Revista do Núcleo

de Estudos
Afro-Asiáticos
da UEl

Expediente sumário
Universidade Estadual de Londrina Editor executivo
Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA) Carlos Alexandre Guimarães
Reitora
Nádina Aparecida Moreno Secretaria Editorial
Flávio Carrança
Vice-reitora
Berenice Quinzani Jordão Capa, projeto gráfico e diagramação
Naima Almeida e Natália Tudrey
6 EDUCAÇÃO, CORPORALIDADE E
Coordenadora do NEAA RACISMOS CONTEMPORÂNEOS
Rosane da Silva Borges Revisão Editorial Rosane da Silva Borges
Flávio Carrança

Coordenações de área do NEAA

Educação e Ações Afirmativas
Nguzu – Ano 1, n. 1, março/julho de 2011
Revista do Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA)
Dossiê Temático
Maria Gisele de Alencar da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Rodovia Celso Garcia Cid | Pr 445 Km 380 | Campus 10 O CORPO NEGRO: SENTIDOS E SIGNIFICADOS
Arte e Cultura Universitário Isildinha Baptista Nogueira
Marcia Dermindo Cx. Postal 6001 | CEP 86051-980 | Londrina – PR
Fone: (43) 3371-4000 | Fax: (43)3328-4440 14 PERSONAGENS EM POSIÇÕES HIPOTÉTICAS: CONSUMO,
Comunicação Email: neaa@uel.br CORPO E SUBJETIVAÇÃO NA CULTURA DAS MÍDIAS
Silvia de Castro Laura Guimarães Corrêa

Pesquisa e Documentação Conselho Editorial 22 RACISMO E BIOPODER: UM CASO NO RIO DE JANEIRO
Carlos Alexandre Guimarães e Rosane da Silva Borges 1. Alex Ratts (UFG) CONTEMPORÂNEO
2. Álvaro Roberto Pires (UFMA) Renato Noguera e Carla Cristina Campos da Silva
Articulação Comunitária 3. Amauri Mendes Pereira
Manoela Fernanda Silva Matos 4. Ari Lima (Uneb) 28 CORPOS NEGROS EDUCADOS: NOTAS ACERCA
5. Carlos Benedito Rodrigues da Silva (UFMA) DO MOVIMENTO NEGRO DE BASE ACADÊMICA
Relações Internacionais 6. Maria Aparecida Moura (UFMG) Alex Ratts
Dejair Dionísio 7. Denise Botelho (UFRPE)
8. Edna Rolland 40 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL: PRETINHO (A)
Secretaria 9. Edson Lopes Cardoso (SEPPIR) EU? DISCUTINDO O PERTENCIMENTO ÉTNICO
Cibele Candeo Leite 10. Elena Andrei (UEL) Ralime Nunes Raim
Dirce Meneguelli de Sá 11. Flavia Matheus Rios (USP)
12. Heloísa Pires 50 REFLEXÕES SOBRE NOSSAS CONSTRUÇÕES INTELECTUAIS
Assistente de Educação e Documentação 13. Joselina da Silva (UFC) E POLÍTICAS ACERCA DE “RAÇA”
Vaudice Donizete Rodrigues 14. Kabengele Munanga (USP/SP) João Batista de Jesus Felix
15. Kia Lilly Caldwell (Univ. North Carolina at Chapel Hill)
Estagiária de biblioteconomia 16. Leda Martins
Elza Ribeiro Bueno 17. Ligia Ferreira (Unifesp)
18. Lucia Helena Oliveira (UEL)
19. Marcelo Paixão (UFRJ)
Propostas Pedagógicas
Comitê Editorial 20. Maria Nilza da Silva (UEL)
21. Matheus Gato de Jesus (USP) 62 POR QUE ENSINAR A HISTÓRIA DO NEGRO NA ESCOLA
Coordenação 22. Nei Lopes BRASILEIRA?
Carlos Alexandre Guimarães 23. Nelson Inocêncio (UnB) Kabenguele Munanga
Rosane da Silva Borges 24. Nilma Lino Gomes (UFMG)
25. Roberto Borges (CEFER-RJ) 68 O ensino de sociologia e a lei 10.639/03:
Editora científica 26. Sueli Carneiro (Geledés/SP) cultura afro-brasileira no livro didático
Rosane da Silva Borges 27. Wilson Mattos (Uneb) Crisângela Biassi de Almeida

76 LITERATURAS AFRICANAS DE LÍNGUA PORTUGUESA
EM SALA DE AULA: UMA POSSIBILIDADE?
Claudia Vanessa Bergamini

85 A ENUNCIAÇÃO DO POSSÍVEL: AS COTAS RACIAIS E A LEI
10.639/03 TRANSFORMANDO A REALIDADE DA POPULAÇÃO
NEGRA EM LONDRINA
Márcia Figueiredo Tokita e Maria Gisele de Alencar

Negras Reflexões

94 DO DIREITO À PALAVRA AO PODER DE ENUNCIAÇÃO
DO MOVIMENTO NEGRO NO BRASIL
Jacques D’Adesky

106 RAÇA E GÊNERO: ENTRELACES RACISTAS VERSUS
AFIRMAÇÃO IDENTITÁRIA NEGRA
Maria Anória de Jesus Oliveira

116 A REDENÇÃO DO OLHAR: UMA ABORDAGEM SEMIÓTICA
Nelson Inocêncio

Entrevista

126 ANHAMONA DE BRITO

Poesia

132 DEUSA DO RIO IEWÁ
Ricardo Nonato Almeida de Abreu Silva

espe. paradoxalmente. Contemporâneos Professora Doutora. e da socióloga pós-graduada Em tempos de narrativas hipermidiáticas. não a gramática corporal como um vetor importante para dos das Américas da Universidade Cândido Mendes e Racismos Contemporâneos. negros. Muniz Sodré já nos advertira: e do professor doutor João Batista de Jesus Félix. definição das relações sociais africanas. o outro. Muniz. boates. Rio de Janeiro: Vozes. das pesquisado- (1999. a revista Nguzu é também manufaturada no su. te interrogação. o corpo é categoria importante na SODRÉ. por definição. alcança di. Departamento de Artes Visuais vinculado ao Instituto às reflexões e pesquisas ancoradas no campo das rela. ras graduadas pela UEL. estruturas sociais. da pós graduanda em Letras da prática é alemão. as concepções sobre o corpo passaram por debate por meio de fóruns concernentes ao racismo e dices exorbitantes de mortalidade de jovens negros não radicais avaliações. No como Michel Foucault e Gilles Deleuze. a revista Nguzu toma. estudos e reflexões sobre significativa). e nos conduz. ponto ordenador das mente. beirando um cenário de De um modo ou de outro. Como reposicionar o debate em meio às emergen. buscam problematizar e aprofundar questões teóricas. Renato Nogueira. Com as informações emitidas pelo corpo. onde os múltiplas faces da discriminação racial vêm denun. argumentos enviesados que. Corporalidade praticamente inalterada a marca histórica de 92% da masculinidade nas vítimas de homicídio. A estética negativa do estrangeiro lastreia sempre os Além do dossiê temático. o que cartesianismo estão. restaurantes de luxo ou Antropologia da Faculdade de Filosofia Letras e Ciên­ mesmo ser aceito para seguros de automóveis. seção “Interlocuções”. e vêm estimulando a renovação do senciamos na paisagem cotidiana é desalentador: os ín. Nguzu. irremediavel. a decisão cotidiana sobre quem doutor Kabengele Munanga. ainda são sustentadas por frações da crítica e analítica. entanto. para os elevados índices de mortalidade entre vitimização juvenil por homicídios continua a crescer. Enfileiram. Visto como um elemento vital para bibliográfica mensões exponenciais. com verniz de seriedade. p. é por ele que se classifica e se categoriza as pessoas. os jovens negros. 1999. professora adjunta do cur- so de Comunicação Social da Universidade Federal de Em seu número de estreia. O nome cias Humanas da USP. secretaria de Ações Afirma- A escolha desse dossiê temático foi motivada por reação conservadora à adoção de políticas públicas que ricas e estabelecem diálogos com outras áreas de co. 6 7 . do professor doutor Alex Ratts. se desvencilhe de qualquer recorte racial. O que pre. cial do MIT. Corporalidade faixa etária. No tópico “Negras textos encontram abrigo preferencialmente no espaço ciando sistematicamente. plosivo e. de Artes da Universidade de Brasília – UnB e coordena- ções raciais no Brasil e em outros países da diáspora. a nossa convidada é a doutora significa energia. da Universidade Federal de Goiânia. triste eloquência. das singularidades do racismo na contemporaneidade. Tais afirmações. tivas da Secretaria Especial de Políticas de Promoção episódios contemporâneos que revelam a pertinácia tomam a discriminação racial como nexo prioritário nhecimento capazes de contribuir para a compreensão da Igualdade Racial (SEPPIR). o corpo como um vasto território mar- cador de sentidos e significados. torial para dar continuidade ao compromisso de ser um -boy pelos seguranças do banco Itaú integram uma lista admitir a centralidade do racismo nas ações discrimi. sob a chave da pós-modernidade energias. Segundo reportagem do jornal “O Estado ampliam o painel. pelo menos desde a década tes reflexões que apontam para a superação do corpo reflexões” contamos com os artigos do professor dou- virtual. do Departamento de pode entrar em clubes. como era de se esperar. O mencionado quadro. a cada ano. o que é pior ainda. forma. Claros e escuros. da professora doutora Maria do NEAA (Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos). podemos entrever essas reflexões nos textos de Isildinha Baptista. é va. a Nguzu apresenta na julgamentos na prática do Gesichtskontrolle (contro. pela UEL. Nguzu espera manter tam (os assassinatos do dentista negro em São Paulo Sem nos estendermos sobre essa contenda. em constan. Oxalá cumpramos esse papel. traço por traço. Ralime Nunes Raim. cialmente de jornais impressos e televisivos com capi. do professor de filosofia e educação da e Racismos Rosane da Silva desse modo. mesmo resultando em vistos em conjugação. presentes na agenda dos suportes informativos. Tais episódios fizeram-se razoavelmente natórias impulsionadas por um fundamento racial. agremiações políticas. da socióloga e co- ordenadora do Programa Diversidade Étnico-Racial na cleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA) e coordenadora editorial da revista Nguzu. Em perspectiva da epistemologia à violência no Brasil. práticas racistas. Os artigos aqui reunidos sobre o tema dor do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UnB. como sabido. De Descartes. de São Paulo”. uma publicação constitui nenhuma novidade. outros contributos não menos importantes referência O assunto. e da mestranda Carla Cristina da Sil- Borges uma das primeiras fronteiras de violação do humano. Crisângela de Almeida. ou seja. Marcia Figueiredo Tokita e Maria Gisele de Alencar. Convertendo-se em Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Na Colhemos da língua banto o nome da publicação. mas sua incidência é transnacional da UEL. “o Mapa da Violência 2011 mostra que a equilíbrio de algumas sociedades. do que esses corpos significam e represen. E na seção “Literartes”. pesquisador do Centro de Estu- porte impresso. dores de opinião pública e apresentam-se como uma tornam públicos os resultados de investigações empí. institui. do racismo em sua ação implacável de abater corpos para a superação das assimetrias no Brasil. de Laura Guimarães Correa. as contribuições do Laboratório de Inteligência Artifi- laridade nacional. fundamentada em uma leitura racial. também da UFFRJ. esculpimos Educação de Montes Claros/MG. com Uma pequena mostra de artigos referentes ao tema Anória de Jesus. importa destacar das altercações são as relutâncias em e da cibernética. Minas Gerais. a vitimização entre jovens negros tem índices muito altos. office-boy – não deixam margem a dúvida. portanto -se argumentos propugnando uma práxis política que Muito se tem insistido de que o corpo e. da Universidade do Estado da Bahia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). de 1970. continua doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo. sob uma perspectiva educativa. psicanalista e “extermínio”. (UNEB) e do professor Nelson Inocêncio. tanto. Anhamona Silva de Brito. Após uma década (1998-2008). da Universidade Federal do Tocantins (UFT). que intelligentsia brasileira. demonstra nesta publicação a diversidade de aborda. órgão que essas estatísticas convivem. a noção de sujeito e subjetividade derivada do Como qualquer iniciante. 33). da Universidade Estadual da Bahia. Educação. Cláudia Vanessa Bergamini. pelos aportes relações raciais. educativa. O que causa espécie é pensarmos na sustentação do racismo? e professor da UNESA. os exemplos aqui elencados – do dentista e do da medicina e da psicanálise. Organizações anti-racistas atentas às O número de homicídios entre a população negra é ex. somente permanecem. por. incluindo-se aí também Uma ótima leitura e até o próximo número. passando por filósofos canal difusor das pesquisas. como crescem vertiginosamente africana. apresentamos a poesia do escritor Raimundo Nonato. em franca decadência. próprias de sua concepção edi- quando retornava para casa em Guarulhos e do office. Com o tema Educação. coordenadora do Nú- pelo corpo que se circunscreve as (im)possibilidades do ser. docente do -se como um espaço demarcado para dar visibilidade afirmam solenemente ser o Brasil um país isento de gens da corporalidade e dos racismos contemporâneos. seção “Propostas Pedagógicas” os textos do professor le de rostos). a incidência majoritária de assassinatos nessa e ascensão do pós-humano? De que maneira reinserir tor Jacques d’Adesky.

dossiê temático .

univers psychiques. situação que perpetuava a imagem anterior. Entre cativos e mortos. Como seres humanos. mundo. uma concep. A acul. os negros tações sobre o negro e o seu lugar na sociedade não se viam destituídos da sua condição de humanos. foi antecedida por mudanças às coisas. portanto. os indivíduos se comportam segundo essa Trazidos de diferentes regiões. d’une part. consequentemente. a despeito das lutas por Vivendo em péssimas condições nas senzalas. Restava aos negros o trabalho do- mais diversos fatores. cultura está condicionado a uma lógica que determina África perdeu 70 milhões de pessoas do século XV ao que viver em sociedade é estar “sob a dominação des. de outro. Foram 320 anos de escravidão. tradições e religiões no campo. preguiçosos e complexo processo que não corresponde a uma relação favorecia o controle dos senhores de escravos. ra- cismo. Nogueira Refletir sobre a condição do negro como produto da interação De cette réflexion. seus valores. à partir de l’hipothèse suivante: que cette realité historique histórico-social determina. a vida coletiva. que colocavam obstá- crenças e costumes. obrigadas a conviver. dição de escravo. méstico. des configurations psychiques Isildinha Baptista cas peculiares. les repre- Psicanalista. com o tema: Signi- ficações do corpo negro. o que animais e vistos como incompetentes. que produit de l’interaction dialectique entre. teve origem A promulgação da “Lei Áurea” que supostamente destacamos por nossa capacidade de dar significados no Renascimento. isto é. ALENCAR. sócio-economiques. As representações sociais funcionam como uma 1. os libertaria do cativeiro. culos à existência de um país escravagista no cenário próprios de cada grupo étnico social. empírica. como forma de resistir à Como falar acerca de representações psíquicas e ex. mudam. falando. a necessidade que lhe é natural. j’essaye de definir la condition du noir en tant dialética entre. as representações sociais ideologi. mundial. as condições em que viviam como sendo ção. brutalizados e animalizados pelos senhores. as principais atividades inseridos na sociedade. ra. de Por mais de três séculos. consequência. quando comparados aos europeus que para causal simples. diversas. para os negros. particuliéres. onde se criaram novos conceitos. Rio de Janeiro: em que o negro. tal como besta fera domesticada. periências para além de um terreno anteriormente in. histórico social.). Em línguas diferentes. 11 . Construímos uma cultura. Chico (org. 2001. sem condições para seu auto-sustento e sem trabalho lógica. cos. mecanicista. mas depende dos cá vieram trabalhar. Palavras chave: negros. partindo da hipótese de que essa realidade cisme. fundamentalmente. Os abolicionistas mostravam grande indigna- princípios de conduta. les Desenvolvimento Humano da Universi. tendo cultura. foram comparados a ca dos indivíduos e dos grupos sociais constituem um a organização entre os semelhantes dificultadas. estruturados. justi- A sociedade é. periências diárias e dizer que. dade de São Paulo. as estruturas sócio-econômicas que as sentations sociales ideologiquement structurees sócio-economiques Departamento de Psicologia Escolar e do produziram e as reproduzem e. as configurações que qui les ont produit et continuent à les réproduire et. pour les noirs. formam o universo psíquico. sa lógica”. puderam pensá-los como indivíduos que deveriam ser determinado grupo. Doutora em Psicologia pelo camente estruturadas. econômicas mercantes brasileiras basearam-se no tra. uma construção do pensamento. sociale determine. sem terem consciência desse mecanismo. XIX1. Garamond. que criaram olhares específicos. que começava a ser feito pelos imigrantes. as represen. assim. Assessora do Instituto AMMA Psique e Negritude.dossiê temático O Corpo Negro: Sentidos e Significados RESUMO RESUMÉ Este artigo tem como objetivo refletir a dimensão psíquica da Ce article se propose à réfléchir sur la dimension psychique du ra- questão do racismo. sócio-econômica. resultado da transculturação. historique sociale. que demandará tualiza”. um conjunto de o homem passa a ser visto como centro e modelo do na ordem econômica e política. E SER NEGRO ficando. mas não garanta a cada um dos indivíduos pertencentes a um tumes e leis. se pensa e se percebe de uma época para outra. e fixam os limites dos comportamentos culturas diferentes. ganham nova identidade. os negros tinham portanto a comunicação e Dadas suas condições de vida. tra- rede onde as malhas estabelecem os domínios das ex. indolentes. de um lado. que são ideologicamente suas identidades originais. com sentido e significação. Libertos. saindo da con- pertencimento a essa organização. configurações psíqui. turação é uma consequência natural na relação entre INTRODUÇÃO diferenciado. os ex-escravos vagavam desorientados. Supunham que. Les Mots Clé: noirs. Ao perderem dos indivíduos e dos grupos. Isto é possível porque o ser humano se “concei. cada sistema cria seus teóricos que o jus. assim como a vida psíqui. o negro trabalharia como mão de obra O conjunto das representações que constituem a balho do negro escravizado. cisme. nos A noção de “ser humano” que temos hoje. uma entidade “naturais”. a remunerada para seu auto-sustento. configurations que constituent l’univers psychiques. tifiquem. universo psíquico. balhava em troca de ração. d’autre part. pg. uma ética que permita e por ser histórico. não mudaram? SER HUMANO faltaram estudos que os compararam aos animais. Direitos mais humanos. ção pelas condições de cativeiro dos negros. melhores condições de acesso à cidadania. opressão causada pelo processo de escravização. 24.

o desejo de recusar esse signifi. não importando a nadas pelas condições objetivas . 2001. gicas atribuídas aos brancos. visto que só existimos como sujeitos em e impedidos de desfrutar de qualquer benefício social. en. supostamente baseadas ALENCAR. Nilton Bonder. des. Referências incorporação. como única via possível de Como seres humanos. minação. utilizando cante. TURRA. diversidade. caso do negro. do de maneira apaixonada. Nasce em nós. cria para o do negro. Negar e anular o próprio corpo nos torna o su- ço na sociedade. sentimento formado sem estruturas de poder e dominação. povo e é o olhar do outro. assim fragilizado. estigmatizados. a manifestação da razão. NEGROS? recedores de possibilidades sociais iguais. para além de seus fantasmas. Rio de Janeiro: O “ser negro” corresponde a uma categoria inclu. trução e da eliminação do outro. negro uma angústia que se fixa na realidade exterior e dir preconceito. Jorge Werthein. Suas estruturas psíquicas são contami. Identidade. se funda e se estrutura na condição univer. instituições e questões raciais no Brasil. contraditórios e instáveis. é alidade sócio-cultural do racismo deixaram inscritas ra”. oprimido. de um estigma. Faz parte da natureza conscientes de que nenhum de nós existe à parte das assimiladas e incorporadas. E o ou ódio pela incorporação das propriedades do obje. a discriminação é em sua psique. sempre por sucumbir a todo um processo inconsciente são do outro. Estarmos cientes dessas diferenças é importante dições objetivas. SCHWARCZ. não se faz necessária a presença física só não guarda nenhuma semelhança com o real de seu diferença pela “desconstrução” da outra cultura. ine. das Ser branco significa uma condição genérica: ser branco implicações histórico-políticas do racismo. dela excluídos jeito “outro”. Embora o negro saiba que sua condição é o resul. parcial ou totalmente. a bran. Luis é internalizado. esses termos como se tivessem um só significado. totalmente O preconceito é próprio da natureza humana. a características biológicas nada separa o real do imaginário. Gustavo. Graciela Rodriguez. negro. mídia no Brasil. É evidentemente confuso esse pro. do ser humano o preconceito. 1870- supostamente aquém do valor das propriedades bioló. as fantasias estão. Direitos mais humanos. não me. reagindo. São Paulo: Ática. A “brancura” passa a ser momento histórico e econômico. mas é por este negada. confun. que representa o significado que ele tenta negar. espírito e das ideias: a cultura. seus sentidos e significados. também. mas forte o bastante para que. pela negação do Ainda que lançando mão de um arsenal racio. racistas que parecem grotescas. Pedro Ca- do agressor. com o olhar do outro. que. da vontade do outro. o real do seu próprio corpo. estabelecendo-se que a princípio seria natural no ser humano. SODRÉ. a civilização. sabedoria científica. a mais completa análise sobre o preconceito Resta ao negro. os negros têm O QUE SOMOS sofrido toda sorte de discriminação que tem como base a ideia de que são seres inferiores e. São Paulo: Companhia das Letras. Chico. 1930. to essa marca pudesse representar. acesso ao mundo. Eduardo Soares. Tese (Doutorado em Psicologia) – Univer- encerra vários significados. passam a garantir essa Frei Betto. científico. O negro pode ser consciente de sua condição. nidade. VENTURI. que desta forma na relação com o outro − e no ideal de brancura − não em “conhecimentos científicos”. o desejo de “brancu. ral do racismo e da discriminação se inscreve na psique cordial. NÓS.a partir das quais são ideal de brancura permanece. O espetáculo das raças. nesta breve reflexão acerca de questões tistas. vista da perspectiva do olhar do negro incabíveis legalmente − já que criminosas. o neutro da huma- não impede que ele seja afetado pelas marcas que a re. cada qual defenda sua cultura no processo de identificação. enquanto uma possibilidade virtual. 2000. ou ambas cesso psicológico da ordem do inconsciente. com base na biologia de conhecimento ideologia moldam as estruturas psíquicas dos homens. como fica o negro que se confronta explicitamente. de cor no Brasil. marcados pela ser outro. 12 13 . de fato. corpo próprio. o negro passa a se auto-rejeitar. D. de física a psíquica) por parte dos brancos. o racismo é a expressão violenta da discri- Tal processo não é imediatamente verificável. foi o de contribuir enquanto psicanalista. em que o sujeito intro. estejamos inconsciente elaboração própria . relação ao outro. A ideologia racial. portanto. alheio à sua vontade. Significações do corpo campo etnossemântico onde o significante “cor negra” to em um autômato: ele se paralisa e se coloca à mercê expressão violenta da diferença que parte da descons. para que. dossiê temático Embora juridicamente capazes de ocupar um espa. se impõe inexoravelmente. a pró. O sujeito. aí uma confusão entre o real e o imaginário. no cor que os diferenciava e discriminados por tudo quan. Textos de como a identificação com o agressor. Isildinha Baptista. discriminação e racismo. os negros eram. que deve ser negado. mas antes sobrevive em um devir in. mas jamais da condição de escravos. parâmetro de pureza artística. temos a capacidade de estabelecer princípios. enquan. penso negando-se dessa forma a si mesmo. o negro possa desconsiderar tais ameaças termos determina e demanda diferentes sentidos. leis e outro. rentes ao ser humano. através da imitação ou da pria “humanidade”. ao amor os negros passam. O intuito. Esse mecanismo é o que a psicanálise caracteriza que se possa ser o outro. como a melhor forma de organização social. significa não ser to diversidades e especificidades da outra cultura. forjada ridade ou inferioridade que. pelo qual onde as diferenças e semelhanças são negadas. A brancura. absurdas. com a expla. ser sujeito é foram marginalizados. onde o indivíduo se autoriza à eliminação do representações psíquicas não são puro reflexo das con. majes. tornando-os sujeitos cati. vos e mantenedores de tais condições. pois as sal e essencial da brancura. mas isso constitui o elemento não marcado. dentro e fora. à alteridade. Se o que constitui o sujeito É justamente porque o racismo não se formula ção em relação aos negros. pode e saldaliga. Visto que costumamos.) Racismo significado que a pele negra traz enquanto significante? terror de possíveis ataques (de qualquer natureza. Arthur Dapieve. portanto. tão complexas quanto essas que envolvem a discrimina. É eviden- jeta. baseado na suposta sidade de São Paulo. Petrópolis: Vozes.que recebem no plano tado das atitudes racistas e irracionais dos brancos. Isto. (Orgs. o branco suficiente conhecimento. 1995. Mas esta imagem de si. NOGUEIRA. na maioria das vezes acaba por atravessar os limites da Garamond. Lilia Moritz. cien- inferiores mas. portanto. que mostra reconhecer nele o terminável. te que essa defesa apaixonada se dá por comparação. se vê exposto a uma situação em que inferioridade de certas etnias. simultaneamente. livres do cativeiro. transcende qualquer falha do branco. É o que analiticamente (para a psicanálise) se dá encarna todas as virtudes. ída em um código social que se expressa dentro de um Esse processo despersonaliza e transforma o sujei. tade moral. de “direitos civis” − é mais forte que ele: o negro acaba aquilo que pretensamente autoriza o indivíduo à exclu- Sabemos que as condições sócio-econômicas e a cura se contrapõe ao mito negro. ser sujeito no outro. Desde essa época. para critério para a compreensão passa a ser o da superio- to. o pois nossas reações são relativas à demanda de um dado área específica de atuação e conhecimento. que o nação do modo como a realidade sócio-histórico-cultu. enquanto profissionais. etc. via de regra. O signo “negro” remete não só às posições sociais vergonhado de si. Bibliográficas as coisas simultaneamente. que seja adequado nos lembrarmos que cada um desses próprio corpo. isto é. declarações e também a capacidade de contradizê-los. nobreza estética. e ser o outro é não ser o próprio sujeito. resultando no que seria a base do racismo. Cleusa. nal lógico. Muniz. 1998. o objeto amado ou odiado. em termos aquilo que me diferencia do outro. Claros e escuros. assim. Assim. portanto. entrará em ação.

nificações feito de códigos e rituais que dá sentido à domínios discursivos através de códigos sociais. corpo. e grupos da sociedade com os dispositivos da mídia sua análise de produtos jornalísticos televisivos. body. midiáticos setor de relações em uma sociedade ou cultura. consumption and the hegemonic discourses about the bodies are Laura Guimarães -se centrais para a constituição de suas subjetividades e do modo central to the constitution of their subjectivities and to the way Corrêa como se colocam diante de si mesmas. podemos dizer que. “não existe lençol . sua cultura. p. Hall 15 . As- ção da ilustradora. Na capa do livro. they see themselves in society. subjetividade. ideias e padrões de esperava no momento da codificação. valores. com um varal de roupas e uma paisa. da estrela. encarnados em coisas os discursos da mídia. em permanente estado de movi. Integra o GRIS por Stuart Hall. sentidos dominantes ou preferenciais. subjectivity. do romance O olho mais azul. sua uma necessária correspondência entre codificação e urbano e midiático em que Macabéa se encontra tem visão de mundo. Macabéa and Claudia . p. um terno. do outro e da sociedade. 2003. mostra-se fundamental para a reflexão sobre os pro- INTRODUÇÃO dense Toni Morrison.have with the que estão imersas. O olhar mais atento vai descobrir nas relações estabelecidas com os outros sujeitos.esse sistema de sig. Portanto.. um nos contatos com a mídia. dade dos discursos midiáticos.dossiê temático Personagens em posições hipotéticas: consumo. o universo de significados possíveis e de todo um capa. negociados. M. além do nome da autora e do título da obra. outro e da sociedade.parecem dançar. a figura de uma jovem de olhos fechados que carrega consigo o selo da legitimidade – parece que ouve rádio. e do modo como se colocam diante de si mesmas. Em escolhidas para instigar a reflexão são Claudia e Pecola. o ponto de vista hegemônico é aquele A edição d’A Hora da Estrela que tenho em mãos. Palavras chave: mídia. o mundo discursos de acordo com sua história. Os sujeitos produzem e reproduzem decodificação” (Hall. são their ramifications. To reflect upon these relations and Para a discussão sobre essas relações e seus desdobramentos. estes mim. em pri. Partimos da premissa de que o sujeito é construído coincidir com o que é ‘natural’. eu enviesado (. ticos pode ser classificada de acordo com o grau de ro. da sociedade. ainda assim. traz. utilizadas as três posições hipotéticas de decodificação propostas pothetical positions for the reader. protagonista d’A hora cessos identitários. hegemônicas já solidificadas. a moça re. escrito pela estaduni. tem vida. e (b) meiro plano. recados e afetos. consumo. O rádio. comunicativa. As peças no varal – um vestido. cada sujeito interpreta os uma vez que. quando o indivíduo se confronta com os O autor acredita que em toda sociedade existem presentada na capa. A moça aconchega-se ao vida do ser humano. Macabéa e Claudia travam com o mundo do consumo e the relations that these young women establish with the world of com os discursos hegemônicos da mídia para o corpo mostram. Há várias articu- dá entre três personagens femininas e a cultura midiáti. não há garantias de que aquilo que se antes inanimadas. que organizam Lispector. no processo comunicacional. 2003. que nos situa e nos constitui como sim. 399-400). we apply Stuart Hall’s concept of the three hy- Professora adjunta do curso de Comu. sentido. com Rodrigo S. assim como sua natu- Esse eu que é vós pois não aguento ser apenas dia é central para a constituição de suas subjetividades reza agonística. mento e tensão. We also consider Judith Butler´s nicação Social da UFMG. consumption. Macabéa. A relação que as três Mesmo considerando a proliferação e a complexi- jovens estabelecem com os produtos e as figuras da mí.Pecola. têm Nas interações comunicativas que se estabelecem concordância ou de adesão aos sentidos preferenciais.401) que os prédios são feitos de colunas de jornal e que o processo de subjetivação só pode ser entendido dentro rádio tem um inesperado nariz. corpos. As personagens literárias dos. corpo e subjetivação na RESUMO ABSTRACT cultura das mídias Este trabalho trata das relações que três personagens femininas colhidas da literatura estabelecem com a cultura midiática em This article deals with the dialogue that three female characters from literature . velop this theme. Key words: midia. Pecola. sujeitos e agentes da vida social. os “corpos que pesam”. assim como as reflexões de Judith Butler sobre concept of “bodies that matter” as an important approach to de- (Grupos de Pesquisa em Imagem e Socia. do tendem a ser normativos e a operar com representações tão tonto que sou. (a) que define dentro de seus termos o horizonte men- uma imagem que não ocupa mais que um quarto da Sujeito e discursos tal. de 1999. Os prédios da pequena ilustração têm palavras. Na conformação discursiva da comu.. bilidade) e o GrisPop (Grupo de pesquisa sobre interações midiáticas e práticas culturais contemporâneas). está envolta pela mídia. comportamento são propostos. isto é: na troca significados. In both novels chosen. protagonista do romance de Clarice valores e as instituições sociais . na UFMG. diz/escreve/mostra será recebido exatamente como se A proposta deste trabalho é pensar o diálogo que se nicação midiática. Para Stuart Hall. O respeito da ordem social. (HALL. essa imagem mostra. lações possíveis para a combinação entre a codificação ca na qual elas estão inseridas. e Macabéa. ‘inevitável’ ou ‘óbvio’ a gem urbana ao fundo. preciso dos outros para me manter de pé. construí. as relações que media culture in which they are immersed. o narrador d’A Hora da Estrela situações-padrão. de Clarice Lispector. a atenção às interações dos indivíduos e a decodificação de produtos da comunicação. na concep. como num namo. com estereótipos.). Nos dois romances analisados. Hall entende que a leitura dos produtos midiá- aparelho humanizado e quase sorri. Em técnica mista..

. pois já concordância. há concordância frente ao sentido he. A do. fotografadas. Quase lá. (LISPECTOR. Além da exclusão por ser negra. 400). No centro da histó. ora de chofre. absoluto. goana pobre que trabalha como datilógrafa numa ci. tem instrução. de outros tipos de em que vivia lhe era contrário? Pecola fazia força para sobretudo esse canal de rádio aproveitava intervalos produtos culturais: estrelas de cinema. Há uma contemplação que extrapola o mundo nicos da mídia foi a identificação e a admiração frente e da publicidade à noite: negociado. era bom aquilo. Frieda e ela conversaram. Ela expressão pode ser lida também como “corpos que im. em Pecola. acalentador sobre a personagem. dizer que o telespectador está operando dentro do códi.175). violência e os atributos propagandeados pelos discursos hegemô. bela. (MOR. e apenas uma consequência . que dava ‘hora certa Nossa proposta neste artigo é utilizar as categorias dispor para a construção de sua subjetividade. Toni Morrison escreve ficar completamente imóvel e fazer força. Os discursos publicitários atingem a todos de uma feiúra que se confundia com todos os outros “como alguém poderia ver uma menina negra?” (MOR. a publici- desestruturada. As produções de sentido operadas por essa forma do significante matter: o verbo importar. requer a não aceitação de si mesma. há normas no discurso esferas. os que estão expostos a ele.”. Mas aceitar desse modelo como um dos sistemas de construção da realidade con- mulher. a do código abuso. não importava. saída encontrada por esse sujeito destituído de todos causa . (MORRI. como se estas constituíssem experiências memoráveis. era praticamente invisível. Lentamente de novo. Por mais que tentasse. únicas. então deixar de ser. Como prática social institucionalizada.” Macabéa tem experiências nos Estados Unidos dos anos 1940. Pecola sorri ao olhar para ela. po. Maria da Penha. dessa for. 27). essa figura exerce um fascínio A discrepância evidente entre os dois mundos não era. tenham ou não a necessi- motivos para que ela fosse ridicularizada. e decodifica a mensagem nos termos do có. Na segunda hipótese. E por que Macabéa adorava anúncios? Provavel- Pequenas partes do seu corpo se apagaram. não bem-estar coletivo na sociedade de consumo. gera identificações. que os perpassam. criança. o mais lógico que já lhe tinham feito. que a trata mal e a troca pela colega. Mas. anúncios publi. bem apertados. A literatura traz aqui uma tamento intrínsecos às imagens e textos publicitários Pecola não podia ser. função global de integração e coesão social através da são construídos. desaparecer: Aquele era o pedido mais fantástico e. Todas as madrugadas ligava o rádio emprestado por car a mensagem. O estômago por Stuart Hall (2003. era considerado. “quando o telespectador têm experiência. O rosto também era difícil. Para o olhar hegemônico daquela épo. E consumo. alinhamento. o dia. Depois os braços até os cotovelos. Sumiram os 2003. ligava bem contestatória: reconhece o sentido hegemônico. mas que. ao mesmo tem. motivo de revolta ou de tristeza imediata. os que são abjetos. p. De acordo com as ideias que Judith Butler (1999) com as consequências dos abusos sofridos. Apesar . de olhos azuis. Peco.da SON. ao contrário do seu árduo baixinho para não acordar as outras.52) que é lido como natural. Depois o se apropria do sentido conotado (. e o substantivo matéria. objetos industrializados. anco. p. 2003. ainda uma pesada carga simbólica. Ela era tudo aquilo que que interessam a uma sociedade e aqueles que podem dissolvendo-se em psicose. bolinhas de papel. Além desse aspecto disseminador. dade é um sistema cultural e simbólico que organiza ca e lugar – que não se mostra muito diferente hoje e RISON.. bem. num processo de dessubjetivação. pobre e Ela nem precisava fazer tanta força assim. por interpelar – a contemplação do dedos um por um. Pecola estava completamente fora da norma MACABÉA E OS ANÚNCIOS – o objetivo primeiro da publicidade não é a promoção ternamente para a silhueta do rosto com covinhas de reguladora. A moça tem uma espécie de namora. ligava invaria- discorda deste. glorificação da mercadoria e do mito da felicidade e do Shirley Temple habitava um domínio adorado e Os discursos cristalizados da mídia chocavam-se dade grande. o pescoço. Na para a imagem de Temple. Eram digo referencial no qual ela foi codificada. a ouvinte com a intimidade e o carinho que lhe faltam oposto ideal Os pés agora. De que matéria-prima ela podia cotidiano. Fechou os olhos com força. p.) de forma direta e dos através da experiência.37) “Por favor. por nossas anti-heroínas. certamente . Assim. integral. Não há contradição temporânea.) Uma menina negra favor. portanto. Só restavam os olhos. 1999. alimenta: ela bebe simbolicamente Shirley Temple e sua solução aparentemente contraditória. Segundo vez só. representações e padrões de compor- talentosa. a autora explora os dois significados a sociedade e com os produtos da cultura midiática. há la apoia-se numa fantasia de admiração pela menina apresenta em Corpos que pesam. incontestável. Mas trata-se de um sonho que rada na esfera da fantasia. de uma É possível fazer aqui. às vezes não tem o que comer e masca A publicidade representa situações cotidianas brancura. da pureza. por fim. filma- 16 17 . me faça desaparecer”. constituintes de sua subjetividade quando se relaciona ria está Pecola Breedlove. mas tranquiliza e destrói ao mesmo tempo. pela promessa Pecola e Shirley Temple mente. 2003. quase desmaterializado: um corpo que SUBVERSIVO blicidade é secundária. no sentido de comunicação mostram-se abundantes e ricas para a Frieda lhe trouxe quatro bolachas num pires e leite de ter importância. (. Pecola resolve ter olhos azuis e pro. go dominante. aqui -. Por fim. Pecola deseja de negação ou de frustração. com (CORRÊA. “não são os indivíduos que No romance O Olho mais Azul. fato esse que não a protegia do ser descartados. mas. mas físico – o leite que ela toma da xícara é o que menos às imagens idealizadas que lhe eram oferecidas: uma o/a receptor/a cria suas próprias regras para decodifi. Para lidar dade ou as condições de consumir o produto ou ser- ou simplesmente ignorada. as definições hegemônicas são aceitas.. também desapareceu. enternecidas. Para o autor.22. Pecola cria uma imagem de si descolada da rea. só pingava em som de criadas por Hall para pensar a apreensão. Sim. Jean Baudrillard (1995) sugere que demorou longo tempo para tomar o leite. mas os sujeitos é que são constituí- sobre a realidade dura de personagens negros e pobres não ia. p. (MORRISON. de significados. da contra a realidade em que vivia a personagem Pecola.52). por transportá-la para longe dali. promessa de felicidade. oferece classificações. p.23) é exatamente no encontro com o outro que os sujeitos No romance de Clarice Lispector. Macabéa é uma ala. óbvio. de felicidade guardada em um produto. Pecola vale menos. p.e por completas. p. Tem dezenove anos. menina de doze anos que se quase. não A ASTÚCIA DE UM CONSUMO de vendas. ma. Em sua fragilidade. Acima das coxas era mais difícil. Deus. 2006). Construídas. para o lugar da vida perfeita. de qualquer ângulo que se Ela decodifica as mensagens da mídia com aceitação.desejável. nunca conseguia fazer os olhos desaparecerem.da experiência de um cotidiano triste durante primeira delas. constituindo-se como poder estruturante e. loira. No título original personagem impotente na relação com a família. podemos com esses produtos midiáticos. de dominação que traçam a linha entre aqueles seres lidade insuportável. Ora lenta. Macabéa se apoia na vida harmoniosa do cinema gemônico conotado. tude e ver o mundo com olhos azuis. ela tinha um corpo que não era visto. sacralizado pela mídia: o reino da beleza. velmente para a Rádio Relógio. sussurrou na palma da mão. Ela precisava direta com a posição hegemônico-dominante descrita Joan Scott (1999. a função econômica da pu- Shirley Temple. encontra dentro (e fora) de uma família completamente sempre os olhos que sobravam. oferecia pouca possibilidade uma colega de moradia. a investigação sobre os fenômenos sociais e as ideologias numa xícara branca e azul com a Shirley Temple. No terceiro caso. e nenhuma música. uma comparação na vida real. dossiê temático (2003) identifica três posições hipotéticas de leitura. “por menina feia pedindo beleza. olhando portam”. No romance. 2003. a leitura é oposta. não tem família. a menina negra anula seu próprio corpo. a adesão aos objetos é sobre como a Shirley Temple era lindinha. na sua recepção das imagens da mídia. a leitura e o o que era valorizado na esfera midiática e na sociedade sonho: gotas que caem – cada gota de minuto que passava. Ali estava uma ciais – ela adorava anúncios. que desejava alçar-se para fora do fosso de sua negri. sentidos.” Pecola não questiona o ideal de beleza.. olhe. desrespeitada RISON. Nas palavras da narradora. tão distante de seu cotidiano de pobreza. uma extensa gama perfeita dos musicais do cinema americano: rica. Pecola é descrita como uma menina muito feia. em todas as viço anunciado. As pernas. encantamento: Bodies that matter. mente pelo mundo próprio que criam. programas de rádio. isto é. peito. se tudo cura o charlatão que supostamente poderia realizar tal e cultura’. entre as tais gotas de minuto para dar anúncios comer- citários. Não importava para as outras pessoas.

esses pequenos recortes de prazer. cionar com os produtos da mídia.). hegemônicas para produzir as grandes significações ritários na luta por visibilidade e respeito. 1999. ro que se esperava de uma menina-mulher para com sexualidade em que se exige do corpo feminino que ele meio vazio de torrada esfarelada. constrói como sujeito. “(. até dormir com ela. instruem a menina quanto à sua posição e seu Um ponto importante que diferencia Macabéa de mundo. p.) a performatividade deve ser (LISPECTOR. A garota torna-se uma garota.23) das e impressas. Ma. por apenas na percepção de um racismo representado pelo -discursivo é uma tática de auto-ampliação e ocultação não seria boba. negociada proposta por Hall: nesse caso. Havia um anúncio. Colava-os manipulação. estabelecidas pelo discurso hegemônico da sociedade . de olhos azuis. às colheradas no pote mesmo. cuidado. o gênero contrário de Macabéa. alegria. compartilhados e comparti. ela o comeria. se dá a partir de uma convergência de valores modelo único e normativo de bonecas de olhos azuis. costumava ler à luz de como uma imposição de cima para baixo. p. história e ideologia. pensava ela sem se explicar. vê com características físicas que a fazem pertencer à categoria sua experiência de quase-amor. são signos e objetivações de cada Para a autora. ao invés disso.. pré-adolescente ainda.23) termina ali. Que pele. Por mais frustrante que seja a creve sua marca.” (BUTLER. mas é aprendido por meio de constan- olhos de Macabéa. para reforçar ou contestar esse escritório. (LISPECTOR. admirado. faz suas próprias regras – fun. sua resistência a uma sociedade que não reconhece os citacional pela qual o discurso produz os efeitos que ele bo. mais Azul. clara inspiração beauvoriana. anúncios não foram feitos para serem recor. (MORRISON. p. Claudia se vê coagida Além de anúncios. sensoriais. em que a é reiterada por várias autoridades. Toni Morri. tas. É que lhe faltava sociais. em pelos/as adultos/as e pelas representações nas figuras cinema. ela é trazida para o domí- tida. O presente grande. mistura e rearranja significados. 1999. 2003. nio da linguagem e do parentesco através da interpela- e conquistar seus públicos. a cara de panqueca e o cabelo de minhocas laranjas. suas cores. p. É que fazia coleção de anúncios. das relações de poder (. sentir entusiasmo algum ante a perspectiva de ser mãe. efeito naturalizado. junta.. (MORRISON. dado com muito carinho. tendido como efeito ou consequência de um sistema de gordura e seu organismo estava seco que nem saco do sujeito que sofre a experiência (DEWEY. Portanto. isso exemplo.401). Pela vida de Macabéa um espaço de subversão quase diver. os sistemas de classificação binária pele de mulheres que simplesmente não eram ela. armadilha de pensar essa comunicação como unilateral. e não conseguia prática. Mas Claudia não adere a essa “verdade”. tem um corpo que vale a pena ser Trata-se de uma leitura atravessada por contradi. eu sabia que a boneca represen. uma boneca carregada tes repetições de modelos. ficava só imaginando com delícia: o creme era do sujeito que é afetado: o engajamento numa situa. o mais precioso. dossiê temático zesse com a boneca: embalá-la. comportamento frente à sociedade. de maternidade. experimentada no do consumo. Eu não tinha interesse por bebês nem pelo conceito Os personagens adultos do romance analisado. A fala da personagem Ma. nos “falam” através de sua forma. aos nia. construção de uma subjetividade marcada por gênero e de Clarice se relaciona com os produtos da mídia. permanências e avanços dos grupos mino. se comer. O que ativa uma experiência emocional não sociedade. lháveis. Para Butler. tinha. Mas nota-se na curta É sabido que a publicidade reveste produtos e era sempre uma Baby Doll grande. A resistência de Claudia fica evidente no desprezo não é um dado. Com experiência frente aos modelos e representações de mu. especial.) Eu ficava enojada e secretamente assustada com DE RESISTÊNCIA aqueles olhos redondos imbecis. Das três personagens analisadas. tagarelice dos adultos. Claudia. Os livros de figuras esta- CLAUDIA E AS CRIANÇAS vam cheios de garotinhas dormindo com suas bonecas. p. (BUTLER. Nas mais diversas sociedades.. impõem modelos culturais de existência do corpo: Executando o fatal cacoete que pegara de piscar os é um sentimento solitário. tuacional (localizado). em um nível mais restrito. compreendida não como um ‘ato’ singular ou delibe- cabéa coincidentemente toca no tema do “corpo que (abstratas) ao passo que. 2003. toda estre. que nada. a autora do livro. que ráter impessoal da experiência. de normas e significados: modelos representacionais para a mulher é o que liga A subjetividade de Macabéa é construída por sua béa apenas encontra uma maneira própria de se rela. Tornara-se com o Assim como cremes de beleza não são feitos para uma miniatura plástica de criança: assuma a maternidade como essência do seu eu e lei do tempo apenas matéria vivente em sua forma primária. É através da leitura e (re)criação desses discur. algo que parte do interior seu formato (CORRÊA. num ato mas também pelo modelo de comportamento de gêne. dos livros a aceitar e interpretar (to perform) o papel mulher deve ser a mulher mais importante do mundo. Longe de tomar qualquer atitude política. ADORÁVEIS – A VONTADE (. reiteram uma para entender e suportar a dura experiência de estar no humanos da minha idade e tamanho. 154). si. Mas aprendi depressa o que esperavam que eu fi. isto é. ela. uma figura midiática com extrema visibilidade. de mãe.161) no álbum. O assombro e o descon- olhos. discursiva do gênero feminino. que ela se sustenta para viver É possível aqui traçar um paralelo com a versão em que vive. “Greta Garbo. é dialogando com os discursos e produtos da sociedade por estar fora dos padrões e das normas reguladoras cida repetidamente a crianças – meninas e meninos na representação de um amor ideal. o corpo materno seria en- sim. E um dos mais poderosos olhado. Fiquei pasmada com a coisa e com a aparência que ção do gênero.. e as pessoas são sempre vítimas de É importante lembrar que objetos industrializados.. pelo contrário.pelos mais variados discursos.138). Butler afirma que: lheres ideais. Se Pecola absorvia Claudia é a menina narradora do romance O Olho demonstrações de sentimentos positivos de ternura. sensuais. como estratégia de sobrevivência: valendo-se do discurso persuasivo e sedutor para atrair tava o que eles pensavam que fosse o meu maior dese. ela resiste 18 19 . afirma que as emoções Os objetos – principalmente brinquedos . intervalos de tempo. por um produto industrializado. Macabéa ins. (BUTLER. no contato com um produto de comunicação. serviços de atributos emocionais. como produtos humanos. 1999. são embebidos pela cultura. essa interpelação fundante mecente sob o lençol de brim. é a que Claudia não aceitou a norma de um comporta- amor. Talvez fosse assim para se defender da grande tentação tados e colados em álbuns. como a prática reiterativa e importa” quando trata da importância de Greta Gar. inventar historinhas em torno dela. 1999. de relações ideais. Estava interessada somente em seres ao presentear Claudia com uma boneca. Nas frígidas noites.64). classe e et. Ouvir a Rádio Relógio e Eu devia fazer o que com aquilo? Fingir que era a mãe? de ser infeliz de uma vez e ter pena de si. mas. Essa adesão consiste numa atividade. essas situações são perpassadas por cabéa subverte aquilo que recebe. nomeia. 2003..) contém uma mistura de elementos de adaptação e constante transformação. Por ter nascido com cinema ou na publicidade. p. tudo com encantamento e passividade. que é quase invisível. 1980).” de oposição: reconhece a legitimidade das definições conquistas. inexoravelmente a feminilidade à maternidade. ao ciona com as exceções à regra.. raça.carregam mostrava em cores o pote aberto de um creme para são fenômenos públicos. colecionar anúncios. ções. sucesso. diz através da voz de Claudia de rado. apresenta mais claramente a surpresa e a indignação mento de gênero que lhe era imposta e que é ofere- relação de Macabéa com seu namorado Olímpico. 2011). atuam na Pecola é a maneira particular pela qual a personagem sos da mídia que Macabéa experimenta o mundo e se Maternidade era velhice e outras possibilidades remo.. essa (. p.38) são formas encontradas por Macabéa. Mas é preciso escapar da jo. seu desejo. p. moça simplória. (HALL. Louis Quéré (2007). Macabéa gostava de estrelas de soas negras e pobres. Garbo. son. ao falar sobre o ca. tentamento de Claudia frente a esse objeto não estavam A produção discursiva do corpo materno como pré- tão apetitoso que se tivesse dinheiro para comprá-lo ção. Mas esse tornar-se garota da garota não Mas tinha prazeres. Maca. grupos marcados pelas diferenças de gênero. podem-se perceber conflitos. e ao longo de vários vela os anúncios que recortava dos jornais velhos do recepção é passiva. decodificar olhos críticos a exclusão a que são submetidas as pes. 2003.

de origem racial. como ocupa. o receptor “decodifica a mensagem de sociedade contemporânea. as tradições e as crenças do grupo ao qual ____________. BUTLER. desconstruindo em relação aos sentidos preferenciais de decodificação Janeiro: Elfos. soltasse o cabelo. Laura G. (Curso ministrado no Programa de Pós-Gradua­ dentro de algum referencial alternativo. aqueles comportamentos. Corpos que pesam: sobre os limites e curiosidade: CONSIDERAÇÕES tagonizando sua história.Universidade Federal de serragem para fora. Segundo Hall (2003. são A mídia apresenta constantemente normas regula. (org. de oposição. Alcione. Falas de gênero: teorias. 2003. 1995. panhia das Letras. p. num misto de vingança é aquela que consegue se constituir como sujeito.) Não cados compartilhados e consensuais. LAGO. e poderosa das mídias. se arrancasse a cabeça. In- ma ainda que essa atividade de recepção oposta pode e crianças. Belo Horizon- terossexual representada pelo brinquedo. dos grupos não-marcados. Sabe-se que vem à tona. Vimos que os modelos cor. Se condido por trás das palavras e sim entender o porquê pertencem os agentes do discurso.). Se reconhecemos Claudia sujeitos marginais porém imersos na cultura envolvente doras dos corpos de homens e mulheres. Mara e RAMOS. mas notam-se espaços – difíceis. (MORRISON. Pecola. A achado tão deficiente. p.) FINAIS As imagens e textos midiáticos invocam signifi. 1987. brancos/as e negros/as. E vinte anos depois eu continuava me Books.. p. A mi-silenciosa de um outro discurso: deve-se mostrar perguntando como é que se aprende isso. metal da cama. 1999. das práticas discursivas e das relações entre as falas. Macabéa poraneidade. que apresentam caráter peda. revelam-se muitas vezes como oportunidades para a recidas. Belo Eu tinha uma única vontade: desmembrá-la. mo. Tânia. É preciso lembrar versão da identidade. sas’ anteriores ao discurso pela formação regular dos aqueles corpos. um lugar que nenhum outro poderia ocupar. para a reinvenção. Poderíamos nessas sociedades não muito distantes no tempo e no gógico e formador. e talvez inconsequente. A Hora da estrela. que geralmente esses discursos vêm dos grupos he. O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Mães cuidam. sob o que está manifesto. Louis. reconhecido e premiado. de certa forma. um peso tão pequeno na escala culturais.54). A arqueologia do saber. 2003. No posfácio d’O Olho mais Azul. Michel. Retratam e revelam relações desiguais entre muito às personagens dos romances citados. que não estão dentro das representações dos grupos Comunicação Social) . maneira globalmente contrária. Mas é possível observar que a personagem que apresenta a postura mais crítica BAUDRILLARD. esta termina por produzir um discurso literário pró. pais brincam: nor- 2003. p. Quem disse a FOUCAULT. girasse a cabeça (. continuava ba. Rio de e protesta a seu modo contra a norma. homens e mulheres. Sua ativa insubmissão. nas imagens oferecidas. 1980. As perguntas de Morrison são muito pertinentes Rocco. 1999. dossiê temático é atropelada pela realidade e Claudia sobrevive para narrar histórias. dificados ou recusados.23) localizadas social e historicamente. reafirmando as Horizonte: Autêntica. em porais oferecidos pelos produtos midiáticos disseram QUÉRÉ. deslocado da norma. Rio de contestação de Claudia.Uni- Assim.. verdades. Macabéa e Claudia. Representação da Unesco no Brasil. assim. 1999. 2003. Stuart. Dissertação (mestrado em lindo “Ahhhhhh”. de um lugar privilegiado para a ob- partir do sentimento de indignação presente desde a representações. rachasse as costas contra a grade de Essa perspectiva está focada na análise e apreensão que detêm o poder. gemônicos. Da diáspora: identidades e mediações como sujeito. Art as experience. Pecola enlouquece. no meio dos outros e relacionado ção do que ser o que ela era? Quem a tinha olhado e a HALL. pro. silenciosa por que não poderia ser outro. sobre os objetos e a norma . conseguia gostar dela. a desigualdade e a mas.. Mulheres. Não se busca. 1987. prio. Foucault chama hierarquia racial . a de forma particular no momento do consumo dessas Trata-se. questão pertinente a uma tal análise poderia ser assim da beleza? (MORRISON. sacudisse a objetos que só nele se delineiam” (Foucault. em discursos atuantes discursos hegemônicos. como exclui qualquer ela? Quem a fez sentir que era melhor ser uma aberra. o que exclui CORRÊA. dobrasse os pés da emergência de certos discursos em certas épocas. acrescentar que esses momentos de crise e transgressão espaço. formação verbal) desencadear crises de naturezas diversas. Problemas de gênero: feminismo e sub- o que era que todo mundo dizia que era adorável. Clarice. entretanto. Joan. Obviamente não se pode simplificar a reflexão a ponto de afirmar que a relação das persona- Referências gens com os discursos da mídia é o ponto que define bibliográficas o destino de cada uma delas. leituras. Guacira L. com forte influência nos processos SCOTT. de subjetivação. Toni. New York: Perigee das subjetividades. como alter ego da autora do romance. Toni Morrison. Todas as três. sem dúvida – para a resistência e a transformação. Experiência. a conversa se. adultos/as divíduo consumiu e dialogou à sua maneira com esses ção em Comunicação Social da UFMG. DEWEY. John. In SILVA. belos/as e feios/as.seja internalizada na construção da Tese (doutorado em Comunicação Social) . o que os textos dão a ver: te. UFMG. nessa hipó. discursivos do sexo. A sociedade de consumo. 402). 1987. 2003. (. Ilha de Santa Catarina: Editora criação. fisicamente a boneca branca. Mas podia examiná-la para ver Para Foucault não interessa encontrar o que existe es. aceitos. os acontecimentos da vida humana. 20 21 . a atenção para a importância de se considerar o que subjetividade da menina Pecola: versidade Federal de Minas Gerais. a autora reflete sobre a interpelação que faz com que CORRÊA. CAULT. Ele ou ela destotaliza Os dois romances emergem em dada época. cada uma reage preconceitos e contradições presentes na sociedade. Cada in. Jean. O olho mais azul. Se eu Trata-se de “substituir o tesouro enigmático das ‘coi. Brasileira. análises. valores e papéis na publicidade de homenagem. 2011.31). faz parte de sua constituição outro. Laura G. Judith. 210). 2007.no caso do livro citado. Belo Horizonte. São histórias de três jovens diferentes. Claudia rompe com a norma branca e he. De corpo presente: o negro na pu- lhe removesse o olho frio e estúpido. para a reflexão sobre as relações raciais e de gênero na MORRISON. Modelos são assimilados. ela continuava balindo. A atitude de Claudia pode ser vista como exemplo formulada: que singular existência é esta que vem à LISPECTOR. 2006. a a eles. as relações de poder estão implicadas na construção Implícita em seu desejo estava a aversão por si mesma. Suas constru. mesmo que solitária. Janeiro: Forense-universitária. chatos. Rio de Janeiro: de recepção/decodificação que opera dentro do código tona no que se diz e em nenhuma outra parte? (FOU. servação crítica das relações sociorraciais na contem- infância. Minas Gerais. Brasília: salva de um destino triste como o de Pecola. Reflexões sobre a experiência pública a mensagem no código preferencial para retotalizá-la dado lugar. mas pa.. aquelas vidas blicidade em revista. In LOURO. Belo Horizonte: Ed. Rio de Janeiro: Civilização eu quebrasse os dedos minúsculos. Nenhuma delas se reconhece ções discursivas são perpassadas pelas lutas de poder.” O autor afir. the Berkeley Publishing Group. Lisboa: Edições 70. p. São Paulo: Com- tese de leitura.

namento de um sistema social. a fazer medições.311). violência. visando um determinado funcio. especially with regard to the technologies Carla Cristina que diz respeito às tecnologias de segurança pública próprias do of biopower own public safety. Palavras chave: racismo. A chacina 23 . ção necessária para inserção do racismo nos mecanis- mos estatais das sociedades modernas. pelo racismo” (FOU- os modos de gestão do poder nas sociedades ocidentais CAULT. violence. assim. RESUMO ABSTRACT O artigo trabalha com o pensamento político de Michel Foucault The article work with the political thought of Michel Foucault.32) Michel Foucault fez uma profícua pesquisa sobre funcione no modo do biopoder. dados estatísticos. somente. Dito de outro modo. dentro de uma leitura foucaultiana.306). Mas. racializada no Rio de Janeiro contemporâneo. a emergência do biopoder é condi. ou contendo outros. É importante frisar que o racismo está ligado contra os perigos biológicos. Afroperspectivas. do biopoder. “A função assassina nadores. promovendo alguns e/ 2002. ção do Professor Renato Noguera. fico e político. fornecer e avaliar Com efeito. tipo específico de tratamento. p. Uma leitura cuidadosa da obra de Foucault problematizando a racialização da violência através ou concentração de determinados benefícios. na sociedade nazista (. de Janeiro. O objetivo do artigo é fazer uma uma categoria-chave para o biopoder. a segmentação da população em pensar a partir a pertinência do biopoder foucaultiano em consideração alguns eventos de 1993 até 2009. Ou seja. Saberes e Interseções (Afrosin). Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). p. que tem sido realizada pelo Grupo de Pesquisa Afro. Por exemplo. 2002. 304). De tal modo que Nossos tempos. considerando o aumento e INTRODUÇÃO sobre a população. o direito de morte que o Estado são. que certos tipos de pessoas carregam consigo do Estado só pode ser assegurada. 2009 in dagogia do Departamento de Educação policial que ocorreu em 25 de setembro de 2009 na cidade do Rio the city of Rio de Janeiro.dossiê temático Renato Nogueira Racismo e biopoder: Professor de filosofia e educação da UFRRJ. a população funcionem em favor do Estado. Com os processos de instalação o que é específico no racismo moderno é o exercício de eliminação de criminosos. em especial no and its various devices. Nesse caso. ANTI-NEGRO NO p. Nosso objetivo é problematizar. levando dizem respeito à vida.) uma sociedade que do Laboratório de Estudos Afro-Brasileiros (Leafro) da define o segmento populacional que deve receber um generalizou absolutamente biopoder” (FOUCAULT. que está em jogo é a defesa da ordem social e da vida. da UFRRJ. 2009. tal como a repartição anti-negro. É neste não deixa dúvidas: o racismo anti-negro não esteve na do biopoder como modo de gestão estatal contem. onde o BIOPODER E RACISMO condições. Para problematizar essa importante questão na socie. apresentação introdutória do conceito de biopoder e que o biopoder encerra um conjunto de tecnologias que não se trata. em certo limite e em certas tivas e metáforas de caráter biológico e médico. lotado no Departamento de Edu- um caso no cação e Sociedade do Instituto Multidisci- plinar. o poder intervém e interfere exerce sobre a população. canismo fundamental do poder”. A raças e o racismo passa a se constituir como um “me. a população passa a ser problema cientí. desde que o Estado (CASTELO BRANCO. o biopoder é um modo de gestão que Nosso artigo é resultado de uma pequena pesquisa so. efeitos do biopoder. In order to confront the anti-black Campos da Silva biopoder. p. Pois bem. têm alicerçado muitas relações “quase não haja funcionamento moderno do Estado hegemônicas de poder fundamentando-as em justifica- que. O go. Rio de Janeiro. desagregadores e desorde- RIO DE JANEIRO ao funcionamento de um Estado. Saberes e Interseções (Afrosin). our dade brasileira contemporânea. racism in contemporary Brazilian society through biopower. o racismo análises do fenômeno de violência urbana e racismo.. dos pressupostos foucaultianos do biopoder. de comentar seus textos. as chacinas do biopoder. Saberes e Interseções (Afrosin) e vice-coordenador do Curso de contemporâneo Pós-Graduação Lato Sensu do Laborató- rio de Estudos Afro-Brasileiros (Leafro). nossa análise incide sobre ações analysis focuses on police actions and speeches of the state. para a compreensão do racismo anti-negro moderno e pesquisa tem caráter introdutório. Foucault tomou como exemplo o nazismo. conforme Foucault Um dos resultados do biopoder é a possibilidade desde o século XVIII. The Estudante de graduação do Curso de Pe. aferir constantes. não passe pelo racismo” (FOUCAULT. 2002. de problematizá-lo no contexto do Rio de Janeiro. Keywords: racism. contemporâneo. Porque à medida instrumentos teóricos de Foucault. e tem como objetivo enriquecer o debate contemporâneo sobre Aiming to enrich contemporary debate about anti-black racism o racismo anti-negro e seus diversos dispositivos. especificamente o racismo na socieda- tar um debate profícuo em torno da violência urbana e Para Foucault. por isso vai ser preciso que o Estado diminuição dos riscos e interdições dentro de uma so- reúna de modo articulado uma série de saberes aptos ciedade para alguns por meio de critérios raciais. contexto que o conceito de raça passa a funcionar como sua pauta de pesquisa. em certa medida. coordenador do Grupo de Pesquisa Rio de Janeiro Afroperspectivas. O destaque vai para uma ação highlight is a police action that occurred on September 25. biopoder. Estuda e pesquisa sob orienta.. integrante verno investido da visibilidade das relações de poder pois. investigação as tecnologias que servem para controlar e gerenciar racista sustentado por critérios técnicos e científicos. biopower. em certo momento. exercício bre violência e racismo no Rio de Janeiro. perspectivas. em busca de fomen. “Tem-se. The event ended with a black man killed e Sociedade do Instituto Multidisciplinar. dentro O trabalho reúne. policiais e discursos do Estado. Nosso intuito é pensar com os porânea dominante. Em outros termos. de brasileira na primeira década do século 21. evento que terminou com um homem negro morto by military police. Rio de Janeiro. membro do Grupo de Pesquisa pela Polícia Militar. fazer com que inclui o genocídio da própria população.

a qualquer custo”. Numa ação filmada e aplaudida radoxo de que forças de segurança do Estado.290). em de que a vida criminosa pode ser eliminada. da Polícia Mi. furto e assalto são atividades ou opções para os por policiais militares. p. 23/10/2007). um ato lógico ou. retrucasse. O Major Busnello trução social racista que insistia em marginalizá-lo foi Rio de Janeiro era o delegado José Mariano Beltrame Desigualdades no Brasil 2007 – 2008. nas entrevistas do governador e do secretário de rado no combate que é definido como guerra contra o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro no de negociação. motivos: porte ilegal de as bases para a réplica e tréplica tinham vindo anos Por um lado. 2002. o que por sua vez implica http://marius-sergius. arrombando gestão impele o Estado a gerenciar “a proporção dos cício do racismo através da emergência do biopoder. a cons- 2007. A analogia a prisional. brar que mais de 80% dos mortos eram negros. 2002. a violência ano de 2007 aponta para uma perfeita adequação aos litar do Estado do Rio de Janeiro (PM). o assalto. fazem exercícios de “limpeza sociorracial”. Apesar das especulações sobre o caso. Ele já tinha sido usuário do sistema peni. Com efeito. porque se encaixa deve ser eliminado: homem. de produzir marginal” (G1. o que aponta para a violento que marca mais uma vez a história do Rio de se poderia chamar de estatização do biológico” (FOU. porte ilegal de e dois jovens sem teto foram brutalmente assassinados essa questão do enfrentamento. o monopólio da violência é exercido Janeiro significa dizer que jovens negros têm chances preservar vidas. anexo. Em entrevista publicada na página de notícias fugia após ter cometido o crime de assalto. negro e que exemplo. ápice foi vivido por três pessoas: Sérgio Ferreira Pinto no” (FOUCAULT. Como já Vigário Geral: cerca de cinquenta homens encapuzados gestão estatal que incide sobre a vida. Serginho estava no meio duplamente. países africanos como contraponto a países europeus alternativa. Isso é uma fábrica coercitiva. raça denota a racialização do fenômeno da taxa de natali. Óbvio que não se trata de sugerir que sua classe média da zona norte). No caso do Estado do Rio de blog/: “Numa ocorrência com refém. numa estratégia racista. Júnior. A operação policial foi responsá. localizada no centro da cidade: seis adolescentes Coréia (periferia) é outra. próximo às dependências da Igreja de mesmo ta. Serginho foi mais um registrar que todos eram pretos e pardos (negros). o então governador Garrido. informando que “pou- tilha a ascendência africana e um histórico de discri.309). a raça ruim é a população que vive relembra da atrocidade cometida naquele dia. vel pela morte de 13 pessoas. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) comentou BRASIL. favela não tem” (G1. Levantam-se hipóteses de vingança. A pesquisa Mapa da Violência ver.. tas lacunas. onde a população negra é superior a 50%. O que está em jogo é que a “morte da raça ruim. p. É oportuno nascimentos e dos óbitos.blogspot. 2007 a proporção cresceu para 108%” (CORREIO DO O biopoder tem um postulado. o direito de matar do Estado está assegu. corre o risco de sacrificar a vida ino. mecanismos do biopoder. organizado pelo da PM foi o responsável pelo tiro certeiro. As tecnologias do biopoder e suas Em 25 de setembro de 2009. uma estratégia do biopoder. Uma análise de discurso do governador e do arma.305). jovens negros. o Estado faz uso da “eliminação das raças e invadiram o bairro durante a madrugada. Tijuca. Em significativamente maiores de morrer em conflitos ar. novamente a notícia filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas. 2007. mulher branca e refém dem). Rio de Janeiro. de modo desautorizado. 2002 morriam 46% mais negros do que brancos.286). e após estava defendendo a ação policial na Favela da Coréia homens e os mais atingidos foram os negros: se em titubeios. dentro dos cânones legais e fora deles. o morador de classe sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz do Instituto Sangari. o biopoder funciona numa via dupla. o secretário de Segurança Pública do Estado do mados do que jovens brancos. incluindo uma criança. a taxa de reprodução. Ana Cristina mesmo tempo. marius-sergius. Rocinha. Serginho foi o vilão perfei- Vale ressaltar que todas as crianças e adolescentes as. um evento na cidade Rio Serginho era o símbolo e a manifestação do que do mês de agosto. o roteiro já estava lá antes da sua chegada. que a covardia dos homens os impede de que o governo do estado do Rio de Janeiro “assumiu 2010 – Anatomia dos Homicídios no Brasil foi feita pelo p. é preciso que o outro morra” (FOUCAULT. Este modo de dentro do que foi proposto pelo nosso trabalho: o exer. as reais razões do desbunde de na semana anterior. com 48 anos em 2009. em arma. Ou seja. À medida que se discute efeitos assimétricos do biopoder entre negros (pretos não estamos dizendo que estelionato. Policiais contra. que a força de coerção eliminasse os criminosos. 2002. por razões publicamente que. As sassinadas na Candelária eram negros(as). O a purificação da raça para exercer seu poder sobera- casas e alvejando vinte e um moradores. Sandro Barbosa do Nascimento nos O biopoder é “uma espécie de estatização do bio- O BIOPODER NO CASO em foco de 2009. Ainda no ano de 1993. é passada com mui. no vigésimo nono dia CAULT. negro e jovem. Agora. diante das constantes negativas de inserção no mercado justificativas já estavam garantidas. homem bran. as ações anteriores já citadas. na época com 24 anos. a convicção dezoito anos passados. A tese que o Estado racista defende é de que a 2005. conforme os dados em suspeita agentes de segurança pública. o Serginho tinha o ensino médio completo.) que SERGINHO nas periferias/subúrbios e favelas. dossiê temático da Candelária. O coronel crime. 23/10/2007).. disso ninguém duvida. se a opinião pública é um critério para o genocídio autorizado ou não auto. governador estava defendendo uma política de ligadura desempregado desde o nascimento da sua filha – com deve ser combatido. queremos problematizar a ausência de negros. foi dito. ao lado do caso Sete anos depois. de modo de trompas para mulheres de bairros como a Rocinha. 30/03/2010). isto é. três anos na época – e tinha passagem pelo sistema pela população tijucana (moradores de um bairro de extra-oficial. para o governo. uma certa inclinação (. estelionato e furto. Por outro. Essa ação decisiva para que 40 minutos fossem suficientes para 24 25 . As dúvidas são sobre o tempo antes. pega na co que estava representando o Estado em sua extensão eliminados e elimináveis são. A história hoje contada. lotado no 6º BPM (Tijuca). Na época. isso beneficia a ação e pardos). o Estado. crueldade não são colocadas. direitos de cidadania que o trabalhador que mora na considerando as declarações do Governo no ano de tados para fazer “limpezas” em certas áreas da cidade.blogspot. “se você quer vi- como toda a história do Brasil. é padrão sueco.org/ ônibus 174 alguns anos antes. Segurança do Rio de Janeiro no ano de 2007. é um exercício do tenciário durante nove meses. é um exemplo da profilaxia sociorracial na socieda- 1993. o seu planejamento e suas práticas. biopoder. Gabão. estava Serginho representou e encerrou o signo do que O que estamos problematizando é o aparente pa. mas. major João Jaques Busnello. 24/10/2007).) é o que vai deixar a vida em geral distintas. Ou seja. a fe. que deve par o lobo significaria sacrificar a ovelha” em http:// minação. Sérgio Cabral afirmou que “Você pega o número de de Serginho. economista Marcelo Paixão (veja gráficos em anexo). população negra. solicitando um prazo de negociação maior. É padrão Zâmbia. todas. Mas. agora na favela de técnicas são aplicadas conjuntamente por meio de uma de Janeiro merece especial atenção. cente ameaçada se agir com vacilações a pretexto de de uma ação ilegal. Um tiro na encontramos um cuidadoso estudo que identifica os de brasileira. pelo menos. novo massacre. Afinal. dade. O Secretário mais de 90% desses casos de homicídio as vítimas eram excluídos. no Rio de Janeiro.. o prazo de negociações. o Serginho.com/ e http://pmerj. Afinal. Em 15 de abril de do G1 em 24 de outubro de 2007. A cundidade de uma população” (FOUCAULT. disse nos blogs Mário Sérgio fez questão de comparar com o caso do é dirigida para uma parte da população que compar. O discurso do Estado fluminense. com 39 anos. 2002. No Relatório Anual das preservá-las. no município de Nova Iguaçu. De acordo com o Mapa da Violência. da raça inferior (. que ainda hoje vemos nos noticiários.. contar. É forçoso lem. “Um tiro em Copacabana é uma coisa. O coronel Mário Sérgio. “os Estados mais assassinos são. Vale lembrar que eram todos do tráfico de drogas” (G1. na madrugada do dia 23 de julho de que ratificou o exercício do biopoder numa entrevis. Com isso. seja uma opção a ser considerada to. Os foi dada e as investigações aconteceram. Ou seja. forçosamente os mais racistas” (Ibi- ça pela morte de outros policiais. Janeiro. ao motivação para os homicídios foi uma suposta vingan. porém a mais próxima da verdade parece ser a média da Zona Sul recebe tratamento diferente e tem mais sadia” (Ibidem).com/. colocando sob Méier e Copacabana. na ocasião preservação da ordem social estaria garantida à medida vinte e nove pessoas foram mortas. nome. rizado. assim como de trabalho. p.

/jun. Marcos César (orgs. 3. ser assassinado.1 O escopo deste trabalho é trazer algumas contribuições destacamos o “caso Serginho”.1 2001 2.8 1. como em função a ampliação de riscos. foucaultiana que opera como racismo antissemita para Razão de mortalidade por formas especificadas de homicídio da população residente acima de cinco anos de sa observação é que o racismo foi o fator decisivo na o racismo anti-negro no Brasil. biopoder”. Mãe de assal. Nos.0 0.9 2.7 8. delária.org. Paulo.Setembro/2009. p. OBSERVATÓRIO NOTÍCIAS E ANÁLISES – Até 10 _____________.4 4. um 1999 22.1.4 42.terra. 2005.0 2.1 2. Michel Foucault: beyond OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NO RÁDIO – Mapa 30 structuralism and hermeneutics. Djalma. 2004.3 1.1 0. Um caso que exemplifica Mulheres Brancas Mulheres Pretas & Pardas para os estudos das relações étnico-raciais no Brasil no como as estratégias racistas do biopoder funcionam.5 1.6 1. especialmente na sociedade fluminense. IBGE.9 2.5 46.8 0. 1999-2005 (por 100 mil habitantes) 80 _______. 26 27 . Disponível em: coletivodar. indivi. 1982.1 8. 2000 27. o difícil acesso aos programas e aten- CONSIDERAÇÕES FINAIS dimentos de saúde.8 0.71 3.9.7 0.SP.8 7.com. Guilherme. Estamos tratando de uma política de Estado.64 _____________. Em 2002 29. Ano Homicídaios por Homicídios por Outras formas de Homicídios por Homicídios por Outras formas de que diz respeito à violência.br e Tabulações: LAESER – Fichário das Desigualdades Raciais rília: Unesp-Marília-Publicações.1 2003 2.7 4. Cadernos WAISELFISZ. jan. Petrópolis: Vozes.br.5 1. Com este intuito. Chicago: The Uni.1 0. Foucault & a educação. Entre as ações policiais extra-oficiais e oficiais.com.0 45.jblog.57 4. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.2 como o biopoder funciona e seu vínculo indissociável cismo estatal na sociedade fluminense e. Tempo Social: Revista de Sociologia.0 12. Disponível em: www. Violência – Abril/2010. trevistas de representantes do poder público fluminense Homens Brancos Homens Pretos & Pardos nello. microdados SIM.9 to direto.9 ca.0 0. idade segundo os grupos de cor ou raça (branca e preta & parda) e sexo. a baixa qualidade da escola públi- 2003 30. uma perspectiva que busca sublinhar alguns arma de fogo arma branca homicídios arma de fogo arma branca homicídios mos descrever.institutosangari.6 de um modo de gestão que ultrapassa o ato de apertar conjunto de políticas constitutivas do Estado brasileiro.1 0. Um olhar. Violência – Fevereiro/2011.0 9.6 1. Michel Foucault: poder e análise das 0 1999 2002 2005 Graal.9 outros termos.82 globo. H. propiciando um entendi.1 2004 2.2 9.2 4. Julio Jacobo.96 4.7 1. P.org.com. o que está em jogo não é a ação isolada do conceituais foucaultianos. Vol.1 48. São Paulo: press.0 Razão de mortalidade da população residente acima de cinco anos de idade por homicídio segundo 2005 1. M. Vale registrar que não estamos tratando de ações e ações policiais foram colocadas à luz dos operadores Ano Homicídaios por Homicídios por Outras formas de Homicídios por Homicídios por Outras formas de individuais.8 0. 50 tante morto em Vila Isabel após fazer comerciante MELO.5 9. Disponível em: extra. 1997. procura. Camilo e OLIVEIRA. v.com. Mapa da Violência no Bra- Fonte: Datasus / Min.0 0. 60 dualismo.br.6 7. 2009 cault.5 1.2 3. mento do racismo como uma política de Estado. 21.br. 1a Ed. Sobre a analítica do poder de Fou- 51. etc. Rafael. Reportagem .4 9. outubro de 1995.4 9. Alice.9 1. de modo mais com o racismo. Brasil. Rio de Janeiro: SILVEIRA. dispositivos dos mecanismos de funcionamento do ra- 1999 1.word- 20 FOUCAULT. 2001 29.45 _____________. ce.7 1. Editorial – Abril/2009. Antônio.6 6. Michel Foucault: Horizonte: Autêntica. Saúde. na sociedade brasileira. da violência – negro tem 130 vezes mais chances de versity Chicago Press. C.4 7. Um desafio é a transposição da pesquisa geral. 7(1-2): 83-103. 23 de julho de 1993 – A chacina da Can- 41.9 o gatilho.7 7.).9 2. quando? Disponível em: www. 2000. 2000 2.8 46. São COELHO. Em defesa da sociedade.6 5.7 1.93 Curitiba.4 4. Resumo dos cursos do Collége de Fran- 61. VEIGA-NETO.1 1. Alfredo. 70 67. DREYFUS.0 2004 26.48 CASTELO BRANCO. lária_Julho/2010. Rio de Janeiro: Editora FGV. 2008. partindo de um repertório focaultiano. A hermenêutica do sujeito.3 6.83 33.29 3.88 refém sai em defesa do filho.9 49.5 10. 2007. Disponível em: www.4 33. Ma.43 26 ed. velas. 28. Brasil. e RABINOW. 2002(1). n. 2002(2).0 2. 29-38. USP. Flávia.0 0. organizações.9 os grupos de cor ou raça (branca e preta & parda). Revista de Filosofia Aurora.6 8. dossiê temático que o comando da operação autorizasse o disparo. sil.9 9.0 2002 2.6 0. Microfísica do poder. 2005 (por mil habitantes) decisão que culminou com o tiro fatal do Major Bus. Belo Homens negros e pardos Homens brancos Mulheres negras e pardas Mulheres brancas VAREZ.0 1.0 1.0 1. em favor da maximização da vida de alguns a partir do assassina. n.8 8. arma de fogo arma branca homicídios arma de fogo arma branca homicídios disparo. MAIA. terratv. “O que é a crítica?” IN: BIROLI.9 8. 2005 24. Vigiar e punir: nascimento da prisão. microdados PNAD da Faculdade de Filosofia e Ciências. Cande- 40 35.5 5.0 2. “Racismo. histórias e destinos de um pensamento. Alguns trechos de en.0 3. _______.observatoriodefa- 3. Martins Fontes.7 0. AL.0 4. Martins BIBLIOGRAFIA Fontes .

de vações que tenho realizado individualmente ou em que confirma a regra. je discute brèvement la a constituição dos Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros entre os constituition des Noyaux d’Études Afro-Brésiliennes entre les années Alex Ratts anos 1980 e 1990 e faço referência à criação dos Coletivos de 1980 et 1990 et fais de la référence à la création des Collectifs d’Étu- Antropólogo. A conclusão aponta para de Paulo Roberto dos Santos (1984): poreidades negras que estão adentrando a universidade a entrada e permanência de corpos negros discentes brasileira de forma coletiva e organizada. zação do movimento negro contemporâneo.. voltadas rais [como os diversos “centros de pesquisa”] e políticas Coletivos de Estudantes Negros. fun- movimento negro de base acadêmica (RATTS. artísticas [como os inúme- temporaneidade. com significativa atuação individual noirs instruits » dans l’espace académique. constitui movimento negro. apontamos aquele que consideramos um momento e privadas e chegam a constituir grupos de estudo e de 1994b: p. que propõem esse debate. inicial de constituição deste campo. de do movimento negro contemporâneo.. poesia]. artísticos. corpos educados. corpos concomitante à discussão e implementação de Ações sente a gama de entidades com base em levantamento que pensam. negros (ou de maioria negra) culturais. Este fenômeno exige algumas considerações acerca Depois discorro brevemente acerca da formação da pluralidade interna do movimento negro. intellectuels noirs. raciales. cultu- os Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros (NEABs) e os Desde a criação das universidades brasileiras. e ações de mo- Neste ensaio. Professor dos cursos de Estudantes Negros/as na década seguinte. [como o Movimento Negro Unificado]. ostensiva ou encoberta. por vezes de técnicos administrativos. tuais negros. 2010). que advém de pesquisas e obser. Les Mots Clé: mouvement noir académique. período concomitante diants Noirs dans la décennie suivante. discentes. pelo sociólogo Negros e o Movimento Negro Evangélico. (SANTOS. mance individuelle et collective. 2009). 157).dossiê temático Corpos negros educados: notas acerca do movimento negro de base acadêmica RESUMO Neste ensaio. Palavras chave: negros. e todas as ações. Afirmativas e das cotas raciais. qualquer tempo [aí compreendidas mesmo aquelas que também a época de formação do que denomino de visavam à autodefesa física e cultural do negro]. Os destaques vãos intervenção neste âmbito. e docentes no espaço acadêmico. de rebeldia armada. Em seguida. com significativa (. como portadores de um as entidades. corps instruits. Posteriormente. período considerado de surgimento atuação individual e coletiva. Étnico-Raciais e Espacialidades do Ins- tituto de Estudos Sócio-Ambientais da Universidade Federal de Goiás. são. também se dinâmica. recreativos e negros/as na Universidade Federal Fluminense entre co para o período. Ensuite.). discuto brevemente mique dans la décennie de 1970. capoeira. os cha. pois nem todos os grupos pela historiadora Beatriz Nascimento e por estudantes ou mais simplesmente um movimento negro acadêmi. e para a Quinzena do Negro. projeto político acadêmico que tem memória e história.. que A MOVIMENTAÇÃO NEGRA assistenciais [como as confrarias coloniais]. extemporânea ou 2007. Há Estudantes Negros/as (CENs) nos anos 2000. literários e ‘folclóricos’ – toda essa complexa trajetórias de intelectuais ativistas negros (RATTS. période concomitante à la graduação e pós-graduação em Geografia à discussão e implementação de Ações Afirmativas e das cotas discussion et mise en oeuvre d’Actions Affirmatives et des quotas e do mestrado em Antropologia da Uni. Coordenador dos” no espaço acadêmico. para mim. RATTS & RIOS. meiros anos da reorganização do movimento negro.. faço referência à criação de Coletivos de de organizações e para a sua unidade. primeiramente situam no interior de algumas universidades públicas cotidiana. período Joel Rufino dos Santos amplia para o passado e o pre- um notório incômodo com os corpos negros. Nos pri- O debate público acerca das ações afirmativas para de grupos acadêmicos nos anos 1980 e 1990. dadas e promovidas por pretos e negros (. acerca da relação entre educação e corporeidade. recreativas se afirmam negros/as no espaço acadêmico e. até o último quartel do século XX. constituem grupos de atuação como ros grupos de dança. Nos anos 1970. Eduardo Oliveira e Oliveira. teatro. dentre outros. 2009. NO ESPAÇO ACADÊMICO [como “clubes de negros”]. J. podemos dizer aquilombamento. Entidades Ele se caracteriza pela ação organizada de docentes e religiosas [como terreiros de candomblé. para uma elite social. organizada fera religiosa com grupos como os Agentes de Pastoral INTRODUÇÃO na Universidade de São Paulo. j’aborde la formation du mouvement noir acadé- acadêmica na década de 1970. de qualquer natureza. o que me leva a afirmar a Ampliar este quadro não aponta necessariamen- para o Grupo de Trabalho André Rebouças formado existência de um movimento negro de base acadêmica te para uma compreensão. intelec.) a melhor definição de movimento negro é: todas Os anos 1970. de protesto anti-discriminatório. trato da entrada de “corpos negros educa. e com as cor. Na conclusão. na con. por exemplo]. movimento negro acadêmico. a exemplo do que se observa na es. religiosos conhecidos se identificam como movimento 29 . abordo a formação do movimento negro de base RESUMÉ Dans cet essai. Dans la conclusion je reflète concernant l’entrée de « corps versidade Federal de Goiás. por fim. a presença de acadêmicos/as negros/as é uma exceção bilização política. 1974 e 1975. em 1977. e coletiva. raciais. Lé- grupos sociais historicamente discriminados com foco mados Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros (NEABs) lia Gonzalez (1982) chama a atenção para a pluralidade para as cotas raciais pode ser inserido numa discussão e. de movimentos conjunto com outros/as pesquisadores/as acerca das que alguns/umas ativistas que participam da reorgani. avec significative perfor- do Laboratório de Estudos de Gênero.

que acabam por se aproximar e. 1983). como sujeito coletivo e como individua- duadas entre os/a fundadores das entidades negras nos lidade forte (SANTOS. se inseriam nas uni- res como Márcio André O. no entanto. No contexto de uma estados no período em foco. Cardoso. que a fuga de candidatos brancos para centros mais Para o período em foco. Geração. Guerreiro Ramos e Clóvis Moura são pensadores que nacionalização de outras coletividades. vimento negro a partir dos anos 70 são feitos. aparecer. 1999: p. preocupados em criar bandeiras de combate. um mo. percepção da entrada. ainda que reduzida e por vezes estrangeiros. Eduardo Oliveira e Oliveira e Hamilton que a ação em escala nacional do MNU e das orga. enti. (p. em seguida. 1983b: XIV)1. assertiva com a qual dos anos 70. Federal Fluminense. nizações mencionadas é seguida pela regionalização e panto e gera atritos peculiares (1994a. 266-267) sujeitos: “Quem são eles? O que mais chama a atenção 1980. nacionais de mulheres negras. De fato. Alguns auto. no superior”. reconhecido pelos seus Foi nos anos setenta que a luta organizada contra o ra. 237). 30 31 . de diversos tipos. Negra do Maranhão. esse fato torna-se mais orientandos/as negros/as. no plural. e perspectivas analíticas antigos. primeiro. no repensar a nação em militantes negros convencionaram chamar de movimen. do acadêmico. 2006). a uma tendência da geração desse período: estudos mais aprofundados no que se refere a grupos rígidas (como o Movimento Negro Unificado. ao cote- J. Lé. Flávia Rios (2009). lia Gonzalez. (DOMINGUES. na Universidade Federal Flu. dos Santos (2009) preferem ratura sobre este movimento social fala de uma “reno. de Trabalho André Rebouças. entanto. É preciso ressaltar que Abdias Nascimento. Esta citação é interessante por três razões: 1) capta a gros/as (RATTS. mento ainda mesclado pelos padrões de pesquisadores jar artigos de Lélia Gonzalez. são invariavel. o MNU. União dos Ho. Isso não brancos/as e negros/as que merece levantamentos e tos negros”. até instituições semi-acadêmicas (como É preciso lembrar. e pela busca de uma narrativa to negro. Henrique Cunha Jr. onde o grande número de “negros doutores” causa es. 94). poucos grupos se identificaram Este é o período em que alguns/umas mestres e de voltar-se para os critérios de identificação e para o 3) estabelece uma periodização para um movimento ou foram identificados como tal. que indica que este quadro se verifica em outros O movimento negro de base acadêmica se sinto- amplitude nacional e claramente destacado de outros mens de Cor (UHC) e Teatro Experimental do Negro movimentos sociais na América Latina: niza com as outras organizações no enunciado da exis- movimentos sociais e políticos. trata-se 2) descreve em linhas gerais seus tipos organizativos e. identifico uma articulação negra de base acadêmica. É difícil estimar a proporção de pessoas gra. porém. dossiê temático deste processo e ministrou cursos em vários estados ou seja. consciências e atuações políticas” (BORGES PEREIRA.. gros. ação relativamente conjunta de intelectuais ativistas lectuais negros/as ativistas traçam caminhos distintos. nos anos setenta. e eventos. No entanto. é abordada em Ratts (2003).). Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva. com a qual rompe logo des privadas foi maior. o Grupo mente desta geração universitária. os jovens que fundam. ticularmente aí. juntamente com as Hamilton Cardoso da primeira metade dos anos 1980. a exemplo de Kabengele a expressão no plural – movimentos negros – como se vação” ou “retomada” dos movimentos negros no final de Trabalho de Profissionais Liberais e Universitários Munanga. a exemplo do GT “Temas e problemas da a mais notória). rior ainda podemos verificar uma transição. a exemplo dos têm produção escrita desde décadas anteriores. O cenário traz dades. risco de embranquecimento dos/as acadêmicos/as ne. de Rios (2009). pois. no seio da igreja católica. cismo desembocou. tocante à relação entre orientadores/as brancos/as e histórica e cultural do negro (como o Centro de Cultura pelo estado como solução para a “crise de vagas no ensi. remete à presença de licenciados/as e bacharéis no muitas vezes. 266).. No caso do movimento negro. frouxamente articuladas entre Uma citação a mais de J. pois na década ante. nos anos 1970 e 1980. Santos sintetiza o quadro do período: M. 96). e Rufino e. um ponto crítico decisivo nos anos 80 em diante. que estes/as intelectuais. produziram um ponto que não concluiu a dissertação em virtude de sua morte. geralmente. num movimento negro de como Frente Negra Brasileira (FNB). M. criado na Universidade lações raciais e das culturas negras. transformando-se continuamente (. nanga. que atuam na primeira metade de século XX tência do racismo no Brasil. O dilema entre cultura e política se instaura par. No caso do movimento negro de base acadêmica. como intelectual reconhecido participou voz suplantada ou infantilizada (GONZALEZ. Santos contribui para a grande medida. por intelectuais negros. optando pela denominação de Gonzalez o “movimento negro moderno” data do início dos anos (SANTOS. Aquilo que os próprios (TEN). teorica- não tinham passagem pela universidade. merecer maiores reflexões. mas também dos estados. negros/as ou de negros/as intelectuais como prefere como é o caso de Clóvis Moura. merece relativização esta afirmação de J. período durante o qual não (. A dis- Márcio André dos Santos comenta o trecho acima movimento. por exemplo). João Batista Borges Pereira foi o orientador de Kabengele Mu- encontros de negros Norte e Nordeste e dos encontros Além da irônica expressão “negros doutores”. de histórias e memórias negras. de inflexão em que o sujeito negro não deseja ter sua cussão racializada e ideologizada em torno da noção de quilombo de J. passando por centros autônomos de pesquisa – proliferação de faculdades particulares estimulada muito bem notado por Cardoso (1989) e Gohn (2004). É o caso do Grupo doutores/as que hoje são referência dos estudos de re- campo e forma de atuação de cada grupo. Siqueira. considerado. é pontuada por Rios pares nas universidades. mentos sociais tornam-se pesquisadores dessa forma população negra” da Associação Nacional de Pesquisa o Grupo André Rebouças. 2009: p. 2009). ideias arregimentadoras de negro ou são reconhecidos pelos fóruns políticos ne. sobretudo públicas. pode-se dizer por exemplo do Maranhão e do Rio Grande do Sul. 1999). Maria de Lourdes não concordo. boa parte da lite. No adiantados de ensino abria vagas para negros – é o caso são conhecidos os nomes de Beatriz Nascimento. Helena Theodoro Lopes. negro de tipo mais “político”. Marlene de Oliveira Cunha e Eduardo Oliveira e Oliveira. pontas de lança de ação. De fato. Há desde organizações políticas superestimada. p. para a posição de ensaístas e intelectuais” (p.. O autor provavelmente está tratando de entidades Sales Augusto dos Santos (2007). (1994a: p.. outros trabalhos apontam que Negros) de São Paulo e do Grupo Negro da PUC-SP teriormente de Leda Maria Martins. Joel Rufino dos Santos e cas entidades nacionais como o MNU. onde a proliferação de faculda. 63-64). em própria. (2009). Santos: Santos que. gros são filhos do “boom” educacional dos anos setenta de ação coletiva em toda a América Latina. atuar em conjunto. nacionais e também o quadro das relações entre pesquisadores/as si – há quem prefira mesmo designá-lo por “movimen. mais recentemente. novas tendências tidas como críticas que ameaçavam deixa uma indagação e faz uma afirmação acerca destes de União e Consciência Negra (fundado entre 1978 e do Rio e de São Paulo. A trama das trajetórias pessoais e coletivas fica a das relações sociedade-governo desde 1960. Parte significativa dos/as discussão acerca da noção de quilombo. a pessoa negra passa a ter voz própria no mun- brasileiros. na literatura específica. tanto que em mente filiados às ciências sociais ou por elas influen- algumas situações se instaura uma tensão em torno do ciados. engajados na luta anti-racista. que os movimentos ne. Todos 1. lugar de informantes dos pesquisadores estabelecidos nização criada em 1983 (SANCHIS. plena ditadura militar. noção consensual do que significa movimento negro. em nessa produção é o fato dos negros deslocarem-se do depois) e os Agentes de Pastoral Negros (APNs).) os estudos que engrossam a produção sobre mo. Muniz Sodré e Joel Rufino dos Santos. no meu entendimento. 2007. como foi e Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS) e no minense). Santos se refere a um momento em que há pou. enfim. 2007).. 30. A transformação provocada no momento da atu. muitos militantes e simpatizantes de diversos movi. Outros/as inte- J. de jovens negros/as no meio acadêmico: foge. pos- o singular previsse uma harmonia. União de Negros pela Igualdade (UNEGRO). orga. (SANTOS. estes novos ativistas negros/as que fundaram as referidas entidades sujeitos são chamados de “ideólogos negros. bem como do GTPLUN (Grupo versidades. são na verdade cerca de 400 enti. desde meados dos anos 1980. I. mas também a dades negras de luta contra o racismo.

tendo por objetivos os mesmos do ano de Estudos Afro-Asiáticos da Universidade Cândido interessados em formar um grupo de estudos. Marlene de Oli. Desta. João Baptista Borges Pereira Antropólogo política negra de então. nem sempre nítido aos olhos contemporâneos. relações raciais. entra no mérito das Devido a este reconhecimento. que é a de manter uma continuidade do trabalho desenvol- população negra dos quilombos do período escravista. desigualdades de Trabalho André Rebouças (1976 – 1978) raciais. Semana de Estudos Sobre a Contribuição do Negro A tentativa de realizar este trabalho foi iniciado [sic] em Maria Beatriz Nascimento Historiadora na Formação Social Brasileira foi organizada e trans- Na cidade do Rio de Janeiro. Este processo está em relatos de ativistas negros/as fluminen. Manuel Nunes Pereira Antropólogo 3ª. Participando das tentar uma reformulação do programa de Antropologia produção acadêmica. Na introdução do seu trabalho. alguns/umas dos/as quais se tornaram pesquisadores/ objetivos acadêmicos: Definido como um “grupo de alunos negros uni. mostrar uma nova forma de abordar as Relações Raciais Vicente Salles Antropólogo e do próprio Grupo de Trabalho André Rebouças que nacional Brasil África (SINBA) e o Instituto de Pesqui. e por outro lado no sentido de se Virgínia Nascimento. Nunes Pereira e Vi. Na realização das semanas de estudos o grupo de alunos GTAR: Beatriz Nascimento (1974a. principalmente pesquisa acerca da ideologia racial e dos movimentos vido na universidade. cente Salles. a exemplo de Marlene de Oli- versitários”. ela reflete 2. veira Cunha e posteriormente Andrelino de Oliveira Atualmente. 1978: p.e registra a continuidade atenção a precisão do propósito teórico e político do como João Baptista Borges Pereira. dentro de Leni Silverstein Antropóloga consensualmente depois de 1978: “No ano de 1977. 1975). 2002: p. detalhes Eduardo de Oliveira e Oliveira Sociólogo do contexto que aproxima a entidade da mobilização a Contribuição do Negro na Formação Social Brasi. Um quadro dos/as atual de Yvonne Maggie e Peter Fry contrários à adoção da variá. Para co também Carlos Hasenbalg cujos estudos de desigual. no início dos anos 1970. com o nome de “Grupo de Trabalho André Rebouças” da primeira entidade até os dias de hoje. Como contraponto deste quadro merece comentário a postura “Semana de Estudos” e à criação do GTAR com colegas ída a quem participava do evento. ram com o GTAR entre 1976 e 1978 contribui para que larmente na implementação de ações afirmativas para a população branco. e amigos/as. 1982). Campos. na expressão do próprio to e ideologia racial no Brasil (BERRIEL. que pensa ção do Negro na Formação social Brasileira. aparecem dois intelectuais com perspectiva aglutinando intelectuais. a O GTAR NA UFF uma abordagem das relações raciais. 1976. Educação e Cultura de setembro de 1978: 110). A proposta do de “Grupo de Trabalho André Rebouças” elementos de continuidade na organização social da troduzir gradualmente na Universidade créditos especí. 1978: p. veira Cunha. o grupo de alunos ne- divergências entre IPCN e SINBA . Carlos A. retora do ICFH-UFF. 2). 32 33 . sidade Federal do Rio de Janeiro e se dedica pesquisar negros universitários tiveram como propósitos [sic]: in. 1974b). sadores/as sobretudo do Sudeste. Geografia. Rei um grupo de pessoas se reúne aos sábados no Centro sora Maria Beatriz Nascimento e alguns jovens negros Michael Turner Historiador dos Palmares. um grupo de alunos negros dos cursos de grupo. que cursa Ciências Sociais. Deste co.2 Hanchard (2001: p. ela indica da Universidade Federal Fluminense organiza um en. negra que se tornam referências para os/as jovens do participam das semanas de estudos sobre a contribui- mento conclui sua graduação em História na Univer. ou seja. O GTAR se constituiu como um projeto de ne- Nos seus documentos. pro- especialistas na área das Ciências Humanas ligadas às Juana Elbein Antropóloga posta pelo Grupo Palmares de Porto Alegre e adotada NEGRITUDE ACADÊMICA: questões relativas ao Negro brasileiro atual. a situação de pesquisadora negra com um orientador ses do período (CONTINS.) O grupo tem por preocupação quanto aos temas Reginaldo Guimarães Historiador Cabe ressaltar a vontade de reconhecimento e o letivo formam-se 3 grupos fluminenses: o Grupo de apresentados no decorrer das semanas de estudos a de Roy Glasgow Historiador processo de institucionalização da Semana de Estudos Trabalho André Rebouças (GTAR). negra. por um lado. Peter Fry Antropólogo anterior” (p. Mendes e no Teatro Opinião. São dois dos/as intelectuais mais uma linha de atuação acadêmica que os beneficiou du- reuniões acima mencionadas. “em busca de espaço” (GTAR. raciais fora da UFF com o corpo docente do Instituto exemplo de Maria Maia de Oliveira Berriel. 01). ALBERTI & PEREIRA. 1978. concernentes ao negro brasileiro enquanto raça e de sua Yvone Maggie Alves Velho Antropóloga vem por intermédio de uma portaria do Ministério de sas das Culturas Negras (IPCN).. 01). estudante de Geografia. ela estimula a criação de do Negro brasileiro no Instituto de Ciências Humanas reconhecidos/as pelo movimento negro emergente nos plamente. 1973 no Centro de Estudos Afro-Asiáticos pela profes. ram seu processo de formação e deixam explícitos seus o negro para uma das “semanas de estudos” (BERRIEL. formando acadêmicos ativistas. as das relações raciais. Beatriz Nasci. negros. dades raciais despontam àquela época3. 1977. 2007)... mas também das Exatas. distribu. fez articulações internas na UFF e com pesqui. então di. Maria Maia de Oliveira Berriel Antropóloga ferida para novembro em homenagem a ZUMBI. além de escrever sobre a necessidade de uma objetivos destes alunos negros de continuar mantendo na Universidade Federal Fluminense. e outros colegas entre professores que desenvolvem teses sobre Relações iniciam sua carreira acadêmica naquele momento. 2005. sua amiga no que diz respeito ao assunto adotado pelo corpo do. o estudo das relações raciais e a produção historiográ. ficos sobre as Relações Raciais no Brasil. a das áreas de Humanidades. ex-alunos e alunos negros que Participante das referidas reuniões. Química e Física tanto. particu. ver o artigo de Joselina da Silva (2009) aquilatemos a amplitude do projeto acadêmico. e Eduardo Oliveira e Oliveira (1974. chama a Naquele período. 11-12). preparar para uma ação voltada para a comunidade de e companheira de trabalho de campo. tensão que em grande parte se dissolve na ami- Acerca da SINBA. 1977) e desenvolve sua dissertação acerca de preconcei. Fonte: GTAR. cimento científico. por meio das palavras do Décio Freitas Historiador próprio Grupo de Trabalho André Rebouças. Hasenbalg Sociólogo É relevante destacar. que refaz uma bibliografia sobre gritude acadêmica. 1977). fica. cente e discente da Universidade e estabelecer contato Alguns intelectuais brancos/as (ou não negros/as) onde procedem (GTAR. atualizar a bibliografia estados de Rio de Janeiro e São Paulo (CUNHA JR. a exemplo da eleição do dia 20 UM PROJETO DE leira”. (. 01). além de estudiosos renomados gros sentiu necessidade de organizar-se juridicamente americanistas e africanistas . cultura negra e religiões afro-brasileiras. Cabe ressaltar que dos/as colaboradores/as do GTAR também contribui que a escolha do tema se dá em meio a seu curso de contro que denominou de “Semana de Estudos Sobre cada convidado/a colaborava com a produção de uma Ciências Sociais na UFF. em Ipanema. Ciências Sociais.que ele traduz como Estando situado no espaço acadêmico. GTAR. Neste encontro o grupo convida autoridades e José Bonifácio Rodrigues Historiador de novembro como data de referência positiva. de Ciências Humanas e Filosofia (GTAR. sobretudo da reserva de vagas para estudantes negros/as. que não menciona o GTAR. intelectuais nacionais e estrangeiros/as que colabora. a Sociedade Inter. dossiê temático para que compreendamos na diversificação dos temas Quadro 1 – Colaboradores/as do Grupo quais são as preocupações do grupo: história do negro nas Américas e no Brasil. implicação no seu todo social (GTAR. o GTAR estava. cujos resultados fortaleceram os como parte de sua especialização também em história nos cursos que abrangem a área das Ciências Humanas. 3. o que a leva à organização das comunicação que era publicada em apostila. os membros do GTAR nar. no sentido de conhe- um grupo de estudos do qual participam sua irmã Rosa e Filosofia (já foi reformulado). Na dissertação de Cunha (1986) acerca da História. A bibliografia linguagem gestual no candomblé Angola. 1978: p. 22). vel raça nas políticas identitárias e nas políticas públicas. zade construída ao longo da pesquisa (p.

2001. nossas frustrações. Por verdade. nossos comple. Oliveira relata que defendera esta proposição em vários eventos. 1977. les Black. então diretor do Museu de Arqueologia e 5. mas a vonta. conferências e exposição. tudo. Na comunicação intitulada Etnia e compromisso seu próprio grupo. se afirmar como negro e ajudar outros negros a se afir. Oliveira indica que de “escravo” por “negro”. posição face ao que se discutia e produzia na historio. aqueles que com ela se identificam. 34 35 . de uma comunicação intitulada “De uma ciência Para e não tanto Etnologia da USP. senhoras e senhores de toda ordem. Por seus escritos. o nome construído e a titulação são importantes. Eduardo Oliveira e Oliveira. elementos deste processo que deve levar a uma trans- territórios discursivos. Têm artigos e ensaios publicados abordagens. estudando-os. Eduardo tem serem estudados como sujeito/objetos que são de suas DO NEGRO NA USP trabalhado nas “semanas de estudos” do GTAR na UFF. Em artigo de 1974. Nos ombros dele recai uma ou- dessas verdades” (OLIVEIRA. 7. apontando a dificuldade de en. que fez do negro um objeto de estudo. A escravidão de africanos e “uma história do homem negro” em que fosse colocada Em que medida o “intelectual negro” deve se libertar um dos propósitos é “revelar alguns brasileiros que têm africanas por sua extensão espacial e temporal mar. Voz de pensadores/as negros/ como sujeito na ocupação de espaços sociais. Ela era ami. parece da maior relevância – revelar o negro como cria. como mão de obra nadores/as qualificados/as do racismo brasileiro. 26). p. ce uma mesa redonda com estudantes afro-brasileiros deve-se ter o cuidado de não se submeter ao segmento nomia ou antropologia negras. mes. Direção de Raquel Gerber. Fez parte da semana uma exposição organizada por Marian. O que ela propõe não é uma simples troca de termos. têm individualidade. da liberdade. Nos estados de Rio de que este objeto questionaria sua suposta “objetivida- pologia na USP. Na plateia há militantes de uma que não pretende ser doutor. depois de dez anos ou construção face ao quadro das ciências humanas no aborda corpo e linguagem – exemplificam uma parte ências Sociais na USP. neste caso. Eduardo Oliveira e Oliveira pu. André Rebouças. mais um aspecto do projeto político: “Nós temos direito intelectual. a cor. terreiros. Para o autor a experiência deve balizar a constru- “percebi que havia uma forte identificação entre mim sos. outras identidades. de uma sociologia. é escravo. Beatriz Nascimento profere marem como tal”6. para o que necessita. São questio- composto por mesas. ginais. Eduardo Oliveira e Oliveira enuncia 1974). sendo assim impossível ao cientista (e em de 1977). com parentes e amigos/as que são lideranças religiosas: de intervenção de mercadores. 1974b. novas descobertas e informações no conjunto nistas. Sentia que fazia parte do Cabe destacar que na Quinzena do Negro aconte. Para ele e para ela os/as estudantes e intelectuais particular ao cientista negro). Como se nós só tivéssemos existido dentro da demandas de formação e de atuação social. Márcio e Andrada. lato” face ao mito da democracia racial (OLIVEIRA. coisa que mais me chocava era o eterno estudo sobre o em que acadêmicos/as e ativistas problematizam suas avaliá-la (1977. tentando conhecer os fenômenos a INSTITUIÇÃO”: A QUINZENA ga de Eduardo Oliveira e Oliveira com quem já havia são tão jovens: Beatriz está com 33 anos. valorativa” (OLIVEIRA. manter uma neutralidade vem de um circuito próximo. perspectiva com a qual ainda nos blica uma resenha crítica do livro de Carl Degler (Nem soluta que paira acima dos seres humanos. dossiê temático O seu ponto de partida com o “objeto de estudo” é proposta por quem era objeto de estudo de médicos. na Europa. organiza grafia brasileira: “Quando cheguei na universidade a Janeiro e São Paulo organizam debates e outros eventos de” quando detivesse os instrumentos necessários para a Quinzena do Negro naquela instituição. Sobretudo essa aqui [a USP] que é gro. jamais pensou Em outubro de 1977. presumo que não é uma espécie à parte. À semelhança de Oliveira. por conseguinte. não falavam em uníssono. o propósito de preto nem branco: escravidão e relações raciais no Brasil O autor segue apontando o que seriam para ele os de de verdade. devem estabelecer uma in- “NÓS TEMOS DIREITO A ESSA a conferência Historiografia do Quilombo. que dificulta a compreensão do TO. que a constituição de um lugar de fala enquanto sujeito a sua possibilidade de universidade para formar mais gar sua condição social: “Vivemos num mundo onde inclusive na 29ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o negros”5. 2003). latifundiários. posicionada.. Numa palavra: Sujeito” (IDEM). como indico em outro o acadêmico. já me mandam entrar e sentar. debatemos. é divulgação na imprensa paulista. sua experiência de negros. tiva visibilidade para o período. pesquisadoras e pesquisadores das mas que usa disso como instrumento de trabalho para culturas negras e das relações raciais. buscando nós mesmos. a formação e o posicionamento do intelectual negro: que o evento ocorre durante a ditadura militar. p. também a subjetividade do pesquisador/a: “Devemos dos clichês relativos ao problema negro? O intelectual contribuído para a história pátria (. p. após a conferência de Be. O evento. 26). religio. Em termos de faixa etária. “Voz que vem do interior”. da verdade. 6. com nação como mão de obra escrava. pública. historiografia. Beatriz Nascimento propugna No texto/manifesto do evento. 18). escolas de samba. já existente do conhecimento. a de descolonizar sua mente de maneira que ativista identifica as difíceis condições da formação de A ênfase na diferença questiona a subsunção do sim trazer elementos da reflexividade. antropólogos. o autor faz algumas indagações acerca de quem tivas” (IDEM. de 6 a 13 de julho 4. 26). eco- mesmo processo” (p. tendimento da desigualdade preto/branco pelo “mu. 287). Para ele.) – e que têm per. 22). Um “intelectual negro” até agora os meios exigidos para que se tornem arautos cessivamente pesado. p. que não se branqueou. que cursava Ci. possa guiar outros intelectuais e estudantes na procura um pensamento negro: a falta de meios para produção “negro” ou da “raça” na variável classe ou no rol de No mesmo ano. 1989. E o fato de fazer [a Quinzena do Negro] den. (IDEM. influenciados pessoalmente por Como parte do evento. ção de uma ciência para e não tanto sobre o negro. jogando lato-sensu é um homem que contribui com idéias ori- manecido à margem desta história. O autor e indivíduo negro como pessoa. estes/as intelectuais não vestida “perceptiva”. Angra fil. Sobre o negro” (IDEM: p. o então mestrando em Antro. no caso. jamento pessoal. mas por exemplo. racialmente hegemônico: “Hoje. xos. formação social: “O cientista negro precisa se tornar as. 26. América. ou.. Convém também lembrar que a ciência Na conferência a pesquisadora e ativista demarca sua e participam de circuitos intelectuais e políticos de rela. cou indelevelmente a experiência negra na África. Na intervenção. porque seus cro. grifo do autor). além de enga- Nesse sentido. porque tocante aos estudos de relações raciais7.44). 1989). no simpósio “Brasil Negro” por ele coordenado. Eduardo Oliveira e Oliveira sinte. não os enganando” (NASCIMEN. favelas. gras. Idem. p. O autor pros- do projeto político acadêmico do Grupo de Trabalho de jornalismo. Mas a interpretação do “indivíduo nosso inconsciente. estudante doze de trabalho. um teórico e precursor da mudança social. quaisquer que sejam e onde quer que estejam: bai. como reação e como cimento e o estudo de Marlene Oliveira Cunha – que com a participação de Rafael Pinto. Os escritos de Beatriz Nas. datada do mesmo ano da Quinzena do Ne. sociólogos e que fora objeto negros/as não devem se distanciar das coletividades ne. por meio no Carneiro da Cunha. é (e de quem pode ser) intelectual no Brasil e da ne- dor e criatura. O interesse do sociólogo e ativista. Os cientistas negros. segue propugnando a ideia de uma “ciência negra” e. se trata de fazer uma auto-análise em todos os textos e tra tarefa. Con. 49 e Hamilton 24 anos. voz própria que emerge em Nascimento é o reposicionamento da pessoa negra e nos Estados Unidos). a etnicidade e a classe social são de primordial Progresso da Ciência (realizada em São Paulo. atriz Nascimento. não tiveram escravizado” como um ser coisificado é um ônus ex. e o grupo que pesquisava. do qual existem registros impressos e audiovisuais. importância. p. a partir de artigo (RATTS. sem ne. de seu ambiente familiar folcloristas. entendo não “A Verdade” ab. Hamilton Cardoso. desenvolver novas técnicas e perspec- tiza o propósito maior do evento: “um aspecto que nos a essa instituição. Vemos tro dessa universidade é porque a universidade assume cessidade de afirmação do intelectual negro. e mais dois nomes mencionados como eu sou Eduardo Oliveira e Oliveira que tenho um título. de “cientistas negros”: geração anterior.4 É necessário lembrar pra fazenda e pra mineração” (NASCIMENTO. na fazer a nossa História. Transcrição do filme Ori.

Professo- dades. 115). no III Congresso Brasileiro de maior ou menor grau com a presença de pesquisadores sem necessariamente incorrer em sentimentalismo. na Faculdade de UBUNTU – Núcleo de Estudantes Negros e Negras na na educação superior hoje em dia. distantes do significante corpóreo. ainda deixam que suas preocupações Não está lidando com um assunto (é preciso que ele ano de 1993. criada a Associação Brasileira de Pesquisadores Ne. como é o caso da influência de Beatriz e outras. segundo Edimilson de Almeida Pereira e tituem como “territórios negros no espaço branco” 8. o que me permite tecer considerações como sa e extensão. contram e se confrontam corpos femininos e masculi- Lélia Gonzalez. heterossexuais e homossexuais também percorriam o país num processo de formação acesso à universidade se inserem neste quadro. uma Associação Nacional de Estudantes Negros que neiras estamos. para alguns/umas pes- observador participante. O sujeito “faz parte da matéria investigada” gros (ABPN). são criados alguns Núcleos de Es. Nacional de Universitários Negros. Ao mesmo tempo. a exem. muitas vezes. de ensinar. e em São Paulo. ter sentido (hooks. balizamento consolidação e criação de NEABs. implicado. funcionários/as e estudantes 36 37 . na UFG em Goiânia. Núbia Pereira Gomes (2001). Os NEABs. por extensão. p. observa-se por todo o UMA DIGRESSÃO A TÍTULO identidades. mais usados como as dos NEABs. posto que podem contar em quisadores/as negros/as são apaixonantes. rio. São reali. CEAB-UCG (PUC-GO).. no III Congresso Brasi. gestores. nas músicas. sem lugar para as subjeti. dos corpos tudos Afro-Brasileiros. sem definição para além dos espaços educação formal contando com plo da Cooperativa Stive Biko de Salvador e dos Cur. estão graduandos/as e pós-graduandos/as que nal. no dis- -se. e isto. p. 1978. nos li- na década seguinte: NEAB/UFSCar. das culturas. defrontando-se por vezes com a em processo de educação. e o Seminário Neste sentido. O corpo é “educado” e na educação formal OS NEABs E OS CENs e hoje soma 76 núcleos8.122-123) na academia não implica em ter certezas inquestioná. intimamente aborrecidos mentos. Este processo culmina em 2000. vidades e para as trajetórias pessoais e coletivas. referências da raça (mas também do gênero e da sexu- E DISCENTES NEGROS: tos conta inicialmente com a participação de 16 grupos te como grupos negros e demonstram a preocupação alidade). p. ao campo da subjetividade. instituições de ensino superior. R. é pos- quase totalidade de pesquisadores/as negros/as ou se situam. concentrados/as na área das Humani. dos como grupos negros. Negros (CENs) que se estendem por vários estados. em algumas situações. Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista UNEB. realizado na UFMA em São Luís e professores/as de outros segmentos étnico-raciais. e. (UNESP) . (no espírito da lei 10639/03) e elaboram propostas de médio ou não se circunscrever ao público estudantil. gênero falta de orientação nas suas áreas de formação. escolar e acadêmico. as se torna mais organizada e articulada. Neste sentido. 2001). 2001. Vários NEABs se cons. versidades públicas. particularmente as uni. aqueles e aquelas de nós que ensina- campo de estudos e pesquisas vem acompanhada da gresso Brasileiro de Pesquisadores Negros. Afirmar-se racialmente Henrique Cunha Jr. quisadores e Pós-Graduandos Negros. como a sociedade. do ensino Para a autora. tura do título e do conteúdo do livro organizado por vros didáticos e paradidáticos (tanto nos textos quanto NUPE-UNESP e NEN-SC. negros e brancos. mas tam- é um complexo processo de orientação. por exemplo. Os Sem essencialismo. grifos do autor). de certo modo. Este posteriormente assumem a docência e participam da vadas. o Núcleo de Estudantes Negras e Negros na UFBA e o Não há muito ensino ou aprendizagem apaixonada seja ele branco ou negro” (BASTIDE apud OLIVEIRA. TOS. Rio de Janeiro. a partir sobretudo de 2001. tornam-se referência no campo dos estudos das curso no campo das relações raciais. ments/folder/1036087237/item/list gem institucional é um lugar onde o corpo tem de ser professores/as. incluo. Em 2004. sobre ele mes. dossiê temático Oliveira se referencia em uma assertiva de Roger realizam projetos de extensão e de qualificação de pro. os Coletivos de Estudantes Negros medo do desafio. de dos segmentos que os compõem. -UFMA. Pesquisadores Negros. ardilosas acerca das pessoas negras que permeiam toda pertencimentos étnico-raciais. situação na qual me ativistas e qualificados como núcleos de ensino. professoras e professores ainda têm sujeito/objeto de seu trabalho. em 1989. Neste âmbito. É o caso do NEAB-UFAL. o corpo é uma das principais CORPOS DOCENTES do Maranhão. na Bahia. tanciamento de temas que remetem à subjetividade. presentes em todo o território nacio. este afastamento do corpo como assunto bruçar sobre os problemas afro-brasileiros encontra. Alguns/umas pesquisadores/ com sua qualificação profissional e o ativismo. o Coletivo Denegrir na UERJ. formações corpóreas. ainda que contem com o apoio de um/a pelo conhecimento. http://br. em construção e. uma outra pesquisa. zados eventos como o I Encontro de Docentes. na educação Tais coletivos podem ter sido formados por uma em relação às instituições de ensino superior nas quais e acadêmicos é rara a discussão acerca da corporeida. NEAB. na UnB em Brasília. Bastide que merece citação: de que “o sábio que se de. dantes estão desesperadamente desejando ser tocados curralado na sua condição primeira e primeva de raça. p. Outros são criados Neste contexto surgem Coletivos de Estudantes A expressão que dá título a este artigo advém da relei. Como participantes deste cená. proposição do engenheiro e educador não logra efeito. gênero ou orientação sexual. Mesmo onde estu- 1977. muitas vezes abordados na perspectiva para a pós-graduação. implica. em Salvador. de raça. que muitos/as realizam seus trabalhos de conclusão de metáforas. larmente das cotas raciais.yahoo. en.groups. na UFPE. Corpos acadêmico nos anos 1970 reverbera no Rio de Janeiro da interseccionalidade com as variáveis classe. protagonizados por mestres e país um processo de discussão e implementação das DE CONCLUSÃO diferenciados (racializados. Para o/a intelectual negro/a ativista a escolha do em Recife. etnicizados e generificados) doutores negros/as e com a colaboração de intelectuais Ações Afirmativas para a população negra e particu. são corpos educados. à angustiante” e que deve proceder “no decorrer de sua A presença de professores/as e estudantes negros/ Coletivo de Estudantes Negros e Negras Beatriz Nasci. – incapazes de reacender paixões que um dia podíamos (NASCIMENTO. Os corpos racializados estão no currículo. 2006). PENESB-UFF. no qual é leiro de Estudantes Negros há a tentativa de criação de mos os mesmos velhos assuntos das mesmas velhas ma- reflexividade de suas condições e de seus posiciona. com a organização do I Con. sinhos Pré-Vestibulares para Negros e Carentes (SAN- CORPOS NEGROS EDUCADOS: acontece o necessário e adequado reconhecimento das Nos anos 1980. afirma bell hooks: “o mundo público da aprendiza. fessores/as para a educação das relações étnico-raciais abrigar discentes de outras universidades. nos vídeos. são corpos O quadro desenhado por ativistas negros/as no espaço relações raciais. tem que passar despercebido” (2001. Criado em 2004. posto que fazem pressão pelas Ações Afir. marcados pela presença de intelectuais negros/as Temas ligados à questão étnico-racial. emoção. pesqui. nem sempre se definem e são reconheci. tem para a população negra e também porque podem anulado. mantendo uma posição de crítica e de participação Louro (2001): O corpo educado. a-corporais e. Desde 2001 surgem: Enegreser. comoventes. Joel Rufino dos Santos e outros/as que Iniciativas dos/as ativistas preocupados/as com o nos. Os corpos racializados de acadêmico. Nos espaços escolares nas ilustrações). mas uma causa” (IDEM. em instituições de ensino superior. o povo negro quer”. no ou outro/a docente.Campus Marília. uma espécie de auto-psicanálise intelectual. das indefinições.. das diferenças. públicas e pri- veis ou facilidades no estudo das relações raciais. Ambas docentes e discentes. posto temos corpos – docentes e discentes. p. 27). 27. pois parecem ser sível identificar e confrontar estereótipos ou imagens contar com a colaboração de estudiosos/as de outros mativas e por políticas do conhecimento que se vol. que tem como tema “A universidade que marcam com expressão própria o cenário de algumas sobre perda de controle prevaleçam sobre seus desejos saiba). queira ou não em um problema ações afirmativas para a população negra. se tornam grupos de estudos e pesquisas. 41). O autor conclui: “O negro ‘intelectual’. maior acuidade. mento (CANBENAS). das trans- brancos/as e outros. Pes. o Consórcio de NEABs e grupos correla. pois. se en- Nascimento e Eduardo Oliveira e Oliveira e também de pesquisadores/as negros brasileiros/as está em curso. paralela. remetem e formação. física. Um processo de internacionalização dos/as as coletividades estão a merecer uma observação de Nas escolas e nas universidades transitam.com/group/consorcio_neabs/attach. à paixão: pesquisa. bém ao gênero e à sexualidade. mo. e também das incertezas. Nem sempre intelectuais “locais”. encaminhando-se ras/es e estudantes têm corpo (hooks. não tem outra opção. Coletivos de Estudantes são identificados prontamen. nas apresentações artísticas.

1. dos. como indica o sobrenome Santos de tantos 2. Palmares. São Paulo: Publifolha. RATTS. (org’s). REFERÊNCIAS social brasileira. v. RJ. Eduardo Oliveira e. dossiê temático estão presentes nos vários ambientes da escola: nos cor. Rio de Janeiro: SILVA. p. IGC-UFF. Lélia & HASENBALG. PEREIRA. nos pátios. p. jul. TOS. 2007. Marcio André de O. Marilene de & ças (org. Rio de ligião e Sociedade. In: Grupo de Trabalho André Rebou. p. 2003. In: Estudos Afro-Asi. na terói. Encruzilhadas por todo 2009. trução identitária brasileira dos anos 1970. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: 65-74. no Governo de São Paulo. HERINGER. A formação de um movimento ne. p. Petrônio. 2005. genitália. 227-258. Sales Augusto dos. 100-122. __________ Por uma história do homem negro. Goiânia. Joel Rufino & BARBOSA. P. 191-208. a linguagem gestual no candomblé de Angola. bell. Tese (Doutorado em Oficial / Instituto Kuanza. antecedente e prece. Pierre. Abdias. ANPOCS. In: SAN- em Antropologia) . Alex. 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indivíduo isolado. Rafael Guerreiro Osório. Ele afirma que “é essa si própria como referência. it constituted to studies by: Fúlvia Étnico-Racial na Educação. no presente trabalho. uma vez que ela só tem a similaridade e sim a diferença. também. caracteriza os seres e as sociedades humanas não é a mente fácil definir identidade. não podemos negar. de gênero. o que Na perspectiva citada por Silva (2000). compreender o termo identidade em ferenças. involve elements of identity. uma tare. apud GOMES. remetendo-o à ideia de percepção e pertenci. Especialista em Desenvolvimento Social conceito e discriminação no espaço escolar.161). influencia fica. Kabengele Munanga. 1993. como sujeito inserido processo. sustenta que “apesar das inúmeras produções ele é um conceito vital pra os grupos sociais contempo. Professora de His- Brasil. submetido” (Novaes. portanto. e é influenciado por elas” (SOUSA. Alfredo Guimarães. que. tem relação tanto com a individualidade do a que foi. coordenadora do Programa Diversidade revisão bibliográfica. podemos observar melhor esse uma característica independente. Still. Por isso mesmo. race classification. 2005. classificação racial. são vários populares. a religião. 2005. Kabengele Munanga. categoria)” (Jacques. pode levar em conta somente o aspecto cultural. No entanto. cada sociedade. Pretendemos que esse preconception and discrimination in school area. 25). é. à parte. fa difícil.639/03 1. on this research. p. Bacharela e licenciada texto se torne objeto de discussão e análise da questão de raça no this article represents a discuss and analysis’s object of question of negro. A identidade vista de uma forma mais Torna-se. vos étnica. ap- tória e Sociologia na Educação Básica. necessário discutir relações iden. a classificação de “cor ou raça” do Instituto Brasileiro the classification of “color or race” of the Instituto Brasileiro de Geo- PERTENCIMENTO ÉTNICO Ralime Nunes Raim de Geografia e Estatística . Dessa forma.74) em um contexto de relações e. cor/raça.antropólogo e intelectual negro do Zaire (Congo) volve estudos desde 2005. De acordo com esse autor. A discussão da questão de raça no Brasil envolve ele. cial (atributos que assinalam a pertença a um grupo ou ampla e genérica é invocada quando um “grupo reivin- titárias. constituiu-se dos estudos de as we will see the long in the text. Stuart Hall. Isso implica o reconhecimento radi- existentes e apesar de todos os esforços empenhados. cor/raça nos censos In this paper. mas porque as identidades são construídas por meio da diferença o tema. indivíduo “como um ser social. pelos traços culturais. tanto. que atualmente trabalha na USP. belong ethnical.dossiê temático RELAÇÕES ÉTNICO- -RACIAIS NO BRASIL: PRETINHO (A) EU? RESUMO abstract DISCUTINDO O No presente artigo. Estamos tratando do dade como diferentes. é importante perceber que o conceito de identidade diferença que nos unifica como seres humanos”. de maneira 2005. “sou negro” “sou heterossexual”. como a língua. tão Cor/Raça no Censo Escolar do MEC. na construção da identidade não se e não apenas de “cor” ou apenas “raça”. 1998. Se acrescentarmos ao termo identidade. como veremos. The theoritical used to review bibliography. p. race in Brazil. envolvendo elementos de atribuição costumam ser classificados como identidade pessoal siderar. Vivo num grande estado de alerta”. Gleason (1980. p.191) e essa construção identitária é marcada mentos de atribuição de identidade. em seus critérios De acordo com Jacques (1998. Experiência em Educação para as Relações Étnico-Raciais (leis 10. A identidade assim conce. rituais. INTRODUÇÃO pergunta: o que é identidade?” mas sim. A identidade. como tal. pertencimento e sucinta. de classificação racial. that. identity. o que o torna “sujeito a inúmeras variações”. pólogos decretaram sua importância (diferentemente ao aprofundar-se um pouco mais na discussão sobre do conceito de classe social. O referencial teórico adotado para pertain and perception. 1993. socialmente “sou jovem”. começaremos por expor os elementos teóri- cos mais gerais sobre pertencimento étnico. Antônio Sérgio Municipal de Educação de Montes Claros/ Sérgio Alfredo Guimarães. De acordo com esse Instituto. 2005. râneos que o reivindicam (NOVAES. evidenciar a identidade signi- (SILVA.190). também.IBGE. p. uma identidade natural. p. Discutiremos ainda sobre diferença. desen- Palavras chave: relações étnico-raciais. among others. ao termo iden.40). ainda não conseguimos ter uma resposta satisfatória à Não há. Por- “ela é auto-contida e auto-suficiente”. por exemplo). we will begin by exposing some theoretical general ele- ments about ethnical belongness. pertencimento étnico. Porém. dentre outros. os percepção. p. p. da Secretaria Fúlvia Rosemberg. 2000. na realidade. único. as tradições IBGE. então. “identidade”. Stuart Hall. Para gorias que englobam podem ser entendidas de forma Além disso. as identidades são todas construídas” (PAULA. balho.24) calmente perturbador de que é apenas por meio da 41 . deve ser investigado e analisado não porque os antro. Rafael Guerreiro Osório. inata. tidade. popularmente. sobre a Ques- identidade. que. we can’t deny. e não fora dela. um “fato autônomo”.115). negra. gico. A identidade é simplesmente aquilo que afirmando sua identidade coletiva. a denominação é de “cor ou raça” os sentidos atribuídos. apud PAULA. um conjunto de significados baseados nas di- Sendo assim. Para Hall (2003. os adjeti- se é: “sou brasileiro”. através de uma ressignifica- ção crítica dos conceitos presentes nas discussões sobre relações grafia e Estatística – IBGE. “sou homem”. color/race in the Brazilian census. os níveis sócio-político e histórico de de “identidade” e de “percepção”. ao falarmos sobre identidade neste tra. Por isso. race in Brazil.645/08). Quem ratifica a afirmativa acima é o próprio mento coletivo. quanto com o grupo de referência desse sujeito. Antônio Rosemberg. p. é importante con- bastante diversa. na maioria das vezes. pre. Bukassa Kabengele1 em Ciências Sociais. parece ser fácil definir sujeito. parece real. Como pesquisadora. entre outros. historicamente. Keywords: relationships ethnic-race.149). Em uma primeira aproximação. envolve elementos de identidade. O ator e bailarino Bukassa Kabengele é filho de Kabengele e 11. It’s intended that “Eu acordo e vou dormir todos os dias tendo consciência de que sou e em Sociologia. through of a critical reinterpretation of those concepts present in the discussions about relationships ethnic- étnico-raciais no Brasil. ele sustenta que “os estudos dessa temática entender a construção da identidade. color/race. we will discuss about differences. vistos por nossa socie- bida parece ser uma positividade (“aquilo que sou”). Munanga . brasileiros. p. MG. porque as cate. os comportamentos alimentares. evidenciar a diferença. pertencimento e percepção. não estamos nos referindo a identidade de um isolados e. assim dica uma maior visibilidade social face ao apagamento pensada. podemos afirmar que. por isso trataremos do termo aqui. “Do ponto de vista antropológico ou socioló- seus multifacetados aspectos. (atributos específicos do indivíduo) e/ou identidade so.

lonial e aqui faz morada até os dias atuais. num movi. enquanto pertenci. Segundo Hall (2003. já estava presente no Brasil desde o período co. O MEC estava pedindo pliado do modo bipolar .adotando. referendado pela cor da zado por grande número de pesquisadores de ciências tidade negra se constrói gradativamente. p. Ainda de acordo com Ribeiro. por sua vez. O campo dessa produção de signi. preto e amarelo. rio.3) “positivo” de qualquer termo – e. 2005. da relação com aquilo que não é. branco e mulato. salvo algumas poucas variações. Isso reafirma que. 1981. as questões relacionadas à percepção e ao critério cor da pele para diferenciar as chamadas raças dos de classificação racial: tidade socialmente derivada são formadas em diálogo pertencimento norteiam o processo de construção da humanas. o sistema de classificação bipolar branco e mento que envolve inúmeras variáveis. ou de sujeitos a ele pertencentes sobre si mes. o uso do Jacques D’Adesky. inclusive o Brasil. pode ser acionado um “repertó- mundo. p. negro e índio. Geralmente este processo se inicia na família (GOMES. ou caucasiana. se declarem negros e outros com traços De acordo com Fry (apud ROCHA & ROSEM. o popular múltiplo e o binário. empregados para diferenciar grupos humanos” (RO.43). Assim. Não podemos deixar de considerar também o em- -racial. p. p. evoque os mesmos sentidos nos dife. permane. rio lingüístico” específico. formato do nariz de” – pode ser construído (DERRIDA. 2005. utili- assim. o sistema do IBGE.35). Uma refle. sendo possível que algumas pessoas com múltiplo. pois quem quer se identificar ape. presentação e o significado do que é ser negro. a partir da relação estabelecida com o outro. associado ou não a um mo- e vai criando ramificações e desdobramentos a partir Por tudo isso. sua “identida. uma espécie de redução do modo múltiplo. em virtude de ter o pai (ROCHA & ROSEMBERG. qual a cor/ nala um outro modo: uma construção social. como perguntava. como em outros processos identitários. classificação racial”. luta por hegemonia e por predomínio”. CHA & ROSEMBERG. 6). do diferente” (Gomes. É uma e da boca. p. COR/RAÇA NOS BERG. a (a)firmação da identidade. contexto institucional. .. que inclui três categorias: ciais distintos. os termos preto e pardo. 2007. “o meu mundo. dos outros grupos.151). “Isto Fúlvia Rosemberg defende que. Ou seja. por exemplo. p. evidencia cinco mo- lamento e “tanto a identidade pessoal quanto a iden. ‘quase animais’? Quem quer ser considerado feio e por. trado nas camadas populares”. (2001. Sendo das outras relações que o sujeito estabelece (GOMES.6). que “o processo de posições. Assim. de há muito. tador de uma cultura inferior? ( 2005. pois. com aquilo que tem relações de poder. O formulá. monolítico. e desinteressadas.6). branca. dessa forma. Nesse contexto.7). por essência. acabada. que o significado seus significados particulares sempre prevaleçam aos mático. em uma sociedade que nos ensina que os inquéritos populacionais do primeiro Censo demo- belecem permeados de sanções e afetividades e onde se “para ser aceito é preciso negar-se a si mesmo. IBGE para a classificação racial no plano demográfico um sentido político e positivo. Ser inferior do falante pela pessoa em questão” (Sansone apud RO. BUTLER. 2007. nenhuma identidade se constrói no iso. por sua vez. na sua trajetória de construção. onde se estabelecem as relações de poder e as A maneira de lidar com o sistema de classifica. roupas.. 2007. Nota-se um deslizamento com precisamente aquilo que falta. (. nas quais os grupos agem para que siderado. É o olhar de um grupo étnico. gráfico de 1872.42). parda ou preta. não entram no vocabulário p. 2003). a renda. a minha cultura. que pede às pessoas que se classi. é um de. o modo oficial (IBGE). gera controvérsia entre os es. bastante enig.7) cial mais íntimo. Termo esse. a expressão afro-brasileiro. com Esse é também o processo pelo qual passa a identi. Assim. p. logo alemão (1752-1840).8). que. prego de diferentes vocábulos raciais em contextos so- mos. e branco . busca uma interação. E além deles. evocado de até 2003. civilização brasileira. num processo marcado pela significação (cabelos. do censo brasileiro.135 desde as primeiras relações estabelecidas no grupo so. negra ou etiópica. em 1976. p. pardo. podem ser empregados vocabulários dife- sentações. p. a identidade. 2007. não “amarelas” ou “outras”). que o mesmo termo. podemos afirmar que as relações para uma menina de sete anos “declarar” sua cor/raça!” negro. no qual os contatos pessoais se esta.42). ças humanas.8). p. pele. tualizadas urbanas. uma vez que “é resultante da combinação de (FRY apud ROCHA & ROSEMBERG. aliado à origem regional e Telles (apud ROCHA & ROSEMBERG. acordo com as situações e circunstâncias. da população brasileira (ROSEMBERG. apud HALL. raça dela – amarela.. duzidos pelo Estado Brasileiro”. dossiê temático relação com o outro. usam um sis- meu eu. o modo binário de de decifração desse outro. em uma sociedade como a É da Europa Ocidental do século XVIII. defendida. Ele associou a cor da pele com a região as categorias branco. ROSEMBERG. Este é também o modo oficial ou afro-descendente está mais relacionada a contextos sociais não se constituem somente como relações puras (GOLDEZON. definindo cinco tipos: branca branco.. conflituoso e disputado. 2001. indígena. enquanto o múltiplo. de leis e decretos contemporâneos. 1990. assim. também. “brancas” ou “pardas” (quando cia mais à ideia de discriminação e preconceito. o representação do ser negro foi criada à sombra do que grau de instrução. usado no censo demográfico. portanto. causas e efeitos. referente ao mito fundador da xão sobre a construção da identidade negra não pode decisão de coragem. 2005. E é de Blumenbach. de seu mundo e de sua cultura. ao do IBGE. segundo dados da Pesquisa Nacional por processo mais amplo e complexo. 2007. Dessa forma.. branco ou preto. 1993. atribuindo-lhe “(. CHA & ROSEMBERG. te momento tal informação”. Nesse sentido. carros) e até a simpatia ou antipatia tema de classificação com apenas dois termos – negro do outro. ou am. mas como um processo gerado no interior das repre.43). foram construídas a re. social do sujeito” (Rosemberg & Piza apud ROCHA & considera também três modos de classificação racial: Nessas relações de poder. Fry assi. 42 43 . a construção de uma identidade cendo com as mesmas categorias de cor adotadas para apud ROSEMBERG. o sistema bipolar branco e não branco. apesar de serem vocábulos consagrados pelo ressignificado pelo Movimento Negro. para designar os escravos. humanas. p. tudiosos: “seria ele binário (branco versus negro) ou complexo. o sistema de classificação popular furtar-se da discussão sobre a identidade enquanto nas com um passado de escravizado. dependendo do elaboram os primeiros ensaios de uma futura visão de safio enfrentado pelos negros e pelas negras brasileiros” não significa.) Quase não pude acreditar no que lia. Portanto. Como afirma a autora: construção da identidade negra em nosso país é muito sociais envolvidos.) reconhecer-se ou assumir-se negro no Brasil é uma geográfica de origem. p. negra positiva. pressupondo um contínuo de categorias?” O modelo de denominação/classificação racial usado traços fisionômicos europeus. vermelha ou americana. “mesmo em sistemas classificatórios semelhantes 2005. além de uma última opção: “Opto por não declarar nes. seria encon. “a aparência geral.. ficados é.33). adotaram a terminologia de Amostra de Domicílios (PNAD) realizada pelo IBGE ser o limite na hierarquia que divide os humanos dos classificação racial de Blumenbach. 2007. fisiologista e antropó- aberto” (D’ADESKY. em forma de múltipla escolha. 2005. identidade negra. além de minha identificação e da de minha filha. enquanto o termo negro se asso- fiquem como “pretas”.. Vários outros de 135 cores.6). LACLAU.5). tipo de cabelo. p. . aqui rentes contextos sociais e históricos em que têm sido delo binário ou múltiplo de classificação racial. o estilo em matéria de moda Movimentos Negros. p. do processo de quem é superior e de quem é inferior. p. não está sendo pensada como fixa. nas provas do MEC forma pejorativa. A identidade negra se afirma aqui. brasileira. assim. porém. pautado na ciência parda ou malaia. “adotaríamos ambos os modos: o modo mente por razões diferentes. apud GOMES. p. renciados em instrumentos de classificação racial pro- É preciso lembrar. possivel- físicos africanos se identifiquem brancos” (Brasil. Não nos esqueçamos do uso do termo negro de CENSOS BRASILEIROS binário seria predominante nas classes médias intelec. a iden. a justificativa biológica para tal condição? Quem quer países. valorizando as diversas categorias de sujeitos ção racial. 2007. o “O terceiro modo é o que vem sendo utilizado pelos mento. implica não ter poder” (RIBEIRO. 2005. elementos de aparência: cor da pele. 2007). amarela ou mongol. “a composta pela combinação do estilo de vida (o jeito). negro proposto pelo Movimento Negro. a ideia de classificar as ra.. pelos estudiosos do assunto. são traduzidos também através é ser branco. em documentos do Estado brasileiro não parece ser ou mãe negros. das categorias “negro” e “mulato” para “preto” e “pardo” chamado de seu exterior constitutivo. Esse vocabulário racial. “elas são O sistema de classificação racial do Brasil é con. 2007. Sendo assim. p. culturais e religiosos. o sistema dade negra. 2007.

discordâncias com relação à adequação desse método heteroatribuição de pertença racial é uma escolha entre fessora negra do estado de São Paulo/2002). p. Telles e Lim (apud OSÓRIO. 95). ou praticamente às mesmas categorias de 1872. p.94) se tem conhecimento: a auto-atribuição de pertença. principalmente das décadas de 80 e 90. há ocorrência. dossiê temático Considerando que todo o Brasil participou do No entanto. mestiço e os Censos seguintes. rantia de que os entrevistadores não venham a branque. método de identificação racial é um procedimento ponsáveis em fornecer a informação. da posse de outras características ‘afirmativamente’ va- por métodos modernos de coleta e publicados sistema. uma forma de compensar. cuidou muito bem de registrar. importa. raciais’. voltando a questão de raça. Considerando que o Ministério da Educação . ignoraram dados.inicia-se na intermédio do uso simultâneo dos métodos de auto. após a abolição da escravidão. alusiva ao grupo dos indígenas. Tanto assim que Osório (2004. sobre a peculiaridade da classificação como não é fácil construir uma identidade negra po- amarela é criada para atender aos imigrantes asiáticos. O método de auto. por parte dos estudiosos.] no fundo. Desta forma. DISCRIMINAÇÃO NA ESCOLA 1872. apenas quantos traços. na coleta de dados de cor ou raça. pardo. há.. nem produziu um sistema de tífica. Marcílio (1974. p. heteroatribuição de pertença. pos. Nogueira (apud ROCHA & RO- pesquisas censitárias é extremamente importante. analisaremos apenas os métodos de auto e de 16 anos e a heteroatribuição para os alunos abaixo desta . quando se pensa a classificação -lhe intrigada. amarelo e indígena. portanto. Finalizando. sejam estas manifestas ou latentes”. que o Censo IBGE/2010 é de se esperar que as pessoas que carregam menos O primeiro. p. sustenta que. teriam pertencido os ancestrais de uma pessoa” (Osó. E ainda a produção cien- de 1991. com o emprego da categoria indígena no Censo posição intermediária entre os pretos e os brancos. aparência e não pela ascendência. a classificação ganha status de “cor ou raça” e Desta forma. ao mesmo bulos raciais sempre se destacaram como os principais pertença. tários no Brasil: fazem parte do nosso país. minados do que nos Estados Unidos. Buscando atingir os objetivos propostos nesta pes. é na “variação social da cor” (Osó. na América Latina os mulatos seriam menos discri. gozando de uma mente do que ocorreu nos Estados Unidos. 2004. além das três categorias acima citadas.105).. sim. p. sujeito e a identificação de grandes grupos raciais “a que de cor que lhes foi conferido atribuir a determinado CONVERSA SOBRE to. apesar de não incluírem a popula. ao mesmo tempo em que um número cada vez encontra maior problema. que representa uma maneira de se apurar.86). preto. vítimas nesse ambiente. 2004. p. palavras-chave deste artigo. a opção pela auto ou pela seus olhos para a sua pele. pulação brasileira voltou a ser coletada. a origem não zação até a metade do século XVIII e caracteriza-se Sendo assim. embora pu. classificação. divíduos em grupos definidos pelas categorias de uma objetividade à classificação? Não se tem nenhuma ga. obedecendo para o Brasil. segunda metade do século XVIII e termina com o pri. ad- de 1970. (OSÓRIO. até o de 1940. p. realizado em rio. 2007. 2003. Sendo que A polêmica desenvolve-se em torno da categoria a do observador externo”. dessem também enquadrar pessoas livres. tulam que racial brasileira. 2004. OU RAÇA” DO IBGE maior de brasileiros reconhece que o recorte racial nas teratura disponível sobre classe e/ou raça insiste em p. o Brasil. 2007. p.Posso me sentar ao seu lado? – pergunta-me uma lin- aplicáveis à parcela escrava da população. tuação socioeconômica. à luz do ideal de branquitude vigente. Conforme Osório (2004). motivos de ordem diversa para mudar a linha designadores das categorias de classificação racial: pre. 2004. 2004. principalmente os mais abastados. mas. (OSÓRIO. e percepção. Fatos semelhantes a esse nos permitem ilustrar o termo pardo volta a substituir o mestiço e a categoria parda. Osório (2004) afirma que sil como nação multiétnica. chamado de era estatística. empregados pelo IBGE faixa etária é inequívoco considerar que pertencimento da menina negra de cabelos trançados e seus sete anos. assim nas. ainda. pode se afigurar problemático. seria uma forma mente. 109). 2004. afirma consolida as cinco categorias empregadas pelo IBGE nos pretos e não-pretos. -atribuição e de heteroatribuição de pertença” (OSÓ. normalmente aceitas emprega cinco categorias de “cor ou raça” na sua clas. PRECONCEITO E No primeiro Censo oficial brasileiro. desvalorização. 2005. e que essa tendência varia de acordo com a si. já afirmar. o sistema classificatório do IBGE brancas. não adotou legislação sentimento de culpa e solidão. como educação. sabendo-se que. que teriam maior di- Em meio à grande variedade de termos.94) que a identificação por autoatribuição sideram que “no Brasil não se pode falar em ‘grupos raça. (OSÓRIO. p. para coletar os dados de cor/raça dos alunos maiores de Sendo que as categorias preta e parda “eram as únicas quisa. substituiu o termo pardo por quando se trata de pesquisas que realizam coleta de dos sujeitos feita por intermédio destes dois métodos da 1ª série e há vários grupos de crianças pela sala. tir daí. no censo escolar anual. traços negros em sua aparência tendam a se considerar onde vige o preconceito racial de marca. a dicotomia racial importante seria entre racial segregacionista. estudiosos do assunto con- A CLASSIFICAÇÃO DE “COR Censo do IBGE/2010 e respondeu ao quesito cor/ rio. projeção social. p. inclusive conferindo maior Pode-se concluir que esses grupos buscam. pardo e branco. em 1872. “igual número de também tendendo à escolha do branco. de 1890. subjetividades: a do próprio sujeito da classificação. reproduz-se na série de censos realizados posterior. grupos raciais e a identificação racial é realizada por a classificação de cor é realizada por auto-atribuição completamente. com as pessoas mais abastadas tipo” do grupo discriminado são portados pela vítima pelos demógrafos.proto-estatístico. com o objetivo de captar a raça ou etnia dos de identificação racial. lorizadas. pré-estatístico. (Depoimento de uma pro- A partir do Censo de 1940. definindo. que a ascensão social é fator de SEMBERG. Mesmo assim. que parcialmente. que o preconceito racial influencia negativamente no dias atuais: branco. entender e embranquecimento. são elementos . sujeito. onde outra pessoa é que define o grupo do tempo. não do ‘preconceito de origem’ (raça/ odos distintos para se pensar a coleta de dados censi. “um da cor dos sujeitos.Claro.4). 2004. pelos entrevistadores ou pelos res. Justamente por isso. do “fenó- pelas poucas estimativas gerais. para as crianças negras. já que sou a única adulta na sala de aula Censo do Brasil. utilizou-se como a análise do DNA. a partir destas. bem como a sitiva no espaço escolar e nos levam a inferir algumas Essas categorias foram empregadas também no Censo de alguns países latino-americanos. odo. p. através do uso de técnicas biológicas. “diferente. a par. Portar os O segundo momento. que heteroatribuição ticamente preteridos em relação aos demais. pois. vai do início da coloni. Seria possível afirmar então.95). descendência” (ROCHA & ROSEMBERG. 95). p. O preconceito racial de marca não exclui ção de índios que vivia fora do contato com o branco. até mesmo a vasta li. RIO. do ‘preconceito de marca’. sificação.É que você é a única igual a mim – disse-me. O terceiro perí. traços do grupo discriminado constitui inferioridade. como: rejeição. e faz com que os sujeitos ao preconceito sejam sistema- meiro recenseamento geral. o fato de que potencial. classificação racial legal e baseado na origem ou hipo. mas por que quer sentar-se aqui? – pergunto- cidas ou alforriadas” (Osório. em ‘grupos de cor” (Guimarães. rendimento escolar dessas crianças. ou marcas. estas marcas. indivíduos. 44 45 . onde o próprio sujeito interrogado escolhe o grupo sáveis em fornecer a informação. ou seja.96) afirma: “[. do qual se considera membro. . DIFERENÇA. poder polí- ticamente por um órgão especializado – o IBGE (apud São três os métodos de identificação racial de que ar os entrevistados. tem início em 1872 e Ainda de acordo com Osório (2004. vindas do preconceito e da discriminação de que são De 1940 até 1990 a classificação era só de cor. em nosso meio. a cor da po. a heteroatribuição de ficuldade em identificar esses fenótipos e. é determinada pela consequências negativas. por parte dos respon.4). pode-se afirmar que ela. mantendo-se a data de 1940 para a inclusão do estabelecido para a decisão do enquadramento dos in. mas. mas desabona suas vítimas. p. sim. a autoatribuição a categoria “caboclo”.23). Há menor garantia. propõe a existência de três perí. de contornar o problema. através Brasil entre os países que realizam censos periódicos.43).87).86). ao invés de brancos e não-brancos. reforçando o retrato do Bra. três vocá. O segundo atribuição é recomendado por órgãos internacionais. p. ainda ROSEMBERG. tico e bens materiais. MEC utiliza. melhorar a condição dos diferentes grupos étnicos que ascendência). de extrema relevância. em uníssono. 2004.

nós os ser originada de outros processos sociais. A ideologia racista deixa as famílias negras em problemáticas ligadas ao desafio da convivência com a de que somos contra tais práticas discriminatórias” Analisar os indicadores de desigualdade entre os extrema dificuldade para melhorar seu capital social.791). Além dos expressivos diferenciais a criança negra é afetada pela diferença. discriminatórias. Com efeito. processos formativos e informativos. Geralmente a discriminação racial na escola se dá pela antecipadamente. em sua educação e for. p. as inten. ideologias intolerantes que visam justificar Em função disso. dos índios. afirma que os privilégios atitudes de preconceito e discriminação marcam pre. p. p. por conse. 1987. 15). Ainda de acordo com Munanga: Considerando assim. apesar da lógica da razão ser importante nos amizades e se prolonga até a inserção em instituições dade da chamada questão racial no Brasil” (JACCOUD pelo crime. a fim de que mente. afirmando que: inconscientemente os preconceitos que permeiam nos. “é necessário 2004. Consequentemente. p. Ele é parte da ças elaboram seus primeiros julgamentos raciais. Convém esclarecer que introjeção apoiada na razão científica que diz que biologicamente à reavaliação de suas posições” (BERND. “nossa trajetória de socialização tremas desigualdades no acesso a oportunidades” da negra. considerados nestes indicadores como o so- Para melhor compreensão de como estão postas as atitude das pessoas em relação a alguém ou a alguma acordo com Gomes (2003. o objetivo fundamental da nossa membros de um grupo racial de pertença. o negro e comprometem seu aprendizado. os negros são sempre os discriminação. Podemos compreender. a pele. O ser humano não nasce preconceituoso. 1992. 2003. tária que impede nos indivíduos o desenvolvimento freqüência. registradas na citação pessoa que não se aceita como negra. profissionais ou atuando em comunidades e movimen. E as professoras nem sempre didáticos e das relações entre os alunos. a priori. para livrar-se disso.6). & THEODORO. igreja.. tem sido um espaço de pro. Munanga (2005. dade de lidar profissionalmente com a diferença.128). As diferenças de oportunidade de educação para cista. ceito e à discriminação. de comandar a situação. de um dos grandes teóricos do Desenvolvimento soa negra aceita a ideia de inferioridade atribuída à sua não mudará as mentes de nossos alunos.23). De tudo isso. De negros. portadores de defici- reagem pedagogicamente a essas situações discrimina. dos homossexuais. estaríamos culpando a vítima saber que. tornou-se muito comum ouvir. a prática da diferença e as ciais preconceituosas. devemos se inicia na família. 2005. mais penalizados em termos de acesso e permanência discutir o legado branco dessa relação”. (MUNANGA. O que não deixa foram concedidos à identidade branca. afirma que “como educadores. p. mete. é que pode ser considerado ra. escola. em geral. e de promoção da cidadania” (Caderno do Censo do Gomes (2003) chama a atenção para a crise de somos produtos de uma educação eurocêntrica e que pois tende a ser mantido sem levar em conta os fatos MEC. por sua vez. versarmos sobre Diferença. então. papel social significativo. desta rejeição. negros.1). mantêm-se. então. Até porque. aqui. como o preconceito mento dos fatos. o racis. esta é a luta da da necessária e permanente abertura ao conhecimento tais fraturas” (KLIKSBERG. isso preconceituosas não são inatas. Preconceito e Discriminação. sem dúvida. reproduzir consciente ou que o contestem (GOMES. 1992). com clareza. que devemos considerar como ex “Ministro da Classificação Racial” (Magnoli. desestimulam ceituoso é aquele que se fecha em uma determinada países. A autora nos alerta que “a discriminação racial pode ainda não estão cumprindo esse papel”. sobre repetência e evasão escolar do alunado negro sendo o preconceito. deixando de aceitar o outro lado dos fatos. negros e brancos também são tema deste artigo. 2007. 1987. Portanto. p. círculo de população negra. porque muitos sença no espaço escolar. Teixeira (1992) registra que partir dos dados da pesquisa Retrato das desigualdades 46 47 . Bernardo Kliksberg. a discriminação racial é fruto do mito da democracia como o da família e da escola têm enorme potencial outro a valorização da identidade branca” (TEIXEIRA. para quem “o quesito cor/raça re- vocadas por esse racismo institucional. p. além mo e também do outro. para as crianças negras. acima. temos de presentes em nosso cotidiano de trabalho e. faz parte das tom. De acordo com a autora. quem tem o poder de dominar. pois “são instituições sociais per. compro. sem assumir ne. tem coisa. tos sociais e políticos” (BERND. nhum complexo de culpa. p.135). racial de um país que se gaba de não adotar práticas ra- para produzirem as resistências ao racismo. É no contato com o mundo adulto que as crian. de uma maneira geral. o nariz. Na batalha contra o racismo. Os dados e informações produzidos pelo IBGE e do preconceito racial é o termo usado para designar a somos todos iguais. não podemos nos furtar a uma análise dos indicadores sa sociedade. p. Dessa forma.55). (DIAS.) as extremas desigualdades no acesso a oportuni- butos físicos os escolhidos pelos discriminadores para enraizado na cabeça do professor. Ou seja.. Se assim o fosse. p. políticos e de ser compreensível. p. reflexo do nosso mito de democracia racial. Em muitos casos a criança incor. a “perversi- racista. missão no processo de formação dos futuros cidadãos ou de uma religião ou de pessoas que ocupam outro situações de injustiças e discriminações e para o esta- dução da rejeição. vítimas podemos. 2005. 1998. Inclui a relação entre pessoas e grupos “(. Vejamos o que mostram as análises realizadas a tido privilégios que não se quer discutir. nas. O preconceito é um julgamento negativo e prévio dos p. “essas noções e teorias coletivas estão também gar à discriminação racial. responsáveis de amanhã. sem maior ponderação ou conheci- aparência: é o cabelo. surge uma sociedade tórias (GOMES.19). 2003.11). O preconceito. o imaginário e as representações coletivas negati. p. portanto. 2001). p. dades socioeconômicas mantêm e intensificam dramas depreciarem o negro. Segundo Dias (2005. diversidade e com as manifestações de discriminação (ITANI. ências e dos idosos. dossiê temático Dias (2005.56). somado à sua dificul. a pes. profissionais não receberam. humanos e a concepção que o indivíduo tem de si mes. expressando. ele não se educação: não aceitar como pronta e acabada a lógica mais aprofundado da questão. 1998. é possível compreender que atitudes pelo IPEA reforçam as palavras. não existe. de conceito ou opinião formada de educação entre negros e brancos. 2005. Como já foi dito Podemos afirmar. manifestando um imaginário social. belecimento de políticas de correção das desigualdades sas interações que ali se dão são quase sempre negativas.12). o que poderia levá-los aceita como negro”. praticamos e os transmitimos. dela resultantes. o preparo suficiente para lidar com questões queremos ou mesmo quando proferimos o discurso pelo indivíduo” (TEIXEIRA. p. no que diz respeito às “ex- condição racial e. as atitudes raciais de matório dos pretos e pardos. que se os seres humanos dos idosos e das pessoas de baixa renda. que geram exclusão social e com comprovam essa afirmativa. Munanga aprende a sê-lo. Os 2005. das mulheres. Afinal. pois. mo. “E isso jamais pode ser considerado uma atitude (2005. p. nega-se como deixem de pensar de forma preconceituosa. “Como professores. enfim são os atri. ao precon. com grandes fraturas. guinte. mesmo quando não psicológicos que vão além do preconceito desenvolvido meadas pela ideologia do racismo” (DIAS. ao final desta conversa.104). caráter negativo tendem a ganhar mais força na medida uma condição social significativamente pior que a da apontado a necessidade de discutir para além de como o significado da palavra preconceito é “opinião adotada em que a criança vai convivendo em um mundo que população branca. “uma posição dogmática e sec. E isto quem herda são as pessoas brancas”. p. vizinhança. Teixeira (1992). e. Esse julgamento prévio apre. em relações raciais no espaço escolar.15). Ele Social. mas. a subordinação da mulher. grupos constitui-se em uma boa maneira de tornar vi- cultural e econômico. p. todos para a mesma natureza divina. vas que se tem do negro e do índio na nossa sociedade”. a população branca de qualquer nível social tem baseiam sua conduta num conjunto de representações São esses julgamentos raciais negativos que dão lu. mos frases como “o próprio negro é racista. Os dados opinião. ela não modifica. nos bancos escolares. a marginalização da população de cor em alguns tudo que a remeter a ela. ao lembrarmos das palavras do estruturas da sociedade brasileira e as crianças negras Essa falta de preparo. a coloca constantemente diante do trato negativo dos no que diz respeito à renda. além de operar de forma individual. em função desta. 2005. preconceito e sem exame nem conhecimento prévio” (LAROUSSE. são herdeiras da desigualdade e da exclusão social pro. de uma etnia presenta um passo importante para o conhecimento de A escola. p.127). foi-nos forçoso admitir que ao Con- identidade que acomete muitas crianças negras. acreditamos que é de bom sível este tipo de discriminação e de buscar superá-la. “Se de um lado sociais. nem a moral cristã que nos eleva a Sendo assim. como a miséria em que vivem as comunidades indíge- pora essa depreciação evitando sua identidade negra e do teor preconceituoso de muitos livros e materiais Bernd (1987) argumenta que o indivíduo precon.5) mação.5) argumenta que “espaços sociais temos a desvalorização da identidade negra. Trata-se. na prática escolar” (ITANI. por si. Tarso Genro.54). definir alguns conceitos: Justamente por isso. muito menos. não podemos esquecer que senta como característica principal a inflexibilidade.5). São aprendidas social.

Quantos passos já foram dados? “cor ou raça” do IBGE. Rio de Janeiro: Co- dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Do. na região Sul. 1987. p. na mesma faixa etária. 1993. Eliana Marques. branco. Dentre esses números. mas seu his. O comovedor é que os dados apresentados assus. de forma clara e compreensível. cuja publicação da 3ª edição ocor. a média de anos de estudo das mulhe. era de 94. 24. apre. DF: no adequado à sua idade. mas também por sabermos que essas desigual. In: sistência na voz dos trabalhadores negros. v. In: MU- e o aumento do número de trabalhadoras domésticas 60 anos ou mais de idade. leção Políticas da Cor. p. tórico tem origem em 1993. n. mesmo quando é feito o controle pelo nível debate sobre relações raciais no Brasil: Uma bre.3%. Fúlvia. de joelhos. Da Diáspora: identidades e mediações Secretaria de Educação Continuada. KLIKSBERG. História e conceitos podendo-se citar. os números se referem res é maior que a dos homens e a dos brancos maior SIDADE. 2007. que apresenta as maiores taxas de analfabetismo no de 1961 á Lei 10. 2005. ALFABETIZAÇÃO E DIVER- gualdades que se manifestam entre negros e brancos e É certo que a média de anos de estudo vem au. 2005.639/03. Petrópolis. que analisam o desempenho educacional e cor de pele. São Pau- sentam médias de anos de estudo inferiores e taxas de SANTOS. São Paulo: Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). a taxa de escolarização líquida.5 anos de -Racismo no Brasil. anti-racista: caminhos abertos pela Lei Federal Nº EDUCAÇÃO dades são gritantes em outros tantos indicadores sócio. analisaremos de falta de acesso aos bancos escolares por parte da culturais.) et em: elianamrc@ig. 2 ed. Disponível UNIFEM. Educação para todos). SA. Rio de mente.187-200. PAULA. Isto é. 2005. -Raciais e para o Ensino de História e Cultura cial. 2. GOMES. 135p. ainda é bastante restrito em nosso país. que a dos negros. sentaram aspecto positivo em relação a anos anteriores.) Levando a raça a sério: reu em dezembro de 2008. Mário. 2005. Rio de histórias. História da Educação do negro e outras entre homens e mulheres nos mais diferentes espaços mentando para os dois grupos ao longo do período Políticas raciais no Brasil contemporâneo. Joaze. Nesse documento. 2007. Júlio Groppa (org. Divisões perigosas. Na região Nordes. como exemplos. RJ: Vozes. Alice. No caso dos homens brancos. podemos concluir que os no Brasil. ROSEMBERG. Paulo: Summus. Lucia M.149-153. Contemporânea. país. o acesso ao ensino médio Afro-Brasileira e Africana. Brasília: Ministério da Educação. Representação da UNESCO no Brasil. fundamental. Além disso. Brasília: MEC/SECAD. Raça e minha bisavó: discriminação racial no trabalho e re- gros e negras estão menos presentes nas escolas. Jogo de espelhos.4% e 4. Acesso em novembro 2008.br.br. São escolares e reprodução do preconceito. Edmar José da.639 de 2003./dez.gov. Iray mentos sociais. RIBEIRO. 2005. São Paulo: Cortez. Luciana & THEODORO. primeira versão da pesquisa é de 2005. Fry. Eles deveriam pedir descul. Diferenças e precon. Nacionais para a Educação das Relações Étnico. micílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia de idade não eram capazes de ler um bilhete simples. do Albenarez et alli (apud JACCOUD & THEODORO. Jacques. reinações do e Estatística (IBGE). 2004. ao observarmos os estudos feitos por Janeiro: Civilização Brasileira. (org. Mulher (UNIFEM).4.132. a pesquisa dos alunos brancos e negros. pas. Ana Beatriz Gomes. básicos sobre o racismo e seus derivados. 1998. Divisões perigosas: SIDADE. Ressaltamos. Vivendo preconceito em sala de aula. com relação aos indicadores de renda e edu. mas significa. (org. vimento Social. In: BERNARDINO. Alguns termos e conceitos presentes no set. Peter et al. Fúlvia. Educação anti-racista: caminhos abertos branquitude e branqueamento no Brasil). In: ROMÃO. alguns apre. Brasília: Ministério da Educação Continuada. 2001. Antônio Olímpio de. la. gestores. cultura negra e relações étnico-raciais Auto declaração de cor e/ou raça entre escolares direcionar políticas públicas para acabar com elas”. Uma dupla inseparável: cabelo 2005: O que é ser preto. Daniela (orgs. ação afirmativa e universidade. sigualdades para que elas não existam mais. 2003. GOLDENZON. ITANI. CARONE. fessor negro. Belo Horizonte: Editora UFMG. são marcantes as diferenças raciais: os ne. até a PNAD/2006. sócio-econômico. Kabengele (org. In: cular e alunos negros: um estudo de caso. Demétrio. In: BARBOSA. Esses números podem ser explicados pelos anos HALL. -econômicos estudados. é mais D’ADESKY. Sidney. escola. www. A. Janeiro: Pallas. Prática Pedagógica Curri- entre negros e brancos. se ampliam quanto maior o nível de ensino. para a população branca era BRASIL.com. permitindo damental. ROSEMBERG. Cor e Raça no Censo Escolar. 2 ed. trazendo uma interpretação te. 133-136. Stuart. p. p. Cláudia Regina de.137-150. apenas os indicadores de desigualdades de educação população negra. A questão de raça nas leis educacionais – da LDB GALDINO. Alfabetização que atendendo à delimitação desta artigo.5% dos homens negros com 15 anos ou mais História da educação do negro e outras histórias. acesso a bens e estudado. Brasília. estudo e as mulheres negras. In: FRY. Maria Inês da Silva Barbosa. Brasília: jun. p. 48 49 . ceito na escola: alternativas teóricas e práticas. respectivamente. 2003. p. Maria Aparecida Silva. que mede BERND. Racismo e Anti. 1998. têm em média 2. pesquisadores. Diretrizes Curriculares UNESCO. Maria Aparecida Silva Bento. OSÓRIO. nas mesmas regiões. TEIXEIRA. 39-67. Brasília: 2005. Brasília: MEC/ (Dissertação. Vozes. parlamentares.6.) Psicologia Social do Racismo (Estudos sobre estudantes. São Carlos: EDUFScar. Caderno de Pesquisa. In: SECRETARIA DE EDUCAÇÃO zar. Porém. 2003. Racismos e anti-racismos no Bra. 18. In: PETER. 2001. Linguagens brancos. Se associarmos os anos de estudo ao pela Lei Federal Nº 10./ 2005.4 e 37. Brasília: e Diversidades. 2005. 2007. 58. Jeruse. Brasília: 2005. Superando o Racismo na esco- com carteira de trabalho assinada. al. Rio de EDUSP. Os números obtidos são brancos. JACQUES. Pluralismo étnico e multiculturalismo. 49-62. as enormes desi. Educação cação. como já mencionado anteriormente. alunos negros têm desempenho inferior ao dos alunos ___________. CONTINUADA. MAGNOLI. Janeiro: Civilizações Brasileira. Zilá. A da Educação Básica – SAEB.inep. a partir dos dados do Sistema de Avaliação sobre o negro.639/03. essa taxa era de fabetização e Diversidade. (Coleção feminino e da brancura: a narrativa de um pro- A pesquisa citada acima teve por objetivo visuali. analfabetismo bastante superiores. pela Secretaria cedo pressionada a abandonar os estudos e ingressar sil. Lucimar Rosa. Acesso em abril 2008. de 8ª série do ensino fun. Brasília: 2005. Francisca Maria do Nascimento. Congresso Nacional. CONTINUADA. essas taxas eram respectiva. p. na reprodução dessas desigualdades. paulistanos(as). estudo elaborado pelo Instituto de por se encontrar nos estratos de menor renda.2. recorta e dá visibilidade à problemática. os números impres. NOVAES. Bernardo. No ensino SECAD. Especial de Políticas para as Mulheres (SPM) e pelo no mercado de trabalho. O sistema classificatório de Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a As diferenças regionais também são significativas DIAS. Antônio Sérgio Alfredo. In: SOU- tam não somente pelas desigualdades entre negros e AQUINO. sociais: educação. p. Rafael Guerreiro. em 2006. Cor nos Censos Brasileiros. Negritude e literatura na América Latina. CADERNO do Censo do MEC/2005. 9. Superando o racismo na tivamente mais limitado para a população negra. In: disponibilizados para todo o público interessado: movi.37. Disponível em MUNANGA. Mestrado em Psicologia Social). São Paulo: Editora 34. 39-62. com GUIMARÃES.2. pardo?. Maria José Corrêa et al. entre outros. JACCOUD. Resgatando a Na educação. serviços. Ministério da classificação ra- Já no ensino médio. 105-120. ve discussão. Kabengele. 1992. ALFABETIZAÇÃO E DIVER. NANGA.7 em 2006. SOUSA. De preto a afro-descendentes: trajetos de pesquisa ROCHA.). p. Falácias e Mitos do Desenvol- a proporção da população matriculada no nível de ensi. As desigualdades REFERÊNCIAS Combate ao Racismo nas Américas. tinha-se. entre os negros. In: SECRETARIA DE EDUCAÇÃO BENTO. Magistério. Psicologia Social 10. revisada. de 95. educação: os limites das políticas universalistas. Silvia Caiuby. dossiê temático de Gênero e Raça. argumenta que “é preciso evidenciar as de. Sales Augusto (org.). mercado de trabalho. ao passo que. Rio Grande do Sul: Mercado Aberto. Ações Afirmativas e lo: Pontifícia Universidade Católica. recorte etário da pessoa ocupada. SANT’ANA.). Nilma Lino. al.109). o acesso à educação sionam ainda mais: os homens negros ocupados. que.

então. Outros entendiam que esse mesmo fenômeno na e outros. Como a sua proposta era tanto social como político e cultural (Cruz Costa. Racismo. Outros negative factor. Identidade. principalmente da Europa. à miscigenação (Nina Rodrigues. de fato. Atualmente é aproveitada. «race» in Republican Brazil. uma forma de garantir a existência dos negros. mas mostram. ex-escravos e de mestiços. os letrados vinculados às compreenderiam que essa mesma questão era de pouca ção. 51 . o futuro de um e de meio” (1978. Others enxergavam nela uma característica que poderia ser mais bem who saw it as a feature that could be used more. XIX parecia duzindo a noção de cultura1. Atualmente ela é vista como positive. Tal influência. o autor afirma que. de pelo menos três principais posições frente às teo. como os de Nina Ro- que essas questões despertam em nossa sociedade. Currently she is seen as a way of ensuring the existence of Professor Adjunto II. afirma no prefácio da primeira instituições de pesquisa e ensino no país – se sentissem ou nenhuma importância. devido à enorme taxa de miscigenação Gilberto Freyre foi um estudioso que procurou contri. Por este motivo. desde em outro contexto político e intelectual. segundo ele. brasileiras tendo como modelo as condições de vida século XIX e início do século XX. procurou explicar a questão da miscigenação. despertou a curiosidade de buir com a discussão sobre a identidade do brasileiro. em Colúmbia 1. isso modelos explicativos anteriores. 1967. da “Senzala”. (não havia) nenhum que me inquietasse tanto nação. XXIII/XXIV). sileiros. Democracy Racial Identity. em Espetáculo das Raças. era algo positivo. dentro e fora do país. drigues. boa parte dos homens Schwarcz. because she happened to be interpreted as a darkening cial. palavras. 1993). definir o “real” caráter do brasileiro e as várias fez com que muitos “homens de ciências” – como se mento se imporia (Sílvio Romero. uma sociedade procurou descrever uma sociedade em que a partici- que tivesse grande proliferação desse fenômeno gené. defendia a invia. 1976 e Schwarcz. pação tanto do “negro” como do “mestiço” tivesse um tico estaria irremediavelmente destinada ao fracasso. Palavras chave: Raça. É o Diretor de Cultura do mesmo campus e Coordenador do Núcleo de Estudos Inter. 1933. que alguns pensadores viam Another issue is the mixing. que pretendiam. 1993. em finais do séc. Obra de Gilberto Freyre. Oliveira Vian- escravidão brasileira legou para a história do país a pro. existentes entre os habitantes da “Casa-Grande” e os de ciências. no Curso de Ciências Sociais. o que pode exemplificar a grande preocupação país “miscigenado” só poderia. com uma população de grande contingente de vidiam. ceito. “funesto” tão evidente – faria para tentar modificar essa descartando a “raça” como fator determinante e intro- os pioneiros sina terrível. o que esses senhores gostariam de saber era após ter tomado contato com Franz Boas. No prefácio do os primeiros momentos da colonização. ser funesto. which should be excised from our country. a discriminar entre os efeitos de relações puramente Rodrigues (1957). João B. Democracia Racial. Prejudice. entre outros. Em outras livro Casa-Grande & Senzala. tais como Sílvio Romero (1943). 1993). 1949). o autor bilidade da mestiçagem. 1933.dossiê temático REFLEXÕES SOBRE NOSSAS CONSTRUÇÕES INTELECTUAIS E POLÍTICAS ACERCA DE “RAÇA” RESUMO ABSTRACT Esse artigo procura fazer uma reflexão sobre a construção do This article attempts to discuss the construction of the concept conceito “raça” no Brasil republicano. Oliveira Vianna e outros. em seu conjunto. por meio da determinante blematização da desigualdade sociorracial. Uma boa obra sobre este autor é Casa-Grande & Senzala e a o que um país já tão miscigenado – com um destino (EUA). 1994. disciplinar da África e dos Afro-Brasilei. se fez sentir muitos desses cientistas. já que o problema se resumia edição de Casa-Grande & Senzala: “dos problemas bra- na obrigação de tentar entender e explicar o destino da à educação (Manoel Bomfim. Keywords: Race. Nina Internamente podemos perceber a consolidação ra. brasileiras. na Universidade Federal do Tocantins interpretada como um escurecimento da população. ros da UFT (NEAF/UFT). 1957). pois passou a ser black people. A DEMOCRACIA destaque bastante relevante. Ele teve contatos com Brasil. de herança cultural -se à análise das relações “raciais” e da mestiçagem no rias européias: para alguns cientistas. importante verificar se as opções de miscigenação feitas Nesse sentido. dedicaram. Lacerda. Racism. genéticas e os de influências sociais. A devido. de Antropologia So. tão somente. Freyre buscou dar relevo à influência que O Brasil. racial. XXIII). Sílvio Romero. Outros ainda tentativas de se explicar a problemática da miscigena- autodenominavam. Além disso. Nesse sentido. ou seja. de Ricardo Benzaquem de Araújo. considerar “fundamental a diferença entre raça e cultu- Muitos autores. como mostra. Em Casa-Grande & Senzala. As posições se di. or was something Doutor e Mestre pela USP. no final do o tema se transformando. Precon. of the population. João Batista Outra questão é a miscigenação. perplexidade como o da miscigenação” (idem. Foi só nos anos 30 que vimos Freyre procurou analisar as relações sociorraciais esta preocupação baseava-se no fato de que. Tal situação social não era tão prejudicial assim e que o branquea. já de engenho. which for some thinkers was seen as a de Jesus Felix como um fator negativo a ser extirpado de nosso país. RACIAL fazer um estudo culturalista das relações sociorraciais Skidmore. esses grupos tiveram sobre o estilo de vida dos senhores presente em sua sociedade. Uma das maiores razões para em relação à questão. (UFT). o primeiro desafio de Freyre foi teriam alguns efeitos benéficos.

dossiê temático principalmente através da culinária. Aqui gem da sua própria personalidade. 352). o mulato e. Ao mesmo tempo. obra. Freyre. qüências danosas da miscigenação provinham não da fêmea contribuiu para a colonização do Brasil”. como “uma fala” social . vão alguns exemplos: É possível fazer a seguinte reflexão sobre a “de- era a primeira vez que os leitores recebiam um exame -grandes e até nos colégios. Uma outra fonte e escravo debaixo da qual se fizera” (pág.” (pág. “mistura” teórica ele procurou se basear na teoria cultu. Segundo Skidmore: “Casa-Grande & Senzala interessante notar também que. por já terem tido um longo contato com os mouros no “brancos” e “negros” conviviam fraternalmente. A importância de Casa-Grande & Senzala. 357). A cor guiu oferecer “uma espécie de nova racionalidade para no. anos na África. com personagens que eram ‘negros velhos’ çagem (brasileira). uma vantagem imensa” (1976: os primeiros brasileiros. alguém procurou ‘positivar’ a mestiçagem terpretava o Brasil como uma sociedade “mestiça”. os filhos que Portugal. se rein. 211). O “luso-tropicalismo” não está presente em Casa-Grande & 6. 415). do branco. a abolição dos escravos’. depois de se dizer parável”. brancos que aprenderam a ler com professores negros. considerando o mulato ‘inimigo natural brasileira. pois ajudava a explicar a ori. Já Skidmore ficando cada vez mais adocicadas. Nascido em Olinda.500 questionários. dade sem a sua presença. Luto. com o poder político. alguns ten- Alguns estudiosos costumam defender a ideia de sobre uma questão que tanto incomodava os intelec. no Brasil existia uma real “democracia racial”. do desenvolvimento de seus estudos sociológicos. que do mulato’. Freyre tinha conhecimento das discrimina. no Brasil seriam “o resultado da consciência de classe branco. o “luso-tropicalismo” proposto por Freyre5. a civilização e o capital. ‘em reconhecem a sua existência não propõem uma socie- orgulhar-se da sua civilização tropical. discriminação contra os “negros” e os “mestiços”. 299). as diferenças sociais existentes mesmo tempo. beria bem o casamento de filho ou filha. devo afirmar que não rece- (1976) afirma que a postura teórica assumida por Freyre: afirmar que: ficações sociais). 131). na série prismática. talvez. confessa sempre ter gostado ‘mais de negro primeira vez. de nossa representação de “democracia racial” foi que em resposta ao quesito 16 do inquérito. que é uma coletânea Paraíba. a teriores. 54). ele procurou divulgar para o mundo todo que livre de preconceito de raça. vez. (Barthes.. é uma sociedade em que os portugueses entram e de distanciamento. livro Ordem e Progresso. através de suas obras pos. nessa gradação. Devo estabelecer uma relacionado às opiniões assumidas por seu autor. A maneira de relatar e as fontes uma sociedade em que as relações “sócio-raciais” se- o país até a segunda metade do séc. “. É a própria ausência de cor. Em depoimento dado à TV Cultura de São Paulo. ofereceu uma explicação acadêmica história intelectual do país. nessa obra. o negro. está em sua proposta não subestimou – deviam atribuir-se principalmente teórica culturalista que se propunha a desvendar o que fazia do “mestiço” – talvez até mesmo “indígena” – não concebe 2. em perversos e de hórrido aspecto. ao reuni-las. que “Quanto ao brasileiro de Pernambuco. com sua obra Casa. ao responder ao quesito 16ª. podemos destacar alguns depoimen. e da sexualidade. relações “raciais” brasileiras passam a ser vistas como do ficado com os Modestos ‘o resto da vida. irmão ou irmã. mas separadas mais tarde. são essas as palavras: ‘Não aprovo o casamento sileira). Fry. A violência brasileira”.. abraçou imediatamente faço. “negro”. Em novos termos. beiro. Gilberto Freyre afirma “que somente a índia utilizadas causaram bastante impacto. ela pode ser entendida como um erudito do caráter nacional brasileiro com uma desi. panheiros dos meninos brancos nas aulas das casas. é que a miscigenação não era entendida no Brasil pré. Ele não é uma síntese. 1995. seguin- entre si. 1982. preta nunca me agradou. Para maiores informações sobre este tema consultar Omar Ri. de nossas relações “raciais” amistosas. o que notamos A sociedade mostrada por Gilberto Freyre. atingindo pessoas das mais diversas estrati. Mesmo aqueles que não nibida mensagem de otimismo: os brasileiros podiam A ler e a escrever e também a contar pelo sistema de Gerais. é Feijoada e Soul Food. como a a sociedade multirracial brasileira” (1995). Esta postura assumida pelos dessa teoria. 1972. costumes. por fim. “O pot-pourri étnico do Brasil.. agradou aos brasileiros. Além desta rior não só à dos indígenas como à da grande maioria Apesar de ser um grande defensor da “democracia branca. Apesar da opinião de Skidmore. exibido pela primeira Brasil uma nação multirracial. em um pro- à atmosfera de monocultura escravista que dominava grama sobre o livro Casa-Grande & Senzala. em que pergunta especifica ou concreta sobre o assunto: “Pode Sílvio Romero. seja ele “branco”. nascido em 1981. fumo se associaram na formação de um ralista norte-americana “sem abandonar totalmente os existente no regime escravista brasileiro era explicada ções que os negros e mestiços sofriam no Brasil. trevas. “Os pretos e pardos no Brasil não foram apenas com. a minha meninice e a pressupostos raciais dos mestres brasileiros”. tos em que as pessoas demonstram possuir profunda com pessoa de cor preta. Isto demonstra que o ima- mente mestiça. maior. dizia Gilberto nosso contingente foi o útero materno. na genação causado dano irreparável” (à sociedade bra. devido ao seu ineditismo. cujos vícios sociais – que Gilberto Freire ginário social do brasileiro. não contente com o su. ao contrário. várias ocasiões o autor afirma e reafirma que o colo. favoráveis à mestiçagem. ao conseguir dar destaque a várias teorias apresentadas portugueses foi denominada por Gilberto Freyre. XIX. mas foi sendo incorporado à teoria de Freyre ao longo ção”. de onde saíram de diversas palestras proferidas por ele nos EUA. mas da relação malsã de senhor 3. No complexo que remonta. pela tuais e políticos brasileiros. “Já Heitor Modesto (d’Almeida) nascido em Minas “mito”6 nacional brasileiro. Freyre. quiçá a única. como dizia é explicada histórica e culturalmente: os portugueses. 188). ‘não (o) recebera bem’” (págs. dos colonos brancos” (Freyre. obra em que que também não é estranha a influência da ‘história de a obra de Freyre a revelar uma “singularidade da mesti. Outro parecer uma chocante contradição com o que atrás con- O enorme sucesso alcançado por Casa-Grande & continente europeu. as relações entre escravos e senhores vão brasileira (para tanto aplicou 1. a ressalva que de mundo da sociedade brasileira – não está somente Devido a esse passado mestiço anterior. 4. Aqui mito está sendo entendido como “um modo de significa- mistura de raça em si.’. rigorosamente verdadeiro. 5. depois de que a contribuição de Gilberto Freyre foi a de que. 1996. em 1887. a ponto de o autor todo país. tabuada cantada” (idem. depois de recordar ter recebido. 1978. houve também meninos mocracia racial”. Após sua publicação as pois os escravos eram ‘um anexo da família’. em de negro com branco pela disparidade de tendências. passa a ser o nosso maior divulgador. É cesso alcançado. escrito em 1957. Do Saber Colonial ao Luso Tropicalismo. Freyre conse. nossa ex-Metrópole. em 1881. Quanto ao casamento próximo com pes- 210). vem em primeiro lugar. os colonizadores anglo-saxões na América do Norte. Para ele. das vestimentas Como podemos notar Freyre. com grande simpatia. o qual me parece fundo. De posse graduação. o que levou por meio desta cultura inferior dos europeus. havia também posturas que defendiam ser ela gros com parte da cultura. 355/6). As conse.. mas surgiram dessas relações foram incorporados à convi. com relação a seus escravos. ao justificar meu ponto de vista pessoal so- sim na grande capacidade que Gilberto Freyre teve em vência da Casa-Grande. Freyre des. (Freyre. Portugal tentou justificar as suas colônias bre coloração pigmentaria. -Grande & Senzala. que para ele já era detentor de uma “cultura supe. em maio de 1994. Porto. reage de modo diferente à um mal necessário. acerca de minha atitude para com os negros. Casa-Grande & Senzala inicia uma nova fase na menino. Senzala. carta logo no primeiro capítulo os indígenas. Adolfo Faustino -Gilberto Freyre simplesmente como um “dano irre. mais do que de qualquer preconceito e raça ou de cor” do-se-lhe o índio. virou de cabeça para baixo a afirmação de ter a misci. ou um “fato e pronto”. Freyre destacou a contribuição cultural do africa. para ser positivando o modelo” (Schwarcz. Na obra “Do padre Florentino Barbosa. 52 53 . e os ne. contribuição dada pelos nativos de Interpretação do Brasil. de 1947. Em sua visão. altamente positivas4. invertendo os termos da equação e & Senzala. de luso-tropicalismo3. De sorte que. O anteriormente. Nada mais2. era. No desenvolvimento do enredo de Casa-Grande se propôs fazer um estudo extenso sobre a sociedade Trancoso’. 1947. etc. nesta nizador luso não teve a mesma postura de separação soa de cor. libertos’. Senzala – pois esta obra em muito influenciou a visão se relacionar com as mulheres africanas aqui no Brasil. Segundo Schwarcz.” (1990. internacionalmente falando. original e etnica. não tiveram problema algum para fator que muito contribuiu para o sucesso internacional signado. em motivos estéticos e fisiológicos. A miscigenação brasileira Ou seja.

apesar de sua duvidosa rida em julho de 1950. Wagley (Columbia University) e Roger Bastide (Éco. Este paralelismo fazia existência. 53). o que não Ramos. Apesar das divisões sociais. conclusões. Porém. O que se entendeu como uma “democracia racial” era 54 55 . Salvador e da França ponderaram que a pesquisa sobre forma de produção. A fé que nele depo. destes estudiosos levaram alguns cientistas a criticar percebendo que. dativamente.e estas políticas e familiares ao mesmo A proposta inicial era que se fizesse pesquisa. 1997). neste período. era resultado de uma discriminação em que a “raça” da igualdade básica de todos os homens e de certos divulgá-lo em outras sociedades racistas no mundo: era “fundida” com a situação de classe social. diam que. entretanto. enquanto com o fator “racial”. na memória. seja ele “negro”. na opinião de Lilia Schwarcz isto é. As Metamorfoses abandonando qualquer possibilidade de combater a acreditam que. mesmo porque fendia a elaboração de um estudo comparativo (Maio. o Credo A PESQUISA DA UNESCO do Escravo (1988). tanto por Gilberto Freyre como por colocar contra a situação que lhes foi reservada. dossiê temático jam conflituosas. por cientistas como: Octavio Ianni. fez com que o -americano. nesta altura do com o fim do trabalho escravo. sabem que constituem um grupo oprimido que. 1968. forma de convivência pacífica sustentada pelo governo foi feita por René Ribeiro (Instituto Joaquim Nabuco) e “negro” e o “mulato” não conseguissem entender que tura variegada (daquela) nação” (Rose. na cidade de Florença. que Bastide trabalhou com Florestan Fernandes. as fantasias da sociedade brasileira em relação a seus os interesses dos “brancos” das classes médias e das sitam. Para ele. também com a ajuda de fundos da UNES. As aspas nos termos “negros” e “mulatos”. Arthur nunca ter sido assumida claramente no Brasil. Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional Brasil era um paralelismo entre estratificação racial e racial” no Brasil é pensada no campo religioso (sin. o brasilei. mas. posição de estudar este fenômeno para poder melhor do Brasil)” (Skidmore. para se conhecer a re. mas esta disparidade era vista “preconceito retroativo”. defende que a desenvolvidas pelas equipes coordenadas por Bastides ro. “Entre os scholars estrangeiros que realizaram exten. alguns países da América Latina. ao assumir esta posição. ele é o “cimento na estru. prin. segundo Myrdal. Alguns representantes de países tais como “El fase de total desajuste do “negro”7 e do “mulato” à nova Esta posição foi adotada não porque discordasse das de cor. “negros” com que os brancos cultivassem explicitamente um dida na mesma chave do “fato social total” maussiano. realização de uma pesquisa sobre relações raciais no direitos sociais. inclusão do “negro” e do “mulato” na nova sociedade. principalmente. Uma terceira pesquisa patrocinada pela UNESCO Este racismo encoberto. Cardoso. não é simplesmente um meio para conceitos de relações “raciais”. cial” brasileira feita. que era a de combater o biológicos de delimitação racial. resultou em um enorme dominante naquele país. Os estudos realizados elites. as atrocidades ocorridas e Florestan Fernandes.” (Mauss. São Paulo. Este brasileiro entre “raças” era bastante salutar. cientista social brasileiro que havia falecido há como sendo “natural”. em reflexo da situação educacional e social que o “negro” A “democracia racial” tem para o brasileiro a mes. Do mesmo modo que os brancos. Fernando Henrique Para Florestan Fernandes. 236). a tão falada “democracia racial” dividida em classes. “branco” ou “índio”. Isso porque as descobertas feitas pela equipe deveriam ter a mesma postura que os “brancos”. Com esta atitude. a “mulatos” não possuíam. e o “mulato” viviam em nossa sociedade. Thales de Azevedo (Universidade da Bahia). sutil que o “negro” e o “mulato” não tiveram como se Não podemos afirmar que em A Integração do Ne- prejudicado em nossa sociedade. pelo menos no campo político-ideológico sas investigações de campo no Brasil estavam Charles 7. Wagley e seus assume em sua obra. segundo vítimas não tiveram condições de tomar consciência de Freyre. os negros americanos querem um tratamento igual do le Pratique dês Hautes Études – Paris). demonstraram que o que se tinha social. podemos esquecer que o mundo ainda tinha muito viva cipalmente. não como resultado de qualquer (1995). estes foram sendo integrados gra. neralização dos seus resultados” (Idem. inicialmente. 51). à justiça e às mesmas África do Sul e Estados Unidos. nem com a cor. Neste sentido. Brasil. assumiu a no Rio de Janeiro por Luís Costa Pinto (Universidade sua condição de inferioridade social foi construída. 1965: 299). legitimavam de o Credo não ser ali observado. A discriminação se deu de maneira tão racismo no mundo. Segundo direitos inalienáveis à liberdade. Por ela gro na Sociedade de Classes Florestan Fernandes tenha cracia racial” permite-lhe exigir igualdade de tratamen. a UNES- “raciais” sejam respeitadas e garantidas. com plicação de que esta posição não tinha qualquer ligação a “democracia racial” parece ser um valor bastante caro diferenças. Relações Raciais no discriminação e ao racismo brasileiro. “negros” e “mulatos” por Fernandes. ternacionais entre intelectuais das Ciências Sociais. 42). para conseguir galgar uma posição melhor. Não Depois da divulgação dos resultados obtidos. Para Myrdal. 52). impera nos Estados Unidos” (ibidem. ou mesmo pelo governo brasileiro. mas era sim um para os brasileiros. 1976. não alidade sobre as relações raciais harmoniosas existentes passagem do trabalho escravo para o trabalho livre no e Fernandes. no Brasil era uma sociedade em que os “negros” e os dição desvantajosa do “negro” e do “mulato” passava (igualdade de oportunidades). ma função que o “credo americano” tem para o norte. Fernandes. A relação entre os “brancos”. que se pauta em modelos contatos raciais num só país limitaria uma possível ge. jurí. A representação de “democracia racial” brasilei. somente em funções tavam à sua intenção inicial. pela equipe coordenada por Roger Bastide racial para não perderem seus privilégios na sociedade o significado da primeira luta da nação pela indepen. Segundo o autor. um “preconceito de ter preconceito” (Fernan- só vez todas as espécies de instituições: religiosas. marginalizadas. texto são para tentar reproduzir a mesma postura que Fernandes atraso no processo de inserção na “sociedade inclusiva”. Município de Itapetininga (1955).. mas a ideia da “demo. 41). a não seja dividida em “raças” e grupos étnicos. disfarçado. podemos afirmar que Estado. ra só sofrerá um forte ataque na década de 1950. poderíamos afirmar que ela pode ser enten. dicas e morais . Brasil se deu de modo que o “negro” e o “mulato” não como um “engodo”. em Florestan Fernandes. mais em pleno desenvolvimento as lutas anti-colonialistas lentos. discriminação racial contra os “negros” e “mestiços”. como uma parte de si próprio. Os “negros” e os “mestiços” enten- dência” (idem. inconciliá. Ou seja. tamente quando a UNESCO. tais como: Donald Pierson. outros intelectuais. des. dentre outros. O mentor intelectual de tal proposta foi Arthur e ”mestiços” era desigual. não conseguem. jus. Oracy Nogueira. “mestiço”. 41). entre eles mesmos. Itália. sofrem as consequências na África e na Ásia. fossem integrados à nova sociedade. delimitar fronteiras 1997.. para o povo americano. a (1960). mas sim porque os resultados não se pres- da pela sociedade americana. em sua obra A Integração do Após a divulgação dos resultados das pesquisas tempo. Essa situação é bastante diversa da experimenta. na Bahia. oito meses (Maio. após entender que esta CO. as suas encontrado uma sociedade muito diferente da vista por to e uma real integração com os “brancos”. que “credo” defende a “dignidade essencial do indivíduo. 1988. inicialmente a UNESCO de. Skidmore: sua existência para combatê-la. não que qualquer outro na nação. todo a ser considerado extremamente prejudicial para os cia social demonstrou-se possível embora a sociedade ataque preconceituoso era acompanhado por uma ex. veis entre si. no social (miscigenação) e no econômico UNESCO aprovou em sua 5ª Conferência Geral. mas também pretendem ver respeitadas a suas alunos trabalharam em estreito contato. o que de fato existia no Se atentarmos para o fato de que a “democracia Após várias discussões ocorridas em colóquios in. ou uma enorme “falácia”. Nesse sentido. ela pode exprimir “ao mesmo tempo e de uma Ramos. resultando em uma perspectiva em que a con- cretismo). ocor. os mais elementares a ser entendida como natural. “os negro americanos na 2ª Grande Guerra Mundial. Após esta primeira CO abandonou o projeto de divulgar todos os dados. O negro brasileiro também entende que é bastante Devido à grande divulgação da “democracia ra. de fato. assim como estavam brasileira passou a sofrer ataques cada vez mais viru. eles estavam ao mesmo tempo pleitear seus direitos. os “brancos” defendiam a discriminação oportunidades representam. em que a “democracia racial” revelou-se consegue propor uma sociedade em que as diferenças neste continente. o que para Freyre era positivo passou notamos na sociedade norte-americana: lá a democra. Negro na Sociedade de Classes (1965).

Só assim podemos de brasileira foi a tentativa de mudar a maneira de se tentar entender a existência de grupos de negros lutan. racial. ou seja. dentro de sua própria sociedade” (id. MNU: através de seus discursos. influiu também sil” assumidas pelo MNU. vel. Bahia. 71). não é uma ação Abdias Nascimento. Na época de sua criação nenhum criminação racial a ser assumida somente pelos negros. Senão vejamos. apoiavam a opção religiosa afro-brasileira também de- representantes sindicais. dutos desses trabalhos grande parte das premissas para nas relações “sócio-raciais” brasileiras. O que consolidou a postura racialista assumida influenciar profundamente outras organizações negras. impediu que o MNU procurasse exatamente nos pro- Se Florestan Fernandes não via “democracia racial” pública sem o consentimento dos responsáveis pela ria ser Movimento Negro Unificado Contra a Discri. o clamor da ‘gente negra’. Bahia e Pernambuco. o MNU teve uma forte influência dizendo. podemos afirmar que a desistência da populações. levaram o assumisse. Como já foi dito anteriormente. somadas à militância pela esquerda. UNESCO): 1. o MNU conseguiu. professores Roger Bastide e Florestan Fernandes. lidade ou de costumes” (1976. A grande novidade trazida por ele foi a tentativa de jun. o mito da “demo. UNESCO em veicular os resultados das pesquisas so- devido à forma “mascarada”. O maior representante dessa postura esta plataforma percebe-se que a opção de identidade Apesar de não ter logrado unir todas as entida- democracia para ninguém. mas que o nome do grupo deveria ser Movimento Negro tentativas de desmascaramento racial encetadas pelos a cumprirem os ideais da fraternidade humana e da de. por serem municipais. segmento social podia fazer qualquer manifestação Nesse sentido. de Florestan Fer. mesmo aquelas que não aceitaram participar de sua O que podemos perceber nos dois textos é que. bre a existência da “democracia racial” no Brasil.8 Logo no momento de sua criação o de esquerda de boa parte de seus fundadores. 6). ou não há nova entidade. ocorreu o lançamento mas leituras foram de grande serventia para a formação concordavam em se submeter a uma liderança nacio- público do MUCDR. ele passou a informar As diferenças mais destacadas entre o MNU e ou- tiços”. nações e preconceitos raciais existentes em nosso país. Dessa maneira. O MUCDR foi resultado da somatória a alteração da denominação do grupo. A análise dessas obras. de Eldridge Cleaver (1971). no rosto. 9. a ditadura militar. de Minas Gerais. antes fosse feito um trabalho de “conscientização de pessoa “que possui na cor. ponde o opróbrio do branco posto no papel de opressor por negros que se autodenominavam trotskistas e que trução. reu. ainda durante nos Estados Unidos9. pela Quando fundado. Ou bem há democracia para todos. de São Paulo. de organização destas que. o MNU procurou na sociedade norte-americana esta 56 57 . valcante e Ramos (1976). Essa nova denominação a construção de seus argumentos contra as discrimi- contra a sua existência. Racial (MUCDR) foi fundado em 1978. Além de Abdias. o que foi nessa ocasião aprovado. militante do Movimento Negro. em minação Racial (MNUCDR). que seria o MNU. 1985) em sua cons. da ção do Negro na Sociedade de Classes.. 30 e de 40. 2. e também de vários grupos sociais que existiam naquele período. 227). por serem cristãos. social e politicamente falando. assim do Movimento Negro Brasileiro”. Uma das contribuições do MNU para a socieda- quixotesca. um valor sociológico à luta contra a Ditadura Militar. deste a discriminação racial sofrida por quatro atletas ne.. contra as ameaças do racismo. Assim. 90). que resultou na morte do Espírito Santo. os “negros” e os “mulatos”. mas acabou se organi- que lutar por uma sociedade mais justa e sem discri. Já Ribeiro. não da” como se manifestava. a condição de mais uma or- MUCDR contou com o apoio de grupos dos seguin. porque a opressão do negro política foi Centro de Cultura e Arte Negra (CECAN). zona central da cidade de São Paulo. Este é o nome da entidade até nossos dias. porque alguns grupos ne. principais mentores do ‘protesto negro’ nas décadas de mocracia racial” (ibdem. Somente partindo desse pressu. Em sua “Primeira das plataformas dos negros norte-americanos. Essas situações fizeram com que o MNU UNIFICADO . operário Robson Silveira da Luz. tinha a pretensão de representar oposição à discriminação racial. do contra o racismo no Brasil. de Frantz lítica conservadora. na cidade do Rio de Janeiro. negra defendida por esse grupo procura se utilizar da des negras. tais como: nal. mas também nos afasta Outro motivo foi a tortura. claramente. o porados pelo branco inconformista. Para não diminuir drasticamente a sua base. etc. militavam na Liga Operária – depois transformada em por este grupo político. de grupos homossexuais. na construção de uma posição político-ideológica do todo o conjunto do Movimento Negro. tar a luta dos negros brasileiros contra a discriminação as pessoas sobre as posturas racialistas assumidas pelo tras entidades do Movimento Negro estão na forma pologicamente falando. 1988. exploração e discriminação. fendida pelo MNU. Em um Ato Público Movimento Negro americano.. por fim. trito Policial de Guaianazes. ocorrido em 1980. Rio de Janeiro. 18). antro. a tal ponto nas Gerais. num Na opinião de certas lideranças dessas organizações. que nos protege do Bom Retiro. mas só é praticável conjuntamente com a democra. não Municipal de São Paulo. ocorrido nas escadarias do Teatro dos primeiros quadros políticos do MNU. fundada em 16 de setembro de 1931 (Pinto. localizado no bairro nindo delegados do Rio de Janeiro. também discordavam de sua opção DO MOVIMENTO NEGRO Outra novidade foi o movimento assumir um Fanon. e não somente garantir a por parte dos radicais e ativistas negros. Para maiores informações consultar Memórias do Exílio. diz: “Tudo isso o lançamento do MUCDR estava ocorrendo sem que MNU passou a afirmar que negro era toda e qualquer democrática e identificado com a mudança de menta- demonstra. MNU a unir a luta de classes à luta anti-discriminação ganização negra entre todas as já existentes. publicadas em vários de seus documentos e panfletos. por terem uma postura po- PEQUENO HISTÓRICO comunidade judaica. por sua vez.MNU caráter nacional. “dissimulada” e “disfarça. pouco a pouco. organização que editava o Abdias Nascimento não contribuiu somente para fundação. posto é possível se entender a seguinte afirmação. Ca. soando. defendeu uma luta contra a dis. ou nos cabelos. que viram via-se.º) recebessem acolhida muito favorável Em outra parte do texto Fernandes escreve: “ou. sem preconceito e racismo. o MNU não conseguiu ser a “Central Geral cracia racial” brasileira pode dar sentido. do Rio Grande do Sul e do “A ausência de racismo institucional. Isto só havia ocorrido anteriormente com a Frente Negra Brasi. Máscaras Brancas. não que dá sentido e justifica as relações sociais desta nação. como das pesquisas desenvolvidas pelas equipes dos zando como mais um dos diversos grupos já existentes. Pele Negra. Melhor Como já falamos anteriormente. Ele surge. 1993. Mi. Assembléia de Organização e Estruturação Mínima”. um primeiro momento. nandes (1965). 1995. 8. algu. o nome do grupo deve. também não era “segurança” do sistema político vigente. em sua opinião. como forma de protesto contra prevaleceu até o Primeiro Congresso do MNUCDR.) seria preciso atingir esse padrão (socieda. Alguns. a “democracia racial” é de fato um mito. dossiê temático um “preconceito retroativo” o que não permitia a essas O Movimento Unificado Contra a Discriminação que havia retornado recentemente de um auto-exílio Assim. comunistas e lideranças estudantis. Unificado (MNU). IBID. foi proposto neles um prolongamento e um aprofundamento das primeira vez. leira (FNB). Foram convidados a discursar Alma no Exílio. ocorrido em 7 de julho de 1978. Sobre este fenômeno Florestan afirmou: autor: “(. através das propostas condenado à dignidade de lutador da liberdade corres. esta meta jamais foi atingida. tes estados da União: São Paulo. gros no Clube de Regatas Tietê. o clarim que convocava todos os homens a união de todas as entidades negras brasileiras.º) fossem aceitos com simpatia e incor- combate o preconceito/discriminação brasileiro. identificar um negro. minação. foram adotadas por quase opressiva. defenderem-se. Convergência Socialista -. que a democracia racial é possí. ocorrida no 44° Dis. outros. Com cia social. As opiniões sobre “o que é ser negro no Bra- apesar de a sociedade brasileira ser tão autoritária e jornal Versus. sempre discriminar e oprimir os seus “negros” e “mes. O MUCDR foi um projeto pensado inicialmente “marca” e da “origem” (Nogueira. outro autor que gros não concordaram com o lançamento do MUCDR. 297). deveria lutar contra todo e qualquer tipo de opressão. A Integra. Foi discutido que o Movimento Negro contribuiu para que esses resultados (da pesquisas da da verdadeira trilha da “democracia racial” (idem. de personalidade texto escrito trinta anos após Fernandes. da de com uma forte democracia social). base” e por esse motivo optaram por não participar da sinais característicos dessa raça” (MNU. muito pelo contrário.

os negros e as eleições paulistas de 1982. (1988). Anhembi. Rio to da literatura brasileira. esta situação reforça a conclusão de que a “de. o que. A história do protesto Unesco: SCHWARCZ.). 19). Maria Ercília. Ana Lúcia E. A integração do negro na so. MAUSS. 1996. 1993. 1998. São Paulo. _______. BASTIDE. Rio de Janeiro. Lisboa. por influência Civilização Brasileira. São Paulo. Gevanilda Gomes dos. 1968. São Paulo.E disse o velho militante José Correia Negro: da marca da inferioridade racial à constru. ta Brasileira de Ciências Sociais. Brasiliana. de relações raciais. nacionalizar a luta anti-discriminação. Cor e mobilidade sob o regime de trabalho livre: aspectos de um quase ROMERO. Paulo. Campo Grande. MOVIMENTO NEGRO UNIFICADO. ção aumentada). A Estratégia da Desigualdade de Janeiro. Edições 70. In: Relações raciais entre negros e brancos FFLCH-USP. em espaço reivindicado. nº 29. A América Latina: Males de origem. porânea. _______. Queiroz. FREYRE. Paulo. 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propostas pedagógicas .

para os que efetivo da lei: 1) que África ensinar e que história do desenvolvimento individual e coletivo. violência com que foram trazidos. analisar e entender sem fazer um cer. esse negro coletivamente desigualdades e perdas acumuladas comparativamente até então à disposição é viciado pela historiografia ofi. Como sujeito nacional. A África é os sentidos. os negros de hoje são vistos apenas estaria andando com cabeça erguida e orgulhoso de ter As considerações sobre estas duas vertentes podem que visa não somente o domínio das teorias e novas como consequência e resultado de uma história que participado e contribuído na construção do seu país. hoje considerados Nacional da Lei das cotas. a meu ver. Uma educação coletivo de muitos.639/03 que torna obrigatório dação do exercício da cidadania. coletivamente estamos mal por da produção dos livros. Entre a abo. o negro no Brasil hoje uma adesão significativa. Onde estão finalmente do ensino público superior e universitário desembocou os problemas? numa polêmica que prejudicou a votação no Congresso Todos os países do mundo. A colas e de alguns educadores como no meio da impren- implementação das políticas de ação afirmativa no setor sa e de alguma elite intelectual.639 promulgada pelo presidente da Re. que embora imprescindíveis não seriam começou nos séculos XV e XVI com o tráfico humano apesar das condições históricas caracterizadas pela poderia esgotar aqui por falta de tempo. um João Por que implementar política de ação afirmativa na universidade e no Professor os brasileiros. Ora. Essa seria a pauta de uma agenda mínima que de- pública em fevereiro de 2003 contempla. etc. Com efeito. ou seja. talvez não. à escravidão e à abolição. do Brasil de hoje. que contribuíram diferentemente na construção objeto de uma série de violências físicas e simbólicas. fazendo delas uma fonte de riqueza e de É por isso que para entender o “Ser negro no Brasil o que porque nos envergonhar. “raças” e et- negação de identidade genérica e específica. sem dúvida. suficientes. consciência de que fizemos a nossa parte e não temos mento desses problemas depende o funcionamento e coletivas. ape- sar da certeza de que ela contribui na modelação da foi buscar a mão de obra escravizada que ali existia naturalmente. Coletiva- mente. autonomia interna para discutir a questão e tem dado tipo de educação o Brasil precisa desenvolver para sair to recuo histórico no tempo e espaço. agenda de todos os países do mundo. com a construção de nossas identidades individuais apenas ao tráfico. contrariamente ao índio que tinha amor à liberdade e Londrina – 26 de março de 2011 Kabenguele Munanga. coisas que não podemos no povoamento do território brasileiro e na construção públicas que independentemente da lei recorrem a sua jovens e futuros responsáveis. canalizar. de humilhações. religiosos.639. Trata-se mos negros no Brasil hoje? negro no Brasil coloca-nos alguns problemas práticos para um olhar crítico sobre as questões relacionadas de uma história de cerca de 500 anos que não se reduz Talvez sim. sileira. o caminho não é fácil por causa coletiva do negro. não podemos simplesmente fazer uma análise ainda andam com cabeça e auto-estima baixas. 123 anos já se passaram. As duas questões constituem. cidadã orientada na busca da construção e consoli- Entre o tráfico. como os mais desenvolvidos. perrar a dinâmica própria de algumas universidades ram maciçamente na educação de qualidade para seus tempo positivas e negativas. religiões. dos princípios de em 1888. Uma tal educação convida lição formal e hoje. Do equaciona. Por isso. e África e do negro no Brasil herdada da historiografia Letras e Ciências Humanas da USP. De qualquer modo. apesar das relações ria apenas em alguns aspectos que considero relevantes. doutor em antro. Estamos com cabeça erguida e orgulhosos de ser. a vemos cumprir para colocar em funcionamento a Lei reivindicação do reconhecimento oficial da identidade 10. no Brasil. trução e reconstrução? A Lei 10. além do fato de que o conteúdo da África tural e ou etnicorraciais é uma realidade que está na da história positiva do Brasil. a Lei 10. é-nos colocado a questão da ser monocultural. não respeita nossas diversidades de ele foi objeto de desumanização. de sua identidade plural nacional. bobo que se deixou facilmente escravizar e nunca se ensino superior brasileiro? – Palestra proferida no Seminário do NEAA – Estas realidades deram origem a duas questões importou com sua liberdade e dignidade humanas. ser objetos de grandes conferências e debates que não tecnologias. das dúvidas e resistência tanto no meio da algumas es- cessita de algumas ações ainda em equacionamento. mas também e sobretudo uma educação dos africanos e sua escravização no Brasil. mas seu funcionamento efetivo ne. onde o Brasil NA ESCOLA BRASILEIRA? cimento público da nossa identidade específica. pologia pela Universidade de São Paulo Como então descontruir essa imagem negativa da afirmativa capazes de compensar as perdas acumuladas e professor titular do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia. a implementação de políticas de ação não se deixou escravizar. cerca de 300 anos se passaram. artístico. a educação hoje”. da formação dos educadores ou professores e nias. e promover a igualdade racial do negro. cultural. o reconhecimento de suas identidades específicas. o ensino da história da África. A questão é saber que captar. talvez não! Talvez sim. É o caso da UEL. de imagem negativa de si introjetada e construir uma nova definição do conteúdo da história da África e do negro gêneros. são aqueles que investi- Ser negro no Brasil hoje significa coisas ao mesmo contribui na construção da economia colonial do país. da geralmente numa visão eurocêntrica que além de colocar esse negro numa dinâmica histórica na qual precisam de uma ação afirmativa para descontruir a ficos ensinar? Ou seja. Infelizmente. para os negro no Brasil ensinar. que é um Brasil diverso em todos e também sujeito de resistência para a defesa de sua que constituímos ainda a maior vítima de preconceito ficos divorciados da historiografia colonial. Kabengele Munanga hoje apaixonadamente em debate na sociedade bra. a escravização e a abolição oficial assimétricas do poder durante a escravidão. classes sociais. A imagem de 63 . para os que têm ainda não totalmente equacionados. estamos ainda mal por causa do não reconhe- cial de cunho colonial que ainda considera a África como um continente atrasado e inferior. as real e autêntica e do negro real e autêntico? Qual seria vertentes atuais nos debates sobre a situação o negro a proposta de um curso capaz de realizar essa descon- no Brasil hoje. por um lado. da história e cultura do solidariedade e equidade. ou seja.propostas pedagógicas POR que ENSINAR A HISTÓRIA DO NEGRO aos outros segmentos raciais da sociedade. materiais didáticos e bibliográ. toca. No imaginário Depois dessa longa história. a mesma historiografia que considera identidade nacional e faz parte do cotidiano de todos o negro brasileiro como um boçal. preconceito e descriminação que engendram começar. liberdade e dignidade humanas em todos os sentidos: e discriminação racial em numerosos setores da vida tão complexa e diversa que fica difícil definir por onde A construção das políticas sobre diversidade cul- político. da situação em que se encontra hoje. sem necessariamente em. enfim imagem positiva. 2) quem vai ensinar e 3) a habitualmente dispensada aos nossos jovens é enfoca- da estrutura racista da sociedade brasileira atual sem que alienaram sua humanidade e sua identidade e que partir de que livros e materiais didáticos e bibliográ. por colonial e reconstruir uma nova imagem de uma África outro lado. sexo.

que voluntariamente decidiram emigrar de acordo novas diásporas de discutir. etc. Ásia. mas construção social e categoria de dominação e de ex. Todos buscam a construção de uma guns educadores. por sua amplitude. justamen- países de deportações humanas através do tráfico ne. Canadá. japonesa. a cultura brasileira é sincrética ou mestiça. América do Sul e do Oriente ainda não exercem igualmente sua cidadania e não ponto de vista. Daí a necessidades nesses países de história da África e do negro brasileiro até nos estados De antemão. ciedades humanas. luta. na pauta da discussão. pois mesmo na hipótese de aceitar essas tivos países de origem. baseada na lei do darwinismo social. de ensinar aos nossos alunos que raça não existe. sua duração e os estragos culturais. sil é totalmente diferente da de seus compatriotas de nismos de discriminação cultural ou etnicorracial dos questionavam a generalização do ensino obrigatório da rantem nossa sobrevivência. mas o que devemos povos e com os processos de construção de nossa iden- Essa falsa imagem dos países ocidentais monocul. entendemos a raça como uma construção social de sua democracia? Mesmo admitindo a tese de que la. Reagem negativamente algumas educadoras e al. no simples fato não existem. penso que construir políticas sobre a nós não pudemos deixar de observar que as diferenças uma raridade. das diversidades: os povos indígenas de diversas ori. o tráfico negreiro é hoje considerado gens étnicas. arrancados de suas raízes e trazidos Médio. xiliará nossa sobrevivência material numa sociedade foram escravizados. lusófona. Bélgica. branca identidade como no atual quadro do desenvolvimento a proposta de educação multicultural na sociedade bra. outros acham ab. O nó da questão. não vejo identidade negra não surge simplesmente da tomada cultura de paz baseada na convivência igualitária das duzir um racismo às avessas em suas escolas onde este nenhuma contradição ou impedimento à iniciação de de consciência de uma diferença de pigmentação ou de diversidades. É mundo ocidental em geral pululam: Espanha. que até hoje estão sendo tratadas desigualmente no educacional não significa destruir a unidade nacional e na cor da pele são reais e são elas que justamente colonizou-os. asiática. dos homens e mulheres. capturados. bioquímica. nos ensinam a genética humana e a biologia molecular. Vista deste ponto de vista. de onde viemos e para onde vamos? exploração dos outros povos. brancos e amarelos. para exigir a convivência igualitária de todos. de televisão. quero admitir e discutir todas as teses etc. de geração em geração. tica humana. numa única religião. Mesmo concordando que geneticamente as raças puras como uma das maiores tragédias da história da huma- os africanos escravizados de diversas origens étnicas ou da. alguns criticam um diálogo que introduz a temática da diversidade uma diferença biológica entre populações negra. biologia molecular. pilhou e tentou destruir a riqueza da di. além dos portadores como pensam alguns defensores das teses de Gilberto constituem. Os exemplos que des. na construção sim na aceitação das diversidades como bandeira de clusão. ascendência europeia. Ela resulta desse longo processo histórico ao mundial dominado pela globalização da economia. a logo intercultural. ou melhor. reações negativas até na imprensa. judia. chinesa. numa única língua. não é tolerância. é uma sociedade de cultura e os países do mundo estão no mesmo barco. teses que são totalmente opostas às minhas. se daria ao luxo de negli. nenhum país no mundo hoje onde a temática do mul. Nunca se falou tanto da diversidade e da fenômeno não existe ou nunca existiu. para diversos países da América. Irlanda do Norte.) ter e do encontro das culturas. uma pergunta que tem a ver com as raízes culturais dos Suíça. não estaria. seria um da identidade branca e amarela. entender a chamada identidade negra no Brasil. construir a unidade respeitando e o racismo. Não existe qual me referi. cidadania dos descendentes de escravizados de ontem igualitária das culturas. os europeus de diversas origens étnicas. que com a conjuntura política e econômica da época que suas políticas sobre diversidades culturais e etnicorra. ou seja. do meu ponto de vista. campanhas de difamação e demonização das religiões fonte da riqueza coletiva. dos grupos e so. Diversidade na unidade não Esta é uma pergunta que todos os povos conscientes se mentem a unidade cultural dos países da Europa e do brasileiras de matrizes africanas em algumas emissoras deve sugerir uma diversidade hierarquizada em cultu. problema negar as raízes formadoras dessa mestiçagem. Sem dúvida. Visto deste povos africanos de diferentes nações foram sequestra- mundo: da África. quais são vítimas. É nesse contexto histórico que devemos técnicas e meios de comunicação. Ou de mundo. numa visão do mundo está se tornando cada vez mais Mas a questão fundamental que se coloca hoje é o Finalmente. afinal. ticulado sobre identidade branca e amarela. num Nos países da América do Norte e do Sul. têm a garantia de seus direitos sociais entre os quais a nos permite dominação da razão instrumental que au. se não um mito. ras superiores e inferiores. judaica. construir e incrementar e municípios brasileiros onde os negros são minoria ou dos que dizem que não há racismo em suas escolas. mas também biológica já provou que raça não existe. de suas religiões e visões Recordo-me que quando a Lei 10. que são surdo falar ainda de raças. espanho- encontro de culturas e civilizações. colocam permanentemente. etc. alegando que se está tentando intro. a construção da democracia e do pleno exercício da buscar. gaúcha. E não melhor exemplo de um país que nasceu do encontro a partir das diferenças fenotípicas baseadas na cor da nossa cultura e nossa identidade são mestiças. das pessoas que da solidariedade e do respeito das diversidades que ga. no caso da população negra. quando a própria ciência ticulturalismo ou da diversidade na educação não está país onde quase não houve um discurso ideológico ar- não apenas países de velhas migrações. pois são paises que nasceram justamente do demonstrado que geneticamente não existem as raças genciar um assunto tão importante para a construção negros. identidades. cultural ou etnicorracial na escola brasileira. e onde estavam sendo levados e por que motivos. Apesar da inexistência das raças puras como cultura. os germes a versidade cultural dos países colonizados revela hoje dessas identidades de resistência serem ainda vítimas Freyre. Apesar dos progressos da ciência biológica (gené. identidade mestiças e não diversas. ideológica para justificar a “Missão Civilizadora” e a gregação racial de fato. mas também. todos sem exceção deram suas notáveis con. árabe. até da se. Sem dúvida devemos conde. Essas reivindicações geram problemas de mulgada pelo presidente da República.. o quadro é totalmente diferente dos países oci. não existe. Eles nem sabiam por onde e para público de suas identidades. processos começaram há cerca de 500 anos quando os rentes migratórias vindas dos países ditos do terceiro que. isto é. Todos devem se lembrar das a diversidade que constitui sua matéria prima e uma Quem somos. houve algumas sobretudo. sistema educacional brasileiro. que trazem desses países outras culturas. oriental. a saí. passaram por uma história semelhante à dos brasileiros dentais. O Brasil oferece o puras. mas sim a convivência tidade nacional e de nossas identidades étnicas. etc. seria problemático negar a raça enquanto nidade. cons. etc. a melhor educação não é somente a que dos. que a raça teria influenciado sua decisão para sair de seus respec- ciais para evitar as barricadas culturais e buscar o diá. Seria simplesmente equacionar a unidade com partir dos quais são construídos o preconceito racial que sua unidade de fachada era apenas uma armadilha de preconceitos e de discriminação racial. de sua cultura e de sua identidade plural. pois todos e amarela. pele e em outros elementos morfológicos entre negros. Mas apesar da 64 65 . a diversidade. das sileira que. etc. O que pode engendrar barricadas cultu. a história da presença dos africanos no atual Bra- convivência decorrentes dos preconceitos e dos meca. quase não são demograficamente representados. um país que nasceu da diversidade te porque os portadores da pele branca e amarela não greiro. Fala-se de identidade italiana. reconhecimento oficial e público dessas diversidades diversidade cultural e implantá-las no nosso sistema fenotípicas baseadas nas características morfológicas A Europa Ocidental que invadiu outros povos. provocados entre os povos africanos. uma educação cidadã baseada nos valores seja. segundo eles. Itália. propostas pedagógicas um Estado-Nação construída com base numa única tribuições na forma do povo brasileiro.639/2003 foi pro. apesar de serem juridicamente cidadãos livres. Esses turais está cada vez mais desmentida pelas novas cor. Porque o Brasil. rais e gerar conflitos capazes de prejudicar justamente nar todas as formas de intolerância. enquanto espécie humana. onde troem novas diásporas e reivindicam o reconhecimento educação é uma peça central. árabe. incluído o Brasil.

da feijoada. posicionou contra as políticas de ação afirmativa. uma memória plural e des. pois um povo sem memória é como ausentes ou invisíveis nesses postos e cargos. esse primeiro Contrariando todas as previsões escatológicas da. era difícil definir quem é negro ou afrodescendente por lata. racial devida à racialização de todos os aspectos da negro é prova de que não é impossível identifica-lo. as grandes universidades. cluir o doutorado em antropologia social nessa univer. mas sim prejudicar o princípio de excelência. sistema não comprovaram a catástrofe. não é ter direito às migalhas. Neste sentido. práticas racistas como os Estados Unidos e a África do segmentos não são devidamente representados como tistas na maioria das universidades que aderiram ao Não existem leis capazes de destruir os preconcei. sul. 1975 através do programa de cooperação com algumas sistema de cotas a partir da decisão de seus respectivos um por um pela própria prática e experiência das cotas Como somos vistos lá fora. alguns in. ou seja. Três anos depois. mente não nasceram com essas possibilidades. queles que pensam que essa política provocaria um no país desde o seu descobrimento. Geralmente são um índice de ingresso e de diplomados negros e indí. Mais do que isso. disseram que a política das cotas ia nunca ocupou uma posição de igualdade com as ou. Creio. Só este exemplo basta para da competitividade entre todos os brasileiros. baseando-se no princípio de nas universidades que as adotaram. especifi. o princípio do mérito baseado no darwinismo social judia. reprimidos durante a colonização. Xenofobia e Intolerân.639/03 visa justamente a cons. mas também em outros setores da vida nacional comprovam que apenas nesses últimos oito anos da ganhar. orientais. Não há distúrbios gêmeos da UnB que mereceriam uma atenção redobrada culturais orientais. Os dados de nosso conhecimento mostram que na manda a verdadeira democracia. fui o primeiro e o único desde que essa disciplina foi e linchamentos raciais em nenhum lugar. também. 66 67 . a discussão Racismo. A educação e a forma. rior podem em parte remover.639 promulgada pelo dos outros países que convivem ou conviveram com as lidade e de comando na vida nacional onde esses dois avaliações feitas sobre o desempenho dos alunos co- presidente da República 115 anos depois da abolição. Estamos aguardando a social e na cultura de nossa sociedade que todo repen. em 1980.. árabes. a África do Sul ção profissional. Discriminação Racial. A tinha mais negros com diplomas superior ou universi. Outros para escutar os pontos de vistas de diversos setores sobre os direitos sociais ou coletivos no sistema legal e cia Correlata. Quando genas no ensino superior jamais alcançado em todo aquinhoados financeiramente. autonomia acadêmica. que em nosso caso seriam e conservada através das memórias familiais e do sis. antes de tomar sua decisão. Dizia-se no início que do samba. a política de cotas busca a inclusão daqueles nível de excelência dessas universidades. Mas felizmente. a re. rar ou de acertar? Uma sociedade que quer mudar não se espera essa decisão. Processo esse enriquecido também ingressei na carreira docente na mesma instituição. eu ingressei no Programa de Pós-Graduação na Assembléia Estadual do Rio de Janeiro. vida nacional. dades estaduais do Rio de Janeiro (UERJ) e do Norte mudança possível sem erros e sem conflitos. eliminados chamada cultura de nacional e a identidade nacional. brancos e índios. Por em agosto/setembro de 2001. penso eu. encontram nalidade da política de cotas ou reserva de vagas nas O racismo é tão profundamente radicado no tecido afirmativa ou de reservas de vagas nas universidades barreiras que somente a educação e a formação supe. Surpreendente- tos que existem em nossas cabeças e provenientes dos véspera do fim do regime da apartheid. os melhores são aqueles que pos- não mestiça ou unitária. conselhos universitários. isto é. os símbolos da resistência cultural dos sidade em 1977. pelas contribuições no atual departamento de Antropologia Social onde anos mostra totalmente o contrário. pois a herança cultural africana no Brasil o segundo e o terceiro. mas não houve dúvidas sobre a Esta herança cultural africana constitui uma das fundada.! Isto é. brasileiro. da mu. postos de comando e responsabilidade. nem dos conflitos. mas medo de que? De er. não se trução de uma pedagogia multicultural e antirracista. Falsa dificuldade. as avaliações feitas até o momento segundo o qual na luta pela vida os melhores devem a memória coletiva do Brasil.. Pois bem. Daqui a dois anos estarei compulsoriamente não apareceu nenhum movimento de Ku Klux Klan identidade da maioria dos estudantes negro e mestiços matrizes fundamentais da chamada cultura nacional e me aposentando sem que houvesse a possibilidade de à brasileira. assim como para não se cometer erro. da sociedade. Uma memória a ser cultivada que exigem formação superior para ocupar cargos e experiência das políticas de ação afirmativa. que se o problema. numa mesma instituição é motivo de festa! Esse qua. Os outros que social- um povo sem história. mente após a III Conferência Mundial de Combate ao vertem a lógica da proposta e veem na política de cotas pública entre os dias 3 e 5 de março do ano passado ticos à prática do racismo. Alguns obstáculos propositalmente colocados sobre e seus descendentes que foram construídas as bases ação afirmativa no ensino superior e universitário? plementada por meio de uma lei aprovada em 2001 as chances de sucesso das políticas de cotas se fizeram econômicas do Brasil colonial. propostas pedagógicas tragédia. contrariamente ao binóculo acadêmico. técnica. estão sendo bem digeridas e compreendidas pelo povo Disseram também que a política das cotas violaria outras. os resultados do rendimento acadêmico desses sistemas culturais de todas as sociedades humanas. a experiência brasileira destes últimos tem evidentemente casos duvidosos. o estatuto da igualdade racial isso o espírito da Lei 10. públicas nacionais que se desencadearam principal. consequentemente uma guerra porque a própria existência da discriminação racial anti- o processo de construção da cultura e da identidade do próprio Brasil. não apenas nas universida. decisão de STJ que a respeito organizou uma audiência sar da cidadania precisa incorporar os desafios sistemá. no decorrer do tempo e do processo. Daí o sentido e a razão de ser das políticas de ação têm a ver com nosso racismo à brasileira. as heranças europeias. deveria por este motivo ocupar uma posição igual às um segundo docente negro nesse departamento. na África do Sul confessam que têm medo. gros e indígenas. universitária e intelectual de mente. como os dos alunos a partir do início do século XX. muito caro para tras no sistema de ensino nacional. Enquanto por extensão no sistema escolar é importantíssima. Nos últimos nove anos. pois não há promulgado pelo ex-presidente da República. racial” que precisa ser corrigido. do futebol. Encontrar três ou quatro juntos O que se busca pela política de cotas para os ne. causa da intensa miscigenação ou mestiçagem ocorrida negros. Se assim fosse não dro é considerado como gritante quando comparado ao ter acesso ao topo em todos os setores da responsabi. foi graças aos sacrifícios desses africanos Finalmente. Neste superiores em alguns casos. Nem tampouco baixou o para questionar os mitos de superioridade branca e de mostrar que algo está errado no país da “democracia sentido. etc. passaram a integrar camente da República Democrática do Congo e não racismo ao contrário. Fui o primeiro negro a con. essas heranças constituem sileiros afrodescendentes. realizada em Durban. por que implementar as políticas de Fluminense (UENF) onde a política de cotas foi im. houve suem armas mais eficazes. virem! Finalmente. brasileiros que por razões históricas e estruturas que Sobrou apenas uma acusação: a inconstitucio- cista na qual foram socializados. inferioridade negra neles introjetados pela cultura ra. principalmente japonesas. Infelizmente. Por mera coincidência. Felizmente sistência que por sua vez contribuiu para modelar a em Ciências Sociais da Universidade de São Paulo em universidades públicas federais e estaduais adotaram foram. boa qualidade representam a única chave e a garantia alunos foram iguais e até mesmo excepcionalmente educação ofereceria uma possibilidade aos indivíduos tário que o Brasil de hoje. do carnaval. a possibilidade de uma fratura da sociedade. universidades que as adotaram. salvo prova em contrário. as teria nenhum sentido a Lei 10. etc. alunos oriundos dos colégios particulares mais bem tema educacional. indígenas. a começar pelas universi. Mais do que isso. Juntas. É justamente aqui que se coloca se tem um é sempre o primeiro e o único e raramente o século passado. dezenas de entender desde o início do processo em 2002. prova de que as mudanças em processo que ingressaram na universidade através das cotas. deve ter medo de mudar. mesmos aqueles que foram negro era oriundo do continente africano. que esta é a história dos bra. Bem. no mundo ocidental? País universidades africanas. Exis- plural brasileira.

consequentemente.639/03.21) participantes. etc. na dança. Mesmo com a aculturação A elaboração deste artigo busca analisar como. devi. já é possível apontar que a ordem capitalista de quem descendem os brasileiros de hoje. ram e preservaram as tradições e costumes. -PR. permanência e festa mesmo diante da repressão e da negação que sofre de vida muito precárias. questão etnicorracial. na arte visual.639/03 – norma que surgiu sa história. Curitiba: SEED. tão grande era o tráfico negreiro.word: didactic book. 2006: p. dos negros africanos na língua portuguesa do Brasil.14) Doutora em Antropologia da Uel Elena Palavras chave: livro didático.639/03: CULTURA AFRO-BRASILEIRA NO LIVRO DIDÁTICO RESUMO Pretendo neste artigo analisar o Livro Didático da disciplina de ABSTRACT I intend in this article to analyze the didactic book of disciplines of Sociologia utilizado pelas escolas estaduais no 2º Grau.propostas pedagógicas O ENSINO DE SOCIOLOGIA E A LEI 10.20) para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o dentro das cidades. de valorização do patri. [. etc”. os africanos introduziram um vo- uma profissão. frente. no livro DA QUESTÃO imposta por parte dos colonizadores portugueses. ensino de Key . no mo- Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva. para a educação dos negros. Maria Andrei. No entanto.639/03. de branco e ignorar a cultura africana. na dança. a população negra No plano demográfico. após canos na língua portuguesa do Brasil. os africanos ajudaram no po- mônio histórico-cultural afro-brasileiro. que foi Sociology. Analisarei in what it says respect to the black population.. Entretanto. estas pessoas não tiveram a possi. 2006. (Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações versidade Estadual de Londrina. 2006: p. da humanização) do país e nos deixaram um legado que cabulário desconhecido no português original e que faz 69 . de aquisição foi desvalorizada e marginalizada. law 10639/03. que é presente na sociedade brasileira. pois. Uma mão de obra escravizada – sem remuneração–. forme demanda da Lei 10. e se mani. apesar No plano cultural. (MUNANGA. no pare.21) e cultural da população negra no nosso país. used for the schools in 2º Degree and that the order of elaborado por vários autores a pedido do Governo do Estado the Government of the State of the Paraná was elaborated by some Para reeducar as relações étnico-raciais. 2006: p. Após a Abolição. (MUNAN- cer em defesa das Diretrizes Curriculares Nacionais e pelo impedimento do progresso. no campo da religiosidade. algodão. Elas devem oferecer a do ao tempo da escravização dos africanos. 20) sucesso na educação escolar. Cultura e História Africanas e Afro-Brasileiras. reconhecimento e socialmente. vista a conclusão de cada um dos níveis de ensino. trabalhos da Comissão que estabeleceu os parâmetros brasileira. Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira artigo foi orientada pela Pro­f essora e Africana. que as políticas de reparações. arquitetura. no que diz respeito à população negra. na discuta as relações etnicorraciais e a presença histórica perdida e à margem da sociedade. no campo da negro no Brasil. estão sendo trabalhados os conteúdos sobre A economia brasileira do período colonial (1500 . valorização fazem parte das ações afirmativas voltadas A cultura negra possui raízes fortes no Brasil. 2005. E então decidir que sociedade queremos construir daqui para Formada em Ciências Sociais e Pós Gra­­ também como estão sendo trabalhados os conteúdos sobre a are being worked the contents on the Culture and African History du­­­a­da em Ensino de Sociologia na Uni. relatora dos vimento de definição do negro inserido na realidade “As contribuições dos africanos trazidos para o Brasil. na arquitetura. fornecendo a mão de obra necessária às na. I will analyze as they a outros. sociologia. foi possível eliminar os elementos da cultura africana. 2006: p. con. contribuiu para a cultura nacional brasileira.. Neste da Lei 10. 2006: p. Analisarei como são apresentados e discutidos no authors. somando INTRODUÇÃO CONTEXTO uma maneira de ser e de viver às estruturas fundamen- tais da identidade do povo. demográfica e cultural. ethnic-racial question. das competências e dos conhecimentos tidos como tentou importar a cultura europeia. na música.]. O antropólogo a Cultura e História Africanas e Afro-Brasileiras. os negros serviram como força Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africa. na bem como para atuar como cidadãos responsáveis e Os escravizados e seus descendentes contribuíram música. destacam-se notáveis contribuições condições para alcançar todos os requisitos tendo em da estrutura de dominação. (MUNANGA. education the sociology. tratada de maneira desumana e submetidas a condições essa população garantias de ingresso. os afro-brasileiros resisti. bilidade de progredir e. de emergir de trabalho. p. inventar um Brasil (MUNANGA.639/03 escreve. lei 10639/03. café e à mineração. lavouras de cana de açúcar. Kabenguele Munanga afirma que: “No plano cultural. mesmo estando GA. Milhões de africanos e seus descendentes destacam-se notáveis contribuições dos negros afri- da demanda da comunidade e da luta do movimento influenciaram a sociedade brasileira. pois a elite brasileira voamento do Brasil. Florestan Fernandes (1978) nos diz que. I will analyze as two axles are presented and argued in the emergir as dores e medos que têm sido gerados. é necessário fazer CRISÂNGELA do Paraná. esta grande população de africanos ficou religiosidade. conforme demanda and Afro-Brazilian. moderna marcou a população negra pela pauperização ordens: econômica. É preciso entender que BIASSI DE ALMEIDA livro o capítulo “A Escola Enquanto Instituição” e a questão book: “the school while institution” and the ethnic-racial question. o sucesso de uns tem o preço da marginalidade e da desigualdade impostas etnicorracial. 20) indispensáveis para continuidade nos estudos. não didático Sociologia: Vários Autores. 1889) era escravagista e ocupou a maior parte da nos. no Brasil. as demand of Law 10. na arte visual. além de desempenhar com qualificação para a produção cultural (que é simplesmente a marca No plano da língua. em busca de uma educação crítica que a abolição. constantemente. são de três de funcionamento da Lei 10. (MUNANGA. No plano econômico.

a disciplina e o bom rendimento: entre os índios. São prazeroso para todos. 72). O filósofo e matemático René Descartes (França. Destaco a importância desses materiais. deve-se dar bastante espaço para debates. O livro didático de sociologia analisado neste arti. porém como esse processo não é pobre do país? Para explicar que o papel da Sociologia dades. não pode ser considerado como elemen- A ESCOLA ENQUANTO as pessoas mais velhas eram especialmente valoriza- população negra e o relacione com as práticas educati. 69) Na música e dança. o valor da ação acredito poder contribuir para a discussão de uma edu. bem como de sua qualidade. professores da rede que precisa ser ampliado. as escolas que possuem la. parte do patrimônio religioso brasileiro. Em relação ao surgimento da escola no Ocidente. princípios do liberalismo. respeite e observe o repertório cultural da Portanto. iguais. conhecimento social. o enriquecimento. “O livro didático acaba sendo o livro”. uma vez que há falta de alterna. eles deixaram suas marcas nas figas de madei. maculele. classe social ras.representantes de uma teo- ser os únicos acessíveis aos jovens nas escolas públicas. 23) e urgência. os livros didáticos devem ser de produção – o capitalismo. O contato entre as culturas dos é perguntado: Por que há poucos negros nas univer. tes. por isso os chamadas questões disciplinares”.enfim. direcionado ao ensino Em primeiro lugar. processo de construção. maracatu. das Diretrizes Curriculares da disciplina. mente têm oportunidade de acessar um livro na esco. eles introduziram os congados. nessas socie- ções e interlocuções.o livro discute o dático. a liberdade. propostas pedagógicas parte do falar brasileiro. a ceitos até os dias atuais. coco. escravocrata. mas que. além ou uma nova ideologia para o capitalismo que se deno- 2006: p.. porque podemos nos sentar igualmente nas car. nos instrumentos musicais do 2º. são explicados os do-se o samba. como introdução ao tema e dão um encaminhamento XVII) e a francesa (séc. a conhecidos e que constitui uma das facetas da identida. nos.. A burguesia. um recurso. escolar. a construção de material orientam e determinam as finalidades do livro didático. ao lado de tantos outros disponíveis. Pierre Bourdieu bre o assunto nas bibliotecas. umbanda e macumba. a herança cultural e os saberes necessários para percebido de forma crítica pela sociedade. ria segundo a qual no interior de uma sociedade de Vem daí a importância fundamental do livro di. No que diz respeito à religiosidade.”(VÁRIOS AUTORES.21) publicações científicas dirigidas ao público em idade acima. Certamente muitos outros temas e O livro Sociologia foi produzido por vários autores. professores e alunos nas escolas. introdução do Conteúdo Estruturante: Instituições So. destacan. no que diz especificamente Mas. Decorre dessa realidade a importância desses Uma vez que são raras as escolas que possuem uma o livro responde assim: ram ao Brasil algumas de suas religiões populares. ou mesmo serem desenvolvidos pelos grau e irei analisar como dois eixos são apresentados tífica”. que cumprem seu papel “As revoluções burguesas.podem não ser tão naturais assim. que valoriza a normatizada pelo Estado brasileiro. 22) “Os conteúdos desenvolvidos foram escolhidos a partir disso. assim como na nossa. o livro mecanismos de transformação da sociedade e. vão encerrar definiti- 2006: p. . educação é elemento fundamental de socialização e de negros e dos portugueses se deu por meio de apropria. ram discutidas em simpósios e encontros envolvendo dimentos pedagógicos. Na história do contato entre os europeus e africa. construção sócio-histórica formada por intenções. o berimbau. E chega à conclusão de que “é cação que seja geradora de cidadania. dos anos vividos”. a escravização gerou um processo de invisibilidade 2006: p. (MUNANGA. Grau. as análises sobre os livros didáticos podem nos levar ciais falando sobre a instituição escolar. “Essa instituição ensina-nos novos padrões de compor. pois para mui. Por meio deste artigo. dando Acredito que a educação é um dos principais bem como a perspectiva do ensino de Sociologia devem os suicídios . bumba-meu-boi. 2006: p. é preciso considerar que uma “educação de respeito humano. conse. informal”. das populações quilombolas ou das comunidades- recursos didáticos adequados. os africanos lega. e o valor do exemplo. fala que são três importantes valores que perpassam a quentemente das mentalidades. respeito à população negra. a dinâmica e a organização social sempre como exemplo. (MUNANGA. grande respeito entre todos os membros do grupo. Visualizar as diferenças e articular prá. 2006: p. vamente o feudalismo e inaugurar um novo modo de Na arte. há escassez de mesmos devem ser de boa qualidade. (MUNANGA. irá conceber uma nova doutrina social como os tambores. Assim. conteúdos poderiam estar presentes. estar voltados à ruptura com a ordem existente. pois em questão. ternativas aos livros didáticos. não existe apenas Algumas ações são essenciais na construção de a compreender a produção desses materiais.11) e a questão étnico-racial. que são: o individualismo. devem também ser considerados como em ascensão. que não tem a forma da educação a igualdade.(VÁRIOS AUTORES. na escola começa as reações contrárias à ordem. deve-se considerar a falta de al- como o candomblé. as sociedades tribais. como a miséria. pedagógico eficiente. pois ele muitas vezes é utilizado como principal também não deve ser esquecida. expositivas. -terreiro afro-brasileiras. Pois esses recursos podem contextualização dos diversos textos participantes desse classe social e tenta nos fazer acreditar que somos todos e Jean-Claude Passeron . e discutidos neste livro: a escola enquanto instituição 1596 – 1650) é considerado o fundador desta doutrina. os crimes. to inocente e neutro de transmissão desinteressada do INSTITUIÇÃO das pelas experiências e saberes acumulados ao longo vas existentes. ou reforça aqueles que já trazemos de nossa Citando os sociólogos franceses. São raras. (VÁRIOS AUTORES. o estudo ordem. mas caracteriza também a educação uma educação para a diversidade: a disponibilização de dos elementos implícitos e explícitos que caracterizam. por sua relevância a pedido do governo estadual do Paraná. a igualdade e a democracia. resultado concreto de disputas sociais Os autores do livro didático de Sociologia iniciam a No entanto. e as sociedades sem escolas? Explica-se no e negativização da cultura negra. aulas minará liberalismo”.. (MUNANGA. nos objetos de ferro. a cuíca. estadual do Estado do Paraná. Como afirmei 2006: p. atenda e respeite lidades e decisões provenientes de diferentes indivíduos possível perceber que nessas sociedades existia um as diversidades e peculiaridades da população brasileira e contextos. os quais poderá ser contemplado em tra. Depois de dados estes contextos. como são identificadas pelos autores) possuem um uma biblioteca adequada. para haver igualdade é necessário mais do que um lugar porquê da escola não ser um lugar de pertencimento recurso pedagógico. meio da educação informal. principalmente a inglesa (séc. visto que muitos so. biblioteca adequada. (VÁRIOS AUTORES. Mas tão logo os alunos percebem que classes existem diferenças culturais . [. isto é. Diz que as elites (ou dominan- tivas.]. para ser um propriedade. o aumento do acervo de livros so. Além disso. 2006: p. por exemplo. e: boa qualidade. sidades brasileiras? Por que os negros são a maioria manutenção do próprio grupo. o racismo e a O LIVRO DIDÁTICO como disciplina é justamente nos ajudar nesse sentido: a sobrevivência e a convivência são transmitidos por discriminação se tornaram a maior herança do sistema a percebermos que fatos considerados naturais na so. entre outros proce- jongo. 2006: p. Florestan (1978) destaca que o trabalho dos sociólogos ciedade. mas uma maneira de promover relacionadas com decisões e ações curriculares. e de cultural brasileira”. inculcando precon. que fazem tos alunos o livro didático acaba sendo o livro. A realidade histórica dos estudantes brasileiros teiras escolares. as quais fo. ticas pedagógicas inclusivas não somente é uma forma ções culturais.64) determinado patrimônio cultural e as classes traba- 70 71 . um dos gêneros musicais populares mais professores da área. consulta aos clássicos. Continuando sobre a educação informal. Vejo que já na introdução livro que nessas sociedades.. O livro didático precisa ser entendido como uma educação dos tupinambás: a tradição. tais materiais.22) go foi produzido por vários autores. esclarecendo como acontecem as apropriações e a re. rea. Os livros didáticos são produ. XVIII). material didático próprio para o ensino no segundo é apontado o surgimento da chamada “revolução cien- balhos futuros. tamento.

linguagem. 2005: 16) Por onde passou. levando também à hierar- los autores) possuem outras características culturais educação no Brasil é obrigatória. não exemplo. 04) A religião . racismo. a aprendizagem sobre grupos humanos. ao reconhecimento da condição. Mas ao mesmo tempo em que é um direito. da libertação. raça pode ter uma conotação própria do campo das escolar do que para aqueles que têm que desaprender mos entender por que todos procuram uma instituição “Ser bandido. de educador comprometido com as classes oprimidas. são muitos: são.“a religião é uma obra humana através te branca. ou seja. “A escola é uma instituição dade em que vive. são um direito garantido pela Constituição conscientização. pode. como por essas pessoas foram tratadas como mercadorias. a linhagem histórica resgatando as civilizações desde o negativas. críticos e em condições de lutar pela Já para Kabenguele Munanga: ou modelos de cultura. suas gratuitas. É por isso que. várias religiões são sucinta- muita luta de professores. Ela pertence a todos. é colo- formação da riqueza econômica e social e da identi.valores.não ter voz na entanto. Significa não ter ouvidas suas insatisfações e grupo étnico ou sociedade. enfim. antes der mais nada. essa memória não ção. igno. sua própria “cara”. Estes defendem estímulos e refor. inserir-se nele e ainda para de lá saírem melhor do que quando entraram. sem atribuir qualidades positivas ou livros e materiais didáticos e às relações preconceitu. competi. 22 e 24 do Estatuto da internamente para a luta pela transformação da socie. e como a escola ignora estas diferenças a obrigação de oferecer escola e os pais ou responsáveis educação conscientizadora proposta por Paulo Freire negro nessa citação?) sócio-culturais. 77) escola tem papel fundamental na construção de sujei. Paulo Freire deixou sua marca meu foco será principalmente a religião. religião. individualismo). existem os educadores progressistas. apenas tocarei de leve nesta questão pois. a religião pode ser um formidável cos que. apud FILORAMI&PRANDI. valores. como são identificadas pe. Continente Africano. ser abusado. ir para uma ceito utilizado para definir classes de animais que tem falar. características fisiológicas e biológicas comuns. em sua teoria têm o dever de matricular e manter seus filhos menores tem. a escola representa uma Criança e do Adolescente). quotidianamente é fruto de todos os segmentos étni. e resultado de significa estar subjugado economicamente. preconceito e discriminação do alunado negro. aprender novos padrões Mas como a escola possui uma dinâmica interna tos autônomos. No livro. Seus valores e saberes são desprezados. 175) branco. sob pena de serem punidos até mesmo com mente o educando de sua posição social e mobilizá-lo maior número de negros e afrodescendentes depois do classes dominantes. extremo pode chegar ao fanatismo. seria o exemplo do Ao analisar o livro didático podemos perceber que a instrumento de dominação. consigo também seus cultos. ou pior. pois ao receber uma educação envenenada sentido de uma ruptura com os valores criados e refor. mas que como O livro diz que as escolas públicas. regida por normas estabelecidas por grupos externos Por isso. huma. principalmen. 2006 : p. conhecimentos e preparo para prosseguir os estudos zer alguma coisa para tentar mudar esse quadro – mas (MUNANGA . 72 73 . somado aos locais e rituais sa- tendo em vista que a cultura da qual nos alimentamos vida uma experiência diária de solidariedade e. o uso do termo raça acaba classificando um tamente sobre as de origem africana. 2006: p. seria preciso fa. ser espancado. cheirar cola. racismo aparece muitas vezes camuflado e estabelece ruptura. de social. cado que os povos africanos escravizados trouxeram dade nacional”. com características e po- ser bem-sucedido. educação tem a ver com em alguns trechos no decorrer dos capítulos.. defendo que a uma grande distância para os negros efetivarem sua rados. a maioria. ancestrais e identidades próprias de cada um deles. da apenas para o desempenho e/ou a meritocracia é a (como realmente é). a tarefa de conscientizar critica. Nacional. projetar uma nova ordem social. Conhe. ao mesmo tempo. e estes jovens necessitam quase que reiniciar a esta”. ou seja. apesar das condições desiguais nas quais se cido no mundo todo. sujeitos da lei e ser usado nas escolas para possibilitar a construção de relacionado ao reconhecimento da diferença entre sidade. as manifestações e os valores culturais das na escola. O Projeto de cons. estudantes. Ser oprimido. ços de valores que podem contribuir para se fazer da o pensamento religioso. (VÁRIOS AUTORES. ou quaisquer outros que sejam “diferentes” da “cara” nos entre humanos. çados pela sociedade capitalista (submissão.(VÁRIOS AUTORES. eles também tiveram suas estrutu. às vezes. ciências naturais. Paulo Freire. No livro Sociologia. são da sociedade entre senhores e escravos – podemos Antigo Egito. e que no desenvolvem. os autores afirmam que aqui o lhos da classe trabalhadora. No mente abordadas pelos autores. de intolerância. ou o que pesquisadores da sociedade. o Estado tem propostas e não se considerar sujeito de sua história. Esse -raciais. 140) (Cadê o diferentes. mas falarei mais aten- aqueles que se importam com a justiça e com a igualda. mundos”. contribuíram cada um de seu modo na educador progressista. incapacidade em lidar profissionalmente com a diver. neste capítulo. enxergar o mundo. tencialidades físicas especificas relativas a cada raça. que incluem pertence somente aos negros. cada qual diverso um do outro. foi pensado para que a criança e o história da população negra no Brasil e a complexa re- ciente de repetência e evasão escolar altamente elevado exclusão de todos aqueles que não estão inseridos no jovem negro se enxergassem como seres incluídos na lação entre raça. Ao dizer que o Brasil é conhecido como o país com e prática. das origens osas entre alunos de diferentes ascendências étnico. turais .se caracte- ras psíquicas afetadas. “Dependendo da maneira como é utilizado. trata-se de um con- uma cultura para aprender um novo jeito de pensar. – e esta divisão era a base e a consequência da divi. indígenas História de seu próprio povo. O que explica o coefi. talvez. 2006: p. 2006:p. a presença do negro é notada enfim sistemas religiosos estruturados. da qual é construído um cosmo sagrado” (BERGER pelos preconceitos. reconhecidos como seres humanos. pela divisão cruel entre os que eram trução de um Material Didático Alternativo que possa mão do conceito. Além disso. sociais e outras. dando-lhe um outro significado. comparativamente ao do alunado sistema. (MUNANGA. uma conquista da sociedade. Interessa também aos No entanto. O NEGRO NO LIVRO DIDÁTICO grados formarão um sistema religioso. pregado. (MUNANGA.. plena participação na vida social. pobres. E estes são sempre negros. para os jovens fi. a sociedade. somando-se ao conteúdo preconceituoso dos produtores de cultura e os que não eram nada disto uma identidade negra positiva. proibidas. em melhores condições de enfrentar a vida. A quização”. igual e capaz de ser protagonista. 1999: p. 174. quando os autores conceituam raça: “Raça crenças também foram desprezadas. frio e origem em tronco comum. seus rituais. ou uma religião.267) . ser desem. a perda da guarda destes. riza pelos conjuntos de símbolos sagrados. desestimulam o aluno negro entrever que o resultado de uma cultura escolar volta. que defendem propostas educacionais que apontam no 2007: p. etc . coletivamente.(Art. mas tória da comunidade negra não interessa apenas aos normal da escola. racial”. ter fome. Numa sociedade marcada. (. seleciona e privilegia. representante de uma pedagogia abordagem dada ao negro é falha e fraca e por isso. Nesse campo. a visibilidade da cultura de matriz afri. No entanto.(MATERIAL DIDÁTICO ALTERNATIVO. herói e construtor de Ao focar nos trechos do livro didático onde é abor- alunos de ascendência negra. na visão de Freire. 175) “Não precisamos ser profetas para compreender que ou buscar uma profissão. com mais medo.) O resgate da memória coletiva e da his. Ainda que fossem uns poucos. universais e Para ele. empunhar uma arma assassina. que tenha uma proposta semelhante à que defendem. sua inserção cultural. Vejo que. pais e de todos palmente não ser respeitado em suas manifestações cul. propostas pedagógicas lhadoras (ou dominadas. que diz respeito à e prejudicam seu aprendizado. significa dizer que há grupos de pessoas que possuem Dentro do capítulo. mas princi. cana como parte da herança comum da humanidade uso tem um sentido social e político. ou prisão-educandário. dentro dessa lógica. dada a diversidade religiosa no Brasil percebemos que: alunos de outras ascendências étnicas. é que lhe permite criar seu próprio sistema de normas e superação das desigualdades e pela transformação da evidente que para os estudantes filhos das classes do. na esteira de Paulo Freire. povo entre povos. o conceito minantes torna-se bem mais fácil alcançar o sucesso educação denominam hoje de “cultura escolar”. Já os movimentos negros e vários estudiosos lançam o preconceito incutido na cabeça do professor e sua historicamente. suas crenças.

Ca- nas escolas. o mate- é originário da África e chegou ao Brasil junto com tada por pessoas de todas as classes sociais e todas as retrizes curriculares específicas. 74 75 . sileira.). Estadual de Londrina (UEL). que estabeleceu a obrigatoriedade do ensino étnico. Kabenguele. nos negro no Brasil de hoje. GOMES. MUNANGA. acompanhadas de cantos e sons de atabaques.]”. Florianópolis. 180) .639/03 sertação (Mestrado em Educação) . Alfabetização e Diversidade. São Paulo: Global. ed. também.. e de crenças europeias. resultado da fusão de duas religiões africanas: sido explorados no processo de escravização e que não a cabula e o candomblé. [. dando a tura com diferentes expressões e formas de se relacionar revela a existência. O santos católicos. nossos ancestrais africanos enriqueceram a nossa cul. dife. tadas pelo Estado ou com o seu apoio indireto. os vários povos europeus. é preciso ter um cuidado extra e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. buscando o respeito às populações negras. "As reflexões de Joaquim cações que acabam. de muitos países e que. ou sua cultura são os melhores. os povos de língua bantu chamavam suas sileiras se formaram na fusão de diferentes elementos formista sobre as atitudes preconceituosas. que deveriam ser se. Maria José de. Seus deuses são chamados de Orixás e repre. é suficiente. discernir. a fim de respeitar os processos históricos de resistência negra nais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e Existem alguns equívocos nesta abordagem. A discriminação racial pode ser con. -racial. (MU. A umbanda aparece no livro como uma religião bra- CONSIDERAÇÕES FINAIS menosprezados pelo fato de seus antepassados terem 2006. mas de forma superficial e etnocêntrica. (MUNANGA.Universidade e XVII. Nilma Lino. nas Diretrizes Curriculares Na. mas sim uma deração.]” (MUNANGA. com o que está além do que siderada como prática de racismo e de efetivação do compreender a situação do negro no Brasil no final costumamos considerar como mundo racional”. Os autores possuem um discurso simplista e con. 1-2. A umbanda se Os autores não abordam a temática da história e Os autores do livro didático escrevem que o candomblé propagou por todas as regiões do Brasil. no interior da cultura.. Londrina: Idealiza sua descendência africana. 181) BIBLIOGRAFIA a pomba-gira. v. A característica vezes ocultam a ideologia que persiste ainda hoje em 1978. Esta informação é importante para politeísta do culto católico possibilitou a construção nossa sociedade. não possui uma teologia desenvolvida. os mais corretos e isso lhe O CANDOMBLÉ médiuns. Como básico para a conservação da memória. 356p. 2007. na escola.. tos de elos com o Criador. tanto na presença de personagens ne. derno Uniafro. 2006: p. ainda hoje. DF. de um sistema social vo. é uma simples magia. entre os séculos XVI origens étnicas. 2006 – processo de diálogo entre teologias. Kabenguele (org. Superando o Racismo res. o preto velho e outros. étnico racial. cultura e história. A Integração do Negro na So- povos Ioruba. 2005 – 204p. (Coleção Para Entender). PROGRAMA DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA candomblé dão proteção às pessoas. Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos. [. e é frequen. religiosas devem ser compreendidas como formas A palavra discriminar significa distinguir. da cultura e cionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais esta forma de religião foi proibida no Brasil. da identidade negras.. que entram em comunica. São Paulo: Ática. COAN . desencadeada pelos africanos escravizados no Brasil para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira candomblé não é originário da África. de relações entre os santos e os deuses cultuados pe. A Sociologia no ensino médio. cultura afro-brasileiras como são defendidas pelas di. FERNANDES. A percepção do preconceito racial em nosso país Superior/ SETI – PR. um mecanismo de defesa e que Tanto a religiosidade negra como outras expressões gualdades raciais dentro da sociedade. Estas práticas racistas manifestam-se. 2005. Defendo. Diretrizes Curriculares Nacio- que se conhece como sincretismo religioso.PR.. desde as formas individuais e Africana. 2. étnicas e deixar claro que os africanos vinham de vários luga. os Orixás são as divindades apenas dos Segundo Munanga (2006). ter certo cuidado com o fenômeno do “sincretismo” que simplesmente julgá-las a partir de nossa verdade etno. Marival. mas não deter. sócio-antropológica de suas características. apesar de uma identidade los africanos. Centro de Ciências da sentam as principais nações africanas de língua ioru. tanto passíveis de serem mal interpretadas. ritos e mitos que leiras. 2006: p. São estas colo. Florestan. Cultura NANGA. REZENDE. da discriminação racial e do gros com imagens deturpadas e estereotipadas quanto Os autores prosseguem dizendo que os deuses do racismo”. implica práticas discriminatórias sistemáticas fomen- tende a ser reduzido a uma simples associação com os cêntrica. que muitas ciedade de Classes. 2006: p. – 266 p. desmistificando os preconceitos que incidem e por seus descendentes.139/140) ensino de história e cultura afro-brasileiras e africanas afro-brasileira: construindo novas histórias . culturais são o motivo do não desenvolvimento e pro. “É preciso tomar cuidado com julgamentos. as religiões afro-bra. se construiu ao longo de séculos. que o livro didático gresso da nação. Tecnologia e Ensino cometam algo considerado incorreto pela sociedade. 2006. criando o quando buscamos fazer uma descrição e uma análise e Africana nos diz que é preciso valorizar. Isto im. Dis- os primeiros escravos africanos. (MUNANGA. por construídas. E também é preciso não-cristãs. E é isso que devemos mudar através do do século XIX e no início do século XX". para que possamos compreendê-las e não “A forma institucional do racismo.. No Brasil os taria de Estado da Ciência. portanto. p. divindades de Inquices e os povos Jêje as nomeavam culturais africanos com o catolicismo. guidas pelos livros depois da aprovação da lei 10. eram tão diversos entre si quanto são. sobre esses cultos. até as coletivas.].. Gráfica e Editora. como Voduns. Federal de Santa Catarina. mos que a religiosidade de matriz africana foi o recurso Petronilha (2005)..38-51. CONSE- tos associaram seus deuses a santos católicos. Material Didático Alternati- Esta frase pode ser muito mal compreendida. Os guias assumem formas como o caboclo. rial didático e a categoria trabalho. [. MUNANGA. exemplo. rençar. estudar questões relacionadas com a temática negra. o campo do preconceito. propostas pedagógicas des espirituais – os guias. seus adep. [. v. Como sabe. segundo autores. O conduzir o aluno a uma atitude de respeito e consi. Secretaria de Educação Continuada. de estabelecimen. Programa de Pós-Graduação em Edu- bá. 3.] racista que possui mecanismos para produzir as desi. preconceito. divulgar e LHO PLENO-DF. 2º edição revisada. Sociologia. Aqui também as explicações são mínimas e por. construção ocorrida no Brasil a partir de múltiplas ra.UNIVERSIDADE SEM FRONTEIRAS.. de que as diferenças raciais. apesar das “boas intenções”. Universidade impressão ao professor e ao aluno de que o Candomblé com o mundo mágico e sobrenatural. “O etnocêntrico acredita que os seus valores e a ção com as pessoas por intermédio dos iniciados. Curitiba: SEED . cação. A UMBANDA plica criar condições para que os estudantes negros não sejam rejeitados em virtude da cor da sua pele ou VÁRIOS AUTORES. Suas cerimônias são realizadas em língua africana. 2006: p.143) na ausência da história do povo negro no Brasil. Nabuco e as de Manoel Bomfim: Elementos para legitimar os preconceitos e as avaliações pejorativas. 2007. por tenha mais informações sobre as práticas religiosas da Educação. ízes africanas. Educação. Brasília. quando na verdade foi um complexo principalmente quando falamos em religiões afro-brasi. Brasília: Ministério continental. Secre- minam como elas devem agir e não as castigam caso “A religiosidade negra é rica e variada. O Podemos perceber que o livro didático aborda a questão sejam desencorajados de prosseguir nos estudos e de universo para os umbandistas é habitado por entida. Tais julgamentos podem facilmente deslizar para livros didáticos.

econômica e política pertinentes à História Embora os autores divirjam. Exemplo pode ser dado com a Art. Literatura Brasileira também pela UEL. a publicação Bandeira. ros. como por exemplo. acredita-se que o de. No entanto. que estabeleceu a obrigatorie. COCHAR.394. Encontramos em ou- do Brasil. ou seja. 50) enfatiza que de língua portuguesa. não somente textos literá- o currículo escolar. de detalhes que os autores africanos oferecem com a lizam que “o interesse do público e de estudantes bra. Mia nos versos de Antonio Jacinto. e em tras linguagens. Literatura cabo-verdiana. deve ser inserido somente a partir de uma perspectiva sino das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa histórica? INTRODUÇÃO em sala de aula. que. teatro) o material que pode auxiliar na leitura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo é possível (e viável) inserir as literaturas africanas de do texto literário. cação Nacional (LDB) foram acrescidos os seguintes africana. sileiros pelas literaturas africanas de língua portuguesa linguagem de Mia Couto que. Alencar. na de outras artes (pintura. como dispõe a Lei Federal 10639 valore el proceso de estúdio y de inserción en sala de clase de las Formada em Letras pela Universidade de janeiro de 2003. ou ainda. suscitar uma discussão que valorize lidades de enfoque de las literaturas africanas de lengua portuguesa Bergamini o processo de estudo e de inserção em sala de aula das literaturas em sala de clase. de aula do país.639. linguagem e temática. 151) enfatiza ainda que ela leva “à descoberta do ca- áreas social. de 20 de ensino. assim. e portuguesa? E ainda: o estudo das literaturas africanas cultural do aluno no que se refere à cultura africana. os motivos para o aumento desse interesse se lha a Guimarães Rosa. 26-A. No entanto. 79-A mente feito a aproximação dos textos do moçambicano e 79-B: lei federal 10. a través de la lectura y poemas de autores angolanos e cabo-verdianos. Luandino” (CEREJA. a luta dos negros no Brasil. o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. por sua vez. § 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura especial aos de Literatura. iniciar a abor- aula.”. é preciso atentar-se para a riqueza artigos. por meio da leitura e análise de RESUMEN Este estudo tiene por objetivo presentar. Letras da UEL e professora de Literatura Literatura brasileira. plantear una discusión que africanas de Língua Portuguesa. a cultura ao Brasil. justificam por conta da sileira. A questão é: de que modo cinema. é possível destacar a presença da e médio. pode ser definitiva. dagem a partir de um viés histórico. dezembro de 1996. há rios podem ser abordados. literaturas africanas de lengua portuguesa. UNIFIL e de Literatura Brasileira do Ensi- no Médio do Colégio Londrinense. Art. como dispone la Ley Estadual de Londrina e especialista em Federal 10639 de enero de 2003.639. 8 anos A resposta para tais questionamentos ainda não depois da publicação da Lei. muito tempo. 9) sina. de 9 de janeiro de 2003. verifica-se que muitos caminhos tório o ensino de história e cultura africanas em sala de “em meio a tantos problemas relacionados à prática de podem ser seguidos. Pretende-se. 2009. resgatando a contribuição do povo negro nas p. poeta angolano. torna-se obrigatório o escolas públicas e privadas de todos os Estados brasilei. de 20 de dezembro de 1996. El objetivo es. cuja Martins – poeta cabo-verdiano ¬– com as de Manuel § 1o O conteúdo programático a que se refere o caput vigência no Brasil teve no início em 2009. Infanto-juvenil do curso de Pedagogia da Literatura brasileña. 9). p. ao se considerar que há re- canas Lusófonas ainda não são uma realidade nas salas sistência para o efetivo ensino das literaturas africanas A Lei n° 10. ensino de Literatura. conforme se lê abaixo: Por outro lado. Literatura cabo-verdiana. é que as Literaturas Afri. negra brasileira e o negro na formação da sociedade Couto. 26-A. 1o A Lei no 9. como Pepetela. De acordo linguística. a crítica literária tem constante- passa a vigorar acrescida dos seguintes arts. com os do escritor mineiro. o que se observa. as marcas da influência de José de deste artigo incluirá o estudo da História da África e de várias obras de autores africanos. esculturas. possibilidades de análisis de poemas de poetas de Angola (Viriato da Cruz y Antonio abordagem das literaturas africanas de língua portuguesa em sala Jacinto) y de Cabo Verde (Jorge Barbosa y Ovídio Martins). ou seja. pues. de 2003. rica em neologismos. nar ao educando” o conhecimento da riqueza cultural oferece valiosas possibilidades. p. 26 em eles. 26-A Nos estabelecimentos de ensino fundamental dade do ensino de cultura africana e afro-brasileira nas Além desse autor. Como se nota. Cavalcante (2003. Nesse aspecto. a proposta visava à inserção do en. dos Africanos. à Lei de Diretrizes e Bases da Edu. safio está posto aos professores de um modo geral.394. e mesmo do poeta português Luís de Camões. e a vinda constante. de escritores africanos. Aluna do Programa de Pós-Graduação em Palavras chave: Literatura angolana. com sua experimentação passa a vigorar acrescida dos seguintes arts. 77 .propostas pedagógicas Literaturas africanas de Língua Portuguesa em sala de aula: uma possibilidade? RESUMO O presente estudo visa apresentar. deparamo-nos com a dificuldade de proporcio. intertextualidade nas composições em verso de Ovídio ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira. aborda as produções literárias brasileira lidades artísticas. A partir da reformulação da Lei n°9. posibi- Claudia Vanessa de aula. tornou obriga. enseñanza de Literatura. 79-A tem aumentado muito nos últimos anos”. em especial nas áreas de Educação língua portuguesa em uma grade curricular que. mas também outras moda- Artística e de Literatura e História Brasileiras (BRASIL. Palabras-clave: Literatura angolana. Cereja e Cochar (2009. nacional. grande nome da Literatura Bra- Art. Em relação à intertextualidade. de modo a ampliar o conhecimento 2003). p. em muito se asseme- e 79-B:Art. oficiais e particulares. minho para a aula de literatura. Machado (2010.394. de 20 de dezembro de 1996. 1o A Lei no 9.

seus dialetos ou mesmo outras línguas. determinante histórico tem relevância suficiente para Ainda é possível aludir aos aspectos da oralidade. EM SALA DE AULA modificada por conta da influência. cada país lusófono tem suas especificidades Amado. a literatura ocidental dentro da perspectiva imperialista. cujo intuito era Papel este que é a alavanca para o entendimen- de Antonio Jacinto. bramento e uma descoberta instigante para os autores e estético” (FONSECA. na literatura que se formou nos que versa sobre o mundo que rodeia o homem cabo. uma discussão ne- as quais muitas vezes estão presentes nas composições. empreendermos estudos comparativos entre as duas. s/d. o As ideias de Santiago se confirmam no estudo de ções posteriores à Claridade representar. p. acredita-se que tanto os poetas cabo- portuguesa. que destaca o fato de os poetas e indagar a vida nas ilhas. 2000. ceram forte influência sobre os escritores angolanos. a partir de 1936. como referência os poemas: ‘Carta de um contratado’. de Jorge Em relação à formação da literatura angolana. cunho político-cultural que incitava os jovens a des- zador. p. fortalecendo as relações entre literatura e em artigo publicado em 1978. Na plantaram os alicerces da nova poesia cabo-verdiana. de modo que a literatura e a história poéticos abordados. AFRICANOS LUSÓFONOS: DO BRASIL novo cenário. estende-se a reflexão que o cerca. cultura precisa. 6). de modo que e seu clima inóspito. visto que Cabo Verde só se tornou independente cobrir Angola em seus diferentes aspectos. problematizar para quem a literatura era uma forma de resistência processo embrionário da literatura brasileira passou Fonseca (2010. embora o -verdiano. A nova geração conseguiu ir além e trazer para as Ao observar este movimento. nos quais a intertextualidade se faz presente. pois abordam os recursos emas mencionados. recionada pelos valores eurocêntricos estava atrelada sócio-econômico provoca fortes mudanças culturais. atentar para as aspirações imposição da cultura do colonizador. “falar. 2000. p. cuja poesia se preocupa em revelar “as situações com movimento “Vamos descobrir Angola”. Nota-se que era comum aos participantes das gera. Jorge Barbosa. literários e deixando para trás a poesia que se fazia a XX. conhecer profundamente o mundo angola. CI. diferindo o país de outros Moderna e. UMA RIQUEZA CULTURAL ca (2010) os poetas da geração da revista Claridade). fase do modernismo: Menino de Engenho e Banguê. Em problemática que a envolve. teraturas angolana e brasileira nascem sob o mesmo in- escritores europeus. romance cujo enredo “incor. 1922 e as discussões em torno da nacionalidade exer- ção da literatura brasileira e na formação das literaturas (SANTIAGO. Tais características podem ser visualizadas no poema fluxo histórico: a dominação colonial portuguesa. a epopeia COCHAR. que. 26). ‘Você: Brasil’. Este brasileiros. sobretudo ao aluno mais os laços do poder conquistador”. “Vamos descobrir Angola”. 1978. de que diariamente se defronta o cabo-verdiano: a fome. como nomeou Fonse. no período pós-colonização. para entrar em consonância com a lei e aos movimentos literários dos quais eles participa. pelo diálogo constante com a literatura europeia e o cabo-verdianos terem. É o caso de Antonio de Assis Júnior. 26). que estes possam ter uma compreensão das literaturas dos países a que pertencem os autores selecionados. tomando Nesse contexto. seguem as considerações tação que pudesse indicar algo diferente dos critérios 1999 apud FONSECA. mesmo caminho foi seguido pelos escritores de países “olhos fixos nos clássicos europeus”. debruçar-se sobre Angola e sua cultura. algumas vezes. p. além de dou. dividiu-se o estudo em três etapas. Este em especial era contrário ao evasio. pois é preciso con. mas não aponta soluções para os problemas conteúdos escolares aos quais tiveram acesso. Assim. de Raquel contexto em que se inserem Viriato da Cruz e Antonio -verdianos. escrever. -la. p. p. ser exposta aos alunos de modo ram. tomaram como modelo os autores Claridade. 2010 p. já chamava a atenção nismo dos claridosos. 02) assinala que “as li- africanos de língua portuguesa. cultural cessária para se conseguir a “descolonização da cultura” a oferecer ao leitor parte dessa cultura. já que é possível que o professor permita. Silviano Santiago. de modo a enfatizar os aspectos à “manutenção da ordem e as restrições impostas pela mexendo no cotidiano daquelas populações fixadas em estilísticos. 2010. poeta cabo-verdiano. canônicos ou políticos”. 13). poeta Viriato da Cruz e Antonio Jacinto fizeram parte do colonizado” (BONNICI. Por fim. visa a discutir as possibilidades de abordagem de textos contra o colonizador. Assim. Soma-se a essas (BONNICI. Antes de iniciar a análise.” pois embora se mencione aqui as literaturas de língua de José Lins do Rego. 286). 14). XIX. 2009. a destacar quais traços culturais a diferenciava de outros to de que um povo colonizado necessita de libertação Ovídio Martins. denunciar a dramática exis. um mote de siderar a realidade da sociedade dependente do coloni. é na verdade. nos mentiras colonialistas no continente inteiro” (BONNI- angolano Viriato da Cruz. Jacinto. populares. padrões ocorre de modo letárgico. autor de O aqui já mencionada. 2000. de antecedentes e precursores de caráter social. de Queiroz e de Marques Rebelo” (FONSECA. poeta angolano. res. e a poesia de Manuel Bandeira foram um alum. da qual fez colonialismo. o primeiro construído pelos portugueses. que também colaborou na revis. estes. Eis o momento de iniciar um discurso características a influência da tradição da oralidade. essas marcas aparecem para “estreitar países africanos lusófonos. dentro dos na linguagem. e a idiossincrasia do homem isleno e reafirmar Cabo Sérgio Paulo Adolfo (S/D. e ‘Namoro’. o elemento híbrido e. seja pelo isolamento da ilha ram a primeira fase do Modernismo no Brasil. miséria. quanto os angolanos iniciaram. 2010 p. 15). significa: falar contra. suas gentes e seus problemas. possam expressar a subjetividade dos sujeitos que as finais deste estudo. pois como se sabe. p. p. Vão além. Os participantes da geração da revista Claridade anos 80 do séc. O primeiro deles se refere à sua prática como pro- autor fale em relação à América. ou melhor dizer. 37) e o nativo precisa ratificar que há uma Para tanto. Cenário que mu. propostas pedagógicas Desse modo. o presente artigo cabo-verdianos. mostrar a intimidade. destacando elementos da formação da literatura partir das normas temáticas eurocêntricas. não se pode deixar ao abordar em sala de aula poemas de autores africanos Esse elemento híbrido é entendido como as marcas do composições literárias a identidade cabo-verdiana e a de comentar as semelhanças dele com a Semana de Arte lusófonos como possibilidade de trabalho com crianças 78 79 . identificar as semelhanças na forma. está inserido Jorge Barbosa. seja pela constituição histórica do “as propostas estéticas do Modernismo brasileiro de do ensino médio. principalmente os romances neo-realistas da segunda ‘Antievasão’ de Ovídio Martins. ta Claridade. as secas. no de que eles faziam parte mas que não figurara nos lhar os motivos que levaram a pesquisadora a elaborá- países colonizados. Do panorama literário cultural e que o “intelectual nativo deve lutar contra as do poeta cabo-verdiano. faz-se necessário comparti- para o fato de reinar. qual se configura como identidade cultural em África. 3). foi realizada a análise dos po. teiras da história. serão destacadas. escrever contra” país. p. países do continente africano. tência das populações. da parte Ovídio Martins. com o lançamento da revista Verde como região única (CARVALHO. Segredo da Morta (1935). entende-se que a partir da abordagem colonizador na produção cultural do colonizado. a falta de esperança no dia de amanhã. pora marcas do momento em que o desenvolvimento africanas de língua portuguesa que excedam as fron- Num segundo momento. porém. observa-se que ela “também reflete a influência movimentos de que participaram. política e cultural à opressão em que viviam” (CEREJA. mas aqueles que são considerados pela crítica os cultura negra. 14) destaca que essa escrita di. os ideais que sustenta- de textos. elencados por POEMAS DE AUTORES PRÓXIMAS E DISTANTES Embora importante para a configuração de um Fonseca (2010. entende-se que essa primeira foram feitas considerações acerca dos autores trazendo a realidade que cercava a ilha para os textos precursores da literatura angolana situam-se no séc. a esses objetivos do movimento outros. a ruptura com esses O nome do movimento que se inicia em 1948. mas também o papel da literatura nacional para o povo da literatura africana de língua portuguesa. elaboram. sociológicos e culturais presentes nas com- que podem auxiliar o aluno à compreensão dos textos potência imperial não permitiam qualquer manifes. posteriormente. 10). os ‘claridosos’. torno de Luanda e das localidades próximas” (CHAVES posições poéticas. consequentemente. 2010. ‘Antievasão’. e refletir sobre a “função da Diante das reflexões aqui tecidas. pode ser destacado. pois ao contexto dos países africanos de língua portuguesa. a geração de jornalistas-escrito. Bonnici (2000. do e seus efeitos devastadores” (FONSECA. africanas de língua portuguesa. 19). Da mesma forma. momento em que a “literatura brasileira. fessora de Literatura nos níveis médio e superior. e romances de Graciliano Ramos. p. p. Somam-se ANGOLA E CABO VERDE: de Portugal em 1975. que antecede ao movimento. 2). por conta do lirismo intimista sociedade. romper com o tradicionalismo cultural imposto pelo Sabe-se que os países colonizados tiveram sua cultura foram combatidos pela geração posterior. Jubiabá e Mar Morto. p.

drama no qual se tem a personagem Zé do Bur. É exatamente tem da África” e. modo a despir-se de qualquer preconceito religioso.lírico recorre à quimbanda. ceu quando foi barrada a saída de navios negreiros à eurocêntricos. o também do quimbundo que pode ser traduzida por an. propostas pedagógicas dos Ensinos Fundamental I e II. ritmo que se ba. Em- A especialista em Literatura cabo-verdiana. laranjas . Na cultura angolana. está presente. no site do Consulado Geral da Repú- va às religiões africanas1. a inserção do livro interpretação para o título. tampouco as rejeita. mas mesmo assim ela não o aceita como cussão que se pode suscitar para legitimar a atitude do romântico. simulacro que se quer mais e mais de onde foram extraídos os poemas aqui analisados. 80 81 . já revela a influência do colonizador na formação O título ‘Namoro’ sugere duas interpretações: na. É o caso de ‘O Pagador de Promessas’. -juvenil. Jorge Amado deixa muito ex. isso se deve ao fato de o cristianis. como se vê em: “um sorrir lu. recorre à Santa para a América. Já sibilidade única que não pode ser menosprezada. carta à amada. marca de intertextualidade com Camões. Angola chegou por meio dos escravos moçambicanos nhece o saber acadêmico (escrita) e. falhou. é possível aqui oferecer ao aluno uma comparação a sua crença. Nota-se que o desejo do escreveu: “deste mais que bem querer que sinto”. Edgar do Xavier. Desiludido. artísticos e culturais podem ser abordados. Ademais. também do quimbondo. Além de recorrer a ela. pueril. sendo com densa significação. o relacionamento. uma condição sine qua non para a inserção do estudo maboque. cos. A linguagem alta. homens angolanos que iam trabalhar nas minas de dia- se só o segundo pudesse ser digno de ser praticado. a rejeição. aguardando a saída dos navios a ‘voz’ do subjugado. Na primeira estrofe do poema. de Dias música e a dança de Angola enriqueceram-se em pe- mo ser a religião imposta pelo colonizador e. Po. Não se deseja aqui promover qualquer discussão de cunho re- mais ela disse que não. a religião e a língua são as principais formas de dividido em 9 estrofes. Nesse sentido. como escravos. da cor do Na quinta estrofe. observa-se que rém. querendo resolver africano aproxima as pessoas. num segundo momento. sobretudo na disciplina de Literatura Infanto. das literaturas de língua portuguesa produzidas nos As comparações da beleza da moça com a na. estão disponíveis os livros Ifigênia e à Senhora do Cabo. ele virou um mono-gamba. vida e morte. Assim. tada do mesmo modo que a casca do maboque é difícil sem em um baile. observa-se que o conte- dora sobre um determinado esporte. o continente americano por meio dos escravos. embora seu problema. à medida que se lê. E como a mistura às atitudes do eu-lírico que. as marcas depararem com a problemática trazida pelo romance. recorre tanto à mulher típica da cultura dança e a música são associadas aos ritos de fertilidade.” feitiço. iniciação. da natureza africana. por isso. vale-se de um modelo de literatura portuguesa 1. a mostrar que o poeta co- ligioso. em geral. Mas esse recurso também América. sobretudo do Romantismo. Nota-se que eu-lírico. linguagem dos poemas. fruto é odorífico e ácido. referindo-se. te. Referência esta que. acolchoamento. cartão: “Mandei-lhe um cartão/que o amigo Maninho o quarto é o mais forte. em sua poesia. o aluno conheça a diversidade da linguagem de Ango. o que se via. do angolano Viriato da Cruz2.laranjas do Loje. torna-se derações que surgiram a partir de situações vivenciadas em sala gura da sociedade angolana. com versos polimétricos e bran. eram jovens ‘pisando em ovos’ ao se mente poética compara a beleza da moça aos elementos d’ Água’. broche. visto que procurar a quimbanda faz parte de údo do poema nos conduz a um pseudo-romantismo que uma criança optou por praticar judô e não ballet. a herança religiosa africana será ficados mais profundos dos recursos empregados pelo os estereótipos ou essa leitura preconceituosa que se jambo/cheirando a rosas/ sua pele macia guardava as valorizada. como se ilustrar o relacionamento entre culturas. seguiram trabalhando visível a incorporação de aspectos culturais orientais refere-se ao fruto do maboqueiro. palavra 1856. num contexto em namorado e lhe dá um não como resposta. elementos deixadas pelo colonizador. pois se o Brasil é um país com pre. lógicos. como nos quais o amor e a natureza estejam presentes. Jacinto consegue fugir de aula. O poema está Gomes. ao som de uma rumba e no meio ‘Amor é fogo que arde sem se ver’. Entende-se então que o encontro do eu-lírico com não sejam “cópia. cuja casca é dura. pitães de Areia’ e ‘A morte e a morte de Quincas Berro A partir da análise do poema. nesse caso. como também uma metáfora para questão. da dança. Porém.como o uma feiticeira ou curandeira. Imediatamente a mãe da garota foi questionada sobre partir de outros poemas. encontra-se uma Tecidas tais considerações. Deseja-se somente compartilhar consi- O desespero o faz procurar Zefa do Sete. E. eu-lírico. como colar. é compacta. no entanto. espécie de ‘arrumadeira que passavam por lá. por que a ‘força’ do judô e não a leveza do ‘ballet’. eu-lírico se concretiza com a dança. pois Na terceira estrofe. infelizmente. Essa medida aconte- ainda estão enraizados na cultura brasileira os ideais em países quentes. mantes da África do Sul com a falsa ideia de que seriam O aprendizado que se pode extrair da situação é que se refere a uma árvore nativa da África. por meio da rumba. ele chegou até dores. O segundo poema. que além de outras línguas e dialetos. o vocabulário. Chama-se atenção aqui para linguísticos. houve. em dense ou europeu tende a ser rejeitado. la. o eu-lírico quer darilho. mas o feitiço falha. o eu-lírico tipografa seu sofrimento em um seia em quatro tempos em cada compasso. à fé cristã. De tom O outro motivo foi a indagação feita à pesquisa. de ser retirada. românticos. anel. Ao final do estudo. embora o poeta critique os coloniza- tipografou:/ ‘Por ti sofre o meu coração’” e uma vez quem que o ritmo é originário de Cuba. culiaridade e força capazes de induzir. Nor. Tais exemplos servem para reforçar a ideia Viriato da Cruz não oculta. por sua mente curto. existente. querer mais que bem querer”. para que ela lance um no emprego desses recursos que elementos históricos. Acre. o sincretismo religioso. blica de Angola: vez. a partir dele. o que não é estaduni. a fim de conquistar a amada. e difícil de ser conquis. recorrendo a recursos tecno. evoca estas origens e justifica o paralelismo melódico de Mia Couto como leitura obrigatória ao vestibular da Na primeira estrofe e na segunda. é ‘Carta de um contratado’. países lusófonos africanos. a sua influência a outras terras e outras dominação. 1978. terístico de países colonizados. embora seja Outra palavra é maboque. cujo conteúdo confirma as duas possibilidades de Santa Bárbara. Os homens. aqui mencionar obras brasileiras em que se tem essa Intimamente ligadas ao quotidiano das populações. Pode-se religiosa do país. destacam-se as palavras como: sumaúma. depare em um único poema com um texto razoavel. uma ticos formais e histórico-culturais do texto./ Seus seios. tureza remetem aos poemas e a trechos de romances gem está no quimbundo. as palavras do quimbundo permitem que e que no fundo o que se tem é uma forte crítica social. de pronto.. mas com múltiplos sentidos. dos quais. o eu-lírico decide presentear a remunerados e não escravizados. Conforme destaca que a primeira reação do grupo foi a referência negati. Embora os dicionários expli. mas comum Já quase sem forças. Antonio Jacinto dita-se que levar poemas para a sala de aula é uma pos. tampouco se deseja adotar uma postura preconceituosa quanto ao cristianismo. minoso tão quente e gaiato/ como o sol de Novembro comuns às culturas brasileira e angolana podem ser bora em uma primeira leitura o poema se apresente ma Lima. típica fi. p. Universidade Estadual de Londrina (2011/2012) gerou vale dos conhecimentos ocidentais para escrever uma plícito o sincretismo religioso em seus romances ‘Ca- interesse dos alunos das segundas e terceiras séries. ro sendo proibida pelo padre de pagar uma promessa à do Século XV. pois quimbanda é uma palavra. inicia-se a análise do dizer que a moça é perfumada. O título do poema faz referência aos contratados. já que o eu . também de um poeta angolano. quis o destino que os dois se encontras. de nascimento. mais. Em para compor seus versos. destaca que se preocupa em “minimizar pele macia – era sumaúma/ Sua pele macia. possibilita-se que o aluno se angolana (Zefa do Sete) como às santas católicas. efetivamente. ou africanos à cultura brasileira. com a abolição da escravatura em Angola. do modelo original que copia e permite que seus versos 2. no soneto poema ‘Namoro’. cuja ori. de namoros’. Ade. Nessa estrofe. em entrevista à jornalista Juliane Rettich brincando/ de artista nas acácias floridas” ou em: “sua visualizados. porque esta foi feita no terreiro de can. de onde se extrai óleo e paina para amada com presentes comuns às mulheres do Ociden. ela disse que sim. de que o poema é denso e. Nota-se que. acredita-se que essa seja doçuras do corpo rijo/ tão rijo e tão doce . além da própria dis. 16). a fim de conquistá-la. podem-se extrair signi- (maio/2006). o eu-lírico se Do mesmo modo. gentes. domblé à Iansã. de Antonio Jacinto. nomeadamente ao Brasil onde o samba ainda Em relação ao Ensino Médio. pois o quimbundo é uma língua falada em Angola. a dominância cristã. ministrada para o curso de Pedagogia. moro seria tanto o namoro em seu sentido denotativo. nas referências. Nota-se como a fé do colonizador aqui se a jovem. traço carac. revela que o ritmo musical semelhante ao original” (SANTIAGO.. Camões iniciou o segundo quarteto com: “É um não o gênero permite que sejam discutidos recursos estilís. logo a partir sabe.

época porque os dois são frutos da colonização. guesa e. escola. O Brasil. ver com as portuguesas (OLIVEIRA. vermelha usada em rituais femininos de puberdade. nos quais os alunos se deparam com Na segunda estrofe. possuem um povo terno e alegre. antes de se iniciar a abordagem das lite- pensamento. cujos sentimentos são como fez José de Alencar na descrição de Iracema. a tacula. bem como promover sendo sua cultura quase sufocada pela do branco. à corrida rumo a um ra produzida em países colonizados. lugar de ter belas mulheres. é enfrentar tinha oposto e que se tinha revoltado contra o jugo colo. dos recursos do colonizador. lugar de regalias. portuguesa e a necessidade de que sejam abordados na história de muitos africanos se repete. Jorge Barbosa permite a reflexão sobre: o que é Todo o lirismo do poema pode ser verificado na dá a solução para eles: expor a intimidade do homem ximidades linguísticas. seu desprendimento com a língua. na vida social que perpassam o poema. Não mostra os problemas. desven. textos como ‘vozes’ de muitos que. em Cabo Verde. imposição do colonizador. propostas pedagógicas A ideia de seguir a Europa como modelo para a Tomando a composição do poeta cabo-verdiano produção de literatura é discutida por Silviano Santiago Ovídio Martins. seja por conta brasileiros. literatura que fugisse dos ideais eurocêntricos. o qual remete a contrário. 84). o primeiro movimento que se deve já que este imagina ser o poema uma história de amor. infelizmente trazidos como escravos. para se referir aos cabelos. 2007). outro poeta cabo-verdiano. Pasárgada é o lugar de prazeres. Jacinto usa sempre elementos da natu. apud SILVA et all. no poema de Ovídio equivale à fuga da re. da língua. A Pasárgada de Bandeira. percebe-se a descrição da mu. Oswald de Andrade e raturas africanas lusófonas em sala de aula. pois Cabo uma nação ou identificar-se com outra nação sem ser mostra o sofrimento que sente ao se lembrar dos mo. pois me. valorizando a ‘língua compreender e passar a mensagem aos alunos de que É preciso destacar que durante o século XIX. Mas As considerações aqui tecidas não têm por objetivo merecem ser ouvidos. ainda que te. compar- vermelhos como tacula/dos teus cabelos negros como Os versos livres e curtos mostram a urgência do Para Oliveira (2010 p. Portanto. cabelos negros como as asas da graúna ‘Antievasão’ vem denunciar a vida difícil das ilhas que e buscar uma nova realidade. e suas imagens do cotidiano e a des. do poeta ca. não textos são ricos. O uso das Por fim. cria-se a comparação entre os dois países. como se o natureza inóspita do Nordeste brasileiro. mas não fugirá. como os brasileiros. mas Dessa forma. negros e brancos criar receitas para a sala de aula. que vem quebrar a expectativa do leitor. por conta disso. seja dos próprios portugue. brasileira’ (BERGAMINI. ram os africanos. com uma identidade pró. nutridos pelo ódio do colonizador. como a própria questão da deram origem ao que podemos chamar hoje de ‘nação viabilidade dos textos de literatura africana de língua e cultural. cultural. com o rei. que não lhe ofere- virgem dos lábios de mel. é preciso pela moça. Segundo anti. E essas vozes. compõem Cabo Verde. fazer é retirar qualquer sentimento de superioridade As possibilidades de abordagem deste poema em dando forma a uma nova raça. ‘Antievasão’. dando os recursos da linguagem. ao relatar cabo-verdianos com o povo brasileiro. como já mencionado anteriormente. Assim. do país. o poeta se vale da natureza nha que matar. mas porque são ses (colonizadores) ou até mesmo de autores brasileiros. por muitos anos. tilham da mesma realidade brasileira: foram formados dilôa/dos teus olhos doces como macongue/dos teus eu-lírico em gritar que não deseja fugir. pria. Um tempo depois. que brasileiros e cabo-verdianos sejam um só povo. quando o eu-lírico cabo-verdiano e propror não fugir. encontraram na literatura produzida pelo tantes para a formação dos estudantes e permitem que o analfabetismo dos contratados. 2011). falam a língua brasileira’ do povo estão presentes nos versos de ‘Você: “somos um povo habituado à prática de convivência em que Angola impediu a partida de navios negreiros e do colonizador. Jorge Barbosa. tivemos canos. domínio de Portugal. mas não foge da intertextualidade com o autor para amada. como se não pudesse seu país ao Brasil. há “uma ligação mui. árvore de onde se extrai uma tinta lhor que deixar a ilha. fruto de sabor doce para caracterizar os lábios da Barbosa. nial e que agora procurava construir um percurso como que o namoro acontece. que buscam ser ou- uma discussão acerca de elementos históricos e sociais forte. Daí o tom irônico de ‘Carta de um Nesse caso. cultura e conhecem os problemas de outros lher como a índia Iracema. tem-se o poema ‘Você: Brasil’. dilôa. crição do Recife de sua infância. adolescente. ainda assim. Por serem as questões preciosas à formação do que foi expresso anteriormente fosse tudo parte de um Nos versos de Jorge Barbosa. tificação do eu-lírico com o povo brasileiro. com a diferença. uma cultura e uma literatura que já nada tinham a ra. a os problemas e juntos buscar a sobrevivência. somos postos em comparação desvencilhar-se dele. Nos versos: “dos teus lábios o eu-lírico deste poema. Assim. uma vez que as marcas da mesmos traços culturais. Nesse poema. e o sorriso mais doce que a jati. vie- CONSIDERAÇÕES FINAIS e revestir o aluno de entendimento para que receba os sala de aula podem partir da intertextualidade. como identidade? O que faz um homem sentir-se parte de terceira. o eu-lírico deseja pedir. suplicar. o eu-lírico se Santiago (1978). prefere ficar ali e lutar. Viriato da Cruz brinca com o hibridismo reza como o maboque (já comentado). já independente de apresenta como o colonizado. Manuel Bandeira. portugueses) e índios convivendo. quarta e quinta estrofes. ritmo híbrido. que ainda estavam sob o contratado’. E conclui. enquanto geográficas e ambientais”. formaram-se a partir da miscigenação. brancos (sobretudo. não serve para conseguiu deixar de lado os elementos que permitem história. da mesma forma para Manuel Bandeira. Somos um povo crioulo” (SANTILLI começou a enviar os contratados às minas de diamante. Considerando que Ovídio fez oposição a Jorge nação livre e independente. mistura de povos. Assim. construir essa oposição. não havia escola para as crianças e jovens negros. países que. geográficas e literárias. ele compara dominação deixadas por estes já são suficientes para vimos de modelo aos países africanos de língua portu- continuidade desse pensamento. realidade é enfrentá-la e transformá-la. Portugal. ser terra livre da a sua? Por que brasileiros e africanos compartilham dos mentos que passou junto com sua amada. seja por conta do sofrimento causado pela ‘irmão mais velho’ elementos para a construção de uma muitas discussões sejam levantadas. e destaca as dificuldades de se viver ocultar a cultura de um povo. do o acesso à leitura e à escrita. Ainda se nota no poema de Jacinto a mistura nota-se que o emprego do Futuro do Presente já mos- de traços de outros autores. apresenta como contrário à fuga. elevam-se as dife. a mostrar que é possível ficar doces como mel. amizades deu o processo de formação da cultura brasileira. um devaneio para expor os sentimentos renças da natureza e das grandes cidades brasileiras e. p. Daí a Os dois países tiveram sua história feita a partir da Daí se iniciam as proximidades com os países afri- crítica de Jacinto. O poema de era visto pelos países africanos. alidade. literários? Por que ser- reticências no verso final de cada estrofe demonstra a bo-verdiano. a realizações. 2010. índios. lutar e modificar a também reforça as proximidades ideológicas. e macon. o poema não vem só acentuar as pro. tra um ser preparado para o que surgir. o elemento híbrido impera na literatu. bem como a relação de identidade dos Como sentiam a necessidade de ser livres como os no poema de Jorge Barbosa? Essas questões são impor- O poeta faz sua crítica na última estrofe. sobreviveu! E assim. No Brasil. intelectuais e escritores. tem-se no título o prefixo (1978). Brasil’. e ainda que se valha quimbondo takula. Desejou-se discutir a vidas. como muitos fizeram. poema que se configura como o ponto de iden. seios duros como maboque”. alienação. sociais. to forte entre as duas realidades com tantas afinidades a partir de um processo de colonização. embora com contextos diferentes. Ovídio Martins é contrário à Pasárgada de Bandei- gue. justamente por. cor escura. na pele e no sangue de tantos brasileiros a escravidão e da inserção da escola em Angola. trazem indícios de que na história. 82 83 . ou do Ovídio se insere na realidade cabo-verdiana. seja pela influência lugar que não seja a realidade em que ele está inserido. À medida que o poeta cabo-verdiano compreen. realidade. porém. aos quais era veta. Conclui-se que melhor que fugir da ceu oportunidades. como um irmão mais velho que se cultural de que Angola é formada. Alencar também descreveu Iracema com lábios que ele apontava os problemas sem propor solução. seja pelo aniquilamento da cultura primitiva Antes. é na rumba. Verde deseja ser livre como o Brasil. além da afinidade entre os Antonio Jacinto se mostra um antirromântico e se para descrever a beleza da mulher. 84). Não para se fazer cumprir a lei.

pucrs.san. Débora Leite. 84 . 2000. Moreover. n. racism against Black people in- FONSECA. mento e preconceito. o reconhecimento e a valorização da História e Cultura Afro- no de língua e Literatura: alternativas metodológi. Dispoi.usp. De maio a dezem- bro de 2010 integrou a equipe de profis- Comparada. Moreira. Alegre.639. Ed. Disponível em: http://www. Università degli Studi di negra em Londrina (Universidade Sem Fronteiras SETI/PR). Portanto. v. Existe o mundo que o por- varanda do Frangipani. not access. DAVID. php. 01. 3ª Ed. Literatura Africana: desconheci- Sociais pela UEL. In: Revista Semioses. Efeitos psicossociais do racismo. O principio de justiça se SETI/PR. William Roberto. Sistema de lhães. 84-87. nica dos alunos de pós-graduação. We should also show the experi- ences from the project LEAFRO – Laboratório de Cultura e Estudos Afro-brasileiros: diálogos para o reconhecimento e a valorização da História e Cultura Afro-brasileira no Paraná (Londrina e Jacarez- inho). Therefore. index.Laboratório de Cultura planalto. S/D. Martia Aparecida. Panorama das literaturas africanas de XAVIER. Perugi. Dr. EX/UEL.org/index. Silviano. Ensi. Antonio. p. ANTUNES. 2011. Literatura Portuguesa: em Maria Aparecida Santilli e o Prof. in witch the nha Taborda. o objetivo deste ensaio é problematizar o Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Canoas: Editora da Ulbra. Brasil e Cabo Verde: duas MUNDO%20QUE%20O%20PORTUGUES%20 margens do mesmo mar. 3. the quotes system maintenance. Depto. Quotes System. Agosto raciais e a Lei 10. jan. In: SANTIAGO.pt/pos. nível em: http://revistaseletronicas. http://www. Literatura africana em sala de aula: abordagens do insólito no romance A possível: As cotas Márcia Figueiredo ADOLFO.php/navegacoes/article/viewFile/7192/5190 de Alencar BONNICI.unisuam. p. Tutora do Curso Histórias da CARVALHO. 2007.fflch. São Paulo: Perspectiva: Secretaria da Cul. Rio de Janeiro. Viriato Clemente da.consuladodeangola.pdf. 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Law 10.639/03 law. p. em: http://www. parados de Literaturas de Língua Portuguesa da cotas. assim como seus desdobramentos na vida prática em 145 p. Integrou a equipe do BRASIL. Uma que lhe permitam o acesso e estimulem sua valorização e reco- “insubmissos”). 20. Disponível em: http://www. CRIOU. Érica.). Key words: Antiracist Education. Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo. 2009. maio de 2007.639/03. think on these two politics. In the Brazilian social structure. 2003. transformando a Estadual de Londrina.br/dlcv/ ABSTRACT bro de 2010. E viva a miscigenação. Universidade de São Paulo. ção negra tem um lugar determinado.eventos. Disponí. esse segmento necessita de ações objetivas educação plural (NEAA/UEL). Claudia Vanessa. -brasileira no Paraná (Londrina e Jacarezinho). Palavras chave: Educação antirracista. Eduardo Pereira. in which the theory and methodology orientation consists in cooperate with the implementation of the Law 10. do não acesso. onde a popula. São Paulo: cesso seletivo e apresentamos as experiências do projeto LEAFRO – Laboratório de Cultura e Estudos Afro-brasileiros:diálogos para aula de literatura. Racism. SILVA. Sérgio Paulo. ou seja.php Acesso em 14 de setem.pdf Acesso em: 15 de janeiro de fosso das desigualdades raciais e sociais. that meaning. Benjamin diálogo com outras literaturas de língua portuguesa. Vol. Maringá: Eduem. realidade da população sionais do Projeto LEAFRO Laboratório de Cultura e Estudos Afro-brasileiros uevora. Semestral. propostas pedagógicas A enunciação do REFERÊNCIAS MACHADO. Poesias. Disponível em: http://www. Lei 10. Maio/2006. thus the way it is happening in Londrina africopoetica.639/03. In: SOUZA.edu.gov. Arte e Ciência. Acesso em 10 de janeiro de 2011. RETTICH.br/ojs/ publicado em 20 de janeiro de 2011. Estadual de Londrina pela manutenção da política cotas no pro- CAVALCANTE. Disponível em: http:// www.ufrj.jornal. zalangola. Revista Eletrô- William Roberto Cereja. RESUMO projeto LEAFRO . php?option=com_content&task=view&id=41&It the purpose of this essay is to render problematic issues related to the quotas system and the 10. We shall present the manners in which the combat politic -jacinto-carta-de-um-contratado/ Acesso em 19 de made by black community and university students is important for setembro de 2010. revistas/crioula/edicao/01/Entrevistas/entrevistas.com/lit0208. Juliana. Drª. Moema. Acesso em 10 de outubro de 2010. Lei n° 10. we shall try to JACINTO. cuja orientação cas. 1.htm vel em: http://www. p. vinculado à Aceso em 18 de janeiro de 2011.pdf. In: Revista Crioula. (Uma perspectiva da produção literária dos poetas tino-americano.com/2007/10/20/antonio.639/09.br/ccivil_03/Leis/2003/L10.639. Entrevista com a Profª. In: Revista Eletrônica Navegações. graduada (ba- charelado e licenciatura) em Ciências estratégia de leitura. Racismo. Abdala Júnior. 02. Procuramos pensar estas duas políticas. Maria Nazareth Soares. esfera educacional. recognition and access to the black people.pt/comparada/VolumeI/EXISTE%20O%20 OLIVEIRA. Na África e Afro-brasileiras: vetores de uma Rebeldia e Sensualidade no Suplemento Cultural SANTIAGO. preciation. Porto BERGAMINI. Luana (org. Disponível em: Gohttp://www. Ciências Sociais e PRO- traduz em privilégios de uma elite conservadora. São Paulo: Atual. Thereza Cochar Maga. N.br/jornais/jornal16/ Na estrutura social brasileira o racismo antinegro potencializa o e Estudos Afro-Brasileiros. Poemas.wordpress. política da comunidade negra e de estudantes da Universidade em 20 de dezembro de 2010. Mestrado em Teoria da Literatura. creases the racial and social inequality gap. graduada pela Universidade tuguês criou? In: Anais do IV Congresso Inter- nacional da Associação Portuguesa de Literatura de 2010. (PR). O Entre-Lugar do Discurso La. pdf Acesso em 18 de janeiro de 2011.br/posletras/Nazareth_panorama.ich. CEREJA. Terezi. Disponível em: http:// emid=55.br/semioses/pdf/n7/n7_art_04. O pós-colonialismo e a literatura: Acesos em 15 de janeiro de 2011./jun.ul. 07. tura. Psychosocial effects of racism. literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência nhecimento. Consulado Geral da República black people has a determined place. The principle of justice translates into the concessions for a reactionary elite.

pulação negra era livre. na arquitetura. desde essa época. Discriminação Racial. elementos sobre a trajetória percorrida pelas deman.6% de aumento. As Políticas de Ação Afirma. não ter acesso aos saberes escolares. que a quantidade de ne­ esfera internacional a partir da III Conferência Mundial era muito pequena. Esta conferência contou 3. dos compromissos assumidos pelo Estado brasileiro na dão3. o movimento negro tinha clareza as mulheres e homens da sociedade. que pou. registrou nos muros do DCE a cias Sociais.031-A que “estabelecia que os negros só pode. dades em relação ao povo negro. O comprometimento orientadas pelos princípios da justiça social são “um vezes. é pos. MOS. legitimou as práticas apontaram que no Brasil os cerceamentos aos acessos MOS. educacional. Em relação à distribuição de estudantes de 18 a não fazem parte de um debate recente. tos de agremiações partidárias. educacionais e sociais ainda permanecem para as(os) POLÍTICA DE COTAS: possibilidades para que alunas(os) negras(os) frequentas. Acesso em 23 de agosto de 2010.7% de negras(os) 14. institutos de pesquisas indicam um quadro de desigual- racismo: a educação. 2. tos negros dependia da disponibilidade de professores”. últimos anos. Assim. “estabelecia que nas escolas públicas do país não seriam 2008. para promo. 4. a quantidade de negras e negros escravizadas(os) Nota-se neste estudo. assume um caráter de ordem discriminatória é de cada uma das nações envolvidas era elaborar ações conjunto de ações políticas dirigidas à correção de de. quanto das relações sócio-culturais. Ministério do Planejamento. p.org. em 17 de fevereiro de 1854. na África do Sul. 7. trabalho. ciais estimula não somente a relutância do Estado em ver justiça social à população negra brasileira.br/Durban_1.( GOMES. Quando os indicativos são estratégias objetivas para suprimir as desigualdades saúde. p. No Brasil. p.0% de negras(os) e 3. que Partindo da premissa de que a educação pode ser e 31. portanto. Embora os dados demonstrem determina- ABRINDO POSSIBILIDADES Abdias Nascimento. 24 anos nos cursos pré-vestibular e superior (incluin- políticas de mulheres e homens negras(os) contra o cial. Estudos e Estudantes (DCE/UEL). foi aprovado o decreto de lei do mestrado e doutorado) tem-se em 1998 nos cursos racismo se inscrevem na sociedade nacional há pelo número 7.comitepaz. 184 – 200) 86 87 . permanência e continuidade no sistema educacional das de negras(os) e os compromissos assumidos pelo ser imperativo na ordem social: 2001. acessado porcentagem subiu para 90% da população total (HASENBALG. repensar a estrutura educacional que. as diferenças são social antirracista.86. tanto do ponto de vista tagens e marginalizações criadas e mantidas por uma instrumento para contemplar as demandas educacio- inserir a população negra em sua estrutura social. estrutura social excludente e discriminatória”.174).(BRASIL. p. sua capacidade política e formar líderes esclarecidos. pré-vestibulares. promover uma realidade ma. Ao O objetivo deste ensaio é. 4.2% de não- respostas vieram com a discussão e incorporação de apresentou propostas de políticas de ações afirmativas sível apreender. 2005. pois “as tra negras(os) brasileiras(os) e silencia suas vozes.7% de Este cenário propositivo que se instaura no país é reivindicavam correções contra as inúmeras formas de não-negras(os) e em 2008. 2008. p. quando fazem parte da população negra brasileira. Diretoria de Pesqui- lizou em abril de 2011. a margem foi de 28. sileiro que. Mas nos últimos dez anos. declarava dos acabam sendo as mais discriminatórias”. algumas ações estão sendo en. uma intervenção no Diretório Central dos parte das reflexões realizadas na pesquisa de mestrado em Ciên. foram criadas impossibilidades legais para sas Coordenação de População e Indicadores Sociais.uel. ao passo que para 2.165) discriminatórias em decretos de lei que engendraram im. Pesquisas: Informação Demográfica e Socioeconômica. em 1950. Nos institucional. Desta for. p. “tratamento diferenciado com vistas a corrigir desvan.1964). p. que os acessos ao campo educacional e 60. políticos de intervenção estavam sendo pensados como No campo educacional estas medidas são fun. entre outras medidas.12. 2005. como movimentos pró-abolição. 74% da po. quanto à problemática do racismo brasileiro. em serviços domésticos.331 cativos pautam-se na comparação dos dados de 1998 e tância de medidas objetivas para promover a valoriza. e a previsão de instrução para adul. 28. Uma Análise das Condições de Vida da População Brasileira. o fosso da desigualdade racial prevalece. negras(os).) No Brasil. práticas educativas que se pretendem iguais para to. especificamente especificamente no ensino superior. por conseguinte. os indicativos sociais apresentados por direcionados a uma questão central quando se trata do [. 2. por INTRODUÇÃO organizações não governamentais.) Isto porque o discurso universal da igual. que aconteceu no ano de 2001 as(os) não-negras(os). inspirou o subtítulo de nosso ensaio.6% de não- menos quatrocentos anos.gov. O sociólogo Alberto damentais uma vez que. de “instalarem-se na sociedade brasileira mecanismos transformar quanto criar e recriar mecanismos poten. Aprovado dos “avanços” ao longo de 10 anos. nos cursos ser ouvidas e respondidas pelo poder institucional. Fonte: http://www. as demandas como parte integrante na dinâmica da mobilidade so. suas vozes passaram a lação negra iniciada com Abdias do Nascimento. propostas pedagógicas com a participação de representantes dos Estados e de As políticas de ação afirmativa com recorte de raça Assim. já na década de 1930. a fim de desenvolver a Os meios utilizados para não contemplar a popula. racismo e discriminação.7. do século XIX. 2009. a fim de proporcionar um cacionais antirracistas. Neste período da história. pré-vestibulares. em todas as áreas da sociedade. das séries iniciais até o Estado brasileiro que resultaram em projetos políticos dade e de acesso à escolaridade desconsidera o fosso da ensino superior. em pequenos comércios. a partir dessas políticas educacionais -negras(os) e no ensino superior. cializadores do racismo e da discriminação. Este texto foi publicado no VII SEPECH (Seminário de Pesquisas da população negra atuando em diversas áreas como na litera- em Ciências Humanas) promovido pelo Departamento de Letras e tura. da população negra brasileira. lema que tiva na Universidade Estadual de Londrina em 2009. Disponível em: http://portal. pois segundo o censo de 1872. Neste contexto. (ANDRADE. Orçamento e Gestão . dentre outras.br/cne/ Acesso 2 em fe. Este au- em 15 de janeiro de 2009. a partir de políticas afirmativas.htm. em: www. o decreto de lei número 1. vereiro de 2010. 1957. Isto significa que havia um contingente significativo em Durban. No bojo instrumentos de transformação. uma elite racista que naturaliza a discriminação con- sobre o racismo como estrutural na realidade brasileira. o ambiente escolar pode ser abrir canais de acesso. para todas referentes ao acesso de jovens com mais de 25 anos raciais e. alguns anos antes do fim oficial da de não-negras(os)6. gras(os) e não-negras(os) acadêmicas(os) apresentou contra o Racismo. E para essas Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE.2% de negras(os) e 9. Xenofobia e Dis. universidades públicas podem ser entendidas com um co se preocupou com medidas políticas objetivas para ceito. Pedro Henrique Andrade diz que: Em 6 de setembro de 1878. Mais adiante.br/. Ciências Humanas da Universidade Estadual de Londrina.7% de negras(os) e 5. riam estudar no período noturno”5. considerada base do desenvolvimento humano. Em 2008. em 1945 também ressaltava a impor. 26.. sigualdades raciais e sociais”. mulheres e homens. desigualdade social e principalmente racial. 4) escravidão. integrativos de capilaridade social capazes de dar fun. não se aplicavam. maiores: em 1998 eram 2. ção negra na educação tiveram suas primeiras expressões Em 2009 foram publicados os resultados de pes- que possam traduzir em formas ajustadas às tradições em meados do século XIX.1% de negras(os) ainda que de modo incipiente. visto que estes indi- PARA UMA UEL DO POVO1 Guerreiro Ramos. companheiro de Alberto sem e se mantivessem nos bancos escolares4. no I Congresso do Negro Brasileiro. na qual. disponível 5.mec. (p.Instituto 1. as cotas em O Brasil é um país de herança escravocrata. apontar alguns ção e posição aos elementos da massa de cor” ( RA.8% de não-negras(os). entretanto. As no ano de 1945.5%.) -negras(os). amparados pelo Estado bra. em diferentes espaços. alguns projetos 2005. cujos dados nacionais as reivindicações das massas de cor. mas também a permanência de destas ações é fundamental apontar que este processo Guerreiro Ramos (1915-1981) defendia a necessidade considerado como um espaço social que pode tanto uma estrutura enraizada em privilégios e interesses de fomentou uma série de debates. A reivindicação por políticas reparatórias para a popu.3% de não-negras(os). o ponto de partida para a construção de ações edu- objetivas para a desconstrução dos resultados das de. O Coletivo Pró-Cotas: diversidade e permanência na UEL rea.7% de negras(os) algumas iniciativas políticas cuja finalidade é propor para a população negra. a resistência em pensar as cotas ra- gendradas. 1957.. quisas realizadas em 2008 pelo IBGE. nos 6.3% resultado das demandas internas da população negra e violência que a população negra sofria desde a escravi. nais da população negra. criminações Correlatas2. no ensino superior. e ainda não se aplicam. número seguinte inscrição: “Cotas sim! Por uma UEL do povo!”. (BRASIL. As práticas de promoção da igualdade racial no Brasil ção e o reconhecimento da população negra brasileira admitidos escravos.] a inclusão de homens de cor nas listas de candida. Rio de Janeiro. problematizar estas questões relacionadas à inclusão. pela mesma instituição. Um ano antes da abolição (1887) essa uma margem de 21. (RA. sigualdades motivadas por qualquer forma de precon. A este respeito. no artesanato.

ainda permanece sob os efeitos discursivos da demo- de acesso não cria privilégios.639. procotasuel. p. como apli. privilegiados como a escola por meio de conteúdos e estes discursos destaca-se manifesto dos “113 Cidadãos “produzem novas desigualdades”. 2005. mesmo se o cotas não foram pensadas na perspectiva de uma po. O objetivo da iniciativa era con- -cotistas que descaracterizam a objetividade desta polí.adur-rj. mas sim como ação provisória direcio. Segundo os autores: gualdades. Inserida na mesma proposta do princípio de justiça que a Lei e seus desdobramentos partiremos de um relato dor na elaboração dos parâmetros do sistema de cotas te na esfera das desigualdades de classes. de aprendizagem tanto da população negra quanto da História e Cultura Afro-Brasileiras e Africanas a serem O cotidiano escolar é pensado como um espaço em 7. foi aprovada em 2003 a Lei das experiências do trabalho desenvolvido pelo projeto da UNB – em 2009. Fonte: http://mariafro.org. p. À PRÁTICA: UMA ANÁLISE De acordo com o parecer da Lei. A Lei visa tornar obrigatória a contemplação de des. dos desafios imensos e das urgências. a cota cionais. terpretar o mundo a partir de outros olhares. que torna obrigatório no Ensino Fundamental LEAFRO – Laboratório de Cultura e Estudos Afro-bra- federais e estaduais. graduandos de www. E. te processo de rupturas das amarras pedagógicas que por uma perspectiva de “tribunais raciais”7 ou de in. Acerca deste assunto. política desmascara o discurso arcaico da democracia proporcionam a um candidato definido como negro a Em 2011. cotas raciais nas Universidades Federais de Santa Maria e São opressores de ontem não devem ser julgados pelos atos “a instituição escolar é vista como um espaço em que Carlos. 3/2004. contudo. Percebe-se que os argumentos apresentados reve. denunciam gualdades entre negras(os) e brancas(os) nas práticas atividades propostos pela Lei. Outro descompasso é referente ao processo de e Médio a inclusão de saberes sobre História e Cultura sileiros: diálogos para o reconhecimento e a valorização afirmativa com recorte racial. ensino. mento fundamental no debate sobre ação afirmativa tunidade de almejar o ensino superior de qualidade. 10. mesmo no universo menor dos jovens que têm a opor. entre assimetrias entre a população de cor negra e a de cor 10. do racismo no Brasil. as cotas raciais não contribuem para isso. que Contudo.geledes. mas fundamentalmente tem como objeti- plados da mesma forma que as(os) jovens brancas(os). cas arruinadas. (http://www. Nesse momento hou. que se processam formas complexas de (re)construção em 2009. como subsidio para discutir as práticas do racismo e da plementação desta política nas instituições de ensino tórica. 10. ser considerados atores sociais des- pectiva de mudança e igualdade de oportunidades. à im. Segundo José Jorge de Carvalho – colabora. Segundo Franz Fanon.639/03 pretende ser um caminho para tribuir com a valorização da cultura negra em espaços tica com o argumento da inconstitucionalidade. as cêntrico idealizado como padrão. pois as questões relacionadas à discriminação discriminação no cotidiano escolar.blogspot. Uma das preocupações do sionar o cumprimento das Diretrizes. que institui as Diretrizes Curriculares para a limites e possibilidades de atuação e fundamentalmente racista e democrática. A equipe é composta por pro- Racial em 2006.htm) LEI 10.uel.639/03 DA TEORIA psíquico em crianças e jovens negras(os). nência na UEL9. o sistema concede um privilégio vo denunciar a fragilidade da sociedade brasileira. de seus antepassados mas devem responsabilizar-se vido o geógrafo Demétrio Magnoli a ler o que escrevi sobre o negro que busca colocar na agenda de discussões a estrutura do racis- moral e politicamente pela reprodução das ações discri. 2005. há o discurso utilizado pelos anti. coletividades e instituições. que um candidato definido como branco. ora acentuam desigualdades prévias ou produzem novas da cidade para efetivar esta política e alguns anos de. isto é. Nos relatos extraídos compreendemos os programa ProUni8. é importante ressaltar que este instrumento para candidatos de classe média arbitrariamente classi. escolar. para caracterizar o processo de seleção para Os Condenados da Terra. portanto. Ciências Sociais e Letras sob a coordenação das Ciências Sociais -manifesto-a-favor-das-cotas. com os quais se defronta a nação. Após a III Conferência Mundial em Durban. ver a formação de professores e professoras e supervi- de 2001. pela reserva de vagas passa pelo mesmo processo de dade e a valorização desses conhecimentos no espaço drina e Jacarezinho)10. na mídia.html definida como Coletivo Pró-Cotas: Diversidade e Perma. avaliação pela via universal. Apresentadas como maneira de reduzir as desigualda. pois podemos vislumbrar uma instituição de ensino discriminam e cerceiam qualquer possibilidade de in- constitucionalidades. quanto nas ações des sociais. É fundamental destacar o trabalho desenvolvido pelo Coletivo. o importante é ressaltar que esta cadas. superior mais negra. mas apenas ve grande mobilização da população afrodescendente podem. 88 89 . 8-15) Sob a perspectiva de igualdade de oportunida. lam um descompasso entre o dito e a realidade his. orientar e promo- para promover a igualdade de oportunidades a partir ocultam uma realidade trágica e desviam as atenções ços de discussão sobre a reserva de vagas na Universi. mo que afeta indivíduos. As ações são 8. como debates internos da UEL e financiado pelo Programa Universidade Sem Fronteira/ Favor da Lei de Cotas e ao Estatuto da Promoção da Igualdade da dinâmica social. bemos. contra as(os) negras(os) não se colocam exclusivamen. entre outras. mas sim das as cotas no Ensino Superior. ainda que incipiente mas significativa. e estadual de ensino de Londrina e Jacarezinho.com. se pretende ficados como negros. da comunidade externa organizaram uma ação política da Universidade. Nas ações desenvolvidas Anti-Racistas Contra as Leis Raciais” divulgado pelos as desigualdades cristalizadas a mais de quatro séculos educacionais cotidianas. culo escolar. tendo em vista que a se. de família de baixa renda e tiver cursado escolas públi. grupo é resgatar as discussões desenvolvidas em 2004. em caráter provisório. a nação brasileira assiste uma in. contendo cerca de 300 assinaturas. cotas raciais não promovem a igualdade. mas. dade Estadual de Londrina.br/wordpress/?p=1398 . as esta política no processo seletivo. os descendentes dos das identidades de crianças e da juventude negra. quando a Universidade aprovou. cerca de 64 universidades.br/artigos-sobre-cotas/confira-a-integra-do. as cotas não a transformação a partir do reconhecimento das desi. nas falas dos alunos um rico material de análise as cotas para negras(os) em universidades públicas e o trário.) racial em universidades públicas passou a ser um ele. Diante da publicação da Lei n. no âmbito de sua jurisdição. cabendo aos sistemas de -políticas ocorridas tanto no debate. UEL (SETI-PR) de 2009 a 2010. seleção. pois a(o) aluna(o) que tem acesso à academia Afro-Brasileiras e Africanas para promover a visibili. da História e Cultura Afro-brasileira no Paraná (Lon- Por outro lado. (BRASIL. sociais e educa. DE EXPERIÊNCIA promover a capacitação de professoras e professores clinação. ver em entrevista: Kabengele: “Con. esta política será avaliada e haverá uma olhares capazes de ultrapassar os limites do viés euro- racial e traz no seu bojo a problematização da existência oportunidade de ingresso por menor número de pontos votação para decidir se continua ou não. No fim.com/ (www. as cotas raciais possibilitam que as(os) jovens colégios particulares de excelência e o segundo provier nada à igualdade de oportunidades entre negras(os) e outras matrizes culturais e suas contribuições ao currí- negras(os) oriundos de escola pública sejam contem.br/5com/ cracia racial. desigualdades: “As cotas raciais exclusivas. pelo LEAFRO com o corpo docente da rede municipal meios de comunicação em 2006 que objetivava levar ao contra o povo negro. potencializando o racismo e o sofrimento desconstruir os privilégios de uma elite conservadora pop-up/integra_manifesto_contra_cotas. com as(os) estudantes da UEL. lho Nacional de Educação aprovou o Parecer CNE/CP e intervenção. de agosto de 2010 e teve como objetivo ampliar os espa. estudantes universitários e membros drina. branca que monopoliza os bancos acadêmicos. sim. com implicações nos processos Educação das Relações Étnico-Raciais e o Ensino de o caminho a ser traçado. Para problematizar superior. De fato. foi elaborado o Manifesto em minatórias que mantêm a população negra à margem orientadas por uma série de atividades. mas sim. A Lei 10. Fonte http:// Em Londrina. de 1979. em sua obra executadas pelos estabelecimentos de ensino de dife.639/2003.br/projetos/leafro). intervenções pela cidade de Lon.org. brancas(os) e à luta por um ensino básico de qualidade. Para mais informações ver em http://coletivo. Ora por uma pers. primeiro provier de família de alta renda e tiver cursado lítica vitalícia. o Conse. 9. Na contra mão deste manifesto. Educadoras(es) e todos os membros da escola para a população negra brasileira. Esta expressão foi utilizada pelo cientista Demétrio Magnoli população branca. na UnB (Universidade de Brasília). assumiram as políticas de ação branca. propostas pedagógicas mento deve ser analisado a partir das mudanças sócio. Este projeto é vinculado ao Departamento de Ciências Sociais no Brasil”. E por fim. perce- Ministro da Justiça um texto “argumentativo” contra Não é objetivo fomentar a discriminação ao con. tentativa de trazer a comunidade externa para a realidade fissionais das áreas de Psicologia e Sociologia. é fundamental Na atualidade. nem criar privilégios ou novos tipos de desi. mas sim promover uma educação antir. pois. Este coletivo foi consolidado no dia 12 rentes níveis e modalidades. Sobre leção ocorre entre os pares. (CAVALLEIRO.19-20.

política. não indenizar os do desenvolvimento das ações. e por outro lado. por falta de preparo ou por pre. também. Esta camada da população teve durante a escravi. é interessante trazer à tona o legado da escravidão. mantidos. de modo ser mais”. um todo alguns desafios. Estes cursos consistem em quatro encontros mensais. nos naturalização destes episódios. Por essa razão. “o negro tem preconceito contra a O racismo permeia as relações no Brasil. GOMES. Na maioria dos casos. (. eles se inscrevem nas relações de poder como mercados materiais ou simbólicos não são direitos. portanto. meta é premiar a incompetência negra. na ausência de dis. há um módulo que especifica estes elementos à população negra educação antirracista devem ser repensados diariamen. alguns professores. por exemplo. de outro grupo. crenças. assim pensar-se-á que sim favores das elites brancas. “aqui no Brasil. é possível dão muitos privilégios. brasileiras(os) se resume à escravidão. quando o racismo racial). em ajudar o cista não. nada negra. fruto da apropriação do trabalho de quatro séculos ação da população negra para além daquelas que estão percebem os atos de racismo presentes no cotidiano As falas e silenciamentos podem ser compreen. escravidão para o branco é um assunto que o país não de novos modos de ver o mundo. humanidade em geral. criminação. o também de ressignificação dos mesmos. valores. relações sociais e a vida. porque na Itália o branco atravessa a rua se do ‘ser negro’ acabam por estabelecer um lugar para bretudo quando esta foi negativamente introjetada em também um projeto de trabalho com a história e significados da passar um preto”. 2005. as(os) profissionais da gitimando um espaço de privilégios que não é o das(os) realizou. não das. de fome. Além te. própria raça”. o que implica na interiorização e estes silenciamentos se configuram. Nos cursos de formação continuada realizados em za. Este silêncio e cegueira permitem truímos cotidianamente com aqueles que participaram acabou por sobressair a insistente negação do racismo obrigatoriedade de discutir conteúdos e assuntos que não prestar contas. calcada trumentalização da mesma em sala de aula. mas sem que esta premissa seja anunciada no 12. não é mais possível tolerar o racismo e a dis- educação não desenvolvem ações pedagógicas para a negras(os). so. com sérias consequên­ conteúdos dos materiais didáticos. metodológicos e sensibilidade para saber como agir. políticas compensatórias ou saberes e modos hegemônicos de entender o mundo. 2005. ao contrário. Mesmo em situação de pobre. A partir destes elementos e com o desenvolvimen- cias psicossociais.. Como povo negro brasileiro. herança -brasileiros na escola.(CAVAL. que durante a pós-escravidão geral. Possibilitou às(aos) ou não. E por fim. quais os significados para estas(es) educadoras(es) da na história do Brasil. Como indicou Bento. “eu não sou ra. além de trabalharmos mecanismos para ins. próximos dos padrões raciais de classe/raça dominante.( para ver como as crianças e as(os) jovens negras(os) são paldando a fala da equipe.) Na verdade. a população negra na sociedade. Mas. período da pós-abolição há um vazio histórico sobre as de inferioridade a população negra. ora trazendo elementos novos. trato os meus alunos neguinhos como gente. A categoria racial possibilita a dis- discutir a diversidade e conscientizar seus alunos sobre sócio-histórica. por parte de algumas professoras e professores em com. supostamente não existem no universo deles (a questão negros: no final das contas. 201011. 2002. As relações simbólicas encontradas em torno orgulho e dignidade os atributos de sua diferença. ora como protagonistas.. uma professora que desenvolveu um trabalho a partir Um dado importante é que as intervenções se de. 2002. as(os) colegas. p. de maneira geral. direcionadas àqueles que foram excluídos de nossos consequências práticas no cotidiano não percebem 2005). em mostrar que a diversidade de ação afirmativa para o povo negro. por um lado. universo que traz informações sobre a história e a situ- Grande parte das professoras e professores não des raciais no ambiente escolar12. econômica e cultural da população negra As falas de algumas destas mulheres e homens tribuição dos indivíduos em diferentes posições na es- a importância e a riqueza que ela traz à nossa cultura nos períodos da escravidão e pós-escravidão até os dias atuais. não sabem lançar mão das negra. isso. p. é o que se pensarmos o Brasil com o corte racial. pode ser consi. em suas alunas(os) negras(os) uma ressignificação do ser negro. Na ausência de um olhar atento para cussões em sala de aula e na escola de maneira geral. p. a presença de professoras(es) negras(os) pois. para além das ações pedagógicas. priorizando a situação educacional. etc. “. de classe e de idade”. le. o legado da de desconstrução de saberes arraigados e a construção sores deste espaço – que é um espaço de poder . Ao apresentar o de um país escravocrata que delega um lugar simbólico vos. interpeladas(os) pelas ausências de referencias positi. Todo este processo detrimento de sua própria natureza humana. e principalmente reconhecer que o racismo e a em jogo. A este respeito Eliane Cavalleiro constatou didos como um instrumento para pensar e repensar em se evitar caracterizar o lugar ocupado pelo branco A riqueza do trabalho esteve nas relações que cons- que “do diálogo com esses profissionais (da escola). e de seus derivados na sociedade brasileira”.. pois os brancos saíram da escravidão com professoras(es) negras(os) se reconhecerem em um so de desconstrução do racismo e da discriminação? algumas ações capazes de problematizar as desigualda. etc.1) A escola. ressaltamos a importância uma de coitadinho”. a raça exerce funções simbólicas (valorativas 7. Para a população branca conservadora. de gênero. Para o público participante. um “os alunos não querem nada mesmo com o ensino. acarreta em intenso sofrimento psíquico. mas em uma elite dominante branca e uma maioria domi- as contribuições das literaturas africana e afro-brasileira para fator de complementaridade e de enriquecimento da se tocar um tambor. com atividades em sala de senvolviam de modo diferente nos espaços onde havia elaborado das seguintes maneiras: “Ser negro é ter que aula e dramatização do livro.. políticas públicas As(os) alunas(os) que sentem o racismo e suas -dito. já fessores a realidade sócio-histórica das(os) negras(os) é uma construção social. são interesses econômicos ora como coadjuvantes. como as professoras e os profes. menta a continuidade da lógica escravocrata. não compensar.estão. mas sim. Evitar focalizar o branco é evitar discutir as diferentes O trabalho do LEAFRO permitiu ao grupo como derada um espaço de reprodução de preconceitos mas vas. tiva. e a discriminação são percebidos não há nenhum tipo discriminação estão presentes no seu cotidiano escolar de ação afirmativa são taxadas de protecionistas. tidiano. dar consistiria.” (BENTO. fomentando sentimentos de não-pertencimento. propostas pedagógicas aprendemos e compartilhamos não só conteúdos e sa. discutimos os processos de desenvolvimento das políticas do negro é por que ele mesmo gosta de se vitimar. praticam a política de avestruz ou sentem pena dos no Norte do Paraná.. política e econômica. exteriorizam e demonstram que os caminhos rumo à trutura de classe. e estratificadoras). A manutenção deste status quo. Há benefícios concretos e simbólicos disseminadas. Como diz Souza.. estudamos entre os grupos humanos. para que não se repitam frases como “o problema (SOUZA.630/03. que para ela os resultados foram extremamente positi. para apontar alguns exemplos. conforme pertençam ou estejam mais e à nossa identidade nacional. escolar. capoeira. pois nos permitiu questionar LEIRO. 90 91 . “o preto é pobre porque não se esforça”. muitas vezes NANGA. dimensões do privilégio.. pois faltam muitas vezes instrumentos e em diferentes espaços sociais. hábitos perceber em alguns momentos a falta de sensibilidade foram. vocês negros. 1983. 71) Por outro lado. em vez de uma atitude responsável que disso. p. algumas questões podem ser problematiza.15) do livro “Menina bonita do laço de fita”. foi possível perceber a sensibilidade o que não é pouca coisa. se identificando como atores sociais no proces. pois fo- não constitui um fator de superioridade e inferioridade da Lei 10. traziam suas experiências e debatiam junto com beres escolares.27) CONSIDERAÇÕES FINAIS estas experiências. nos mostra Denise Jodelet (1989). aí eles querem”. procura.. 20) “coitadinhos”. No imaginário da maioria das professoras e pro. a Deus. processo de formação continuada trouxe possibilidades Nesta perspectiva. preender a necessidade de desenvolver objetivamente quer discutir. ora res- e preconceitos raciais. mas. p. da população conceitos neles introjetados. o negro é símbolo de miséria. mas no professor alguém com quem possam compartilhar aquilo que é apagado e excluído. Não podemos nos esquecer que o racismo valorização do ser negro e dos saberes africanos e afro. cujos jogos de poder pautados nas ideologias Nas sociedades de classes multirraciais e racistas como situações flagrantes de discriminação no espaço escolar eugenistas não fizeram parte da formação destas(es) o Brasil. no entanto. cuja especificamente sobre a realidade sócio-histórica do de intervenção. to do trabalho de formação que o projeto LEAFRO A discussão racial precisa estar em pauta em nosso co- o racismo e a discriminação. devem dar graças discurso. e ainda são.. (MU. o branco tem o privilégio simbólico da brancura. Como o relato de um grupo de professores que organizaram aluno discriminado para que ele possa assumir com uma semana cultural com o tema “Africanidades” e perceberam viu”. cujas e na sala como momento pedagógico privilegiado para questões problematizadas partem de reflexões sobre a realidade profissionais. Os silenciamentos não significam apenas o não. pois segundo Maria Aparecida Bento (BENTO. uma herança simbólica e concreta extremamente posi.

Alfabetização antepassados que contribuíram para a construção eco. tais políticas de ação afirmativa visam provo. Rio de Janeiro: rem em ampla escala. Neusa Santos. educação continuada. 10. sando nossa escola. 2ª edição revisada / Kabengele Munanga. proceedings. a qual não é possível atingir. Brasília: MEC.. corpo ne- Este cenário apresentado envolve a(o) negra(o) gro e cabelo crespo: reprodução de estereótipos e/ brasileira(o) em diversos espaços sociais. alfabetização e diversidade construir outras possibilidades de identidades. RAMOS. p. Discriminação e Desigualdades possibilidades de rever um processo histórico exclu. secretaria de -se uma identidade ideal. Branqueamento e branquitude no Brasil. 2002. gógico da diversidade. CAVALLEIRO. 2005. Políticas de Ação Afir- mativa na Universidade Estadual de Londrina. dente. que as(os) estudantes negras(os) possam ter acesso a organizador. discussões e abrem HASENBALG. Trajetórias escolares. Introdução crítica à sociologia bra- sileira. Por isso o sistema de cotas e a Lei ANPEd. Branquitude e poder – a questão das cotas para negros. 33-44) GOMES.php?pid=MSC00000 00082005000100005&script=sci_arttext ). BENTO. 1983. Kabengele. 2002. Raciais no Brasil. Rio de Janeiro: IUPERJ. Almeja.”. Caxambu. Discriminação ra- As construções sociais levam as(os) negras(os) cial e pluralismo nas escolas públicas da cidade brasileiras(os) a pensar em seu grupo de origem como de São Paulo. Psicologia Social do Racismo: estudos sobre branquitude e branquea- mento no Brasil. 1957.gov. In: Educação anti-racista: caminhos uma referencia negativa.br/scielo. Guerreiro.mec. como um grupo do qual é pre. Souza ( SOUZA. Tornar-se negro: As vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão so- BIBLIOGRAFIA cial. uma história que as(os) permita orgulhar-se de seus Secretaria de Educação Continuada. 92 . 2002. da ANPEd. Acho que o que me faz BRASIL. _________. Racismo e anti-racismo na educação: repen- contudo. 1 Simpósio Internacional do Ado- lescente. Ministério da Educação. 2005. Londrina 2008. RJ: Vozes.639/03 se inserem na militância pela ressignificação _________. – [Brasília]: Ministério da Educação. (SOUZA. Pedro Henrique. car questionamentos. Superando o Racismo na inserções sociais mais igualitárias. São Paulo: Selo Negro. Anais. de modo que possamos implementar relações e MUNANGA. Carlos. abertos pela Lei Federal nº10. Étnico-raciais e para o ensino de história e cultu- Estes relatos foram retirados da obra de Neusa Santos ra afro-brasileira e africana. Secretaria de ciso sair para que seja possível ascender socialmente e educação continuada. no entanto.scielo. Petrópolis. In: CAVALLEIRO. Disponível em: http://www. Rio de Janeiro: Edições Graal.Educação cidadã etnia e raça: o trato peda- deste lugar do negro em nosso cotidiano. p. – Brasília: Ministério da educação. Rio de Janeiro: ANDES. p. 1-14. Assim.639/03. 2008. e Diversidade.61-62) e todas são falas de Disponível em: <http://portal. 2005 nômica e social deste país. 1983. Nilma Lino. Maria Aparecida Silva. propostas pedagógicas a cor (preta) lembra miséria. 2005. In: VII SEPECH (Seminário de Pesquisas em Ciências Humanas) promovido pelo Departamento de Letras e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Londrina. (org). alfabetização e diversidade. 1983. 2001.br/cne/> pessoas negras. Eliane dos Santos. lutamos para escola. a ou ressignificação cultural? In: 25ª Reunião Anual escola. acaba sendo um lugar onde estas vivencias ocor.. incômodos. SOUZA. Diretrizes curri- sempre fugir do lance do negro é o lance da pobreza: culares nacionais para a educação das relações pobreza em todos os sentidos – financeira e intelectual. não muda preconceitos enraizados. Maio. In: Irai Carone e Maria Aparecida Silva Bento (org). 2005. In. ANDRADE. Eliane negras reflexões A lei em si. já que esta significa tornar-se branco.

acompanhamentos e análise. março. e à reapropriação do pro. com base nas quais se reconhecem as per. edu. Brasília. especialmente Políticas sociais. Palavras chave: Movimento Negro. referentes à população afro-descendente. religião. não se limita a reivindicações políticas. -se de forma não simétrica em relação aos instrumentos existência de relações cordiais entre brancos e negros cesso de construção da imagem de si e de um discurso. raça. res. mesmo após a abolição da escravatura e o advento da da luta em defesa de valores e concepções da imagem tenças de classe e o lugar ocupado na sociedade. os grupos humanos e considerava a mestiçagem um valor fundamental da notadamente no que concerne à memória coletiva. (3-5 fevereiro 1980. que. reótipos). desses critérios têm demonstrado. edição especial (1995-2005). intellectuels noirs. não obstante espaço do simbólico e do imaginário. discurso anti-racista. 2008. pour tenter d’effacer les représentations culturelles négatives des Pesquisador do Centro de Estudos das sentações culturais negativas dos negros e suas consequências Noirs et leurs conséquences sociales. Bra- 1. crita e as mídias televisivas apresentavam uma atitude e instrumentos de reprodução da ordem social. Les Mots Clé: Mouvement Noir. de produção (saber. nº 13. Brasília. situados em 16. nº 15. Essa Nesse contexto. jeito com seu ambiente social também depende das No Brasil. como o Movimento Negro riqueza produzida pelo trabalho com base em um laço década de 1930. intelectuais e ati- RESUMÉ Au cours des dernières décennies du XXe siècle. em pé de igualdade. Isso sem dúvida explica em parte por Os estudos sobre a linguagem e a ideologia têm No seio de uma classe social existem diferentes cri. ciais ou de cor permitiu revelar as disparidades econô- micas de que as populações indígenas e afro-brasileiras 2. Políticas sociais. Nesse contexto. a relação com os meios de produ. E-mail: dadesky@candidomendes. pondérant dans la production du savoir. Québec. representando dessa forma um segmento populacional représente une nouvelle donne dans la mesure où ces intellectuels des e professor da UNESA. Políticas sociais. maciçamente divulgada a partir da e dos grupos subalternos. a luta das minorias concepção. consciência negra. Canadá. poder de enunciação. racismo benigno. acompanhamentos e análise. Ver relatórios do IPEA. está claro que a adoção de critérios ra- representações sociais negativas (preconceitos e este. o fato de estas já estarem bem documentadas. intelectuais negros. Rio de Ja. e não nos dois sentidos alternadamente. La réappropriation du discours Américas da Universidade Cândido Men. Texto escrito para o Seminário Internacional Afro-descendência. de soi de la population noire qui. até o final do século XX. discours. réinterprétant les faits historiques reinterpretaram os fatos históricos para tentar eliminar as repre. acom- são as principais vítimas. CÉLAT. pouvoir d’énonciation. Cultura e Cidadania : Intercâmbios Transatlânticos. além dos discursos e das ideias. 95 . segundo a qual a discriminação racial brasileiro. vêm a formar classes sociais diferenciadas. que podem ser dados importantes latente de negação da questão das disparidades raciais obstante. trabalhado- social. tais como nível de renda. Opondo. assim como do domínio e controle do saber e posição subalterna em face dos brancos. situação de subordinação dos negros é produto de um Sendo os modos de representação herdeiros da His. ção continua sendo o critério indispensável da análise longo processo histórico (em que a violência desem- tória.br dépréciée et jugée incapable intellectuellement et moralement. camponeses e mesmo considerados pobres2. depuis des siècles. mais viennent aussi à stimuler l’estime neiro.DO DIREITO À PALAVRA AO PODER DE ENUNCIAÇÃO DO MOVIMENTO NEGRO NO BRASIL1 RESUMO Ao longo das últimas décadas do século XX. ponto de vista moral e intelectual. conscience noire. Ils se sont réappropriés le d’Adesky Ao se reapropriarem do discurso. já que o país promovia a ideia da interpretações estabelecidos. co é claramente desfavorável aos negros. l’image et leur mémoire. pecíficos. depreciado e considerado incapaz do parlent sur un pied d’égalité. Essa situação foi por muito tempo masca- de si e do mundo. quer fossem INTRODUÇÃO dos conhecimentos técnicos que orientam a hierarquia estes detentores de capital. de classe média. situados no de análise para determinar subgrupos de pertença es. Não cor. elas próprias impregnadas dos traços comerciais. discursos e imagens que constituem as redes tituem as redes hierárquicas e a estrutura das trocas colonial com o tráfico de escravos e que se prolonga de significações. terra e capital). as experiências e vivências são encarnadas nas concernente à ordem social a partir da qual se cons. penhou um papel determinante) iniciado no período palavras. 2008. brasilianidade. a relação do su. novembro. secularmente ignorado. que a distribuição do poder econômico e políti. que os negros podiam sofrer era apenas fruto de um visa também a uma crítica radical dos significados e cial. o objeto essencial das relações sociais é a rada pela crença. discours anti- raciste. mas assimétrico orientado de um pólo a outro da relação so. sexo. les intellectuels et vistas negros resolveram assumir. Universidade Laval. desde a década de sília. a grande imprensa es- mostrado o poder das palavras como meios de ação térios de diferenciação. o "poder les activistes noirs ont décidé de prendre le "pouvoir d’énonciation" de enunciação" por muito tempo monopolizado por aqueles a longtemps monopolisé par ceux à qui on attribuait un rôle pré- Jacques quem se atribuía um papel preponderante na produção do saber. sociais. a été ignorée. nº 2010). da imagem e de sua memória. Estudos realizados a partir panhamentos e análise. Nessa República.

por exemplo. Embora os trabalhadores brancos fossem. facilitando sua entrada nas usi. a via da assimilação. a verdadeira libertação passa pela paração das injustiças e danos morais e físicos sofridos acadêmicos que multiplicam os projetos voltados à re- 3. que assim. memória do Movimento Negro. de seus heróis vieram a ser realçadas entre os grupos ficado por seus adversários conseguirá. que precisavam. para se igualarem aos bran. surgida dominados poderiam exigir o reconhecimento e a re.639. os projetos também se ocupam em restituir perante da nação: Estado. fosse como traba. não tinham acesso a posições de prestígio5. Nesse tos. Curitiba. governo federal. 7. ela foi bem-sucedida na Um movimento social invisibilizado quase total- liberdade e a mobilidade social. 2005. op. Ensaios nantes como as de Cândido de Araújo e Manoel dos Santos. o aos proprietários exercerem seu poder absoluto sobre balho. essa situação de subordi. Essa memória imposta busca afrodescendentes do Brasil que se viam impedidos de ciedade não igualitária baseava-se na ordem jurídica do produção. Mas essa tensão entre a releitura da história tal técnico e o controle do saber desempenhando um moral e intelectualmente inferiores. polícia. Tal argumento seria utilizado para justificar o sem acontecido ou como se não fossem suficientemente Movimento Negro vai denunciar em sua plataforma o trabalho. bém corresponde a um desejo eugênico que tinha por medida em que as histórias dos vencedores e os nomes mente pela grande mídia e por muito tempo desquali- A República de 1889 põe fim às medidas discrimi. e instaura o princípio da igualdade de direi. Raras são as famílias negras ca. HISTÓRIA E período escravista. a lei 10. Suas ativi. origem afro-brasileira. cipação dos negros. len. contudo. africanos e mesti. eliminar do passado todos os problemas e sofrimentos dizer ou exprimir livremente sua história como atores Antigo Regime. datado de dezem. mediante a abolição da escravatura e esta será escrita pelos que irão atestar o pouco peso atri. a maior parte das quais foi de. Em larga medida. o resultado só poderia ser uma pálida Supõe. não obstante. últimos anos o crescente interesse de pesquisadores e na década de 1930. Um decreto. por exemplo. que institui o ensino obri- tade própria e de defenderem seus próprios interesses que. de deportados E. importância. como é que os grupos Essa passagem das sombras à luz vai suscitar nos da África. O capi. Assim. manutenção de uma forma de desumanização dos es. a desconstrução da história oficial que oculta os textos trole estrito e quase absoluto sobre o trabalho exercia dades ligadas aos cultos de origem africana. ativistas ou testemunhas anônimas. Desejando ser mais brancos temente simples. Ronaldo Sales. manifestações de conflitos. Ler Ronaldo Jorge Araujo Vieira Júnior. buído ao reconhecimento histórico dos preconceitos do direito de enunciação e de autorrepresentação dos até mesmo a cidadania dos antigos escravos3. o qual tomará a iniciativa de elaborar que os considera socialmente incapazes de terem von. de testemunhos escritos e também de docu- de terras. Ver Flávio dos Santos Gomes. fitas de áudio e vídeo) do Movimento Negro Volume 44. de medidas oficiais de República põe fim aos intensos fluxos de imigração de seu desenvolvimento e suas inumeráveis consequências Na época do Império (1822-89). não significou a eman. econômico classe dominante. sem memória histórica. nº2. e pesquisas sobre a escravidão e a pós-emancipação no Brasil. cit. la época o Movimento Negro apresentava as questões circulação. mestiços e descendentes as empresas estrangeiras instaladas no Brasil a respeitar mentos de arquivos. Escolheram. pesquisas é realizada com base em entrevistas ou filmes 4. vai fracassar. considerada dignos de serem relatados em razão de sua pequena política a obliteração oficial da história africana e a mi- nação do trabalho vai acompanhar outras medidas ado. p. nesse período. gatório da história dos africanos e afro-brasileiros no políticos4. segregação e de preferência que significavam atentados trabalhadores europeus. da Sob a nascente República. ingresso maciço de mão-de-obra europeia. sileiros à formação socioeconômica do Brasil. mas sua exclusão das relações de sofridos por estes últimos. preguiçosos. mais apta ao trabalho nas usinas e plantações agrícolas. 8. o acesso à escolaridade e à saúde pública. já frágeis em danças e à música eram interditadas e reprimidas pela vida de negros e índios. bro de 1930. Grande parte dessas mativas como reparação aos danos causados. incapazes de se senhores e vencedores) excluiu capítulos inteiros de para desmascarar os mecanismos de dominação. tam. Na prática. folhetos. A história oficial (frequentemente escrita pelos oficial e a memória coletiva obliterada é fundamental papel limitado. “O nascimento 9. o poder político. dominados. Nesse período. Ao lado da pesquisa e da análise propriamente di- 5. sem dúvida alguma de um trabalho função das técnicas rudimentares utilizadas. essa medida melhorou as condições de subjacentes ou àqueles que foram desde sempre des- um freio à produtividade das fazendas. escreveu : "A moder. Experiências atlânticas. Universidade Laval e pelo CEAs/IH/UCAM. limita a entrada de estrangeiros e obriga vestígios. hercúleo. fosse como mercadorias. Sales Jr. pelo conhecimento e pela técnica. dos africanos livres e seus descendentes. como se eles jamais tives. fundiária que constituía o fator decisivo que permitia adaptar às novas técnicas e às novas divisões do tra. as entrevistas realizadas com os líderes e os tas. ser ocupados por brasileiros nativos. o Movimento Negro vai captar a atenção do e intelectual permaneceu nas mãos de uma elite branca para além da cor da pele. conquanto semelhantes na situação de oprimidos. e. Trata-se. não se cansavam de cantar a beleza da mulher negra ou de exaltar UPF. Ciências Sociais Unisinos. Esse projeto de libertação com lideranças. o que revelava uma convergência que perderam a memória de seu passado e não têm sentido. e também à do Estado. que os conflitos do passado ou REAPROPRIAÇÃO política de acompanhamento da transição da condição cópia do original! as controvérsias historiográficas sobre a escravidão e o DA MEMÓRIA de escravo à de homem livre. mas difícil de responder de imediato. dotados de subjetividade. deveriam copiar a cultura europeia. com seus privilégios. Passo Fundo. descendentes de escravos. das vítimas da História. Cabe assinalar que no seio da Frente Negra havia vozes disso- cos. leitura da memória dos afrodescendentes. 126. Já citados por Ronaldo Jorge Araújo Vieira Júnior e Ronaldo idosos do bairro de Venda Velha no âmbito da pesquisa "Mémoire a posteridade os arquivos de memória (fotos. cartados. decretos restringiam a liberdade de nização do país. suas precedências lhadores livres”7. Segregação institucional do negro e adoção de ações afir- vam convencidos de que. e seus favoritismos que bloqueavam as aspirações de estimulada e apadrinhada pelo Estado brasileiro. Para os ativistas da Frente Negra. Já naque- servidão. Juruá. Ademais. negras reflexões o Estado não tomou nenhuma medida política para tomada de consciência da negritude sem resultar numa por seus ancestrais? Trata-se de uma pergunta aparen- compensar ou reparar as sevícias sofridas durante o verdadeira assimilação8. 2003. submetidos aos interesses da ria oficial marca de maneira quase indelével os negros. objetivo o embranquecimento da população. e a proclamação da República. eram considerados nas e em postos de baixo nível na administração pública. Responsabilização objetiva educação. Essa so. De maneira sub-reptícia. maio-agosto 2008. Desde seu nascimento no final dos anos 70. foram vítimas. era o controle do acesso à propriedade tos e irracionais – em outras palavras. Ao contrário. manifestamente específicas para os negros mostram pazes de contar a história de figuras importantes de e votar. que permitem afirmar. da mes. Os mestiços e descendentes de escravos os negros estavam em desvantagem como pessoas de preciada ou oculta por trás do véu do esquecimento9. dos escravos. Essa cegueira histórica infligida pela histó. No mercado de trabalho. Ele foi um obstáculo à aparição de uma o valor da contribuição dos negros ao Brasil. Ler a esse respeito o artigo de Ronaldo Sales Jr. currículo das escolas primárias e secundárias do país. De maneira indire. E quando for a hora de contar a história nimização da contribuição dos escravos e dos afro-bra- tadas pelo Estado para assegurar a permanência dessa A esse respeito. as relações de produ. Ronaldo Sales Jr. direta ou indiretamente. o con. em 2003. entre o Império e o início da República”. Ler. jamais. Eles esta. – exigem um trabalho árduo de releitura a partir de ção ainda eram dominadas pelos grandes proprietários aos seus direitos6. se organizar e inscrever suas reivindicações relativas à ços livres. natórias em relação aos ex-escravos. pele negra. os negros A ascensão de Getúlio Vargas à Presidência da período pós-abolição – considerando-se suas causas. classe. Afro-Brésilienne: citoyenneté dans les faubourgs". confinados a posições subalternas. a certas ta e involuntária. modernização nacional e relações étnico-raciais 6. com o apoio de provas mate- 96 97 . as circunstâncias históricas heróis – ou quase isso. ma forma que os negros. A imigração de colonos europeus. colocou em prática uma que os brancos. de escravos eram tratados como cidadãos de segunda uma cota: dois terços dos postos de trabalho deveriam Recompor a história dos grupos subalternos exige cravos e dos ex-escravos livres. conduzida pela cartazes. releitura da história na agenda política do país.

constituiu uma fonte de reno da ação política. p. A não só deve ser travada em escala coletiva. ver. reagrupamento e mobilização desse movimento nos Les damnés de la terre. a expressão assumiu Sartre. DA “RACIALIZAÇÃO” anos 80 e 9011. Québec. discursos e panfletos dos líderes negros são. têm sido neutralizadas. vol. dominante. continuam vítimas do racismo e da discriminação ra. Ele reen. exercício de reflexão sobre as causas das injustiças de 25 anos do Movimento Negro no Brasil que ilustra a trajetória de além das ferramentas conceituais marxistas que privi. 30 novembro 2009. a um movimento social que nunca foi considerado importante pelos legiavam a luta de classes. 31. o livro de fotografias de Januário Garcia ensão da própria situação de exclusão dos negros. por exemplo. Malcolm trução da memória confirma a imagem do Movimento e do direito à auto-representação atual dos africanos X. poderia ter sido uma arma pensamento intelectual pós-colonial e antirracista do dade levará o Movimento Negro a adotar um discurso poderosa contra o racismo. tatísticos mostrando que a industrialização e o desen. permite abordar o dilema e o paradoxo da mestiçagem intelectuais. entre outros. impregnados de uma crítica virulenta ao mito da quica baseada na cor da pele e. por exem- partir da metade da década de 80. negros e indígenas. E na medida em que os negros continuavam a ser correção das injustiças ou de favorecer a inclusão de MOVIMENTO NEGRO ração nas lutas anticoloniais dos povos africanos de ex. mas se manteve desde o advento da A ideologia da democracia racial. a série Cadernos Negros Poesia. que vitimou a população negra não se limitava à épo- Negro. uma tomada de consciência da identidade étnica e o grandes forças econômicas dominantes. 13. às damnés de la terre e Peau noire et masques blancs. Esse trabalho de recons. Moçambique e Guiné-Bissau estavam no seu auge. O des cidades do país. portanto. democracia racial brasileira. o termo "negritude" os portugueses no Nordeste do país. Essa profunda tomada de situam os valores da mestiçagem e da harmonia entre avaliação alguma. interrompeu as atividades do TEN. reforçou e a posição como atores da história. Peau noire et masques blancs a partir dos anos 40. Globo. os quais apresentaram dados es. cujo pri. pela qual os grupos subalternos que não correspondiam ao modelo testemunham o colapso do beco sem saída em termos pequena classe média ou da classe trabalhadora e não brasileiros seriam desprovidos de preconceito de raça. as poesias de autoria de Edu Omo Oguian. Cuti. 14. Eduardo de Oli. do Primeiro Encontro Estadual de Seminaristas. opressão de negros e indígenas. Ela vai buscar. no cerne da qual se décadas ou está dispersa em arquivos privados sem sua representação das sombras da lembrança"13. vítimas de uma opressão racial que não mostrava a sua negros e indígenas nos domínios do ensino e do empre- pressão portuguesa e na experiência do movimento dos cara. 2010. o racismo e a discriminação contra a população go. o movimento veio a se articular mente no plano individual. A exceção que confirma a regra pode ser ilustrada pela tomada da população brasileira. para gritude – que valoriza a contribuição africana à civiliza. Não foi esse. plo. e cuja ex. aquilo que os outros não viam. cial da mesma forma que os negros de pele escura. Ver. cujos segmentos miscigenados do Negro (TEN). Sobre a (re)conquista do domínio da narrativa res. forte influência sobre os intelectuais e ativistas brasileiros e estrangeiros. Era-lhe ne. outros pensado- querem ou não queriam ver10. Fanon na última obra. Assim é. sobre os negros. pelo Jornal do Brasil à rea. em si. ou pelo menos não queles que foram oprimidos em sua raça e por cauda Durante os anos setenta e oitenta. O Globo. assinala que a luta antirracista e 80 que o associam ao ideal de beleza da mulher negra14. negros e indígenas. Martin Luther King e Albert Memmi. o sentido estrangeiro ou estabelecer contato direto com os líderes assim. Ao contrário. serviço da manutenção do status quo. tra. portanto. 98 99 . 27. direito de se exprimir. os desses movimentos. O Movimento Negro que emergiu no final dos anos 70 era aci- ma de tudo um conjunto de ativistas disseminados pelo Brasil. República até nossos dias2. que Quilombo de Palmares que lutou no século XVII contra de posição favorável. pold Sédar Senghor e Aimé Césaire cujo conceito de ne. Essa tomada da palavra coloca em evidência um consciência de uma situação comprovada de coloniali. sua inspi. a forma de "Consciência Negra". sob a máscara da harmonia. "A vida me ensinou a ser negra".. mas também reflete a própria fragilidade não é reconhecido como originalmente seu. brancos. de memória que veio a libertar os negros do espartilho tinham condições econômicas suficientes para viajar ao Os textos. em particular Azuete Fogaça. "Desejo coletivo". Por esse viés. mas igual. Dessa forma. contribuíram com seus textos para a tomada E REINTERPRETAÇÃO grande imprensa que o ignorava quase totalmente nos Jewsiewicki escreveu precisamente : "é um terreno que de consciência por esses grupos de intelectuais e ati. partir da observação de que a abolição da escravatu. parte das quais se perdeu no curso das últimas cessário arrebatar tanto a memória da cultura quanto ca da escravidão. tentada pela obra de diversos acadêmicos de renome. 26 novembro 2009 . o grande líder do 11. grande influência no Brasil entre os expressão se associa às comemorações do 20 de novem- fotógrafos dos grandes jornais brasileiros. a se situar em relação ao relato histórico. As expressões "consciência racial" e "consciência Religiosos/as e Padres Negros do Rio de Janeiro que havia sido processo de alienação das pessoas de cor. a esse respeito. Os ecos dessas lutas afrodescendente é que explicam o fato de os intelectuais de uma identidade mestiça e culturalmente homogê- O esclarecimento dos lapsos de memória e a tomada no Brasil tornaram-se ainda mais importantes para os e líderes do Movimento Negro terem empreendido uma nea estimulou formas de exclusão. de estabelecer mecanismos de INTELECTUAL DO baseada na cor da pele. considerado uma ilusão a o sentimento de primazia e supremacia dos brancos intelectuais do Movimento Negro12 investiram no ter. denunciado essa ideologia diante da qual defendem portanto. que são vítimas os afrodescendentes15. suficiente para destruir uma ordem hierár- da História oficial ao lhes restituir o lugar. Autorrepresentar-se equivale. do Movimento Negro. 15. em 1986. Ethnologies. artistas e militantes do Teatro Experimental bro. lização. Janeiro. Essa crítica é sus. 12. Universidade Laval. entendida como um 10. destruído uma ordem hierárquica pela Frente Negra nos anos trinta. negras reflexões riais. anos 80. em suas colunas. dela. e Nei Lopes. A propósito da expressão “Consciência Negra”. 3. sem esquecer DISCURSO ANTI-RACISTA Negro cuja invisibilidade resulta em parte da inércia da da diáspora em vista de seu reconhecimento. Bogumil Karl Marx. como Amílcar Cabral. de afirmar a tomada então. mas também duzidos em Portugal. capaz de apresentar a imagem positiva da. Apesar do golpe de Estado de 1964. identitária e não mais o da assimilação preconizada todas as tentativas de promover a igualdade entre bran- FONTES DO PENSAMENTO ra não havia. Hoje em dia. de rebaixamento dos da palavra para narrarem eles mesmos quem eles são intelectuais e ativistas negros cuja maioria provinha da crítica da ideologia da democracia racial. Samora Machel. Rio de Janeiro. O já fora incorporado ao vocabulário corrente. e. indiretamente. o caso. no qual vieram a reivindicar o colonialista e anti-imperialista na África exerceram. Nos dez últimos anos. chegam a conta-gotas ao Brasil volvimento econômico do país não seriam suficientes emprego do termo "raça" para conduzir à expressão a determinar na linguagem uma nova subjetividade do numa época em que as lutas de libertação em Angola. "Lieux de l’identité". CÉLAT. a exaltação direitos civis nos Estados Unidos. A ideologia da democracia racial não foi. vistas negros de que o status subalterno e de exclusão das fontes documentais produzidas pelo Movimento pulsão havia justificado sua desumanização. Les e Carlos Hasenbalg. as interpretações similares feitas por dois intelectuais negros: principalmente com base em organizações não-governamentais e meiro número foi publicado em São Paulo em 1978. como Florestan Fernandes Os intelectuais e líderes do Movimento Negro têm do poder de enunciação. aniversário da morte de Zumbi. As reflexões de Frantz Fanon sobre a luta anti. cos. Ver Bogumil Jewsiewicki. Rio de associações culturais que se implantam principalmente nas gran. absolutamen- Movimento Negro que se constrói primeiramente a político cujo eixo central é o da tomada de consciência te. destacado por contrará a juventude entre os poetas negros dos anos 70 negra" não se referem absolutamente a uma classifica- proibida pelo cardeal Dom Eugênio Sales. assim. ção universal e faz o elogio da beleza negra – irá exercer. com prefácio de Jean-Paul Deve-se recorrer também ao pensamento de Léo. para por fim às disparidades socioeconômicas de que "consciência racial" que transformou-se num rótulo de pensamento. Paradoxalmente. Seus dois principais livros. veira e Henrique Cunha Jr. os negros constituíam as principais vítimas. propõe um novo quadro teórico para a compre.

assim. mas sil". desaparecer a evidência da raça simbólica. que se recusam. ou seja. ou seja. igualação dos indivíduos. independentemente do xo deveria ser. ta estatística". parte do tempo. considerado uma "ferramen. pela cultura dominante. Nesse sentido. que se quer promover. a esse respeito. notadamente pelos cânones dominantes. produzida consideravelmente e por muito tem- possível identificar as vítimas do racismo como poten. estratégia redistributiva nos domínios da educação e gênero ou da cor da pessoa. mas como exceções individuais. Esse estranho parado. ainda que a escolha seja nômicas. -nos de longe mais judiciosa que o termo "racialização" perversos dessa situação. a expressão de uma verdadeira autenticidade. tornou-se necessariamente uma con- Esse jogo duplo de argumentação a respeito do uso O PESO DA cepção masculina. 2009. "raça" e inventar outro nome. escritores. plásticos. mo pretensamente científico. Nem sempre compreendem ou querem rios. um antirracismo realista não pode pre. Pierre-André Taguieff. conteúdo sendo absorvido sem que se torne exemplar. artigos contrários à política de ação afirmativa reve. negras reflexões ção antropológica dos seres humanos em subconjuntos jornais. ao con- do termo "raça" e a preponderância desproporcional de APARÊNCIA FÍSICA trário. sociedade. já que promovem cultura. em primeiro lugar. ainda que passado e do presente que dão força e pertinência às promoção de uma essencialização das raças. de tais expressões pelos intelectuais e líderes do Movi. à opinião pública: a fabricação de um consenso anticotas no Bra. Essa formulação parece. Rio de Janeiro. Michalon. Seminário Comunicação e Ação Afirmativa: O Papel da Mídia presentações do que é belo e do que é feio. Centro Cultural da Justiça Fe. mas apenas um pecado venial diante escolha deliberada. em si. 2009. lítica que remete à constatação da semântica de que mais eficazes de corrigir as categorizações perceptuais17. medida em que é ligada ao espaço de poder masculino. hoje em dia amplamente uma mesma palavra pode ter diversas significações Além disso. a "raça". momentaneamente grupos discriminados com base na tremamente difícil escapar desse processo. o Ao reinterpretarem subjetivamente o termo "raça" Para Taguieff. A esse propósito.). Esses mesmos adversá. As contribuições femininas. ressalta que diferenças de raça. que bloqueiam de maneira insidiosa o debate geneticamente distintos e hierarquicamente ordenados democrático e equilibrado16. em suma. nos de ação afirmativa seriam compreendidas como po. a população brasileira é amplamente miscigena. os adversários das políticas de discrimi. Nesse sentido. ou designar objetos diferentes. ser fiel a si mesmo. em termos intelectuais e morais. Mídia e ação afirmativa: a construção de uma opinião "poder de enunciação". ou seja. deve-se reconhecer que o indiretamente. Rio de Janeiro. se é aparentemente simples que se assemelharia a um eu. de tudo. desacreditado. de tal sorte que ignoramos os efeitos que as políticas de ação afirmativa introduziriam uma Se a luta contemporânea contra o racismo obri. Mesmo pessoas esclarecidas "racialização bipolar" na sociedade brasileira. como nomear ou qualificar correta. as políticas Os exemplos do presente e do passado mostram mento Negro. segundo a expressão empregada por do emprego. inevitavelmente. uma "racialização" da do objetivo final dessas políticas que é acima de tudo a que não existe uma escolha radicalmente autêntica. mimeo. da raça so. poder-se-ia afirmar que o belo Essas constatações não sugerem que homens e mu- refratária à questão das disparidades socioeconômi. a beleza. Mas evidentemente esse deslocamento se. à educação superior. distante da interpretação biologizante do "raça" ao acesso à universidade. Ler. o que tornaria difícil identificar as pessoas segundo mente o uso da categoria "raça" no contexto das políti. não como expressões culturais do 16. se juntasse de imediato ao substantivo "racialização" o sócio-histórico. cialmente percebida e. bém podem ser autônomas. ao mercado de trabalho. mais correto que que não é possível abstrair-se totalmente do contexto A despeito dessa interpretação clara e inequívoca mântico do termo "raça". Mas essa recorrência evidencia políticas públicas de promoção dos grupos discrimina. no caso. baseando seus argu. será possível genismo lexical. e o feio podem ser resultados da escolha deliberada de lheres simplesmente interiorizem e reproduzam as re- cas de que é vítima a população afrodescendente. é preciso ticas públicas. Paris. evidência que os programas de discriminação positiva admitir que os gostos estéticos pessoais podem ser di- e sociólogos. 1995. transmitidas também o tema das políticas de ação afirmativa suscita no Debate sobre Igualdade Racial. interpretada. não é levado em conta pelos adversários qualificativo "antirracista". mimeo. serão vistas. Não apenas a mídia continua pública. antes grupos foram vítimas no passado com base num racis. cada indivíduo. em cuja composição predominam antropólogos a implementação dessas políticas em uma "racializa. políticas e torna caduca a insinuação de que tais políti. mesmo que seja a contra gosto. ABI. gênero feminino. ção pública". de que modo os valores estéticos são modelados pela nação positiva no Brasil semeiam a discórdia na grande debates públicos. etc. Além disso. autônoma no sentido indicado. E ainda que seus ad. ra inconsciente. das preferências. notação. suficiente para provar que. que é a desconstrução científica da raça biológica não faz ou seja. São precisamente os efeitos conjugados do Movimento Negro um pensamento racista baseado na necessário sem o qual não seria possível conceber polí. cas públicas de ação afirmativa ? Consistiria realmente O uso do qualificativo "antirracista" também coloca em e o que é feio. já dos no passado e no presente. A concepção de beleza física poderia caráter subjetivo da identidade racial como produto como socialmente construído. Claro que essas tam- categorias raciais como base de cálculos estatísticos sem aceitar que a implementação de políticas públicas de emprego da categoria "raça" é uma forma de "racializa. po por homens (poetas. em vista a promoção daqueles que são vítimas da dis. reconhecem a existência do racismo e da ção" da sociedade ? Poderíamos revogar o uso do termo com base racial podem aparecer como um mecanismo tados ou fortemente influenciados pelos cânones de be- discriminação racial no Brasil. escultores. que remete ao mesmo tempo aos modelos de diferen- 100 101 . Na maior mentos na ideia de que o uso das expressões "consci. os intelectuais e líde. na também promover. mas cujos efeitos permanecem percep. ao Em vez de serem causalmente determinados sob o efei. Segundo ga os militantes antirracistas a manter o termo "raça" lançado pelos adversários para rebaixar essas mesmas ou ativistas do movimento negro nem sempre escapam eles. como referência. caminhos que conduzem à abolição das fortemente monopolizada pelos homens. essa influência se propaga de manei- ência racial" e "Consciência Negra" seria "racialista" e racismo científico. versários tentem precisamente atribuir aos líderes do criminação deve ser compreendido como um recurso herança genética. líticas de "racialização antirracista". levando deliberadamente em conta Pierre-André Taguieff. Les fins de l’antiracisme. "Da opinião publicada to de cânones estéticos. o emprego da categoria "raça" tendo Ser belo seria. a admitir que uma mesma palavra. o termo "raça". artistas ciais beneficiários da discriminação positiva. Entretanto. às distorções causadas por esses condicionamentos no da. Seria. p. Há uma interação complexa forte reação negativa no plano dos redatores-chefes dos deral. 17. momento em que são obrigados a definir o que é belo as categorias branco e negro. seu "Acadêmicos contra a ação afirmativa: uma análise da argumenta- lam uma questão ligada ao direito à palavra. assumindo e ostentando os traços resultantes de sua tíveis no presente mediante desigualdades socioeco. antes. etc. Deveria ser. numa cultura possível discriminar com base na "raça". conizar a abolição da percepção racial das diferenças. Essa seria uma solução corretivo destinado a atenuar a ausência efetiva de uma leza helênicos predominantes. possa ganhar uma outra co. ela depende. objetos de uma os quais não seria possível propor a implementação de ação afirmativa pressupõe a identificação dos grupos ção" da sociedade. Traduzem. cas engendram o ódio entre brancos e negros no Brasil. as comunicações de João Feres Júnior. 79-81 e. 329-354. ser autônoma no sentido de que resultaria da deter- de práticas discriminatórias sistemáticas de que certos res do Movimento Negro assumem uma posição po. É ex- imprensa escrita e televisionada. mas pode legitimamente interrogar-se sobre as formas minação do indivíduo em questão. das políticas de ação afirmativa.

o elogio da beleza particular da mu. conseguiu ser nomeado para essencial da estética negra brasileira? Se observarmos as O PODER DE e indígena. igno- lenovelas da Rede Globo de Televisão. limi- a da matriz que forma as identidades coletivas. Esse Os meios de comunicação de massa. Andrade não tinha estofo nem ca. particular. Testemunho relatado por Carlos Eduardo Mansur. da cultura urbana que se impõe a todos graças a sua Mesmo nos domínios do esporte. assanhadas. Segundo testemunho de Júnior. portanto. como Taís Araújo. eles defendem a plura. eles ganham um espaço especial sobre- reconhecimento da diversidade representa não apenas restrições em relação aos negros. Rio de Janeiro. de dominação cruel e sutil quando projetam uma ima. 22. Se. ainda se observam gundo o escritor Joel Rufino dos Santos. pais passistas das escolas de samba. nos leva por ao grupo dominante. Nelas se reconhece capazes de servir à melhor inserção da imagem dos gru. esse exemplo marginal vai corresponder a uma televisão. atualmente. à música e aos encontros amo- gência moral indireta de reparação em prol dos grupos Nesse esporte em que numerosos jogadores negros têm Se ficássemos nisso. imagem inferior ou depreciativa pode efetivamente 2009. rosos. No derrota da seleção brasileira na final com o Uruguai foi essenciais dos homens e mulheres premiados nos con- afrodescendentes e indígenas. frívolas. Sheron Menezes e Roberta Rodrigues. Vanderlei Luxemburgo foi treinador dos mais importantes clu. balternos é pertinente e deve ser igualitária em relação em equipes de primeira divisão20. pinturas naïves produzidas pelos grandes artistas afro. os não conseguiu em função da resistência de membros musculosas. mercado de trabalho. mas dotadas de coxas grossas e nádegas redondas. rais carnavalescos como Olodum. tian Dutilleux. os negros também fo. 2 de dezembro de 2009. mas também uma exi. variados nas festas realizadas nos terreiros dos cultos sença em todos os níveis de membros de grupos su. minente ator negro de cinema que se tornou protagonista de te. Isabel Fillardis. 19. Essa visão significa que o da cor da pele perdeu importância. de treinador. não há dúvida número maior de negros figura nos anúncios publici. de que a beleza da mulher negra aí representada nos Do século XVI até o fim do século XIX. equilíbrio e a simetria dos traços do rosto. O motivo é que a expressão e com seu corpo são considerados atributos altamente discriminatórias em relação às populações fáceis. “Nos braços 23. duras e individual de todos. de campeão brasileiro. dos campeões”. concepções de beleza. postura.. e. É uma questão importante. O Globo.. Entrevista com Joel Rufino dos Santos. Valorizar o natural e estar à vontade com sua plural por parte da mídia. o de matriz africana. -se evidenciar o caminhar. ção racial ainda se manifesta no que se refere ao posto za helênicos que relegam a um segundo plano as outras a postura e o ritmo se misturam. textura dos cabelos e formato dos lábios lembrem de- mite designar o belo e o feio levando em conta a natu. Ilê Aiyê. Orunmilá. no Rio de Janeiro. obtendo nesse mesmo ano o prestigioso título tipo de beleza é também predominante entre as princi- mente a televisão. Na esfera do sagrado. pois. reconhecido como o esporte nacional por excelência. superficiais. Esse mecanismo de interação que plano os atores e atrizes cujos traços físicos como cor. mos na armadilha do predomínio dos cânones de bele. rantes e desprovidos de história. 102 103 . Não obstante. drid. onde o critério Dida. negros tendem a reproduzir os modelos que os relegam da diretoria do clube. esperar até o fim dos anos 90 para que outro negro. o movimento. que era negro. poder-se-ia dizer que caíra. constata-se também que a por muito tempo ignorados ou marginalizados pelos sido consagrados nos últimos decênios. Eles também podem ser um modo que despreza suas capacidades intelectuais e morais. contraste a propor a questão do saber: quais seriam os que o peso da aparência física ainda é hoje em dia uma ção de treinador interino. Se esses atributos são apreciados no quotidiano das grande difusão pela mídia. grandes veículos de comunicação. inadequada aos jogadores negros22. 8 de dezembro professor d o centro Universitário Estadual da Zona Oeste (UEZO). pessoas de pele clara tendem lher da região sudano-saheliana de África Ocidental. Isso tem consequências racistas. foi por muito tempo considerada de responsabilidade tudo nos almoços e reuniões festivas de domingo que uma riqueza social e cultural. o sorriso e a do movimento negro e pelos defensores de um olhar devem também lutar contra outra categoria de precon. Foi preciso cursos de beleza negra organizados por grupos cultu- lidade de concepções da vida social em face do molde fecham as portas aos postos de alto nível. A sempre à base da escala social. raros são os negros que ocupam a função de treinador fortemente centrados sobre o corpo. Segundo o jornalista Chris- e os artistas negros têm mais papéis nos programas de em suas poesias. a discrimina. continuam excluídos. Depois da Copa de 1950. que chegaram a usar argumentos Mas o ideal de beleza negra não se limita à apa- gem inferior ou depreciativa desses mesmos grupos. Mesmo na República. de maneira subliminar) que o Brasil não tem neces- escura18. supostamente igualitária. zes negras atuais de pele clara. bes do Brasil. deve- grupos por muito tempo foi denunciada pelos ativistas to para homens quanto para mulheres. são propícios à dança. reza das variáveis que compõem a identidade pessoal e Longe de ser um assunto fútil ou secundário. entre outras. A imagem do negro na televisão e na pu. constituem instrumentos poderosos oprimir a tal ponto que essa imagem seja interioriza. incluindo a seleção nacional e a equipe do Real Ma. lembra a negritude de Léopold Sédar Senghor que fazia. alegando que ele era negro e não tinha boa rência física. mais os traços negroides de certos povos africanos19. É o caso notadamente dos elencos de teleno. as proporções. beça para ser treinador de uma equipe de futebol da mulher quanto no homem. organizados com base num permitem perceber a exclusão mediante a ativação de código não escrito que exclui dos papéis de primeira atributos positivos. quentes. es. etc. passa do negativo ao positivo é fundamental. Uma exceção a essa regra não-escrita é Lazaro Ramos. a projeção de uma o cargo de treinador do Clube de Regatas Flamengo em caracterizada pela curvatura acentuada das ancas. A sombra dos cânones helênicos. Amauri Mendes Pereira. tado à indústria do entretenimento. sidade de um mecanismo de discriminação positiva na televisão. Essa preferência é verdadeira sobretudo para as jovens atri. em que o movimento. embora ele próprio se considere negro. Por muito tempo re. intelectual e ativista do MN e. Com política de dar destaque a negros principalmente para "provar" sempre a ser privilegiadas em relação às de pele mais (sem o dizer. diretas sobre o mercado de trabalho ao criar barreiras dicção21. critor e especialista em futebol (Rio de Janeiro. ENUNCIAÇÃO23 blicidade melhorou nitidamente nos últimos anos. de 2009). seres repulsivos. Um -brasileiros do Rio de Janeiro e da Bahia. fosse o goleiro titular da seleção brasileira. negras reflexões ciação ou de ressignificação tais como a negritude que velas e séries televisivas. ajudam a compor a imagem do que é belo tanto na fligir um prejuízo e efetivamente oprimir determinados invisíveis que afetam a igualdade de oportunidades tan. tratados no Brasil como animais. elementos particulares constitutivos de uma abordagem questão espinhosa para a população afrodescendente conhecido como Andrade. Jorge Luís Andrade da Silva. 21. é percebido como branco por gran. proe. esses clichês frequentemente lhes atribuída ao goleiro Barbosa. de número de brasileiros. Iniciei a reflexão em torno do conceito “o poder de enunciação” 20. Essas últimas primeira divisão. ele mesmo havia tentado principalmente a qualidade de serem generosamente pos subalternos e assim garantir o respeito à dignidade social onde são expostos desde o berço a um discurso nomear Andrade treinador da equipe em 2004. da. Em suma. não se pode deixar de constatar legado à função de auxiliar técnico ou exercendo a fun. essa função famílias negras. Com exceção de Vanderlei Luxemburgo. os negros eram tários e participa como modelos nos desfiles de moda. com base em instigações e múltiplas conversas com o meu amigo 18. pois per. Assim é no futebol. Para evitar tais distorções ceitos : os preconceitos sexuais que as apresentam como ram excluídos da posição de goleiro. complexa estética afro-brasileira. Há outros ingredientes fundamentais que concepção pela qual uma imagem deformada pode in. intelectual negro. em um ambiente diretor técnico do Flamengo. é encontrada em graus A partir do momento em que se admite que a pre. Entre esses elementos. Em razão de sua cor clara.

leira.). Hélio Santos. de raciais no Brasil contemporâneo. Divisões perigosas : políticas raciais no Brasil con. fruto sentido que se faz necessário compreender a expressão FOGAÇA. MAIO. de uma imagem e de uma memória. “O nascimento da nação: Estado. Maio. João. Sociais Unisinos. Montréal. "Droits.. Amauri Mendes Pereira. P. Teun. 26 de novembro de 2009. 2008. Levando-se em conta os argumentos acima. vidual”. Joel Rufino dos San. Juruá. entre o Império e o início da República”. edição especial. Civilização Bra- um discurso. Quebec. R. nante. novembro. intelectuais e ativistas negros resolve. Université Laval.. chalon. análise. 2008. nº 2.. eles interpelam aqueles que detinham o discurso. de uma releitura e de de 2009. Société. Rio de Janeiro. Simone Monteiro e Ricardo reapropriaram do discurso. Buscam criar descendentes de escravos africanos e afro-brasileiros. 2009. papel preponderante na produção do saber24. como em evidência fragmentos esquecidos da história dos JEWSIEWICKI. Bra- Gonzalez. Segregação institucional do ne- brancos e negros. "Lieux de l’identité". 2008. Mí- de argumentos. mimeo. S. Ao tomar a palavra em pé de igualdade. polêmica com um grupo de intelectuais famosos que debate intelectual por muito tempo fechado à crítica 30 de novembro de 2009. Também não se trata ape. Rio de mais judicioso. da imagem e da memória que eles atacam e. 25 anos do Movimento Negro Relatório IPEA: Políticas sociais acompanhamentos e do século XX. que se trata de mais que a retomada de um logia brasileira. que está em jogo ao ser submetido ao questionamento Brasil". compreender que o tom alarmista utilizado pelos ad. Ensaios e pesquisas sobre a escravidão e a pós. Ciências uma crítica que permitem a ocupação do "território MUNANGA. CÉLAT. 2007. FCP/MinC. nº 2. São Paulo. tos. SAILLANT.. In: Peter Fry. nº 18. Université Laval. 1995. São Paulo. Curitiba. O Globo. pública. no Brasil. João Jorge Rodrigues. dia e ação afirmativa: a construção de uma opinião monopólio do saber e que jamais se haviam confronta. Responsabilização veem nisso a iminência de um conflito aberto entre contrastada dos intelectuais negros. nas da tomada de posse dos discursos estabelecidos. Avançados. análise. ABI. Ventura Santos (orgs. e San. 2007. ciais e culturais. temporâneo. Flávio dos Santos. Eles se ralidade de concepções do que é belo e do que é feio. USP. já que um número crescente de versários das políticas de ação afirmativa decorre. Brasília. O Relatório IPEA: Políticas sociais acompanhamentos e do desdém com que são tratados pela cultura domi.. É nesse tcolonialité. Ronaldo Jorge Araújo. 31. Rio de Janeiro. mai-ago 2008. (orgs. ao longo nas últimas décadas se inscreve na esfera da política. S. Anthropologie et 24. "Nos braços dos campe. 1995. Ronaldo. Januário (org. João. mas de sua ideia de nação forjada anteriormen. Paris. 24 de novembro modernização nacional e relações étnico-raciais mas igualmente de uma reação. Marcos Chor Maio. escritores e inte. mimeo. acompanhamentos e Medeiros. O Papel da Mídia no Debate sobre Igualdade Racial. não apenas daquilo que é a nova nação brasileira emer. intelectual" por outras concepções do discurso. volume 33. análise. Simon. Kabengele. Mi- a discriminação nos locais de trabalho. tivas dos negros e suas consequências sociais. antes BIBLIOGRAFIA RAMOS. Azuete. 2005.. Rio de Janeiro. Estudos estatuto da raça”. simples discurso existente. Lélia tos. sília. Monteiro. UFRJ. GARCIA. Civilização Brasileira. nº 16. "tomada do poder de enunciação" designamos. Civilização Brasi- para tentar eliminar as representações culturais nega. da imagem dos negros e participa do poder de enunciação que vem a estimular GOMES. volume 44. Passo Fundo. uma identidade coletiva positiva. 2009.). Brasília. Quebec. P. FRY. sem dúvida. C. 2009. Centro Cultural da Justiça Federal. o qual subentende uma reto. “Intelectuais SCHWARTZMAN. 2003. pressão "tomada do poder de enunciação" em lugar do indígenas. nº 15. mas da ascensão dessas novas concepções do mativa: uma análise da argumentação pública". Rio de Janeiro. 2 de dezembro de gro e adoção de ações afirmativas como reparação senta uma novidade. Rio de Janeiro. 2008. Pierre-André. SALES Jr. é seu pensamento intelectual pública: a fabricação de um consenso anti-cotas no cularmente ignorado. ram assumir o "poder de enunciação" por muito tem. Seminário Comunicação e Ação Afirmativa: paz do ponto de vista moral e intelectual. Reinterpretaram os fatos históricos mediante as reivindicações políticas novas práticas so. negros e formas de integração nacional”. (1995-2005). não 2009. Muniz Sodré. 104 105 . Relatório IPEA: Políticas sociais. logies. sua imagem coletiva é negativa. Ler a respeito Fry. depreciado e considerado inca. Esse movimento provocou forte que devem ser compreendidas como intervenções num LOPES.. no caso presente. Rodrigo.). SANTOS. Francine Saillant (org. Rio de Janeiro. Liber. Divisões perigosas: políticas de sua memória. Alberto Guerreiro. acima de tudo. “Mutation de savoirs et pos. 2005. ões". Julio César de Tavares. C. Introdução crítica à socio- de tudo. FERES JÚNIOR. lectuais afro-descendentes dos cânones de beleza que GUIMARÃES. representando um segmento populacional se. intelectual25. "poder de enunciação" com um exercício relacional que Globo. da cultura dominante. seria gente. O Globo. CONSTANTINO. "Acadêmicos contra a ação afir- nome. Por sileira. Maggie. Carlos Eduardo. citoyenneté et répara- versitaires noirs au Brésil". Carlos Alberto 25. Divisões perigosas: políticas mada de posse de alguma coisa. A reapropriação do discurso repre. MONTEIRO. mas da desestabilização de sua convic. Les fins de l’antiracisme. e termo "reapropriação". "A vida me ensinou a ser negra". Perspectives Réinventer l’anthropologie? Les sciences de la culture du Mouvement Noir au Brésil". “Das estatísticas de cor ao po monopolizado por aqueles a quem se atribuía um privilegiavam a estética helênica em detrimento da plu. utilizar doravante a ex. Rio de Janeiro. Nei. Y. Editora Contexto. Beatriz Nascimento e Sueli Carneiro. Y. Rio de Janeiro. "Da opinião publicada à opinião negros. Em suma. raciais no Brasil contemporâneo. “Dia da consciência indi.. Entre os intelectuais negros de proa que têm desempenhado um papel importante nessa « tomada do poder de enunciação ». objetiva do Estado.. citamos. Antonio Sérgio Alfredo. Experiências atlânticas. te sem a participação dos afro-brasileiros e dos povos Janeiro. março. Yvonne Maggie. livre das injunções Essas reinterpretações são também tomadas de posição 2010. vol. MAGGIE. R. munidos tariam. UPF. 2007.). VAN DIJK. 3. O mesmo se faz quando se colocam -emancipação no Brasil. à l’épreuve des globalisations. Foi por isso que. A reinterpretação por artistas. (orgs. L’anthropologie et les militants uni.) tions des torts du passé de l’esclavage. A partir daí se pode MANSUR. "Desejo coletivo". intelectuais negros fala cada vez mais em seu próprio dos pretensos conflitos e ódios raciais que delas resul. do com um contradiscurso produzido por intelectuais ção e do enfraquecimento do monopólio do discurso FERES JÚNIOR. Ethno. TAGUIEFF. Francine. 2004. Brasília. aos danos causados. O Globo. Bogumil. Discurso e poder. 2009. entre outros: Abdias do Nascimento. negras reflexões algumas exceções. Rio de Janeiro. nº 13. VIEIRA Jr..

que não intento dis- 3. 107 . mas dos “homens da ciência” pela metáfora e analogia se cutir o conceito de gênero historicamente. sentimentos e a mente humana. uma analogia que ocupou lugar estratégico ditos cientistas. Munanga (1999). metáforas Evaristo (2006). 1994. elo entre raça e gênero. As neutrality of ”men of science” that engender them. por conseguinte. p. Serão estas as duas questões cruciais entender que analogia corresponde a uma espécie de empírico. apolítico e universal”. par. rei- ao XX. Carlos Moore (2007) e Pietra Diwan ciência”1 que os engendraram. this end. partir lógica e biologicamente. tampouco sociológica. dução científica social?”. sim. e não pelos genes e ou fatores bioló- 1. almejo aprofundar polêmicas que giram em torno das a entendem enquanto resultante de discriminações pelos traços diacríticos do ser humano. and then les emergem questões complexas. (STEPAN. construídas historicamente. Mestre em Educação Palavras chave: racismo científico. For séculos XIX e XX. race and gender. colocando em xeque a pretensa complex issues emerge from them calling into question the supposed neutralidade dos “homens da ciência”. Para tanto. raça e gênero. que busca saber: 1)“Como.36) que se detém sobre os 2. “tradicionalmente”. uma analogia que Maria Anória reflexões que se seguem visam à contextualização e desdobra. As teias e tramas de ideias dos “homens da ciên. cujo intuito foi propalar a superiorização euro. Doutora em Letras pela UFPB. We therefore expect. tance. com isso. ao longo dos tempos. como assevera Stepan (1994. Conceição ao colocar em xeque a neutralidade dos “homens da 72). e de- abstract Race and gender are historically (re) constructed concepts. da razão que. ampliar o leque de discussões no tocante às the range of discussions with regard to ethnic and racial relations tante do Mestrado em Pós-Crítica (UNEB). 72) contemporaneidade. Eduardo Mondlane. pela Univ. na ciência. É a partir daí que se passa a de contribuições e reflexões que as engendraram no INTRODUÇÃO demarcar as diferenças sociais e. configurando-se em um ins- tempo. los XIX e XX”. correspon. mesmo quando os resultados obtidos iam de a referida estudiosa. Esperamos. Stepan (1994. com bolsa estágio/sanduiche em Maputo. we conducted a literature search and guided ourselves by Professora Assistente da Universidade do gráfica e nos pautamos em estudos na área das Ciências Sociais. Ciências Sociais e Humanas. estas são resultantes de relações sociais (re) mesmos em seu livro O espetáculo das raças (1993) europeu. Sueli Carneiro (1993. black people resis- (UNEB). Especialista em Literatura/PUC. 72) salienta que. expand Estado da Bahia (UNEB). a fim de justificar as pressuposições cien. e analogias. de verdade que lhe é conferido. O qual resulta da crença na supremacia do segmento branco. âmbito teórico. como observa cêntrica. Raça aqui é entendida não em uma acepção biológica. mentos. houve a rejeição da metáfora e da analogia pelos da analogia e da metáfora como meio de interpretar e ao gênero. gicos. que os engendraram. quando do desejo de distinguir os comporta. Luiza mente. resistência Keywords: scientific racism. p. distinção entre os movimentos feministas e o feminis. b) relação e na teoria científica sobre a variação humana dos sécu- tividade. mo afrocentrado. de antemão. Nancy Stepan (1994). visto que pretendiam classificar o ser humano psico. Bairros (1995). Para maiores informações a respeito de tais “homens da scien. naturalizados. esclarecem Moore (2007) e cia” veja-se também Schwarcz (1993. p. -SP e Graduada em Letras/PUC-SP. relações étnico-raciais e de gênero em nosso seio social. e envolvem digressões complexas e polêmicas. negra. Teresa de Lauretis (1994). já que estudiosos da área de relações étnico-raciais altera. são escolhidas e outras não?” Afinal. na era moder. realizamos a pesquisa biblio. por considerá-las destituídas de obje. realizei pesquisa bibliográ- tensa superioridade branca e a inferioridade dos demais fica e me norteei por estudiosos (as) provenientes das segmentos étnico-raciais. O que interessava. The reflections A analogia em questão é aquela que liga raça ao gênero. considerações acerca dos seguintes pontos: a) o papel tero que “A analogia em questão é aquela que liga raça na. Com esse fim. that follow seek to contextualize. de modo a repensar as consequências na in order to rethink the consequences in contemporary society. p. and deployment of these meanings ocupou lugar estratégico na teoria científica sobre a variação humana dos de Jesus Oliveira mento de tais acepções. É na esteira do pensa- Ao se deter sobre o período que vai do século XVII mento de Stepan (1994) e estudiosos afins que tecerei Reportando-me à epígrafe transcrita inicialmente. fazendo uso de metáforas ou analogias particulares estão relacionadas à pro. Pes- quisadora de relações étnico-raciais. graças ao status E DESDOBRAMENTOS tindo de conceitos preconcebidos. 2)“Por que certas analogias tíficas. Com o transcorrer do que nortearão as ideias a serem desenvolvidas no pre. propagar o racismo científico e o sexismo2. no entanto. sente texto. em detrimento dos demais. studies in the area of Social Sciences. p. mas. a pre. 2003). o desinteresse Vale salientar. and gender in our social bosom. (2007). a ciência. como um campo privilegiado de saber. dentre os quais destaco: Raça e gênero são conceitos (re) construídos historica. professora visi. configurou-se (e ainda se configura.negras reflexões RAÇA E GÊNERO: ENTRELACES RACISTAS VERSUS AFIRMAÇÃO IDENTITÁRIA NEGRA RESUMO Raça e gênero são conceitos (re)construídos historicamente. ao dia “ao reservatório de conhecimento não metafórico. encontro aos almejados. temáticas étnico-raciais3 e de gênero. apesar das controvérsias criadas em torno delas. nos dias atuais) RACISMO CIENTÍFICO era demarcar os segmentos étnico-raciais distintos. 72). cia” são o foco central de discussão de Stepan (1994. Ao contrário.

para se perce. verdadeiro e objetivo – mais robustas e arredondadas cabeças que caracteriza. 28) salienta que. uma teoria ‘raças à parte’. que “a mulher se igualava aos negros pelo na ciência”. familiares e culturalmente arraigadas ção na variação humana – raças de todos os tipos [. 74). de “uma peculiar analogia da história das ciências. imersa em metáforas e analogias arraigadas de (pre) Em suma. isso enredar: ciência/analogia/metáfora.. no artigo de Stepan. enfim.. o qual estava. as diferentes formas de opressão/exploração tão caras “[. se não resultassem conceitos (pseudo) científicos engendrou a propalada ditos “homens da ciência”. gerou hipóteses e aju- No entanto. a saber: craniometria. para designar algumas “técnicas” Carlos Moore (2007. prosseguem demarcando lugares sociais. tinham o papel de justificar (STEPAN. sob teias e tramas e dizimados sob a égide da ciência. 73) informa ainda quão fantasiosas. 73). A princípio ocorre a total final do iluminismo estudos sobre a variação humana cendo que “na ciência [. à própria ciência”. as tendências crimi. p. pan (1994. também abordadas pelo estudioso logia na ciência [ser] agora reconhecido. analogias usadas pelos cientistas do final do século A analogia conduziu pesquisas. trazendo à tona a construção científica que no caso. remetendo-se a Foucault. pois.. Para maiores detalhes consultar Stepan (1994) e Schwarz ideologicamente as noções raciais que predominam até são apenas às respectivas páginas em questão.]”. reconhe. p. além da omissão. a Carlos Moore (2007). estrategicamente utilizado para quão eram movidos por interesses escusos e afins. Emerge. frenologia.50). o criminoso. usufruindo do sta. poderes. evidencia alguns métodos científicos 220). Aproprio-me. considerados também. quando a mutação humana começou a ser es. sobrevivido ao transcorrer do tempo. p. Stepan (1994. poderíamos identifi- trovérsias. 87-88). das mulheres. “Não por aca- dos homens da ciência. p. a riqueza de in. demarcou pa- metáfora e analogia para o esclarecimento científico”: racistas e sexistas. dade são suas conclusões. a ser elaborada”. do sé- 4. ao constatarem a discrepância entre os resultados ob. a metáfora e a analogia utilizadas pelos foras.. as quais “teriam var momentos cruciais da polêmica quanto à rejeição explicar a “variação humana dos séculos XIX e XX”. Schwarcz (1993. estando ambas análogas ser associada à imaginação. negras reflexões trumento “estratégico” para a “teoria científica sobre a a superioridade do segmento étnico-racial branco em trimento de outras. distorção e mani. questionando de “novos conhecimentos”. da metáfora pelos “homens de ciência” para afirmar 5. O PASSADO PRESENTE culturais das analogias científicas”. “alguns filósofos da ci. nais ou genialidades humanas. no século XVII. tão diferente das objetos científicos: seres humanos. conhecimento sem adornos. No entanto.. quando da “revo. do termo utilizado por Lauretis (1994. de frenologia. os dias de hoje [. entre “raça e gênero”. saberes. prognatismo. os considerados homens das ciências fizeram (STEPAN. Nesse caminhar de constatações/manipulações interferindo nas relações (inter)pessoais. “[. da ciência discordam. matizar tais questões. No caso do estudo científico da diferença humana. também. mas elementos Analogicamente às raças inferiores. nem meramente pessoais”. cujas semelhanças entre si e as diferenças nicas e demais instrumentos da área como. culo XVII ao século XX.. Emergem daí não se deu casualmente. p. p. dolicocéfalo..] aspectos da realidade e da experiência humanas toriadores e filósofos da ciência se deslocado das re. so. em consonância com os demais grupos a ambos os gêneros: feminino e masculino oriundos do incompatíveis com a metáfora tendiam a ser ignorados construções lógicas da ciência em direção a visões mais hegemônicos da época5. no século XX seguem as polêmicas Com base no tamanho do crânio (craniometria) XVIII. entre crianças e adultos”. 1994. precisamente nos meios acadêmicos – onde. às figuras princípio. baseados em Lombroso. Eis. as ideias vigentes fez surgir as ‘lentes’ através das quais as pessoas expe- cido pela sua crítica à importância da controvérsia sobre não eram entendidas como precoces. Daí a utilização Partindo de tais exemplos hoje esdrúxulos. para atender aos propósitos eurocêntricos. 1994. foram resultado de metáforas Também auxiliou a constituir os objetos de investiga- pois. Isso crânio. distinguiram diferenças raciais como aspectos cruciais são arbitrárias. da realidade. de um modo ou de outro. E isso evidencia o que era problemático [nos] grupos (STEPAN. p. “naturalistas” da ciência da cultura. complementa Stepan (1994. fan. Logo. a aludida riores e diferentes na hierarquia social. 76) faz alusão perdido sua importância como sinais de inferioridade e/ou aceitação/apropriação da metáfora e da analogia Antes. Então. gurar a sobrevivência da classe e a continuação da hegemonia”. aqui. em tragicidade para aqueles que foram discriminados inferiorização negra e a superiorização branca. e sexo. As metáforas. auxiliando e fundamentan. NO SEIO SOCIAL É instigante. os negligenciavam ou suprimiam Complicado é o fato de muitos daqueles ideários terem ência” passaram a considerar “que metáforas e analogias grupos hegemônicos. preestabelecidas. RACISMO E SEXISMO: explorar uma série de questões relacionadas às causas formações.. ta científica ou esquemas heurísticos. sito de salvaguardar privilégios sócio-econômicos dos tidos e os almejados. para tasiosos. constitutivos da teoria científica”. quanto à importância ou não das metáforas e analogias. através do crânio dos seres humanos. 73). (1993). Diante dessa constatação. dos homens. p. tus científico e social que dispunham. à fantasia poética. o que era aprendido nos cursos 7. formato do No texto de Stepan (1994. ou não ‘observados’” (STEPAN. peso ou estrutura do cérebro”. observa Ste. para o desenvolvimento de tal teoria”. os filósofos descobertas mirabolantes e racistas. foram gestadas e organizadas (1994). insanos eram. que a burguesia criou “a partir do final do século XVIII para asse. das crianças e dos idosos. sobre o porquê da escolha de algumas analogias em de- formações a respeito das apropriações da analogia e 6. possibilitaram a “construção de similaridades”. p. se nos detivermos com um rejeição de ambas. ca. em uma (con)fusão epistemológica e na confiscação de subjetivas e até mesmo à falsidade e foi contrastada ao crânio estreito. segmento negro. no século XX. cos/científicos às descobertas. posto que mul- não são apenas auxílio psicológicos para a descober. apesar de “o papel da metáfora e da ana.. p. a fim de atribuir termos específi. Ou seja. ricos e pobres.] a pouco de atenção àqueles episódios dos “homens da lução científica”. a importância de (re)discutir e proble- (1995. rimentaram e ‘viram’ as diferenças entre classes. infantil e delicado. pesquisadora evidencia seu propósito que é “contribuir antropometria. “desde o às “origens culturais da metáfora científica”. tecnologias sociais6 ao utilizar não só as téc. Stepan constata ainda que “O sistema metafórico p. então. os pobres das cidades e os é possível notar que os ideólogos da ciência criaram. 72)4 é possível obser. diria ainda que. 75). interessa registrar que “a metáfora chegou a racial começou a ser elaborado”. as isto é.]”. vam os machos de raças ‘superiores’”. do “informações sobre os corpos das mulheres (com- variação humana”.. 1994. raças Se a “analogia conduziu pesquisas”. propiciou a analogia entre raça e ciência. prossegue Stepan viante sexual. Sem entrar nos meandros de tais con. assim. e comprovar teses racistas e sexistas. indicando primento dos membros. com o mero propó. Seguindo na direção do pensamento da referida pelos homens da ciência. direitos e deveres. se de um lado os “cientistas” passam a defender das ditas raças superiores (brancos) e inferiores (ne. linguagem própria. tendo a atenção dos his. Tanto é que ao identificarem Mais recentemente. p. farei alu. pois. 73). emaranhar. Como estarei me referindo sempre o mesmo texto de Stepan ber. detrimento do segmento negro.. tifacetados. entre péis sociais. compreendendo-se. largura da pélvis.] que “as analogias ou os modelos nelas baseados eram gros). organologia. branquicéfalo. pois souberam enlaçar. E. o des. que o “físico francês Pierre Duhem ficou bastante conhe. através de “manobras por vezes cômicas”. tificar algumas constatações desenvolvidas por Stepan. etc7. o elo pulação de dados pelos “homens da ciência”. é perceptível quando Stepan (1994. 86-90). Assim sendo. porém.] A analogia definiu importantes para o pensamento científico”. não mais mencionarei o ano de sua publicação. porém. preconceituosas e distantes da reali. Stepan prossegue com outras instigantes in. p. em alguns mo. 76) bem como outros grupos sociais [. a as metáforas ou analogias particulares sejam aceitáveis car semelhança com a ficção.] metáforas e analogias não estudiosa. o papel das metá.. O artigo de Stepan (1994. a mulher. científicas. 1994. tudada sistematicamente. [.. nos afigura ideias cômicas. entre o homem civilizado e o selvagem. 86-89). obviamente. étnico-raciais. dou na disseminação de novos vocábulos técnicos. e um extenso discurso sobre desigualdade falha em perceber ‘arbitrariedades’ é que faz com que ciência” e às suas “descobertas”. a pretensa objetividade científi. analogias e modelos começou a ser reconhecido mentos. preconceituosas. p. prossegue Stepan (1994.. que contribui para ampliar e ra- crítica da metáfora científica está apenas começando com o homem branco ‘explicavam’ suas posições infe. p. demarcando-se a supremacia racial 108 109 .

psicó. com vistas auto-percepção dificultando – e às vezes inviabilizan. 37). 110 111 . to. 23). que sempre se pretendeu neutra e em preto e branco: jornais. de disciplina objetivou implantar um método de sele. entre outros (as) es. mencionar mais exemplos da propa. ideológicas” para demarcar a “superioridade dos cris. fim. experiências de um cientista obcecado em desvendar imersas em uma sociedade rígida e regida pelo patriar- as (re) ações humanas consideradas anômalas sob seu NEGRAS MULHERES: calismo. 77) assevera que. o alienista. Esse é o aos interesses dos diversos grupos hegemônicos no ex. 10). e Um exemplo da obsessão fanática – para não dizer sofridas. ídas e determinadas. conforme observamos renciado aspecto teórico-político-ideológico de onde o exercendo sua força ideológica não apenas na comuni. permitin. cavam desde a inferioridade dessa raça com relação à oficialmente. lá se vão as mulheres. Baiana e o português que se amanceba com ela: Gerôni. sociólogos. Seu percurso histórico é longo e.. (2006. muitos outros10. afirmando ser Francis Galton “o pai da eugenia”. historiadores. que buscaram a pureza diversos. a libertação da mulher [. 281) salienta que “O sexismo é um fe- que alicerçaram o racismo ideologicamente”. aborda tais uma história da eugenia no Brasil. que in- rias racistas em questão. incontestavelmente se desenvolveram estratégias Nem mesmo a esposa escapa. as religiões. Sem entrar em tais meandros. congênito. nacional racismo. o ra- em favor da sua prole [.. ponto de vista. como algo natural. 286). a persistência do racismo e de seus male. p. levando em conta no exterior e segue aa mesma linha de pensamento de Cashmore 9. as filosofias e as ideologias Para Diwan (2007. 23). racista e sexista. em seu livro Raça pura: entre raça e gênero. Carlos sustentáculos conceituais daquelas arquiteturas teóricas às pessoas negras e. Spencer. aqui. em busca da libertação. 2003). etnólogos. Logo. Então. nossa literatura. universais e transversais”. no século XIX. na contramão muitas mulheres já se rebelavam contra a hegemonia cristão sobre os muçulmanos em relação à posse da muito bem ilustrado através de Simão Bacamarte. brancas e negras.]” (MOORE. mo. no entanto.Vale pontuar que Diwan (2007. cal. Em O Cortiço. enredado com base no fator heredi. na segunda metade dos anos 60. envidaram-se esforços para perseguir a religiosidade de produção. nestas. Santos (2002) em do que os “grupos hegemônicos” consigam “produzir tudiosos (as) da área. Esta estudiosa assevera e internacionalmente. nem ele. p. dade de serem dinâmicas determinadas e construídas racial quando da distinção matrimonial. Gerônimo. 113). dade branca. gra destroem a retidão e o caráter exemplar do homem Quer dizer. os modos princípios de extermínio dos não brancos. um ponto de partida para o alvorecer e indígenas” (DIWAN. de Alui. movimento feminista surgiu”. Mas. que se degenera no meio social em que habi. Darwin. libertação de quê A aludida pesquisadora salienta que embora na. o que poderia existir de comum entre ideologicamente. não só na literatura destinada ao adulto mas. Embora não possamos traçar uma linha temporal a res. tropólogos. de Machado de Assis. Esse é um exemplo da analogia ra evidencia. Conforme Frei Betto (2006. (MOORE. porém. 69) constata branco. sobretudo quando este reconhece o influencia da (pseudo) ciência. duas figuras são emblemáticas: Rita entanto. desde então. prender um imenso contingente em seu “laboratório”. lhe era inerente. p. no dade racista. tende a ocasionar danos à lada superioridade branca X inferioridade negra impor. Stepan (1994. cismo e o sexismo perpassam todas as culturas e todas do bojo desse contexto que surge a eugenia imersa em racistas “não surgem espontaneamente. abandona a família e. p. tendo em vista branca até suas características de ‘humildade e servi. ideológicos. autoria. em uma leitura tos. os discursos do Correio eram às desigualdades raciais no Brasil. 281). estruturado sio de Azevedo. com o advento da “Revolução Francesa”. de “privilégios econômicos mesmo ponto de vista de Nascimento (2002). é apropriada e justificada metaforicamente pela ci. percorreu o universo dos que “Sobre a raça negra. “Já na Gré. Esse é a tese defendida por Scwarcz em outro livro de sua to ver: Brookshaw (1983). p. p. conforme percebem os estudiosos da “fenômenos atemporais. Assim. atemporais e englobantes. tendo como base suas inferioridades ‘naturais’”. 2007. cientifico. muito embora só a o sexismo quanto o racismo compartilham a singulari- filósofos. o Rio de Janeiro. Para Bairros (p. ao entender que as teorias Em termos de outros projetos políticos de embran. Bento (2000). p. leva a cidade ao caos ao internar/ TECENDO OS FIOS DE UM e de quem? Responde o autor. p. conceitos e aponta as suas limitações. Ele esclarece ainda que da vontade divina. etc. também. chega até nós. com base em Judith Grant. 458). Há. para “estimu. transposições de pensamento externo9. FEMINISMO AFROCENTRADO quais: “libertação” e “emancipação”. (ibid. Nesse viés de pensamento.] e classes sociais?”. além deles. negras vozes fizeram ecoar as opressões surgiu “nos EUA. economistas e filósofos atuaram como grandes corrobora o sentimento de superioridade em relação Poderia. Trata-se. a noção de superioridade do povo metaforicamente. as civilizações. lar o matrimônio dos casais ‘superiores’.. No que concerne à comunidade branca. 2007) entre outros (as) estudiosos da área. mulheres de diferentes grupos [. Cuti (2010). o aborda não só no Brasil como produções destinadas às crianças e adolescentes. p. remetendo-se aos “conceitos básicos de 8. dias Nascimento (2002) denomina como “genocídio ção humana baseada em premissas biológicas. “Numa socie- e Carlos Moore. peito da propalada inferiorização da mulher e. Aristóteles relacionou a mulher ao escravo. sucumbe em todas antes. por exemplo. Logo. p. recriados em ência no transcorrer do tempo. reportando-se às teo. Nessa 18”. marcada por profundas desigual- racismo como um “fenômeno histórico”. pondera Bairros (1995. Eis o que cons. a eugenia “Com status tam e terminam por legitimar o racismo presente no e as atividades culturais do segmento. à luz dos ideários 10. nas feminismo” e. p. elucidando conceitos tais quela não houvesse “descrições raciais nesses argumen. eis o que se segue. (2004). mas basicamente convergentes.]”. a alguns dos “homens da ciência” é cas. área citados até então e. se começa a dar mais visibilidade cos. imaginário social e na prática brasileira”. 23). Há. desfiando suas teias enredadas sob fios teóri- analítica”8.a construção de uma autoestima positiva. sexista. visto serem os campos de batalhas mais com. fícios para a sociedade como um todo (TELES. escravos e cidadãos em São escravagista. tomando como referência o século XVII. de Hipólito Taine. Eis o que Ab. e ganha status de verdade. partir dos anos 90 o governo federal tenha reconhecido. históricos. nem são meras quecimento social e ideológico. em que tudo era resultado fantasmagórica – de um personagem que corresponde. afinal e sociais que são negados à população-alvo”. 19-21) o feminismo a preservação da raça” (op cit. p. propugnando Mesmo na Idade Média. Antes. portanto. E isso tatou. da intensificação da opressão social. 280) delineia as nuances do através da ciência. Silva (1995). por análoga entre ambos.. pois expli. tada principalmente da Europa. p. seu livro intitulado: A invenção do ser negro: um percurso Como formas de consciência historicamente constru- e perenizar as estruturas de dominação sócio-raciais Gomes (1995. Eis o que a pesquisado- as virtudes europeias. Isso. complementa. da da história. sob o aval Mas. “o berço a dominação do Mundo Novo podem ser constatadas obra temos a fina ironia machadiana ao perscrutar as do feminismo moderno”. Eles atravessam os milênios. a inferiorização da mulher é tomada totalmente resolvida pelos vários feminismos. 1987. Moore (2007. Eis a visão magistral de Machado de Assis face ao tomemos a demarcação temporal de Frei Betto como tãos e. No entanto. “Tanto nomes e propósitos distintos. aproximações entre os pontos de vista de Diwan outros personagens da Literatura Brasileira expressam a mente. p. p. a inferioridade dos muçulmanos domínio e às especulações científicas vigentes. Gomes (1995. obvia. Aqui o poder sensual e bestialidade da mulher ne. nidade negra”. dades sociais. Nos anos 80 (século XX) é que. 2007. Dentro de uma visão mais Naturalista da realidade. uma referência. tário e fenotípico dos segmentos étnico-raciais. 458). uma espécie déficit que terpretaram a opressão sexual com base em um dife- que “ainda estão presentes na atualidade e continuam tava. Essa associação. expandiu-se pelos países do Ocidente. nesse aspec. Munanga terior e no Brasil. 2007. 69) reitera constatações de Moore das idéias que naturalizaram a inferioridade dos negros. Schwarcz (1987) em seu livro Retrato do negro brasileiro” antes. fenômeno fundamentalmente antinegro” sendo ambos racistas. Surge daí o feminismo afrocentrado. Elas se alimen. Logo. por outro lado. no Brasil. Oliveira os problemas sócio-raciais que afetavam as mulheres (2000). mas entre parcelas significativas da comu. seu marco dá-se no “século Terra Santa e a inferioridade indígena para justificar obra literária O Alienista. negras reflexões do segmento branco em detrimento dos demais: “An. lismo’” (SCHWARCZ. plexos ainda que os enfrentados pelas mulheres bran. masculina. assimilada e adaptada nômeno exclusivamente antimulher e o racismo é um a salvaguardar privilégios seculares por meio de ações do . o português.. e o florescer do feminismo no Ocidente. também. cia antiga.. É (2007) e de Stepan (1994). durante e após o período Carlos Moore (cit. realimentada pela sociedade patriar- logos. através de Paulo no final do século XIX. esta “questão recorrente não é Assim como Carlos Moore. cujo título é O espetáculo das raças (1993). A esse respei. historicamente e não ideologicamente”. Evaristo (2007). Platão e Aristóteles.

tais mulheres “não pensamento. reconhecimento da diversidade e desigualdade existen- a essa questão faz-se necessário trazer à baila as duas tadas como antimusas da sociedade brasileira. 67) salienta que “Os branca é a referência. o que se entende por “patriarcalismo”? Con. no texto em questão. [. mica. também pelos servos e escravos”. prisio- em experiências tidas como universais”. seguindo a linha do. Conceição Evaristo. Sueli Carneiro remete-se à opressão social e econô. fragilidade. um marco histórico de insurgência das vozes que o sis- mulher”. como o racismo. mulheres de baixa renda”. com uma definição racial: brancos. (1993. Eis a grande contribuição de Evaristo e outras ber: “radical. 205) ilustra isso um poder definido como intrinsecamente masculino”. 460. Sueli Carneiro (1993. Outras acepções de feminismo são apontadas por nuclear. Outra adver- outros tipos de preconceitos sofridos pelas mulheres lheres viviam “imersas num sistema cujo paradigma de premissa de que a “identidade” resulta “de um proces. assim alguns mitos (re)criados no seio social patriarcal pois..] cidadania de segunda ordem (1993. haja vista as so feminino. “nascemos com uma defi. o esposo. ainda nos dias atuais. religiosos e psicológicos”.] deveriam ganhar as ruas e trabalhar”. Mas. que que explicitamente tentam definir a mulher com base periências e vivências de grande parte das mulheres ne. rejeitadas (os). minalização do aborto que penaliza. composta por pai. mãe e filhos e. Piza (1998. instigações. por creche (uma necessidade precípua -se na figura do “homem branco. e como todo movimento de contestação. são constantes em nosso imaginário. após ele. Mas. triarcal. acepções de feminismo aludidas por Bairros. que o “movimento de mulheres nos levou ao repercutem nacional e internacionalmente. ou seja. concebidas resgate desta dimensão feminina irrecusável. p. por grande parte da mulheres negras. 2006. a mulher nência de sua observação. para sobreviver. a reinvenção da categoria mulher”. cujas vozes lheres” dificultando. fazemos parte de um contingente salientar. afinal. Daí a perti. negros. p. abordadas até então. mulheres negras. Luiza entenderam nada quando as feministas disseram que portância do feminismo no combate ao sexismo entre como diferenças biológicas e sociais [. dicionais existentes sobre a mulher: contra o mito de zinhas e de senhores de engenho tarados. 67) “o patriarcado ocidental. São as disparidades entre os dois universos de mu. buscar forças para lidar com as mais variadas formas de e na invisibilidade”. a qual mulher a dutor da espécie. p. que. neiro da visão eurocêntrica e universalizante das mu- A primeira versão. A aludida filósofa não desconsidera a importância “[.] por longo tempo. reportando-se às 112 113 . são vistas como “antimusas”. ou duz no feminismo é resultado de um processo dialético Assim sendo. pois. à disparidade salarial. promove a afirmação das mulheres que a mulher definir como tal”. Conceição Evaristo (2005. p. sendo o último plano relegado ao gente de mulheres” negras que precisaram “ganhar as bém. Se estas consequência disso.. desse modo. 118) entende. se. Nossa toam de tal padrão. às ex. seguido da mulher negra. cravas nas lavouras ou nas ruas como vendedoras. Sueli Carneiro (1993. mentos feministas. mulatas tipo exportação.. faz (em) ecoar vozes silenciadas de pensamento de Sueli Carneiro. o qual “traz implícito tanto a dimensão do no sistema patriarcal? Essa questão é respondida com tema patriarcal racista e sexista tentou silenciar. eram (e são) Na mesma linha de pensamento das estudiosas humanidade. é atribuída ao homem branco. sob os moldes lutas pela anistia. como forma de lidar com os papéis de gênero”. entende-se que opressão é a “situação doméstico. 188). estigmatizados de mulheres vítimas de outras formas filhos. “frequentemente utiliza os mesmos estereótipos Feminista Brasileiro e o “do mundo” pois. de Bairros (1995. igno- versões não deram “conta das questões” que afligiam as que só até o século XX? Penso que não. continuaram no silêncio como forma de poder que transforma a mulher em ob.. bastante propriedade e veemência por Sueli Carneiro Nós. Nessa mesma linha de ram da denúncia e da reflexão sobre o patriarcado”... se constituíram na recusa de todos os estereótipos tra. portanto. Ontem a serviço de frágeis sinha.. no passa.118).] Somos demarca as singularidades entre ambos. tais início do século XX”. “as diferenças de sexo” eram “percebidas inicialmente Moore (2007). “tendo históricos. uma instigação: será p. sidade apontada por Sueli Carneiro diz respeito ao ideal negras e ressalta as “o protagonismo que tiveram nas normalidade e de autoridade social e política” centrava. para a necessidade de “reco- etc. a ótica das mulheres dos grupos subalternizados intro- rência em diferentes contextos históricos e culturais”. pois. liberal e socialista”. as mu. p. Diante disso. branca. fazendo uma importante ressalva ao consi. pois. tam. a diferença em nossas trajetórias. hoje os sistemas racistas e patriarcais “Quando falamos do mito da fragilidade feminina que critica literária brasileira. e aquelas cujos traços diacríticos des- das mulheres de classes populares).. especificamente? Para responder nos situava mais próximas do modelo da masculinidade. p. que. radas (os). negras reflexões As mulheres negras. aqui. homens ou mulheres [. nesse sentido. Conceição Evaristo (2005. p. na luta pela descri.. tece considerações sido um regime de influência política na Antiguidade. é construída a partir “des. Ao desenredar os fios da trama que encobriram a e/ou invisibilizadas em nossa literatura ao longo dos sobre as “versões mais conhecidas do feminismo. qui. enfim. mulheres que não entenderam a atenção. p. vistas de maneira naturalizada e. Somos mulheres e trabalhamos.189) segue ainda mais pungente: desvenda e dissipa tantas escritoras e escritores desconhecidas (os). Logo. prostitutas etc. Daí concluir-se que a “que tinham dificuldades de encontrar seu um lugar. Salienta. DER. 458-459) que. Fazemos parte de um contingente de mulheres com é entendida como um fenômeno universal. 119) destaca a im. exercendo uma mulheres lidam com a opressão social do universo pa. A diversificação das concepções e práticas políticas que no entanto fiquem evidentes os motivos de sua ocor. Hoje empre. como a experiência capaz de uni. a despeito da identidade biológica”. p. etc”. é a demarcação dos anos 70 como cessidade de nos atentarmos ao “uso do conceito de mulher costuma-se referir quando se pensa a opressão falando?”. é Questionando e desconstruindo tais mitos. Em como a “dona do lar”.] através dessas “[. sem que. inegavelmente. a sa. assegura Bairros (1995. interferindo no justificou historicamente a proteção paternalista dos O que nos importa aqui.. tempos. por estarem imersas em primeiros estudos do feminismo sobre gênero nasce.. 188). homem negro. Afinal. “identidade social [é] construída a partir de elementos inclusive dentro do feminismo” (ARAÚJO e SCHNEI- Luiza Bairros (1995. e a prole. É o caso da mulher “vitima de uma cidadania “de segunda ordem”. p. No entanto.. enfatiza Bairros. mulheres que não são rainhas de nada. olhar sobre a alteridade. como identidade social. haja vista a persistência do patriarca. das camadas dominantes. quando se refere ao “contin- oprimidas não só pela sociedade patriarcal como. já que à mulher se atribui opressão social oriundas do patriarcalismo e do racismo.. de Os primeiros passos do Movimento Feminista no Brasil nada quando as feministas disseram que as mulheres nhecimento da diversidade e desigualdade existentes” modo que as diferenças entre mulheres e homens são e no mundo expressaram a intensa revolta [ao] processo deveriam ganhar as ruas e trabalhar! entre ambos os movimentos. contra o confinamento da mulher ao espaço gadas domésticas de mulheres liberais e dondocas. de sapiência e força e.. e exercido até o século XIX. em sua trajetória. as forme Piza (1998. p. tem sua base de sustentação na família sas definições sexuais e raciais”. interessa elucidar: a qual homens sobre as mulheres. Fica. p. o modelo de lheres (brancas/negras) que Sueli aborda. lismo e do racismo preponderante. culturais. Sueli Carneiro chama criados pela opressão patriarcal – passiva. “a opressão sexista de opressão. pois Seguindo a direção do pensamento de Carlos sistema escravagista. lheres brancas. 126). pois. 2006).. ser mulher e negra fez e faz dera. contra a limitação da mulher a mero repro. ainda. so histórico-cultural”.. de que mulheres estamos Araújo e Schneider. Afinal. porque tes entre essas mesmas mulheres (2003. identidade de objeto. os Somos seres plenos de potencialidade.] o feminismo esteve [. através da “história oficial brasileira”. digamos. cujo núcleo mulheres e estudamos. jeto sexual do homem. 187) parte da [. pergunta. Vale sexo biológico como a construção social de gênero. o reconhecimento 461) parte da premissa de que a maternidade é a “expe. é óbvio.] Ou greco-romanos. 459) chama a atenção para a ne. fazendo um paralelo entre o Movimento de mulheres que trabalharam durante séculos como es. assim como outras escritoras. p. prossegue em suas dos feminismos que se insurgem no âmbito das mu. tuteiras.]”. as negras mulheres. de um lado. negras. de mulher universal: a musa. No que se refere à invisibilidade das mulheres ficar todas as mulheres”. gras. Ou seja. “as vozes silenciadas e os corpos é constituído de um provedor. distintas frentes de batalhas que os distancia. a alusão à heterogeneidade dos movi- Entretanto.] versões do pensamento feminista quais não correspondem à realidade. pelas mulheres brancas. têm que de opressão além do sexismo. E o rompimento com esses modelos As mulheres negras fazem parte de um contingente de em geral como novos sujeitos políticos. regime social. os o modelo estético é de mulher branca [.. derar. emocional.. Mas. pois. de outro exige o estudiosa se refere. que são retra. portanto. Bairros (1995). das “diferenças e desigualdades presentes no univer- riência central na identidade das mulheres”. pon. A primeira ordem. de classe abastada” nição biológica. Sueli Carneiro (2003. isso durante e após o um sistema socialmente racista. dedicada à família. Sueli Carneiro (2003. O segundo versão concebe “a sexualidade [. p. Para Luiza Bairros. ruas e trabalhar”. o patriarcado refluiu no visão de mulher universalizada. Sueli Carneiro (1993. 188).

negras reflexões

pesquisadoras da área, a exemplo de Sueli Carneiro, o que fizeram nossos antepassados, às vezes pagando branquitude e branqueamento no Brasil. Petrópolis/ MUNANGA, Kabenguele. Rediscutindo a mestiçagem
Lélia Gonzalez, Helena Teodoro, Luiza Bairros, entre um preço muito alto: a própria vida. Eis a batalha que RJ: Vozes, 2002. no Brasil: identidade nacional versus identidade
outras, tomando como referência, também, a produ- prosseguimos na atualidade, mesmo não contando com BROOKSHAW, David. Raça & cor na literatura brasi- negra. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.
ção brasileira. A escritora alude ainda ao “fazer lite- os poderosos aparatos tecnológicos aludidos por Laure- leira. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1983. MUNANGA, Kabenguele. Apresentação. In: Superando
rário das mulheres negras” e observa que “os textos tis (1994, p.220): as tecnologias sociais, e de gênero, as CARNEIRO, Sueli. Identidade Feminina. In: Cadernos o racismo na escola. Brasília: MEC/SECAD, 2005,
femininos negros, para além de um sentido estético, quais correspondem aos meios, recursos - quer dizer, Geledés, n. 4, 1993, pp. 187-193. p.15-20.
buscam semantizar um outro movimento, àquele que técnicas audiovisuais, midiáticas, científicas, discursi- CARNEIRO, Sueli. Mulheres em movimento. In: Estu- NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasilei-
abriga todas as suas lutas”. São destacadas, portanto, vas, educacionais, entre outras - (re)criados pelos gru- dos Avançados, n. 17 (49), 2003 ro. Salvador: Ceao/UFBA, 2002.
as seguintes escritoras: “Geni Guimarães, Esmeral- pos hegemônicos. CASHMORE, Ellis. Dicionário de relações étnico-ra- OLIVEIRA, Maria Anória de J. Relações Étnico-Raciais
da Ribeiro, Miriam Alves, Lia Vieira, Celinha, Roseli Se a metáfora diz respeito à substituição de um ciais. São Paulo: Summus/Selo Negro, 2000. na Educação e a Literatura Infanto-Juvenil: nas ve-
Nascimento, Ana Cruz, Mãe Beata de Iemanjá, dentre termo, palavra ou ideia de uma coisa por outra, cuja CUTI. A consciência do impacto nas obras de Cruz e redas da Lei Federal 10.639/03 (?!). In: LINS, Jua-
outras”. Acrescentaria nessa relação a própria escritora, conotação é análoga, correspondente à analogia, por Souza e Lima Barreto. Belo Horizonte: Autentica, rez Nogueira e outros (Org.). Linguagem e Discus-
Conceição Evaristo, cuja produção vem se consolidan- outro lado, abrange não só a similitude como, também, 2009. sões Culturais. João Pessoa: Ed. dos Organizadores,
do “no campo literário”, como bem ressaltam Araújo e estabelece pontos de semelhanças entre coisas diferen- DIWAN, Pietra. Raça pura: uma história da eugenia 2006, pp.245-261.
Schneider (2005, p.126). Isso, sem falar na produção tes. Logo, tanto a analogia quanto a metáfora lançam no Brasil e no mundo. São Paulo: Contexto, 2007. OLIVEIRA, Maria Anória de J. Discurso Histórico e
acadêmica da pesquisadora/escritora/professora. luzes para elucidar determinadas semelhanças entre EVARISTO, Conceição. Dos sorrisos, dos silêncios e Narrativa Literária: entrelaces na tessitura da Rai-
Se as relações étnico-raciais, a exemplo da relação diferenças (raciais e de gênero) (re/des)construídas das falas. In: SCHNEIDER, Liane e MACHADO, nha Africana Nzinga Mbandi. In: FLORES, Elio
entre negros e brancos, têm sido desiguais historica- historicamente. Charliton (Org). Mulheres no Brasil: resistência, lu- Chaves e SUCUMA, Arnaldo (Org.). Tricontinen-
mente, já que marcadas pelo racismo e pelo sexismo, A analogia e a metáfora foram, portanto, mais um tas e conquistas. João Pessoa: Editora Universitária/ tal Revista de Arte, Cultura e Ciência. João Pessoa:
também a relação entre homens e mulheres resulta das desses poderosos recursos discursivos, como vimos ini- UEPB, 2006, pp.111-122. Convênio de Graduação e de Pós Graduação, Ano
implicações de vivermos em uma sociedade patriarcal, cialmente. Hoje lidamos com muitos outros: audiovisu- EVARISTO, Conceição. Literatura negra. Rio de Janei- I, v. 1, n.1, Ed. Universitária/UFPB, 2008, pp.123-
sendo as mulheres subjugadas, desvalorizadas em seu ais, midiáticos, educacionais, etc. Mas, não nos damos ro: CEAP, 2007. 140.
saber/poder, assim como as pessoas negras. É possível por vencidos (as) e aqui estamos construindo outras FLORES, Elio Chaves e CAVALCANTE, Fátima Solan- PIZA, Edith. Caminhos das águas: estereótipos de per-
inferir, portanto, que ambos os gêneros: feminino e metáforas e analogias, prescindindo de qualquer desejo ge. Raça, gênero, classe e região: uma introdução sonagens negras por escritoras brancas. São Paulo:
masculino se aproximam analogicamente, por estarem de inverter os centros: do eurocentrismo/eugenismo, à crítica da democracia minimalista. In: SCH- EDUSP / Com Arte, 1998.
à margem da sociedade. pelo afrocentrismo/negro, mas, sim, nos interessa sal- NEIDER, Liane e MACHADO, Charliton (Org). SANTOS, Gislene Aparecida dos. A invenção do ser
Agora, se levarmos em conta as condições básicas vaguardar o respeito e o direito às diferenças e fazer Mulheres no Brasil: resistência, lutas e conquistas. negro: um percurso das ideias que naturalizaram a
de vida de ambos os segmentos étnico-raciais, conside- ecoar outras vozes que tentaram silenciar, embora con- João Pessoa: Editora Universitária/UEPB, 2006, pp. inferioridade dos negros. São Paulo: EDUC/Pallas:
rando os índices de desigualdade entre mulheres bran- tinuem a ressoar em nós. 135-145. 2002.
cas e negras, em termos profissional, sócio-econômico, GOMES, Nilma Lino. Alguns termos e conceitos pre- SCHWARCZ L. Moritz; REIS, L.V de Souza (Org.).
educacional e de saúde, observaremos quão díspares sentes no debate sobre relações raciais no Brasil: Negras imagens: ensaios sobre cultura e escravidão
são as oportunidades destas últimas, se comparadas uma breve discussão. In: Educação anti-racista: no Brasil. São Paulo: EDUSP / Estação Ciências,
àquelas11, o que resultou da aliança entre pensamen-
REFERÊNCIAS caminhos abertos pela lei federal no. 10.639/03. Se- 1996. p. 179-193.
tos racistas e sexistas, enfrentados pelos movimentos cretaria de Educação Continuada, Alfabetização SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças:
feministas afrocentrados, cujas lutas passadas ainda se ARAÚJO, Flávia Santos de e SCHNEIDER, Liane. A es- e Diversidade/SECAD-MEC, Brasília, 2005 (pp- cientistas, instituições e questão racial no Brasil.
fazem presentes. crita de Conceição Evaristo e a mulher negra como 39-62). São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
protagonista em ‘Ana Davenga”. In: SCHNEIDER, LAURETIS, Teresa de. Tecnologia do gênero. In: SCHWARCZ, Lilia Moritz. Retrato em preto e branco:
Liane e MACHADO, Charliton (Org). Mulheres no HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Tendências e jornais escravos e cidadãos em São Paulo no final
Brasil: resistência, lutas e conquistas. João Pessoa: impasses: o feminismo como crítico da cultura. Rio do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras,
CONSIDERAÇÕES (IN) Editora Universitária/UEPB, 2006, pp.123-134. de Janeiro: Rocco, 1994, pp-206-238. 1987.
CONCLUSIVAS BAIRROS, Luiza. Nossos feminismos revisitados. In: MAPA DA POPULAÇÃO NEGRA NO MERCADO SILVA, Ana Célia. A discriminação do negro no livro
Estudos Feministas. Rio de Janeiro, PPCIS/IFCS/ DE TRABALHO. São Paulo: INSPIR – Instituto didático. Salvador: CEAO/CED, 1995.
Diante das diferenças históricas entre a trajetória das UERJ, n. 2, pp-458-463. Sindical Interamericano pela Igualdade Racial, STEPAN, Nancy. Raça e gênero: o papel da analogia
mulheres negras e brancas, Sueli Carneiro (2003, p. BETO, Frei. Marcas de batom: como o movimento fe- outubro, 1999. da ciência. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de.
192) sugere o “enegrecimento do feminismo”, o qual minista evoluiu no Brasil e no mundo. In: SCH- MOORE, Carlos. Racismo e sociedade: novas bases Tendências e impasses: o feminismo como crítico da
implica em considerar a “trajetória das mulheres ne- NEIDER, Liane e MACHADO, Charliton (Org). epistemológicas para entender o racismo. Belo Ho- cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994, pp.73-93.
gras no interior do movimento feminista brasileiro”. Eis Mulheres no Brasil: resistência, lutas e conquistas. rizonte/MG, 2007. TELLES, Edward. Racismo à brasileira: uma nova pers-
João Pessoa: Editora Universitária/UEPB, 2006 MUNANGA, Kabenguele. Para entender o negro no pectiva sociológica. Rio de Janeiro: Relume Duma-
(pp. 19-26). Brasil de hoje. São Paulo: Global / Ação Educativa rá: Fundação Ford, 2003.
11. Consultar o Mapa da População Negra no Mercado de Trbalho BENTO, Maria Aparecida da Silva & CARONE, Iray Assessoria, Pesquisa e informação, 2004 (Livro de
(veja-se nas referências). (Org.). Psicologia social do racismo: estudos sobre Professores).

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negras reflexões

A Redenção
do olhar:
uma abordagem RESUMO abstract
semiótica O presente artigo lida com algumas questões sobre representação
visual da população negra no contexto brasileiro. Para tanto, o au-
This article deals with some questions about visual representation
of the black population in the Brazilian context. For make it works,
tor se utiliza da semiótica formulada por Algirdas Julien Greimas the author uses the semiotic purposed by Algirdas Julien Greimas as
tentando estabelecer correlações entre duas imagens que nos aju- support trying to set up relationship between two images that help
dam a revelar a dimensão histórica do conteúdo racial no âmago us to reveal the historic dimension of racial content in the core of
Nelson de nossa cultura visual. Uma das referências é a pintura intitulada our visual culture. One of the references for this study is the painting
Inocencio “A redenção de Cã” datada da segunda metade do século XIX, e a named “The Can Redemption” from the second half of XIX century,
outra é a cédula de quinhentos cruzeiros que entrou em circulação while the other reference is the five hundred cruzeiros bank note that
Docente do Departamento de Artes Visuais na segunda metade do século XX durante a ditadura militar. O was delivered in the second half of XX century during the military
da Universidade de Brasília (UnB). Coorde- intuito é o de explicar como o ideal de branqueamento ainda é dictatorship. The aim is to explain how the whiteness ideal is still a
nador do Núcleo de Estudos Afro-Brasilei- um modelo seguido, apesar da visão paradisíaca concernente à pattern to be followed, despite the paradise view in which concerns
ros da mesma universidade. Foi membro celebração da diversidade no Brasil. the diversity celebration in Brazil.
da direção nacional da Associação Brasi-
leira de Pesquisadores Negros (Conselho
Nacional de Educação). Doutorando do Palavras chave: Branqueamento, cultura visual, negros, racismo, Keywords: blacks, racism, semiotic, visual culture, whiteness.
PPG-Artes da UnB, com pesquisa acerca semiótica.
do Museu Afro-Brasil em São Paulo.

A IMAGEM IDEAL tação. A conjunção almejada se refere ao processo de Em termos de formantes pictóricos, a obra, obje-
mestiçagem. Neste caso o embranquecimento cumpre to de nosso estudo, apresenta três elementos que estão
COMO PROBLEMA o papel de uma sanção, ou seja, a performance desta vinculados à análise proposta pela teoria greimasiana,
família rural do Brasil agrário do século XIX resultou ou seja, a dimensão cromática proporcionada pelo uso
no nascimento daquela criança especifica, que naquele das cores e suas combinações, a dimensão eidética as-
Esta breve reflexão é um esforço de análise do quadro momento se constitui em objeto modal que conecta sociada à estrutura do quadro e como resultante da
intitulado A Redenção de Cã de autoria de Modesto seus familiares às aspirações de um distanciamento da articulação entre as duas primeiras temos a dimensão
Brocos Y Gomes, datado de fins do século XIX, 1895 imagem negativa atribuída aos africanos e seus des- topológica da pintura.
para ser mais específico. Trata-se de uma pintura, obra cendentes. Transferindo para o quadrado semiótico a A manipulação proposta pelo enunciador, no caso
figurativa cujas dimensões são 199x166cm. O referido situação exposta na pintura analisada, diríamos que em o autor da obra, busca um fazer crer no enunciatário
trabalho pertence ao acervo do Museu Nacional de Be- termos de contrariedades encontramos a relação negro que por sua vez deverá estabelecer algumas relações en-
las Artes, Rio de Janeiro, e tem suscitado ao longo de sua x branco e, em termos de contraditoriedades, uma ou- tre a imagem presente e outras que por ventura estejam
existência uma série de debates e reflexões. tra constituída por não negro x não branco. A tensão arquivadas em seu arquivo mnemônico. Assim, algu-
Nosso empenho aqui é o de tentar pensar este qua- está estabelecida na relação negro x não negro que, de mas associações são possíveis, entendendo que o reper-
dro à luz da semiótica greimasiana ou, melhor dizendo, acordo com a configuração do quadrado, seria o segre- tório, ou em outros termos, a cultura visual do enun-
do que sabemos dela. Seguindo o pensamento de Al- do. A criança parece ser branca embora a ascendência ciatário, se caracteriza como um elemento fundamental
girdas Julien Greimas, para quem a unidade de senti- negra coloque sob suspeita sua aparência. A estratégia que possa permitir a construção dessas associações as
do é fruto das relações entre actantes, nos dispomos a está exatamente em não revelar essa condição particu- quais também denominamos de intertextualidades.
analisar a Redenção de Cã levando em consideração o lar comprometedora. Existem marcas constantes em ambas imagens que
plano da expressão tanto quanto o do conteúdo. Neste Retomando um pouco alguns aspectos da pintura nos impelem a fazer exercícios na procura dessas in-
caso, ao falarmos de expressão, identificamos tratar-se e com o intuito de ir além de uma interpretação que se tertextualidades. Relacionando a pintura em discussão
de um quadro a óleo sobre tela, realizado à maneira restrinja ao plano da superfície podemos nos apoiar com outras produções imagéticas anteriores ou pos-
acadêmica conforme os cânones da pintura neoclássica. nos argumentos de Vicente Martinez quando desen- teriores, algumas aproximações parecem inevitáveis.
As dimensões da obra são amplas, o que corresponde volvendo análises semióticas acerca da pintura enfatiza: Quando fixamos o olhar na tela e sabemos então se
a um modo peculiar de figurativização da época. No tratar de uma abordagem alusiva à miscigenação, acio-
que concerne ao conteúdo, nos deparamos com uma A pintura se caracteriza por ser uma manifestação onde namos o nosso arquivo. No intuito de fazermos um
situação doméstica em que as personagens comparti- nosso olhar é estimulado pela cor, pelo traço, pela li- breve exercício, buscando outras referências visuais, po-
lham um momento de euforia, na medida em que as nha, pela textura, pela matéria, pela forma, etc. e pelas demos destacar imagens bem mais recentes como as da
posturas dos adultos em relação à criança, induzem a relações estruturais que sustentam estes elementos. cédula de 500 cruzeiros aprovada pelo Banco Central e
uma manipulação do olhar expectador, no plano da ten- (Martinez, 1999, pg. 297.) que entrou em circulação nos anos 70, em pleno regime

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negras reflexões

autoritário. Conforme o discurso oficial, esta cédula Há na pintura redundância, repetição e reiteração so. O outro texto com o qual pretendemos fazer uma
trata da evolução étnica brasileira, e foi escolhida para suficientes para que possamos identificar nela a exis- interface é uma cédula de 500 cruzeiros que entrou em
a celebração do sesquicentenário da independência. O tência de isotopia, cujos conectores se encontram na circulação no inicio da década de 70 do século passado,
conteúdo da mensagem impressa na cédula está em própria cena, como as características físicas das pessoas durante a ditadura militar. A referida imagem exibe de
consonância com o exposto na tela de Brocos y Go- envolvidas e suas gestualidades, por exemplo. Podemos um lado os diferentes estágios do Brasil desde o “desco-
mes. O foco é a miscigenação não apenas como uma corroborar tal afirmação observando as mulheres em brimento”, passando pelo comércio, colonização, inde-
performance, mas como um querer, um poder e um cena, cujas posturas são tais como as que aludem a uma pendência, integração. A sequência sugere um processo
saber fazer que têm como sanção a constituição de uma graça alcançada. O enunciatário, todavia, necessita ser de desenvolvimento que vem se consolidando ao longo
imagem que nos leve a crer que parecer ser branco, embasado para compreender o discurso apresentado, de mais de quatro séculos.
europeu e ocidental nos garante algumas vantagens. ou seja, para sair de uma condição de não saber para É uma espécie de exercício cartográfico enalte-
A ideia principal é a de que investir no processo de uma condição de saber. Não se trata de uma relação cendo a grandeza do país na perspectiva do discurso
embranquecimento gradual nos dará acesso a algumas imediata de causa e feito, mas o enunciatário precisa oficial. Na outra face, a cédula exibe, analogamente aos
benesses. No caso especifico de A redenção de Cã o procurar entender o porque da execução de uma obra mapas, imagens de brasileiros, todos do sexo masculi-
processo de mestiçagem livraria das trevas muitos in- com esta temática específica naquele dado momento. no. O desenho começa por um indivíduo indígena, pas-
divíduos aos quais seria atribuída uma espécie de fardo Em outras palavras a sua interpretação está condicio- sa por um indivíduo branco, por um indivíduo negro e
celestial. Isto porque, considerando uma versão bíblica, nada pelo instrumental de que ele dispõe para fazer a partir daí as relações inter-étnicas e inter-raciais dão
o Criador teria marcado os herdeiros de Cã, gente cuja suas ancoragens e a partir desse momento desem- a tônica do processo de formação da população brasi-
identificação estaria associada ao fato de portarem pele penhar o seu papel como actante, expressando o seu leira. Até então, nenhuma novidade, apesar da terrível
escura. Daí o título da obra. entendimento tanto no plano da expressão quanto do omissão acerca do desencadeamento desse contato en-
conteúdo. A referida pintura suscita polêmicas sobre tre povos distintos, o qual teve como uma das referên-
as ideias acerca de “raça” em função de sua aborda- cias insofismáveis a violência sexual contra mulheres OS SUJEITOS
gem. Por outro lado, no contexto da cultura brasileira, ameríndias e africanas. De acordo com aquele discurso
seu teor explicita questões abertas desde a colonização, imagético, as faces vão clareando até que chegamos a
como um constante mal estar causado pela presença uma noção do que seria o brasileiro da atualidade, que Conforme as leis da semiótica, sujeito não é pessoa, ob-
africana na cena nacional. possui a aparência de pessoa europeia, dentro dos pa- jeto não é coisa. Partindo desse entendimento e compa-
Ana Claudia de Oliveira, no livro em que orga- drões tradicionais hegemônicos. rando a duas imagens ora relacionadas, percebe-se que
niza, intitulado Semiótica Plástica, argumenta que o Esta cédula circulou por uma década ou mais e o há um sujeito que se constitui na ideia a ser seguida.
interesse pelas imagens, pela visualidade, possui uma seu conteúdo sempre foi problemático, por vários as- Talvez pudéssemos atribuir ao discurso da mestiçagem,
abrangência que extrapola o campo das artes plásticas pectos. Como já mencionamos antes, a presença mas- como fenômeno que se persegue obstinadamente na
e da comunicação visual. Isso significa que toda cons- culina parece absoluta e nesse aspecto ela difere da tela cultura brasileira, esse papel que corresponde ao de
trução imagética passou a ser objeto de interesse nos de Brocos. Por outro lado, naquela pintura do século manipulador de nossas vontades, transformando-as
mais diversos domínios. A partir desse argumento e XIX, a sanção, ou seja, a redenção, só é possível graças em um querer fazer, um dever fazer, um poder fazer.
acreditando que para a semiótica a relação entre siste- à figura paterna, condição que devolve ao homem seu Mas principalmente nos fazer crer que é possível ser
mas distintos pode se realizar desde que esta aproxima- papel quando não absoluto, determinante para a vida feito, por que esta é uma conduta a ser seguida. Esse
ção viabilize interpretações palpáveis, nos lançamos ao das mulheres. Na obra dos oitocentos a figura mascu- discurso é produzido em alguma instância por alguém.
desafio de buscar correspondências que nos auxiliem lina seria um objeto modal, ela é necessária para que o Esse alguém, que poderíamos identificar também como
nesse processo e que não estão necessariamente no clareamento da pele ocorra. Precisamos dela na busca o segmento composto pela hegemonia eurocêntrica,
campo da pintura. obstinada por uma aparência que omita a africanidade. acredita no embranquecimento como uma sanção a
No esforço de tentar interpretar a obra em ques- Já na cédula de 500 cruzeiros a última figura masculina ser alcançada.
tão, explorando ao máximo seus elementos pictóricos, da esquerda para a direita seria o objeto de valor. Seu Um outro sujeito seria a parcela da população que
procuramos estabelecer ao menos uma ancoragem que papel é análogo ao da criança sentada no colo da mãe. ainda não alcançou o ideal a ser seguido. Este segmento
pudesse auxiliar no percurso gerativo de sentido, recor- É no plano do conteúdo que vamos encontrar o que as é constituído por pessoas que não foram “redimidas”
O resultado da performance está explícito na pin- remos às imagens arquivadas em nossos repertórios. duas imagens têm em comum. De uma forma ou de pelo processo de miscigenação. Elas são manipula-
tura que apresenta três gerações de uma mesma família, Dessa forma, a associação da imagem em questão com outra, ambas preconizam que o processo de embran- das no sentido de que suas ações convirjam para as
sendo que as duas primeiras assumem as competências uma outra, não menos polêmica, se tornou inevitável. quecimento é uma meta a ser alcançada. As estruturas, ações propostas. Porém tais pessoas não possuem a
para tornar possível um desejo. Nesse sentido, como já Mas o outro referencial, que por algumas razões se co- as maneiras como estão concebidas as disposições das competência absoluta para realizar o que esta sendo
mencionado, elas querem fazer, elas podem e sabem necta à obra de Modesto Brocos, permite a vincula- personagens, a manipulação do olhar que é impelido a proposto. É necessário que as pessoas brancas sejam
como fazer. A estrutura da obra, por exemplo, dialoga ção mesmo sem se tratar de uma pintura, sem ter sido percorrer caminhos que nos levem ao ideal em termos também manipuladas para que esta performance se
com representações clássicas da literatura brasileira que produzido no século XIX, sem corresponder a valores de uma aparência aceitável, tudo converge e conspira realize. Os temas da tela e da cédula parecem ter uma
destacou a mestiçagem como valor nacional. canônicos de um período da historia da arte. Nada dis- no intuito de persuadir-nos neste sentido. força tamanha a ponto de se caracterizarem como

118 119

histórico-geográficas – Descobrimento. uma cédula que. qual. um objeto de uso diário que circula pelas mãos seu sistema. para a mestiçagem brasileira. que o domínio da imagem extrapola a produção com maior ou menor concentração de melanina. em discutir a cognição estética passa pela determinação cilmente se sentirá incomodado com A redenção de Cã. não das herdeiras de repertório imagético do público. que aqui procuramos relacionar à cé. um alvo a ser perseguido e que vale a pena ção do arranjo da expressão de todo e qualquer texto o qual dirá que: “A Redenção de Cã poderia ser tomada. quando o gem da mulata. se não sintagmatização das unidades mínimas. Embora. ele poderá lograr maior Podemos lembrar do “cabelo bom”. mas marcas textuais semelhantes àquelas encontradas dade de que. Oliveira explica que: ses acerca composição étnica futura do Brasil. é interessante ethos brasileiro que aqui e ali ressurge quando falamos gético. Sobretudo. 2004. tanto que a referida pintura já INTERTEXTUALIDADES uma sociedade ávida por compartilhar valores defini. mente teríamos condições de olhar a obra por diferen. optamos por ciatário tenha que despender grandes esforços. até os outros que questionam veira. Retornando ao esforço de estabelecer uma ancoragem aparência que se encaixe dentro dos padrões ocidentais ticos de arte divergem em suas argumentações. no nosso caso. as intenções do artista. no caso. Elas são passageiras. paisa. poderíamos até valo. E nem é necessário na imagens também. Uma ob. É como se esse homem viril e exclusivo visual. principalmente é evidenciar não o contexto de fora da pintura. ainda que guardadas as foi utilizada em congressos científicos para ilustrar te- dos como positivos. negras reflexões uma configuração discursiva. No reper- ferença etária. sofrendo um deslocamento que propõe ela quadro foi pintado seria nulo. tório da cultura visual explorado constava este objeto. preferência nacional. Uma condição entrar em disjunção consigo mesmo.ou ainda do “negro analíticos sobre cultura popular e outros fenômenos. seqüência de cartas ser alcançado. Aquele que atende às aspirações de observações sobre semiótica plástica ficamos tentados ideológico irrefutável. A O que entendemos é que tanto a tela quanto a cé. Ao ais mais distintas. podemos recorrer à ima. Entendemos que o adjetivo “plástica” pode abranger o aqueles que acreditam ser a tela de Brocos uma visão e a cédula. o qual consiste noção. Co- 120 121 . mas que certamente povoam nos. explorado por mente crítica no que concerne aos usos e abusos dessa ção). O que está presente nestas concepções é um em que ele. Deveriam ainda reagir de maneira eufórica à possibili- Floch: sariamente haja respeito pelas diferenças. sine qua non para que a ancoragem se dê é exatamente suas tradições. raneidade. chances de lograr êxito no percurso gerativo de sentido. sem que o enun. parece haver alguma conexão entre nossa abor. seja ajustada (negra)/ alhures (Brasil agrário do final do sec. quer as do mundo natural.50). O eu (negro)/ Assim sendo. no futuro. foi a primeira criada com o objetivo pátria profundamente afetada por um olhar oficial. por gressas do país sem os quais o enunciatário terá pouca observadas na ação que ocorre. Por outro lado. escultura. batente da porta de uma casa modesta possui uma pre. 24. na imagem que ora está diante de nossos olhos. sos dias tais noções influenciem textos pretensamente ela cria sentidos de alcance social e político. com sua história. conforme Ana Claudia Oli- topia estão todos ali. aqui. pelo menos está vinculada denominar plástica a semiótica que se ocupa da descri. na medida Interessante notar ainda alguns aspectos da rela- ser amenizada. Os crí. às interpretações paradisíacas de Brasil. deve dula são capazes de criar sentidos de alcance social e do uso do repertório de cada enunciatário. Os negros. as pessoas de diferentes gerações estudo do plano da expressão das manifestações visu. em arriscar algumas interfaces. desde que este gesto não servisse para encobrir insistimos nessa ideia? O fato é que as interpretações mento e modernização possuem uma correspondência glamour. mestiçagem encontra-se imbricada à ideia sorrateira de Esta argumentação é de real importância por to. Tudo vai depender dos mentos importantes sobre as condições sociais pre- pois complexas relações de gênero e raça podem ser em uma formulação teórica subsidiada pela história da pontos de vista de quem olha. relação levando-se em conta os germes de nossa longa elas tende a conduzir-nos para outra interpretação. riam ao outro. e entendendo. do Brasil. outras imagens com as quais acreditamos haver algu. sença fundamental na trama. zadora da Sagrada Família” (Morais. retrata-se a evo- ao ideal. o seu alcance no percurso gera. cita o pintor Gonzaga Duque No anverso da cédula de 500 cruzeiros. Ela dirá citando Jean-Marie em que se convive com a diversidade. com suas regras. no intuito de compreender o discurso ima. a Igreja. Aliás. que também são complexas no texto visual. se deu a partir de um exercício de memória. Dele depende o futuro. lução étnica brasileira e. no que diz respeito ao abandono de valores a própria tela que é aquele que explica ou leva à sua tos fluidos nas artes visuais. imagens que podem Pensando a debreagem . artística. desde possível na relação que tentamos construir entre a tela de beleza e representação. por seu turno. de alma branca”. obra consultada. desenhada. procuramos es. no passado (lá no início do período pós-aboli- quase cênica no contexto da obra para enfatizar o que dagem e o conceito de cultura visual. Modesto Brocos. sante permeia as noções apresentadas. que envolve vá. Não é por acaso que até os nos- significação. tes flancos como. outra discussão interes- prio repertório. seu descendentes se assemelha- No afã de compreender melhor a semiótica pro. juga uma série de visões estereotipadas que não cessam. A tela não traduz ou reflete ideologias. tentará fazer as suas ancoragens. Mas por que razão primeira vista). ao lermos do artista e de compartilhar um momento eufórico. Cã. de que a presença negra é incômoda e. sejamos um país a possibilidade de se acessar o repertório na busca de projeto “modernizador”. a visual. um olhar mais crítico sobre escravocrata. quer as artísticas. Por exemplo.” (Oliveira. É curioso notar como. pg.) à primeira vista. seja essencial. na contempo- quer comentário sobre as circunstâncias em que o de seu arquivo mnemônico que seleciona e compila Qualquer cidadã ou cidadão brasileiro possui al. atenuada. bem humorada do país. Esse deslocamento implica em alguns entendi- se quer dizer. visando a produção de sentido. rosidade. Não é difícil de compreender a nefasta ambas imagens. passasse por uma mutação imediata. Quando algum texto visual nos chama a atenção preconizaram as instituições coloniais. seus costumes. Contudo. sem que neces. A ideia de nação gem natural ou pintada. pg. Nesse sentido. ou seja. no mito da democracia racial brasileira difi. 2004. certa. deveriam Voltando à Ana Cláudia de Oliveira. a presença de brancos. percursos temáticos e branqueamento. interpretando esta tela/ e agora. Alguém que acredite. quisa no campo da cultura visual. no reverso. qualquer que seja: arquitetura. a noção de mestiçagem como rizar nossos acentuados processos inter-étnico e inter. gravada. Não parece algo muito distinto do que “No entanto. car em pontos chaves que também são objetos da pes. ou seja. fotografia. (Oliveira. O homem sentado no arte. 2002 pg. o que importa para o semioticista francês posta por Greimas e suas dimensões. tivo estará profundamente relacionado com o tamanho so imaginário. Frederi- está relacionada ao belo. ção disjunção/conjunção. devem ser manipuladas para Ana Claudia de Oliveira e algumas de suas significativas O que está figurativizado na obra tem um apelo dar lugar ao novo. Em se tratando dessa situação espe. Diz o texto: da população em geral. portanto. como uma recriação étnica e moderni. Sem ele nada teria sido de tomar como um dos pressupostos a bagagem ou o Sua tendência é a de estar em conjunção com o trabalho possível. Considerando que o texto De acordo com argumentações supracitadas. a exemplo de vínculos com uma devidas proporções. dula de 500 cruzeiros) dificilmente poderão prescindir herança escravocrata. por exemplo. queremos reiterar que a aproximação sugerida passo que na cédula não se deixa transparecer uma di. traz implícita a ideia de que branquea- resultado de uma performance pode conter um certo -racial. São ingredientes. Este rias transformações narrativas. Os desencadeadores de iso. dessa perspectiva semiótica. guma noção do discurso da mestiçagem. “redentor”. mais do que isso. as relações de gênero.) ou menor êxito dependendo da amplitude de seu pró. a fim de aderir a um arte e que serve também para auxiliar na fundamenta. ou não ser evocadas. Na organizada por mecanismos estruturais particulares de servação mais atenta nos mostrará o desempenho de de comemorar o sesquicentenário da Independência cédula. resultando em uma dada papéis sexualmente muito definidos. mas tabelecer algumas aproximações com outros concei. ou mesmo à indiferença. sua interpretação não é nada fácil. político. segundo as informações presentes na que aquele texto carrega se vincula a uma noção de é construído por uma arranjo especifico de sua plástica. Comércio. quer as midiáticas. cujo interesse exemplo. minimizada. a antropologia e os estudos culturais. dependendo da compreensão que se tem de visões reacionárias acerca de nosso passado africano e possíveis diante das imagens em questão (o quadro de “divina” entre si. paradoxalmente. notar uma de suas argumentações no tocante à obra de de nossas tão idolatradas e supostas tolerância e gene. “pagãos”. antes. pesquisadores da área de arte/educação. símbolo que con. 12. co Morais. “mundanos”. XIX) / medida em que as personagens adotam uma postura cifica. ção de nossos argumentos. argumento. embora ocorra no nível fundamental (à figurativos. enunciatário é chamado a construir uma interpretação. reduzida.

para as. GREIMAS. 2000. diferenças e identidades Pode-se tentar definir debreagem como a operação pela Sanção não hegemônicas. Se se concebe. por outro.São relaciona uma imagem à outra. imposto por essas imagens que coisificam o outro. nicas alimentadas por uma ética distinta que nos leva a máticos. sendo que o 122 123 . 2000. Recherches Scientifiques / Fudation Nationale de a título de meros figurantes e da maneira mais passiva como uma relação entre ao menos dois termos. (não está nas referên. Joseph. Fernando.). uma questão de imagem. dade tem o efeito de transformar essa cadeia em uma Seriam tais perspectivas excêntricas e contra-hegemô. parte da existência humana. Greimas tomou ao domínio da físico-química o termo HERNANDES. figurativizam noções do que seria a evolução do povo porânea. Os dois textos visuais sual do passado dialoga com a cultura visual contem. In: Revista do Centro de Pesquisas Sociosse- assim. ao enunciado-discurso. riormente a qualquer análise lingüística. até porque os processos dialéticos fazem Dicionário de Semiótica / Greimas & Courtés. São A grande questão que permanece aberta diz respeito (.) que de alguma forma questionem o padrão vigente. levantadas. mudança sas compreensões como podem também limitar nossa isotopia e o transferiu para a análise semântica. imagens que podem tanto permitir o avanço de nos. 2004. Vicente. no ato da linguagem e com vistas à manifestação. “parentesco”) dos traços distintos que nele podem ser Oliveira (org. 1999. qual a instancia da enunciação distingue e projeta fora Sanção é uma figura discursiva correlata à manipula- Pensamos que a semiótica possa indubitavelmen. São Paulo: brasileiro. In: Semiótica plástica / Ana Claudia tam perenemente nossa cultura visual. participam do processo”. São Paulo: Pontifí- impede seu retrocesso aqui.) que visam constituir mite por isso mesmo distinguir. Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica. autores citam Tesnière sem especificar a obra) a quem tação visual da articulação lógica de uma categoria Universidade de São Paulo/ Faculdade de Filosofia. confe. mióticas.num primeiro momento . A Condutas providenciais. São Paulo: Editora Cultrix. um simulacro de um referente externo e a produzir o radigma. se deve o termo: “actantes são os seres ou as coisas que.) de um conjunto um paradigma composto de n termos. Paulo: Banco Safra. A depender do que o processo Brevíssimo rindo-lhe uma significação específica. Estas possibilidades não cias) (este verbete.. Catadores da cultura visual: transformando to. aspectos topo- cação oficial e. categorias semânticas baseadas na isotopia (o ótica visual?”. Di- Sem a pretensão de encerrar as questões aqui cionário de Semiótica. reconhecidos (. Um mesmo sujeito pode avançar ali. “Semiótica plástica ou semi- nossos repertórios. por exemplo. Hacker Editores. alusivos aos materiais expressivos empregados data em que o livro foi lançado é de 2000 e obviamente enfrentamento institucional do racismo e de imple. por instância da enunciação como um sincretismo de “eu. ante. Frederico. podemos estar cercados de estereótipos e o que é ratório. Ambos Compreende-se por quadrado semiótico a represen. uma vez agregados. mas.. determinadas imagens problemáticas fluam impune. às estratégias de manutenção de certos sintagmas em de índices espaço-temporais (.. 2006. É aí que parece estar o gancho que desta segunda década do século XXI. _______. 2002. Assim para citar L. em consonância com os en.. Se refere aos aspectos das imagens propriamente ditas. localiza nas duas dimensões. acerca da localização ou cenário. fomen. afirmativas para a população afro-brasileira no início tas do século XIX. o conceito de isotopia designou inicialmente a fragmentos em nova narrativa educacional. nos damos conta de que es. 5 (pgs. Bibliografia são de evolução étnica que remonta às teses racialis. pg. Médicas Sul. aspectos ma- tendimentos e aspirações da oficialidade brasileira. educativa e projeto de trabalho. 2002. apenas sobre uma distinção de oposição que caracteriza MORAIS. Se a cultura vi. homogeneidade. possível. mas ou discurso) definíveis(.. São Paulo: Hacker Editores. quando definida . 2007 há chances de determos informações suficientes para Actante pode ser concebido como aquele que realiza ou de classemas que garantem ao discurso-enunciado a MARTINEZ. Actantes interatividade. semântica qualquer. Independência e Integração do Brasil.. parece oportuno lembrar que a construção -se por enunciado toda grandeza dotada de sentido. por contrapartida. São Paulo: Prêmio. Letras e Ciências Humanas. mentação de políticas públicas embasadas em ações imagens produzidas. acreditamos que a cultura visual produz Isotopia 1979. negras reflexões lonização. enquanto um dos aspectos Designa-se pelo nome de sintagma uma combinação de Cã encontrar correspondências na segunda metade constitutivos do ato da linguagem original. independente de qualquer outra determina. portanto. De caráter ope. a submetendo-o às mais perversas banalizações. 2000. a própria instância da enunciação. glossário sideração seu novo campo de aplicação. Se. Elementos de analise do discurso. Jose Luis. permitindo que efeito de sentido “realidade”. ção. Da imperfeição. de uma perspectiva artística independente de uma sociedade democrática também é e sempre foi pertencente à cadeia falada ou ao texto escrito. Porto pior. mas não per. dezembro. Ana Claudia. Porto Alegre: Artes capacidade perceptiva. A estrutura elementar da signi.295 – 313). repensar nossos modos de ver na contemporaneidade. portanto. Contudo. no decorrer de uma cadeia sintagmática Alegre: Mediação. enunciado. man”. inaugura o de elementos co-presentes em um enunciado (frase do século XX. No sentido geral “aquilo que é enunciado”. no. como os demais foram extraídos do Quadrado semiótico cia Universidade Católica / Programa de Estudos são refutáveis. 278. a qual uma vez inscrita no esquema narrativo se te vir a se constituir em ferramenta importante no certos termos ligados à sua estrutura de base. Enunciado FIORIN. por exemplo.. ou de uma perspectiva institucional. que dizem respeito aos teores das o texto como está explicita e sustenta uma compreen. como bem sabemos. Ancoragem linguagem: ela é.. que. “A eloqüência da pintura de Ry- desconstruí-los.) Os sintagmas são obtidos tudos críticos direcionados para a produção artística e de maneira implícita. retrógradas e Debreagem reacionárias sobre alteridades. (grifos a significação estética possibilitam outras abordagens Eidético estabelecimento das relações entre as partes e a totali- nossos) (Banco Safra. em tempos de téricos. Tesnière. OLIVEIRA. suficiente para constituir O Museu de Valores do Banco Central do Brasil. de si. Algirdas Julien & COURTÉS. reiterando noções conservadoras. e aspectos eidéticos. O texto supracitado está inserido em uma publi. hierarquia sintagmática. seletivo reserva no arquivo mnemônico de cada sujei. Centre Nationale de a um título qualquer e de um modo qualquer. Sintagma um lado ficamos estarrecidos com o fato de A Redenção -aqui-agora”.. a debreagem. na paradigmática e na processo de análise que procura enfrentar o desafio sim constituir os elementos que servem de fundação cognitiva. Algirdas Julien. levando em con. pela segmentação da cadeia sintagmática. GREIMAS. acreditar em sua veridicção.) compreende-se a disposição (.) mente. repousa Sciences Politiques – CEVIPOF. Cultura visual. o que não ção.. O Brasil na visão do artista: o país CONSIDERAÇÕES FINAIS o eixo paradigmático (comutações e substituições) da e sua gente. Um trabalho artístico pode apresentar aspectos cro. concernentes às tonalidades. ou ainda ficação. nada é tão bem resolvido sofre o ato. lógicos. Entende. ao contrário. no interior desse pa. Paulo: Contexto. ao mesmo tempo.

interlocuções .

assegurar uma sobrevida] – é acometida. impossibilitado de de do século passado. a espessura das sobrancelhas. uma ponderação que não é minha média protagonizavam a iniciativa dessas produções. nesta entrevista exclusiva. político. problemas. foi que a mobilização política e. na pesquisa acadêmica. Se. pelo Estado. ele aponta obstáculos a senhora diria que estão colocados para para a não escuta. trago uma interrogação: o que conta Florestan Fernandes e Roger Bastide na USP. também. A senhora poderia explicar como vê a relação entre soa branca.a atuação acadêmica ou a das ruas. nossa consciência acerca do papel que temos de desem. Acho que se trata mais de uma questão de constatação No ano em que comemora 8 anos. das universidades. pela indubitável expressão de de estudo. ainda.em face do que Pereira.ter 103. expressando o racismo ainda existente no lectualidade negra que passa a defender teses e colocar outros espaços. tórico-cultural brasileiro. ria [abordada sem qualquer caráter crítico-reflexivo]. enfim. permanência ridades da atual gestão da Secretaria de Políticas de estava ali. antigas. é marcada por um diálogo a uma maior articulação entre a academia e a militância nicipais. na primeira meta. Foi ainda ouvidora geral da inferioridade e o biótipo do crime. da academia acerca os intelectuais negros no interior das universidades? das questões “do negro”. Estamos diante de um novo cenário. percebo que os desafios estão presentes para dentro e para fora “novo país”. de modo a fazer com que o Estado brasileiro 127 . que Olhando para o Brasil pós-república. informantes-chave dos pesquisadores. sitário e. Estudava direito penal e a influência das nando consequência. A No Brasil da primeira década do século XXI. Essa mudança é fruto da ação de construção de nossa identidade.de acordo a questão do negros nas agendas de estudos. mo executivo alcançou a sua finalidade institucional. Bahia. A senhora fase? Para mim. e. daí o silêncio. a político-mili. relevando as suas considerações no processo acerca de si mesmos. de perder a vida.interlocuções Levando em conta sua experiência acadêmica. nas três primeiras décadas do entrevista: Mesmo não sendo uma pessoa de “larga vivência aca- século XX. um dos desafios que o corpo negro a a existência do racismo? Aos sucessivos desrespeitos. no artigo “As relações entre a academia e a do processo de sua institucionalização. no seio do movimento negro. A terceira fase. através dele. na educação. Delinquente por natureza. é do surgimento de uma inte. Brito. a partir de inciativas de estudiosos como Roger Bastide e e um maior número de negros militantes e intelectu- estaduais e municipais.4% mais de chances de na terceira fase. reporta para o fato de pio da equidade pelo asseguramento de nossos direitos temas pertinentes aos negros perpassarem a produção . ao tempo em que a militância negra pri- mava por dar visibilidade à conquista de espaços nesse anhamona de brito dêmica”. são alguns homem. tendo negação. onde lideranças negras se tornam ais. ele denomina de terceira fase. tudo apontava para a definição do Ser gra e acadêmica no período da república. apresenta a mudança de ce- nário e os marcos da inclusão. da mesma forma o tempo todo. nunciaram. do “incontestavel. O estão postos para SEPPIR é o de avaliar. para os desafios lações de raça” e os debates acerca dela no I Congresso existentes fora dos muros das universidades. No que mais para a luta antirracista e para a vigência do princí. O formato do crânio. das orelhas e o modo de enfrentamentos necessários ao estabelecimento de po- dos assuntos de que trata a nova secretária de Polí. quais foram as questões que na sala de aula do curso de Direito. pelo fato de denotar. sim. Anhamona de lábios. Ele expressava o não-ser. não se intercomunicavam que a SEPPIR projete novas estratégias. dos Em uma reflexão sobre as relações entre militância ne. e desempenho no ensino superior e promoveram os Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR). enfim. ticas de Ações Afirmativas do órgão. o professor além da adoção de algumas medidas compensatórias. tombar. Para mim. Da leitura do nosso corpo. se ao longo e mortes simbólicas a que a pessoa negra . o que a pergunta pode fazer denotar. Somente assim. seguida dos trabalhos de Para refletir. com a qual concordo: se há uma tendência são dos idos de 1999. de absoluta falta de diálogo. dança do perfil das pessoas que estão no espaço univer- tuais negros/as para a potencialização de nossas lutas. ou reforce as teorias bio-antropológicas para as políticas criminais riormente impingidas. uma quarta Brasil. demonstra isso. negações. Tirar a vida acaba se tor. mim feita acerca do binômio racismo – corpo negro foi justamente. em face da necessidade de conquista de Públicas do Brasil. ter direitos. sendo que intelectuais negros e de classe tante? Trago. produz um dos tipos de conhe- cabe reconhecer que a produção acadêmica auxilia na cimento. com o direcionamento de ação para novas do Colégio Nacional de Ouvidorias das Defensorias mente inferior” e do “não-ser” continuam aderidas ao segundo Borges Pereira. A primeira. a defesa da tese do intelectual Poder latente no redirecionamento do pensamento negro Guerreiro Ramos. na época com 17 parece que nada mais resta. no curso do processo his. Na sequência. quando Cesare Lombroso me foi apre. acadêmica. a situação dos in. segunda nos anos 1950. no curso dos anos. Daí para frente. numa análise negativa. este organis- Lembro-me que uma marcante e inicial reflexão por que o seu corpo expressa [já que a miscigenação visa a. e o cultivo da identidade racial. temos também assessorado mesas diretoras de câmaras mu. houve uma mu- em desmerecer a importância do papel dos/as intelec. especia. com pesquisa recente do Ministério da Justiça através concorda com essa linha evolutiva? Se permanecemos Nesta primeira edição da revista Ngunzo. seu posicionamento. no espaço acadêmico e impediram tal alcance. se comparado ao de uma pes- os. os obstáculos enfrenta- telectuais negros nos espaços acadêmicos e as prio. frente às sucessivas mortes ante. violências do estudioso que de aquiescência de minha parte. Será esta uma nova onda. Florestan Fernandes. Corporalidade e Racismos Contemporâne. além de aprofundar a educadores/as ativistas do movimento negro que de- A visão do corpo negro no direito. demandas. quais sejam. a única diferença era o fato de ser a de um na nossa vida social. intitulada “A Unesco e as re- científico. a ser repelido com veemência João Batista Borges Pereira delineia uma trajetória que na tentativa de aplacar as desigualdades raciais pela/ Nascida em Salvador. prefeituras e bancadas legislativas federais. dentro delas. para onde ela caminha ? Quais são as prioridades da atual gestão da Seppir? é Educação. militância negra” constatou. o tema central do Instituto Sangari . dos pela população negra para o acesso. líticas de cotas pelas instituições de ensino superior. o fato de o corpo negro . será possível anos de idade. na sua opinião. cultural. com novos Defensoria Pública do Estado da Bahia e presidenta A figura do “criminoso nato”. ela é advogada. do Negro Brasileiro [1950]. a mais completa passa por três fases. de acordo com a teo. deve-se atentar. sentado. sim. concedida por e-mail. da intelectual Luiza Bairros [atual Ministra da Devemos ter em vista que as reflexões de Pereira SEPPIR]. lista em Direito Público e Políticas Públicas. corpo negro. o científico. da atualidade. Uma imagem de pessoa semelhante à minha penhar no campo econômico. vivencia-se a não do diálogo com os negros na condição de sujeitos da aceitação de que os negros produzam conhecimento pesquisa.

competência. o que não pode passar desper- da iniciativa privada. ou não ocorre. acordo com o próprio decreto que regulamenta a sua mato de cooperação. é certo que listas. texto dessa Lei maior. No que diz mentação do ensino de história da África e da cul- a serem atingidos pelos governos em suas ações. sociais tidos como “subalternos” e depois esses grupos situação? Ainda nessa linha. inclusive.288/2010. conclamamos toda sociedade brasileira para. municipais e distrital. ganhe eficácia. brou que o ano 2011 foi considerado pela ONU o Ano nesse cenário. vê-se que a SEP. consideramos que a igualdade preci. promova. Logo que tomou posse a Ministra Luiza Bairros lem. em breve. não uma ou outra. de cíficas? Elas se justificam? Por que? compartilhamento de experiências. taduais. e. mostra-se como uma outra possi- cício de sua cidadania e o direito à vida. conhecimento sobre aquilo em que o nosso Ministério LDB. Com ela. propor caminhos que visem a aplacar as lações étnico-raciais e para o ensino de história e cul- tura de promover a articulação de políticas sistêmicas te alguma coisa encaminhada nesse âmbito? inúmeras “opressões” sofridas pelas mulheres negras tura afrobrasileira e africana. assegurando a toda a população. na medida em que não temos a cul. no governo PIR não poderá se furtar de. Se o seu Para que o nosso Ministério articule. será alvo de ações espe. -las? De que maneira? afirmando que a luta que teremos de empreender. as executadas em parceria com outros entes. desenvolver as que possibilitam ou possibilitarão o atendimento aos e as comunidades de sua diáspora. da forma como a proposta. Precisamos mudar. entre outras atribuições. marcando o lançamento do Ano As relações com a África e as comunidades negras da um novo plano? Por óbvio que não. descentralizar a sua implementação pelos governos es. que e coordenar encontros para a realização de estudos e respeito às mulheres negras. sobretudo no for- independentemente de sua cor ou raça. interlocuções reduza as desigualdades raciais e promova uma cultura políticas transversais do governo federal. O que pretendem fazer para melhorar essa população negra. analisando. pelo poder de arti- No slogan. primeiro. que se combater o racismo e as desigualdades sociais que ele Em que pese a SEPPIR tenha firmado um número sig. 128 129 . A Seppir pretende estimulá. novos fazeres. o racismo delimita os grupos lentos. com fins de SEPPIR. Apesar da legislação existente. considerar que. estudantes e as representações do movimento contribuição que ela possa dar no sentido de ampliar na prática. realizar e apoiar a elaboração de estudos e Dentro das atribuições da SEPPIR. sendo essa aproveitar essa data propícia para propor. a nossa vivência demonstra que o racismo poucas foram as tratativas que envolvessem a troca de social conseguirem estabelecer. inclusive. sabe-se que a imple- mo no auxílio à definição e à inserção de indicadores apreciação do Congresso Nacional. sim. sociedade civil.. representantes do movimento so. pelo cumprimento da e aprofundar as pesquisas acadêmicas sobre o tópico opressor nos impõe um número significativo de exclu. dentro de sua esfera de diretrizes curriculares nacionais para educação das re- uma tarefa difícil. culação e de pressão que os/as professores/as. precisa. em todas as áreas. agenda política. o não-discriminatória. cial e a população em geral comprometam-se com essa com fins de combater o racismo e aplacar as desigual. Concordo que há um descompasso entre o proje- afirmativas adotadas pelo governo federal. dessa nova política [promoção da igualdade racial]. por sua vez. ações específicas são bilidade na relação da SEPPIR com os países da África 2011 é ano de elaboração do plano plurianual do diagnósticos sobre as desigualdades raciais. bem como as propostas submetidas à a execução não fique ao encargo do nosso Ministério. ações emblemáticas em prol dos negros. tendo as perspectivas raça e gênero como com a temática] a elaboração de um plano bastante lação do conjunto de políticas e de serviços destinados Internacional do Afrodescendente e que pretendia balizadoras. o pleno exer. Internacional dos Afrodescendentes no país.. promovemos deral nº 12. dos Estados e também dos estudos acerca da política de promoção da igualdade anseios e aos interesses da população negra. colocamos na rua a campanha “Igualdade tado e o realizado. de manei. existe alguma sa ser efetivada. que contém. acom. Divulgaremos. dessa vez pela perspec- ser dada pelo estabelecimento de diálogo. teremos a obrigatoriedade de definir quais são as ações Em 21 de março de 2011.639/2003 promoveu alterações no racial? sões. especia- Dentro do campo de atuação da Seppir. incluindo as adesão a essa campanha. A intenção é a de que os entes governamentais. mas. pela estruturação do Sistema Nacional para novas agendas. novos saberes. Racial é Pra Valer”. consistente. aniversário de 8 anos da de mais particularizado. mesmo que municípios. diáspora são importantes. Parafraseio Edson Cardoso. as formas de dades sociais que lhes são consequentes é algo recente não é por falta de detalhamento dos possíveis caminhos tação da promoção da igualdade racial. retroalimenta os indíviduos Exemplificando: se uma agenda prioritária do “o que pretendemos fazer para melhora essa situação?”. buições nocivas que o racismo e o sexismo imprimem [a SEPPIR. é Vejo estes campos como essenciais no processo ra cotidiana e intensiva. faz-se essencial a análise das contri. nificativo de parceria com países do continente Afri. goza de um certo pioneirismo. De acordo com o Estatuto. posso salientar a prioridade a A atuação política e administrativa do Ministério são novamente hierarquizado. cumprimento está aquém do esperado. o MEC e os/as agentes sociais envolvidos Ele foi concebido como a via de organização e articu. miséria extrema. Já exis. tendo a SEPPIR um papel relevantíssi. promover ações que visem a a luta que teremos de empreender para que o Plano de definição de prioridade de nosso Ministério. das desigualdades raciais na educação. a estratégia de luta. planejar. de reduzir as desigualdades e. Vai passar pela intervenção política da encontra com um planejamento estratégico em curso. não bastando as referências legais se. como também E a questão da mulher negra. -sul entre especialistas da área de educação. promover em face das peculiaridades organizacionais. Afinal. Precisamos de outro documento. para além da contínua análise acerca dos impactos a serem trilhados para isso. aquilo que elas tem metas a serem atingidas. panhe a execução de programas voltados à implemen. cial. A institucionalização de um órgão governamental cebido pelos poderes públicos constituídos. fundamentalmente. não podemos deixar de tura negra no ensino fundamental caminha a passos tentem contemplar aos interesses e às necessidades da debates temáticos sobre a promoção da igualdade ra. de modo a auxiliar a implementação das a superar as desigualdades raciais pelo país. estrutura. SEPPIR. principalmente no estímulo ao intercâmbio sul. Poder Executivo da União. a 10. o Estatuto da Igualdade Racial]. brasileiras. racial em voga. numa esfera se alimenta das conhecimentos produzidos [não apenas tiva de gênero. cano. federal. Talvez o final da pergunta deva ser reformulado para nacionalizada e envolvendo os entes de governo e da o científico] e. pela sua efetiva aplicação. Daí. Estado brasileiro hoje é a de erradicar a pobreza e a No que diz respeito às ações necessárias ao combate de Promoção da Igualdade Racial [previsto pela Lei fe. traz como consequência.

literarte .

Com passos finos A sua volta. Almeida de A engolidora das dores Abreu Silva Poeta e artista plástico.literarte A que abre o leito dos rios Terras E apascenta a violência A rainha que dorme em Com seus cachos Seu sarcófago É a mesma As oferendas frias Que desmancha nuvens Tudo virou sombra.Núcleo de Pesquisas e Estudos Multidisciplinares Africanos e Ewá. 133 . Ela. Espero. com seus contornos Para nascerem flores. Com uma espada.. Abrirá sua boca pela UFBA. professor de Teoria Literária e Literatura Brasileira na Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e pesquisador A dançarina Mais uma vez do AYOKÁ KIANDA . Afro-Americanos (DCHT XXIV/UNEB). Deusa do rio Iewá Nos olhos movendo Ricardo Nonato Seus búzios.. mestre em Letras Ela. Desenhando o universo Pele De longe A sedosa negra A vejo Da flor no cabelo. Se aproxima vários Roda Olhares Corpo mogno e Uma corte infiel Seu vestido O rei Pingando vermelho Que passeia por outras Para nunca mais É quando fecho os olhos. Impossível Quantas gargalhadas É querer suas mãos Foram necessárias? Descendo a lua Ela caminha Sobre minha face.

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Postal 6001 | CEP 86051-980 | Londrina – PR Fone: (43) 3371-4000 | Fax: (43)3328-4440 Email: neaa@uel. março/julho de 2011 Revista do Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA) da Universidade Estadual de Londrina (UEL).Nguzu – Ano 1. n.br . Rodovia Celso Garcia Cid | Pr 445 Km 380 | Campus Universitário Cx. 1.