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  • 782 À PROCURA DO CENTRO DIVINO

exemplo. A esta luz nada poderia indignar mais do que pretender explicar historicamente aqueles defeitos, uma vez que tal explica- ção privaria por inteiro a poesia da força normativa em que se ba- seia a sua pretensão a guiar os homens. se pode medi-la por uma norma absoluta, e por isso em face dela não se pode assumir senão uma de duas atitudes: ou demitir-se ou submeter-se ao pre- ceito da verdade, que Platão lhe propõe 83 . Esta verdade é a mais completa inversão do que nós entendemos por realismo artístico e do que já existia como tal na geração anterior a Platão. Do ponto de vista da filosofia platônica, a representação da lealdade e da fraqueza humanas ou dos aparentes defeitos da ordem divina do mundo capta apenas a aparência da realidade, não a sua essência. E apesar de tudo isto, porém, nem sequer passa pela cabeça de Platão que a poesia, considerada como potência educadora, possa ser substituída pelos conhecimentos abstratos da Filosofia. Pelo contrário, a raivosa tenacidade com que ele trava o combate tem a sua mais profunda razão de ser na convicção de que a força educa- dora das imagens poéticas e musicais provadas pelos séculos é insubstituível. Segundo Platão, mesmo que a filosofia fosse capaz de descobrir o conhecimento redentor de uma norma suprema de viver, a sua missão educacional só seria cumprida pela metade, enquanto não se infundisse, como alma, às figuras plasmadas e plasmadoras de uma nova poesia esta nova verdade. Não é só no conteúdo, mas sobretudo na forma, que se apóia o efeito da obra das musas. Isto justifica a estrutura da crítica pla- tônica da cultura musical anterior e a sua divisão em duas partes fundamentais: uma sobre os mitos e outra sobre o estilo da lin- guagem84. Tem extraordinário encanto a inquirição sobre o estilo da linguagem (MÇtç) na poesia, pois nos descobre e nos apresen- ta como conceitos firmes na literatura grega certos conceitos fun- damentais da poesia que não voltamos a encontrar enquadrados numa grande conexão sistemática até chegar à Poética de Aristó- teles. Todavia, não é por causa dela que Platão traça uma teoria

  • 83. Rep., 391 D.

  • 84. O estudo dos mitos termina em Rep., 392 C. A ele se liga a crítica do esti-

lo da linguagem.

 

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A REPÚBLICA - l

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da arre poética, mas a sua poética é simplesmente uma crítica da paesia considerada como paidéia. Enquanto até então derivara to- das as arres de uma raiz comum, o desejo de imitar8 5 , aqui repa- ramos que, ao propor a divisão dos tipos de expressão poética, o conceito de imitação se emprega no sentido mais estrito de imi- tação dramática. Os tipos de expressão poética dividem-se em:

1) as simples narrações, como o ditirambo, por exemplo; 2) a imitação dramática; 3) a mistura de narração e imitação em que o eu de quem narra se oculta, como na epopéia, onde alternam a narração e os discursos diretos dos heróis épicos, ou, o que é o mesmo, um ele- mento dramático 86

É evidente que Platão não podia esperar que este ponto de vista fosse compreendido sem mais pelos seus leitores; a sua ma- neira de encarar o problema é nova e profusamente ilustrada por ele, à base de exemplos da Ilíada. Também aqui se coloca o problema de quais destes tipos devem ter acolhimento no Estado ideal, problema para cuja solu- ção são dado decisivo, pura e exclusivamente, as necessidades de educação dos "guardiões". Numa aplicação rigorosa do princípio de que cada um deve dominar a fundo a sua profissão, sem se de- dicar a nenhuma outra coisa, Platão declara que a tendência e a capacidade de imitação de muitas coisas variadas é incompatível com as qualidades de um bom "guardião". Na maioria dos casos, nem sequer um ator trágico é capaz de representar bem a comé- dia, e um recitador de epopéias raras vezes está em condições de desempenhar um papel dramático 87 A dos "guardiões" deve ser

  • 85. Isto se verifica, ainda que tratado rapidamente, em Rep., 373 B. Cf. tam-

bém a idéia da imitação (EiKáÇEtv) em 377 E, que é compartilhada como missão

pelo pintor e pelo poeta.

  • 86. Rep., 392 D. O conceito da imitação que Platão toma como base nesta

classificação dos gêneros da arre poética não é a imitação de quaisquer objetos na- turais pelo Homem, mas sim o faro de que o poeta ou o pintor se rornam parecidos (Ój.LO\OÜV eaui:óv ), como personalidade, em todos aqueles casos em que não falam

por si mesmos, e sim através de outrem.

87.Rep., 395 A .

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