompanhamentos e do desdém com que são tratados pela cultura domi. "Desejo coletivo". Levando-se em conta os argumentos acima. João. seria gente. 2003. Juruá. nº 2. O Globo. análise. UFRJ. “Mutation de savoirs et pos. São Paulo. Seminário Comunicação e Ação Afirmativa: paz do ponto de vista moral e intelectual. objetiva do Estado. C. C. Buscam criar descendentes de escravos africanos e afro-brasileiros. A reapropriação do discurso repre. Experiências atlânticas. papel preponderante na produção do saber24. mas da ascensão dessas novas concepções do mativa: uma análise da argumentação pública".. o qual subentende uma reto. é seu pensamento intelectual pública: a fabricação de um consenso anti-cotas no cularmente ignorado. Foi por isso que. Esse movimento provocou forte que devem ser compreendidas como intervenções num LOPES. (orgs. O Globo. Montréal. Teun. Civilização Brasi- para tentar eliminar as representações culturais nega. análise. A reinterpretação por artistas. Reinterpretaram os fatos históricos mediante as reivindicações políticas novas práticas so. Francine Saillant (org. no Brasil. Anthropologie et 24. e termo "reapropriação". dia e ação afirmativa: a construção de uma opinião monopólio do saber e que jamais se haviam confronta. "Acadêmicos contra a ação afir- nome. de uma releitura e de de 2009. Rio de Janeiro. Maggie. simples discurso existente. munidos tariam. polêmica com um grupo de intelectuais famosos que debate intelectual por muito tempo fechado à crítica 30 de novembro de 2009. intelectual25. Mi- a discriminação nos locais de trabalho. Divisões perigosas: políticas de sua memória. ram assumir o "poder de enunciação" por muito tem. volume 44. Yvonne Maggie. (orgs. já que um número crescente de versários das políticas de ação afirmativa decorre. Rio de Janeiro. Simon. Brasília. Introdução crítica à socio- de tudo.. 3. da cultura dominante. P.. depreciado e considerado inca. pública. volume 33. Mí- de argumentos. mai-ago 2008. Maio. escritores e inte. que está em jogo ao ser submetido ao questionamento Brasil". Rio de Janeiro. à l’épreuve des globalisations. Antonio Sérgio Alfredo. não apenas daquilo que é a nova nação brasileira emer. "Lieux de l’identité". "poder de enunciação" com um exercício relacional que Globo. Quebec. ciais e culturais. Carlos Alberto 25. nº 16. logies. 24 de novembro modernização nacional e relações étnico-raciais mas igualmente de uma reação. Amauri Mendes Pereira. chalon. sem dúvida. 2009. A partir daí se pode MANSUR. Quebec. "Da opinião publicada à opinião negros. O Globo. Rio de Janeiro. Ronaldo. Divisões perigosas: políticas mada de posse de alguma coisa. Segregação institucional do ne- brancos e negros. Ronaldo Jorge Araújo. Liber. Por sileira. S. Rio de Janeiro. livre das injunções Essas reinterpretações são também tomadas de posição 2010. "A vida me ensinou a ser negra". intelectuais e ativistas negros resolve. Bogumil. entre o Império e o início da República”. edição especial.). 2009. citoyenneté et répara- versitaires noirs au Brésil". UPF. Brasília. "tomada do poder de enunciação" designamos. 104 105 . mimeo. uma identidade coletiva positiva. São Paulo. tos. 2004. que se trata de mais que a retomada de um logia brasileira. Ler a respeito Fry. Y. acompanhamentos e Medeiros. Lélia tos. representando um segmento populacional se. Monteiro. ABI. 2005. In: Peter Fry. pressão "tomada do poder de enunciação" em lugar do indígenas. 26 de novembro de 2009. 2009. mas da desestabilização de sua convic. 2008. “O nascimento da nação: Estado. Flávio dos Santos. da imagem dos negros e participa do poder de enunciação que vem a estimular GOMES. 2009. sua imagem coletiva é negativa. R. nº 15. "Droits. leira. Rio de Janeiro. Société. MAGGIE. 2008. Francine. sília. S.). da imagem e da memória que eles atacam e. mas de sua ideia de nação forjada anteriormen. Estudos estatuto da raça”. 2 de dezembro de gro e adoção de ações afirmativas como reparação senta uma novidade. e San. mimeo. Civilização Brasileira. intelectuais negros fala cada vez mais em seu próprio dos pretensos conflitos e ódios raciais que delas resul. Alberto Guerreiro. MONTEIRO. antes BIBLIOGRAFIA RAMOS. ao longo nas últimas décadas se inscreve na esfera da política. do com um contradiscurso produzido por intelectuais ção e do enfraquecimento do monopólio do discurso FERES JÚNIOR. Bra- Gonzalez. FCP/MinC. “Intelectuais SCHWARTZMAN. vol. Brasília. Editora Contexto. Januário (org. GARCIA. Eles se ralidade de concepções do que é belo e do que é feio. Julio César de Tavares. Hélio Santos. Rio de Janeiro. entre outros: Abdias do Nascimento. análise. (1995-2005). Responsabilização veem nisso a iminência de um conflito aberto entre contrastada dos intelectuais negros. CONSTANTINO. Marcos Chor Maio. Rio de Janeiro. TAGUIEFF.. Em suma. João. O Papel da Mídia no Debate sobre Igualdade Racial. VAN DIJK. 2007. MAIO. negros e formas de integração nacional”. VIEIRA Jr. Nei. Ventura Santos (orgs. como em evidência fragmentos esquecidos da história dos JEWSIEWICKI.. fruto sentido que se faz necessário compreender a expressão FOGAÇA. Curitiba. Discurso e poder. Université Laval. Rio de Janeiro. temporâneo. nº 2..). intelectual" por outras concepções do discurso.. 1995. Divisões perigosas : políticas raciais no Brasil con. Centro Cultural da Justiça Federal. te sem a participação dos afro-brasileiros e dos povos Janeiro. Sociais Unisinos. Azuete. raciais no Brasil contemporâneo. Ao tomar a palavra em pé de igualdade. USP. Ciências uma crítica que permitem a ocupação do "território MUNANGA. Avançados. CÉLAT. aos danos causados. Rodrigo. tivas dos negros e suas consequências sociais. Muniz Sodré. Civilização Bra- um discurso. acima de tudo. Y. Paris. março. vidual”. nº 18. 2008. compreender que o tom alarmista utilizado pelos ad. Relatório IPEA: Políticas sociais. 2007. R.. Joel Rufino dos San.. de raciais no Brasil contemporâneo. citamos. João Jorge Rodrigues. 2008. Carlos Eduardo. no caso presente. Perspectives Réinventer l’anthropologie? Les sciences de la culture du Mouvement Noir au Brésil". Também não se trata ape. nante. Beatriz Nascimento e Sueli Carneiro. Simone Monteiro e Ricardo reapropriaram do discurso. 1995. 31. O mesmo se faz quando se colocam -emancipação no Brasil. Ensaios e pesquisas sobre a escravidão e a pós. 25 anos do Movimento Negro Relatório IPEA: Políticas sociais acompanhamentos e do século XX. eles interpelam aqueles que detinham o discurso. 2007. nas da tomada de posse dos discursos estabelecidos. ões". FRY. "Nos braços dos campe.) tions des torts du passé de l’esclavage. Université Laval. não 2009. “Das estatísticas de cor ao po monopolizado por aqueles a quem se atribuía um privilegiavam a estética helênica em detrimento da plu. Ethno.

36) que se detém sobre os 2. É na esteira do pensa- Ao se deter sobre o período que vai do século XVII mento de Stepan (1994) e estudiosos afins que tecerei Reportando-me à epígrafe transcrita inicialmente. âmbito teórico. fazendo uso de metáforas ou analogias particulares estão relacionadas à pro. colocando em xeque a pretensa complex issues emerge from them calling into question the supposed neutralidade dos “homens da ciência”. 2)“Por que certas analogias tíficas. Ao contrário. resistência Keywords: scientific racism. As teias e tramas de ideias dos “homens da ciên. As neutrality of ”men of science” that engender them. configurou-se (e ainda se configura. e envolvem digressões complexas e polêmicas. e de- abstract Race and gender are historically (re) constructed concepts. por conseguinte. de antemão. houve a rejeição da metáfora e da analogia pelos da analogia e da metáfora como meio de interpretar e ao gênero. tampouco sociológica. We therefore expect. da razão que. nos dias atuais) RACISMO CIENTÍFICO era demarcar os segmentos étnico-raciais distintos. Serão estas as duas questões cruciais entender que analogia corresponde a uma espécie de empírico. Carlos Moore (2007) e Pietra Diwan ciência”1 que os engendraram. almejo aprofundar polêmicas que giram em torno das a entendem enquanto resultante de discriminações pelos traços diacríticos do ser humano. 1994. 72) salienta que. pela Univ. Doutora em Letras pela UFPB. com bolsa estágio/sanduiche em Maputo. ao longo dos tempos. p. sentimentos e a mente humana. tance. relações étnico-raciais e de gênero em nosso seio social. dentre os quais destaco: Raça e gênero são conceitos (re) construídos historica. e analogias. Para tanto. raça e gênero. no entanto. correspon. O qual resulta da crença na supremacia do segmento branco. Luiza mente. this end. los XIX e XX”. uma analogia que ocupou lugar estratégico ditos cientistas. and deployment of these meanings ocupou lugar estratégico na teoria científica sobre a variação humana dos de Jesus Oliveira mento de tais acepções. realizamos a pesquisa biblio. ampliar o leque de discussões no tocante às the range of discussions with regard to ethnic and racial relations tante do Mestrado em Pós-Crítica (UNEB). como assevera Stepan (1994. Nancy Stepan (1994). como um campo privilegiado de saber. já que estudiosos da área de relações étnico-raciais altera. that follow seek to contextualize. com isso. negra. encontro aos almejados. mas. que busca saber: 1)“Como. na ciência. configurando-se em um ins- tempo. O que interessava. visto que pretendiam classificar o ser humano psico. construídas historicamente. em detrimento dos demais. -SP e Graduada em Letras/PUC-SP. de verdade que lhe é conferido. apesar das controvérsias criadas em torno delas. Sueli Carneiro (1993. par. (2007). p. na era moder. É a partir daí que se passa a de contribuições e reflexões que as engendraram no INTRODUÇÃO demarcar as diferenças sociais e. professora visi. que não intento dis- 3. que os engendraram. rei- ao XX. uma analogia que Maria Anória reflexões que se seguem visam à contextualização e desdobra. apolítico e universal”. o desinteresse Vale salientar. studies in the area of Social Sciences. Munanga (1999). The reflections A analogia em questão é aquela que liga raça ao gênero. a pre. p. race and gender. cujo intuito foi propalar a superiorização euro. como observa cêntrica. mentos. b) relação e na teoria científica sobre a variação humana dos sécu- tividade. Mestre em Educação Palavras chave: racismo científico. black people resis- (UNEB). dução científica social?”. de modo a repensar as consequências na in order to rethink the consequences in contemporary society. esclarecem Moore (2007) e cia” veja-se também Schwarcz (1993. são escolhidas e outras não?” Afinal. cia” são o foco central de discussão de Stepan (1994. realizei pesquisa bibliográ- tensa superioridade branca e a inferioridade dos demais fica e me norteei por estudiosos (as) provenientes das segmentos étnico-raciais. estas são resultantes de relações sociais (re) mesmos em seu livro O espetáculo das raças (1993) europeu. expand Estado da Bahia (UNEB). partir lógica e biologicamente. e não pelos genes e ou fatores bioló- 1. Com o transcorrer do que nortearão as ideias a serem desenvolvidas no pre.negras reflexões RAÇA E GÊNERO: ENTRELACES RACISTAS VERSUS AFIRMAÇÃO IDENTITÁRIA NEGRA RESUMO Raça e gênero são conceitos (re)construídos historicamente. and then les emergem questões complexas. por considerá-las destituídas de obje. quando do desejo de distinguir os comporta. Stepan (1994. “tradicionalmente”. Conceição ao colocar em xeque a neutralidade dos “homens da 72). sim. mas dos “homens da ciência” pela metáfora e analogia se cutir o conceito de gênero historicamente. 107 . Esperamos. graças ao status E DESDOBRAMENTOS tindo de conceitos preconcebidos. 72). a fim de justificar as pressuposições cien. Bairros (1995). a ciência. Teresa de Lauretis (1994). gicos. Pes- quisadora de relações étnico-raciais. naturalizados. Para maiores informações a respeito de tais “homens da scien. elo entre raça e gênero. (STEPAN. Com esse fim. Especialista em Literatura/PUC. sente texto. considerações acerca dos seguintes pontos: a) o papel tero que “A analogia em questão é aquela que liga raça na. propagar o racismo científico e o sexismo2. 2003). we conducted a literature search and guided ourselves by Professora Assistente da Universidade do gráfica e nos pautamos em estudos na área das Ciências Sociais. temáticas étnico-raciais3 e de gênero. p. mo afrocentrado. ao dia “ao reservatório de conhecimento não metafórico. Eduardo Mondlane. 72) contemporaneidade. Raça aqui é entendida não em uma acepção biológica. metáforas Evaristo (2006). Ciências Sociais e Humanas. mesmo quando os resultados obtidos iam de a referida estudiosa. For séculos XIX e XX. p. and gender in our social bosom. distinção entre os movimentos feministas e o feminis.

imersa em metáforas e analogias arraigadas de (pre) Em suma. distinguiram diferenças raciais como aspectos cruciais são arbitrárias. verdadeiro e objetivo – mais robustas e arredondadas cabeças que caracteriza. para tasiosos. p. de frenologia. p. organologia. para o desenvolvimento de tal teoria”. RACISMO E SEXISMO: explorar uma série de questões relacionadas às causas formações.]”. ca. branquicéfalo. sobrevivido ao transcorrer do tempo. prognatismo. Ou seja. mas elementos Analogicamente às raças inferiores. às figuras princípio. em uma (con)fusão epistemológica e na confiscação de subjetivas e até mesmo à falsidade e foi contrastada ao crânio estreito. NO SEIO SOCIAL É instigante. quando da “revo.. o des. que a burguesia criou “a partir do final do século XVIII para asse. Schwarcz (1993.. o criminoso. da realidade.. “alguns filósofos da ci. pois. tus científico e social que dispunham. considerados também. e sexo. “Não por aca- dos homens da ciência. os filósofos descobertas mirabolantes e racistas. entre péis sociais. (1993). gurar a sobrevivência da classe e a continuação da hegemonia”. Aproprio-me. através do crânio dos seres humanos..] que “as analogias ou os modelos nelas baseados eram gros). 28) salienta que. poderíamos identifi- trovérsias. O artigo de Stepan (1994. se não resultassem conceitos (pseudo) científicos engendrou a propalada ditos “homens da ciência”. além da omissão. [. Eis.50). dolicocéfalo. distorção e mani. as isto é. analogias usadas pelos cientistas do final do século A analogia conduziu pesquisas.. compreendendo-se. 1994. a Carlos Moore (2007). pan (1994. observa Ste. científicas. os considerados homens das ciências fizeram (STEPAN. 73). foram gestadas e organizadas (1994). a fim de atribuir termos específi. da metáfora pelos “homens de ciência” para afirmar 5. que “a mulher se igualava aos negros pelo na ciência”. uma teoria ‘raças à parte’. p. em consonância com os demais grupos a ambos os gêneros: feminino e masculino oriundos do incompatíveis com a metáfora tendiam a ser ignorados construções lógicas da ciência em direção a visões mais hegemônicos da época5. sito de salvaguardar privilégios sócio-econômicos dos tidos e os almejados. à fantasia poética. dos homens. tifacetados. tinham o papel de justificar (STEPAN. ta científica ou esquemas heurísticos. dade são suas conclusões.] metáforas e analogias não estudiosa. Diante dessa constatação. O PASSADO PRESENTE culturais das analogias científicas”. o papel das metá. peso ou estrutura do cérebro”. para designar algumas “técnicas” Carlos Moore (2007. da ciência discordam. nem meramente pessoais”. 73). a saber: craniometria. Sem entrar nos meandros de tais con. de um modo ou de outro. conhecimento sem adornos. pesquisadora evidencia seu propósito que é “contribuir antropometria. usufruindo do sta. os pobres das cidades e os é possível notar que os ideólogos da ciência criaram. à própria ciência”. no século XX. dou na disseminação de novos vocábulos técnicos. auxiliando e fundamentan. p. direitos e deveres. cujas semelhanças entre si e as diferenças nicas e demais instrumentos da área como. detrimento do segmento negro. gerou hipóteses e aju- No entanto. culo XVII ao século XX. No caso do estudo científico da diferença humana. Daí a utilização Partindo de tais exemplos hoje esdrúxulos. prossegue Stepan (1994.. p. emaranhar.. para atender aos propósitos eurocêntricos. do “informações sobre os corpos das mulheres (com- variação humana”. negras reflexões trumento “estratégico” para a “teoria científica sobre a a superioridade do segmento étnico-racial branco em trimento de outras. trazendo à tona a construção científica que no caso. so. 1994. Emerge. o elo pulação de dados pelos “homens da ciência”. segmento negro. complementa Stepan (1994. os negligenciavam ou suprimiam Complicado é o fato de muitos daqueles ideários terem ência” passaram a considerar “que metáforas e analogias grupos hegemônicos. diria ainda que. infantil e delicado. tificar algumas constatações desenvolvidas por Stepan. Isso crânio.. interessa registrar que “a metáfora chegou a racial começou a ser elaborado”. questionando de “novos conhecimentos”. remetendo-se a Foucault. familiares e culturalmente arraigadas ção na variação humana – raças de todos os tipos [. estando ambas análogas ser associada à imaginação. possibilitaram a “construção de similaridades”. indicando primento dos membros. e um extenso discurso sobre desigualdade falha em perceber ‘arbitrariedades’ é que faz com que ciência” e às suas “descobertas”. prosseguem demarcando lugares sociais. demarcando-se a supremacia racial 108 109 . entre crianças e adultos”. assim. é perceptível quando Stepan (1994. farei alu. no artigo de Stepan. p. Assim sendo. ricos e pobres. Nesse caminhar de constatações/manipulações interferindo nas relações (inter)pessoais. tecnologias sociais6 ao utilizar não só as téc. a mulher. 73). “[. Seguindo na direção do pensamento da referida pelos homens da ciência. isso enredar: ciência/analogia/metáfora. a ser elaborada”. Stepan prossegue com outras instigantes in. largura da pélvis. se nos detivermos com um rejeição de ambas. constitutivos da teoria científica”.. tudada sistematicamente. preestabelecidas. reconhe. 86-90). não mais mencionarei o ano de sua publicação. cos/científicos às descobertas.. 72)4 é possível obser. através de “manobras por vezes cômicas”. de “uma peculiar analogia da história das ciências. formato do No texto de Stepan (1994. sobre o porquê da escolha de algumas analogias em de- formações a respeito das apropriações da analogia e 6. p. se de um lado os “cientistas” passam a defender das ditas raças superiores (brancos) e inferiores (ne. sob teias e tramas e dizimados sob a égide da ciência.] A analogia definiu importantes para o pensamento científico”.. etc7. p. p. para se perce. analogias e modelos começou a ser reconhecido mentos. e comprovar teses racistas e sexistas. foram resultado de metáforas Também auxiliou a constituir os objetos de investiga- pois. que contribui para ampliar e ra- crítica da metáfora científica está apenas começando com o homem branco ‘explicavam’ suas posições infe. que o “físico francês Pierre Duhem ficou bastante conhe. matizar tais questões. os dias de hoje [. 74). Como estarei me referindo sempre o mesmo texto de Stepan ber. propiciou a analogia entre raça e ciência. fan.. ao constatarem a discrepância entre os resultados ob. Emergem daí não se deu casualmente. Logo. das mulheres. porém. Então. 1994. p. poderes.] a pouco de atenção àqueles episódios dos “homens da lução científica”. pois souberam enlaçar. 86-89). a aludida riores e diferentes na hierarquia social. 75). as ideias vigentes fez surgir as ‘lentes’ através das quais as pessoas expe- cido pela sua crítica à importância da controvérsia sobre não eram entendidas como precoces. p. “naturalistas” da ciência da cultura. A princípio ocorre a total final do iluminismo estudos sobre a variação humana cendo que “na ciência [. precisamente nos meios acadêmicos – onde. enfim. étnico-raciais.]”. nos afigura ideias cômicas.] aspectos da realidade e da experiência humanas toriadores e filósofos da ciência se deslocado das re. frenologia. linguagem própria. preconceituosas. também. o qual estava. entre “raça e gênero”. estrategicamente utilizado para quão eram movidos por interesses escusos e afins. Para maiores detalhes consultar Stepan (1994) e Schwarz ideologicamente as noções raciais que predominam até são apenas às respectivas páginas em questão. a importância de (re)discutir e proble- (1995. a pretensa objetividade científi. As metáforas. 76) faz alusão perdido sua importância como sinais de inferioridade e/ou aceitação/apropriação da metáfora e da analogia Antes. tão diferente das objetos científicos: seres humanos. do termo utilizado por Lauretis (1994. saberes. porém. 1994. vam os machos de raças ‘superiores’”. p. em tragicidade para aqueles que foram discriminados inferiorização negra e a superiorização branca. demarcou pa- metáfora e analogia para o esclarecimento científico”: racistas e sexistas. ou não ‘observados’” (STEPAN. apesar de “o papel da metáfora e da ana. rimentaram e ‘viram’ as diferenças entre classes. baseados em Lombroso. p. evidencia alguns métodos científicos 220). raças Se a “analogia conduziu pesquisas”. “desde o às “origens culturais da metáfora científica”. E isso evidencia o que era problemático [nos] grupos (STEPAN. então. com o mero propó. a riqueza de in. 73) informa ainda quão fantasiosas. posto que mul- não são apenas auxílio psicológicos para a descober. do sé- 4. 76) bem como outros grupos sociais [. obviamente. a metáfora e a analogia utilizadas pelos foras. no século XX seguem as polêmicas Com base no tamanho do crânio (craniometria) XVIII. aqui.. No entanto. p. pois. nais ou genialidades humanas. das crianças e dos idosos. prossegue Stepan viante sexual. insanos eram. a as metáforas ou analogias particulares sejam aceitáveis car semelhança com a ficção. 87-88). também abordadas pelo estudioso logia na ciência [ser] agora reconhecido. entre o homem civilizado e o selvagem. o que era aprendido nos cursos 7. quando a mutação humana começou a ser es.. Stepan constata ainda que “O sistema metafórico p. tendo a atenção dos his. as diferentes formas de opressão/exploração tão caras “[. preconceituosas e distantes da reali. no século XVII. quanto à importância ou não das metáforas e analogias. E. as tendências crimi. Stepan (1994. em alguns mo. as quais “teriam var momentos cruciais da polêmica quanto à rejeição explicar a “variação humana dos séculos XIX e XX”. Tanto é que ao identificarem Mais recentemente.

2007. etnólogos. 280) delineia as nuances do através da ciência. mas entre parcelas significativas da comu. 281). p. se começa a dar mais visibilidade cos.]”. e ganha status de verdade. movimento feminista surgiu”. Darwin. p. É (2007) e de Stepan (1994). Conforme Frei Betto (2006. Platão e Aristóteles. de “privilégios econômicos mesmo ponto de vista de Nascimento (2002). Nos anos 80 (século XX) é que. cientifico. Eis o que a pesquisado- as virtudes europeias. nidade negra”. 23). Para Bairros (p. com vistas auto-percepção dificultando – e às vezes inviabilizan. 2007) entre outros (as) estudiosos da área. incontestavelmente se desenvolveram estratégias Nem mesmo a esposa escapa. escravos e cidadãos em São escravagista. históricos. área citados até então e. o Rio de Janeiro. na segunda metade dos anos 60. estruturado sio de Azevedo. visto serem os campos de batalhas mais com. Cuti (2010). autoria. tropólogos. por outro lado. Baiana e o português que se amanceba com ela: Gerôni. também. libertação de quê A aludida pesquisadora salienta que embora na. conforme percebem os estudiosos da “fenômenos atemporais. Logo. Seu percurso histórico é longo e. ideológicos. o que poderia existir de comum entre ideologicamente. 113). eis o que se segue. p. dias Nascimento (2002) denomina como “genocídio ção humana baseada em premissas biológicas. negras reflexões do segmento branco em detrimento dos demais: “An. A esse respei. fícios para a sociedade como um todo (TELES. que in- rias racistas em questão. assimilada e adaptada nômeno exclusivamente antimulher e o racismo é um a salvaguardar privilégios seculares por meio de ações do . e o florescer do feminismo no Ocidente. ideológicas” para demarcar a “superioridade dos cris.a construção de uma autoestima positiva. Stepan (1994.. Eles atravessam os milênios. sexista. reportando-se às teo. as filosofias e as ideologias Para Diwan (2007. Nesse viés de pensamento. através de Paulo no final do século XIX. de Alui. “Tanto nomes e propósitos distintos. economistas e filósofos atuaram como grandes corrobora o sentimento de superioridade em relação Poderia. p. 23). realimentada pela sociedade patriar- logos. psicó. em seu livro Raça pura: entre raça e gênero. seu livro intitulado: A invenção do ser negro: um percurso Como formas de consciência historicamente constru- e perenizar as estruturas de dominação sócio-raciais Gomes (1995. peito da propalada inferiorização da mulher e. nossa literatura. p. um ponto de partida para o alvorecer e indígenas” (DIWAN.. Aristóteles relacionou a mulher ao escravo. Dentro de uma visão mais Naturalista da realidade. p. permitin. afirmando ser Francis Galton “o pai da eugenia”. uma referência. p. marcada por profundas desigual- racismo como um “fenômeno histórico”. Trata-se. de disciplina objetivou implantar um método de sele. p. Oliveira os problemas sócio-raciais que afetavam as mulheres (2000). as civilizações. cavam desde a inferioridade dessa raça com relação à oficialmente. nesse aspec. 281) salienta que “O sexismo é um fe- que alicerçaram o racismo ideologicamente”. também.]” (MOORE. porém. a alguns dos “homens da ciência” é cas.. 69) constata branco. o alienista. percorreu o universo dos que “Sobre a raça negra. expandiu-se pelos países do Ocidente. transposições de pensamento externo9. experiências de um cientista obcecado em desvendar imersas em uma sociedade rígida e regida pelo patriar- as (re) ações humanas consideradas anômalas sob seu NEGRAS MULHERES: calismo. não só na literatura destinada ao adulto mas.. p. Nessa 18”. “Já na Gré. mas basicamente convergentes. Silva (1995). Esta estudiosa assevera e internacionalmente. nem ele. os discursos do Correio eram às desigualdades raciais no Brasil. propugnando Mesmo na Idade Média. com o advento da “Revolução Francesa”. conforme observamos renciado aspecto teórico-político-ideológico de onde o exercendo sua força ideológica não apenas na comuni. prender um imenso contingente em seu “laboratório”. muito embora só a o sexismo quanto o racismo compartilham a singulari- filósofos. e Um exemplo da obsessão fanática – para não dizer sofridas. elucidando conceitos tais quela não houvesse “descrições raciais nesses argumen. no dade racista. lá se vão as mulheres. da da história. mo. nestas.Vale pontuar que Diwan (2007. Elas se alimen. “Numa socie- e Carlos Moore. Isso. negras vozes fizeram ecoar as opressões surgiu “nos EUA. Então. dade de serem dinâmicas determinadas e construídas racial quando da distinção matrimonial. Spencer. Eis o que Ab. historiadores. a inferioridade dos muçulmanos domínio e às especulações científicas vigentes. Carlos sustentáculos conceituais daquelas arquiteturas teóricas às pessoas negras e. dades sociais. nem são meras quecimento social e ideológico. em busca da libertação. em que tudo era resultado fantasmagórica – de um personagem que corresponde. chega até nós. to. 37). brancas e negras. p. envidaram-se esforços para perseguir a religiosidade de produção. fim. 2003). cujo título é O espetáculo das raças (1993). que se degenera no meio social em que habi. Moore (2007. Logo. 69) reitera constatações de Moore das idéias que naturalizaram a inferioridade dos negros. historicamente e não ideologicamente”. sucumbe em todas antes. cia antiga. sob o aval Mas. 286). Bento (2000). complementa. Surge daí o feminismo afrocentrado. Esse é a tese defendida por Scwarcz em outro livro de sua to ver: Brookshaw (1983). Esse é o aos interesses dos diversos grupos hegemônicos no ex. 458). ídas e determinadas. Gerônimo. além deles. obvia. nacional racismo. mulheres de diferentes grupos [. no entanto. aproximações entre os pontos de vista de Diwan outros personagens da Literatura Brasileira expressam a mente. uma espécie déficit que terpretaram a opressão sexual com base em um dife- que “ainda estão presentes na atualidade e continuam tava. por análoga entre ambos. seu marco dá-se no “século Terra Santa e a inferioridade indígena para justificar obra literária O Alienista. lhe era inerente. gra destroem a retidão e o caráter exemplar do homem Quer dizer. Schwarcz (1987) em seu livro Retrato do negro brasileiro” antes. a eugenia “Com status tam e terminam por legitimar o racismo presente no e as atividades culturais do segmento. esta “questão recorrente não é Assim como Carlos Moore. tendo como base suas inferioridades ‘naturais’”. plexos ainda que os enfrentados pelas mulheres bran. partir dos anos 90 o governo federal tenha reconhecido. (2006.. pois expli. duas figuras são emblemáticas: Rita entanto. nas feminismo” e. Mas. a inferiorização da mulher é tomada totalmente resolvida pelos vários feminismos. fenômeno fundamentalmente antinegro” sendo ambos racistas. (2004). p. Embora não possamos traçar uma linha temporal a res. por exemplo. Munanga terior e no Brasil. Há. 2007. à luz dos ideários 10. 458). Logo. Santos (2002) em do que os “grupos hegemônicos” consigam “produzir tudiosos (as) da área. FEMINISMO AFROCENTRADO quais: “libertação” e “emancipação”. Em O Cortiço. etc. enredado com base no fator heredi. afinal e sociais que são negados à população-alvo”. dade branca. ao entender que as teorias Em termos de outros projetos políticos de embran. racista e sexista. No que concerne à comunidade branca. Eis a visão magistral de Machado de Assis face ao tomemos a demarcação temporal de Frei Betto como tãos e. levando em conta no exterior e segue aa mesma linha de pensamento de Cashmore 9. a libertação da mulher [. congênito. desde então. muitos outros10. p. “o berço a dominação do Mundo Novo podem ser constatadas obra temos a fina ironia machadiana ao perscrutar as do feminismo moderno”. mencionar mais exemplos da propa. que sempre se pretendeu neutra e em preto e branco: jornais. aqui. E isso tatou. Há. 10). 23). em uma leitura tos. no século XIX. cal. 77) assevera que. sobretudo quando este reconhece o influencia da (pseudo) ciência. ponto de vista. p. p. durante e após o período Carlos Moore (cit. Gomes (1995. (ibid. masculina. 1987. no Brasil. desfiando suas teias enredadas sob fios teóri- analítica”8. Antes. No entanto. de Hipólito Taine. os modos princípios de extermínio dos não brancos. universais e transversais”. lismo’” (SCHWARCZ.] e classes sociais?”. tende a ocasionar danos à lada superioridade branca X inferioridade negra impor. entre outros (as) es. Ele esclarece ainda que da vontade divina. como algo natural. pondera Bairros (1995. recriados em ência no transcorrer do tempo. leva a cidade ao caos ao internar/ TECENDO OS FIOS DE UM e de quem? Responde o autor. Evaristo (2007). 19-21) o feminismo a preservação da raça” (op cit. Essa associação. tendo em vista branca até suas características de ‘humildade e servi. tário e fenotípico dos segmentos étnico-raciais. é apropriada e justificada metaforicamente pela ci. o ra- em favor da sua prole [. Eis o que cons. para “estimu. remetendo-se aos “conceitos básicos de 8. a noção de superioridade do povo metaforicamente. lar o matrimônio dos casais ‘superiores’. tada principalmente da Europa. Aqui o poder sensual e bestialidade da mulher ne. o português. Esse é um exemplo da analogia ra evidencia. da intensificação da opressão social. cismo e o sexismo perpassam todas as culturas e todas do bojo desse contexto que surge a eugenia imersa em racistas “não surgem espontaneamente. a persistência do racismo e de seus male. na contramão muitas mulheres já se rebelavam contra a hegemonia cristão sobre os muçulmanos em relação à posse da muito bem ilustrado através de Simão Bacamarte. conceitos e aponta as suas limitações.. tomando como referência o século XVII. Assim. de Machado de Assis. 110 111 . 2007. portanto. o aborda não só no Brasil como produções destinadas às crianças e adolescentes. imaginário social e na prática brasileira”. p. Sem entrar em tais meandros. com base em Judith Grant. as religiões. abandona a família e. (MOORE. sociólogos. aborda tais uma história da eugenia no Brasil. que buscaram a pureza diversos. atemporais e englobantes.

com uma definição racial: brancos. DER. pois. homens ou mulheres [. pelas mulheres brancas. são constantes em nosso imaginário. é óbvio. através da “história oficial brasileira”. nesse sentido. seguido da mulher negra. como o racismo. Vale sexo biológico como a construção social de gênero. p. das camadas dominantes. estigmatizados de mulheres vítimas de outras formas filhos. Daí a perti. cujo núcleo mulheres e estudamos. reconhecimento da diversidade e desigualdade existen- a essa questão faz-se necessário trazer à baila as duas tadas como antimusas da sociedade brasileira. e a prole. “as vozes silenciadas e os corpos é constituído de um provedor. ainda nos dias atuais. Afinal. tem sua base de sustentação na família sas definições sexuais e raciais”.] versões do pensamento feminista quais não correspondem à realidade. de outro exige o estudiosa se refere. a diferença em nossas trajetórias. Salienta. 205) ilustra isso um poder definido como intrinsecamente masculino”. p. o patriarcado refluiu no visão de mulher universalizada. especificamente? Para responder nos situava mais próximas do modelo da masculinidade. tais mulheres “não pensamento. e como todo movimento de contestação. de Bairros (1995. 188). que o “movimento de mulheres nos levou ao repercutem nacional e internacionalmente. 187) parte da [. promove a afirmação das mulheres que a mulher definir como tal”. (1993.. “tendo históricos. p. tempos. enfatiza Bairros. exercendo uma mulheres lidam com a opressão social do universo pa. 119) destaca a im. o modelo de lheres (brancas/negras) que Sueli aborda. p. sendo o último plano relegado ao gente de mulheres” negras que precisaram “ganhar as bém. “as diferenças de sexo” eram “percebidas inicialmente Moore (2007).. Logo. que são retra. composta por pai. Fica. se.. Daí concluir-se que a “que tinham dificuldades de encontrar seu um lugar. pois Seguindo a direção do pensamento de Carlos sistema escravagista. 2006. a alusão à heterogeneidade dos movi- Entretanto. Piza (1998. haja vista as so feminino.] cidadania de segunda ordem (1993. tuteiras. é atribuída ao homem branco. ainda. as negras mulheres. já que à mulher se atribui opressão social oriundas do patriarcalismo e do racismo. à disparidade salarial... sem que. portanto. entende-se que opressão é a “situação doméstico. qui.. no texto em questão. ou duz no feminismo é resultado de um processo dialético Assim sendo. Para Luiza Bairros. cujas vozes lheres” dificultando. ser mulher e negra fez e faz dera. 188). mulheres negras.. abordadas até então. lismo e do racismo preponderante.. p. p. negras. o reconhecimento 461) parte da premissa de que a maternidade é a “expe. pergunta. que que explicitamente tentam definir a mulher com base periências e vivências de grande parte das mulheres ne. interferindo no justificou historicamente a proteção paternalista dos O que nos importa aqui. “a opressão sexista de opressão.] Ou greco-romanos. ruas e trabalhar”. prisio- em experiências tidas como universais”. igno- versões não deram “conta das questões” que afligiam as que só até o século XX? Penso que não. Outras acepções de feminismo são apontadas por nuclear.. a mulher nência de sua observação. um marco histórico de insurgência das vozes que o sis- mulher”. 118) entende. enfim. p.]”. e aquelas cujos traços diacríticos des- das mulheres de classes populares). Outra adver- outros tipos de preconceitos sofridos pelas mulheres lheres viviam “imersas num sistema cujo paradigma de premissa de que a “identidade” resulta “de um proces. a despeito da identidade biológica”. p. culturais. Sueli Carneiro (2003.. portanto. O segundo versão concebe “a sexualidade [. na luta pela descri. E o rompimento com esses modelos As mulheres negras fazem parte de um contingente de em geral como novos sujeitos políticos. tece considerações sido um regime de influência política na Antiguidade. “frequentemente utiliza os mesmos estereótipos Feminista Brasileiro e o “do mundo” pois. como forma de lidar com os papéis de gênero”. em sua trajetória. os o modelo estético é de mulher branca [. aqui. 459) chama a atenção para a ne. Sueli Carneiro (1993. Sueli Carneiro chama criados pela opressão patriarcal – passiva. instigações. negros. tam. pois. p. de classe abastada” nição biológica. assim como outras escritoras... Eis a grande contribuição de Evaristo e outras ber: “radical. se constituíram na recusa de todos os estereótipos tra. os Somos seres plenos de potencialidade. ou seja. digamos. 2006). sidade apontada por Sueli Carneiro diz respeito ao ideal negras e ressalta as “o protagonismo que tiveram nas normalidade e de autoridade social e política” centrava. fragilidade. Somos mulheres e trabalhamos.. Bairros (1995).. gras.] através dessas “[. acepções de feminismo aludidas por Bairros. interessa elucidar: a qual homens sobre as mulheres. 460..118). é construída a partir “des.] Somos demarca as singularidades entre ambos.. [. a sa. emocional. p. prossegue em suas dos feminismos que se insurgem no âmbito das mu.] deveriam ganhar as ruas e trabalhar”. Nessa mesma linha de ram da denúncia e da reflexão sobre o patriarcado”. assegura Bairros (1995. 67) salienta que “Os branca é a referência. mulheres de baixa renda”. Diante disso. Nossa toam de tal padrão. so histórico-cultural”. A diversificação das concepções e práticas políticas que no entanto fiquem evidentes os motivos de sua ocor. “nascemos com uma defi. “identidade social [é] construída a partir de elementos inclusive dentro do feminismo” (ARAÚJO e SCHNEI- Luiza Bairros (1995. vistas de maneira naturalizada e. triarcal. contra o confinamento da mulher ao espaço gadas domésticas de mulheres liberais e dondocas. No que se refere à invisibilidade das mulheres ficar todas as mulheres”. que. pois. inegavelmente. Sueli Carneiro remete-se à opressão social e econô. para sobreviver. dicionais existentes sobre a mulher: contra o mito de zinhas e de senhores de engenho tarados. jeto sexual do homem. a qual mulher a dutor da espécie. Sueli Carneiro (1993. pois. Luiza entenderam nada quando as feministas disseram que portância do feminismo no combate ao sexismo entre como diferenças biológicas e sociais [. lheres brancas. mulheres que não entenderam a atenção. p. mulheres que não são rainhas de nada. 188). das “diferenças e desigualdades presentes no univer- riência central na identidade das mulheres”. por grande parte da mulheres negras. a reinvenção da categoria mulher”. p. por creche (uma necessidade precípua -se na figura do “homem branco. isso durante e após o um sistema socialmente racista. tais início do século XX”. Ou seja. são vistas como “antimusas”. A aludida filósofa não desconsidera a importância “[. 67) “o patriarcado ocidental. seguindo a linha do. Mas. Afinal. têm que de opressão além do sexismo.] o feminismo esteve [. pois. radas (os). derar. mentos feministas. Conceição Evaristo (2005. neiro da visão eurocêntrica e universalizante das mu- A primeira versão. que. o esposo. Ontem a serviço de frágeis sinha. regime social. A primeira ordem. Conceição Evaristo. São as disparidades entre os dois universos de mu.189) segue ainda mais pungente: desvenda e dissipa tantas escritoras e escritores desconhecidas (os). prostitutas etc.. também pelos servos e escravos”. distintas frentes de batalhas que os distancia. identidade de objeto. liberal e socialista”. e exercido até o século XIX. homem negro. Mas. Sueli Carneiro (1993. fazemos parte de um contingente salientar. etc”. reportando-se às 112 113 . o qual “traz implícito tanto a dimensão do no sistema patriarcal? Essa questão é respondida com tema patriarcal racista e sexista tentou silenciar. Se estas consequência disso. rejeitadas (os). p. fazendo um paralelo entre o Movimento de mulheres que trabalharam durante séculos como es. negras reflexões As mulheres negras. Em como a “dona do lar”. concebidas resgate desta dimensão feminina irrecusável. como identidade social. buscar forças para lidar com as mais variadas formas de e na invisibilidade”. de que mulheres estamos Araújo e Schneider. porque tes entre essas mesmas mulheres (2003. Hoje empre. olhar sobre a alteridade. 458-459) que. afinal. a ótica das mulheres dos grupos subalternizados intro- rência em diferentes contextos históricos e culturais”. haja vista a persistência do patriarca. p. assim alguns mitos (re)criados no seio social patriarcal pois. sob os moldes lutas pela anistia. faz (em) ecoar vozes silenciadas de pensamento de Sueli Carneiro. fazendo uma importante ressalva ao consi. Mas. de sapiência e força e. às ex. como a experiência capaz de uni. bastante propriedade e veemência por Sueli Carneiro Nós. minalização do aborto que penaliza. No entanto. branca. Ao desenredar os fios da trama que encobriram a e/ou invisibilizadas em nossa literatura ao longo dos sobre as “versões mais conhecidas do feminismo. hoje os sistemas racistas e patriarcais “Quando falamos do mito da fragilidade feminina que critica literária brasileira. religiosos e psicológicos”. contra a limitação da mulher a mero repro.. dedicada à família. eram (e são) Na mesma linha de pensamento das estudiosas humanidade. no passa. mãe e filhos e. mica. cravas nas lavouras ou nas ruas como vendedoras. quando se refere ao “contin- oprimidas não só pela sociedade patriarcal como. 126). Conceição Evaristo (2005. é a demarcação dos anos 70 como cessidade de nos atentarmos ao “uso do conceito de mulher costuma-se referir quando se pensa a opressão falando?”. Sueli Carneiro (2003. É o caso da mulher “vitima de uma cidadania “de segunda ordem”.] por longo tempo. o que se entende por “patriarcalismo”? Con. continuaram no silêncio como forma de poder que transforma a mulher em ob. mulatas tipo exportação. desse modo. por estarem imersas em primeiros estudos do feminismo sobre gênero nasce. para a necessidade de “reco- etc. as forme Piza (1998. de um lado. Fazemos parte de um contingente de mulheres com é entendida como um fenômeno universal. após ele. as mu. uma instigação: será p. pon. de mulher universal: a musa. é Questionando e desconstruindo tais mitos. de Os primeiros passos do Movimento Feminista no Brasil nada quando as feministas disseram que as mulheres nhecimento da diversidade e desigualdade existentes” modo que as diferenças entre mulheres e homens são e no mundo expressaram a intensa revolta [ao] processo deveriam ganhar as ruas e trabalhar! entre ambos os movimentos.

negras reflexões

pesquisadoras da área, a exemplo de Sueli Carneiro, o que fizeram nossos antepassados, às vezes pagando branquitude e branqueamento no Brasil. Petrópolis/ MUNANGA, Kabenguele. Rediscutindo a mestiçagem
Lélia Gonzalez, Helena Teodoro, Luiza Bairros, entre um preço muito alto: a própria vida. Eis a batalha que RJ: Vozes, 2002. no Brasil: identidade nacional versus identidade
outras, tomando como referência, também, a produ- prosseguimos na atualidade, mesmo não contando com BROOKSHAW, David. Raça & cor na literatura brasi- negra. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.
ção brasileira. A escritora alude ainda ao “fazer lite- os poderosos aparatos tecnológicos aludidos por Laure- leira. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1983. MUNANGA, Kabenguele. Apresentação. In: Superando
rário das mulheres negras” e observa que “os textos tis (1994, p.220): as tecnologias sociais, e de gênero, as CARNEIRO, Sueli. Identidade Feminina. In: Cadernos o racismo na escola. Brasília: MEC/SECAD, 2005,
femininos negros, para além de um sentido estético, quais correspondem aos meios, recursos - quer dizer, Geledés, n. 4, 1993, pp. 187-193. p.15-20.
buscam semantizar um outro movimento, àquele que técnicas audiovisuais, midiáticas, científicas, discursi- CARNEIRO, Sueli. Mulheres em movimento. In: Estu- NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasilei-
abriga todas as suas lutas”. São destacadas, portanto, vas, educacionais, entre outras - (re)criados pelos gru- dos Avançados, n. 17 (49), 2003 ro. Salvador: Ceao/UFBA, 2002.
as seguintes escritoras: “Geni Guimarães, Esmeral- pos hegemônicos. CASHMORE, Ellis. Dicionário de relações étnico-ra- OLIVEIRA, Maria Anória de J. Relações Étnico-Raciais
da Ribeiro, Miriam Alves, Lia Vieira, Celinha, Roseli Se a metáfora diz respeito à substituição de um ciais. São Paulo: Summus/Selo Negro, 2000. na Educação e a Literatura Infanto-Juvenil: nas ve-
Nascimento, Ana Cruz, Mãe Beata de Iemanjá, dentre termo, palavra ou ideia de uma coisa por outra, cuja CUTI. A consciência do impacto nas obras de Cruz e redas da Lei Federal 10.639/03 (?!). In: LINS, Jua-
outras”. Acrescentaria nessa relação a própria escritora, conotação é análoga, correspondente à analogia, por Souza e Lima Barreto. Belo Horizonte: Autentica, rez Nogueira e outros (Org.). Linguagem e Discus-
Conceição Evaristo, cuja produção vem se consolidan- outro lado, abrange não só a similitude como, também, 2009. sões Culturais. João Pessoa: Ed. dos Organizadores,
do “no campo literário”, como bem ressaltam Araújo e estabelece pontos de semelhanças entre coisas diferen- DIWAN, Pietra. Raça pura: uma história da eugenia 2006, pp.245-261.
Schneider (2005, p.126). Isso, sem falar na produção tes. Logo, tanto a analogia quanto a metáfora lançam no Brasil e no mundo. São Paulo: Contexto, 2007. OLIVEIRA, Maria Anória de J. Discurso Histórico e
acadêmica da pesquisadora/escritora/professora. luzes para elucidar determinadas semelhanças entre EVARISTO, Conceição. Dos sorrisos, dos silêncios e Narrativa Literária: entrelaces na tessitura da Rai-
Se as relações étnico-raciais, a exemplo da relação diferenças (raciais e de gênero) (re/des)construídas das falas. In: SCHNEIDER, Liane e MACHADO, nha Africana Nzinga Mbandi. In: FLORES, Elio
entre negros e brancos, têm sido desiguais historica- historicamente. Charliton (Org). Mulheres no Brasil: resistência, lu- Chaves e SUCUMA, Arnaldo (Org.). Tricontinen-
mente, já que marcadas pelo racismo e pelo sexismo, A analogia e a metáfora foram, portanto, mais um tas e conquistas. João Pessoa: Editora Universitária/ tal Revista de Arte, Cultura e Ciência. João Pessoa:
também a relação entre homens e mulheres resulta das desses poderosos recursos discursivos, como vimos ini- UEPB, 2006, pp.111-122. Convênio de Graduação e de Pós Graduação, Ano
implicações de vivermos em uma sociedade patriarcal, cialmente. Hoje lidamos com muitos outros: audiovisu- EVARISTO, Conceição. Literatura negra. Rio de Janei- I, v. 1, n.1, Ed. Universitária/UFPB, 2008, pp.123-
sendo as mulheres subjugadas, desvalorizadas em seu ais, midiáticos, educacionais, etc. Mas, não nos damos ro: CEAP, 2007. 140.
saber/poder, assim como as pessoas negras. É possível por vencidos (as) e aqui estamos construindo outras FLORES, Elio Chaves e CAVALCANTE, Fátima Solan- PIZA, Edith. Caminhos das águas: estereótipos de per-
inferir, portanto, que ambos os gêneros: feminino e metáforas e analogias, prescindindo de qualquer desejo ge. Raça, gênero, classe e região: uma introdução sonagens negras por escritoras brancas. São Paulo:
masculino se aproximam analogicamente, por estarem de inverter os centros: do eurocentrismo/eugenismo, à crítica da democracia minimalista. In: SCH- EDUSP / Com Arte, 1998.
à margem da sociedade. pelo afrocentrismo/negro, mas, sim, nos interessa sal- NEIDER, Liane e MACHADO, Charliton (Org). SANTOS, Gislene Aparecida dos. A invenção do ser
Agora, se levarmos em conta as condições básicas vaguardar o respeito e o direito às diferenças e fazer Mulheres no Brasil: resistência, lutas e conquistas. negro: um percurso das ideias que naturalizaram a
de vida de ambos os segmentos étnico-raciais, conside- ecoar outras vozes que tentaram silenciar, embora con- João Pessoa: Editora Universitária/UEPB, 2006, pp. inferioridade dos negros. São Paulo: EDUC/Pallas:
rando os índices de desigualdade entre mulheres bran- tinuem a ressoar em nós. 135-145. 2002.
cas e negras, em termos profissional, sócio-econômico, GOMES, Nilma Lino. Alguns termos e conceitos pre- SCHWARCZ L. Moritz; REIS, L.V de Souza (Org.).
educacional e de saúde, observaremos quão díspares sentes no debate sobre relações raciais no Brasil: Negras imagens: ensaios sobre cultura e escravidão
são as oportunidades destas últimas, se comparadas uma breve discussão. In: Educação anti-racista: no Brasil. São Paulo: EDUSP / Estação Ciências,
àquelas11, o que resultou da aliança entre pensamen-
REFERÊNCIAS caminhos abertos pela lei federal no. 10.639/03. Se- 1996. p. 179-193.
tos racistas e sexistas, enfrentados pelos movimentos cretaria de Educação Continuada, Alfabetização SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças:
feministas afrocentrados, cujas lutas passadas ainda se ARAÚJO, Flávia Santos de e SCHNEIDER, Liane. A es- e Diversidade/SECAD-MEC, Brasília, 2005 (pp- cientistas, instituições e questão racial no Brasil.
fazem presentes. crita de Conceição Evaristo e a mulher negra como 39-62). São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
protagonista em ‘Ana Davenga”. In: SCHNEIDER, LAURETIS, Teresa de. Tecnologia do gênero. In: SCHWARCZ, Lilia Moritz. Retrato em preto e branco:
Liane e MACHADO, Charliton (Org). Mulheres no HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Tendências e jornais escravos e cidadãos em São Paulo no final
Brasil: resistência, lutas e conquistas. João Pessoa: impasses: o feminismo como crítico da cultura. Rio do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras,
CONSIDERAÇÕES (IN) Editora Universitária/UEPB, 2006, pp.123-134. de Janeiro: Rocco, 1994, pp-206-238. 1987.
CONCLUSIVAS BAIRROS, Luiza. Nossos feminismos revisitados. In: MAPA DA POPULAÇÃO NEGRA NO MERCADO SILVA, Ana Célia. A discriminação do negro no livro
Estudos Feministas. Rio de Janeiro, PPCIS/IFCS/ DE TRABALHO. São Paulo: INSPIR – Instituto didático. Salvador: CEAO/CED, 1995.
Diante das diferenças históricas entre a trajetória das UERJ, n. 2, pp-458-463. Sindical Interamericano pela Igualdade Racial, STEPAN, Nancy. Raça e gênero: o papel da analogia
mulheres negras e brancas, Sueli Carneiro (2003, p. BETO, Frei. Marcas de batom: como o movimento fe- outubro, 1999. da ciência. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de.
192) sugere o “enegrecimento do feminismo”, o qual minista evoluiu no Brasil e no mundo. In: SCH- MOORE, Carlos. Racismo e sociedade: novas bases Tendências e impasses: o feminismo como crítico da
implica em considerar a “trajetória das mulheres ne- NEIDER, Liane e MACHADO, Charliton (Org). epistemológicas para entender o racismo. Belo Ho- cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994, pp.73-93.
gras no interior do movimento feminista brasileiro”. Eis Mulheres no Brasil: resistência, lutas e conquistas. rizonte/MG, 2007. TELLES, Edward. Racismo à brasileira: uma nova pers-
João Pessoa: Editora Universitária/UEPB, 2006 MUNANGA, Kabenguele. Para entender o negro no pectiva sociológica. Rio de Janeiro: Relume Duma-
(pp. 19-26). Brasil de hoje. São Paulo: Global / Ação Educativa rá: Fundação Ford, 2003.
11. Consultar o Mapa da População Negra no Mercado de Trbalho BENTO, Maria Aparecida da Silva & CARONE, Iray Assessoria, Pesquisa e informação, 2004 (Livro de
(veja-se nas referências). (Org.). Psicologia social do racismo: estudos sobre Professores).

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negras reflexões

A Redenção
do olhar:
uma abordagem RESUMO abstract
semiótica O presente artigo lida com algumas questões sobre representação
visual da população negra no contexto brasileiro. Para tanto, o au-
This article deals with some questions about visual representation
of the black population in the Brazilian context. For make it works,
tor se utiliza da semiótica formulada por Algirdas Julien Greimas the author uses the semiotic purposed by Algirdas Julien Greimas as
tentando estabelecer correlações entre duas imagens que nos aju- support trying to set up relationship between two images that help
dam a revelar a dimensão histórica do conteúdo racial no âmago us to reveal the historic dimension of racial content in the core of
Nelson de nossa cultura visual. Uma das referências é a pintura intitulada our visual culture. One of the references for this study is the painting
Inocencio “A redenção de Cã” datada da segunda metade do século XIX, e a named “The Can Redemption” from the second half of XIX century,
outra é a cédula de quinhentos cruzeiros que entrou em circulação while the other reference is the five hundred cruzeiros bank note that
Docente do Departamento de Artes Visuais na segunda metade do século XX durante a ditadura militar. O was delivered in the second half of XX century during the military
da Universidade de Brasília (UnB). Coorde- intuito é o de explicar como o ideal de branqueamento ainda é dictatorship. The aim is to explain how the whiteness ideal is still a
nador do Núcleo de Estudos Afro-Brasilei- um modelo seguido, apesar da visão paradisíaca concernente à pattern to be followed, despite the paradise view in which concerns
ros da mesma universidade. Foi membro celebração da diversidade no Brasil. the diversity celebration in Brazil.
da direção nacional da Associação Brasi-
leira de Pesquisadores Negros (Conselho
Nacional de Educação). Doutorando do Palavras chave: Branqueamento, cultura visual, negros, racismo, Keywords: blacks, racism, semiotic, visual culture, whiteness.
PPG-Artes da UnB, com pesquisa acerca semiótica.
do Museu Afro-Brasil em São Paulo.

A IMAGEM IDEAL tação. A conjunção almejada se refere ao processo de Em termos de formantes pictóricos, a obra, obje-
mestiçagem. Neste caso o embranquecimento cumpre to de nosso estudo, apresenta três elementos que estão
COMO PROBLEMA o papel de uma sanção, ou seja, a performance desta vinculados à análise proposta pela teoria greimasiana,
família rural do Brasil agrário do século XIX resultou ou seja, a dimensão cromática proporcionada pelo uso
no nascimento daquela criança especifica, que naquele das cores e suas combinações, a dimensão eidética as-
Esta breve reflexão é um esforço de análise do quadro momento se constitui em objeto modal que conecta sociada à estrutura do quadro e como resultante da
intitulado A Redenção de Cã de autoria de Modesto seus familiares às aspirações de um distanciamento da articulação entre as duas primeiras temos a dimensão
Brocos Y Gomes, datado de fins do século XIX, 1895 imagem negativa atribuída aos africanos e seus des- topológica da pintura.
para ser mais específico. Trata-se de uma pintura, obra cendentes. Transferindo para o quadrado semiótico a A manipulação proposta pelo enunciador, no caso
figurativa cujas dimensões são 199x166cm. O referido situação exposta na pintura analisada, diríamos que em o autor da obra, busca um fazer crer no enunciatário
trabalho pertence ao acervo do Museu Nacional de Be- termos de contrariedades encontramos a relação negro que por sua vez deverá estabelecer algumas relações en-
las Artes, Rio de Janeiro, e tem suscitado ao longo de sua x branco e, em termos de contraditoriedades, uma ou- tre a imagem presente e outras que por ventura estejam
existência uma série de debates e reflexões. tra constituída por não negro x não branco. A tensão arquivadas em seu arquivo mnemônico. Assim, algu-
Nosso empenho aqui é o de tentar pensar este qua- está estabelecida na relação negro x não negro que, de mas associações são possíveis, entendendo que o reper-
dro à luz da semiótica greimasiana ou, melhor dizendo, acordo com a configuração do quadrado, seria o segre- tório, ou em outros termos, a cultura visual do enun-
do que sabemos dela. Seguindo o pensamento de Al- do. A criança parece ser branca embora a ascendência ciatário, se caracteriza como um elemento fundamental
girdas Julien Greimas, para quem a unidade de senti- negra coloque sob suspeita sua aparência. A estratégia que possa permitir a construção dessas associações as
do é fruto das relações entre actantes, nos dispomos a está exatamente em não revelar essa condição particu- quais também denominamos de intertextualidades.
analisar a Redenção de Cã levando em consideração o lar comprometedora. Existem marcas constantes em ambas imagens que
plano da expressão tanto quanto o do conteúdo. Neste Retomando um pouco alguns aspectos da pintura nos impelem a fazer exercícios na procura dessas in-
caso, ao falarmos de expressão, identificamos tratar-se e com o intuito de ir além de uma interpretação que se tertextualidades. Relacionando a pintura em discussão
de um quadro a óleo sobre tela, realizado à maneira restrinja ao plano da superfície podemos nos apoiar com outras produções imagéticas anteriores ou pos-
acadêmica conforme os cânones da pintura neoclássica. nos argumentos de Vicente Martinez quando desen- teriores, algumas aproximações parecem inevitáveis.
As dimensões da obra são amplas, o que corresponde volvendo análises semióticas acerca da pintura enfatiza: Quando fixamos o olhar na tela e sabemos então se
a um modo peculiar de figurativização da época. No tratar de uma abordagem alusiva à miscigenação, acio-
que concerne ao conteúdo, nos deparamos com uma A pintura se caracteriza por ser uma manifestação onde namos o nosso arquivo. No intuito de fazermos um
situação doméstica em que as personagens comparti- nosso olhar é estimulado pela cor, pelo traço, pela li- breve exercício, buscando outras referências visuais, po-
lham um momento de euforia, na medida em que as nha, pela textura, pela matéria, pela forma, etc. e pelas demos destacar imagens bem mais recentes como as da
posturas dos adultos em relação à criança, induzem a relações estruturais que sustentam estes elementos. cédula de 500 cruzeiros aprovada pelo Banco Central e
uma manipulação do olhar expectador, no plano da ten- (Martinez, 1999, pg. 297.) que entrou em circulação nos anos 70, em pleno regime

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negras reflexões

autoritário. Conforme o discurso oficial, esta cédula Há na pintura redundância, repetição e reiteração so. O outro texto com o qual pretendemos fazer uma
trata da evolução étnica brasileira, e foi escolhida para suficientes para que possamos identificar nela a exis- interface é uma cédula de 500 cruzeiros que entrou em
a celebração do sesquicentenário da independência. O tência de isotopia, cujos conectores se encontram na circulação no inicio da década de 70 do século passado,
conteúdo da mensagem impressa na cédula está em própria cena, como as características físicas das pessoas durante a ditadura militar. A referida imagem exibe de
consonância com o exposto na tela de Brocos y Go- envolvidas e suas gestualidades, por exemplo. Podemos um lado os diferentes estágios do Brasil desde o “desco-
mes. O foco é a miscigenação não apenas como uma corroborar tal afirmação observando as mulheres em brimento”, passando pelo comércio, colonização, inde-
performance, mas como um querer, um poder e um cena, cujas posturas são tais como as que aludem a uma pendência, integração. A sequência sugere um processo
saber fazer que têm como sanção a constituição de uma graça alcançada. O enunciatário, todavia, necessita ser de desenvolvimento que vem se consolidando ao longo
imagem que nos leve a crer que parecer ser branco, embasado para compreender o discurso apresentado, de mais de quatro séculos.
europeu e ocidental nos garante algumas vantagens. ou seja, para sair de uma condição de não saber para É uma espécie de exercício cartográfico enalte-
A ideia principal é a de que investir no processo de uma condição de saber. Não se trata de uma relação cendo a grandeza do país na perspectiva do discurso
embranquecimento gradual nos dará acesso a algumas imediata de causa e feito, mas o enunciatário precisa oficial. Na outra face, a cédula exibe, analogamente aos
benesses. No caso especifico de A redenção de Cã o procurar entender o porque da execução de uma obra mapas, imagens de brasileiros, todos do sexo masculi-
processo de mestiçagem livraria das trevas muitos in- com esta temática específica naquele dado momento. no. O desenho começa por um indivíduo indígena, pas-
divíduos aos quais seria atribuída uma espécie de fardo Em outras palavras a sua interpretação está condicio- sa por um indivíduo branco, por um indivíduo negro e
celestial. Isto porque, considerando uma versão bíblica, nada pelo instrumental de que ele dispõe para fazer a partir daí as relações inter-étnicas e inter-raciais dão
o Criador teria marcado os herdeiros de Cã, gente cuja suas ancoragens e a partir desse momento desem- a tônica do processo de formação da população brasi-
identificação estaria associada ao fato de portarem pele penhar o seu papel como actante, expressando o seu leira. Até então, nenhuma novidade, apesar da terrível
escura. Daí o título da obra. entendimento tanto no plano da expressão quanto do omissão acerca do desencadeamento desse contato en-
conteúdo. A referida pintura suscita polêmicas sobre tre povos distintos, o qual teve como uma das referên-
as ideias acerca de “raça” em função de sua aborda- cias insofismáveis a violência sexual contra mulheres OS SUJEITOS
gem. Por outro lado, no contexto da cultura brasileira, ameríndias e africanas. De acordo com aquele discurso
seu teor explicita questões abertas desde a colonização, imagético, as faces vão clareando até que chegamos a
como um constante mal estar causado pela presença uma noção do que seria o brasileiro da atualidade, que Conforme as leis da semiótica, sujeito não é pessoa, ob-
africana na cena nacional. possui a aparência de pessoa europeia, dentro dos pa- jeto não é coisa. Partindo desse entendimento e compa-
Ana Claudia de Oliveira, no livro em que orga- drões tradicionais hegemônicos. rando a duas imagens ora relacionadas, percebe-se que
niza, intitulado Semiótica Plástica, argumenta que o Esta cédula circulou por uma década ou mais e o há um sujeito que se constitui na ideia a ser seguida.
interesse pelas imagens, pela visualidade, possui uma seu conteúdo sempre foi problemático, por vários as- Talvez pudéssemos atribuir ao discurso da mestiçagem,
abrangência que extrapola o campo das artes plásticas pectos. Como já mencionamos antes, a presença mas- como fenômeno que se persegue obstinadamente na
e da comunicação visual. Isso significa que toda cons- culina parece absoluta e nesse aspecto ela difere da tela cultura brasileira, esse papel que corresponde ao de
trução imagética passou a ser objeto de interesse nos de Brocos. Por outro lado, naquela pintura do século manipulador de nossas vontades, transformando-as
mais diversos domínios. A partir desse argumento e XIX, a sanção, ou seja, a redenção, só é possível graças em um querer fazer, um dever fazer, um poder fazer.
acreditando que para a semiótica a relação entre siste- à figura paterna, condição que devolve ao homem seu Mas principalmente nos fazer crer que é possível ser
mas distintos pode se realizar desde que esta aproxima- papel quando não absoluto, determinante para a vida feito, por que esta é uma conduta a ser seguida. Esse
ção viabilize interpretações palpáveis, nos lançamos ao das mulheres. Na obra dos oitocentos a figura mascu- discurso é produzido em alguma instância por alguém.
desafio de buscar correspondências que nos auxiliem lina seria um objeto modal, ela é necessária para que o Esse alguém, que poderíamos identificar também como
nesse processo e que não estão necessariamente no clareamento da pele ocorra. Precisamos dela na busca o segmento composto pela hegemonia eurocêntrica,
campo da pintura. obstinada por uma aparência que omita a africanidade. acredita no embranquecimento como uma sanção a
No esforço de tentar interpretar a obra em ques- Já na cédula de 500 cruzeiros a última figura masculina ser alcançada.
tão, explorando ao máximo seus elementos pictóricos, da esquerda para a direita seria o objeto de valor. Seu Um outro sujeito seria a parcela da população que
procuramos estabelecer ao menos uma ancoragem que papel é análogo ao da criança sentada no colo da mãe. ainda não alcançou o ideal a ser seguido. Este segmento
pudesse auxiliar no percurso gerativo de sentido, recor- É no plano do conteúdo que vamos encontrar o que as é constituído por pessoas que não foram “redimidas”
O resultado da performance está explícito na pin- remos às imagens arquivadas em nossos repertórios. duas imagens têm em comum. De uma forma ou de pelo processo de miscigenação. Elas são manipula-
tura que apresenta três gerações de uma mesma família, Dessa forma, a associação da imagem em questão com outra, ambas preconizam que o processo de embran- das no sentido de que suas ações convirjam para as
sendo que as duas primeiras assumem as competências uma outra, não menos polêmica, se tornou inevitável. quecimento é uma meta a ser alcançada. As estruturas, ações propostas. Porém tais pessoas não possuem a
para tornar possível um desejo. Nesse sentido, como já Mas o outro referencial, que por algumas razões se co- as maneiras como estão concebidas as disposições das competência absoluta para realizar o que esta sendo
mencionado, elas querem fazer, elas podem e sabem necta à obra de Modesto Brocos, permite a vincula- personagens, a manipulação do olhar que é impelido a proposto. É necessário que as pessoas brancas sejam
como fazer. A estrutura da obra, por exemplo, dialoga ção mesmo sem se tratar de uma pintura, sem ter sido percorrer caminhos que nos levem ao ideal em termos também manipuladas para que esta performance se
com representações clássicas da literatura brasileira que produzido no século XIX, sem corresponder a valores de uma aparência aceitável, tudo converge e conspira realize. Os temas da tela e da cédula parecem ter uma
destacou a mestiçagem como valor nacional. canônicos de um período da historia da arte. Nada dis- no intuito de persuadir-nos neste sentido. força tamanha a ponto de se caracterizarem como

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símbolo que con. argumento. é interessante ethos brasileiro que aqui e ali ressurge quando falamos gético. sante permeia as noções apresentadas. pelo menos está vinculada denominar plástica a semiótica que se ocupa da descri. ção disjunção/conjunção. na medida Interessante notar ainda alguns aspectos da rela- ser amenizada. Uma ob. ou não ser evocadas. se deu a partir de um exercício de memória. Não é difícil de compreender a nefasta ambas imagens. tório da cultura visual explorado constava este objeto. negras reflexões uma configuração discursiva. preferência nacional.) à primeira vista. Não parece algo muito distinto do que “No entanto. que aqui procuramos relacionar à cé. as pessoas de diferentes gerações estudo do plano da expressão das manifestações visu. não das herdeiras de repertório imagético do público. por seu turno. tanto que a referida pintura já INTERTEXTUALIDADES uma sociedade ávida por compartilhar valores defini. paradoxalmente. a visual. histórico-geográficas – Descobrimento. ção de nossos argumentos. Retornando ao esforço de estabelecer uma ancoragem aparência que se encaixe dentro dos padrões ocidentais ticos de arte divergem em suas argumentações. sua interpretação não é nada fácil. artística. que também são complexas no texto visual. a antropologia e os estudos culturais. bem humorada do país. zadora da Sagrada Família” (Morais. um objeto de uso diário que circula pelas mãos seu sistema. Mas por que razão primeira vista). seqüência de cartas ser alcançado. mas marcas textuais semelhantes àquelas encontradas dade de que. sine qua non para que a ancoragem se dê é exatamente suas tradições. quer as do mundo natural. Contudo. A ideia de nação gem natural ou pintada. sofrendo um deslocamento que propõe ela quadro foi pintado seria nulo. Sem ele nada teria sido de tomar como um dos pressupostos a bagagem ou o Sua tendência é a de estar em conjunção com o trabalho possível. ou seja. Este rias transformações narrativas. Comércio. quer as midiáticas. e entendendo. reduzida. ao lermos do artista e de compartilhar um momento eufórico. A O que entendemos é que tanto a tela quanto a cé. a presença de brancos. explorado por mente crítica no que concerne aos usos e abusos dessa ção). Uma condição entrar em disjunção consigo mesmo. quer as artísticas. desenhada. Nesse sentido. lução étnica brasileira e. a fim de aderir a um arte e que serve também para auxiliar na fundamenta. sos dias tais noções influenciem textos pretensamente ela cria sentidos de alcance social e político. Aquele que atende às aspirações de observações sobre semiótica plástica ficamos tentados ideológico irrefutável. São ingredientes. “redentor”. notar uma de suas argumentações no tocante à obra de de nossas tão idolatradas e supostas tolerância e gene. poderíamos até valo. sem que o enun. como uma recriação étnica e moderni. dependendo da compreensão que se tem de visões reacionárias acerca de nosso passado africano e possíveis diante das imagens em questão (o quadro de “divina” entre si. A tela não traduz ou reflete ideologias. foi a primeira criada com o objetivo pátria profundamente afetada por um olhar oficial. car em pontos chaves que também são objetos da pes. O que está presente nestas concepções é um em que ele. sejamos um país a possibilidade de se acessar o repertório na busca de projeto “modernizador”. ele poderá lograr maior Podemos lembrar do “cabelo bom”. deve dula são capazes de criar sentidos de alcance social e do uso do repertório de cada enunciatário. “mundanos”. em arriscar algumas interfaces. na contempo- quer comentário sobre as circunstâncias em que o de seu arquivo mnemônico que seleciona e compila Qualquer cidadã ou cidadão brasileiro possui al. para a mestiçagem brasileira. Co- 120 121 . cita o pintor Gonzaga Duque No anverso da cédula de 500 cruzeiros. principalmente é evidenciar não o contexto de fora da pintura. deveriam Voltando à Ana Cláudia de Oliveira. o que importa para o semioticista francês posta por Greimas e suas dimensões. 12. a exemplo de vínculos com uma devidas proporções. chances de lograr êxito no percurso gerativo de sentido. o seu alcance no percurso gera. de que a presença negra é incômoda e. 24. Considerando que o texto De acordo com argumentações supracitadas.50). outras imagens com as quais acreditamos haver algu. mestiçagem encontra-se imbricada à ideia sorrateira de Esta argumentação é de real importância por to.ou ainda do “negro analíticos sobre cultura popular e outros fenômenos. mas que certamente povoam nos. um alvo a ser perseguido e que vale a pena ção do arranjo da expressão de todo e qualquer texto o qual dirá que: “A Redenção de Cã poderia ser tomada. Embora. desde possível na relação que tentamos construir entre a tela de beleza e representação. Cã. O eu (negro)/ Assim sendo. Diz o texto: da população em geral. outra discussão interes- prio repertório. Sobretudo. interpretando esta tela/ e agora. por exemplo. no passado (lá no início do período pós-aboli- quase cênica no contexto da obra para enfatizar o que dagem e o conceito de cultura visual. sença fundamental na trama. mas tabelecer algumas aproximações com outros concei. Elas são passageiras. mais do que isso. desde que este gesto não servisse para encobrir insistimos nessa ideia? O fato é que as interpretações mento e modernização possuem uma correspondência glamour. Os negros. Quando algum texto visual nos chama a atenção preconizaram as instituições coloniais. seus costumes. percursos temáticos e branqueamento. 2004. Deveriam ainda reagir de maneira eufórica à possibili- Floch: sariamente haja respeito pelas diferenças. na imagem que ora está diante de nossos olhos. batente da porta de uma casa modesta possui uma pre. É curioso notar como. “pagãos”. no reverso. podemos recorrer à ima. de alma branca”. do Brasil. passasse por uma mutação imediata. embora ocorra no nível fundamental (à figurativos. quisa no campo da cultura visual. antes. enunciatário é chamado a construir uma interpretação. pg. pesquisadores da área de arte/educação. 2002 pg. gravada. no mito da democracia racial brasileira difi. relação levando-se em conta os germes de nossa longa elas tende a conduzir-nos para outra interpretação. que envolve vá. Dele depende o futuro. ou seja. tivo estará profundamente relacionado com o tamanho so imaginário. atenuada. E nem é necessário na imagens também. Em se tratando dessa situação espe. minimizada. No reper- ferença etária. as relações de gênero.) ou menor êxito dependendo da amplitude de seu pró. O homem sentado no arte. Tudo vai depender dos mentos importantes sobre as condições sociais pre- pois complexas relações de gênero e raça podem ser em uma formulação teórica subsidiada pela história da pontos de vista de quem olha. queremos reiterar que a aproximação sugerida passo que na cédula não se deixa transparecer uma di. Ela dirá citando Jean-Marie em que se convive com a diversidade. uma cédula que. Os desencadeadores de iso. dessa perspectiva semiótica. ainda que guardadas as foi utilizada em congressos científicos para ilustrar te- dos como positivos. por gressas do país sem os quais o enunciatário terá pouca observadas na ação que ocorre. fotografia. que o domínio da imagem extrapola a produção com maior ou menor concentração de melanina. XIX) / medida em que as personagens adotam uma postura cifica. as intenções do artista. tes flancos como. Os crí. político. qual. seja essencial. no futuro. Aliás. Ao ais mais distintas. quando o gem da mulata. Oliveira explica que: ses acerca composição étnica futura do Brasil. seu descendentes se assemelha- No afã de compreender melhor a semiótica pro. qualquer que seja: arquitetura. procuramos es. Não é por acaso que até os nos- significação. Esse deslocamento implica em alguns entendi- se quer dizer. visando a produção de sentido. cujo interesse exemplo. a noção de mestiçagem como rizar nossos acentuados processos inter-étnico e inter. conforme Ana Claudia Oli- topia estão todos ali. obra consultada. com sua história. dula de 500 cruzeiros) dificilmente poderão prescindir herança escravocrata. juga uma série de visões estereotipadas que não cessam.” (Oliveira. imagens que podem Pensando a debreagem . seja ajustada (negra)/ alhures (Brasil agrário do final do sec. em discutir a cognição estética passa pela determinação cilmente se sentirá incomodado com A redenção de Cã. raneidade. Entendemos que o adjetivo “plástica” pode abranger o aqueles que acreditam ser a tela de Brocos uma visão e a cédula. ou mesmo à indiferença. aqui. com suas regras. no nosso caso. mente teríamos condições de olhar a obra por diferen. Por outro lado. traz implícita a ideia de que branquea- resultado de uma performance pode conter um certo -racial. devem ser manipuladas para Ana Claudia de Oliveira e algumas de suas significativas O que está figurativizado na obra tem um apelo dar lugar ao novo. o qual consiste noção. um olhar mais crítico sobre escravocrata. no caso. (Oliveira. co Morais. às interpretações paradisíacas de Brasil. se não sintagmatização das unidades mínimas. portanto. guma noção do discurso da mestiçagem. pg. até os outros que questionam veira. certa. no intuito de compreender o discurso ima. paisa. Frederi- está relacionada ao belo. segundo as informações presentes na que aquele texto carrega se vincula a uma noção de é construído por uma arranjo especifico de sua plástica. no que diz respeito ao abandono de valores a própria tela que é aquele que explica ou leva à sua tos fluidos nas artes visuais. riam ao outro. sem que neces. Na organizada por mecanismos estruturais particulares de servação mais atenta nos mostrará o desempenho de de comemorar o sesquicentenário da Independência cédula. É como se esse homem viril e exclusivo visual. escultura. parece haver alguma conexão entre nossa abor. 2004. resultando em uma dada papéis sexualmente muito definidos. Alguém que acredite. tentará fazer as suas ancoragens. retrata-se a evo- ao ideal. a Igreja. Por exemplo. rosidade. optamos por ciatário tenha que despender grandes esforços. Modesto Brocos.

Letras e Ciências Humanas. GREIMAS. uma questão de imagem. enquanto um dos aspectos Designa-se pelo nome de sintagma uma combinação de Cã encontrar correspondências na segunda metade constitutivos do ato da linguagem original. Se refere aos aspectos das imagens propriamente ditas. “Semiótica plástica ou semi- nossos repertórios. (grifos a significação estética possibilitam outras abordagens Eidético estabelecimento das relações entre as partes e a totali- nossos) (Banco Safra. o conceito de isotopia designou inicialmente a fragmentos em nova narrativa educacional. OLIVEIRA. Bibliografia são de evolução étnica que remonta às teses racialis. Estas possibilidades não cias) (este verbete. 2002. repensar nossos modos de ver na contemporaneidade. homogeneidade. Paulo: Contexto. como os demais foram extraídos do Quadrado semiótico cia Universidade Católica / Programa de Estudos são refutáveis. de si. independente de qualquer outra determina. 2000. localiza nas duas dimensões. Se a cultura vi. mas não per. a debreagem. 2002. afirmativas para a população afro-brasileira no início tas do século XIX.) mente. uma vez agregados. parece oportuno lembrar que a construção -se por enunciado toda grandeza dotada de sentido. Greimas tomou ao domínio da físico-química o termo HERNANDES. suficiente para constituir O Museu de Valores do Banco Central do Brasil. categorias semânticas baseadas na isotopia (o ótica visual?”. Ancoragem linguagem: ela é. nos damos conta de que es. riormente a qualquer análise lingüística. mas ou discurso) definíveis(. em tempos de téricos. Elementos de analise do discurso. O Brasil na visão do artista: o país CONSIDERAÇÕES FINAIS o eixo paradigmático (comutações e substituições) da e sua gente. até porque os processos dialéticos fazem Dicionário de Semiótica / Greimas & Courtés. Contudo. concernentes às tonalidades.) que de alguma forma questionem o padrão vigente. Paulo: Banco Safra. inaugura o de elementos co-presentes em um enunciado (frase do século XX. Fernando. sendo que o 122 123 . Se. acerca da localização ou cenário. figurativizam noções do que seria a evolução do povo porânea. “A eloqüência da pintura de Ry- desconstruí-los. Joseph. repousa Sciences Politiques – CEVIPOF. A estrutura elementar da signi. educativa e projeto de trabalho. De caráter ope... dade tem o efeito de transformar essa cadeia em uma Seriam tais perspectivas excêntricas e contra-hegemô. _______. Catadores da cultura visual: transformando to. No sentido geral “aquilo que é enunciado”. Tesnière. no interior desse pa. levando em con. dezembro. A depender do que o processo Brevíssimo rindo-lhe uma significação específica.) que visam constituir mite por isso mesmo distinguir. mudança sas compreensões como podem também limitar nossa isotopia e o transferiu para a análise semântica. ante. no.. É aí que parece estar o gancho que desta segunda década do século XXI. Independência e Integração do Brasil. Entende. imagens que podem tanto permitir o avanço de nos. In: Semiótica plástica / Ana Claudia tam perenemente nossa cultura visual. negras reflexões lonização. determinadas imagens problemáticas fluam impune.. Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica. diferenças e identidades Pode-se tentar definir debreagem como a operação pela Sanção não hegemônicas. pg. Ambos Compreende-se por quadrado semiótico a represen. man”.295 – 313). portanto.) Os sintagmas são obtidos tudos críticos direcionados para a produção artística e de maneira implícita. O texto supracitado está inserido em uma publi. confe. por instância da enunciação como um sincretismo de “eu. Vicente. GREIMAS. Sintagma um lado ficamos estarrecidos com o fato de A Redenção -aqui-agora”. 2000. se deve o termo: “actantes são os seres ou as coisas que. In: Revista do Centro de Pesquisas Sociosse- assim. quando definida . permitindo que efeito de sentido “realidade”.) compreende-se a disposição (. podemos estar cercados de estereótipos e o que é ratório. (não está nas referên. Jose Luis. aspectos topo- cação oficial e. no ato da linguagem e com vistas à manifestação. Centre Nationale de a um título qualquer e de um modo qualquer. possível. Algirdas Julien. São A grande questão que permanece aberta diz respeito (. 1999. um simulacro de um referente externo e a produzir o radigma. reconhecidos (. 2007 há chances de determos informações suficientes para Actante pode ser concebido como aquele que realiza ou de classemas que garantem ao discurso-enunciado a MARTINEZ. pela segmentação da cadeia sintagmática. lógicos. mas.) de um conjunto um paradigma composto de n termos.. para as. semântica qualquer. no decorrer de uma cadeia sintagmática Alegre: Mediação. autores citam Tesnière sem especificar a obra) a quem tação visual da articulação lógica de uma categoria Universidade de São Paulo/ Faculdade de Filosofia. Porto pior. nada é tão bem resolvido sofre o ato. levantadas. Os dois textos visuais sual do passado dialoga com a cultura visual contem. “parentesco”) dos traços distintos que nele podem ser Oliveira (org. 2004. participam do processo”. em consonância com os en. glossário sideração seu novo campo de aplicação. São Paulo: Prêmio. enunciado. Um trabalho artístico pode apresentar aspectos cro. Ana Claudia. portanto. São Paulo: Editora Cultrix. imposto por essas imagens que coisificam o outro.num primeiro momento .São relaciona uma imagem à outra. Recherches Scientifiques / Fudation Nationale de a título de meros figurantes e da maneira mais passiva como uma relação entre ao menos dois termos. por outro. Médicas Sul. Se se concebe. nicas alimentadas por uma ética distinta que nos leva a máticos.. alusivos aos materiais expressivos empregados data em que o livro foi lançado é de 2000 e obviamente enfrentamento institucional do racismo e de imple. Di- Sem a pretensão de encerrar as questões aqui cionário de Semiótica. hierarquia sintagmática. o que não ção. acreditamos que a cultura visual produz Isotopia 1979. Hacker Editores. por contrapartida. por exemplo. aspectos ma- tendimentos e aspirações da oficialidade brasileira. na paradigmática e na processo de análise que procura enfrentar o desafio sim constituir os elementos que servem de fundação cognitiva.. Frederico.. de uma perspectiva artística independente de uma sociedade democrática também é e sempre foi pertencente à cadeia falada ou ao texto escrito. Algirdas Julien & COURTÉS. Cultura visual. a qual uma vez inscrita no esquema narrativo se te vir a se constituir em ferramenta importante no certos termos ligados à sua estrutura de base. parte da existência humana. Enunciado FIORIN. e aspectos eidéticos. 278. a própria instância da enunciação. São Paulo: Hacker Editores. 5 (pgs. São Paulo: brasileiro.). por exemplo. ção.. qual a instancia da enunciação distingue e projeta fora Sanção é uma figura discursiva correlata à manipula- Pensamos que a semiótica possa indubitavelmen. São Paulo: Pontifí- impede seu retrocesso aqui. seletivo reserva no arquivo mnemônico de cada sujei. a submetendo-o às mais perversas banalizações. ao mesmo tempo. ao contrário. mentação de políticas públicas embasadas em ações imagens produzidas. retrógradas e Debreagem reacionárias sobre alteridades. 2006. que dizem respeito aos teores das o texto como está explicita e sustenta uma compreen. ou de uma perspectiva institucional. acreditar em sua veridicção. que. às estratégias de manutenção de certos sintagmas em de índices espaço-temporais (. apenas sobre uma distinção de oposição que caracteriza MORAIS. Assim para citar L. Da imperfeição. ao enunciado-discurso.. A Condutas providenciais. mióticas. reiterando noções conservadoras. fomen. Actantes interatividade. 2000. como bem sabemos. Porto Alegre: Artes capacidade perceptiva. ou ainda ficação. Um mesmo sujeito pode avançar ali.

interlocuções .

com novos Defensoria Pública do Estado da Bahia e presidenta A figura do “criminoso nato”. Na sequência. deve-se atentar. Para mim. impossibilitado de de do século passado. produz um dos tipos de conhe- cabe reconhecer que a produção acadêmica auxilia na cimento. nunciaram. a mais completa passa por três fases. o tema central do Instituto Sangari . com o direcionamento de ação para novas do Colégio Nacional de Ouvidorias das Defensorias mente inferior” e do “não-ser” continuam aderidas ao segundo Borges Pereira. demonstra isso. na primeira meta. dos Em uma reflexão sobre as relações entre militância ne. pela indubitável expressão de de estudo. do Negro Brasileiro [1950]. corpo negro. que Olhando para o Brasil pós-república. O formato do crânio. das universidades. enfim. com pesquisa recente do Ministério da Justiça através concorda com essa linha evolutiva? Se permanecemos Nesta primeira edição da revista Ngunzo. Tirar a vida acaba se tor. da atualidade. na época com 17 parece que nada mais resta. o que a pergunta pode fazer denotar. ele aponta obstáculos a senhora diria que estão colocados para para a não escuta. ria [abordada sem qualquer caráter crítico-reflexivo]. de absoluta falta de diálogo. sim. frente às sucessivas mortes ante.ter 103.4% mais de chances de na terceira fase. Foi ainda ouvidora geral da inferioridade e o biótipo do crime. Da leitura do nosso corpo. o professor além da adoção de algumas medidas compensatórias. No que mais para a luta antirracista e para a vigência do princí. o fato de o corpo negro . assegurar uma sobrevida] – é acometida. este organis- Lembro-me que uma marcante e inicial reflexão por que o seu corpo expressa [já que a miscigenação visa a. são alguns homem. foi que a mobilização política e. será possível anos de idade. violências do estudioso que de aquiescência de minha parte. segunda nos anos 1950. do “incontestavel. ter direitos. da mesma forma o tempo todo. tórico-cultural brasileiro. daí o silêncio. Estudava direito penal e a influência das nando consequência. mo executivo alcançou a sua finalidade institucional. houve uma mu- em desmerecer a importância do papel dos/as intelec. dos pela população negra para o acesso. sitário e. no espaço acadêmico e impediram tal alcance. Brito. reporta para o fato de pio da equidade pelo asseguramento de nossos direitos temas pertinentes aos negros perpassarem a produção . de perder a vida. os obstáculos enfrenta- telectuais negros nos espaços acadêmicos e as prio. não se intercomunicavam que a SEPPIR projete novas estratégias. além de aprofundar a educadores/as ativistas do movimento negro que de- A visão do corpo negro no direito. A No Brasil da primeira década do século XXI. militância negra” constatou. uma quarta Brasil. cultural. é do surgimento de uma inte. de acordo com a teo. o científico. Daí para frente. relevando as suas considerações no processo acerca de si mesmos. Ele expressava o não-ser. seguida dos trabalhos de Para refletir. nossa consciência acerca do papel que temos de desem. dança do perfil das pessoas que estão no espaço univer- tuais negros/as para a potencialização de nossas lutas. Delinquente por natureza. intitulada “A Unesco e as re- científico. antigas. é marcada por um diálogo a uma maior articulação entre a academia e a militância nicipais. problemas. temos também assessorado mesas diretoras de câmaras mu. Somente assim. quando Cesare Lombroso me foi apre. trago uma interrogação: o que conta Florestan Fernandes e Roger Bastide na USP. lista em Direito Público e Políticas Públicas. a situação dos in. sentado. da intelectual Luiza Bairros [atual Ministra da Devemos ter em vista que as reflexões de Pereira SEPPIR]. A primeira. nas três primeiras décadas do entrevista: Mesmo não sendo uma pessoa de “larga vivência aca- século XX. pelo Estado. quais sejam. tendo negação. A senhora poderia explicar como vê a relação entre soa branca. percebo que os desafios estão presentes para dentro e para fora “novo país”. político. das orelhas e o modo de enfrentamentos necessários ao estabelecimento de po- dos assuntos de que trata a nova secretária de Polí. ela é advogada. sim. no seio do movimento negro. se comparado ao de uma pes- os. numa análise negativa. acadêmica. onde lideranças negras se tornam ais. Será esta uma nova onda. ao tempo em que a militância negra pri- mava por dar visibilidade à conquista de espaços nesse anhamona de brito dêmica”. pelo fato de denotar. informantes-chave dos pesquisadores. Bahia. O estão postos para SEPPIR é o de avaliar. Uma imagem de pessoa semelhante à minha penhar no campo econômico. e desempenho no ensino superior e promoveram os Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR). expressando o racismo ainda existente no lectualidade negra que passa a defender teses e colocar outros espaços.a atuação acadêmica ou a das ruas. concedida por e-mail. através dele. Estamos diante de um novo cenário. líticas de cotas pelas instituições de ensino superior. de modo a fazer com que o Estado brasileiro 127 . Corporalidade e Racismos Contemporâne. ainda. e. uma ponderação que não é minha média protagonizavam a iniciativa dessas produções. a defesa da tese do intelectual Poder latente no redirecionamento do pensamento negro Guerreiro Ramos.de acordo a questão do negros nas agendas de estudos. da academia acerca os intelectuais negros no interior das universidades? das questões “do negro”. no curso do processo his. Florestan Fernandes. para os desafios lações de raça” e os debates acerca dela no I Congresso existentes fora dos muros das universidades. Anhamona de lábios. mim feita acerca do binômio racismo – corpo negro foi justamente. vivencia-se a não do diálogo com os negros na condição de sujeitos da aceitação de que os negros produzam conhecimento pesquisa. ou reforce as teorias bio-antropológicas para as políticas criminais riormente impingidas. quais foram as questões que na sala de aula do curso de Direito. prefeituras e bancadas legislativas federais. Essa mudança é fruto da ação de construção de nossa identidade. sendo que intelectuais negros e de classe tante? Trago.interlocuções Levando em conta sua experiência acadêmica. também. tudo apontava para a definição do Ser gra e acadêmica no período da república. A senhora fase? Para mim. Se. permanência ridades da atual gestão da Secretaria de Políticas de estava ali. na sua opinião. um dos desafios que o corpo negro a a existência do racismo? Aos sucessivos desrespeitos. ticas de Ações Afirmativas do órgão. a ser repelido com veemência João Batista Borges Pereira delineia uma trajetória que na tentativa de aplacar as desigualdades raciais pela/ Nascida em Salvador. na pesquisa acadêmica. especia. a partir de inciativas de estudiosos como Roger Bastide e e um maior número de negros militantes e intelectu- estaduais e municipais. enfim. tombar. dentro delas. no artigo “As relações entre a academia e a do processo de sua institucionalização. demandas. ele denomina de terceira fase. nesta entrevista exclusiva. seu posicionamento. no curso dos anos. negações. em face da necessidade de conquista de Públicas do Brasil. com a qual concordo: se há uma tendência são dos idos de 1999. a político-mili. A terceira fase. apresenta a mudança de ce- nário e os marcos da inclusão. a única diferença era o fato de ser a de um na nossa vida social. para onde ela caminha ? Quais são as prioridades da atual gestão da Seppir? é Educação. se ao longo e mortes simbólicas a que a pessoa negra . na educação.em face do que Pereira. e o cultivo da identidade racial. a espessura das sobrancelhas. Acho que se trata mais de uma questão de constatação No ano em que comemora 8 anos.

de cíficas? Elas se justificam? Por que? compartilhamento de experiências. taduais. realizar e apoiar a elaboração de estudos e Dentro das atribuições da SEPPIR. traz como consequência. cano. de modo a auxiliar a implementação das a superar as desigualdades raciais pelo país. A institucionalização de um órgão governamental cebido pelos poderes públicos constituídos. as formas de dades sociais que lhes são consequentes é algo recente não é por falta de detalhamento dos possíveis caminhos tação da promoção da igualdade racial. descentralizar a sua implementação pelos governos es. Divulgaremos. Precisamos de outro documento.. Precisamos mudar. como também E a questão da mulher negra. SEPPIR. goza de um certo pioneirismo. Talvez o final da pergunta deva ser reformulado para nacionalizada e envolvendo os entes de governo e da o científico] e. Estado brasileiro hoje é a de erradicar a pobreza e a No que diz respeito às ações necessárias ao combate de Promoção da Igualdade Racial [previsto pela Lei fe. 128 129 . -sul entre especialistas da área de educação.288/2010. o MEC e os/as agentes sociais envolvidos Ele foi concebido como a via de organização e articu. assegurando a toda a população. De acordo com o Estatuto. ganhe eficácia. não uma ou outra. com fins de SEPPIR. municipais e distrital. buições nocivas que o racismo e o sexismo imprimem [a SEPPIR. a nossa vivência demonstra que o racismo poucas foram as tratativas que envolvessem a troca de social conseguirem estabelecer. consistente. a 10. cumprimento está aquém do esperado. sabe-se que a imple- mo no auxílio à definição e à inserção de indicadores apreciação do Congresso Nacional. o pleno exer. estrutura. brasileiras. Racial é Pra Valer”. sociedade civil. das desigualdades raciais na educação. pelo cumprimento da e aprofundar as pesquisas acadêmicas sobre o tópico opressor nos impõe um número significativo de exclu. inclusive. pela estruturação do Sistema Nacional para novas agendas. sobretudo no for- independentemente de sua cor ou raça. faz-se essencial a análise das contri. tendo a SEPPIR um papel relevantíssi. as executadas em parceria com outros entes. não bastando as referências legais se. bem como as propostas submetidas à a execução não fique ao encargo do nosso Ministério. A intenção é a de que os entes governamentais. planejar. será alvo de ações espe. O que pretendem fazer para melhorar essa população negra. Parafraseio Edson Cardoso. incluindo as adesão a essa campanha. promover ações que visem a a luta que teremos de empreender para que o Plano de definição de prioridade de nosso Ministério. acom.639/2003 promoveu alterações no racial? sões. promover em face das peculiaridades organizacionais. é Vejo estes campos como essenciais no processo ra cotidiana e intensiva. representantes do movimento so. No que diz mentação do ensino de história da África e da cul- a serem atingidos pelos governos em suas ações. teremos a obrigatoriedade de definir quais são as ações Em 21 de março de 2011. retroalimenta os indíviduos Exemplificando: se uma agenda prioritária do “o que pretendemos fazer para melhora essa situação?”. mas. ações emblemáticas em prol dos negros. acordo com o próprio decreto que regulamenta a sua mato de cooperação. Com ela. e. entre outras atribuições. estudantes e as representações do movimento contribuição que ela possa dar no sentido de ampliar na prática. mesmo que municípios. Concordo que há um descompasso entre o proje- afirmativas adotadas pelo governo federal. Daí. que contém. que e coordenar encontros para a realização de estudos e respeito às mulheres negras. de manei. sendo essa aproveitar essa data propícia para propor. interlocuções reduza as desigualdades raciais e promova uma cultura políticas transversais do governo federal. que se combater o racismo e as desigualdades sociais que ele Em que pese a SEPPIR tenha firmado um número sig. Afinal. tendo as perspectivas raça e gênero como com a temática] a elaboração de um plano bastante lação do conjunto de políticas e de serviços destinados Internacional do Afrodescendente e que pretendia balizadoras. conhecimento sobre aquilo em que o nosso Ministério LDB. competência. principalmente no estímulo ao intercâmbio sul. dos Estados e também dos estudos acerca da política de promoção da igualdade anseios e aos interesses da população negra. Internacional dos Afrodescendentes no país. o que não pode passar desper- da iniciativa privada. o Estatuto da Igualdade Racial]. de reduzir as desigualdades e. promovemos deral nº 12. panhe a execução de programas voltados à implemen. fundamentalmente. na medida em que não temos a cul. é certo que listas. miséria extrema. nificativo de parceria com países do continente Afri. promova. Se o seu Para que o nosso Ministério articule. considerar que. Vai passar pela intervenção política da encontra com um planejamento estratégico em curso. federal. dessa vez pela perspec- ser dada pelo estabelecimento de diálogo. no governo PIR não poderá se furtar de. diáspora são importantes. primeiro. cial e a população em geral comprometam-se com essa com fins de combater o racismo e aplacar as desigual. consideramos que a igualdade preci. existe alguma sa ser efetivada. culação e de pressão que os/as professores/as.. novos fazeres. aniversário de 8 anos da de mais particularizado. cial. propor caminhos que visem a aplacar as lações étnico-raciais e para o ensino de história e cul- tura de promover a articulação de políticas sistêmicas te alguma coisa encaminhada nesse âmbito? inúmeras “opressões” sofridas pelas mulheres negras tura afrobrasileira e africana. sociais tidos como “subalternos” e depois esses grupos situação? Ainda nessa linha. sim. especia- Dentro do campo de atuação da Seppir. para além da contínua análise acerca dos impactos a serem trilhados para isso. -las? De que maneira? afirmando que a luta que teremos de empreender. da forma como a proposta. em todas as áreas. ações específicas são bilidade na relação da SEPPIR com os países da África 2011 é ano de elaboração do plano plurianual do diagnósticos sobre as desigualdades raciais. conclamamos toda sociedade brasileira para. mostra-se como uma outra possi- cício de sua cidadania e o direito à vida. Já exis. analisando. Apesar da legislação existente. aquilo que elas tem metas a serem atingidas. dessa nova política [promoção da igualdade racial]. Logo que tomou posse a Ministra Luiza Bairros lem. a estratégia de luta. inclusive. pelo poder de arti- No slogan. novos saberes. o não-discriminatória. por sua vez. numa esfera se alimenta das conhecimentos produzidos [não apenas tiva de gênero. A Seppir pretende estimulá. dentro de sua esfera de diretrizes curriculares nacionais para educação das re- uma tarefa difícil. desenvolver as que possibilitam ou possibilitarão o atendimento aos e as comunidades de sua diáspora. agenda política. pela sua efetiva aplicação. marcando o lançamento do Ano As relações com a África e as comunidades negras da um novo plano? Por óbvio que não. ou não ocorre. o racismo delimita os grupos lentos. texto dessa Lei maior. não podemos deixar de tura negra no ensino fundamental caminha a passos tentem contemplar aos interesses e às necessidades da debates temáticos sobre a promoção da igualdade ra. brou que o ano 2011 foi considerado pela ONU o Ano nesse cenário. colocamos na rua a campanha “Igualdade tado e o realizado. precisa. posso salientar a prioridade a A atuação política e administrativa do Ministério são novamente hierarquizado. vê-se que a SEP. em breve. racial em voga. Poder Executivo da União.

literarte .

Núcleo de Pesquisas e Estudos Multidisciplinares Africanos e Ewá. com seus contornos Para nascerem flores. Se aproxima vários Roda Olhares Corpo mogno e Uma corte infiel Seu vestido O rei Pingando vermelho Que passeia por outras Para nunca mais É quando fecho os olhos.literarte A que abre o leito dos rios Terras E apascenta a violência A rainha que dorme em Com seus cachos Seu sarcófago É a mesma As oferendas frias Que desmancha nuvens Tudo virou sombra. professor de Teoria Literária e Literatura Brasileira na Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e pesquisador A dançarina Mais uma vez do AYOKÁ KIANDA . Desenhando o universo Pele De longe A sedosa negra A vejo Da flor no cabelo. Com passos finos A sua volta. Impossível Quantas gargalhadas É querer suas mãos Foram necessárias? Descendo a lua Ela caminha Sobre minha face. Afro-Americanos (DCHT XXIV/UNEB). Almeida de A engolidora das dores Abreu Silva Poeta e artista plástico. Abrirá sua boca pela UFBA.. Deusa do rio Iewá Nos olhos movendo Ricardo Nonato Seus búzios. 133 . mestre em Letras Ela. Espero. Ela.. Com uma espada.

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Rodovia Celso Garcia Cid | Pr 445 Km 380 | Campus Universitário Cx. n.br . março/julho de 2011 Revista do Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA) da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Postal 6001 | CEP 86051-980 | Londrina – PR Fone: (43) 3371-4000 | Fax: (43)3328-4440 Email: neaa@uel. 1.Nguzu – Ano 1.

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