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PAUL TILLICH- RELIGION BIBLIQUE ET ONTOLOGIE Paul Tillich, sascido em 20 de Agosto de 1886 na Ale- manha ¢ falecido em Chicago em 1965, é um dos maiores tedlogos dos nossos dias. Eimbora grande parte da sua obra tenha sido escrita em lingua inglesa—visto gue a partir de 1933 emigrou para a América—a verdade € que a sua formagio espivitual foi profundamente marcada pela eultura universitéria alemi, Comecou por doutorar-se em filosofia em Breslau, licenciando-se depois em teologia com uma série de estudos sobre Schelling (1912). Professor de filosofia ¢ de teologia em varies universidades — Rerlim, Dresiten, Leipzig, Frankfiirt — prosseguiu a sua carreira docente na América ensinando «Teologia Pilasdficas em Nova lorque de onde transitou para a Universidade de Harvard. Em 1962 passou a reger «Teologian na «Divinity School de Chicago. I Consideramos Tillich uma das figuras mais notaveis do pensamento teol6gico contemporineo visto que, segundo cre mos, conseguit 1—Construir ume nova teologia. Nova porque: 1 — tal teologia se desenvolve através de uma nova estru- turagao iloséfica; 256 REVISTA DA FACULDADE DE LETRAS ~ FILOSOFTA 2—reclabora algumas nogses dogmaticas de fundamen- tal importdneia; 3—Ibe imprimiu uma dimensio dindmica afirmando © seu necessario contacto com a problemética tem- poral de cada homem em. «situacao» 1i—Por em evidéncia a necesséria importancia dos proble- ‘mas teolégicos para todo e qualquer homem, Estes néo séo velhos problemas ultrapassados, ndo so problemas exclusivos do sacerdote ou do pastor, Porque: 1—Sendo a doutrina de Deus «0 comego e o fim de toca a reflexdo teoldgicas' e, sendo ainda Deus eoncebido como o fundamento de todo o ser parecer que cada homem, enquanto consciente de que € ente, se encontraré pessoalmente compro- metido em face de Deus: para o negar ou para efirmar, —Se a fé «é 0 facto de sermos possuldes por uma preocupagio cltimas', por um interesse infinito, entio toda a existéncia humana parece marcada pela fé ou pela sua procura, mesmo quando se absolutiza o que ¢ relative, Tillich ¢ autor de muitas obras publicadas tanto em alemio como em inglés que tém sido traduzidas em varias Tinguas, entre as quais salientamos: Teologia Sistemdtica, A Coragem de Ser, A Dindmica da Fé, Teologia e Cultura, Religito Biblica e Investigagao da realidade siltima. E esta Gitima obra, na versio francesa intitulada Reli- gion Biblique et Ontologie que nos propomos analisar. Logo 0 titulo parece sugerir a seguinte pergunta: por- que rario nio teri o autor usado antes a expressio Cris- Hanismo e Filosofia? + Paul ‘ilies, Religion Bibique er Ontoowie, Presses Universitaires A Fragst, saiation Philsophiques, Pats, 2° ed, 1910, pig. 75 FO, ci pa. $2 PAUL TILLICH 27 © terme «Religide Biblica> foi escolhido, supomos pro- positadamente para evidenciar a sua posigio na actual con: trovérsia teoldgica em torno da questio do conceito de religiso e da legitimidade da sua adequaco ou inadequacso ap Cristianismo. ‘A expresso 1a su publienclo em lingua ingles. Cl Jean-Paul Gabos, svertinenen, sn Reliion Biblque et Onotoge, P. Us Fy Paris, 197. 258 REVISTA DA FACULDADE DE LETRAS —FILOSOPIA 3—Desenvolvimento dos aspectos positivos dessa con- frontagéo; superagio das antinomias aparentemente inelu- taveis que opéem religiéo biblica e filosofia em ordem a uma sintese realizadora de uma unidade. Tremos agora analisar os pontos fundamentals que aca- bamos de sublinhar na reflexio de Tillich. © que entende 0 autor por religiio biblica e por filosofia? Comecemos por esta ultima questio. A filocofia € uma investigagio noética que necessaria mente pie € resolve a questio do Ser. Em que consiste a questio do Ser? Segundo Tillich (é evidente a influéncia das concepcées de Heidegger no pensamento de Tillich rela- tivamente a esta questio) tratase de saber qual ¢ a reali dade tiltima, quer dizer, qual o fundamento de tudo quanto 6 0 que € 0 Ser em si e por si, 0 que ¢ 0 Ser dos sendos. Esta é a fundamental questo da filosofia e, por isso mesmo, a filosofia &, essencialmente, ontologia. Porventura poderse perguntar se esta concepeso de filosofia ser a tinica valida, se acaso nao se poderao admitir concepsées nio-ontologicas da filosofia como, por exemplo, © positivismo logico, o empirismo, etc. Tillich responde nega: tivamente & interrogacio. No seu entender as filosofias nio- -ontolégicas autodestroem-se porque contém em si, inevita velmente, de uma forma implicita ou explicita a propria questéo do ser por elas considerada imitil © supérflua © conieido conceptual do termo filosofia & aclarado © desenvolvido mio s6 através da caracterizacéo da atitude filosética como ainda através da relacionagio entre a exis ‘éncia humana ¢ a questo ontol6gica. Porque razio poe o homem a questio do Ser? Porque € 0 iénico ente finito que, ao mesmo tempo, tem consciéncia da sua finitude. Sendo finito, o homem é um sere simulténeamente nio € 0 Ser. Sendo consciente da sua finitude necessiria mente pée a questio do Ser, isto é a questéo do funda. mento que funda 0 seu préprio ser. Se assim ¢, a filosofia, enquanto investigagéo da rea: lidade ultima, teri de considerar-se consequéncia necesséria do proprio estatuto Ontico que define a existéncia humana. PAUL TILLICH 259 Por isso Ti fildsofos* Mas qual o significado rigoroso desta expressio? Querera dizer que cada homem, por natureza, 6 filésofo em sentido estrito? No mesmo exacto sentido em que se diz serem fildsofes, por exemplo, Kant, Hegel, Descartes, S. Tomis © Lantos outros? Parece nao ser esse o ponto de vista de Tillich. Com feito ele distingue entre filosofia, em sentido estrito, isto 6, metodolbgicameate elaborada, ¢ em sentido lato, que englo- baria formas préfilosoficas de pér ¢ resolver a questo do Ser. Relativamente a este ultimo significado escreve: «Quem ‘quer que seja que participe na linguagem, na arte, no culto, na vida social de uma determinada cultura colabora na criagio da sua filosofia ¥ um fildsofo préfildsofo, Tal é a situagio da maior parte dos homens, mesmo depois do aparecimento de uma filosofia metédicae Segundo Tillich, havera uma relagdo de reefproca depen- dencia entre a filesofia, em sentido estrito, e a préfilosofia, Completando a sua caracterizagio da filosofia analisa ainda a atitude filoséfica. Dois tragos “undameniais a definem; por um lado, 0 ldsofo assume uma posigao teorética quando procura conhe- cer ¢ investigar a realidade ultima; por outro lado, dessa investigagio depende o sentido do préprio existir do fildsofo f, por isso, ele esté nela irvemediavelmente comprometido, Desta maneira, filosofar é sirmultfneamente teorizacio ¢ empenhamento existencial Em resumo, a filosofia é um caminho de encontro entre fa realidade humsna, necessariamente finita ¢ a realidade liltima, 0 Ser em si, necessiriamente infinito e universal th afirma que « O homem ¢ por natureza © Paul Tiich, Religion Blbtigne st Omologie. PU. Fy Initiation Prhilosophique, Paris, 1970, nS. 1 "Ob, elt, i, 19. 260 REVISTA DA FACULDADE DE LETRAS —FILOSOFIA Vejamos agora qual 0 conceito de rel exposto nesia obra. Notemos em primeiro lugar a sua dialecticidade; por um lado hé uma revelagio divina e por outro hé uma neces: saria receps’o humana do revelado; ambas, no dizer de Tillich, formam «um todo indissolivels Por este motivo «A Biblia € o documento da auto: manifestagio divina c, a0 mesmo tempo, do modo como os homens a receberams', Logo a seguir a esta determinagio conceptual Tillich conclui que as nodes expostas so suficientes para esta- belecer «...8 possibilidade © a necessidade de wma con- frontagao entre a religido biblica e a filosofiay ‘Supomos que a raziio de ser de tio terminante assersao se deve a0 facto de tanto a religiio biblica como a filosofia se apresentarem como pontos de encontro e de ligagdo entre fa finitude do homem e 0 infinite de uma realidade dltima, Postulada a necessidade de uma confrontagio, vejamos quais so os elementos que Tillich indica para caracteri zar a religiao biblica em oposicae com a ontologia ", Na medida em que toda a religiio personifica o Sagrado" © personalisino sera, por isso mesmo, uma nota essencial da religido biblica. Contudo, algumas caracteristicas © diferenciam do personalismo de outras religides E de evidenciar o caricter radicalmente pessoal que define a relagéo do homem com Deus. Nesta relagio nem © homem nem Deus podem ser concebidos como objectos —a cousificigio de um deles destruivia irremediavelmente qualquer ligagso possivel. Quer isto dizer que na relagdo com Deus ¢ homem tera de ser considerado como wma © ob et. pag. 1S * ob a pags © Ob et, nie 16. % aTentende donner en falt une description dex tits de fa retigion Dibigue qui entre inévitaement en confit avec Vantologes. Ob clr. pas. 20 Ob, es née 30 PAUL TILLICH 26 pessoa, isto €, como um ente «dotado de racionalidade, de liberdade e de responsabilidade> ® Desta caracteristica decorrem ainda dois tragos a salientar. A relagdo entre 0 homem © Deus é uma relagio de livre teciprocidade 2, por isso, um imponderavel dinamiza, or isso essa relacio ¢ alheia a qualquer espécie de deter Depois € necessério considerar a palavra como uma concretizagio actualizadora de toda a relagio pessoal e, por consequéncia, ainda da relagio do homem com Deus. Os elementos referenciados sio suficientes, na opintéo de Tillich, para legitimar a afirmagdo de uma antitese entre religiao biblica © cntologia. Com efeito, como seré possivel que 0 Deus de Jacob © Abraao seja a realidade tiltima que o filésofo procura? Se esta realidade € @ fortiori impessoal, se esta reali- dade 6 0 Ser em si, pareceré entio que cla nfo € nem poder sero Deus Pessoal da religito biblica Por outro lado a ontologia néo se estrutura através do contacto com uma Palavra revelada, «A ontologia pensa através de outras categorias. O Ser em si esta presente em tudo o que é, e tudo o que ¢ participa do Ser. Nos dirigimos a palavra a alguém para © qual nos voltamos, mas parti cipamos em algo cnde estamos enraizados» " Por iiltimo «Nada parece contradizer mais 0 conceito contologico de «Ser» do que a referida reciprocidade de Deus e do homem... Como é que o Serem-si pode concentrar-se numa relagéo reciproca com um ser particular? Como é que um ser pode influenciar © fundamento do ser, no qual © pelo qual ele exis:e? Como pode 0 Serem-si mudar se ele, por definigdo, transcende as categorias da mutagio tais como, © tempo, o espaco, @ causalidade, a substancia?s 08. et. ie 1 Ob ci pas 3 Ob cite wie 3 262. REVISTA DA FACULDADE DE LETRAS —FILOSOFIA Estas, porém, no so as tinicas antinomias que Tillich considera na sua’ confrontagio. Outras serio apresentadas ainda (© personalismo biblico coneretizase também de uma forma essencial pelas doutrinas da criaglo, da incarnagio © da historicidade escatol6gica do rea Ora, segundo Tillich, a ontologia parece excluir a ideia de criagio porque esta implica separagio entre o finito criado e 0 infinito criador © aquela pressupde antes a ideia de uma participagio dntica do finite no infinite, participacio afinal que seria uma forma de identidade. De igual modo a ontologia aparece como alheia e oposta & douirina da Incarnagdo na medida em que Cristo € 0 Logos feito homem, isto é, € 0 Logos feito realidade con- creia, pessoal e histérica enquanto 0 Logos da filosofia € universal, geral, impessoal. De acordo com a religiio biblica € historica toda a realidade, processando-se segundo uma concepgiio de tempo irreversivel, com um comeco © um fim, A histéria imanente a toda a reolidade é a historia da salvacso ‘A ontologia em contrapartida procura analisar as estru turas imutivels do real ¢ a sua perspectiva sendo estética 6, necesshriamente, anti-histérica, ‘A estas antinomias que podemos considerar de indole predominaitemente objectiva, Tillich faz seguir as que deri vam de uum confronto entre as concepcdes antropolégicas especificas da religivo biblica © as exigéncias préprias da ontologia. ‘A religdo do homem com Deus absorve e domina toda fa existénci cristd. E sendo esta relagio, como vimos, emi- rentemente pessoal, seguese que a existéncia do homem seri uma existéncia étiea Quer isto dizer que cada homem se encontra, a cada asso, perante uma trigica e irremediivel decisio porque nela esta em jogo 0 seu destino eterno. ‘A sua escolha teré de ser: por Deus ou contra Deus. Este caricter ético que penetra toda a existéncia humana encerra em si uma exigéncia de amor fratemo, por amor de Deus (agapé), que se dirige de uma forma PAUL TILLICH 263 conereta a cada dualidade. E qual & 4 situacso do filésofo? ‘Ao invés ele dirige a sua paixio para as esséncias interoporais, para o universal, © sew amor € um amor a sabedoria impessoal cuja plenitude seria... unio mistica com 0 Uno onde todo 0 conereto desapareceu» Na procura éa realidade wltima o fildsofo teré de por em questo a concepedo natural e espontanea do mundo, fas crencas ¢ tradigées da comunidade a que pertence; a dvida radical separao de toda a gente © 0 seu eros € dirigido para algo que transcende, por fora, o plano da colectividade. O seu isolamento parece, portanto, ser irredutivel ‘0 homem de fé, esse, mesmo na méixima solidao tem de encontrarse religado pela agape ao seu semelhante, © que acabamos de dizer parecerd bastante para tor nar patente o alheamento da ontologia ao universo de preo- cupagées éticas, expresso nas concepebes.btblicas " Dois termos -evelam esta indole ética e tedndrica —fé © pecado. Para Tillich a fé, segundo a religiio biblica, nao deve ser interpretada numa perspectiva intelectualista nem volun: tarista. Na sua definigio tormase evidente a accio de Deus, através da sua _graca. Mas isto ndo obsta a que no acto de fé © homem se empenke totalmente: #A vontade, a inte ligencia e 0 sentimento participam nele»”. Pela fé 0 homem religa-se a Deus na medida em que Deus é a preocupacio sltima que o possui, Este caréeter incondicional e absoluto da f& reconcilia 0 homem com Deus depois do pecado. O pecado & a nogacio da fé. eA essén- cia do pecado € a incredulidade, 9 facto de estarmos sepa- rados de Deus, a fuga para longe dele, a rebelido contra ele, oa, tomada na sua unicidade e indivi. 1 Ob. cit pig 2 2 Ob, it, pigs 8-48, Ob. cit pig 53 264 REVISTA DA FACULDADE DE LETRAS — FILOSOFIA 1 promocio de interesses preliminares & categoria de inte- Pelo pecado 0 homem alienowse [A sua natureza original tornowse outra, pervertewse, Essa alienagio atinge 0 homem na sua totalidade e, por isso, as sues capacidades cognitivas foram também atin- gidas. ‘86 a {é & fonte de conversio auténtica através da ‘qual o homem encontra a autenticidade do seu proprio ser e nesta a plenitude da sua razio. «Quer isto dizer que a 6 triunfando do pecado pela reconciliagso com Deus que origina um homem novo, deve preceder a pesquisa da rea- lidade tiltima, O Ser em si s6 pode ser atingido nesta nova condigao» Mas poderd o filésofo accitar esta situacéo? *A ontologia apela para o poder da razio humana. Ela_nio pos 0 problema do pecado e da salvacio. Nao distingue uma razio original de uma razio pervertida; no considera também uma razio renovada (...). A Biblia critica uitas veres a filosofia nfo porque esta faca apelo & razio mas porque faz apelo a uma raza0 que nao foi regenerada pelo conhecimento de Deus», Com a exposicio destas antinomias termina Tillich a etapa negatva da sua confrontacio, Mas a oposi¢io que vincadamente foi assinalada entre religiéo biblica e ontologia sera uma ofosi¢ao auténticamente insuperivel? Nao haverd tuma vie de acesso capaz de realizar uma sintese superadora? A obra que estamos a analisar procura justamente defender a possibilidade © a necessidade da sintese e da unidade entre religito biblica e ontologia. Igualmente afirma existir entre ambas uma profunda fnterdependéncia a tal ponto que qualquer uma necessita da outra para a sua propria realizacao”. 1 Ob. ait, pig. 58 © ob. a, pig. 55. 0, os pie 5S. Ob, pas. 13 6 38 PAUL TILLICH 265 Vejamos agora quais sero os elementos que, segundo Tillich, definem essa inter-relagao positiva. O ponto fulcral da sua argumentasdo situa-se nas consideragées sobre a fé, a-davida © a questi ontolégica®. Se a f€ é 0 facto de sermos possuidos por um interesse filtimo; se a questio do Ser & a preocupagao ultima do filésofo; entio tanto © filésofo como © homem de fé pos- suem +. preocupagdes que tm um cardcter igualmente incondicional»®, ‘Mas no ¢ possivel a coexisténcia de duas preocupagdes iltimas (de esta hipétese decorreria 0 carécter naoniltimo de uma delas ou das duas). «a realidade uma compreende a outra. A preocupagio iltima do crente referese ao que é verdadeiramente tltimo , portanta, ao fundamento do seu ser, aquilo que Ihe con- fere um significaco. Ele poe implicitamente a questao da realidade dltima ¢ deve admitir, como todo 0 cristtio 0 faz, que os simbolos éa sua preocupacdo dltima implicam uma resposta & questo da realidade ultima. Enquanto crente ndo se preocupa com a investigag’o ontolégica; ele preo- cupa'se somente com a verdade, Mas a verdade implica uma realidade altima. Deus deve ser a realidade tltima para ser objecto de uma preocupagao incondicional» *, Portanto «A fé compreende a questio ontoldgicas * Mas a quesiio ontolégica e a sua investigagao. impli- cam uma atitude de divida radical Como conciliar a fé com a divida? Como incluir a diivida na fe? E que, para Tillich, a Fé no & 0 mesmo que certeza absoluta, porque ela propria nfo é evidente, nem provavel, nem pura crenca, A fé é uma tensio entre ser possuido por algo de incondicional ¢ a dtwida sobre isso mesmo. Af implica sempre, por consequéncia, um risco de incer- Ob: cits pis 57-60, = Ob, cit pe. 57 % Ob ci pes $758, Ob. eit, pe 58 266 REVISTA DA FACULDADE DE LETRAS — PILOSOPIA teza. For isso a fé inclui a divida que a questéo ontolégica envolve ¢, nessa medida, inclui também esta mesma questéo +Acreditar é, portanto, unir a fé ¢ a questio ontolégica que pressupée a clivida radicals”. Tillich procura, seguidamente, reforcar a unidade que estabeleceu entre a religiio biblica c a ontologia tentando fa superagio de cada uma das antinomias jé analisadas e referidas, Primero aborda a série de antfteses que denominou de indole subjectiva Perante a concepsio teoldgica da razio humana alie nada pelo pacado e oposta anteriormente & concepeio filo: séfica da raio 0 autor, invertendo agora as_perspectivas passa a afirmar: «Uma analogia espantosa desta concensso teolégica € apresentada pela histéria da filosofia. Alguns os maiores ontologistas falaram de uma forma muito pré- xima da Biblia» Haveria uma comversio filosdfica através da qual tam- bbém se realzaria a regeneracio da razéo humana mergu- Jhada num mundo de aparéncias, num «sono dogmatico» Neste sentilo & necessirio dizer que existe no filésofo, néo uma {é em doutrinas definidas (...) mas esta fé que € 0 facto de ser possuido pela realidade ultima>®. Quanto, & oposigdo entre a liberdade do decisio pre: pria da ética © a ontologia, escreve Tillich: «No capitulo precedente, a liberdade parecera-nos um conceito ético e © desiino um conceito antolégico. O conceito religioso de graga_mostianos (...) que no é assim: 03 conceitos de Iiberdade ¢ de destino pertencem um e outro tanto a onto logia como @ ética © cles s4o transcendidos ¢ reunidos 1 simbolo religioso do pecado e da gracas™ 0b. ete pie 58 0b, cits pie Ob, cir, pe 62 Ob. it, pig, 6. Ob, etapias 6465, PAUL TILLICH 267 Além disso ¢ distancia entre Deus ¢ 0 homem pressu posta pela liberdade de decisio e que se contrapunha & Participacao ontoldgica & superada, segundo o autor, pela nopao religiosa do amor. 0 amor de Deus € a Deus é também uma forma de perticipacao. Tillich termina a sua reflexio em torno de uma tentativa de harmonizacéo das antiteses relativas aos aspectos subjectivos, j4 referidos, procurando mostrar que nem 0 eros isola em absoluto o filésofo nem a agape do homo religiosus exclui «0 jsolamento da situaggo dltima»” em que se encontra, Passando a considerar no iiltimo capitulo desta obra «0s problemas ontoldgicos implicados pelo aspecto objective da religiao biblicas, Tillich procura anular no primeiro paré- grafo as oposighes, por ele expostas, entre a investigagéio do Ser em sie a: doutrinas da criagio, da incarnagio e do eschaion. Fazendo referencia aos problemas e respastas ontolé- gicas que estas doutrinas implicam julgamos que 0 autor, porventura, considera esta implicagio um argumento a favor de uma naooposicao entre ontologia ¢ religiio biblica Assim a propésito da criagao salienta que ela suscita @ questéo manifestamente ontoldgica das relagdes entre 0 Logos eterno e 0 universo do real; a propésito da incar- hago chega mesmo a sustentar que «O nome de #Jesus Cristow implica uma ontologias * (relacio entre a universa- lidade do Logos a unicidade de uma pessoa); a propésito da escatologia aftrma que esta envolve o problema onto: ligico da relagdo entre © tempo e a eternidade. No segundo pardgrafo confrontase o personalismo da relagio divino-humana com a investigacio da realidade diltima Deus manifesta-se ao homem pela sua palavra e esta & «....um evento criado pelo Espitito divino no espirito humano, (..) Bla ¢ uma expressio do Deus vivo. (...) A Palavra um elemento da realidade dltima; ela ¢ 0 poder do Ser manifestando-se em formas diversas...» 2 Ob. cit, pi. 66 = Ob et, pe 7h 3 Ob, ein pin. 7% 268 REVISTA DA FACULDADE DE LETRAS — FILOSOFIA Por isto a Palavra «...€ ontolégica nas suas implica: geese, Mas a relagio pessoal divino-humano concretizase ainda, conforme vimos, por uma livre reciprocidade que a onto. logia parece contradizer. No entanto, observa Tillich que 0 préprio Deus trans- cende a sua relagio com 0 homem, «Deus na reciprocidade divinohumana sé pode ser aguele que simulténeamente transcende e compreende os dois termos da reciprocidade. Tal € 0 limite dos simbolos da reciprocidade. Ele torna 8 questiio ontoldgica necesséria» ®, na medida em que Deus surge, nocessariamente, como realidade dltima, No terceiro ¢ ultimo parigrafo comega por sustentar ‘que a quesido ontoldgica logo surge na prépria afirmacao crist da existéncia de Deus. (© que significa ¢ quando reportado a Deus? Sem divida que na religiso biblica Deus surge como uma pessoa, Contudo sera possivel que Deus como pessoa seja apenas um ser particular, uma pessoa entre outras? Se assim fosse o caracter de absoluto que the € atri- bbuido desapareceria. Por isto Deus como Pessoa tem de ser também, para além disso, 9 Ser em si, o fundamento diltimo de tudo quanto é, fundamento que no entender de Tillich «.. como tal no € uma pessoa». Por consequéncia para o autor Deus «...é uma pessoa © a sua prépria negacio como uma pessoa» ”. Deste modo se processa 0 encontro da religido biblica com a ontologia, visto que Deus, afinal, também é a reali- dade Ultima, absoluta ¢ transpessoal que o filésofo procure. Fis porque o autor declara: «Sem as filosofias que abordaram a questio ontolégica que formuldmos, a teo- 2 Ob. city ple. 73 3 Ob. ela wig. 75 © Ob et. Ble. 7 = bce, pds 18 PAUL TILLICH 269 Jogia crista teria sido incapaz de explicar a natureza do ser de Deus aqueles que desejassem saber em que sem fido se pode dizer que Deus €*. E ainda que «...0 pro- blema da salvacio implica a questio ontologica>”. E eis, jgualmente, © motive porque afirma: «Contra Pascal, digo: © Deus de Abraio, de Isaac e de Jacob, © © Deus dos filéscfos, é 0 mesmo Deus» ® Com a exposiglio das teses que acabamos de referir © autor termina este sen estudo sobre «Religido Biblica € Ontologia», Tratase de um trabalho extremamente suges tivo e rico em pontos de vista que sintetiza alguns aspectos fundamentais do pensamento de Tillch Com efeito © problema das relagdes entre filosofia © teologia ¢ um problema central de toda a sua obra e, nna sta opiniio, um problema fundamental da propria teo: logia sistematica*®, Sem pretendermos proceder a uma ané lise exaustiva do volume de Tillich vamos consagrar-the agora algumas consideragées eriticas que nos parecem pertinentes. mr 1—Como dissemos, © autor declara que 0 objective fundamental do seu estudo € estabelecer uma interdepen- entre religido biblica © ontologia. Ora_interdepen- ica dependéncia reciproca. E se Tillich expoe argumentos de viria indole provando ou tentando provar ‘que a ontologia & condicio necesséria da religito. biblica, enguanto compre:nsio da revelacdo divina, a verdade ¢ que neste estudo nfo vislumbramos qualquer reflexio no sentido de mostrar a dependéncia da ontologia em relagao & religiéio Diblica. Ob, cit, phe 76 8 0b. ele, pis. 78 © Obs clin pis. © 0b, elt, pig. 11; Thotogie Syténaique, fons Plants, Pais, 1970, ‘Tome I, pig. 1-130 200 REVISTA DA FACULDADE DE LETRAS — FILOSOFTA 2—A unidade ¢ a sintese entre religiéo biblica e filo- sofia parece ser estabelecida em fungio do cardcter igual ‘mente incondicional e Ultimo que assinala tanto a preocupaczo do filésofa como a do homem de f&. Ora desde que, segundo Tillich, nfo € legitima a coexisténcia de duas preocupagdes: ‘iltimas, visco nesta hipétese uma delas ou ambas nao serem verdadeiramente iiltimas, entio seguirse-ia que uma engloba a outra, E como uma auténtica preocupagdo incondicional © filtima se dirige necessiriamente a uma realidade também. filtima, 0 Deus da religiio biblica hé-de ser também o Ser em si que 9 filésofo busca, Tulgamos que esta argumentacio € falaciosa. Em primeito lugar pressupde-se, sem andlise nem dis cusstio, a validade da preocupacio ultima do filésofo © do homem de fé. ‘Em segundo Iugar o autor transita de um plano mera- ‘mente intercional para un plano ontoldgico. Se uma preo cupacio for intencionalmente ultima no se segue que ela tenha de representarse @ uma realidade e muito menos a uma realidade ultima, Em terceiro lugar poderemos mesmo admitir a hips tese de que duas preocupagdes igualmente iltimas visem intencionalmente objectos diferenciados. © carécter wltimo incondicional de uma preocupaciio @ nosso ver exclusivamente formal. 3—Péra ajuizarmos a medida ¢ a forma de depen- déncia da wligifo biblica em relacdo & ontologia impéese a anélise da justeza do conceito de ontologia que o autor perfilha, Saliendmos ji a identidade que Tillich praticamente cstabelece entre filosofia ¢ ontologia. A questo do Ser mono- polizaria toda a investigagio filoséfica. E a atitude de divida radical constituiria uma condigéo necessiria para por a questo que pergunta pelo Ser ‘A este propésito notemos que: a) Nio parece compativel uma atitude de duvida cal com a pergunta pelo Ser. Esta pergunta sendo entendida PAUL TILLICH m7 por Tillich, na esteira de Heidegger, como a pergunta pelo Ser dos entes, pelo fundamento de tudo quanto existe, im- plica uma néo-dtvida acerca da existéncia dos entes. Se, porventura, fosse duvidosa a sua existéncia ent2o ndo se perguntaria em primeiro lugar pela razdo do seu exists mas farseia antes a pergunia prévia acerca da sua exi téncia ou inexisténcia, Quer dizer que a radicalidade da diivida filoséfica parece impor que o proprio existir dos entes seja problematizado até A maxima ¢ inultrapassével duivida acerca do que parece & aparece como existente. ‘Admitimos que se nos possa objectar que seria a res- posta positiva ou negativa & questéo do fandamento do ser que conferiria validade a afirmagéo da existéncia ou ndo- -existéncia dos entes, Nessa medida a pergunta pelo Ser ‘no teria como pressuposto a afirmacéo da existéncia dos entes®, Pensamos que esta objeccio assenta numa interpreta: 0 que nio é consentdnea com o tcor da pergunta. Esta 56 teré sentido admitindo a prévia exisiéneia dos entes. 5) Aceite « necessidade de uma diivida radical metédica consideramos que a filosofia niio pode ser redu- ida a uma ontologia, ‘Uma perspectivacéo gnosiolégica torna-se indispensaivel. ¢) Se 0 autor entende que ha formas de por e resol- ver a guestio do Ser que nfo sto filoséficas, perguntamos eto como pode esta questio caracterizar essencialmente 2 Filosofia? E mesmo que esta questo fosse exclusivamente filo séfica pensariamos ainda que a filosofia seria insuficien temente definida sem uma refereneingio bastante ao método que lhe ¢ proprio, método esse através do qual essa mesma pergunta seria formulada e resolvida Esta deficiente caracterizacio metédica da filosofia © fa simulténea referencia as formas pré-iloséficas de por € resolier a questo do Ser poderio acaso sustitar a seguinte + Vejate Hellegacr, Imrodneion ole Métaphysiqne Gallimars Paris, 1967, pigs 39, £0, 4), 42 © 43 272 REVISTA DA PACULDADE DE LETRAS —~ FILOSOFTA dvida: os problemas filoséficos e respectivas solusies que © autor afirma incluidos na propria fé e nos seus simbolos sero, na verdade, problemas € respostas de indole estrita- mente filoséfica ou serio antes problemas postos ¢ resol- vidos pelo puro pensar teolégico? Por outras palavras: a questio do Ser tal como ¢ posta e resolvida pela teologia poder identificarse com a ‘questo do Ser tal como & posta e resolvida pela filosofia? 4) Julgamos ainda deficiente a argumentagio apresen- tada por Tillich para justificar a reducio da filosofia A onto- logia. Com sfeito sustentar que as filosofias que pretendem ser ndo-ontolégicas pressupdem afinal sempre uma concepcio acerca do Ser s6 provaria que toda a filosofia tem de ser ontolégica, mas no prova que a filosofia seja apenas onto- Toga 4—Vérias das antinomias que Tillich formula entre religido biblica e ontologia so antes antinomias entre eertas concepeées ontolégicas © a religido biblica. Assim, por exemplo, a antitese entre o Ser coneebide como absoluta- mente atemporal ¢ imutével © a concepgio historica escatolégica da religiio biblica é afinal uma oposico que resulta apenas do conceito de Ser de algumas ontologias © nfo da ontologia, em si mesma considerada, Tgualmente a antinomia entre a doutrina da eriagho, que supse uma diferenciagio radical entre Deus e 0 homem, © a ontologia que identifica o finito e o infinite, reduzse fem Glima andlise a uma antinomia entre uma concepcio panteista do Ser—que esti longe de ser aceite por todas as ontologies —e a ideia de um Deus Criador. Sem divida que Tillich néo deixa de referir isso mesmo ‘a propésito de algumas antinomias que formulou. Nessa medida, implicitamente, reconhece que elas sfo afinal pseudo- -antinomias entre religiio biblica e ontologia. Mas entio rio vemos nenhuma razio para terem sido apresentadas como antinomias na sua confrontacio, 5—E de acentuar ainda que © autor nem sempre ‘consegue solucionar aquelas efectivas antinomias que aborda frontalmente. Eo caso, por exemplo, do conflito entre a PAUL TILLICH mm concepeéo teolégica da razio humana como essencialmente decaida e a concergéo filoséfiea para a qual as capacidades da razdo nao tém um necessdrio limite resultante do pecado. (© autor para superar ésta oposico apenas nos diz haver uma conversio filoséfica andloga & conversio religiosa, Ora pensamos que a mera afirmagio de situagdes paralelas no pode constituir a superagéo de nenhuma antinomia. 6—A definigio que o autor dé de «pessoa» afigura: ‘senos demasiado restrita pois se circunsereve a individu lidade humana®. For conseguéncia nfo vemos como poder ser legitima a afirmago que Deus & uma Pessoa. A nosso ver tornarseia necessirio apresentar uma definigiio mais ampla que permitsse abranger simultineamente 0 homem © Deus. Supomos intl saliemtar que as observagies leitas niio pretendem de nenbum modo diminuir o real interesse filo- s6fico que esta obra incontestavelmente posst Por altima julgamos conveniente acentuar, também, que a sua leitura e compreensio se tornam imprescindiveis para ‘uma perfeita inteligncia do sistema teol6gico de Paul Tillich Maria Carmelita Homem de Sousa 9 Ob city wig 3h