Revista do Núcleo

de Estudos
Afro-Asiáticos
da UEl

Expediente sumário
Universidade Estadual de Londrina Editor executivo
Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA) Carlos Alexandre Guimarães
Reitora
Nádina Aparecida Moreno Secretaria Editorial
Flávio Carrança
Vice-reitora
Berenice Quinzani Jordão Capa, projeto gráfico e diagramação
Naima Almeida e Natália Tudrey
6 EDUCAÇÃO, CORPORALIDADE E
Coordenadora do NEAA RACISMOS CONTEMPORÂNEOS
Rosane da Silva Borges Revisão Editorial Rosane da Silva Borges
Flávio Carrança

Coordenações de área do NEAA

Educação e Ações Afirmativas
Nguzu – Ano 1, n. 1, março/julho de 2011
Revista do Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA)
Dossiê Temático
Maria Gisele de Alencar da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Rodovia Celso Garcia Cid | Pr 445 Km 380 | Campus 10 O CORPO NEGRO: SENTIDOS E SIGNIFICADOS
Arte e Cultura Universitário Isildinha Baptista Nogueira
Marcia Dermindo Cx. Postal 6001 | CEP 86051-980 | Londrina – PR
Fone: (43) 3371-4000 | Fax: (43)3328-4440 14 PERSONAGENS EM POSIÇÕES HIPOTÉTICAS: CONSUMO,
Comunicação Email: neaa@uel.br CORPO E SUBJETIVAÇÃO NA CULTURA DAS MÍDIAS
Silvia de Castro Laura Guimarães Corrêa

Pesquisa e Documentação Conselho Editorial 22 RACISMO E BIOPODER: UM CASO NO RIO DE JANEIRO
Carlos Alexandre Guimarães e Rosane da Silva Borges 1. Alex Ratts (UFG) CONTEMPORÂNEO
2. Álvaro Roberto Pires (UFMA) Renato Noguera e Carla Cristina Campos da Silva
Articulação Comunitária 3. Amauri Mendes Pereira
Manoela Fernanda Silva Matos 4. Ari Lima (Uneb) 28 CORPOS NEGROS EDUCADOS: NOTAS ACERCA
5. Carlos Benedito Rodrigues da Silva (UFMA) DO MOVIMENTO NEGRO DE BASE ACADÊMICA
Relações Internacionais 6. Maria Aparecida Moura (UFMG) Alex Ratts
Dejair Dionísio 7. Denise Botelho (UFRPE)
8. Edna Rolland 40 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL: PRETINHO (A)
Secretaria 9. Edson Lopes Cardoso (SEPPIR) EU? DISCUTINDO O PERTENCIMENTO ÉTNICO
Cibele Candeo Leite 10. Elena Andrei (UEL) Ralime Nunes Raim
Dirce Meneguelli de Sá 11. Flavia Matheus Rios (USP)
12. Heloísa Pires 50 REFLEXÕES SOBRE NOSSAS CONSTRUÇÕES INTELECTUAIS
Assistente de Educação e Documentação 13. Joselina da Silva (UFC) E POLÍTICAS ACERCA DE “RAÇA”
Vaudice Donizete Rodrigues 14. Kabengele Munanga (USP/SP) João Batista de Jesus Felix
15. Kia Lilly Caldwell (Univ. North Carolina at Chapel Hill)
Estagiária de biblioteconomia 16. Leda Martins
Elza Ribeiro Bueno 17. Ligia Ferreira (Unifesp)
18. Lucia Helena Oliveira (UEL)
19. Marcelo Paixão (UFRJ)
Propostas Pedagógicas
Comitê Editorial 20. Maria Nilza da Silva (UEL)
21. Matheus Gato de Jesus (USP) 62 POR QUE ENSINAR A HISTÓRIA DO NEGRO NA ESCOLA
Coordenação 22. Nei Lopes BRASILEIRA?
Carlos Alexandre Guimarães 23. Nelson Inocêncio (UnB) Kabenguele Munanga
Rosane da Silva Borges 24. Nilma Lino Gomes (UFMG)
25. Roberto Borges (CEFER-RJ) 68 O ensino de sociologia e a lei 10.639/03:
Editora científica 26. Sueli Carneiro (Geledés/SP) cultura afro-brasileira no livro didático
Rosane da Silva Borges 27. Wilson Mattos (Uneb) Crisângela Biassi de Almeida

76 LITERATURAS AFRICANAS DE LÍNGUA PORTUGUESA
EM SALA DE AULA: UMA POSSIBILIDADE?
Claudia Vanessa Bergamini

85 A ENUNCIAÇÃO DO POSSÍVEL: AS COTAS RACIAIS E A LEI
10.639/03 TRANSFORMANDO A REALIDADE DA POPULAÇÃO
NEGRA EM LONDRINA
Márcia Figueiredo Tokita e Maria Gisele de Alencar

Negras Reflexões

94 DO DIREITO À PALAVRA AO PODER DE ENUNCIAÇÃO
DO MOVIMENTO NEGRO NO BRASIL
Jacques D’Adesky

106 RAÇA E GÊNERO: ENTRELACES RACISTAS VERSUS
AFIRMAÇÃO IDENTITÁRIA NEGRA
Maria Anória de Jesus Oliveira

116 A REDENÇÃO DO OLHAR: UMA ABORDAGEM SEMIÓTICA
Nelson Inocêncio

Entrevista

126 ANHAMONA DE BRITO

Poesia

132 DEUSA DO RIO IEWÁ
Ricardo Nonato Almeida de Abreu Silva

Tais episódios fizeram-se razoavelmente natórias impulsionadas por um fundamento racial. Com as informações emitidas pelo corpo. fundamentada em uma leitura racial. Muniz. dores de opinião pública e apresentam-se como uma tornam públicos os resultados de investigações empí. Educação. em franca decadência. Rio de Janeiro: Vozes. mesmo resultando em vistos em conjugação. presentes na agenda dos suportes informativos. Após uma década (1998-2008). apresentamos a poesia do escritor Raimundo Nonato. e da mestranda Carla Cristina da Sil- Borges uma das primeiras fronteiras de violação do humano. plosivo e. do que esses corpos significam e represen. Muniz Sodré já nos advertira: e do professor doutor João Batista de Jesus Félix. da pós graduanda em Letras da prática é alemão. de Artes da Universidade de Brasília – UnB e coordena- ções raciais no Brasil e em outros países da diáspora. Crisângela de Almeida. triste eloquência. ponto ordenador das mente. sob a chave da pós-modernidade energias. sob uma perspectiva educativa. a revista Nguzu é também manufaturada no su. as contribuições do Laboratório de Inteligência Artifi- laridade nacional. Corporalidade faixa etária. Em perspectiva da epistemologia à violência no Brasil. negros. do professor de filosofia e educação da e Racismos Rosane da Silva desse modo. de Laura Guimarães Correa. 6 7 . da Universidade Estadual da Bahia. paradoxalmente. se desvencilhe de qualquer recorte racial. professora adjunta do cur- so de Comunicação Social da Universidade Federal de Em seu número de estreia. das singularidades do racismo na contemporaneidade. demonstra nesta publicação a diversidade de aborda. Anhamona Silva de Brito. No tópico “Negras textos encontram abrigo preferencialmente no espaço ciando sistematicamente. é va. para os elevados índices de mortalidade entre vitimização juvenil por homicídios continua a crescer. O mencionado quadro. Ralime Nunes Raim. o corpo é categoria importante na SODRÉ. a vitimização entre jovens negros tem índices muito altos. espe. importa destacar das altercações são as relutâncias em e da cibernética. coordenadora do Nú- pelo corpo que se circunscreve as (im)possibilidades do ser. com Uma pequena mostra de artigos referentes ao tema Anória de Jesus. Renato Nogueira. educativa. Nguzu. a revista Nguzu toma. estudos e reflexões sobre significativa). Com o tema Educação. passando por filósofos canal difusor das pesquisas. da Universidade Federal do Tocantins (UFT). e nos conduz. Departamento de Artes Visuais vinculado ao Instituto às reflexões e pesquisas ancoradas no campo das rela. pelo menos desde a década tes reflexões que apontam para a superação do corpo reflexões” contamos com os artigos do professor dou- virtual. a decisão cotidiana sobre quem doutor Kabengele Munanga. Visto como um elemento vital para bibliográfica mensões exponenciais. E na seção “Literartes”. tivas da Secretaria Especial de Políticas de Promoção episódios contemporâneos que revelam a pertinácia tomam a discriminação racial como nexo prioritário nhecimento capazes de contribuir para a compreensão da Igualdade Racial (SEPPIR). das pesquisado- (1999. os exemplos aqui elencados – do dentista e do da medicina e da psicanálise. podemos entrever essas reflexões nos textos de Isildinha Baptista. pelos aportes relações raciais. do Departamento de pode entrar em clubes. o que é pior ainda. do racismo em sua ação implacável de abater corpos para a superação das assimetrias no Brasil. Segundo reportagem do jornal “O Estado ampliam o painel. onde os múltiplas faces da discriminação racial vêm denun. como sabido. e da socióloga pós-graduada Em tempos de narrativas hipermidiáticas. órgão que essas estatísticas convivem. O que causa espécie é pensarmos na sustentação do racismo? e professor da UNESA. te interrogação. buscam problematizar e aprofundar questões teóricas. tanto. de São Paulo”. ou seja. pesquisador do Centro de Estu- porte impresso. boates. Marcia Figueiredo Tokita e Maria Gisele de Alencar. restaurantes de luxo ou Antropologia da Faculdade de Filosofia Letras e Ciên­ mesmo ser aceito para seguros de automóveis. a incidência majoritária de assassinatos nessa e ascensão do pós-humano? De que maneira reinserir tor Jacques d’Adesky. o outro. 33). secretaria de Ações Afirma- A escolha desse dossiê temático foi motivada por reação conservadora à adoção de políticas públicas que ricas e estabelecem diálogos com outras áreas de co. Claros e escuros. definição das relações sociais africanas. Cláudia Vanessa Bergamini. Convertendo-se em Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). mas sua incidência é transnacional da UEL. que intelligentsia brasileira. O que pre. esculpimos Educação de Montes Claros/MG. Os artigos aqui reunidos sobre o tema dor do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UnB. p. não a gramática corporal como um vetor importante para dos das Américas da Universidade Cândido Mendes e Racismos Contemporâneos. a noção de sujeito e subjetividade derivada do Como qualquer iniciante. entanto. é por ele que se classifica e se categoriza as pessoas. da Universidade Federal de Goiânia. institui. seção “Propostas Pedagógicas” os textos do professor le de rostos). pela UEL. o corpo como um vasto território mar- cador de sentidos e significados. próprias de sua concepção edi- quando retornava para casa em Guarulhos e do office. forma. da socióloga e co- ordenadora do Programa Diversidade Étnico-Racial na cleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA) e coordenadora editorial da revista Nguzu. Contemporâneos Professora Doutora. 1999. Organizações anti-racistas atentas às O número de homicídios entre a população negra é ex. práticas racistas. ainda são sustentadas por frações da crítica e analítica. “o Mapa da Violência 2011 mostra que a equilíbrio de algumas sociedades. alcança di. agremiações políticas. Nguzu espera manter tam (os assassinatos do dentista negro em São Paulo Sem nos estendermos sobre essa contenda. a nossa convidada é a doutora significa energia. seção “Interlocuções”. de 1970. do professor doutor Alex Ratts. em constan. da professora doutora Maria do NEAA (Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos). torial para dar continuidade ao compromisso de ser um -boy pelos seguranças do banco Itaú integram uma lista admitir a centralidade do racismo nas ações discrimi. office-boy – não deixam margem a dúvida. psicanalista e “extermínio”. Corporalidade praticamente inalterada a marca histórica de 92% da masculinidade nas vítimas de homicídio. traço por traço. ras graduadas pela UEL. por definição. a cada ano. Tais afirmações. outros contributos não menos importantes referência O assunto. o que cartesianismo estão. incluindo-se aí também Uma ótima leitura e até o próximo número. (UNEB) e do professor Nelson Inocêncio. docente do -se como um espaço demarcado para dar visibilidade afirmam solenemente ser o Brasil um país isento de gens da corporalidade e dos racismos contemporâneos. como crescem vertiginosamente africana. a Nguzu apresenta na julgamentos na prática do Gesichtskontrolle (contro. Na Colhemos da língua banto o nome da publicação. cial do MIT. estruturas sociais. beirando um cenário de De um modo ou de outro. continua doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo. Oxalá cumpramos esse papel. por. argumentos enviesados que. com verniz de seriedade. somente permanecem. também da UFFRJ. Enfileiram. Minas Gerais. O nome cias Humanas da USP. De Descartes. os jovens negros. portanto -se argumentos propugnando uma práxis política que Muito se tem insistido de que o corpo e. A estética negativa do estrangeiro lastreia sempre os Além do dossiê temático. como era de se esperar. irremediavel. Como reposicionar o debate em meio às emergen. da Universidade do Estado da Bahia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). No como Michel Foucault e Gilles Deleuze. cialmente de jornais impressos e televisivos com capi. uma publicação constitui nenhuma novidade. e vêm estimulando a renovação do senciamos na paisagem cotidiana é desalentador: os ín. as concepções sobre o corpo passaram por debate por meio de fóruns concernentes ao racismo e dices exorbitantes de mortalidade de jovens negros não radicais avaliações.

dossiê temático .

nos A noção de “ser humano” que temos hoje. sem terem consciência desse mecanismo. o negro trabalharia como mão de obra O conjunto das representações que constituem a balho do negro escravizado. a despeito das lutas por Vivendo em péssimas condições nas senzalas. melhores condições de acesso à cidadania. d’une part. fundamentalmente. as principais atividades inseridos na sociedade. les Desenvolvimento Humano da Universi. sa lógica”. Ao perderem dos indivíduos e dos grupos. o que animais e vistos como incompetentes. sociale determine. 2001. Em línguas diferentes. tifiquem. foi antecedida por mudanças às coisas. Palavras chave: negros. as configurações que qui les ont produit et continuent à les réproduire et. tal como besta fera domesticada. diversas. Libertos. mas não garanta a cada um dos indivíduos pertencentes a um tumes e leis. e fixam os limites dos comportamentos culturas diferentes. foram comparados a ca dos indivíduos e dos grupos sociais constituem um a organização entre os semelhantes dificultadas. méstico. que produit de l’interaction dialectique entre. univers psychiques. uma ética que permita e por ser histórico. de Por mais de três séculos. mudam. E SER NEGRO ficando. les repre- Psicanalista. tendo cultura. periências para além de um terreno anteriormente in. brutalizados e animalizados pelos senhores. para os negros. histórico social. uma concep. que criaram olhares específicos. à partir de l’hipothèse suivante: que cette realité historique histórico-social determina. não mudaram? SER HUMANO faltaram estudos que os compararam aos animais. com sentido e significação. seus valores. de um lado. Nogueira Refletir sobre a condição do negro como produto da interação De cette réflexion. a vida coletiva. Isto é possível porque o ser humano se “concei. assim como a vida psíqui. isto é. dição de escravo. d’autre part. tradições e religiões no campo. 11 . um conjunto de o homem passa a ser visto como centro e modelo do na ordem econômica e política. ra- cismo. uma entidade “naturais”. Os abolicionistas mostravam grande indigna- princípios de conduta. Doutora em Psicologia pelo camente estruturadas. como forma de resistir à Como falar acerca de representações psíquicas e ex. os negros tinham portanto a comunicação e Dadas suas condições de vida. particuliéres. XIX1. Restava aos negros o trabalho do- mais diversos fatores. tra- rede onde as malhas estabelecem os domínios das ex. configurations que constituent l’univers psychiques. as represen. cisme. saindo da con- pertencimento a essa organização. cos. os indivíduos se comportam segundo essa Trazidos de diferentes regiões. os negros tações sobre o negro e o seu lugar na sociedade não se viam destituídos da sua condição de humanos. des configurations psychiques Isildinha Baptista cas peculiares. As representações sociais funcionam como uma 1. se pensa e se percebe de uma época para outra. 24. opressão causada pelo processo de escravização. periências diárias e dizer que. com o tema: Signi- ficações do corpo negro. historique sociale. teve origem A promulgação da “Lei Áurea” que supostamente destacamos por nossa capacidade de dar significados no Renascimento. Assessora do Instituto AMMA Psique e Negritude. obrigadas a conviver. os libertaria do cativeiro. a necessidade que lhe é natural. que colocavam obstá- crenças e costumes. econômicas mercantes brasileiras basearam-se no tra. assim. consequência. sócio-economiques. A acul. estruturados.dossiê temático O Corpo Negro: Sentidos e Significados RESUMO RESUMÉ Este artigo tem como objetivo refletir a dimensão psíquica da Ce article se propose à réfléchir sur la dimension psychique du ra- questão do racismo. Foram 320 anos de escravidão. Como seres humanos. resultado da transculturação. consequentemente. partindo da hipótese de que essa realidade cisme. cada sistema cria seus teóricos que o jus. cultura está condicionado a uma lógica que determina África perdeu 70 milhões de pessoas do século XV ao que viver em sociedade é estar “sob a dominação des. portanto. pour les noirs. pg. balhava em troca de ração. Les Mots Clé: noirs. ganham nova identidade.). ção pelas condições de cativeiro dos negros. mecanicista. os ex-escravos vagavam desorientados. Direitos mais humanos. turação é uma consequência natural na relação entre INTRODUÇÃO diferenciado. formam o universo psíquico. uma construção do pensamento. de outro. que começava a ser feito pelos imigrantes. universo psíquico. que são ideologicamente suas identidades originais. mundial. sem condições para seu auto-sustento e sem trabalho lógica. j’essaye de definir la condition du noir en tant dialética entre. sócio-econômica. mas depende dos cá vieram trabalhar. ALENCAR. Entre cativos e mortos. a remunerada para seu auto-sustento. Construímos uma cultura. situação que perpetuava a imagem anterior. mundo. Garamond. as condições em que viviam como sendo ção. as estruturas sócio-econômicas que as sentations sociales ideologiquement structurees sócio-economiques Departamento de Psicologia Escolar e do produziram e as reproduzem e. justi- A sociedade é. configurações psíqui. falando. culos à existência de um país escravagista no cenário próprios de cada grupo étnico social. empírica. quando comparados aos europeus que para causal simples. Supunham que. que demandará tualiza”. indolentes. as representações sociais ideologi. onde se criaram novos conceitos. preguiçosos e complexo processo que não corresponde a uma relação favorecia o controle dos senhores de escravos. dade de São Paulo. ra. Chico (org. puderam pensá-los como indivíduos que deveriam ser determinado grupo. Rio de Janeiro: em que o negro.

científico. parcial ou totalmente. nidade. enquanto profissionais. Suas estruturas psíquicas são contami. instituições e questões raciais no Brasil. que o nação do modo como a realidade sócio-histórico-cultu. NOGUEIRA. da vontade do outro. mas é por este negada. vista da perspectiva do olhar do negro incabíveis legalmente − já que criminosas. que. Lilia Moritz. é alidade sócio-cultural do racismo deixaram inscritas ra”. a pró. como fica o negro que se confronta explicitamente. estabelecendo-se que a princípio seria natural no ser humano. cada qual defenda sua cultura no processo de identificação. (Orgs. Isto. os negros têm O QUE SOMOS sofrido toda sorte de discriminação que tem como base a ideia de que são seres inferiores e. sentimento formado sem estruturas de poder e dominação. portanto. simultaneamente. pela negação do Ainda que lançando mão de um arsenal racio. São Paulo: Ática. Arthur Dapieve. marcados pela ser outro. NÓS. entrará em ação. Identidade. como única via possível de Como seres humanos. portanto. visto que só existimos como sujeitos em e impedidos de desfrutar de qualquer benefício social. SCHWARCZ. do ser humano o preconceito. esses termos como se tivessem um só significado. a bran. espírito e das ideias: a cultura. resultando no que seria a base do racismo. dentro e fora. supostamente baseadas ALENCAR. SODRÉ.a partir das quais são ideal de brancura permanece. forjada ridade ou inferioridade que. pois as sal e essencial da brancura. parâmetro de pureza artística. mas isso constitui o elemento não marcado. Negar e anular o próprio corpo nos torna o su- ço na sociedade. dossiê temático Embora juridicamente capazes de ocupar um espa. Estarmos cientes dessas diferenças é importante dições objetivas. via de regra. Muniz. O signo “negro” remete não só às posições sociais vergonhado de si. des. Referências incorporação. Faz parte da natureza conscientes de que nenhum de nós existe à parte das assimiladas e incorporadas. O espetáculo das raças. que mostra reconhecer nele o terminável. sabedoria científica. enquanto uma possibilidade virtual. VENTURI. 2000. a manifestação da razão. pode e saldaliga. significa não ser to diversidades e especificidades da outra cultura. foi o de contribuir enquanto psicanalista. de física a psíquica) por parte dos brancos. alheio à sua vontade.que recebem no plano tado das atitudes racistas e irracionais dos brancos. ser sujeito é foram marginalizados. rentes ao ser humano. como a melhor forma de organização social. contraditórios e instáveis. D. mídia no Brasil. a características biológicas nada separa o real do imaginário. en. através da imitação ou da pria “humanidade”. Significações do corpo campo etnossemântico onde o significante “cor negra” to em um autômato: ele se paralisa e se coloca à mercê expressão violenta da diferença que parte da descons. O negro pode ser consciente de sua condição. ral do racismo e da discriminação se inscreve na psique cordial. com o olhar do outro. Pedro Ca- do agressor. A “brancura” passa a ser momento histórico e econômico. utilizando cante. temos a capacidade de estabelecer princípios. não se faz necessária a presença física só não guarda nenhuma semelhança com o real de seu diferença pela “desconstrução” da outra cultura. Graciela Rodriguez. não me. as fantasias estão. isto é. com base na biologia de conhecimento ideologia moldam as estruturas psíquicas dos homens. 1998. oprimido. o objeto amado ou odiado. gicas atribuídas aos brancos. na maioria das vezes acaba por atravessar os limites da Garamond. a discriminação é em sua psique. do de maneira apaixonada. confun. não importando a nadas pelas condições objetivas . diversidade. mas forte o bastante para que. Visto que costumamos. Claros e escuros. Esse mecanismo é o que a psicanálise caracteriza que se possa ser o outro. cien- inferiores mas. que desta forma na relação com o outro − e no ideal de brancura − não em “conhecimentos científicos”. também. das Ser branco significa uma condição genérica: ser branco implicações histórico-políticas do racismo. A ideologia racial. Assim. vos e mantenedores de tais condições. Nilton Bonder. para que. para critério para a compreensão passa a ser o da superio- to. racistas que parecem grotescas. discriminação e racismo.) Racismo significado que a pele negra traz enquanto significante? terror de possíveis ataques (de qualquer natureza. Mas esta imagem de si. ída em um código social que se expressa dentro de um Esse processo despersonaliza e transforma o sujei. O sujeito. E o ou ódio pela incorporação das propriedades do obje. reagindo. onde o indivíduo se autoriza à eliminação do representações psíquicas não são puro reflexo das con. Direitos mais humanos. nal lógico. ou ambas cesso psicológico da ordem do inconsciente. os negros eram. estigmatizados. É evidentemente confuso esse pro. livres do cativeiro. passam a garantir essa Frei Betto. a mais completa análise sobre o preconceito Resta ao negro. 1995. acesso ao mundo. O intuito. que deve ser negado. São Paulo: Companhia das Letras. se vê exposto a uma situação em que inferioridade de certas etnias. Cleusa. É o que analiticamente (para a psicanálise) se dá encarna todas as virtudes. Bibliográficas as coisas simultaneamente. tão complexas quanto essas que envolvem a discrimina. penso negando-se dessa forma a si mesmo. aí uma confusão entre o real e o imaginário. mas jamais da condição de escravos. A brancura. tade moral. em que o sujeito intro. o neutro da huma- não impede que ele seja afetado pelas marcas que a re. ao amor os negros passam. o racismo é a expressão violenta da discri- Tal processo não é imediatamente verificável. 1870- supostamente aquém do valor das propriedades bioló. ine. de “direitos civis” − é mais forte que ele: o negro acaba aquilo que pretensamente autoriza o indivíduo à exclu- Sabemos que as condições sócio-econômicas e a cura se contrapõe ao mito negro. absurdas. Embora o negro saiba que sua condição é o resul. 1930. Se o que constitui o sujeito É justamente porque o racismo não se formula ção em relação aos negros. negro uma angústia que se fixa na realidade exterior e dir preconceito. leis e outro. em termos aquilo que me diferencia do outro. mas antes sobrevive em um devir in. pelo qual onde as diferenças e semelhanças são negadas. to essa marca pudesse representar. portanto. assim. enquan. Jorge Werthein. totalmente O preconceito é próprio da natureza humana. o pois nossas reações são relativas à demanda de um dado área específica de atuação e conhecimento. Isildinha Baptista. te que essa defesa apaixonada se dá por comparação. baseado na suposta sidade de São Paulo. Gustavo. o desejo de “brancu. assim fragilizado. o branco suficiente conhecimento. Textos de como a identificação com o agressor. estejamos inconsciente elaboração própria . que seja adequado nos lembrarmos que cada um desses próprio corpo. o negro passa a se auto-rejeitar. Tese (Doutorado em Psicologia) – Univer- encerra vários significados. declarações e também a capacidade de contradizê-los. corpo próprio. sempre por sucumbir a todo um processo inconsciente são do outro. minação. o negro possa desconsiderar tais ameaças termos determina e demanda diferentes sentidos. para além de seus fantasmas. nobreza estética. ser sujeito no outro. o real do seu próprio corpo. cria para o do negro. majes. É eviden- jeta. seus sentidos e significados. povo e é o olhar do outro. Eduardo Soares. NEGROS? recedores de possibilidades sociais iguais. o desejo de recusar esse signifi. à alteridade. Nasce em nós. portanto. dela excluídos jeito “outro”. Rio de Janeiro: O “ser negro” corresponde a uma categoria inclu. de cor no Brasil. se impõe inexoravelmente. Chico. tornando-os sujeitos cati. com a expla. 12 13 . transcende qualquer falha do branco. relação ao outro. Petrópolis: Vozes. 2001. trução e da eliminação do outro. caso do negro. e ser o outro é não ser o próprio sujeito. etc. se funda e se estrutura na condição univer. negro. no cor que os diferenciava e discriminados por tudo quan. nesta breve reflexão acerca de questões tistas. de fato. a civilização. TURRA. Luis é internalizado. Desde essa época. que representa o significado que ele tenta negar. de um estigma.

corpos. as relações que media culture in which they are immersed. As personagens literárias dos.401) que os prédios são feitos de colunas de jornal e que o processo de subjetivação só pode ser entendido dentro rádio tem um inesperado nariz. escrito pela estaduni. Os prédios da pequena ilustração têm palavras. To reflect upon these relations and Para a discussão sobre essas relações e seus desdobramentos. A moça aconchega-se ao vida do ser humano. ‘inevitável’ ou ‘óbvio’ a gem urbana ao fundo.have with the que estão imersas. valores. cada sujeito interpreta os uma vez que. utilizadas as três posições hipotéticas de decodificação propostas pothetical positions for the reader. sentido. (HALL. A relação que as três Mesmo considerando a proliferação e a complexi- jovens estabelecem com os produtos e as figuras da mí. p. p. negociados. podemos dizer que. they see themselves in society. mostra-se fundamental para a reflexão sobre os pro- INTRODUÇÃO dense Toni Morrison. da estrela. diz/escreve/mostra será recebido exatamente como se A proposta deste trabalho é pensar o diálogo que se nicação midiática. protagonista d’A hora cessos identitários. comportamento são propostos. O rádio. ticos pode ser classificada de acordo com o grau de ro. mento e tensão. midiáticos setor de relações em uma sociedade ou cultura.dossiê temático Personagens em posições hipotéticas: consumo. protagonista do romance de Clarice valores e as instituições sociais . com estereótipos. em permanente estado de movi. e Macabéa. que nos situa e nos constitui como sim. essa imagem mostra. bilidade) e o GrisPop (Grupo de pesquisa sobre interações midiáticas e práticas culturais contemporâneas). tem vida. Na conformação discursiva da comu. traz. o mundo discursos de acordo com sua história. está envolta pela mídia. Palavras chave: mídia. a atenção às interações dos indivíduos e a decodificação de produtos da comunicação. As- ção da ilustradora. a figura de uma jovem de olhos fechados que carrega consigo o selo da legitimidade – parece que ouve rádio. 399-400). que organizam Lispector. We also consider Judith Butler´s nicação Social da UFMG. In both novels chosen. e do modo como se colocam diante de si mesmas. do outro e da sociedade. (a) que define dentro de seus termos o horizonte men- uma imagem que não ocupa mais que um quarto da Sujeito e discursos tal. sua uma necessária correspondência entre codificação e urbano e midiático em que Macabéa se encontra tem visão de mundo. como num namo. e (b) meiro plano. ideias e padrões de esperava no momento da codificação. na UFMG. 2003. do tendem a ser normativos e a operar com representações tão tonto que sou. o narrador d’A Hora da Estrela situações-padrão. body. Macabéa. na concep. construí. consumption. encarnados em coisas os discursos da mídia.esse sistema de sig. Key words: midia. corpo e subjetivação na RESUMO ABSTRACT cultura das mídias Este trabalho trata das relações que três personagens femininas colhidas da literatura estabelecem com a cultura midiática em This article deals with the dialogue that three female characters from literature . Na capa do livro. Partimos da premissa de que o sujeito é construído coincidir com o que é ‘natural’. quando o indivíduo se confronta com os O autor acredita que em toda sociedade existem presentada na capa. we apply Stuart Hall’s concept of the three hy- Professora adjunta do curso de Comu. preciso dos outros para me manter de pé. velop this theme. Hall 15 . assim como sua natu- Esse eu que é vós pois não aguento ser apenas dia é central para a constituição de suas subjetividades reza agonística. subjetividade. Em escolhidas para instigar a reflexão são Claudia e Pecola.). com Rodrigo S. do romance O olho mais azul. Os sujeitos produzem e reproduzem decodificação” (Hall.. eu enviesado (. Hall entende que a leitura dos produtos midiá- aparelho humanizado e quase sorri. Para Stuart Hall. no processo comunicacional. Há várias articu- dá entre três personagens femininas e a cultura midiáti.Pecola. ainda assim. Pecola. com um varal de roupas e uma paisa. isto é: na troca significados. Portanto. estes mim. Macabéa and Claudia . a moça re. um terno. sua cultura. além do nome da autora e do título da obra. M. Em técnica mista. subjectivity. sujeitos e agentes da vida social. lações possíveis para a combinação entre a codificação ca na qual elas estão inseridas. em pri. os “corpos que pesam”. não há garantias de que aquilo que se antes inanimadas. consumo. o universo de significados possíveis e de todo um capa. comunicativa.parecem dançar. de Clarice Lispector. o ponto de vista hegemônico é aquele A edição d’A Hora da Estrela que tenho em mãos. dade dos discursos midiáticos. O olhar mais atento vai descobrir nas relações estabelecidas com os outros sujeitos. da sociedade.. de 1999. consumption and the hegemonic discourses about the bodies are Laura Guimarães -se centrais para a constituição de suas subjetividades e do modo central to the constitution of their subjectivities and to the way Corrêa como se colocam diante de si mesmas. hegemônicas já solidificadas. assim como as reflexões de Judith Butler sobre concept of “bodies that matter” as an important approach to de- (Grupos de Pesquisa em Imagem e Socia. têm Nas interações comunicativas que se estabelecem concordância ou de adesão aos sentidos preferenciais. “não existe lençol . são their ramifications. corpo.. 2003. um nos contatos com a mídia. Nos dois romances analisados. O respeito da ordem social. sentidos dominantes ou preferenciais. nificações feito de códigos e rituais que dá sentido à domínios discursivos através de códigos sociais. recados e afetos. outro e da sociedade. As peças no varal – um vestido. Macabéa e Claudia travam com o mundo do consumo e the relations that these young women establish with the world of com os discursos hegemônicos da mídia para o corpo mostram. Integra o GRIS por Stuart Hall. e grupos da sociedade com os dispositivos da mídia sua análise de produtos jornalísticos televisivos.

tão distante de seu cotidiano de pobreza. a adesão aos objetos é sobre como a Shirley Temple era lindinha. o dia. bolinhas de papel. glorificação da mercadoria e do mito da felicidade e do Shirley Temple habitava um domínio adorado e Os discursos cristalizados da mídia chocavam-se dade grande. uma comparação na vida real. A literatura traz aqui uma tamento intrínsecos às imagens e textos publicitários Pecola não podia ser. ligava bem contestatória: reconhece o sentido hegemônico. 1999. encantamento: Bodies that matter. Frieda e ela conversaram. p.. p. há la apoia-se numa fantasia de admiração pela menina apresenta em Corpos que pesam. de outros tipos de em que vivia lhe era contrário? Pecola fazia força para sobretudo esse canal de rádio aproveitava intervalos produtos culturais: estrelas de cinema. as definições hegemônicas são aceitas. constituindo-se como poder estruturante e. de dominação que traçam a linha entre aqueles seres lidade insuportável. no sentido de comunicação mostram-se abundantes e ricas para a Frieda lhe trouxe quatro bolachas num pires e leite de ter importância. por interpelar – a contemplação do dedos um por um. 2003. motivo de revolta ou de tristeza imediata. mas físico – o leite que ela toma da xícara é o que menos às imagens idealizadas que lhe eram oferecidas: uma o/a receptor/a cria suas próprias regras para decodifi. ela tinha um corpo que não era visto. entre as tais gotas de minuto para dar anúncios comer- citários. para o lugar da vida perfeita. às vezes não tem o que comer e masca A publicidade representa situações cotidianas brancura. dossiê temático (2003) identifica três posições hipotéticas de leitura. pela promessa Pecola e Shirley Temple mente. os que são abjetos. nunca conseguia fazer os olhos desaparecerem. Ela precisava direta com a posição hegemônico-dominante descrita Joan Scott (1999. velmente para a Rádio Relógio. aqui -. (LISPECTOR. bem. Eram digo referencial no qual ela foi codificada. só pingava em som de criadas por Hall para pensar a apreensão. Deus. Lentamente de novo. programas de rádio. A do.da experiência de um cotidiano triste durante primeira delas. a função econômica da pu- Shirley Temple. bela.) Uma menina negra favor. não bem-estar coletivo na sociedade de consumo. com (CORRÊA. violência e os atributos propagandeados pelos discursos hegemô. Em sua fragilidade. Depois o se apropria do sentido conotado (. loira. requer a não aceitação de si mesma. Mas trata-se de um sonho que rada na esfera da fantasia. o mais lógico que já lhe tinham feito. representações e padrões de compor- talentosa. Não há contradição temporânea. 2003. então deixar de ser. que os perpassam. Por fim. dessa for. saída encontrada por esse sujeito destituído de todos causa . As pernas. (MORRI. tude e ver o mundo com olhos azuis. De que matéria-prima ela podia cotidiano. mas que. uma extensa gama perfeita dos musicais do cinema americano: rica. não tem família. olhando portam”. sentidos. fato esse que não a protegia do ser descartados. o pescoço. incontestável. p.175). No título original personagem impotente na relação com a família. Só restavam os olhos. podemos com esses produtos midiáticos. se tudo cura o charlatão que supostamente poderia realizar tal e cultura’. de significados. a investigação sobre os fenômenos sociais e as ideologias numa xícara branca e azul com a Shirley Temple. anco.37) “Por favor. Ali estava uma ciais – ela adorava anúncios. sacralizado pela mídia: o reino da beleza. ligava invaria- discorda deste. dizer que o telespectador está operando dentro do códi. na sua recepção das imagens da mídia. Além desse aspecto disseminador. Macabéa é uma ala. enternecidas. Fechou os olhos com força. mas tranquiliza e destrói ao mesmo tempo. Segundo vez só. Na segunda hipótese. essa figura exerce um fascínio A discrepância evidente entre os dois mundos não era. menina de doze anos que se quase. Macabéa se apoia na vida harmoniosa do cinema gemônico conotado. anúncios publi. ao contrário do seu árduo baixinho para não acordar as outras. constituintes de sua subjetividade quando se relaciona ria está Pecola Breedlove. ora de chofre. a publici- desestruturada.23) é exatamente no encontro com o outro que os sujeitos No romance de Clarice Lispector. não A ASTÚCIA DE UM CONSUMO de vendas. isto é. p. (MORRISON. me faça desaparecer”.22. e apenas uma consequência . a autora explora os dois significados a sociedade e com os produtos da cultura midiática. em Pecola. quase desmaterializado: um corpo que SUBVERSIVO blicidade é secundária.” Macabéa tem experiências nos Estados Unidos dos anos 1940. desaparecer: Aquele era o pedido mais fantástico e. po. óbvio. de olhos azuis.”. era bom aquilo. mas os sujeitos é que são constituí- sobre a realidade dura de personagens negros e pobres não ia. criança.52). Os discursos publicitários atingem a todos de uma feiúra que se confundia com todos os outros “como alguém poderia ver uma menina negra?” (MOR. Ora lenta. Mas aceitar desse modelo como um dos sistemas de construção da realidade con- mulher. e nenhuma música. de qualquer ângulo que se Ela decodifica as mensagens da mídia com aceitação. absoluto. ao mesmo tem. gera identificações.) de forma direta e dos através da experiência. Na para a imagem de Temple. oferecia pouca possibilidade uma colega de moradia. alinhamento. Pecola é descrita como uma menina muito feia. mente pelo mundo próprio que criam. Quase lá. Toni Morrison escreve ficar completamente imóvel e fazer força. “quando o telespectador têm experiência. Além da exclusão por ser negra. que a trata mal e a troca pela colega. Depois os braços até os cotovelos. E por que Macabéa adorava anúncios? Provavel- Pequenas partes do seu corpo se apagaram. p. Todas as madrugadas ligava o rádio emprestado por car a mensagem. Nas palavras da narradora. Sim. era praticamente invisível. De acordo com as ideias que Judith Butler (1999) com as consequências dos abusos sofridos. por transportá-la para longe dali. Pecola vale menos. Construídas. peito. Jean Baudrillard (1995) sugere que demorou longo tempo para tomar o leite. p. a leitura é oposta. que desejava alçar-se para fora do fosso de sua negri. por fim. 400). No centro da histó. acalentador sobre a personagem. pois já concordância. Pecola resolve ter olhos azuis e pro.. Maria da Penha.e por completas. “não são os indivíduos que No romance O Olho mais Azul. também desapareceu. únicas. como se estas constituíssem experiências memoráveis.da SON. Há uma contemplação que extrapola o mundo nicos da mídia foi a identificação e a admiração frente e da publicidade à noite: negociado. mas. tem instrução. Pecola cria uma imagem de si descolada da rea. Ela expressão pode ser lida também como “corpos que im. p. Pecola sorri ao olhar para ela. ainda uma pesada carga simbólica. por nossas anti-heroínas. (MOR. Não importava para as outras pessoas. oferece classificações. Apesar . a do código abuso. go dominante. O estômago por Stuart Hall (2003. “por menina feia pedindo beleza. e o substantivo matéria. de uma É possível fazer aqui. O rosto também era difícil. goana pobre que trabalha como datilógrafa numa ci. era considerado. Tem dezenove anos. função global de integração e coesão social através da são construídos. fotografadas. dade é um sistema cultural e simbólico que organiza ca e lugar – que não se mostra muito diferente hoje e RISON. portanto. Peco. e decodifica a mensagem nos termos do có. Como prática social institucionalizada. Sumiram os 2003. de felicidade guardada em um produto. Mas. num processo de dessubjetivação. desrespeitada RISON. bem apertados. 2003. a leitura e o o que era valorizado na esfera midiática e na sociedade sonho: gotas que caem – cada gota de minuto que passava. 27). Para o olhar hegemônico daquela épo. alimenta: ela bebe simbolicamente Shirley Temple e sua solução aparentemente contraditória.52) que é lido como natural. da pureza. E consumo. olhe. (. filma- 16 17 . há normas no discurso esferas. Para lidar dade ou as condições de consumir o produto ou ser- ou simplesmente ignorada. Por mais que tentasse.. Pecola estava completamente fora da norma MACABÉA E OS ANÚNCIOS – o objetivo primeiro da publicidade não é a promoção ternamente para a silhueta do rosto com covinhas de reguladora. encontra dentro (e fora) de uma família completamente sempre os olhos que sobravam. Pecola deseja de negação ou de frustração. da contra a realidade em que vivia a personagem Pecola. a ouvinte com a intimidade e o carinho que lhe faltam oposto ideal Os pés agora. certamente . No terceiro caso. No romance. sussurrou na palma da mão. Ela era tudo aquilo que que interessam a uma sociedade e aqueles que podem dissolvendo-se em psicose. integral. tenham ou não a necessi- motivos para que ela fosse ridicularizada. em todas as viço anunciado. A moça tem uma espécie de namora. promessa de felicidade.” Pecola não questiona o ideal de beleza. Assim.desejável. 2006). Acima das coxas era mais difícil. há concordância frente ao sentido he. pobre e Ela nem precisava fazer tanta força assim. As produções de sentido operadas por essa forma do significante matter: o verbo importar. a menina negra anula seu próprio corpo. que dava ‘hora certa Nossa proposta neste artigo é utilizar as categorias dispor para a construção de sua subjetividade. objetos industrializados.. não importava. ma. Para o autor. os que estão expostos a ele.

1999. (LISPECTOR. decodificar olhos críticos a exclusão a que são submetidas as pes. instruem a menina quanto à sua posição e seu Um ponto importante que diferencia Macabéa de mundo. Claudia. intervalos de tempo. compreendida não como um ‘ato’ singular ou delibe- cabéa coincidentemente toca no tema do “corpo que (abstratas) ao passo que. O que ativa uma experiência emocional não sociedade. como a prática reiterativa e importa” quando trata da importância de Greta Gar. discursiva do gênero feminino. armadilha de pensar essa comunicação como unilateral. isto é. É que lhe faltava sociais. p. Talvez fosse assim para se defender da grande tentação tados e colados em álbuns. seu desejo. tentamento de Claudia frente a esse objeto não estavam A produção discursiva do corpo materno como pré- tão apetitoso que se tivesse dinheiro para comprá-lo ção. por um produto industrializado.23) termina ali. ela é trazida para o domí- tida. Ma. moça simplória. uma boneca carregada tes repetições de modelos. e as pessoas são sempre vítimas de É importante lembrar que objetos industrializados.) Eu ficava enojada e secretamente assustada com DE RESISTÊNCIA aqueles olhos redondos imbecis. p. ro que se esperava de uma menina-mulher para com sexualidade em que se exige do corpo feminino que ele meio vazio de torrada esfarelada. essas situações são perpassadas por cabéa subverte aquilo que recebe. inventar historinhas em torno dela. de normas e significados: modelos representacionais para a mulher é o que liga A subjetividade de Macabéa é construída por sua béa apenas encontra uma maneira própria de se rela. lháveis.64). Por mais frustrante que seja a creve sua marca. eu sabia que a boneca represen. pelo contrário. É que fazia coleção de anúncios. que nada. junta. faz suas próprias regras – fun. son. até dormir com ela. p. 1999. comportamento frente à sociedade. 2003. tem um corpo que vale a pena ser Trata-se de uma leitura atravessada por contradi. sentir entusiasmo algum ante a perspectiva de ser mãe. experimentada no do consumo. para reforçar ou contestar esse escritório. Toni Morri. serviços de atributos emocionais. de maternidade. Havia um anúncio. Claudia se vê coagida Além de anúncios. sensuais.. o corpo materno seria en- sim. atuam na Pecola é a maneira particular pela qual a personagem sos da mídia que Macabéa experimenta o mundo e se Maternidade era velhice e outras possibilidades remo. é dialogando com os discursos e produtos da sociedade por estar fora dos padrões e das normas reguladoras cida repetidamente a crianças – meninas e meninos na representação de um amor ideal. ela resiste 18 19 . E um dos mais poderosos olhado. hegemônicas para produzir as grandes significações ritários na luta por visibilidade e respeito. ções. estabelecidas pelo discurso hegemônico da sociedade . diz através da voz de Claudia de rado. Maca. Por ter nascido com cinema ou na publicidade. raça. tuacional (localizado). permanências e avanços dos grupos mino. 1999. tinha. Mas Claudia não adere a essa “verdade”. essa (. cuidado. efeito naturalizado. Colava-os manipulação. vê com características físicas que a fazem pertencer à categoria sua experiência de quase-amor.38) são formas encontradas por Macabéa. sua resistência a uma sociedade que não reconhece os citacional pela qual o discurso produz os efeitos que ele bo. são embebidos pela cultura. (HALL.138). a cara de panqueca e o cabelo de minhocas laranjas.161) no álbum. mistura e rearranja significados. que é quase invisível. 1999. Eu não tinha interesse por bebês nem pelo conceito Os personagens adultos do romance analisado. das relações de poder (.) contém uma mistura de elementos de adaptação e constante transformação. clara inspiração beauvoriana.. Garbo. A fala da personagem Ma. (BUTLER. nos “falam” através de sua forma. cionar com os produtos da mídia. alegria. que ráter impessoal da experiência. 2003. essa interpelação fundante mecente sob o lençol de brim. é a que Claudia não aceitou a norma de um comporta- amor. “(. tudo com encantamento e passividade. sucesso. compartilhados e comparti.23) das e impressas. em um nível mais restrito. pré-adolescente ainda. Mas aprendi depressa o que esperavam que eu fi. Mas nota-se na curta É sabido que a publicidade reveste produtos e era sempre uma Baby Doll grande. se comer. de olhos azuis. A resistência de Claudia fica evidente no desprezo não é um dado. em que a é reiterada por várias autoridades. ao invés disso. 1980). sensoriais. a autora do livro. ela. construção de uma subjetividade marcada por gênero e de Clarice se relaciona com os produtos da mídia. de mãe. toda estre. apresenta mais claramente a surpresa e a indignação mento de gênero que lhe era imposta e que é ofere- relação de Macabéa com seu namorado Olímpico. Com experiência frente aos modelos e representações de mu. pensava ela sem se explicar. Tornara-se com o Assim como cremes de beleza não são feitos para uma miniatura plástica de criança: assuma a maternidade como essência do seu eu e lei do tempo apenas matéria vivente em sua forma primária. por apenas na percepção de um racismo representado pelo -discursivo é uma tática de auto-ampliação e ocultação não seria boba. Longe de tomar qualquer atitude política. colecionar anúncios. “Greta Garbo. às colheradas no pote mesmo.. Mas esse tornar-se garota da garota não Mas tinha prazeres. Pela vida de Macabéa um espaço de subversão quase diver. mas. inexoravelmente a feminilidade à maternidade. Que pele. uma figura midiática com extrema visibilidade. nomeia. 2003. algo que parte do interior seu formato (CORRÊA. como produtos humanos. suas cores... como estratégia de sobrevivência: valendo-se do discurso persuasivo e sedutor para atrair tava o que eles pensavam que fosse o meu maior dese. dado com muito carinho.) a performatividade deve ser (LISPECTOR. grupos marcados pelas diferenças de gênero. tagarelice dos adultos. dos livros a aceitar e interpretar (to perform) o papel mulher deve ser a mulher mais importante do mundo. O presente grande.. e ao longo de vários vela os anúncios que recortava dos jornais velhos do recepção é passiva. aos nia. p. p. Se Pecola absorvia Claudia é a menina narradora do romance O Olho demonstrações de sentimentos positivos de ternura. nio da linguagem e do parentesco através da interpela- e conquistar seus públicos. admirado.carregam mostrava em cores o pote aberto de um creme para são fenômenos públicos. p. anúncios não foram feitos para serem recor.pelos mais variados discursos. Essa adesão consiste numa atividade. tas. afirma que as emoções Os objetos – principalmente brinquedos . Nas frígidas noites. Fiquei pasmada com a coisa e com a aparência que ção do gênero. no contato com um produto de comunicação. ao falar sobre o ca. p.401). podem-se perceber conflitos.. o mais precioso. e não conseguia prática. (MORRISON.” (BUTLER. o gênero contrário de Macabéa.” de oposição: reconhece a legitimidade das definições conquistas.. Os livros de figuras esta- CLAUDIA E AS CRIANÇAS vam cheios de garotinhas dormindo com suas bonecas. (BUTLER. ela o comeria. p. Macabéa gostava de estrelas de soas negras e pobres. mais Azul. Louis Quéré (2007). reiteram uma para entender e suportar a dura experiência de estar no humanos da minha idade e tamanho. num ato mas também pelo modelo de comportamento de gêne. É através da leitura e (re)criação desses discur. si. os sistemas de classificação binária pele de mulheres que simplesmente não eram ela. 154). são signos e objetivações de cada Para a autora. tendido como efeito ou consequência de um sistema de gordura e seu organismo estava seco que nem saco do sujeito que sofre a experiência (DEWEY. Estava interessada somente em seres ao presentear Claudia com uma boneca. dossiê temático zesse com a boneca: embalá-la. de relações ideais. ao ciona com as exceções à regra. ficava só imaginando com delícia: o creme era do sujeito que é afetado: o engajamento numa situa. se dá a partir de uma convergência de valores modelo único e normativo de bonecas de olhos azuis. Para Butler. mas é aprendido por meio de constan- olhos de Macabéa. Mas é preciso escapar da jo. ADORÁVEIS – A VONTADE (.). Portanto. negociada proposta por Hall: nesse caso. O assombro e o descon- olhos. impõem modelos culturais de existência do corpo: Executando o fatal cacoete que pegara de piscar os é um sentimento solitário. Ouvir a Rádio Relógio e Eu devia fazer o que com aquilo? Fingir que era a mãe? de ser infeliz de uma vez e ter pena de si. história e ideologia. Macabéa ins. A garota torna-se uma garota. costumava ler à luz de como uma imposição de cima para baixo. isso exemplo. 2011). Nas mais diversas sociedades. constrói como sujeito. que ela se sustenta para viver É possível aqui traçar um paralelo com a versão em que vive. Das três personagens analisadas. 2003. Butler afirma que: lheres ideais. esses pequenos recortes de prazer. (MORRISON. classe e et. em pelos/as adultos/as e pelas representações nas figuras cinema. especial.

20 21 . Claudia rompe com a norma branca e he. sobre os objetos e a norma . Não se busca. 2007. reafirmando as Horizonte: Autêntica. Guacira L. Tânia.” O autor afir. e poderosa das mídias. a atenção para a importância de se considerar o que subjetividade da menina Pecola: versidade Federal de Minas Gerais. dossiê temático é atropelada pela realidade e Claudia sobrevive para narrar histórias. p. os acontecimentos da vida humana. a conversa se. aqueles comportamentos. Brasileira. o que os textos dão a ver: te. de subjetivação. adultos/as divíduo consumiu e dialogou à sua maneira com esses ção em Comunicação Social da UFMG. Sabe-se que vem à tona. Lisboa: Edições 70. num misto de vingança é aquela que consegue se constituir como sujeito. 402). Problemas de gênero: feminismo e sub- o que era que todo mundo dizia que era adorável. questão pertinente a uma tal análise poderia ser assim da beleza? (MORRISON. LAGO. as tradições e as crenças do grupo ao qual ____________. Stuart. p. das práticas discursivas e das relações entre as falas. p. (. o que exclui CORRÊA. e talvez inconsequente. Segundo Hall (2003. análises. Obviamente não se pode simplificar a reflexão a ponto de afirmar que a relação das persona- Referências gens com os discursos da mídia é o ponto que define bibliográficas o destino de cada uma delas. chatos. the Berkeley Publishing Group. Clarice. desconstruindo em relação aos sentidos preferenciais de decodificação Janeiro: Elfos. pais brincam: nor- 2003. (Curso ministrado no Programa de Pós-Gradua­ dentro de algum referencial alternativo. mas pa. reconhecido e premiado. mesmo que solitária.31). Art as experience. As perguntas de Morrison são muito pertinentes Rocco. de origem racial. Belo Eu tinha uma única vontade: desmembrá-la. aquelas vidas blicidade em revista. 1987. Ele ou ela destotaliza Os dois romances emergem em dada época. Corpos que pesam: sobre os limites e curiosidade: CONSIDERAÇÕES tagonizando sua história. Falas de gênero: teorias.seja internalizada na construção da Tese (doutorado em Comunicação Social) . se arrancasse a cabeça. valores e papéis na publicidade de homenagem. Pecola enlouquece. Mães cuidam. que geralmente esses discursos vêm dos grupos he. o receptor “decodifica a mensagem de sociedade contemporânea. Todas as três.. verdades. A achado tão deficiente. servação crítica das relações sociorraciais na contem- infância. brancos/as e negros/as. formação verbal) desencadear crises de naturezas diversas. entretanto. In LOURO. p.23) localizadas social e historicamente. que apresentam caráter peda. deslocado da norma. p. acrescentar que esses momentos de crise e transgressão espaço. em porais oferecidos pelos produtos midiáticos disseram QUÉRÉ. Modelos são assimilados.54). nessa hipó. em discursos atuantes discursos hegemônicos. E vinte anos depois eu continuava me Books. Se eu Trata-se de “substituir o tesouro enigmático das ‘coi. É preciso lembrar versão da identidade. Dissertação (mestrado em lindo “Ahhhhhh”. A mi-silenciosa de um outro discurso: deve-se mostrar perguntando como é que se aprende isso. In SILVA. DEWEY. soltasse o cabelo. 1987. A Hora da estrela. Janeiro: Forense-universitária. metal da cama. de certa forma. 1999. Toni. de um lugar privilegiado para a ob- partir do sentimento de indignação presente desde a representações. como exclui qualquer ela? Quem a fez sentir que era melhor ser uma aberra. Da diáspora: identidades e mediações como sujeito. belos/as e feios/as. Laura G. girasse a cabeça (. discursivos do sexo. um lugar que nenhum outro poderia ocupar. Mas é possível observar que a personagem que apresenta a postura mais crítica BAUDRILLARD. 1999. Representação da Unesco no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização eu quebrasse os dedos minúsculos. 2003. esta termina por produzir um discurso literário pró. silenciosa por que não poderia ser outro. como alter ego da autora do romance. São Paulo: Com- tese de leitura. 2006. panhia das Letras. mas notam-se espaços – difíceis. Nenhuma delas se reconhece ções discursivas são perpassadas pelas lutas de poder. que não estão dentro das representações dos grupos Comunicação Social) . as relações de poder estão implicadas na construção Implícita em seu desejo estava a aversão por si mesma. Michel. Reflexões sobre a experiência pública a mensagem no código preferencial para retotalizá-la dado lugar. dos grupos não-marcados. Se reconhecemos Claudia sujeitos marginais porém imersos na cultura envolvente doras dos corpos de homens e mulheres. a a eles. sob o que está manifesto. 210). Mulheres. Joan. a autora reflete sobre a interpelação que faz com que CORRÊA. Retratam e revelam relações desiguais entre muito às personagens dos romances citados. Judith. Laura G. rachasse as costas contra a grade de Essa perspectiva está focada na análise e apreensão que detêm o poder. 2011.Universidade Federal de serragem para fora. prio. Cada in. UFMG. como ocupa. dobrasse os pés da emergência de certos discursos em certas épocas. Quem disse a FOUCAULT. Alcione. Belo Horizon- terossexual representada pelo brinquedo. Macabéa e Claudia... para a reflexão sobre as relações raciais e de gênero na MORRISON. Sua ativa insubmissão. faz parte de sua constituição outro. Brasília: salva de um destino triste como o de Pecola. (MORRISON.Uni- Assim. Foucault chama hierarquia racial . 1999. a desigualdade e a mas. Belo Horizonte. fisicamente a boneca branca. 2003. New York: Perigee das subjetividades. sem dúvida – para a resistência e a transformação. leituras. John. maneira globalmente contrária.). nas imagens oferecidas. 2003. cada uma reage preconceitos e contradições presentes na sociedade. Vimos que os modelos cor. O olho mais azul. Rio de contestação de Claudia. A sociedade de consumo. 1995. no meio dos outros e relacionado ção do que ser o que ela era? Quem a tinha olhado e a HALL. A atitude de Claudia pode ser vista como exemplo formulada: que singular existência é esta que vem à LISPECTOR. homens e mulheres. No posfácio d’O Olho mais Azul. Se condido por trás das palavras e sim entender o porquê pertencem os agentes do discurso. Poderíamos nessas sociedades não muito distantes no tempo e no gógico e formador. são A mídia apresenta constantemente normas regula. O corpo educado: pedagogias da sexualidade. A arqueologia do saber. a de forma particular no momento do consumo dessas Trata-se. In- ma ainda que essa atividade de recepção oposta pode e crianças. de oposição. CAULT. 1987. ela continuava balindo. assim. Rio de e protesta a seu modo contra a norma.) FINAIS As imagens e textos midiáticos invocam signifi. dificados ou recusados. Toni Morrison. com forte influência nos processos SCOTT. Mara e RAMOS. sacudisse a objetos que só nele se delineiam” (Foucault. Belo Horizonte: Ed. Rio de Janeiro: de recepção/decodificação que opera dentro do código tona no que se diz e em nenhuma outra parte? (FOU. pro. Experiência. Macabéa poraneidade. 2003. São histórias de três jovens diferentes.no caso do livro citado. para a reinvenção. revelam-se muitas vezes como oportunidades para a recidas. sas’ anteriores ao discurso pela formação regular dos aqueles corpos. mo. continuava ba.) Não cados compartilhados e consensuais. Jean. Mas podia examiná-la para ver Para Foucault não interessa encontrar o que existe es. um peso tão pequeno na escala culturais. Minas Gerais.. Pecola. Suas constru. (org. gemônicos. BUTLER. Louis. De corpo presente: o negro na pu- lhe removesse o olho frio e estúpido. aceitos. 1980. conseguia gostar dela. Ilha de Santa Catarina: Editora criação.

levando dizem respeito à vida. a segmentação da população em pensar a partir a pertinência do biopoder foucaultiano em consideração alguns eventos de 1993 até 2009. por isso vai ser preciso que o Estado diminuição dos riscos e interdições dentro de uma so- reúna de modo articulado uma série de saberes aptos ciedade para alguns por meio de critérios raciais. especificamente o racismo na socieda- tar um debate profícuo em torno da violência urbana e Para Foucault. o racismo análises do fenômeno de violência urbana e racismo. 2002. Estuda e pesquisa sob orienta. A chacina 23 . ANTI-NEGRO NO p. 2002.) uma sociedade que do Laboratório de Estudos Afro-Brasileiros (Leafro) da define o segmento populacional que deve receber um generalizou absolutamente biopoder” (FOUCAULT.311). racism in contemporary Brazilian society through biopower. coordenador do Grupo de Pesquisa Rio de Janeiro Afroperspectivas. Pois bem. dentro de uma leitura foucaultiana. Porque à medida instrumentos teóricos de Foucault. p. biopower. violence.. A raças e o racismo passa a se constituir como um “me. em certo momento. as chacinas do biopoder. da UFRRJ. Por exemplo. em certa medida. O objetivo do artigo é fazer uma uma categoria-chave para o biopoder. promovendo alguns e/ 2002. considerando o aumento e INTRODUÇÃO sobre a população. nossa análise incide sobre ações analysis focuses on police actions and speeches of the state. namento de um sistema social. tipo específico de tratamento. e tem como objetivo enriquecer o debate contemporâneo sobre Aiming to enrich contemporary debate about anti-black racism o racismo anti-negro e seus diversos dispositivos. em especial no and its various devices. p. Saberes e Interseções (Afrosin). Palavras chave: racismo. De tal modo que Nossos tempos. a fazer medições. biopoder. especially with regard to the technologies Carla Cristina que diz respeito às tecnologias de segurança pública próprias do of biopower own public safety. Em outros termos. em certo limite e em certas tivas e metáforas de caráter biológico e médico. É importante frisar que o racismo está ligado contra os perigos biológicos. assim. ção do Professor Renato Noguera. o poder intervém e interfere exerce sobre a população. Rio de Janeiro. Nesse caso. In order to confront the anti-black Campos da Silva biopoder. fornecer e avaliar Com efeito. Uma leitura cuidadosa da obra de Foucault problematizando a racialização da violência através ou concentração de determinados benefícios. violência. racializada no Rio de Janeiro contemporâneo. Para problematizar essa importante questão na socie. contemporâneo. O destaque vai para uma ação highlight is a police action that occurred on September 25. Dito de outro modo.. Foucault tomou como exemplo o nazismo. integrante verno investido da visibilidade das relações de poder pois. fazer com que inclui o genocídio da própria população. o direito de morte que o Estado são.306). visando um determinado funcio. membro do Grupo de Pesquisa pela Polícia Militar. de brasileira na primeira década do século 21. que certos tipos de pessoas carregam consigo do Estado só pode ser assegurada. contexto que o conceito de raça passa a funcionar como sua pauta de pesquisa. O go. policiais e discursos do Estado. efeitos do biopoder. de comentar seus textos. em busca de fomen. dentro O trabalho reúne.32) Michel Foucault fez uma profícua pesquisa sobre funcione no modo do biopoder. que tem sido realizada pelo Grupo de Pesquisa Afro. tal como a repartição anti-negro. de Janeiro. “A função assassina nadores. fico e político. lotado no Departamento de Edu- um caso no cação e Sociedade do Instituto Multidisci- plinar. canismo fundamental do poder”. Rio de Janeiro. perspectivas. The Estudante de graduação do Curso de Pe. desagregadores e desorde- RIO DE JANEIRO ao funcionamento de um Estado. de problematizá-lo no contexto do Rio de Janeiro. que está em jogo é a defesa da ordem social e da vida. 2009 in dagogia do Departamento de Educação policial que ocorreu em 25 de setembro de 2009 na cidade do Rio the city of Rio de Janeiro. evento que terminou com um homem negro morto by military police. RESUMO ABSTRACT O artigo trabalha com o pensamento político de Michel Foucault The article work with the political thought of Michel Foucault. o biopoder é um modo de gestão que Nosso artigo é resultado de uma pequena pesquisa so. para a compreensão do racismo anti-negro moderno e pesquisa tem caráter introdutório. apresentação introdutória do conceito de biopoder e que o biopoder encerra um conjunto de tecnologias que não se trata. pelo racismo” (FOU- os modos de gestão do poder nas sociedades ocidentais CAULT. É neste não deixa dúvidas: o racismo anti-negro não esteve na do biopoder como modo de gestão estatal contem. The event ended with a black man killed e Sociedade do Instituto Multidisciplinar. Saberes e Interseções (Afrosin) e vice-coordenador do Curso de contemporâneo Pós-Graduação Lato Sensu do Laborató- rio de Estudos Afro-Brasileiros (Leafro). somente. a população funcionem em favor do Estado. na sociedade nazista (. 2009. aferir constantes. do biopoder. 304). Ou seja. exercício bre violência e racismo no Rio de Janeiro. Nosso objetivo é problematizar.dossiê temático Renato Nogueira Racismo e biopoder: Professor de filosofia e educação da UFRRJ. dados estatísticos. Saberes e Interseções (Afrosin). our dade brasileira contemporânea. têm alicerçado muitas relações “quase não haja funcionamento moderno do Estado hegemônicas de poder fundamentando-as em justifica- que. a emergência do biopoder é condi. a população passa a ser problema cientí. Mas. “Tem-se. p. não passe pelo racismo” (FOUCAULT. Afroperspectivas. Keywords: racism. onde o BIOPODER E RACISMO condições. Com os processos de instalação o que é específico no racismo moderno é o exercício de eliminação de criminosos. investigação as tecnologias que servem para controlar e gerenciar racista sustentado por critérios técnicos e científicos. Nosso intuito é pensar com os porânea dominante. desde que o Estado (CASTELO BRANCO. Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). conforme Foucault Um dos resultados do biopoder é a possibilidade desde o século XVIII. ção necessária para inserção do racismo nos mecanis- mos estatais das sociedades modernas. dos pressupostos foucaultianos do biopoder. ou contendo outros.

Rio de Janeiro.286). Ainda no ano de 1993. de modo desautorizado. negro e que exemplo. o morador de classe sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz do Instituto Sangari. porém a mais próxima da verdade parece ser a média da Zona Sul recebe tratamento diferente e tem mais sadia” (Ibidem). é preciso que o outro morra” (FOUCAULT. A pesquisa Mapa da Violência ver. governador estava defendendo uma política de ligadura desempregado desde o nascimento da sua filha – com deve ser combatido. de modo de trompas para mulheres de bairros como a Rocinha. Ou seja. À medida que se discute efeitos assimétricos do biopoder entre negros (pretos não estamos dizendo que estelionato. Por outro. Essa ação decisiva para que 40 minutos fossem suficientes para 24 25 . É forçoso lem. numa estratégia racista. Este modo de dentro do que foi proposto pelo nosso trabalho: o exer. a cons- 2007. O coronel crime. o roteiro já estava lá antes da sua chegada. um evento na cidade Rio Serginho era o símbolo e a manifestação do que do mês de agosto. A história hoje contada. 2002 morriam 46% mais negros do que brancos. 2002. onde a população negra é superior a 50%. na madrugada do dia 23 de julho de que ratificou o exercício do biopoder numa entrevis. Com efeito. No Relatório Anual das preservá-las. uma estratégia do biopoder. contar. é um exemplo da profilaxia sociorracial na socieda- 1993. pelo menos. mas. isso beneficia a ação e pardos). no município de Nova Iguaçu. Um tiro na encontramos um cuidadoso estudo que identifica os de brasileira. Sérgio Cabral afirmou que “Você pega o número de de Serginho. no vigésimo nono dia CAULT. Apesar das especulações sobre o caso. Na época. assim como de trabalho. fazem exercícios de “limpeza sociorracial”. cente ameaçada se agir com vacilações a pretexto de de uma ação ilegal. dade.. direitos de cidadania que o trabalhador que mora na considerando as declarações do Governo no ano de tados para fazer “limpezas” em certas áreas da cidade. retrucasse. O Major Busnello trução social racista que insistia em marginalizá-lo foi Rio de Janeiro era o delegado José Mariano Beltrame Desigualdades no Brasil 2007 – 2008. marius-sergius. conforme os dados em suspeita agentes de segurança pública. as ações anteriores já citadas. O Secretário mais de 90% desses casos de homicídio as vítimas eram excluídos. Ana Cristina mesmo tempo. O discurso do Estado fluminense. todas. o seu planejamento e suas práticas. a raça ruim é a população que vive relembra da atrocidade cometida naquele dia. 2002. 30/03/2010). As dúvidas são sobre o tempo antes. a violência ano de 2007 aponta para uma perfeita adequação aos litar do Estado do Rio de Janeiro (PM). é padrão sueco. que ainda hoje vemos nos noticiários. major João Jaques Busnello. É oportuno nascimentos e dos óbitos. Afinal. que deve par o lobo significaria sacrificar a ovelha” em http:// minação. solicitando um prazo de negociação maior. Uma análise de discurso do governador e do arma. lotado no 6º BPM (Tijuca). o que por sua vez implica http://marius-sergius. p. organizado pelo da PM foi o responsável pelo tiro certeiro. “se você quer vi- como toda a história do Brasil. a taxa de reprodução. “os Estados mais assassinos são. Ou seja. estava Serginho representou e encerrou o signo do que O que estamos problematizando é o aparente pa.org/ ônibus 174 alguns anos antes. É padrão Zâmbia. raça denota a racialização do fenômeno da taxa de natali. tas lacunas. o Serginho. localizada no centro da cidade: seis adolescentes Coréia (periferia) é outra. Gabão. em de que a vida criminosa pode ser eliminada. Os foi dada e as investigações aconteceram. Júnior. a fe.. O coronel Mário Sérgio. a convicção dezoito anos passados. Rocinha. rizado. colocando sob Méier e Copacabana. As tecnologias do biopoder e suas Em 25 de setembro de 2009. A analogia a prisional. A tese que o Estado racista defende é de que a 2005. ao lado do caso Sete anos depois. biopoder. três anos na época – e tinha passagem pelo sistema pela população tijucana (moradores de um bairro de extra-oficial. pega na co que estava representando o Estado em sua extensão eliminados e elimináveis são. Com isso. mecanismos do biopoder. incluindo uma criança. o monopólio da violência é exercido Janeiro significa dizer que jovens negros têm chances preservar vidas. queremos problematizar a ausência de negros. o Estado. economista Marcelo Paixão (veja gráficos em anexo). Janeiro. p. A cundidade de uma população” (FOUCAULT. 24/10/2007). 2007 a proporção cresceu para 108%” (CORREIO DO O biopoder tem um postulado. próximo às dependências da Igreja de mesmo ta. Como já Vigário Geral: cerca de cinquenta homens encapuzados gestão estatal que incide sobre a vida. o então governador Garrido. Isso é uma fábrica coercitiva. Afinal. vel pela morte de 13 pessoas. Policiais contra. novamente a notícia filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas. 2007. a qualquer custo”.. 2002. forçosamente os mais racistas” (Ibi- ça pela morte de outros policiais.com/. o prazo de negociações. 23/10/2007). Vale lembrar que eram todos do tráfico de drogas” (G1. as reais razões do desbunde de na semana anterior. O a purificação da raça para exercer seu poder sobera- casas e alvejando vinte e um moradores. informando que “pou- tilha a ascendência africana e um histórico de discri. Tijuca. porque se encaixa deve ser eliminado: homem. países africanos como contraponto a países europeus alternativa. De acordo com o Mapa da Violência. novo massacre.305). seja uma opção a ser considerada to. por razões publicamente que. o Estado faz uso da “eliminação das raças e invadiram o bairro durante a madrugada. é passada com mui. porte ilegal de e dois jovens sem teto foram brutalmente assassinados essa questão do enfrentamento. da raça inferior (. favela não tem” (G1. população negra. o secretário de Segurança Pública do Estado do mados do que jovens brancos. o Serginho tinha o ensino médio completo. agora na favela de técnicas são aplicadas conjuntamente por meio de uma de Janeiro merece especial atenção. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) comentou BRASIL. p. ao motivação para os homicídios foi uma suposta vingan. anexo. um ato lógico ou. arrombando gestão impele o Estado a gerenciar “a proporção dos cício do racismo através da emergência do biopoder. Sandro Barbosa do Nascimento nos O biopoder é “uma espécie de estatização do bio- O BIOPODER NO CASO em foco de 2009. nome. Serginho foi mais um registrar que todos eram pretos e pardos (negros). Em entrevista publicada na página de notícias fugia após ter cometido o crime de assalto. Levantam-se hipóteses de vingança. nas entrevistas do governador e do secretário de rado no combate que é definido como guerra contra o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro no de negociação. Agora. Ou seja. corre o risco de sacrificar a vida ino. com 39 anos. Em significativamente maiores de morrer em conflitos ar. Serginho estava no meio duplamente.) é o que vai deixar a vida em geral distintas.blogspot. estelionato e furto. disse nos blogs Mário Sérgio fez questão de comparar com o caso do é dirigida para uma parte da população que compar. em arma. que a covardia dos homens os impede de que o governo do estado do Rio de Janeiro “assumiu 2010 – Anatomia dos Homicídios no Brasil foi feita pelo p. é um exercício do tenciário durante nove meses. com 48 anos em 2009. 23/10/2007). furto e assalto são atividades ou opções para os por policiais militares. o que aponta para a violento que marca mais uma vez a história do Rio de se poderia chamar de estatização do biológico” (FOU. homem bran. diante das constantes negativas de inserção no mercado justificativas já estavam garantidas. dossiê temático da Candelária.. No caso do Estado do Rio de blog/: “Numa ocorrência com refém. 2002. Ele já tinha sido usuário do sistema peni. disso ninguém duvida. na época com 24 anos. o direito de matar do Estado está assegu. se a opinião pública é um critério para o genocídio autorizado ou não auto.blogspot. isto é. na ocasião preservação da ordem social estaria garantida à medida vinte e nove pessoas foram mortas. o assalto.290). brar que mais de 80% dos mortos eram negros. motivos: porte ilegal de as bases para a réplica e tréplica tinham vindo anos Por um lado. foi dito. que a força de coerção eliminasse os criminosos.309). da Polícia Mi. “Um tiro em Copacabana é uma coisa. de produzir marginal” (G1. Em 15 de abril de do G1 em 24 de outubro de 2007. Serginho foi o vilão perfei- Vale ressaltar que todas as crianças e adolescentes as. Óbvio que não se trata de sugerir que sua classe média da zona norte). negro e jovem. mulher branca e refém dem). Numa ação filmada e aplaudida radoxo de que forças de segurança do Estado. no Rio de Janeiro. e após estava defendendo a ação policial na Favela da Coréia homens e os mais atingidos foram os negros: se em titubeios. ápice foi vivido por três pessoas: Sérgio Ferreira Pinto no” (FOUCAULT.) que SERGINHO nas periferias/subúrbios e favelas. O que está em jogo é que a “morte da raça ruim. para o governo. Mas. As sassinadas na Candelária eram negros(as). A operação policial foi responsá. o biopoder funciona numa via dupla. crueldade não são colocadas. Segurança do Rio de Janeiro no ano de 2007. jovens negros. dentro dos cânones legais e fora deles.com/ e http://pmerj. uma certa inclinação (.

9 2. 2000. p. o que está em jogo não é a ação isolada do conceituais foucaultianos. P.7 1. A hermenêutica do sujeito.5 1. Martins BIBLIOGRAFIA Fontes . quando? Disponível em: www.com.terra.6 1.org. Paulo. Rio de Janeiro: Editora FGV. 23 de julho de 1993 – A chacina da Can- 41.7 0. na sociedade brasileira. Em defesa da sociedade. Belo Homens negros e pardos Homens brancos Mulheres negras e pardas Mulheres brancas VAREZ. sil.8 0. Microfísica do poder. biopoder”.6 5.institutosangari.3 6. Chicago: The Uni. Rio de Janeiro: SILVEIRA.2 4. Michel Foucault: poder e análise das 0 1999 2002 2005 Graal. 1982.9 9.com.88 refém sai em defesa do filho.8 0.83 33. IBGE.5 1. Vol. Camilo e OLIVEIRA. microdados SIM. um 1999 22. Brasil. delária. arma de fogo arma branca homicídios arma de fogo arma branca homicídios disparo. 2008. indivi. “Racismo.1 0. 26 27 .4 7.br. trevistas de representantes do poder público fluminense Homens Brancos Homens Pretos & Pardos nello. 2000 27.45 _____________. AL.br.1 O escopo deste trabalho é trazer algumas contribuições destacamos o “caso Serginho”.9 ca. Alguns trechos de en.1 2004 2. Alice.2 como o biopoder funciona e seu vínculo indissociável cismo estatal na sociedade fluminense e.5 9.). USP.org.6 8. Foucault & a educação.Setembro/2009. e RABINOW. 29-38.9 2.4 33. a baixa qualidade da escola públi- 2003 30. Vigiar e punir: nascimento da prisão.5 1. Saúde. 1997. Tempo Social: Revista de Sociologia.6 7.0 3. propiciando um entendi.7 4.com.9 49.1 8. da violência – negro tem 130 vezes mais chances de versity Chicago Press.8 1.1 0. ser assassinado. dossiê temático que o comando da operação autorizasse o disparo. 1a Ed. Um desafio é a transposição da pesquisa geral.0 9. Em 2002 29. MAIA. Violência – Abril/2010. mento do racismo como uma política de Estado. velas. Michel Foucault: beyond OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NO RÁDIO – Mapa 30 structuralism and hermeneutics. de modo mais com o racismo.48 CASTELO BRANCO. 2002(2).1 2003 2.4 9.64 _____________. Marcos César (orgs. Guilherme. Sobre a analítica do poder de Fou- 51. em favor da maximização da vida de alguns a partir do assassina.3 1. procura. terratv.jblog. Cande- 40 35.0 2. Nos. v.0 1. Vale registrar que não estamos tratando de ações e ações policiais foram colocadas à luz dos operadores Ano Homicídaios por Homicídios por Outras formas de Homicídios por Homicídios por Outras formas de individuais.8 7.6 de um modo de gestão que ultrapassa o ato de apertar conjunto de políticas constitutivas do Estado brasileiro.com. São Paulo: press. Mãe de assal. etc.1 0.5 10.6 1.7 7. Um caso que exemplifica Mulheres Brancas Mulheres Pretas & Pardas para os estudos das relações étnico-raciais no Brasil no como as estratégias racistas do biopoder funcionam. 70 67.0 2.6 6.9. 2002(1).43 26 ed. 2007.8 0. 2000 2. Revista de Filosofia Aurora. 60 dualismo. organizações. OBSERVATÓRIO NOTÍCIAS E ANÁLISES – Até 10 _____________. 2009 cault.7 8.SP.1 48. Alfredo.8 46. Brasil. São COELHO.0 12. o difícil acesso aos programas e aten- CONSIDERAÇÕES FINAIS dimentos de saúde. 50 tante morto em Vila Isabel após fazer comerciante MELO.93 Curitiba. microdados PNAD da Faculdade de Filosofia e Ciências. Resumo dos cursos do Collége de Fran- 61. n.0 1. 2001 29. Antônio. jan. 2005 (por mil habitantes) decisão que culminou com o tiro fatal do Major Bus. Reportagem .0 2. Martins Fontes. como em função a ampliação de riscos. M. Estamos tratando de uma política de Estado. _______.9 8. partindo de um repertório focaultiano.8 8. idade segundo os grupos de cor ou raça (branca e preta & parda) e sexo. Julio Jacobo.0 4. 1999-2005 (por 100 mil habitantes) 80 _______. lária_Julho/2010.7 1. 21.0 2004 26.1.1 1. Djalma.82 globo.0 0.4 9. “O que é a crítica?” IN: BIROLI.br. VEIGA-NETO.57 4.1 2001 2. dispositivos dos mecanismos de funcionamento do ra- 1999 1.0 0. 2005 24.96 4.br e Tabulações: LAESER – Fichário das Desigualdades Raciais rília: Unesp-Marília-Publicações. 2005.0 1.5 46. Ano Homicídaios por Homicídios por Outras formas de Homicídios por Homicídios por Outras formas de que diz respeito à violência. 28. Disponível em: coletivodar.6 0.9 to direto.9 outros termos.9 1. Michel Foucault: Horizonte: Autêntica.9 2.1 2. Violência – Fevereiro/2011. outubro de 1995. Ma. Rafael. 2004.word- 20 FOUCAULT. Um olhar. 7(1-2): 83-103. C. especialmente na sociedade fluminense. Disponível em: www.7 0. uma perspectiva que busca sublinhar alguns arma de fogo arma branca homicídios arma de fogo arma branca homicídios mos descrever.2 3. Cadernos WAISELFISZ.0 45. DREYFUS.2 9.29 3. foucaultiana que opera como racismo antissemita para Razão de mortalidade por formas especificadas de homicídio da população residente acima de cinco anos de sa observação é que o racismo foi o fator decisivo na o racismo anti-negro no Brasil.71 3.4 4. histórias e destinos de um pensamento.4 42.0 2002 2.0 0. Flávia. Com este intuito. H. Editorial – Abril/2009.4 4.observatoriodefa- 3. Mapa da Violência no Bra- Fonte: Datasus / Min. Petrópolis: Vozes. 3.9 os grupos de cor ou raça (branca e preta & parda). Disponível em: www. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.0 Razão de mortalidade da população residente acima de cinco anos de idade por homicídio segundo 2005 1. Entre as ações policiais extra-oficiais e oficiais. ce. n.9 o gatilho.5 5./jun.7 1.0 0. Disponível em: extra.

raciais. por vezes de técnicos administrativos. teatro. de rebeldia armada. RATTS & RIOS. extemporânea ou 2007. Dans la conclusion je reflète concernant l’entrée de « corps versidade Federal de Goiás. e coletiva. de do movimento negro contemporâneo.. 2009). discuto brevemente mique dans la décennie de 1970. projeto político acadêmico que tem memória e história. abordo a formação do movimento negro de base RESUMÉ Dans cet essai. corpos concomitante à discussão e implementação de Ações sente a gama de entidades com base em levantamento que pensam. Professor dos cursos de Estudantes Negros/as na década seguinte. que A MOVIMENTAÇÃO NEGRA assistenciais [como as confrarias coloniais].). Lé- grupos sociais historicamente discriminados com foco mados Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros (NEABs) lia Gonzalez (1982) chama a atenção para a pluralidade para as cotas raciais pode ser inserido numa discussão e. dadas e promovidas por pretos e negros (. primeiramente situam no interior de algumas universidades públicas cotidiana. période concomitante à la graduação e pós-graduação em Geografia à discussão e implementação de Ações Afirmativas e das cotas discussion et mise en oeuvre d’Actions Affirmatives et des quotas e do mestrado em Antropologia da Uni. que advém de pesquisas e obser. constituem grupos de atuação como ros grupos de dança. Os destaques vãos intervenção neste âmbito. qualquer tempo [aí compreendidas mesmo aquelas que também a época de formação do que denomino de visavam à autodefesa física e cultural do negro]. de movimentos conjunto com outros/as pesquisadores/as acerca das que alguns/umas ativistas que participam da reorgani. mance individuelle et collective. tuais negros. Entidades Ele se caracteriza pela ação organizada de docentes e religiosas [como terreiros de candomblé. artísticas [como os inúme- temporaneidade. ostensiva ou encoberta. e para a Quinzena do Negro. são. intellectuels noirs. Posteriormente. intelec. Nos anos 1970. na con. je discute brèvement la a constituição dos Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros entre os constituition des Noyaux d’Études Afro-Brésiliennes entre les années Alex Ratts anos 1980 e 1990 e faço referência à criação dos Coletivos de 1980 et 1990 et fais de la référence à la création des Collectifs d’Étu- Antropólogo. zação do movimento negro contemporâneo. a exemplo do que se observa na es.) a melhor definição de movimento negro é: todas Os anos 1970. Eduardo Oliveira e Oliveira. Coordenador dos” no espaço acadêmico. [como o Movimento Negro Unificado]. o que me leva a afirmar a Ampliar este quadro não aponta necessariamen- para o Grupo de Trabalho André Rebouças formado existência de um movimento negro de base acadêmica te para uma compreensão. os cha. dentre outros. Na conclusão. Palavras chave: negros. Em seguida. negros (ou de maioria negra) culturais. Les Mots Clé: mouvement noir académique. recreativas se afirmam negros/as no espaço acadêmico e.. 2010).dossiê temático Corpos negros educados: notas acerca do movimento negro de base acadêmica RESUMO Neste ensaio. inicial de constituição deste campo. capoeira. avec significative perfor- do Laboratório de Estudos de Gênero. religiosos conhecidos se identificam como movimento 29 . constitui movimento negro. corps instruits. período considerado de surgimento atuação individual e coletiva. A conclusão aponta para de Paulo Roberto dos Santos (1984): poreidades negras que estão adentrando a universidade a entrada e permanência de corpos negros discentes brasileira de forma coletiva e organizada. que propõem esse debate. corpos educados. acerca da relação entre educação e corporeidade. período Joel Rufino dos Santos amplia para o passado e o pre- um notório incômodo com os corpos negros.. pois nem todos os grupos pela historiadora Beatriz Nascimento e por estudantes ou mais simplesmente um movimento negro acadêmi. e docentes no espaço acadêmico. NO ESPAÇO ACADÊMICO [como “clubes de negros”]. Étnico-Raciais e Espacialidades do Ins- tituto de Estudos Sócio-Ambientais da Universidade Federal de Goiás. Afirmativas e das cotas raciais. poesia]. 1974 e 1975. e ações de mo- Neste ensaio. fun- movimento negro de base acadêmica (RATTS. meiros anos da reorganização do movimento negro. organizada fera religiosa com grupos como os Agentes de Pastoral INTRODUÇÃO na Universidade de São Paulo. a presença de acadêmicos/as negros/as é uma exceção bilização política. pelo sociólogo Negros e o Movimento Negro Evangélico. e com as cor. movimento negro acadêmico. J. 157). Este fenômeno exige algumas considerações acerca Depois discorro brevemente acerca da formação da pluralidade interna do movimento negro. j’aborde la formation du mouvement noir acadé- acadêmica na década de 1970. de vações que tenho realizado individualmente ou em que confirma a regra. Nos pri- O debate público acerca das ações afirmativas para de grupos acadêmicos nos anos 1980 e 1990. Ensuite. com significativa atuação individual noirs instruits » dans l’espace académique. em 1977.. (SANTOS. faço referência à criação de Coletivos de de organizações e para a sua unidade. trato da entrada de “corpos negros educa. período concomitante diants Noirs dans la décennie suivante. literários e ‘folclóricos’ – toda essa complexa trajetórias de intelectuais ativistas negros (RATTS. para uma elite social. de protesto anti-discriminatório. podemos dizer aquilombamento. e todas as ações. como portadores de um as entidades. por fim. voltadas rais [como os diversos “centros de pesquisa”] e políticas Coletivos de Estudantes Negros. raciales. também se dinâmica. por exemplo]. de qualquer natureza. para mim. discentes. artísticos. cultu- os Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros (NEABs) e os Desde a criação das universidades brasileiras. 2009. até o último quartel do século XX. apontamos aquele que consideramos um momento e privadas e chegam a constituir grupos de estudo e de 1994b: p. recreativos e negros/as na Universidade Federal Fluminense entre co para o período. Há Estudantes Negros/as (CENs) nos anos 2000. com significativa (.

porém. entanto. ainda que reduzida e por vezes estrangeiros. Santos: Santos que. Santos sintetiza o quadro do período: M. novas tendências tidas como críticas que ameaçavam deixa uma indagação e faz uma afirmação acerca destes de União e Consciência Negra (fundado entre 1978 e do Rio e de São Paulo. cismo desembocou. I. como foi e Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS) e no minense). onde a proliferação de faculda. identifico uma articulação negra de base acadêmica. sobretudo públicas.) os estudos que engrossam a produção sobre mo. A transformação provocada no momento da atu. no entanto. e perspectivas analíticas antigos. os jovens que fundam. gros são filhos do “boom” educacional dos anos setenta de ação coletiva em toda a América Latina. (SANTOS. De fato. primeiro. e pela busca de uma narrativa to negro. desde meados dos anos 1980. a exemplo do GT “Temas e problemas da a mais notória). 63-64). a uma tendência da geração desse período: estudos mais aprofundados no que se refere a grupos rígidas (como o Movimento Negro Unificado. Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva. aparecer. em nessa produção é o fato dos negros deslocarem-se do depois) e os Agentes de Pastoral Negros (APNs). vimento negro a partir dos anos 70 são feitos. ao cote- J. orga. de histórias e memórias negras. que os movimentos ne. Henrique Cunha Jr.. ação relativamente conjunta de intelectuais ativistas lectuais negros/as ativistas traçam caminhos distintos. período durante o qual não (. M. a pessoa negra passa a ter voz própria no mun- brasileiros. Muniz Sodré e Joel Rufino dos Santos. o Grupo mente desta geração universitária. na Universidade Federal Flu. É preciso ressaltar que Abdias Nascimento. 237). passando por centros autônomos de pesquisa – proliferação de faculdades particulares estimulada muito bem notado por Cardoso (1989) e Gohn (2004). são na verdade cerca de 400 enti. que a fuga de candidatos brancos para centros mais Para o período em foco. plena ditadura militar. e Rufino e. o MNU. por intelectuais negros. nos anos setenta. 266-267) sujeitos: “Quem são eles? O que mais chama a atenção 1980. Esta citação é interessante por três razões: 1) capta a gros/as (RATTS. Todos 1. a exemplo de Kabengele a expressão no plural – movimentos negros – como se vação” ou “retomada” dos movimentos negros no final de Trabalho de Profissionais Liberais e Universitários Munanga. reconhecido pelos seus Foi nos anos setenta que a luta organizada contra o ra. produziram um ponto que não concluiu a dissertação em virtude de sua morte. rior ainda podemos verificar uma transição. e eventos. tocante à relação entre orientadores/as brancos/as e histórica e cultural do negro (como o Centro de Cultura pelo estado como solução para a “crise de vagas no ensi.. como intelectual reconhecido participou voz suplantada ou infantilizada (GONZALEZ. atuar em conjunto. Alguns auto. de Rios (2009). Outros/as inte- J. outros trabalhos apontam que Negros) de São Paulo e do Grupo Negro da PUC-SP teriormente de Leda Maria Martins. no superior”. pois na década ante. negros/as ou de negros/as intelectuais como prefere como é o caso de Clóvis Moura. pontas de lança de ação. mento ainda mesclado pelos padrões de pesquisadores jar artigos de Lélia Gonzalez. nos anos 1970 e 1980. percepção da entrada. Parte significativa dos/as discussão acerca da noção de quilombo. 2006). De fato. que atuam na primeira metade de século XX tência do racismo no Brasil. 30 31 . União dos Ho. um mo. que estes/as intelectuais. bem como do GTPLUN (Grupo versidades. 1983). frouxamente articuladas entre Uma citação a mais de J. 2009). lia Gonzalez. trata-se 2) descreve em linhas gerais seus tipos organizativos e. pos- o singular previsse uma harmonia. 2007. (1994a: p. ideias arregimentadoras de negro ou são reconhecidos pelos fóruns políticos ne. no plural. União de Negros pela Igualdade (UNEGRO). a exemplo dos têm produção escrita desde décadas anteriores. na literatura específica. No contexto de uma estados no período em foco. que indica que este quadro se verifica em outros O movimento negro de base acadêmica se sinto- amplitude nacional e claramente destacado de outros mens de Cor (UHC) e Teatro Experimental do Negro movimentos sociais na América Latina: niza com as outras organizações no enunciado da exis- movimentos sociais e políticos. preocupados em criar bandeiras de combate. são invariavel. muitos militantes e simpatizantes de diversos movi. Isso não brancos/as e negros/as que merece levantamentos e tos negros”. transformando-se continuamente (. O cenário traz dades. Eduardo Oliveira e Oliveira e Hamilton que a ação em escala nacional do MNU e das orga.). Flávia Rios (2009). merecer maiores reflexões. Há desde organizações políticas superestimada. Helena Theodoro Lopes. nanga. geralmente. Negra do Maranhão. Federal Fluminense. ticularmente aí. 94). juntamente com as Hamilton Cardoso da primeira metade dos anos 1980. risco de embranquecimento dos/as acadêmicos/as ne. É o caso do Grupo doutores/as que hoje são referência dos estudos de re- campo e forma de atuação de cada grupo. estes novos ativistas negros/as que fundaram as referidas entidades sujeitos são chamados de “ideólogos negros. até instituições semi-acadêmicas (como É preciso lembrar. optando pela denominação de Gonzalez o “movimento negro moderno” data do início dos anos (SANTOS. Guerreiro Ramos e Clóvis Moura são pensadores que nacionalização de outras coletividades. 96). enfim. de diversos tipos. Aquilo que os próprios (TEN). do acadêmico. nizações mencionadas é seguida pela regionalização e panto e gera atritos peculiares (1994a. remete à presença de licenciados/as e bacharéis no muitas vezes. se inseriam nas uni- res como Márcio André O. No caso do movimento negro. negro de tipo mais “político”. tanto que em mente filiados às ciências sociais ou por elas influen- algumas situações se instaura uma tensão em torno do ciados. No entanto. 2007). é pontuada por Rios pares nas universidades. no meu entendimento. mas também dos estados. é abordada em Ratts (2003). gros. A trama das trajetórias pessoais e coletivas fica a das relações sociedade-governo desde 1960. 30. 1999: p. Marlene de Oliveira Cunha e Eduardo Oliveira e Oliveira. teorica- não tinham passagem pela universidade. p.. para a posição de ensaístas e intelectuais” (p.. como sujeito coletivo e como individua- duadas entre os/a fundadores das entidades negras nos lidade forte (SANTOS. consciências e atuações políticas” (BORGES PEREIRA. (2009). dossiê temático deste processo e ministrou cursos em vários estados ou seja. 1983b: XIV)1. no repensar a nação em militantes negros convencionaram chamar de movimen. noção consensual do que significa movimento negro. que acabam por se aproximar e. mentos sociais tornam-se pesquisadores dessa forma população negra” da Associação Nacional de Pesquisa o Grupo André Rebouças. Lé. onde o grande número de “negros doutores” causa es. Cardoso. mais recentemente. O dilema entre cultura e política se instaura par. O autor provavelmente está tratando de entidades Sales Augusto dos Santos (2007). 266). nacionais de mulheres negras. merece relativização esta afirmação de J. A dis- Márcio André dos Santos comenta o trecho acima movimento. Joel Rufino dos Santos e cas entidades nacionais como o MNU. João Batista Borges Pereira foi o orientador de Kabengele Mu- encontros de negros Norte e Nordeste e dos encontros Além da irônica expressão “negros doutores”. É difícil estimar a proporção de pessoas gra. boa parte da lite. por exemplo). de Trabalho André Rebouças. lugar de informantes dos pesquisadores estabelecidos nização criada em 1983 (SANCHIS. Siqueira. (DOMINGUES. de jovens negros/as no meio acadêmico: foge.. em seguida. Santos contribui para a grande medida. 1999). considerado. Santos se refere a um momento em que há pou. num movimento negro de como Frente Negra Brasileira (FNB). assertiva com a qual dos anos 70. pois. (p. em própria. um ponto crítico decisivo nos anos 80 em diante. de inflexão em que o sujeito negro não deseja ter sua cussão racializada e ideologizada em torno da noção de quilombo de J. poucos grupos se identificaram Este é o período em que alguns/umas mestres e de voltar-se para os critérios de identificação e para o 3) estabelece uma periodização para um movimento ou foram identificados como tal. esse fato torna-se mais orientandos/as negros/as. 2009: p. no seio da igreja católica. Geração. criado na Universidade lações raciais e das culturas negras. Maria de Lourdes não concordo. No caso do movimento negro de base acadêmica. nacionais e também o quadro das relações entre pesquisadores/as si – há quem prefira mesmo designá-lo por “movimen. pode-se dizer por exemplo do Maranhão e do Rio Grande do Sul. dos Santos (2009) preferem ratura sobre este movimento social fala de uma “reno. enti. com a qual rompe logo des privadas foi maior. mas também a dades negras de luta contra o racismo. No adiantados de ensino abria vagas para negros – é o caso são conhecidos os nomes de Beatriz Nascimento. engajados na luta anti-racista.

) O grupo tem por preocupação quanto aos temas Reginaldo Guimarães Historiador Cabe ressaltar a vontade de reconhecimento e o letivo formam-se 3 grupos fluminenses: o Grupo de apresentados no decorrer das semanas de estudos a de Roy Glasgow Historiador processo de institucionalização da Semana de Estudos Trabalho André Rebouças (GTAR). ram seu processo de formação e deixam explícitos seus o negro para uma das “semanas de estudos” (BERRIEL. além de escrever sobre a necessidade de uma objetivos destes alunos negros de continuar mantendo na Universidade Federal Fluminense. o GTAR estava.2 Hanchard (2001: p. a exemplo de Marlene de Oli- versitários”. ALBERTI & PEREIRA. Nunes Pereira e Vi. GTAR. detalhes Eduardo de Oliveira e Oliveira Sociólogo do contexto que aproxima a entidade da mobilização a Contribuição do Negro na Formação Social Brasi. formando acadêmicos ativistas. João Baptista Borges Pereira Antropólogo política negra de então. Geografia. que é a de manter uma continuidade do trabalho desenvol- população negra dos quilombos do período escravista. desigualdades de Trabalho André Rebouças (1976 – 1978) raciais. Peter Fry Antropólogo anterior” (p. 3. na expressão do próprio to e ideologia racial no Brasil (BERRIEL. 11-12). que refaz uma bibliografia sobre gritude acadêmica. a exemplo da eleição do dia 20 UM PROJETO DE leira”. Semana de Estudos Sobre a Contribuição do Negro A tentativa de realizar este trabalho foi iniciado [sic] em Maria Beatriz Nascimento Historiadora na Formação Social Brasileira foi organizada e trans- Na cidade do Rio de Janeiro. fica. de Ciências Humanas e Filosofia (GTAR. retora do ICFH-UFF. 01). São dois dos/as intelectuais mais uma linha de atuação acadêmica que os beneficiou du- reuniões acima mencionadas. intelectuais nacionais e estrangeiros/as que colabora. Ciências Sociais. veira Cunha. tensão que em grande parte se dissolve na ami- Acerca da SINBA. que pensa ção do Negro na Formação social Brasileira. ram com o GTAR entre 1976 e 1978 contribui para que larmente na implementação de ações afirmativas para a população branco.que ele traduz como Estando situado no espaço acadêmico. Hasenbalg Sociólogo É relevante destacar. 1976. Educação e Cultura de setembro de 1978: 110). Química e Física tanto. cente Salles. O GTAR se constituiu como um projeto de ne- Nos seus documentos. raciais fora da UFF com o corpo docente do Instituto exemplo de Maria Maia de Oliveira Berriel. ela indica da Universidade Federal Fluminense organiza um en. então di. 2007). e por outro lado no sentido de se Virgínia Nascimento. Cabe ressaltar que dos/as colaboradores/as do GTAR também contribui que a escolha do tema se dá em meio a seu curso de contro que denominou de “Semana de Estudos Sobre cada convidado/a colaborava com a produção de uma Ciências Sociais na UFF. que não menciona o GTAR. a das áreas de Humanidades. em Ipanema.. Um quadro dos/as atual de Yvonne Maggie e Peter Fry contrários à adoção da variá. fez articulações internas na UFF e com pesqui. com o nome de “Grupo de Trabalho André Rebouças” da primeira entidade até os dias de hoje. dades raciais despontam àquela época3. zade construída ao longo da pesquisa (p. Maria Maia de Oliveira Berriel Antropóloga ferida para novembro em homenagem a ZUMBI. sua amiga no que diz respeito ao assunto adotado pelo corpo do. “em busca de espaço” (GTAR. Desta. Rei um grupo de pessoas se reúne aos sábados no Centro sora Maria Beatriz Nascimento e alguns jovens negros Michael Turner Historiador dos Palmares. além de estudiosos renomados gros sentiu necessidade de organizar-se juridicamente americanistas e africanistas . e Eduardo Oliveira e Oliveira (1974. chama a Naquele período. vel raça nas políticas identitárias e nas políticas públicas. cujos resultados fortaleceram os como parte de sua especialização também em história nos cursos que abrangem a área das Ciências Humanas. concernentes ao negro brasileiro enquanto raça e de sua Yvone Maggie Alves Velho Antropóloga vem por intermédio de uma portaria do Ministério de sas das Culturas Negras (IPCN). implicação no seu todo social (GTAR. Beatriz Nasci. Deste co. e amigos/as. 1974b). negra. no sentido de conhe- um grupo de estudos do qual participam sua irmã Rosa e Filosofia (já foi reformulado). 1978: p. aparecem dois intelectuais com perspectiva aglutinando intelectuais. Carlos A. ela estimula a criação de do Negro brasileiro no Instituto de Ciências Humanas reconhecidos/as pelo movimento negro emergente nos plamente. distribu. sadores/as sobretudo do Sudeste. Este processo está em relatos de ativistas negros/as fluminen. cimento científico. Como contraponto deste quadro merece comentário a postura “Semana de Estudos” e à criação do GTAR com colegas ída a quem participava do evento. ex-alunos e alunos negros que Participante das referidas reuniões. 32 33 . particu. nem sempre nítido aos olhos contemporâneos. Marlene de Oli. cente e discente da Universidade e estabelecer contato Alguns intelectuais brancos/as (ou não negros/as) onde procedem (GTAR. o estudo das relações raciais e a produção historiográ. negros. 1978: p. (. um grupo de alunos negros dos cursos de grupo. preparar para uma ação voltada para a comunidade de e companheira de trabalho de campo. Na introdução do seu trabalho. ela reflete 2. cultura negra e religiões afro-brasileiras. alguns/umas dos/as quais se tornaram pesquisadores/ objetivos acadêmicos: Definido como um “grupo de alunos negros uni. 01). atualizar a bibliografia estados de Rio de Janeiro e São Paulo (CUNHA JR. 1977). sobretudo da reserva de vagas para estudantes negros/as. 1973 no Centro de Estudos Afro-Asiáticos pela profes. 2). principalmente pesquisa acerca da ideologia racial e dos movimentos vido na universidade.. Na realização das semanas de estudos o grupo de alunos GTAR: Beatriz Nascimento (1974a. a Sociedade Inter. Para co também Carlos Hasenbalg cujos estudos de desigual. a situação de pesquisadora negra com um orientador ses do período (CONTINS. mas também das Exatas. negra que se tornam referências para os/as jovens do participam das semanas de estudos sobre a contribui- mento conclui sua graduação em História na Univer. Neste encontro o grupo convida autoridades e José Bonifácio Rodrigues Historiador de novembro como data de referência positiva. o grupo de alunos ne- divergências entre IPCN e SINBA . por um lado. pro- especialistas na área das Ciências Humanas ligadas às Juana Elbein Antropóloga posta pelo Grupo Palmares de Porto Alegre e adotada NEGRITUDE ACADÊMICA: questões relativas ao Negro brasileiro atual. que cursa Ciências Sociais. 1978. ver o artigo de Joselina da Silva (2009) aquilatemos a amplitude do projeto acadêmico. Campos. 1977) e desenvolve sua dissertação acerca de preconcei. relações raciais. dossiê temático para que compreendamos na diversificação dos temas Quadro 1 – Colaboradores/as do Grupo quais são as preocupações do grupo: história do negro nas Américas e no Brasil. Na dissertação de Cunha (1986) acerca da História.. sidade Federal do Rio de Janeiro e se dedica pesquisar negros universitários tiveram como propósitos [sic]: in. no início dos anos 1970. Manuel Nunes Pereira Antropólogo 3ª. 1982). o que a leva à organização das comunicação que era publicada em apostila. 1975). a O GTAR NA UFF uma abordagem das relações raciais. 2002: p. os membros do GTAR nar. veira Cunha e posteriormente Andrelino de Oliveira Atualmente. Mendes e no Teatro Opinião. 01). 2005. A proposta do de “Grupo de Trabalho André Rebouças” elementos de continuidade na organização social da troduzir gradualmente na Universidade créditos especí. por meio das palavras do Décio Freitas Historiador próprio Grupo de Trabalho André Rebouças. estudante de Geografia. entra no mérito das Devido a este reconhecimento. ou seja. 1978: p. dentro de Leni Silverstein Antropóloga consensualmente depois de 1978: “No ano de 1977. ficos sobre as Relações Raciais no Brasil. A bibliografia linguagem gestual no candomblé Angola. Fonte: GTAR. e outros colegas entre professores que desenvolvem teses sobre Relações iniciam sua carreira acadêmica naquele momento. mostrar uma nova forma de abordar as Relações Raciais Vicente Salles Antropólogo e do próprio Grupo de Trabalho André Rebouças que nacional Brasil África (SINBA) e o Instituto de Pesqui. as das relações raciais. 22). 1977. Participando das tentar uma reformulação do programa de Antropologia produção acadêmica. tendo por objetivos os mesmos do ano de Estudos Afro-Asiáticos da Universidade Cândido interessados em formar um grupo de estudos.e registra a continuidade atenção a precisão do propósito teórico e político do como João Baptista Borges Pereira.

Eduardo Oliveira e Oliveira enuncia 1974). Por seus escritos. O evento. Beatriz Nascimento propugna No texto/manifesto do evento. dossiê temático O seu ponto de partida com o “objeto de estudo” é proposta por quem era objeto de estudo de médicos. Na plateia há militantes de uma que não pretende ser doutor. Sentia que fazia parte do Cabe destacar que na Quinzena do Negro aconte. com nação como mão de obra escrava. sua experiência de negros. a etnicidade e a classe social são de primordial Progresso da Ciência (realizada em São Paulo. cou indelevelmente a experiência negra na África. racialmente hegemônico: “Hoje. atriz Nascimento. não falavam em uníssono. O autor e indivíduo negro como pessoa. Ela era ami. do qual existem registros impressos e audiovisuais. Mas a interpretação do “indivíduo nosso inconsciente. ção de uma ciência para e não tanto sobre o negro. como mão de obra nadores/as qualificados/as do racismo brasileiro. Eduardo Oliveira e Oliveira pu. jogando lato-sensu é um homem que contribui com idéias ori- manecido à margem desta história. perspectiva com a qual ainda nos blica uma resenha crítica do livro de Carl Degler (Nem soluta que paira acima dos seres humanos.4 É necessário lembrar pra fazenda e pra mineração” (NASCIMENTO. voz própria que emerge em Nascimento é o reposicionamento da pessoa negra e nos Estados Unidos). de 6 a 13 de julho 4. Numa palavra: Sujeito” (IDEM). gras. de uma comunicação intitulada “De uma ciência Para e não tanto Etnologia da USP. o nome construído e a titulação são importantes. 26. que fez do negro um objeto de estudo. Sobretudo essa aqui [a USP] que é gro. outras identidades. posição face ao que se discutia e produzia na historio. para o que necessita. (IDEM. tiva visibilidade para o período. da verdade. lato” face ao mito da democracia racial (OLIVEIRA. São questio- composto por mesas. xos. também a subjetividade do pesquisador/a: “Devemos dos clichês relativos ao problema negro? O intelectual contribuído para a história pátria (. como reação e como cimento e o estudo de Marlene Oliveira Cunha – que com a participação de Rafael Pinto. elementos deste processo que deve levar a uma trans- territórios discursivos. O que ela propõe não é uma simples troca de termos. têm individualidade. 1989). tendimento da desigualdade preto/branco pelo “mu. sendo assim impossível ao cientista (e em de 1977). que cursava Ci. a cor. é (e de quem pode ser) intelectual no Brasil e da ne- dor e criatura.. estudante doze de trabalho. não tiveram escravizado” como um ser coisificado é um ônus ex. pesquisadoras e pesquisadores das mas que usa disso como instrumento de trabalho para culturas negras e das relações raciais. 6. O interesse do sociólogo e ativista. Nos ombros dele recai uma ou- dessas verdades” (OLIVEIRA. Para ele. Os escritos de Beatriz Nas. Con. 2001. pública. Um “intelectual negro” até agora os meios exigidos para que se tornem arautos cessivamente pesado. historiografia. jamais pensou Em outubro de 1977. possa guiar outros intelectuais e estudantes na procura um pensamento negro: a falta de meios para produção “negro” ou da “raça” na variável classe ou no rol de No mesmo ano. 26). neste caso. Como se nós só tivéssemos existido dentro da demandas de formação e de atuação social. no caso. formação social: “O cientista negro precisa se tornar as. ce uma mesa redonda com estudantes afro-brasileiros deve-se ter o cuidado de não se submeter ao segmento nomia ou antropologia negras. posicionada. 2003). que não se branqueou. favelas. sociólogos e que fora objeto negros/as não devem se distanciar das coletividades ne. buscando nós mesmos.) – e que têm per. organiza grafia brasileira: “Quando cheguei na universidade a Janeiro e São Paulo organizam debates e outros eventos de” quando detivesse os instrumentos necessários para a Quinzena do Negro naquela instituição. p. na fazer a nossa História. p. 49 e Hamilton 24 anos. um teórico e precursor da mudança social. além de enga- Nesse sentido. jamento pessoal. se afirmar como negro e ajudar outros negros a se afir. 18). Eduardo Oliveira e Oliveira. “Voz que vem do interior”. ginais. com parentes e amigos/as que são lideranças religiosas: de intervenção de mercadores. que a constituição de um lugar de fala enquanto sujeito a sua possibilidade de universidade para formar mais gar sua condição social: “Vivemos num mundo onde inclusive na 29ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o negros”5. mas a vonta. eco- mesmo processo” (p. André Rebouças. Idem.44). antropólogos. mas por exemplo. quaisquer que sejam e onde quer que estejam: bai. 26). Na comunicação intitulada Etnia e compromisso seu próprio grupo. a formação e o posicionamento do intelectual negro: que o evento ocorre durante a ditadura militar. nossos comple. Têm artigos e ensaios publicados abordagens. porque seus cro. segue propugnando a ideia de uma “ciência negra” e. Hamilton Cardoso. 1977. desenvolver novas técnicas e perspec- tiza o propósito maior do evento: “um aspecto que nos a essa instituição. 34 35 . grifo do autor). Oliveira indica que de “escravo” por “negro”. aqueles que com ela se identificam. Voz de pensadores/as negros/ como sujeito na ocupação de espaços sociais. de seu ambiente familiar folcloristas. Em termos de faixa etária. Os cientistas negros. a de descolonizar sua mente de maneira que ativista identifica as difíceis condições da formação de A ênfase na diferença questiona a subsunção do sim trazer elementos da reflexividade. porque tocante aos estudos de relações raciais7. escolas de samba.. estudando-os. 287). tentando conhecer os fenômenos a INSTITUIÇÃO”: A QUINZENA ga de Eduardo Oliveira e Oliveira com quem já havia são tão jovens: Beatriz está com 33 anos. Na intervenção. de “cientistas negros”: geração anterior. o então mestrando em Antro. Vemos tro dessa universidade é porque a universidade assume cessidade de afirmação do intelectual negro. 26). devem estabelecer uma in- “NÓS TEMOS DIREITO A ESSA a conferência Historiografia do Quilombo. Transcrição do filme Ori. A escravidão de africanos e “uma história do homem negro” em que fosse colocada Em que medida o “intelectual negro” deve se libertar um dos propósitos é “revelar alguns brasileiros que têm africanas por sua extensão espacial e temporal mar. como indico em outro o acadêmico. p. Eduardo tem serem estudados como sujeito/objetos que são de suas DO NEGRO NA USP trabalhado nas “semanas de estudos” do GTAR na UFF. manter uma neutralidade vem de um circuito próximo. Oliveira relata que defendera esta proposição em vários eventos. ou. Sobre o negro” (IDEM: p. 1989. Eduardo Oliveira e Oliveira sinte. sem ne. conferências e exposição. Beatriz Nascimento profere marem como tal”6. na Europa. importância. é escravo. então diretor do Museu de Arqueologia e 5. 1974b. datada do mesmo ano da Quinzena do Ne. debatemos. p. E o fato de fazer [a Quinzena do Negro] den. não os enganando” (NASCIMEN. Fez parte da semana uma exposição organizada por Marian. les Black. Por verdade. religio. depois de dez anos ou construção face ao quadro das ciências humanas no aborda corpo e linguagem – exemplificam uma parte ências Sociais na USP. a partir de artigo (RATTS. presumo que não é uma espécie à parte. América. valorativa” (OLIVEIRA. já existente do conhecimento. Direção de Raquel Gerber. já me mandam entrar e sentar. Para ele e para ela os/as estudantes e intelectuais particular ao cientista negro). 7. Em artigo de 1974. no simpósio “Brasil Negro” por ele coordenado. Márcio e Andrada. novas descobertas e informações no conjunto nistas. p. coisa que mais me chocava era o eterno estudo sobre o em que acadêmicos/as e ativistas problematizam suas avaliá-la (1977. tudo. latifundiários. terreiros. Angra fil. que dificulta a compreensão do TO. o propósito de preto nem branco: escravidão e relações raciais no Brasil O autor segue apontando o que seriam para ele os de de verdade. mes. e o grupo que pesquisava. nossas frustrações. parece da maior relevância – revelar o negro como cria. 22). da liberdade. Para o autor a experiência deve balizar a constru- “percebi que havia uma forte identificação entre mim sos. senhoras e senhores de toda ordem. À semelhança de Oliveira. Convém também lembrar que a ciência Na conferência a pesquisadora e ativista demarca sua e participam de circuitos intelectuais e políticos de rela. de uma sociologia. é divulgação na imprensa paulista. influenciados pessoalmente por Como parte do evento. após a conferência de Be. o autor faz algumas indagações acerca de quem tivas” (IDEM. estes/as intelectuais não vestida “perceptiva”. mais um aspecto do projeto político: “Nós temos direito intelectual. Nos estados de Rio de que este objeto questionaria sua suposta “objetivida- pologia na USP. se trata de fazer uma auto-análise em todos os textos e tra tarefa. por conseguinte. por meio no Carneiro da Cunha. e mais dois nomes mencionados como eu sou Eduardo Oliveira e Oliveira que tenho um título. O autor pros- do projeto político acadêmico do Grupo de Trabalho de jornalismo. apontando a dificuldade de en. p. entendo não “A Verdade” ab.

dossiê temático Oliveira se referencia em uma assertiva de Roger realizam projetos de extensão e de qualificação de pro. Criado em 2004.yahoo.com/group/consorcio_neabs/attach. o povo negro quer”. etnicizados e generificados) doutores negros/as e com a colaboração de intelectuais Ações Afirmativas para a população negra e particu. na educação Tais coletivos podem ter sido formados por uma em relação às instituições de ensino superior nas quais e acadêmicos é rara a discussão acerca da corporeida. em 1989. particularmente as uni. na UFG em Goiânia. Em 2004. em algumas situações. realizado na UFMA em São Luís e professores/as de outros segmentos étnico-raciais. o corpo é uma das principais CORPOS DOCENTES do Maranhão. ainda deixam que suas preocupações Não está lidando com um assunto (é preciso que ele ano de 1993.groups. Afirmar-se racialmente Henrique Cunha Jr.. fessores/as para a educação das relações étnico-raciais abrigar discentes de outras universidades. gênero ou orientação sexual. Núbia Pereira Gomes (2001). Ambas docentes e discentes. queira ou não em um problema ações afirmativas para a população negra. Alguns/umas pesquisadores/ com sua qualificação profissional e o ativismo.122-123) na academia não implica em ter certezas inquestioná. Os Sem essencialismo. 2006). comoventes. São reali. 115). na Faculdade de UBUNTU – Núcleo de Estudantes Negros e Negras na na educação superior hoje em dia. na UFPE. (no espírito da lei 10639/03) e elaboram propostas de médio ou não se circunscrever ao público estudantil. como a sociedade. pesqui. maior acuidade. p. 2001. professoras e professores ainda têm sujeito/objeto de seu trabalho. uma Associação Nacional de Estudantes Negros que neiras estamos. mas uma causa” (IDEM. são criados alguns Núcleos de Es. o Coletivo Denegrir na UERJ. Joel Rufino dos Santos e outros/as que Iniciativas dos/as ativistas preocupados/as com o nos. sem definição para além dos espaços educação formal contando com plo da Cooperativa Stive Biko de Salvador e dos Cur. PENESB-UFF. defrontando-se por vezes com a em processo de educação. Um processo de internacionalização dos/as as coletividades estão a merecer uma observação de Nas escolas e nas universidades transitam. o que me permite tecer considerações como sa e extensão. e em São Paulo. gestores.Campus Marília. segundo Edimilson de Almeida Pereira e tituem como “territórios negros no espaço branco” 8. sinhos Pré-Vestibulares para Negros e Carentes (SAN- CORPOS NEGROS EDUCADOS: acontece o necessário e adequado reconhecimento das Nos anos 1980. ardilosas acerca das pessoas negras que permeiam toda pertencimentos étnico-raciais. em instituições de ensino superior. NEAB. e o Seminário Neste sentido. p. Vários NEABs se cons. rio. emoção. 27. de ensinar. nem sempre se definem e são reconheci. mo. com a organização do I Con. o Consórcio de NEABs e grupos correla. uma espécie de auto-psicanálise intelectual. (UNESP) . e. Mesmo onde estu- 1977. mento (CANBENAS). É o caso do NEAB-UFAL. negros e brancos. dantes estão desesperadamente desejando ser tocados curralado na sua condição primeira e primeva de raça. -UFMA. Este processo culmina em 2000. Nacional de Universitários Negros. p. criada a Associação Brasileira de Pesquisadores Ne. nos vídeos. este afastamento do corpo como assunto bruçar sobre os problemas afro-brasileiros encontra. 27). en. que tem como tema “A universidade que marcam com expressão própria o cenário de algumas sobre perda de controle prevaleçam sobre seus desejos saiba). quisadores e Pós-Graduandos Negros. Neste âmbito. ainda que contem com o apoio de um/a pelo conhecimento. gênero falta de orientação nas suas áreas de formação. pois parecem ser sível identificar e confrontar estereótipos ou imagens contar com a colaboração de estudiosos/as de outros mativas e por políticas do conhecimento que se vol. funcionários/as e estudantes 36 37 . Bastide que merece citação: de que “o sábio que se de. nas músicas. públicas e pri- veis ou facilidades no estudo das relações raciais. grifos do autor). Desde 2001 surgem: Enegreser. heterossexuais e homossexuais também percorriam o país num processo de formação acesso à universidade se inserem neste quadro. paralela. por exemplo. as se torna mais organizada e articulada. e isto. Os NEABs. em construção e. estão graduandos/as e pós-graduandos/as que nal. bém ao gênero e à sexualidade. Os corpos racializados de acadêmico. p. a exem. tem que passar despercebido” (2001. implicado. incluo. – incapazes de reacender paixões que um dia podíamos (NASCIMENTO. das trans- brancos/as e outros. das indefinições. Negros (CENs) que se estendem por vários estados. O autor conclui: “O negro ‘intelectual’. mantendo uma posição de crítica e de participação Louro (2001): O corpo educado. escolar e acadêmico. Coletivos de Estudantes são identificados prontamen. na UnB em Brasília. são corpos educados. distantes do significante corpóreo. ter sentido (hooks. Neste sentido. no ou outro/a docente. proposição do engenheiro e educador não logra efeito. nas apresentações artísticas. Nem sempre intelectuais “locais”. Outros são criados Neste contexto surgem Coletivos de Estudantes A expressão que dá título a este artigo advém da relei. 41). pois. como é o caso da influência de Beatriz e outras. versidades públicas. não tem outra opção. tornam-se referência no campo dos estudos das curso no campo das relações raciais. mas tam- é um complexo processo de orientação. física. tanciamento de temas que remetem à subjetividade. zados eventos como o I Encontro de Docentes. implica. uma outra pesquisa. Pes. Nos espaços escolares nas ilustrações). intimamente aborrecidos mentos. no qual é leiro de Estudantes Negros há a tentativa de criação de mos os mesmos velhos assuntos das mesmas velhas ma- reflexividade de suas condições e de seus posiciona. em Salvador. de certo modo. O sujeito “faz parte da matéria investigada” gros (ABPN). para alguns/umas pes- observador participante. ments/folder/1036087237/item/list gem institucional é um lugar onde o corpo tem de ser professores/as. nos li- na década seguinte: NEAB/UFSCar. protagonizados por mestres e país um processo de discussão e implementação das DE CONCLUSÃO diferenciados (racializados.. no III Congresso Brasi. R. larmente das cotas raciais. tura do título e do conteúdo do livro organizado por vros didáticos e paradidáticos (tanto nos textos quanto NUPE-UNESP e NEN-SC. balizamento consolidação e criação de NEABs. situação na qual me ativistas e qualificados como núcleos de ensino. à paixão: pesquisa. no III Congresso Brasileiro de maior ou menor grau com a presença de pesquisadores sem necessariamente incorrer em sentimentalismo. Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista UNEB. tem para a população negra e também porque podem anulado. TOS. mais usados como as dos NEABs. se en- Nascimento e Eduardo Oliveira e Oliveira e também de pesquisadores/as negros brasileiros/as está em curso. no dis- -se. sobre ele mes. do ensino Para a autora. de dos segmentos que os compõem. que muitos/as realizam seus trabalhos de conclusão de metáforas. concentrados/as na área das Humani. se tornam grupos de estudos e pesquisas. dos como grupos negros. marcados pela presença de intelectuais negros/as Temas ligados à questão étnico-racial. Pesquisadores Negros. e também das incertezas. posto que fazem pressão pelas Ações Afir. instituições de ensino superior. das diferenças. é pos- quase totalidade de pesquisadores/as negros/as ou se situam. na Bahia. à angustiante” e que deve proceder “no decorrer de sua A presença de professores/as e estudantes negros/ Coletivo de Estudantes Negros e Negras Beatriz Nasci. muitas vezes. Corpos acadêmico nos anos 1970 reverbera no Rio de Janeiro da interseccionalidade com as variáveis classe. http://br. remetem e formação. posto temos corpos – docentes e discentes. CEAB-UCG (PUC-GO). Os corpos racializados estão no currículo. das culturas. a partir sobretudo de 2001. Ao mesmo tempo. Rio de Janeiro. Para o/a intelectual negro/a ativista a escolha do em Recife. referências da raça (mas também do gênero e da sexu- E DISCENTES NEGROS: tos conta inicialmente com a participação de 16 grupos te como grupos negros e demonstram a preocupação alidade). encaminhando-se ras/es e estudantes têm corpo (hooks. contram e se confrontam corpos femininos e masculi- Lélia Gonzalez. 2001). o Núcleo de Estudantes Negras e Negros na UFBA e o Não há muito ensino ou aprendizagem apaixonada seja ele branco ou negro” (BASTIDE apud OLIVEIRA. vidades e para as trajetórias pessoais e coletivas. formações corpóreas. Como participantes deste cená. 1978. p. Este posteriormente assumem a docência e participam da vadas. afirma bell hooks: “o mundo público da aprendiza. muitas vezes abordados na perspectiva para a pós-graduação. a-corporais e. dos corpos tudos Afro-Brasileiros. sem lugar para as subjeti. observa-se por todo o UMA DIGRESSÃO A TÍTULO identidades. ao campo da subjetividade. Professo- dades. são corpos O quadro desenhado por ativistas negros/as no espaço relações raciais. aqueles e aquelas de nós que ensina- campo de estudos e pesquisas vem acompanhada da gresso Brasileiro de Pesquisadores Negros. de raça. os Coletivos de Estudantes Negros medo do desafio. O corpo é “educado” e na educação formal OS NEABs E OS CENs e hoje soma 76 núcleos8. presentes em todo o território nacio. por extensão. posto que podem contar em quisadores/as negros/as são apaixonantes.

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remetendo-o à ideia de percepção e pertenci. caracteriza os seres e as sociedades humanas não é a mente fácil definir identidade. ap- tória e Sociologia na Educação Básica. color/race.74) em um contexto de relações e. Rafael Guerreiro Osório. a religião. uma identidade natural. balho. race in Brazil. também. entre outros. “Do ponto de vista antropológico ou socioló- seus multifacetados aspectos. envolvendo elementos de atribuição costumam ser classificados como identidade pessoal siderar. a classificação de “cor ou raça” do Instituto Brasileiro the classification of “color or race” of the Instituto Brasileiro de Geo- PERTENCIMENTO ÉTNICO Ralime Nunes Raim de Geografia e Estatística . belong ethnical. podemos observar melhor esse uma característica independente. à parte. as tradições IBGE. through of a critical reinterpretation of those concepts present in the discussions about relationships ethnic- étnico-raciais no Brasil. apud PAULA. Vivo num grande estado de alerta”. Especialista em Desenvolvimento Social conceito e discriminação no espaço escolar. os adjeti- se é: “sou brasileiro”. O ator e bailarino Bukassa Kabengele é filho de Kabengele e 11. A identidade é simplesmente aquilo que afirmando sua identidade coletiva. no presente trabalho. that. (atributos específicos do indivíduo) e/ou identidade so. parece real. é. negra. p. 2005. pelos traços culturais. involve elements of identity. p. ao termo iden. Bukassa Kabengele1 em Ciências Sociais. 2000. Antônio Sérgio Municipal de Educação de Montes Claros/ Sérgio Alfredo Guimarães. cor/raça. são vários populares. The theoritical used to review bibliography. indivíduo “como um ser social. como a língua.115). cada sociedade. ao falarmos sobre identidade neste tra. Porém. não estamos nos referindo a identidade de um isolados e. os níveis sócio-político e histórico de de “identidade” e de “percepção”. de gênero. vistos por nossa socie- bida parece ser uma positividade (“aquilo que sou”). p. fa difícil. dentre outros.161). Experiência em Educação para as Relações Étnico-Raciais (leis 10. Still. como tal. na realidade.24) calmente perturbador de que é apenas por meio da 41 . é importante con- bastante diversa.190). envolve elementos de identidade. Pretendemos que esse preconception and discrimination in school area.149). pre. compreender o termo identidade em ferenças. Por- “ela é auto-contida e auto-suficiente”. assim dica uma maior visibilidade social face ao apagamento pensada. O referencial teórico adotado para pertain and perception. de classificação racial. sobre a Ques- identidade. 2005. 25). Como pesquisadora. we will begin by exposing some theoretical general ele- ments about ethnical belongness. p. é importante perceber que o conceito de identidade diferença que nos unifica como seres humanos”. brasileiros. um conjunto de significados baseados nas di- Sendo assim. não podemos negar. por exemplo). pertencimento e percepção. que atualmente trabalha na USP. MG.40). Bacharela e licenciada texto se torne objeto de discussão e análise da questão de raça no this article represents a discuss and analysis’s object of question of negro. na construção da identidade não se e não apenas de “cor” ou apenas “raça”. popularmente. socialmente “sou jovem”. Se acrescentarmos ao termo identidade. e é influenciado por elas” (SOUSA. A identidade assim conce. Munanga . então. Stuart Hall.IBGE.639/03 1. p. ainda não conseguimos ter uma resposta satisfatória à Não há. it constituted to studies by: Fúlvia Étnico-Racial na Educação. inata. p. tanto. on this research. desen- Palavras chave: relações étnico-raciais. deve ser investigado e analisado não porque os antro. Antônio Rosemberg. identity. color/race in the Brazilian census. coordenadora do Programa Diversidade revisão bibliográfica. ele sustenta que “os estudos dessa temática entender a construção da identidade. 1993. Quem ratifica a afirmativa acima é o próprio mento coletivo. classificação racial. p. A identidade. constituiu-se dos estudos de as we will see the long in the text. evidenciar a diferença. Professora de His- Brasil. De acordo com esse Instituto. indivíduo isolado. um “fato autônomo”. rituais. a denominação é de “cor ou raça” os sentidos atribuídos. mas porque as identidades são construídas por meio da diferença o tema. as identidades são todas construídas” (PAULA. tem relação tanto com a individualidade do a que foi.645/08). categoria)” (Jacques. e não fora dela. Gleason (1980. Kabengele Munanga. historicamente. Em uma primeira aproximação. race classification. Por isso. 2005. uma vez que ela só tem a similaridade e sim a diferença. Discutiremos ainda sobre diferença. parece ser fácil definir sujeito. influencia fica. A discussão da questão de raça no Brasil envolve ele. pólogos decretaram sua importância (diferentemente ao aprofundar-se um pouco mais na discussão sobre do conceito de classe social. A identidade vista de uma forma mais Torna-se.antropólogo e intelectual negro do Zaire (Congo) volve estudos desde 2005. os percepção. tidade. De acordo com esse autor. o que Na perspectiva citada por Silva (2000). também. 1998. começaremos por expor os elementos teóri- cos mais gerais sobre pertencimento étnico. sustenta que “apesar das inúmeras produções ele é um conceito vital pra os grupos sociais contempo. No entanto. “sou homem”. cial (atributos que assinalam a pertença a um grupo ou ampla e genérica é invocada quando um “grupo reivin- titárias. Stuart Hall. we can’t deny. único. gico. we will discuss about differences. 1993. por isso trataremos do termo aqui. os comportamentos alimentares. race in Brazil. como sujeito inserido processo. quanto com o grupo de referência desse sujeito. “identidade”. Kabengele Munanga. p. como veremos. o que o torna “sujeito a inúmeras variações”. It’s intended that “Eu acordo e vou dormir todos os dias tendo consciência de que sou e em Sociologia. Rafael Guerreiro Osório. Keywords: relationships ethnic-race. tão Cor/Raça no Censo Escolar do MEC. Para Hall (2003. p. evidenciar a identidade signi- (SILVA. uma tare. que. pertencimento e sucinta. Ele afirma que “é essa si própria como referência. pertencimento étnico. através de uma ressignifica- ção crítica dos conceitos presentes nas discussões sobre relações grafia e Estatística – IBGE. Alfredo Guimarães. submetido” (Novaes. da Secretaria Fúlvia Rosemberg. porque as cate. INTRODUÇÃO pergunta: o que é identidade?” mas sim. podemos afirmar que. necessário discutir relações iden. Para gorias que englobam podem ser entendidas de forma Além disso. Estamos tratando do dade como diferentes. among others.dossiê temático RELAÇÕES ÉTNICO- -RACIAIS NO BRASIL: PRETINHO (A) EU? RESUMO abstract DISCUTINDO O No presente artigo. “sou negro” “sou heterossexual”. vos étnica. Dessa forma. na maioria das vezes. Isso implica o reconhecimento radi- existentes e apesar de todos os esforços empenhados. cor/raça nos censos In this paper. que. em seus critérios De acordo com Jacques (1998. de maneira 2005. portanto. apud GOMES.191) e essa construção identitária é marcada mentos de atribuição de identidade. râneos que o reivindicam (NOVAES. pode levar em conta somente o aspecto cultural. Por isso mesmo.

uma espécie de redução do modo múltiplo. não entram no vocabulário p.43). contexto institucional. de há muito. pois quem quer se identificar ape. p.. Fry assi. 2007. 2005. pardo. Assim. Dessa forma. uma vez que “é resultante da combinação de (FRY apud ROCHA & ROSEMBERG. Ser inferior do falante pela pessoa em questão” (Sansone apud RO.) Quase não pude acreditar no que lia.135 desde as primeiras relações estabelecidas no grupo so.6). vermelha ou americana. O campo dessa produção de signi. com Esse é também o processo pelo qual passa a identi. renciados em instrumentos de classificação racial pro- É preciso lembrar. por sua vez. permane. culturais e religiosos. Ainda de acordo com Ribeiro. associado ou não a um mo- e vai criando ramificações e desdobramentos a partir Por tudo isso. tipo de cabelo. qual a cor/ nala um outro modo: uma construção social. E além deles. dos outros grupos. usam um sis- meu eu. onde se estabelecem as relações de poder e as A maneira de lidar com o sistema de classifica. a partir da relação estabelecida com o outro. o modo oficial (IBGE).adotando. LACLAU. os termos preto e pardo. logo alemão (1752-1840). COR/RAÇA NOS BERG. aqui rentes contextos sociais e históricos em que têm sido delo binário ou múltiplo de classificação racial. . elementos de aparência: cor da pele. 2007. p. a justificativa biológica para tal condição? Quem quer países. Este é também o modo oficial ou afro-descendente está mais relacionada a contextos sociais não se constituem somente como relações puras (GOLDEZON. negro e índio. “adotaríamos ambos os modos: o modo mente por razões diferentes. podem ser empregados vocabulários dife- sentações. civilização brasileira. IBGE para a classificação racial no plano demográfico um sentido político e positivo. defendida. Assim. valorizando as diversas categorias de sujeitos ção racial. Sendo assim.35). p. o sistema bipolar branco e não branco. Esse vocabulário racial. ou de sujeitos a ele pertencentes sobre si mes. de leis e decretos contemporâneos. segundo dados da Pesquisa Nacional por processo mais amplo e complexo. é um de. tador de uma cultura inferior? ( 2005. evoque os mesmos sentidos nos dife. evocado de até 2003. Ou seja. trado nas camadas populares”. “a composta pela combinação do estilo de vida (o jeito). em documentos do Estado brasileiro não parece ser ou mãe negros. “mesmo em sistemas classificatórios semelhantes 2005. possivel- físicos africanos se identifiquem brancos” (Brasil. adotaram a terminologia de Amostra de Domicílios (PNAD) realizada pelo IBGE ser o limite na hierarquia que divide os humanos dos classificação racial de Blumenbach. negra positiva. negra ou etiópica. preto e amarelo. nenhuma identidade se constrói no iso. Uma refle. Nota-se um deslizamento com precisamente aquilo que falta.. do censo brasileiro. utili- assim. não “amarelas” ou “outras”). parda ou preta.8). acordo com as situações e circunstâncias. gráfico de 1872. CHA & ROSEMBERG. Nesse sentido. Não podemos deixar de considerar também o em- -racial. . bastante enig. formato do nariz de” – pode ser construído (DERRIDA. pautado na ciência parda ou malaia.. como em outros processos identitários. O MEC estava pedindo pliado do modo bipolar . pelos estudiosos do assunto. seria encon. se declarem negros e outros com traços De acordo com Fry (apud ROCHA & ROSEM. “a aparência geral. apesar de serem vocábulos consagrados pelo ressignificado pelo Movimento Negro. presentação e o significado do que é ser negro. salvo algumas poucas variações. a renda. p. E é de Blumenbach. nas quais os grupos agem para que siderado. evidencia cinco mo- lamento e “tanto a identidade pessoal quanto a iden. humanas. É o olhar de um grupo étnico. prego de diferentes vocábulos raciais em contextos so- mos. são traduzidos também através é ser branco. fisiologista e antropó- aberto” (D’ADESKY. negro proposto pelo Movimento Negro. sendo possível que algumas pessoas com múltiplo. rio lingüístico” específico. 1990. a identidade. “brancas” ou “pardas” (quando cia mais à ideia de discriminação e preconceito.7) cial mais íntimo. 2001. porém. enquanto o termo negro se asso- fiquem como “pretas”. acabada. p. 2005. dossiê temático relação com o outro. da população brasileira (ROSEMBERG. ou caucasiana. Geralmente este processo se inicia na família (GOMES. p. por sua vez. lonial e aqui faz morada até os dias atuais. 2007). tualizadas urbanas. que. como perguntava.6). de seu mundo e de sua cultura. no qual os contatos pessoais se esta. nas provas do MEC forma pejorativa. as questões relacionadas à percepção e ao critério cor da pele para diferenciar as chamadas raças dos de classificação racial: tidade socialmente derivada são formadas em diálogo pertencimento norteiam o processo de construção da humanas. ou am. ao do IBGE. em forma de múltipla escolha. em uma sociedade como a É da Europa Ocidental do século XVIII. o sistema de classificação popular furtar-se da discussão sobre a identidade enquanto nas com um passado de escravizado.5). atribuindo-lhe “(. p. empregados para diferenciar grupos humanos” (RO. pele. 2005. ficados é. p. Segundo Hall (2003.. classificação racial”. num processo marcado pela significação (cabelos. 2007. BUTLER. além de minha identificação e da de minha filha. duzidos pelo Estado Brasileiro”. e branco . em 1976. indígena. p. brasileira. 42 43 . sua “identida. Isso reafirma que. o sistema dade negra. com aquilo que tem relações de poder. monolítico. branca. ças humanas. das categorias “negro” e “mulato” para “preto” e “pardo” chamado de seu exterior constitutivo. que “o processo de posições. a iden. 1981. luta por hegemonia e por predomínio”. em uma sociedade que nos ensina que os inquéritos populacionais do primeiro Censo demo- belecem permeados de sanções e afetividades e onde se “para ser aceito é preciso negar-se a si mesmo. tudiosos: “seria ele binário (branco versus negro) ou complexo.. o “O terceiro modo é o que vem sendo utilizado pelos mento. ‘quase animais’? Quem quer ser considerado feio e por. 2005. da relação com aquilo que não é. apud GOMES. por exemplo. (. p. que o significado seus significados particulares sempre prevaleçam aos mático.. branco e mulato. o representação do ser negro foi criada à sombra do que grau de instrução. foram construídas a re. amarela ou mongol. apud HALL. para designar os escravos. 2003). É uma e da boca.8). referendado pela cor da zado por grande número de pesquisadores de ciências tidade negra se constrói gradativamente.. 1993. p. que o mesmo termo. portanto. p. mas como um processo gerado no interior das repre. p.42). Portanto. Nesse contexto. do processo de quem é superior e de quem é inferior. por essência.6). 2007. dependendo do elaboram os primeiros ensaios de uma futura visão de safio enfrentado pelos negros e pelas negras brasileiros” não significa. além de uma última opção: “Opto por não declarar nes. o sistema de classificação bipolar branco e mento que envolve inúmeras variáveis.42).151). pressupondo um contínuo de categorias?” O modelo de denominação/classificação racial usado traços fisionômicos europeus. carros) e até a simpatia ou antipatia tema de classificação com apenas dois termos – negro do outro. não está sendo pensada como fixa. também. pode ser acionado um “repertó- mundo. podemos afirmar que as relações para uma menina de sete anos “declarar” sua cor/raça!” negro. busca uma interação. o popular múltiplo e o binário. p.. A identidade negra se afirma aqui. que inclui três categorias: ciais distintos. enquanto o múltiplo. “elas são O sistema de classificação racial do Brasil é con. “o meu mundo. 2005. roupas. a ideia de classificar as ra. o uso do Jacques D’Adesky. branco ou preto. social do sujeito” (Rosemberg & Piza apud ROCHA & considera também três modos de classificação racial: Nessas relações de poder. 2007. (2001. O formulá. dessa forma. p. implica não ter poder” (RIBEIRO. 2007. “Isto Fúlvia Rosemberg defende que. inclusive o Brasil. pois. Vários outros de 135 cores. a expressão afro-brasileiro. a (a)firmação da identidade. Assim.) reconhecer-se ou assumir-se negro no Brasil é uma geográfica de origem. o estilo em matéria de moda Movimentos Negros. Termo esse. a construção de uma identidade cendo com as mesmas categorias de cor adotadas para apud ROSEMBERG. assim. rio.7). aliado à origem regional e Telles (apud ROCHA & ROSEMBERG. a minha cultura. te momento tal informação”.3) “positivo” de qualquer termo – e. conflituoso e disputado. enquanto pertenci.33). 2007. o sistema do IBGE. já estava presente no Brasil desde o período co. Sendo das outras relações que o sujeito estabelece (GOMES. Não nos esqueçamos do uso do termo negro de CENSOS BRASILEIROS binário seria predominante nas classes médias intelec. que pede às pessoas que se classi. 2007. p. do diferente” (Gomes. p.43). referente ao mito fundador da xão sobre a construção da identidade negra não pode decisão de coragem. definindo cinco tipos: branca branco. raça dela – amarela. em virtude de ter o pai (ROCHA & ROSEMBERG. CHA & ROSEMBERG. causas e efeitos. Como afirma a autora: construção da identidade negra em nosso país é muito sociais envolvidos. 6). o modo binário de de decifração desse outro. e desinteressadas. ROSEMBERG. Ele associou a cor da pele com a região as categorias branco. usado no censo demográfico. na sua trajetória de construção. assim. identidade negra. num movi. 2007. gera controvérsia entre os es.

4). sejam estas manifestas ou latentes”. ao mesmo bulos raciais sempre se destacaram como os principais pertença. motivos de ordem diversa para mudar a linha designadores das categorias de classificação racial: pre. mas. do ‘preconceito de marca’.94) se tem conhecimento: a auto-atribuição de pertença. 44 45 .43). no censo escolar anual. através Brasil entre os países que realizam censos periódicos.23). OU RAÇA” DO IBGE maior de brasileiros reconhece que o recorte racial nas teratura disponível sobre classe e/ou raça insiste em p. classificação racial legal e baseado na origem ou hipo. a opção pela auto ou pela seus olhos para a sua pele. tico e bens materiais. o sistema classificatório do IBGE brancas. até o de 1940. p. classificação. que teriam maior di- Em meio à grande variedade de termos. p. p. ao invés de brancos e não-brancos.4). vai do início da coloni. rantia de que os entrevistadores não venham a branque. Considerando que o Ministério da Educação . até mesmo a vasta li. pardo e branco. ao mesmo tempo em que um número cada vez encontra maior problema. sujeito. pré-estatístico. assim nas. para coletar os dados de cor/raça dos alunos maiores de Sendo que as categorias preta e parda “eram as únicas quisa. ainda ROSEMBERG. segunda metade do século XVIII e termina com o pri. dessem também enquadrar pessoas livres. nem produziu um sistema de tífica. Osório (2004) afirma que sil como nação multiétnica. p. ad- de 1970. traços negros em sua aparência tendam a se considerar onde vige o preconceito racial de marca. 109).Posso me sentar ao seu lado? – pergunta-me uma lin- aplicáveis à parcela escrava da população. vítimas nesse ambiente. apesar de não incluírem a popula. através do uso de técnicas biológicas. para as crianças negras. pardo. p. com as pessoas mais abastadas tipo” do grupo discriminado são portados pela vítima pelos demógrafos. há ocorrência. (OSÓRIO.96) afirma: “[. na América Latina os mulatos seriam menos discri.86).inicia-se na intermédio do uso simultâneo dos métodos de auto. E ainda a produção cien- de 1991. O preconceito racial de marca não exclui ção de índios que vivia fora do contato com o branco.94) que a identificação por autoatribuição sideram que “no Brasil não se pode falar em ‘grupos raça. sobre a peculiaridade da classificação como não é fácil construir uma identidade negra po- amarela é criada para atender aos imigrantes asiáticos. substituiu o termo pardo por quando se trata de pesquisas que realizam coleta de dos sujeitos feita por intermédio destes dois métodos da 1ª série e há vários grupos de crianças pela sala. que heteroatribuição ticamente preteridos em relação aos demais. e faz com que os sujeitos ao preconceito sejam sistema- meiro recenseamento geral. a autoatribuição a categoria “caboclo”. tir daí. mantendo-se a data de 1940 para a inclusão do estabelecido para a decisão do enquadramento dos in. a cor da po. “diferente. embora pu. não adotou legislação sentimento de culpa e solidão. a origem não zação até a metade do século XVIII e caracteriza-se Sendo assim. após a abolição da escravidão. raciais’. sim. que a ascensão social é fator de SEMBERG. obedecendo para o Brasil. empregados pelo IBGE faixa etária é inequívoco considerar que pertencimento da menina negra de cabelos trançados e seus sete anos. heteroatribuição de pertença. p. em nosso meio. Nogueira (apud ROCHA & RO- pesquisas censitárias é extremamente importante. principalmente das décadas de 80 e 90. por parte dos estudiosos.87). DISCRIMINAÇÃO NA ESCOLA 1872. reproduz-se na série de censos realizados posterior. dossiê temático Considerando que todo o Brasil participou do No entanto. três vocá. de 1890. -atribuição e de heteroatribuição de pertença” (OSÓ. ignoraram dados. (OSÓRIO. são elementos . tem início em 1872 e Ainda de acordo com Osório (2004. definindo. é determinada pela consequências negativas. sificação. p. voltando a questão de raça. O método de auto. odo. entender e embranquecimento. 2004. 2004. 2004. Buscando atingir os objetivos propostos nesta pes. 2004. pos. portanto. principalmente os mais abastados. “um da cor dos sujeitos. o Brasil. como educação. 2005. propõe a existência de três perí. 2004. a partir destas. rendimento escolar dessas crianças. apenas quantos traços.. Telles e Lim (apud OSÓRIO. tuação socioeconômica.95).. Portar os O segundo momento. ou marcas. O terceiro perí. sabendo-se que. tários no Brasil: fazem parte do nosso país. preto. pois. Justamente por isso. Conforme Osório (2004). a par. Seria possível afirmar então. realizado em rio. afirma consolida as cinco categorias empregadas pelo IBGE nos pretos e não-pretos. há. a dicotomia racial importante seria entre racial segregacionista. Marcílio (1974. minados do que nos Estados Unidos. Sendo que A polêmica desenvolve-se em torno da categoria a do observador externo”. divíduos em grupos definidos pelas categorias de uma objetividade à classificação? Não se tem nenhuma ga. sim. o fato de que potencial. 2004. do “fenó- pelas poucas estimativas gerais. que representa uma maneira de se apurar. de extrema relevância.proto-estatístico. ou praticamente às mesmas categorias de 1872. a classificação ganha status de “cor ou raça” e Desta forma. descendência” (ROCHA & ROSEMBERG. já afirmar. 2004. MEC utiliza. do qual se considera membro. não do ‘preconceito de origem’ (raça/ odos distintos para se pensar a coleta de dados censi. p. 2003. alusiva ao grupo dos indígenas. (OSÓRIO. pelos entrevistadores ou pelos res. pulação brasileira voltou a ser coletada. Tanto assim que Osório (2004. método de identificação racial é um procedimento ponsáveis em fornecer a informação. . em uníssono. além das três categorias acima citadas. bem como a sitiva no espaço escolar e nos levam a inferir algumas Essas categorias foram empregadas também no Censo de alguns países latino-americanos. palavras-chave deste artigo. tulam que racial brasileira. mestiço e os Censos seguintes. DIFERENÇA. com o objetivo de captar a raça ou etnia dos de identificação racial. chamado de era estatística.É que você é a única igual a mim – disse-me. já que sou a única adulta na sala de aula Censo do Brasil. que o preconceito racial influencia negativamente no dias atuais: branco. onde o próprio sujeito interrogado escolhe o grupo sáveis em fornecer a informação. subjetividades: a do próprio sujeito da classificação. reforçando o retrato do Bra. inclusive conferindo maior Pode-se concluir que esses grupos buscam. RIO. indivíduos. cuidou muito bem de registrar. sujeito e a identificação de grandes grupos raciais “a que de cor que lhes foi conferido atribuir a determinado CONVERSA SOBRE to. vindas do preconceito e da discriminação de que são De 1940 até 1990 a classificação era só de cor. melhorar a condição dos diferentes grupos étnicos que ascendência). p. Mesmo assim.Claro. p. onde outra pessoa é que define o grupo do tempo.] no fundo. importa. utilizou-se como a análise do DNA. 2004. analisaremos apenas os métodos de auto e de 16 anos e a heteroatribuição para os alunos abaixo desta . (Depoimento de uma pro- A partir do Censo de 1940. poder polí- ticamente por um órgão especializado – o IBGE (apud São três os métodos de identificação racial de que ar os entrevistados. de contornar o problema. em ‘grupos de cor” (Guimarães. 95). que o Censo IBGE/2010 é de se esperar que as pessoas que carregam menos O primeiro. em 1872. normalmente aceitas emprega cinco categorias de “cor ou raça” na sua clas. p. à luz do ideal de branquitude vigente. e percepção. amarelo e indígena. quando se pensa a classificação -lhe intrigada. Há menor garantia. teriam pertencido os ancestrais de uma pessoa” (Osó. a heteroatribuição de ficuldade em identificar esses fenótipos e. ainda. da posse de outras características ‘afirmativamente’ va- por métodos modernos de coleta e publicados sistema. seria uma forma mente. Finalizando.105). mas desabona suas vítimas. PRECONCEITO E No primeiro Censo oficial brasileiro. mas por que quer sentar-se aqui? – pergunto- cidas ou alforriadas” (Osório. pode-se afirmar que ela. mas. que parcialmente. estas marcas. projeção social. p. “igual número de também tendendo à escolha do branco. na coleta de dados de cor ou raça. desvalorização. pode se afigurar problemático. 2007. ou seja. é na “variação social da cor” (Osó.86). lorizadas. estudiosos do assunto con- A CLASSIFICAÇÃO DE “COR Censo do IBGE/2010 e respondeu ao quesito cor/ rio. e que essa tendência varia de acordo com a si. Desta forma. aparência e não pela ascendência. sustenta que. p. com o emprego da categoria indígena no Censo posição intermediária entre os pretos e os brancos. Fatos semelhantes a esse nos permitem ilustrar o termo pardo volta a substituir o mestiço e a categoria parda. como: rejeição. por parte dos respon. discordâncias com relação à adequação desse método heteroatribuição de pertença racial é uma escolha entre fessora negra do estado de São Paulo/2002). p. uma forma de compensar. gozando de uma mente do que ocorreu nos Estados Unidos. O segundo atribuição é recomendado por órgãos internacionais. grupos raciais e a identificação racial é realizada por a classificação de cor é realizada por auto-atribuição completamente. 2007. 95). traços do grupo discriminado constitui inferioridade.

o racis.12). São aprendidas social. Dessa forma. Esse julgamento prévio apre. Até porque. acima. Bernardo Kliksberg. porque muitos sença no espaço escolar. o que poderia levá-los aceita como negro”. Tarso Genro. sem maior ponderação ou conheci- aparência: é o cabelo. diversidade e com as manifestações de discriminação (ITANI. temos de presentes em nosso cotidiano de trabalho e. então. em função desta. o negro e comprometem seu aprendizado. desestimulam ceituoso é aquele que se fecha em uma determinada países. profissionais ou atuando em comunidades e movimen. definir alguns conceitos: Justamente por isso. nos bancos escolares. (DIAS. vas que se tem do negro e do índio na nossa sociedade”. “Se de um lado sociais. com grandes fraturas. portanto. ceito e à discriminação. a pele. como a miséria em que vivem as comunidades indíge- pora essa depreciação evitando sua identidade negra e do teor preconceituoso de muitos livros e materiais Bernd (1987) argumenta que o indivíduo precon. devemos se inicia na família. é possível compreender que atitudes pelo IPEA reforçam as palavras. Portanto. p.19). reproduzir consciente ou que o contestem (GOMES.23). ela não modifica..128). De acordo com a autora. então. p. Podemos compreender. afirma que “como educadores. mas. p. que devemos considerar como ex “Ministro da Classificação Racial” (Magnoli.11). p. Munanga (2005. Com efeito. Ele Social. 1998.5) argumenta que “espaços sociais temos a desvalorização da identidade negra. mos frases como “o próprio negro é racista. O ser humano não nasce preconceituoso. dade de lidar profissionalmente com a diferença. expressando. O preconceito. considerados nestes indicadores como o so- Para melhor compreensão de como estão postas as atitude das pessoas em relação a alguém ou a alguma acordo com Gomes (2003. círculo de população negra. A ideologia racista deixa as famílias negras em problemáticas ligadas ao desafio da convivência com a de que somos contra tais práticas discriminatórias” Analisar os indicadores de desigualdade entre os extrema dificuldade para melhorar seu capital social. sem dúvida. a discriminação racial é fruto do mito da democracia como o da família e da escola têm enorme potencial outro a valorização da identidade branca” (TEIXEIRA. Trata-se. Além dos expressivos diferenciais a criança negra é afetada pela diferença. reflexo do nosso mito de democracia racial. o imaginário e as representações coletivas negati. portadores de defici- reagem pedagogicamente a essas situações discrimina. 2005.54).15). caráter negativo tendem a ganhar mais força na medida uma condição social significativamente pior que a da apontado a necessidade de discutir para além de como o significado da palavra preconceito é “opinião adotada em que a criança vai convivendo em um mundo que população branca.127).1). discriminatórias. p. praticamos e os transmitimos. Ou seja. Ainda de acordo com Munanga: Considerando assim. em sua educação e for. Consequentemente. processos formativos e informativos. são herdeiras da desigualdade e da exclusão social pro. mantêm-se. versarmos sobre Diferença. todos para a mesma natureza divina. a fim de que mente. ao lembrarmos das palavras do estruturas da sociedade brasileira e as crianças negras Essa falta de preparo. ao final desta conversa. vítimas podemos. negros e brancos também são tema deste artigo. 1992). p. nós os ser originada de outros processos sociais. & THEODORO. dela resultantes.6). a subordinação da mulher. profissionais não receberam. a prática da diferença e as ciais preconceituosas. p. p. 2007. pois. as inten. Os dados opinião. dades socioeconômicas mantêm e intensificam dramas depreciarem o negro. para as crianças negras. com clareza. deixando de aceitar o outro lado dos fatos. Vejamos o que mostram as análises realizadas a tido privilégios que não se quer discutir. mais penalizados em termos de acesso e permanência discutir o legado branco dessa relação”. ele não se educação: não aceitar como pronta e acabada a lógica mais aprofundado da questão. 2003. papel social significativo. nega-se como deixem de pensar de forma preconceituosa. dos índios. p. nhum complexo de culpa. mo. que geram exclusão social e com comprovam essa afirmativa. em relações raciais no espaço escolar. tem coisa. 1987. Se assim o fosse. negros. que se os seres humanos dos idosos e das pessoas de baixa renda. guinte. O preconceito é um julgamento negativo e prévio dos p. aqui.5) mação. nas. quem tem o poder de dominar. E isto quem herda são as pessoas brancas”. Em muitos casos a criança incor. muito menos. apesar da lógica da razão ser importante nos amizades e se prolonga até a inserção em instituições dade da chamada questão racial no Brasil” (JACCOUD pelo crime. desta rejeição. de um dos grandes teóricos do Desenvolvimento soa negra aceita a ideia de inferioridade atribuída à sua não mudará as mentes de nossos alunos. faz parte das tom. “Como professores.. p. ências e dos idosos. missão no processo de formação dos futuros cidadãos ou de uma religião ou de pessoas que ocupam outro situações de injustiças e discriminações e para o esta- dução da rejeição. a “perversi- racista. foi-nos forçoso admitir que ao Con- identidade que acomete muitas crianças negras. compro. vizinhança. não existe. p. dossiê temático Dias (2005. sobre repetência e evasão escolar do alunado negro sendo o preconceito. dos homossexuais.55). escola. para quem “o quesito cor/raça re- vocadas por esse racismo institucional. registradas na citação pessoa que não se aceita como negra. Teixeira (1992) registra que partir dos dados da pesquisa Retrato das desigualdades 46 47 . o nariz. humanos e a concepção que o indivíduo tem de si mes. a pes. preconceito e sem exame nem conhecimento prévio” (LAROUSSE. belecimento de políticas de correção das desigualdades sas interações que ali se dão são quase sempre negativas. Os dados e informações produzidos pelo IBGE e do preconceito racial é o termo usado para designar a somos todos iguais. como o preconceito mento dos fatos. a priori. de comandar a situação. (MUNANGA. tária que impede nos indivíduos o desenvolvimento freqüência. mesmo quando não psicológicos que vão além do preconceito desenvolvido meadas pela ideologia do racismo” (DIAS. as atitudes raciais de matório dos pretos e pardos. no que diz respeito às “ex- condição racial e. e. “nossa trajetória de socialização tremas desigualdades no acesso a oportunidades” da negra. p. a população branca de qualquer nível social tem baseiam sua conduta num conjunto de representações São esses julgamentos raciais negativos que dão lu. para livrar-se disso. Geralmente a discriminação racial na escola se dá pela antecipadamente. responsáveis de amanhã. a marginalização da população de cor em alguns tudo que a remeter a ela. ideologias intolerantes que visam justificar Em função disso. p. “é necessário 2004. grupos constitui-se em uma boa maneira de tornar vi- cultural e econômico. p. De negros. 1992. Ele é parte da ças elaboram seus primeiros julgamentos raciais. 2005.104). por si. Inclui a relação entre pessoas e grupos “(. a coloca constantemente diante do trato negativo dos no que diz respeito à renda. estaríamos culpando a vítima saber que. sem assumir ne. por conse. além mo e também do outro. p. A autora nos alerta que “a discriminação racial pode ainda não estão cumprindo esse papel”. Os 2005.5). de uma etnia presenta um passo importante para o conhecimento de A escola. de uma maneira geral. não podemos esquecer que senta como característica principal a inflexibilidade. surge uma sociedade tórias (GOMES. Como já foi dito Podemos afirmar. em geral. As diferenças de oportunidade de educação para cista. igreja. Convém esclarecer que introjeção apoiada na razão científica que diz que biologicamente à reavaliação de suas posições” (BERND. É no contato com o mundo adulto que as crian. das mulheres.135). E as professoras nem sempre didáticos e das relações entre os alunos. afirmando que: inconscientemente os preconceitos que permeiam nos. e de promoção da cidadania” (Caderno do Censo do Gomes (2003) chama a atenção para a crise de somos produtos de uma educação eurocêntrica e que pois tende a ser mantido sem levar em conta os fatos MEC.791). p. pois “são instituições sociais per. 2001). “uma posição dogmática e sec. é que pode ser considerado ra. o preparo suficiente para lidar com questões queremos ou mesmo quando proferimos o discurso pelo indivíduo” (TEIXEIRA. “essas noções e teorias coletivas estão também gar à discriminação racial. tem sido um espaço de pro. “E isso jamais pode ser considerado uma atitude (2005. o objetivo fundamental da nossa membros de um grupo racial de pertença. tos sociais e políticos” (BERND. nem a moral cristã que nos eleva a Sendo assim. mete. Preconceito e Discriminação. 1998. de conceito ou opinião formada de educação entre negros e brancos. 2005. afirma que os privilégios atitudes de preconceito e discriminação marcam pre. somado à sua dificul. p. De tudo isso. além de operar de forma individual. tornou-se muito comum ouvir. isso preconceituosas não são inatas. 15). 1987. políticos e de ser compreensível.) as extremas desigualdades no acesso a oportuni- butos físicos os escolhidos pelos discriminadores para enraizado na cabeça do professor. não podemos nos furtar a uma análise dos indicadores sa sociedade.56). O que não deixa foram concedidos à identidade branca. acreditamos que é de bom sível este tipo de discriminação e de buscar superá-la. 2003. racial de um país que se gaba de não adotar práticas ra- para produzirem as resistências ao racismo. enfim são os atri. Munanga aprende a sê-lo. os negros são sempre os discriminação. Afinal. manifestando um imaginário social. Teixeira (1992). p. Na batalha contra o racismo. Segundo Dias (2005. na prática escolar” (ITANI. ao precon. por sua vez. 2005. esta é a luta da da necessária e permanente abertura ao conhecimento tais fraturas” (KLIKSBERG.

Zilá. essa taxa era de fabetização e Diversidade. Brasília: e Diversidades.). escola. Antônio Olímpio de./dez. recorta e dá visibilidade à problemática. Eles deveriam pedir descul.2. Negritude e literatura na América Latina.5% dos homens negros com 15 anos ou mais História da educação do negro e outras histórias. que mede BERND. 1993. In: ROMÃO. Brasília: 2005. Rafael Guerreiro. educação: os limites das políticas universalistas. Racismo e Anti. pardo?. O sistema classificatório de Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a As diferenças regionais também são significativas DIAS. gestores. Disponível UNIFEM. Contemporânea. leção Políticas da Cor. Prática Pedagógica Curri- entre negros e brancos. In: BARBOSA. Demétrio. Nacionais para a Educação das Relações Étnico. In: MU- e o aumento do número de trabalhadoras domésticas 60 anos ou mais de idade. ação afirmativa e universidade. Acesso em novembro 2008. Maria Aparecida Silva Bento. 2001. In: sistência na voz dos trabalhadores negros. Além disso. alunos negros têm desempenho inferior ao dos alunos ___________. Brasília: 2005. sociais: educação. A. Iray mentos sociais. Se associarmos os anos de estudo ao pela Lei Federal Nº 10. que a dos negros. anti-racista: caminhos abertos pela Lei Federal Nº EDUCAÇÃO dades são gritantes em outros tantos indicadores sócio. NOVAES. (org.br. p. As desigualdades REFERÊNCIAS Combate ao Racismo nas Américas. Joaze. Antônio Sérgio Alfredo. Ações Afirmativas e lo: Pontifícia Universidade Católica. In: PETER. Resgatando a Na educação. Ressaltamos. 2007. 24./ 2005. p. O comovedor é que os dados apresentados assus. Pluralismo étnico e multiculturalismo. NANGA. serviços. tinha-se. cultura negra e relações étnico-raciais Auto declaração de cor e/ou raça entre escolares direcionar políticas públicas para acabar com elas”. Paulo: Summus. é mais D’ADESKY. permitindo damental. Linguagens brancos. CADERNO do Censo do MEC/2005. ROSEMBERG.4. A questão de raça nas leis educacionais – da LDB GALDINO. de 8ª série do ensino fun. pesquisadores. 105-120. la. alguns apre. Fry. são marcantes as diferenças raciais: os ne. para a população branca era BRASIL. al. Educação cação. Rio de mente. Lucimar Rosa. p. -Raciais e para o Ensino de História e Cultura cial. CARONE.).) Psicologia Social do Racismo (Estudos sobre estudantes. 1998. paulistanos(as). recorte etário da pessoa ocupada. KLIKSBERG. Na região Nordes. analfabetismo bastante superiores. 2005. 39-62. entre os negros. GOMES. 2005. Jacques. Fúlvia. al.639/03. São Paulo: Editora 34. RJ: Vozes. Vozes. In: disponibilizados para todo o público interessado: movi. Eliana Marques. CONTINUADA. (Coleção feminino e da brancura: a narrativa de um pro- A pesquisa citada acima teve por objetivo visuali. Maria José Corrêa et al. Porém. fundamental. têm em média 2. p. Divisões perigosas: SIDADE. Janeiro: Pallas. Racismos e anti-racismos no Bra. Rio de histórias. as enormes desi. na região Sul. como já mencionado anteriormente. essas taxas eram respectiva. Brasília. -econômicos estudados. Diferenças e precon. vimento Social. Mulher (UNIFEM). Especial de Políticas para as Mulheres (SPM) e pelo no mercado de trabalho.2. 133-136. 2005.37. na mesma faixa etária.3%.gov. Brasília: MEC/SECAD. que apresenta as maiores taxas de analfabetismo no de 1961 á Lei 10. 2. respectivamente. Diretrizes Curriculares UNESCO. mas significa. parlamentares. se ampliam quanto maior o nível de ensino.) et em: elianamrc@ig. Alfabetização que atendendo à delimitação desta artigo. Júlio Groppa (org. Jogo de espelhos. Vivendo preconceito em sala de aula. Jeruse.br. 58. Esses números podem ser explicados pelos anos HALL. 2007. RIBEIRO. com relação aos indicadores de renda e edu. ainda é bastante restrito em nosso país. 2003. Cor nos Censos Brasileiros.). fessor negro. In: SECRETARIA DE EDUCAÇÃO BENTO. estudo e as mulheres negras. do Albenarez et alli (apud JACCOUD & THEODORO. Sidney. Quantos passos já foram dados? “cor ou raça” do IBGE. Alice. Francisca Maria do Nascimento. GOLDENZON. 39-67. primeira versão da pesquisa é de 2005.) Levando a raça a sério: reu em dezembro de 2008. São Carlos: EDUFScar. São escolares e reprodução do preconceito. p. Lucia M. Divisões perigosas. 49-62. Nilma Lino. com GUIMARÃES. Magistério. sócio-econômico. Maria Inês da Silva Barbosa. trazendo uma interpretação te. Belo Horizonte: Editora UFMG. revisada. 9. mas seu his. cuja publicação da 3ª edição ocor. reinações do e Estatística (IBGE). 2003. 2 ed. Mário. In: SOU- tam não somente pelas desigualdades entre negros e AQUINO. acesso a bens e estudado. apenas os indicadores de desigualdades de educação população negra. Falácias e Mitos do Desenvol- a proporção da população matriculada no nível de ensi. 2004. dossiê temático de Gênero e Raça. Disponível em MUNANGA. 1992. Educação para todos). ALFABETIZAÇÃO E DIVER- gualdades que se manifestam entre negros e brancos e É certo que a média de anos de estudo vem au. até a PNAD/2006. nas mesmas regiões. Ministério da classificação ra- Já no ensino médio. de joelhos. Peter et al. como exemplos. A da Educação Básica – SAEB. Brasília: MEC/ (Dissertação. na reprodução dessas desigualdades. branco. Edmar José da. Bernardo. Rio de Janeiro: Co- dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Do. 2005. Daniela (orgs. ROSEMBERG. Educação anti-racista: caminhos abertos branquitude e branqueamento no Brasil). 135p. Nesse documento. In: SECRETARIA DE EDUCAÇÃO zar. No ensino SECAD. que analisam o desempenho educacional e cor de pele. o acesso à educação sionam ainda mais: os homens negros ocupados. OSÓRIO. JACQUES. o acesso ao ensino médio Afro-Brasileira e Africana. Psicologia Social 10. 2 ed. De preto a afro-descendentes: trajetos de pesquisa ROCHA. ALFABETIZAÇÃO E DIVER. Luciana & THEODORO. Dentre esses números.639 de 2003. Raça e minha bisavó: discriminação racial no trabalho e re- gros e negras estão menos presentes nas escolas. SANT’ANA. a pesquisa dos alunos brancos e negros. 18. Brasília: 2005.639/03. Superando o Racismo na esco- com carteira de trabalho assinada. 1998. Stuart.4 e 37. 2005. JACCOUD. Fúlvia. In: FRY. Superando o racismo na tivamente mais limitado para a população negra. país. 2001. Alguns termos e conceitos presentes no set. Cor e Raça no Censo Escolar.137-150. de forma clara e compreensível. 2007. p. sigualdades para que elas não existam mais.5 anos de -Racismo no Brasil. estudo elaborado pelo Instituto de por se encontrar nos estratos de menor renda. Mestrado em Psicologia Social). SA. (org. p. apre.149-153. tórico tem origem em 1993.6. básicos sobre o racismo e seus derivados. ao passo que. Kabengele. entre outros. p. Silvia Caiuby. mas também por sabermos que essas desigual. que. a partir dos dados do Sistema de Avaliação sobre o negro. São Paulo: Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). pas.7 em 2006. Ana Beatriz Gomes. micílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia de idade não eram capazes de ler um bilhete simples.4% e 4. DF: no adequado à sua idade. pela Secretaria cedo pressionada a abandonar os estudos e ingressar sil.com. 48 49 . Congresso Nacional. MAGNOLI.109). em 2006. Janeiro: Civilizações Brasileira. a taxa de escolarização líquida. v. era de 94. 2005. n. São Paulo: Cortez. No caso dos homens brancos. In: BERNARDINO. Rio Grande do Sul: Mercado Aberto. PAULA. 2003. ve discussão. São Pau- sentam médias de anos de estudo inferiores e taxas de SANTOS. Maria Aparecida Silva. Isto é. CONTINUADA. Uma dupla inseparável: cabelo 2005: O que é ser preto. Rio de EDUSP. ceito na escola: alternativas teóricas e práticas. Da Diáspora: identidades e mediações Secretaria de Educação Continuada. www. os números impres.inep. Caderno de Pesquisa.187-200. Os números obtidos são brancos. analisaremos de falta de acesso aos bancos escolares por parte da culturais. sentaram aspecto positivo em relação a anos anteriores. Brasília: Ministério da Educação. a média de anos de estudo das mulhe. de 95. ITANI. História da Educação do negro e outras entre homens e mulheres nos mais diferentes espaços mentando para os dois grupos ao longo do período Políticas raciais no Brasil contemporâneo. mesmo quando é feito o controle pelo nível debate sobre relações raciais no Brasil: Uma bre. argumenta que “é preciso evidenciar as de. mercado de trabalho. Acesso em abril 2008. In: cular e alunos negros: um estudo de caso. Brasília: jun. Cláudia Regina de. ao observarmos os estudos feitos por Janeiro: Civilização Brasileira. 1987. p. Brasília: Ministério da Educação Continuada. podemos concluir que os no Brasil. Representação da UNESCO no Brasil. os números se referem res é maior que a dos homens e a dos brancos maior SIDADE. Petrópolis. História e conceitos podendo-se citar. Kabengele (org.132. Sales Augusto (org. TEIXEIRA. SOUSA.

palavras. os letrados vinculados às compreenderiam que essa mesma questão era de pouca ção. já que o problema se resumia edição de Casa-Grande & Senzala: “dos problemas bra- na obrigação de tentar entender e explicar o destino da à educação (Manoel Bomfim. pois passou a ser black people. 1967. em finais do séc. Outros ainda tentativas de se explicar a problemática da miscigena- autodenominavam. defendia a invia. (não havia) nenhum que me inquietasse tanto nação. No prefácio do os primeiros momentos da colonização. because she happened to be interpreted as a darkening cial. Nina Internamente podemos perceber a consolidação ra. dedicaram. definir o “real” caráter do brasileiro e as várias fez com que muitos “homens de ciências” – como se mento se imporia (Sílvio Romero. Uma boa obra sobre este autor é Casa-Grande & Senzala e a o que um país já tão miscigenado – com um destino (EUA). XIX parecia duzindo a noção de cultura1. que pretendiam. Oliveira Vian- escravidão brasileira legou para a história do país a pro. RACIAL fazer um estudo culturalista das relações sociorraciais Skidmore. Palavras chave: Raça. Freyre buscou dar relevo à influência que O Brasil. Obra de Gilberto Freyre. isso modelos explicativos anteriores. no Curso de Ciências Sociais. importante verificar se as opções de miscigenação feitas Nesse sentido. 1993. com uma população de grande contingente de vidiam. Como a sua proposta era tanto social como político e cultural (Cruz Costa. afirma no prefácio da primeira instituições de pesquisa e ensino no país – se sentissem ou nenhuma importância. de herança cultural -se à análise das relações “raciais” e da mestiçagem no rias européias: para alguns cientistas. A devido. Lacerda. Oliveira Vianna e outros. em seu conjunto. o futuro de um e de meio” (1978. «race» in Republican Brazil. 1993). Atualmente é aproveitada. Racism. Sílvio Romero. procurou explicar a questão da miscigenação. Prejudice. disciplinar da África e dos Afro-Brasilei. o autor bilidade da mestiçagem. Uma das maiores razões para em relação à questão. 1957). Precon. Currently she is seen as a way of ensuring the existence of Professor Adjunto II. brasileiras. or was something Doutor e Mestre pela USP. Outros negative factor. Nesse sentido. que alguns pensadores viam Another issue is the mixing. Democracy Racial Identity. which for some thinkers was seen as a de Jesus Felix como um fator negativo a ser extirpado de nosso país. 1949). uma forma de garantir a existência dos negros. o primeiro desafio de Freyre foi teriam alguns efeitos benéficos. Por este motivo. 1994. Ele teve contatos com Brasil. Em Casa-Grande & Senzala. boa parte dos homens Schwarcz. o que pode exemplificar a grande preocupação país “miscigenado” só poderia. Democracia Racial. dentro e fora do país. existentes entre os habitantes da “Casa-Grande” e os de ciências. em Espetáculo das Raças. racial. pação tanto do “negro” como do “mestiço” tivesse um tico estaria irremediavelmente destinada ao fracasso. tais como Sílvio Romero (1943). segundo ele. em Colúmbia 1. A DEMOCRACIA destaque bastante relevante. perplexidade como o da miscigenação” (idem. devido à enorme taxa de miscigenação Gilberto Freyre foi um estudioso que procurou contri. As posições se di. Racismo. XXIII). então. Tal influência. mas mostram. ou seja. sileiros. ceito. Keywords: Race. desde em outro contexto político e intelectual. (UFT). no final do o tema se transformando. Em outras livro Casa-Grande & Senzala. brasileiras tendo como modelo as condições de vida século XIX e início do século XX. se fez sentir muitos desses cientistas. despertou a curiosidade de buir com a discussão sobre a identidade do brasileiro.dossiê temático REFLEXÕES SOBRE NOSSAS CONSTRUÇÕES INTELECTUAIS E POLÍTICAS ACERCA DE “RAÇA” RESUMO ABSTRACT Esse artigo procura fazer uma reflexão sobre a construção do This article attempts to discuss the construction of the concept conceito “raça” no Brasil republicano. João Batista Outra questão é a miscigenação. principalmente da Europa. esses grupos tiveram sobre o estilo de vida dos senhores presente em sua sociedade. 1933. Além disso. na Universidade Federal do Tocantins interpretada como um escurecimento da população. como os de Nina Ro- que essas questões despertam em nossa sociedade. Atualmente ela é vista como positive. de fato. Foi só nos anos 30 que vimos Freyre procurou analisar as relações sociorraciais esta preocupação baseava-se no fato de que. tão somente. ros da UFT (NEAF/UFT). a discriminar entre os efeitos de relações puramente Rodrigues (1957). 1933. of the population. drigues. genéticas e os de influências sociais. já de engenho. which should be excised from our country. Others enxergavam nela uma característica que poderia ser mais bem who saw it as a feature that could be used more. XXIII/XXIV). João B. de Antropologia So. 1976 e Schwarcz. É o Diretor de Cultura do mesmo campus e Coordenador do Núcleo de Estudos Inter. ser funesto. entre outros. 51 . da “Senzala”. como mostra. “funesto” tão evidente – faria para tentar modificar essa descartando a “raça” como fator determinante e intro- os pioneiros sina terrível. 1993). por meio da determinante blematização da desigualdade sociorracial. de Ricardo Benzaquem de Araújo. o que esses senhores gostariam de saber era após ter tomado contato com Franz Boas. de pelo menos três principais posições frente às teo. uma sociedade procurou descrever uma sociedade em que a partici- que tivesse grande proliferação desse fenômeno gené. à miscigenação (Nina Rodrigues. considerar “fundamental a diferença entre raça e cultu- Muitos autores. era algo positivo. Outros entendiam que esse mesmo fenômeno na e outros. ex-escravos e de mestiços. o autor afirma que. Tal situação social não era tão prejudicial assim e que o branquea. Identidade.

(Barthes. ao responder ao quesito 16ª. Senzala. em maio de 1994. “. mas separadas mais tarde. o que notamos A sociedade mostrada por Gilberto Freyre. em perversos e de hórrido aspecto. a civilização e o capital. panheiros dos meninos brancos nas aulas das casas. através de suas obras pos. dade sem a sua presença. De sorte que. Outro parecer uma chocante contradição com o que atrás con- O enorme sucesso alcançado por Casa-Grande & continente europeu. Na obra “Do padre Florentino Barbosa. Porto. É a própria ausência de cor.. atingindo pessoas das mais diversas estrati. “O pot-pourri étnico do Brasil. o negro. Já Skidmore ficando cada vez mais adocicadas. os filhos que Portugal. 4. exibido pela primeira Brasil uma nação multirracial. 355/6). ‘em reconhecem a sua existência não propõem uma socie- orgulhar-se da sua civilização tropical. confessa sempre ter gostado ‘mais de negro primeira vez. 1995. em um pro- à atmosfera de monocultura escravista que dominava grama sobre o livro Casa-Grande & Senzala. ao conseguir dar destaque a várias teorias apresentadas portugueses foi denominada por Gilberto Freyre. devido ao seu ineditismo. é uma sociedade em que os portugueses entram e de distanciamento. depois de que a contribuição de Gilberto Freyre foi a de que. -Grande & Senzala. “negro”. obra em que que também não é estranha a influência da ‘história de a obra de Freyre a revelar uma “singularidade da mesti. por fim. com grande simpatia. Mesmo aqueles que não nibida mensagem de otimismo: os brasileiros podiam A ler e a escrever e também a contar pelo sistema de Gerais. várias ocasiões o autor afirma e reafirma que o colo. 1978. mas foi sendo incorporado à teoria de Freyre ao longo ção”. 1996. de onde saíram de diversas palestras proferidas por ele nos EUA. as diferenças sociais existentes mesmo tempo. é que a miscigenação não era entendida no Brasil pré. era. tabuada cantada” (idem. tos em que as pessoas demonstram possuir profunda com pessoa de cor preta. 54). mas surgiram dessas relações foram incorporados à convi. (Freyre.500 questionários. que do mulato’. vez. O “luso-tropicalismo” não está presente em Casa-Grande & 6. Isto demonstra que o ima- mente mestiça. de nossa representação de “democracia racial” foi que em resposta ao quesito 16 do inquérito. do branco. 1947. favoráveis à mestiçagem. ou um “fato e pronto”. seguin- entre si. quiçá a única. Adolfo Faustino -Gilberto Freyre simplesmente como um “dano irre. em motivos estéticos e fisiológicos. Ao mesmo tempo. as relações entre escravos e senhores vão brasileira (para tanto aplicou 1. no Brasil existia uma real “democracia racial”. seja ele “branco”. devo afirmar que não rece- (1976) afirma que a postura teórica assumida por Freyre: afirmar que: ficações sociais).. A maneira de relatar e as fontes uma sociedade em que as relações “sócio-raciais” se- o país até a segunda metade do séc. Fry. 1972. dos colonos brancos” (Freyre. houve também meninos mocracia racial”.. Freyre conse. Freyre. a abolição dos escravos’. 188).’. passa a ser o nosso maior divulgador. livro Ordem e Progresso. beiro. a minha meninice e a pressupostos raciais dos mestres brasileiros”. do desenvolvimento de seus estudos sociológicos. A miscigenação brasileira Ou seja. Gilberto Freyre afirma “que somente a índia utilizadas causaram bastante impacto. Apesar da opinião de Skidmore. Para ele. em que pergunta especifica ou concreta sobre o assunto: “Pode Sílvio Romero. com personagens que eram ‘negros velhos’ çagem (brasileira). no Brasil seriam “o resultado da consciência de classe branco. nesta nizador luso não teve a mesma postura de separação soa de cor. maior. Após sua publicação as pois os escravos eram ‘um anexo da família’. “Já Heitor Modesto (d’Almeida) nascido em Minas “mito”6 nacional brasileiro. não tiveram problema algum para fator que muito contribuiu para o sucesso internacional signado. a ressalva que de mundo da sociedade brasileira – não está somente Devido a esse passado mestiço anterior. 1982. nossa ex-Metrópole. abraçou imediatamente faço. cujos vícios sociais – que Gilberto Freire ginário social do brasileiro. costumes. Além desta rior não só à dos indígenas como à da grande maioria Apesar de ser um grande defensor da “democracia branca. relações “raciais” brasileiras passam a ser vistas como do ficado com os Modestos ‘o resto da vida. brancos que aprenderam a ler com professores negros. pois ajudava a explicar a ori. Segundo Schwarcz. “Os pretos e pardos no Brasil não foram apenas com. o mulato e. não contente com o su. com relação a seus escravos. irmão ou irmã. XIX. na genação causado dano irreparável” (à sociedade bra. de nossas relações “raciais” amistosas. dizia Gilberto nosso contingente foi o útero materno. Do Saber Colonial ao Luso Tropicalismo. beria bem o casamento de filho ou filha. discriminação contra os “negros” e os “mestiços”. A cor guiu oferecer “uma espécie de nova racionalidade para no. No complexo que remonta. depois de se dizer parável”. qüências danosas da miscigenação provinham não da fêmea contribuiu para a colonização do Brasil”. virou de cabeça para baixo a afirmação de ter a misci. nessa obra. 357). como a a sociedade multirracial brasileira” (1995). Luto. carta logo no primeiro capítulo os indígenas. invertendo os termos da equação e & Senzala. Em novos termos. a teriores. escrito em 1957. mas da relação malsã de senhor 3. A violência brasileira”. alguns ten- Alguns estudiosos costumam defender a ideia de sobre uma questão que tanto incomodava os intelec. fumo se associaram na formação de um ralista norte-americana “sem abandonar totalmente os existente no regime escravista brasileiro era explicada ções que os negros e mestiços sofriam no Brasil.” (1990. Para maiores informações sobre este tema consultar Omar Ri. Esta postura assumida pelos dessa teoria. em 1887. de luso-tropicalismo3. 415). Quanto ao casamento próximo com pes- 210). podemos destacar alguns depoimen. No desenvolvimento do enredo de Casa-Grande se propôs fazer um estudo extenso sobre a sociedade Trancoso’. alguém procurou ‘positivar’ a mestiçagem terpretava o Brasil como uma sociedade “mestiça”.. o qual me parece fundo. se rein. e os ne. vem em primeiro lugar. o “luso-tropicalismo” proposto por Freyre5. de 1947. “mistura” teórica ele procurou se basear na teoria cultu. ‘não (o) recebera bem’” (págs. 52 53 . ofereceu uma explicação acadêmica história intelectual do país. depois de recordar ter recebido. como dizia é explicada histórica e culturalmente: os portugueses. Freyre destacou a contribuição cultural do africa. internacionalmente falando. ao justificar meu ponto de vista pessoal so- sim na grande capacidade que Gilberto Freyre teve em vência da Casa-Grande. 211). talvez. Em sua visão. Segundo Skidmore: “Casa-Grande & Senzala interessante notar também que. Em depoimento dado à TV Cultura de São Paulo. Portugal tentou justificar as suas colônias bre coloração pigmentaria. Nada mais2. com sua obra Casa. são essas as palavras: ‘Não aprovo o casamento sileira). vão alguns exemplos: É possível fazer a seguinte reflexão sobre a “de- era a primeira vez que os leitores recebiam um exame -grandes e até nos colégios. Senzala – pois esta obra em muito influenciou a visão se relacionar com as mulheres africanas aqui no Brasil. etc. preta nunca me agradou. por já terem tido um longo contato com os mouros no “brancos” e “negros” conviviam fraternalmente. De posse graduação. agradou aos brasileiros. Devo estabelecer uma relacionado às opiniões assumidas por seu autor. As conse. ao contrário. 5. O anteriormente. considerando o mulato ‘inimigo natural brasileira. ela pode ser entendida como um erudito do caráter nacional brasileiro com uma desi. como “uma fala” social . nessa gradação. em de negro com branco pela disparidade de tendências. nascido em 1981. Uma outra fonte e escravo debaixo da qual se fizera” (pág. rigorosamente verdadeiro. anos na África. e da sexualidade. ele procurou divulgar para o mundo todo que livre de preconceito de raça. É cesso alcançado.” (pág. uma vantagem imensa” (1976: os primeiros brasileiros. Freyre des. que é uma coletânea Paraíba. das vestimentas Como podemos notar Freyre. trevas. A importância de Casa-Grande & Senzala. está em sua proposta não subestimou – deviam atribuir-se principalmente teórica culturalista que se propunha a desvendar o que fazia do “mestiço” – talvez até mesmo “indígena” – não concebe 2. obra. que para ele já era detentor de uma “cultura supe. altamente positivas4. ao reuni-las. 131). os colonizadores anglo-saxões na América do Norte. o que levou por meio desta cultura inferior dos europeus. Freyre tinha conhecimento das discrimina. Ele não é uma síntese. Aqui gem da sua própria personalidade. é Feijoada e Soul Food. mais do que de qualquer preconceito e raça ou de cor” do-se-lhe o índio. havia também posturas que defendiam ser ela gros com parte da cultura. na série prismática. acerca de minha atitude para com os negros. que “Quanto ao brasileiro de Pernambuco. em 1881. 352). pela tuais e políticos brasileiros. reage de modo diferente à um mal necessário. dossiê temático principalmente através da culinária. com o poder político. Nascido em Olinda. contribuição dada pelos nativos de Interpretação do Brasil. original e etnica. 299). libertos’. Casa-Grande & Senzala inicia uma nova fase na menino. para ser positivando o modelo” (Schwarcz. Freyre. Aqui mito está sendo entendido como “um modo de significa- mistura de raça em si. a ponto de o autor todo país.

mas esta disparidade era vista “preconceito retroativo”. Nesse sentido. tanto por Gilberto Freyre como por colocar contra a situação que lhes foi reservada. em Florestan Fernandes. mas também pretendem ver respeitadas a suas alunos trabalharam em estreito contato. diam que. segundo Myrdal. 1997). “negros” e “mulatos” por Fernandes. O negro brasileiro também entende que é bastante Devido à grande divulgação da “democracia ra. Wagley (Columbia University) e Roger Bastide (Éco. ternacionais entre intelectuais das Ciências Sociais. O que se entendeu como uma “democracia racial” era 54 55 . segundo vítimas não tiveram condições de tomar consciência de Freyre. após entender que esta CO. A discriminação se deu de maneira tão racismo no mundo. para conseguir galgar uma posição melhor. inicialmente. como uma parte de si próprio. dativamente. principalmente. neste período.e estas políticas e familiares ao mesmo A proposta inicial era que se fizesse pesquisa. jurí. na memória. fez com que o -americano. o Credo A PESQUISA DA UNESCO do Escravo (1988). ao assumir esta posição. Neste sentido. posição de estudar este fenômeno para poder melhor do Brasil)” (Skidmore.. enquanto com o fator “racial”. discriminação racial contra os “negros” e “mestiços”. Segundo o autor. não que qualquer outro na nação. des. pela equipe coordenada por Roger Bastide racial para não perderem seus privilégios na sociedade o significado da primeira luta da nação pela indepen. sofrem as consequências na África e na Ásia. demonstraram que o que se tinha social. mas sim porque os resultados não se pres- da pela sociedade americana. podemos afirmar que Estado. destes estudiosos levaram alguns cientistas a criticar percebendo que. ra só sofrerá um forte ataque na década de 1950. 1988. legitimavam de o Credo não ser ali observado. Negro na Sociedade de Classes (1965). o que não Ramos. não conseguem. ou mesmo pelo governo brasileiro. forma de convivência pacífica sustentada pelo governo foi feita por René Ribeiro (Instituto Joaquim Nabuco) e “negro” e o “mulato” não conseguissem entender que tura variegada (daquela) nação” (Rose. em que a “democracia racial” revelou-se consegue propor uma sociedade em que as diferenças neste continente. nesta altura do com o fim do trabalho escravo. na Bahia. a tão falada “democracia racial” dividida em classes. fossem integrados à nova sociedade. as fantasias da sociedade brasileira em relação a seus os interesses dos “brancos” das classes médias e das sitam. “branco” ou “índio”. a “mulatos” não possuíam. somente em funções tavam à sua intenção inicial. Brasil se deu de modo que o “negro” e o “mulato” não como um “engodo”. por cientistas como: Octavio Ianni. 41). Segundo direitos inalienáveis à liberdade. e o “mulato” viviam em nossa sociedade. não é simplesmente um meio para conceitos de relações “raciais”. 1976. entre eles mesmos. Para ele. Relações Raciais no discriminação e ao racismo brasileiro. tamente quando a UNESCO.. cial” brasileira feita. Itália. A relação entre os “brancos”. no social (miscigenação) e no econômico UNESCO aprovou em sua 5ª Conferência Geral. dossiê temático jam conflituosas. resultou em um enorme dominante naquele país. mesmo porque fendia a elaboração de um estudo comparativo (Maio. entretanto. Ou seja. Os “negros” e os “mestiços” enten- dência” (idem. as atrocidades ocorridas e Florestan Fernandes.” (Mauss. Os estudos realizados elites. mas a ideia da “demo. delimitar fronteiras 1997. outros intelectuais. para o povo americano. mas era sim um para os brasileiros. As Metamorfoses abandonando qualquer possibilidade de combater a acreditam que. também com a ajuda de fundos da UNES. A fé que nele depo. assim como estavam brasileira passou a sofrer ataques cada vez mais viru. veis entre si. mas. ela pode exprimir “ao mesmo tempo e de uma Ramos. Skidmore: sua existência para combatê-la. de fato. Salvador e da França ponderaram que a pesquisa sobre forma de produção. marginalizadas. sutil que o “negro” e o “mulato” não tiveram como se Não podemos afirmar que em A Integração do Ne- prejudicado em nossa sociedade. inconciliá. estes foram sendo integrados gra. que se pauta em modelos contatos raciais num só país limitaria uma possível ge. inicialmente a UNESCO de. Este paralelismo fazia existência. cientista social brasileiro que havia falecido há como sendo “natural”. com plicação de que esta posição não tinha qualquer ligação a “democracia racial” parece ser um valor bastante caro diferenças. 1968. a UNES- “raciais” sejam respeitadas e garantidas. na opinião de Lilia Schwarcz isto é. Do mesmo modo que os brancos. podemos esquecer que o mundo ainda tinha muito viva cipalmente. as suas encontrado uma sociedade muito diferente da vista por to e uma real integração com os “brancos”. ma função que o “credo americano” tem para o norte. que “credo” defende a “dignidade essencial do indivíduo. jus. realização de uma pesquisa sobre relações raciais no direitos sociais. não como resultado de qualquer (1995). 53). “Entre os scholars estrangeiros que realizaram exten. Fernando Henrique Para Florestan Fernandes. todo a ser considerado extremamente prejudicial para os cia social demonstrou-se possível embora a sociedade ataque preconceituoso era acompanhado por uma ex. em sua obra A Integração do Após a divulgação dos resultados das pesquisas tempo. Município de Itapetininga (1955). São Paulo. um “preconceito de ter preconceito” (Fernan- só vez todas as espécies de instituições: religiosas. 1965: 299). que Bastide trabalhou com Florestan Fernandes. 51). texto são para tentar reproduzir a mesma postura que Fernandes atraso no processo de inserção na “sociedade inclusiva”. Por ela gro na Sociedade de Classes Florestan Fernandes tenha cracia racial” permite-lhe exigir igualdade de tratamen. As aspas nos termos “negros” e “mulatos”. conclusões. O mentor intelectual de tal proposta foi Arthur e ”mestiços” era desigual. defende que a desenvolvidas pelas equipes coordenadas por Bastides ro. neralização dos seus resultados” (Idem. o brasilei. Isso porque as descobertas feitas pela equipe deveriam ter a mesma postura que os “brancos”. nem com a cor. 236). Não Depois da divulgação dos resultados obtidos. Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional Brasil era um paralelismo entre estratificação racial e racial” no Brasil é pensada no campo religioso (sin. Com esta atitude. “negros” com que os brancos cultivassem explicitamente um dida na mesma chave do “fato social total” maussiano. pelo menos no campo político-ideológico sas investigações de campo no Brasil estavam Charles 7. no Brasil era uma sociedade em que os “negros” e os dição desvantajosa do “negro” e do “mulato” passava (igualdade de oportunidades). Essa situação é bastante diversa da experimenta. assumiu a no Rio de Janeiro por Luís Costa Pinto (Universidade sua condição de inferioridade social foi construída. Uma terceira pesquisa patrocinada pela UNESCO Este racismo encoberto. os “brancos” defendiam a discriminação oportunidades representam. disfarçado. apesar de sua duvidosa rida em julho de 1950. ou uma enorme “falácia”. Brasil. 52). não alidade sobre as relações raciais harmoniosas existentes passagem do trabalho escravo para o trabalho livre no e Fernandes. era resultado de uma discriminação em que a “raça” da igualdade básica de todos os homens e de certos divulgá-lo em outras sociedades racistas no mundo: era “fundida” com a situação de classe social. na cidade de Florença. poderíamos afirmar que ela pode ser enten. à justiça e às mesmas África do Sul e Estados Unidos. dicas e morais . os mais elementares a ser entendida como natural. Apesar das divisões sociais. Para Myrdal. A representação de “democracia racial” brasilei. mais em pleno desenvolvimento as lutas anti-colonialistas lentos. Após esta primeira CO abandonou o projeto de divulgar todos os dados. Porém. alguns países da América Latina. Alguns representantes de países tais como “El fase de total desajuste do “negro”7 e do “mulato” à nova Esta posição foi adotada não porque discordasse das de cor. inclusão do “negro” e do “mulato” na nova sociedade. Wagley e seus assume em sua obra. Oracy Nogueira. os negros americanos querem um tratamento igual do le Pratique dês Hautes Études – Paris). a (1960). o que de fato existia no Se atentarmos para o fato de que a “democracia Após várias discussões ocorridas em colóquios in. prin. em reflexo da situação educacional e social que o “negro” A “democracia racial” tem para o brasileiro a mes. Arthur nunca ter sido assumida claramente no Brasil. ele é o “cimento na estru. Fernandes. ocor. 42). 41). Este brasileiro entre “raças” era bastante salutar. dentre outros. a não seja dividida em “raças” e grupos étnicos. oito meses (Maio. que era a de combater o biológicos de delimitação racial. Cardoso. o que para Freyre era positivo passou notamos na sociedade norte-americana: lá a democra. impera nos Estados Unidos” (ibidem. seja ele “negro”. resultando em uma perspectiva em que a con- cretismo). tais como: Donald Pierson. Thales de Azevedo (Universidade da Bahia). “os negro americanos na 2ª Grande Guerra Mundial. eles estavam ao mesmo tempo pleitear seus direitos. “mestiço”. sabem que constituem um grupo oprimido que. para se conhecer a re.

Assim. UNESCO em veicular os resultados das pesquisas so- devido à forma “mascarada”. por serem municipais. pouco a pouco. mesmo aquelas que não aceitaram participar de sua O que podemos perceber nos dois textos é que. o mito da “demo. deste a discriminação racial sofrida por quatro atletas ne. Somente partindo desse pressu. apoiavam a opção religiosa afro-brasileira também de- representantes sindicais. Convergência Socialista -.. de grupos homossexuais. Ele surge. de organização destas que. um valor sociológico à luta contra a Ditadura Militar. do contra o racismo no Brasil. Dessa maneira. tes estados da União: São Paulo. 1988. reu. etc. ocorrido nas escadarias do Teatro dos primeiros quadros políticos do MNU. Senão vejamos. defenderem-se. de Florestan Fer. defendeu uma luta contra a dis. claramente. segmento social podia fazer qualquer manifestação Nesse sentido. o MNU teve uma forte influência dizendo. 2. o MNU não conseguiu ser a “Central Geral cracia racial” brasileira pode dar sentido. 71). fendida pelo MNU. o MNU conseguiu. exploração e discriminação. Sobre este fenômeno Florestan afirmou: autor: “(. na construção de uma posição político-ideológica do todo o conjunto do Movimento Negro. valcante e Ramos (1976). 1995. foram adotadas por quase opressiva. o clamor da ‘gente negra’. mas também nos afasta Outro motivo foi a tortura. mas acabou se organi- que lutar por uma sociedade mais justa e sem discri. Rio de Janeiro. Com cia social. que resultou na morte do Espírito Santo. de Minas Gerais. ocorrida no 44° Dis. esta meta jamais foi atingida. muito pelo contrário. os “negros” e os “mulatos”. dutos desses trabalhos grande parte das premissas para nas relações “sócio-raciais” brasileiras. Unificado (MNU). Para maiores informações consultar Memórias do Exílio. negra defendida por esse grupo procura se utilizar da des negras. O MUCDR foi resultado da somatória a alteração da denominação do grupo. operário Robson Silveira da Luz. leira (FNB). tais como: nal. outros. 1985) em sua cons. foi proposto neles um prolongamento e um aprofundamento das primeira vez. ou seja. fundada em 16 de setembro de 1931 (Pinto. Em um Ato Público Movimento Negro americano.º) recebessem acolhida muito favorável Em outra parte do texto Fernandes escreve: “ou. 6). Mi. ou não há nova entidade. localizado no bairro nindo delegados do Rio de Janeiro. trito Policial de Guaianazes. o nome do grupo deve. por terem uma postura po- PEQUENO HISTÓRICO comunidade judaica. 1993. social e politicamente falando. o MNU procurou na sociedade norte-americana esta 56 57 . do Rio Grande do Sul e do “A ausência de racismo institucional. militante do Movimento Negro. Racial (MUCDR) foi fundado em 1978. ocorrido em 7 de julho de 1978. soando. antes fosse feito um trabalho de “conscientização de pessoa “que possui na cor. UNESCO): 1. A Integra. de personalidade texto escrito trinta anos após Fernandes. bre a existência da “democracia racial” no Brasil. mas só é praticável conjuntamente com a democra. por sua vez. por serem cristãos. racial. como das pesquisas desenvolvidas pelas equipes dos zando como mais um dos diversos grupos já existentes. O maior representante dessa postura esta plataforma percebe-se que a opção de identidade Apesar de não ter logrado unir todas as entida- democracia para ninguém. ele passou a informar As diferenças mais destacadas entre o MNU e ou- tiços”. diz: “Tudo isso o lançamento do MUCDR estava ocorrendo sem que MNU passou a afirmar que negro era toda e qualquer democrática e identificado com a mudança de menta- demonstra. Já Ribeiro. assim do Movimento Negro Brasileiro”. não que dá sentido e justifica as relações sociais desta nação. da de com uma forte democracia social). a “democracia racial” é de fato um mito. na cidade do Rio de Janeiro.º) fossem aceitos com simpatia e incor- combate o preconceito/discriminação brasileiro. mas que o nome do grupo deveria ser Movimento Negro tentativas de desmascaramento racial encetadas pelos a cumprirem os ideais da fraternidade humana e da de. porque alguns grupos ne. Além de Abdias. Isto só havia ocorrido anteriormente com a Frente Negra Brasi. identificar um negro. Melhor Como já falamos anteriormente. ainda durante nos Estados Unidos9. dentro de sua própria sociedade” (id. como forma de protesto contra prevaleceu até o Primeiro Congresso do MNUCDR. que a democracia racial é possí. Foram convidados a discursar Alma no Exílio. Como já foi dito anteriormente. algu. da ção do Negro na Sociedade de Classes. nações e preconceitos raciais existentes em nosso país. publicadas em vários de seus documentos e panfletos. a tal ponto nas Gerais. O MUCDR foi um projeto pensado inicialmente “marca” e da “origem” (Nogueira. em sua opinião. o que foi nessa ocasião aprovado. A grande novidade trazida por ele foi a tentativa de jun. não é uma ação Abdias Nascimento. 18). zona central da cidade de São Paulo. de Eldridge Cleaver (1971). “dissimulada” e “disfarça. influiu também sil” assumidas pelo MNU. através das propostas condenado à dignidade de lutador da liberdade corres. Essa nova denominação a construção de seus argumentos contra as discrimi- contra a sua existência. porque a opressão do negro política foi Centro de Cultura e Arte Negra (CECAN). não da” como se manifestava. Pele Negra. sem preconceito e racismo. somadas à militância pela esquerda. ponde o opróbrio do branco posto no papel de opressor por negros que se autodenominavam trotskistas e que trução. antro. também discordavam de sua opção DO MOVIMENTO NEGRO Outra novidade foi o movimento assumir um Fanon. Essas situações fizeram com que o MNU UNIFICADO .MNU caráter nacional. contra as ameaças do racismo. sempre discriminar e oprimir os seus “negros” e “mes. a condição de mais uma or- MUCDR contou com o apoio de grupos dos seguin. ou nos cabelos. comunistas e lideranças estudantis. Na época de sua criação nenhum criminação racial a ser assumida somente pelos negros. e também de vários grupos sociais que existiam naquele período. podemos afirmar que a desistência da populações. tinha a pretensão de representar oposição à discriminação racial. também não era “segurança” do sistema político vigente. Ou bem há democracia para todos. minação. 90). Bahia. ocorrido em 1980. Uma das contribuições do MNU para a socieda- quixotesca. militavam na Liga Operária – depois transformada em por este grupo político. O que consolidou a postura racialista assumida influenciar profundamente outras organizações negras.. pela Quando fundado. Assembléia de Organização e Estruturação Mínima”. organização que editava o Abdias Nascimento não contribuiu somente para fundação. deveria lutar contra todo e qualquer tipo de opressão. no rosto. 9. dossiê temático um “preconceito retroativo” o que não permitia a essas O Movimento Unificado Contra a Discriminação que havia retornado recentemente de um auto-exílio Assim. num Na opinião de certas lideranças dessas organizações. A análise dessas obras. gros no Clube de Regatas Tietê. MNU a unir a luta de classes à luta anti-discriminação ganização negra entre todas as já existentes. a ditadura militar.) seria preciso atingir esse padrão (socieda. o porados pelo branco inconformista. Foi discutido que o Movimento Negro contribuiu para que esses resultados (da pesquisas da da verdadeira trilha da “democracia racial” (idem. Bahia e Pernambuco. Alguns. em minação Racial (MNUCDR). vel. posto é possível se entender a seguinte afirmação. outro autor que gros não concordaram com o lançamento do MUCDR. professores Roger Bastide e Florestan Fernandes. por fim. nandes (1965). que viram via-se. que seria o MNU. 227).. e não somente garantir a por parte dos radicais e ativistas negros. impediu que o MNU procurasse exatamente nos pro- Se Florestan Fernandes não via “democracia racial” pública sem o consentimento dos responsáveis pela ria ser Movimento Negro Unificado Contra a Discri. Só assim podemos de brasileira foi a tentativa de mudar a maneira de se tentar entender a existência de grupos de negros lutan. 30 e de 40. ocorreu o lançamento mas leituras foram de grande serventia para a formação concordavam em se submeter a uma liderança nacio- público do MUCDR.8 Logo no momento de sua criação o de esquerda de boa parte de seus fundadores. As opiniões sobre “o que é ser negro no Bra- apesar de a sociedade brasileira ser tão autoritária e jornal Versus. de Frantz lítica conservadora. Máscaras Brancas. principais mentores do ‘protesto negro’ nas décadas de mocracia racial” (ibdem. não Municipal de São Paulo. 8. tar a luta dos negros brasileiros contra a discriminação as pessoas sobre as posturas racialistas assumidas pelo tras entidades do Movimento Negro estão na forma pologicamente falando. Para não diminuir drasticamente a sua base. de São Paulo. o clarim que convocava todos os homens a união de todas as entidades negras brasileiras. Este é o nome da entidade até nossos dias. levaram o assumisse. que nos protege do Bom Retiro. um primeiro momento. IBID. lidade ou de costumes” (1976. 297). Em sua “Primeira das plataformas dos negros norte-americanos. Ca. MNU: através de seus discursos. base” e por esse motivo optaram por não participar da sinais característicos dessa raça” (MNU.

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propostas pedagógicas .

perrar a dinâmica própria de algumas universidades ram maciçamente na educação de qualidade para seus tempo positivas e negativas. sileira. analisar e entender sem fazer um cer. cerca de 300 anos se passaram. Estamos com cabeça erguida e orgulhosos de ser. talvez não! Talvez sim. estamos ainda mal por causa do não reconhe- cial de cunho colonial que ainda considera a África como um continente atrasado e inferior. não podemos simplesmente fazer uma análise ainda andam com cabeça e auto-estima baixas. ser objetos de grandes conferências e debates que não tecnologias. religiões. A África é os sentidos.639/03 que torna obrigatório dação do exercício da cidadania. um João Por que implementar política de ação afirmativa na universidade e no Professor os brasileiros. Kabengele Munanga hoje apaixonadamente em debate na sociedade bra. etc. religiosos. para os que têm ainda não totalmente equacionados. doutor em antro. fazendo delas uma fonte de riqueza e de É por isso que para entender o “Ser negro no Brasil o que porque nos envergonhar. Com efeito. como os mais desenvolvidos. De qualquer modo. Como sujeito nacional. Ora. Por isso. Uma educação coletivo de muitos. cidadã orientada na busca da construção e consoli- Entre o tráfico. canalizar. apesar das relações ria apenas em alguns aspectos que considero relevantes. sem necessariamente em. consciência de que fizemos a nossa parte e não temos mento desses problemas depende o funcionamento e coletivas. Essa seria a pauta de uma agenda mínima que de- pública em fevereiro de 2003 contempla. Infelizmente. da situação em que se encontra hoje. materiais didáticos e bibliográ. para os que efetivo da lei: 1) que África ensinar e que história do desenvolvimento individual e coletivo. da geralmente numa visão eurocêntrica que além de colocar esse negro numa dinâmica histórica na qual precisam de uma ação afirmativa para descontruir a ficos ensinar? Ou seja. de humilhações.639. 2) quem vai ensinar e 3) a habitualmente dispensada aos nossos jovens é enfoca- da estrutura racista da sociedade brasileira atual sem que alienaram sua humanidade e sua identidade e que partir de que livros e materiais didáticos e bibliográ. é-nos colocado a questão da ser monocultural. os negros de hoje são vistos apenas estaria andando com cabeça erguida e orgulhoso de ter As considerações sobre estas duas vertentes podem que visa não somente o domínio das teorias e novas como consequência e resultado de uma história que participado e contribuído na construção do seu país. de sua identidade plural nacional. 123 anos já se passaram. a escravização e a abolição oficial assimétricas do poder durante a escravidão. por colonial e reconstruir uma nova imagem de uma África outro lado. onde o Brasil NA ESCOLA BRASILEIRA? cimento público da nossa identidade específica. coletivamente estamos mal por da produção dos livros. contrariamente ao índio que tinha amor à liberdade e Londrina – 26 de março de 2011 Kabenguele Munanga. das dúvidas e resistência tanto no meio da algumas es- cessita de algumas ações ainda em equacionamento. a implementação de políticas de ação não se deixou escravizar. liberdade e dignidade humanas em todos os sentidos: e discriminação racial em numerosos setores da vida tão complexa e diversa que fica difícil definir por onde A construção das políticas sobre diversidade cul- político. o caminho não é fácil por causa coletiva do negro. pologia pela Universidade de São Paulo Como então descontruir essa imagem negativa da afirmativa capazes de compensar as perdas acumuladas e professor titular do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia. toca. a meu ver. são aqueles que investi- Ser negro no Brasil hoje significa coisas ao mesmo contribui na construção da economia colonial do país. por um lado. violência com que foram trazidos. Trata-se mos negros no Brasil hoje? negro no Brasil coloca-nos alguns problemas práticos para um olhar crítico sobre as questões relacionadas de uma história de cerca de 500 anos que não se reduz Talvez sim. o reconhecimento de suas identidades específicas. o negro no Brasil hoje uma adesão significativa. à escravidão e à abolição. dos princípios de em 1888. e promover a igualdade racial do negro. o ensino da história da África. a Lei 10. Entre a abo. no Brasil. a educação hoje”. Onde estão finalmente do ensino público superior e universitário desembocou os problemas? numa polêmica que prejudicou a votação no Congresso Todos os países do mundo. autonomia interna para discutir a questão e tem dado tipo de educação o Brasil precisa desenvolver para sair to recuo histórico no tempo e espaço. que contribuíram diferentemente na construção objeto de uma série de violências físicas e simbólicas. que é um Brasil diverso em todos e também sujeito de resistência para a defesa de sua que constituímos ainda a maior vítima de preconceito ficos divorciados da historiografia colonial. ou seja. coisas que não podemos no povoamento do território brasileiro e na construção públicas que independentemente da lei recorrem a sua jovens e futuros responsáveis.639 promulgada pelo presidente da Re. do Brasil de hoje. esse negro coletivamente desigualdades e perdas acumuladas comparativamente até então à disposição é viciado pela historiografia ofi. preconceito e descriminação que engendram começar. É o caso da UEL. artístico. “raças” e et- negação de identidade genérica e específica. bobo que se deixou facilmente escravizar e nunca se ensino superior brasileiro? – Palestra proferida no Seminário do NEAA – Estas realidades deram origem a duas questões importou com sua liberdade e dignidade humanas. as real e autêntica e do negro real e autêntico? Qual seria vertentes atuais nos debates sobre a situação o negro a proposta de um curso capaz de realizar essa descon- no Brasil hoje. que embora imprescindíveis não seriam começou nos séculos XV e XVI com o tráfico humano apesar das condições históricas caracterizadas pela poderia esgotar aqui por falta de tempo. além do fato de que o conteúdo da África tural e ou etnicorraciais é uma realidade que está na da história positiva do Brasil. com a construção de nossas identidades individuais apenas ao tráfico. No imaginário Depois dessa longa história. a vemos cumprir para colocar em funcionamento a Lei reivindicação do reconhecimento oficial da identidade 10.propostas pedagógicas POR que ENSINAR A HISTÓRIA DO NEGRO aos outros segmentos raciais da sociedade. mas também e sobretudo uma educação dos africanos e sua escravização no Brasil. enfim imagem positiva. ape- sar da certeza de que ela contribui na modelação da foi buscar a mão de obra escravizada que ali existia naturalmente. hoje considerados Nacional da Lei das cotas. da história e cultura do solidariedade e equidade. para os negro no Brasil ensinar. agenda de todos os países do mundo. suficientes. sexo. A colas e de alguns educadores como no meio da impren- implementação das políticas de ação afirmativa no setor sa e de alguma elite intelectual. de imagem negativa de si introjetada e construir uma nova definição do conteúdo da história da África e do negro gêneros. Do equaciona. mas seu funcionamento efetivo ne. classes sociais. a mesma historiografia que considera identidade nacional e faz parte do cotidiano de todos o negro brasileiro como um boçal. Uma tal educação convida lição formal e hoje. Coletiva- mente. da formação dos educadores ou professores e nias. ou seja. sem dúvida. As duas questões constituem. não respeita nossas diversidades de ele foi objeto de desumanização. A questão é saber que captar. cultural. talvez não. e África e do negro no Brasil herdada da historiografia Letras e Ciências Humanas da USP. A imagem de 63 . trução e reconstrução? A Lei 10.

Irlanda do Norte. entendemos a raça como uma construção social de sua democracia? Mesmo admitindo a tese de que la. pois são paises que nasceram justamente do demonstrado que geneticamente não existem as raças genciar um assunto tão importante para a construção negros. oriental. processos começaram há cerca de 500 anos quando os rentes migratórias vindas dos países ditos do terceiro que. quase não são demograficamente representados. Os exemplos que des. a cultura brasileira é sincrética ou mestiça. dos homens e mulheres. quais são vítimas. nos ensinam a genética humana e a biologia molecular. de geração em geração. de sua cultura e de sua identidade plural. mas também biológica já provou que raça não existe. construir e incrementar e municípios brasileiros onde os negros são minoria ou dos que dizem que não há racismo em suas escolas. propostas pedagógicas um Estado-Nação construída com base numa única tribuições na forma do povo brasileiro. cultural ou etnicorracial na escola brasileira. reações negativas até na imprensa. outros acham ab. têm a garantia de seus direitos sociais entre os quais a nos permite dominação da razão instrumental que au. É nesse contexto histórico que devemos técnicas e meios de comunicação. enquanto espécie humana. Porque o Brasil. Apesar dos progressos da ciência biológica (gené. sil é totalmente diferente da de seus compatriotas de nismos de discriminação cultural ou etnicorracial dos questionavam a generalização do ensino obrigatório da rantem nossa sobrevivência. teses que são totalmente opostas às minhas. asiática. das diversidades: os povos indígenas de diversas ori. para exigir a convivência igualitária de todos. espanho- encontro de culturas e civilizações. ras superiores e inferiores. Daí a necessidades nesses países de história da África e do negro brasileiro até nos estados De antemão. Nunca se falou tanto da diversidade e da fenômeno não existe ou nunca existiu. de televisão. É mundo ocidental em geral pululam: Espanha. Bélgica. a saí. O Brasil oferece o puras. etc. de suas religiões e visões Recordo-me que quando a Lei 10. Mesmo concordando que geneticamente as raças puras como uma das maiores tragédias da história da huma- os africanos escravizados de diversas origens étnicas ou da. não vejo identidade negra não surge simplesmente da tomada cultura de paz baseada na convivência igualitária das duzir um racismo às avessas em suas escolas onde este nenhuma contradição ou impedimento à iniciação de de consciência de uma diferença de pigmentação ou de diversidades. que voluntariamente decidiram emigrar de acordo novas diásporas de discutir. O que pode engendrar barricadas cultu. brancos e amarelos. reconhecimento oficial e público dessas diversidades diversidade cultural e implantá-las no nosso sistema fenotípicas baseadas nas características morfológicas A Europa Ocidental que invadiu outros povos. Seria simplesmente equacionar a unidade com partir dos quais são construídos o preconceito racial que sua unidade de fachada era apenas uma armadilha de preconceitos e de discriminação racial. o tráfico negreiro é hoje considerado gens étnicas. ascendência europeia. tica humana. houve algumas sobretudo. das pessoas que da solidariedade e do respeito das diversidades que ga. se não um mito. Sem dúvida. mas o que devemos povos e com os processos de construção de nossa iden- Essa falsa imagem dos países ocidentais monocul. bioquímica. lusófona. O nó da questão. pois mesmo na hipótese de aceitar essas tivos países de origem. pele e em outros elementos morfológicos entre negros.639/2003 foi pro. que trazem desses países outras culturas. chinesa. etc. luta. no simples fato não existem. a logo intercultural.. todos sem exceção deram suas notáveis con. branca identidade como no atual quadro do desenvolvimento a proposta de educação multicultural na sociedade bra. entender a chamada identidade negra no Brasil. não estaria. mas sim a convivência tidade nacional e de nossas identidades étnicas. os europeus de diversas origens étnicas. de ensinar aos nossos alunos que raça não existe. Esses turais está cada vez mais desmentida pelas novas cor. não é tolerância. para diversos países da América. E não melhor exemplo de um país que nasceu do encontro a partir das diferenças fenotípicas baseadas na cor da nossa cultura e nossa identidade são mestiças. apesar de serem juridicamente cidadãos livres. na pauta da discussão. construir a unidade respeitando e o racismo. Itália. colocam permanentemente. alguns criticam um diálogo que introduz a temática da diversidade uma diferença biológica entre populações negra. japonesa. Diversidade na unidade não Esta é uma pergunta que todos os povos conscientes se mentem a unidade cultural dos países da Europa e do brasileiras de matrizes africanas em algumas emissoras deve sugerir uma diversidade hierarquizada em cultu. árabe. um país que nasceu da diversidade te porque os portadores da pele branca e amarela não greiro. seria problemático negar a raça enquanto nidade. que até hoje estão sendo tratadas desigualmente no educacional não significa destruir a unidade nacional e na cor da pele são reais e são elas que justamente colonizou-os. no caso da população negra. nenhum país no mundo hoje onde a temática do mul. arrancados de suas raízes e trazidos Médio. a melhor educação não é somente a que dos. os germes a versidade cultural dos países colonizados revela hoje dessas identidades de resistência serem ainda vítimas Freyre. a construção da democracia e do pleno exercício da buscar. xiliará nossa sobrevivência material numa sociedade foram escravizados. judia. das sileira que. dos grupos e so. Canadá. identidade mestiças e não diversas. problema negar as raízes formadoras dessa mestiçagem. numa única religião. não existe. provocados entre os povos africanos. mas construção social e categoria de dominação e de ex. gaúcha. Sem dúvida devemos conde.) ter e do encontro das culturas. mas também. o quadro é totalmente diferente dos países oci. ticulado sobre identidade branca e amarela. etc. numa visão do mundo está se tornando cada vez mais Mas a questão fundamental que se coloca hoje é o Finalmente. capturados. baseada na lei do darwinismo social. Ou de mundo. se daria ao luxo de negli. que a raça teria influenciado sua decisão para sair de seus respec- ciais para evitar as barricadas culturais e buscar o diá. Eles nem sabiam por onde e para público de suas identidades. alegando que se está tentando intro. e onde estavam sendo levados e por que motivos. de onde viemos e para onde vamos? exploração dos outros povos. num Nos países da América do Norte e do Sul. cons. pilhou e tentou destruir a riqueza da di. a diversidade. afinal. Essas reivindicações geram problemas de mulgada pelo presidente da República. a história da presença dos africanos no atual Bra- convivência decorrentes dos preconceitos e dos meca. além dos portadores como pensam alguns defensores das teses de Gilberto constituem. Vista deste ponto de vista. quando a própria ciência ticulturalismo ou da diversidade na educação não está país onde quase não houve um discurso ideológico ar- não apenas países de velhas migrações. isto é. na construção sim na aceitação das diversidades como bandeira de clusão. Visto deste povos africanos de diferentes nações foram sequestra- mundo: da África. do meu ponto de vista. Todos devem se lembrar das a diversidade que constitui sua matéria prima e uma Quem somos. campanhas de difamação e demonização das religiões fonte da riqueza coletiva. ou melhor. que são surdo falar ainda de raças. por sua amplitude. até da se. identidades. sua duração e os estragos culturais. Reagem negativamente algumas educadoras e al. passaram por uma história semelhante à dos brasileiros dentais. uma pergunta que tem a ver com as raízes culturais dos Suíça. biologia molecular. Fala-se de identidade italiana. onde troem novas diásporas e reivindicam o reconhecimento educação é uma peça central. sistema educacional brasileiro. ideológica para justificar a “Missão Civilizadora” e a gregação racial de fato. justamen- países de deportações humanas através do tráfico ne. Mas apesar da 64 65 . incluído o Brasil. Ásia. Todos buscam a construção de uma guns educadores. árabe. pois todos e amarela. Apesar da inexistência das raças puras como cultura. segundo eles. cidadania dos descendentes de escravizados de ontem igualitária das culturas. ou seja. América do Sul e do Oriente ainda não exercem igualmente sua cidadania e não ponto de vista. Não existe qual me referi. quero admitir e discutir todas as teses etc. é uma sociedade de cultura e os países do mundo estão no mesmo barco. rais e gerar conflitos capazes de prejudicar justamente nar todas as formas de intolerância. ciedades humanas. Ela resulta desse longo processo histórico ao mundial dominado pela globalização da economia. seria um da identidade branca e amarela. que com a conjuntura política e econômica da época que suas políticas sobre diversidades culturais e etnicorra. uma educação cidadã baseada nos valores seja. penso que construir políticas sobre a nós não pudemos deixar de observar que as diferenças uma raridade. etc. etc. judaica. numa única língua.

Bem. muito caro para tras no sistema de ensino nacional. mas também em outros setores da vida nacional comprovam que apenas nesses últimos oito anos da ganhar. por que implementar as políticas de Fluminense (UENF) onde a política de cotas foi im. esse primeiro Contrariando todas as previsões escatológicas da. vida nacional. contrariamente ao binóculo acadêmico. que esta é a história dos bra. Xenofobia e Intolerân. eliminados chamada cultura de nacional e a identidade nacional. Juntas. brancos e índios. em 1980. no mundo ocidental? País universidades africanas. A educação e a forma. Mais do que isso. gros e indígenas. Por mera coincidência. principalmente japonesas. conselhos universitários. 1975 através do programa de cooperação com algumas sistema de cotas a partir da decisão de seus respectivos um por um pela própria prática e experiência das cotas Como somos vistos lá fora. Três anos depois. uma memória plural e des. autonomia acadêmica. Os outros que social- um povo sem história. Quando genas no ensino superior jamais alcançado em todo aquinhoados financeiramente. A tinha mais negros com diplomas superior ou universi. Neste superiores em alguns casos. encontram nalidade da política de cotas ou reserva de vagas nas O racismo é tão profundamente radicado no tecido afirmativa ou de reservas de vagas nas universidades barreiras que somente a educação e a formação supe.. a re. baseando-se no princípio de nas universidades que as adotaram. inferioridade negra neles introjetados pela cultura ra. alunos oriundos dos colégios particulares mais bem tema educacional. também. Daí o sentido e a razão de ser das políticas de ação têm a ver com nosso racismo à brasileira. Encontrar três ou quatro juntos O que se busca pela política de cotas para os ne. da sociedade. Pois bem. salvo prova em contrário. isto é. mente não nasceram com essas possibilidades. essas heranças constituem sileiros afrodescendentes. virem! Finalmente. Felizmente sistência que por sua vez contribuiu para modelar a em Ciências Sociais da Universidade de São Paulo em universidades públicas federais e estaduais adotaram foram. Por em agosto/setembro de 2001. deve ter medo de mudar. na África do Sul confessam que têm medo. do carnaval. não é ter direito às migalhas. disseram que a política das cotas ia nunca ocupou uma posição de igualdade com as ou. universidades que as adotaram. dades estaduais do Rio de Janeiro (UERJ) e do Norte mudança possível sem erros e sem conflitos. Nos últimos nove anos. ou seja. antes de tomar sua decisão. mas medo de que? De er. a experiência brasileira destes últimos tem evidentemente casos duvidosos. eu ingressei no Programa de Pós-Graduação na Assembléia Estadual do Rio de Janeiro. pois um povo sem memória é como ausentes ou invisíveis nesses postos e cargos. cluir o doutorado em antropologia social nessa univer. não apenas nas universida. racial” que precisa ser corrigido. mente após a III Conferência Mundial de Combate ao vertem a lógica da proposta e veem na política de cotas pública entre os dias 3 e 5 de março do ano passado ticos à prática do racismo. árabes. era difícil definir quem é negro ou afrodescendente por lata. consequentemente uma guerra porque a própria existência da discriminação racial anti- o processo de construção da cultura e da identidade do próprio Brasil. passaram a integrar camente da República Democrática do Congo e não racismo ao contrário. causa da intensa miscigenação ou mestiçagem ocorrida negros. etc. deveria por este motivo ocupar uma posição igual às um segundo docente negro nesse departamento. práticas racistas como os Estados Unidos e a África do segmentos não são devidamente representados como tistas na maioria das universidades que aderiram ao Não existem leis capazes de destruir os preconcei. prova de que as mudanças em processo que ingressaram na universidade através das cotas. as teria nenhum sentido a Lei 10. as heranças europeias. Uma memória a ser cultivada que exigem formação superior para ocupar cargos e experiência das políticas de ação afirmativa. Discriminação Racial.! Isto é. Se assim fosse não dro é considerado como gritante quando comparado ao ter acesso ao topo em todos os setores da responsabi. Processo esse enriquecido também ingressei na carreira docente na mesma instituição. Falsa dificuldade. do futebol. reprimidos durante a colonização. Os dados de nosso conhecimento mostram que na manda a verdadeira democracia. Dizia-se no início que do samba. o princípio do mérito baseado no darwinismo social judia. como os dos alunos a partir do início do século XX. sistema não comprovaram a catástrofe. a política de cotas busca a inclusão daqueles nível de excelência dessas universidades. as avaliações feitas até o momento segundo o qual na luta pela vida os melhores devem a memória coletiva do Brasil. Não há distúrbios gêmeos da UnB que mereceriam uma atenção redobrada culturais orientais.. nem dos conflitos. brasileiros que por razões históricas e estruturas que Sobrou apenas uma acusação: a inconstitucio- cista na qual foram socializados. fui o primeiro e o único desde que essa disciplina foi e linchamentos raciais em nenhum lugar. boa qualidade representam a única chave e a garantia alunos foram iguais e até mesmo excepcionalmente educação ofereceria uma possibilidade aos indivíduos tário que o Brasil de hoje. etc. especifi. 66 67 . posicionou contra as políticas de ação afirmativa. Só este exemplo basta para da competitividade entre todos os brasileiros. Alguns obstáculos propositalmente colocados sobre e seus descendentes que foram construídas as bases ação afirmativa no ensino superior e universitário? plementada por meio de uma lei aprovada em 2001 as chances de sucesso das políticas de cotas se fizeram econômicas do Brasil colonial. da mu. que se o problema. estão sendo bem digeridas e compreendidas pelo povo Disseram também que a política das cotas violaria outras. realizada em Durban. Fui o primeiro negro a con. não se trução de uma pedagogia multicultural e antirracista. Daqui a dois anos estarei compulsoriamente não apareceu nenhum movimento de Ku Klux Klan identidade da maioria dos estudantes negro e mestiços matrizes fundamentais da chamada cultura nacional e me aposentando sem que houvesse a possibilidade de à brasileira. Enquanto por extensão no sistema escolar é importantíssima. Creio. Exis- plural brasileira. Nem tampouco baixou o para questionar os mitos de superioridade branca e de mostrar que algo está errado no país da “democracia sentido.639 promulgada pelo dos outros países que convivem ou conviveram com as lidade e de comando na vida nacional onde esses dois avaliações feitas sobre o desempenho dos alunos co- presidente da República 115 anos depois da abolição. houve suem armas mais eficazes. dezenas de entender desde o início do processo em 2002. indígenas. propostas pedagógicas tragédia. racial devida à racialização de todos os aspectos da negro é prova de que não é impossível identifica-lo. sul. orientais. a discussão Racismo. os melhores são aqueles que pos- não mestiça ou unitária. mas não houve dúvidas sobre a Esta herança cultural africana constitui uma das fundada. pois a herança cultural africana no Brasil o segundo e o terceiro. públicas nacionais que se desencadearam principal. assim como para não se cometer erro. mesmos aqueles que foram negro era oriundo do continente africano. Outros para escutar os pontos de vistas de diversos setores sobre os direitos sociais ou coletivos no sistema legal e cia Correlata. a África do Sul ção profissional. alguns in. Geralmente são um índice de ingresso e de diplomados negros e indí. rar ou de acertar? Uma sociedade que quer mudar não se espera essa decisão. universitária e intelectual de mente. no decorrer do tempo e do processo. que em nosso caso seriam e conservada através das memórias familiais e do sis. decisão de STJ que a respeito organizou uma audiência sar da cidadania precisa incorporar os desafios sistemá. pelas contribuições no atual departamento de Antropologia Social onde anos mostra totalmente o contrário.639/03 visa justamente a cons. postos de comando e responsabilidade. É justamente aqui que se coloca se tem um é sempre o primeiro e o único e raramente o século passado. mas sim prejudicar o princípio de excelência. penso eu. os símbolos da resistência cultural dos sidade em 1977. Mas felizmente. Neste sentido. numa mesma instituição é motivo de festa! Esse qua. Surpreendente- tos que existem em nossas cabeças e provenientes dos véspera do fim do regime da apartheid. brasileiro. pois não há promulgado pelo ex-presidente da República. técnica. rior podem em parte remover. da feijoada. queles que pensam que essa política provocaria um no país desde o seu descobrimento. Estamos aguardando a social e na cultura de nossa sociedade que todo repen. as grandes universidades. a possibilidade de uma fratura da sociedade. Mais do que isso. Infelizmente. foi graças aos sacrifícios desses africanos Finalmente. o estatuto da igualdade racial isso o espírito da Lei 10. a começar pelas universi. os resultados do rendimento acadêmico desses sistemas culturais de todas as sociedades humanas.

constantemente. 2006: p. lavouras de cana de açúcar. 20) sucesso na educação escolar. para a educação dos negros. Kabenguele Munanga afirma que: “No plano cultural. no campo da religiosidade. no mo- Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva. na arte visual. questão etnicorracial. 20) indispensáveis para continuidade nos estudos. no pare. no campo da negro no Brasil. education the sociology. no livro DA QUESTÃO imposta por parte dos colonizadores portugueses. mesmo estando GA. (MUNANGA. das competências e dos conhecimentos tidos como tentou importar a cultura europeia. Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira artigo foi orientada pela Pro­f essora e Africana. estas pessoas não tiveram a possi. forme demanda da Lei 10.]. ensino de Key .. algodão. trabalhos da Comissão que estabeleceu os parâmetros brasileira. foi possível eliminar os elementos da cultura africana. ethnic-racial question. valorização fazem parte das ações afirmativas voltadas A cultura negra possui raízes fortes no Brasil.639/03. (MUNANGA. É preciso entender que BIASSI DE ALMEIDA livro o capítulo “A Escola Enquanto Instituição” e a questão book: “the school while institution” and the ethnic-racial question.. inventar um Brasil (MUNANGA. na arte visual. (MUNAN- cer em defesa das Diretrizes Curriculares Nacionais e pelo impedimento do progresso. etc”. [. demográfica e cultural. Mesmo com a aculturação A elaboração deste artigo busca analisar como. vista a conclusão de cada um dos níveis de ensino. devi. Analisarei como são apresentados e discutidos no authors. Milhões de africanos e seus descendentes destacam-se notáveis contribuições dos negros afri- da demanda da comunidade e da luta do movimento influenciaram a sociedade brasileira. tão grande era o tráfico negreiro. law 10639/03. de emergir de trabalho. reconhecimento e socialmente. 2006: p. na arquitetura. na discuta as relações etnicorraciais e a presença histórica perdida e à margem da sociedade. permanência e festa mesmo diante da repressão e da negação que sofre de vida muito precárias. 2006. ram e preservaram as tradições e costumes. na dança.propostas pedagógicas O ENSINO DE SOCIOLOGIA E A LEI 10. da humanização) do país e nos deixaram um legado que cabulário desconhecido no português original e que faz 69 .21) participantes. café e à mineração. é necessário fazer CRISÂNGELA do Paraná. O antropólogo a Cultura e História Africanas e Afro-Brasileiras. consequentemente. Neste da Lei 10. sociologia. a população negra No plano demográfico. moderna marcou a população negra pela pauperização ordens: econômica.639/03 escreve. No entanto.20) para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o dentro das cidades. Cultura e História Africanas e Afro-Brasileiras. -PR.639/03: CULTURA AFRO-BRASILEIRA NO LIVRO DIDÁTICO RESUMO Pretendo neste artigo analisar o Livro Didático da disciplina de ABSTRACT I intend in this article to analyze the didactic book of disciplines of Sociologia utilizado pelas escolas estaduais no 2º Grau. Analisarei in what it says respect to the black population. fornecendo a mão de obra necessária às na. Florestan Fernandes (1978) nos diz que. 2006: p. que as políticas de reparações. (MUNANGA.21) e cultural da população negra no nosso país. Após a Abolição. são de três de funcionamento da Lei 10. apesar No plano cultural. no Brasil. Curitiba: SEED. pois. os africanos ajudaram no po- mônio histórico-cultural afro-brasileiro. após canos na língua portuguesa do Brasil. I will analyze as they a outros. de aquisição foi desvalorizada e marginalizada. já é possível apontar que a ordem capitalista de quem descendem os brasileiros de hoje. Uma mão de obra escravizada – sem remuneração–. na música. etc. que é presente na sociedade brasileira. os negros serviram como força Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africa. frente. 2006: p. dos negros africanos na língua portuguesa do Brasil. Elas devem oferecer a do ao tempo da escravização dos africanos.639/03 – norma que surgiu sa história.639/03. con. que foi Sociology. somando INTRODUÇÃO CONTEXTO uma maneira de ser e de viver às estruturas fundamen- tais da identidade do povo. I will analyze as two axles are presented and argued in the emergir as dores e medos que têm sido gerados. estão sendo trabalhados os conteúdos sobre A economia brasileira do período colonial (1500 . (Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações versidade Estadual de Londrina. em busca de uma educação crítica que a abolição. No plano econômico. os afro-brasileiros resisti. E então decidir que sociedade queremos construir daqui para Formada em Ciências Sociais e Pós Gra­­ também como estão sendo trabalhados os conteúdos sobre a are being worked the contents on the Culture and African History du­­­a­da em Ensino de Sociologia na Uni. 1889) era escravagista e ocupou a maior parte da nos. p. arquitetura. na bem como para atuar como cidadãos responsáveis e Os escravizados e seus descendentes contribuíram música. e se mani.word: didactic book. used for the schools in 2º Degree and that the order of elaborado por vários autores a pedido do Governo do Estado the Government of the State of the Paraná was elaborated by some Para reeducar as relações étnico-raciais. relatora dos vimento de definição do negro inserido na realidade “As contribuições dos africanos trazidos para o Brasil. no que diz respeito à população negra. não didático Sociologia: Vários Autores. conforme demanda and Afro-Brazilian. contribuiu para a cultura nacional brasileira. além de desempenhar com qualificação para a produção cultural (que é simplesmente a marca No plano da língua. pois a elite brasileira voamento do Brasil. 2006: p. Entretanto. lei 10639/03. de branco e ignorar a cultura africana. 2005. destacam-se notáveis contribuições condições para alcançar todos os requisitos tendo em da estrutura de dominação. tratada de maneira desumana e submetidas a condições essa população garantias de ingresso. de valorização do patri. Maria Andrei.14) Doutora em Antropologia da Uel Elena Palavras chave: livro didático. na dança. o sucesso de uns tem o preço da marginalidade e da desigualdade impostas etnicorracial. os africanos introduziram um vo- uma profissão. esta grande população de africanos ficou religiosidade. bilidade de progredir e. as demand of Law 10.

estar voltados à ruptura com a ordem existente. rea. a cuíca. bumba-meu-boi. maculele. eles deixaram suas marcas nas figas de madei.11) e a questão étnico-racial. (VÁRIOS AUTORES. Continuando sobre a educação informal. ou reforça aqueles que já trazemos de nossa Citando os sociólogos franceses. os livros didáticos devem ser de produção – o capitalismo. (MUNANGA. e as sociedades sem escolas? Explica-se no e negativização da cultura negra. [. como introdução ao tema e dão um encaminhamento XVII) e a francesa (séc. dos anos vividos”. Pierre Bourdieu bre o assunto nas bibliotecas.. construção sócio-histórica formada por intenções. os africanos lega. e discutidos neste livro: a escola enquanto instituição 1596 – 1650) é considerado o fundador desta doutrina.. direcionado ao ensino Em primeiro lugar. as análises sobre os livros didáticos podem nos levar ciais falando sobre a instituição escolar. . Grau. há escassez de mesmos devem ser de boa qualidade. dando Acredito que a educação é um dos principais bem como a perspectiva do ensino de Sociologia devem os suicídios . Assim. pois ele muitas vezes é utilizado como principal também não deve ser esquecida. Por meio deste artigo. professores e alunos nas escolas. isto é. 22) “Os conteúdos desenvolvidos foram escolhidos a partir disso. não pode ser considerado como elemen- A ESCOLA ENQUANTO as pessoas mais velhas eram especialmente valoriza- população negra e o relacione com as práticas educati. a ceitos até os dias atuais. 2006: p. coco. Pois esses recursos podem contextualização dos diversos textos participantes desse classe social e tenta nos fazer acreditar que somos todos e Jean-Claude Passeron . Os livros didáticos são produ. no que diz especificamente Mas. mente têm oportunidade de acessar um livro na esco. assim como na nossa. a construção de material orientam e determinam as finalidades do livro didático. Diz que as elites (ou dominan- tivas. 2006: p. mas caracteriza também a educação uma educação para a diversidade: a disponibilização de dos elementos implícitos e explícitos que caracterizam. o aumento do acervo de livros so. a conhecidos e que constitui uma das facetas da identida.o livro discute o dático. iguais. São raras.(VÁRIOS AUTORES. que valoriza a normatizada pelo Estado brasileiro. to inocente e neutro de transmissão desinteressada do INSTITUIÇÃO das pelas experiências e saberes acumulados ao longo vas existentes. o enriquecimento. fala que são três importantes valores que perpassam a quentemente das mentalidades. escolar. irá conceber uma nova doutrina social como os tambores.”(VÁRIOS AUTORES. O contato entre as culturas dos é perguntado: Por que há poucos negros nas univer. devem também ser considerados como em ascensão. Certamente muitos outros temas e O livro Sociologia foi produzido por vários autores. a disciplina e o bom rendimento: entre os índios. ram discutidas em simpósios e encontros envolvendo dimentos pedagógicos. nos objetos de ferro. biblioteca adequada. 2006: p. educação é elemento fundamental de socialização e de negros e dos portugueses se deu por meio de apropria. parte do patrimônio religioso brasileiro. mas uma maneira de promover relacionadas com decisões e ações curriculares. conteúdos poderiam estar presentes. respeito à população negra. 2006: p. por isso os chamadas questões disciplinares”. meio da educação informal. propostas pedagógicas parte do falar brasileiro. Depois de dados estes contextos. expositivas. a liberdade. como a miséria. o berimbau. a dinâmica e a organização social sempre como exemplo. vamente o feudalismo e inaugurar um novo modo de Na arte. as escolas que possuem la. não existe apenas Algumas ações são essenciais na construção de a compreender a produção desses materiais. as sociedades tribais. bem como de sua qualidade. São prazeroso para todos. o racismo e a O LIVRO DIDÁTICO como disciplina é justamente nos ajudar nesse sentido: a sobrevivência e a convivência são transmitidos por discriminação se tornaram a maior herança do sistema a percebermos que fatos considerados naturais na so.]. Decorre dessa realidade a importância desses Uma vez que são raras as escolas que possuem uma o livro responde assim: ram ao Brasil algumas de suas religiões populares. visto que muitos so. escravocrata. Na história do contato entre os europeus e africa. inculcando precon. a escravização gerou um processo de invisibilidade 2006: p. como são identificadas pelos autores) possuem um uma biblioteca adequada. pois em questão. aulas minará liberalismo”. estadual do Estado do Paraná. O livro didático precisa ser entendido como uma educação dos tupinambás: a tradição. professores da rede que precisa ser ampliado. é preciso considerar que uma “educação de respeito humano. Em relação ao surgimento da escola no Ocidente. os quais poderá ser contemplado em tra. Visualizar as diferenças e articular prá. destacan. pois para mui. que são: o individualismo. XVIII). na escola começa as reações contrárias à ordem. entre outros proce- jongo. (MUNANGA. Além disso. pedagógico eficiente. mas que. o valor da ação acredito poder contribuir para a discussão de uma edu. esclarecendo como acontecem as apropriações e a re.64) determinado patrimônio cultural e as classes traba- 70 71 . respeite e observe o repertório cultural da Portanto. o estudo ordem. conhecimento social. ria segundo a qual no interior de uma sociedade de Vem daí a importância fundamental do livro di. “Essa instituição ensina-nos novos padrões de compor. porque podemos nos sentar igualmente nas car. consulta aos clássicos. e: boa qualidade.representantes de uma teo- ser os únicos acessíveis aos jovens nas escolas públicas. por sua relevância a pedido do governo estadual do Paraná. a igualdade e a democracia. 23) e urgência. uma vez que há falta de alterna. ou mesmo serem desenvolvidos pelos grau e irei analisar como dois eixos são apresentados tífica”. tes.podem não ser tão naturais assim. atenda e respeite lidades e decisões provenientes de diferentes indivíduos possível perceber que nessas sociedades existia um as diversidades e peculiaridades da população brasileira e contextos. O filósofo e matemático René Descartes (França.. informal”. a herança cultural e os saberes necessários para percebido de forma crítica pela sociedade. Destaco a importância desses materiais. No que diz respeito à religiosidade. Mas tão logo os alunos percebem que classes existem diferenças culturais . vão encerrar definiti- 2006: p.enfim. deve-se considerar a falta de al- como o candomblé.21) publicações científicas dirigidas ao público em idade acima. 69) Na música e dança. sidades brasileiras? Por que os negros são a maioria manutenção do próprio grupo. grande respeito entre todos os membros do grupo. ternativas aos livros didáticos. um dos gêneros musicais populares mais professores da área. introdução do Conteúdo Estruturante: Instituições So. (VÁRIOS AUTORES. processo de construção. nessas socie- ções e interlocuções. (MUNANGA.22) go foi produzido por vários autores. material didático próprio para o ensino no segundo é apontado o surgimento da chamada “revolução cien- balhos futuros.. umbanda e macumba. os crimes. e de cultural brasileira”. para haver igualdade é necessário mais do que um lugar porquê da escola não ser um lugar de pertencimento recurso pedagógico. das populações quilombolas ou das comunidades- recursos didáticos adequados. o livro mecanismos de transformação da sociedade e. classe social ras. para ser um propriedade. deve-se dar bastante espaço para debates. eles introduziram os congados. além ou uma nova ideologia para o capitalismo que se deno- 2006: p. ticas pedagógicas inclusivas não somente é uma forma ções culturais. e o valor do exemplo. que fazem tos alunos o livro didático acaba sendo o livro. que não tem a forma da educação a igualdade. das Diretrizes Curriculares da disciplina. maracatu. ao lado de tantos outros disponíveis. principalmente a inglesa (séc. tamento. O livro didático de sociologia analisado neste arti. -terreiro afro-brasileiras. 72). que cumprem seu papel “As revoluções burguesas. são explicados os do-se o samba. princípios do liberalismo. nos instrumentos musicais do 2º. Vejo que já na introdução livro que nessas sociedades. resultado concreto de disputas sociais Os autores do livro didático de Sociologia iniciam a No entanto. conse. por exemplo. E chega à conclusão de que “é cação que seja geradora de cidadania. Florestan (1978) destaca que o trabalho dos sociólogos ciedade. nos. um recurso. A burguesia. tais materiais. Como afirmei 2006: p. (MUNANGA. A realidade histórica dos estudantes brasileiros teiras escolares. as quais fo. “O livro didático acaba sendo o livro”. porém como esse processo não é pobre do país? Para explicar que o papel da Sociologia dades.

cheirar cola. estudantes. neste capítulo. Ela pertence a todos.. No livro Sociologia. apud FILORAMI&PRANDI. apenas tocarei de leve nesta questão pois. (. pois ao receber uma educação envenenada sentido de uma ruptura com os valores criados e refor. frio e origem em tronco comum. comparativamente ao do alunado sistema. com mais medo. 72 73 . o uso do termo raça acaba classificando um tamente sobre as de origem africana.(Art. Significa não ter ouvidas suas insatisfações e grupo étnico ou sociedade. como por essas pessoas foram tratadas como mercadorias. No livro. “A escola é uma instituição dade em que vive. O que explica o coefi. raça pode ter uma conotação própria do campo das escolar do que para aqueles que têm que desaprender mos entender por que todos procuram uma instituição “Ser bandido. pais e de todos palmente não ser respeitado em suas manifestações cul. com características e po- ser bem-sucedido. 2006: p. ou quaisquer outros que sejam “diferentes” da “cara” nos entre humanos. o conceito minantes torna-se bem mais fácil alcançar o sucesso educação denominam hoje de “cultura escolar”.) O resgate da memória coletiva e da his. 1999: p. para os jovens fi. Ao dizer que o Brasil é conhecido como o país com e prática. inserir-se nele e ainda para de lá saírem melhor do que quando entraram. “Dependendo da maneira como é utilizado. ser espancado. defendo que a uma grande distância para os negros efetivarem sua rados. críticos e em condições de lutar pela Já para Kabenguele Munanga: ou modelos de cultura. plena participação na vida social. as manifestações e os valores culturais das na escola. racismo. – e esta divisão era a base e a consequência da divi. pobres. da qual é construído um cosmo sagrado” (BERGER pelos preconceitos. turais . linguagem. seria preciso fa. talvez. em melhores condições de enfrentar a vida. reconhecidos como seres humanos. e resultado de significa estar subjugado economicamente. A quização”. (MUNANGA. 2006: p. proibidas. 2005: 16) Por onde passou. enfim. ou pior. em sua teoria têm o dever de matricular e manter seus filhos menores tem. Estes defendem estímulos e refor. é colo- formação da riqueza econômica e social e da identi. a maioria. dando-lhe um outro significado. foi pensado para que a criança e o história da população negra no Brasil e a complexa re- ciente de repetência e evasão escolar altamente elevado exclusão de todos aqueles que não estão inseridos no jovem negro se enxergassem como seres incluídos na lação entre raça. 174. seria o exemplo do Ao analisar o livro didático podemos perceber que a instrumento de dominação. o Estado tem propostas e não se considerar sujeito de sua história. sua própria “cara”.valores. ou seja. levando também à hierar- los autores) possuem outras características culturais educação no Brasil é obrigatória. No mente abordadas pelos autores. igno. apesar das condições desiguais nas quais se cido no mundo todo. mas que como O livro diz que as escolas públicas. ser abusado. a linhagem histórica resgatando as civilizações desde o negativas. quando os autores conceituam raça: “Raça crenças também foram desprezadas. mundos”.267) . seleciona e privilegia. conhecimentos e preparo para prosseguir os estudos zer alguma coisa para tentar mudar esse quadro – mas (MUNANGA . antes der mais nada. que tenha uma proposta semelhante à que defendem. cana como parte da herança comum da humanidade uso tem um sentido social e político.não ter voz na entanto. cada qual diverso um do outro. riza pelos conjuntos de símbolos sagrados. de social. ter fome. 175) “Não precisamos ser profetas para compreender que ou buscar uma profissão. a aprendizagem sobre grupos humanos. eles também tiveram suas estrutu. dentro dessa lógica. e que no desenvolvem. povo entre povos. os autores afirmam que aqui o lhos da classe trabalhadora. É por isso que. a sociedade. não exemplo. e como a escola ignora estas diferenças a obrigação de oferecer escola e os pais ou responsáveis educação conscientizadora proposta por Paulo Freire negro nessa citação?) sócio-culturais. mas princi. sujeitos da lei e ser usado nas escolas para possibilitar a construção de relacionado ao reconhecimento da diferença entre sidade. ou prisão-educandário. a tarefa de conscientizar critica. sociais e outras. regida por normas estabelecidas por grupos externos Por isso. indígenas História de seu próprio povo. 175) branco. Paulo Freire deixou sua marca meu foco será principalmente a religião.. somando-se ao conteúdo preconceituoso dos produtores de cultura e os que não eram nada disto uma identidade negra positiva. Nacional. que incluem pertence somente aos negros. somado aos locais e rituais sa- tendo em vista que a cultura da qual nos alimentamos vida uma experiência diária de solidariedade e. principalmen. 22 e 24 do Estatuto da internamente para a luta pela transformação da socie. a religião pode ser um formidável cos que. suas crenças. mas falarei mais aten- aqueles que se importam com a justiça e com a igualda. que defendem propostas educacionais que apontam no 2007: p. a visibilidade da cultura de matriz afri. 04) A religião . herói e construtor de Ao focar nos trechos do livro didático onde é abor- alunos de ascendência negra. Ainda que fossem uns poucos. às vezes.(VÁRIOS AUTORES. ciências naturais. a perda da guarda destes. Ser oprimido. Já os movimentos negros e vários estudiosos lançam o preconceito incutido na cabeça do professor e sua historicamente. suas gratuitas. são um direito garantido pela Constituição conscientização. representante de uma pedagogia abordagem dada ao negro é falha e fraca e por isso. dada a diversidade religiosa no Brasil percebemos que: alunos de outras ascendências étnicas. ou o que pesquisadores da sociedade. consigo também seus cultos. de intolerância. empunhar uma arma assassina. 2006:p. Nesse campo. ir para uma ceito utilizado para definir classes de animais que tem falar. que diz respeito à e prejudicam seu aprendizado. são muitos: são. da apenas para o desempenho e/ou a meritocracia é a (como realmente é). tencialidades físicas especificas relativas a cada raça. das origens osas entre alunos de diferentes ascendências étnico. huma. ancestrais e identidades próprias de cada um deles. sob pena de serem punidos até mesmo com mente o educando de sua posição social e mobilizá-lo maior número de negros e afrodescendentes depois do classes dominantes. como são identificadas pe. características fisiológicas e biológicas comuns. Conhe. trata-se de um con- uma cultura para aprender um novo jeito de pensar. O Projeto de cons. 77) escola tem papel fundamental na construção de sujei. pode. Numa sociedade marcada. competi. a escola representa uma Criança e do Adolescente). coletivamente. ços de valores que podem contribuir para se fazer da o pensamento religioso. seus rituais. propostas pedagógicas lhadoras (ou dominadas. Esse -raciais. igual e capaz de ser protagonista. é que lhe permite criar seu próprio sistema de normas e superação das desigualdades e pela transformação da evidente que para os estudantes filhos das classes do. Continente Africano. extremo pode chegar ao fanatismo. quotidianamente é fruto de todos os segmentos étni. educação tem a ver com em alguns trechos no decorrer dos capítulos. contribuíram cada um de seu modo na educador progressista. Interessa também aos No entanto. várias religiões são sucinta- muita luta de professores. na esteira de Paulo Freire. religião. (VÁRIOS AUTORES. ao mesmo tempo. projetar uma nova ordem social. pregado. çados pela sociedade capitalista (submissão. e estes jovens necessitam quase que reiniciar a esta”. sem atribuir qualidades positivas ou livros e materiais didáticos e às relações preconceitu. significa dizer que há grupos de pessoas que possuem Dentro do capítulo. 2006 : p. universais e Para ele.“a religião é uma obra humana através te branca. ou uma religião. preconceito e discriminação do alunado negro. Vejo que. aprender novos padrões Mas como a escola possui uma dinâmica interna tos autônomos. Além disso.se caracte- ras psíquicas afetadas.(MATERIAL DIDÁTICO ALTERNATIVO. etc . existem os educadores progressistas. são da sociedade entre senhores e escravos – podemos Antigo Egito. ou seja. 140) (Cadê o diferentes. E estes são sempre negros. racial”. enxergar o mundo. Mas ao mesmo tempo em que é um direito. sua inserção cultural. essa memória não ção. desestimulam o aluno negro entrever que o resultado de uma cultura escolar volta. individualismo). ser desem. uma conquista da sociedade. de educador comprometido com as classes oprimidas. incapacidade em lidar profissionalmente com a diver. O NEGRO NO LIVRO DIDÁTICO grados formarão um sistema religioso. a presença do negro é notada enfim sistemas religiosos estruturados. No entanto. racismo aparece muitas vezes camuflado e estabelece ruptura. mas tória da comunidade negra não interessa apenas aos normal da escola. (MUNANGA. cado que os povos africanos escravizados trouxeram dade nacional”. Paulo Freire. na visão de Freire. valores. pela divisão cruel entre os que eram trução de um Material Didático Alternativo que possa mão do conceito. Seus valores e saberes são desprezados. da libertação. ao reconhecimento da condição.

Cultura NANGA. discernir. cultura afro-brasileiras como são defendidas pelas di. tadas pelo Estado ou com o seu apoio indireto. buscando o respeito às populações negras. ízes africanas. na escola. Brasília: Ministério continental. Alfabetização e Diversidade.. A discriminação racial pode ser con. 2007. os vários povos europeus. de um sistema social vo. v. Superando o Racismo res. portanto. entre os séculos XVI origens étnicas. Estas práticas racistas manifestam-se. Seus deuses são chamados de Orixás e repre. é preciso ter um cuidado extra e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. propostas pedagógicas des espirituais – os guias. mas de forma superficial e etnocêntrica. tos de elos com o Criador. E também é preciso não-cristãs. que estabeleceu a obrigatoriedade do ensino étnico. São estas colo. Estadual de Londrina (UEL). 2005 – 204p. para que possamos compreendê-las e não “A forma institucional do racismo. Florianópolis.38-51. sileira. MUNANGA. “O etnocêntrico acredita que os seus valores e a ção com as pessoas por intermédio dos iniciados. Diretrizes Curriculares Nacio- que se conhece como sincretismo religioso. No Brasil os taria de Estado da Ciência. desmistificando os preconceitos que incidem e por seus descendentes. A umbanda aparece no livro como uma religião bra- CONSIDERAÇÕES FINAIS menosprezados pelo fato de seus antepassados terem 2006. [. Brasília. seus adep. Tais julgamentos podem facilmente deslizar para livros didáticos. Educação. Os autores possuem um discurso simplista e con. étnico racial. de estabelecimen. 2. Centro de Ciências da sentam as principais nações africanas de língua ioru. Defendo. Nabuco e as de Manoel Bomfim: Elementos para legitimar os preconceitos e as avaliações pejorativas. A Sociologia no ensino médio. 2006. que entram em comunica. p. apesar de uma identidade los africanos. Sociologia. 2007. estudar questões relacionadas com a temática negra. sócio-antropológica de suas características. por tenha mais informações sobre as práticas religiosas da Educação. MUNANGA. quando na verdade foi um complexo principalmente quando falamos em religiões afro-brasi. divulgar e LHO PLENO-DF.). desde as formas individuais e Africana.]”. os mais corretos e isso lhe O CANDOMBLÉ médiuns. da discriminação racial e do gros com imagens deturpadas e estereotipadas quanto Os autores prosseguem dizendo que os deuses do racismo”. REZENDE. desencadeada pelos africanos escravizados no Brasil para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira candomblé não é originário da África. ter certo cuidado com o fenômeno do “sincretismo” que simplesmente julgá-las a partir de nossa verdade etno. com o que está além do que siderada como prática de racismo e de efetivação do compreender a situação do negro no Brasil no final costumamos considerar como mundo racional”. [. no interior da cultura.UNIVERSIDADE SEM FRONTEIRAS. de relações entre os santos e os deuses cultuados pe. nas Diretrizes Curriculares Na. Esta informação é importante para politeísta do culto católico possibilitou a construção nossa sociedade. (Coleção Para Entender). a fim de respeitar os processos históricos de resistência negra nais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e Existem alguns equívocos nesta abordagem. “É preciso tomar cuidado com julgamentos. construção ocorrida no Brasil a partir de múltiplas ra.]” (MUNANGA. rençar. apesar das “boas intenções”.Ca- nas escolas. cultura e história. se construiu ao longo de séculos. A percepção do preconceito racial em nosso país Superior/ SETI – PR. ritos e mitos que leiras. sobre esses cultos. 3. A UMBANDA plica criar condições para que os estudantes negros não sejam rejeitados em virtude da cor da sua pele ou VÁRIOS AUTORES. implica práticas discriminatórias sistemáticas fomen- tende a ser reduzido a uma simples associação com os cêntrica. Dis- os primeiros escravos africanos.. os Orixás são as divindades apenas dos Segundo Munanga (2006). GOMES. A característica vezes ocultam a ideologia que persiste ainda hoje em 1978. como Voduns. culturais são o motivo do não desenvolvimento e pro. CONSE- tos associaram seus deuses a santos católicos. (MUNANGA. mas sim uma deração. Londrina: Idealiza sua descendência africana. 2006 – processo de diálogo entre teologias. O santos católicos. E é isso que devemos mudar através do do século XIX e no início do século XX". Como básico para a conservação da memória. 181) BIBLIOGRAFIA a pomba-gira. um mecanismo de defesa e que Tanto a religiosidade negra como outras expressões gualdades raciais dentro da sociedade. Isto im. 2006: p. (MUNANGA. guidas pelos livros depois da aprovação da lei 10. Os guias assumem formas como o caboclo. [. Universidade impressão ao professor e ao aluno de que o Candomblé com o mundo mágico e sobrenatural. exemplo. mos que a religiosidade de matriz africana foi o recurso Petronilha (2005).. dando a tura com diferentes expressões e formas de se relacionar revela a existência. o mate- é originário da África e chegou ao Brasil junto com tada por pessoas de todas as classes sociais e todas as retrizes curriculares específicas. Como sabe. Secre- minam como elas devem agir e não as castigam caso “A religiosidade negra é rica e variada. Material Didático Alternati- Esta frase pode ser muito mal compreendida. nos negro no Brasil de hoje. tanto na presença de personagens ne.]. 2005. Maria José de.639/03 sertação (Mestrado em Educação) . que deveriam ser se. Kabenguele (org. eram tão diversos entre si quanto são. Florestan. que muitas ciedade de Classes. os povos de língua bantu chamavam suas sileiras se formaram na fusão de diferentes elementos formista sobre as atitudes preconceituosas. 74 75 . -racial. também. preconceito. que o livro didático gresso da nação. Tecnologia e Ensino cometam algo considerado incorreto pela sociedade. "As reflexões de Joaquim cações que acabam. o preto velho e outros. Marival. Federal de Santa Catarina. não possui uma teologia desenvolvida. tanto passíveis de serem mal interpretadas. DF. COAN . ed. 180) . ainda hoje. A umbanda se Os autores não abordam a temática da história e Os autores do livro didático escrevem que o candomblé propagou por todas as regiões do Brasil. Suas cerimônias são realizadas em língua africana.. é suficiente. as religiões afro-bra. 356p. O conduzir o aluno a uma atitude de respeito e consi. até as coletivas. 2º edição revisada. A Integração do Negro na So- povos Ioruba.143) na ausência da história do povo negro no Brasil. da cultura e cionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais esta forma de religião foi proibida no Brasil. 2006: p. Kabenguele. resultado da fusão de duas religiões africanas: sido explorados no processo de escravização e que não a cabula e o candomblé.Universidade e XVII. rial didático e a categoria trabalho.. São Paulo: Ática. e é frequen. mas não deter. divindades de Inquices e os povos Jêje as nomeavam culturais africanos com o catolicismo. (MU.. 2006: p. [. 1-2. Secretaria de Educação Continuada.. FERNANDES. PROGRAMA DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA candomblé dão proteção às pessoas. São Paulo: Global. Curitiba: SEED .PR. criando o quando buscamos fazer uma descrição e uma análise e Africana nos diz que é preciso valorizar. e de crenças europeias. cação. 2006: p. da identidade negras. de muitos países e que. segundo autores.. étnicas e deixar claro que os africanos vinham de vários luga. Aqui também as explicações são mínimas e por.] racista que possui mecanismos para produzir as desi. de que as diferenças raciais. Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos. ou sua cultura são os melhores. dife. por construídas. Gráfica e Editora. – 266 p. religiosas devem ser compreendidas como formas A palavra discriminar significa distinguir. acompanhadas de cantos e sons de atabaques. derno Uniafro. O Podemos perceber que o livro didático aborda a questão sejam desencorajados de prosseguir nos estudos e de universo para os umbandistas é habitado por entida.139/140) ensino de história e cultura afro-brasileiras e africanas afro-brasileira: construindo novas histórias . o campo do preconceito. nossos ancestrais africanos enriqueceram a nossa cul. é uma simples magia.. Programa de Pós-Graduação em Edu- bá. v. Nilma Lino.

rica em neologismos. Infanto-juvenil do curso de Pedagogia da Literatura brasileña. e a vinda constante. Nesse aspecto.394.639. como dispone la Ley Estadual de Londrina e especialista em Federal 10639 de enero de 2003. 79-A mente feito a aproximação dos textos do moçambicano e 79-B: lei federal 10. com sua experimentação passa a vigorar acrescida dos seguintes arts. suscitar uma discussão que valorize lidades de enfoque de las literaturas africanas de lengua portuguesa Bergamini o processo de estudo e de inserção em sala de aula das literaturas em sala de clase. assim. dagem a partir de um viés histórico. Aluna do Programa de Pós-Graduação em Palavras chave: Literatura angolana.propostas pedagógicas Literaturas africanas de Língua Portuguesa em sala de aula: uma possibilidade? RESUMO O presente estudo visa apresentar. o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. 8 anos A resposta para tais questionamentos ainda não depois da publicação da Lei. 79-A tem aumentado muito nos últimos anos”. ensino de Literatura. p. 26-A. muito tempo. Em relação à intertextualidade. § 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura especial aos de Literatura.”. Cavalcante (2003. a crítica literária tem constante- passa a vigorar acrescida dos seguintes arts. A questão é: de que modo cinema. Literatura cabo-verdiana. de escritores africanos. Mia nos versos de Antonio Jacinto. literaturas africanas de lengua portuguesa. safio está posto aos professores de um modo geral. Art. minho para a aula de literatura. como Pepetela. Literatura cabo-verdiana. 26-A. deparamo-nos com a dificuldade de proporcio. oficiais e particulares. 2009. a luta dos negros no Brasil. poeta angolano. Cereja e Cochar (2009. 26 em eles.394. e mesmo do poeta português Luís de Camões. a través de la lectura y poemas de autores angolanos e cabo-verdianos. Como se nota. negra brasileira e o negro na formação da sociedade Couto. No entanto. pues. p. por sua vez.394. por meio da leitura e análise de RESUMEN Este estudo tiene por objetivo presentar. COCHAR. de 20 de ensino. Machado (2010. nacional. tornou obriga. Exemplo pode ser dado com a Art. dos Africanos. o que se observa. De acordo linguística. à Lei de Diretrizes e Bases da Edu. 50) enfatiza que de língua portuguesa. justificam por conta da sileira. ou ainda. como por exemplo. 77 . sileiros pelas literaturas africanas de língua portuguesa linguagem de Mia Couto que. resgatando a contribuição do povo negro nas p. linguagem e temática. 26-A Nos estabelecimentos de ensino fundamental dade do ensino de cultura africana e afro-brasileira nas Além desse autor. posibi- Claudia Vanessa de aula. que estabeleceu a obrigatorie. cuja Martins – poeta cabo-verdiano ¬– com as de Manuel § 1o O conteúdo programático a que se refere o caput vigência no Brasil teve no início em 2009. e portuguesa? E ainda: o estudo das literaturas africanas cultural do aluno no que se refere à cultura africana. iniciar a abor- aula. Luandino” (CEREJA. é que as Literaturas Afri. mas também outras moda- Artística e de Literatura e História Brasileiras (BRASIL. as marcas da influência de José de deste artigo incluirá o estudo da História da África e de várias obras de autores africanos.639. a publicação Bandeira. na de outras artes (pintura. a cultura ao Brasil. 151) enfatiza ainda que ela leva “à descoberta do ca- áreas social. de modo a ampliar o conhecimento 2003). dezembro de 1996. esculturas. 9) sina. ou seja. Encontramos em ou- do Brasil. em especial nas áreas de Educação língua portuguesa em uma grade curricular que. grande nome da Literatura Bra- Art. enseñanza de Literatura. No entanto. 1o A Lei no 9. cação Nacional (LDB) foram acrescidos os seguintes africana. verifica-se que muitos caminhos tório o ensino de história e cultura africanas em sala de “em meio a tantos problemas relacionados à prática de podem ser seguidos. é preciso atentar-se para a riqueza artigos. Literatura Brasileira também pela UEL. de 2003. com os do escritor mineiro. ros. ao se considerar que há re- canas Lusófonas ainda não são uma realidade nas salas sistência para o efetivo ensino das literaturas africanas A Lei n° 10. que. teatro) o material que pode auxiliar na leitura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo é possível (e viável) inserir as literaturas africanas de do texto literário. econômica e política pertinentes à História Embora os autores divirjam. plantear una discusión que africanas de Língua Portuguesa. de 20 de dezembro de 1996. 1o A Lei no 9. A partir da reformulação da Lei n°9. a proposta visava à inserção do en. 9). aborda as produções literárias brasileira lidades artísticas. Pretende-se. há rios podem ser abordados. Letras da UEL e professora de Literatura Literatura brasileira. em muito se asseme- e 79-B:Art. acredita-se que o de. é possível destacar a presença da e médio. de aula do país. p. ou seja. de detalhes que os autores africanos oferecem com a lizam que “o interesse do público e de estudantes bra. de 20 de dezembro de 1996. como dispõe a Lei Federal 10639 valore el proceso de estúdio y de inserción en sala de clase de las Formada em Letras pela Universidade de janeiro de 2003. nar ao educando” o conhecimento da riqueza cultural oferece valiosas possibilidades. de 9 de janeiro de 2003. Alencar. intertextualidade nas composições em verso de Ovídio ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira. El objetivo es. não somente textos literá- o currículo escolar. possibilidades de análisis de poemas de poetas de Angola (Viriato da Cruz y Antonio abordagem das literaturas africanas de língua portuguesa em sala Jacinto) y de Cabo Verde (Jorge Barbosa y Ovídio Martins). conforme se lê abaixo: Por outro lado. pode ser definitiva. deve ser inserido somente a partir de uma perspectiva sino das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa histórica? INTRODUÇÃO em sala de aula. os motivos para o aumento desse interesse se lha a Guimarães Rosa. UNIFIL e de Literatura Brasileira do Ensi- no Médio do Colégio Londrinense. e em tras linguagens. Palabras-clave: Literatura angolana. torna-se obrigatório o escolas públicas e privadas de todos os Estados brasilei.

2010. que antecede ao movimento. Jubiabá e Mar Morto. essas marcas aparecem para “estreitar países africanos lusófonos. mas também o papel da literatura nacional para o povo da literatura africana de língua portuguesa. miséria. pois abordam os recursos emas mencionados. conhecer profundamente o mundo angola. Jacinto. fessora de Literatura nos níveis médio e superior. é na verdade. e a idiossincrasia do homem isleno e reafirmar Cabo Sérgio Paulo Adolfo (S/D. populares. de antecedentes e precursores de caráter social. pelo diálogo constante com a literatura europeia e o cabo-verdianos terem. 2000. 2000. Este em especial era contrário ao evasio. padrões ocorre de modo letárgico. É o caso de Antonio de Assis Júnior. política e cultural à opressão em que viviam” (CEREJA. UMA RIQUEZA CULTURAL ca (2010) os poetas da geração da revista Claridade). diferindo o país de outros Moderna e. já chamava a atenção nismo dos claridosos. empreendermos estudos comparativos entre as duas. estes. p. p. acredita-se que tanto os poetas cabo- portuguesa. p. suas gentes e seus problemas. foi realizada a análise dos po. serão destacadas. cada país lusófono tem suas especificidades Amado. Segredo da Morta (1935). como referência os poemas: ‘Carta de um contratado’. escrever contra” país. além de dou. observa-se que ela “também reflete a influência movimentos de que participaram. 15). Na plantaram os alicerces da nova poesia cabo-verdiana. cunho político-cultural que incitava os jovens a des- zador. p. possam expressar a subjetividade dos sujeitos que as finais deste estudo. a geração de jornalistas-escrito. na literatura que se formou nos que versa sobre o mundo que rodeia o homem cabo. literários e deixando para trás a poesia que se fazia a XX. determinante histórico tem relevância suficiente para Ainda é possível aludir aos aspectos da oralidade. 14) destaca que essa escrita di. um mote de siderar a realidade da sociedade dependente do coloni. de modo que a literatura e a história poéticos abordados. com o lançamento da revista Verde como região única (CARVALHO. tomando Nesse contexto. 02) assinala que “as li- africanos de língua portuguesa. entende-se que a partir da abordagem colonizador na produção cultural do colonizado. identificar as semelhanças na forma. ‘Você: Brasil’. p. de modo que e seu clima inóspito. e a poesia de Manuel Bandeira foram um alum. bramento e uma descoberta instigante para os autores e estético” (FONSECA. principalmente os romances neo-realistas da segunda ‘Antievasão’ de Ovídio Martins. debruçar-se sobre Angola e sua cultura. 2010. já que é possível que o professor permita. Cenário que mu. tência das populações. 19). Eis o momento de iniciar um discurso características a influência da tradição da oralidade. teiras da história. países do continente africano. ou melhor dizer. não se pode deixar ao abordar em sala de aula poemas de autores africanos Esse elemento híbrido é entendido como as marcas do composições literárias a identidade cabo-verdiana e a de comentar as semelhanças dele com a Semana de Arte lusófonos como possibilidade de trabalho com crianças 78 79 . nos quais a intertextualidade se faz presente. 3). 1978. quanto os angolanos iniciaram. no período pós-colonização. seus dialetos ou mesmo outras línguas. elencados por POEMAS DE AUTORES PRÓXIMAS E DISTANTES Embora importante para a configuração de um Fonseca (2010. a partir de 1936. p. poeta angolano. qual se configura como identidade cultural em África. ser exposta aos alunos de modo ram. momento em que a “literatura brasileira. pois ao contexto dos países africanos de língua portuguesa. Assim. A nova geração conseguiu ir além e trazer para as Ao observar este movimento. Da mesma forma. consequentemente. da parte Ovídio Martins. 10). autor de O aqui já mencionada. que também colaborou na revis. Por fim. recionada pelos valores eurocêntricos estava atrelada sócio-econômico provoca fortes mudanças culturais. Antes de iniciar a análise. do e seus efeitos devastadores” (FONSECA. mostrar a intimidade. a destacar quais traços culturais a diferenciava de outros to de que um povo colonizado necessita de libertação Ovídio Martins. Silviano Santiago. res. Do panorama literário cultural e que o “intelectual nativo deve lutar contra as do poeta cabo-verdiano. seja pela constituição histórica do “as propostas estéticas do Modernismo brasileiro de do ensino médio. torno de Luanda e das localidades próximas” (CHAVES posições poéticas. que estes possam ter uma compreensão das literaturas dos países a que pertencem os autores selecionados. Este brasileiros. cuja poesia se preocupa em revelar “as situações com movimento “Vamos descobrir Angola”. a literatura ocidental dentro da perspectiva imperialista. p. 2). poeta Viriato da Cruz e Antonio Jacinto fizeram parte do colonizado” (BONNICI. o primeiro construído pelos portugueses. ‘Antievasão’. cujo intuito era Papel este que é a alavanca para o entendimen- de Antonio Jacinto. a esses objetivos do movimento outros. 13). as secas. atentar para as aspirações imposição da cultura do colonizador. elaboram. de Queiroz e de Marques Rebelo” (FONSECA. 26). 1922 e as discussões em torno da nacionalidade exer- ção da literatura brasileira e na formação das literaturas (SANTIAGO. EM SALA DE AULA modificada por conta da influência. canônicos ou políticos”. dentro dos na linguagem. 14). de Raquel contexto em que se inserem Viriato da Cruz e Antonio -verdianos. mesmo caminho foi seguido pelos escritores de países “olhos fixos nos clássicos europeus”. como nomeou Fonse. porém. cultura precisa. visto que Cabo Verde só se tornou independente cobrir Angola em seus diferentes aspectos. poeta cabo-verdiano. seja pelo isolamento da ilha ram a primeira fase do Modernismo no Brasil. sobretudo ao aluno mais os laços do poder conquistador”. p. cultural cessária para se conseguir a “descolonização da cultura” a oferecer ao leitor parte dessa cultura. e romances de Graciliano Ramos. 37) e o nativo precisa ratificar que há uma Para tanto. -la. pois é preciso con. 2000. destacando elementos da formação da literatura partir das normas temáticas eurocêntricas. 2010 p. Em problemática que a envolve. ceram forte influência sobre os escritores angolanos. da qual fez colonialismo. 286). CI. para entrar em consonância com a lei e aos movimentos literários dos quais eles participa. AFRICANOS LUSÓFONOS: DO BRASIL novo cenário. mas aqueles que são considerados pela crítica os cultura negra. o presente artigo cabo-verdianos. a ruptura com esses O nome do movimento que se inicia em 1948. ta Claridade. Os participantes da geração da revista Claridade anos 80 do séc. 6). o As ideias de Santiago se confirmam no estudo de ções posteriores à Claridade representar. Somam-se ANGOLA E CABO VERDE: de Portugal em 1975. algumas vezes. Tais características podem ser visualizadas no poema fluxo histórico: a dominação colonial portuguesa. os ‘claridosos’. significa: falar contra. p. e ‘Namoro’. romper com o tradicionalismo cultural imposto pelo Sabe-se que os países colonizados tiveram sua cultura foram combatidos pela geração posterior. seguem as considerações tação que pudesse indicar algo diferente dos critérios 1999 apud FONSECA. 2010 p. no de que eles faziam parte mas que não figurara nos lhar os motivos que levaram a pesquisadora a elaborá- países colonizados. pora marcas do momento em que o desenvolvimento africanas de língua portuguesa que excedam as fron- Num segundo momento. XIX. estende-se a reflexão que o cerca. faz-se necessário comparti- para o fato de reinar. a falta de esperança no dia de amanhã. O primeiro deles se refere à sua prática como pro- autor fale em relação à América. que. embora o -verdiano. africanas de língua portuguesa. fortalecendo as relações entre literatura e em artigo publicado em 1978. “Vamos descobrir Angola”. Nota-se que era comum aos participantes das gera. tomaram como modelo os autores Claridade. Bonnici (2000. s/d. pode ser destacado. de modo a enfatizar os aspectos à “manutenção da ordem e as restrições impostas pela mexendo no cotidiano daquelas populações fixadas em estilísticos. denunciar a dramática exis. posteriormente. visa a discutir as possibilidades de abordagem de textos contra o colonizador. Jorge Barbosa. propostas pedagógicas Desse modo. 2009. fase do modernismo: Menino de Engenho e Banguê. os ideais que sustenta- de textos. mas não aponta soluções para os problemas conteúdos escolares aos quais tiveram acesso. dividiu-se o estudo em três etapas. problematizar para quem a literatura era uma forma de resistência processo embrionário da literatura brasileira passou Fonseca (2010. escrever.” pois embora se mencione aqui as literaturas de língua de José Lins do Rego. nos mentiras colonialistas no continente inteiro” (BONNI- angolano Viriato da Cruz. está inserido Jorge Barbosa. romance cujo enredo “incor. p. sociológicos e culturais presentes nas com- que podem auxiliar o aluno à compreensão dos textos potência imperial não permitiam qualquer manifes. por conta do lirismo intimista sociedade. Assim. Vão além. a epopeia COCHAR. Soma-se a essas (BONNICI. “falar. 26). entende-se que essa primeira foram feitas considerações acerca dos autores trazendo a realidade que cercava a ilha para os textos precursores da literatura angolana situam-se no séc. que destaca o fato de os poetas e indagar a vida nas ilhas. p. p. e refletir sobre a “função da Diante das reflexões aqui tecidas. uma discussão ne- as quais muitas vezes estão presentes nas composições. de Jorge Em relação à formação da literatura angolana. o elemento híbrido e. de que diariamente se defronta o cabo-verdiano: a fome. teraturas angolana e brasileira nascem sob o mesmo in- escritores europeus. pois como se sabe.

embora seu problema. Não se deseja aqui promover qualquer discussão de cunho re- mais ela disse que não. Em para compor seus versos. recorre tanto à mulher típica da cultura dança e a música são associadas aos ritos de fertilidade. domblé à Iansã. Acre. existente. anel. por que a ‘força’ do judô e não a leveza do ‘ballet’. 16). em geral. cos.” feitiço. por sua mente curto. Nota-se que. ele chegou até dores. Mas esse recurso também América. ou africanos à cultura brasileira. Nor. Embora os dicionários expli. Porém. Angola chegou por meio dos escravos moçambicanos nhece o saber acadêmico (escrita) e. sendo com densa significação. moro seria tanto o namoro em seu sentido denotativo. observa-se que rém. ao som de uma rumba e no meio ‘Amor é fogo que arde sem se ver’. da cor do Na quinta estrofe. laranjas . porque esta foi feita no terreiro de can. Nota-se que eu-lírico. as marcas depararem com a problemática trazida pelo romance. marca de intertextualidade com Camões. mas mesmo assim ela não o aceita como cussão que se pode suscitar para legitimar a atitude do romântico. de que o poema é denso e. mas comum Já quase sem forças. para que ela lance um no emprego desses recursos que elementos históricos. O título do poema faz referência aos contratados. a rejeição. traço carac. ele virou um mono-gamba. mais. românticos. Essa medida aconte- ainda estão enraizados na cultura brasileira os ideais em países quentes. num segundo momento. E. embora o poeta critique os coloniza- tipografou:/ ‘Por ti sofre o meu coração’” e uma vez quem que o ritmo é originário de Cuba. das literaturas de língua portuguesa produzidas nos As comparações da beleza da moça com a na. fruto é odorífico e ácido. o sincretismo religioso. inicia-se a análise do dizer que a moça é perfumada. Chama-se atenção aqui para linguísticos. Ao final do estudo. De tom O outro motivo foi a indagação feita à pesquisa. Pode-se religiosa do país. como escravos. a herança religiosa africana será ficados mais profundos dos recursos empregados pelo os estereótipos ou essa leitura preconceituosa que se jambo/cheirando a rosas/ sua pele macia guardava as valorizada. cuja ori. podem-se extrair signi- (maio/2006). palavra 1856. Imediatamente a mãe da garota foi questionada sobre partir de outros poemas. do angolano Viriato da Cruz2. a partir dele. além da própria dis. depare em um único poema com um texto razoavel. tada do mesmo modo que a casca do maboque é difícil sem em um baile. estão disponíveis os livros Ifigênia e à Senhora do Cabo. o também do quimbundo que pode ser traduzida por an. e difícil de ser conquis. 1978. do modelo original que copia e permite que seus versos 2. em entrevista à jornalista Juliane Rettich brincando/ de artista nas acácias floridas” ou em: “sua visualizados. Camões iniciou o segundo quarteto com: “É um não o gênero permite que sejam discutidos recursos estilís. Ademais. querendo resolver africano aproxima as pessoas. artísticos e culturais podem ser abordados. Tais exemplos servem para reforçar a ideia Viriato da Cruz não oculta. num contexto em namorado e lhe dá um não como resposta. isso se deve ao fato de o cristianis. Na cultura angolana. Deseja-se somente compartilhar consi- O desespero o faz procurar Zefa do Sete. te. terístico de países colonizados. como também uma metáfora para questão. mas com múltiplos sentidos. o aluno conheça a diversidade da linguagem de Ango. nas referências. a fim de conquistá-la.lírico recorre à quimbanda. como colar. a inserção do livro interpretação para o título. o eu-lírico decide presentear a remunerados e não escravizados. A linguagem alta. de ser retirada. o que se via. Desiludido. Conforme destaca que a primeira reação do grupo foi a referência negati. Os homens. elementos deixadas pelo colonizador. broche. Ade. Além de recorrer a ela. carta à amada. pois Na terceira estrofe. modo a despir-se de qualquer preconceito religioso. ro sendo proibida pelo padre de pagar uma promessa à do Século XV. destacam-se as palavras como: sumaúma. mas o feitiço falha. sobretudo na disciplina de Literatura Infanto. vale-se de um modelo de literatura portuguesa 1. recorre à Santa para a América. no site do Consulado Geral da Repú- va às religiões africanas1. pois se o Brasil é um país com pre. É exatamente tem da África” e. a fim de conquistar a amada. propostas pedagógicas dos Ensinos Fundamental I e II. Jacinto consegue fugir de aula. E como a mistura às atitudes do eu-lírico que. Antonio Jacinto dita-se que levar poemas para a sala de aula é uma pos. a sua influência a outras terras e outras dominação. homens angolanos que iam trabalhar nas minas de dia- se só o segundo pudesse ser digno de ser praticado. em dense ou europeu tende a ser rejeitado. sobretudo do Romantismo. a religião e a língua são as principais formas de dividido em 9 estrofes. a mostrar que o poeta co- ligioso. houve. referindo-se. por isso. como se ilustrar o relacionamento entre culturas. que além de outras línguas e dialetos. à fé cristã. tureza remetem aos poemas e a trechos de romances gem está no quimbundo. embora seja Outra palavra é maboque. o que não é estaduni. pueril. o eu-lírico tipografa seu sofrimento em um seia em quatro tempos em cada compasso. Assim. nomeadamente ao Brasil onde o samba ainda Em relação ao Ensino Médio. seguiram trabalhando visível a incorporação de aspectos culturais orientais refere-se ao fruto do maboqueiro. lógicos. acolchoamento. dos quais. logo a partir sabe. espécie de ‘arrumadeira que passavam por lá. de namoros’. em sua poesia. mantes da África do Sul com a falsa ideia de que seriam O aprendizado que se pode extrair da situação é que se refere a uma árvore nativa da África. blica de Angola: vez. -juvenil. Jorge Amado deixa muito ex. recorrendo a recursos tecno. cartão: “Mandei-lhe um cartão/que o amigo Maninho o quarto é o mais forte. p. é ‘Carta de um contratado’.laranjas do Loje. observa-se que o conte- dora sobre um determinado esporte. o eu-lírico quer darilho. gentes. acredita-se que essa seja doçuras do corpo rijo/ tão rijo e tão doce . aguardando a saída dos navios a ‘voz’ do subjugado. é compacta. destaca que se preocupa em “minimizar pele macia – era sumaúma/ Sua pele macia.. possibilita-se que o aluno se angolana (Zefa do Sete) como às santas católicas. pois o quimbundo é uma língua falada em Angola. eram jovens ‘pisando em ovos’ ao se mente poética compara a beleza da moça aos elementos d’ Água’. aqui mencionar obras brasileiras em que se tem essa Intimamente ligadas ao quotidiano das populações. com versos polimétricos e bran. torna-se derações que surgiram a partir de situações vivenciadas em sala gura da sociedade angolana. como se vê em: “um sorrir lu. Entende-se então que o encontro do eu-lírico com não sejam “cópia. encontra-se uma Tecidas tais considerações. Nota-se que o desejo do escreveu: “deste mais que bem querer que sinto”. Na primeira estrofe do poema../ Seus seios. países lusófonos africanos. O segundo poema. por meio da rumba. de Antonio Jacinto. efetivamente. típica fi. Universidade Estadual de Londrina (2011/2012) gerou vale dos conhecimentos ocidentais para escrever uma plícito o sincretismo religioso em seus romances ‘Ca- interesse dos alunos das segundas e terceiras séries. também do quimbondo. quis o destino que os dois se encontras. as palavras do quimbundo permitem que e que no fundo o que se tem é uma forte crítica social. da natureza africana. nesse caso. está presente. la. no soneto poema ‘Namoro’. Já sibilidade única que não pode ser menosprezada. também de um poeta angolano. no entanto. a dominância cristã. vida e morte. querer mais que bem querer”. com a abolição da escravatura em Angola. pois quimbanda é uma palavra. 80 81 . simulacro que se quer mais e mais de onde foram extraídos os poemas aqui analisados. Po. culiaridade e força capazes de induzir. falhou. eu-lírico. revela que o ritmo musical semelhante ao original” (SANTIAGO. o relacionamento. de Dias música e a dança de Angola enriqueceram-se em pe- mo ser a religião imposta pelo colonizador e. o continente americano por meio dos escravos. ministrada para o curso de Pedagogia. cuja casca é dura. já que o eu . o vocabulário.como o uma feiticeira ou curandeira. Edgar do Xavier. linguagem dos poemas. Em- A especialista em Literatura cabo-verdiana. é possível aqui oferecer ao aluno uma comparação a sua crença. eu-lírico se concretiza com a dança. Nessa estrofe. pitães de Areia’ e ‘A morte e a morte de Quincas Berro A partir da análise do poema. ceu quando foi barrada a saída de navios negreiros à eurocêntricos. de onde se extrai óleo e paina para amada com presentes comuns às mulheres do Ociden. como nos quais o amor e a natureza estejam presentes. É o caso de ‘O Pagador de Promessas’. Nesse sentido. Nota-se como a fé do colonizador aqui se a jovem. ritmo que se ba. evoca estas origens e justifica o paralelismo melódico de Mia Couto como leitura obrigatória ao vestibular da Na primeira estrofe e na segunda. drama no qual se tem a personagem Zé do Bur. minoso tão quente e gaiato/ como o sol de Novembro comuns às culturas brasileira e angolana podem ser bora em uma primeira leitura o poema se apresente ma Lima. o eu-lírico se Do mesmo modo. O poema está Gomes. infelizmente. já revela a influência do colonizador na formação O título ‘Namoro’ sugere duas interpretações: na. tampouco se deseja adotar uma postura preconceituosa quanto ao cristianismo. da dança. uma condição sine qua non para a inserção do estudo maboque. de pronto. ela disse que sim. cujo conteúdo confirma as duas possibilidades de Santa Bárbara. tampouco as rejeita. à medida que se lê. de nascimento. visto que procurar a quimbanda faz parte de údo do poema nos conduz a um pseudo-romantismo que uma criança optou por praticar judô e não ballet. iniciação. Referência esta que. uma ticos formais e histórico-culturais do texto.

amizades deu o processo de formação da cultura brasileira. como identidade? O que faz um homem sentir-se parte de terceira. Não mostra os problemas. uma vez que as marcas da mesmos traços culturais. tilham da mesma realidade brasileira: foram formados dilôa/dos teus olhos doces como macongue/dos teus eu-lírico em gritar que não deseja fugir. tivemos canos. do país. lugar de regalias. Somos um povo crioulo” (SANTILLI começou a enviar os contratados às minas de diamante. suplicar. o poeta se vale da natureza nha que matar. A Pasárgada de Bandeira. valorizando a ‘língua compreender e passar a mensagem aos alunos de que É preciso destacar que durante o século XIX. portugueses) e índios convivendo. com uma identidade pró. infelizmente trazidos como escravos. Considerando que Ovídio fez oposição a Jorge nação livre e independente. Brasil’. Daí a Os dois países tiveram sua história feita a partir da Daí se iniciam as proximidades com os países afri- crítica de Jacinto. Nos versos: “dos teus lábios o eu-lírico deste poema. com o rei. índios. alidade. como já mencionado anteriormente. Viriato da Cruz brinca com o hibridismo reza como o maboque (já comentado). bem como a relação de identidade dos Como sentiam a necessidade de ser livres como os no poema de Jorge Barbosa? Essas questões são impor- O poeta faz sua crítica na última estrofe. O poema de era visto pelos países africanos. cabelos negros como as asas da graúna ‘Antievasão’ vem denunciar a vida difícil das ilhas que e buscar uma nova realidade. to forte entre as duas realidades com tantas afinidades a partir de um processo de colonização. lutar e modificar a também reforça as proximidades ideológicas. justamente por. negros e brancos criar receitas para a sala de aula. desven. da língua. percebe-se a descrição da mu. bem como promover sendo sua cultura quase sufocada pela do branco. seu desprendimento com a língua. vermelha usada em rituais femininos de puberdade. um devaneio para expor os sentimentos renças da natureza e das grandes cidades brasileiras e. 82 83 . brancos (sobretudo. Portugal. À medida que o poeta cabo-verdiano compreen. quando o eu-lírico cabo-verdiano e propror não fugir. dilôa. Pasárgada é o lugar de prazeres. por conta disso. na pele e no sangue de tantos brasileiros a escravidão e da inserção da escola em Angola. e suas imagens do cotidiano e a des. Não para se fazer cumprir a lei. enquanto geográficas e ambientais”. 2011). elevam-se as dife. época porque os dois são frutos da colonização. que brasileiros e cabo-verdianos sejam um só povo. escola. propostas pedagógicas A ideia de seguir a Europa como modelo para a Tomando a composição do poeta cabo-verdiano produção de literatura é discutida por Silviano Santiago Ovídio Martins. aos quais era veta. Assim. ou do Ovídio se insere na realidade cabo-verdiana. 2007). ainda que te. seios duros como maboque”. Conclui-se que melhor que fugir da ceu oportunidades. embora com contextos diferentes. e o sorriso mais doce que a jati. fazer é retirar qualquer sentimento de superioridade As possibilidades de abordagem deste poema em dando forma a uma nova raça. ritmo híbrido. Portanto. como os brasileiros. No Brasil. como se não pudesse seu país ao Brasil. quarta e quinta estrofes. do poeta ca. seja dos próprios portugue. compõem Cabo Verde. intelectuais e escritores. e destaca as dificuldades de se viver ocultar a cultura de um povo. o qual remete a contrário. O Brasil. para se referir aos cabelos. realidade é enfrentá-la e transformá-la. ele compara dominação deixadas por estes já são suficientes para vimos de modelo aos países africanos de língua portu- continuidade desse pensamento. tem-se no título o prefixo (1978). é enfrentar tinha oposto e que se tinha revoltado contra o jugo colo. com a diferença. portuguesa e a necessidade de que sejam abordados na história de muitos africanos se repete. antes de se iniciar a abordagem das lite- pensamento. brasileira’ (BERGAMINI. a realizações. falam a língua brasileira’ do povo estão presentes nos versos de ‘Você: “somos um povo habituado à prática de convivência em que Angola impediu a partida de navios negreiros e do colonizador. porém. mistura de povos. crição do Recife de sua infância. o eu-lírico deseja pedir. alienação. imposição do colonizador. Verde deseja ser livre como o Brasil. Manuel Bandeira. a mostrar que é possível ficar doces como mel. o poema não vem só acentuar as pro. nos quais os alunos se deparam com Na segunda estrofe. é preciso pela moça. E essas vozes. O uso das Por fim. ao relatar cabo-verdianos com o povo brasileiro. o primeiro movimento que se deve já que este imagina ser o poema uma história de amor. Desejou-se discutir a vidas. apresenta como contrário à fuga. nutridos pelo ódio do colonizador. e macon. que buscam ser ou- uma discussão acerca de elementos históricos e sociais forte. textos como ‘vozes’ de muitos que. literatura que fugisse dos ideais eurocêntricos. domínio de Portugal. a tacula. em Cabo Verde. Jorge Barbosa. à corrida rumo a um ra produzida em países colonizados. prefere ficar ali e lutar. que ainda estavam sob o contratado’. como a própria questão da deram origem ao que podemos chamar hoje de ‘nação viabilidade dos textos de literatura africana de língua e cultural. da mesma forma para Manuel Bandeira. países que. encontraram na literatura produzida pelo tantes para a formação dos estudantes e permitem que o analfabetismo dos contratados. Ainda se nota no poema de Jacinto a mistura nota-se que o emprego do Futuro do Presente já mos- de traços de outros autores. que não lhe ofere- virgem dos lábios de mel. dos recursos do colonizador. uma cultura e uma literatura que já nada tinham a ra. tra um ser preparado para o que surgir. pria. ser terra livre da a sua? Por que brasileiros e africanos compartilham dos mentos que passou junto com sua amada. há “uma ligação mui. somos postos em comparação desvencilhar-se dele. Daí o tom irônico de ‘Carta de um Nesse caso. guesa e. cultural. adolescente. vie- CONSIDERAÇÕES FINAIS e revestir o aluno de entendimento para que receba os sala de aula podem partir da intertextualidade. não serve para conseguiu deixar de lado os elementos que permitem história. nial e que agora procurava construir um percurso como que o namoro acontece. Jorge Barbosa permite a reflexão sobre: o que é Todo o lirismo do poema pode ser verificado na dá a solução para eles: expor a intimidade do homem ximidades linguísticas. que vem quebrar a expectativa do leitor. pois me. formaram-se a partir da miscigenação. pois Cabo uma nação ou identificar-se com outra nação sem ser mostra o sofrimento que sente ao se lembrar dos mo. Segundo anti. Assim. 2010. realidade. cria-se a comparação entre os dois países. mas porque são ses (colonizadores) ou até mesmo de autores brasileiros. geográficas e literárias. não havia escola para as crianças e jovens negros. no poema de Ovídio equivale à fuga da re. possuem um povo terno e alegre. na vida social que perpassam o poema. como um irmão mais velho que se cultural de que Angola é formada. 84). além da afinidade entre os Antonio Jacinto se mostra um antirromântico e se para descrever a beleza da mulher. já independente de apresenta como o colonizado. p. seja pela influência lugar que não seja a realidade em que ele está inserido. e ainda que se valha quimbondo takula. dando os recursos da linguagem. 84). ‘Antievasão’. outro poeta cabo-verdiano. não textos são ricos. o elemento híbrido impera na literatu. cujos sentimentos são como fez José de Alencar na descrição de Iracema. como muitos fizeram. cor escura. trazem indícios de que na história. tem-se o poema ‘Você: Brasil’. tificação do eu-lírico com o povo brasileiro. seja por conta do sofrimento causado pela ‘irmão mais velho’ elementos para a construção de uma muitas discussões sejam levantadas. como se o natureza inóspita do Nordeste brasileiro. Ovídio Martins é contrário à Pasárgada de Bandei- gue. a os problemas e juntos buscar a sobrevivência. fruto de sabor doce para caracterizar os lábios da Barbosa. Um tempo depois. apud SILVA et all. Mas As considerações aqui tecidas não têm por objetivo merecem ser ouvidos. poema que se configura como o ponto de iden. compar- vermelhos como tacula/dos teus cabelos negros como Os versos livres e curtos mostram a urgência do Para Oliveira (2010 p. por muitos anos. Por serem as questões preciosas à formação do que foi expresso anteriormente fosse tudo parte de um Nos versos de Jorge Barbosa. Assim. sobreviveu! E assim. cultura e conhecem os problemas de outros lher como a índia Iracema. ainda assim. árvore de onde se extrai uma tinta lhor que deixar a ilha. do o acesso à leitura e à escrita. seja por conta brasileiros. Oswald de Andrade e raturas africanas lusófonas em sala de aula. seja pelo aniquilamento da cultura primitiva Antes. o eu-lírico se Santiago (1978). mas Dessa forma. ram os africanos. mas não fugirá. Nesse poema. lugar de ter belas mulheres. Jacinto usa sempre elementos da natu. ver com as portuguesas (OLIVEIRA. sociais. mas não foge da intertextualidade com o autor para amada. E conclui. Alencar também descreveu Iracema com lábios que ele apontava os problemas sem propor solução. literários? Por que ser- reticências no verso final de cada estrofe demonstra a bo-verdiano. construir essa oposição. é na rumba.

Palavras chave: Educação antirracista. Brasil e Cabo Verde: duas MUNDO%20QUE%20O%20PORTUGUES%20 margens do mesmo mar. Porto BERGAMINI.br/jornais/jornal16/ Na estrutura social brasileira o racismo antinegro potencializa o e Estudos Afro-Brasileiros. In: SANTIAGO.639/09. cultural. In: Revista Semioses. Débora Leite. Panorama das literaturas africanas de XAVIER. Lei 10. Thereza Cochar Maga. Vera Lúcia de. Key words: Antiracist Education. Ensi. We should also show the experi- ences from the project LEAFRO – Laboratório de Cultura e Estudos Afro-brasileiros: diálogos para o reconhecimento e a valorização da História e Cultura Afro-brasileira no Paraná (Londrina e Jacarez- inho). ção negra tem um lugar determinado.639/03. 3ª Ed. do não acesso.usp. ANTUNES. In the Brazilian social structure. Dr. 2011. Agosto raciais e a Lei 10. Poesias.fflch. Efeitos psicossociais do racismo. Sérgio Paulo. 2009. Literaturas de língua por. onde a popula.pt/pos.org/index. p.br/ojs/ publicado em 20 de janeiro de 2011. o reconhecimento e a valorização da História e Cultura Afro- no de língua e Literatura: alternativas metodológi.pdf. Law 10. ou seja. Ciências Sociais e PRO- traduz em privilégios de uma elite conservadora. Literatura Portuguesa: em Maria Aparecida Santilli e o Prof. In: Revista Eletrônica Navegações. Luís Filipe da Sousa Martins Torres de. Moreira. Antonio. Sistema de lhães. Estadual de Londrina pela manutenção da política cotas no pro- CAVALCANTE. that meaning.639/03 Tokita Psicóloga. 01./jun. Portanto. O pós-colonialismo e a literatura: Acesos em 15 de janeiro de 2011. Poemas. Abdala Júnior. Maio/2006. Érica. Disponível em: http://www. tura. p.unisuam. 84-87. Silviano.htm vel em: http://www. propostas pedagógicas A enunciação do REFERÊNCIAS MACHADO. p. Com método e criatividade: tuguesa: marcos e marcas – Cabo Verde. Juliana. Viriato Clemente da. N.). Londrina (Norte do Paraná). 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William Roberto. 07.639. Psychosocial effects of racism. Canoas: Editora da Ulbra. língua portuguesa. Maria Gisele In: Folha de Londrina. Quotes System. Procuramos pensar estas duas políticas. vinculado à Aceso em 18 de janeiro de 2011. estudos com. Moema. Perugi.br/semioses/pdf/n7/n7_art_04. in which the theory and methodology orientation consists in cooperate with the implementation of the Law 10. sistema de cotas e a Lei 10. política da comunidade negra e de estudantes da Universidade em 20 de dezembro de 2010. In: SOUZA.fl.ufrj. Benjamin diálogo com outras literaturas de língua portuguesa. São Paulo: cesso seletivo e apresentamos as experiências do projeto LEAFRO – Laboratório de Cultura e Estudos Afro-brasileiros:diálogos para aula de literatura. Museu de Antropologia. Arte e Ciência. Depto. Moreover. Consulado Geral da República black people has a determined place. Terezi. E viva a miscigenação. 84 . Artigo de Opinião. cuja orientação cas. recognition and access to the black people. CEREJA.639. esfera educacional.pdf Acesso em: 15 de janeiro de fosso das desigualdades raciais e sociais. realidade da população sionais do Projeto LEAFRO Laboratório de Cultura e Estudos Afro-brasileiros uevora. p. jornalUFRJ1620. Integrou a equipe do BRASIL. Ed. 2003.eventos. Martia Aparecida. 3. Literatura africana em sala de aula: abordagens do insólito no romance A possível: As cotas Márcia Figueiredo ADOLFO. thus the way it is happening in Londrina africopoetica.gov.pdf Aceso 1978. Disponível em: http:// www. php. 20. Università degli Studi di negra em Londrina (Universidade Sem Fronteiras SETI/PR). graduada (ba- charelado e licenciatura) em Ciências estratégia de leitura. Semestral. preciation. we shall try to JACINTO.php/navegacoes/article/viewFile/7192/5190 de Alencar BONNICI. Acesso em 15 de janeiro de 2011.pucrs. de Mia Couto. literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência nhecimento. in witch the nha Taborda.san.edu.pt/comparada/VolumeI/EXISTE%20O%20 OLIVEIRA. Lei n° 10. Silviano.pdf.jornal. 1. (PR). SANTILLI.639/03. Drª. Dispoi. transformando a Estadual de Londrina. not access.Laboratório de Cultura planalto. Maria Nazareth Soares. Dispnível em: http://www. v. jan. teórica e metodológica consistia colaborar com a implementação da Lei 10. RESUMO projeto LEAFRO . zalangola. maio de 2007. racism against Black people in- FONSECA. Alegre. revistas/crioula/edicao/01/Entrevistas/entrevistas. Therefore. Disponível em: http://www. Vol. the quotes system maintenance. Disponível em: Gohttp://www.php Acesso em 14 de setem. Maringá: Eduem. In: Revista Crioula. Racism. Na África e Afro-brasileiras: vetores de uma Rebeldia e Sensualidade no Suplemento Cultural SANTIAGO. o objetivo deste ensaio é problematizar o Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. assim como seus desdobramentos na vida prática em 145 p. (Uma perspectiva da produção literária dos poetas tino-americano. Acesso em 10 de janeiro de 2011. Mestrado em Teoria da Literatura. graduada pela Universidade tuguês criou? In: Anais do IV Congresso Inter- nacional da Associação Portuguesa de Literatura de 2010. Eduardo Pereira. RETTICH. S/D. The principle of justice translates into the concessions for a reactionary elite. Disponível em: http://www.639/03 law.br/dlcv/ ABSTRACT bro de 2010. Luana (org.com/lit0208. pdf Acesso em 18 de janeiro de 2011. http://www. creases the racial and social inequality gap. São Paulo: Atual.consuladodeangola.639/03. Ressaltamos a importância da luta graduados/teoria_literatura/CarvalhoL1. O principio de justiça se SETI/PR. index. Rio de Janeiro. 02. Uma que lhe permitam o acesso e estimulem sua valorização e reco- “insubmissos”). Universidade de São Paulo. Disponível em: http:// emid=55. Alexandre Gomes da. php?option=com_content&task=view&id=41&It the purpose of this essay is to render problematic issues related to the quotas system and the 10. Entrevista com a Profª. Disponí.639/03. think on these two politics. São Paulo: Perspectiva: Secretaria da Cul. de Angola. 2007. Professora de Sociologia. mento e preconceito. 1. 49-56. Claudia Vanessa. O Entre-Lugar do Discurso La. nível em: http://revistaseletronicas. n. -brasileira no Paraná (Londrina e Jacarezinho).

repensar a estrutura educacional que. especificamente especificamente no ensino superior. o ponto de partida para a construção de ações edu- objetivas para a desconstrução dos resultados das de.. integrativos de capilaridade social capazes de dar fun. Esta conferência contou 3. racismo e discriminação.1964). quanto das relações sócio-culturais. (ANDRADE. riam estudar no período noturno”5. que aconteceu no ano de 2001 as(os) não-negras(os). 2009.1% de negras(os) ainda que de modo incipiente. institutos de pesquisas indicam um quadro de desigual- racismo: a educação. o decreto de lei número 1. universidades públicas podem ser entendidas com um co se preocupou com medidas políticas objetivas para ceito. em pequenos comércios. Neste período da história. das séries iniciais até o Estado brasileiro que resultaram em projetos políticos dade e de acesso à escolaridade desconsidera o fosso da ensino superior. no I Congresso do Negro Brasileiro. que a quantidade de ne­ esfera internacional a partir da III Conferência Mundial era muito pequena. dades em relação ao povo negro. tos de agremiações partidárias. a partir de políticas afirmativas. Ciências Humanas da Universidade Estadual de Londrina.org. Este texto foi publicado no VII SEPECH (Seminário de Pesquisas da população negra atuando em diversas áreas como na litera- em Ciências Humanas) promovido pelo Departamento de Letras e tura. Em relação à distribuição de estudantes de 18 a não fazem parte de um debate recente. 2005. Acesso em 23 de agosto de 2010. 2008. educacionais e sociais ainda permanecem para as(os) POLÍTICA DE COTAS: possibilidades para que alunas(os) negras(os) frequentas. Neste contexto. Diretoria de Pesqui- lizou em abril de 2011. a resistência em pensar as cotas ra- gendradas. foi aprovado o decreto de lei do mestrado e doutorado) tem-se em 1998 nos cursos racismo se inscrevem na sociedade nacional há pelo número 7. disponível 5. pulação negra era livre. O Coletivo Pró-Cotas: diversidade e permanência na UEL rea.7% de negras(os) e 5. que pou. o ambiente escolar pode ser abrir canais de acesso. sigualdades raciais e sociais”. 28. sua capacidade política e formar líderes esclarecidos. em 1945 também ressaltava a impor. elementos sobre a trajetória percorrida pelas deman. no artesanato. permanência e continuidade no sistema educacional das de negras(os) e os compromissos assumidos pelo ser imperativo na ordem social: 2001. pré-vestibulares. Mais adiante.) Isto porque o discurso universal da igual. Orçamento e Gestão . ção negra na educação tiveram suas primeiras expressões Em 2009 foram publicados os resultados de pes- que possam traduzir em formas ajustadas às tradições em meados do século XIX. nos cursos ser ouvidas e respondidas pelo poder institucional..) No Brasil. Nos institucional. p. acessado porcentagem subiu para 90% da população total (HASENBALG. estrutura social excludente e discriminatória”.mec. suas vozes passaram a lação negra iniciada com Abdias do Nascimento. negras(os). Ao O objetivo deste ensaio é. Quando os indicativos são estratégias objetivas para suprimir as desigualdades saúde. 4) escravidão. p. da população negra brasileira. algumas ações estão sendo en. MOS. (p. Desta for. a quantidade de negras e negros escravizadas(os) Nota-se neste estudo. Em 2008. 4.6% de não- menos quatrocentos anos. criminações Correlatas2.031-A que “estabelecia que os negros só pode. uma elite racista que naturaliza a discriminação con- sobre o racismo como estrutural na realidade brasileira. para todas referentes ao acesso de jovens com mais de 25 anos raciais e. “estabelecia que nas escolas públicas do país não seriam 2008.7. p. (RA. é pos. que Partindo da premissa de que a educação pode ser e 31. de “instalarem-se na sociedade brasileira mecanismos transformar quanto criar e recriar mecanismos poten.12. dos compromissos assumidos pelo Estado brasileiro na dão3.Instituto 1. A reivindicação por políticas reparatórias para a popu. no ensino superior. “tratamento diferenciado com vistas a corrigir desvan. Embora os dados demonstrem determina- ABRINDO POSSIBILIDADES Abdias Nascimento. Fonte: http://www. ao passo que para 2. 2005. registrou nos muros do DCE a cias Sociais. A este respeito. gras(os) e não-negras(os) acadêmicas(os) apresentou contra o Racismo. tanto do ponto de vista tagens e marginalizações criadas e mantidas por uma instrumento para contemplar as demandas educacio- inserir a população negra em sua estrutura social.6% de aumento. pela mesma instituição. visto que estes indi- PARA UMA UEL DO POVO1 Guerreiro Ramos. sigualdades motivadas por qualquer forma de precon. do século XIX. número seguinte inscrição: “Cotas sim! Por uma UEL do povo!”. Um ano antes da abolição (1887) essa uma margem de 21. Este au- em 15 de janeiro de 2009. As práticas de promoção da igualdade racial no Brasil ção e o reconhecimento da população negra brasileira admitidos escravos.3% de não-negras(os). O sociólogo Alberto damentais uma vez que. p. pois “as tra negras(os) brasileiras(os) e silencia suas vozes. Mas nos últimos dez anos.7% de negras(os) 14. p. como movimentos pró-abolição.0% de negras(os) e 3. legitimou as práticas apontaram que no Brasil os cerceamentos aos acessos MOS. trabalho. promover uma realidade ma.uel. declarava dos acabam sendo as mais discriminatórias”. educacional. desigualdade social e principalmente racial.htm.174).br/. ciais estimula não somente a relutância do Estado em ver justiça social à população negra brasileira. as diferenças são social antirracista. 26. apontar alguns ção e posição aos elementos da massa de cor” ( RA.( GOMES. lema que tiva na Universidade Estadual de Londrina em 2009. considerada base do desenvolvimento humano. Pedro Henrique Andrade diz que: Em 6 de setembro de 1878. pré-vestibulares. cializadores do racismo e da discriminação. No Brasil. em diferentes espaços. quanto à problemática do racismo brasileiro. políticos de intervenção estavam sendo pensados como No campo educacional estas medidas são fun. 7. a partir dessas políticas educacionais -negras(os) e no ensino superior. quando fazem parte da população negra brasileira. nais da população negra. inspirou o subtítulo de nosso ensaio.331 cativos pautam-se na comparação dos dados de 1998 e tância de medidas objetivas para promover a valoriza. o movimento negro tinha clareza as mulheres e homens da sociedade. por conseguinte. assume um caráter de ordem discriminatória é de cada uma das nações envolvidas era elaborar ações conjunto de ações políticas dirigidas à correção de de. (BRASIL. Xenofobia e Dis. E para essas Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE.3% resultado das demandas internas da população negra e violência que a população negra sofria desde a escravi.] a inclusão de homens de cor nas listas de candida. propostas pedagógicas com a participação de representantes dos Estados e de As políticas de ação afirmativa com recorte de raça Assim. em: www. na qual. desde essa época.br/cne/ Acesso 2 em fe. portanto. por INTRODUÇÃO organizações não governamentais. problematizar estas questões relacionadas à inclusão. 24 anos nos cursos pré-vestibular e superior (incluin- políticas de mulheres e homens negras(os) contra o cial.(BRASIL. 184 – 200) 86 87 . As Políticas de Ação Afirma. as cotas em O Brasil é um país de herança escravocrata. pois segundo o censo de 1872. alguns anos antes do fim oficial da de não-negras(os)6. quisas realizadas em 2008 pelo IBGE.7% de negras(os) algumas iniciativas políticas cuja finalidade é propor para a população negra. Pesquisas: Informação Demográfica e Socioeconômica. nos 6. em 17 de fevereiro de 1854. já na década de 1930. o fosso da desigualdade racial prevalece. 2. e ainda não se aplicam.7% de Este cenário propositivo que se instaura no país é reivindicavam correções contra as inúmeras formas de não-negras(os) e em 2008. p. últimos anos. No bojo instrumentos de transformação. 4. Ministério do Planejamento. os indicativos sociais apresentados por direcionados a uma questão central quando se trata do [. vereiro de 2010.2% de negras(os) e 9. As no ano de 1945. Disponível em: http://portal. 1957. e a previsão de instrução para adul. p. entretanto. maiores: em 1998 eram 2. cujos dados nacionais as reivindicações das massas de cor. Rio de Janeiro. na arquitetura.8% de não-negras(os). Estudos e Estudantes (DCE/UEL). na África do Sul. companheiro de Alberto sem e se mantivessem nos bancos escolares4. tos negros dependia da disponibilidade de professores”.5%. em todas as áreas da sociedade. práticas educativas que se pretendem iguais para to. O comprometimento orientadas pelos princípios da justiça social são “um vezes. entre outras medidas.165) discriminatórias em decretos de lei que engendraram im. Discriminação Racial.comitepaz.86. em 1950. para promo. em serviços domésticos. Assim. foram criadas impossibilidades legais para sas Coordenação de População e Indicadores Sociais.2% de não- respostas vieram com a discussão e incorporação de apresentou propostas de políticas de ações afirmativas sível apreender. que os acessos ao campo educacional e 60.) -negras(os). Aprovado dos “avanços” ao longo de 10 anos. mas também a permanência de destas ações é fundamental apontar que este processo Guerreiro Ramos (1915-1981) defendia a necessidade considerado como um espaço social que pode tanto uma estrutura enraizada em privilégios e interesses de fomentou uma série de debates.gov. uma intervenção no Diretório Central dos parte das reflexões realizadas na pesquisa de mestrado em Ciên. Isto significa que havia um contingente significativo em Durban. 1957. amparados pelo Estado bra. Uma Análise das Condições de Vida da População Brasileira. as demandas como parte integrante na dinâmica da mobilidade so. mulheres e homens. a margem foi de 28.br/Durban_1. não ter acesso aos saberes escolares. 2. a fim de desenvolver a Os meios utilizados para não contemplar a popula. 74% da po. alguns projetos 2005. não se aplicavam. a fim de proporcionar um cacionais antirracistas. sileiro que. dentre outras.

639/03 DA TEORIA psíquico em crianças e jovens negras(os). Para mais informações ver em http://coletivo. E. culo escolar. terpretar o mundo a partir de outros olhares. cas arruinadas. escolar. da comunidade externa organizaram uma ação política da Universidade. Uma das preocupações do sionar o cumprimento das Diretrizes. que institui as Diretrizes Curriculares para a limites e possibilidades de atuação e fundamentalmente racista e democrática. mas. Fonte: http://mariafro. mas apenas ve grande mobilização da população afrodescendente podem. assumiram as políticas de ação branca. sociais e educa. foi elaborado o Manifesto em minatórias que mantêm a população negra à margem orientadas por uma série de atividades. a nação brasileira assiste uma in. entre assimetrias entre a população de cor negra e a de cor 10.org. dos desafios imensos e das urgências. que torna obrigatório no Ensino Fundamental LEAFRO – Laboratório de Cultura e Estudos Afro-bra- federais e estaduais. nas falas dos alunos um rico material de análise as cotas para negras(os) em universidades públicas e o trário.br/artigos-sobre-cotas/confira-a-integra-do. ainda que incipiente mas significativa. com as(os) estudantes da UEL.geledes. há o discurso utilizado pelos anti. ver a formação de professores e professoras e supervi- de 2001. mas fundamentalmente tem como objeti- plados da mesma forma que as(os) jovens brancas(os). Na contra mão deste manifesto. privilegiados como a escola por meio de conteúdos e estes discursos destaca-se manifesto dos “113 Cidadãos “produzem novas desigualdades”. as cotas não a transformação a partir do reconhecimento das desi. pois as questões relacionadas à discriminação discriminação no cotidiano escolar. mas sim como ação provisória direcio. Acerca deste assunto. desigualdades: “As cotas raciais exclusivas. intervenções pela cidade de Lon. de 1979. p.639/2003. (BRASIL. como apli. pois. portanto. tendo em vista que a se. mesmo no universo menor dos jovens que têm a opor. mento fundamental no debate sobre ação afirmativa tunidade de almejar o ensino superior de qualidade.adur-rj. na UnB (Universidade de Brasília). de seus antepassados mas devem responsabilizar-se vido o geógrafo Demétrio Magnoli a ler o que escrevi sobre o negro que busca colocar na agenda de discussões a estrutura do racis- moral e politicamente pela reprodução das ações discri. perce- Ministro da Justiça um texto “argumentativo” contra Não é objetivo fomentar a discriminação ao con. em caráter provisório. As ações são 8. contendo cerca de 300 assinaturas. cabendo aos sistemas de -políticas ocorridas tanto no debate. Diante da publicação da Lei n. lho Nacional de Educação aprovou o Parecer CNE/CP e intervenção. A equipe é composta por pro- Racial em 2006. 8-15) Sob a perspectiva de igualdade de oportunida.br/wordpress/?p=1398 . é importante ressaltar que este instrumento para candidatos de classe média arbitrariamente classi. primeiro provier de família de alta renda e tiver cursado lítica vitalícia. sim. 88 89 . potencializando o racismo e o sofrimento desconstruir os privilégios de uma elite conservadora pop-up/integra_manifesto_contra_cotas. mo que afeta indivíduos. te processo de rupturas das amarras pedagógicas que por uma perspectiva de “tribunais raciais”7 ou de in. Inserida na mesma proposta do princípio de justiça que a Lei e seus desdobramentos partiremos de um relato dor na elaboração dos parâmetros do sistema de cotas te na esfera das desigualdades de classes. ser considerados atores sociais des- pectiva de mudança e igualdade de oportunidades. dade Estadual de Londrina. coletividades e instituições. Educadoras(es) e todos os membros da escola para a população negra brasileira. avaliação pela via universal. pelo LEAFRO com o corpo docente da rede municipal meios de comunicação em 2006 que objetivava levar ao contra o povo negro. como debates internos da UEL e financiado pelo Programa Universidade Sem Fronteira/ Favor da Lei de Cotas e ao Estatuto da Promoção da Igualdade da dinâmica social. denunciam gualdades entre negras(os) e brancas(os) nas práticas atividades propostos pela Lei.html definida como Coletivo Pró-Cotas: Diversidade e Perma. 3/2004. com implicações nos processos Educação das Relações Étnico-Raciais e o Ensino de o caminho a ser traçado. contra as(os) negras(os) não se colocam exclusivamen. contudo. do racismo no Brasil. a cota cionais.) racial em universidades públicas passou a ser um ele. Apresentadas como maneira de reduzir as desigualda. para caracterizar o processo de seleção para Os Condenados da Terra. mas sim. cotas raciais não promovem a igualdade.19-20. propostas pedagógicas mento deve ser analisado a partir das mudanças sócio. o importante é ressaltar que esta cadas. é fundamental Na atualidade. quando a Universidade aprovou. as cêntrico idealizado como padrão. cotas raciais nas Universidades Federais de Santa Maria e São opressores de ontem não devem ser julgados pelos atos “a instituição escolar é vista como um espaço em que Carlos.com/ (www. procotasuel. os descendentes dos das identidades de crianças e da juventude negra. mas sim das as cotas no Ensino Superior. estudantes universitários e membros drina. superior mais negra. Sobre leção ocorre entre os pares. Fonte http:// Em Londrina. 2005. É fundamental destacar o trabalho desenvolvido pelo Coletivo. à im. de agosto de 2010 e teve como objetivo ampliar os espa. na mídia. tentativa de trazer a comunidade externa para a realidade fissionais das áreas de Psicologia e Sociologia. nência na UEL9. À PRÁTICA: UMA ANÁLISE De acordo com o parecer da Lei. entre outras. No fim. política desmascara o discurso arcaico da democracia proporcionam a um candidato definido como negro a Em 2011. (CAVALLEIRO. de aprendizagem tanto da população negra quanto da História e Cultura Afro-Brasileiras e Africanas a serem O cotidiano escolar é pensado como um espaço em 7. isto é. em sua obra executadas pelos estabelecimentos de ensino de dife.639/03 pretende ser um caminho para tribuir com a valorização da cultura negra em espaços tica com o argumento da inconstitucionalidade. as esta política no processo seletivo. UEL (SETI-PR) de 2009 a 2010. mesmo se o cotas não foram pensadas na perspectiva de uma po. como subsidio para discutir as práticas do racismo e da plementação desta política nas instituições de ensino tórica. De fato.br/5com/ cracia racial. esta política será avaliada e haverá uma olhares capazes de ultrapassar os limites do viés euro- racial e traz no seu bojo a problematização da existência oportunidade de ingresso por menor número de pontos votação para decidir se continua ou não. se pretende ficados como negros. A Lei 10. grupo é resgatar as discussões desenvolvidas em 2004. Este coletivo foi consolidado no dia 12 rentes níveis e modalidades. cerca de 64 universidades. bemos. Esta expressão foi utilizada pelo cientista Demétrio Magnoli população branca. Segundo José Jorge de Carvalho – colabora. da História e Cultura Afro-brasileira no Paraná (Lon- Por outro lado. 2005. Nos relatos extraídos compreendemos os programa ProUni8. ora acentuam desigualdades prévias ou produzem novas da cidade para efetivar esta política e alguns anos de. o Conse. pela reserva de vagas passa pelo mesmo processo de dade e a valorização desses conhecimentos no espaço drina e Jacarezinho)10. que Contudo. Nas ações desenvolvidas Anti-Racistas Contra as Leis Raciais” divulgado pelos as desigualdades cristalizadas a mais de quatro séculos educacionais cotidianas. Este projeto é vinculado ao Departamento de Ciências Sociais no Brasil”. as cotas raciais não contribuem para isso. brancas(os) e à luta por um ensino básico de qualidade. Ciências Sociais e Letras sob a coordenação das Ciências Sociais -manifesto-a-favor-das-cotas. seleção. ensino. E por fim. ainda permanece sob os efeitos discursivos da demo- de acesso não cria privilégios. com os quais se defronta a nação. Segundo os autores: gualdades.htm) LEI 10. nem criar privilégios ou novos tipos de desi.uel. que um candidato definido como branco. Após a III Conferência Mundial em Durban. Nesse momento hou. pois podemos vislumbrar uma instituição de ensino discriminam e cerceiam qualquer possibilidade de in- constitucionalidades.com. no âmbito de sua jurisdição. (http://www.blogspot. e estadual de ensino de Londrina e Jacarezinho. A Lei visa tornar obrigatória a contemplação de des. branca que monopoliza os bancos acadêmicos. pois a(o) aluna(o) que tem acesso à academia Afro-Brasileiras e Africanas para promover a visibili.br/projetos/leafro). orientar e promo- para promover a igualdade de oportunidades a partir ocultam uma realidade trágica e desviam as atenções ços de discussão sobre a reserva de vagas na Universi. graduandos de www. Segundo Franz Fanon. Outro descompasso é referente ao processo de e Médio a inclusão de saberes sobre História e Cultura sileiros: diálogos para o reconhecimento e a valorização afirmativa com recorte racial. DE EXPERIÊNCIA promover a capacitação de professoras e professores clinação. 10. 10. lam um descompasso entre o dito e a realidade his. que se processam formas complexas de (re)construção em 2009. 9. p. Percebe-se que os argumentos apresentados reve.639. as cotas raciais possibilitam que as(os) jovens colégios particulares de excelência e o segundo provier nada à igualdade de oportunidades entre negras(os) e outras matrizes culturais e suas contribuições ao currí- negras(os) oriundos de escola pública sejam contem. quanto nas ações des sociais. de família de baixa renda e tiver cursado escolas públi. ver em entrevista: Kabengele: “Con. O objetivo da iniciativa era con- -cotistas que descaracterizam a objetividade desta polí. Ora por uma pers. foi aprovada em 2003 a Lei das experiências do trabalho desenvolvido pelo projeto da UNB – em 2009. mas sim promover uma educação antir. Para problematizar superior.org. o sistema concede um privilégio vo denunciar a fragilidade da sociedade brasileira.

algumas questões podem ser problematiza. p. para que não se repitam frases como “o problema (SOUZA.. e principalmente reconhecer que o racismo e a em jogo. o também de ressignificação dos mesmos. política e econômica. 2005. por um lado.. aí eles querem”. as(os) colegas. quando o racismo racial). Como povo negro brasileiro.. da população conceitos neles introjetados. não compensar. de outro grupo. etc. se identificando como atores sociais no proces. humanidade em geral. eles se inscrevem nas relações de poder como mercados materiais ou simbólicos não são direitos. cujos jogos de poder pautados nas ideologias Nas sociedades de classes multirraciais e racistas como situações flagrantes de discriminação no espaço escolar eugenistas não fizeram parte da formação destas(es) o Brasil. Estes cursos consistem em quatro encontros mensais. portanto. mas no professor alguém com quem possam compartilhar aquilo que é apagado e excluído. herança -brasileiros na escola. hábitos perceber em alguns momentos a falta de sensibilidade foram. Além te. Mas. vocês negros. pois nos permitiu questionar LEIRO. também. traziam suas experiências e debatiam junto com beres escolares. “. fruto da apropriação do trabalho de quatro séculos ação da população negra para além daquelas que estão percebem os atos de racismo presentes no cotidiano As falas e silenciamentos podem ser compreen. políticas públicas As(os) alunas(os) que sentem o racismo e suas -dito. pois segundo Maria Aparecida Bento (BENTO... 1983. procura. próximos dos padrões raciais de classe/raça dominante. em vez de uma atitude responsável que disso. crenças. que para ela os resultados foram extremamente positi..( para ver como as crianças e as(os) jovens negras(os) são paldando a fala da equipe. Este silêncio e cegueira permitem truímos cotidianamente com aqueles que participaram acabou por sobressair a insistente negação do racismo obrigatoriedade de discutir conteúdos e assuntos que não prestar contas. ressaltamos a importância uma de coitadinho”. Esta camada da população teve durante a escravi. propostas pedagógicas aprendemos e compartilhamos não só conteúdos e sa. Para a população branca conservadora. discutimos os processos de desenvolvimento das políticas do negro é por que ele mesmo gosta de se vitimar. uma herança simbólica e concreta extremamente posi. e ainda são. 201011. de fome. devem dar graças discurso. por falta de preparo ou por pre. direcionadas àqueles que foram excluídos de nossos consequências práticas no cotidiano não percebem 2005).630/03. a raça exerce funções simbólicas (valorativas 7. pois os brancos saíram da escravidão com professoras(es) negras(os) se reconhecerem em um so de desconstrução do racismo e da discriminação? algumas ações capazes de problematizar as desigualda.15) do livro “Menina bonita do laço de fita”. isso. de modo ser mais”. já fessores a realidade sócio-histórica das(os) negras(os) é uma construção social. 2005. fomentando sentimentos de não-pertencimento. conforme pertençam ou estejam mais e à nossa identidade nacional. praticam a política de avestruz ou sentem pena dos no Norte do Paraná. e estratificadoras). ora trazendo elementos novos. A categoria racial possibilita a dis- discutir a diversidade e conscientizar seus alunos sobre sócio-histórica. é interessante trazer à tona o legado da escravidão. “o preto é pobre porque não se esforça”. capoeira. a Deus. com atividades em sala de senvolviam de modo diferente nos espaços onde havia elaborado das seguintes maneiras: “Ser negro é ter que aula e dramatização do livro. Nos cursos de formação continuada realizados em za.1) A escola. não indenizar os do desenvolvimento das ações. assim pensar-se-á que sim favores das elites brancas. mas. política. não sabem lançar mão das negra. de gênero. e a discriminação são percebidos não há nenhum tipo discriminação estão presentes no seu cotidiano escolar de ação afirmativa são taxadas de protecionistas. há um módulo que especifica estes elementos à população negra educação antirracista devem ser repensados diariamen. Para o público participante. período da pós-abolição há um vazio histórico sobre as de inferioridade a população negra. supostamente não existem no universo deles (a questão negros: no final das contas. em mostrar que a diversidade de ação afirmativa para o povo negro. (. (MU. Na ausência de um olhar atento para cussões em sala de aula e na escola de maneira geral. Por essa razão. processo de formação continuada trouxe possibilidades Nesta perspectiva. metodológicos e sensibilidade para saber como agir. preender a necessidade de desenvolver objetivamente quer discutir. pode ser consi. em suas alunas(os) negras(os) uma ressignificação do ser negro. Evitar focalizar o branco é evitar discutir as diferentes O trabalho do LEAFRO permitiu ao grupo como derada um espaço de reprodução de preconceitos mas vas. Todo este processo detrimento de sua própria natureza humana. nada negra. As relações simbólicas encontradas em torno orgulho e dignidade os atributos de sua diferença. brasileiras(os) se resume à escravidão. alguns professores. políticas compensatórias ou saberes e modos hegemônicos de entender o mundo. priorizando a situação educacional. interpeladas(os) pelas ausências de referencias positi. relações sociais e a vida. GOMES. Ao apresentar o de um país escravocrata que delega um lugar simbólico vos. trato os meus alunos neguinhos como gente. meta é premiar a incompetência negra. quais os significados para estas(es) educadoras(es) da na história do Brasil. ora res- e preconceitos raciais. pois fo- não constitui um fator de superioridade e inferioridade da Lei 10. pois faltam muitas vezes instrumentos e em diferentes espaços sociais. Não podemos nos esquecer que o racismo valorização do ser negro e dos saberes africanos e afro. escolar. calcada trumentalização da mesma em sala de aula. muitas vezes NANGA. ora como protagonistas. o negro é símbolo de miséria.. para apontar alguns exemplos. na ausência de dis. mas sem que esta premissa seja anunciada no 12. 71) Por outro lado. um todo alguns desafios. tidiano. por exemplo. a presença de professoras(es) negras(os) pois. mas em uma elite dominante branca e uma maioria domi- as contribuições das literaturas africana e afro-brasileira para fator de complementaridade e de enriquecimento da se tocar um tambor. no entanto. acarreta em intenso sofrimento psíquico. “aqui no Brasil. uma professora que desenvolveu um trabalho a partir Um dado importante é que as intervenções se de. p. dimensões do privilégio. de classe e de idade”. Na maioria dos casos. Possibilitou às(aos) ou não. le. menta a continuidade da lógica escravocrata.. “o negro tem preconceito contra a O racismo permeia as relações no Brasil. é o que se pensarmos o Brasil com o corte racial. mantidos. Como indicou Bento. A partir destes elementos e com o desenvolvimen- cias psicossociais. A manutenção deste status quo. mas sim. p. p. e de seus derivados na sociedade brasileira”.(CAVAL. um “os alunos não querem nada mesmo com o ensino. foi possível perceber a sensibilidade o que não é pouca coisa.estão. Como o relato de um grupo de professores que organizaram aluno discriminado para que ele possa assumir com uma semana cultural com o tema “Africanidades” e perceberam viu”. 20) “coitadinhos”. 2002. escravidão para o branco é um assunto que o país não de novos modos de ver o mundo. o que implica na interiorização e estes silenciamentos se configuram. A este respeito Eliane Cavalleiro constatou didos como um instrumento para pensar e repensar em se evitar caracterizar o lugar ocupado pelo branco A riqueza do trabalho esteve nas relações que cons- que “do diálogo com esses profissionais (da escola). não é mais possível tolerar o racismo e a dis- educação não desenvolvem ações pedagógicas para a negras(os). para além das ações pedagógicas. a população negra na sociedade. 2002. E por fim.) Na verdade. p. Há benefícios concretos e simbólicos disseminadas. No imaginário da maioria das professoras e pro. as(os) profissionais da gitimando um espaço de privilégios que não é o das(os) realizou.” (BENTO. de maneira geral. e por outro lado. própria raça”. como as professoras e os profes. valores. cujas e na sala como momento pedagógico privilegiado para questões problematizadas partem de reflexões sobre a realidade profissionais. 90 91 . nos naturalização destes episódios. “eu não sou ra. tiva. universo que traz informações sobre a história e a situ- Grande parte das professoras e professores não des raciais no ambiente escolar12. Como diz Souza. porque na Itália o branco atravessa a rua se do ‘ser negro’ acabam por estabelecer um lugar para bretudo quando esta foi negativamente introjetada em também um projeto de trabalho com a história e significados da passar um preto”. estudamos entre os grupos humanos. econômica e cultural da população negra As falas de algumas destas mulheres e homens tribuição dos indivíduos em diferentes posições na es- a importância e a riqueza que ela traz à nossa cultura nos períodos da escravidão e pós-escravidão até os dias atuais.27) CONSIDERAÇÕES FINAIS estas experiências. não das. cuja especificamente sobre a realidade sócio-histórica do de intervenção. além de trabalharmos mecanismos para ins. o legado da de desconstrução de saberes arraigados e a construção sores deste espaço – que é um espaço de poder . so. ao contrário. são interesses econômicos ora como coadjuvantes. nos mostra Denise Jodelet (1989).. com sérias consequên­ conteúdos dos materiais didáticos. é possível dão muitos privilégios. dar consistiria. o branco tem o privilégio simbólico da brancura. to do trabalho de formação que o projeto LEAFRO A discussão racial precisa estar em pauta em nosso co- o racismo e a discriminação. Mesmo em situação de pobre. exteriorizam e demonstram que os caminhos rumo à trutura de classe. que durante a pós-escravidão geral. etc. por parte de algumas professoras e professores em com. em ajudar o cista não. Os silenciamentos não significam apenas o não. criminação.

. ANDRADE. 1983. a qual não é possível atingir. Ministério da Educação.gov. Guerreiro. Discriminação ra- As construções sociais levam as(os) negras(os) cial e pluralismo nas escolas públicas da cidade brasileiras(os) a pensar em seu grupo de origem como de São Paulo. In: VII SEPECH (Seminário de Pesquisas em Ciências Humanas) promovido pelo Departamento de Letras e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Londrina. Petrópolis. alfabetização e diversidade. já que esta significa tornar-se branco. _________. Por isso o sistema de cotas e a Lei ANPEd. Psicologia Social do Racismo: estudos sobre branquitude e branquea- mento no Brasil. (org). Racismo e anti-racismo na educação: repen- contudo. da ANPEd. 1983.scielo. uma história que as(os) permita orgulhar-se de seus Secretaria de Educação Continuada. 33-44) GOMES. In: Irai Carone e Maria Aparecida Silva Bento (org). Maio. discussões e abrem HASENBALG. que as(os) estudantes negras(os) possam ter acesso a organizador. 1983. no entanto. In: CAVALLEIRO. Secretaria de ciso sair para que seja possível ascender socialmente e educação continuada. São Paulo: Selo Negro. dente. Pedro Henrique. Eliane dos Santos. Tornar-se negro: As vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão so- BIBLIOGRAFIA cial. Maria Aparecida Silva. sando nossa escola. 2ª edição revisada / Kabengele Munanga. propostas pedagógicas a cor (preta) lembra miséria. não muda preconceitos enraizados. 2005. Introdução crítica à sociologia bra- sileira. Brasília: MEC. corpo ne- Este cenário apresentado envolve a(o) negra(o) gro e cabelo crespo: reprodução de estereótipos e/ brasileira(o) em diversos espaços sociais. 2005 nômica e social deste país. 2002.”.Educação cidadã etnia e raça: o trato peda- deste lugar do negro em nosso cotidiano.br/scielo. 1 Simpósio Internacional do Ado- lescente. Branquitude e poder – a questão das cotas para negros. Londrina 2008. tais políticas de ação afirmativa visam provo. RAMOS. (SOUZA. 2005. – Brasília: Ministério da educação. 10. gógico da diversidade. Acho que o que me faz BRASIL.mec.639/03. Rio de Janeiro: Edições Graal. Rio de Janeiro: rem em ampla escala. p. 92 . 2002. RJ: Vozes. p. Rio de Janeiro: IUPERJ. 2008. Superando o Racismo na inserções sociais mais igualitárias. alfabetização e diversidade construir outras possibilidades de identidades. de modo que possamos implementar relações e MUNANGA. BENTO. Caxambu. Carlos. lutamos para escola. car questionamentos. Alfabetização antepassados que contribuíram para a construção eco. incômodos. SOUZA.61-62) e todas são falas de Disponível em: <http://portal. proceedings.639/03 se inserem na militância pela ressignificação _________. Trajetórias escolares..br/cne/> pessoas negras. a ou ressignificação cultural? In: 25ª Reunião Anual escola. Disponível em: http://www. Rio de Janeiro: ANDES. Raciais no Brasil. Discriminação e Desigualdades possibilidades de rever um processo histórico exclu. CAVALLEIRO. In. secretaria de -se uma identidade ideal.php?pid=MSC00000 00082005000100005&script=sci_arttext ). Almeja. Anais. educação continuada. 2005. abertos pela Lei Federal nº10. p. Diretrizes curri- sempre fugir do lance do negro é o lance da pobreza: culares nacionais para a educação das relações pobreza em todos os sentidos – financeira e intelectual. e Diversidade. acaba sendo um lugar onde estas vivencias ocor. Souza ( SOUZA. Políticas de Ação Afir- mativa na Universidade Estadual de Londrina. 1-14. Neusa Santos. Eliane negras reflexões A lei em si. In: Educação anti-racista: caminhos uma referencia negativa. Nilma Lino. Branqueamento e branquitude no Brasil. como um grupo do qual é pre. 2001. Assim. Étnico-raciais e para o ensino de história e cultu- Estes relatos foram retirados da obra de Neusa Santos ra afro-brasileira e africana. 2005. 2002. Kabengele. – [Brasília]: Ministério da Educação. 1957.

Não cor. desde a década de sília. da imagem e de sua memória. vêm a formar classes sociais diferenciadas. depuis des siècles. não obstante espaço do simbólico e do imaginário. Políticas sociais. consciência negra. Nessa República. ção continua sendo o critério indispensável da análise longo processo histórico (em que a violência desem- tória. de classe média. acompanhamentos e análise. crita e as mídias televisivas apresentavam uma atitude e instrumentos de reprodução da ordem social. discurso anti-racista. e à reapropriação do pro. está claro que a adoção de critérios ra- representações sociais negativas (preconceitos e este. com base nas quais se reconhecem as per. jeito com seu ambiente social também depende das No Brasil. co é claramente desfavorável aos negros. além dos discursos e das ideias. de soi de la population noire qui. mais viennent aussi à stimuler l’estime neiro. 95 . E-mail: dadesky@candidomendes. situados no de análise para determinar subgrupos de pertença es. raça. já que o país promovia a ideia da interpretações estabelecidos. os grupos humanos e considerava a mestiçagem um valor fundamental da notadamente no que concerne à memória coletiva. 2008. pondérant dans la production du savoir. o objeto essencial das relações sociais é a rada pela crença. Ver relatórios do IPEA. e não nos dois sentidos alternadamente. Políticas sociais. Nesse contexto. situação de subordinação dos negros é produto de um Sendo os modos de representação herdeiros da His. a luta das minorias concepção. sexo. ciais ou de cor permitiu revelar as disparidades econô- micas de que as populações indígenas e afro-brasileiras 2. depreciado e considerado incapaz do parlent sur un pied d’égalité. desses critérios têm demonstrado. novembro. maciçamente divulgada a partir da e dos grupos subalternos. Essa situação foi por muito tempo masca- de si e do mundo. trabalhado- social. segundo a qual a discriminação racial brasileiro. que os negros podiam sofrer era apenas fruto de um visa também a uma crítica radical dos significados e cial. Opondo. pouvoir d’énonciation. brasilianidade. a grande imprensa es- mostrado o poder das palavras como meios de ação térios de diferenciação. mas assimétrico orientado de um pólo a outro da relação so. racismo benigno. Brasília.br dépréciée et jugée incapable intellectuellement et moralement. Brasília. terra e capital). pecíficos. poder de enunciação. tais como nível de renda. março. Palavras chave: Movimento Negro. Québec. edu. a été ignorée. réinterprétant les faits historiques reinterpretaram os fatos históricos para tentar eliminar as repre. assim como do domínio e controle do saber e posição subalterna em face dos brancos. Texto escrito para o Seminário Internacional Afro-descendência. Universidade Laval. como o Movimento Negro riqueza produzida pelo trabalho com base em um laço década de 1930. nº 13. Ils se sont réappropriés le d’Adesky Ao se reapropriarem do discurso. res. referentes à população afro-descendente. sociais. reótipos). camponeses e mesmo considerados pobres2. intelectuais negros. representando dessa forma um segmento populacional représente une nouvelle donne dans la mesure où ces intellectuels des e professor da UNESA. não se limita a reivindicações políticas. -se de forma não simétrica em relação aos instrumentos existência de relações cordiais entre brancos e negros cesso de construção da imagem de si e de um discurso. Isso sem dúvida explica em parte por Os estudos sobre a linguagem e a ideologia têm No seio de uma classe social existem diferentes cri. em pé de igualdade. discours. o "poder les activistes noirs ont décidé de prendre le "pouvoir d’énonciation" de enunciação" por muito tempo monopolizado por aqueles a longtemps monopolisé par ceux à qui on attribuait un rôle pré- Jacques quem se atribuía um papel preponderante na produção do saber. que. Estudos realizados a partir panhamentos e análise. a relação do su. nº 2010). La réappropriation du discours Américas da Universidade Cândido Men. religião. Essa Nesse contexto.DO DIREITO À PALAVRA AO PODER DE ENUNCIAÇÃO DO MOVIMENTO NEGRO NO BRASIL1 RESUMO Ao longo das últimas décadas do século XX. nº 15. Rio de Ja. (3-5 fevereiro 1980. quer fossem INTRODUÇÃO dos conhecimentos técnicos que orientam a hierarquia estes detentores de capital. Canadá. 2008. Les Mots Clé: Mouvement Noir. mesmo após a abolição da escravatura e o advento da da luta em defesa de valores e concepções da imagem tenças de classe e o lugar ocupado na sociedade. intellectuels noirs. l’image et leur mémoire. acom- são as principais vítimas. a relação com os meios de produ. até o final do século XX. as experiências e vivências são encarnadas nas concernente à ordem social a partir da qual se cons. que podem ser dados importantes latente de negação da questão das disparidades raciais obstante. intelectuais e ati- RESUMÉ Au cours des dernières décennies du XXe siècle. CÉLAT. conscience noire. que a distribuição do poder econômico e políti. de produção (saber. discours anti- raciste. especialmente Políticas sociais. les intellectuels et vistas negros resolveram assumir. Bra- 1. situados em 16. edição especial (1995-2005). o fato de estas já estarem bem documentadas. penhou um papel determinante) iniciado no período palavras. elas próprias impregnadas dos traços comerciais. acompanhamentos e análise. ponto de vista moral e intelectual. pour tenter d’effacer les représentations culturelles négatives des Pesquisador do Centro de Estudos das sentações culturais negativas dos negros e suas consequências Noirs et leurs conséquences sociales. discursos e imagens que constituem as redes tituem as redes hierárquicas e a estrutura das trocas colonial com o tráfico de escravos e que se prolonga de significações. Cultura e Cidadania : Intercâmbios Transatlânticos. secularmente ignorado.

descendentes de escravos. Responsabilização objetiva educação. as relações de produ. africanos e mesti. manutenção de uma forma de desumanização dos es. Sales Jr. fitas de áudio e vídeo) do Movimento Negro Volume 44. não obstante. os projetos também se ocupam em restituir perante da nação: Estado. Nesse período. Tal argumento seria utilizado para justificar o sem acontecido ou como se não fossem suficientemente Movimento Negro vai denunciar em sua plataforma o trabalho. objetivo o embranquecimento da população. limita a entrada de estrangeiros e obriga vestígios. o con. 8. entre o Império e o início da República”. os negros A ascensão de Getúlio Vargas à Presidência da período pós-abolição – considerando-se suas causas. surgida dominados poderiam exigir o reconhecimento e a re. Ler a esse respeito o artigo de Ronaldo Sales Jr. la época o Movimento Negro apresentava as questões circulação. fundiária que constituía o fator decisivo que permitia adaptar às novas técnicas e às novas divisões do tra. das vítimas da História. Juruá. sileiros à formação socioeconômica do Brasil. natórias em relação aos ex-escravos. a certas ta e involuntária. essa medida melhorou as condições de subjacentes ou àqueles que foram desde sempre des- um freio à produtividade das fazendas. leitura da memória dos afrodescendentes. suas precedências lhadores livres”7. deveriam copiar a cultura europeia. Ver Flávio dos Santos Gomes. Ronaldo Sales Jr. e a proclamação da República. Ronaldo Sales. dos africanos livres e seus descendentes. Cabe assinalar que no seio da Frente Negra havia vozes disso- cos. Raras são as famílias negras ca. No mercado de trabalho. Ao contrário. mais apta ao trabalho nas usinas e plantações agrícolas. confinados a posições subalternas. últimos anos o crescente interesse de pesquisadores e na década de 1930. 2005. com seus privilégios. da Sob a nascente República. e pesquisas sobre a escravidão e a pós-emancipação no Brasil. essa situação de subordi. op. nº2. ser ocupados por brasileiros nativos. Ler. memória do Movimento Negro. que assim. colocou em prática uma que os brancos. para se igualarem aos bran. modernização nacional e relações étnico-raciais 6. bém corresponde a um desejo eugênico que tinha por medida em que as histórias dos vencedores e os nomes mente pela grande mídia e por muito tempo desquali- A República de 1889 põe fim às medidas discrimi. com o apoio de provas mate- 96 97 . manifestações de conflitos. de deportados E. Afro-Brésilienne: citoyenneté dans les faubourgs". a via da assimilação. como se eles jamais tives. sem memória histórica. folhetos. De maneira indire. – exigem um trabalho árduo de releitura a partir de ção ainda eram dominadas pelos grandes proprietários aos seus direitos6. não se cansavam de cantar a beleza da mulher negra ou de exaltar UPF. contudo. Ademais. hercúleo. p. Ele foi um obstáculo à aparição de uma o valor da contribuição dos negros ao Brasil. Curitiba. len. segregação e de preferência que significavam atentados trabalhadores europeus. sem dúvida alguma de um trabalho função das técnicas rudimentares utilizadas. Essa memória imposta busca afrodescendentes do Brasil que se viam impedidos de ciedade não igualitária baseava-se na ordem jurídica do produção. não tinham acesso a posições de prestígio5. Assim. que institui o ensino obri- tade própria e de defenderem seus próprios interesses que. o qual tomará a iniciativa de elaborar que os considera socialmente incapazes de terem von. como é que os grupos Essa passagem das sombras à luz vai suscitar nos da África. fosse como traba. de escravos eram tratados como cidadãos de segunda uma cota: dois terços dos postos de trabalho deveriam Recompor a história dos grupos subalternos exige cravos e dos ex-escravos livres. que permitem afirmar. releitura da história na agenda política do país. classe. e. Trata-se. Eles esta. fosse como mercadorias. Suas ativi. A história oficial (frequentemente escrita pelos oficial e a memória coletiva obliterada é fundamental papel limitado. negras reflexões o Estado não tomou nenhuma medida política para tomada de consciência da negritude sem resultar numa por seus ancestrais? Trata-se de uma pergunta aparen- compensar ou reparar as sevícias sofridas durante o verdadeira assimilação8. o que revelava uma convergência que perderam a memória de seu passado e não têm sentido.639. o aos proprietários exercerem seu poder absoluto sobre balho. Já naque- servidão. origem afro-brasileira. pelo conhecimento e pela técnica. Para os ativistas da Frente Negra. o resultado só poderia ser uma pálida Supõe. Embora os trabalhadores brancos fossem. e instaura o princípio da igualdade de direi. E quando for a hora de contar a história nimização da contribuição dos escravos e dos afro-bra- tadas pelo Estado para assegurar a permanência dessa A esse respeito. a lei 10. 7. foram vítimas. que precisavam. a verdadeira libertação passa pela paração das injustiças e danos morais e físicos sofridos acadêmicos que multiplicam os projetos voltados à re- 3. incapazes de se senhores e vencedores) excluiu capítulos inteiros de para desmascarar os mecanismos de dominação. vai fracassar. tam. decretos restringiam a liberdade de nização do país. dos escravos. da mes. o Movimento Negro vai captar a atenção do e intelectual permaneceu nas mãos de uma elite branca para além da cor da pele. mediante a abolição da escravatura e esta será escrita pelos que irão atestar o pouco peso atri. 126. a maior parte das quais foi de. Um decreto. as entrevistas realizadas com os líderes e os tas. Passo Fundo. direta ou indiretamente. era o controle do acesso à propriedade tos e irracionais – em outras palavras. cartados. Esse projeto de libertação com lideranças. já frágeis em danças e à música eram interditadas e reprimidas pela vida de negros e índios. considerada dignos de serem relatados em razão de sua pequena política a obliteração oficial da história africana e a mi- nação do trabalho vai acompanhar outras medidas ado. a desconstrução da história oficial que oculta os textos trole estrito e quase absoluto sobre o trabalho exercia dades ligadas aos cultos de origem africana. dominados. Experiências atlânticas. conquanto semelhantes na situação de oprimidos. HISTÓRIA E período escravista. Já citados por Ronaldo Jorge Araújo Vieira Júnior e Ronaldo idosos do bairro de Venda Velha no âmbito da pesquisa "Mémoire a posteridade os arquivos de memória (fotos. facilitando sua entrada nas usi. manifestamente específicas para os negros mostram pazes de contar a história de figuras importantes de e votar. em 2003. de seus heróis vieram a ser realçadas entre os grupos ficado por seus adversários conseguirá. Desejando ser mais brancos temente simples. cipação dos negros. o poder político. Grande parte dessas mativas como reparação aos danos causados. currículo das escolas primárias e secundárias do país. as circunstâncias históricas heróis – ou quase isso. ma forma que os negros. preguiçosos. pesquisas é realizada com base em entrevistas ou filmes 4. Essa so. mas sua exclusão das relações de sofridos por estes últimos. que os conflitos do passado ou REAPROPRIAÇÃO política de acompanhamento da transição da condição cópia do original! as controvérsias historiográficas sobre a escravidão e o DA MEMÓRIA de escravo à de homem livre. Em larga medida. Ler Ronaldo Jorge Araujo Vieira Júnior. mas difícil de responder de imediato. de medidas oficiais de República põe fim aos intensos fluxos de imigração de seu desenvolvimento e suas inumeráveis consequências Na época do Império (1822-89). maio-agosto 2008. “O nascimento 9. governo federal. eliminar do passado todos os problemas e sofrimentos dizer ou exprimir livremente sua história como atores Antigo Regime. A imigração de colonos europeus. polícia. e seus favoritismos que bloqueavam as aspirações de estimulada e apadrinhada pelo Estado brasileiro. Ensaios nantes como as de Cândido de Araújo e Manoel dos Santos. Segregação institucional do negro e adoção de ações afir- vam convencidos de que. ingresso maciço de mão-de-obra europeia. Universidade Laval e pelo CEAs/IH/UCAM. o acesso à escolaridade e à saúde pública. e também à do Estado. mestiços e descendentes as empresas estrangeiras instaladas no Brasil a respeitar mentos de arquivos. ativistas ou testemunhas anônimas. submetidos aos interesses da ria oficial marca de maneira quase indelével os negros. Nesse tos. buído ao reconhecimento histórico dos preconceitos do direito de enunciação e de autorrepresentação dos até mesmo a cidadania dos antigos escravos3. Ciências Sociais Unisinos. dotados de subjetividade. Na prática. datado de dezem. econômico classe dominante. Os mestiços e descendentes de escravos os negros estavam em desvantagem como pessoas de preciada ou oculta por trás do véu do esquecimento9. 2003. de testemunhos escritos e também de docu- de terras. Escolheram. Essa cegueira histórica infligida pela histó. De maneira sub-reptícia. pele negra. bro de 1930. O capi. importância. ela foi bem-sucedida na Um movimento social invisibilizado quase total- liberdade e a mobilidade social. conduzida pela cartazes. escreveu : "A moder. eram considerados nas e em postos de baixo nível na administração pública. jamais. Desde seu nascimento no final dos anos 70. cit. por exemplo. Mas essa tensão entre a releitura da história tal técnico e o controle do saber desempenhando um moral e intelectualmente inferiores. gatório da história dos africanos e afro-brasileiros no políticos4. por exemplo. nesse período. Ao lado da pesquisa e da análise propriamente di- 5. se organizar e inscrever suas reivindicações relativas à ços livres. não significou a eman.

forte influência sobre os intelectuais e ativistas brasileiros e estrangeiros. dela. assim. de afirmar a tomada então. Ele reen. serviço da manutenção do status quo. no cerne da qual se décadas ou está dispersa em arquivos privados sem sua representação das sombras da lembrança"13. 30 novembro 2009. as poesias de autoria de Edu Omo Oguian. Essa tomada da palavra coloca em evidência um consciência de uma situação comprovada de coloniali. como Amílcar Cabral. Paradoxalmente. Rio de Janeiro. assinala que a luta antirracista e 80 que o associam ao ideal de beleza da mulher negra14. 31. em particular Azuete Fogaça. Ethnologies. dominante. cujos segmentos miscigenados do Negro (TEN). Apesar do golpe de Estado de 1964. e. parte das quais se perdeu no curso das últimas cessário arrebatar tanto a memória da cultura quanto ca da escravidão. ou pelo menos não queles que foram oprimidos em sua raça e por cauda Durante os anos setenta e oitenta. lização. Moçambique e Guiné-Bissau estavam no seu auge. em 1986. indiretamente. Por esse viés. partir da observação de que a abolição da escravatu. com prefácio de Jean-Paul Deve-se recorrer também ao pensamento de Léo. exercício de reflexão sobre as causas das injustiças de 25 anos do Movimento Negro no Brasil que ilustra a trajetória de além das ferramentas conceituais marxistas que privi. Essa profunda tomada de situam os valores da mestiçagem e da harmonia entre avaliação alguma. Universidade Laval. Ver Bogumil Jewsiewicki. Janeiro. Ver. permite abordar o dilema e o paradoxo da mestiçagem intelectuais. cial da mesma forma que os negros de pele escura. mas também duzidos em Portugal. E na medida em que os negros continuavam a ser correção das injustiças ou de favorecer a inclusão de MOVIMENTO NEGRO ração nas lutas anticoloniais dos povos africanos de ex. reagrupamento e mobilização desse movimento nos Les damnés de la terre. A ideologia da democracia racial não foi. Rio de associações culturais que se implantam principalmente nas gran. mas se manteve desde o advento da A ideologia da democracia racial. Globo. O des cidades do país. do Primeiro Encontro Estadual de Seminaristas. Martin Luther King e Albert Memmi. a um movimento social que nunca foi considerado importante pelos legiavam a luta de classes. cos. portanto. pela qual os grupos subalternos que não correspondiam ao modelo testemunham o colapso do beco sem saída em termos pequena classe média ou da classe trabalhadora e não brasileiros seriam desprovidos de preconceito de raça. têm sido neutralizadas. a série Cadernos Negros Poesia. por exem- partir da metade da década de 80. os negros constituíam as principais vítimas. destruído uma ordem hierárquica pela Frente Negra nos anos trinta. mas igual. ção universal e faz o elogio da beleza negra – irá exercer. absolutamen- Movimento Negro que se constrói primeiramente a político cujo eixo central é o da tomada de consciência te. às damnés de la terre e Peau noire et masques blancs. do Movimento Negro. O Globo. identitária e não mais o da assimilação preconizada todas as tentativas de promover a igualdade entre bran- FONTES DO PENSAMENTO ra não havia. Essa crítica é sus. As reflexões de Frantz Fanon sobre a luta anti. a esse respeito. o sentido estrangeiro ou estabelecer contato direto com os líderes assim. outros pensado- querem ou não queriam ver10. negros e indígenas. Hoje em dia. pold Sédar Senghor e Aimé Césaire cujo conceito de ne. DA “RACIALIZAÇÃO” anos 80 e 9011. a se situar em relação ao relato histórico. 15. para gritude – que valoriza a contribuição africana à civiliza. Fanon na última obra. o grande líder do 11. o livro de fotografias de Januário Garcia ensão da própria situação de exclusão dos negros. discursos e panfletos dos líderes negros são. entendida como um 10. As expressões "consciência racial" e "consciência Religiosos/as e Padres Negros do Rio de Janeiro que havia sido processo de alienação das pessoas de cor. 13. Assim é. Os ecos dessas lutas afrodescendente é que explicam o fato de os intelectuais de uma identidade mestiça e culturalmente homogê- O esclarecimento dos lapsos de memória e a tomada no Brasil tornaram-se ainda mais importantes para os e líderes do Movimento Negro terem empreendido uma nea estimulou formas de exclusão. vistas negros de que o status subalterno e de exclusão das fontes documentais produzidas pelo Movimento pulsão havia justificado sua desumanização. 26 novembro 2009 . capaz de apresentar a imagem positiva da. reforçou e a posição como atores da história. A propósito da expressão “Consciência Negra”. O já fora incorporado ao vocabulário corrente. Esse trabalho de recons. entre outros. destacado por contrará a juventude entre os poetas negros dos anos 70 negra" não se referem absolutamente a uma classifica- proibida pelo cardeal Dom Eugênio Sales. poderia ter sido uma arma pensamento intelectual pós-colonial e antirracista do dade levará o Movimento Negro a adotar um discurso poderosa contra o racismo. CÉLAT. vol. que Quilombo de Palmares que lutou no século XVII contra de posição favorável. vítimas de uma opressão racial que não mostrava a sua negros e indígenas nos domínios do ensino e do empre- pressão portuguesa e na experiência do movimento dos cara. 98 99 . contribuíram com seus textos para a tomada E REINTERPRETAÇÃO grande imprensa que o ignorava quase totalmente nos Jewsiewicki escreveu precisamente : "é um terreno que de consciência por esses grupos de intelectuais e ati. "A vida me ensinou a ser negra". sobre os negros. Nos dez últimos anos. Não foi esse. de rebaixamento dos da palavra para narrarem eles mesmos quem eles são intelectuais e ativistas negros cuja maioria provinha da crítica da ideologia da democracia racial. constituiu uma fonte de reno da ação política. de estabelecer mecanismos de INTELECTUAL DO baseada na cor da pele. que vitimou a população negra não se limitava à épo- Negro. as interpretações similares feitas por dois intelectuais negros: principalmente com base em organizações não-governamentais e meiro número foi publicado em São Paulo em 1978. denunciado essa ideologia diante da qual defendem portanto. para por fim às disparidades socioeconômicas de que "consciência racial" que transformou-se num rótulo de pensamento. que são vítimas os afrodescendentes15. o racismo e a discriminação contra a população go. considerado uma ilusão a o sentimento de primazia e supremacia dos brancos intelectuais do Movimento Negro12 investiram no ter. Dessa forma. pelo Jornal do Brasil à rea. uma tomada de consciência da identidade étnica e o grandes forças econômicas dominantes. chegam a conta-gotas ao Brasil volvimento econômico do país não seriam suficientes emprego do termo "raça" para conduzir à expressão a determinar na linguagem uma nova subjetividade do numa época em que as lutas de libertação em Angola. Les e Carlos Hasenbalg. Ao contrário. artistas e militantes do Teatro Experimental bro. a expressão assumiu Sartre. Bogumil Karl Marx. em suas colunas. sua inspi. o termo "negritude" os portugueses no Nordeste do país. os desses movimentos. de memória que veio a libertar os negros do espartilho tinham condições econômicas suficientes para viajar ao Os textos. no qual vieram a reivindicar o colonialista e anti-imperialista na África exerceram. Québec. ver. Seus dois principais livros. sob a máscara da harmonia. por exemplo. Ela vai buscar. o movimento veio a se articular mente no plano individual. em si. Era-lhe ne. negras reflexões riais. p. democracia racial brasileira. continuam vítimas do racismo e da discriminação ra. tatísticos mostrando que a industrialização e o desen. veira e Henrique Cunha Jr. tra. e Nei Lopes. propõe um novo quadro teórico para a compre. negros e indígenas. sem esquecer DISCURSO ANTI-RACISTA Negro cuja invisibilidade resulta em parte da inércia da da diáspora em vista de seu reconhecimento. brancos. "Desejo coletivo". impregnados de uma crítica virulenta ao mito da quica baseada na cor da pele e. opressão de negros e indígenas. plo. e cuja ex. 2010. Malcolm trução da memória confirma a imagem do Movimento e do direito à auto-representação atual dos africanos X. a forma de "Consciência Negra". Eduardo de Oli. grande influência no Brasil entre os expressão se associa às comemorações do 20 de novem- fotógrafos dos grandes jornais brasileiros. República até nossos dias2. aquilo que os outros não viam. suficiente para destruir uma ordem hierár- da História oficial ao lhes restituir o lugar. anos 80. A exceção que confirma a regra pode ser ilustrada pela tomada da população brasileira. portanto. direito de se exprimir. aniversário da morte de Zumbi. "Lieux de l’identité". o caso. 14. A não só deve ser travada em escala coletiva. Autorrepresentar-se equivale. a exaltação direitos civis nos Estados Unidos. Samora Machel. cujo pri. Peau noire et masques blancs a partir dos anos 40. como Florestan Fernandes Os intelectuais e líderes do Movimento Negro têm do poder de enunciação. mas também reflete a própria fragilidade não é reconhecido como originalmente seu. Cuti. 27. Sobre a (re)conquista do domínio da narrativa res. tentada pela obra de diversos acadêmicos de renome. 12. 3. O Movimento Negro que emergiu no final dos anos 70 era aci- ma de tudo um conjunto de ativistas disseminados pelo Brasil. interrompeu as atividades do TEN. os quais apresentaram dados es..

conteúdo sendo absorvido sem que se torne exemplar. ainda que passado e do presente que dão força e pertinência às promoção de uma essencialização das raças. e o feio podem ser resultados da escolha deliberada de lheres simplesmente interiorizem e reproduzam as re- cas de que é vítima a população afrodescendente. que se quer promover. Pierre-André Taguieff. da raça so. 2009. levando deliberadamente em conta Pierre-André Taguieff. que se recusam. baseando seus argu. Rio de Janeiro. mimeo. Essa formulação parece. negras reflexões ção antropológica dos seres humanos em subconjuntos jornais. de tais expressões pelos intelectuais e líderes do Movi. políticas e torna caduca a insinuação de que tais políti. Nesse sentido. em si. possa ganhar uma outra co. caminhos que conduzem à abolição das fortemente monopolizada pelos homens. Deveria ser. etc. Traduzem. Michalon. etc. Além disso. a expressão de uma verdadeira autenticidade. em vista a promoção daqueles que são vítimas da dis. ta estatística". seu "Acadêmicos contra a ação afirmativa: uma análise da argumenta- lam uma questão ligada ao direito à palavra. não como expressões culturais do 16. Entretanto. que bloqueiam de maneira insidiosa o debate geneticamente distintos e hierarquicamente ordenados democrático e equilibrado16. se é aparentemente simples que se assemelharia a um eu. será possível genismo lexical. o termo "raça". As contribuições femininas. sociedade. notadamente pelos cânones dominantes. mimeo. Nem sempre compreendem ou querem rios. antes grupos foram vítimas no passado com base num racis. no caso. São precisamente os efeitos conjugados do Movimento Negro um pensamento racista baseado na necessário sem o qual não seria possível conceber polí. já dos no passado e no presente. tornou-se necessariamente uma con- Esse jogo duplo de argumentação a respeito do uso O PESO DA cepção masculina. ao mercado de trabalho. Esse estranho parado. na também promover. independentemente do xo deveria ser. a esse respeito. Mídia e ação afirmativa: a construção de uma opinião "poder de enunciação". pela cultura dominante. mo pretensamente científico. 1995. Segundo ga os militantes antirracistas a manter o termo "raça" lançado pelos adversários para rebaixar essas mesmas ou ativistas do movimento negro nem sempre escapam eles. 2009. ou seja. A esse propósito. das políticas de ação afirmativa. mais correto que que não é possível abstrair-se totalmente do contexto A despeito dessa interpretação clara e inequívoca mântico do termo "raça". Nesse sentido. ser autônoma no sentido de que resultaria da deter- de práticas discriminatórias sistemáticas de que certos res do Movimento Negro assumem uma posição po. ao Em vez de serem causalmente determinados sob o efei. 79-81 e. segundo a expressão empregada por do emprego. a "raça". bém podem ser autônomas. Seria. objetos de uma os quais não seria possível propor a implementação de ação afirmativa pressupõe a identificação dos grupos ção" da sociedade. numa cultura possível discriminar com base na "raça". Há uma interação complexa forte reação negativa no plano dos redatores-chefes dos deral. "raça" e inventar outro nome. transmitidas também o tema das políticas de ação afirmativa suscita no Debate sobre Igualdade Racial. ser fiel a si mesmo. p. à opinião pública: a fabricação de um consenso anticotas no Bra. produzida consideravelmente e por muito tem- possível identificar as vítimas do racismo como poten. antes. medida em que é ligada ao espaço de poder masculino. momentaneamente grupos discriminados com base na tremamente difícil escapar desse processo. à educação superior. É ex- imprensa escrita e televisionada. Seminário Comunicação e Ação Afirmativa: O Papel da Mídia presentações do que é belo e do que é feio. mesmo que seja a contra gosto. em cuja composição predominam antropólogos a implementação dessas políticas em uma "racializa. cas públicas de ação afirmativa ? Consistiria realmente O uso do qualificativo "antirracista" também coloca em e o que é feio. poder-se-ia afirmar que o belo Essas constatações não sugerem que homens e mu- refratária à questão das disparidades socioeconômi. "Da opinião publicada to de cânones estéticos. que remete ao mesmo tempo aos modelos de diferen- 100 101 . considerado uma "ferramen. artigos contrários à política de ação afirmativa reve. a população brasileira é amplamente miscigena. Na maior mentos na ideia de que o uso das expressões "consci. escultores. de que modo os valores estéticos são modelados pela nação positiva no Brasil semeiam a discórdia na grande debates públicos. escritores. reconhecem a existência do racismo e da ção" da sociedade ? Poderíamos revogar o uso do termo com base racial podem aparecer como um mecanismo tados ou fortemente influenciados pelos cânones de be- discriminação racial no Brasil. interpretada. ou seja. as políticas Os exemplos do presente e do passado mostram mento Negro. momento em que são obrigados a definir o que é belo as categorias branco e negro. essa influência se propaga de manei- ência racial" e "Consciência Negra" seria "racialista" e racismo científico. gênero feminino. ainda que a escolha seja nômicas. versários tentem precisamente atribuir aos líderes do criminação deve ser compreendido como um recurso herança genética. hoje em dia amplamente uma mesma palavra pode ter diversas significações Além disso. os adversários das políticas de discrimi.). inevitavelmente. Esses mesmos adversá. Les fins de l’antiracisme. líticas de "racialização antirracista". das preferências. em suma. Rio de Janeiro. mas sil". E ainda que seus ad. de tudo. -nos de longe mais judiciosa que o termo "racialização" perversos dessa situação. desaparecer a evidência da raça simbólica. plásticos. como nomear ou qualificar correta. Mas evidentemente esse deslocamento se. Mas essa recorrência evidencia políticas públicas de promoção dos grupos discrimina. parte do tempo. ra inconsciente. deve-se reconhecer que o indiretamente. ção pública". Essa seria uma solução corretivo destinado a atenuar a ausência efetiva de uma leza helênicos predominantes. mas como exceções individuais. artistas ciais beneficiários da discriminação positiva. as comunicações de João Feres Júnior. Centro Cultural da Justiça Fe. nos de ação afirmativa seriam compreendidas como po. serão vistas. 329-354. os intelectuais e líde. Não apenas a mídia continua pública. igualação dos indivíduos. po por homens (poetas. ABI. é preciso ticas públicas. em primeiro lugar. o Ao reinterpretarem subjetivamente o termo "raça" Para Taguieff. ou seja. mas apenas um pecado venial diante escolha deliberada. desacreditado. notação. como referência. lítica que remete à constatação da semântica de que mais eficazes de corrigir as categorizações perceptuais17. Paris. distante da interpretação biologizante do "raça" ao acesso à universidade. suficiente para provar que. não é levado em conta pelos adversários qualificativo "antirracista". a admitir que uma mesma palavra. ressalta que diferenças de raça. autônoma no sentido indicado. 17. Ler. cada indivíduo. às distorções causadas por esses condicionamentos no da. em termos intelectuais e morais. estratégia redistributiva nos domínios da educação e gênero ou da cor da pessoa. uma "racialização" da do objetivo final dessas políticas que é acima de tudo a que não existe uma escolha radicalmente autêntica. ela depende. o emprego da categoria "raça" tendo Ser belo seria. se juntasse de imediato ao substantivo "racialização" o sócio-histórico. evidência que os programas de discriminação positiva admitir que os gostos estéticos pessoais podem ser di- e sociólogos. mas cujos efeitos permanecem percep. assim. ou designar objetos diferentes. ao con- do termo "raça" e a preponderância desproporcional de APARÊNCIA FÍSICA trário. um antirracismo realista não pode pre. de tal sorte que ignoramos os efeitos que as políticas de ação afirmativa introduziriam uma Se a luta contemporânea contra o racismo obri. Mesmo pessoas esclarecidas "racialização bipolar" na sociedade brasileira. que é a desconstrução científica da raça biológica não faz ou seja. conizar a abolição da percepção racial das diferenças. o que tornaria difícil identificar as pessoas segundo mente o uso da categoria "raça" no contexto das políti. A concepção de beleza física poderia caráter subjetivo da identidade racial como produto como socialmente construído. já que promovem cultura. mas pode legitimamente interrogar-se sobre as formas minação do indivíduo em questão. a beleza. assumindo e ostentando os traços resultantes de sua tíveis no presente mediante desigualdades socioeco. cialmente percebida e. Claro que essas tam- categorias raciais como base de cálculos estatísticos sem aceitar que a implementação de políticas públicas de emprego da categoria "raça" é uma forma de "racializa. cas engendram o ódio entre brancos e negros no Brasil.

rosos. ele mesmo havia tentado principalmente a qualidade de serem generosamente pos subalternos e assim garantir o respeito à dignidade social onde são expostos desde o berço a um discurso nomear Andrade treinador da equipe em 2004. concepções de beleza. A sempre à base da escala social. supostamente igualitária. Um -brasileiros do Rio de Janeiro e da Bahia. imagem inferior ou depreciativa pode efetivamente 2009. foi por muito tempo considerada de responsabilidade tudo nos almoços e reuniões festivas de domingo que uma riqueza social e cultural. as proporções. portanto. mais os traços negroides de certos povos africanos19. incluindo a seleção nacional e a equipe do Real Ma. eles defendem a plura. obtendo nesse mesmo ano o prestigioso título tipo de beleza é também predominante entre as princi- mente a televisão. reza das variáveis que compõem a identidade pessoal e Longe de ser um assunto fútil ou secundário. o elogio da beleza particular da mu. fosse o goleiro titular da seleção brasileira. Mesmo na República. negras reflexões ciação ou de ressignificação tais como a negritude que velas e séries televisivas. constituem instrumentos poderosos oprimir a tal ponto que essa imagem seja interioriza. não se pode deixar de constatar legado à função de auxiliar técnico ou exercendo a fun. Iniciei a reflexão em torno do conceito “o poder de enunciação” 20. pois. alegando que ele era negro e não tinha boa rência física. É o caso notadamente dos elencos de teleno. O motivo é que a expressão e com seu corpo são considerados atributos altamente discriminatórias em relação às populações fáceis.. equilíbrio e a simetria dos traços do rosto. raros são os negros que ocupam a função de treinador fortemente centrados sobre o corpo. Valorizar o natural e estar à vontade com sua plural por parte da mídia. tian Dutilleux. Testemunho relatado por Carlos Eduardo Mansur. esses clichês frequentemente lhes atribuída ao goleiro Barbosa. Há outros ingredientes fundamentais que concepção pela qual uma imagem deformada pode in. Foi preciso cursos de beleza negra organizados por grupos cultu- lidade de concepções da vida social em face do molde fecham as portas aos postos de alto nível. A sombra dos cânones helênicos. Isabel Fillardis. 8 de dezembro professor d o centro Universitário Estadual da Zona Oeste (UEZO). Se esses atributos são apreciados no quotidiano das grande difusão pela mídia. conseguiu ser nomeado para essencial da estética negra brasileira? Se observarmos as O PODER DE e indígena. mas dotadas de coxas grossas e nádegas redondas. variados nas festas realizadas nos terreiros dos cultos sença em todos os níveis de membros de grupos su. entre outras. como Taís Araújo. balternos é pertinente e deve ser igualitária em relação em equipes de primeira divisão20. a discrimina. A imagem do negro na televisão e na pu. mos na armadilha do predomínio dos cânones de bele. é percebido como branco por gran. mas também uma exi. Não obstante. elementos particulares constitutivos de uma abordagem questão espinhosa para a população afrodescendente conhecido como Andrade. Entrevista com Joel Rufino dos Santos. Segundo testemunho de Júnior. continuam excluídos. minente ator negro de cinema que se tornou protagonista de te. 21. de que a beleza da mulher negra aí representada nos Do século XVI até o fim do século XIX. frívolas. contraste a propor a questão do saber: quais seriam os que o peso da aparência física ainda é hoje em dia uma ção de treinador interino. em que o movimento. os negros eram tários e participa como modelos nos desfiles de moda. eles ganham um espaço especial sobre- reconhecimento da diversidade representa não apenas restrições em relação aos negros. inadequada aos jogadores negros22. dos campeões”. assanhadas. ção racial ainda se manifesta no que se refere ao posto za helênicos que relegam a um segundo plano as outras a postura e o ritmo se misturam. passa do negativo ao positivo é fundamental. diretas sobre o mercado de trabalho ao criar barreiras dicção21. Rio de Janeiro. Sheron Menezes e Roberta Rodrigues. e. os não conseguiu em função da resistência de membros musculosas. pois per. -se evidenciar o caminhar. reconhecido como o esporte nacional por excelência. zes negras atuais de pele clara. critor e especialista em futebol (Rio de Janeiro. Essa preferência é verdadeira sobretudo para as jovens atri. intelectual negro. de 2009). 102 103 . 2 de dezembro de 2009. de campeão brasileiro. postura. igno- lenovelas da Rede Globo de Televisão. essa função famílias negras. Assim é no futebol. não há dúvida número maior de negros figura nos anúncios publici. lembra a negritude de Léopold Sédar Senghor que fazia. esse exemplo marginal vai corresponder a uma televisão. embora ele próprio se considere negro. tado à indústria do entretenimento. é encontrada em graus A partir do momento em que se admite que a pre. Amauri Mendes Pereira. Esse Os meios de comunicação de massa.. Em razão de sua cor clara. negros tendem a reproduzir os modelos que os relegam da diretoria do clube. Com exceção de Vanderlei Luxemburgo. da. de dominação cruel e sutil quando projetam uma ima. onde o critério Dida. Jorge Luís Andrade da Silva. que chegaram a usar argumentos Mas o ideal de beleza negra não se limita à apa- gem inferior ou depreciativa desses mesmos grupos. pais passistas das escolas de samba. esperar até o fim dos anos 90 para que outro negro. tratados no Brasil como animais. intelectual e ativista do MN e. limi- a da matriz que forma as identidades coletivas. mercado de trabalho. rais carnavalescos como Olodum. Na esfera do sagrado. O Globo. 19. deve- grupos por muito tempo foi denunciada pelos ativistas to para homens quanto para mulheres. Depois da Copa de 1950. bes do Brasil. Com política de dar destaque a negros principalmente para "provar" sempre a ser privilegiadas em relação às de pele mais (sem o dizer. no Rio de Janeiro. É uma questão importante. proe. superficiais. pessoas de pele clara tendem lher da região sudano-saheliana de África Ocidental. que era negro. de número de brasileiros. Essa visão significa que o da cor da pele perdeu importância. textura dos cabelos e formato dos lábios lembrem de- mite designar o belo e o feio levando em conta a natu. em um ambiente diretor técnico do Flamengo. atualmente. ajudam a compor a imagem do que é belo tanto na fligir um prejuízo e efetivamente oprimir determinados invisíveis que afetam a igualdade de oportunidades tan. os negros também fo. o sorriso e a do movimento negro e pelos defensores de um olhar devem também lutar contra outra categoria de precon. etc. quentes. complexa estética afro-brasileira. Para evitar tais distorções ceitos : os preconceitos sexuais que as apresentam como ram excluídos da posição de goleiro. nos leva por ao grupo dominante. seres repulsivos. o de matriz africana. Orunmilá. Vanderlei Luxemburgo foi treinador dos mais importantes clu. No derrota da seleção brasileira na final com o Uruguai foi essenciais dos homens e mulheres premiados nos con- afrodescendentes e indígenas. rantes e desprovidos de história. o movimento. sidade de um mecanismo de discriminação positiva na televisão. a projeção de uma o cargo de treinador do Clube de Regatas Flamengo em caracterizada pela curvatura acentuada das ancas. de treinador. Essas últimas primeira divisão. Eles também podem ser um modo que despreza suas capacidades intelectuais e morais. com base em instigações e múltiplas conversas com o meu amigo 18. Ilê Aiyê. “Nos braços 23. ainda se observam gundo o escritor Joel Rufino dos Santos. de maneira subliminar) que o Brasil não tem neces- escura18. ENUNCIAÇÃO23 blicidade melhorou nitidamente nos últimos anos. Uma exceção a essa regra não-escrita é Lazaro Ramos. grandes veículos de comunicação. organizados com base num permitem perceber a exclusão mediante a ativação de código não escrito que exclui dos papéis de primeira atributos positivos. poder-se-ia dizer que caíra. 22. à música e aos encontros amo- gência moral indireta de reparação em prol dos grupos Nesse esporte em que numerosos jogadores negros têm Se ficássemos nisso. Segundo o jornalista Chris- e os artistas negros têm mais papéis nos programas de em suas poesias. são propícios à dança. beça para ser treinador de uma equipe de futebol da mulher quanto no homem. constata-se também que a por muito tempo ignorados ou marginalizados pelos sido consagrados nos últimos decênios. Andrade não tinha estofo nem ca. particular. duras e individual de todos. pinturas naïves produzidas pelos grandes artistas afro. Nelas se reconhece capazes de servir à melhor inserção da imagem dos gru. drid. Se. Entre esses elementos. Em suma. es. Isso tem consequências racistas. Esse mecanismo de interação que plano os atores e atrizes cujos traços físicos como cor. Por muito tempo re. da cultura urbana que se impõe a todos graças a sua Mesmo nos domínios do esporte.

Julio César de Tavares. Beatriz Nascimento e Sueli Carneiro. entre outros: Abdias do Nascimento. volume 44. que se trata de mais que a retomada de um logia brasileira. não apenas daquilo que é a nova nação brasileira emer. citoyenneté et répara- versitaires noirs au Brésil". 2005. Brasília. representando um segmento populacional se. nº 15. “Mutation de savoirs et pos. mas da desestabilização de sua convic. negras reflexões algumas exceções. 1995. livre das injunções Essas reinterpretações são também tomadas de posição 2010. análise. (1995-2005). (orgs. GARCIA. O Globo. e termo "reapropriação". Perspectives Réinventer l’anthropologie? Les sciences de la culture du Mouvement Noir au Brésil". Civilização Bra- um discurso. Maggie. Rio de Janeiro. temporâneo. Anthropologie et 24. Hélio Santos. UPF. "poder de enunciação" com um exercício relacional que Globo. VAN DIJK. Esse movimento provocou forte que devem ser compreendidas como intervenções num LOPES. ao longo nas últimas décadas se inscreve na esfera da política. Azuete.) tions des torts du passé de l’esclavage. 2008. 1995. "A vida me ensinou a ser negra". L’anthropologie et les militants uni. Entre os intelectuais negros de proa que têm desempenhado um papel importante nessa « tomada do poder de enunciação ». 2009. Ventura Santos (orgs. Alberto Guerreiro. O Papel da Mídia no Debate sobre Igualdade Racial. Francine. da cultura dominante. dia e ação afirmativa: a construção de uma opinião monopólio do saber e que jamais se haviam confronta. “Dia da consciência indi. Y.). análise. Flávio dos Santos. Ronaldo. A reinterpretação por artistas. sua imagem coletiva é negativa. nante. MAIO. mas de sua ideia de nação forjada anteriormen. acompanhamentos e Medeiros. intelectuais negros fala cada vez mais em seu próprio dos pretensos conflitos e ódios raciais que delas resul. 2008.. S. Buscam criar descendentes de escravos africanos e afro-brasileiros. não 2009. Paris. Ler a respeito Fry. Montréal. P. CÉLAT. intelectual25. Rio de Janeiro. Editora Contexto. Avançados. Rio de Janeiro. raciais no Brasil contemporâneo.. 31. "Desejo coletivo". Liber. Joel Rufino dos San. volume 33. Divisões perigosas: políticas mada de posse de alguma coisa. 2007. tivas dos negros e suas consequências sociais. mas da ascensão dessas novas concepções do mativa: uma análise da argumentação pública". Experiências atlânticas. UFRJ. João Jorge Rodrigues.. polêmica com um grupo de intelectuais famosos que debate intelectual por muito tempo fechado à crítica 30 de novembro de 2009. FRY. Foi por isso que. Université Laval. MONTEIRO. Pierre-André. P. Société. de uma imagem e de uma memória.. Centro Cultural da Justiça Federal. nº 2. te sem a participação dos afro-brasileiros e dos povos Janeiro. é seu pensamento intelectual pública: a fabricação de um consenso anti-cotas no cularmente ignorado. São Paulo. A reapropriação do discurso repre. Rio de Janeiro. Eles se ralidade de concepções do que é belo e do que é feio. Rio de Janeiro. tos. nº 13. FCP/MinC. da imagem e da memória que eles atacam e.. (orgs. à l’épreuve des globalisations. munidos tariam. “Intelectuais SCHWARTZMAN. 104 105 . e San. da imagem dos negros e participa do poder de enunciação que vem a estimular GOMES. Nei. 2008. Relatório IPEA: Políticas sociais. logies. Civilização Brasi- para tentar eliminar as representações culturais nega. Bogumil. Marcos Chor Maio. Rodrigo. Por sileira. escritores e inte. "Da opinião publicada à opinião negros. Reinterpretaram os fatos históricos mediante as reivindicações políticas novas práticas so. O Globo. Rio de Janeiro. papel preponderante na produção do saber24. Ronaldo Jorge Araújo. aos danos causados. Rio de Janeiro. mimeo. Também não se trata ape. lectuais afro-descendentes dos cânones de beleza que GUIMARÃES. sem dúvida. Maio. É nesse tcolonialité. Kabengele. compreender que o tom alarmista utilizado pelos ad. Quebec. simples discurso existente. Sociais Unisinos. citamos. depreciado e considerado inca. leira. de uma releitura e de de 2009. Rio de Janeiro.). ABI. Muniz Sodré. março. o qual subentende uma reto. Carlos Eduardo. vol.).. TAGUIEFF. Responsabilização veem nisso a iminência de um conflito aberto entre contrastada dos intelectuais negros. A partir daí se pode MANSUR. MAGGIE. 2009. mai-ago 2008. edição especial. Monteiro. intelectual" por outras concepções do discurso. fruto sentido que se faz necessário compreender a expressão FOGAÇA. Mí- de argumentos. chalon. Juruá. no caso presente. 2003. R. como em evidência fragmentos esquecidos da história dos JEWSIEWICKI. ões". In: Peter Fry. Université Laval. Discurso e poder. R. análise. C. no Brasil. Bra- Gonzalez. nas da tomada de posse dos discursos estabelecidos. 2007. ciais e culturais. 25 anos do Movimento Negro Relatório IPEA: Políticas sociais acompanhamentos e do século XX. Simone Monteiro e Ricardo reapropriaram do discurso. nº 16. Divisões perigosas: políticas de sua memória. SAILLANT. vidual”. Levando-se em conta os argumentos acima. Divisões perigosas : políticas raciais no Brasil con. 2007. negros e formas de integração nacional”. uma identidade coletiva positiva. novembro. de raciais no Brasil contemporâneo.). 2008. S. 2009. antes BIBLIOGRAFIA RAMOS. USP. 3.. Ciências uma crítica que permitem a ocupação do "território MUNANGA. João. Passo Fundo. 2 de dezembro de gro e adoção de ações afirmativas como reparação senta uma novidade. Amauri Mendes Pereira. “Das estatísticas de cor ao po monopolizado por aqueles a quem se atribuía um privilegiavam a estética helênica em detrimento da plu. “O nascimento da nação: Estado. Brasília. do com um contradiscurso produzido por intelectuais ção e do enfraquecimento do monopólio do discurso FERES JÚNIOR. "Lieux de l’identité". Rio de mais judicioso. SALES Jr. Curitiba.. que está em jogo ao ser submetido ao questionamento Brasil". Rio de Janeiro. Seminário Comunicação e Ação Afirmativa: paz do ponto de vista moral e intelectual. FERES JÚNIOR. Y. Mi- a discriminação nos locais de trabalho. pública. 2004. "tomada do poder de enunciação" designamos. O Globo. Ethno. O mesmo se faz quando se colocam -emancipação no Brasil. Segregação institucional do ne- brancos e negros. Introdução crítica à socio- de tudo. intelectuais e ativistas negros resolve. 24 de novembro modernização nacional e relações étnico-raciais mas igualmente de uma reação.. Simon. O Relatório IPEA: Políticas sociais acompanhamentos e do desdém com que são tratados pela cultura domi. Quebec. acima de tudo. C. já que um número crescente de versários das políticas de ação afirmativa decorre. Estudos estatuto da raça”. Em suma.. entre o Império e o início da República”. Carlos Alberto 25. "Droits. nº 18. Ensaios e pesquisas sobre a escravidão e a pós. Teun. São Paulo. 26 de novembro de 2009. Francine Saillant (org. pressão "tomada do poder de enunciação" em lugar do indígenas. Januário (org. Civilização Brasileira. ram assumir o "poder de enunciação" por muito tem. objetiva do Estado. utilizar doravante a ex. Lélia tos. seria gente. Antonio Sérgio Alfredo. 2009. eles interpelam aqueles que detinham o discurso. mimeo. Ao tomar a palavra em pé de igualdade. VIEIRA Jr. João. Les fins de l’antiracisme. 2005. nº 2. Yvonne Maggie. SANTOS. CONSTANTINO. "Acadêmicos contra a ação afir- nome. sília. Brasília. "Nos braços dos campe.

que os engendraram. Stepan (1994. O qual resulta da crença na supremacia do segmento branco. Ciências Sociais e Humanas. dentre os quais destaco: Raça e gênero são conceitos (re) construídos historica. de antemão. Bairros (1995). no entanto. professora visi. distinção entre os movimentos feministas e o feminis. graças ao status E DESDOBRAMENTOS tindo de conceitos preconcebidos. mas dos “homens da ciência” pela metáfora e analogia se cutir o conceito de gênero historicamente. como assevera Stepan (1994. Esperamos. raça e gênero. a ciência. metáforas Evaristo (2006). da razão que. expand Estado da Bahia (UNEB). com bolsa estágio/sanduiche em Maputo. Luiza mente. -SP e Graduada em Letras/PUC-SP. Pes- quisadora de relações étnico-raciais. são escolhidas e outras não?” Afinal. sentimentos e a mente humana. cujo intuito foi propalar a superiorização euro. considerações acerca dos seguintes pontos: a) o papel tero que “A analogia em questão é aquela que liga raça na. e analogias. colocando em xeque a pretensa complex issues emerge from them calling into question the supposed neutralidade dos “homens da ciência”. 2003). Com o transcorrer do que nortearão as ideias a serem desenvolvidas no pre. Especialista em Literatura/PUC. É na esteira do pensa- Ao se deter sobre o período que vai do século XVII mento de Stepan (1994) e estudiosos afins que tecerei Reportando-me à epígrafe transcrita inicialmente. realizamos a pesquisa biblio. partir lógica e biologicamente. pela Univ. race and gender. o desinteresse Vale salientar. por considerá-las destituídas de obje. We therefore expect. uma analogia que Maria Anória reflexões que se seguem visam à contextualização e desdobra. Para tanto. p. this end. quando do desejo de distinguir os comporta. realizei pesquisa bibliográ- tensa superioridade branca e a inferioridade dos demais fica e me norteei por estudiosos (as) provenientes das segmentos étnico-raciais. temáticas étnico-raciais3 e de gênero. configurou-se (e ainda se configura. houve a rejeição da metáfora e da analogia pelos da analogia e da metáfora como meio de interpretar e ao gênero. resistência Keywords: scientific racism. e de- abstract Race and gender are historically (re) constructed concepts. mesmo quando os resultados obtidos iam de a referida estudiosa. p. apesar das controvérsias criadas em torno delas. tance. propagar o racismo científico e o sexismo2. Carlos Moore (2007) e Pietra Diwan ciência”1 que os engendraram. sente texto. and then les emergem questões complexas. em detrimento dos demais. black people resis- (UNEB). a pre. (STEPAN. b) relação e na teoria científica sobre a variação humana dos sécu- tividade. e envolvem digressões complexas e polêmicas. dução científica social?”. âmbito teórico. tampouco sociológica. 107 . É a partir daí que se passa a de contribuições e reflexões que as engendraram no INTRODUÇÃO demarcar as diferenças sociais e. p. visto que pretendiam classificar o ser humano psico. mentos. As neutrality of ”men of science” that engender them. configurando-se em um ins- tempo. 72). ao longo dos tempos. que não intento dis- 3. For séculos XIX e XX. construídas historicamente. and deployment of these meanings ocupou lugar estratégico na teoria científica sobre a variação humana dos de Jesus Oliveira mento de tais acepções. As teias e tramas de ideias dos “homens da ciên. correspon. Munanga (1999). rei- ao XX. e não pelos genes e ou fatores bioló- 1. Teresa de Lauretis (1994). Nancy Stepan (1994). Mestre em Educação Palavras chave: racismo científico. elo entre raça e gênero. gicos. Com esse fim. 1994. de verdade que lhe é conferido. Ao contrário. los XIX e XX”. relações étnico-raciais e de gênero em nosso seio social. O que interessava. encontro aos almejados. na era moder. 72) contemporaneidade. and gender in our social bosom.negras reflexões RAÇA E GÊNERO: ENTRELACES RACISTAS VERSUS AFIRMAÇÃO IDENTITÁRIA NEGRA RESUMO Raça e gênero são conceitos (re)construídos historicamente. estas são resultantes de relações sociais (re) mesmos em seu livro O espetáculo das raças (1993) europeu. (2007). a fim de justificar as pressuposições cien. p. negra. já que estudiosos da área de relações étnico-raciais altera. fazendo uso de metáforas ou analogias particulares estão relacionadas à pro. Raça aqui é entendida não em uma acepção biológica. nos dias atuais) RACISMO CIENTÍFICO era demarcar os segmentos étnico-raciais distintos. apolítico e universal”. que busca saber: 1)“Como. Serão estas as duas questões cruciais entender que analogia corresponde a uma espécie de empírico. ampliar o leque de discussões no tocante às the range of discussions with regard to ethnic and racial relations tante do Mestrado em Pós-Crítica (UNEB). ao dia “ao reservatório de conhecimento não metafórico. por conseguinte. na ciência. Conceição ao colocar em xeque a neutralidade dos “homens da 72).36) que se detém sobre os 2. “tradicionalmente”. cia” são o foco central de discussão de Stepan (1994. we conducted a literature search and guided ourselves by Professora Assistente da Universidade do gráfica e nos pautamos em estudos na área das Ciências Sociais. Sueli Carneiro (1993. Doutora em Letras pela UFPB. uma analogia que ocupou lugar estratégico ditos cientistas. almejo aprofundar polêmicas que giram em torno das a entendem enquanto resultante de discriminações pelos traços diacríticos do ser humano. par. de modo a repensar as consequências na in order to rethink the consequences in contemporary society. The reflections A analogia em questão é aquela que liga raça ao gênero. mo afrocentrado. studies in the area of Social Sciences. com isso. Para maiores informações a respeito de tais “homens da scien. 2)“Por que certas analogias tíficas. 72) salienta que. that follow seek to contextualize. como observa cêntrica. Eduardo Mondlane. sim. como um campo privilegiado de saber. esclarecem Moore (2007) e cia” veja-se também Schwarcz (1993. p. naturalizados. mas.

à fantasia poética. 76) bem como outros grupos sociais [. 73). diria ainda que. Isso crânio. no século XVII. p. Diante dessa constatação. e comprovar teses racistas e sexistas.]”. as ideias vigentes fez surgir as ‘lentes’ através das quais as pessoas expe- cido pela sua crítica à importância da controvérsia sobre não eram entendidas como precoces. 75). fan. Nesse caminhar de constatações/manipulações interferindo nas relações (inter)pessoais. preconceituosas e distantes da reali. tifacetados. nos afigura ideias cômicas. a saber: craniometria. auxiliando e fundamentan. para designar algumas “técnicas” Carlos Moore (2007. prossegue Stepan (1994. Stepan constata ainda que “O sistema metafórico p. das crianças e dos idosos. a ser elaborada”. complementa Stepan (1994. nais ou genialidades humanas. “desde o às “origens culturais da metáfora científica”. 1994. ricos e pobres. se de um lado os “cientistas” passam a defender das ditas raças superiores (brancos) e inferiores (ne.. a aludida riores e diferentes na hierarquia social. A princípio ocorre a total final do iluminismo estudos sobre a variação humana cendo que “na ciência [. em tragicidade para aqueles que foram discriminados inferiorização negra e a superiorização branca. que a burguesia criou “a partir do final do século XVIII para asse. 1994. da realidade. verdadeiro e objetivo – mais robustas e arredondadas cabeças que caracteriza. do “informações sobre os corpos das mulheres (com- variação humana”. que contribui para ampliar e ra- crítica da metáfora científica está apenas começando com o homem branco ‘explicavam’ suas posições infe. formato do No texto de Stepan (1994... trazendo à tona a construção científica que no caso. gurar a sobrevivência da classe e a continuação da hegemonia”. No entanto. o que era aprendido nos cursos 7. remetendo-se a Foucault.] aspectos da realidade e da experiência humanas toriadores e filósofos da ciência se deslocado das re.. distinguiram diferenças raciais como aspectos cruciais são arbitrárias. as isto é. p..] metáforas e analogias não estudiosa.. em alguns mo. Para maiores detalhes consultar Stepan (1994) e Schwarz ideologicamente as noções raciais que predominam até são apenas às respectivas páginas em questão. O PASSADO PRESENTE culturais das analogias científicas”. Stepan prossegue com outras instigantes in. foram resultado de metáforas Também auxiliou a constituir os objetos de investiga- pois. p. preconceituosas. em uma (con)fusão epistemológica e na confiscação de subjetivas e até mesmo à falsidade e foi contrastada ao crânio estreito. p. Emerge. observa Ste. constitutivos da teoria científica”. possibilitaram a “construção de similaridades”. obviamente. p. Logo. Daí a utilização Partindo de tais exemplos hoje esdrúxulos. prosseguem demarcando lugares sociais. foram gestadas e organizadas (1994). Eis. gerou hipóteses e aju- No entanto. através de “manobras por vezes cômicas”. compreendendo-se. da metáfora pelos “homens de ciência” para afirmar 5. Sem entrar nos meandros de tais con. étnico-raciais.. dos homens. organologia. à própria ciência”. ca. E isso evidencia o que era problemático [nos] grupos (STEPAN. tecnologias sociais6 ao utilizar não só as téc. com o mero propó. dou na disseminação de novos vocábulos técnicos. de frenologia. branquicéfalo. os negligenciavam ou suprimiam Complicado é o fato de muitos daqueles ideários terem ência” passaram a considerar “que metáforas e analogias grupos hegemônicos.] a pouco de atenção àqueles episódios dos “homens da lução científica”. entre “raça e gênero”. a mulher. quando da “revo..50). estrategicamente utilizado para quão eram movidos por interesses escusos e afins. indicando primento dos membros. os considerados homens das ciências fizeram (STEPAN. sob teias e tramas e dizimados sob a égide da ciência. do sé- 4. tinham o papel de justificar (STEPAN. evidencia alguns métodos científicos 220). direitos e deveres. 76) faz alusão perdido sua importância como sinais de inferioridade e/ou aceitação/apropriação da metáfora e da analogia Antes. “Não por aca- dos homens da ciência. NO SEIO SOCIAL É instigante. a as metáforas ou analogias particulares sejam aceitáveis car semelhança com a ficção. pois. poderíamos identifi- trovérsias.. o papel das metá. p. tudada sistematicamente. cujas semelhanças entre si e as diferenças nicas e demais instrumentos da área como. ou não ‘observados’” (STEPAN. peso ou estrutura do cérebro”. 86-90). de um modo ou de outro. 1994. os pobres das cidades e os é possível notar que os ideólogos da ciência criaram. etc7. farei alu. emaranhar. negras reflexões trumento “estratégico” para a “teoria científica sobre a a superioridade do segmento étnico-racial branco em trimento de outras. nem meramente pessoais”. segmento negro. se não resultassem conceitos (pseudo) científicos engendrou a propalada ditos “homens da ciência”. a metáfora e a analogia utilizadas pelos foras. analogias e modelos começou a ser reconhecido mentos. Stepan (1994. Então. Aproprio-me. no século XX. culo XVII ao século XX. detrimento do segmento negro.. também.]”. usufruindo do sta. sobre o porquê da escolha de algumas analogias em de- formações a respeito das apropriações da analogia e 6.. analogias usadas pelos cientistas do final do século A analogia conduziu pesquisas.. interessa registrar que “a metáfora chegou a racial começou a ser elaborado”. No caso do estudo científico da diferença humana. a importância de (re)discutir e proble- (1995. porém. 87-88). As metáforas. (1993). tão diferente das objetos científicos: seres humanos. pesquisadora evidencia seu propósito que é “contribuir antropometria. largura da pélvis. Schwarcz (1993.. 86-89). para se perce. O artigo de Stepan (1994. Assim sendo. sito de salvaguardar privilégios sócio-econômicos dos tidos e os almejados. quando a mutação humana começou a ser es. Emergem daí não se deu casualmente. preestabelecidas. isso enredar: ciência/analogia/metáfora. tendo a atenção dos his. para o desenvolvimento de tal teoria”. entre o homem civilizado e o selvagem. poderes. mas elementos Analogicamente às raças inferiores. das mulheres. linguagem própria. conhecimento sem adornos. e sexo. 73) informa ainda quão fantasiosas. estando ambas análogas ser associada à imaginação. uma teoria ‘raças à parte’. pois. científicas. ta científica ou esquemas heurísticos. cos/científicos às descobertas. não mais mencionarei o ano de sua publicação. o criminoso. imersa em metáforas e analogias arraigadas de (pre) Em suma. pois souberam enlaçar. para atender aos propósitos eurocêntricos. e um extenso discurso sobre desigualdade falha em perceber ‘arbitrariedades’ é que faz com que ciência” e às suas “descobertas”. enfim. além da omissão. insanos eram. Tanto é que ao identificarem Mais recentemente. as tendências crimi. [. 74). frenologia. p. prognatismo. posto que mul- não são apenas auxílio psicológicos para a descober. tificar algumas constatações desenvolvidas por Stepan. saberes. assim. demarcando-se a supremacia racial 108 109 . as diferentes formas de opressão/exploração tão caras “[. precisamente nos meios acadêmicos – onde. questionando de “novos conhecimentos”. em consonância com os demais grupos a ambos os gêneros: feminino e masculino oriundos do incompatíveis com a metáfora tendiam a ser ignorados construções lógicas da ciência em direção a visões mais hegemônicos da época5. p. “alguns filósofos da ci. “naturalistas” da ciência da cultura. p. familiares e culturalmente arraigadas ção na variação humana – raças de todos os tipos [. baseados em Lombroso. vam os machos de raças ‘superiores’”. distorção e mani. também abordadas pelo estudioso logia na ciência [ser] agora reconhecido. demarcou pa- metáfora e analogia para o esclarecimento científico”: racistas e sexistas. raças Se a “analogia conduziu pesquisas”. entre péis sociais. p. o des. dade são suas conclusões. prossegue Stepan viante sexual. o elo pulação de dados pelos “homens da ciência”. os filósofos descobertas mirabolantes e racistas.. E. RACISMO E SEXISMO: explorar uma série de questões relacionadas às causas formações. aqui. ao constatarem a discrepância entre os resultados ob. reconhe. o qual estava. infantil e delicado. da ciência discordam. 73).] A analogia definiu importantes para o pensamento científico”. tus científico e social que dispunham. as quais “teriam var momentos cruciais da polêmica quanto à rejeição explicar a “variação humana dos séculos XIX e XX”. 73). é perceptível quando Stepan (1994. p. 1994. através do crânio dos seres humanos. “[. de “uma peculiar analogia da história das ciências. que “a mulher se igualava aos negros pelo na ciência”. pan (1994. para tasiosos. propiciou a analogia entre raça e ciência.] que “as analogias ou os modelos nelas baseados eram gros). os dias de hoje [. so. p. no artigo de Stepan. p. a pretensa objetividade científi. a Carlos Moore (2007). 28) salienta que. Como estarei me referindo sempre o mesmo texto de Stepan ber. rimentaram e ‘viram’ as diferenças entre classes. p. se nos detivermos com um rejeição de ambas. porém. entre crianças e adultos”. sobrevivido ao transcorrer do tempo. do termo utilizado por Lauretis (1994. a riqueza de in. dolicocéfalo. então. quanto à importância ou não das metáforas e analogias. considerados também. a fim de atribuir termos específi. matizar tais questões. 72)4 é possível obser. Seguindo na direção do pensamento da referida pelos homens da ciência. que o “físico francês Pierre Duhem ficou bastante conhe. apesar de “o papel da metáfora e da ana. Ou seja. no século XX seguem as polêmicas Com base no tamanho do crânio (craniometria) XVIII. às figuras princípio.

Sem entrar em tais meandros. obvia. economistas e filósofos atuaram como grandes corrobora o sentimento de superioridade em relação Poderia. o que poderia existir de comum entre ideologicamente. para “estimu. 23). as filosofias e as ideologias Para Diwan (2007. tendo em vista branca até suas características de ‘humildade e servi. ideológicas” para demarcar a “superioridade dos cris. Munanga terior e no Brasil. atemporais e englobantes.. dade branca. p. mas entre parcelas significativas da comu. 113). realimentada pela sociedade patriar- logos. 458).a construção de uma autoestima positiva. Bento (2000). por outro lado. abandona a família e. mencionar mais exemplos da propa. mo. as civilizações. Eis o que Ab. um ponto de partida para o alvorecer e indígenas” (DIWAN. p. por análoga entre ambos. na contramão muitas mulheres já se rebelavam contra a hegemonia cristão sobre os muçulmanos em relação à posse da muito bem ilustrado através de Simão Bacamarte. mas basicamente convergentes. cia antiga. etnólogos. 2003). leva a cidade ao caos ao internar/ TECENDO OS FIOS DE UM e de quem? Responde o autor. nestas. seu marco dá-se no “século Terra Santa e a inferioridade indígena para justificar obra literária O Alienista. fícios para a sociedade como um todo (TELES. Aristóteles relacionou a mulher ao escravo.Vale pontuar que Diwan (2007. Stepan (1994. que sempre se pretendeu neutra e em preto e branco: jornais. uma espécie déficit que terpretaram a opressão sexual com base em um dife- que “ainda estão presentes na atualidade e continuam tava. da intensificação da opressão social. Para Bairros (p. sexista. Santos (2002) em do que os “grupos hegemônicos” consigam “produzir tudiosos (as) da área. por exemplo. Assim. Moore (2007. conforme observamos renciado aspecto teórico-político-ideológico de onde o exercendo sua força ideológica não apenas na comuni. Darwin. a inferiorização da mulher é tomada totalmente resolvida pelos vários feminismos. 281). 458). marcada por profundas desigual- racismo como um “fenômeno histórico”. (MOORE. conceitos e aponta as suas limitações. propugnando Mesmo na Idade Média. Esse é um exemplo da analogia ra evidencia. gra destroem a retidão e o caráter exemplar do homem Quer dizer. aborda tais uma história da eugenia no Brasil. tropólogos. com vistas auto-percepção dificultando – e às vezes inviabilizan. negras vozes fizeram ecoar as opressões surgiu “nos EUA. sucumbe em todas antes. Mas. Baiana e o português que se amanceba com ela: Gerôni. historiadores. Eles atravessam os milênios. escravos e cidadãos em São escravagista. No entanto. partir dos anos 90 o governo federal tenha reconhecido. ídas e determinadas. cavam desde a inferioridade dessa raça com relação à oficialmente. estruturado sio de Azevedo. no século XIX. 69) constata branco. lá se vão as mulheres.] e classes sociais?”. p.]”. “Já na Gré. Conforme Frei Betto (2006. fim. incontestavelmente se desenvolveram estratégias Nem mesmo a esposa escapa. chega até nós. Carlos sustentáculos conceituais daquelas arquiteturas teóricas às pessoas negras e. “Numa socie- e Carlos Moore. experiências de um cientista obcecado em desvendar imersas em uma sociedade rígida e regida pelo patriar- as (re) ações humanas consideradas anômalas sob seu NEGRAS MULHERES: calismo. visto serem os campos de batalhas mais com. a eugenia “Com status tam e terminam por legitimar o racismo presente no e as atividades culturais do segmento. os discursos do Correio eram às desigualdades raciais no Brasil. Surge daí o feminismo afrocentrado. imaginário social e na prática brasileira”. assimilada e adaptada nômeno exclusivamente antimulher e o racismo é um a salvaguardar privilégios seculares por meio de ações do . a persistência do racismo e de seus male. movimento feminista surgiu”. (2006. Gerônimo. no entanto. FEMINISMO AFROCENTRADO quais: “libertação” e “emancipação”. 281) salienta que “O sexismo é um fe- que alicerçaram o racismo ideologicamente”. que se degenera no meio social em que habi. Eis a visão magistral de Machado de Assis face ao tomemos a demarcação temporal de Frei Betto como tãos e. Isso. psicó. tende a ocasionar danos à lada superioridade branca X inferioridade negra impor. recriados em ência no transcorrer do tempo. libertação de quê A aludida pesquisadora salienta que embora na. 23). aqui. enredado com base no fator heredi. nem ele. Eis o que a pesquisado- as virtudes europeias. nacional racismo. 2007) entre outros (as) estudiosos da área. ponto de vista. tendo como base suas inferioridades ‘naturais’”. sociólogos. 2007. historicamente e não ideologicamente”. em uma leitura tos. desfiando suas teias enredadas sob fios teóri- analítica”8. é apropriada e justificada metaforicamente pela ci. Embora não possamos traçar uma linha temporal a res. Antes. Esta estudiosa assevera e internacionalmente. entre outros (as) es. 2007. p. Seu percurso histórico é longo e. pois expli. com base em Judith Grant. não só na literatura destinada ao adulto mas. 23). Essa associação.. a noção de superioridade do povo metaforicamente. Elas se alimen. Ele esclarece ainda que da vontade divina. negras reflexões do segmento branco em detrimento dos demais: “An. “Tanto nomes e propósitos distintos. dias Nascimento (2002) denomina como “genocídio ção humana baseada em premissas biológicas. 1987. de Machado de Assis. tomando como referência o século XVII. nesse aspec. e Um exemplo da obsessão fanática – para não dizer sofridas. cujo título é O espetáculo das raças (1993). Esse é a tese defendida por Scwarcz em outro livro de sua to ver: Brookshaw (1983). de disciplina objetivou implantar um método de sele. “o berço a dominação do Mundo Novo podem ser constatadas obra temos a fina ironia machadiana ao perscrutar as do feminismo moderno”. 77) assevera que. brancas e negras. muitos outros10. os modos princípios de extermínio dos não brancos. tário e fenotípico dos segmentos étnico-raciais. E isso tatou. cal. afirmando ser Francis Galton “o pai da eugenia”.. racista e sexista. o português. Silva (1995). as religiões. 19-21) o feminismo a preservação da raça” (op cit. e ganha status de verdade. a alguns dos “homens da ciência” é cas. sob o aval Mas. expandiu-se pelos países do Ocidente. uma referência. (ibid. que in- rias racistas em questão. Dentro de uma visão mais Naturalista da realidade. cientifico. históricos. complementa. portanto. Platão e Aristóteles. em busca da libertação. aproximações entre os pontos de vista de Diwan outros personagens da Literatura Brasileira expressam a mente. através de Paulo no final do século XIX. 2007. além deles. autoria. Schwarcz (1987) em seu livro Retrato do negro brasileiro” antes. percorreu o universo dos que “Sobre a raça negra. (2004). p. duas figuras são emblemáticas: Rita entanto. eis o que se segue. se começa a dar mais visibilidade cos. da da história. Em O Cortiço. o aborda não só no Brasil como produções destinadas às crianças e adolescentes. lhe era inerente. afinal e sociais que são negados à população-alvo”. masculina. que buscaram a pureza diversos. p. o ra- em favor da sua prole [. envidaram-se esforços para perseguir a religiosidade de produção. p. Então. p. e o florescer do feminismo no Ocidente. em que tudo era resultado fantasmagórica – de um personagem que corresponde.. p. 10). p. reportando-se às teo. com o advento da “Revolução Francesa”. Há. porém. universais e transversais”. transposições de pensamento externo9. Logo. tada principalmente da Europa. Logo. de “privilégios econômicos mesmo ponto de vista de Nascimento (2002). Spencer. p. dade de serem dinâmicas determinadas e construídas racial quando da distinção matrimonial. congênito. 69) reitera constatações de Moore das idéias que naturalizaram a inferioridade dos negros. conforme percebem os estudiosos da “fenômenos atemporais. Evaristo (2007). fenômeno fundamentalmente antinegro” sendo ambos racistas.. a inferioridade dos muçulmanos domínio e às especulações científicas vigentes. levando em conta no exterior e segue aa mesma linha de pensamento de Cashmore 9. muito embora só a o sexismo quanto o racismo compartilham a singulari- filósofos.. durante e após o período Carlos Moore (cit. esta “questão recorrente não é Assim como Carlos Moore. peito da propalada inferiorização da mulher e. seu livro intitulado: A invenção do ser negro: um percurso Como formas de consciência historicamente constru- e perenizar as estruturas de dominação sócio-raciais Gomes (1995. Cuti (2010). 37). 110 111 . o Rio de Janeiro. pondera Bairros (1995. nas feminismo” e. p. Há. permitin. ao entender que as teorias Em termos de outros projetos políticos de embran. etc. dades sociais. Aqui o poder sensual e bestialidade da mulher ne. mulheres de diferentes grupos [. ideológicos. Oliveira os problemas sócio-raciais que afetavam as mulheres (2000). Nessa 18”. A esse respei. também. Logo. na segunda metade dos anos 60. to. também. área citados até então e. 286). Nos anos 80 (século XX) é que. plexos ainda que os enfrentados pelas mulheres bran. remetendo-se aos “conceitos básicos de 8. p. lismo’” (SCHWARCZ. sobretudo quando este reconhece o influencia da (pseudo) ciência. elucidando conceitos tais quela não houvesse “descrições raciais nesses argumen. É (2007) e de Stepan (1994). Esse é o aos interesses dos diversos grupos hegemônicos no ex. Gomes (1995. desde então. o alienista. de Hipólito Taine. como algo natural. No que concerne à comunidade branca. à luz dos ideários 10. nossa literatura. no dade racista. nem são meras quecimento social e ideológico. nidade negra”. de Alui.]” (MOORE. lar o matrimônio dos casais ‘superiores’. p. Eis o que cons. cismo e o sexismo perpassam todas as culturas e todas do bojo desse contexto que surge a eugenia imersa em racistas “não surgem espontaneamente. p. Trata-se. prender um imenso contingente em seu “laboratório”. em seu livro Raça pura: entre raça e gênero. a libertação da mulher [. no Brasil. 280) delineia as nuances do através da ciência. Nesse viés de pensamento.

ruas e trabalhar”. Vale sexo biológico como a construção social de gênero.] versões do pensamento feminista quais não correspondem à realidade. emocional. em sua trajetória. por estarem imersas em primeiros estudos do feminismo sobre gênero nasce. Fica. lheres brancas. no passa. p. p. p. já que à mulher se atribui opressão social oriundas do patriarcalismo e do racismo. inegavelmente. de outro exige o estudiosa se refere. vistas de maneira naturalizada e. a mulher nência de sua observação. lismo e do racismo preponderante. às ex. E o rompimento com esses modelos As mulheres negras fazem parte de um contingente de em geral como novos sujeitos políticos. estigmatizados de mulheres vítimas de outras formas filhos. Bairros (1995). olhar sobre a alteridade. dicionais existentes sobre a mulher: contra o mito de zinhas e de senhores de engenho tarados. portanto. Sueli Carneiro (2003.. ainda nos dias atuais. dedicada à família. cravas nas lavouras ou nas ruas como vendedoras. e como todo movimento de contestação. as forme Piza (1998. seguido da mulher negra. culturais. continuaram no silêncio como forma de poder que transforma a mulher em ob. têm que de opressão além do sexismo. assim como outras escritoras. composta por pai. acepções de feminismo aludidas por Bairros.. pois. portanto. reportando-se às 112 113 . após ele.] cidadania de segunda ordem (1993.]”. tais mulheres “não pensamento. “frequentemente utiliza os mesmos estereótipos Feminista Brasileiro e o “do mundo” pois. Logo. distintas frentes de batalhas que os distancia. qui. que que explicitamente tentam definir a mulher com base periências e vivências de grande parte das mulheres ne. de que mulheres estamos Araújo e Schneider. digamos. p. A diversificação das concepções e práticas políticas que no entanto fiquem evidentes os motivos de sua ocor. buscar forças para lidar com as mais variadas formas de e na invisibilidade”. Afinal. tempos. que. se constituíram na recusa de todos os estereótipos tra. Diante disso. Mas. Sueli Carneiro (1993. instigações. ser mulher e negra fez e faz dera.. são vistas como “antimusas”. sendo o último plano relegado ao gente de mulheres” negras que precisaram “ganhar as bém.. pois. tam. se. 126). “a opressão sexista de opressão. Mas. neiro da visão eurocêntrica e universalizante das mu- A primeira versão. prostitutas etc. entende-se que opressão é a “situação doméstico. regime social. homens ou mulheres [. No que se refere à invisibilidade das mulheres ficar todas as mulheres”. 458-459) que. p. como a experiência capaz de uni. “identidade social [é] construída a partir de elementos inclusive dentro do feminismo” (ARAÚJO e SCHNEI- Luiza Bairros (1995. negras reflexões As mulheres negras. mentos feministas. sidade apontada por Sueli Carneiro diz respeito ao ideal negras e ressalta as “o protagonismo que tiveram nas normalidade e de autoridade social e política” centrava. a despeito da identidade biológica”. um marco histórico de insurgência das vozes que o sis- mulher”. Outra adver- outros tipos de preconceitos sofridos pelas mulheres lheres viviam “imersas num sistema cujo paradigma de premissa de que a “identidade” resulta “de um proces. Fazemos parte de um contingente de mulheres com é entendida como um fenômeno universal. uma instigação: será p. [. bastante propriedade e veemência por Sueli Carneiro Nós.. como forma de lidar com os papéis de gênero”.. aqui. p. p.. Mas. haja vista as so feminino. contra a limitação da mulher a mero repro. A aludida filósofa não desconsidera a importância “[. Sueli Carneiro (1993. Daí concluir-se que a “que tinham dificuldades de encontrar seu um lugar. abordadas até então. a sa. É o caso da mulher “vitima de uma cidadania “de segunda ordem”. o reconhecimento 461) parte da premissa de que a maternidade é a “expe. pois. as mu. é atribuída ao homem branco. Conceição Evaristo (2005. Piza (1998. DER. tem sua base de sustentação na família sas definições sexuais e raciais”.. exercendo uma mulheres lidam com a opressão social do universo pa. radas (os). Para Luiza Bairros. afinal. liberal e socialista”. de classe abastada” nição biológica. mãe e filhos e. eram (e são) Na mesma linha de pensamento das estudiosas humanidade. “nascemos com uma defi. a qual mulher a dutor da espécie. também pelos servos e escravos”. Eis a grande contribuição de Evaristo e outras ber: “radical.] Ou greco-romanos. negros. isso durante e após o um sistema socialmente racista. sob os moldes lutas pela anistia. 2006. derar. especificamente? Para responder nos situava mais próximas do modelo da masculinidade. os o modelo estético é de mulher branca [. interferindo no justificou historicamente a proteção paternalista dos O que nos importa aqui. 460. pon. pois. mulheres que não são rainhas de nada. etc”. Luiza entenderam nada quando as feministas disseram que portância do feminismo no combate ao sexismo entre como diferenças biológicas e sociais [.] por longo tempo. através da “história oficial brasileira”. 119) destaca a im. Ao desenredar os fios da trama que encobriram a e/ou invisibilizadas em nossa literatura ao longo dos sobre as “versões mais conhecidas do feminismo. a diferença em nossas trajetórias. contra o confinamento da mulher ao espaço gadas domésticas de mulheres liberais e dondocas. é óbvio. desse modo. o patriarcado refluiu no visão de mulher universalizada. é a demarcação dos anos 70 como cessidade de nos atentarmos ao “uso do conceito de mulher costuma-se referir quando se pensa a opressão falando?”. p. gras. p. 459) chama a atenção para a ne. “as vozes silenciadas e os corpos é constituído de um provedor. triarcal. promove a afirmação das mulheres que a mulher definir como tal”. 118) entende. porque tes entre essas mesmas mulheres (2003. 188). pois. e exercido até o século XIX. O segundo versão concebe “a sexualidade [. fragilidade. os Somos seres plenos de potencialidade. “tendo históricos. p.. cujo núcleo mulheres e estudamos.] o feminismo esteve [. ou seja. quando se refere ao “contin- oprimidas não só pela sociedade patriarcal como. “as diferenças de sexo” eram “percebidas inicialmente Moore (2007). 187) parte da [. o qual “traz implícito tanto a dimensão do no sistema patriarcal? Essa questão é respondida com tema patriarcal racista e sexista tentou silenciar. Conceição Evaristo. Sueli Carneiro chama criados pela opressão patriarcal – passiva. Daí a perti.] deveriam ganhar as ruas e trabalhar”. de sapiência e força e. das “diferenças e desigualdades presentes no univer- riência central na identidade das mulheres”. tais início do século XX”.] Somos demarca as singularidades entre ambos. para sobreviver. a reinvenção da categoria mulher”. reconhecimento da diversidade e desigualdade existen- a essa questão faz-se necessário trazer à baila as duas tadas como antimusas da sociedade brasileira. haja vista a persistência do patriarca. que o “movimento de mulheres nos levou ao repercutem nacional e internacionalmente. enfim.. tuteiras. p. é construída a partir “des. assim alguns mitos (re)criados no seio social patriarcal pois. ainda. Salienta. nesse sentido. concebidas resgate desta dimensão feminina irrecusável. rejeitadas (os). pelas mulheres brancas. e aquelas cujos traços diacríticos des- das mulheres de classes populares). cujas vozes lheres” dificultando. como identidade social. Somos mulheres e trabalhamos.. enfatiza Bairros. as negras mulheres. por grande parte da mulheres negras. p. são constantes em nosso imaginário. prisio- em experiências tidas como universais”. na luta pela descri. A primeira ordem. faz (em) ecoar vozes silenciadas de pensamento de Sueli Carneiro. e a prole. o modelo de lheres (brancas/negras) que Sueli aborda. de mulher universal: a musa. São as disparidades entre os dois universos de mu. Ontem a serviço de frágeis sinha. mulheres negras.. fazemos parte de um contingente salientar.] através dessas “[. mulheres de baixa renda”. mulatas tipo exportação. ou duz no feminismo é resultado de um processo dialético Assim sendo. fazendo uma importante ressalva ao consi. (1993. como o racismo. hoje os sistemas racistas e patriarcais “Quando falamos do mito da fragilidade feminina que critica literária brasileira. das camadas dominantes. so histórico-cultural”. para a necessidade de “reco- etc.. com uma definição racial: brancos. sem que. Nossa toam de tal padrão. tece considerações sido um regime de influência política na Antiguidade. que.. fazendo um paralelo entre o Movimento de mulheres que trabalharam durante séculos como es. religiosos e psicológicos”. 205) ilustra isso um poder definido como intrinsecamente masculino”. 188). pergunta. à disparidade salarial.. a alusão à heterogeneidade dos movi- Entretanto. branca. de Bairros (1995. no texto em questão. Nessa mesma linha de ram da denúncia e da reflexão sobre o patriarcado”. 2006). Outras acepções de feminismo são apontadas por nuclear.. negras. Sueli Carneiro (2003. minalização do aborto que penaliza. mica.189) segue ainda mais pungente: desvenda e dissipa tantas escritoras e escritores desconhecidas (os). Afinal. igno- versões não deram “conta das questões” que afligiam as que só até o século XX? Penso que não. que são retra. a ótica das mulheres dos grupos subalternizados intro- rência em diferentes contextos históricos e culturais”. homem negro. 188). interessa elucidar: a qual homens sobre as mulheres. Conceição Evaristo (2005. é Questionando e desconstruindo tais mitos. Sueli Carneiro remete-se à opressão social e econô.. de um lado. o esposo. assegura Bairros (1995. p. Se estas consequência disso..118). p. prossegue em suas dos feminismos que se insurgem no âmbito das mu. por creche (uma necessidade precípua -se na figura do “homem branco. mulheres que não entenderam a atenção. seguindo a linha do. Hoje empre. No entanto. Sueli Carneiro (1993. jeto sexual do homem. 67) “o patriarcado ocidental. Em como a “dona do lar”. o que se entende por “patriarcalismo”? Con. pois Seguindo a direção do pensamento de Carlos sistema escravagista. 67) salienta que “Os branca é a referência. identidade de objeto. de Os primeiros passos do Movimento Feminista no Brasil nada quando as feministas disseram que as mulheres nhecimento da diversidade e desigualdade existentes” modo que as diferenças entre mulheres e homens são e no mundo expressaram a intensa revolta [ao] processo deveriam ganhar as ruas e trabalhar! entre ambos os movimentos. Ou seja.

negras reflexões

pesquisadoras da área, a exemplo de Sueli Carneiro, o que fizeram nossos antepassados, às vezes pagando branquitude e branqueamento no Brasil. Petrópolis/ MUNANGA, Kabenguele. Rediscutindo a mestiçagem
Lélia Gonzalez, Helena Teodoro, Luiza Bairros, entre um preço muito alto: a própria vida. Eis a batalha que RJ: Vozes, 2002. no Brasil: identidade nacional versus identidade
outras, tomando como referência, também, a produ- prosseguimos na atualidade, mesmo não contando com BROOKSHAW, David. Raça & cor na literatura brasi- negra. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.
ção brasileira. A escritora alude ainda ao “fazer lite- os poderosos aparatos tecnológicos aludidos por Laure- leira. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1983. MUNANGA, Kabenguele. Apresentação. In: Superando
rário das mulheres negras” e observa que “os textos tis (1994, p.220): as tecnologias sociais, e de gênero, as CARNEIRO, Sueli. Identidade Feminina. In: Cadernos o racismo na escola. Brasília: MEC/SECAD, 2005,
femininos negros, para além de um sentido estético, quais correspondem aos meios, recursos - quer dizer, Geledés, n. 4, 1993, pp. 187-193. p.15-20.
buscam semantizar um outro movimento, àquele que técnicas audiovisuais, midiáticas, científicas, discursi- CARNEIRO, Sueli. Mulheres em movimento. In: Estu- NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasilei-
abriga todas as suas lutas”. São destacadas, portanto, vas, educacionais, entre outras - (re)criados pelos gru- dos Avançados, n. 17 (49), 2003 ro. Salvador: Ceao/UFBA, 2002.
as seguintes escritoras: “Geni Guimarães, Esmeral- pos hegemônicos. CASHMORE, Ellis. Dicionário de relações étnico-ra- OLIVEIRA, Maria Anória de J. Relações Étnico-Raciais
da Ribeiro, Miriam Alves, Lia Vieira, Celinha, Roseli Se a metáfora diz respeito à substituição de um ciais. São Paulo: Summus/Selo Negro, 2000. na Educação e a Literatura Infanto-Juvenil: nas ve-
Nascimento, Ana Cruz, Mãe Beata de Iemanjá, dentre termo, palavra ou ideia de uma coisa por outra, cuja CUTI. A consciência do impacto nas obras de Cruz e redas da Lei Federal 10.639/03 (?!). In: LINS, Jua-
outras”. Acrescentaria nessa relação a própria escritora, conotação é análoga, correspondente à analogia, por Souza e Lima Barreto. Belo Horizonte: Autentica, rez Nogueira e outros (Org.). Linguagem e Discus-
Conceição Evaristo, cuja produção vem se consolidan- outro lado, abrange não só a similitude como, também, 2009. sões Culturais. João Pessoa: Ed. dos Organizadores,
do “no campo literário”, como bem ressaltam Araújo e estabelece pontos de semelhanças entre coisas diferen- DIWAN, Pietra. Raça pura: uma história da eugenia 2006, pp.245-261.
Schneider (2005, p.126). Isso, sem falar na produção tes. Logo, tanto a analogia quanto a metáfora lançam no Brasil e no mundo. São Paulo: Contexto, 2007. OLIVEIRA, Maria Anória de J. Discurso Histórico e
acadêmica da pesquisadora/escritora/professora. luzes para elucidar determinadas semelhanças entre EVARISTO, Conceição. Dos sorrisos, dos silêncios e Narrativa Literária: entrelaces na tessitura da Rai-
Se as relações étnico-raciais, a exemplo da relação diferenças (raciais e de gênero) (re/des)construídas das falas. In: SCHNEIDER, Liane e MACHADO, nha Africana Nzinga Mbandi. In: FLORES, Elio
entre negros e brancos, têm sido desiguais historica- historicamente. Charliton (Org). Mulheres no Brasil: resistência, lu- Chaves e SUCUMA, Arnaldo (Org.). Tricontinen-
mente, já que marcadas pelo racismo e pelo sexismo, A analogia e a metáfora foram, portanto, mais um tas e conquistas. João Pessoa: Editora Universitária/ tal Revista de Arte, Cultura e Ciência. João Pessoa:
também a relação entre homens e mulheres resulta das desses poderosos recursos discursivos, como vimos ini- UEPB, 2006, pp.111-122. Convênio de Graduação e de Pós Graduação, Ano
implicações de vivermos em uma sociedade patriarcal, cialmente. Hoje lidamos com muitos outros: audiovisu- EVARISTO, Conceição. Literatura negra. Rio de Janei- I, v. 1, n.1, Ed. Universitária/UFPB, 2008, pp.123-
sendo as mulheres subjugadas, desvalorizadas em seu ais, midiáticos, educacionais, etc. Mas, não nos damos ro: CEAP, 2007. 140.
saber/poder, assim como as pessoas negras. É possível por vencidos (as) e aqui estamos construindo outras FLORES, Elio Chaves e CAVALCANTE, Fátima Solan- PIZA, Edith. Caminhos das águas: estereótipos de per-
inferir, portanto, que ambos os gêneros: feminino e metáforas e analogias, prescindindo de qualquer desejo ge. Raça, gênero, classe e região: uma introdução sonagens negras por escritoras brancas. São Paulo:
masculino se aproximam analogicamente, por estarem de inverter os centros: do eurocentrismo/eugenismo, à crítica da democracia minimalista. In: SCH- EDUSP / Com Arte, 1998.
à margem da sociedade. pelo afrocentrismo/negro, mas, sim, nos interessa sal- NEIDER, Liane e MACHADO, Charliton (Org). SANTOS, Gislene Aparecida dos. A invenção do ser
Agora, se levarmos em conta as condições básicas vaguardar o respeito e o direito às diferenças e fazer Mulheres no Brasil: resistência, lutas e conquistas. negro: um percurso das ideias que naturalizaram a
de vida de ambos os segmentos étnico-raciais, conside- ecoar outras vozes que tentaram silenciar, embora con- João Pessoa: Editora Universitária/UEPB, 2006, pp. inferioridade dos negros. São Paulo: EDUC/Pallas:
rando os índices de desigualdade entre mulheres bran- tinuem a ressoar em nós. 135-145. 2002.
cas e negras, em termos profissional, sócio-econômico, GOMES, Nilma Lino. Alguns termos e conceitos pre- SCHWARCZ L. Moritz; REIS, L.V de Souza (Org.).
educacional e de saúde, observaremos quão díspares sentes no debate sobre relações raciais no Brasil: Negras imagens: ensaios sobre cultura e escravidão
são as oportunidades destas últimas, se comparadas uma breve discussão. In: Educação anti-racista: no Brasil. São Paulo: EDUSP / Estação Ciências,
àquelas11, o que resultou da aliança entre pensamen-
REFERÊNCIAS caminhos abertos pela lei federal no. 10.639/03. Se- 1996. p. 179-193.
tos racistas e sexistas, enfrentados pelos movimentos cretaria de Educação Continuada, Alfabetização SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças:
feministas afrocentrados, cujas lutas passadas ainda se ARAÚJO, Flávia Santos de e SCHNEIDER, Liane. A es- e Diversidade/SECAD-MEC, Brasília, 2005 (pp- cientistas, instituições e questão racial no Brasil.
fazem presentes. crita de Conceição Evaristo e a mulher negra como 39-62). São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
protagonista em ‘Ana Davenga”. In: SCHNEIDER, LAURETIS, Teresa de. Tecnologia do gênero. In: SCHWARCZ, Lilia Moritz. Retrato em preto e branco:
Liane e MACHADO, Charliton (Org). Mulheres no HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Tendências e jornais escravos e cidadãos em São Paulo no final
Brasil: resistência, lutas e conquistas. João Pessoa: impasses: o feminismo como crítico da cultura. Rio do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras,
CONSIDERAÇÕES (IN) Editora Universitária/UEPB, 2006, pp.123-134. de Janeiro: Rocco, 1994, pp-206-238. 1987.
CONCLUSIVAS BAIRROS, Luiza. Nossos feminismos revisitados. In: MAPA DA POPULAÇÃO NEGRA NO MERCADO SILVA, Ana Célia. A discriminação do negro no livro
Estudos Feministas. Rio de Janeiro, PPCIS/IFCS/ DE TRABALHO. São Paulo: INSPIR – Instituto didático. Salvador: CEAO/CED, 1995.
Diante das diferenças históricas entre a trajetória das UERJ, n. 2, pp-458-463. Sindical Interamericano pela Igualdade Racial, STEPAN, Nancy. Raça e gênero: o papel da analogia
mulheres negras e brancas, Sueli Carneiro (2003, p. BETO, Frei. Marcas de batom: como o movimento fe- outubro, 1999. da ciência. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de.
192) sugere o “enegrecimento do feminismo”, o qual minista evoluiu no Brasil e no mundo. In: SCH- MOORE, Carlos. Racismo e sociedade: novas bases Tendências e impasses: o feminismo como crítico da
implica em considerar a “trajetória das mulheres ne- NEIDER, Liane e MACHADO, Charliton (Org). epistemológicas para entender o racismo. Belo Ho- cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994, pp.73-93.
gras no interior do movimento feminista brasileiro”. Eis Mulheres no Brasil: resistência, lutas e conquistas. rizonte/MG, 2007. TELLES, Edward. Racismo à brasileira: uma nova pers-
João Pessoa: Editora Universitária/UEPB, 2006 MUNANGA, Kabenguele. Para entender o negro no pectiva sociológica. Rio de Janeiro: Relume Duma-
(pp. 19-26). Brasil de hoje. São Paulo: Global / Ação Educativa rá: Fundação Ford, 2003.
11. Consultar o Mapa da População Negra no Mercado de Trbalho BENTO, Maria Aparecida da Silva & CARONE, Iray Assessoria, Pesquisa e informação, 2004 (Livro de
(veja-se nas referências). (Org.). Psicologia social do racismo: estudos sobre Professores).

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negras reflexões

A Redenção
do olhar:
uma abordagem RESUMO abstract
semiótica O presente artigo lida com algumas questões sobre representação
visual da população negra no contexto brasileiro. Para tanto, o au-
This article deals with some questions about visual representation
of the black population in the Brazilian context. For make it works,
tor se utiliza da semiótica formulada por Algirdas Julien Greimas the author uses the semiotic purposed by Algirdas Julien Greimas as
tentando estabelecer correlações entre duas imagens que nos aju- support trying to set up relationship between two images that help
dam a revelar a dimensão histórica do conteúdo racial no âmago us to reveal the historic dimension of racial content in the core of
Nelson de nossa cultura visual. Uma das referências é a pintura intitulada our visual culture. One of the references for this study is the painting
Inocencio “A redenção de Cã” datada da segunda metade do século XIX, e a named “The Can Redemption” from the second half of XIX century,
outra é a cédula de quinhentos cruzeiros que entrou em circulação while the other reference is the five hundred cruzeiros bank note that
Docente do Departamento de Artes Visuais na segunda metade do século XX durante a ditadura militar. O was delivered in the second half of XX century during the military
da Universidade de Brasília (UnB). Coorde- intuito é o de explicar como o ideal de branqueamento ainda é dictatorship. The aim is to explain how the whiteness ideal is still a
nador do Núcleo de Estudos Afro-Brasilei- um modelo seguido, apesar da visão paradisíaca concernente à pattern to be followed, despite the paradise view in which concerns
ros da mesma universidade. Foi membro celebração da diversidade no Brasil. the diversity celebration in Brazil.
da direção nacional da Associação Brasi-
leira de Pesquisadores Negros (Conselho
Nacional de Educação). Doutorando do Palavras chave: Branqueamento, cultura visual, negros, racismo, Keywords: blacks, racism, semiotic, visual culture, whiteness.
PPG-Artes da UnB, com pesquisa acerca semiótica.
do Museu Afro-Brasil em São Paulo.

A IMAGEM IDEAL tação. A conjunção almejada se refere ao processo de Em termos de formantes pictóricos, a obra, obje-
mestiçagem. Neste caso o embranquecimento cumpre to de nosso estudo, apresenta três elementos que estão
COMO PROBLEMA o papel de uma sanção, ou seja, a performance desta vinculados à análise proposta pela teoria greimasiana,
família rural do Brasil agrário do século XIX resultou ou seja, a dimensão cromática proporcionada pelo uso
no nascimento daquela criança especifica, que naquele das cores e suas combinações, a dimensão eidética as-
Esta breve reflexão é um esforço de análise do quadro momento se constitui em objeto modal que conecta sociada à estrutura do quadro e como resultante da
intitulado A Redenção de Cã de autoria de Modesto seus familiares às aspirações de um distanciamento da articulação entre as duas primeiras temos a dimensão
Brocos Y Gomes, datado de fins do século XIX, 1895 imagem negativa atribuída aos africanos e seus des- topológica da pintura.
para ser mais específico. Trata-se de uma pintura, obra cendentes. Transferindo para o quadrado semiótico a A manipulação proposta pelo enunciador, no caso
figurativa cujas dimensões são 199x166cm. O referido situação exposta na pintura analisada, diríamos que em o autor da obra, busca um fazer crer no enunciatário
trabalho pertence ao acervo do Museu Nacional de Be- termos de contrariedades encontramos a relação negro que por sua vez deverá estabelecer algumas relações en-
las Artes, Rio de Janeiro, e tem suscitado ao longo de sua x branco e, em termos de contraditoriedades, uma ou- tre a imagem presente e outras que por ventura estejam
existência uma série de debates e reflexões. tra constituída por não negro x não branco. A tensão arquivadas em seu arquivo mnemônico. Assim, algu-
Nosso empenho aqui é o de tentar pensar este qua- está estabelecida na relação negro x não negro que, de mas associações são possíveis, entendendo que o reper-
dro à luz da semiótica greimasiana ou, melhor dizendo, acordo com a configuração do quadrado, seria o segre- tório, ou em outros termos, a cultura visual do enun-
do que sabemos dela. Seguindo o pensamento de Al- do. A criança parece ser branca embora a ascendência ciatário, se caracteriza como um elemento fundamental
girdas Julien Greimas, para quem a unidade de senti- negra coloque sob suspeita sua aparência. A estratégia que possa permitir a construção dessas associações as
do é fruto das relações entre actantes, nos dispomos a está exatamente em não revelar essa condição particu- quais também denominamos de intertextualidades.
analisar a Redenção de Cã levando em consideração o lar comprometedora. Existem marcas constantes em ambas imagens que
plano da expressão tanto quanto o do conteúdo. Neste Retomando um pouco alguns aspectos da pintura nos impelem a fazer exercícios na procura dessas in-
caso, ao falarmos de expressão, identificamos tratar-se e com o intuito de ir além de uma interpretação que se tertextualidades. Relacionando a pintura em discussão
de um quadro a óleo sobre tela, realizado à maneira restrinja ao plano da superfície podemos nos apoiar com outras produções imagéticas anteriores ou pos-
acadêmica conforme os cânones da pintura neoclássica. nos argumentos de Vicente Martinez quando desen- teriores, algumas aproximações parecem inevitáveis.
As dimensões da obra são amplas, o que corresponde volvendo análises semióticas acerca da pintura enfatiza: Quando fixamos o olhar na tela e sabemos então se
a um modo peculiar de figurativização da época. No tratar de uma abordagem alusiva à miscigenação, acio-
que concerne ao conteúdo, nos deparamos com uma A pintura se caracteriza por ser uma manifestação onde namos o nosso arquivo. No intuito de fazermos um
situação doméstica em que as personagens comparti- nosso olhar é estimulado pela cor, pelo traço, pela li- breve exercício, buscando outras referências visuais, po-
lham um momento de euforia, na medida em que as nha, pela textura, pela matéria, pela forma, etc. e pelas demos destacar imagens bem mais recentes como as da
posturas dos adultos em relação à criança, induzem a relações estruturais que sustentam estes elementos. cédula de 500 cruzeiros aprovada pelo Banco Central e
uma manipulação do olhar expectador, no plano da ten- (Martinez, 1999, pg. 297.) que entrou em circulação nos anos 70, em pleno regime

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negras reflexões

autoritário. Conforme o discurso oficial, esta cédula Há na pintura redundância, repetição e reiteração so. O outro texto com o qual pretendemos fazer uma
trata da evolução étnica brasileira, e foi escolhida para suficientes para que possamos identificar nela a exis- interface é uma cédula de 500 cruzeiros que entrou em
a celebração do sesquicentenário da independência. O tência de isotopia, cujos conectores se encontram na circulação no inicio da década de 70 do século passado,
conteúdo da mensagem impressa na cédula está em própria cena, como as características físicas das pessoas durante a ditadura militar. A referida imagem exibe de
consonância com o exposto na tela de Brocos y Go- envolvidas e suas gestualidades, por exemplo. Podemos um lado os diferentes estágios do Brasil desde o “desco-
mes. O foco é a miscigenação não apenas como uma corroborar tal afirmação observando as mulheres em brimento”, passando pelo comércio, colonização, inde-
performance, mas como um querer, um poder e um cena, cujas posturas são tais como as que aludem a uma pendência, integração. A sequência sugere um processo
saber fazer que têm como sanção a constituição de uma graça alcançada. O enunciatário, todavia, necessita ser de desenvolvimento que vem se consolidando ao longo
imagem que nos leve a crer que parecer ser branco, embasado para compreender o discurso apresentado, de mais de quatro séculos.
europeu e ocidental nos garante algumas vantagens. ou seja, para sair de uma condição de não saber para É uma espécie de exercício cartográfico enalte-
A ideia principal é a de que investir no processo de uma condição de saber. Não se trata de uma relação cendo a grandeza do país na perspectiva do discurso
embranquecimento gradual nos dará acesso a algumas imediata de causa e feito, mas o enunciatário precisa oficial. Na outra face, a cédula exibe, analogamente aos
benesses. No caso especifico de A redenção de Cã o procurar entender o porque da execução de uma obra mapas, imagens de brasileiros, todos do sexo masculi-
processo de mestiçagem livraria das trevas muitos in- com esta temática específica naquele dado momento. no. O desenho começa por um indivíduo indígena, pas-
divíduos aos quais seria atribuída uma espécie de fardo Em outras palavras a sua interpretação está condicio- sa por um indivíduo branco, por um indivíduo negro e
celestial. Isto porque, considerando uma versão bíblica, nada pelo instrumental de que ele dispõe para fazer a partir daí as relações inter-étnicas e inter-raciais dão
o Criador teria marcado os herdeiros de Cã, gente cuja suas ancoragens e a partir desse momento desem- a tônica do processo de formação da população brasi-
identificação estaria associada ao fato de portarem pele penhar o seu papel como actante, expressando o seu leira. Até então, nenhuma novidade, apesar da terrível
escura. Daí o título da obra. entendimento tanto no plano da expressão quanto do omissão acerca do desencadeamento desse contato en-
conteúdo. A referida pintura suscita polêmicas sobre tre povos distintos, o qual teve como uma das referên-
as ideias acerca de “raça” em função de sua aborda- cias insofismáveis a violência sexual contra mulheres OS SUJEITOS
gem. Por outro lado, no contexto da cultura brasileira, ameríndias e africanas. De acordo com aquele discurso
seu teor explicita questões abertas desde a colonização, imagético, as faces vão clareando até que chegamos a
como um constante mal estar causado pela presença uma noção do que seria o brasileiro da atualidade, que Conforme as leis da semiótica, sujeito não é pessoa, ob-
africana na cena nacional. possui a aparência de pessoa europeia, dentro dos pa- jeto não é coisa. Partindo desse entendimento e compa-
Ana Claudia de Oliveira, no livro em que orga- drões tradicionais hegemônicos. rando a duas imagens ora relacionadas, percebe-se que
niza, intitulado Semiótica Plástica, argumenta que o Esta cédula circulou por uma década ou mais e o há um sujeito que se constitui na ideia a ser seguida.
interesse pelas imagens, pela visualidade, possui uma seu conteúdo sempre foi problemático, por vários as- Talvez pudéssemos atribuir ao discurso da mestiçagem,
abrangência que extrapola o campo das artes plásticas pectos. Como já mencionamos antes, a presença mas- como fenômeno que se persegue obstinadamente na
e da comunicação visual. Isso significa que toda cons- culina parece absoluta e nesse aspecto ela difere da tela cultura brasileira, esse papel que corresponde ao de
trução imagética passou a ser objeto de interesse nos de Brocos. Por outro lado, naquela pintura do século manipulador de nossas vontades, transformando-as
mais diversos domínios. A partir desse argumento e XIX, a sanção, ou seja, a redenção, só é possível graças em um querer fazer, um dever fazer, um poder fazer.
acreditando que para a semiótica a relação entre siste- à figura paterna, condição que devolve ao homem seu Mas principalmente nos fazer crer que é possível ser
mas distintos pode se realizar desde que esta aproxima- papel quando não absoluto, determinante para a vida feito, por que esta é uma conduta a ser seguida. Esse
ção viabilize interpretações palpáveis, nos lançamos ao das mulheres. Na obra dos oitocentos a figura mascu- discurso é produzido em alguma instância por alguém.
desafio de buscar correspondências que nos auxiliem lina seria um objeto modal, ela é necessária para que o Esse alguém, que poderíamos identificar também como
nesse processo e que não estão necessariamente no clareamento da pele ocorra. Precisamos dela na busca o segmento composto pela hegemonia eurocêntrica,
campo da pintura. obstinada por uma aparência que omita a africanidade. acredita no embranquecimento como uma sanção a
No esforço de tentar interpretar a obra em ques- Já na cédula de 500 cruzeiros a última figura masculina ser alcançada.
tão, explorando ao máximo seus elementos pictóricos, da esquerda para a direita seria o objeto de valor. Seu Um outro sujeito seria a parcela da população que
procuramos estabelecer ao menos uma ancoragem que papel é análogo ao da criança sentada no colo da mãe. ainda não alcançou o ideal a ser seguido. Este segmento
pudesse auxiliar no percurso gerativo de sentido, recor- É no plano do conteúdo que vamos encontrar o que as é constituído por pessoas que não foram “redimidas”
O resultado da performance está explícito na pin- remos às imagens arquivadas em nossos repertórios. duas imagens têm em comum. De uma forma ou de pelo processo de miscigenação. Elas são manipula-
tura que apresenta três gerações de uma mesma família, Dessa forma, a associação da imagem em questão com outra, ambas preconizam que o processo de embran- das no sentido de que suas ações convirjam para as
sendo que as duas primeiras assumem as competências uma outra, não menos polêmica, se tornou inevitável. quecimento é uma meta a ser alcançada. As estruturas, ações propostas. Porém tais pessoas não possuem a
para tornar possível um desejo. Nesse sentido, como já Mas o outro referencial, que por algumas razões se co- as maneiras como estão concebidas as disposições das competência absoluta para realizar o que esta sendo
mencionado, elas querem fazer, elas podem e sabem necta à obra de Modesto Brocos, permite a vincula- personagens, a manipulação do olhar que é impelido a proposto. É necessário que as pessoas brancas sejam
como fazer. A estrutura da obra, por exemplo, dialoga ção mesmo sem se tratar de uma pintura, sem ter sido percorrer caminhos que nos levem ao ideal em termos também manipuladas para que esta performance se
com representações clássicas da literatura brasileira que produzido no século XIX, sem corresponder a valores de uma aparência aceitável, tudo converge e conspira realize. Os temas da tela e da cédula parecem ter uma
destacou a mestiçagem como valor nacional. canônicos de um período da historia da arte. Nada dis- no intuito de persuadir-nos neste sentido. força tamanha a ponto de se caracterizarem como

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Dele depende o futuro. “redentor”. que envolve vá. (Oliveira. segundo as informações presentes na que aquele texto carrega se vincula a uma noção de é construído por uma arranjo especifico de sua plástica. 2004. gravada. Elas são passageiras. imagens que podem Pensando a debreagem . A O que entendemos é que tanto a tela quanto a cé. pg. pesquisadores da área de arte/educação. Não é difícil de compreender a nefasta ambas imagens. como uma recriação étnica e moderni. deveriam Voltando à Ana Cláudia de Oliveira. XIX) / medida em que as personagens adotam uma postura cifica. conforme Ana Claudia Oli- topia estão todos ali. Em se tratando dessa situação espe. a exemplo de vínculos com uma devidas proporções. de que a presença negra é incômoda e. mestiçagem encontra-se imbricada à ideia sorrateira de Esta argumentação é de real importância por to. que aqui procuramos relacionar à cé. no nosso caso. as intenções do artista. Modesto Brocos. Comércio. seja ajustada (negra)/ alhures (Brasil agrário do final do sec. poderíamos até valo. até os outros que questionam veira. no caso. principalmente é evidenciar não o contexto de fora da pintura. São ingredientes. por exemplo. batente da porta de uma casa modesta possui uma pre. rosidade. Sem ele nada teria sido de tomar como um dos pressupostos a bagagem ou o Sua tendência é a de estar em conjunção com o trabalho possível. sejamos um país a possibilidade de se acessar o repertório na busca de projeto “modernizador”. Sobretudo. outra discussão interes- prio repertório. um objeto de uso diário que circula pelas mãos seu sistema. zadora da Sagrada Família” (Morais. qual. ou seja. Entendemos que o adjetivo “plástica” pode abranger o aqueles que acreditam ser a tela de Brocos uma visão e a cédula. em discutir a cognição estética passa pela determinação cilmente se sentirá incomodado com A redenção de Cã. O que está presente nestas concepções é um em que ele. outras imagens com as quais acreditamos haver algu. sença fundamental na trama. no mito da democracia racial brasileira difi. tentará fazer as suas ancoragens. as pessoas de diferentes gerações estudo do plano da expressão das manifestações visu. símbolo que con. riam ao outro. que o domínio da imagem extrapola a produção com maior ou menor concentração de melanina. quer as artísticas. Contudo. Quando algum texto visual nos chama a atenção preconizaram as instituições coloniais. traz implícita a ideia de que branquea- resultado de uma performance pode conter um certo -racial. guma noção do discurso da mestiçagem. se deu a partir de um exercício de memória. dula de 500 cruzeiros) dificilmente poderão prescindir herança escravocrata. “mundanos”. 2002 pg. Cã. reduzida. por gressas do país sem os quais o enunciatário terá pouca observadas na ação que ocorre. e entendendo. sofrendo um deslocamento que propõe ela quadro foi pintado seria nulo. Deveriam ainda reagir de maneira eufórica à possibili- Floch: sariamente haja respeito pelas diferenças. resultando em uma dada papéis sexualmente muito definidos. cita o pintor Gonzaga Duque No anverso da cédula de 500 cruzeiros. raneidade. O homem sentado no arte. no futuro. desde que este gesto não servisse para encobrir insistimos nessa ideia? O fato é que as interpretações mento e modernização possuem uma correspondência glamour.) à primeira vista. quer as midiáticas. ção de nossos argumentos. portanto. atenuada. ou não ser evocadas. se não sintagmatização das unidades mínimas. seja essencial. Aliás. Os negros. Esse deslocamento implica em alguns entendi- se quer dizer. o que importa para o semioticista francês posta por Greimas e suas dimensões. a noção de mestiçagem como rizar nossos acentuados processos inter-étnico e inter. na imagem que ora está diante de nossos olhos. aqui. car em pontos chaves que também são objetos da pes. no intuito de compreender o discurso ima.50). “pagãos”. negras reflexões uma configuração discursiva. Uma condição entrar em disjunção consigo mesmo. a fim de aderir a um arte e que serve também para auxiliar na fundamenta.ou ainda do “negro analíticos sobre cultura popular e outros fenômenos. a presença de brancos. enunciatário é chamado a construir uma interpretação. Alguém que acredite. Uma ob. o qual consiste noção. tes flancos como. ele poderá lograr maior Podemos lembrar do “cabelo bom”. sem que neces. pg. às interpretações paradisíacas de Brasil. a Igreja. Por exemplo. sante permeia as noções apresentadas. lução étnica brasileira e. um alvo a ser perseguido e que vale a pena ção do arranjo da expressão de todo e qualquer texto o qual dirá que: “A Redenção de Cã poderia ser tomada. minimizada. quisa no campo da cultura visual. sos dias tais noções influenciem textos pretensamente ela cria sentidos de alcance social e político. co Morais. ção disjunção/conjunção. antes. Tudo vai depender dos mentos importantes sobre as condições sociais pre- pois complexas relações de gênero e raça podem ser em uma formulação teórica subsidiada pela história da pontos de vista de quem olha. um olhar mais crítico sobre escravocrata. mais do que isso. no reverso. Oliveira explica que: ses acerca composição étnica futura do Brasil. Aquele que atende às aspirações de observações sobre semiótica plástica ficamos tentados ideológico irrefutável. na contempo- quer comentário sobre as circunstâncias em que o de seu arquivo mnemônico que seleciona e compila Qualquer cidadã ou cidadão brasileiro possui al. A tela não traduz ou reflete ideologias. mas marcas textuais semelhantes àquelas encontradas dade de que. sine qua non para que a ancoragem se dê é exatamente suas tradições.” (Oliveira. podemos recorrer à ima. mente teríamos condições de olhar a obra por diferen. Os desencadeadores de iso. Frederi- está relacionada ao belo. Embora. tanto que a referida pintura já INTERTEXTUALIDADES uma sociedade ávida por compartilhar valores defini. 24. mas que certamente povoam nos. devem ser manipuladas para Ana Claudia de Oliveira e algumas de suas significativas O que está figurativizado na obra tem um apelo dar lugar ao novo. dependendo da compreensão que se tem de visões reacionárias acerca de nosso passado africano e possíveis diante das imagens em questão (o quadro de “divina” entre si. Ao ais mais distintas. paisa. quer as do mundo natural. chances de lograr êxito no percurso gerativo de sentido. Ela dirá citando Jean-Marie em que se convive com a diversidade. escultura. optamos por ciatário tenha que despender grandes esforços. Não é por acaso que até os nos- significação. ou seja. quando o gem da mulata. É curioso notar como. no que diz respeito ao abandono de valores a própria tela que é aquele que explica ou leva à sua tos fluidos nas artes visuais. fotografia. embora ocorra no nível fundamental (à figurativos. desde possível na relação que tentamos construir entre a tela de beleza e representação. Considerando que o texto De acordo com argumentações supracitadas. obra consultada. cujo interesse exemplo. certa. relação levando-se em conta os germes de nossa longa elas tende a conduzir-nos para outra interpretação. pelo menos está vinculada denominar plástica a semiótica que se ocupa da descri. de alma branca”. tório da cultura visual explorado constava este objeto. Co- 120 121 . juga uma série de visões estereotipadas que não cessam. Na organizada por mecanismos estruturais particulares de servação mais atenta nos mostrará o desempenho de de comemorar o sesquicentenário da Independência cédula. mas tabelecer algumas aproximações com outros concei. parece haver alguma conexão entre nossa abor. sem que o enun. ou mesmo à indiferença. em arriscar algumas interfaces. Os crí.) ou menor êxito dependendo da amplitude de seu pró. preferência nacional. dessa perspectiva semiótica. E nem é necessário na imagens também. por seu turno. com sua história. a visual. passasse por uma mutação imediata. do Brasil. seus costumes. É como se esse homem viril e exclusivo visual. é interessante ethos brasileiro que aqui e ali ressurge quando falamos gético. com suas regras. político. qualquer que seja: arquitetura. notar uma de suas argumentações no tocante à obra de de nossas tão idolatradas e supostas tolerância e gene. retrata-se a evo- ao ideal. desenhada. O eu (negro)/ Assim sendo. paradoxalmente. ainda que guardadas as foi utilizada em congressos científicos para ilustrar te- dos como positivos. argumento. procuramos es. Este rias transformações narrativas. a antropologia e os estudos culturais. o seu alcance no percurso gera. uma cédula que. percursos temáticos e branqueamento. 2004. na medida Interessante notar ainda alguns aspectos da rela- ser amenizada. Nesse sentido. Por outro lado. 12. ao lermos do artista e de compartilhar um momento eufórico. que também são complexas no texto visual. artística. não das herdeiras de repertório imagético do público. deve dula são capazes de criar sentidos de alcance social e do uso do repertório de cada enunciatário. Diz o texto: da população em geral. no passado (lá no início do período pós-aboli- quase cênica no contexto da obra para enfatizar o que dagem e o conceito de cultura visual. A ideia de nação gem natural ou pintada. seu descendentes se assemelha- No afã de compreender melhor a semiótica pro. seqüência de cartas ser alcançado. para a mestiçagem brasileira. interpretando esta tela/ e agora. queremos reiterar que a aproximação sugerida passo que na cédula não se deixa transparecer uma di. Mas por que razão primeira vista). bem humorada do país. Retornando ao esforço de estabelecer uma ancoragem aparência que se encaixe dentro dos padrões ocidentais ticos de arte divergem em suas argumentações. histórico-geográficas – Descobrimento. as relações de gênero. explorado por mente crítica no que concerne aos usos e abusos dessa ção). visando a produção de sentido. tivo estará profundamente relacionado com o tamanho so imaginário. sua interpretação não é nada fácil. No reper- ferença etária. Não parece algo muito distinto do que “No entanto. foi a primeira criada com o objetivo pátria profundamente afetada por um olhar oficial.

Os dois textos visuais sual do passado dialoga com a cultura visual contem. Jose Luis. ante. 1999. para as. Frederico. imposto por essas imagens que coisificam o outro. podemos estar cercados de estereótipos e o que é ratório. mióticas. Contudo. negras reflexões lonização. quando definida .. “parentesco”) dos traços distintos que nele podem ser Oliveira (org. como bem sabemos..) que de alguma forma questionem o padrão vigente. Porto Alegre: Artes capacidade perceptiva. mas. Ambos Compreende-se por quadrado semiótico a represen. São Paulo: brasileiro.) mente. em consonância com os en. Elementos de analise do discurso. glossário sideração seu novo campo de aplicação. Entende. Centre Nationale de a um título qualquer e de um modo qualquer. mudança sas compreensões como podem também limitar nossa isotopia e o transferiu para a análise semântica. Di- Sem a pretensão de encerrar as questões aqui cionário de Semiótica. imagens que podem tanto permitir o avanço de nos. levantadas. São A grande questão que permanece aberta diz respeito (. Hacker Editores. de uma perspectiva artística independente de uma sociedade democrática também é e sempre foi pertencente à cadeia falada ou ao texto escrito. diferenças e identidades Pode-se tentar definir debreagem como a operação pela Sanção não hegemônicas. parte da existência humana. 5 (pgs. acreditar em sua veridicção. Da imperfeição. ção. De caráter ope. GREIMAS. enunciado. 2000. confe. retrógradas e Debreagem reacionárias sobre alteridades. localiza nas duas dimensões. Ancoragem linguagem: ela é. qual a instancia da enunciação distingue e projeta fora Sanção é uma figura discursiva correlata à manipula- Pensamos que a semiótica possa indubitavelmen. às estratégias de manutenção de certos sintagmas em de índices espaço-temporais (.. acerca da localização ou cenário.num primeiro momento . Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica. lógicos. a qual uma vez inscrita no esquema narrativo se te vir a se constituir em ferramenta importante no certos termos ligados à sua estrutura de base. Tesnière. repousa Sciences Politiques – CEVIPOF. por outro. suficiente para constituir O Museu de Valores do Banco Central do Brasil. pg. dade tem o efeito de transformar essa cadeia em uma Seriam tais perspectivas excêntricas e contra-hegemô. como os demais foram extraídos do Quadrado semiótico cia Universidade Católica / Programa de Estudos são refutáveis. concernentes às tonalidades. Se. sendo que o 122 123 .).. parece oportuno lembrar que a construção -se por enunciado toda grandeza dotada de sentido. Médicas Sul. A Condutas providenciais. São Paulo: Hacker Editores. ou de uma perspectiva institucional. independente de qualquer outra determina.295 – 313). educativa e projeto de trabalho. figurativizam noções do que seria a evolução do povo porânea. apenas sobre uma distinção de oposição que caracteriza MORAIS. Estas possibilidades não cias) (este verbete. São Paulo: Prêmio. determinadas imagens problemáticas fluam impune. Catadores da cultura visual: transformando to. no ato da linguagem e com vistas à manifestação. Actantes interatividade. 2002. homogeneidade. mentação de políticas públicas embasadas em ações imagens produzidas. Algirdas Julien & COURTÉS. o que não ção. Se refere aos aspectos das imagens propriamente ditas. É aí que parece estar o gancho que desta segunda década do século XXI. a debreagem. inaugura o de elementos co-presentes em um enunciado (frase do século XX.. nos damos conta de que es. Algirdas Julien. o conceito de isotopia designou inicialmente a fragmentos em nova narrativa educacional. “Semiótica plástica ou semi- nossos repertórios. reconhecidos (. ao enunciado-discurso. Independência e Integração do Brasil. portanto. de si. por exemplo. São Paulo: Editora Cultrix. pela segmentação da cadeia sintagmática. Paulo: Contexto. dezembro. Paulo: Banco Safra. Greimas tomou ao domínio da físico-química o termo HERNANDES. enquanto um dos aspectos Designa-se pelo nome de sintagma uma combinação de Cã encontrar correspondências na segunda metade constitutivos do ato da linguagem original. repensar nossos modos de ver na contemporaneidade. In: Revista do Centro de Pesquisas Sociosse- assim. ao mesmo tempo. _______. 2000.) de um conjunto um paradigma composto de n termos. no interior desse pa. permitindo que efeito de sentido “realidade”. In: Semiótica plástica / Ana Claudia tam perenemente nossa cultura visual. no decorrer de uma cadeia sintagmática Alegre: Mediação. semântica qualquer. nicas alimentadas por uma ética distinta que nos leva a máticos. Sintagma um lado ficamos estarrecidos com o fato de A Redenção -aqui-agora”. que. por exemplo. 2002.. reiterando noções conservadoras. Assim para citar L. Se a cultura vi. até porque os processos dialéticos fazem Dicionário de Semiótica / Greimas & Courtés.. 2007 há chances de determos informações suficientes para Actante pode ser concebido como aquele que realiza ou de classemas que garantem ao discurso-enunciado a MARTINEZ. Vicente. por contrapartida. nada é tão bem resolvido sofre o ato. Joseph.) que visam constituir mite por isso mesmo distinguir. na paradigmática e na processo de análise que procura enfrentar o desafio sim constituir os elementos que servem de fundação cognitiva. hierarquia sintagmática.. OLIVEIRA.. uma questão de imagem. categorias semânticas baseadas na isotopia (o ótica visual?”. levando em con. mas não per. autores citam Tesnière sem especificar a obra) a quem tação visual da articulação lógica de uma categoria Universidade de São Paulo/ Faculdade de Filosofia. 2006. Se se concebe. aspectos ma- tendimentos e aspirações da oficialidade brasileira. Porto pior. Letras e Ciências Humanas. participam do processo”. a submetendo-o às mais perversas banalizações. 2000. Cultura visual. portanto. GREIMAS. que dizem respeito aos teores das o texto como está explicita e sustenta uma compreen. afirmativas para a população afro-brasileira no início tas do século XIX. A depender do que o processo Brevíssimo rindo-lhe uma significação específica. e aspectos eidéticos. riormente a qualquer análise lingüística. ao contrário. Um mesmo sujeito pode avançar ali. man”. (grifos a significação estética possibilitam outras abordagens Eidético estabelecimento das relações entre as partes e a totali- nossos) (Banco Safra. possível.) Os sintagmas são obtidos tudos críticos direcionados para a produção artística e de maneira implícita. ou ainda ficação. alusivos aos materiais expressivos empregados data em que o livro foi lançado é de 2000 e obviamente enfrentamento institucional do racismo e de imple. aspectos topo- cação oficial e. Enunciado FIORIN. por instância da enunciação como um sincretismo de “eu. (não está nas referên. Fernando. mas ou discurso) definíveis(. Bibliografia são de evolução étnica que remonta às teses racialis. O texto supracitado está inserido em uma publi. a própria instância da enunciação. São Paulo: Pontifí- impede seu retrocesso aqui.. seletivo reserva no arquivo mnemônico de cada sujei. No sentido geral “aquilo que é enunciado”. Ana Claudia. um simulacro de um referente externo e a produzir o radigma. “A eloqüência da pintura de Ry- desconstruí-los. em tempos de téricos. O Brasil na visão do artista: o país CONSIDERAÇÕES FINAIS o eixo paradigmático (comutações e substituições) da e sua gente. uma vez agregados. acreditamos que a cultura visual produz Isotopia 1979.São relaciona uma imagem à outra.) compreende-se a disposição (. Um trabalho artístico pode apresentar aspectos cro. no. Recherches Scientifiques / Fudation Nationale de a título de meros figurantes e da maneira mais passiva como uma relação entre ao menos dois termos. 2004. fomen. 278. se deve o termo: “actantes são os seres ou as coisas que. A estrutura elementar da signi.

interlocuções .

este organis- Lembro-me que uma marcante e inicial reflexão por que o seu corpo expressa [já que a miscigenação visa a. através dele. de absoluta falta de diálogo. expressando o racismo ainda existente no lectualidade negra que passa a defender teses e colocar outros espaços. A senhora poderia explicar como vê a relação entre soa branca. Florestan Fernandes. ele aponta obstáculos a senhora diria que estão colocados para para a não escuta. temos também assessorado mesas diretoras de câmaras mu. líticas de cotas pelas instituições de ensino superior. a situação dos in. demandas. de acordo com a teo. uma ponderação que não é minha média protagonizavam a iniciativa dessas produções. um dos desafios que o corpo negro a a existência do racismo? Aos sucessivos desrespeitos. dentro delas. frente às sucessivas mortes ante. trago uma interrogação: o que conta Florestan Fernandes e Roger Bastide na USP. A terceira fase. ao tempo em que a militância negra pri- mava por dar visibilidade à conquista de espaços nesse anhamona de brito dêmica”. daí o silêncio. são alguns homem. tendo negação. ticas de Ações Afirmativas do órgão. intitulada “A Unesco e as re- científico. no artigo “As relações entre a academia e a do processo de sua institucionalização. pela indubitável expressão de de estudo. do Negro Brasileiro [1950]. para onde ela caminha ? Quais são as prioridades da atual gestão da Seppir? é Educação. enfim. no espaço acadêmico e impediram tal alcance. em face da necessidade de conquista de Públicas do Brasil. Para mim. Estamos diante de um novo cenário. o tema central do Instituto Sangari . a partir de inciativas de estudiosos como Roger Bastide e e um maior número de negros militantes e intelectu- estaduais e municipais. tórico-cultural brasileiro. percebo que os desafios estão presentes para dentro e para fora “novo país”. seu posicionamento. a defesa da tese do intelectual Poder latente no redirecionamento do pensamento negro Guerreiro Ramos. nesta entrevista exclusiva. a político-mili. na pesquisa acadêmica. corpo negro. Na sequência. Corporalidade e Racismos Contemporâne. A senhora fase? Para mim. mim feita acerca do binômio racismo – corpo negro foi justamente. de perder a vida. permanência ridades da atual gestão da Secretaria de Políticas de estava ali. no seio do movimento negro. mo executivo alcançou a sua finalidade institucional. antigas. ou reforce as teorias bio-antropológicas para as políticas criminais riormente impingidas. na época com 17 parece que nada mais resta. sendo que intelectuais negros e de classe tante? Trago. Delinquente por natureza. Daí para frente. O formato do crânio.em face do que Pereira. das universidades. onde lideranças negras se tornam ais. Se. o que a pergunta pode fazer denotar. não se intercomunicavam que a SEPPIR projete novas estratégias.ter 103. Tirar a vida acaba se tor. com pesquisa recente do Ministério da Justiça através concorda com essa linha evolutiva? Se permanecemos Nesta primeira edição da revista Ngunzo.interlocuções Levando em conta sua experiência acadêmica. o científico. o professor além da adoção de algumas medidas compensatórias. Acho que se trata mais de uma questão de constatação No ano em que comemora 8 anos. Brito. Essa mudança é fruto da ação de construção de nossa identidade. tombar. de modo a fazer com que o Estado brasileiro 127 . ria [abordada sem qualquer caráter crítico-reflexivo]. problemas. do “incontestavel. da academia acerca os intelectuais negros no interior das universidades? das questões “do negro”. No que mais para a luta antirracista e para a vigência do princí.a atuação acadêmica ou a das ruas. nas três primeiras décadas do entrevista: Mesmo não sendo uma pessoa de “larga vivência aca- século XX. impossibilitado de de do século passado. na primeira meta. concedida por e-mail. ainda. dos Em uma reflexão sobre as relações entre militância ne. prefeituras e bancadas legislativas federais. uma quarta Brasil. dos pela população negra para o acesso.de acordo a questão do negros nas agendas de estudos. o fato de o corpo negro . A No Brasil da primeira década do século XXI. com a qual concordo: se há uma tendência são dos idos de 1999. deve-se atentar. tudo apontava para a definição do Ser gra e acadêmica no período da república. nossa consciência acerca do papel que temos de desem. pelo Estado. sim. para os desafios lações de raça” e os debates acerca dela no I Congresso existentes fora dos muros das universidades. Estudava direito penal e a influência das nando consequência. e desempenho no ensino superior e promoveram os Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR). vivencia-se a não do diálogo com os negros na condição de sujeitos da aceitação de que os negros produzam conhecimento pesquisa. especia. reporta para o fato de pio da equidade pelo asseguramento de nossos direitos temas pertinentes aos negros perpassarem a produção . sentado. informantes-chave dos pesquisadores. A primeira. e o cultivo da identidade racial. demonstra isso. relevando as suas considerações no processo acerca de si mesmos. sitário e. enfim. segunda nos anos 1950. a espessura das sobrancelhas. nunciaram. cultural. na educação. seguida dos trabalhos de Para refletir. ele denomina de terceira fase. da mesma forma o tempo todo. quando Cesare Lombroso me foi apre. da intelectual Luiza Bairros [atual Ministra da Devemos ter em vista que as reflexões de Pereira SEPPIR]. ter direitos. acadêmica. os obstáculos enfrenta- telectuais negros nos espaços acadêmicos e as prio. Somente assim. da atualidade. na sua opinião. se comparado ao de uma pes- os. com o direcionamento de ação para novas do Colégio Nacional de Ouvidorias das Defensorias mente inferior” e do “não-ser” continuam aderidas ao segundo Borges Pereira. que Olhando para o Brasil pós-república. além de aprofundar a educadores/as ativistas do movimento negro que de- A visão do corpo negro no direito. lista em Direito Público e Políticas Públicas. Foi ainda ouvidora geral da inferioridade e o biótipo do crime. é do surgimento de uma inte. e. produz um dos tipos de conhe- cabe reconhecer que a produção acadêmica auxilia na cimento. assegurar uma sobrevida] – é acometida. Será esta uma nova onda. militância negra” constatou. Bahia. se ao longo e mortes simbólicas a que a pessoa negra . será possível anos de idade. Anhamona de lábios. dança do perfil das pessoas que estão no espaço univer- tuais negros/as para a potencialização de nossas lutas. no curso do processo his. a mais completa passa por três fases. a ser repelido com veemência João Batista Borges Pereira delineia uma trajetória que na tentativa de aplacar as desigualdades raciais pela/ Nascida em Salvador. Da leitura do nosso corpo. houve uma mu- em desmerecer a importância do papel dos/as intelec. negações. é marcada por um diálogo a uma maior articulação entre a academia e a militância nicipais. a única diferença era o fato de ser a de um na nossa vida social. apresenta a mudança de ce- nário e os marcos da inclusão. das orelhas e o modo de enfrentamentos necessários ao estabelecimento de po- dos assuntos de que trata a nova secretária de Polí. violências do estudioso que de aquiescência de minha parte. foi que a mobilização política e. no curso dos anos.4% mais de chances de na terceira fase. Ele expressava o não-ser. pelo fato de denotar. também. quais foram as questões que na sala de aula do curso de Direito. político. com novos Defensoria Pública do Estado da Bahia e presidenta A figura do “criminoso nato”. Uma imagem de pessoa semelhante à minha penhar no campo econômico. sim. O estão postos para SEPPIR é o de avaliar. ela é advogada. numa análise negativa. quais sejam.

entre outras atribuições. marcando o lançamento do Ano As relações com a África e as comunidades negras da um novo plano? Por óbvio que não. pelo poder de arti- No slogan. promover ações que visem a a luta que teremos de empreender para que o Plano de definição de prioridade de nosso Ministério. -sul entre especialistas da área de educação. por sua vez. analisando. Internacional dos Afrodescendentes no país. promovemos deral nº 12. que se combater o racismo e as desigualdades sociais que ele Em que pese a SEPPIR tenha firmado um número sig. as executadas em parceria com outros entes. Com ela. principalmente no estímulo ao intercâmbio sul. bem como as propostas submetidas à a execução não fique ao encargo do nosso Ministério. não podemos deixar de tura negra no ensino fundamental caminha a passos tentem contemplar aos interesses e às necessidades da debates temáticos sobre a promoção da igualdade ra. sendo essa aproveitar essa data propícia para propor. acom. de modo a auxiliar a implementação das a superar as desigualdades raciais pelo país. competência. traz como consequência. sobretudo no for- independentemente de sua cor ou raça. novos fazeres. cano. panhe a execução de programas voltados à implemen. é certo que listas. Precisamos mudar. de manei. racial em voga. Racial é Pra Valer”. a 10. sociais tidos como “subalternos” e depois esses grupos situação? Ainda nessa linha. buições nocivas que o racismo e o sexismo imprimem [a SEPPIR. dos Estados e também dos estudos acerca da política de promoção da igualdade anseios e aos interesses da população negra. a estratégia de luta. ações emblemáticas em prol dos negros. Apesar da legislação existente. Já exis. nificativo de parceria com países do continente Afri. culação e de pressão que os/as professores/as... tendo a SEPPIR um papel relevantíssi. de reduzir as desigualdades e. com fins de SEPPIR. teremos a obrigatoriedade de definir quais são as ações Em 21 de março de 2011. Logo que tomou posse a Ministra Luiza Bairros lem. das desigualdades raciais na educação.288/2010. inclusive. incluindo as adesão a essa campanha. na medida em que não temos a cul. promova. Poder Executivo da União. sociedade civil. Se o seu Para que o nosso Ministério articule. retroalimenta os indíviduos Exemplificando: se uma agenda prioritária do “o que pretendemos fazer para melhora essa situação?”. o Estatuto da Igualdade Racial]. aquilo que elas tem metas a serem atingidas. considerar que. no governo PIR não poderá se furtar de. descentralizar a sua implementação pelos governos es. A Seppir pretende estimulá. é Vejo estes campos como essenciais no processo ra cotidiana e intensiva. -las? De que maneira? afirmando que a luta que teremos de empreender. que contém. taduais. novos saberes. consideramos que a igualdade preci. o não-discriminatória. desenvolver as que possibilitam ou possibilitarão o atendimento aos e as comunidades de sua diáspora. inclusive. aniversário de 8 anos da de mais particularizado. ações específicas são bilidade na relação da SEPPIR com os países da África 2011 é ano de elaboração do plano plurianual do diagnósticos sobre as desigualdades raciais. cial. estrutura. dessa nova política [promoção da igualdade racial]. o racismo delimita os grupos lentos. a nossa vivência demonstra que o racismo poucas foram as tratativas que envolvessem a troca de social conseguirem estabelecer. para além da contínua análise acerca dos impactos a serem trilhados para isso. diáspora são importantes. o pleno exer. posso salientar a prioridade a A atuação política e administrativa do Ministério são novamente hierarquizado. Estado brasileiro hoje é a de erradicar a pobreza e a No que diz respeito às ações necessárias ao combate de Promoção da Igualdade Racial [previsto pela Lei fe. as formas de dades sociais que lhes são consequentes é algo recente não é por falta de detalhamento dos possíveis caminhos tação da promoção da igualdade racial. e. A intenção é a de que os entes governamentais. pela sua efetiva aplicação. o que não pode passar desper- da iniciativa privada. Daí. consistente. existe alguma sa ser efetivada. fundamentalmente. mas. goza de um certo pioneirismo. pela estruturação do Sistema Nacional para novas agendas. será alvo de ações espe. especia- Dentro do campo de atuação da Seppir. A institucionalização de um órgão governamental cebido pelos poderes públicos constituídos. propor caminhos que visem a aplacar as lações étnico-raciais e para o ensino de história e cul- tura de promover a articulação de políticas sistêmicas te alguma coisa encaminhada nesse âmbito? inúmeras “opressões” sofridas pelas mulheres negras tura afrobrasileira e africana. Afinal. mesmo que municípios. Talvez o final da pergunta deva ser reformulado para nacionalizada e envolvendo os entes de governo e da o científico] e. como também E a questão da mulher negra. De acordo com o Estatuto. acordo com o próprio decreto que regulamenta a sua mato de cooperação. Precisamos de outro documento. ganhe eficácia. de cíficas? Elas se justificam? Por que? compartilhamento de experiências. estudantes e as representações do movimento contribuição que ela possa dar no sentido de ampliar na prática. sim. que e coordenar encontros para a realização de estudos e respeito às mulheres negras. 128 129 . colocamos na rua a campanha “Igualdade tado e o realizado. em breve. da forma como a proposta. realizar e apoiar a elaboração de estudos e Dentro das atribuições da SEPPIR. ou não ocorre. pelo cumprimento da e aprofundar as pesquisas acadêmicas sobre o tópico opressor nos impõe um número significativo de exclu. No que diz mentação do ensino de história da África e da cul- a serem atingidos pelos governos em suas ações. precisa. federal. conhecimento sobre aquilo em que o nosso Ministério LDB. mostra-se como uma outra possi- cício de sua cidadania e o direito à vida. agenda política. planejar. Vai passar pela intervenção política da encontra com um planejamento estratégico em curso. faz-se essencial a análise das contri. sabe-se que a imple- mo no auxílio à definição e à inserção de indicadores apreciação do Congresso Nacional. cumprimento está aquém do esperado. representantes do movimento so. brasileiras. numa esfera se alimenta das conhecimentos produzidos [não apenas tiva de gênero. brou que o ano 2011 foi considerado pela ONU o Ano nesse cenário. conclamamos toda sociedade brasileira para. SEPPIR. Parafraseio Edson Cardoso. miséria extrema. promover em face das peculiaridades organizacionais. dessa vez pela perspec- ser dada pelo estabelecimento de diálogo. dentro de sua esfera de diretrizes curriculares nacionais para educação das re- uma tarefa difícil. municipais e distrital. em todas as áreas. não bastando as referências legais se. não uma ou outra.639/2003 promoveu alterações no racial? sões. o MEC e os/as agentes sociais envolvidos Ele foi concebido como a via de organização e articu. cial e a população em geral comprometam-se com essa com fins de combater o racismo e aplacar as desigual. Divulgaremos. Concordo que há um descompasso entre o proje- afirmativas adotadas pelo governo federal. vê-se que a SEP. primeiro. assegurando a toda a população. tendo as perspectivas raça e gênero como com a temática] a elaboração de um plano bastante lação do conjunto de políticas e de serviços destinados Internacional do Afrodescendente e que pretendia balizadoras. interlocuções reduza as desigualdades raciais e promova uma cultura políticas transversais do governo federal. O que pretendem fazer para melhorar essa população negra. texto dessa Lei maior.

literarte .

Impossível Quantas gargalhadas É querer suas mãos Foram necessárias? Descendo a lua Ela caminha Sobre minha face..Núcleo de Pesquisas e Estudos Multidisciplinares Africanos e Ewá. mestre em Letras Ela. Ela.literarte A que abre o leito dos rios Terras E apascenta a violência A rainha que dorme em Com seus cachos Seu sarcófago É a mesma As oferendas frias Que desmancha nuvens Tudo virou sombra. Desenhando o universo Pele De longe A sedosa negra A vejo Da flor no cabelo. Abrirá sua boca pela UFBA.. Deusa do rio Iewá Nos olhos movendo Ricardo Nonato Seus búzios. Se aproxima vários Roda Olhares Corpo mogno e Uma corte infiel Seu vestido O rei Pingando vermelho Que passeia por outras Para nunca mais É quando fecho os olhos. Afro-Americanos (DCHT XXIV/UNEB). com seus contornos Para nascerem flores. Com uma espada. professor de Teoria Literária e Literatura Brasileira na Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e pesquisador A dançarina Mais uma vez do AYOKÁ KIANDA . Almeida de A engolidora das dores Abreu Silva Poeta e artista plástico. Espero. 133 . Com passos finos A sua volta.

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Rodovia Celso Garcia Cid | Pr 445 Km 380 | Campus Universitário Cx. 1. n.Nguzu – Ano 1. Postal 6001 | CEP 86051-980 | Londrina – PR Fone: (43) 3371-4000 | Fax: (43)3328-4440 Email: neaa@uel.br . março/julho de 2011 Revista do Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA) da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

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