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mensal n.o 59 abril 2017 fundação josé saramago

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3– editorial
25 anos da censura
ao Evangelho de José
Saramago
5– Leituras
Sara Figueiredo Costa
12– Estante
Sara Figueiredo Costa
Andreia Brites

19– Yu Hua
Sara Figueiredo Costa
33– Augusto Boal:
o exílio em cartas
Lyza Brasil 42– A Casa da Andréa
Andréa Zamorano

47– A Andante caminha
pela literatura
há 18 anos
Andreia Brites
61– And The winner Is...
Andreia Brites
62– Visita Guiada
Orfeu Negro
Andreia Brites

76– Espelho Meu
Andreia Brites
80– Saramaguiana
Um capítulo para o
Evangelho 92– Agenda
No dia 25 de abril de 1992, data em que se celebrava a maiorida- Lanzarote, nas Ilhas Canárias. «Saímos de Lisboa em consequên-
de da revolução que trouxe a liberdade de volta à Portugal, o país cia de uma atitude do Governo, não do país nem da população.
acordou com uma surpreendente notícia difundida em primeira Nunca tive problemas com o meu país, mas com este governo,
mão pelo Público: O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Sa- que praticou censura e que depois não foi capaz de pedir des-
ramago, tinha sido retirado da lista de livros escolhidos por um culpa», explicou o escritor numa entrevista. Em 2004, um acto
júri independente para concorrer ao Prémio Literário Europeu. público em São Bento com o então primeiro-ministro Durão
O subsecretário de Estado da Cultura, explicava a decisão com o Barroso, do mesmo partido que censurara O Evangelho, serviu de
seguinte argumento: o livro não representa Portugal. rectificação e colocou um fim ao conflito.
A censura ao romance foi debatida no Passados 25 anos deste episódio fica claro

25 anos da
Parlamento e novamente defendida que a censura não venceu. Ao vetarem um
pelo Governo, cujo representante afir- livro que não leram, os responsáveis pela

censura ao
mou ter retirado o livro da lista porque decisão tentaram atropelar os valores da
a obra era «profundamente polémica», Democracia e impor as suas crenças e con-

Evangelho
atacava «princípios que têm a ver com vicções. Saíram derrotados. O Evangelho
o património religioso dos cristãos», de Saramago seguiu o seu caminho: encan-

de José
«dividia os portugueses» e, afirmou um tou leitores, foi traduzido para dezenas de
representante governamental em sede idiomas e lido com atenção por académicos

Saramago
parlamentar, «estava mal escrito». e teólogos. Harold Bloom, aclamado críti-
Durante as semanas seguintes foram co literário norte-americano, considera O
muitas, e de diversas partes do mundo, Evangelho Segundo Jesus Cristo a “obra pri-
as manifestações de indignação em ma” do português Prémio Nobel. «De todas
relação ao veto e de solidariedade com José Saramago. Uns dias as coisas esplêndidas que o Evangelho narra, o maior é o amor de
depois da notícia, o escritor deu uma entrevista ao jornal italiano Jesus e Maria Madalena. O encontro e a união entre eles são, para
La Stampa em que afirmava que a decisão era «a vitória da pre- mim, o ápice desta obra e também de toda a obra de Saramago»,
potência» e o «regresso da inquisição». Em resultado deste acto anota no livro Novelist and Novels. Bloom dedica quase 30 pági-
de censura, José Saramago decidiu mudar a sua residência para nas ao romance, nenhuma palavra sobre a censura.

3
Onde estamos Where to find us
Rua dos Bacalhoeiros, Lisboa
Tel: (351) 218 802 040
www.josesaramago.org
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Como chegar Getting here
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746, 759, 774, 781, 782, 783, 794
Segunda a Sábado Monday to Saturday
10 às 18h 10 am to 6 pm

funda ç ão
Blimunda 59
abril 2017
diretor

josé
Sérgio Machado Letria
edição e redação

Andreia Brites
Ricardo Viel

saramago
Sara Figueiredo Costa
revisão

Rita Pais
design

Jorge Silva/silvadesigners

The José
Saramago
Casa dos Bicos
Rua dos Bacalhoeiros, 10
1100-135 Lisboa – Portugal

Foundation
blimunda@josesaramago.org
www.josesaramago.org
N. registo na ERC 126 238
Os textos assinados
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casa dos
dos respetivos autores.
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podem ser reproduzidos
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bicos
Creative Commons

ANDRÉ CARRILHO
LEITURAS dO MÊS
S A R A F I G U E I R E D O C O S TA

A Central de Madrid venir los fines de semana y suelen llevarse abajo”.» O edifício e as histórias que alber-
No centro de Madrid, um prédio alber- novedades. Hay bastante diferencia entre ga, a variedade de títulos, o conhecimento
ga uma das livrarias mais completas da los clientes de entresemana y los de fin de demonstrado pelos livreiros e a atenção
capital espanhola. A Central do Callao é semana”, explica Luis de Dios, librero de dada a áreas como a literatura, a filolo-
o resultado do trabalho da dupla Antonio La Central de Callao.» gia, a ciência ou a filosofia, para além das
Ramírez e Marta Ramoneda, fundadores O fundo livreiro conta com cerca de inevitáveis novidades, fazem da Central do
da cadeia livreira Central, que começou 80.000 livros, divididos pelos três andares Callao um ponto de referência essencial
em Barcelona, em 1995. Há quatro anos, da Central, uma antiga casa particular para os leitores de Madrid.
em parceria com o grupo editorial italia- construída no século XIX e guardadora 
no Feltrinelli, abriram esta sucursal em de alguns segredos, como a existência de
Madrid, mantendo outras duas na mesma uma antiga capela ou o facto de aqui ter A Literatura como modo
cidade, mas mais pequenas. No El País, sido a primeira delegação oficial de Cuba de ver a história
que dedica um artigo à Central do Callao, no estrangeiro: «Muchos de estos secretos No site do suplemento cultural Pernambu-
lê-se: «Desde entonces han pasado más de los conocieron cuando los hijos de la fami- co, publica-se uma entrevista com Eurí-
20 años y el mundo, en general, y el edito- lia que trabajaba como servicio en esta dice de Figueiredo, que acaba de lançar o
rial, en particular, han experimentado un mansión fueron a visitar la librería. Entre livro A literatura como arquivo da ditadura
cambio radical. Lo que se mantiene es su otras cosas les desvelaron que donde ahora brasileira (7 Letras). A autora, professora
esencia, esto es, un grupo de gente for- está el garito, y en tiempo de su familia la da Universidade Federal Fluminense e
mada –libreros- que recomiendan obras a capilla, en la época de los cubanos era un especialista na área da literatura, apresenta
otro grupo de gente curiosa –clientes- con habitáculo donde se secaba el tabaco. “To- assim o seu mais recente trabalho: «Meu
la intención de cambiar sus vidas. Lenta, davía nos llegan los aromas a ese tabaco”, objetivo era fazer um inventário das obras
modestamente, con el peso de las pági- afirma Luis de Dios entre risas. El misterio que trataram do assunto, de 1964 até os
nas: “Tenemos un tipo de cliente bastante permanece en ese lugar mágico donde dias de hoje, e tentar detetar as diferentes
lector. Vienen una o dos veces al mes y se ahora se celebran presentaciones y even- estratégias narrativas usadas pelos autores,
llevan varios libros en cada visita. También tos: “No sabemos de dónde ni quiénes son ao mesmo tempo que pretendi mostrar
tenemos clientes ocasionales que suelen los autores del artesonado ni los frescos de um amplo espetro de narrativas auto-
5
LEITURAS dO MÊS
S A R A F I G U E I R E D O C O S TA

biográficas ou ficcionais que tratavam de Por onde navegam
vários aspetos da questão, como a tortura, os nossos dados
o exílio, a guerrilha do Araguaia, a ope- Quase todos os sistemas utilizados nos
ração Condor. Queria mostrar que esses computadores de serviços públicos euro-
autores conseguem dar um bom panorama peus – da saúde à educação, passando pelas
tanto das arbitrariedades cometidas pelos finanças ou pela segurança – são fornecidos
agentes da repressão quanto da cumplici- pela Microsoft. No Público, Paulo Pena as-
dade das principais autoridades do país. sina um longo artigo de investigação jorna-
Quem ler essa literatura terá uma boa visão lística, em parceria com os jornalistas Crina
de como é viver sob uma ditadura e, nesse Boros, Elisa Simantke, Harald Schumann,
sentido, ela constitui um arquivo aberto à Leila Miñano, Nikolas Leontopoulos, Maria
população. Diferentemente dos arquivos, Maggiore e Wojciech Ciesla, onde se per-
papeis de difícil acesso e legibilidade, a cebe até que ponto as nossas vidas comuns
literatura, ao privilegiar as subjetividades, estao nas mãos desta companhia e dos usos
desvela melhor que qualquer livro de His- que ela queira dar, divulgando-o ou não,
tória ou arquivo, os sofrimentos por que aos dados que guarda nos seus servidores e
passaram inúmeras pessoas.» Para além do que circulam pelos seus sistemas. «O se-
livro dedicado à ditadura bresileira e aos gredo do negócio da Microsoft é o próprio
seus reflexos na literatura, a conversa com segredo. A empresa vende o seu software,
Eurídice Figueiredo, conduzida por Schnei- isto é, o seu sistema operativo Windows
der Carpeggiani, passa por outros temas da e programas como Word, Excel, Power-
literatura brasileira mais recente, nomeada- point e Outlook, como marcas registadas.
mente a produção literária de autores como O código de programação deste software
Rubem Fonseca ou João Gilberto Noll permanece secreto. É isso que o torna “fe-
(recentemente falecido). chado” – por oposição ao software “aberto”,
 cujo código de programação é público e
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LEITURAS dO MÊS
S A R A F I G U E I R E D O C O S TA

pode ser usado por qualquer programador o mesmo.» Para além da questão do mo-
informático. Na gíria geek, chama-se a isto nopólio e dos lucros associados, os fichei-
«software proprietário». Mas este segre- ros da Microsoft são os mais vulneráveis a
do comercial não impede apenas que os ataques informáticos, criando situações de
produtos da Microsoft sejam roubados ou insegurança cujas consequências podem
contrafeitos. Também impede que outros ser devastadoras. Por outro lado, os dados
programas, de potenciais concorrentes, guardados pela Microsoft não estarão tão
funcionem corretamente . A formatação, seguros como se pensaria e desejaria: «O
os estilos, as datas, as tabelas, assumem que qualquer governante europeu sabe, há
uma forma diferente se forem criadas pelo menos dois anos, é que a Microsoft
noutros programas e lidas nos produtos pode ser forçada a dar acesso aos dados
Microsoft, ou vice-versa. Qualquer utili- dos seus clientes a pedido das autorida-
zador de computadores conhece a expe- des dos EUA. A informação está no site
riência. Esta é a chave para o monopólio da própria empresa, que já contestou em
global – e para um negócio que continua tribunal esta obrigação. A lei americana
a ser rentável apesar da concorrência feroz permite, através de um mecanismo extra-
de competidores como a Google e a Apple. -judicial, a National Security Letter, exigir
Ano após ano, a Microsoft recebe cerca informações das empresas que armazenam
de 50 mil milhões de euros apenas pelo dados de cidadãos estrangeiros. Um dos
licenciamento de cópias dos seus progra- aspetos mais controversos desta legislação
mas. Isto porque a maioria dos nossos é a obrigação, com penas previstas para o
colegas, parceiros de negócios e amigos incumprimento, de as empresas fornece-
usam formatos Microsoft para partilharem rem a informação sem disso informarem
textos, vídeos, imagens. Os gestores de in- os seus clientes. Ou seja, se não colaborar,
formática da Administração Pública fazem ou divulgar que o faz, a Microsoft arrisca-

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LEITURAS dO MÊS
S A R A F I G U E I R E D O C O S TA

-se a ser punida pelo Estado norte-ameri- este texto, um lamento por esta espécie de
cano.» Estas e outras questões associadas à desprezo a que tem sido votado em Portu-
segurança informática e aos dados que nos gal o ensino do latim, e também do grego.
dizem respeito são analisadas e devida- Rigorosa nas palavras, fica em silêncio por
mente documentadas ao longo do artigo, instantes, para meditar e regressar com
fazendo dele um elemento central numa uma mais veraz constatação: “Diria antes
reflexão que talvez devêssemos começar a ignorância. Essas disciplinas fazem muita
fazer a sério. falta. Já nem digo o grego, embora o grego,
 para mim, seja a mais bela das línguas. É
muito afim da matemática. É uma língua
Maria helena de uma grande riqueza. Há na estrutura
da Rocha Pereira da língua qualquer coisa de geométrico
Na morte de Maria Helena da Rocha Pe- que a aproxima da matemática”. Quanto ao
reira, vários foram os textos que assinala- latim, não tinha dúvidas em considerá-lo
ram o desaparecimento da especialista em essencial ao estudo das línguas românicas
cultura clássica, primeira mulher doutora- em geral. Não apenas por poder contribuir
da em Portugal e a primeira professora ca- para diminuírem os erros e as barbari-
tedrática da Universidade de Coimbra. No dades cometidas no uso da língua, mas
Expresso, António Valdemar traça o perfil sobretudo “pelo que o latim significa, tal
da autora de Estudos de História da Cultu- como o grego, de disciplina do espírito, do
ra Clássica, destacando vários momentos pensamento”.»
do seu percurso biográfico e salientando a 
importância do seu legado. «Pouco dada
a melancolias saudosistas, expressava em
tempos perante o jornalista que assina

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LEITURAS dO MÊS
S A R A F I G U E I R E D O C O S TA

Épico de Gilgameš Parte considerável do que nos define, do segundo milénio antes de Cristo. A sua
Assírio & Alvim histórica e culturalmente, neste território matéria, no entanto, terá raízes anteriores:
Tradução, introdução e notas a que chamamos Ocidente, tem as suas «Abasteceu-a um corpus poético e narrati-
de francisco Luís Parreira raízes um pouco mais a Leste, nas terras vo acumulado ao longo de um milénio de
férteis situadas entre os rios Tigre e Eufra- história literária e moldado por um núme-
Um épico milenar tes, na Mesopotâmia. Algures nesse local, ro indeterminado de mãos e vozes disper-
a existência de um sistema de escrita – a sas por diferentes línguas locais e tradi-
cuneiforme – permitiu a fixação de um ções.» (pág.11) Dessa matéria fazem parte
texto que há-de ecoar elementos anterio- várias pequenas narrativas, mas a narrativa
res à sua materialização e onde podemos que dá corpo ao texto gira em torno do
encontrar muitos dos traços que contam herói Gilgamesh, possivelmente inspirado
a nossa história comum ao longo de milé- num soberano da antiga Suméria, que terá
nios. O Épico de Gilgameš conhece agora fundado a cidade de Uruk, e da sua relação
uma edição portuguesa digna da sua im- com Enkidu, um ser criado pelos deuses
portância história e literária, numa tradu- de modo a moderar o despotismo do herói
ção feita por Francisco Luís Parreira, que principal, característica tão definidora da
assina igualmente a introdução e as notas. sua personalidade como a sapiência que
É certo que havia uma edição anterior, todos lhe louvavam.
com chancela da Vega e tradução de Pedro Assim começa o texto: «Aquele que
Tamen, mas correspondia apenas a uma testemunhou o abismo, as fundações da
parte do texto, algo que agora se altera terra,/ experiente de caminhos, em tudo
com esta nova edição, da Assírio & Alvim. era sábio!/ Gilgameš , que testemunhou o
Como se explica na introdução, o poe- abismo, as fundações da terra,/ experiente
ma que agora nos chega em português terá de caminhos, em tudo era sábio!/ Aonde
sido fixado na Babilónia, algures no final estavam os poderes, foi averiguá-los,/ de

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LEITURAS dO MÊS
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cada coisa extraiu um ápice de sabedoria./ que depois terá repercussões noutros tex-
O que era secreto encarou, o oculto trou- tos, compondo uma teia complexa onde
xe à luz:/ resgatou a memória de antes do literatura, mitos fundadores e identidade
Dilúvio./ Extenuado, mas em paz, fez o cultural se fundem. Na linhagem do que
caminho que não tem fim/ e na pedra exa- compõe literariamente uma parte conside-
rou os seus trabalhos./ Ergueu a muralha rável do mundo, o Épico de Gilgameš é um
de Uruk, a do redil,/ e a do sagrado Eanna, dos pontos de origem, aquele a que pode-
puro tesouro.» (pág.45) As loas à sabedoria mos recuar para perceber de onde vimos.
de Gilgameš e as muitas provas lendárias O tempo que demorou até termos uma
da sua força acompanham todo o texto, a tradução portuguesa completa disponível
par com as peripécias que permitem que para os leitores acaba por ser compensado
chamemos a este um texto épico, ainda pelo detalhe das notas, pela fluência do
que na altura não houvesse um termo lin- texto e pelo cuidado posto na introdução,
guístico equivalente. A mistura de elemen- permitindo uma leitura corrida, apenas
tos cosmogónicos com aventuras onde se pelo prazer do texto, ou uma leitura bem
cruzam homens e deuses, a necessidade contextualizada e que fornece todos os
de o herói enfrentar obstáculos para poder dados imprescindíveis para compreender
progredir e uma certa dimensão trágica, um texto simultaneamente tão distante
magistralmente materializada na morte de nós e tão presente naquilo que somos
de Enkidu e nos efeitos que essa ausência como este.
desencadeará em Gilgameš são temas que
regressarão ciclicamente aos textos canó-
nicos da literatura ocidental, e que pode-
mos igualmente identificar em muitas pas-
sagens bíblicas, numa espécie de ricochete

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e
s
t
a
S A R A F I G U E I R E D O C O STA
O Universo nos teus olhos Arrumado
Jennifer Niven Emily Gravett
Nuvem de Tinta Livros Horizonte

Ela é obesa, ele tem prosopagnosia. Nesta narrativa em verso, Emily Gravett

n
ANDREIA BRITES Conhecem-se no liceu, enquanto ela escolhe um texugo como protagonista,
tenta superar a discriminação de que Pedro de seu nome. E acompanha a
pode ser alvo e ele tenta sobreviver sua obsessão crescente pela limpeza e
com popularidade, ocultando de todos pela arrumação até à destruição total.
que a cada vez que os vê não faz a Ao contrário de muitas mensagens

t
mínima ideia de quem sejam. Ambos ditas pedagógicas, este álbum revela o
são narradores desta novela juvenil perigo da certeza acerca do que está
onde não há heróis e em que o grupo e certo e errado. Principalmente quando
a identidade são os principais temas. AB quem assim pensa não para para pedir
aos outros a sua perspetiva. AB

e
12
e

s
Na Boca do Lobo O Arquipélago Gulag Las Últimas Palabras
t Sara Monteiro Aleksandr Soljenítsin Carme Riera
Susana Carvalhinhos Sextante Alfaguara
a APCC
Publicado pela primeira vez em 1973, Carme Riera comissariou, em
n Mais uma vez Sara Monteiro reitera o este é um dos livros fundamentais do 2014, uma exposição dedicada
seu pendor para a recriação literária século XX. Nas palavras do seu autor, ao arquiduque Luís Salvador de
t do tradicional. Se os contos já haviam «Devemos condenar publicamente a Áustria, um dos pioneiros do turismo
sido alvos em Cartas de uma mãe à ideia de que homens possam exercer nas ilhas baleares. Este romance
e
sua filha, por exemplo, neste novo tal violência sobre outros homens.» nasce da aproximação biográfica
livro ilustrado a autora redefine A edição que a Sextante agora publica que a autora dedicou a esta figura
o sentido de diversas expressões é a versão abreviada, num só volume, histórica, mergulhando numa ficção
idiomáticas usadas comummente. preparada por Soljenítsin e por sua que acompanha os momentos
Descrições muito ligadas a uma mulher, Natália, com o objetivo conhecidos da vida do arquiduque,
leitura literal provocam um efeito de tornar mais acessível este livro mas igualmente os detalhes menos
de humor do qual a ilustração é aos leitores estrangeiros e a novos públicos da sua personalidade. SFC
cúmplice, por reforçar os seus leitores. A tradução, a partir do
principais elementos. AB russo, é de António Pescada. SFC

13
e

s

t
Os Fuzis e as Flechas Bruma Livro de Letras
Rubens Valente Amanda Baeza Vinicius de Moraes
a Companhia das Letras Chili Com Carne Companhia das Letras
n
Investigação jornalística sobre as Compilação de quase duas dezenas Lê-se no prefácio: «Em janeiro
t centenas de mortes de indígenas de histórias curtas de uma das de 1969, numa Lisboa invernosa e
durante a ditadura militar brasileira, vozes mais singulares da nova banda salazarista, Vinicius de Moraes deu
e este trabalho resulta de dezenas desenhada feita em português. um concerto para alguns “austeros
de entrevistas realizadas com Amanda Baeza cresceu entre o Chile portugueses”. Alexandre O'Neill
testemunhas, diretas ou indiretas, e Portugal e o seu trabalho tem uma estava na assistência e deliciou-se
dos factos relatados. Para além presença regular em Portugal nas com o show do poeta, "diretor-geral
das entrevistas, o autor socorre- publicações da Chili Com Carne ou dos informais, presidente vitalício dos
se de muita documentação oficial do Clube do Inferno (que integra). desimportantes".» Livro de Letras é
e alguns registos inéditos de Bruma é uma boa porta de entrada a mais completa antologia de poemas
supostos erros que provocaram para um universo gráfico onde a para canções do autor que tanto
verdadeiras tragédias humanitárias estranheza e a reflexão se encontram contribuiu para a revolução da música
durante a construção da rodovia de modos inesperados. SFC popular brasileira do século XX. SFC
Transamazónica. SFC

14
Exposição
26 mar — 31 mai
Galilé
do Palácio Nacional
de Mafra

Memorial
do Convento
José Saramago

ERA UMA VEZ UM REI
DEVOTO, UM PADRE QUE
QUERIA VOAR E UMA
MULHER COM PODERES
Exposições
livraria
biblioteca
auditório
Terça a sábado
Abr a Set —
10h às 13h /
15h às 19h
Out a Mar —
10h às 13h /
15h às 18h

NASCI NA AZINHAGA
SENTIMENTALMENTE SOMOS
HABITADOS POR UMA MEMÓRIA
entrevista
de Sara
figueiredo
Costa

yu
a china parecerá
absurda, mas
o mundo não
lhe fica atrás

19
yu hu a

Escrever para não ter horários do eram aceites como parte do trabalho. Para aceder ao
Centro Cultural, era preciso fazer uma de três coisas:
Muitas entrevistas com escritores não resistem à eterna compor, pintar ou escrever. É assim que Yu Hua decide
pergunta sobre o porquê de um autor ter começado a que quer ser escritor e começa a enviar os manuscritos
escrever. As respostas, mesmo que mostrando o cansa- dos contos que já escrevia para uma série de revistas
ço perante a repetição da pergunta, tendem a procurar literárias espalhadas pelo país. Sem glamour, portanto,
um certo rasgo de génio, quase um modo de criar ad- mas com a determinação que haveria de fazer dele um
miração. Yu Hua começou a escrever por não gostar dos mais importantes escritores da China contemporâ-
de horários e nem é preciso gastar uma pergunta na nea.
entrevista coletiva organizada durante a última edição Rodeado de mais de uma dezena de jornalistas,
do Rota das Letras – Festival Literário de Macau, já que cujas perguntas estão na origem das declarações que
o autor conta a história num dos capítulos de China neste artigo se citam, Yu Hua falou sobre tudo o que
in Ten Words. Yu Hua começou por ser dentista, sem lhe perguntámos. E as respostas, importa dizê-lo, che-
que isso tenha resultado de uma escolha – fazia falta garam-nos com o imprescindível auxílio de Stefanie
haver quem tratasse dos dentes e o autor foi conduzi- Zhang, tradutora-intérprete sem a qual não teríamos
do pelo Estado nessa direção. Na pequena vila onde foi conseguido comunicar com o autor. Yu Hua tem vá-
colocado para exercer a sua profissão, Yu Hua olhava rios romances publicados, mas apenas Crónica de um
com inveja para as pessoas que trabalhavam no Centro Vendedor de Sangue está traduzido em Portugal (numa
Cultural e que viviam com o privilégio de não terem de edição da Relógio d'Água, com tradução de Tiago Na-
cumprir horários, já que a sua atividade era de ordem bais). Para o próximo mês de junho, a Relógio d'Água
criativa e as deambulações pela rua sem destino defini- tem prevista a publicação de China em Dez Palavras,
2020
«O mundo
é ridículo,
não apenas
a China, e
as nossas
vidas estão
cheias de
absurdos»21
yu hu a

conjunto de dez textos não ficcionais onde o autor cru- A sombra da Revolução Cultural
za as suas memórias pessoais com a história recente da
China, igualmente com tradução de Tiago Nabais. O Em Crónica de um Vendedor de Sangue, acompa-
romance Viver será publicado mais tarde, ainda sem nhamos a vida de Xu Sanguan, trabalhador numa fá-
data definida, com tradução de Márcia Schmaltz. Para brica de seda cujo quotidiano chocará de frente com
além de romances, Yu Hua publicou dezenas de contos, os obstáculos acrescentados pela Revolução Cultural a
primeiro em revistas literárias, onde, aliás, começou a um dia a dia que já era muito duro. A estrutura narra-
sua carreira de escritor, e mais tarde em coletâneas pu- tiva deste romance dialoga intensamente com a ópe-
blicadas em livro. A par de Mo Yan, Yu Hua é o escritor ra chinesa e os seus quadros, marcados por diálogos
chinês com maior reconhecimento internacional, um onde alterna a dimensão trágica e um certo sentido de
reconhecimento que faz eco do prestígio do autor junto absurdo, e a metáfora do sangue, por mais óbvia que
dos leitores e da crítica, mesmo que à revelia de algum possa parecer a um leitor menos familiarizado com
mal-estar oficial provocado pelos temas que aborda na o cânone literário chinês, acaba por ser o topos onde
sua escrita. Na ficção, o autor tem-se focado em alguns mais claramente se confirma a mestria de Yu Hua nesta
temas incómodos, a começar pela Revolução Cultural obra. Não será difícil ver na necessidade de vender o
e a devastação que esta provocou a tantos níveis. Na seu próprio sangue para sobreviver um equivalente à
não ficção, com China in Ten Words, o incómodo foi de dureza imposta pela política às gerações que atravessa-
tal maneira intenso que o livro nunca foi publicado na ram esta época, mas transformar essa equivalência cla-
China continental. ra numa narrativa que vai declinando tempos, mudan-
ças e uma consciência aguda de ambos sentida na pele
pelas personagens é já outro patamar no modo possível
2222
yu hu a

de encarar o mundo e a humanidade num cenário tão ano, no 50º aniversário, pensei que ia haver muita co-
complexo como o deste período. E é sobre a Revolu- bertura sobre o tema, muita discussão, mas não foi isso
ção Cultural que muitos jornalistas querem questionar que aconteceu, até porque toda a informação sobre esse
Yu Hua, levando o autor a explicar com naturalidade assunto foi bloqueada na internet. Ou seja, a atitude do
o porquê de regressar ao tema com tanta frequência. Governo, passados 50 anos, é realmente eficaz, porque
«Cresci durante a Revolução Cultural. Ia começar o o facto é que as gerações mais novas não sabem nada
primeiro período na escola primária quando a Revo- sobre a Revolução Cultural. E o que há é uma estratégia
lução Cultural começou e terminei o ensino secundá- de silêncio, porque se queremos branquear a História,
rio quando ela chegou ao fim. Toda essa década cor- ela pode voltar-se contra nós, mas se a remetemos ao
respondeu ao período da minha educação. A infância, silêncio, é como se não tivesse existido. Hoje, a Revo-
não só para mim enquanto escritor, mas creio que para lução Cultural no nosso quotidiano é um pouco como
qualquer pessoa, tem um papel determinante na nossa a Dinastia Qing, é algo muito distante...» Apesar das
identidade, é aí que se formam as nossas capacidades referências explícitas a este período da história chinesa,
de entendimento dos outros e do mundo. É uma es- e do modo cru como expõe as condições de vida das
pécie de paisagem que não se muda, que permanece à pessoas, as denúncias, a miséria e as perseguições que
medida que vamos envelhecendo. Quando comecei a o marcaram, Yu Hua tem os seus romances publicados
escrever, tornou-se inevitável regressar a esse período. na China. É quando escreve sem o filtro da ficção que o
É algo a que não consigo escapar. Hoje, os mais novos Governo chinês reage: «Os meu romances publicam-se
não sabem nada sobre a Revolução Cultural, é como se na China continental, sem problema. Na China temos
esse período tivesse sido apagado da História chinesa. censura, sim, mas não é tão severa quanto a algumas
Claro, o Governo não quer que se fale disso. Há um coisas... Os meus romances podem publicar-se, porque
2323
«Durante a Revolução
Cultural, as ruas
estavam cheias de
violência, lembro-me
de ver um homem ser
espancado até à morte,
quando eu era miúdo.
Mais tarde, quando
li Kafka, as coisas
relacionaram-se...»
24
yu hu a

na ficção podemos usar muitas estratégias para dissi- eram os livros de Lu Xun e a poesia de Mao Tse Tung.
mular, para expressar algo de uma forma menos explí- Depois da Revolução Cultural, tivemos uma enchente
cita. O problema é com a não ficção, porque aí temos de de livros na China e houve escritores que me influen-
nos expressar de modo direto. Logo no primeiro capí- ciaram muito, a começar por Yasunari Kawabata, o es-
tulo de China in Ten Words, falo do 4 de junho [Tianan- critor japonês, com a sua narrativa detalhada e a sua
men, 1989] e esse é um tópico absolutamente proibido. subtileza. Houve uma altura em que percebi que estava
Quando escrevi esse primeiro capítulo percebi logo que a querer escrever como ele e, por volta de 1996, percebi
o livro nunca seria publicado na China, mas sabia que que estava a trabalhar numa armadilha, preso nessa in-
podia publicá-lo em Taiwan e em Hong Kong. Muitos fluência, e comecei a procurar outras coisas. O meu se-
chineses do continente compram esse livro em Hong gundo mestre foi Kafka, com quem aprendi a liberdade
Kong e trazem-no para a China. E também está dispo- ao nível da escrita. E depois veio William Faulkner, em
nível na internet, em PDF.» cuja escrita percebi a dimensão das descrições psico-
lógicas.» Percebe-se essa herança no modo como Yu
Os anos de formação Hua vai acrescentando camadas às suas personagens,
fazendo-as crescer em complexidade à medida que a
Yu Hua tornou-se leitor durante a Revolução Cultu- narrativa se desenvolve. É o que acontece em To Live,
ral, com as opções muito limitadas pelo index do mo- onde a história de um homem e do modo como perdeu
mento. Só mais tarde pôde ter acesso a outros escrito- quase tudo o que amava na vida é sustentada por uma
res, num processo que haveria de ser decisivo para a poderosa descrição psicológica, sempre revelada pelo
sua construção enquanto escritor. «Nessa época, qua- enredo e pelas ações. Ou em Brothers, onde dois irmãos
se todos os livros eram proibidos, o que eu podia ler órfãos e muito pobres se transformam em milionários
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yu hu a

numa China já marcada pelo consumo desenfreado. Yu da como um dos grandes marcos da literatura chinesa.
Hua não perde tempo a listar aquilo que as suas perso- «Lu Xun não escrevia de um modo explícito, trabalha-
nagens são, preferindo mostrá-lo a partir daquilo que va a abstração, e isso não era fácil de compreender para
fazem e do modo como a vida as vai obrigando a esco- a criança que eu era, mas quando voltei a ler as suas
lher caminhos. obras, muito mais tarde, percebi o quanto me identifi-
A chegada de livros estrangeiros à China foi essen- cava com aquilo. Se vivêssemos na mesma geração, se
cial para que Yu Hua abrisse os seus horizontes literá- partilhássemos o espaço, talvez se fumássemos juntos
rios. «Por volta de 1984, digamos que estava à procura ou bebêssemos um copo, de certeza que acabaríamos
dos meus mestres. E, nessa altura, a literatura ociden- os dois a dizer mal de outros escritores [risos]... »
tal teve um grande impacto para mim. Algumas dessas Yu Hua começa a publicar contos numa das mui-
obras funcionaram como uma base sólida e isso foi mui- tas revistas literárias que circulavam na China nos anos
to importante, mesmo sabendo que ainda tenho tanto oitenta. «Em 1983, com 23 anos, comecei a escrever e
para aprender. Aprendi muito sobre técnicas narrativas vivi uma espécie de era dourada da literatura. Os edi-
com a literatura ocidental, sobre como desenvolver um tores de revistas literárias estavam muito atentos a no-
personagem, coisas que é preciso aprender a fazer no vas vozes e foi assim que me descobriram, apesar de
fôlego de um romance. E houve coisas que aprendi à várias publicações me terem recusado, no início.» Na
medida que desenvolvi um sentido estético-literário, de Harvest Magazine, talvez a mais importante revista li-
apreciação de algumas obras-primas, como Anna Kare- terária chinesa do século XX, que continua a publicar-
nina, de Tolstoi.» Essa abertura acabou por permitir um -se, Yu Hua foi apontado, ao lado de Mo Yan e de ou-
regresso à obra de Lu Xun, odiada por Yu Hua duran- tros autores, como uma promessa da literatura chinesa
te a Revolução Cultural, mas mais tarde compreendi- contemporânea. A aposta dos editores da Harvest con-
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«Tenho 57 anos e nunca
vi um boletim de voto.
E quando olho para a
assembleia chinesa,
penso: de que modo
aquelas pessoas são
nossas representantes?
Às vezes pergunto isto e
nunca ninguém sabe dar-
-me uma resposta clara»
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firmou-se e Yu Hua passou a ser presença obrigatória encontrar alguns lunáticos pelas ruas, em vários locais
nas melhores publicações literárias, com contos onde da China, que cantavam canções revolucionárias e re-
o experimentalismo literário e a violência caminhavam petiam slogans, e muitos desses lunáticos tinham sido
lado a lado. «Nos anos 80, a minha escrita era aponta- perseguidos durante a Revolução Cultural. Então, as
da como vanguardista e estava cheia de violência e de coisas acabaram, mas as suas sombras permaneceram
sangue. Isso talvez se devesse ao modo como eu vivia, e isso também explica a violência nos meus textos mais
porque os meus pais eram médicos, trabalhavam no antigos.»
hospital. Nessa altura, vivíamos no hospital e era co- Mais tarde, Yu Hua começa a escrever romances e
mum eu passar pela morgue, ou ir ter com o meu pai ao a sua importância no panorama literário chinês afir-
hospital quando ele estava a operar, o que implicava ver ma-se de um outro modo, sobretudo com o início das
algum sangue, por vezes alguns cadáveres... A maioria traduções para outras línguas e a atribuição de alguns
dos meus colegas não suportavam entrar no hospital, prémios internacionais, nomeadamente o James Joyce
por causa do cheiro, mas eu não tinha problemas, por- Foundation Award, em 2002. Entre Crónica de um Ven-
que estava habituado. Durante a Revolução Cultural, dedor de Sangue e Brothers, passou uma década em que
as ruas estavam cheias de violência, lembro-me de ver Yu Hua pouco escreveu, remetendo-se à observação e
um homem ser espancado até à morte, quando eu era à tentativa de compreensão perante as mudanças que
miúdo. Mais tarde, quando li Kafka, as coisas relaciona- a sociedade chinesa atravessava. «Depois de publicar
ram-se... E quando comecei a escrever, não conseguia Crónica de um Vendedor de Sangue, em 1995, comecei
escapar a essa violência, não havia como. E a Revolução a escrever Brothers no ano seguinte, mas não acabei.
Cultural acabou, mas as suas sombras permaneceram. E nessa altura percebi que estávamos a atravessar um
Lembro-me que passados uns anos, ainda era possível período de grandes mudanças na China.» Só em 2004
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se publica Brothers e nessa altura Yu Hua está plena- segue resolver um problema, não vale a pena incluir
mente consciente da urgência de refletir na sua escrita tudo ou podemos acabar por perder tudo. E as opções
o tempo em que vive: «se tivesse insistido em continuar são muitas. É preciso criar uma relação entre texto e
o Brothers em 1996, talvez nunca se tivesse tornado no leitor e conseguir que o leitor se relacione com as per-
livro que veio a ser, nem assumisse a importância que sonagens, isso é muito importante na literatura. Se en-
lhe deram os leitores e a crítica.» É, por isso, de enorme chermos um romance com tudo o que nos rodeia, com
injustiça apontar Yu Hua como o escritor da Revolução a política, a história, a sociedade, perdemos a literatu-
Cultural. Por mais que o tema não o abandone, o autor ra. É um dilema.»
tem uma obra que, do ponto de vista temático, ultra-
passa largamente esse período da história da China, ao A China do século XXI
mesmo tempo que assume a capacidade de olhar para Nesse olhar atento sobre o presente em que vive,
o presente sem perder a noção de que nada nasce de Yu Hua não se coíbe de dizer o que pensa sobre o modo
geração espontânea, sendo imprescindível olhar para o como a China define a sua política: «Tenho 57 anos e
passado. Quando lhe pergunta sobre o processo de de- nunca vi um boletim de voto. E quando olho para a
finir um tema, mostra-se hesitante: «Na China atual há assembleia chinesa, penso: de que modo aquelas pes-
tantos temas sobre os quais escrever que não sei como soas são nossas representantes? Às vezes pergunto isto
responder rapidamente... É preciso fazer escolhas, e às pessoas e nunca ninguém sabe dar-me uma resposta
isso implica deixar de lado alguns temas. Mas, e se fa- clara. Depois olhamos para as sessões parlamentares de
lharmos o tema que era realmente importante? Como outros países e há discussão, às vezes acesa, mas na Chi-
escritor, isto é algo que me preocupa muito. Creio que na, as sessões parlamentares são um tédio, é possível
devemos escolher um tema, que cada romance só con- dormir.» Muitos autores preferem não abordar temas
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sensíveis, de modo a garantirem a publicação dos seus media. Um bom escritor tem de ser independente e ter
trabalhos, acabando por auto-restringir a liberdade do capacidade de criticar. À medida que o tempo passa,
seu discurso público. Yu Hua assume a posição oposta temos de admitir que é mais fácil ser crítico, porque
e, mesmo admitindo que a ficção é mais fácil de fazer o governo chinês está um pouco mais tolerante, inde-
passar pelas barreiras censórias, defende que a discus- pendentemente de o estar de um modo forçado ou ati-
são sobre a China e o seu governo são matéria univer- vo. Há mais vozes críticas e conseguimos ouvi-las.»
sal. «Na minha opinião, qualquer pessoa tem o direito Se a literatura é um bom modo de compreender
de falar sobre a China, seja chinês ou estrangeiro. É um o mundo, não do modo imediato e estruturado que os
direito universal, ainda que o governo chinês não pen- discursos jornalístico e histórico permitem, a obra de
se assim. Acho que o governo chinês é muito infantil, Yu Hua é um bom modo de tentar compreender a Chi-
por exemplo, quando os media estrangeiros criticam a na. Fugindo de narrativas históricas ou costumistas,
China, o governo critica os media, dizendo que estão assumindo que o mundo é um continuum geográfico
a discriminar a China e os chineses. O valor universal e temporal, e não um conjunto isolado de territórios
da imprensa é a cobertura geral de tudo o que se pas- onde é impossível trocar ideias e debates, o autor escre-
sa, não apenas das coisas positivas, mas o governo não ve sobre o que conhece diretamente com a consciência
percebe isso. E os oficiais do Governo trabalham ardu- de que a natureza humana não muda com o lugar ou
amente, muitas vezes sem feriados nem fins de semana. o tempo. E se é na ficção que esta atitude se reflete de
Durante o Festival da primavera, não param, visitando modo mais notório, talvez China in Ten Words seja a
as comunidades um pouco por toda a parte. O motivo mais certeira porta de acesso ao seu universo literário,
dessas visitas é assegurarem-se de que as pessoas vão mesmo não se tratando de ficção. Neste livro, a rea-
dizer coisas simpáticas sobre eles, nomeadamente os lidade chinesa, a sociedade, a política, o quotidiano,
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«A China é um país
cheio de contradições,
por exemplo, se
viajarmos por vários
lugares, podemos
encontrar muitos
espaços com cinzeiros
e um sinal de “Proibido
Fumar»
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descrevem-se de um modo que revela uma reflexão mos, uma contradição permanente, mas creio que será
profunda sobre o mundo e a humanidade que o habita, igual em muitos outros países. Há pouco tempo esti-
ainda que a partir de um território concreto. E em to- ve no Nepal e visitei o lugar onde Shakyamuni nasceu
dos os textos que o compõem – de certo modo, como e onde fundou um mosteiro budista. Estávamos sem
em muitas das obras ficcionais do autor – uma certa rede nos telemóveis, mas quando chegámos à zona das
ideia de absurdo ganha terreno como pano de fundo ruínas do que terá sido o mosteiro original, a rede vol-
constante. «Pode parecer ridículo, mas é a realidade da tou e comecei a receber mensagens de texto, e quando
China. Na verdade, podemos ver esse absurdo um pou- abri as mensagens eram anúncios eróticos... Foi ridí-
co por toda a parte, em todo o mundo. A China é um culo receber essas mensagens no mesmo lugar onde
país cheio de contradições, por exemplo, se viajarmos nasceu Shakyamuni. O mundo é ridículo, não apenas a
por vários lugares, podemos encontrar muitos espaços China, e as nossas vidas estão cheias de absurdos.»
com cinzeiros e um sinal de “Proibido Fumar”. É um
contrassenso, porque temos as condições para fumar,
mas depois não o podemos fazer. Em alguns canais de
televisão, podemos assistir a documentários e reporta-
gens louvando o Partido Comunista e as figuras heroi-
cas que hão de levar a revolução adiante, sempre com a
ideia de que o Partido durará para sempre e que resol-
ve todos os problemas, e depois temos os jornais com
os anúncios sobre doenças como a sífilis, e outras, que
continuam a existir... Essa é a realidade em que vive- Fotografias de Eduardo Martins/ Festival Literário de Macau

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Augusto
Boal: o exí- Brasil
Lyza
lio em car-
tas 33
Em junho de 1976, o ço certo. Um beijo». A
teatrólogo brasileiro viagem não seria ape-
Augusto Boal desem- nas uma visita ao país
barcou em Lisboa com de origem de sua fa-
a mulher e os dois fi- mília, mas se estende-
lhos. A mãe, Alberti- ria por cerca de dois
na, recebeu um dos anos, tempo que du-
cartões-postais que raria o exílio em solo
ele enviou da capital lusitano. Fugia de um
portuguesa no dia 10 regime totalitário que
de junho: «Mamãe, cá se instalava na Argen-
estou eu na Santa Ter- tina, onde, por sua
rinha. Vou ficar mais vez, se refugiara da
tempo do que pensa- ditadura militar ins-
va. Logo torno a es- taurada no Brasil des-
crever dando endere- de 1964.
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«Não volte nunca!» a carta. Confessava, então, tê-la trazido – assim registrara
o ardiloso escrivão. Assinou sem ler, e o juiz decretou que
Em 1971, Augusto Boal já era um consagrado drama- deveria ser ouvido em tribunal.
turgo e diretor teatral por sua atuação no Teatro de Arena, No dia do julgamento, os delatores deram versões di-
companhia paulista que teve papel fundamental na renova- ferentes das que contaram sob tortura. Antes da sentença
ção e nacionalização do teatro brasileiro. O reconhecimento final, foi-lhe concedido o direito de viajar para o Festival de
o tornou um dos artistas mais visados após o golpe de Estado Teatro de Nancy, onde o elenco da peça Arena conta Bolí-
que obrigou a companhia a reorientar seus planos e reper- var o aguardava. O convite havia sido feito antes da prisão.
tório a fim de responder à nova situação política e driblar a “Assinei documento prometendo voltar terminado o festi-
censura. Naquele ano, foi preso e torturado, acusado de ser o val e estar presente no tribunal na hora da sentença. O fun-
portador de uma carta cubana, na qual se descreviam arma- cionário que me fez assinar a promessa de retorno avisou:
mentos, supostamente entregue ao líder de uma organiza- ‘Não prendemos ninguém segunda vez: matamos! Não vol-
ção comunista no Brasil. “Queriam provar que minha prisão te nunca. Nesta linha: assine! Prometa voltar’”. Não voltou:
era justa: queriam me transformar em guerrilheiro perigoso, juntou-se a centenas de exilados.
atribuir-me ações que jamais pensei fazer”, conta na auto- Buenos Aires foi a primeira cidade que o recebeu, terra
biografia Hamlet e o filho do padeiro: memórias imaginadas. natal da mulher, Cecilia Thumim Boal. Aí viveram por cerca
A prisão causou comoção internacional, e a pressão foi de cinco anos com o filho de Cecilia, Fabian, e Julian, que
intensa. Na época, um prisioneiro podia ficar encarcerado nasceria alguns anos depois. Durante esse período, Boal deu
dois anos sem ser acusado; três ou quatro, sem julgamen- aulas, concebeu o Teatro Invisível, dirigiu Torquemada, peça
to. Ou morrer antes disso. Mas Boal foi chamado a depor. escrita quando esteve preso, e Revolução na América do Sul,
Questionado se admitia ter entregado a carta ao líder da or- também de sua autoria. Mas não conseguiu se integrar ple-
ganização, negou. Não percebeu, entretanto, que, no texto namente em uma cultura que não era a sua: “Exílio é meia
do depoimento, admitia não ter sido ao líder que entregara morte, como a prisão é meia vida!”, escreveu na autobiogra-

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fia, onde também registrou a importância das cartas nessa mãe, também neste acusava sua chegada a Lisboa, mas atra-
fase da vida: “Nunca joguei fora uma carta. Se não chegavam vés de uma referência à música Tanto mar, homenagem de
novas, relia as que tinha”. Antes usada para incriminá-lo, a Chico à Revolução dos Cravos: «Chico, aqui ainda encontrei
carta agora estabelecia pontes transatlânticas, aproximava muito alecrim e muito cravo vermelho. Vou ficar mais tempo
parentes e amigos, como o cantor e compositor Chico Buar- do que precisava. Logo te escrevo. Um abraço». O movimento
que e o poeta Ferreira Gullar. que pôs fim à ditadura salazarista motivara o crítico Carlos
Em sua casa de Buenos Aires aconteceu a primeira leitura Porto a convidá-lo para uma temporada lusitana. Desejoso de
do Poema sujo, de Gullar; e foi a ele que Chico Buarque dedi- sair da Argentina, onde a militarização e a repressão cresciam
cou a canção Meu caro amigo, com parceria de Francis Hime. cada dia, e com promessa de contrato pelo governo portu-
Em 14 de outubro de 1976, Boal viveu a «tremenda emoção», guês, Boal mudou-se para Portugal levando esperanças.
como diria mais tarde, causada pela fita cassete que a mãe le- O trabalho prometido, no entanto, só se concretizou
vou para Lisboa em sua única visita: «Chico, oi, já ouvi a tua com a pressão da classe teatral e foi reduzido a seis meses.
fita exatamente 8.795 vezes! Fiquei tão contente que você nem Ao fim de dois, artistas se revoltaram contra medidas do
imagina». Três meses depois, repercutia o sucesso da música, Ministério. Solidário, teve o contrato rescindido. Tornou-se,
lançada naquele ano, pelo compositor, no disco Meus caros então, professor do Conservatório Nacional, ao lado de Car-
amigos: «Meu caro amigo, tanta gente tem me badalado por los Porto. Convidados, com outros professores, a reformular
causa do Meu caro amigo e das Mulheres de Atenas1 que ulti- o conservatório, levaram seis meses para chegar ao progra-
mamente quando eu me olho no espelho eu tenho a impres- ma que consideravam perfeito. Foram exonerados.
são de que estou ficando com os olhos verdes...».
Chico Buarque foi um dos mais importantes interlocuto- 1. A música foi composta por Chico e Boal para a peça Mu-
res do dramaturgo durante o exílio. A amizade e as parcerias lheres de Atenas, inicialmente intitulada Lisa, a mulher li-
o levaram a escolhê-lo como destinatário de outro postal que bertadora, adaptação de Lisístrata, de Aristófanes, feita por
remeteu no dia 10 de junho de 1976. Assim como fizera no da Boal. A peça nunca foi encenada.

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«Exílio é duro, Cica querida» capturado e, depois de assembleia popular, libertado; livre,
matou um revolucionário. Para ele, o fato de a encenação
Se as coisas não correram como esperava, esse segundo acontecer anos depois no mesmo lugar da ação real intensi-
destino foi, sem dúvida, o mais familiar. Quando viveu em ficava o debate, exaltava.
Portugal, o dramaturgo visitou Justes, terra dos seus pais, em A situação política em Portugal, porém, inspirava receios
Vila Real, e a visita rendeu uma carta à mãe na qual comenta e apontava a necessidade de nova mudança. É o que revela em
a «semana de emoções enormes», e ainda uma bonita passa- 20 de janeiro de 1977 na carta à atriz e amiga Cecilia Thomp-
gem em Hamlet...: «Valeu a viagem: visitei a janela de onde son: «No mais, ganhamos bem, mas mesmo assim Portugal
minha mãe olhava meu pai. Bendita janela! Caminhei pela dá uma insegurança danada: fecham-se faculdades, extermi-
rua em que se deram as mãos pela primeira vez. Imaginei o nam-se organismos de cultura popular. Resumo: este meu se-
riso, arrepios». gundo exílio vai ser brevemente substituído por um terceiro.
Além disso, em Lisboa, concluiu o texto de Murro em Onde? Sei lá». Uma semana depois, Boal escreve: «Exílio é
ponta de faca, iniciado em Buenos Aires, sobre a vida dos duro, Cecilia, Cica querida. E olha que pra mim até que as
exilados políticos; assumiu a direção artística d’A Barraca, coisas vão bem. Imagina pra quem não foi eleito presidente
convidado por Maria do Céu Guerra e Hélder Costa, dire- do conselho de gestão do Festival de Nancy».
tores do grupo; encenou Zumbi, A Barraca conta Tiraden- O convite para trabalhar no mesmo festival de teatro
tes, Zé do Telhado, de Hélder com música de Zeca Afonso, que, em 1971, lhe possibilitou sair do Brasil – e salvar-se – foi
e a Feira Portuguesa de Opinião, de dezenas de artistas, no feito, em 1977, por Jack Lang (em 1984, o ministro da cultu-
Museu de Arte Moderna, com o título de Ao qu’isto chegou!. ra francesa também o condecoraria com a Ordem das Artes
Apesar de não ter feito nada novo em relação ao Teatro do e das Letras). Boal, que já havia dirigido diversas oficinas
Oprimido, dirigiu um espetáculo de Teatro Fórum no Por- no país, incluindo uma no Aquarium da Cartoucherie de
to, na rua onde um torturador do serviço secreto havia sido Vincennes, em Paris, recebeu outros dois convites decisivos:

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de Émile Copfermann para publicar, nas Edições Maspero, Constitucional que estabelecia eleições diretas foi transmiti-
o Théâtre de l’Ópprimé; e de Bernard Dort, para ocupar uma da pela atriz Fernanda Montenegro em carta de 25 de abril
cadeira na Sorbonne-Nouvelle, Paris III. Estava delineado o de 1984, dia da votação: «Hoje, no Brasil, vivemos uma noite
terceiro e último exílio. especial, pois estão sendo votadas as Diretas no Congresso e
tudo pode acontecer. Multidões estão de plantão em todo o
O regresso do exílio país. A votação vai pela noite». Embora tenha sido rejeitada
naquela ocasião, já não havia mais como impedir a redemo-
Em 1978, a família foi viver em Paris, onde permaneceu cratização iniciada pelos próprios militares e a devolução do
por quase dez anos. Émile Copfermann propôs a criação de poder aos civis, ocorrida em 1985. Em 1988, foi aprovada
um Centro que difundiria a metodologia do Teatro do Opri- nova Constituição Federal e, no ano seguinte, realizaram-se
mido e as ideias que o embasavam. Em janeiro de 1979, para eleições diretas para Presidente da República. A essa altura,
além de toda a expectativa, trezentas pessoas se inscreveram. Boal já estava novamente no Brasil com a família. Retornara
Houve quatro oficinas de quarenta estagiários cada, e quatro em 1986, pondo fim a cerca de quinze anos de exílio.
equipes de cinco aspirantes a Coringas. No mês seguinte, re-
petiram o processo e, em março, fundaram o Centre d’Étude
et Diffusion des Techniques Actives d’Expression (Cedita-
de). No mesmo ano, no Brasil, foi promulgada a Anistia. O
retorno temporário permitiu-lhe velar o corpo da mãe, que As cartas mencionadas, além de outras correspondências
morrera quinze dias antes do seu regresso. e documentos, podem ser vistas na exposição Meus caros
O país natal vivia o lento e gradual processo de reaber- amigos – Augusto Boal – cartas do exílio, com curadoria de
tura política, no qual foi significativo o movimento das Di- Eucanaã Ferraz, no Museu do Aljube, de 25 de abril a setem-
retas Já. A expectativa dos brasileiros em relação à Emenda bro de 2017.

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A CASA DA ANDRÉA

C A M A VA Z I A
ANDRÉA ZAMORANO

42 42
A CA SA DA ANDRÉ A

cama vazia
voltei pra cama
as horas me abandonaram no chão do quarto
o ar se encheu de inverno, me encolhi na manta
abracei o travesseiro, enganei o sono
não o meu coração.

olhei pro lado
a madrugada era vermelha no relógio de cabeceira
risquei o fósforo, acendi o teu cigarro
dei só um trago, apaguei a chama
não o meu coração

43
A CA SA DA ANDRÉ A

sentei na beirada
os pés indiferentes à cerâmica gelada
sacudi os lençóis, ajeitei as almofadas
estiquei a colcha, arrumei o nosso quarto
não o meu coração.

abri o armário
cheirei o teu pulôver abandonado
abracei-o como se nunca, vesti-o como sempre
deitei-me com ele, aqueceu o meu peito
não o meu coração.

ouvi o barulho
desejei fosse a tua chave de novo encravada
nas voltas do tambor me esqueci da cama
esperei no escuro, restava a esperança
mas só no meu coração.
44
45
Acaminha pela
literatura há

Andan-
18 anos

te
ANDREIA
BRITES

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A Andante completa de- lá.» Depois de
zoito anos de existência Atos de Leitu -
no dia 21 de setembro. O ra, criaram
primeiro espetáculo foi mais de trin-
na Biblioteca Municipal ta espetácu-
de Lagoa, no Algar ve. los para dar a
Cristina Paiva, a ouvir a litera-
atriz, recorda o tura a adultos
momento e olha e crianças. No mês em
com melanco- que se comemoram os
lia para Fernan- l i v ro s , a B l i m u n d a
do Ladeira: «E traça o perfil desta
tu não estavas associação artística.
48
an dante

Abrir caminhos arte da representação oferecendo caminhos de leitura. Fá-lo
com grande domínio dos recursos dramáticos, onde a repeti-
«O que se perde em intimidade e liberdade, ganha-se em ção encaixa como nos textos para a primeira infância: quan-
facilidade de comunicação, em revelações insuspeitadas, em do o público se começa a perder reencontra um refrão, um
comunhão de sentimentos.» As palavras são de Cristina Pai- porto seguro que reconhece, mesmo sem o interpretar. João
va na apresentação de «Atos de Leitura», o primeiro espetá- Pedro Mésseder afirmou que a Andante «põe a palavra em
culo que criou com o sonoplasta Fernando Ladeira em 1999, estado de evidência sensorial». Fê-lo quando subiu ao palco
com a missão de levar a palavra e a composição literária a na Escola Superior de Educação de Lisboa, na ante-estreia
todos os públicos. Através do apoio da Fundação Calouste de «Andante (des)Concertante» recuperando uma expressão
Gulbenkian e do então IPLB (Instituto Português do Livro da investigadora brasileira Maria da Glória Brodini no livro
e das Bibliotecas) a Andante pôs-se a caminho de bibliotecas Poesia Infantil. Foi a partir da composição de poemas seus
municipais por todo o território nacional. E as palavras de que se pensou o espetáculo, pautado por uma teia sensorial
Cristina Paiva continuam tão válidas em 2017 quanto o eram muito bem equilibrada e que permite, como todos os outros
em 1999. A Andante atinge a maturidade com um longo his- trabalhos da Andante, uma leitura livre de descodificações
tórico de partilha poética e narrativa, geralmente transfigu- obrigatórias. A palavra e o som promovem leitura deixan-
rada numa experiência que sugere associações, propõe novos do sentidos, curiosidades e espanto. É simples. Contudo, sem
contextos e cenários e representa, pela repetição, algo essen- cedências. Porque é arte e a arte não se serve mastigada. Se-
cial no processo de leitura: o eco. gundo Cristina Paiva «um espetáculo destes não produz lei-
Ouvir poesia é exigente, ouvi-la como eixo central de um tores. Mas um espetáculo pode abrir um espaço dentro da
quadro onírico, bucólico, simbólico, não ajuda à descodifi- cabeça. E quando esse espaço é aberto não se fecha. Acredito
cação. A Andante não cede a estratégias que transformam o nisso. Vimos acontecer muitas vezes.»
literário na sua descrição. Não cede ao didático. Alimenta a
49
A l e a tór i o
an dante

Ouvir to dos os sentidos vras», poema de João Pedro Mésseder, poeta admirado pela
atriz e pelo sonoplasta e encenador. O apelo sensorial foi o
«Andante (des)concertante» flui em palco exatamente as- primeiro passo para a intervenção do público que é intima-
sim. Embora tenha sido pensado para o público infantil, do, de acordo com a fila onde está sentado, a produzir sons
Fernando Ladeira e Cristina Paiva decidiram ante-estreá-lo que depois, associados aos das outras filas resultam numa
perante uma plateia de mediadores na Escola Superior de orquestra de chilreios, vento e assobios. Mas aqui estamos
Educação de Lisboa em janeiro de 2017. Os adultos riram ainda longe de atingir plenamente a participação das crian-
como crianças nos apontamentos de exagero ou absurdo, ças. O grande momento de convocação da audiência dá-se
responderam aos reptos de participação sonora e gestual com a repetição de «A árvore das palavras» e ganha outra
e renderam-se à energia contagiante de uma personagem valência, a da lingua gestual. Tudo se enreda numa teia de
híbrida que evoca a árvore e conduz, com um apoio ceno- composições que no momento parece simples. Trabalha-se
gráfico minimalista, uma orquestra na plateia. A maestrina então, ao longo do espetáculo, o poema em língua gestual
fazia-se acompanhar de batuta e estante, que também podia portuguesa, ensaia-se para que no final o grupo seja filma-
ser o escudo de D. Quixote, uma janela ou um quadro, até do. E, como a poesia também é silêncio, desafiam-se os pre-
os ramos de uma árvore. Mas a portabilidade dos elementos sentes a estar silenciosos. No final, depois de dizerem o po-
em nada limitam ou empobrecem o espetáculo. Muito pelo ema, chega o momento de bater o recorde do silêncio. Com
contrário. Contribuem para uma implicação do espectador um cronómetro, Cristina Paiva mede o tempo. E os grupos
que intuitivamente e seguindo a sua própria subjetividade querem ultrapassar o desafio, e querem repetir, empenham-
vai relacionando o que vê e o que ouve com os vazios ne- -se em algo tão avesso ao seu quotidiano que lhes parece
cessários à interpretação. «Andante (des)concertante» surgiu extraordinário conseguir. O filme da sua atuação, que fecha
para dar resposta ao desejo de unir um espetáculo para mui- o espetáculo , vai com eles, para sedimentar memórias, poe-
tas crianças a um atelier em que elas fossem agentes de algo. mas, silêncios e língua.
Era preciso um tema unificador, e surgiu «A árvore das pala-
51
an dante

A ge stação petáculo, que foi dirigido pelo Carlos Pimenta, foi para mim
uma revelação total.» Se era possível dizer textos do Padre
«Foi preciso reinventar a pólvora e a Andante nasceu as- António Vieira, por que não dizer poesia? «Então podíamos
sim», afirma Fernando Ladeira. Quando o projeto de teatro fazer isto!» Entretanto, a Comissão colabora com o então
no qual participavam em Aveiro deu sinais de correr mal, a IPLB levando teatro em itinerância por várias Bibliotecas
atriz e o sonoplasta sentiram uma urgência de sobreviverem Municipais. Cristina tem, assim, o primeiro contacto com
a fazer teatro. E decidiram experimentar criar um espetáculo os programas e os equipamentos. O ensaio geral aconteceu
que os levasse, em itinerância, pelas bibliotecas municipais, por via das circunstâncias. Um amigo casou e Cristina e Fer-
que à época ganhavam preocupações novas de programação nando não tinham dinheiro para a prenda. Decidiram então
e de promoção da leitura. gravar um cd com poemas ditos por ela e com sonoplastia
Mas como em qualquer nascimento, antes há uma se- dele. A prenda completou-se com a realização, no casamen-
mente que germina. Cronologicamente, tudo começa na to, da sessão imaginada pelo casal.
infância de Cristina, que se lembra com nitidez de inventar Atos de leitura não foi pensado para nenhum público em
ritmos e músicas para os poemas que procurava avidamente concreto, nem com nenhuma intenção interpretativa. Nas-
nos manuais escolares e que, depois de decorados, cantava ceu como experiência e assim os poemas escolhidos pela
até à exaustão. Avançando no tempo, Fernando Ladeira teve dupla tiveram como critério único a sua presença na vida de
um programa de rádio em Portalegre onde a poesia era pre- cada um. Aos poemas escolhidos, que estavam acompanha-
sença assídua. Pouco depois de conhecer Cristina convidou- dos por raros excertos em prosa, Fernando Ladeira associou
-a a participar no programa. Alguns anos depois, quando, uma banda sonora, maioritariamente constituída por sons e
na Comissão dos Descobrimentos, Cristina Paiva participa que pautava todo o espetáculo . «Tinha um texto do Hemin-
num espetáculo sobre o Padre António Vieira tem uma epi- gway acompanhado por um pingo a cair que ia aumentando
fania. «Percebi que se podia fazer um texto que não era te- porque era uma cena de amor. Começava lentamente com
atro e que se podia fazer teatro de outras maneiras. Esse es- um pingo a cair e acabava numa cascata.» recorda Fernando.

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Quem q u e r se r S a ra m a g o
an dante

E Cristina acrescenta: «E eu sabia que ao fim de quinze pin- visual da Andante. «Por exemplo, em À volta da Língua o
gos tinha de ir não sei onde, e ao fim de vinte não sei onde... meu vestido era um livro. O cenário de As coisas melhores
era assim.» Todavia este excerto era uma exceção. A poesia são feitas no ar eram malas que eram livros e era um chão
foi o género escolhido desde sempre. «Nós queríamos fa- cheio de letras que passavam para o nosso corpo e o nosso
zer promoção da leitura e trabalhar textos em prosa, como corpo passava a ser um lugar onde se lia. É uma ideia de
em Quem quer ser Saramago. A poesia permite encerrar como a palavra se mete por dentro de nós e de como isto
números, fazer blocos, continuando a estar com os livros, serve para mediar a leitura, como serve para passar entre os
com a literatura, com os autores e podendo ligá-los por mui- livros e os não leitores.»
tos lados.» Depois de terem o projeto finalizado, Cristina e Ao longo destes dezoito anos houve outras pessoas im-
Fernando pediram opinião a Carlos do Rosário com quem portantes que colaboraram e colaboram com a Andante,
aprimoraram alguns detalhes. O encenador gostou muito sempre que há verba suficiente. Quer Cristina quer Fernan-
da ideia de dizer poesia num espetáculo de teatro e aca- do consideram essencial a visão exterior, que trará um con-
bou por encenar os dois espetáculos seguintes da Andante, tributo para além do seu código. Embora reconheçam que
onde aliás integra a direção: À volta da Língua, pensado para a cada projeto há algo novo e diferente que contamina a
o público adolescente e As coisas melhores são feitas no ar dupla, a verdade é que essa voz é importante, especialmente
para o público infantil. «Nestes três espetáculos se constrói ao nível da encenação e do figurino.
a linguagem da Andante.», sintetiza Fernando Ladeira. Para
além da encenação, a cenografia e o figurino assumiram Retratos de família
cedo um papel muito importante na composição minima-
lista de uma atriz, quase sempre sozinha em palco, dizendo Apesar das muitas contingências, a Andante continua
poesia em espaços diversos. Tudo tem de ser portátil e por sempre em ebulição. «Continuo a querer mudar o mundo
isso metamórfico. Cristina recorda o trabalho de figurinista como quando era mais novo e o trabalho que nós fazemos
de Marta Carreiras que ajudou a cimentar a forte identidade vai nesse sentido!», assume Fernando cheio de convicção.
54
an dante

Histórias que o comprovem não faltam. Nos espetáculos entusiasmo e concentração. Depois de terminar, enquanto
para adultos acontecia com frequência as pessoas comen- arrumava alguns objetos , Cristina ouviu um menino parti-
tarem, no final, que não tinham dado pelo tempo a passar lhar com a educadora: «Vou ter saudades deste espetáculo !»
e que uma hora era pouco. Há quem os aborde na rua anos Anatomias era um pouco diferente: consistia num atelier
depois para agradecer ou confessar que um espetáculo ou dramatizado em que as turmas do 2º ciclo eram convidadas
um atelier mudou a sua vida. «Fizemos amigos assim.» con- a seguir o rasto de um ladrão de palavras com os dois dete-
fessa Cristina. E recorda uma situação na primeira represen- tives (Cristina e Fernando). Apropriando-se do espaço da
tação de Atos de Leitura em que um dos textos que lia era própria Biblioteca, a Andante lançava pistas e apresentava
«o “Poema do Menino Jesus” do Caeiro, mais ateu que sei livros semi-destruídos, livros em que o ladrão tinha alterado
lá o quê... No final houve um professor que veio ter comigo palavras, papéis no chão.
e que me disse: «Sou professor e sou católico.» E eu pensei «Havia um miúdo de uma família desestruturada, que
que havia um desconforto, que ainda se sente quando leio passava muito tempo na rua, e que quando a sessão acabou
o poema, parece mentira mas é verdade. Respondi: «Com queria levar um livro da biblioteca. Disseram-lhe que para
certeza.» E ele continuou: «Eu não conhecia aquele poema se inscrever precisava de um comprovativo de morada –
do Caeiro mas tenho de o ir ler porque é impressionante. E uma conta da água ou da luz. O miúdo foi a casa buscar,
repare, eu sou uma pessoa católica!» Era isto que ele queria voltou, inscreveu-se e naquele mesmo dia levou um livro
dizer: apesar de ser católico tinha gostado do texto!» para ler.», recorda Fernando. Outras crianças iam para
Apesar de ser uma missão em relação à qual não é possí- casa verificar se o seu livro d'O Principezinho também esta-
vel contabilizar resultados, Fernando e Cristina sentem-se va rasgado, como o exemplar da Biblioteca. Em Alcochete,
muitas vezes de alma cheia no regresso a casa. Numa escola a Andante é mais conhecida e conhece melhor o público.
pediram-lhes que um grupo de cinco anos de pré-escolar São vizinhos que se cruzam na rua, no supermercado, na
assistisse com os alunos do 1º ciclo ao Andante (des)Con- biblioteca. As crianças com quem trabalharam há anos fo-
certante. Surpreendentemente ou não, participaram com ram crescendo. Cristina Paiva partilha com orgulho um

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Af i n a l o Íb i s
an dante

pequeno apontamento: «Noutro dia ia no autocarro para “Paciência, não lhe dei a volta.” E no final do espetáculo
Lisboa e reparo num miúdo, que participou no espetácu- a única coisa que ele fez foi tirar os óculos escuros e vir-
lo de abertura da Biblioteca de Alcochete e agora já anda -me cumprimentar. Aí despiu-se. Foi impressionante! Eu
na universidade. Ia a ler um livro. Era O Admirável Mundo ia caindo! Isto significa que quando o espetáculo acaba eu
Novo. Nada mal!» estou um caco, porque entreguei tudo e as pessoas sentem
isso.» Mas há também surpresas menos tensas. «Uma vez,
Na pri são estávamos a fazer o espetáculo sobre o Manuel da Fonseca
numa prisão em Coimbra. E o Manuel da Fonseca tem um
Para além de espetáculos para bebés, crianças, adoles- poema que é “O Maltês”. E o Maltês bate à porta e diz: “Eu
centes e adultos, há uma comunidade com quem a An- não venho pedir. Tenho uma história para contar e é assim
dante também tem uma longa experiência: são reclusos e que eu pago. Antes roubar que pedir.” No final, na Bibliote-
reclusas. Às prisões levaram Atos de Leitura, A viagem e ca da Prisão de Coimbra, dá-se uma discussão monumen-
depois Palavra Cativa, o único criado a pensar neste públi- tal entre os presos sobre o que era a liberdade. Havia um
co. O que tinha de particular não era o tema dos textos mas que dizia que era indecente vir gente de fora dizer que era
sim o facto de todos os seus autores terem estado presos. bom roubar, e o outro respondia: “Eh pá, mas não era isso
A identificação eventual dar-se-ia pela condição de quem que o poema queria dizer! Tu não ouviste a senhora?” E ali
escreveu aquilo que o público ouve e não pelo texto em estavam a discutir sozinhos.» Agora vão regressar com Ad-
sim, que seria redutor e injusto. A grande diferença que Versus, que deixaram de fazer e substituíram pelo Aleatório
Cristina encontra é a exigência com que se depara. Uma que têm levado à cena em algumas Bibliotecas. A escolha
exigência de sinceridade, de entrega. «Lembro-me de um deste espetáculo para apresentar ao público recluso pren-
homem na Prisão de Sintra, – conto sempre isto porque de-se com a sua estrutura por blocos temáticos de poemas
me impressionou imenso – um homem enorme, de óculos que funciona muito bem.
escuros, sentado na plateia. Nunca se mexeu. E eu pensei:
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an dante

O s b astidore s para que ambos teçam o reencontro das palavras e dos sons.
A cada novo projeto é mais frequente serem os poemas a
Na Semana da Leitura, em março , a Andante correu o surgir primeiro. Depois chega a música e a sonoplastia. Mas
país e apresentou cinco espetáculos: Afinal o Caracol, Afinal já aconteceu o contrário: «Às vezes o espetáculo está a ir por
o Íbis, Andante (des)Concertante, Aleatório e Quem quer ser um caminho e a determinada altura sabes que vai ter um
Saramago. Como se ensaiam tantos textos sem que tudo se ponto alto e depois outro baixo. Ora, às vezes sabes que pre-
contamine? Cristina Paiva esclarece a Blimunda: todos os cisas de uma certa música para criar um efeito nas pessoas e
textos estão gravados na sua memória. «Como? Não sei!» depois arranjas um texto para a música» explicita Fernando.
Mas relata-nos que nunca estreia um espetáculo sem sa- «Como os poemas para mim são muito música não é difícil
ber os textos de cor. E neste caso, a história da expressão encontrar as palavras. Às vezes oiço a música e de repente
idiomática confirma-se: de cor, conhece a partir do coração. vou à procura e digo-lhe: “Espera aí, vê lá este.” São muitos
Arranja mnemónicas, conta palavras que se sucedem numa anos a fazer este trabalho.»
enumeração, associa os poemas às páginas onde estão quan-
do os lê, estimula a memória fotográfica. Depois, ensaia com É pre ciso reinventarmo-nos
o som e as marcas que servem para encontrar e cumprir rit-
mos. Quando há uma pausa na representação e depois um O desejo de criar um espetáculo para bebés andava há
retorno, Cristina começa a escavar os textos mentalmente, muito a rondar Cristina Paiva. De tal maneira que guardam,
cerca de duas semanas antes. Escavar significa procurar os no computador, uma ideia que ainda não viu a luz do dia
textos e o alinhamento na sua memória. Parte em busca das mas ambos acreditam que um dia verá. Essa ideia parte da
associações e mnemónicas. E começa a passar o texto. Na observação de um diálogo recorrente entre adultos e bebés.
sua cabeça, enquanto corre ou se movimenta por qualquer Com a chegada da crise, em 2011, que levou a programa-
razão, as palavras vão surgindo com uma certeza crescen- ção da maior parte das Bibliotecas Municipais para uma
te. Alguns dias antes, volta a ensaiar com Fernando Ladeira, espécie de grau zero, a Andante pensou que era chegada a
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À La Ca r te
an dante

hora de apostar no público mais pequeno e tentar chegar -lo nas bibliotecas e livrarias. Com Afinal o Íbis o processo
diretamente a creches e jardins de infância. Era importante é idêntico. «Quando começámos a pensar num espetáculo
escolher um rumo para o projeto, e esse passava pela lin- para bebés pensámos em ter um livro a partir do espetá-
guagem. Apesar de haver pouca oferta de espetáculos de culo feito por um ilustrador.» Depois de várias tentativas,
promoção da leitura para bebés, muitos destes recorrem ao Mafalda Milhões aceitou o desafio não apenas da conceção
discurso onomatopaico, à linguagem de bebés, que foi posto do livro como da própria cenografia. E agora que a Andante
de parte. Talvez lengalengas, canções de embalar? «Isto as está a pensar num terceiro espetáculo, provavelmente ainda
pessoas todas reconhecem! Depois pensámos: não importa com Fernando Pessoa como autor, contam desde já com a
qual é o texto!» A escolha dos poemas teve em especial aten- ilustradora e editora. Cristina resume assim: «Os espetácu-
ção o som nas suas componentes de ritmo, cacofonia, eco, e los para bebés da Andante também são da Mafalda.»
repetição cadenciada. Surge então Fernando Pessoa. Surge A ideia de promover a leitura foi também a de prolon-
pela relação subjetiva que os Andantes têm com o autor, e gar o efeito do espetáculo possibilitando aos mediadores
pelo impacto surpreendente que poderia ter num espetácu- (pais e educadores) um regresso ao texto que as crianças,
lo para bebés. Acresce ainda um dado fulcral: a obra está naqueles quarenta e cinco minutos, apreendem. A atriz con-
em domínio público. Se a Andante está em dificuldades por sidera ainda que, para além desse contacto sensorial com o
causa dos cortes orçamentais extremos, não pode dar-se ao poema, as crianças recebem a génese da filosofia pessoana e
luxo de ainda pagar direitos de autor sobre os textos que vai que algo permanecerá na história e na memória subjetiva de
promover. E Fernando Pessoa chegou em força com Afinal o cada pré-leitor. «A cara dos miúdos quando eu estou a dizer:
Caracol. Ao espetáculo a Andante juntou a produção de um “E quando começa e não acabou...” Aquilo está a entrar-lhes
livro com o poema principal que é encenado. A Bichinho de pela cabeça e isto é abrir mundos. E não é um poema qual-
Conto criou o objeto-livro que é mostrado pela atriz e fez quer. Nós apresentamos como uma brincadeira mas o poe-
uma edição de maneira a que todos os que vão ver Afinal o ma tem muitas camadas e achamos que isso é fundamental
Caracol possam levar aquele poema consigo e reencontrá- para formar leitores.»

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ANDand the winner is...
Prémio ALMA
O anúncio do prémio ALMA é um dos momentos A colagem que acentua a disformidade contribui
mais ansiados do ano por autores e promotores da para um universo muito distante do equilíbrio
literatura infantojuvenil. Como sempre acontece, onírico e formal mais convencional. Para além de
foi na feira Internacional do Livro Infantil de A toupeira que queria saber quem lhe fizera aquilo
Bolonha que se conheceu o vencedor deste ano, na cabeça, editado pela Kalandraka e A grande
o ilustrador alemão Wolf Erlbruch. Reconhecido questão, da Bruaá, existe apenas em Portugal um
por abordagens desconcertantes a temas catálogo da sua obra editado no âmbito de uma
menos convencionais, o autor ora cria contextos exposição comissariada por Eduardo filipe e Ju
reflexivos e problematizadores, ora provoca o Godinho e integrada na Ilustrarte de 2009.
leitor com o seu sentido de humor.

Wolf
Erlbruch
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orrfe
o eu
e g
V I S I TA
GUIADA
ANDREIA
BRITES
V I S I TA G U I A DA : O R F E U M I N I

Sempre a crescer

Para a equipa da Orfeu Negro este ainda é o há uma impressora profissional, com máquina de
novo espaço. Apesar de terem mudado para o corte ao lado. Assim podem verificar as cores im-
2.º andar de um edifício recuperado da Rua Silva pressas, as composições das páginas e não deixar
Carvalho, em Campo de Ourique, em fevereiro de passar pormenores que muitas vezes são imper-
2016, o peso de terem duplicado as edições não ceptíveis no computador. Quando o livro vai a im-
lhes dá muito tempo para pensarem em decora- primir na gráfica a margem de erro é infinitamen-
ção. te menor e o catálogo da Orfeu conta com uma
Mas basta olhar à volta na ampla sala de tra- grande percentagem de álbuns, a grande maioria
balho para logo percebermos alguns detalhes. As da Orfeu Mini.
secretárias têm tampos negros enormes, que con- As quatro mesas estão emparelhadas duas a
trastam com as paredes e as estantes brancas. duas, a partir do centro da sala, e as estantes ocu-
Foram feitas num carpinteiro depois da mudança. pam as paredes. Ana Lorena é aquela que acom-
«Quando pusemos aqui as secretárias antigas pa- panha a editora Carla Oliveira há mais tempo,
recia que nadavam no espaço.» Ana Lorena recor- desde o escritório na Rua da Trindade, quando a
da a sensação. Para além disso, eram pequenas Orfeu ainda integrava a Antígona. Patrícia já che-
demais para se poderem ver maquetes de livros, e gou quando a Orfeu estava no escritório junto ao
isso é essencial na editora. Tanto que a um canto Princípe Real e Brenda juntou-se no novo espaço.

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V I S I TA G U I A DA : O R F E U M I N I

Poesia ao final da tarde

Foi aliás a necessidade de ter mais uma pessoa fias assinadas e numeradas para serem vendidas
na equipa uma das razões que levaram a editora na Baobá, a livraria que a Orfeu abriu em Novem-
a procurar um novo local. A luz é muita e a vista bro.
de excepção, com o Castelo de São Jorge no ho- As estantes permitem ver todo o fundo, com
rizonte. Para Patrícia Guerreiro, que assegura en- as várias edições de cada livro. Também o fundo
tre outras coisas a comunicação da editora, isso é da Antígona, cujo departamento editorial está no
um inconveniente para as sessões de poesia que andar de baixo. A razão é simples: como a Orfeu
implementou em algumas segundas-feiras ao e a Antígona partilham a distribuição e a equipa
final da tarde. De repente, enquanto todas traba- comercial está na sala ao lado, é mais fácil aceder
lhavam, Patrícia apagava as luzes e lia um ou dois aos títulos logo ali. Noutra parede encontramos
poemas. «No Verão o efeito não é o mesmo por- edições estrangeiras que a Orfeu Negro recebe,
que há mais luz» comenta a rir. algumas das quais já editadas pela editora. Mes-
Nas paredes, além de alguns quadros escolhidos mo os títulos que a equipa decide não editar, mui-
por Carla Oliveira, ainda não há impressões, seri- tas vezes servem de mostruário de formatos, tipo-
grafias ou originais dos ilustradores da casa. Mas grafias, papel.
num móvel ao pé da janela guardam-se serigra- Brenda toca o gongo. Está na hora de sair.

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ANDREIA BRITES A Gata das Botas

ESPELHO MEU Beatrix Potter, Quentin Blake, Asa

Apesar do reconhecimento mundial, as edições traje. Kitty parece mais o resultado do seu próprio esta-
portuguesas da vasta obra de Beatrix Potter têm sido tuto que erroneamente considera proporcionar-lhe uma
intermitentes. Só recentemente voltou às livrarias a sua liberdade irresponsável do que uma gata progressista.
personagem mais célebre, Pedrito Coelho. Nesse sentido, a superioridade com que trata aqueles que
Agora é a vez de a Asa editar uma narrativa inédita a ajudam, a sua teimosia e o próprio castigo que resulta
que conta com ilustrações do britânico Quentin Blake. do salvamento constituem a leitura moral desta pequena
A Gata das Botas cumpre a tradição efabulatória da au- narrativa. As botas, na sua relação intertextual, represen-
tora, trazendo para o centro da ação uma gata subver- tam a suprema recriação humorística de Potter: deixá-las
siva que enganava a dona para realizar os seus desejos garante o regresso à normalidade e o fim do perigo.
de liberdade. Quentin Blake aviva, com os múltiplos traços de mo-
O lugar do feminino enquanto papel burguês, elitista vimento e expressão, o sentido do cómico. O cor de rosa
e subjugado a uma determinada formalidade é posto em causa por que acompanha o leitor desde o fundo da ilustração da capa, pas-
Miss Catherine Quintin, a gata que adora caçar durante a noite e sando pelas guardas e pelos fatos da gata no final, reitera o sentido
veste um traje masculino para o efeito. crítico do texto. Blake tem, geralmente, um talento especial para
O final apresenta-se como aprendizagem mas a última página a construção de personagens exagerados e neste caso consegue
parece desmontar uma moral que não bate certo com a própria mostrar de Kitty as suas múltiplas facetas. É preciso não esquecer
biografia da autora, sempre nos limites do que se esperava de uma que foi Blake quem ilustrou as narrativas de Roald Dahl, pejadas
mulher burguesa na Inglaterra da viragem do século XIX para o de personagens que, no próprio texto, eram já caricaturas. As suas
século XX. O humor do texto é subtil e provoca mais estranheza ilustrações não garantem apenas uma leitura das figuras. A passa-
que riso. Resulta na maioria dos casos de incongruências nos com- gem do tempo é por exemplo trabalhada através das escolhas de
portamentos ou discursos das personagens, nomeadamente a gata cor para o céu em fundo.
que por um lado se assume quase como uma amazona e ao mesmo Desta reunião post mortem nasce um objeto clássico e moderno,
tempo não dispara sobre um coelho por causa da elegância do seu despretensioso e literário.

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ANDREIA BRITES O Piolho sabe que

ESPELHO MEU Mathis, Aurore Petit, Orfeu Negro

Este álbum para a primeira infância é, do e da paleta de cores que, para além do preto e do
ponto de vista da estrutura, um livro perfeito. branco, oscila entre o amarelo, laranja, vermelho
Seguindo um discurso repetitivo e enumerativo, e rosa. Não é de menor relevância que o preen-
o texto proporciona ao leitor o reconhecimento e chimento das formas e dos fundos se assemelhe
o ritmo que lhe permite concentrar-se e simulta- ao efeito dos lápis de cor, usando para contorno o
neamente criar expectativas. preto.
O que sabe afinal o piolho? Nas páginas ím- Se só estes elementos fariam de O Piolho sabe
pares, a tipografia em maiúsculas ocupa toda a que um álbum competente e equilibrado, a surpre-
mancha branca, variando apenas a cor da frase. sa reservada para o final eleva-o para um nível de
As páginas pares, por seu turno, reiteram a infor- leitura superior. Depois de se estabelecer uma sólida
mação textual através da representação parcial experiência de identificação, em que o piolho vai ga-
do animal que o piolho sabe ser ou fazer algo, nhando mais e mais credibilidade, o narrador aponta
de acordo com a sua observação. A ilustração segue aliás uma na direção oposta: «Mas o que o piolho não sabe...» E a figura do
escala amplificadora, na medida em que o piolho aparece em piolho reage com grande espanto. A última página dupla desmon-
todas as imagens. O próprio bicho é retratado de forma cómica ta todo um edifício de conhecimento que, sem ser falso em geral,
logo na capa, com os olhos um pouco estrábicos e uma ex- não corresponde àquele contexto, mas que, por outro lado deriva
pressão ligeiramente confusa. A cada revelação, o protagonista de uma forma subjetiva e condicionada de ver o mundo.
apresenta-se em ação, seja a saltar, a escalar, ou apenas espo- Como a de qualquer um de nós. Do jogo de confirmação o
jado, tonto, numa pinta de uma pretensa joaninha. Ora ri, ora álbum propõe ao leitor uma total inversão para abrir, de forma
transpira, ora se assusta. lúdica, a lente da imagem para um plano coletivo que finalmente
A leitura visual joga com a presença do piolho e com a dedu- junta todos os elementos previamente focados num plano ex-
ção do todo pela parte que se mostra. É aqui que se acrescenta à cessivamente próximo. Da ilusão ótica à forma como vemos há
informação enciclopédica um sentido de interpretação ficcional um caminho que a leitura permite traçar e que o próprio leitor
e estético, embora tal não se assuma na simplicidade do traço experiencia.
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um Em 2002, no dia do

capí-
s e u a n i ve r s á r i o d e 8 0

tulo p a ra
anos, José Saramago
assistiu em Lisboa à leitura
e n c e n a d a d e t ex t o s
s e u s n a vo z d e L a u r a
Morante, Marisa Pa-

o eva n -
redes e Maria de Me-
deiros. Quando soube da homenagem
que l he seria feita, o escritor
entregou à Maria de Medei-
r o s u m t ex t o s e u q u e s e r v i -

gelho
ria com um capítulo a mais ao
O E va n g e l h o S e g u n d o J e s u s
Cristo. A Blimunda recupera
p a r a e s t e n ú m e r o e s s e t ex -
to, a Carta de Maria Magdala.

saramaguiana

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um capítulo para o evangelho

De mim se há-de dizer que depois da morte de Jesus me arrependi do que chamavam
os meus infames pecados de prostituta e me converti em penitente até ao fim da vida, e
isso não é verdade. Subiram-me despida aos altares, coberta unicamente pela cabeleira
que me desce até aos joelhos, com os seios murchos e a boca desdentada, e se é certo
que os anos acabaram por ressequir a lisa tersura da minha pele, isso só sucedeu porque
neste mundo nada pode prevalecer contra o tempo, não porque eu tivesse desprezado
e ofendido o mesmo corpo que Jesus desejou e possuiu. Quem aquelas falsidades vier
a dizer de mim nada sabe de amor. Deixei de ser prostituta no dia em que Jesus entrou
na minha casa trazendo-me a ferida do seu pé para que eu a curasse, mas dessas obras
humanas a que chamam pecados de luxúria não teria eu que me arrepender se foi como
prostituta que o meu amado me conheceu e, tendo provado o meu corpo e sabido
de que vivia, não me virou as costas. Quando diante de todos os discípulos Jesus me
beijava uma e muitas vezes, eles perguntaram-lhe porque me queria mais a mim que a
eles, e Jesus respondeu: «A que se deve que eu não vos queira tanto como a ela?» Eles

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um capítulo para o evangelho

não souberam que dizer porque nunca seriam capazes de amar Jesus com o
mesmo absoluto amor com que eu o amava. Depois de Lázaro ter morrido, o desgosto
e a tristeza de Jesus foram tais que, uma noite, debaixo do lençol que tapava a nossa
nudez, eu lhe disse: «Não posso alcançar-te onde estás porque te fechaste atrás de uma
porta que não é para forças humanas», e ele disse, queixa e gemido de animal que
se escondeu para sofrer: «Ainda que não possas entrar, não te afastes de mim, tem-
me sempre estendida a tua mão mesmo quando não puderes ver-me, se não o fizeres
esquecer-me-ei da vida, ou ela me esquecerá.» E quando, alguns dias passados, Jesus
foi reunir-se com os discípulos, eu, que caminhava a seu lado, disse-lhe: «Olharei a tua
sombra se não quiseres que te olhe a ti», e ele respondeu: «Quero estar onde estiver a
minha sombra se lá é que estiverem os teus olhos.» Amávamo-nos e dizíamos palavras
como estas, não apenas por serem belas e verdadeiras, se é possível serem uma coisa e
outra ao mesmo tempo, mas porque pressentíamos que o tempo das sombras estava a
chegar e era preciso que começássemos a acostumar-nos, ainda juntos, à escuridão da

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um capítulo para o evangelho

ausência definitiva. Vi Jesus ressuscitado e no primeiro momento julguei que aquele
homem era o cuidador do jardim onde o túmulo se encontrava, mas hoje sei que não o
verei nunca dos altares onde me puseram, por mais altos que eles sejam, por mais perto
do céu que alcancem, por mais adornados de flores e olorosos de perfumes. A morte
não foi o que nos separou, separou-nos para todo o sempre a eternidade. Naquele
tempo, abraçados um ao outro, unidas pelo espírito e pela carne as nossas bocas, nem
Jesus era então o que dele se proclamava, nem eu era o que de mim se escarnecia. Jesus,
comigo, não foi o Filho de Deus, e eu, com ele, não fui a prostituta Maria de Magdala,
fomos unicamente aquele homem e esta mulher, ambos estremecidos de amor e a quem
o mundo rodeava como um abutre babado de sangue. Disseram alguns que Jesus havia
expulsado sete demónios das minhas entranhas, mas também isso não é verdade. O que
Jesus fez, sim, foi despertar os sete anjos que dentro da minha alma dormiam à espera
que ele me viesse pedir socorro: «Ajuda-me.» Foram os anjos que lhe curaram o pé, eles
foram os que me guiaram as mãos trementes e limparam o pus da ferida, foram os

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um capítulo para o evangelho

que me puseram nos lábios a pergunta sem a qual Jesus não poderia ajudar-me a mim:
«Sabes quem eu sou, o que faço, de que vivo», e ele respondeu: «Sei», «Não tiveste que
olhar e ficaste a saber tudo», disse eu, e ele respondeu: «Não sei nada», e eu insisti:
«Que sou prostituta», «Isso sei», «Que me deito com homens por dinheiro», «Sim»,
«Então sabes tudo de mim», e ele, com voz tranquila, como a lisa superfície de um lago
murmurando, disse: «Sei só isso.» Então, eu ainda ignorava que ele fosse o filho de
Deus, nem sequer imaginava que Deus quisesse ter um filho, mas, nesse instante, com
a luz deslumbrante do entendimento pelo espírito, percebi que somente um verdadeiro
Filho do Homem poderia ter pronunciado aquelas três palavras simples: «Sei só isso.»
Ficámos a olhar um para o outro, nem tínhamos dado por que os anjos se tinham
retirado já, e a partir dessa hora, pela palavra e pelo silêncio, pela noite e pelo dia, pelo
sol e pela lua, pela presença e pela ausência, comecei a dizer a Jesus quem eu era, e
ainda me faltava muito para chegar ao fundo de mim mesma quando o mataram. Sou
Maria de Magdala e amei. Não há mais nada para dizer.
Fotografia da Pietà, de Miguel Ângelo

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SOMOS BIBLIOTECAS
PÚBLICAS. MUNICIPAIS. DE TODOS.
CAMPANHA DE PROMOÇÃO DAS BIBLIOTECAS PÚBLICAS

www.somosbibliotecas.pt
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Que boas estrelas estarão cobrindo os céus de Lanzarote?

A Casa José Saramago
Aberta de segunda a sábado, das 10 às 14h. Última visita às 13h30.
Abierto de lunes a sábado de 10 a 14h. Última visita a las 13h30 h.
Open from monday to saturday, from 10 am to 14 pm. Last entrance at 13.30 pm.

Tías-Lanzarote – Ilhas Canárias, Islas Canarias, Canary Islands – www.acasajosesaramago.com
Fotografia de João Francisco Vilhena
Festival
Internacional
Sueños
Até 7 Mai
abril
de Música da No Teatro de la
Comedia, uma obra Insurreccions MiiC
Eugênia Primavera de Francisco de
Quevedo sobe ao
Até 21 Mai Até 25 Jun
Até 27 Abr Até 30 Abr palco para confirmar
Um atlas de imagens
que percorre o século
Mostra internacional
de ilustração
Décima edição do a actualidade de um
A partir de XX a partir das suas contemporânea
festival de música, texto do século XVII,
dramaturgia de muitas insurreições, que reúne trabalhos
cruzando uma Madrid, Teatro de la
Miriam Halfim, uma reunindo fotografia, de ilustradores de
programação que Comedia.
comédia sobre a vida vídeo, escultura e diferentes pontos do
inclui músicos 
de Eugênia José de centenas de outros globo.
reconhecidos documentos.
Menezes, amante Santiago de
internacionalmente Barcelona, Museu
de D. João VI, que Compostela, Auditorio
e algumas finais Nacional d'Art de
reflecte sobre o espaço de Galiza.
de concursos de Catalunya. 
reservado às mulheres
instrumentistas do 
na sociedade da
conservatório.
época.
Viseu, Teatro
Rio de Janeiro, Teatro
Viriato.
Serrador.

Mário Laginha
A Fotografia na Operação
era do preto e Condor
abril
Monumentos Atalhos
Indie Lisboa
3 a 14 Mai
branco Até 18 Jul Temporários 28 a 30 Abr
Décima quarta edição
do festival de cinema
Até 2 Jul Trabalho fotográfico
de João Pina sobre Até 13 Ago Na Xina Lua, o grupo
independente de
Lisboa, com a habitual
Fotografias de cena de teatro da Escola
a operação que Exposição do artista- secção competitiva a
captadas nos estúdios Secundária de Tondela,
várias ditaduras performer russo Fyodor assumir destaque entre
da RTP entre 1957 e volta a participar no
latino-americanas Pavlov-Andreevich a extensa progração.
1969, por Testa Santos Projeto PANOS – palcos
de extrema-direita com os temas da Lisboa, vários lugares.
e Olavo Moreira, dando novos, palavras novas –
levaram a cabo em escravatura e do

a ver a evolução da e apresenta ao público
televisão portuguesa diferentes países para racismo como linhas a sua mais recente
desde os seus eliminar a oposição. de força. peça, ainda em
primórdios. Lisboa, Torreão Poente São Paulo, Museu de processo de ensaios.
Porto, Centro da Praça do Comércio. Arte Contemporânea. Tondela, ACERT.
Português de   
Fotografia.

93
Maria de Magdala conduziu Jesus até junto do forno, onde o chão era de
ladrilhos de tijolo, e ali, recusando o auxílio dele, por suas mãos o
despiu e lavou, às vezes tocando-lhe o corpo, aqui e aqui, e aqui, com as
pontas dos dedos, beijando-o de leve no peito e nas ancas, de um lado e do
outro. Estes roces delicados faziam estremecer Jesus, as unhas da mulher
arrepiavam-no quando lhe percorriam a pele, Não tenhas medo, disse Maria
de Magdala. Enxugou-o e levou-o pela mão até à cama, Deita-te, eu volto
já. Fez correr um pano numa corda, novos rumores de águas se ouviram,
depois uma pausa, o ar de repente tomou-se perfumado e Maria de Magdala
apareceu, nua. Nu estava também Jesus, como ela o deixara, o rapaz pensou
que assim é que devia estar certo, tapar o corpo que ela descobrira teria
sido como uma ofensa.

José Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo

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