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Heleieth I. B. Saffioti ..Género, patriarcado, violéncia alte | Pa oe” be is Fundagio Perseu Abramo Institufda pelo Diretério Nacional do Partido dos Trabathadores em maio de 1996. Diretoria Harnlton Pereira (presidente) ~ Ricardo de Azevedo (vice-presidente) ‘Selma Koch (Airetora) ~ Flavio Jorge Redsigues ds Siva (dixetor) Editora Fundagio Perseu Abramo Coordenagao Editorial ‘Flamarion Mawes Editora Assistente Candice Quinelato Baptista Assistente Editorial Viviane Akemi Uemura Revisso Mauricio Balthazar Leal Capa e projeto grafico Gilberto Mfaringoni Editoragio Eletrénica Bnrique Pablo Grande Foto da capa Paotodise Impresstio Bartira Grafica a edigho: margo de 2004 ‘Todos of Aireites reservados & Baitora Fundagio Perseu Abremo ‘Rua Franeiseo Cruz, 224 04137-091 — Sa Patlo ~ SP — Brasil ‘elefone: (12) 5573-4299 = Fax: (12) 5571-0910 Correio eletrénico: editoravendas@fpabrimo.org.br Visite a home-page da Fundagio Perseu Abramo Ittp://wwewfpa.org.br Copyright © 2004 by Heleieth Iara Bongiovani Saffiot ISBN 85-7643-002-9 A Dra, Marisa Moura Verdade, que me ensinou a trilhar novos caminhos Tenho para minha vida ‘A busca como medida O encontro como chegada E como ponto de partida. (Sergio Ricardo) Heleieth |. B. Saffioti Bacharel e licenciada, curso de Ciéncias Sociais, na entio chamada Faculdade de Filosofia, Ciéncias e Letras, Universidade de Sao Paulo (USP) ~ 1960. Bacharel em Direito, Faculdade de Direito, Universidade de Arara- quara, 1983, Professora assistente de Sociologia na entio Faculdade de Filosofia, Cigncias © Letras de Araraguara, Universidade Estadual Paulista (Unesp), 1962-1967, Professora titular de Sociologia, da mesma instituigdo, 1967-1982, quando se aposentou. Doutora e livre docente, na mesma instituigio, em 1967, Professora de Sociologia, do Programa de Estudos Pés-Graduados em Ciéncias Sociais, Faculdade de Ciéncias Sociais, Pontificia Universi- dade Catélica de Sio Paulo (PUC-SP), desde 1989. Pesquisadora, em Sociologia, na USP, 1988-1992 Pesquisadora, em Soviologia, na Universidade Federal do Rio de Ja- neiro (UFRJ), na qual fundou um niicleo de estudos de género, raga/etnia, classes sociais (Gecem), orientou dois mestrados e lecio- now no curso de mestrado por um semestre (por solicitagao da enti- Gade, na medida em que, na condicao de pesquisadora, ndo tinha fungdes docentes), 1988-1 Atividades docentes ¢ de pesqui Publicagées: + Livros: 10, um dos quais _publicado também nos Estados Unidos. + Artigos em revistas cientificas: 79, alguns dos quais publicados também nos Estados Unidos, em paises europeus e em outros pai- ses latino-americanos; + Capitulos de livros: 37, alguns dos quais publicados também nos Estados Unidos, em paises europeus e em outros paises latino- americanos: + Outras publicagdes: 12 Osientagio de dissertagdes e de teses: + Dissertagdes de mestrado: 13 + Teses de doutorado: 28 Conferéncias: 207 Participagdes em congressos nacionais «intern: Premios: + Cadeira-Prémio no Instituto de Educagdo “Caetano de Campos", em 1954; + Prémio Mulher-Cidada Bertha Lutz, Senado da Repitblica, 2002 lei de 2002); + Prémio Florestan Fernandes (um dos seis socidlogos que mais con ‘ribotram para o desenvolvimento da Sociologia no Brasil, concedi- do pela Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), na abertura do XI Congresso da SBS, em 01/09/2003 (prémio instituido em 2003). dora na Unesp ¢ na PUC. ionais: 144 Ww — 3 =n =. iS Introdugio Peer ‘A realidade nua e crua .. 0 conceito de violéncia..... 0 tabu do incesto Género, raga/etnia, poder Descobertas da drea das perfumarias . ‘A mulher brasileira nos espagos piblico e privado..... 43, 0 coneeito de género Violéncia contra as mulheres O conceito de patriarcado .. Lesio Corporal Dolosa. ‘Genero, patriareado,volincia Para além da violéncia urbana. © significado da violéncia Pontos de referéncia .. Violéneia doméstica . Delegacias de defesa da mulher... Nao ha revolugio sem teoria” | d dl A maquina do patriareado atro Ugao As origens do conceito de género GOnet0 © Oder ewenne Genero e patriareado.. Genero € ideolOgia nnn a Interpretagdo patriarcal do patriareado . Género x patriarcado . Referéncias bibliograficas Este livro, incidindo, grosso modo, sobre violéncia contra mu- Iheres, destina-se a todos(as) aqueles(as) que desejam conhecer fenémenos sociais relativamente ocultos ~ ou por que hé que se reservar a familia, por pior que ela seja, na medida em que esta instituigdo social esté envolta pelo sagrado, ou porque se tem vergonha de expé-los. Com efeito, um marido que espanca sua mulher, em geral, é poupado em varios dos ambientes por ele freqtientados, em virtude de este fato no ser de conhecimento piiblico. Também interessa a vitimas e agressores, ja que podem, certamente, identificar, em sua relagio violenta, algumas de suas ralzes, encorajando-se a buscar ajuda. Os que ignoram o fend: no, por terem tido sorte de nem sequer haver presenciado as modalidades de violéncia aqui tratadas, podem desejar ampliar sua cultura, Ha uma outra categoria de leitores, interessados por anélises teSricas desta violéncia, pondo em especial relevo con- ceitos como o de género ¢ 0 de patriarcade, que, seguramente, Heleieth 1B Sac Gineropatrancado, volocia ts se interessardio por ler este livro, Trata-se de iniciados(as) insa tisfeitos(as) com 0 que aprenderam, tendo agora a seu dispor mais um texto seja para criticé-lo, seja para a ele aderir, seja, ainda, para incorporar algumas idéias e rejeitar outras. A limitagio do mimero de paginas constitui um sério problema para uma sociéloga notoriamente prolixa. O volume de dados coligidos pela Fundagio Perseu Abramo com a pesquisa “A mu- Iher brasileira nos espagos piblico e privado”, realizada por seu Niicleo de Opinio Péblica, e que foi utilizada neste trabalho, ul- trapassa, de longe, as pretensdes de andlise de uma cientista so cial, que talvez pudesse usé-los em dois livros ou mais. Jamais em um tinico. Leitores em busca de dados sentir-se-do frustrados, imagina-se’, A autora tem o Alibi de que o ser humano nfo é per- feito, sobretudo ela propria. Ser o caso de pedir desculpas ao leitor? Nao se pensa desta forma, pois é muito mais ffeil divulgar dados que construir referenciais te6ricos para analisé-los. Ob- viamente, se nutre a perspectiva de agradar. Se, todavia, isto nao ocorrer, como toda obra é datada e todos os membros da socie~ dade esto sujeitos a mudanga, poderd surgir uma outra, menos subversiva que esta, em termos de conceitos reformulados e da propria concepeo da Historia. Se o marxismo cléssico atribuia importancia excessiva ao macropoder e se os autores que cha- maram a atenco para a relevancia do micropoder nao apresen- taram um projeto de transformacio da sociedade na diregio da democracia integral, este livro propée-se combinar macro € mi- croprocessos, a fim de avangar na obtengao deste objetivo. O feminismo aqui esposado traz, em seu bojo, um potencial critico bastante capaz de apontar caminhos, trilhas, picadas para se atingir o alvo expresso ¢ desejado, ou seja, a democra- cia plena. Entretanto, isto no basta; é preciso saber utilizé-lo, selecionando as melhores estratégias em cada momento, o que cabe ao leitor julgar e realizar, Esta avaliago, certamente, abri- 14 A autora as portas que ela nZo logrou abrir sozinha "Os dados detalhados da pesquisa podem sor obtides am wonn-fpa.org.brinop. Helieth 18 Safi 1. A realidade nua e cru Sempre que se faz uma pesquisa com a finalidade de se verifi- cer quais so as maiores preocupagses dos brasileiros, apare- cem, infalivelmente, 0 desemprego e a violéncia, JA ndo se trata de preocupagées tio-somente dos habitantes dos grandes cen- tras urbanos, como Séo Paulo e Rio de Janeiro, isolados até ha alguns anos, mas de praticamente todas as capitais de estados € do Distrito Federal. Pior que isto, estes dois flagelos tomaram centa das cidades de porte médio e até de pequenos muniefpios crime organizado, expresso maxima da violéncia, era restri- to ao Rio de Janeiro. H4 aproximadamente duas décadas, So Paulo passow a rivalizar com o Rio de Janeiro, nesta terrfvel atividade. Hoje, este fendmeno esti generalizado. De um lado, o crime organizado vive nababesea e tranqitila~ mente nas entranhas do Estado, quer federal, estaduais ou mu- nicipais. Este fenémeno lesa o povo brasileiro, j4 tio sacrificado pelo decréscimo real, ¢ até mesmo nominal, de seus rendimen- (Gasero,patilavead,vilénda it tos, em virtude de demissdes de funcionérios, sucedidos por novos, recebendo saldrios mais baixos. Tal fato do tun over ou rotatividade da forga de trabalho, antes provocado pelos em- pregados, em busca de empresas dispostas a remuneré-los com certa generosidade, introduzindo fatores de humanizacio no ambiente de trabalho, hoje se produz em conseqiiéncia da ne cessidade de menor dispéndio com salarios de trabalhadores, a fim de aprofundar o processo de exploragio-dominagio e, des- ta maneira, tornar mais rentdveis seus empreendimentos. ‘Tomando-se apenas 0 ano de 2003, aqueles que vivem de sa- lérios sofreram uma perda real de cerca de 15% em seus rendi- mentos, ou seja, em seu poder aquisitivo. Este fato, num con- texto de altas taxas de desemprego, que ultrapassa 20% da PEA (populagao economicamente ativa) do municipio de Sao Pau- Jo, outrora a Meca dos habitantes de outras regides, assume proporgées insustentéveis. Se, de um lado, a taxa de desem- prego é alta, de outro, um ntimero decrescente de trabalhado- res, com poder aquisitivo em queda, deve produzir o suficien- te para sustentar aqueles que nem sequer no setor informal de trabalho conseguiram inserir-se. A rede familiar de solidarie~ dade desempenha importante papel, evitando que crescam, numa medida ainda mais cruel, os contingentes humanos sem teto, sem emprego, sem rendimento, isto é, em franco processo de desfiliag&o (CASTEL, 1995). Grosso modo e ligeiramente, a desfiliagdo consiste numa série de fatos sucessivos: desemprego, impossibilidade de pagar o alu- guel, perda da moradia e, portanto, do endereco, perda dos cole- gas e dos amigos, esfacelamento da familia, cortes erescentes dos lagos sociais, cortes estes responséveis pelo isolamento do cids dio. Enfim, de perda em perda, 0 desfiliado encontra-se no nfo- lugar, talvez no vazio mais doloroso para um ser humano, que, como jé dizia Aristételes no 1v século a.C., 6 um ser politico*. » Palavra derivada de pls, isto &, cidade em grego. A mais corrota tracupéo de pélis, no contaxto em que escreveu 0 flésofo, & gregarismo. B Salon R Icleeth No Brasil, contingentes humanos nestas circunstancias fo- ram denominados inempregdveis pelo presidente socidlogo. Este ignominioso apelido revela uma faceta da pedra angular do liberalismo ou neoliberalismo. Quando o trabalhador ex- perimentou o desemprego de longa duragio, tendo buscado, As vezes durante anos, nova colocagio e, em vez dela, encon- trado 0 isolamento, a solidio, o nao-lugar, a responsabilidade deste fracasso &The imputada pelo governante de plantao, que soube ser submisso, sobretudo ao Império, mas no soube transformar a posiggo de seu préprio pafs numa inser¢ao so- berana no cenério internacional, tarefa que o presidente me- talirgico realizou, em grande parte e com extraordinéria ha- bilidede diplomética, em apenas um ano de governo. £ piblico e notério que este processo é cotidiano ¢ infinito, pensando-se 0 poder ndo como um objeto do qual se possa realizar uma definitiva apropriagao, mas como algo que flui, que circula nas e pelas relagdes sociais (FOUCAULT, 1981). Esta instabilidade do poder, ou melhor, esta rotatividade dos poderosos néo ocorre apenas na micropolitic, mas também na macropolitica. A matha fina e a malha grossa nao sao ins- tncias isoladas, interpenetrando-se mutuamente, uma se nu- trindo da outra, Nao hé um plano ou nivel micro e um plano ow nivel macro, linguagem utilizada por certos autores (Guacrari, 1981; GUATTARK e ROLNIK, 1986; FoucduLr, 1981; 1997), nfo obstante a relevineia de sua contribuigao tedrica "0 poder dave ser analisado como algo que cicula, ou melhor, como algo {que 85 lunciona om cada. [..] © podar funciona e se exerce em rede. Nas ‘suas malhas os indviduos neo 86 crculam, mes esteo sempre em posiggo {de exercer aste poder o de solrer sua agi; nunca s4o 0 alvo inerte ou consenido do poder, s80 sempre cantios de transmiss8a. Em outros tor- mos, 0 poder no se épica aos individuos, passa por eles...) Efativament agulo que faz com quo um corpo, gestos, discursos @ dasejos sejam identfeados e consituldos enquanto individuos é um dos primeitos efeitos deppoder. Ou sea, oinuvicuo no 6 0 autre do poder: & un de seus primeira fens. O indivduo 6 um efeto do poder e s*muitancaments, ou pelo préprc fio da ser um efeito, 6 seu centro de transmissdo. O poder passa através [sio} do indivféuo que ele constitu’ (1981, p. 183-4), Género, strand, B Trata-se de microprocessos, assim como de macroprocessos, operando nas malhas fina e grossa, “uma sendo 0 avesso da outra, nao niveis distintos” (SaFFIOTI, 1999, p. 86). Como 0 poder vineula-se, com freqiiéncia ¢ estreitamente, a riquezas, talvez seja interessante fazer uma breve incurséo pelo terreno econémico. Vive-se uma fase impar de hegemonia do capital financeiro, parasitario, porque nada cria. Esta é, certa- mente, a maior € mais importante fonte da instabilidade social no mundo globalizado. A concentracéo mundial de riquezes atingiu to alto grau, que gerou um perigo politico a temer-se. Fruto de fusdes de empresas ¢ outros mecanismos que tam- bém corroboram na realizagio de uma determinagao inerente a0 capitalismo: a acumulagio de bens em poucas maos e a far- ta distribuigao da miséria para muitos, nestas abissais desi- gualdades morando 0 inimigo, ou seja, a contradigio fundante deste modo de produgio, ao qual sao inerentes a injustiga e a iniqilidade. Sem a coneretizaciio desta verdadeira lei, acumnu- lagao e miséria, 0 capitalismo nio se sustentaria, ou melhor, nem seria capitalismo. Exatamente em virtude disto, 0 capita~ lismo esta sujeito a crises de prosperidade e de recesséo, che- gando & depressao, cujo exemplo maximo, até 0 momento, foi a crise de 1929. © famoso crash da Bolsa de Nova Iorque trans- formou em pobres contingentes humanos riquissimos, do dia para a noite, repercutindo este desastre em todas as Areas da produgio e, por conseguinte, desorganizando a economia nor- te-americana e outras dela dependentes. 0 poder descreveu trajetéria semelhante, Hoje, tem-se uma economia-mundo, com a producio de mercadorias, envolvendo, inclusive em termos de espago geografico, varios pafses. Vale dizer que, atualmente, o mundo est4 organizado em redes de informa- io, de produgio, de troca etc., exceto qualquer rede de soli- dariedade a nio ser esporddica e eventual, disto derivando, em caso de um crash de qualquer Bolsa importante, um verda- deiro desastre em termos globais. Com o predominio quase absoluto do capital financeiro, no momento presente, nao se est imune a um novo crash, capaz de levar de roldao paises a Haleith LB Seok ditos de primeiro mundo, assim como os agora denominados emergentes, para nao falar nos pobres, cuja miséria se apro- fundaria, Disto talvez decorresse uma nova organizagio mun- dial, incluindo-se mudangas do lugar ocupado por cada nagio no cenétio internacional. Nas décadas de 1950-1960, o Brasil, como também outras nagdes no mesmo estagio de desenvolvimento, recebiam 0 nome de subdesenvolvidas. Na década de 1970, passaram a chamar-se paises em via de desenvolvimento e, a partir dos anos 1980, tornaram-se emergentes. Os nomes tém sofrido variagdes, mas a distncia econémico-social entre o niicleo onginico, a semiperiferia e a periferia ou continua a mesma ou aumenta (ARRIGHI, 1997). Mutatis mutandis, embora a globalizago tenha gerado novos processos e produtos, que niio podem ser ignorados, a légica da dominagio-exploragao entre paises e entre classes sociais, nos limites de cada nagio, continua a mesma. Todavia, nio se fala mais em imperialismo. Este termo sé ¢ utilizado pelos alcunhados, com desprezo, de dinossauros. Mas, como diriam os franceses: Plus ca change, plus c'est la méme chose, isto 6, quanto mais muda mais 6 a mesma coisa. As chamadas drogas pesadas, sem diivida, desempenham importante papel no crescimento da violéncia conhecida como violéncia urbana, no Brasil. Cidades de porte médio, e também maiores e menores que estas, nas quais qualquer crime seria de clamor piblico, dada sua raridade, competem com os gran- des centros urbanos em matéria de violéncia. Ribeirdo Preto (se) ilustra muito bem esta situagio: de cidade pacata, tornou- se extremamente violenta, tendo o crime organizado do nar- cotrifico invadido o meio rural, Rota dos avides que transpor- tam drogas especialmente da Colombia e da Bolivia, mas tam- bém do Peru, os fardos de drogas so atirados nos canaviais. Trabalhadores rurais de baixissimos salérios recolhem tais far- dos para distribuigio. Como os adultos precisam trabalhar na cana, as criangas sao transformadas em “avides”. Obviamente, no apenas suprem a demanda urbana por este produto, como (Genero, parircado, violencia também passam a consumi-la. Assim, 0 trabalhador do campo tem sua vida cotidiana invadida por uma atividade mercantil fora da lei e por um vicio, ambos destruidores de seus valores culturais, desorganizando, desta sorte, até suas famflias. Que nfo se pense que tais trahalhadores: so camponeses. Quem Irabalha na cana torou-se, ha muito tempo ¢ necessariamen- \e, assalariado. Pior que isto, 0 que Ihe sobrou foi ser um assa- lariado sazonal. Nos meses do corte da cana, os trabalhadores locais s&o insuficientes para atender @ demanda de forga de \vabalho, chegando estas plantagdes a absorver trabalhadores lo Vale do Jequitinhonha mineiro, que para 14 migram todes bs anos, deixando as mulheres para cuidar do rocado, isto é, «ln pequena gleba na qual se plantam alimentos. Estes movi- inentos migratérios ocorrem todos os anos. Nem todos os tra- jalhadores, entretanto, voltam para o Vale, a fim de se juntar sos demais membros de suas familias. Muitos permanecem na periferia da cidade, constituem novas familias, trabalham re- wularmente no perfodo do corte da cana, vivendo de pequenos “picos” durante o restante do ano. Na auséncia de pesquisa, nao se sabe quantos deles continuam traficando drogas e/ou adquiriram o hébito de consumi-las. As fronteiras, j muito lénues, entre o urbano e o rural deixaram de existir. A comercializagdo das drogas também se globalizou, dissemi- nando-se por todo 0 territétio nacional. Mais do que isto, to- mou conta do planeta. E, comprovadamente, ela produz.alte- ragdes do estado de consciéncia, capazes de comprometer, de modo negativo, 0 eédigo de ética dos que se dedicavam ape- nas ao trabalho licito como ganha-pao. ‘A isto se deve acrescentar as drogas licitas, como Alcool € tabaco. Ha uma inegavel permissividade social com relagio ao iso destes produtos. Ha, mesmo, incentivo a que os jovens os consamam, jé que sua publicidade sempre os associa a forga, coragem, charme. S6 muito recentemente, a sociedade brasi- lcira tomou conseiéncia da gravidade do consumo de massa, jue atinge faixas etdrias cada vez mais baixas, dos produtos em pauta, tendo comegado a alertar a populagdo para as enfer- erase eee a Heleieth TB. Sao midades que seu consumo provoea. Caberia chamar a atengio dos brasileiros também para a alteragao do estado de conscién- cia, no sentido de que 0 uso constante do éleool, por exemplo, nfo somente pode provocer acidentes de trnsito como, igual- mente, violéncia contra outrem, Os estudiosos da violéncia urbana nao encontram correla go positiva entre desemprego € violéncia. Se, porventura, ja fa encontraram no contexto de altas taxas de desemprego de longa duracdo, nao se tem conhecimento disto, Para os estu- diosos da violéncia de género, da violéncia contra mulheres, da violéncia doméstica e da violéncia intrafamiliar, esta asso- ciagho 6 clara, havendo relatos de funcionarias de albergues para mulheres vitimas de violéncia ¢ seus filhos que demons- tram, com ntimeros, tal correlacao. do de ‘Antes de dar prosseguimento & anélise, cabe diseutir 0 con- ceito de violéncia, Os habitantes do Brasil, e até estrangeitos que aqui vém fazer turismo, saberiam muito bem definir vio- éncia, pois ou foram diretamente atingidos por alguma moda- lidade dela ou tém, em suas familias e/ou em seu circulo de amizades, algum caso a relatar. Os seqiiestros so freqiientes, como também o sao homicidios, latrocinios, ameagas de mor- te, roubos, sendo a diferenga entre furto ¢ roubo a componen- te violéncia, contida neste tltimo, enquanto no furto ha so- mente a subtragio de dinheiro e/ou outros objetos. As pes- soas habituaram-se tanto com atos violentos que, quando al- guém é assaltado e tem seu dinheiro ¢ seus documentos furta- dos, dé-se gragas a Deus pelo fato de a cidada ou o cidadao ter saido ilesa(o) da ocorréneia. Assim, o entendimento popular da violéncia apbia-se num conceito, durante muito tempo, ¢ ainda hoje, aceito como o verdadeiro e o Gnico, Trata-se da violéncia como ruptura de qualquer forma de integridade da vitima: integridade fisica, integridade psiquica, integridade sexual, integridade moral. Observa-se que apenas a psiquica © (GEneropatciarcado,vielncia 7 a moral situam-se fora do palpavel, Ainda assim, caso a violén- cia psiquica enlouqueca a vitima, como pode ocorrer ~ e ocor- re com certa freqiiéncia, como resultado da prética da tortura por razdes de ordem politica ou de cércere privado, isolando- se a vitima de qualquer comunicacao via rédio ou televisio de qualquer contato humano -, ela torna-se palpavel. Como 0 ser humano é gregario, os efeitos do isolamento podem ser trégicos. Mesmo nfo se tratando de efeitos tangiveis, sao pas- siveis de mensuracdo. Hi escalas psiquidtricas e psicolégicas destinadas 2 medir as probabilidades de vir a vitima a cometer suicidio, a praticar atos violentos contra outrem, consideran- do-se, aqui, até mesmo animais assassinados com crueldade. A vitima de abusos fisicos, psicolégicos, morais e/ou sexu- ais é vista por cientistas como individu com mais probabili- dades de maltratar, sodomizar outros, enfim, de reproduzir, contra outros, as violéncias sofridas, do mesmo modo como se mostrar mais vulnerdvel as investidas sexuais ou violéncia fisica ou psiquica de outrem. Em pesquisa realizada em quase todas as capitais de estados, no Distrito Federal e em mais 20 cidades do estado de Sao Paulo, esta hipétese nao foi provada. Nesta investigagio sobre violéncia doméstica (SaFFIOTI, iné- dito), nenhuma informante, que fora vitima de abuso sexual de qualquer espécie, revelou tendéncia, seja de fazer outras vitimas, seja de maior vulnerabilidade a tentativas de abuso contra si mesma, Nio se defende a pastura de que abusos se- xuais sejam inécuos, néo provocando traumas de dificil cura. Ao contrario, em outra pesquisa, esta sobre abuso incestuoso, néo se encontrou nenhuma vitima resiliente (SAFFIOTI, 1992). ‘A tesiliéncia constitui fenémeno muito raro. So resilientes pessoas capazes de viver terriveis dramas, sem, contudo, apre~ sentarem um s6 indicio de traumas, sendo, portanto, conside- radas, por meio da aplicagio de testes e da observacao de sua conduta, absolutamente normais. Na mencionada pesquisa, assim como na vastissima literatura especializada internacio- nal, o abuso sexual, sobretudo incestuoso, deixa feridas na alma, que sangram, no inicio sem cessar, e, posteriormente, 8 Helesth 6 Saou sempre que uma situag&o ou um fato lembre o abuso sofrido. A magnitude do trauma no guarda proporcionalidade com re- lagdo ao abuso sofrido. Feridas do corpo podem ser tratadas com éxito num grande niimero de casos. Feridas da alma po- dem, igualmente, ser tratadas. Todavia, as probabilidades de sucesso, em termos de cure, silo muito reduzidas e, em grande parte dos casos, nfo se obtém nenhum éxito. Dominaram 0 século xx dois pensamentos: o de Marx e 0 de Freud. Ambos, cada um a seu modo e em seu campo, questio- naram agressivamente as sociedades em que viveram. Produ- riram idéias e andlises, por conseguinte, subversivas, legando ambos as geragdes posteriores patrimdnios culturais até hoje valorizados. No caso de Freud, porém, uma parte desta heran- ga tem produzido resultados extremamente deletérios as viti- mas de abuso sexual, em especial do abuso incestuoso, Para Freud, e hoje para muitos de seus seguidores, os relatos das mulheres, que freqlientavam seu consultorio, sobre abusos sexuais contra elas perpetrados por seus pais eram fantasias derivadas do desejo de serem possuidas por eles, destronan- do, assim, suas maes, Na pesquisa realizada entre 1988 ¢ 1992 (SaFFIOTT, 1992), nfo se encontrou um s6 caso de fantasia, A crianga pode, e 0 faz, enfeitar o sucedido, mas sua base é real, isto é, foi, de fato, molestada por seu pai, Contudo, 0 escrito de Freud transformou-se em bfblia e a crianga perdeu credibili- dade. Trata-se, em sua maioria esmagadora, de mulheres, que representam cerca de 90% do universo de vitimas. Logo, os homens comparecem como vitimas em apenas 10% do total. De outra parte, as mulheres agressoras sexuais esto entre 1% € 3%, enquanto a presenca maseulina est entre 97% ¢ 99%. Na pesquisa sobre abuso incestuoso, j4 referida, nfio se encon- trou nenhum garoto como vitima. Por viz de conseqiiéncia, tampouco havia mulheres na condigio de perpetradoras de abuso sexual. £ preciso, contudo, pensar que pais vitimizam nao apenas suas proprias fillas, como também seus filhos, Num pais tio machista quanto o Brasil, este é um segredo muito bem guardado. Se a vizinhanga souber, diré que o destino da- 19 nero patrarcado, vill quele garoto esta selado: ser homosexual, na medida em que foi penetrado, fendmeno espectfico de mulher. Se 0 dado in- ternacional é de 10% de meninos sexualmente vitimizados, pode-se concluir que, aqui, o fato ocorre, pelo menos, nesta proporgiio. © machismo, numa de suas facetas altamente ne- gativas para os homens ~ e hé muitas -, oculta estas ocorrén- cias, em vez de fazer face a elas implementar politicas que visem, no minimo, a sua dréstica redugdo. Retomando resul- tados da investigagio mencionada, todos os agressores sexu- ais eram homens e, entre eles, 71.5% eram os proprios pais biolégicos, vindo os padrastos em segundo lugar e bem distan- tes dos primeiros, ou seja, representando 11,1% do universo de agressores. Em pequenos percentuais, compareceram avés, tios, primos. Como a pesquisa foi conchuida em 1992, era pertinente Je- vantar a hipétese de estes dados ja nfo corresponderem a rea~ lidade atual. A pertinéncia da hipétese reside na mudanga da composigio das familias. Dada a fecilidade com que se desfa- zem as unides conjugais — legais ou consensuais - e a mesma facilidade com que cada membro do casal reconstitui sua vida amorosa com outras pessoas, as ‘amilias com padrastos (¢ madrastas) aumentaram em niimeros absolutos ¢ relativos Nada mais justo, portanto, do que suspeitar que houvesse cres- cido o percentual de padrastos ne universo do abuso inces- tuoso. Mais uma vez, os dados obtidos de casas-abrigo para vitimas de violéncia confirmaram os obtidos na investigacao realizada entre 1988 ¢ 1992. O pai continua a ser o grande vi- lo, devorando sua propria prole, constituindo este fato uma agravante tanto penal quanto psicolégica. Qtabu do incesto © pai biol6gico é 0 adulto maseulino no qual a erianga (me- nor de 18 anos) mais confia, Este fato responde pela magni- tude e pela profundidade do trauma. Nas camadas mais bem aquinhoadas, social e economicamente falando, o abuso obe- 20 Heit 8 Sato dece A receita da sedugdo: maior atengdo para aquela filha, mais presentes, mais passeios, mais viagens etc. As técnicas so bastante sofisticadas, avangando lentamente nas cari- cias, que passam da ternura a lascivia. Muitas vezes e de- pendendo da idade da crianga, esta nem sabe discernir ea- tre um e outro tipo de caricia, sendo incupue de localizar 0 momento da mudanga, Como a sexualidade da mulher 6 difusa por todo 0 corpo ¢ a sexualidade infantil nao é genitalizada, as caricias percorrem toda a superficie de seu corpo, proporcio~ nando prazer a vitima, Posteriormente, recorrendo 0 adulto a pomadas especiais, dilata o anus e o reto da filha (ou filho), a fim de preparar o caminho da penetraco anal, pois a oral j4 ocorte- ra e também esta provocara prazer na menina. A pritica da cunnilingus é relatada pelas meninas como muito prazerosa. Nem todas apreciam o fellatio. Acaba, no entanto, sendo uma unanimidade entre as vitimas, uma vez que obedece A lei da reciprocidade. Depois de todos estes passos, que integram a iniciagao da erianga na sexualidade do adulto, vem a penetragao vaginal. Alguns homens, assim que a menina tem sua menarca, ou p-i- meira menstruagio, controlam seu ciclo menstrual, s6 man- tendo relagées sexuais com ela nos periodos estéreis. Outros preferem administrar as filhas 0 anticoncepcional oral, cui- dando para que elas o tomem todos os dias. Nao se encontrou nenhum caso de gravidez de meninas pertencentes as classes médias altas, nas quais € comum o pai ter educagio superior. Nas camadas social e economicamente desfavorecidas, 0 pro- cesso é rapido e brutal. O pai coloca um revélver, na mais fina das hipéteses, ou uma faca de cozinha junto 4 cama ou sotre ela, joga a menina sobre o leito, rasga-lhe as roupas ¢ a estu- pra, ameagando-a de morte, se gritar, ou ameagando matar toda sua familia, se abrir a boca para contar 0 sucedido a al- guém. Nao se pode negar que o pai instrufdo procede 4 inicia- cdo sexual de sua filha de forma delicada, sem violéncia fisica ow ameacas neste sentido. Simplesmente, pede & menina pera nao contar a ninguém, especialmente a sua mie, “justificando” (Gener, patraeade,wclinca 5] eee que esta sentiria citime, das podendo derivar sérios conflitos. No caso do pai pobre ¢ de baixa escolaridade, vai-se direta- mente ao ato sexual, sem prolegmenos de nenhuma espécie: nao hé caricias, no hé um avangar paulatino. Por estas ra- zGes, 6 brutal. Todavia, as conseqiiéneias, para a vitima, sao certamente opostas as esperadas pelo leitor. Este poderia, acredita-se, imaginar uma associagio positiva entre a brutalidade do pai na abordagem da menina ou menino das camadas sociais menos favorecidas e a profundidade do trauma causado em sua filha pelo estupro ou pela penetragZo anal, no caso do garoto. Um caso de abuso incestuoso, numa familia pobre, mas no miseravel, revelou que o marido de uma senhora, tendo esta levado para seu segundo easamento duas fithas de uma unio anterior, foi capaz de estuprar, em ordem cronolégica, a enteada mais velha, a enteada mais jo- vem, a propria filha. Em seguida, chegou a vez dos filhos. Fez penetracio oral e anal no mais velho, no que sucedeu a este na ordem dos nascimentos, e, finalmente, no mais novo, que apre- sentava retardo mental, ou seja, agravante penal. Além de cunnilingus, fellatio, penetragio anal e estupro, 1: trou nenhum outro tipo de abuso nas camadas desfavorecidas. Em razo da sexualidade ser exercida de diferentes maneiras, segundo 0 momento historico (a pederastia na antiga Atenas no era 0 mesmo que o homossexualismo de hoje), o tipo de sociedade, a classe social, a etnia, pode-se esperar que a abor- dagem “amorosa” no abuso sexual perpetrado pelo homem rude € sem instrucio seja igualmente rude. E, de fato, 6 isto que ocorre, Entretanto, e felizmente, porque a pobreza atinge 2 maioria dos habitantes, esta “brutalidade” niio produz trau- mas @ ela proporcionais. Se assim nio fora, haveria mais um item negativo a ser inclufdo na chamada cultura do pobre. A menina pobre, sozinha em casa com sett pai, nfo tem a quem apelar. A presenca da arma branea ou de fogo reitera permanentemente as ameacas verbais. Ela nfo tem escapato- ria, Entrar em luta corporal com seu pai s6 pioraria as coisas. Primeiro, ndo podendo medir forcas com um homem adulto, 22 Hieleieth 18. Saffion poderia sair muito ferida daquela situagdo. Segundo, e em iltima instancia, poderia perder a vida nesta brincadeira de mau gosto. A rigor, nfo havia saida. Se nao havia escapaté- ria, ela , indubitavelmente, vitima e como tal se concebe € define. Logo, nao hf razées para sentir-se culpada. As mulhe- res so treinadas para sentir culpa. Ainda que nao haja razbes aparentes para se culpabilizarem, culpabilizam-se, pois vi- vem numa civilizagfo da culpa, para usar a linguagem de Ruth Benedict (1988). No caso aqui narrado, porém, talvez a meni- na ainda nio houvesse introjetado a “necessidade” crista de se culpabilizar. Ademais, salvou sua famflia da morte. Desta sorte, esta menina nao se vé como culpada; vé-se como viti- ma, Entre as 63 vitimas estudadas, nenhuma delas, nas con- digdes da descrita, se culpabilizou. Dadas as condigdes do estupro, 11 delas tiveram filhos dos proprios pais. Nao é raro ouvir destes pais: “Dona, eu pus esta menina no mundo, eu criei ela, ela é minha. A senhora acha que vou entregar ela a qualquer um? Nao, ela é minha. S6 néo sei como registrar a crianga. Registra como filho ou como neto?”. Das maes, mas sem unanimidade, ouve-se: “Dona, se eu posso agtientar, por que ela nfo pode me ajudar a carregar este fardo?”. Esta res posta vem de mulheres socializadas para “sofrer” a relagéo sexual, destinada & procriacio, nfo para dela desfrutar, nfo para dela extrair prazer, independentemente de ela resultar numa gravider. Pensando deste modo, nfo se lastima por néo haver sido capaz de proteger a filha das investidas sexuais de seu proprio pai. Mais do que isto, a relagdo sexual é, para ela, um fardo tio pesado, que necessita do auxilio da filha para carregé-lo vida afora. Outras mes tentam culpabilizar as fi- Ihas, pois, a seu ver, as meninas seduziram seus pais. Pode, portanto ~ ¢ isto foi encontrado ~, surgir 0 conflito entre mae e filha; até mesmo a ruptura da relagao. Todavia, a menina Jo se vé como culpada. Afinal, nao foi ela que salvou toda sua familia? S6 se encontrou um caso de rejeicdo da crianca por parte de sua jovem mie, Em todos os demais, elas adora- ‘vam os filhos que tiveram como fruto de estupro incestuoso, weadovilweas Ginero,putarcado violencia Houve uma que até fez 0 chi-de-bebé, quando estava no séti- mo més de gravidez. Elas recusaram ofertas de aborto. Nao havia, naquela ocasitio, hospitais que realizassem os chama- dos abortos legais. Legais, porque estavam previstos como atos nia-criminosos, como continuam, aliés, no Codigo Pe- nal em vigor, de 1940. Apenas sua parte geral sofreu altera~ ges, a especifica, nao. Isto equivale a dizer que nao houve nenhuma mudanga nos tipos penais. Afirmou-se, anterior mente, que nas camadas sociais subprivilegiadas encontram- se cunnilingus, fellatio, penetragio anal e estupro. Eventual- ‘mente, um pai mais “sensivel” pode fazer certas caricias. A possibilidade esta aberta, embora nfo se tenha nenhum caso para expor. A mengiio dos quatro atos sexualmente abusivos foi necessiria em virtude de o Cédigo Penal refer! cdo sexual ocorrida no estupro com a expressdo “conjun- go carnal”, comum na época para designar penetragio va- ginal. Assim, é erréneo dizer-se que Pixote (quem nao se lembra do filme?) foi estuprado. Como homens nfo tém va~ gina, as tinicas penetragSes que podem sofrer sio a orale & anal. Algumas feministas elaboraram uma proposta de re- forma da parte especifica do Cédigo Penal, ampliando o con- ceito de estupro, que passaria a incluir os trés tipos de pene- tragio: oral, anal e vaginal’ Retomando-se a comparagio do abuso incestuoso entre po- bres e entre ricos, para simplificar, ha que dizer que, de outro Jado, est a menina mimada, acariciada, pensendo estar 0 pai ea rela~ | Nesta sesso, trabalhames: uma representante do CFENEA, grupo que alvalunto ao legisletvo federal nos assuntos partinentes & causa ferri~ rista, a advogada Silvia Pimentel 9 eu, pelo fato de ter foto 0 curso de DBiroio € de, como speidloga, ter estudado 0 abuso sexual @ © abuso incestvose. Crelo que solcitaram minha colaboragio, sobretudo, pe'o {ato de que distingo Incesto de abuso ncestuoso, © uma das questes india extamente na pergunta: deva-se ou ndo criminalizar © incosto? Fuie sou contra pelas raz6es que co seguem. Se um rapaz e uma mora, irmaos entre si, se epaixonarem um pelo outro, terdo cue enfrantar @ raprovagso quese unanime da sociedade por haverem vielado um dos tals series tabus socias, Se eles tiverem idades préximas, maioridace 7 Fille. 8 Sou apaixonado por ela ¢ jé ndo amando sua esposa. Vé sua mae como sua competidora, sua rival, diante da qual ela, bem jo- vem, leva vantagens: sua beleza fresca é de lolita, sua pele nao tem rugas e, portanto, 6 acetinada, Na medida em que sua mae & considerada rival, néo pode se inteirar dos fatos, que, em casos semelhantes a este, duram de sete a oito anos, podendo ir mais longe. Esta crianga foi, cautelosa e gradativamente, introduzida nas artes do amor por seu proprio pai, provedor também de prazer sexual. Trata-se, por conseguinte, de um pai amado. Entretanto, h4 a outra face da moeda: como nunca reagiu contra as provocacdes de seu pai, como nem sequer soube identificar 0 momento da transformacio da ternura em libidinagem, colaborou com o pai durante todo o proceso. ‘Ainda que, a rigor, ndo tenha nenhuma culpa, tampouco res- ponsabilidade, néo se vé como vitima, que realmente é mas como co-participe. Disto deriva uma profunda culpa. Embora nfo haja sido, em nenhum momento, cimplice de seu pai, sen te-se como tal ¢ inimiga de sua mie. Sua culpa é proporcional A delicadeza do processo de sedug%o utilizado por seu pai. Ela sente-se a sedutora. Logo, seu pai foi sua vitima. Obviamente, nenbuma das duas abordagens convém & crianga, Em termos de danos psiquicos e disttirbios sexuais posteriormente mani- festados, o abuso sexual via sedugao ¢ infinitamente pior que a prutalidade do pai menos instrufdo e menos maneiroso Isto € importante para que, mais uma vez, nao se caracterize tudo que é mau como integrante da cultura do pobre. Fulano ce realmente s¢ amarem, no me sinto, nem como profissional, em come Cidada, no dover de cofendé-les nam no de acusévlos. Sua rolagéo & par, um no tendo poder sobre © outro; @ sua vontade 6 convergente, Nulto distinto disto 6 0 abuso incestuaso: as idades so muito diferen- tes, 0 que traz consigo uma relagéo dispar, ou seja, atrevessada pelo poder, As partes encontrar-se em posicdes muito diversas, uma tendo Butoridade sobre a outra, © néo existe convergéncia de vortades. Pai ce em que 9 ncesio era considerado crime tm procedide no sentido ide descrminé.(o, Para citar apenas alguns: Estados Unidos, muitos pai- Ses curopeus ¢ lafino-amerieanos. © Equador, que tem umalel ospeci. Camente sobre violéncia doméstica, deseriinou 0 incesto, ‘GEnero,patineado, viel estuprou sua filha, espanca regularmente sua mulher? Isto se. No ocorre nas favelas, nos cortigos, no meio pobre’, seio das camadas abastadas, forma-se uma cumplicidade dos membros da familia, estabelecendo-se 0 sigilo em torno dos fatos. O nome da familia nfo pode ter mécula. Conseguiu-se descobrir uma tinica familia incestuosa, Chegou-se ao portao, mas no foi possivel ultrapassé-lo. As informagdes dispon! veis foram facilitadas & pesquisadora por uma amiga de uma das filhas. Esta filha sofria abuscs sexuais de toda ordem, per- petrados por seu pai. $6 confiou seu segredo a esta amiga. Embora no haja dito nada explicitamente, hé indicios de que pai abusava sexualmente de todos os filhos ¢ filhas. Recebia- 05, cada um de uma vez, em seu quarto, 0 que, por si s6, 6, no minim, estranho. Que 0 abuso ocorresse com todos os filhos filhas constitui uma hipétese, nao inteiramente infundada, A conspiragéo do siléncio, todavia, impediu a pesquisadora de estudar esta familia, (© argumento de quem justifica, se ndo defende, a conduta de agressores sexuais reside no tipo de sexualidade masculina, di- © Uma ovientanda minha, cuja tase estétpraticamente pronta para a dote- sa, tom, entre suas entrevistadas ((odas de classe média alta @ alta), a fesposa de um juz. Tampém em caso de violéneia doméstca, as mulne- Fos mais bem aquinhoadas levarn desvntagom, Em sua entrevisia, a ‘Sspancada observa: como posso denuncié-lo, se a investigagao deve- fia ser reallzada por profissionais que o respeitam muito (ele ¢ rospoi- {edissimo na cidade em que atua como profssionale vive num municipio ide cerca de 200 mil habitantes, na Bahia e, om ulima instancia, 0 caso Sera julgado por um colaga seu? Quand esta moga, que ja havia feito mrestiade, scb minha ofientag8o, sobre violéncia contra mulheres das ‘amadas socials menos favorecidas, prozurou-me Gzendo desejar con. finua’ com 0 mesmo tema, eu tho disse que os pesquisadores adoram festudar pobres, porque é mais fac, elas estio quase sempre aberios @ falar sobre o ascunto (no caso de viiénda doméstica, quem fala so as rmubheres, os homens foger; em minha pesquisa sobre abuso incestuo- So, entievistel vitimas, suas mes @ outros parentas ou vizinhos conhe- Ceuores dos fatos, tontel arduamente ertrovietar agressores, mas con. Segui falar com muito poues @ todos mentiam descaradamente), que 0 Gticll € estudar 08 rlcos, JA que, para no fer sau status abalado, seu ome su, eles se fecham, Ela acettou odesafo o, pelo que eu ihe disse cia verificou, o titulo da tase & O prego ao silencio. 6 Heli 1B Salt ferente da feminina. Afirmam que a sexualidade da mulher sé aflora quando provocada, e varios sio os meios de fazé-lo, 0 que é uma meia verdade, A mulher foi socializada para conduzir-se como caga, que espera o “ataque” do cacador. A medida, no entanto, que se liberta deste condicionamento, passa a tomar a iniciativa, seja no seio do casamento, seja quando deseja namo- rar um rapaz. Como o homem foi educado para ir A caga, para, na condigo de macho, tomar sempre a iniciativa, tende a no ver com bons olhos a atitude de mulheres desinibidas, quer para tomar a dianteira no infcio do namoro, quer para provocar homem na cama, visando a com ele manter uma relacdo sexual, salvo no seio de tribos da juventude, pelo menos das grandes cidades, em que isto é uma pritica corrente. Os condiciona- mentos sociais induzem muitos a acreditar na incontrolabilidade da sexualidade masculina, Se assim fora, ter-se-iam relagdes sexuais, ou mesmo estupros, nas ruas, nos sales de danga, nos restaurantes, nos cafés etc. Obviamente, qualquer pessoa, seja homem ou mulher, pode controlar seu desejo, postergar sua coneretizagéo, esperar 0 momento ¢ o local apropriados para a busca do prazer sexual. £ evidente que a esmagadora maioria de homens e de mulheres atua desta maneira, mesmo porque a sociedade é regida por numerosas normas. Nao se trata de leis como as da Fisica, que ocorrem inexoravelmente, Quer Newton desejasse ou nfo que a maga solta por ele cafs- se a0 solo, ela cairia da mesma forma. As regras sociais so passiveis de transgressao e so efetivamente violadas. No caso em pauta, hé o tabu do incesto, segundo Lévi-Strauss (1976), de carater universal, embora o interdito nfo recaia sempre sobre as mesmas pessoas, quando se passa de uma sociedade a outra. A universalidade do tabu do incesto € contestada por Meillassoux (1975). O tabu em pauta significa uma interdigao, um nao & possibilidade socialmente nio-aceita de certas pes- soas se casarem entre si. Na sociedade ocidental moderna, 0 interdito recai sobre parentes consangiiineos ou afins. No caso especifico do Brasil, o novo Cédigo Civil, em vigor desde 11 de janeiro de 2003, afirma: (Gano patireado, via “art, 1.521, No podem casar: I — os ascendentes com os descendentes, seja o parentes- co natural ou civil; TI ~ 0s afins em linba reta; III — 0 adotante com quem foi cOnjuge do adotado ¢ © adota~ do com quem 0 foi do adotante; IV ~ 08 irmaos, unilaterais ou bilaterais, e demais colaterai até o terceiro grau inclusive; V - 0 adotado com 0 filho do adotante; VI ~ as pessoas casadas; ‘VII - 0 cénjuge sobrevivente com 0 condenado por homici dio ou tentativa de homicidio contra 0 seu consorte 0 projeto deste novo Cédigo Civil tramitou no Congreso Na cional, muito lentamente, durante 26 anos, o que equivale a dizer que ele j4 nasceu desatualizado. Conservou o impedimen- to do matriménio entre primos (parentes de terceiro grau), in- terdito cuja violagao havia ocorrido milhares de vezes, sendo este tipo de unio plenamente aceito pela sociedade. O tabu do incesto é inteiramente social, nada havendo nele de biologico. Como a sociedade brasileira perdeu, ao longo de sua histéria, os rituais de transmissio destas protbigées, ela mesma criow as defesas sustentadoras do interdito. Trata-se de socializar as ge- ragGes imaturas na crenca de que a prole de casais ligados entre si pelo parentesco apresenta anomalias de maior ow menor gra- vidade. As estatisticas existentes sobre mas-formagses fetais, mortes pré ou pos-natais nao resistem & mais ténue critica. ‘A historia de outras sociedades constitui um recurso extraordindrio em prol da natureza exclusivamente social do tabu do incesto. No Havai, era prescrito, portanto mais que permitido, o casamento entre irmaos. O mesmo ocorria no Egito, primeiro no seio da realeza, disseminando-se posteri- ormente por toda a populagao. Os descendentes de irmaos casados entre si eram de muito boa qualidade, nem pior nem melhor que as populagSes nas quais o interdito recafa sobre irmios, Todo interdito, 20 mesmo tempo em que é um néo, é 38 lia. 8 Safin ieee também um sim. Simplificando, se irmis nfo sio sexualmen- te disponiveis para seus itmios, 0 so para aqueles que nao sio seus irmios, Evidentemente, no caso brasileiro, ter-se-ia que excluir todas as classes de individuos sobre quem pesa 0 ndo, para afirmar-se que todos os demais so sexualmente disponiveis, ow seja, aqueles que carregam um sim. Isto equi- vale a dizer que, excluidas as classes de pessoas mencionadas no Cédigo Civil, todas as demais mulheres so sexualmente disponiveis para quaisquer homen: ‘Nao e sim residem no interior de todas as interdigoes. Para ilustrar de modo simples, pode-se tomar as leis de transito. Uma tabuleta mostra o simbolo de que caminhées ndo podem trafegar naquela via. O mesmo simbolo significa sim para to- dos os demais veiculos. Se, todavia, o motorista de um cami- nhio passar por aquela rua, seré negativamente sancionado pela sociedade. A pena poder ser o pagamento de uma multa, pontos na carteira de habilitagao ete. Quanto ao matriménio, os que nao podem se casar entre si podem infringir esta norma social. Como, no civil, 0 casamento serd impossivel, ele pode~ 14 concretizar-se pela unido consensual, realizando-se ou nao no religioso. Isto ocorre muito no Brasil, sobretudo nas areas de dificil acesso, longe do poder constituido. Entretanto, néo consta que tais populagées apresentem, por exemplo, elevado percentual de individuos malformados. Entéo, para que con- servar o tabu do incesto, cuja transgressio, sobretudo entre ascendentes e descendentes, é altamente reprovada pela socie- dade, isto é, sancionada de forma muito negativa? Para que serve este tabu? O tabu do incesto apresenta alta relevancia, pois é ele que revela a cada um seu lugar na familia, em varios outros grupos, enfim, na sociedade em geral, Género, raco/etnia, poder Rigorosamente, a sociedade brasileira nao tolera mesmo a ‘unio entre ascendentes e descendentes. Caso haja filhos desta unifio, as sangdes negativas sfio ainda mais severas. Uma hipé- 29 Genero, parireado, violins tese bastante plausivel pode ser levantada: a prole destes ca- sais mostraria a sociedade que nenhum argumento biolégico apresenta consisténcia. E a sociedade nao pode abrir mao de argumentos desta ordem, na medida em que j4 nao tem re- cursos para resgatar as antigas praticas de transmissio, sem questionamentos, do interdito. Isto posto, caberia uma per- gunta: por que se curram, nos presidios, estupradores de qual- quer mulher, em especial de criancas? Se toda inter: tém um sim e um ndo, é pertinente responder a esta indaga- do da seguinte maneira: a estuprada nao era sexualmente disponivel para o estuprador, pois, se 0 fora, no teria ocor- rido o estupro, Mas por que ndo poderia sé-lo para o8 demais presos? Trata-se, por conseguinte, de invasto de territério, procedimento muito pouco tolerado, especialmente por ma- ches e bandidos. Ecologistas falam bastante, e com pertinéncia, sobre a ne- cessidade de preservacio do meio ambiente, da natureza. Nao se ouvem, porém, ecologistas preocupados com a ecologia mental nem com a ecologia social. Guattari, num pequeno e primoroso livro (1990), trata da ecosofia, englobando este ter- mo as trés ecologias. Com efeito, supondo-se que o ser huma- no pudesse se abster de agredir a natureza, que sentido teria este fato, jd que no se poderia desfrutar de uma ecologia men- tal, tampouco de uma ecologia social, num mundo penetrado pela corrupgio, af incluso o crime organizado, atravessado pela ambi¢zo desmedida, levando fillios a matarem seus pais, com requintes de crueldade, e vice-versa, invadido pelo 6dio fandamentalista, disto decorrendo o terrorismo e as igualmen- te fundamentalistas reacSes a ele, enfim, num mundo eujos poros foram preenchidos por projetos de dominacéio-explo- ragio de longuissima duragéo, dos quais derivam a fome, 0 medo, a morte prematura, a auséncia de solidariedade, a into- lerancia as diferengas? A este propésito, a resposta de homens negros a0 racismo, mormente dos que conquistaram uma po- sigGo social e/ou econémica privilegiada, foi o casamento com mulheres loiras. Se eles sto socialmente inferiores a elas em Hele B Sion raxo da cor de sua pele e da textura de seus cabelos, elas so inferiores a eles na ordem patriarcal de género. Resultado: soma zero. Transformaram-se em iguais, nas suas diferengas, tansformadas em desigualdades. Ocorre que isto tem conse- aiiéncias. H4 um contingente de mulheres negras que nao tém com quem se casar, Como os negros branqueados pelo di- nheiro se casaram e ainda se easam com brancas, em fungio de uma equalizagio das discriminagGes sofridas, de um lado, pelos negros, de outro, pelas mulheres brancas, em fungio de seu sexo, no ha como se estabelecer tal igualdade entre mulheres negras e homens brancos, pois estes sao “superio- res" pela cor de sua pele e pela textura de seus cabelos, sendo “superiores” também em razo de seu sexo. Na ordem patri- areal de género, 0 branco encontra sua segunda vantagem. Caso seja rico, encontra sua terceira vantagem, 0 que mostra que o poder é macho, branco e, de preferéncia, heterossexual (SaFFioti, 1987). A demografia repereute estes eventos, for- mando-se nela um buraco: @ auséneia de homens para mulhe- res negras casadouras. H& mais um buraco demografico a ser sentido e deplorado crescentemente, Nas guerras entre gangues do narcotrafico, na delingiiéncia em geral, nos entreveros com a policia, mor rem muito mais jovens de 17 a 25 anos que adultos. Que futu- Yo, em termos matrimoniais, terdo as adolescentes de hoje, uma vez que as mulheres costumam casar-se com homens mais velkos? Ou se inverte a situagdo, com o processo ja em curso de casamentos entre homens jovens com mulheres bem mais velkas e poderosas, ou estas jovens conformam-se com sua condi¢ao de populacdo casadoura excedente. No fundo, pare- ce que ambos, homens e mulheres, casam-se com 0 poder. Se esta hip6tese for verdadeira, & possivel encontrar 0 homem- ser-iumano e a mulher-ser-humano em meio a tanto poder? Do Angulo da sexvalidade, os homens deveriam, nos casa- mentos, ter idade inferior & das mulheres, uma vez que estas podem ter vida sexual ativa enquanto durar sua prépria vida, contando o homem com um tempo limitado; Aliés, quanto a (Genera, patiacado,violenca x sexualidade, as mulheres levam uma série de vantagens compa- rativamente aos homens. As mulheres, como nao tém phallus*, tém sua sexualidade difusa por todo 0 corpo. Assim, falar em zonas erégenas para as mulheres nao é correto, pois todo seu corpo o 6. Poder-se-ia também afirmar que 0 corpo das mulhe- res inteiramente amor, na medida em que erdgeno deriva de Eros, deus do amor, na mitologia grega. Enquanto muitas mu- Theres so multiorgdsmicas, nos homens este fendmeno nao ocorre, Embora rato, 0 priapismo’, visto como uma superiori- Gade dos machos, na verdade no chega a ser nem sequer uma vantagem. Se esta existir, pertence as mulheres vinculadas a homens pridpicos. Mais ainda, 0 prazer do orgasmo é registra do em apenas um ponto do cérebro masculino, ou seja, © septum. Nas mulheres, sfo trés os pontos em que este registro ocorre: septum, hipotélamo e amigdala’. Dir-se-ia que as mulheres desfrutam da triplicagéio do prazer do orgasmo. Ade- mais, as mulheres, quando férteis’, sdo capazes de conceber, enquanto aos homens 86 resta invejé-las. Alias, na obra de Freud, a inveja do pénis, alimentada por mulheres, porque este drgio representa poder, assim como a inveja da maternidade sio conceitos que gozam do mesmo estatuto tedrico. Toda- via, fala-se e escreve-se muito mais sobre o primeiro que so- bre o segundo. Se Freud foi o maior miségino da historia da humanidade, e 0 foi, seus seguidores o imitaram/imitam, de- « phalus significa poder, sendo representado pelo pénis. + priapigme consist numa eregao dolorosa e permamente, nao acompa: hada de desejo soxual "Nao se trata das amigdalas da garganta, masd= ume porgac do cérebro. Ha mais homens estéreis que muheros. Osexismo, contudo, trata de ‘euitar este fato, sendo responsével pela suspeita de que sampre s¢ pode immputar a esteriidade a elas. Tanto assim 6 que, nos casals sern Finos, é sempre a mulher que so submete 2 exames de fertildade. So depois que esta fica provada, o homem se dispde a procurar um Gharologsta ou urologista. Comprovada a esterlidade mascuiina, em eral, amulhor é probida de divulgar aste resultado. A falha, no homer, Seve continua’ oculta. Isto 6 puro mackisme, porquanto a esteriidade ‘hao impede o homem de tar excelente desempenho sexual. Como todo preconceits, esta também é baseado ne ignorance. cleat B Sees monstrando fidelidade até neste ponto. A inveja da materni- dade é to vigorosa que homens sexualmente impotentes pa~ gam um preco mais alto a prostitutas gravidas, somente para conversar com elas ¢ alisar-Ihes a barriga. Contudo, a inveja da maternidade quase no se apresenta em livros e em arti- g0s, vive na obscuridade. Nao foi gratuita a alta consideragéo devotada as mulheres por parte dos homens, quando ainda nao se conhecia a partici- pagéo masculina no ato da fecundagao. Capazes de engendrar uma nova vida, de produzir todos os nutrientes necessarios 20 desenvolvimento dos fetos ¢, ainda, de fabricar internamente Jeite para alimentar os bebés, eram consideradas seres pode- rosos, mégicos, quase divinos. Cairam do pedestal, quando se tomou conhecimento da imprescindivel, mesmo que efémera, colaboragéo masculina no engendramento de uma nova vida, mas persistiu a inveja de dar & luz novas criaturas. No fundo, os homens sabem que o organismo feminino é mais diferen- ciado que 0 masculino, mais forte, embora tendo menor forga fisica, capaz de suportar até mesmo as violéncias por eles per~ petradas. Nao ignoram a capacidade das mulheres de suportar sofrimentos de ordem psicolégica, de modo invejével. Talvez por estas razées tenham necessidade de mostrar sua ridade”, denotando, assim, sua inferioridade. A giria, permeada desta ideologia sexista, revela bem isto. A genitélia feminina apresenta muito mais semelhanga com uma oca que a masculina. Como na ideologia est presente, neces- sariamente, a iaversio dos fendmenos, é muito fregiiente ho- mens se vangloriarem de haver “comido” fulana, beltrana, cicrana. Ora, a conformagio da vulva e da vagina permite-Thes Por que existe 0 mito da vagina dentada? Por que hé fens, se nio todos, com medo de ter seus pénis de- cepados por esta vagina devoradora? Por que sentem medo exatamente no momento do orgasmo feminino, quando os miisculos da vagina se contraem num movimento que parece visar ao aprisionamento? Entfo, na giria machista, quem “come” quem? Todos os elementos foram oferecidos ao leitor, superio- 33 a fim de que ele possa responder a esta questo, Mais do que isto, tais elementos convidam os leitores a uma reflexio, vi sando a conhecer-se melhor e, talvez assim, poderem convi- ver mais prazerosamente com suas parceiras. Mas também se oferecem elementos a reflexao das leitoras. Elas poderao con- tar avs humens que # revelagio de suas fraquezas os tornaré mais fortes, mais sensiveis, mais amorosos. Desta forma, eles poderao perder o medo, fator que concorre para a transfor- magio da agressividade, uma forga propulsora muito positi- ‘va, em agressiio, ato tdo destrutivo ~ e autodestrutivo — quanto devastador. Além disto, como se acredita que o empobreci- mento da sexualidade masculina foi historicamente produzi- do, tanto o homem quanto a mulher podem trabalhar no senti- do da recuperagao de uma sexualidade mais rica, espalhada por todo 0 corpo, abrindo ele mao de seu poder em face das mulheres a medida que o pénis perde importincia, ou seja, que sua sexualidade deixa de se concentrar neste érgio. Nem homens nem mulheres tm qualquer coisa a perder com expe- riéncias deste tipo. Tém, de outra parte, muito a ganhar, caso 0 resgate da sexualidade masculina seja completo. A ilustracao, feita por meio da giria, a propésito de uma ideo- logia sexista que esconde uma desvantagem masculina, trans- formando-a em vantagem, serviré para mostrar que, em toda ideologia, seja machista, soja étnico-racial, oa ainda de classe social, esta sempre presente a inversio do fenémeno. Isto niio 6 apenas um detalhe, mas 0 niicleo duro da ideologia. Portan- to, é interessante reté-lo, uma vez que todos os membros de uma sociedade como a brasileira convivem com tais falacias, acreditando nelas como verdades. Mais do que isto, cada um a sua maneira € poriador destas ideologias. Obviamente, os homens gostam de ideologias machistas, sem sequer ter nocio do que seja uma ideologia, Mas cles niio sozinhos. Entre as mulheres, socializadas todas na ordem pa- triarcal de género, que atribui qualidades positivas aos ho- mens ¢ negativas, embora nem sempre, is mulheres, 6 peque- ha a proporczo destas que ndo portam ideologias dominantes lle. B Sif de género, ou seja, poucas mulheres questionam sua inferiori- dade social. Desta sorte, também hé um mimero incalculével de mulheres machistas. E 0 sexismo no é somente uma ideo- logia, reflete, também, uma estrutura de poder, cuja distribui- do & muito desigual, em detriment das mulheres. Ento, po- der-se-ia perguntar: 0 machismo favorece sempre os homens? Para fazer justiga, 0 sexismo prejudica homens, mulheres ¢ suas relagées. O saldo negative maior é das mulheres, 0 que nao deve obnubilar a inteligéncia daqueles que se interessam pelo assunto da democracia. As mulheres sio “amputadas”, sobretudo no desenvolvimento e uso da razdo e no exereicio do poder. Elas so socializadas para desenvolver comporta- mentos déceis, cordatos, apaziguadores. Os homens, ao con- trério, so estimulados a desenvolver condutas agressivas, perigosas, que revelem forga ¢ coragem. Isto constitui a raiz de muitos fendmenos, dentre os quais se pode realcar o fato de seguros de automéveis exclusivamente dirigidos por mulhe- res custarem menos, porque, em geral, elas nao usam 0 carro como arma, correm menos e so mais prudentes. ‘Mas ha um sem-ntimero de fatores prejudiciais aos homens. Para ilustrar, toma-se a situagio empregaticia no Brasil atual, sob pena de reiteracdo. H4 cidades, como Sao Paulo, em que a taxa de desemprego jé ultrapassou, em certo momento, os 20% da forca de trabalho, Além de se tratar de uma proporgao in- sustentivel, ha muito desemprego de longa duracio. Isto re- percute em toda a populacao, de forma negativa. Os homens, contudo, sio os mais afetados, na medida em que sempre Ihes coube prover as necessidades materiais da familia. E este pa- pel de provedor constitui 0 elemento de maior peso na defini- cdo da virilidade, Homens que experimentam o desemprego por muito tempo séo tomados por um profundo sentimento de impoténcia, pois nfo ha o que eles possam fazer. Além de o sentimento de impoténcia ser gerador de violéncia, pode re- sultar também em impoténcia sexual. H4 homens que ver- balizam preferir morrer a ficar sexualmente impotentes. Nem neste caso se permite a0 homem chorar. Isto consiste numa (Genero, paciareada, violneia “amputagdo”, pois ha emogGes e sentimentos capazes de se expressar somente pelo choro. Pesquisas j4 demonstraram (CHOMBART DE LAUWE, 1964) que glindulas lacrimais de ho- mens sofrem 0 processo de atrofia, por desuso. Se uma mulher for abordada por um homem seja para sair, seja para dangar, ela pode recusar, pois o jogo é o da caga ¢ do cagador. Se, entretanto, um homem for abordado por uma mulher com as mesmas intengGes, e ele nfo se interessar por ela, recusando o convite, imediatamente ¢ alcunhado de “ma- ricas”. Pensando numa situagdo mais séria, mas ndo incomum, rapaz e moga num motel, e ele, por estar estressado, excessi- vamente cansado, triste em virtude de um evento qualquer, nfo conseguir ter uma ereco duradoura, sente-se coberto de vergonha. Mesmo que a moga seja compreensiva e Ihe diga que isto ocorre com todos os homens, 0 aborrecimento do rapaz é enorme. Por qué? Porque homem nfo falha, ou me- Thor, nio tem o direito de falhar numa situagdo como a figura~ da, j4 que representa a forca, quase a perfeicio. Nao é facil ser hhomem. Se hé uma tarefa perigosa a ser realizada, por um gru- po sexualmente misto, é sempre um homem o escolhido para fazé-la. Se tiver bom gosto seja para se vestir, seja para deco- rar sua casa, nao é verdadeiramente homem, fica no limbo dos provaveis homossexuais. Se é sensivel, 6 efeminado. Esta situagio nfo é conveniente nem para homens nem para mulheres. Segundo Jung (1992), tanto homens quanto mulhe- res siio dotados de animus e anima, sendo 0 primeiro o princi- pio masculino e a segunda, 0 principio feminino. O ideal seria que ambos fossem igualmente desenvolvidos, pois isto resul- aria em seres humanos bem equilibrados. Todavia, a socieda- de estimula 0 homem a desenvolver seu animus, des jando-o a desenvolver sua anima, procedendo de maneira exa- lamente inversa com a mulher. Disto decorrem, de uma parte, homens prontos a transformar a agressividade em agressio; € untheres, de outra parte, sensiveis, mas frageis para enfrentar 1 vida competitiva. O desequilibrio reside justamente num minis atrofiadonas mulheres e numa anima igualmente pouco ncora~ be elect. B Salou desenvolvida nos homens. Sendo 0 micleo central de animus 0 poder, tem-se, no terreno politico, homens aptos ao seu de- sempenho, e mulheres nfo-treinadas para exercé-lo, Ou seja, o patriareado, quando se trata da coletividade, apdia-se neste desequilibrio resultante de um desenvolvimento desigual de animus e de anima e, simultaneamente, 0 produz. Como todas as pessoas sio a historia de suas relagées sociais, pode-se afir- mar, da perspectiva sociolégica, que a implantagfo lenta ¢ gr dual da primazia masculina produziu 0 desequilfbrio entre animus e anima em homens ¢ em mulheres, assim como resul- tou deste desequilfbrio, Ora, a democracia exige igualdade social. Isto nao significa que todos os soci, membros da sociedade, devam ser iguais. Ha uma grande confusio entre conceitos como: igualdade, di- ferenca, desigualdade, identidade. Habitualmente, A diferenca contrapée-se a igualdade. Considera-se, aqui, errénea esta concepeao. O par da diferenca é a identidade. Ja a igualdade, conceito de ordem politiea, faz par com a desigualdade. As identidades, como também as diferengas, so bem-vindas. ‘Numa sociedade multicultural, nem deveria ser de outra for- ma. Lamentavelmente, porém, em fungéo de ndo se haver al- cangado o desejavel grau de democracia, ha uma intolerancia muito grande em relag&o as diferengas. O mais preocupante so as geragdes mais jovens, cujos atos de crueldade para com indios, sem-teto, homossexuais revelam mais do que intole- rancia; demonstram rejei¢o profunda dos ndo-idénticos. As desigualdades constituem fontes de conflitos, em especial quan- do tio abissais como no Brasil. Em casos como este, ¢ eles existem também em outras sociedades, as desigualdades tra~ duzem verdadeiras contradigSes, cuja superagio sé é possivel quando a sociedade alcanca um outro estado, negando, de fac~ to e de jure, o status quo, Neste estagio superior, nao haveré mais as contradigées presentes no momento atual. No entan- to, podem surgir outras no processo do devir hist6rico. Numa sociedade como a brasileira, com clivagens de género, de dis- tintas ragas/etnias em interago e de classes sociais, 0 pensa~ ‘Ginero patianedo,vilenda 37 mento, refletindo estas subestruturas antagénicas, é sempre parcial. O préximo capitulo focalizaré exatamente o conheci- mento, em sua condigao de social. Em outros termos, todo conhecimento é social. Hella B Sion das perlumarias Ha varias taxionomias das ciéncias. Ora sio classificadas em ciéneias naturais, ciéncias bioldgicas e ciéncias humanas; ora se reduzem a ciéncias da natureza e ciéncias. do espirito; ora, ainda, se dividem em ciéncias naturais ¢ exatas, de um lado, e ciéncias sociais, de outro; ou, entiio, em ciéncias du- yas ¢ humanidades. Os cientistas que acreditam na nevtrali- dade das cigncias duras e no comprometimento politico-ideo- logico das ciéncias humanas e sociais ainda nao compreen- deram o que ciéncia. Por esta razdo, se referem as ciéncias humanas e sociais, pejorativamente, como perfurarias. Tais estudiosos podem receber varios nomes: bons cientistas, ver dadeiros cientistas, maus cientistas, cientistas preconce! tuosos. Parece que uma maneira nio-agressiva de denomin Jos poderia ser cientistas sem visio planetéria ou cientistas de pouces leituras, a fim de evitar 0 termo ignorante, pois nenhuma pessoa, por mais culta que seja, domina 0 ace-vo de Genero, prrinecado, vito descobertas e invengdes, como também de hipéteses e de demincias, acumulado por académicos e nfo-académicos, a0 Jongo de séculos do exercicio do pensar, do experimentar, do observar, enfim, do pesquisar. ‘A propria Fisica, ciéncia dura por exceléneia, por meio de Capra’ (1982; 1983), esté contribuindo, e muito, para pér em questo os fundamentos da ciéneia cléssica, oficial, de carater restrito. A histéria, sobretudo da Segunda Guerra Mundial, esté repleta de exemplos concretos do engajamento politico-ideo- légico das chamadas ciéncias duras. O didlogo entre Bohr, fis co dinamarqués, e Heisenberg, fisico alemao, em Copenhague, durante a guerra, em plena corrida para a construgio da bom- ba atémica, ¢ as atitudes antfpodas de cada um em face do outro revelam o comprometimento politico-ideolégico da Fi- sica, considerada ciéncia neutra, portanto oposta as perfiwna- rias. Nao ha neutralidade em nenhuma ciéncia, seja dura, seja perfumaria. Todas, absolutamente todas, so fruto de um mo- mento histérico, contendo numerosas conjunturas, cuja in- tervengio, em qualquer campo do conhecimento, é cristalina. Nao o é, certamente, para qualquer olhar; sé para o olhar erf- tico. Na Dinamarca ooupada pelos nazistas, Bohr aliou-se ao grupo de Los Alamos, nos Estados Unidos, que trabalhava in- tensamente para construir a bomba atémica em tempo habil de matar cerca de 150 mil pessoas no Japio e deixar o ambien- te contaminado com radioatividade. Heisenberg, trabalhando num projeto semelhante, nas barbas da Gestapo, verdadeiro "© -Frijot Capra recebeu seu Ph.O. na Universidade de Viena @ cealizou posquisas sobre Fisica de alta enargia em varias universidades da Eu- fopa e dos Estados Unidos. |..j Ele ¢0 autor de O tao da fisica, um best Sellerintemacionalque verdéu melo mithao de exerplares # fol tacuzido fem muitas linguas,”*O futuro de Capra ainda ndo comesou. Ao divulgar lima mescla da cléncla no seu sentido mais restrto ¢ de pesquisa ltr native’, elo obriga os clentistas a fazeren com que ele acontega, isto 6, f subverter a ciénela mecdnica, reducionista e dura numa visto de sistemas ciantificos suaves e orgénicos" (publicado por Los Angeles Times.) Ambos os excarlos esto publicados na primeira pagina de O onto da mutagéo. 40 ‘panéptico, utilizava-se de téonicas dilatérias, a fim de atrasar ‘a construgéo da bomba, nao a tornando disponivel em tempo hAbil. Bohr ganhou a briga e a guerra, colaborando para a ca nificina. A Heisenberg coube a autoria da formulacdo do prin- cfpio da incerteza, que tanta utilidade tem demonstrado em todos os campos do conhecimento. Bem antes de Heisenberg, no século xIX, Karl Marx (1946; 1951; 1953; 1957; 1963a; 1963b; 1970) havia formulado 0 mesmo principio, mostrando tendéncias, mas deixando es- paco para o imponderdvel. Este evento nfo teve repercus- sio quanto a incerteza que preside o desenrolar dos aconte- cimentos. Ao contrario, Marx 6, ainda hoje, tachado de determinista por aqueles que Jeram sua obra com catego- rias cartesianas (com a finalidade de situar o leitor, Descar~ tes viveu de 1596 a 1650, tendo sido, por conseguinte, um pensador do século xvit). Ademais, por que se deveria ali- mentar qualquer perspectiva de repercussao positiva, se 0 que interessava ao status quo era atacé-lo, a fim de preser- var as desigualdades sociceconémicas, que mantinham intactos os lugares sociais de cada um? Os privilégios, afi- nal, nio iam ceder espaco aos conhecimentos revelados por uma obra da érea das perfumarias. © Estudando a histéria da violéncla nas prises, em Vigiar e punir(1977), p.173-198, Fouceull vale-se da imagem do panéptico. Na lIha da Juven- hide, em Cuba, foi preservado um presidio do governo de Fugencio Baptista, anterior & vteria da rovolugdo, om 1959, para que todos pu- dessem cbservar o pandptico, Trata-so de um edificio circviar, mais testreito na sua parte Superior, quase em forma de cone, com uma dnica porta para o exterior. AS porias de todas as calas dao para o Interior do prédio e, no alto, um Unico guarda 6 suficienta pera vigiar um grande nimero de prisionelros, sem que estes possam saber em que momento ‘580 observados. Esta imagom adequa-sa & descrigéo da vigilancia exercida sobre as mulheres ou sobre trabalhadores ov, ainda, sobre negros. As categorlas sociais contra as quais pesam discriminagSes ‘vem, imageticamente falando, no interior de um enorme panéptico a Sociedade ~ na medida om que sua conduta ¢ vigiada sem cesar, ser que elas 0 saibam. Isto 6 um controle social poderoso, pols a introjes#o das normas socials por mulheres funcionam como um pandptice. Desta sorte, o8 maridas nao tém com que se preocupar. (Genero, parareado vil Capra, na Fisica, mas extrapolando-a, tem desempenhado papel semelhante ao de algumas feministas, cujo combate in- cansavel & razfo cartesiana tem produzido efeitos positivos. Evelyn Fox Keller, bidloga norte-americana, desereveu uma trajet6ria profissional bastante inusual e interessante. Na ins- tituico em que trabalhava como bidloga, fazia pesquisas em colaboracao com um colega. Seu marido, professor universi- tario, teve seu ano sabitico, decidindo aproveité-lo para tra- balhar em Berkeley, em pesquisas de seu campo. Como s6i acontecer, a mulher acompanhou 0 marido, levando os filho: 14 se foi a familia viver durante um ano no centro nervoso, em permanente ebuligéo, do feminismo, Nao demorou nada para que Keller entrasse em contato com feministas militantes e com a literatura feminista, toda da area das perfumarias. Tra- tava-se de obras de Antropologia, de Ciéncia Polftiea, de Filo- sofia, de Psicologia, de Sociologia e das demais ciéncias huma- nas e sociais. Uma bidloga, que continuava a trabalhar em sua profissao com os resultados dos experimentos enviados por seu colega, lendo obras feministas opostas ao cartesianismo ~ © 0 atacando ~, comega a questionar os alicerces da ciéncia que praticava. Daf veio o passo que a levaria a questionar as bases de todas as ciéncias cartesianas', A obra desta biéloga feminista ¢ muito extensa, havendo-se, aqui, realgado o que pareceu mais interessante ao leitor. Ela continua trabalhando em biologia, mas incorporando 0 que a sociedade colocou nos genes dos individuos, Rigorosamente, quando escreve sobre biologia, situa-se na intersegdo entre este campo do conheci mento e as ciSncias sociais: ‘[...] os genes carregam uma enor- me ‘bagagem histérica”” (Ketter, 2002, p. 136), 0 que, de cer- to modo, ironiza o estardalhago realizado em virtude do se- qienciamento do genoma humano, pois as combinagdes ge- néticas so aleatérias e, obviamente, dependem da histéria "A trajetla de Keller foi sumariada por ela prépia, estando publicada ra revisia Daodalus, presenio nas reteréncias, Helseth LE Sod de vida de cada individuo. Toda e qualquer ciéneia é, por con- seguinte, conhecimento social (LONGINO, 1996). Sejam deno- minadas ciéneias duras, sejam-no perfumarias, 0 conhecimen to cientifico reflete 0 momento histérico, social, politico de suz produgio. Amuther brasileira nos espacos publico e privado Foi nesta perspectiva que a Fundagiio Perseu Abramo, va- endo-se de dados secundérios, sobretudo da Fundago Insti- tuto Brasileiro de Geografia e Estatistica (FIBGE), também fez trabalho de campo, em 2001, coligindo informagées em todo © pais e, assim, descrevendo o perfil das brasileiras, como tam- bém detectando as atividades desempenhadas e sofridas por elas, por meio de entrevistas. Trata-se, pois, de uma investiga- gio, predominantemente, sobre violéncia contra mulheres. As informagées coletadas pela Fundagio deu-se o titulo de A mulher brasileira nos espacos piiblico e privado. A perspecti- va aqui adotada foi explanada no infeio deste capitulo. Alias, 0 prOprio interesse pela temética jé revela um compromisso politico-ideolégico com ela. Na verdade, a histéria de vida de cada pessoa encontra-se com fendmenos a ela exteriores, fe- némeno denominado sineronicidade por Jung, e que permite afirmar: ninguém escolhe seu tema de pesquisa; 6 escolhido por ele. Se, porventura, for necessério utilizar dados de outras fontes, mencionar-se-do as origens das informagées. Nao ha- verd referéncia sempre que as informagGes utilizadas forem da Fundagio Perseu Abramo. As brasileiras valorizam bastante a liberdade conquistada, porquanto em resposta pergunta “Como é ser mulher hoje?” 39% ressaltaram sua insergo no mercado de trabalho e a independéncia que isto Thes confere; 33% referiram-se a liberdade de agir segundo seu desejo e, desta sorte, poder tomar decisdes; apenas 8% mencionaram a conquista de di- reitos politicos, o que é verdadeiro desde 2 Constituigao Fe- deral de 1988, e a igualdade de direitos em relagiio aos ho- (Genero, patriascado, viléncla 43 mens. Esta resposta nao foi nuangada, pois, segundo a Carta Magna, assim como de acordo com a legislacao infraconsti- tucional, a igualdade existe. © problema reside na pratica, instancia na qual a igualdade legal se transforma em desigual- dade, contra a qual tem sido sem trégua a Inta feminista. Na caracterizacao do ser mulher também so apontadas tarefas tradicionais, estando 17% na valorizacio destes deveres ¢ a mesma proporgao (17%) em sua depreciagio. A especificacao dos papéis tradicionais, entretanto, apontaram tao-somente 0 lado negativo do ser mulher, 4% reclamando do peso da responsabilidade na criagao dos filhos e 3% denunciando a falta de autonomia em virtude das restrigbes impostas por seus maridos. A dupla jornada, somando-se os servigos do- mésticos com o trabalho assalariado, é denunciada como ne~ gativa por 11% das investigadas. Se este iiltimo percentual j denota baixo nivel de insatisfacio, pior ainda ocorre quando apenas 7% das interrogadas manifestam seu desagrado com 0 desnivel de salérios entre homens ¢ mulheres, 5%, com rela~ (0 a sua inferioridade diante dos elementos masculinos, € {do-somente 2% percebem que sio mais vulnerdveis & vio- Yeneia que os machos. Isto revela a necessidade de tornar ainda mais visiveis as varias modalidades de violéncias prati- cadas contra mulheres, em especial a violéncia doméstica. concei 10 A expressio violéncia doméstica costuma ser empregada como sinénimo de violéncia familiar e, nao tio raramente, tam- bém de violéncia de género. Esta, teoricamente, engloba tanto a violéncia de homens contra mulheres quanto a de mulheres contra homens, uma vez que 0 conceito de género é aberto, sendo este o grande argumento das criticas do conceito de patriarcado, que, como o proprio nome indica, é o regime da dominagao-exploragio das mulheres pelos homens. Para si- tuar 0 leitor, talvez convenha tecer algumas consideragdes so- bre género. Este conceito nao se resume a uma categoria de HeleethL 3 Satin andlise, como muitas estudiosas pensam, nfo obstante apre- sentar muita utilidade enquanto tal. Género também diz res- peito a uma categoria histérica, cuja investigacdo tem deman- dado muito investimento intelectual. Enquanto categoria his- t6rica, 0 género pode ser concebido em varias instancias: como aparelho semiético (LAURBTIS, 1987); como simbolos cultu- rais evocadores de representagées, conceitos normativos como grade de interpretagio de significados, organizagdes ¢ insti- tuigdes sociais, identidade subjetiva (ScoTT, 1988); como di- visoes e atribuigées assimétricas de caracteristicos e poten- cialidades (FLAX, 1987); como, numa certa instdneia, uma gra- matica sexual, regulando nao apenas relagbes homem—mulher, mas também relagdes homem-homem e relagdes mulher~ mulher (SAFFIOTI, 1992, 1997b; SAFFIOTI e ALMEIDA, 1995) etc. Cada feminista enfatiza determinado aspecto do género, hhavendo um campo, ainda que limitado, de consenso: o géne- ro é a construgio social do masculino e do feminino. 0 conceito de género no explicita, necessariamente, desi- gualdades entre homens e mulheres. Muitas vezes, a hierar- quia é apenas presumida. H4, porém, feministas que véem a referida hierarquia, independentemente do periodo histérico com o qual lidam. A reside o grande problema teérico, impe- dindo uma interlocugéo adequada ¢ esclarecedora entre as adeptas do conceito de patriarcado, as fanaticas pelo de géne- roe as que trabalham, considerando a histéria como proces so, admitindo a utilizagéo do conceit de género para toda a hist6ria, como categoria geral, e 0 conceito de patriarcado como categoria especifica de determinado periodo, ou seja, para os seis ou sete milénios mais recentes da histéria da hu- idade (LERNER, 1986; JOHNSON, 1997; SAFFIOTI, 2003). Em geral, pensa-se ter havido primazia masculina no passado remoto, 0 que significa, ¢ isto é verbalizado oralmente e por escrito, que as desigualdades atuais entre homens ¢ mulheres so resqufcios de um patriarcado nfo mais existente ou em seus tiltimos estertores. De fato, como os demais fendmenos sociais, também o patriarcado esta em permanente transfor- 45 Ginero,patvireade, a magio, Se, na Roma antiga, o patriarca detinha poder de vida e morte sobre sua esposa e seus filhos, hoje tal poder nfio mais existe, no plano de jure. Entretanto, homens continuam ma- tando suas parceiras, as vezes com requintes de crueldade, esquartejando-as, ateando-lhes fogo, nelas atirando e as dei- xando tetraplégicas etc. O julgamento destes criminosos so- fre, & dbvio, a influéncia do sexismo reinante na sociedade, que determina o levantamento de falsas acusagées ~ devassa é @ mais comum ~ contra a assassinada. A vitima é transformada rapidamente em ré, procedimento este que consegue, muitas vezes, absolver 0 verdadeiro réu, Durante longo periodo, usa~ va-se, com éxito, 0 argumento da legitima defesa da honra, como se esia no fosse algo pessoal e, desta forma, pudesse ser manchada por outrem, Gragas a muitos protestos feministas, tal tese, sem fundamento juridico ou de qualquer outra espé- cie, deixou de ser utilizada. O percentual de condenagées, con- tudo, situa-se aquém do desejével. O cumprimento da pena constitui assunto de pior implementagiio. O bom comporta- mento na prisio pode reduzir o cumprimento da pena a um terco, até a um sexto do estabelecido, o que no é admissivel para quem deseja ver esta prética extirpada da sociedade ou, pelo menos, drasticamente reduzida. Apresentando baixa cultura geral e infima capacidade eri- tica, a maioria das brasileiras pode ser enquadrada na cate- goria conservadoras, ainda separando mulheres femininas de mulheres feministas, como se estas qualidades fossem mu- tuamente exclusivas, Isto dificulta a disseminacdo das teses feministas, cujo contetido pode ser resumido em igualdade social para ambas as categorias de sexo. Por conseguinte, a maior parte das mulheres mantém atitudes contrarias a agdes afirmativas governamentais, que poderiam contribuir gran- demente para o avango das transformagées sociais desejadas pelos defensores dos direitos humanos, neles inclusa a meta- de feminina da populagio. A histéria revela que as grandes causas, benéficas especialmente aos contingentes discrimi- nados e a quase todos os demais, obtiveram sucesso, apesar 4 HebeicthI B Sion de terem sido conduzidas por pequenas minorias. E as brasi- leiras tém razdes de sobra para se opor ao machismo reinan- te em todas as instituigdes sociais, pois 0 patriarcado nio abrange apenas a familia, mas atravessa a sociedade como um todo. Nao obstante o desanimo abater certas feministas Intadoras, quando assistem a determinados comportamen- tos de mulheres alheias ao sexismo, vale a pena levar esta luta as dltimas conseqiiéncias, a fim de se poder desfrutar de uma verdadeira democracia Violéncia contra os mulheres Os dados de campo demonstram que 19% das mulheres decla~ raram, espontaneamente, haver sofrido algum tipo de violéncia da parte de homens, 16% relatando casos de violéncia fisica, 296 de violéneia psicolégica, ¢ 1% de assédio sexual. Quando esti- muladas, no entanto, 43% das investigadas admitem ter sofrido violéncia sexista, um tergo delas relatando ter sido vitimas de violéncia fisica, 27% revelando ter vivido situagSes de violén- cia psiquica, e 11% haver experimentado o sofrimento causado por assédio sexual. Trata-se, pois, de quese a metade das brasi- leiras. Os 57% restantes devem também ter sofrido alguma mo- dalidade de violéncia, nao as consideraado, porém, como tal. Uma mulher pode sair feliz de um posto piblico de satide, tendo esperado quatro horas na fila, estado dois minutos na presengs do médico e “ganho” a receita de um medicamento, que seu poder aquisitivo nao lhe permite adquiri:. Outra poder consi- derar este fendmeno uma verdadeira vicléncia. Assim, 0 mes- mo fato pode ser considerado normal por uma mulher e agressi- Vo por outra, Eis por que a autora deste livro raramente adota 0 conceito de violéncia como ruptura de integridades: fisica, psi- colégica, sexual, moral. Definida nestes termos, a violéncia nao encontra lugar ontolégico'. preferivel, por esta razio, sobre- "9 Mais adiante esclareco:-so-8 este conceito. Ginero, patiarcade, wolenia tudo quando a modalidade de violéncia mantém limites ténues com a chamada normalidade, usar o conceito de direitos huma- nos. Ainda que seja recente sua defesa, mormente para mulhe- res, jé se consolidou um pequeno corpo de direitos universais, ou sefa, internacionalmente aceitos, em nome dos quais as mu- Iheres podem ser defendidas das agressGes machistas. Eviden- temente, este corpo de direitos humanos é ainda insatisfatorio, desejando-se seu crescimento, do mesmo modo que se almeja a eliminagio de certas priticas comuns em cerca de 30 paises da Africa e da Asia, ‘Trate-se, de uma parte, das denominadas mutilagdes genitais preferivel ampliar para sexuais) e, de outra parte, de femi- cfdios da esposa para, em se casando novamente, ganhar um novo dote, Dada a forga das palavras, é interessante dissemi- nar 0 uso de femicidio, j& que homicidio carrega o prefixo de homem. Feministas inglesas vém difundindo este termo, em- bora ele ainda nao conste de The Concise Oxford Dictionary, edigdo de 1990. Como a lingua é um fenémeno social, e, por- tanto, sujeito permanentemente a mudangas, é interessante criar novas palavras, que expurguem 0 sexismo. O idioma fran- cés, por exemplo, é extremamente machista. Basta dizer que maitresse significa, simultaneamente, professora de escola ele- mentar, dona-de-casa ¢ amante, Para a professora université~ ria ndo existe uma palavra, usando-se Madame le professeur (Genhora o professor). Feministas do Canadé francés comega- ram @ acrescentar a vogal e as palavras masculinas, femi- nilizando-2s, Atualmente, jé se diz Ja professeure (a professo- ra) para designar a professora universitaria. As feministas fran- cesas acompanharam as canadenses ¢, de fato, o idioma fran- c@s est evoluindo para a eliminagdo do sexismo. Entre as mutilagées genitais, hé a cliteridectomia, que consis te na ablago, no corte, na extirpagio do clitéris, orgio que desemmpenka importante papel na relaggo sexual, sendo respon- sivel pela maior parte do prazer. A cliteridectomia vem acom- panhada, muitas vezes, da ablagio dos labios internos da vulva, ‘0 que reduz, ainda mais, 0 prazer obtido na relagio sexual. Fi- 48 elect 8. Sos nalmente, hé outro tipo de mutilago, conhecida como infibu- lagdo, que consiste na sutura dos lébios maiores da vulva, dei- xando-se um pequeno orificio para a passagem do sangue mens- trual e de outros fluidos.-Cada vez que uma mulhe: infibulada tem um filho, vu se corta a costura anteriormente feita, ou os labios maiores da vulva sio dilacerados pela passagem do bebé. Em ambos os casos, esta mulher seré novamente infibulada. ‘Nao raramente, as trés mutilagSes so realizadas em; uma tinica mulher, ainda na infincia, visando, cada uma a seu modo, diminuir 0 prazer proporeionado pelo sexo e, 20 mesmo tempo, tornar a relago sexual um verdadeiro suplicio. Um dos ele- mentos nucleares do patriarcado reside exatamente no con- trole da sexualidade feminina, a fim de assegurar a fidelidade da esposa a seu marido. Tais mutilagées podem, atualmente, ser realizadas em hospitais com satisfat6rias condicdes de assepsia, mas nao é isto que ocorre na maioria delas. Nas zonas rurais, nas vilas, enfim, nas regides mais longinquas do poder central, em geral, sio feitas com uma lamina de barbear, no Brasil gilete, sem nenhum cuidado higiénico, decorrendo dai muitas mortes por infecgio. Ha povos cujo costume exige que as meninas dan- cem, mesmo sangrando e sofrendo dores atrozes, imediatamente ap6s a(s) mutilagao(Ses). J4 de pronto, morrem 15% das muti- ladas. Muitas pequenas publicagées, sobretudo norte-america- nas, relatam os fatos ¢ suas conseqiiéncias“. Em quase todos 8 congressos internacionais fazem-se dentincias desta viola- io dos direitos humanos das mulheres. Nunca se chega, con- tudo, a um consenso, persistindo o costume em nome do res- peito devido as especificidades culturais. Mais grave ainda foi a realizago de uma cliteridectomia, num hospital paulistano's, "Tendo doado parte de minha biblioteca, ndo mais disponho das revi: tas, ocorrendo-me o tule de apenas uma: wiv Nows, da Women's inter rracional Network, "Infelizmenta, no 88 pode oferecer 0 nome do médico que presenciou a operacio, pois ele antreu com uma aco judicial contra o profissional da medieina que a reaizou. (Género,patarcado, vicina por um médico muculmano numa garota mugulmana. Neste caso, ndo se sustenta o argumento da especificidade cultural, J que quem ¢ imigrante num pais como o Brasil, no qual qual- quer mutilagéo 6 proibida, deve obedecer as leis e aos costu- mes da nagio de acolhida. De outra parte, na India, pais no qual se leva muito a sério 0 regime dotal de casamento (no Brasil, 0 Cédigo Civil que vigo- rou de 1917 a 2003 continha o regime dotal, ja em desuso na pratica [Nazzaki, 1991] e, felizmente, abolido no atual eédi- £0), constitui-se num costume de o homem matar sua esposa, dando ao femicfdio aparéncia de acidente, para, em seguida, casar-se com outra e, assim, receber um outro dote. Embora a dominagao inglesa na India tenha contribuide muito para a aboli¢ao da lei que exigia a imolagfo da vitiva na mesma pira em que fora cremado seu marido, o costume continuou exis- pequenas cidades a obrigagio da vitiva, indepen- dentemente de sua idade (como se casam ainda meninas, uma vitva pode ter ndo mais que 1 anos), era, e talvez ainda o seja, tomada com tal seriedade ¢, a0 mesmo tempo, com o maximo de desprezo pelas mulheres, que, hd poucos anos, uma adoles- ente, tendo enviuvado, resolven fugir da comunidade, a fim de preservar sua vida. A comunidade deliberou, entdo, que a primeira jovem que lé chegesse cumpriria a pena da fugitiva, E assim foi feito com uma adolescente que se mudou pare 14 Observe-se que a fidelidade da mulher a seu esposo deve ser eterna. Continuar viva no garante este absurdo costume. Logo, a imolagio da jovem 6 considerada imprescindivel. Embora brasileiras ¢ brasileiros se assustem com tais atroci- dades, aqui ocorrem outras niio menos graves. Ha pouco mais, de duas décadas, um nordestino marcou, com o ferro em brasa utilizado para marcar gado, sua companheira com as letras McsM, iniciais da expresso mulher galheira sé morta, mera- mente porque suspeitava estar sua esposa cometendo infideli- dade conjugal. Ha outro caso do uso, na esposa, do ferro de marcar gado, recentemente noticiado pelos jornais ¢ pela tele- visio. O caso de Maria Celsa é muito conhecido e deve ter ocor- 50 Fleet 8 Suot rido por volta de duas décadas atrés, Seu namorado jogou 4l- cool em seu corpo e ateou-lhe fogo. A moga teve queimaduras de suma gravidade, ficando deformada. A solidariedade de fe- ministas e de médicos permitiu que ela passasse por varias cirurgias plisticas, que melhoraram sua aparéncia, sem resti- tuir-The o antigo rosto. A belissima Angela Diniz foi assassinada por Doca Street, que descarregou seu revélver especialmente em seu rosto e eré: nio, impedindo-a de conservar sua beleza, pelo menos, até seu entero. Atirar num lindo rosto deve ter tido um significado, talver 0 fato de aquela grande beleza té-lo fascinado, aprisio- nando-o a ela, impotente para abandoné-la. Este crime de cla~ mor ptiblico foi perpetrado em 30 de dezembro de 1976, na residéncia de Angela, na Praia dos Ossos, municipio de Cabo Frio, estado do Rio de Janeiro. Como Angela Maria Fernandes Diniz, havia decidido romper definitivamente sua relagéo amo- rosa com Raul Fernando do Amaral Street, este, inconformado com a separagao e com seu insucesso na tentativa de persuadi- la a reconsiderar a decisdo, matou-a. O poder, como jé foi es- crito (SaFFIOTI e ALMEIDA, 1995), tem duas faces: a da potén- cia ¢ a da impoténcia. As mulheres esto familiarizadas com esta iltima, mas este nfo 6 0 caso dos homens, acreditando-se que, quando eles perpetram violéncia, estio sob o efeito da impoténcia. Em seu primeiro julgamento pelo Tribunal do Jiri de Cabo Frio, em 1980, o famoso criminalista Evandro Lins Silva ressuscitou a antigiifssima tese, em desuso havia muito tempo, da legitima defesa da honra (BaRstED, 1995). Doca Street foi condenado a apenas dois anos de detencdo, com reito a sursis'®, uma vez que 0 conselho de sentenga aceitou a "Quando a pena é fihada em até dois anos de detencio, o juz pode conceder a0 16 0 dirsito de sursis, isto 6, 0 r6ufol condenado, mas no cumpre a pena de privagao de liberdade. A fun¢ao do conselho de ‘Sentonga consiste em responder acs quesites elaborados pelo julz. Como, neste caso, os jurados aceitaram a tese detendida por Lins © Silva, 0 juz fixou uma pena simbélica para Doca Street, concedendo-lhe, ainda, © direto de sursis. (Genero patrnrendo, violncia tese do excesso culposo no estado de legitima defesa, Dado 0 brilhantismo do criminalista, foi aplaudido pela assisténcia, quando da enunciagio do resultado. Doca Street declarara ave Shatara por amor. Um grupo de feministas do estado do Rio de Janeiro organizou-se para conscientizar a populagéo de Cabo Frio, de cujo seio sairiam os jurados que integrariam 0 conse Tho de sentenca, pois 0 réu seria levado novamente ao Tribu- nal do Jéri, j4 que o primeiro julgamento fora anulado pelo ‘Tribunal de Justica do Estado de Rio de Janeiro. Aproveitan- do-se do que dissera o réu, feministas se mobilizaram com © Slogan “Quem ama nao mata”, Doca Street, desta vez, foi con- Genado a 15 anos de reclusdio. Logo conseguiu o beneficio de trabalhar durante o dia Gusto um playboy que jamais havia trabathado), voltando para a prisio para dormir. Fingia traba- Thar numa concessionéria de automéveis. Nao tardou a con- quista da liberdade total Eliane de Grammont foi morta por seu ex-marido — de quem se tinha separado havia cerea de dois anos ~ em piiblico, en- quanto cantava, numa boate. A filha de Giéria Peres foi brutal- mente assassinada por um casal, parece que em virtude do cit- me manifesto pela esposa. Ambos cumpriram parcela curta da pena e gozam de plena liberdade. A jornalista Sandra Gomide foi assassinada, com premeditagio, o que constitui agravante pe- nal, pelo também jornalista Pimenta (telvez malagueta), que responde a0 processo em liberdade. Todos estes foram crimes de clamor péblico e, por isto, gravados na meméria de grande parte da populagao, Hé um caso que foge ao clamor pablico, valendo a pena mencioné-lo. O relato deste triste caso foi feito por uma ex-aluna e atual amiga da autora deste livro, Hla era garota de seus 8, 9 anos, quando da ocorréncia do crime. Uma de suas tias paternas, casada, sofria violencia de toda ordem da parte de sea marido, Depois de muitos anos de verdadeira tor- ura, tomou uma deliberagio, a fim de ver-se livre daquele ho- mem, Na época, uma mulher separada ou desquitada gozava de ind reputago. 0 casal tinha um bar e, para auxiliar no trabalho deste pequeno negécio, haviam contratado um emprogado. Em 52 Hileath 6 Sein geral, a mulher nio tem coragem de matar. Quando deseja fazé- Jo, contrata alguém para realizar o servigo sujo, guardando para io planejamento. No momento combinado, 0 empregado co- megou a desempenhar sua fungio. Incompetente, precisou da ajuda de sua patroa. Ambos foram presos, pois houve flagrante, julgados e condenados, O itmao da ré, morador de wma cidade- vinha do interior, vinha a Séo Paulo, quando podia, visitar sua irma prisioneira. Numa destas viagens, sua filha, ja com 10, 12 ‘anos, também veio visitar a tia. Na prisio, o irmio da presidiria pés-se a chorar, tendo ele e sua pequena filha ouvido o seguinte da prisioneira: “Néo chore por minha causa; foi aqui na prisao {que conheci a liberdade’. Quanto deve haver sofrido esta mu- Ther nas garras de seu marido para conhecer @ liberdade na lausura! Entéo, a democracia nao comega em casa? Alguns es" tudiosos citam Hannah Arendt para legitimar suas idéias de que 6 espago doméstico € o espaco da privagfo. Nfio levam em con~ ta as condigdes em que viviam os judeus no gueto de Varsbvia. © gueto era sim 0 espago da privagdo. Hoje, esto presentes no espago doméstico 0 rédio, a televisiio, os jornais, a internet. Logo, o doméstico nao é, necessariamente, o espaco da priva- Gfo, Isto dependerd das posses da familia, de sua religifo, enfim, de uma série de fatores. Oconceito de patriarcado Neste ponto da discussio, convém fazer uma incurséo na ver~ tente sexual, crescentemente apéndice, da teoria/doutrina po- litica do contrato, Para tanto, recorrer-se-a a Pateman (1993)- “4 dominagiio dos homens sobre as mulheres e o direi- to masculino de acesso sexual regular a elas esto em questio na formulagio do pacto original. © contrato so~ cial é uma hist6ria de liberdade; o contrato sexual é uma histéria de sujeigdo. O contrato original cria ambas, a liberdade e a dominag&o. A liberdade do homem ¢ @ su- jeigio da mulher derivam do contrato original e 0 senti- ‘Genero, patsiareado, viola 53 do da liberdade civil néo pode ser compreendido sem a metade perdida da histéria, que revela como 0 direito patriarcal dos homens sobre as mulheres é criado pelo contrat. A liberdade civil nfo universal — é um atri- buto masculino e depende do direito patriarcal. Os filhos subvertem o regime paterno ndo apenas para conqnis- tar sua liberdade, mas também para assegurar as mu- Iheres para si préprios. Seu sucesso nesse empreendi- mento 6 narrado na histéria do contrato sexual. O pacto original é tanto um contrato sexual quanto social: é so- cial no sentido de patriarcal ~ isto 6, 0 contrato eria 0 direito politico dos homens sobre as mulheres , e tam- bém sexual no sentido do estabelecimento de um acesso sistematico dos homens ao corpo das mulheres. O con- trato original cria o que chamarei, seguindo Adrienne Rich, de ‘lei do direito sexual masculino’. O contrato esté longe de se contrapor ao patriareado: ele 6 0 meio pelo qual se constitui o patriarcado moderno” (p. 16-17). Integra a ideologia de género, especificamente patriarcal, a idéia, defendida por muitos, de que o contrato social é distinto do contrato sexual, restringindo-se este tiltimo a esfera priva- da, Segundo este raciocinio, o patriarcado nio diz respeito a0 mundo piiblico ou, pelo menos, ndo tem para ele nenhuma relevaneia. Do mesmo modo como as relagdes patriarcais, suas hierarquias, sua estrutura de poder contaminam toda a socie- dade, o direito patriarcal perpassa nfo apenas a sociedade ci- vil, mas impregna também o Estado. Ainda que ndo se possa negar o predominio de atividades privadas ow intimas na esfe- ra da familia e a prevaléncia de atividades piiblicas no espago do trabalho, do Estado, do lazer coletivo, e, portanto, as dife- Tengas entre 0 piiblico o privado, esto estes espacos profun- damente ligados e parcialmente mesclados. Para fins analiti- Cos, trata-se de esferas distintas; so, contudo, inseparéveis Para a compreensio do todo social. “A liberdade civil depende do direito patriareal” (p. 19). 54 Heleieth LB Saffioit Raciocinando na mesma direcao de Johnson (1997), Pate- man mostra o carter masculino do contrato original, ou seja, € um contrato entre homens, cujc objeto séo as mulheres. A diferenga sexual € convertida em diferenca politica, passando a se exprimir ou em liberdade ou em sujeigao. Sendo 0 patriar- eado uma forma de expressio do poder politico, esta aborda- gem vai ao encontro da méxima legada pelo feminismo radi- cal: “o pessoal é politico”. Entre outras alegagées, a polissemia do conceito de patriarcado, aliés, existente ainda com mais forca no de género, constitui um argumento contra seu uso Abandoné-lo [...] representaria, na minha maneira de entender, a perda, pela teoria politica feminista, do tnico conceito que se refere especificaments & sujeigio da mulher, e que singulariza a forma de direito politico que todos os ho- mens exercem pelo fato de serem homens, Se o problema ndo for nomeado, o patriarcado poderé muito bem ser habilmente jogado na obscuridade, por debaixo das cate- rande par- gorias convencionais da anélise politica. (..] te da confusio surge porque ‘patriarcado’ ainda esté por ser desvencithado das interaretagées patriarcais de seu significado, Até as diseussGes feministas tendem a perma- necer dentro das fronteiras dos debates patriarcais sobre o patriarcado, # urgente que se faga uma hist6ria femi nista do conceito de patriarzado. Abandonar o conceito significaria a perda de uma historia politica que ainda est para ser mapeada” (PATEMAN, p. 39-40) Nao apenas se endossa o pensamento de Pateman, como tam- bém se reforca sua preocupacio com o abandono do conceito de patriarcado, evocando-se uma autora hoje contréria 20 uso deste constructo mental”, 70 constructe mentalpode ser um conceito ou uma categoria analltica, festa de menor grau de abstrago que 0 primeto. (Genero, patiarcode, violence “As categorias analiticas feministas devem ser insté- veis — teorias consistentes e coerentes em um mundo instvel e incocrente so obsticulos tanto para nossa com- preensio quanto para nossas praticas sociais” (HARDING, 1086, p. 649). Efetivamente, quanto mais avangar a teoria feminista, maio- res serdo as probabilidades de que suas formuladoras se liber- tem das categorias patriarcais de pensamento. Ou melhor, quanto mais as(os) femninistas se distanciarem do esquema pa triarcal de pensamento, melhores serdo suas teorias. Colocar o nome da dominaggo masculina ~ patriarcado ~ na sombra significa operar segundo a ideologia patriarcal, que torna na- tural essa dominacao-explorac&o. Ainda que muitas(os) tebricas(os) adeptas(os) do uso exclusive do conceito de g@- nero denunciem a naturalizaggo do dominio dos homens so- bre as mulheres, muitas vezes, inconseientemente, invisi izam este processo por meio, por exemplo, da apresentacio de dados. A medida que as(os) tebricas(os) feministas forem se desvencilhando das categorias patriarcais, no apenas adqui- ‘0 poder para nomear de patriarcado o regime atual de relagdes homem-mulher, como também abandonarao @ acepgao de poder paterno do direito patriarcal ¢ 0 entende- rio como direito sexual. Isto equivale a dizer que o agente social marido se constitui antes que a figura do pai. Esta se encontra atenuada nas sociedades complexas contempora- neas, mas ainda é legitimo afirmar-se que se vive sob a lei do pai, Todavia, a figura forte é a do marido, pois é ela que 0 contrato sexual dé a luz. O patria potestas ceden espago, nao ‘a mulher, mas aos filhos. O patriarca que nele estava embuti- do continua vivo como titular do direito sexual. 0 pensa~ mento de Pateman, neste sentido, vai ao encontro do de Harding, expresso no artigo de 1986, referido. nterpretagio patriareal do ‘patriarcado’ como direito paterno provocou, paradoxalmente, 0 oculta- 56 Heleieth LB Satin mento da origem da familia na relagao entre marido € esposa. O fato de que os homens e mulheres fazem par- te de um contrato de casamento — um contrato origi- nal que instituiu 0 casamento ¢ a familia ~ e de que cles séo maridos e esposas antes de serem pais e mies é esquecido, O direito conjugal esté, assim, subsumido sob 0 direito paterno e as discussdes sobre o patriarca- do giram em torno do poder (familiar) das maes e dos pais, ocultando, portanto, a questo social mais ampla referente ao cardter das relages entre homens e mu- Theres e & abrangéncia do direito sexual masculino” (PATEMAN, p. 49). Muitas andlises em termos de patriarcado pecam por nao terem dado conta de que os vinculos familiares de parentesco sio atribuidos e particulares, enquanto os vinculos conven- cionados e universais do contrato estruturam a sociedade moderna. Caberia, ento, novamente, a pergunta: por que se manter 0 nome patriarcado? Sistematizando e sintetizando 0 acima exposto, porque: 1 - niio se trata de uma relacao privada, mas civil; 2 ~ dé direitos sexuais aos homens sobre as mulheres, pra- ticamente sem restrigdo. Haja vista 0 débito conjugal explicito nos cddigos civis inspirados no Cédigo Napolednico e a ausén- cia sistemitica do tipo penal estupro no interior do casamen- to nos e6digos penais. Ha apenas uma década, e depois de muita Iuta, as francesas conseguiram capitular este crime no Cédigo Penal, nao se tendo conhecimento de se, efetivamente, hé de- miineias contra maridos que violentam suas esposas. No Bra~ sil, felizmente, nao ha especificagao do estuprador. Neste caso, pode ser qualquer homem, até mesmo o marido, pois 0 que importa contrariar a vontade da mulher, mediante o uso de violéneia ou grave ameaga; 3 — configura um tipo hierérquico de relac&o, que invade todos os espacos da sociedade; 4. tem uma base material; (Glnero,patraveado, violencia 5 ~ corporifica-se; 6 ~ representa uma estrutura de poder baseada tanto na ideo- logia quanto na violéncia. Depois de extenso exame de dados de dezenas de nagGes si- tuadas nos cinco continentes, informagGes estas expostas nas paginas 169-285, Castells (1999) conelui: “[...] 0 patriarcalismo [sic] dé sinais no mundo inteiro de que ainda esté vivo e pas- sando bem [...]” (p. 278). Entendido como imagens que as sociedades constroem do masculino e do feminino, nfo pode haver uma s6 sociedade sem género. A eles corresponde uma certa divisio social do trabalho, conhecida como divisio sexual do trabalho, na me- dida em que ela se faz obedecendo ao critério de sexo. Isto nao implica, todavia, que as atividades socialmente atribufdas as mulheres sejam desvalorizadas em relagao as dos homens. Nas sociedades de caca e coleta, por exemplo, a primeira atividade cabe aos homens € a segunda as mulheres, Embora proteinas animais sejam necessirias a0 organismo humano (nunca, en- tretanto, se ouviu falar da morte de um vegetariano por carén- cia de proteina animal), em tais sociedades as mulheres eram responsdveis por mais de 60% da proviso dos viveres neces- sdrios ao grupo (LERNER, 1986). Enquanto a coleta é certa, acontecendo cotidianamente, a caca é incerta. Um grupo de homens pode voltar da cagada com um animal de grande ou médio porte, provendo as necessidades de seu grupo, como pode voltar sem nada. Logo, a atividade dos homens, realizada ‘uma ou duas vezes por semana, nfo é confidvel em termos de produto. Jé a das mulheres thes permite voltar a sua comuni- dade sempre com algumas raizes, folhas e frutos. A rigor, en- tio, a sobrevivéncia da humanidade, felizmente variando no tempo € no espago, com esta divisdo sexual do trabalho (no se pode afirmar que todos os povos hajam passado pelo esté- gio da caca e coleta), foi assegurada pelo trabalho das mulhe- res, Johnson atribui a dois fatores histéricos a lenta transigio desta sociedade igualitaria as sociedades que se conhecem 58 Hale BSaifioe hoje": 3) a produgo de excedente econdmico, cerca de 11 mil anos atrés; 2) a descoberta de que o homem era imprescind{- vel para engendrar uma nova vida, 0 que se deu logo depois. Baseada em resultados de pesquisas paleontolégicas, arqueo- logicas e outras evidéncias, Lerner apresenta outro sistema de datagio, Desprezando a produgio de excedente econdmi- co, parte do conhecimento da perticipagio masculina na antropoprodugao® (BERTAUX, 1977), o que da mais poder ‘0s homens, permitindo-lhes a implantagio de um regime de dominagio-exploracdo das mulheres. Estas, embora no fos- sem detentoras de mais poder que os homens, nas sociedades de caga e coleta, eram consideradas seres poderosos, fortes, verdadeiros seres mégicos, em virtude de sua capacidade de conceber e dar a luz, presumivelmente sozinhas. Como a caga " Maurice Godelier (1982), antropdioga francés, estudov, duranta mais de uma década, 0 povo Baruia, da Nove Guiné, terdo-0 eonhecido em 1967, {quando de sua primeira viager. Vivern numa ia, 20 norte ca Australis, tendo tido seu primeira contato com brancos em 1951, Em 1960, a Austra lia estabeleceu sou dominio sobre os Baruia, Portanto, até 1960, este ove "se governava sem ciasse dirigente, som Estado, 0 que néo quer sizer sem desigualdades. Uma parte da sodedade, os homens, liga a outa, as mulheres; eles regiam a scciedade no som as mulheres, mas contra elas" (p. 10). Como os homens davam ggantasca importéncia 20 sémen, insttuiu-se o fellatio como pratica sexsal rotinsira dos casais, ‘Sendo esta prética também inctuida om rites de passagem daicade infant {fase aduita da vida. Como os menines no preduziam sémen, eta naces- sétio que eles 0 bebessem, a fim do pederem ser considerades homens, ‘ou Sela, superiores &s meninas © mulheres de mais idade. isto tudo, na vyerdade multo mais, resultou de urna importancla exagerada atribulda 20 ‘sémen, que era o nico responsavel pela goraga de uma nova vida, pela Produgso dos nubientes para o desenvolvimento do feto e pela fabrica- {980 6e felt, com 0 qual almentar 0 bebé. Este lvro, La production de _grands hommes, fi pubicado em 1882. Esta fo tem alta relavancia, pois © leitor poderia imaginar que esta sociedade na qual a inferiorizacas das rmutheres era enorme tivasso oxlstido hé mildnies, quando, na verdade, ‘sua organizagao social, especticamante sua estutura de poder, fol estu: {dada recentemente. Embora|é se tenha chamade a atencdo doleitor para fe ndc-recessidade desta etapa @ para sua nao.coindidéncia no tempo & "no espago, este exemplo é muito esc'arsceder, porque, em termos histé- Ficos, esta Sociedade exist enter, "" Antrepoprodugo consiste na procugao de seres humanos, ou seja, a sua reprodugso nao apenas blolégiea, mas também social (Ginero, patrineada, violencia 59 nio é uma atividade didria, aos homens sobrava muito tempo livre, impreseindivel para 0 exercicio da criatividade. Foi, por conseguinte, na chamada “sombra e agua fresca” que os homens criaram sistemas simbélicos da maior eficacia para destronar suas parceiras. Este processo foi extremamente lento, gragas 3 resisténcia das mulheres. Segundo esta histo- riadora austriaca, vivendo nos Estados Unidos desde a as- censio do nazismo, o processo de instauragao do patriarca do teve inicio no ano 3100 a.C, e 86 se consolidou no ano 600 a.C. A forte resisténcia oposta pelas mulheres ao novo regi- me exigiu que os machos Iutassem durante dois milénios e meio para chegar a sua consolidagdo. Se a contagem for rea lizada a partit do comego do processo de mudanga, pode-se dizer que 0 patriarcado conta com a idade de 5.203-4 anos. Se, todavia, se preferir fazer 0 célculo a partir do fim do pro~ cesso de transformagao das relagées homem-mulher, a ida- de desta estrutura hierdrquica € de téo-somente 2.603-4 anos. Trata-se, a rigor, de um recém-naseido em face da idade da humanidade, estimada entre 250 mil e 300 mil anos. Logo, nao se vivem sobrevivéncias de um patriarcado remoto; a0 contrario, 0 patriarcado 6 muito jovem e pujante, tendo su- cedido as sociedades igualitérias. De maneira nenhuma se nega a utilidade do conceito de gé- nero. Embora 0 conceito nao existisse, 0 género, concebido como 0 significado do masculino e do feminino produzido pela vida gregaria, sempre esteve presente. A divisiio sexual do tra- balho nas sociedades de caca e coleta nfo se explica pela maior forga fisica do homem, pois hé sociedades nas quais cabe as mulheres a caga da foce. Nao se trata de pequeno animal, ha de se agregar. Além disto, a foca é tZo lisa quanto alguns politicos brasileiros e estrangeiros. Ela é cacada, inclusive por mulhe- res grévidas, quando toma sol nas rochas que circundam os oceanos € mares. Com o movimento das aguas, pedras e focas ficam constantemente molhadas. Tais circunstincias dificul tam ainda mais sua caga, uma vez, que elas se tomam excessi- vamente escorregadias. Nao obstante, so cagadas por mulhe- delet res. Logo, 0 argumento da forga fisica no se sustenta. A hip6- tese mais convincente para justificar a divisdo sexual do tra- balho nas sociedades de caca ¢ coleta parece ser a que se se- gue. Como néo havia Nestlé, era obrigatério o aleitamento do bebé ao seio. Desta sorte, o trabalho feminino era realizado com a mulher carregando seu bebé amarrado ao peito ou as costas. Os bebés eram, assim, aleitados facilmente toda vez que sentissem fome. Como bebé nfo fala, sua maneira de ex- pressar suas necessidades ¢ 0 choro. Dai vem a sabedoria po- ular, inclusive em sentido figurado, dizendo: “quem no cho- ra ndo mama, Presuma-se que as mulheres fosse atribufda a tarefa da caga. © menor sussurro do bebé espantaria o animal destinado & morte e as cagadoras voltariam, invariavelmente, para seu grupo, sem nenhum alimento. J ss plantas, desde as raizes, passando pelas folhas e chegando acs frutos, permane- cem imperturbaveis ouvindo o choro das criancas. Pelo me- nos era assim que se comportavam, antes de serem habituadas a produzir mais fratos ao som do “Adagio”, de Albinoni, toca~ do pelo flautista Jean-Pierre Rampal. Esta brincadeira consti- tui uma paréfrase do uso da misica cléssica para elevar a pro- dugio de ovos ow de leite, evidentemente por galinhas e vacas de bom gosto. Mas, por outro lado, se o gene, de fato, sofre influéncia das condigGes hist6ricas vividas, por que nfo pen- sar que tais condutas em granjas e estébulos auxiliam os argu- mentos de Keller? Enquanto animais ditos irractonais comem, dormem, pro- duzem ao som de uma bela misica, mulheres so espancadas, humilhadas, estupradas e, muitas vezes, assassinadas por seus préprios companheiros e, com freqiiéncia, por ex-companhei- ros, ex-namorados, ex-amantes. Sobretudo quando a inicia- tiva do rompimento da relagio 6 da mulher, esta persegui- go, esta importunagéo, este molestamento podem chegar a0 femictdio. Varias mulheres nestas condigdes solicitaram protegio policial. Como a seguranga das mulheres ¢ conside- rada questio secundéria, 0 pedido nao foi atendido, dai re- sultando a morte das ameacadas. Embora a violéncia tenha (Genero, patrnscado, veléncla seu ciclo, especialmente a doméstica, isto ¢ meramente des- critivo, no induzindo sequer a atitudes preventivas. £ mais adequada a percepgao de que a violéncia contra mulheres desenvolve-se em escalada. Isto sim pode mostrar a premén- cia da formulacao e da implementagao de politicas publicas que visem a sua extingdo. A sociedade assemelha-se a um galinheiro, sendo, contudo, © galinheiro humano muito mais cruel que o galinaceo. Quan- do se abre uma fresta na tela do galinheiro e uma galinha esea- a, o galo continua dominando as galinhas que restaram em seu territério geogréfico. Como o territério humano nao é me- ramente fisico, mas também simbélico, o homem, considera- do todo-poderoso, nao se conforma em ter sido preterido por outro por sua mulher, nem se conforma quando sua mulher 0 abandona por no mais suportar seus maus-tratos. Qualquer gue seja a razio do rompimento da relagio, quando a iniciati- va é da mulher, isto constitu uma afronta para ele. Na condi- Go de macho dominador, nao pode admitir tal ocorréncia, podendo chegar a extremos de crueldade. A sociedade, simi- larmente ao galinheiro, também apresenta uma ordem das bi- cadas, assunto a ser tratado, se possivel, mais adiante. LesGo Corporal Dolosa © trabalho de campo da Fundagdo Perseu Abramo produ- ziu dados que mostram que 20% das mulheres sofrem lesio corporal dolosa (LCD) considerada leve, o crime mais come- tido por homens contra mulheres, em particular quando vi- vem no mesmo domicilio. Nao é necessdrio que se trate de casais; as brigas podem ocorrer entre irmaos, em detrimento da mulher. Geralmente, porém, siio mesmo os companheiros os agentes destas violéncias. Pouco menos de um quinto (18%) das interrogadas sofre violéncia psicolégica, sendo freqtien- tes as ofensas & conduta moral das vitimas. O erime de amea- ga costuma acompanhar outras modalidades de violéncia ou substituir a violéneia fisica. A pesquisa Violéncia doméstica. Heleetht.B.Saffiot, questo de policia e da sociedade revelou uma tendéncia de queda da Lev e, em substituigao, uma elevacio do crime de ameaga, Lembra-se que tal pesquisa coligiu dados dos anos de 1988 © 1992, quando a maioria dos crimes cometidos con- tra mulheres eram julgados pelo Cédigo Penal, uma vez que a logislagdo agora em vigor — a Lei 9.099 ~ entrou em vigéncia em novembro de 1995. Embora no seja agradavel viver sob ameaca, certamente € menos mau que sofrer espancamentos € outros maus-tratos. Lamentavelmente, esta tendéncia, con- siderada positiva, em virtude do medo infundido pela autori- dade policial — a delegada - no homem (este se continha na LoD, contentando-se com ameacar sua companheira), foi abruptamente interrompida pela aprovagao da Lei 9.099, que, segundo revelou a pesquisa Violéncia doméstica sob a Lei 9.099/95 (SAFFIOTI, 2003), legalizou pelo menos a vio- Iencia doméstica, enquadrada nos tipos penais apenados com até um ano de detengao. Retomando o fruto do trabalho de campo, 15% das entrevis- tadas afirmaram sofrer um tipo de violéncia dos mais trégicos, em termos de abertura de chagas na alma. Trata-se de uma conduta inaceitével do homem — quebrar objetos e rasgar rou- pas da companheira ~ em virtude de tentar destruir, as vezes conseguindo, a identidade desta mulher. Os resultados destas agressdes nfo so feridas no corpo, mas na alma. Vale dizer feridas de dificil cura. Nas cerca de 300 entrevistas feitas com vitimas na pesquisa Violéncia doméstica: questéo de policia e da sociedade, é freqitente as mulheres se pronunciarem a res- peite da maior facilidade de superar uma violéncia fisica, como emparrées, tapas, pontapés, do que humilhagSes. De acordo com elas, a humilhagdo provoca uma dor muito profunda, Pro- porgio nao negligenciavel de mulheres (12%) relatou haver softido, com certa freqiiéncia, violéncias verbais desrespeito- sas ¢ desqualificadoras de seu trabalho, seja fora do lar, sej neste, LOD, provocando cortes, marcas ou fraturas, foi narra- da por 11% das entrevistadas. Este tipo de Lc € considerado de natureza grave (art. 129 do Cédigo Penal) e, dependendo Génera patriareado, ilincin 63 das seqiielas que deixar na vitima, 6 apenado com mais de um ano de reclusio (cinco anos), sendo julgado, portanto, de acor- do com o Cédigo Penal. Duvida-se, contudo, que os réus te~ nham sido condenados, porque, jé na delegacia de policia, 0 crime & classificado como cb leve, cuja pena é de detengao* de trés meses a um ano, sendo julgado segundo os dispositivos da Lei 9.099, nos Juizados Especiais Criminais (szcrim). 0 cér- cere privado foi sofrido por 9% das investigadas, que, uma vez trancadas em suas casas, foram obrigadas 2 faltar ao trabalho; 8% foram ameagadas com armas de fogo; e 6% foram forcadas ‘a realizar determinadas praticas sexuais que nao as agrada~ vam. Considerando-se apenas mulheres que tém ou tiveram filhos (18%), 10% foram vitimas de acusagées reiteradas de que nao eram boas mies. Dada a valorizagio da mae nas cul- turas cristis, estas criticas infundem muita culpa na acusada. ‘lids, as mulheres so culpabilizadas por quase tudo que nao A certo, Se ela é estuprada, a culpa é dela, porque sua saia era muito curta ou seu decote, ousado. Embora isto néo se sustente, uma vez que bebés e outras criangas ainda peque- nas sofrem abusos sexuais que podem dilacer4-las, a vitima adulta sente-se culpada, Se a educagio dos filhos do casal resulta positivamente, o pai é formidavel; se algo dé errado, a mie nfo soube educé-los. Mais uma vez, a vitima sabe, racio- nalmente, néo ter culpa alguma, mas, emocionalmente, é ine~ vitavel que se culpabilize. Benedict tem mesmo razio: pelo menos para as mulheres, a civilizagio ocidental € a civilizagio da culpa. Eis por que é ficil as mulheres assumirem o papel de vitimas. Pior ainda é 0 fato de muitas cientistas entrarem neste jogo, assumindo a posi¢ao vitimista, Ora, nem sempre as mulheres sio vitimas. Hé as que provocam o pareeiro, a fim de criar uma situagio de violencia; outras denigrem o nome dé seus companheiros, inventando fatos que eles teriam cometido, mas nfo o fez. As mulheres sto > A detengfio & mais leve do que a reclustio. Os detentos podem alean- Gar Deneticios Intordtados acs roclusos. 64 Heleleth 8. Saffiot grandes espancadoras de criangas, em geral de seus proprios filhos. E verdade que, mesmo trabalhando fora do lar, a mu- Ther permanece mais tempo com seus filhos, o que The possibi- lita ver certas atitudes destas criangas que merecem correcio. Nao se defende, aqui, a pedagogia da violencia. Entretanto, quem convive muito com os fithos e os profbe de fazer certas coisas, depois de 20 reprimendas verbais sem éxito, perde a paciéneia, ou melhor, sente-se impotente e dé umas palmadas no(a) autor(a) das travessuras. Tal fendmeno pode também ser chamado de sindrome do pequeno poder (SaFFIOTT, 1989), A qual estio sujeitas ambas as categorias de sexo. E verdade que o homem entra em sindrome do pequeno poder com mais facilidade e freqiéncia que a mulher. Pode-se até dizer que quando a mfe da palmadas em seus filhos esté, rigorosamente, cexercendo o poder patriarcal, que Ihe foi delegado pelo pai das criangas. Isto se expressa, de maneira cristalina, na propria fala da mie ao filho punido: “Isto é s6 0 aperitivo. Voce levaré aquela surra quando seu pai chegar e eu Ihe contar o que vocé fez". A autoridade méxima é 0 pai, 2 quem a mie evoca, no momento da impoténeia, exatamente com este papel. Assim, embora as mulheres nfo sejam ciimplices dos patriarcas, coo- peram com eles, muitas vezes inconscientemente, para a per petuagio deste regime. As projegdes da Fundacdo Perseu ‘Abramo, partindo dos dados coligidos, sio: Como 11% das investigadas relataram vivéncias de espancamento (Lcp) num universo de 61,5 milhdes, estima-se que, entre as brasileiras vivas, pelo menos 6,8 milhées delas tiveram, ainda que uma s6 ver, esta experiéncia. JA que as casadas com espancadores contumazes relataram que a iltima violéncia deste tipo havia ocorrido no periodo dos 12 meses anteriores ao trabalho de campo, projetou-se, por baixo, cerca de 2,1 milhdes de viti- mas de LeD a0 ano, 175 mil ao més, 5,8 mil 20 dia, 243 a cada hora, o que significa quatro vitimas por minuto ou uma a cada 15 segundos. Esta realidade estava bem escondida. E foi des- coberta pela érea das perfumarias. E hé muitas outras que, infelizmente, no conquistardo espaco neste pequeno livro. ‘Genero, pattareade, viola 65 ep 6, sem diivida, o crime prevalente contra mulheres, En- tre suas vitimas, 32% afirmaram ter este fato ocorrido apenas uma vez, enquanto outros 20% delas apontaram para duas ou trés vezes. Entre as vitimas de 1c, 11% admitiram sua ocor- réncia por mais de dez vezes. Hé4, ainda, aquelas (15%) que cortamente perderam a conta do niimero de espancamentos que sofreram, preferindo mencionar o tempo em que ficaram expostas a este tipo de violéncia: mais de dez anos foi comum, havendo 4% que se referiram a mais de dez anos e durante toda a vida, O marido agressor comparece com 53% nos casos de ameaga a integridade fisica da companheira com armas, su- bindo sua presenga para 70% quando se tomam todas as mo- dalidades de violéncia investigadas, exceto 0 assédio sexual. ‘Se aos companheiros se somarem os ex-maridos, ex-namora: dos, ex-companheiros, 0s homens amados constituem a es- magadora maioria dos agressores. Talvez pelo fato de serem encarregadas da educagio dos fi- Ihos, as mulheres, em geral, sejam tio onipotentes. Julgam-se capazes de mudar o companheiro, quando, a rigor, ninguém muda outrem. A pessoa pode decidir transformar-se e, com auxilio de um bom profissional psi, ter éxito. Tal sucesso pode também ser obtido sem ajuda de ninguém, sendo, entretanto, mais penoso, mais lento e de duvidoso éxito. Os seres huma- nos sio condicionados a treinar suas habilidades e potencialidades numa certa diregio. Por assim dizer, especia- lizam-se. Isto no ocorre apenas no Ambito do trabalho, mas em todas as atividades por ele(a) desempenhadas. Especia- lizam-se até nas manias, tornando-se compulsivas certas con- dutas. Nao se esta aderindo A maneira simpléria de resolver 0 problema da violéncia contra mulheres, ou seja, 4 patolo- gizagio, mas ampliando o leque de perspectivas, embora néo se trate de uma adesio acritica aquilo que Bourdieu (1989) chamou de habitus. "[...] 0 habitus, como indica a palavra, é um conhecimento adquirido e também um haver, um capital de um agente em ago [...]" (p. 61). Trata-se, pois, de dispositi- vos que operam “sem necessidade de 0 agente raciocinar para 66 Heleieth 8 Sao se orientar e se situar de maneira racional num espago” (p. 62). O habitus nasce justamente da interagdo entre 0 processo de socializagao e 0 equipamento genético de que é portador 0 agente social. Este conceito tem utilidade, mas incomoda por sua quase absoluta permanéncia, ou seja, quase impossibilida- de de mudar. Se assim nao fora, Bourdieu nao teria escrito, com a colaboragdo de Passeron, um livro sobre a reprodugio a0 qual atribuiu exatamente este titulo (BOURDIEU e PASSERON, 1970). O habitus mais forte em Bourdieu era exatamente o mecanismo da permanéncia (por esta razo, quase todos os seus conceitos sao fechados), em detrimento da transforma- gio. Todavia, estando alerta para isto, os cientistas sociais podem utilizd-los todos. Parece, no entanto, muito menos ou nada problemético 0 uso, quando cabivel, do conceito de con- servaciio-dissolucéo, formulado por Bettelheim (1969), inspi- rado em Marx. Este, fazendo a critica da economia burguesa, mostra a necessidade de se comegar pelo complexo, a fim de poder compreender o simples. Desta sorte, 6 preciso analisar a sociedade burguesa para se entender as que a precederam, mesmo porque aquela contém, ainda que de forma estiolada, travestida, a sociedade antiga e a sociedade feudal. “Uma formagdo social jamais desaparece antes que estejam desenvolvidas todas as forcas produtivas que ela pode conter, jamais relagdes de producio novas e superio- res substituem as antigas antes que as condigdes mate- riais de existéncia destas relagdes desabrochem no pré- prio seio da velha sociedade. Eis por que a humanidade jamais levanta problemas que ela nio pode resolver, pois, olhando-a de mais perto, saber-se-4 que 0 proprio proble- ma nfo surge seno onde as condigdes materiais para resolvé-lo ja existam ou, pelo menos, esto em vias de emergir” (Marx, 1957, prefécio, p. 5). Assim, 0 novo e 0 velho coexistem até que prevalega o pri meiro, sem, contudo, desaparecer completamente o velho, que oF Ginero,patraseado, violencia se apresenta de outras formas. Na familia, coexistem novas velhas relagées até que as primeiras venham a ser prevalentes As relagdes violentas devem ser trabalhadas no sentido de se tornarem igualitérias, democraticas, na presenga, portanto, ainda que contidas, auto-reprimidas, das antigas. As pessoas envolvidas na relagdo violenta devem ter o desejo de mudar. & por esta razo que nao se acredita numa mudanga radical de uma relagio violenta, quando se trabalha exclusivamente com a vitima, Sofrendo esta algumas mudangas, enquanto a outra parte permanece 0 que sempre foi, mantendo seus habitus, a relagdo pode, inclusive, tornar-se ainda mais violenta. Todos percebem que a vitima precisa de ajuda, mas poucos véem esta necessidade no agressor. As duas partes precisam de au- xilio para promover uma verdadeira transformagio da relagao violenta. Em muitos paises, esta necessidade foi apreendida ha décadas, dando oportunidade para a emergéncia de servigos de ajuda aos agressores. Alguns paises latino-americanos 0 tém. No Brasil, existem algumas ONGs, como o PAPA, em Reci- fe, e 0 Noos, talvez 0 mais antigo, que opera na cidade do Rio de Janeiro e em mais dois ou trés municfpios da regio metro- politana. Em So Paulo, o Pré Mulher trabalha com a vitima e com 0 agresscr. Embora nao se possa fazer uma avaliagio de todos(as) os(as) profissionais destas organizagdes, conhecem- se alguns entre os que prestam seus servigos no PAPAT € no Noos. Em amos, hé profissionais de alto nivel, mas nio se conhecem todos. No Pré Mulher pode haver excelentes pro- fissionais. Como s6 se conhece a coordenadora, 0 que se pode afirmar é que sua especialidade era patologizar os agres- sores. No entanto, o préprio servigo e as relagdes com a equi- pe podem ter produzido seu deslocamento para outra pers- pectiva. Desta forma, é melhor suspender o juizo até que se obtenham informagSes precisas e atuais a este respeito. E chegado o momento de se esclarecer, com a preciséio pos- sivel, as sobrezosigées ¢ diferengas entre varias modalidades de violencia, o que seré realizado no proximo capitulo. 68 Hedeiet Sao 3. Para além da violéncia urbana Ha, no Brasil, uma enorme confusio sobre os tipos de vio- lencia, Usa-se a categoria violéncia contra mulheres como si- nénimo de violéncia de género. Também se confunde violén- cia doméstica com violéncia intrafamiliar. Far-se-4, aqui, um esforgo para demonstrar as sobreposigGes parciais entre estes conceitos e, mesmo assim, suas especificidades. Sem concei- tos precisos, pode-se pensar estar falando de um fenémeno, enquanto se fala de outro. Mais grave, aida, 6 iniciar uma pesquisa com este emaranhado de constructos mentais, na medida em que isto comprometeria até mesmo a elaboragio do roteiro de entrevista ou questionério, levando o pesquisa- dor a deixar de obter as respostas que ele busca para obter informagSes que nao dizem respeito direto a sua pesquisa, A violéncia de género é, sem diivida, a categoria mais geral Entretanto, causa um certo mal-estar quando se pensa este conceito como aquele que engloba os demais, cada um apre- (Genero, pririarcado, violas sentando tao-somente nuancas distintas. Ndo se trata propria~ mente disto, pois também apresentam caracteristicas especi- ficas. E exatamente para estas especificidades que se pretende chamar a atengao do leitor. Por estas razdes, estima-se pru- dente mostrar estes fatos em suas peculiaridades, a fim de se trabalhar com um quadro teérico de referéncia, capaz de orien- tar o investigador, em vez de confundi-lo. Nao se pretende, por ora, voltar a discorrer sobre o ecnceito de género, pois o leitor j6 conhece o fundamental sobre ele para acompanhar o ra cinio deste capitulo. Recorrer-se-& a ele no préximo capitulo para aprofundar 0 que jé foi expresso. No presente capitulo, ele seré evocado somente quando necessério, © uso deste conceito pode, segundo Scott (1988), revelar sua neutralidade, na medida em que nfo inclui, em certa instancia, desigualdades e poder como neressérios. Aparentemente um. detalhe, esta explicitag4o permite considerar 0 conceito de género como muito mais amplo que a nogéo de patriarcado ou, se se preferir, viriarcado, andracentrismo, falocracia, falo- logo-centrismo. Para a discussa9 conceitual, este ponto é ex- tremamente relevante, uma ver que género deixa aberta a possibilidade do vetor da dominagio-exploragio, enquanto os demais termos marcam a presenga masculina neste pélo. Neste livro, considerar-se-& género independentemente de a quem pertenga a primazia: aos homens ou as mulheres. Que, entretanto, isto ndo seja tomado como adesio ao cardter supos- tamente mais neutro do coneeito de género, pois, de certo an- gulo, pode-se afirmar exatament2 0 oposto (JOHNSON, 1997). Embora aqui se interprete género também como um conjun- to de normas modeladoras dos seres humanos em homens e em mulheres, normas estas expressas nas relagdes destas duas categorias sociais, ressalta-se a necessidade de ampliar este conceito para as relagdes homem—homem e mulher—mulher, como, aliés, j4 se mencionou. Obviamente, privilegia-se o pri- meiro tipo de relagio, posto que existe na realidade objetiva com a qual todo ser humano se depara ao nascer. Ainda que historica, esta realidade é previarrente dada para cada ser hu- 70 Heth LB Said mano que passa a conviver socialmente. A desigualdade, lon- ge de ser natural, é posta pela tradigio cultural, pelas estrutu- ras de poder, pelos agentes envolvidos na trama de relagbes sociais. Nas relagdes entre homens e entre mulheres, a desi- gualdade de género nio é dada, mas pode ser construida, e 0 6, com freqiiéncia. O fato, porém, de no ser dada previamente a0 estabelecimento da relagdo a diferencia da relagio homem~ mulher. Nestes termos, género concerne, preferencialmente, as relagdes homem-mulher. Isto néo significa que uma rela- Go de violéncia entre dois homens ou entre duas mulheres no possa figurar sob a rubriea de violencia de género. A dispu- ta por uma fémea pode levar dois homens & violéncia, o mes- mo podendo ocorrer entre duas mulheres na competigio por um macho. Como se trata de relagdes regidas pela gramética sexual, podem ser compreendidas pela violéncia de género Mais do que isto, tais violéncias podem caracterizar-se como violéncia doméstica, dependendo das circunstancias. Fica, assim, patenteado que a violéncia de género pode ser perpe- trada por um homem contra outro, por uma mulher contra outra. Todavia, o vetor mais amplamente difundido da violén- cia de género caminha no sentido homem contra mulher, ten- do a falocracia como caldo de cultura. Nao ha maiores dificuldades em se compreender a violén- cia familiar, ou seja, a que envolve membros de uma mesma familia extensa ou nuclear, levando-se em conta a consangi nidade e a afinidade. Compreendida na violéncia de género, a violéncia familiar pode ocorrer no interior do domicflio ou fora dele, embora seja mais freqiiente o primeiro caso. A vio- Iéncia intrafamiliar extrapola os limites do domicilio. Um avd, cujo domicilio é separado do de seu(sua) neto(a), pode co- meter violéncia, em nome da sagrada familia, contra este(a) pequeno(z) parente(a). A violéncia doméstica apresenta pontos de sobreposi¢io com a familiar. Atinge, porém, tam- bém pessoas que, néo pertencendo & familia, vivem, parcial ou integralmente, no domicilio do agressor, como é 0 caso de agregadas(os) e empregadas(os) domésticas(os). Estabelecido 7 ‘Ginw paca vine 6 dominio de um territério, o chefe, via de regra um homem, passa a reinar quase incondicionalmente sobre seus demais ocupantes. © processo de territorializagao do dominio nao é puramente geografico, mas também simbélico (SarFroT, 1997a). Assim, um elemento humano pertencente Aquele ter~ ritorio pode sofrer violéncia, ainda que nao se encontre nele instalado. Uma mulher que, para fugir de maus-tratos, se muda da casa de seu marido pode ser perseguida por ele até a con- sumagio do femicidio, feminilizando-se a palavra homicidio (RaDFORD e RUSSELL, 1992). Este fendmeno nfo é tio raro quanto 0 senso comum indica. A violéncia doméstica tem lugar, predominantemente, no interior do domicilio. Nada impede o homem, contudo, de esperar sua companheira a porta de seu trabalho e surré-la exemplarmente, diante de todos os seus colegas, por se sentir ultrajado com sua ativi- dade extralar, como pode ocorrer de a mulher queimar com ferro de passar a camisa preferida de seu companheiro, por que descobriu que ele tem uma amante ou tomou conheci- mento de que a pega do vestudrio foi presente “da outra”. Poder-se-ia perguntar, neste momento, se a violéncia de gé- nero, em geral, ov a intrafamiliar ou, ainda, a doméstica es- pecificamente so sempre recfprocas. Mesmo admitindo-se que pudesse ser sempre assim, 0 que no é o caso, a mulher Jevaria desvantagem. No plano da forga fisica, resguardadas as diferengas individuais, a derrota feminina é previsivel, 0 mesmo se passando no terreno sexual, em estreita vinculagaio com 0 poder dos misculos. £ voz corrente que a mulher ven- ce no campo verbal. Entretanto, entrevistas com mulheres vitimas de violéncia doméstica tém revelado que 0 homem é, muitas vezes, irremediavelmente ferino (SAFHIOTI, inédito). Isto nao significa que a mulher sofra passivamente as violén~ cias cometidas por seu parceiro, De uma forma ou de outra, sempre reage. Quando o faz violentamente, sua violencia é reativa. Isto no impede que haja mulheres violentas. Sio, todavia, muito raras, dada a supremacia masculina e su; cializagao para a docilidade. 2 Heleieth 1B Sait 0 femicidio cometido por parceiro acontece, numerosas ve- zes, sem premeditacdo, diferentemente do homicidio nas mes- mas circunstancias, que exige planejamento. Este deriva de uma derrota presumfvel da mulher no confronto com o ho- mem. No Brasil, ndo ha pesquisas neste sentido. Na Inglaterra, as penas para as mulheres que cometem homicidios de seus maridos so maiores que as sentenciadas aos homens que per- potram fernicidio de suas esposas, ou uxoricidios, exatamente em razo da premeditago, que constitui agravante penal. Nao obstante os maus-tratos de que podem ter sido vitimas duran- te toda a vigéncia da sociedade conjugal, a punigéo é maior em virtude da menor forga fisica da mulher, que exige o planeja~ mento do homicidio, ou seja, sua premeditacao, Resta discutir uma questo sobre a qual tampouco ha consen- so. A violéncia praticada por pai e mae contra a prole pode ser considerada violéncia de género, intrafamiliar e doméstica? Indubitavelmente, sua natureza é familiar. Para quem define a violéncia doméstica em termos do estabelecimento de um do- mfnio sobre os seres humanos situados no territorio do patriar- ca considerado, nio resta diivida de que a hierarquia comeca no chefe e termina no mais fragil dos seus filhos, provavelmente filhas, Cabe debater o papel da mulher que, tendo seus direitos humanos violados por seu companheiro, maltrata seus filhos. Apesar de que “as mulheres figuram em ntimero importante dentre as vitimas de violéncia e em niimero reduzido dentre os autores de violéncia” (COLLIN, 1976), ha muitas mulheres que maltratam seus filhos, elementos inferiores na hierarquia do- méstica. Nio apenas o homem, mas também a mulher esta su- jeita A sindrome do pequeno poder, sendo uma freqiiente auto- ra de maus-tratos contra eriangas. Como afirma Welzer-Lang (a991), a violéncia doméstica é masculina, sendo exercida pela mulher por delegacio do chefe do grupo domiciliar. Como ela “é 0 primeiro modo de regulacio das relagSes sociais entre os, sexos” (WELZER-LANG, p. 23), 6 desde crianga que se experi- menta a dominagio-exploracio do patriarca, seja diretamen- te, seja usando a mulher adulta. A funggo de enquadramento (BEKTAUX, 1977) € desempenhada pelo chefe ou seus prepostos. A mulher, ou por sindrome do pequeno poder ou por delegacio do macho, acaba exercendo, nffo raro, a tirania contra eriangas, tiltimo elo da cadeia de assimetries. Assim, 0 género, a familia e © territério domiciliar contém hierarquias, nas quais os homens figuram como dominadores-exploradores e as criancas como os elementos mais dominados-explorados. Nos termos de Welzer-Lang, “a violéncia doméstica tem um género: 0 mascu- lino, qualquer que seja o sexo fisico do/da dominante” (p. 278). Desta sorte, a mulher é violenta ro exercicio da fungio patriar- cal ou viriarcal. No grupo domiciliar e na familia no impera necessariamente a harmonia, porquanto esto presentes, com freqiiéncia, a competicio, a trapaga, a violéncia. H4, entretan- to, uma ideologia de defesa da familia, que chega a impedir a dentincia, por parte de maes, de abusos sexuais perpetrados por pais contra seus (suas) préprios(as) filhos(as), para néo men- cionar a tolerncia, durante anos seguidos, de violéncias fisicas € sexuais contra si mesmas, No que tange a abusos sexuais de criangas, a gramitica portuguesa impde o uso do masculino, embora internacionalmente seja de cerea de apenas 10% a pro- porcao de meninos afetados por este fenémeno. Contudo, mes- mo que se tratasse de um s6 garoto, valeria a pena lutar contra esta violéncia, Osignificado do violénci No que concerne & preciso de conceitos, ¢ importante que se aborde, ainda que ligeiramente, o significado da violéncia nas modalidades aqui focalizadas. £ Obvio que a sociedade con- sidera normal e natural que homens maltratem suas mulheres, assim como que pais e mies maltratem seus filhos, ratificando, deste modo, a pedagogia da violéacia, Trata-se da ordem so- cial das bicadas (SaFFI071, 1997a). -] a criminalidade, a violéncia piblica é uma vio- Jéncia masculina, isto é, um fendmeno sexuado. A dispa- 7 alieth Salo ridade muscular, eterno argumento da diferenga, deve ser interpelada em diferentes niveis. [...] N6s confundi- dominagio e mos freqiientemente: forga-potént lidade" (WELZER-LaNG, 1991, p. 59)- Efetivamente, a questZo se situa na tolerdncia ¢ até no incen= tivo da sociedade para que os homens exergam sua forga-po- téncia-dominagdo contra as mulheres, em detrimento de uma virilidade doce e sensivel, portanto mais adequada ao desfrute do prazer. O consentimento social para que os homens con- vertam sua agressividade em agressio nao prejudica, por con- seguinte, apenas as mulheres, mas também a eles préprios. A organizagao social de género, baseada na virilidade como for- ca-poténcia-dominagio, permite prever que ha um desencon- tro amoroso marcado entre homens ¢ mulheres, As violéneias fisica, sexual, emocional e moral nfo ocorrem joladamente. Qualquer que seja a forma assumida pela agres- so, a violéncia emocional est sempre presente, Certamente, se pode afirmar 0 mesmo para a moral. O que se mostra de dificil utilizagdo & 0 conceito de violéncia como ruptura de diferentes tipos de integridade: fisica, sexual, emocional, mo- ral. Sobretudo em se tratando de violéncia de género, e mais especificamente intrafamiliar e doméstica, sio muito ténues os limites entre quebra de integridade e obrigagio de suportar © destino de género tragado para as mulheres: sujeigio aos homens, sejam pais ou maridos. Desta maneira, cada mulher colocard o limite em um ponto distinto do continuum entre agressfo e direito dos homens sobre as mulheres. Mais do que isto, a mera existéncia desta tenuidade representa violéncia, Com efeito, paira sobre a cabeca de todas as mulheres a amea- ca de agressdes masculinas, funcionando isto como mecanis- mo de sujeiggo aos homens, inscrito nas relagdes de género, Embora se trate de mecanismo de ordem social, cada mulher 0 interpretard singularmente. Isto posto, a ruptura de integri dades como critério de avaliagao de um ato como violento situa-se no terreno da individualidade. Isto equivale a dizer (Gane, pattarcade, velonca 5 que a violéncia, entendida desta forma, no encontra lugar ontolégico", como jé se mencionou. Fundamentalmente por esta razio, prefere-se trabalhar com © conceito de direitos humanos, entendendo-se por violéncia todo agenciamento capaz de violé-los. E bem verdade que isto exige uma releitura dos direitos humanos. J4 desde a Revolu- o Francesa os direitos humanos foram pensados no masculi- no: Declaragéo Universal dos Direitos do Homem e do Cida- dio. Por haver eserito a versio feminina dos direitos humanos (Declaragéo Universal dos Direitos da Mulher e da Cidada), Olympe de Gouges foi sentenciada a morte na guilhotina, em 1792. Como o homem sempre foi tomado como 0 protétipe de humanidade (Facto, 1991), bastaria mencionar os direitos daquele para contemplar esta. Rigorosamente, é ainda muito incipiente a consideragao dos direitos humanos como tam- bém femininos. Tado, ou quase tudo, ainda é feito sob medida para o homem, Os equipamentos fabris estio neste caso, nao obstante as mulheres terem penetrado nas fabricas desde a Revolugdo Industrial. Claro que a maquina de costura, inclusi- ve a industrial, é feita para o corpo da mulher, a fim de manté- Ja em suas fungGes tradicionais. Nos paises em que bordar & maquina constitui tarefa masculina, como o Senegal, o equipa- mento 6 adaptado ao corpo masculino, Nem sequer se pensa na adequagéo de outras méquinas ao corpo feminino. Mulhe- res que passaram a trabalhar em equipamentos planejados para ” Ge no existe uma percepeao undnime da vioiéncla, cada socius efnindo-a come a sente, nao se pode fazer ciéncla sobre a violencia, aracterizeda como ruplura de integridades, uma vez que no hi olén Sa co individual. Se as Integridades ©, por conseguinte, suas ruptures Integeassem 0 sar social, fossem a ele inorentes, haveria uma mosma concepgio destes fenémenos. Ao contrério, como se mostrou atrés, Serd possivel construir uma socladade igualtéria, porque outres multas asta genero ocorreram no passado. A desigualdade, a violincia, a intoleréncla n&o sie Inerentes ao ser social. Ao contrario, 0 sao a iden tidace © 2 diforonga, Estas sim tém, por via de conseqléncis, lugar ‘oniolégico assagurado. Decomponde 0 vocdbuio, onto = ser; Iogico Ou togia = estudo, ciéneia, Ortologia = estudo do ser 6 leet B Seti, homens tiveram que a eles se adaptar, com prejuizo, muitas vezes, da propria sade. Entender que as diferengas pertencem ao reino da natureza, por mais transformada que esta tenha sido pelo ser humano. enquanto a igualdade nasceu no dominio do politice, parece fora do horizonte de uma ideolagia de género, que naturaliza atribuigdes sociais, baseando-se nas diferencas sexuais. © pro- prio tabu do incesto, fato fundante da vida em sociedade (Litvi- STRAUSS, 1976), € apresentado aos socii como se estivessse ancorado em razdes de ordem biol6gica. A naturalizagao do feminino como pertencente a uma suposta fragilidade do cor- po da mulher e a naturalizagao da masculinidade como estan- do inserita no corpo forte do homem fazem parte das tecno- ogias de género (LAURETIS, 1987), que normatizam condutas de mulheres e de omens. A rigor, todavia, 0s corpos so gendrados*, recebem um imprint do género. Donde ser ne- 2.0 vecdbulo gendradio, ofundo de gender (palavra inglesa para género}, tom sido utikzado por feminisas, na fata de um adjetvo correspondents {20 substantive gBnero, Treta-26 de um neologisme, incorporado do inglés (gendered) ¢ ainda néo dcionerlzado. Pode-se falar em corpo gendraco fara dosignar no 0 corpe sexuado, ras 0 corpo formatado segundo as Formas de ser mulher ou do ser homem. Estatisticaments, a socializagso Jo bobe ancora-se no 2x0, mas nao é to rero que familias com cinco fihas, @ deselando um fino, socialize a sexta filha como homem. Na Iteretura brasileira, pode ser lembrada a figura de Diadorim, nascida da imaginagdo de Guimardes Rosa, mas evistente, por vozes, na realicade onereta caivida. George Sand no constitu um bom exemple, mastembra ete fato, Em aldelas agratlas da ex-lugoslavia, na ex-Repiblica de Montenegro, ocorria este endmene, embora no se posse dizor com que frequencia, em decorrénca da crenga de que familias ser nenhum filo, sé com fihas, sofreriam desgragas em razSo do mau tempo, das mas ‘ohetas, da ‘ome, das doengas, Quom se interassar pelo assunto, pode assist ao filme Virgina, disponivel em grandes focadores, que mostra ois casos reals rurva mesma familia extensa. Obviaments, ndo se trata \va co escapar das advorsidadas, mas da enganar a comunidade, numa tira desmistficagéo da rafarida crenga. Pode-se também dizor que 0 pal 4a fb soctalizada como ‘iho fazia um pacto com So Jorge, padroeiro de Montenegro. A desmisifcepio resida no fato de: se a comunicade acre- Gitasee que aquela cranga era do sexo masculino a fariia se ivraria dos males, porque, afnal, se talava apenas de uma crenga, raga mais. Virgina {ra do sexo feminino, mes Seu corpo era gendrado como masculine. Logo, a palavra sexuado néo substiui gendraco. {Gipero patric, vielnds 77 see cessaria uma especial releitura dos direitos humanos, de modo a contemplar as diferengas entre homens e mulheres, sem per- der de vista a aspiragio & igualdade social e a luta para a obten- sao de sua completude (FACto, 1991). A consideracdo das di- ferengas 86 faz sentido no campo da igualdade. Neste sentido, par da diferenga é a identidade, enquanto o da igualdade é desigualdade, sendo esta que se precisa eliminar. Poder-se-ia argumentar que tampouco a compreensio dos direitos humanos é homogénea, pois varia segundo as classes sociais, segundo as ragas/etnias, de acordo com os géneros. No seio mesmo de cada uma destas categorias encontram-se distingdes de entendimento. Grosso modo, entretanto, elas servem como balizas, evitando-se que se resvale para o indivi- dual. Por outro lado, ha uma consciéneia avangada da situa- Gio, capaz de definir os direitos humanos no feminino, como, alids, vem sendo feito nos campos da saiide, da educago, da violéneia, no terreno juridico ete. Os portadores desta cons- cigncia Iutam por sua difusio, assim como pela concretizacio de uma cidadania ampliada, isto 6, de direitos humanos tam- bém para pobres, negros, mulheres. 0 respeito ao outro cons- titui o ponto nuclear desta nova concepgdo da vida em socie~ dade. Como afirma Saramago, enquanto a religido exige que os seres humanos se amem uns aos outros, 0 que depende de convivéneia, uma vez que nem mesmo o amor materno é ins- tintivo (BaDINTER, 1980), a compreensio dos direitos huma- nos impbe que cada um respeite os demais. Amar o outro no constitui uma obrigacdo, mesmo porque 0 amor nfo nasce da imposigao. Respeitar 0 outro, sim, constitui um dever do cida- dao, seja este outro mulher, negro, pobre. ‘Ademais, 0 género, a raga/etnicicade ¢ as classes sociais cons~ tituem eixos estruturantes da sociedade. Estas contradigées, tomadas isoladamente, apresentam caracteristicas distintas daquelas que se pode detectar no né que formaram ao longo da historia (Sarrior!, 1997b). Este contém uma condensagio, uma exacerbac&o, uma potenciagdo de contradig6es. Como tal, me- rece € exige tratamento especifico, mesmo porque é no né que 78 “Heleath 1B Safes atuam, de forma imbricada, cada uma das contradigdes mencio- nadas. Além disto, esta concepgio é extremamente importante para se entender o sujeito miltiplo (LAURETIS, 1987) e a motilidade entre suas facetas. Efetivamente, 0 sujeito, consti- tufdo em género, classe e raga/etnia, nfo apresenta homogenei dade, Dependendo das condigies historicas vivenciadas, uma destas faces estard proeminente, enquanto as demais, ainda que vivas, colocem-se a sombra da primeira. Em outras circunstén- as, seré uma outra faceta a tornar-se dominante. Esta mobili- dade do sujeito miiltiplo acompanha a instabilidade dos proces- sos sociais, sempre em ebuligéo. Pontos de referéncia Em face deste quadro teérico de referéncia, exposto ain- da que sumariamente, pode-se ressaltar certos pontos, fruto de reflexio embasada em dados empiricos. 1. A violéncia doméstica ocorre numa telag&o afetiva, cuja ruptura demanda, via de regra, intervengao externa, Raramen- te uma mulher consegue desvincular-se de um homem violen- to sem auxilio externo. Até que este ocorra, desereve uma trajetéria oscilante, com movimentos de safda da relagio e de retomo a ela, Este é 0 chamado ciclo da violéncia, cuja utilida- de 6 meramente descritiva. Mesmo quando permanecem na relagao por décadas, as mulheres reagem a violéncia, varian- do muito as estratégias. A compreensiio deste fenémeno € im- portante, porquanto ha quem as considere ndio-sujeitos e, por via de conseqiiéncia, passivas (CHAUY, 1985; GREGORI, 1989). Mulheres em geral, e especialmente quando sio vitimas de vio- Iéncia, recebem tratamento de nao-sujeitos. Isto, todavia, é diferente de ser ndo-sujeito, o que, no contexto deste livro, constitui uma contradictio in subjecto (contradig&o nos ter- mos). Como afirma Linda Gordon, “tem sido necessario mostrar que a violéneia familiar niio é a expressio unilateral do temperamento violento (Genero, patriareadovioincia de uma pessoa, mas é tramada conjuntamente ~ embo- ra nfo igualmente — por virios individuos no caldeirio da familia. Nao ha objetos, apenas sujeitos...” (1989, P. 291), Isto nao significa que as mulheres sejam cimplices de seus agressores, como defendem Chaui e Gregori. Para que pudes- sem ser cémplices, dar seu consentimento as agressGes mas- culinas, precisariam desfrutar de igual poder que os homens. Sendo detentoras de parcelas infinitamente menores de po- der que os homens, as mulheres s6 podem ceder, nfio consen- tir (MATEIEU, 1985). Trata-se de caso similar & relagio pa- tro—empregado. Este ‘iltimo nZo consente com as condigées do contrato, tampouco com o saldrio, mas cede, pois quase sempre é abundante a oferta de forga de trabalho e escassa a oferta de postos de trabalho, particularmente neste momen- to histérico. 2. As mulheres lidam, via de regra, muito bem com micro- poderes. Nao detém savoir faire no terreno dos macropo- deres, em virtude de, historicamente, terem sido deles ali- jadas. Mais do que isto, nZo conhecem sua histéria ¢ a hist6- ria de suas lutas, acreditando-se incapazes de se mover no seio da macropolitica (LERNER, 1986). Entretanto, quando se apereebem de que hé uma profunda inter-relagéo entre a micropolitica e a macropolitica, elas podem penetrar nesta iiltima com grande grau de sucesso. Na verdade, trata-se de processos micro e processos macro, atravessando malha social. Nao hum plano maero e um plano micro, como eréem certos intelectuais (GuATTARI, 1981; GUATTARI ¢ ROLNIK, 1986). Evidentemente, ha uma malha grossa e uma malha fina, uma sendo 0 avesso da outra, e néo niveis diferentes. A rigor, poder-se-ia dizer que os processos sociais apresentam dues faces: uma micro e outra macro, sobressaindo-se uma ou ou- iva, dependendo das circunstancias. Transmitindo as pala- was plano e nfvel a idéia de hierarquia, as pessoas poem logo © macro acima do micro, Esta nova terminologia pretende evi- BO Heldathi 8 Sais tar esta hierarquizagio, além de mostrar o emaranhado des- tes processos. E as mulheres sabem como tecer a malha so- cial, operando em processos macro € em processos micro. Converter a consciéncia dominada das mulheres (MaTHIEU, 1985) em detentoras deste conhecimento, certamente, aumen- taria seu némero na politica institucional e em outras instin- cias de decision making. 3. Violéncia de género, inclusive em suas modalidades fa- miliar e doméstica, nao ocorre aleatoriamente, mas deriva de uma organizagdo social de género, que privilegia o masculi- no. Diferentemente da taxionomia que divide os diferentes ti pos de espago-tempo em doméstico, da produgao e da cidada- nia (SANTOS, 1995), Propée-se, aqui, uma nova maneira de se conceberem estes fendmenos. O espago-tempo doméstico serd substitufdo pelo espaco-tempo do domicilio. Este se subdivi- de em espaco-tempo doméstico, espaco-tempo do trabalho resultante da produg&o antroponémica (BERTAUX, 1977), emi- nentemente, para nfo dizer exclusivamente, ferninino, e espa- go-tempo privado, do écio, da intimidade, quase totalmente festrito aos homens. Quantas sfio as mulheres com privacida- de, se a sociedade inteira considera dever da mulher cumprir 0 que no Cédigo Civil de 1917, recém-reformado, era chamado de débito conjugal (felizmente abolido no novo Codigo Civil), ow seja, ceder a uma relagio sexual contra sua vontade, a fim de satisfazer 0 desejo do companheiro? De que privacidade se pode falar se milhées de mulheres so literalmente estupradas no seio do casamento todos os dias, duas vezes por semana ete.? 0 espago-tempo da produgio ¢ muito restrito. Propde-se sua substituig&o por espaco-tempo piiblico. Finalmente, o es- paco-tempo da cidadania nao pode ser concebido separada- mente como se a cidadania s6 pudesse ser exercida na arena da politica institucional. Deve, ao contrario, penetrar os de- mais espagos-tempos para que, de fato, 0 ser humano passa desfrutar de sua condigo de cidadao em todas as suas rela- ges sociais. Pelo menos é esta a luta da perspectiva feminista, que busca ser o mais holistica possivel. Ginerm petrarsadoviléncia 81 4. Nido hé duas esferas: uma das relagdes interpessoais (relations sociales) ¢ outra das relagées estruturais (rapports sociaux), como querem certas feministas francesas e algumas brasileiras. No existe a classe social como entidade abstrata. Uma classe social negocia com outra por meio de seus repre- sentantes, que tampouco so entidades abstratas, mas pesso- as. Todas as relagdes humanas so interpessoais, na medida em que sto agenciadas por pessoas, cada qual com sua hist6ria singular de contatos sociais. Por mais que desejem desvincular- se desta histéria para representar sua classe, seu passado e sua singularidade pesam tanto que se chamam alguns de bons ne- gociadores e outros de maus negociadores. O mesmo se passa com as categorias negros e brancos. Afirmar que as relagdes de género sio relagdes interpessoais significa singularizar os casais, perdendo de vista a estrutura social e tornando cada homem inimigo das mulheres (DELPHY, 1998). Nesta concep- gio, 0 encontro amoroso seria imposstvel. E ele é possivel, apesar de os destinos de género ~ tracados pelas estruturas de poder ~ apresentarem muita forga. Em outros termos, nunca é demais realgar, 0 género é também estruturante da socieda- de, do mesmo modo que a classe social e a raga/etnia. Per- correndo a literatura sobre violéncia contra criangas e adoles- centes no Brasil, verificou-se que s6 as classes sociais eram tomadas como categoria histrica fundante, passando-se ao largo da raga/etnia e do género. Ora, sto palpaveis as diferen- gas entre as formas de violéncia que atingem brancos e negros, assim como meninos € meninas (SAFFIOTI, 1997b). O pri- vilegiamento da classe social obscurece as demais clivagens existentes na sociedade. 5. Também obscurece a compreensio do fendmeno da vio- lencia de género o raciocinio que patologiza os agressores, In- ternacionalmente falando, apenas 2% dos agressores sexuais, por exemplo, sio doentes mentais, havendo outro tanto com passagem pela psiquiatria, Ainda que estes também sejam con- siderados doentes mentais, para fazer uma concessio, perfa- zem, no total, 4%, 0 que é irrisério. O mecanismo da patologizagao a2 Heleiet Salo is, funcionando de ignora as hierarquias e as contradigbes soci forma semelhante a culpabilizagéo dos pobres pelo espantoso nivel de violéncia de diversos tipos. Imputar aos pobres uma cultura violenta significa pré-conceito e nao conceito. A violén- cia de género, especialmente em sues modalidades doméstica familiar, ignora fronteiras de classes sociais, de grau de indus- trializagao, de renda per capita, de distintos tipos de cultura (ocidental x oriental) ete. Alids, é mais fécil entender relagdes incestuosas quando, as vezes, nem mesmo um cobertor separa os corpos do que nas residéneias em que cada um tem seu pr6 prio dormitério. Esta questo da pobreza relacionada a violén- cia nio tem sido posta em termos adequados. Pode-se interro- gar a realidade, a fim de se tentar descobrir se as condicdes materiais que caracterizam a pobreza tém um peso significativo na produgio da violencia, Como desencadeadoras da violéncia, acredita-se que tenham uma fungi, como, alias, tem 0 dlcool. necessirio testar se o ser humano se habitua as circunstincias da miséria ou se elas Ihe causam estresse. Se confirmada esta ‘iltima hipétese, os pobres seriam agentes de mais violéncias que os ricos, nao por possuirem uma cultura da violéncia, mas por vivenciarem, mais amitide, situagées de estresse. Ainda que esta mudanca de ngulo de observaco tenha um peso extraor- dingrio, convém sublinhar que hé formas de violéncia s6 posst- veis entre os ricos. Haja vista 0 uso do patriménio, que homens fazem para subjugar suas mulheres. A ameaga permanente de empobrecimento induz muitas mulheres a suportar humilha- es e outras formas de violencia. Cabe, agora, a pergunta: 0 poder do homem rico, no uso do patriménio como mecanismo de sujei¢ao e/ou intimidagao da mulher para fazer valer sua vontade, néo compensa a eventual maior violéncia perpetrada pelo homem pobre, vivendo em condigdes materiais precérias? Cabe interrogar a realidade, a fim de se poder tomar posigio a respeito desta questdo. 6. Como a maior parte da violéncia de género tem lugar em relagGes afetivas - famflia extensa e unidade doméstica - acredita-se ser itil o conceito de co-dependéncia. ‘Genero patlaveado, violencia “Uma pessoa co-dependente 6 alguém que, para man- ter uma sensagio de segurenga ontologica, requer outro individuo, ou um conjunto de individuos, para definir as suas caréncias; cla ou ele nfio pode sentir autoconfianga sem estar dedicado as necessidades dos outros, Um rela- cionamento co-dependente € aquele em que um in duo esta ligado psicologicamente « um parc: atividades so dirigidas por algum tipo de compulsividade Isic]. Chamarei de relacionamento fixado aquele em que © proprio relacionamento € objeto do vicio” (GinDENs, 1992, p. 101-102) iro, cujas Sem diivida, mulheres que suportam violéncia de seus com- panheiros, durante anos a fio, so co-dependentes da com- pulsio do macho ¢ o relacionamento de ambos ¢ fixado, na medida em que se torna necessério, Neste sentido, & a propria violencia, insepardvel da rélagfo, que & necesséria. £ verdade, por outro lado, que ha mulheres resilientes (KOTLIARENCO, CACERES, FONTECHLLA, 1997), que nfo se deixam abater por condigdes adversa 7. poder