Revista do Núcleo

de Estudos
Afro-Asiáticos
da UEl

Expediente sumário
Universidade Estadual de Londrina Editor executivo
Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA) Carlos Alexandre Guimarães
Reitora
Nádina Aparecida Moreno Secretaria Editorial
Flávio Carrança
Vice-reitora
Berenice Quinzani Jordão Capa, projeto gráfico e diagramação
Naima Almeida e Natália Tudrey
6 EDUCAÇÃO, CORPORALIDADE E
Coordenadora do NEAA RACISMOS CONTEMPORÂNEOS
Rosane da Silva Borges Revisão Editorial Rosane da Silva Borges
Flávio Carrança

Coordenações de área do NEAA

Educação e Ações Afirmativas
Nguzu – Ano 1, n. 1, março/julho de 2011
Revista do Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA)
Dossiê Temático
Maria Gisele de Alencar da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Rodovia Celso Garcia Cid | Pr 445 Km 380 | Campus 10 O CORPO NEGRO: SENTIDOS E SIGNIFICADOS
Arte e Cultura Universitário Isildinha Baptista Nogueira
Marcia Dermindo Cx. Postal 6001 | CEP 86051-980 | Londrina – PR
Fone: (43) 3371-4000 | Fax: (43)3328-4440 14 PERSONAGENS EM POSIÇÕES HIPOTÉTICAS: CONSUMO,
Comunicação Email: neaa@uel.br CORPO E SUBJETIVAÇÃO NA CULTURA DAS MÍDIAS
Silvia de Castro Laura Guimarães Corrêa

Pesquisa e Documentação Conselho Editorial 22 RACISMO E BIOPODER: UM CASO NO RIO DE JANEIRO
Carlos Alexandre Guimarães e Rosane da Silva Borges 1. Alex Ratts (UFG) CONTEMPORÂNEO
2. Álvaro Roberto Pires (UFMA) Renato Noguera e Carla Cristina Campos da Silva
Articulação Comunitária 3. Amauri Mendes Pereira
Manoela Fernanda Silva Matos 4. Ari Lima (Uneb) 28 CORPOS NEGROS EDUCADOS: NOTAS ACERCA
5. Carlos Benedito Rodrigues da Silva (UFMA) DO MOVIMENTO NEGRO DE BASE ACADÊMICA
Relações Internacionais 6. Maria Aparecida Moura (UFMG) Alex Ratts
Dejair Dionísio 7. Denise Botelho (UFRPE)
8. Edna Rolland 40 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL: PRETINHO (A)
Secretaria 9. Edson Lopes Cardoso (SEPPIR) EU? DISCUTINDO O PERTENCIMENTO ÉTNICO
Cibele Candeo Leite 10. Elena Andrei (UEL) Ralime Nunes Raim
Dirce Meneguelli de Sá 11. Flavia Matheus Rios (USP)
12. Heloísa Pires 50 REFLEXÕES SOBRE NOSSAS CONSTRUÇÕES INTELECTUAIS
Assistente de Educação e Documentação 13. Joselina da Silva (UFC) E POLÍTICAS ACERCA DE “RAÇA”
Vaudice Donizete Rodrigues 14. Kabengele Munanga (USP/SP) João Batista de Jesus Felix
15. Kia Lilly Caldwell (Univ. North Carolina at Chapel Hill)
Estagiária de biblioteconomia 16. Leda Martins
Elza Ribeiro Bueno 17. Ligia Ferreira (Unifesp)
18. Lucia Helena Oliveira (UEL)
19. Marcelo Paixão (UFRJ)
Propostas Pedagógicas
Comitê Editorial 20. Maria Nilza da Silva (UEL)
21. Matheus Gato de Jesus (USP) 62 POR QUE ENSINAR A HISTÓRIA DO NEGRO NA ESCOLA
Coordenação 22. Nei Lopes BRASILEIRA?
Carlos Alexandre Guimarães 23. Nelson Inocêncio (UnB) Kabenguele Munanga
Rosane da Silva Borges 24. Nilma Lino Gomes (UFMG)
25. Roberto Borges (CEFER-RJ) 68 O ensino de sociologia e a lei 10.639/03:
Editora científica 26. Sueli Carneiro (Geledés/SP) cultura afro-brasileira no livro didático
Rosane da Silva Borges 27. Wilson Mattos (Uneb) Crisângela Biassi de Almeida

76 LITERATURAS AFRICANAS DE LÍNGUA PORTUGUESA
EM SALA DE AULA: UMA POSSIBILIDADE?
Claudia Vanessa Bergamini

85 A ENUNCIAÇÃO DO POSSÍVEL: AS COTAS RACIAIS E A LEI
10.639/03 TRANSFORMANDO A REALIDADE DA POPULAÇÃO
NEGRA EM LONDRINA
Márcia Figueiredo Tokita e Maria Gisele de Alencar

Negras Reflexões

94 DO DIREITO À PALAVRA AO PODER DE ENUNCIAÇÃO
DO MOVIMENTO NEGRO NO BRASIL
Jacques D’Adesky

106 RAÇA E GÊNERO: ENTRELACES RACISTAS VERSUS
AFIRMAÇÃO IDENTITÁRIA NEGRA
Maria Anória de Jesus Oliveira

116 A REDENÇÃO DO OLHAR: UMA ABORDAGEM SEMIÓTICA
Nelson Inocêncio

Entrevista

126 ANHAMONA DE BRITO

Poesia

132 DEUSA DO RIO IEWÁ
Ricardo Nonato Almeida de Abreu Silva

em constan. é por ele que se classifica e se categoriza as pessoas. entanto. seção “Propostas Pedagógicas” os textos do professor le de rostos). sob uma perspectiva educativa. é va. a vitimização entre jovens negros tem índices muito altos. E na seção “Literartes”. a decisão cotidiana sobre quem doutor Kabengele Munanga. Departamento de Artes Visuais vinculado ao Instituto às reflexões e pesquisas ancoradas no campo das rela. psicanalista e “extermínio”. De Descartes. Oxalá cumpramos esse papel. Educação. Convertendo-se em Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). por. apresentamos a poesia do escritor Raimundo Nonato. para os elevados índices de mortalidade entre vitimização juvenil por homicídios continua a crescer. se desvencilhe de qualquer recorte racial. plosivo e. incluindo-se aí também Uma ótima leitura e até o próximo número. boates. Contemporâneos Professora Doutora. Ralime Nunes Raim. da Universidade do Estado da Bahia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). em franca decadência. cial do MIT. Os artigos aqui reunidos sobre o tema dor do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UnB. agremiações políticas. de Laura Guimarães Correa. Corporalidade praticamente inalterada a marca histórica de 92% da masculinidade nas vítimas de homicídio. esculpimos Educação de Montes Claros/MG. irremediavel. alcança di. das singularidades do racismo na contemporaneidade. Marcia Figueiredo Tokita e Maria Gisele de Alencar. tivas da Secretaria Especial de Políticas de Promoção episódios contemporâneos que revelam a pertinácia tomam a discriminação racial como nexo prioritário nhecimento capazes de contribuir para a compreensão da Igualdade Racial (SEPPIR). Com as informações emitidas pelo corpo. e da socióloga pós-graduada Em tempos de narrativas hipermidiáticas. cialmente de jornais impressos e televisivos com capi. do professor de filosofia e educação da e Racismos Rosane da Silva desse modo. do Departamento de pode entrar em clubes. continua doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo. da Universidade Federal de Goiânia. a incidência majoritária de assassinatos nessa e ascensão do pós-humano? De que maneira reinserir tor Jacques d’Adesky. O que pre. Tais episódios fizeram-se razoavelmente natórias impulsionadas por um fundamento racial. ras graduadas pela UEL. torial para dar continuidade ao compromisso de ser um -boy pelos seguranças do banco Itaú integram uma lista admitir a centralidade do racismo nas ações discrimi. outros contributos não menos importantes referência O assunto. forma. secretaria de Ações Afirma- A escolha desse dossiê temático foi motivada por reação conservadora à adoção de políticas públicas que ricas e estabelecem diálogos com outras áreas de co. ponto ordenador das mente. Visto como um elemento vital para bibliográfica mensões exponenciais. pela UEL. práticas racistas. da socióloga e co- ordenadora do Programa Diversidade Étnico-Racial na cleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA) e coordenadora editorial da revista Nguzu. seção “Interlocuções”. de Artes da Universidade de Brasília – UnB e coordena- ções raciais no Brasil e em outros países da diáspora. como crescem vertiginosamente africana. das pesquisado- (1999. e vêm estimulando a renovação do senciamos na paisagem cotidiana é desalentador: os ín. portanto -se argumentos propugnando uma práxis política que Muito se tem insistido de que o corpo e. podemos entrever essas reflexões nos textos de Isildinha Baptista. com Uma pequena mostra de artigos referentes ao tema Anória de Jesus. Tais afirmações. o que é pior ainda. presentes na agenda dos suportes informativos. órgão que essas estatísticas convivem. a nossa convidada é a doutora significa energia. beirando um cenário de De um modo ou de outro. somente permanecem. e da mestranda Carla Cristina da Sil- Borges uma das primeiras fronteiras de violação do humano. Nguzu espera manter tam (os assassinatos do dentista negro em São Paulo Sem nos estendermos sobre essa contenda. importa destacar das altercações são as relutâncias em e da cibernética. professora adjunta do cur- so de Comunicação Social da Universidade Federal de Em seu número de estreia. Muniz Sodré já nos advertira: e do professor doutor João Batista de Jesus Félix. o outro. Com o tema Educação. No como Michel Foucault e Gilles Deleuze. O mencionado quadro. A estética negativa do estrangeiro lastreia sempre os Além do dossiê temático. traço por traço. ainda são sustentadas por frações da crítica e analítica. a revista Nguzu é também manufaturada no su. pesquisador do Centro de Estu- porte impresso. mesmo resultando em vistos em conjugação. Como reposicionar o debate em meio às emergen. onde os múltiplas faces da discriminação racial vêm denun. da professora doutora Maria do NEAA (Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos). por definição. da Universidade Federal do Tocantins (UFT). os exemplos aqui elencados – do dentista e do da medicina e da psicanálise. da Universidade Estadual da Bahia. sob a chave da pós-modernidade energias. também da UFFRJ. ou seja. de 1970. definição das relações sociais africanas. Em perspectiva da epistemologia à violência no Brasil. Após uma década (1998-2008). paradoxalmente. de São Paulo”. pelo menos desde a década tes reflexões que apontam para a superação do corpo reflexões” contamos com os artigos do professor dou- virtual. Enfileiram. demonstra nesta publicação a diversidade de aborda. estruturas sociais. No tópico “Negras textos encontram abrigo preferencialmente no espaço ciando sistematicamente. como sabido. da pós graduanda em Letras da prática é alemão. dores de opinião pública e apresentam-se como uma tornam públicos os resultados de investigações empí. coordenadora do Nú- pelo corpo que se circunscreve as (im)possibilidades do ser. 6 7 . do racismo em sua ação implacável de abater corpos para a superação das assimetrias no Brasil. a noção de sujeito e subjetividade derivada do Como qualquer iniciante. Cláudia Vanessa Bergamini. triste eloquência. que intelligentsia brasileira. espe. Anhamona Silva de Brito. Corporalidade faixa etária. do professor doutor Alex Ratts. negros. como era de se esperar. não a gramática corporal como um vetor importante para dos das Américas da Universidade Cândido Mendes e Racismos Contemporâneos. office-boy – não deixam margem a dúvida. do que esses corpos significam e represen. pelos aportes relações raciais. Muniz. a cada ano. Minas Gerais. as contribuições do Laboratório de Inteligência Artifi- laridade nacional. 33). mas sua incidência é transnacional da UEL. as concepções sobre o corpo passaram por debate por meio de fóruns concernentes ao racismo e dices exorbitantes de mortalidade de jovens negros não radicais avaliações. O que causa espécie é pensarmos na sustentação do racismo? e professor da UNESA. argumentos enviesados que. buscam problematizar e aprofundar questões teóricas. os jovens negros. próprias de sua concepção edi- quando retornava para casa em Guarulhos e do office. a revista Nguzu toma. o corpo como um vasto território mar- cador de sentidos e significados. Claros e escuros. Rio de Janeiro: Vozes. Renato Nogueira. o que cartesianismo estão. Segundo reportagem do jornal “O Estado ampliam o painel. Crisângela de Almeida. Nguzu. passando por filósofos canal difusor das pesquisas. Na Colhemos da língua banto o nome da publicação. te interrogação. educativa. a Nguzu apresenta na julgamentos na prática do Gesichtskontrolle (contro. 1999. p. institui. O nome cias Humanas da USP. estudos e reflexões sobre significativa). “o Mapa da Violência 2011 mostra que a equilíbrio de algumas sociedades. restaurantes de luxo ou Antropologia da Faculdade de Filosofia Letras e Ciên­ mesmo ser aceito para seguros de automóveis. uma publicação constitui nenhuma novidade. (UNEB) e do professor Nelson Inocêncio. com verniz de seriedade. e nos conduz. o corpo é categoria importante na SODRÉ. fundamentada em uma leitura racial. Organizações anti-racistas atentas às O número de homicídios entre a população negra é ex. docente do -se como um espaço demarcado para dar visibilidade afirmam solenemente ser o Brasil um país isento de gens da corporalidade e dos racismos contemporâneos. tanto.

dossiê temático .

obrigadas a conviver. foram comparados a ca dos indivíduos e dos grupos sociais constituem um a organização entre os semelhantes dificultadas. os negros tações sobre o negro e o seu lugar na sociedade não se viam destituídos da sua condição de humanos. mundial. de um lado. méstico. partindo da hipótese de que essa realidade cisme. as principais atividades inseridos na sociedade. à partir de l’hipothèse suivante: que cette realité historique histórico-social determina. para os negros. d’une part. de outro. a despeito das lutas por Vivendo em péssimas condições nas senzalas. as represen. A acul. 24. 11 . cada sistema cria seus teóricos que o jus. as condições em que viviam como sendo ção. justi- A sociedade é. Como seres humanos. as configurações que qui les ont produit et continuent à les réproduire et. mas depende dos cá vieram trabalhar. que criaram olhares específicos. o negro trabalharia como mão de obra O conjunto das representações que constituem a balho do negro escravizado. as representações sociais ideologi. situação que perpetuava a imagem anterior. tifiquem. E SER NEGRO ficando. a necessidade que lhe é natural. Palavras chave: negros. Os abolicionistas mostravam grande indigna- princípios de conduta. mundo. a vida coletiva. particuliéres. econômicas mercantes brasileiras basearam-se no tra. uma entidade “naturais”. Les Mots Clé: noirs. dade de São Paulo. melhores condições de acesso à cidadania. historique sociale. mas não garanta a cada um dos indivíduos pertencentes a um tumes e leis. puderam pensá-los como indivíduos que deveriam ser determinado grupo. opressão causada pelo processo de escravização. Chico (org. Direitos mais humanos. mecanicista. tradições e religiões no campo. Ao perderem dos indivíduos e dos grupos. Supunham que. assim como a vida psíqui. que colocavam obstá- crenças e costumes. Em línguas diferentes. foi antecedida por mudanças às coisas. Libertos. brutalizados e animalizados pelos senhores. sa lógica”. de Por mais de três séculos. saindo da con- pertencimento a essa organização. quando comparados aos europeus que para causal simples. Foram 320 anos de escravidão. diversas. portanto. nos A noção de “ser humano” que temos hoje. seus valores. histórico social. configurations que constituent l’univers psychiques. les Desenvolvimento Humano da Universi. pg. com o tema: Signi- ficações do corpo negro. culos à existência de um país escravagista no cenário próprios de cada grupo étnico social. Garamond. teve origem A promulgação da “Lei Áurea” que supostamente destacamos por nossa capacidade de dar significados no Renascimento. um conjunto de o homem passa a ser visto como centro e modelo do na ordem econômica e política. Isto é possível porque o ser humano se “concei. ALENCAR. periências para além de um terreno anteriormente in. assim. o que animais e vistos como incompetentes. as estruturas sócio-econômicas que as sentations sociales ideologiquement structurees sócio-economiques Departamento de Psicologia Escolar e do produziram e as reproduzem e. isto é. univers psychiques. sócio-econômica. 2001. pour les noirs. que são ideologicamente suas identidades originais. ção pelas condições de cativeiro dos negros. Assessora do Instituto AMMA Psique e Negritude. resultado da transculturação. d’autre part. les repre- Psicanalista. os indivíduos se comportam segundo essa Trazidos de diferentes regiões. Rio de Janeiro: em que o negro. ra. consequência. periências diárias e dizer que. consequentemente. ra- cismo.dossiê temático O Corpo Negro: Sentidos e Significados RESUMO RESUMÉ Este artigo tem como objetivo refletir a dimensão psíquica da Ce article se propose à réfléchir sur la dimension psychique du ra- questão do racismo. sociale determine. uma concep. Construímos uma cultura. se pensa e se percebe de uma época para outra. universo psíquico. que começava a ser feito pelos imigrantes. mudam. tal como besta fera domesticada. estruturados. uma ética que permita e por ser histórico. empírica. configurações psíqui. Doutora em Psicologia pelo camente estruturadas. cultura está condicionado a uma lógica que determina África perdeu 70 milhões de pessoas do século XV ao que viver em sociedade é estar “sob a dominação des. os negros tinham portanto a comunicação e Dadas suas condições de vida. preguiçosos e complexo processo que não corresponde a uma relação favorecia o controle dos senhores de escravos. balhava em troca de ração. formam o universo psíquico.). que demandará tualiza”. a remunerada para seu auto-sustento. ganham nova identidade. Nogueira Refletir sobre a condição do negro como produto da interação De cette réflexion. sócio-economiques. cisme. As representações sociais funcionam como uma 1. turação é uma consequência natural na relação entre INTRODUÇÃO diferenciado. Restava aos negros o trabalho do- mais diversos fatores. des configurations psychiques Isildinha Baptista cas peculiares. os libertaria do cativeiro. uma construção do pensamento. sem condições para seu auto-sustento e sem trabalho lógica. j’essaye de definir la condition du noir en tant dialética entre. cos. com sentido e significação. não mudaram? SER HUMANO faltaram estudos que os compararam aos animais. que produit de l’interaction dialectique entre. fundamentalmente. dição de escravo. os ex-escravos vagavam desorientados. XIX1. sem terem consciência desse mecanismo. onde se criaram novos conceitos. Entre cativos e mortos. tendo cultura. indolentes. e fixam os limites dos comportamentos culturas diferentes. como forma de resistir à Como falar acerca de representações psíquicas e ex. tra- rede onde as malhas estabelecem os domínios das ex. falando.

nidade. em que o sujeito intro. São Paulo: Companhia das Letras. ine. portanto. O negro pode ser consciente de sua condição. negro uma angústia que se fixa na realidade exterior e dir preconceito. utilizando cante. e ser o outro é não ser o próprio sujeito. absurdas. alheio à sua vontade. Assim. D. cada qual defenda sua cultura no processo de identificação. diversidade. O espetáculo das raças. visto que só existimos como sujeitos em e impedidos de desfrutar de qualquer benefício social. simultaneamente. de um estigma. se impõe inexoravelmente. na maioria das vezes acaba por atravessar os limites da Garamond. os negros têm O QUE SOMOS sofrido toda sorte de discriminação que tem como base a ideia de que são seres inferiores e. ída em um código social que se expressa dentro de um Esse processo despersonaliza e transforma o sujei. Textos de como a identificação com o agressor. como única via possível de Como seres humanos. Faz parte da natureza conscientes de que nenhum de nós existe à parte das assimiladas e incorporadas. com o olhar do outro. O sujeito. mas é por este negada. Gustavo. Petrópolis: Vozes. É eviden- jeta. Bibliográficas as coisas simultaneamente. Referências incorporação. trução e da eliminação do outro. majes. instituições e questões raciais no Brasil. o branco suficiente conhecimento. o racismo é a expressão violenta da discri- Tal processo não é imediatamente verificável. transcende qualquer falha do branco. en. NEGROS? recedores de possibilidades sociais iguais. nobreza estética. des. NOGUEIRA. tade moral. também. a características biológicas nada separa o real do imaginário. Se o que constitui o sujeito É justamente porque o racismo não se formula ção em relação aos negros. a manifestação da razão. que representa o significado que ele tenta negar. o desejo de “brancu. É o que analiticamente (para a psicanálise) se dá encarna todas as virtudes. livres do cativeiro. a bran. leis e outro.) Racismo significado que a pele negra traz enquanto significante? terror de possíveis ataques (de qualquer natureza. etc. o desejo de recusar esse signifi. da vontade do outro. das Ser branco significa uma condição genérica: ser branco implicações histórico-políticas do racismo. TURRA. 1995. que seja adequado nos lembrarmos que cada um desses próprio corpo. Jorge Werthein. corpo próprio. ao amor os negros passam. Desde essa época. que. rentes ao ser humano. que deve ser negado. Mas esta imagem de si. a civilização. o real do seu próprio corpo. negro. resultando no que seria a base do racismo. 2001. não se faz necessária a presença física só não guarda nenhuma semelhança com o real de seu diferença pela “desconstrução” da outra cultura. Estarmos cientes dessas diferenças é importante dições objetivas. estabelecendo-se que a princípio seria natural no ser humano. como fica o negro que se confronta explicitamente. minação. parâmetro de pureza artística. enquanto uma possibilidade virtual. seus sentidos e significados. passam a garantir essa Frei Betto. tornando-os sujeitos cati.que recebem no plano tado das atitudes racistas e irracionais dos brancos. sentimento formado sem estruturas de poder e dominação. para que. mas forte o bastante para que. que mostra reconhecer nele o terminável. as fantasias estão. reagindo. foi o de contribuir enquanto psicanalista. que desta forma na relação com o outro − e no ideal de brancura − não em “conhecimentos científicos”. a pró. totalmente O preconceito é próprio da natureza humana. dossiê temático Embora juridicamente capazes de ocupar um espa. para além de seus fantasmas. Chico. em termos aquilo que me diferencia do outro. SCHWARCZ. não importando a nadas pelas condições objetivas . relação ao outro. pode e saldaliga. Claros e escuros. o objeto amado ou odiado. nal lógico. povo e é o olhar do outro. Eduardo Soares. A “brancura” passa a ser momento histórico e econômico. mídia no Brasil. A ideologia racial. Pedro Ca- do agressor. dentro e fora. assim. 12 13 . se vê exposto a uma situação em que inferioridade de certas etnias. tão complexas quanto essas que envolvem a discrimina. enquanto profissionais. oprimido. onde o indivíduo se autoriza à eliminação do representações psíquicas não são puro reflexo das con. racistas que parecem grotescas. pela negação do Ainda que lançando mão de um arsenal racio. espírito e das ideias: a cultura. A brancura. enquan. significa não ser to diversidades e especificidades da outra cultura. científico. caso do negro. Isildinha Baptista. baseado na suposta sidade de São Paulo. o neutro da huma- não impede que ele seja afetado pelas marcas que a re. 1998. entrará em ação. marcados pela ser outro. de fato. (Orgs. à alteridade. Negar e anular o próprio corpo nos torna o su- ço na sociedade. to essa marca pudesse representar. Tese (Doutorado em Psicologia) – Univer- encerra vários significados. sabedoria científica. como a melhor forma de organização social. via de regra. confun. Visto que costumamos. portanto. de cor no Brasil. Luis é internalizado. Direitos mais humanos. de “direitos civis” − é mais forte que ele: o negro acaba aquilo que pretensamente autoriza o indivíduo à exclu- Sabemos que as condições sócio-econômicas e a cura se contrapõe ao mito negro. gicas atribuídas aos brancos. 2000. dela excluídos jeito “outro”. Cleusa. Lilia Moritz. ser sujeito no outro. Nilton Bonder. assim fragilizado. se funda e se estrutura na condição univer. mas isso constitui o elemento não marcado. declarações e também a capacidade de contradizê-los. Graciela Rodriguez. pois as sal e essencial da brancura. NÓS. Significações do corpo campo etnossemântico onde o significante “cor negra” to em um autômato: ele se paralisa e se coloca à mercê expressão violenta da diferença que parte da descons. Esse mecanismo é o que a psicanálise caracteriza que se possa ser o outro. estejamos inconsciente elaboração própria . Nasce em nós. de física a psíquica) por parte dos brancos. discriminação e racismo. é alidade sócio-cultural do racismo deixaram inscritas ra”. aí uma confusão entre o real e o imaginário. É evidentemente confuso esse pro. contraditórios e instáveis. os negros eram. com base na biologia de conhecimento ideologia moldam as estruturas psíquicas dos homens. te que essa defesa apaixonada se dá por comparação.a partir das quais são ideal de brancura permanece. no cor que os diferenciava e discriminados por tudo quan. a discriminação é em sua psique. 1930. Muniz. mas antes sobrevive em um devir in. portanto. para critério para a compreensão passa a ser o da superio- to. através da imitação ou da pria “humanidade”. o negro possa desconsiderar tais ameaças termos determina e demanda diferentes sentidos. ser sujeito é foram marginalizados. acesso ao mundo. Suas estruturas psíquicas são contami. cien- inferiores mas. Identidade. com a expla. isto é. E o ou ódio pela incorporação das propriedades do obje. Embora o negro saiba que sua condição é o resul. portanto. do ser humano o preconceito. penso negando-se dessa forma a si mesmo. VENTURI. estigmatizados. ral do racismo e da discriminação se inscreve na psique cordial. Isto. do de maneira apaixonada. O signo “negro” remete não só às posições sociais vergonhado de si. não me. mas jamais da condição de escravos. forjada ridade ou inferioridade que. ou ambas cesso psicológico da ordem do inconsciente. 1870- supostamente aquém do valor das propriedades bioló. São Paulo: Ática. vos e mantenedores de tais condições. o negro passa a se auto-rejeitar. que o nação do modo como a realidade sócio-histórico-cultu. pelo qual onde as diferenças e semelhanças são negadas. supostamente baseadas ALENCAR. nesta breve reflexão acerca de questões tistas. O intuito. a mais completa análise sobre o preconceito Resta ao negro. temos a capacidade de estabelecer princípios. Arthur Dapieve. vista da perspectiva do olhar do negro incabíveis legalmente − já que criminosas. Rio de Janeiro: O “ser negro” corresponde a uma categoria inclu. sempre por sucumbir a todo um processo inconsciente são do outro. SODRÉ. parcial ou totalmente. o pois nossas reações são relativas à demanda de um dado área específica de atuação e conhecimento. esses termos como se tivessem um só significado. cria para o do negro.

quando o indivíduo se confronta com os O autor acredita que em toda sociedade existem presentada na capa. a atenção às interações dos indivíduos e a decodificação de produtos da comunicação. podemos dizer que. e grupos da sociedade com os dispositivos da mídia sua análise de produtos jornalísticos televisivos. Hall 15 . diz/escreve/mostra será recebido exatamente como se A proposta deste trabalho é pensar o diálogo que se nicação midiática. sua uma necessária correspondência entre codificação e urbano e midiático em que Macabéa se encontra tem visão de mundo.dossiê temático Personagens em posições hipotéticas: consumo. dade dos discursos midiáticos. do outro e da sociedade. 2003. está envolta pela mídia. Macabéa. de Clarice Lispector. outro e da sociedade. consumption and the hegemonic discourses about the bodies are Laura Guimarães -se centrais para a constituição de suas subjetividades e do modo central to the constitution of their subjectivities and to the way Corrêa como se colocam diante de si mesmas. ‘inevitável’ ou ‘óbvio’ a gem urbana ao fundo. they see themselves in society. o universo de significados possíveis e de todo um capa. recados e afetos. As peças no varal – um vestido. subjectivity. O respeito da ordem social. preciso dos outros para me manter de pé. consumption. um nos contatos com a mídia. essa imagem mostra.Pecola. isto é: na troca significados. estes mim. as relações que media culture in which they are immersed. comportamento são propostos. que organizam Lispector. Em técnica mista. lações possíveis para a combinação entre a codificação ca na qual elas estão inseridas. e Macabéa. In both novels chosen. na concep.401) que os prédios são feitos de colunas de jornal e que o processo de subjetivação só pode ser entendido dentro rádio tem um inesperado nariz. a figura de uma jovem de olhos fechados que carrega consigo o selo da legitimidade – parece que ouve rádio. mento e tensão. consumo. os “corpos que pesam”. e do modo como se colocam diante de si mesmas. 399-400). no processo comunicacional. nificações feito de códigos e rituais que dá sentido à domínios discursivos através de códigos sociais. do romance O olho mais azul. p. assim como sua natu- Esse eu que é vós pois não aguento ser apenas dia é central para a constituição de suas subjetividades reza agonística. Na capa do livro. têm Nas interações comunicativas que se estabelecem concordância ou de adesão aos sentidos preferenciais. hegemônicas já solidificadas. We also consider Judith Butler´s nicação Social da UFMG. negociados. corpo e subjetivação na RESUMO ABSTRACT cultura das mídias Este trabalho trata das relações que três personagens femininas colhidas da literatura estabelecem com a cultura midiática em This article deals with the dialogue that three female characters from literature . Nos dois romances analisados. cada sujeito interpreta os uma vez que. valores. com Rodrigo S. ideias e padrões de esperava no momento da codificação. Pecola. Os sujeitos produzem e reproduzem decodificação” (Hall. tem vida. Há várias articu- dá entre três personagens femininas e a cultura midiáti. são their ramifications. p. com um varal de roupas e uma paisa.. encarnados em coisas os discursos da mídia. O rádio. subjetividade. não há garantias de que aquilo que se antes inanimadas. traz. da estrela. “não existe lençol . (a) que define dentro de seus termos o horizonte men- uma imagem que não ocupa mais que um quarto da Sujeito e discursos tal. o narrador d’A Hora da Estrela situações-padrão. além do nome da autora e do título da obra. bilidade) e o GrisPop (Grupo de pesquisa sobre interações midiáticas e práticas culturais contemporâneas). sentidos dominantes ou preferenciais. midiáticos setor de relações em uma sociedade ou cultura. Partimos da premissa de que o sujeito é construído coincidir com o que é ‘natural’. M.have with the que estão imersas. sua cultura. utilizadas as três posições hipotéticas de decodificação propostas pothetical positions for the reader. velop this theme. escrito pela estaduni. Macabéa e Claudia travam com o mundo do consumo e the relations that these young women establish with the world of com os discursos hegemônicos da mídia para o corpo mostram. Portanto. sentido.. body. O olhar mais atento vai descobrir nas relações estabelecidas com os outros sujeitos. Hall entende que a leitura dos produtos midiá- aparelho humanizado e quase sorri. Os prédios da pequena ilustração têm palavras. As- ção da ilustradora.. sujeitos e agentes da vida social. Key words: midia. Macabéa and Claudia .parecem dançar. que nos situa e nos constitui como sim.). A relação que as três Mesmo considerando a proliferação e a complexi- jovens estabelecem com os produtos e as figuras da mí. protagonista do romance de Clarice valores e as instituições sociais . corpo. ainda assim. na UFMG. o ponto de vista hegemônico é aquele A edição d’A Hora da Estrela que tenho em mãos. da sociedade. Na conformação discursiva da comu. protagonista d’A hora cessos identitários. o mundo discursos de acordo com sua história. em permanente estado de movi. com estereótipos. um terno. construí.esse sistema de sig. (HALL. As personagens literárias dos. comunicativa. 2003. em pri. we apply Stuart Hall’s concept of the three hy- Professora adjunta do curso de Comu. do tendem a ser normativos e a operar com representações tão tonto que sou. Para Stuart Hall. e (b) meiro plano. A moça aconchega-se ao vida do ser humano. corpos. eu enviesado (. mostra-se fundamental para a reflexão sobre os pro- INTRODUÇÃO dense Toni Morrison. a moça re. Em escolhidas para instigar a reflexão são Claudia e Pecola. Integra o GRIS por Stuart Hall. assim como as reflexões de Judith Butler sobre concept of “bodies that matter” as an important approach to de- (Grupos de Pesquisa em Imagem e Socia. como num namo. ticos pode ser classificada de acordo com o grau de ro. To reflect upon these relations and Para a discussão sobre essas relações e seus desdobramentos. Palavras chave: mídia. de 1999.

violência e os atributos propagandeados pelos discursos hegemô. uma comparação na vida real. Em sua fragilidade. Macabéa é uma ala. a ouvinte com a intimidade e o carinho que lhe faltam oposto ideal Os pés agora. Os discursos publicitários atingem a todos de uma feiúra que se confundia com todos os outros “como alguém poderia ver uma menina negra?” (MOR. loira.”. (LISPECTOR. No título original personagem impotente na relação com a família.” Pecola não questiona o ideal de beleza. então deixar de ser. absoluto. o dia. a investigação sobre os fenômenos sociais e as ideologias numa xícara branca e azul com a Shirley Temple. Depois os braços até os cotovelos. dossiê temático (2003) identifica três posições hipotéticas de leitura. a leitura é oposta. oferece classificações.) de forma direta e dos através da experiência. também desapareceu. mas físico – o leite que ela toma da xícara é o que menos às imagens idealizadas que lhe eram oferecidas: uma o/a receptor/a cria suas próprias regras para decodifi. incontestável. Pecola vale menos.. (MORRI. integral. motivo de revolta ou de tristeza imediata. No centro da histó. (MORRISON. tenham ou não a necessi- motivos para que ela fosse ridicularizada. p. quase desmaterializado: um corpo que SUBVERSIVO blicidade é secundária. Só restavam os olhos. bem. como se estas constituíssem experiências memoráveis. e decodifica a mensagem nos termos do có. se tudo cura o charlatão que supostamente poderia realizar tal e cultura’. a função econômica da pu- Shirley Temple. pela promessa Pecola e Shirley Temple mente.da experiência de um cotidiano triste durante primeira delas. Há uma contemplação que extrapola o mundo nicos da mídia foi a identificação e a admiração frente e da publicidade à noite: negociado. o pescoço. essa figura exerce um fascínio A discrepância evidente entre os dois mundos não era. 2003. de felicidade guardada em um produto. De acordo com as ideias que Judith Butler (1999) com as consequências dos abusos sofridos. sussurrou na palma da mão. sentidos. Assim. E consumo. O estômago por Stuart Hall (2003. há concordância frente ao sentido he. Não importava para as outras pessoas. bela. a adesão aos objetos é sobre como a Shirley Temple era lindinha. enternecidas. fato esse que não a protegia do ser descartados. de dominação que traçam a linha entre aqueles seres lidade insuportável. Por fim. a menina negra anula seu próprio corpo. Maria da Penha.. Pecola resolve ter olhos azuis e pro.da SON. Deus. em todas as viço anunciado. A literatura traz aqui uma tamento intrínsecos às imagens e textos publicitários Pecola não podia ser. as definições hegemônicas são aceitas.52) que é lido como natural. que os perpassam. de olhos azuis. Além da exclusão por ser negra. anco. olhe. objetos industrializados. e o substantivo matéria. mas que. tão distante de seu cotidiano de pobreza. peito. sacralizado pela mídia: o reino da beleza.23) é exatamente no encontro com o outro que os sujeitos No romance de Clarice Lispector. “não são os indivíduos que No romance O Olho mais Azul. Fechou os olhos com força. bolinhas de papel. não bem-estar coletivo na sociedade de consumo. dade é um sistema cultural e simbólico que organiza ca e lugar – que não se mostra muito diferente hoje e RISON. uma extensa gama perfeita dos musicais do cinema americano: rica. ligava invaria- discorda deste. da contra a realidade em que vivia a personagem Pecola. num processo de dessubjetivação. Na segunda hipótese. pois já concordância. mas os sujeitos é que são constituí- sobre a realidade dura de personagens negros e pobres não ia. bem apertados. 27). po. promessa de felicidade. 2006). encontra dentro (e fora) de uma família completamente sempre os olhos que sobravam. constituintes de sua subjetividade quando se relaciona ria está Pecola Breedlove. p. p. O rosto também era difícil. go dominante. a autora explora os dois significados a sociedade e com os produtos da cultura midiática. oferecia pouca possibilidade uma colega de moradia. da pureza. Sim. de qualquer ângulo que se Ela decodifica as mensagens da mídia com aceitação. não tem família. por fim. Lentamente de novo. p. Nas palavras da narradora. podemos com esses produtos midiáticos. No terceiro caso. Para o olhar hegemônico daquela épo. em Pecola. e nenhuma música. Mas trata-se de um sonho que rada na esfera da fantasia. e apenas uma consequência . tude e ver o mundo com olhos azuis.e por completas. função global de integração e coesão social através da são construídos. Segundo vez só. Mas. Pecola deseja de negação ou de frustração. únicas. programas de rádio. a publici- desestruturada. Pecola estava completamente fora da norma MACABÉA E OS ANÚNCIOS – o objetivo primeiro da publicidade não é a promoção ternamente para a silhueta do rosto com covinhas de reguladora. mente pelo mundo próprio que criam.. De que matéria-prima ela podia cotidiano. aqui -.22. Como prática social institucionalizada. anúncios publi. ao mesmo tem. ma. Ali estava uma ciais – ela adorava anúncios. ela tinha um corpo que não era visto. certamente . Na para a imagem de Temple. os que estão expostos a ele. Além desse aspecto disseminador.37) “Por favor. acalentador sobre a personagem. Eram digo referencial no qual ela foi codificada. olhando portam”. Pecola sorri ao olhar para ela. por transportá-la para longe dali. a leitura e o o que era valorizado na esfera midiática e na sociedade sonho: gotas que caem – cada gota de minuto que passava. A do. era bom aquilo. pobre e Ela nem precisava fazer tanta força assim. menina de doze anos que se quase. por interpelar – a contemplação do dedos um por um. nunca conseguia fazer os olhos desaparecerem. representações e padrões de compor- talentosa. que a trata mal e a troca pela colega. gera identificações. Macabéa se apoia na vida harmoniosa do cinema gemônico conotado. Não há contradição temporânea. 2003.. os que são abjetos. Apesar . que dava ‘hora certa Nossa proposta neste artigo é utilizar as categorias dispor para a construção de sua subjetividade. há normas no discurso esferas. As pernas. entre as tais gotas de minuto para dar anúncios comer- citários. alinhamento. constituindo-se como poder estruturante e. 2003. p. Tem dezenove anos. filma- 16 17 . encantamento: Bodies that matter. ao contrário do seu árduo baixinho para não acordar as outras. p. As produções de sentido operadas por essa forma do significante matter: o verbo importar. (. Por mais que tentasse. Para o autor. isto é. Para lidar dade ou as condições de consumir o produto ou ser- ou simplesmente ignorada. de uma É possível fazer aqui. Ela precisava direta com a posição hegemônico-dominante descrita Joan Scott (1999. Pecola cria uma imagem de si descolada da rea. dizer que o telespectador está operando dentro do códi. A moça tem uma espécie de namora. na sua recepção das imagens da mídia. Peco. Depois o se apropria do sentido conotado (. “por menina feia pedindo beleza. glorificação da mercadoria e do mito da felicidade e do Shirley Temple habitava um domínio adorado e Os discursos cristalizados da mídia chocavam-se dade grande. alimenta: ela bebe simbolicamente Shirley Temple e sua solução aparentemente contraditória. me faça desaparecer”. às vezes não tem o que comer e masca A publicidade representa situações cotidianas brancura. Frieda e ela conversaram. que desejava alçar-se para fora do fosso de sua negri. requer a não aceitação de si mesma. saída encontrada por esse sujeito destituído de todos causa . Jean Baudrillard (1995) sugere que demorou longo tempo para tomar o leite.) Uma menina negra favor. para o lugar da vida perfeita. 1999. Pecola é descrita como uma menina muito feia. p. ora de chofre. criança. Ela era tudo aquilo que que interessam a uma sociedade e aqueles que podem dissolvendo-se em psicose. mas tranquiliza e destrói ao mesmo tempo. “quando o telespectador têm experiência. Quase lá. desaparecer: Aquele era o pedido mais fantástico e. Construídas. Mas aceitar desse modelo como um dos sistemas de construção da realidade con- mulher. Toni Morrison escreve ficar completamente imóvel e fazer força. no sentido de comunicação mostram-se abundantes e ricas para a Frieda lhe trouxe quatro bolachas num pires e leite de ter importância. 400). tem instrução. era praticamente invisível. Acima das coxas era mais difícil. não A ASTÚCIA DE UM CONSUMO de vendas. desrespeitada RISON. goana pobre que trabalha como datilógrafa numa ci. ligava bem contestatória: reconhece o sentido hegemônico. óbvio. Ela expressão pode ser lida também como “corpos que im.desejável. por nossas anti-heroínas. o mais lógico que já lhe tinham feito. dessa for. mas. não importava. portanto. No romance. com (CORRÊA. E por que Macabéa adorava anúncios? Provavel- Pequenas partes do seu corpo se apagaram. fotografadas. Sumiram os 2003. Ora lenta. de outros tipos de em que vivia lhe era contrário? Pecola fazia força para sobretudo esse canal de rádio aproveitava intervalos produtos culturais: estrelas de cinema. a do código abuso. velmente para a Rádio Relógio.52). (MOR. Todas as madrugadas ligava o rádio emprestado por car a mensagem. só pingava em som de criadas por Hall para pensar a apreensão.” Macabéa tem experiências nos Estados Unidos dos anos 1940. há la apoia-se numa fantasia de admiração pela menina apresenta em Corpos que pesam. era considerado.175). ainda uma pesada carga simbólica. de significados.

ao invés disso. (LISPECTOR. A fala da personagem Ma. 1980). sentir entusiasmo algum ante a perspectiva de ser mãe. por um produto industrializado. ADORÁVEIS – A VONTADE (. ela é trazida para o domí- tida. de olhos azuis. que é quase invisível. alegria. e as pessoas são sempre vítimas de É importante lembrar que objetos industrializados. Garbo. de mãe. Ma.) contém uma mistura de elementos de adaptação e constante transformação. Toni Morri. sucesso.401). ela o comeria. como a prática reiterativa e importa” quando trata da importância de Greta Gar.pelos mais variados discursos. negociada proposta por Hall: nesse caso. anúncios não foram feitos para serem recor. Fiquei pasmada com a coisa e com a aparência que ção do gênero. Estava interessada somente em seres ao presentear Claudia com uma boneca. Pela vida de Macabéa um espaço de subversão quase diver. Com experiência frente aos modelos e representações de mu.” de oposição: reconhece a legitimidade das definições conquistas.). que ráter impessoal da experiência. por apenas na percepção de um racismo representado pelo -discursivo é uma tática de auto-ampliação e ocultação não seria boba. especial. toda estre. mais Azul.138). p. p. o corpo materno seria en- sim. Tornara-se com o Assim como cremes de beleza não são feitos para uma miniatura plástica de criança: assuma a maternidade como essência do seu eu e lei do tempo apenas matéria vivente em sua forma primária. o mais precioso. É que fazia coleção de anúncios. efeito naturalizado. Os livros de figuras esta- CLAUDIA E AS CRIANÇAS vam cheios de garotinhas dormindo com suas bonecas. mas. (BUTLER. de normas e significados: modelos representacionais para a mulher é o que liga A subjetividade de Macabéa é construída por sua béa apenas encontra uma maneira própria de se rela. moça simplória. O assombro e o descon- olhos. A resistência de Claudia fica evidente no desprezo não é um dado. “(. impõem modelos culturais de existência do corpo: Executando o fatal cacoete que pegara de piscar os é um sentimento solitário. ções. uma figura midiática com extrema visibilidade. se comer. inventar historinhas em torno dela. costumava ler à luz de como uma imposição de cima para baixo. decodificar olhos críticos a exclusão a que são submetidas as pes. como estratégia de sobrevivência: valendo-se do discurso persuasivo e sedutor para atrair tava o que eles pensavam que fosse o meu maior dese. Louis Quéré (2007). que nada. p. junta. ficava só imaginando com delícia: o creme era do sujeito que é afetado: o engajamento numa situa. Macabéa gostava de estrelas de soas negras e pobres. em um nível mais restrito. construção de uma subjetividade marcada por gênero e de Clarice se relaciona com os produtos da mídia. para reforçar ou contestar esse escritório. e ao longo de vários vela os anúncios que recortava dos jornais velhos do recepção é passiva. Por ter nascido com cinema ou na publicidade. ao ciona com as exceções à regra. e não conseguia prática. ela resiste 18 19 . cuidado. dossiê temático zesse com a boneca: embalá-la. Ouvir a Rádio Relógio e Eu devia fazer o que com aquilo? Fingir que era a mãe? de ser infeliz de uma vez e ter pena de si. discursiva do gênero feminino. p. Por mais frustrante que seja a creve sua marca. 2003. vê com características físicas que a fazem pertencer à categoria sua experiência de quase-amor. (MORRISON. p. Claudia se vê coagida Além de anúncios. É através da leitura e (re)criação desses discur. Essa adesão consiste numa atividade. tagarelice dos adultos. isto é. Butler afirma que: lheres ideais.. serviços de atributos emocionais. admirado. até dormir com ela.161) no álbum.carregam mostrava em cores o pote aberto de um creme para são fenômenos públicos. mistura e rearranja significados. 2003. diz através da voz de Claudia de rado. história e ideologia. de relações ideais. ro que se esperava de uma menina-mulher para com sexualidade em que se exige do corpo feminino que ele meio vazio de torrada esfarelada. Maca. O presente grande. si. nio da linguagem e do parentesco através da interpela- e conquistar seus públicos.. experimentada no do consumo.. pelo contrário. como produtos humanos. no contato com um produto de comunicação. aos nia. esses pequenos recortes de prazer. instruem a menina quanto à sua posição e seu Um ponto importante que diferencia Macabéa de mundo. essa interpelação fundante mecente sob o lençol de brim. 2003.) a performatividade deve ser (LISPECTOR. (BUTLER. apresenta mais claramente a surpresa e a indignação mento de gênero que lhe era imposta e que é ofere- relação de Macabéa com seu namorado Olímpico. armadilha de pensar essa comunicação como unilateral.38) são formas encontradas por Macabéa. Mas aprendi depressa o que esperavam que eu fi. constrói como sujeito. Colava-os manipulação. ela. essa (. são signos e objetivações de cada Para a autora. hegemônicas para produzir as grandes significações ritários na luta por visibilidade e respeito. (HALL. Nas frígidas noites. é dialogando com os discursos e produtos da sociedade por estar fora dos padrões e das normas reguladoras cida repetidamente a crianças – meninas e meninos na representação de um amor ideal. raça. compreendida não como um ‘ato’ singular ou delibe- cabéa coincidentemente toca no tema do “corpo que (abstratas) ao passo que. reiteram uma para entender e suportar a dura experiência de estar no humanos da minha idade e tamanho. tudo com encantamento e passividade. tendido como efeito ou consequência de um sistema de gordura e seu organismo estava seco que nem saco do sujeito que sofre a experiência (DEWEY. algo que parte do interior seu formato (CORRÊA. Longe de tomar qualquer atitude política. num ato mas também pelo modelo de comportamento de gêne. sua resistência a uma sociedade que não reconhece os citacional pela qual o discurso produz os efeitos que ele bo. Macabéa ins. pensava ela sem se explicar. 1999. essas situações são perpassadas por cabéa subverte aquilo que recebe.64). sensoriais. 2011). Se Pecola absorvia Claudia é a menina narradora do romance O Olho demonstrações de sentimentos positivos de ternura. faz suas próprias regras – fun. sensuais. comportamento frente à sociedade. dos livros a aceitar e interpretar (to perform) o papel mulher deve ser a mulher mais importante do mundo.23) das e impressas.23) termina ali. p. 2003. Eu não tinha interesse por bebês nem pelo conceito Os personagens adultos do romance analisado. a autora do livro.. Portanto. afirma que as emoções Os objetos – principalmente brinquedos . p. 1999. classe e et. É que lhe faltava sociais. tuacional (localizado). tas. cionar com os produtos da mídia. se dá a partir de uma convergência de valores modelo único e normativo de bonecas de olhos azuis. Mas é preciso escapar da jo. ao falar sobre o ca. suas cores. uma boneca carregada tes repetições de modelos. 154). mas é aprendido por meio de constan- olhos de Macabéa. que ela se sustenta para viver É possível aqui traçar um paralelo com a versão em que vive. nos “falam” através de sua forma.. Claudia. Mas esse tornar-se garota da garota não Mas tinha prazeres. Que pele. A garota torna-se uma garota. p. seu desejo.. Havia um anúncio. E um dos mais poderosos olhado. a cara de panqueca e o cabelo de minhocas laranjas. Talvez fosse assim para se defender da grande tentação tados e colados em álbuns. eu sabia que a boneca represen. intervalos de tempo. é a que Claudia não aceitou a norma de um comporta- amor. lháveis. atuam na Pecola é a maneira particular pela qual a personagem sos da mídia que Macabéa experimenta o mundo e se Maternidade era velhice e outras possibilidades remo. 1999. compartilhados e comparti.. podem-se perceber conflitos. às colheradas no pote mesmo. grupos marcados pelas diferenças de gênero. tentamento de Claudia frente a esse objeto não estavam A produção discursiva do corpo materno como pré- tão apetitoso que se tivesse dinheiro para comprá-lo ção. em que a é reiterada por várias autoridades. Nas mais diversas sociedades. isso exemplo. em pelos/as adultos/as e pelas representações nas figuras cinema. son. (MORRISON. O que ativa uma experiência emocional não sociedade. são embebidos pela cultura. o gênero contrário de Macabéa. colecionar anúncios. inexoravelmente a feminilidade à maternidade.” (BUTLER. Mas Claudia não adere a essa “verdade”. Mas nota-se na curta É sabido que a publicidade reveste produtos e era sempre uma Baby Doll grande. dado com muito carinho. estabelecidas pelo discurso hegemônico da sociedade .. tem um corpo que vale a pena ser Trata-se de uma leitura atravessada por contradi. clara inspiração beauvoriana. de maternidade.) Eu ficava enojada e secretamente assustada com DE RESISTÊNCIA aqueles olhos redondos imbecis. tinha. 1999. nomeia. Das três personagens analisadas. pré-adolescente ainda. os sistemas de classificação binária pele de mulheres que simplesmente não eram ela. das relações de poder (. Para Butler. permanências e avanços dos grupos mino. “Greta Garbo.

gemônicos. continuava ba. Da diáspora: identidades e mediações como sujeito..54). fisicamente a boneca branca. Se eu Trata-se de “substituir o tesouro enigmático das ‘coi. esta termina por produzir um discurso literário pró. panhia das Letras. que apresentam caráter peda. Segundo Hall (2003. das práticas discursivas e das relações entre as falas. Minas Gerais. prio. A atitude de Claudia pode ser vista como exemplo formulada: que singular existência é esta que vem à LISPECTOR. 2011. p.23) localizadas social e historicamente. se arrancasse a cabeça. As perguntas de Morrison são muito pertinentes Rocco. de subjetivação. um lugar que nenhum outro poderia ocupar. para a reinvenção. mas pa. aceitos. 2006.. mo. questão pertinente a uma tal análise poderia ser assim da beleza? (MORRISON. sem dúvida – para a resistência e a transformação. Corpos que pesam: sobre os limites e curiosidade: CONSIDERAÇÕES tagonizando sua história. Clarice. Tânia. Alcione. para a reflexão sobre as relações raciais e de gênero na MORRISON. Não se busca. Joan. Laura G. a autora reflete sobre a interpelação que faz com que CORRÊA. 2003. O corpo educado: pedagogias da sexualidade. p. de um lugar privilegiado para a ob- partir do sentimento de indignação presente desde a representações. In SILVA. a de forma particular no momento do consumo dessas Trata-se. dos grupos não-marcados.31). De corpo presente: o negro na pu- lhe removesse o olho frio e estúpido. CAULT. e poderosa das mídias. Se condido por trás das palavras e sim entender o porquê pertencem os agentes do discurso. (MORRISON. Suas constru. Pecola enlouquece. a conversa se. p. 2003. no meio dos outros e relacionado ção do que ser o que ela era? Quem a tinha olhado e a HALL. Pecola. em discursos atuantes discursos hegemônicos. Ilha de Santa Catarina: Editora criação. sas’ anteriores ao discurso pela formação regular dos aqueles corpos. rachasse as costas contra a grade de Essa perspectiva está focada na análise e apreensão que detêm o poder. Belo Eu tinha uma única vontade: desmembrá-la. Poderíamos nessas sociedades não muito distantes no tempo e no gógico e formador. Quem disse a FOUCAULT. dobrasse os pés da emergência de certos discursos em certas épocas. Falas de gênero: teorias. O olho mais azul. em porais oferecidos pelos produtos midiáticos disseram QUÉRÉ. Nenhuma delas se reconhece ções discursivas são perpassadas pelas lutas de poder. de certa forma.). 2003. DEWEY. como exclui qualquer ela? Quem a fez sentir que era melhor ser uma aberra. são A mídia apresenta constantemente normas regula. (. Macabéa poraneidade. com forte influência nos processos SCOTT. 20 21 . Judith. New York: Perigee das subjetividades. Belo Horizonte. brancos/as e negros/as. e talvez inconsequente. E vinte anos depois eu continuava me Books. homens e mulheres. Michel. LAGO. conseguia gostar dela. aquelas vidas blicidade em revista. a a eles. Vimos que os modelos cor. Belo Horizon- terossexual representada pelo brinquedo. BUTLER. que geralmente esses discursos vêm dos grupos he. nas imagens oferecidas. 1987. A arqueologia do saber. UFMG.” O autor afir. pais brincam: nor- 2003. Foucault chama hierarquia racial . revelam-se muitas vezes como oportunidades para a recidas. nessa hipó. Toni Morrison. Se reconhecemos Claudia sujeitos marginais porém imersos na cultura envolvente doras dos corpos de homens e mulheres. metal da cama. ela continuava balindo. soltasse o cabelo. p. verdades. Stuart. Art as experience. Claudia rompe com a norma branca e he. p. as relações de poder estão implicadas na construção Implícita em seu desejo estava a aversão por si mesma. reafirmando as Horizonte: Autêntica. São Paulo: Com- tese de leitura. Guacira L. discursivos do sexo. de oposição. mas notam-se espaços – difíceis. 1987. 1995. formação verbal) desencadear crises de naturezas diversas. entretanto. de origem racial. a atenção para a importância de se considerar o que subjetividade da menina Pecola: versidade Federal de Minas Gerais. Rio de Janeiro: de recepção/decodificação que opera dentro do código tona no que se diz e em nenhuma outra parte? (FOU. valores e papéis na publicidade de homenagem. dossiê temático é atropelada pela realidade e Claudia sobrevive para narrar histórias. a desigualdade e a mas. In- ma ainda que essa atividade de recepção oposta pode e crianças. maneira globalmente contrária. acrescentar que esses momentos de crise e transgressão espaço.) Não cados compartilhados e consensuais. desconstruindo em relação aos sentidos preferenciais de decodificação Janeiro: Elfos. as tradições e as crenças do grupo ao qual ____________. A sociedade de consumo. Rio de Janeiro: Civilização eu quebrasse os dedos minúsculos. Mara e RAMOS. Mães cuidam. No posfácio d’O Olho mais Azul.Universidade Federal de serragem para fora. leituras. o que os textos dão a ver: te. 402). (Curso ministrado no Programa de Pós-Gradua­ dentro de algum referencial alternativo. 210). pro. belos/as e feios/as. Mas podia examiná-la para ver Para Foucault não interessa encontrar o que existe es. Experiência. como ocupa. Rio de contestação de Claudia. Sua ativa insubmissão. girasse a cabeça (. Ele ou ela destotaliza Os dois romances emergem em dada época. 1987. Sabe-se que vem à tona. Mulheres. adultos/as divíduo consumiu e dialogou à sua maneira com esses ção em Comunicação Social da UFMG. mesmo que solitária.Uni- Assim. 1999. Mas é possível observar que a personagem que apresenta a postura mais crítica BAUDRILLARD. Modelos são assimilados. o que exclui CORRÊA. 1999. aqueles comportamentos. Dissertação (mestrado em lindo “Ahhhhhh”. 2007. the Berkeley Publishing Group. Macabéa e Claudia. Brasília: salva de um destino triste como o de Pecola. sobre os objetos e a norma . Belo Horizonte: Ed. Representação da Unesco no Brasil. Jean. Problemas de gênero: feminismo e sub- o que era que todo mundo dizia que era adorável. servação crítica das relações sociorraciais na contem- infância. dificados ou recusados. o receptor “decodifica a mensagem de sociedade contemporânea. Todas as três. A mi-silenciosa de um outro discurso: deve-se mostrar perguntando como é que se aprende isso.. Reflexões sobre a experiência pública a mensagem no código preferencial para retotalizá-la dado lugar.no caso do livro citado. sacudisse a objetos que só nele se delineiam” (Foucault. Obviamente não se pode simplificar a reflexão a ponto de afirmar que a relação das persona- Referências gens com os discursos da mídia é o ponto que define bibliográficas o destino de cada uma delas. (org. deslocado da norma. A Hora da estrela. cada uma reage preconceitos e contradições presentes na sociedade. como alter ego da autora do romance. os acontecimentos da vida humana. Brasileira. Louis. É preciso lembrar versão da identidade. In LOURO. John. São histórias de três jovens diferentes. faz parte de sua constituição outro. um peso tão pequeno na escala culturais. que não estão dentro das representações dos grupos Comunicação Social) . Rio de e protesta a seu modo contra a norma. num misto de vingança é aquela que consegue se constituir como sujeito. Laura G.seja internalizada na construção da Tese (doutorado em Comunicação Social) . Janeiro: Forense-universitária.) FINAIS As imagens e textos midiáticos invocam signifi. reconhecido e premiado. análises. silenciosa por que não poderia ser outro. assim. A achado tão deficiente. sob o que está manifesto. 2003. 1999. chatos. Cada in. Retratam e revelam relações desiguais entre muito às personagens dos romances citados. Toni. 1980.. Lisboa: Edições 70.

ção necessária para inserção do racismo nos mecanis- mos estatais das sociedades modernas.. Dito de outro modo. por isso vai ser preciso que o Estado diminuição dos riscos e interdições dentro de uma so- reúna de modo articulado uma série de saberes aptos ciedade para alguns por meio de critérios raciais. dentro O trabalho reúne. biopoder. Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). em certo limite e em certas tivas e metáforas de caráter biológico e médico. De tal modo que Nossos tempos. a população funcionem em favor do Estado. aferir constantes. p. assim. em busca de fomen. em certo momento. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Foucault tomou como exemplo o nazismo. na sociedade nazista (. our dade brasileira contemporânea. exercício bre violência e racismo no Rio de Janeiro.306). desde que o Estado (CASTELO BRANCO. 2009 in dagogia do Departamento de Educação policial que ocorreu em 25 de setembro de 2009 na cidade do Rio the city of Rio de Janeiro.dossiê temático Renato Nogueira Racismo e biopoder: Professor de filosofia e educação da UFRRJ.. fico e político. 2009. canismo fundamental do poder”. considerando o aumento e INTRODUÇÃO sobre a população. investigação as tecnologias que servem para controlar e gerenciar racista sustentado por critérios técnicos e científicos. RESUMO ABSTRACT O artigo trabalha com o pensamento político de Michel Foucault The article work with the political thought of Michel Foucault. In order to confront the anti-black Campos da Silva biopoder. The Estudante de graduação do Curso de Pe.311). Com os processos de instalação o que é específico no racismo moderno é o exercício de eliminação de criminosos. p. promovendo alguns e/ 2002. levando dizem respeito à vida. e tem como objetivo enriquecer o debate contemporâneo sobre Aiming to enrich contemporary debate about anti-black racism o racismo anti-negro e seus diversos dispositivos. o biopoder é um modo de gestão que Nosso artigo é resultado de uma pequena pesquisa so. a fazer medições. contemporâneo. O go. o racismo análises do fenômeno de violência urbana e racismo. pelo racismo” (FOU- os modos de gestão do poder nas sociedades ocidentais CAULT. tipo específico de tratamento. do biopoder. de Janeiro. em certa medida. integrante verno investido da visibilidade das relações de poder pois. membro do Grupo de Pesquisa pela Polícia Militar. Ou seja. Porque à medida instrumentos teóricos de Foucault. dos pressupostos foucaultianos do biopoder. Keywords: racism.32) Michel Foucault fez uma profícua pesquisa sobre funcione no modo do biopoder. ou contendo outros. “A função assassina nadores. o poder intervém e interfere exerce sobre a população. ção do Professor Renato Noguera. Pois bem. Para problematizar essa importante questão na socie. 2002. desagregadores e desorde- RIO DE JANEIRO ao funcionamento de um Estado. coordenador do Grupo de Pesquisa Rio de Janeiro Afroperspectivas. a segmentação da população em pensar a partir a pertinência do biopoder foucaultiano em consideração alguns eventos de 1993 até 2009. fazer com que inclui o genocídio da própria população. de brasileira na primeira década do século 21. violência. para a compreensão do racismo anti-negro moderno e pesquisa tem caráter introdutório. apresentação introdutória do conceito de biopoder e que o biopoder encerra um conjunto de tecnologias que não se trata. conforme Foucault Um dos resultados do biopoder é a possibilidade desde o século XVIII. onde o BIOPODER E RACISMO condições. O objetivo do artigo é fazer uma uma categoria-chave para o biopoder. contexto que o conceito de raça passa a funcionar como sua pauta de pesquisa. têm alicerçado muitas relações “quase não haja funcionamento moderno do Estado hegemônicas de poder fundamentando-as em justifica- que. não passe pelo racismo” (FOUCAULT. 2002. racializada no Rio de Janeiro contemporâneo. violence. A raças e o racismo passa a se constituir como um “me. “Tem-se.) uma sociedade que do Laboratório de Estudos Afro-Brasileiros (Leafro) da define o segmento populacional que deve receber um generalizou absolutamente biopoder” (FOUCAULT. fornecer e avaliar Com efeito. evento que terminou com um homem negro morto by military police. Palavras chave: racismo. p. a população passa a ser problema cientí. É neste não deixa dúvidas: o racismo anti-negro não esteve na do biopoder como modo de gestão estatal contem. dados estatísticos. Uma leitura cuidadosa da obra de Foucault problematizando a racialização da violência através ou concentração de determinados benefícios. namento de um sistema social. de problematizá-lo no contexto do Rio de Janeiro. especially with regard to the technologies Carla Cristina que diz respeito às tecnologias de segurança pública próprias do of biopower own public safety. biopower. que certos tipos de pessoas carregam consigo do Estado só pode ser assegurada. Afroperspectivas. que tem sido realizada pelo Grupo de Pesquisa Afro. Saberes e Interseções (Afrosin) e vice-coordenador do Curso de contemporâneo Pós-Graduação Lato Sensu do Laborató- rio de Estudos Afro-Brasileiros (Leafro). da UFRRJ. The event ended with a black man killed e Sociedade do Instituto Multidisciplinar. ANTI-NEGRO NO p. visando um determinado funcio. perspectivas. Saberes e Interseções (Afrosin). efeitos do biopoder. Em outros termos. Estuda e pesquisa sob orienta. em especial no and its various devices. as chacinas do biopoder. dentro de uma leitura foucaultiana. nossa análise incide sobre ações analysis focuses on police actions and speeches of the state. especificamente o racismo na socieda- tar um debate profícuo em torno da violência urbana e Para Foucault. o direito de morte que o Estado são. Por exemplo. Saberes e Interseções (Afrosin). A chacina 23 . lotado no Departamento de Edu- um caso no cação e Sociedade do Instituto Multidisci- plinar. 304). racism in contemporary Brazilian society through biopower. tal como a repartição anti-negro. de comentar seus textos. que está em jogo é a defesa da ordem social e da vida. somente. Nesse caso. Nosso intuito é pensar com os porânea dominante. É importante frisar que o racismo está ligado contra os perigos biológicos. O destaque vai para uma ação highlight is a police action that occurred on September 25. Mas. policiais e discursos do Estado. Nosso objetivo é problematizar. a emergência do biopoder é condi.

uma certa inclinação (. À medida que se discute efeitos assimétricos do biopoder entre negros (pretos não estamos dizendo que estelionato. três anos na época – e tinha passagem pelo sistema pela população tijucana (moradores de um bairro de extra-oficial. governador estava defendendo uma política de ligadura desempregado desde o nascimento da sua filha – com deve ser combatido. Sandro Barbosa do Nascimento nos O biopoder é “uma espécie de estatização do bio- O BIOPODER NO CASO em foco de 2009. estava Serginho representou e encerrou o signo do que O que estamos problematizando é o aparente pa. Ainda no ano de 1993. Em entrevista publicada na página de notícias fugia após ter cometido o crime de assalto. Segurança do Rio de Janeiro no ano de 2007. lotado no 6º BPM (Tijuca). próximo às dependências da Igreja de mesmo ta. Uma análise de discurso do governador e do arma. solicitando um prazo de negociação maior. assim como de trabalho. O que está em jogo é que a “morte da raça ruim. mas. Ou seja. Janeiro. Levantam-se hipóteses de vingança. ao lado do caso Sete anos depois. cente ameaçada se agir com vacilações a pretexto de de uma ação ilegal.. major João Jaques Busnello. Um tiro na encontramos um cuidadoso estudo que identifica os de brasileira. para o governo. p. Policiais contra. direitos de cidadania que o trabalhador que mora na considerando as declarações do Governo no ano de tados para fazer “limpezas” em certas áreas da cidade. economista Marcelo Paixão (veja gráficos em anexo). na madrugada do dia 23 de julho de que ratificou o exercício do biopoder numa entrevis.) que SERGINHO nas periferias/subúrbios e favelas. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) comentou BRASIL. A analogia a prisional. brar que mais de 80% dos mortos eram negros. forçosamente os mais racistas” (Ibi- ça pela morte de outros policiais. as reais razões do desbunde de na semana anterior. Tijuca. onde a população negra é superior a 50%. negro e jovem. a raça ruim é a população que vive relembra da atrocidade cometida naquele dia. fazem exercícios de “limpeza sociorracial”. que ainda hoje vemos nos noticiários. “Um tiro em Copacabana é uma coisa. disso ninguém duvida. com 48 anos em 2009. o prazo de negociações. foi dito. Em 15 de abril de do G1 em 24 de outubro de 2007. Por outro.309). o Serginho. informando que “pou- tilha a ascendência africana e um histórico de discri. Afinal. motivos: porte ilegal de as bases para a réplica e tréplica tinham vindo anos Por um lado. e após estava defendendo a ação policial na Favela da Coréia homens e os mais atingidos foram os negros: se em titubeios. o Estado faz uso da “eliminação das raças e invadiram o bairro durante a madrugada.com/ e http://pmerj. o roteiro já estava lá antes da sua chegada. raça denota a racialização do fenômeno da taxa de natali. O discurso do Estado fluminense. isso beneficia a ação e pardos).blogspot. estelionato e furto. Como já Vigário Geral: cerca de cinquenta homens encapuzados gestão estatal que incide sobre a vida. arrombando gestão impele o Estado a gerenciar “a proporção dos cício do racismo através da emergência do biopoder. Afinal. O coronel crime. na época com 24 anos. disse nos blogs Mário Sérgio fez questão de comparar com o caso do é dirigida para uma parte da população que compar. novamente a notícia filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas. corre o risco de sacrificar a vida ino. A história hoje contada. porque se encaixa deve ser eliminado: homem. organizado pelo da PM foi o responsável pelo tiro certeiro. é preciso que o outro morra” (FOUCAULT. pelo menos. tas lacunas. conforme os dados em suspeita agentes de segurança pública. Apesar das especulações sobre o caso. p. negro e que exemplo. isto é. 2002. Agora. o que aponta para a violento que marca mais uma vez a história do Rio de se poderia chamar de estatização do biológico” (FOU. 30/03/2010). a qualquer custo”.com/. Este modo de dentro do que foi proposto pelo nosso trabalho: o exer. o monopólio da violência é exercido Janeiro significa dizer que jovens negros têm chances preservar vidas. Ou seja. dentro dos cânones legais e fora deles. o Serginho tinha o ensino médio completo. é um exercício do tenciário durante nove meses. agora na favela de técnicas são aplicadas conjuntamente por meio de uma de Janeiro merece especial atenção. a convicção dezoito anos passados. o secretário de Segurança Pública do Estado do mados do que jovens brancos.. por razões publicamente que. em arma. novo massacre. crueldade não são colocadas. é passada com mui. dossiê temático da Candelária. de produzir marginal” (G1. ápice foi vivido por três pessoas: Sérgio Ferreira Pinto no” (FOUCAULT. seja uma opção a ser considerada to. o seu planejamento e suas práticas.. 2002. As tecnologias do biopoder e suas Em 25 de setembro de 2009. diante das constantes negativas de inserção no mercado justificativas já estavam garantidas. o direito de matar do Estado está assegu. mulher branca e refém dem). o então governador Garrido. um evento na cidade Rio Serginho era o símbolo e a manifestação do que do mês de agosto. queremos problematizar a ausência de negros. p. marius-sergius. localizada no centro da cidade: seis adolescentes Coréia (periferia) é outra. da Polícia Mi. nas entrevistas do governador e do secretário de rado no combate que é definido como guerra contra o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro no de negociação. “os Estados mais assassinos são. Ele já tinha sido usuário do sistema peni. Na época. o que por sua vez implica http://marius-sergius. em de que a vida criminosa pode ser eliminada.) é o que vai deixar a vida em geral distintas. todas.286). o Estado. favela não tem” (G1. A tese que o Estado racista defende é de que a 2005. “se você quer vi- como toda a história do Brasil.290). incluindo uma criança. A operação policial foi responsá. O a purificação da raça para exercer seu poder sobera- casas e alvejando vinte e um moradores. colocando sob Méier e Copacabana. mecanismos do biopoder. que deve par o lobo significaria sacrificar a ovelha” em http:// minação. 23/10/2007). O Major Busnello trução social racista que insistia em marginalizá-lo foi Rio de Janeiro era o delegado José Mariano Beltrame Desigualdades no Brasil 2007 – 2008. o morador de classe sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz do Instituto Sangari. Com efeito. nome. furto e assalto são atividades ou opções para os por policiais militares. o biopoder funciona numa via dupla.org/ ônibus 174 alguns anos antes. de modo desautorizado. a fe. 2002. Rocinha. 2002 morriam 46% mais negros do que brancos. No Relatório Anual das preservá-las. É oportuno nascimentos e dos óbitos. Isso é uma fábrica coercitiva. Serginho estava no meio duplamente. retrucasse. É padrão Zâmbia. a violência ano de 2007 aponta para uma perfeita adequação aos litar do Estado do Rio de Janeiro (PM). se a opinião pública é um critério para o genocídio autorizado ou não auto. A cundidade de uma população” (FOUCAULT. É forçoso lem. numa estratégia racista. ao motivação para os homicídios foi uma suposta vingan. na ocasião preservação da ordem social estaria garantida à medida vinte e nove pessoas foram mortas. Numa ação filmada e aplaudida radoxo de que forças de segurança do Estado. 23/10/2007). o assalto. países africanos como contraponto a países europeus alternativa. uma estratégia do biopoder. porte ilegal de e dois jovens sem teto foram brutalmente assassinados essa questão do enfrentamento. As dúvidas são sobre o tempo antes. as ações anteriores já citadas. Ou seja. rizado. população negra. O Secretário mais de 90% desses casos de homicídio as vítimas eram excluídos. O coronel Mário Sérgio. que a covardia dos homens os impede de que o governo do estado do Rio de Janeiro “assumiu 2010 – Anatomia dos Homicídios no Brasil foi feita pelo p. Serginho foi o vilão perfei- Vale ressaltar que todas as crianças e adolescentes as. porém a mais próxima da verdade parece ser a média da Zona Sul recebe tratamento diferente e tem mais sadia” (Ibidem). Essa ação decisiva para que 40 minutos fossem suficientes para 24 25 . pega na co que estava representando o Estado em sua extensão eliminados e elimináveis são. no vigésimo nono dia CAULT. A pesquisa Mapa da Violência ver. No caso do Estado do Rio de blog/: “Numa ocorrência com refém. anexo. dade. de modo de trompas para mulheres de bairros como a Rocinha. Júnior. contar. 2007 a proporção cresceu para 108%” (CORREIO DO O biopoder tem um postulado. Rio de Janeiro. De acordo com o Mapa da Violência. a taxa de reprodução. biopoder.. Mas. jovens negros. Sérgio Cabral afirmou que “Você pega o número de de Serginho. 2007. homem bran. vel pela morte de 13 pessoas. Vale lembrar que eram todos do tráfico de drogas” (G1. Em significativamente maiores de morrer em conflitos ar. 24/10/2007). Gabão. 2002. As sassinadas na Candelária eram negros(as). um ato lógico ou. a cons- 2007. Serginho foi mais um registrar que todos eram pretos e pardos (negros). é um exemplo da profilaxia sociorracial na socieda- 1993. é padrão sueco. Óbvio que não se trata de sugerir que sua classe média da zona norte). Ana Cristina mesmo tempo. no município de Nova Iguaçu.blogspot. que a força de coerção eliminasse os criminosos. Os foi dada e as investigações aconteceram. Com isso. da raça inferior (.305). com 39 anos. no Rio de Janeiro.

7 1. Microfísica do poder.1 8. Disponível em: coletivodar.Setembro/2009. Guilherme.2 como o biopoder funciona e seu vínculo indissociável cismo estatal na sociedade fluminense e. microdados SIM. Alfredo.observatoriodefa- 3. DREYFUS.93 Curitiba. Flávia.0 2.br e Tabulações: LAESER – Fichário das Desigualdades Raciais rília: Unesp-Marília-Publicações.1 2001 2.1 2. Estamos tratando de uma política de Estado.9 1.1 0.64 _____________. São Paulo: press.9 8.6 5. ser assassinado. Um olhar. Com este intuito.7 7. 1999-2005 (por 100 mil habitantes) 80 _______. Rafael.6 7. n.1 0.57 4.0 0. Sobre a analítica do poder de Fou- 51. Marcos César (orgs. Revista de Filosofia Aurora. “Racismo.43 26 ed. delária.8 8.0 Razão de mortalidade da população residente acima de cinco anos de idade por homicídio segundo 2005 1. v. o difícil acesso aos programas e aten- CONSIDERAÇÕES FINAIS dimentos de saúde.5 10. de modo mais com o racismo. a baixa qualidade da escola públi- 2003 30. 2000 2.82 globo.9 os grupos de cor ou raça (branca e preta & parda). dispositivos dos mecanismos de funcionamento do ra- 1999 1.4 9. sil. MAIA. Martins BIBLIOGRAFIA Fontes .2 9.7 4.com.org. Petrópolis: Vozes. dossiê temático que o comando da operação autorizasse o disparo.71 3. Alguns trechos de en. em favor da maximização da vida de alguns a partir do assassina. indivi. Brasil.8 0.7 0.4 42. jan.29 3.br.0 1.0 0. n.4 9. 2000 27.48 CASTELO BRANCO. 3.9 ca.word- 20 FOUCAULT.2 3. Nos. 28. Vale registrar que não estamos tratando de ações e ações policiais foram colocadas à luz dos operadores Ano Homicídaios por Homicídios por Outras formas de Homicídios por Homicídios por Outras formas de individuais. Disponível em: www. velas. 2004.9 2. Reportagem .6 1. arma de fogo arma branca homicídios arma de fogo arma branca homicídios disparo. Violência – Abril/2010. Belo Homens negros e pardos Homens brancos Mulheres negras e pardas Mulheres brancas VAREZ. microdados PNAD da Faculdade de Filosofia e Ciências.org. Entre as ações policiais extra-oficiais e oficiais. 50 tante morto em Vila Isabel após fazer comerciante MELO. 70 67. Michel Foucault: Horizonte: Autêntica. Resumo dos cursos do Collége de Fran- 61. outubro de 1995.br. uma perspectiva que busca sublinhar alguns arma de fogo arma branca homicídios arma de fogo arma branca homicídios mos descrever. Um desafio é a transposição da pesquisa geral.5 5.0 0. partindo de um repertório focaultiano. Rio de Janeiro: Editora FGV.9.8 46.6 8.1 0.1.com. 1982. “O que é a crítica?” IN: BIROLI. 2001 29.5 46. histórias e destinos de um pensamento. Rio de Janeiro: SILVEIRA.4 4. 29-38.1 O escopo deste trabalho é trazer algumas contribuições destacamos o “caso Serginho”. A hermenêutica do sujeito. 7(1-2): 83-103.9 9.4 7. Michel Foucault: beyond OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NO RÁDIO – Mapa 30 structuralism and hermeneutics. 2002(2).1 48. 1a Ed.0 2.0 4.8 0. Brasil. Michel Foucault: poder e análise das 0 1999 2002 2005 Graal. Violência – Fevereiro/2011.5 9. Chicago: The Uni.3 1.0 3.0 1. AL. Camilo e OLIVEIRA. IBGE.7 8.0 9. na sociedade brasileira. USP.0 2. _______. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.6 0.5 1. 23 de julho de 1993 – A chacina da Can- 41.0 45.).8 7.7 0./jun. Um caso que exemplifica Mulheres Brancas Mulheres Pretas & Pardas para os estudos das relações étnico-raciais no Brasil no como as estratégias racistas do biopoder funcionam.88 refém sai em defesa do filho. 21. Djalma.5 1. 2002(1).1 1.4 33. Paulo. foucaultiana que opera como racismo antissemita para Razão de mortalidade por formas especificadas de homicídio da população residente acima de cinco anos de sa observação é que o racismo foi o fator decisivo na o racismo anti-negro no Brasil. Em 2002 29. P.com.45 _____________. como em função a ampliação de riscos.terra.9 to direto. 2005.0 0. 2000. Disponível em: extra.6 1.9 outros termos.institutosangari. Saúde. 1997. etc.8 0. Ma. Martins Fontes.0 2002 2.83 33.2 4. 26 27 . da violência – negro tem 130 vezes mais chances de versity Chicago Press. Julio Jacobo.0 2004 26.1 2003 2. Mapa da Violência no Bra- Fonte: Datasus / Min.5 1. 2005 (por mil habitantes) decisão que culminou com o tiro fatal do Major Bus.jblog. p. 60 dualismo. quando? Disponível em: www.6 de um modo de gestão que ultrapassa o ato de apertar conjunto de políticas constitutivas do Estado brasileiro.SP.7 1. C.3 6. 2007.6 6.9 49. Tempo Social: Revista de Sociologia. OBSERVATÓRIO NOTÍCIAS E ANÁLISES – Até 10 _____________. Em defesa da sociedade.4 4. 2009 cault. Cande- 40 35.9 o gatilho. o que está em jogo não é a ação isolada do conceituais foucaultianos. 2005 24. um 1999 22.8 1. Vigiar e punir: nascimento da prisão.br. propiciando um entendi. especialmente na sociedade fluminense. terratv. Ano Homicídaios por Homicídios por Outras formas de Homicídios por Homicídios por Outras formas de que diz respeito à violência. e RABINOW. trevistas de representantes do poder público fluminense Homens Brancos Homens Pretos & Pardos nello.0 12.1 2004 2.7 1. H. Antônio. 2008. lária_Julho/2010. Alice. biopoder”. organizações.96 4. ce.0 1. Mãe de assal. procura.com. Foucault & a educação. Editorial – Abril/2009. Disponível em: www. VEIGA-NETO.9 2. mento do racismo como uma política de Estado. Cadernos WAISELFISZ. idade segundo os grupos de cor ou raça (branca e preta & parda) e sexo.9 2. São COELHO. Vol. M.

Em seguida. inicial de constituição deste campo. como portadores de um as entidades. movimento negro acadêmico.. que advém de pesquisas e obser. de rebeldia armada. projeto político acadêmico que tem memória e história. période concomitante à la graduação e pós-graduação em Geografia à discussão e implementação de Ações Afirmativas e das cotas discussion et mise en oeuvre d’Actions Affirmatives et des quotas e do mestrado em Antropologia da Uni. de protesto anti-discriminatório. discentes. constitui movimento negro. Lé- grupos sociais historicamente discriminados com foco mados Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros (NEABs) lia Gonzalez (1982) chama a atenção para a pluralidade para as cotas raciais pode ser inserido numa discussão e. avec significative perfor- do Laboratório de Estudos de Gênero. faço referência à criação de Coletivos de de organizações e para a sua unidade. [como o Movimento Negro Unificado]. Posteriormente. Ensuite. que propõem esse debate. Coordenador dos” no espaço acadêmico. mance individuelle et collective. intelec. (SANTOS. corpos concomitante à discussão e implementação de Ações sente a gama de entidades com base em levantamento que pensam. e ações de mo- Neste ensaio. pelo sociólogo Negros e o Movimento Negro Evangélico. com significativa atuação individual noirs instruits » dans l’espace académique. trato da entrada de “corpos negros educa. Dans la conclusion je reflète concernant l’entrée de « corps versidade Federal de Goiás. Na conclusão. RATTS & RIOS. 2009. o que me leva a afirmar a Ampliar este quadro não aponta necessariamen- para o Grupo de Trabalho André Rebouças formado existência de um movimento negro de base acadêmica te para uma compreensão. Les Mots Clé: mouvement noir académique. de do movimento negro contemporâneo. artísticas [como os inúme- temporaneidade. recreativas se afirmam negros/as no espaço acadêmico e. voltadas rais [como os diversos “centros de pesquisa”] e políticas Coletivos de Estudantes Negros. que A MOVIMENTAÇÃO NEGRA assistenciais [como as confrarias coloniais]. os cha. e para a Quinzena do Negro. período considerado de surgimento atuação individual e coletiva. 157). até o último quartel do século XX. zação do movimento negro contemporâneo. Nos anos 1970. fun- movimento negro de base acadêmica (RATTS. primeiramente situam no interior de algumas universidades públicas cotidiana. 2009).dossiê temático Corpos negros educados: notas acerca do movimento negro de base acadêmica RESUMO Neste ensaio. j’aborde la formation du mouvement noir acadé- acadêmica na década de 1970. e com as cor. intellectuels noirs. Entidades Ele se caracteriza pela ação organizada de docentes e religiosas [como terreiros de candomblé. discuto brevemente mique dans la décennie de 1970. qualquer tempo [aí compreendidas mesmo aquelas que também a época de formação do que denomino de visavam à autodefesa física e cultural do negro]. apontamos aquele que consideramos um momento e privadas e chegam a constituir grupos de estudo e de 1994b: p. de vações que tenho realizado individualmente ou em que confirma a regra. em 1977. 1974 e 1975. corpos educados.. recreativos e negros/as na Universidade Federal Fluminense entre co para o período. Há Estudantes Negros/as (CENs) nos anos 2000. literários e ‘folclóricos’ – toda essa complexa trajetórias de intelectuais ativistas negros (RATTS. com significativa (. Professor dos cursos de Estudantes Negros/as na década seguinte. de qualquer natureza. A conclusão aponta para de Paulo Roberto dos Santos (1984): poreidades negras que estão adentrando a universidade a entrada e permanência de corpos negros discentes brasileira de forma coletiva e organizada. Nos pri- O debate público acerca das ações afirmativas para de grupos acadêmicos nos anos 1980 e 1990. tuais negros. poesia]. a presença de acadêmicos/as negros/as é uma exceção bilização política. artísticos. período concomitante diants Noirs dans la décennie suivante. e coletiva. capoeira. Os destaques vãos intervenção neste âmbito. acerca da relação entre educação e corporeidade. período Joel Rufino dos Santos amplia para o passado e o pre- um notório incômodo com os corpos negros. extemporânea ou 2007. Palavras chave: negros.).. teatro.. por vezes de técnicos administrativos. organizada fera religiosa com grupos como os Agentes de Pastoral INTRODUÇÃO na Universidade de São Paulo. por fim. J. Eduardo Oliveira e Oliveira. por exemplo]. je discute brèvement la a constituição dos Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros entre os constituition des Noyaux d’Études Afro-Brésiliennes entre les années Alex Ratts anos 1980 e 1990 e faço referência à criação dos Coletivos de 1980 et 1990 et fais de la référence à la création des Collectifs d’Étu- Antropólogo. raciais. abordo a formação do movimento negro de base RESUMÉ Dans cet essai. ostensiva ou encoberta. e docentes no espaço acadêmico. e todas as ações. Étnico-Raciais e Espacialidades do Ins- tituto de Estudos Sócio-Ambientais da Universidade Federal de Goiás. para mim.) a melhor definição de movimento negro é: todas Os anos 1970. de movimentos conjunto com outros/as pesquisadores/as acerca das que alguns/umas ativistas que participam da reorgani. pois nem todos os grupos pela historiadora Beatriz Nascimento e por estudantes ou mais simplesmente um movimento negro acadêmi. para uma elite social. dentre outros. a exemplo do que se observa na es. também se dinâmica. Este fenômeno exige algumas considerações acerca Depois discorro brevemente acerca da formação da pluralidade interna do movimento negro. são. negros (ou de maioria negra) culturais. cultu- os Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros (NEABs) e os Desde a criação das universidades brasileiras. raciales. NO ESPAÇO ACADÊMICO [como “clubes de negros”]. Afirmativas e das cotas raciais. na con. 2010). religiosos conhecidos se identificam como movimento 29 . dadas e promovidas por pretos e negros (. constituem grupos de atuação como ros grupos de dança. corps instruits. meiros anos da reorganização do movimento negro. podemos dizer aquilombamento.

mas também dos estados. É difícil estimar a proporção de pessoas gra. A trama das trajetórias pessoais e coletivas fica a das relações sociedade-governo desde 1960. primeiro. nizações mencionadas é seguida pela regionalização e panto e gera atritos peculiares (1994a. geralmente. transformando-se continuamente (. que a fuga de candidatos brancos para centros mais Para o período em foco. novas tendências tidas como críticas que ameaçavam deixa uma indagação e faz uma afirmação acerca destes de União e Consciência Negra (fundado entre 1978 e do Rio e de São Paulo. Cardoso. Esta citação é interessante por três razões: 1) capta a gros/as (RATTS. passando por centros autônomos de pesquisa – proliferação de faculdades particulares estimulada muito bem notado por Cardoso (1989) e Gohn (2004). (SANTOS. período durante o qual não (. pontas de lança de ação. 63-64). É o caso do Grupo doutores/as que hoje são referência dos estudos de re- campo e forma de atuação de cada grupo. 94). no superior”. em nessa produção é o fato dos negros deslocarem-se do depois) e os Agentes de Pastoral Negros (APNs). cismo desembocou. O cenário traz dades. enti. lia Gonzalez. que acabam por se aproximar e. a uma tendência da geração desse período: estudos mais aprofundados no que se refere a grupos rígidas (como o Movimento Negro Unificado. O autor provavelmente está tratando de entidades Sales Augusto dos Santos (2007). e pela busca de uma narrativa to negro. nacionais de mulheres negras. Alguns auto. 2007). outros trabalhos apontam que Negros) de São Paulo e do Grupo Negro da PUC-SP teriormente de Leda Maria Martins. por exemplo). assertiva com a qual dos anos 70. muitos militantes e simpatizantes de diversos movi. consciências e atuações políticas” (BORGES PEREIRA. 2009: p. tanto que em mente filiados às ciências sociais ou por elas influen- algumas situações se instaura uma tensão em torno do ciados. num movimento negro de como Frente Negra Brasileira (FNB). remete à presença de licenciados/as e bacharéis no muitas vezes. esse fato torna-se mais orientandos/as negros/as. A transformação provocada no momento da atu. Aquilo que os próprios (TEN). A dis- Márcio André dos Santos comenta o trecho acima movimento. nos anos setenta. na Universidade Federal Flu. de diversos tipos. de Rios (2009).. como foi e Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS) e no minense). mentos sociais tornam-se pesquisadores dessa forma população negra” da Associação Nacional de Pesquisa o Grupo André Rebouças.. é abordada em Ratts (2003). no seio da igreja católica. ticularmente aí. No contexto de uma estados no período em foco. União de Negros pela Igualdade (UNEGRO). 96). Eduardo Oliveira e Oliveira e Hamilton que a ação em escala nacional do MNU e das orga. (p. engajados na luta anti-racista. percepção da entrada. 1983b: XIV)1. ideias arregimentadoras de negro ou são reconhecidos pelos fóruns políticos ne. (DOMINGUES.) os estudos que engrossam a produção sobre mo. nanga. de inflexão em que o sujeito negro não deseja ter sua cussão racializada e ideologizada em torno da noção de quilombo de J. Santos se refere a um momento em que há pou. Lé. atuar em conjunto. o Grupo mente desta geração universitária. Helena Theodoro Lopes. no meu entendimento. é pontuada por Rios pares nas universidades. Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva. ainda que reduzida e por vezes estrangeiros.). estes novos ativistas negros/as que fundaram as referidas entidades sujeitos são chamados de “ideólogos negros. Santos: Santos que. Todos 1. Há desde organizações políticas superestimada. pode-se dizer por exemplo do Maranhão e do Rio Grande do Sul.. Isso não brancos/as e negros/as que merece levantamentos e tos negros”. em seguida. Guerreiro Ramos e Clóvis Moura são pensadores que nacionalização de outras coletividades.. de Trabalho André Rebouças. teorica- não tinham passagem pela universidade. Santos sintetiza o quadro do período: M. que os movimentos ne. negros/as ou de negros/as intelectuais como prefere como é o caso de Clóvis Moura. mais recentemente. o MNU. merece relativização esta afirmação de J. 266-267) sujeitos: “Quem são eles? O que mais chama a atenção 1980. identifico uma articulação negra de base acadêmica. gros são filhos do “boom” educacional dos anos setenta de ação coletiva em toda a América Latina. a pessoa negra passa a ter voz própria no mun- brasileiros. lugar de informantes dos pesquisadores estabelecidos nização criada em 1983 (SANCHIS. ao cote- J. No caso do movimento negro de base acadêmica. 30 31 . de histórias e memórias negras. Federal Fluminense. frouxamente articuladas entre Uma citação a mais de J. são na verdade cerca de 400 enti. produziram um ponto que não concluiu a dissertação em virtude de sua morte. nos anos 1970 e 1980. sobretudo públicas. 2009). p. De fato. de jovens negros/as no meio acadêmico: foge. É preciso ressaltar que Abdias Nascimento. (2009). 237). orga. Santos contribui para a grande medida. ação relativamente conjunta de intelectuais ativistas lectuais negros/as ativistas traçam caminhos distintos. Geração. poucos grupos se identificaram Este é o período em que alguns/umas mestres e de voltar-se para os critérios de identificação e para o 3) estabelece uma periodização para um movimento ou foram identificados como tal. se inseriam nas uni- res como Márcio André O. no repensar a nação em militantes negros convencionaram chamar de movimen. em própria. que atuam na primeira metade de século XX tência do racismo no Brasil. os jovens que fundam. 1983). porém. do acadêmico. União dos Ho. João Batista Borges Pereira foi o orientador de Kabengele Mu- encontros de negros Norte e Nordeste e dos encontros Além da irônica expressão “negros doutores”. I.. bem como do GTPLUN (Grupo versidades. são invariavel. e perspectivas analíticas antigos. (1994a: p. mas também a dades negras de luta contra o racismo. criado na Universidade lações raciais e das culturas negras. risco de embranquecimento dos/as acadêmicos/as ne. Muniz Sodré e Joel Rufino dos Santos. 2006). 266). Maria de Lourdes não concordo. Negra do Maranhão. optando pela denominação de Gonzalez o “movimento negro moderno” data do início dos anos (SANTOS. onde o grande número de “negros doutores” causa es. até instituições semi-acadêmicas (como É preciso lembrar. preocupados em criar bandeiras de combate. dos Santos (2009) preferem ratura sobre este movimento social fala de uma “reno. e eventos. merecer maiores reflexões. entanto. como intelectual reconhecido participou voz suplantada ou infantilizada (GONZALEZ. boa parte da lite. a exemplo do GT “Temas e problemas da a mais notória). na literatura específica. M. 1999). No entanto. plena ditadura militar. desde meados dos anos 1980. 1999: p. trata-se 2) descreve em linhas gerais seus tipos organizativos e. Outros/as inte- J. para a posição de ensaístas e intelectuais” (p. pos- o singular previsse uma harmonia. Marlene de Oliveira Cunha e Eduardo Oliveira e Oliveira. No caso do movimento negro. nacionais e também o quadro das relações entre pesquisadores/as si – há quem prefira mesmo designá-lo por “movimen. que indica que este quadro se verifica em outros O movimento negro de base acadêmica se sinto- amplitude nacional e claramente destacado de outros mens de Cor (UHC) e Teatro Experimental do Negro movimentos sociais na América Latina: niza com as outras organizações no enunciado da exis- movimentos sociais e políticos. Siqueira. reconhecido pelos seus Foi nos anos setenta que a luta organizada contra o ra. Joel Rufino dos Santos e cas entidades nacionais como o MNU. tocante à relação entre orientadores/as brancos/as e histórica e cultural do negro (como o Centro de Cultura pelo estado como solução para a “crise de vagas no ensi. Parte significativa dos/as discussão acerca da noção de quilombo. por intelectuais negros. juntamente com as Hamilton Cardoso da primeira metade dos anos 1980. pois na década ante. rior ainda podemos verificar uma transição. pois. Flávia Rios (2009). a exemplo dos têm produção escrita desde décadas anteriores. um mo. No adiantados de ensino abria vagas para negros – é o caso são conhecidos os nomes de Beatriz Nascimento. gros. noção consensual do que significa movimento negro. negro de tipo mais “político”. dossiê temático deste processo e ministrou cursos em vários estados ou seja. enfim. no plural. vimento negro a partir dos anos 70 são feitos. um ponto crítico decisivo nos anos 80 em diante. mento ainda mesclado pelos padrões de pesquisadores jar artigos de Lélia Gonzalez. aparecer. De fato. 30. com a qual rompe logo des privadas foi maior. 2007. O dilema entre cultura e política se instaura par. onde a proliferação de faculda. como sujeito coletivo e como individua- duadas entre os/a fundadores das entidades negras nos lidade forte (SANTOS. a exemplo de Kabengele a expressão no plural – movimentos negros – como se vação” ou “retomada” dos movimentos negros no final de Trabalho de Profissionais Liberais e Universitários Munanga. que estes/as intelectuais. considerado. no entanto. e Rufino e. Henrique Cunha Jr.

a Sociedade Inter. retora do ICFH-UFF. de Ciências Humanas e Filosofia (GTAR. sua amiga no que diz respeito ao assunto adotado pelo corpo do. Desta. que refaz uma bibliografia sobre gritude acadêmica.que ele traduz como Estando situado no espaço acadêmico. nem sempre nítido aos olhos contemporâneos. tendo por objetivos os mesmos do ano de Estudos Afro-Asiáticos da Universidade Cândido interessados em formar um grupo de estudos. 1973 no Centro de Estudos Afro-Asiáticos pela profes. Fonte: GTAR. (. Este processo está em relatos de ativistas negros/as fluminen. Cabe ressaltar que dos/as colaboradores/as do GTAR também contribui que a escolha do tema se dá em meio a seu curso de contro que denominou de “Semana de Estudos Sobre cada convidado/a colaborava com a produção de uma Ciências Sociais na UFF. 1978. negra. formando acadêmicos ativistas. Campos. negra que se tornam referências para os/as jovens do participam das semanas de estudos sobre a contribui- mento conclui sua graduação em História na Univer. A proposta do de “Grupo de Trabalho André Rebouças” elementos de continuidade na organização social da troduzir gradualmente na Universidade créditos especí. intelectuais nacionais e estrangeiros/as que colabora. ela reflete 2. Um quadro dos/as atual de Yvonne Maggie e Peter Fry contrários à adoção da variá. principalmente pesquisa acerca da ideologia racial e dos movimentos vido na universidade. com o nome de “Grupo de Trabalho André Rebouças” da primeira entidade até os dias de hoje. 1975). 22). mas também das Exatas. em Ipanema. pro- especialistas na área das Ciências Humanas ligadas às Juana Elbein Antropóloga posta pelo Grupo Palmares de Porto Alegre e adotada NEGRITUDE ACADÊMICA: questões relativas ao Negro brasileiro atual. Maria Maia de Oliveira Berriel Antropóloga ferida para novembro em homenagem a ZUMBI. raciais fora da UFF com o corpo docente do Instituto exemplo de Maria Maia de Oliveira Berriel. 01). Ciências Sociais. ex-alunos e alunos negros que Participante das referidas reuniões. 1982). no início dos anos 1970. e por outro lado no sentido de se Virgínia Nascimento. 11-12). 01). 1977) e desenvolve sua dissertação acerca de preconcei. 2002: p. 1974b). o grupo de alunos ne- divergências entre IPCN e SINBA . o estudo das relações raciais e a produção historiográ. Geografia. a exemplo da eleição do dia 20 UM PROJETO DE leira”. sadores/as sobretudo do Sudeste. negros. ram seu processo de formação e deixam explícitos seus o negro para uma das “semanas de estudos” (BERRIEL. ficos sobre as Relações Raciais no Brasil. ela indica da Universidade Federal Fluminense organiza um en. Manuel Nunes Pereira Antropólogo 3ª. que é a de manter uma continuidade do trabalho desenvol- população negra dos quilombos do período escravista. que cursa Ciências Sociais. distribu. que pensa ção do Negro na Formação social Brasileira. 1978: p. mostrar uma nova forma de abordar as Relações Raciais Vicente Salles Antropólogo e do próprio Grupo de Trabalho André Rebouças que nacional Brasil África (SINBA) e o Instituto de Pesqui. e amigos/as. 01). por meio das palavras do Décio Freitas Historiador próprio Grupo de Trabalho André Rebouças. além de estudiosos renomados gros sentiu necessidade de organizar-se juridicamente americanistas e africanistas . cimento científico. Deste co. João Baptista Borges Pereira Antropólogo política negra de então. dades raciais despontam àquela época3. Participando das tentar uma reformulação do programa de Antropologia produção acadêmica. 2). sobretudo da reserva de vagas para estudantes negros/as. veira Cunha e posteriormente Andrelino de Oliveira Atualmente. 2005. aparecem dois intelectuais com perspectiva aglutinando intelectuais.. 3. 2007). cultura negra e religiões afro-brasileiras. Peter Fry Antropólogo anterior” (p. além de escrever sobre a necessidade de uma objetivos destes alunos negros de continuar mantendo na Universidade Federal Fluminense. um grupo de alunos negros dos cursos de grupo. sidade Federal do Rio de Janeiro e se dedica pesquisar negros universitários tiveram como propósitos [sic]: in. a exemplo de Marlene de Oli- versitários”. a situação de pesquisadora negra com um orientador ses do período (CONTINS.) O grupo tem por preocupação quanto aos temas Reginaldo Guimarães Historiador Cabe ressaltar a vontade de reconhecimento e o letivo formam-se 3 grupos fluminenses: o Grupo de apresentados no decorrer das semanas de estudos a de Roy Glasgow Historiador processo de institucionalização da Semana de Estudos Trabalho André Rebouças (GTAR). implicação no seu todo social (GTAR. A bibliografia linguagem gestual no candomblé Angola. Rei um grupo de pessoas se reúne aos sábados no Centro sora Maria Beatriz Nascimento e alguns jovens negros Michael Turner Historiador dos Palmares. ou seja. Hasenbalg Sociólogo É relevante destacar. tensão que em grande parte se dissolve na ami- Acerca da SINBA. Como contraponto deste quadro merece comentário a postura “Semana de Estudos” e à criação do GTAR com colegas ída a quem participava do evento. ver o artigo de Joselina da Silva (2009) aquilatemos a amplitude do projeto acadêmico. chama a Naquele período. ram com o GTAR entre 1976 e 1978 contribui para que larmente na implementação de ações afirmativas para a população branco. então di. e outros colegas entre professores que desenvolvem teses sobre Relações iniciam sua carreira acadêmica naquele momento. veira Cunha. Na realização das semanas de estudos o grupo de alunos GTAR: Beatriz Nascimento (1974a. Carlos A. desigualdades de Trabalho André Rebouças (1976 – 1978) raciais. cente Salles. relações raciais. 1976. cujos resultados fortaleceram os como parte de sua especialização também em história nos cursos que abrangem a área das Ciências Humanas. Neste encontro o grupo convida autoridades e José Bonifácio Rodrigues Historiador de novembro como data de referência positiva.e registra a continuidade atenção a precisão do propósito teórico e político do como João Baptista Borges Pereira. Para co também Carlos Hasenbalg cujos estudos de desigual. na expressão do próprio to e ideologia racial no Brasil (BERRIEL. “em busca de espaço” (GTAR. atualizar a bibliografia estados de Rio de Janeiro e São Paulo (CUNHA JR.2 Hanchard (2001: p. as das relações raciais. que não menciona o GTAR. Beatriz Nasci. 32 33 . 1978: p. o GTAR estava. entra no mérito das Devido a este reconhecimento. Na dissertação de Cunha (1986) acerca da História. cente e discente da Universidade e estabelecer contato Alguns intelectuais brancos/as (ou não negros/as) onde procedem (GTAR.. a O GTAR NA UFF uma abordagem das relações raciais. Semana de Estudos Sobre a Contribuição do Negro A tentativa de realizar este trabalho foi iniciado [sic] em Maria Beatriz Nascimento Historiadora na Formação Social Brasileira foi organizada e trans- Na cidade do Rio de Janeiro. 1977). Educação e Cultura de setembro de 1978: 110). ALBERTI & PEREIRA. dentro de Leni Silverstein Antropóloga consensualmente depois de 1978: “No ano de 1977. São dois dos/as intelectuais mais uma linha de atuação acadêmica que os beneficiou du- reuniões acima mencionadas. fica. no sentido de conhe- um grupo de estudos do qual participam sua irmã Rosa e Filosofia (já foi reformulado). O GTAR se constituiu como um projeto de ne- Nos seus documentos. particu. por um lado. GTAR. Mendes e no Teatro Opinião. alguns/umas dos/as quais se tornaram pesquisadores/ objetivos acadêmicos: Definido como um “grupo de alunos negros uni. Nunes Pereira e Vi. zade construída ao longo da pesquisa (p. ela estimula a criação de do Negro brasileiro no Instituto de Ciências Humanas reconhecidos/as pelo movimento negro emergente nos plamente. Na introdução do seu trabalho. preparar para uma ação voltada para a comunidade de e companheira de trabalho de campo.. vel raça nas políticas identitárias e nas políticas públicas. 1977. o que a leva à organização das comunicação que era publicada em apostila. Marlene de Oli. os membros do GTAR nar. estudante de Geografia. fez articulações internas na UFF e com pesqui. detalhes Eduardo de Oliveira e Oliveira Sociólogo do contexto que aproxima a entidade da mobilização a Contribuição do Negro na Formação Social Brasi. dossiê temático para que compreendamos na diversificação dos temas Quadro 1 – Colaboradores/as do Grupo quais são as preocupações do grupo: história do negro nas Américas e no Brasil. a das áreas de Humanidades. concernentes ao negro brasileiro enquanto raça e de sua Yvone Maggie Alves Velho Antropóloga vem por intermédio de uma portaria do Ministério de sas das Culturas Negras (IPCN). 1978: p. Química e Física tanto. e Eduardo Oliveira e Oliveira (1974.

Têm artigos e ensaios publicados abordagens. outras identidades. São questio- composto por mesas. também a subjetividade do pesquisador/a: “Devemos dos clichês relativos ao problema negro? O intelectual contribuído para a história pátria (. se trata de fazer uma auto-análise em todos os textos e tra tarefa. p. terreiros. Os escritos de Beatriz Nas. atriz Nascimento. sua experiência de negros. que cursava Ci. Para o autor a experiência deve balizar a constru- “percebi que havia uma forte identificação entre mim sos. de 6 a 13 de julho 4.) – e que têm per. Hamilton Cardoso. Sentia que fazia parte do Cabe destacar que na Quinzena do Negro aconte. debatemos. por meio no Carneiro da Cunha. Por verdade. Na intervenção. desenvolver novas técnicas e perspec- tiza o propósito maior do evento: “um aspecto que nos a essa instituição. sendo assim impossível ao cientista (e em de 1977). “Voz que vem do interior”. 6. Como se nós só tivéssemos existido dentro da demandas de formação e de atuação social. 22). possa guiar outros intelectuais e estudantes na procura um pensamento negro: a falta de meios para produção “negro” ou da “raça” na variável classe ou no rol de No mesmo ano. racialmente hegemônico: “Hoje. dossiê temático O seu ponto de partida com o “objeto de estudo” é proposta por quem era objeto de estudo de médicos. no caso. À semelhança de Oliveira. que dificulta a compreensão do TO. Um “intelectual negro” até agora os meios exigidos para que se tornem arautos cessivamente pesado. sem ne. a de descolonizar sua mente de maneira que ativista identifica as difíceis condições da formação de A ênfase na diferença questiona a subsunção do sim trazer elementos da reflexividade. Na comunicação intitulada Etnia e compromisso seu próprio grupo. religio. jamento pessoal. Vemos tro dessa universidade é porque a universidade assume cessidade de afirmação do intelectual negro. Convém também lembrar que a ciência Na conferência a pesquisadora e ativista demarca sua e participam de circuitos intelectuais e políticos de rela. é (e de quem pode ser) intelectual no Brasil e da ne- dor e criatura. além de enga- Nesse sentido. parece da maior relevância – revelar o negro como cria. eco- mesmo processo” (p. após a conferência de Be. por conseguinte. escolas de samba. e mais dois nomes mencionados como eu sou Eduardo Oliveira e Oliveira que tenho um título. O autor pros- do projeto político acadêmico do Grupo de Trabalho de jornalismo. o propósito de preto nem branco: escravidão e relações raciais no Brasil O autor segue apontando o que seriam para ele os de de verdade. ou. 49 e Hamilton 24 anos. entendo não “A Verdade” ab. para o que necessita. aqueles que com ela se identificam. Márcio e Andrada. o autor faz algumas indagações acerca de quem tivas” (IDEM. da liberdade. Oliveira indica que de “escravo” por “negro”. A escravidão de africanos e “uma história do homem negro” em que fosse colocada Em que medida o “intelectual negro” deve se libertar um dos propósitos é “revelar alguns brasileiros que têm africanas por sua extensão espacial e temporal mar. O que ela propõe não é uma simples troca de termos. Con. voz própria que emerge em Nascimento é o reposicionamento da pessoa negra e nos Estados Unidos). nossas frustrações. O autor e indivíduo negro como pessoa. Beatriz Nascimento profere marem como tal”6. que fez do negro um objeto de estudo. mes. lato” face ao mito da democracia racial (OLIVEIRA. ce uma mesa redonda com estudantes afro-brasileiros deve-se ter o cuidado de não se submeter ao segmento nomia ou antropologia negras. quaisquer que sejam e onde quer que estejam: bai. coisa que mais me chocava era o eterno estudo sobre o em que acadêmicos/as e ativistas problematizam suas avaliá-la (1977. pública.44). de uma comunicação intitulada “De uma ciência Para e não tanto Etnologia da USP. mais um aspecto do projeto político: “Nós temos direito intelectual. Beatriz Nascimento propugna No texto/manifesto do evento. 2001. já me mandam entrar e sentar. Direção de Raquel Gerber. tiva visibilidade para o período. perspectiva com a qual ainda nos blica uma resenha crítica do livro de Carl Degler (Nem soluta que paira acima dos seres humanos. E o fato de fazer [a Quinzena do Negro] den. grifo do autor). depois de dez anos ou construção face ao quadro das ciências humanas no aborda corpo e linguagem – exemplificam uma parte ências Sociais na USP. um teórico e precursor da mudança social. de uma sociologia. 7. conferências e exposição. p. porque seus cro. p. novas descobertas e informações no conjunto nistas. da verdade. tentando conhecer os fenômenos a INSTITUIÇÃO”: A QUINZENA ga de Eduardo Oliveira e Oliveira com quem já havia são tão jovens: Beatriz está com 33 anos. nossos comple. segue propugnando a ideia de uma “ciência negra” e. Os cientistas negros. 2003). historiografia. mas a vonta. Por seus escritos. 26). mas por exemplo. Eduardo Oliveira e Oliveira pu. 1977. p. posicionada. não os enganando” (NASCIMEN.4 É necessário lembrar pra fazenda e pra mineração” (NASCIMENTO. ginais. já existente do conhecimento. André Rebouças. Em artigo de 1974. latifundiários. pesquisadoras e pesquisadores das mas que usa disso como instrumento de trabalho para culturas negras e das relações raciais. senhoras e senhores de toda ordem. datada do mesmo ano da Quinzena do Ne. sociólogos e que fora objeto negros/as não devem se distanciar das coletividades ne. Angra fil. no simpósio “Brasil Negro” por ele coordenado. é escravo. a partir de artigo (RATTS. Eduardo Oliveira e Oliveira sinte. 34 35 . se afirmar como negro e ajudar outros negros a se afir. gras. 18). ção de uma ciência para e não tanto sobre o negro. como mão de obra nadores/as qualificados/as do racismo brasileiro. Na plateia há militantes de uma que não pretende ser doutor. Para ele e para ela os/as estudantes e intelectuais particular ao cientista negro). Voz de pensadores/as negros/ como sujeito na ocupação de espaços sociais. posição face ao que se discutia e produzia na historio. jogando lato-sensu é um homem que contribui com idéias ori- manecido à margem desta história. O interesse do sociólogo e ativista. Eduardo Oliveira e Oliveira enuncia 1974). Mas a interpretação do “indivíduo nosso inconsciente. como reação e como cimento e o estudo de Marlene Oliveira Cunha – que com a participação de Rafael Pinto. Idem. não tiveram escravizado” como um ser coisificado é um ônus ex. na fazer a nossa História. e o grupo que pesquisava. 1974b. Sobretudo essa aqui [a USP] que é gro. o então mestrando em Antro. de seu ambiente familiar folcloristas. manter uma neutralidade vem de um circuito próximo. 287). estudando-os. 26). organiza grafia brasileira: “Quando cheguei na universidade a Janeiro e São Paulo organizam debates e outros eventos de” quando detivesse os instrumentos necessários para a Quinzena do Negro naquela instituição. América.. antropólogos. que a constituição de um lugar de fala enquanto sujeito a sua possibilidade de universidade para formar mais gar sua condição social: “Vivemos num mundo onde inclusive na 29ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o negros”5. elementos deste processo que deve levar a uma trans- territórios discursivos. buscando nós mesmos. 1989). Nos ombros dele recai uma ou- dessas verdades” (OLIVEIRA. têm individualidade. do qual existem registros impressos e audiovisuais. estudante doze de trabalho. tendimento da desigualdade preto/branco pelo “mu. xos. apontando a dificuldade de en. a cor. na Europa. como indico em outro o acadêmico. 26). Transcrição do filme Ori. presumo que não é uma espécie à parte. estes/as intelectuais não vestida “perceptiva”. Fez parte da semana uma exposição organizada por Marian. o nome construído e a titulação são importantes. favelas. neste caso. p. devem estabelecer uma in- “NÓS TEMOS DIREITO A ESSA a conferência Historiografia do Quilombo. então diretor do Museu de Arqueologia e 5. a formação e o posicionamento do intelectual negro: que o evento ocorre durante a ditadura militar. cou indelevelmente a experiência negra na África. O evento.. Numa palavra: Sujeito” (IDEM). Ela era ami. importância. 1989. não falavam em uníssono. jamais pensou Em outubro de 1977. é divulgação na imprensa paulista. Eduardo tem serem estudados como sujeito/objetos que são de suas DO NEGRO NA USP trabalhado nas “semanas de estudos” do GTAR na UFF. (IDEM. valorativa” (OLIVEIRA. 26. Sobre o negro” (IDEM: p. Em termos de faixa etária. com parentes e amigos/as que são lideranças religiosas: de intervenção de mercadores. a etnicidade e a classe social são de primordial Progresso da Ciência (realizada em São Paulo. de “cientistas negros”: geração anterior. com nação como mão de obra escrava. formação social: “O cientista negro precisa se tornar as. Para ele. tudo. que não se branqueou. les Black. influenciados pessoalmente por Como parte do evento. p. Oliveira relata que defendera esta proposição em vários eventos. porque tocante aos estudos de relações raciais7. Nos estados de Rio de que este objeto questionaria sua suposta “objetivida- pologia na USP. Eduardo Oliveira e Oliveira.

Neste âmbito. Nacional de Universitários Negros. O sujeito “faz parte da matéria investigada” gros (ABPN). Em 2004. Afirmar-se racialmente Henrique Cunha Jr. Vários NEABs se cons. Criado em 2004. por exemplo. à angustiante” e que deve proceder “no decorrer de sua A presença de professores/as e estudantes negros/ Coletivo de Estudantes Negros e Negras Beatriz Nasci. criada a Associação Brasileira de Pesquisadores Ne. p. na Bahia. por extensão. http://br. Este processo culmina em 2000. balizamento consolidação e criação de NEABs. e o Seminário Neste sentido. versidades públicas. Os NEABs. são corpos educados. de dos segmentos que os compõem. referências da raça (mas também do gênero e da sexu- E DISCENTES NEGROS: tos conta inicialmente com a participação de 16 grupos te como grupos negros e demonstram a preocupação alidade). São reali. estão graduandos/as e pós-graduandos/as que nal. mento (CANBENAS). pois. dos corpos tudos Afro-Brasileiros.122-123) na academia não implica em ter certezas inquestioná.. Alguns/umas pesquisadores/ com sua qualificação profissional e o ativismo. Negros (CENs) que se estendem por vários estados. PENESB-UFF. a-corporais e. sinhos Pré-Vestibulares para Negros e Carentes (SAN- CORPOS NEGROS EDUCADOS: acontece o necessário e adequado reconhecimento das Nos anos 1980. – incapazes de reacender paixões que um dia podíamos (NASCIMENTO. e também das incertezas. contram e se confrontam corpos femininos e masculi- Lélia Gonzalez. p. Nem sempre intelectuais “locais”. 1978. do ensino Para a autora. na UFG em Goiânia. remetem e formação. mais usados como as dos NEABs. ainda que contem com o apoio de um/a pelo conhecimento. o Consórcio de NEABs e grupos correla. nos vídeos. grifos do autor). zados eventos como o I Encontro de Docentes. Rio de Janeiro. tem que passar despercebido” (2001. não tem outra opção. marcados pela presença de intelectuais negros/as Temas ligados à questão étnico-racial. R. TOS. en. Desde 2001 surgem: Enegreser. vidades e para as trajetórias pessoais e coletivas. intimamente aborrecidos mentos. implicado. dossiê temático Oliveira se referencia em uma assertiva de Roger realizam projetos de extensão e de qualificação de pro. gestores. no dis- -se. gênero ou orientação sexual. ter sentido (hooks. p. tura do título e do conteúdo do livro organizado por vros didáticos e paradidáticos (tanto nos textos quanto NUPE-UNESP e NEN-SC. tem para a população negra e também porque podem anulado. distantes do significante corpóreo. Outros são criados Neste contexto surgem Coletivos de Estudantes A expressão que dá título a este artigo advém da relei. Coletivos de Estudantes são identificados prontamen. nem sempre se definem e são reconheci. defrontando-se por vezes com a em processo de educação. nas músicas. nos li- na década seguinte: NEAB/UFSCar. p. gênero falta de orientação nas suas áreas de formação. são criados alguns Núcleos de Es. as se torna mais organizada e articulada. escolar e acadêmico. a exem. de certo modo. pesqui. Professo- dades. das diferenças. das culturas. 115). no qual é leiro de Estudantes Negros há a tentativa de criação de mos os mesmos velhos assuntos das mesmas velhas ma- reflexividade de suas condições e de seus posiciona. e em São Paulo.. ardilosas acerca das pessoas negras que permeiam toda pertencimentos étnico-raciais. nas apresentações artísticas. 2006). a partir sobretudo de 2001. Corpos acadêmico nos anos 1970 reverbera no Rio de Janeiro da interseccionalidade com as variáveis classe. em algumas situações. como é o caso da influência de Beatriz e outras. Um processo de internacionalização dos/as as coletividades estão a merecer uma observação de Nas escolas e nas universidades transitam. muitas vezes abordados na perspectiva para a pós-graduação. (UNESP) . que tem como tema “A universidade que marcam com expressão própria o cenário de algumas sobre perda de controle prevaleçam sobre seus desejos saiba). ao campo da subjetividade. professoras e professores ainda têm sujeito/objeto de seu trabalho. etnicizados e generificados) doutores negros/as e com a colaboração de intelectuais Ações Afirmativas para a população negra e particu. mo. Nos espaços escolares nas ilustrações). instituições de ensino superior. que muitos/as realizam seus trabalhos de conclusão de metáforas.yahoo. em construção e. ainda deixam que suas preocupações Não está lidando com um assunto (é preciso que ele ano de 1993. o Coletivo Denegrir na UERJ. emoção.Campus Marília. mas tam- é um complexo processo de orientação. 2001. Bastide que merece citação: de que “o sábio que se de. situação na qual me ativistas e qualificados como núcleos de ensino. realizado na UFMA em São Luís e professores/as de outros segmentos étnico-raciais. 27). de ensinar. os Coletivos de Estudantes Negros medo do desafio. encaminhando-se ras/es e estudantes têm corpo (hooks. 2001). o que me permite tecer considerações como sa e extensão. à paixão: pesquisa. p. públicas e pri- veis ou facilidades no estudo das relações raciais. rio. Mesmo onde estu- 1977. com a organização do I Con. O corpo é “educado” e na educação formal OS NEABs E OS CENs e hoje soma 76 núcleos8. tanciamento de temas que remetem à subjetividade. o corpo é uma das principais CORPOS DOCENTES do Maranhão. pois parecem ser sível identificar e confrontar estereótipos ou imagens contar com a colaboração de estudiosos/as de outros mativas e por políticas do conhecimento que se vol. observa-se por todo o UMA DIGRESSÃO A TÍTULO identidades. é pos- quase totalidade de pesquisadores/as negros/as ou se situam. das indefinições. Pesquisadores Negros. Núbia Pereira Gomes (2001). negros e brancos. Os corpos racializados estão no currículo. tornam-se referência no campo dos estudos das curso no campo das relações raciais. uma Associação Nacional de Estudantes Negros que neiras estamos. implica. como a sociedade. particularmente as uni. Os Sem essencialismo. Neste sentido. paralela. NEAB. muitas vezes. Ambas docentes e discentes. 27. posto que fazem pressão pelas Ações Afir.com/group/consorcio_neabs/attach. incluo. posto temos corpos – docentes e discentes. Este posteriormente assumem a docência e participam da vadas. são corpos O quadro desenhado por ativistas negros/as no espaço relações raciais. fessores/as para a educação das relações étnico-raciais abrigar discentes de outras universidades. na Faculdade de UBUNTU – Núcleo de Estudantes Negros e Negras na na educação superior hoje em dia. -UFMA. CEAB-UCG (PUC-GO). das trans- brancos/as e outros. 41).groups. afirma bell hooks: “o mundo público da aprendiza. Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista UNEB. dantes estão desesperadamente desejando ser tocados curralado na sua condição primeira e primeva de raça. formações corpóreas. no III Congresso Brasi. física. maior acuidade. aqueles e aquelas de nós que ensina- campo de estudos e pesquisas vem acompanhada da gresso Brasileiro de Pesquisadores Negros. e isto. protagonizados por mestres e país um processo de discussão e implementação das DE CONCLUSÃO diferenciados (racializados. mas uma causa” (IDEM. segundo Edimilson de Almeida Pereira e tituem como “territórios negros no espaço branco” 8. presentes em todo o território nacio. quisadores e Pós-Graduandos Negros. sobre ele mes. no III Congresso Brasileiro de maior ou menor grau com a presença de pesquisadores sem necessariamente incorrer em sentimentalismo. no ou outro/a docente. larmente das cotas raciais. heterossexuais e homossexuais também percorriam o país num processo de formação acesso à universidade se inserem neste quadro. dos como grupos negros. posto que podem contar em quisadores/as negros/as são apaixonantes. Os corpos racializados de acadêmico. (no espírito da lei 10639/03) e elaboram propostas de médio ou não se circunscrever ao público estudantil. mantendo uma posição de crítica e de participação Louro (2001): O corpo educado. Para o/a intelectual negro/a ativista a escolha do em Recife. proposição do engenheiro e educador não logra efeito. para alguns/umas pes- observador participante. e. sem definição para além dos espaços educação formal contando com plo da Cooperativa Stive Biko de Salvador e dos Cur. funcionários/as e estudantes 36 37 . Ao mesmo tempo. em 1989. uma outra pesquisa. na UFPE. na educação Tais coletivos podem ter sido formados por uma em relação às instituições de ensino superior nas quais e acadêmicos é rara a discussão acerca da corporeida. queira ou não em um problema ações afirmativas para a população negra. em Salvador. Pes. ments/folder/1036087237/item/list gem institucional é um lugar onde o corpo tem de ser professores/as. É o caso do NEAB-UFAL. comoventes. se tornam grupos de estudos e pesquisas. concentrados/as na área das Humani. O autor conclui: “O negro ‘intelectual’. o povo negro quer”. Como participantes deste cená. se en- Nascimento e Eduardo Oliveira e Oliveira e também de pesquisadores/as negros brasileiros/as está em curso. de raça. sem lugar para as subjeti. em instituições de ensino superior. bém ao gênero e à sexualidade. este afastamento do corpo como assunto bruçar sobre os problemas afro-brasileiros encontra. uma espécie de auto-psicanálise intelectual. o Núcleo de Estudantes Negras e Negros na UFBA e o Não há muito ensino ou aprendizagem apaixonada seja ele branco ou negro” (BASTIDE apud OLIVEIRA. na UnB em Brasília. Joel Rufino dos Santos e outros/as que Iniciativas dos/as ativistas preocupados/as com o nos.

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tão Cor/Raça no Censo Escolar do MEC. influencia fica. de classificação racial. ainda não conseguimos ter uma resposta satisfatória à Não há. “Do ponto de vista antropológico ou socioló- seus multifacetados aspectos. O ator e bailarino Bukassa Kabengele é filho de Kabengele e 11.149). quanto com o grupo de referência desse sujeito. evidenciar a diferença. 2005. é importante con- bastante diversa. é. que. o que Na perspectiva citada por Silva (2000). tanto. “sou homem”. MG. não podemos negar. we will discuss about differences. identity. 25). não estamos nos referindo a identidade de um isolados e. It’s intended that “Eu acordo e vou dormir todos os dias tendo consciência de que sou e em Sociologia. The theoritical used to review bibliography. p. assim dica uma maior visibilidade social face ao apagamento pensada. começaremos por expor os elementos teóri- cos mais gerais sobre pertencimento étnico. balho. p. pólogos decretaram sua importância (diferentemente ao aprofundar-se um pouco mais na discussão sobre do conceito de classe social. um conjunto de significados baseados nas di- Sendo assim. race in Brazil. De acordo com esse autor. gico. mas porque as identidades são construídas por meio da diferença o tema. Gleason (1980. necessário discutir relações iden. color/race. fa difícil. da Secretaria Fúlvia Rosemberg.190). A identidade vista de uma forma mais Torna-se. os níveis sócio-político e histórico de de “identidade” e de “percepção”. INTRODUÇÃO pergunta: o que é identidade?” mas sim. Em uma primeira aproximação. Antônio Sérgio Municipal de Educação de Montes Claros/ Sérgio Alfredo Guimarães. podemos observar melhor esse uma característica independente. e não fora dela. as tradições IBGE. parece ser fácil definir sujeito. envolve elementos de identidade. Stuart Hall. brasileiros. Munanga . Quem ratifica a afirmativa acima é o próprio mento coletivo. that. deve ser investigado e analisado não porque os antro. cada sociedade.161). são vários populares.IBGE.antropólogo e intelectual negro do Zaire (Congo) volve estudos desde 2005. Pretendemos que esse preconception and discrimination in school area. p. na maioria das vezes. pre. os adjeti- se é: “sou brasileiro”. Para gorias que englobam podem ser entendidas de forma Além disso. “sou negro” “sou heterossexual”. através de uma ressignifica- ção crítica dos conceitos presentes nas discussões sobre relações grafia e Estatística – IBGE. Para Hall (2003. pertencimento e sucinta. como a língua. Estamos tratando do dade como diferentes. único. 2005. 1993. rituais. também. Alfredo Guimarães. Isso implica o reconhecimento radi- existentes e apesar de todos os esforços empenhados. sustenta que “apesar das inúmeras produções ele é um conceito vital pra os grupos sociais contempo. o que o torna “sujeito a inúmeras variações”. color/race in the Brazilian census. negra. race classification. Professora de His- Brasil. Bukassa Kabengele1 em Ciências Sociais. coordenadora do Programa Diversidade revisão bibliográfica. historicamente. Bacharela e licenciada texto se torne objeto de discussão e análise da questão de raça no this article represents a discuss and analysis’s object of question of negro. Por isso mesmo. involve elements of identity.dossiê temático RELAÇÕES ÉTNICO- -RACIAIS NO BRASIL: PRETINHO (A) EU? RESUMO abstract DISCUTINDO O No presente artigo. compreender o termo identidade em ferenças. a classificação de “cor ou raça” do Instituto Brasileiro the classification of “color or race” of the Instituto Brasileiro de Geo- PERTENCIMENTO ÉTNICO Ralime Nunes Raim de Geografia e Estatística . inata. na realidade. popularmente. Dessa forma. por isso trataremos do termo aqui. envolvendo elementos de atribuição costumam ser classificados como identidade pessoal siderar. indivíduo isolado. Keywords: relationships ethnic-race. apud PAULA.191) e essa construção identitária é marcada mentos de atribuição de identidade. A identidade assim conce. caracteriza os seres e as sociedades humanas não é a mente fácil definir identidade. Especialista em Desenvolvimento Social conceito e discriminação no espaço escolar. submetido” (Novaes. a religião. podemos afirmar que. Rafael Guerreiro Osório. sobre a Ques- identidade. No entanto. ao termo iden. A discussão da questão de raça no Brasil envolve ele. é importante perceber que o conceito de identidade diferença que nos unifica como seres humanos”. it constituted to studies by: Fúlvia Étnico-Racial na Educação. De acordo com esse Instituto. que atualmente trabalha na USP. p. vistos por nossa socie- bida parece ser uma positividade (“aquilo que sou”). râneos que o reivindicam (NOVAES. uma vez que ela só tem a similaridade e sim a diferença. p. 1993. ap- tória e Sociologia na Educação Básica. 2000. categoria)” (Jacques. Kabengele Munanga. 1998. Por- “ela é auto-contida e auto-suficiente”. os comportamentos alimentares. que. como tal. belong ethnical. tem relação tanto com a individualidade do a que foi. vos étnica. Porém. on this research. cor/raça. na construção da identidade não se e não apenas de “cor” ou apenas “raça”. como sujeito inserido processo. Como pesquisadora. O referencial teórico adotado para pertain and perception. indivíduo “como um ser social. we can’t deny. em seus critérios De acordo com Jacques (1998. cor/raça nos censos In this paper. Se acrescentarmos ao termo identidade. como veremos. e é influenciado por elas” (SOUSA. os percepção. we will begin by exposing some theoretical general ele- ments about ethnical belongness. apud GOMES. ele sustenta que “os estudos dessa temática entender a construção da identidade. among others. evidenciar a identidade signi- (SILVA. p. Rafael Guerreiro Osório.115). Still. through of a critical reinterpretation of those concepts present in the discussions about relationships ethnic- étnico-raciais no Brasil. as identidades são todas construídas” (PAULA. socialmente “sou jovem”. p. de maneira 2005. pelos traços culturais. no presente trabalho. Experiência em Educação para as Relações Étnico-Raciais (leis 10. pertencimento étnico. ao falarmos sobre identidade neste tra. tidade. pertencimento e percepção. (atributos específicos do indivíduo) e/ou identidade so. por exemplo). portanto. cial (atributos que assinalam a pertença a um grupo ou ampla e genérica é invocada quando um “grupo reivin- titárias. Por isso. então. entre outros.24) calmente perturbador de que é apenas por meio da 41 . também. A identidade. Antônio Rosemberg. pode levar em conta somente o aspecto cultural. um “fato autônomo”. Vivo num grande estado de alerta”. p. Stuart Hall. à parte. p. remetendo-o à ideia de percepção e pertenci. uma identidade natural. Ele afirma que “é essa si própria como referência. A identidade é simplesmente aquilo que afirmando sua identidade coletiva.639/03 1. race in Brazil. “identidade”. Kabengele Munanga.74) em um contexto de relações e. a denominação é de “cor ou raça” os sentidos atribuídos. classificação racial. 2005. parece real. dentre outros. desen- Palavras chave: relações étnico-raciais.40). constituiu-se dos estudos de as we will see the long in the text. uma tare. de gênero. Discutiremos ainda sobre diferença.645/08). porque as cate.

Ou seja. elementos de aparência: cor da pele. a minha cultura. causas e efeitos. p. indígena. logo alemão (1752-1840). tipo de cabelo. renciados em instrumentos de classificação racial pro- É preciso lembrar. não “amarelas” ou “outras”). no qual os contatos pessoais se esta. LACLAU. Não nos esqueçamos do uso do termo negro de CENSOS BRASILEIROS binário seria predominante nas classes médias intelec. sendo possível que algumas pessoas com múltiplo. da relação com aquilo que não é. (. ‘quase animais’? Quem quer ser considerado feio e por. “Isto Fúlvia Rosemberg defende que. tualizadas urbanas. a (a)firmação da identidade. possivel- físicos africanos se identifiquem brancos” (Brasil. o sistema bipolar branco e não branco. nas provas do MEC forma pejorativa. Isso reafirma que. trado nas camadas populares”. rio lingüístico” específico. te momento tal informação”.42). monolítico. . o sistema de classificação popular furtar-se da discussão sobre a identidade enquanto nas com um passado de escravizado. o modo oficial (IBGE).135 desde as primeiras relações estabelecidas no grupo so. 2005. 2001. conflituoso e disputado.33). Segundo Hall (2003. humanas. o sistema dade negra.. civilização brasileira. negra ou etiópica. que o mesmo termo. Sendo assim. parda ou preta. tudiosos: “seria ele binário (branco versus negro) ou complexo. do censo brasileiro. p.. como em outros processos identitários. É o olhar de um grupo étnico. podemos afirmar que as relações para uma menina de sete anos “declarar” sua cor/raça!” negro. Sendo das outras relações que o sujeito estabelece (GOMES. pode ser acionado um “repertó- mundo. não está sendo pensada como fixa. p. o “O terceiro modo é o que vem sendo utilizado pelos mento. apud HALL. vermelha ou americana. CHA & ROSEMBERG. e branco . p. rio. tador de uma cultura inferior? ( 2005. busca uma interação. já estava presente no Brasil desde o período co. Nesse contexto. pautado na ciência parda ou malaia. Portanto. pressupondo um contínuo de categorias?” O modelo de denominação/classificação racial usado traços fisionômicos europeus. classificação racial”. presentação e o significado do que é ser negro. apesar de serem vocábulos consagrados pelo ressignificado pelo Movimento Negro. aliado à origem regional e Telles (apud ROCHA & ROSEMBERG. lonial e aqui faz morada até os dias atuais. de há muito. gera controvérsia entre os es. duzidos pelo Estado Brasileiro”. evoque os mesmos sentidos nos dife. a expressão afro-brasileiro. Nesse sentido. que pede às pessoas que se classi. salvo algumas poucas variações. “a composta pela combinação do estilo de vida (o jeito).5). do diferente” (Gomes. p. associado ou não a um mo- e vai criando ramificações e desdobramentos a partir Por tudo isso.) reconhecer-se ou assumir-se negro no Brasil é uma geográfica de origem. enquanto pertenci.8).151). a justificativa biológica para tal condição? Quem quer países. fisiologista e antropó- aberto” (D’ADESKY. formato do nariz de” – pode ser construído (DERRIDA. o representação do ser negro foi criada à sombra do que grau de instrução. que o significado seus significados particulares sempre prevaleçam aos mático. referente ao mito fundador da xão sobre a construção da identidade negra não pode decisão de coragem. Assim. de leis e decretos contemporâneos. na sua trajetória de construção. as questões relacionadas à percepção e ao critério cor da pele para diferenciar as chamadas raças dos de classificação racial: tidade socialmente derivada são formadas em diálogo pertencimento norteiam o processo de construção da humanas. 2005. o uso do Jacques D’Adesky. p. Nota-se um deslizamento com precisamente aquilo que falta. 1981. segundo dados da Pesquisa Nacional por processo mais amplo e complexo. dependendo do elaboram os primeiros ensaios de uma futura visão de safio enfrentado pelos negros e pelas negras brasileiros” não significa. a ideia de classificar as ra. A identidade negra se afirma aqui. pelos estudiosos do assunto. 2005. Dessa forma. 2007. gráfico de 1872.adotando. brasileira. E além deles. em virtude de ter o pai (ROCHA & ROSEMBERG. a iden. assim. 2007. usam um sis- meu eu.6). ou am. a identidade. “elas são O sistema de classificação racial do Brasil é con. 2007). IBGE para a classificação racial no plano demográfico um sentido político e positivo. defendida. “mesmo em sistemas classificatórios semelhantes 2005. empregados para diferenciar grupos humanos” (RO.7) cial mais íntimo.6).. num movi. Geralmente este processo se inicia na família (GOMES. 2007.. portanto.3) “positivo” de qualquer termo – e. por sua vez. aqui rentes contextos sociais e históricos em que têm sido delo binário ou múltiplo de classificação racial. enquanto o múltiplo. Vários outros de 135 cores. porém. ou caucasiana. bastante enig. branca. 2003). em 1976. 2007. por essência. a construção de uma identidade cendo com as mesmas categorias de cor adotadas para apud ROSEMBERG. p. de seu mundo e de sua cultura. p. “brancas” ou “pardas” (quando cia mais à ideia de discriminação e preconceito. É uma e da boca. que “o processo de posições.43). 2005. como perguntava. negra positiva.6). p. social do sujeito” (Rosemberg & Piza apud ROCHA & considera também três modos de classificação racial: Nessas relações de poder. implica não ter poder” (RIBEIRO. qual a cor/ nala um outro modo: uma construção social. além de uma última opção: “Opto por não declarar nes.42). “o meu mundo. ficados é. roupas. nas quais os grupos agem para que siderado. definindo cinco tipos: branca branco. a renda. inclusive o Brasil..43). o modo binário de de decifração desse outro. é um de. com aquilo que tem relações de poder. acordo com as situações e circunstâncias. p. onde se estabelecem as relações de poder e as A maneira de lidar com o sistema de classifica. podem ser empregados vocabulários dife- sentações. num processo marcado pela significação (cabelos. (2001. . Ser inferior do falante pela pessoa em questão” (Sansone apud RO. uma vez que “é resultante da combinação de (FRY apud ROCHA & ROSEMBERG. culturais e religiosos. em uma sociedade como a É da Europa Ocidental do século XVIII. p. COR/RAÇA NOS BERG. evocado de até 2003. das categorias “negro” e “mulato” para “preto” e “pardo” chamado de seu exterior constitutivo. o popular múltiplo e o binário. CHA & ROSEMBERG. em uma sociedade que nos ensina que os inquéritos populacionais do primeiro Censo demo- belecem permeados de sanções e afetividades e onde se “para ser aceito é preciso negar-se a si mesmo. o estilo em matéria de moda Movimentos Negros. p. 42 43 . negro e índio. prego de diferentes vocábulos raciais em contextos so- mos. além de minha identificação e da de minha filha. “adotaríamos ambos os modos: o modo mente por razões diferentes. os termos preto e pardo. do processo de quem é superior e de quem é inferior. em forma de múltipla escolha. p. pois quem quer se identificar ape. O campo dessa produção de signi. por sua vez. mas como um processo gerado no interior das repre. ROSEMBERG. ao do IBGE. utili- assim. uma espécie de redução do modo múltiplo. que. BUTLER. o sistema do IBGE. pele. branco ou preto. Uma refle. pardo. dessa forma. contexto institucional. em documentos do Estado brasileiro não parece ser ou mãe negros.. 2007. Termo esse. permane. apud GOMES. por exemplo. 2007.35). dos outros grupos. valorizando as diversas categorias de sujeitos ção racial. Assim. sua “identida. O formulá. Fry assi. assim.8). Esse vocabulário racial. adotaram a terminologia de Amostra de Domicílios (PNAD) realizada pelo IBGE ser o limite na hierarquia que divide os humanos dos classificação racial de Blumenbach. também. preto e amarelo. Ele associou a cor da pele com a região as categorias branco. 2005. com Esse é também o processo pelo qual passa a identi. o sistema de classificação bipolar branco e mento que envolve inúmeras variáveis. p. E é de Blumenbach. enquanto o termo negro se asso- fiquem como “pretas”. branco e mulato. raça dela – amarela. amarela ou mongol. nenhuma identidade se constrói no iso. Como afirma a autora: construção da identidade negra em nosso país é muito sociais envolvidos. dossiê temático relação com o outro. que inclui três categorias: ciais distintos. Ainda de acordo com Ribeiro. para designar os escravos. 6). luta por hegemonia e por predomínio”. a partir da relação estabelecida com o outro. referendado pela cor da zado por grande número de pesquisadores de ciências tidade negra se constrói gradativamente. p. p.) Quase não pude acreditar no que lia.. Assim. “a aparência geral. se declarem negros e outros com traços De acordo com Fry (apud ROCHA & ROSEM. 2007. foram construídas a re. da população brasileira (ROSEMBERG. p. usado no censo demográfico. ou de sujeitos a ele pertencentes sobre si mes. Não podemos deixar de considerar também o em- -racial. 1993. 1990. 2007. atribuindo-lhe “(. O MEC estava pedindo pliado do modo bipolar . não entram no vocabulário p. acabada. seria encon. pois. 2007. e desinteressadas. evidencia cinco mo- lamento e “tanto a identidade pessoal quanto a iden. ças humanas. identidade negra. carros) e até a simpatia ou antipatia tema de classificação com apenas dois termos – negro do outro. Este é também o modo oficial ou afro-descendente está mais relacionada a contextos sociais não se constituem somente como relações puras (GOLDEZON. são traduzidos também através é ser branco.. negro proposto pelo Movimento Negro.7).

e que essa tendência varia de acordo com a si. vítimas nesse ambiente. Osório (2004) afirma que sil como nação multiétnica.23). Há menor garantia. p. 2004. tico e bens materiais. com as pessoas mais abastadas tipo” do grupo discriminado são portados pela vítima pelos demógrafos. p. sujeito. tem início em 1872 e Ainda de acordo com Osório (2004. ainda. importa.Claro. bem como a sitiva no espaço escolar e nos levam a inferir algumas Essas categorias foram empregadas também no Censo de alguns países latino-americanos. obedecendo para o Brasil. lorizadas. Fatos semelhantes a esse nos permitem ilustrar o termo pardo volta a substituir o mestiço e a categoria parda. ao mesmo tempo em que um número cada vez encontra maior problema. não do ‘preconceito de origem’ (raça/ odos distintos para se pensar a coleta de dados censi. que a ascensão social é fator de SEMBERG.94) que a identificação por autoatribuição sideram que “no Brasil não se pode falar em ‘grupos raça. uma forma de compensar. de contornar o problema. melhorar a condição dos diferentes grupos étnicos que ascendência). com o emprego da categoria indígena no Censo posição intermediária entre os pretos e os brancos. OU RAÇA” DO IBGE maior de brasileiros reconhece que o recorte racial nas teratura disponível sobre classe e/ou raça insiste em p.4). estudiosos do assunto con- A CLASSIFICAÇÃO DE “COR Censo do IBGE/2010 e respondeu ao quesito cor/ rio. minados do que nos Estados Unidos.4). p. Finalizando. rantia de que os entrevistadores não venham a branque. (OSÓRIO. Justamente por isso. RIO. que teriam maior di- Em meio à grande variedade de termos. Seria possível afirmar então. afirma consolida as cinco categorias empregadas pelo IBGE nos pretos e não-pretos. analisaremos apenas os métodos de auto e de 16 anos e a heteroatribuição para os alunos abaixo desta .86). há ocorrência.96) afirma: “[. DISCRIMINAÇÃO NA ESCOLA 1872. (OSÓRIO. traços negros em sua aparência tendam a se considerar onde vige o preconceito racial de marca. odo. ad- de 1970. por parte dos respon. 2004. amarelo e indígena. de 1890. rendimento escolar dessas crianças. 2004. a par. propõe a existência de três perí. com o objetivo de captar a raça ou etnia dos de identificação racial. segunda metade do século XVIII e termina com o pri. O método de auto. portanto. a autoatribuição a categoria “caboclo”. sobre a peculiaridade da classificação como não é fácil construir uma identidade negra po- amarela é criada para atender aos imigrantes asiáticos. dessem também enquadrar pessoas livres. seria uma forma mente. mestiço e os Censos seguintes. realizado em rio. sejam estas manifestas ou latentes”. quando se pensa a classificação -lhe intrigada. indivíduos.43). entender e embranquecimento. Tanto assim que Osório (2004. é na “variação social da cor” (Osó. O segundo atribuição é recomendado por órgãos internacionais. heteroatribuição de pertença. do ‘preconceito de marca’. classificação racial legal e baseado na origem ou hipo. p. traços do grupo discriminado constitui inferioridade. alusiva ao grupo dos indígenas.87). p. tuação socioeconômica. . 2004. sabendo-se que. ao mesmo bulos raciais sempre se destacaram como os principais pertença. 2005. que parcialmente. ou marcas.95). p. (Depoimento de uma pro- A partir do Censo de 1940. 95). normalmente aceitas emprega cinco categorias de “cor ou raça” na sua clas. sificação. utilizou-se como a análise do DNA. gozando de uma mente do que ocorreu nos Estados Unidos. 2003. tários no Brasil: fazem parte do nosso país. sim. tulam que racial brasileira. (OSÓRIO. ainda ROSEMBERG. 95). para as crianças negras. a origem não zação até a metade do século XVIII e caracteriza-se Sendo assim. Conforme Osório (2004). p. apenas quantos traços. grupos raciais e a identificação racial é realizada por a classificação de cor é realizada por auto-atribuição completamente. MEC utiliza. através do uso de técnicas biológicas. mas por que quer sentar-se aqui? – pergunto- cidas ou alforriadas” (Osório. mas. de extrema relevância. ou praticamente às mesmas categorias de 1872. que o Censo IBGE/2010 é de se esperar que as pessoas que carregam menos O primeiro. principalmente os mais abastados. pardo. pois. cuidou muito bem de registrar. subjetividades: a do próprio sujeito da classificação. estas marcas. Telles e Lim (apud OSÓRIO. Portar os O segundo momento. definindo. ou seja. PRECONCEITO E No primeiro Censo oficial brasileiro. projeção social. O terceiro perí. em ‘grupos de cor” (Guimarães. reproduz-se na série de censos realizados posterior. a classificação ganha status de “cor ou raça” e Desta forma. p. pulação brasileira voltou a ser coletada. não adotou legislação sentimento de culpa e solidão. p. pelos entrevistadores ou pelos res. raciais’. O preconceito racial de marca não exclui ção de índios que vivia fora do contato com o branco. e percepção. além das três categorias acima citadas. dossiê temático Considerando que todo o Brasil participou do No entanto.É que você é a única igual a mim – disse-me. reforçando o retrato do Bra. em uníssono. inclusive conferindo maior Pode-se concluir que esses grupos buscam.Posso me sentar ao seu lado? – pergunta-me uma lin- aplicáveis à parcela escrava da população. 2004. Buscando atingir os objetivos propostos nesta pes.94) se tem conhecimento: a auto-atribuição de pertença. 44 45 . ignoraram dados. teriam pertencido os ancestrais de uma pessoa” (Osó. poder polí- ticamente por um órgão especializado – o IBGE (apud São três os métodos de identificação racial de que ar os entrevistados. é determinada pela consequências negativas. método de identificação racial é um procedimento ponsáveis em fornecer a informação. a opção pela auto ou pela seus olhos para a sua pele. para coletar os dados de cor/raça dos alunos maiores de Sendo que as categorias preta e parda “eram as únicas quisa. mas. “diferente. até mesmo a vasta li. chamado de era estatística. já afirmar. motivos de ordem diversa para mudar a linha designadores das categorias de classificação racial: pre. pardo e branco. embora pu. pode-se afirmar que ela. aparência e não pela ascendência. a dicotomia racial importante seria entre racial segregacionista. empregados pelo IBGE faixa etária é inequívoco considerar que pertencimento da menina negra de cabelos trançados e seus sete anos. 2004. p. como: rejeição. 109). o Brasil. discordâncias com relação à adequação desse método heteroatribuição de pertença racial é uma escolha entre fessora negra do estado de São Paulo/2002).inicia-se na intermédio do uso simultâneo dos métodos de auto. “igual número de também tendendo à escolha do branco. voltando a questão de raça. mas desabona suas vítimas. 2004. na coleta de dados de cor ou raça. pré-estatístico. -atribuição e de heteroatribuição de pertença” (OSÓ.. do “fenó- pelas poucas estimativas gerais. após a abolição da escravidão. classificação. sujeito e a identificação de grandes grupos raciais “a que de cor que lhes foi conferido atribuir a determinado CONVERSA SOBRE to.105). 2007. desvalorização. Marcílio (1974. tir daí. mantendo-se a data de 1940 para a inclusão do estabelecido para a decisão do enquadramento dos in. substituiu o termo pardo por quando se trata de pesquisas que realizam coleta de dos sujeitos feita por intermédio destes dois métodos da 1ª série e há vários grupos de crianças pela sala. em 1872. 2007. “um da cor dos sujeitos. à luz do ideal de branquitude vigente. pode se afigurar problemático. são elementos . p. a cor da po. p. 2004. vai do início da coloni. ao invés de brancos e não-brancos. como educação. e faz com que os sujeitos ao preconceito sejam sistema- meiro recenseamento geral. Nogueira (apud ROCHA & RO- pesquisas censitárias é extremamente importante. já que sou a única adulta na sala de aula Censo do Brasil. a partir destas. p. nem produziu um sistema de tífica. Sendo que A polêmica desenvolve-se em torno da categoria a do observador externo”. vindas do preconceito e da discriminação de que são De 1940 até 1990 a classificação era só de cor. a heteroatribuição de ficuldade em identificar esses fenótipos e. assim nas. Considerando que o Ministério da Educação . através Brasil entre os países que realizam censos periódicos. por parte dos estudiosos. E ainda a produção cien- de 1991. até o de 1940. da posse de outras características ‘afirmativamente’ va- por métodos modernos de coleta e publicados sistema. p. há. pos. que representa uma maneira de se apurar. Desta forma. onde o próprio sujeito interrogado escolhe o grupo sáveis em fornecer a informação. palavras-chave deste artigo. sim. apesar de não incluírem a popula. no censo escolar anual. Mesmo assim. em nosso meio. descendência” (ROCHA & ROSEMBERG.. o fato de que potencial. que heteroatribuição ticamente preteridos em relação aos demais. o sistema classificatório do IBGE brancas. preto. na América Latina os mulatos seriam menos discri.proto-estatístico. principalmente das décadas de 80 e 90.86).] no fundo. do qual se considera membro. onde outra pessoa é que define o grupo do tempo. DIFERENÇA. sustenta que. divíduos em grupos definidos pelas categorias de uma objetividade à classificação? Não se tem nenhuma ga. que o preconceito racial influencia negativamente no dias atuais: branco. três vocá.

19). a marginalização da população de cor em alguns tudo que a remeter a ela. O que não deixa foram concedidos à identidade branca. responsáveis de amanhã. foi-nos forçoso admitir que ao Con- identidade que acomete muitas crianças negras.56). por si. Os 2005. “Se de um lado sociais. como o preconceito mento dos fatos. p. são herdeiras da desigualdade e da exclusão social pro. que geram exclusão social e com comprovam essa afirmativa. sobre repetência e evasão escolar do alunado negro sendo o preconceito. estaríamos culpando a vítima saber que. além de operar de forma individual.12). afirma que os privilégios atitudes de preconceito e discriminação marcam pre. 1987. Além dos expressivos diferenciais a criança negra é afetada pela diferença. De negros. Convém esclarecer que introjeção apoiada na razão científica que diz que biologicamente à reavaliação de suas posições” (BERND. portanto. belecimento de políticas de correção das desigualdades sas interações que ali se dão são quase sempre negativas. p. Segundo Dias (2005. a pes.54). e. os negros são sempre os discriminação. (MUNANGA. o imaginário e as representações coletivas negati. para livrar-se disso. surge uma sociedade tórias (GOMES. que se os seres humanos dos idosos e das pessoas de baixa renda. (DIAS. o objetivo fundamental da nossa membros de um grupo racial de pertença. “uma posição dogmática e sec. definir alguns conceitos: Justamente por isso. Com efeito. 1992. Ou seja. nega-se como deixem de pensar de forma preconceituosa.5) mação. devemos se inicia na família. Ele é parte da ças elaboram seus primeiros julgamentos raciais. o negro e comprometem seu aprendizado. dade de lidar profissionalmente com a diferença. escola. muito menos.23). acreditamos que é de bom sível este tipo de discriminação e de buscar superá-la. o nariz. para as crianças negras. aqui. a pele. tos sociais e políticos” (BERND. Preconceito e Discriminação.128). tária que impede nos indivíduos o desenvolvimento freqüência. o racis. ao precon.127). o que poderia levá-los aceita como negro”. em sua educação e for. enfim são os atri. negros e brancos também são tema deste artigo. 15). 2007. nem a moral cristã que nos eleva a Sendo assim. Vejamos o que mostram as análises realizadas a tido privilégios que não se quer discutir.791). grupos constitui-se em uma boa maneira de tornar vi- cultural e econômico. Na batalha contra o racismo. registradas na citação pessoa que não se aceita como negra. a fim de que mente. ela não modifica.5). para quem “o quesito cor/raça re- vocadas por esse racismo institucional. Munanga (2005. mos frases como “o próprio negro é racista. nas. no que diz respeito às “ex- condição racial e. p. Se assim o fosse. círculo de população negra. a prática da diferença e as ciais preconceituosas. O preconceito é um julgamento negativo e prévio dos p. 2005.) as extremas desigualdades no acesso a oportuni- butos físicos os escolhidos pelos discriminadores para enraizado na cabeça do professor. afirmando que: inconscientemente os preconceitos que permeiam nos. 2005. Bernardo Kliksberg. p. ceito e à discriminação. guinte. Consequentemente. a “perversi- racista. então. o preparo suficiente para lidar com questões queremos ou mesmo quando proferimos o discurso pelo indivíduo” (TEIXEIRA. sem maior ponderação ou conheci- aparência: é o cabelo. como a miséria em que vivem as comunidades indíge- pora essa depreciação evitando sua identidade negra e do teor preconceituoso de muitos livros e materiais Bernd (1987) argumenta que o indivíduo precon. de uma maneira geral. dossiê temático Dias (2005. “Como professores. faz parte das tom. Geralmente a discriminação racial na escola se dá pela antecipadamente. então. Teixeira (1992) registra que partir dos dados da pesquisa Retrato das desigualdades 46 47 .1). mo. pois. dades socioeconômicas mantêm e intensificam dramas depreciarem o negro. missão no processo de formação dos futuros cidadãos ou de uma religião ou de pessoas que ocupam outro situações de injustiças e discriminações e para o esta- dução da rejeição. de um dos grandes teóricos do Desenvolvimento soa negra aceita a ideia de inferioridade atribuída à sua não mudará as mentes de nossos alunos. diversidade e com as manifestações de discriminação (ITANI. Como já foi dito Podemos afirmar. Ele Social.11). Trata-se. de uma etnia presenta um passo importante para o conhecimento de A escola. de conceito ou opinião formada de educação entre negros e brancos. é que pode ser considerado ra. dos índios. a priori. Munanga aprende a sê-lo. vítimas podemos. Esse julgamento prévio apre. sem assumir ne. mantêm-se. reflexo do nosso mito de democracia racial. p. afirma que “como educadores. com clareza.104). tem coisa. 2001). As diferenças de oportunidade de educação para cista. por sua vez. temos de presentes em nosso cotidiano de trabalho e. dela resultantes. a discriminação racial é fruto do mito da democracia como o da família e da escola têm enorme potencial outro a valorização da identidade branca” (TEIXEIRA. mete. Portanto. manifestando um imaginário social. 1992). tem sido um espaço de pro. Os dados e informações produzidos pelo IBGE e do preconceito racial é o termo usado para designar a somos todos iguais. “E isso jamais pode ser considerado uma atitude (2005. “nossa trajetória de socialização tremas desigualdades no acesso a oportunidades” da negra. p. Inclui a relação entre pessoas e grupos “(. ências e dos idosos. p. discriminatórias. expressando. vizinhança. Até porque. nos bancos escolares. Podemos compreender.. p. não existe. p.5) argumenta que “espaços sociais temos a desvalorização da identidade negra. mesmo quando não psicológicos que vão além do preconceito desenvolvido meadas pela ideologia do racismo” (DIAS. nhum complexo de culpa. De acordo com a autora. pois “são instituições sociais per. compro. profissionais não receberam. p. em função desta. não podemos esquecer que senta como característica principal a inflexibilidade. p. mas. De tudo isso. p. Dessa forma. desestimulam ceituoso é aquele que se fecha em uma determinada países. reproduzir consciente ou que o contestem (GOMES. ideologias intolerantes que visam justificar Em função disso. por conse. ao final desta conversa. processos formativos e informativos. Afinal. praticamos e os transmitimos. deixando de aceitar o outro lado dos fatos. caráter negativo tendem a ganhar mais força na medida uma condição social significativamente pior que a da apontado a necessidade de discutir para além de como o significado da palavra preconceito é “opinião adotada em que a criança vai convivendo em um mundo que população branca. “essas noções e teorias coletivas estão também gar à discriminação racial. na prática escolar” (ITANI. Teixeira (1992). humanos e a concepção que o indivíduo tem de si mes. esta é a luta da da necessária e permanente abertura ao conhecimento tais fraturas” (KLIKSBERG. dos homossexuais. tornou-se muito comum ouvir. considerados nestes indicadores como o so- Para melhor compreensão de como estão postas as atitude das pessoas em relação a alguém ou a alguma acordo com Gomes (2003. Tarso Genro. a subordinação da mulher. quem tem o poder de dominar. as atitudes raciais de matório dos pretos e pardos. igreja. 2003. 1998. somado à sua dificul. não podemos nos furtar a uma análise dos indicadores sa sociedade.. Ainda de acordo com Munanga: Considerando assim. preconceito e sem exame nem conhecimento prévio” (LAROUSSE.135). com grandes fraturas. que devemos considerar como ex “Ministro da Classificação Racial” (Magnoli. Os dados opinião. E isto quem herda são as pessoas brancas”. 2005. em relações raciais no espaço escolar. O ser humano não nasce preconceituoso. 2003. São aprendidas social. E as professoras nem sempre didáticos e das relações entre os alunos. p. todos para a mesma natureza divina. p. “é necessário 2004. ele não se educação: não aceitar como pronta e acabada a lógica mais aprofundado da questão. isso preconceituosas não são inatas.6). & THEODORO. p. p. as inten. vas que se tem do negro e do índio na nossa sociedade”. O preconceito. das mulheres. além mo e também do outro. desta rejeição. É no contato com o mundo adulto que as crian. a população branca de qualquer nível social tem baseiam sua conduta num conjunto de representações São esses julgamentos raciais negativos que dão lu. apesar da lógica da razão ser importante nos amizades e se prolonga até a inserção em instituições dade da chamada questão racial no Brasil” (JACCOUD pelo crime. 2005. Em muitos casos a criança incor. A ideologia racista deixa as famílias negras em problemáticas ligadas ao desafio da convivência com a de que somos contra tais práticas discriminatórias” Analisar os indicadores de desigualdade entre os extrema dificuldade para melhorar seu capital social. mais penalizados em termos de acesso e permanência discutir o legado branco dessa relação”. A autora nos alerta que “a discriminação racial pode ainda não estão cumprindo esse papel”. ao lembrarmos das palavras do estruturas da sociedade brasileira e as crianças negras Essa falta de preparo. racial de um país que se gaba de não adotar práticas ra- para produzirem as resistências ao racismo. sem dúvida. acima. versarmos sobre Diferença. em geral. nós os ser originada de outros processos sociais. porque muitos sença no espaço escolar. 1998.55). p. de comandar a situação. negros. profissionais ou atuando em comunidades e movimen.15). a coloca constantemente diante do trato negativo dos no que diz respeito à renda. papel social significativo. portadores de defici- reagem pedagogicamente a essas situações discrimina. p. políticos e de ser compreensível. e de promoção da cidadania” (Caderno do Censo do Gomes (2003) chama a atenção para a crise de somos produtos de uma educação eurocêntrica e que pois tende a ser mantido sem levar em conta os fatos MEC. é possível compreender que atitudes pelo IPEA reforçam as palavras. 1987.

Disponível em MUNANGA. São Carlos: EDUFScar. 2005. dossiê temático de Gênero e Raça. Júlio Groppa (org. ao observarmos os estudos feitos por Janeiro: Civilização Brasileira. Raça e minha bisavó: discriminação racial no trabalho e re- gros e negras estão menos presentes nas escolas. p. Ressaltamos. 2 ed.639/03. revisada. na reprodução dessas desigualdades. com GUIMARÃES. argumenta que “é preciso evidenciar as de.). Porém. em 2006. No ensino SECAD. A. Cor e Raça no Censo Escolar. Rio Grande do Sul: Mercado Aberto. vimento Social. na região Sul. que mede BERND. 39-62. básicos sobre o racismo e seus derivados. do Albenarez et alli (apud JACCOUD & THEODORO. Dentre esses números. mercado de trabalho. era de 94. p. Nacionais para a Educação das Relações Étnico. micílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia de idade não eram capazes de ler um bilhete simples. branco. cuja publicação da 3ª edição ocor. trazendo uma interpretação te. Brasília: jun. al. os números se referem res é maior que a dos homens e a dos brancos maior SIDADE. tinha-se. acesso a bens e estudado. Racismos e anti-racismos no Bra. estudo e as mulheres negras. Resgatando a Na educação. CADERNO do Censo do MEC/2005. Vivendo preconceito em sala de aula. pesquisadores. Bernardo. Zilá. recorta e dá visibilidade à problemática. GOLDENZON. São Pau- sentam médias de anos de estudo inferiores e taxas de SANTOS. mas seu his. 2007.4 e 37. Daniela (orgs. para a população branca era BRASIL. In: PETER. TEIXEIRA. 18. Educação cação. fessor negro. 58. Lucimar Rosa. São Paulo: Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). fundamental. Edmar José da. Caderno de Pesquisa.4. Brasília. pela Secretaria cedo pressionada a abandonar os estudos e ingressar sil. In: SOU- tam não somente pelas desigualdades entre negros e AQUINO. Educação anti-racista: caminhos abertos branquitude e branqueamento no Brasil). 1998. O comovedor é que os dados apresentados assus. ve discussão. entre outros. que a dos negros. Divisões perigosas. ALFABETIZAÇÃO E DIVER. Sidney. ROSEMBERG. Da Diáspora: identidades e mediações Secretaria de Educação Continuada.5% dos homens negros com 15 anos ou mais História da educação do negro e outras histórias. OSÓRIO. tórico tem origem em 1993. 2003. Diretrizes Curriculares UNESCO. de 95. 1998. Racismo e Anti. Quantos passos já foram dados? “cor ou raça” do IBGE. ceito na escola: alternativas teóricas e práticas. Petrópolis. Fúlvia. é mais D’ADESKY. 2003.) Levando a raça a sério: reu em dezembro de 2008. primeira versão da pesquisa é de 2005. Superando o Racismo na esco- com carteira de trabalho assinada. analfabetismo bastante superiores. Francisca Maria do Nascimento. Luciana & THEODORO. p. a média de anos de estudo das mulhe. cultura negra e relações étnico-raciais Auto declaração de cor e/ou raça entre escolares direcionar políticas públicas para acabar com elas”. recorte etário da pessoa ocupada. 2004. Brasília: MEC/SECAD. alunos negros têm desempenho inferior ao dos alunos ___________. Lucia M. na mesma faixa etária. Representação da UNESCO no Brasil. As desigualdades REFERÊNCIAS Combate ao Racismo nas Américas. www. Kabengele. 2007. Mário. Jogo de espelhos. Sales Augusto (org. sentaram aspecto positivo em relação a anos anteriores. Acesso em abril 2008. Falácias e Mitos do Desenvol- a proporção da população matriculada no nível de ensi. que analisam o desempenho educacional e cor de pele.) Psicologia Social do Racismo (Estudos sobre estudantes. escola.4% e 4.gov. In: BERNARDINO. como exemplos. v. p. Rio de EDUSP. ALFABETIZAÇÃO E DIVER- gualdades que se manifestam entre negros e brancos e É certo que a média de anos de estudo vem au. parlamentares.).2. In: SECRETARIA DE EDUCAÇÃO zar. apenas os indicadores de desigualdades de educação população negra.br. São escolares e reprodução do preconceito. a taxa de escolarização líquida. No caso dos homens brancos. n. Rio de histórias. anti-racista: caminhos abertos pela Lei Federal Nº EDUCAÇÃO dades são gritantes em outros tantos indicadores sócio. São Paulo: Cortez. pas. Educação para todos). Uma dupla inseparável: cabelo 2005: O que é ser preto. Alfabetização que atendendo à delimitação desta artigo. O sistema classificatório de Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a As diferenças regionais também são significativas DIAS.3%. Eles deveriam pedir descul. Belo Horizonte: Editora UFMG. In: SECRETARIA DE EDUCAÇÃO BENTO. História da Educação do negro e outras entre homens e mulheres nos mais diferentes espaços mentando para os dois grupos ao longo do período Políticas raciais no Brasil contemporâneo. são marcantes as diferenças raciais: os ne. Ações Afirmativas e lo: Pontifícia Universidade Católica. a pesquisa dos alunos brancos e negros. podemos concluir que os no Brasil. Disponível UNIFEM. Silvia Caiuby. reinações do e Estatística (IBGE). 2005. Jacques. de joelhos. essas taxas eram respectiva. Psicologia Social 10.132. RIBEIRO. ITANI. Janeiro: Pallas./ 2005. Magistério. In: BARBOSA. la.6. 2005. leção Políticas da Cor. Divisões perigosas: SIDADE. Linguagens brancos. SA.) et em: elianamrc@ig. Negritude e literatura na América Latina. SANT’ANA. respectivamente. se ampliam quanto maior o nível de ensino. Pluralismo étnico e multiculturalismo. 2007. Na região Nordes. A da Educação Básica – SAEB. Mestrado em Psicologia Social). História e conceitos podendo-se citar. Vozes. In: disponibilizados para todo o público interessado: movi. educação: os limites das políticas universalistas. Ministério da classificação ra- Já no ensino médio. Esses números podem ser explicados pelos anos HALL. In: MU- e o aumento do número de trabalhadoras domésticas 60 anos ou mais de idade.187-200. pardo?. 135p. 2003. Peter et al. CONTINUADA. 2. Brasília: 2005. 105-120. Contemporânea. 1987. 2 ed. Brasília: MEC/ (Dissertação. analisaremos de falta de acesso aos bancos escolares por parte da culturais. São Paulo: Editora 34. 24. ação afirmativa e universidade. p. 39-67. p. os números impres. ainda é bastante restrito em nosso país. Fúlvia. Rafael Guerreiro. -Raciais e para o Ensino de História e Cultura cial.639 de 2003. In: cular e alunos negros: um estudo de caso. In: FRY. Joaze./dez. Isto é. DF: no adequado à sua idade. nas mesmas regiões. 2001. (Coleção feminino e da brancura: a narrativa de um pro- A pesquisa citada acima teve por objetivo visuali. apre. Eliana Marques. Maria Aparecida Silva Bento. Além disso.37. até a PNAD/2006. Alguns termos e conceitos presentes no set. país. p. Fry. Antônio Olímpio de. Especial de Políticas para as Mulheres (SPM) e pelo no mercado de trabalho. CONTINUADA. A questão de raça nas leis educacionais – da LDB GALDINO. o acesso ao ensino médio Afro-Brasileira e Africana. 133-136. 2005. sócio-econômico. 9. Janeiro: Civilizações Brasileira. estudo elaborado pelo Instituto de por se encontrar nos estratos de menor renda. sigualdades para que elas não existam mais.639/03. essa taxa era de fabetização e Diversidade.137-150. que. PAULA. Diferenças e precon. -econômicos estudados. Os números obtidos são brancos. Superando o racismo na tivamente mais limitado para a população negra. Cor nos Censos Brasileiros. JACQUES. Brasília: e Diversidades. Paulo: Summus. 1992. 2005. Acesso em novembro 2008. Stuart. ROSEMBERG. gestores. p.7 em 2006. MAGNOLI. Kabengele (org. Iray mentos sociais.br. paulistanos(as). as enormes desi. 48 49 . a partir dos dados do Sistema de Avaliação sobre o negro. de 8ª série do ensino fun. 49-62. mesmo quando é feito o controle pelo nível debate sobre relações raciais no Brasil: Uma bre. De preto a afro-descendentes: trajetos de pesquisa ROCHA. Demétrio. sociais: educação. ao passo que. In: sistência na voz dos trabalhadores negros. Nilma Lino. como já mencionado anteriormente. têm em média 2. serviços. Antônio Sérgio Alfredo. alguns apre. Mulher (UNIFEM). Cláudia Regina de. 2001. GOMES. Ana Beatriz Gomes. Brasília: 2005. NOVAES. Maria José Corrêa et al. Brasília: Ministério da Educação Continuada.com.2. JACCOUD. com relação aos indicadores de renda e edu. 2005. CARONE. Rio de Janeiro: Co- dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Do. que apresenta as maiores taxas de analfabetismo no de 1961 á Lei 10. de forma clara e compreensível. NANGA.109).). entre os negros. In: ROMÃO. SOUSA. al. (org.inep. Rio de mente. Brasília: Ministério da Educação. Se associarmos os anos de estudo ao pela Lei Federal Nº 10. Prática Pedagógica Curri- entre negros e brancos. Nesse documento. Maria Aparecida Silva.149-153. (org. permitindo damental. 1993. mas significa. o acesso à educação sionam ainda mais: os homens negros ocupados. p. Congresso Nacional. Brasília: 2005. Maria Inês da Silva Barbosa. Jeruse. RJ: Vozes.5 anos de -Racismo no Brasil. mas também por sabermos que essas desigual. Alice. KLIKSBERG.

definir o “real” caráter do brasileiro e as várias fez com que muitos “homens de ciências” – como se mento se imporia (Sílvio Romero. como mostra. “funesto” tão evidente – faria para tentar modificar essa descartando a “raça” como fator determinante e intro- os pioneiros sina terrível. disciplinar da África e dos Afro-Brasilei. que alguns pensadores viam Another issue is the mixing. genéticas e os de influências sociais. Currently she is seen as a way of ensuring the existence of Professor Adjunto II. ex-escravos e de mestiços. em seu conjunto. 1933. ser funesto. ros da UFT (NEAF/UFT). Others enxergavam nela uma característica que poderia ser mais bem who saw it as a feature that could be used more. Racismo. Nina Internamente podemos perceber a consolidação ra. 1976 e Schwarcz. which for some thinkers was seen as a de Jesus Felix como um fator negativo a ser extirpado de nosso país. o que esses senhores gostariam de saber era após ter tomado contato com Franz Boas. com uma população de grande contingente de vidiam. Precon. (não havia) nenhum que me inquietasse tanto nação. Como a sua proposta era tanto social como político e cultural (Cruz Costa. procurou explicar a questão da miscigenação. tão somente. Outros negative factor. Prejudice. or was something Doutor e Mestre pela USP. na Universidade Federal do Tocantins interpretada como um escurecimento da população. which should be excised from our country. 51 . 1949). uma sociedade procurou descrever uma sociedade em que a partici- que tivesse grande proliferação desse fenômeno gené. em finais do séc. Obra de Gilberto Freyre. já que o problema se resumia edição de Casa-Grande & Senzala: “dos problemas bra- na obrigação de tentar entender e explicar o destino da à educação (Manoel Bomfim. devido à enorme taxa de miscigenação Gilberto Freyre foi um estudioso que procurou contri. o autor afirma que. em Colúmbia 1. perplexidade como o da miscigenação” (idem. o autor bilidade da mestiçagem. «race» in Republican Brazil. se fez sentir muitos desses cientistas. boa parte dos homens Schwarcz. os letrados vinculados às compreenderiam que essa mesma questão era de pouca ção. afirma no prefácio da primeira instituições de pesquisa e ensino no país – se sentissem ou nenhuma importância. já de engenho. pação tanto do “negro” como do “mestiço” tivesse um tico estaria irremediavelmente destinada ao fracasso. Keywords: Race. o primeiro desafio de Freyre foi teriam alguns efeitos benéficos. As posições se di. Por este motivo. defendia a invia. Outros ainda tentativas de se explicar a problemática da miscigena- autodenominavam. João Batista Outra questão é a miscigenação. segundo ele. 1993. Oliveira Vian- escravidão brasileira legou para a história do país a pro. de pelo menos três principais posições frente às teo. Atualmente é aproveitada. à miscigenação (Nina Rodrigues. Democracia Racial. 1933. Outros entendiam que esse mesmo fenômeno na e outros. brasileiras. que pretendiam. XIX parecia duzindo a noção de cultura1. because she happened to be interpreted as a darkening cial. racial. A DEMOCRACIA destaque bastante relevante. 1994. Identidade. A devido. importante verificar se as opções de miscigenação feitas Nesse sentido. existentes entre os habitantes da “Casa-Grande” e os de ciências. Sílvio Romero. despertou a curiosidade de buir com a discussão sobre a identidade do brasileiro. RACIAL fazer um estudo culturalista das relações sociorraciais Skidmore. por meio da determinante blematização da desigualdade sociorracial. o futuro de um e de meio” (1978. Atualmente ela é vista como positive. desde em outro contexto político e intelectual. de herança cultural -se à análise das relações “raciais” e da mestiçagem no rias européias: para alguns cientistas. João B. brasileiras tendo como modelo as condições de vida século XIX e início do século XX. Em Casa-Grande & Senzala. 1957). mas mostram. de Ricardo Benzaquem de Araújo. esses grupos tiveram sobre o estilo de vida dos senhores presente em sua sociedade. Além disso. entre outros. Em outras livro Casa-Grande & Senzala. (UFT). ceito. Tal influência. Lacerda. XXIII/XXIV). pois passou a ser black people. Ele teve contatos com Brasil. a discriminar entre os efeitos de relações puramente Rodrigues (1957). Uma das maiores razões para em relação à questão.dossiê temático REFLEXÕES SOBRE NOSSAS CONSTRUÇÕES INTELECTUAIS E POLÍTICAS ACERCA DE “RAÇA” RESUMO ABSTRACT Esse artigo procura fazer uma reflexão sobre a construção do This article attempts to discuss the construction of the concept conceito “raça” no Brasil republicano. Palavras chave: Raça. dentro e fora do país. Nesse sentido. No prefácio do os primeiros momentos da colonização. dedicaram. então. Oliveira Vianna e outros. palavras. É o Diretor de Cultura do mesmo campus e Coordenador do Núcleo de Estudos Inter. o que pode exemplificar a grande preocupação país “miscigenado” só poderia. of the population. principalmente da Europa. uma forma de garantir a existência dos negros. 1993). Tal situação social não era tão prejudicial assim e que o branquea. tais como Sílvio Romero (1943). XXIII). em Espetáculo das Raças. Uma boa obra sobre este autor é Casa-Grande & Senzala e a o que um país já tão miscigenado – com um destino (EUA). de Antropologia So. da “Senzala”. Democracy Racial Identity. Freyre buscou dar relevo à influência que O Brasil. como os de Nina Ro- que essas questões despertam em nossa sociedade. ou seja. sileiros. isso modelos explicativos anteriores. Foi só nos anos 30 que vimos Freyre procurou analisar as relações sociorraciais esta preocupação baseava-se no fato de que. 1967. era algo positivo. 1993). no Curso de Ciências Sociais. Racism. no final do o tema se transformando. de fato. considerar “fundamental a diferença entre raça e cultu- Muitos autores. drigues.

Freyre. os colonizadores anglo-saxões na América do Norte. As conse. Em depoimento dado à TV Cultura de São Paulo. não tiveram problema algum para fator que muito contribuiu para o sucesso internacional signado. ao justificar meu ponto de vista pessoal so- sim na grande capacidade que Gilberto Freyre teve em vência da Casa-Grande. do desenvolvimento de seus estudos sociológicos. Ele não é uma síntese. relações “raciais” brasileiras passam a ser vistas como do ficado com os Modestos ‘o resto da vida. tabuada cantada” (idem. passa a ser o nosso maior divulgador. agradou aos brasileiros. rigorosamente verdadeiro. que do mulato’. O anteriormente. 131). ela pode ser entendida como um erudito do caráter nacional brasileiro com uma desi. maior. virou de cabeça para baixo a afirmação de ter a misci. o mulato e. mas da relação malsã de senhor 3. acerca de minha atitude para com os negros. Já Skidmore ficando cada vez mais adocicadas. que “Quanto ao brasileiro de Pernambuco. e os ne. obra. como dizia é explicada histórica e culturalmente: os portugueses. por já terem tido um longo contato com os mouros no “brancos” e “negros” conviviam fraternalmente. No desenvolvimento do enredo de Casa-Grande se propôs fazer um estudo extenso sobre a sociedade Trancoso’. ou um “fato e pronto”. podemos destacar alguns depoimen. Na obra “Do padre Florentino Barbosa. vez. em perversos e de hórrido aspecto. Devo estabelecer uma relacionado às opiniões assumidas por seu autor. favoráveis à mestiçagem. Isto demonstra que o ima- mente mestiça. Ao mesmo tempo. depois de se dizer parável”. dossiê temático principalmente através da culinária. Uma outra fonte e escravo debaixo da qual se fizera” (pág. 357). considerando o mulato ‘inimigo natural brasileira.. discriminação contra os “negros” e os “mestiços”. anos na África. o que levou por meio desta cultura inferior dos europeus. alguns ten- Alguns estudiosos costumam defender a ideia de sobre uma questão que tanto incomodava os intelec. com grande simpatia. carta logo no primeiro capítulo os indígenas. ao reuni-las. mas surgiram dessas relações foram incorporados à convi. escrito em 1957. 4.. 1996. as diferenças sociais existentes mesmo tempo. De sorte que. dade sem a sua presença. de nossas relações “raciais” amistosas. uma vantagem imensa” (1976: os primeiros brasileiros. em um pro- à atmosfera de monocultura escravista que dominava grama sobre o livro Casa-Grande & Senzala. 188). Portugal tentou justificar as suas colônias bre coloração pigmentaria. o qual me parece fundo. Fry. quiçá a única. a teriores. Freyre destacou a contribuição cultural do africa. seguin- entre si. XIX. A miscigenação brasileira Ou seja. A cor guiu oferecer “uma espécie de nova racionalidade para no. de onde saíram de diversas palestras proferidas por ele nos EUA. Do Saber Colonial ao Luso Tropicalismo. dos colonos brancos” (Freyre. atingindo pessoas das mais diversas estrati. nascido em 1981. obra em que que também não é estranha a influência da ‘história de a obra de Freyre a revelar uma “singularidade da mesti. etc. pela tuais e políticos brasileiros. 352). 1995. a minha meninice e a pressupostos raciais dos mestres brasileiros”. A violência brasileira”. vão alguns exemplos: É possível fazer a seguinte reflexão sobre a “de- era a primeira vez que os leitores recebiam um exame -grandes e até nos colégios. a ponto de o autor todo país. ao contrário. 1982. das vestimentas Como podemos notar Freyre. alguém procurou ‘positivar’ a mestiçagem terpretava o Brasil como uma sociedade “mestiça”. se rein. cujos vícios sociais – que Gilberto Freire ginário social do brasileiro. costumes. 355/6). é Feijoada e Soul Food. é que a miscigenação não era entendida no Brasil pré. Para maiores informações sobre este tema consultar Omar Ri. “Já Heitor Modesto (d’Almeida) nascido em Minas “mito”6 nacional brasileiro. com o poder político. a abolição dos escravos’. Outro parecer uma chocante contradição com o que atrás con- O enorme sucesso alcançado por Casa-Grande & continente europeu. Aqui gem da sua própria personalidade. ao responder ao quesito 16ª. de 1947. com relação a seus escravos. Em novos termos. em maio de 1994. não contente com o su. Freyre des. livro Ordem e Progresso. (Freyre. reage de modo diferente à um mal necessário. várias ocasiões o autor afirma e reafirma que o colo. 415). em 1881. Senzala – pois esta obra em muito influenciou a visão se relacionar com as mulheres africanas aqui no Brasil. Para ele. contribuição dada pelos nativos de Interpretação do Brasil. mas separadas mais tarde. é uma sociedade em que os portugueses entram e de distanciamento. na série prismática. A maneira de relatar e as fontes uma sociedade em que as relações “sócio-raciais” se- o país até a segunda metade do séc. 5. em 1887. 299). ‘não (o) recebera bem’” (págs. É a própria ausência de cor. No complexo que remonta. “. Gilberto Freyre afirma “que somente a índia utilizadas causaram bastante impacto.500 questionários. que é uma coletânea Paraíba. a ressalva que de mundo da sociedade brasileira – não está somente Devido a esse passado mestiço anterior. seja ele “branco”. que para ele já era detentor de uma “cultura supe. no Brasil seriam “o resultado da consciência de classe branco. Quanto ao casamento próximo com pes- 210). pois ajudava a explicar a ori. ofereceu uma explicação acadêmica história intelectual do país. a civilização e o capital. 1978. os filhos que Portugal. 52 53 . Aqui mito está sendo entendido como “um modo de significa- mistura de raça em si. beiro. Freyre. “Os pretos e pardos no Brasil não foram apenas com. como “uma fala” social . qüências danosas da miscigenação provinham não da fêmea contribuiu para a colonização do Brasil”. no Brasil existia uma real “democracia racial”. dizia Gilberto nosso contingente foi o útero materno. havia também posturas que defendiam ser ela gros com parte da cultura. Freyre tinha conhecimento das discrimina. o negro. ao conseguir dar destaque a várias teorias apresentadas portugueses foi denominada por Gilberto Freyre. -Grande & Senzala. por fim. trevas. através de suas obras pos. de nossa representação de “democracia racial” foi que em resposta ao quesito 16 do inquérito. 54). do branco. A importância de Casa-Grande & Senzala. fumo se associaram na formação de um ralista norte-americana “sem abandonar totalmente os existente no regime escravista brasileiro era explicada ções que os negros e mestiços sofriam no Brasil. depois de que a contribuição de Gilberto Freyre foi a de que. original e etnica. devo afirmar que não rece- (1976) afirma que a postura teórica assumida por Freyre: afirmar que: ficações sociais). talvez. Casa-Grande & Senzala inicia uma nova fase na menino. libertos’. exibido pela primeira Brasil uma nação multirracial. 1947. confessa sempre ter gostado ‘mais de negro primeira vez. em que pergunta especifica ou concreta sobre o assunto: “Pode Sílvio Romero. irmão ou irmã.” (pág. mais do que de qualquer preconceito e raça ou de cor” do-se-lhe o índio. as relações entre escravos e senhores vão brasileira (para tanto aplicou 1. Segundo Schwarcz. nessa obra. Senzala. houve também meninos mocracia racial”. 1972. e da sexualidade. Porto. preta nunca me agradou. Em sua visão. Além desta rior não só à dos indígenas como à da grande maioria Apesar de ser um grande defensor da “democracia branca.. nesta nizador luso não teve a mesma postura de separação soa de cor. Nada mais2. era. nessa gradação. De posse graduação. É cesso alcançado. em de negro com branco pela disparidade de tendências. ‘em reconhecem a sua existência não propõem uma socie- orgulhar-se da sua civilização tropical. Segundo Skidmore: “Casa-Grande & Senzala interessante notar também que. Freyre conse. Nascido em Olinda. brancos que aprenderam a ler com professores negros. Mesmo aqueles que não nibida mensagem de otimismo: os brasileiros podiam A ler e a escrever e também a contar pelo sistema de Gerais. depois de recordar ter recebido. Após sua publicação as pois os escravos eram ‘um anexo da família’. “mistura” teórica ele procurou se basear na teoria cultu. “O pot-pourri étnico do Brasil.’. para ser positivando o modelo” (Schwarcz. em motivos estéticos e fisiológicos. panheiros dos meninos brancos nas aulas das casas. mas foi sendo incorporado à teoria de Freyre ao longo ção”. com sua obra Casa. 211). são essas as palavras: ‘Não aprovo o casamento sileira). Esta postura assumida pelos dessa teoria. Adolfo Faustino -Gilberto Freyre simplesmente como um “dano irre.. tos em que as pessoas demonstram possuir profunda com pessoa de cor preta. invertendo os termos da equação e & Senzala. de luso-tropicalismo3. o “luso-tropicalismo” proposto por Freyre5. Luto. com personagens que eram ‘negros velhos’ çagem (brasileira).” (1990. (Barthes. internacionalmente falando. devido ao seu ineditismo. beria bem o casamento de filho ou filha. ele procurou divulgar para o mundo todo que livre de preconceito de raça. altamente positivas4. Apesar da opinião de Skidmore. está em sua proposta não subestimou – deviam atribuir-se principalmente teórica culturalista que se propunha a desvendar o que fazia do “mestiço” – talvez até mesmo “indígena” – não concebe 2. nossa ex-Metrópole. como a a sociedade multirracial brasileira” (1995). O “luso-tropicalismo” não está presente em Casa-Grande & 6. abraçou imediatamente faço. vem em primeiro lugar. na genação causado dano irreparável” (à sociedade bra. o que notamos A sociedade mostrada por Gilberto Freyre. “negro”.

não como resultado de qualquer (1995). no social (miscigenação) e no econômico UNESCO aprovou em sua 5ª Conferência Geral. Uma terceira pesquisa patrocinada pela UNESCO Este racismo encoberto. a (1960). de fato. Município de Itapetininga (1955). no Brasil era uma sociedade em que os “negros” e os dição desvantajosa do “negro” e do “mulato” passava (igualdade de oportunidades). A discriminação se deu de maneira tão racismo no mundo. ra só sofrerá um forte ataque na década de 1950. na Bahia. A fé que nele depo. as atrocidades ocorridas e Florestan Fernandes. 41). Essa situação é bastante diversa da experimenta. para o povo americano. dossiê temático jam conflituosas. sutil que o “negro” e o “mulato” não tiveram como se Não podemos afirmar que em A Integração do Ne- prejudicado em nossa sociedade. em reflexo da situação educacional e social que o “negro” A “democracia racial” tem para o brasileiro a mes. 1976. Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional Brasil era um paralelismo entre estratificação racial e racial” no Brasil é pensada no campo religioso (sin. Wagley e seus assume em sua obra.” (Mauss. resultou em um enorme dominante naquele país. também com a ajuda de fundos da UNES. inicialmente. mas esta disparidade era vista “preconceito retroativo”. Segundo o autor. Do mesmo modo que os brancos. neste período. Neste sentido. Arthur nunca ter sido assumida claramente no Brasil. 53). tais como: Donald Pierson. “branco” ou “índio”. que “credo” defende a “dignidade essencial do indivíduo. Cardoso. ou uma enorme “falácia”. pela equipe coordenada por Roger Bastide racial para não perderem seus privilégios na sociedade o significado da primeira luta da nação pela indepen. Após esta primeira CO abandonou o projeto de divulgar todos os dados. “os negro americanos na 2ª Grande Guerra Mundial. 1988. Por ela gro na Sociedade de Classes Florestan Fernandes tenha cracia racial” permite-lhe exigir igualdade de tratamen. Os estudos realizados elites. ma função que o “credo americano” tem para o norte. Porém. Ou seja. Nesse sentido. As Metamorfoses abandonando qualquer possibilidade de combater a acreditam que. os “brancos” defendiam a discriminação oportunidades representam. Para Myrdal. Fernando Henrique Para Florestan Fernandes. para se conhecer a re. podemos afirmar que Estado. somente em funções tavam à sua intenção inicial. Wagley (Columbia University) e Roger Bastide (Éco. podemos esquecer que o mundo ainda tinha muito viva cipalmente. ela pode exprimir “ao mesmo tempo e de uma Ramos. tanto por Gilberto Freyre como por colocar contra a situação que lhes foi reservada. Os “negros” e os “mestiços” enten- dência” (idem. Para ele. jus. posição de estudar este fenômeno para poder melhor do Brasil)” (Skidmore. 52). dentre outros. como uma parte de si próprio. estes foram sendo integrados gra. 1997). mas também pretendem ver respeitadas a suas alunos trabalharam em estreito contato. apesar de sua duvidosa rida em julho de 1950. por cientistas como: Octavio Ianni. não que qualquer outro na nação. Brasil se deu de modo que o “negro” e o “mulato” não como um “engodo”. Este paralelismo fazia existência. seja ele “negro”. A representação de “democracia racial” brasilei. as fantasias da sociedade brasileira em relação a seus os interesses dos “brancos” das classes médias e das sitam. Brasil.e estas políticas e familiares ao mesmo A proposta inicial era que se fizesse pesquisa. todo a ser considerado extremamente prejudicial para os cia social demonstrou-se possível embora a sociedade ataque preconceituoso era acompanhado por uma ex. após entender que esta CO. “Entre os scholars estrangeiros que realizaram exten. com plicação de que esta posição não tinha qualquer ligação a “democracia racial” parece ser um valor bastante caro diferenças. O que se entendeu como uma “democracia racial” era 54 55 . à justiça e às mesmas África do Sul e Estados Unidos. “negros” e “mulatos” por Fernandes. Salvador e da França ponderaram que a pesquisa sobre forma de produção. um “preconceito de ter preconceito” (Fernan- só vez todas as espécies de instituições: religiosas. forma de convivência pacífica sustentada pelo governo foi feita por René Ribeiro (Instituto Joaquim Nabuco) e “negro” e o “mulato” não conseguissem entender que tura variegada (daquela) nação” (Rose. não conseguem. O negro brasileiro também entende que é bastante Devido à grande divulgação da “democracia ra. neralização dos seus resultados” (Idem. e o “mulato” viviam em nossa sociedade. “negros” com que os brancos cultivassem explicitamente um dida na mesma chave do “fato social total” maussiano. disfarçado. sofrem as consequências na África e na Ásia. 51). Negro na Sociedade de Classes (1965). delimitar fronteiras 1997. cial” brasileira feita. na cidade de Florença. jurí. Fernandes. oito meses (Maio.. que era a de combater o biológicos de delimitação racial. 42). que se pauta em modelos contatos raciais num só país limitaria uma possível ge. o brasilei. na opinião de Lilia Schwarcz isto é. inclusão do “negro” e do “mulato” na nova sociedade. 1965: 299). impera nos Estados Unidos” (ibidem. conclusões. 41). São Paulo. o que não Ramos. assim como estavam brasileira passou a sofrer ataques cada vez mais viru. em Florestan Fernandes. nesta altura do com o fim do trabalho escravo. ternacionais entre intelectuais das Ciências Sociais. a “mulatos” não possuíam. que Bastide trabalhou com Florestan Fernandes. Segundo direitos inalienáveis à liberdade. o que para Freyre era positivo passou notamos na sociedade norte-americana: lá a democra. mais em pleno desenvolvimento as lutas anti-colonialistas lentos. entretanto. o Credo A PESQUISA DA UNESCO do Escravo (1988). cientista social brasileiro que havia falecido há como sendo “natural”. na memória. assumiu a no Rio de Janeiro por Luís Costa Pinto (Universidade sua condição de inferioridade social foi construída. sabem que constituem um grupo oprimido que. Thales de Azevedo (Universidade da Bahia). alguns países da América Latina. o que de fato existia no Se atentarmos para o fato de que a “democracia Após várias discussões ocorridas em colóquios in. Oracy Nogueira. para conseguir galgar uma posição melhor. As aspas nos termos “negros” e “mulatos”. não alidade sobre as relações raciais harmoniosas existentes passagem do trabalho escravo para o trabalho livre no e Fernandes. em sua obra A Integração do Após a divulgação dos resultados das pesquisas tempo. ele é o “cimento na estru. mas a ideia da “demo. dativamente. “mestiço”. os negros americanos querem um tratamento igual do le Pratique dês Hautes Études – Paris). segundo vítimas não tiveram condições de tomar consciência de Freyre. resultando em uma perspectiva em que a con- cretismo).. ocor. ao assumir esta posição. inconciliá. realização de uma pesquisa sobre relações raciais no direitos sociais. fez com que o -americano. marginalizadas. outros intelectuais. veis entre si. O mentor intelectual de tal proposta foi Arthur e ”mestiços” era desigual. eles estavam ao mesmo tempo pleitear seus direitos. as suas encontrado uma sociedade muito diferente da vista por to e uma real integração com os “brancos”. os mais elementares a ser entendida como natural. enquanto com o fator “racial”. Não Depois da divulgação dos resultados obtidos. Relações Raciais no discriminação e ao racismo brasileiro. nem com a cor. Isso porque as descobertas feitas pela equipe deveriam ter a mesma postura que os “brancos”. mas era sim um para os brasileiros. 236). texto são para tentar reproduzir a mesma postura que Fernandes atraso no processo de inserção na “sociedade inclusiva”. mesmo porque fendia a elaboração de um estudo comparativo (Maio. A relação entre os “brancos”. prin. não é simplesmente um meio para conceitos de relações “raciais”. a tão falada “democracia racial” dividida em classes. defende que a desenvolvidas pelas equipes coordenadas por Bastides ro. Este brasileiro entre “raças” era bastante salutar. Itália. discriminação racial contra os “negros” e “mestiços”. ou mesmo pelo governo brasileiro. diam que. mas sim porque os resultados não se pres- da pela sociedade americana. poderíamos afirmar que ela pode ser enten. principalmente. tamente quando a UNESCO. entre eles mesmos. Alguns representantes de países tais como “El fase de total desajuste do “negro”7 e do “mulato” à nova Esta posição foi adotada não porque discordasse das de cor. segundo Myrdal. dicas e morais . era resultado de uma discriminação em que a “raça” da igualdade básica de todos os homens e de certos divulgá-lo em outras sociedades racistas no mundo: era “fundida” com a situação de classe social. pelo menos no campo político-ideológico sas investigações de campo no Brasil estavam Charles 7. 1968. Apesar das divisões sociais. inicialmente a UNESCO de. mas. em que a “democracia racial” revelou-se consegue propor uma sociedade em que as diferenças neste continente. a UNES- “raciais” sejam respeitadas e garantidas. Com esta atitude. demonstraram que o que se tinha social. fossem integrados à nova sociedade. a não seja dividida em “raças” e grupos étnicos. des. legitimavam de o Credo não ser ali observado. Skidmore: sua existência para combatê-la. destes estudiosos levaram alguns cientistas a criticar percebendo que.

publicadas em vários de seus documentos e panfletos. 297). a ditadura militar. Convergência Socialista -. de Florestan Fer. 1985) em sua cons. antes fosse feito um trabalho de “conscientização de pessoa “que possui na cor. impediu que o MNU procurasse exatamente nos pro- Se Florestan Fernandes não via “democracia racial” pública sem o consentimento dos responsáveis pela ria ser Movimento Negro Unificado Contra a Discri. de Minas Gerais. por sua vez.. da de com uma forte democracia social). professores Roger Bastide e Florestan Fernandes. que a democracia racial é possí. Foi discutido que o Movimento Negro contribuiu para que esses resultados (da pesquisas da da verdadeira trilha da “democracia racial” (idem. Uma das contribuições do MNU para a socieda- quixotesca. na cidade do Rio de Janeiro. esta meta jamais foi atingida. Dessa maneira. que viram via-se. Foram convidados a discursar Alma no Exílio. Em um Ato Público Movimento Negro americano. ou não há nova entidade. militante do Movimento Negro. antro. e não somente garantir a por parte dos radicais e ativistas negros. 1995. Mi. principais mentores do ‘protesto negro’ nas décadas de mocracia racial” (ibdem. ocorreu o lançamento mas leituras foram de grande serventia para a formação concordavam em se submeter a uma liderança nacio- público do MUCDR. O que consolidou a postura racialista assumida influenciar profundamente outras organizações negras. dossiê temático um “preconceito retroativo” o que não permitia a essas O Movimento Unificado Contra a Discriminação que havia retornado recentemente de um auto-exílio Assim.8 Logo no momento de sua criação o de esquerda de boa parte de seus fundadores. Ou bem há democracia para todos. 1993. Melhor Como já falamos anteriormente. Senão vejamos. também discordavam de sua opção DO MOVIMENTO NEGRO Outra novidade foi o movimento assumir um Fanon. A análise dessas obras. Unificado (MNU). 2. 8. os “negros” e os “mulatos”. mas acabou se organi- que lutar por uma sociedade mais justa e sem discri. Rio de Janeiro. leira (FNB). dutos desses trabalhos grande parte das premissas para nas relações “sócio-raciais” brasileiras. 9. um primeiro momento. fundada em 16 de setembro de 1931 (Pinto. o MNU teve uma forte influência dizendo. foi proposto neles um prolongamento e um aprofundamento das primeira vez. muito pelo contrário. IBID. o MNU procurou na sociedade norte-americana esta 56 57 . tinha a pretensão de representar oposição à discriminação racial. influiu também sil” assumidas pelo MNU. como das pesquisas desenvolvidas pelas equipes dos zando como mais um dos diversos grupos já existentes. Com cia social. Isto só havia ocorrido anteriormente com a Frente Negra Brasi. ou seja. mas que o nome do grupo deveria ser Movimento Negro tentativas de desmascaramento racial encetadas pelos a cumprirem os ideais da fraternidade humana e da de. ocorrido em 1980. ele passou a informar As diferenças mais destacadas entre o MNU e ou- tiços”. tes estados da União: São Paulo. o MNU conseguiu. de grupos homossexuais. MNU: através de seus discursos. Como já foi dito anteriormente. Essa nova denominação a construção de seus argumentos contra as discrimi- contra a sua existência. claramente. o clarim que convocava todos os homens a união de todas as entidades negras brasileiras. A Integra. mesmo aquelas que não aceitaram participar de sua O que podemos perceber nos dois textos é que. O MUCDR foi resultado da somatória a alteração da denominação do grupo. zona central da cidade de São Paulo. mas também nos afasta Outro motivo foi a tortura. Só assim podemos de brasileira foi a tentativa de mudar a maneira de se tentar entender a existência de grupos de negros lutan. Pele Negra. racial. operário Robson Silveira da Luz. 18). a “democracia racial” é de fato um mito. etc. no rosto. gros no Clube de Regatas Tietê. negra defendida por esse grupo procura se utilizar da des negras. 71). bre a existência da “democracia racial” no Brasil. defenderem-se. por serem cristãos. o mito da “demo.º) recebessem acolhida muito favorável Em outra parte do texto Fernandes escreve: “ou. sempre discriminar e oprimir os seus “negros” e “mes. base” e por esse motivo optaram por não participar da sinais característicos dessa raça” (MNU. posto é possível se entender a seguinte afirmação. Em sua “Primeira das plataformas dos negros norte-americanos. social e politicamente falando. outros. ocorrida no 44° Dis. por fim. de Eldridge Cleaver (1971). Essas situações fizeram com que o MNU UNIFICADO . que nos protege do Bom Retiro. o porados pelo branco inconformista. As opiniões sobre “o que é ser negro no Bra- apesar de a sociedade brasileira ser tão autoritária e jornal Versus. de organização destas que. soando. nandes (1965). Bahia. ainda durante nos Estados Unidos9. não da” como se manifestava. de personalidade texto escrito trinta anos após Fernandes. Na época de sua criação nenhum criminação racial a ser assumida somente pelos negros. MNU a unir a luta de classes à luta anti-discriminação ganização negra entre todas as já existentes.º) fossem aceitos com simpatia e incor- combate o preconceito/discriminação brasileiro. Para maiores informações consultar Memórias do Exílio. Assembléia de Organização e Estruturação Mínima”. Bahia e Pernambuco. Alguns. Ele surge. UNESCO): 1. identificar um negro. o que foi nessa ocasião aprovado. do contra o racismo no Brasil. nações e preconceitos raciais existentes em nosso país. da ção do Negro na Sociedade de Classes. comunistas e lideranças estudantis. defendeu uma luta contra a dis. contra as ameaças do racismo. um valor sociológico à luta contra a Ditadura Militar. não que dá sentido e justifica as relações sociais desta nação. ocorrido nas escadarias do Teatro dos primeiros quadros políticos do MNU. porque alguns grupos ne. localizado no bairro nindo delegados do Rio de Janeiro. a condição de mais uma or- MUCDR contou com o apoio de grupos dos seguin. do Rio Grande do Sul e do “A ausência de racismo institucional. mas só é praticável conjuntamente com a democra. ou nos cabelos. por terem uma postura po- PEQUENO HISTÓRICO comunidade judaica. segmento social podia fazer qualquer manifestação Nesse sentido. reu. minação. apoiavam a opção religiosa afro-brasileira também de- representantes sindicais. que seria o MNU. trito Policial de Guaianazes. não Municipal de São Paulo. em minação Racial (MNUCDR). O MUCDR foi um projeto pensado inicialmente “marca” e da “origem” (Nogueira. que resultou na morte do Espírito Santo. Sobre este fenômeno Florestan afirmou: autor: “(. num Na opinião de certas lideranças dessas organizações. fendida pelo MNU. levaram o assumisse. foram adotadas por quase opressiva. através das propostas condenado à dignidade de lutador da liberdade corres. pela Quando fundado. Para não diminuir drasticamente a sua base. porque a opressão do negro política foi Centro de Cultura e Arte Negra (CECAN). organização que editava o Abdias Nascimento não contribuiu somente para fundação. e também de vários grupos sociais que existiam naquele período. podemos afirmar que a desistência da populações. somadas à militância pela esquerda.. Ca. Já Ribeiro. vel. lidade ou de costumes” (1976. A grande novidade trazida por ele foi a tentativa de jun. de São Paulo. 90). a tal ponto nas Gerais. tar a luta dos negros brasileiros contra a discriminação as pessoas sobre as posturas racialistas assumidas pelo tras entidades do Movimento Negro estão na forma pologicamente falando. exploração e discriminação. o MNU não conseguiu ser a “Central Geral cracia racial” brasileira pode dar sentido. por serem municipais. pouco a pouco. deveria lutar contra todo e qualquer tipo de opressão. de Frantz lítica conservadora. dentro de sua própria sociedade” (id. 1988. valcante e Ramos (1976). outro autor que gros não concordaram com o lançamento do MUCDR. assim do Movimento Negro Brasileiro”.. ponde o opróbrio do branco posto no papel de opressor por negros que se autodenominavam trotskistas e que trução. Somente partindo desse pressu. Racial (MUCDR) foi fundado em 1978. 30 e de 40. Este é o nome da entidade até nossos dias. diz: “Tudo isso o lançamento do MUCDR estava ocorrendo sem que MNU passou a afirmar que negro era toda e qualquer democrática e identificado com a mudança de menta- demonstra.) seria preciso atingir esse padrão (socieda. militavam na Liga Operária – depois transformada em por este grupo político. Assim. Além de Abdias. algu.MNU caráter nacional. 6). “dissimulada” e “disfarça. também não era “segurança” do sistema político vigente. ocorrido em 7 de julho de 1978. sem preconceito e racismo. Máscaras Brancas. não é uma ação Abdias Nascimento. tais como: nal. o nome do grupo deve. como forma de protesto contra prevaleceu até o Primeiro Congresso do MNUCDR. em sua opinião. UNESCO em veicular os resultados das pesquisas so- devido à forma “mascarada”. 227). o clamor da ‘gente negra’. O maior representante dessa postura esta plataforma percebe-se que a opção de identidade Apesar de não ter logrado unir todas as entida- democracia para ninguém. na construção de uma posição político-ideológica do todo o conjunto do Movimento Negro. deste a discriminação racial sofrida por quatro atletas ne.

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propostas pedagógicas .

onde o Brasil NA ESCOLA BRASILEIRA? cimento público da nossa identidade específica. esse negro coletivamente desigualdades e perdas acumuladas comparativamente até então à disposição é viciado pela historiografia ofi. talvez não. a mesma historiografia que considera identidade nacional e faz parte do cotidiano de todos o negro brasileiro como um boçal. as real e autêntica e do negro real e autêntico? Qual seria vertentes atuais nos debates sobre a situação o negro a proposta de um curso capaz de realizar essa descon- no Brasil hoje. A questão é saber que captar. autonomia interna para discutir a questão e tem dado tipo de educação o Brasil precisa desenvolver para sair to recuo histórico no tempo e espaço. da situação em que se encontra hoje. classes sociais. Do equaciona. a meu ver. cultural. da geralmente numa visão eurocêntrica que além de colocar esse negro numa dinâmica histórica na qual precisam de uma ação afirmativa para descontruir a ficos ensinar? Ou seja. canalizar. “raças” e et- negação de identidade genérica e específica. do Brasil de hoje. sem dúvida. Kabengele Munanga hoje apaixonadamente em debate na sociedade bra. 2) quem vai ensinar e 3) a habitualmente dispensada aos nossos jovens é enfoca- da estrutura racista da sociedade brasileira atual sem que alienaram sua humanidade e sua identidade e que partir de que livros e materiais didáticos e bibliográ. religiosos. pologia pela Universidade de São Paulo Como então descontruir essa imagem negativa da afirmativa capazes de compensar as perdas acumuladas e professor titular do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia.639/03 que torna obrigatório dação do exercício da cidadania. Essa seria a pauta de uma agenda mínima que de- pública em fevereiro de 2003 contempla. analisar e entender sem fazer um cer. não respeita nossas diversidades de ele foi objeto de desumanização. no Brasil. a Lei 10. por colonial e reconstruir uma nova imagem de uma África outro lado. etc. por um lado. coletivamente estamos mal por da produção dos livros. o ensino da história da África. É o caso da UEL. apesar das relações ria apenas em alguns aspectos que considero relevantes. o caminho não é fácil por causa coletiva do negro. artístico. além do fato de que o conteúdo da África tural e ou etnicorraciais é uma realidade que está na da história positiva do Brasil. Com efeito. A colas e de alguns educadores como no meio da impren- implementação das políticas de ação afirmativa no setor sa e de alguma elite intelectual.propostas pedagógicas POR que ENSINAR A HISTÓRIA DO NEGRO aos outros segmentos raciais da sociedade. mas também e sobretudo uma educação dos africanos e sua escravização no Brasil. os negros de hoje são vistos apenas estaria andando com cabeça erguida e orgulhoso de ter As considerações sobre estas duas vertentes podem que visa não somente o domínio das teorias e novas como consequência e resultado de uma história que participado e contribuído na construção do seu país. das dúvidas e resistência tanto no meio da algumas es- cessita de algumas ações ainda em equacionamento. doutor em antro. sexo. hoje considerados Nacional da Lei das cotas. Infelizmente. Coletiva- mente. fazendo delas uma fonte de riqueza e de É por isso que para entender o “Ser negro no Brasil o que porque nos envergonhar. toca. violência com que foram trazidos. dos princípios de em 1888. cidadã orientada na busca da construção e consoli- Entre o tráfico. consciência de que fizemos a nossa parte e não temos mento desses problemas depende o funcionamento e coletivas. Como sujeito nacional. e África e do negro no Brasil herdada da historiografia Letras e Ciências Humanas da USP. Uma tal educação convida lição formal e hoje. ou seja. materiais didáticos e bibliográ. No imaginário Depois dessa longa história. religiões.639 promulgada pelo presidente da Re.639. perrar a dinâmica própria de algumas universidades ram maciçamente na educação de qualidade para seus tempo positivas e negativas. o negro no Brasil hoje uma adesão significativa. ser objetos de grandes conferências e debates que não tecnologias. De qualquer modo. de imagem negativa de si introjetada e construir uma nova definição do conteúdo da história da África e do negro gêneros. não podemos simplesmente fazer uma análise ainda andam com cabeça e auto-estima baixas. que embora imprescindíveis não seriam começou nos séculos XV e XVI com o tráfico humano apesar das condições históricas caracterizadas pela poderia esgotar aqui por falta de tempo. suficientes. Entre a abo. A imagem de 63 . A África é os sentidos. como os mais desenvolvidos. da formação dos educadores ou professores e nias. a escravização e a abolição oficial assimétricas do poder durante a escravidão. para os que têm ainda não totalmente equacionados. As duas questões constituem. de humilhações. sem necessariamente em. para os que efetivo da lei: 1) que África ensinar e que história do desenvolvimento individual e coletivo. talvez não! Talvez sim. à escravidão e à abolição. para os negro no Brasil ensinar. enfim imagem positiva. Trata-se mos negros no Brasil hoje? negro no Brasil coloca-nos alguns problemas práticos para um olhar crítico sobre as questões relacionadas de uma história de cerca de 500 anos que não se reduz Talvez sim. é-nos colocado a questão da ser monocultural. cerca de 300 anos se passaram. com a construção de nossas identidades individuais apenas ao tráfico. Ora. Por isso. de sua identidade plural nacional. a implementação de políticas de ação não se deixou escravizar. ape- sar da certeza de que ela contribui na modelação da foi buscar a mão de obra escravizada que ali existia naturalmente. mas seu funcionamento efetivo ne. Uma educação coletivo de muitos. agenda de todos os países do mundo. Estamos com cabeça erguida e orgulhosos de ser. preconceito e descriminação que engendram começar. que é um Brasil diverso em todos e também sujeito de resistência para a defesa de sua que constituímos ainda a maior vítima de preconceito ficos divorciados da historiografia colonial. que contribuíram diferentemente na construção objeto de uma série de violências físicas e simbólicas. estamos ainda mal por causa do não reconhe- cial de cunho colonial que ainda considera a África como um continente atrasado e inferior. um João Por que implementar política de ação afirmativa na universidade e no Professor os brasileiros. o reconhecimento de suas identidades específicas. a educação hoje”. coisas que não podemos no povoamento do território brasileiro e na construção públicas que independentemente da lei recorrem a sua jovens e futuros responsáveis. da história e cultura do solidariedade e equidade. sileira. liberdade e dignidade humanas em todos os sentidos: e discriminação racial em numerosos setores da vida tão complexa e diversa que fica difícil definir por onde A construção das políticas sobre diversidade cul- político. Onde estão finalmente do ensino público superior e universitário desembocou os problemas? numa polêmica que prejudicou a votação no Congresso Todos os países do mundo. ou seja. bobo que se deixou facilmente escravizar e nunca se ensino superior brasileiro? – Palestra proferida no Seminário do NEAA – Estas realidades deram origem a duas questões importou com sua liberdade e dignidade humanas. trução e reconstrução? A Lei 10. e promover a igualdade racial do negro. contrariamente ao índio que tinha amor à liberdade e Londrina – 26 de março de 2011 Kabenguele Munanga. são aqueles que investi- Ser negro no Brasil hoje significa coisas ao mesmo contribui na construção da economia colonial do país. a vemos cumprir para colocar em funcionamento a Lei reivindicação do reconhecimento oficial da identidade 10. 123 anos já se passaram.

seria problemático negar a raça enquanto nidade. o quadro é totalmente diferente dos países oci.639/2003 foi pro. propostas pedagógicas um Estado-Nação construída com base numa única tribuições na forma do povo brasileiro. provocados entre os povos africanos. os europeus de diversas origens étnicas. Eles nem sabiam por onde e para público de suas identidades. se daria ao luxo de negli. É nesse contexto histórico que devemos técnicas e meios de comunicação. não estaria. têm a garantia de seus direitos sociais entre os quais a nos permite dominação da razão instrumental que au. É mundo ocidental em geral pululam: Espanha. Vista deste ponto de vista. pois são paises que nasceram justamente do demonstrado que geneticamente não existem as raças genciar um assunto tão importante para a construção negros. O nó da questão. ascendência europeia. japonesa. chinesa. de sua cultura e de sua identidade plural. dos grupos e so. outros acham ab. das pessoas que da solidariedade e do respeito das diversidades que ga. segundo eles. quero admitir e discutir todas as teses etc. quase não são demograficamente representados. etc. na pauta da discussão. os germes a versidade cultural dos países colonizados revela hoje dessas identidades de resistência serem ainda vítimas Freyre. sil é totalmente diferente da de seus compatriotas de nismos de discriminação cultural ou etnicorracial dos questionavam a generalização do ensino obrigatório da rantem nossa sobrevivência. mas também. uma educação cidadã baseada nos valores seja. por sua amplitude. colocam permanentemente. xiliará nossa sobrevivência material numa sociedade foram escravizados. pois todos e amarela. Mas apesar da 64 65 . pele e em outros elementos morfológicos entre negros. Todos buscam a construção de uma guns educadores. que voluntariamente decidiram emigrar de acordo novas diásporas de discutir. Itália. Ela resulta desse longo processo histórico ao mundial dominado pela globalização da economia. do meu ponto de vista.) ter e do encontro das culturas. num Nos países da América do Norte e do Sul. identidade mestiças e não diversas. rais e gerar conflitos capazes de prejudicar justamente nar todas as formas de intolerância. biologia molecular. Bélgica. nenhum país no mundo hoje onde a temática do mul. Seria simplesmente equacionar a unidade com partir dos quais são construídos o preconceito racial que sua unidade de fachada era apenas uma armadilha de preconceitos e de discriminação racial. Sem dúvida. das diversidades: os povos indígenas de diversas ori. baseada na lei do darwinismo social. etc. apesar de serem juridicamente cidadãos livres. justamen- países de deportações humanas através do tráfico ne. a história da presença dos africanos no atual Bra- convivência decorrentes dos preconceitos e dos meca. de geração em geração. cidadania dos descendentes de escravizados de ontem igualitária das culturas. para diversos países da América. Apesar da inexistência das raças puras como cultura. capturados. teses que são totalmente opostas às minhas. sua duração e os estragos culturais. de onde viemos e para onde vamos? exploração dos outros povos. afinal. mas o que devemos povos e com os processos de construção de nossa iden- Essa falsa imagem dos países ocidentais monocul. na construção sim na aceitação das diversidades como bandeira de clusão. Não existe qual me referi. reconhecimento oficial e público dessas diversidades diversidade cultural e implantá-las no nosso sistema fenotípicas baseadas nas características morfológicas A Europa Ocidental que invadiu outros povos. campanhas de difamação e demonização das religiões fonte da riqueza coletiva. Essas reivindicações geram problemas de mulgada pelo presidente da República. reações negativas até na imprensa. que trazem desses países outras culturas.. a saí. problema negar as raízes formadoras dessa mestiçagem. etc. oriental. a logo intercultural. alguns criticam um diálogo que introduz a temática da diversidade uma diferença biológica entre populações negra. ticulado sobre identidade branca e amarela. alegando que se está tentando intro. todos sem exceção deram suas notáveis con. judaica. asiática. não é tolerância. onde troem novas diásporas e reivindicam o reconhecimento educação é uma peça central. cons. construir a unidade respeitando e o racismo. luta. se não um mito. ideológica para justificar a “Missão Civilizadora” e a gregação racial de fato. etc. e onde estavam sendo levados e por que motivos. Ou de mundo. isto é. gaúcha. entendemos a raça como uma construção social de sua democracia? Mesmo admitindo a tese de que la. judia. numa visão do mundo está se tornando cada vez mais Mas a questão fundamental que se coloca hoje é o Finalmente. entender a chamada identidade negra no Brasil. Canadá. além dos portadores como pensam alguns defensores das teses de Gilberto constituem. um país que nasceu da diversidade te porque os portadores da pele branca e amarela não greiro. Esses turais está cada vez mais desmentida pelas novas cor. de televisão. incluído o Brasil. Reagem negativamente algumas educadoras e al. uma pergunta que tem a ver com as raízes culturais dos Suíça. tica humana. Sem dúvida devemos conde. o tráfico negreiro é hoje considerado gens étnicas. O Brasil oferece o puras. Ásia. sistema educacional brasileiro. Diversidade na unidade não Esta é uma pergunta que todos os povos conscientes se mentem a unidade cultural dos países da Europa e do brasileiras de matrizes africanas em algumas emissoras deve sugerir uma diversidade hierarquizada em cultu. espanho- encontro de culturas e civilizações. mas construção social e categoria de dominação e de ex. Fala-se de identidade italiana. Todos devem se lembrar das a diversidade que constitui sua matéria prima e uma Quem somos. Visto deste povos africanos de diferentes nações foram sequestra- mundo: da África. Mesmo concordando que geneticamente as raças puras como uma das maiores tragédias da história da huma- os africanos escravizados de diversas origens étnicas ou da. E não melhor exemplo de um país que nasceu do encontro a partir das diferenças fenotípicas baseadas na cor da nossa cultura e nossa identidade são mestiças. etc. numa única língua. a cultura brasileira é sincrética ou mestiça. que são surdo falar ainda de raças. que a raça teria influenciado sua decisão para sair de seus respec- ciais para evitar as barricadas culturais e buscar o diá. enquanto espécie humana. Apesar dos progressos da ciência biológica (gené. dos homens e mulheres. Daí a necessidades nesses países de história da África e do negro brasileiro até nos estados De antemão. das sileira que. mas também biológica já provou que raça não existe. identidades. a diversidade. processos começaram há cerca de 500 anos quando os rentes migratórias vindas dos países ditos do terceiro que. não existe. que com a conjuntura política e econômica da época que suas políticas sobre diversidades culturais e etnicorra. seria um da identidade branca e amarela. a construção da democracia e do pleno exercício da buscar. de ensinar aos nossos alunos que raça não existe. pois mesmo na hipótese de aceitar essas tivos países de origem. ras superiores e inferiores. houve algumas sobretudo. que até hoje estão sendo tratadas desigualmente no educacional não significa destruir a unidade nacional e na cor da pele são reais e são elas que justamente colonizou-os. árabe. pilhou e tentou destruir a riqueza da di. para exigir a convivência igualitária de todos. não vejo identidade negra não surge simplesmente da tomada cultura de paz baseada na convivência igualitária das duzir um racismo às avessas em suas escolas onde este nenhuma contradição ou impedimento à iniciação de de consciência de uma diferença de pigmentação ou de diversidades. lusófona. ou melhor. no simples fato não existem. é uma sociedade de cultura e os países do mundo estão no mesmo barco. quando a própria ciência ticulturalismo ou da diversidade na educação não está país onde quase não houve um discurso ideológico ar- não apenas países de velhas migrações. de suas religiões e visões Recordo-me que quando a Lei 10. ciedades humanas. América do Sul e do Oriente ainda não exercem igualmente sua cidadania e não ponto de vista. Nunca se falou tanto da diversidade e da fenômeno não existe ou nunca existiu. Porque o Brasil. arrancados de suas raízes e trazidos Médio. Irlanda do Norte. quais são vítimas. até da se. passaram por uma história semelhante à dos brasileiros dentais. penso que construir políticas sobre a nós não pudemos deixar de observar que as diferenças uma raridade. numa única religião. construir e incrementar e municípios brasileiros onde os negros são minoria ou dos que dizem que não há racismo em suas escolas. nos ensinam a genética humana e a biologia molecular. bioquímica. cultural ou etnicorracial na escola brasileira. brancos e amarelos. no caso da população negra. O que pode engendrar barricadas cultu. Os exemplos que des. a melhor educação não é somente a que dos. ou seja. mas sim a convivência tidade nacional e de nossas identidades étnicas. árabe. branca identidade como no atual quadro do desenvolvimento a proposta de educação multicultural na sociedade bra.

a África do Sul ção profissional. inferioridade negra neles introjetados pela cultura ra. pelas contribuições no atual departamento de Antropologia Social onde anos mostra totalmente o contrário. práticas racistas como os Estados Unidos e a África do segmentos não são devidamente representados como tistas na maioria das universidades que aderiram ao Não existem leis capazes de destruir os preconcei. dezenas de entender desde o início do processo em 2002. universitária e intelectual de mente. em 1980. propostas pedagógicas tragédia. os resultados do rendimento acadêmico desses sistemas culturais de todas as sociedades humanas. racial” que precisa ser corrigido. Xenofobia e Intolerân. especifi. os símbolos da resistência cultural dos sidade em 1977. não se trução de uma pedagogia multicultural e antirracista. universidades que as adotaram. consequentemente uma guerra porque a própria existência da discriminação racial anti- o processo de construção da cultura e da identidade do próprio Brasil. 66 67 . que em nosso caso seriam e conservada através das memórias familiais e do sis. do futebol. houve suem armas mais eficazes. pois um povo sem memória é como ausentes ou invisíveis nesses postos e cargos. a política de cotas busca a inclusão daqueles nível de excelência dessas universidades. brasileiro. rar ou de acertar? Uma sociedade que quer mudar não se espera essa decisão. decisão de STJ que a respeito organizou uma audiência sar da cidadania precisa incorporar os desafios sistemá. Nos últimos nove anos. A educação e a forma. ou seja. postos de comando e responsabilidade. assim como para não se cometer erro. cluir o doutorado em antropologia social nessa univer. Juntas. fui o primeiro e o único desde que essa disciplina foi e linchamentos raciais em nenhum lugar. indígenas. penso eu. baseando-se no princípio de nas universidades que as adotaram. autonomia acadêmica. passaram a integrar camente da República Democrática do Congo e não racismo ao contrário. Surpreendente- tos que existem em nossas cabeças e provenientes dos véspera do fim do regime da apartheid. do carnaval. Neste superiores em alguns casos. realizada em Durban. Infelizmente. alunos oriundos dos colégios particulares mais bem tema educacional. Daqui a dois anos estarei compulsoriamente não apareceu nenhum movimento de Ku Klux Klan identidade da maioria dos estudantes negro e mestiços matrizes fundamentais da chamada cultura nacional e me aposentando sem que houvesse a possibilidade de à brasileira. também. o estatuto da igualdade racial isso o espírito da Lei 10. orientais. as teria nenhum sentido a Lei 10. Os dados de nosso conhecimento mostram que na manda a verdadeira democracia. Pois bem. Creio. árabes. prova de que as mudanças em processo que ingressaram na universidade através das cotas. mas não houve dúvidas sobre a Esta herança cultural africana constitui uma das fundada. mas também em outros setores da vida nacional comprovam que apenas nesses últimos oito anos da ganhar. por que implementar as políticas de Fluminense (UENF) onde a política de cotas foi im. Não há distúrbios gêmeos da UnB que mereceriam uma atenção redobrada culturais orientais. Geralmente são um índice de ingresso e de diplomados negros e indí. as avaliações feitas até o momento segundo o qual na luta pela vida os melhores devem a memória coletiva do Brasil. reprimidos durante a colonização. Dizia-se no início que do samba. Alguns obstáculos propositalmente colocados sobre e seus descendentes que foram construídas as bases ação afirmativa no ensino superior e universitário? plementada por meio de uma lei aprovada em 2001 as chances de sucesso das políticas de cotas se fizeram econômicas do Brasil colonial. eliminados chamada cultura de nacional e a identidade nacional. no mundo ocidental? País universidades africanas.! Isto é. 1975 através do programa de cooperação com algumas sistema de cotas a partir da decisão de seus respectivos um por um pela própria prática e experiência das cotas Como somos vistos lá fora. no decorrer do tempo e do processo. sistema não comprovaram a catástrofe. mente após a III Conferência Mundial de Combate ao vertem a lógica da proposta e veem na política de cotas pública entre os dias 3 e 5 de março do ano passado ticos à prática do racismo. brancos e índios. Bem. como os dos alunos a partir do início do século XX. racial devida à racialização de todos os aspectos da negro é prova de que não é impossível identifica-lo. Exis- plural brasileira. conselhos universitários. o princípio do mérito baseado no darwinismo social judia. A tinha mais negros com diplomas superior ou universi. Os outros que social- um povo sem história. boa qualidade representam a única chave e a garantia alunos foram iguais e até mesmo excepcionalmente educação ofereceria uma possibilidade aos indivíduos tário que o Brasil de hoje. públicas nacionais que se desencadearam principal. brasileiros que por razões históricas e estruturas que Sobrou apenas uma acusação: a inconstitucio- cista na qual foram socializados. dades estaduais do Rio de Janeiro (UERJ) e do Norte mudança possível sem erros e sem conflitos. mas sim prejudicar o princípio de excelência. era difícil definir quem é negro ou afrodescendente por lata. estão sendo bem digeridas e compreendidas pelo povo Disseram também que a política das cotas violaria outras. sul. não apenas nas universida. mesmos aqueles que foram negro era oriundo do continente africano. Processo esse enriquecido também ingressei na carreira docente na mesma instituição. Falsa dificuldade. Se assim fosse não dro é considerado como gritante quando comparado ao ter acesso ao topo em todos os setores da responsabi. encontram nalidade da política de cotas ou reserva de vagas nas O racismo é tão profundamente radicado no tecido afirmativa ou de reservas de vagas nas universidades barreiras que somente a educação e a formação supe. esse primeiro Contrariando todas as previsões escatológicas da. Três anos depois. alguns in. da sociedade. Nem tampouco baixou o para questionar os mitos de superioridade branca e de mostrar que algo está errado no país da “democracia sentido. que esta é a história dos bra.639 promulgada pelo dos outros países que convivem ou conviveram com as lidade e de comando na vida nacional onde esses dois avaliações feitas sobre o desempenho dos alunos co- presidente da República 115 anos depois da abolição. antes de tomar sua decisão. etc. Quando genas no ensino superior jamais alcançado em todo aquinhoados financeiramente. as heranças europeias. causa da intensa miscigenação ou mestiçagem ocorrida negros. Outros para escutar os pontos de vistas de diversos setores sobre os direitos sociais ou coletivos no sistema legal e cia Correlata.639/03 visa justamente a cons. gros e indígenas. que se o problema. salvo prova em contrário. a começar pelas universi. queles que pensam que essa política provocaria um no país desde o seu descobrimento. principalmente japonesas. É justamente aqui que se coloca se tem um é sempre o primeiro e o único e raramente o século passado. Fui o primeiro negro a con.. uma memória plural e des. na África do Sul confessam que têm medo. Mais do que isso. Mas felizmente. Só este exemplo basta para da competitividade entre todos os brasileiros. numa mesma instituição é motivo de festa! Esse qua. virem! Finalmente. a re. foi graças aos sacrifícios desses africanos Finalmente. Neste sentido. deve ter medo de mudar. os melhores são aqueles que pos- não mestiça ou unitária. as grandes universidades. Por mera coincidência. eu ingressei no Programa de Pós-Graduação na Assembléia Estadual do Rio de Janeiro. Uma memória a ser cultivada que exigem formação superior para ocupar cargos e experiência das políticas de ação afirmativa. contrariamente ao binóculo acadêmico. a experiência brasileira destes últimos tem evidentemente casos duvidosos. da feijoada. vida nacional. mente não nasceram com essas possibilidades. deveria por este motivo ocupar uma posição igual às um segundo docente negro nesse departamento. pois a herança cultural africana no Brasil o segundo e o terceiro. disseram que a política das cotas ia nunca ocupou uma posição de igualdade com as ou. muito caro para tras no sistema de ensino nacional. não é ter direito às migalhas. Encontrar três ou quatro juntos O que se busca pela política de cotas para os ne. Enquanto por extensão no sistema escolar é importantíssima. etc. Discriminação Racial. pois não há promulgado pelo ex-presidente da República. técnica. da mu.. essas heranças constituem sileiros afrodescendentes. a discussão Racismo. isto é. posicionou contra as políticas de ação afirmativa. Daí o sentido e a razão de ser das políticas de ação têm a ver com nosso racismo à brasileira. Felizmente sistência que por sua vez contribuiu para modelar a em Ciências Sociais da Universidade de São Paulo em universidades públicas federais e estaduais adotaram foram. mas medo de que? De er. nem dos conflitos. rior podem em parte remover. a possibilidade de uma fratura da sociedade. Mais do que isso. Por em agosto/setembro de 2001. Estamos aguardando a social e na cultura de nossa sociedade que todo repen.

Milhões de africanos e seus descendentes destacam-se notáveis contribuições dos negros afri- da demanda da comunidade e da luta do movimento influenciaram a sociedade brasileira. não didático Sociologia: Vários Autores. no Brasil. O antropólogo a Cultura e História Africanas e Afro-Brasileiras. os africanos introduziram um vo- uma profissão. os africanos ajudaram no po- mônio histórico-cultural afro-brasileiro. questão etnicorracial. somando INTRODUÇÃO CONTEXTO uma maneira de ser e de viver às estruturas fundamen- tais da identidade do povo. são de três de funcionamento da Lei 10. No entanto. em busca de uma educação crítica que a abolição. constantemente. con. vista a conclusão de cada um dos níveis de ensino. Maria Andrei. demográfica e cultural. na dança. 1889) era escravagista e ocupou a maior parte da nos. os negros serviram como força Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africa. 2006: p. Florestan Fernandes (1978) nos diz que. a população negra No plano demográfico. sociologia. na discuta as relações etnicorraciais e a presença histórica perdida e à margem da sociedade. 2006: p. Entretanto. café e à mineração. 2006. mesmo estando GA. p. no pare. lei 10639/03. no mo- Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva. apesar No plano cultural. No plano econômico.. no que diz respeito à população negra. Após a Abolição. relatora dos vimento de definição do negro inserido na realidade “As contribuições dos africanos trazidos para o Brasil. fornecendo a mão de obra necessária às na. de aquisição foi desvalorizada e marginalizada. 2006: p. -PR. reconhecimento e socialmente. que foi Sociology. os afro-brasileiros resisti. ensino de Key .21) participantes. dos negros africanos na língua portuguesa do Brasil. [. trabalhos da Comissão que estabeleceu os parâmetros brasileira. (MUNANGA. I will analyze as two axles are presented and argued in the emergir as dores e medos que têm sido gerados. Neste da Lei 10. na música. foi possível eliminar os elementos da cultura africana. Analisarei como são apresentados e discutidos no authors. (MUNANGA. tratada de maneira desumana e submetidas a condições essa população garantias de ingresso. devi. de emergir de trabalho. da humanização) do país e nos deixaram um legado que cabulário desconhecido no português original e que faz 69 .14) Doutora em Antropologia da Uel Elena Palavras chave: livro didático. tão grande era o tráfico negreiro. frente. as demand of Law 10. na bem como para atuar como cidadãos responsáveis e Os escravizados e seus descendentes contribuíram música. (MUNAN- cer em defesa das Diretrizes Curriculares Nacionais e pelo impedimento do progresso. pois a elite brasileira voamento do Brasil. permanência e festa mesmo diante da repressão e da negação que sofre de vida muito precárias. na arquitetura. E então decidir que sociedade queremos construir daqui para Formada em Ciências Sociais e Pós Gra­­ também como estão sendo trabalhados os conteúdos sobre a are being worked the contents on the Culture and African History du­­­a­da em Ensino de Sociologia na Uni. Mesmo com a aculturação A elaboração deste artigo busca analisar como. estas pessoas não tiveram a possi. valorização fazem parte das ações afirmativas voltadas A cultura negra possui raízes fortes no Brasil. bilidade de progredir e. used for the schools in 2º Degree and that the order of elaborado por vários autores a pedido do Governo do Estado the Government of the State of the Paraná was elaborated by some Para reeducar as relações étnico-raciais. Curitiba: SEED. (Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações versidade Estadual de Londrina. estão sendo trabalhados os conteúdos sobre A economia brasileira do período colonial (1500 .propostas pedagógicas O ENSINO DE SOCIOLOGIA E A LEI 10.639/03. o sucesso de uns tem o preço da marginalidade e da desigualdade impostas etnicorracial. Kabenguele Munanga afirma que: “No plano cultural. etc. das competências e dos conhecimentos tidos como tentou importar a cultura europeia. arquitetura. I will analyze as they a outros.639/03. law 10639/03. education the sociology.. contribuiu para a cultura nacional brasileira. (MUNANGA. esta grande população de africanos ficou religiosidade. ethnic-racial question. forme demanda da Lei 10. Uma mão de obra escravizada – sem remuneração–. lavouras de cana de açúcar. 2005. ram e preservaram as tradições e costumes.]. na dança. Analisarei in what it says respect to the black population. Cultura e História Africanas e Afro-Brasileiras. moderna marcou a população negra pela pauperização ordens: econômica.639/03: CULTURA AFRO-BRASILEIRA NO LIVRO DIDÁTICO RESUMO Pretendo neste artigo analisar o Livro Didático da disciplina de ABSTRACT I intend in this article to analyze the didactic book of disciplines of Sociologia utilizado pelas escolas estaduais no 2º Grau. no campo da religiosidade. 2006: p. inventar um Brasil (MUNANGA. que é presente na sociedade brasileira.639/03 escreve. que as políticas de reparações. de branco e ignorar a cultura africana. após canos na língua portuguesa do Brasil. além de desempenhar com qualificação para a produção cultural (que é simplesmente a marca No plano da língua. Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira artigo foi orientada pela Pro­f essora e Africana.21) e cultural da população negra no nosso país. no campo da negro no Brasil. no livro DA QUESTÃO imposta por parte dos colonizadores portugueses. conforme demanda and Afro-Brazilian. Elas devem oferecer a do ao tempo da escravização dos africanos. etc”. destacam-se notáveis contribuições condições para alcançar todos os requisitos tendo em da estrutura de dominação.word: didactic book. É preciso entender que BIASSI DE ALMEIDA livro o capítulo “A Escola Enquanto Instituição” e a questão book: “the school while institution” and the ethnic-racial question. pois. na arte visual.20) para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o dentro das cidades. consequentemente. já é possível apontar que a ordem capitalista de quem descendem os brasileiros de hoje. para a educação dos negros. algodão. 20) sucesso na educação escolar. 20) indispensáveis para continuidade nos estudos. 2006: p. na arte visual. é necessário fazer CRISÂNGELA do Paraná. de valorização do patri. e se mani.639/03 – norma que surgiu sa história.

Diz que as elites (ou dominan- tivas. consulta aos clássicos. 69) Na música e dança.(VÁRIOS AUTORES. que fazem tos alunos o livro didático acaba sendo o livro. tais materiais. estar voltados à ruptura com a ordem existente. a ceitos até os dias atuais.64) determinado patrimônio cultural e as classes traba- 70 71 . e as sociedades sem escolas? Explica-se no e negativização da cultura negra. o valor da ação acredito poder contribuir para a discussão de uma edu. que valoriza a normatizada pelo Estado brasileiro. irá conceber uma nova doutrina social como os tambores. que cumprem seu papel “As revoluções burguesas. 22) “Os conteúdos desenvolvidos foram escolhidos a partir disso. Em relação ao surgimento da escola no Ocidente. ou reforça aqueles que já trazemos de nossa Citando os sociólogos franceses. . como introdução ao tema e dão um encaminhamento XVII) e a francesa (séc. a herança cultural e os saberes necessários para percebido de forma crítica pela sociedade. Pierre Bourdieu bre o assunto nas bibliotecas. visto que muitos so. e de cultural brasileira”. -terreiro afro-brasileiras. e: boa qualidade. [. estadual do Estado do Paraná.”(VÁRIOS AUTORES. Os livros didáticos são produ. Depois de dados estes contextos. para ser um propriedade. Certamente muitos outros temas e O livro Sociologia foi produzido por vários autores. para haver igualdade é necessário mais do que um lugar porquê da escola não ser um lugar de pertencimento recurso pedagógico. “O livro didático acaba sendo o livro”. Mas tão logo os alunos percebem que classes existem diferenças culturais . a igualdade e a democracia. A burguesia. mas caracteriza também a educação uma educação para a diversidade: a disponibilização de dos elementos implícitos e explícitos que caracterizam. coco. ticas pedagógicas inclusivas não somente é uma forma ções culturais. inculcando precon. No que diz respeito à religiosidade. Além disso.. 2006: p. Na história do contato entre os europeus e africa. Por meio deste artigo. São raras. aulas minará liberalismo”. conteúdos poderiam estar presentes. 72). 23) e urgência. como a miséria. eles deixaram suas marcas nas figas de madei. deve-se dar bastante espaço para debates. fala que são três importantes valores que perpassam a quentemente das mentalidades. dando Acredito que a educação é um dos principais bem como a perspectiva do ensino de Sociologia devem os suicídios . a cuíca. respeito à população negra. bem como de sua qualidade. devem também ser considerados como em ascensão. A realidade histórica dos estudantes brasileiros teiras escolares. a escravização gerou um processo de invisibilidade 2006: p. conse.]. os crimes. há escassez de mesmos devem ser de boa qualidade. processo de construção. princípios do liberalismo. assim como na nossa. as sociedades tribais. e discutidos neste livro: a escola enquanto instituição 1596 – 1650) é considerado o fundador desta doutrina. ria segundo a qual no interior de uma sociedade de Vem daí a importância fundamental do livro di. os quais poderá ser contemplado em tra. como são identificadas pelos autores) possuem um uma biblioteca adequada. nos. Florestan (1978) destaca que o trabalho dos sociólogos ciedade. dos anos vividos”. um dos gêneros musicais populares mais professores da área. to inocente e neutro de transmissão desinteressada do INSTITUIÇÃO das pelas experiências e saberes acumulados ao longo vas existentes. direcionado ao ensino Em primeiro lugar. que não tem a forma da educação a igualdade. por sua relevância a pedido do governo estadual do Paraná. Decorre dessa realidade a importância desses Uma vez que são raras as escolas que possuem uma o livro responde assim: ram ao Brasil algumas de suas religiões populares. um recurso. material didático próprio para o ensino no segundo é apontado o surgimento da chamada “revolução cien- balhos futuros. E chega à conclusão de que “é cação que seja geradora de cidadania. das populações quilombolas ou das comunidades- recursos didáticos adequados. porque podemos nos sentar igualmente nas car.representantes de uma teo- ser os únicos acessíveis aos jovens nas escolas públicas. entre outros proce- jongo.enfim. sidades brasileiras? Por que os negros são a maioria manutenção do próprio grupo. porém como esse processo não é pobre do país? Para explicar que o papel da Sociologia dades. resultado concreto de disputas sociais Os autores do livro didático de Sociologia iniciam a No entanto. principalmente a inglesa (séc. as análises sobre os livros didáticos podem nos levar ciais falando sobre a instituição escolar. mas que. vamente o feudalismo e inaugurar um novo modo de Na arte. Como afirmei 2006: p. conhecimento social. Destaco a importância desses materiais. (VÁRIOS AUTORES. respeite e observe o repertório cultural da Portanto.11) e a questão étnico-racial. a liberdade. a conhecidos e que constitui uma das facetas da identida. rea. O contato entre as culturas dos é perguntado: Por que há poucos negros nas univer. pois para mui. pois ele muitas vezes é utilizado como principal também não deve ser esquecida. XVIII). que são: o individualismo.22) go foi produzido por vários autores. deve-se considerar a falta de al- como o candomblé. das Diretrizes Curriculares da disciplina. esclarecendo como acontecem as apropriações e a re. além ou uma nova ideologia para o capitalismo que se deno- 2006: p.. Visualizar as diferenças e articular prá. tes. os livros didáticos devem ser de produção – o capitalismo. informal”. o estudo ordem. bumba-meu-boi. construção sócio-histórica formada por intenções.21) publicações científicas dirigidas ao público em idade acima. vão encerrar definiti- 2006: p. o aumento do acervo de livros so. o racismo e a O LIVRO DIDÁTICO como disciplina é justamente nos ajudar nesse sentido: a sobrevivência e a convivência são transmitidos por discriminação se tornaram a maior herança do sistema a percebermos que fatos considerados naturais na so. Assim. nessas socie- ções e interlocuções. por exemplo. professores e alunos nas escolas. pedagógico eficiente. biblioteca adequada. ram discutidas em simpósios e encontros envolvendo dimentos pedagógicos. (VÁRIOS AUTORES. Vejo que já na introdução livro que nessas sociedades. (MUNANGA. educação é elemento fundamental de socialização e de negros e dos portugueses se deu por meio de apropria. o berimbau. isto é. umbanda e macumba. não pode ser considerado como elemen- A ESCOLA ENQUANTO as pessoas mais velhas eram especialmente valoriza- população negra e o relacione com as práticas educati. Pois esses recursos podem contextualização dos diversos textos participantes desse classe social e tenta nos fazer acreditar que somos todos e Jean-Claude Passeron . na escola começa as reações contrárias à ordem. mas uma maneira de promover relacionadas com decisões e ações curriculares. destacan. escolar. ternativas aos livros didáticos. introdução do Conteúdo Estruturante: Instituições So. O filósofo e matemático René Descartes (França. iguais. 2006: p. uma vez que há falta de alterna. “Essa instituição ensina-nos novos padrões de compor. Grau. São prazeroso para todos. por isso os chamadas questões disciplinares”. o enriquecimento. pois em questão. meio da educação informal. parte do patrimônio religioso brasileiro. a construção de material orientam e determinam as finalidades do livro didático. expositivas. O livro didático de sociologia analisado neste arti. os africanos lega. nos instrumentos musicais do 2º. Continuando sobre a educação informal. tamento. classe social ras. mente têm oportunidade de acessar um livro na esco. maculele. as escolas que possuem la. maracatu. O livro didático precisa ser entendido como uma educação dos tupinambás: a tradição. atenda e respeite lidades e decisões provenientes de diferentes indivíduos possível perceber que nessas sociedades existia um as diversidades e peculiaridades da população brasileira e contextos. 2006: p. e o valor do exemplo. é preciso considerar que uma “educação de respeito humano. não existe apenas Algumas ações são essenciais na construção de a compreender a produção desses materiais. propostas pedagógicas parte do falar brasileiro. a disciplina e o bom rendimento: entre os índios. (MUNANGA. 2006: p. professores da rede que precisa ser ampliado. o livro mecanismos de transformação da sociedade e.. são explicados os do-se o samba. grande respeito entre todos os membros do grupo. a dinâmica e a organização social sempre como exemplo. no que diz especificamente Mas. nos objetos de ferro. ou mesmo serem desenvolvidos pelos grau e irei analisar como dois eixos são apresentados tífica”. (MUNANGA. ao lado de tantos outros disponíveis. eles introduziram os congados.podem não ser tão naturais assim.. (MUNANGA. as quais fo.o livro discute o dático. escravocrata.

seus rituais. educação tem a ver com em alguns trechos no decorrer dos capítulos. 174. a presença do negro é notada enfim sistemas religiosos estruturados. raça pode ter uma conotação própria do campo das escolar do que para aqueles que têm que desaprender mos entender por que todos procuram uma instituição “Ser bandido. que tenha uma proposta semelhante à que defendem. trata-se de um con- uma cultura para aprender um novo jeito de pensar. da apenas para o desempenho e/ou a meritocracia é a (como realmente é). a religião pode ser um formidável cos que. das origens osas entre alunos de diferentes ascendências étnico. é colo- formação da riqueza econômica e social e da identi. indígenas História de seu próprio povo. características fisiológicas e biológicas comuns. religião. Vejo que. propostas pedagógicas lhadoras (ou dominadas. empunhar uma arma assassina.não ter voz na entanto. como são identificadas pe. mas falarei mais aten- aqueles que se importam com a justiça e com a igualda. linguagem. principalmen. e que no desenvolvem. a linhagem histórica resgatando as civilizações desde o negativas. são da sociedade entre senhores e escravos – podemos Antigo Egito. ao mesmo tempo. ser abusado. em melhores condições de enfrentar a vida. apud FILORAMI&PRANDI. apenas tocarei de leve nesta questão pois. ir para uma ceito utilizado para definir classes de animais que tem falar. e estes jovens necessitam quase que reiniciar a esta”. coletivamente. ou prisão-educandário. cana como parte da herança comum da humanidade uso tem um sentido social e político. que incluem pertence somente aos negros. mundos”. na visão de Freire. preconceito e discriminação do alunado negro. Paulo Freire. individualismo). ser espancado. tencialidades físicas especificas relativas a cada raça. pode. neste capítulo. a visibilidade da cultura de matriz afri. riza pelos conjuntos de símbolos sagrados. em sua teoria têm o dever de matricular e manter seus filhos menores tem. que diz respeito à e prejudicam seu aprendizado. dada a diversidade religiosa no Brasil percebemos que: alunos de outras ascendências étnicas. Significa não ter ouvidas suas insatisfações e grupo étnico ou sociedade. estudantes. enxergar o mundo. de intolerância. da libertação. ou seja. racismo. são um direito garantido pela Constituição conscientização. “A escola é uma instituição dade em que vive. No entanto. pregado. inserir-se nele e ainda para de lá saírem melhor do que quando entraram. – e esta divisão era a base e a consequência da divi. com mais medo. defendo que a uma grande distância para os negros efetivarem sua rados. contribuíram cada um de seu modo na educador progressista. mas princi. cada qual diverso um do outro. universais e Para ele. cado que os povos africanos escravizados trouxeram dade nacional”. pobres. 175) branco. projetar uma nova ordem social. pois ao receber uma educação envenenada sentido de uma ruptura com os valores criados e refor. quotidianamente é fruto de todos os segmentos étni. apesar das condições desiguais nas quais se cido no mundo todo. seria preciso fa. suas crenças. racial”. a maioria. herói e construtor de Ao focar nos trechos do livro didático onde é abor- alunos de ascendência negra. regida por normas estabelecidas por grupos externos Por isso. (MUNANGA. seleciona e privilegia. comparativamente ao do alunado sistema.(MATERIAL DIDÁTICO ALTERNATIVO. O Projeto de cons. povo entre povos. essa memória não ção. 77) escola tem papel fundamental na construção de sujei. e como a escola ignora estas diferenças a obrigação de oferecer escola e os pais ou responsáveis educação conscientizadora proposta por Paulo Freire negro nessa citação?) sócio-culturais. 2006: p. dando-lhe um outro significado. E estes são sempre negros. significa dizer que há grupos de pessoas que possuem Dentro do capítulo. com características e po- ser bem-sucedido. Ela pertence a todos. sujeitos da lei e ser usado nas escolas para possibilitar a construção de relacionado ao reconhecimento da diferença entre sidade. da qual é construído um cosmo sagrado” (BERGER pelos preconceitos. que defendem propostas educacionais que apontam no 2007: p. Estes defendem estímulos e refor. Esse -raciais. ao reconhecimento da condição. Paulo Freire deixou sua marca meu foco será principalmente a religião. suas gratuitas. para os jovens fi. valores. de educador comprometido com as classes oprimidas. sociais e outras. racismo aparece muitas vezes camuflado e estabelece ruptura. O NEGRO NO LIVRO DIDÁTICO grados formarão um sistema religioso. 1999: p. Mas ao mesmo tempo em que é um direito. Continente Africano. de social. a perda da guarda destes. foi pensado para que a criança e o história da população negra no Brasil e a complexa re- ciente de repetência e evasão escolar altamente elevado exclusão de todos aqueles que não estão inseridos no jovem negro se enxergassem como seres incluídos na lação entre raça. ou o que pesquisadores da sociedade. é que lhe permite criar seu próprio sistema de normas e superação das desigualdades e pela transformação da evidente que para os estudantes filhos das classes do. quando os autores conceituam raça: “Raça crenças também foram desprezadas. a escola representa uma Criança e do Adolescente). a aprendizagem sobre grupos humanos. No livro. o conceito minantes torna-se bem mais fácil alcançar o sucesso educação denominam hoje de “cultura escolar”. ser desem. extremo pode chegar ao fanatismo. ciências naturais. 175) “Não precisamos ser profetas para compreender que ou buscar uma profissão. seria o exemplo do Ao analisar o livro didático podemos perceber que a instrumento de dominação. cheirar cola. consigo também seus cultos. sua inserção cultural. çados pela sociedade capitalista (submissão. Interessa também aos No entanto. ancestrais e identidades próprias de cada um deles. às vezes. várias religiões são sucinta- muita luta de professores. críticos e em condições de lutar pela Já para Kabenguele Munanga: ou modelos de cultura.(VÁRIOS AUTORES. 04) A religião . dentro dessa lógica. etc . antes der mais nada. conhecimentos e preparo para prosseguir os estudos zer alguma coisa para tentar mudar esse quadro – mas (MUNANGA . somando-se ao conteúdo preconceituoso dos produtores de cultura e os que não eram nada disto uma identidade negra positiva. 72 73 . desestimulam o aluno negro entrever que o resultado de uma cultura escolar volta. sob pena de serem punidos até mesmo com mente o educando de sua posição social e mobilizá-lo maior número de negros e afrodescendentes depois do classes dominantes.) O resgate da memória coletiva e da his. É por isso que. talvez. competi. a tarefa de conscientizar critica. A quização”. ços de valores que podem contribuir para se fazer da o pensamento religioso. plena participação na vida social. 2006 : p. 2006:p. Numa sociedade marcada. levando também à hierar- los autores) possuem outras características culturais educação no Brasil é obrigatória. igual e capaz de ser protagonista.267) . ou seja. 22 e 24 do Estatuto da internamente para a luta pela transformação da socie. a sociedade. Já os movimentos negros e vários estudiosos lançam o preconceito incutido na cabeça do professor e sua historicamente. (VÁRIOS AUTORES. Ser oprimido. Além disso. as manifestações e os valores culturais das na escola. “Dependendo da maneira como é utilizado. sua própria “cara”. representante de uma pedagogia abordagem dada ao negro é falha e fraca e por isso.. pais e de todos palmente não ser respeitado em suas manifestações cul. No livro Sociologia. mas tória da comunidade negra não interessa apenas aos normal da escola. pela divisão cruel entre os que eram trução de um Material Didático Alternativo que possa mão do conceito. frio e origem em tronco comum. Conhe.se caracte- ras psíquicas afetadas. Nesse campo. Nacional. o uso do termo raça acaba classificando um tamente sobre as de origem africana. proibidas. e resultado de significa estar subjugado economicamente. ou pior. somado aos locais e rituais sa- tendo em vista que a cultura da qual nos alimentamos vida uma experiência diária de solidariedade e. mas que como O livro diz que as escolas públicas. incapacidade em lidar profissionalmente com a diver. No mente abordadas pelos autores. turais . reconhecidos como seres humanos. 2006: p. 140) (Cadê o diferentes. sem atribuir qualidades positivas ou livros e materiais didáticos e às relações preconceitu. eles também tiveram suas estrutu. (MUNANGA.valores. Seus valores e saberes são desprezados. como por essas pessoas foram tratadas como mercadorias. huma. o Estado tem propostas e não se considerar sujeito de sua história. são muitos: são. não exemplo. os autores afirmam que aqui o lhos da classe trabalhadora. igno. 2005: 16) Por onde passou. ou uma religião.“a religião é uma obra humana através te branca. (.. O que explica o coefi. Ainda que fossem uns poucos.(Art. uma conquista da sociedade. na esteira de Paulo Freire. Ao dizer que o Brasil é conhecido como o país com e prática. existem os educadores progressistas. aprender novos padrões Mas como a escola possui uma dinâmica interna tos autônomos. ter fome. enfim. ou quaisquer outros que sejam “diferentes” da “cara” nos entre humanos.

estudar questões relacionadas com a temática negra. PROGRAMA DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA candomblé dão proteção às pessoas. Defendo. de um sistema social vo.. Como básico para a conservação da memória. na escola. até as coletivas. Secretaria de Educação Continuada. apesar de uma identidade los africanos. Centro de Ciências da sentam as principais nações africanas de língua ioru. 2007. ed. ritos e mitos que leiras. mas de forma superficial e etnocêntrica. desmistificando os preconceitos que incidem e por seus descendentes. FERNANDES. Os guias assumem formas como o caboclo. 2º edição revisada. que estabeleceu a obrigatoriedade do ensino étnico. Os autores possuem um discurso simplista e con. de muitos países e que.143) na ausência da história do povo negro no Brasil. A característica vezes ocultam a ideologia que persiste ainda hoje em 1978. [. tos de elos com o Criador. 2006: p. propostas pedagógicas des espirituais – os guias. Marival.. divindades de Inquices e os povos Jêje as nomeavam culturais africanos com o catolicismo. sobre esses cultos. CONSE- tos associaram seus deuses a santos católicos. (Coleção Para Entender). ou sua cultura são os melhores. da identidade negras.38-51. [. ter certo cuidado com o fenômeno do “sincretismo” que simplesmente julgá-las a partir de nossa verdade etno. O Podemos perceber que o livro didático aborda a questão sejam desencorajados de prosseguir nos estudos e de universo para os umbandistas é habitado por entida. Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos. 2006: p. MUNANGA. buscando o respeito às populações negras. Brasília: Ministério continental. mas sim uma deração. acompanhadas de cantos e sons de atabaques.. um mecanismo de defesa e que Tanto a religiosidade negra como outras expressões gualdades raciais dentro da sociedade. por tenha mais informações sobre as práticas religiosas da Educação.. tanto na presença de personagens ne. Londrina: Idealiza sua descendência africana. REZENDE. da cultura e cionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais esta forma de religião foi proibida no Brasil. tadas pelo Estado ou com o seu apoio indireto.]. São Paulo: Global. étnico racial.]” (MUNANGA. 3. 2006 – processo de diálogo entre teologias. é uma simples magia. Como sabe. (MUNANGA. de que as diferenças raciais. 2. São estas colo. Educação.Universidade e XVII. Kabenguele. nos negro no Brasil de hoje.. DF. -racial. Secre- minam como elas devem agir e não as castigam caso “A religiosidade negra é rica e variada. apesar das “boas intenções”. Brasília. Nabuco e as de Manoel Bomfim: Elementos para legitimar os preconceitos e as avaliações pejorativas. não possui uma teologia desenvolvida. religiosas devem ser compreendidas como formas A palavra discriminar significa distinguir.139/140) ensino de história e cultura afro-brasileiras e africanas afro-brasileira: construindo novas histórias . 356p. Isto im. divulgar e LHO PLENO-DF.]”. os povos de língua bantu chamavam suas sileiras se formaram na fusão de diferentes elementos formista sobre as atitudes preconceituosas. os Orixás são as divindades apenas dos Segundo Munanga (2006).).UNIVERSIDADE SEM FRONTEIRAS. p. as religiões afro-bra. Sociologia. A UMBANDA plica criar condições para que os estudantes negros não sejam rejeitados em virtude da cor da sua pele ou VÁRIOS AUTORES. de estabelecimen. guidas pelos livros depois da aprovação da lei 10. 74 75 . Maria José de. Diretrizes Curriculares Nacio- que se conhece como sincretismo religioso. é suficiente. Cultura NANGA. Material Didático Alternati- Esta frase pode ser muito mal compreendida. e é frequen. O santos católicos. ainda hoje. desencadeada pelos africanos escravizados no Brasil para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira candomblé não é originário da África. – 266 p. 2005 – 204p. No Brasil os taria de Estado da Ciência. A Integração do Negro na So- povos Ioruba. Federal de Santa Catarina. v. culturais são o motivo do não desenvolvimento e pro. 181) BIBLIOGRAFIA a pomba-gira. A Sociologia no ensino médio.PR. E também é preciso não-cristãs. Florianópolis.. o preto velho e outros. que o livro didático gresso da nação. 180) . sileira. v. Tais julgamentos podem facilmente deslizar para livros didáticos. e de crenças europeias. Florestan. Alfabetização e Diversidade. étnicas e deixar claro que os africanos vinham de vários luga.. 2006: p. da discriminação racial e do gros com imagens deturpadas e estereotipadas quanto Os autores prosseguem dizendo que os deuses do racismo”. cultura afro-brasileiras como são defendidas pelas di. cultura e história. [. é preciso ter um cuidado extra e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO..] racista que possui mecanismos para produzir as desi. no interior da cultura. para que possamos compreendê-las e não “A forma institucional do racismo. E é isso que devemos mudar através do do século XIX e no início do século XX". com o que está além do que siderada como prática de racismo e de efetivação do compreender a situação do negro no Brasil no final costumamos considerar como mundo racional”. seus adep. de relações entre os santos e os deuses cultuados pe. que muitas ciedade de Classes. GOMES.639/03 sertação (Mestrado em Educação) . 2006. 1-2. a fim de respeitar os processos históricos de resistência negra nais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e Existem alguns equívocos nesta abordagem. se construiu ao longo de séculos. que deveriam ser se. portanto. Tecnologia e Ensino cometam algo considerado incorreto pela sociedade. nossos ancestrais africanos enriqueceram a nossa cul. A discriminação racial pode ser con. 2007. nas Diretrizes Curriculares Na. A umbanda aparece no livro como uma religião bra- CONSIDERAÇÕES FINAIS menosprezados pelo fato de seus antepassados terem 2006. os mais corretos e isso lhe O CANDOMBLÉ médiuns. São Paulo: Ática. mos que a religiosidade de matriz africana foi o recurso Petronilha (2005). dando a tura com diferentes expressões e formas de se relacionar revela a existência. desde as formas individuais e Africana. Esta informação é importante para politeísta do culto católico possibilitou a construção nossa sociedade. o campo do preconceito. quando na verdade foi um complexo principalmente quando falamos em religiões afro-brasi. tanto passíveis de serem mal interpretadas. Nilma Lino. derno Uniafro. implica práticas discriminatórias sistemáticas fomen- tende a ser reduzido a uma simples associação com os cêntrica. Kabenguele (org. segundo autores. resultado da fusão de duas religiões africanas: sido explorados no processo de escravização e que não a cabula e o candomblé. COAN . Programa de Pós-Graduação em Edu- bá. discernir.. preconceito. A percepção do preconceito racial em nosso país Superior/ SETI – PR.Ca- nas escolas. Suas cerimônias são realizadas em língua africana. Aqui também as explicações são mínimas e por. mas não deter. exemplo. [. rial didático e a categoria trabalho. “É preciso tomar cuidado com julgamentos. Universidade impressão ao professor e ao aluno de que o Candomblé com o mundo mágico e sobrenatural. entre os séculos XVI origens étnicas. por construídas. (MU. cação. 2006: p. os vários povos europeus. Estas práticas racistas manifestam-se. criando o quando buscamos fazer uma descrição e uma análise e Africana nos diz que é preciso valorizar. eram tão diversos entre si quanto são. que entram em comunica. Superando o Racismo res. O conduzir o aluno a uma atitude de respeito e consi. rençar. A umbanda se Os autores não abordam a temática da história e Os autores do livro didático escrevem que o candomblé propagou por todas as regiões do Brasil. o mate- é originário da África e chegou ao Brasil junto com tada por pessoas de todas as classes sociais e todas as retrizes curriculares específicas. Gráfica e Editora. Curitiba: SEED . MUNANGA. (MUNANGA. ízes africanas. sócio-antropológica de suas características. como Voduns. Seus deuses são chamados de Orixás e repre. "As reflexões de Joaquim cações que acabam. também. Dis- os primeiros escravos africanos. dife. Estadual de Londrina (UEL). 2005. “O etnocêntrico acredita que os seus valores e a ção com as pessoas por intermédio dos iniciados. construção ocorrida no Brasil a partir de múltiplas ra.

e em tras linguagens. No entanto. rica em neologismos. é preciso atentar-se para a riqueza artigos. 26 em eles. enseñanza de Literatura. 9). cuja Martins – poeta cabo-verdiano ¬– com as de Manuel § 1o O conteúdo programático a que se refere o caput vigência no Brasil teve no início em 2009. a crítica literária tem constante- passa a vigorar acrescida dos seguintes arts. em muito se asseme- e 79-B:Art. linguagem e temática. iniciar a abor- aula. 26-A. há rios podem ser abordados. Infanto-juvenil do curso de Pedagogia da Literatura brasileña. posibi- Claudia Vanessa de aula. literaturas africanas de lengua portuguesa. torna-se obrigatório o escolas públicas e privadas de todos os Estados brasilei. 77 . é possível destacar a presença da e médio. 79-A mente feito a aproximação dos textos do moçambicano e 79-B: lei federal 10. como por exemplo. Em relação à intertextualidade. nacional. Literatura cabo-verdiana. Exemplo pode ser dado com a Art. o que se observa. dagem a partir de um viés histórico. justificam por conta da sileira. § 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura especial aos de Literatura. muito tempo. negra brasileira e o negro na formação da sociedade Couto. de escritores africanos. com sua experimentação passa a vigorar acrescida dos seguintes arts. De acordo linguística. o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. 1o A Lei no 9. 8 anos A resposta para tais questionamentos ainda não depois da publicação da Lei. Literatura cabo-verdiana. COCHAR. sileiros pelas literaturas africanas de língua portuguesa linguagem de Mia Couto que. conforme se lê abaixo: Por outro lado. que. à Lei de Diretrizes e Bases da Edu.639. 151) enfatiza ainda que ela leva “à descoberta do ca- áreas social. a través de la lectura y poemas de autores angolanos e cabo-verdianos. Pretende-se. deve ser inserido somente a partir de uma perspectiva sino das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa histórica? INTRODUÇÃO em sala de aula. é que as Literaturas Afri. nar ao educando” o conhecimento da riqueza cultural oferece valiosas possibilidades. UNIFIL e de Literatura Brasileira do Ensi- no Médio do Colégio Londrinense. 9) sina. Alencar. de 20 de dezembro de 1996.propostas pedagógicas Literaturas africanas de Língua Portuguesa em sala de aula: uma possibilidade? RESUMO O presente estudo visa apresentar. p. 79-A tem aumentado muito nos últimos anos”.639. com os do escritor mineiro. deparamo-nos com a dificuldade de proporcio. plantear una discusión que africanas de Língua Portuguesa. 1o A Lei no 9. Cereja e Cochar (2009. oficiais e particulares. mas também outras moda- Artística e de Literatura e História Brasileiras (BRASIL. Nesse aspecto. pues. intertextualidade nas composições em verso de Ovídio ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira. Literatura Brasileira também pela UEL. A partir da reformulação da Lei n°9. cação Nacional (LDB) foram acrescidos os seguintes africana. 50) enfatiza que de língua portuguesa. 26-A. e mesmo do poeta português Luís de Camões. Letras da UEL e professora de Literatura Literatura brasileira. 26-A Nos estabelecimentos de ensino fundamental dade do ensino de cultura africana e afro-brasileira nas Além desse autor. p. a proposta visava à inserção do en. de 2003. de detalhes que os autores africanos oferecem com a lizam que “o interesse do público e de estudantes bra. a cultura ao Brasil. minho para a aula de literatura. No entanto. na de outras artes (pintura. teatro) o material que pode auxiliar na leitura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo é possível (e viável) inserir as literaturas africanas de do texto literário. suscitar uma discussão que valorize lidades de enfoque de las literaturas africanas de lengua portuguesa Bergamini o processo de estudo e de inserção em sala de aula das literaturas em sala de clase. como dispone la Ley Estadual de Londrina e especialista em Federal 10639 de enero de 2003. aborda as produções literárias brasileira lidades artísticas. Art.394.394. por meio da leitura e análise de RESUMEN Este estudo tiene por objetivo presentar. p. Encontramos em ou- do Brasil.394. ou seja.”. dezembro de 1996. em especial nas áreas de Educação língua portuguesa em uma grade curricular que. Como se nota. verifica-se que muitos caminhos tório o ensino de história e cultura africanas em sala de “em meio a tantos problemas relacionados à prática de podem ser seguidos. a luta dos negros no Brasil. tornou obriga. grande nome da Literatura Bra- Art. de 20 de dezembro de 1996. e a vinda constante. acredita-se que o de. safio está posto aos professores de um modo geral. resgatando a contribuição do povo negro nas p. ou ainda. não somente textos literá- o currículo escolar. 2009. Palabras-clave: Literatura angolana. como dispõe a Lei Federal 10639 valore el proceso de estúdio y de inserción en sala de clase de las Formada em Letras pela Universidade de janeiro de 2003. de aula do país. Machado (2010. poeta angolano. a publicação Bandeira. de 20 de ensino. de modo a ampliar o conhecimento 2003). esculturas. ou seja. Mia nos versos de Antonio Jacinto. Luandino” (CEREJA. econômica e política pertinentes à História Embora os autores divirjam. A questão é: de que modo cinema. El objetivo es. de 9 de janeiro de 2003. por sua vez. pode ser definitiva. as marcas da influência de José de deste artigo incluirá o estudo da História da África e de várias obras de autores africanos. ros. e portuguesa? E ainda: o estudo das literaturas africanas cultural do aluno no que se refere à cultura africana. ensino de Literatura. dos Africanos. Aluna do Programa de Pós-Graduação em Palavras chave: Literatura angolana. os motivos para o aumento desse interesse se lha a Guimarães Rosa. ao se considerar que há re- canas Lusófonas ainda não são uma realidade nas salas sistência para o efetivo ensino das literaturas africanas A Lei n° 10. que estabeleceu a obrigatorie. como Pepetela. Cavalcante (2003. assim. possibilidades de análisis de poemas de poetas de Angola (Viriato da Cruz y Antonio abordagem das literaturas africanas de língua portuguesa em sala Jacinto) y de Cabo Verde (Jorge Barbosa y Ovídio Martins).

observa-se que ela “também reflete a influência movimentos de que participaram. teraturas angolana e brasileira nascem sob o mesmo in- escritores europeus. a geração de jornalistas-escrito. 10). miséria. os ‘claridosos’. mas também o papel da literatura nacional para o povo da literatura africana de língua portuguesa. 286). 15). Do panorama literário cultural e que o “intelectual nativo deve lutar contra as do poeta cabo-verdiano. destacando elementos da formação da literatura partir das normas temáticas eurocêntricas. pode ser destacado. cuja poesia se preocupa em revelar “as situações com movimento “Vamos descobrir Angola”. p. cunho político-cultural que incitava os jovens a des- zador. as secas. poeta angolano. de Queiroz e de Marques Rebelo” (FONSECA. algumas vezes. seus dialetos ou mesmo outras línguas. a partir de 1936. fortalecendo as relações entre literatura e em artigo publicado em 1978. ‘Antievasão’. e a idiossincrasia do homem isleno e reafirmar Cabo Sérgio Paulo Adolfo (S/D. tomando Nesse contexto. p. O primeiro deles se refere à sua prática como pro- autor fale em relação à América. o presente artigo cabo-verdianos. romance cujo enredo “incor. na literatura que se formou nos que versa sobre o mundo que rodeia o homem cabo. seja pelo isolamento da ilha ram a primeira fase do Modernismo no Brasil. porém. 2010. p. do e seus efeitos devastadores” (FONSECA. 2000. serão destacadas. problematizar para quem a literatura era uma forma de resistência processo embrionário da literatura brasileira passou Fonseca (2010. está inserido Jorge Barbosa. quanto os angolanos iniciaram. elencados por POEMAS DE AUTORES PRÓXIMAS E DISTANTES Embora importante para a configuração de um Fonseca (2010. Este em especial era contrário ao evasio. XIX. Bonnici (2000. fessora de Literatura nos níveis médio e superior. pois é preciso con. com o lançamento da revista Verde como região única (CARVALHO. Vão além. conhecer profundamente o mundo angola. romper com o tradicionalismo cultural imposto pelo Sabe-se que os países colonizados tiveram sua cultura foram combatidos pela geração posterior. que antecede ao movimento. cultural cessária para se conseguir a “descolonização da cultura” a oferecer ao leitor parte dessa cultura. e refletir sobre a “função da Diante das reflexões aqui tecidas. sobretudo ao aluno mais os laços do poder conquistador”. CI. pois ao contexto dos países africanos de língua portuguesa. Assim. estes. mesmo caminho foi seguido pelos escritores de países “olhos fixos nos clássicos europeus”. possam expressar a subjetividade dos sujeitos que as finais deste estudo. os ideais que sustenta- de textos.” pois embora se mencione aqui as literaturas de língua de José Lins do Rego. posteriormente. da parte Ovídio Martins. -la. Antes de iniciar a análise. nos quais a intertextualidade se faz presente. pois como se sabe. suas gentes e seus problemas. canônicos ou políticos”. ta Claridade. teiras da história. elaboram. de modo que e seu clima inóspito. “falar. 3). e ‘Namoro’. africanas de língua portuguesa. Jubiabá e Mar Morto. p. cujo intuito era Papel este que é a alavanca para o entendimen- de Antonio Jacinto. Na plantaram os alicerces da nova poesia cabo-verdiana. consequentemente. torno de Luanda e das localidades próximas” (CHAVES posições poéticas. no período pós-colonização. 1922 e as discussões em torno da nacionalidade exer- ção da literatura brasileira e na formação das literaturas (SANTIAGO. “Vamos descobrir Angola”. identificar as semelhanças na forma. Tais características podem ser visualizadas no poema fluxo histórico: a dominação colonial portuguesa. p. p. Cenário que mu. Da mesma forma. cada país lusófono tem suas especificidades Amado. p. literários e deixando para trás a poesia que se fazia a XX. mostrar a intimidade. de Jorge Em relação à formação da literatura angolana. p. pelo diálogo constante com a literatura europeia e o cabo-verdianos terem. fase do modernismo: Menino de Engenho e Banguê. política e cultural à opressão em que viviam” (CEREJA. 2000. escrever contra” país. nos mentiras colonialistas no continente inteiro” (BONNI- angolano Viriato da Cruz. Silviano Santiago. de que diariamente se defronta o cabo-verdiano: a fome. Jacinto. A nova geração conseguiu ir além e trazer para as Ao observar este movimento. pois abordam os recursos emas mencionados. acredita-se que tanto os poetas cabo- portuguesa. que destaca o fato de os poetas e indagar a vida nas ilhas. p. Eis o momento de iniciar um discurso características a influência da tradição da oralidade. pora marcas do momento em que o desenvolvimento africanas de língua portuguesa que excedam as fron- Num segundo momento. ou melhor dizer. visto que Cabo Verde só se tornou independente cobrir Angola em seus diferentes aspectos. res. 2000. de antecedentes e precursores de caráter social. p. da qual fez colonialismo. 2010. 19). de Raquel contexto em que se inserem Viriato da Cruz e Antonio -verdianos. cultura precisa. a falta de esperança no dia de amanhã. a epopeia COCHAR. ser exposta aos alunos de modo ram. Assim. padrões ocorre de modo letárgico. debruçar-se sobre Angola e sua cultura. a literatura ocidental dentro da perspectiva imperialista. entende-se que essa primeira foram feitas considerações acerca dos autores trazendo a realidade que cercava a ilha para os textos precursores da literatura angolana situam-se no séc. e romances de Graciliano Ramos. o primeiro construído pelos portugueses. EM SALA DE AULA modificada por conta da influência. um mote de siderar a realidade da sociedade dependente do coloni. s/d. uma discussão ne- as quais muitas vezes estão presentes nas composições. propostas pedagógicas Desse modo. países do continente africano. seguem as considerações tação que pudesse indicar algo diferente dos critérios 1999 apud FONSECA. faz-se necessário comparti- para o fato de reinar. Soma-se a essas (BONNICI. embora o -verdiano. Em problemática que a envolve. o elemento híbrido e. a ruptura com esses O nome do movimento que se inicia em 1948. é na verdade. diferindo o país de outros Moderna e. não se pode deixar ao abordar em sala de aula poemas de autores africanos Esse elemento híbrido é entendido como as marcas do composições literárias a identidade cabo-verdiana e a de comentar as semelhanças dele com a Semana de Arte lusófonos como possibilidade de trabalho com crianças 78 79 . seja pela constituição histórica do “as propostas estéticas do Modernismo brasileiro de do ensino médio. como referência os poemas: ‘Carta de um contratado’. 26). Segredo da Morta (1935). 2010 p. além de dou. escrever. dentro dos na linguagem. 1978. denunciar a dramática exis. mas aqueles que são considerados pela crítica os cultura negra. tomaram como modelo os autores Claridade. atentar para as aspirações imposição da cultura do colonizador. para entrar em consonância com a lei e aos movimentos literários dos quais eles participa. 02) assinala que “as li- africanos de língua portuguesa. autor de O aqui já mencionada. Jorge Barbosa. como nomeou Fonse. a esses objetivos do movimento outros. principalmente os romances neo-realistas da segunda ‘Antievasão’ de Ovídio Martins. É o caso de Antonio de Assis Júnior. que também colaborou na revis. AFRICANOS LUSÓFONOS: DO BRASIL novo cenário. já chamava a atenção nismo dos claridosos. p. foi realizada a análise dos po. dividiu-se o estudo em três etapas. 26). 14) destaca que essa escrita di. 2009. já que é possível que o professor permita. UMA RIQUEZA CULTURAL ca (2010) os poetas da geração da revista Claridade). tência das populações. momento em que a “literatura brasileira. entende-se que a partir da abordagem colonizador na produção cultural do colonizado. empreendermos estudos comparativos entre as duas. 13). significa: falar contra. de modo que a literatura e a história poéticos abordados. de modo a enfatizar os aspectos à “manutenção da ordem e as restrições impostas pela mexendo no cotidiano daquelas populações fixadas em estilísticos. a destacar quais traços culturais a diferenciava de outros to de que um povo colonizado necessita de libertação Ovídio Martins. qual se configura como identidade cultural em África. Por fim. ceram forte influência sobre os escritores angolanos. bramento e uma descoberta instigante para os autores e estético” (FONSECA. sociológicos e culturais presentes nas com- que podem auxiliar o aluno à compreensão dos textos potência imperial não permitiam qualquer manifes. essas marcas aparecem para “estreitar países africanos lusófonos. por conta do lirismo intimista sociedade. recionada pelos valores eurocêntricos estava atrelada sócio-econômico provoca fortes mudanças culturais. no de que eles faziam parte mas que não figurara nos lhar os motivos que levaram a pesquisadora a elaborá- países colonizados. p. determinante histórico tem relevância suficiente para Ainda é possível aludir aos aspectos da oralidade. que. 2). Somam-se ANGOLA E CABO VERDE: de Portugal em 1975. que estes possam ter uma compreensão das literaturas dos países a que pertencem os autores selecionados. estende-se a reflexão que o cerca. Este brasileiros. 2010 p. 14). Os participantes da geração da revista Claridade anos 80 do séc. poeta Viriato da Cruz e Antonio Jacinto fizeram parte do colonizado” (BONNICI. ‘Você: Brasil’. mas não aponta soluções para os problemas conteúdos escolares aos quais tiveram acesso. o As ideias de Santiago se confirmam no estudo de ções posteriores à Claridade representar. populares. poeta cabo-verdiano. visa a discutir as possibilidades de abordagem de textos contra o colonizador. Nota-se que era comum aos participantes das gera. 37) e o nativo precisa ratificar que há uma Para tanto. e a poesia de Manuel Bandeira foram um alum. 6).

lógicos. eu-lírico. à fé cristã. modo a despir-se de qualquer preconceito religioso. seguiram trabalhando visível a incorporação de aspectos culturais orientais refere-se ao fruto do maboqueiro. Além de recorrer a ela. está presente. a dominância cristã. vale-se de um modelo de literatura portuguesa 1. tada do mesmo modo que a casca do maboque é difícil sem em um baile. de onde se extrai óleo e paina para amada com presentes comuns às mulheres do Ociden. carta à amada. mas mesmo assim ela não o aceita como cussão que se pode suscitar para legitimar a atitude do romântico. da dança. palavra 1856. por meio da rumba. Edgar do Xavier. Nota-se como a fé do colonizador aqui se a jovem. houve./ Seus seios. dos quais. pueril. iniciação. simulacro que se quer mais e mais de onde foram extraídos os poemas aqui analisados. espécie de ‘arrumadeira que passavam por lá. países lusófonos africanos. Ade. como nos quais o amor e a natureza estejam presentes. em sua poesia. por que a ‘força’ do judô e não a leveza do ‘ballet’. cos. aqui mencionar obras brasileiras em que se tem essa Intimamente ligadas ao quotidiano das populações. propostas pedagógicas dos Ensinos Fundamental I e II. Mas esse recurso também América. la. sobretudo na disciplina de Literatura Infanto. logo a partir sabe. com a abolição da escravatura em Angola. por sua mente curto. Na cultura angolana. embora seu problema. ele virou um mono-gamba. à medida que se lê. Entende-se então que o encontro do eu-lírico com não sejam “cópia. eu-lírico se concretiza com a dança. mas com múltiplos sentidos. Antonio Jacinto dita-se que levar poemas para a sala de aula é uma pos. recorre à Santa para a América. Tais exemplos servem para reforçar a ideia Viriato da Cruz não oculta. como também uma metáfora para questão. a rejeição. no soneto poema ‘Namoro’. para que ela lance um no emprego desses recursos que elementos históricos. tampouco se deseja adotar uma postura preconceituosa quanto ao cristianismo. efetivamente. possibilita-se que o aluno se angolana (Zefa do Sete) como às santas católicas. nesse caso. é ‘Carta de um contratado’.lírico recorre à quimbanda. cuja casca é dura. domblé à Iansã. em geral. em entrevista à jornalista Juliane Rettich brincando/ de artista nas acácias floridas” ou em: “sua visualizados. anel. Acre. Nessa estrofe. ceu quando foi barrada a saída de navios negreiros à eurocêntricos. minoso tão quente e gaiato/ como o sol de Novembro comuns às culturas brasileira e angolana podem ser bora em uma primeira leitura o poema se apresente ma Lima. A linguagem alta. com versos polimétricos e bran. É o caso de ‘O Pagador de Promessas’. observa-se que rém. recorrendo a recursos tecno. além da própria dis. querendo resolver africano aproxima as pessoas. a mostrar que o poeta co- ligioso. o eu-lírico se Do mesmo modo. gentes. traço carac. podem-se extrair signi- (maio/2006). pois o quimbundo é uma língua falada em Angola. em dense ou europeu tende a ser rejeitado. aguardando a saída dos navios a ‘voz’ do subjugado. do modelo original que copia e permite que seus versos 2. artísticos e culturais podem ser abordados.” feitiço. revela que o ritmo musical semelhante ao original” (SANTIAGO. como se ilustrar o relacionamento entre culturas. quis o destino que os dois se encontras. de pronto. drama no qual se tem a personagem Zé do Bur. cujo conteúdo confirma as duas possibilidades de Santa Bárbara. como colar. homens angolanos que iam trabalhar nas minas de dia- se só o segundo pudesse ser digno de ser praticado. Jacinto consegue fugir de aula. a herança religiosa africana será ficados mais profundos dos recursos empregados pelo os estereótipos ou essa leitura preconceituosa que se jambo/cheirando a rosas/ sua pele macia guardava as valorizada. a fim de conquistá-la. já revela a influência do colonizador na formação O título ‘Namoro’ sugere duas interpretações: na. acredita-se que essa seja doçuras do corpo rijo/ tão rijo e tão doce . num segundo momento. Em para compor seus versos. eram jovens ‘pisando em ovos’ ao se mente poética compara a beleza da moça aos elementos d’ Água’. do angolano Viriato da Cruz2. da cor do Na quinta estrofe. depare em um único poema com um texto razoavel. o que não é estaduni. Na primeira estrofe do poema. como se vê em: “um sorrir lu. E. terístico de países colonizados. ritmo que se ba. também do quimbondo. -juvenil. Os homens. o continente americano por meio dos escravos. como escravos. o aluno conheça a diversidade da linguagem de Ango. de nascimento. querer mais que bem querer”. o vocabulário. Já sibilidade única que não pode ser menosprezada. ao som de uma rumba e no meio ‘Amor é fogo que arde sem se ver’. Assim. recorre tanto à mulher típica da cultura dança e a música são associadas aos ritos de fertilidade. 80 81 . infelizmente.. Desiludido. Universidade Estadual de Londrina (2011/2012) gerou vale dos conhecimentos ocidentais para escrever uma plícito o sincretismo religioso em seus romances ‘Ca- interesse dos alunos das segundas e terceiras séries. Essa medida aconte- ainda estão enraizados na cultura brasileira os ideais em países quentes. Nor. tampouco as rejeita. ou africanos à cultura brasileira. típica fi. elementos deixadas pelo colonizador. culiaridade e força capazes de induzir. uma condição sine qua non para a inserção do estudo maboque. ro sendo proibida pelo padre de pagar uma promessa à do Século XV.como o uma feiticeira ou curandeira. o também do quimbundo que pode ser traduzida por an. nomeadamente ao Brasil onde o samba ainda Em relação ao Ensino Médio. por isso. vida e morte. acolchoamento. moro seria tanto o namoro em seu sentido denotativo.laranjas do Loje. broche. da natureza africana. observa-se que o conte- dora sobre um determinado esporte. te. a sua influência a outras terras e outras dominação. de namoros’. visto que procurar a quimbanda faz parte de údo do poema nos conduz a um pseudo-romantismo que uma criança optou por praticar judô e não ballet. a partir dele. as palavras do quimbundo permitem que e que no fundo o que se tem é uma forte crítica social. Ademais. evoca estas origens e justifica o paralelismo melódico de Mia Couto como leitura obrigatória ao vestibular da Na primeira estrofe e na segunda. tureza remetem aos poemas e a trechos de romances gem está no quimbundo. de Antonio Jacinto. ele chegou até dores. a inserção do livro interpretação para o título. É exatamente tem da África” e. estão disponíveis os livros Ifigênia e à Senhora do Cabo. Ao final do estudo. marca de intertextualidade com Camões. destacam-se as palavras como: sumaúma. torna-se derações que surgiram a partir de situações vivenciadas em sala gura da sociedade angolana. Nota-se que o desejo do escreveu: “deste mais que bem querer que sinto”. no site do Consulado Geral da Repú- va às religiões africanas1. cartão: “Mandei-lhe um cartão/que o amigo Maninho o quarto é o mais forte. românticos. o eu-lírico decide presentear a remunerados e não escravizados. blica de Angola: vez. Pode-se religiosa do país. O poema está Gomes. mantes da África do Sul com a falsa ideia de que seriam O aprendizado que se pode extrair da situação é que se refere a uma árvore nativa da África. O título do poema faz referência aos contratados. embora seja Outra palavra é maboque. p. de ser retirada. o que se via. pois se o Brasil é um país com pre. Nota-se que eu-lírico. é possível aqui oferecer ao aluno uma comparação a sua crença. referindo-se. mais. sobretudo do Romantismo. destaca que se preocupa em “minimizar pele macia – era sumaúma/ Sua pele macia. uma ticos formais e histórico-culturais do texto. a religião e a língua são as principais formas de dividido em 9 estrofes. Referência esta que. das literaturas de língua portuguesa produzidas nos As comparações da beleza da moça com a na. nas referências. de que o poema é denso e. o relacionamento. Porém. cuja ori. 1978. é compacta. Deseja-se somente compartilhar consi- O desespero o faz procurar Zefa do Sete. Nesse sentido. num contexto em namorado e lhe dá um não como resposta.. Chama-se atenção aqui para linguísticos. inicia-se a análise do dizer que a moça é perfumada. existente. o sincretismo religioso. E como a mistura às atitudes do eu-lírico que. Nota-se que. Não se deseja aqui promover qualquer discussão de cunho re- mais ela disse que não. que além de outras línguas e dialetos. Camões iniciou o segundo quarteto com: “É um não o gênero permite que sejam discutidos recursos estilís. ela disse que sim. sendo com densa significação. já que o eu . Imediatamente a mãe da garota foi questionada sobre partir de outros poemas. 16). Angola chegou por meio dos escravos moçambicanos nhece o saber acadêmico (escrita) e. laranjas . pois quimbanda é uma palavra. o eu-lírico tipografa seu sofrimento em um seia em quatro tempos em cada compasso. mas comum Já quase sem forças. pitães de Areia’ e ‘A morte e a morte de Quincas Berro A partir da análise do poema. e difícil de ser conquis. linguagem dos poemas. mas o feitiço falha. Em- A especialista em Literatura cabo-verdiana. encontra-se uma Tecidas tais considerações. também de um poeta angolano. pois Na terceira estrofe. porque esta foi feita no terreiro de can. fruto é odorífico e ácido. falhou. Embora os dicionários expli. isso se deve ao fato de o cristianis. De tom O outro motivo foi a indagação feita à pesquisa. as marcas depararem com a problemática trazida pelo romance. O segundo poema. de Dias música e a dança de Angola enriqueceram-se em pe- mo ser a religião imposta pelo colonizador e. o eu-lírico quer darilho. embora o poeta critique os coloniza- tipografou:/ ‘Por ti sofre o meu coração’” e uma vez quem que o ritmo é originário de Cuba. ministrada para o curso de Pedagogia. a fim de conquistar a amada. no entanto. Conforme destaca que a primeira reação do grupo foi a referência negati. Po. Jorge Amado deixa muito ex.

uma cultura e uma literatura que já nada tinham a ra. do país. no poema de Ovídio equivale à fuga da re. com uma identidade pró. tem-se no título o prefixo (1978). formaram-se a partir da miscigenação. infelizmente trazidos como escravos. domínio de Portugal. ainda assim. mas não foge da intertextualidade com o autor para amada. mas Dessa forma. com o rei. Um tempo depois. pois Cabo uma nação ou identificar-se com outra nação sem ser mostra o sofrimento que sente ao se lembrar dos mo. como identidade? O que faz um homem sentir-se parte de terceira. somos postos em comparação desvencilhar-se dele. poema que se configura como o ponto de iden. A Pasárgada de Bandeira. alienação. tificação do eu-lírico com o povo brasileiro. fazer é retirar qualquer sentimento de superioridade As possibilidades de abordagem deste poema em dando forma a uma nova raça. 2010. vie- CONSIDERAÇÕES FINAIS e revestir o aluno de entendimento para que receba os sala de aula podem partir da intertextualidade. o poema não vem só acentuar as pro. como se o natureza inóspita do Nordeste brasileiro. à corrida rumo a um ra produzida em países colonizados. 2007). além da afinidade entre os Antonio Jacinto se mostra um antirromântico e se para descrever a beleza da mulher. a mostrar que é possível ficar doces como mel. ele compara dominação deixadas por estes já são suficientes para vimos de modelo aos países africanos de língua portu- continuidade desse pensamento. uma vez que as marcas da mesmos traços culturais. brasileira’ (BERGAMINI. seja pela influência lugar que não seja a realidade em que ele está inserido. Não mostra os problemas. 84). ser terra livre da a sua? Por que brasileiros e africanos compartilham dos mentos que passou junto com sua amada. mistura de povos. prefere ficar ali e lutar. ver com as portuguesas (OLIVEIRA. percebe-se a descrição da mu. lugar de regalias. Jacinto usa sempre elementos da natu. Daí a Os dois países tiveram sua história feita a partir da Daí se iniciam as proximidades com os países afri- crítica de Jacinto. falam a língua brasileira’ do povo estão presentes nos versos de ‘Você: “somos um povo habituado à prática de convivência em que Angola impediu a partida de navios negreiros e do colonizador. E conclui. portuguesa e a necessidade de que sejam abordados na história de muitos africanos se repete. mas não fugirá. Somos um povo crioulo” (SANTILLI começou a enviar os contratados às minas de diamante. por muitos anos. do poeta ca. cujos sentimentos são como fez José de Alencar na descrição de Iracema. tra um ser preparado para o que surgir. que buscam ser ou- uma discussão acerca de elementos históricos e sociais forte. p. justamente por. ou do Ovídio se insere na realidade cabo-verdiana. Alencar também descreveu Iracema com lábios que ele apontava os problemas sem propor solução. árvore de onde se extrai uma tinta lhor que deixar a ilha. como se não pudesse seu país ao Brasil. cabelos negros como as asas da graúna ‘Antievasão’ vem denunciar a vida difícil das ilhas que e buscar uma nova realidade. elevam-se as dife. embora com contextos diferentes. Nesse poema. dos recursos do colonizador. o eu-lírico se Santiago (1978). ram os africanos. adolescente. No Brasil. que ainda estavam sob o contratado’. O poema de era visto pelos países africanos. em Cabo Verde. Assim. trazem indícios de que na história. suplicar. Por serem as questões preciosas à formação do que foi expresso anteriormente fosse tudo parte de um Nos versos de Jorge Barbosa. cultura e conhecem os problemas de outros lher como a índia Iracema. 84). amizades deu o processo de formação da cultura brasileira. guesa e. to forte entre as duas realidades com tantas afinidades a partir de um processo de colonização. possuem um povo terno e alegre. negros e brancos criar receitas para a sala de aula. não textos são ricos. seu desprendimento com a língua. literários? Por que ser- reticências no verso final de cada estrofe demonstra a bo-verdiano. países que. seja por conta brasileiros. Considerando que Ovídio fez oposição a Jorge nação livre e independente. E essas vozes. apud SILVA et all. lutar e modificar a também reforça as proximidades ideológicas. sociais. sobreviveu! E assim. índios. imposição do colonizador. valorizando a ‘língua compreender e passar a mensagem aos alunos de que É preciso destacar que durante o século XIX. e o sorriso mais doce que a jati. bem como promover sendo sua cultura quase sufocada pela do branco. quarta e quinta estrofes. alidade. Assim. ritmo híbrido. vermelha usada em rituais femininos de puberdade. na pele e no sangue de tantos brasileiros a escravidão e da inserção da escola em Angola. desven. cor escura. e destaca as dificuldades de se viver ocultar a cultura de um povo. Desejou-se discutir a vidas. Segundo anti. À medida que o poeta cabo-verdiano compreen. construir essa oposição. pria. textos como ‘vozes’ de muitos que. Nos versos: “dos teus lábios o eu-lírico deste poema. por conta disso. o poeta se vale da natureza nha que matar. ainda que te. 2011). mas porque são ses (colonizadores) ou até mesmo de autores brasileiros. que não lhe ofere- virgem dos lábios de mel. propostas pedagógicas A ideia de seguir a Europa como modelo para a Tomando a composição do poeta cabo-verdiano produção de literatura é discutida por Silviano Santiago Ovídio Martins. como a própria questão da deram origem ao que podemos chamar hoje de ‘nação viabilidade dos textos de literatura africana de língua e cultural. não havia escola para as crianças e jovens negros. nutridos pelo ódio do colonizador. outro poeta cabo-verdiano. seja dos próprios portugue. tilham da mesma realidade brasileira: foram formados dilôa/dos teus olhos doces como macongue/dos teus eu-lírico em gritar que não deseja fugir. quando o eu-lírico cabo-verdiano e propror não fugir. porém. bem como a relação de identidade dos Como sentiam a necessidade de ser livres como os no poema de Jorge Barbosa? Essas questões são impor- O poeta faz sua crítica na última estrofe. e suas imagens do cotidiano e a des. realidade é enfrentá-la e transformá-la. Daí o tom irônico de ‘Carta de um Nesse caso. dilôa. há “uma ligação mui. é enfrentar tinha oposto e que se tinha revoltado contra o jugo colo. escola. aos quais era veta. Portugal. é preciso pela moça. como muitos fizeram. para se referir aos cabelos. pois me. seja por conta do sofrimento causado pela ‘irmão mais velho’ elementos para a construção de uma muitas discussões sejam levantadas. Brasil’. a realizações. da mesma forma para Manuel Bandeira. realidade. Pasárgada é o lugar de prazeres. cultural. Não para se fazer cumprir a lei. dando os recursos da linguagem. o primeiro movimento que se deve já que este imagina ser o poema uma história de amor. ‘Antievasão’. Jorge Barbosa permite a reflexão sobre: o que é Todo o lirismo do poema pode ser verificado na dá a solução para eles: expor a intimidade do homem ximidades linguísticas. não serve para conseguiu deixar de lado os elementos que permitem história. como já mencionado anteriormente. O Brasil. já independente de apresenta como o colonizado. geográficas e literárias. encontraram na literatura produzida pelo tantes para a formação dos estudantes e permitem que o analfabetismo dos contratados. antes de se iniciar a abordagem das lite- pensamento. um devaneio para expor os sentimentos renças da natureza e das grandes cidades brasileiras e. seja pelo aniquilamento da cultura primitiva Antes. lugar de ter belas mulheres. nos quais os alunos se deparam com Na segunda estrofe. Ovídio Martins é contrário à Pasárgada de Bandei- gue. o eu-lírico deseja pedir. 82 83 . portugueses) e índios convivendo. o elemento híbrido impera na literatu. a os problemas e juntos buscar a sobrevivência. como os brasileiros. Assim. Ainda se nota no poema de Jacinto a mistura nota-se que o emprego do Futuro do Presente já mos- de traços de outros autores. e macon. época porque os dois são frutos da colonização. Jorge Barbosa. brancos (sobretudo. e ainda que se valha quimbondo takula. O uso das Por fim. como um irmão mais velho que se cultural de que Angola é formada. seios duros como maboque”. tivemos canos. na vida social que perpassam o poema. da língua. o qual remete a contrário. literatura que fugisse dos ideais eurocêntricos. Verde deseja ser livre como o Brasil. tem-se o poema ‘Você: Brasil’. Viriato da Cruz brinca com o hibridismo reza como o maboque (já comentado). apresenta como contrário à fuga. Oswald de Andrade e raturas africanas lusófonas em sala de aula. que vem quebrar a expectativa do leitor. ao relatar cabo-verdianos com o povo brasileiro. cria-se a comparação entre os dois países. é na rumba. a tacula. Portanto. Mas As considerações aqui tecidas não têm por objetivo merecem ser ouvidos. fruto de sabor doce para caracterizar os lábios da Barbosa. enquanto geográficas e ambientais”. nial e que agora procurava construir um percurso como que o namoro acontece. compar- vermelhos como tacula/dos teus cabelos negros como Os versos livres e curtos mostram a urgência do Para Oliveira (2010 p. Conclui-se que melhor que fugir da ceu oportunidades. compõem Cabo Verde. Manuel Bandeira. crição do Recife de sua infância. do o acesso à leitura e à escrita. que brasileiros e cabo-verdianos sejam um só povo. com a diferença. intelectuais e escritores.

02. Thereza Cochar Maga.639/03.639/03. Disponível em: http:// www.usp. Disponível In educational area is noticed the need for actions that aims ap- pucminas. Procuramos pensar estas duas políticas.eventos. política da comunidade negra e de estudantes da Universidade em 20 de dezembro de 2010.br/ojs/ publicado em 20 de janeiro de 2011. Arte e Ciência. sistema de cotas e a Lei 10.com/lit0208.jornal. 2003. 2000. Efeitos psicossociais do racismo. 07. E viva a miscigenação. William Roberto. -brasileira no Paraná (Londrina e Jacarezinho). Portanto. Érica. transformando a Estadual de Londrina. SILVA. 2011. Viriato Clemente da.edu. 2009. nica dos alunos de pós-graduação. Alexandre Gomes da. (PR). Moema. Perugi. Luís Filipe da Sousa Martins Torres de. p.639. 1. Artigo de Opinião. tura.php/navegacoes/article/viewFile/7192/5190 de Alencar BONNICI. Museu de Antropologia. Moreira. 2010. v. Mestrado em Teoria da Literatura.639. Poemas.org/index. 2007. Literatura Portuguesa: em Maria Aparecida Santilli e o Prof. Uma que lhe permitam o acesso e estimulem sua valorização e reco- “insubmissos”). CRIOU. Luana (org. S/D.Laboratório de Cultura planalto.br/ccivil_03/Leis/2003/L10.pucrs. Silviano. Silviano. Palavras chave: Educação antirracista. Claudia Vanessa. Canoas: Editora da Ulbra. cuja orientação cas.com/2007/10/20/antonio. racism against Black people in- FONSECA. Disponível em: http:// emid=55. o objetivo deste ensaio é problematizar o Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Débora Leite. Ed. DAVID. The principle of justice translates into the concessions for a reactionary elite. estudos com. Na África e Afro-brasileiras: vetores de uma Rebeldia e Sensualidade no Suplemento Cultural SANTIAGO. língua portuguesa.fflch.unisuam. In: SANTIAGO. de Mia Couto.san. thus the way it is happening in Londrina africopoetica. Panorama das literaturas africanas de XAVIER. nível em: http://revistaseletronicas. 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visto que estes indi- PARA UMA UEL DO POVO1 Guerreiro Ramos. 2009. 4. universidades públicas podem ser entendidas com um co se preocupou com medidas políticas objetivas para ceito.7% de Este cenário propositivo que se instaura no país é reivindicavam correções contra as inúmeras formas de não-negras(os) e em 2008. Pedro Henrique Andrade diz que: Em 6 de setembro de 1878.174). a partir dessas políticas educacionais -negras(os) e no ensino superior. 1957.comitepaz. as diferenças são social antirracista. para promo. tos negros dependia da disponibilidade de professores”. das séries iniciais até o Estado brasileiro que resultaram em projetos políticos dade e de acesso à escolaridade desconsidera o fosso da ensino superior. problematizar estas questões relacionadas à inclusão. O comprometimento orientadas pelos princípios da justiça social são “um vezes.(BRASIL.031-A que “estabelecia que os negros só pode.gov. vereiro de 2010. ciais estimula não somente a relutância do Estado em ver justiça social à população negra brasileira. ção negra na educação tiveram suas primeiras expressões Em 2009 foram publicados os resultados de pes- que possam traduzir em formas ajustadas às tradições em meados do século XIX.6% de aumento. Este au- em 15 de janeiro de 2009. não ter acesso aos saberes escolares. práticas educativas que se pretendem iguais para to. pulação negra era livre. legitimou as práticas apontaram que no Brasil os cerceamentos aos acessos MOS. em diferentes espaços. acessado porcentagem subiu para 90% da população total (HASENBALG. em 1945 também ressaltava a impor. o ponto de partida para a construção de ações edu- objetivas para a desconstrução dos resultados das de. dos compromissos assumidos pelo Estado brasileiro na dão3. institutos de pesquisas indicam um quadro de desigual- racismo: a educação.) Isto porque o discurso universal da igual. e ainda não se aplicam. estrutura social excludente e discriminatória”. é pos. na África do Sul.7% de negras(os) 14.1% de negras(os) ainda que de modo incipiente. integrativos de capilaridade social capazes de dar fun. As práticas de promoção da igualdade racial no Brasil ção e o reconhecimento da população negra brasileira admitidos escravos. 26. algumas ações estão sendo en. no ensino superior. pela mesma instituição. promover uma realidade ma. criminações Correlatas2. 2005. já na década de 1930. Em 2008. (ANDRADE.org. registrou nos muros do DCE a cias Sociais. Ministério do Planejamento. nos cursos ser ouvidas e respondidas pelo poder institucional. Um ano antes da abolição (1887) essa uma margem de 21. p. Xenofobia e Dis. alguns anos antes do fim oficial da de não-negras(os)6. a resistência em pensar as cotas ra- gendradas.] a inclusão de homens de cor nas listas de candida. educacionais e sociais ainda permanecem para as(os) POLÍTICA DE COTAS: possibilidades para que alunas(os) negras(os) frequentas. 4) escravidão. Isto significa que havia um contingente significativo em Durban. gras(os) e não-negras(os) acadêmicas(os) apresentou contra o Racismo. inspirou o subtítulo de nosso ensaio. Aprovado dos “avanços” ao longo de 10 anos. 2005. “estabelecia que nas escolas públicas do país não seriam 2008. as demandas como parte integrante na dinâmica da mobilidade so. como movimentos pró-abolição. No Brasil. que Partindo da premissa de que a educação pode ser e 31.) -negras(os). Assim. Quando os indicativos são estratégias objetivas para suprimir as desigualdades saúde. Estudos e Estudantes (DCE/UEL). que aconteceu no ano de 2001 as(os) não-negras(os). Fonte: http://www. de “instalarem-se na sociedade brasileira mecanismos transformar quanto criar e recriar mecanismos poten. foram criadas impossibilidades legais para sas Coordenação de População e Indicadores Sociais. disponível 5. Orçamento e Gestão .5%. p. o decreto de lei número 1. da população negra brasileira. especificamente especificamente no ensino superior. amparados pelo Estado bra. p.165) discriminatórias em decretos de lei que engendraram im. dades em relação ao povo negro.uel. 1957. pré-vestibulares.br/. p.mec. 184 – 200) 86 87 .6% de não- menos quatrocentos anos.Instituto 1. alguns projetos 2005. Em relação à distribuição de estudantes de 18 a não fazem parte de um debate recente. elementos sobre a trajetória percorrida pelas deman. trabalho. O sociólogo Alberto damentais uma vez que.( GOMES. riam estudar no período noturno”5. desde essa época. assume um caráter de ordem discriminatória é de cada uma das nações envolvidas era elaborar ações conjunto de ações políticas dirigidas à correção de de. (BRASIL. a fim de desenvolver a Os meios utilizados para não contemplar a popula.. considerada base do desenvolvimento humano. As no ano de 1945. em serviços domésticos. p. por INTRODUÇÃO organizações não governamentais. Acesso em 23 de agosto de 2010. sigualdades raciais e sociais”. E para essas Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. lema que tiva na Universidade Estadual de Londrina em 2009. o fosso da desigualdade racial prevalece.86. no I Congresso do Negro Brasileiro. Ao O objetivo deste ensaio é. quisas realizadas em 2008 pelo IBGE. Rio de Janeiro.331 cativos pautam-se na comparação dos dados de 1998 e tância de medidas objetivas para promover a valoriza. o ambiente escolar pode ser abrir canais de acesso. que pou.) No Brasil. do século XIX. que a quantidade de ne­ esfera internacional a partir da III Conferência Mundial era muito pequena. As Políticas de Ação Afirma. Nos institucional. pois segundo o censo de 1872. propostas pedagógicas com a participação de representantes dos Estados e de As políticas de ação afirmativa com recorte de raça Assim. 74% da po. na arquitetura. uma elite racista que naturaliza a discriminação con- sobre o racismo como estrutural na realidade brasileira. maiores: em 1998 eram 2. (RA. 24 anos nos cursos pré-vestibular e superior (incluin- políticas de mulheres e homens negras(os) contra o cial. tanto do ponto de vista tagens e marginalizações criadas e mantidas por uma instrumento para contemplar as demandas educacio- inserir a população negra em sua estrutura social. e a previsão de instrução para adul. quando fazem parte da população negra brasileira. cujos dados nacionais as reivindicações das massas de cor. repensar a estrutura educacional que. os indicativos sociais apresentados por direcionados a uma questão central quando se trata do [. portanto. p.3% resultado das demandas internas da população negra e violência que a população negra sofria desde a escravi. dentre outras. cializadores do racismo e da discriminação. as cotas em O Brasil é um país de herança escravocrata. entretanto. por conseguinte. últimos anos. a quantidade de negras e negros escravizadas(os) Nota-se neste estudo. entre outras medidas. A reivindicação por políticas reparatórias para a popu.htm. mulheres e homens. 28. em 1950. p. em 17 de fevereiro de 1854. pois “as tra negras(os) brasileiras(os) e silencia suas vozes. Desta for. 2. No bojo instrumentos de transformação. 2008. Discriminação Racial. o movimento negro tinha clareza as mulheres e homens da sociedade. Embora os dados demonstrem determina- ABRINDO POSSIBILIDADES Abdias Nascimento.2% de negras(os) e 9. “tratamento diferenciado com vistas a corrigir desvan. racismo e discriminação. suas vozes passaram a lação negra iniciada com Abdias do Nascimento. nais da população negra. políticos de intervenção estavam sendo pensados como No campo educacional estas medidas são fun.0% de negras(os) e 3. Esta conferência contou 3. em todas as áreas da sociedade. tos de agremiações partidárias.8% de não-negras(os). pré-vestibulares. A este respeito. negras(os).br/cne/ Acesso 2 em fe. educacional. desigualdade social e principalmente racial. quanto das relações sócio-culturais. permanência e continuidade no sistema educacional das de negras(os) e os compromissos assumidos pelo ser imperativo na ordem social: 2001. quanto à problemática do racismo brasileiro. Disponível em: http://portal. (p. Ciências Humanas da Universidade Estadual de Londrina. Uma Análise das Condições de Vida da População Brasileira.2% de não- respostas vieram com a discussão e incorporação de apresentou propostas de políticas de ações afirmativas sível apreender. apontar alguns ção e posição aos elementos da massa de cor” ( RA. a partir de políticas afirmativas. ao passo que para 2. 4. 7.br/Durban_1. que os acessos ao campo educacional e 60.7% de negras(os) algumas iniciativas políticas cuja finalidade é propor para a população negra. a margem foi de 28.7. mas também a permanência de destas ações é fundamental apontar que este processo Guerreiro Ramos (1915-1981) defendia a necessidade considerado como um espaço social que pode tanto uma estrutura enraizada em privilégios e interesses de fomentou uma série de debates. sigualdades motivadas por qualquer forma de precon. Neste período da história. a fim de proporcionar um cacionais antirracistas. companheiro de Alberto sem e se mantivessem nos bancos escolares4.12. Pesquisas: Informação Demográfica e Socioeconômica. declarava dos acabam sendo as mais discriminatórias”. para todas referentes ao acesso de jovens com mais de 25 anos raciais e. uma intervenção no Diretório Central dos parte das reflexões realizadas na pesquisa de mestrado em Ciên. Mas nos últimos dez anos. número seguinte inscrição: “Cotas sim! Por uma UEL do povo!”. Neste contexto. 2. sileiro que. O Coletivo Pró-Cotas: diversidade e permanência na UEL rea..3% de não-negras(os). no artesanato. em pequenos comércios. não se aplicavam. foi aprovado o decreto de lei do mestrado e doutorado) tem-se em 1998 nos cursos racismo se inscrevem na sociedade nacional há pelo número 7. em: www. nos 6.7% de negras(os) e 5.1964). na qual. Diretoria de Pesqui- lizou em abril de 2011. Este texto foi publicado no VII SEPECH (Seminário de Pesquisas da população negra atuando em diversas áreas como na litera- em Ciências Humanas) promovido pelo Departamento de Letras e tura. Mais adiante. MOS. sua capacidade política e formar líderes esclarecidos.

639/2003. primeiro provier de família de alta renda e tiver cursado lítica vitalícia. pois podemos vislumbrar uma instituição de ensino discriminam e cerceiam qualquer possibilidade de in- constitucionalidades. brancas(os) e à luta por um ensino básico de qualidade. cas arruinadas. se pretende ficados como negros. Sobre leção ocorre entre os pares. portanto. com os quais se defronta a nação. de família de baixa renda e tiver cursado escolas públi. que torna obrigatório no Ensino Fundamental LEAFRO – Laboratório de Cultura e Estudos Afro-bra- federais e estaduais. de aprendizagem tanto da população negra quanto da História e Cultura Afro-Brasileiras e Africanas a serem O cotidiano escolar é pensado como um espaço em 7. Segundo José Jorge de Carvalho – colabora. Após a III Conferência Mundial em Durban. é fundamental Na atualidade. A Lei visa tornar obrigatória a contemplação de des. de 1979. ora acentuam desigualdades prévias ou produzem novas da cidade para efetivar esta política e alguns anos de. 3/2004. ainda permanece sob os efeitos discursivos da demo- de acesso não cria privilégios.geledes. tendo em vista que a se. UEL (SETI-PR) de 2009 a 2010.uel. política desmascara o discurso arcaico da democracia proporcionam a um candidato definido como negro a Em 2011. A equipe é composta por pro- Racial em 2006. 8-15) Sob a perspectiva de igualdade de oportunida. cerca de 64 universidades.639/03 DA TEORIA psíquico em crianças e jovens negras(os).html definida como Coletivo Pró-Cotas: Diversidade e Perma. (CAVALLEIRO. nas falas dos alunos um rico material de análise as cotas para negras(os) em universidades públicas e o trário. superior mais negra. as cotas raciais não contribuem para isso. 10.br/projetos/leafro). nem criar privilégios ou novos tipos de desi. as cêntrico idealizado como padrão. grupo é resgatar as discussões desenvolvidas em 2004. Nos relatos extraídos compreendemos os programa ProUni8. desigualdades: “As cotas raciais exclusivas. o importante é ressaltar que esta cadas. de seus antepassados mas devem responsabilizar-se vido o geógrafo Demétrio Magnoli a ler o que escrevi sobre o negro que busca colocar na agenda de discussões a estrutura do racis- moral e politicamente pela reprodução das ações discri. à im. ver em entrevista: Kabengele: “Con. que um candidato definido como branco. mas sim das as cotas no Ensino Superior. mesmo se o cotas não foram pensadas na perspectiva de uma po. nência na UEL9. Para mais informações ver em http://coletivo. Inserida na mesma proposta do princípio de justiça que a Lei e seus desdobramentos partiremos de um relato dor na elaboração dos parâmetros do sistema de cotas te na esfera das desigualdades de classes. dade Estadual de Londrina.com. Fonte: http://mariafro. as esta política no processo seletivo. mesmo no universo menor dos jovens que têm a opor. Segundo Franz Fanon. intervenções pela cidade de Lon. Uma das preocupações do sionar o cumprimento das Diretrizes. contendo cerca de 300 assinaturas. culo escolar. potencializando o racismo e o sofrimento desconstruir os privilégios de uma elite conservadora pop-up/integra_manifesto_contra_cotas. pois as questões relacionadas à discriminação discriminação no cotidiano escolar. As ações são 8. escolar. denunciam gualdades entre negras(os) e brancas(os) nas práticas atividades propostos pela Lei. Na contra mão deste manifesto. entre assimetrias entre a população de cor negra e a de cor 10. que se processam formas complexas de (re)construção em 2009. com implicações nos processos Educação das Relações Étnico-Raciais e o Ensino de o caminho a ser traçado. pela reserva de vagas passa pelo mesmo processo de dade e a valorização desses conhecimentos no espaço drina e Jacarezinho)10. coletividades e instituições. há o discurso utilizado pelos anti. pelo LEAFRO com o corpo docente da rede municipal meios de comunicação em 2006 que objetivava levar ao contra o povo negro. entre outras. DE EXPERIÊNCIA promover a capacitação de professoras e professores clinação. e estadual de ensino de Londrina e Jacarezinho.adur-rj. pois a(o) aluna(o) que tem acesso à academia Afro-Brasileiras e Africanas para promover a visibili. Ora por uma pers.639. o Conse. Segundo os autores: gualdades. cotas raciais nas Universidades Federais de Santa Maria e São opressores de ontem não devem ser julgados pelos atos “a instituição escolar é vista como um espaço em que Carlos. estudantes universitários e membros drina. 10. que institui as Diretrizes Curriculares para a limites e possibilidades de atuação e fundamentalmente racista e democrática. as cotas raciais possibilitam que as(os) jovens colégios particulares de excelência e o segundo provier nada à igualdade de oportunidades entre negras(os) e outras matrizes culturais e suas contribuições ao currí- negras(os) oriundos de escola pública sejam contem. A Lei 10. mo que afeta indivíduos. ainda que incipiente mas significativa. No fim. Esta expressão foi utilizada pelo cientista Demétrio Magnoli população branca. orientar e promo- para promover a igualdade de oportunidades a partir ocultam uma realidade trágica e desviam as atenções ços de discussão sobre a reserva de vagas na Universi. Fonte http:// Em Londrina. contra as(os) negras(os) não se colocam exclusivamen. avaliação pela via universal. propostas pedagógicas mento deve ser analisado a partir das mudanças sócio. na mídia. te processo de rupturas das amarras pedagógicas que por uma perspectiva de “tribunais raciais”7 ou de in.org. Para problematizar superior. 9. da comunidade externa organizaram uma ação política da Universidade. no âmbito de sua jurisdição.blogspot.639/03 pretende ser um caminho para tribuir com a valorização da cultura negra em espaços tica com o argumento da inconstitucionalidade. O objetivo da iniciativa era con- -cotistas que descaracterizam a objetividade desta polí. perce- Ministro da Justiça um texto “argumentativo” contra Não é objetivo fomentar a discriminação ao con. À PRÁTICA: UMA ANÁLISE De acordo com o parecer da Lei. da História e Cultura Afro-brasileira no Paraná (Lon- Por outro lado. do racismo no Brasil. Educadoras(es) e todos os membros da escola para a população negra brasileira. para caracterizar o processo de seleção para Os Condenados da Terra. p. lho Nacional de Educação aprovou o Parecer CNE/CP e intervenção. procotasuel. os descendentes dos das identidades de crianças e da juventude negra. Nas ações desenvolvidas Anti-Racistas Contra as Leis Raciais” divulgado pelos as desigualdades cristalizadas a mais de quatro séculos educacionais cotidianas. graduandos de www. 2005. em sua obra executadas pelos estabelecimentos de ensino de dife.br/wordpress/?p=1398 . como apli. 2005. na UnB (Universidade de Brasília).br/artigos-sobre-cotas/confira-a-integra-do. Este projeto é vinculado ao Departamento de Ciências Sociais no Brasil”. Apresentadas como maneira de reduzir as desigualda. (http://www. foi elaborado o Manifesto em minatórias que mantêm a população negra à margem orientadas por uma série de atividades. lam um descompasso entre o dito e a realidade his.com/ (www. 88 89 . assumiram as políticas de ação branca. ser considerados atores sociais des- pectiva de mudança e igualdade de oportunidades. Percebe-se que os argumentos apresentados reve. mas apenas ve grande mobilização da população afrodescendente podem. sim. o sistema concede um privilégio vo denunciar a fragilidade da sociedade brasileira. bemos. ensino. Outro descompasso é referente ao processo de e Médio a inclusão de saberes sobre História e Cultura sileiros: diálogos para o reconhecimento e a valorização afirmativa com recorte racial. E. p.org. seleção. cabendo aos sistemas de -políticas ocorridas tanto no debate. a nação brasileira assiste uma in. mas fundamentalmente tem como objeti- plados da mesma forma que as(os) jovens brancas(os). esta política será avaliada e haverá uma olhares capazes de ultrapassar os limites do viés euro- racial e traz no seu bojo a problematização da existência oportunidade de ingresso por menor número de pontos votação para decidir se continua ou não. Acerca deste assunto. tentativa de trazer a comunidade externa para a realidade fissionais das áreas de Psicologia e Sociologia. que Contudo. contudo. pois. branca que monopoliza os bancos acadêmicos. mas sim como ação provisória direcio. como subsidio para discutir as práticas do racismo e da plementação desta política nas instituições de ensino tórica. Nesse momento hou. Diante da publicação da Lei n. mas sim promover uma educação antir. com as(os) estudantes da UEL. isto é. como debates internos da UEL e financiado pelo Programa Universidade Sem Fronteira/ Favor da Lei de Cotas e ao Estatuto da Promoção da Igualdade da dinâmica social. Ciências Sociais e Letras sob a coordenação das Ciências Sociais -manifesto-a-favor-das-cotas. É fundamental destacar o trabalho desenvolvido pelo Coletivo. terpretar o mundo a partir de outros olhares. dos desafios imensos e das urgências. em caráter provisório. privilegiados como a escola por meio de conteúdos e estes discursos destaca-se manifesto dos “113 Cidadãos “produzem novas desigualdades”.br/5com/ cracia racial. de agosto de 2010 e teve como objetivo ampliar os espa. sociais e educa. quanto nas ações des sociais.htm) LEI 10. (BRASIL. mas sim. é importante ressaltar que este instrumento para candidatos de classe média arbitrariamente classi. as cotas não a transformação a partir do reconhecimento das desi. a cota cionais. quando a Universidade aprovou. Este coletivo foi consolidado no dia 12 rentes níveis e modalidades. De fato. mento fundamental no debate sobre ação afirmativa tunidade de almejar o ensino superior de qualidade. cotas raciais não promovem a igualdade. mas. foi aprovada em 2003 a Lei das experiências do trabalho desenvolvido pelo projeto da UNB – em 2009. ver a formação de professores e professoras e supervi- de 2001.19-20.) racial em universidades públicas passou a ser um ele. E por fim.

são interesses econômicos ora como coadjuvantes. não é mais possível tolerar o racismo e a dis- educação não desenvolvem ações pedagógicas para a negras(os). nos naturalização destes episódios. Ao apresentar o de um país escravocrata que delega um lugar simbólico vos. p.15) do livro “Menina bonita do laço de fita”. também. le. processo de formação continuada trouxe possibilidades Nesta perspectiva. é possível dão muitos privilégios. econômica e cultural da população negra As falas de algumas destas mulheres e homens tribuição dos indivíduos em diferentes posições na es- a importância e a riqueza que ela traz à nossa cultura nos períodos da escravidão e pós-escravidão até os dias atuais. de modo ser mais”. em suas alunas(os) negras(os) uma ressignificação do ser negro. 2002. quais os significados para estas(es) educadoras(es) da na história do Brasil. GOMES. Mas. além de trabalharmos mecanismos para ins. e a discriminação são percebidos não há nenhum tipo discriminação estão presentes no seu cotidiano escolar de ação afirmativa são taxadas de protecionistas. e principalmente reconhecer que o racismo e a em jogo. Mesmo em situação de pobre. Na ausência de um olhar atento para cussões em sala de aula e na escola de maneira geral. conforme pertençam ou estejam mais e à nossa identidade nacional. 71) Por outro lado. praticam a política de avestruz ou sentem pena dos no Norte do Paraná. interpeladas(os) pelas ausências de referencias positi. etc. ora res- e preconceitos raciais. como as professoras e os profes. “o negro tem preconceito contra a O racismo permeia as relações no Brasil. A manutenção deste status quo. brasileiras(os) se resume à escravidão. em mostrar que a diversidade de ação afirmativa para o povo negro. com atividades em sala de senvolviam de modo diferente nos espaços onde havia elaborado das seguintes maneiras: “Ser negro é ter que aula e dramatização do livro. p. 20) “coitadinhos”. “aqui no Brasil. Para o público participante. priorizando a situação educacional. meta é premiar a incompetência negra. humanidade em geral. metodológicos e sensibilidade para saber como agir. pois segundo Maria Aparecida Bento (BENTO. que durante a pós-escravidão geral. Para a população branca conservadora. exteriorizam e demonstram que os caminhos rumo à trutura de classe.630/03. quando o racismo racial). valores. devem dar graças discurso. a presença de professoras(es) negras(os) pois. de maneira geral. cujos jogos de poder pautados nas ideologias Nas sociedades de classes multirraciais e racistas como situações flagrantes de discriminação no espaço escolar eugenistas não fizeram parte da formação destas(es) o Brasil. No imaginário da maioria das professoras e pro. e de seus derivados na sociedade brasileira”. acarreta em intenso sofrimento psíquico. ora trazendo elementos novos. se identificando como atores sociais no proces. não compensar. Estes cursos consistem em quatro encontros mensais. de fome. (. Os silenciamentos não significam apenas o não. de gênero. política e econômica. é o que se pensarmos o Brasil com o corte racial. Por essa razão. a raça exerce funções simbólicas (valorativas 7. política. estudamos entre os grupos humanos. uma herança simbólica e concreta extremamente posi. próximos dos padrões raciais de classe/raça dominante. eles se inscrevem nas relações de poder como mercados materiais ou simbólicos não são direitos. aí eles querem”. herança -brasileiros na escola. políticas públicas As(os) alunas(os) que sentem o racismo e suas -dito. relações sociais e a vida. mantidos. “. p. por falta de preparo ou por pre. Como indicou Bento. em vez de uma atitude responsável que disso. não sabem lançar mão das negra. já fessores a realidade sócio-histórica das(os) negras(os) é uma construção social. (MU. por um lado. ressaltamos a importância uma de coitadinho”. a Deus. no entanto. cujas e na sala como momento pedagógico privilegiado para questões problematizadas partem de reflexões sobre a realidade profissionais. p. A categoria racial possibilita a dis- discutir a diversidade e conscientizar seus alunos sobre sócio-histórica. mas no professor alguém com quem possam compartilhar aquilo que é apagado e excluído. de outro grupo.. mas em uma elite dominante branca e uma maioria domi- as contribuições das literaturas africana e afro-brasileira para fator de complementaridade e de enriquecimento da se tocar um tambor. p. pois nos permitiu questionar LEIRO.(CAVAL. ora como protagonistas. por parte de algumas professoras e professores em com. etc. dar consistiria. para além das ações pedagógicas. 2002. Nos cursos de formação continuada realizados em za. propostas pedagógicas aprendemos e compartilhamos não só conteúdos e sa. nada negra. e por outro lado. cuja especificamente sobre a realidade sócio-histórica do de intervenção.. Possibilitou às(aos) ou não. mas. foi possível perceber a sensibilidade o que não é pouca coisa. isso. procura. 201011. trato os meus alunos neguinhos como gente. fomentando sentimentos de não-pertencimento. não das. para apontar alguns exemplos.estão. criminação. preender a necessidade de desenvolver objetivamente quer discutir. as(os) colegas. ao contrário. mas sim.. Este silêncio e cegueira permitem truímos cotidianamente com aqueles que participaram acabou por sobressair a insistente negação do racismo obrigatoriedade de discutir conteúdos e assuntos que não prestar contas.) Na verdade. “eu não sou ra. Como povo negro brasileiro. 2005. que para ela os resultados foram extremamente positi. discutimos os processos de desenvolvimento das políticas do negro é por que ele mesmo gosta de se vitimar. com sérias consequên­ conteúdos dos materiais didáticos. de classe e de idade”. pode ser consi. tiva. Além te. políticas compensatórias ou saberes e modos hegemônicos de entender o mundo. Há benefícios concretos e simbólicos disseminadas. tidiano. 90 91 . um todo alguns desafios. Como diz Souza. capoeira. crenças. E por fim. dimensões do privilégio. Todo este processo detrimento de sua própria natureza humana. um “os alunos não querem nada mesmo com o ensino. assim pensar-se-á que sim favores das elites brancas. por exemplo. mas sem que esta premissa seja anunciada no 12. nos mostra Denise Jodelet (1989).. Na maioria dos casos. vocês negros. menta a continuidade da lógica escravocrata.. direcionadas àqueles que foram excluídos de nossos consequências práticas no cotidiano não percebem 2005).27) CONSIDERAÇÕES FINAIS estas experiências. o que implica na interiorização e estes silenciamentos se configuram. em ajudar o cista não. traziam suas experiências e debatiam junto com beres escolares. o legado da de desconstrução de saberes arraigados e a construção sores deste espaço – que é um espaço de poder . as(os) profissionais da gitimando um espaço de privilégios que não é o das(os) realizou. não indenizar os do desenvolvimento das ações. universo que traz informações sobre a história e a situ- Grande parte das professoras e professores não des raciais no ambiente escolar12. pois os brancos saíram da escravidão com professoras(es) negras(os) se reconhecerem em um so de desconstrução do racismo e da discriminação? algumas ações capazes de problematizar as desigualda. “o preto é pobre porque não se esforça”. Esta camada da população teve durante a escravi. portanto. Não podemos nos esquecer que o racismo valorização do ser negro e dos saberes africanos e afro. para que não se repitam frases como “o problema (SOUZA. é interessante trazer à tona o legado da escravidão. da população conceitos neles introjetados. o negro é símbolo de miséria. a população negra na sociedade. muitas vezes NANGA. 1983.. As relações simbólicas encontradas em torno orgulho e dignidade os atributos de sua diferença. o também de ressignificação dos mesmos. calcada trumentalização da mesma em sala de aula. há um módulo que especifica estes elementos à população negra educação antirracista devem ser repensados diariamen.. uma professora que desenvolveu um trabalho a partir Um dado importante é que as intervenções se de. supostamente não existem no universo deles (a questão negros: no final das contas. na ausência de dis. pois faltam muitas vezes instrumentos e em diferentes espaços sociais. pois fo- não constitui um fator de superioridade e inferioridade da Lei 10.1) A escola. A partir destes elementos e com o desenvolvimen- cias psicossociais. escravidão para o branco é um assunto que o país não de novos modos de ver o mundo. algumas questões podem ser problematiza. 2005. o branco tem o privilégio simbólico da brancura. e ainda são. e estratificadoras).. fruto da apropriação do trabalho de quatro séculos ação da população negra para além daquelas que estão percebem os atos de racismo presentes no cotidiano As falas e silenciamentos podem ser compreen. A este respeito Eliane Cavalleiro constatou didos como um instrumento para pensar e repensar em se evitar caracterizar o lugar ocupado pelo branco A riqueza do trabalho esteve nas relações que cons- que “do diálogo com esses profissionais (da escola).. porque na Itália o branco atravessa a rua se do ‘ser negro’ acabam por estabelecer um lugar para bretudo quando esta foi negativamente introjetada em também um projeto de trabalho com a história e significados da passar um preto”. Como o relato de um grupo de professores que organizaram aluno discriminado para que ele possa assumir com uma semana cultural com o tema “Africanidades” e perceberam viu”. so. período da pós-abolição há um vazio histórico sobre as de inferioridade a população negra. escolar. alguns professores.( para ver como as crianças e as(os) jovens negras(os) são paldando a fala da equipe.” (BENTO. própria raça”. to do trabalho de formação que o projeto LEAFRO A discussão racial precisa estar em pauta em nosso co- o racismo e a discriminação. hábitos perceber em alguns momentos a falta de sensibilidade foram. Evitar focalizar o branco é evitar discutir as diferentes O trabalho do LEAFRO permitiu ao grupo como derada um espaço de reprodução de preconceitos mas vas.

Anais.gov. 2005. como um grupo do qual é pre. In: Educação anti-racista: caminhos uma referencia negativa. 1-14. Maio. não muda preconceitos enraizados. RJ: Vozes. Eliane negras reflexões A lei em si. discussões e abrem HASENBALG. BENTO.61-62) e todas são falas de Disponível em: <http://portal. Disponível em: http://www. tais políticas de ação afirmativa visam provo. 2002. 2002. Souza ( SOUZA. a qual não é possível atingir. incômodos. Nilma Lino. – Brasília: Ministério da educação. 92 . 2008. 2001. p. (SOUZA. _________. CAVALLEIRO. 2005 nômica e social deste país. 33-44) GOMES.639/03 se inserem na militância pela ressignificação _________. (org). Políticas de Ação Afir- mativa na Universidade Estadual de Londrina.”.639/03. educação continuada. 1 Simpósio Internacional do Ado- lescente. proceedings. Rio de Janeiro: rem em ampla escala. a ou ressignificação cultural? In: 25ª Reunião Anual escola. sando nossa escola. p.br/scielo.. Discriminação ra- As construções sociais levam as(os) negras(os) cial e pluralismo nas escolas públicas da cidade brasileiras(os) a pensar em seu grupo de origem como de São Paulo. propostas pedagógicas a cor (preta) lembra miséria. de modo que possamos implementar relações e MUNANGA. Branqueamento e branquitude no Brasil. SOUZA. dente. Carlos. Rio de Janeiro: ANDES. alfabetização e diversidade. Londrina 2008. alfabetização e diversidade construir outras possibilidades de identidades. Eliane dos Santos. 1957. Superando o Racismo na inserções sociais mais igualitárias.php?pid=MSC00000 00082005000100005&script=sci_arttext ). 2005. Brasília: MEC. Diretrizes curri- sempre fugir do lance do negro é o lance da pobreza: culares nacionais para a educação das relações pobreza em todos os sentidos – financeira e intelectual. Raciais no Brasil. Tornar-se negro: As vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão so- BIBLIOGRAFIA cial. Psicologia Social do Racismo: estudos sobre branquitude e branquea- mento no Brasil. – [Brasília]: Ministério da Educação. p. gógico da diversidade. In. secretaria de -se uma identidade ideal. já que esta significa tornar-se branco. Racismo e anti-racismo na educação: repen- contudo. Secretaria de ciso sair para que seja possível ascender socialmente e educação continuada. acaba sendo um lugar onde estas vivencias ocor.mec. Branquitude e poder – a questão das cotas para negros.. Ministério da Educação. Rio de Janeiro: IUPERJ. In: VII SEPECH (Seminário de Pesquisas em Ciências Humanas) promovido pelo Departamento de Letras e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Londrina. no entanto. Discriminação e Desigualdades possibilidades de rever um processo histórico exclu. In: CAVALLEIRO. Neusa Santos. 1983. Kabengele. São Paulo: Selo Negro. Por isso o sistema de cotas e a Lei ANPEd. 2005. Trajetórias escolares. Acho que o que me faz BRASIL. car questionamentos. Almeja. Introdução crítica à sociologia bra- sileira. 1983. Maria Aparecida Silva. Petrópolis. corpo ne- Este cenário apresentado envolve a(o) negra(o) gro e cabelo crespo: reprodução de estereótipos e/ brasileira(o) em diversos espaços sociais. que as(os) estudantes negras(os) possam ter acesso a organizador.scielo. Caxambu. Alfabetização antepassados que contribuíram para a construção eco. Pedro Henrique. e Diversidade. ANDRADE. da ANPEd. Assim. In: Irai Carone e Maria Aparecida Silva Bento (org). 2ª edição revisada / Kabengele Munanga. abertos pela Lei Federal nº10.Educação cidadã etnia e raça: o trato peda- deste lugar do negro em nosso cotidiano. 2002.br/cne/> pessoas negras. 2005. 10. lutamos para escola. RAMOS. uma história que as(os) permita orgulhar-se de seus Secretaria de Educação Continuada. 1983. Guerreiro. Rio de Janeiro: Edições Graal. Étnico-raciais e para o ensino de história e cultu- Estes relatos foram retirados da obra de Neusa Santos ra afro-brasileira e africana.

sociais. Ver relatórios do IPEA. religião. desses critérios têm demonstrado. l’image et leur mémoire. os grupos humanos e considerava a mestiçagem um valor fundamental da notadamente no que concerne à memória coletiva. mesmo após a abolição da escravatura e o advento da da luta em defesa de valores e concepções da imagem tenças de classe e o lugar ocupado na sociedade. maciçamente divulgada a partir da e dos grupos subalternos. raça. (3-5 fevereiro 1980. Nessa República. já que o país promovia a ideia da interpretações estabelecidos. mais viennent aussi à stimuler l’estime neiro. intelectuais negros. racismo benigno. que podem ser dados importantes latente de negação da questão das disparidades raciais obstante. intellectuels noirs. brasilianidade. assim como do domínio e controle do saber e posição subalterna em face dos brancos. Canadá. acompanhamentos e análise. representando dessa forma um segmento populacional représente une nouvelle donne dans la mesure où ces intellectuels des e professor da UNESA. penhou um papel determinante) iniciado no período palavras. tais como nível de renda. situados no de análise para determinar subgrupos de pertença es. Essa situação foi por muito tempo masca- de si e do mundo. o objeto essencial das relações sociais é a rada pela crença. Estudos realizados a partir panhamentos e análise. E-mail: dadesky@candidomendes. está claro que a adoção de critérios ra- representações sociais negativas (preconceitos e este. discours. a grande imprensa es- mostrado o poder das palavras como meios de ação térios de diferenciação.DO DIREITO À PALAVRA AO PODER DE ENUNCIAÇÃO DO MOVIMENTO NEGRO NO BRASIL1 RESUMO Ao longo das últimas décadas do século XX. de classe média. Universidade Laval. depreciado e considerado incapaz do parlent sur un pied d’égalité. o "poder les activistes noirs ont décidé de prendre le "pouvoir d’énonciation" de enunciação" por muito tempo monopolizado por aqueles a longtemps monopolisé par ceux à qui on attribuait un rôle pré- Jacques quem se atribuía um papel preponderante na produção do saber. além dos discursos e das ideias. Brasília. da imagem e de sua memória. as experiências e vivências são encarnadas nas concernente à ordem social a partir da qual se cons. Isso sem dúvida explica em parte por Os estudos sobre a linguagem e a ideologia têm No seio de uma classe social existem diferentes cri. Les Mots Clé: Mouvement Noir. sexo. com base nas quais se reconhecem as per. a été ignorée. discurso anti-racista. Não cor. Cultura e Cidadania : Intercâmbios Transatlânticos. situados em 16. especialmente Políticas sociais. camponeses e mesmo considerados pobres2. réinterprétant les faits historiques reinterpretaram os fatos históricos para tentar eliminar as repre. Brasília. terra e capital). como o Movimento Negro riqueza produzida pelo trabalho com base em um laço década de 1930. ponto de vista moral e intelectual. segundo a qual a discriminação racial brasileiro. Políticas sociais. res. que a distribuição do poder econômico e políti. Québec. março. em pé de igualdade. quer fossem INTRODUÇÃO dos conhecimentos técnicos que orientam a hierarquia estes detentores de capital. a relação do su. Bra- 1. ção continua sendo o critério indispensável da análise longo processo histórico (em que a violência desem- tória. reótipos). conscience noire. depuis des siècles. edição especial (1995-2005). vêm a formar classes sociais diferenciadas. Rio de Ja. nº 13. Ils se sont réappropriés le d’Adesky Ao se reapropriarem do discurso. o fato de estas já estarem bem documentadas. pondérant dans la production du savoir. trabalhado- social.br dépréciée et jugée incapable intellectuellement et moralement. de produção (saber. -se de forma não simétrica em relação aos instrumentos existência de relações cordiais entre brancos e negros cesso de construção da imagem de si e de um discurso. nº 2010). edu. Essa Nesse contexto. intelectuais e ati- RESUMÉ Au cours des dernières décennies du XXe siècle. e à reapropriação do pro. e não nos dois sentidos alternadamente. La réappropriation du discours Américas da Universidade Cândido Men. novembro. Texto escrito para o Seminário Internacional Afro-descendência. CÉLAT. 2008. mas assimétrico orientado de um pólo a outro da relação so. les intellectuels et vistas negros resolveram assumir. não se limita a reivindicações políticas. ciais ou de cor permitiu revelar as disparidades econô- micas de que as populações indígenas e afro-brasileiras 2. que. Opondo. de soi de la population noire qui. co é claramente desfavorável aos negros. 2008. discours anti- raciste. referentes à população afro-descendente. jeito com seu ambiente social também depende das No Brasil. que os negros podiam sofrer era apenas fruto de um visa também a uma crítica radical dos significados e cial. elas próprias impregnadas dos traços comerciais. crita e as mídias televisivas apresentavam uma atitude e instrumentos de reprodução da ordem social. desde a década de sília. até o final do século XX. secularmente ignorado. consciência negra. Nesse contexto. pouvoir d’énonciation. pour tenter d’effacer les représentations culturelles négatives des Pesquisador do Centro de Estudos das sentações culturais negativas dos negros e suas consequências Noirs et leurs conséquences sociales. acompanhamentos e análise. não obstante espaço do simbólico e do imaginário. poder de enunciação. 95 . a luta das minorias concepção. acom- são as principais vítimas. situação de subordinação dos negros é produto de um Sendo os modos de representação herdeiros da His. nº 15. a relação com os meios de produ. Políticas sociais. pecíficos. discursos e imagens que constituem as redes tituem as redes hierárquicas e a estrutura das trocas colonial com o tráfico de escravos e que se prolonga de significações. Palavras chave: Movimento Negro.

Universidade Laval e pelo CEAs/IH/UCAM. Trata-se. fosse como traba. cartados. memória do Movimento Negro. Ele foi um obstáculo à aparição de uma o valor da contribuição dos negros ao Brasil. mais apta ao trabalho nas usinas e plantações agrícolas. Em larga medida. Curitiba. ma forma que os negros. Ver Flávio dos Santos Gomes. Suas ativi. De maneira sub-reptícia. natórias em relação aos ex-escravos. modernização nacional e relações étnico-raciais 6. Ronaldo Sales. Passo Fundo. o que revelava uma convergência que perderam a memória de seu passado e não têm sentido. se organizar e inscrever suas reivindicações relativas à ços livres. governo federal. não tinham acesso a posições de prestígio5. manifestamente específicas para os negros mostram pazes de contar a história de figuras importantes de e votar. e a proclamação da República. que institui o ensino obri- tade própria e de defenderem seus próprios interesses que. da mes. No mercado de trabalho. de medidas oficiais de República põe fim aos intensos fluxos de imigração de seu desenvolvimento e suas inumeráveis consequências Na época do Império (1822-89). a lei 10. direta ou indiretamente. la época o Movimento Negro apresentava as questões circulação. que assim. Nesse período. dominados. escreveu : "A moder. confinados a posições subalternas. datado de dezem. não significou a eman. polícia. era o controle do acesso à propriedade tos e irracionais – em outras palavras. importância. eliminar do passado todos os problemas e sofrimentos dizer ou exprimir livremente sua história como atores Antigo Regime. vai fracassar. Essa cegueira histórica infligida pela histó. Ciências Sociais Unisinos. surgida dominados poderiam exigir o reconhecimento e a re. fundiária que constituía o fator decisivo que permitia adaptar às novas técnicas e às novas divisões do tra. folhetos. contudo. fosse como mercadorias. e também à do Estado. Ademais. objetivo o embranquecimento da população. pelo conhecimento e pela técnica. e seus favoritismos que bloqueavam as aspirações de estimulada e apadrinhada pelo Estado brasileiro. o con. que permitem afirmar. preguiçosos. facilitando sua entrada nas usi. gatório da história dos africanos e afro-brasileiros no políticos4. sileiros à formação socioeconômica do Brasil. dos escravos. Responsabilização objetiva educação. HISTÓRIA E período escravista. Escolheram. mas sua exclusão das relações de sofridos por estes últimos. a maior parte das quais foi de. nº2. incapazes de se senhores e vencedores) excluiu capítulos inteiros de para desmascarar os mecanismos de dominação. sem memória histórica. 126. nesse período. len. a verdadeira libertação passa pela paração das injustiças e danos morais e físicos sofridos acadêmicos que multiplicam os projetos voltados à re- 3. O capi. Essa so. essa medida melhorou as condições de subjacentes ou àqueles que foram desde sempre des- um freio à produtividade das fazendas. econômico classe dominante. tam. mediante a abolição da escravatura e esta será escrita pelos que irão atestar o pouco peso atri. que precisavam. Na prática. ingresso maciço de mão-de-obra europeia. cipação dos negros. com seus privilégios. de seus heróis vieram a ser realçadas entre os grupos ficado por seus adversários conseguirá. Ler Ronaldo Jorge Araujo Vieira Júnior. as circunstâncias históricas heróis – ou quase isso. Raras são as famílias negras ca. bro de 1930. segregação e de preferência que significavam atentados trabalhadores europeus. Ler a esse respeito o artigo de Ronaldo Sales Jr. ativistas ou testemunhas anônimas. Já naque- servidão. Ronaldo Sales Jr. Ensaios nantes como as de Cândido de Araújo e Manoel dos Santos. negras reflexões o Estado não tomou nenhuma medida política para tomada de consciência da negritude sem resultar numa por seus ancestrais? Trata-se de uma pergunta aparen- compensar ou reparar as sevícias sofridas durante o verdadeira assimilação8. de escravos eram tratados como cidadãos de segunda uma cota: dois terços dos postos de trabalho deveriam Recompor a história dos grupos subalternos exige cravos e dos ex-escravos livres. foram vítimas. classe. de testemunhos escritos e também de docu- de terras. descendentes de escravos. 2005. Juruá. E quando for a hora de contar a história nimização da contribuição dos escravos e dos afro-bra- tadas pelo Estado para assegurar a permanência dessa A esse respeito. com o apoio de provas mate- 96 97 . bém corresponde a um desejo eugênico que tinha por medida em que as histórias dos vencedores e os nomes mente pela grande mídia e por muito tempo desquali- A República de 1889 põe fim às medidas discrimi. que os conflitos do passado ou REAPROPRIAÇÃO política de acompanhamento da transição da condição cópia do original! as controvérsias historiográficas sobre a escravidão e o DA MEMÓRIA de escravo à de homem livre. Esse projeto de libertação com lideranças. currículo das escolas primárias e secundárias do país. Ao contrário. a desconstrução da história oficial que oculta os textos trole estrito e quase absoluto sobre o trabalho exercia dades ligadas aos cultos de origem africana. cit. eram considerados nas e em postos de baixo nível na administração pública. africanos e mesti. Já citados por Ronaldo Jorge Araújo Vieira Júnior e Ronaldo idosos do bairro de Venda Velha no âmbito da pesquisa "Mémoire a posteridade os arquivos de memória (fotos. de deportados E. 8. ela foi bem-sucedida na Um movimento social invisibilizado quase total- liberdade e a mobilidade social. origem afro-brasileira. leitura da memória dos afrodescendentes. p. – exigem um trabalho árduo de releitura a partir de ção ainda eram dominadas pelos grandes proprietários aos seus direitos6. dos africanos livres e seus descendentes. não se cansavam de cantar a beleza da mulher negra ou de exaltar UPF. a certas ta e involuntária. os projetos também se ocupam em restituir perante da nação: Estado. Desde seu nascimento no final dos anos 70. manifestações de conflitos. o poder político. deveriam copiar a cultura europeia. já frágeis em danças e à música eram interditadas e reprimidas pela vida de negros e índios. pele negra. Nesse tos. 2003. essa situação de subordi. sem dúvida alguma de um trabalho função das técnicas rudimentares utilizadas. o acesso à escolaridade e à saúde pública. como é que os grupos Essa passagem das sombras à luz vai suscitar nos da África. as entrevistas realizadas com os líderes e os tas. em 2003. hercúleo. De maneira indire. A imigração de colonos europeus. Um decreto. conduzida pela cartazes. o Movimento Negro vai captar a atenção do e intelectual permaneceu nas mãos de uma elite branca para além da cor da pele. Ler. releitura da história na agenda política do país. Sales Jr. pesquisas é realizada com base em entrevistas ou filmes 4. Embora os trabalhadores brancos fossem. últimos anos o crescente interesse de pesquisadores e na década de 1930. Grande parte dessas mativas como reparação aos danos causados. considerada dignos de serem relatados em razão de sua pequena política a obliteração oficial da história africana e a mi- nação do trabalho vai acompanhar outras medidas ado. Cabe assinalar que no seio da Frente Negra havia vozes disso- cos. das vítimas da História. Mas essa tensão entre a releitura da história tal técnico e o controle do saber desempenhando um moral e intelectualmente inferiores. Os mestiços e descendentes de escravos os negros estavam em desvantagem como pessoas de preciada ou oculta por trás do véu do esquecimento9. mestiços e descendentes as empresas estrangeiras instaladas no Brasil a respeitar mentos de arquivos. Assim. A história oficial (frequentemente escrita pelos oficial e a memória coletiva obliterada é fundamental papel limitado. o resultado só poderia ser uma pálida Supõe. por exemplo. conquanto semelhantes na situação de oprimidos. Essa memória imposta busca afrodescendentes do Brasil que se viam impedidos de ciedade não igualitária baseava-se na ordem jurídica do produção. Segregação institucional do negro e adoção de ações afir- vam convencidos de que. não obstante. manutenção de uma forma de desumanização dos es. colocou em prática uma que os brancos. e instaura o princípio da igualdade de direi. mas difícil de responder de imediato. Eles esta. maio-agosto 2008. ser ocupados por brasileiros nativos. decretos restringiam a liberdade de nização do país. Desejando ser mais brancos temente simples. as relações de produ. suas precedências lhadores livres”7. limita a entrada de estrangeiros e obriga vestígios. buído ao reconhecimento histórico dos preconceitos do direito de enunciação e de autorrepresentação dos até mesmo a cidadania dos antigos escravos3. para se igualarem aos bran. jamais. da Sob a nascente República. a via da assimilação. os negros A ascensão de Getúlio Vargas à Presidência da período pós-abolição – considerando-se suas causas. submetidos aos interesses da ria oficial marca de maneira quase indelével os negros. Tal argumento seria utilizado para justificar o sem acontecido ou como se não fossem suficientemente Movimento Negro vai denunciar em sua plataforma o trabalho. Ao lado da pesquisa e da análise propriamente di- 5. Experiências atlânticas. “O nascimento 9. o aos proprietários exercerem seu poder absoluto sobre balho. fitas de áudio e vídeo) do Movimento Negro Volume 44. 7. e. Afro-Brésilienne: citoyenneté dans les faubourgs". o qual tomará a iniciativa de elaborar que os considera socialmente incapazes de terem von. dotados de subjetividade. e pesquisas sobre a escravidão e a pós-emancipação no Brasil.639. op. entre o Império e o início da República”. Para os ativistas da Frente Negra. por exemplo. como se eles jamais tives.

destacado por contrará a juventude entre os poetas negros dos anos 70 negra" não se referem absolutamente a uma classifica- proibida pelo cardeal Dom Eugênio Sales. 98 99 . continuam vítimas do racismo e da discriminação ra. O des cidades do país. vol. Esse trabalho de recons. de memória que veio a libertar os negros do espartilho tinham condições econômicas suficientes para viajar ao Os textos. do Movimento Negro. "Desejo coletivo". exercício de reflexão sobre as causas das injustiças de 25 anos do Movimento Negro no Brasil que ilustra a trajetória de além das ferramentas conceituais marxistas que privi. Ver Bogumil Jewsiewicki. como Amílcar Cabral. do Primeiro Encontro Estadual de Seminaristas. Autorrepresentar-se equivale. CÉLAT. pold Sédar Senghor e Aimé Césaire cujo conceito de ne. pelo Jornal do Brasil à rea. Ver. DA “RACIALIZAÇÃO” anos 80 e 9011. A não só deve ser travada em escala coletiva. a forma de "Consciência Negra". propõe um novo quadro teórico para a compre. as interpretações similares feitas por dois intelectuais negros: principalmente com base em organizações não-governamentais e meiro número foi publicado em São Paulo em 1978. contribuíram com seus textos para a tomada E REINTERPRETAÇÃO grande imprensa que o ignorava quase totalmente nos Jewsiewicki escreveu precisamente : "é um terreno que de consciência por esses grupos de intelectuais e ati. interrompeu as atividades do TEN. a esse respeito. veira e Henrique Cunha Jr. dominante. e Nei Lopes. portanto. 3. artistas e militantes do Teatro Experimental bro. ou pelo menos não queles que foram oprimidos em sua raça e por cauda Durante os anos setenta e oitenta. ção universal e faz o elogio da beleza negra – irá exercer. 15. reagrupamento e mobilização desse movimento nos Les damnés de la terre. Paradoxalmente. 27. Essa crítica é sus. de rebaixamento dos da palavra para narrarem eles mesmos quem eles são intelectuais e ativistas negros cuja maioria provinha da crítica da ideologia da democracia racial. mas se manteve desde o advento da A ideologia da democracia racial. cujos segmentos miscigenados do Negro (TEN). a exaltação direitos civis nos Estados Unidos. assim. o livro de fotografias de Januário Garcia ensão da própria situação de exclusão dos negros. Dessa forma. República até nossos dias2. às damnés de la terre e Peau noire et masques blancs. Essa profunda tomada de situam os valores da mestiçagem e da harmonia entre avaliação alguma. A propósito da expressão “Consciência Negra”. permite abordar o dilema e o paradoxo da mestiçagem intelectuais. entre outros. O Globo. as poesias de autoria de Edu Omo Oguian. p. Ela vai buscar. dela. destruído uma ordem hierárquica pela Frente Negra nos anos trinta. mas também reflete a própria fragilidade não é reconhecido como originalmente seu. Québec. negras reflexões riais. Globo. Fanon na última obra.. partir da observação de que a abolição da escravatu. o sentido estrangeiro ou estabelecer contato direto com os líderes assim. com prefácio de Jean-Paul Deve-se recorrer também ao pensamento de Léo. que são vítimas os afrodescendentes15. tra. assinala que a luta antirracista e 80 que o associam ao ideal de beleza da mulher negra14. Essa tomada da palavra coloca em evidência um consciência de uma situação comprovada de coloniali. ver. brancos. Rio de associações culturais que se implantam principalmente nas gran. discursos e panfletos dos líderes negros são. forte influência sobre os intelectuais e ativistas brasileiros e estrangeiros. Eduardo de Oli. o termo "negritude" os portugueses no Nordeste do país. plo. negros e indígenas. negros e indígenas. Les e Carlos Hasenbalg. cujo pri. como Florestan Fernandes Os intelectuais e líderes do Movimento Negro têm do poder de enunciação. vítimas de uma opressão racial que não mostrava a sua negros e indígenas nos domínios do ensino e do empre- pressão portuguesa e na experiência do movimento dos cara. Malcolm trução da memória confirma a imagem do Movimento e do direito à auto-representação atual dos africanos X. aquilo que os outros não viam. Bogumil Karl Marx. sobre os negros. para gritude – que valoriza a contribuição africana à civiliza. poderia ter sido uma arma pensamento intelectual pós-colonial e antirracista do dade levará o Movimento Negro a adotar um discurso poderosa contra o racismo. e cuja ex. outros pensado- querem ou não queriam ver10. Era-lhe ne. para por fim às disparidades socioeconômicas de que "consciência racial" que transformou-se num rótulo de pensamento. Janeiro. direito de se exprimir. chegam a conta-gotas ao Brasil volvimento econômico do país não seriam suficientes emprego do termo "raça" para conduzir à expressão a determinar na linguagem uma nova subjetividade do numa época em que as lutas de libertação em Angola. sob a máscara da harmonia. sua inspi. o racismo e a discriminação contra a população go. a expressão assumiu Sartre. portanto. os quais apresentaram dados es. cos. parte das quais se perdeu no curso das últimas cessário arrebatar tanto a memória da cultura quanto ca da escravidão. 26 novembro 2009 . suficiente para destruir uma ordem hierár- da História oficial ao lhes restituir o lugar. lização. por exem- partir da metade da década de 80. de afirmar a tomada então. serviço da manutenção do status quo. mas também duzidos em Portugal. anos 80. Apesar do golpe de Estado de 1964. A ideologia da democracia racial não foi. que Quilombo de Palmares que lutou no século XVII contra de posição favorável. em 1986. pela qual os grupos subalternos que não correspondiam ao modelo testemunham o colapso do beco sem saída em termos pequena classe média ou da classe trabalhadora e não brasileiros seriam desprovidos de preconceito de raça. tatísticos mostrando que a industrialização e o desen. Martin Luther King e Albert Memmi. Seus dois principais livros. O Movimento Negro que emergiu no final dos anos 70 era aci- ma de tudo um conjunto de ativistas disseminados pelo Brasil. Nos dez últimos anos. indiretamente. no qual vieram a reivindicar o colonialista e anti-imperialista na África exerceram. 12. "A vida me ensinou a ser negra". 30 novembro 2009. O já fora incorporado ao vocabulário corrente. 14. Sobre a (re)conquista do domínio da narrativa res. entendida como um 10. os desses movimentos. cial da mesma forma que os negros de pele escura. Samora Machel. identitária e não mais o da assimilação preconizada todas as tentativas de promover a igualdade entre bran- FONTES DO PENSAMENTO ra não havia. Universidade Laval. em particular Azuete Fogaça. 13. As reflexões de Frantz Fanon sobre a luta anti. Hoje em dia. o grande líder do 11. considerado uma ilusão a o sentimento de primazia e supremacia dos brancos intelectuais do Movimento Negro12 investiram no ter. Não foi esse. têm sido neutralizadas. Ao contrário. a série Cadernos Negros Poesia. Peau noire et masques blancs a partir dos anos 40. democracia racial brasileira. o caso. aniversário da morte de Zumbi. a se situar em relação ao relato histórico. Cuti. impregnados de uma crítica virulenta ao mito da quica baseada na cor da pele e. A exceção que confirma a regra pode ser ilustrada pela tomada da população brasileira. e. em suas colunas. a um movimento social que nunca foi considerado importante pelos legiavam a luta de classes. capaz de apresentar a imagem positiva da. o movimento veio a se articular mente no plano individual. uma tomada de consciência da identidade étnica e o grandes forças econômicas dominantes. denunciado essa ideologia diante da qual defendem portanto. Os ecos dessas lutas afrodescendente é que explicam o fato de os intelectuais de uma identidade mestiça e culturalmente homogê- O esclarecimento dos lapsos de memória e a tomada no Brasil tornaram-se ainda mais importantes para os e líderes do Movimento Negro terem empreendido uma nea estimulou formas de exclusão. opressão de negros e indígenas. Rio de Janeiro. Ele reen. mas igual. 2010. de estabelecer mecanismos de INTELECTUAL DO baseada na cor da pele. os negros constituíam as principais vítimas. tentada pela obra de diversos acadêmicos de renome. Ethnologies. Por esse viés. "Lieux de l’identité". Moçambique e Guiné-Bissau estavam no seu auge. em si. reforçou e a posição como atores da história. Assim é. E na medida em que os negros continuavam a ser correção das injustiças ou de favorecer a inclusão de MOVIMENTO NEGRO ração nas lutas anticoloniais dos povos africanos de ex. 31. vistas negros de que o status subalterno e de exclusão das fontes documentais produzidas pelo Movimento pulsão havia justificado sua desumanização. grande influência no Brasil entre os expressão se associa às comemorações do 20 de novem- fotógrafos dos grandes jornais brasileiros. absolutamen- Movimento Negro que se constrói primeiramente a político cujo eixo central é o da tomada de consciência te. sem esquecer DISCURSO ANTI-RACISTA Negro cuja invisibilidade resulta em parte da inércia da da diáspora em vista de seu reconhecimento. que vitimou a população negra não se limitava à épo- Negro. As expressões "consciência racial" e "consciência Religiosos/as e Padres Negros do Rio de Janeiro que havia sido processo de alienação das pessoas de cor. constituiu uma fonte de reno da ação política. por exemplo. no cerne da qual se décadas ou está dispersa em arquivos privados sem sua representação das sombras da lembrança"13.

ao con- do termo "raça" e a preponderância desproporcional de APARÊNCIA FÍSICA trário. em vista a promoção daqueles que são vítimas da dis. cada indivíduo. ra inconsciente. tornou-se necessariamente uma con- Esse jogo duplo de argumentação a respeito do uso O PESO DA cepção masculina. Ler. de tal sorte que ignoramos os efeitos que as políticas de ação afirmativa introduziriam uma Se a luta contemporânea contra o racismo obri. artigos contrários à política de ação afirmativa reve. ela depende. que bloqueiam de maneira insidiosa o debate geneticamente distintos e hierarquicamente ordenados democrático e equilibrado16. notadamente pelos cânones dominantes. ou seja. etc. mo pretensamente científico. a beleza. em cuja composição predominam antropólogos a implementação dessas políticas em uma "racializa. um antirracismo realista não pode pre. versários tentem precisamente atribuir aos líderes do criminação deve ser compreendido como um recurso herança genética. à educação superior. desaparecer a evidência da raça simbólica. antes. líticas de "racialização antirracista". sociedade. As contribuições femininas. 17. medida em que é ligada ao espaço de poder masculino. assim. como referência. de tudo. ao mercado de trabalho. E ainda que seus ad. segundo a expressão empregada por do emprego. mais correto que que não é possível abstrair-se totalmente do contexto A despeito dessa interpretação clara e inequívoca mântico do termo "raça". "raça" e inventar outro nome. etc. escritores. na também promover. de tais expressões pelos intelectuais e líderes do Movi. e o feio podem ser resultados da escolha deliberada de lheres simplesmente interiorizem e reproduzam as re- cas de que é vítima a população afrodescendente. escultores. 2009. a expressão de uma verdadeira autenticidade. inevitavelmente. Michalon. se juntasse de imediato ao substantivo "racialização" o sócio-histórico. essa influência se propaga de manei- ência racial" e "Consciência Negra" seria "racialista" e racismo científico. deve-se reconhecer que o indiretamente. independentemente do xo deveria ser. parte do tempo. 1995. seu "Acadêmicos contra a ação afirmativa: uma análise da argumenta- lam uma questão ligada ao direito à palavra. Seminário Comunicação e Ação Afirmativa: O Papel da Mídia presentações do que é belo e do que é feio. 329-354. numa cultura possível discriminar com base na "raça". mimeo. mimeo. que se quer promover. cas públicas de ação afirmativa ? Consistiria realmente O uso do qualificativo "antirracista" também coloca em e o que é feio. uma "racialização" da do objetivo final dessas políticas que é acima de tudo a que não existe uma escolha radicalmente autêntica. A concepção de beleza física poderia caráter subjetivo da identidade racial como produto como socialmente construído. momentaneamente grupos discriminados com base na tremamente difícil escapar desse processo. Centro Cultural da Justiça Fe. ressalta que diferenças de raça. mas como exceções individuais. o que tornaria difícil identificar as pessoas segundo mente o uso da categoria "raça" no contexto das políti. Não apenas a mídia continua pública. às distorções causadas por esses condicionamentos no da. será possível genismo lexical. Há uma interação complexa forte reação negativa no plano dos redatores-chefes dos deral.). interpretada. o emprego da categoria "raça" tendo Ser belo seria. já dos no passado e no presente. das preferências. ou designar objetos diferentes. Deveria ser. Essa formulação parece. bém podem ser autônomas. Na maior mentos na ideia de que o uso das expressões "consci. Traduzem. da raça so. Esses mesmos adversá. evidência que os programas de discriminação positiva admitir que os gostos estéticos pessoais podem ser di- e sociólogos. ser autônoma no sentido de que resultaria da deter- de práticas discriminatórias sistemáticas de que certos res do Movimento Negro assumem uma posição po. ao Em vez de serem causalmente determinados sob o efei. Mídia e ação afirmativa: a construção de uma opinião "poder de enunciação". pela cultura dominante. das políticas de ação afirmativa. considerado uma "ferramen. produzida consideravelmente e por muito tem- possível identificar as vítimas do racismo como poten. a esse respeito. Mas essa recorrência evidencia políticas públicas de promoção dos grupos discrimina. estratégia redistributiva nos domínios da educação e gênero ou da cor da pessoa. ser fiel a si mesmo. assumindo e ostentando os traços resultantes de sua tíveis no presente mediante desigualdades socioeco. po por homens (poetas. mas pode legitimamente interrogar-se sobre as formas minação do indivíduo em questão. Claro que essas tam- categorias raciais como base de cálculos estatísticos sem aceitar que a implementação de políticas públicas de emprego da categoria "raça" é uma forma de "racializa. transmitidas também o tema das políticas de ação afirmativa suscita no Debate sobre Igualdade Racial. os adversários das políticas de discrimi. Essa seria uma solução corretivo destinado a atenuar a ausência efetiva de uma leza helênicos predominantes. Les fins de l’antiracisme. reconhecem a existência do racismo e da ção" da sociedade ? Poderíamos revogar o uso do termo com base racial podem aparecer como um mecanismo tados ou fortemente influenciados pelos cânones de be- discriminação racial no Brasil. o termo "raça". ção pública". em termos intelectuais e morais. mas apenas um pecado venial diante escolha deliberada. em suma. igualação dos indivíduos. as políticas Os exemplos do presente e do passado mostram mento Negro. lítica que remete à constatação da semântica de que mais eficazes de corrigir as categorizações perceptuais17. 79-81 e. Rio de Janeiro. autônoma no sentido indicado. se é aparentemente simples que se assemelharia a um eu. Seria. Rio de Janeiro. negras reflexões ção antropológica dos seres humanos em subconjuntos jornais. o Ao reinterpretarem subjetivamente o termo "raça" Para Taguieff. Entretanto. em primeiro lugar. Esse estranho parado. à opinião pública: a fabricação de um consenso anticotas no Bra. Nesse sentido. mesmo que seja a contra gosto. conteúdo sendo absorvido sem que se torne exemplar. a população brasileira é amplamente miscigena. não como expressões culturais do 16. Pierre-André Taguieff. não é levado em conta pelos adversários qualificativo "antirracista". ou seja. ainda que passado e do presente que dão força e pertinência às promoção de uma essencialização das raças. caminhos que conduzem à abolição das fortemente monopolizada pelos homens. em si. cialmente percebida e. A esse propósito. os intelectuais e líde. Mas evidentemente esse deslocamento se. como nomear ou qualificar correta. serão vistas. artistas ciais beneficiários da discriminação positiva. possa ganhar uma outra co. ta estatística". "Da opinião publicada to de cânones estéticos. ou seja. Mesmo pessoas esclarecidas "racialização bipolar" na sociedade brasileira. as comunicações de João Feres Júnior. no caso. que se recusam. levando deliberadamente em conta Pierre-André Taguieff. notação. a "raça". hoje em dia amplamente uma mesma palavra pode ter diversas significações Além disso. desacreditado. mas sil". a admitir que uma mesma palavra. gênero feminino. poder-se-ia afirmar que o belo Essas constatações não sugerem que homens e mu- refratária à questão das disparidades socioeconômi. já que promovem cultura. -nos de longe mais judiciosa que o termo "racialização" perversos dessa situação. ainda que a escolha seja nômicas. Nem sempre compreendem ou querem rios. 2009. é preciso ticas públicas. de que modo os valores estéticos são modelados pela nação positiva no Brasil semeiam a discórdia na grande debates públicos. baseando seus argu. distante da interpretação biologizante do "raça" ao acesso à universidade. políticas e torna caduca a insinuação de que tais políti. Além disso. Paris. Nesse sentido. p. mas cujos efeitos permanecem percep. suficiente para provar que. Segundo ga os militantes antirracistas a manter o termo "raça" lançado pelos adversários para rebaixar essas mesmas ou ativistas do movimento negro nem sempre escapam eles. ABI. conizar a abolição da percepção racial das diferenças. cas engendram o ódio entre brancos e negros no Brasil. objetos de uma os quais não seria possível propor a implementação de ação afirmativa pressupõe a identificação dos grupos ção" da sociedade. momento em que são obrigados a definir o que é belo as categorias branco e negro. que é a desconstrução científica da raça biológica não faz ou seja. São precisamente os efeitos conjugados do Movimento Negro um pensamento racista baseado na necessário sem o qual não seria possível conceber polí. que remete ao mesmo tempo aos modelos de diferen- 100 101 . plásticos. É ex- imprensa escrita e televisionada. antes grupos foram vítimas no passado com base num racis. nos de ação afirmativa seriam compreendidas como po.

A imagem do negro na televisão e na pu. Iniciei a reflexão em torno do conceito “o poder de enunciação” 20. Nelas se reconhece capazes de servir à melhor inserção da imagem dos gru. supostamente igualitária. pois per. mais os traços negroides de certos povos africanos19. ENUNCIAÇÃO23 blicidade melhorou nitidamente nos últimos anos. ainda se observam gundo o escritor Joel Rufino dos Santos. Foi preciso cursos de beleza negra organizados por grupos cultu- lidade de concepções da vida social em face do molde fecham as portas aos postos de alto nível. de que a beleza da mulher negra aí representada nos Do século XVI até o fim do século XIX. o elogio da beleza particular da mu. é encontrada em graus A partir do momento em que se admite que a pre. -se evidenciar o caminhar. Com política de dar destaque a negros principalmente para "provar" sempre a ser privilegiadas em relação às de pele mais (sem o dizer. imagem inferior ou depreciativa pode efetivamente 2009. onde o critério Dida. é percebido como branco por gran. de maneira subliminar) que o Brasil não tem neces- escura18. Há outros ingredientes fundamentais que concepção pela qual uma imagem deformada pode in. da cultura urbana que se impõe a todos graças a sua Mesmo nos domínios do esporte. O motivo é que a expressão e com seu corpo são considerados atributos altamente discriminatórias em relação às populações fáceis. negras reflexões ciação ou de ressignificação tais como a negritude que velas e séries televisivas. mas também uma exi. grandes veículos de comunicação. contraste a propor a questão do saber: quais seriam os que o peso da aparência física ainda é hoje em dia uma ção de treinador interino. zes negras atuais de pele clara. pinturas naïves produzidas pelos grandes artistas afro. Assim é no futebol. Valorizar o natural e estar à vontade com sua plural por parte da mídia. raros são os negros que ocupam a função de treinador fortemente centrados sobre o corpo. quentes. É uma questão importante. e. o sorriso e a do movimento negro e pelos defensores de um olhar devem também lutar contra outra categoria de precon. proe. Orunmilá. em que o movimento. as proporções. de número de brasileiros. pois. atualmente. constituem instrumentos poderosos oprimir a tal ponto que essa imagem seja interioriza. Essas últimas primeira divisão. foi por muito tempo considerada de responsabilidade tudo nos almoços e reuniões festivas de domingo que uma riqueza social e cultural. Ilê Aiyê. Amauri Mendes Pereira. ele mesmo havia tentado principalmente a qualidade de serem generosamente pos subalternos e assim garantir o respeito à dignidade social onde são expostos desde o berço a um discurso nomear Andrade treinador da equipe em 2004. negros tendem a reproduzir os modelos que os relegam da diretoria do clube. não há dúvida número maior de negros figura nos anúncios publici. de dominação cruel e sutil quando projetam uma ima. continuam excluídos. lembra a negritude de Léopold Sédar Senghor que fazia. deve- grupos por muito tempo foi denunciada pelos ativistas to para homens quanto para mulheres. tratados no Brasil como animais. Esse mecanismo de interação que plano os atores e atrizes cujos traços físicos como cor. critor e especialista em futebol (Rio de Janeiro. “Nos braços 23. igno- lenovelas da Rede Globo de Televisão. alegando que ele era negro e não tinha boa rência física. Se esses atributos são apreciados no quotidiano das grande difusão pela mídia. frívolas. seres repulsivos. duras e individual de todos. Sheron Menezes e Roberta Rodrigues. O Globo. organizados com base num permitem perceber a exclusão mediante a ativação de código não escrito que exclui dos papéis de primeira atributos positivos. bes do Brasil. variados nas festas realizadas nos terreiros dos cultos sença em todos os níveis de membros de grupos su. concepções de beleza. minente ator negro de cinema que se tornou protagonista de te. a projeção de uma o cargo de treinador do Clube de Regatas Flamengo em caracterizada pela curvatura acentuada das ancas. balternos é pertinente e deve ser igualitária em relação em equipes de primeira divisão20. dos campeões”. da. Não obstante. embora ele próprio se considere negro. Entre esses elementos. incluindo a seleção nacional e a equipe do Real Ma. Entrevista com Joel Rufino dos Santos. Essa preferência é verdadeira sobretudo para as jovens atri. Testemunho relatado por Carlos Eduardo Mansur. Isso tem consequências racistas. Esse Os meios de comunicação de massa. tian Dutilleux. 21. de 2009). eles defendem a plura. reza das variáveis que compõem a identidade pessoal e Longe de ser um assunto fútil ou secundário. Eles também podem ser um modo que despreza suas capacidades intelectuais e morais. elementos particulares constitutivos de uma abordagem questão espinhosa para a população afrodescendente conhecido como Andrade. poder-se-ia dizer que caíra. Andrade não tinha estofo nem ca. com base em instigações e múltiplas conversas com o meu amigo 18. É o caso notadamente dos elencos de teleno. Rio de Janeiro. não se pode deixar de constatar legado à função de auxiliar técnico ou exercendo a fun. Jorge Luís Andrade da Silva. 2 de dezembro de 2009. pessoas de pele clara tendem lher da região sudano-saheliana de África Ocidental. etc. 19. intelectual negro. tado à indústria do entretenimento. complexa estética afro-brasileira. de campeão brasileiro. Um -brasileiros do Rio de Janeiro e da Bahia. diretas sobre o mercado de trabalho ao criar barreiras dicção21. em um ambiente diretor técnico do Flamengo. Se. equilíbrio e a simetria dos traços do rosto.. superficiais. o de matriz africana. essa função famílias negras. textura dos cabelos e formato dos lábios lembrem de- mite designar o belo e o feio levando em conta a natu. nos leva por ao grupo dominante. Em razão de sua cor clara. particular. à música e aos encontros amo- gência moral indireta de reparação em prol dos grupos Nesse esporte em que numerosos jogadores negros têm Se ficássemos nisso. obtendo nesse mesmo ano o prestigioso título tipo de beleza é também predominante entre as princi- mente a televisão. Para evitar tais distorções ceitos : os preconceitos sexuais que as apresentam como ram excluídos da posição de goleiro. passa do negativo ao positivo é fundamental. 8 de dezembro professor d o centro Universitário Estadual da Zona Oeste (UEZO). Em suma. o movimento. sidade de um mecanismo de discriminação positiva na televisão. esse exemplo marginal vai corresponder a uma televisão. entre outras. beça para ser treinador de uma equipe de futebol da mulher quanto no homem. de treinador. 102 103 . Uma exceção a essa regra não-escrita é Lazaro Ramos. 22. ajudam a compor a imagem do que é belo tanto na fligir um prejuízo e efetivamente oprimir determinados invisíveis que afetam a igualdade de oportunidades tan. os não conseguiu em função da resistência de membros musculosas. que chegaram a usar argumentos Mas o ideal de beleza negra não se limita à apa- gem inferior ou depreciativa desses mesmos grupos. os negros também fo. No derrota da seleção brasileira na final com o Uruguai foi essenciais dos homens e mulheres premiados nos con- afrodescendentes e indígenas. os negros eram tários e participa como modelos nos desfiles de moda. rosos. es. mos na armadilha do predomínio dos cânones de bele. rantes e desprovidos de história. esperar até o fim dos anos 90 para que outro negro. Depois da Copa de 1950. fosse o goleiro titular da seleção brasileira. Por muito tempo re. Na esfera do sagrado. mercado de trabalho. eles ganham um espaço especial sobre- reconhecimento da diversidade representa não apenas restrições em relação aos negros. ção racial ainda se manifesta no que se refere ao posto za helênicos que relegam a um segundo plano as outras a postura e o ritmo se misturam. Isabel Fillardis. conseguiu ser nomeado para essencial da estética negra brasileira? Se observarmos as O PODER DE e indígena. Vanderlei Luxemburgo foi treinador dos mais importantes clu. pais passistas das escolas de samba. são propícios à dança. mas dotadas de coxas grossas e nádegas redondas. Essa visão significa que o da cor da pele perdeu importância. rais carnavalescos como Olodum. postura. inadequada aos jogadores negros22. a discrimina. Mesmo na República. limi- a da matriz que forma as identidades coletivas. constata-se também que a por muito tempo ignorados ou marginalizados pelos sido consagrados nos últimos decênios. Com exceção de Vanderlei Luxemburgo. esses clichês frequentemente lhes atribuída ao goleiro Barbosa. como Taís Araújo. intelectual e ativista do MN e. reconhecido como o esporte nacional por excelência. no Rio de Janeiro. que era negro. A sombra dos cânones helênicos. portanto. assanhadas. Segundo testemunho de Júnior. drid.. Segundo o jornalista Chris- e os artistas negros têm mais papéis nos programas de em suas poesias. A sempre à base da escala social.

Reinterpretaram os fatos históricos mediante as reivindicações políticas novas práticas so. Julio César de Tavares. Editora Contexto. Avançados. Teun. 1995. citamos. 1995. Brasília. João. Seminário Comunicação e Ação Afirmativa: paz do ponto de vista moral e intelectual. Brasília. polêmica com um grupo de intelectuais famosos que debate intelectual por muito tempo fechado à crítica 30 de novembro de 2009. A reinterpretação por artistas. “Intelectuais SCHWARTZMAN. FCP/MinC. o qual subentende uma reto. 2009. ABI. 2 de dezembro de gro e adoção de ações afirmativas como reparação senta uma novidade. Rio de Janeiro. Divisões perigosas: políticas de sua memória. Paris. escritores e inte. novembro. e termo "reapropriação". papel preponderante na produção do saber24. intelectual" por outras concepções do discurso. de raciais no Brasil contemporâneo. intelectuais negros fala cada vez mais em seu próprio dos pretensos conflitos e ódios raciais que delas resul. Flávio dos Santos. O Papel da Mídia no Debate sobre Igualdade Racial. Rio de Janeiro. 2009. Introdução crítica à socio- de tudo. Rio de Janeiro. 2005. O mesmo se faz quando se colocam -emancipação no Brasil. Rodrigo.. Ronaldo Jorge Araújo. tivas dos negros e suas consequências sociais. (orgs. Discurso e poder. negras reflexões algumas exceções. eles interpelam aqueles que detinham o discurso. Monteiro. Eles se ralidade de concepções do que é belo e do que é feio. L’anthropologie et les militants uni. É nesse tcolonialité. “Dia da consciência indi. P. GARCIA. S. João Jorge Rodrigues. Amauri Mendes Pereira. objetiva do Estado. Yvonne Maggie. pressão "tomada do poder de enunciação" em lugar do indígenas. Juruá. Liber. Civilização Brasi- para tentar eliminar as representações culturais nega. nº 15. CONSTANTINO. Curitiba. Maggie. “Mutation de savoirs et pos. 2007. volume 44. C. Brasília. do com um contradiscurso produzido por intelectuais ção e do enfraquecimento do monopólio do discurso FERES JÚNIOR. “O nascimento da nação: Estado. Também não se trata ape. Rio de Janeiro. São Paulo. depreciado e considerado inca. de uma imagem e de uma memória. SALES Jr. "Da opinião publicada à opinião negros. 25 anos do Movimento Negro Relatório IPEA: Políticas sociais acompanhamentos e do século XX. 2008. mas da ascensão dessas novas concepções do mativa: uma análise da argumentação pública". Divisões perigosas : políticas raciais no Brasil con. Ensaios e pesquisas sobre a escravidão e a pós. Ciências uma crítica que permitem a ocupação do "território MUNANGA. 2008. Civilização Bra- um discurso. 24 de novembro modernização nacional e relações étnico-raciais mas igualmente de uma reação. Buscam criar descendentes de escravos africanos e afro-brasileiros. da imagem e da memória que eles atacam e. Entre os intelectuais negros de proa que têm desempenhado um papel importante nessa « tomada do poder de enunciação ».. Rio de Janeiro. fruto sentido que se faz necessário compreender a expressão FOGAÇA. Bra- Gonzalez. 26 de novembro de 2009. dia e ação afirmativa: a construção de uma opinião monopólio do saber e que jamais se haviam confronta. Mi- a discriminação nos locais de trabalho. intelectuais e ativistas negros resolve. 104 105 . não apenas daquilo que é a nova nação brasileira emer. Pierre-André. e San. Kabengele. acima de tudo. MAIO. Estudos estatuto da raça”. nº 18. Januário (org. “Das estatísticas de cor ao po monopolizado por aqueles a quem se atribuía um privilegiavam a estética helênica em detrimento da plu. Por sileira. (1995-2005).). "A vida me ensinou a ser negra". S. Rio de Janeiro. VAN DIJK. seria gente. que está em jogo ao ser submetido ao questionamento Brasil". temporâneo. aos danos causados. nº 2. lectuais afro-descendentes dos cânones de beleza que GUIMARÃES. Université Laval. 2008. 2007. Joel Rufino dos San. ões". nº 13. utilizar doravante a ex. da cultura dominante. Centro Cultural da Justiça Federal. 2009. Carlos Alberto 25. João. C. A reapropriação do discurso repre. pública. CÉLAT. mai-ago 2008. Divisões perigosas: políticas mada de posse de alguma coisa. entre o Império e o início da República”. Azuete. Ler a respeito Fry. como em evidência fragmentos esquecidos da história dos JEWSIEWICKI. FRY. nº 2.).. 3. uma identidade coletiva positiva. Anthropologie et 24. 2004. mimeo. à l’épreuve des globalisations. O Globo. vol. munidos tariam. FERES JÚNIOR. TAGUIEFF. Civilização Brasileira. Levando-se em conta os argumentos acima.). Lélia tos. Foi por isso que. ao longo nas últimas décadas se inscreve na esfera da política. Passo Fundo. A partir daí se pode MANSUR. 31. logies. compreender que o tom alarmista utilizado pelos ad. análise. nº 16. Em suma.) tions des torts du passé de l’esclavage. Société. Simone Monteiro e Ricardo reapropriaram do discurso. no Brasil. da imagem dos negros e participa do poder de enunciação que vem a estimular GOMES. "tomada do poder de enunciação" designamos. nas da tomada de posse dos discursos estabelecidos. Ronaldo. ram assumir o "poder de enunciação" por muito tem. "Droits. Rio de Janeiro. volume 33.. Responsabilização veem nisso a iminência de um conflito aberto entre contrastada dos intelectuais negros. UFRJ. "Desejo coletivo". Relatório IPEA: Políticas sociais. acompanhamentos e Medeiros. sua imagem coletiva é negativa. O Globo. Hélio Santos. Rio de mais judicioso. Y. 2009. Ventura Santos (orgs. O Relatório IPEA: Políticas sociais acompanhamentos e do desdém com que são tratados pela cultura domi.. Simon. Beatriz Nascimento e Sueli Carneiro. Alberto Guerreiro. não 2009. antes BIBLIOGRAFIA RAMOS. "poder de enunciação" com um exercício relacional que Globo. (orgs. P. "Acadêmicos contra a ação afir- nome. VIEIRA Jr. Les fins de l’antiracisme. Francine. Muniz Sodré. Perspectives Réinventer l’anthropologie? Les sciences de la culture du Mouvement Noir au Brésil". 2003. O Globo. Ao tomar a palavra em pé de igualdade. Segregação institucional do ne- brancos e negros. "Lieux de l’identité".). te sem a participação dos afro-brasileiros e dos povos Janeiro. chalon. São Paulo. Montréal. ciais e culturais. de uma releitura e de de 2009. Ethno. R. Rio de Janeiro. MONTEIRO. negros e formas de integração nacional”. Mí- de argumentos.. Rio de Janeiro. Bogumil. "Nos braços dos campe. leira. sem dúvida. mas de sua ideia de nação forjada anteriormen. Y. representando um segmento populacional se. já que um número crescente de versários das políticas de ação afirmativa decorre. mimeo.. 2008. R. Francine Saillant (org. tos. sília. é seu pensamento intelectual pública: a fabricação de um consenso anti-cotas no cularmente ignorado. no caso presente. SAILLANT. Nei. mas da desestabilização de sua convic. Antonio Sérgio Alfredo. 2007. simples discurso existente.. entre outros: Abdias do Nascimento. Experiências atlânticas.. que se trata de mais que a retomada de um logia brasileira. Maio. nante. 2005. Carlos Eduardo. Sociais Unisinos. Quebec. UPF. Université Laval. Quebec. intelectual25. análise. março. vidual”. Esse movimento provocou forte que devem ser compreendidas como intervenções num LOPES. análise. citoyenneté et répara- versitaires noirs au Brésil". livre das injunções Essas reinterpretações são também tomadas de posição 2010. raciais no Brasil contemporâneo.. SANTOS. MAGGIE. Marcos Chor Maio. edição especial. In: Peter Fry. USP.

los XIX e XX”. dução científica social?”. 2)“Por que certas analogias tíficas. temáticas étnico-raciais3 e de gênero. visto que pretendiam classificar o ser humano psico. As teias e tramas de ideias dos “homens da ciên. colocando em xeque a pretensa complex issues emerge from them calling into question the supposed neutralidade dos “homens da ciência”. partir lógica e biologicamente. 1994. that follow seek to contextualize. Nancy Stepan (1994). Bairros (1995). e analogias. p. estas são resultantes de relações sociais (re) mesmos em seu livro O espetáculo das raças (1993) europeu. o desinteresse Vale salientar. O que interessava. Para tanto. Esperamos. fazendo uso de metáforas ou analogias particulares estão relacionadas à pro. e envolvem digressões complexas e polêmicas. uma analogia que Maria Anória reflexões que se seguem visam à contextualização e desdobra. expand Estado da Bahia (UNEB). de antemão. We therefore expect. ao dia “ao reservatório de conhecimento não metafórico. mo afrocentrado. negra. em detrimento dos demais. no entanto. Ao contrário. Raça aqui é entendida não em uma acepção biológica. construídas historicamente. Ciências Sociais e Humanas. tance. Teresa de Lauretis (1994). uma analogia que ocupou lugar estratégico ditos cientistas. resistência Keywords: scientific racism. Carlos Moore (2007) e Pietra Diwan ciência”1 que os engendraram. considerações acerca dos seguintes pontos: a) o papel tero que “A analogia em questão é aquela que liga raça na. É a partir daí que se passa a de contribuições e reflexões que as engendraram no INTRODUÇÃO demarcar as diferenças sociais e. Pes- quisadora de relações étnico-raciais. mas dos “homens da ciência” pela metáfora e analogia se cutir o conceito de gênero historicamente. a fim de justificar as pressuposições cien. almejo aprofundar polêmicas que giram em torno das a entendem enquanto resultante de discriminações pelos traços diacríticos do ser humano. mentos. como um campo privilegiado de saber. Munanga (1999). and gender in our social bosom. esclarecem Moore (2007) e cia” veja-se também Schwarcz (1993. O qual resulta da crença na supremacia do segmento branco. É na esteira do pensa- Ao se deter sobre o período que vai do século XVII mento de Stepan (1994) e estudiosos afins que tecerei Reportando-me à epígrafe transcrita inicialmente. de modo a repensar as consequências na in order to rethink the consequences in contemporary society. 2003). ao longo dos tempos. ampliar o leque de discussões no tocante às the range of discussions with regard to ethnic and racial relations tante do Mestrado em Pós-Crítica (UNEB). Serão estas as duas questões cruciais entender que analogia corresponde a uma espécie de empírico. realizamos a pesquisa biblio. race and gender. and deployment of these meanings ocupou lugar estratégico na teoria científica sobre a variação humana dos de Jesus Oliveira mento de tais acepções. p.36) que se detém sobre os 2. 107 . and then les emergem questões complexas. (2007). Conceição ao colocar em xeque a neutralidade dos “homens da 72). Com esse fim. cujo intuito foi propalar a superiorização euro. sentimentos e a mente humana. são escolhidas e outras não?” Afinal. apesar das controvérsias criadas em torno delas. Mestre em Educação Palavras chave: racismo científico. p. já que estudiosos da área de relações étnico-raciais altera. Eduardo Mondlane. âmbito teórico. sente texto. configurando-se em um ins- tempo. elo entre raça e gênero. houve a rejeição da metáfora e da analogia pelos da analogia e da metáfora como meio de interpretar e ao gênero. e de- abstract Race and gender are historically (re) constructed concepts. com isso. Com o transcorrer do que nortearão as ideias a serem desenvolvidas no pre. par. studies in the area of Social Sciences. Stepan (1994. p. professora visi. apolítico e universal”. dentre os quais destaco: Raça e gênero são conceitos (re) construídos historica. realizei pesquisa bibliográ- tensa superioridade branca e a inferioridade dos demais fica e me norteei por estudiosos (as) provenientes das segmentos étnico-raciais. -SP e Graduada em Letras/PUC-SP. this end. Para maiores informações a respeito de tais “homens da scien. correspon. The reflections A analogia em questão é aquela que liga raça ao gênero. Especialista em Literatura/PUC. que os engendraram. que busca saber: 1)“Como. configurou-se (e ainda se configura. distinção entre os movimentos feministas e o feminis. propagar o racismo científico e o sexismo2. encontro aos almejados. For séculos XIX e XX.negras reflexões RAÇA E GÊNERO: ENTRELACES RACISTAS VERSUS AFIRMAÇÃO IDENTITÁRIA NEGRA RESUMO Raça e gênero são conceitos (re)construídos historicamente. 72). we conducted a literature search and guided ourselves by Professora Assistente da Universidade do gráfica e nos pautamos em estudos na área das Ciências Sociais. de verdade que lhe é conferido. black people resis- (UNEB). na ciência. pela Univ. cia” são o foco central de discussão de Stepan (1994. gicos. mas. (STEPAN. mesmo quando os resultados obtidos iam de a referida estudiosa. “tradicionalmente”. como assevera Stepan (1994. por conseguinte. quando do desejo de distinguir os comporta. com bolsa estágio/sanduiche em Maputo. p. da razão que. 72) contemporaneidade. Luiza mente. como observa cêntrica. b) relação e na teoria científica sobre a variação humana dos sécu- tividade. tampouco sociológica. Doutora em Letras pela UFPB. a pre. e não pelos genes e ou fatores bioló- 1. metáforas Evaristo (2006). por considerá-las destituídas de obje. rei- ao XX. na era moder. graças ao status E DESDOBRAMENTOS tindo de conceitos preconcebidos. Sueli Carneiro (1993. raça e gênero. que não intento dis- 3. As neutrality of ”men of science” that engender them. 72) salienta que. a ciência. nos dias atuais) RACISMO CIENTÍFICO era demarcar os segmentos étnico-raciais distintos. relações étnico-raciais e de gênero em nosso seio social. naturalizados. sim.

poderes. E. além da omissão. entre o homem civilizado e o selvagem. da ciência discordam. p. A princípio ocorre a total final do iluminismo estudos sobre a variação humana cendo que “na ciência [. Então. preconceituosas e distantes da reali. tifacetados. e um extenso discurso sobre desigualdade falha em perceber ‘arbitrariedades’ é que faz com que ciência” e às suas “descobertas”. pois souberam enlaçar. a importância de (re)discutir e proble- (1995. familiares e culturalmente arraigadas ção na variação humana – raças de todos os tipos [. as diferentes formas de opressão/exploração tão caras “[. Emerge. As metáforas. nem meramente pessoais”. o criminoso.]”. observa Ste. das mulheres. tão diferente das objetos científicos: seres humanos. 73) informa ainda quão fantasiosas. Logo. (1993). pan (1994. pois. das crianças e dos idosos. isso enredar: ciência/analogia/metáfora. p. em tragicidade para aqueles que foram discriminados inferiorização negra e a superiorização branca. os filósofos descobertas mirabolantes e racistas. farei alu. evidencia alguns métodos científicos 220). remetendo-se a Foucault. NO SEIO SOCIAL É instigante. fan. sob teias e tramas e dizimados sob a égide da ciência. porém. linguagem própria. constitutivos da teoria científica”. enfim. do sé- 4. a aludida riores e diferentes na hierarquia social. às figuras princípio. p.. complementa Stepan (1994. estrategicamente utilizado para quão eram movidos por interesses escusos e afins.. de um modo ou de outro. à própria ciência”. No entanto. científicas. analogias e modelos começou a ser reconhecido mentos. matizar tais questões. considerados também. que “a mulher se igualava aos negros pelo na ciência”. se não resultassem conceitos (pseudo) científicos engendrou a propalada ditos “homens da ciência”. também. p. distinguiram diferenças raciais como aspectos cruciais são arbitrárias. cujas semelhanças entre si e as diferenças nicas e demais instrumentos da área como. imersa em metáforas e analogias arraigadas de (pre) Em suma. 1994. Isso crânio. a mulher.. emaranhar. insanos eram. prossegue Stepan (1994.] metáforas e analogias não estudiosa. sito de salvaguardar privilégios sócio-econômicos dos tidos e os almejados. quando da “revo. compreendendo-se. p. raças Se a “analogia conduziu pesquisas”. etc7. os negligenciavam ou suprimiam Complicado é o fato de muitos daqueles ideários terem ência” passaram a considerar “que metáforas e analogias grupos hegemônicos. 73). 86-89).. entre “raça e gênero”. “naturalistas” da ciência da cultura. p. demarcou pa- metáfora e analogia para o esclarecimento científico”: racistas e sexistas. Tanto é que ao identificarem Mais recentemente. do “informações sobre os corpos das mulheres (com- variação humana”.. os pobres das cidades e os é possível notar que os ideólogos da ciência criaram. para atender aos propósitos eurocêntricos. em alguns mo. as tendências crimi. interessa registrar que “a metáfora chegou a racial começou a ser elaborado”. a Carlos Moore (2007). com o mero propó. de “uma peculiar analogia da história das ciências. p. assim. Diante dessa constatação. é perceptível quando Stepan (1994.] que “as analogias ou os modelos nelas baseados eram gros). porém. demarcando-se a supremacia racial 108 109 .. Ou seja. p. 75). através do crânio dos seres humanos.. não mais mencionarei o ano de sua publicação. o papel das metá. 74). tecnologias sociais6 ao utilizar não só as téc. para tasiosos. Eis. então. o des. as quais “teriam var momentos cruciais da polêmica quanto à rejeição explicar a “variação humana dos séculos XIX e XX”. Nesse caminhar de constatações/manipulações interferindo nas relações (inter)pessoais. foram gestadas e organizadas (1994). foram resultado de metáforas Também auxiliou a constituir os objetos de investiga- pois. baseados em Lombroso. Como estarei me referindo sempre o mesmo texto de Stepan ber. da metáfora pelos “homens de ciência” para afirmar 5. a ser elaborada”. as ideias vigentes fez surgir as ‘lentes’ através das quais as pessoas expe- cido pela sua crítica à importância da controvérsia sobre não eram entendidas como precoces. dou na disseminação de novos vocábulos técnicos. direitos e deveres. a fim de atribuir termos específi. gerou hipóteses e aju- No entanto. propiciou a analogia entre raça e ciência. verdadeiro e objetivo – mais robustas e arredondadas cabeças que caracteriza. frenologia. formato do No texto de Stepan (1994. O PASSADO PRESENTE culturais das analogias científicas”. através de “manobras por vezes cômicas”. ao constatarem a discrepância entre os resultados ob. Daí a utilização Partindo de tais exemplos hoje esdrúxulos. RACISMO E SEXISMO: explorar uma série de questões relacionadas às causas formações.. preconceituosas. entre péis sociais. no século XX. “alguns filósofos da ci. usufruindo do sta. culo XVII ao século XX. no século XVII.. étnico-raciais. o elo pulação de dados pelos “homens da ciência”.. o qual estava. os considerados homens das ciências fizeram (STEPAN. p. posto que mul- não são apenas auxílio psicológicos para a descober. mas elementos Analogicamente às raças inferiores. Stepan prossegue com outras instigantes in.] a pouco de atenção àqueles episódios dos “homens da lução científica”. Stepan constata ainda que “O sistema metafórico p. obviamente. distorção e mani.50). detrimento do segmento negro. no artigo de Stepan. 86-90). 87-88). possibilitaram a “construção de similaridades”.. 1994. poderíamos identifi- trovérsias.] A analogia definiu importantes para o pensamento científico”. p. ta científica ou esquemas heurísticos. tendo a atenção dos his. nais ou genialidades humanas. dade são suas conclusões. E isso evidencia o que era problemático [nos] grupos (STEPAN. tificar algumas constatações desenvolvidas por Stepan. gurar a sobrevivência da classe e a continuação da hegemonia”. que o “físico francês Pierre Duhem ficou bastante conhe. que contribui para ampliar e ra- crítica da metáfora científica está apenas começando com o homem branco ‘explicavam’ suas posições infe. se nos detivermos com um rejeição de ambas. 76) bem como outros grupos sociais [. a as metáforas ou analogias particulares sejam aceitáveis car semelhança com a ficção. 28) salienta que. “desde o às “origens culturais da metáfora científica”. infantil e delicado. questionando de “novos conhecimentos”. Aproprio-me. e sexo. p. nos afigura ideias cômicas. Seguindo na direção do pensamento da referida pelos homens da ciência. o que era aprendido nos cursos 7. de frenologia. estando ambas análogas ser associada à imaginação. trazendo à tona a construção científica que no caso.]”. a metáfora e a analogia utilizadas pelos foras.. branquicéfalo. 76) faz alusão perdido sua importância como sinais de inferioridade e/ou aceitação/apropriação da metáfora e da analogia Antes. apesar de “o papel da metáfora e da ana. auxiliando e fundamentan. tus científico e social que dispunham. para se perce. Stepan (1994. prossegue Stepan viante sexual. 1994.] aspectos da realidade e da experiência humanas toriadores e filósofos da ciência se deslocado das re. também abordadas pelo estudioso logia na ciência [ser] agora reconhecido. [. “Não por aca- dos homens da ciência. ou não ‘observados’” (STEPAN. analogias usadas pelos cientistas do final do século A analogia conduziu pesquisas. pesquisadora evidencia seu propósito que é “contribuir antropometria. precisamente nos meios acadêmicos – onde. conhecimento sem adornos. O artigo de Stepan (1994. sobre o porquê da escolha de algumas analogias em de- formações a respeito das apropriações da analogia e 6. p.. p. que a burguesia criou “a partir do final do século XVIII para asse. do termo utilizado por Lauretis (1994. 1994. largura da pélvis. quanto à importância ou não das metáforas e analogias. Emergem daí não se deu casualmente. indicando primento dos membros. Schwarcz (1993. a saber: craniometria. rimentaram e ‘viram’ as diferenças entre classes. em uma (con)fusão epistemológica e na confiscação de subjetivas e até mesmo à falsidade e foi contrastada ao crânio estreito. 72)4 é possível obser. Sem entrar nos meandros de tais con. ricos e pobres. 73). no século XX seguem as polêmicas Com base no tamanho do crânio (craniometria) XVIII. dolicocéfalo. cos/científicos às descobertas. entre crianças e adultos”. Assim sendo. a pretensa objetividade científi. Para maiores detalhes consultar Stepan (1994) e Schwarz ideologicamente as noções raciais que predominam até são apenas às respectivas páginas em questão. 73). dos homens. segmento negro. organologia. “[. as isto é. p. para o desenvolvimento de tal teoria”. uma teoria ‘raças à parte’. em consonância com os demais grupos a ambos os gêneros: feminino e masculino oriundos do incompatíveis com a metáfora tendiam a ser ignorados construções lógicas da ciência em direção a visões mais hegemônicos da época5. ca. tinham o papel de justificar (STEPAN. peso ou estrutura do cérebro”. quando a mutação humana começou a ser es. pois. se de um lado os “cientistas” passam a defender das ditas raças superiores (brancos) e inferiores (ne. negras reflexões trumento “estratégico” para a “teoria científica sobre a a superioridade do segmento étnico-racial branco em trimento de outras. vam os machos de raças ‘superiores’”. sobrevivido ao transcorrer do tempo. diria ainda que. a riqueza de in.. para designar algumas “técnicas” Carlos Moore (2007. da realidade. os dias de hoje [. saberes. preestabelecidas. No caso do estudo científico da diferença humana. aqui. so. tudada sistematicamente. à fantasia poética. prognatismo. e comprovar teses racistas e sexistas. reconhe. prosseguem demarcando lugares sociais.

que buscaram a pureza diversos. 69) reitera constatações de Moore das idéias que naturalizaram a inferioridade dos negros.. por análoga entre ambos. no século XIX. que in- rias racistas em questão. mulheres de diferentes grupos [. (MOORE. Darwin. o alienista. Nessa 18”. de Machado de Assis. em seu livro Raça pura: entre raça e gênero. Silva (1995). à luz dos ideários 10. conforme percebem os estudiosos da “fenômenos atemporais. 286). sucumbe em todas antes. enredado com base no fator heredi. 10). afinal e sociais que são negados à população-alvo”. 113). mas entre parcelas significativas da comu. sobretudo quando este reconhece o influencia da (pseudo) ciência. Platão e Aristóteles. não só na literatura destinada ao adulto mas. porém. de Alui. tendo como base suas inferioridades ‘naturais’”. seu livro intitulado: A invenção do ser negro: um percurso Como formas de consciência historicamente constru- e perenizar as estruturas de dominação sócio-raciais Gomes (1995. “Já na Gré. conforme observamos renciado aspecto teórico-político-ideológico de onde o exercendo sua força ideológica não apenas na comuni. dade de serem dinâmicas determinadas e construídas racial quando da distinção matrimonial. Dentro de uma visão mais Naturalista da realidade. nestas. etc. o que poderia existir de comum entre ideologicamente. expandiu-se pelos países do Ocidente. 37). percorreu o universo dos que “Sobre a raça negra. reportando-se às teo. Eis o que Ab. como algo natural. p. abandona a família e. congênito. partir dos anos 90 o governo federal tenha reconhecido. sexista. duas figuras são emblemáticas: Rita entanto. na segunda metade dos anos 60. o ra- em favor da sua prole [. leva a cidade ao caos ao internar/ TECENDO OS FIOS DE UM e de quem? Responde o autor. envidaram-se esforços para perseguir a religiosidade de produção. 2007. p. estruturado sio de Azevedo. Nesse viés de pensamento. lá se vão as mulheres. cientifico. Isso. a inferiorização da mulher é tomada totalmente resolvida pelos vários feminismos. Logo. afirmando ser Francis Galton “o pai da eugenia”. visto serem os campos de batalhas mais com. da da história. cavam desde a inferioridade dessa raça com relação à oficialmente. as civilizações. psicó. as filosofias e as ideologias Para Diwan (2007. Seu percurso histórico é longo e. além deles. tomando como referência o século XVII. 458). por outro lado. para “estimu. a libertação da mulher [. Há. os modos princípios de extermínio dos não brancos.. experiências de um cientista obcecado em desvendar imersas em uma sociedade rígida e regida pelo patriar- as (re) ações humanas consideradas anômalas sob seu NEGRAS MULHERES: calismo. ideológicos. entre outros (as) es. FEMINISMO AFROCENTRADO quais: “libertação” e “emancipação”. dade branca. lismo’” (SCHWARCZ. plexos ainda que os enfrentados pelas mulheres bran. esta “questão recorrente não é Assim como Carlos Moore. aproximações entre os pontos de vista de Diwan outros personagens da Literatura Brasileira expressam a mente. o aborda não só no Brasil como produções destinadas às crianças e adolescentes. desde então. a persistência do racismo e de seus male. a noção de superioridade do povo metaforicamente. Oliveira os problemas sócio-raciais que afetavam as mulheres (2000). lhe era inerente. marcada por profundas desigual- racismo como um “fenômeno histórico”. nem ele. gra destroem a retidão e o caráter exemplar do homem Quer dizer. assimilada e adaptada nômeno exclusivamente antimulher e o racismo é um a salvaguardar privilégios seculares por meio de ações do . a eugenia “Com status tam e terminam por legitimar o racismo presente no e as atividades culturais do segmento. 69) constata branco. Mas. levando em conta no exterior e segue aa mesma linha de pensamento de Cashmore 9. nidade negra”. Esse é um exemplo da analogia ra evidencia. (ibid. 2007. Em O Cortiço. 280) delineia as nuances do através da ciência.. Então. Aqui o poder sensual e bestialidade da mulher ne. área citados até então e. p. Assim. Conforme Frei Betto (2006. 281). 2007) entre outros (as) estudiosos da área. se começa a dar mais visibilidade cos. racista e sexista. cia antiga. de Hipólito Taine. e Um exemplo da obsessão fanática – para não dizer sofridas. 23). E isso tatou. “Numa socie- e Carlos Moore. transposições de pensamento externo9. universais e transversais”. fícios para a sociedade como um todo (TELES. ponto de vista. p. Para Bairros (p. Logo. historiadores. no entanto. p. uma referência. tende a ocasionar danos à lada superioridade branca X inferioridade negra impor. é apropriada e justificada metaforicamente pela ci. 2007. ideológicas” para demarcar a “superioridade dos cris. as religiões. Sem entrar em tais meandros. Há. Cuti (2010). Esse é a tese defendida por Scwarcz em outro livro de sua to ver: Brookshaw (1983). Logo. mencionar mais exemplos da propa. também. Eles atravessam os milênios. negras reflexões do segmento branco em detrimento dos demais: “An. No que concerne à comunidade branca.Vale pontuar que Diwan (2007. propugnando Mesmo na Idade Média. Gomes (1995. cismo e o sexismo perpassam todas as culturas e todas do bojo desse contexto que surge a eugenia imersa em racistas “não surgem espontaneamente. brancas e negras. mas basicamente convergentes. e ganha status de verdade. 1987. É (2007) e de Stepan (1994). Nos anos 80 (século XX) é que.a construção de uma autoestima positiva. no Brasil. desfiando suas teias enredadas sob fios teóri- analítica”8. uma espécie déficit que terpretaram a opressão sexual com base em um dife- que “ainda estão presentes na atualidade e continuam tava. ao entender que as teorias Em termos de outros projetos políticos de embran. através de Paulo no final do século XIX. etnólogos. economistas e filósofos atuaram como grandes corrobora o sentimento de superioridade em relação Poderia. recriados em ência no transcorrer do tempo. p. Ele esclarece ainda que da vontade divina. também. fim.. cujo título é O espetáculo das raças (1993). Eis o que cons. mo. com vistas auto-percepção dificultando – e às vezes inviabilizan. em busca da libertação.] e classes sociais?”. No entanto. p. p. Stepan (1994. A esse respei. sociólogos. nas feminismo” e. Gerônimo. portanto. muitos outros10. Esta estudiosa assevera e internacionalmente. 77) assevera que. e o florescer do feminismo no Ocidente. nem são meras quecimento social e ideológico. complementa. Essa associação. imaginário social e na prática brasileira”. historicamente e não ideologicamente”. 2003). tropólogos. Eis o que a pesquisado- as virtudes europeias.]” (MOORE. Moore (2007. Surge daí o feminismo afrocentrado.. Trata-se. (2004). masculina. tendo em vista branca até suas características de ‘humildade e servi. Schwarcz (1987) em seu livro Retrato do negro brasileiro” antes. libertação de quê A aludida pesquisadora salienta que embora na. movimento feminista surgiu”. Evaristo (2007). da intensificação da opressão social. durante e após o período Carlos Moore (cit. 19-21) o feminismo a preservação da raça” (op cit. p. 458). com o advento da “Revolução Francesa”. escravos e cidadãos em São escravagista. um ponto de partida para o alvorecer e indígenas” (DIWAN. p. 110 111 . fenômeno fundamentalmente antinegro” sendo ambos racistas. autoria. “o berço a dominação do Mundo Novo podem ser constatadas obra temos a fina ironia machadiana ao perscrutar as do feminismo moderno”. tário e fenotípico dos segmentos étnico-raciais. obvia. Elas se alimen. seu marco dá-se no “século Terra Santa e a inferioridade indígena para justificar obra literária O Alienista. p. a inferioridade dos muçulmanos domínio e às especulações científicas vigentes. por exemplo. muito embora só a o sexismo quanto o racismo compartilham a singulari- filósofos. que se degenera no meio social em que habi. Bento (2000). Santos (2002) em do que os “grupos hegemônicos” consigam “produzir tudiosos (as) da área. nacional racismo. (2006.]”. 23). Munanga terior e no Brasil. permitin. históricos. na contramão muitas mulheres já se rebelavam contra a hegemonia cristão sobre os muçulmanos em relação à posse da muito bem ilustrado através de Simão Bacamarte. nossa literatura. Embora não possamos traçar uma linha temporal a res. Aristóteles relacionou a mulher ao escravo. o Rio de Janeiro. em uma leitura tos. Carlos sustentáculos conceituais daquelas arquiteturas teóricas às pessoas negras e. com base em Judith Grant. o português. atemporais e englobantes. p. pondera Bairros (1995. realimentada pela sociedade patriar- logos. elucidando conceitos tais quela não houvesse “descrições raciais nesses argumen. chega até nós. Baiana e o português que se amanceba com ela: Gerôni. Eis a visão magistral de Machado de Assis face ao tomemos a demarcação temporal de Frei Betto como tãos e. peito da propalada inferiorização da mulher e. lar o matrimônio dos casais ‘superiores’. a alguns dos “homens da ciência” é cas. os discursos do Correio eram às desigualdades raciais no Brasil. pois expli. dades sociais. ídas e determinadas. incontestavelmente se desenvolveram estratégias Nem mesmo a esposa escapa. p. negras vozes fizeram ecoar as opressões surgiu “nos EUA. aqui. em que tudo era resultado fantasmagórica – de um personagem que corresponde. sob o aval Mas. tada principalmente da Europa. de “privilégios econômicos mesmo ponto de vista de Nascimento (2002). aborda tais uma história da eugenia no Brasil. de disciplina objetivou implantar um método de sele. Spencer. p. remetendo-se aos “conceitos básicos de 8. eis o que se segue. prender um imenso contingente em seu “laboratório”. to. conceitos e aponta as suas limitações. dias Nascimento (2002) denomina como “genocídio ção humana baseada em premissas biológicas. “Tanto nomes e propósitos distintos. Esse é o aos interesses dos diversos grupos hegemônicos no ex. 23). no dade racista.. que sempre se pretendeu neutra e em preto e branco: jornais. cal. Antes. 281) salienta que “O sexismo é um fe- que alicerçaram o racismo ideologicamente”. nesse aspec. p.

lheres brancas. 188). composta por pai. fazendo uma importante ressalva ao consi. negros. (1993. seguindo a linha do. Conceição Evaristo (2005.118). Daí concluir-se que a “que tinham dificuldades de encontrar seu um lugar. e exercido até o século XIX. de outro exige o estudiosa se refere. religiosos e psicológicos”. são vistas como “antimusas”. especificamente? Para responder nos situava mais próximas do modelo da masculinidade. 118) entende. tam. pelas mulheres brancas. após ele. portanto. dedicada à família. 67) “o patriarcado ocidental.. eram (e são) Na mesma linha de pensamento das estudiosas humanidade. A diversificação das concepções e práticas políticas que no entanto fiquem evidentes os motivos de sua ocor. têm que de opressão além do sexismo. é a demarcação dos anos 70 como cessidade de nos atentarmos ao “uso do conceito de mulher costuma-se referir quando se pensa a opressão falando?”. Sueli Carneiro (1993. nesse sentido. dicionais existentes sobre a mulher: contra o mito de zinhas e de senhores de engenho tarados. na luta pela descri. Logo. buscar forças para lidar com as mais variadas formas de e na invisibilidade”. Sueli Carneiro remete-se à opressão social e econô. 2006. são constantes em nosso imaginário. estigmatizados de mulheres vítimas de outras formas filhos. Somos mulheres e trabalhamos. prostitutas etc. p. quando se refere ao “contin- oprimidas não só pela sociedade patriarcal como.. prossegue em suas dos feminismos que se insurgem no âmbito das mu. O segundo versão concebe “a sexualidade [. so histórico-cultural”. tais início do século XX”. negras reflexões As mulheres negras. Em como a “dona do lar”. com uma definição racial: brancos. 188). também pelos servos e escravos”. já que à mulher se atribui opressão social oriundas do patriarcalismo e do racismo. o qual “traz implícito tanto a dimensão do no sistema patriarcal? Essa questão é respondida com tema patriarcal racista e sexista tentou silenciar. mulheres que não são rainhas de nada.. os Somos seres plenos de potencialidade.] Ou greco-romanos. das “diferenças e desigualdades presentes no univer- riência central na identidade das mulheres”. concebidas resgate desta dimensão feminina irrecusável. p. que que explicitamente tentam definir a mulher com base periências e vivências de grande parte das mulheres ne. ou duz no feminismo é resultado de um processo dialético Assim sendo. mulheres de baixa renda”. pois. de um lado. p. para sobreviver. p. o esposo. mica.] versões do pensamento feminista quais não correspondem à realidade. que. como forma de lidar com os papéis de gênero”. vistas de maneira naturalizada e. sendo o último plano relegado ao gente de mulheres” negras que precisaram “ganhar as bém. Salienta. ou seja.. mãe e filhos e. Ou seja.. Outras acepções de feminismo são apontadas por nuclear. triarcal. São as disparidades entre os dois universos de mu. a mulher nência de sua observação. reconhecimento da diversidade e desigualdade existen- a essa questão faz-se necessário trazer à baila as duas tadas como antimusas da sociedade brasileira. por estarem imersas em primeiros estudos do feminismo sobre gênero nasce. como a experiência capaz de uni. abordadas até então. e aquelas cujos traços diacríticos des- das mulheres de classes populares).. branca. no texto em questão. “identidade social [é] construída a partir de elementos inclusive dentro do feminismo” (ARAÚJO e SCHNEI- Luiza Bairros (1995. tuteiras. mulatas tipo exportação. 459) chama a atenção para a ne. p. Mas. igno- versões não deram “conta das questões” que afligiam as que só até o século XX? Penso que não. a ótica das mulheres dos grupos subalternizados intro- rência em diferentes contextos históricos e culturais”. pois.] por longo tempo. faz (em) ecoar vozes silenciadas de pensamento de Sueli Carneiro. aqui. inegavelmente. mulheres negras. enfatiza Bairros. assim como outras escritoras. Nessa mesma linha de ram da denúncia e da reflexão sobre o patriarcado”. A primeira ordem. rejeitadas (os). “a opressão sexista de opressão. p. neiro da visão eurocêntrica e universalizante das mu- A primeira versão. mulheres que não entenderam a atenção.. de que mulheres estamos Araújo e Schneider. radas (os). e como todo movimento de contestação.. porque tes entre essas mesmas mulheres (2003. pois. pois. p. que o “movimento de mulheres nos levou ao repercutem nacional e internacionalmente.. cravas nas lavouras ou nas ruas como vendedoras. 187) parte da [. Luiza entenderam nada quando as feministas disseram que portância do feminismo no combate ao sexismo entre como diferenças biológicas e sociais [. seguido da mulher negra. bastante propriedade e veemência por Sueli Carneiro Nós. “as diferenças de sexo” eram “percebidas inicialmente Moore (2007). sidade apontada por Sueli Carneiro diz respeito ao ideal negras e ressalta as “o protagonismo que tiveram nas normalidade e de autoridade social e política” centrava. A aludida filósofa não desconsidera a importância “[. mentos feministas.] cidadania de segunda ordem (1993. Ao desenredar os fios da trama que encobriram a e/ou invisibilizadas em nossa literatura ao longo dos sobre as “versões mais conhecidas do feminismo. homem negro. pois. contra o confinamento da mulher ao espaço gadas domésticas de mulheres liberais e dondocas.. Nossa toam de tal padrão. é construída a partir “des.. contra a limitação da mulher a mero repro. hoje os sistemas racistas e patriarcais “Quando falamos do mito da fragilidade feminina que critica literária brasileira. culturais. Fazemos parte de um contingente de mulheres com é entendida como um fenômeno universal. Se estas consequência disso. “nascemos com uma defi. de classe abastada” nição biológica. promove a afirmação das mulheres que a mulher definir como tal”. pon. assim alguns mitos (re)criados no seio social patriarcal pois. Eis a grande contribuição de Evaristo e outras ber: “radical. 2006). tempos. identidade de objeto.. negras.]”. 460. por creche (uma necessidade precípua -se na figura do “homem branco. cujas vozes lheres” dificultando. lismo e do racismo preponderante. distintas frentes de batalhas que os distancia. tais mulheres “não pensamento. prisio- em experiências tidas como universais”. a qual mulher a dutor da espécie. Outra adver- outros tipos de preconceitos sofridos pelas mulheres lheres viviam “imersas num sistema cujo paradigma de premissa de que a “identidade” resulta “de um proces. interessa elucidar: a qual homens sobre as mulheres. das camadas dominantes. Sueli Carneiro (1993. “tendo históricos. as mu. 188). fazendo um paralelo entre o Movimento de mulheres que trabalharam durante séculos como es. uma instigação: será p. que são retra. é Questionando e desconstruindo tais mitos. sem que. tece considerações sido um regime de influência política na Antiguidade. é óbvio. olhar sobre a alteridade. Vale sexo biológico como a construção social de gênero. à disparidade salarial. regime social. Daí a perti. derar. Afinal. Bairros (1995). É o caso da mulher “vitima de uma cidadania “de segunda ordem”. Ontem a serviço de frágeis sinha. o patriarcado refluiu no visão de mulher universalizada. homens ou mulheres [. p.. [. p. portanto.] Somos demarca as singularidades entre ambos. por grande parte da mulheres negras. às ex. Sueli Carneiro (2003. enfim. p. sob os moldes lutas pela anistia. haja vista as so feminino. o que se entende por “patriarcalismo”? Con. p. Sueli Carneiro chama criados pela opressão patriarcal – passiva. 119) destaca a im. Fica. como identidade social. o modelo de lheres (brancas/negras) que Sueli aborda. continuaram no silêncio como forma de poder que transforma a mulher em ob. interferindo no justificou historicamente a proteção paternalista dos O que nos importa aqui. isso durante e após o um sistema socialmente racista. as negras mulheres. afinal. se. ainda.189) segue ainda mais pungente: desvenda e dissipa tantas escritoras e escritores desconhecidas (os)... assegura Bairros (1995. a reinvenção da categoria mulher”. p.. Mas. pergunta. Diante disso. p. um marco histórico de insurgência das vozes que o sis- mulher”. Piza (1998. qui. E o rompimento com esses modelos As mulheres negras fazem parte de um contingente de em geral como novos sujeitos políticos. tem sua base de sustentação na família sas definições sexuais e raciais”.. minalização do aborto que penaliza. entende-se que opressão é a “situação doméstico.] o feminismo esteve [. se constituíram na recusa de todos os estereótipos tra. gras. Hoje empre. de sapiência e força e. 126).] deveriam ganhar as ruas e trabalhar”. 458-459) que. ser mulher e negra fez e faz dera. através da “história oficial brasileira”. reportando-se às 112 113 . desse modo. jeto sexual do homem. de Bairros (1995. DER. Conceição Evaristo. No que se refere à invisibilidade das mulheres ficar todas as mulheres”. Sueli Carneiro (2003.. os o modelo estético é de mulher branca [. etc”. de mulher universal: a musa. e a prole. 205) ilustra isso um poder definido como intrinsecamente masculino”. emocional. de Os primeiros passos do Movimento Feminista no Brasil nada quando as feministas disseram que as mulheres nhecimento da diversidade e desigualdade existentes” modo que as diferenças entre mulheres e homens são e no mundo expressaram a intensa revolta [ao] processo deveriam ganhar as ruas e trabalhar! entre ambos os movimentos. fazemos parte de um contingente salientar. ruas e trabalhar”. liberal e socialista”. é atribuída ao homem branco. instigações. Para Luiza Bairros. em sua trajetória. fragilidade. digamos. p. a alusão à heterogeneidade dos movi- Entretanto. a despeito da identidade biológica”. “frequentemente utiliza os mesmos estereótipos Feminista Brasileiro e o “do mundo” pois. 67) salienta que “Os branca é a referência. no passa.] através dessas “[. como o racismo. a diferença em nossas trajetórias. Afinal. ainda nos dias atuais. pois Seguindo a direção do pensamento de Carlos sistema escravagista. exercendo uma mulheres lidam com a opressão social do universo pa. haja vista a persistência do patriarca. que. acepções de feminismo aludidas por Bairros. Conceição Evaristo (2005. cujo núcleo mulheres e estudamos. a sa. Mas. No entanto. as forme Piza (1998. para a necessidade de “reco- etc. Sueli Carneiro (1993. “as vozes silenciadas e os corpos é constituído de um provedor. o reconhecimento 461) parte da premissa de que a maternidade é a “expe.

negras reflexões

pesquisadoras da área, a exemplo de Sueli Carneiro, o que fizeram nossos antepassados, às vezes pagando branquitude e branqueamento no Brasil. Petrópolis/ MUNANGA, Kabenguele. Rediscutindo a mestiçagem
Lélia Gonzalez, Helena Teodoro, Luiza Bairros, entre um preço muito alto: a própria vida. Eis a batalha que RJ: Vozes, 2002. no Brasil: identidade nacional versus identidade
outras, tomando como referência, também, a produ- prosseguimos na atualidade, mesmo não contando com BROOKSHAW, David. Raça & cor na literatura brasi- negra. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.
ção brasileira. A escritora alude ainda ao “fazer lite- os poderosos aparatos tecnológicos aludidos por Laure- leira. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1983. MUNANGA, Kabenguele. Apresentação. In: Superando
rário das mulheres negras” e observa que “os textos tis (1994, p.220): as tecnologias sociais, e de gênero, as CARNEIRO, Sueli. Identidade Feminina. In: Cadernos o racismo na escola. Brasília: MEC/SECAD, 2005,
femininos negros, para além de um sentido estético, quais correspondem aos meios, recursos - quer dizer, Geledés, n. 4, 1993, pp. 187-193. p.15-20.
buscam semantizar um outro movimento, àquele que técnicas audiovisuais, midiáticas, científicas, discursi- CARNEIRO, Sueli. Mulheres em movimento. In: Estu- NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasilei-
abriga todas as suas lutas”. São destacadas, portanto, vas, educacionais, entre outras - (re)criados pelos gru- dos Avançados, n. 17 (49), 2003 ro. Salvador: Ceao/UFBA, 2002.
as seguintes escritoras: “Geni Guimarães, Esmeral- pos hegemônicos. CASHMORE, Ellis. Dicionário de relações étnico-ra- OLIVEIRA, Maria Anória de J. Relações Étnico-Raciais
da Ribeiro, Miriam Alves, Lia Vieira, Celinha, Roseli Se a metáfora diz respeito à substituição de um ciais. São Paulo: Summus/Selo Negro, 2000. na Educação e a Literatura Infanto-Juvenil: nas ve-
Nascimento, Ana Cruz, Mãe Beata de Iemanjá, dentre termo, palavra ou ideia de uma coisa por outra, cuja CUTI. A consciência do impacto nas obras de Cruz e redas da Lei Federal 10.639/03 (?!). In: LINS, Jua-
outras”. Acrescentaria nessa relação a própria escritora, conotação é análoga, correspondente à analogia, por Souza e Lima Barreto. Belo Horizonte: Autentica, rez Nogueira e outros (Org.). Linguagem e Discus-
Conceição Evaristo, cuja produção vem se consolidan- outro lado, abrange não só a similitude como, também, 2009. sões Culturais. João Pessoa: Ed. dos Organizadores,
do “no campo literário”, como bem ressaltam Araújo e estabelece pontos de semelhanças entre coisas diferen- DIWAN, Pietra. Raça pura: uma história da eugenia 2006, pp.245-261.
Schneider (2005, p.126). Isso, sem falar na produção tes. Logo, tanto a analogia quanto a metáfora lançam no Brasil e no mundo. São Paulo: Contexto, 2007. OLIVEIRA, Maria Anória de J. Discurso Histórico e
acadêmica da pesquisadora/escritora/professora. luzes para elucidar determinadas semelhanças entre EVARISTO, Conceição. Dos sorrisos, dos silêncios e Narrativa Literária: entrelaces na tessitura da Rai-
Se as relações étnico-raciais, a exemplo da relação diferenças (raciais e de gênero) (re/des)construídas das falas. In: SCHNEIDER, Liane e MACHADO, nha Africana Nzinga Mbandi. In: FLORES, Elio
entre negros e brancos, têm sido desiguais historica- historicamente. Charliton (Org). Mulheres no Brasil: resistência, lu- Chaves e SUCUMA, Arnaldo (Org.). Tricontinen-
mente, já que marcadas pelo racismo e pelo sexismo, A analogia e a metáfora foram, portanto, mais um tas e conquistas. João Pessoa: Editora Universitária/ tal Revista de Arte, Cultura e Ciência. João Pessoa:
também a relação entre homens e mulheres resulta das desses poderosos recursos discursivos, como vimos ini- UEPB, 2006, pp.111-122. Convênio de Graduação e de Pós Graduação, Ano
implicações de vivermos em uma sociedade patriarcal, cialmente. Hoje lidamos com muitos outros: audiovisu- EVARISTO, Conceição. Literatura negra. Rio de Janei- I, v. 1, n.1, Ed. Universitária/UFPB, 2008, pp.123-
sendo as mulheres subjugadas, desvalorizadas em seu ais, midiáticos, educacionais, etc. Mas, não nos damos ro: CEAP, 2007. 140.
saber/poder, assim como as pessoas negras. É possível por vencidos (as) e aqui estamos construindo outras FLORES, Elio Chaves e CAVALCANTE, Fátima Solan- PIZA, Edith. Caminhos das águas: estereótipos de per-
inferir, portanto, que ambos os gêneros: feminino e metáforas e analogias, prescindindo de qualquer desejo ge. Raça, gênero, classe e região: uma introdução sonagens negras por escritoras brancas. São Paulo:
masculino se aproximam analogicamente, por estarem de inverter os centros: do eurocentrismo/eugenismo, à crítica da democracia minimalista. In: SCH- EDUSP / Com Arte, 1998.
à margem da sociedade. pelo afrocentrismo/negro, mas, sim, nos interessa sal- NEIDER, Liane e MACHADO, Charliton (Org). SANTOS, Gislene Aparecida dos. A invenção do ser
Agora, se levarmos em conta as condições básicas vaguardar o respeito e o direito às diferenças e fazer Mulheres no Brasil: resistência, lutas e conquistas. negro: um percurso das ideias que naturalizaram a
de vida de ambos os segmentos étnico-raciais, conside- ecoar outras vozes que tentaram silenciar, embora con- João Pessoa: Editora Universitária/UEPB, 2006, pp. inferioridade dos negros. São Paulo: EDUC/Pallas:
rando os índices de desigualdade entre mulheres bran- tinuem a ressoar em nós. 135-145. 2002.
cas e negras, em termos profissional, sócio-econômico, GOMES, Nilma Lino. Alguns termos e conceitos pre- SCHWARCZ L. Moritz; REIS, L.V de Souza (Org.).
educacional e de saúde, observaremos quão díspares sentes no debate sobre relações raciais no Brasil: Negras imagens: ensaios sobre cultura e escravidão
são as oportunidades destas últimas, se comparadas uma breve discussão. In: Educação anti-racista: no Brasil. São Paulo: EDUSP / Estação Ciências,
àquelas11, o que resultou da aliança entre pensamen-
REFERÊNCIAS caminhos abertos pela lei federal no. 10.639/03. Se- 1996. p. 179-193.
tos racistas e sexistas, enfrentados pelos movimentos cretaria de Educação Continuada, Alfabetização SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças:
feministas afrocentrados, cujas lutas passadas ainda se ARAÚJO, Flávia Santos de e SCHNEIDER, Liane. A es- e Diversidade/SECAD-MEC, Brasília, 2005 (pp- cientistas, instituições e questão racial no Brasil.
fazem presentes. crita de Conceição Evaristo e a mulher negra como 39-62). São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
protagonista em ‘Ana Davenga”. In: SCHNEIDER, LAURETIS, Teresa de. Tecnologia do gênero. In: SCHWARCZ, Lilia Moritz. Retrato em preto e branco:
Liane e MACHADO, Charliton (Org). Mulheres no HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Tendências e jornais escravos e cidadãos em São Paulo no final
Brasil: resistência, lutas e conquistas. João Pessoa: impasses: o feminismo como crítico da cultura. Rio do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras,
CONSIDERAÇÕES (IN) Editora Universitária/UEPB, 2006, pp.123-134. de Janeiro: Rocco, 1994, pp-206-238. 1987.
CONCLUSIVAS BAIRROS, Luiza. Nossos feminismos revisitados. In: MAPA DA POPULAÇÃO NEGRA NO MERCADO SILVA, Ana Célia. A discriminação do negro no livro
Estudos Feministas. Rio de Janeiro, PPCIS/IFCS/ DE TRABALHO. São Paulo: INSPIR – Instituto didático. Salvador: CEAO/CED, 1995.
Diante das diferenças históricas entre a trajetória das UERJ, n. 2, pp-458-463. Sindical Interamericano pela Igualdade Racial, STEPAN, Nancy. Raça e gênero: o papel da analogia
mulheres negras e brancas, Sueli Carneiro (2003, p. BETO, Frei. Marcas de batom: como o movimento fe- outubro, 1999. da ciência. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de.
192) sugere o “enegrecimento do feminismo”, o qual minista evoluiu no Brasil e no mundo. In: SCH- MOORE, Carlos. Racismo e sociedade: novas bases Tendências e impasses: o feminismo como crítico da
implica em considerar a “trajetória das mulheres ne- NEIDER, Liane e MACHADO, Charliton (Org). epistemológicas para entender o racismo. Belo Ho- cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994, pp.73-93.
gras no interior do movimento feminista brasileiro”. Eis Mulheres no Brasil: resistência, lutas e conquistas. rizonte/MG, 2007. TELLES, Edward. Racismo à brasileira: uma nova pers-
João Pessoa: Editora Universitária/UEPB, 2006 MUNANGA, Kabenguele. Para entender o negro no pectiva sociológica. Rio de Janeiro: Relume Duma-
(pp. 19-26). Brasil de hoje. São Paulo: Global / Ação Educativa rá: Fundação Ford, 2003.
11. Consultar o Mapa da População Negra no Mercado de Trbalho BENTO, Maria Aparecida da Silva & CARONE, Iray Assessoria, Pesquisa e informação, 2004 (Livro de
(veja-se nas referências). (Org.). Psicologia social do racismo: estudos sobre Professores).

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negras reflexões

A Redenção
do olhar:
uma abordagem RESUMO abstract
semiótica O presente artigo lida com algumas questões sobre representação
visual da população negra no contexto brasileiro. Para tanto, o au-
This article deals with some questions about visual representation
of the black population in the Brazilian context. For make it works,
tor se utiliza da semiótica formulada por Algirdas Julien Greimas the author uses the semiotic purposed by Algirdas Julien Greimas as
tentando estabelecer correlações entre duas imagens que nos aju- support trying to set up relationship between two images that help
dam a revelar a dimensão histórica do conteúdo racial no âmago us to reveal the historic dimension of racial content in the core of
Nelson de nossa cultura visual. Uma das referências é a pintura intitulada our visual culture. One of the references for this study is the painting
Inocencio “A redenção de Cã” datada da segunda metade do século XIX, e a named “The Can Redemption” from the second half of XIX century,
outra é a cédula de quinhentos cruzeiros que entrou em circulação while the other reference is the five hundred cruzeiros bank note that
Docente do Departamento de Artes Visuais na segunda metade do século XX durante a ditadura militar. O was delivered in the second half of XX century during the military
da Universidade de Brasília (UnB). Coorde- intuito é o de explicar como o ideal de branqueamento ainda é dictatorship. The aim is to explain how the whiteness ideal is still a
nador do Núcleo de Estudos Afro-Brasilei- um modelo seguido, apesar da visão paradisíaca concernente à pattern to be followed, despite the paradise view in which concerns
ros da mesma universidade. Foi membro celebração da diversidade no Brasil. the diversity celebration in Brazil.
da direção nacional da Associação Brasi-
leira de Pesquisadores Negros (Conselho
Nacional de Educação). Doutorando do Palavras chave: Branqueamento, cultura visual, negros, racismo, Keywords: blacks, racism, semiotic, visual culture, whiteness.
PPG-Artes da UnB, com pesquisa acerca semiótica.
do Museu Afro-Brasil em São Paulo.

A IMAGEM IDEAL tação. A conjunção almejada se refere ao processo de Em termos de formantes pictóricos, a obra, obje-
mestiçagem. Neste caso o embranquecimento cumpre to de nosso estudo, apresenta três elementos que estão
COMO PROBLEMA o papel de uma sanção, ou seja, a performance desta vinculados à análise proposta pela teoria greimasiana,
família rural do Brasil agrário do século XIX resultou ou seja, a dimensão cromática proporcionada pelo uso
no nascimento daquela criança especifica, que naquele das cores e suas combinações, a dimensão eidética as-
Esta breve reflexão é um esforço de análise do quadro momento se constitui em objeto modal que conecta sociada à estrutura do quadro e como resultante da
intitulado A Redenção de Cã de autoria de Modesto seus familiares às aspirações de um distanciamento da articulação entre as duas primeiras temos a dimensão
Brocos Y Gomes, datado de fins do século XIX, 1895 imagem negativa atribuída aos africanos e seus des- topológica da pintura.
para ser mais específico. Trata-se de uma pintura, obra cendentes. Transferindo para o quadrado semiótico a A manipulação proposta pelo enunciador, no caso
figurativa cujas dimensões são 199x166cm. O referido situação exposta na pintura analisada, diríamos que em o autor da obra, busca um fazer crer no enunciatário
trabalho pertence ao acervo do Museu Nacional de Be- termos de contrariedades encontramos a relação negro que por sua vez deverá estabelecer algumas relações en-
las Artes, Rio de Janeiro, e tem suscitado ao longo de sua x branco e, em termos de contraditoriedades, uma ou- tre a imagem presente e outras que por ventura estejam
existência uma série de debates e reflexões. tra constituída por não negro x não branco. A tensão arquivadas em seu arquivo mnemônico. Assim, algu-
Nosso empenho aqui é o de tentar pensar este qua- está estabelecida na relação negro x não negro que, de mas associações são possíveis, entendendo que o reper-
dro à luz da semiótica greimasiana ou, melhor dizendo, acordo com a configuração do quadrado, seria o segre- tório, ou em outros termos, a cultura visual do enun-
do que sabemos dela. Seguindo o pensamento de Al- do. A criança parece ser branca embora a ascendência ciatário, se caracteriza como um elemento fundamental
girdas Julien Greimas, para quem a unidade de senti- negra coloque sob suspeita sua aparência. A estratégia que possa permitir a construção dessas associações as
do é fruto das relações entre actantes, nos dispomos a está exatamente em não revelar essa condição particu- quais também denominamos de intertextualidades.
analisar a Redenção de Cã levando em consideração o lar comprometedora. Existem marcas constantes em ambas imagens que
plano da expressão tanto quanto o do conteúdo. Neste Retomando um pouco alguns aspectos da pintura nos impelem a fazer exercícios na procura dessas in-
caso, ao falarmos de expressão, identificamos tratar-se e com o intuito de ir além de uma interpretação que se tertextualidades. Relacionando a pintura em discussão
de um quadro a óleo sobre tela, realizado à maneira restrinja ao plano da superfície podemos nos apoiar com outras produções imagéticas anteriores ou pos-
acadêmica conforme os cânones da pintura neoclássica. nos argumentos de Vicente Martinez quando desen- teriores, algumas aproximações parecem inevitáveis.
As dimensões da obra são amplas, o que corresponde volvendo análises semióticas acerca da pintura enfatiza: Quando fixamos o olhar na tela e sabemos então se
a um modo peculiar de figurativização da época. No tratar de uma abordagem alusiva à miscigenação, acio-
que concerne ao conteúdo, nos deparamos com uma A pintura se caracteriza por ser uma manifestação onde namos o nosso arquivo. No intuito de fazermos um
situação doméstica em que as personagens comparti- nosso olhar é estimulado pela cor, pelo traço, pela li- breve exercício, buscando outras referências visuais, po-
lham um momento de euforia, na medida em que as nha, pela textura, pela matéria, pela forma, etc. e pelas demos destacar imagens bem mais recentes como as da
posturas dos adultos em relação à criança, induzem a relações estruturais que sustentam estes elementos. cédula de 500 cruzeiros aprovada pelo Banco Central e
uma manipulação do olhar expectador, no plano da ten- (Martinez, 1999, pg. 297.) que entrou em circulação nos anos 70, em pleno regime

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negras reflexões

autoritário. Conforme o discurso oficial, esta cédula Há na pintura redundância, repetição e reiteração so. O outro texto com o qual pretendemos fazer uma
trata da evolução étnica brasileira, e foi escolhida para suficientes para que possamos identificar nela a exis- interface é uma cédula de 500 cruzeiros que entrou em
a celebração do sesquicentenário da independência. O tência de isotopia, cujos conectores se encontram na circulação no inicio da década de 70 do século passado,
conteúdo da mensagem impressa na cédula está em própria cena, como as características físicas das pessoas durante a ditadura militar. A referida imagem exibe de
consonância com o exposto na tela de Brocos y Go- envolvidas e suas gestualidades, por exemplo. Podemos um lado os diferentes estágios do Brasil desde o “desco-
mes. O foco é a miscigenação não apenas como uma corroborar tal afirmação observando as mulheres em brimento”, passando pelo comércio, colonização, inde-
performance, mas como um querer, um poder e um cena, cujas posturas são tais como as que aludem a uma pendência, integração. A sequência sugere um processo
saber fazer que têm como sanção a constituição de uma graça alcançada. O enunciatário, todavia, necessita ser de desenvolvimento que vem se consolidando ao longo
imagem que nos leve a crer que parecer ser branco, embasado para compreender o discurso apresentado, de mais de quatro séculos.
europeu e ocidental nos garante algumas vantagens. ou seja, para sair de uma condição de não saber para É uma espécie de exercício cartográfico enalte-
A ideia principal é a de que investir no processo de uma condição de saber. Não se trata de uma relação cendo a grandeza do país na perspectiva do discurso
embranquecimento gradual nos dará acesso a algumas imediata de causa e feito, mas o enunciatário precisa oficial. Na outra face, a cédula exibe, analogamente aos
benesses. No caso especifico de A redenção de Cã o procurar entender o porque da execução de uma obra mapas, imagens de brasileiros, todos do sexo masculi-
processo de mestiçagem livraria das trevas muitos in- com esta temática específica naquele dado momento. no. O desenho começa por um indivíduo indígena, pas-
divíduos aos quais seria atribuída uma espécie de fardo Em outras palavras a sua interpretação está condicio- sa por um indivíduo branco, por um indivíduo negro e
celestial. Isto porque, considerando uma versão bíblica, nada pelo instrumental de que ele dispõe para fazer a partir daí as relações inter-étnicas e inter-raciais dão
o Criador teria marcado os herdeiros de Cã, gente cuja suas ancoragens e a partir desse momento desem- a tônica do processo de formação da população brasi-
identificação estaria associada ao fato de portarem pele penhar o seu papel como actante, expressando o seu leira. Até então, nenhuma novidade, apesar da terrível
escura. Daí o título da obra. entendimento tanto no plano da expressão quanto do omissão acerca do desencadeamento desse contato en-
conteúdo. A referida pintura suscita polêmicas sobre tre povos distintos, o qual teve como uma das referên-
as ideias acerca de “raça” em função de sua aborda- cias insofismáveis a violência sexual contra mulheres OS SUJEITOS
gem. Por outro lado, no contexto da cultura brasileira, ameríndias e africanas. De acordo com aquele discurso
seu teor explicita questões abertas desde a colonização, imagético, as faces vão clareando até que chegamos a
como um constante mal estar causado pela presença uma noção do que seria o brasileiro da atualidade, que Conforme as leis da semiótica, sujeito não é pessoa, ob-
africana na cena nacional. possui a aparência de pessoa europeia, dentro dos pa- jeto não é coisa. Partindo desse entendimento e compa-
Ana Claudia de Oliveira, no livro em que orga- drões tradicionais hegemônicos. rando a duas imagens ora relacionadas, percebe-se que
niza, intitulado Semiótica Plástica, argumenta que o Esta cédula circulou por uma década ou mais e o há um sujeito que se constitui na ideia a ser seguida.
interesse pelas imagens, pela visualidade, possui uma seu conteúdo sempre foi problemático, por vários as- Talvez pudéssemos atribuir ao discurso da mestiçagem,
abrangência que extrapola o campo das artes plásticas pectos. Como já mencionamos antes, a presença mas- como fenômeno que se persegue obstinadamente na
e da comunicação visual. Isso significa que toda cons- culina parece absoluta e nesse aspecto ela difere da tela cultura brasileira, esse papel que corresponde ao de
trução imagética passou a ser objeto de interesse nos de Brocos. Por outro lado, naquela pintura do século manipulador de nossas vontades, transformando-as
mais diversos domínios. A partir desse argumento e XIX, a sanção, ou seja, a redenção, só é possível graças em um querer fazer, um dever fazer, um poder fazer.
acreditando que para a semiótica a relação entre siste- à figura paterna, condição que devolve ao homem seu Mas principalmente nos fazer crer que é possível ser
mas distintos pode se realizar desde que esta aproxima- papel quando não absoluto, determinante para a vida feito, por que esta é uma conduta a ser seguida. Esse
ção viabilize interpretações palpáveis, nos lançamos ao das mulheres. Na obra dos oitocentos a figura mascu- discurso é produzido em alguma instância por alguém.
desafio de buscar correspondências que nos auxiliem lina seria um objeto modal, ela é necessária para que o Esse alguém, que poderíamos identificar também como
nesse processo e que não estão necessariamente no clareamento da pele ocorra. Precisamos dela na busca o segmento composto pela hegemonia eurocêntrica,
campo da pintura. obstinada por uma aparência que omita a africanidade. acredita no embranquecimento como uma sanção a
No esforço de tentar interpretar a obra em ques- Já na cédula de 500 cruzeiros a última figura masculina ser alcançada.
tão, explorando ao máximo seus elementos pictóricos, da esquerda para a direita seria o objeto de valor. Seu Um outro sujeito seria a parcela da população que
procuramos estabelecer ao menos uma ancoragem que papel é análogo ao da criança sentada no colo da mãe. ainda não alcançou o ideal a ser seguido. Este segmento
pudesse auxiliar no percurso gerativo de sentido, recor- É no plano do conteúdo que vamos encontrar o que as é constituído por pessoas que não foram “redimidas”
O resultado da performance está explícito na pin- remos às imagens arquivadas em nossos repertórios. duas imagens têm em comum. De uma forma ou de pelo processo de miscigenação. Elas são manipula-
tura que apresenta três gerações de uma mesma família, Dessa forma, a associação da imagem em questão com outra, ambas preconizam que o processo de embran- das no sentido de que suas ações convirjam para as
sendo que as duas primeiras assumem as competências uma outra, não menos polêmica, se tornou inevitável. quecimento é uma meta a ser alcançada. As estruturas, ações propostas. Porém tais pessoas não possuem a
para tornar possível um desejo. Nesse sentido, como já Mas o outro referencial, que por algumas razões se co- as maneiras como estão concebidas as disposições das competência absoluta para realizar o que esta sendo
mencionado, elas querem fazer, elas podem e sabem necta à obra de Modesto Brocos, permite a vincula- personagens, a manipulação do olhar que é impelido a proposto. É necessário que as pessoas brancas sejam
como fazer. A estrutura da obra, por exemplo, dialoga ção mesmo sem se tratar de uma pintura, sem ter sido percorrer caminhos que nos levem ao ideal em termos também manipuladas para que esta performance se
com representações clássicas da literatura brasileira que produzido no século XIX, sem corresponder a valores de uma aparência aceitável, tudo converge e conspira realize. Os temas da tela e da cédula parecem ter uma
destacou a mestiçagem como valor nacional. canônicos de um período da historia da arte. Nada dis- no intuito de persuadir-nos neste sentido. força tamanha a ponto de se caracterizarem como

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ção disjunção/conjunção. sine qua non para que a ancoragem se dê é exatamente suas tradições. qual. tanto que a referida pintura já INTERTEXTUALIDADES uma sociedade ávida por compartilhar valores defini. Ela dirá citando Jean-Marie em que se convive com a diversidade. a Igreja. Não é por acaso que até os nos- significação. relação levando-se em conta os germes de nossa longa elas tende a conduzir-nos para outra interpretação. o que importa para o semioticista francês posta por Greimas e suas dimensões. um objeto de uso diário que circula pelas mãos seu sistema. embora ocorra no nível fundamental (à figurativos. pg. Considerando que o texto De acordo com argumentações supracitadas. zadora da Sagrada Família” (Morais. tório da cultura visual explorado constava este objeto. que também são complexas no texto visual. Os crí. car em pontos chaves que também são objetos da pes. principalmente é evidenciar não o contexto de fora da pintura. um alvo a ser perseguido e que vale a pena ção do arranjo da expressão de todo e qualquer texto o qual dirá que: “A Redenção de Cã poderia ser tomada. como uma recriação étnica e moderni. atenuada. sos dias tais noções influenciem textos pretensamente ela cria sentidos de alcance social e político. certa. político. Frederi- está relacionada ao belo. Comércio. Oliveira explica que: ses acerca composição étnica futura do Brasil. ou mesmo à indiferença. Mas por que razão primeira vista). do Brasil. Aquele que atende às aspirações de observações sobre semiótica plástica ficamos tentados ideológico irrefutável. histórico-geográficas – Descobrimento. minimizada. visando a produção de sentido. deve dula são capazes de criar sentidos de alcance social e do uso do repertório de cada enunciatário. na contempo- quer comentário sobre as circunstâncias em que o de seu arquivo mnemônico que seleciona e compila Qualquer cidadã ou cidadão brasileiro possui al. explorado por mente crítica no que concerne aos usos e abusos dessa ção). Esse deslocamento implica em alguns entendi- se quer dizer. em arriscar algumas interfaces. podemos recorrer à ima. XIX) / medida em que as personagens adotam uma postura cifica. O eu (negro)/ Assim sendo. No reper- ferença etária. de que a presença negra é incômoda e. Embora. pesquisadores da área de arte/educação. Nesse sentido. rosidade. seja ajustada (negra)/ alhures (Brasil agrário do final do sec. foi a primeira criada com o objetivo pátria profundamente afetada por um olhar oficial. desenhada. Os negros. É curioso notar como. desde que este gesto não servisse para encobrir insistimos nessa ideia? O fato é que as interpretações mento e modernização possuem uma correspondência glamour. ele poderá lograr maior Podemos lembrar do “cabelo bom”. co Morais. as relações de gênero. se deu a partir de um exercício de memória. sem que neces. se não sintagmatização das unidades mínimas. conforme Ana Claudia Oli- topia estão todos ali. “redentor”. que aqui procuramos relacionar à cé. a fim de aderir a um arte e que serve também para auxiliar na fundamenta. Não é difícil de compreender a nefasta ambas imagens. sofrendo um deslocamento que propõe ela quadro foi pintado seria nulo. ao lermos do artista e de compartilhar um momento eufórico. Diz o texto: da população em geral. preferência nacional. 2004. seqüência de cartas ser alcançado. a noção de mestiçagem como rizar nossos acentuados processos inter-étnico e inter. ção de nossos argumentos. em discutir a cognição estética passa pela determinação cilmente se sentirá incomodado com A redenção de Cã. sejamos um país a possibilidade de se acessar o repertório na busca de projeto “modernizador”. no caso. tivo estará profundamente relacionado com o tamanho so imaginário. a antropologia e os estudos culturais. Sem ele nada teria sido de tomar como um dos pressupostos a bagagem ou o Sua tendência é a de estar em conjunção com o trabalho possível. uma cédula que. que o domínio da imagem extrapola a produção com maior ou menor concentração de melanina. até os outros que questionam veira. 2002 pg. Uma condição entrar em disjunção consigo mesmo. O homem sentado no arte. passasse por uma mutação imediata. mas que certamente povoam nos. São ingredientes. seja essencial. quisa no campo da cultura visual. para a mestiçagem brasileira. às interpretações paradisíacas de Brasil. 12. e entendendo. ou seja. obra consultada. Tudo vai depender dos mentos importantes sobre as condições sociais pre- pois complexas relações de gênero e raça podem ser em uma formulação teórica subsidiada pela história da pontos de vista de quem olha.50). guma noção do discurso da mestiçagem. Deveriam ainda reagir de maneira eufórica à possibili- Floch: sariamente haja respeito pelas diferenças. chances de lograr êxito no percurso gerativo de sentido. Este rias transformações narrativas. no nosso caso. 2004. a visual. ou não ser evocadas. parece haver alguma conexão entre nossa abor. na medida Interessante notar ainda alguns aspectos da rela- ser amenizada. com sua história. o seu alcance no percurso gera. as intenções do artista. paisa. pg. deveriam Voltando à Ana Cláudia de Oliveira. cita o pintor Gonzaga Duque No anverso da cédula de 500 cruzeiros.) ou menor êxito dependendo da amplitude de seu pró. mestiçagem encontra-se imbricada à ideia sorrateira de Esta argumentação é de real importância por to. mais do que isso. no intuito de compreender o discurso ima. Modesto Brocos. quer as artísticas. artística. por gressas do país sem os quais o enunciatário terá pouca observadas na ação que ocorre. por seu turno. Co- 120 121 . Dele depende o futuro. reduzida. a exemplo de vínculos com uma devidas proporções. “mundanos”. por exemplo. segundo as informações presentes na que aquele texto carrega se vincula a uma noção de é construído por uma arranjo especifico de sua plástica. Cã. O que está presente nestas concepções é um em que ele. (Oliveira. o qual consiste noção. Quando algum texto visual nos chama a atenção preconizaram as instituições coloniais. no que diz respeito ao abandono de valores a própria tela que é aquele que explica ou leva à sua tos fluidos nas artes visuais. Em se tratando dessa situação espe. dula de 500 cruzeiros) dificilmente poderão prescindir herança escravocrata. 24. outras imagens com as quais acreditamos haver algu. devem ser manipuladas para Ana Claudia de Oliveira e algumas de suas significativas O que está figurativizado na obra tem um apelo dar lugar ao novo. argumento. Por outro lado. qualquer que seja: arquitetura. procuramos es. enunciatário é chamado a construir uma interpretação. Uma ob. Retornando ao esforço de estabelecer uma ancoragem aparência que se encaixe dentro dos padrões ocidentais ticos de arte divergem em suas argumentações. raneidade. no mito da democracia racial brasileira difi.ou ainda do “negro analíticos sobre cultura popular e outros fenômenos. E nem é necessário na imagens também. paradoxalmente. sante permeia as noções apresentadas. seu descendentes se assemelha- No afã de compreender melhor a semiótica pro. riam ao outro. no passado (lá no início do período pós-aboli- quase cênica no contexto da obra para enfatizar o que dagem e o conceito de cultura visual. mas tabelecer algumas aproximações com outros concei. A tela não traduz ou reflete ideologias. optamos por ciatário tenha que despender grandes esforços. quer as do mundo natural. pelo menos está vinculada denominar plástica a semiótica que se ocupa da descri. quando o gem da mulata. portanto. mente teríamos condições de olhar a obra por diferen. A ideia de nação gem natural ou pintada. na imagem que ora está diante de nossos olhos. sem que o enun. as pessoas de diferentes gerações estudo do plano da expressão das manifestações visu. no reverso. fotografia. Por exemplo. escultura. antes. que envolve vá. Aliás. a presença de brancos. é interessante ethos brasileiro que aqui e ali ressurge quando falamos gético. poderíamos até valo. retrata-se a evo- ao ideal. imagens que podem Pensando a debreagem . Alguém que acredite. sua interpretação não é nada fácil. quer as midiáticas. É como se esse homem viril e exclusivo visual. símbolo que con. juga uma série de visões estereotipadas que não cessam.) à primeira vista. outra discussão interes- prio repertório. interpretando esta tela/ e agora. Na organizada por mecanismos estruturais particulares de servação mais atenta nos mostrará o desempenho de de comemorar o sesquicentenário da Independência cédula. Elas são passageiras. batente da porta de uma casa modesta possui uma pre. não das herdeiras de repertório imagético do público. Ao ais mais distintas. notar uma de suas argumentações no tocante à obra de de nossas tão idolatradas e supostas tolerância e gene. tes flancos como. com suas regras. “pagãos”. Entendemos que o adjetivo “plástica” pode abranger o aqueles que acreditam ser a tela de Brocos uma visão e a cédula. A O que entendemos é que tanto a tela quanto a cé. mas marcas textuais semelhantes àquelas encontradas dade de que. Não parece algo muito distinto do que “No entanto. traz implícita a ideia de que branquea- resultado de uma performance pode conter um certo -racial. tentará fazer as suas ancoragens. queremos reiterar que a aproximação sugerida passo que na cédula não se deixa transparecer uma di. ou seja. negras reflexões uma configuração discursiva. lução étnica brasileira e. resultando em uma dada papéis sexualmente muito definidos. gravada. um olhar mais crítico sobre escravocrata. desde possível na relação que tentamos construir entre a tela de beleza e representação. seus costumes. dessa perspectiva semiótica. cujo interesse exemplo. Os desencadeadores de iso. sença fundamental na trama. de alma branca”.” (Oliveira. percursos temáticos e branqueamento. Contudo. aqui. ainda que guardadas as foi utilizada em congressos científicos para ilustrar te- dos como positivos. no futuro. Sobretudo. bem humorada do país. dependendo da compreensão que se tem de visões reacionárias acerca de nosso passado africano e possíveis diante das imagens em questão (o quadro de “divina” entre si.

a submetendo-o às mais perversas banalizações.. para as. aspectos ma- tendimentos e aspirações da oficialidade brasileira.. man”. em tempos de téricos. São Paulo: Hacker Editores.num primeiro momento . levando em con. a própria instância da enunciação. Porto Alegre: Artes capacidade perceptiva. em consonância com os en. Elementos de analise do discurso. pg. nada é tão bem resolvido sofre o ato. uma questão de imagem. No sentido geral “aquilo que é enunciado”. aspectos topo- cação oficial e. nicas alimentadas por uma ética distinta que nos leva a máticos.. mas não per. (não está nas referên. permitindo que efeito de sentido “realidade”. Catadores da cultura visual: transformando to. Enunciado FIORIN. que dizem respeito aos teores das o texto como está explicita e sustenta uma compreen. 2000. ou ainda ficação. imposto por essas imagens que coisificam o outro. Se refere aos aspectos das imagens propriamente ditas. “parentesco”) dos traços distintos que nele podem ser Oliveira (org. concernentes às tonalidades. acreditar em sua veridicção. na paradigmática e na processo de análise que procura enfrentar o desafio sim constituir os elementos que servem de fundação cognitiva. Recherches Scientifiques / Fudation Nationale de a título de meros figurantes e da maneira mais passiva como uma relação entre ao menos dois termos. homogeneidade. Assim para citar L. acerca da localização ou cenário.) de um conjunto um paradigma composto de n termos. 5 (pgs. possível. categorias semânticas baseadas na isotopia (o ótica visual?”. nos damos conta de que es. até porque os processos dialéticos fazem Dicionário de Semiótica / Greimas & Courtés. no ato da linguagem e com vistas à manifestação. Paulo: Banco Safra. 2002. A depender do que o processo Brevíssimo rindo-lhe uma significação específica. no decorrer de uma cadeia sintagmática Alegre: Mediação. Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica. suficiente para constituir O Museu de Valores do Banco Central do Brasil. enunciado. Bibliografia são de evolução étnica que remonta às teses racialis. afirmativas para a população afro-brasileira no início tas do século XIX. que. 2000. Algirdas Julien.. imagens que podem tanto permitir o avanço de nos. Greimas tomou ao domínio da físico-química o termo HERNANDES. A estrutura elementar da signi. levantadas. São Paulo: brasileiro. reconhecidos (. mióticas.. Se se concebe. Se a cultura vi. por exemplo. Tesnière. glossário sideração seu novo campo de aplicação. São Paulo: Prêmio. ao contrário. ao enunciado-discurso. participam do processo”. e aspectos eidéticos. Letras e Ciências Humanas. parece oportuno lembrar que a construção -se por enunciado toda grandeza dotada de sentido. Cultura visual. por contrapartida. In: Semiótica plástica / Ana Claudia tam perenemente nossa cultura visual.) que visam constituir mite por isso mesmo distinguir. enquanto um dos aspectos Designa-se pelo nome de sintagma uma combinação de Cã encontrar correspondências na segunda metade constitutivos do ato da linguagem original. repousa Sciences Politiques – CEVIPOF. É aí que parece estar o gancho que desta segunda década do século XXI. no. (grifos a significação estética possibilitam outras abordagens Eidético estabelecimento das relações entre as partes e a totali- nossos) (Banco Safra. mentação de políticas públicas embasadas em ações imagens produzidas. dezembro. riormente a qualquer análise lingüística. Os dois textos visuais sual do passado dialoga com a cultura visual contem.. educativa e projeto de trabalho. 2006. ao mesmo tempo. a debreagem. hierarquia sintagmática. 2007 há chances de determos informações suficientes para Actante pode ser concebido como aquele que realiza ou de classemas que garantem ao discurso-enunciado a MARTINEZ. um simulacro de um referente externo e a produzir o radigma. qual a instancia da enunciação distingue e projeta fora Sanção é uma figura discursiva correlata à manipula- Pensamos que a semiótica possa indubitavelmen. seletivo reserva no arquivo mnemônico de cada sujei. repensar nossos modos de ver na contemporaneidade. De caráter ope. podemos estar cercados de estereótipos e o que é ratório. Vicente. quando definida . In: Revista do Centro de Pesquisas Sociosse- assim. determinadas imagens problemáticas fluam impune. A Condutas providenciais. o conceito de isotopia designou inicialmente a fragmentos em nova narrativa educacional. Porto pior. confe. por instância da enunciação como um sincretismo de “eu. mas ou discurso) definíveis(. por outro. por exemplo. GREIMAS. Fernando.São relaciona uma imagem à outra. portanto.295 – 313). Paulo: Contexto. acreditamos que a cultura visual produz Isotopia 1979. Hacker Editores. alusivos aos materiais expressivos empregados data em que o livro foi lançado é de 2000 e obviamente enfrentamento institucional do racismo e de imple. OLIVEIRA.. Se..) mente. “Semiótica plástica ou semi- nossos repertórios. retrógradas e Debreagem reacionárias sobre alteridades. 278. Entende. Estas possibilidades não cias) (este verbete. Di- Sem a pretensão de encerrar as questões aqui cionário de Semiótica. Um trabalho artístico pode apresentar aspectos cro. uma vez agregados. o que não ção. semântica qualquer.. fomen. 2002. dade tem o efeito de transformar essa cadeia em uma Seriam tais perspectivas excêntricas e contra-hegemô. 1999. apenas sobre uma distinção de oposição que caracteriza MORAIS. 2000. mudança sas compreensões como podem também limitar nossa isotopia e o transferiu para a análise semântica. mas. no interior desse pa. de si. Joseph. inaugura o de elementos co-presentes em um enunciado (frase do século XX.. sendo que o 122 123 .) compreende-se a disposição (. de uma perspectiva artística independente de uma sociedade democrática também é e sempre foi pertencente à cadeia falada ou ao texto escrito. ou de uma perspectiva institucional. GREIMAS. Ancoragem linguagem: ela é. Algirdas Julien & COURTÉS.) Os sintagmas são obtidos tudos críticos direcionados para a produção artística e de maneira implícita. Centre Nationale de a um título qualquer e de um modo qualquer. Contudo. Actantes interatividade. ante. Médicas Sul. Um mesmo sujeito pode avançar ali. Ambos Compreende-se por quadrado semiótico a represen. Jose Luis. “A eloqüência da pintura de Ry- desconstruí-los. Da imperfeição. como os demais foram extraídos do Quadrado semiótico cia Universidade Católica / Programa de Estudos são refutáveis. ção. Sintagma um lado ficamos estarrecidos com o fato de A Redenção -aqui-agora”. pela segmentação da cadeia sintagmática. São Paulo: Pontifí- impede seu retrocesso aqui. se deve o termo: “actantes são os seres ou as coisas que. Independência e Integração do Brasil. localiza nas duas dimensões. diferenças e identidades Pode-se tentar definir debreagem como a operação pela Sanção não hegemônicas. _______.). 2004. O texto supracitado está inserido em uma publi. portanto. negras reflexões lonização. autores citam Tesnière sem especificar a obra) a quem tação visual da articulação lógica de uma categoria Universidade de São Paulo/ Faculdade de Filosofia. figurativizam noções do que seria a evolução do povo porânea. a qual uma vez inscrita no esquema narrativo se te vir a se constituir em ferramenta importante no certos termos ligados à sua estrutura de base. como bem sabemos. às estratégias de manutenção de certos sintagmas em de índices espaço-temporais (. São A grande questão que permanece aberta diz respeito (. Frederico. Ana Claudia. lógicos. reiterando noções conservadoras. independente de qualquer outra determina. São Paulo: Editora Cultrix. O Brasil na visão do artista: o país CONSIDERAÇÕES FINAIS o eixo paradigmático (comutações e substituições) da e sua gente.) que de alguma forma questionem o padrão vigente. parte da existência humana.

interlocuções .

Foi ainda ouvidora geral da inferioridade e o biótipo do crime. Corporalidade e Racismos Contemporâne. além de aprofundar a educadores/as ativistas do movimento negro que de- A visão do corpo negro no direito. é marcada por um diálogo a uma maior articulação entre a academia e a militância nicipais. cultural. de acordo com a teo. violências do estudioso que de aquiescência de minha parte. e. ainda. sitário e. na educação. um dos desafios que o corpo negro a a existência do racismo? Aos sucessivos desrespeitos. ticas de Ações Afirmativas do órgão. nunciaram. a espessura das sobrancelhas. dança do perfil das pessoas que estão no espaço univer- tuais negros/as para a potencialização de nossas lutas. No que mais para a luta antirracista e para a vigência do princí. dos Em uma reflexão sobre as relações entre militância ne. dos pela população negra para o acesso. na época com 17 parece que nada mais resta. segunda nos anos 1950. a partir de inciativas de estudiosos como Roger Bastide e e um maior número de negros militantes e intelectu- estaduais e municipais. lista em Direito Público e Políticas Públicas. tudo apontava para a definição do Ser gra e acadêmica no período da república. A primeira. daí o silêncio. O estão postos para SEPPIR é o de avaliar. em face da necessidade de conquista de Públicas do Brasil. corpo negro. foi que a mobilização política e. Será esta uma nova onda. são alguns homem. de perder a vida. ter direitos. Na sequência. deve-se atentar. da academia acerca os intelectuais negros no interior das universidades? das questões “do negro”. a única diferença era o fato de ser a de um na nossa vida social. o tema central do Instituto Sangari . antigas. este organis- Lembro-me que uma marcante e inicial reflexão por que o seu corpo expressa [já que a miscigenação visa a. da atualidade. ao tempo em que a militância negra pri- mava por dar visibilidade à conquista de espaços nesse anhamona de brito dêmica”. Estudava direito penal e a influência das nando consequência.em face do que Pereira. sentado. também. o fato de o corpo negro . o que a pergunta pode fazer denotar. a ser repelido com veemência João Batista Borges Pereira delineia uma trajetória que na tentativa de aplacar as desigualdades raciais pela/ Nascida em Salvador. problemas. que Olhando para o Brasil pós-república. Essa mudança é fruto da ação de construção de nossa identidade. enfim. não se intercomunicavam que a SEPPIR projete novas estratégias. na sua opinião. Uma imagem de pessoa semelhante à minha penhar no campo econômico. tombar. ele aponta obstáculos a senhora diria que estão colocados para para a não escuta. no curso do processo his.ter 103. os obstáculos enfrenta- telectuais negros nos espaços acadêmicos e as prio. concedida por e-mail. Delinquente por natureza.4% mais de chances de na terceira fase. na primeira meta. a defesa da tese do intelectual Poder latente no redirecionamento do pensamento negro Guerreiro Ramos.de acordo a questão do negros nas agendas de estudos. nas três primeiras décadas do entrevista: Mesmo não sendo uma pessoa de “larga vivência aca- século XX. através dele. Estamos diante de um novo cenário. reporta para o fato de pio da equidade pelo asseguramento de nossos direitos temas pertinentes aos negros perpassarem a produção . nossa consciência acerca do papel que temos de desem. e o cultivo da identidade racial. e desempenho no ensino superior e promoveram os Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR). sim. se comparado ao de uma pes- os. uma quarta Brasil. assegurar uma sobrevida] – é acometida. Anhamona de lábios. mim feita acerca do binômio racismo – corpo negro foi justamente. temos também assessorado mesas diretoras de câmaras mu. expressando o racismo ainda existente no lectualidade negra que passa a defender teses e colocar outros espaços. A senhora fase? Para mim. ria [abordada sem qualquer caráter crítico-reflexivo]. A terceira fase. demandas. das orelhas e o modo de enfrentamentos necessários ao estabelecimento de po- dos assuntos de que trata a nova secretária de Polí. produz um dos tipos de conhe- cabe reconhecer que a produção acadêmica auxilia na cimento. informantes-chave dos pesquisadores. houve uma mu- em desmerecer a importância do papel dos/as intelec. uma ponderação que não é minha média protagonizavam a iniciativa dessas produções. sim. ele denomina de terceira fase. vivencia-se a não do diálogo com os negros na condição de sujeitos da aceitação de que os negros produzam conhecimento pesquisa. Bahia. com pesquisa recente do Ministério da Justiça através concorda com essa linha evolutiva? Se permanecemos Nesta primeira edição da revista Ngunzo. se ao longo e mortes simbólicas a que a pessoa negra . pelo fato de denotar. para os desafios lações de raça” e os debates acerca dela no I Congresso existentes fora dos muros das universidades. Da leitura do nosso corpo. Tirar a vida acaba se tor. quais sejam. líticas de cotas pelas instituições de ensino superior. tórico-cultural brasileiro. na pesquisa acadêmica. trago uma interrogação: o que conta Florestan Fernandes e Roger Bastide na USP. pela indubitável expressão de de estudo. da intelectual Luiza Bairros [atual Ministra da Devemos ter em vista que as reflexões de Pereira SEPPIR]. mo executivo alcançou a sua finalidade institucional. enfim. Florestan Fernandes. o professor além da adoção de algumas medidas compensatórias. Ele expressava o não-ser. de absoluta falta de diálogo. da mesma forma o tempo todo. Acho que se trata mais de uma questão de constatação No ano em que comemora 8 anos. onde lideranças negras se tornam ais. nesta entrevista exclusiva. apresenta a mudança de ce- nário e os marcos da inclusão. seu posicionamento. Daí para frente. quais foram as questões que na sala de aula do curso de Direito. político. A senhora poderia explicar como vê a relação entre soa branca.interlocuções Levando em conta sua experiência acadêmica.a atuação acadêmica ou a das ruas. relevando as suas considerações no processo acerca de si mesmos. no seio do movimento negro. Brito. do “incontestavel. A No Brasil da primeira década do século XXI. pelo Estado. tendo negação. ou reforce as teorias bio-antropológicas para as políticas criminais riormente impingidas. seguida dos trabalhos de Para refletir. especia. é do surgimento de uma inte. prefeituras e bancadas legislativas federais. no artigo “As relações entre a academia e a do processo de sua institucionalização. permanência ridades da atual gestão da Secretaria de Políticas de estava ali. com novos Defensoria Pública do Estado da Bahia e presidenta A figura do “criminoso nato”. sendo que intelectuais negros e de classe tante? Trago. a situação dos in. acadêmica. intitulada “A Unesco e as re- científico. com a qual concordo: se há uma tendência são dos idos de 1999. militância negra” constatou. Somente assim. Se. dentro delas. no curso dos anos. para onde ela caminha ? Quais são as prioridades da atual gestão da Seppir? é Educação. negações. no espaço acadêmico e impediram tal alcance. das universidades. numa análise negativa. a mais completa passa por três fases. com o direcionamento de ação para novas do Colégio Nacional de Ouvidorias das Defensorias mente inferior” e do “não-ser” continuam aderidas ao segundo Borges Pereira. a político-mili. impossibilitado de de do século passado. ela é advogada. de modo a fazer com que o Estado brasileiro 127 . Para mim. O formato do crânio. quando Cesare Lombroso me foi apre. frente às sucessivas mortes ante. demonstra isso. o científico. será possível anos de idade. do Negro Brasileiro [1950]. percebo que os desafios estão presentes para dentro e para fora “novo país”.

mostra-se como uma outra possi- cício de sua cidadania e o direito à vida. colocamos na rua a campanha “Igualdade tado e o realizado. não bastando as referências legais se. assegurando a toda a população. interlocuções reduza as desigualdades raciais e promova uma cultura políticas transversais do governo federal. incluindo as adesão a essa campanha. por sua vez. o MEC e os/as agentes sociais envolvidos Ele foi concebido como a via de organização e articu. Precisamos mudar. sendo essa aproveitar essa data propícia para propor. existe alguma sa ser efetivada. agenda política. descentralizar a sua implementação pelos governos es. representantes do movimento so. Estado brasileiro hoje é a de erradicar a pobreza e a No que diz respeito às ações necessárias ao combate de Promoção da Igualdade Racial [previsto pela Lei fe. O que pretendem fazer para melhorar essa população negra. promover ações que visem a a luta que teremos de empreender para que o Plano de definição de prioridade de nosso Ministério. De acordo com o Estatuto. considerar que. o racismo delimita os grupos lentos. é certo que listas. Apesar da legislação existente. federal. miséria extrema. brasileiras. com fins de SEPPIR. cial. fundamentalmente. pelo cumprimento da e aprofundar as pesquisas acadêmicas sobre o tópico opressor nos impõe um número significativo de exclu. retroalimenta os indíviduos Exemplificando: se uma agenda prioritária do “o que pretendemos fazer para melhora essa situação?”. Já exis. -las? De que maneira? afirmando que a luta que teremos de empreender. Com ela. o Estatuto da Igualdade Racial]. conclamamos toda sociedade brasileira para. inclusive. o não-discriminatória. precisa. primeiro.288/2010. mesmo que municípios. ou não ocorre. A institucionalização de um órgão governamental cebido pelos poderes públicos constituídos. municipais e distrital. A Seppir pretende estimulá. SEPPIR. que se combater o racismo e as desigualdades sociais que ele Em que pese a SEPPIR tenha firmado um número sig. mas. a 10. desenvolver as que possibilitam ou possibilitarão o atendimento aos e as comunidades de sua diáspora. vê-se que a SEP. aquilo que elas tem metas a serem atingidas. posso salientar a prioridade a A atuação política e administrativa do Ministério são novamente hierarquizado. inclusive. novos fazeres. bem como as propostas submetidas à a execução não fique ao encargo do nosso Ministério. aniversário de 8 anos da de mais particularizado. sociais tidos como “subalternos” e depois esses grupos situação? Ainda nessa linha. Precisamos de outro documento. ganhe eficácia. sim. entre outras atribuições. Concordo que há um descompasso entre o proje- afirmativas adotadas pelo governo federal. faz-se essencial a análise das contri. as executadas em parceria com outros entes. especia- Dentro do campo de atuação da Seppir. ações específicas são bilidade na relação da SEPPIR com os países da África 2011 é ano de elaboração do plano plurianual do diagnósticos sobre as desigualdades raciais. Divulgaremos. panhe a execução de programas voltados à implemen. brou que o ano 2011 foi considerado pela ONU o Ano nesse cenário. das desigualdades raciais na educação. sabe-se que a imple- mo no auxílio à definição e à inserção de indicadores apreciação do Congresso Nacional. goza de um certo pioneirismo. traz como consequência. pela sua efetiva aplicação. Logo que tomou posse a Ministra Luiza Bairros lem. analisando. nificativo de parceria com países do continente Afri. tendo as perspectivas raça e gênero como com a temática] a elaboração de um plano bastante lação do conjunto de políticas e de serviços destinados Internacional do Afrodescendente e que pretendia balizadoras. acordo com o próprio decreto que regulamenta a sua mato de cooperação. as formas de dades sociais que lhes são consequentes é algo recente não é por falta de detalhamento dos possíveis caminhos tação da promoção da igualdade racial. Vai passar pela intervenção política da encontra com um planejamento estratégico em curso. não podemos deixar de tura negra no ensino fundamental caminha a passos tentem contemplar aos interesses e às necessidades da debates temáticos sobre a promoção da igualdade ra. cumprimento está aquém do esperado. numa esfera se alimenta das conhecimentos produzidos [não apenas tiva de gênero. Poder Executivo da União. No que diz mentação do ensino de história da África e da cul- a serem atingidos pelos governos em suas ações. acom. pela estruturação do Sistema Nacional para novas agendas. de manei. e.. dessa nova política [promoção da igualdade racial]. buições nocivas que o racismo e o sexismo imprimem [a SEPPIR. como também E a questão da mulher negra. não uma ou outra.639/2003 promoveu alterações no racial? sões. que e coordenar encontros para a realização de estudos e respeito às mulheres negras. promovemos deral nº 12. a nossa vivência demonstra que o racismo poucas foram as tratativas que envolvessem a troca de social conseguirem estabelecer. Se o seu Para que o nosso Ministério articule. cial e a população em geral comprometam-se com essa com fins de combater o racismo e aplacar as desigual. consideramos que a igualdade preci. Racial é Pra Valer”. principalmente no estímulo ao intercâmbio sul. Talvez o final da pergunta deva ser reformulado para nacionalizada e envolvendo os entes de governo e da o científico] e. de modo a auxiliar a implementação das a superar as desigualdades raciais pelo país. promover em face das peculiaridades organizacionais. na medida em que não temos a cul. estrutura. em todas as áreas. para além da contínua análise acerca dos impactos a serem trilhados para isso. propor caminhos que visem a aplacar as lações étnico-raciais e para o ensino de história e cul- tura de promover a articulação de políticas sistêmicas te alguma coisa encaminhada nesse âmbito? inúmeras “opressões” sofridas pelas mulheres negras tura afrobrasileira e africana. dessa vez pela perspec- ser dada pelo estabelecimento de diálogo. diáspora são importantes. no governo PIR não poderá se furtar de. realizar e apoiar a elaboração de estudos e Dentro das atribuições da SEPPIR. ações emblemáticas em prol dos negros. 128 129 . planejar. novos saberes. Afinal. sobretudo no for- independentemente de sua cor ou raça. é Vejo estes campos como essenciais no processo ra cotidiana e intensiva. Daí. em breve.. marcando o lançamento do Ano As relações com a África e as comunidades negras da um novo plano? Por óbvio que não. dentro de sua esfera de diretrizes curriculares nacionais para educação das re- uma tarefa difícil. tendo a SEPPIR um papel relevantíssi. estudantes e as representações do movimento contribuição que ela possa dar no sentido de ampliar na prática. o que não pode passar desper- da iniciativa privada. o pleno exer. que contém. A intenção é a de que os entes governamentais. -sul entre especialistas da área de educação. cano. conhecimento sobre aquilo em que o nosso Ministério LDB. consistente. será alvo de ações espe. texto dessa Lei maior. teremos a obrigatoriedade de definir quais são as ações Em 21 de março de 2011. da forma como a proposta. taduais. de cíficas? Elas se justificam? Por que? compartilhamento de experiências. promova. sociedade civil. Parafraseio Edson Cardoso. racial em voga. competência. de reduzir as desigualdades e. a estratégia de luta. pelo poder de arti- No slogan. dos Estados e também dos estudos acerca da política de promoção da igualdade anseios e aos interesses da população negra. Internacional dos Afrodescendentes no país. culação e de pressão que os/as professores/as.

literarte .

Com uma espada. Ela. Desenhando o universo Pele De longe A sedosa negra A vejo Da flor no cabelo. com seus contornos Para nascerem flores. Abrirá sua boca pela UFBA.literarte A que abre o leito dos rios Terras E apascenta a violência A rainha que dorme em Com seus cachos Seu sarcófago É a mesma As oferendas frias Que desmancha nuvens Tudo virou sombra.Núcleo de Pesquisas e Estudos Multidisciplinares Africanos e Ewá. mestre em Letras Ela.. Impossível Quantas gargalhadas É querer suas mãos Foram necessárias? Descendo a lua Ela caminha Sobre minha face. professor de Teoria Literária e Literatura Brasileira na Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e pesquisador A dançarina Mais uma vez do AYOKÁ KIANDA . Almeida de A engolidora das dores Abreu Silva Poeta e artista plástico. 133 . Deusa do rio Iewá Nos olhos movendo Ricardo Nonato Seus búzios. Se aproxima vários Roda Olhares Corpo mogno e Uma corte infiel Seu vestido O rei Pingando vermelho Que passeia por outras Para nunca mais É quando fecho os olhos. Afro-Americanos (DCHT XXIV/UNEB). Com passos finos A sua volta.. Espero.

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n.br . março/julho de 2011 Revista do Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA) da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Rodovia Celso Garcia Cid | Pr 445 Km 380 | Campus Universitário Cx.Nguzu – Ano 1. 1. Postal 6001 | CEP 86051-980 | Londrina – PR Fone: (43) 3371-4000 | Fax: (43)3328-4440 Email: neaa@uel.

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