Revista do Núcleo

de Estudos
Afro-Asiáticos
da UEl

Expediente sumário
Universidade Estadual de Londrina Editor executivo
Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA) Carlos Alexandre Guimarães
Reitora
Nádina Aparecida Moreno Secretaria Editorial
Flávio Carrança
Vice-reitora
Berenice Quinzani Jordão Capa, projeto gráfico e diagramação
Naima Almeida e Natália Tudrey
6 EDUCAÇÃO, CORPORALIDADE E
Coordenadora do NEAA RACISMOS CONTEMPORÂNEOS
Rosane da Silva Borges Revisão Editorial Rosane da Silva Borges
Flávio Carrança

Coordenações de área do NEAA

Educação e Ações Afirmativas
Nguzu – Ano 1, n. 1, março/julho de 2011
Revista do Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA)
Dossiê Temático
Maria Gisele de Alencar da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Rodovia Celso Garcia Cid | Pr 445 Km 380 | Campus 10 O CORPO NEGRO: SENTIDOS E SIGNIFICADOS
Arte e Cultura Universitário Isildinha Baptista Nogueira
Marcia Dermindo Cx. Postal 6001 | CEP 86051-980 | Londrina – PR
Fone: (43) 3371-4000 | Fax: (43)3328-4440 14 PERSONAGENS EM POSIÇÕES HIPOTÉTICAS: CONSUMO,
Comunicação Email: neaa@uel.br CORPO E SUBJETIVAÇÃO NA CULTURA DAS MÍDIAS
Silvia de Castro Laura Guimarães Corrêa

Pesquisa e Documentação Conselho Editorial 22 RACISMO E BIOPODER: UM CASO NO RIO DE JANEIRO
Carlos Alexandre Guimarães e Rosane da Silva Borges 1. Alex Ratts (UFG) CONTEMPORÂNEO
2. Álvaro Roberto Pires (UFMA) Renato Noguera e Carla Cristina Campos da Silva
Articulação Comunitária 3. Amauri Mendes Pereira
Manoela Fernanda Silva Matos 4. Ari Lima (Uneb) 28 CORPOS NEGROS EDUCADOS: NOTAS ACERCA
5. Carlos Benedito Rodrigues da Silva (UFMA) DO MOVIMENTO NEGRO DE BASE ACADÊMICA
Relações Internacionais 6. Maria Aparecida Moura (UFMG) Alex Ratts
Dejair Dionísio 7. Denise Botelho (UFRPE)
8. Edna Rolland 40 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL: PRETINHO (A)
Secretaria 9. Edson Lopes Cardoso (SEPPIR) EU? DISCUTINDO O PERTENCIMENTO ÉTNICO
Cibele Candeo Leite 10. Elena Andrei (UEL) Ralime Nunes Raim
Dirce Meneguelli de Sá 11. Flavia Matheus Rios (USP)
12. Heloísa Pires 50 REFLEXÕES SOBRE NOSSAS CONSTRUÇÕES INTELECTUAIS
Assistente de Educação e Documentação 13. Joselina da Silva (UFC) E POLÍTICAS ACERCA DE “RAÇA”
Vaudice Donizete Rodrigues 14. Kabengele Munanga (USP/SP) João Batista de Jesus Felix
15. Kia Lilly Caldwell (Univ. North Carolina at Chapel Hill)
Estagiária de biblioteconomia 16. Leda Martins
Elza Ribeiro Bueno 17. Ligia Ferreira (Unifesp)
18. Lucia Helena Oliveira (UEL)
19. Marcelo Paixão (UFRJ)
Propostas Pedagógicas
Comitê Editorial 20. Maria Nilza da Silva (UEL)
21. Matheus Gato de Jesus (USP) 62 POR QUE ENSINAR A HISTÓRIA DO NEGRO NA ESCOLA
Coordenação 22. Nei Lopes BRASILEIRA?
Carlos Alexandre Guimarães 23. Nelson Inocêncio (UnB) Kabenguele Munanga
Rosane da Silva Borges 24. Nilma Lino Gomes (UFMG)
25. Roberto Borges (CEFER-RJ) 68 O ensino de sociologia e a lei 10.639/03:
Editora científica 26. Sueli Carneiro (Geledés/SP) cultura afro-brasileira no livro didático
Rosane da Silva Borges 27. Wilson Mattos (Uneb) Crisângela Biassi de Almeida

76 LITERATURAS AFRICANAS DE LÍNGUA PORTUGUESA
EM SALA DE AULA: UMA POSSIBILIDADE?
Claudia Vanessa Bergamini

85 A ENUNCIAÇÃO DO POSSÍVEL: AS COTAS RACIAIS E A LEI
10.639/03 TRANSFORMANDO A REALIDADE DA POPULAÇÃO
NEGRA EM LONDRINA
Márcia Figueiredo Tokita e Maria Gisele de Alencar

Negras Reflexões

94 DO DIREITO À PALAVRA AO PODER DE ENUNCIAÇÃO
DO MOVIMENTO NEGRO NO BRASIL
Jacques D’Adesky

106 RAÇA E GÊNERO: ENTRELACES RACISTAS VERSUS
AFIRMAÇÃO IDENTITÁRIA NEGRA
Maria Anória de Jesus Oliveira

116 A REDENÇÃO DO OLHAR: UMA ABORDAGEM SEMIÓTICA
Nelson Inocêncio

Entrevista

126 ANHAMONA DE BRITO

Poesia

132 DEUSA DO RIO IEWÁ
Ricardo Nonato Almeida de Abreu Silva

Crisângela de Almeida. Minas Gerais. o corpo é categoria importante na SODRÉ. importa destacar das altercações são as relutâncias em e da cibernética. boates. agremiações políticas. O que causa espécie é pensarmos na sustentação do racismo? e professor da UNESA. da socióloga e co- ordenadora do Programa Diversidade Étnico-Racial na cleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA) e coordenadora editorial da revista Nguzu. de Artes da Universidade de Brasília – UnB e coordena- ções raciais no Brasil e em outros países da diáspora. dores de opinião pública e apresentam-se como uma tornam públicos os resultados de investigações empí. triste eloquência. E na seção “Literartes”. docente do -se como um espaço demarcado para dar visibilidade afirmam solenemente ser o Brasil um país isento de gens da corporalidade e dos racismos contemporâneos. Enfileiram. institui. coordenadora do Nú- pelo corpo que se circunscreve as (im)possibilidades do ser. esculpimos Educação de Montes Claros/MG. a nossa convidada é a doutora significa energia. as concepções sobre o corpo passaram por debate por meio de fóruns concernentes ao racismo e dices exorbitantes de mortalidade de jovens negros não radicais avaliações. Após uma década (1998-2008). Muniz. professora adjunta do cur- so de Comunicação Social da Universidade Federal de Em seu número de estreia. a noção de sujeito e subjetividade derivada do Como qualquer iniciante. O mencionado quadro. o corpo como um vasto território mar- cador de sentidos e significados. Segundo reportagem do jornal “O Estado ampliam o painel. Muniz Sodré já nos advertira: e do professor doutor João Batista de Jesus Félix. a vitimização entre jovens negros tem índices muito altos. com Uma pequena mostra de artigos referentes ao tema Anória de Jesus. portanto -se argumentos propugnando uma práxis política que Muito se tem insistido de que o corpo e. do racismo em sua ação implacável de abater corpos para a superação das assimetrias no Brasil. negros. forma. tanto. a Nguzu apresenta na julgamentos na prática do Gesichtskontrolle (contro. em franca decadência. Claros e escuros. traço por traço. próprias de sua concepção edi- quando retornava para casa em Guarulhos e do office. Oxalá cumpramos esse papel. Cláudia Vanessa Bergamini. de São Paulo”. a cada ano. Rio de Janeiro: Vozes. do que esses corpos significam e represen. o que é pior ainda. Convertendo-se em Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). o outro. O que pre. como era de se esperar. (UNEB) e do professor Nelson Inocêncio. Ralime Nunes Raim. Corporalidade praticamente inalterada a marca histórica de 92% da masculinidade nas vítimas de homicídio. das singularidades do racismo na contemporaneidade. se desvencilhe de qualquer recorte racial. estruturas sociais. Renato Nogueira. da Universidade do Estado da Bahia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Como reposicionar o debate em meio às emergen. da Universidade Federal de Goiânia. 6 7 . para os elevados índices de mortalidade entre vitimização juvenil por homicídios continua a crescer. incluindo-se aí também Uma ótima leitura e até o próximo número. Em perspectiva da epistemologia à violência no Brasil. passando por filósofos canal difusor das pesquisas. e da mestranda Carla Cristina da Sil- Borges uma das primeiras fronteiras de violação do humano. a incidência majoritária de assassinatos nessa e ascensão do pós-humano? De que maneira reinserir tor Jacques d’Adesky. as contribuições do Laboratório de Inteligência Artifi- laridade nacional. ras graduadas pela UEL. o que cartesianismo estão. também da UFFRJ. restaurantes de luxo ou Antropologia da Faculdade de Filosofia Letras e Ciên­ mesmo ser aceito para seguros de automóveis. demonstra nesta publicação a diversidade de aborda. com verniz de seriedade. seção “Propostas Pedagógicas” os textos do professor le de rostos). por definição. office-boy – não deixam margem a dúvida. secretaria de Ações Afirma- A escolha desse dossiê temático foi motivada por reação conservadora à adoção de políticas públicas que ricas e estabelecem diálogos com outras áreas de co. argumentos enviesados que. Na Colhemos da língua banto o nome da publicação. a revista Nguzu toma. da pós graduanda em Letras da prática é alemão. e da socióloga pós-graduada Em tempos de narrativas hipermidiáticas. do Departamento de pode entrar em clubes. espe. Os artigos aqui reunidos sobre o tema dor do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UnB. ou seja. Com o tema Educação. Nguzu espera manter tam (os assassinatos do dentista negro em São Paulo Sem nos estendermos sobre essa contenda. estudos e reflexões sobre significativa). entanto. No tópico “Negras textos encontram abrigo preferencialmente no espaço ciando sistematicamente. Corporalidade faixa etária. não a gramática corporal como um vetor importante para dos das Américas da Universidade Cândido Mendes e Racismos Contemporâneos. Tais afirmações. beirando um cenário de De um modo ou de outro. de Laura Guimarães Correa. do professor de filosofia e educação da e Racismos Rosane da Silva desse modo. podemos entrever essas reflexões nos textos de Isildinha Baptista. da Universidade Estadual da Bahia. cialmente de jornais impressos e televisivos com capi. te interrogação. pesquisador do Centro de Estu- porte impresso. Organizações anti-racistas atentas às O número de homicídios entre a população negra é ex. apresentamos a poesia do escritor Raimundo Nonato. da Universidade Federal do Tocantins (UFT). práticas racistas. que intelligentsia brasileira. Nguzu. educativa. 1999. como sabido. pela UEL. 33). paradoxalmente. seção “Interlocuções”. do professor doutor Alex Ratts. psicanalista e “extermínio”. buscam problematizar e aprofundar questões teóricas. de 1970. onde os múltiplas faces da discriminação racial vêm denun. os jovens negros. é por ele que se classifica e se categoriza as pessoas. continua doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo. cial do MIT. Com as informações emitidas pelo corpo. “o Mapa da Violência 2011 mostra que a equilíbrio de algumas sociedades. No como Michel Foucault e Gilles Deleuze. Tais episódios fizeram-se razoavelmente natórias impulsionadas por um fundamento racial. alcança di. sob uma perspectiva educativa. A estética negativa do estrangeiro lastreia sempre os Além do dossiê temático. definição das relações sociais africanas. a revista Nguzu é também manufaturada no su. como crescem vertiginosamente africana. sob a chave da pós-modernidade energias. ainda são sustentadas por frações da crítica e analítica. das pesquisado- (1999. somente permanecem. pelo menos desde a década tes reflexões que apontam para a superação do corpo reflexões” contamos com os artigos do professor dou- virtual. da professora doutora Maria do NEAA (Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos). outros contributos não menos importantes referência O assunto. O nome cias Humanas da USP. e vêm estimulando a renovação do senciamos na paisagem cotidiana é desalentador: os ín. em constan. órgão que essas estatísticas convivem. torial para dar continuidade ao compromisso de ser um -boy pelos seguranças do banco Itaú integram uma lista admitir a centralidade do racismo nas ações discrimi. Visto como um elemento vital para bibliográfica mensões exponenciais. mesmo resultando em vistos em conjugação. presentes na agenda dos suportes informativos. Anhamona Silva de Brito. e nos conduz. Educação. tivas da Secretaria Especial de Políticas de Promoção episódios contemporâneos que revelam a pertinácia tomam a discriminação racial como nexo prioritário nhecimento capazes de contribuir para a compreensão da Igualdade Racial (SEPPIR). p. ponto ordenador das mente. plosivo e. é va. mas sua incidência é transnacional da UEL. os exemplos aqui elencados – do dentista e do da medicina e da psicanálise. irremediavel. Departamento de Artes Visuais vinculado ao Instituto às reflexões e pesquisas ancoradas no campo das rela. pelos aportes relações raciais. a decisão cotidiana sobre quem doutor Kabengele Munanga. Marcia Figueiredo Tokita e Maria Gisele de Alencar. De Descartes. fundamentada em uma leitura racial. uma publicação constitui nenhuma novidade. por. Contemporâneos Professora Doutora.

dossiê temático .

com sentido e significação. Chico (org. cos. que produit de l’interaction dialectique entre. de outro. pour les noirs. ALENCAR. os negros tações sobre o negro e o seu lugar na sociedade não se viam destituídos da sua condição de humanos. sa lógica”. as represen. onde se criaram novos conceitos. ganham nova identidade. pg. Construímos uma cultura. que colocavam obstá- crenças e costumes. cada sistema cria seus teóricos que o jus. consequentemente. configurações psíqui. diversas. 11 . A acul. Supunham que. Entre cativos e mortos. XIX1. culos à existência de um país escravagista no cenário próprios de cada grupo étnico social. as condições em que viviam como sendo ção. isto é. quando comparados aos europeus que para causal simples. Em línguas diferentes. tradições e religiões no campo. Direitos mais humanos. configurations que constituent l’univers psychiques. les Desenvolvimento Humano da Universi. os negros tinham portanto a comunicação e Dadas suas condições de vida. historique sociale. As representações sociais funcionam como uma 1. periências para além de um terreno anteriormente in. a necessidade que lhe é natural. que começava a ser feito pelos imigrantes. os indivíduos se comportam segundo essa Trazidos de diferentes regiões. les repre- Psicanalista. o que animais e vistos como incompetentes. empírica. a vida coletiva. dição de escravo. Ao perderem dos indivíduos e dos grupos. cisme. assim como a vida psíqui. resultado da transculturação. a remunerada para seu auto-sustento. para os negros. de Por mais de três séculos. formam o universo psíquico. tendo cultura.dossiê temático O Corpo Negro: Sentidos e Significados RESUMO RESUMÉ Este artigo tem como objetivo refletir a dimensão psíquica da Ce article se propose à réfléchir sur la dimension psychique du ra- questão do racismo. econômicas mercantes brasileiras basearam-se no tra. consequência. à partir de l’hipothèse suivante: que cette realité historique histórico-social determina. Isto é possível porque o ser humano se “concei. tra- rede onde as malhas estabelecem os domínios das ex. fundamentalmente. as representações sociais ideologi. sem condições para seu auto-sustento e sem trabalho lógica. nos A noção de “ser humano” que temos hoje. méstico. dade de São Paulo. mecanicista. cultura está condicionado a uma lógica que determina África perdeu 70 milhões de pessoas do século XV ao que viver em sociedade é estar “sob a dominação des. Como seres humanos. ra. Foram 320 anos de escravidão. como forma de resistir à Como falar acerca de representações psíquicas e ex. mas depende dos cá vieram trabalhar. que criaram olhares específicos. sociale determine. Assessora do Instituto AMMA Psique e Negritude. uma entidade “naturais”. sócio-economiques. histórico social. justi- A sociedade é. não mudaram? SER HUMANO faltaram estudos que os compararam aos animais. estruturados. saindo da con- pertencimento a essa organização. 2001. que são ideologicamente suas identidades originais. seus valores. os libertaria do cativeiro. mudam. sócio-econômica. universo psíquico. Libertos. uma ética que permita e por ser histórico. uma concep. as estruturas sócio-econômicas que as sentations sociales ideologiquement structurees sócio-economiques Departamento de Psicologia Escolar e do produziram e as reproduzem e. turação é uma consequência natural na relação entre INTRODUÇÃO diferenciado. mundo. assim. Rio de Janeiro: em que o negro. Nogueira Refletir sobre a condição do negro como produto da interação De cette réflexion. teve origem A promulgação da “Lei Áurea” que supostamente destacamos por nossa capacidade de dar significados no Renascimento. foram comparados a ca dos indivíduos e dos grupos sociais constituem um a organização entre os semelhantes dificultadas. Garamond. brutalizados e animalizados pelos senhores. foi antecedida por mudanças às coisas. periências diárias e dizer que. tal como besta fera domesticada. portanto. e fixam os limites dos comportamentos culturas diferentes. de um lado. com o tema: Signi- ficações do corpo negro. partindo da hipótese de que essa realidade cisme. os ex-escravos vagavam desorientados. j’essaye de definir la condition du noir en tant dialética entre. Palavras chave: negros. as configurações que qui les ont produit et continuent à les réproduire et. Restava aos negros o trabalho do- mais diversos fatores.). ção pelas condições de cativeiro dos negros. uma construção do pensamento. ra- cismo. mas não garanta a cada um dos indivíduos pertencentes a um tumes e leis. opressão causada pelo processo de escravização. balhava em troca de ração. a despeito das lutas por Vivendo em péssimas condições nas senzalas. o negro trabalharia como mão de obra O conjunto das representações que constituem a balho do negro escravizado. as principais atividades inseridos na sociedade. mundial. Doutora em Psicologia pelo camente estruturadas. preguiçosos e complexo processo que não corresponde a uma relação favorecia o controle dos senhores de escravos. particuliéres. obrigadas a conviver. Os abolicionistas mostravam grande indigna- princípios de conduta. que demandará tualiza”. des configurations psychiques Isildinha Baptista cas peculiares. se pensa e se percebe de uma época para outra. situação que perpetuava a imagem anterior. d’une part. 24. falando. Les Mots Clé: noirs. tifiquem. um conjunto de o homem passa a ser visto como centro e modelo do na ordem econômica e política. E SER NEGRO ficando. indolentes. sem terem consciência desse mecanismo. univers psychiques. melhores condições de acesso à cidadania. puderam pensá-los como indivíduos que deveriam ser determinado grupo. d’autre part.

1995. os negros têm O QUE SOMOS sofrido toda sorte de discriminação que tem como base a ideia de que são seres inferiores e. NÓS. do ser humano o preconceito. forjada ridade ou inferioridade que. O negro pode ser consciente de sua condição. mas é por este negada. A ideologia racial. Luis é internalizado. o racismo é a expressão violenta da discri- Tal processo não é imediatamente verificável. seus sentidos e significados. cien- inferiores mas. nobreza estética. vos e mantenedores de tais condições. estabelecendo-se que a princípio seria natural no ser humano. cria para o do negro. em que o sujeito intro. o negro possa desconsiderar tais ameaças termos determina e demanda diferentes sentidos. Petrópolis: Vozes. do de maneira apaixonada. instituições e questões raciais no Brasil. Direitos mais humanos. trução e da eliminação do outro. o desejo de “brancu. ral do racismo e da discriminação se inscreve na psique cordial. te que essa defesa apaixonada se dá por comparação. a discriminação é em sua psique. ída em um código social que se expressa dentro de um Esse processo despersonaliza e transforma o sujei. tade moral. estejamos inconsciente elaboração própria . se impõe inexoravelmente. Chico. parcial ou totalmente. 1930. da vontade do outro. SCHWARCZ. não importando a nadas pelas condições objetivas . Isildinha Baptista. em termos aquilo que me diferencia do outro. caso do negro. A brancura. Mas esta imagem de si. VENTURI. nesta breve reflexão acerca de questões tistas. pelo qual onde as diferenças e semelhanças são negadas. São Paulo: Ática. É evidentemente confuso esse pro. cada qual defenda sua cultura no processo de identificação. acesso ao mundo. penso negando-se dessa forma a si mesmo. ine. científico. os negros eram. na maioria das vezes acaba por atravessar os limites da Garamond. nal lógico. E o ou ódio pela incorporação das propriedades do obje. se funda e se estrutura na condição univer. marcados pela ser outro. Suas estruturas psíquicas são contami. a civilização. pois as sal e essencial da brancura. dela excluídos jeito “outro”. como única via possível de Como seres humanos. para além de seus fantasmas. 1870- supostamente aquém do valor das propriedades bioló. Tese (Doutorado em Psicologia) – Univer- encerra vários significados. à alteridade. negro. para critério para a compreensão passa a ser o da superio- to. mas forte o bastante para que. O espetáculo das raças. reagindo. declarações e também a capacidade de contradizê-los. que seja adequado nos lembrarmos que cada um desses próprio corpo. não se faz necessária a presença física só não guarda nenhuma semelhança com o real de seu diferença pela “desconstrução” da outra cultura. mas antes sobrevive em um devir in. totalmente O preconceito é próprio da natureza humana. sentimento formado sem estruturas de poder e dominação. parâmetro de pureza artística. Gustavo. o desejo de recusar esse signifi. portanto. como fica o negro que se confronta explicitamente. no cor que os diferenciava e discriminados por tudo quan. TURRA. Jorge Werthein. transcende qualquer falha do branco. através da imitação ou da pria “humanidade”. Faz parte da natureza conscientes de que nenhum de nós existe à parte das assimiladas e incorporadas. D. baseado na suposta sidade de São Paulo. de um estigma. O sujeito. Textos de como a identificação com o agressor. Referências incorporação. NEGROS? recedores de possibilidades sociais iguais. dentro e fora. com o olhar do outro. dossiê temático Embora juridicamente capazes de ocupar um espa. Graciela Rodriguez. NOGUEIRA. Isto. ser sujeito é foram marginalizados. (Orgs. des. absurdas. com a expla. onde o indivíduo se autoriza à eliminação do representações psíquicas não são puro reflexo das con. como a melhor forma de organização social. mas isso constitui o elemento não marcado. Negar e anular o próprio corpo nos torna o su- ço na sociedade. as fantasias estão. O intuito. é alidade sócio-cultural do racismo deixaram inscritas ra”. supostamente baseadas ALENCAR. Bibliográficas as coisas simultaneamente. to essa marca pudesse representar. espírito e das ideias: a cultura. corpo próprio. assim fragilizado. Claros e escuros. para que. Pedro Ca- do agressor. Arthur Dapieve. esses termos como se tivessem um só significado. não me. foi o de contribuir enquanto psicanalista. aí uma confusão entre o real e o imaginário. Embora o negro saiba que sua condição é o resul. minação. Lilia Moritz. o objeto amado ou odiado. Cleusa. ou ambas cesso psicológico da ordem do inconsciente. com base na biologia de conhecimento ideologia moldam as estruturas psíquicas dos homens. relação ao outro. É o que analiticamente (para a psicanálise) se dá encarna todas as virtudes. Estarmos cientes dessas diferenças é importante dições objetivas. Assim. ao amor os negros passam. que desta forma na relação com o outro − e no ideal de brancura − não em “conhecimentos científicos”. de fato. Nilton Bonder. se vê exposto a uma situação em que inferioridade de certas etnias. negro uma angústia que se fixa na realidade exterior e dir preconceito. mas jamais da condição de escravos. tornando-os sujeitos cati. 2000. das Ser branco significa uma condição genérica: ser branco implicações histórico-políticas do racismo.) Racismo significado que a pele negra traz enquanto significante? terror de possíveis ataques (de qualquer natureza. o real do seu próprio corpo. de cor no Brasil. vista da perspectiva do olhar do negro incabíveis legalmente − já que criminosas. e ser o outro é não ser o próprio sujeito. portanto. sempre por sucumbir a todo um processo inconsciente são do outro. oprimido. São Paulo: Companhia das Letras. via de regra. o branco suficiente conhecimento. É eviden- jeta. que deve ser negado. a mais completa análise sobre o preconceito Resta ao negro. nidade. visto que só existimos como sujeitos em e impedidos de desfrutar de qualquer benefício social. a pró. Identidade. isto é. gicas atribuídas aos brancos. passam a garantir essa Frei Betto. en. etc. confun. 1998.a partir das quais são ideal de brancura permanece. Visto que costumamos. O signo “negro” remete não só às posições sociais vergonhado de si. de “direitos civis” − é mais forte que ele: o negro acaba aquilo que pretensamente autoriza o indivíduo à exclu- Sabemos que as condições sócio-econômicas e a cura se contrapõe ao mito negro. o pois nossas reações são relativas à demanda de um dado área específica de atuação e conhecimento. mídia no Brasil. enquanto profissionais. diversidade. o neutro da huma- não impede que ele seja afetado pelas marcas que a re. Nasce em nós. ser sujeito no outro. portanto. significa não ser to diversidades e especificidades da outra cultura. que mostra reconhecer nele o terminável. que. utilizando cante. Muniz. estigmatizados. 2001. o negro passa a se auto-rejeitar. simultaneamente. temos a capacidade de estabelecer princípios. Significações do corpo campo etnossemântico onde o significante “cor negra” to em um autômato: ele se paralisa e se coloca à mercê expressão violenta da diferença que parte da descons. povo e é o olhar do outro. que o nação do modo como a realidade sócio-histórico-cultu. entrará em ação. Eduardo Soares. de física a psíquica) por parte dos brancos. A “brancura” passa a ser momento histórico e econômico. que representa o significado que ele tenta negar. Desde essa época. enquan. Rio de Janeiro: O “ser negro” corresponde a uma categoria inclu. sabedoria científica. tão complexas quanto essas que envolvem a discrimina. alheio à sua vontade. SODRÉ. Se o que constitui o sujeito É justamente porque o racismo não se formula ção em relação aos negros. Esse mecanismo é o que a psicanálise caracteriza que se possa ser o outro. majes. 12 13 . discriminação e racismo. pela negação do Ainda que lançando mão de um arsenal racio. rentes ao ser humano. também. a manifestação da razão. contraditórios e instáveis. racistas que parecem grotescas. pode e saldaliga. livres do cativeiro.que recebem no plano tado das atitudes racistas e irracionais dos brancos. resultando no que seria a base do racismo. leis e outro. a bran. assim. enquanto uma possibilidade virtual. portanto. a características biológicas nada separa o real do imaginário.

comunicativa.esse sistema de sig. Portanto. Os prédios da pequena ilustração têm palavras. O olhar mais atento vai descobrir nas relações estabelecidas com os outros sujeitos. Na capa do livro. consumption. assim como sua natu- Esse eu que é vós pois não aguento ser apenas dia é central para a constituição de suas subjetividades reza agonística. com um varal de roupas e uma paisa. recados e afetos. “não existe lençol . subjectivity. Macabéa.dossiê temático Personagens em posições hipotéticas: consumo. (a) que define dentro de seus termos o horizonte men- uma imagem que não ocupa mais que um quarto da Sujeito e discursos tal. os “corpos que pesam”. podemos dizer que. assim como as reflexões de Judith Butler sobre concept of “bodies that matter” as an important approach to de- (Grupos de Pesquisa em Imagem e Socia. a atenção às interações dos indivíduos e a decodificação de produtos da comunicação. Em técnica mista. a figura de uma jovem de olhos fechados que carrega consigo o selo da legitimidade – parece que ouve rádio. de Clarice Lispector. hegemônicas já solidificadas. essa imagem mostra. In both novels chosen. está envolta pela mídia. O respeito da ordem social. traz. lações possíveis para a combinação entre a codificação ca na qual elas estão inseridas. do outro e da sociedade. mostra-se fundamental para a reflexão sobre os pro- INTRODUÇÃO dense Toni Morrison. e do modo como se colocam diante de si mesmas.. As peças no varal – um vestido. e (b) meiro plano. Há várias articu- dá entre três personagens femininas e a cultura midiáti. ainda assim. (HALL. na concep. a moça re. body. um nos contatos com a mídia.401) que os prédios são feitos de colunas de jornal e que o processo de subjetivação só pode ser entendido dentro rádio tem um inesperado nariz.. da sociedade.Pecola. do romance O olho mais azul. o ponto de vista hegemônico é aquele A edição d’A Hora da Estrela que tenho em mãos. 399-400). negociados. com estereótipos. que nos situa e nos constitui como sim. o narrador d’A Hora da Estrela situações-padrão. como num namo. cada sujeito interpreta os uma vez que. construí. diz/escreve/mostra será recebido exatamente como se A proposta deste trabalho é pensar o diálogo que se nicação midiática. Pecola. O rádio. corpo. Nos dois romances analisados. Hall 15 . Palavras chave: mídia. Macabéa and Claudia . um terno. quando o indivíduo se confronta com os O autor acredita que em toda sociedade existem presentada na capa. em pri.have with the que estão imersas. em permanente estado de movi. p. Os sujeitos produzem e reproduzem decodificação” (Hall.parecem dançar. subjetividade. sujeitos e agentes da vida social. sentido. encarnados em coisas os discursos da mídia. sua uma necessária correspondência entre codificação e urbano e midiático em que Macabéa se encontra tem visão de mundo. na UFMG. 2003. preciso dos outros para me manter de pé. mento e tensão. e grupos da sociedade com os dispositivos da mídia sua análise de produtos jornalísticos televisivos. têm Nas interações comunicativas que se estabelecem concordância ou de adesão aos sentidos preferenciais. midiáticos setor de relações em uma sociedade ou cultura. A relação que as três Mesmo considerando a proliferação e a complexi- jovens estabelecem com os produtos e as figuras da mí. Na conformação discursiva da comu. da estrela. tem vida. A moça aconchega-se ao vida do ser humano. bilidade) e o GrisPop (Grupo de pesquisa sobre interações midiáticas e práticas culturais contemporâneas). além do nome da autora e do título da obra. e Macabéa. Em escolhidas para instigar a reflexão são Claudia e Pecola. não há garantias de que aquilo que se antes inanimadas. que organizam Lispector. são their ramifications. comportamento são propostos. To reflect upon these relations and Para a discussão sobre essas relações e seus desdobramentos. o universo de significados possíveis e de todo um capa. o mundo discursos de acordo com sua história. protagonista do romance de Clarice valores e as instituições sociais . Para Stuart Hall. consumption and the hegemonic discourses about the bodies are Laura Guimarães -se centrais para a constituição de suas subjetividades e do modo central to the constitution of their subjectivities and to the way Corrêa como se colocam diante de si mesmas.. M. estes mim. Key words: midia. nificações feito de códigos e rituais que dá sentido à domínios discursivos através de códigos sociais. Partimos da premissa de que o sujeito é construído coincidir com o que é ‘natural’. do tendem a ser normativos e a operar com representações tão tonto que sou. protagonista d’A hora cessos identitários. we apply Stuart Hall’s concept of the three hy- Professora adjunta do curso de Comu. as relações que media culture in which they are immersed. sua cultura. outro e da sociedade. corpo e subjetivação na RESUMO ABSTRACT cultura das mídias Este trabalho trata das relações que três personagens femininas colhidas da literatura estabelecem com a cultura midiática em This article deals with the dialogue that three female characters from literature . consumo. We also consider Judith Butler´s nicação Social da UFMG. velop this theme. valores. 2003. Hall entende que a leitura dos produtos midiá- aparelho humanizado e quase sorri. sentidos dominantes ou preferenciais. corpos. com Rodrigo S. they see themselves in society. escrito pela estaduni. Integra o GRIS por Stuart Hall. ticos pode ser classificada de acordo com o grau de ro. Macabéa e Claudia travam com o mundo do consumo e the relations that these young women establish with the world of com os discursos hegemônicos da mídia para o corpo mostram. isto é: na troca significados. de 1999. no processo comunicacional.). utilizadas as três posições hipotéticas de decodificação propostas pothetical positions for the reader. eu enviesado (. As- ção da ilustradora. ideias e padrões de esperava no momento da codificação. dade dos discursos midiáticos. As personagens literárias dos. ‘inevitável’ ou ‘óbvio’ a gem urbana ao fundo. p.

2003. Macabéa se apoia na vida harmoniosa do cinema gemônico conotado.desejável. No título original personagem impotente na relação com a família. po. que os perpassam. dizer que o telespectador está operando dentro do códi. Segundo vez só. não tem família. de uma É possível fazer aqui. a investigação sobre os fenômenos sociais e as ideologias numa xícara branca e azul com a Shirley Temple. glorificação da mercadoria e do mito da felicidade e do Shirley Temple habitava um domínio adorado e Os discursos cristalizados da mídia chocavam-se dade grande. fotografadas. peito. “quando o telespectador têm experiência. sussurrou na palma da mão. loira. Para lidar dade ou as condições de consumir o produto ou ser- ou simplesmente ignorada. da contra a realidade em que vivia a personagem Pecola. Por mais que tentasse. ligava bem contestatória: reconhece o sentido hegemônico. Tem dezenove anos.37) “Por favor. mas os sujeitos é que são constituí- sobre a realidade dura de personagens negros e pobres não ia. de dominação que traçam a linha entre aqueles seres lidade insuportável. no sentido de comunicação mostram-se abundantes e ricas para a Frieda lhe trouxe quatro bolachas num pires e leite de ter importância. Pecola vale menos. p. 2006). a leitura é oposta. Quase lá. de outros tipos de em que vivia lhe era contrário? Pecola fazia força para sobretudo esse canal de rádio aproveitava intervalos produtos culturais: estrelas de cinema. Pecola resolve ter olhos azuis e pro. E consumo. Fechou os olhos com força. p. 27). Por fim. desrespeitada RISON. Maria da Penha. goana pobre que trabalha como datilógrafa numa ci. de significados. anco. oferece classificações. ligava invaria- discorda deste. o dia. olhe. alinhamento. bela. os que estão expostos a ele. De que matéria-prima ela podia cotidiano. função global de integração e coesão social através da são construídos. as definições hegemônicas são aceitas. ela tinha um corpo que não era visto.da experiência de um cotidiano triste durante primeira delas. Pecola cria uma imagem de si descolada da rea. constituindo-se como poder estruturante e.. mas que. a do código abuso. Para o autor. Há uma contemplação que extrapola o mundo nicos da mídia foi a identificação e a admiração frente e da publicidade à noite: negociado. olhando portam”. Deus. Pecola estava completamente fora da norma MACABÉA E OS ANÚNCIOS – o objetivo primeiro da publicidade não é a promoção ternamente para a silhueta do rosto com covinhas de reguladora. enternecidas. Acima das coxas era mais difícil. o pescoço. Como prática social institucionalizada. Frieda e ela conversaram. Toni Morrison escreve ficar completamente imóvel e fazer força. isto é.23) é exatamente no encontro com o outro que os sujeitos No romance de Clarice Lispector. go dominante. da pureza. criança. No terceiro caso. saída encontrada por esse sujeito destituído de todos causa . óbvio. Mas. E por que Macabéa adorava anúncios? Provavel- Pequenas partes do seu corpo se apagaram. dossiê temático (2003) identifica três posições hipotéticas de leitura. por fim. promessa de felicidade. Para o olhar hegemônico daquela épo. me faça desaparecer”.” Macabéa tem experiências nos Estados Unidos dos anos 1940. com (CORRÊA. oferecia pouca possibilidade uma colega de moradia. Além da exclusão por ser negra. na sua recepção das imagens da mídia. Só restavam os olhos. nunca conseguia fazer os olhos desaparecerem. Os discursos publicitários atingem a todos de uma feiúra que se confundia com todos os outros “como alguém poderia ver uma menina negra?” (MOR. bolinhas de papel. Na segunda hipótese. p. 1999. a publici- desestruturada. sentidos. e nenhuma música. em todas as viço anunciado. há normas no discurso esferas. e apenas uma consequência .. portanto. quase desmaterializado: um corpo que SUBVERSIVO blicidade é secundária. por nossas anti-heroínas. os que são abjetos..) de forma direta e dos através da experiência. dade é um sistema cultural e simbólico que organiza ca e lugar – que não se mostra muito diferente hoje e RISON. Na para a imagem de Temple. bem apertados. a adesão aos objetos é sobre como a Shirley Temple era lindinha. Mas aceitar desse modelo como um dos sistemas de construção da realidade con- mulher. mas. No romance. era considerado. tenham ou não a necessi- motivos para que ela fosse ridicularizada. em Pecola. violência e os atributos propagandeados pelos discursos hegemô. anúncios publi. Apesar . representações e padrões de compor- talentosa. ma. Peco. Mas trata-se de um sonho que rada na esfera da fantasia. Depois o se apropria do sentido conotado (.”. uma extensa gama perfeita dos musicais do cinema americano: rica. se tudo cura o charlatão que supostamente poderia realizar tal e cultura’. As produções de sentido operadas por essa forma do significante matter: o verbo importar. encantamento: Bodies that matter. que dava ‘hora certa Nossa proposta neste artigo é utilizar as categorias dispor para a construção de sua subjetividade.) Uma menina negra favor. de felicidade guardada em um produto. só pingava em som de criadas por Hall para pensar a apreensão. integral. há concordância frente ao sentido he. Eram digo referencial no qual ela foi codificada. mas tranquiliza e destrói ao mesmo tempo. De acordo com as ideias que Judith Butler (1999) com as consequências dos abusos sofridos. Jean Baudrillard (1995) sugere que demorou longo tempo para tomar o leite. Pecola sorri ao olhar para ela. Ora lenta. fato esse que não a protegia do ser descartados. era praticamente invisível. uma comparação na vida real. dessa for. e decodifica a mensagem nos termos do có. não importava. a função econômica da pu- Shirley Temple. mas físico – o leite que ela toma da xícara é o que menos às imagens idealizadas que lhe eram oferecidas: uma o/a receptor/a cria suas próprias regras para decodifi. certamente . podemos com esses produtos midiáticos. há la apoia-se numa fantasia de admiração pela menina apresenta em Corpos que pesam. às vezes não tem o que comer e masca A publicidade representa situações cotidianas brancura. que desejava alçar-se para fora do fosso de sua negri. requer a não aceitação de si mesma. a ouvinte com a intimidade e o carinho que lhe faltam oposto ideal Os pés agora. p. por transportá-la para longe dali. tão distante de seu cotidiano de pobreza.52) que é lido como natural. Ela era tudo aquilo que que interessam a uma sociedade e aqueles que podem dissolvendo-se em psicose. como se estas constituíssem experiências memoráveis. Depois os braços até os cotovelos. Ali estava uma ciais – ela adorava anúncios. O estômago por Stuart Hall (2003. únicas. era bom aquilo.. “por menina feia pedindo beleza. A literatura traz aqui uma tamento intrínsecos às imagens e textos publicitários Pecola não podia ser. (. objetos industrializados. motivo de revolta ou de tristeza imediata. de qualquer ângulo que se Ela decodifica as mensagens da mídia com aceitação. Ela precisava direta com a posição hegemônico-dominante descrita Joan Scott (1999. Além desse aspecto disseminador. (MORRISON. Nas palavras da narradora. Ela expressão pode ser lida também como “corpos que im. p. Assim. Todas as madrugadas ligava o rádio emprestado por car a mensagem. tem instrução. Não importava para as outras pessoas. para o lugar da vida perfeita. a autora explora os dois significados a sociedade e com os produtos da cultura midiática. Construídas. O rosto também era difícil. acalentador sobre a personagem. Sim. “não são os indivíduos que No romance O Olho mais Azul. A do. Lentamente de novo. não bem-estar coletivo na sociedade de consumo. absoluto. Não há contradição temporânea. aqui -. programas de rádio. Pecola deseja de negação ou de frustração. filma- 16 17 . pela promessa Pecola e Shirley Temple mente.175). Em sua fragilidade. A moça tem uma espécie de namora. velmente para a Rádio Relógio. No centro da histó. desaparecer: Aquele era o pedido mais fantástico e. (LISPECTOR. Pecola é descrita como uma menina muito feia. Macabéa é uma ala. 400). incontestável. gera identificações. bem. alimenta: ela bebe simbolicamente Shirley Temple e sua solução aparentemente contraditória. tude e ver o mundo com olhos azuis. menina de doze anos que se quase. mente pelo mundo próprio que criam. sacralizado pela mídia: o reino da beleza.e por completas. Sumiram os 2003. não A ASTÚCIA DE UM CONSUMO de vendas. que a trata mal e a troca pela colega. num processo de dessubjetivação. encontra dentro (e fora) de uma família completamente sempre os olhos que sobravam. ao contrário do seu árduo baixinho para não acordar as outras. de olhos azuis. constituintes de sua subjetividade quando se relaciona ria está Pecola Breedlove. As pernas. ainda uma pesada carga simbólica. (MOR. ao mesmo tem. p. e o substantivo matéria. ora de chofre. essa figura exerce um fascínio A discrepância evidente entre os dois mundos não era. p. a leitura e o o que era valorizado na esfera midiática e na sociedade sonho: gotas que caem – cada gota de minuto que passava. a menina negra anula seu próprio corpo. pobre e Ela nem precisava fazer tanta força assim. 2003. também desapareceu. por interpelar – a contemplação do dedos um por um. (MORRI.22. entre as tais gotas de minuto para dar anúncios comer- citários. o mais lógico que já lhe tinham feito. 2003.” Pecola não questiona o ideal de beleza.52). pois já concordância. então deixar de ser.da SON.

mistura e rearranja significados. como produtos humanos. Mas esse tornar-se garota da garota não Mas tinha prazeres. 2003. p. em um nível mais restrito. a cara de panqueca e o cabelo de minhocas laranjas. suas cores.. “(. 1999. essa (. O assombro e o descon- olhos. Macabéa ins. A fala da personagem Ma. das relações de poder (. tas. o gênero contrário de Macabéa. como estratégia de sobrevivência: valendo-se do discurso persuasivo e sedutor para atrair tava o que eles pensavam que fosse o meu maior dese. pensava ela sem se explicar. Estava interessada somente em seres ao presentear Claudia com uma boneca... por um produto industrializado. essa interpelação fundante mecente sob o lençol de brim. num ato mas também pelo modelo de comportamento de gêne. ela o comeria. tendido como efeito ou consequência de um sistema de gordura e seu organismo estava seco que nem saco do sujeito que sofre a experiência (DEWEY. que ela se sustenta para viver É possível aqui traçar um paralelo com a versão em que vive. e as pessoas são sempre vítimas de É importante lembrar que objetos industrializados. p.) contém uma mistura de elementos de adaptação e constante transformação. tinha. reiteram uma para entender e suportar a dura experiência de estar no humanos da minha idade e tamanho. Tornara-se com o Assim como cremes de beleza não são feitos para uma miniatura plástica de criança: assuma a maternidade como essência do seu eu e lei do tempo apenas matéria vivente em sua forma primária. Portanto. Mas aprendi depressa o que esperavam que eu fi. Mas Claudia não adere a essa “verdade”. os sistemas de classificação binária pele de mulheres que simplesmente não eram ela. negociada proposta por Hall: nesse caso. essas situações são perpassadas por cabéa subverte aquilo que recebe. construção de uma subjetividade marcada por gênero e de Clarice se relaciona com os produtos da mídia. de relações ideais. diz através da voz de Claudia de rado. é dialogando com os discursos e produtos da sociedade por estar fora dos padrões e das normas reguladoras cida repetidamente a crianças – meninas e meninos na representação de um amor ideal. discursiva do gênero feminino. 2011). decodificar olhos críticos a exclusão a que são submetidas as pes. são embebidos pela cultura.) Eu ficava enojada e secretamente assustada com DE RESISTÊNCIA aqueles olhos redondos imbecis. de maternidade. em pelos/as adultos/as e pelas representações nas figuras cinema. afirma que as emoções Os objetos – principalmente brinquedos . Mas nota-se na curta É sabido que a publicidade reveste produtos e era sempre uma Baby Doll grande. É que lhe faltava sociais. classe e et.. ela resiste 18 19 . mas é aprendido por meio de constan- olhos de Macabéa. clara inspiração beauvoriana.64). sensuais. (MORRISON. Eu não tinha interesse por bebês nem pelo conceito Os personagens adultos do romance analisado. aos nia. ela é trazida para o domí- tida. que é quase invisível. 1999. uma figura midiática com extrema visibilidade. história e ideologia. para reforçar ou contestar esse escritório. nio da linguagem e do parentesco através da interpela- e conquistar seus públicos. Maca. instruem a menina quanto à sua posição e seu Um ponto importante que diferencia Macabéa de mundo. algo que parte do interior seu formato (CORRÊA. 2003. Butler afirma que: lheres ideais.401). pré-adolescente ainda. Havia um anúncio. A garota torna-se uma garota.38) são formas encontradas por Macabéa. isto é. Ma. mas. Para Butler. impõem modelos culturais de existência do corpo: Executando o fatal cacoete que pegara de piscar os é um sentimento solitário. mais Azul. junta. no contato com um produto de comunicação. armadilha de pensar essa comunicação como unilateral. e não conseguia prática.23) das e impressas. ro que se esperava de uma menina-mulher para com sexualidade em que se exige do corpo feminino que ele meio vazio de torrada esfarelada. o corpo materno seria en- sim.. isso exemplo. toda estre. vê com características físicas que a fazem pertencer à categoria sua experiência de quase-amor. de normas e significados: modelos representacionais para a mulher é o que liga A subjetividade de Macabéa é construída por sua béa apenas encontra uma maneira própria de se rela. pelo contrário.. de olhos azuis. (HALL. comportamento frente à sociedade. Nas mais diversas sociedades. Talvez fosse assim para se defender da grande tentação tados e colados em álbuns. ADORÁVEIS – A VONTADE (. esses pequenos recortes de prazer. p. cionar com os produtos da mídia. 1999. e ao longo de vários vela os anúncios que recortava dos jornais velhos do recepção é passiva. grupos marcados pelas diferenças de gênero. E um dos mais poderosos olhado. em que a é reiterada por várias autoridades.. costumava ler à luz de como uma imposição de cima para baixo. dos livros a aceitar e interpretar (to perform) o papel mulher deve ser a mulher mais importante do mundo. 1999. dado com muito carinho. 2003. se comer. admirado. podem-se perceber conflitos. experimentada no do consumo. Mas é preciso escapar da jo. seu desejo. cuidado. ao falar sobre o ca. ela. (BUTLER. (MORRISON. Ouvir a Rádio Relógio e Eu devia fazer o que com aquilo? Fingir que era a mãe? de ser infeliz de uma vez e ter pena de si.) a performatividade deve ser (LISPECTOR.23) termina ali.pelos mais variados discursos. colecionar anúncios. anúncios não foram feitos para serem recor. 154). lháveis. apresenta mais claramente a surpresa e a indignação mento de gênero que lhe era imposta e que é ofere- relação de Macabéa com seu namorado Olímpico. Nas frígidas noites. sentir entusiasmo algum ante a perspectiva de ser mãe. alegria.carregam mostrava em cores o pote aberto de um creme para são fenômenos públicos. “Greta Garbo. Colava-os manipulação.). Macabéa gostava de estrelas de soas negras e pobres. Louis Quéré (2007). é a que Claudia não aceitou a norma de um comporta- amor. nos “falam” através de sua forma. faz suas próprias regras – fun. nomeia. constrói como sujeito. especial. (LISPECTOR. p. tagarelice dos adultos. inexoravelmente a feminilidade à maternidade. permanências e avanços dos grupos mino. Pela vida de Macabéa um espaço de subversão quase diver. Por mais frustrante que seja a creve sua marca. p. raça. serviços de atributos emocionais. sucesso. a autora do livro. tentamento de Claudia frente a esse objeto não estavam A produção discursiva do corpo materno como pré- tão apetitoso que se tivesse dinheiro para comprá-lo ção. inventar historinhas em torno dela.” de oposição: reconhece a legitimidade das definições conquistas. Com experiência frente aos modelos e representações de mu. que nada. como a prática reiterativa e importa” quando trata da importância de Greta Gar. A resistência de Claudia fica evidente no desprezo não é um dado. Essa adesão consiste numa atividade.161) no álbum. compreendida não como um ‘ato’ singular ou delibe- cabéa coincidentemente toca no tema do “corpo que (abstratas) ao passo que. (BUTLER. O presente grande. Se Pecola absorvia Claudia é a menina narradora do romance O Olho demonstrações de sentimentos positivos de ternura. Fiquei pasmada com a coisa e com a aparência que ção do gênero. estabelecidas pelo discurso hegemônico da sociedade . p. que ráter impessoal da experiência. Toni Morri.. sensoriais. p. de mãe. ao ciona com as exceções à regra. p. até dormir com ela. às colheradas no pote mesmo. hegemônicas para produzir as grandes significações ritários na luta por visibilidade e respeito. É que fazia coleção de anúncios. por apenas na percepção de um racismo representado pelo -discursivo é uma tática de auto-ampliação e ocultação não seria boba. son. ficava só imaginando com delícia: o creme era do sujeito que é afetado: o engajamento numa situa. tudo com encantamento e passividade. são signos e objetivações de cada Para a autora. se dá a partir de uma convergência de valores modelo único e normativo de bonecas de olhos azuis. eu sabia que a boneca represen. Garbo. O que ativa uma experiência emocional não sociedade. Os livros de figuras esta- CLAUDIA E AS CRIANÇAS vam cheios de garotinhas dormindo com suas bonecas. sua resistência a uma sociedade que não reconhece os citacional pela qual o discurso produz os efeitos que ele bo. Longe de tomar qualquer atitude política. É através da leitura e (re)criação desses discur. moça simplória. Claudia se vê coagida Além de anúncios. efeito naturalizado. compartilhados e comparti. dossiê temático zesse com a boneca: embalá-la. tuacional (localizado). Por ter nascido com cinema ou na publicidade. 2003. uma boneca carregada tes repetições de modelos. intervalos de tempo. tem um corpo que vale a pena ser Trata-se de uma leitura atravessada por contradi. si.138). atuam na Pecola é a maneira particular pela qual a personagem sos da mídia que Macabéa experimenta o mundo e se Maternidade era velhice e outras possibilidades remo.” (BUTLER. 1980). o mais precioso. ções. Claudia. Que pele. ao invés disso. Das três personagens analisadas.

reconhecido e premiado. Tânia. CAULT. um peso tão pequeno na escala culturais. sob o que está manifesto. sacudisse a objetos que só nele se delineiam” (Foucault.. que apresentam caráter peda. a de forma particular no momento do consumo dessas Trata-se. Joan. silenciosa por que não poderia ser outro. de um lugar privilegiado para a ob- partir do sentimento de indignação presente desde a representações. adultos/as divíduo consumiu e dialogou à sua maneira com esses ção em Comunicação Social da UFMG. mas notam-se espaços – difíceis. Poderíamos nessas sociedades não muito distantes no tempo e no gógico e formador. 402). Minas Gerais.Universidade Federal de serragem para fora. Laura G. No posfácio d’O Olho mais Azul. 1987. soltasse o cabelo. para a reinvenção. Problemas de gênero: feminismo e sub- o que era que todo mundo dizia que era adorável. Modelos são assimilados. 2007.. girasse a cabeça (. Jean. Representação da Unesco no Brasil. a desigualdade e a mas. belos/as e feios/as. das práticas discursivas e das relações entre as falas. com forte influência nos processos SCOTT. In SILVA. Judith. de subjetivação. num misto de vingança é aquela que consegue se constituir como sujeito. 20 21 . Segundo Hall (2003. (Curso ministrado no Programa de Pós-Gradua­ dentro de algum referencial alternativo. A arqueologia do saber. Macabéa poraneidade. Da diáspora: identidades e mediações como sujeito. pais brincam: nor- 2003. Foucault chama hierarquia racial . Rio de Janeiro: Civilização eu quebrasse os dedos minúsculos. discursivos do sexo. Todas as três. BUTLER. 2003. cada uma reage preconceitos e contradições presentes na sociedade. dos grupos não-marcados. panhia das Letras. As perguntas de Morrison são muito pertinentes Rocco. Se condido por trás das palavras e sim entender o porquê pertencem os agentes do discurso. Suas constru. sobre os objetos e a norma . sem dúvida – para a resistência e a transformação. a conversa se. 1987. Brasileira.” O autor afir. p. rachasse as costas contra a grade de Essa perspectiva está focada na análise e apreensão que detêm o poder.Uni- Assim.31). p. Toni Morrison. Quem disse a FOUCAULT. Dissertação (mestrado em lindo “Ahhhhhh”. In- ma ainda que essa atividade de recepção oposta pode e crianças. 2003. o que os textos dão a ver: te. prio. p. de origem racial. para a reflexão sobre as relações raciais e de gênero na MORRISON. Falas de gênero: teorias. (org. dobrasse os pés da emergência de certos discursos em certas épocas. ela continuava balindo. O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Experiência. 210). as relações de poder estão implicadas na construção Implícita em seu desejo estava a aversão por si mesma. Sabe-se que vem à tona. faz parte de sua constituição outro. Mães cuidam. reafirmando as Horizonte: Autêntica. New York: Perigee das subjetividades. 2011. Se eu Trata-se de “substituir o tesouro enigmático das ‘coi. Pecola enlouquece.seja internalizada na construção da Tese (doutorado em Comunicação Social) . Claudia rompe com a norma branca e he. Vimos que os modelos cor. continuava ba..23) localizadas social e historicamente. Janeiro: Forense-universitária. A mi-silenciosa de um outro discurso: deve-se mostrar perguntando como é que se aprende isso. de oposição. maneira globalmente contrária. brancos/as e negros/as. 1999. valores e papéis na publicidade de homenagem. Reflexões sobre a experiência pública a mensagem no código preferencial para retotalizá-la dado lugar. Michel. dificados ou recusados.) FINAIS As imagens e textos midiáticos invocam signifi. Art as experience.. 2006. se arrancasse a cabeça. sas’ anteriores ao discurso pela formação regular dos aqueles corpos. mo. no meio dos outros e relacionado ção do que ser o que ela era? Quem a tinha olhado e a HALL. John. A achado tão deficiente. conseguia gostar dela. Macabéa e Claudia. Nenhuma delas se reconhece ções discursivas são perpassadas pelas lutas de poder. servação crítica das relações sociorraciais na contem- infância. Rio de e protesta a seu modo contra a norma. leituras. aceitos. chatos. 1987. Pecola.). pro. São histórias de três jovens diferentes. de certa forma. mas pa. Louis. Toni. p. (MORRISON. A Hora da estrela. dossiê temático é atropelada pela realidade e Claudia sobrevive para narrar histórias. verdades. em discursos atuantes discursos hegemônicos. 2003. Belo Horizonte: Ed. fisicamente a boneca branca. nas imagens oferecidas. e poderosa das mídias. (. 1999. que não estão dentro das representações dos grupos Comunicação Social) . Clarice. Stuart. Se reconhecemos Claudia sujeitos marginais porém imersos na cultura envolvente doras dos corpos de homens e mulheres. aquelas vidas blicidade em revista. 2003. Ilha de Santa Catarina: Editora criação. Brasília: salva de um destino triste como o de Pecola. Lisboa: Edições 70. Mulheres. aqueles comportamentos. Belo Eu tinha uma única vontade: desmembrá-la. In LOURO. Sua ativa insubmissão. É preciso lembrar versão da identidade. DEWEY. deslocado da norma. Corpos que pesam: sobre os limites e curiosidade: CONSIDERAÇÕES tagonizando sua história. Retratam e revelam relações desiguais entre muito às personagens dos romances citados. questão pertinente a uma tal análise poderia ser assim da beleza? (MORRISON. E vinte anos depois eu continuava me Books. acrescentar que esses momentos de crise e transgressão espaço.no caso do livro citado. um lugar que nenhum outro poderia ocupar. nessa hipó.54). Mas é possível observar que a personagem que apresenta a postura mais crítica BAUDRILLARD. a a eles. Alcione. metal da cama. a atenção para a importância de se considerar o que subjetividade da menina Pecola: versidade Federal de Minas Gerais. UFMG. Belo Horizon- terossexual representada pelo brinquedo. O olho mais azul. entretanto. 1980. mesmo que solitária. A atitude de Claudia pode ser vista como exemplo formulada: que singular existência é esta que vem à LISPECTOR. p. são A mídia apresenta constantemente normas regula. formação verbal) desencadear crises de naturezas diversas. Não se busca. revelam-se muitas vezes como oportunidades para a recidas.) Não cados compartilhados e consensuais. os acontecimentos da vida humana. Mas podia examiná-la para ver Para Foucault não interessa encontrar o que existe es. o que exclui CORRÊA. the Berkeley Publishing Group. Rio de Janeiro: de recepção/decodificação que opera dentro do código tona no que se diz e em nenhuma outra parte? (FOU. Cada in. Mara e RAMOS. Laura G. gemônicos. a autora reflete sobre a interpelação que faz com que CORRÊA. que geralmente esses discursos vêm dos grupos he. São Paulo: Com- tese de leitura. A sociedade de consumo. 1999. Ele ou ela destotaliza Os dois romances emergem em dada época. desconstruindo em relação aos sentidos preferenciais de decodificação Janeiro: Elfos. análises. assim. como alter ego da autora do romance. e talvez inconsequente. Guacira L. Belo Horizonte. como ocupa. Rio de contestação de Claudia. o receptor “decodifica a mensagem de sociedade contemporânea. Obviamente não se pode simplificar a reflexão a ponto de afirmar que a relação das persona- Referências gens com os discursos da mídia é o ponto que define bibliográficas o destino de cada uma delas. como exclui qualquer ela? Quem a fez sentir que era melhor ser uma aberra. 1995. LAGO. homens e mulheres. esta termina por produzir um discurso literário pró. as tradições e as crenças do grupo ao qual ____________. em porais oferecidos pelos produtos midiáticos disseram QUÉRÉ. De corpo presente: o negro na pu- lhe removesse o olho frio e estúpido.

aferir constantes. a segmentação da população em pensar a partir a pertinência do biopoder foucaultiano em consideração alguns eventos de 1993 até 2009. as chacinas do biopoder. efeitos do biopoder. ção necessária para inserção do racismo nos mecanis- mos estatais das sociedades modernas. Afroperspectivas. canismo fundamental do poder”. A chacina 23 . integrante verno investido da visibilidade das relações de poder pois. p. somente.dossiê temático Renato Nogueira Racismo e biopoder: Professor de filosofia e educação da UFRRJ. pelo racismo” (FOU- os modos de gestão do poder nas sociedades ocidentais CAULT. a população funcionem em favor do Estado. The Estudante de graduação do Curso de Pe. Rio de Janeiro.311). O objetivo do artigo é fazer uma uma categoria-chave para o biopoder. membro do Grupo de Pesquisa pela Polícia Militar. biopower. fazer com que inclui o genocídio da própria população. coordenador do Grupo de Pesquisa Rio de Janeiro Afroperspectivas. The event ended with a black man killed e Sociedade do Instituto Multidisciplinar. Porque à medida instrumentos teóricos de Foucault. desagregadores e desorde- RIO DE JANEIRO ao funcionamento de um Estado. Por exemplo..306). nossa análise incide sobre ações analysis focuses on police actions and speeches of the state. a emergência do biopoder é condi. Com os processos de instalação o que é específico no racismo moderno é o exercício de eliminação de criminosos. É importante frisar que o racismo está ligado contra os perigos biológicos. tal como a repartição anti-negro. Nosso objetivo é problematizar. Estuda e pesquisa sob orienta. ANTI-NEGRO NO p. promovendo alguns e/ 2002. p. contemporâneo. da UFRRJ. Mas. de comentar seus textos. A raças e o racismo passa a se constituir como um “me. 2009 in dagogia do Departamento de Educação policial que ocorreu em 25 de setembro de 2009 na cidade do Rio the city of Rio de Janeiro. Pois bem. perspectivas. Saberes e Interseções (Afrosin). Para problematizar essa importante questão na socie. our dade brasileira contemporânea.32) Michel Foucault fez uma profícua pesquisa sobre funcione no modo do biopoder. investigação as tecnologias que servem para controlar e gerenciar racista sustentado por critérios técnicos e científicos. especially with regard to the technologies Carla Cristina que diz respeito às tecnologias de segurança pública próprias do of biopower own public safety. Nosso intuito é pensar com os porânea dominante. In order to confront the anti-black Campos da Silva biopoder. 2002. dentro de uma leitura foucaultiana. Rio de Janeiro. dados estatísticos. “A função assassina nadores. em certa medida. conforme Foucault Um dos resultados do biopoder é a possibilidade desde o século XVIII. do biopoder. 304). ou contendo outros. o racismo análises do fenômeno de violência urbana e racismo. Palavras chave: racismo. o biopoder é um modo de gestão que Nosso artigo é resultado de uma pequena pesquisa so. em certo limite e em certas tivas e metáforas de caráter biológico e médico. de Janeiro. que tem sido realizada pelo Grupo de Pesquisa Afro. em certo momento. tipo específico de tratamento. Saberes e Interseções (Afrosin) e vice-coordenador do Curso de contemporâneo Pós-Graduação Lato Sensu do Laborató- rio de Estudos Afro-Brasileiros (Leafro). O go. Keywords: racism. ção do Professor Renato Noguera. violência.. Em outros termos. “Tem-se. de problematizá-lo no contexto do Rio de Janeiro. Foucault tomou como exemplo o nazismo. dos pressupostos foucaultianos do biopoder. Ou seja. dentro O trabalho reúne. de brasileira na primeira década do século 21. e tem como objetivo enriquecer o debate contemporâneo sobre Aiming to enrich contemporary debate about anti-black racism o racismo anti-negro e seus diversos dispositivos. o poder intervém e interfere exerce sobre a população. Uma leitura cuidadosa da obra de Foucault problematizando a racialização da violência através ou concentração de determinados benefícios. Dito de outro modo. que certos tipos de pessoas carregam consigo do Estado só pode ser assegurada. por isso vai ser preciso que o Estado diminuição dos riscos e interdições dentro de uma so- reúna de modo articulado uma série de saberes aptos ciedade para alguns por meio de critérios raciais. considerando o aumento e INTRODUÇÃO sobre a população.) uma sociedade que do Laboratório de Estudos Afro-Brasileiros (Leafro) da define o segmento populacional que deve receber um generalizou absolutamente biopoder” (FOUCAULT. O destaque vai para uma ação highlight is a police action that occurred on September 25. RESUMO ABSTRACT O artigo trabalha com o pensamento político de Michel Foucault The article work with the political thought of Michel Foucault. a fazer medições. 2009. onde o BIOPODER E RACISMO condições. racializada no Rio de Janeiro contemporâneo. É neste não deixa dúvidas: o racismo anti-negro não esteve na do biopoder como modo de gestão estatal contem. têm alicerçado muitas relações “quase não haja funcionamento moderno do Estado hegemônicas de poder fundamentando-as em justifica- que. levando dizem respeito à vida. não passe pelo racismo” (FOUCAULT. lotado no Departamento de Edu- um caso no cação e Sociedade do Instituto Multidisci- plinar. que está em jogo é a defesa da ordem social e da vida. biopoder. em especial no and its various devices. Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). na sociedade nazista (. desde que o Estado (CASTELO BRANCO. fornecer e avaliar Com efeito. para a compreensão do racismo anti-negro moderno e pesquisa tem caráter introdutório. contexto que o conceito de raça passa a funcionar como sua pauta de pesquisa. policiais e discursos do Estado. p. racism in contemporary Brazilian society through biopower. em busca de fomen. exercício bre violência e racismo no Rio de Janeiro. fico e político. Saberes e Interseções (Afrosin). evento que terminou com um homem negro morto by military police. 2002. o direito de morte que o Estado são. violence. apresentação introdutória do conceito de biopoder e que o biopoder encerra um conjunto de tecnologias que não se trata. De tal modo que Nossos tempos. assim. especificamente o racismo na socieda- tar um debate profícuo em torno da violência urbana e Para Foucault. namento de um sistema social. Nesse caso. visando um determinado funcio. a população passa a ser problema cientí.

disse nos blogs Mário Sérgio fez questão de comparar com o caso do é dirigida para uma parte da população que compar. e após estava defendendo a ação policial na Favela da Coréia homens e os mais atingidos foram os negros: se em titubeios. uma certa inclinação (. que a força de coerção eliminasse os criminosos. em arma. conforme os dados em suspeita agentes de segurança pública. major João Jaques Busnello. As tecnologias do biopoder e suas Em 25 de setembro de 2009. Rio de Janeiro. É forçoso lem.. O que está em jogo é que a “morte da raça ruim. O coronel crime. próximo às dependências da Igreja de mesmo ta.org/ ônibus 174 alguns anos antes. negro e que exemplo. crueldade não são colocadas. Os foi dada e as investigações aconteceram. O discurso do Estado fluminense. Serginho foi o vilão perfei- Vale ressaltar que todas as crianças e adolescentes as. Ou seja. Por outro. se a opinião pública é um critério para o genocídio autorizado ou não auto.286). 24/10/2007). 2007 a proporção cresceu para 108%” (CORREIO DO O biopoder tem um postulado. o morador de classe sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz do Instituto Sangari. As dúvidas são sobre o tempo antes. em de que a vida criminosa pode ser eliminada.. A operação policial foi responsá. um ato lógico ou. Tijuca. Ana Cristina mesmo tempo. Este modo de dentro do que foi proposto pelo nosso trabalho: o exer. Rocinha. da raça inferior (. Ou seja. Janeiro. numa estratégia racista.. o seu planejamento e suas práticas. ápice foi vivido por três pessoas: Sérgio Ferreira Pinto no” (FOUCAULT. o assalto. a qualquer custo”. de produzir marginal” (G1. informando que “pou- tilha a ascendência africana e um histórico de discri. Como já Vigário Geral: cerca de cinquenta homens encapuzados gestão estatal que incide sobre a vida. Com efeito. O coronel Mário Sérgio. porte ilegal de e dois jovens sem teto foram brutalmente assassinados essa questão do enfrentamento. no Rio de Janeiro. economista Marcelo Paixão (veja gráficos em anexo).blogspot. 30/03/2010). p. Serginho foi mais um registrar que todos eram pretos e pardos (negros). jovens negros. contar. Uma análise de discurso do governador e do arma.290). tas lacunas. Vale lembrar que eram todos do tráfico de drogas” (G1. diante das constantes negativas de inserção no mercado justificativas já estavam garantidas. O Major Busnello trução social racista que insistia em marginalizá-lo foi Rio de Janeiro era o delegado José Mariano Beltrame Desigualdades no Brasil 2007 – 2008.com/ e http://pmerj. A história hoje contada. À medida que se discute efeitos assimétricos do biopoder entre negros (pretos não estamos dizendo que estelionato. na ocasião preservação da ordem social estaria garantida à medida vinte e nove pessoas foram mortas. “os Estados mais assassinos são. dossiê temático da Candelária. na época com 24 anos. o Serginho tinha o ensino médio completo. arrombando gestão impele o Estado a gerenciar “a proporção dos cício do racismo através da emergência do biopoder. anexo. negro e jovem. de modo desautorizado. dade.blogspot. vel pela morte de 13 pessoas. é um exemplo da profilaxia sociorracial na socieda- 1993. a violência ano de 2007 aponta para uma perfeita adequação aos litar do Estado do Rio de Janeiro (PM). pega na co que estava representando o Estado em sua extensão eliminados e elimináveis são. Afinal. o Estado faz uso da “eliminação das raças e invadiram o bairro durante a madrugada. A tese que o Estado racista defende é de que a 2005. a convicção dezoito anos passados. O Secretário mais de 90% desses casos de homicídio as vítimas eram excluídos. Policiais contra.) é o que vai deixar a vida em geral distintas. rizado. fazem exercícios de “limpeza sociorracial”. Na época. mecanismos do biopoder. isso beneficia a ação e pardos). estelionato e furto. Mas. a fe. que ainda hoje vemos nos noticiários. é preciso que o outro morra” (FOUCAULT. retrucasse. um evento na cidade Rio Serginho era o símbolo e a manifestação do que do mês de agosto. 23/10/2007). dentro dos cânones legais e fora deles. 2007. que a covardia dos homens os impede de que o governo do estado do Rio de Janeiro “assumiu 2010 – Anatomia dos Homicídios no Brasil foi feita pelo p. 2002. é passada com mui. governador estava defendendo uma política de ligadura desempregado desde o nascimento da sua filha – com deve ser combatido. seja uma opção a ser considerada to. a taxa de reprodução. que deve par o lobo significaria sacrificar a ovelha” em http:// minação. mas. Em significativamente maiores de morrer em conflitos ar. a cons- 2007. Afinal. A cundidade de uma população” (FOUCAULT. Ele já tinha sido usuário do sistema peni. raça denota a racialização do fenômeno da taxa de natali. brar que mais de 80% dos mortos eram negros. Ainda no ano de 1993. assim como de trabalho. homem bran. isto é. corre o risco de sacrificar a vida ino. mulher branca e refém dem). O a purificação da raça para exercer seu poder sobera- casas e alvejando vinte e um moradores. É oportuno nascimentos e dos óbitos. p. No Relatório Anual das preservá-las.) que SERGINHO nas periferias/subúrbios e favelas. porque se encaixa deve ser eliminado: homem. lotado no 6º BPM (Tijuca). pelo menos. as ações anteriores já citadas. é padrão sueco. ao motivação para os homicídios foi uma suposta vingan. 2002 morriam 46% mais negros do que brancos. Em 15 de abril de do G1 em 24 de outubro de 2007. marius-sergius. Sandro Barbosa do Nascimento nos O biopoder é “uma espécie de estatização do bio- O BIOPODER NO CASO em foco de 2009. ao lado do caso Sete anos depois. Isso é uma fábrica coercitiva. Óbvio que não se trata de sugerir que sua classe média da zona norte). é um exercício do tenciário durante nove meses. nas entrevistas do governador e do secretário de rado no combate que é definido como guerra contra o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro no de negociação. três anos na época – e tinha passagem pelo sistema pela população tijucana (moradores de um bairro de extra-oficial. o Estado. novamente a notícia filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas. da Polícia Mi. população negra. Júnior. porém a mais próxima da verdade parece ser a média da Zona Sul recebe tratamento diferente e tem mais sadia” (Ibidem). A analogia a prisional. Sérgio Cabral afirmou que “Você pega o número de de Serginho. queremos problematizar a ausência de negros. agora na favela de técnicas são aplicadas conjuntamente por meio de uma de Janeiro merece especial atenção. novo massacre. disso ninguém duvida. furto e assalto são atividades ou opções para os por policiais militares. A pesquisa Mapa da Violência ver. estava Serginho representou e encerrou o signo do que O que estamos problematizando é o aparente pa. motivos: porte ilegal de as bases para a réplica e tréplica tinham vindo anos Por um lado.309). o Serginho. 2002. com 39 anos. onde a população negra é superior a 50%. “Um tiro em Copacabana é uma coisa. p. Gabão. com 48 anos em 2009. Essa ação decisiva para que 40 minutos fossem suficientes para 24 25 . de modo de trompas para mulheres de bairros como a Rocinha. o que aponta para a violento que marca mais uma vez a história do Rio de se poderia chamar de estatização do biológico” (FOU. Numa ação filmada e aplaudida radoxo de que forças de segurança do Estado. o então governador Garrido. o prazo de negociações. Agora. “se você quer vi- como toda a história do Brasil. 2002.com/. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) comentou BRASIL. o secretário de Segurança Pública do Estado do mados do que jovens brancos.. foi dito. De acordo com o Mapa da Violência. todas. nome. cente ameaçada se agir com vacilações a pretexto de de uma ação ilegal. organizado pelo da PM foi o responsável pelo tiro certeiro. Apesar das especulações sobre o caso. Com isso. o direito de matar do Estado está assegu. Ou seja. 23/10/2007). 2002. solicitando um prazo de negociação maior. localizada no centro da cidade: seis adolescentes Coréia (periferia) é outra. biopoder. países africanos como contraponto a países europeus alternativa. Serginho estava no meio duplamente. uma estratégia do biopoder. colocando sob Méier e Copacabana. o monopólio da violência é exercido Janeiro significa dizer que jovens negros têm chances preservar vidas. forçosamente os mais racistas” (Ibi- ça pela morte de outros policiais. Um tiro na encontramos um cuidadoso estudo que identifica os de brasileira. na madrugada do dia 23 de julho de que ratificou o exercício do biopoder numa entrevis. Segurança do Rio de Janeiro no ano de 2007. a raça ruim é a população que vive relembra da atrocidade cometida naquele dia. Levantam-se hipóteses de vingança. É padrão Zâmbia. Em entrevista publicada na página de notícias fugia após ter cometido o crime de assalto. direitos de cidadania que o trabalhador que mora na considerando as declarações do Governo no ano de tados para fazer “limpezas” em certas áreas da cidade. incluindo uma criança. o roteiro já estava lá antes da sua chegada.305). o que por sua vez implica http://marius-sergius. por razões publicamente que. para o governo. favela não tem” (G1. o biopoder funciona numa via dupla. As sassinadas na Candelária eram negros(as). no município de Nova Iguaçu. as reais razões do desbunde de na semana anterior. no vigésimo nono dia CAULT. No caso do Estado do Rio de blog/: “Numa ocorrência com refém.

2002(2).0 Razão de mortalidade da população residente acima de cinco anos de idade por homicídio segundo 2005 1.institutosangari.1 2.43 26 ed.88 refém sai em defesa do filho.0 0. Disponível em: www. DREYFUS.com. Um caso que exemplifica Mulheres Brancas Mulheres Pretas & Pardas para os estudos das relações étnico-raciais no Brasil no como as estratégias racistas do biopoder funcionam. p. especialmente na sociedade fluminense.5 9. Rio de Janeiro: Editora FGV.9 8.7 1.8 0. histórias e destinos de um pensamento. AL.9 o gatilho. Nos. ce. Microfísica do poder. Um olhar.1 1.2 como o biopoder funciona e seu vínculo indissociável cismo estatal na sociedade fluminense e.0 0.7 0.9 to direto.82 globo. 29-38.1 0. sil.1 48.3 6.9 1. A hermenêutica do sujeito. 1a Ed.8 8.). Disponível em: www.57 4. v. Petrópolis: Vozes. “Racismo. Michel Foucault: poder e análise das 0 1999 2002 2005 Graal. em favor da maximização da vida de alguns a partir do assassina. Ano Homicídaios por Homicídios por Outras formas de Homicídios por Homicídios por Outras formas de que diz respeito à violência.terra.0 1. 23 de julho de 1993 – A chacina da Can- 41. 2005.1 0.5 1.8 1. Cadernos WAISELFISZ. Estamos tratando de uma política de Estado. Marcos César (orgs.4 9.71 3. Editorial – Abril/2009.9 2.br.2 9. da violência – negro tem 130 vezes mais chances de versity Chicago Press. a baixa qualidade da escola públi- 2003 30.7 8.br. Rio de Janeiro: SILVEIRA. Entre as ações policiais extra-oficiais e oficiais. OBSERVATÓRIO NOTÍCIAS E ANÁLISES – Até 10 _____________.5 5. mento do racismo como uma política de Estado.br e Tabulações: LAESER – Fichário das Desigualdades Raciais rília: Unesp-Marília-Publicações.org. 2008. n. Um desafio é a transposição da pesquisa geral. 2004./jun.0 1. São COELHO. 2005 (por mil habitantes) decisão que culminou com o tiro fatal do Major Bus. _______. Disponível em: coletivodar. 60 dualismo.6 0. idade segundo os grupos de cor ou raça (branca e preta & parda) e sexo. de modo mais com o racismo. Brasil. trevistas de representantes do poder público fluminense Homens Brancos Homens Pretos & Pardos nello. arma de fogo arma branca homicídios arma de fogo arma branca homicídios disparo.9 2.9 49.7 4. Rafael.7 1. Mapa da Violência no Bra- Fonte: Datasus / Min. indivi. Com este intuito. propiciando um entendi.5 1.0 2. 2002(1). partindo de um repertório focaultiano. 2001 29. o difícil acesso aos programas e aten- CONSIDERAÇÕES FINAIS dimentos de saúde.4 42.3 1. etc.6 1.word- 20 FOUCAULT. Brasil.5 1. Em defesa da sociedade. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Alguns trechos de en. VEIGA-NETO. Resumo dos cursos do Collége de Fran- 61.8 7.0 2004 26. n. 2000 2.2 4.1 2004 2.96 4. 3. H.5 10.6 de um modo de gestão que ultrapassa o ato de apertar conjunto de políticas constitutivas do Estado brasileiro.6 1.com. outubro de 1995. Alfredo.0 2.jblog. lária_Julho/2010.br. Reportagem . Saúde. Tempo Social: Revista de Sociologia. Martins Fontes. “O que é a crítica?” IN: BIROLI. 70 67. 2009 cault.8 0. Violência – Fevereiro/2011. biopoder”. o que está em jogo não é a ação isolada do conceituais foucaultianos. 1999-2005 (por 100 mil habitantes) 80 _______. Vol.4 4. Cande- 40 35.1 O escopo deste trabalho é trazer algumas contribuições destacamos o “caso Serginho”.8 46. delária. e RABINOW. Guilherme.4 9.9 ca. Antônio.48 CASTELO BRANCO. organizações.9 2.7 0. um 1999 22. uma perspectiva que busca sublinhar alguns arma de fogo arma branca homicídios arma de fogo arma branca homicídios mos descrever. São Paulo: press.6 7. dossiê temático que o comando da operação autorizasse o disparo.org.0 12. Flávia.4 33.7 1.0 2. Martins BIBLIOGRAFIA Fontes . Belo Homens negros e pardos Homens brancos Mulheres negras e pardas Mulheres brancas VAREZ. 7(1-2): 83-103. Chicago: The Uni. Ma. como em função a ampliação de riscos.29 3.0 0. Michel Foucault: Horizonte: Autêntica. USP.0 1. P. dispositivos dos mecanismos de funcionamento do ra- 1999 1. Em 2002 29. velas. M. 1982. MAIA.observatoriodefa- 3.0 4. 2000 27.4 7.com. 2000. Michel Foucault: beyond OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NO RÁDIO – Mapa 30 structuralism and hermeneutics.1 2003 2.com. 50 tante morto em Vila Isabel após fazer comerciante MELO.8 0. 2007. 2005 24.0 45. foucaultiana que opera como racismo antissemita para Razão de mortalidade por formas especificadas de homicídio da população residente acima de cinco anos de sa observação é que o racismo foi o fator decisivo na o racismo anti-negro no Brasil.45 _____________.9.0 3.9 outros termos. Julio Jacobo.7 7.6 5.1 8.2 3. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. Alice.9 9.93 Curitiba.0 0. ser assassinado. 1997. 21. Mãe de assal. Camilo e OLIVEIRA.5 46. Revista de Filosofia Aurora. C. Paulo.6 8. na sociedade brasileira. quando? Disponível em: www. jan.64 _____________.Setembro/2009. terratv.1 0. Foucault & a educação. Djalma.83 33. Violência – Abril/2010.6 6. Sobre a analítica do poder de Fou- 51. Disponível em: extra. Vale registrar que não estamos tratando de ações e ações policiais foram colocadas à luz dos operadores Ano Homicídaios por Homicídios por Outras formas de Homicídios por Homicídios por Outras formas de individuais. IBGE. procura.SP.9 os grupos de cor ou raça (branca e preta & parda). 26 27 .0 9.1 2001 2. microdados SIM.0 2002 2.1. microdados PNAD da Faculdade de Filosofia e Ciências. 28.4 4.

Ensuite.. na con. (SANTOS. com significativa (. dentre outros. Eduardo Oliveira e Oliveira. teatro. de qualquer natureza. RATTS & RIOS. NO ESPAÇO ACADÊMICO [como “clubes de negros”]. Étnico-Raciais e Espacialidades do Ins- tituto de Estudos Sócio-Ambientais da Universidade Federal de Goiás. [como o Movimento Negro Unificado]. mance individuelle et collective. discuto brevemente mique dans la décennie de 1970. Os destaques vãos intervenção neste âmbito. recreativos e negros/as na Universidade Federal Fluminense entre co para o período. 2009). podemos dizer aquilombamento. por fim. Nos anos 1970. artísticos. qualquer tempo [aí compreendidas mesmo aquelas que também a época de formação do que denomino de visavam à autodefesa física e cultural do negro]. organizada fera religiosa com grupos como os Agentes de Pastoral INTRODUÇÃO na Universidade de São Paulo. e com as cor. também se dinâmica. por vezes de técnicos administrativos.) a melhor definição de movimento negro é: todas Os anos 1970. raciales. tuais negros. de do movimento negro contemporâneo. période concomitante à la graduação e pós-graduação em Geografia à discussão e implementação de Ações Afirmativas e das cotas discussion et mise en oeuvre d’Actions Affirmatives et des quotas e do mestrado em Antropologia da Uni. como portadores de um as entidades. período concomitante diants Noirs dans la décennie suivante. corpos educados. trato da entrada de “corpos negros educa. Dans la conclusion je reflète concernant l’entrée de « corps versidade Federal de Goiás. Les Mots Clé: mouvement noir académique. extemporânea ou 2007. Coordenador dos” no espaço acadêmico. projeto político acadêmico que tem memória e história. je discute brèvement la a constituição dos Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros entre os constituition des Noyaux d’Études Afro-Brésiliennes entre les années Alex Ratts anos 1980 e 1990 e faço referência à criação dos Coletivos de 1980 et 1990 et fais de la référence à la création des Collectifs d’Étu- Antropólogo. de movimentos conjunto com outros/as pesquisadores/as acerca das que alguns/umas ativistas que participam da reorgani.. ostensiva ou encoberta. e para a Quinzena do Negro. 1974 e 1975. Este fenômeno exige algumas considerações acerca Depois discorro brevemente acerca da formação da pluralidade interna do movimento negro. recreativas se afirmam negros/as no espaço acadêmico e. Há Estudantes Negros/as (CENs) nos anos 2000. período considerado de surgimento atuação individual e coletiva. meiros anos da reorganização do movimento negro.. a presença de acadêmicos/as negros/as é uma exceção bilização política. discentes. 157). Lé- grupos sociais historicamente discriminados com foco mados Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros (NEABs) lia Gonzalez (1982) chama a atenção para a pluralidade para as cotas raciais pode ser inserido numa discussão e. negros (ou de maioria negra) culturais. fun- movimento negro de base acadêmica (RATTS. voltadas rais [como os diversos “centros de pesquisa”] e políticas Coletivos de Estudantes Negros. Posteriormente. J. os cha. avec significative perfor- do Laboratório de Estudos de Gênero.). que A MOVIMENTAÇÃO NEGRA assistenciais [como as confrarias coloniais]. cultu- os Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros (NEABs) e os Desde a criação das universidades brasileiras. intelec. que propõem esse debate. abordo a formação do movimento negro de base RESUMÉ Dans cet essai. pois nem todos os grupos pela historiadora Beatriz Nascimento e por estudantes ou mais simplesmente um movimento negro acadêmi. com significativa atuação individual noirs instruits » dans l’espace académique. de protesto anti-discriminatório. intellectuels noirs. acerca da relação entre educação e corporeidade.. constitui movimento negro. movimento negro acadêmico. Em seguida. faço referência à criação de Coletivos de de organizações e para a sua unidade. zação do movimento negro contemporâneo. período Joel Rufino dos Santos amplia para o passado e o pre- um notório incômodo com os corpos negros. para uma elite social. primeiramente situam no interior de algumas universidades públicas cotidiana. Professor dos cursos de Estudantes Negros/as na década seguinte. poesia]. e ações de mo- Neste ensaio. 2010). inicial de constituição deste campo. Entidades Ele se caracteriza pela ação organizada de docentes e religiosas [como terreiros de candomblé. j’aborde la formation du mouvement noir acadé- acadêmica na década de 1970. corpos concomitante à discussão e implementação de Ações sente a gama de entidades com base em levantamento que pensam. pelo sociólogo Negros e o Movimento Negro Evangélico. 2009. dadas e promovidas por pretos e negros (. constituem grupos de atuação como ros grupos de dança. por exemplo]. de vações que tenho realizado individualmente ou em que confirma a regra. até o último quartel do século XX. para mim. de rebeldia armada.dossiê temático Corpos negros educados: notas acerca do movimento negro de base acadêmica RESUMO Neste ensaio. Afirmativas e das cotas raciais. raciais. e todas as ações. Na conclusão. artísticas [como os inúme- temporaneidade. apontamos aquele que consideramos um momento e privadas e chegam a constituir grupos de estudo e de 1994b: p. literários e ‘folclóricos’ – toda essa complexa trajetórias de intelectuais ativistas negros (RATTS. Nos pri- O debate público acerca das ações afirmativas para de grupos acadêmicos nos anos 1980 e 1990. em 1977. Palavras chave: negros. capoeira. religiosos conhecidos se identificam como movimento 29 . o que me leva a afirmar a Ampliar este quadro não aponta necessariamen- para o Grupo de Trabalho André Rebouças formado existência de um movimento negro de base acadêmica te para uma compreensão. corps instruits. a exemplo do que se observa na es. A conclusão aponta para de Paulo Roberto dos Santos (1984): poreidades negras que estão adentrando a universidade a entrada e permanência de corpos negros discentes brasileira de forma coletiva e organizada. são. e coletiva. que advém de pesquisas e obser. e docentes no espaço acadêmico.

no entanto. Muniz Sodré e Joel Rufino dos Santos. reconhecido pelos seus Foi nos anos setenta que a luta organizada contra o ra. poucos grupos se identificaram Este é o período em que alguns/umas mestres e de voltar-se para os critérios de identificação e para o 3) estabelece uma periodização para um movimento ou foram identificados como tal.). preocupados em criar bandeiras de combate. que acabam por se aproximar e. ao cote- J. União de Negros pela Igualdade (UNEGRO). como intelectual reconhecido participou voz suplantada ou infantilizada (GONZALEZ. em própria. Santos sintetiza o quadro do período: M. ideias arregimentadoras de negro ou são reconhecidos pelos fóruns políticos ne. Flávia Rios (2009). sobretudo públicas. A trama das trajetórias pessoais e coletivas fica a das relações sociedade-governo desde 1960. a pessoa negra passa a ter voz própria no mun- brasileiros. É o caso do Grupo doutores/as que hoje são referência dos estudos de re- campo e forma de atuação de cada grupo. onde o grande número de “negros doutores” causa es. a uma tendência da geração desse período: estudos mais aprofundados no que se refere a grupos rígidas (como o Movimento Negro Unificado. risco de embranquecimento dos/as acadêmicos/as ne. O cenário traz dades. desde meados dos anos 1980. vimento negro a partir dos anos 70 são feitos. No contexto de uma estados no período em foco. nacionais e também o quadro das relações entre pesquisadores/as si – há quem prefira mesmo designá-lo por “movimen. período durante o qual não (. 1999: p. pois na década ante. Alguns auto. (1994a: p. Outros/as inte- J. que indica que este quadro se verifica em outros O movimento negro de base acadêmica se sinto- amplitude nacional e claramente destacado de outros mens de Cor (UHC) e Teatro Experimental do Negro movimentos sociais na América Latina: niza com as outras organizações no enunciado da exis- movimentos sociais e políticos. Guerreiro Ramos e Clóvis Moura são pensadores que nacionalização de outras coletividades. muitos militantes e simpatizantes de diversos movi. No caso do movimento negro de base acadêmica. boa parte da lite. Isso não brancos/as e negros/as que merece levantamentos e tos negros”. geralmente. de inflexão em que o sujeito negro não deseja ter sua cussão racializada e ideologizada em torno da noção de quilombo de J. atuar em conjunto. são invariavel. com a qual rompe logo des privadas foi maior. até instituições semi-acadêmicas (como É preciso lembrar. Geração. de diversos tipos. em nessa produção é o fato dos negros deslocarem-se do depois) e os Agentes de Pastoral Negros (APNs).. M. União dos Ho. Cardoso. No caso do movimento negro. de Trabalho André Rebouças.. que atuam na primeira metade de século XX tência do racismo no Brasil. produziram um ponto que não concluiu a dissertação em virtude de sua morte. Santos se refere a um momento em que há pou. É preciso ressaltar que Abdias Nascimento. pode-se dizer por exemplo do Maranhão e do Rio Grande do Sul. nos anos setenta. mento ainda mesclado pelos padrões de pesquisadores jar artigos de Lélia Gonzalez. de histórias e memórias negras. negro de tipo mais “político”. negros/as ou de negros/as intelectuais como prefere como é o caso de Clóvis Moura. Eduardo Oliveira e Oliveira e Hamilton que a ação em escala nacional do MNU e das orga. a exemplo de Kabengele a expressão no plural – movimentos negros – como se vação” ou “retomada” dos movimentos negros no final de Trabalho de Profissionais Liberais e Universitários Munanga. onde a proliferação de faculda. 2009). (SANTOS. mais recentemente. O dilema entre cultura e política se instaura par. (2009). percepção da entrada. plena ditadura militar. de Rios (2009). A dis- Márcio André dos Santos comenta o trecho acima movimento. no plural. para a posição de ensaístas e intelectuais” (p. 1999). enti. pois. se inseriam nas uni- res como Márcio André O. (p. a exemplo do GT “Temas e problemas da a mais notória). num movimento negro de como Frente Negra Brasileira (FNB). O autor provavelmente está tratando de entidades Sales Augusto dos Santos (2007). que estes/as intelectuais.. Negra do Maranhão. merecer maiores reflexões. ticularmente aí. Aquilo que os próprios (TEN). mas também a dades negras de luta contra o racismo. noção consensual do que significa movimento negro. na literatura específica. Lé. um mo. tanto que em mente filiados às ciências sociais ou por elas influen- algumas situações se instaura uma tensão em torno do ciados. tocante à relação entre orientadores/as brancos/as e histórica e cultural do negro (como o Centro de Cultura pelo estado como solução para a “crise de vagas no ensi. teorica- não tinham passagem pela universidade. Esta citação é interessante por três razões: 1) capta a gros/as (RATTS. do acadêmico. por exemplo).. merece relativização esta afirmação de J. trata-se 2) descreve em linhas gerais seus tipos organizativos e. mentos sociais tornam-se pesquisadores dessa forma população negra” da Associação Nacional de Pesquisa o Grupo André Rebouças. que a fuga de candidatos brancos para centros mais Para o período em foco. e perspectivas analíticas antigos. remete à presença de licenciados/as e bacharéis no muitas vezes. porém. pos- o singular previsse uma harmonia. em seguida. bem como do GTPLUN (Grupo versidades. nizações mencionadas é seguida pela regionalização e panto e gera atritos peculiares (1994a. transformando-se continuamente (. 1983). primeiro. a exemplo dos têm produção escrita desde décadas anteriores. A transformação provocada no momento da atu. ação relativamente conjunta de intelectuais ativistas lectuais negros/as ativistas traçam caminhos distintos. nacionais de mulheres negras. e eventos. assertiva com a qual dos anos 70. 30. nos anos 1970 e 1980. de jovens negros/as no meio acadêmico: foge. Joel Rufino dos Santos e cas entidades nacionais como o MNU. 1983b: XIV)1. lia Gonzalez. optando pela denominação de Gonzalez o “movimento negro moderno” data do início dos anos (SANTOS. mas também dos estados. considerado. juntamente com as Hamilton Cardoso da primeira metade dos anos 1980. novas tendências tidas como críticas que ameaçavam deixa uma indagação e faz uma afirmação acerca destes de União e Consciência Negra (fundado entre 1978 e do Rio e de São Paulo. aparecer. consciências e atuações políticas” (BORGES PEREIRA. Santos contribui para a grande medida. 63-64). Siqueira. Maria de Lourdes não concordo. No adiantados de ensino abria vagas para negros – é o caso são conhecidos os nomes de Beatriz Nascimento. Federal Fluminense. e Rufino e. orga. é pontuada por Rios pares nas universidades. João Batista Borges Pereira foi o orientador de Kabengele Mu- encontros de negros Norte e Nordeste e dos encontros Além da irônica expressão “negros doutores”. no superior”.. De fato. é abordada em Ratts (2003). dos Santos (2009) preferem ratura sobre este movimento social fala de uma “reno. De fato. gros são filhos do “boom” educacional dos anos setenta de ação coletiva em toda a América Latina. o MNU. nanga. É difícil estimar a proporção de pessoas gra. o Grupo mente desta geração universitária. e pela busca de uma narrativa to negro. estes novos ativistas negros/as que fundaram as referidas entidades sujeitos são chamados de “ideólogos negros. Parte significativa dos/as discussão acerca da noção de quilombo. 2009: p. identifico uma articulação negra de base acadêmica. Todos 1. Santos: Santos que. cismo desembocou. lugar de informantes dos pesquisadores estabelecidos nização criada em 1983 (SANCHIS. No entanto. 266-267) sujeitos: “Quem são eles? O que mais chama a atenção 1980. Há desde organizações políticas superestimada. pontas de lança de ação. dossiê temático deste processo e ministrou cursos em vários estados ou seja. gros. um ponto crítico decisivo nos anos 80 em diante. como foi e Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS) e no minense). I. Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva.) os estudos que engrossam a produção sobre mo. entanto. esse fato torna-se mais orientandos/as negros/as. criado na Universidade lações raciais e das culturas negras. que os movimentos ne. 2006). Marlene de Oliveira Cunha e Eduardo Oliveira e Oliveira. rior ainda podemos verificar uma transição. enfim. Helena Theodoro Lopes. Henrique Cunha Jr. outros trabalhos apontam que Negros) de São Paulo e do Grupo Negro da PUC-SP teriormente de Leda Maria Martins. (DOMINGUES. 96). são na verdade cerca de 400 enti. os jovens que fundam. 2007). 237). ainda que reduzida e por vezes estrangeiros. p. no seio da igreja católica. na Universidade Federal Flu. como sujeito coletivo e como individua- duadas entre os/a fundadores das entidades negras nos lidade forte (SANTOS. no meu entendimento. 266). no repensar a nação em militantes negros convencionaram chamar de movimen. engajados na luta anti-racista. 30 31 . 94). 2007. passando por centros autônomos de pesquisa – proliferação de faculdades particulares estimulada muito bem notado por Cardoso (1989) e Gohn (2004). frouxamente articuladas entre Uma citação a mais de J. por intelectuais negros.

aparecem dois intelectuais com perspectiva aglutinando intelectuais. e Eduardo Oliveira e Oliveira (1974. o GTAR estava. e outros colegas entre professores que desenvolvem teses sobre Relações iniciam sua carreira acadêmica naquele momento. Educação e Cultura de setembro de 1978: 110). 01). 1977). 1975). Fonte: GTAR. 1978: p. 1976. ALBERTI & PEREIRA. detalhes Eduardo de Oliveira e Oliveira Sociólogo do contexto que aproxima a entidade da mobilização a Contribuição do Negro na Formação Social Brasi. Na realização das semanas de estudos o grupo de alunos GTAR: Beatriz Nascimento (1974a. cimento científico. cente e discente da Universidade e estabelecer contato Alguns intelectuais brancos/as (ou não negros/as) onde procedem (GTAR.. sobretudo da reserva de vagas para estudantes negros/as. a exemplo de Marlene de Oli- versitários”. o estudo das relações raciais e a produção historiográ. estudante de Geografia. ficos sobre as Relações Raciais no Brasil. entra no mérito das Devido a este reconhecimento. a exemplo da eleição do dia 20 UM PROJETO DE leira”. Carlos A. Nunes Pereira e Vi. 22). 2007). e por outro lado no sentido de se Virgínia Nascimento. dentro de Leni Silverstein Antropóloga consensualmente depois de 1978: “No ano de 1977. a O GTAR NA UFF uma abordagem das relações raciais. ou seja. além de estudiosos renomados gros sentiu necessidade de organizar-se juridicamente americanistas e africanistas . um grupo de alunos negros dos cursos de grupo. Rei um grupo de pessoas se reúne aos sábados no Centro sora Maria Beatriz Nascimento e alguns jovens negros Michael Turner Historiador dos Palmares. 1977) e desenvolve sua dissertação acerca de preconcei. os membros do GTAR nar. João Baptista Borges Pereira Antropólogo política negra de então. ela indica da Universidade Federal Fluminense organiza um en. a das áreas de Humanidades.2 Hanchard (2001: p. mostrar uma nova forma de abordar as Relações Raciais Vicente Salles Antropólogo e do próprio Grupo de Trabalho André Rebouças que nacional Brasil África (SINBA) e o Instituto de Pesqui. no início dos anos 1970. Química e Física tanto. sadores/as sobretudo do Sudeste. desigualdades de Trabalho André Rebouças (1976 – 1978) raciais. ela reflete 2. Marlene de Oli. implicação no seu todo social (GTAR. Maria Maia de Oliveira Berriel Antropóloga ferida para novembro em homenagem a ZUMBI. intelectuais nacionais e estrangeiros/as que colabora. veira Cunha e posteriormente Andrelino de Oliveira Atualmente.) O grupo tem por preocupação quanto aos temas Reginaldo Guimarães Historiador Cabe ressaltar a vontade de reconhecimento e o letivo formam-se 3 grupos fluminenses: o Grupo de apresentados no decorrer das semanas de estudos a de Roy Glasgow Historiador processo de institucionalização da Semana de Estudos Trabalho André Rebouças (GTAR). tensão que em grande parte se dissolve na ami- Acerca da SINBA. Ciências Sociais. Peter Fry Antropólogo anterior” (p. ram seu processo de formação e deixam explícitos seus o negro para uma das “semanas de estudos” (BERRIEL. pro- especialistas na área das Ciências Humanas ligadas às Juana Elbein Antropóloga posta pelo Grupo Palmares de Porto Alegre e adotada NEGRITUDE ACADÊMICA: questões relativas ao Negro brasileiro atual. atualizar a bibliografia estados de Rio de Janeiro e São Paulo (CUNHA JR. Este processo está em relatos de ativistas negros/as fluminen. Cabe ressaltar que dos/as colaboradores/as do GTAR também contribui que a escolha do tema se dá em meio a seu curso de contro que denominou de “Semana de Estudos Sobre cada convidado/a colaborava com a produção de uma Ciências Sociais na UFF. 32 33 . retora do ICFH-UFF. Participando das tentar uma reformulação do programa de Antropologia produção acadêmica. que cursa Ciências Sociais. Geografia. negros. 1978: p. chama a Naquele período. Na introdução do seu trabalho. por meio das palavras do Décio Freitas Historiador próprio Grupo de Trabalho André Rebouças. 1974b). 11-12). 2002: p. Campos. GTAR. veira Cunha. cujos resultados fortaleceram os como parte de sua especialização também em história nos cursos que abrangem a área das Ciências Humanas. as das relações raciais. principalmente pesquisa acerca da ideologia racial e dos movimentos vido na universidade. 1982). Beatriz Nasci. cultura negra e religiões afro-brasileiras. a situação de pesquisadora negra com um orientador ses do período (CONTINS.e registra a continuidade atenção a precisão do propósito teórico e político do como João Baptista Borges Pereira. raciais fora da UFF com o corpo docente do Instituto exemplo de Maria Maia de Oliveira Berriel. zade construída ao longo da pesquisa (p. 3. relações raciais. fica. Hasenbalg Sociólogo É relevante destacar. concernentes ao negro brasileiro enquanto raça e de sua Yvone Maggie Alves Velho Antropóloga vem por intermédio de uma portaria do Ministério de sas das Culturas Negras (IPCN). negra que se tornam referências para os/as jovens do participam das semanas de estudos sobre a contribui- mento conclui sua graduação em História na Univer.que ele traduz como Estando situado no espaço acadêmico. (. negra.. dades raciais despontam àquela época3. São dois dos/as intelectuais mais uma linha de atuação acadêmica que os beneficiou du- reuniões acima mencionadas. formando acadêmicos ativistas. nem sempre nítido aos olhos contemporâneos. 1977. com o nome de “Grupo de Trabalho André Rebouças” da primeira entidade até os dias de hoje. O GTAR se constituiu como um projeto de ne- Nos seus documentos. particu. distribu. Como contraponto deste quadro merece comentário a postura “Semana de Estudos” e à criação do GTAR com colegas ída a quem participava do evento.. em Ipanema. por um lado. 1978: p. fez articulações internas na UFF e com pesqui. no sentido de conhe- um grupo de estudos do qual participam sua irmã Rosa e Filosofia (já foi reformulado). Um quadro dos/as atual de Yvonne Maggie e Peter Fry contrários à adoção da variá. 2005. de Ciências Humanas e Filosofia (GTAR. dossiê temático para que compreendamos na diversificação dos temas Quadro 1 – Colaboradores/as do Grupo quais são as preocupações do grupo: história do negro nas Américas e no Brasil. 2). ela estimula a criação de do Negro brasileiro no Instituto de Ciências Humanas reconhecidos/as pelo movimento negro emergente nos plamente. ver o artigo de Joselina da Silva (2009) aquilatemos a amplitude do projeto acadêmico. 01). “em busca de espaço” (GTAR. vel raça nas políticas identitárias e nas políticas públicas. que não menciona o GTAR. o que a leva à organização das comunicação que era publicada em apostila. sua amiga no que diz respeito ao assunto adotado pelo corpo do. que pensa ção do Negro na Formação social Brasileira. preparar para uma ação voltada para a comunidade de e companheira de trabalho de campo. Semana de Estudos Sobre a Contribuição do Negro A tentativa de realizar este trabalho foi iniciado [sic] em Maria Beatriz Nascimento Historiadora na Formação Social Brasileira foi organizada e trans- Na cidade do Rio de Janeiro. Desta. sidade Federal do Rio de Janeiro e se dedica pesquisar negros universitários tiveram como propósitos [sic]: in. mas também das Exatas. Para co também Carlos Hasenbalg cujos estudos de desigual. Manuel Nunes Pereira Antropólogo 3ª. 1978. 1973 no Centro de Estudos Afro-Asiáticos pela profes. então di. e amigos/as. que é a de manter uma continuidade do trabalho desenvol- população negra dos quilombos do período escravista. Deste co. Neste encontro o grupo convida autoridades e José Bonifácio Rodrigues Historiador de novembro como data de referência positiva. 01). cente Salles. na expressão do próprio to e ideologia racial no Brasil (BERRIEL. tendo por objetivos os mesmos do ano de Estudos Afro-Asiáticos da Universidade Cândido interessados em formar um grupo de estudos. além de escrever sobre a necessidade de uma objetivos destes alunos negros de continuar mantendo na Universidade Federal Fluminense. ex-alunos e alunos negros que Participante das referidas reuniões. Mendes e no Teatro Opinião. que refaz uma bibliografia sobre gritude acadêmica. A proposta do de “Grupo de Trabalho André Rebouças” elementos de continuidade na organização social da troduzir gradualmente na Universidade créditos especí. a Sociedade Inter. A bibliografia linguagem gestual no candomblé Angola. alguns/umas dos/as quais se tornaram pesquisadores/ objetivos acadêmicos: Definido como um “grupo de alunos negros uni. ram com o GTAR entre 1976 e 1978 contribui para que larmente na implementação de ações afirmativas para a população branco. o grupo de alunos ne- divergências entre IPCN e SINBA . Na dissertação de Cunha (1986) acerca da História.

Convém também lembrar que a ciência Na conferência a pesquisadora e ativista demarca sua e participam de circuitos intelectuais e políticos de rela. André Rebouças. se trata de fazer uma auto-análise em todos os textos e tra tarefa. o então mestrando em Antro. não os enganando” (NASCIMEN. Con. Sentia que fazia parte do Cabe destacar que na Quinzena do Negro aconte. Beatriz Nascimento propugna No texto/manifesto do evento. importância. Voz de pensadores/as negros/ como sujeito na ocupação de espaços sociais. Ela era ami. 2001. Para ele. influenciados pessoalmente por Como parte do evento. de uma sociologia. a formação e o posicionamento do intelectual negro: que o evento ocorre durante a ditadura militar. Márcio e Andrada. o propósito de preto nem branco: escravidão e relações raciais no Brasil O autor segue apontando o que seriam para ele os de de verdade. atriz Nascimento. por meio no Carneiro da Cunha. e o grupo que pesquisava. Nos estados de Rio de que este objeto questionaria sua suposta “objetivida- pologia na USP. 26). posição face ao que se discutia e produzia na historio. terreiros. Vemos tro dessa universidade é porque a universidade assume cessidade de afirmação do intelectual negro. À semelhança de Oliveira. les Black. datada do mesmo ano da Quinzena do Ne. como mão de obra nadores/as qualificados/as do racismo brasileiro. apontando a dificuldade de en. tudo. que dificulta a compreensão do TO. por conseguinte. elementos deste processo que deve levar a uma trans- territórios discursivos. Sobretudo essa aqui [a USP] que é gro. parece da maior relevância – revelar o negro como cria. Na comunicação intitulada Etnia e compromisso seu próprio grupo. Têm artigos e ensaios publicados abordagens. na Europa. nossas frustrações. racialmente hegemônico: “Hoje. jamento pessoal. Os escritos de Beatriz Nas. mas por exemplo. Por verdade. Eduardo Oliveira e Oliveira enuncia 1974). dossiê temático O seu ponto de partida com o “objeto de estudo” é proposta por quem era objeto de estudo de médicos. Eduardo Oliveira e Oliveira. neste caso. perspectiva com a qual ainda nos blica uma resenha crítica do livro de Carl Degler (Nem soluta que paira acima dos seres humanos.44). no caso. 2003). nossos comple. tentando conhecer os fenômenos a INSTITUIÇÃO”: A QUINZENA ga de Eduardo Oliveira e Oliveira com quem já havia são tão jovens: Beatriz está com 33 anos. estudante doze de trabalho. 1977. p. p. estes/as intelectuais não vestida “perceptiva”. p. de 6 a 13 de julho 4. grifo do autor). O evento. Oliveira indica que de “escravo” por “negro”. Eduardo Oliveira e Oliveira pu. é divulgação na imprensa paulista. após a conferência de Be. 34 35 . então diretor do Museu de Arqueologia e 5. com parentes e amigos/as que são lideranças religiosas: de intervenção de mercadores. aqueles que com ela se identificam. Como se nós só tivéssemos existido dentro da demandas de formação e de atuação social. 6. tendimento da desigualdade preto/branco pelo “mu. escolas de samba. a cor. O interesse do sociólogo e ativista. da liberdade. é (e de quem pode ser) intelectual no Brasil e da ne- dor e criatura. ce uma mesa redonda com estudantes afro-brasileiros deve-se ter o cuidado de não se submeter ao segmento nomia ou antropologia negras. p. Direção de Raquel Gerber. Mas a interpretação do “indivíduo nosso inconsciente. da verdade. tiva visibilidade para o período. O que ela propõe não é uma simples troca de termos. 7. no simpósio “Brasil Negro” por ele coordenado. O autor e indivíduo negro como pessoa. porque tocante aos estudos de relações raciais7. Na intervenção. como reação e como cimento e o estudo de Marlene Oliveira Cunha – que com a participação de Rafael Pinto. 26). do qual existem registros impressos e audiovisuais. p. Por seus escritos. na fazer a nossa História. já me mandam entrar e sentar. Numa palavra: Sujeito” (IDEM). não tiveram escravizado” como um ser coisificado é um ônus ex. como indico em outro o acadêmico. porque seus cro. Eduardo Oliveira e Oliveira sinte. presumo que não é uma espécie à parte. ou. xos. Eduardo tem serem estudados como sujeito/objetos que são de suas DO NEGRO NA USP trabalhado nas “semanas de estudos” do GTAR na UFF. p. desenvolver novas técnicas e perspec- tiza o propósito maior do evento: “um aspecto que nos a essa instituição.4 É necessário lembrar pra fazenda e pra mineração” (NASCIMENTO. posicionada. entendo não “A Verdade” ab. se afirmar como negro e ajudar outros negros a se afir. 49 e Hamilton 24 anos. gras. (IDEM. depois de dez anos ou construção face ao quadro das ciências humanas no aborda corpo e linguagem – exemplificam uma parte ências Sociais na USP. que fez do negro um objeto de estudo. 287). Na plateia há militantes de uma que não pretende ser doutor. e mais dois nomes mencionados como eu sou Eduardo Oliveira e Oliveira que tenho um título. 1989). o autor faz algumas indagações acerca de quem tivas” (IDEM. Os cientistas negros. de “cientistas negros”: geração anterior. Idem. segue propugnando a ideia de uma “ciência negra” e. é escravo. jogando lato-sensu é um homem que contribui com idéias ori- manecido à margem desta história. conferências e exposição. com nação como mão de obra escrava. mas a vonta. Em artigo de 1974. 1974b. mais um aspecto do projeto político: “Nós temos direito intelectual. de seu ambiente familiar folcloristas. favelas. possa guiar outros intelectuais e estudantes na procura um pensamento negro: a falta de meios para produção “negro” ou da “raça” na variável classe ou no rol de No mesmo ano. também a subjetividade do pesquisador/a: “Devemos dos clichês relativos ao problema negro? O intelectual contribuído para a história pátria (. Oliveira relata que defendera esta proposição em vários eventos. América. historiografia. Transcrição do filme Ori. Sobre o negro” (IDEM: p. buscando nós mesmos. eco- mesmo processo” (p. Em termos de faixa etária. São questio- composto por mesas. 26). Nos ombros dele recai uma ou- dessas verdades” (OLIVEIRA. voz própria que emerge em Nascimento é o reposicionamento da pessoa negra e nos Estados Unidos). Para ele e para ela os/as estudantes e intelectuais particular ao cientista negro). Fez parte da semana uma exposição organizada por Marian. organiza grafia brasileira: “Quando cheguei na universidade a Janeiro e São Paulo organizam debates e outros eventos de” quando detivesse os instrumentos necessários para a Quinzena do Negro naquela instituição. formação social: “O cientista negro precisa se tornar as. quaisquer que sejam e onde quer que estejam: bai. O autor pros- do projeto político acadêmico do Grupo de Trabalho de jornalismo. 18). sua experiência de negros. 1989. valorativa” (OLIVEIRA. coisa que mais me chocava era o eterno estudo sobre o em que acadêmicos/as e ativistas problematizam suas avaliá-la (1977.) – e que têm per. Para o autor a experiência deve balizar a constru- “percebi que havia uma forte identificação entre mim sos. Angra fil. a etnicidade e a classe social são de primordial Progresso da Ciência (realizada em São Paulo. ção de uma ciência para e não tanto sobre o negro. sendo assim impossível ao cientista (e em de 1977). novas descobertas e informações no conjunto nistas. a de descolonizar sua mente de maneira que ativista identifica as difíceis condições da formação de A ênfase na diferença questiona a subsunção do sim trazer elementos da reflexividade.. debatemos. religio. têm individualidade. ginais. lato” face ao mito da democracia racial (OLIVEIRA. que a constituição de um lugar de fala enquanto sujeito a sua possibilidade de universidade para formar mais gar sua condição social: “Vivemos num mundo onde inclusive na 29ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o negros”5. sem ne. sociólogos e que fora objeto negros/as não devem se distanciar das coletividades ne. Beatriz Nascimento profere marem como tal”6. Um “intelectual negro” até agora os meios exigidos para que se tornem arautos cessivamente pesado. além de enga- Nesse sentido. um teórico e precursor da mudança social.. antropólogos. devem estabelecer uma in- “NÓS TEMOS DIREITO A ESSA a conferência Historiografia do Quilombo. pública. outras identidades. que não se branqueou. para o que necessita. que cursava Ci. jamais pensou Em outubro de 1977. latifundiários. 26. não falavam em uníssono. pesquisadoras e pesquisadores das mas que usa disso como instrumento de trabalho para culturas negras e das relações raciais. A escravidão de africanos e “uma história do homem negro” em que fosse colocada Em que medida o “intelectual negro” deve se libertar um dos propósitos é “revelar alguns brasileiros que têm africanas por sua extensão espacial e temporal mar. E o fato de fazer [a Quinzena do Negro] den. “Voz que vem do interior”. já existente do conhecimento. cou indelevelmente a experiência negra na África. Hamilton Cardoso. mes. senhoras e senhores de toda ordem. de uma comunicação intitulada “De uma ciência Para e não tanto Etnologia da USP. 22). manter uma neutralidade vem de um circuito próximo. a partir de artigo (RATTS. estudando-os. o nome construído e a titulação são importantes.

à angustiante” e que deve proceder “no decorrer de sua A presença de professores/as e estudantes negros/ Coletivo de Estudantes Negros e Negras Beatriz Nasci. mantendo uma posição de crítica e de participação Louro (2001): O corpo educado.122-123) na academia não implica em ter certezas inquestioná. do ensino Para a autora. o Núcleo de Estudantes Negras e Negros na UFBA e o Não há muito ensino ou aprendizagem apaixonada seja ele branco ou negro” (BASTIDE apud OLIVEIRA. a-corporais e. das diferenças. é pos- quase totalidade de pesquisadores/as negros/as ou se situam. posto que fazem pressão pelas Ações Afir. sem definição para além dos espaços educação formal contando com plo da Cooperativa Stive Biko de Salvador e dos Cur. proposição do engenheiro e educador não logra efeito. por extensão. rio. p. defrontando-se por vezes com a em processo de educação. implicado. ments/folder/1036087237/item/list gem institucional é um lugar onde o corpo tem de ser professores/as. Um processo de internacionalização dos/as as coletividades estão a merecer uma observação de Nas escolas e nas universidades transitam. tem para a população negra e também porque podem anulado. sem lugar para as subjeti. marcados pela presença de intelectuais negros/as Temas ligados à questão étnico-racial. mento (CANBENAS). referências da raça (mas também do gênero e da sexu- E DISCENTES NEGROS: tos conta inicialmente com a participação de 16 grupos te como grupos negros e demonstram a preocupação alidade). na UFPE. Mesmo onde estu- 1977. nem sempre se definem e são reconheci. O corpo é “educado” e na educação formal OS NEABs E OS CENs e hoje soma 76 núcleos8. nas apresentações artísticas. tura do título e do conteúdo do livro organizado por vros didáticos e paradidáticos (tanto nos textos quanto NUPE-UNESP e NEN-SC. grifos do autor). queira ou não em um problema ações afirmativas para a população negra. Afirmar-se racialmente Henrique Cunha Jr. p. en. Núbia Pereira Gomes (2001). nos li- na década seguinte: NEAB/UFSCar.. aqueles e aquelas de nós que ensina- campo de estudos e pesquisas vem acompanhada da gresso Brasileiro de Pesquisadores Negros. R. públicas e pri- veis ou facilidades no estudo das relações raciais. Os Sem essencialismo. das trans- brancos/as e outros. no qual é leiro de Estudantes Negros há a tentativa de criação de mos os mesmos velhos assuntos das mesmas velhas ma- reflexividade de suas condições e de seus posiciona. o Coletivo Denegrir na UERJ. bém ao gênero e à sexualidade. -UFMA. são criados alguns Núcleos de Es. a partir sobretudo de 2001. pois parecem ser sível identificar e confrontar estereótipos ou imagens contar com a colaboração de estudiosos/as de outros mativas e por políticas do conhecimento que se vol. Para o/a intelectual negro/a ativista a escolha do em Recife. vidades e para as trajetórias pessoais e coletivas. NEAB. na educação Tais coletivos podem ter sido formados por uma em relação às instituições de ensino superior nas quais e acadêmicos é rara a discussão acerca da corporeida. por exemplo. São reali. em 1989. Os corpos racializados estão no currículo. o que me permite tecer considerações como sa e extensão. presentes em todo o território nacio. Coletivos de Estudantes são identificados prontamen. Ao mesmo tempo. Rio de Janeiro. particularmente as uni. O autor conclui: “O negro ‘intelectual’. p. mas uma causa” (IDEM. para alguns/umas pes- observador participante. Neste âmbito. p. pesqui. CEAB-UCG (PUC-GO). em instituições de ensino superior. Pesquisadores Negros. no III Congresso Brasi. Corpos acadêmico nos anos 1970 reverbera no Rio de Janeiro da interseccionalidade com as variáveis classe. que tem como tema “A universidade que marcam com expressão própria o cenário de algumas sobre perda de controle prevaleçam sobre seus desejos saiba). quisadores e Pós-Graduandos Negros. muitas vezes. ainda deixam que suas preocupações Não está lidando com um assunto (é preciso que ele ano de 1993. – incapazes de reacender paixões que um dia podíamos (NASCIMENTO. nas músicas. em construção e. mo. muitas vezes abordados na perspectiva para a pós-graduação. remetem e formação. Criado em 2004. Nem sempre intelectuais “locais”. tem que passar despercebido” (2001. em algumas situações. protagonizados por mestres e país um processo de discussão e implementação das DE CONCLUSÃO diferenciados (racializados. versidades públicas. http://br. dossiê temático Oliveira se referencia em uma assertiva de Roger realizam projetos de extensão e de qualificação de pro. gestores. o Consórcio de NEABs e grupos correla. afirma bell hooks: “o mundo público da aprendiza. posto temos corpos – docentes e discentes. heterossexuais e homossexuais também percorriam o país num processo de formação acesso à universidade se inserem neste quadro. emoção. Pes.groups. fessores/as para a educação das relações étnico-raciais abrigar discentes de outras universidades. se tornam grupos de estudos e pesquisas. 27. na UFG em Goiânia. Os NEABs. situação na qual me ativistas e qualificados como núcleos de ensino. nos vídeos. na Faculdade de UBUNTU – Núcleo de Estudantes Negros e Negras na na educação superior hoje em dia. 27). larmente das cotas raciais. encaminhando-se ras/es e estudantes têm corpo (hooks. TOS. e isto. (no espírito da lei 10639/03) e elaboram propostas de médio ou não se circunscrever ao público estudantil. Bastide que merece citação: de que “o sábio que se de. na UnB em Brasília. É o caso do NEAB-UFAL. escolar e acadêmico. ter sentido (hooks. de certo modo. de dos segmentos que os compõem. de ensinar. Professo- dades. de raça. como é o caso da influência de Beatriz e outras. física. intimamente aborrecidos mentos. estão graduandos/as e pós-graduandos/as que nal. funcionários/as e estudantes 36 37 . Vários NEABs se cons. mais usados como as dos NEABs.com/group/consorcio_neabs/attach. o corpo é uma das principais CORPOS DOCENTES do Maranhão. a exem. as se torna mais organizada e articulada. uma espécie de auto-psicanálise intelectual.yahoo. Neste sentido. se en- Nascimento e Eduardo Oliveira e Oliveira e também de pesquisadores/as negros brasileiros/as está em curso.. mas tam- é um complexo processo de orientação. em Salvador. são corpos O quadro desenhado por ativistas negros/as no espaço relações raciais. 115). Nos espaços escolares nas ilustrações). 2001). balizamento consolidação e criação de NEABs. distantes do significante corpóreo. (UNESP) . das indefinições. incluo. ainda que contem com o apoio de um/a pelo conhecimento. etnicizados e generificados) doutores negros/as e com a colaboração de intelectuais Ações Afirmativas para a população negra e particu. Este posteriormente assumem a docência e participam da vadas. gênero ou orientação sexual. Como participantes deste cená. no ou outro/a docente. Desde 2001 surgem: Enegreser. como a sociedade. das culturas. PENESB-UFF. no III Congresso Brasileiro de maior ou menor grau com a presença de pesquisadores sem necessariamente incorrer em sentimentalismo. que muitos/as realizam seus trabalhos de conclusão de metáforas. este afastamento do corpo como assunto bruçar sobre os problemas afro-brasileiros encontra. O sujeito “faz parte da matéria investigada” gros (ABPN). uma Associação Nacional de Estudantes Negros que neiras estamos. negros e brancos. 41). contram e se confrontam corpos femininos e masculi- Lélia Gonzalez. paralela. e o Seminário Neste sentido. Em 2004. sobre ele mes. Negros (CENs) que se estendem por vários estados. Ambas docentes e discentes. pois. maior acuidade. dos corpos tudos Afro-Brasileiros. 2006). professoras e professores ainda têm sujeito/objeto de seu trabalho. na Bahia. posto que podem contar em quisadores/as negros/as são apaixonantes. formações corpóreas. criada a Associação Brasileira de Pesquisadores Ne. ao campo da subjetividade. p. o povo negro quer”. os Coletivos de Estudantes Negros medo do desafio. Os corpos racializados de acadêmico. no dis- -se. são corpos educados. implica. ardilosas acerca das pessoas negras que permeiam toda pertencimentos étnico-raciais. Joel Rufino dos Santos e outros/as que Iniciativas dos/as ativistas preocupados/as com o nos. sinhos Pré-Vestibulares para Negros e Carentes (SAN- CORPOS NEGROS EDUCADOS: acontece o necessário e adequado reconhecimento das Nos anos 1980. Alguns/umas pesquisadores/ com sua qualificação profissional e o ativismo.Campus Marília. Outros são criados Neste contexto surgem Coletivos de Estudantes A expressão que dá título a este artigo advém da relei. dos como grupos negros. Este processo culmina em 2000. e. realizado na UFMA em São Luís e professores/as de outros segmentos étnico-raciais. segundo Edimilson de Almeida Pereira e tituem como “territórios negros no espaço branco” 8. gênero falta de orientação nas suas áreas de formação. concentrados/as na área das Humani. à paixão: pesquisa. tanciamento de temas que remetem à subjetividade. com a organização do I Con. e em São Paulo. Nacional de Universitários Negros. instituições de ensino superior. não tem outra opção. observa-se por todo o UMA DIGRESSÃO A TÍTULO identidades. uma outra pesquisa. Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista UNEB. e também das incertezas. dantes estão desesperadamente desejando ser tocados curralado na sua condição primeira e primeva de raça. comoventes. 2001. zados eventos como o I Encontro de Docentes. tornam-se referência no campo dos estudos das curso no campo das relações raciais. 1978.

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Lucia de Candido Mendes. ANPOCS. antecedente e prece. Atrás do muro da ALBERTI. 2001. p. p. formação de territórios acadêmicos e políticos. 38 39 . o corpo negro é interpretado total. 09-66. dossiê temático estão presentes nos vários ambientes da escola: nos cor. Beatriz. Flavia. 191-208. Sociedade e Cultura. mento Negro Brasileiro: escritos sobre os sentidos de p. Rio de Janeiro. Movimento Negro Brasileiro: escritos sobre lo: Selo Negro. 100-122. Lugar de negro. zação e a cidadania. Revista Argumento. São Paulo: Imprensa cação e ações afirmativas. cado: pedagogias da sexualidade. Universidade Federal Fluminense. p. p. áticos. feitura da Cidade de São Paulo. Rio de Janeiro. 41-45. ____________. CUNHA JR. BORGES PEREIRA. Marcio André de O. Michael. Rio de Janeiro: SILVA. Contexto. Autêntica. Lélia. SILVÉRIO. 1977. cismo. USP. 184-205. genitália. Rio rizonte: Mazza Edições/Editora PUCMinas.

O ator e bailarino Bukassa Kabengele é filho de Kabengele e 11. It’s intended that “Eu acordo e vou dormir todos os dias tendo consciência de que sou e em Sociologia. e é influenciado por elas” (SOUSA. Keywords: relationships ethnic-race. color/race. Experiência em Educação para as Relações Étnico-Raciais (leis 10. No entanto. Bukassa Kabengele1 em Ciências Sociais. Stuart Hall. we will discuss about differences. identity. o que o torna “sujeito a inúmeras variações”. coordenadora do Programa Diversidade revisão bibliográfica. Bacharela e licenciada texto se torne objeto de discussão e análise da questão de raça no this article represents a discuss and analysis’s object of question of negro. é importante con- bastante diversa. na maioria das vezes.24) calmente perturbador de que é apenas por meio da 41 . Por isso. pre. à parte.191) e essa construção identitária é marcada mentos de atribuição de identidade. envolve elementos de identidade. 1993. necessário discutir relações iden. na construção da identidade não se e não apenas de “cor” ou apenas “raça”. we will begin by exposing some theoretical general ele- ments about ethnical belongness. 2000. Alfredo Guimarães. ao termo iden. p. race in Brazil. único. Em uma primeira aproximação. rituais. 2005. deve ser investigado e analisado não porque os antro. involve elements of identity. Estamos tratando do dade como diferentes. também. um conjunto de significados baseados nas di- Sendo assim. não estamos nos referindo a identidade de um isolados e. indivíduo isolado. as identidades são todas construídas” (PAULA. Isso implica o reconhecimento radi- existentes e apesar de todos os esforços empenhados. da Secretaria Fúlvia Rosemberg. “Do ponto de vista antropológico ou socioló- seus multifacetados aspectos. color/race in the Brazilian census. on this research. sustenta que “apesar das inúmeras produções ele é um conceito vital pra os grupos sociais contempo. pelos traços culturais. os níveis sócio-político e histórico de de “identidade” e de “percepção”. indivíduo “como um ser social. que. 25).645/08). it constituted to studies by: Fúlvia Étnico-Racial na Educação. A discussão da questão de raça no Brasil envolve ele. we can’t deny. A identidade vista de uma forma mais Torna-se. classificação racial.115). 2005. race in Brazil. parece ser fácil definir sujeito. por exemplo). que. MG. Gleason (1980. constituiu-se dos estudos de as we will see the long in the text. p. começaremos por expor os elementos teóri- cos mais gerais sobre pertencimento étnico. Antônio Sérgio Municipal de Educação de Montes Claros/ Sérgio Alfredo Guimarães. “sou negro” “sou heterossexual”. os adjeti- se é: “sou brasileiro”. evidenciar a diferença. (atributos específicos do indivíduo) e/ou identidade so. podemos observar melhor esse uma característica independente. p. ele sustenta que “os estudos dessa temática entender a construção da identidade. Para gorias que englobam podem ser entendidas de forma Além disso. A identidade. Dessa forma.149). Kabengele Munanga. não podemos negar. Kabengele Munanga. na realidade. Discutiremos ainda sobre diferença. um “fato autônomo”. apud PAULA. compreender o termo identidade em ferenças.74) em um contexto de relações e. a classificação de “cor ou raça” do Instituto Brasileiro the classification of “color or race” of the Instituto Brasileiro de Geo- PERTENCIMENTO ÉTNICO Ralime Nunes Raim de Geografia e Estatística . tão Cor/Raça no Censo Escolar do MEC.161). Como pesquisadora. então. p. “identidade”. De acordo com esse Instituto. em seus critérios De acordo com Jacques (1998. porque as cate. p. cor/raça. é importante perceber que o conceito de identidade diferença que nos unifica como seres humanos”. Rafael Guerreiro Osório. os percepção. desen- Palavras chave: relações étnico-raciais. Professora de His- Brasil. INTRODUÇÃO pergunta: o que é identidade?” mas sim. râneos que o reivindicam (NOVAES. popularmente. Especialista em Desenvolvimento Social conceito e discriminação no espaço escolar. como sujeito inserido processo. The theoritical used to review bibliography. Rafael Guerreiro Osório. é. Stuart Hall. pertencimento e sucinta. como a língua. tanto. A identidade é simplesmente aquilo que afirmando sua identidade coletiva. como veremos. e não fora dela. de classificação racial. 2005.639/03 1. a denominação é de “cor ou raça” os sentidos atribuídos. race classification. cial (atributos que assinalam a pertença a um grupo ou ampla e genérica é invocada quando um “grupo reivin- titárias. também. Munanga . pólogos decretaram sua importância (diferentemente ao aprofundar-se um pouco mais na discussão sobre do conceito de classe social. as tradições IBGE. entre outros. podemos afirmar que. gico. que atualmente trabalha na USP. negra. parece real. vistos por nossa socie- bida parece ser uma positividade (“aquilo que sou”). uma identidade natural. através de uma ressignifica- ção crítica dos conceitos presentes nas discussões sobre relações grafia e Estatística – IBGE. por isso trataremos do termo aqui. O referencial teórico adotado para pertain and perception. historicamente. no presente trabalho. apud GOMES. tem relação tanto com a individualidade do a que foi. uma vez que ela só tem a similaridade e sim a diferença. o que Na perspectiva citada por Silva (2000). ap- tória e Sociologia na Educação Básica. “sou homem”. de gênero.IBGE. Quem ratifica a afirmativa acima é o próprio mento coletivo. socialmente “sou jovem”. pertencimento étnico. uma tare. p. evidenciar a identidade signi- (SILVA. Para Hall (2003. remetendo-o à ideia de percepção e pertenci. 1998. envolvendo elementos de atribuição costumam ser classificados como identidade pessoal siderar. ainda não conseguimos ter uma resposta satisfatória à Não há. sobre a Ques- identidade. quanto com o grupo de referência desse sujeito. through of a critical reinterpretation of those concepts present in the discussions about relationships ethnic- étnico-raciais no Brasil. inata. p. A identidade assim conce. mas porque as identidades são construídas por meio da diferença o tema. tidade. Por isso mesmo. influencia fica. 1993. fa difícil. Antônio Rosemberg. Porém. p. são vários populares. Se acrescentarmos ao termo identidade. cor/raça nos censos In this paper. a religião. pode levar em conta somente o aspecto cultural. vos étnica. Vivo num grande estado de alerta”. Ele afirma que “é essa si própria como referência. assim dica uma maior visibilidade social face ao apagamento pensada. among others. brasileiros. pertencimento e percepção. p.40).190). os comportamentos alimentares. Still. Por- “ela é auto-contida e auto-suficiente”.dossiê temático RELAÇÕES ÉTNICO- -RACIAIS NO BRASIL: PRETINHO (A) EU? RESUMO abstract DISCUTINDO O No presente artigo. cada sociedade. Pretendemos que esse preconception and discrimination in school area. categoria)” (Jacques. that. De acordo com esse autor. submetido” (Novaes.antropólogo e intelectual negro do Zaire (Congo) volve estudos desde 2005. dentre outros. como tal. portanto. caracteriza os seres e as sociedades humanas não é a mente fácil definir identidade. belong ethnical. balho. de maneira 2005. ao falarmos sobre identidade neste tra.

a ideia de classificar as ra. “a aparência geral. utili- assim. associado ou não a um mo- e vai criando ramificações e desdobramentos a partir Por tudo isso. (2001. como perguntava. segundo dados da Pesquisa Nacional por processo mais amplo e complexo. Geralmente este processo se inicia na família (GOMES. apud HALL. uma espécie de redução do modo múltiplo. Ele associou a cor da pele com a região as categorias branco. gráfico de 1872..) Quase não pude acreditar no que lia. “adotaríamos ambos os modos: o modo mente por razões diferentes. Nota-se um deslizamento com precisamente aquilo que falta. vermelha ou americana. Este é também o modo oficial ou afro-descendente está mais relacionada a contextos sociais não se constituem somente como relações puras (GOLDEZON. da relação com aquilo que não é. empregados para diferenciar grupos humanos” (RO. branco ou preto. A identidade negra se afirma aqui. por essência.42). Ser inferior do falante pela pessoa em questão” (Sansone apud RO. 2007. a identidade.. preto e amarelo.135 desde as primeiras relações estabelecidas no grupo so. enquanto pertenci. p. p. uma vez que “é resultante da combinação de (FRY apud ROCHA & ROSEMBERG. 1993.. trado nas camadas populares”. branco e mulato. Nesse sentido. tudiosos: “seria ele binário (branco versus negro) ou complexo. 1981. em 1976. porém. pautado na ciência parda ou malaia. implica não ter poder” (RIBEIRO. sua “identida. são traduzidos também através é ser branco. negra ou etiópica. 2005. que o significado seus significados particulares sempre prevaleçam aos mático. “elas são O sistema de classificação racial do Brasil é con. p. assim. “Isto Fúlvia Rosemberg defende que. a construção de uma identidade cendo com as mesmas categorias de cor adotadas para apud ROSEMBERG. além de uma última opção: “Opto por não declarar nes. com aquilo que tem relações de poder. em virtude de ter o pai (ROCHA & ROSEMBERG. É o olhar de um grupo étnico.. do processo de quem é superior e de quem é inferior. identidade negra. brasileira. formato do nariz de” – pode ser construído (DERRIDA. renciados em instrumentos de classificação racial pro- É preciso lembrar. 2007.. permane. o sistema de classificação popular furtar-se da discussão sobre a identidade enquanto nas com um passado de escravizado. Ou seja. “mesmo em sistemas classificatórios semelhantes 2005. Sendo assim. inclusive o Brasil. 2005. p. O formulá. a partir da relação estabelecida com o outro.adotando. o sistema de classificação bipolar branco e mento que envolve inúmeras variáveis. 2007. é um de. COR/RAÇA NOS BERG. rio lingüístico” específico. dossiê temático relação com o outro. a minha cultura. “brancas” ou “pardas” (quando cia mais à ideia de discriminação e preconceito. contexto institucional. também. luta por hegemonia e por predomínio”. evidencia cinco mo- lamento e “tanto a identidade pessoal quanto a iden. apesar de serem vocábulos consagrados pelo ressignificado pelo Movimento Negro. em documentos do Estado brasileiro não parece ser ou mãe negros. a justificativa biológica para tal condição? Quem quer países. num processo marcado pela significação (cabelos. p. atribuindo-lhe “(. que o mesmo termo. podemos afirmar que as relações para uma menina de sete anos “declarar” sua cor/raça!” negro. classificação racial”. a iden. pois.. Isso reafirma que. p. por sua vez. em forma de múltipla escolha. o uso do Jacques D’Adesky. pelos estudiosos do assunto. e branco . o popular múltiplo e o binário. de seu mundo e de sua cultura.7) cial mais íntimo. “a composta pela combinação do estilo de vida (o jeito). p. por sua vez. fisiologista e antropó- aberto” (D’ADESKY. . dos outros grupos. p. 2005. enquanto o termo negro se asso- fiquem como “pretas”. usam um sis- meu eu. 2007). de há muito. não “amarelas” ou “outras”). a (a)firmação da identidade. presentação e o significado do que é ser negro. “o meu mundo. ROSEMBERG. parda ou preta. 42 43 . te momento tal informação”. qual a cor/ nala um outro modo: uma construção social. em uma sociedade que nos ensina que os inquéritos populacionais do primeiro Censo demo- belecem permeados de sanções e afetividades e onde se “para ser aceito é preciso negar-se a si mesmo. 2005. como em outros processos identitários.5). das categorias “negro” e “mulato” para “preto” e “pardo” chamado de seu exterior constitutivo. p. não entram no vocabulário p. Assim. assim. 2001.42). Como afirma a autora: construção da identidade negra em nosso país é muito sociais envolvidos. Uma refle. 2007. por exemplo. branca. num movi. Nesse contexto.6). bastante enig. referendado pela cor da zado por grande número de pesquisadores de ciências tidade negra se constrói gradativamente. na sua trajetória de construção.7).43). Não podemos deixar de considerar também o em- -racial. Assim. portanto. que “o processo de posições. Esse vocabulário racial. referente ao mito fundador da xão sobre a construção da identidade negra não pode decisão de coragem. o representação do ser negro foi criada à sombra do que grau de instrução. não está sendo pensada como fixa. prego de diferentes vocábulos raciais em contextos so- mos. o modo oficial (IBGE). p. seria encon.. sendo possível que algumas pessoas com múltiplo. 1990. em uma sociedade como a É da Europa Ocidental do século XVIII. Sendo das outras relações que o sujeito estabelece (GOMES.8). Vários outros de 135 cores.6). indígena. pardo. roupas. negro e índio. O MEC estava pedindo pliado do modo bipolar . carros) e até a simpatia ou antipatia tema de classificação com apenas dois termos – negro do outro. o sistema dade negra. É uma e da boca. acabada. E além deles. dessa forma. negro proposto pelo Movimento Negro. monolítico. foram construídas a re. valorizando as diversas categorias de sujeitos ção racial. 2003). Segundo Hall (2003. acordo com as situações e circunstâncias. tador de uma cultura inferior? ( 2005. 6). logo alemão (1752-1840). com Esse é também o processo pelo qual passa a identi. busca uma interação. p. aliado à origem regional e Telles (apud ROCHA & ROSEMBERG. tipo de cabelo.35). duzidos pelo Estado Brasileiro”. social do sujeito” (Rosemberg & Piza apud ROCHA & considera também três modos de classificação racial: Nessas relações de poder. CHA & ROSEMBERG. gera controvérsia entre os es. 2007. podem ser empregados vocabulários dife- sentações. tualizadas urbanas. ao do IBGE. no qual os contatos pessoais se esta. p. e desinteressadas. o sistema do IBGE. p. se declarem negros e outros com traços De acordo com Fry (apud ROCHA & ROSEM.3) “positivo” de qualquer termo – e. nenhuma identidade se constrói no iso. Não nos esqueçamos do uso do termo negro de CENSOS BRASILEIROS binário seria predominante nas classes médias intelec. negra positiva. Ainda de acordo com Ribeiro. civilização brasileira. conflituoso e disputado. culturais e religiosos. o sistema bipolar branco e não branco. possivel- físicos africanos se identifiquem brancos” (Brasil. p. ficados é. que. usado no censo demográfico.. ças humanas. 2007. aqui rentes contextos sociais e históricos em que têm sido delo binário ou múltiplo de classificação racial. onde se estabelecem as relações de poder e as A maneira de lidar com o sistema de classifica. 2005. pressupondo um contínuo de categorias?” O modelo de denominação/classificação racial usado traços fisionômicos europeus. E é de Blumenbach. causas e efeitos.) reconhecer-se ou assumir-se negro no Brasil é uma geográfica de origem. humanas.6). o modo binário de de decifração desse outro. as questões relacionadas à percepção e ao critério cor da pele para diferenciar as chamadas raças dos de classificação racial: tidade socialmente derivada são formadas em diálogo pertencimento norteiam o processo de construção da humanas. além de minha identificação e da de minha filha. p. para designar os escravos.33). que pede às pessoas que se classi. 2007.8). nas quais os grupos agem para que siderado.43). apud GOMES. salvo algumas poucas variações. a renda. que inclui três categorias: ciais distintos. amarela ou mongol. 2007. evoque os mesmos sentidos nos dife. p. definindo cinco tipos: branca branco. IBGE para a classificação racial no plano demográfico um sentido político e positivo. pele. de leis e decretos contemporâneos. 2007. ou de sujeitos a ele pertencentes sobre si mes. p. ‘quase animais’? Quem quer ser considerado feio e por. dependendo do elaboram os primeiros ensaios de uma futura visão de safio enfrentado pelos negros e pelas negras brasileiros” não significa.151). raça dela – amarela. nas provas do MEC forma pejorativa. pode ser acionado um “repertó- mundo. da população brasileira (ROSEMBERG. Termo esse. (. o “O terceiro modo é o que vem sendo utilizado pelos mento. o estilo em matéria de moda Movimentos Negros. Dessa forma. pois quem quer se identificar ape. Assim. a expressão afro-brasileiro. ou caucasiana. . mas como um processo gerado no interior das repre. ou am. os termos preto e pardo. evocado de até 2003. LACLAU. já estava presente no Brasil desde o período co. elementos de aparência: cor da pele. CHA & ROSEMBERG. lonial e aqui faz morada até os dias atuais. BUTLER. Fry assi. rio. O campo dessa produção de signi. do diferente” (Gomes. Portanto. defendida. adotaram a terminologia de Amostra de Domicílios (PNAD) realizada pelo IBGE ser o limite na hierarquia que divide os humanos dos classificação racial de Blumenbach. do censo brasileiro. enquanto o múltiplo.

ao mesmo bulos raciais sempre se destacaram como os principais pertença. Osório (2004) afirma que sil como nação multiétnica. Fatos semelhantes a esse nos permitem ilustrar o termo pardo volta a substituir o mestiço e a categoria parda. seria uma forma mente. uma forma de compensar. ignoraram dados. motivos de ordem diversa para mudar a linha designadores das categorias de classificação racial: pre. dossiê temático Considerando que todo o Brasil participou do No entanto. chamado de era estatística. dessem também enquadrar pessoas livres. pelos entrevistadores ou pelos res. (OSÓRIO. poder polí- ticamente por um órgão especializado – o IBGE (apud São três os métodos de identificação racial de que ar os entrevistados. 2007. até mesmo a vasta li. sobre a peculiaridade da classificação como não é fácil construir uma identidade negra po- amarela é criada para atender aos imigrantes asiáticos. “diferente. ainda. pulação brasileira voltou a ser coletada. que teriam maior di- Em meio à grande variedade de termos. em uníssono. divíduos em grupos definidos pelas categorias de uma objetividade à classificação? Não se tem nenhuma ga. com as pessoas mais abastadas tipo” do grupo discriminado são portados pela vítima pelos demógrafos. a dicotomia racial importante seria entre racial segregacionista. tir daí. do ‘preconceito de marca’. Desta forma. substituiu o termo pardo por quando se trata de pesquisas que realizam coleta de dos sujeitos feita por intermédio destes dois métodos da 1ª série e há vários grupos de crianças pela sala. pardo. segunda metade do século XVIII e termina com o pri. subjetividades: a do próprio sujeito da classificação. gozando de uma mente do que ocorreu nos Estados Unidos. pardo e branco. através Brasil entre os países que realizam censos periódicos. E ainda a produção cien- de 1991. definindo. p. Conforme Osório (2004). onde outra pessoa é que define o grupo do tempo. entender e embranquecimento. em ‘grupos de cor” (Guimarães. sujeito e a identificação de grandes grupos raciais “a que de cor que lhes foi conferido atribuir a determinado CONVERSA SOBRE to. voltando a questão de raça. 95). 2004. 2003. PRECONCEITO E No primeiro Censo oficial brasileiro. 2004.] no fundo. apenas quantos traços. a heteroatribuição de ficuldade em identificar esses fenótipos e. ao mesmo tempo em que um número cada vez encontra maior problema. vindas do preconceito e da discriminação de que são De 1940 até 1990 a classificação era só de cor. p.4).. da posse de outras características ‘afirmativamente’ va- por métodos modernos de coleta e publicados sistema. após a abolição da escravidão. três vocá. ou marcas. além das três categorias acima citadas. 2004. projeção social. OU RAÇA” DO IBGE maior de brasileiros reconhece que o recorte racial nas teratura disponível sobre classe e/ou raça insiste em p. descendência” (ROCHA & ROSEMBERG. sim. Justamente por isso. são elementos . nem produziu um sistema de tífica. reforçando o retrato do Bra. preto. ad- de 1970. a par. a partir destas. indivíduos.4). ao invés de brancos e não-brancos. mas. vítimas nesse ambiente. O terceiro perí. normalmente aceitas emprega cinco categorias de “cor ou raça” na sua clas. mantendo-se a data de 1940 para a inclusão do estabelecido para a decisão do enquadramento dos in. rantia de que os entrevistadores não venham a branque. O método de auto. onde o próprio sujeito interrogado escolhe o grupo sáveis em fornecer a informação. p.É que você é a única igual a mim – disse-me. como: rejeição. estas marcas. já que sou a única adulta na sala de aula Censo do Brasil. vai do início da coloni. -atribuição e de heteroatribuição de pertença” (OSÓ. MEC utiliza. é determinada pela consequências negativas. tem início em 1872 e Ainda de acordo com Osório (2004. embora pu. de contornar o problema. sejam estas manifestas ou latentes”. há ocorrência. estudiosos do assunto con- A CLASSIFICAÇÃO DE “COR Censo do IBGE/2010 e respondeu ao quesito cor/ rio. e percepção. analisaremos apenas os métodos de auto e de 16 anos e a heteroatribuição para os alunos abaixo desta . 2004. classificação racial legal e baseado na origem ou hipo. p. não adotou legislação sentimento de culpa e solidão. traços do grupo discriminado constitui inferioridade. raciais’. Telles e Lim (apud OSÓRIO. p. do qual se considera membro. melhorar a condição dos diferentes grupos étnicos que ascendência). a origem não zação até a metade do século XVIII e caracteriza-se Sendo assim. 2004. DISCRIMINAÇÃO NA ESCOLA 1872. principalmente os mais abastados.86). Nogueira (apud ROCHA & RO- pesquisas censitárias é extremamente importante. a cor da po. de 1890. p. do “fenó- pelas poucas estimativas gerais. por parte dos estudiosos. já afirmar. p. (Depoimento de uma pro- A partir do Censo de 1940. “igual número de também tendendo à escolha do branco. Mesmo assim. grupos raciais e a identificação racial é realizada por a classificação de cor é realizada por auto-atribuição completamente. aparência e não pela ascendência. 2007. não do ‘preconceito de origem’ (raça/ odos distintos para se pensar a coleta de dados censi. inclusive conferindo maior Pode-se concluir que esses grupos buscam. rendimento escolar dessas crianças. na coleta de dados de cor ou raça. Buscando atingir os objetivos propostos nesta pes. mestiço e os Censos seguintes. no censo escolar anual. discordâncias com relação à adequação desse método heteroatribuição de pertença racial é uma escolha entre fessora negra do estado de São Paulo/2002). e faz com que os sujeitos ao preconceito sejam sistema- meiro recenseamento geral. 2004. pode se afigurar problemático. para coletar os dados de cor/raça dos alunos maiores de Sendo que as categorias preta e parda “eram as únicas quisa. (OSÓRIO. tuação socioeconômica. sustenta que. p. principalmente das décadas de 80 e 90. que parcialmente. através do uso de técnicas biológicas. que o preconceito racial influencia negativamente no dias atuais: branco. O preconceito racial de marca não exclui ção de índios que vivia fora do contato com o branco. mas desabona suas vítimas. alusiva ao grupo dos indígenas. utilizou-se como a análise do DNA. lorizadas. em nosso meio. tários no Brasil: fazem parte do nosso país. odo. como educação. “um da cor dos sujeitos. p. ou seja. 95).96) afirma: “[.proto-estatístico. por parte dos respon. (OSÓRIO. amarelo e indígena.23).94) que a identificação por autoatribuição sideram que “no Brasil não se pode falar em ‘grupos raça. método de identificação racial é um procedimento ponsáveis em fornecer a informação. ou praticamente às mesmas categorias de 1872. a opção pela auto ou pela seus olhos para a sua pele. DIFERENÇA. desvalorização. Considerando que o Ministério da Educação . p. teriam pertencido os ancestrais de uma pessoa” (Osó. sujeito.94) se tem conhecimento: a auto-atribuição de pertença. tulam que racial brasileira.Claro. empregados pelo IBGE faixa etária é inequívoco considerar que pertencimento da menina negra de cabelos trançados e seus sete anos. traços negros em sua aparência tendam a se considerar onde vige o preconceito racial de marca. p. Marcílio (1974. O segundo atribuição é recomendado por órgãos internacionais. o sistema classificatório do IBGE brancas. de extrema relevância. pré-estatístico. cuidou muito bem de registrar. obedecendo para o Brasil. assim nas. que heteroatribuição ticamente preteridos em relação aos demais. portanto. que o Censo IBGE/2010 é de se esperar que as pessoas que carregam menos O primeiro. classificação. a classificação ganha status de “cor ou raça” e Desta forma. na América Latina os mulatos seriam menos discri. quando se pensa a classificação -lhe intrigada. Finalizando. bem como a sitiva no espaço escolar e nos levam a inferir algumas Essas categorias foram empregadas também no Censo de alguns países latino-americanos. há.. é na “variação social da cor” (Osó.43). 2005. a autoatribuição a categoria “caboclo”. sificação.86). com o objetivo de captar a raça ou etnia dos de identificação racial. mas. realizado em rio. afirma consolida as cinco categorias empregadas pelo IBGE nos pretos e não-pretos. Portar os O segundo momento. à luz do ideal de branquitude vigente. tico e bens materiais.87). p. o Brasil. 2004. p. Seria possível afirmar então. heteroatribuição de pertença. 2004. ainda ROSEMBERG. em 1872.105). reproduz-se na série de censos realizados posterior. apesar de não incluírem a popula. importa. que representa uma maneira de se apurar. com o emprego da categoria indígena no Censo posição intermediária entre os pretos e os brancos. propõe a existência de três perí. 44 45 . . o fato de que potencial. palavras-chave deste artigo. mas por que quer sentar-se aqui? – pergunto- cidas ou alforriadas” (Osório. RIO.Posso me sentar ao seu lado? – pergunta-me uma lin- aplicáveis à parcela escrava da população. até o de 1940. pos.inicia-se na intermédio do uso simultâneo dos métodos de auto. sabendo-se que.95). Há menor garantia. Tanto assim que Osório (2004. que a ascensão social é fator de SEMBERG. pois. e que essa tendência varia de acordo com a si. para as crianças negras. Sendo que A polêmica desenvolve-se em torno da categoria a do observador externo”. p. minados do que nos Estados Unidos. 109). sim. pode-se afirmar que ela.

dade de lidar profissionalmente com a diferença. 2005. tária que impede nos indivíduos o desenvolvimento freqüência. Inclui a relação entre pessoas e grupos “(. de uma etnia presenta um passo importante para o conhecimento de A escola.791).6). enfim são os atri. políticos e de ser compreensível. praticamos e os transmitimos. afirma que os privilégios atitudes de preconceito e discriminação marcam pre. negros. tos sociais e políticos” (BERND. As diferenças de oportunidade de educação para cista. p. dades socioeconômicas mantêm e intensificam dramas depreciarem o negro. compro. o objetivo fundamental da nossa membros de um grupo racial de pertença. p. caráter negativo tendem a ganhar mais força na medida uma condição social significativamente pior que a da apontado a necessidade de discutir para além de como o significado da palavra preconceito é “opinião adotada em que a criança vai convivendo em um mundo que população branca. para as crianças negras. O preconceito é um julgamento negativo e prévio dos p. p. mete. O preconceito. a “perversi- racista. tornou-se muito comum ouvir. a prática da diferença e as ciais preconceituosas. profissionais não receberam. 2001). Tarso Genro. em função desta. Vejamos o que mostram as análises realizadas a tido privilégios que não se quer discutir. afirmando que: inconscientemente os preconceitos que permeiam nos.19). de comandar a situação. com clareza.135).54). 2007. Na batalha contra o racismo. a priori. A autora nos alerta que “a discriminação racial pode ainda não estão cumprindo esse papel”. responsáveis de amanhã. quem tem o poder de dominar. p. no que diz respeito às “ex- condição racial e. reproduzir consciente ou que o contestem (GOMES. p. vas que se tem do negro e do índio na nossa sociedade”. mais penalizados em termos de acesso e permanência discutir o legado branco dessa relação”. surge uma sociedade tórias (GOMES. por sua vez. Segundo Dias (2005. Ainda de acordo com Munanga: Considerando assim. não podemos esquecer que senta como característica principal a inflexibilidade. as inten. p. tem sido um espaço de pro. Bernardo Kliksberg. mantêm-se. nega-se como deixem de pensar de forma preconceituosa. como a miséria em que vivem as comunidades indíge- pora essa depreciação evitando sua identidade negra e do teor preconceituoso de muitos livros e materiais Bernd (1987) argumenta que o indivíduo precon. “é necessário 2004. Preconceito e Discriminação. dela resultantes. Teixeira (1992). 1998. Os dados e informações produzidos pelo IBGE e do preconceito racial é o termo usado para designar a somos todos iguais. como o preconceito mento dos fatos. registradas na citação pessoa que não se aceita como negra. sem assumir ne. 1992. belecimento de políticas de correção das desigualdades sas interações que ali se dão são quase sempre negativas. na prática escolar” (ITANI. o imaginário e as representações coletivas negati. nem a moral cristã que nos eleva a Sendo assim. para quem “o quesito cor/raça re- vocadas por esse racismo institucional. em sua educação e for.5). nos bancos escolares. foi-nos forçoso admitir que ao Con- identidade que acomete muitas crianças negras. o que poderia levá-los aceita como negro”. a fim de que mente. além mo e também do outro. expressando. o negro e comprometem seu aprendizado. 2003. são herdeiras da desigualdade e da exclusão social pro. de um dos grandes teóricos do Desenvolvimento soa negra aceita a ideia de inferioridade atribuída à sua não mudará as mentes de nossos alunos.11). 1998. dos índios.56). acima. ao final desta conversa. Podemos compreender. ao precon. considerados nestes indicadores como o so- Para melhor compreensão de como estão postas as atitude das pessoas em relação a alguém ou a alguma acordo com Gomes (2003. a subordinação da mulher. o nariz. Portanto. para livrar-se disso. devemos se inicia na família. negros e brancos também são tema deste artigo. Como já foi dito Podemos afirmar. p. nas. “Como professores. ências e dos idosos. preconceito e sem exame nem conhecimento prévio” (LAROUSSE. 1987. ceito e à discriminação. de uma maneira geral. Até porque. missão no processo de formação dos futuros cidadãos ou de uma religião ou de pessoas que ocupam outro situações de injustiças e discriminações e para o esta- dução da rejeição.. Geralmente a discriminação racial na escola se dá pela antecipadamente. ele não se educação: não aceitar como pronta e acabada a lógica mais aprofundado da questão. processos formativos e informativos. portadores de defici- reagem pedagogicamente a essas situações discrimina. ela não modifica. racial de um país que se gaba de não adotar práticas ra- para produzirem as resistências ao racismo. é que pode ser considerado ra. acreditamos que é de bom sível este tipo de discriminação e de buscar superá-la. tem coisa. Além dos expressivos diferenciais a criança negra é afetada pela diferença. a discriminação racial é fruto do mito da democracia como o da família e da escola têm enorme potencial outro a valorização da identidade branca” (TEIXEIRA. mas. todos para a mesma natureza divina. p. & THEODORO. definir alguns conceitos: Justamente por isso. 2005. afirma que “como educadores. “Se de um lado sociais. deixando de aceitar o outro lado dos fatos. dossiê temático Dias (2005. Ou seja. Afinal. apesar da lógica da razão ser importante nos amizades e se prolonga até a inserção em instituições dade da chamada questão racial no Brasil” (JACCOUD pelo crime. 1992). São aprendidas social.15). muito menos. mo. não podemos nos furtar a uma análise dos indicadores sa sociedade. então. os negros são sempre os discriminação. nhum complexo de culpa. 1987. sem maior ponderação ou conheci- aparência: é o cabelo. e de promoção da cidadania” (Caderno do Censo do Gomes (2003) chama a atenção para a crise de somos produtos de uma educação eurocêntrica e que pois tende a ser mantido sem levar em conta os fatos MEC. grupos constitui-se em uma boa maneira de tornar vi- cultural e econômico. a população branca de qualquer nível social tem baseiam sua conduta num conjunto de representações São esses julgamentos raciais negativos que dão lu. Esse julgamento prévio apre. círculo de população negra.5) argumenta que “espaços sociais temos a desvalorização da identidade negra. que se os seres humanos dos idosos e das pessoas de baixa renda. De negros. ideologias intolerantes que visam justificar Em função disso. “essas noções e teorias coletivas estão também gar à discriminação racial. p. manifestando um imaginário social. as atitudes raciais de matório dos pretos e pardos. versarmos sobre Diferença. p. o preparo suficiente para lidar com questões queremos ou mesmo quando proferimos o discurso pelo indivíduo” (TEIXEIRA. Ele é parte da ças elaboram seus primeiros julgamentos raciais. somado à sua dificul. profissionais ou atuando em comunidades e movimen. Ele Social. (DIAS. É no contato com o mundo adulto que as crian. a marginalização da população de cor em alguns tudo que a remeter a ela.127). O ser humano não nasce preconceituoso. Teixeira (1992) registra que partir dos dados da pesquisa Retrato das desigualdades 46 47 . De acordo com a autora. O que não deixa foram concedidos à identidade branca. escola. p. portanto. Trata-se. Os dados opinião. p. estaríamos culpando a vítima saber que.. sem dúvida. Convém esclarecer que introjeção apoiada na razão científica que diz que biologicamente à reavaliação de suas posições” (BERND. guinte. sobre repetência e evasão escolar do alunado negro sendo o preconceito. 15).5) mação. papel social significativo. faz parte das tom. é possível compreender que atitudes pelo IPEA reforçam as palavras. (MUNANGA. p. Munanga (2005. então.12). Em muitos casos a criança incor. vizinhança. humanos e a concepção que o indivíduo tem de si mes. desta rejeição.104). por si. pois “são instituições sociais per. mesmo quando não psicológicos que vão além do preconceito desenvolvido meadas pela ideologia do racismo” (DIAS.128). Com efeito. não existe. isso preconceituosas não são inatas. porque muitos sença no espaço escolar. em relações raciais no espaço escolar.1). Se assim o fosse. igreja. por conse. A ideologia racista deixa as famílias negras em problemáticas ligadas ao desafio da convivência com a de que somos contra tais práticas discriminatórias” Analisar os indicadores de desigualdade entre os extrema dificuldade para melhorar seu capital social. De tudo isso. discriminatórias.55). esta é a luta da da necessária e permanente abertura ao conhecimento tais fraturas” (KLIKSBERG. de conceito ou opinião formada de educação entre negros e brancos. aqui. “uma posição dogmática e sec. p. o racis. Dessa forma. além de operar de forma individual. 2005. p.) as extremas desigualdades no acesso a oportuni- butos físicos os escolhidos pelos discriminadores para enraizado na cabeça do professor. E as professoras nem sempre didáticos e das relações entre os alunos. das mulheres. nós os ser originada de outros processos sociais. p. ao lembrarmos das palavras do estruturas da sociedade brasileira e as crianças negras Essa falta de preparo. 2005. diversidade e com as manifestações de discriminação (ITANI. a coloca constantemente diante do trato negativo dos no que diz respeito à renda. em geral. mos frases como “o próprio negro é racista. que devemos considerar como ex “Ministro da Classificação Racial” (Magnoli. Os 2005. com grandes fraturas. p. a pes. Consequentemente. “E isso jamais pode ser considerado uma atitude (2005.23). a pele. e. E isto quem herda são as pessoas brancas”. desestimulam ceituoso é aquele que se fecha em uma determinada países. pois. vítimas podemos. temos de presentes em nosso cotidiano de trabalho e. “nossa trajetória de socialização tremas desigualdades no acesso a oportunidades” da negra. reflexo do nosso mito de democracia racial. Munanga aprende a sê-lo. 2003. dos homossexuais. que geram exclusão social e com comprovam essa afirmativa. p.

2005. In: SECRETARIA DE EDUCAÇÃO BENTO. In: FRY. até a PNAD/2006. com GUIMARÃES. alguns apre. Nesse documento. p. Peter et al. 2003. 2005. Silvia Caiuby. fundamental. mas significa.4. como exemplos. Rio de histórias. dossiê temático de Gênero e Raça. ao passo que. 2005. Mestrado em Psicologia Social). apre. Kabengele. na reprodução dessas desigualdades. Congresso Nacional. Rio Grande do Sul: Mercado Aberto. DF: no adequado à sua idade. se ampliam quanto maior o nível de ensino. São Pau- sentam médias de anos de estudo inferiores e taxas de SANTOS. -econômicos estudados. O sistema classificatório de Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a As diferenças regionais também são significativas DIAS. podemos concluir que os no Brasil. apenas os indicadores de desigualdades de educação população negra. NOVAES.2. 24. Psicologia Social 10. CADERNO do Censo do MEC/2005. p. sociais: educação. SOUSA. Janeiro: Pallas. MAGNOLI. 2004. São Paulo: Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Maria Aparecida Silva Bento. Brasília: jun. Petrópolis. ceito na escola: alternativas teóricas e práticas. JACCOUD.6. 1993. Eliana Marques. acesso a bens e estudado.). nas mesmas regiões. 2005. Maria José Corrêa et al. entre outros. Antônio Sérgio Alfredo. mas também por sabermos que essas desigual. Isto é. 2007. Racismo e Anti. Cláudia Regina de. tinha-se. as enormes desi. O comovedor é que os dados apresentados assus. Daniela (orgs. CONTINUADA. In: SECRETARIA DE EDUCAÇÃO zar. educação: os limites das políticas universalistas. a pesquisa dos alunos brancos e negros.3%. 2003.149-153. que. analisaremos de falta de acesso aos bancos escolares por parte da culturais. Educação para todos). p. permitindo damental. 1987.187-200. Uma dupla inseparável: cabelo 2005: O que é ser preto. serviços. 49-62. Nilma Lino. -Raciais e para o Ensino de História e Cultura cial. estudo e as mulheres negras. Linguagens brancos. o acesso à educação sionam ainda mais: os homens negros ocupados. NANGA. p. Caderno de Pesquisa. Disponível em MUNANGA. respectivamente. Porém. p. Lucimar Rosa. Superando o Racismo na esco- com carteira de trabalho assinada.7 em 2006. mesmo quando é feito o controle pelo nível debate sobre relações raciais no Brasil: Uma bre. RJ: Vozes. Brasília: 2005. Superando o racismo na tivamente mais limitado para a população negra. Bernardo. Educação cação. SANT’ANA. vimento Social. que mede BERND. São Paulo: Editora 34.com. CONTINUADA. essas taxas eram respectiva. 1992. os números se referem res é maior que a dos homens e a dos brancos maior SIDADE. Mário. ALFABETIZAÇÃO E DIVER. como já mencionado anteriormente. Maria Aparecida Silva. sigualdades para que elas não existam mais. Ressaltamos. Brasília: 2005. Diretrizes Curriculares UNESCO. (org. In: BERNARDINO. leção Políticas da Cor. Vozes. Demétrio. História e conceitos podendo-se citar. parlamentares. ve discussão. Prática Pedagógica Curri- entre negros e brancos.). In: ROMÃO. Sidney. Dentre esses números. Nacionais para a Educação das Relações Étnico. In: BARBOSA.132. (org.2.inep. TEIXEIRA. OSÓRIO. Cor nos Censos Brasileiros. Da Diáspora: identidades e mediações Secretaria de Educação Continuada. Além disso. ITANI.) Levando a raça a sério: reu em dezembro de 2008.37. trazendo uma interpretação te. Stuart. As desigualdades REFERÊNCIAS Combate ao Racismo nas Américas.639/03.5% dos homens negros com 15 anos ou mais História da educação do negro e outras histórias. Divisões perigosas: SIDADE. De preto a afro-descendentes: trajetos de pesquisa ROCHA. Raça e minha bisavó: discriminação racial no trabalho e re- gros e negras estão menos presentes nas escolas. é mais D’ADESKY. Ministério da classificação ra- Já no ensino médio. In: disponibilizados para todo o público interessado: movi./dez. na região Sul. RIBEIRO. analfabetismo bastante superiores. pesquisadores. Alice. Brasília: e Diversidades. de forma clara e compreensível.639 de 2003. Fry. Janeiro: Civilizações Brasileira. Representação da UNESCO no Brasil. 2. ação afirmativa e universidade. recorte etário da pessoa ocupada. Rio de EDUSP. a média de anos de estudo das mulhe. In: PETER. 2005. 2 ed. Negritude e literatura na América Latina. 2005. em 2006. escola. 135p. Falácias e Mitos do Desenvol- a proporção da população matriculada no nível de ensi. Fúlvia. argumenta que “é preciso evidenciar as de. Iray mentos sociais. Joaze. cultura negra e relações étnico-raciais Auto declaração de cor e/ou raça entre escolares direcionar políticas públicas para acabar com elas”. Antônio Olímpio de. Quantos passos já foram dados? “cor ou raça” do IBGE. KLIKSBERG. p. Brasília: Ministério da Educação. In: cular e alunos negros: um estudo de caso. Na região Nordes. fessor negro. sentaram aspecto positivo em relação a anos anteriores. micílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia de idade não eram capazes de ler um bilhete simples. Racismos e anti-racismos no Bra. sócio-econômico. Luciana & THEODORO. Rio de mente. 2001. Pluralismo étnico e multiculturalismo. No caso dos homens brancos.gov. No ensino SECAD. Brasília. que analisam o desempenho educacional e cor de pele. do Albenarez et alli (apud JACCOUD & THEODORO. tórico tem origem em 1993.) et em: elianamrc@ig. a partir dos dados do Sistema de Avaliação sobre o negro. ROSEMBERG. a taxa de escolarização líquida. Brasília: MEC/SECAD. que apresenta as maiores taxas de analfabetismo no de 1961 á Lei 10. ainda é bastante restrito em nosso país.109).4% e 4. pela Secretaria cedo pressionada a abandonar os estudos e ingressar sil. com relação aos indicadores de renda e edu. 2001. A questão de raça nas leis educacionais – da LDB GALDINO.4 e 37. CARONE. GOMES. SA. História da Educação do negro e outras entre homens e mulheres nos mais diferentes espaços mentando para os dois grupos ao longo do período Políticas raciais no Brasil contemporâneo. anti-racista: caminhos abertos pela Lei Federal Nº EDUCAÇÃO dades são gritantes em outros tantos indicadores sócio. Especial de Políticas para as Mulheres (SPM) e pelo no mercado de trabalho. São escolares e reprodução do preconceito. Acesso em abril 2008.br. A da Educação Básica – SAEB. Vivendo preconceito em sala de aula. Acesso em novembro 2008. de 8ª série do ensino fun. cuja publicação da 3ª edição ocor. de joelhos. 39-62. que a dos negros. para a população branca era BRASIL. Educação anti-racista: caminhos abertos branquitude e branqueamento no Brasil). In: MU- e o aumento do número de trabalhadoras domésticas 60 anos ou mais de idade. al. 39-67. São Paulo: Cortez. entre os negros. era de 94. Diferenças e precon. Belo Horizonte: Editora UFMG. são marcantes as diferenças raciais: os ne./ 2005. PAULA. revisada.br. n. gestores. ROSEMBERG. la. Ana Beatriz Gomes. 133-136. recorta e dá visibilidade à problemática. o acesso ao ensino médio Afro-Brasileira e Africana. Divisões perigosas. Paulo: Summus. Contemporânea. Cor e Raça no Censo Escolar. pardo?. primeira versão da pesquisa é de 2005. 2007. Brasília: Ministério da Educação Continuada. Esses números podem ser explicados pelos anos HALL. na mesma faixa etária. 58. os números impres. 2003. 1998. Resgatando a Na educação. branco. ao observarmos os estudos feitos por Janeiro: Civilização Brasileira. paulistanos(as). Alfabetização que atendendo à delimitação desta artigo. v. 105-120. Zilá. Francisca Maria do Nascimento. Maria Inês da Silva Barbosa. Rafael Guerreiro. 2007. Edmar José da. Brasília: 2005. 18. mercado de trabalho. 9.) Psicologia Social do Racismo (Estudos sobre estudantes. Sales Augusto (org. In: SOU- tam não somente pelas desigualdades entre negros e AQUINO. 1998. país. estudo elaborado pelo Instituto de por se encontrar nos estratos de menor renda. p. de 95. Lucia M. Jogo de espelhos. GOLDENZON. JACQUES. Brasília: MEC/ (Dissertação. Júlio Groppa (org. A. Fúlvia.). Se associarmos os anos de estudo ao pela Lei Federal Nº 10. básicos sobre o racismo e seus derivados. São Carlos: EDUFScar. mas seu his. In: sistência na voz dos trabalhadores negros. Kabengele (org. (Coleção feminino e da brancura: a narrativa de um pro- A pesquisa citada acima teve por objetivo visuali.639/03. Ações Afirmativas e lo: Pontifícia Universidade Católica. têm em média 2. Jacques. Rio de Janeiro: Co- dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Do.137-150. essa taxa era de fabetização e Diversidade. Eles deveriam pedir descul.5 anos de -Racismo no Brasil. Os números obtidos são brancos. al. 48 49 . Mulher (UNIFEM). p. Alguns termos e conceitos presentes no set. pas. p. 2 ed. www. alunos negros têm desempenho inferior ao dos alunos ___________. Magistério. Disponível UNIFEM. reinações do e Estatística (IBGE). ALFABETIZAÇÃO E DIVER- gualdades que se manifestam entre negros e brancos e É certo que a média de anos de estudo vem au. Jeruse.

em Espetáculo das Raças. No prefácio do os primeiros momentos da colonização. principalmente da Europa. definir o “real” caráter do brasileiro e as várias fez com que muitos “homens de ciências” – como se mento se imporia (Sílvio Romero. no Curso de Ciências Sociais. como mostra. Prejudice. Foi só nos anos 30 que vimos Freyre procurou analisar as relações sociorraciais esta preocupação baseava-se no fato de que. os letrados vinculados às compreenderiam que essa mesma questão era de pouca ção. o que esses senhores gostariam de saber era após ter tomado contato com Franz Boas. segundo ele. à miscigenação (Nina Rodrigues. considerar “fundamental a diferença entre raça e cultu- Muitos autores. dentro e fora do país. Em Casa-Grande & Senzala. Sílvio Romero. Uma boa obra sobre este autor é Casa-Grande & Senzala e a o que um país já tão miscigenado – com um destino (EUA). da “Senzala”. em seu conjunto. Palavras chave: Raça. já de engenho. dedicaram. Outros negative factor. (não havia) nenhum que me inquietasse tanto nação. Uma das maiores razões para em relação à questão. Racismo.dossiê temático REFLEXÕES SOBRE NOSSAS CONSTRUÇÕES INTELECTUAIS E POLÍTICAS ACERCA DE “RAÇA” RESUMO ABSTRACT Esse artigo procura fazer uma reflexão sobre a construção do This article attempts to discuss the construction of the concept conceito “raça” no Brasil republicano. o autor bilidade da mestiçagem. Keywords: Race. de pelo menos três principais posições frente às teo. Atualmente ela é vista como positive. Nesse sentido. em finais do séc. XIX parecia duzindo a noção de cultura1. palavras. pois passou a ser black people. Oliveira Vianna e outros. XXIII). Nina Internamente podemos perceber a consolidação ra. Como a sua proposta era tanto social como político e cultural (Cruz Costa. Oliveira Vian- escravidão brasileira legou para a história do país a pro. racial. disciplinar da África e dos Afro-Brasilei. esses grupos tiveram sobre o estilo de vida dos senhores presente em sua sociedade. o primeiro desafio de Freyre foi teriam alguns efeitos benéficos. A DEMOCRACIA destaque bastante relevante. 1993. procurou explicar a questão da miscigenação. “funesto” tão evidente – faria para tentar modificar essa descartando a “raça” como fator determinante e intro- os pioneiros sina terrível. existentes entre os habitantes da “Casa-Grande” e os de ciências. drigues. se fez sentir muitos desses cientistas. Além disso. 1993). 1933. sileiros. no final do o tema se transformando. o futuro de um e de meio” (1978. Democracia Racial. which for some thinkers was seen as a de Jesus Felix como um fator negativo a ser extirpado de nosso país. XXIII/XXIV). era algo positivo. de fato. Freyre buscou dar relevo à influência que O Brasil. em Colúmbia 1. João B. Ele teve contatos com Brasil. ser funesto. 1957). 51 . of the population. Obra de Gilberto Freyre. na Universidade Federal do Tocantins interpretada como um escurecimento da população. uma forma de garantir a existência dos negros. Lacerda. Racism. por meio da determinante blematização da desigualdade sociorracial. o autor afirma que. de Antropologia So. A devido. Others enxergavam nela uma característica que poderia ser mais bem who saw it as a feature that could be used more. 1967. Tal situação social não era tão prejudicial assim e que o branquea. Outros ainda tentativas de se explicar a problemática da miscigena- autodenominavam. já que o problema se resumia edição de Casa-Grande & Senzala: “dos problemas bra- na obrigação de tentar entender e explicar o destino da à educação (Manoel Bomfim. que alguns pensadores viam Another issue is the mixing. desde em outro contexto político e intelectual. 1994. because she happened to be interpreted as a darkening cial. Tal influência. ceito. «race» in Republican Brazil. Em outras livro Casa-Grande & Senzala. or was something Doutor e Mestre pela USP. (UFT). afirma no prefácio da primeira instituições de pesquisa e ensino no país – se sentissem ou nenhuma importância. importante verificar se as opções de miscigenação feitas Nesse sentido. 1993). de herança cultural -se à análise das relações “raciais” e da mestiçagem no rias européias: para alguns cientistas. Democracy Racial Identity. 1933. tais como Sílvio Romero (1943). Currently she is seen as a way of ensuring the existence of Professor Adjunto II. pação tanto do “negro” como do “mestiço” tivesse um tico estaria irremediavelmente destinada ao fracasso. entre outros. perplexidade como o da miscigenação” (idem. o que pode exemplificar a grande preocupação país “miscigenado” só poderia. 1949). isso modelos explicativos anteriores. brasileiras. João Batista Outra questão é a miscigenação. Identidade. RACIAL fazer um estudo culturalista das relações sociorraciais Skidmore. devido à enorme taxa de miscigenação Gilberto Freyre foi um estudioso que procurou contri. ros da UFT (NEAF/UFT). então. brasileiras tendo como modelo as condições de vida século XIX e início do século XX. Atualmente é aproveitada. como os de Nina Ro- que essas questões despertam em nossa sociedade. de Ricardo Benzaquem de Araújo. É o Diretor de Cultura do mesmo campus e Coordenador do Núcleo de Estudos Inter. As posições se di. a discriminar entre os efeitos de relações puramente Rodrigues (1957). ex-escravos e de mestiços. genéticas e os de influências sociais. Outros entendiam que esse mesmo fenômeno na e outros. com uma população de grande contingente de vidiam. Por este motivo. que pretendiam. mas mostram. defendia a invia. 1976 e Schwarcz. despertou a curiosidade de buir com a discussão sobre a identidade do brasileiro. which should be excised from our country. boa parte dos homens Schwarcz. ou seja. tão somente. uma sociedade procurou descrever uma sociedade em que a partici- que tivesse grande proliferação desse fenômeno gené. Precon.

depois de que a contribuição de Gilberto Freyre foi a de que. ao responder ao quesito 16ª. livro Ordem e Progresso. 188). tos em que as pessoas demonstram possuir profunda com pessoa de cor preta. Aqui mito está sendo entendido como “um modo de significa- mistura de raça em si. o negro. Portugal tentou justificar as suas colônias bre coloração pigmentaria. “O pot-pourri étnico do Brasil. 54). Uma outra fonte e escravo debaixo da qual se fizera” (pág. Freyre. alguém procurou ‘positivar’ a mestiçagem terpretava o Brasil como uma sociedade “mestiça”. invertendo os termos da equação e & Senzala. ao reuni-las. as diferenças sociais existentes mesmo tempo. Após sua publicação as pois os escravos eram ‘um anexo da família’. ‘em reconhecem a sua existência não propõem uma socie- orgulhar-se da sua civilização tropical. são essas as palavras: ‘Não aprovo o casamento sileira). devido ao seu ineditismo. que do mulato’. relações “raciais” brasileiras passam a ser vistas como do ficado com os Modestos ‘o resto da vida. O “luso-tropicalismo” não está presente em Casa-Grande & 6. de nossas relações “raciais” amistosas.500 questionários. panheiros dos meninos brancos nas aulas das casas. era. o que notamos A sociedade mostrada por Gilberto Freyre. devo afirmar que não rece- (1976) afirma que a postura teórica assumida por Freyre: afirmar que: ficações sociais). 1972. com grande simpatia. em que pergunta especifica ou concreta sobre o assunto: “Pode Sílvio Romero. ofereceu uma explicação acadêmica história intelectual do país. 355/6). Outro parecer uma chocante contradição com o que atrás con- O enorme sucesso alcançado por Casa-Grande & continente europeu. nessa obra. passa a ser o nosso maior divulgador. com o poder político. Para ele. seja ele “branco”. em perversos e de hórrido aspecto. As conse. (Freyre. se rein. na série prismática. como dizia é explicada histórica e culturalmente: os portugueses. é Feijoada e Soul Food. por já terem tido um longo contato com os mouros no “brancos” e “negros” conviviam fraternalmente. do branco. Segundo Skidmore: “Casa-Grande & Senzala interessante notar também que. reage de modo diferente à um mal necessário. Gilberto Freyre afirma “que somente a índia utilizadas causaram bastante impacto. que para ele já era detentor de uma “cultura supe. com relação a seus escravos. em de negro com branco pela disparidade de tendências. de 1947. Adolfo Faustino -Gilberto Freyre simplesmente como um “dano irre. mas foi sendo incorporado à teoria de Freyre ao longo ção”. nesta nizador luso não teve a mesma postura de separação soa de cor. XIX. seguin- entre si. mas da relação malsã de senhor 3. “mistura” teórica ele procurou se basear na teoria cultu. o que levou por meio desta cultura inferior dos europeus. em motivos estéticos e fisiológicos. nossa ex-Metrópole. a teriores. É a própria ausência de cor. favoráveis à mestiçagem. preta nunca me agradou. em 1881. dizia Gilberto nosso contingente foi o útero materno. ‘não (o) recebera bem’” (págs. Freyre. os filhos que Portugal. as relações entre escravos e senhores vão brasileira (para tanto aplicou 1. nascido em 1981. 1947. está em sua proposta não subestimou – deviam atribuir-se principalmente teórica culturalista que se propunha a desvendar o que fazia do “mestiço” – talvez até mesmo “indígena” – não concebe 2. havia também posturas que defendiam ser ela gros com parte da cultura. A miscigenação brasileira Ou seja. depois de se dizer parável”. ao justificar meu ponto de vista pessoal so- sim na grande capacidade que Gilberto Freyre teve em vência da Casa-Grande. nessa gradação. Freyre conse. ao conseguir dar destaque a várias teorias apresentadas portugueses foi denominada por Gilberto Freyre. etc. talvez. a civilização e o capital. a ressalva que de mundo da sociedade brasileira – não está somente Devido a esse passado mestiço anterior. ou um “fato e pronto”. depois de recordar ter recebido. discriminação contra os “negros” e os “mestiços”. A importância de Casa-Grande & Senzala. ao contrário. é uma sociedade em que os portugueses entram e de distanciamento. qüências danosas da miscigenação provinham não da fêmea contribuiu para a colonização do Brasil”. a ponto de o autor todo país. Na obra “Do padre Florentino Barbosa. pois ajudava a explicar a ori. De posse graduação. quiçá a única. Casa-Grande & Senzala inicia uma nova fase na menino.. maior. “Os pretos e pardos no Brasil não foram apenas com. confessa sempre ter gostado ‘mais de negro primeira vez. a abolição dos escravos’. em 1887. trevas. para ser positivando o modelo” (Schwarcz. abraçou imediatamente faço. Já Skidmore ficando cada vez mais adocicadas. (Barthes. obra. que “Quanto ao brasileiro de Pernambuco. e os ne. mas separadas mais tarde. de onde saíram de diversas palestras proferidas por ele nos EUA. 52 53 . Apesar da opinião de Skidmore. Freyre destacou a contribuição cultural do africa. Do Saber Colonial ao Luso Tropicalismo. -Grande & Senzala. uma vantagem imensa” (1976: os primeiros brasileiros. mas surgiram dessas relações foram incorporados à convi. Aqui gem da sua própria personalidade. por fim. No desenvolvimento do enredo de Casa-Grande se propôs fazer um estudo extenso sobre a sociedade Trancoso’. 1996. Nada mais2. obra em que que também não é estranha a influência da ‘história de a obra de Freyre a revelar uma “singularidade da mesti. de luso-tropicalismo3. podemos destacar alguns depoimen. houve também meninos mocracia racial”. Freyre des. dossiê temático principalmente através da culinária. virou de cabeça para baixo a afirmação de ter a misci. é que a miscigenação não era entendida no Brasil pré. em maio de 1994. irmão ou irmã. No complexo que remonta.” (pág. e da sexualidade. cujos vícios sociais – que Gilberto Freire ginário social do brasileiro. não contente com o su.. 357). considerando o mulato ‘inimigo natural brasileira. que é uma coletânea Paraíba. internacionalmente falando. O anteriormente. beria bem o casamento de filho ou filha. fumo se associaram na formação de um ralista norte-americana “sem abandonar totalmente os existente no regime escravista brasileiro era explicada ções que os negros e mestiços sofriam no Brasil. 131). acerca de minha atitude para com os negros. Ao mesmo tempo. escrito em 1957. Fry. no Brasil existia uma real “democracia racial”. 299). Luto. tabuada cantada” (idem. alguns ten- Alguns estudiosos costumam defender a ideia de sobre uma questão que tanto incomodava os intelec. A cor guiu oferecer “uma espécie de nova racionalidade para no. Quanto ao casamento próximo com pes- 210). 5. Mesmo aqueles que não nibida mensagem de otimismo: os brasileiros podiam A ler e a escrever e também a contar pelo sistema de Gerais. com sua obra Casa. dos colonos brancos” (Freyre. Devo estabelecer uma relacionado às opiniões assumidas por seu autor. como “uma fala” social . contribuição dada pelos nativos de Interpretação do Brasil. 1978. A violência brasileira”.” (1990. Ele não é uma síntese. vez. beiro. Segundo Schwarcz. libertos’. Além desta rior não só à dos indígenas como à da grande maioria Apesar de ser um grande defensor da “democracia branca. original e etnica. “Já Heitor Modesto (d’Almeida) nascido em Minas “mito”6 nacional brasileiro. exibido pela primeira Brasil uma nação multirracial. Em depoimento dado à TV Cultura de São Paulo. 352). não tiveram problema algum para fator que muito contribuiu para o sucesso internacional signado. na genação causado dano irreparável” (à sociedade bra.. pela tuais e políticos brasileiros. Senzala – pois esta obra em muito influenciou a visão se relacionar com as mulheres africanas aqui no Brasil. com personagens que eram ‘negros velhos’ çagem (brasileira). costumes. o “luso-tropicalismo” proposto por Freyre5. mais do que de qualquer preconceito e raça ou de cor” do-se-lhe o índio. atingindo pessoas das mais diversas estrati. a minha meninice e a pressupostos raciais dos mestres brasileiros”. o mulato e. De sorte que. 4. Esta postura assumida pelos dessa teoria. como a a sociedade multirracial brasileira” (1995). várias ocasiões o autor afirma e reafirma que o colo. carta logo no primeiro capítulo os indígenas. 1982. 415). do desenvolvimento de seus estudos sociológicos. Em sua visão. das vestimentas Como podemos notar Freyre. “negro”. no Brasil seriam “o resultado da consciência de classe branco. agradou aos brasileiros. através de suas obras pos. Em novos termos. ela pode ser entendida como um erudito do caráter nacional brasileiro com uma desi. Senzala.’. anos na África. Nascido em Olinda. “. em um pro- à atmosfera de monocultura escravista que dominava grama sobre o livro Casa-Grande & Senzala. 211). Isto demonstra que o ima- mente mestiça. vão alguns exemplos: É possível fazer a seguinte reflexão sobre a “de- era a primeira vez que os leitores recebiam um exame -grandes e até nos colégios. vem em primeiro lugar. Freyre tinha conhecimento das discrimina. Porto. rigorosamente verdadeiro.. brancos que aprenderam a ler com professores negros. ele procurou divulgar para o mundo todo que livre de preconceito de raça. dade sem a sua presença. de nossa representação de “democracia racial” foi que em resposta ao quesito 16 do inquérito. A maneira de relatar e as fontes uma sociedade em que as relações “sócio-raciais” se- o país até a segunda metade do séc. É cesso alcançado. o qual me parece fundo. Para maiores informações sobre este tema consultar Omar Ri. os colonizadores anglo-saxões na América do Norte. altamente positivas4. 1995.

disfarçado. Brasil se deu de modo que o “negro” e o “mulato” não como um “engodo”. “os negro americanos na 2ª Grande Guerra Mundial. cientista social brasileiro que havia falecido há como sendo “natural”. resultando em uma perspectiva em que a con- cretismo). Thales de Azevedo (Universidade da Bahia). o Credo A PESQUISA DA UNESCO do Escravo (1988). impera nos Estados Unidos” (ibidem. em que a “democracia racial” revelou-se consegue propor uma sociedade em que as diferenças neste continente. 42). Cardoso. dossiê temático jam conflituosas. “negros” com que os brancos cultivassem explicitamente um dida na mesma chave do “fato social total” maussiano. segundo vítimas não tiveram condições de tomar consciência de Freyre. assim como estavam brasileira passou a sofrer ataques cada vez mais viru. des. sabem que constituem um grupo oprimido que. o que não Ramos. a UNES- “raciais” sejam respeitadas e garantidas. principalmente. Relações Raciais no discriminação e ao racismo brasileiro. diam que. Arthur nunca ter sido assumida claramente no Brasil. Com esta atitude. oito meses (Maio. Para ele. 41). Fernando Henrique Para Florestan Fernandes. Wagley (Columbia University) e Roger Bastide (Éco. prin. sutil que o “negro” e o “mulato” não tiveram como se Não podemos afirmar que em A Integração do Ne- prejudicado em nossa sociedade. Não Depois da divulgação dos resultados obtidos. discriminação racial contra os “negros” e “mestiços”. todo a ser considerado extremamente prejudicial para os cia social demonstrou-se possível embora a sociedade ataque preconceituoso era acompanhado por uma ex. 53). O mentor intelectual de tal proposta foi Arthur e ”mestiços” era desigual. a tão falada “democracia racial” dividida em classes. as suas encontrado uma sociedade muito diferente da vista por to e uma real integração com os “brancos”. Itália. A fé que nele depo. jus. fez com que o -americano. o que de fato existia no Se atentarmos para o fato de que a “democracia Após várias discussões ocorridas em colóquios in. A representação de “democracia racial” brasilei. veis entre si.. mas era sim um para os brasileiros. sofrem as consequências na África e na Ásia. enquanto com o fator “racial”. Essa situação é bastante diversa da experimenta. assumiu a no Rio de Janeiro por Luís Costa Pinto (Universidade sua condição de inferioridade social foi construída. inicialmente a UNESCO de. Oracy Nogueira. um “preconceito de ter preconceito” (Fernan- só vez todas as espécies de instituições: religiosas. Este brasileiro entre “raças” era bastante salutar. Salvador e da França ponderaram que a pesquisa sobre forma de produção. mesmo porque fendia a elaboração de um estudo comparativo (Maio. inicialmente. mas esta disparidade era vista “preconceito retroativo”. Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional Brasil era um paralelismo entre estratificação racial e racial” no Brasil é pensada no campo religioso (sin. “mestiço”. dativamente. 236). Este paralelismo fazia existência. em reflexo da situação educacional e social que o “negro” A “democracia racial” tem para o brasileiro a mes. para conseguir galgar uma posição melhor. Município de Itapetininga (1955). tamente quando a UNESCO. 1988. cial” brasileira feita. destes estudiosos levaram alguns cientistas a criticar percebendo que. para se conhecer a re. ternacionais entre intelectuais das Ciências Sociais. As Metamorfoses abandonando qualquer possibilidade de combater a acreditam que. podemos afirmar que Estado. ele é o “cimento na estru. Após esta primeira CO abandonou o projeto de divulgar todos os dados. pela equipe coordenada por Roger Bastide racial para não perderem seus privilégios na sociedade o significado da primeira luta da nação pela indepen. defende que a desenvolvidas pelas equipes coordenadas por Bastides ro. As aspas nos termos “negros” e “mulatos”. as fantasias da sociedade brasileira em relação a seus os interesses dos “brancos” das classes médias e das sitam. Os “negros” e os “mestiços” enten- dência” (idem. legitimavam de o Credo não ser ali observado. como uma parte de si próprio. delimitar fronteiras 1997. Ou seja. ao assumir esta posição. 52). era resultado de uma discriminação em que a “raça” da igualdade básica de todos os homens e de certos divulgá-lo em outras sociedades racistas no mundo: era “fundida” com a situação de classe social. “negros” e “mulatos” por Fernandes. texto são para tentar reproduzir a mesma postura que Fernandes atraso no processo de inserção na “sociedade inclusiva”. de fato. com plicação de que esta posição não tinha qualquer ligação a “democracia racial” parece ser um valor bastante caro diferenças. inclusão do “negro” e do “mulato” na nova sociedade. estes foram sendo integrados gra. a (1960). A discriminação se deu de maneira tão racismo no mundo. à justiça e às mesmas África do Sul e Estados Unidos. também com a ajuda de fundos da UNES. que era a de combater o biológicos de delimitação racial. a não seja dividida em “raças” e grupos étnicos. nem com a cor. mais em pleno desenvolvimento as lutas anti-colonialistas lentos. conclusões. demonstraram que o que se tinha social. os mais elementares a ser entendida como natural. Nesse sentido. Para Myrdal. mas também pretendem ver respeitadas a suas alunos trabalharam em estreito contato. Uma terceira pesquisa patrocinada pela UNESCO Este racismo encoberto. na cidade de Florença.. jurí. a “mulatos” não possuíam. Segundo o autor. não como resultado de qualquer (1995). ou mesmo pelo governo brasileiro. O negro brasileiro também entende que é bastante Devido à grande divulgação da “democracia ra. alguns países da América Latina. posição de estudar este fenômeno para poder melhor do Brasil)” (Skidmore. mas a ideia da “demo. outros intelectuais. as atrocidades ocorridas e Florestan Fernandes. pelo menos no campo político-ideológico sas investigações de campo no Brasil estavam Charles 7. tais como: Donald Pierson. Apesar das divisões sociais. em Florestan Fernandes. na memória. Skidmore: sua existência para combatê-la. apesar de sua duvidosa rida em julho de 1950. não que qualquer outro na nação. “Entre os scholars estrangeiros que realizaram exten. somente em funções tavam à sua intenção inicial. ou uma enorme “falácia”. Fernandes.” (Mauss. e o “mulato” viviam em nossa sociedade. podemos esquecer que o mundo ainda tinha muito viva cipalmente. poderíamos afirmar que ela pode ser enten. entre eles mesmos. o que para Freyre era positivo passou notamos na sociedade norte-americana: lá a democra. ela pode exprimir “ao mesmo tempo e de uma Ramos. Porém. 1965: 299). dentre outros. por cientistas como: Octavio Ianni. marginalizadas. nesta altura do com o fim do trabalho escravo. “branco” ou “índio”. Isso porque as descobertas feitas pela equipe deveriam ter a mesma postura que os “brancos”. 41). A relação entre os “brancos”. em sua obra A Integração do Após a divulgação dos resultados das pesquisas tempo. O que se entendeu como uma “democracia racial” era 54 55 . mas. Wagley e seus assume em sua obra. tanto por Gilberto Freyre como por colocar contra a situação que lhes foi reservada. fossem integrados à nova sociedade. forma de convivência pacífica sustentada pelo governo foi feita por René Ribeiro (Instituto Joaquim Nabuco) e “negro” e o “mulato” não conseguissem entender que tura variegada (daquela) nação” (Rose. Os estudos realizados elites. os negros americanos querem um tratamento igual do le Pratique dês Hautes Études – Paris). 1997). Brasil. na Bahia. resultou em um enorme dominante naquele país. dicas e morais . neralização dos seus resultados” (Idem.e estas políticas e familiares ao mesmo A proposta inicial era que se fizesse pesquisa. os “brancos” defendiam a discriminação oportunidades representam. após entender que esta CO. no social (miscigenação) e no econômico UNESCO aprovou em sua 5ª Conferência Geral. Do mesmo modo que os brancos. 1976. ma função que o “credo americano” tem para o norte. o brasilei. não conseguem. Neste sentido. Segundo direitos inalienáveis à liberdade. não alidade sobre as relações raciais harmoniosas existentes passagem do trabalho escravo para o trabalho livre no e Fernandes. que Bastide trabalhou com Florestan Fernandes. realização de uma pesquisa sobre relações raciais no direitos sociais. ra só sofrerá um forte ataque na década de 1950. inconciliá. não é simplesmente um meio para conceitos de relações “raciais”. 51). que “credo” defende a “dignidade essencial do indivíduo. neste período. no Brasil era uma sociedade em que os “negros” e os dição desvantajosa do “negro” e do “mulato” passava (igualdade de oportunidades). Por ela gro na Sociedade de Classes Florestan Fernandes tenha cracia racial” permite-lhe exigir igualdade de tratamen. eles estavam ao mesmo tempo pleitear seus direitos. para o povo americano. São Paulo. 1968. seja ele “negro”. entretanto. mas sim porque os resultados não se pres- da pela sociedade americana. Negro na Sociedade de Classes (1965). na opinião de Lilia Schwarcz isto é. Alguns representantes de países tais como “El fase de total desajuste do “negro”7 e do “mulato” à nova Esta posição foi adotada não porque discordasse das de cor. ocor. que se pauta em modelos contatos raciais num só país limitaria uma possível ge. segundo Myrdal.

defenderem-se. Convergência Socialista -. Bahia. claramente. nações e preconceitos raciais existentes em nosso país. e não somente garantir a por parte dos radicais e ativistas negros. não da” como se manifestava. segmento social podia fazer qualquer manifestação Nesse sentido. de São Paulo. pela Quando fundado. de personalidade texto escrito trinta anos após Fernandes. outro autor que gros não concordaram com o lançamento do MUCDR. O que consolidou a postura racialista assumida influenciar profundamente outras organizações negras. Essa nova denominação a construção de seus argumentos contra as discrimi- contra a sua existência. outros. o mito da “demo.. mas acabou se organi- que lutar por uma sociedade mais justa e sem discri. dentro de sua própria sociedade” (id. também discordavam de sua opção DO MOVIMENTO NEGRO Outra novidade foi o movimento assumir um Fanon. porque alguns grupos ne. tinha a pretensão de representar oposição à discriminação racial. ocorrido nas escadarias do Teatro dos primeiros quadros políticos do MNU. o que foi nessa ocasião aprovado. 1988. O MUCDR foi um projeto pensado inicialmente “marca” e da “origem” (Nogueira. deste a discriminação racial sofrida por quatro atletas ne. Para maiores informações consultar Memórias do Exílio. Alguns. etc. Assembléia de Organização e Estruturação Mínima”. professores Roger Bastide e Florestan Fernandes. na construção de uma posição político-ideológica do todo o conjunto do Movimento Negro. mesmo aquelas que não aceitaram participar de sua O que podemos perceber nos dois textos é que. contra as ameaças do racismo. mas que o nome do grupo deveria ser Movimento Negro tentativas de desmascaramento racial encetadas pelos a cumprirem os ideais da fraternidade humana e da de. ocorrido em 7 de julho de 1978. 1995. sempre discriminar e oprimir os seus “negros” e “mes. vel. Isto só havia ocorrido anteriormente com a Frente Negra Brasi. Em sua “Primeira das plataformas dos negros norte-americanos. impediu que o MNU procurasse exatamente nos pro- Se Florestan Fernandes não via “democracia racial” pública sem o consentimento dos responsáveis pela ria ser Movimento Negro Unificado Contra a Discri. de Minas Gerais. O MUCDR foi resultado da somatória a alteração da denominação do grupo. trito Policial de Guaianazes. ou nos cabelos. podemos afirmar que a desistência da populações. o clamor da ‘gente negra’. militante do Movimento Negro. muito pelo contrário. principais mentores do ‘protesto negro’ nas décadas de mocracia racial” (ibdem. deveria lutar contra todo e qualquer tipo de opressão. Ou bem há democracia para todos. Em um Ato Público Movimento Negro americano. reu. por serem municipais. A análise dessas obras. Unificado (MNU). Na época de sua criação nenhum criminação racial a ser assumida somente pelos negros. o MNU procurou na sociedade norte-americana esta 56 57 . A Integra. Já Ribeiro. Foi discutido que o Movimento Negro contribuiu para que esses resultados (da pesquisas da da verdadeira trilha da “democracia racial” (idem. zona central da cidade de São Paulo. dutos desses trabalhos grande parte das premissas para nas relações “sócio-raciais” brasileiras..º) fossem aceitos com simpatia e incor- combate o preconceito/discriminação brasileiro. que a democracia racial é possí. Somente partindo desse pressu.º) recebessem acolhida muito favorável Em outra parte do texto Fernandes escreve: “ou. de Florestan Fer. UNESCO em veicular os resultados das pesquisas so- devido à forma “mascarada”. Foram convidados a discursar Alma no Exílio. ele passou a informar As diferenças mais destacadas entre o MNU e ou- tiços”. 1985) em sua cons. minação. que viram via-se. “dissimulada” e “disfarça. Só assim podemos de brasileira foi a tentativa de mudar a maneira de se tentar entender a existência de grupos de negros lutan. um valor sociológico à luta contra a Ditadura Militar. em minação Racial (MNUCDR). Racial (MUCDR) foi fundado em 1978. 71). um primeiro momento. leira (FNB). MNU: através de seus discursos. nandes (1965). antes fosse feito um trabalho de “conscientização de pessoa “que possui na cor. ocorreu o lançamento mas leituras foram de grande serventia para a formação concordavam em se submeter a uma liderança nacio- público do MUCDR. de organização destas que. bre a existência da “democracia racial” no Brasil. organização que editava o Abdias Nascimento não contribuiu somente para fundação. foi proposto neles um prolongamento e um aprofundamento das primeira vez.MNU caráter nacional. 6). o porados pelo branco inconformista. de Frantz lítica conservadora. 18). por serem cristãos. 227). e também de vários grupos sociais que existiam naquele período. Mi. fundada em 16 de setembro de 1931 (Pinto. como forma de protesto contra prevaleceu até o Primeiro Congresso do MNUCDR.. Ele surge. Ca.8 Logo no momento de sua criação o de esquerda de boa parte de seus fundadores. do contra o racismo no Brasil. a condição de mais uma or- MUCDR contou com o apoio de grupos dos seguin. fendida pelo MNU. Uma das contribuições do MNU para a socieda- quixotesca. 1993. Como já foi dito anteriormente. Rio de Janeiro. não é uma ação Abdias Nascimento. 297). tes estados da União: São Paulo. sem preconceito e racismo. que resultou na morte do Espírito Santo. ocorrido em 1980. de grupos homossexuais. racial. Senão vejamos. o MNU não conseguiu ser a “Central Geral cracia racial” brasileira pode dar sentido. Bahia e Pernambuco. por fim. influiu também sil” assumidas pelo MNU. 2. assim do Movimento Negro Brasileiro”. levaram o assumisse. Melhor Como já falamos anteriormente. IBID. publicadas em vários de seus documentos e panfletos. Máscaras Brancas. tar a luta dos negros brasileiros contra a discriminação as pessoas sobre as posturas racialistas assumidas pelo tras entidades do Movimento Negro estão na forma pologicamente falando. do Rio Grande do Sul e do “A ausência de racismo institucional. da ção do Negro na Sociedade de Classes. ponde o opróbrio do branco posto no papel de opressor por negros que se autodenominavam trotskistas e que trução. base” e por esse motivo optaram por não participar da sinais característicos dessa raça” (MNU. ou seja. comunistas e lideranças estudantis. diz: “Tudo isso o lançamento do MUCDR estava ocorrendo sem que MNU passou a afirmar que negro era toda e qualquer democrática e identificado com a mudança de menta- demonstra. através das propostas condenado à dignidade de lutador da liberdade corres. 90). a tal ponto nas Gerais. lidade ou de costumes” (1976. 9. o MNU conseguiu.) seria preciso atingir esse padrão (socieda. Este é o nome da entidade até nossos dias. tais como: nal. o clarim que convocava todos os homens a união de todas as entidades negras brasileiras. por terem uma postura po- PEQUENO HISTÓRICO comunidade judaica. por sua vez. 8. gros no Clube de Regatas Tietê. social e politicamente falando. exploração e discriminação. pouco a pouco. A grande novidade trazida por ele foi a tentativa de jun. Essas situações fizeram com que o MNU UNIFICADO . mas só é praticável conjuntamente com a democra. Além de Abdias. MNU a unir a luta de classes à luta anti-discriminação ganização negra entre todas as já existentes. o MNU teve uma forte influência dizendo. que nos protege do Bom Retiro. UNESCO): 1. somadas à militância pela esquerda. ou não há nova entidade. a ditadura militar. mas também nos afasta Outro motivo foi a tortura. também não era “segurança” do sistema político vigente. o nome do grupo deve. ainda durante nos Estados Unidos9. algu. apoiavam a opção religiosa afro-brasileira também de- representantes sindicais. ocorrida no 44° Dis. antro. em sua opinião. porque a opressão do negro política foi Centro de Cultura e Arte Negra (CECAN). As opiniões sobre “o que é ser negro no Bra- apesar de a sociedade brasileira ser tão autoritária e jornal Versus. os “negros” e os “mulatos”. negra defendida por esse grupo procura se utilizar da des negras. Com cia social. 30 e de 40. militavam na Liga Operária – depois transformada em por este grupo político. valcante e Ramos (1976). de Eldridge Cleaver (1971). da de com uma forte democracia social). identificar um negro. soando. no rosto. Pele Negra. Dessa maneira. que seria o MNU. como das pesquisas desenvolvidas pelas equipes dos zando como mais um dos diversos grupos já existentes. num Na opinião de certas lideranças dessas organizações. O maior representante dessa postura esta plataforma percebe-se que a opção de identidade Apesar de não ter logrado unir todas as entida- democracia para ninguém. dossiê temático um “preconceito retroativo” o que não permitia a essas O Movimento Unificado Contra a Discriminação que havia retornado recentemente de um auto-exílio Assim. foram adotadas por quase opressiva. Assim. posto é possível se entender a seguinte afirmação. Para não diminuir drasticamente a sua base. não que dá sentido e justifica as relações sociais desta nação. defendeu uma luta contra a dis. Sobre este fenômeno Florestan afirmou: autor: “(. operário Robson Silveira da Luz. não Municipal de São Paulo. esta meta jamais foi atingida. a “democracia racial” é de fato um mito. localizado no bairro nindo delegados do Rio de Janeiro. na cidade do Rio de Janeiro.

MOVIMENTO NEGRO UNIFICADO. Ao assumir tal po. A Estratégia da Desigualdade de Janeiro. Isto é. Retrato em branco e negro: suas adaptações com relação a essa postura. Companhia das Letras. São Paulo. Movimento e questão racial no Brasil. Livraria 10. bhoje. Brasil. 1988. Alma no exílio. Dominus Editora / Editora da de Mestrado defendida na PUC/SP. São Paulo. Ceci- BRASILEIRA: depoimentos. ta Brasileira de Ciências Sociais. máscaras brancas. 1968. _______. Dissertação nalidade no pensamento brasileiro. do século XIX. ordem da mestiçagem e malandragem. Rio de Janeiro. de relações raciais. Manoel. _______. ninga. 1933. 1983. 1957. ção aumentada). São Paulo. In: Revis- conjunto com a sua origem étnica. em espaço reivindicado. também não deixa de FÉLIX. BONFIM. Complexo de Zé Carioca: sobre uma certa negra brasileira era fruto da exploração de classe em Municipal de Cultura. pio editora. 1997. crise da escravatura no Brasil. 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propostas pedagógicas .

De qualquer modo. Coletiva- mente. Uma educação coletivo de muitos.639/03 que torna obrigatório dação do exercício da cidadania. “raças” e et- negação de identidade genérica e específica. A colas e de alguns educadores como no meio da impren- implementação das políticas de ação afirmativa no setor sa e de alguma elite intelectual. as real e autêntica e do negro real e autêntico? Qual seria vertentes atuais nos debates sobre a situação o negro a proposta de um curso capaz de realizar essa descon- no Brasil hoje. A questão é saber que captar. sem necessariamente em. com a construção de nossas identidades individuais apenas ao tráfico. pologia pela Universidade de São Paulo Como então descontruir essa imagem negativa da afirmativa capazes de compensar as perdas acumuladas e professor titular do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia. As duas questões constituem. o negro no Brasil hoje uma adesão significativa. preconceito e descriminação que engendram começar. estamos ainda mal por causa do não reconhe- cial de cunho colonial que ainda considera a África como um continente atrasado e inferior. além do fato de que o conteúdo da África tural e ou etnicorraciais é uma realidade que está na da história positiva do Brasil. A África é os sentidos. que embora imprescindíveis não seriam começou nos séculos XV e XVI com o tráfico humano apesar das condições históricas caracterizadas pela poderia esgotar aqui por falta de tempo. das dúvidas e resistência tanto no meio da algumas es- cessita de algumas ações ainda em equacionamento. apesar das relações ria apenas em alguns aspectos que considero relevantes. artístico. violência com que foram trazidos. contrariamente ao índio que tinha amor à liberdade e Londrina – 26 de março de 2011 Kabenguele Munanga. são aqueles que investi- Ser negro no Brasil hoje significa coisas ao mesmo contribui na construção da economia colonial do país. Como sujeito nacional. ou seja.639 promulgada pelo presidente da Re. Por isso. por um lado. coletivamente estamos mal por da produção dos livros. Ora. de sua identidade plural nacional. e promover a igualdade racial do negro. a meu ver. fazendo delas uma fonte de riqueza e de É por isso que para entender o “Ser negro no Brasil o que porque nos envergonhar. autonomia interna para discutir a questão e tem dado tipo de educação o Brasil precisa desenvolver para sair to recuo histórico no tempo e espaço. a implementação de políticas de ação não se deixou escravizar. Com efeito. consciência de que fizemos a nossa parte e não temos mento desses problemas depende o funcionamento e coletivas. que contribuíram diferentemente na construção objeto de uma série de violências físicas e simbólicas. Kabengele Munanga hoje apaixonadamente em debate na sociedade bra. trução e reconstrução? A Lei 10. canalizar. como os mais desenvolvidos. Essa seria a pauta de uma agenda mínima que de- pública em fevereiro de 2003 contempla. mas seu funcionamento efetivo ne. por colonial e reconstruir uma nova imagem de uma África outro lado. Infelizmente. o reconhecimento de suas identidades específicas. Uma tal educação convida lição formal e hoje. talvez não! Talvez sim. do Brasil de hoje. religiões. ser objetos de grandes conferências e debates que não tecnologias. e África e do negro no Brasil herdada da historiografia Letras e Ciências Humanas da USP. a educação hoje”.propostas pedagógicas POR que ENSINAR A HISTÓRIA DO NEGRO aos outros segmentos raciais da sociedade. enfim imagem positiva. A imagem de 63 . perrar a dinâmica própria de algumas universidades ram maciçamente na educação de qualidade para seus tempo positivas e negativas. a vemos cumprir para colocar em funcionamento a Lei reivindicação do reconhecimento oficial da identidade 10. analisar e entender sem fazer um cer. Estamos com cabeça erguida e orgulhosos de ser. à escravidão e à abolição. 123 anos já se passaram. Onde estão finalmente do ensino público superior e universitário desembocou os problemas? numa polêmica que prejudicou a votação no Congresso Todos os países do mundo. sem dúvida. no Brasil. É o caso da UEL. o caminho não é fácil por causa coletiva do negro. para os negro no Brasil ensinar. liberdade e dignidade humanas em todos os sentidos: e discriminação racial em numerosos setores da vida tão complexa e diversa que fica difícil definir por onde A construção das políticas sobre diversidade cul- político. toca. para os que efetivo da lei: 1) que África ensinar e que história do desenvolvimento individual e coletivo. ape- sar da certeza de que ela contribui na modelação da foi buscar a mão de obra escravizada que ali existia naturalmente. para os que têm ainda não totalmente equacionados. da geralmente numa visão eurocêntrica que além de colocar esse negro numa dinâmica histórica na qual precisam de uma ação afirmativa para descontruir a ficos ensinar? Ou seja. etc. 2) quem vai ensinar e 3) a habitualmente dispensada aos nossos jovens é enfoca- da estrutura racista da sociedade brasileira atual sem que alienaram sua humanidade e sua identidade e que partir de que livros e materiais didáticos e bibliográ. Entre a abo. é-nos colocado a questão da ser monocultural. a Lei 10. hoje considerados Nacional da Lei das cotas. o ensino da história da África. classes sociais. cerca de 300 anos se passaram. cultural. um João Por que implementar política de ação afirmativa na universidade e no Professor os brasileiros. não podemos simplesmente fazer uma análise ainda andam com cabeça e auto-estima baixas. bobo que se deixou facilmente escravizar e nunca se ensino superior brasileiro? – Palestra proferida no Seminário do NEAA – Estas realidades deram origem a duas questões importou com sua liberdade e dignidade humanas. não respeita nossas diversidades de ele foi objeto de desumanização. de imagem negativa de si introjetada e construir uma nova definição do conteúdo da história da África e do negro gêneros. No imaginário Depois dessa longa história. suficientes. a mesma historiografia que considera identidade nacional e faz parte do cotidiano de todos o negro brasileiro como um boçal. ou seja. sexo. dos princípios de em 1888. sileira. religiosos.639. da história e cultura do solidariedade e equidade. agenda de todos os países do mundo. materiais didáticos e bibliográ. da situação em que se encontra hoje. cidadã orientada na busca da construção e consoli- Entre o tráfico. que é um Brasil diverso em todos e também sujeito de resistência para a defesa de sua que constituímos ainda a maior vítima de preconceito ficos divorciados da historiografia colonial. mas também e sobretudo uma educação dos africanos e sua escravização no Brasil. Do equaciona. doutor em antro. talvez não. a escravização e a abolição oficial assimétricas do poder durante a escravidão. os negros de hoje são vistos apenas estaria andando com cabeça erguida e orgulhoso de ter As considerações sobre estas duas vertentes podem que visa não somente o domínio das teorias e novas como consequência e resultado de uma história que participado e contribuído na construção do seu país. esse negro coletivamente desigualdades e perdas acumuladas comparativamente até então à disposição é viciado pela historiografia ofi. coisas que não podemos no povoamento do território brasileiro e na construção públicas que independentemente da lei recorrem a sua jovens e futuros responsáveis. da formação dos educadores ou professores e nias. Trata-se mos negros no Brasil hoje? negro no Brasil coloca-nos alguns problemas práticos para um olhar crítico sobre as questões relacionadas de uma história de cerca de 500 anos que não se reduz Talvez sim. onde o Brasil NA ESCOLA BRASILEIRA? cimento público da nossa identidade específica. de humilhações.

mas construção social e categoria de dominação e de ex. árabe. luta. todos sem exceção deram suas notáveis con. a construção da democracia e do pleno exercício da buscar. processos começaram há cerca de 500 anos quando os rentes migratórias vindas dos países ditos do terceiro que. Bélgica. xiliará nossa sobrevivência material numa sociedade foram escravizados. e onde estavam sendo levados e por que motivos. ticulado sobre identidade branca e amarela. brancos e amarelos. num Nos países da América do Norte e do Sul. Itália. ciedades humanas. asiática. de suas religiões e visões Recordo-me que quando a Lei 10. a diversidade. para exigir a convivência igualitária de todos. teses que são totalmente opostas às minhas.639/2003 foi pro. a melhor educação não é somente a que dos. América do Sul e do Oriente ainda não exercem igualmente sua cidadania e não ponto de vista. passaram por uma história semelhante à dos brasileiros dentais. houve algumas sobretudo. dos homens e mulheres. quero admitir e discutir todas as teses etc. não vejo identidade negra não surge simplesmente da tomada cultura de paz baseada na convivência igualitária das duzir um racismo às avessas em suas escolas onde este nenhuma contradição ou impedimento à iniciação de de consciência de uma diferença de pigmentação ou de diversidades. É nesse contexto histórico que devemos técnicas e meios de comunicação. japonesa. apesar de serem juridicamente cidadãos livres. até da se. seria problemático negar a raça enquanto nidade. para diversos países da América. espanho- encontro de culturas e civilizações. mas também. biologia molecular. etc. quase não são demograficamente representados. Ou de mundo. quais são vítimas. provocados entre os povos africanos. E não melhor exemplo de um país que nasceu do encontro a partir das diferenças fenotípicas baseadas na cor da nossa cultura e nossa identidade são mestiças. ideológica para justificar a “Missão Civilizadora” e a gregação racial de fato. uma educação cidadã baseada nos valores seja. branca identidade como no atual quadro do desenvolvimento a proposta de educação multicultural na sociedade bra. ras superiores e inferiores. a logo intercultural. cidadania dos descendentes de escravizados de ontem igualitária das culturas. pois mesmo na hipótese de aceitar essas tivos países de origem. alguns criticam um diálogo que introduz a temática da diversidade uma diferença biológica entre populações negra. O nó da questão. ou melhor. mas o que devemos povos e com os processos de construção de nossa iden- Essa falsa imagem dos países ocidentais monocul. pois são paises que nasceram justamente do demonstrado que geneticamente não existem as raças genciar um assunto tão importante para a construção negros. onde troem novas diásporas e reivindicam o reconhecimento educação é uma peça central. além dos portadores como pensam alguns defensores das teses de Gilberto constituem. do meu ponto de vista. Apesar dos progressos da ciência biológica (gené.. que a raça teria influenciado sua decisão para sair de seus respec- ciais para evitar as barricadas culturais e buscar o diá. a história da presença dos africanos no atual Bra- convivência decorrentes dos preconceitos e dos meca. Visto deste povos africanos de diferentes nações foram sequestra- mundo: da África. Irlanda do Norte. nenhum país no mundo hoje onde a temática do mul. dos grupos e so. Mas apesar da 64 65 . Mesmo concordando que geneticamente as raças puras como uma das maiores tragédias da história da huma- os africanos escravizados de diversas origens étnicas ou da. não existe. na construção sim na aceitação das diversidades como bandeira de clusão. identidades. propostas pedagógicas um Estado-Nação construída com base numa única tribuições na forma do povo brasileiro. Todos devem se lembrar das a diversidade que constitui sua matéria prima e uma Quem somos. identidade mestiças e não diversas. Apesar da inexistência das raças puras como cultura. um país que nasceu da diversidade te porque os portadores da pele branca e amarela não greiro. Todos buscam a construção de uma guns educadores. chinesa. sistema educacional brasileiro. tica humana. alegando que se está tentando intro. de sua cultura e de sua identidade plural. nos ensinam a genética humana e a biologia molecular. de geração em geração. Daí a necessidades nesses países de história da África e do negro brasileiro até nos estados De antemão. oriental. não estaria. uma pergunta que tem a ver com as raízes culturais dos Suíça. Essas reivindicações geram problemas de mulgada pelo presidente da República. das pessoas que da solidariedade e do respeito das diversidades que ga. entender a chamada identidade negra no Brasil. numa visão do mundo está se tornando cada vez mais Mas a questão fundamental que se coloca hoje é o Finalmente. etc. Ela resulta desse longo processo histórico ao mundial dominado pela globalização da economia. de televisão. problema negar as raízes formadoras dessa mestiçagem. sil é totalmente diferente da de seus compatriotas de nismos de discriminação cultural ou etnicorracial dos questionavam a generalização do ensino obrigatório da rantem nossa sobrevivência. das sileira que. mas também biológica já provou que raça não existe. sua duração e os estragos culturais. é uma sociedade de cultura e os países do mundo estão no mesmo barco.) ter e do encontro das culturas. de ensinar aos nossos alunos que raça não existe. Vista deste ponto de vista. etc. a cultura brasileira é sincrética ou mestiça. etc. os germes a versidade cultural dos países colonizados revela hoje dessas identidades de resistência serem ainda vítimas Freyre. Canadá. construir a unidade respeitando e o racismo. por sua amplitude. no simples fato não existem. ou seja. pele e em outros elementos morfológicos entre negros. de onde viemos e para onde vamos? exploração dos outros povos. Sem dúvida devemos conde. justamen- países de deportações humanas através do tráfico ne. quando a própria ciência ticulturalismo ou da diversidade na educação não está país onde quase não houve um discurso ideológico ar- não apenas países de velhas migrações. campanhas de difamação e demonização das religiões fonte da riqueza coletiva. isto é. judaica. Sem dúvida. que trazem desses países outras culturas. É mundo ocidental em geral pululam: Espanha. das diversidades: os povos indígenas de diversas ori. O Brasil oferece o puras. baseada na lei do darwinismo social. rais e gerar conflitos capazes de prejudicar justamente nar todas as formas de intolerância. reações negativas até na imprensa. etc. lusófona. Os exemplos que des. pois todos e amarela. construir e incrementar e municípios brasileiros onde os negros são minoria ou dos que dizem que não há racismo em suas escolas. se daria ao luxo de negli. seria um da identidade branca e amarela. Eles nem sabiam por onde e para público de suas identidades. têm a garantia de seus direitos sociais entre os quais a nos permite dominação da razão instrumental que au. numa única língua. Nunca se falou tanto da diversidade e da fenômeno não existe ou nunca existiu. arrancados de suas raízes e trazidos Médio. cultural ou etnicorracial na escola brasileira. Não existe qual me referi. que com a conjuntura política e econômica da época que suas políticas sobre diversidades culturais e etnicorra. na pauta da discussão. se não um mito. Ásia. que até hoje estão sendo tratadas desigualmente no educacional não significa destruir a unidade nacional e na cor da pele são reais e são elas que justamente colonizou-os. gaúcha. Fala-se de identidade italiana. a saí. que são surdo falar ainda de raças. que voluntariamente decidiram emigrar de acordo novas diásporas de discutir. os europeus de diversas origens étnicas. enquanto espécie humana. numa única religião. penso que construir políticas sobre a nós não pudemos deixar de observar que as diferenças uma raridade. O que pode engendrar barricadas cultu. entendemos a raça como uma construção social de sua democracia? Mesmo admitindo a tese de que la. capturados. o quadro é totalmente diferente dos países oci. afinal. reconhecimento oficial e público dessas diversidades diversidade cultural e implantá-las no nosso sistema fenotípicas baseadas nas características morfológicas A Europa Ocidental que invadiu outros povos. Porque o Brasil. segundo eles. Reagem negativamente algumas educadoras e al. mas sim a convivência tidade nacional e de nossas identidades étnicas. Seria simplesmente equacionar a unidade com partir dos quais são construídos o preconceito racial que sua unidade de fachada era apenas uma armadilha de preconceitos e de discriminação racial. cons. colocam permanentemente. pilhou e tentou destruir a riqueza da di. incluído o Brasil. no caso da população negra. Esses turais está cada vez mais desmentida pelas novas cor. não é tolerância. judia. árabe. Diversidade na unidade não Esta é uma pergunta que todos os povos conscientes se mentem a unidade cultural dos países da Europa e do brasileiras de matrizes africanas em algumas emissoras deve sugerir uma diversidade hierarquizada em cultu. o tráfico negreiro é hoje considerado gens étnicas. outros acham ab. ascendência europeia. bioquímica.

Se assim fosse não dro é considerado como gritante quando comparado ao ter acesso ao topo em todos os setores da responsabi. Processo esse enriquecido também ingressei na carreira docente na mesma instituição. posicionou contra as políticas de ação afirmativa. isto é. boa qualidade representam a única chave e a garantia alunos foram iguais e até mesmo excepcionalmente educação ofereceria uma possibilidade aos indivíduos tário que o Brasil de hoje. mente não nasceram com essas possibilidades.639 promulgada pelo dos outros países que convivem ou conviveram com as lidade e de comando na vida nacional onde esses dois avaliações feitas sobre o desempenho dos alunos co- presidente da República 115 anos depois da abolição. alguns in. os melhores são aqueles que pos- não mestiça ou unitária. racial devida à racialização de todos os aspectos da negro é prova de que não é impossível identifica-lo. conselhos universitários. Discriminação Racial. rar ou de acertar? Uma sociedade que quer mudar não se espera essa decisão. Quando genas no ensino superior jamais alcançado em todo aquinhoados financeiramente. 1975 através do programa de cooperação com algumas sistema de cotas a partir da decisão de seus respectivos um por um pela própria prática e experiência das cotas Como somos vistos lá fora. sul. práticas racistas como os Estados Unidos e a África do segmentos não são devidamente representados como tistas na maioria das universidades que aderiram ao Não existem leis capazes de destruir os preconcei. Pois bem. rior podem em parte remover. Fui o primeiro negro a con. a discussão Racismo. como os dos alunos a partir do início do século XX. pelas contribuições no atual departamento de Antropologia Social onde anos mostra totalmente o contrário. a possibilidade de uma fratura da sociedade. a experiência brasileira destes últimos tem evidentemente casos duvidosos. Neste sentido. mas não houve dúvidas sobre a Esta herança cultural africana constitui uma das fundada. vida nacional. Nem tampouco baixou o para questionar os mitos de superioridade branca e de mostrar que algo está errado no país da “democracia sentido. mas também em outros setores da vida nacional comprovam que apenas nesses últimos oito anos da ganhar. estão sendo bem digeridas e compreendidas pelo povo Disseram também que a política das cotas violaria outras. a política de cotas busca a inclusão daqueles nível de excelência dessas universidades. principalmente japonesas. Daqui a dois anos estarei compulsoriamente não apareceu nenhum movimento de Ku Klux Klan identidade da maioria dos estudantes negro e mestiços matrizes fundamentais da chamada cultura nacional e me aposentando sem que houvesse a possibilidade de à brasileira. eu ingressei no Programa de Pós-Graduação na Assembléia Estadual do Rio de Janeiro. Creio. Bem. Mais do que isso. do carnaval. mas sim prejudicar o princípio de excelência. postos de comando e responsabilidade. autonomia acadêmica. salvo prova em contrário. Três anos depois. não apenas nas universida. numa mesma instituição é motivo de festa! Esse qua. disseram que a política das cotas ia nunca ocupou uma posição de igualdade com as ou. no decorrer do tempo e do processo. prova de que as mudanças em processo que ingressaram na universidade através das cotas. a África do Sul ção profissional. o estatuto da igualdade racial isso o espírito da Lei 10. contrariamente ao binóculo acadêmico. mente após a III Conferência Mundial de Combate ao vertem a lógica da proposta e veem na política de cotas pública entre os dias 3 e 5 de março do ano passado ticos à prática do racismo. as teria nenhum sentido a Lei 10. houve suem armas mais eficazes. as grandes universidades. esse primeiro Contrariando todas as previsões escatológicas da. sistema não comprovaram a catástrofe. o princípio do mérito baseado no darwinismo social judia. Encontrar três ou quatro juntos O que se busca pela política de cotas para os ne. baseando-se no princípio de nas universidades que as adotaram. Felizmente sistência que por sua vez contribuiu para modelar a em Ciências Sociais da Universidade de São Paulo em universidades públicas federais e estaduais adotaram foram. etc. Mais do que isso. penso eu. deveria por este motivo ocupar uma posição igual às um segundo docente negro nesse departamento. nem dos conflitos. virem! Finalmente.. especifi. universitária e intelectual de mente. ou seja. da sociedade. a começar pelas universi. árabes. Infelizmente. técnica. Falsa dificuldade. mesmos aqueles que foram negro era oriundo do continente africano. queles que pensam que essa política provocaria um no país desde o seu descobrimento. causa da intensa miscigenação ou mestiçagem ocorrida negros. eliminados chamada cultura de nacional e a identidade nacional. muito caro para tras no sistema de ensino nacional. Uma memória a ser cultivada que exigem formação superior para ocupar cargos e experiência das políticas de ação afirmativa. Outros para escutar os pontos de vistas de diversos setores sobre os direitos sociais ou coletivos no sistema legal e cia Correlata. públicas nacionais que se desencadearam principal. brancos e índios. Por em agosto/setembro de 2001. no mundo ocidental? País universidades africanas. propostas pedagógicas tragédia. fui o primeiro e o único desde que essa disciplina foi e linchamentos raciais em nenhum lugar. racial” que precisa ser corrigido. uma memória plural e des. A tinha mais negros com diplomas superior ou universi. É justamente aqui que se coloca se tem um é sempre o primeiro e o único e raramente o século passado. Neste superiores em alguns casos. brasileiro. pois não há promulgado pelo ex-presidente da República. Geralmente são um índice de ingresso e de diplomados negros e indí. dades estaduais do Rio de Janeiro (UERJ) e do Norte mudança possível sem erros e sem conflitos.. reprimidos durante a colonização. Daí o sentido e a razão de ser das políticas de ação têm a ver com nosso racismo à brasileira. as avaliações feitas até o momento segundo o qual na luta pela vida os melhores devem a memória coletiva do Brasil. em 1980. Os outros que social- um povo sem história. A educação e a forma. por que implementar as políticas de Fluminense (UENF) onde a política de cotas foi im. Xenofobia e Intolerân. era difícil definir quem é negro ou afrodescendente por lata. assim como para não se cometer erro. essas heranças constituem sileiros afrodescendentes. Nos últimos nove anos.639/03 visa justamente a cons. do futebol. consequentemente uma guerra porque a própria existência da discriminação racial anti- o processo de construção da cultura e da identidade do próprio Brasil. Mas felizmente. indígenas. na África do Sul confessam que têm medo. brasileiros que por razões históricas e estruturas que Sobrou apenas uma acusação: a inconstitucio- cista na qual foram socializados. pois um povo sem memória é como ausentes ou invisíveis nesses postos e cargos. a re. passaram a integrar camente da República Democrática do Congo e não racismo ao contrário. foi graças aos sacrifícios desses africanos Finalmente. inferioridade negra neles introjetados pela cultura ra. Alguns obstáculos propositalmente colocados sobre e seus descendentes que foram construídas as bases ação afirmativa no ensino superior e universitário? plementada por meio de uma lei aprovada em 2001 as chances de sucesso das políticas de cotas se fizeram econômicas do Brasil colonial. Estamos aguardando a social e na cultura de nossa sociedade que todo repen. etc. as heranças europeias. não é ter direito às migalhas. Exis- plural brasileira. Surpreendente- tos que existem em nossas cabeças e provenientes dos véspera do fim do regime da apartheid.! Isto é. Não há distúrbios gêmeos da UnB que mereceriam uma atenção redobrada culturais orientais. encontram nalidade da política de cotas ou reserva de vagas nas O racismo é tão profundamente radicado no tecido afirmativa ou de reservas de vagas nas universidades barreiras que somente a educação e a formação supe. Por mera coincidência. 66 67 . pois a herança cultural africana no Brasil o segundo e o terceiro. que esta é a história dos bra. Só este exemplo basta para da competitividade entre todos os brasileiros. decisão de STJ que a respeito organizou uma audiência sar da cidadania precisa incorporar os desafios sistemá. não se trução de uma pedagogia multicultural e antirracista. Enquanto por extensão no sistema escolar é importantíssima. gros e indígenas. os símbolos da resistência cultural dos sidade em 1977. alunos oriundos dos colégios particulares mais bem tema educacional. os resultados do rendimento acadêmico desses sistemas culturais de todas as sociedades humanas. deve ter medo de mudar. Dizia-se no início que do samba. também. Os dados de nosso conhecimento mostram que na manda a verdadeira democracia. orientais. dezenas de entender desde o início do processo em 2002. que se o problema. cluir o doutorado em antropologia social nessa univer. da feijoada. realizada em Durban. da mu. mas medo de que? De er. universidades que as adotaram. que em nosso caso seriam e conservada através das memórias familiais e do sis. antes de tomar sua decisão. Juntas.

a população negra No plano demográfico. 2006: p. O antropólogo a Cultura e História Africanas e Afro-Brasileiras. Elas devem oferecer a do ao tempo da escravização dos africanos. Cultura e História Africanas e Afro-Brasileiras. I will analyze as two axles are presented and argued in the emergir as dores e medos que têm sido gerados. p.21) e cultural da população negra no nosso país. (MUNANGA. de valorização do patri. mesmo estando GA. relatora dos vimento de definição do negro inserido na realidade “As contribuições dos africanos trazidos para o Brasil. somando INTRODUÇÃO CONTEXTO uma maneira de ser e de viver às estruturas fundamen- tais da identidade do povo. 2006. que foi Sociology. os negros serviram como força Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africa. além de desempenhar com qualificação para a produção cultural (que é simplesmente a marca No plano da língua. na música. e se mani. moderna marcou a população negra pela pauperização ordens: econômica. não didático Sociologia: Vários Autores. E então decidir que sociedade queremos construir daqui para Formada em Ciências Sociais e Pós Gra­­ também como estão sendo trabalhados os conteúdos sobre a are being worked the contents on the Culture and African History du­­­a­da em Ensino de Sociologia na Uni. contribuiu para a cultura nacional brasileira. demográfica e cultural. constantemente. no livro DA QUESTÃO imposta por parte dos colonizadores portugueses. 1889) era escravagista e ocupou a maior parte da nos. Maria Andrei. que as políticas de reparações. apesar No plano cultural. Kabenguele Munanga afirma que: “No plano cultural. bilidade de progredir e. forme demanda da Lei 10.639/03. são de três de funcionamento da Lei 10. Milhões de africanos e seus descendentes destacam-se notáveis contribuições dos negros afri- da demanda da comunidade e da luta do movimento influenciaram a sociedade brasileira. I will analyze as they a outros. Mesmo com a aculturação A elaboração deste artigo busca analisar como. reconhecimento e socialmente. no que diz respeito à população negra. 2006: p. No entanto. lavouras de cana de açúcar. no Brasil. 2006: p. 20) sucesso na educação escolar. con. conforme demanda and Afro-Brazilian. Curitiba: SEED. de emergir de trabalho. Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira artigo foi orientada pela Pro­f essora e Africana. na bem como para atuar como cidadãos responsáveis e Os escravizados e seus descendentes contribuíram música. destacam-se notáveis contribuições condições para alcançar todos os requisitos tendo em da estrutura de dominação. o sucesso de uns tem o preço da marginalidade e da desigualdade impostas etnicorracial. no campo da religiosidade.20) para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o dentro das cidades.]. ram e preservaram as tradições e costumes. Analisarei in what it says respect to the black population. na arte visual. vista a conclusão de cada um dos níveis de ensino.. valorização fazem parte das ações afirmativas voltadas A cultura negra possui raízes fortes no Brasil..word: didactic book. consequentemente. inventar um Brasil (MUNANGA. frente. na dança. etc.21) participantes. (MUNAN- cer em defesa das Diretrizes Curriculares Nacionais e pelo impedimento do progresso. pois a elite brasileira voamento do Brasil. é necessário fazer CRISÂNGELA do Paraná. pois. ethnic-racial question. após canos na língua portuguesa do Brasil. para a educação dos negros. estão sendo trabalhados os conteúdos sobre A economia brasileira do período colonial (1500 . que é presente na sociedade brasileira. os africanos introduziram um vo- uma profissão. já é possível apontar que a ordem capitalista de quem descendem os brasileiros de hoje. Analisarei como são apresentados e discutidos no authors. ensino de Key . na arte visual.639/03 escreve. trabalhos da Comissão que estabeleceu os parâmetros brasileira. Neste da Lei 10. fornecendo a mão de obra necessária às na.639/03 – norma que surgiu sa história. das competências e dos conhecimentos tidos como tentou importar a cultura europeia. estas pessoas não tiveram a possi. [.14) Doutora em Antropologia da Uel Elena Palavras chave: livro didático.639/03: CULTURA AFRO-BRASILEIRA NO LIVRO DIDÁTICO RESUMO Pretendo neste artigo analisar o Livro Didático da disciplina de ABSTRACT I intend in this article to analyze the didactic book of disciplines of Sociologia utilizado pelas escolas estaduais no 2º Grau. 2006: p. law 10639/03. (MUNANGA. questão etnicorracial. dos negros africanos na língua portuguesa do Brasil. esta grande população de africanos ficou religiosidade. tratada de maneira desumana e submetidas a condições essa população garantias de ingresso. os afro-brasileiros resisti. used for the schools in 2º Degree and that the order of elaborado por vários autores a pedido do Governo do Estado the Government of the State of the Paraná was elaborated by some Para reeducar as relações étnico-raciais. etc”. as demand of Law 10. de aquisição foi desvalorizada e marginalizada. no mo- Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva.propostas pedagógicas O ENSINO DE SOCIOLOGIA E A LEI 10. tão grande era o tráfico negreiro. Entretanto. permanência e festa mesmo diante da repressão e da negação que sofre de vida muito precárias. devi. algodão. de branco e ignorar a cultura africana. Uma mão de obra escravizada – sem remuneração–. sociologia. da humanização) do país e nos deixaram um legado que cabulário desconhecido no português original e que faz 69 . café e à mineração. arquitetura. (MUNANGA. na discuta as relações etnicorraciais e a presença histórica perdida e à margem da sociedade. -PR. em busca de uma educação crítica que a abolição. 20) indispensáveis para continuidade nos estudos. no pare. education the sociology. (Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações versidade Estadual de Londrina. 2005. lei 10639/03. Florestan Fernandes (1978) nos diz que. no campo da negro no Brasil.639/03. 2006: p. os africanos ajudaram no po- mônio histórico-cultural afro-brasileiro. No plano econômico. na arquitetura. na dança. foi possível eliminar os elementos da cultura africana. É preciso entender que BIASSI DE ALMEIDA livro o capítulo “A Escola Enquanto Instituição” e a questão book: “the school while institution” and the ethnic-racial question. Após a Abolição.

classe social ras. as quais fo. a liberdade. Como afirmei 2006: p. conteúdos poderiam estar presentes. vamente o feudalismo e inaugurar um novo modo de Na arte.o livro discute o dático. O livro didático precisa ser entendido como uma educação dos tupinambás: a tradição. o livro mecanismos de transformação da sociedade e. pois para mui. nos instrumentos musicais do 2º. O contato entre as culturas dos é perguntado: Por que há poucos negros nas univer. a cuíca. deve-se considerar a falta de al- como o candomblé. os africanos lega. é preciso considerar que uma “educação de respeito humano. respeito à população negra. to inocente e neutro de transmissão desinteressada do INSTITUIÇÃO das pelas experiências e saberes acumulados ao longo vas existentes. Em relação ao surgimento da escola no Ocidente. estadual do Estado do Paraná. aulas minará liberalismo”. visto que muitos so. pedagógico eficiente.”(VÁRIOS AUTORES. fala que são três importantes valores que perpassam a quentemente das mentalidades. mente têm oportunidade de acessar um livro na esco. Assim. professores e alunos nas escolas. como a miséria. ria segundo a qual no interior de uma sociedade de Vem daí a importância fundamental do livro di. maracatu. os livros didáticos devem ser de produção – o capitalismo. dando Acredito que a educação é um dos principais bem como a perspectiva do ensino de Sociologia devem os suicídios . estar voltados à ruptura com a ordem existente. a construção de material orientam e determinam as finalidades do livro didático. mas caracteriza também a educação uma educação para a diversidade: a disponibilização de dos elementos implícitos e explícitos que caracterizam. São raras. Diz que as elites (ou dominan- tivas. para haver igualdade é necessário mais do que um lugar porquê da escola não ser um lugar de pertencimento recurso pedagógico. tes. destacan. inculcando precon. ternativas aos livros didáticos. respeite e observe o repertório cultural da Portanto. Mas tão logo os alunos percebem que classes existem diferenças culturais . “O livro didático acaba sendo o livro”. 22) “Os conteúdos desenvolvidos foram escolhidos a partir disso. Grau.22) go foi produzido por vários autores. a dinâmica e a organização social sempre como exemplo. o enriquecimento. resultado concreto de disputas sociais Os autores do livro didático de Sociologia iniciam a No entanto. as análises sobre os livros didáticos podem nos levar ciais falando sobre a instituição escolar. O livro didático de sociologia analisado neste arti. a igualdade e a democracia. conhecimento social. das populações quilombolas ou das comunidades- recursos didáticos adequados. informal”. isto é. [. e discutidos neste livro: a escola enquanto instituição 1596 – 1650) é considerado o fundador desta doutrina.(VÁRIOS AUTORES. pois ele muitas vezes é utilizado como principal também não deve ser esquecida. o aumento do acervo de livros so.64) determinado patrimônio cultural e as classes traba- 70 71 . Além disso. (VÁRIOS AUTORES. Por meio deste artigo. que fazem tos alunos o livro didático acaba sendo o livro. propostas pedagógicas parte do falar brasileiro. a conhecidos e que constitui uma das facetas da identida.. 72). E chega à conclusão de que “é cação que seja geradora de cidadania.21) publicações científicas dirigidas ao público em idade acima. pois em questão. construção sócio-histórica formada por intenções. mas uma maneira de promover relacionadas com decisões e ações curriculares. 2006: p. das Diretrizes Curriculares da disciplina. “Essa instituição ensina-nos novos padrões de compor. ao lado de tantos outros disponíveis. por sua relevância a pedido do governo estadual do Paraná. São prazeroso para todos. mas que. dos anos vividos”. não existe apenas Algumas ações são essenciais na construção de a compreender a produção desses materiais. Certamente muitos outros temas e O livro Sociologia foi produzido por vários autores.representantes de uma teo- ser os únicos acessíveis aos jovens nas escolas públicas. além ou uma nova ideologia para o capitalismo que se deno- 2006: p. 69) Na música e dança. Continuando sobre a educação informal. A realidade histórica dos estudantes brasileiros teiras escolares. princípios do liberalismo. tamento. uma vez que há falta de alterna. bumba-meu-boi. por exemplo. Na história do contato entre os europeus e africa. Florestan (1978) destaca que o trabalho dos sociólogos ciedade. (MUNANGA. bem como de sua qualidade.]. a ceitos até os dias atuais. deve-se dar bastante espaço para debates. (VÁRIOS AUTORES. educação é elemento fundamental de socialização e de negros e dos portugueses se deu por meio de apropria. Pierre Bourdieu bre o assunto nas bibliotecas. escolar. nessas socie- ções e interlocuções. escravocrata. por isso os chamadas questões disciplinares”. eles deixaram suas marcas nas figas de madei. Os livros didáticos são produ. coco. material didático próprio para o ensino no segundo é apontado o surgimento da chamada “revolução cien- balhos futuros. a disciplina e o bom rendimento: entre os índios. os quais poderá ser contemplado em tra. umbanda e macumba. irá conceber uma nova doutrina social como os tambores. o racismo e a O LIVRO DIDÁTICO como disciplina é justamente nos ajudar nesse sentido: a sobrevivência e a convivência são transmitidos por discriminação se tornaram a maior herança do sistema a percebermos que fatos considerados naturais na so. conse. 23) e urgência. consulta aos clássicos. e as sociedades sem escolas? Explica-se no e negativização da cultura negra. o berimbau. parte do patrimônio religioso brasileiro. o valor da ação acredito poder contribuir para a discussão de uma edu. iguais. no que diz especificamente Mas. e o valor do exemplo. que não tem a forma da educação a igualdade. XVIII). esclarecendo como acontecem as apropriações e a re. Visualizar as diferenças e articular prá.enfim. direcionado ao ensino Em primeiro lugar. Destaco a importância desses materiais. grande respeito entre todos os membros do grupo. nos objetos de ferro. A burguesia.. nos. ou mesmo serem desenvolvidos pelos grau e irei analisar como dois eixos são apresentados tífica”. há escassez de mesmos devem ser de boa qualidade. (MUNANGA. as sociedades tribais. sidades brasileiras? Por que os negros são a maioria manutenção do próprio grupo. principalmente a inglesa (séc. que são: o individualismo. ou reforça aqueles que já trazemos de nossa Citando os sociólogos franceses. os crimes.. um recurso. O filósofo e matemático René Descartes (França.11) e a questão étnico-racial. a herança cultural e os saberes necessários para percebido de forma crítica pela sociedade. ticas pedagógicas inclusivas não somente é uma forma ções culturais. professores da rede que precisa ser ampliado.. devem também ser considerados como em ascensão. a escravização gerou um processo de invisibilidade 2006: p. como introdução ao tema e dão um encaminhamento XVII) e a francesa (séc. na escola começa as reações contrárias à ordem. biblioteca adequada. meio da educação informal. Pois esses recursos podem contextualização dos diversos textos participantes desse classe social e tenta nos fazer acreditar que somos todos e Jean-Claude Passeron . (MUNANGA. No que diz respeito à religiosidade. as escolas que possuem la. atenda e respeite lidades e decisões provenientes de diferentes indivíduos possível perceber que nessas sociedades existia um as diversidades e peculiaridades da população brasileira e contextos. não pode ser considerado como elemen- A ESCOLA ENQUANTO as pessoas mais velhas eram especialmente valoriza- população negra e o relacione com as práticas educati. Decorre dessa realidade a importância desses Uma vez que são raras as escolas que possuem uma o livro responde assim: ram ao Brasil algumas de suas religiões populares. Vejo que já na introdução livro que nessas sociedades. um dos gêneros musicais populares mais professores da área. porque podemos nos sentar igualmente nas car. são explicados os do-se o samba. . expositivas. que cumprem seu papel “As revoluções burguesas. tais materiais. processo de construção.podem não ser tão naturais assim. rea. o estudo ordem. vão encerrar definiti- 2006: p. entre outros proce- jongo. porém como esse processo não é pobre do país? Para explicar que o papel da Sociologia dades. -terreiro afro-brasileiras. ram discutidas em simpósios e encontros envolvendo dimentos pedagógicos. para ser um propriedade. (MUNANGA. maculele. e: boa qualidade. 2006: p. assim como na nossa. como são identificadas pelos autores) possuem um uma biblioteca adequada. que valoriza a normatizada pelo Estado brasileiro. 2006: p. Depois de dados estes contextos. 2006: p. introdução do Conteúdo Estruturante: Instituições So. e de cultural brasileira”. eles introduziram os congados.

Nesse campo. em melhores condições de enfrentar a vida. de educador comprometido com as classes oprimidas. da qual é construído um cosmo sagrado” (BERGER pelos preconceitos.. Numa sociedade marcada. a tarefa de conscientizar critica. Ao dizer que o Brasil é conhecido como o país com e prática.“a religião é uma obra humana através te branca. a presença do negro é notada enfim sistemas religiosos estruturados. herói e construtor de Ao focar nos trechos do livro didático onde é abor- alunos de ascendência negra. Vejo que. Nacional. é que lhe permite criar seu próprio sistema de normas e superação das desigualdades e pela transformação da evidente que para os estudantes filhos das classes do. de social. mundos”. huma. (VÁRIOS AUTORES. que tenha uma proposta semelhante à que defendem. eles também tiveram suas estrutu. pobres. que defendem propostas educacionais que apontam no 2007: p. “A escola é uma instituição dade em que vive. plena participação na vida social. Ser oprimido. em sua teoria têm o dever de matricular e manter seus filhos menores tem. ços de valores que podem contribuir para se fazer da o pensamento religioso. Significa não ter ouvidas suas insatisfações e grupo étnico ou sociedade. na visão de Freire. suas crenças. é colo- formação da riqueza econômica e social e da identi. a maioria. pregado. ser desem. reconhecidos como seres humanos. como por essas pessoas foram tratadas como mercadorias. sociais e outras. 174.não ter voz na entanto. apesar das condições desiguais nas quais se cido no mundo todo. extremo pode chegar ao fanatismo. cana como parte da herança comum da humanidade uso tem um sentido social e político. seus rituais. o Estado tem propostas e não se considerar sujeito de sua história. suas gratuitas. enfim. 72 73 .(MATERIAL DIDÁTICO ALTERNATIVO. defendo que a uma grande distância para os negros efetivarem sua rados. E estes são sempre negros. que incluem pertence somente aos negros. seleciona e privilegia. racial”. quando os autores conceituam raça: “Raça crenças também foram desprezadas. e como a escola ignora estas diferenças a obrigação de oferecer escola e os pais ou responsáveis educação conscientizadora proposta por Paulo Freire negro nessa citação?) sócio-culturais. etc . Já os movimentos negros e vários estudiosos lançam o preconceito incutido na cabeça do professor e sua historicamente.(VÁRIOS AUTORES. competi. regida por normas estabelecidas por grupos externos Por isso. Mas ao mesmo tempo em que é um direito. No mente abordadas pelos autores. são um direito garantido pela Constituição conscientização. apud FILORAMI&PRANDI. somando-se ao conteúdo preconceituoso dos produtores de cultura e os que não eram nada disto uma identidade negra positiva. turais . que diz respeito à e prejudicam seu aprendizado. Continente Africano. a visibilidade da cultura de matriz afri. pois ao receber uma educação envenenada sentido de uma ruptura com os valores criados e refor. (MUNANGA. para os jovens fi. a perda da guarda destes. Ainda que fossem uns poucos. seria preciso fa. Seus valores e saberes são desprezados. na esteira de Paulo Freire. trata-se de um con- uma cultura para aprender um novo jeito de pensar. são muitos: são. como são identificadas pe. talvez. mas que como O livro diz que as escolas públicas. tencialidades físicas especificas relativas a cada raça. representante de uma pedagogia abordagem dada ao negro é falha e fraca e por isso. riza pelos conjuntos de símbolos sagrados. incapacidade em lidar profissionalmente com a diver. com características e po- ser bem-sucedido. 77) escola tem papel fundamental na construção de sujei. propostas pedagógicas lhadoras (ou dominadas. dando-lhe um outro significado. as manifestações e os valores culturais das na escola. sob pena de serem punidos até mesmo com mente o educando de sua posição social e mobilizá-lo maior número de negros e afrodescendentes depois do classes dominantes. “Dependendo da maneira como é utilizado. são da sociedade entre senhores e escravos – podemos Antigo Egito. ou pior.valores. ao mesmo tempo. No entanto. frio e origem em tronco comum.) O resgate da memória coletiva e da his. ancestrais e identidades próprias de cada um deles. enxergar o mundo. preconceito e discriminação do alunado negro. O NEGRO NO LIVRO DIDÁTICO grados formarão um sistema religioso. estudantes. de intolerância.267) . o uso do termo raça acaba classificando um tamente sobre as de origem africana. Além disso. individualismo). conhecimentos e preparo para prosseguir os estudos zer alguma coisa para tentar mudar esse quadro – mas (MUNANGA . mas tória da comunidade negra não interessa apenas aos normal da escola. É por isso que. somado aos locais e rituais sa- tendo em vista que a cultura da qual nos alimentamos vida uma experiência diária de solidariedade e. das origens osas entre alunos de diferentes ascendências étnico. valores. a escola representa uma Criança e do Adolescente). sua própria “cara”. não exemplo. ou seja. levando também à hierar- los autores) possuem outras características culturais educação no Brasil é obrigatória. O Projeto de cons. ter fome. dentro dessa lógica. O que explica o coefi. educação tem a ver com em alguns trechos no decorrer dos capítulos. ou quaisquer outros que sejam “diferentes” da “cara” nos entre humanos. igual e capaz de ser protagonista. e que no desenvolvem. essa memória não ção. Interessa também aos No entanto. a sociedade. significa dizer que há grupos de pessoas que possuem Dentro do capítulo. (MUNANGA. cada qual diverso um do outro. pode. críticos e em condições de lutar pela Já para Kabenguele Munanga: ou modelos de cultura. características fisiológicas e biológicas comuns. 2006 : p. ciências naturais. ou uma religião. apenas tocarei de leve nesta questão pois. Conhe. mas princi. indígenas História de seu próprio povo.se caracte- ras psíquicas afetadas. uma conquista da sociedade. No livro Sociologia. quotidianamente é fruto de todos os segmentos étni. universais e Para ele. racismo aparece muitas vezes camuflado e estabelece ruptura. Paulo Freire deixou sua marca meu foco será principalmente a religião. A quização”. o conceito minantes torna-se bem mais fácil alcançar o sucesso educação denominam hoje de “cultura escolar”. 175) branco. sua inserção cultural. existem os educadores progressistas. seria o exemplo do Ao analisar o livro didático podemos perceber que a instrumento de dominação. igno. a aprendizagem sobre grupos humanos. linguagem. ser abusado. a religião pode ser um formidável cos que. mas falarei mais aten- aqueles que se importam com a justiça e com a igualda. No livro. ou o que pesquisadores da sociedade.(Art. Paulo Freire. religião. da libertação. aprender novos padrões Mas como a escola possui uma dinâmica interna tos autônomos. e resultado de significa estar subjugado economicamente. Ela pertence a todos. a linhagem histórica resgatando as civilizações desde o negativas. antes der mais nada. sem atribuir qualidades positivas ou livros e materiais didáticos e às relações preconceitu. às vezes. os autores afirmam que aqui o lhos da classe trabalhadora. 175) “Não precisamos ser profetas para compreender que ou buscar uma profissão. pela divisão cruel entre os que eram trução de um Material Didático Alternativo que possa mão do conceito. sujeitos da lei e ser usado nas escolas para possibilitar a construção de relacionado ao reconhecimento da diferença entre sidade. 140) (Cadê o diferentes. consigo também seus cultos. çados pela sociedade capitalista (submissão. desestimulam o aluno negro entrever que o resultado de uma cultura escolar volta. com mais medo. Esse -raciais. foi pensado para que a criança e o história da população negra no Brasil e a complexa re- ciente de repetência e evasão escolar altamente elevado exclusão de todos aqueles que não estão inseridos no jovem negro se enxergassem como seres incluídos na lação entre raça. pais e de todos palmente não ser respeitado em suas manifestações cul. povo entre povos. neste capítulo. – e esta divisão era a base e a consequência da divi. projetar uma nova ordem social. e estes jovens necessitam quase que reiniciar a esta”. racismo. 1999: p. Estes defendem estímulos e refor. ao reconhecimento da condição. inserir-se nele e ainda para de lá saírem melhor do que quando entraram. ser espancado. ir para uma ceito utilizado para definir classes de animais que tem falar. 22 e 24 do Estatuto da internamente para a luta pela transformação da socie. várias religiões são sucinta- muita luta de professores. 2006: p.. 2006: p. 04) A religião . dada a diversidade religiosa no Brasil percebemos que: alunos de outras ascendências étnicas. empunhar uma arma assassina. cheirar cola. proibidas. coletivamente. cado que os povos africanos escravizados trouxeram dade nacional”. da apenas para o desempenho e/ou a meritocracia é a (como realmente é). (. ou prisão-educandário. raça pode ter uma conotação própria do campo das escolar do que para aqueles que têm que desaprender mos entender por que todos procuram uma instituição “Ser bandido. principalmen. ou seja. contribuíram cada um de seu modo na educador progressista. 2005: 16) Por onde passou. 2006:p. comparativamente ao do alunado sistema.

rençar. segundo autores.. é suficiente. No Brasil os taria de Estado da Ciência. Brasília: Ministério continental. Cultura NANGA. Como básico para a conservação da memória. quando na verdade foi um complexo principalmente quando falamos em religiões afro-brasi. que entram em comunica. 2º edição revisada. os mais corretos e isso lhe O CANDOMBLÉ médiuns. os povos de língua bantu chamavam suas sileiras se formaram na fusão de diferentes elementos formista sobre as atitudes preconceituosas.Ca- nas escolas. Tais julgamentos podem facilmente deslizar para livros didáticos.38-51. as religiões afro-bra. Centro de Ciências da sentam as principais nações africanas de língua ioru. 2007. São Paulo: Global. E também é preciso não-cristãs. Florestan. que estabeleceu a obrigatoriedade do ensino étnico.]. Isto im. a fim de respeitar os processos históricos de resistência negra nais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e Existem alguns equívocos nesta abordagem. apesar de uma identidade los africanos.. construção ocorrida no Brasil a partir de múltiplas ra. sileira. de relações entre os santos e os deuses cultuados pe.]” (MUNANGA. implica práticas discriminatórias sistemáticas fomen- tende a ser reduzido a uma simples associação com os cêntrica. que deveriam ser se. [.639/03 sertação (Mestrado em Educação) . derno Uniafro. 2006: p. Alfabetização e Diversidade. São Paulo: Ática. como Voduns. divindades de Inquices e os povos Jêje as nomeavam culturais africanos com o catolicismo. O Podemos perceber que o livro didático aborda a questão sejam desencorajados de prosseguir nos estudos e de universo para os umbandistas é habitado por entida. v. nas Diretrizes Curriculares Na. -racial. buscando o respeito às populações negras. propostas pedagógicas des espirituais – os guias. de estabelecimen. mas não deter. A percepção do preconceito racial em nosso país Superior/ SETI – PR. preconceito. Nilma Lino. tos de elos com o Criador. MUNANGA. (MUNANGA. Florianópolis.139/140) ensino de história e cultura afro-brasileiras e africanas afro-brasileira: construindo novas histórias . entre os séculos XVI origens étnicas.. os vários povos europeus. 3. 356p. [. eram tão diversos entre si quanto são. 181) BIBLIOGRAFIA a pomba-gira. Gráfica e Editora. São estas colo.. A UMBANDA plica criar condições para que os estudantes negros não sejam rejeitados em virtude da cor da sua pele ou VÁRIOS AUTORES. Londrina: Idealiza sua descendência africana. Brasília. O santos católicos. é preciso ter um cuidado extra e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO.]”. “O etnocêntrico acredita que os seus valores e a ção com as pessoas por intermédio dos iniciados. desencadeada pelos africanos escravizados no Brasil para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira candomblé não é originário da África. de que as diferenças raciais. cação. apesar das “boas intenções”. desde as formas individuais e Africana. “É preciso tomar cuidado com julgamentos. A Integração do Negro na So- povos Ioruba. O conduzir o aluno a uma atitude de respeito e consi. ou sua cultura são os melhores. 2006. mas de forma superficial e etnocêntrica. até as coletivas. Material Didático Alternati- Esta frase pode ser muito mal compreendida. A umbanda se Os autores não abordam a temática da história e Os autores do livro didático escrevem que o candomblé propagou por todas as regiões do Brasil. ter certo cuidado com o fenômeno do “sincretismo” que simplesmente julgá-las a partir de nossa verdade etno. "As reflexões de Joaquim cações que acabam. MUNANGA. os Orixás são as divindades apenas dos Segundo Munanga (2006). Dis- os primeiros escravos africanos. [. na escola. o preto velho e outros. que o livro didático gresso da nação. étnico racial. CONSE- tos associaram seus deuses a santos católicos. cultura e história. e é frequen. Seus deuses são chamados de Orixás e repre. 2006 – processo de diálogo entre teologias. 2006: p. Curitiba: SEED . sócio-antropológica de suas características. (MUNANGA. por construídas.UNIVERSIDADE SEM FRONTEIRAS. DF. rial didático e a categoria trabalho. desmistificando os preconceitos que incidem e por seus descendentes. que muitas ciedade de Classes. ainda hoje. Sociologia. Os autores possuem um discurso simplista e con. REZENDE. 74 75 . estudar questões relacionadas com a temática negra. Estadual de Londrina (UEL). nossos ancestrais africanos enriqueceram a nossa cul. seus adep. culturais são o motivo do não desenvolvimento e pro... ed. 2. da cultura e cionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais esta forma de religião foi proibida no Brasil.] racista que possui mecanismos para produzir as desi. v. 180) . FERNANDES. religiosas devem ser compreendidas como formas A palavra discriminar significa distinguir. sobre esses cultos. – 266 p. mas sim uma deração. ízes africanas. Educação. Kabenguele (org.Universidade e XVII. mos que a religiosidade de matriz africana foi o recurso Petronilha (2005). resultado da fusão de duas religiões africanas: sido explorados no processo de escravização e que não a cabula e o candomblé. 1-2. PROGRAMA DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA candomblé dão proteção às pessoas. Universidade impressão ao professor e ao aluno de que o Candomblé com o mundo mágico e sobrenatural. E é isso que devemos mudar através do do século XIX e no início do século XX". A umbanda aparece no livro como uma religião bra- CONSIDERAÇÕES FINAIS menosprezados pelo fato de seus antepassados terem 2006. [. dando a tura com diferentes expressões e formas de se relacionar revela a existência.. Diretrizes Curriculares Nacio- que se conhece como sincretismo religioso. (MU. Como sabe. acompanhadas de cantos e sons de atabaques. Esta informação é importante para politeísta do culto católico possibilitou a construção nossa sociedade. Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos. 2006: p. divulgar e LHO PLENO-DF. A Sociologia no ensino médio. p. guidas pelos livros depois da aprovação da lei 10. 2005 – 204p. ritos e mitos que leiras. A discriminação racial pode ser con. da discriminação racial e do gros com imagens deturpadas e estereotipadas quanto Os autores prosseguem dizendo que os deuses do racismo”. com o que está além do que siderada como prática de racismo e de efetivação do compreender a situação do negro no Brasil no final costumamos considerar como mundo racional”. Nabuco e as de Manoel Bomfim: Elementos para legitimar os preconceitos e as avaliações pejorativas. também.143) na ausência da história do povo negro no Brasil. Federal de Santa Catarina. cultura afro-brasileiras como são defendidas pelas di. criando o quando buscamos fazer uma descrição e uma análise e Africana nos diz que é preciso valorizar. não possui uma teologia desenvolvida. tanto passíveis de serem mal interpretadas. Maria José de.. e de crenças europeias. de muitos países e que. exemplo. (Coleção Para Entender). discernir. Os guias assumem formas como o caboclo. tanto na presença de personagens ne.). da identidade negras. por tenha mais informações sobre as práticas religiosas da Educação. no interior da cultura. nos negro no Brasil de hoje. Marival. Superando o Racismo res. COAN . Defendo. 2006: p. se construiu ao longo de séculos. para que possamos compreendê-las e não “A forma institucional do racismo. um mecanismo de defesa e que Tanto a religiosidade negra como outras expressões gualdades raciais dentro da sociedade. A característica vezes ocultam a ideologia que persiste ainda hoje em 1978. GOMES. é uma simples magia. o campo do preconceito. étnicas e deixar claro que os africanos vinham de vários luga. Secre- minam como elas devem agir e não as castigam caso “A religiosidade negra é rica e variada. tadas pelo Estado ou com o seu apoio indireto. Estas práticas racistas manifestam-se. 2005. de um sistema social vo. Suas cerimônias são realizadas em língua africana. portanto. Programa de Pós-Graduação em Edu- bá.. Tecnologia e Ensino cometam algo considerado incorreto pela sociedade. o mate- é originário da África e chegou ao Brasil junto com tada por pessoas de todas as classes sociais e todas as retrizes curriculares específicas. dife. Secretaria de Educação Continuada. Kabenguele.PR. 2007. Aqui também as explicações são mínimas e por.

a cultura ao Brasil. tornou obriga. Pretende-se. p. safio está posto aos professores de um modo geral. pode ser definitiva. teatro) o material que pode auxiliar na leitura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo é possível (e viável) inserir as literaturas africanas de do texto literário. a través de la lectura y poemas de autores angolanos e cabo-verdianos. como dispone la Ley Estadual de Londrina e especialista em Federal 10639 de enero de 2003. é possível destacar a presença da e médio. 79-A mente feito a aproximação dos textos do moçambicano e 79-B: lei federal 10. nar ao educando” o conhecimento da riqueza cultural oferece valiosas possibilidades. muito tempo. a crítica literária tem constante- passa a vigorar acrescida dos seguintes arts. dagem a partir de um viés histórico. ou seja. 50) enfatiza que de língua portuguesa. Infanto-juvenil do curso de Pedagogia da Literatura brasileña. 9) sina. torna-se obrigatório o escolas públicas e privadas de todos os Estados brasilei. negra brasileira e o negro na formação da sociedade Couto. à Lei de Diretrizes e Bases da Edu. o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A questão é: de que modo cinema. com sua experimentação passa a vigorar acrescida dos seguintes arts. plantear una discusión que africanas de Língua Portuguesa. No entanto. p. e em tras linguagens. não somente textos literá- o currículo escolar. como Pepetela. em especial nas áreas de Educação língua portuguesa em uma grade curricular que. 26 em eles. aborda as produções literárias brasileira lidades artísticas. sileiros pelas literaturas africanas de língua portuguesa linguagem de Mia Couto que. de 2003.propostas pedagógicas Literaturas africanas de Língua Portuguesa em sala de aula: uma possibilidade? RESUMO O presente estudo visa apresentar. e a vinda constante. No entanto. Em relação à intertextualidade. como dispõe a Lei Federal 10639 valore el proceso de estúdio y de inserción en sala de clase de las Formada em Letras pela Universidade de janeiro de 2003. Mia nos versos de Antonio Jacinto. justificam por conta da sileira. Como se nota. grande nome da Literatura Bra- Art. e portuguesa? E ainda: o estudo das literaturas africanas cultural do aluno no que se refere à cultura africana. iniciar a abor- aula. El objetivo es. § 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura especial aos de Literatura. esculturas. resgatando a contribuição do povo negro nas p. as marcas da influência de José de deste artigo incluirá o estudo da História da África e de várias obras de autores africanos. Encontramos em ou- do Brasil. 79-A tem aumentado muito nos últimos anos”. literaturas africanas de lengua portuguesa.”. intertextualidade nas composições em verso de Ovídio ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira. cuja Martins – poeta cabo-verdiano ¬– com as de Manuel § 1o O conteúdo programático a que se refere o caput vigência no Brasil teve no início em 2009. 77 . de 20 de dezembro de 1996. verifica-se que muitos caminhos tório o ensino de história e cultura africanas em sala de “em meio a tantos problemas relacionados à prática de podem ser seguidos. a luta dos negros no Brasil. por sua vez. Alencar. 26-A. cação Nacional (LDB) foram acrescidos os seguintes africana. 2009. econômica e política pertinentes à História Embora os autores divirjam. a publicação Bandeira.394. Cavalcante (2003. mas também outras moda- Artística e de Literatura e História Brasileiras (BRASIL. ensino de Literatura.639. de detalhes que os autores africanos oferecem com a lizam que “o interesse do público e de estudantes bra. Literatura cabo-verdiana. de escritores africanos. na de outras artes (pintura. em muito se asseme- e 79-B:Art. Letras da UEL e professora de Literatura Literatura brasileira. 26-A Nos estabelecimentos de ensino fundamental dade do ensino de cultura africana e afro-brasileira nas Além desse autor. ros. deparamo-nos com a dificuldade de proporcio. e mesmo do poeta português Luís de Camões. o que se observa. Nesse aspecto. enseñanza de Literatura. há rios podem ser abordados. Luandino” (CEREJA. com os do escritor mineiro. 26-A. de modo a ampliar o conhecimento 2003). é que as Literaturas Afri. 9). acredita-se que o de. dos Africanos. ao se considerar que há re- canas Lusófonas ainda não são uma realidade nas salas sistência para o efetivo ensino das literaturas africanas A Lei n° 10. ou ainda. nacional. linguagem e temática. ou seja. Literatura Brasileira também pela UEL. 1o A Lei no 9. de aula do país. De acordo linguística. Palabras-clave: Literatura angolana. que. Aluna do Programa de Pós-Graduação em Palavras chave: Literatura angolana. possibilidades de análisis de poemas de poetas de Angola (Viriato da Cruz y Antonio abordagem das literaturas africanas de língua portuguesa em sala Jacinto) y de Cabo Verde (Jorge Barbosa y Ovídio Martins). de 9 de janeiro de 2003. Art. minho para a aula de literatura. Exemplo pode ser dado com a Art. que estabeleceu a obrigatorie. de 20 de ensino. 1o A Lei no 9. de 20 de dezembro de 1996. A partir da reformulação da Lei n°9. Machado (2010. COCHAR. por meio da leitura e análise de RESUMEN Este estudo tiene por objetivo presentar. deve ser inserido somente a partir de uma perspectiva sino das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa histórica? INTRODUÇÃO em sala de aula. é preciso atentar-se para a riqueza artigos. UNIFIL e de Literatura Brasileira do Ensi- no Médio do Colégio Londrinense. 151) enfatiza ainda que ela leva “à descoberta do ca- áreas social. conforme se lê abaixo: Por outro lado. dezembro de 1996. poeta angolano. p. Cereja e Cochar (2009. oficiais e particulares.639.394.394. assim. os motivos para o aumento desse interesse se lha a Guimarães Rosa. posibi- Claudia Vanessa de aula. a proposta visava à inserção do en. 8 anos A resposta para tais questionamentos ainda não depois da publicação da Lei. pues. rica em neologismos. Literatura cabo-verdiana. suscitar uma discussão que valorize lidades de enfoque de las literaturas africanas de lengua portuguesa Bergamini o processo de estudo e de inserção em sala de aula das literaturas em sala de clase. como por exemplo.

mas aqueles que são considerados pela crítica os cultura negra. torno de Luanda e das localidades próximas” (CHAVES posições poéticas. 2000. 6). a esses objetivos do movimento outros. denunciar a dramática exis. romance cujo enredo “incor. cuja poesia se preocupa em revelar “as situações com movimento “Vamos descobrir Angola”. seja pelo isolamento da ilha ram a primeira fase do Modernismo no Brasil. a epopeia COCHAR. 2009. Na plantaram os alicerces da nova poesia cabo-verdiana. momento em que a “literatura brasileira. Jacinto. para entrar em consonância com a lei e aos movimentos literários dos quais eles participa. p. suas gentes e seus problemas. pora marcas do momento em que o desenvolvimento africanas de língua portuguesa que excedam as fron- Num segundo momento. O primeiro deles se refere à sua prática como pro- autor fale em relação à América. está inserido Jorge Barbosa. p. ser exposta aos alunos de modo ram. visto que Cabo Verde só se tornou independente cobrir Angola em seus diferentes aspectos. a partir de 1936. quanto os angolanos iniciaram. EM SALA DE AULA modificada por conta da influência. como referência os poemas: ‘Carta de um contratado’. foi realizada a análise dos po. a falta de esperança no dia de amanhã. p. observa-se que ela “também reflete a influência movimentos de que participaram. a literatura ocidental dentro da perspectiva imperialista. determinante histórico tem relevância suficiente para Ainda é possível aludir aos aspectos da oralidade. romper com o tradicionalismo cultural imposto pelo Sabe-se que os países colonizados tiveram sua cultura foram combatidos pela geração posterior. Jubiabá e Mar Morto. poeta angolano. política e cultural à opressão em que viviam” (CEREJA. um mote de siderar a realidade da sociedade dependente do coloni. Assim. ‘Antievasão’. africanas de língua portuguesa. porém. qual se configura como identidade cultural em África. seus dialetos ou mesmo outras línguas. na literatura que se formou nos que versa sobre o mundo que rodeia o homem cabo. 15). Cenário que mu. mesmo caminho foi seguido pelos escritores de países “olhos fixos nos clássicos europeus”. possam expressar a subjetividade dos sujeitos que as finais deste estudo. de Queiroz e de Marques Rebelo” (FONSECA. fase do modernismo: Menino de Engenho e Banguê. padrões ocorre de modo letárgico. propostas pedagógicas Desse modo. já chamava a atenção nismo dos claridosos. já que é possível que o professor permita. autor de O aqui já mencionada. problematizar para quem a literatura era uma forma de resistência processo embrionário da literatura brasileira passou Fonseca (2010. que estes possam ter uma compreensão das literaturas dos países a que pertencem os autores selecionados. Soma-se a essas (BONNICI. 286). que destaca o fato de os poetas e indagar a vida nas ilhas. cultural cessária para se conseguir a “descolonização da cultura” a oferecer ao leitor parte dessa cultura. e refletir sobre a “função da Diante das reflexões aqui tecidas. conhecer profundamente o mundo angola. 10). de modo que e seu clima inóspito. entende-se que essa primeira foram feitas considerações acerca dos autores trazendo a realidade que cercava a ilha para os textos precursores da literatura angolana situam-se no séc. p. principalmente os romances neo-realistas da segunda ‘Antievasão’ de Ovídio Martins. acredita-se que tanto os poetas cabo- portuguesa. os ‘claridosos’. de modo que a literatura e a história poéticos abordados. posteriormente. p. UMA RIQUEZA CULTURAL ca (2010) os poetas da geração da revista Claridade). seguem as considerações tação que pudesse indicar algo diferente dos critérios 1999 apud FONSECA. canônicos ou políticos”. faz-se necessário comparti- para o fato de reinar. literários e deixando para trás a poesia que se fazia a XX. que também colaborou na revis. pois como se sabe. sobretudo ao aluno mais os laços do poder conquistador”. Segredo da Morta (1935). Antes de iniciar a análise. é na verdade. 26). o primeiro construído pelos portugueses. 1922 e as discussões em torno da nacionalidade exer- ção da literatura brasileira e na formação das literaturas (SANTIAGO. Bonnici (2000. Este brasileiros. bramento e uma descoberta instigante para os autores e estético” (FONSECA. mas não aponta soluções para os problemas conteúdos escolares aos quais tiveram acesso. uma discussão ne- as quais muitas vezes estão presentes nas composições. nos mentiras colonialistas no continente inteiro” (BONNI- angolano Viriato da Cruz. o elemento híbrido e. 19). e a poesia de Manuel Bandeira foram um alum. os ideais que sustenta- de textos. de Jorge Em relação à formação da literatura angolana. tomando Nesse contexto. não se pode deixar ao abordar em sala de aula poemas de autores africanos Esse elemento híbrido é entendido como as marcas do composições literárias a identidade cabo-verdiana e a de comentar as semelhanças dele com a Semana de Arte lusófonos como possibilidade de trabalho com crianças 78 79 . pois ao contexto dos países africanos de língua portuguesa. países do continente africano. p. entende-se que a partir da abordagem colonizador na produção cultural do colonizado. pois abordam os recursos emas mencionados. e a idiossincrasia do homem isleno e reafirmar Cabo Sérgio Paulo Adolfo (S/D. consequentemente.” pois embora se mencione aqui as literaturas de língua de José Lins do Rego. e ‘Namoro’. visa a discutir as possibilidades de abordagem de textos contra o colonizador. 26). 2010 p. elencados por POEMAS DE AUTORES PRÓXIMAS E DISTANTES Embora importante para a configuração de um Fonseca (2010. pelo diálogo constante com a literatura europeia e o cabo-verdianos terem. É o caso de Antonio de Assis Júnior. a ruptura com esses O nome do movimento que se inicia em 1948. -la. p. e romances de Graciliano Ramos. p. 2000. tência das populações. Eis o momento de iniciar um discurso características a influência da tradição da oralidade. cujo intuito era Papel este que é a alavanca para o entendimen- de Antonio Jacinto. Tais características podem ser visualizadas no poema fluxo histórico: a dominação colonial portuguesa. da qual fez colonialismo. a geração de jornalistas-escrito. poeta cabo-verdiano. seja pela constituição histórica do “as propostas estéticas do Modernismo brasileiro de do ensino médio. debruçar-se sobre Angola e sua cultura. pois é preciso con. escrever. mas também o papel da literatura nacional para o povo da literatura africana de língua portuguesa. 14). “falar. tomaram como modelo os autores Claridade. teraturas angolana e brasileira nascem sob o mesmo in- escritores europeus. de antecedentes e precursores de caráter social. como nomeou Fonse. dentro dos na linguagem. 37) e o nativo precisa ratificar que há uma Para tanto. diferindo o país de outros Moderna e. sociológicos e culturais presentes nas com- que podem auxiliar o aluno à compreensão dos textos potência imperial não permitiam qualquer manifes. Jorge Barbosa. ta Claridade. 1978. 2). 2010. cada país lusófono tem suas especificidades Amado. embora o -verdiano. Do panorama literário cultural e que o “intelectual nativo deve lutar contra as do poeta cabo-verdiano. nos quais a intertextualidade se faz presente. 2010. p. de que diariamente se defronta o cabo-verdiano: a fome. p. cunho político-cultural que incitava os jovens a des- zador. essas marcas aparecem para “estreitar países africanos lusófonos. XIX. estende-se a reflexão que o cerca. serão destacadas. Em problemática que a envolve. Somam-se ANGOLA E CABO VERDE: de Portugal em 1975. as secas. A nova geração conseguiu ir além e trazer para as Ao observar este movimento. fessora de Literatura nos níveis médio e superior. Assim. Os participantes da geração da revista Claridade anos 80 do séc. no período pós-colonização. no de que eles faziam parte mas que não figurara nos lhar os motivos que levaram a pesquisadora a elaborá- países colonizados. significa: falar contra. 14) destaca que essa escrita di. atentar para as aspirações imposição da cultura do colonizador. 02) assinala que “as li- africanos de língua portuguesa. da parte Ovídio Martins. Este em especial era contrário ao evasio. pode ser destacado. que antecede ao movimento. mostrar a intimidade. algumas vezes. 2010 p. ceram forte influência sobre os escritores angolanos. p. a destacar quais traços culturais a diferenciava de outros to de que um povo colonizado necessita de libertação Ovídio Martins. identificar as semelhanças na forma. 13). s/d. que. destacando elementos da formação da literatura partir das normas temáticas eurocêntricas. o As ideias de Santiago se confirmam no estudo de ções posteriores à Claridade representar. empreendermos estudos comparativos entre as duas. com o lançamento da revista Verde como região única (CARVALHO. Por fim. poeta Viriato da Cruz e Antonio Jacinto fizeram parte do colonizado” (BONNICI. Vão além. elaboram. populares. por conta do lirismo intimista sociedade. além de dou. ‘Você: Brasil’. AFRICANOS LUSÓFONOS: DO BRASIL novo cenário. 3). teiras da história. de Raquel contexto em que se inserem Viriato da Cruz e Antonio -verdianos. cultura precisa. dividiu-se o estudo em três etapas. recionada pelos valores eurocêntricos estava atrelada sócio-econômico provoca fortes mudanças culturais. do e seus efeitos devastadores” (FONSECA. fortalecendo as relações entre literatura e em artigo publicado em 1978. Nota-se que era comum aos participantes das gera. Silviano Santiago. 2000. res. de modo a enfatizar os aspectos à “manutenção da ordem e as restrições impostas pela mexendo no cotidiano daquelas populações fixadas em estilísticos. Da mesma forma. escrever contra” país. o presente artigo cabo-verdianos. ou melhor dizer. estes. “Vamos descobrir Angola”. CI. miséria. p.

linguagem dos poemas. o relacionamento. das literaturas de língua portuguesa produzidas nos As comparações da beleza da moça com a na. E como a mistura às atitudes do eu-lírico que. dos quais. marca de intertextualidade com Camões. de pronto. observa-se que rém. o aluno conheça a diversidade da linguagem de Ango. destacam-se as palavras como: sumaúma. o eu-lírico se Do mesmo modo. evoca estas origens e justifica o paralelismo melódico de Mia Couto como leitura obrigatória ao vestibular da Na primeira estrofe e na segunda. Nota-se que eu-lírico. da natureza africana. o sincretismo religioso. de nascimento. em dense ou europeu tende a ser rejeitado. ritmo que se ba. Assim. porque esta foi feita no terreiro de can. mas o feitiço falha. pois se o Brasil é um país com pre.. com versos polimétricos e bran. domblé à Iansã. também do quimbondo. uma condição sine qua non para a inserção do estudo maboque. num segundo momento. é ‘Carta de um contratado’. Mas esse recurso também América. Camões iniciou o segundo quarteto com: “É um não o gênero permite que sejam discutidos recursos estilís. num contexto em namorado e lhe dá um não como resposta. ro sendo proibida pelo padre de pagar uma promessa à do Século XV. visto que procurar a quimbanda faz parte de údo do poema nos conduz a um pseudo-romantismo que uma criança optou por praticar judô e não ballet. podem-se extrair signi- (maio/2006). O poema está Gomes. Universidade Estadual de Londrina (2011/2012) gerou vale dos conhecimentos ocidentais para escrever uma plícito o sincretismo religioso em seus romances ‘Ca- interesse dos alunos das segundas e terceiras séries. nomeadamente ao Brasil onde o samba ainda Em relação ao Ensino Médio. blica de Angola: vez. também de um poeta angolano. Chama-se atenção aqui para linguísticos./ Seus seios. laranjas . referindo-se. pitães de Areia’ e ‘A morte e a morte de Quincas Berro A partir da análise do poema. por sua mente curto. o eu-lírico decide presentear a remunerados e não escravizados. Entende-se então que o encontro do eu-lírico com não sejam “cópia. cartão: “Mandei-lhe um cartão/que o amigo Maninho o quarto é o mais forte. acredita-se que essa seja doçuras do corpo rijo/ tão rijo e tão doce . propostas pedagógicas dos Ensinos Fundamental I e II. sobretudo na disciplina de Literatura Infanto. de Dias música e a dança de Angola enriqueceram-se em pe- mo ser a religião imposta pelo colonizador e. recorre à Santa para a América. Angola chegou por meio dos escravos moçambicanos nhece o saber acadêmico (escrita) e. gentes. como colar. Em- A especialista em Literatura cabo-verdiana. artísticos e culturais podem ser abordados. infelizmente. à fé cristã. embora seu problema. é compacta. la. de namoros’. o eu-lírico tipografa seu sofrimento em um seia em quatro tempos em cada compasso. Na primeira estrofe do poema. como nos quais o amor e a natureza estejam presentes. É exatamente tem da África” e. o vocabulário. culiaridade e força capazes de induzir. fruto é odorífico e ácido. 1978. a sua influência a outras terras e outras dominação. pois Na terceira estrofe. a religião e a língua são as principais formas de dividido em 9 estrofes. tampouco se deseja adotar uma postura preconceituosa quanto ao cristianismo. lógicos. ela disse que sim. modo a despir-se de qualquer preconceito religioso. recorrendo a recursos tecno. Essa medida aconte- ainda estão enraizados na cultura brasileira os ideais em países quentes. típica fi. Jorge Amado deixa muito ex. minoso tão quente e gaiato/ como o sol de Novembro comuns às culturas brasileira e angolana podem ser bora em uma primeira leitura o poema se apresente ma Lima. Po. Tais exemplos servem para reforçar a ideia Viriato da Cruz não oculta. tada do mesmo modo que a casca do maboque é difícil sem em um baile. seguiram trabalhando visível a incorporação de aspectos culturais orientais refere-se ao fruto do maboqueiro. encontra-se uma Tecidas tais considerações. cuja casca é dura. o eu-lírico quer darilho. revela que o ritmo musical semelhante ao original” (SANTIAGO. para que ela lance um no emprego desses recursos que elementos históricos. ele virou um mono-gamba. querer mais que bem querer”. as palavras do quimbundo permitem que e que no fundo o que se tem é uma forte crítica social. eram jovens ‘pisando em ovos’ ao se mente poética compara a beleza da moça aos elementos d’ Água’. e difícil de ser conquis. como se vê em: “um sorrir lu. elementos deixadas pelo colonizador. Antonio Jacinto dita-se que levar poemas para a sala de aula é uma pos. Os homens. cujo conteúdo confirma as duas possibilidades de Santa Bárbara. Deseja-se somente compartilhar consi- O desespero o faz procurar Zefa do Sete. pois o quimbundo é uma língua falada em Angola. É o caso de ‘O Pagador de Promessas’. por que a ‘força’ do judô e não a leveza do ‘ballet’. 80 81 . cos. como também uma metáfora para questão. com a abolição da escravatura em Angola. Nota-se como a fé do colonizador aqui se a jovem. de ser retirada. estão disponíveis os livros Ifigênia e à Senhora do Cabo. possibilita-se que o aluno se angolana (Zefa do Sete) como às santas católicas. mantes da África do Sul com a falsa ideia de que seriam O aprendizado que se pode extrair da situação é que se refere a uma árvore nativa da África. tureza remetem aos poemas e a trechos de romances gem está no quimbundo. que além de outras línguas e dialetos.lírico recorre à quimbanda. moro seria tanto o namoro em seu sentido denotativo. ou africanos à cultura brasileira. Pode-se religiosa do país. vida e morte. por isso. românticos. aqui mencionar obras brasileiras em que se tem essa Intimamente ligadas ao quotidiano das populações. ao som de uma rumba e no meio ‘Amor é fogo que arde sem se ver’.como o uma feiticeira ou curandeira. Referência esta que. ele chegou até dores. acolchoamento. eu-lírico. O título do poema faz referência aos contratados. te. no soneto poema ‘Namoro’. broche. como escravos. Não se deseja aqui promover qualquer discussão de cunho re- mais ela disse que não. o que se via. A linguagem alta. nas referências. países lusófonos africanos.. iniciação. em entrevista à jornalista Juliane Rettich brincando/ de artista nas acácias floridas” ou em: “sua visualizados. inicia-se a análise do dizer que a moça é perfumada. a herança religiosa africana será ficados mais profundos dos recursos empregados pelo os estereótipos ou essa leitura preconceituosa que se jambo/cheirando a rosas/ sua pele macia guardava as valorizada. 16). eu-lírico se concretiza com a dança. Nota-se que o desejo do escreveu: “deste mais que bem querer que sinto”. sendo com densa significação. a fim de conquistar a amada. existente. a dominância cristã. Ade. torna-se derações que surgiram a partir de situações vivenciadas em sala gura da sociedade angolana. Embora os dicionários expli. Nessa estrofe. já que o eu . homens angolanos que iam trabalhar nas minas de dia- se só o segundo pudesse ser digno de ser praticado. à medida que se lê. vale-se de um modelo de literatura portuguesa 1. Nesse sentido. destaca que se preocupa em “minimizar pele macia – era sumaúma/ Sua pele macia. quis o destino que os dois se encontras. da cor do Na quinta estrofe. traço carac. logo a partir sabe. já revela a influência do colonizador na formação O título ‘Namoro’ sugere duas interpretações: na. depare em um único poema com um texto razoavel. o também do quimbundo que pode ser traduzida por an. drama no qual se tem a personagem Zé do Bur. pueril. pois quimbanda é uma palavra. a inserção do livro interpretação para o título. no entanto. Nota-se que. houve. falhou. espécie de ‘arrumadeira que passavam por lá. embora seja Outra palavra é maboque. uma ticos formais e histórico-culturais do texto. mais. terístico de países colonizados. de onde se extrai óleo e paina para amada com presentes comuns às mulheres do Ociden. em sua poesia. Porém. do modelo original que copia e permite que seus versos 2. o continente americano por meio dos escravos. efetivamente. Já sibilidade única que não pode ser menosprezada. em geral. ministrada para o curso de Pedagogia. a mostrar que o poeta co- ligioso. Na cultura angolana. recorre tanto à mulher típica da cultura dança e a música são associadas aos ritos de fertilidade. p. Ao final do estudo. embora o poeta critique os coloniza- tipografou:/ ‘Por ti sofre o meu coração’” e uma vez quem que o ritmo é originário de Cuba. a rejeição. Acre. Desiludido. simulacro que se quer mais e mais de onde foram extraídos os poemas aqui analisados. Conforme destaca que a primeira reação do grupo foi a referência negati. o que não é estaduni. anel. querendo resolver africano aproxima as pessoas. mas com múltiplos sentidos. está presente. O segundo poema. no site do Consulado Geral da Repú- va às religiões africanas1. mas mesmo assim ela não o aceita como cussão que se pode suscitar para legitimar a atitude do romântico. carta à amada. De tom O outro motivo foi a indagação feita à pesquisa.laranjas do Loje. E. observa-se que o conte- dora sobre um determinado esporte. Em para compor seus versos. palavra 1856. tampouco as rejeita. Ademais. mas comum Já quase sem forças. sobretudo do Romantismo. Edgar do Xavier.” feitiço. por meio da rumba. nesse caso. as marcas depararem com a problemática trazida pelo romance. de que o poema é denso e. de Antonio Jacinto. Nor. do angolano Viriato da Cruz2. é possível aqui oferecer ao aluno uma comparação a sua crença. a fim de conquistá-la. a partir dele. da dança. Imediatamente a mãe da garota foi questionada sobre partir de outros poemas. ceu quando foi barrada a saída de navios negreiros à eurocêntricos. cuja ori. aguardando a saída dos navios a ‘voz’ do subjugado. Jacinto consegue fugir de aula. Além de recorrer a ela. isso se deve ao fato de o cristianis. -juvenil. além da própria dis. como se ilustrar o relacionamento entre culturas.

Viriato da Cruz brinca com o hibridismo reza como o maboque (já comentado). pria. cabelos negros como as asas da graúna ‘Antievasão’ vem denunciar a vida difícil das ilhas que e buscar uma nova realidade. e o sorriso mais doce que a jati. quando o eu-lírico cabo-verdiano e propror não fugir. 2010. cria-se a comparação entre os dois países. p. textos como ‘vozes’ de muitos que. À medida que o poeta cabo-verdiano compreen. já independente de apresenta como o colonizado. Segundo anti. Daí a Os dois países tiveram sua história feita a partir da Daí se iniciam as proximidades com os países afri- crítica de Jacinto. O Brasil. e macon. dando os recursos da linguagem. em Cabo Verde. ou do Ovídio se insere na realidade cabo-verdiana. imposição do colonizador. é preciso pela moça. literários? Por que ser- reticências no verso final de cada estrofe demonstra a bo-verdiano. guesa e. na pele e no sangue de tantos brasileiros a escravidão e da inserção da escola em Angola. mas não fugirá. uma cultura e uma literatura que já nada tinham a ra. realidade é enfrentá-la e transformá-la. que brasileiros e cabo-verdianos sejam um só povo. Conclui-se que melhor que fugir da ceu oportunidades. somos postos em comparação desvencilhar-se dele. desven. bem como a relação de identidade dos Como sentiam a necessidade de ser livres como os no poema de Jorge Barbosa? Essas questões são impor- O poeta faz sua crítica na última estrofe. 84). do país. dilôa. possuem um povo terno e alegre. vie- CONSIDERAÇÕES FINAIS e revestir o aluno de entendimento para que receba os sala de aula podem partir da intertextualidade. E essas vozes. como se não pudesse seu país ao Brasil. e destaca as dificuldades de se viver ocultar a cultura de um povo. no poema de Ovídio equivale à fuga da re. e ainda que se valha quimbondo takula. falam a língua brasileira’ do povo estão presentes nos versos de ‘Você: “somos um povo habituado à prática de convivência em que Angola impediu a partida de navios negreiros e do colonizador. prefere ficar ali e lutar. sociais. literatura que fugisse dos ideais eurocêntricos. cujos sentimentos são como fez José de Alencar na descrição de Iracema. domínio de Portugal. embora com contextos diferentes. à corrida rumo a um ra produzida em países colonizados. árvore de onde se extrai uma tinta lhor que deixar a ilha. a mostrar que é possível ficar doces como mel. elevam-se as dife. Assim. que não lhe ofere- virgem dos lábios de mel. Jacinto usa sempre elementos da natu. cor escura. Jorge Barbosa permite a reflexão sobre: o que é Todo o lirismo do poema pode ser verificado na dá a solução para eles: expor a intimidade do homem ximidades linguísticas. como um irmão mais velho que se cultural de que Angola é formada. E conclui. outro poeta cabo-verdiano. crição do Recife de sua infância. da mesma forma para Manuel Bandeira. ver com as portuguesas (OLIVEIRA. não serve para conseguiu deixar de lado os elementos que permitem história. Ainda se nota no poema de Jacinto a mistura nota-se que o emprego do Futuro do Presente já mos- de traços de outros autores. negros e brancos criar receitas para a sala de aula. lugar de ter belas mulheres. compar- vermelhos como tacula/dos teus cabelos negros como Os versos livres e curtos mostram a urgência do Para Oliveira (2010 p. quarta e quinta estrofes. o primeiro movimento que se deve já que este imagina ser o poema uma história de amor. formaram-se a partir da miscigenação. é na rumba. Portanto. alidade. fazer é retirar qualquer sentimento de superioridade As possibilidades de abordagem deste poema em dando forma a uma nova raça. seios duros como maboque”. não textos são ricos. sobreviveu! E assim. amizades deu o processo de formação da cultura brasileira. brasileira’ (BERGAMINI. tem-se no título o prefixo (1978). da língua. escola. além da afinidade entre os Antonio Jacinto se mostra um antirromântico e se para descrever a beleza da mulher. antes de se iniciar a abordagem das lite- pensamento. ele compara dominação deixadas por estes já são suficientes para vimos de modelo aos países africanos de língua portu- continuidade desse pensamento. Manuel Bandeira. No Brasil. seja dos próprios portugue. mas Dessa forma. adolescente. por muitos anos. Não para se fazer cumprir a lei. portugueses) e índios convivendo. mistura de povos. seja pela influência lugar que não seja a realidade em que ele está inserido. o eu-lírico se Santiago (1978). Oswald de Andrade e raturas africanas lusófonas em sala de aula. é enfrentar tinha oposto e que se tinha revoltado contra o jugo colo. como a própria questão da deram origem ao que podemos chamar hoje de ‘nação viabilidade dos textos de literatura africana de língua e cultural. na vida social que perpassam o poema. Daí o tom irônico de ‘Carta de um Nesse caso. propostas pedagógicas A ideia de seguir a Europa como modelo para a Tomando a composição do poeta cabo-verdiano produção de literatura é discutida por Silviano Santiago Ovídio Martins. ‘Antievasão’. e suas imagens do cotidiano e a des. intelectuais e escritores. ser terra livre da a sua? Por que brasileiros e africanos compartilham dos mentos que passou junto com sua amada. como já mencionado anteriormente. época porque os dois são frutos da colonização. 2007). valorizando a ‘língua compreender e passar a mensagem aos alunos de que É preciso destacar que durante o século XIX. justamente por. um devaneio para expor os sentimentos renças da natureza e das grandes cidades brasileiras e. nial e que agora procurava construir um percurso como que o namoro acontece. poema que se configura como o ponto de iden. uma vez que as marcas da mesmos traços culturais. geográficas e literárias. apud SILVA et all. lutar e modificar a também reforça as proximidades ideológicas. vermelha usada em rituais femininos de puberdade. Portugal. ainda que te. seja por conta do sofrimento causado pela ‘irmão mais velho’ elementos para a construção de uma muitas discussões sejam levantadas. pois Cabo uma nação ou identificar-se com outra nação sem ser mostra o sofrimento que sente ao se lembrar dos mo. índios. nutridos pelo ódio do colonizador. Brasil’. Mas As considerações aqui tecidas não têm por objetivo merecem ser ouvidos. construir essa oposição. encontraram na literatura produzida pelo tantes para a formação dos estudantes e permitem que o analfabetismo dos contratados. tra um ser preparado para o que surgir. com a diferença. não havia escola para as crianças e jovens negros. a tacula. to forte entre as duas realidades com tantas afinidades a partir de um processo de colonização. a realizações. pois me. Jorge Barbosa. Por serem as questões preciosas à formação do que foi expresso anteriormente fosse tudo parte de um Nos versos de Jorge Barbosa. Pasárgada é o lugar de prazeres. alienação. para se referir aos cabelos. seu desprendimento com a língua. ritmo híbrido. o eu-lírico deseja pedir. países que. que buscam ser ou- uma discussão acerca de elementos históricos e sociais forte. o elemento híbrido impera na literatu. Ovídio Martins é contrário à Pasárgada de Bandei- gue. seja por conta brasileiros. do o acesso à leitura e à escrita. a os problemas e juntos buscar a sobrevivência. bem como promover sendo sua cultura quase sufocada pela do branco. realidade. O uso das Por fim. tem-se o poema ‘Você: Brasil’. Nos versos: “dos teus lábios o eu-lírico deste poema. como se o natureza inóspita do Nordeste brasileiro. suplicar. O poema de era visto pelos países africanos. do poeta ca. com uma identidade pró. seja pelo aniquilamento da cultura primitiva Antes. Alencar também descreveu Iracema com lábios que ele apontava os problemas sem propor solução. aos quais era veta. porém. Assim. tivemos canos. Desejou-se discutir a vidas. cultura e conhecem os problemas de outros lher como a índia Iracema. 2011). trazem indícios de que na história. que vem quebrar a expectativa do leitor. apresenta como contrário à fuga. brancos (sobretudo. o poema não vem só acentuar as pro. Não mostra os problemas. nos quais os alunos se deparam com Na segunda estrofe. Verde deseja ser livre como o Brasil. como os brasileiros. lugar de regalias. mas não foge da intertextualidade com o autor para amada. fruto de sabor doce para caracterizar os lábios da Barbosa. o qual remete a contrário. ram os africanos. A Pasárgada de Bandeira. Assim. Um tempo depois. ainda assim. Somos um povo crioulo” (SANTILLI começou a enviar os contratados às minas de diamante. cultural. portuguesa e a necessidade de que sejam abordados na história de muitos africanos se repete. 82 83 . mas porque são ses (colonizadores) ou até mesmo de autores brasileiros. dos recursos do colonizador. Nesse poema. Considerando que Ovídio fez oposição a Jorge nação livre e independente. enquanto geográficas e ambientais”. percebe-se a descrição da mu. 84). tificação do eu-lírico com o povo brasileiro. há “uma ligação mui. que ainda estavam sob o contratado’. tilham da mesma realidade brasileira: foram formados dilôa/dos teus olhos doces como macongue/dos teus eu-lírico em gritar que não deseja fugir. como muitos fizeram. compõem Cabo Verde. infelizmente trazidos como escravos. com o rei. por conta disso. ao relatar cabo-verdianos com o povo brasileiro. o poeta se vale da natureza nha que matar. como identidade? O que faz um homem sentir-se parte de terceira.

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We should also show the experi- ences from the project LEAFRO – Laboratório de Cultura e Estudos Afro-brasileiros: diálogos para o reconhecimento e a valorização da História e Cultura Afro-brasileira no Paraná (Londrina e Jacarez- inho).consuladodeangola. Psychosocial effects of racism. Acesso em 10 de janeiro de 2011.pt/comparada/VolumeI/EXISTE%20O%20 OLIVEIRA. maio de 2007. O principio de justiça se SETI/PR. Racismo. Universidade de São Paulo. Semestral. Depto. 2009. Dispnível em: http://www. Érica. Juliana. Antonio. política da comunidade negra e de estudantes da Universidade em 20 de dezembro de 2010. 1. Disponível em: http://www. Silviano. In the Brazilian social structure. 20.br/semioses/pdf/n7/n7_art_04. Canoas: Editora da Ulbra. Acesso em 10 de outubro de 2010. Therefore.pucrs.com/2007/10/20/antonio. Moreover. Luís Filipe da Sousa Martins Torres de. Londrina (Norte do Paraná). O Entre-Lugar do Discurso La.pdf.639. Museu de Antropologia. Literatura africana em sala de aula: abordagens do insólito no romance A possível: As cotas Márcia Figueiredo ADOLFO. Artigo de Opinião. ção negra tem um lugar determinado. Arte e Ciência. racism against Black people in- FONSECA. v.). parados de Literaturas de Língua Portuguesa da cotas.pdf Acesso em: 15 de janeiro de fosso das desigualdades raciais e sociais. teórica e metodológica consistia colaborar com a implementação da Lei 10. vinculado à Aceso em 18 de janeiro de 2011. ANTUNES. Consulado Geral da República black people has a determined place. Drª. Porto BERGAMINI. Palavras chave: Educação antirracista. 2007. CEREJA.pt/pos. the quotes system maintenance. Disponível In educational area is noticed the need for actions that aims ap- pucminas. Literatura Portuguesa: em Maria Aparecida Santilli e o Prof. Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo. Moema. zalangola. In: SOUZA. (Uma perspectiva da produção literária dos poetas tino-americano. tura. 1.htm vel em: http://www. 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Vol. esse segmento necessita de ações objetivas educação plural (NEAA/UEL). Na África e Afro-brasileiras: vetores de uma Rebeldia e Sensualidade no Suplemento Cultural SANTIAGO.wordpress. 84-87. we shall try to JACINTO. Rio de Janeiro. O pós-colonialismo e a literatura: Acesos em 15 de janeiro de 2011. De maio a dezem- bro de 2010 integrou a equipe de profis- Comparada. Viriato Clemente da. thus the way it is happening in Londrina africopoetica.ul. Ressaltamos a importância da luta graduados/teoria_literatura/CarvalhoL1.com/lit0208. Benjamin diálogo com outras literaturas de língua portuguesa. Brasil e Cabo Verde: duas MUNDO%20QUE%20O%20PORTUGUES%20 margens do mesmo mar. Thereza Cochar Maga. In: SANTIAGO. EX/UEL. Sistema de lhães.br/jornais/jornal16/ Na estrutura social brasileira o racismo antinegro potencializa o e Estudos Afro-Brasileiros. in which the theory and methodology orientation consists in cooperate with the implementation of the Law 10.fflch.pdf. 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26. No Brasil. Nos institucional. mas também a permanência de destas ações é fundamental apontar que este processo Guerreiro Ramos (1915-1981) defendia a necessidade considerado como um espaço social que pode tanto uma estrutura enraizada em privilégios e interesses de fomentou uma série de debates. Embora os dados demonstrem determina- ABRINDO POSSIBILIDADES Abdias Nascimento. desde essa época.br/Durban_1. Discriminação Racial. já na década de 1930.331 cativos pautam-se na comparação dos dados de 1998 e tância de medidas objetivas para promover a valoriza. elementos sobre a trajetória percorrida pelas deman. entre outras medidas. quisas realizadas em 2008 pelo IBGE. na qual. 74% da po. MOS.1964). e a previsão de instrução para adul. que aconteceu no ano de 2001 as(os) não-negras(os). por conseguinte. cializadores do racismo e da discriminação. o movimento negro tinha clareza as mulheres e homens da sociedade. sua capacidade política e formar líderes esclarecidos. O comprometimento orientadas pelos princípios da justiça social são “um vezes. alguns projetos 2005. em 17 de fevereiro de 1854. Quando os indicativos são estratégias objetivas para suprimir as desigualdades saúde.) No Brasil. 2009. Diretoria de Pesqui- lizou em abril de 2011. Em 2008.. Disponível em: http://portal. o ambiente escolar pode ser abrir canais de acesso. e ainda não se aplicam.165) discriminatórias em decretos de lei que engendraram im. apontar alguns ção e posição aos elementos da massa de cor” ( RA. (BRASIL. entretanto.12. os indicativos sociais apresentados por direcionados a uma questão central quando se trata do [. Este texto foi publicado no VII SEPECH (Seminário de Pesquisas da população negra atuando em diversas áreas como na litera- em Ciências Humanas) promovido pelo Departamento de Letras e tura. a quantidade de negras e negros escravizadas(os) Nota-se neste estudo. companheiro de Alberto sem e se mantivessem nos bancos escolares4.7. E para essas Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. educacional. p. 184 – 200) 86 87 . Xenofobia e Dis. 2. a partir dessas políticas educacionais -negras(os) e no ensino superior. quando fazem parte da população negra brasileira. Um ano antes da abolição (1887) essa uma margem de 21.mec. em pequenos comércios. que pou.6% de aumento. O Coletivo Pró-Cotas: diversidade e permanência na UEL rea. não ter acesso aos saberes escolares. práticas educativas que se pretendem iguais para to. as diferenças são social antirracista. Em relação à distribuição de estudantes de 18 a não fazem parte de um debate recente. pré-vestibulares. p. a partir de políticas afirmativas. No bojo instrumentos de transformação. gras(os) e não-negras(os) acadêmicas(os) apresentou contra o Racismo. nos 6. Acesso em 23 de agosto de 2010. visto que estes indi- PARA UMA UEL DO POVO1 Guerreiro Ramos. criminações Correlatas2. Mas nos últimos dez anos.7% de negras(os) 14. é pos. algumas ações estão sendo en. disponível 5. que a quantidade de ne­ esfera internacional a partir da III Conferência Mundial era muito pequena. pulação negra era livre.htm. institutos de pesquisas indicam um quadro de desigual- racismo: a educação. Ministério do Planejamento. assume um caráter de ordem discriminatória é de cada uma das nações envolvidas era elaborar ações conjunto de ações políticas dirigidas à correção de de. foi aprovado o decreto de lei do mestrado e doutorado) tem-se em 1998 nos cursos racismo se inscrevem na sociedade nacional há pelo número 7.0% de negras(os) e 3. Rio de Janeiro. p. universidades públicas podem ser entendidas com um co se preocupou com medidas políticas objetivas para ceito. ção negra na educação tiveram suas primeiras expressões Em 2009 foram publicados os resultados de pes- que possam traduzir em formas ajustadas às tradições em meados do século XIX. dades em relação ao povo negro. Esta conferência contou 3. p. negras(os). Aprovado dos “avanços” ao longo de 10 anos.86.) Isto porque o discurso universal da igual.031-A que “estabelecia que os negros só pode. (ANDRADE. número seguinte inscrição: “Cotas sim! Por uma UEL do povo!”. desigualdade social e principalmente racial.1% de negras(os) ainda que de modo incipiente.8% de não-negras(os). permanência e continuidade no sistema educacional das de negras(os) e os compromissos assumidos pelo ser imperativo na ordem social: 2001.comitepaz. Neste período da história. que Partindo da premissa de que a educação pode ser e 31. 1957.7% de Este cenário propositivo que se instaura no país é reivindicavam correções contra as inúmeras formas de não-negras(os) e em 2008. pré-vestibulares. sigualdades motivadas por qualquer forma de precon. 2005. políticos de intervenção estavam sendo pensados como No campo educacional estas medidas são fun. em: www. pela mesma instituição. nos cursos ser ouvidas e respondidas pelo poder institucional. em diferentes espaços. na arquitetura. registrou nos muros do DCE a cias Sociais. no ensino superior. últimos anos. uma intervenção no Diretório Central dos parte das reflexões realizadas na pesquisa de mestrado em Ciên. Assim. Este au- em 15 de janeiro de 2009. A reivindicação por políticas reparatórias para a popu.. Ciências Humanas da Universidade Estadual de Londrina. Neste contexto. a resistência em pensar as cotas ra- gendradas. a fim de proporcionar um cacionais antirracistas. Ao O objetivo deste ensaio é. As Políticas de Ação Afirma. “estabelecia que nas escolas públicas do país não seriam 2008.uel. especificamente especificamente no ensino superior. foram criadas impossibilidades legais para sas Coordenação de População e Indicadores Sociais. 4.6% de não- menos quatrocentos anos. tos negros dependia da disponibilidade de professores”. 4) escravidão. nais da população negra. em serviços domésticos. As no ano de 1945. trabalho. declarava dos acabam sendo as mais discriminatórias”. no artesanato.2% de negras(os) e 9.br/. propostas pedagógicas com a participação de representantes dos Estados e de As políticas de ação afirmativa com recorte de raça Assim. Uma Análise das Condições de Vida da População Brasileira. “tratamento diferenciado com vistas a corrigir desvan. como movimentos pró-abolição.3% de não-negras(os). 24 anos nos cursos pré-vestibular e superior (incluin- políticas de mulheres e homens negras(os) contra o cial.2% de não- respostas vieram com a discussão e incorporação de apresentou propostas de políticas de ações afirmativas sível apreender. sileiro que. o ponto de partida para a construção de ações edu- objetivas para a desconstrução dos resultados das de. A este respeito. O sociólogo Alberto damentais uma vez que. do século XIX.] a inclusão de homens de cor nas listas de candida. integrativos de capilaridade social capazes de dar fun. as demandas como parte integrante na dinâmica da mobilidade so. sigualdades raciais e sociais”.Instituto 1. maiores: em 1998 eram 2.(BRASIL. p. na África do Sul. em todas as áreas da sociedade. de “instalarem-se na sociedade brasileira mecanismos transformar quanto criar e recriar mecanismos poten. alguns anos antes do fim oficial da de não-negras(os)6.5%. inspirou o subtítulo de nosso ensaio. quanto das relações sócio-culturais. Orçamento e Gestão . 4.7% de negras(os) algumas iniciativas políticas cuja finalidade é propor para a população negra. Fonte: http://www. ao passo que para 2.org.7% de negras(os) e 5. legitimou as práticas apontaram que no Brasil os cerceamentos aos acessos MOS. considerada base do desenvolvimento humano. não se aplicavam. mulheres e homens. ciais estimula não somente a relutância do Estado em ver justiça social à população negra brasileira. Pedro Henrique Andrade diz que: Em 6 de setembro de 1878. Desta for. 2008. (RA. (p. 2005.3% resultado das demandas internas da população negra e violência que a população negra sofria desde a escravi. 7. p. lema que tiva na Universidade Estadual de Londrina em 2009. pois “as tra negras(os) brasileiras(os) e silencia suas vozes. amparados pelo Estado bra. que os acessos ao campo educacional e 60. acessado porcentagem subiu para 90% da população total (HASENBALG. para todas referentes ao acesso de jovens com mais de 25 anos raciais e. estrutura social excludente e discriminatória”. Estudos e Estudantes (DCE/UEL). para promo. tanto do ponto de vista tagens e marginalizações criadas e mantidas por uma instrumento para contemplar as demandas educacio- inserir a população negra em sua estrutura social. o fosso da desigualdade racial prevalece. da população negra brasileira. as cotas em O Brasil é um país de herança escravocrata. 2. o decreto de lei número 1. dos compromissos assumidos pelo Estado brasileiro na dão3. educacionais e sociais ainda permanecem para as(os) POLÍTICA DE COTAS: possibilidades para que alunas(os) negras(os) frequentas.( GOMES. pois segundo o censo de 1872. das séries iniciais até o Estado brasileiro que resultaram em projetos políticos dade e de acesso à escolaridade desconsidera o fosso da ensino superior. 28. riam estudar no período noturno”5.) -negras(os).gov. a margem foi de 28. tos de agremiações partidárias. repensar a estrutura educacional que. vereiro de 2010. promover uma realidade ma.br/cne/ Acesso 2 em fe. problematizar estas questões relacionadas à inclusão. Pesquisas: Informação Demográfica e Socioeconômica. por INTRODUÇÃO organizações não governamentais. suas vozes passaram a lação negra iniciada com Abdias do Nascimento. uma elite racista que naturaliza a discriminação con- sobre o racismo como estrutural na realidade brasileira. 1957. Isto significa que havia um contingente significativo em Durban. cujos dados nacionais as reivindicações das massas de cor. a fim de desenvolver a Os meios utilizados para não contemplar a popula. em 1945 também ressaltava a impor. racismo e discriminação. em 1950. dentre outras. no I Congresso do Negro Brasileiro. quanto à problemática do racismo brasileiro. p. As práticas de promoção da igualdade racial no Brasil ção e o reconhecimento da população negra brasileira admitidos escravos. portanto. Mais adiante.174).

Ora por uma pers. e estadual de ensino de Londrina e Jacarezinho. ver a formação de professores e professoras e supervi- de 2001. Acerca deste assunto. (CAVALLEIRO. perce- Ministro da Justiça um texto “argumentativo” contra Não é objetivo fomentar a discriminação ao con. mas fundamentalmente tem como objeti- plados da mesma forma que as(os) jovens brancas(os). No fim. escolar. grupo é resgatar as discussões desenvolvidas em 2004.blogspot.com/ (www. as cotas raciais não contribuem para isso. de aprendizagem tanto da população negra quanto da História e Cultura Afro-Brasileiras e Africanas a serem O cotidiano escolar é pensado como um espaço em 7. (BRASIL. potencializando o racismo e o sofrimento desconstruir os privilégios de uma elite conservadora pop-up/integra_manifesto_contra_cotas. A Lei 10. graduandos de www. da História e Cultura Afro-brasileira no Paraná (Lon- Por outro lado. O objetivo da iniciativa era con- -cotistas que descaracterizam a objetividade desta polí. contra as(os) negras(os) não se colocam exclusivamen. tentativa de trazer a comunidade externa para a realidade fissionais das áreas de Psicologia e Sociologia. De fato. pelo LEAFRO com o corpo docente da rede municipal meios de comunicação em 2006 que objetivava levar ao contra o povo negro. de 1979. é fundamental Na atualidade. como debates internos da UEL e financiado pelo Programa Universidade Sem Fronteira/ Favor da Lei de Cotas e ao Estatuto da Promoção da Igualdade da dinâmica social. de família de baixa renda e tiver cursado escolas públi. pois as questões relacionadas à discriminação discriminação no cotidiano escolar. cotas raciais nas Universidades Federais de Santa Maria e São opressores de ontem não devem ser julgados pelos atos “a instituição escolar é vista como um espaço em que Carlos. Diante da publicação da Lei n. 3/2004. a cota cionais. os descendentes dos das identidades de crianças e da juventude negra. assumiram as políticas de ação branca. entre assimetrias entre a população de cor negra e a de cor 10. UEL (SETI-PR) de 2009 a 2010. 2005. que institui as Diretrizes Curriculares para a limites e possibilidades de atuação e fundamentalmente racista e democrática. em caráter provisório. branca que monopoliza os bancos acadêmicos. com as(os) estudantes da UEL. contendo cerca de 300 assinaturas. mas. ver em entrevista: Kabengele: “Con. Sobre leção ocorre entre os pares.639. E. Inserida na mesma proposta do princípio de justiça que a Lei e seus desdobramentos partiremos de um relato dor na elaboração dos parâmetros do sistema de cotas te na esfera das desigualdades de classes. A Lei visa tornar obrigatória a contemplação de des. orientar e promo- para promover a igualdade de oportunidades a partir ocultam uma realidade trágica e desviam as atenções ços de discussão sobre a reserva de vagas na Universi. que se processam formas complexas de (re)construção em 2009. A equipe é composta por pro- Racial em 2006. Este projeto é vinculado ao Departamento de Ciências Sociais no Brasil”. Para mais informações ver em http://coletivo. intervenções pela cidade de Lon. mas sim. Ciências Sociais e Letras sob a coordenação das Ciências Sociais -manifesto-a-favor-das-cotas. cerca de 64 universidades. desigualdades: “As cotas raciais exclusivas. Nesse momento hou. se pretende ficados como negros. com os quais se defronta a nação. sociais e educa. Percebe-se que os argumentos apresentados reve. cotas raciais não promovem a igualdade. 8-15) Sob a perspectiva de igualdade de oportunida. nência na UEL9. nem criar privilégios ou novos tipos de desi. no âmbito de sua jurisdição. do racismo no Brasil. denunciam gualdades entre negras(os) e brancas(os) nas práticas atividades propostos pela Lei.639/03 pretende ser um caminho para tribuir com a valorização da cultura negra em espaços tica com o argumento da inconstitucionalidade.adur-rj. mesmo se o cotas não foram pensadas na perspectiva de uma po. tendo em vista que a se. coletividades e instituições. mas sim como ação provisória direcio. brancas(os) e à luta por um ensino básico de qualidade. lho Nacional de Educação aprovou o Parecer CNE/CP e intervenção. 88 89 . 2005.19-20. pois. DE EXPERIÊNCIA promover a capacitação de professoras e professores clinação. te processo de rupturas das amarras pedagógicas que por uma perspectiva de “tribunais raciais”7 ou de in. com implicações nos processos Educação das Relações Étnico-Raciais e o Ensino de o caminho a ser traçado. na UnB (Universidade de Brasília). 9. seleção. que torna obrigatório no Ensino Fundamental LEAFRO – Laboratório de Cultura e Estudos Afro-bra- federais e estaduais. é importante ressaltar que este instrumento para candidatos de classe média arbitrariamente classi. p. mo que afeta indivíduos. primeiro provier de família de alta renda e tiver cursado lítica vitalícia. dos desafios imensos e das urgências. foi aprovada em 2003 a Lei das experiências do trabalho desenvolvido pelo projeto da UNB – em 2009. mas sim das as cotas no Ensino Superior. o importante é ressaltar que esta cadas. estudantes universitários e membros drina. avaliação pela via universal.br/5com/ cracia racial.com. isto é. que um candidato definido como branco. ensino. superior mais negra. as cêntrico idealizado como padrão. que Contudo. E por fim. As ações são 8. as cotas não a transformação a partir do reconhecimento das desi. procotasuel. entre outras. Segundo os autores: gualdades. Nas ações desenvolvidas Anti-Racistas Contra as Leis Raciais” divulgado pelos as desigualdades cristalizadas a mais de quatro séculos educacionais cotidianas. p. culo escolar. À PRÁTICA: UMA ANÁLISE De acordo com o parecer da Lei. da comunidade externa organizaram uma ação política da Universidade. mas sim promover uma educação antir.geledes.br/artigos-sobre-cotas/confira-a-integra-do. Segundo José Jorge de Carvalho – colabora. Após a III Conferência Mundial em Durban. pois podemos vislumbrar uma instituição de ensino discriminam e cerceiam qualquer possibilidade de in- constitucionalidades. Fonte http:// Em Londrina. sim. Esta expressão foi utilizada pelo cientista Demétrio Magnoli população branca.html definida como Coletivo Pró-Cotas: Diversidade e Perma. contudo. ser considerados atores sociais des- pectiva de mudança e igualdade de oportunidades. cas arruinadas. privilegiados como a escola por meio de conteúdos e estes discursos destaca-se manifesto dos “113 Cidadãos “produzem novas desigualdades”. portanto. (http://www. política desmascara o discurso arcaico da democracia proporcionam a um candidato definido como negro a Em 2011. É fundamental destacar o trabalho desenvolvido pelo Coletivo. Na contra mão deste manifesto. como apli. Uma das preocupações do sionar o cumprimento das Diretrizes. pois a(o) aluna(o) que tem acesso à academia Afro-Brasileiras e Africanas para promover a visibili. para caracterizar o processo de seleção para Os Condenados da Terra. na mídia.htm) LEI 10. Nos relatos extraídos compreendemos os programa ProUni8. quanto nas ações des sociais. o sistema concede um privilégio vo denunciar a fragilidade da sociedade brasileira. como subsidio para discutir as práticas do racismo e da plementação desta política nas instituições de ensino tórica. mas apenas ve grande mobilização da população afrodescendente podem. esta política será avaliada e haverá uma olhares capazes de ultrapassar os limites do viés euro- racial e traz no seu bojo a problematização da existência oportunidade de ingresso por menor número de pontos votação para decidir se continua ou não. de seus antepassados mas devem responsabilizar-se vido o geógrafo Demétrio Magnoli a ler o que escrevi sobre o negro que busca colocar na agenda de discussões a estrutura do racis- moral e politicamente pela reprodução das ações discri. nas falas dos alunos um rico material de análise as cotas para negras(os) em universidades públicas e o trário.br/wordpress/?p=1398 . quando a Universidade aprovou. as cotas raciais possibilitam que as(os) jovens colégios particulares de excelência e o segundo provier nada à igualdade de oportunidades entre negras(os) e outras matrizes culturais e suas contribuições ao currí- negras(os) oriundos de escola pública sejam contem. bemos.br/projetos/leafro). mento fundamental no debate sobre ação afirmativa tunidade de almejar o ensino superior de qualidade.) racial em universidades públicas passou a ser um ele. dade Estadual de Londrina.org.639/2003. há o discurso utilizado pelos anti. cabendo aos sistemas de -políticas ocorridas tanto no debate.org. 10. ainda permanece sob os efeitos discursivos da demo- de acesso não cria privilégios. terpretar o mundo a partir de outros olhares. as esta política no processo seletivo. foi elaborado o Manifesto em minatórias que mantêm a população negra à margem orientadas por uma série de atividades. mesmo no universo menor dos jovens que têm a opor. o Conse. em sua obra executadas pelos estabelecimentos de ensino de dife. de agosto de 2010 e teve como objetivo ampliar os espa. Outro descompasso é referente ao processo de e Médio a inclusão de saberes sobre História e Cultura sileiros: diálogos para o reconhecimento e a valorização afirmativa com recorte racial. lam um descompasso entre o dito e a realidade his.639/03 DA TEORIA psíquico em crianças e jovens negras(os). propostas pedagógicas mento deve ser analisado a partir das mudanças sócio. Para problematizar superior. a nação brasileira assiste uma in. Apresentadas como maneira de reduzir as desigualda. ainda que incipiente mas significativa. Educadoras(es) e todos os membros da escola para a população negra brasileira. ora acentuam desigualdades prévias ou produzem novas da cidade para efetivar esta política e alguns anos de. pela reserva de vagas passa pelo mesmo processo de dade e a valorização desses conhecimentos no espaço drina e Jacarezinho)10. à im. Fonte: http://mariafro. 10. Segundo Franz Fanon. Este coletivo foi consolidado no dia 12 rentes níveis e modalidades.uel.

. em mostrar que a diversidade de ação afirmativa para o povo negro. Como indicou Bento. e por outro lado. Os silenciamentos não significam apenas o não. escravidão para o branco é um assunto que o país não de novos modos de ver o mundo. foi possível perceber a sensibilidade o que não é pouca coisa. Na ausência de um olhar atento para cussões em sala de aula e na escola de maneira geral. tiva. traziam suas experiências e debatiam junto com beres escolares. Há benefícios concretos e simbólicos disseminadas. nos mostra Denise Jodelet (1989).27) CONSIDERAÇÕES FINAIS estas experiências. E por fim. 2005.. não das. é o que se pensarmos o Brasil com o corte racial. a presença de professoras(es) negras(os) pois. de gênero.. fomentando sentimentos de não-pertencimento. algumas questões podem ser problematiza. Não podemos nos esquecer que o racismo valorização do ser negro e dos saberes africanos e afro. nada negra. praticam a política de avestruz ou sentem pena dos no Norte do Paraná. dimensões do privilégio. cujas e na sala como momento pedagógico privilegiado para questões problematizadas partem de reflexões sobre a realidade profissionais. e de seus derivados na sociedade brasileira”. acarreta em intenso sofrimento psíquico.15) do livro “Menina bonita do laço de fita”. calcada trumentalização da mesma em sala de aula.. A este respeito Eliane Cavalleiro constatou didos como um instrumento para pensar e repensar em se evitar caracterizar o lugar ocupado pelo branco A riqueza do trabalho esteve nas relações que cons- que “do diálogo com esses profissionais (da escola). as(os) colegas. quando o racismo racial). pois os brancos saíram da escravidão com professoras(es) negras(os) se reconhecerem em um so de desconstrução do racismo e da discriminação? algumas ações capazes de problematizar as desigualda. quais os significados para estas(es) educadoras(es) da na história do Brasil. é interessante trazer à tona o legado da escravidão.estão. menta a continuidade da lógica escravocrata. já fessores a realidade sócio-histórica das(os) negras(os) é uma construção social. “aqui no Brasil. interpeladas(os) pelas ausências de referencias positi. p. a raça exerce funções simbólicas (valorativas 7. brasileiras(os) se resume à escravidão. mas em uma elite dominante branca e uma maioria domi- as contribuições das literaturas africana e afro-brasileira para fator de complementaridade e de enriquecimento da se tocar um tambor. so. política e econômica. exteriorizam e demonstram que os caminhos rumo à trutura de classe. por falta de preparo ou por pre. escolar. a população negra na sociedade. relações sociais e a vida. cuja especificamente sobre a realidade sócio-histórica do de intervenção. de outro grupo. Para a população branca conservadora. de classe e de idade”. isso. estudamos entre os grupos humanos. de fome.. Esta camada da população teve durante a escravi. pois nos permitiu questionar LEIRO. Mas. ora res- e preconceitos raciais. Como o relato de um grupo de professores que organizaram aluno discriminado para que ele possa assumir com uma semana cultural com o tema “Africanidades” e perceberam viu”. humanidade em geral. com atividades em sala de senvolviam de modo diferente nos espaços onde havia elaborado das seguintes maneiras: “Ser negro é ter que aula e dramatização do livro.( para ver como as crianças e as(os) jovens negras(os) são paldando a fala da equipe. tidiano. etc. criminação. procura. p. eles se inscrevem nas relações de poder como mercados materiais ou simbólicos não são direitos. e ainda são. Nos cursos de formação continuada realizados em za. políticas compensatórias ou saberes e modos hegemônicos de entender o mundo.1) A escola. período da pós-abolição há um vazio histórico sobre as de inferioridade a população negra. Como diz Souza. na ausência de dis. um “os alunos não querem nada mesmo com o ensino. GOMES.(CAVAL. mantidos. para que não se repitam frases como “o problema (SOUZA. p. mas. não indenizar os do desenvolvimento das ações. é possível dão muitos privilégios. porque na Itália o branco atravessa a rua se do ‘ser negro’ acabam por estabelecer um lugar para bretudo quando esta foi negativamente introjetada em também um projeto de trabalho com a história e significados da passar um preto”. no entanto. Como povo negro brasileiro. priorizando a situação educacional. um todo alguns desafios. to do trabalho de formação que o projeto LEAFRO A discussão racial precisa estar em pauta em nosso co- o racismo e a discriminação. também. políticas públicas As(os) alunas(os) que sentem o racismo e suas -dito. para apontar alguns exemplos. Todo este processo detrimento de sua própria natureza humana. 20) “coitadinhos”. pois faltam muitas vezes instrumentos e em diferentes espaços sociais. pois segundo Maria Aparecida Bento (BENTO. para além das ações pedagógicas. além de trabalharmos mecanismos para ins. 71) Por outro lado. não é mais possível tolerar o racismo e a dis- educação não desenvolvem ações pedagógicas para a negras(os). que para ela os resultados foram extremamente positi. “o negro tem preconceito contra a O racismo permeia as relações no Brasil. mas sim. em vez de uma atitude responsável que disso. processo de formação continuada trouxe possibilidades Nesta perspectiva. uma professora que desenvolveu um trabalho a partir Um dado importante é que as intervenções se de. Este silêncio e cegueira permitem truímos cotidianamente com aqueles que participaram acabou por sobressair a insistente negação do racismo obrigatoriedade de discutir conteúdos e assuntos que não prestar contas. são interesses econômicos ora como coadjuvantes. o legado da de desconstrução de saberes arraigados e a construção sores deste espaço – que é um espaço de poder . mas no professor alguém com quem possam compartilhar aquilo que é apagado e excluído. meta é premiar a incompetência negra. Possibilitou às(aos) ou não. etc. e a discriminação são percebidos não há nenhum tipo discriminação estão presentes no seu cotidiano escolar de ação afirmativa são taxadas de protecionistas. ressaltamos a importância uma de coitadinho”. 2002. No imaginário da maioria das professoras e pro. uma herança simbólica e concreta extremamente posi. a Deus. Mesmo em situação de pobre. discutimos os processos de desenvolvimento das políticas do negro é por que ele mesmo gosta de se vitimar.) Na verdade. universo que traz informações sobre a história e a situ- Grande parte das professoras e professores não des raciais no ambiente escolar12. Além te. “eu não sou ra. muitas vezes NANGA. 2005. pode ser consi. ora como protagonistas. p. econômica e cultural da população negra As falas de algumas destas mulheres e homens tribuição dos indivíduos em diferentes posições na es- a importância e a riqueza que ela traz à nossa cultura nos períodos da escravidão e pós-escravidão até os dias atuais. alguns professores. de modo ser mais”. Por essa razão. metodológicos e sensibilidade para saber como agir. dar consistiria. e estratificadoras). trato os meus alunos neguinhos como gente.630/03. 90 91 . e principalmente reconhecer que o racismo e a em jogo. preender a necessidade de desenvolver objetivamente quer discutir. (MU.. aí eles querem”. própria raça”. próximos dos padrões raciais de classe/raça dominante. Estes cursos consistem em quatro encontros mensais. cujos jogos de poder pautados nas ideologias Nas sociedades de classes multirraciais e racistas como situações flagrantes de discriminação no espaço escolar eugenistas não fizeram parte da formação destas(es) o Brasil. Para o público participante. se identificando como atores sociais no proces. conforme pertençam ou estejam mais e à nossa identidade nacional. por parte de algumas professoras e professores em com. pois fo- não constitui um fator de superioridade e inferioridade da Lei 10. (. as(os) profissionais da gitimando um espaço de privilégios que não é o das(os) realizou. por exemplo. que durante a pós-escravidão geral.. le.. o que implica na interiorização e estes silenciamentos se configuram. Evitar focalizar o branco é evitar discutir as diferentes O trabalho do LEAFRO permitiu ao grupo como derada um espaço de reprodução de preconceitos mas vas. herança -brasileiros na escola. valores. supostamente não existem no universo deles (a questão negros: no final das contas. vocês negros. As relações simbólicas encontradas em torno orgulho e dignidade os atributos de sua diferença. “. da população conceitos neles introjetados.” (BENTO. 2002. por um lado. 201011. com sérias consequên­ conteúdos dos materiais didáticos. como as professoras e os profes. A partir destes elementos e com o desenvolvimen- cias psicossociais. portanto. capoeira. não sabem lançar mão das negra. ora trazendo elementos novos. p. mas sem que esta premissa seja anunciada no 12. A categoria racial possibilita a dis- discutir a diversidade e conscientizar seus alunos sobre sócio-histórica. direcionadas àqueles que foram excluídos de nossos consequências práticas no cotidiano não percebem 2005). devem dar graças discurso. fruto da apropriação do trabalho de quatro séculos ação da população negra para além daquelas que estão percebem os atos de racismo presentes no cotidiano As falas e silenciamentos podem ser compreen. hábitos perceber em alguns momentos a falta de sensibilidade foram. crenças. Ao apresentar o de um país escravocrata que delega um lugar simbólico vos. “o preto é pobre porque não se esforça”. em suas alunas(os) negras(os) uma ressignificação do ser negro. em ajudar o cista não. 1983. não compensar. ao contrário.. política. propostas pedagógicas aprendemos e compartilhamos não só conteúdos e sa. nos naturalização destes episódios. Na maioria dos casos. de maneira geral. o negro é símbolo de miséria. o também de ressignificação dos mesmos. há um módulo que especifica estes elementos à população negra educação antirracista devem ser repensados diariamen. A manutenção deste status quo. assim pensar-se-á que sim favores das elites brancas. o branco tem o privilégio simbólico da brancura.

2008.php?pid=MSC00000 00082005000100005&script=sci_arttext ). CAVALLEIRO. incômodos. Discriminação e Desigualdades possibilidades de rever um processo histórico exclu. p. ANDRADE. Secretaria de ciso sair para que seja possível ascender socialmente e educação continuada. 2005. Eliane dos Santos.”.br/scielo. Superando o Racismo na inserções sociais mais igualitárias. 1983. Disponível em: http://www. da ANPEd. alfabetização e diversidade construir outras possibilidades de identidades. não muda preconceitos enraizados. RJ: Vozes. que as(os) estudantes negras(os) possam ter acesso a organizador. discussões e abrem HASENBALG. uma história que as(os) permita orgulhar-se de seus Secretaria de Educação Continuada. car questionamentos. Neusa Santos. Alfabetização antepassados que contribuíram para a construção eco. BENTO. 2005. já que esta significa tornar-se branco. RAMOS.Educação cidadã etnia e raça: o trato peda- deste lugar do negro em nosso cotidiano. sando nossa escola. In: Irai Carone e Maria Aparecida Silva Bento (org). Branquitude e poder – a questão das cotas para negros. Rio de Janeiro: rem em ampla escala. abertos pela Lei Federal nº10. (SOUZA. Psicologia Social do Racismo: estudos sobre branquitude e branquea- mento no Brasil. 10. 1957. Discriminação ra- As construções sociais levam as(os) negras(os) cial e pluralismo nas escolas públicas da cidade brasileiras(os) a pensar em seu grupo de origem como de São Paulo. 2005. propostas pedagógicas a cor (preta) lembra miséria. Almeja.mec. Anais. Étnico-raciais e para o ensino de história e cultu- Estes relatos foram retirados da obra de Neusa Santos ra afro-brasileira e africana. Nilma Lino. 33-44) GOMES. no entanto. 2002. dente. (org). Introdução crítica à sociologia bra- sileira. 92 . Acho que o que me faz BRASIL. p. alfabetização e diversidade. SOUZA. Kabengele. proceedings.br/cne/> pessoas negras. Branqueamento e branquitude no Brasil. – Brasília: Ministério da educação. Guerreiro. 2002. Racismo e anti-racismo na educação: repen- contudo.639/03 se inserem na militância pela ressignificação _________. Carlos. Rio de Janeiro: IUPERJ. In: CAVALLEIRO. p. – [Brasília]: Ministério da Educação. Raciais no Brasil. Assim. a ou ressignificação cultural? In: 25ª Reunião Anual escola. 1983. Tornar-se negro: As vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão so- BIBLIOGRAFIA cial. Londrina 2008. tais políticas de ação afirmativa visam provo. In: Educação anti-racista: caminhos uma referencia negativa. Brasília: MEC. 2001. secretaria de -se uma identidade ideal.gov. 1-14. _________. como um grupo do qual é pre. educação continuada. 1 Simpósio Internacional do Ado- lescente. 2005. Ministério da Educação.639/03. Por isso o sistema de cotas e a Lei ANPEd. lutamos para escola. 2ª edição revisada / Kabengele Munanga. Trajetórias escolares. In: VII SEPECH (Seminário de Pesquisas em Ciências Humanas) promovido pelo Departamento de Letras e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Londrina. a qual não é possível atingir. Maio. 2005 nômica e social deste país. 1983.61-62) e todas são falas de Disponível em: <http://portal.. e Diversidade. corpo ne- Este cenário apresentado envolve a(o) negra(o) gro e cabelo crespo: reprodução de estereótipos e/ brasileira(o) em diversos espaços sociais.scielo. de modo que possamos implementar relações e MUNANGA. acaba sendo um lugar onde estas vivencias ocor. Souza ( SOUZA. Eliane negras reflexões A lei em si. São Paulo: Selo Negro.. In. Diretrizes curri- sempre fugir do lance do negro é o lance da pobreza: culares nacionais para a educação das relações pobreza em todos os sentidos – financeira e intelectual. Pedro Henrique. Caxambu. Políticas de Ação Afir- mativa na Universidade Estadual de Londrina. Petrópolis. Rio de Janeiro: Edições Graal. Maria Aparecida Silva. gógico da diversidade. Rio de Janeiro: ANDES. 2002.

raça. e não nos dois sentidos alternadamente. que podem ser dados importantes latente de negação da questão das disparidades raciais obstante. em pé de igualdade. Les Mots Clé: Mouvement Noir. de classe média.DO DIREITO À PALAVRA AO PODER DE ENUNCIAÇÃO DO MOVIMENTO NEGRO NO BRASIL1 RESUMO Ao longo das últimas décadas do século XX. não se limita a reivindicações políticas. Políticas sociais. mesmo após a abolição da escravatura e o advento da da luta em defesa de valores e concepções da imagem tenças de classe e o lugar ocupado na sociedade. Cultura e Cidadania : Intercâmbios Transatlânticos. a été ignorée. intelectuais e ati- RESUMÉ Au cours des dernières décennies du XXe siècle. La réappropriation du discours Américas da Universidade Cândido Men. ponto de vista moral e intelectual. nº 2010). trabalhado- social. 95 . da imagem e de sua memória. situados em 16. quer fossem INTRODUÇÃO dos conhecimentos técnicos que orientam a hierarquia estes detentores de capital. a grande imprensa es- mostrado o poder das palavras como meios de ação térios de diferenciação. que a distribuição do poder econômico e políti. les intellectuels et vistas negros resolveram assumir. tais como nível de renda. pouvoir d’énonciation. o fato de estas já estarem bem documentadas. já que o país promovia a ideia da interpretações estabelecidos. discurso anti-racista. a relação com os meios de produ. Isso sem dúvida explica em parte por Os estudos sobre a linguagem e a ideologia têm No seio de uma classe social existem diferentes cri. situados no de análise para determinar subgrupos de pertença es. intellectuels noirs. Opondo. 2008. sociais. as experiências e vivências são encarnadas nas concernente à ordem social a partir da qual se cons. Nesse contexto. o objeto essencial das relações sociais é a rada pela crença. depuis des siècles. discours anti- raciste. discursos e imagens que constituem as redes tituem as redes hierárquicas e a estrutura das trocas colonial com o tráfico de escravos e que se prolonga de significações. acom- são as principais vítimas. religião. discours. nº 15. jeito com seu ambiente social também depende das No Brasil. co é claramente desfavorável aos negros. Essa Nesse contexto. não obstante espaço do simbólico e do imaginário. que os negros podiam sofrer era apenas fruto de um visa também a uma crítica radical dos significados e cial. a relação do su. março. Nessa República. Québec. pour tenter d’effacer les représentations culturelles négatives des Pesquisador do Centro de Estudos das sentações culturais negativas dos negros e suas consequências Noirs et leurs conséquences sociales. acompanhamentos e análise. além dos discursos e das ideias. ciais ou de cor permitiu revelar as disparidades econô- micas de que as populações indígenas e afro-brasileiras 2. pondérant dans la production du savoir. Brasília. acompanhamentos e análise. de soi de la population noire qui. l’image et leur mémoire. novembro. desses critérios têm demonstrado. ção continua sendo o critério indispensável da análise longo processo histórico (em que a violência desem- tória. como o Movimento Negro riqueza produzida pelo trabalho com base em um laço década de 1930. edição especial (1995-2005). mas assimétrico orientado de um pólo a outro da relação so. camponeses e mesmo considerados pobres2. Não cor. 2008. Canadá. Texto escrito para o Seminário Internacional Afro-descendência. o "poder les activistes noirs ont décidé de prendre le "pouvoir d’énonciation" de enunciação" por muito tempo monopolizado por aqueles a longtemps monopolisé par ceux à qui on attribuait un rôle pré- Jacques quem se atribuía um papel preponderante na produção do saber. reótipos). Essa situação foi por muito tempo masca- de si e do mundo. (3-5 fevereiro 1980. Ils se sont réappropriés le d’Adesky Ao se reapropriarem do discurso. que. está claro que a adoção de critérios ra- representações sociais negativas (preconceitos e este. E-mail: dadesky@candidomendes. pecíficos. intelectuais negros. CÉLAT. desde a década de sília. réinterprétant les faits historiques reinterpretaram os fatos históricos para tentar eliminar as repre. edu. Ver relatórios do IPEA. a luta das minorias concepção. secularmente ignorado. situação de subordinação dos negros é produto de um Sendo os modos de representação herdeiros da His. representando dessa forma um segmento populacional représente une nouvelle donne dans la mesure où ces intellectuels des e professor da UNESA. de produção (saber. Rio de Ja. os grupos humanos e considerava a mestiçagem um valor fundamental da notadamente no que concerne à memória coletiva. maciçamente divulgada a partir da e dos grupos subalternos. assim como do domínio e controle do saber e posição subalterna em face dos brancos. conscience noire. consciência negra. Brasília. penhou um papel determinante) iniciado no período palavras. Bra- 1. Estudos realizados a partir panhamentos e análise. racismo benigno. vêm a formar classes sociais diferenciadas. segundo a qual a discriminação racial brasileiro. brasilianidade. mais viennent aussi à stimuler l’estime neiro. referentes à população afro-descendente. Palavras chave: Movimento Negro. até o final do século XX. -se de forma não simétrica em relação aos instrumentos existência de relações cordiais entre brancos e negros cesso de construção da imagem de si e de um discurso. Políticas sociais. poder de enunciação. terra e capital). Universidade Laval. crita e as mídias televisivas apresentavam uma atitude e instrumentos de reprodução da ordem social. e à reapropriação do pro. especialmente Políticas sociais. nº 13. elas próprias impregnadas dos traços comerciais. com base nas quais se reconhecem as per. res. depreciado e considerado incapaz do parlent sur un pied d’égalité.br dépréciée et jugée incapable intellectuellement et moralement. sexo.

sem dúvida alguma de um trabalho função das técnicas rudimentares utilizadas. pesquisas é realizada com base em entrevistas ou filmes 4. jamais. Ao lado da pesquisa e da análise propriamente di- 5. não obstante. hercúleo. os negros A ascensão de Getúlio Vargas à Presidência da período pós-abolição – considerando-se suas causas. por exemplo. eram considerados nas e em postos de baixo nível na administração pública. bro de 1930. sem memória histórica. a via da assimilação. escreveu : "A moder. era o controle do acesso à propriedade tos e irracionais – em outras palavras. a maior parte das quais foi de. Universidade Laval e pelo CEAs/IH/UCAM. pelo conhecimento e pela técnica. de deportados E. Raras são as famílias negras ca. Já citados por Ronaldo Jorge Araújo Vieira Júnior e Ronaldo idosos do bairro de Venda Velha no âmbito da pesquisa "Mémoire a posteridade os arquivos de memória (fotos. a certas ta e involuntária. Responsabilização objetiva educação. deveriam copiar a cultura europeia. e a proclamação da República. Desejando ser mais brancos temente simples. com seus privilégios. gatório da história dos africanos e afro-brasileiros no políticos4. Ademais. natórias em relação aos ex-escravos. op. buído ao reconhecimento histórico dos preconceitos do direito de enunciação e de autorrepresentação dos até mesmo a cidadania dos antigos escravos3. polícia. que os conflitos do passado ou REAPROPRIAÇÃO política de acompanhamento da transição da condição cópia do original! as controvérsias historiográficas sobre a escravidão e o DA MEMÓRIA de escravo à de homem livre. mediante a abolição da escravatura e esta será escrita pelos que irão atestar o pouco peso atri. econômico classe dominante. – exigem um trabalho árduo de releitura a partir de ção ainda eram dominadas pelos grandes proprietários aos seus direitos6. pele negra. e instaura o princípio da igualdade de direi. descendentes de escravos. Nesse tos. Ler. la época o Movimento Negro apresentava as questões circulação. classe. Eles esta. Essa cegueira histórica infligida pela histó. o que revelava uma convergência que perderam a memória de seu passado e não têm sentido. Nesse período. os projetos também se ocupam em restituir perante da nação: Estado. negras reflexões o Estado não tomou nenhuma medida política para tomada de consciência da negritude sem resultar numa por seus ancestrais? Trata-se de uma pergunta aparen- compensar ou reparar as sevícias sofridas durante o verdadeira assimilação8. tam. Ciências Sociais Unisinos. o aos proprietários exercerem seu poder absoluto sobre balho. que precisavam. “O nascimento 9. o con. manifestamente específicas para os negros mostram pazes de contar a história de figuras importantes de e votar. leitura da memória dos afrodescendentes. se organizar e inscrever suas reivindicações relativas à ços livres. Ler Ronaldo Jorge Araujo Vieira Júnior. suas precedências lhadores livres”7. releitura da história na agenda política do país. submetidos aos interesses da ria oficial marca de maneira quase indelével os negros. para se igualarem aos bran. essa situação de subordi. Já naque- servidão. facilitando sua entrada nas usi. da Sob a nascente República. dos africanos livres e seus descendentes. Afro-Brésilienne: citoyenneté dans les faubourgs". manutenção de uma forma de desumanização dos es. fundiária que constituía o fator decisivo que permitia adaptar às novas técnicas e às novas divisões do tra. confinados a posições subalternas. modernização nacional e relações étnico-raciais 6. Grande parte dessas mativas como reparação aos danos causados. Essa memória imposta busca afrodescendentes do Brasil que se viam impedidos de ciedade não igualitária baseava-se na ordem jurídica do produção. Tal argumento seria utilizado para justificar o sem acontecido ou como se não fossem suficientemente Movimento Negro vai denunciar em sua plataforma o trabalho. A imigração de colonos europeus. africanos e mesti. 7. em 2003. com o apoio de provas mate- 96 97 . dotados de subjetividade. Curitiba. De maneira sub-reptícia. de medidas oficiais de República põe fim aos intensos fluxos de imigração de seu desenvolvimento e suas inumeráveis consequências Na época do Império (1822-89). cipação dos negros. que assim. colocou em prática uma que os brancos. que institui o ensino obri- tade própria e de defenderem seus próprios interesses que. Sales Jr. E quando for a hora de contar a história nimização da contribuição dos escravos e dos afro-bra- tadas pelo Estado para assegurar a permanência dessa A esse respeito. Escolheram. Na prática. nesse período. memória do Movimento Negro. cartados. e seus favoritismos que bloqueavam as aspirações de estimulada e apadrinhada pelo Estado brasileiro. decretos restringiam a liberdade de nização do país. não se cansavam de cantar a beleza da mulher negra ou de exaltar UPF. governo federal. Experiências atlânticas. ma forma que os negros. o acesso à escolaridade e à saúde pública.639. e. Um decreto. objetivo o embranquecimento da população. entre o Império e o início da República”. Segregação institucional do negro e adoção de ações afir- vam convencidos de que. a desconstrução da história oficial que oculta os textos trole estrito e quase absoluto sobre o trabalho exercia dades ligadas aos cultos de origem africana. O capi. da mes. 126. direta ou indiretamente. manifestações de conflitos. conquanto semelhantes na situação de oprimidos. últimos anos o crescente interesse de pesquisadores e na década de 1930. as entrevistas realizadas com os líderes e os tas. Esse projeto de libertação com lideranças. Essa so. e pesquisas sobre a escravidão e a pós-emancipação no Brasil. de escravos eram tratados como cidadãos de segunda uma cota: dois terços dos postos de trabalho deveriam Recompor a história dos grupos subalternos exige cravos e dos ex-escravos livres. não tinham acesso a posições de prestígio5. importância. Ver Flávio dos Santos Gomes. ingresso maciço de mão-de-obra europeia. mais apta ao trabalho nas usinas e plantações agrícolas. segregação e de preferência que significavam atentados trabalhadores europeus. o Movimento Negro vai captar a atenção do e intelectual permaneceu nas mãos de uma elite branca para além da cor da pele. ela foi bem-sucedida na Um movimento social invisibilizado quase total- liberdade e a mobilidade social. len. Passo Fundo. bém corresponde a um desejo eugênico que tinha por medida em que as histórias dos vencedores e os nomes mente pela grande mídia e por muito tempo desquali- A República de 1889 põe fim às medidas discrimi. não significou a eman. fitas de áudio e vídeo) do Movimento Negro Volume 44. as relações de produ. 2005. datado de dezem. nº2. fosse como mercadorias. HISTÓRIA E período escravista. Ronaldo Sales Jr. por exemplo. das vítimas da História. e também à do Estado. Para os ativistas da Frente Negra. a lei 10. foram vítimas. surgida dominados poderiam exigir o reconhecimento e a re. Ler a esse respeito o artigo de Ronaldo Sales Jr. fosse como traba. A história oficial (frequentemente escrita pelos oficial e a memória coletiva obliterada é fundamental papel limitado. que permitem afirmar. De maneira indire. essa medida melhorou as condições de subjacentes ou àqueles que foram desde sempre des- um freio à produtividade das fazendas. incapazes de se senhores e vencedores) excluiu capítulos inteiros de para desmascarar os mecanismos de dominação. as circunstâncias históricas heróis – ou quase isso. Ensaios nantes como as de Cândido de Araújo e Manoel dos Santos. já frágeis em danças e à música eram interditadas e reprimidas pela vida de negros e índios. Assim. Cabe assinalar que no seio da Frente Negra havia vozes disso- cos. No mercado de trabalho. maio-agosto 2008. cit. o resultado só poderia ser uma pálida Supõe. de testemunhos escritos e também de docu- de terras. a verdadeira libertação passa pela paração das injustiças e danos morais e físicos sofridos acadêmicos que multiplicam os projetos voltados à re- 3. Em larga medida. origem afro-brasileira. limita a entrada de estrangeiros e obriga vestígios. como é que os grupos Essa passagem das sombras à luz vai suscitar nos da África. p. como se eles jamais tives. ativistas ou testemunhas anônimas. Os mestiços e descendentes de escravos os negros estavam em desvantagem como pessoas de preciada ou oculta por trás do véu do esquecimento9. vai fracassar. dos escravos. o qual tomará a iniciativa de elaborar que os considera socialmente incapazes de terem von. o poder político. Ronaldo Sales. Juruá. mas sua exclusão das relações de sofridos por estes últimos. dominados. ser ocupados por brasileiros nativos. preguiçosos. conduzida pela cartazes. mas difícil de responder de imediato. mestiços e descendentes as empresas estrangeiras instaladas no Brasil a respeitar mentos de arquivos. Suas ativi. currículo das escolas primárias e secundárias do país. sileiros à formação socioeconômica do Brasil. folhetos. considerada dignos de serem relatados em razão de sua pequena política a obliteração oficial da história africana e a mi- nação do trabalho vai acompanhar outras medidas ado. 8. Embora os trabalhadores brancos fossem. de seus heróis vieram a ser realçadas entre os grupos ficado por seus adversários conseguirá. Mas essa tensão entre a releitura da história tal técnico e o controle do saber desempenhando um moral e intelectualmente inferiores. 2003. Trata-se. contudo. Ele foi um obstáculo à aparição de uma o valor da contribuição dos negros ao Brasil. Ao contrário. Desde seu nascimento no final dos anos 70. eliminar do passado todos os problemas e sofrimentos dizer ou exprimir livremente sua história como atores Antigo Regime.

do Primeiro Encontro Estadual de Seminaristas. tentada pela obra de diversos acadêmicos de renome. vítimas de uma opressão racial que não mostrava a sua negros e indígenas nos domínios do ensino e do empre- pressão portuguesa e na experiência do movimento dos cara. A ideologia da democracia racial não foi. a forma de "Consciência Negra". os quais apresentaram dados es. cujo pri. pelo Jornal do Brasil à rea. Rio de Janeiro. aniversário da morte de Zumbi. chegam a conta-gotas ao Brasil volvimento econômico do país não seriam suficientes emprego do termo "raça" para conduzir à expressão a determinar na linguagem uma nova subjetividade do numa época em que as lutas de libertação em Angola. e Nei Lopes. democracia racial brasileira. denunciado essa ideologia diante da qual defendem portanto. Globo. em 1986. que Quilombo de Palmares que lutou no século XVII contra de posição favorável. tatísticos mostrando que a industrialização e o desen. direito de se exprimir. Ver Bogumil Jewsiewicki. outros pensado- querem ou não queriam ver10. O já fora incorporado ao vocabulário corrente. Rio de associações culturais que se implantam principalmente nas gran. Peau noire et masques blancs a partir dos anos 40. Ela vai buscar. entendida como um 10. Não foi esse. Bogumil Karl Marx. "A vida me ensinou a ser negra". em si. constituiu uma fonte de reno da ação política. forte influência sobre os intelectuais e ativistas brasileiros e estrangeiros. e. de memória que veio a libertar os negros do espartilho tinham condições econômicas suficientes para viajar ao Os textos. Janeiro. Samora Machel. Québec. pold Sédar Senghor e Aimé Césaire cujo conceito de ne. tra. Apesar do golpe de Estado de 1964. Seus dois principais livros. p. e cuja ex. reforçou e a posição como atores da história. ou pelo menos não queles que foram oprimidos em sua raça e por cauda Durante os anos setenta e oitenta. Sobre a (re)conquista do domínio da narrativa res. a expressão assumiu Sartre. As reflexões de Frantz Fanon sobre a luta anti. identitária e não mais o da assimilação preconizada todas as tentativas de promover a igualdade entre bran- FONTES DO PENSAMENTO ra não havia. CÉLAT. negros e indígenas. de estabelecer mecanismos de INTELECTUAL DO baseada na cor da pele. o termo "negritude" os portugueses no Nordeste do país. 30 novembro 2009. negros e indígenas. opressão de negros e indígenas. vistas negros de que o status subalterno e de exclusão das fontes documentais produzidas pelo Movimento pulsão havia justificado sua desumanização. indiretamente. 13. os negros constituíam as principais vítimas. 14. 2010. por exem- partir da metade da década de 80. Fanon na última obra. o racismo e a discriminação contra a população go. capaz de apresentar a imagem positiva da. uma tomada de consciência da identidade étnica e o grandes forças econômicas dominantes. "Lieux de l’identité". Ethnologies. Assim é. Universidade Laval. veira e Henrique Cunha Jr. discursos e panfletos dos líderes negros são. propõe um novo quadro teórico para a compre. o caso. serviço da manutenção do status quo. A exceção que confirma a regra pode ser ilustrada pela tomada da população brasileira. os desses movimentos. a exaltação direitos civis nos Estados Unidos. O Globo. para gritude – que valoriza a contribuição africana à civiliza. Cuti. reagrupamento e mobilização desse movimento nos Les damnés de la terre. República até nossos dias2. as interpretações similares feitas por dois intelectuais negros: principalmente com base em organizações não-governamentais e meiro número foi publicado em São Paulo em 1978. para por fim às disparidades socioeconômicas de que "consciência racial" que transformou-se num rótulo de pensamento. Essa crítica é sus. vol. do Movimento Negro. absolutamen- Movimento Negro que se constrói primeiramente a político cujo eixo central é o da tomada de consciência te. parte das quais se perdeu no curso das últimas cessário arrebatar tanto a memória da cultura quanto ca da escravidão. assim. suficiente para destruir uma ordem hierár- da História oficial ao lhes restituir o lugar. a esse respeito. por exemplo. dela. que vitimou a população negra não se limitava à épo- Negro. Ele reen. a se situar em relação ao relato histórico. destruído uma ordem hierárquica pela Frente Negra nos anos trinta. Dessa forma. de afirmar a tomada então. 12. com prefácio de Jean-Paul Deve-se recorrer também ao pensamento de Léo. O Movimento Negro que emergiu no final dos anos 70 era aci- ma de tudo um conjunto de ativistas disseminados pelo Brasil. Moçambique e Guiné-Bissau estavam no seu auge. cos. cial da mesma forma que os negros de pele escura. pela qual os grupos subalternos que não correspondiam ao modelo testemunham o colapso do beco sem saída em termos pequena classe média ou da classe trabalhadora e não brasileiros seriam desprovidos de preconceito de raça. em particular Azuete Fogaça. interrompeu as atividades do TEN. as poesias de autoria de Edu Omo Oguian. no cerne da qual se décadas ou está dispersa em arquivos privados sem sua representação das sombras da lembrança"13.. mas igual. plo. Ao contrário. sobre os negros. lização. grande influência no Brasil entre os expressão se associa às comemorações do 20 de novem- fotógrafos dos grandes jornais brasileiros. E na medida em que os negros continuavam a ser correção das injustiças ou de favorecer a inclusão de MOVIMENTO NEGRO ração nas lutas anticoloniais dos povos africanos de ex. 3. poderia ter sido uma arma pensamento intelectual pós-colonial e antirracista do dade levará o Movimento Negro a adotar um discurso poderosa contra o racismo. Nos dez últimos anos. que são vítimas os afrodescendentes15. considerado uma ilusão a o sentimento de primazia e supremacia dos brancos intelectuais do Movimento Negro12 investiram no ter. contribuíram com seus textos para a tomada E REINTERPRETAÇÃO grande imprensa que o ignorava quase totalmente nos Jewsiewicki escreveu precisamente : "é um terreno que de consciência por esses grupos de intelectuais e ati. As expressões "consciência racial" e "consciência Religiosos/as e Padres Negros do Rio de Janeiro que havia sido processo de alienação das pessoas de cor. mas também reflete a própria fragilidade não é reconhecido como originalmente seu. partir da observação de que a abolição da escravatu. como Florestan Fernandes Os intelectuais e líderes do Movimento Negro têm do poder de enunciação. sua inspi. têm sido neutralizadas. portanto. artistas e militantes do Teatro Experimental bro. A não só deve ser travada em escala coletiva. anos 80. Autorrepresentar-se equivale. brancos. destacado por contrará a juventude entre os poetas negros dos anos 70 negra" não se referem absolutamente a uma classifica- proibida pelo cardeal Dom Eugênio Sales. portanto. às damnés de la terre e Peau noire et masques blancs. Essa profunda tomada de situam os valores da mestiçagem e da harmonia entre avaliação alguma. o movimento veio a se articular mente no plano individual. como Amílcar Cabral. cujos segmentos miscigenados do Negro (TEN). o sentido estrangeiro ou estabelecer contato direto com os líderes assim. mas se manteve desde o advento da A ideologia da democracia racial. 98 99 . DA “RACIALIZAÇÃO” anos 80 e 9011. no qual vieram a reivindicar o colonialista e anti-imperialista na África exerceram. exercício de reflexão sobre as causas das injustiças de 25 anos do Movimento Negro no Brasil que ilustra a trajetória de além das ferramentas conceituais marxistas que privi. Les e Carlos Hasenbalg. Era-lhe ne. em suas colunas. "Desejo coletivo". Malcolm trução da memória confirma a imagem do Movimento e do direito à auto-representação atual dos africanos X. mas também duzidos em Portugal. ção universal e faz o elogio da beleza negra – irá exercer. continuam vítimas do racismo e da discriminação ra. o grande líder do 11. 31. Hoje em dia. Essa tomada da palavra coloca em evidência um consciência de uma situação comprovada de coloniali. Ver. Eduardo de Oli. o livro de fotografias de Januário Garcia ensão da própria situação de exclusão dos negros. aquilo que os outros não viam. dominante. A propósito da expressão “Consciência Negra”. impregnados de uma crítica virulenta ao mito da quica baseada na cor da pele e. 15. Por esse viés. assinala que a luta antirracista e 80 que o associam ao ideal de beleza da mulher negra14. a um movimento social que nunca foi considerado importante pelos legiavam a luta de classes. sem esquecer DISCURSO ANTI-RACISTA Negro cuja invisibilidade resulta em parte da inércia da da diáspora em vista de seu reconhecimento. Os ecos dessas lutas afrodescendente é que explicam o fato de os intelectuais de uma identidade mestiça e culturalmente homogê- O esclarecimento dos lapsos de memória e a tomada no Brasil tornaram-se ainda mais importantes para os e líderes do Movimento Negro terem empreendido uma nea estimulou formas de exclusão. ver. 27. entre outros. Paradoxalmente. O des cidades do país. Martin Luther King e Albert Memmi. 26 novembro 2009 . permite abordar o dilema e o paradoxo da mestiçagem intelectuais. sob a máscara da harmonia. a série Cadernos Negros Poesia. de rebaixamento dos da palavra para narrarem eles mesmos quem eles são intelectuais e ativistas negros cuja maioria provinha da crítica da ideologia da democracia racial. negras reflexões riais. Esse trabalho de recons.

produzida consideravelmente e por muito tem- possível identificar as vítimas do racismo como poten. lítica que remete à constatação da semântica de que mais eficazes de corrigir as categorizações perceptuais17. Esse estranho parado. que se recusam. medida em que é ligada ao espaço de poder masculino. Seminário Comunicação e Ação Afirmativa: O Papel da Mídia presentações do que é belo e do que é feio. ressalta que diferenças de raça. na também promover. ainda que a escolha seja nômicas. Pierre-André Taguieff. Ler. assim. po por homens (poetas. Mesmo pessoas esclarecidas "racialização bipolar" na sociedade brasileira. Nesse sentido. momento em que são obrigados a definir o que é belo as categorias branco e negro. Rio de Janeiro. uma "racialização" da do objetivo final dessas políticas que é acima de tudo a que não existe uma escolha radicalmente autêntica. autônoma no sentido indicado. como referência. Michalon. os intelectuais e líde. "raça" e inventar outro nome. segundo a expressão empregada por do emprego. Além disso. E ainda que seus ad. a esse respeito. à opinião pública: a fabricação de um consenso anticotas no Bra. em cuja composição predominam antropólogos a implementação dessas políticas em uma "racializa. políticas e torna caduca a insinuação de que tais políti. notadamente pelos cânones dominantes. versários tentem precisamente atribuir aos líderes do criminação deve ser compreendido como um recurso herança genética. o emprego da categoria "raça" tendo Ser belo seria. mimeo. não é levado em conta pelos adversários qualificativo "antirracista". como nomear ou qualificar correta. artistas ciais beneficiários da discriminação positiva. em si. Seria. Essa formulação parece. bém podem ser autônomas. objetos de uma os quais não seria possível propor a implementação de ação afirmativa pressupõe a identificação dos grupos ção" da sociedade. evidência que os programas de discriminação positiva admitir que os gostos estéticos pessoais podem ser di- e sociólogos. Não apenas a mídia continua pública. e o feio podem ser resultados da escolha deliberada de lheres simplesmente interiorizem e reproduzam as re- cas de que é vítima a população afrodescendente. da raça so. ainda que passado e do presente que dão força e pertinência às promoção de uma essencialização das raças. mas pode legitimamente interrogar-se sobre as formas minação do indivíduo em questão. serão vistas. sociedade. cas engendram o ódio entre brancos e negros no Brasil. 17. seu "Acadêmicos contra a ação afirmativa: uma análise da argumenta- lam uma questão ligada ao direito à palavra. mas como exceções individuais. ou designar objetos diferentes. antes. em termos intelectuais e morais. desacreditado. igualação dos indivíduos. 79-81 e. Centro Cultural da Justiça Fe. É ex- imprensa escrita e televisionada. pela cultura dominante. Mas evidentemente esse deslocamento se. os adversários das políticas de discrimi. ção pública". que se quer promover. em suma. 329-354. Há uma interação complexa forte reação negativa no plano dos redatores-chefes dos deral. essa influência se propaga de manei- ência racial" e "Consciência Negra" seria "racialista" e racismo científico. ao Em vez de serem causalmente determinados sob o efei. p. já que promovem cultura. distante da interpretação biologizante do "raça" ao acesso à universidade. etc. desaparecer a evidência da raça simbólica. antes grupos foram vítimas no passado com base num racis. São precisamente os efeitos conjugados do Movimento Negro um pensamento racista baseado na necessário sem o qual não seria possível conceber polí. se juntasse de imediato ao substantivo "racialização" o sócio-histórico. reconhecem a existência do racismo e da ção" da sociedade ? Poderíamos revogar o uso do termo com base racial podem aparecer como um mecanismo tados ou fortemente influenciados pelos cânones de be- discriminação racial no Brasil. Mas essa recorrência evidencia políticas públicas de promoção dos grupos discrimina. à educação superior. que é a desconstrução científica da raça biológica não faz ou seja. ela depende. transmitidas também o tema das políticas de ação afirmativa suscita no Debate sobre Igualdade Racial. ser autônoma no sentido de que resultaria da deter- de práticas discriminatórias sistemáticas de que certos res do Movimento Negro assumem uma posição po. inevitavelmente. Deveria ser. 2009. em vista a promoção daqueles que são vítimas da dis. mesmo que seja a contra gosto. as políticas Os exemplos do presente e do passado mostram mento Negro. a admitir que uma mesma palavra. mas cujos efeitos permanecem percep. Claro que essas tam- categorias raciais como base de cálculos estatísticos sem aceitar que a implementação de políticas públicas de emprego da categoria "raça" é uma forma de "racializa. Mídia e ação afirmativa: a construção de uma opinião "poder de enunciação".). suficiente para provar que. interpretada. escritores. ra inconsciente. ou seja. Na maior mentos na ideia de que o uso das expressões "consci. As contribuições femininas. de tudo. conteúdo sendo absorvido sem que se torne exemplar. negras reflexões ção antropológica dos seres humanos em subconjuntos jornais. será possível genismo lexical. gênero feminino. conizar a abolição da percepção racial das diferenças. ao mercado de trabalho. poder-se-ia afirmar que o belo Essas constatações não sugerem que homens e mu- refratária à questão das disparidades socioeconômi. já dos no passado e no presente. a beleza. que bloqueiam de maneira insidiosa o debate geneticamente distintos e hierarquicamente ordenados democrático e equilibrado16. considerado uma "ferramen. nos de ação afirmativa seriam compreendidas como po. possa ganhar uma outra co. é preciso ticas públicas. caminhos que conduzem à abolição das fortemente monopolizada pelos homens. estratégia redistributiva nos domínios da educação e gênero ou da cor da pessoa. mais correto que que não é possível abstrair-se totalmente do contexto A despeito dessa interpretação clara e inequívoca mântico do termo "raça". líticas de "racialização antirracista". ser fiel a si mesmo. o que tornaria difícil identificar as pessoas segundo mente o uso da categoria "raça" no contexto das políti. mas apenas um pecado venial diante escolha deliberada. ao con- do termo "raça" e a preponderância desproporcional de APARÊNCIA FÍSICA trário. no caso. o Ao reinterpretarem subjetivamente o termo "raça" Para Taguieff. às distorções causadas por esses condicionamentos no da. deve-se reconhecer que o indiretamente. ABI. das políticas de ação afirmativa. a expressão de uma verdadeira autenticidade. Paris. escultores. se é aparentemente simples que se assemelharia a um eu. Nem sempre compreendem ou querem rios. o termo "raça". numa cultura possível discriminar com base na "raça". Nesse sentido. a população brasileira é amplamente miscigena. levando deliberadamente em conta Pierre-André Taguieff. de que modo os valores estéticos são modelados pela nação positiva no Brasil semeiam a discórdia na grande debates públicos. que remete ao mesmo tempo aos modelos de diferen- 100 101 . notação. A esse propósito. mimeo. A concepção de beleza física poderia caráter subjetivo da identidade racial como produto como socialmente construído. Les fins de l’antiracisme. baseando seus argu. ta estatística". tornou-se necessariamente uma con- Esse jogo duplo de argumentação a respeito do uso O PESO DA cepção masculina. hoje em dia amplamente uma mesma palavra pode ter diversas significações Além disso. artigos contrários à política de ação afirmativa reve. plásticos. 2009. mo pretensamente científico. das preferências. Entretanto. independentemente do xo deveria ser. de tal sorte que ignoramos os efeitos que as políticas de ação afirmativa introduziriam uma Se a luta contemporânea contra o racismo obri. não como expressões culturais do 16. a "raça". etc. momentaneamente grupos discriminados com base na tremamente difícil escapar desse processo. assumindo e ostentando os traços resultantes de sua tíveis no presente mediante desigualdades socioeco. as comunicações de João Feres Júnior. em primeiro lugar. Segundo ga os militantes antirracistas a manter o termo "raça" lançado pelos adversários para rebaixar essas mesmas ou ativistas do movimento negro nem sempre escapam eles. ou seja. cas públicas de ação afirmativa ? Consistiria realmente O uso do qualificativo "antirracista" também coloca em e o que é feio. "Da opinião publicada to de cânones estéticos. cialmente percebida e. Esses mesmos adversá. Rio de Janeiro. mas sil". Traduzem. parte do tempo. Essa seria uma solução corretivo destinado a atenuar a ausência efetiva de uma leza helênicos predominantes. um antirracismo realista não pode pre. ou seja. de tais expressões pelos intelectuais e líderes do Movi. cada indivíduo. 1995. -nos de longe mais judiciosa que o termo "racialização" perversos dessa situação.

como Taís Araújo. raros são os negros que ocupam a função de treinador fortemente centrados sobre o corpo. organizados com base num permitem perceber a exclusão mediante a ativação de código não escrito que exclui dos papéis de primeira atributos positivos. mercado de trabalho. ainda se observam gundo o escritor Joel Rufino dos Santos. os não conseguiu em função da resistência de membros musculosas. assanhadas. Não obstante. etc. Testemunho relatado por Carlos Eduardo Mansur. mos na armadilha do predomínio dos cânones de bele. rosos. são propícios à dança. imagem inferior ou depreciativa pode efetivamente 2009. negros tendem a reproduzir os modelos que os relegam da diretoria do clube. Segundo o jornalista Chris- e os artistas negros têm mais papéis nos programas de em suas poesias. eles ganham um espaço especial sobre- reconhecimento da diversidade representa não apenas restrições em relação aos negros. Há outros ingredientes fundamentais que concepção pela qual uma imagem deformada pode in. concepções de beleza. Entre esses elementos. Esse mecanismo de interação que plano os atores e atrizes cujos traços físicos como cor. o de matriz africana. pessoas de pele clara tendem lher da região sudano-saheliana de África Ocidental. Essas últimas primeira divisão. atualmente. não há dúvida número maior de negros figura nos anúncios publici. reza das variáveis que compõem a identidade pessoal e Longe de ser um assunto fútil ou secundário. obtendo nesse mesmo ano o prestigioso título tipo de beleza é também predominante entre as princi- mente a televisão. frívolas. Uma exceção a essa regra não-escrita é Lazaro Ramos. não se pode deixar de constatar legado à função de auxiliar técnico ou exercendo a fun. foi por muito tempo considerada de responsabilidade tudo nos almoços e reuniões festivas de domingo que uma riqueza social e cultural. É uma questão importante. nos leva por ao grupo dominante. Segundo testemunho de Júnior. O Globo. supostamente igualitária. de dominação cruel e sutil quando projetam uma ima. Nelas se reconhece capazes de servir à melhor inserção da imagem dos gru. superficiais. Por muito tempo re. No derrota da seleção brasileira na final com o Uruguai foi essenciais dos homens e mulheres premiados nos con- afrodescendentes e indígenas. Eles também podem ser um modo que despreza suas capacidades intelectuais e morais. e. Mesmo na República. Orunmilá. Se. pinturas naïves produzidas pelos grandes artistas afro. continuam excluídos. A imagem do negro na televisão e na pu. de que a beleza da mulher negra aí representada nos Do século XVI até o fim do século XIX. Entrevista com Joel Rufino dos Santos. os negros eram tários e participa como modelos nos desfiles de moda. constituem instrumentos poderosos oprimir a tal ponto que essa imagem seja interioriza. esses clichês frequentemente lhes atribuída ao goleiro Barbosa. pais passistas das escolas de samba. postura. 2 de dezembro de 2009. mais os traços negroides de certos povos africanos19. drid. Em razão de sua cor clara. a discrimina. tratados no Brasil como animais. Isabel Fillardis. incluindo a seleção nacional e a equipe do Real Ma. com base em instigações e múltiplas conversas com o meu amigo 18. 102 103 . critor e especialista em futebol (Rio de Janeiro. o sorriso e a do movimento negro e pelos defensores de um olhar devem também lutar contra outra categoria de precon. de treinador. Um -brasileiros do Rio de Janeiro e da Bahia. contraste a propor a questão do saber: quais seriam os que o peso da aparência física ainda é hoje em dia uma ção de treinador interino. deve- grupos por muito tempo foi denunciada pelos ativistas to para homens quanto para mulheres. tian Dutilleux. entre outras. 21. minente ator negro de cinema que se tornou protagonista de te. da cultura urbana que se impõe a todos graças a sua Mesmo nos domínios do esporte. de campeão brasileiro. proe. ENUNCIAÇÃO23 blicidade melhorou nitidamente nos últimos anos. balternos é pertinente e deve ser igualitária em relação em equipes de primeira divisão20. portanto. bes do Brasil. de 2009). no Rio de Janeiro. esse exemplo marginal vai corresponder a uma televisão. lembra a negritude de Léopold Sédar Senghor que fazia. que chegaram a usar argumentos Mas o ideal de beleza negra não se limita à apa- gem inferior ou depreciativa desses mesmos grupos. Iniciei a reflexão em torno do conceito “o poder de enunciação” 20. Esse Os meios de comunicação de massa. essa função famílias negras. reconhecido como o esporte nacional por excelência. Andrade não tinha estofo nem ca. eles defendem a plura. equilíbrio e a simetria dos traços do rosto. intelectual negro. em que o movimento. que era negro. mas dotadas de coxas grossas e nádegas redondas. Rio de Janeiro. fosse o goleiro titular da seleção brasileira. esperar até o fim dos anos 90 para que outro negro. Sheron Menezes e Roberta Rodrigues. A sempre à base da escala social. intelectual e ativista do MN e. Jorge Luís Andrade da Silva... o elogio da beleza particular da mu. 8 de dezembro professor d o centro Universitário Estadual da Zona Oeste (UEZO). quentes. “Nos braços 23. conseguiu ser nomeado para essencial da estética negra brasileira? Se observarmos as O PODER DE e indígena. passa do negativo ao positivo é fundamental. Essa visão significa que o da cor da pele perdeu importância. as proporções. ele mesmo havia tentado principalmente a qualidade de serem generosamente pos subalternos e assim garantir o respeito à dignidade social onde são expostos desde o berço a um discurso nomear Andrade treinador da equipe em 2004. Se esses atributos são apreciados no quotidiano das grande difusão pela mídia. Vanderlei Luxemburgo foi treinador dos mais importantes clu. é encontrada em graus A partir do momento em que se admite que a pre. os negros também fo. a projeção de uma o cargo de treinador do Clube de Regatas Flamengo em caracterizada pela curvatura acentuada das ancas. duras e individual de todos. constata-se também que a por muito tempo ignorados ou marginalizados pelos sido consagrados nos últimos decênios. beça para ser treinador de uma equipe de futebol da mulher quanto no homem. diretas sobre o mercado de trabalho ao criar barreiras dicção21. onde o critério Dida. es. variados nas festas realizadas nos terreiros dos cultos sença em todos os níveis de membros de grupos su. igno- lenovelas da Rede Globo de Televisão. é percebido como branco por gran. particular. Em suma. Amauri Mendes Pereira. Ilê Aiyê. rais carnavalescos como Olodum. alegando que ele era negro e não tinha boa rência física. Na esfera do sagrado. elementos particulares constitutivos de uma abordagem questão espinhosa para a população afrodescendente conhecido como Andrade. à música e aos encontros amo- gência moral indireta de reparação em prol dos grupos Nesse esporte em que numerosos jogadores negros têm Se ficássemos nisso. negras reflexões ciação ou de ressignificação tais como a negritude que velas e séries televisivas. de maneira subliminar) que o Brasil não tem neces- escura18. pois per. pois. tado à indústria do entretenimento. poder-se-ia dizer que caíra. 19. Com exceção de Vanderlei Luxemburgo. embora ele próprio se considere negro. da. inadequada aos jogadores negros22. de número de brasileiros. sidade de um mecanismo de discriminação positiva na televisão. ajudam a compor a imagem do que é belo tanto na fligir um prejuízo e efetivamente oprimir determinados invisíveis que afetam a igualdade de oportunidades tan. Depois da Copa de 1950. Isso tem consequências racistas. zes negras atuais de pele clara. Essa preferência é verdadeira sobretudo para as jovens atri. É o caso notadamente dos elencos de teleno. 22. Valorizar o natural e estar à vontade com sua plural por parte da mídia. seres repulsivos. O motivo é que a expressão e com seu corpo são considerados atributos altamente discriminatórias em relação às populações fáceis. o movimento. rantes e desprovidos de história. Foi preciso cursos de beleza negra organizados por grupos cultu- lidade de concepções da vida social em face do molde fecham as portas aos postos de alto nível. -se evidenciar o caminhar. grandes veículos de comunicação. em um ambiente diretor técnico do Flamengo. complexa estética afro-brasileira. A sombra dos cânones helênicos. ção racial ainda se manifesta no que se refere ao posto za helênicos que relegam a um segundo plano as outras a postura e o ritmo se misturam. mas também uma exi. Para evitar tais distorções ceitos : os preconceitos sexuais que as apresentam como ram excluídos da posição de goleiro. Assim é no futebol. dos campeões”. Com política de dar destaque a negros principalmente para "provar" sempre a ser privilegiadas em relação às de pele mais (sem o dizer. limi- a da matriz que forma as identidades coletivas. textura dos cabelos e formato dos lábios lembrem de- mite designar o belo e o feio levando em conta a natu.

novembro. VIEIRA Jr. S. O mesmo se faz quando se colocam -emancipação no Brasil. Editora Contexto. 2007. 2009. chalon. 2 de dezembro de gro e adoção de ações afirmativas como reparação senta uma novidade. Rio de Janeiro. Montréal. nº 13. da cultura dominante. objetiva do Estado. O Globo. simples discurso existente. Société. citamos. intelectuais negros fala cada vez mais em seu próprio dos pretensos conflitos e ódios raciais que delas resul. utilizar doravante a ex. Y. Joel Rufino dos San. de raciais no Brasil contemporâneo. Francine Saillant (org. SAILLANT. “Dia da consciência indi. ram assumir o "poder de enunciação" por muito tem. 2009. 3. 31. R. São Paulo. 1995. nas da tomada de posse dos discursos estabelecidos. eles interpelam aqueles que detinham o discurso. Civilização Bra- um discurso. Rio de Janeiro. que está em jogo ao ser submetido ao questionamento Brasil". É nesse tcolonialité. não apenas daquilo que é a nova nação brasileira emer. antes BIBLIOGRAFIA RAMOS. sua imagem coletiva é negativa. O Globo. nº 18. Quebec. Ronaldo Jorge Araújo. mas de sua ideia de nação forjada anteriormen. Université Laval. Esse movimento provocou forte que devem ser compreendidas como intervenções num LOPES. A reapropriação do discurso repre. A partir daí se pode MANSUR. Monteiro. “O nascimento da nação: Estado. e San. Juruá. “Mutation de savoirs et pos. FERES JÚNIOR. C. temporâneo. Rio de Janeiro. VAN DIJK. nante. “Das estatísticas de cor ao po monopolizado por aqueles a quem se atribuía um privilegiavam a estética helênica em detrimento da plu. ABI.. vidual”. Passo Fundo. L’anthropologie et les militants uni. volume 33. In: Peter Fry.. Buscam criar descendentes de escravos africanos e afro-brasileiros. Relatório IPEA: Políticas sociais. 2007. pressão "tomada do poder de enunciação" em lugar do indígenas. Civilização Brasileira. no Brasil. da imagem dos negros e participa do poder de enunciação que vem a estimular GOMES. TAGUIEFF. O Globo. compreender que o tom alarmista utilizado pelos ad. Carlos Alberto 25. é seu pensamento intelectual pública: a fabricação de um consenso anti-cotas no cularmente ignorado. logies. "Desejo coletivo". 2003. representando um segmento populacional se. raciais no Brasil contemporâneo. dia e ação afirmativa: a construção de uma opinião monopólio do saber e que jamais se haviam confronta. UPF.. 2007. João. (orgs. Divisões perigosas : políticas raciais no Brasil con. MONTEIRO. Julio César de Tavares. Eles se ralidade de concepções do que é belo e do que é feio. depreciado e considerado inca. Simone Monteiro e Ricardo reapropriaram do discurso. Lélia tos. acima de tudo. já que um número crescente de versários das políticas de ação afirmativa decorre. aos danos causados. Quebec. à l’épreuve des globalisations. nº 2. Estudos estatuto da raça”. O Relatório IPEA: Políticas sociais acompanhamentos e do desdém com que são tratados pela cultura domi. Januário (org.). P. nº 16. Y. análise. te sem a participação dos afro-brasileiros e dos povos Janeiro. como em evidência fragmentos esquecidos da história dos JEWSIEWICKI. Ventura Santos (orgs. mimeo. 26 de novembro de 2009. negras reflexões algumas exceções.) tions des torts du passé de l’esclavage. Rio de Janeiro. Avançados. Ethno.).. citoyenneté et répara- versitaires noirs au Brésil". 104 105 . Mí- de argumentos. MAGGIE. uma identidade coletiva positiva. Curitiba. Rio de Janeiro. CONSTANTINO. P. Levando-se em conta os argumentos acima. FRY. e termo "reapropriação". da imagem e da memória que eles atacam e. Seminário Comunicação e Ação Afirmativa: paz do ponto de vista moral e intelectual. lectuais afro-descendentes dos cânones de beleza que GUIMARÃES. Civilização Brasi- para tentar eliminar as representações culturais nega. mas da ascensão dessas novas concepções do mativa: uma análise da argumentação pública". livre das injunções Essas reinterpretações são também tomadas de posição 2010. "Droits. vol. Rodrigo.. intelectual" por outras concepções do discurso. S. Mi- a discriminação nos locais de trabalho. Ao tomar a palavra em pé de igualdade. no caso presente. 2009. entre o Império e o início da República”.. "poder de enunciação" com um exercício relacional que Globo. Também não se trata ape. O Papel da Mídia no Debate sobre Igualdade Racial.). 24 de novembro modernização nacional e relações étnico-raciais mas igualmente de uma reação. Rio de mais judicioso. (orgs. SALES Jr. Ler a respeito Fry. Muniz Sodré. Rio de Janeiro. Nei. Ciências uma crítica que permitem a ocupação do "território MUNANGA. Brasília. “Intelectuais SCHWARTZMAN. Rio de Janeiro. fruto sentido que se faz necessário compreender a expressão FOGAÇA. Université Laval. Azuete. (1995-2005). Bra- Gonzalez. seria gente. do com um contradiscurso produzido por intelectuais ção e do enfraquecimento do monopólio do discurso FERES JÚNIOR. Ronaldo. Ensaios e pesquisas sobre a escravidão e a pós. Hélio Santos. 2004. Francine. Em suma. polêmica com um grupo de intelectuais famosos que debate intelectual por muito tempo fechado à crítica 30 de novembro de 2009. Segregação institucional do ne- brancos e negros. edição especial. ões". "Nos braços dos campe.). Divisões perigosas: políticas de sua memória. Amauri Mendes Pereira. Simon. Introdução crítica à socio- de tudo. A reinterpretação por artistas. Entre os intelectuais negros de proa que têm desempenhado um papel importante nessa « tomada do poder de enunciação ». Perspectives Réinventer l’anthropologie? Les sciences de la culture du Mouvement Noir au Brésil". Centro Cultural da Justiça Federal. mimeo.. não 2009. Maggie. leira. 2009. ao longo nas últimas décadas se inscreve na esfera da política. nº 2. escritores e inte. intelectual25. tos.. 25 anos do Movimento Negro Relatório IPEA: Políticas sociais acompanhamentos e do século XX. nº 15. acompanhamentos e Medeiros. "Lieux de l’identité". 1995. Anthropologie et 24. 2008. Flávio dos Santos. sem dúvida. Rio de Janeiro. 2008. USP. de uma imagem e de uma memória. SANTOS. 2008. ciais e culturais. mai-ago 2008. Alberto Guerreiro. "tomada do poder de enunciação" designamos. Reinterpretaram os fatos históricos mediante as reivindicações políticas novas práticas so. entre outros: Abdias do Nascimento. que se trata de mais que a retomada de um logia brasileira. análise. João. Beatriz Nascimento e Sueli Carneiro. Divisões perigosas: políticas mada de posse de alguma coisa. Rio de Janeiro. Foi por isso que. Pierre-André. Responsabilização veem nisso a iminência de um conflito aberto entre contrastada dos intelectuais negros. MAIO. CÉLAT. Paris. UFRJ. Experiências atlânticas. Teun. João Jorge Rodrigues. Carlos Eduardo.. GARCIA. volume 44. Maio. análise. sília. Kabengele. o qual subentende uma reto.. Yvonne Maggie. tivas dos negros e suas consequências sociais. março. "Da opinião publicada à opinião negros. Marcos Chor Maio. mas da desestabilização de sua convic. papel preponderante na produção do saber24. Brasília. "A vida me ensinou a ser negra". FCP/MinC. pública. munidos tariam. Les fins de l’antiracisme. São Paulo. Bogumil. 2005. de uma releitura e de de 2009. Por sileira. Antonio Sérgio Alfredo. R. Discurso e poder. "Acadêmicos contra a ação afir- nome. 2005. C. Liber. negros e formas de integração nacional”. Brasília. 2008. Sociais Unisinos. intelectuais e ativistas negros resolve.

we conducted a literature search and guided ourselves by Professora Assistente da Universidade do gráfica e nos pautamos em estudos na área das Ciências Sociais. metáforas Evaristo (2006). (STEPAN. 2)“Por que certas analogias tíficas. studies in the area of Social Sciences. ao longo dos tempos. É na esteira do pensa- Ao se deter sobre o período que vai do século XVII mento de Stepan (1994) e estudiosos afins que tecerei Reportando-me à epígrafe transcrita inicialmente. estas são resultantes de relações sociais (re) mesmos em seu livro O espetáculo das raças (1993) europeu. como um campo privilegiado de saber. Ciências Sociais e Humanas. por conseguinte. naturalizados. ao dia “ao reservatório de conhecimento não metafórico. 72). p. p. que os engendraram. As teias e tramas de ideias dos “homens da ciên. por considerá-las destituídas de obje. construídas historicamente. como observa cêntrica. that follow seek to contextualize. correspon. a pre. Raça aqui é entendida não em uma acepção biológica. cujo intuito foi propalar a superiorização euro. Com esse fim. e de- abstract Race and gender are historically (re) constructed concepts. black people resis- (UNEB). fazendo uso de metáforas ou analogias particulares estão relacionadas à pro. visto que pretendiam classificar o ser humano psico. que não intento dis- 3. apesar das controvérsias criadas em torno delas. com bolsa estágio/sanduiche em Maputo. Para tanto. a fim de justificar as pressuposições cien. The reflections A analogia em questão é aquela que liga raça ao gênero. We therefore expect. configurando-se em um ins- tempo. na era moder. O que interessava. propagar o racismo científico e o sexismo2. realizei pesquisa bibliográ- tensa superioridade branca e a inferioridade dos demais fica e me norteei por estudiosos (as) provenientes das segmentos étnico-raciais. sentimentos e a mente humana. p. Eduardo Mondlane. Ao contrário. Para maiores informações a respeito de tais “homens da scien. de antemão. esclarecem Moore (2007) e cia” veja-se também Schwarcz (1993. par. em detrimento dos demais. mesmo quando os resultados obtidos iam de a referida estudiosa. almejo aprofundar polêmicas que giram em torno das a entendem enquanto resultante de discriminações pelos traços diacríticos do ser humano. Doutora em Letras pela UFPB. cia” são o foco central de discussão de Stepan (1994. sente texto. distinção entre os movimentos feministas e o feminis. Com o transcorrer do que nortearão as ideias a serem desenvolvidas no pre. Pes- quisadora de relações étnico-raciais. o desinteresse Vale salientar. resistência Keywords: scientific racism. Especialista em Literatura/PUC. como assevera Stepan (1994. 1994. -SP e Graduada em Letras/PUC-SP. rei- ao XX. Munanga (1999). ampliar o leque de discussões no tocante às the range of discussions with regard to ethnic and racial relations tante do Mestrado em Pós-Crítica (UNEB). Mestre em Educação Palavras chave: racismo científico. no entanto.negras reflexões RAÇA E GÊNERO: ENTRELACES RACISTAS VERSUS AFIRMAÇÃO IDENTITÁRIA NEGRA RESUMO Raça e gênero são conceitos (re)construídos historicamente. (2007). dução científica social?”. this end. são escolhidas e outras não?” Afinal. dentre os quais destaco: Raça e gênero são conceitos (re) construídos historica. professora visi. na ciência. a ciência. As neutrality of ”men of science” that engender them. Nancy Stepan (1994). elo entre raça e gênero. de modo a repensar as consequências na in order to rethink the consequences in contemporary society. 2003). encontro aos almejados. que busca saber: 1)“Como. colocando em xeque a pretensa complex issues emerge from them calling into question the supposed neutralidade dos “homens da ciência”. Serão estas as duas questões cruciais entender que analogia corresponde a uma espécie de empírico. graças ao status E DESDOBRAMENTOS tindo de conceitos preconcebidos. For séculos XIX e XX. los XIX e XX”. uma analogia que Maria Anória reflexões que se seguem visam à contextualização e desdobra. pela Univ. relações étnico-raciais e de gênero em nosso seio social. 72) salienta que. É a partir daí que se passa a de contribuições e reflexões que as engendraram no INTRODUÇÃO demarcar as diferenças sociais e. “tradicionalmente”. Stepan (1994. and then les emergem questões complexas. uma analogia que ocupou lugar estratégico ditos cientistas. race and gender. já que estudiosos da área de relações étnico-raciais altera. e analogias. Luiza mente. com isso. mo afrocentrado. Teresa de Lauretis (1994). mas. Bairros (1995). b) relação e na teoria científica sobre a variação humana dos sécu- tividade. p. configurou-se (e ainda se configura. Carlos Moore (2007) e Pietra Diwan ciência”1 que os engendraram. Esperamos. temáticas étnico-raciais3 e de gênero. and gender in our social bosom. realizamos a pesquisa biblio. Conceição ao colocar em xeque a neutralidade dos “homens da 72). O qual resulta da crença na supremacia do segmento branco. tampouco sociológica. partir lógica e biologicamente. expand Estado da Bahia (UNEB). nos dias atuais) RACISMO CIENTÍFICO era demarcar os segmentos étnico-raciais distintos. apolítico e universal”. p. e não pelos genes e ou fatores bioló- 1.36) que se detém sobre os 2. quando do desejo de distinguir os comporta. tance. houve a rejeição da metáfora e da analogia pelos da analogia e da metáfora como meio de interpretar e ao gênero. raça e gênero. 72) contemporaneidade. gicos. mas dos “homens da ciência” pela metáfora e analogia se cutir o conceito de gênero historicamente. âmbito teórico. da razão que. considerações acerca dos seguintes pontos: a) o papel tero que “A analogia em questão é aquela que liga raça na. e envolvem digressões complexas e polêmicas. 107 . negra. Sueli Carneiro (1993. sim. de verdade que lhe é conferido. mentos. and deployment of these meanings ocupou lugar estratégico na teoria científica sobre a variação humana dos de Jesus Oliveira mento de tais acepções.

largura da pélvis. e um extenso discurso sobre desigualdade falha em perceber ‘arbitrariedades’ é que faz com que ciência” e às suas “descobertas”. 1994. linguagem própria. dou na disseminação de novos vocábulos técnicos. o qual estava. 73).. se não resultassem conceitos (pseudo) científicos engendrou a propalada ditos “homens da ciência”. pois souberam enlaçar. No caso do estudo científico da diferença humana. p. p. Emergem daí não se deu casualmente. O PASSADO PRESENTE culturais das analogias científicas”. que “a mulher se igualava aos negros pelo na ciência”. gurar a sobrevivência da classe e a continuação da hegemonia”. porém. distorção e mani. a pretensa objetividade científi. apesar de “o papel da metáfora e da ana. no século XX seguem as polêmicas Com base no tamanho do crânio (craniometria) XVIII. se nos detivermos com um rejeição de ambas. frenologia. ca. p. no artigo de Stepan.] que “as analogias ou os modelos nelas baseados eram gros). 87-88). obviamente. p. p. também. o criminoso. analogias usadas pelos cientistas do final do século A analogia conduziu pesquisas. porém. gerou hipóteses e aju- No entanto. 73) informa ainda quão fantasiosas. E. emaranhar. Eis. para tasiosos. segmento negro. dos homens. em tragicidade para aqueles que foram discriminados inferiorização negra e a superiorização branca. precisamente nos meios acadêmicos – onde. as isto é. da metáfora pelos “homens de ciência” para afirmar 5. tecnologias sociais6 ao utilizar não só as téc. os pobres das cidades e os é possível notar que os ideólogos da ciência criaram. com o mero propó. p. Stepan prossegue com outras instigantes in.. que o “físico francês Pierre Duhem ficou bastante conhe. cujas semelhanças entre si e as diferenças nicas e demais instrumentos da área como. tinham o papel de justificar (STEPAN. sobre o porquê da escolha de algumas analogias em de- formações a respeito das apropriações da analogia e 6. A princípio ocorre a total final do iluminismo estudos sobre a variação humana cendo que “na ciência [. a ser elaborada”. através de “manobras por vezes cômicas”. se de um lado os “cientistas” passam a defender das ditas raças superiores (brancos) e inferiores (ne.. científicas. saberes. p. usufruindo do sta. evidencia alguns métodos científicos 220). em uma (con)fusão epistemológica e na confiscação de subjetivas e até mesmo à falsidade e foi contrastada ao crânio estreito. os negligenciavam ou suprimiam Complicado é o fato de muitos daqueles ideários terem ência” passaram a considerar “que metáforas e analogias grupos hegemônicos.. o que era aprendido nos cursos 7. imersa em metáforas e analogias arraigadas de (pre) Em suma. so. tificar algumas constatações desenvolvidas por Stepan.] A analogia definiu importantes para o pensamento científico”. para designar algumas “técnicas” Carlos Moore (2007. nem meramente pessoais”. que contribui para ampliar e ra- crítica da metáfora científica está apenas começando com o homem branco ‘explicavam’ suas posições infe. cos/científicos às descobertas. Nesse caminhar de constatações/manipulações interferindo nas relações (inter)pessoais. prossegue Stepan viante sexual. entre crianças e adultos”. 1994. possibilitaram a “construção de similaridades”. étnico-raciais. entre péis sociais. Diante dessa constatação.. no século XVII. interessa registrar que “a metáfora chegou a racial começou a ser elaborado”. poderíamos identifi- trovérsias. considerados também. NO SEIO SOCIAL É instigante. demarcando-se a supremacia racial 108 109 . direitos e deveres. a fim de atribuir termos específi. Como estarei me referindo sempre o mesmo texto de Stepan ber. as diferentes formas de opressão/exploração tão caras “[. tendo a atenção dos his. fan. de um modo ou de outro. o elo pulação de dados pelos “homens da ciência”. a metáfora e a analogia utilizadas pelos foras. pois. peso ou estrutura do cérebro”. e comprovar teses racistas e sexistas. p. tão diferente das objetos científicos: seres humanos. 76) bem como outros grupos sociais [. dolicocéfalo. a Carlos Moore (2007). à fantasia poética. remetendo-se a Foucault. das crianças e dos idosos. à própria ciência”. tus científico e social que dispunham. 86-90). prognatismo. tudada sistematicamente. a saber: craniometria. sobrevivido ao transcorrer do tempo. preconceituosas e distantes da reali. branquicéfalo. mas elementos Analogicamente às raças inferiores. As metáforas. insanos eram. do “informações sobre os corpos das mulheres (com- variação humana”. nais ou genialidades humanas. nos afigura ideias cômicas. distinguiram diferenças raciais como aspectos cruciais são arbitrárias. p. ou não ‘observados’” (STEPAN. no século XX. entre “raça e gênero”. 86-89). p. foram resultado de metáforas Também auxiliou a constituir os objetos de investiga- pois. Então. (1993). dade são suas conclusões. [. Assim sendo. pan (1994. indicando primento dos membros. poderes. Seguindo na direção do pensamento da referida pelos homens da ciência. preconceituosas. detrimento do segmento negro. quando a mutação humana começou a ser es. 76) faz alusão perdido sua importância como sinais de inferioridade e/ou aceitação/apropriação da metáfora e da analogia Antes. Sem entrar nos meandros de tais con. “alguns filósofos da ci. pesquisadora evidencia seu propósito que é “contribuir antropometria. os considerados homens das ciências fizeram (STEPAN. organologia. ta científica ou esquemas heurísticos. a as metáforas ou analogias particulares sejam aceitáveis car semelhança com a ficção. Para maiores detalhes consultar Stepan (1994) e Schwarz ideologicamente as noções raciais que predominam até são apenas às respectivas páginas em questão. posto que mul- não são apenas auxílio psicológicos para a descober. que a burguesia criou “a partir do final do século XVIII para asse. p.. O artigo de Stepan (1994. complementa Stepan (1994. o papel das metá. p. para atender aos propósitos eurocêntricos. Tanto é que ao identificarem Mais recentemente. os dias de hoje [. trazendo à tona a construção científica que no caso. pois.. vam os machos de raças ‘superiores’”. 72)4 é possível obser. para se perce. constitutivos da teoria científica”. baseados em Lombroso. também abordadas pelo estudioso logia na ciência [ser] agora reconhecido. às figuras princípio. foram gestadas e organizadas (1994). diria ainda que. enfim. Ou seja. 74). rimentaram e ‘viram’ as diferenças entre classes. infantil e delicado. demarcou pa- metáfora e analogia para o esclarecimento científico”: racistas e sexistas.. as ideias vigentes fez surgir as ‘lentes’ através das quais as pessoas expe- cido pela sua crítica à importância da controvérsia sobre não eram entendidas como precoces. isso enredar: ciência/analogia/metáfora. p.. a aludida riores e diferentes na hierarquia social. Logo. farei alu. da realidade. “Não por aca- dos homens da ciência. “naturalistas” da ciência da cultura. a mulher. 1994. familiares e culturalmente arraigadas ção na variação humana – raças de todos os tipos [. não mais mencionarei o ano de sua publicação. em consonância com os demais grupos a ambos os gêneros: feminino e masculino oriundos do incompatíveis com a metáfora tendiam a ser ignorados construções lógicas da ciência em direção a visões mais hegemônicos da época5. das mulheres. ao constatarem a discrepância entre os resultados ob. etc7. do sé- 4. raças Se a “analogia conduziu pesquisas”. tifacetados.]”. reconhe.]”. preestabelecidas. os filósofos descobertas mirabolantes e racistas. estrategicamente utilizado para quão eram movidos por interesses escusos e afins. No entanto. 73). através do crânio dos seres humanos. sob teias e tramas e dizimados sob a égide da ciência. 1994. Stepan constata ainda que “O sistema metafórico p. em alguns mo. questionando de “novos conhecimentos”. quando da “revo. 28) salienta que.. conhecimento sem adornos.] a pouco de atenção àqueles episódios dos “homens da lução científica”. Schwarcz (1993. entre o homem civilizado e o selvagem. verdadeiro e objetivo – mais robustas e arredondadas cabeças que caracteriza. de “uma peculiar analogia da história das ciências. RACISMO E SEXISMO: explorar uma série de questões relacionadas às causas formações. as quais “teriam var momentos cruciais da polêmica quanto à rejeição explicar a “variação humana dos séculos XIX e XX”. as tendências crimi. é perceptível quando Stepan (1994. culo XVII ao século XX. e sexo. do termo utilizado por Lauretis (1994.. Daí a utilização Partindo de tais exemplos hoje esdrúxulos. assim. Isso crânio..] metáforas e analogias não estudiosa.50). p.] aspectos da realidade e da experiência humanas toriadores e filósofos da ciência se deslocado das re. sito de salvaguardar privilégios sócio-econômicos dos tidos e os almejados. quanto à importância ou não das metáforas e analogias. a importância de (re)discutir e proble- (1995. ricos e pobres. uma teoria ‘raças à parte’. E isso evidencia o que era problemático [nos] grupos (STEPAN. Aproprio-me. a riqueza de in. auxiliando e fundamentan. analogias e modelos começou a ser reconhecido mentos. aqui. prosseguem demarcando lugares sociais. “[. Emerge. propiciou a analogia entre raça e ciência. formato do No texto de Stepan (1994. estando ambas análogas ser associada à imaginação. matizar tais questões. Stepan (1994. o des. 75). da ciência discordam. além da omissão. negras reflexões trumento “estratégico” para a “teoria científica sobre a a superioridade do segmento étnico-racial branco em trimento de outras.. então. 73). prossegue Stepan (1994. para o desenvolvimento de tal teoria”. “desde o às “origens culturais da metáfora científica”.. observa Ste. compreendendo-se. de frenologia.

23). Nesse viés de pensamento. Conforme Frei Betto (2006. Baiana e o português que se amanceba com ela: Gerôni. leva a cidade ao caos ao internar/ TECENDO OS FIOS DE UM e de quem? Responde o autor. cujo título é O espetáculo das raças (1993). 281). Cuti (2010). Logo. cismo e o sexismo perpassam todas as culturas e todas do bojo desse contexto que surge a eugenia imersa em racistas “não surgem espontaneamente. com base em Judith Grant. nestas.. as civilizações. Logo. Oliveira os problemas sócio-raciais que afetavam as mulheres (2000). autoria. Carlos sustentáculos conceituais daquelas arquiteturas teóricas às pessoas negras e. os modos princípios de extermínio dos não brancos. por exemplo. mo. de Alui. sexista. complementa. Surge daí o feminismo afrocentrado. p.. No entanto. de Hipólito Taine. lar o matrimônio dos casais ‘superiores’.Vale pontuar que Diwan (2007. no entanto. em uma leitura tos. Eis o que cons. fim. a persistência do racismo e de seus male. uma espécie déficit que terpretaram a opressão sexual com base em um dife- que “ainda estão presentes na atualidade e continuam tava. plexos ainda que os enfrentados pelas mulheres bran. Eis o que Ab. economistas e filósofos atuaram como grandes corrobora o sentimento de superioridade em relação Poderia.]” (MOORE. nesse aspec. p. de disciplina objetivou implantar um método de sele. remetendo-se aos “conceitos básicos de 8. Eis o que a pesquisado- as virtudes europeias. as religiões. e o florescer do feminismo no Ocidente. Isso. porém. abandona a família e. cia antiga. na segunda metade dos anos 60. Evaristo (2007). É (2007) e de Stepan (1994). que in- rias racistas em questão. por outro lado. se começa a dar mais visibilidade cos. a libertação da mulher [. Gerônimo. que buscaram a pureza diversos. nossa literatura.]”. 286). Em O Cortiço. no Brasil. dade branca. à luz dos ideários 10. sociólogos. 458). ídas e determinadas. como algo natural. durante e após o período Carlos Moore (cit. 281) salienta que “O sexismo é um fe- que alicerçaram o racismo ideologicamente”. Ele esclarece ainda que da vontade divina. 110 111 . Assim. ideológicas” para demarcar a “superioridade dos cris. sob o aval Mas. assimilada e adaptada nômeno exclusivamente antimulher e o racismo é um a salvaguardar privilégios seculares por meio de ações do .] e classes sociais?”. percorreu o universo dos que “Sobre a raça negra. no século XIX. além deles. Moore (2007. conforme observamos renciado aspecto teórico-político-ideológico de onde o exercendo sua força ideológica não apenas na comuni. Há. Nos anos 80 (século XX) é que. ponto de vista. Então. No que concerne à comunidade branca. não só na literatura destinada ao adulto mas. sobretudo quando este reconhece o influencia da (pseudo) ciência. e Um exemplo da obsessão fanática – para não dizer sofridas. etnólogos. da intensificação da opressão social. FEMINISMO AFROCENTRADO quais: “libertação” e “emancipação”. Embora não possamos traçar uma linha temporal a res. nacional racismo. gra destroem a retidão e o caráter exemplar do homem Quer dizer. p. 2007. escravos e cidadãos em São escravagista. 10). portanto. aproximações entre os pontos de vista de Diwan outros personagens da Literatura Brasileira expressam a mente. afirmando ser Francis Galton “o pai da eugenia”. seu livro intitulado: A invenção do ser negro: um percurso Como formas de consciência historicamente constru- e perenizar as estruturas de dominação sócio-raciais Gomes (1995. 37). eis o que se segue. conforme percebem os estudiosos da “fenômenos atemporais. Para Bairros (p. 23). propugnando Mesmo na Idade Média. Platão e Aristóteles. historiadores. imaginário social e na prática brasileira”. to.. muitos outros10. p. realimentada pela sociedade patriar- logos. esta “questão recorrente não é Assim como Carlos Moore. E isso tatou. levando em conta no exterior e segue aa mesma linha de pensamento de Cashmore 9. de “privilégios econômicos mesmo ponto de vista de Nascimento (2002). 280) delineia as nuances do através da ciência. (ibid. tendo como base suas inferioridades ‘naturais’”. racista e sexista. a inferiorização da mulher é tomada totalmente resolvida pelos vários feminismos. tropólogos. a inferioridade dos muçulmanos domínio e às especulações científicas vigentes. dias Nascimento (2002) denomina como “genocídio ção humana baseada em premissas biológicas. p. “Numa socie- e Carlos Moore. 19-21) o feminismo a preservação da raça” (op cit. p. conceitos e aponta as suas limitações. Darwin. em que tudo era resultado fantasmagórica – de um personagem que corresponde. Nessa 18”. elucidando conceitos tais quela não houvesse “descrições raciais nesses argumen. cal. o Rio de Janeiro. também. da da história. Munanga terior e no Brasil. o que poderia existir de comum entre ideologicamente. 2007. p. para “estimu. estruturado sio de Azevedo. expandiu-se pelos países do Ocidente. 2003). visto serem os campos de batalhas mais com. 1987. área citados até então e. reportando-se às teo. “Tanto nomes e propósitos distintos. que se degenera no meio social em que habi. chega até nós. permitin. Essa associação. seu marco dá-se no “século Terra Santa e a inferioridade indígena para justificar obra literária O Alienista. marcada por profundas desigual- racismo como um “fenômeno histórico”. muito embora só a o sexismo quanto o racismo compartilham a singulari- filósofos. libertação de quê A aludida pesquisadora salienta que embora na. Esse é um exemplo da analogia ra evidencia. Stepan (1994. Elas se alimen. Eis a visão magistral de Machado de Assis face ao tomemos a demarcação temporal de Frei Betto como tãos e. aborda tais uma história da eugenia no Brasil. nidade negra”. universais e transversais”. pois expli. Seu percurso histórico é longo e. lá se vão as mulheres. no dade racista. Gomes (1995. masculina.. movimento feminista surgiu”. fenômeno fundamentalmente antinegro” sendo ambos racistas. negras reflexões do segmento branco em detrimento dos demais: “An. Spencer. cavam desde a inferioridade dessa raça com relação à oficialmente. congênito. A esse respei. a noção de superioridade do povo metaforicamente. Mas. historicamente e não ideologicamente”. afinal e sociais que são negados à população-alvo”. duas figuras são emblemáticas: Rita entanto. recriados em ência no transcorrer do tempo. nem são meras quecimento social e ideológico. 23). a alguns dos “homens da ciência” é cas. p. prender um imenso contingente em seu “laboratório”. p. tomando como referência o século XVII. na contramão muitas mulheres já se rebelavam contra a hegemonia cristão sobre os muçulmanos em relação à posse da muito bem ilustrado através de Simão Bacamarte. experiências de um cientista obcecado em desvendar imersas em uma sociedade rígida e regida pelo patriar- as (re) ações humanas consideradas anômalas sob seu NEGRAS MULHERES: calismo. com o advento da “Revolução Francesa”. pondera Bairros (1995. Esse é o aos interesses dos diversos grupos hegemônicos no ex. nem ele. com vistas auto-percepção dificultando – e às vezes inviabilizan. que sempre se pretendeu neutra e em preto e branco: jornais. nas feminismo” e. 2007) entre outros (as) estudiosos da área. peito da propalada inferiorização da mulher e. (2006. psicó. etc. os discursos do Correio eram às desigualdades raciais no Brasil. p. lhe era inerente. 2007. Santos (2002) em do que os “grupos hegemônicos” consigam “produzir tudiosos (as) da área. “Já na Gré. e ganha status de verdade. Eles atravessam os milênios. enredado com base no fator heredi. o português. 458). as filosofias e as ideologias Para Diwan (2007.. tende a ocasionar danos à lada superioridade branca X inferioridade negra impor. o alienista. através de Paulo no final do século XIX. Bento (2000). atemporais e englobantes. (2004). p. Esta estudiosa assevera e internacionalmente. p. tada principalmente da Europa. envidaram-se esforços para perseguir a religiosidade de produção. Esse é a tese defendida por Scwarcz em outro livro de sua to ver: Brookshaw (1983). “o berço a dominação do Mundo Novo podem ser constatadas obra temos a fina ironia machadiana ao perscrutar as do feminismo moderno”. brancas e negras. cientifico.a construção de uma autoestima positiva. Sem entrar em tais meandros. mas entre parcelas significativas da comu. 69) constata branco. tário e fenotípico dos segmentos étnico-raciais. o aborda não só no Brasil como produções destinadas às crianças e adolescentes. o ra- em favor da sua prole [. Dentro de uma visão mais Naturalista da realidade. ideológicos. dade de serem dinâmicas determinadas e construídas racial quando da distinção matrimonial. desde então. (MOORE. negras vozes fizeram ecoar as opressões surgiu “nos EUA. Aqui o poder sensual e bestialidade da mulher ne. 113). p. 69) reitera constatações de Moore das idéias que naturalizaram a inferioridade dos negros. desfiando suas teias enredadas sob fios teóri- analítica”8. a eugenia “Com status tam e terminam por legitimar o racismo presente no e as atividades culturais do segmento. mencionar mais exemplos da propa. mas basicamente convergentes. incontestavelmente se desenvolveram estratégias Nem mesmo a esposa escapa. obvia. também. ao entender que as teorias Em termos de outros projetos políticos de embran. Há. lismo’” (SCHWARCZ. é apropriada e justificada metaforicamente pela ci. por análoga entre ambos. sucumbe em todas antes. de Machado de Assis. tendo em vista branca até suas características de ‘humildade e servi. Logo. dades sociais. fícios para a sociedade como um todo (TELES. uma referência.. em busca da libertação. mulheres de diferentes grupos [. entre outros (as) es. Silva (1995). aqui. um ponto de partida para o alvorecer e indígenas” (DIWAN. p. Trata-se. Aristóteles relacionou a mulher ao escravo. transposições de pensamento externo9. Schwarcz (1987) em seu livro Retrato do negro brasileiro” antes. em seu livro Raça pura: entre raça e gênero. Antes. partir dos anos 90 o governo federal tenha reconhecido. 77) assevera que. p. históricos.

Ao desenredar os fios da trama que encobriram a e/ou invisibilizadas em nossa literatura ao longo dos sobre as “versões mais conhecidas do feminismo. dicionais existentes sobre a mulher: contra o mito de zinhas e de senhores de engenho tarados.] por longo tempo. sem que. pois. Hoje empre. p. portanto. prossegue em suas dos feminismos que se insurgem no âmbito das mu. o patriarcado refluiu no visão de mulher universalizada. olhar sobre a alteridade. de outro exige o estudiosa se refere. eram (e são) Na mesma linha de pensamento das estudiosas humanidade. desse modo. com uma definição racial: brancos. homens ou mulheres [. após ele. seguido da mulher negra.. mulheres que não entenderam a atenção. são vistas como “antimusas”. mica. reportando-se às 112 113 . enfatiza Bairros. concebidas resgate desta dimensão feminina irrecusável.. já que à mulher se atribui opressão social oriundas do patriarcalismo e do racismo. emocional. 458-459) que. faz (em) ecoar vozes silenciadas de pensamento de Sueli Carneiro. p.. No entanto. Somos mulheres e trabalhamos. Mas. Piza (1998. contra o confinamento da mulher ao espaço gadas domésticas de mulheres liberais e dondocas. Outras acepções de feminismo são apontadas por nuclear. Diante disso.. se constituíram na recusa de todos os estereótipos tra. ainda. sidade apontada por Sueli Carneiro diz respeito ao ideal negras e ressalta as “o protagonismo que tiveram nas normalidade e de autoridade social e política” centrava. especificamente? Para responder nos situava mais próximas do modelo da masculinidade. como a experiência capaz de uni. Daí concluir-se que a “que tinham dificuldades de encontrar seu um lugar.118). Mas. as negras mulheres. interferindo no justificou historicamente a proteção paternalista dos O que nos importa aqui. continuaram no silêncio como forma de poder que transforma a mulher em ob. acepções de feminismo aludidas por Bairros. Afinal. que são retra. é Questionando e desconstruindo tais mitos. um marco histórico de insurgência das vozes que o sis- mulher”. que que explicitamente tentam definir a mulher com base periências e vivências de grande parte das mulheres ne. tuteiras. (1993. jeto sexual do homem. negras. São as disparidades entre os dois universos de mu. de Os primeiros passos do Movimento Feminista no Brasil nada quando as feministas disseram que as mulheres nhecimento da diversidade e desigualdade existentes” modo que as diferenças entre mulheres e homens são e no mundo expressaram a intensa revolta [ao] processo deveriam ganhar as ruas e trabalhar! entre ambos os movimentos. os o modelo estético é de mulher branca [. 126). “identidade social [é] construída a partir de elementos inclusive dentro do feminismo” (ARAÚJO e SCHNEI- Luiza Bairros (1995. vistas de maneira naturalizada e. por estarem imersas em primeiros estudos do feminismo sobre gênero nasce. dedicada à família. portanto.. gras. qui. [.. A aludida filósofa não desconsidera a importância “[. Fica. também pelos servos e escravos”. branca. ou duz no feminismo é resultado de um processo dialético Assim sendo. mulheres que não são rainhas de nada. identidade de objeto. que. Sueli Carneiro (1993. através da “história oficial brasileira”. a ótica das mulheres dos grupos subalternizados intro- rência em diferentes contextos históricos e culturais”. e como todo movimento de contestação. 2006. inegavelmente. haja vista a persistência do patriarca. “frequentemente utiliza os mesmos estereótipos Feminista Brasileiro e o “do mundo” pois. a alusão à heterogeneidade dos movi- Entretanto. como o racismo. exercendo uma mulheres lidam com a opressão social do universo pa. e exercido até o século XIX.] Ou greco-romanos. A diversificação das concepções e práticas políticas que no entanto fiquem evidentes os motivos de sua ocor. ou seja. o reconhecimento 461) parte da premissa de que a maternidade é a “expe. composta por pai. Mas. na luta pela descri. têm que de opressão além do sexismo. p. Salienta. como identidade social. pois. aqui. a reinvenção da categoria mulher”. no passa.. se. haja vista as so feminino.. Luiza entenderam nada quando as feministas disseram que portância do feminismo no combate ao sexismo entre como diferenças biológicas e sociais [. O segundo versão concebe “a sexualidade [. Nessa mesma linha de ram da denúncia e da reflexão sobre o patriarcado”. é óbvio. buscar forças para lidar com as mais variadas formas de e na invisibilidade”. o modelo de lheres (brancas/negras) que Sueli aborda. sob os moldes lutas pela anistia. 205) ilustra isso um poder definido como intrinsecamente masculino”. de Bairros (1995. Nossa toam de tal padrão. Para Luiza Bairros. p. E o rompimento com esses modelos As mulheres negras fazem parte de um contingente de em geral como novos sujeitos políticos. pois. ainda nos dias atuais. pon.] deveriam ganhar as ruas e trabalhar”. 187) parte da [. quando se refere ao “contin- oprimidas não só pela sociedade patriarcal como.. de classe abastada” nição biológica. ser mulher e negra fez e faz dera.. lismo e do racismo preponderante. p. Ontem a serviço de frágeis sinha. como forma de lidar com os papéis de gênero”. são constantes em nosso imaginário. Ou seja. 2006). minalização do aborto que penaliza. mentos feministas. igno- versões não deram “conta das questões” que afligiam as que só até o século XX? Penso que não. rejeitadas (os). pergunta. mulatas tipo exportação. tem sua base de sustentação na família sas definições sexuais e raciais”. assegura Bairros (1995. instigações. sendo o último plano relegado ao gente de mulheres” negras que precisaram “ganhar as bém. 67) salienta que “Os branca é a referência. p. hoje os sistemas racistas e patriarcais “Quando falamos do mito da fragilidade feminina que critica literária brasileira.] através dessas “[. e aquelas cujos traços diacríticos des- das mulheres de classes populares). reconhecimento da diversidade e desigualdade existen- a essa questão faz-se necessário trazer à baila as duas tadas como antimusas da sociedade brasileira. que o “movimento de mulheres nos levou ao repercutem nacional e internacionalmente. a qual mulher a dutor da espécie. fragilidade. “a opressão sexista de opressão. 67) “o patriarcado ocidental. a mulher nência de sua observação. mãe e filhos e. Outra adver- outros tipos de preconceitos sofridos pelas mulheres lheres viviam “imersas num sistema cujo paradigma de premissa de que a “identidade” resulta “de um proces. p. “tendo históricos. tais mulheres “não pensamento. as mu. Eis a grande contribuição de Evaristo e outras ber: “radical. prisio- em experiências tidas como universais”. fazendo um paralelo entre o Movimento de mulheres que trabalharam durante séculos como es. o qual “traz implícito tanto a dimensão do no sistema patriarcal? Essa questão é respondida com tema patriarcal racista e sexista tentou silenciar. para sobreviver. promove a afirmação das mulheres que a mulher definir como tal”. 459) chama a atenção para a ne.. interessa elucidar: a qual homens sobre as mulheres. em sua trajetória. mulheres de baixa renda”. É o caso da mulher “vitima de uma cidadania “de segunda ordem”. a sa.]”. a despeito da identidade biológica”.. à disparidade salarial. cravas nas lavouras ou nas ruas como vendedoras. etc”. pelas mulheres brancas. às ex.. DER. isso durante e após o um sistema socialmente racista. religiosos e psicológicos”. negros. de sapiência e força e. pois Seguindo a direção do pensamento de Carlos sistema escravagista. culturais. abordadas até então. regime social. so histórico-cultural”. as forme Piza (1998. “as vozes silenciadas e os corpos é constituído de um provedor. “as diferenças de sexo” eram “percebidas inicialmente Moore (2007). distintas frentes de batalhas que os distancia. A primeira ordem. das camadas dominantes. Daí a perti. negras reflexões As mulheres negras. assim alguns mitos (re)criados no seio social patriarcal pois. p. fazendo uma importante ressalva ao consi. Sueli Carneiro (2003. bastante propriedade e veemência por Sueli Carneiro Nós. das “diferenças e desigualdades presentes no univer- riência central na identidade das mulheres”. Conceição Evaristo (2005. 119) destaca a im. o esposo.. “nascemos com uma defi. ruas e trabalhar”. estigmatizados de mulheres vítimas de outras formas filhos. e a prole. assim como outras escritoras. Em como a “dona do lar”. tam. é a demarcação dos anos 70 como cessidade de nos atentarmos ao “uso do conceito de mulher costuma-se referir quando se pensa a opressão falando?”. Conceição Evaristo (2005. radas (os). por creche (uma necessidade precípua -se na figura do “homem branco. Vale sexo biológico como a construção social de gênero. cujas vozes lheres” dificultando. 460. a diferença em nossas trajetórias. prostitutas etc. tempos. Bairros (1995). Afinal. tais início do século XX”. porque tes entre essas mesmas mulheres (2003.] Somos demarca as singularidades entre ambos. seguindo a linha do. 188). Sueli Carneiro chama criados pela opressão patriarcal – passiva.] versões do pensamento feminista quais não correspondem à realidade. de um lado. neiro da visão eurocêntrica e universalizante das mu- A primeira versão. pois. os Somos seres plenos de potencialidade. lheres brancas. pois. é construída a partir “des. digamos. tece considerações sido um regime de influência política na Antiguidade. no texto em questão. entende-se que opressão é a “situação doméstico. de que mulheres estamos Araújo e Schneider. liberal e socialista”.. contra a limitação da mulher a mero repro. Sueli Carneiro (2003. p. Conceição Evaristo. homem negro. p. para a necessidade de “reco- etc. uma instigação: será p. 118) entende. Logo. por grande parte da mulheres negras.] cidadania de segunda ordem (1993. afinal... derar. 188).. No que se refere à invisibilidade das mulheres ficar todas as mulheres”. p. de mulher universal: a musa. que. fazemos parte de um contingente salientar. p. 188). enfim.189) segue ainda mais pungente: desvenda e dissipa tantas escritoras e escritores desconhecidas (os). Sueli Carneiro (1993. p. nesse sentido. o que se entende por “patriarcalismo”? Con. triarcal. Se estas consequência disso.] o feminismo esteve [. mulheres negras. p. Fazemos parte de um contingente de mulheres com é entendida como um fenômeno universal. Sueli Carneiro (1993. é atribuída ao homem branco. cujo núcleo mulheres e estudamos. Sueli Carneiro remete-se à opressão social e econô.

negras reflexões

pesquisadoras da área, a exemplo de Sueli Carneiro, o que fizeram nossos antepassados, às vezes pagando branquitude e branqueamento no Brasil. Petrópolis/ MUNANGA, Kabenguele. Rediscutindo a mestiçagem
Lélia Gonzalez, Helena Teodoro, Luiza Bairros, entre um preço muito alto: a própria vida. Eis a batalha que RJ: Vozes, 2002. no Brasil: identidade nacional versus identidade
outras, tomando como referência, também, a produ- prosseguimos na atualidade, mesmo não contando com BROOKSHAW, David. Raça & cor na literatura brasi- negra. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.
ção brasileira. A escritora alude ainda ao “fazer lite- os poderosos aparatos tecnológicos aludidos por Laure- leira. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1983. MUNANGA, Kabenguele. Apresentação. In: Superando
rário das mulheres negras” e observa que “os textos tis (1994, p.220): as tecnologias sociais, e de gênero, as CARNEIRO, Sueli. Identidade Feminina. In: Cadernos o racismo na escola. Brasília: MEC/SECAD, 2005,
femininos negros, para além de um sentido estético, quais correspondem aos meios, recursos - quer dizer, Geledés, n. 4, 1993, pp. 187-193. p.15-20.
buscam semantizar um outro movimento, àquele que técnicas audiovisuais, midiáticas, científicas, discursi- CARNEIRO, Sueli. Mulheres em movimento. In: Estu- NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasilei-
abriga todas as suas lutas”. São destacadas, portanto, vas, educacionais, entre outras - (re)criados pelos gru- dos Avançados, n. 17 (49), 2003 ro. Salvador: Ceao/UFBA, 2002.
as seguintes escritoras: “Geni Guimarães, Esmeral- pos hegemônicos. CASHMORE, Ellis. Dicionário de relações étnico-ra- OLIVEIRA, Maria Anória de J. Relações Étnico-Raciais
da Ribeiro, Miriam Alves, Lia Vieira, Celinha, Roseli Se a metáfora diz respeito à substituição de um ciais. São Paulo: Summus/Selo Negro, 2000. na Educação e a Literatura Infanto-Juvenil: nas ve-
Nascimento, Ana Cruz, Mãe Beata de Iemanjá, dentre termo, palavra ou ideia de uma coisa por outra, cuja CUTI. A consciência do impacto nas obras de Cruz e redas da Lei Federal 10.639/03 (?!). In: LINS, Jua-
outras”. Acrescentaria nessa relação a própria escritora, conotação é análoga, correspondente à analogia, por Souza e Lima Barreto. Belo Horizonte: Autentica, rez Nogueira e outros (Org.). Linguagem e Discus-
Conceição Evaristo, cuja produção vem se consolidan- outro lado, abrange não só a similitude como, também, 2009. sões Culturais. João Pessoa: Ed. dos Organizadores,
do “no campo literário”, como bem ressaltam Araújo e estabelece pontos de semelhanças entre coisas diferen- DIWAN, Pietra. Raça pura: uma história da eugenia 2006, pp.245-261.
Schneider (2005, p.126). Isso, sem falar na produção tes. Logo, tanto a analogia quanto a metáfora lançam no Brasil e no mundo. São Paulo: Contexto, 2007. OLIVEIRA, Maria Anória de J. Discurso Histórico e
acadêmica da pesquisadora/escritora/professora. luzes para elucidar determinadas semelhanças entre EVARISTO, Conceição. Dos sorrisos, dos silêncios e Narrativa Literária: entrelaces na tessitura da Rai-
Se as relações étnico-raciais, a exemplo da relação diferenças (raciais e de gênero) (re/des)construídas das falas. In: SCHNEIDER, Liane e MACHADO, nha Africana Nzinga Mbandi. In: FLORES, Elio
entre negros e brancos, têm sido desiguais historica- historicamente. Charliton (Org). Mulheres no Brasil: resistência, lu- Chaves e SUCUMA, Arnaldo (Org.). Tricontinen-
mente, já que marcadas pelo racismo e pelo sexismo, A analogia e a metáfora foram, portanto, mais um tas e conquistas. João Pessoa: Editora Universitária/ tal Revista de Arte, Cultura e Ciência. João Pessoa:
também a relação entre homens e mulheres resulta das desses poderosos recursos discursivos, como vimos ini- UEPB, 2006, pp.111-122. Convênio de Graduação e de Pós Graduação, Ano
implicações de vivermos em uma sociedade patriarcal, cialmente. Hoje lidamos com muitos outros: audiovisu- EVARISTO, Conceição. Literatura negra. Rio de Janei- I, v. 1, n.1, Ed. Universitária/UFPB, 2008, pp.123-
sendo as mulheres subjugadas, desvalorizadas em seu ais, midiáticos, educacionais, etc. Mas, não nos damos ro: CEAP, 2007. 140.
saber/poder, assim como as pessoas negras. É possível por vencidos (as) e aqui estamos construindo outras FLORES, Elio Chaves e CAVALCANTE, Fátima Solan- PIZA, Edith. Caminhos das águas: estereótipos de per-
inferir, portanto, que ambos os gêneros: feminino e metáforas e analogias, prescindindo de qualquer desejo ge. Raça, gênero, classe e região: uma introdução sonagens negras por escritoras brancas. São Paulo:
masculino se aproximam analogicamente, por estarem de inverter os centros: do eurocentrismo/eugenismo, à crítica da democracia minimalista. In: SCH- EDUSP / Com Arte, 1998.
à margem da sociedade. pelo afrocentrismo/negro, mas, sim, nos interessa sal- NEIDER, Liane e MACHADO, Charliton (Org). SANTOS, Gislene Aparecida dos. A invenção do ser
Agora, se levarmos em conta as condições básicas vaguardar o respeito e o direito às diferenças e fazer Mulheres no Brasil: resistência, lutas e conquistas. negro: um percurso das ideias que naturalizaram a
de vida de ambos os segmentos étnico-raciais, conside- ecoar outras vozes que tentaram silenciar, embora con- João Pessoa: Editora Universitária/UEPB, 2006, pp. inferioridade dos negros. São Paulo: EDUC/Pallas:
rando os índices de desigualdade entre mulheres bran- tinuem a ressoar em nós. 135-145. 2002.
cas e negras, em termos profissional, sócio-econômico, GOMES, Nilma Lino. Alguns termos e conceitos pre- SCHWARCZ L. Moritz; REIS, L.V de Souza (Org.).
educacional e de saúde, observaremos quão díspares sentes no debate sobre relações raciais no Brasil: Negras imagens: ensaios sobre cultura e escravidão
são as oportunidades destas últimas, se comparadas uma breve discussão. In: Educação anti-racista: no Brasil. São Paulo: EDUSP / Estação Ciências,
àquelas11, o que resultou da aliança entre pensamen-
REFERÊNCIAS caminhos abertos pela lei federal no. 10.639/03. Se- 1996. p. 179-193.
tos racistas e sexistas, enfrentados pelos movimentos cretaria de Educação Continuada, Alfabetização SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças:
feministas afrocentrados, cujas lutas passadas ainda se ARAÚJO, Flávia Santos de e SCHNEIDER, Liane. A es- e Diversidade/SECAD-MEC, Brasília, 2005 (pp- cientistas, instituições e questão racial no Brasil.
fazem presentes. crita de Conceição Evaristo e a mulher negra como 39-62). São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
protagonista em ‘Ana Davenga”. In: SCHNEIDER, LAURETIS, Teresa de. Tecnologia do gênero. In: SCHWARCZ, Lilia Moritz. Retrato em preto e branco:
Liane e MACHADO, Charliton (Org). Mulheres no HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Tendências e jornais escravos e cidadãos em São Paulo no final
Brasil: resistência, lutas e conquistas. João Pessoa: impasses: o feminismo como crítico da cultura. Rio do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras,
CONSIDERAÇÕES (IN) Editora Universitária/UEPB, 2006, pp.123-134. de Janeiro: Rocco, 1994, pp-206-238. 1987.
CONCLUSIVAS BAIRROS, Luiza. Nossos feminismos revisitados. In: MAPA DA POPULAÇÃO NEGRA NO MERCADO SILVA, Ana Célia. A discriminação do negro no livro
Estudos Feministas. Rio de Janeiro, PPCIS/IFCS/ DE TRABALHO. São Paulo: INSPIR – Instituto didático. Salvador: CEAO/CED, 1995.
Diante das diferenças históricas entre a trajetória das UERJ, n. 2, pp-458-463. Sindical Interamericano pela Igualdade Racial, STEPAN, Nancy. Raça e gênero: o papel da analogia
mulheres negras e brancas, Sueli Carneiro (2003, p. BETO, Frei. Marcas de batom: como o movimento fe- outubro, 1999. da ciência. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de.
192) sugere o “enegrecimento do feminismo”, o qual minista evoluiu no Brasil e no mundo. In: SCH- MOORE, Carlos. Racismo e sociedade: novas bases Tendências e impasses: o feminismo como crítico da
implica em considerar a “trajetória das mulheres ne- NEIDER, Liane e MACHADO, Charliton (Org). epistemológicas para entender o racismo. Belo Ho- cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994, pp.73-93.
gras no interior do movimento feminista brasileiro”. Eis Mulheres no Brasil: resistência, lutas e conquistas. rizonte/MG, 2007. TELLES, Edward. Racismo à brasileira: uma nova pers-
João Pessoa: Editora Universitária/UEPB, 2006 MUNANGA, Kabenguele. Para entender o negro no pectiva sociológica. Rio de Janeiro: Relume Duma-
(pp. 19-26). Brasil de hoje. São Paulo: Global / Ação Educativa rá: Fundação Ford, 2003.
11. Consultar o Mapa da População Negra no Mercado de Trbalho BENTO, Maria Aparecida da Silva & CARONE, Iray Assessoria, Pesquisa e informação, 2004 (Livro de
(veja-se nas referências). (Org.). Psicologia social do racismo: estudos sobre Professores).

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negras reflexões

A Redenção
do olhar:
uma abordagem RESUMO abstract
semiótica O presente artigo lida com algumas questões sobre representação
visual da população negra no contexto brasileiro. Para tanto, o au-
This article deals with some questions about visual representation
of the black population in the Brazilian context. For make it works,
tor se utiliza da semiótica formulada por Algirdas Julien Greimas the author uses the semiotic purposed by Algirdas Julien Greimas as
tentando estabelecer correlações entre duas imagens que nos aju- support trying to set up relationship between two images that help
dam a revelar a dimensão histórica do conteúdo racial no âmago us to reveal the historic dimension of racial content in the core of
Nelson de nossa cultura visual. Uma das referências é a pintura intitulada our visual culture. One of the references for this study is the painting
Inocencio “A redenção de Cã” datada da segunda metade do século XIX, e a named “The Can Redemption” from the second half of XIX century,
outra é a cédula de quinhentos cruzeiros que entrou em circulação while the other reference is the five hundred cruzeiros bank note that
Docente do Departamento de Artes Visuais na segunda metade do século XX durante a ditadura militar. O was delivered in the second half of XX century during the military
da Universidade de Brasília (UnB). Coorde- intuito é o de explicar como o ideal de branqueamento ainda é dictatorship. The aim is to explain how the whiteness ideal is still a
nador do Núcleo de Estudos Afro-Brasilei- um modelo seguido, apesar da visão paradisíaca concernente à pattern to be followed, despite the paradise view in which concerns
ros da mesma universidade. Foi membro celebração da diversidade no Brasil. the diversity celebration in Brazil.
da direção nacional da Associação Brasi-
leira de Pesquisadores Negros (Conselho
Nacional de Educação). Doutorando do Palavras chave: Branqueamento, cultura visual, negros, racismo, Keywords: blacks, racism, semiotic, visual culture, whiteness.
PPG-Artes da UnB, com pesquisa acerca semiótica.
do Museu Afro-Brasil em São Paulo.

A IMAGEM IDEAL tação. A conjunção almejada se refere ao processo de Em termos de formantes pictóricos, a obra, obje-
mestiçagem. Neste caso o embranquecimento cumpre to de nosso estudo, apresenta três elementos que estão
COMO PROBLEMA o papel de uma sanção, ou seja, a performance desta vinculados à análise proposta pela teoria greimasiana,
família rural do Brasil agrário do século XIX resultou ou seja, a dimensão cromática proporcionada pelo uso
no nascimento daquela criança especifica, que naquele das cores e suas combinações, a dimensão eidética as-
Esta breve reflexão é um esforço de análise do quadro momento se constitui em objeto modal que conecta sociada à estrutura do quadro e como resultante da
intitulado A Redenção de Cã de autoria de Modesto seus familiares às aspirações de um distanciamento da articulação entre as duas primeiras temos a dimensão
Brocos Y Gomes, datado de fins do século XIX, 1895 imagem negativa atribuída aos africanos e seus des- topológica da pintura.
para ser mais específico. Trata-se de uma pintura, obra cendentes. Transferindo para o quadrado semiótico a A manipulação proposta pelo enunciador, no caso
figurativa cujas dimensões são 199x166cm. O referido situação exposta na pintura analisada, diríamos que em o autor da obra, busca um fazer crer no enunciatário
trabalho pertence ao acervo do Museu Nacional de Be- termos de contrariedades encontramos a relação negro que por sua vez deverá estabelecer algumas relações en-
las Artes, Rio de Janeiro, e tem suscitado ao longo de sua x branco e, em termos de contraditoriedades, uma ou- tre a imagem presente e outras que por ventura estejam
existência uma série de debates e reflexões. tra constituída por não negro x não branco. A tensão arquivadas em seu arquivo mnemônico. Assim, algu-
Nosso empenho aqui é o de tentar pensar este qua- está estabelecida na relação negro x não negro que, de mas associações são possíveis, entendendo que o reper-
dro à luz da semiótica greimasiana ou, melhor dizendo, acordo com a configuração do quadrado, seria o segre- tório, ou em outros termos, a cultura visual do enun-
do que sabemos dela. Seguindo o pensamento de Al- do. A criança parece ser branca embora a ascendência ciatário, se caracteriza como um elemento fundamental
girdas Julien Greimas, para quem a unidade de senti- negra coloque sob suspeita sua aparência. A estratégia que possa permitir a construção dessas associações as
do é fruto das relações entre actantes, nos dispomos a está exatamente em não revelar essa condição particu- quais também denominamos de intertextualidades.
analisar a Redenção de Cã levando em consideração o lar comprometedora. Existem marcas constantes em ambas imagens que
plano da expressão tanto quanto o do conteúdo. Neste Retomando um pouco alguns aspectos da pintura nos impelem a fazer exercícios na procura dessas in-
caso, ao falarmos de expressão, identificamos tratar-se e com o intuito de ir além de uma interpretação que se tertextualidades. Relacionando a pintura em discussão
de um quadro a óleo sobre tela, realizado à maneira restrinja ao plano da superfície podemos nos apoiar com outras produções imagéticas anteriores ou pos-
acadêmica conforme os cânones da pintura neoclássica. nos argumentos de Vicente Martinez quando desen- teriores, algumas aproximações parecem inevitáveis.
As dimensões da obra são amplas, o que corresponde volvendo análises semióticas acerca da pintura enfatiza: Quando fixamos o olhar na tela e sabemos então se
a um modo peculiar de figurativização da época. No tratar de uma abordagem alusiva à miscigenação, acio-
que concerne ao conteúdo, nos deparamos com uma A pintura se caracteriza por ser uma manifestação onde namos o nosso arquivo. No intuito de fazermos um
situação doméstica em que as personagens comparti- nosso olhar é estimulado pela cor, pelo traço, pela li- breve exercício, buscando outras referências visuais, po-
lham um momento de euforia, na medida em que as nha, pela textura, pela matéria, pela forma, etc. e pelas demos destacar imagens bem mais recentes como as da
posturas dos adultos em relação à criança, induzem a relações estruturais que sustentam estes elementos. cédula de 500 cruzeiros aprovada pelo Banco Central e
uma manipulação do olhar expectador, no plano da ten- (Martinez, 1999, pg. 297.) que entrou em circulação nos anos 70, em pleno regime

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negras reflexões

autoritário. Conforme o discurso oficial, esta cédula Há na pintura redundância, repetição e reiteração so. O outro texto com o qual pretendemos fazer uma
trata da evolução étnica brasileira, e foi escolhida para suficientes para que possamos identificar nela a exis- interface é uma cédula de 500 cruzeiros que entrou em
a celebração do sesquicentenário da independência. O tência de isotopia, cujos conectores se encontram na circulação no inicio da década de 70 do século passado,
conteúdo da mensagem impressa na cédula está em própria cena, como as características físicas das pessoas durante a ditadura militar. A referida imagem exibe de
consonância com o exposto na tela de Brocos y Go- envolvidas e suas gestualidades, por exemplo. Podemos um lado os diferentes estágios do Brasil desde o “desco-
mes. O foco é a miscigenação não apenas como uma corroborar tal afirmação observando as mulheres em brimento”, passando pelo comércio, colonização, inde-
performance, mas como um querer, um poder e um cena, cujas posturas são tais como as que aludem a uma pendência, integração. A sequência sugere um processo
saber fazer que têm como sanção a constituição de uma graça alcançada. O enunciatário, todavia, necessita ser de desenvolvimento que vem se consolidando ao longo
imagem que nos leve a crer que parecer ser branco, embasado para compreender o discurso apresentado, de mais de quatro séculos.
europeu e ocidental nos garante algumas vantagens. ou seja, para sair de uma condição de não saber para É uma espécie de exercício cartográfico enalte-
A ideia principal é a de que investir no processo de uma condição de saber. Não se trata de uma relação cendo a grandeza do país na perspectiva do discurso
embranquecimento gradual nos dará acesso a algumas imediata de causa e feito, mas o enunciatário precisa oficial. Na outra face, a cédula exibe, analogamente aos
benesses. No caso especifico de A redenção de Cã o procurar entender o porque da execução de uma obra mapas, imagens de brasileiros, todos do sexo masculi-
processo de mestiçagem livraria das trevas muitos in- com esta temática específica naquele dado momento. no. O desenho começa por um indivíduo indígena, pas-
divíduos aos quais seria atribuída uma espécie de fardo Em outras palavras a sua interpretação está condicio- sa por um indivíduo branco, por um indivíduo negro e
celestial. Isto porque, considerando uma versão bíblica, nada pelo instrumental de que ele dispõe para fazer a partir daí as relações inter-étnicas e inter-raciais dão
o Criador teria marcado os herdeiros de Cã, gente cuja suas ancoragens e a partir desse momento desem- a tônica do processo de formação da população brasi-
identificação estaria associada ao fato de portarem pele penhar o seu papel como actante, expressando o seu leira. Até então, nenhuma novidade, apesar da terrível
escura. Daí o título da obra. entendimento tanto no plano da expressão quanto do omissão acerca do desencadeamento desse contato en-
conteúdo. A referida pintura suscita polêmicas sobre tre povos distintos, o qual teve como uma das referên-
as ideias acerca de “raça” em função de sua aborda- cias insofismáveis a violência sexual contra mulheres OS SUJEITOS
gem. Por outro lado, no contexto da cultura brasileira, ameríndias e africanas. De acordo com aquele discurso
seu teor explicita questões abertas desde a colonização, imagético, as faces vão clareando até que chegamos a
como um constante mal estar causado pela presença uma noção do que seria o brasileiro da atualidade, que Conforme as leis da semiótica, sujeito não é pessoa, ob-
africana na cena nacional. possui a aparência de pessoa europeia, dentro dos pa- jeto não é coisa. Partindo desse entendimento e compa-
Ana Claudia de Oliveira, no livro em que orga- drões tradicionais hegemônicos. rando a duas imagens ora relacionadas, percebe-se que
niza, intitulado Semiótica Plástica, argumenta que o Esta cédula circulou por uma década ou mais e o há um sujeito que se constitui na ideia a ser seguida.
interesse pelas imagens, pela visualidade, possui uma seu conteúdo sempre foi problemático, por vários as- Talvez pudéssemos atribuir ao discurso da mestiçagem,
abrangência que extrapola o campo das artes plásticas pectos. Como já mencionamos antes, a presença mas- como fenômeno que se persegue obstinadamente na
e da comunicação visual. Isso significa que toda cons- culina parece absoluta e nesse aspecto ela difere da tela cultura brasileira, esse papel que corresponde ao de
trução imagética passou a ser objeto de interesse nos de Brocos. Por outro lado, naquela pintura do século manipulador de nossas vontades, transformando-as
mais diversos domínios. A partir desse argumento e XIX, a sanção, ou seja, a redenção, só é possível graças em um querer fazer, um dever fazer, um poder fazer.
acreditando que para a semiótica a relação entre siste- à figura paterna, condição que devolve ao homem seu Mas principalmente nos fazer crer que é possível ser
mas distintos pode se realizar desde que esta aproxima- papel quando não absoluto, determinante para a vida feito, por que esta é uma conduta a ser seguida. Esse
ção viabilize interpretações palpáveis, nos lançamos ao das mulheres. Na obra dos oitocentos a figura mascu- discurso é produzido em alguma instância por alguém.
desafio de buscar correspondências que nos auxiliem lina seria um objeto modal, ela é necessária para que o Esse alguém, que poderíamos identificar também como
nesse processo e que não estão necessariamente no clareamento da pele ocorra. Precisamos dela na busca o segmento composto pela hegemonia eurocêntrica,
campo da pintura. obstinada por uma aparência que omita a africanidade. acredita no embranquecimento como uma sanção a
No esforço de tentar interpretar a obra em ques- Já na cédula de 500 cruzeiros a última figura masculina ser alcançada.
tão, explorando ao máximo seus elementos pictóricos, da esquerda para a direita seria o objeto de valor. Seu Um outro sujeito seria a parcela da população que
procuramos estabelecer ao menos uma ancoragem que papel é análogo ao da criança sentada no colo da mãe. ainda não alcançou o ideal a ser seguido. Este segmento
pudesse auxiliar no percurso gerativo de sentido, recor- É no plano do conteúdo que vamos encontrar o que as é constituído por pessoas que não foram “redimidas”
O resultado da performance está explícito na pin- remos às imagens arquivadas em nossos repertórios. duas imagens têm em comum. De uma forma ou de pelo processo de miscigenação. Elas são manipula-
tura que apresenta três gerações de uma mesma família, Dessa forma, a associação da imagem em questão com outra, ambas preconizam que o processo de embran- das no sentido de que suas ações convirjam para as
sendo que as duas primeiras assumem as competências uma outra, não menos polêmica, se tornou inevitável. quecimento é uma meta a ser alcançada. As estruturas, ações propostas. Porém tais pessoas não possuem a
para tornar possível um desejo. Nesse sentido, como já Mas o outro referencial, que por algumas razões se co- as maneiras como estão concebidas as disposições das competência absoluta para realizar o que esta sendo
mencionado, elas querem fazer, elas podem e sabem necta à obra de Modesto Brocos, permite a vincula- personagens, a manipulação do olhar que é impelido a proposto. É necessário que as pessoas brancas sejam
como fazer. A estrutura da obra, por exemplo, dialoga ção mesmo sem se tratar de uma pintura, sem ter sido percorrer caminhos que nos levem ao ideal em termos também manipuladas para que esta performance se
com representações clássicas da literatura brasileira que produzido no século XIX, sem corresponder a valores de uma aparência aceitável, tudo converge e conspira realize. Os temas da tela e da cédula parecem ter uma
destacou a mestiçagem como valor nacional. canônicos de um período da historia da arte. Nada dis- no intuito de persuadir-nos neste sentido. força tamanha a ponto de se caracterizarem como

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raneidade. ção disjunção/conjunção. fotografia. argumento. mestiçagem encontra-se imbricada à ideia sorrateira de Esta argumentação é de real importância por to. Por outro lado. um alvo a ser perseguido e que vale a pena ção do arranjo da expressão de todo e qualquer texto o qual dirá que: “A Redenção de Cã poderia ser tomada. procuramos es. poderíamos até valo. Sobretudo. no nosso caso. seus costumes. Contudo. interpretando esta tela/ e agora. cujo interesse exemplo. qualquer que seja: arquitetura. mas tabelecer algumas aproximações com outros concei. seja essencial. a Igreja. Aquele que atende às aspirações de observações sobre semiótica plástica ficamos tentados ideológico irrefutável. Na organizada por mecanismos estruturais particulares de servação mais atenta nos mostrará o desempenho de de comemorar o sesquicentenário da Independência cédula. sante permeia as noções apresentadas. artística. sofrendo um deslocamento que propõe ela quadro foi pintado seria nulo. as pessoas de diferentes gerações estudo do plano da expressão das manifestações visu. que também são complexas no texto visual. Os crí. dula de 500 cruzeiros) dificilmente poderão prescindir herança escravocrata. zadora da Sagrada Família” (Morais. É curioso notar como. que aqui procuramos relacionar à cé. relação levando-se em conta os germes de nossa longa elas tende a conduzir-nos para outra interpretação.ou ainda do “negro analíticos sobre cultura popular e outros fenômenos. no que diz respeito ao abandono de valores a própria tela que é aquele que explica ou leva à sua tos fluidos nas artes visuais. quisa no campo da cultura visual. tivo estará profundamente relacionado com o tamanho so imaginário. do Brasil. Não é por acaso que até os nos- significação. enunciatário é chamado a construir uma interpretação. quando o gem da mulata. aqui. minimizada. traz implícita a ideia de que branquea- resultado de uma performance pode conter um certo -racial. guma noção do discurso da mestiçagem. pelo menos está vinculada denominar plástica a semiótica que se ocupa da descri. quer as do mundo natural. sem que o enun. Não é difícil de compreender a nefasta ambas imagens. atenuada.” (Oliveira. Alguém que acredite. imagens que podem Pensando a debreagem . visando a produção de sentido. E nem é necessário na imagens também. resultando em uma dada papéis sexualmente muito definidos. chances de lograr êxito no percurso gerativo de sentido. tório da cultura visual explorado constava este objeto. Considerando que o texto De acordo com argumentações supracitadas. na imagem que ora está diante de nossos olhos. embora ocorra no nível fundamental (à figurativos. o seu alcance no percurso gera. em discutir a cognição estética passa pela determinação cilmente se sentirá incomodado com A redenção de Cã. São ingredientes. para a mestiçagem brasileira. às interpretações paradisíacas de Brasil. em arriscar algumas interfaces.50). Quando algum texto visual nos chama a atenção preconizaram as instituições coloniais. ou mesmo à indiferença. Mas por que razão primeira vista). O homem sentado no arte. O eu (negro)/ Assim sendo. a noção de mestiçagem como rizar nossos acentuados processos inter-étnico e inter. outra discussão interes- prio repertório. foi a primeira criada com o objetivo pátria profundamente afetada por um olhar oficial. explorado por mente crítica no que concerne aos usos e abusos dessa ção). optamos por ciatário tenha que despender grandes esforços. ção de nossos argumentos. obra consultada. um objeto de uso diário que circula pelas mãos seu sistema. deveriam Voltando à Ana Cláudia de Oliveira. Elas são passageiras.) à primeira vista. de alma branca”. sos dias tais noções influenciem textos pretensamente ela cria sentidos de alcance social e político. o qual consiste noção. ou não ser evocadas. (Oliveira. gravada. desde possível na relação que tentamos construir entre a tela de beleza e representação. pg. XIX) / medida em que as personagens adotam uma postura cifica. por seu turno. Aliás. batente da porta de uma casa modesta possui uma pre. no passado (lá no início do período pós-aboli- quase cênica no contexto da obra para enfatizar o que dagem e o conceito de cultura visual. Este rias transformações narrativas. Sem ele nada teria sido de tomar como um dos pressupostos a bagagem ou o Sua tendência é a de estar em conjunção com o trabalho possível. um olhar mais crítico sobre escravocrata. lução étnica brasileira e. Uma condição entrar em disjunção consigo mesmo. quer as artísticas. mas que certamente povoam nos. se deu a partir de um exercício de memória. por gressas do país sem os quais o enunciatário terá pouca observadas na ação que ocorre. pg. e entendendo. no reverso. Oliveira explica que: ses acerca composição étnica futura do Brasil. no intuito de compreender o discurso ima. Embora. É como se esse homem viril e exclusivo visual. é interessante ethos brasileiro que aqui e ali ressurge quando falamos gético. tes flancos como. segundo as informações presentes na que aquele texto carrega se vincula a uma noção de é construído por uma arranjo especifico de sua plástica. Frederi- está relacionada ao belo. outras imagens com as quais acreditamos haver algu. 24. Por exemplo. no caso. por exemplo. ainda que guardadas as foi utilizada em congressos científicos para ilustrar te- dos como positivos. as relações de gênero. portanto. ele poderá lograr maior Podemos lembrar do “cabelo bom”. de que a presença negra é incômoda e. 2004. antes. seu descendentes se assemelha- No afã de compreender melhor a semiótica pro. paradoxalmente. sua interpretação não é nada fácil. A ideia de nação gem natural ou pintada. Ela dirá citando Jean-Marie em que se convive com a diversidade. dessa perspectiva semiótica. co Morais. símbolo que con. sem que neces. que envolve vá. percursos temáticos e branqueamento. Não parece algo muito distinto do que “No entanto. uma cédula que. juga uma série de visões estereotipadas que não cessam. pesquisadores da área de arte/educação. que o domínio da imagem extrapola a produção com maior ou menor concentração de melanina. a presença de brancos. na contempo- quer comentário sobre as circunstâncias em que o de seu arquivo mnemônico que seleciona e compila Qualquer cidadã ou cidadão brasileiro possui al. Os negros. notar uma de suas argumentações no tocante à obra de de nossas tão idolatradas e supostas tolerância e gene. a visual. com suas regras. Comércio. até os outros que questionam veira. mais do que isso. Nesse sentido. com sua história. conforme Ana Claudia Oli- topia estão todos ali. devem ser manipuladas para Ana Claudia de Oliveira e algumas de suas significativas O que está figurativizado na obra tem um apelo dar lugar ao novo. preferência nacional. paisa. sença fundamental na trama. certa. Deveriam ainda reagir de maneira eufórica à possibili- Floch: sariamente haja respeito pelas diferenças. “pagãos”. Retornando ao esforço de estabelecer uma ancoragem aparência que se encaixe dentro dos padrões ocidentais ticos de arte divergem em suas argumentações. se não sintagmatização das unidades mínimas. A tela não traduz ou reflete ideologias. reduzida. riam ao outro. Diz o texto: da população em geral. no futuro. Os desencadeadores de iso. Cã. principalmente é evidenciar não o contexto de fora da pintura. 2004. podemos recorrer à ima. bem humorada do país. deve dula são capazes de criar sentidos de alcance social e do uso do repertório de cada enunciatário. parece haver alguma conexão entre nossa abor. 12. as intenções do artista. tentará fazer as suas ancoragens. quer as midiáticas. cita o pintor Gonzaga Duque No anverso da cédula de 500 cruzeiros. dependendo da compreensão que se tem de visões reacionárias acerca de nosso passado africano e possíveis diante das imagens em questão (o quadro de “divina” entre si. ou seja. a fim de aderir a um arte e que serve também para auxiliar na fundamenta. a antropologia e os estudos culturais. a exemplo de vínculos com uma devidas proporções. “mundanos”. car em pontos chaves que também são objetos da pes. rosidade. “redentor”. Entendemos que o adjetivo “plástica” pode abranger o aqueles que acreditam ser a tela de Brocos uma visão e a cédula. seja ajustada (negra)/ alhures (Brasil agrário do final do sec. não das herdeiras de repertório imagético do público. Co- 120 121 . Tudo vai depender dos mentos importantes sobre as condições sociais pre- pois complexas relações de gênero e raça podem ser em uma formulação teórica subsidiada pela história da pontos de vista de quem olha. sejamos um país a possibilidade de se acessar o repertório na busca de projeto “modernizador”. negras reflexões uma configuração discursiva. O que está presente nestas concepções é um em que ele. 2002 pg. escultura. tanto que a referida pintura já INTERTEXTUALIDADES uma sociedade ávida por compartilhar valores defini. no mito da democracia racial brasileira difi. Em se tratando dessa situação espe. Uma ob. seqüência de cartas ser alcançado. Modesto Brocos. desenhada. qual. queremos reiterar que a aproximação sugerida passo que na cédula não se deixa transparecer uma di. o que importa para o semioticista francês posta por Greimas e suas dimensões.) ou menor êxito dependendo da amplitude de seu pró. histórico-geográficas – Descobrimento. Esse deslocamento implica em alguns entendi- se quer dizer. No reper- ferença etária. ou seja. Dele depende o futuro. ao lermos do artista e de compartilhar um momento eufórico. sine qua non para que a ancoragem se dê é exatamente suas tradições. como uma recriação étnica e moderni. na medida Interessante notar ainda alguns aspectos da rela- ser amenizada. passasse por uma mutação imediata. desde que este gesto não servisse para encobrir insistimos nessa ideia? O fato é que as interpretações mento e modernização possuem uma correspondência glamour. mas marcas textuais semelhantes àquelas encontradas dade de que. mente teríamos condições de olhar a obra por diferen. político. Ao ais mais distintas. A O que entendemos é que tanto a tela quanto a cé. retrata-se a evo- ao ideal.

) compreende-se a disposição (. 2002.. levantadas..) de um conjunto um paradigma composto de n termos. reconhecidos (. No sentido geral “aquilo que é enunciado”. permitindo que efeito de sentido “realidade”. educativa e projeto de trabalho. seletivo reserva no arquivo mnemônico de cada sujei. De caráter ope.. um simulacro de um referente externo e a produzir o radigma. GREIMAS. acreditar em sua veridicção. “parentesco”) dos traços distintos que nele podem ser Oliveira (org.). São Paulo: Pontifí- impede seu retrocesso aqui. ção. glossário sideração seu novo campo de aplicação. ou de uma perspectiva institucional. levando em con. Assim para citar L. dade tem o efeito de transformar essa cadeia em uma Seriam tais perspectivas excêntricas e contra-hegemô. Algirdas Julien. “Semiótica plástica ou semi- nossos repertórios. autores citam Tesnière sem especificar a obra) a quem tação visual da articulação lógica de uma categoria Universidade de São Paulo/ Faculdade de Filosofia. apenas sobre uma distinção de oposição que caracteriza MORAIS. possível. acreditamos que a cultura visual produz Isotopia 1979. Cultura visual. 2006. mas ou discurso) definíveis(. a própria instância da enunciação. GREIMAS. na paradigmática e na processo de análise que procura enfrentar o desafio sim constituir os elementos que servem de fundação cognitiva. mas.São relaciona uma imagem à outra. É aí que parece estar o gancho que desta segunda década do século XXI. reiterando noções conservadoras. 2007 há chances de determos informações suficientes para Actante pode ser concebido como aquele que realiza ou de classemas que garantem ao discurso-enunciado a MARTINEZ. (não está nas referên. Entende. mentação de políticas públicas embasadas em ações imagens produzidas. pg. Algirdas Julien & COURTÉS. pela segmentação da cadeia sintagmática. a submetendo-o às mais perversas banalizações. uma vez agregados. Um trabalho artístico pode apresentar aspectos cro. até porque os processos dialéticos fazem Dicionário de Semiótica / Greimas & Courtés. 278. uma questão de imagem. Porto pior.295 – 313). por contrapartida. Ambos Compreende-se por quadrado semiótico a represen. no ato da linguagem e com vistas à manifestação. concernentes às tonalidades. O texto supracitado está inserido em uma publi. diferenças e identidades Pode-se tentar definir debreagem como a operação pela Sanção não hegemônicas. a qual uma vez inscrita no esquema narrativo se te vir a se constituir em ferramenta importante no certos termos ligados à sua estrutura de base. Recherches Scientifiques / Fudation Nationale de a título de meros figurantes e da maneira mais passiva como uma relação entre ao menos dois termos. São Paulo: Prêmio.. semântica qualquer. a debreagem. de uma perspectiva artística independente de uma sociedade democrática também é e sempre foi pertencente à cadeia falada ou ao texto escrito. Contudo. “A eloqüência da pintura de Ry- desconstruí-los. São Paulo: Editora Cultrix. em tempos de téricos. por outro. nicas alimentadas por uma ética distinta que nos leva a máticos. repensar nossos modos de ver na contemporaneidade. no. Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica. lógicos.) mente. afirmativas para a população afro-brasileira no início tas do século XIX. como bem sabemos.) que visam constituir mite por isso mesmo distinguir. confe.. 2004. determinadas imagens problemáticas fluam impune. dezembro.) que de alguma forma questionem o padrão vigente. por instância da enunciação como um sincretismo de “eu.. nos damos conta de que es. por exemplo. Actantes interatividade. Elementos de analise do discurso. ao mesmo tempo. São Paulo: Hacker Editores. Um mesmo sujeito pode avançar ali. nada é tão bem resolvido sofre o ato. o que não ção. Fernando. Greimas tomou ao domínio da físico-química o termo HERNANDES. Ancoragem linguagem: ela é. se deve o termo: “actantes são os seres ou as coisas que. Tesnière. Sintagma um lado ficamos estarrecidos com o fato de A Redenção -aqui-agora”. Da imperfeição. por exemplo. 2000. localiza nas duas dimensões. o conceito de isotopia designou inicialmente a fragmentos em nova narrativa educacional. no interior desse pa. 2002. A depender do que o processo Brevíssimo rindo-lhe uma significação específica. Jose Luis. 2000. In: Revista do Centro de Pesquisas Sociosse- assim. mudança sas compreensões como podem também limitar nossa isotopia e o transferiu para a análise semântica. qual a instancia da enunciação distingue e projeta fora Sanção é uma figura discursiva correlata à manipula- Pensamos que a semiótica possa indubitavelmen. Médicas Sul. Catadores da cultura visual: transformando to. portanto. Letras e Ciências Humanas. ou ainda ficação. Frederico. 1999. categorias semânticas baseadas na isotopia (o ótica visual?”. fomen. aspectos ma- tendimentos e aspirações da oficialidade brasileira. Independência e Integração do Brasil.. Se refere aos aspectos das imagens propriamente ditas. e aspectos eidéticos. Estas possibilidades não cias) (este verbete. Se a cultura vi. portanto. retrógradas e Debreagem reacionárias sobre alteridades. enunciado. repousa Sciences Politiques – CEVIPOF. inaugura o de elementos co-presentes em um enunciado (frase do século XX. 2000. ao contrário.. man”. In: Semiótica plástica / Ana Claudia tam perenemente nossa cultura visual. Os dois textos visuais sual do passado dialoga com a cultura visual contem. figurativizam noções do que seria a evolução do povo porânea. ao enunciado-discurso. Centre Nationale de a um título qualquer e de um modo qualquer. acerca da localização ou cenário. para as. Hacker Editores. mas não per. Se. no decorrer de uma cadeia sintagmática Alegre: Mediação. A Condutas providenciais. hierarquia sintagmática. Di- Sem a pretensão de encerrar as questões aqui cionário de Semiótica. negras reflexões lonização. parece oportuno lembrar que a construção -se por enunciado toda grandeza dotada de sentido. Vicente. como os demais foram extraídos do Quadrado semiótico cia Universidade Católica / Programa de Estudos são refutáveis. ante. que. riormente a qualquer análise lingüística. suficiente para constituir O Museu de Valores do Banco Central do Brasil. _______. Bibliografia são de evolução étnica que remonta às teses racialis. enquanto um dos aspectos Designa-se pelo nome de sintagma uma combinação de Cã encontrar correspondências na segunda metade constitutivos do ato da linguagem original. Joseph. às estratégias de manutenção de certos sintagmas em de índices espaço-temporais (. São Paulo: brasileiro. participam do processo”. parte da existência humana. aspectos topo- cação oficial e. em consonância com os en. Ana Claudia. independente de qualquer outra determina.. Paulo: Banco Safra. que dizem respeito aos teores das o texto como está explicita e sustenta uma compreen. mióticas. São A grande questão que permanece aberta diz respeito (. Se se concebe. alusivos aos materiais expressivos empregados data em que o livro foi lançado é de 2000 e obviamente enfrentamento institucional do racismo e de imple. quando definida . 5 (pgs. imposto por essas imagens que coisificam o outro. A estrutura elementar da signi. podemos estar cercados de estereótipos e o que é ratório. imagens que podem tanto permitir o avanço de nos.) Os sintagmas são obtidos tudos críticos direcionados para a produção artística e de maneira implícita. O Brasil na visão do artista: o país CONSIDERAÇÕES FINAIS o eixo paradigmático (comutações e substituições) da e sua gente. sendo que o 122 123 . homogeneidade. Paulo: Contexto. OLIVEIRA. de si.num primeiro momento . Enunciado FIORIN. (grifos a significação estética possibilitam outras abordagens Eidético estabelecimento das relações entre as partes e a totali- nossos) (Banco Safra.. Porto Alegre: Artes capacidade perceptiva.

interlocuções .

seu posicionamento. a defesa da tese do intelectual Poder latente no redirecionamento do pensamento negro Guerreiro Ramos. enfim. militância negra” constatou. a ser repelido com veemência João Batista Borges Pereira delineia uma trajetória que na tentativa de aplacar as desigualdades raciais pela/ Nascida em Salvador. A terceira fase. frente às sucessivas mortes ante. trago uma interrogação: o que conta Florestan Fernandes e Roger Bastide na USP. no curso do processo his. demonstra isso. concedida por e-mail. No que mais para a luta antirracista e para a vigência do princí. relevando as suas considerações no processo acerca de si mesmos. de modo a fazer com que o Estado brasileiro 127 . no espaço acadêmico e impediram tal alcance. A No Brasil da primeira década do século XXI. de absoluta falta de diálogo. dos Em uma reflexão sobre as relações entre militância ne. de perder a vida. das orelhas e o modo de enfrentamentos necessários ao estabelecimento de po- dos assuntos de que trata a nova secretária de Polí. Estamos diante de um novo cenário. é marcada por um diálogo a uma maior articulação entre a academia e a militância nicipais. a situação dos in.de acordo a questão do negros nas agendas de estudos. Para mim. cultural. com o direcionamento de ação para novas do Colégio Nacional de Ouvidorias das Defensorias mente inferior” e do “não-ser” continuam aderidas ao segundo Borges Pereira. na pesquisa acadêmica. a político-mili. Da leitura do nosso corpo. é do surgimento de uma inte. da academia acerca os intelectuais negros no interior das universidades? das questões “do negro”. na primeira meta. Na sequência. ria [abordada sem qualquer caráter crítico-reflexivo]. são alguns homem. nesta entrevista exclusiva. deve-se atentar. o científico. negações. Daí para frente.em face do que Pereira. ao tempo em que a militância negra pri- mava por dar visibilidade à conquista de espaços nesse anhamona de brito dêmica”. impossibilitado de de do século passado. sitário e. sim. O estão postos para SEPPIR é o de avaliar. mo executivo alcançou a sua finalidade institucional. se ao longo e mortes simbólicas a que a pessoa negra . corpo negro. especia. na sua opinião. Estudava direito penal e a influência das nando consequência. antigas. tombar. no artigo “As relações entre a academia e a do processo de sua institucionalização. intitulada “A Unesco e as re- científico. da mesma forma o tempo todo. tudo apontava para a definição do Ser gra e acadêmica no período da república. problemas. demandas. se comparado ao de uma pes- os. dos pela população negra para o acesso. onde lideranças negras se tornam ais. e o cultivo da identidade racial. do “incontestavel. o fato de o corpo negro . das universidades. Bahia. foi que a mobilização política e. sentado. quais sejam.interlocuções Levando em conta sua experiência acadêmica. segunda nos anos 1950. reporta para o fato de pio da equidade pelo asseguramento de nossos direitos temas pertinentes aos negros perpassarem a produção . Corporalidade e Racismos Contemporâne. na educação. a mais completa passa por três fases. no seio do movimento negro. Uma imagem de pessoa semelhante à minha penhar no campo econômico. e. Anhamona de lábios. o tema central do Instituto Sangari . tendo negação. Somente assim. nunciaram. nossa consciência acerca do papel que temos de desem. pela indubitável expressão de de estudo. um dos desafios que o corpo negro a a existência do racismo? Aos sucessivos desrespeitos. seguida dos trabalhos de Para refletir. Essa mudança é fruto da ação de construção de nossa identidade. tórico-cultural brasileiro. este organis- Lembro-me que uma marcante e inicial reflexão por que o seu corpo expressa [já que a miscigenação visa a. também. a única diferença era o fato de ser a de um na nossa vida social. a espessura das sobrancelhas. nas três primeiras décadas do entrevista: Mesmo não sendo uma pessoa de “larga vivência aca- século XX. ticas de Ações Afirmativas do órgão. enfim. não se intercomunicavam que a SEPPIR projete novas estratégias. uma ponderação que não é minha média protagonizavam a iniciativa dessas produções. Brito. houve uma mu- em desmerecer a importância do papel dos/as intelec. com pesquisa recente do Ministério da Justiça através concorda com essa linha evolutiva? Se permanecemos Nesta primeira edição da revista Ngunzo. A primeira. sendo que intelectuais negros e de classe tante? Trago. mim feita acerca do binômio racismo – corpo negro foi justamente. da intelectual Luiza Bairros [atual Ministra da Devemos ter em vista que as reflexões de Pereira SEPPIR]. ainda. numa análise negativa. dentro delas. produz um dos tipos de conhe- cabe reconhecer que a produção acadêmica auxilia na cimento. para onde ela caminha ? Quais são as prioridades da atual gestão da Seppir? é Educação. os obstáculos enfrenta- telectuais negros nos espaços acadêmicos e as prio. da atualidade. o que a pergunta pode fazer denotar. ou reforce as teorias bio-antropológicas para as políticas criminais riormente impingidas. com a qual concordo: se há uma tendência são dos idos de 1999. expressando o racismo ainda existente no lectualidade negra que passa a defender teses e colocar outros espaços. Será esta uma nova onda. lista em Direito Público e Políticas Públicas. vivencia-se a não do diálogo com os negros na condição de sujeitos da aceitação de que os negros produzam conhecimento pesquisa. com novos Defensoria Pública do Estado da Bahia e presidenta A figura do “criminoso nato”. para os desafios lações de raça” e os debates acerca dela no I Congresso existentes fora dos muros das universidades. uma quarta Brasil. ele aponta obstáculos a senhora diria que estão colocados para para a não escuta. Ele expressava o não-ser. daí o silêncio. do Negro Brasileiro [1950]. Florestan Fernandes. acadêmica. informantes-chave dos pesquisadores. permanência ridades da atual gestão da Secretaria de Políticas de estava ali. de acordo com a teo. a partir de inciativas de estudiosos como Roger Bastide e e um maior número de negros militantes e intelectu- estaduais e municipais. ele denomina de terceira fase. Tirar a vida acaba se tor. Acho que se trata mais de uma questão de constatação No ano em que comemora 8 anos. temos também assessorado mesas diretoras de câmaras mu.a atuação acadêmica ou a das ruas. em face da necessidade de conquista de Públicas do Brasil. o professor além da adoção de algumas medidas compensatórias. Foi ainda ouvidora geral da inferioridade e o biótipo do crime. na época com 17 parece que nada mais resta. violências do estudioso que de aquiescência de minha parte. ter direitos. que Olhando para o Brasil pós-república. Se. além de aprofundar a educadores/as ativistas do movimento negro que de- A visão do corpo negro no direito. assegurar uma sobrevida] – é acometida.4% mais de chances de na terceira fase. quando Cesare Lombroso me foi apre. A senhora fase? Para mim. ela é advogada. O formato do crânio. pelo fato de denotar. sim. A senhora poderia explicar como vê a relação entre soa branca. Delinquente por natureza. dança do perfil das pessoas que estão no espaço univer- tuais negros/as para a potencialização de nossas lutas. apresenta a mudança de ce- nário e os marcos da inclusão. político. percebo que os desafios estão presentes para dentro e para fora “novo país”. através dele. será possível anos de idade.ter 103. líticas de cotas pelas instituições de ensino superior. pelo Estado. prefeituras e bancadas legislativas federais. e desempenho no ensino superior e promoveram os Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR). quais foram as questões que na sala de aula do curso de Direito. no curso dos anos.

considerar que. ou não ocorre. principalmente no estímulo ao intercâmbio sul. mostra-se como uma outra possi- cício de sua cidadania e o direito à vida. propor caminhos que visem a aplacar as lações étnico-raciais e para o ensino de história e cul- tura de promover a articulação de políticas sistêmicas te alguma coisa encaminhada nesse âmbito? inúmeras “opressões” sofridas pelas mulheres negras tura afrobrasileira e africana. acordo com o próprio decreto que regulamenta a sua mato de cooperação. Estado brasileiro hoje é a de erradicar a pobreza e a No que diz respeito às ações necessárias ao combate de Promoção da Igualdade Racial [previsto pela Lei fe. texto dessa Lei maior. mas. a estratégia de luta. vê-se que a SEP. com fins de SEPPIR. taduais. é Vejo estes campos como essenciais no processo ra cotidiana e intensiva. consistente. interlocuções reduza as desigualdades raciais e promova uma cultura políticas transversais do governo federal. a nossa vivência demonstra que o racismo poucas foram as tratativas que envolvessem a troca de social conseguirem estabelecer. sociais tidos como “subalternos” e depois esses grupos situação? Ainda nessa linha. traz como consequência. das desigualdades raciais na educação. numa esfera se alimenta das conhecimentos produzidos [não apenas tiva de gênero. competência. O que pretendem fazer para melhorar essa população negra. posso salientar a prioridade a A atuação política e administrativa do Ministério são novamente hierarquizado. ações específicas são bilidade na relação da SEPPIR com os países da África 2011 é ano de elaboração do plano plurianual do diagnósticos sobre as desigualdades raciais. as executadas em parceria com outros entes. sobretudo no for- independentemente de sua cor ou raça. A institucionalização de um órgão governamental cebido pelos poderes públicos constituídos. sabe-se que a imple- mo no auxílio à definição e à inserção de indicadores apreciação do Congresso Nacional. Logo que tomou posse a Ministra Luiza Bairros lem. bem como as propostas submetidas à a execução não fique ao encargo do nosso Ministério. panhe a execução de programas voltados à implemen. teremos a obrigatoriedade de definir quais são as ações Em 21 de março de 2011. inclusive. agenda política. -las? De que maneira? afirmando que a luta que teremos de empreender. Talvez o final da pergunta deva ser reformulado para nacionalizada e envolvendo os entes de governo e da o científico] e. marcando o lançamento do Ano As relações com a África e as comunidades negras da um novo plano? Por óbvio que não. consideramos que a igualdade preci. pelo poder de arti- No slogan. não uma ou outra. nificativo de parceria com países do continente Afri. municipais e distrital. sim. Poder Executivo da União. que e coordenar encontros para a realização de estudos e respeito às mulheres negras. representantes do movimento so. brou que o ano 2011 foi considerado pela ONU o Ano nesse cenário. miséria extrema. Concordo que há um descompasso entre o proje- afirmativas adotadas pelo governo federal. dessa nova política [promoção da igualdade racial]. na medida em que não temos a cul.. Internacional dos Afrodescendentes no país. cial e a população em geral comprometam-se com essa com fins de combater o racismo e aplacar as desigual. existe alguma sa ser efetivada. o Estatuto da Igualdade Racial]. acom. pelo cumprimento da e aprofundar as pesquisas acadêmicas sobre o tópico opressor nos impõe um número significativo de exclu. dentro de sua esfera de diretrizes curriculares nacionais para educação das re- uma tarefa difícil. buições nocivas que o racismo e o sexismo imprimem [a SEPPIR. estrutura. ações emblemáticas em prol dos negros. é certo que listas.. faz-se essencial a análise das contri. precisa. Daí. que se combater o racismo e as desigualdades sociais que ele Em que pese a SEPPIR tenha firmado um número sig.288/2010. realizar e apoiar a elaboração de estudos e Dentro das atribuições da SEPPIR. goza de um certo pioneirismo. de manei. Se o seu Para que o nosso Ministério articule. Divulgaremos. analisando. novos saberes. Afinal. A intenção é a de que os entes governamentais. que contém. fundamentalmente. pela sua efetiva aplicação. em breve. Com ela. não podemos deixar de tura negra no ensino fundamental caminha a passos tentem contemplar aos interesses e às necessidades da debates temáticos sobre a promoção da igualdade ra. como também E a questão da mulher negra. o MEC e os/as agentes sociais envolvidos Ele foi concebido como a via de organização e articu. e. promover ações que visem a a luta que teremos de empreender para que o Plano de definição de prioridade de nosso Ministério. racial em voga. o pleno exer. cial. as formas de dades sociais que lhes são consequentes é algo recente não é por falta de detalhamento dos possíveis caminhos tação da promoção da igualdade racial. Apesar da legislação existente. aniversário de 8 anos da de mais particularizado. brasileiras. primeiro. inclusive. tendo a SEPPIR um papel relevantíssi. retroalimenta os indíviduos Exemplificando: se uma agenda prioritária do “o que pretendemos fazer para melhora essa situação?”. Precisamos mudar. de cíficas? Elas se justificam? Por que? compartilhamento de experiências. assegurando a toda a população.639/2003 promoveu alterações no racial? sões. de reduzir as desigualdades e. sendo essa aproveitar essa data propícia para propor. culação e de pressão que os/as professores/as. Já exis. cumprimento está aquém do esperado. tendo as perspectivas raça e gênero como com a temática] a elaboração de um plano bastante lação do conjunto de políticas e de serviços destinados Internacional do Afrodescendente e que pretendia balizadoras. no governo PIR não poderá se furtar de. ganhe eficácia. incluindo as adesão a essa campanha. Parafraseio Edson Cardoso. dessa vez pela perspec- ser dada pelo estabelecimento de diálogo. promova. em todas as áreas. mesmo que municípios. desenvolver as que possibilitam ou possibilitarão o atendimento aos e as comunidades de sua diáspora. No que diz mentação do ensino de história da África e da cul- a serem atingidos pelos governos em suas ações. entre outras atribuições. sociedade civil. estudantes e as representações do movimento contribuição que ela possa dar no sentido de ampliar na prática. não bastando as referências legais se. será alvo de ações espe. aquilo que elas tem metas a serem atingidas. federal. Racial é Pra Valer”. da forma como a proposta. conhecimento sobre aquilo em que o nosso Ministério LDB. 128 129 . descentralizar a sua implementação pelos governos es. promovemos deral nº 12. o não-discriminatória. de modo a auxiliar a implementação das a superar as desigualdades raciais pelo país. pela estruturação do Sistema Nacional para novas agendas. especia- Dentro do campo de atuação da Seppir. novos fazeres. o que não pode passar desper- da iniciativa privada. a 10. diáspora são importantes. Precisamos de outro documento. promover em face das peculiaridades organizacionais. conclamamos toda sociedade brasileira para. colocamos na rua a campanha “Igualdade tado e o realizado. planejar. o racismo delimita os grupos lentos. dos Estados e também dos estudos acerca da política de promoção da igualdade anseios e aos interesses da população negra. -sul entre especialistas da área de educação. cano. A Seppir pretende estimulá. Vai passar pela intervenção política da encontra com um planejamento estratégico em curso. para além da contínua análise acerca dos impactos a serem trilhados para isso. SEPPIR. De acordo com o Estatuto. por sua vez.

literarte .

Impossível Quantas gargalhadas É querer suas mãos Foram necessárias? Descendo a lua Ela caminha Sobre minha face.. Espero. Desenhando o universo Pele De longe A sedosa negra A vejo Da flor no cabelo. Abrirá sua boca pela UFBA. professor de Teoria Literária e Literatura Brasileira na Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e pesquisador A dançarina Mais uma vez do AYOKÁ KIANDA . Se aproxima vários Roda Olhares Corpo mogno e Uma corte infiel Seu vestido O rei Pingando vermelho Que passeia por outras Para nunca mais É quando fecho os olhos. 133 . Com uma espada.. Almeida de A engolidora das dores Abreu Silva Poeta e artista plástico. Com passos finos A sua volta.Núcleo de Pesquisas e Estudos Multidisciplinares Africanos e Ewá. com seus contornos Para nascerem flores. Ela. Afro-Americanos (DCHT XXIV/UNEB). mestre em Letras Ela. Deusa do rio Iewá Nos olhos movendo Ricardo Nonato Seus búzios.literarte A que abre o leito dos rios Terras E apascenta a violência A rainha que dorme em Com seus cachos Seu sarcófago É a mesma As oferendas frias Que desmancha nuvens Tudo virou sombra.

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1. n. Rodovia Celso Garcia Cid | Pr 445 Km 380 | Campus Universitário Cx. Postal 6001 | CEP 86051-980 | Londrina – PR Fone: (43) 3371-4000 | Fax: (43)3328-4440 Email: neaa@uel.Nguzu – Ano 1.br . março/julho de 2011 Revista do Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA) da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

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