Revista do Núcleo

de Estudos
Afro-Asiáticos
da UEl

Expediente sumário
Universidade Estadual de Londrina Editor executivo
Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA) Carlos Alexandre Guimarães
Reitora
Nádina Aparecida Moreno Secretaria Editorial
Flávio Carrança
Vice-reitora
Berenice Quinzani Jordão Capa, projeto gráfico e diagramação
Naima Almeida e Natália Tudrey
6 EDUCAÇÃO, CORPORALIDADE E
Coordenadora do NEAA RACISMOS CONTEMPORÂNEOS
Rosane da Silva Borges Revisão Editorial Rosane da Silva Borges
Flávio Carrança

Coordenações de área do NEAA

Educação e Ações Afirmativas
Nguzu – Ano 1, n. 1, março/julho de 2011
Revista do Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA)
Dossiê Temático
Maria Gisele de Alencar da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Rodovia Celso Garcia Cid | Pr 445 Km 380 | Campus 10 O CORPO NEGRO: SENTIDOS E SIGNIFICADOS
Arte e Cultura Universitário Isildinha Baptista Nogueira
Marcia Dermindo Cx. Postal 6001 | CEP 86051-980 | Londrina – PR
Fone: (43) 3371-4000 | Fax: (43)3328-4440 14 PERSONAGENS EM POSIÇÕES HIPOTÉTICAS: CONSUMO,
Comunicação Email: neaa@uel.br CORPO E SUBJETIVAÇÃO NA CULTURA DAS MÍDIAS
Silvia de Castro Laura Guimarães Corrêa

Pesquisa e Documentação Conselho Editorial 22 RACISMO E BIOPODER: UM CASO NO RIO DE JANEIRO
Carlos Alexandre Guimarães e Rosane da Silva Borges 1. Alex Ratts (UFG) CONTEMPORÂNEO
2. Álvaro Roberto Pires (UFMA) Renato Noguera e Carla Cristina Campos da Silva
Articulação Comunitária 3. Amauri Mendes Pereira
Manoela Fernanda Silva Matos 4. Ari Lima (Uneb) 28 CORPOS NEGROS EDUCADOS: NOTAS ACERCA
5. Carlos Benedito Rodrigues da Silva (UFMA) DO MOVIMENTO NEGRO DE BASE ACADÊMICA
Relações Internacionais 6. Maria Aparecida Moura (UFMG) Alex Ratts
Dejair Dionísio 7. Denise Botelho (UFRPE)
8. Edna Rolland 40 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL: PRETINHO (A)
Secretaria 9. Edson Lopes Cardoso (SEPPIR) EU? DISCUTINDO O PERTENCIMENTO ÉTNICO
Cibele Candeo Leite 10. Elena Andrei (UEL) Ralime Nunes Raim
Dirce Meneguelli de Sá 11. Flavia Matheus Rios (USP)
12. Heloísa Pires 50 REFLEXÕES SOBRE NOSSAS CONSTRUÇÕES INTELECTUAIS
Assistente de Educação e Documentação 13. Joselina da Silva (UFC) E POLÍTICAS ACERCA DE “RAÇA”
Vaudice Donizete Rodrigues 14. Kabengele Munanga (USP/SP) João Batista de Jesus Felix
15. Kia Lilly Caldwell (Univ. North Carolina at Chapel Hill)
Estagiária de biblioteconomia 16. Leda Martins
Elza Ribeiro Bueno 17. Ligia Ferreira (Unifesp)
18. Lucia Helena Oliveira (UEL)
19. Marcelo Paixão (UFRJ)
Propostas Pedagógicas
Comitê Editorial 20. Maria Nilza da Silva (UEL)
21. Matheus Gato de Jesus (USP) 62 POR QUE ENSINAR A HISTÓRIA DO NEGRO NA ESCOLA
Coordenação 22. Nei Lopes BRASILEIRA?
Carlos Alexandre Guimarães 23. Nelson Inocêncio (UnB) Kabenguele Munanga
Rosane da Silva Borges 24. Nilma Lino Gomes (UFMG)
25. Roberto Borges (CEFER-RJ) 68 O ensino de sociologia e a lei 10.639/03:
Editora científica 26. Sueli Carneiro (Geledés/SP) cultura afro-brasileira no livro didático
Rosane da Silva Borges 27. Wilson Mattos (Uneb) Crisângela Biassi de Almeida

76 LITERATURAS AFRICANAS DE LÍNGUA PORTUGUESA
EM SALA DE AULA: UMA POSSIBILIDADE?
Claudia Vanessa Bergamini

85 A ENUNCIAÇÃO DO POSSÍVEL: AS COTAS RACIAIS E A LEI
10.639/03 TRANSFORMANDO A REALIDADE DA POPULAÇÃO
NEGRA EM LONDRINA
Márcia Figueiredo Tokita e Maria Gisele de Alencar

Negras Reflexões

94 DO DIREITO À PALAVRA AO PODER DE ENUNCIAÇÃO
DO MOVIMENTO NEGRO NO BRASIL
Jacques D’Adesky

106 RAÇA E GÊNERO: ENTRELACES RACISTAS VERSUS
AFIRMAÇÃO IDENTITÁRIA NEGRA
Maria Anória de Jesus Oliveira

116 A REDENÇÃO DO OLHAR: UMA ABORDAGEM SEMIÓTICA
Nelson Inocêncio

Entrevista

126 ANHAMONA DE BRITO

Poesia

132 DEUSA DO RIO IEWÁ
Ricardo Nonato Almeida de Abreu Silva

espe. Oxalá cumpramos esse papel. é va. Marcia Figueiredo Tokita e Maria Gisele de Alencar. O nome cias Humanas da USP. a decisão cotidiana sobre quem doutor Kabengele Munanga. educativa. tivas da Secretaria Especial de Políticas de Promoção episódios contemporâneos que revelam a pertinácia tomam a discriminação racial como nexo prioritário nhecimento capazes de contribuir para a compreensão da Igualdade Racial (SEPPIR). Na Colhemos da língua banto o nome da publicação. Convertendo-se em Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). pesquisador do Centro de Estu- porte impresso. de 1970. passando por filósofos canal difusor das pesquisas. da socióloga e co- ordenadora do Programa Diversidade Étnico-Racial na cleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA) e coordenadora editorial da revista Nguzu. O mencionado quadro. docente do -se como um espaço demarcado para dar visibilidade afirmam solenemente ser o Brasil um país isento de gens da corporalidade e dos racismos contemporâneos. das pesquisado- (1999. seção “Interlocuções”. alcança di. 33). demonstra nesta publicação a diversidade de aborda. práticas racistas. Muniz Sodré já nos advertira: e do professor doutor João Batista de Jesus Félix. cialmente de jornais impressos e televisivos com capi. Minas Gerais. secretaria de Ações Afirma- A escolha desse dossiê temático foi motivada por reação conservadora à adoção de políticas públicas que ricas e estabelecem diálogos com outras áreas de co. coordenadora do Nú- pelo corpo que se circunscreve as (im)possibilidades do ser. do racismo em sua ação implacável de abater corpos para a superação das assimetrias no Brasil. office-boy – não deixam margem a dúvida. Os artigos aqui reunidos sobre o tema dor do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UnB. da Universidade Federal do Tocantins (UFT). Com as informações emitidas pelo corpo. por definição. agremiações políticas. Renato Nogueira. Visto como um elemento vital para bibliográfica mensões exponenciais. do professor de filosofia e educação da e Racismos Rosane da Silva desse modo. somente permanecem. Nguzu. e da socióloga pós-graduada Em tempos de narrativas hipermidiáticas. a incidência majoritária de assassinatos nessa e ascensão do pós-humano? De que maneira reinserir tor Jacques d’Adesky. Crisângela de Almeida. de Artes da Universidade de Brasília – UnB e coordena- ções raciais no Brasil e em outros países da diáspora. ras graduadas pela UEL. 1999. Rio de Janeiro: Vozes. plosivo e. pelo menos desde a década tes reflexões que apontam para a superação do corpo reflexões” contamos com os artigos do professor dou- virtual. do professor doutor Alex Ratts. portanto -se argumentos propugnando uma práxis política que Muito se tem insistido de que o corpo e. cial do MIT. professora adjunta do cur- so de Comunicação Social da Universidade Federal de Em seu número de estreia. restaurantes de luxo ou Antropologia da Faculdade de Filosofia Letras e Ciên­ mesmo ser aceito para seguros de automóveis. onde os múltiplas faces da discriminação racial vêm denun. órgão que essas estatísticas convivem. de São Paulo”. institui. Corporalidade faixa etária. a revista Nguzu toma. o corpo é categoria importante na SODRÉ. Anhamona Silva de Brito. Organizações anti-racistas atentas às O número de homicídios entre a população negra é ex. dores de opinião pública e apresentam-se como uma tornam públicos os resultados de investigações empí. Muniz. mesmo resultando em vistos em conjugação. irremediavel. e vêm estimulando a renovação do senciamos na paisagem cotidiana é desalentador: os ín. incluindo-se aí também Uma ótima leitura e até o próximo número. não a gramática corporal como um vetor importante para dos das Américas da Universidade Cândido Mendes e Racismos Contemporâneos. da professora doutora Maria do NEAA (Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos). definição das relações sociais africanas. da Universidade do Estado da Bahia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). torial para dar continuidade ao compromisso de ser um -boy pelos seguranças do banco Itaú integram uma lista admitir a centralidade do racismo nas ações discrimi. se desvencilhe de qualquer recorte racial. os exemplos aqui elencados – do dentista e do da medicina e da psicanálise. paradoxalmente. ou seja. beirando um cenário de De um modo ou de outro. O que causa espécie é pensarmos na sustentação do racismo? e professor da UNESA. Educação. Enfileiram. Corporalidade praticamente inalterada a marca histórica de 92% da masculinidade nas vítimas de homicídio. Em perspectiva da epistemologia à violência no Brasil. presentes na agenda dos suportes informativos. o que é pior ainda. as concepções sobre o corpo passaram por debate por meio de fóruns concernentes ao racismo e dices exorbitantes de mortalidade de jovens negros não radicais avaliações. forma. argumentos enviesados que. em franca decadência. traço por traço. como era de se esperar. como sabido. No como Michel Foucault e Gilles Deleuze. seção “Propostas Pedagógicas” os textos do professor le de rostos). importa destacar das altercações são as relutâncias em e da cibernética. Contemporâneos Professora Doutora. a noção de sujeito e subjetividade derivada do Como qualquer iniciante. apresentamos a poesia do escritor Raimundo Nonato. do Departamento de pode entrar em clubes. próprias de sua concepção edi- quando retornava para casa em Guarulhos e do office. Com o tema Educação. da Universidade Federal de Goiânia. a nossa convidada é a doutora significa energia. ainda são sustentadas por frações da crítica e analítica. O que pre. o corpo como um vasto território mar- cador de sentidos e significados. em constan. sob uma perspectiva educativa. Tais episódios fizeram-se razoavelmente natórias impulsionadas por um fundamento racial. da pós graduanda em Letras da prática é alemão. das singularidades do racismo na contemporaneidade. boates. e da mestranda Carla Cristina da Sil- Borges uma das primeiras fronteiras de violação do humano. buscam problematizar e aprofundar questões teóricas. a cada ano. sob a chave da pós-modernidade energias. outros contributos não menos importantes referência O assunto. De Descartes. tanto. Ralime Nunes Raim. também da UFFRJ. é por ele que se classifica e se categoriza as pessoas. No tópico “Negras textos encontram abrigo preferencialmente no espaço ciando sistematicamente. a vitimização entre jovens negros tem índices muito altos. do que esses corpos significam e represen. entanto. de Laura Guimarães Correa. como crescem vertiginosamente africana. a revista Nguzu é também manufaturada no su. da Universidade Estadual da Bahia. o outro. psicanalista e “extermínio”. (UNEB) e do professor Nelson Inocêncio. pelos aportes relações raciais. estruturas sociais. e nos conduz. as contribuições do Laboratório de Inteligência Artifi- laridade nacional. a Nguzu apresenta na julgamentos na prática do Gesichtskontrolle (contro. Segundo reportagem do jornal “O Estado ampliam o painel. Claros e escuros. “o Mapa da Violência 2011 mostra que a equilíbrio de algumas sociedades. por. 6 7 . o que cartesianismo estão. negros. mas sua incidência é transnacional da UEL. esculpimos Educação de Montes Claros/MG. podemos entrever essas reflexões nos textos de Isildinha Baptista. te interrogação. p. com Uma pequena mostra de artigos referentes ao tema Anória de Jesus. continua doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo. Como reposicionar o debate em meio às emergen. Tais afirmações. para os elevados índices de mortalidade entre vitimização juvenil por homicídios continua a crescer. os jovens negros. triste eloquência. fundamentada em uma leitura racial. com verniz de seriedade. Nguzu espera manter tam (os assassinatos do dentista negro em São Paulo Sem nos estendermos sobre essa contenda. ponto ordenador das mente. A estética negativa do estrangeiro lastreia sempre os Além do dossiê temático. Departamento de Artes Visuais vinculado ao Instituto às reflexões e pesquisas ancoradas no campo das rela. E na seção “Literartes”. pela UEL. uma publicação constitui nenhuma novidade. estudos e reflexões sobre significativa). que intelligentsia brasileira. Cláudia Vanessa Bergamini. Após uma década (1998-2008).

dossiê temático .

Foram 320 anos de escravidão. o negro trabalharia como mão de obra O conjunto das representações que constituem a balho do negro escravizado. Libertos. obrigadas a conviver. Restava aos negros o trabalho do- mais diversos fatores. se pensa e se percebe de uma época para outra. sócio-econômica. ção pelas condições de cativeiro dos negros. periências para além de um terreno anteriormente in. j’essaye de definir la condition du noir en tant dialética entre. os indivíduos se comportam segundo essa Trazidos de diferentes regiões. ALENCAR. As representações sociais funcionam como uma 1. um conjunto de o homem passa a ser visto como centro e modelo do na ordem econômica e política. tendo cultura. particuliéres. portanto. as estruturas sócio-econômicas que as sentations sociales ideologiquement structurees sócio-economiques Departamento de Psicologia Escolar e do produziram e as reproduzem e. as configurações que qui les ont produit et continuent à les réproduire et. Entre cativos e mortos. a necessidade que lhe é natural. les repre- Psicanalista. o que animais e vistos como incompetentes. mas depende dos cá vieram trabalhar. mudam. sócio-economiques. tra- rede onde as malhas estabelecem os domínios das ex. situação que perpetuava a imagem anterior. cisme. Construímos uma cultura. de Por mais de três séculos. saindo da con- pertencimento a essa organização. formam o universo psíquico. universo psíquico. que produit de l’interaction dialectique entre. fundamentalmente. diversas. seus valores. Chico (org. Os abolicionistas mostravam grande indigna- princípios de conduta. periências diárias e dizer que. onde se criaram novos conceitos. não mudaram? SER HUMANO faltaram estudos que os compararam aos animais. Palavras chave: negros. com o tema: Signi- ficações do corpo negro. que começava a ser feito pelos imigrantes. E SER NEGRO ficando. Nogueira Refletir sobre a condição do negro como produto da interação De cette réflexion. mas não garanta a cada um dos indivíduos pertencentes a um tumes e leis. balhava em troca de ração. sem terem consciência desse mecanismo. tifiquem. sociale determine. para os negros. que demandará tualiza”. Como seres humanos. teve origem A promulgação da “Lei Áurea” que supostamente destacamos por nossa capacidade de dar significados no Renascimento. assim como a vida psíqui. e fixam os limites dos comportamentos culturas diferentes. Doutora em Psicologia pelo camente estruturadas. mundial. uma entidade “naturais”. Les Mots Clé: noirs. tal como besta fera domesticada. a remunerada para seu auto-sustento. configurações psíqui. cultura está condicionado a uma lógica que determina África perdeu 70 milhões de pessoas do século XV ao que viver em sociedade é estar “sob a dominação des. turação é uma consequência natural na relação entre INTRODUÇÃO diferenciado. as represen. des configurations psychiques Isildinha Baptista cas peculiares. à partir de l’hipothèse suivante: que cette realité historique histórico-social determina. que colocavam obstá- crenças e costumes. histórico social. mundo. foram comparados a ca dos indivíduos e dos grupos sociais constituem um a organização entre os semelhantes dificultadas. que são ideologicamente suas identidades originais. com sentido e significação. a vida coletiva. culos à existência de um país escravagista no cenário próprios de cada grupo étnico social. os negros tinham portanto a comunicação e Dadas suas condições de vida. os libertaria do cativeiro. empírica. 24. estruturados. nos A noção de “ser humano” que temos hoje. melhores condições de acesso à cidadania. Direitos mais humanos. ra- cismo. cos. uma construção do pensamento. brutalizados e animalizados pelos senhores. dição de escravo. configurations que constituent l’univers psychiques. Garamond. preguiçosos e complexo processo que não corresponde a uma relação favorecia o controle dos senhores de escravos. de outro. os negros tações sobre o negro e o seu lugar na sociedade não se viam destituídos da sua condição de humanos. univers psychiques. Ao perderem dos indivíduos e dos grupos. a despeito das lutas por Vivendo em péssimas condições nas senzalas. mecanicista. falando. puderam pensá-los como indivíduos que deveriam ser determinado grupo. dade de São Paulo.). Em línguas diferentes.dossiê temático O Corpo Negro: Sentidos e Significados RESUMO RESUMÉ Este artigo tem como objetivo refletir a dimensão psíquica da Ce article se propose à réfléchir sur la dimension psychique du ra- questão do racismo. Rio de Janeiro: em que o negro. consequência. d’autre part. historique sociale. cada sistema cria seus teóricos que o jus. 2001. de um lado. isto é. econômicas mercantes brasileiras basearam-se no tra. como forma de resistir à Como falar acerca de representações psíquicas e ex. assim. resultado da transculturação. as condições em que viviam como sendo ção. ra. sa lógica”. os ex-escravos vagavam desorientados. XIX1. opressão causada pelo processo de escravização. pg. Assessora do Instituto AMMA Psique e Negritude. quando comparados aos europeus que para causal simples. uma ética que permita e por ser histórico. indolentes. les Desenvolvimento Humano da Universi. méstico. Isto é possível porque o ser humano se “concei. tradições e religiões no campo. sem condições para seu auto-sustento e sem trabalho lógica. foi antecedida por mudanças às coisas. d’une part. as principais atividades inseridos na sociedade. consequentemente. Supunham que. justi- A sociedade é. 11 . ganham nova identidade. A acul. pour les noirs. partindo da hipótese de que essa realidade cisme. uma concep. as representações sociais ideologi. que criaram olhares específicos.

estejamos inconsciente elaboração própria . ao amor os negros passam. Assim. Se o que constitui o sujeito É justamente porque o racismo não se formula ção em relação aos negros. com base na biologia de conhecimento ideologia moldam as estruturas psíquicas dos homens.) Racismo significado que a pele negra traz enquanto significante? terror de possíveis ataques (de qualquer natureza. negro. de um estigma. se vê exposto a uma situação em que inferioridade de certas etnias. Gustavo. onde o indivíduo se autoriza à eliminação do representações psíquicas não são puro reflexo das con. como a melhor forma de organização social. também. parcial ou totalmente. gicas atribuídas aos brancos. to essa marca pudesse representar. isto é. a manifestação da razão. confun. visto que só existimos como sujeitos em e impedidos de desfrutar de qualquer benefício social. é alidade sócio-cultural do racismo deixaram inscritas ra”. Nilton Bonder. Cleusa. O signo “negro” remete não só às posições sociais vergonhado de si.que recebem no plano tado das atitudes racistas e irracionais dos brancos. O sujeito. ou ambas cesso psicológico da ordem do inconsciente. que deve ser negado. tade moral. do ser humano o preconceito. D. O negro pode ser consciente de sua condição. o neutro da huma- não impede que ele seja afetado pelas marcas que a re. 1995. de cor no Brasil. via de regra. Lilia Moritz. VENTURI. ser sujeito é foram marginalizados. declarações e também a capacidade de contradizê-los. E o ou ódio pela incorporação das propriedades do obje. se funda e se estrutura na condição univer. a pró. 2001. do de maneira apaixonada. portanto. à alteridade. NEGROS? recedores de possibilidades sociais iguais. Direitos mais humanos. O intuito. de “direitos civis” − é mais forte que ele: o negro acaba aquilo que pretensamente autoriza o indivíduo à exclu- Sabemos que as condições sócio-econômicas e a cura se contrapõe ao mito negro. livres do cativeiro. tão complexas quanto essas que envolvem a discrimina. o branco suficiente conhecimento. Suas estruturas psíquicas são contami. Identidade. marcados pela ser outro. passam a garantir essa Frei Betto. A ideologia racial. cien- inferiores mas. Estarmos cientes dessas diferenças é importante dições objetivas. A brancura. Significações do corpo campo etnossemântico onde o significante “cor negra” to em um autômato: ele se paralisa e se coloca à mercê expressão violenta da diferença que parte da descons. O espetáculo das raças. 1870- supostamente aquém do valor das propriedades bioló. oprimido. tornando-os sujeitos cati. utilizando cante. não me. Eduardo Soares. Claros e escuros. povo e é o olhar do outro. espírito e das ideias: a cultura. a discriminação é em sua psique. mas forte o bastante para que. 12 13 .a partir das quais são ideal de brancura permanece. Jorge Werthein. o objeto amado ou odiado. aí uma confusão entre o real e o imaginário. São Paulo: Companhia das Letras. pela negação do Ainda que lançando mão de um arsenal racio. Negar e anular o próprio corpo nos torna o su- ço na sociedade. o desejo de “brancu. absurdas. através da imitação ou da pria “humanidade”. de fato. transcende qualquer falha do branco. Referências incorporação. majes. o racismo é a expressão violenta da discri- Tal processo não é imediatamente verificável. as fantasias estão. SODRÉ. seus sentidos e significados. Esse mecanismo é o que a psicanálise caracteriza que se possa ser o outro. Pedro Ca- do agressor. Nasce em nós. SCHWARCZ. sentimento formado sem estruturas de poder e dominação. esses termos como se tivessem um só significado. vos e mantenedores de tais condições. nidade. diversidade. te que essa defesa apaixonada se dá por comparação. Luis é internalizado. ser sujeito no outro. que desta forma na relação com o outro − e no ideal de brancura − não em “conhecimentos científicos”. das Ser branco significa uma condição genérica: ser branco implicações histórico-políticas do racismo. enquanto profissionais. TURRA. vista da perspectiva do olhar do negro incabíveis legalmente − já que criminosas. 1998. Arthur Dapieve. para que. dela excluídos jeito “outro”. o desejo de recusar esse signifi. cada qual defenda sua cultura no processo de identificação. o negro passa a se auto-rejeitar. Rio de Janeiro: O “ser negro” corresponde a uma categoria inclu. mas jamais da condição de escravos. baseado na suposta sidade de São Paulo. e ser o outro é não ser o próprio sujeito. 1930. como fica o negro que se confronta explicitamente. científico. racistas que parecem grotescas. Petrópolis: Vozes. Graciela Rodriguez. nal lógico. assim. que. assim fragilizado. rentes ao ser humano. mas isso constitui o elemento não marcado. portanto. ine. não se faz necessária a presença física só não guarda nenhuma semelhança com o real de seu diferença pela “desconstrução” da outra cultura. contraditórios e instáveis. da vontade do outro. dentro e fora. É evidentemente confuso esse pro. etc. NÓS. no cor que os diferenciava e discriminados por tudo quan. nobreza estética. Tese (Doutorado em Psicologia) – Univer- encerra vários significados. a civilização. ral do racismo e da discriminação se inscreve na psique cordial. (Orgs. sabedoria científica. mas é por este negada. em termos aquilo que me diferencia do outro. que o nação do modo como a realidade sócio-histórico-cultu. estabelecendo-se que a princípio seria natural no ser humano. a bran. minação. reagindo. Isildinha Baptista. parâmetro de pureza artística. Isto. portanto. significa não ser to diversidades e especificidades da outra cultura. mas antes sobrevive em um devir in. São Paulo: Ática. resultando no que seria a base do racismo. pois as sal e essencial da brancura. Desde essa época. Faz parte da natureza conscientes de que nenhum de nós existe à parte das assimiladas e incorporadas. dossiê temático Embora juridicamente capazes de ocupar um espa. alheio à sua vontade. cria para o do negro. simultaneamente. se impõe inexoravelmente. foi o de contribuir enquanto psicanalista. NOGUEIRA. estigmatizados. entrará em ação. totalmente O preconceito é próprio da natureza humana. acesso ao mundo. É o que analiticamente (para a psicanálise) se dá encarna todas as virtudes. A “brancura” passa a ser momento histórico e econômico. ída em um código social que se expressa dentro de um Esse processo despersonaliza e transforma o sujei. com o olhar do outro. pelo qual onde as diferenças e semelhanças são negadas. enquanto uma possibilidade virtual. não importando a nadas pelas condições objetivas . instituições e questões raciais no Brasil. forjada ridade ou inferioridade que. os negros eram. Chico. en. caso do negro. Muniz. temos a capacidade de estabelecer princípios. Bibliográficas as coisas simultaneamente. trução e da eliminação do outro. mídia no Brasil. em que o sujeito intro. a mais completa análise sobre o preconceito Resta ao negro. corpo próprio. sempre por sucumbir a todo um processo inconsciente são do outro. Mas esta imagem de si. enquan. É eviden- jeta. 2000. para critério para a compreensão passa a ser o da superio- to. penso negando-se dessa forma a si mesmo. na maioria das vezes acaba por atravessar os limites da Garamond. com a expla. que mostra reconhecer nele o terminável. que seja adequado nos lembrarmos que cada um desses próprio corpo. o pois nossas reações são relativas à demanda de um dado área específica de atuação e conhecimento. des. Embora o negro saiba que sua condição é o resul. leis e outro. discriminação e racismo. como única via possível de Como seres humanos. nesta breve reflexão acerca de questões tistas. Visto que costumamos. supostamente baseadas ALENCAR. pode e saldaliga. negro uma angústia que se fixa na realidade exterior e dir preconceito. o real do seu próprio corpo. os negros têm O QUE SOMOS sofrido toda sorte de discriminação que tem como base a ideia de que são seres inferiores e. que representa o significado que ele tenta negar. portanto. de física a psíquica) por parte dos brancos. o negro possa desconsiderar tais ameaças termos determina e demanda diferentes sentidos. a características biológicas nada separa o real do imaginário. Textos de como a identificação com o agressor. relação ao outro. para além de seus fantasmas.

Key words: midia. encarnados em coisas os discursos da mídia. construí. e grupos da sociedade com os dispositivos da mídia sua análise de produtos jornalísticos televisivos. As- ção da ilustradora. To reflect upon these relations and Para a discussão sobre essas relações e seus desdobramentos. O olhar mais atento vai descobrir nas relações estabelecidas com os outros sujeitos. (a) que define dentro de seus termos o horizonte men- uma imagem que não ocupa mais que um quarto da Sujeito e discursos tal. A relação que as três Mesmo considerando a proliferação e a complexi- jovens estabelecem com os produtos e as figuras da mí. they see themselves in society. a atenção às interações dos indivíduos e a decodificação de produtos da comunicação. Os sujeitos produzem e reproduzem decodificação” (Hall. do tendem a ser normativos e a operar com representações tão tonto que sou. mento e tensão. O respeito da ordem social. assim como sua natu- Esse eu que é vós pois não aguento ser apenas dia é central para a constituição de suas subjetividades reza agonística. velop this theme. Portanto. a moça re. We also consider Judith Butler´s nicação Social da UFMG. “não existe lençol . Em escolhidas para instigar a reflexão são Claudia e Pecola. traz. um terno. nificações feito de códigos e rituais que dá sentido à domínios discursivos através de códigos sociais. as relações que media culture in which they are immersed. e do modo como se colocam diante de si mesmas. consumo. O rádio. isto é: na troca significados. comunicativa. essa imagem mostra. na UFMG. cada sujeito interpreta os uma vez que. Hall entende que a leitura dos produtos midiá- aparelho humanizado e quase sorri. In both novels chosen. As peças no varal – um vestido. Na conformação discursiva da comu. sentidos dominantes ou preferenciais. Palavras chave: mídia. o universo de significados possíveis e de todo um capa. sentido. mostra-se fundamental para a reflexão sobre os pro- INTRODUÇÃO dense Toni Morrison. Para Stuart Hall. valores. Macabéa. quando o indivíduo se confronta com os O autor acredita que em toda sociedade existem presentada na capa. consumption. corpo e subjetivação na RESUMO ABSTRACT cultura das mídias Este trabalho trata das relações que três personagens femininas colhidas da literatura estabelecem com a cultura midiática em This article deals with the dialogue that three female characters from literature . we apply Stuart Hall’s concept of the three hy- Professora adjunta do curso de Comu. protagonista do romance de Clarice valores e as instituições sociais . Partimos da premissa de que o sujeito é construído coincidir com o que é ‘natural’. As personagens literárias dos. (HALL. corpo. tem vida.parecem dançar. como num namo. e (b) meiro plano. ticos pode ser classificada de acordo com o grau de ro. são their ramifications. Há várias articu- dá entre três personagens femininas e a cultura midiáti.esse sistema de sig. midiáticos setor de relações em uma sociedade ou cultura. body. além do nome da autora e do título da obra. Pecola. 2003. dade dos discursos midiáticos. o mundo discursos de acordo com sua história. Na capa do livro. Hall 15 . a figura de uma jovem de olhos fechados que carrega consigo o selo da legitimidade – parece que ouve rádio. de Clarice Lispector.dossiê temático Personagens em posições hipotéticas: consumo. um nos contatos com a mídia. estes mim. e Macabéa. em pri. hegemônicas já solidificadas. M. utilizadas as três posições hipotéticas de decodificação propostas pothetical positions for the reader. ideias e padrões de esperava no momento da codificação. está envolta pela mídia. bilidade) e o GrisPop (Grupo de pesquisa sobre interações midiáticas e práticas culturais contemporâneas). sua cultura. sujeitos e agentes da vida social. p. recados e afetos. subjetividade. assim como as reflexões de Judith Butler sobre concept of “bodies that matter” as an important approach to de- (Grupos de Pesquisa em Imagem e Socia. lações possíveis para a combinação entre a codificação ca na qual elas estão inseridas. Integra o GRIS por Stuart Hall. Nos dois romances analisados. eu enviesado (.. negociados. escrito pela estaduni. Macabéa e Claudia travam com o mundo do consumo e the relations that these young women establish with the world of com os discursos hegemônicos da mídia para o corpo mostram. p. 2003.Pecola. consumption and the hegemonic discourses about the bodies are Laura Guimarães -se centrais para a constituição de suas subjetividades e do modo central to the constitution of their subjectivities and to the way Corrêa como se colocam diante de si mesmas. no processo comunicacional. de 1999. o narrador d’A Hora da Estrela situações-padrão. em permanente estado de movi.. comportamento são propostos.. com um varal de roupas e uma paisa. da estrela.). os “corpos que pesam”. sua uma necessária correspondência entre codificação e urbano e midiático em que Macabéa se encontra tem visão de mundo. ‘inevitável’ ou ‘óbvio’ a gem urbana ao fundo. A moça aconchega-se ao vida do ser humano. têm Nas interações comunicativas que se estabelecem concordância ou de adesão aos sentidos preferenciais. 399-400). do romance O olho mais azul. que organizam Lispector.401) que os prédios são feitos de colunas de jornal e que o processo de subjetivação só pode ser entendido dentro rádio tem um inesperado nariz. o ponto de vista hegemônico é aquele A edição d’A Hora da Estrela que tenho em mãos. subjectivity. com Rodrigo S. Os prédios da pequena ilustração têm palavras. do outro e da sociedade. podemos dizer que. Macabéa and Claudia . preciso dos outros para me manter de pé. na concep. que nos situa e nos constitui como sim. ainda assim.have with the que estão imersas. Em técnica mista. da sociedade. corpos. com estereótipos. não há garantias de que aquilo que se antes inanimadas. protagonista d’A hora cessos identitários. diz/escreve/mostra será recebido exatamente como se A proposta deste trabalho é pensar o diálogo que se nicação midiática. outro e da sociedade.

E por que Macabéa adorava anúncios? Provavel- Pequenas partes do seu corpo se apagaram. Depois os braços até os cotovelos. com (CORRÊA. olhe. Ali estava uma ciais – ela adorava anúncios. sacralizado pela mídia: o reino da beleza. de significados. tude e ver o mundo com olhos azuis. p. 2003. ainda uma pesada carga simbólica. p. filma- 16 17 . Macabéa se apoia na vida harmoniosa do cinema gemônico conotado. criança. Ora lenta. há la apoia-se numa fantasia de admiração pela menina apresenta em Corpos que pesam. pobre e Ela nem precisava fazer tanta força assim. a leitura é oposta. ao contrário do seu árduo baixinho para não acordar as outras. Ela expressão pode ser lida também como “corpos que im. há normas no discurso esferas. Por fim. 400). go dominante. loira. Fechou os olhos com força. óbvio. representações e padrões de compor- talentosa. po. por transportá-la para longe dali. então deixar de ser. programas de rádio. 2003.22. a autora explora os dois significados a sociedade e com os produtos da cultura midiática. Pecola sorri ao olhar para ela. pois já concordância. Na segunda hipótese. anúncios publi. De acordo com as ideias que Judith Butler (1999) com as consequências dos abusos sofridos. ligava bem contestatória: reconhece o sentido hegemônico. Pecola deseja de negação ou de frustração. 27). que dava ‘hora certa Nossa proposta neste artigo é utilizar as categorias dispor para a construção de sua subjetividade. Nas palavras da narradora. encontra dentro (e fora) de uma família completamente sempre os olhos que sobravam. por fim. A do. enternecidas. ao mesmo tem. Pecola vale menos. de outros tipos de em que vivia lhe era contrário? Pecola fazia força para sobretudo esse canal de rádio aproveitava intervalos produtos culturais: estrelas de cinema.) Uma menina negra favor. (LISPECTOR. dessa for. mas físico – o leite que ela toma da xícara é o que menos às imagens idealizadas que lhe eram oferecidas: uma o/a receptor/a cria suas próprias regras para decodifi. sussurrou na palma da mão. As produções de sentido operadas por essa forma do significante matter: o verbo importar. num processo de dessubjetivação. No centro da histó. fotografadas. Pecola cria uma imagem de si descolada da rea. (MORRI. ligava invaria- discorda deste. Há uma contemplação que extrapola o mundo nicos da mídia foi a identificação e a admiração frente e da publicidade à noite: negociado. (MOR. requer a não aceitação de si mesma. (MORRISON. Mas trata-se de um sonho que rada na esfera da fantasia. e nenhuma música. Pecola estava completamente fora da norma MACABÉA E OS ANÚNCIOS – o objetivo primeiro da publicidade não é a promoção ternamente para a silhueta do rosto com covinhas de reguladora. encantamento: Bodies that matter. como se estas constituíssem experiências memoráveis. mas. alimenta: ela bebe simbolicamente Shirley Temple e sua solução aparentemente contraditória. saída encontrada por esse sujeito destituído de todos causa .23) é exatamente no encontro com o outro que os sujeitos No romance de Clarice Lispector. também desapareceu. desrespeitada RISON. por nossas anti-heroínas. constituindo-se como poder estruturante e. isto é. ma. só pingava em som de criadas por Hall para pensar a apreensão. a publici- desestruturada. Assim. peito. Pecola é descrita como uma menina muito feia. Não há contradição temporânea. Não importava para as outras pessoas. goana pobre que trabalha como datilógrafa numa ci. bela. únicas. E consumo. No romance. nunca conseguia fazer os olhos desaparecerem. o dia. objetos industrializados. De que matéria-prima ela podia cotidiano. há concordância frente ao sentido he. (. p. Tem dezenove anos. oferecia pouca possibilidade uma colega de moradia. a do código abuso. Mas aceitar desse modelo como um dos sistemas de construção da realidade con- mulher. menina de doze anos que se quase. Deus.. No terceiro caso. quase desmaterializado: um corpo que SUBVERSIVO blicidade é secundária. tão distante de seu cotidiano de pobreza.37) “Por favor. fato esse que não a protegia do ser descartados. portanto. e o substantivo matéria. era praticamente invisível. entre as tais gotas de minuto para dar anúncios comer- citários. Eram digo referencial no qual ela foi codificada. “por menina feia pedindo beleza. violência e os atributos propagandeados pelos discursos hegemô.” Pecola não questiona o ideal de beleza.” Macabéa tem experiências nos Estados Unidos dos anos 1940. alinhamento. podemos com esses produtos midiáticos.e por completas. que os perpassam. de dominação que traçam a linha entre aqueles seres lidade insuportável. de qualquer ângulo que se Ela decodifica as mensagens da mídia com aceitação. por interpelar – a contemplação do dedos um por um. Para o autor. mas que. A moça tem uma espécie de namora. mente pelo mundo próprio que criam. a menina negra anula seu próprio corpo. essa figura exerce um fascínio A discrepância evidente entre os dois mundos não era. promessa de felicidade. Mas. 2006). Todas as madrugadas ligava o rádio emprestado por car a mensagem. incontestável. Quase lá. Para o olhar hegemônico daquela épo. “não são os indivíduos que No romance O Olho mais Azul. bem. glorificação da mercadoria e do mito da felicidade e do Shirley Temple habitava um domínio adorado e Os discursos cristalizados da mídia chocavam-se dade grande. ora de chofre. a adesão aos objetos é sobre como a Shirley Temple era lindinha..da SON. não bem-estar coletivo na sociedade de consumo. bolinhas de papel. sentidos. Como prática social institucionalizada. Segundo vez só. a investigação sobre os fenômenos sociais e as ideologias numa xícara branca e azul com a Shirley Temple. Além da exclusão por ser negra. absoluto. às vezes não tem o que comer e masca A publicidade representa situações cotidianas brancura. Ela era tudo aquilo que que interessam a uma sociedade e aqueles que podem dissolvendo-se em psicose. que a trata mal e a troca pela colega. mas tranquiliza e destrói ao mesmo tempo. desaparecer: Aquele era o pedido mais fantástico e. Construídas. de felicidade guardada em um produto. integral. Para lidar dade ou as condições de consumir o produto ou ser- ou simplesmente ignorada. bem apertados. gera identificações. Apesar . Sumiram os 2003. A literatura traz aqui uma tamento intrínsecos às imagens e textos publicitários Pecola não podia ser. Maria da Penha. em todas as viço anunciado.. os que estão expostos a ele. “quando o telespectador têm experiência. p. que desejava alçar-se para fora do fosso de sua negri. era bom aquilo. os que são abjetos. certamente . e apenas uma consequência . a leitura e o o que era valorizado na esfera midiática e na sociedade sonho: gotas que caem – cada gota de minuto que passava. As pernas. 1999. constituintes de sua subjetividade quando se relaciona ria está Pecola Breedlove.52). aqui -. Toni Morrison escreve ficar completamente imóvel e fazer força.) de forma direta e dos através da experiência. a função econômica da pu- Shirley Temple. Por mais que tentasse. Acima das coxas era mais difícil. da contra a realidade em que vivia a personagem Pecola. não importava. dade é um sistema cultural e simbólico que organiza ca e lugar – que não se mostra muito diferente hoje e RISON. o mais lógico que já lhe tinham feito. no sentido de comunicação mostram-se abundantes e ricas para a Frieda lhe trouxe quatro bolachas num pires e leite de ter importância. era considerado. olhando portam”. não A ASTÚCIA DE UM CONSUMO de vendas. Macabéa é uma ala. dossiê temático (2003) identifica três posições hipotéticas de leitura. para o lugar da vida perfeita. não tem família. da pureza. Lentamente de novo. dizer que o telespectador está operando dentro do códi. me faça desaparecer”. mas os sujeitos é que são constituí- sobre a realidade dura de personagens negros e pobres não ia. tem instrução. em Pecola. as definições hegemônicas são aceitas. O estômago por Stuart Hall (2003. motivo de revolta ou de tristeza imediata. acalentador sobre a personagem.”. anco. p.desejável. a ouvinte com a intimidade e o carinho que lhe faltam oposto ideal Os pés agora. oferece classificações.52) que é lido como natural. Depois o se apropria do sentido conotado (. ela tinha um corpo que não era visto. de uma É possível fazer aqui. Os discursos publicitários atingem a todos de uma feiúra que se confundia com todos os outros “como alguém poderia ver uma menina negra?” (MOR. o pescoço. Jean Baudrillard (1995) sugere que demorou longo tempo para tomar o leite. função global de integração e coesão social através da são construídos.da experiência de um cotidiano triste durante primeira delas. Peco. se tudo cura o charlatão que supostamente poderia realizar tal e cultura’.175). Além desse aspecto disseminador. na sua recepção das imagens da mídia. Só restavam os olhos. Frieda e ela conversaram. pela promessa Pecola e Shirley Temple mente. Na para a imagem de Temple. p. uma extensa gama perfeita dos musicais do cinema americano: rica. O rosto também era difícil. e decodifica a mensagem nos termos do có. Em sua fragilidade. uma comparação na vida real. Pecola resolve ter olhos azuis e pro. p. Sim. velmente para a Rádio Relógio. de olhos azuis. Ela precisava direta com a posição hegemônico-dominante descrita Joan Scott (1999.. 2003. No título original personagem impotente na relação com a família. tenham ou não a necessi- motivos para que ela fosse ridicularizada.

se comer. Para Butler. de maternidade. Mas esse tornar-se garota da garota não Mas tinha prazeres. aos nia. mistura e rearranja significados. faz suas próprias regras – fun.) Eu ficava enojada e secretamente assustada com DE RESISTÊNCIA aqueles olhos redondos imbecis. Que pele. (BUTLER.161) no álbum.” de oposição: reconhece a legitimidade das definições conquistas. os sistemas de classificação binária pele de mulheres que simplesmente não eram ela. uma boneca carregada tes repetições de modelos. lháveis. Maca. Das três personagens analisadas. tas. das relações de poder (. costumava ler à luz de como uma imposição de cima para baixo. 1999. por um produto industrializado. (MORRISON. admirado. (HALL. sensuais. dado com muito carinho. para reforçar ou contestar esse escritório. (BUTLER. Claudia. de relações ideais. pensava ela sem se explicar. inventar historinhas em torno dela. constrói como sujeito.. tinha. Essa adesão consiste numa atividade. mais Azul. ela resiste 18 19 . Nas mais diversas sociedades. hegemônicas para produzir as grandes significações ritários na luta por visibilidade e respeito. nomeia. de normas e significados: modelos representacionais para a mulher é o que liga A subjetividade de Macabéa é construída por sua béa apenas encontra uma maneira própria de se rela. Toni Morri. isso exemplo. ela o comeria. a cara de panqueca e o cabelo de minhocas laranjas. 1999. “Greta Garbo. Estava interessada somente em seres ao presentear Claudia com uma boneca. O presente grande. o mais precioso. permanências e avanços dos grupos mino. o gênero contrário de Macabéa. p. tuacional (localizado). Macabéa ins. O que ativa uma experiência emocional não sociedade. Nas frígidas noites. em que a é reiterada por várias autoridades. 2011). e as pessoas são sempre vítimas de É importante lembrar que objetos industrializados. Tornara-se com o Assim como cremes de beleza não são feitos para uma miniatura plástica de criança: assuma a maternidade como essência do seu eu e lei do tempo apenas matéria vivente em sua forma primária. ficava só imaginando com delícia: o creme era do sujeito que é afetado: o engajamento numa situa. raça. Os livros de figuras esta- CLAUDIA E AS CRIANÇAS vam cheios de garotinhas dormindo com suas bonecas. tagarelice dos adultos. comportamento frente à sociedade. 1999. efeito naturalizado. especial. suas cores. em pelos/as adultos/as e pelas representações nas figuras cinema. Se Pecola absorvia Claudia é a menina narradora do romance O Olho demonstrações de sentimentos positivos de ternura. isto é. podem-se perceber conflitos. às colheradas no pote mesmo. cuidado. se dá a partir de uma convergência de valores modelo único e normativo de bonecas de olhos azuis. essas situações são perpassadas por cabéa subverte aquilo que recebe. moça simplória. Butler afirma que: lheres ideais. Garbo. pré-adolescente ainda. eu sabia que a boneca represen. e não conseguia prática. nos “falam” através de sua forma. grupos marcados pelas diferenças de gênero. atuam na Pecola é a maneira particular pela qual a personagem sos da mídia que Macabéa experimenta o mundo e se Maternidade era velhice e outras possibilidades remo. experimentada no do consumo. Fiquei pasmada com a coisa e com a aparência que ção do gênero. Ma. sucesso. A garota torna-se uma garota. E um dos mais poderosos olhado. como estratégia de sobrevivência: valendo-se do discurso persuasivo e sedutor para atrair tava o que eles pensavam que fosse o meu maior dese. por apenas na percepção de um racismo representado pelo -discursivo é uma tática de auto-ampliação e ocultação não seria boba. que ela se sustenta para viver É possível aqui traçar um paralelo com a versão em que vive. 2003. discursiva do gênero feminino.64). ela é trazida para o domí- tida. 2003. intervalos de tempo.. mas. essa (. 2003. reiteram uma para entender e suportar a dura experiência de estar no humanos da minha idade e tamanho.38) são formas encontradas por Macabéa. que é quase invisível. decodificar olhos críticos a exclusão a que são submetidas as pes. num ato mas também pelo modelo de comportamento de gêne. impõem modelos culturais de existência do corpo: Executando o fatal cacoete que pegara de piscar os é um sentimento solitário. A fala da personagem Ma. dos livros a aceitar e interpretar (to perform) o papel mulher deve ser a mulher mais importante do mundo. anúncios não foram feitos para serem recor. (LISPECTOR.pelos mais variados discursos. Longe de tomar qualquer atitude política. tentamento de Claudia frente a esse objeto não estavam A produção discursiva do corpo materno como pré- tão apetitoso que se tivesse dinheiro para comprá-lo ção. sua resistência a uma sociedade que não reconhece os citacional pela qual o discurso produz os efeitos que ele bo. É que fazia coleção de anúncios. tem um corpo que vale a pena ser Trata-se de uma leitura atravessada por contradi. dossiê temático zesse com a boneca: embalá-la. algo que parte do interior seu formato (CORRÊA. afirma que as emoções Os objetos – principalmente brinquedos . p. estabelecidas pelo discurso hegemônico da sociedade . Com experiência frente aos modelos e representações de mu. até dormir com ela. son. O assombro e o descon- olhos.401). o corpo materno seria en- sim.138). p. É através da leitura e (re)criação desses discur. Ouvir a Rádio Relógio e Eu devia fazer o que com aquilo? Fingir que era a mãe? de ser infeliz de uma vez e ter pena de si. negociada proposta por Hall: nesse caso. 154). clara inspiração beauvoriana. é a que Claudia não aceitou a norma de um comporta- amor.). sensoriais. Havia um anúncio. essa interpelação fundante mecente sob o lençol de brim. p. Mas é preciso escapar da jo. apresenta mais claramente a surpresa e a indignação mento de gênero que lhe era imposta e que é ofere- relação de Macabéa com seu namorado Olímpico. Louis Quéré (2007).) contém uma mistura de elementos de adaptação e constante transformação. Mas nota-se na curta É sabido que a publicidade reveste produtos e era sempre uma Baby Doll grande. tudo com encantamento e passividade. p. ADORÁVEIS – A VONTADE (. Por mais frustrante que seja a creve sua marca. uma figura midiática com extrema visibilidade. em um nível mais restrito. cionar com os produtos da mídia. pelo contrário. como produtos humanos. no contato com um produto de comunicação. junta. Eu não tinha interesse por bebês nem pelo conceito Os personagens adultos do romance analisado. seu desejo. p. inexoravelmente a feminilidade à maternidade. compartilhados e comparti. que ráter impessoal da experiência. Por ter nascido com cinema ou na publicidade... como a prática reiterativa e importa” quando trata da importância de Greta Gar. 1999. vê com características físicas que a fazem pertencer à categoria sua experiência de quase-amor. tendido como efeito ou consequência de um sistema de gordura e seu organismo estava seco que nem saco do sujeito que sofre a experiência (DEWEY.23) termina ali. são signos e objetivações de cada Para a autora. si. serviços de atributos emocionais. a autora do livro.) a performatividade deve ser (LISPECTOR.carregam mostrava em cores o pote aberto de um creme para são fenômenos públicos. p. classe e et. 2003. p. de mãe.. colecionar anúncios. de olhos azuis. Talvez fosse assim para se defender da grande tentação tados e colados em álbuns. Portanto. ao ciona com as exceções à regra.” (BUTLER. ao invés disso. armadilha de pensar essa comunicação como unilateral. Colava-os manipulação. 1980). ao falar sobre o ca.. “(. ções. é dialogando com os discursos e produtos da sociedade por estar fora dos padrões e das normas reguladoras cida repetidamente a crianças – meninas e meninos na representação de um amor ideal. que nada. toda estre.. alegria. história e ideologia.. Mas aprendi depressa o que esperavam que eu fi.23) das e impressas. ela. são embebidos pela cultura. construção de uma subjetividade marcada por gênero e de Clarice se relaciona com os produtos da mídia. Claudia se vê coagida Além de anúncios. ro que se esperava de uma menina-mulher para com sexualidade em que se exige do corpo feminino que ele meio vazio de torrada esfarelada. (MORRISON. esses pequenos recortes de prazer. diz através da voz de Claudia de rado. e ao longo de vários vela os anúncios que recortava dos jornais velhos do recepção é passiva. Macabéa gostava de estrelas de soas negras e pobres. sentir entusiasmo algum ante a perspectiva de ser mãe. Mas Claudia não adere a essa “verdade”. compreendida não como um ‘ato’ singular ou delibe- cabéa coincidentemente toca no tema do “corpo que (abstratas) ao passo que. instruem a menina quanto à sua posição e seu Um ponto importante que diferencia Macabéa de mundo. É que lhe faltava sociais. A resistência de Claudia fica evidente no desprezo não é um dado. nio da linguagem e do parentesco através da interpela- e conquistar seus públicos. Pela vida de Macabéa um espaço de subversão quase diver. mas é aprendido por meio de constan- olhos de Macabéa.

Claudia rompe com a norma branca e he. Toni. Cada in. Falas de gênero: teorias. Macabéa poraneidade. (org. mas pa. faz parte de sua constituição outro.). p. desconstruindo em relação aos sentidos preferenciais de decodificação Janeiro: Elfos. Vimos que os modelos cor. maneira globalmente contrária. Foucault chama hierarquia racial . 2011. a autora reflete sobre a interpelação que faz com que CORRÊA. pro. 1999. que apresentam caráter peda. 210). Poderíamos nessas sociedades não muito distantes no tempo e no gógico e formador. Laura G. que geralmente esses discursos vêm dos grupos he. dos grupos não-marcados. New York: Perigee das subjetividades. como ocupa. CAULT. Problemas de gênero: feminismo e sub- o que era que todo mundo dizia que era adorável. Michel.. Retratam e revelam relações desiguais entre muito às personagens dos romances citados. leituras. 2007. se arrancasse a cabeça. de um lugar privilegiado para a ob- partir do sentimento de indignação presente desde a representações. p. são A mídia apresenta constantemente normas regula. continuava ba. É preciso lembrar versão da identidade. de certa forma. belos/as e feios/as. Todas as três. dobrasse os pés da emergência de certos discursos em certas épocas. para a reflexão sobre as relações raciais e de gênero na MORRISON. reconhecido e premiado. adultos/as divíduo consumiu e dialogou à sua maneira com esses ção em Comunicação Social da UFMG. Pecola. (Curso ministrado no Programa de Pós-Gradua­ dentro de algum referencial alternativo. de origem racial. dificados ou recusados. a atenção para a importância de se considerar o que subjetividade da menina Pecola: versidade Federal de Minas Gerais. a de forma particular no momento do consumo dessas Trata-se. Judith.) Não cados compartilhados e consensuais. Rio de Janeiro: de recepção/decodificação que opera dentro do código tona no que se diz e em nenhuma outra parte? (FOU. aqueles comportamentos. DEWEY. Mães cuidam. A arqueologia do saber. soltasse o cabelo. aquelas vidas blicidade em revista. sem dúvida – para a resistência e a transformação. assim. In SILVA. In- ma ainda que essa atividade de recepção oposta pode e crianças. Sua ativa insubmissão. e talvez inconsequente. entretanto. Minas Gerais. o receptor “decodifica a mensagem de sociedade contemporânea. como exclui qualquer ela? Quem a fez sentir que era melhor ser uma aberra. No posfácio d’O Olho mais Azul. 402). de oposição. questão pertinente a uma tal análise poderia ser assim da beleza? (MORRISON. E vinte anos depois eu continuava me Books. 1980. Se eu Trata-se de “substituir o tesouro enigmático das ‘coi. um peso tão pequeno na escala culturais. das práticas discursivas e das relações entre as falas. cada uma reage preconceitos e contradições presentes na sociedade. 1999. Mulheres. In LOURO.” O autor afir. Ilha de Santa Catarina: Editora criação. Janeiro: Forense-universitária. pais brincam: nor- 2003. Quem disse a FOUCAULT. (. dossiê temático é atropelada pela realidade e Claudia sobrevive para narrar histórias. (MORRISON. brancos/as e negros/as. A sociedade de consumo. gemônicos.. sobre os objetos e a norma . o que exclui CORRÊA. análises. a conversa se. Modelos são assimilados. Se reconhecemos Claudia sujeitos marginais porém imersos na cultura envolvente doras dos corpos de homens e mulheres. Da diáspora: identidades e mediações como sujeito. Nenhuma delas se reconhece ções discursivas são perpassadas pelas lutas de poder. de subjetivação. 2003. rachasse as costas contra a grade de Essa perspectiva está focada na análise e apreensão que detêm o poder. Se condido por trás das palavras e sim entender o porquê pertencem os agentes do discurso. Rio de e protesta a seu modo contra a norma. 2006. Macabéa e Claudia. metal da cama. A achado tão deficiente. em porais oferecidos pelos produtos midiáticos disseram QUÉRÉ. 1995. servação crítica das relações sociorraciais na contem- infância.31). BUTLER. fisicamente a boneca branca. mo. p. Lisboa: Edições 70. ela continuava balindo. Belo Horizonte: Ed. Mara e RAMOS.Universidade Federal de serragem para fora. LAGO. deslocado da norma. reafirmando as Horizonte: Autêntica. Ele ou ela destotaliza Os dois romances emergem em dada época. Experiência. O olho mais azul. 2003. Brasileira. Rio de contestação de Claudia. Rio de Janeiro: Civilização eu quebrasse os dedos minúsculos. prio. Belo Horizonte. São Paulo: Com- tese de leitura.54). com forte influência nos processos SCOTT. As perguntas de Morrison são muito pertinentes Rocco. num misto de vingança é aquela que consegue se constituir como sujeito. Dissertação (mestrado em lindo “Ahhhhhh”. Pecola enlouquece. the Berkeley Publishing Group. Alcione. 20 21 . homens e mulheres. Belo Horizon- terossexual representada pelo brinquedo.. Laura G. A mi-silenciosa de um outro discurso: deve-se mostrar perguntando como é que se aprende isso.) FINAIS As imagens e textos midiáticos invocam signifi. John. Segundo Hall (2003. Representação da Unesco no Brasil. que não estão dentro das representações dos grupos Comunicação Social) . sacudisse a objetos que só nele se delineiam” (Foucault. para a reinvenção. Brasília: salva de um destino triste como o de Pecola. discursivos do sexo. mesmo que solitária. aceitos. 1987. nas imagens oferecidas. as relações de poder estão implicadas na construção Implícita em seu desejo estava a aversão por si mesma. 1987. Corpos que pesam: sobre os limites e curiosidade: CONSIDERAÇÕES tagonizando sua história. Guacira L. A Hora da estrela. a a eles. verdades. O corpo educado: pedagogias da sexualidade. em discursos atuantes discursos hegemônicos. 2003.seja internalizada na construção da Tese (doutorado em Comunicação Social) . um lugar que nenhum outro poderia ocupar. a desigualdade e a mas. como alter ego da autora do romance. Art as experience. De corpo presente: o negro na pu- lhe removesse o olho frio e estúpido. nessa hipó. Não se busca. 1999. silenciosa por que não poderia ser outro. 1987. formação verbal) desencadear crises de naturezas diversas. Louis. São histórias de três jovens diferentes. Sabe-se que vem à tona. conseguia gostar dela. girasse a cabeça (. panhia das Letras. 2003. chatos.23) localizadas social e historicamente. as tradições e as crenças do grupo ao qual ____________. Toni Morrison. acrescentar que esses momentos de crise e transgressão espaço.no caso do livro citado. UFMG. Obviamente não se pode simplificar a reflexão a ponto de afirmar que a relação das persona- Referências gens com os discursos da mídia é o ponto que define bibliográficas o destino de cada uma delas. Stuart. p. Jean. Mas é possível observar que a personagem que apresenta a postura mais crítica BAUDRILLARD. mas notam-se espaços – difíceis. Tânia. sob o que está manifesto. Belo Eu tinha uma única vontade: desmembrá-la. Joan. revelam-se muitas vezes como oportunidades para a recidas. Clarice. os acontecimentos da vida humana. p. no meio dos outros e relacionado ção do que ser o que ela era? Quem a tinha olhado e a HALL. esta termina por produzir um discurso literário pró. sas’ anteriores ao discurso pela formação regular dos aqueles corpos. Reflexões sobre a experiência pública a mensagem no código preferencial para retotalizá-la dado lugar. e poderosa das mídias. valores e papéis na publicidade de homenagem. A atitude de Claudia pode ser vista como exemplo formulada: que singular existência é esta que vem à LISPECTOR. Mas podia examiná-la para ver Para Foucault não interessa encontrar o que existe es.. o que os textos dão a ver: te. Suas constru.Uni- Assim.

coordenador do Grupo de Pesquisa Rio de Janeiro Afroperspectivas. Nesse caso. The Estudante de graduação do Curso de Pe. Pois bem. O objetivo do artigo é fazer uma uma categoria-chave para o biopoder. Saberes e Interseções (Afrosin). violência. 2002. Por exemplo. onde o BIOPODER E RACISMO condições. em certo momento. levando dizem respeito à vida. apresentação introdutória do conceito de biopoder e que o biopoder encerra um conjunto de tecnologias que não se trata. especially with regard to the technologies Carla Cristina que diz respeito às tecnologias de segurança pública próprias do of biopower own public safety. biopower. Keywords: racism. Porque à medida instrumentos teóricos de Foucault.306). Com os processos de instalação o que é específico no racismo moderno é o exercício de eliminação de criminosos. Afroperspectivas. dentro O trabalho reúne. fico e político. racism in contemporary Brazilian society through biopower. lotado no Departamento de Edu- um caso no cação e Sociedade do Instituto Multidisci- plinar. RESUMO ABSTRACT O artigo trabalha com o pensamento político de Michel Foucault The article work with the political thought of Michel Foucault. visando um determinado funcio. evento que terminou com um homem negro morto by military police. que está em jogo é a defesa da ordem social e da vida. do biopoder. exercício bre violência e racismo no Rio de Janeiro. de brasileira na primeira década do século 21. de problematizá-lo no contexto do Rio de Janeiro. 2009. ção necessária para inserção do racismo nos mecanis- mos estatais das sociedades modernas. ção do Professor Renato Noguera. biopoder. desagregadores e desorde- RIO DE JANEIRO ao funcionamento de um Estado.311). Saberes e Interseções (Afrosin)..dossiê temático Renato Nogueira Racismo e biopoder: Professor de filosofia e educação da UFRRJ. violence. “Tem-se. a população passa a ser problema cientí. membro do Grupo de Pesquisa pela Polícia Militar. em busca de fomen. Para problematizar essa importante questão na socie. a população funcionem em favor do Estado. perspectivas. nossa análise incide sobre ações analysis focuses on police actions and speeches of the state. que certos tipos de pessoas carregam consigo do Estado só pode ser assegurada. Nosso objetivo é problematizar. 2002. O destaque vai para uma ação highlight is a police action that occurred on September 25. Foucault tomou como exemplo o nazismo. dados estatísticos. Saberes e Interseções (Afrosin) e vice-coordenador do Curso de contemporâneo Pós-Graduação Lato Sensu do Laborató- rio de Estudos Afro-Brasileiros (Leafro). A raças e o racismo passa a se constituir como um “me. Mas. Dito de outro modo. É importante frisar que o racismo está ligado contra os perigos biológicos. e tem como objetivo enriquecer o debate contemporâneo sobre Aiming to enrich contemporary debate about anti-black racism o racismo anti-negro e seus diversos dispositivos. o poder intervém e interfere exerce sobre a população. p. a segmentação da população em pensar a partir a pertinência do biopoder foucaultiano em consideração alguns eventos de 1993 até 2009. têm alicerçado muitas relações “quase não haja funcionamento moderno do Estado hegemônicas de poder fundamentando-as em justifica- que. para a compreensão do racismo anti-negro moderno e pesquisa tem caráter introdutório. promovendo alguns e/ 2002. o direito de morte que o Estado são. de comentar seus textos. Em outros termos. Ou seja. 2009 in dagogia do Departamento de Educação policial que ocorreu em 25 de setembro de 2009 na cidade do Rio the city of Rio de Janeiro. em certo limite e em certas tivas e metáforas de caráter biológico e médico. o biopoder é um modo de gestão que Nosso artigo é resultado de uma pequena pesquisa so. em especial no and its various devices. assim. aferir constantes. Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). The event ended with a black man killed e Sociedade do Instituto Multidisciplinar.) uma sociedade que do Laboratório de Estudos Afro-Brasileiros (Leafro) da define o segmento populacional que deve receber um generalizou absolutamente biopoder” (FOUCAULT. em certa medida. integrante verno investido da visibilidade das relações de poder pois. efeitos do biopoder. tal como a repartição anti-negro. A chacina 23 . Rio de Janeiro.. Uma leitura cuidadosa da obra de Foucault problematizando a racialização da violência através ou concentração de determinados benefícios. our dade brasileira contemporânea. dentro de uma leitura foucaultiana. ANTI-NEGRO NO p. somente. pelo racismo” (FOU- os modos de gestão do poder nas sociedades ocidentais CAULT. considerando o aumento e INTRODUÇÃO sobre a população. a fazer medições. desde que o Estado (CASTELO BRANCO. de Janeiro. especificamente o racismo na socieda- tar um debate profícuo em torno da violência urbana e Para Foucault. Rio de Janeiro. na sociedade nazista (. É neste não deixa dúvidas: o racismo anti-negro não esteve na do biopoder como modo de gestão estatal contem. não passe pelo racismo” (FOUCAULT. fazer com que inclui o genocídio da própria população. De tal modo que Nossos tempos. canismo fundamental do poder”. namento de um sistema social. que tem sido realizada pelo Grupo de Pesquisa Afro. Nosso intuito é pensar com os porânea dominante. contemporâneo. racializada no Rio de Janeiro contemporâneo. a emergência do biopoder é condi.32) Michel Foucault fez uma profícua pesquisa sobre funcione no modo do biopoder. ou contendo outros. fornecer e avaliar Com efeito. contexto que o conceito de raça passa a funcionar como sua pauta de pesquisa. 304). Palavras chave: racismo. as chacinas do biopoder. conforme Foucault Um dos resultados do biopoder é a possibilidade desde o século XVIII. p. “A função assassina nadores. O go. Estuda e pesquisa sob orienta. investigação as tecnologias que servem para controlar e gerenciar racista sustentado por critérios técnicos e científicos. p. In order to confront the anti-black Campos da Silva biopoder. policiais e discursos do Estado. por isso vai ser preciso que o Estado diminuição dos riscos e interdições dentro de uma so- reúna de modo articulado uma série de saberes aptos ciedade para alguns por meio de critérios raciais. tipo específico de tratamento. dos pressupostos foucaultianos do biopoder. da UFRRJ. o racismo análises do fenômeno de violência urbana e racismo.

colocando sob Méier e Copacabana. o que aponta para a violento que marca mais uma vez a história do Rio de se poderia chamar de estatização do biológico” (FOU. contar. arrombando gestão impele o Estado a gerenciar “a proporção dos cício do racismo através da emergência do biopoder.blogspot.305). p. diante das constantes negativas de inserção no mercado justificativas já estavam garantidas. 2002 morriam 46% mais negros do que brancos. Apesar das especulações sobre o caso. no Rio de Janeiro. em arma. 23/10/2007). É forçoso lem. 2002. fazem exercícios de “limpeza sociorracial”. major João Jaques Busnello. As tecnologias do biopoder e suas Em 25 de setembro de 2009. 23/10/2007). população negra. A pesquisa Mapa da Violência ver. Ou seja. a fe. 2002. O coronel Mário Sérgio. Serginho foi mais um registrar que todos eram pretos e pardos (negros). porte ilegal de e dois jovens sem teto foram brutalmente assassinados essa questão do enfrentamento. de modo de trompas para mulheres de bairros como a Rocinha.. porque se encaixa deve ser eliminado: homem. Segurança do Rio de Janeiro no ano de 2007.) é o que vai deixar a vida em geral distintas. o seu planejamento e suas práticas. pega na co que estava representando o Estado em sua extensão eliminados e elimináveis são. Júnior. nome. O Secretário mais de 90% desses casos de homicídio as vítimas eram excluídos. “se você quer vi- como toda a história do Brasil. da Polícia Mi. Em entrevista publicada na página de notícias fugia após ter cometido o crime de assalto. o então governador Garrido. crueldade não são colocadas. é preciso que o outro morra” (FOUCAULT. biopoder. é um exemplo da profilaxia sociorracial na socieda- 1993.290). isto é. Tijuca. Um tiro na encontramos um cuidadoso estudo que identifica os de brasileira. países africanos como contraponto a países europeus alternativa. a taxa de reprodução.org/ ônibus 174 alguns anos antes. seja uma opção a ser considerada to. solicitando um prazo de negociação maior. o prazo de negociações. vel pela morte de 13 pessoas. novamente a notícia filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas. O Major Busnello trução social racista que insistia em marginalizá-lo foi Rio de Janeiro era o delegado José Mariano Beltrame Desigualdades no Brasil 2007 – 2008. localizada no centro da cidade: seis adolescentes Coréia (periferia) é outra. numa estratégia racista. brar que mais de 80% dos mortos eram negros. é padrão sueco. porém a mais próxima da verdade parece ser a média da Zona Sul recebe tratamento diferente e tem mais sadia” (Ibidem). estava Serginho representou e encerrou o signo do que O que estamos problematizando é o aparente pa. negro e jovem. o secretário de Segurança Pública do Estado do mados do que jovens brancos. As dúvidas são sobre o tempo antes. Ainda no ano de 1993. À medida que se discute efeitos assimétricos do biopoder entre negros (pretos não estamos dizendo que estelionato. Afinal. que ainda hoje vemos nos noticiários. 30/03/2010). lotado no 6º BPM (Tijuca). negro e que exemplo. p. Serginho foi o vilão perfei- Vale ressaltar que todas as crianças e adolescentes as. Janeiro. A cundidade de uma população” (FOUCAULT. de modo desautorizado. o Estado faz uso da “eliminação das raças e invadiram o bairro durante a madrugada. Isso é uma fábrica coercitiva. cente ameaçada se agir com vacilações a pretexto de de uma ação ilegal.com/. O discurso do Estado fluminense. A tese que o Estado racista defende é de que a 2005. O que está em jogo é que a “morte da raça ruim. ápice foi vivido por três pessoas: Sérgio Ferreira Pinto no” (FOUCAULT. Os foi dada e as investigações aconteceram. a qualquer custo”. por razões publicamente que. as reais razões do desbunde de na semana anterior. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) comentou BRASIL. Por outro. o assalto. foi dito. uma estratégia do biopoder. o roteiro já estava lá antes da sua chegada. Gabão. 2007 a proporção cresceu para 108%” (CORREIO DO O biopoder tem um postulado. Rio de Janeiro. onde a população negra é superior a 50%. mulher branca e refém dem).. um evento na cidade Rio Serginho era o símbolo e a manifestação do que do mês de agosto. mas. Ou seja. em de que a vida criminosa pode ser eliminada. disse nos blogs Mário Sérgio fez questão de comparar com o caso do é dirigida para uma parte da população que compar. rizado. Agora. Sandro Barbosa do Nascimento nos O biopoder é “uma espécie de estatização do bio- O BIOPODER NO CASO em foco de 2009. se a opinião pública é um critério para o genocídio autorizado ou não auto. o direito de matar do Estado está assegu. Na época. retrucasse. na época com 24 anos. no município de Nova Iguaçu. é um exercício do tenciário durante nove meses. Ele já tinha sido usuário do sistema peni. 2007. a violência ano de 2007 aponta para uma perfeita adequação aos litar do Estado do Rio de Janeiro (PM). Com efeito. furto e assalto são atividades ou opções para os por policiais militares.309). a cons- 2007. na madrugada do dia 23 de julho de que ratificou o exercício do biopoder numa entrevis. incluindo uma criança. disso ninguém duvida. Ou seja. direitos de cidadania que o trabalhador que mora na considerando as declarações do Governo no ano de tados para fazer “limpezas” em certas áreas da cidade. uma certa inclinação (. na ocasião preservação da ordem social estaria garantida à medida vinte e nove pessoas foram mortas. todas. Este modo de dentro do que foi proposto pelo nosso trabalho: o exer. a convicção dezoito anos passados. o morador de classe sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz do Instituto Sangari.. O coronel crime. Rocinha. marius-sergius. informando que “pou- tilha a ascendência africana e um histórico de discri. É padrão Zâmbia. Como já Vigário Geral: cerca de cinquenta homens encapuzados gestão estatal que incide sobre a vida. dentro dos cânones legais e fora deles. o que por sua vez implica http://marius-sergius. dade. da raça inferior (. O a purificação da raça para exercer seu poder sobera- casas e alvejando vinte e um moradores. raça denota a racialização do fenômeno da taxa de natali. De acordo com o Mapa da Violência. novo massacre. No caso do Estado do Rio de blog/: “Numa ocorrência com refém. jovens negros. forçosamente os mais racistas” (Ibi- ça pela morte de outros policiais. Mas. corre o risco de sacrificar a vida ino.) que SERGINHO nas periferias/subúrbios e favelas. Afinal. a raça ruim é a população que vive relembra da atrocidade cometida naquele dia. motivos: porte ilegal de as bases para a réplica e tréplica tinham vindo anos Por um lado. 24/10/2007). o Estado. com 48 anos em 2009. Uma análise de discurso do governador e do arma. “os Estados mais assassinos são. nas entrevistas do governador e do secretário de rado no combate que é definido como guerra contra o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro no de negociação. Serginho estava no meio duplamente. de produzir marginal” (G1. que a covardia dos homens os impede de que o governo do estado do Rio de Janeiro “assumiu 2010 – Anatomia dos Homicídios no Brasil foi feita pelo p. Em significativamente maiores de morrer em conflitos ar. homem bran. Óbvio que não se trata de sugerir que sua classe média da zona norte). organizado pelo da PM foi o responsável pelo tiro certeiro. e após estava defendendo a ação policial na Favela da Coréia homens e os mais atingidos foram os negros: se em titubeios. Policiais contra. o Serginho tinha o ensino médio completo. as ações anteriores já citadas. com 39 anos. Com isso. pelo menos. no vigésimo nono dia CAULT. estelionato e furto. A analogia a prisional. Levantam-se hipóteses de vingança. ao lado do caso Sete anos depois. A história hoje contada. 2002.com/ e http://pmerj. conforme os dados em suspeita agentes de segurança pública. o monopólio da violência é exercido Janeiro significa dizer que jovens negros têm chances preservar vidas. é passada com mui. favela não tem” (G1. Sérgio Cabral afirmou que “Você pega o número de de Serginho. economista Marcelo Paixão (veja gráficos em anexo). que deve par o lobo significaria sacrificar a ovelha” em http:// minação.286). mecanismos do biopoder. assim como de trabalho. 2002. agora na favela de técnicas são aplicadas conjuntamente por meio de uma de Janeiro merece especial atenção. As sassinadas na Candelária eram negros(as). É oportuno nascimentos e dos óbitos. o Serginho. Ana Cristina mesmo tempo.. três anos na época – e tinha passagem pelo sistema pela população tijucana (moradores de um bairro de extra-oficial. “Um tiro em Copacabana é uma coisa. isso beneficia a ação e pardos).blogspot. para o governo. No Relatório Anual das preservá-las. Em 15 de abril de do G1 em 24 de outubro de 2007. o biopoder funciona numa via dupla. A operação policial foi responsá. Essa ação decisiva para que 40 minutos fossem suficientes para 24 25 . Numa ação filmada e aplaudida radoxo de que forças de segurança do Estado. Vale lembrar que eram todos do tráfico de drogas” (G1. governador estava defendendo uma política de ligadura desempregado desde o nascimento da sua filha – com deve ser combatido. p. que a força de coerção eliminasse os criminosos. um ato lógico ou. tas lacunas. queremos problematizar a ausência de negros. dossiê temático da Candelária. anexo. próximo às dependências da Igreja de mesmo ta. ao motivação para os homicídios foi uma suposta vingan.

trevistas de representantes do poder público fluminense Homens Brancos Homens Pretos & Pardos nello. IBGE. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Belo Homens negros e pardos Homens brancos Mulheres negras e pardas Mulheres brancas VAREZ. Michel Foucault: Horizonte: Autêntica. Editorial – Abril/2009. 29-38. 7(1-2): 83-103. Vale registrar que não estamos tratando de ações e ações policiais foram colocadas à luz dos operadores Ano Homicídaios por Homicídios por Outras formas de Homicídios por Homicídios por Outras formas de individuais.0 2. 2005 (por mil habitantes) decisão que culminou com o tiro fatal do Major Bus. 1a Ed. outubro de 1995. Alice.5 1. Michel Foucault: poder e análise das 0 1999 2002 2005 Graal.org. Reportagem .9 49. a baixa qualidade da escola públi- 2003 30.0 1.4 42.1 0.9 outros termos. em favor da maximização da vida de alguns a partir do assassina.9 8.8 8. histórias e destinos de um pensamento. Rafael. idade segundo os grupos de cor ou raça (branca e preta & parda) e sexo. Michel Foucault: beyond OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NO RÁDIO – Mapa 30 structuralism and hermeneutics. 2000. propiciando um entendi. 2008.2 4.6 7. Djalma. 50 tante morto em Vila Isabel após fazer comerciante MELO.57 4. Cadernos WAISELFISZ.0 0.8 0. indivi.7 1. Nos.0 45. n. AL. Em 2002 29. 2002(1). 2007.1 0.5 1. Alfredo.0 1.1 48. n.0 0. p. Mapa da Violência no Bra- Fonte: Datasus / Min.48 CASTELO BRANCO. uma perspectiva que busca sublinhar alguns arma de fogo arma branca homicídios arma de fogo arma branca homicídios mos descrever. da violência – negro tem 130 vezes mais chances de versity Chicago Press. Brasil. Violência – Fevereiro/2011. Paulo.83 33.jblog.0 1. São Paulo: press.96 4.Setembro/2009. 2000 2. MAIA. Disponível em: www.93 Curitiba.1 1. USP.9 9.7 1. de modo mais com o racismo.3 6. Estamos tratando de uma política de Estado.4 4. 2000 27.5 10.0 4.1 2003 2. Flávia. microdados PNAD da Faculdade de Filosofia e Ciências. Mãe de assal. 60 dualismo. dispositivos dos mecanismos de funcionamento do ra- 1999 1.45 _____________.64 _____________. v.8 0.8 7. 2009 cault.5 9. terratv. Chicago: The Uni. Ano Homicídaios por Homicídios por Outras formas de Homicídios por Homicídios por Outras formas de que diz respeito à violência. Tempo Social: Revista de Sociologia.0 2.5 1. Disponível em: www.terra. Microfísica do poder. 70 67.6 8. Entre as ações policiais extra-oficiais e oficiais. M. quando? Disponível em: www.1 0.9 2.7 1. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.2 3.9 1.6 de um modo de gestão que ultrapassa o ato de apertar conjunto de políticas constitutivas do Estado brasileiro. Cande- 40 35.com.2 9. Sobre a analítica do poder de Fou- 51. Camilo e OLIVEIRA. Um caso que exemplifica Mulheres Brancas Mulheres Pretas & Pardas para os estudos das relações étnico-raciais no Brasil no como as estratégias racistas do biopoder funcionam. 23 de julho de 1993 – A chacina da Can- 41.9. etc.4 9. Rio de Janeiro: SILVEIRA.0 3.6 1.0 0.1 2. Petrópolis: Vozes.7 7.br.4 7.org. 1997. P. Com este intuito. Resumo dos cursos do Collége de Fran- 61.1. São COELHO.1 2004 2. Antônio. foucaultiana que opera como racismo antissemita para Razão de mortalidade por formas especificadas de homicídio da população residente acima de cinco anos de sa observação é que o racismo foi o fator decisivo na o racismo anti-negro no Brasil.6 0.82 globo. Disponível em: extra. delária.43 26 ed.6 6.br.7 8.br.com.9 o gatilho.0 0. lária_Julho/2010. C. ser assassinado.6 1. Martins Fontes. “Racismo.1 O escopo deste trabalho é trazer algumas contribuições destacamos o “caso Serginho”. na sociedade brasileira. um 1999 22.1 8.9 os grupos de cor ou raça (branca e preta & parda).institutosangari. mento do racismo como uma política de Estado. biopoder”./jun.SP.2 como o biopoder funciona e seu vínculo indissociável cismo estatal na sociedade fluminense e. Revista de Filosofia Aurora. 3. Disponível em: coletivodar.observatoriodefa- 3. Marcos César (orgs.9 to direto.9 2.7 0.). 1982. procura.4 33. 2005.7 0. A hermenêutica do sujeito.6 5. Um desafio é a transposição da pesquisa geral.word- 20 FOUCAULT. 2005 24. 26 27 .0 2002 2. 2004.0 12. 1999-2005 (por 100 mil habitantes) 80 _______.5 5. 21. como em função a ampliação de riscos. Um olhar. Ma. organizações. Saúde. Rio de Janeiro: Editora FGV. dossiê temático que o comando da operação autorizasse o disparo. H.4 4.4 9. ce. Alguns trechos de en. Foucault & a educação.0 Razão de mortalidade da população residente acima de cinco anos de idade por homicídio segundo 2005 1. e RABINOW. Julio Jacobo.71 3. Vol. sil.9 ca. Em defesa da sociedade.7 4.9 2.3 1. especialmente na sociedade fluminense. o que está em jogo não é a ação isolada do conceituais foucaultianos. arma de fogo arma branca homicídios arma de fogo arma branca homicídios disparo. o difícil acesso aos programas e aten- CONSIDERAÇÕES FINAIS dimentos de saúde.br e Tabulações: LAESER – Fichário das Desigualdades Raciais rília: Unesp-Marília-Publicações. _______.1 2001 2. OBSERVATÓRIO NOTÍCIAS E ANÁLISES – Até 10 _____________. partindo de um repertório focaultiano.0 2. microdados SIM. 2002(2). Brasil.0 9.com. Martins BIBLIOGRAFIA Fontes .0 2004 26. 28.5 46. 2001 29. DREYFUS.8 1.88 refém sai em defesa do filho. “O que é a crítica?” IN: BIROLI. VEIGA-NETO. velas. jan.8 0.29 3.8 46. Guilherme.com. Violência – Abril/2010.

extemporânea ou 2007. Palavras chave: negros. discentes. dadas e promovidas por pretos e negros (. ostensiva ou encoberta. dentre outros. na con. acerca da relação entre educação e corporeidade. o que me leva a afirmar a Ampliar este quadro não aponta necessariamen- para o Grupo de Trabalho André Rebouças formado existência de um movimento negro de base acadêmica te para uma compreensão. [como o Movimento Negro Unificado].dossiê temático Corpos negros educados: notas acerca do movimento negro de base acadêmica RESUMO Neste ensaio. por exemplo]. literários e ‘folclóricos’ – toda essa complexa trajetórias de intelectuais ativistas negros (RATTS. Na conclusão. e coletiva. qualquer tempo [aí compreendidas mesmo aquelas que também a época de formação do que denomino de visavam à autodefesa física e cultural do negro]. para uma elite social. voltadas rais [como os diversos “centros de pesquisa”] e políticas Coletivos de Estudantes Negros. Este fenômeno exige algumas considerações acerca Depois discorro brevemente acerca da formação da pluralidade interna do movimento negro. também se dinâmica. 157). os cha. em 1977. de vações que tenho realizado individualmente ou em que confirma a regra. corps instruits. capoeira. faço referência à criação de Coletivos de de organizações e para a sua unidade. Coordenador dos” no espaço acadêmico. período concomitante diants Noirs dans la décennie suivante. Eduardo Oliveira e Oliveira. que advém de pesquisas e obser. inicial de constituição deste campo. 2009. cultu- os Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros (NEABs) e os Desde a criação das universidades brasileiras. recreativas se afirmam negros/as no espaço acadêmico e. que propõem esse debate. e docentes no espaço acadêmico. com significativa atuação individual noirs instruits » dans l’espace académique.. 2010). recreativos e negros/as na Universidade Federal Fluminense entre co para o período. e ações de mo- Neste ensaio. pois nem todos os grupos pela historiadora Beatriz Nascimento e por estudantes ou mais simplesmente um movimento negro acadêmi. Étnico-Raciais e Espacialidades do Ins- tituto de Estudos Sócio-Ambientais da Universidade Federal de Goiás. intellectuels noirs. (SANTOS. constituem grupos de atuação como ros grupos de dança. por vezes de técnicos administrativos. a presença de acadêmicos/as negros/as é uma exceção bilização política. intelec. são. Os destaques vãos intervenção neste âmbito. poesia]. como portadores de um as entidades. período considerado de surgimento atuação individual e coletiva. até o último quartel do século XX. Lé- grupos sociais historicamente discriminados com foco mados Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros (NEABs) lia Gonzalez (1982) chama a atenção para a pluralidade para as cotas raciais pode ser inserido numa discussão e. Nos anos 1970. que A MOVIMENTAÇÃO NEGRA assistenciais [como as confrarias coloniais]. de do movimento negro contemporâneo. abordo a formação do movimento negro de base RESUMÉ Dans cet essai. Les Mots Clé: mouvement noir académique.. raciales. com significativa (. Em seguida.. 2009). zação do movimento negro contemporâneo. podemos dizer aquilombamento. organizada fera religiosa com grupos como os Agentes de Pastoral INTRODUÇÃO na Universidade de São Paulo.) a melhor definição de movimento negro é: todas Os anos 1970. meiros anos da reorganização do movimento negro. de qualquer natureza. artísticas [como os inúme- temporaneidade. avec significative perfor- do Laboratório de Estudos de Gênero. Entidades Ele se caracteriza pela ação organizada de docentes e religiosas [como terreiros de candomblé. NO ESPAÇO ACADÊMICO [como “clubes de negros”]. para mim. Posteriormente. tuais negros. trato da entrada de “corpos negros educa. de rebeldia armada. 1974 e 1975. apontamos aquele que consideramos um momento e privadas e chegam a constituir grupos de estudo e de 1994b: p. Ensuite.). projeto político acadêmico que tem memória e história. j’aborde la formation du mouvement noir acadé- acadêmica na década de 1970. a exemplo do que se observa na es. corpos educados. Afirmativas e das cotas raciais. de movimentos conjunto com outros/as pesquisadores/as acerca das que alguns/umas ativistas que participam da reorgani.. período Joel Rufino dos Santos amplia para o passado e o pre- um notório incômodo com os corpos negros. por fim. période concomitante à la graduação e pós-graduação em Geografia à discussão e implementação de Ações Afirmativas e das cotas discussion et mise en oeuvre d’Actions Affirmatives et des quotas e do mestrado em Antropologia da Uni. RATTS & RIOS. pelo sociólogo Negros e o Movimento Negro Evangélico. je discute brèvement la a constituição dos Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros entre os constituition des Noyaux d’Études Afro-Brésiliennes entre les années Alex Ratts anos 1980 e 1990 e faço referência à criação dos Coletivos de 1980 et 1990 et fais de la référence à la création des Collectifs d’Étu- Antropólogo. Nos pri- O debate público acerca das ações afirmativas para de grupos acadêmicos nos anos 1980 e 1990. movimento negro acadêmico. e para a Quinzena do Negro. primeiramente situam no interior de algumas universidades públicas cotidiana. fun- movimento negro de base acadêmica (RATTS. e todas as ações. de protesto anti-discriminatório. negros (ou de maioria negra) culturais. e com as cor. corpos concomitante à discussão e implementação de Ações sente a gama de entidades com base em levantamento que pensam. artísticos. Dans la conclusion je reflète concernant l’entrée de « corps versidade Federal de Goiás. A conclusão aponta para de Paulo Roberto dos Santos (1984): poreidades negras que estão adentrando a universidade a entrada e permanência de corpos negros discentes brasileira de forma coletiva e organizada. religiosos conhecidos se identificam como movimento 29 . teatro. J. mance individuelle et collective. Professor dos cursos de Estudantes Negros/as na década seguinte. raciais. Há Estudantes Negros/as (CENs) nos anos 2000. constitui movimento negro. discuto brevemente mique dans la décennie de 1970.

nizações mencionadas é seguida pela regionalização e panto e gera atritos peculiares (1994a. transformando-se continuamente (. onde o grande número de “negros doutores” causa es. por intelectuais negros. boa parte da lite.. 266-267) sujeitos: “Quem são eles? O que mais chama a atenção 1980. a exemplo de Kabengele a expressão no plural – movimentos negros – como se vação” ou “retomada” dos movimentos negros no final de Trabalho de Profissionais Liberais e Universitários Munanga. primeiro. e pela busca de uma narrativa to negro. Todos 1. 1999). Federal Fluminense. lugar de informantes dos pesquisadores estabelecidos nização criada em 1983 (SANCHIS. atuar em conjunto. 2009). No entanto. (1994a: p. ticularmente aí. de diversos tipos. que atuam na primeira metade de século XX tência do racismo no Brasil. Outros/as inte- J. no superior”. período durante o qual não (. mento ainda mesclado pelos padrões de pesquisadores jar artigos de Lélia Gonzalez. na Universidade Federal Flu. cismo desembocou. gros são filhos do “boom” educacional dos anos setenta de ação coletiva em toda a América Latina. Geração. pois. pode-se dizer por exemplo do Maranhão e do Rio Grande do Sul. ainda que reduzida e por vezes estrangeiros. Flávia Rios (2009). União de Negros pela Igualdade (UNEGRO). do acadêmico. Esta citação é interessante por três razões: 1) capta a gros/as (RATTS.. que acabam por se aproximar e. No caso do movimento negro. geralmente. Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva. de Rios (2009). 2007). identifico uma articulação negra de base acadêmica. muitos militantes e simpatizantes de diversos movi. gros. esse fato torna-se mais orientandos/as negros/as. p. Parte significativa dos/as discussão acerca da noção de quilombo. Há desde organizações políticas superestimada. ideias arregimentadoras de negro ou são reconhecidos pelos fóruns políticos ne. Henrique Cunha Jr. 1983b: XIV)1. é abordada em Ratts (2003). em nessa produção é o fato dos negros deslocarem-se do depois) e os Agentes de Pastoral Negros (APNs). reconhecido pelos seus Foi nos anos setenta que a luta organizada contra o ra. ação relativamente conjunta de intelectuais ativistas lectuais negros/as ativistas traçam caminhos distintos. para a posição de ensaístas e intelectuais” (p. e Rufino e. um mo. merecer maiores reflexões. enfim. preocupados em criar bandeiras de combate. enti. de Trabalho André Rebouças. produziram um ponto que não concluiu a dissertação em virtude de sua morte. Guerreiro Ramos e Clóvis Moura são pensadores que nacionalização de outras coletividades. 94). um ponto crítico decisivo nos anos 80 em diante. nos anos 1970 e 1980. que a fuga de candidatos brancos para centros mais Para o período em foco. poucos grupos se identificaram Este é o período em que alguns/umas mestres e de voltar-se para os critérios de identificação e para o 3) estabelece uma periodização para um movimento ou foram identificados como tal. num movimento negro de como Frente Negra Brasileira (FNB). mas também a dades negras de luta contra o racismo. teorica- não tinham passagem pela universidade. vimento negro a partir dos anos 70 são feitos. tocante à relação entre orientadores/as brancos/as e histórica e cultural do negro (como o Centro de Cultura pelo estado como solução para a “crise de vagas no ensi. mentos sociais tornam-se pesquisadores dessa forma população negra” da Associação Nacional de Pesquisa o Grupo André Rebouças. passando por centros autônomos de pesquisa – proliferação de faculdades particulares estimulada muito bem notado por Cardoso (1989) e Gohn (2004). O dilema entre cultura e política se instaura par. são invariavel. como foi e Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS) e no minense). no repensar a nação em militantes negros convencionaram chamar de movimen. ao cote- J. nacionais e também o quadro das relações entre pesquisadores/as si – há quem prefira mesmo designá-lo por “movimen. 96). De fato. porém. Lé. negros/as ou de negros/as intelectuais como prefere como é o caso de Clóvis Moura. (p. rior ainda podemos verificar uma transição. pontas de lança de ação. noção consensual do que significa movimento negro. João Batista Borges Pereira foi o orientador de Kabengele Mu- encontros de negros Norte e Nordeste e dos encontros Além da irônica expressão “negros doutores”. se inseriam nas uni- res como Márcio André O. Helena Theodoro Lopes.) os estudos que engrossam a produção sobre mo. os jovens que fundam. O autor provavelmente está tratando de entidades Sales Augusto dos Santos (2007). É o caso do Grupo doutores/as que hoje são referência dos estudos de re- campo e forma de atuação de cada grupo. no seio da igreja católica. No caso do movimento negro de base acadêmica. 1999: p. Marlene de Oliveira Cunha e Eduardo Oliveira e Oliveira. M. de jovens negros/as no meio acadêmico: foge. 266). que estes/as intelectuais. Santos: Santos que. Santos sintetiza o quadro do período: M. aparecer. que indica que este quadro se verifica em outros O movimento negro de base acadêmica se sinto- amplitude nacional e claramente destacado de outros mens de Cor (UHC) e Teatro Experimental do Negro movimentos sociais na América Latina: niza com as outras organizações no enunciado da exis- movimentos sociais e políticos. Muniz Sodré e Joel Rufino dos Santos. pois na década ante.). risco de embranquecimento dos/as acadêmicos/as ne. Negra do Maranhão. que os movimentos ne. pos- o singular previsse uma harmonia. de histórias e memórias negras. 2009: p. No contexto de uma estados no período em foco. são na verdade cerca de 400 enti. como sujeito coletivo e como individua- duadas entre os/a fundadores das entidades negras nos lidade forte (SANTOS. dos Santos (2009) preferem ratura sobre este movimento social fala de uma “reno. remete à presença de licenciados/as e bacharéis no muitas vezes. orga. I. Eduardo Oliveira e Oliveira e Hamilton que a ação em escala nacional do MNU e das orga. 63-64). o Grupo mente desta geração universitária. e eventos. como intelectual reconhecido participou voz suplantada ou infantilizada (GONZALEZ. entanto. com a qual rompe logo des privadas foi maior. estes novos ativistas negros/as que fundaram as referidas entidades sujeitos são chamados de “ideólogos negros. Aquilo que os próprios (TEN). Siqueira. a pessoa negra passa a ter voz própria no mun- brasileiros. no entanto. Santos se refere a um momento em que há pou. e perspectivas analíticas antigos. União dos Ho. juntamente com as Hamilton Cardoso da primeira metade dos anos 1980. É preciso ressaltar que Abdias Nascimento. plena ditadura militar. é pontuada por Rios pares nas universidades. trata-se 2) descreve em linhas gerais seus tipos organizativos e. outros trabalhos apontam que Negros) de São Paulo e do Grupo Negro da PUC-SP teriormente de Leda Maria Martins. No adiantados de ensino abria vagas para negros – é o caso são conhecidos os nomes de Beatriz Nascimento. 2006). negro de tipo mais “político”. merece relativização esta afirmação de J. criado na Universidade lações raciais e das culturas negras. 30 31 . a exemplo do GT “Temas e problemas da a mais notória). Alguns auto. A transformação provocada no momento da atu. Joel Rufino dos Santos e cas entidades nacionais como o MNU. mas também dos estados. É difícil estimar a proporção de pessoas gra. 2007. nacionais de mulheres negras. engajados na luta anti-racista. onde a proliferação de faculda. em própria. lia Gonzalez. nanga. por exemplo). Cardoso. 237). mais recentemente. optando pela denominação de Gonzalez o “movimento negro moderno” data do início dos anos (SANTOS. considerado. no meu entendimento. a uma tendência da geração desse período: estudos mais aprofundados no que se refere a grupos rígidas (como o Movimento Negro Unificado. (SANTOS. desde meados dos anos 1980. novas tendências tidas como críticas que ameaçavam deixa uma indagação e faz uma afirmação acerca destes de União e Consciência Negra (fundado entre 1978 e do Rio e de São Paulo. dossiê temático deste processo e ministrou cursos em vários estados ou seja. frouxamente articuladas entre Uma citação a mais de J. a exemplo dos têm produção escrita desde décadas anteriores. em seguida. A dis- Márcio André dos Santos comenta o trecho acima movimento. sobretudo públicas. 1983). A trama das trajetórias pessoais e coletivas fica a das relações sociedade-governo desde 1960. até instituições semi-acadêmicas (como É preciso lembrar. De fato. na literatura específica. Maria de Lourdes não concordo. consciências e atuações políticas” (BORGES PEREIRA.. o MNU. percepção da entrada. bem como do GTPLUN (Grupo versidades.. assertiva com a qual dos anos 70. Isso não brancos/as e negros/as que merece levantamentos e tos negros”. tanto que em mente filiados às ciências sociais ou por elas influen- algumas situações se instaura uma tensão em torno do ciados. de inflexão em que o sujeito negro não deseja ter sua cussão racializada e ideologizada em torno da noção de quilombo de J.. 30. no plural. O cenário traz dades. nos anos setenta. (2009). Santos contribui para a grande medida. (DOMINGUES.

ela indica da Universidade Federal Fluminense organiza um en. distribu. além de escrever sobre a necessidade de uma objetivos destes alunos negros de continuar mantendo na Universidade Federal Fluminense. raciais fora da UFF com o corpo docente do Instituto exemplo de Maria Maia de Oliveira Berriel. particu. o GTAR estava. Deste co.. Hasenbalg Sociólogo É relevante destacar. ALBERTI & PEREIRA. ela estimula a criação de do Negro brasileiro no Instituto de Ciências Humanas reconhecidos/as pelo movimento negro emergente nos plamente. desigualdades de Trabalho André Rebouças (1976 – 1978) raciais. 2005.. Como contraponto deste quadro merece comentário a postura “Semana de Estudos” e à criação do GTAR com colegas ída a quem participava do evento. a das áreas de Humanidades. cimento científico.. mas também das Exatas. Ciências Sociais. mostrar uma nova forma de abordar as Relações Raciais Vicente Salles Antropólogo e do próprio Grupo de Trabalho André Rebouças que nacional Brasil África (SINBA) e o Instituto de Pesqui. concernentes ao negro brasileiro enquanto raça e de sua Yvone Maggie Alves Velho Antropóloga vem por intermédio de uma portaria do Ministério de sas das Culturas Negras (IPCN). 2007). Peter Fry Antropólogo anterior” (p. 2). negros. 11-12). cujos resultados fortaleceram os como parte de sua especialização também em história nos cursos que abrangem a área das Ciências Humanas. atualizar a bibliografia estados de Rio de Janeiro e São Paulo (CUNHA JR. 01). Marlene de Oli. cente e discente da Universidade e estabelecer contato Alguns intelectuais brancos/as (ou não negros/as) onde procedem (GTAR. o grupo de alunos ne- divergências entre IPCN e SINBA . alguns/umas dos/as quais se tornaram pesquisadores/ objetivos acadêmicos: Definido como um “grupo de alunos negros uni. então di. e Eduardo Oliveira e Oliveira (1974. Carlos A. 1977) e desenvolve sua dissertação acerca de preconcei. zade construída ao longo da pesquisa (p. Um quadro dos/as atual de Yvonne Maggie e Peter Fry contrários à adoção da variá. 01). O GTAR se constituiu como um projeto de ne- Nos seus documentos. a exemplo de Marlene de Oli- versitários”. que cursa Ciências Sociais. formando acadêmicos ativistas. tensão que em grande parte se dissolve na ami- Acerca da SINBA. A proposta do de “Grupo de Trabalho André Rebouças” elementos de continuidade na organização social da troduzir gradualmente na Universidade créditos especí. 22). e outros colegas entre professores que desenvolvem teses sobre Relações iniciam sua carreira acadêmica naquele momento. 1977. chama a Naquele período. Na realização das semanas de estudos o grupo de alunos GTAR: Beatriz Nascimento (1974a. entra no mérito das Devido a este reconhecimento. 32 33 . na expressão do próprio to e ideologia racial no Brasil (BERRIEL. o que a leva à organização das comunicação que era publicada em apostila. aparecem dois intelectuais com perspectiva aglutinando intelectuais. a Sociedade Inter. com o nome de “Grupo de Trabalho André Rebouças” da primeira entidade até os dias de hoje. sadores/as sobretudo do Sudeste. fez articulações internas na UFF e com pesqui. (. que refaz uma bibliografia sobre gritude acadêmica. vel raça nas políticas identitárias e nas políticas públicas. Cabe ressaltar que dos/as colaboradores/as do GTAR também contribui que a escolha do tema se dá em meio a seu curso de contro que denominou de “Semana de Estudos Sobre cada convidado/a colaborava com a produção de uma Ciências Sociais na UFF. GTAR. negra. João Baptista Borges Pereira Antropólogo política negra de então. veira Cunha. no início dos anos 1970. que pensa ção do Negro na Formação social Brasileira. que não menciona o GTAR. e por outro lado no sentido de se Virgínia Nascimento. Na introdução do seu trabalho.2 Hanchard (2001: p. ram com o GTAR entre 1976 e 1978 contribui para que larmente na implementação de ações afirmativas para a população branco. por meio das palavras do Décio Freitas Historiador próprio Grupo de Trabalho André Rebouças. 1982). ficos sobre as Relações Raciais no Brasil. Educação e Cultura de setembro de 1978: 110). e amigos/as. Geografia. “em busca de espaço” (GTAR. Desta. 1978: p. Nunes Pereira e Vi. Maria Maia de Oliveira Berriel Antropóloga ferida para novembro em homenagem a ZUMBI. Campos. dossiê temático para que compreendamos na diversificação dos temas Quadro 1 – Colaboradores/as do Grupo quais são as preocupações do grupo: história do negro nas Américas e no Brasil. 2002: p. ou seja. 1978: p. a exemplo da eleição do dia 20 UM PROJETO DE leira”. por um lado. 1977). Beatriz Nasci. que é a de manter uma continuidade do trabalho desenvol- população negra dos quilombos do período escravista. negra que se tornam referências para os/as jovens do participam das semanas de estudos sobre a contribui- mento conclui sua graduação em História na Univer. fica. 1973 no Centro de Estudos Afro-Asiáticos pela profes. principalmente pesquisa acerca da ideologia racial e dos movimentos vido na universidade. 1978: p. de Ciências Humanas e Filosofia (GTAR.) O grupo tem por preocupação quanto aos temas Reginaldo Guimarães Historiador Cabe ressaltar a vontade de reconhecimento e o letivo formam-se 3 grupos fluminenses: o Grupo de apresentados no decorrer das semanas de estudos a de Roy Glasgow Historiador processo de institucionalização da Semana de Estudos Trabalho André Rebouças (GTAR). 1975). dades raciais despontam àquela época3. ela reflete 2. retora do ICFH-UFF. 3. 01). Na dissertação de Cunha (1986) acerca da História. além de estudiosos renomados gros sentiu necessidade de organizar-se juridicamente americanistas e africanistas .e registra a continuidade atenção a precisão do propósito teórico e político do como João Baptista Borges Pereira. as das relações raciais. São dois dos/as intelectuais mais uma linha de atuação acadêmica que os beneficiou du- reuniões acima mencionadas. intelectuais nacionais e estrangeiros/as que colabora. Semana de Estudos Sobre a Contribuição do Negro A tentativa de realizar este trabalho foi iniciado [sic] em Maria Beatriz Nascimento Historiadora na Formação Social Brasileira foi organizada e trans- Na cidade do Rio de Janeiro. dentro de Leni Silverstein Antropóloga consensualmente depois de 1978: “No ano de 1977. em Ipanema. os membros do GTAR nar. 1974b). ex-alunos e alunos negros que Participante das referidas reuniões. ram seu processo de formação e deixam explícitos seus o negro para uma das “semanas de estudos” (BERRIEL. estudante de Geografia. 1978. relações raciais. Para co também Carlos Hasenbalg cujos estudos de desigual. pro- especialistas na área das Ciências Humanas ligadas às Juana Elbein Antropóloga posta pelo Grupo Palmares de Porto Alegre e adotada NEGRITUDE ACADÊMICA: questões relativas ao Negro brasileiro atual. a situação de pesquisadora negra com um orientador ses do período (CONTINS. Neste encontro o grupo convida autoridades e José Bonifácio Rodrigues Historiador de novembro como data de referência positiva. Este processo está em relatos de ativistas negros/as fluminen. Química e Física tanto. cente Salles.que ele traduz como Estando situado no espaço acadêmico. Fonte: GTAR. nem sempre nítido aos olhos contemporâneos. veira Cunha e posteriormente Andrelino de Oliveira Atualmente. Rei um grupo de pessoas se reúne aos sábados no Centro sora Maria Beatriz Nascimento e alguns jovens negros Michael Turner Historiador dos Palmares. cultura negra e religiões afro-brasileiras. Mendes e no Teatro Opinião. um grupo de alunos negros dos cursos de grupo. sidade Federal do Rio de Janeiro e se dedica pesquisar negros universitários tiveram como propósitos [sic]: in. 1976. A bibliografia linguagem gestual no candomblé Angola. Participando das tentar uma reformulação do programa de Antropologia produção acadêmica. tendo por objetivos os mesmos do ano de Estudos Afro-Asiáticos da Universidade Cândido interessados em formar um grupo de estudos. o estudo das relações raciais e a produção historiográ. a O GTAR NA UFF uma abordagem das relações raciais. Manuel Nunes Pereira Antropólogo 3ª. preparar para uma ação voltada para a comunidade de e companheira de trabalho de campo. ver o artigo de Joselina da Silva (2009) aquilatemos a amplitude do projeto acadêmico. sobretudo da reserva de vagas para estudantes negros/as. detalhes Eduardo de Oliveira e Oliveira Sociólogo do contexto que aproxima a entidade da mobilização a Contribuição do Negro na Formação Social Brasi. no sentido de conhe- um grupo de estudos do qual participam sua irmã Rosa e Filosofia (já foi reformulado). sua amiga no que diz respeito ao assunto adotado pelo corpo do. implicação no seu todo social (GTAR.

tendimento da desigualdade preto/branco pelo “mu. se trata de fazer uma auto-análise em todos os textos e tra tarefa. da liberdade. importância. da verdade. p. Convém também lembrar que a ciência Na conferência a pesquisadora e ativista demarca sua e participam de circuitos intelectuais e políticos de rela. a cor. lato” face ao mito da democracia racial (OLIVEIRA. se afirmar como negro e ajudar outros negros a se afir. é (e de quem pode ser) intelectual no Brasil e da ne- dor e criatura. mais um aspecto do projeto político: “Nós temos direito intelectual. 6. segue propugnando a ideia de uma “ciência negra” e. influenciados pessoalmente por Como parte do evento. de “cientistas negros”: geração anterior. (IDEM. ção de uma ciência para e não tanto sobre o negro. sendo assim impossível ao cientista (e em de 1977). terreiros. Beatriz Nascimento propugna No texto/manifesto do evento. organiza grafia brasileira: “Quando cheguei na universidade a Janeiro e São Paulo organizam debates e outros eventos de” quando detivesse os instrumentos necessários para a Quinzena do Negro naquela instituição. valorativa” (OLIVEIRA. Sentia que fazia parte do Cabe destacar que na Quinzena do Negro aconte. sua experiência de negros. de uma comunicação intitulada “De uma ciência Para e não tanto Etnologia da USP. porque tocante aos estudos de relações raciais7. o autor faz algumas indagações acerca de quem tivas” (IDEM. nossos comple. novas descobertas e informações no conjunto nistas. pública. além de enga- Nesse sentido. Oliveira indica que de “escravo” por “negro”. Oliveira relata que defendera esta proposição em vários eventos. já existente do conhecimento. e o grupo que pesquisava. ce uma mesa redonda com estudantes afro-brasileiros deve-se ter o cuidado de não se submeter ao segmento nomia ou antropologia negras. Voz de pensadores/as negros/ como sujeito na ocupação de espaços sociais. religio. André Rebouças. voz própria que emerge em Nascimento é o reposicionamento da pessoa negra e nos Estados Unidos).) – e que têm per. é divulgação na imprensa paulista. manter uma neutralidade vem de um circuito próximo. senhoras e senhores de toda ordem. no simpósio “Brasil Negro” por ele coordenado. favelas. Transcrição do filme Ori. têm individualidade. formação social: “O cientista negro precisa se tornar as. Idem. debatemos. para o que necessita. Eduardo Oliveira e Oliveira. que fez do negro um objeto de estudo. 26). na Europa. tiva visibilidade para o período. O autor pros- do projeto político acadêmico do Grupo de Trabalho de jornalismo. mes. 22). posicionada. O que ela propõe não é uma simples troca de termos. a formação e o posicionamento do intelectual negro: que o evento ocorre durante a ditadura militar. Na intervenção. Os cientistas negros. não tiveram escravizado” como um ser coisificado é um ônus ex. 287). estudando-os. pesquisadoras e pesquisadores das mas que usa disso como instrumento de trabalho para culturas negras e das relações raciais. Os escritos de Beatriz Nas. do qual existem registros impressos e audiovisuais. outras identidades. jamento pessoal. São questio- composto por mesas. “Voz que vem do interior”. estes/as intelectuais não vestida “perceptiva”. possa guiar outros intelectuais e estudantes na procura um pensamento negro: a falta de meios para produção “negro” ou da “raça” na variável classe ou no rol de No mesmo ano. 26). a partir de artigo (RATTS. Con. Ela era ami. no caso. Nos ombros dele recai uma ou- dessas verdades” (OLIVEIRA. 7. xos. conferências e exposição. estudante doze de trabalho. Eduardo Oliveira e Oliveira enuncia 1974). que não se branqueou. aqueles que com ela se identificam. gras. que dificulta a compreensão do TO. cou indelevelmente a experiência negra na África. presumo que não é uma espécie à parte. 2003). Márcio e Andrada. p. Beatriz Nascimento profere marem como tal”6. parece da maior relevância – revelar o negro como cria. 1989. a de descolonizar sua mente de maneira que ativista identifica as difíceis condições da formação de A ênfase na diferença questiona a subsunção do sim trazer elementos da reflexividade. que a constituição de um lugar de fala enquanto sujeito a sua possibilidade de universidade para formar mais gar sua condição social: “Vivemos num mundo onde inclusive na 29ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o negros”5. Como se nós só tivéssemos existido dentro da demandas de formação e de atuação social. Em artigo de 1974. buscando nós mesmos. p. Hamilton Cardoso. América. Eduardo Oliveira e Oliveira pu. um teórico e precursor da mudança social. ou. À semelhança de Oliveira. apontando a dificuldade de en. 26). 2001. como indico em outro o acadêmico. Nos estados de Rio de que este objeto questionaria sua suposta “objetivida- pologia na USP. 1977. historiografia. elementos deste processo que deve levar a uma trans- territórios discursivos. jogando lato-sensu é um homem que contribui com idéias ori- manecido à margem desta história. Vemos tro dessa universidade é porque a universidade assume cessidade de afirmação do intelectual negro. Para ele e para ela os/as estudantes e intelectuais particular ao cientista negro). devem estabelecer uma in- “NÓS TEMOS DIREITO A ESSA a conferência Historiografia do Quilombo. A escravidão de africanos e “uma história do homem negro” em que fosse colocada Em que medida o “intelectual negro” deve se libertar um dos propósitos é “revelar alguns brasileiros que têm africanas por sua extensão espacial e temporal mar.. neste caso. O autor e indivíduo negro como pessoa. O evento. escolas de samba. Um “intelectual negro” até agora os meios exigidos para que se tornem arautos cessivamente pesado. entendo não “A Verdade” ab. depois de dez anos ou construção face ao quadro das ciências humanas no aborda corpo e linguagem – exemplificam uma parte ências Sociais na USP. como mão de obra nadores/as qualificados/as do racismo brasileiro. perspectiva com a qual ainda nos blica uma resenha crítica do livro de Carl Degler (Nem soluta que paira acima dos seres humanos. e mais dois nomes mencionados como eu sou Eduardo Oliveira e Oliveira que tenho um título. Têm artigos e ensaios publicados abordagens. antropólogos. datada do mesmo ano da Quinzena do Ne. Para o autor a experiência deve balizar a constru- “percebi que havia uma forte identificação entre mim sos. O interesse do sociólogo e ativista. Para ele. que cursava Ci. posição face ao que se discutia e produzia na historio. Por seus escritos. desenvolver novas técnicas e perspec- tiza o propósito maior do evento: “um aspecto que nos a essa instituição. Fez parte da semana uma exposição organizada por Marian. atriz Nascimento. com parentes e amigos/as que são lideranças religiosas: de intervenção de mercadores. Eduardo tem serem estudados como sujeito/objetos que são de suas DO NEGRO NA USP trabalhado nas “semanas de estudos” do GTAR na UFF. a etnicidade e a classe social são de primordial Progresso da Ciência (realizada em São Paulo. Sobre o negro” (IDEM: p. sem ne. Por verdade. Numa palavra: Sujeito” (IDEM). de uma sociologia. mas a vonta. grifo do autor). com nação como mão de obra escrava. p. 49 e Hamilton 24 anos. p. Angra fil. na fazer a nossa História. 26. tudo.. o propósito de preto nem branco: escravidão e relações raciais no Brasil O autor segue apontando o que seriam para ele os de de verdade. Na plateia há militantes de uma que não pretende ser doutor. Eduardo Oliveira e Oliveira sinte. dossiê temático O seu ponto de partida com o “objeto de estudo” é proposta por quem era objeto de estudo de médicos. latifundiários. não os enganando” (NASCIMEN. já me mandam entrar e sentar. nossas frustrações. sociólogos e que fora objeto negros/as não devem se distanciar das coletividades ne.44). então diretor do Museu de Arqueologia e 5. Direção de Raquel Gerber. Em termos de faixa etária. ginais. por meio no Carneiro da Cunha. jamais pensou Em outubro de 1977. racialmente hegemônico: “Hoje. porque seus cro. 18). mas por exemplo. 34 35 . tentando conhecer os fenômenos a INSTITUIÇÃO”: A QUINZENA ga de Eduardo Oliveira e Oliveira com quem já havia são tão jovens: Beatriz está com 33 anos. eco- mesmo processo” (p. Mas a interpretação do “indivíduo nosso inconsciente. de seu ambiente familiar folcloristas. também a subjetividade do pesquisador/a: “Devemos dos clichês relativos ao problema negro? O intelectual contribuído para a história pátria (. coisa que mais me chocava era o eterno estudo sobre o em que acadêmicos/as e ativistas problematizam suas avaliá-la (1977. quaisquer que sejam e onde quer que estejam: bai. E o fato de fazer [a Quinzena do Negro] den. após a conferência de Be. como reação e como cimento e o estudo de Marlene Oliveira Cunha – que com a participação de Rafael Pinto. les Black. p. não falavam em uníssono. o nome construído e a titulação são importantes. o então mestrando em Antro. Sobretudo essa aqui [a USP] que é gro. Na comunicação intitulada Etnia e compromisso seu próprio grupo. é escravo. 1974b. 1989). de 6 a 13 de julho 4. por conseguinte.4 É necessário lembrar pra fazenda e pra mineração” (NASCIMENTO.

são corpos educados. 1978. em construção e. concentrados/as na área das Humani. muitas vezes. mo. com a organização do I Con. Desde 2001 surgem: Enegreser. presentes em todo o território nacio.. fessores/as para a educação das relações étnico-raciais abrigar discentes de outras universidades. sinhos Pré-Vestibulares para Negros e Carentes (SAN- CORPOS NEGROS EDUCADOS: acontece o necessário e adequado reconhecimento das Nos anos 1980. emoção. Os NEABs. o Consórcio de NEABs e grupos correla. que muitos/as realizam seus trabalhos de conclusão de metáforas. no III Congresso Brasi. afirma bell hooks: “o mundo público da aprendiza. gênero ou orientação sexual. 27. uma outra pesquisa. gênero falta de orientação nas suas áreas de formação. Para o/a intelectual negro/a ativista a escolha do em Recife. -UFMA. encaminhando-se ras/es e estudantes têm corpo (hooks. Núbia Pereira Gomes (2001). aqueles e aquelas de nós que ensina- campo de estudos e pesquisas vem acompanhada da gresso Brasileiro de Pesquisadores Negros. Um processo de internacionalização dos/as as coletividades estão a merecer uma observação de Nas escolas e nas universidades transitam. pois. paralela. em instituições de ensino superior. Negros (CENs) que se estendem por vários estados. Neste âmbito. por extensão. nem sempre se definem e são reconheci. Este processo culmina em 2000. e o Seminário Neste sentido. queira ou não em um problema ações afirmativas para a população negra. na UFPE. dossiê temático Oliveira se referencia em uma assertiva de Roger realizam projetos de extensão e de qualificação de pro. professoras e professores ainda têm sujeito/objeto de seu trabalho. na educação Tais coletivos podem ter sido formados por uma em relação às instituições de ensino superior nas quais e acadêmicos é rara a discussão acerca da corporeida. de raça. 115). particularmente as uni. nas músicas. (UNESP) . maior acuidade. ments/folder/1036087237/item/list gem institucional é um lugar onde o corpo tem de ser professores/as. tanciamento de temas que remetem à subjetividade. escolar e acadêmico. mantendo uma posição de crítica e de participação Louro (2001): O corpo educado. mais usados como as dos NEABs. vidades e para as trajetórias pessoais e coletivas. comoventes. sem definição para além dos espaços educação formal contando com plo da Cooperativa Stive Biko de Salvador e dos Cur. implica. a-corporais e. Criado em 2004. grifos do autor).yahoo. Em 2004. como a sociedade. mas tam- é um complexo processo de orientação. O sujeito “faz parte da matéria investigada” gros (ABPN). referências da raça (mas também do gênero e da sexu- E DISCENTES NEGROS: tos conta inicialmente com a participação de 16 grupos te como grupos negros e demonstram a preocupação alidade). observa-se por todo o UMA DIGRESSÃO A TÍTULO identidades. a exem. Os Sem essencialismo. posto temos corpos – docentes e discentes. o Núcleo de Estudantes Negras e Negros na UFBA e o Não há muito ensino ou aprendizagem apaixonada seja ele branco ou negro” (BASTIDE apud OLIVEIRA. p. ao campo da subjetividade. balizamento consolidação e criação de NEABs. Bastide que merece citação: de que “o sábio que se de. as se torna mais organizada e articulada. que tem como tema “A universidade que marcam com expressão própria o cenário de algumas sobre perda de controle prevaleçam sobre seus desejos saiba). à angustiante” e que deve proceder “no decorrer de sua A presença de professores/as e estudantes negros/ Coletivo de Estudantes Negros e Negras Beatriz Nasci. nos li- na década seguinte: NEAB/UFSCar. intimamente aborrecidos mentos. Vários NEABs se cons. – incapazes de reacender paixões que um dia podíamos (NASCIMENTO. dantes estão desesperadamente desejando ser tocados curralado na sua condição primeira e primeva de raça. Pes. ter sentido (hooks. em Salvador. tura do título e do conteúdo do livro organizado por vros didáticos e paradidáticos (tanto nos textos quanto NUPE-UNESP e NEN-SC. p. no dis- -se. ardilosas acerca das pessoas negras que permeiam toda pertencimentos étnico-raciais. na Faculdade de UBUNTU – Núcleo de Estudantes Negros e Negras na na educação superior hoje em dia. e em São Paulo. o povo negro quer”. do ensino Para a autora. Os corpos racializados de acadêmico. gestores. e também das incertezas. instituições de ensino superior. distantes do significante corpóreo. 41). en. ainda que contem com o apoio de um/a pelo conhecimento. Nacional de Universitários Negros. o que me permite tecer considerações como sa e extensão. das indefinições. É o caso do NEAB-UFAL. TOS. etnicizados e generificados) doutores negros/as e com a colaboração de intelectuais Ações Afirmativas para a população negra e particu. públicas e pri- veis ou facilidades no estudo das relações raciais.com/group/consorcio_neabs/attach. bém ao gênero e à sexualidade. Pesquisadores Negros. os Coletivos de Estudantes Negros medo do desafio. Coletivos de Estudantes são identificados prontamen. larmente das cotas raciais. Rio de Janeiro. é pos- quase totalidade de pesquisadores/as negros/as ou se situam. situação na qual me ativistas e qualificados como núcleos de ensino. em 1989. Nem sempre intelectuais “locais”. Ambas docentes e discentes. Como participantes deste cená. p. física. 2006). na UFG em Goiânia. contram e se confrontam corpos femininos e masculi- Lélia Gonzalez. das culturas. protagonizados por mestres e país um processo de discussão e implementação das DE CONCLUSÃO diferenciados (racializados. uma espécie de auto-psicanálise intelectual. tornam-se referência no campo dos estudos das curso no campo das relações raciais. dos corpos tudos Afro-Brasileiros. estão graduandos/as e pós-graduandos/as que nal. posto que podem contar em quisadores/as negros/as são apaixonantes. no qual é leiro de Estudantes Negros há a tentativa de criação de mos os mesmos velhos assuntos das mesmas velhas ma- reflexividade de suas condições e de seus posiciona. à paixão: pesquisa. tem que passar despercebido” (2001. Professo- dades.122-123) na academia não implica em ter certezas inquestioná. pois parecem ser sível identificar e confrontar estereótipos ou imagens contar com a colaboração de estudiosos/as de outros mativas e por políticas do conhecimento que se vol. pesqui. o Coletivo Denegrir na UERJ. 2001. a partir sobretudo de 2001.groups. na UnB em Brasília. posto que fazem pressão pelas Ações Afir. funcionários/as e estudantes 36 37 . sobre ele mes. mento (CANBENAS). Neste sentido. CEAB-UCG (PUC-GO). Corpos acadêmico nos anos 1970 reverbera no Rio de Janeiro da interseccionalidade com as variáveis classe. defrontando-se por vezes com a em processo de educação. muitas vezes abordados na perspectiva para a pós-graduação. se tornam grupos de estudos e pesquisas. Ao mesmo tempo. nos vídeos. criada a Associação Brasileira de Pesquisadores Ne. p. 27). quisadores e Pós-Graduandos Negros. uma Associação Nacional de Estudantes Negros que neiras estamos. não tem outra opção. Mesmo onde estu- 1977. negros e brancos. São reali. PENESB-UFF. como é o caso da influência de Beatriz e outras.Campus Marília. proposição do engenheiro e educador não logra efeito. 2001).. implicado. de certo modo. tem para a população negra e também porque podem anulado. se en- Nascimento e Eduardo Oliveira e Oliveira e também de pesquisadores/as negros brasileiros/as está em curso. em algumas situações. Afirmar-se racialmente Henrique Cunha Jr. e. segundo Edimilson de Almeida Pereira e tituem como “territórios negros no espaço branco” 8. o corpo é uma das principais CORPOS DOCENTES do Maranhão. das diferenças. NEAB. sem lugar para as subjeti. heterossexuais e homossexuais também percorriam o país num processo de formação acesso à universidade se inserem neste quadro. Nos espaços escolares nas ilustrações). no III Congresso Brasileiro de maior ou menor grau com a presença de pesquisadores sem necessariamente incorrer em sentimentalismo. rio. de ensinar. dos como grupos negros. formações corpóreas. Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista UNEB. zados eventos como o I Encontro de Docentes. remetem e formação. são criados alguns Núcleos de Es. Os corpos racializados estão no currículo. (no espírito da lei 10639/03) e elaboram propostas de médio ou não se circunscrever ao público estudantil. na Bahia. O corpo é “educado” e na educação formal OS NEABs E OS CENs e hoje soma 76 núcleos8. mas uma causa” (IDEM. versidades públicas. ainda deixam que suas preocupações Não está lidando com um assunto (é preciso que ele ano de 1993. R. marcados pela presença de intelectuais negros/as Temas ligados à questão étnico-racial. Este posteriormente assumem a docência e participam da vadas. no ou outro/a docente. de dos segmentos que os compõem. O autor conclui: “O negro ‘intelectual’. realizado na UFMA em São Luís e professores/as de outros segmentos étnico-raciais. por exemplo. Joel Rufino dos Santos e outros/as que Iniciativas dos/as ativistas preocupados/as com o nos. p. são corpos O quadro desenhado por ativistas negros/as no espaço relações raciais. e isto. nas apresentações artísticas. para alguns/umas pes- observador participante. das trans- brancos/as e outros. http://br. Outros são criados Neste contexto surgem Coletivos de Estudantes A expressão que dá título a este artigo advém da relei. incluo. Alguns/umas pesquisadores/ com sua qualificação profissional e o ativismo. este afastamento do corpo como assunto bruçar sobre os problemas afro-brasileiros encontra.

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não estamos nos referindo a identidade de um isolados e. p. brasileiros. é importante con- bastante diversa. A discussão da questão de raça no Brasil envolve ele. Gleason (1980. pertencimento e sucinta. um “fato autônomo”. tanto. p.639/03 1. único. Por isso. pre. uma vez que ela só tem a similaridade e sim a diferença. que. Stuart Hall. on this research. como a língua. constituiu-se dos estudos de as we will see the long in the text. a denominação é de “cor ou raça” os sentidos atribuídos. cor/raça. os comportamentos alimentares. race classification. pólogos decretaram sua importância (diferentemente ao aprofundar-se um pouco mais na discussão sobre do conceito de classe social. we can’t deny. Pretendemos que esse preconception and discrimination in school area. compreender o termo identidade em ferenças. “sou negro” “sou heterossexual”. INTRODUÇÃO pergunta: o que é identidade?” mas sim. por isso trataremos do termo aqui. então. no presente trabalho. p. 1998. pode levar em conta somente o aspecto cultural. Por- “ela é auto-contida e auto-suficiente”. among others. race in Brazil. 2005. “identidade”. A identidade é simplesmente aquilo que afirmando sua identidade coletiva. 2005. p. belong ethnical. Em uma primeira aproximação. p. it constituted to studies by: Fúlvia Étnico-Racial na Educação. p. 2005. são vários populares. na construção da identidade não se e não apenas de “cor” ou apenas “raça”. como sujeito inserido processo. cada sociedade. Por isso mesmo. “sou homem”. O referencial teórico adotado para pertain and perception. p. o que o torna “sujeito a inúmeras variações”. cor/raça nos censos In this paper. é. e não fora dela. o que Na perspectiva citada por Silva (2000). Antônio Rosemberg.dossiê temático RELAÇÕES ÉTNICO- -RACIAIS NO BRASIL: PRETINHO (A) EU? RESUMO abstract DISCUTINDO O No presente artigo. Para gorias que englobam podem ser entendidas de forma Além disso. através de uma ressignifica- ção crítica dos conceitos presentes nas discussões sobre relações grafia e Estatística – IBGE. e é influenciado por elas” (SOUSA. pertencimento e percepção. Still. involve elements of identity. os níveis sócio-político e histórico de de “identidade” e de “percepção”. râneos que o reivindicam (NOVAES. 25). Ele afirma que “é essa si própria como referência. é importante perceber que o conceito de identidade diferença que nos unifica como seres humanos”. “Do ponto de vista antropológico ou socioló- seus multifacetados aspectos. desen- Palavras chave: relações étnico-raciais.190). Munanga . p. evidenciar a identidade signi- (SILVA. portanto. Kabengele Munanga. Rafael Guerreiro Osório. Alfredo Guimarães. Antônio Sérgio Municipal de Educação de Montes Claros/ Sérgio Alfredo Guimarães. Professora de His- Brasil. submetido” (Novaes. Dessa forma. à parte. Especialista em Desenvolvimento Social conceito e discriminação no espaço escolar. indivíduo isolado. Vivo num grande estado de alerta”. A identidade assim conce. that. necessário discutir relações iden. Bukassa Kabengele1 em Ciências Sociais. envolvendo elementos de atribuição costumam ser classificados como identidade pessoal siderar. que. Porém. porque as cate. sobre a Ques- identidade. sustenta que “apesar das inúmeras produções ele é um conceito vital pra os grupos sociais contempo. na maioria das vezes. Experiência em Educação para as Relações Étnico-Raciais (leis 10. p. as tradições IBGE. entre outros. parece real. through of a critical reinterpretation of those concepts present in the discussions about relationships ethnic- étnico-raciais no Brasil. evidenciar a diferença.149). we will begin by exposing some theoretical general ele- ments about ethnical belongness. também. fa difícil. por exemplo). 1993. como tal. Isso implica o reconhecimento radi- existentes e apesar de todos os esforços empenhados. os adjeti- se é: “sou brasileiro”. cial (atributos que assinalam a pertença a um grupo ou ampla e genérica é invocada quando um “grupo reivin- titárias. race in Brazil. pertencimento étnico. A identidade. apud PAULA. rituais. de classificação racial. os percepção.161). MG. da Secretaria Fúlvia Rosemberg. podemos observar melhor esse uma característica independente. categoria)” (Jacques.antropólogo e intelectual negro do Zaire (Congo) volve estudos desde 2005. apud GOMES. ao falarmos sobre identidade neste tra. vos étnica. Bacharela e licenciada texto se torne objeto de discussão e análise da questão de raça no this article represents a discuss and analysis’s object of question of negro. as identidades são todas construídas” (PAULA. Se acrescentarmos ao termo identidade. Kabengele Munanga. de maneira 2005.645/08). como veremos. popularmente.115). a classificação de “cor ou raça” do Instituto Brasileiro the classification of “color or race” of the Instituto Brasileiro de Geo- PERTENCIMENTO ÉTNICO Ralime Nunes Raim de Geografia e Estatística . influencia fica. vistos por nossa socie- bida parece ser uma positividade (“aquilo que sou”). Como pesquisadora. It’s intended that “Eu acordo e vou dormir todos os dias tendo consciência de que sou e em Sociologia. negra. podemos afirmar que. ao termo iden. um conjunto de significados baseados nas di- Sendo assim. caracteriza os seres e as sociedades humanas não é a mente fácil definir identidade. A identidade vista de uma forma mais Torna-se. não podemos negar. Discutiremos ainda sobre diferença.IBGE. ainda não conseguimos ter uma resposta satisfatória à Não há. dentre outros. uma tare. assim dica uma maior visibilidade social face ao apagamento pensada. de gênero. na realidade. envolve elementos de identidade. tidade. gico. color/race in the Brazilian census. 1993. parece ser fácil definir sujeito. coordenadora do Programa Diversidade revisão bibliográfica. Para Hall (2003. socialmente “sou jovem”. ap- tória e Sociologia na Educação Básica. deve ser investigado e analisado não porque os antro.40). O ator e bailarino Bukassa Kabengele é filho de Kabengele e 11. Estamos tratando do dade como diferentes.74) em um contexto de relações e. Quem ratifica a afirmativa acima é o próprio mento coletivo. quanto com o grupo de referência desse sujeito. tem relação tanto com a individualidade do a que foi. a religião. Keywords: relationships ethnic-race. ele sustenta que “os estudos dessa temática entender a construção da identidade.24) calmente perturbador de que é apenas por meio da 41 . pelos traços culturais. remetendo-o à ideia de percepção e pertenci. que atualmente trabalha na USP. uma identidade natural. Stuart Hall. tão Cor/Raça no Censo Escolar do MEC. De acordo com esse Instituto. em seus critérios De acordo com Jacques (1998. De acordo com esse autor. 2000. Rafael Guerreiro Osório. identity. mas porque as identidades são construídas por meio da diferença o tema. indivíduo “como um ser social. color/race. inata. No entanto. também. The theoritical used to review bibliography.191) e essa construção identitária é marcada mentos de atribuição de identidade. historicamente. classificação racial. we will discuss about differences. (atributos específicos do indivíduo) e/ou identidade so. balho. começaremos por expor os elementos teóri- cos mais gerais sobre pertencimento étnico.

2007. o sistema dade negra. 42 43 . bastante enig.7) cial mais íntimo. se declarem negros e outros com traços De acordo com Fry (apud ROCHA & ROSEM. também. p. enquanto o termo negro se asso- fiquem como “pretas”. assim. do processo de quem é superior e de quem é inferior. por sua vez. nenhuma identidade se constrói no iso. 2005. “Isto Fúlvia Rosemberg defende que. da população brasileira (ROSEMBERG. . acabada. Fry assi. referendado pela cor da zado por grande número de pesquisadores de ciências tidade negra se constrói gradativamente. evoque os mesmos sentidos nos dife. como perguntava. utili- assim. sua “identida. o sistema de classificação bipolar branco e mento que envolve inúmeras variáveis.3) “positivo” de qualquer termo – e.) reconhecer-se ou assumir-se negro no Brasil é uma geográfica de origem. Não podemos deixar de considerar também o em- -racial. não entram no vocabulário p. aliado à origem regional e Telles (apud ROCHA & ROSEMBERG. CHA & ROSEMBERG. ou de sujeitos a ele pertencentes sobre si mes. p. p. 2007. Sendo assim. p. p. fisiologista e antropó- aberto” (D’ADESKY. Portanto.7). em uma sociedade que nos ensina que os inquéritos populacionais do primeiro Censo demo- belecem permeados de sanções e afetividades e onde se “para ser aceito é preciso negar-se a si mesmo. com aquilo que tem relações de poder. Não nos esqueçamos do uso do termo negro de CENSOS BRASILEIROS binário seria predominante nas classes médias intelec. 2005. negra ou etiópica. conflituoso e disputado. Assim. IBGE para a classificação racial no plano demográfico um sentido político e positivo. p. empregados para diferenciar grupos humanos” (RO. o estilo em matéria de moda Movimentos Negros. (. É o olhar de um grupo étnico. para designar os escravos. causas e efeitos. negro e índio. a justificativa biológica para tal condição? Quem quer países. o modo binário de de decifração desse outro. onde se estabelecem as relações de poder e as A maneira de lidar com o sistema de classifica. a identidade. em documentos do Estado brasileiro não parece ser ou mãe negros. da relação com aquilo que não é. ROSEMBERG. pelos estudiosos do assunto. 6). raça dela – amarela. parda ou preta. tipo de cabelo. foram construídas a re. A identidade negra se afirma aqui. tador de uma cultura inferior? ( 2005. busca uma interação. brasileira. Assim. (2001. em forma de múltipla escolha. p. classificação racial”. a expressão afro-brasileiro. do censo brasileiro. com Esse é também o processo pelo qual passa a identi. a partir da relação estabelecida com o outro. 2007. civilização brasileira. “a composta pela combinação do estilo de vida (o jeito). humanas. apud GOMES. que. Segundo Hall (2003. O MEC estava pedindo pliado do modo bipolar . ficados é. por exemplo.. p. p. duzidos pelo Estado Brasileiro”. em uma sociedade como a É da Europa Ocidental do século XVIII. de seu mundo e de sua cultura. negra positiva. p. 1981. num movi. dessa forma. 2007). pois quem quer se identificar ape. como em outros processos identitários. ou caucasiana. que inclui três categorias: ciais distintos. O formulá. apesar de serem vocábulos consagrados pelo ressignificado pelo Movimento Negro. p. p. referente ao mito fundador da xão sobre a construção da identidade negra não pode decisão de coragem. pode ser acionado um “repertó- mundo. 2007. que “o processo de posições. a minha cultura. por essência. das categorias “negro” e “mulato” para “preto” e “pardo” chamado de seu exterior constitutivo. p. evidencia cinco mo- lamento e “tanto a identidade pessoal quanto a iden.adotando. 2007. inclusive o Brasil. te momento tal informação”. pois. assim. de há muito. qual a cor/ nala um outro modo: uma construção social.33). 1990. branco e mulato. luta por hegemonia e por predomínio”.. salvo algumas poucas variações. o “O terceiro modo é o que vem sendo utilizado pelos mento. pautado na ciência parda ou malaia. Ou seja. 2007. 2007. E além deles. ças humanas. e branco . usam um sis- meu eu. evocado de até 2003. valorizando as diversas categorias de sujeitos ção racial. 2005. o sistema bipolar branco e não branco. mas como um processo gerado no interior das repre. defendida. trado nas camadas populares”.8). implica não ter poder” (RIBEIRO. nas quais os grupos agem para que siderado. Termo esse. tudiosos: “seria ele binário (branco versus negro) ou complexo. a ideia de classificar as ra. seria encon. preto e amarelo. os termos preto e pardo. o sistema de classificação popular furtar-se da discussão sobre a identidade enquanto nas com um passado de escravizado.43). indígena. adotaram a terminologia de Amostra de Domicílios (PNAD) realizada pelo IBGE ser o limite na hierarquia que divide os humanos dos classificação racial de Blumenbach.6). associado ou não a um mo- e vai criando ramificações e desdobramentos a partir Por tudo isso.43). em virtude de ter o pai (ROCHA & ROSEMBERG. Dessa forma. BUTLER. no qual os contatos pessoais se esta.35). p. roupas. presentação e o significado do que é ser negro. gera controvérsia entre os es. num processo marcado pela significação (cabelos. segundo dados da Pesquisa Nacional por processo mais amplo e complexo. logo alemão (1752-1840). “a aparência geral. social do sujeito” (Rosemberg & Piza apud ROCHA & considera também três modos de classificação racial: Nessas relações de poder. Sendo das outras relações que o sujeito estabelece (GOMES. permane. aqui rentes contextos sociais e históricos em que têm sido delo binário ou múltiplo de classificação racial.151). portanto. O campo dessa produção de signi. já estava presente no Brasil desde o período co. negro proposto pelo Movimento Negro. uma vez que “é resultante da combinação de (FRY apud ROCHA & ROSEMBERG. dos outros grupos. atribuindo-lhe “(. contexto institucional. E é de Blumenbach. É uma e da boca. renciados em instrumentos de classificação racial pro- É preciso lembrar. pressupondo um contínuo de categorias?” O modelo de denominação/classificação racial usado traços fisionômicos europeus.135 desde as primeiras relações estabelecidas no grupo so. definindo cinco tipos: branca branco. ou am. Vários outros de 135 cores. Como afirma a autora: construção da identidade negra em nosso país é muito sociais envolvidos.. . elementos de aparência: cor da pele. podemos afirmar que as relações para uma menina de sete anos “declarar” sua cor/raça!” negro. Geralmente este processo se inicia na família (GOMES. rio lingüístico” específico. monolítico. possivel- físicos africanos se identifiquem brancos” (Brasil. 1993.) Quase não pude acreditar no que lia.. 2005. que o mesmo termo. rio. LACLAU. dependendo do elaboram os primeiros ensaios de uma futura visão de safio enfrentado pelos negros e pelas negras brasileiros” não significa.. que o significado seus significados particulares sempre prevaleçam aos mático. do diferente” (Gomes. na sua trajetória de construção. por sua vez. “elas são O sistema de classificação racial do Brasil é con. 2001. a iden. Isso reafirma que. vermelha ou americana. nas provas do MEC forma pejorativa. a (a)firmação da identidade. 2003). o representação do ser negro foi criada à sombra do que grau de instrução. “brancas” ou “pardas” (quando cia mais à ideia de discriminação e preconceito. pele. amarela ou mongol. Nota-se um deslizamento com precisamente aquilo que falta. podem ser empregados vocabulários dife- sentações. o popular múltiplo e o binário. “adotaríamos ambos os modos: o modo mente por razões diferentes. as questões relacionadas à percepção e ao critério cor da pele para diferenciar as chamadas raças dos de classificação racial: tidade socialmente derivada são formadas em diálogo pertencimento norteiam o processo de construção da humanas. que pede às pessoas que se classi. Nesse sentido. Assim... Nesse contexto. branca. são traduzidos também através é ser branco.5). “mesmo em sistemas classificatórios semelhantes 2005. ‘quase animais’? Quem quer ser considerado feio e por. Este é também o modo oficial ou afro-descendente está mais relacionada a contextos sociais não se constituem somente como relações puras (GOLDEZON. usado no censo demográfico. sendo possível que algumas pessoas com múltiplo. prego de diferentes vocábulos raciais em contextos so- mos. “o meu mundo. pardo.6). Ser inferior do falante pela pessoa em questão” (Sansone apud RO.6). em 1976. lonial e aqui faz morada até os dias atuais. enquanto pertenci. o modo oficial (IBGE). porém. Esse vocabulário racial. 2005..8). Ainda de acordo com Ribeiro. apud HALL. além de minha identificação e da de minha filha. não “amarelas” ou “outras”). o uso do Jacques D’Adesky. p. branco ou preto. p. uma espécie de redução do modo múltiplo. formato do nariz de” – pode ser construído (DERRIDA. a renda. ao do IBGE. de leis e decretos contemporâneos. tualizadas urbanas. a construção de uma identidade cendo com as mesmas categorias de cor adotadas para apud ROSEMBERG. além de uma última opção: “Opto por não declarar nes. o sistema do IBGE. e desinteressadas. p.42). Ele associou a cor da pele com a região as categorias branco. não está sendo pensada como fixa. dossiê temático relação com o outro. culturais e religiosos. gráfico de 1872.42). 2007. carros) e até a simpatia ou antipatia tema de classificação com apenas dois termos – negro do outro. identidade negra. COR/RAÇA NOS BERG. enquanto o múltiplo. é um de. CHA & ROSEMBERG. 2007. acordo com as situações e circunstâncias. Uma refle.

que o Censo IBGE/2010 é de se esperar que as pessoas que carregam menos O primeiro. nem produziu um sistema de tífica. p. no censo escolar anual. motivos de ordem diversa para mudar a linha designadores das categorias de classificação racial: pre.94) que a identificação por autoatribuição sideram que “no Brasil não se pode falar em ‘grupos raça. preto. Portar os O segundo momento. mantendo-se a data de 1940 para a inclusão do estabelecido para a decisão do enquadramento dos in. definindo. até mesmo a vasta li. Marcílio (1974. traços do grupo discriminado constitui inferioridade. inclusive conferindo maior Pode-se concluir que esses grupos buscam. em 1872. 2004. p. p. 2004. não adotou legislação sentimento de culpa e solidão. sobre a peculiaridade da classificação como não é fácil construir uma identidade negra po- amarela é criada para atender aos imigrantes asiáticos. apesar de não incluírem a popula. rantia de que os entrevistadores não venham a branque. na América Latina os mulatos seriam menos discri. O preconceito racial de marca não exclui ção de índios que vivia fora do contato com o branco. lorizadas. 2007. ao invés de brancos e não-brancos. p. sujeito e a identificação de grandes grupos raciais “a que de cor que lhes foi conferido atribuir a determinado CONVERSA SOBRE to. substituiu o termo pardo por quando se trata de pesquisas que realizam coleta de dos sujeitos feita por intermédio destes dois métodos da 1ª série e há vários grupos de crianças pela sala. não do ‘preconceito de origem’ (raça/ odos distintos para se pensar a coleta de dados censi. p. ou marcas. a partir destas. p.87). ao mesmo bulos raciais sempre se destacaram como os principais pertença. mestiço e os Censos seguintes. principalmente os mais abastados. pardo e branco. ad- de 1970. Justamente por isso. já que sou a única adulta na sala de aula Censo do Brasil. segunda metade do século XVIII e termina com o pri. portanto. 95). até o de 1940. de extrema relevância. pardo. aparência e não pela ascendência.proto-estatístico.43).96) afirma: “[. 2004. o sistema classificatório do IBGE brancas. a opção pela auto ou pela seus olhos para a sua pele. a heteroatribuição de ficuldade em identificar esses fenótipos e. projeção social. da posse de outras características ‘afirmativamente’ va- por métodos modernos de coleta e publicados sistema. ignoraram dados. que a ascensão social é fator de SEMBERG. apenas quantos traços. amarelo e indígena. heteroatribuição de pertença. tuação socioeconômica. voltando a questão de raça.23). indivíduos. entender e embranquecimento.. discordâncias com relação à adequação desse método heteroatribuição de pertença racial é uma escolha entre fessora negra do estado de São Paulo/2002). assim nas. por parte dos estudiosos. p. sificação. gozando de uma mente do que ocorreu nos Estados Unidos. traços negros em sua aparência tendam a se considerar onde vige o preconceito racial de marca. com as pessoas mais abastadas tipo” do grupo discriminado são portados pela vítima pelos demógrafos. há ocorrência. 2004.86). ainda ROSEMBERG. quando se pensa a classificação -lhe intrigada. do ‘preconceito de marca’. grupos raciais e a identificação racial é realizada por a classificação de cor é realizada por auto-atribuição completamente. classificação racial legal e baseado na origem ou hipo. sim. em nosso meio. que o preconceito racial influencia negativamente no dias atuais: branco. a autoatribuição a categoria “caboclo”. DIFERENÇA. 109). e que essa tendência varia de acordo com a si. pré-estatístico. realizado em rio. p. a par.4). pode-se afirmar que ela. “diferente. classificação. desvalorização. mas.Claro. teriam pertencido os ancestrais de uma pessoa” (Osó.. analisaremos apenas os métodos de auto e de 16 anos e a heteroatribuição para os alunos abaixo desta . . “igual número de também tendendo à escolha do branco. que teriam maior di- Em meio à grande variedade de termos. além das três categorias acima citadas. “um da cor dos sujeitos. é na “variação social da cor” (Osó. propõe a existência de três perí. ainda. divíduos em grupos definidos pelas categorias de uma objetividade à classificação? Não se tem nenhuma ga. pos. p. já afirmar. reproduz-se na série de censos realizados posterior. a classificação ganha status de “cor ou raça” e Desta forma. obedecendo para o Brasil. por parte dos respon. -atribuição e de heteroatribuição de pertença” (OSÓ. três vocá. Sendo que A polêmica desenvolve-se em torno da categoria a do observador externo”. Tanto assim que Osório (2004. após a abolição da escravidão. Desta forma. 2004. reforçando o retrato do Bra. mas por que quer sentar-se aqui? – pergunto- cidas ou alforriadas” (Osório. 44 45 . o fato de que potencial.] no fundo. de 1890. na coleta de dados de cor ou raça. sabendo-se que. pelos entrevistadores ou pelos res. E ainda a produção cien- de 1991.Posso me sentar ao seu lado? – pergunta-me uma lin- aplicáveis à parcela escrava da população. DISCRIMINAÇÃO NA ESCOLA 1872. vítimas nesse ambiente. que heteroatribuição ticamente preteridos em relação aos demais. tários no Brasil: fazem parte do nosso país. o Brasil. dossiê temático Considerando que todo o Brasil participou do No entanto. Osório (2004) afirma que sil como nação multiétnica. p. raciais’. (OSÓRIO. chamado de era estatística. sujeito. Fatos semelhantes a esse nos permitem ilustrar o termo pardo volta a substituir o mestiço e a categoria parda. (OSÓRIO.86). para coletar os dados de cor/raça dos alunos maiores de Sendo que as categorias preta e parda “eram as únicas quisa. tulam que racial brasileira. ao mesmo tempo em que um número cada vez encontra maior problema. estudiosos do assunto con- A CLASSIFICAÇÃO DE “COR Censo do IBGE/2010 e respondeu ao quesito cor/ rio. 2004. importa. do “fenó- pelas poucas estimativas gerais. poder polí- ticamente por um órgão especializado – o IBGE (apud São três os métodos de identificação racial de que ar os entrevistados. a origem não zação até a metade do século XVIII e caracteriza-se Sendo assim. Mesmo assim. 2007. seria uma forma mente. a dicotomia racial importante seria entre racial segregacionista. sustenta que. RIO.É que você é a única igual a mim – disse-me.inicia-se na intermédio do uso simultâneo dos métodos de auto. há. são elementos . vindas do preconceito e da discriminação de que são De 1940 até 1990 a classificação era só de cor. tem início em 1872 e Ainda de acordo com Osório (2004. alusiva ao grupo dos indígenas. bem como a sitiva no espaço escolar e nos levam a inferir algumas Essas categorias foram empregadas também no Censo de alguns países latino-americanos. Seria possível afirmar então. é determinada pela consequências negativas. através Brasil entre os países que realizam censos periódicos. p. principalmente das décadas de 80 e 90. p. 2004. rendimento escolar dessas crianças. O terceiro perí. p. como educação. onde o próprio sujeito interrogado escolhe o grupo sáveis em fornecer a informação. empregados pelo IBGE faixa etária é inequívoco considerar que pertencimento da menina negra de cabelos trançados e seus sete anos. para as crianças negras. 2005. palavras-chave deste artigo. afirma consolida as cinco categorias empregadas pelo IBGE nos pretos e não-pretos. normalmente aceitas emprega cinco categorias de “cor ou raça” na sua clas. pode se afigurar problemático. MEC utiliza. Nogueira (apud ROCHA & RO- pesquisas censitárias é extremamente importante. ou praticamente às mesmas categorias de 1872. embora pu. 2003. com o objetivo de captar a raça ou etnia dos de identificação racial. melhorar a condição dos diferentes grupos étnicos que ascendência). onde outra pessoa é que define o grupo do tempo. Buscando atingir os objetivos propostos nesta pes. subjetividades: a do próprio sujeito da classificação. (Depoimento de uma pro- A partir do Censo de 1940. em ‘grupos de cor” (Guimarães. que parcialmente.94) se tem conhecimento: a auto-atribuição de pertença. (OSÓRIO. método de identificação racial é um procedimento ponsáveis em fornecer a informação. Telles e Lim (apud OSÓRIO.4). ou seja. sim. de contornar o problema. 95). e faz com que os sujeitos ao preconceito sejam sistema- meiro recenseamento geral. O segundo atribuição é recomendado por órgãos internacionais. uma forma de compensar. tico e bens materiais. OU RAÇA” DO IBGE maior de brasileiros reconhece que o recorte racial nas teratura disponível sobre classe e/ou raça insiste em p. do qual se considera membro. cuidou muito bem de registrar. Conforme Osório (2004). através do uso de técnicas biológicas. à luz do ideal de branquitude vigente. e percepção.95). O método de auto. com o emprego da categoria indígena no Censo posição intermediária entre os pretos e os brancos. sejam estas manifestas ou latentes”. Finalizando. PRECONCEITO E No primeiro Censo oficial brasileiro. 2004. que representa uma maneira de se apurar. tir daí. como: rejeição. pulação brasileira voltou a ser coletada.105). mas. odo. Há menor garantia. utilizou-se como a análise do DNA. Considerando que o Ministério da Educação . minados do que nos Estados Unidos. pois. descendência” (ROCHA & ROSEMBERG. mas desabona suas vítimas. vai do início da coloni. em uníssono. a cor da po. dessem também enquadrar pessoas livres. estas marcas. p.

Inclui a relação entre pessoas e grupos “(. Na batalha contra o racismo. De negros. deixando de aceitar o outro lado dos fatos. como o preconceito mento dos fatos. ao final desta conversa. portadores de defici- reagem pedagogicamente a essas situações discrimina. e de promoção da cidadania” (Caderno do Censo do Gomes (2003) chama a atenção para a crise de somos produtos de uma educação eurocêntrica e que pois tende a ser mantido sem levar em conta os fatos MEC. mete. a “perversi- racista. dade de lidar profissionalmente com a diferença. aqui. as inten. Ou seja. dela resultantes. além de operar de forma individual.54). 15). o imaginário e as representações coletivas negati. Consequentemente.791). manifestando um imaginário social. Tarso Genro. o racis. 2003. Ele é parte da ças elaboram seus primeiros julgamentos raciais. nem a moral cristã que nos eleva a Sendo assim. ele não se educação: não aceitar como pronta e acabada a lógica mais aprofundado da questão. a população branca de qualquer nível social tem baseiam sua conduta num conjunto de representações São esses julgamentos raciais negativos que dão lu. em sua educação e for. das mulheres. nos bancos escolares. mas. Em muitos casos a criança incor. reflexo do nosso mito de democracia racial. de uma etnia presenta um passo importante para o conhecimento de A escola. pois “são instituições sociais per. sem dúvida. nas. temos de presentes em nosso cotidiano de trabalho e. a fim de que mente. esta é a luta da da necessária e permanente abertura ao conhecimento tais fraturas” (KLIKSBERG. dos índios. São aprendidas social. Teixeira (1992). 2003. Até porque. mantêm-se. negros. vítimas podemos. caráter negativo tendem a ganhar mais força na medida uma condição social significativamente pior que a da apontado a necessidade de discutir para além de como o significado da palavra preconceito é “opinião adotada em que a criança vai convivendo em um mundo que população branca. Portanto. de conceito ou opinião formada de educação entre negros e brancos. ao lembrarmos das palavras do estruturas da sociedade brasileira e as crianças negras Essa falta de preparo. guinte. 2001). As diferenças de oportunidade de educação para cista. para quem “o quesito cor/raça re- vocadas por esse racismo institucional. todos para a mesma natureza divina. p. são herdeiras da desigualdade e da exclusão social pro. dossiê temático Dias (2005. Esse julgamento prévio apre. responsáveis de amanhã. a pes. diversidade e com as manifestações de discriminação (ITANI. acreditamos que é de bom sível este tipo de discriminação e de buscar superá-la. processos formativos e informativos. O preconceito. estaríamos culpando a vítima saber que. sobre repetência e evasão escolar do alunado negro sendo o preconceito. Segundo Dias (2005. A ideologia racista deixa as famílias negras em problemáticas ligadas ao desafio da convivência com a de que somos contra tais práticas discriminatórias” Analisar os indicadores de desigualdade entre os extrema dificuldade para melhorar seu capital social. desestimulam ceituoso é aquele que se fecha em uma determinada países. De acordo com a autora. portanto. enfim são os atri. profissionais ou atuando em comunidades e movimen.56). registradas na citação pessoa que não se aceita como negra. 1998.19). tária que impede nos indivíduos o desenvolvimento freqüência. É no contato com o mundo adulto que as crian. 1992.128). em relações raciais no espaço escolar. não existe. p. é possível compreender que atitudes pelo IPEA reforçam as palavras.1). versarmos sobre Diferença. faz parte das tom. grupos constitui-se em uma boa maneira de tornar vi- cultural e econômico. o nariz. definir alguns conceitos: Justamente por isso. mais penalizados em termos de acesso e permanência discutir o legado branco dessa relação”. com clareza. e. não podemos esquecer que senta como característica principal a inflexibilidade. negros e brancos também são tema deste artigo.15). na prática escolar” (ITANI. escola. “uma posição dogmática e sec. “essas noções e teorias coletivas estão também gar à discriminação racial. políticos e de ser compreensível. devemos se inicia na família. Afinal. não podemos nos furtar a uma análise dos indicadores sa sociedade. 1987. O que não deixa foram concedidos à identidade branca. mesmo quando não psicológicos que vão além do preconceito desenvolvido meadas pela ideologia do racismo” (DIAS. reproduzir consciente ou que o contestem (GOMES.23). E as professoras nem sempre didáticos e das relações entre os alunos. afirmando que: inconscientemente os preconceitos que permeiam nos. em função desta. ela não modifica. o preparo suficiente para lidar com questões queremos ou mesmo quando proferimos o discurso pelo indivíduo” (TEIXEIRA. p. p. racial de um país que se gaba de não adotar práticas ra- para produzirem as resistências ao racismo. Com efeito. isso preconceituosas não são inatas. De tudo isso. ao precon. o negro e comprometem seu aprendizado. p.11). Teixeira (1992) registra que partir dos dados da pesquisa Retrato das desigualdades 46 47 . p. para livrar-se disso. acima.) as extremas desigualdades no acesso a oportuni- butos físicos os escolhidos pelos discriminadores para enraizado na cabeça do professor. preconceito e sem exame nem conhecimento prévio” (LAROUSSE. p. (DIAS. p. Dessa forma. então. Preconceito e Discriminação. “é necessário 2004. quem tem o poder de dominar. a marginalização da população de cor em alguns tudo que a remeter a ela. vas que se tem do negro e do índio na nossa sociedade”. por si. mos frases como “o próprio negro é racista. 2005. p. somado à sua dificul. 1992). os negros são sempre os discriminação. Os dados e informações produzidos pelo IBGE e do preconceito racial é o termo usado para designar a somos todos iguais.. missão no processo de formação dos futuros cidadãos ou de uma religião ou de pessoas que ocupam outro situações de injustiças e discriminações e para o esta- dução da rejeição. a discriminação racial é fruto do mito da democracia como o da família e da escola têm enorme potencial outro a valorização da identidade branca” (TEIXEIRA. 2005. foi-nos forçoso admitir que ao Con- identidade que acomete muitas crianças negras. nhum complexo de culpa. praticamos e os transmitimos. expressando. porque muitos sença no espaço escolar. papel social significativo. muito menos. o que poderia levá-los aceita como negro”. para as crianças negras. tem sido um espaço de pro. Além dos expressivos diferenciais a criança negra é afetada pela diferença. sem maior ponderação ou conheci- aparência: é o cabelo. O preconceito é um julgamento negativo e prévio dos p.5) mação. Munanga (2005. O ser humano não nasce preconceituoso. além mo e também do outro. pois. humanos e a concepção que o indivíduo tem de si mes. em geral. é que pode ser considerado ra. 2005. ências e dos idosos. “E isso jamais pode ser considerado uma atitude (2005. no que diz respeito às “ex- condição racial e. Os 2005. Munanga aprende a sê-lo. vizinhança. por conse. p. a priori. a coloca constantemente diante do trato negativo dos no que diz respeito à renda. círculo de população negra. p. surge uma sociedade tórias (GOMES. 2007. p. apesar da lógica da razão ser importante nos amizades e se prolonga até a inserção em instituições dade da chamada questão racial no Brasil” (JACCOUD pelo crime. igreja. a pele. de uma maneira geral. p. que devemos considerar como ex “Ministro da Classificação Racial” (Magnoli. Ele Social. o objetivo fundamental da nossa membros de um grupo racial de pertença. Os dados opinião. sem assumir ne. tornou-se muito comum ouvir. Geralmente a discriminação racial na escola se dá pela antecipadamente. “Se de um lado sociais. p. Vejamos o que mostram as análises realizadas a tido privilégios que não se quer discutir. discriminatórias. p. p. nega-se como deixem de pensar de forma preconceituosa. belecimento de políticas de correção das desigualdades sas interações que ali se dão são quase sempre negativas. tem coisa. que se os seres humanos dos idosos e das pessoas de baixa renda.6). considerados nestes indicadores como o so- Para melhor compreensão de como estão postas as atitude das pessoas em relação a alguém ou a alguma acordo com Gomes (2003. nós os ser originada de outros processos sociais. “nossa trajetória de socialização tremas desigualdades no acesso a oportunidades” da negra. a subordinação da mulher. 1987.. a prática da diferença e as ciais preconceituosas. p. Se assim o fosse. p. afirma que os privilégios atitudes de preconceito e discriminação marcam pre. como a miséria em que vivem as comunidades indíge- pora essa depreciação evitando sua identidade negra e do teor preconceituoso de muitos livros e materiais Bernd (1987) argumenta que o indivíduo precon. profissionais não receberam. dos homossexuais.135). Bernardo Kliksberg. E isto quem herda são as pessoas brancas”. mo. Podemos compreender. Trata-se. Ainda de acordo com Munanga: Considerando assim. compro. então.55).127).12). ceito e à discriminação. que geram exclusão social e com comprovam essa afirmativa.104). “Como professores. Convém esclarecer que introjeção apoiada na razão científica que diz que biologicamente à reavaliação de suas posições” (BERND. 1998.5). & THEODORO. tos sociais e políticos” (BERND. A autora nos alerta que “a discriminação racial pode ainda não estão cumprindo esse papel”. ideologias intolerantes que visam justificar Em função disso. com grandes fraturas. afirma que “como educadores. dades socioeconômicas mantêm e intensificam dramas depreciarem o negro. desta rejeição. de um dos grandes teóricos do Desenvolvimento soa negra aceita a ideia de inferioridade atribuída à sua não mudará as mentes de nossos alunos. as atitudes raciais de matório dos pretos e pardos. por sua vez. de comandar a situação. (MUNANGA. 2005. Como já foi dito Podemos afirmar.5) argumenta que “espaços sociais temos a desvalorização da identidade negra.

Maria Inês da Silva Barbosa. 2007. (Coleção feminino e da brancura: a narrativa de um pro- A pesquisa citada acima teve por objetivo visuali. Divisões perigosas. Vivendo preconceito em sala de aula. Mulher (UNIFEM). Joaze. Maria José Corrêa et al. Resgatando a Na educação. Esses números podem ser explicados pelos anos HALL. sigualdades para que elas não existam mais. analfabetismo bastante superiores. 2007. Bernardo. 2003.com. 2001.639 de 2003. 2005. sócio-econômico. Brasília. ceito na escola: alternativas teóricas e práticas. Prática Pedagógica Curri- entre negros e brancos. país. p. ROSEMBERG. Contemporânea. com GUIMARÃES. de 8ª série do ensino fun. Jeruse. Paulo: Summus. Superando o racismo na tivamente mais limitado para a população negra.br. SA.) Psicologia Social do Racismo (Estudos sobre estudantes. permitindo damental. o acesso ao ensino médio Afro-Brasileira e Africana. Caderno de Pesquisa. que. JACQUES.4 e 37. mercado de trabalho. Diretrizes Curriculares UNESCO. Falácias e Mitos do Desenvol- a proporção da população matriculada no nível de ensi. 39-62. Nacionais para a Educação das Relações Étnico. argumenta que “é preciso evidenciar as de. GOLDENZON.). RJ: Vozes. Rio de histórias. São Carlos: EDUFScar. História e conceitos podendo-se citar. 1993. ALFABETIZAÇÃO E DIVER. p. que a dos negros. Nesse documento. até a PNAD/2006.2. têm em média 2.). Porém. CARONE. Ressaltamos. Kabengele (org. In: PETER. 49-62. Mário. Educação cação. OSÓRIO.). com relação aos indicadores de renda e edu. acesso a bens e estudado. Isto é. p. 2005. educação: os limites das políticas universalistas. Pluralismo étnico e multiculturalismo. Nilma Lino.inep. GOMES. CADERNO do Censo do MEC/2005.639/03. o acesso à educação sionam ainda mais: os homens negros ocupados. PAULA.gov. em 2006.br. Congresso Nacional. alunos negros têm desempenho inferior ao dos alunos ___________. Alice. In: sistência na voz dos trabalhadores negros. Cor nos Censos Brasileiros.4% e 4. 9. Antônio Olímpio de. apre. Brasília: e Diversidades. Júlio Groppa (org. Brasília: MEC/SECAD. Psicologia Social 10. -Raciais e para o Ensino de História e Cultura cial. São Paulo: Cortez. Peter et al. ao passo que. In: SOU- tam não somente pelas desigualdades entre negros e AQUINO. 2005. In: disponibilizados para todo o público interessado: movi. Cláudia Regina de. In: cular e alunos negros: um estudo de caso. de 95. podemos concluir que os no Brasil.37. Stuart. 2001.187-200. entre os negros. como exemplos. a partir dos dados do Sistema de Avaliação sobre o negro. Janeiro: Civilizações Brasileira. escola. As desigualdades REFERÊNCIAS Combate ao Racismo nas Américas. Racismo e Anti. mas também por sabermos que essas desigual. São Paulo: Editora 34. respectivamente. 2005. são marcantes as diferenças raciais: os ne. os números impres. Lucia M. tinha-se. 2007. recorte etário da pessoa ocupada. fundamental. Rafael Guerreiro. ITANI. gestores. que apresenta as maiores taxas de analfabetismo no de 1961 á Lei 10. De preto a afro-descendentes: trajetos de pesquisa ROCHA. mesmo quando é feito o controle pelo nível debate sobre relações raciais no Brasil: Uma bre. v.109). 39-67. de forma clara e compreensível.6. Magistério. A da Educação Básica – SAEB. na mesma faixa etária. reinações do e Estatística (IBGE).4. 2005. Edmar José da. Os números obtidos são brancos. 133-136. fessor negro. se ampliam quanto maior o nível de ensino. 18. Brasília: 2005. Se associarmos os anos de estudo ao pela Lei Federal Nº 10. entre outros.2. estudo elaborado pelo Instituto de por se encontrar nos estratos de menor renda. Brasília: 2005. p. Dentre esses números. Eliana Marques. Acesso em novembro 2008. SOUSA. 2 ed. 2003. analisaremos de falta de acesso aos bancos escolares por parte da culturais. 105-120. 135p. CONTINUADA./ 2005. Francisca Maria do Nascimento. leção Políticas da Cor. para a população branca era BRASIL./dez. NANGA. Na região Nordes. pardo?. Lucimar Rosa. In: BARBOSA. Ana Beatriz Gomes. A. Disponível UNIFEM. In: ROMÃO. como já mencionado anteriormente. ação afirmativa e universidade. paulistanos(as). a média de anos de estudo das mulhe. ROSEMBERG. Educação para todos). Da Diáspora: identidades e mediações Secretaria de Educação Continuada. Fúlvia. (org. Silvia Caiuby. In: FRY. Racismos e anti-racismos no Bra. Uma dupla inseparável: cabelo 2005: O que é ser preto. al. 1987. pela Secretaria cedo pressionada a abandonar os estudos e ingressar sil. a pesquisa dos alunos brancos e negros. p. nas mesmas regiões. No caso dos homens brancos. vimento Social. mas significa.) et em: elianamrc@ig. NOVAES. Brasília: jun. Cor e Raça no Censo Escolar. O sistema classificatório de Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a As diferenças regionais também são significativas DIAS. São escolares e reprodução do preconceito. tórico tem origem em 1993. Raça e minha bisavó: discriminação racial no trabalho e re- gros e negras estão menos presentes nas escolas. In: SECRETARIA DE EDUCAÇÃO zar. (org. Superando o Racismo na esco- com carteira de trabalho assinada. Belo Horizonte: Editora UFMG. Sales Augusto (org. pesquisadores.3%. Iray mentos sociais.5% dos homens negros com 15 anos ou mais História da educação do negro e outras histórias. Ministério da classificação ra- Já no ensino médio. Quantos passos já foram dados? “cor ou raça” do IBGE. Especial de Políticas para as Mulheres (SPM) e pelo no mercado de trabalho. Rio de Janeiro: Co- dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Do. Negritude e literatura na América Latina. apenas os indicadores de desigualdades de educação população negra. Além disso. p. Kabengele. 2004. sociais: educação. SANT’ANA. -econômicos estudados. Maria Aparecida Silva Bento. sentaram aspecto positivo em relação a anos anteriores. www. trazendo uma interpretação te. Zilá. Representação da UNESCO no Brasil. estudo e as mulheres negras. p. Disponível em MUNANGA. Janeiro: Pallas.137-150. p. JACCOUD. Jacques. Acesso em abril 2008. a taxa de escolarização líquida. os números se referem res é maior que a dos homens e a dos brancos maior SIDADE. básicos sobre o racismo e seus derivados. ve discussão. é mais D’ADESKY. cuja publicação da 3ª edição ocor. n. Fúlvia. Daniela (orgs. MAGNOLI. mas seu his. parlamentares.) Levando a raça a sério: reu em dezembro de 2008. pas. Jogo de espelhos. Fry. essa taxa era de fabetização e Diversidade.7 em 2006. A questão de raça nas leis educacionais – da LDB GALDINO. 1998. In: BERNARDINO. Alfabetização que atendendo à delimitação desta artigo. Alguns termos e conceitos presentes no set. 2.639/03. CONTINUADA. ainda é bastante restrito em nosso país. TEIXEIRA. Petrópolis. Brasília: 2005. ALFABETIZAÇÃO E DIVER- gualdades que se manifestam entre negros e brancos e É certo que a média de anos de estudo vem au. In: SECRETARIA DE EDUCAÇÃO BENTO. Ações Afirmativas e lo: Pontifícia Universidade Católica. recorta e dá visibilidade à problemática. KLIKSBERG. que mede BERND. na região Sul. do Albenarez et alli (apud JACCOUD & THEODORO. p. História da Educação do negro e outras entre homens e mulheres nos mais diferentes espaços mentando para os dois grupos ao longo do período Políticas raciais no Brasil contemporâneo. São Paulo: Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Brasília: MEC/ (Dissertação. 24. Educação anti-racista: caminhos abertos branquitude e branqueamento no Brasil). na reprodução dessas desigualdades. Rio de mente. 58. de joelhos. Linguagens brancos. 1992. Eles deveriam pedir descul. as enormes desi. dossiê temático de Gênero e Raça. Demétrio. primeira versão da pesquisa é de 2005. ao observarmos os estudos feitos por Janeiro: Civilização Brasileira. Maria Aparecida Silva. DF: no adequado à sua idade. micílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia de idade não eram capazes de ler um bilhete simples. era de 94. al. que analisam o desempenho educacional e cor de pele. Brasília: Ministério da Educação. cultura negra e relações étnico-raciais Auto declaração de cor e/ou raça entre escolares direcionar políticas públicas para acabar com elas”. essas taxas eram respectiva. serviços. Mestrado em Psicologia Social). alguns apre. RIBEIRO. 2 ed. 48 49 . In: MU- e o aumento do número de trabalhadoras domésticas 60 anos ou mais de idade. Luciana & THEODORO. 1998. São Pau- sentam médias de anos de estudo inferiores e taxas de SANTOS. 2003. anti-racista: caminhos abertos pela Lei Federal Nº EDUCAÇÃO dades são gritantes em outros tantos indicadores sócio.5 anos de -Racismo no Brasil. Sidney. Antônio Sérgio Alfredo. 2005. Rio de EDUSP. No ensino SECAD. Brasília: Ministério da Educação Continuada. Diferenças e precon. la.132. Vozes. O comovedor é que os dados apresentados assus. branco. Rio Grande do Sul: Mercado Aberto. revisada. Divisões perigosas: SIDADE.149-153.

despertou a curiosidade de buir com a discussão sobre a identidade do brasileiro. 1957). considerar “fundamental a diferença entre raça e cultu- Muitos autores. Racismo. que pretendiam. o autor afirma que. pois passou a ser black people. boa parte dos homens Schwarcz. which should be excised from our country. which for some thinkers was seen as a de Jesus Felix como um fator negativo a ser extirpado de nosso país. Racism. esses grupos tiveram sobre o estilo de vida dos senhores presente em sua sociedade. 1967. As posições se di. como os de Nina Ro- que essas questões despertam em nossa sociedade. em seu conjunto. se fez sentir muitos desses cientistas. Outros ainda tentativas de se explicar a problemática da miscigena- autodenominavam. RACIAL fazer um estudo culturalista das relações sociorraciais Skidmore. because she happened to be interpreted as a darkening cial. Em Casa-Grande & Senzala. perplexidade como o da miscigenação” (idem. ros da UFT (NEAF/UFT). por meio da determinante blematização da desigualdade sociorracial. já de engenho. Identidade. tais como Sílvio Romero (1943). então. (UFT). A DEMOCRACIA destaque bastante relevante. devido à enorme taxa de miscigenação Gilberto Freyre foi um estudioso que procurou contri. Freyre buscou dar relevo à influência que O Brasil. principalmente da Europa. importante verificar se as opções de miscigenação feitas Nesse sentido. Outros negative factor. brasileiras tendo como modelo as condições de vida século XIX e início do século XX. o primeiro desafio de Freyre foi teriam alguns efeitos benéficos. Oliveira Vian- escravidão brasileira legou para a história do país a pro. em Colúmbia 1. em Espetáculo das Raças. Atualmente ela é vista como positive. Prejudice. na Universidade Federal do Tocantins interpretada como um escurecimento da população. à miscigenação (Nina Rodrigues. isso modelos explicativos anteriores. Outros entendiam que esse mesmo fenômeno na e outros. ex-escravos e de mestiços. Others enxergavam nela uma característica que poderia ser mais bem who saw it as a feature that could be used more. A devido. Tal influência. brasileiras. 1993. XIX parecia duzindo a noção de cultura1. Democracy Racial Identity. genéticas e os de influências sociais. uma sociedade procurou descrever uma sociedade em que a partici- que tivesse grande proliferação desse fenômeno gené. 1994. o que pode exemplificar a grande preocupação país “miscigenado” só poderia. 1993). o autor bilidade da mestiçagem. de herança cultural -se à análise das relações “raciais” e da mestiçagem no rias européias: para alguns cientistas. Uma das maiores razões para em relação à questão. Nesse sentido. “funesto” tão evidente – faria para tentar modificar essa descartando a “raça” como fator determinante e intro- os pioneiros sina terrível. o que esses senhores gostariam de saber era após ter tomado contato com Franz Boas. Atualmente é aproveitada. de Ricardo Benzaquem de Araújo. uma forma de garantir a existência dos negros. Sílvio Romero. dentro e fora do país. como mostra. XXIII/XXIV). os letrados vinculados às compreenderiam que essa mesma questão era de pouca ção. Lacerda. drigues. 1933. com uma população de grande contingente de vidiam. Obra de Gilberto Freyre. sileiros. a discriminar entre os efeitos de relações puramente Rodrigues (1957).dossiê temático REFLEXÕES SOBRE NOSSAS CONSTRUÇÕES INTELECTUAIS E POLÍTICAS ACERCA DE “RAÇA” RESUMO ABSTRACT Esse artigo procura fazer uma reflexão sobre a construção do This article attempts to discuss the construction of the concept conceito “raça” no Brasil republicano. Currently she is seen as a way of ensuring the existence of Professor Adjunto II. 51 . Além disso. de pelo menos três principais posições frente às teo. 1976 e Schwarcz. o futuro de um e de meio” (1978. Palavras chave: Raça. existentes entre os habitantes da “Casa-Grande” e os de ciências. no Curso de Ciências Sociais. segundo ele. já que o problema se resumia edição de Casa-Grande & Senzala: “dos problemas bra- na obrigação de tentar entender e explicar o destino da à educação (Manoel Bomfim. desde em outro contexto político e intelectual. racial. João Batista Outra questão é a miscigenação. de Antropologia So. Por este motivo. palavras. mas mostram. Foi só nos anos 30 que vimos Freyre procurou analisar as relações sociorraciais esta preocupação baseava-se no fato de que. entre outros. ceito. de fato. tão somente. No prefácio do os primeiros momentos da colonização. disciplinar da África e dos Afro-Brasilei. 1933. Como a sua proposta era tanto social como político e cultural (Cruz Costa. É o Diretor de Cultura do mesmo campus e Coordenador do Núcleo de Estudos Inter. Em outras livro Casa-Grande & Senzala. pação tanto do “negro” como do “mestiço” tivesse um tico estaria irremediavelmente destinada ao fracasso. Ele teve contatos com Brasil. 1949). no final do o tema se transformando. Democracia Racial. of the population. Precon. «race» in Republican Brazil. Tal situação social não era tão prejudicial assim e que o branquea. ser funesto. Uma boa obra sobre este autor é Casa-Grande & Senzala e a o que um país já tão miscigenado – com um destino (EUA). Keywords: Race. dedicaram. 1993). era algo positivo. que alguns pensadores viam Another issue is the mixing. defendia a invia. definir o “real” caráter do brasileiro e as várias fez com que muitos “homens de ciências” – como se mento se imporia (Sílvio Romero. ou seja. João B. (não havia) nenhum que me inquietasse tanto nação. em finais do séc. XXIII). afirma no prefácio da primeira instituições de pesquisa e ensino no país – se sentissem ou nenhuma importância. procurou explicar a questão da miscigenação. Nina Internamente podemos perceber a consolidação ra. or was something Doutor e Mestre pela USP. da “Senzala”. Oliveira Vianna e outros.

ele procurou divulgar para o mundo todo que livre de preconceito de raça. carta logo no primeiro capítulo os indígenas. Luto. “O pot-pourri étnico do Brasil. etc. do desenvolvimento de seus estudos sociológicos. são essas as palavras: ‘Não aprovo o casamento sileira). Em novos termos.. invertendo os termos da equação e & Senzala. Freyre destacou a contribuição cultural do africa. de 1947. com grande simpatia. com personagens que eram ‘negros velhos’ çagem (brasileira). em maio de 1994. a ressalva que de mundo da sociedade brasileira – não está somente Devido a esse passado mestiço anterior. 5. dossiê temático principalmente através da culinária. as relações entre escravos e senhores vão brasileira (para tanto aplicou 1. na série prismática. Adolfo Faustino -Gilberto Freyre simplesmente como um “dano irre. em motivos estéticos e fisiológicos. que é uma coletânea Paraíba. e da sexualidade. do branco. para ser positivando o modelo” (Schwarcz. por já terem tido um longo contato com os mouros no “brancos” e “negros” conviviam fraternalmente. Quanto ao casamento próximo com pes- 210). a ponto de o autor todo país. (Barthes. mas foi sendo incorporado à teoria de Freyre ao longo ção”. a civilização e o capital.. o negro.” (pág. Ao mesmo tempo. em 1881.. A miscigenação brasileira Ou seja. cujos vícios sociais – que Gilberto Freire ginário social do brasileiro. que para ele já era detentor de uma “cultura supe. de nossas relações “raciais” amistosas. Mesmo aqueles que não nibida mensagem de otimismo: os brasileiros podiam A ler e a escrever e também a contar pelo sistema de Gerais. que do mulato’. de nossa representação de “democracia racial” foi que em resposta ao quesito 16 do inquérito. em 1887. não tiveram problema algum para fator que muito contribuiu para o sucesso internacional signado. o que levou por meio desta cultura inferior dos europeus. com o poder político. obra em que que também não é estranha a influência da ‘história de a obra de Freyre a revelar uma “singularidade da mesti. É cesso alcançado. 1972. Outro parecer uma chocante contradição com o que atrás con- O enorme sucesso alcançado por Casa-Grande & continente europeu. depois de recordar ter recebido. na genação causado dano irreparável” (à sociedade bra. de onde saíram de diversas palestras proferidas por ele nos EUA. livro Ordem e Progresso. contribuição dada pelos nativos de Interpretação do Brasil. uma vantagem imensa” (1976: os primeiros brasileiros. ou um “fato e pronto”. alguém procurou ‘positivar’ a mestiçagem terpretava o Brasil como uma sociedade “mestiça”. Nada mais2. ‘não (o) recebera bem’” (págs. 1947. fumo se associaram na formação de um ralista norte-americana “sem abandonar totalmente os existente no regime escravista brasileiro era explicada ções que os negros e mestiços sofriam no Brasil. a minha meninice e a pressupostos raciais dos mestres brasileiros”. depois de que a contribuição de Gilberto Freyre foi a de que. vem em primeiro lugar. De sorte que.” (1990. Além desta rior não só à dos indígenas como à da grande maioria Apesar de ser um grande defensor da “democracia branca. discriminação contra os “negros” e os “mestiços”. no Brasil seriam “o resultado da consciência de classe branco. libertos’. Portugal tentou justificar as suas colônias bre coloração pigmentaria. A importância de Casa-Grande & Senzala.. beiro. De posse graduação. A maneira de relatar e as fontes uma sociedade em que as relações “sócio-raciais” se- o país até a segunda metade do séc. de luso-tropicalismo3. mais do que de qualquer preconceito e raça ou de cor” do-se-lhe o índio. Aqui gem da sua própria personalidade. depois de se dizer parável”. Já Skidmore ficando cada vez mais adocicadas. original e etnica. maior. No desenvolvimento do enredo de Casa-Grande se propôs fazer um estudo extenso sobre a sociedade Trancoso’. tabuada cantada” (idem. Freyre conse. ofereceu uma explicação acadêmica história intelectual do país. com relação a seus escravos. seguin- entre si. mas separadas mais tarde. pois ajudava a explicar a ori. era. a abolição dos escravos’. em perversos e de hórrido aspecto. em de negro com branco pela disparidade de tendências. relações “raciais” brasileiras passam a ser vistas como do ficado com os Modestos ‘o resto da vida. devo afirmar que não rece- (1976) afirma que a postura teórica assumida por Freyre: afirmar que: ficações sociais). “mistura” teórica ele procurou se basear na teoria cultu. Esta postura assumida pelos dessa teoria. “negro”. nossa ex-Metrópole. nessa obra. ela pode ser entendida como um erudito do caráter nacional brasileiro com uma desi. ao responder ao quesito 16ª. Para ele. como a a sociedade multirracial brasileira” (1995). se rein. Na obra “Do padre Florentino Barbosa. pela tuais e políticos brasileiros. Apesar da opinião de Skidmore. acerca de minha atitude para com os negros. Freyre. virou de cabeça para baixo a afirmação de ter a misci. o que notamos A sociedade mostrada por Gilberto Freyre. em um pro- à atmosfera de monocultura escravista que dominava grama sobre o livro Casa-Grande & Senzala. a teriores. Uma outra fonte e escravo debaixo da qual se fizera” (pág. o mulato e.500 questionários. não contente com o su. considerando o mulato ‘inimigo natural brasileira. brancos que aprenderam a ler com professores negros. altamente positivas4.’. por fim. rigorosamente verdadeiro. 4. como “uma fala” social . O “luso-tropicalismo” não está presente em Casa-Grande & 6. Fry. é Feijoada e Soul Food. Devo estabelecer uma relacionado às opiniões assumidas por seu autor. Freyre tinha conhecimento das discrimina. com sua obra Casa. 54). passa a ser o nosso maior divulgador. “Os pretos e pardos no Brasil não foram apenas com. As conse. 1978. Freyre. ao conseguir dar destaque a várias teorias apresentadas portugueses foi denominada por Gilberto Freyre. os colonizadores anglo-saxões na América do Norte. panheiros dos meninos brancos nas aulas das casas. quiçá a única. Ele não é uma síntese. havia também posturas que defendiam ser ela gros com parte da cultura. houve também meninos mocracia racial”. mas da relação malsã de senhor 3. Senzala. alguns ten- Alguns estudiosos costumam defender a ideia de sobre uma questão que tanto incomodava os intelec. é que a miscigenação não era entendida no Brasil pré. favoráveis à mestiçagem. vão alguns exemplos: É possível fazer a seguinte reflexão sobre a “de- era a primeira vez que os leitores recebiam um exame -grandes e até nos colégios. A violência brasileira”. 211). Segundo Skidmore: “Casa-Grande & Senzala interessante notar também que. como dizia é explicada histórica e culturalmente: os portugueses. Porto. e os ne. 355/6). beria bem o casamento de filho ou filha. Após sua publicação as pois os escravos eram ‘um anexo da família’. Freyre des. preta nunca me agradou. tos em que as pessoas demonstram possuir profunda com pessoa de cor preta. mas surgiram dessas relações foram incorporados à convi. exibido pela primeira Brasil uma nação multirracial. está em sua proposta não subestimou – deviam atribuir-se principalmente teórica culturalista que se propunha a desvendar o que fazia do “mestiço” – talvez até mesmo “indígena” – não concebe 2. devido ao seu ineditismo. “Já Heitor Modesto (d’Almeida) nascido em Minas “mito”6 nacional brasileiro. Em sua visão. Nascido em Olinda. 1995. várias ocasiões o autor afirma e reafirma que o colo. que “Quanto ao brasileiro de Pernambuco. Casa-Grande & Senzala inicia uma nova fase na menino. XIX. nesta nizador luso não teve a mesma postura de separação soa de cor. em que pergunta especifica ou concreta sobre o assunto: “Pode Sílvio Romero. confessa sempre ter gostado ‘mais de negro primeira vez. talvez. é uma sociedade em que os portugueses entram e de distanciamento. nascido em 1981. 357). O anteriormente. agradou aos brasileiros. 188). “. (Freyre. dizia Gilberto nosso contingente foi o útero materno. seja ele “branco”. No complexo que remonta. os filhos que Portugal. Para maiores informações sobre este tema consultar Omar Ri. Do Saber Colonial ao Luso Tropicalismo. ao justificar meu ponto de vista pessoal so- sim na grande capacidade que Gilberto Freyre teve em vência da Casa-Grande. Gilberto Freyre afirma “que somente a índia utilizadas causaram bastante impacto. o “luso-tropicalismo” proposto por Freyre5. Em depoimento dado à TV Cultura de São Paulo. 1982. A cor guiu oferecer “uma espécie de nova racionalidade para no. nessa gradação. costumes. reage de modo diferente à um mal necessário. das vestimentas Como podemos notar Freyre. dade sem a sua presença. Aqui mito está sendo entendido como “um modo de significa- mistura de raça em si. 52 53 . -Grande & Senzala. qüências danosas da miscigenação provinham não da fêmea contribuiu para a colonização do Brasil”. irmão ou irmã. podemos destacar alguns depoimen. ao reuni-las. as diferenças sociais existentes mesmo tempo. 299). 1996. obra. abraçou imediatamente faço. 352). dos colonos brancos” (Freyre. Senzala – pois esta obra em muito influenciou a visão se relacionar com as mulheres africanas aqui no Brasil. Isto demonstra que o ima- mente mestiça. 131). ‘em reconhecem a sua existência não propõem uma socie- orgulhar-se da sua civilização tropical. Segundo Schwarcz. ao contrário. no Brasil existia uma real “democracia racial”. o qual me parece fundo. É a própria ausência de cor. internacionalmente falando. vez. trevas. através de suas obras pos. atingindo pessoas das mais diversas estrati. escrito em 1957. anos na África. 415).

As aspas nos termos “negros” e “mulatos”. Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional Brasil era um paralelismo entre estratificação racial e racial” no Brasil é pensada no campo religioso (sin. a não seja dividida em “raças” e grupos étnicos. a (1960). dossiê temático jam conflituosas. fossem integrados à nova sociedade. inicialmente. em que a “democracia racial” revelou-se consegue propor uma sociedade em que as diferenças neste continente. que Bastide trabalhou com Florestan Fernandes. não que qualquer outro na nação. ternacionais entre intelectuais das Ciências Sociais. dicas e morais . podemos esquecer que o mundo ainda tinha muito viva cipalmente. para o povo americano. após entender que esta CO. resultou em um enorme dominante naquele país. ocor. 236). Neste sentido. O que se entendeu como uma “democracia racial” era 54 55 . em sua obra A Integração do Após a divulgação dos resultados das pesquisas tempo. para conseguir galgar uma posição melhor. As Metamorfoses abandonando qualquer possibilidade de combater a acreditam que. ou uma enorme “falácia”. A fé que nele depo. tanto por Gilberto Freyre como por colocar contra a situação que lhes foi reservada. as fantasias da sociedade brasileira em relação a seus os interesses dos “brancos” das classes médias e das sitam. sabem que constituem um grupo oprimido que. Wagley (Columbia University) e Roger Bastide (Éco. as atrocidades ocorridas e Florestan Fernandes. não conseguem. 41). inconciliá. 51). ou mesmo pelo governo brasileiro. ele é o “cimento na estru. enquanto com o fator “racial”. Negro na Sociedade de Classes (1965). 1968. jus. ao assumir esta posição. e o “mulato” viviam em nossa sociedade. “branco” ou “índio”. não como resultado de qualquer (1995). inclusão do “negro” e do “mulato” na nova sociedade. Este paralelismo fazia existência. o que não Ramos. entretanto. em Florestan Fernandes. pela equipe coordenada por Roger Bastide racial para não perderem seus privilégios na sociedade o significado da primeira luta da nação pela indepen. Segundo direitos inalienáveis à liberdade. mas a ideia da “demo. texto são para tentar reproduzir a mesma postura que Fernandes atraso no processo de inserção na “sociedade inclusiva”. que era a de combater o biológicos de delimitação racial. Este brasileiro entre “raças” era bastante salutar. Arthur nunca ter sido assumida claramente no Brasil. Não Depois da divulgação dos resultados obtidos. Uma terceira pesquisa patrocinada pela UNESCO Este racismo encoberto. cial” brasileira feita. principalmente. Do mesmo modo que os brancos. diam que. com plicação de que esta posição não tinha qualquer ligação a “democracia racial” parece ser um valor bastante caro diferenças. todo a ser considerado extremamente prejudicial para os cia social demonstrou-se possível embora a sociedade ataque preconceituoso era acompanhado por uma ex. Por ela gro na Sociedade de Classes Florestan Fernandes tenha cracia racial” permite-lhe exigir igualdade de tratamen. o que de fato existia no Se atentarmos para o fato de que a “democracia Após várias discussões ocorridas em colóquios in. neralização dos seus resultados” (Idem. não é simplesmente um meio para conceitos de relações “raciais”. delimitar fronteiras 1997. na opinião de Lilia Schwarcz isto é. mais em pleno desenvolvimento as lutas anti-colonialistas lentos. segundo vítimas não tiveram condições de tomar consciência de Freyre. que se pauta em modelos contatos raciais num só país limitaria uma possível ge. em reflexo da situação educacional e social que o “negro” A “democracia racial” tem para o brasileiro a mes. outros intelectuais. A discriminação se deu de maneira tão racismo no mundo. na Bahia. mas era sim um para os brasileiros. que “credo” defende a “dignidade essencial do indivíduo. 1976. estes foram sendo integrados gra. o brasilei. na memória. não alidade sobre as relações raciais harmoniosas existentes passagem do trabalho escravo para o trabalho livre no e Fernandes. 1997). mesmo porque fendia a elaboração de um estudo comparativo (Maio. ma função que o “credo americano” tem para o norte. Isso porque as descobertas feitas pela equipe deveriam ter a mesma postura que os “brancos”. 1988. forma de convivência pacífica sustentada pelo governo foi feita por René Ribeiro (Instituto Joaquim Nabuco) e “negro” e o “mulato” não conseguissem entender que tura variegada (daquela) nação” (Rose. a tão falada “democracia racial” dividida em classes. seja ele “negro”. sutil que o “negro” e o “mulato” não tiveram como se Não podemos afirmar que em A Integração do Ne- prejudicado em nossa sociedade. São Paulo. Itália. Essa situação é bastante diversa da experimenta. Nesse sentido. conclusões. mas também pretendem ver respeitadas a suas alunos trabalharam em estreito contato. Segundo o autor. dativamente. prin.. podemos afirmar que Estado. discriminação racial contra os “negros” e “mestiços”. dentre outros. 53). veis entre si. os “brancos” defendiam a discriminação oportunidades representam. destes estudiosos levaram alguns cientistas a criticar percebendo que. mas esta disparidade era vista “preconceito retroativo”. ela pode exprimir “ao mesmo tempo e de uma Ramos.. apesar de sua duvidosa rida em julho de 1950. poderíamos afirmar que ela pode ser enten. alguns países da América Latina. os negros americanos querem um tratamento igual do le Pratique dês Hautes Études – Paris). cientista social brasileiro que havia falecido há como sendo “natural”. era resultado de uma discriminação em que a “raça” da igualdade básica de todos os homens e de certos divulgá-lo em outras sociedades racistas no mundo: era “fundida” com a situação de classe social. 41). demonstraram que o que se tinha social.e estas políticas e familiares ao mesmo A proposta inicial era que se fizesse pesquisa. “mestiço”. 42). “os negro americanos na 2ª Grande Guerra Mundial. 1965: 299). “negros” com que os brancos cultivassem explicitamente um dida na mesma chave do “fato social total” maussiano. Salvador e da França ponderaram que a pesquisa sobre forma de produção. nesta altura do com o fim do trabalho escravo. Fernandes. impera nos Estados Unidos” (ibidem. oito meses (Maio. Os “negros” e os “mestiços” enten- dência” (idem. a UNES- “raciais” sejam respeitadas e garantidas. assumiu a no Rio de Janeiro por Luís Costa Pinto (Universidade sua condição de inferioridade social foi construída. O negro brasileiro também entende que é bastante Devido à grande divulgação da “democracia ra. Oracy Nogueira. defende que a desenvolvidas pelas equipes coordenadas por Bastides ro. também com a ajuda de fundos da UNES. Brasil. Com esta atitude. mas. Alguns representantes de países tais como “El fase de total desajuste do “negro”7 e do “mulato” à nova Esta posição foi adotada não porque discordasse das de cor. Após esta primeira CO abandonou o projeto de divulgar todos os dados. fez com que o -americano. Brasil se deu de modo que o “negro” e o “mulato” não como um “engodo”. na cidade de Florença. tais como: Donald Pierson. Para Myrdal. Wagley e seus assume em sua obra. disfarçado. Relações Raciais no discriminação e ao racismo brasileiro. entre eles mesmos. “Entre os scholars estrangeiros que realizaram exten. sofrem as consequências na África e na Ásia. Para ele. nem com a cor. de fato. eles estavam ao mesmo tempo pleitear seus direitos. resultando em uma perspectiva em que a con- cretismo). o Credo A PESQUISA DA UNESCO do Escravo (1988). Cardoso. Os estudos realizados elites. segundo Myrdal. o que para Freyre era positivo passou notamos na sociedade norte-americana: lá a democra. as suas encontrado uma sociedade muito diferente da vista por to e uma real integração com os “brancos”. tamente quando a UNESCO. posição de estudar este fenômeno para poder melhor do Brasil)” (Skidmore. Porém.” (Mauss. jurí. somente em funções tavam à sua intenção inicial. A representação de “democracia racial” brasilei. como uma parte de si próprio. para se conhecer a re. no social (miscigenação) e no econômico UNESCO aprovou em sua 5ª Conferência Geral. por cientistas como: Octavio Ianni. os mais elementares a ser entendida como natural. A relação entre os “brancos”. O mentor intelectual de tal proposta foi Arthur e ”mestiços” era desigual. 52). mas sim porque os resultados não se pres- da pela sociedade americana. Município de Itapetininga (1955). neste período. legitimavam de o Credo não ser ali observado. pelo menos no campo político-ideológico sas investigações de campo no Brasil estavam Charles 7. marginalizadas. realização de uma pesquisa sobre relações raciais no direitos sociais. Skidmore: sua existência para combatê-la. “negros” e “mulatos” por Fernandes. ra só sofrerá um forte ataque na década de 1950. um “preconceito de ter preconceito” (Fernan- só vez todas as espécies de instituições: religiosas. Apesar das divisões sociais. Fernando Henrique Para Florestan Fernandes. inicialmente a UNESCO de. a “mulatos” não possuíam. assim como estavam brasileira passou a sofrer ataques cada vez mais viru. Ou seja. no Brasil era uma sociedade em que os “negros” e os dição desvantajosa do “negro” e do “mulato” passava (igualdade de oportunidades). Thales de Azevedo (Universidade da Bahia). à justiça e às mesmas África do Sul e Estados Unidos. des.

Ou bem há democracia para todos. racial. Este é o nome da entidade até nossos dias.º) fossem aceitos com simpatia e incor- combate o preconceito/discriminação brasileiro. Como já foi dito anteriormente. podemos afirmar que a desistência da populações. O maior representante dessa postura esta plataforma percebe-se que a opção de identidade Apesar de não ter logrado unir todas as entida- democracia para ninguém. As opiniões sobre “o que é ser negro no Bra- apesar de a sociedade brasileira ser tão autoritária e jornal Versus. ainda durante nos Estados Unidos9.) seria preciso atingir esse padrão (socieda. num Na opinião de certas lideranças dessas organizações. na cidade do Rio de Janeiro. Convergência Socialista -. publicadas em vários de seus documentos e panfletos. MNU: através de seus discursos. “dissimulada” e “disfarça. o MNU conseguiu. UNESCO): 1. a tal ponto nas Gerais. tinha a pretensão de representar oposição à discriminação racial. Com cia social. por terem uma postura po- PEQUENO HISTÓRICO comunidade judaica. Racial (MUCDR) foi fundado em 1978. o porados pelo branco inconformista. através das propostas condenado à dignidade de lutador da liberdade corres. fendida pelo MNU. não que dá sentido e justifica as relações sociais desta nação. A análise dessas obras. a “democracia racial” é de fato um mito. ocorrido nas escadarias do Teatro dos primeiros quadros políticos do MNU. dossiê temático um “preconceito retroativo” o que não permitia a essas O Movimento Unificado Contra a Discriminação que havia retornado recentemente de um auto-exílio Assim. lidade ou de costumes” (1976. principais mentores do ‘protesto negro’ nas décadas de mocracia racial” (ibdem.. a condição de mais uma or- MUCDR contou com o apoio de grupos dos seguin. 18). Essas situações fizeram com que o MNU UNIFICADO . de São Paulo. um valor sociológico à luta contra a Ditadura Militar. o clamor da ‘gente negra’. tar a luta dos negros brasileiros contra a discriminação as pessoas sobre as posturas racialistas assumidas pelo tras entidades do Movimento Negro estão na forma pologicamente falando. fundada em 16 de setembro de 1931 (Pinto. do contra o racismo no Brasil. ele passou a informar As diferenças mais destacadas entre o MNU e ou- tiços”. assim do Movimento Negro Brasileiro”. Pele Negra. que viram via-se. Alguns. o MNU teve uma forte influência dizendo. O MUCDR foi um projeto pensado inicialmente “marca” e da “origem” (Nogueira. identificar um negro. Para não diminuir drasticamente a sua base. o MNU não conseguiu ser a “Central Geral cracia racial” brasileira pode dar sentido. um primeiro momento. não Municipal de São Paulo. mas só é praticável conjuntamente com a democra. como forma de protesto contra prevaleceu até o Primeiro Congresso do MNUCDR. ocorrido em 1980. Isto só havia ocorrido anteriormente com a Frente Negra Brasi. por serem municipais. tais como: nal. por sua vez. Em um Ato Público Movimento Negro americano. o clarim que convocava todos os homens a união de todas as entidades negras brasileiras. deveria lutar contra todo e qualquer tipo de opressão. da ção do Negro na Sociedade de Classes. de Frantz lítica conservadora. base” e por esse motivo optaram por não participar da sinais característicos dessa raça” (MNU. Só assim podemos de brasileira foi a tentativa de mudar a maneira de se tentar entender a existência de grupos de negros lutan. ocorrido em 7 de julho de 1978. UNESCO em veicular os resultados das pesquisas so- devido à forma “mascarada”. Foi discutido que o Movimento Negro contribuiu para que esses resultados (da pesquisas da da verdadeira trilha da “democracia racial” (idem. por fim. o MNU procurou na sociedade norte-americana esta 56 57 . outro autor que gros não concordaram com o lançamento do MUCDR. Além de Abdias. organização que editava o Abdias Nascimento não contribuiu somente para fundação. que nos protege do Bom Retiro. 9. foram adotadas por quase opressiva.8 Logo no momento de sua criação o de esquerda de boa parte de seus fundadores.. 30 e de 40. mas acabou se organi- que lutar por uma sociedade mais justa e sem discri. defendeu uma luta contra a dis. 1995. zona central da cidade de São Paulo. de organização destas que. que a democracia racial é possí. porque a opressão do negro política foi Centro de Cultura e Arte Negra (CECAN). de Minas Gerais. 71). da de com uma forte democracia social). Mi. diz: “Tudo isso o lançamento do MUCDR estava ocorrendo sem que MNU passou a afirmar que negro era toda e qualquer democrática e identificado com a mudança de menta- demonstra. na construção de uma posição político-ideológica do todo o conjunto do Movimento Negro. etc. Bahia e Pernambuco. sem preconceito e racismo. Rio de Janeiro. que resultou na morte do Espírito Santo. mesmo aquelas que não aceitaram participar de sua O que podemos perceber nos dois textos é que. O que consolidou a postura racialista assumida influenciar profundamente outras organizações negras. em sua opinião. A Integra. também não era “segurança” do sistema político vigente. leira (FNB). Sobre este fenômeno Florestan afirmou: autor: “(. bre a existência da “democracia racial” no Brasil. esta meta jamais foi atingida. posto é possível se entender a seguinte afirmação. mas também nos afasta Outro motivo foi a tortura. 1985) em sua cons. Já Ribeiro. algu. somadas à militância pela esquerda.º) recebessem acolhida muito favorável Em outra parte do texto Fernandes escreve: “ou. Dessa maneira. militante do Movimento Negro. também discordavam de sua opção DO MOVIMENTO NEGRO Outra novidade foi o movimento assumir um Fanon. 227). não é uma ação Abdias Nascimento. Ca. minação. a ditadura militar. exploração e discriminação. como das pesquisas desenvolvidas pelas equipes dos zando como mais um dos diversos grupos já existentes. influiu também sil” assumidas pelo MNU. pouco a pouco. 6). Na época de sua criação nenhum criminação racial a ser assumida somente pelos negros.. de personalidade texto escrito trinta anos após Fernandes. 1988. O MUCDR foi resultado da somatória a alteração da denominação do grupo. e não somente garantir a por parte dos radicais e ativistas negros. o mito da “demo. antro. ou não há nova entidade. dentro de sua própria sociedade” (id. muito pelo contrário. trito Policial de Guaianazes. reu. negra defendida por esse grupo procura se utilizar da des negras. militavam na Liga Operária – depois transformada em por este grupo político. professores Roger Bastide e Florestan Fernandes. foi proposto neles um prolongamento e um aprofundamento das primeira vez. de grupos homossexuais. valcante e Ramos (1976). Máscaras Brancas. localizado no bairro nindo delegados do Rio de Janeiro. Foram convidados a discursar Alma no Exílio. impediu que o MNU procurasse exatamente nos pro- Se Florestan Fernandes não via “democracia racial” pública sem o consentimento dos responsáveis pela ria ser Movimento Negro Unificado Contra a Discri.MNU caráter nacional. os “negros” e os “mulatos”. antes fosse feito um trabalho de “conscientização de pessoa “que possui na cor. sempre discriminar e oprimir os seus “negros” e “mes. pela Quando fundado. comunistas e lideranças estudantis. Para maiores informações consultar Memórias do Exílio. dutos desses trabalhos grande parte das premissas para nas relações “sócio-raciais” brasileiras. contra as ameaças do racismo. levaram o assumisse. Assim. soando. de Florestan Fer. Somente partindo desse pressu. 297). segmento social podia fazer qualquer manifestação Nesse sentido. nandes (1965). Ele surge. ou seja. Em sua “Primeira das plataformas dos negros norte-americanos. de Eldridge Cleaver (1971). IBID. 90). ponde o opróbrio do branco posto no papel de opressor por negros que se autodenominavam trotskistas e que trução. porque alguns grupos ne. outros. Senão vejamos. no rosto. o nome do grupo deve. mas que o nome do grupo deveria ser Movimento Negro tentativas de desmascaramento racial encetadas pelos a cumprirem os ideais da fraternidade humana e da de. apoiavam a opção religiosa afro-brasileira também de- representantes sindicais. do Rio Grande do Sul e do “A ausência de racismo institucional. Bahia. defenderem-se. por serem cristãos. 8. em minação Racial (MNUCDR). o que foi nessa ocasião aprovado. Melhor Como já falamos anteriormente. ocorreu o lançamento mas leituras foram de grande serventia para a formação concordavam em se submeter a uma liderança nacio- público do MUCDR. e também de vários grupos sociais que existiam naquele período. Unificado (MNU). 2. ou nos cabelos. claramente. vel. 1993. A grande novidade trazida por ele foi a tentativa de jun. não da” como se manifestava. deste a discriminação racial sofrida por quatro atletas ne. Uma das contribuições do MNU para a socieda- quixotesca. ocorrida no 44° Dis. social e politicamente falando. Essa nova denominação a construção de seus argumentos contra as discrimi- contra a sua existência. MNU a unir a luta de classes à luta anti-discriminação ganização negra entre todas as já existentes. operário Robson Silveira da Luz. tes estados da União: São Paulo. gros no Clube de Regatas Tietê. Assembléia de Organização e Estruturação Mínima”. que seria o MNU. nações e preconceitos raciais existentes em nosso país.

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Livraria José Olym. os negros e as eleições paulistas de 1982. anos de luta contra o racismo.E disse o velho militante José Correia Negro: da marca da inferioridade racial à constru. Dissertação nalidade no pensamento brasileiro. Ibrasa. 1988. 1979. Nem preto nem branco. Feijoada e Soul Food. VALENTE. culturas e resistência. como vimos. dossiê temático nova forma de significação. Mendonça (1996). Paulo: luta e identidade. 1988. Editora e Livraria Livramento Ltda. Para o grupo seria negro social em Florianópolis: aspectos das relações entre / Curitiba. In: Negras imagens: O MNU. Ceci- BRASILEIRA: depoimentos. Os Condenados da terra. Anhembi. As raças humanas e a responsa- do preconceito de cor na sociedade paulistana. (1968). pologia da FFLCH da USP. 1978. negros e brancos numa comunidade do Brasil. São Paulo. Confraria _______. Outra contribuição do MNU foi ter aproximado a CLEAVER. lume I). F. 1983. pio editora. Arnold. 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Jovelino estudos raciais e ciências sociais no Brasil. O movimento negro em São do. utilizando uma expressão de Myrdal Paulo.

propostas pedagógicas .

ou seja. e promover a igualdade racial do negro. consciência de que fizemos a nossa parte e não temos mento desses problemas depende o funcionamento e coletivas. para os negro no Brasil ensinar. A África é os sentidos. trução e reconstrução? A Lei 10. autonomia interna para discutir a questão e tem dado tipo de educação o Brasil precisa desenvolver para sair to recuo histórico no tempo e espaço. é-nos colocado a questão da ser monocultural. que contribuíram diferentemente na construção objeto de uma série de violências físicas e simbólicas. agenda de todos os países do mundo. suficientes. religiões. Entre a abo. pologia pela Universidade de São Paulo Como então descontruir essa imagem negativa da afirmativa capazes de compensar as perdas acumuladas e professor titular do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia. materiais didáticos e bibliográ. Ora. no Brasil. não respeita nossas diversidades de ele foi objeto de desumanização. A colas e de alguns educadores como no meio da impren- implementação das políticas de ação afirmativa no setor sa e de alguma elite intelectual. estamos ainda mal por causa do não reconhe- cial de cunho colonial que ainda considera a África como um continente atrasado e inferior. os negros de hoje são vistos apenas estaria andando com cabeça erguida e orgulhoso de ter As considerações sobre estas duas vertentes podem que visa não somente o domínio das teorias e novas como consequência e resultado de uma história que participado e contribuído na construção do seu país. que é um Brasil diverso em todos e também sujeito de resistência para a defesa de sua que constituímos ainda a maior vítima de preconceito ficos divorciados da historiografia colonial. hoje considerados Nacional da Lei das cotas. preconceito e descriminação que engendram começar. contrariamente ao índio que tinha amor à liberdade e Londrina – 26 de março de 2011 Kabenguele Munanga. toca. para os que têm ainda não totalmente equacionados. enfim imagem positiva.639 promulgada pelo presidente da Re. talvez não. esse negro coletivamente desigualdades e perdas acumuladas comparativamente até então à disposição é viciado pela historiografia ofi. cidadã orientada na busca da construção e consoli- Entre o tráfico. 2) quem vai ensinar e 3) a habitualmente dispensada aos nossos jovens é enfoca- da estrutura racista da sociedade brasileira atual sem que alienaram sua humanidade e sua identidade e que partir de que livros e materiais didáticos e bibliográ. mas também e sobretudo uma educação dos africanos e sua escravização no Brasil. cultural. Kabengele Munanga hoje apaixonadamente em debate na sociedade bra. a meu ver. sem dúvida. classes sociais. como os mais desenvolvidos. com a construção de nossas identidades individuais apenas ao tráfico.639. de sua identidade plural nacional. da geralmente numa visão eurocêntrica que além de colocar esse negro numa dinâmica histórica na qual precisam de uma ação afirmativa para descontruir a ficos ensinar? Ou seja. liberdade e dignidade humanas em todos os sentidos: e discriminação racial em numerosos setores da vida tão complexa e diversa que fica difícil definir por onde A construção das políticas sobre diversidade cul- político. artístico. Essa seria a pauta de uma agenda mínima que de- pública em fevereiro de 2003 contempla. talvez não! Talvez sim. o ensino da história da África. mas seu funcionamento efetivo ne. da formação dos educadores ou professores e nias. Trata-se mos negros no Brasil hoje? negro no Brasil coloca-nos alguns problemas práticos para um olhar crítico sobre as questões relacionadas de uma história de cerca de 500 anos que não se reduz Talvez sim. ape- sar da certeza de que ela contribui na modelação da foi buscar a mão de obra escravizada que ali existia naturalmente. a vemos cumprir para colocar em funcionamento a Lei reivindicação do reconhecimento oficial da identidade 10. das dúvidas e resistência tanto no meio da algumas es- cessita de algumas ações ainda em equacionamento. A questão é saber que captar. do Brasil de hoje. canalizar. um João Por que implementar política de ação afirmativa na universidade e no Professor os brasileiros. A imagem de 63 . Com efeito. sem necessariamente em. perrar a dinâmica própria de algumas universidades ram maciçamente na educação de qualidade para seus tempo positivas e negativas. o caminho não é fácil por causa coletiva do negro. De qualquer modo. por um lado. As duas questões constituem. a Lei 10. a escravização e a abolição oficial assimétricas do poder durante a escravidão. Por isso. da história e cultura do solidariedade e equidade. doutor em antro. onde o Brasil NA ESCOLA BRASILEIRA? cimento público da nossa identidade específica. a mesma historiografia que considera identidade nacional e faz parte do cotidiano de todos o negro brasileiro como um boçal. analisar e entender sem fazer um cer. No imaginário Depois dessa longa história. Como sujeito nacional. 123 anos já se passaram. dos princípios de em 1888. apesar das relações ria apenas em alguns aspectos que considero relevantes. sexo. para os que efetivo da lei: 1) que África ensinar e que história do desenvolvimento individual e coletivo. bobo que se deixou facilmente escravizar e nunca se ensino superior brasileiro? – Palestra proferida no Seminário do NEAA – Estas realidades deram origem a duas questões importou com sua liberdade e dignidade humanas. ser objetos de grandes conferências e debates que não tecnologias. de imagem negativa de si introjetada e construir uma nova definição do conteúdo da história da África e do negro gêneros. cerca de 300 anos se passaram. Uma tal educação convida lição formal e hoje. de humilhações. as real e autêntica e do negro real e autêntico? Qual seria vertentes atuais nos debates sobre a situação o negro a proposta de um curso capaz de realizar essa descon- no Brasil hoje. Estamos com cabeça erguida e orgulhosos de ser. por colonial e reconstruir uma nova imagem de uma África outro lado. a educação hoje”. não podemos simplesmente fazer uma análise ainda andam com cabeça e auto-estima baixas. sileira. a implementação de políticas de ação não se deixou escravizar. além do fato de que o conteúdo da África tural e ou etnicorraciais é uma realidade que está na da história positiva do Brasil. da situação em que se encontra hoje. que embora imprescindíveis não seriam começou nos séculos XV e XVI com o tráfico humano apesar das condições históricas caracterizadas pela poderia esgotar aqui por falta de tempo.propostas pedagógicas POR que ENSINAR A HISTÓRIA DO NEGRO aos outros segmentos raciais da sociedade. Do equaciona. “raças” e et- negação de identidade genérica e específica. religiosos. à escravidão e à abolição. Coletiva- mente. Onde estão finalmente do ensino público superior e universitário desembocou os problemas? numa polêmica que prejudicou a votação no Congresso Todos os países do mundo. É o caso da UEL. o negro no Brasil hoje uma adesão significativa. são aqueles que investi- Ser negro no Brasil hoje significa coisas ao mesmo contribui na construção da economia colonial do país. e África e do negro no Brasil herdada da historiografia Letras e Ciências Humanas da USP.639/03 que torna obrigatório dação do exercício da cidadania. Uma educação coletivo de muitos. fazendo delas uma fonte de riqueza e de É por isso que para entender o “Ser negro no Brasil o que porque nos envergonhar. coletivamente estamos mal por da produção dos livros. o reconhecimento de suas identidades específicas. ou seja. Infelizmente. etc. coisas que não podemos no povoamento do território brasileiro e na construção públicas que independentemente da lei recorrem a sua jovens e futuros responsáveis. violência com que foram trazidos.

além dos portadores como pensam alguns defensores das teses de Gilberto constituem. quais são vítimas. quando a própria ciência ticulturalismo ou da diversidade na educação não está país onde quase não houve um discurso ideológico ar- não apenas países de velhas migrações. Daí a necessidades nesses países de história da África e do negro brasileiro até nos estados De antemão. sua duração e os estragos culturais. têm a garantia de seus direitos sociais entre os quais a nos permite dominação da razão instrumental que au. uma educação cidadã baseada nos valores seja. provocados entre os povos africanos. por sua amplitude. até da se. os europeus de diversas origens étnicas. das diversidades: os povos indígenas de diversas ori. arrancados de suas raízes e trazidos Médio. na pauta da discussão. das sileira que. a construção da democracia e do pleno exercício da buscar. ascendência europeia. na construção sim na aceitação das diversidades como bandeira de clusão. árabe. cidadania dos descendentes de escravizados de ontem igualitária das culturas. Diversidade na unidade não Esta é uma pergunta que todos os povos conscientes se mentem a unidade cultural dos países da Europa e do brasileiras de matrizes africanas em algumas emissoras deve sugerir uma diversidade hierarquizada em cultu. numa única língua. Apesar dos progressos da ciência biológica (gené. mas também biológica já provou que raça não existe. baseada na lei do darwinismo social. lusófona. ras superiores e inferiores. a cultura brasileira é sincrética ou mestiça. não é tolerância. se daria ao luxo de negli. Porque o Brasil. nenhum país no mundo hoje onde a temática do mul. oriental. alguns criticam um diálogo que introduz a temática da diversidade uma diferença biológica entre populações negra. Fala-se de identidade italiana. a melhor educação não é somente a que dos. etc. É nesse contexto histórico que devemos técnicas e meios de comunicação. entender a chamada identidade negra no Brasil. houve algumas sobretudo. sil é totalmente diferente da de seus compatriotas de nismos de discriminação cultural ou etnicorracial dos questionavam a generalização do ensino obrigatório da rantem nossa sobrevivência. o tráfico negreiro é hoje considerado gens étnicas. branca identidade como no atual quadro do desenvolvimento a proposta de educação multicultural na sociedade bra. E não melhor exemplo de um país que nasceu do encontro a partir das diferenças fenotípicas baseadas na cor da nossa cultura e nossa identidade são mestiças. apesar de serem juridicamente cidadãos livres. isto é. etc. Bélgica. problema negar as raízes formadoras dessa mestiçagem. ticulado sobre identidade branca e amarela. teses que são totalmente opostas às minhas. Ou de mundo. e onde estavam sendo levados e por que motivos. mas sim a convivência tidade nacional e de nossas identidades étnicas. alegando que se está tentando intro. ou seja. construir a unidade respeitando e o racismo. a logo intercultural. entendemos a raça como uma construção social de sua democracia? Mesmo admitindo a tese de que la.) ter e do encontro das culturas. do meu ponto de vista. propostas pedagógicas um Estado-Nação construída com base numa única tribuições na forma do povo brasileiro. ou melhor. o quadro é totalmente diferente dos países oci. Reagem negativamente algumas educadoras e al. para diversos países da América. bioquímica. etc. um país que nasceu da diversidade te porque os portadores da pele branca e amarela não greiro. uma pergunta que tem a ver com as raízes culturais dos Suíça. de geração em geração. numa visão do mundo está se tornando cada vez mais Mas a questão fundamental que se coloca hoje é o Finalmente. capturados. a história da presença dos africanos no atual Bra- convivência decorrentes dos preconceitos e dos meca. pilhou e tentou destruir a riqueza da di. rais e gerar conflitos capazes de prejudicar justamente nar todas as formas de intolerância. justamen- países de deportações humanas através do tráfico ne. não estaria. num Nos países da América do Norte e do Sul. Todos devem se lembrar das a diversidade que constitui sua matéria prima e uma Quem somos. no simples fato não existem. O Brasil oferece o puras. mas também. asiática. mas construção social e categoria de dominação e de ex. tica humana. a saí. Essas reivindicações geram problemas de mulgada pelo presidente da República. chinesa. todos sem exceção deram suas notáveis con. que até hoje estão sendo tratadas desigualmente no educacional não significa destruir a unidade nacional e na cor da pele são reais e são elas que justamente colonizou-os. que a raça teria influenciado sua decisão para sair de seus respec- ciais para evitar as barricadas culturais e buscar o diá. de televisão. etc. Canadá. se não um mito. reações negativas até na imprensa. penso que construir políticas sobre a nós não pudemos deixar de observar que as diferenças uma raridade. O que pode engendrar barricadas cultu. quase não são demograficamente representados. identidade mestiças e não diversas. onde troem novas diásporas e reivindicam o reconhecimento educação é uma peça central. que trazem desses países outras culturas. seria um da identidade branca e amarela. Sem dúvida. japonesa. dos homens e mulheres. campanhas de difamação e demonização das religiões fonte da riqueza coletiva. cons. pois todos e amarela. Vista deste ponto de vista. dos grupos e so. pois são paises que nasceram justamente do demonstrado que geneticamente não existem as raças genciar um assunto tão importante para a construção negros. afinal. os germes a versidade cultural dos países colonizados revela hoje dessas identidades de resistência serem ainda vítimas Freyre. a diversidade. das pessoas que da solidariedade e do respeito das diversidades que ga. Não existe qual me referi. xiliará nossa sobrevivência material numa sociedade foram escravizados. é uma sociedade de cultura e os países do mundo estão no mesmo barco. identidades. Irlanda do Norte. Mesmo concordando que geneticamente as raças puras como uma das maiores tragédias da história da huma- os africanos escravizados de diversas origens étnicas ou da. outros acham ab. Os exemplos que des. de sua cultura e de sua identidade plural. ciedades humanas. processos começaram há cerca de 500 anos quando os rentes migratórias vindas dos países ditos do terceiro que. Todos buscam a construção de uma guns educadores. que voluntariamente decidiram emigrar de acordo novas diásporas de discutir. judaica. incluído o Brasil. judia. pois mesmo na hipótese de aceitar essas tivos países de origem. no caso da população negra. de onde viemos e para onde vamos? exploração dos outros povos. enquanto espécie humana. colocam permanentemente. Apesar da inexistência das raças puras como cultura. construir e incrementar e municípios brasileiros onde os negros são minoria ou dos que dizem que não há racismo em suas escolas. biologia molecular. Visto deste povos africanos de diferentes nações foram sequestra- mundo: da África. ideológica para justificar a “Missão Civilizadora” e a gregação racial de fato. espanho- encontro de culturas e civilizações. que são surdo falar ainda de raças. passaram por uma história semelhante à dos brasileiros dentais. Esses turais está cada vez mais desmentida pelas novas cor. América do Sul e do Oriente ainda não exercem igualmente sua cidadania e não ponto de vista. reconhecimento oficial e público dessas diversidades diversidade cultural e implantá-las no nosso sistema fenotípicas baseadas nas características morfológicas A Europa Ocidental que invadiu outros povos. pele e em outros elementos morfológicos entre negros. É mundo ocidental em geral pululam: Espanha. Seria simplesmente equacionar a unidade com partir dos quais são construídos o preconceito racial que sua unidade de fachada era apenas uma armadilha de preconceitos e de discriminação racial. mas o que devemos povos e com os processos de construção de nossa iden- Essa falsa imagem dos países ocidentais monocul. seria problemático negar a raça enquanto nidade. que com a conjuntura política e econômica da época que suas políticas sobre diversidades culturais e etnicorra. quero admitir e discutir todas as teses etc. numa única religião. etc. Nunca se falou tanto da diversidade e da fenômeno não existe ou nunca existiu. gaúcha. Sem dúvida devemos conde. Ela resulta desse longo processo histórico ao mundial dominado pela globalização da economia. para exigir a convivência igualitária de todos. brancos e amarelos. Ásia. segundo eles.639/2003 foi pro. cultural ou etnicorracial na escola brasileira.. Itália. de suas religiões e visões Recordo-me que quando a Lei 10. não vejo identidade negra não surge simplesmente da tomada cultura de paz baseada na convivência igualitária das duzir um racismo às avessas em suas escolas onde este nenhuma contradição ou impedimento à iniciação de de consciência de uma diferença de pigmentação ou de diversidades. não existe. Mas apesar da 64 65 . de ensinar aos nossos alunos que raça não existe. árabe. Eles nem sabiam por onde e para público de suas identidades. sistema educacional brasileiro. O nó da questão. luta. nos ensinam a genética humana e a biologia molecular.

esse primeiro Contrariando todas as previsões escatológicas da. Juntas. Surpreendente- tos que existem em nossas cabeças e provenientes dos véspera do fim do regime da apartheid. consequentemente uma guerra porque a própria existência da discriminação racial anti- o processo de construção da cultura e da identidade do próprio Brasil. Creio.! Isto é. Uma memória a ser cultivada que exigem formação superior para ocupar cargos e experiência das políticas de ação afirmativa. Mas felizmente. autonomia acadêmica. penso eu. não apenas nas universida. nem dos conflitos. Neste superiores em alguns casos. no decorrer do tempo e do processo. os melhores são aqueles que pos- não mestiça ou unitária. pois não há promulgado pelo ex-presidente da República.639/03 visa justamente a cons. árabes. mesmos aqueles que foram negro era oriundo do continente africano. Daí o sentido e a razão de ser das políticas de ação têm a ver com nosso racismo à brasileira. inferioridade negra neles introjetados pela cultura ra. ou seja. isto é. etc. Fui o primeiro negro a con. Enquanto por extensão no sistema escolar é importantíssima. É justamente aqui que se coloca se tem um é sempre o primeiro e o único e raramente o século passado. Exis- plural brasileira. virem! Finalmente. orientais. Três anos depois. Discriminação Racial. indígenas. conselhos universitários. era difícil definir quem é negro ou afrodescendente por lata. pelas contribuições no atual departamento de Antropologia Social onde anos mostra totalmente o contrário. boa qualidade representam a única chave e a garantia alunos foram iguais e até mesmo excepcionalmente educação ofereceria uma possibilidade aos indivíduos tário que o Brasil de hoje. Nos últimos nove anos. cluir o doutorado em antropologia social nessa univer. sul. queles que pensam que essa política provocaria um no país desde o seu descobrimento. salvo prova em contrário. A educação e a forma. brasileiros que por razões históricas e estruturas que Sobrou apenas uma acusação: a inconstitucio- cista na qual foram socializados.639 promulgada pelo dos outros países que convivem ou conviveram com as lidade e de comando na vida nacional onde esses dois avaliações feitas sobre o desempenho dos alunos co- presidente da República 115 anos depois da abolição. Xenofobia e Intolerân. houve suem armas mais eficazes. 1975 através do programa de cooperação com algumas sistema de cotas a partir da decisão de seus respectivos um por um pela própria prática e experiência das cotas Como somos vistos lá fora. pois a herança cultural africana no Brasil o segundo e o terceiro. Felizmente sistência que por sua vez contribuiu para modelar a em Ciências Sociais da Universidade de São Paulo em universidades públicas federais e estaduais adotaram foram. mas também em outros setores da vida nacional comprovam que apenas nesses últimos oito anos da ganhar. na África do Sul confessam que têm medo. Estamos aguardando a social e na cultura de nossa sociedade que todo repen. da mu. os resultados do rendimento acadêmico desses sistemas culturais de todas as sociedades humanas. do carnaval. foi graças aos sacrifícios desses africanos Finalmente. fui o primeiro e o único desde que essa disciplina foi e linchamentos raciais em nenhum lugar. não é ter direito às migalhas. Por em agosto/setembro de 2001. alunos oriundos dos colégios particulares mais bem tema educacional. as teria nenhum sentido a Lei 10.. Pois bem. dades estaduais do Rio de Janeiro (UERJ) e do Norte mudança possível sem erros e sem conflitos. brancos e índios. mas medo de que? De er. a África do Sul ção profissional. a discussão Racismo. Geralmente são um índice de ingresso e de diplomados negros e indí. as heranças europeias. sistema não comprovaram a catástrofe.. que em nosso caso seriam e conservada através das memórias familiais e do sis. deve ter medo de mudar. gros e indígenas. disseram que a política das cotas ia nunca ocupou uma posição de igualdade com as ou. Falsa dificuldade. Só este exemplo basta para da competitividade entre todos os brasileiros. mente não nasceram com essas possibilidades. estão sendo bem digeridas e compreendidas pelo povo Disseram também que a política das cotas violaria outras. especifi. Se assim fosse não dro é considerado como gritante quando comparado ao ter acesso ao topo em todos os setores da responsabi. técnica. mas não houve dúvidas sobre a Esta herança cultural africana constitui uma das fundada. não se trução de uma pedagogia multicultural e antirracista. Mais do que isso. rar ou de acertar? Uma sociedade que quer mudar não se espera essa decisão. antes de tomar sua decisão. que se o problema. as grandes universidades. encontram nalidade da política de cotas ou reserva de vagas nas O racismo é tão profundamente radicado no tecido afirmativa ou de reservas de vagas nas universidades barreiras que somente a educação e a formação supe. eliminados chamada cultura de nacional e a identidade nacional. Nem tampouco baixou o para questionar os mitos de superioridade branca e de mostrar que algo está errado no país da “democracia sentido. que esta é a história dos bra. Por mera coincidência. mente após a III Conferência Mundial de Combate ao vertem a lógica da proposta e veem na política de cotas pública entre os dias 3 e 5 de março do ano passado ticos à prática do racismo. também. Dizia-se no início que do samba. Os dados de nosso conhecimento mostram que na manda a verdadeira democracia. Encontrar três ou quatro juntos O que se busca pela política de cotas para os ne. muito caro para tras no sistema de ensino nacional. Daqui a dois anos estarei compulsoriamente não apareceu nenhum movimento de Ku Klux Klan identidade da maioria dos estudantes negro e mestiços matrizes fundamentais da chamada cultura nacional e me aposentando sem que houvesse a possibilidade de à brasileira. da feijoada. eu ingressei no Programa de Pós-Graduação na Assembléia Estadual do Rio de Janeiro. Neste sentido. causa da intensa miscigenação ou mestiçagem ocorrida negros. passaram a integrar camente da República Democrática do Congo e não racismo ao contrário. Bem. deveria por este motivo ocupar uma posição igual às um segundo docente negro nesse departamento. Alguns obstáculos propositalmente colocados sobre e seus descendentes que foram construídas as bases ação afirmativa no ensino superior e universitário? plementada por meio de uma lei aprovada em 2001 as chances de sucesso das políticas de cotas se fizeram econômicas do Brasil colonial. rior podem em parte remover. do futebol. prova de que as mudanças em processo que ingressaram na universidade através das cotas. a política de cotas busca a inclusão daqueles nível de excelência dessas universidades. racial devida à racialização de todos os aspectos da negro é prova de que não é impossível identifica-lo. principalmente japonesas. práticas racistas como os Estados Unidos e a África do segmentos não são devidamente representados como tistas na maioria das universidades que aderiram ao Não existem leis capazes de destruir os preconcei. a começar pelas universi. essas heranças constituem sileiros afrodescendentes. uma memória plural e des. reprimidos durante a colonização. a re. o princípio do mérito baseado no darwinismo social judia. numa mesma instituição é motivo de festa! Esse qua. postos de comando e responsabilidade. Infelizmente. Outros para escutar os pontos de vistas de diversos setores sobre os direitos sociais ou coletivos no sistema legal e cia Correlata. assim como para não se cometer erro. decisão de STJ que a respeito organizou uma audiência sar da cidadania precisa incorporar os desafios sistemá. A tinha mais negros com diplomas superior ou universi. 66 67 . alguns in. universitária e intelectual de mente. no mundo ocidental? País universidades africanas. dezenas de entender desde o início do processo em 2002. contrariamente ao binóculo acadêmico. os símbolos da resistência cultural dos sidade em 1977. o estatuto da igualdade racial isso o espírito da Lei 10. a experiência brasileira destes últimos tem evidentemente casos duvidosos. brasileiro. as avaliações feitas até o momento segundo o qual na luta pela vida os melhores devem a memória coletiva do Brasil. etc. Não há distúrbios gêmeos da UnB que mereceriam uma atenção redobrada culturais orientais. Quando genas no ensino superior jamais alcançado em todo aquinhoados financeiramente. racial” que precisa ser corrigido. em 1980. por que implementar as políticas de Fluminense (UENF) onde a política de cotas foi im. da sociedade. universidades que as adotaram. públicas nacionais que se desencadearam principal. Os outros que social- um povo sem história. propostas pedagógicas tragédia. pois um povo sem memória é como ausentes ou invisíveis nesses postos e cargos. baseando-se no princípio de nas universidades que as adotaram. Processo esse enriquecido também ingressei na carreira docente na mesma instituição. vida nacional. a possibilidade de uma fratura da sociedade. posicionou contra as políticas de ação afirmativa. mas sim prejudicar o princípio de excelência. como os dos alunos a partir do início do século XX. realizada em Durban. Mais do que isso.

Curitiba: SEED. (MUNANGA. Neste da Lei 10. tratada de maneira desumana e submetidas a condições essa população garantias de ingresso. Analisarei como são apresentados e discutidos no authors. na dança. que as políticas de reparações.21) e cultural da população negra no nosso país.21) participantes. no campo da negro no Brasil. de branco e ignorar a cultura africana. 20) sucesso na educação escolar. lavouras de cana de açúcar. etc. used for the schools in 2º Degree and that the order of elaborado por vários autores a pedido do Governo do Estado the Government of the State of the Paraná was elaborated by some Para reeducar as relações étnico-raciais. Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira artigo foi orientada pela Pro­f essora e Africana. de valorização do patri. permanência e festa mesmo diante da repressão e da negação que sofre de vida muito precárias. que é presente na sociedade brasileira. pois a elite brasileira voamento do Brasil. que foi Sociology.. ensino de Key . na dança. valorização fazem parte das ações afirmativas voltadas A cultura negra possui raízes fortes no Brasil. contribuiu para a cultura nacional brasileira. no que diz respeito à população negra. mesmo estando GA. No entanto. questão etnicorracial.639/03: CULTURA AFRO-BRASILEIRA NO LIVRO DIDÁTICO RESUMO Pretendo neste artigo analisar o Livro Didático da disciplina de ABSTRACT I intend in this article to analyze the didactic book of disciplines of Sociologia utilizado pelas escolas estaduais no 2º Grau. 2006. E então decidir que sociedade queremos construir daqui para Formada em Ciências Sociais e Pós Gra­­ também como estão sendo trabalhados os conteúdos sobre a are being worked the contents on the Culture and African History du­­­a­da em Ensino de Sociologia na Uni. I will analyze as they a outros. café e à mineração. no mo- Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva. etc”. destacam-se notáveis contribuições condições para alcançar todos os requisitos tendo em da estrutura de dominação. na arquitetura.. na música.639/03. (MUNAN- cer em defesa das Diretrizes Curriculares Nacionais e pelo impedimento do progresso. -PR. vista a conclusão de cada um dos níveis de ensino.]. Uma mão de obra escravizada – sem remuneração–. esta grande população de africanos ficou religiosidade. arquitetura. Kabenguele Munanga afirma que: “No plano cultural. Milhões de africanos e seus descendentes destacam-se notáveis contribuições dos negros afri- da demanda da comunidade e da luta do movimento influenciaram a sociedade brasileira. con.word: didactic book. 20) indispensáveis para continuidade nos estudos. O antropólogo a Cultura e História Africanas e Afro-Brasileiras. consequentemente. constantemente. demográfica e cultural. pois. Florestan Fernandes (1978) nos diz que. forme demanda da Lei 10. o sucesso de uns tem o preço da marginalidade e da desigualdade impostas etnicorracial. Mesmo com a aculturação A elaboração deste artigo busca analisar como. na discuta as relações etnicorraciais e a presença histórica perdida e à margem da sociedade. Entretanto. (MUNANGA. não didático Sociologia: Vários Autores. Cultura e História Africanas e Afro-Brasileiras.639/03. em busca de uma educação crítica que a abolição. no campo da religiosidade. Elas devem oferecer a do ao tempo da escravização dos africanos. inventar um Brasil (MUNANGA. é necessário fazer CRISÂNGELA do Paraná. Após a Abolição. moderna marcou a população negra pela pauperização ordens: econômica.20) para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o dentro das cidades. os negros serviram como força Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africa. as demand of Law 10. os africanos introduziram um vo- uma profissão. a população negra No plano demográfico. 2006: p. das competências e dos conhecimentos tidos como tentou importar a cultura europeia. estão sendo trabalhados os conteúdos sobre A economia brasileira do período colonial (1500 . 1889) era escravagista e ocupou a maior parte da nos. 2006: p. É preciso entender que BIASSI DE ALMEIDA livro o capítulo “A Escola Enquanto Instituição” e a questão book: “the school while institution” and the ethnic-racial question. de emergir de trabalho.14) Doutora em Antropologia da Uel Elena Palavras chave: livro didático. estas pessoas não tiveram a possi. I will analyze as two axles are presented and argued in the emergir as dores e medos que têm sido gerados. além de desempenhar com qualificação para a produção cultural (que é simplesmente a marca No plano da língua. os africanos ajudaram no po- mônio histórico-cultural afro-brasileiro. dos negros africanos na língua portuguesa do Brasil. ethnic-racial question. tão grande era o tráfico negreiro. após canos na língua portuguesa do Brasil. sociologia. no pare. da humanização) do país e nos deixaram um legado que cabulário desconhecido no português original e que faz 69 . na arte visual. apesar No plano cultural. somando INTRODUÇÃO CONTEXTO uma maneira de ser e de viver às estruturas fundamen- tais da identidade do povo. 2005. conforme demanda and Afro-Brazilian. lei 10639/03. de aquisição foi desvalorizada e marginalizada.639/03 – norma que surgiu sa história. p. os afro-brasileiros resisti. reconhecimento e socialmente. (Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações versidade Estadual de Londrina. no Brasil. frente. Maria Andrei. na arte visual. e se mani. na bem como para atuar como cidadãos responsáveis e Os escravizados e seus descendentes contribuíram música. para a educação dos negros. já é possível apontar que a ordem capitalista de quem descendem os brasileiros de hoje. fornecendo a mão de obra necessária às na. No plano econômico. bilidade de progredir e. ram e preservaram as tradições e costumes. Analisarei in what it says respect to the black population. relatora dos vimento de definição do negro inserido na realidade “As contribuições dos africanos trazidos para o Brasil. law 10639/03. 2006: p. foi possível eliminar os elementos da cultura africana. algodão. 2006: p. (MUNANGA. 2006: p. education the sociology.propostas pedagógicas O ENSINO DE SOCIOLOGIA E A LEI 10.639/03 escreve. trabalhos da Comissão que estabeleceu os parâmetros brasileira. [. no livro DA QUESTÃO imposta por parte dos colonizadores portugueses. são de três de funcionamento da Lei 10. devi.

são explicados os do-se o samba. ram discutidas em simpósios e encontros envolvendo dimentos pedagógicos. (MUNANGA. Diz que as elites (ou dominan- tivas. tamento. O livro didático de sociologia analisado neste arti. (MUNANGA.enfim. e: boa qualidade. professores da rede que precisa ser ampliado. a construção de material orientam e determinam as finalidades do livro didático.64) determinado patrimônio cultural e as classes traba- 70 71 . as sociedades tribais. mente têm oportunidade de acessar um livro na esco. os livros didáticos devem ser de produção – o capitalismo. nos instrumentos musicais do 2º. parte do patrimônio religioso brasileiro. os africanos lega. princípios do liberalismo. São raras. isto é. há escassez de mesmos devem ser de boa qualidade. o racismo e a O LIVRO DIDÁTICO como disciplina é justamente nos ajudar nesse sentido: a sobrevivência e a convivência são transmitidos por discriminação se tornaram a maior herança do sistema a percebermos que fatos considerados naturais na so. bumba-meu-boi. nos objetos de ferro. o livro mecanismos de transformação da sociedade e. Na história do contato entre os europeus e africa. o aumento do acervo de livros so. Mas tão logo os alunos percebem que classes existem diferenças culturais . visto que muitos so. por exemplo. os quais poderá ser contemplado em tra.. Como afirmei 2006: p. pedagógico eficiente. bem como de sua qualidade. nos. porém como esse processo não é pobre do país? Para explicar que o papel da Sociologia dades. Depois de dados estes contextos. Grau. [. uma vez que há falta de alterna. das populações quilombolas ou das comunidades- recursos didáticos adequados.representantes de uma teo- ser os únicos acessíveis aos jovens nas escolas públicas. a disciplina e o bom rendimento: entre os índios. “Essa instituição ensina-nos novos padrões de compor. rea. as análises sobre os livros didáticos podem nos levar ciais falando sobre a instituição escolar. ria segundo a qual no interior de uma sociedade de Vem daí a importância fundamental do livro di. e discutidos neste livro: a escola enquanto instituição 1596 – 1650) é considerado o fundador desta doutrina. escravocrata. construção sócio-histórica formada por intenções. a conhecidos e que constitui uma das facetas da identida. o berimbau. dos anos vividos”. mas caracteriza também a educação uma educação para a diversidade: a disponibilização de dos elementos implícitos e explícitos que caracterizam. que valoriza a normatizada pelo Estado brasileiro.o livro discute o dático. pois em questão. eles deixaram suas marcas nas figas de madei. 23) e urgência. 2006: p. mas uma maneira de promover relacionadas com decisões e ações curriculares. além ou uma nova ideologia para o capitalismo que se deno- 2006: p. que cumprem seu papel “As revoluções burguesas. pois ele muitas vezes é utilizado como principal também não deve ser esquecida. A realidade histórica dos estudantes brasileiros teiras escolares. por sua relevância a pedido do governo estadual do Paraná. Certamente muitos outros temas e O livro Sociologia foi produzido por vários autores. atenda e respeite lidades e decisões provenientes de diferentes indivíduos possível perceber que nessas sociedades existia um as diversidades e peculiaridades da população brasileira e contextos. 2006: p. e as sociedades sem escolas? Explica-se no e negativização da cultura negra. 69) Na música e dança. porque podemos nos sentar igualmente nas car. o valor da ação acredito poder contribuir para a discussão de uma edu. a herança cultural e os saberes necessários para percebido de forma crítica pela sociedade. nessas socie- ções e interlocuções. processo de construção. resultado concreto de disputas sociais Os autores do livro didático de Sociologia iniciam a No entanto. propostas pedagógicas parte do falar brasileiro. no que diz especificamente Mas. respeito à população negra. 72). pois para mui. Os livros didáticos são produ. estar voltados à ruptura com a ordem existente. Continuando sobre a educação informal. direcionado ao ensino Em primeiro lugar. esclarecendo como acontecem as apropriações e a re. ou mesmo serem desenvolvidos pelos grau e irei analisar como dois eixos são apresentados tífica”. a cuíca. devem também ser considerados como em ascensão. No que diz respeito à religiosidade. não existe apenas Algumas ações são essenciais na construção de a compreender a produção desses materiais... estadual do Estado do Paraná. para ser um propriedade. tes. o estudo ordem. aulas minará liberalismo”. (MUNANGA. introdução do Conteúdo Estruturante: Instituições So. -terreiro afro-brasileiras. ticas pedagógicas inclusivas não somente é uma forma ções culturais. Pois esses recursos podem contextualização dos diversos textos participantes desse classe social e tenta nos fazer acreditar que somos todos e Jean-Claude Passeron . expositivas. to inocente e neutro de transmissão desinteressada do INSTITUIÇÃO das pelas experiências e saberes acumulados ao longo vas existentes. grande respeito entre todos os membros do grupo. E chega à conclusão de que “é cação que seja geradora de cidadania. conteúdos poderiam estar presentes. maculele. Visualizar as diferenças e articular prá.22) go foi produzido por vários autores. umbanda e macumba.11) e a questão étnico-racial. ou reforça aqueles que já trazemos de nossa Citando os sociólogos franceses. um dos gêneros musicais populares mais professores da área. eles introduziram os congados.]. como introdução ao tema e dão um encaminhamento XVII) e a francesa (séc. Destaco a importância desses materiais. que fazem tos alunos o livro didático acaba sendo o livro. fala que são três importantes valores que perpassam a quentemente das mentalidades. as quais fo. que não tem a forma da educação a igualdade. coco. vamente o feudalismo e inaugurar um novo modo de Na arte. professores e alunos nas escolas.21) publicações científicas dirigidas ao público em idade acima. 2006: p. deve-se dar bastante espaço para debates. assim como na nossa. para haver igualdade é necessário mais do que um lugar porquê da escola não ser um lugar de pertencimento recurso pedagógico. informal”. O filósofo e matemático René Descartes (França. consulta aos clássicos. a escravização gerou um processo de invisibilidade 2006: p. biblioteca adequada. 22) “Os conteúdos desenvolvidos foram escolhidos a partir disso. as escolas que possuem la. a dinâmica e a organização social sempre como exemplo. meio da educação informal. conse. material didático próprio para o ensino no segundo é apontado o surgimento da chamada “revolução cien- balhos futuros. ternativas aos livros didáticos. destacan. é preciso considerar que uma “educação de respeito humano. escolar. A burguesia. como a miséria. mas que. que são: o individualismo. dando Acredito que a educação é um dos principais bem como a perspectiva do ensino de Sociologia devem os suicídios . Além disso.podem não ser tão naturais assim. respeite e observe o repertório cultural da Portanto. ao lado de tantos outros disponíveis. como são identificadas pelos autores) possuem um uma biblioteca adequada. a ceitos até os dias atuais. “O livro didático acaba sendo o livro”. . não pode ser considerado como elemen- A ESCOLA ENQUANTO as pessoas mais velhas eram especialmente valoriza- população negra e o relacione com as práticas educati. entre outros proce- jongo. Assim. São prazeroso para todos. os crimes. Florestan (1978) destaca que o trabalho dos sociólogos ciedade. 2006: p. iguais.. tais materiais. Por meio deste artigo. e o valor do exemplo. inculcando precon. (VÁRIOS AUTORES. na escola começa as reações contrárias à ordem. por isso os chamadas questões disciplinares”. classe social ras. conhecimento social. maracatu.(VÁRIOS AUTORES. XVIII). deve-se considerar a falta de al- como o candomblé. o enriquecimento.”(VÁRIOS AUTORES. O contato entre as culturas dos é perguntado: Por que há poucos negros nas univer. Decorre dessa realidade a importância desses Uma vez que são raras as escolas que possuem uma o livro responde assim: ram ao Brasil algumas de suas religiões populares. Pierre Bourdieu bre o assunto nas bibliotecas. Em relação ao surgimento da escola no Ocidente. um recurso. e de cultural brasileira”. irá conceber uma nova doutrina social como os tambores. educação é elemento fundamental de socialização e de negros e dos portugueses se deu por meio de apropria. das Diretrizes Curriculares da disciplina. principalmente a inglesa (séc. a igualdade e a democracia. O livro didático precisa ser entendido como uma educação dos tupinambás: a tradição. (MUNANGA. (VÁRIOS AUTORES. vão encerrar definiti- 2006: p. a liberdade. Vejo que já na introdução livro que nessas sociedades. sidades brasileiras? Por que os negros são a maioria manutenção do próprio grupo.

Paulo Freire. eles também tiveram suas estrutu. propostas pedagógicas lhadoras (ou dominadas. sua inserção cultural. cana como parte da herança comum da humanidade uso tem um sentido social e político. projetar uma nova ordem social. e resultado de significa estar subjugado economicamente. empunhar uma arma assassina. riza pelos conjuntos de símbolos sagrados. uma conquista da sociedade. características fisiológicas e biológicas comuns. Interessa também aos No entanto. sociais e outras. Nacional. ancestrais e identidades próprias de cada um deles. como são identificadas pe. 2005: 16) Por onde passou. 2006: p. Além disso. (. da apenas para o desempenho e/ou a meritocracia é a (como realmente é). Continente Africano. com mais medo. essa memória não ção. regida por normas estabelecidas por grupos externos Por isso. de intolerância. contribuíram cada um de seu modo na educador progressista. são da sociedade entre senhores e escravos – podemos Antigo Egito. (MUNANGA. seria preciso fa. mundos”. Ainda que fossem uns poucos. Conhe. pregado. A quização”. levando também à hierar- los autores) possuem outras características culturais educação no Brasil é obrigatória. educação tem a ver com em alguns trechos no decorrer dos capítulos. Já os movimentos negros e vários estudiosos lançam o preconceito incutido na cabeça do professor e sua historicamente. proibidas. mas que como O livro diz que as escolas públicas. pais e de todos palmente não ser respeitado em suas manifestações cul. na esteira de Paulo Freire. ciências naturais.valores. sujeitos da lei e ser usado nas escolas para possibilitar a construção de relacionado ao reconhecimento da diferença entre sidade. que tenha uma proposta semelhante à que defendem. foi pensado para que a criança e o história da população negra no Brasil e a complexa re- ciente de repetência e evasão escolar altamente elevado exclusão de todos aqueles que não estão inseridos no jovem negro se enxergassem como seres incluídos na lação entre raça. turais . Numa sociedade marcada. pobres. o conceito minantes torna-se bem mais fácil alcançar o sucesso educação denominam hoje de “cultura escolar”. sem atribuir qualidades positivas ou livros e materiais didáticos e às relações preconceitu. a religião pode ser um formidável cos que. e estes jovens necessitam quase que reiniciar a esta”. 140) (Cadê o diferentes. antes der mais nada. 175) branco. da qual é construído um cosmo sagrado” (BERGER pelos preconceitos.267) . herói e construtor de Ao focar nos trechos do livro didático onde é abor- alunos de ascendência negra. No livro Sociologia. 04) A religião . trata-se de um con- uma cultura para aprender um novo jeito de pensar. universais e Para ele. “A escola é uma instituição dade em que vive. valores.não ter voz na entanto. representante de uma pedagogia abordagem dada ao negro é falha e fraca e por isso..(VÁRIOS AUTORES. e como a escola ignora estas diferenças a obrigação de oferecer escola e os pais ou responsáveis educação conscientizadora proposta por Paulo Freire negro nessa citação?) sócio-culturais. que diz respeito à e prejudicam seu aprendizado. consigo também seus cultos. críticos e em condições de lutar pela Já para Kabenguele Munanga: ou modelos de cultura. coletivamente. a linhagem histórica resgatando as civilizações desde o negativas. cada qual diverso um do outro. pois ao receber uma educação envenenada sentido de uma ruptura com os valores criados e refor. seleciona e privilegia. a escola representa uma Criança e do Adolescente). ao reconhecimento da condição. 2006: p. huma. No mente abordadas pelos autores. indígenas História de seu próprio povo. são muitos: são. inserir-se nele e ainda para de lá saírem melhor do que quando entraram. estudantes. frio e origem em tronco comum.“a religião é uma obra humana através te branca. etc . dando-lhe um outro significado. sua própria “cara”. religião. a presença do negro é notada enfim sistemas religiosos estruturados. da libertação. Ser oprimido. seus rituais. apesar das condições desiguais nas quais se cido no mundo todo. não exemplo.(Art. No entanto. raça pode ter uma conotação própria do campo das escolar do que para aqueles que têm que desaprender mos entender por que todos procuram uma instituição “Ser bandido. cado que os povos africanos escravizados trouxeram dade nacional”. apud FILORAMI&PRANDI. é colo- formação da riqueza econômica e social e da identi. linguagem. enfim. pela divisão cruel entre os que eram trução de um Material Didático Alternativo que possa mão do conceito. igno. a sociedade. dada a diversidade religiosa no Brasil percebemos que: alunos de outras ascendências étnicas. çados pela sociedade capitalista (submissão. quando os autores conceituam raça: “Raça crenças também foram desprezadas. a aprendizagem sobre grupos humanos. Significa não ter ouvidas suas insatisfações e grupo étnico ou sociedade.. seria o exemplo do Ao analisar o livro didático podemos perceber que a instrumento de dominação. ou seja. comparativamente ao do alunado sistema. Vejo que. 1999: p. racial”. os autores afirmam que aqui o lhos da classe trabalhadora. Seus valores e saberes são desprezados. racismo. somando-se ao conteúdo preconceituoso dos produtores de cultura e os que não eram nada disto uma identidade negra positiva. em sua teoria têm o dever de matricular e manter seus filhos menores tem. para os jovens fi. suas gratuitas. ou pior. e que no desenvolvem. racismo aparece muitas vezes camuflado e estabelece ruptura. ao mesmo tempo. às vezes. 175) “Não precisamos ser profetas para compreender que ou buscar uma profissão. aprender novos padrões Mas como a escola possui uma dinâmica interna tos autônomos. neste capítulo. significa dizer que há grupos de pessoas que possuem Dentro do capítulo. pode. “Dependendo da maneira como é utilizado. ir para uma ceito utilizado para definir classes de animais que tem falar. o uso do termo raça acaba classificando um tamente sobre as de origem africana. de social. 77) escola tem papel fundamental na construção de sujei. 2006:p. ou o que pesquisadores da sociedade. (MUNANGA. ser espancado. ou uma religião. principalmen. como por essas pessoas foram tratadas como mercadorias. existem os educadores progressistas. mas tória da comunidade negra não interessa apenas aos normal da escola. igual e capaz de ser protagonista. das origens osas entre alunos de diferentes ascendências étnico. desestimulam o aluno negro entrever que o resultado de uma cultura escolar volta. O Projeto de cons. enxergar o mundo. O que explica o coefi. ou prisão-educandário. preconceito e discriminação do alunado negro. na visão de Freire. é que lhe permite criar seu próprio sistema de normas e superação das desigualdades e pela transformação da evidente que para os estudantes filhos das classes do. a perda da guarda destes. Nesse campo. reconhecidos como seres humanos. O NEGRO NO LIVRO DIDÁTICO grados formarão um sistema religioso. de educador comprometido com as classes oprimidas. defendo que a uma grande distância para os negros efetivarem sua rados. suas crenças. 174. E estes são sempre negros. competi. incapacidade em lidar profissionalmente com a diver. somado aos locais e rituais sa- tendo em vista que a cultura da qual nos alimentamos vida uma experiência diária de solidariedade e. Mas ao mesmo tempo em que é um direito. a visibilidade da cultura de matriz afri. o Estado tem propostas e não se considerar sujeito de sua história. ou quaisquer outros que sejam “diferentes” da “cara” nos entre humanos. – e esta divisão era a base e a consequência da divi. ser desem. extremo pode chegar ao fanatismo. quotidianamente é fruto de todos os segmentos étni. a tarefa de conscientizar critica. 72 73 .) O resgate da memória coletiva e da his. em melhores condições de enfrentar a vida. cheirar cola. a maioria. (VÁRIOS AUTORES. Ela pertence a todos. No livro. as manifestações e os valores culturais das na escola. conhecimentos e preparo para prosseguir os estudos zer alguma coisa para tentar mudar esse quadro – mas (MUNANGA . que incluem pertence somente aos negros. 22 e 24 do Estatuto da internamente para a luta pela transformação da socie.se caracte- ras psíquicas afetadas. várias religiões são sucinta- muita luta de professores. É por isso que. ou seja. Estes defendem estímulos e refor. tencialidades físicas especificas relativas a cada raça. ter fome. Esse -raciais. apenas tocarei de leve nesta questão pois. 2006 : p.(MATERIAL DIDÁTICO ALTERNATIVO. ser abusado. que defendem propostas educacionais que apontam no 2007: p. com características e po- ser bem-sucedido. Ao dizer que o Brasil é conhecido como o país com e prática. mas falarei mais aten- aqueles que se importam com a justiça e com a igualda. ços de valores que podem contribuir para se fazer da o pensamento religioso. mas princi. plena participação na vida social. individualismo). sob pena de serem punidos até mesmo com mente o educando de sua posição social e mobilizá-lo maior número de negros e afrodescendentes depois do classes dominantes. são um direito garantido pela Constituição conscientização. dentro dessa lógica. talvez. Paulo Freire deixou sua marca meu foco será principalmente a religião. povo entre povos.

nas Diretrizes Curriculares Na. [. por tenha mais informações sobre as práticas religiosas da Educação. “É preciso tomar cuidado com julgamentos. "As reflexões de Joaquim cações que acabam. MUNANGA. 356p.38-51. ou sua cultura são os melhores. A discriminação racial pode ser con. A Integração do Negro na So- povos Ioruba. REZENDE. é uma simples magia. -racial. no interior da cultura. 2006: p.. Alfabetização e Diversidade. p. estudar questões relacionadas com a temática negra. de estabelecimen. 2006 – processo de diálogo entre teologias. GOMES. culturais são o motivo do não desenvolvimento e pro. os Orixás são as divindades apenas dos Segundo Munanga (2006). entre os séculos XVI origens étnicas. Universidade impressão ao professor e ao aluno de que o Candomblé com o mundo mágico e sobrenatural. 2007. Tecnologia e Ensino cometam algo considerado incorreto pela sociedade. mos que a religiosidade de matriz africana foi o recurso Petronilha (2005).. Programa de Pós-Graduação em Edu- bá. de um sistema social vo. 2. como Voduns. Florestan. que o livro didático gresso da nação. seus adep. Brasília: Ministério continental. segundo autores.). (Coleção Para Entender). 2006: p. tos de elos com o Criador. Maria José de.. o campo do preconceito. E também é preciso não-cristãs. Sociologia. PROGRAMA DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA candomblé dão proteção às pessoas. E é isso que devemos mudar através do do século XIX e no início do século XX". na escola. tanto passíveis de serem mal interpretadas. quando na verdade foi um complexo principalmente quando falamos em religiões afro-brasi.] racista que possui mecanismos para produzir as desi. étnicas e deixar claro que os africanos vinham de vários luga..Universidade e XVII. divindades de Inquices e os povos Jêje as nomeavam culturais africanos com o catolicismo. Secretaria de Educação Continuada. étnico racial.]. os povos de língua bantu chamavam suas sileiras se formaram na fusão de diferentes elementos formista sobre as atitudes preconceituosas. A percepção do preconceito racial em nosso país Superior/ SETI – PR. COAN . Estas práticas racistas manifestam-se. construção ocorrida no Brasil a partir de múltiplas ra. os vários povos europeus. exemplo. A característica vezes ocultam a ideologia que persiste ainda hoje em 1978. da identidade negras. São Paulo: Ática. Suas cerimônias são realizadas em língua africana. apesar de uma identidade los africanos. Aqui também as explicações são mínimas e por. implica práticas discriminatórias sistemáticas fomen- tende a ser reduzido a uma simples associação com os cêntrica. nossos ancestrais africanos enriqueceram a nossa cul. Seus deuses são chamados de Orixás e repre. as religiões afro-bra. Centro de Ciências da sentam as principais nações africanas de língua ioru. sobre esses cultos. é preciso ter um cuidado extra e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. CONSE- tos associaram seus deuses a santos católicos. O conduzir o aluno a uma atitude de respeito e consi. [. Nilma Lino. A umbanda se Os autores não abordam a temática da história e Os autores do livro didático escrevem que o candomblé propagou por todas as regiões do Brasil. e de crenças europeias. guidas pelos livros depois da aprovação da lei 10. Superando o Racismo res. que muitas ciedade de Classes. Como sabe. 74 75 . que estabeleceu a obrigatoriedade do ensino étnico. 2006. O Podemos perceber que o livro didático aborda a questão sejam desencorajados de prosseguir nos estudos e de universo para os umbandistas é habitado por entida. não possui uma teologia desenvolvida. ainda hoje. cultura e história. de muitos países e que. rençar. tanto na presença de personagens ne. buscando o respeito às populações negras.143) na ausência da história do povo negro no Brasil. cação. dife.PR. A umbanda aparece no livro como uma religião bra- CONSIDERAÇÕES FINAIS menosprezados pelo fato de seus antepassados terem 2006. nos negro no Brasil de hoje. ter certo cuidado com o fenômeno do “sincretismo” que simplesmente julgá-las a partir de nossa verdade etno. Marival. por construídas. se construiu ao longo de séculos. Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos. propostas pedagógicas des espirituais – os guias. tadas pelo Estado ou com o seu apoio indireto. 2º edição revisada. Os autores possuem um discurso simplista e con. de relações entre os santos e os deuses cultuados pe. No Brasil os taria de Estado da Ciência. 2006: p. mas não deter. preconceito. [. 1-2. ritos e mitos que leiras. os mais corretos e isso lhe O CANDOMBLÉ médiuns. [. rial didático e a categoria trabalho. mas de forma superficial e etnocêntrica. que entram em comunica. e é frequen. “O etnocêntrico acredita que os seus valores e a ção com as pessoas por intermédio dos iniciados. Como básico para a conservação da memória. desencadeada pelos africanos escravizados no Brasil para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira candomblé não é originário da África. Florianópolis. Curitiba: SEED . Kabenguele. criando o quando buscamos fazer uma descrição e uma análise e Africana nos diz que é preciso valorizar. ed. MUNANGA. eram tão diversos entre si quanto são.. A UMBANDA plica criar condições para que os estudantes negros não sejam rejeitados em virtude da cor da sua pele ou VÁRIOS AUTORES.]”. DF. derno Uniafro. 2007..139/140) ensino de história e cultura afro-brasileiras e africanas afro-brasileira: construindo novas histórias . até as coletivas.. São Paulo: Global. Educação.Ca- nas escolas. da cultura e cionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais esta forma de religião foi proibida no Brasil. (MUNANGA. 180) . ízes africanas. v. que deveriam ser se. 2006: p. 181) BIBLIOGRAFIA a pomba-gira. A Sociologia no ensino médio. dando a tura com diferentes expressões e formas de se relacionar revela a existência. com o que está além do que siderada como prática de racismo e de efetivação do compreender a situação do negro no Brasil no final costumamos considerar como mundo racional”. apesar das “boas intenções”. um mecanismo de defesa e que Tanto a religiosidade negra como outras expressões gualdades raciais dentro da sociedade. Esta informação é importante para politeísta do culto católico possibilitou a construção nossa sociedade. cultura afro-brasileiras como são defendidas pelas di. para que possamos compreendê-las e não “A forma institucional do racismo.639/03 sertação (Mestrado em Educação) . (MUNANGA. Gráfica e Editora. religiosas devem ser compreendidas como formas A palavra discriminar significa distinguir. Nabuco e as de Manoel Bomfim: Elementos para legitimar os preconceitos e as avaliações pejorativas. Defendo. acompanhadas de cantos e sons de atabaques. Londrina: Idealiza sua descendência africana. Tais julgamentos podem facilmente deslizar para livros didáticos. v. Material Didático Alternati- Esta frase pode ser muito mal compreendida. Cultura NANGA. Dis- os primeiros escravos africanos. resultado da fusão de duas religiões africanas: sido explorados no processo de escravização e que não a cabula e o candomblé. – 266 p. FERNANDES. Kabenguele (org. Federal de Santa Catarina. 2005 – 204p. Isto im. discernir. Estadual de Londrina (UEL). mas sim uma deração. a fim de respeitar os processos históricos de resistência negra nais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e Existem alguns equívocos nesta abordagem. Brasília. o mate- é originário da África e chegou ao Brasil junto com tada por pessoas de todas as classes sociais e todas as retrizes curriculares específicas. (MU.]” (MUNANGA. o preto velho e outros. é suficiente. desmistificando os preconceitos que incidem e por seus descendentes. Secre- minam como elas devem agir e não as castigam caso “A religiosidade negra é rica e variada. 3. Os guias assumem formas como o caboclo. sileira.UNIVERSIDADE SEM FRONTEIRAS. também. desde as formas individuais e Africana. São estas colo. portanto. sócio-antropológica de suas características. da discriminação racial e do gros com imagens deturpadas e estereotipadas quanto Os autores prosseguem dizendo que os deuses do racismo”. O santos católicos. divulgar e LHO PLENO-DF.. Diretrizes Curriculares Nacio- que se conhece como sincretismo religioso. 2005. de que as diferenças raciais..

p. dos Africanos. mas também outras moda- Artística e de Literatura e História Brasileiras (BRASIL. negra brasileira e o negro na formação da sociedade Couto. ensino de Literatura.639. em muito se asseme- e 79-B:Art. El objetivo es. como dispõe a Lei Federal 10639 valore el proceso de estúdio y de inserción en sala de clase de las Formada em Letras pela Universidade de janeiro de 2003. os motivos para o aumento desse interesse se lha a Guimarães Rosa. cuja Martins – poeta cabo-verdiano ¬– com as de Manuel § 1o O conteúdo programático a que se refere o caput vigência no Brasil teve no início em 2009. nacional. A partir da reformulação da Lei n°9. Art. é preciso atentar-se para a riqueza artigos. Em relação à intertextualidade. deparamo-nos com a dificuldade de proporcio. resgatando a contribuição do povo negro nas p. aborda as produções literárias brasileira lidades artísticas. como por exemplo. acredita-se que o de. p. 1o A Lei no 9. Cavalcante (2003. de modo a ampliar o conhecimento 2003).639. econômica e política pertinentes à História Embora os autores divirjam. Cereja e Cochar (2009. a publicação Bandeira. por sua vez. pues. a luta dos negros no Brasil. De acordo linguística. de escritores africanos. não somente textos literá- o currículo escolar. Aluna do Programa de Pós-Graduação em Palavras chave: Literatura angolana. UNIFIL e de Literatura Brasileira do Ensi- no Médio do Colégio Londrinense. ao se considerar que há re- canas Lusófonas ainda não são uma realidade nas salas sistência para o efetivo ensino das literaturas africanas A Lei n° 10. 9). Mia nos versos de Antonio Jacinto. com os do escritor mineiro. Encontramos em ou- do Brasil. 26-A. a crítica literária tem constante- passa a vigorar acrescida dos seguintes arts. conforme se lê abaixo: Por outro lado. como Pepetela. e mesmo do poeta português Luís de Camões.394. a proposta visava à inserção do en. 50) enfatiza que de língua portuguesa. dagem a partir de um viés histórico. e em tras linguagens. ou seja. ou seja. safio está posto aos professores de um modo geral. 9) sina. 8 anos A resposta para tais questionamentos ainda não depois da publicação da Lei. que estabeleceu a obrigatorie. p. em especial nas áreas de Educação língua portuguesa em uma grade curricular que. de 2003. dezembro de 1996. ros. A questão é: de que modo cinema. 26-A Nos estabelecimentos de ensino fundamental dade do ensino de cultura africana e afro-brasileira nas Além desse autor. 26 em eles. literaturas africanas de lengua portuguesa. 151) enfatiza ainda que ela leva “à descoberta do ca- áreas social. de 20 de dezembro de 1996. 79-A mente feito a aproximação dos textos do moçambicano e 79-B: lei federal 10. de 9 de janeiro de 2003. sileiros pelas literaturas africanas de língua portuguesa linguagem de Mia Couto que. Palabras-clave: Literatura angolana. de detalhes que os autores africanos oferecem com a lizam que “o interesse do público e de estudantes bra. e portuguesa? E ainda: o estudo das literaturas africanas cultural do aluno no que se refere à cultura africana. deve ser inserido somente a partir de uma perspectiva sino das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa histórica? INTRODUÇÃO em sala de aula. de aula do país. assim. Luandino” (CEREJA. intertextualidade nas composições em verso de Ovídio ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira. e a vinda constante. Pretende-se.394. ou ainda. pode ser definitiva. Como se nota. 1o A Lei no 9. há rios podem ser abordados. por meio da leitura e análise de RESUMEN Este estudo tiene por objetivo presentar. oficiais e particulares. tornou obriga.394. possibilidades de análisis de poemas de poetas de Angola (Viriato da Cruz y Antonio abordagem das literaturas africanas de língua portuguesa em sala Jacinto) y de Cabo Verde (Jorge Barbosa y Ovídio Martins). minho para a aula de literatura. é possível destacar a presença da e médio. de 20 de ensino. rica em neologismos. 77 . Exemplo pode ser dado com a Art. posibi- Claudia Vanessa de aula. 26-A. nar ao educando” o conhecimento da riqueza cultural oferece valiosas possibilidades. linguagem e temática. No entanto. 79-A tem aumentado muito nos últimos anos”. na de outras artes (pintura. iniciar a abor- aula. Literatura Brasileira também pela UEL. Letras da UEL e professora de Literatura Literatura brasileira. Literatura cabo-verdiana. como dispone la Ley Estadual de Londrina e especialista em Federal 10639 de enero de 2003. Machado (2010. torna-se obrigatório o escolas públicas e privadas de todos os Estados brasilei. que. as marcas da influência de José de deste artigo incluirá o estudo da História da África e de várias obras de autores africanos. cação Nacional (LDB) foram acrescidos os seguintes africana. muito tempo. § 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura especial aos de Literatura. grande nome da Literatura Bra- Art. Infanto-juvenil do curso de Pedagogia da Literatura brasileña. esculturas. a cultura ao Brasil. Literatura cabo-verdiana. suscitar uma discussão que valorize lidades de enfoque de las literaturas africanas de lengua portuguesa Bergamini o processo de estudo e de inserção em sala de aula das literaturas em sala de clase. COCHAR. o que se observa. justificam por conta da sileira.”. teatro) o material que pode auxiliar na leitura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo é possível (e viável) inserir as literaturas africanas de do texto literário. a través de la lectura y poemas de autores angolanos e cabo-verdianos. Alencar. o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. de 20 de dezembro de 1996. à Lei de Diretrizes e Bases da Edu.propostas pedagógicas Literaturas africanas de Língua Portuguesa em sala de aula: uma possibilidade? RESUMO O presente estudo visa apresentar. 2009. No entanto. poeta angolano. é que as Literaturas Afri. verifica-se que muitos caminhos tório o ensino de história e cultura africanas em sala de “em meio a tantos problemas relacionados à prática de podem ser seguidos. enseñanza de Literatura. Nesse aspecto. plantear una discusión que africanas de Língua Portuguesa. com sua experimentação passa a vigorar acrescida dos seguintes arts.

Assim. Cenário que mu. escrever. Este brasileiros. Eis o momento de iniciar um discurso características a influência da tradição da oralidade. Segredo da Morta (1935). mas não aponta soluções para os problemas conteúdos escolares aos quais tiveram acesso. 2010. pois abordam os recursos emas mencionados. estes. a partir de 1936. cunho político-cultural que incitava os jovens a des- zador. de Queiroz e de Marques Rebelo” (FONSECA. no de que eles faziam parte mas que não figurara nos lhar os motivos que levaram a pesquisadora a elaborá- países colonizados. porém. literários e deixando para trás a poesia que se fazia a XX. a epopeia COCHAR. problematizar para quem a literatura era uma forma de resistência processo embrionário da literatura brasileira passou Fonseca (2010. os ideais que sustenta- de textos. de Raquel contexto em que se inserem Viriato da Cruz e Antonio -verdianos. torno de Luanda e das localidades próximas” (CHAVES posições poéticas. miséria. Assim. estende-se a reflexão que o cerca. fortalecendo as relações entre literatura e em artigo publicado em 1978. que antecede ao movimento. da parte Ovídio Martins. elaboram. tomando Nesse contexto. res. uma discussão ne- as quais muitas vezes estão presentes nas composições. 2000. poeta Viriato da Cruz e Antonio Jacinto fizeram parte do colonizado” (BONNICI. destacando elementos da formação da literatura partir das normas temáticas eurocêntricas. Soma-se a essas (BONNICI. propostas pedagógicas Desse modo. além de dou. elencados por POEMAS DE AUTORES PRÓXIMAS E DISTANTES Embora importante para a configuração de um Fonseca (2010. do e seus efeitos devastadores” (FONSECA. 14). é na verdade. seguem as considerações tação que pudesse indicar algo diferente dos critérios 1999 apud FONSECA. a geração de jornalistas-escrito. serão destacadas. de Jorge Em relação à formação da literatura angolana. o primeiro construído pelos portugueses. 3). possam expressar a subjetividade dos sujeitos que as finais deste estudo. para entrar em consonância com a lei e aos movimentos literários dos quais eles participa. significa: falar contra. p. determinante histórico tem relevância suficiente para Ainda é possível aludir aos aspectos da oralidade. p. AFRICANOS LUSÓFONOS: DO BRASIL novo cenário. romance cujo enredo “incor. 14) destaca que essa escrita di. que estes possam ter uma compreensão das literaturas dos países a que pertencem os autores selecionados. e romances de Graciliano Ramos. pelo diálogo constante com a literatura europeia e o cabo-verdianos terem. padrões ocorre de modo letárgico. embora o -verdiano. canônicos ou políticos”. com o lançamento da revista Verde como região única (CARVALHO. 19). ‘Você: Brasil’. a literatura ocidental dentro da perspectiva imperialista. a destacar quais traços culturais a diferenciava de outros to de que um povo colonizado necessita de libertação Ovídio Martins. mostrar a intimidade. 2009. 15). nos quais a intertextualidade se faz presente. como nomeou Fonse. 37) e o nativo precisa ratificar que há uma Para tanto. os ‘claridosos’. ceram forte influência sobre os escritores angolanos. na literatura que se formou nos que versa sobre o mundo que rodeia o homem cabo. bramento e uma descoberta instigante para os autores e estético” (FONSECA. dividiu-se o estudo em três etapas. pois é preciso con. escrever contra” país. visa a discutir as possibilidades de abordagem de textos contra o colonizador. entende-se que essa primeira foram feitas considerações acerca dos autores trazendo a realidade que cercava a ilha para os textos precursores da literatura angolana situam-se no séc. consequentemente. e ‘Namoro’. está inserido Jorge Barbosa. observa-se que ela “também reflete a influência movimentos de que participaram. Silviano Santiago. p. de que diariamente se defronta o cabo-verdiano: a fome. mas também o papel da literatura nacional para o povo da literatura africana de língua portuguesa. a esses objetivos do movimento outros. nos mentiras colonialistas no continente inteiro” (BONNI- angolano Viriato da Cruz. 2000. Tais características podem ser visualizadas no poema fluxo histórico: a dominação colonial portuguesa. cada país lusófono tem suas especificidades Amado. já chamava a atenção nismo dos claridosos. Bonnici (2000. países do continente africano. e a idiossincrasia do homem isleno e reafirmar Cabo Sérgio Paulo Adolfo (S/D. “falar. ser exposta aos alunos de modo ram. tência das populações. p. recionada pelos valores eurocêntricos estava atrelada sócio-econômico provoca fortes mudanças culturais. 2010. como referência os poemas: ‘Carta de um contratado’. de antecedentes e precursores de caráter social. suas gentes e seus problemas. poeta cabo-verdiano. pois ao contexto dos países africanos de língua portuguesa. Jubiabá e Mar Morto. por conta do lirismo intimista sociedade. ta Claridade. sociológicos e culturais presentes nas com- que podem auxiliar o aluno à compreensão dos textos potência imperial não permitiam qualquer manifes. Em problemática que a envolve. foi realizada a análise dos po. Jorge Barbosa. 2010 p. fessora de Literatura nos níveis médio e superior. essas marcas aparecem para “estreitar países africanos lusófonos. p. visto que Cabo Verde só se tornou independente cobrir Angola em seus diferentes aspectos. 26). mas aqueles que são considerados pela crítica os cultura negra. de modo que a literatura e a história poéticos abordados. Os participantes da geração da revista Claridade anos 80 do séc. pode ser destacado. EM SALA DE AULA modificada por conta da influência. não se pode deixar ao abordar em sala de aula poemas de autores africanos Esse elemento híbrido é entendido como as marcas do composições literárias a identidade cabo-verdiana e a de comentar as semelhanças dele com a Semana de Arte lusófonos como possibilidade de trabalho com crianças 78 79 . momento em que a “literatura brasileira. Antes de iniciar a análise. empreendermos estudos comparativos entre as duas. que também colaborou na revis. 02) assinala que “as li- africanos de língua portuguesa. 26). Do panorama literário cultural e que o “intelectual nativo deve lutar contra as do poeta cabo-verdiano. que destaca o fato de os poetas e indagar a vida nas ilhas. o elemento híbrido e. Este em especial era contrário ao evasio. o As ideias de Santiago se confirmam no estudo de ções posteriores à Claridade representar. um mote de siderar a realidade da sociedade dependente do coloni. Jacinto. Nota-se que era comum aos participantes das gera. teraturas angolana e brasileira nascem sob o mesmo in- escritores europeus. identificar as semelhanças na forma. ou melhor dizer. as secas.” pois embora se mencione aqui as literaturas de língua de José Lins do Rego. p. a ruptura com esses O nome do movimento que se inicia em 1948. política e cultural à opressão em que viviam” (CEREJA. XIX. pois como se sabe. p. cuja poesia se preocupa em revelar “as situações com movimento “Vamos descobrir Angola”. 6). p. dentro dos na linguagem. diferindo o país de outros Moderna e. cultura precisa. “Vamos descobrir Angola”. já que é possível que o professor permita. poeta angolano. africanas de língua portuguesa. seja pela constituição histórica do “as propostas estéticas do Modernismo brasileiro de do ensino médio. mesmo caminho foi seguido pelos escritores de países “olhos fixos nos clássicos europeus”. 286). da qual fez colonialismo. a falta de esperança no dia de amanhã. teiras da história. cujo intuito era Papel este que é a alavanca para o entendimen- de Antonio Jacinto. quanto os angolanos iniciaram. faz-se necessário comparti- para o fato de reinar. pora marcas do momento em que o desenvolvimento africanas de língua portuguesa que excedam as fron- Num segundo momento. tomaram como modelo os autores Claridade. ‘Antievasão’. e a poesia de Manuel Bandeira foram um alum. seus dialetos ou mesmo outras línguas. UMA RIQUEZA CULTURAL ca (2010) os poetas da geração da revista Claridade). o presente artigo cabo-verdianos. sobretudo ao aluno mais os laços do poder conquistador”. algumas vezes. CI. 13). romper com o tradicionalismo cultural imposto pelo Sabe-se que os países colonizados tiveram sua cultura foram combatidos pela geração posterior. cultural cessária para se conseguir a “descolonização da cultura” a oferecer ao leitor parte dessa cultura. debruçar-se sobre Angola e sua cultura. acredita-se que tanto os poetas cabo- portuguesa. de modo a enfatizar os aspectos à “manutenção da ordem e as restrições impostas pela mexendo no cotidiano daquelas populações fixadas em estilísticos. autor de O aqui já mencionada. A nova geração conseguiu ir além e trazer para as Ao observar este movimento. fase do modernismo: Menino de Engenho e Banguê. O primeiro deles se refere à sua prática como pro- autor fale em relação à América. qual se configura como identidade cultural em África. que. posteriormente. denunciar a dramática exis. 2010 p. Somam-se ANGOLA E CABO VERDE: de Portugal em 1975. conhecer profundamente o mundo angola. seja pelo isolamento da ilha ram a primeira fase do Modernismo no Brasil. populares. 1978. p. É o caso de Antonio de Assis Júnior. de modo que e seu clima inóspito. 10). 1922 e as discussões em torno da nacionalidade exer- ção da literatura brasileira e na formação das literaturas (SANTIAGO. entende-se que a partir da abordagem colonizador na produção cultural do colonizado. p. 2). principalmente os romances neo-realistas da segunda ‘Antievasão’ de Ovídio Martins. Na plantaram os alicerces da nova poesia cabo-verdiana. s/d. 2000. p. p. no período pós-colonização. Por fim. Da mesma forma. Vão além. -la. e refletir sobre a “função da Diante das reflexões aqui tecidas. atentar para as aspirações imposição da cultura do colonizador.

O poema está Gomes. como escravos. logo a partir sabe. broche. fruto é odorífico e ácido. românticos. A linguagem alta. o também do quimbundo que pode ser traduzida por an. elementos deixadas pelo colonizador. num contexto em namorado e lhe dá um não como resposta. de que o poema é denso e. à medida que se lê. recorre à Santa para a América. a sua influência a outras terras e outras dominação. Desiludido. 1978. o que não é estaduni. da cor do Na quinta estrofe. em geral. 16). aguardando a saída dos navios a ‘voz’ do subjugado. cartão: “Mandei-lhe um cartão/que o amigo Maninho o quarto é o mais forte. carta à amada. Essa medida aconte- ainda estão enraizados na cultura brasileira os ideais em países quentes. cuja casca é dura. acolchoamento. E. destaca que se preocupa em “minimizar pele macia – era sumaúma/ Sua pele macia. visto que procurar a quimbanda faz parte de údo do poema nos conduz a um pseudo-romantismo que uma criança optou por praticar judô e não ballet. do angolano Viriato da Cruz2. embora seu problema. destacam-se as palavras como: sumaúma. De tom O outro motivo foi a indagação feita à pesquisa. como colar. observa-se que rém. Não se deseja aqui promover qualquer discussão de cunho re- mais ela disse que não. inicia-se a análise do dizer que a moça é perfumada. Imediatamente a mãe da garota foi questionada sobre partir de outros poemas. como se vê em: “um sorrir lu. pois se o Brasil é um país com pre. com versos polimétricos e bran. de Antonio Jacinto. uma condição sine qua non para a inserção do estudo maboque. Pode-se religiosa do país. Os homens. Nota-se como a fé do colonizador aqui se a jovem. blica de Angola: vez. querendo resolver africano aproxima as pessoas. a partir dele. Tais exemplos servem para reforçar a ideia Viriato da Cruz não oculta. por meio da rumba. Em- A especialista em Literatura cabo-verdiana. dos quais. la. pitães de Areia’ e ‘A morte e a morte de Quincas Berro A partir da análise do poema. com a abolição da escravatura em Angola. no soneto poema ‘Namoro’. É o caso de ‘O Pagador de Promessas’. também do quimbondo. nesse caso. o eu-lírico tipografa seu sofrimento em um seia em quatro tempos em cada compasso. porque esta foi feita no terreiro de can. é compacta. Em para compor seus versos. vida e morte. as marcas depararem com a problemática trazida pelo romance. moro seria tanto o namoro em seu sentido denotativo.lírico recorre à quimbanda. ao som de uma rumba e no meio ‘Amor é fogo que arde sem se ver’. Nota-se que eu-lírico. nas referências. 80 81 . O título do poema faz referência aos contratados. Edgar do Xavier. tampouco se deseja adotar uma postura preconceituosa quanto ao cristianismo. artísticos e culturais podem ser abordados. a fim de conquistá-la. quis o destino que os dois se encontras./ Seus seios. homens angolanos que iam trabalhar nas minas de dia- se só o segundo pudesse ser digno de ser praticado. sobretudo do Romantismo. por sua mente curto. para que ela lance um no emprego desses recursos que elementos históricos. Na primeira estrofe do poema. em sua poesia. cujo conteúdo confirma as duas possibilidades de Santa Bárbara. evoca estas origens e justifica o paralelismo melódico de Mia Couto como leitura obrigatória ao vestibular da Na primeira estrofe e na segunda. mais. simulacro que se quer mais e mais de onde foram extraídos os poemas aqui analisados. Assim. ritmo que se ba. Nesse sentido. Porém. também de um poeta angolano. Angola chegou por meio dos escravos moçambicanos nhece o saber acadêmico (escrita) e. eu-lírico se concretiza com a dança. referindo-se. a mostrar que o poeta co- ligioso. tureza remetem aos poemas e a trechos de romances gem está no quimbundo. a dominância cristã. como nos quais o amor e a natureza estejam presentes. Jorge Amado deixa muito ex. o vocabulário. pueril. ele chegou até dores. é ‘Carta de um contratado’. ela disse que sim. a fim de conquistar a amada. recorre tanto à mulher típica da cultura dança e a música são associadas aos ritos de fertilidade.. Ade. de nascimento. Ademais. gentes. da dança.. O segundo poema. Po. tada do mesmo modo que a casca do maboque é difícil sem em um baile. ministrada para o curso de Pedagogia. está presente. drama no qual se tem a personagem Zé do Bur. a rejeição. o que se via. efetivamente. das literaturas de língua portuguesa produzidas nos As comparações da beleza da moça com a na. isso se deve ao fato de o cristianis. terístico de países colonizados. traço carac. cos. laranjas . por isso. -juvenil. Nor. tampouco as rejeita. a inserção do livro interpretação para o título. Nessa estrofe. revela que o ritmo musical semelhante ao original” (SANTIAGO. Nota-se que o desejo do escreveu: “deste mais que bem querer que sinto”. mas mesmo assim ela não o aceita como cussão que se pode suscitar para legitimar a atitude do romântico. depare em um único poema com um texto razoavel. nomeadamente ao Brasil onde o samba ainda Em relação ao Ensino Médio. Universidade Estadual de Londrina (2011/2012) gerou vale dos conhecimentos ocidentais para escrever uma plícito o sincretismo religioso em seus romances ‘Ca- interesse dos alunos das segundas e terceiras séries. Acre. p. minoso tão quente e gaiato/ como o sol de Novembro comuns às culturas brasileira e angolana podem ser bora em uma primeira leitura o poema se apresente ma Lima. Além de recorrer a ela. já revela a influência do colonizador na formação O título ‘Namoro’ sugere duas interpretações: na. querer mais que bem querer”. e difícil de ser conquis. no site do Consulado Geral da Repú- va às religiões africanas1. sendo com densa significação. Jacinto consegue fugir de aula. lógicos. da natureza africana. Entende-se então que o encontro do eu-lírico com não sejam “cópia. mantes da África do Sul com a falsa ideia de que seriam O aprendizado que se pode extrair da situação é que se refere a uma árvore nativa da África. é possível aqui oferecer ao aluno uma comparação a sua crença. as palavras do quimbundo permitem que e que no fundo o que se tem é uma forte crítica social. de ser retirada.” feitiço. pois Na terceira estrofe. torna-se derações que surgiram a partir de situações vivenciadas em sala gura da sociedade angolana. houve. em dense ou europeu tende a ser rejeitado. ou africanos à cultura brasileira. modo a despir-se de qualquer preconceito religioso. além da própria dis. cuja ori. Camões iniciou o segundo quarteto com: “É um não o gênero permite que sejam discutidos recursos estilís. embora o poeta critique os coloniza- tipografou:/ ‘Por ti sofre o meu coração’” e uma vez quem que o ritmo é originário de Cuba. o eu-lírico se Do mesmo modo. pois quimbanda é uma palavra. podem-se extrair signi- (maio/2006). anel. recorrendo a recursos tecno. o relacionamento. o eu-lírico quer darilho. uma ticos formais e histórico-culturais do texto. o sincretismo religioso. mas o feitiço falha. ro sendo proibida pelo padre de pagar uma promessa à do Século XV. de pronto. Chama-se atenção aqui para linguísticos. Antonio Jacinto dita-se que levar poemas para a sala de aula é uma pos. domblé à Iansã. a herança religiosa africana será ficados mais profundos dos recursos empregados pelo os estereótipos ou essa leitura preconceituosa que se jambo/cheirando a rosas/ sua pele macia guardava as valorizada. seguiram trabalhando visível a incorporação de aspectos culturais orientais refere-se ao fruto do maboqueiro. palavra 1856. Mas esse recurso também América. já que o eu .como o uma feiticeira ou curandeira. ceu quando foi barrada a saída de navios negreiros à eurocêntricos. É exatamente tem da África” e. como se ilustrar o relacionamento entre culturas. encontra-se uma Tecidas tais considerações. E como a mistura às atitudes do eu-lírico que. Já sibilidade única que não pode ser menosprezada. à fé cristã. possibilita-se que o aluno se angolana (Zefa do Sete) como às santas católicas. acredita-se que essa seja doçuras do corpo rijo/ tão rijo e tão doce . o continente americano por meio dos escravos. ele virou um mono-gamba. infelizmente. Conforme destaca que a primeira reação do grupo foi a referência negati. mas comum Já quase sem forças. observa-se que o conte- dora sobre um determinado esporte. por que a ‘força’ do judô e não a leveza do ‘ballet’. mas com múltiplos sentidos. o aluno conheça a diversidade da linguagem de Ango. Ao final do estudo. falhou. aqui mencionar obras brasileiras em que se tem essa Intimamente ligadas ao quotidiano das populações. Embora os dicionários expli. de namoros’. propostas pedagógicas dos Ensinos Fundamental I e II. culiaridade e força capazes de induzir. existente. Na cultura angolana. do modelo original que copia e permite que seus versos 2. de Dias música e a dança de Angola enriqueceram-se em pe- mo ser a religião imposta pelo colonizador e. marca de intertextualidade com Camões. típica fi. sobretudo na disciplina de Literatura Infanto. pois o quimbundo é uma língua falada em Angola. o eu-lírico decide presentear a remunerados e não escravizados. como também uma metáfora para questão. eram jovens ‘pisando em ovos’ ao se mente poética compara a beleza da moça aos elementos d’ Água’. estão disponíveis os livros Ifigênia e à Senhora do Cabo. a religião e a língua são as principais formas de dividido em 9 estrofes. num segundo momento. países lusófonos africanos. iniciação. Deseja-se somente compartilhar consi- O desespero o faz procurar Zefa do Sete. que além de outras línguas e dialetos. de onde se extrai óleo e paina para amada com presentes comuns às mulheres do Ociden. Referência esta que. linguagem dos poemas. Nota-se que. em entrevista à jornalista Juliane Rettich brincando/ de artista nas acácias floridas” ou em: “sua visualizados.laranjas do Loje. eu-lírico. embora seja Outra palavra é maboque. espécie de ‘arrumadeira que passavam por lá. no entanto. vale-se de um modelo de literatura portuguesa 1. te.

não havia escola para as crianças e jovens negros. poema que se configura como o ponto de iden. Portugal. o primeiro movimento que se deve já que este imagina ser o poema uma história de amor. como identidade? O que faz um homem sentir-se parte de terceira. como um irmão mais velho que se cultural de que Angola é formada. que ainda estavam sob o contratado’. Daí a Os dois países tiveram sua história feita a partir da Daí se iniciam as proximidades com os países afri- crítica de Jacinto. justamente por. seja pelo aniquilamento da cultura primitiva Antes. ainda que te. p. mas não fugirá. cujos sentimentos são como fez José de Alencar na descrição de Iracema. uma vez que as marcas da mesmos traços culturais. compar- vermelhos como tacula/dos teus cabelos negros como Os versos livres e curtos mostram a urgência do Para Oliveira (2010 p. Assim. Portanto. literários? Por que ser- reticências no verso final de cada estrofe demonstra a bo-verdiano. Ovídio Martins é contrário à Pasárgada de Bandei- gue. A Pasárgada de Bandeira. seja por conta do sofrimento causado pela ‘irmão mais velho’ elementos para a construção de uma muitas discussões sejam levantadas. ritmo híbrido. Não para se fazer cumprir a lei. com o rei. tem-se o poema ‘Você: Brasil’. Verde deseja ser livre como o Brasil. lugar de regalias. Não mostra os problemas. ‘Antievasão’. propostas pedagógicas A ideia de seguir a Europa como modelo para a Tomando a composição do poeta cabo-verdiano produção de literatura é discutida por Silviano Santiago Ovídio Martins. O poema de era visto pelos países africanos. Assim. pria. a tacula. guesa e. falam a língua brasileira’ do povo estão presentes nos versos de ‘Você: “somos um povo habituado à prática de convivência em que Angola impediu a partida de navios negreiros e do colonizador. a mostrar que é possível ficar doces como mel. há “uma ligação mui. encontraram na literatura produzida pelo tantes para a formação dos estudantes e permitem que o analfabetismo dos contratados. formaram-se a partir da miscigenação. não serve para conseguiu deixar de lado os elementos que permitem história. da língua. possuem um povo terno e alegre. ou do Ovídio se insere na realidade cabo-verdiana. na pele e no sangue de tantos brasileiros a escravidão e da inserção da escola em Angola. lugar de ter belas mulheres. outro poeta cabo-verdiano. ainda assim. o eu-lírico deseja pedir. seja pela influência lugar que não seja a realidade em que ele está inserido. antes de se iniciar a abordagem das lite- pensamento. tivemos canos. No Brasil. a os problemas e juntos buscar a sobrevivência. Por serem as questões preciosas à formação do que foi expresso anteriormente fosse tudo parte de um Nos versos de Jorge Barbosa. apresenta como contrário à fuga. por muitos anos. Manuel Bandeira. valorizando a ‘língua compreender e passar a mensagem aos alunos de que É preciso destacar que durante o século XIX. À medida que o poeta cabo-verdiano compreen. Somos um povo crioulo” (SANTILLI começou a enviar os contratados às minas de diamante. que não lhe ofere- virgem dos lábios de mel. mas Dessa forma. cria-se a comparação entre os dois países. aos quais era veta. com uma identidade pró. Nesse poema. domínio de Portugal. a realizações. do o acesso à leitura e à escrita. Considerando que Ovídio fez oposição a Jorge nação livre e independente. mas porque são ses (colonizadores) ou até mesmo de autores brasileiros. o elemento híbrido impera na literatu. Desejou-se discutir a vidas. enquanto geográficas e ambientais”. cultura e conhecem os problemas de outros lher como a índia Iracema. e ainda que se valha quimbondo takula. que vem quebrar a expectativa do leitor. apud SILVA et all. Assim. Daí o tom irônico de ‘Carta de um Nesse caso. tra um ser preparado para o que surgir. Nos versos: “dos teus lábios o eu-lírico deste poema. trazem indícios de que na história. somos postos em comparação desvencilhar-se dele. quando o eu-lírico cabo-verdiano e propror não fugir. Jacinto usa sempre elementos da natu. ser terra livre da a sua? Por que brasileiros e africanos compartilham dos mentos que passou junto com sua amada. Alencar também descreveu Iracema com lábios que ele apontava os problemas sem propor solução. imposição do colonizador. construir essa oposição. é enfrentar tinha oposto e que se tinha revoltado contra o jugo colo. intelectuais e escritores. uma cultura e uma literatura que já nada tinham a ra. bem como a relação de identidade dos Como sentiam a necessidade de ser livres como os no poema de Jorge Barbosa? Essas questões são impor- O poeta faz sua crítica na última estrofe. 82 83 . o poema não vem só acentuar as pro. Pasárgada é o lugar de prazeres. cultural. seja por conta brasileiros. no poema de Ovídio equivale à fuga da re. que buscam ser ou- uma discussão acerca de elementos históricos e sociais forte. Um tempo depois. dando os recursos da linguagem. na vida social que perpassam o poema. sociais. como a própria questão da deram origem ao que podemos chamar hoje de ‘nação viabilidade dos textos de literatura africana de língua e cultural. além da afinidade entre os Antonio Jacinto se mostra um antirromântico e se para descrever a beleza da mulher. Segundo anti. é na rumba. Oswald de Andrade e raturas africanas lusófonas em sala de aula. Jorge Barbosa. Conclui-se que melhor que fugir da ceu oportunidades. desven. da mesma forma para Manuel Bandeira. época porque os dois são frutos da colonização. tilham da mesma realidade brasileira: foram formados dilôa/dos teus olhos doces como macongue/dos teus eu-lírico em gritar que não deseja fugir. sobreviveu! E assim. nial e que agora procurava construir um percurso como que o namoro acontece. como os brasileiros. 84). dos recursos do colonizador. um devaneio para expor os sentimentos renças da natureza e das grandes cidades brasileiras e. textos como ‘vozes’ de muitos que. por conta disso. seios duros como maboque”. suplicar. com a diferença. portugueses) e índios convivendo. o qual remete a contrário. bem como promover sendo sua cultura quase sufocada pela do branco. alidade. e macon. é preciso pela moça. embora com contextos diferentes. e destaca as dificuldades de se viver ocultar a cultura de um povo. como já mencionado anteriormente. o poeta se vale da natureza nha que matar. literatura que fugisse dos ideais eurocêntricos. 84). elevam-se as dife. tem-se no título o prefixo (1978). nutridos pelo ódio do colonizador. árvore de onde se extrai uma tinta lhor que deixar a ilha. O uso das Por fim. Viriato da Cruz brinca com o hibridismo reza como o maboque (já comentado). dilôa. escola. alienação. seja dos próprios portugue. Jorge Barbosa permite a reflexão sobre: o que é Todo o lirismo do poema pode ser verificado na dá a solução para eles: expor a intimidade do homem ximidades linguísticas. percebe-se a descrição da mu. amizades deu o processo de formação da cultura brasileira. portuguesa e a necessidade de que sejam abordados na história de muitos africanos se repete. pois me. do país. mas não foge da intertextualidade com o autor para amada. cor escura. brasileira’ (BERGAMINI. O Brasil. ele compara dominação deixadas por estes já são suficientes para vimos de modelo aos países africanos de língua portu- continuidade desse pensamento. em Cabo Verde. adolescente. 2010. 2007). E conclui. porém. cabelos negros como as asas da graúna ‘Antievasão’ vem denunciar a vida difícil das ilhas que e buscar uma nova realidade. nos quais os alunos se deparam com Na segunda estrofe. que brasileiros e cabo-verdianos sejam um só povo. realidade é enfrentá-la e transformá-la. lutar e modificar a também reforça as proximidades ideológicas. fruto de sabor doce para caracterizar os lábios da Barbosa. prefere ficar ali e lutar. o eu-lírico se Santiago (1978). ver com as portuguesas (OLIVEIRA. Mas As considerações aqui tecidas não têm por objetivo merecem ser ouvidos. índios. como muitos fizeram. vie- CONSIDERAÇÕES FINAIS e revestir o aluno de entendimento para que receba os sala de aula podem partir da intertextualidade. pois Cabo uma nação ou identificar-se com outra nação sem ser mostra o sofrimento que sente ao se lembrar dos mo. Ainda se nota no poema de Jacinto a mistura nota-se que o emprego do Futuro do Presente já mos- de traços de outros autores. como se não pudesse seu país ao Brasil. geográficas e literárias. ram os africanos. vermelha usada em rituais femininos de puberdade. países que. para se referir aos cabelos. ao relatar cabo-verdianos com o povo brasileiro. crição do Recife de sua infância. mistura de povos. Brasil’. compõem Cabo Verde. e o sorriso mais doce que a jati. realidade. não textos são ricos. brancos (sobretudo. como se o natureza inóspita do Nordeste brasileiro. negros e brancos criar receitas para a sala de aula. e suas imagens do cotidiano e a des. fazer é retirar qualquer sentimento de superioridade As possibilidades de abordagem deste poema em dando forma a uma nova raça. quarta e quinta estrofes. tificação do eu-lírico com o povo brasileiro. já independente de apresenta como o colonizado. do poeta ca. E essas vozes. à corrida rumo a um ra produzida em países colonizados. seu desprendimento com a língua. 2011). infelizmente trazidos como escravos. to forte entre as duas realidades com tantas afinidades a partir de um processo de colonização.

p. that meaning.pdf. São Paulo: Atual. Portanto. Integrou a equipe do BRASIL. we shall try to JACINTO.htm vel em: http://www. Consulado Geral da República black people has a determined place. Arte e Ciência. esse segmento necessita de ações objetivas educação plural (NEAA/UEL). Poemas. Maria Gisele In: Folha de Londrina. 02. sistema de cotas e a Lei 10. Disponí. p. The principle of justice translates into the concessions for a reactionary elite. Acesso em 15 de janeiro de 2011. Maria Nazareth Soares. Porto BERGAMINI. Acesso em 10 de janeiro de 2011. Acesso em 10 de outubro de 2010. 2007. thus the way it is happening in Londrina africopoetica.639/03 Tokita Psicóloga. vinculado à Aceso em 18 de janeiro de 2011. Professora de Sociologia. recognition and access to the black people. 2000. graduada (ba- charelado e licenciatura) em Ciências estratégia de leitura. mento e preconceito. the quotes system maintenance.pt/pos.639/03. Ensi. Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo. EX/UEL. Martia Aparecida. Eduardo Pereira. Moema. 01. O principio de justiça se SETI/PR. ou seja. Thereza Cochar Maga. 2010. O Entre-Lugar do Discurso La. São Paulo: cesso seletivo e apresentamos as experiências do projeto LEAFRO – Laboratório de Cultura e Estudos Afro-brasileiros:diálogos para aula de literatura. cuja orientação cas. teórica e metodológica consistia colaborar com a implementação da Lei 10.jornal. We shall present the manners in which the combat politic -jacinto-carta-de-um-contratado/ Acesso em 19 de made by black community and university students is important for setembro de 2010. Drª. Key words: Antiracist Education. We should also show the experi- ences from the project LEAFRO – Laboratório de Cultura e Estudos Afro-brasileiros: diálogos para o reconhecimento e a valorização da História e Cultura Afro-brasileira no Paraná (Londrina e Jacarez- inho).ufrj. php. Uma que lhe permitam o acesso e estimulem sua valorização e reco- “insubmissos”). -brasileira no Paraná (Londrina e Jacarezinho). Mestrado em Teoria da Literatura. Entrevista com a Profª. RESUMO projeto LEAFRO . Semestral. jornalUFRJ1620. In: SANTIAGO. tura. 2009.php Acesso em 14 de setem. Na África e Afro-brasileiras: vetores de uma Rebeldia e Sensualidade no Suplemento Cultural SANTIAGO.pt/comparada/VolumeI/EXISTE%20O%20 OLIVEIRA.br/posletras/Nazareth_panorama. Silviano.639/03.639/09. CEREJA. política da comunidade negra e de estudantes da Universidade em 20 de dezembro de 2010. pdf Acesso em 18 de janeiro de 2011.639. 49-56. p. o objetivo deste ensaio é problematizar o Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. de Angola. Disponível em: http:// www. transformando a Estadual de Londrina. Londrina (Norte do Paraná). (PR).san. literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência nhecimento. Universidade de São Paulo. Sistema de lhães. 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Literatura africana em sala de aula: abordagens do insólito no romance A possível: As cotas Márcia Figueiredo ADOLFO. 3ª Ed. em: http://www. onde a popula. Érica. Literatura Portuguesa: em Maria Aparecida Santilli e o Prof.wordpress. 07. (Uma perspectiva da produção literária dos poetas tino-americano. O pós-colonialismo e a literatura: Acesos em 15 de janeiro de 2011. 20. língua portuguesa. Vol. realidade da população sionais do Projeto LEAFRO Laboratório de Cultura e Estudos Afro-brasileiros uevora. Racismo.pdf Acesso em: 15 de janeiro de fosso das desigualdades raciais e sociais. Lei n° 10. Vera Lúcia de. zalangola. William Roberto.consuladodeangola. Revista Eletrô- William Roberto Cereja. Alexandre Gomes da.pdf Aceso 1978. preciation. Disponível em: http://www.pucrs.fflch. Depto. 1. ção negra tem um lugar determinado. http://www. Dispnível em: http://www. o reconhecimento e a valorização da História e Cultura Afro- no de língua e Literatura: alternativas metodológi. do não acesso. Lei 10. Palavras chave: Educação antirracista. Ciências Sociais e PRO- traduz em privilégios de uma elite conservadora.fl. Dispoi. 2003. Efeitos psicossociais do racismo.639/03 law. Sérgio Paulo. creases the racial and social inequality gap.gov.ich. parados de Literaturas de Língua Portuguesa da cotas. Law 10. ANTUNES. São Paulo: Perspectiva: Secretaria da Cul. 84-87./jun. Viriato Clemente da. Canoas: Editora da Ulbra. Claudia Vanessa. Thomas. not access. Literatura Africana: desconheci- Sociais pela UEL. In: SOUZA. Disponível em: http://www. Terezi. Luís Filipe da Sousa Martins Torres de. Disponível em: http:// emid=55. index. Brasil e Cabo Verde: duas MUNDO%20QUE%20O%20PORTUGUES%20 margens do mesmo mar. jan. nível em: http://revistaseletronicas. Artigo de Opinião. Museu de Antropologia. S/D. Rio de Janeiro. Benjamin diálogo com outras literaturas de língua portuguesa. in witch the nha Taborda. v. Abdala Júnior. de Mia Couto.ul. Agosto raciais e a Lei 10.639. Poesias. Com método e criatividade: tuguesa: marcos e marcas – Cabo Verde. in which the theory and methodology orientation consists in cooperate with the implementation of the Law 10. Existe o mundo que o por- varanda do Frangipani.br/ccivil_03/Leis/2003/L10.php/navegacoes/article/viewFile/7192/5190 de Alencar BONNICI. Edgar do.

as cotas em O Brasil é um país de herança escravocrata. Quando os indicativos são estratégias objetivas para suprimir as desigualdades saúde. Isto significa que havia um contingente significativo em Durban. no artesanato.12. p. 1957. o decreto de lei número 1. No bojo instrumentos de transformação. uma elite racista que naturaliza a discriminação con- sobre o racismo como estrutural na realidade brasileira. promover uma realidade ma. O comprometimento orientadas pelos princípios da justiça social são “um vezes.uel. O Coletivo Pró-Cotas: diversidade e permanência na UEL rea. criminações Correlatas2. “tratamento diferenciado com vistas a corrigir desvan. 24 anos nos cursos pré-vestibular e superior (incluin- políticas de mulheres e homens negras(os) contra o cial. p. nos cursos ser ouvidas e respondidas pelo poder institucional. quanto à problemática do racismo brasileiro.htm. lema que tiva na Universidade Estadual de Londrina em 2009. institutos de pesquisas indicam um quadro de desigual- racismo: a educação. dentre outras. p.3% resultado das demandas internas da população negra e violência que a população negra sofria desde a escravi. Ministério do Planejamento. p.7% de negras(os) e 5. desigualdade social e principalmente racial. em 17 de fevereiro de 1854.031-A que “estabelecia que os negros só pode. 1957. em diferentes espaços. Discriminação Racial.7% de Este cenário propositivo que se instaura no país é reivindicavam correções contra as inúmeras formas de não-negras(os) e em 2008. Pedro Henrique Andrade diz que: Em 6 de setembro de 1878. inspirou o subtítulo de nosso ensaio. legitimou as práticas apontaram que no Brasil os cerceamentos aos acessos MOS. a partir de políticas afirmativas. no ensino superior. quanto das relações sócio-culturais. amparados pelo Estado bra. uma intervenção no Diretório Central dos parte das reflexões realizadas na pesquisa de mestrado em Ciên. sigualdades motivadas por qualquer forma de precon. do século XIX. racismo e discriminação.gov. considerada base do desenvolvimento humano. não se aplicavam.) No Brasil. em pequenos comércios. Rio de Janeiro.1964). Nos institucional. o movimento negro tinha clareza as mulheres e homens da sociedade. foram criadas impossibilidades legais para sas Coordenação de População e Indicadores Sociais.Instituto 1. 4. 184 – 200) 86 87 .174).165) discriminatórias em decretos de lei que engendraram im. em 1950. o ambiente escolar pode ser abrir canais de acesso. quisas realizadas em 2008 pelo IBGE. repensar a estrutura educacional que.7. a resistência em pensar as cotas ra- gendradas. educacionais e sociais ainda permanecem para as(os) POLÍTICA DE COTAS: possibilidades para que alunas(os) negras(os) frequentas. ção negra na educação tiveram suas primeiras expressões Em 2009 foram publicados os resultados de pes- que possam traduzir em formas ajustadas às tradições em meados do século XIX. a fim de desenvolver a Os meios utilizados para não contemplar a popula. cializadores do racismo e da discriminação.7% de negras(os) 14.2% de negras(os) e 9. sigualdades raciais e sociais”. A este respeito. o ponto de partida para a construção de ações edu- objetivas para a desconstrução dos resultados das de. p. ao passo que para 2. na arquitetura. “estabelecia que nas escolas públicas do país não seriam 2008. mas também a permanência de destas ações é fundamental apontar que este processo Guerreiro Ramos (1915-1981) defendia a necessidade considerado como um espaço social que pode tanto uma estrutura enraizada em privilégios e interesses de fomentou uma série de debates.] a inclusão de homens de cor nas listas de candida.) Isto porque o discurso universal da igual. O sociólogo Alberto damentais uma vez que. que Partindo da premissa de que a educação pode ser e 31. 2005. 2005. Mais adiante. 74% da po.7% de negras(os) algumas iniciativas políticas cuja finalidade é propor para a população negra. em todas as áreas da sociedade. declarava dos acabam sendo as mais discriminatórias”. companheiro de Alberto sem e se mantivessem nos bancos escolares4. trabalho. sileiro que. tos de agremiações partidárias.5%. 26. suas vozes passaram a lação negra iniciada com Abdias do Nascimento. em serviços domésticos. é pos. gras(os) e não-negras(os) acadêmicas(os) apresentou contra o Racismo.br/. negras(os). As práticas de promoção da igualdade racial no Brasil ção e o reconhecimento da população negra brasileira admitidos escravos. 2009.comitepaz. Pesquisas: Informação Demográfica e Socioeconômica. a partir dessas políticas educacionais -negras(os) e no ensino superior. das séries iniciais até o Estado brasileiro que resultaram em projetos políticos dade e de acesso à escolaridade desconsidera o fosso da ensino superior.86. (ANDRADE. que a quantidade de ne­ esfera internacional a partir da III Conferência Mundial era muito pequena. integrativos de capilaridade social capazes de dar fun. apontar alguns ção e posição aos elementos da massa de cor” ( RA. visto que estes indi- PARA UMA UEL DO POVO1 Guerreiro Ramos. não ter acesso aos saberes escolares. que pou. p. algumas ações estão sendo en. universidades públicas podem ser entendidas com um co se preocupou com medidas políticas objetivas para ceito. portanto. da população negra brasileira. Acesso em 23 de agosto de 2010. no I Congresso do Negro Brasileiro. Uma Análise das Condições de Vida da População Brasileira. educacional. As no ano de 1945. (BRASIL. como movimentos pró-abolição. quando fazem parte da população negra brasileira. acessado porcentagem subiu para 90% da população total (HASENBALG. Orçamento e Gestão . Desta for. Um ano antes da abolição (1887) essa uma margem de 21. riam estudar no período noturno”5. Neste período da história. por conseguinte. registrou nos muros do DCE a cias Sociais. Em 2008. em 1945 também ressaltava a impor.8% de não-negras(os). a quantidade de negras e negros escravizadas(os) Nota-se neste estudo.br/cne/ Acesso 2 em fe.. p. Mas nos últimos dez anos. na África do Sul. Embora os dados demonstrem determina- ABRINDO POSSIBILIDADES Abdias Nascimento. Estudos e Estudantes (DCE/UEL). assume um caráter de ordem discriminatória é de cada uma das nações envolvidas era elaborar ações conjunto de ações políticas dirigidas à correção de de. a margem foi de 28. especificamente especificamente no ensino superior. Ciências Humanas da Universidade Estadual de Londrina.0% de negras(os) e 3. E para essas Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. problematizar estas questões relacionadas à inclusão. maiores: em 1998 eram 2. MOS. últimos anos. alguns projetos 2005.org.3% de não-negras(os). 7. Em relação à distribuição de estudantes de 18 a não fazem parte de um debate recente. As Políticas de Ação Afirma. pois “as tra negras(os) brasileiras(os) e silencia suas vozes. desde essa época.6% de não- menos quatrocentos anos. 4) escravidão. sua capacidade política e formar líderes esclarecidos. 2. Neste contexto. dades em relação ao povo negro. Aprovado dos “avanços” ao longo de 10 anos. para todas referentes ao acesso de jovens com mais de 25 anos raciais e. Diretoria de Pesqui- lizou em abril de 2011. Esta conferência contou 3.) -negras(os). que os acessos ao campo educacional e 60. mulheres e homens. pré-vestibulares.. Assim. e a previsão de instrução para adul.331 cativos pautam-se na comparação dos dados de 1998 e tância de medidas objetivas para promover a valoriza.6% de aumento. pré-vestibulares. que aconteceu no ano de 2001 as(os) não-negras(os). em: www. nos 6. alguns anos antes do fim oficial da de não-negras(os)6. 4. Ao O objetivo deste ensaio é. pulação negra era livre. No Brasil. A reivindicação por políticas reparatórias para a popu. Este au- em 15 de janeiro de 2009. o fosso da desigualdade racial prevalece. e ainda não se aplicam. pois segundo o censo de 1872. 2. estrutura social excludente e discriminatória”. elementos sobre a trajetória percorrida pelas deman. Xenofobia e Dis. tos negros dependia da disponibilidade de professores”. já na década de 1930. de “instalarem-se na sociedade brasileira mecanismos transformar quanto criar e recriar mecanismos poten. a fim de proporcionar um cacionais antirracistas. 2008. práticas educativas que se pretendem iguais para to.2% de não- respostas vieram com a discussão e incorporação de apresentou propostas de políticas de ações afirmativas sível apreender. nais da população negra. número seguinte inscrição: “Cotas sim! Por uma UEL do povo!”.br/Durban_1. por INTRODUÇÃO organizações não governamentais. permanência e continuidade no sistema educacional das de negras(os) e os compromissos assumidos pelo ser imperativo na ordem social: 2001. para promo. os indicativos sociais apresentados por direcionados a uma questão central quando se trata do [. entretanto. as diferenças são social antirracista. na qual. cujos dados nacionais as reivindicações das massas de cor. 28. pela mesma instituição. foi aprovado o decreto de lei do mestrado e doutorado) tem-se em 1998 nos cursos racismo se inscrevem na sociedade nacional há pelo número 7. Disponível em: http://portal. Este texto foi publicado no VII SEPECH (Seminário de Pesquisas da população negra atuando em diversas áreas como na litera- em Ciências Humanas) promovido pelo Departamento de Letras e tura. políticos de intervenção estavam sendo pensados como No campo educacional estas medidas são fun. ciais estimula não somente a relutância do Estado em ver justiça social à população negra brasileira. dos compromissos assumidos pelo Estado brasileiro na dão3.mec. vereiro de 2010. disponível 5. Fonte: http://www. (RA. tanto do ponto de vista tagens e marginalizações criadas e mantidas por uma instrumento para contemplar as demandas educacio- inserir a população negra em sua estrutura social. as demandas como parte integrante na dinâmica da mobilidade so. entre outras medidas.(BRASIL. propostas pedagógicas com a participação de representantes dos Estados e de As políticas de ação afirmativa com recorte de raça Assim.1% de negras(os) ainda que de modo incipiente.( GOMES. (p.

as esta política no processo seletivo. graduandos de www. (BRASIL. à im. procotasuel. lam um descompasso entre o dito e a realidade his. com as(os) estudantes da UEL. bemos.19-20. orientar e promo- para promover a igualdade de oportunidades a partir ocultam uma realidade trágica e desviam as atenções ços de discussão sobre a reserva de vagas na Universi. A Lei 10.com. escolar. cotas raciais nas Universidades Federais de Santa Maria e São opressores de ontem não devem ser julgados pelos atos “a instituição escolar é vista como um espaço em que Carlos. 8-15) Sob a perspectiva de igualdade de oportunida. mas apenas ve grande mobilização da população afrodescendente podem. dos desafios imensos e das urgências. 88 89 . As ações são 8.blogspot. te processo de rupturas das amarras pedagógicas que por uma perspectiva de “tribunais raciais”7 ou de in. superior mais negra. Nas ações desenvolvidas Anti-Racistas Contra as Leis Raciais” divulgado pelos as desigualdades cristalizadas a mais de quatro séculos educacionais cotidianas. Segundo José Jorge de Carvalho – colabora. Ciências Sociais e Letras sob a coordenação das Ciências Sociais -manifesto-a-favor-das-cotas. 2005. De fato. de família de baixa renda e tiver cursado escolas públi. quando a Universidade aprovou. intervenções pela cidade de Lon. propostas pedagógicas mento deve ser analisado a partir das mudanças sócio. de 1979. brancas(os) e à luta por um ensino básico de qualidade. mas. foi elaborado o Manifesto em minatórias que mantêm a população negra à margem orientadas por uma série de atividades. as cêntrico idealizado como padrão. p. Após a III Conferência Mundial em Durban. A Lei visa tornar obrigatória a contemplação de des. denunciam gualdades entre negras(os) e brancas(os) nas práticas atividades propostos pela Lei. que institui as Diretrizes Curriculares para a limites e possibilidades de atuação e fundamentalmente racista e democrática. Nos relatos extraídos compreendemos os programa ProUni8. mento fundamental no debate sobre ação afirmativa tunidade de almejar o ensino superior de qualidade. potencializando o racismo e o sofrimento desconstruir os privilégios de uma elite conservadora pop-up/integra_manifesto_contra_cotas. ensino. em caráter provisório. as cotas não a transformação a partir do reconhecimento das desi. se pretende ficados como negros. da História e Cultura Afro-brasileira no Paraná (Lon- Por outro lado. privilegiados como a escola por meio de conteúdos e estes discursos destaca-se manifesto dos “113 Cidadãos “produzem novas desigualdades”.) racial em universidades públicas passou a ser um ele. 10. cabendo aos sistemas de -políticas ocorridas tanto no debate. mesmo no universo menor dos jovens que têm a opor. tendo em vista que a se. cerca de 64 universidades. 10. pois a(o) aluna(o) que tem acesso à academia Afro-Brasileiras e Africanas para promover a visibili.639. esta política será avaliada e haverá uma olhares capazes de ultrapassar os limites do viés euro- racial e traz no seu bojo a problematização da existência oportunidade de ingresso por menor número de pontos votação para decidir se continua ou não. tentativa de trazer a comunidade externa para a realidade fissionais das áreas de Psicologia e Sociologia. (CAVALLEIRO. 3/2004. Este projeto é vinculado ao Departamento de Ciências Sociais no Brasil”. Na contra mão deste manifesto. com implicações nos processos Educação das Relações Étnico-Raciais e o Ensino de o caminho a ser traçado. de agosto de 2010 e teve como objetivo ampliar os espa. quanto nas ações des sociais. seleção. cas arruinadas. Fonte: http://mariafro. que se processam formas complexas de (re)construção em 2009. a cota cionais. DE EXPERIÊNCIA promover a capacitação de professoras e professores clinação. Educadoras(es) e todos os membros da escola para a população negra brasileira. lho Nacional de Educação aprovou o Parecer CNE/CP e intervenção. como debates internos da UEL e financiado pelo Programa Universidade Sem Fronteira/ Favor da Lei de Cotas e ao Estatuto da Promoção da Igualdade da dinâmica social. Percebe-se que os argumentos apresentados reve. ainda permanece sob os efeitos discursivos da demo- de acesso não cria privilégios. ser considerados atores sociais des- pectiva de mudança e igualdade de oportunidades. Segundo Franz Fanon. A equipe é composta por pro- Racial em 2006. pela reserva de vagas passa pelo mesmo processo de dade e a valorização desses conhecimentos no espaço drina e Jacarezinho)10. Outro descompasso é referente ao processo de e Médio a inclusão de saberes sobre História e Cultura sileiros: diálogos para o reconhecimento e a valorização afirmativa com recorte racial. UEL (SETI-PR) de 2009 a 2010. nas falas dos alunos um rico material de análise as cotas para negras(os) em universidades públicas e o trário. Para problematizar superior. assumiram as políticas de ação branca. nência na UEL9. isto é. mas sim como ação provisória direcio.org. Fonte http:// Em Londrina. E. dade Estadual de Londrina. pois as questões relacionadas à discriminação discriminação no cotidiano escolar. À PRÁTICA: UMA ANÁLISE De acordo com o parecer da Lei. e estadual de ensino de Londrina e Jacarezinho. nem criar privilégios ou novos tipos de desi. no âmbito de sua jurisdição. mas sim das as cotas no Ensino Superior. na UnB (Universidade de Brasília). que torna obrigatório no Ensino Fundamental LEAFRO – Laboratório de Cultura e Estudos Afro-bra- federais e estaduais.639/2003. em sua obra executadas pelos estabelecimentos de ensino de dife. Para mais informações ver em http://coletivo. ainda que incipiente mas significativa. ver em entrevista: Kabengele: “Con. terpretar o mundo a partir de outros olhares. contendo cerca de 300 assinaturas.org.br/projetos/leafro).uel.html definida como Coletivo Pró-Cotas: Diversidade e Perma. política desmascara o discurso arcaico da democracia proporcionam a um candidato definido como negro a Em 2011. p. primeiro provier de família de alta renda e tiver cursado lítica vitalícia. 9.htm) LEI 10. branca que monopoliza os bancos acadêmicos. o importante é ressaltar que esta cadas. do racismo no Brasil. contra as(os) negras(os) não se colocam exclusivamen. o sistema concede um privilégio vo denunciar a fragilidade da sociedade brasileira. Segundo os autores: gualdades. na mídia. Esta expressão foi utilizada pelo cientista Demétrio Magnoli população branca. mas fundamentalmente tem como objeti- plados da mesma forma que as(os) jovens brancas(os).adur-rj. Sobre leção ocorre entre os pares. foi aprovada em 2003 a Lei das experiências do trabalho desenvolvido pelo projeto da UNB – em 2009. de aprendizagem tanto da população negra quanto da História e Cultura Afro-Brasileiras e Africanas a serem O cotidiano escolar é pensado como um espaço em 7. Diante da publicação da Lei n. Este coletivo foi consolidado no dia 12 rentes níveis e modalidades. E por fim. Inserida na mesma proposta do princípio de justiça que a Lei e seus desdobramentos partiremos de um relato dor na elaboração dos parâmetros do sistema de cotas te na esfera das desigualdades de classes. coletividades e instituições. para caracterizar o processo de seleção para Os Condenados da Terra.com/ (www. entre assimetrias entre a população de cor negra e a de cor 10. Apresentadas como maneira de reduzir as desigualda. (http://www. que Contudo. os descendentes dos das identidades de crianças e da juventude negra. como subsidio para discutir as práticas do racismo e da plementação desta política nas instituições de ensino tórica. perce- Ministro da Justiça um texto “argumentativo” contra Não é objetivo fomentar a discriminação ao con. mesmo se o cotas não foram pensadas na perspectiva de uma po. culo escolar. Ora por uma pers. as cotas raciais possibilitam que as(os) jovens colégios particulares de excelência e o segundo provier nada à igualdade de oportunidades entre negras(os) e outras matrizes culturais e suas contribuições ao currí- negras(os) oriundos de escola pública sejam contem. como apli. avaliação pela via universal. contudo. entre outras. grupo é resgatar as discussões desenvolvidas em 2004.639/03 DA TEORIA psíquico em crianças e jovens negras(os). ora acentuam desigualdades prévias ou produzem novas da cidade para efetivar esta política e alguns anos de.br/wordpress/?p=1398 . as cotas raciais não contribuem para isso. é fundamental Na atualidade. sim. pelo LEAFRO com o corpo docente da rede municipal meios de comunicação em 2006 que objetivava levar ao contra o povo negro. mas sim. 2005. da comunidade externa organizaram uma ação política da Universidade. portanto. ver a formação de professores e professoras e supervi- de 2001. É fundamental destacar o trabalho desenvolvido pelo Coletivo.br/artigos-sobre-cotas/confira-a-integra-do. de seus antepassados mas devem responsabilizar-se vido o geógrafo Demétrio Magnoli a ler o que escrevi sobre o negro que busca colocar na agenda de discussões a estrutura do racis- moral e politicamente pela reprodução das ações discri. pois podemos vislumbrar uma instituição de ensino discriminam e cerceiam qualquer possibilidade de in- constitucionalidades. Nesse momento hou. O objetivo da iniciativa era con- -cotistas que descaracterizam a objetividade desta polí. é importante ressaltar que este instrumento para candidatos de classe média arbitrariamente classi. que um candidato definido como branco.br/5com/ cracia racial. o Conse. cotas raciais não promovem a igualdade. há o discurso utilizado pelos anti. Acerca deste assunto. pois.639/03 pretende ser um caminho para tribuir com a valorização da cultura negra em espaços tica com o argumento da inconstitucionalidade.geledes. estudantes universitários e membros drina. desigualdades: “As cotas raciais exclusivas. com os quais se defronta a nação. mo que afeta indivíduos. mas sim promover uma educação antir. No fim. sociais e educa. a nação brasileira assiste uma in. Uma das preocupações do sionar o cumprimento das Diretrizes.

política e econômica. capoeira. o branco tem o privilégio simbólico da brancura. ora como protagonistas. 2002. Estes cursos consistem em quatro encontros mensais. de classe e de idade”. que durante a pós-escravidão geral. Todo este processo detrimento de sua própria natureza humana. fruto da apropriação do trabalho de quatro séculos ação da população negra para além daquelas que estão percebem os atos de racismo presentes no cotidiano As falas e silenciamentos podem ser compreen. estudamos entre os grupos humanos.. é possível dão muitos privilégios. “o negro tem preconceito contra a O racismo permeia as relações no Brasil. mas sim. supostamente não existem no universo deles (a questão negros: no final das contas. cuja especificamente sobre a realidade sócio-histórica do de intervenção. ora trazendo elementos novos. Os silenciamentos não significam apenas o não. crenças. política. traziam suas experiências e debatiam junto com beres escolares. não é mais possível tolerar o racismo e a dis- educação não desenvolvem ações pedagógicas para a negras(os). com sérias consequên­ conteúdos dos materiais didáticos. procura. Evitar focalizar o branco é evitar discutir as diferentes O trabalho do LEAFRO permitiu ao grupo como derada um espaço de reprodução de preconceitos mas vas. aí eles querem”. o que implica na interiorização e estes silenciamentos se configuram. interpeladas(os) pelas ausências de referencias positi. “. nada negra. (MU. etc. na ausência de dis. quais os significados para estas(es) educadoras(es) da na história do Brasil.. hábitos perceber em alguns momentos a falta de sensibilidade foram. priorizando a situação educacional. Este silêncio e cegueira permitem truímos cotidianamente com aqueles que participaram acabou por sobressair a insistente negação do racismo obrigatoriedade de discutir conteúdos e assuntos que não prestar contas. Como povo negro brasileiro.15) do livro “Menina bonita do laço de fita”. Na ausência de um olhar atento para cussões em sala de aula e na escola de maneira geral. brasileiras(os) se resume à escravidão. para apontar alguns exemplos. por exemplo. Para o público participante. no entanto.( para ver como as crianças e as(os) jovens negras(os) são paldando a fala da equipe. relações sociais e a vida. “aqui no Brasil. ao contrário.(CAVAL. em ajudar o cista não. ora res- e preconceitos raciais. calcada trumentalização da mesma em sala de aula. e a discriminação são percebidos não há nenhum tipo discriminação estão presentes no seu cotidiano escolar de ação afirmativa são taxadas de protecionistas. por parte de algumas professoras e professores em com. menta a continuidade da lógica escravocrata. pode ser consi. E por fim.. dar consistiria. Além te. é interessante trazer à tona o legado da escravidão. dimensões do privilégio. pois segundo Maria Aparecida Bento (BENTO. to do trabalho de formação que o projeto LEAFRO A discussão racial precisa estar em pauta em nosso co- o racismo e a discriminação. criminação. alguns professores. nos naturalização destes episódios. pois nos permitiu questionar LEIRO. ressaltamos a importância uma de coitadinho”. exteriorizam e demonstram que os caminhos rumo à trutura de classe. universo que traz informações sobre a história e a situ- Grande parte das professoras e professores não des raciais no ambiente escolar12. de fome. não sabem lançar mão das negra. é o que se pensarmos o Brasil com o corte racial. “o preto é pobre porque não se esforça”. Nos cursos de formação continuada realizados em za. Por essa razão. 20) “coitadinhos”. quando o racismo racial). muitas vezes NANGA. mas em uma elite dominante branca e uma maioria domi- as contribuições das literaturas africana e afro-brasileira para fator de complementaridade e de enriquecimento da se tocar um tambor. A este respeito Eliane Cavalleiro constatou didos como um instrumento para pensar e repensar em se evitar caracterizar o lugar ocupado pelo branco A riqueza do trabalho esteve nas relações que cons- que “do diálogo com esses profissionais (da escola). No imaginário da maioria das professoras e pro. escolar. As relações simbólicas encontradas em torno orgulho e dignidade os atributos de sua diferença. em vez de uma atitude responsável que disso.630/03. p. 71) Por outro lado. discutimos os processos de desenvolvimento das políticas do negro é por que ele mesmo gosta de se vitimar. são interesses econômicos ora como coadjuvantes. Como diz Souza. além de trabalharmos mecanismos para ins. eles se inscrevem nas relações de poder como mercados materiais ou simbólicos não são direitos. própria raça”. nos mostra Denise Jodelet (1989). Como indicou Bento. algumas questões podem ser problematiza. A partir destes elementos e com o desenvolvimen- cias psicossociais. Na maioria dos casos. de maneira geral. período da pós-abolição há um vazio histórico sobre as de inferioridade a população negra. portanto. mantidos. pois os brancos saíram da escravidão com professoras(es) negras(os) se reconhecerem em um so de desconstrução do racismo e da discriminação? algumas ações capazes de problematizar as desigualda. 90 91 . assim pensar-se-á que sim favores das elites brancas.. que para ela os resultados foram extremamente positi. pois faltam muitas vezes instrumentos e em diferentes espaços sociais. herança -brasileiros na escola. mas sem que esta premissa seja anunciada no 12. acarreta em intenso sofrimento psíquico. GOMES. p.. de gênero. Não podemos nos esquecer que o racismo valorização do ser negro e dos saberes africanos e afro. tiva. uma professora que desenvolveu um trabalho a partir Um dado importante é que as intervenções se de. 2005. em mostrar que a diversidade de ação afirmativa para o povo negro. políticas públicas As(os) alunas(os) que sentem o racismo e suas -dito. as(os) profissionais da gitimando um espaço de privilégios que não é o das(os) realizou. valores.estão. Possibilitou às(aos) ou não. cujas e na sala como momento pedagógico privilegiado para questões problematizadas partem de reflexões sobre a realidade profissionais. humanidade em geral. políticas compensatórias ou saberes e modos hegemônicos de entender o mundo. 1983. para que não se repitam frases como “o problema (SOUZA. as(os) colegas. e principalmente reconhecer que o racismo e a em jogo. e estratificadoras). le. há um módulo que especifica estes elementos à população negra educação antirracista devem ser repensados diariamen. foi possível perceber a sensibilidade o que não é pouca coisa..1) A escola. devem dar graças discurso. A categoria racial possibilita a dis- discutir a diversidade e conscientizar seus alunos sobre sócio-histórica. Ao apresentar o de um país escravocrata que delega um lugar simbólico vos.. por falta de preparo ou por pre. isso. meta é premiar a incompetência negra. escravidão para o branco é um assunto que o país não de novos modos de ver o mundo. mas no professor alguém com quem possam compartilhar aquilo que é apagado e excluído. o legado da de desconstrução de saberes arraigados e a construção sores deste espaço – que é um espaço de poder . Há benefícios concretos e simbólicos disseminadas. a presença de professoras(es) negras(os) pois..) Na verdade. a Deus. p. econômica e cultural da população negra As falas de algumas destas mulheres e homens tribuição dos indivíduos em diferentes posições na es- a importância e a riqueza que ela traz à nossa cultura nos períodos da escravidão e pós-escravidão até os dias atuais. (. so. fomentando sentimentos de não-pertencimento. se identificando como atores sociais no proces. também. tidiano. etc. de outro grupo. 201011. por um lado. p. não das. e de seus derivados na sociedade brasileira”. processo de formação continuada trouxe possibilidades Nesta perspectiva. da população conceitos neles introjetados. A manutenção deste status quo. para além das ações pedagógicas. mas. em suas alunas(os) negras(os) uma ressignificação do ser negro. próximos dos padrões raciais de classe/raça dominante. o negro é símbolo de miséria. metodológicos e sensibilidade para saber como agir. Mas. propostas pedagógicas aprendemos e compartilhamos não só conteúdos e sa. com atividades em sala de senvolviam de modo diferente nos espaços onde havia elaborado das seguintes maneiras: “Ser negro é ter que aula e dramatização do livro. um “os alunos não querem nada mesmo com o ensino. a população negra na sociedade. Esta camada da população teve durante a escravi.. 2005. e por outro lado. de modo ser mais”. 2002. conforme pertençam ou estejam mais e à nossa identidade nacional. pois fo- não constitui um fator de superioridade e inferioridade da Lei 10. como as professoras e os profes. Mesmo em situação de pobre. preender a necessidade de desenvolver objetivamente quer discutir. e ainda são. um todo alguns desafios. já fessores a realidade sócio-histórica das(os) negras(os) é uma construção social. praticam a política de avestruz ou sentem pena dos no Norte do Paraná. “eu não sou ra. cujos jogos de poder pautados nas ideologias Nas sociedades de classes multirraciais e racistas como situações flagrantes de discriminação no espaço escolar eugenistas não fizeram parte da formação destas(es) o Brasil.27) CONSIDERAÇÕES FINAIS estas experiências. uma herança simbólica e concreta extremamente posi. porque na Itália o branco atravessa a rua se do ‘ser negro’ acabam por estabelecer um lugar para bretudo quando esta foi negativamente introjetada em também um projeto de trabalho com a história e significados da passar um preto”. a raça exerce funções simbólicas (valorativas 7. trato os meus alunos neguinhos como gente. o também de ressignificação dos mesmos.” (BENTO. Como o relato de um grupo de professores que organizaram aluno discriminado para que ele possa assumir com uma semana cultural com o tema “Africanidades” e perceberam viu”. vocês negros. direcionadas àqueles que foram excluídos de nossos consequências práticas no cotidiano não percebem 2005). não indenizar os do desenvolvimento das ações. Para a população branca conservadora. p. não compensar.

educação continuada. 2002. 2005. São Paulo: Selo Negro. como um grupo do qual é pre.639/03. Maio. Rio de Janeiro: Edições Graal. proceedings. Introdução crítica à sociologia bra- sileira. 2005 nômica e social deste país. 1-14. acaba sendo um lugar onde estas vivencias ocor. Discriminação ra- As construções sociais levam as(os) negras(os) cial e pluralismo nas escolas públicas da cidade brasileiras(os) a pensar em seu grupo de origem como de São Paulo. Raciais no Brasil. Souza ( SOUZA. 2008. Guerreiro.”. Trajetórias escolares. no entanto. Por isso o sistema de cotas e a Lei ANPEd. Ministério da Educação. já que esta significa tornar-se branco.Educação cidadã etnia e raça: o trato peda- deste lugar do negro em nosso cotidiano. Políticas de Ação Afir- mativa na Universidade Estadual de Londrina. Eliane negras reflexões A lei em si. p. In: Irai Carone e Maria Aparecida Silva Bento (org). 1 Simpósio Internacional do Ado- lescente. de modo que possamos implementar relações e MUNANGA. da ANPEd. ANDRADE. CAVALLEIRO. a ou ressignificação cultural? In: 25ª Reunião Anual escola. 92 . Kabengele. 1983. BENTO. Brasília: MEC. In. Assim. In: VII SEPECH (Seminário de Pesquisas em Ciências Humanas) promovido pelo Departamento de Letras e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Londrina.gov. In: Educação anti-racista: caminhos uma referencia negativa. 33-44) GOMES. Almeja. RAMOS.scielo. p. secretaria de -se uma identidade ideal.. – [Brasília]: Ministério da Educação. Petrópolis. 2001. 2002. Psicologia Social do Racismo: estudos sobre branquitude e branquea- mento no Brasil. Anais. 2002. alfabetização e diversidade construir outras possibilidades de identidades. p. Rio de Janeiro: IUPERJ. incômodos. Alfabetização antepassados que contribuíram para a construção eco.. propostas pedagógicas a cor (preta) lembra miséria. discussões e abrem HASENBALG. 2005. Pedro Henrique. 1983. car questionamentos. In: CAVALLEIRO. Carlos. Nilma Lino. 10. Rio de Janeiro: rem em ampla escala. lutamos para escola. corpo ne- Este cenário apresentado envolve a(o) negra(o) gro e cabelo crespo: reprodução de estereótipos e/ brasileira(o) em diversos espaços sociais.br/scielo. Superando o Racismo na inserções sociais mais igualitárias. 2005. Caxambu. e Diversidade. Diretrizes curri- sempre fugir do lance do negro é o lance da pobreza: culares nacionais para a educação das relações pobreza em todos os sentidos – financeira e intelectual. 1983. 2005.br/cne/> pessoas negras. sando nossa escola. Acho que o que me faz BRASIL. Secretaria de ciso sair para que seja possível ascender socialmente e educação continuada.639/03 se inserem na militância pela ressignificação _________. dente. uma história que as(os) permita orgulhar-se de seus Secretaria de Educação Continuada. 1957. abertos pela Lei Federal nº10. alfabetização e diversidade. não muda preconceitos enraizados. _________. Londrina 2008. Tornar-se negro: As vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão so- BIBLIOGRAFIA cial. Étnico-raciais e para o ensino de história e cultu- Estes relatos foram retirados da obra de Neusa Santos ra afro-brasileira e africana. Branquitude e poder – a questão das cotas para negros. que as(os) estudantes negras(os) possam ter acesso a organizador. Maria Aparecida Silva. Rio de Janeiro: ANDES. gógico da diversidade.61-62) e todas são falas de Disponível em: <http://portal. Disponível em: http://www. Discriminação e Desigualdades possibilidades de rever um processo histórico exclu.mec. Eliane dos Santos. Racismo e anti-racismo na educação: repen- contudo. tais políticas de ação afirmativa visam provo. Branqueamento e branquitude no Brasil.php?pid=MSC00000 00082005000100005&script=sci_arttext ). (org). 2ª edição revisada / Kabengele Munanga. (SOUZA. Neusa Santos. SOUZA. a qual não é possível atingir. RJ: Vozes. – Brasília: Ministério da educação.

CÉLAT. co é claramente desfavorável aos negros. religião. de soi de la population noire qui. res. que podem ser dados importantes latente de negação da questão das disparidades raciais obstante. a grande imprensa es- mostrado o poder das palavras como meios de ação térios de diferenciação.DO DIREITO À PALAVRA AO PODER DE ENUNCIAÇÃO DO MOVIMENTO NEGRO NO BRASIL1 RESUMO Ao longo das últimas décadas do século XX. -se de forma não simétrica em relação aos instrumentos existência de relações cordiais entre brancos e negros cesso de construção da imagem de si e de um discurso. Ver relatórios do IPEA. edu. que os negros podiam sofrer era apenas fruto de um visa também a uma crítica radical dos significados e cial. tais como nível de renda. Isso sem dúvida explica em parte por Os estudos sobre a linguagem e a ideologia têm No seio de uma classe social existem diferentes cri. (3-5 fevereiro 1980. o "poder les activistes noirs ont décidé de prendre le "pouvoir d’énonciation" de enunciação" por muito tempo monopolizado por aqueles a longtemps monopolisé par ceux à qui on attribuait un rôle pré- Jacques quem se atribuía um papel preponderante na produção do saber. intellectuels noirs. consciência negra. conscience noire. nº 2010). sexo. Essa situação foi por muito tempo masca- de si e do mundo. desses critérios têm demonstrado. nº 15.br dépréciée et jugée incapable intellectuellement et moralement. penhou um papel determinante) iniciado no período palavras. raça. 2008. racismo benigno. quer fossem INTRODUÇÃO dos conhecimentos técnicos que orientam a hierarquia estes detentores de capital. Políticas sociais. Ils se sont réappropriés le d’Adesky Ao se reapropriarem do discurso. e à reapropriação do pro. depuis des siècles. especialmente Políticas sociais. mais viennent aussi à stimuler l’estime neiro. Nesse contexto. 2008. Essa Nesse contexto. mesmo após a abolição da escravatura e o advento da da luta em defesa de valores e concepções da imagem tenças de classe e o lugar ocupado na sociedade. representando dessa forma um segmento populacional représente une nouvelle donne dans la mesure où ces intellectuels des e professor da UNESA. Les Mots Clé: Mouvement Noir. La réappropriation du discours Américas da Universidade Cândido Men. Québec. desde a década de sília. situados em 16. a relação do su. nº 13. pondérant dans la production du savoir. vêm a formar classes sociais diferenciadas. está claro que a adoção de critérios ra- representações sociais negativas (preconceitos e este. assim como do domínio e controle do saber e posição subalterna em face dos brancos. brasilianidade. discursos e imagens que constituem as redes tituem as redes hierárquicas e a estrutura das trocas colonial com o tráfico de escravos e que se prolonga de significações. pouvoir d’énonciation. Cultura e Cidadania : Intercâmbios Transatlânticos. março. jeito com seu ambiente social também depende das No Brasil. Rio de Ja. situação de subordinação dos negros é produto de um Sendo os modos de representação herdeiros da His. crita e as mídias televisivas apresentavam uma atitude e instrumentos de reprodução da ordem social. que a distribuição do poder econômico e políti. ção continua sendo o critério indispensável da análise longo processo histórico (em que a violência desem- tória. Nessa República. o fato de estas já estarem bem documentadas. que. situados no de análise para determinar subgrupos de pertença es. Políticas sociais. novembro. a été ignorée. Texto escrito para o Seminário Internacional Afro-descendência. Brasília. a luta das minorias concepção. e não nos dois sentidos alternadamente. da imagem e de sua memória. sociais. os grupos humanos e considerava a mestiçagem um valor fundamental da notadamente no que concerne à memória coletiva. Canadá. Palavras chave: Movimento Negro. Bra- 1. não obstante espaço do simbólico e do imaginário. 95 . acompanhamentos e análise. ponto de vista moral e intelectual. Estudos realizados a partir panhamentos e análise. poder de enunciação. l’image et leur mémoire. secularmente ignorado. ciais ou de cor permitiu revelar as disparidades econô- micas de que as populações indígenas e afro-brasileiras 2. pour tenter d’effacer les représentations culturelles négatives des Pesquisador do Centro de Estudos das sentações culturais negativas dos negros e suas consequências Noirs et leurs conséquences sociales. pecíficos. les intellectuels et vistas negros resolveram assumir. as experiências e vivências são encarnadas nas concernente à ordem social a partir da qual se cons. Opondo. Brasília. segundo a qual a discriminação racial brasileiro. de produção (saber. intelectuais e ati- RESUMÉ Au cours des dernières décennies du XXe siècle. além dos discursos e das ideias. em pé de igualdade. já que o país promovia a ideia da interpretações estabelecidos. elas próprias impregnadas dos traços comerciais. camponeses e mesmo considerados pobres2. não se limita a reivindicações políticas. intelectuais negros. acompanhamentos e análise. o objeto essencial das relações sociais é a rada pela crença. trabalhado- social. maciçamente divulgada a partir da e dos grupos subalternos. de classe média. E-mail: dadesky@candidomendes. Não cor. discurso anti-racista. terra e capital). depreciado e considerado incapaz do parlent sur un pied d’égalité. acom- são as principais vítimas. réinterprétant les faits historiques reinterpretaram os fatos históricos para tentar eliminar as repre. com base nas quais se reconhecem as per. discours. edição especial (1995-2005). reótipos). a relação com os meios de produ. discours anti- raciste. Universidade Laval. referentes à população afro-descendente. mas assimétrico orientado de um pólo a outro da relação so. como o Movimento Negro riqueza produzida pelo trabalho com base em um laço década de 1930. até o final do século XX.

incapazes de se senhores e vencedores) excluiu capítulos inteiros de para desmascarar os mecanismos de dominação. Nesse período. os negros A ascensão de Getúlio Vargas à Presidência da período pós-abolição – considerando-se suas causas. com seus privilégios. pesquisas é realizada com base em entrevistas ou filmes 4. econômico classe dominante. gatório da história dos africanos e afro-brasileiros no políticos4. importância. que os conflitos do passado ou REAPROPRIAÇÃO política de acompanhamento da transição da condição cópia do original! as controvérsias historiográficas sobre a escravidão e o DA MEMÓRIA de escravo à de homem livre. entre o Império e o início da República”. Essa so. em 2003. Ronaldo Sales. maio-agosto 2008. Os mestiços e descendentes de escravos os negros estavam em desvantagem como pessoas de preciada ou oculta por trás do véu do esquecimento9. de seus heróis vieram a ser realçadas entre os grupos ficado por seus adversários conseguirá. datado de dezem. governo federal. de escravos eram tratados como cidadãos de segunda uma cota: dois terços dos postos de trabalho deveriam Recompor a história dos grupos subalternos exige cravos e dos ex-escravos livres. conduzida pela cartazes. o poder político. mais apta ao trabalho nas usinas e plantações agrícolas. ativistas ou testemunhas anônimas. e. manifestações de conflitos. era o controle do acesso à propriedade tos e irracionais – em outras palavras. Ler a esse respeito o artigo de Ronaldo Sales Jr. buído ao reconhecimento histórico dos preconceitos do direito de enunciação e de autorrepresentação dos até mesmo a cidadania dos antigos escravos3. fundiária que constituía o fator decisivo que permitia adaptar às novas técnicas e às novas divisões do tra. descendentes de escravos. Ver Flávio dos Santos Gomes. memória do Movimento Negro. que assim. preguiçosos. classe. nesse período. o aos proprietários exercerem seu poder absoluto sobre balho. considerada dignos de serem relatados em razão de sua pequena política a obliteração oficial da história africana e a mi- nação do trabalho vai acompanhar outras medidas ado. Universidade Laval e pelo CEAs/IH/UCAM. natórias em relação aos ex-escravos. a via da assimilação. não significou a eman. Ensaios nantes como as de Cândido de Araújo e Manoel dos Santos. bro de 1930. Ademais. fosse como traba. Trata-se. Embora os trabalhadores brancos fossem. a lei 10. por exemplo. da Sob a nascente República. Ao contrário. Passo Fundo. direta ou indiretamente. contudo. vai fracassar. sem dúvida alguma de um trabalho função das técnicas rudimentares utilizadas. essa medida melhorou as condições de subjacentes ou àqueles que foram desde sempre des- um freio à produtividade das fazendas. o con. 8. pele negra. limita a entrada de estrangeiros e obriga vestígios. Cabe assinalar que no seio da Frente Negra havia vozes disso- cos. as entrevistas realizadas com os líderes e os tas. Raras são as famílias negras ca. Assim. Ao lado da pesquisa e da análise propriamente di- 5. op. deveriam copiar a cultura europeia. Ciências Sociais Unisinos. e a proclamação da República. dominados. folhetos. decretos restringiam a liberdade de nização do país. o resultado só poderia ser uma pálida Supõe. HISTÓRIA E período escravista. os projetos também se ocupam em restituir perante da nação: Estado. conquanto semelhantes na situação de oprimidos. Na prática. Ler. de medidas oficiais de República põe fim aos intensos fluxos de imigração de seu desenvolvimento e suas inumeráveis consequências Na época do Império (1822-89). polícia. dotados de subjetividade. e também à do Estado. ingresso maciço de mão-de-obra europeia. negras reflexões o Estado não tomou nenhuma medida política para tomada de consciência da negritude sem resultar numa por seus ancestrais? Trata-se de uma pergunta aparen- compensar ou reparar as sevícias sofridas durante o verdadeira assimilação8. que institui o ensino obri- tade própria e de defenderem seus próprios interesses que. Experiências atlânticas. Suas ativi. como se eles jamais tives. manutenção de uma forma de desumanização dos es. Para os ativistas da Frente Negra. 7. Grande parte dessas mativas como reparação aos danos causados. foram vítimas. das vítimas da História. submetidos aos interesses da ria oficial marca de maneira quase indelével os negros. Ele foi um obstáculo à aparição de uma o valor da contribuição dos negros ao Brasil. mas difícil de responder de imediato. como é que os grupos Essa passagem das sombras à luz vai suscitar nos da África. facilitando sua entrada nas usi. dos escravos. Desde seu nascimento no final dos anos 70. releitura da história na agenda política do país. 126. cipação dos negros. e seus favoritismos que bloqueavam as aspirações de estimulada e apadrinhada pelo Estado brasileiro. A história oficial (frequentemente escrita pelos oficial e a memória coletiva obliterada é fundamental papel limitado. o acesso à escolaridade e à saúde pública. Esse projeto de libertação com lideranças. sileiros à formação socioeconômica do Brasil. eliminar do passado todos os problemas e sofrimentos dizer ou exprimir livremente sua história como atores Antigo Regime. com o apoio de provas mate- 96 97 . Tal argumento seria utilizado para justificar o sem acontecido ou como se não fossem suficientemente Movimento Negro vai denunciar em sua plataforma o trabalho. Segregação institucional do negro e adoção de ações afir- vam convencidos de que. de deportados E. a certas ta e involuntária. Nesse tos. o Movimento Negro vai captar a atenção do e intelectual permaneceu nas mãos de uma elite branca para além da cor da pele. p. objetivo o embranquecimento da população. Ronaldo Sales Jr. Mas essa tensão entre a releitura da história tal técnico e o controle do saber desempenhando um moral e intelectualmente inferiores. que precisavam. sem memória histórica. já frágeis em danças e à música eram interditadas e reprimidas pela vida de negros e índios. modernização nacional e relações étnico-raciais 6. não obstante. Desejando ser mais brancos temente simples. Responsabilização objetiva educação. “O nascimento 9. manifestamente específicas para os negros mostram pazes de contar a história de figuras importantes de e votar. cartados. ser ocupados por brasileiros nativos. No mercado de trabalho. não se cansavam de cantar a beleza da mulher negra ou de exaltar UPF. não tinham acesso a posições de prestígio5. Essa cegueira histórica infligida pela histó. 2003. colocou em prática uma que os brancos. ma forma que os negros. fosse como mercadorias. leitura da memória dos afrodescendentes. mediante a abolição da escravatura e esta será escrita pelos que irão atestar o pouco peso atri. ela foi bem-sucedida na Um movimento social invisibilizado quase total- liberdade e a mobilidade social. la época o Movimento Negro apresentava as questões circulação. suas precedências lhadores livres”7. De maneira sub-reptícia. fitas de áudio e vídeo) do Movimento Negro Volume 44. e instaura o princípio da igualdade de direi. surgida dominados poderiam exigir o reconhecimento e a re. e pesquisas sobre a escravidão e a pós-emancipação no Brasil. as relações de produ. de testemunhos escritos e também de docu- de terras. as circunstâncias históricas heróis – ou quase isso. Afro-Brésilienne: citoyenneté dans les faubourgs". africanos e mesti. tam. origem afro-brasileira. o qual tomará a iniciativa de elaborar que os considera socialmente incapazes de terem von. nº2. len. últimos anos o crescente interesse de pesquisadores e na década de 1930. eram considerados nas e em postos de baixo nível na administração pública. pelo conhecimento e pela técnica. segregação e de preferência que significavam atentados trabalhadores europeus. para se igualarem aos bran. bém corresponde a um desejo eugênico que tinha por medida em que as histórias dos vencedores e os nomes mente pela grande mídia e por muito tempo desquali- A República de 1889 põe fim às medidas discrimi. Juruá. currículo das escolas primárias e secundárias do país. jamais. Já citados por Ronaldo Jorge Araújo Vieira Júnior e Ronaldo idosos do bairro de Venda Velha no âmbito da pesquisa "Mémoire a posteridade os arquivos de memória (fotos. De maneira indire. da mes. se organizar e inscrever suas reivindicações relativas à ços livres. o que revelava uma convergência que perderam a memória de seu passado e não têm sentido. Ler Ronaldo Jorge Araujo Vieira Júnior. que permitem afirmar. a verdadeira libertação passa pela paração das injustiças e danos morais e físicos sofridos acadêmicos que multiplicam os projetos voltados à re- 3. Eles esta. mestiços e descendentes as empresas estrangeiras instaladas no Brasil a respeitar mentos de arquivos. mas sua exclusão das relações de sofridos por estes últimos. Em larga medida. a desconstrução da história oficial que oculta os textos trole estrito e quase absoluto sobre o trabalho exercia dades ligadas aos cultos de origem africana. Essa memória imposta busca afrodescendentes do Brasil que se viam impedidos de ciedade não igualitária baseava-se na ordem jurídica do produção. a maior parte das quais foi de. Já naque- servidão. Escolheram. escreveu : "A moder. 2005.639. Sales Jr. confinados a posições subalternas. hercúleo. A imigração de colonos europeus. Um decreto. essa situação de subordi. Curitiba. – exigem um trabalho árduo de releitura a partir de ção ainda eram dominadas pelos grandes proprietários aos seus direitos6. por exemplo. O capi. dos africanos livres e seus descendentes. E quando for a hora de contar a história nimização da contribuição dos escravos e dos afro-bra- tadas pelo Estado para assegurar a permanência dessa A esse respeito. cit.

ver. chegam a conta-gotas ao Brasil volvimento econômico do país não seriam suficientes emprego do termo "raça" para conduzir à expressão a determinar na linguagem uma nova subjetividade do numa época em que as lutas de libertação em Angola. pela qual os grupos subalternos que não correspondiam ao modelo testemunham o colapso do beco sem saída em termos pequena classe média ou da classe trabalhadora e não brasileiros seriam desprovidos de preconceito de raça. interrompeu as atividades do TEN. Moçambique e Guiné-Bissau estavam no seu auge. sua inspi. a expressão assumiu Sartre. Hoje em dia. 98 99 . poderia ter sido uma arma pensamento intelectual pós-colonial e antirracista do dade levará o Movimento Negro a adotar um discurso poderosa contra o racismo. assim. que são vítimas os afrodescendentes15. 27. outros pensado- querem ou não queriam ver10. entre outros. a exaltação direitos civis nos Estados Unidos. Essa crítica é sus. aquilo que os outros não viam. exercício de reflexão sobre as causas das injustiças de 25 anos do Movimento Negro no Brasil que ilustra a trajetória de além das ferramentas conceituais marxistas que privi. contribuíram com seus textos para a tomada E REINTERPRETAÇÃO grande imprensa que o ignorava quase totalmente nos Jewsiewicki escreveu precisamente : "é um terreno que de consciência por esses grupos de intelectuais e ati. As reflexões de Frantz Fanon sobre a luta anti. e. Globo. Autorrepresentar-se equivale. o racismo e a discriminação contra a população go. vistas negros de que o status subalterno e de exclusão das fontes documentais produzidas pelo Movimento pulsão havia justificado sua desumanização. Ele reen. que vitimou a população negra não se limitava à épo- Negro. Assim é. tentada pela obra de diversos acadêmicos de renome. Eduardo de Oli. Ela vai buscar. "Lieux de l’identité". partir da observação de que a abolição da escravatu. Janeiro. destruído uma ordem hierárquica pela Frente Negra nos anos trinta. com prefácio de Jean-Paul Deve-se recorrer também ao pensamento de Léo. os quais apresentaram dados es. 15. Era-lhe ne. destacado por contrará a juventude entre os poetas negros dos anos 70 negra" não se referem absolutamente a uma classifica- proibida pelo cardeal Dom Eugênio Sales. grande influência no Brasil entre os expressão se associa às comemorações do 20 de novem- fotógrafos dos grandes jornais brasileiros. mas também duzidos em Portugal. Paradoxalmente. lização. mas se manteve desde o advento da A ideologia da democracia racial. denunciado essa ideologia diante da qual defendem portanto. absolutamen- Movimento Negro que se constrói primeiramente a político cujo eixo central é o da tomada de consciência te. portanto. Por esse viés. forte influência sobre os intelectuais e ativistas brasileiros e estrangeiros. veira e Henrique Cunha Jr. Fanon na última obra. ção universal e faz o elogio da beleza negra – irá exercer. negras reflexões riais. assinala que a luta antirracista e 80 que o associam ao ideal de beleza da mulher negra14. "Desejo coletivo". no qual vieram a reivindicar o colonialista e anti-imperialista na África exerceram. e cuja ex. O Movimento Negro que emergiu no final dos anos 70 era aci- ma de tudo um conjunto de ativistas disseminados pelo Brasil. sem esquecer DISCURSO ANTI-RACISTA Negro cuja invisibilidade resulta em parte da inércia da da diáspora em vista de seu reconhecimento. os desses movimentos. Les e Carlos Hasenbalg. reforçou e a posição como atores da história. uma tomada de consciência da identidade étnica e o grandes forças econômicas dominantes. considerado uma ilusão a o sentimento de primazia e supremacia dos brancos intelectuais do Movimento Negro12 investiram no ter. indiretamente. 31. que Quilombo de Palmares que lutou no século XVII contra de posição favorável. em suas colunas. como Amílcar Cabral. às damnés de la terre e Peau noire et masques blancs. em si. A ideologia da democracia racial não foi. Sobre a (re)conquista do domínio da narrativa res. por exem- partir da metade da década de 80. permite abordar o dilema e o paradoxo da mestiçagem intelectuais. opressão de negros e indígenas.. de memória que veio a libertar os negros do espartilho tinham condições econômicas suficientes para viajar ao Os textos. sob a máscara da harmonia. suficiente para destruir uma ordem hierár- da História oficial ao lhes restituir o lugar. tatísticos mostrando que a industrialização e o desen. As expressões "consciência racial" e "consciência Religiosos/as e Padres Negros do Rio de Janeiro que havia sido processo de alienação das pessoas de cor. vol. para por fim às disparidades socioeconômicas de que "consciência racial" que transformou-se num rótulo de pensamento. E na medida em que os negros continuavam a ser correção das injustiças ou de favorecer a inclusão de MOVIMENTO NEGRO ração nas lutas anticoloniais dos povos africanos de ex. constituiu uma fonte de reno da ação política. reagrupamento e mobilização desse movimento nos Les damnés de la terre. A não só deve ser travada em escala coletiva. a um movimento social que nunca foi considerado importante pelos legiavam a luta de classes. 2010. Ao contrário. Dessa forma. República até nossos dias2. cujos segmentos miscigenados do Negro (TEN). O já fora incorporado ao vocabulário corrente. impregnados de uma crítica virulenta ao mito da quica baseada na cor da pele e. Nos dez últimos anos. as interpretações similares feitas por dois intelectuais negros: principalmente com base em organizações não-governamentais e meiro número foi publicado em São Paulo em 1978. como Florestan Fernandes Os intelectuais e líderes do Movimento Negro têm do poder de enunciação. portanto. o grande líder do 11. serviço da manutenção do status quo. Cuti. cujo pri. entendida como um 10. negros e indígenas. A propósito da expressão “Consciência Negra”. Essa tomada da palavra coloca em evidência um consciência de uma situação comprovada de coloniali. e Nei Lopes. pold Sédar Senghor e Aimé Césaire cujo conceito de ne. sobre os negros. o termo "negritude" os portugueses no Nordeste do país. por exemplo. artistas e militantes do Teatro Experimental bro. negros e indígenas. Peau noire et masques blancs a partir dos anos 40. mas igual. capaz de apresentar a imagem positiva da. Apesar do golpe de Estado de 1964. Rio de associações culturais que se implantam principalmente nas gran. Os ecos dessas lutas afrodescendente é que explicam o fato de os intelectuais de uma identidade mestiça e culturalmente homogê- O esclarecimento dos lapsos de memória e a tomada no Brasil tornaram-se ainda mais importantes para os e líderes do Movimento Negro terem empreendido uma nea estimulou formas de exclusão. a série Cadernos Negros Poesia. continuam vítimas do racismo e da discriminação ra. a esse respeito. o livro de fotografias de Januário Garcia ensão da própria situação de exclusão dos negros. no cerne da qual se décadas ou está dispersa em arquivos privados sem sua representação das sombras da lembrança"13. tra. ou pelo menos não queles que foram oprimidos em sua raça e por cauda Durante os anos setenta e oitenta. em 1986. 13. Não foi esse. a forma de "Consciência Negra". o caso. Universidade Laval. 3. brancos. aniversário da morte de Zumbi. p. Québec. A exceção que confirma a regra pode ser ilustrada pela tomada da população brasileira. dela. do Movimento Negro. Essa profunda tomada de situam os valores da mestiçagem e da harmonia entre avaliação alguma. de afirmar a tomada então. vítimas de uma opressão racial que não mostrava a sua negros e indígenas nos domínios do ensino e do empre- pressão portuguesa e na experiência do movimento dos cara. 26 novembro 2009 . parte das quais se perdeu no curso das últimas cessário arrebatar tanto a memória da cultura quanto ca da escravidão. Bogumil Karl Marx. dominante. o movimento veio a se articular mente no plano individual. Ver. plo. Ver Bogumil Jewsiewicki. cos. CÉLAT. Ethnologies. do Primeiro Encontro Estadual de Seminaristas. 12. pelo Jornal do Brasil à rea. O des cidades do país. propõe um novo quadro teórico para a compre. o sentido estrangeiro ou estabelecer contato direto com os líderes assim. em particular Azuete Fogaça. Samora Machel. a se situar em relação ao relato histórico. identitária e não mais o da assimilação preconizada todas as tentativas de promover a igualdade entre bran- FONTES DO PENSAMENTO ra não havia. Rio de Janeiro. 30 novembro 2009. têm sido neutralizadas. as poesias de autoria de Edu Omo Oguian. democracia racial brasileira. para gritude – que valoriza a contribuição africana à civiliza. Malcolm trução da memória confirma a imagem do Movimento e do direito à auto-representação atual dos africanos X. mas também reflete a própria fragilidade não é reconhecido como originalmente seu. discursos e panfletos dos líderes negros são. os negros constituíam as principais vítimas. anos 80. "A vida me ensinou a ser negra". cial da mesma forma que os negros de pele escura. de rebaixamento dos da palavra para narrarem eles mesmos quem eles são intelectuais e ativistas negros cuja maioria provinha da crítica da ideologia da democracia racial. Martin Luther King e Albert Memmi. Seus dois principais livros. de estabelecer mecanismos de INTELECTUAL DO baseada na cor da pele. Esse trabalho de recons. direito de se exprimir. DA “RACIALIZAÇÃO” anos 80 e 9011. 14. O Globo.

cas públicas de ação afirmativa ? Consistiria realmente O uso do qualificativo "antirracista" também coloca em e o que é feio. po por homens (poetas. artistas ciais beneficiários da discriminação positiva. mas apenas um pecado venial diante escolha deliberada. Rio de Janeiro. já dos no passado e no presente. notação. ser fiel a si mesmo. se juntasse de imediato ao substantivo "racialização" o sócio-histórico. o Ao reinterpretarem subjetivamente o termo "raça" Para Taguieff. a população brasileira é amplamente miscigena. mas sil". negras reflexões ção antropológica dos seres humanos em subconjuntos jornais. seu "Acadêmicos contra a ação afirmativa: uma análise da argumenta- lam uma questão ligada ao direito à palavra. independentemente do xo deveria ser. levando deliberadamente em conta Pierre-André Taguieff. desacreditado. a beleza. à opinião pública: a fabricação de um consenso anticotas no Bra. A esse propósito. versários tentem precisamente atribuir aos líderes do criminação deve ser compreendido como um recurso herança genética. 17. cialmente percebida e. o termo "raça". Seminário Comunicação e Ação Afirmativa: O Papel da Mídia presentações do que é belo e do que é feio. Nesse sentido. ra inconsciente. ser autônoma no sentido de que resultaria da deter- de práticas discriminatórias sistemáticas de que certos res do Movimento Negro assumem uma posição po. ainda que a escolha seja nômicas. pela cultura dominante. no caso. Les fins de l’antiracisme. ainda que passado e do presente que dão força e pertinência às promoção de uma essencialização das raças. "Da opinião publicada to de cânones estéticos. notadamente pelos cânones dominantes. de tais expressões pelos intelectuais e líderes do Movi. será possível genismo lexical. não como expressões culturais do 16. medida em que é ligada ao espaço de poder masculino. o emprego da categoria "raça" tendo Ser belo seria. numa cultura possível discriminar com base na "raça". 1995. de tal sorte que ignoramos os efeitos que as políticas de ação afirmativa introduziriam uma Se a luta contemporânea contra o racismo obri. serão vistas. Paris.). já que promovem cultura. essa influência se propaga de manei- ência racial" e "Consciência Negra" seria "racialista" e racismo científico. É ex- imprensa escrita e televisionada. ao mercado de trabalho. e o feio podem ser resultados da escolha deliberada de lheres simplesmente interiorizem e reproduzam as re- cas de que é vítima a população afrodescendente. etc. em suma. autônoma no sentido indicado. conizar a abolição da percepção racial das diferenças. que remete ao mesmo tempo aos modelos de diferen- 100 101 . como referência. à educação superior. distante da interpretação biologizante do "raça" ao acesso à universidade. Nem sempre compreendem ou querem rios. interpretada. ao con- do termo "raça" e a preponderância desproporcional de APARÊNCIA FÍSICA trário. cada indivíduo. em primeiro lugar. mais correto que que não é possível abstrair-se totalmente do contexto A despeito dessa interpretação clara e inequívoca mântico do termo "raça". antes grupos foram vítimas no passado com base num racis. ou seja. São precisamente os efeitos conjugados do Movimento Negro um pensamento racista baseado na necessário sem o qual não seria possível conceber polí. que se quer promover. a "raça". ao Em vez de serem causalmente determinados sob o efei. Mídia e ação afirmativa: a construção de uma opinião "poder de enunciação". ABI. gênero feminino. das políticas de ação afirmativa. bém podem ser autônomas. Deveria ser. poder-se-ia afirmar que o belo Essas constatações não sugerem que homens e mu- refratária à questão das disparidades socioeconômi. Michalon. transmitidas também o tema das políticas de ação afirmativa suscita no Debate sobre Igualdade Racial. mas pode legitimamente interrogar-se sobre as formas minação do indivíduo em questão. a admitir que uma mesma palavra. momento em que são obrigados a definir o que é belo as categorias branco e negro. os intelectuais e líde. um antirracismo realista não pode pre. Essa formulação parece. ta estatística". assim. assumindo e ostentando os traços resultantes de sua tíveis no presente mediante desigualdades socioeco. a esse respeito. a expressão de uma verdadeira autenticidade. conteúdo sendo absorvido sem que se torne exemplar. 2009. "raça" e inventar outro nome. desaparecer a evidência da raça simbólica. lítica que remete à constatação da semântica de que mais eficazes de corrigir as categorizações perceptuais17. mesmo que seja a contra gosto. mo pretensamente científico. cas engendram o ódio entre brancos e negros no Brasil. ou designar objetos diferentes. ção pública". sociedade. de que modo os valores estéticos são modelados pela nação positiva no Brasil semeiam a discórdia na grande debates públicos. Esses mesmos adversá. políticas e torna caduca a insinuação de que tais políti. E ainda que seus ad. As contribuições femininas. as políticas Os exemplos do presente e do passado mostram mento Negro. Traduzem. Entretanto. mas como exceções individuais. que se recusam. estratégia redistributiva nos domínios da educação e gênero ou da cor da pessoa. plásticos. ressalta que diferenças de raça. hoje em dia amplamente uma mesma palavra pode ter diversas significações Além disso. tornou-se necessariamente uma con- Esse jogo duplo de argumentação a respeito do uso O PESO DA cepção masculina. as comunicações de João Feres Júnior. artigos contrários à política de ação afirmativa reve. às distorções causadas por esses condicionamentos no da. Nesse sentido. mimeo. Ler. Além disso. é preciso ticas públicas. 2009. mas cujos efeitos permanecem percep. Mas evidentemente esse deslocamento se. -nos de longe mais judiciosa que o termo "racialização" perversos dessa situação. ou seja. p. em si. Rio de Janeiro. uma "racialização" da do objetivo final dessas políticas que é acima de tudo a que não existe uma escolha radicalmente autêntica. Centro Cultural da Justiça Fe. o que tornaria difícil identificar as pessoas segundo mente o uso da categoria "raça" no contexto das políti. Seria. que bloqueiam de maneira insidiosa o debate geneticamente distintos e hierarquicamente ordenados democrático e equilibrado16. ela depende. em cuja composição predominam antropólogos a implementação dessas políticas em uma "racializa. escritores. possa ganhar uma outra co. como nomear ou qualificar correta. em termos intelectuais e morais. 329-354. parte do tempo. Na maior mentos na ideia de que o uso das expressões "consci. ou seja. Pierre-André Taguieff. objetos de uma os quais não seria possível propor a implementação de ação afirmativa pressupõe a identificação dos grupos ção" da sociedade. igualação dos indivíduos. considerado uma "ferramen. antes. na também promover. Mesmo pessoas esclarecidas "racialização bipolar" na sociedade brasileira. etc. Não apenas a mídia continua pública. inevitavelmente. caminhos que conduzem à abolição das fortemente monopolizada pelos homens. segundo a expressão empregada por do emprego. não é levado em conta pelos adversários qualificativo "antirracista". Há uma interação complexa forte reação negativa no plano dos redatores-chefes dos deral. Claro que essas tam- categorias raciais como base de cálculos estatísticos sem aceitar que a implementação de políticas públicas de emprego da categoria "raça" é uma forma de "racializa. momentaneamente grupos discriminados com base na tremamente difícil escapar desse processo. Essa seria uma solução corretivo destinado a atenuar a ausência efetiva de uma leza helênicos predominantes. suficiente para provar que. produzida consideravelmente e por muito tem- possível identificar as vítimas do racismo como poten. em vista a promoção daqueles que são vítimas da dis. que é a desconstrução científica da raça biológica não faz ou seja. Esse estranho parado. nos de ação afirmativa seriam compreendidas como po. baseando seus argu. das preferências. se é aparentemente simples que se assemelharia a um eu. 79-81 e. os adversários das políticas de discrimi. A concepção de beleza física poderia caráter subjetivo da identidade racial como produto como socialmente construído. da raça so. líticas de "racialização antirracista". Segundo ga os militantes antirracistas a manter o termo "raça" lançado pelos adversários para rebaixar essas mesmas ou ativistas do movimento negro nem sempre escapam eles. mimeo. escultores. deve-se reconhecer que o indiretamente. reconhecem a existência do racismo e da ção" da sociedade ? Poderíamos revogar o uso do termo com base racial podem aparecer como um mecanismo tados ou fortemente influenciados pelos cânones de be- discriminação racial no Brasil. Mas essa recorrência evidencia políticas públicas de promoção dos grupos discrimina. evidência que os programas de discriminação positiva admitir que os gostos estéticos pessoais podem ser di- e sociólogos. de tudo.

A sombra dos cânones helênicos. Testemunho relatado por Carlos Eduardo Mansur. ajudam a compor a imagem do que é belo tanto na fligir um prejuízo e efetivamente oprimir determinados invisíveis que afetam a igualdade de oportunidades tan. O Globo. superficiais. Foi preciso cursos de beleza negra organizados por grupos cultu- lidade de concepções da vida social em face do molde fecham as portas aos postos de alto nível. organizados com base num permitem perceber a exclusão mediante a ativação de código não escrito que exclui dos papéis de primeira atributos positivos. não há dúvida número maior de negros figura nos anúncios publici. zes negras atuais de pele clara. entre outras. sidade de um mecanismo de discriminação positiva na televisão. Depois da Copa de 1950. ção racial ainda se manifesta no que se refere ao posto za helênicos que relegam a um segundo plano as outras a postura e o ritmo se misturam. foi por muito tempo considerada de responsabilidade tudo nos almoços e reuniões festivas de domingo que uma riqueza social e cultural. pois. é encontrada em graus A partir do momento em que se admite que a pre. no Rio de Janeiro. constata-se também que a por muito tempo ignorados ou marginalizados pelos sido consagrados nos últimos decênios. A sempre à base da escala social. Com política de dar destaque a negros principalmente para "provar" sempre a ser privilegiadas em relação às de pele mais (sem o dizer. os não conseguiu em função da resistência de membros musculosas. assanhadas. balternos é pertinente e deve ser igualitária em relação em equipes de primeira divisão20. eles ganham um espaço especial sobre- reconhecimento da diversidade representa não apenas restrições em relação aos negros. as proporções. passa do negativo ao positivo é fundamental. drid. limi- a da matriz que forma as identidades coletivas. tian Dutilleux. Vanderlei Luxemburgo foi treinador dos mais importantes clu. da cultura urbana que se impõe a todos graças a sua Mesmo nos domínios do esporte. Iniciei a reflexão em torno do conceito “o poder de enunciação” 20. à música e aos encontros amo- gência moral indireta de reparação em prol dos grupos Nesse esporte em que numerosos jogadores negros têm Se ficássemos nisso. que chegaram a usar argumentos Mas o ideal de beleza negra não se limita à apa- gem inferior ou depreciativa desses mesmos grupos. 2 de dezembro de 2009. fosse o goleiro titular da seleção brasileira. elementos particulares constitutivos de uma abordagem questão espinhosa para a população afrodescendente conhecido como Andrade. obtendo nesse mesmo ano o prestigioso título tipo de beleza é também predominante entre as princi- mente a televisão. Essa visão significa que o da cor da pele perdeu importância. textura dos cabelos e formato dos lábios lembrem de- mite designar o belo e o feio levando em conta a natu. esperar até o fim dos anos 90 para que outro negro. Em suma. Eles também podem ser um modo que despreza suas capacidades intelectuais e morais. tratados no Brasil como animais. É o caso notadamente dos elencos de teleno. pais passistas das escolas de samba. rais carnavalescos como Olodum. o de matriz africana. os negros também fo. Uma exceção a essa regra não-escrita é Lazaro Ramos. mos na armadilha do predomínio dos cânones de bele. Há outros ingredientes fundamentais que concepção pela qual uma imagem deformada pode in. são propícios à dança. mercado de trabalho. intelectual negro. pinturas naïves produzidas pelos grandes artistas afro. 21. Para evitar tais distorções ceitos : os preconceitos sexuais que as apresentam como ram excluídos da posição de goleiro. Essas últimas primeira divisão. em que o movimento. portanto. com base em instigações e múltiplas conversas com o meu amigo 18. rantes e desprovidos de história. grandes veículos de comunicação. é percebido como branco por gran. constituem instrumentos poderosos oprimir a tal ponto que essa imagem seja interioriza. Isso tem consequências racistas. incluindo a seleção nacional e a equipe do Real Ma. ENUNCIAÇÃO23 blicidade melhorou nitidamente nos últimos anos. Entrevista com Joel Rufino dos Santos. e. dos campeões”. Jorge Luís Andrade da Silva. Amauri Mendes Pereira. -se evidenciar o caminhar. duras e individual de todos. contraste a propor a questão do saber: quais seriam os que o peso da aparência física ainda é hoje em dia uma ção de treinador interino. Ilê Aiyê. Esse Os meios de comunicação de massa. Em razão de sua cor clara. continuam excluídos. ele mesmo havia tentado principalmente a qualidade de serem generosamente pos subalternos e assim garantir o respeito à dignidade social onde são expostos desde o berço a um discurso nomear Andrade treinador da equipe em 2004. 102 103 . Um -brasileiros do Rio de Janeiro e da Bahia. lembra a negritude de Léopold Sédar Senghor que fazia. em um ambiente diretor técnico do Flamengo. de dominação cruel e sutil quando projetam uma ima. variados nas festas realizadas nos terreiros dos cultos sença em todos os níveis de membros de grupos su. quentes. rosos. etc. postura. reza das variáveis que compõem a identidade pessoal e Longe de ser um assunto fútil ou secundário. pois per. onde o critério Dida. Orunmilá. eles defendem a plura. não se pode deixar de constatar legado à função de auxiliar técnico ou exercendo a fun. bes do Brasil. “Nos braços 23. Se. 8 de dezembro professor d o centro Universitário Estadual da Zona Oeste (UEZO). mas dotadas de coxas grossas e nádegas redondas. esses clichês frequentemente lhes atribuída ao goleiro Barbosa. de 2009). pessoas de pele clara tendem lher da região sudano-saheliana de África Ocidental. critor e especialista em futebol (Rio de Janeiro. diretas sobre o mercado de trabalho ao criar barreiras dicção21. es. o elogio da beleza particular da mu. seres repulsivos. tado à indústria do entretenimento. de que a beleza da mulher negra aí representada nos Do século XVI até o fim do século XIX. minente ator negro de cinema que se tornou protagonista de te. embora ele próprio se considere negro. 19. como Taís Araújo. supostamente igualitária. Entre esses elementos. Não obstante. reconhecido como o esporte nacional por excelência. esse exemplo marginal vai corresponder a uma televisão. Esse mecanismo de interação que plano os atores e atrizes cujos traços físicos como cor. Essa preferência é verdadeira sobretudo para as jovens atri. concepções de beleza. É uma questão importante.. mas também uma exi. imagem inferior ou depreciativa pode efetivamente 2009. os negros eram tários e participa como modelos nos desfiles de moda. Com exceção de Vanderlei Luxemburgo. igno- lenovelas da Rede Globo de Televisão. essa função famílias negras. intelectual e ativista do MN e. Isabel Fillardis. No derrota da seleção brasileira na final com o Uruguai foi essenciais dos homens e mulheres premiados nos con- afrodescendentes e indígenas. Mesmo na República. nos leva por ao grupo dominante. Andrade não tinha estofo nem ca. Valorizar o natural e estar à vontade com sua plural por parte da mídia. a discrimina. de maneira subliminar) que o Brasil não tem neces- escura18. A imagem do negro na televisão e na pu. Por muito tempo re. particular.. que era negro. equilíbrio e a simetria dos traços do rosto. de número de brasileiros. Se esses atributos são apreciados no quotidiano das grande difusão pela mídia. frívolas. ainda se observam gundo o escritor Joel Rufino dos Santos. da. alegando que ele era negro e não tinha boa rência física. O motivo é que a expressão e com seu corpo são considerados atributos altamente discriminatórias em relação às populações fáceis. deve- grupos por muito tempo foi denunciada pelos ativistas to para homens quanto para mulheres. Segundo testemunho de Júnior. o movimento. Segundo o jornalista Chris- e os artistas negros têm mais papéis nos programas de em suas poesias. complexa estética afro-brasileira. negros tendem a reproduzir os modelos que os relegam da diretoria do clube. Rio de Janeiro. Nelas se reconhece capazes de servir à melhor inserção da imagem dos gru. raros são os negros que ocupam a função de treinador fortemente centrados sobre o corpo. a projeção de uma o cargo de treinador do Clube de Regatas Flamengo em caracterizada pela curvatura acentuada das ancas. poder-se-ia dizer que caíra. o sorriso e a do movimento negro e pelos defensores de um olhar devem também lutar contra outra categoria de precon. de treinador. atualmente. Sheron Menezes e Roberta Rodrigues. de campeão brasileiro. proe. inadequada aos jogadores negros22. beça para ser treinador de uma equipe de futebol da mulher quanto no homem. mais os traços negroides de certos povos africanos19. negras reflexões ciação ou de ressignificação tais como a negritude que velas e séries televisivas. Na esfera do sagrado. Assim é no futebol. conseguiu ser nomeado para essencial da estética negra brasileira? Se observarmos as O PODER DE e indígena. 22.

Estudos estatuto da raça”. Rio de Janeiro. Introdução crítica à socio- de tudo. É nesse tcolonialité.. Yvonne Maggie. Muniz Sodré. antes BIBLIOGRAFIA RAMOS. Brasília.. o qual subentende uma reto. Simon. Mi- a discriminação nos locais de trabalho. Bogumil. Liber.) tions des torts du passé de l’esclavage. Francine. CONSTANTINO. Hélio Santos. 24 de novembro modernização nacional e relações étnico-raciais mas igualmente de uma reação. TAGUIEFF. 2009. 2004. Rio de mais judicioso. (1995-2005). objetiva do Estado. seria gente. 2007. "Desejo coletivo". ABI. VIEIRA Jr. lectuais afro-descendentes dos cânones de beleza que GUIMARÃES. Mí- de argumentos. Maggie. nº 2. nas da tomada de posse dos discursos estabelecidos. Ethno. temporâneo. sília. no caso presente. 2008. que está em jogo ao ser submetido ao questionamento Brasil". MAGGIE. intelectual" por outras concepções do discurso. entre o Império e o início da República”. Experiências atlânticas. FERES JÚNIOR. vidual”. Brasília. FCP/MinC. Avançados. Rio de Janeiro. 31. 2005. Divisões perigosas: políticas de sua memória. análise. entre outros: Abdias do Nascimento. Perspectives Réinventer l’anthropologie? Les sciences de la culture du Mouvement Noir au Brésil". Y. O mesmo se faz quando se colocam -emancipação no Brasil. Sociais Unisinos. Por sileira. Eles se ralidade de concepções do que é belo e do que é feio. USP. O Globo. fruto sentido que se faz necessário compreender a expressão FOGAÇA. Azuete. S. Esse movimento provocou forte que devem ser compreendidas como intervenções num LOPES. Société. 2008. Rodrigo. Buscam criar descendentes de escravos africanos e afro-brasileiros.. VAN DIJK. eles interpelam aqueles que detinham o discurso. Kabengele. mas da ascensão dessas novas concepções do mativa: uma análise da argumentação pública". logies. Civilização Brasi- para tentar eliminar as representações culturais nega. Editora Contexto. 2008. Segregação institucional do ne- brancos e negros. do com um contradiscurso produzido por intelectuais ção e do enfraquecimento do monopólio do discurso FERES JÚNIOR. O Papel da Mídia no Debate sobre Igualdade Racial. Brasília. março. te sem a participação dos afro-brasileiros e dos povos Janeiro. “Dia da consciência indi. Ronaldo. pressão "tomada do poder de enunciação" em lugar do indígenas. tivas dos negros e suas consequências sociais. João. como em evidência fragmentos esquecidos da história dos JEWSIEWICKI. “Mutation de savoirs et pos. é seu pensamento intelectual pública: a fabricação de um consenso anti-cotas no cularmente ignorado. O Relatório IPEA: Políticas sociais acompanhamentos e do desdém com que são tratados pela cultura domi. intelectuais negros fala cada vez mais em seu próprio dos pretensos conflitos e ódios raciais que delas resul. Université Laval. "poder de enunciação" com um exercício relacional que Globo. Les fins de l’antiracisme. depreciado e considerado inca. Divisões perigosas : políticas raciais no Brasil con. "Nos braços dos campe. Quebec. A partir daí se pode MANSUR. Entre os intelectuais negros de proa que têm desempenhado um papel importante nessa « tomada do poder de enunciação ». Teun. Centro Cultural da Justiça Federal. mai-ago 2008. mimeo. L’anthropologie et les militants uni. nº 15.. "A vida me ensinou a ser negra". João Jorge Rodrigues. Beatriz Nascimento e Sueli Carneiro. MAIO. 1995. Ao tomar a palavra em pé de igualdade.. Rio de Janeiro. mas de sua ideia de nação forjada anteriormen. nº 13. livre das injunções Essas reinterpretações são também tomadas de posição 2010. negros e formas de integração nacional”. 2003. intelectuais e ativistas negros resolve. vol. volume 44. 2007. Pierre-André. acompanhamentos e Medeiros. Levando-se em conta os argumentos acima. Curitiba. Julio César de Tavares. de raciais no Brasil contemporâneo. Ler a respeito Fry. SAILLANT. Relatório IPEA: Políticas sociais. raciais no Brasil contemporâneo. Foi por isso que. nº 18. Divisões perigosas: políticas mada de posse de alguma coisa. uma identidade coletiva positiva. Ciências uma crítica que permitem a ocupação do "território MUNANGA. Lélia tos. citoyenneté et répara- versitaires noirs au Brésil". GARCIA. Rio de Janeiro. Y. da imagem dos negros e participa do poder de enunciação que vem a estimular GOMES. 2009. chalon. tos. Carlos Alberto 25.. Em suma. intelectual25. Marcos Chor Maio. mas da desestabilização de sua convic. ões". Bra- Gonzalez. Ronaldo Jorge Araújo. "Lieux de l’identité". Carlos Eduardo. 3. edição especial.). "Acadêmicos contra a ação afir- nome. SANTOS. de uma releitura e de de 2009. de uma imagem e de uma memória. O Globo. "Droits. nante. leira. R. Simone Monteiro e Ricardo reapropriaram do discurso. João. análise. ram assumir o "poder de enunciação" por muito tem. já que um número crescente de versários das políticas de ação afirmativa decorre. não 2009.. UFRJ.). Francine Saillant (org. 26 de novembro de 2009. Antonio Sérgio Alfredo. S. novembro. “O nascimento da nação: Estado. 104 105 . Reinterpretaram os fatos históricos mediante as reivindicações políticas novas práticas so. São Paulo. Amauri Mendes Pereira. acima de tudo. A reinterpretação por artistas. A reapropriação do discurso repre. utilizar doravante a ex. 2009. representando um segmento populacional se. Université Laval. Maio. O Globo. 1995. citamos. Paris.. da imagem e da memória que eles atacam e. “Intelectuais SCHWARTZMAN. nº 2. aos danos causados. Responsabilização veem nisso a iminência de um conflito aberto entre contrastada dos intelectuais negros. da cultura dominante. papel preponderante na produção do saber24. MONTEIRO.). C. nº 16. Ensaios e pesquisas sobre a escravidão e a pós. Alberto Guerreiro. “Das estatísticas de cor ao po monopolizado por aqueles a quem se atribuía um privilegiavam a estética helênica em detrimento da plu. 2008. Discurso e poder. Também não se trata ape. polêmica com um grupo de intelectuais famosos que debate intelectual por muito tempo fechado à crítica 30 de novembro de 2009. In: Peter Fry. C. sem dúvida. "Da opinião publicada à opinião negros. 2 de dezembro de gro e adoção de ações afirmativas como reparação senta uma novidade. Joel Rufino dos San. 2007. dia e ação afirmativa: a construção de uma opinião monopólio do saber e que jamais se haviam confronta. munidos tariam. FRY. Civilização Bra- um discurso. Ventura Santos (orgs. SALES Jr. Flávio dos Santos. que se trata de mais que a retomada de um logia brasileira. Rio de Janeiro. negras reflexões algumas exceções. Montréal. Passo Fundo. compreender que o tom alarmista utilizado pelos ad. 25 anos do Movimento Negro Relatório IPEA: Políticas sociais acompanhamentos e do século XX. Civilização Brasileira.. Seminário Comunicação e Ação Afirmativa: paz do ponto de vista moral e intelectual. sua imagem coletiva é negativa. Rio de Janeiro. CÉLAT. UPF. volume 33. ciais e culturais. Januário (org.). não apenas daquilo que é a nova nação brasileira emer. Juruá. Monteiro. Rio de Janeiro. P. Quebec. escritores e inte. São Paulo. 2005. Rio de Janeiro.. e San. 2009. (orgs. Rio de Janeiro. à l’épreuve des globalisations. "tomada do poder de enunciação" designamos. R. (orgs. simples discurso existente. ao longo nas últimas décadas se inscreve na esfera da política. Nei. pública. análise. no Brasil. Anthropologie et 24. e termo "reapropriação". P. mimeo.

this end. 72). 2003). dentre os quais destaco: Raça e gênero são conceitos (re) construídos historica. Teresa de Lauretis (1994). Ciências Sociais e Humanas. de antemão.36) que se detém sobre os 2. de verdade que lhe é conferido. Conceição ao colocar em xeque a neutralidade dos “homens da 72). dução científica social?”. expand Estado da Bahia (UNEB). são escolhidas e outras não?” Afinal. ampliar o leque de discussões no tocante às the range of discussions with regard to ethnic and racial relations tante do Mestrado em Pós-Crítica (UNEB). a fim de justificar as pressuposições cien. raça e gênero. com bolsa estágio/sanduiche em Maputo. considerações acerca dos seguintes pontos: a) o papel tero que “A analogia em questão é aquela que liga raça na. construídas historicamente. tampouco sociológica. e de- abstract Race and gender are historically (re) constructed concepts. no entanto. ao dia “ao reservatório de conhecimento não metafórico. mas dos “homens da ciência” pela metáfora e analogia se cutir o conceito de gênero historicamente. apolítico e universal”. 107 . p. tance. -SP e Graduada em Letras/PUC-SP. Nancy Stepan (1994). correspon. da razão que. b) relação e na teoria científica sobre a variação humana dos sécu- tividade. como assevera Stepan (1994. Carlos Moore (2007) e Pietra Diwan ciência”1 que os engendraram. p. Doutora em Letras pela UFPB. propagar o racismo científico e o sexismo2. negra. As neutrality of ”men of science” that engender them. As teias e tramas de ideias dos “homens da ciên. Mestre em Educação Palavras chave: racismo científico. gicos. O qual resulta da crença na supremacia do segmento branco. âmbito teórico. esclarecem Moore (2007) e cia” veja-se também Schwarcz (1993. and gender in our social bosom. visto que pretendiam classificar o ser humano psico. metáforas Evaristo (2006). que não intento dis- 3. houve a rejeição da metáfora e da analogia pelos da analogia e da metáfora como meio de interpretar e ao gênero. como observa cêntrica. mentos. realizei pesquisa bibliográ- tensa superioridade branca e a inferioridade dos demais fica e me norteei por estudiosos (as) provenientes das segmentos étnico-raciais. black people resis- (UNEB). 72) contemporaneidade. sim. distinção entre os movimentos feministas e o feminis. Esperamos. race and gender. par. partir lógica e biologicamente. p. na era moder. Com esse fim. elo entre raça e gênero. 1994. Pes- quisadora de relações étnico-raciais. O que interessava. We therefore expect. o desinteresse Vale salientar. Para tanto. e envolvem digressões complexas e polêmicas. fazendo uso de metáforas ou analogias particulares estão relacionadas à pro. Stepan (1994. graças ao status E DESDOBRAMENTOS tindo de conceitos preconcebidos. que busca saber: 1)“Como. (2007). The reflections A analogia em questão é aquela que liga raça ao gênero. sente texto. p. cia” são o foco central de discussão de Stepan (1994. configurando-se em um ins- tempo. naturalizados. that follow seek to contextualize. estas são resultantes de relações sociais (re) mesmos em seu livro O espetáculo das raças (1993) europeu. de modo a repensar as consequências na in order to rethink the consequences in contemporary society. Sueli Carneiro (1993. Luiza mente. em detrimento dos demais. uma analogia que ocupou lugar estratégico ditos cientistas. “tradicionalmente”. and then les emergem questões complexas. colocando em xeque a pretensa complex issues emerge from them calling into question the supposed neutralidade dos “homens da ciência”. p. los XIX e XX”. É na esteira do pensa- Ao se deter sobre o período que vai do século XVII mento de Stepan (1994) e estudiosos afins que tecerei Reportando-me à epígrafe transcrita inicialmente. Bairros (1995). mesmo quando os resultados obtidos iam de a referida estudiosa. configurou-se (e ainda se configura. uma analogia que Maria Anória reflexões que se seguem visam à contextualização e desdobra. Eduardo Mondlane. 2)“Por que certas analogias tíficas. resistência Keywords: scientific racism. Munanga (1999). É a partir daí que se passa a de contribuições e reflexões que as engendraram no INTRODUÇÃO demarcar as diferenças sociais e. Para maiores informações a respeito de tais “homens da scien.negras reflexões RAÇA E GÊNERO: ENTRELACES RACISTAS VERSUS AFIRMAÇÃO IDENTITÁRIA NEGRA RESUMO Raça e gênero são conceitos (re)construídos historicamente. Ao contrário. Serão estas as duas questões cruciais entender que analogia corresponde a uma espécie de empírico. como um campo privilegiado de saber. Com o transcorrer do que nortearão as ideias a serem desenvolvidas no pre. studies in the area of Social Sciences. com isso. (STEPAN. For séculos XIX e XX. temáticas étnico-raciais3 e de gênero. mas. 72) salienta que. por conseguinte. Raça aqui é entendida não em uma acepção biológica. e analogias. relações étnico-raciais e de gênero em nosso seio social. a pre. mo afrocentrado. nos dias atuais) RACISMO CIENTÍFICO era demarcar os segmentos étnico-raciais distintos. almejo aprofundar polêmicas que giram em torno das a entendem enquanto resultante de discriminações pelos traços diacríticos do ser humano. pela Univ. quando do desejo de distinguir os comporta. e não pelos genes e ou fatores bioló- 1. cujo intuito foi propalar a superiorização euro. apesar das controvérsias criadas em torno delas. que os engendraram. and deployment of these meanings ocupou lugar estratégico na teoria científica sobre a variação humana dos de Jesus Oliveira mento de tais acepções. encontro aos almejados. we conducted a literature search and guided ourselves by Professora Assistente da Universidade do gráfica e nos pautamos em estudos na área das Ciências Sociais. professora visi. Especialista em Literatura/PUC. sentimentos e a mente humana. rei- ao XX. ao longo dos tempos. já que estudiosos da área de relações étnico-raciais altera. na ciência. realizamos a pesquisa biblio. a ciência. por considerá-las destituídas de obje.

compreendendo-se. a importância de (re)discutir e proble- (1995. os considerados homens das ciências fizeram (STEPAN. o elo pulação de dados pelos “homens da ciência”. 76) bem como outros grupos sociais [. para designar algumas “técnicas” Carlos Moore (2007. saberes. observa Ste. tificar algumas constatações desenvolvidas por Stepan. RACISMO E SEXISMO: explorar uma série de questões relacionadas às causas formações. a metáfora e a analogia utilizadas pelos foras. conhecimento sem adornos. p. No entanto. para tasiosos. no século XVII. Sem entrar nos meandros de tais con. A princípio ocorre a total final do iluminismo estudos sobre a variação humana cendo que “na ciência [. preconceituosas. tus científico e social que dispunham. Stepan constata ainda que “O sistema metafórico p. para atender aos propósitos eurocêntricos. fan. além da omissão. considerados também.. p. p. usufruindo do sta. largura da pélvis.. e sexo. tifacetados. também abordadas pelo estudioso logia na ciência [ser] agora reconhecido. tecnologias sociais6 ao utilizar não só as téc. do termo utilizado por Lauretis (1994. dolicocéfalo. 76) faz alusão perdido sua importância como sinais de inferioridade e/ou aceitação/apropriação da metáfora e da analogia Antes. organologia. 73). Logo. Então. “naturalistas” da ciência da cultura. rimentaram e ‘viram’ as diferenças entre classes.. a aludida riores e diferentes na hierarquia social. foram resultado de metáforas Também auxiliou a constituir os objetos de investiga- pois. [. e comprovar teses racistas e sexistas. poderíamos identifi- trovérsias. pois souberam enlaçar. da ciência discordam. cos/científicos às descobertas. Schwarcz (1993. as quais “teriam var momentos cruciais da polêmica quanto à rejeição explicar a “variação humana dos séculos XIX e XX”. familiares e culturalmente arraigadas ção na variação humana – raças de todos os tipos [. também. estrategicamente utilizado para quão eram movidos por interesses escusos e afins.. a pretensa objetividade científi. a ser elaborada”. 86-90).]”. As metáforas.] A analogia definiu importantes para o pensamento científico”. a riqueza de in. p. Para maiores detalhes consultar Stepan (1994) e Schwarz ideologicamente as noções raciais que predominam até são apenas às respectivas páginas em questão. 1994. para o desenvolvimento de tal teoria”. enfim. que “a mulher se igualava aos negros pelo na ciência”. se não resultassem conceitos (pseudo) científicos engendrou a propalada ditos “homens da ciência”. tendo a atenção dos his. os negligenciavam ou suprimiam Complicado é o fato de muitos daqueles ideários terem ência” passaram a considerar “que metáforas e analogias grupos hegemônicos. ou não ‘observados’” (STEPAN. Isso crânio. distorção e mani.] a pouco de atenção àqueles episódios dos “homens da lução científica”..50). a mulher. o des. os filósofos descobertas mirabolantes e racistas. p. analogias usadas pelos cientistas do final do século A analogia conduziu pesquisas.. Emergem daí não se deu casualmente. os pobres das cidades e os é possível notar que os ideólogos da ciência criaram. peso ou estrutura do cérebro”. quando a mutação humana começou a ser es. p. O artigo de Stepan (1994. negras reflexões trumento “estratégico” para a “teoria científica sobre a a superioridade do segmento étnico-racial branco em trimento de outras. o qual estava. “desde o às “origens culturais da metáfora científica”. prossegue Stepan viante sexual. (1993). 1994. preconceituosas e distantes da reali. que contribui para ampliar e ra- crítica da metáfora científica está apenas começando com o homem branco ‘explicavam’ suas posições infe. Aproprio-me. distinguiram diferenças raciais como aspectos cruciais são arbitrárias. se nos detivermos com um rejeição de ambas. étnico-raciais. porém. do sé- 4.. 75). científicas.]”. “alguns filósofos da ci.. remetendo-se a Foucault. E isso evidencia o que era problemático [nos] grupos (STEPAN. Stepan prossegue com outras instigantes in.. entre “raça e gênero”. p. 86-89). não mais mencionarei o ano de sua publicação. através do crânio dos seres humanos. as ideias vigentes fez surgir as ‘lentes’ através das quais as pessoas expe- cido pela sua crítica à importância da controvérsia sobre não eram entendidas como precoces. p. Nesse caminhar de constatações/manipulações interferindo nas relações (inter)pessoais. quando da “revo. propiciou a analogia entre raça e ciência. interessa registrar que “a metáfora chegou a racial começou a ser elaborado”. demarcou pa- metáfora e analogia para o esclarecimento científico”: racistas e sexistas. com o mero propó.. prognatismo. No caso do estudo científico da diferença humana. isso enredar: ciência/analogia/metáfora. infantil e delicado.. às figuras princípio. de um modo ou de outro. sito de salvaguardar privilégios sócio-econômicos dos tidos e os almejados. sobre o porquê da escolha de algumas analogias em de- formações a respeito das apropriações da analogia e 6. foram gestadas e organizadas (1994). do “informações sobre os corpos das mulheres (com- variação humana”. Emerge. nem meramente pessoais”. assim. obviamente. verdadeiro e objetivo – mais robustas e arredondadas cabeças que caracteriza. Ou seja. para se perce. entre péis sociais. analogias e modelos começou a ser reconhecido mentos. p. gerou hipóteses e aju- No entanto. precisamente nos meios acadêmicos – onde. gurar a sobrevivência da classe e a continuação da hegemonia”. à própria ciência”. dade são suas conclusões. ao constatarem a discrepância entre os resultados ob. que o “físico francês Pierre Duhem ficou bastante conhe. à fantasia poética.. pesquisadora evidencia seu propósito que é “contribuir antropometria. as isto é. imersa em metáforas e analogias arraigadas de (pre) Em suma. tão diferente das objetos científicos: seres humanos. demarcando-se a supremacia racial 108 109 . etc7. trazendo à tona a construção científica que no caso. baseados em Lombroso. Diante dessa constatação.] metáforas e analogias não estudiosa. pois. prossegue Stepan (1994. ricos e pobres. apesar de “o papel da metáfora e da ana. e um extenso discurso sobre desigualdade falha em perceber ‘arbitrariedades’ é que faz com que ciência” e às suas “descobertas”. cujas semelhanças entre si e as diferenças nicas e demais instrumentos da área como. a saber: craniometria. indicando primento dos membros.. porém. diria ainda que. em uma (con)fusão epistemológica e na confiscação de subjetivas e até mesmo à falsidade e foi contrastada ao crânio estreito. prosseguem demarcando lugares sociais. em alguns mo. reconhe. nos afigura ideias cômicas. 1994. Tanto é que ao identificarem Mais recentemente. da metáfora pelos “homens de ciência” para afirmar 5. raças Se a “analogia conduziu pesquisas”. tinham o papel de justificar (STEPAN. branquicéfalo. de “uma peculiar analogia da história das ciências. os dias de hoje [. 73). o papel das metá. auxiliando e fundamentan. a as metáforas ou analogias particulares sejam aceitáveis car semelhança com a ficção. em consonância com os demais grupos a ambos os gêneros: feminino e masculino oriundos do incompatíveis com a metáfora tendiam a ser ignorados construções lógicas da ciência em direção a visões mais hegemônicos da época5. no século XX seguem as polêmicas Com base no tamanho do crânio (craniometria) XVIII. E. sob teias e tramas e dizimados sob a égide da ciência. “[. nais ou genialidades humanas. sobrevivido ao transcorrer do tempo.. a Carlos Moore (2007). mas elementos Analogicamente às raças inferiores. tudada sistematicamente. entre o homem civilizado e o selvagem. 1994. 72)4 é possível obser. matizar tais questões. estando ambas análogas ser associada à imaginação. Como estarei me referindo sempre o mesmo texto de Stepan ber. dou na disseminação de novos vocábulos técnicos. quanto à importância ou não das metáforas e analogias. no artigo de Stepan. aqui. Seguindo na direção do pensamento da referida pelos homens da ciência. p. ca. uma teoria ‘raças à parte’. direitos e deveres. evidencia alguns métodos científicos 220). preestabelecidas. p. 73). a fim de atribuir termos específi. entre crianças e adultos”. as diferentes formas de opressão/exploração tão caras “[. formato do No texto de Stepan (1994. das mulheres. Stepan (1994. so. frenologia. o criminoso. possibilitaram a “construção de similaridades”. detrimento do segmento negro. através de “manobras por vezes cômicas”. no século XX. insanos eram.] que “as analogias ou os modelos nelas baseados eram gros). p. Assim sendo. “Não por aca- dos homens da ciência. 73) informa ainda quão fantasiosas.] aspectos da realidade e da experiência humanas toriadores e filósofos da ciência se deslocado das re. segmento negro. 74). questionando de “novos conhecimentos”. 87-88). 28) salienta que. ta científica ou esquemas heurísticos. O PASSADO PRESENTE culturais das analogias científicas”. culo XVII ao século XX. então. emaranhar. poderes. de frenologia. que a burguesia criou “a partir do final do século XVIII para asse. das crianças e dos idosos. da realidade. p. dos homens. farei alu. p. em tragicidade para aqueles que foram discriminados inferiorização negra e a superiorização branca. vam os machos de raças ‘superiores’”. se de um lado os “cientistas” passam a defender das ditas raças superiores (brancos) e inferiores (ne. as tendências crimi. Daí a utilização Partindo de tais exemplos hoje esdrúxulos. pois. é perceptível quando Stepan (1994. pan (1994. posto que mul- não são apenas auxílio psicológicos para a descober. constitutivos da teoria científica”. complementa Stepan (1994. NO SEIO SOCIAL É instigante. linguagem própria. Eis. o que era aprendido nos cursos 7.

dade branca. a eugenia “Com status tam e terminam por legitimar o racismo presente no e as atividades culturais do segmento. como algo natural. ideológicos. Assim. fícios para a sociedade como um todo (TELES. experiências de um cientista obcecado em desvendar imersas em uma sociedade rígida e regida pelo patriar- as (re) ações humanas consideradas anômalas sob seu NEGRAS MULHERES: calismo. enredado com base no fator heredi. que se degenera no meio social em que habi. da da história. Para Bairros (p. Eles atravessam os milênios. chega até nós.. Então. Em O Cortiço. e Um exemplo da obsessão fanática – para não dizer sofridas. sociólogos. de “privilégios econômicos mesmo ponto de vista de Nascimento (2002). Santos (2002) em do que os “grupos hegemônicos” consigam “produzir tudiosos (as) da área. o português. “Numa socie- e Carlos Moore. incontestavelmente se desenvolveram estratégias Nem mesmo a esposa escapa. envidaram-se esforços para perseguir a religiosidade de produção. dades sociais. complementa. escravos e cidadãos em São escravagista. 281) salienta que “O sexismo é um fe- que alicerçaram o racismo ideologicamente”. de disciplina objetivou implantar um método de sele. abandona a família e. Sem entrar em tais meandros. remetendo-se aos “conceitos básicos de 8. afirmando ser Francis Galton “o pai da eugenia”. da intensificação da opressão social. se começa a dar mais visibilidade cos. conforme observamos renciado aspecto teórico-político-ideológico de onde o exercendo sua força ideológica não apenas na comuni. peito da propalada inferiorização da mulher e. visto serem os campos de batalhas mais com. à luz dos ideários 10. de Hipólito Taine. Baiana e o português que se amanceba com ela: Gerôni. Bento (2000). com vistas auto-percepção dificultando – e às vezes inviabilizan. Eis a visão magistral de Machado de Assis face ao tomemos a demarcação temporal de Frei Betto como tãos e. E isso tatou. cujo título é O espetáculo das raças (1993). Ele esclarece ainda que da vontade divina. em uma leitura tos. Eis o que a pesquisado- as virtudes europeias. Evaristo (2007). p. o ra- em favor da sua prole [. nidade negra”. Silva (1995). nesse aspec. 2007. elucidando conceitos tais quela não houvesse “descrições raciais nesses argumen. 281). mas basicamente convergentes. que in- rias racistas em questão. os modos princípios de extermínio dos não brancos. FEMINISMO AFROCENTRADO quais: “libertação” e “emancipação”. seu livro intitulado: A invenção do ser negro: um percurso Como formas de consciência historicamente constru- e perenizar as estruturas de dominação sócio-raciais Gomes (1995. por exemplo. 23). 458). p. tendo como base suas inferioridades ‘naturais’”. p. negras vozes fizeram ecoar as opressões surgiu “nos EUA. 2007.] e classes sociais?”. to. entre outros (as) es. Trata-se. p. muitos outros10. p. aborda tais uma história da eugenia no Brasil. Elas se alimen. nem ele. 69) reitera constatações de Moore das idéias que naturalizaram a inferioridade dos negros. fim. Eis o que cons. Gomes (1995. Schwarcz (1987) em seu livro Retrato do negro brasileiro” antes. 286). assimilada e adaptada nômeno exclusivamente antimulher e o racismo é um a salvaguardar privilégios seculares por meio de ações do . o que poderia existir de comum entre ideologicamente. Aqui o poder sensual e bestialidade da mulher ne. em busca da libertação. brancas e negras. Logo. Platão e Aristóteles. cavam desde a inferioridade dessa raça com relação à oficialmente.. é apropriada e justificada metaforicamente pela ci. p. Esse é o aos interesses dos diversos grupos hegemônicos no ex. cal. 458). Isso. lá se vão as mulheres. tário e fenotípico dos segmentos étnico-raciais. Esta estudiosa assevera e internacionalmente. desfiando suas teias enredadas sob fios teóri- analítica”8. afinal e sociais que são negados à população-alvo”. para “estimu.. 10). 37).. também. historicamente e não ideologicamente”. não só na literatura destinada ao adulto mas. realimentada pela sociedade patriar- logos. No que concerne à comunidade branca. Esse é um exemplo da analogia ra evidencia. (MOORE. lhe era inerente. no dade racista. p. Carlos sustentáculos conceituais daquelas arquiteturas teóricas às pessoas negras e.]”. estruturado sio de Azevedo. Moore (2007.Vale pontuar que Diwan (2007. mas entre parcelas significativas da comu. 2007) entre outros (as) estudiosos da área. etc.. Essa associação. nas feminismo” e. movimento feminista surgiu”. imaginário social e na prática brasileira”. propugnando Mesmo na Idade Média. 2007. Cuti (2010). que sempre se pretendeu neutra e em preto e branco: jornais. tende a ocasionar danos à lada superioridade branca X inferioridade negra impor. p. autoria. a persistência do racismo e de seus male. uma referência. 1987. a alguns dos “homens da ciência” é cas. leva a cidade ao caos ao internar/ TECENDO OS FIOS DE UM e de quem? Responde o autor. marcada por profundas desigual- racismo como um “fenômeno histórico”. sob o aval Mas. 280) delineia as nuances do através da ciência. masculina. reportando-se às teo. porém. um ponto de partida para o alvorecer e indígenas” (DIWAN. Surge daí o feminismo afrocentrado. a inferiorização da mulher é tomada totalmente resolvida pelos vários feminismos. Logo. cismo e o sexismo perpassam todas as culturas e todas do bojo desse contexto que surge a eugenia imersa em racistas “não surgem espontaneamente. Mas. p. durante e após o período Carlos Moore (cit. A esse respei. o alienista. conforme percebem os estudiosos da “fenômenos atemporais. 77) assevera que. 113). plexos ainda que os enfrentados pelas mulheres bran. 110 111 . em que tudo era resultado fantasmagórica – de um personagem que corresponde. as civilizações. Munanga terior e no Brasil. duas figuras são emblemáticas: Rita entanto. Antes. Conforme Frei Betto (2006. que buscaram a pureza diversos. pois expli. no século XIX. (2004). partir dos anos 90 o governo federal tenha reconhecido. sucumbe em todas antes. Há. expandiu-se pelos países do Ocidente. tomando como referência o século XVII. p. aqui. Nos anos 80 (século XX) é que. historiadores. percorreu o universo dos que “Sobre a raça negra. lismo’” (SCHWARCZ. Nessa 18”. desde então. libertação de quê A aludida pesquisadora salienta que embora na. os discursos do Correio eram às desigualdades raciais no Brasil. dade de serem dinâmicas determinadas e construídas racial quando da distinção matrimonial. nem são meras quecimento social e ideológico. aproximações entre os pontos de vista de Diwan outros personagens da Literatura Brasileira expressam a mente. tropólogos. tendo em vista branca até suas características de ‘humildade e servi. área citados até então e. 2003). cia antiga. 23). Esse é a tese defendida por Scwarcz em outro livro de sua to ver: Brookshaw (1983). Embora não possamos traçar uma linha temporal a res. congênito. por outro lado. dias Nascimento (2002) denomina como “genocídio ção humana baseada em premissas biológicas. muito embora só a o sexismo quanto o racismo compartilham a singulari- filósofos. uma espécie déficit que terpretaram a opressão sexual com base em um dife- que “ainda estão presentes na atualidade e continuam tava. 23). com base em Judith Grant. psicó. as filosofias e as ideologias Para Diwan (2007. No entanto. ideológicas” para demarcar a “superioridade dos cris.a construção de uma autoestima positiva. Spencer. 69) constata branco. “Já na Gré. na segunda metade dos anos 60. na contramão muitas mulheres já se rebelavam contra a hegemonia cristão sobre os muçulmanos em relação à posse da muito bem ilustrado através de Simão Bacamarte. Logo. portanto. prender um imenso contingente em seu “laboratório”. mencionar mais exemplos da propa. históricos. a inferioridade dos muçulmanos domínio e às especulações científicas vigentes. Seu percurso histórico é longo e. de Alui. através de Paulo no final do século XIX. Oliveira os problemas sócio-raciais que afetavam as mulheres (2000). esta “questão recorrente não é Assim como Carlos Moore. universais e transversais”. e ganha status de verdade. Stepan (1994. e o florescer do feminismo no Ocidente. ponto de vista. (ibid. Darwin. p. “Tanto nomes e propósitos distintos. gra destroem a retidão e o caráter exemplar do homem Quer dizer. o Rio de Janeiro. levando em conta no exterior e segue aa mesma linha de pensamento de Cashmore 9. recriados em ência no transcorrer do tempo. (2006. por análoga entre ambos. permitin. Aristóteles relacionou a mulher ao escravo. nacional racismo. a libertação da mulher [. fenômeno fundamentalmente antinegro” sendo ambos racistas. o aborda não só no Brasil como produções destinadas às crianças e adolescentes. mo. sobretudo quando este reconhece o influencia da (pseudo) ciência. nossa literatura. Há.]” (MOORE. nestas. economistas e filósofos atuaram como grandes corrobora o sentimento de superioridade em relação Poderia. cientifico. Gerônimo. mulheres de diferentes grupos [. sexista. em seu livro Raça pura: entre raça e gênero. no entanto. de Machado de Assis. ídas e determinadas. Eis o que Ab. “o berço a dominação do Mundo Novo podem ser constatadas obra temos a fina ironia machadiana ao perscrutar as do feminismo moderno”. pondera Bairros (1995.. eis o que se segue. negras reflexões do segmento branco em detrimento dos demais: “An. etnólogos. a noção de superioridade do povo metaforicamente. lar o matrimônio dos casais ‘superiores’. Dentro de uma visão mais Naturalista da realidade. racista e sexista. p. transposições de pensamento externo9. conceitos e aponta as suas limitações. p. p. 19-21) o feminismo a preservação da raça” (op cit. atemporais e englobantes. É (2007) e de Stepan (1994). p. ao entender que as teorias Em termos de outros projetos políticos de embran. obvia. com o advento da “Revolução Francesa”. seu marco dá-se no “século Terra Santa e a inferioridade indígena para justificar obra literária O Alienista. no Brasil. também. tada principalmente da Europa. as religiões. além deles. Nesse viés de pensamento.

distintas frentes de batalhas que os distancia.. Vale sexo biológico como a construção social de gênero. Para Luiza Bairros. etc”. Salienta. têm que de opressão além do sexismo. desse modo. ainda nos dias atuais. por creche (uma necessidade precípua -se na figura do “homem branco. é construída a partir “des. No que se refere à invisibilidade das mulheres ficar todas as mulheres”. Sueli Carneiro (1993. prostitutas etc. p. reconhecimento da diversidade e desigualdade existen- a essa questão faz-se necessário trazer à baila as duas tadas como antimusas da sociedade brasileira. fragilidade. fazendo um paralelo entre o Movimento de mulheres que trabalharam durante séculos como es. [. A primeira ordem. das “diferenças e desigualdades presentes no univer- riência central na identidade das mulheres”. Afinal. pois. seguindo a linha do. afinal. um marco histórico de insurgência das vozes que o sis- mulher”. gras. 67) “o patriarcado ocidental. Diante disso. Logo. mulheres de baixa renda”. 118) entende.. o modelo de lheres (brancas/negras) que Sueli aborda. exercendo uma mulheres lidam com a opressão social do universo pa. sob os moldes lutas pela anistia. Sueli Carneiro chama criados pela opressão patriarcal – passiva. Sueli Carneiro (1993. O segundo versão concebe “a sexualidade [. na luta pela descri. “a opressão sexista de opressão.] Ou greco-romanos. 188). Sueli Carneiro remete-se à opressão social e econô. E o rompimento com esses modelos As mulheres negras fazem parte de um contingente de em geral como novos sujeitos políticos. de Os primeiros passos do Movimento Feminista no Brasil nada quando as feministas disseram que as mulheres nhecimento da diversidade e desigualdade existentes” modo que as diferenças entre mulheres e homens são e no mundo expressaram a intensa revolta [ao] processo deveriam ganhar as ruas e trabalhar! entre ambos os movimentos. branca. É o caso da mulher “vitima de uma cidadania “de segunda ordem”. buscar forças para lidar com as mais variadas formas de e na invisibilidade”. após ele. 205) ilustra isso um poder definido como intrinsecamente masculino”. os Somos seres plenos de potencialidade. uma instigação: será p. como forma de lidar com os papéis de gênero”. pois. o qual “traz implícito tanto a dimensão do no sistema patriarcal? Essa questão é respondida com tema patriarcal racista e sexista tentou silenciar. Outra adver- outros tipos de preconceitos sofridos pelas mulheres lheres viviam “imersas num sistema cujo paradigma de premissa de que a “identidade” resulta “de um proces. Luiza entenderam nada quando as feministas disseram que portância do feminismo no combate ao sexismo entre como diferenças biológicas e sociais [. o patriarcado refluiu no visão de mulher universalizada. p.. os o modelo estético é de mulher branca [.] deveriam ganhar as ruas e trabalhar”. pois. p. reportando-se às 112 113 .189) segue ainda mais pungente: desvenda e dissipa tantas escritoras e escritores desconhecidas (os). e como todo movimento de contestação. 2006). como o racismo. pergunta. e exercido até o século XIX. prisio- em experiências tidas como universais”. 459) chama a atenção para a ne. p. tam. tempos. cujo núcleo mulheres e estudamos.. portanto. igno- versões não deram “conta das questões” que afligiam as que só até o século XX? Penso que não. p. concebidas resgate desta dimensão feminina irrecusável. Fica. ainda. Somos mulheres e trabalhamos. so histórico-cultural”. especificamente? Para responder nos situava mais próximas do modelo da masculinidade. Ontem a serviço de frágeis sinha. a qual mulher a dutor da espécie. que o “movimento de mulheres nos levou ao repercutem nacional e internacionalmente.. mulheres negras. lismo e do racismo preponderante. dedicada à família. Afinal. é óbvio. 67) salienta que “Os branca é a referência. no passa. instigações. a reinvenção da categoria mulher”. cravas nas lavouras ou nas ruas como vendedoras. abordadas até então. A aludida filósofa não desconsidera a importância “[. já que à mulher se atribui opressão social oriundas do patriarcalismo e do racismo.. entende-se que opressão é a “situação doméstico. culturais.] Somos demarca as singularidades entre ambos. homem negro. mulheres que não entenderam a atenção.] o feminismo esteve [. pois Seguindo a direção do pensamento de Carlos sistema escravagista. para a necessidade de “reco- etc. no texto em questão. Daí concluir-se que a “que tinham dificuldades de encontrar seu um lugar. negras. 188). que que explicitamente tentam definir a mulher com base periências e vivências de grande parte das mulheres ne. a ótica das mulheres dos grupos subalternizados intro- rência em diferentes contextos históricos e culturais”. p. prossegue em suas dos feminismos que se insurgem no âmbito das mu. Bairros (1995). são vistas como “antimusas”.. aqui. hoje os sistemas racistas e patriarcais “Quando falamos do mito da fragilidade feminina que critica literária brasileira. as mu. “as vozes silenciadas e os corpos é constituído de um provedor. tuteiras. ruas e trabalhar”. identidade de objeto. assim como outras escritoras. contra a limitação da mulher a mero repro. (1993. Sueli Carneiro (1993.. enfim. mulheres que não são rainhas de nada. assim alguns mitos (re)criados no seio social patriarcal pois. 460. tem sua base de sustentação na família sas definições sexuais e raciais”. à disparidade salarial. Daí a perti. tece considerações sido um regime de influência política na Antiguidade. Ou seja. se. 2006. sidade apontada por Sueli Carneiro diz respeito ao ideal negras e ressalta as “o protagonismo que tiveram nas normalidade e de autoridade social e política” centrava. regime social. A diversificação das concepções e práticas políticas que no entanto fiquem evidentes os motivos de sua ocor. é Questionando e desconstruindo tais mitos. p. de Bairros (1995. é a demarcação dos anos 70 como cessidade de nos atentarmos ao “uso do conceito de mulher costuma-se referir quando se pensa a opressão falando?”. haja vista as so feminino. isso durante e após o um sistema socialmente racista. 458-459) que. através da “história oficial brasileira”. 126). vistas de maneira naturalizada e. Mas. “frequentemente utiliza os mesmos estereótipos Feminista Brasileiro e o “do mundo” pois.. de que mulheres estamos Araújo e Schneider.] cidadania de segunda ordem (1993. p. Mas. dicionais existentes sobre a mulher: contra o mito de zinhas e de senhores de engenho tarados. digamos. Se estas consequência disso. contra o confinamento da mulher ao espaço gadas domésticas de mulheres liberais e dondocas.118). em sua trajetória.. “tendo históricos. sendo o último plano relegado ao gente de mulheres” negras que precisaram “ganhar as bém.. a diferença em nossas trajetórias. Conceição Evaristo. continuaram no silêncio como forma de poder que transforma a mulher em ob. que. mãe e filhos e. Mas. tais início do século XX”. rejeitadas (os). ou duz no feminismo é resultado de um processo dialético Assim sendo. minalização do aborto que penaliza. homens ou mulheres [. portanto. bastante propriedade e veemência por Sueli Carneiro Nós. são constantes em nosso imaginário. de classe abastada” nição biológica. o esposo. mica. fazemos parte de um contingente salientar. por grande parte da mulheres negras. enfatiza Bairros.. negras reflexões As mulheres negras. pois. como identidade social. que são retra. a mulher nência de sua observação. Sueli Carneiro (2003.] através dessas “[. Em como a “dona do lar”. negros. religiosos e psicológicos”. jeto sexual do homem. de mulher universal: a musa. Eis a grande contribuição de Evaristo e outras ber: “radical. emocional. se constituíram na recusa de todos os estereótipos tra. São as disparidades entre os dois universos de mu. promove a afirmação das mulheres que a mulher definir como tal”. mulatas tipo exportação. Conceição Evaristo (2005. cujas vozes lheres” dificultando. p. fazendo uma importante ressalva ao consi. No entanto. faz (em) ecoar vozes silenciadas de pensamento de Sueli Carneiro. Piza (1998. 119) destaca a im. e a prole. também pelos servos e escravos”. lheres brancas. pelas mulheres brancas. é atribuída ao homem branco. com uma definição racial: brancos. de um lado. o que se entende por “patriarcalismo”? Con. o reconhecimento 461) parte da premissa de que a maternidade é a “expe. Nessa mesma linha de ram da denúncia e da reflexão sobre o patriarcado”. das camadas dominantes. de sapiência e força e.. acepções de feminismo aludidas por Bairros. eram (e são) Na mesma linha de pensamento das estudiosas humanidade. derar. “nascemos com uma defi. “as diferenças de sexo” eram “percebidas inicialmente Moore (2007). como a experiência capaz de uni. radas (os). de outro exige o estudiosa se refere.]”. assegura Bairros (1995. Sueli Carneiro (2003. inegavelmente. as forme Piza (1998. Nossa toam de tal padrão. qui. p.] versões do pensamento feminista quais não correspondem à realidade. haja vista a persistência do patriarca. composta por pai. olhar sobre a alteridade. p.. e aquelas cujos traços diacríticos des- das mulheres de classes populares). nesse sentido. DER. tais mulheres “não pensamento. p. pon. ser mulher e negra fez e faz dera. triarcal. estigmatizados de mulheres vítimas de outras formas filhos. ou seja. a despeito da identidade biológica”... as negras mulheres.] por longo tempo. a alusão à heterogeneidade dos movi- Entretanto.. interferindo no justificou historicamente a proteção paternalista dos O que nos importa aqui. p. “identidade social [é] construída a partir de elementos inclusive dentro do feminismo” (ARAÚJO e SCHNEI- Luiza Bairros (1995. 187) parte da [.. Ao desenredar os fios da trama que encobriram a e/ou invisibilizadas em nossa literatura ao longo dos sobre as “versões mais conhecidas do feminismo. Fazemos parte de um contingente de mulheres com é entendida como um fenômeno universal. pois. para sobreviver. Outras acepções de feminismo são apontadas por nuclear. Conceição Evaristo (2005. p. neiro da visão eurocêntrica e universalizante das mu- A primeira versão. que. a sa. Hoje empre. mentos feministas. por estarem imersas em primeiros estudos do feminismo sobre gênero nasce. às ex. quando se refere ao “contin- oprimidas não só pela sociedade patriarcal como. 188). sem que. interessa elucidar: a qual homens sobre as mulheres. seguido da mulher negra. liberal e socialista”. porque tes entre essas mesmas mulheres (2003.

negras reflexões

pesquisadoras da área, a exemplo de Sueli Carneiro, o que fizeram nossos antepassados, às vezes pagando branquitude e branqueamento no Brasil. Petrópolis/ MUNANGA, Kabenguele. Rediscutindo a mestiçagem
Lélia Gonzalez, Helena Teodoro, Luiza Bairros, entre um preço muito alto: a própria vida. Eis a batalha que RJ: Vozes, 2002. no Brasil: identidade nacional versus identidade
outras, tomando como referência, também, a produ- prosseguimos na atualidade, mesmo não contando com BROOKSHAW, David. Raça & cor na literatura brasi- negra. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.
ção brasileira. A escritora alude ainda ao “fazer lite- os poderosos aparatos tecnológicos aludidos por Laure- leira. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1983. MUNANGA, Kabenguele. Apresentação. In: Superando
rário das mulheres negras” e observa que “os textos tis (1994, p.220): as tecnologias sociais, e de gênero, as CARNEIRO, Sueli. Identidade Feminina. In: Cadernos o racismo na escola. Brasília: MEC/SECAD, 2005,
femininos negros, para além de um sentido estético, quais correspondem aos meios, recursos - quer dizer, Geledés, n. 4, 1993, pp. 187-193. p.15-20.
buscam semantizar um outro movimento, àquele que técnicas audiovisuais, midiáticas, científicas, discursi- CARNEIRO, Sueli. Mulheres em movimento. In: Estu- NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasilei-
abriga todas as suas lutas”. São destacadas, portanto, vas, educacionais, entre outras - (re)criados pelos gru- dos Avançados, n. 17 (49), 2003 ro. Salvador: Ceao/UFBA, 2002.
as seguintes escritoras: “Geni Guimarães, Esmeral- pos hegemônicos. CASHMORE, Ellis. Dicionário de relações étnico-ra- OLIVEIRA, Maria Anória de J. Relações Étnico-Raciais
da Ribeiro, Miriam Alves, Lia Vieira, Celinha, Roseli Se a metáfora diz respeito à substituição de um ciais. São Paulo: Summus/Selo Negro, 2000. na Educação e a Literatura Infanto-Juvenil: nas ve-
Nascimento, Ana Cruz, Mãe Beata de Iemanjá, dentre termo, palavra ou ideia de uma coisa por outra, cuja CUTI. A consciência do impacto nas obras de Cruz e redas da Lei Federal 10.639/03 (?!). In: LINS, Jua-
outras”. Acrescentaria nessa relação a própria escritora, conotação é análoga, correspondente à analogia, por Souza e Lima Barreto. Belo Horizonte: Autentica, rez Nogueira e outros (Org.). Linguagem e Discus-
Conceição Evaristo, cuja produção vem se consolidan- outro lado, abrange não só a similitude como, também, 2009. sões Culturais. João Pessoa: Ed. dos Organizadores,
do “no campo literário”, como bem ressaltam Araújo e estabelece pontos de semelhanças entre coisas diferen- DIWAN, Pietra. Raça pura: uma história da eugenia 2006, pp.245-261.
Schneider (2005, p.126). Isso, sem falar na produção tes. Logo, tanto a analogia quanto a metáfora lançam no Brasil e no mundo. São Paulo: Contexto, 2007. OLIVEIRA, Maria Anória de J. Discurso Histórico e
acadêmica da pesquisadora/escritora/professora. luzes para elucidar determinadas semelhanças entre EVARISTO, Conceição. Dos sorrisos, dos silêncios e Narrativa Literária: entrelaces na tessitura da Rai-
Se as relações étnico-raciais, a exemplo da relação diferenças (raciais e de gênero) (re/des)construídas das falas. In: SCHNEIDER, Liane e MACHADO, nha Africana Nzinga Mbandi. In: FLORES, Elio
entre negros e brancos, têm sido desiguais historica- historicamente. Charliton (Org). Mulheres no Brasil: resistência, lu- Chaves e SUCUMA, Arnaldo (Org.). Tricontinen-
mente, já que marcadas pelo racismo e pelo sexismo, A analogia e a metáfora foram, portanto, mais um tas e conquistas. João Pessoa: Editora Universitária/ tal Revista de Arte, Cultura e Ciência. João Pessoa:
também a relação entre homens e mulheres resulta das desses poderosos recursos discursivos, como vimos ini- UEPB, 2006, pp.111-122. Convênio de Graduação e de Pós Graduação, Ano
implicações de vivermos em uma sociedade patriarcal, cialmente. Hoje lidamos com muitos outros: audiovisu- EVARISTO, Conceição. Literatura negra. Rio de Janei- I, v. 1, n.1, Ed. Universitária/UFPB, 2008, pp.123-
sendo as mulheres subjugadas, desvalorizadas em seu ais, midiáticos, educacionais, etc. Mas, não nos damos ro: CEAP, 2007. 140.
saber/poder, assim como as pessoas negras. É possível por vencidos (as) e aqui estamos construindo outras FLORES, Elio Chaves e CAVALCANTE, Fátima Solan- PIZA, Edith. Caminhos das águas: estereótipos de per-
inferir, portanto, que ambos os gêneros: feminino e metáforas e analogias, prescindindo de qualquer desejo ge. Raça, gênero, classe e região: uma introdução sonagens negras por escritoras brancas. São Paulo:
masculino se aproximam analogicamente, por estarem de inverter os centros: do eurocentrismo/eugenismo, à crítica da democracia minimalista. In: SCH- EDUSP / Com Arte, 1998.
à margem da sociedade. pelo afrocentrismo/negro, mas, sim, nos interessa sal- NEIDER, Liane e MACHADO, Charliton (Org). SANTOS, Gislene Aparecida dos. A invenção do ser
Agora, se levarmos em conta as condições básicas vaguardar o respeito e o direito às diferenças e fazer Mulheres no Brasil: resistência, lutas e conquistas. negro: um percurso das ideias que naturalizaram a
de vida de ambos os segmentos étnico-raciais, conside- ecoar outras vozes que tentaram silenciar, embora con- João Pessoa: Editora Universitária/UEPB, 2006, pp. inferioridade dos negros. São Paulo: EDUC/Pallas:
rando os índices de desigualdade entre mulheres bran- tinuem a ressoar em nós. 135-145. 2002.
cas e negras, em termos profissional, sócio-econômico, GOMES, Nilma Lino. Alguns termos e conceitos pre- SCHWARCZ L. Moritz; REIS, L.V de Souza (Org.).
educacional e de saúde, observaremos quão díspares sentes no debate sobre relações raciais no Brasil: Negras imagens: ensaios sobre cultura e escravidão
são as oportunidades destas últimas, se comparadas uma breve discussão. In: Educação anti-racista: no Brasil. São Paulo: EDUSP / Estação Ciências,
àquelas11, o que resultou da aliança entre pensamen-
REFERÊNCIAS caminhos abertos pela lei federal no. 10.639/03. Se- 1996. p. 179-193.
tos racistas e sexistas, enfrentados pelos movimentos cretaria de Educação Continuada, Alfabetização SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças:
feministas afrocentrados, cujas lutas passadas ainda se ARAÚJO, Flávia Santos de e SCHNEIDER, Liane. A es- e Diversidade/SECAD-MEC, Brasília, 2005 (pp- cientistas, instituições e questão racial no Brasil.
fazem presentes. crita de Conceição Evaristo e a mulher negra como 39-62). São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
protagonista em ‘Ana Davenga”. In: SCHNEIDER, LAURETIS, Teresa de. Tecnologia do gênero. In: SCHWARCZ, Lilia Moritz. Retrato em preto e branco:
Liane e MACHADO, Charliton (Org). Mulheres no HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Tendências e jornais escravos e cidadãos em São Paulo no final
Brasil: resistência, lutas e conquistas. João Pessoa: impasses: o feminismo como crítico da cultura. Rio do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras,
CONSIDERAÇÕES (IN) Editora Universitária/UEPB, 2006, pp.123-134. de Janeiro: Rocco, 1994, pp-206-238. 1987.
CONCLUSIVAS BAIRROS, Luiza. Nossos feminismos revisitados. In: MAPA DA POPULAÇÃO NEGRA NO MERCADO SILVA, Ana Célia. A discriminação do negro no livro
Estudos Feministas. Rio de Janeiro, PPCIS/IFCS/ DE TRABALHO. São Paulo: INSPIR – Instituto didático. Salvador: CEAO/CED, 1995.
Diante das diferenças históricas entre a trajetória das UERJ, n. 2, pp-458-463. Sindical Interamericano pela Igualdade Racial, STEPAN, Nancy. Raça e gênero: o papel da analogia
mulheres negras e brancas, Sueli Carneiro (2003, p. BETO, Frei. Marcas de batom: como o movimento fe- outubro, 1999. da ciência. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de.
192) sugere o “enegrecimento do feminismo”, o qual minista evoluiu no Brasil e no mundo. In: SCH- MOORE, Carlos. Racismo e sociedade: novas bases Tendências e impasses: o feminismo como crítico da
implica em considerar a “trajetória das mulheres ne- NEIDER, Liane e MACHADO, Charliton (Org). epistemológicas para entender o racismo. Belo Ho- cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994, pp.73-93.
gras no interior do movimento feminista brasileiro”. Eis Mulheres no Brasil: resistência, lutas e conquistas. rizonte/MG, 2007. TELLES, Edward. Racismo à brasileira: uma nova pers-
João Pessoa: Editora Universitária/UEPB, 2006 MUNANGA, Kabenguele. Para entender o negro no pectiva sociológica. Rio de Janeiro: Relume Duma-
(pp. 19-26). Brasil de hoje. São Paulo: Global / Ação Educativa rá: Fundação Ford, 2003.
11. Consultar o Mapa da População Negra no Mercado de Trbalho BENTO, Maria Aparecida da Silva & CARONE, Iray Assessoria, Pesquisa e informação, 2004 (Livro de
(veja-se nas referências). (Org.). Psicologia social do racismo: estudos sobre Professores).

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negras reflexões

A Redenção
do olhar:
uma abordagem RESUMO abstract
semiótica O presente artigo lida com algumas questões sobre representação
visual da população negra no contexto brasileiro. Para tanto, o au-
This article deals with some questions about visual representation
of the black population in the Brazilian context. For make it works,
tor se utiliza da semiótica formulada por Algirdas Julien Greimas the author uses the semiotic purposed by Algirdas Julien Greimas as
tentando estabelecer correlações entre duas imagens que nos aju- support trying to set up relationship between two images that help
dam a revelar a dimensão histórica do conteúdo racial no âmago us to reveal the historic dimension of racial content in the core of
Nelson de nossa cultura visual. Uma das referências é a pintura intitulada our visual culture. One of the references for this study is the painting
Inocencio “A redenção de Cã” datada da segunda metade do século XIX, e a named “The Can Redemption” from the second half of XIX century,
outra é a cédula de quinhentos cruzeiros que entrou em circulação while the other reference is the five hundred cruzeiros bank note that
Docente do Departamento de Artes Visuais na segunda metade do século XX durante a ditadura militar. O was delivered in the second half of XX century during the military
da Universidade de Brasília (UnB). Coorde- intuito é o de explicar como o ideal de branqueamento ainda é dictatorship. The aim is to explain how the whiteness ideal is still a
nador do Núcleo de Estudos Afro-Brasilei- um modelo seguido, apesar da visão paradisíaca concernente à pattern to be followed, despite the paradise view in which concerns
ros da mesma universidade. Foi membro celebração da diversidade no Brasil. the diversity celebration in Brazil.
da direção nacional da Associação Brasi-
leira de Pesquisadores Negros (Conselho
Nacional de Educação). Doutorando do Palavras chave: Branqueamento, cultura visual, negros, racismo, Keywords: blacks, racism, semiotic, visual culture, whiteness.
PPG-Artes da UnB, com pesquisa acerca semiótica.
do Museu Afro-Brasil em São Paulo.

A IMAGEM IDEAL tação. A conjunção almejada se refere ao processo de Em termos de formantes pictóricos, a obra, obje-
mestiçagem. Neste caso o embranquecimento cumpre to de nosso estudo, apresenta três elementos que estão
COMO PROBLEMA o papel de uma sanção, ou seja, a performance desta vinculados à análise proposta pela teoria greimasiana,
família rural do Brasil agrário do século XIX resultou ou seja, a dimensão cromática proporcionada pelo uso
no nascimento daquela criança especifica, que naquele das cores e suas combinações, a dimensão eidética as-
Esta breve reflexão é um esforço de análise do quadro momento se constitui em objeto modal que conecta sociada à estrutura do quadro e como resultante da
intitulado A Redenção de Cã de autoria de Modesto seus familiares às aspirações de um distanciamento da articulação entre as duas primeiras temos a dimensão
Brocos Y Gomes, datado de fins do século XIX, 1895 imagem negativa atribuída aos africanos e seus des- topológica da pintura.
para ser mais específico. Trata-se de uma pintura, obra cendentes. Transferindo para o quadrado semiótico a A manipulação proposta pelo enunciador, no caso
figurativa cujas dimensões são 199x166cm. O referido situação exposta na pintura analisada, diríamos que em o autor da obra, busca um fazer crer no enunciatário
trabalho pertence ao acervo do Museu Nacional de Be- termos de contrariedades encontramos a relação negro que por sua vez deverá estabelecer algumas relações en-
las Artes, Rio de Janeiro, e tem suscitado ao longo de sua x branco e, em termos de contraditoriedades, uma ou- tre a imagem presente e outras que por ventura estejam
existência uma série de debates e reflexões. tra constituída por não negro x não branco. A tensão arquivadas em seu arquivo mnemônico. Assim, algu-
Nosso empenho aqui é o de tentar pensar este qua- está estabelecida na relação negro x não negro que, de mas associações são possíveis, entendendo que o reper-
dro à luz da semiótica greimasiana ou, melhor dizendo, acordo com a configuração do quadrado, seria o segre- tório, ou em outros termos, a cultura visual do enun-
do que sabemos dela. Seguindo o pensamento de Al- do. A criança parece ser branca embora a ascendência ciatário, se caracteriza como um elemento fundamental
girdas Julien Greimas, para quem a unidade de senti- negra coloque sob suspeita sua aparência. A estratégia que possa permitir a construção dessas associações as
do é fruto das relações entre actantes, nos dispomos a está exatamente em não revelar essa condição particu- quais também denominamos de intertextualidades.
analisar a Redenção de Cã levando em consideração o lar comprometedora. Existem marcas constantes em ambas imagens que
plano da expressão tanto quanto o do conteúdo. Neste Retomando um pouco alguns aspectos da pintura nos impelem a fazer exercícios na procura dessas in-
caso, ao falarmos de expressão, identificamos tratar-se e com o intuito de ir além de uma interpretação que se tertextualidades. Relacionando a pintura em discussão
de um quadro a óleo sobre tela, realizado à maneira restrinja ao plano da superfície podemos nos apoiar com outras produções imagéticas anteriores ou pos-
acadêmica conforme os cânones da pintura neoclássica. nos argumentos de Vicente Martinez quando desen- teriores, algumas aproximações parecem inevitáveis.
As dimensões da obra são amplas, o que corresponde volvendo análises semióticas acerca da pintura enfatiza: Quando fixamos o olhar na tela e sabemos então se
a um modo peculiar de figurativização da época. No tratar de uma abordagem alusiva à miscigenação, acio-
que concerne ao conteúdo, nos deparamos com uma A pintura se caracteriza por ser uma manifestação onde namos o nosso arquivo. No intuito de fazermos um
situação doméstica em que as personagens comparti- nosso olhar é estimulado pela cor, pelo traço, pela li- breve exercício, buscando outras referências visuais, po-
lham um momento de euforia, na medida em que as nha, pela textura, pela matéria, pela forma, etc. e pelas demos destacar imagens bem mais recentes como as da
posturas dos adultos em relação à criança, induzem a relações estruturais que sustentam estes elementos. cédula de 500 cruzeiros aprovada pelo Banco Central e
uma manipulação do olhar expectador, no plano da ten- (Martinez, 1999, pg. 297.) que entrou em circulação nos anos 70, em pleno regime

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negras reflexões

autoritário. Conforme o discurso oficial, esta cédula Há na pintura redundância, repetição e reiteração so. O outro texto com o qual pretendemos fazer uma
trata da evolução étnica brasileira, e foi escolhida para suficientes para que possamos identificar nela a exis- interface é uma cédula de 500 cruzeiros que entrou em
a celebração do sesquicentenário da independência. O tência de isotopia, cujos conectores se encontram na circulação no inicio da década de 70 do século passado,
conteúdo da mensagem impressa na cédula está em própria cena, como as características físicas das pessoas durante a ditadura militar. A referida imagem exibe de
consonância com o exposto na tela de Brocos y Go- envolvidas e suas gestualidades, por exemplo. Podemos um lado os diferentes estágios do Brasil desde o “desco-
mes. O foco é a miscigenação não apenas como uma corroborar tal afirmação observando as mulheres em brimento”, passando pelo comércio, colonização, inde-
performance, mas como um querer, um poder e um cena, cujas posturas são tais como as que aludem a uma pendência, integração. A sequência sugere um processo
saber fazer que têm como sanção a constituição de uma graça alcançada. O enunciatário, todavia, necessita ser de desenvolvimento que vem se consolidando ao longo
imagem que nos leve a crer que parecer ser branco, embasado para compreender o discurso apresentado, de mais de quatro séculos.
europeu e ocidental nos garante algumas vantagens. ou seja, para sair de uma condição de não saber para É uma espécie de exercício cartográfico enalte-
A ideia principal é a de que investir no processo de uma condição de saber. Não se trata de uma relação cendo a grandeza do país na perspectiva do discurso
embranquecimento gradual nos dará acesso a algumas imediata de causa e feito, mas o enunciatário precisa oficial. Na outra face, a cédula exibe, analogamente aos
benesses. No caso especifico de A redenção de Cã o procurar entender o porque da execução de uma obra mapas, imagens de brasileiros, todos do sexo masculi-
processo de mestiçagem livraria das trevas muitos in- com esta temática específica naquele dado momento. no. O desenho começa por um indivíduo indígena, pas-
divíduos aos quais seria atribuída uma espécie de fardo Em outras palavras a sua interpretação está condicio- sa por um indivíduo branco, por um indivíduo negro e
celestial. Isto porque, considerando uma versão bíblica, nada pelo instrumental de que ele dispõe para fazer a partir daí as relações inter-étnicas e inter-raciais dão
o Criador teria marcado os herdeiros de Cã, gente cuja suas ancoragens e a partir desse momento desem- a tônica do processo de formação da população brasi-
identificação estaria associada ao fato de portarem pele penhar o seu papel como actante, expressando o seu leira. Até então, nenhuma novidade, apesar da terrível
escura. Daí o título da obra. entendimento tanto no plano da expressão quanto do omissão acerca do desencadeamento desse contato en-
conteúdo. A referida pintura suscita polêmicas sobre tre povos distintos, o qual teve como uma das referên-
as ideias acerca de “raça” em função de sua aborda- cias insofismáveis a violência sexual contra mulheres OS SUJEITOS
gem. Por outro lado, no contexto da cultura brasileira, ameríndias e africanas. De acordo com aquele discurso
seu teor explicita questões abertas desde a colonização, imagético, as faces vão clareando até que chegamos a
como um constante mal estar causado pela presença uma noção do que seria o brasileiro da atualidade, que Conforme as leis da semiótica, sujeito não é pessoa, ob-
africana na cena nacional. possui a aparência de pessoa europeia, dentro dos pa- jeto não é coisa. Partindo desse entendimento e compa-
Ana Claudia de Oliveira, no livro em que orga- drões tradicionais hegemônicos. rando a duas imagens ora relacionadas, percebe-se que
niza, intitulado Semiótica Plástica, argumenta que o Esta cédula circulou por uma década ou mais e o há um sujeito que se constitui na ideia a ser seguida.
interesse pelas imagens, pela visualidade, possui uma seu conteúdo sempre foi problemático, por vários as- Talvez pudéssemos atribuir ao discurso da mestiçagem,
abrangência que extrapola o campo das artes plásticas pectos. Como já mencionamos antes, a presença mas- como fenômeno que se persegue obstinadamente na
e da comunicação visual. Isso significa que toda cons- culina parece absoluta e nesse aspecto ela difere da tela cultura brasileira, esse papel que corresponde ao de
trução imagética passou a ser objeto de interesse nos de Brocos. Por outro lado, naquela pintura do século manipulador de nossas vontades, transformando-as
mais diversos domínios. A partir desse argumento e XIX, a sanção, ou seja, a redenção, só é possível graças em um querer fazer, um dever fazer, um poder fazer.
acreditando que para a semiótica a relação entre siste- à figura paterna, condição que devolve ao homem seu Mas principalmente nos fazer crer que é possível ser
mas distintos pode se realizar desde que esta aproxima- papel quando não absoluto, determinante para a vida feito, por que esta é uma conduta a ser seguida. Esse
ção viabilize interpretações palpáveis, nos lançamos ao das mulheres. Na obra dos oitocentos a figura mascu- discurso é produzido em alguma instância por alguém.
desafio de buscar correspondências que nos auxiliem lina seria um objeto modal, ela é necessária para que o Esse alguém, que poderíamos identificar também como
nesse processo e que não estão necessariamente no clareamento da pele ocorra. Precisamos dela na busca o segmento composto pela hegemonia eurocêntrica,
campo da pintura. obstinada por uma aparência que omita a africanidade. acredita no embranquecimento como uma sanção a
No esforço de tentar interpretar a obra em ques- Já na cédula de 500 cruzeiros a última figura masculina ser alcançada.
tão, explorando ao máximo seus elementos pictóricos, da esquerda para a direita seria o objeto de valor. Seu Um outro sujeito seria a parcela da população que
procuramos estabelecer ao menos uma ancoragem que papel é análogo ao da criança sentada no colo da mãe. ainda não alcançou o ideal a ser seguido. Este segmento
pudesse auxiliar no percurso gerativo de sentido, recor- É no plano do conteúdo que vamos encontrar o que as é constituído por pessoas que não foram “redimidas”
O resultado da performance está explícito na pin- remos às imagens arquivadas em nossos repertórios. duas imagens têm em comum. De uma forma ou de pelo processo de miscigenação. Elas são manipula-
tura que apresenta três gerações de uma mesma família, Dessa forma, a associação da imagem em questão com outra, ambas preconizam que o processo de embran- das no sentido de que suas ações convirjam para as
sendo que as duas primeiras assumem as competências uma outra, não menos polêmica, se tornou inevitável. quecimento é uma meta a ser alcançada. As estruturas, ações propostas. Porém tais pessoas não possuem a
para tornar possível um desejo. Nesse sentido, como já Mas o outro referencial, que por algumas razões se co- as maneiras como estão concebidas as disposições das competência absoluta para realizar o que esta sendo
mencionado, elas querem fazer, elas podem e sabem necta à obra de Modesto Brocos, permite a vincula- personagens, a manipulação do olhar que é impelido a proposto. É necessário que as pessoas brancas sejam
como fazer. A estrutura da obra, por exemplo, dialoga ção mesmo sem se tratar de uma pintura, sem ter sido percorrer caminhos que nos levem ao ideal em termos também manipuladas para que esta performance se
com representações clássicas da literatura brasileira que produzido no século XIX, sem corresponder a valores de uma aparência aceitável, tudo converge e conspira realize. Os temas da tela e da cédula parecem ter uma
destacou a mestiçagem como valor nacional. canônicos de um período da historia da arte. Nada dis- no intuito de persuadir-nos neste sentido. força tamanha a ponto de se caracterizarem como

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fotografia. a antropologia e os estudos culturais. outra discussão interes- prio repertório. a fim de aderir a um arte e que serve também para auxiliar na fundamenta. É curioso notar como. ou seja. o que importa para o semioticista francês posta por Greimas e suas dimensões. no caso. tentará fazer as suas ancoragens. em discutir a cognição estética passa pela determinação cilmente se sentirá incomodado com A redenção de Cã. dessa perspectiva semiótica. sem que neces. artística. ou não ser evocadas. ele poderá lograr maior Podemos lembrar do “cabelo bom”. quer as midiáticas. retrata-se a evo- ao ideal. Ao ais mais distintas. Contudo. a exemplo de vínculos com uma devidas proporções. Este rias transformações narrativas. no que diz respeito ao abandono de valores a própria tela que é aquele que explica ou leva à sua tos fluidos nas artes visuais. com sua história. ainda que guardadas as foi utilizada em congressos científicos para ilustrar te- dos como positivos. por gressas do país sem os quais o enunciatário terá pouca observadas na ação que ocorre. tanto que a referida pintura já INTERTEXTUALIDADES uma sociedade ávida por compartilhar valores defini.ou ainda do “negro analíticos sobre cultura popular e outros fenômenos. Comércio. enunciatário é chamado a construir uma interpretação. Uma ob. zadora da Sagrada Família” (Morais. seus costumes. se não sintagmatização das unidades mínimas. outras imagens com as quais acreditamos haver algu. Diz o texto: da população em geral. riam ao outro. pg. Nesse sentido. às interpretações paradisíacas de Brasil. que aqui procuramos relacionar à cé. paradoxalmente. uma cédula que. “redentor”. queremos reiterar que a aproximação sugerida passo que na cédula não se deixa transparecer uma di. as relações de gênero. cita o pintor Gonzaga Duque No anverso da cédula de 500 cruzeiros. na imagem que ora está diante de nossos olhos. no futuro. como uma recriação étnica e moderni. no intuito de compreender o discurso ima. guma noção do discurso da mestiçagem. conforme Ana Claudia Oli- topia estão todos ali. antes. Sem ele nada teria sido de tomar como um dos pressupostos a bagagem ou o Sua tendência é a de estar em conjunção com o trabalho possível. de que a presença negra é incômoda e. Quando algum texto visual nos chama a atenção preconizaram as instituições coloniais. preferência nacional. as intenções do artista. minimizada. atenuada. ao lermos do artista e de compartilhar um momento eufórico. explorado por mente crítica no que concerne aos usos e abusos dessa ção). A ideia de nação gem natural ou pintada. passasse por uma mutação imediata. Elas são passageiras. seja ajustada (negra)/ alhures (Brasil agrário do final do sec. A O que entendemos é que tanto a tela quanto a cé. Retornando ao esforço de estabelecer uma ancoragem aparência que se encaixe dentro dos padrões ocidentais ticos de arte divergem em suas argumentações. seqüência de cartas ser alcançado. tes flancos como. desenhada. Os crí. imagens que podem Pensando a debreagem . relação levando-se em conta os germes de nossa longa elas tende a conduzir-nos para outra interpretação. negras reflexões uma configuração discursiva. a visual. Modesto Brocos. optamos por ciatário tenha que despender grandes esforços. pg. Mas por que razão primeira vista). portanto. é interessante ethos brasileiro que aqui e ali ressurge quando falamos gético. qualquer que seja: arquitetura. mas marcas textuais semelhantes àquelas encontradas dade de que. bem humorada do país. poderíamos até valo. o seu alcance no percurso gera. símbolo que con. Dele depende o futuro. com suas regras. XIX) / medida em que as personagens adotam uma postura cifica. por seu turno. um alvo a ser perseguido e que vale a pena ção do arranjo da expressão de todo e qualquer texto o qual dirá que: “A Redenção de Cã poderia ser tomada. podemos recorrer à ima. 24. gravada. traz implícita a ideia de que branquea- resultado de uma performance pode conter um certo -racial. lução étnica brasileira e. car em pontos chaves que também são objetos da pes. Não é por acaso que até os nos- significação. sem que o enun. cujo interesse exemplo. E nem é necessário na imagens também.” (Oliveira. São ingredientes. sos dias tais noções influenciem textos pretensamente ela cria sentidos de alcance social e político.) à primeira vista. no nosso caso. as pessoas de diferentes gerações estudo do plano da expressão das manifestações visu. ou seja. Os desencadeadores de iso. sejamos um país a possibilidade de se acessar o repertório na busca de projeto “modernizador”. mente teríamos condições de olhar a obra por diferen. que também são complexas no texto visual. interpretando esta tela/ e agora. o qual consiste noção. ção de nossos argumentos. 12. resultando em uma dada papéis sexualmente muito definidos. Alguém que acredite. certa. quando o gem da mulata. a presença de brancos. sença fundamental na trama. O que está presente nestas concepções é um em que ele. percursos temáticos e branqueamento. ção disjunção/conjunção. rosidade. juga uma série de visões estereotipadas que não cessam. Sobretudo. para a mestiçagem brasileira. em arriscar algumas interfaces. Uma condição entrar em disjunção consigo mesmo. sante permeia as noções apresentadas. de alma branca”. É como se esse homem viril e exclusivo visual. principalmente é evidenciar não o contexto de fora da pintura. mas que certamente povoam nos. no reverso. sua interpretação não é nada fácil. Embora. na contempo- quer comentário sobre as circunstâncias em que o de seu arquivo mnemônico que seleciona e compila Qualquer cidadã ou cidadão brasileiro possui al. um objeto de uso diário que circula pelas mãos seu sistema. sine qua non para que a ancoragem se dê é exatamente suas tradições. aqui. Por exemplo. visando a produção de sentido. paisa. tivo estará profundamente relacionado com o tamanho so imaginário. até os outros que questionam veira. a noção de mestiçagem como rizar nossos acentuados processos inter-étnico e inter. 2002 pg. deve dula são capazes de criar sentidos de alcance social e do uso do repertório de cada enunciatário. Frederi- está relacionada ao belo. A tela não traduz ou reflete ideologias. quisa no campo da cultura visual. devem ser manipuladas para Ana Claudia de Oliveira e algumas de suas significativas O que está figurativizado na obra tem um apelo dar lugar ao novo. “mundanos”. que envolve vá. raneidade. Esse deslocamento implica em alguns entendi- se quer dizer. O homem sentado no arte. quer as do mundo natural. não das herdeiras de repertório imagético do público. Aliás. desde que este gesto não servisse para encobrir insistimos nessa ideia? O fato é que as interpretações mento e modernização possuem uma correspondência glamour. dula de 500 cruzeiros) dificilmente poderão prescindir herança escravocrata. Considerando que o texto De acordo com argumentações supracitadas. político. Em se tratando dessa situação espe. qual. “pagãos”. mais do que isso. batente da porta de uma casa modesta possui uma pre. O eu (negro)/ Assim sendo. mestiçagem encontra-se imbricada à ideia sorrateira de Esta argumentação é de real importância por to. no mito da democracia racial brasileira difi. segundo as informações presentes na que aquele texto carrega se vincula a uma noção de é construído por uma arranjo especifico de sua plástica. Co- 120 121 . ou mesmo à indiferença. um olhar mais crítico sobre escravocrata. Deveriam ainda reagir de maneira eufórica à possibili- Floch: sariamente haja respeito pelas diferenças. se deu a partir de um exercício de memória. Por outro lado. Cã. Os negros. seja essencial. 2004. No reper- ferença etária. escultura. Tudo vai depender dos mentos importantes sobre as condições sociais pre- pois complexas relações de gênero e raça podem ser em uma formulação teórica subsidiada pela história da pontos de vista de quem olha. parece haver alguma conexão entre nossa abor. por exemplo. Entendemos que o adjetivo “plástica” pode abranger o aqueles que acreditam ser a tela de Brocos uma visão e a cédula. seu descendentes se assemelha- No afã de compreender melhor a semiótica pro. sofrendo um deslocamento que propõe ela quadro foi pintado seria nulo. foi a primeira criada com o objetivo pátria profundamente afetada por um olhar oficial. deveriam Voltando à Ana Cláudia de Oliveira. desde possível na relação que tentamos construir entre a tela de beleza e representação. que o domínio da imagem extrapola a produção com maior ou menor concentração de melanina. quer as artísticas. Aquele que atende às aspirações de observações sobre semiótica plástica ficamos tentados ideológico irrefutável. mas tabelecer algumas aproximações com outros concei. dependendo da compreensão que se tem de visões reacionárias acerca de nosso passado africano e possíveis diante das imagens em questão (o quadro de “divina” entre si. chances de lograr êxito no percurso gerativo de sentido. e entendendo. Oliveira explica que: ses acerca composição étnica futura do Brasil. procuramos es. 2004. obra consultada. (Oliveira. Não parece algo muito distinto do que “No entanto. pelo menos está vinculada denominar plástica a semiótica que se ocupa da descri. na medida Interessante notar ainda alguns aspectos da rela- ser amenizada.) ou menor êxito dependendo da amplitude de seu pró. co Morais. a Igreja. argumento. histórico-geográficas – Descobrimento. pesquisadores da área de arte/educação. tório da cultura visual explorado constava este objeto. notar uma de suas argumentações no tocante à obra de de nossas tão idolatradas e supostas tolerância e gene. reduzida. Ela dirá citando Jean-Marie em que se convive com a diversidade. Na organizada por mecanismos estruturais particulares de servação mais atenta nos mostrará o desempenho de de comemorar o sesquicentenário da Independência cédula. embora ocorra no nível fundamental (à figurativos. Não é difícil de compreender a nefasta ambas imagens.50). no passado (lá no início do período pós-aboli- quase cênica no contexto da obra para enfatizar o que dagem e o conceito de cultura visual. do Brasil.

São Paulo: brasileiro. Porto Alegre: Artes capacidade perceptiva. em consonância com os en.) que de alguma forma questionem o padrão vigente. mas não per. _______. A depender do que o processo Brevíssimo rindo-lhe uma significação específica. No sentido geral “aquilo que é enunciado”. por exemplo. determinadas imagens problemáticas fluam impune. 2006. dade tem o efeito de transformar essa cadeia em uma Seriam tais perspectivas excêntricas e contra-hegemô. retrógradas e Debreagem reacionárias sobre alteridades. “parentesco”) dos traços distintos que nele podem ser Oliveira (org. possível. Joseph. homogeneidade. acreditamos que a cultura visual produz Isotopia 1979. no decorrer de uma cadeia sintagmática Alegre: Mediação. 278. Paulo: Contexto. no ato da linguagem e com vistas à manifestação. Algirdas Julien. ou ainda ficação. no interior desse pa. às estratégias de manutenção de certos sintagmas em de índices espaço-temporais (. Jose Luis. ao mesmo tempo. até porque os processos dialéticos fazem Dicionário de Semiótica / Greimas & Courtés. como bem sabemos. concernentes às tonalidades. Independência e Integração do Brasil. educativa e projeto de trabalho.). 5 (pgs. São Paulo: Editora Cultrix. Se. ante. independente de qualquer outra determina. 2002. a submetendo-o às mais perversas banalizações. imagens que podem tanto permitir o avanço de nos. participam do processo”.. a debreagem. que dizem respeito aos teores das o texto como está explicita e sustenta uma compreen. aspectos topo- cação oficial e. negras reflexões lonização. mentação de políticas públicas embasadas em ações imagens produzidas. hierarquia sintagmática. por outro. Um trabalho artístico pode apresentar aspectos cro. repousa Sciences Politiques – CEVIPOF. Paulo: Banco Safra. um simulacro de um referente externo e a produzir o radigma. A estrutura elementar da signi. o que não ção. nicas alimentadas por uma ética distinta que nos leva a máticos. OLIVEIRA.295 – 313). Enunciado FIORIN. Um mesmo sujeito pode avançar ali. riormente a qualquer análise lingüística. Os dois textos visuais sual do passado dialoga com a cultura visual contem. mas. se deve o termo: “actantes são os seres ou as coisas que. 2002. Estas possibilidades não cias) (este verbete. Contudo. como os demais foram extraídos do Quadrado semiótico cia Universidade Católica / Programa de Estudos são refutáveis. na paradigmática e na processo de análise que procura enfrentar o desafio sim constituir os elementos que servem de fundação cognitiva. Vicente. É aí que parece estar o gancho que desta segunda década do século XXI. mióticas.) Os sintagmas são obtidos tudos críticos direcionados para a produção artística e de maneira implícita. 2004. Cultura visual. A Condutas providenciais. a qual uma vez inscrita no esquema narrativo se te vir a se constituir em ferramenta importante no certos termos ligados à sua estrutura de base. lógicos. parte da existência humana. nada é tão bem resolvido sofre o ato. Centre Nationale de a um título qualquer e de um modo qualquer. enquanto um dos aspectos Designa-se pelo nome de sintagma uma combinação de Cã encontrar correspondências na segunda metade constitutivos do ato da linguagem original. ao contrário. Actantes interatividade. 1999. Ambos Compreende-se por quadrado semiótico a represen. categorias semânticas baseadas na isotopia (o ótica visual?”.) compreende-se a disposição (. mas ou discurso) definíveis(. glossário sideração seu novo campo de aplicação.. a própria instância da enunciação. afirmativas para a população afro-brasileira no início tas do século XIX. Elementos de analise do discurso. GREIMAS. imposto por essas imagens que coisificam o outro. semântica qualquer. portanto. para as. em tempos de téricos. autores citam Tesnière sem especificar a obra) a quem tação visual da articulação lógica de uma categoria Universidade de São Paulo/ Faculdade de Filosofia. São A grande questão que permanece aberta diz respeito (. acerca da localização ou cenário. aspectos ma- tendimentos e aspirações da oficialidade brasileira. portanto.. suficiente para constituir O Museu de Valores do Banco Central do Brasil. inaugura o de elementos co-presentes em um enunciado (frase do século XX. “Semiótica plástica ou semi- nossos repertórios. por exemplo. Sintagma um lado ficamos estarrecidos com o fato de A Redenção -aqui-agora”. GREIMAS. Bibliografia são de evolução étnica que remonta às teses racialis. man”. Médicas Sul. por contrapartida. O Brasil na visão do artista: o país CONSIDERAÇÕES FINAIS o eixo paradigmático (comutações e substituições) da e sua gente..) que visam constituir mite por isso mesmo distinguir. “A eloqüência da pintura de Ry- desconstruí-los. Se a cultura vi. Frederico. de si. mudança sas compreensões como podem também limitar nossa isotopia e o transferiu para a análise semântica. Recherches Scientifiques / Fudation Nationale de a título de meros figurantes e da maneira mais passiva como uma relação entre ao menos dois termos. Da imperfeição. dezembro. 2000.. De caráter ope. no.num primeiro momento . 2000. quando definida . enunciado.. In: Revista do Centro de Pesquisas Sociosse- assim. In: Semiótica plástica / Ana Claudia tam perenemente nossa cultura visual. reconhecidos (. repensar nossos modos de ver na contemporaneidade. Tesnière. Hacker Editores. (grifos a significação estética possibilitam outras abordagens Eidético estabelecimento das relações entre as partes e a totali- nossos) (Banco Safra. ção. pela segmentação da cadeia sintagmática. reiterando noções conservadoras. Greimas tomou ao domínio da físico-química o termo HERNANDES.. ou de uma perspectiva institucional. que. apenas sobre uma distinção de oposição que caracteriza MORAIS. confe. Algirdas Julien & COURTÉS.São relaciona uma imagem à outra. Ancoragem linguagem: ela é. parece oportuno lembrar que a construção -se por enunciado toda grandeza dotada de sentido. acreditar em sua veridicção. qual a instancia da enunciação distingue e projeta fora Sanção é uma figura discursiva correlata à manipula- Pensamos que a semiótica possa indubitavelmen. Assim para citar L. e aspectos eidéticos. Letras e Ciências Humanas.) mente. ao enunciado-discurso. Ana Claudia. Catadores da cultura visual: transformando to. permitindo que efeito de sentido “realidade”.. seletivo reserva no arquivo mnemônico de cada sujei. alusivos aos materiais expressivos empregados data em que o livro foi lançado é de 2000 e obviamente enfrentamento institucional do racismo e de imple.. 2000. de uma perspectiva artística independente de uma sociedade democrática também é e sempre foi pertencente à cadeia falada ou ao texto escrito. São Paulo: Prêmio. uma questão de imagem. sendo que o 122 123 .) de um conjunto um paradigma composto de n termos. Se se concebe.. Fernando. podemos estar cercados de estereótipos e o que é ratório. diferenças e identidades Pode-se tentar definir debreagem como a operação pela Sanção não hegemônicas. fomen. O texto supracitado está inserido em uma publi. 2007 há chances de determos informações suficientes para Actante pode ser concebido como aquele que realiza ou de classemas que garantem ao discurso-enunciado a MARTINEZ. localiza nas duas dimensões. São Paulo: Hacker Editores. São Paulo: Pontifí- impede seu retrocesso aqui. por instância da enunciação como um sincretismo de “eu. figurativizam noções do que seria a evolução do povo porânea. levando em con. pg. nos damos conta de que es. Se refere aos aspectos das imagens propriamente ditas. o conceito de isotopia designou inicialmente a fragmentos em nova narrativa educacional. Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica. Porto pior. Di- Sem a pretensão de encerrar as questões aqui cionário de Semiótica. Entende. (não está nas referên. levantadas. uma vez agregados.

interlocuções .

a ser repelido com veemência João Batista Borges Pereira delineia uma trajetória que na tentativa de aplacar as desigualdades raciais pela/ Nascida em Salvador. sim. onde lideranças negras se tornam ais. Delinquente por natureza. sentado. numa análise negativa. problemas. Na sequência. dança do perfil das pessoas que estão no espaço univer- tuais negros/as para a potencialização de nossas lutas.de acordo a questão do negros nas agendas de estudos. se ao longo e mortes simbólicas a que a pessoa negra . são alguns homem. sendo que intelectuais negros e de classe tante? Trago. o científico. dos pela população negra para o acesso. a partir de inciativas de estudiosos como Roger Bastide e e um maior número de negros militantes e intelectu- estaduais e municipais. com pesquisa recente do Ministério da Justiça através concorda com essa linha evolutiva? Se permanecemos Nesta primeira edição da revista Ngunzo. no artigo “As relações entre a academia e a do processo de sua institucionalização. com o direcionamento de ação para novas do Colégio Nacional de Ouvidorias das Defensorias mente inferior” e do “não-ser” continuam aderidas ao segundo Borges Pereira. trago uma interrogação: o que conta Florestan Fernandes e Roger Bastide na USP. nas três primeiras décadas do entrevista: Mesmo não sendo uma pessoa de “larga vivência aca- século XX. pelo Estado. em face da necessidade de conquista de Públicas do Brasil. produz um dos tipos de conhe- cabe reconhecer que a produção acadêmica auxilia na cimento. e o cultivo da identidade racial. na sua opinião. ticas de Ações Afirmativas do órgão. A primeira. Anhamona de lábios. da academia acerca os intelectuais negros no interior das universidades? das questões “do negro”. enfim. antigas. de absoluta falta de diálogo. vivencia-se a não do diálogo com os negros na condição de sujeitos da aceitação de que os negros produzam conhecimento pesquisa. na primeira meta. será possível anos de idade. ou reforce as teorias bio-antropológicas para as políticas criminais riormente impingidas. reporta para o fato de pio da equidade pelo asseguramento de nossos direitos temas pertinentes aos negros perpassarem a produção . corpo negro. Ele expressava o não-ser. segunda nos anos 1950. concedida por e-mail. este organis- Lembro-me que uma marcante e inicial reflexão por que o seu corpo expressa [já que a miscigenação visa a. uma ponderação que não é minha média protagonizavam a iniciativa dessas produções. deve-se atentar. ela é advogada. ainda. de acordo com a teo. dentro delas. da mesma forma o tempo todo.ter 103. para onde ela caminha ? Quais são as prioridades da atual gestão da Seppir? é Educação.a atuação acadêmica ou a das ruas. Estamos diante de um novo cenário. da intelectual Luiza Bairros [atual Ministra da Devemos ter em vista que as reflexões de Pereira SEPPIR]. Essa mudança é fruto da ação de construção de nossa identidade. Tirar a vida acaba se tor. violências do estudioso que de aquiescência de minha parte. tombar. do Negro Brasileiro [1950]. a espessura das sobrancelhas. mo executivo alcançou a sua finalidade institucional. com novos Defensoria Pública do Estado da Bahia e presidenta A figura do “criminoso nato”. o tema central do Instituto Sangari . Daí para frente. das universidades. houve uma mu- em desmerecer a importância do papel dos/as intelec. Acho que se trata mais de uma questão de constatação No ano em que comemora 8 anos. frente às sucessivas mortes ante. líticas de cotas pelas instituições de ensino superior. lista em Direito Público e Políticas Públicas. no seio do movimento negro. pela indubitável expressão de de estudo. tudo apontava para a definição do Ser gra e acadêmica no período da república. a única diferença era o fato de ser a de um na nossa vida social. Bahia. a situação dos in. Brito. um dos desafios que o corpo negro a a existência do racismo? Aos sucessivos desrespeitos. o fato de o corpo negro .em face do que Pereira. A terceira fase. a defesa da tese do intelectual Poder latente no redirecionamento do pensamento negro Guerreiro Ramos. informantes-chave dos pesquisadores. Somente assim. militância negra” constatou. daí o silêncio. é marcada por um diálogo a uma maior articulação entre a academia e a militância nicipais. No que mais para a luta antirracista e para a vigência do princí. na pesquisa acadêmica. através dele. prefeituras e bancadas legislativas federais. nesta entrevista exclusiva. Estudava direito penal e a influência das nando consequência. a político-mili. no espaço acadêmico e impediram tal alcance. especia. intitulada “A Unesco e as re- científico. e. ao tempo em que a militância negra pri- mava por dar visibilidade à conquista de espaços nesse anhamona de brito dêmica”. é do surgimento de uma inte.4% mais de chances de na terceira fase. O estão postos para SEPPIR é o de avaliar. com a qual concordo: se há uma tendência são dos idos de 1999. foi que a mobilização política e. percebo que os desafios estão presentes para dentro e para fora “novo país”. no curso do processo his. se comparado ao de uma pes- os. quais foram as questões que na sala de aula do curso de Direito. cultural. tendo negação. ele aponta obstáculos a senhora diria que estão colocados para para a não escuta. pelo fato de denotar. Florestan Fernandes. de modo a fazer com que o Estado brasileiro 127 . Da leitura do nosso corpo. A senhora fase? Para mim. político. na época com 17 parece que nada mais resta. o professor além da adoção de algumas medidas compensatórias. a mais completa passa por três fases. quando Cesare Lombroso me foi apre. sitário e. no curso dos anos. assegurar uma sobrevida] – é acometida. impossibilitado de de do século passado. da atualidade. seguida dos trabalhos de Para refletir. que Olhando para o Brasil pós-república. sim. relevando as suas considerações no processo acerca de si mesmos. uma quarta Brasil. na educação. demandas. O formato do crânio. Se. das orelhas e o modo de enfrentamentos necessários ao estabelecimento de po- dos assuntos de que trata a nova secretária de Polí. permanência ridades da atual gestão da Secretaria de Políticas de estava ali. A No Brasil da primeira década do século XXI. nossa consciência acerca do papel que temos de desem. Será esta uma nova onda. ter direitos. tórico-cultural brasileiro. ele denomina de terceira fase. não se intercomunicavam que a SEPPIR projete novas estratégias. seu posicionamento. do “incontestavel. além de aprofundar a educadores/as ativistas do movimento negro que de- A visão do corpo negro no direito. e desempenho no ensino superior e promoveram os Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR). nunciaram.interlocuções Levando em conta sua experiência acadêmica. negações. apresenta a mudança de ce- nário e os marcos da inclusão. de perder a vida. Uma imagem de pessoa semelhante à minha penhar no campo econômico. os obstáculos enfrenta- telectuais negros nos espaços acadêmicos e as prio. expressando o racismo ainda existente no lectualidade negra que passa a defender teses e colocar outros espaços. para os desafios lações de raça” e os debates acerca dela no I Congresso existentes fora dos muros das universidades. também. quais sejam. o que a pergunta pode fazer denotar. A senhora poderia explicar como vê a relação entre soa branca. ria [abordada sem qualquer caráter crítico-reflexivo]. Foi ainda ouvidora geral da inferioridade e o biótipo do crime. demonstra isso. enfim. acadêmica. mim feita acerca do binômio racismo – corpo negro foi justamente. temos também assessorado mesas diretoras de câmaras mu. Para mim. Corporalidade e Racismos Contemporâne. dos Em uma reflexão sobre as relações entre militância ne.

que se combater o racismo e as desigualdades sociais que ele Em que pese a SEPPIR tenha firmado um número sig. A Seppir pretende estimulá. Afinal. pelo cumprimento da e aprofundar as pesquisas acadêmicas sobre o tópico opressor nos impõe um número significativo de exclu. Concordo que há um descompasso entre o proje- afirmativas adotadas pelo governo federal. pelo poder de arti- No slogan. planejar. por sua vez. desenvolver as que possibilitam ou possibilitarão o atendimento aos e as comunidades de sua diáspora. promover em face das peculiaridades organizacionais. sabe-se que a imple- mo no auxílio à definição e à inserção de indicadores apreciação do Congresso Nacional. Daí. especia- Dentro do campo de atuação da Seppir. Divulgaremos. incluindo as adesão a essa campanha. conhecimento sobre aquilo em que o nosso Ministério LDB. Logo que tomou posse a Ministra Luiza Bairros lem. com fins de SEPPIR. na medida em que não temos a cul. principalmente no estímulo ao intercâmbio sul. inclusive. pela estruturação do Sistema Nacional para novas agendas. é Vejo estes campos como essenciais no processo ra cotidiana e intensiva. ações específicas são bilidade na relação da SEPPIR com os países da África 2011 é ano de elaboração do plano plurianual do diagnósticos sobre as desigualdades raciais. diáspora são importantes. tendo a SEPPIR um papel relevantíssi. novos saberes. brou que o ano 2011 foi considerado pela ONU o Ano nesse cenário. acom. sociedade civil. Precisamos de outro documento. dessa vez pela perspec- ser dada pelo estabelecimento de diálogo. traz como consequência. precisa. aniversário de 8 anos da de mais particularizado. agenda política. racial em voga. Com ela. cial. texto dessa Lei maior. as formas de dades sociais que lhes são consequentes é algo recente não é por falta de detalhamento dos possíveis caminhos tação da promoção da igualdade racial. 128 129 . dentro de sua esfera de diretrizes curriculares nacionais para educação das re- uma tarefa difícil. promover ações que visem a a luta que teremos de empreender para que o Plano de definição de prioridade de nosso Ministério. cial e a população em geral comprometam-se com essa com fins de combater o racismo e aplacar as desigual. De acordo com o Estatuto. Se o seu Para que o nosso Ministério articule. e. Vai passar pela intervenção política da encontra com um planejamento estratégico em curso. da forma como a proposta. analisando. o Estatuto da Igualdade Racial]. realizar e apoiar a elaboração de estudos e Dentro das atribuições da SEPPIR. não uma ou outra. Já exis. será alvo de ações espe. no governo PIR não poderá se furtar de. o racismo delimita os grupos lentos. aquilo que elas tem metas a serem atingidas. novos fazeres. culação e de pressão que os/as professores/as.. assegurando a toda a população. Talvez o final da pergunta deva ser reformulado para nacionalizada e envolvendo os entes de governo e da o científico] e. ações emblemáticas em prol dos negros. Poder Executivo da União. mesmo que municípios. No que diz mentação do ensino de história da África e da cul- a serem atingidos pelos governos em suas ações. numa esfera se alimenta das conhecimentos produzidos [não apenas tiva de gênero. fundamentalmente. estudantes e as representações do movimento contribuição que ela possa dar no sentido de ampliar na prática. a estratégia de luta. faz-se essencial a análise das contri. o MEC e os/as agentes sociais envolvidos Ele foi concebido como a via de organização e articu. sendo essa aproveitar essa data propícia para propor. promovemos deral nº 12. que contém. dessa nova política [promoção da igualdade racial]. retroalimenta os indíviduos Exemplificando: se uma agenda prioritária do “o que pretendemos fazer para melhora essa situação?”. marcando o lançamento do Ano As relações com a África e as comunidades negras da um novo plano? Por óbvio que não. nificativo de parceria com países do continente Afri. para além da contínua análise acerca dos impactos a serem trilhados para isso. considerar que. a nossa vivência demonstra que o racismo poucas foram as tratativas que envolvessem a troca de social conseguirem estabelecer. bem como as propostas submetidas à a execução não fique ao encargo do nosso Ministério. não bastando as referências legais se. ou não ocorre.. O que pretendem fazer para melhorar essa população negra. A intenção é a de que os entes governamentais. de reduzir as desigualdades e. taduais. panhe a execução de programas voltados à implemen. miséria extrema. cumprimento está aquém do esperado. Apesar da legislação existente. em todas as áreas. ganhe eficácia. Estado brasileiro hoje é a de erradicar a pobreza e a No que diz respeito às ações necessárias ao combate de Promoção da Igualdade Racial [previsto pela Lei fe. das desigualdades raciais na educação. mas. pela sua efetiva aplicação. de modo a auxiliar a implementação das a superar as desigualdades raciais pelo país. o que não pode passar desper- da iniciativa privada. sociais tidos como “subalternos” e depois esses grupos situação? Ainda nessa linha. consistente. promova. propor caminhos que visem a aplacar as lações étnico-raciais e para o ensino de história e cul- tura de promover a articulação de políticas sistêmicas te alguma coisa encaminhada nesse âmbito? inúmeras “opressões” sofridas pelas mulheres negras tura afrobrasileira e africana. Racial é Pra Valer”. teremos a obrigatoriedade de definir quais são as ações Em 21 de março de 2011. de manei. competência. é certo que listas. Internacional dos Afrodescendentes no país. representantes do movimento so. em breve. tendo as perspectivas raça e gênero como com a temática] a elaboração de um plano bastante lação do conjunto de políticas e de serviços destinados Internacional do Afrodescendente e que pretendia balizadoras. existe alguma sa ser efetivada. mostra-se como uma outra possi- cício de sua cidadania e o direito à vida. descentralizar a sua implementação pelos governos es. federal. entre outras atribuições. Precisamos mudar. cano. estrutura. o não-discriminatória. inclusive. como também E a questão da mulher negra. conclamamos toda sociedade brasileira para. SEPPIR. buições nocivas que o racismo e o sexismo imprimem [a SEPPIR. primeiro. vê-se que a SEP. a 10. de cíficas? Elas se justificam? Por que? compartilhamento de experiências. goza de um certo pioneirismo. não podemos deixar de tura negra no ensino fundamental caminha a passos tentem contemplar aos interesses e às necessidades da debates temáticos sobre a promoção da igualdade ra. colocamos na rua a campanha “Igualdade tado e o realizado. acordo com o próprio decreto que regulamenta a sua mato de cooperação. Parafraseio Edson Cardoso. dos Estados e também dos estudos acerca da política de promoção da igualdade anseios e aos interesses da população negra.288/2010.639/2003 promoveu alterações no racial? sões. posso salientar a prioridade a A atuação política e administrativa do Ministério são novamente hierarquizado. brasileiras. as executadas em parceria com outros entes. interlocuções reduza as desigualdades raciais e promova uma cultura políticas transversais do governo federal. consideramos que a igualdade preci. -las? De que maneira? afirmando que a luta que teremos de empreender. sobretudo no for- independentemente de sua cor ou raça. o pleno exer. municipais e distrital. A institucionalização de um órgão governamental cebido pelos poderes públicos constituídos. -sul entre especialistas da área de educação. sim. que e coordenar encontros para a realização de estudos e respeito às mulheres negras.

literarte .

Afro-Americanos (DCHT XXIV/UNEB). Com uma espada. professor de Teoria Literária e Literatura Brasileira na Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e pesquisador A dançarina Mais uma vez do AYOKÁ KIANDA . Desenhando o universo Pele De longe A sedosa negra A vejo Da flor no cabelo. Impossível Quantas gargalhadas É querer suas mãos Foram necessárias? Descendo a lua Ela caminha Sobre minha face.literarte A que abre o leito dos rios Terras E apascenta a violência A rainha que dorme em Com seus cachos Seu sarcófago É a mesma As oferendas frias Que desmancha nuvens Tudo virou sombra. Com passos finos A sua volta. Espero. Se aproxima vários Roda Olhares Corpo mogno e Uma corte infiel Seu vestido O rei Pingando vermelho Que passeia por outras Para nunca mais É quando fecho os olhos.. Deusa do rio Iewá Nos olhos movendo Ricardo Nonato Seus búzios. Abrirá sua boca pela UFBA. Ela.. Almeida de A engolidora das dores Abreu Silva Poeta e artista plástico. com seus contornos Para nascerem flores. 133 . mestre em Letras Ela.Núcleo de Pesquisas e Estudos Multidisciplinares Africanos e Ewá.

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Nguzu – Ano 1.br . Postal 6001 | CEP 86051-980 | Londrina – PR Fone: (43) 3371-4000 | Fax: (43)3328-4440 Email: neaa@uel. Rodovia Celso Garcia Cid | Pr 445 Km 380 | Campus Universitário Cx. n. 1. março/julho de 2011 Revista do Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA) da Universidade Estadual de Londrina (UEL).