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Universidade de Brasília

Instituto de Relações Internacionais


Curso: Teoria das Relações Internacionais II
Docente: Daniel Jatobá
Discentes: Ana Carolina de Sousa 09/80118
Guilherme Avila 09/95783
Hugo Leal 09/96360
Priscila Quaini 10/04476
 

RESENHA CRÍTICA
“The Post-Positivist Debate: Reconstructing Scientific Enquiry and International Relations
Theory After Enlightenment’s Fall”
John A. Vasquez

PROMESSAS E FALHAS DO PÓS-MODERNISMO

Ao fazer uma análise mais aprofundada do pós-modernismo, consegue-se perceber que


essa corrente é mais uma atitude do que uma posição, podendo ter significados diferentes nos
diversos campos de conhecimento. No campo das Relações Internacionais, o pós-modernismo
ainda não tem uma crítica bem desenvolvida e pode ser que nem se desenvolva em detrimento a
uma visão mais crítica da corrente pós-estruturalista, a qual contém diversas diferenças do pós-
modernismo, porém, a propósito de análise desse assunto, a diferença está mais focada na
questão do relativismo.

Vasquez argumenta que enquanto os pós-estruturalistas apenas flertam com o


Relativismo, os pós-modernistas o abraçam, de maneira que aqueles que fazem uma produção
teórica na base pós-estruturalista são muito influenciados pela teoria crítica e ainda resistem à
carga do relativismo. Esse uso das correntes pós-modernistas e pós-estruturalistas é visto como
uma promessa de boas contribuições para o campo teórico das Relações Internacionais.

A promessa do pós-modernismo baseia-se em cinco perspectivas, as quais todas, de


alguma maneira, envolvem uma forma de nos libertar de nossos objetivos conceituais. Porém,
são nessas perspectivas que podem encontrar falhas potencias na corrente pós-modernista, uma
vez que esses têm que ser vistos com certas reservas nas suas reivindicações. Uma das falhas
principais é que algumas dessas perspectivas, se tomadas como universais, facilmente tornam-se
generalizações que simplesmente não são verdadeiras.


A primeira das perspectivas discorre sobre a natureza arbitrária da modernidade, a qual
nega a idéia de progresso do iluminismo alegando que a modernidade não é um fim e sim um
modelo como outro qualquer. A segunda perspectiva diz que as escolhas se portam como
verdade, em que tudo que existe é uma criação humana, frutos de uma escolha consciente ou
não. Já a terceira perspectiva é conseqüência da segunda, que alega que se tudo que existe é
arbitrário e produto da escolha humana então tudo é produto de uma construção social das
pessoas, ou seja, a realidade é uma construção social. Os pós-modernistas, na quarta perspectiva,
nos levam a pensar em como a linguagem, os quadros conceituais e os paradigmas moldam o
mundo, alegando que a ciência não é somente uma ferramenta útil, mas é também uma prática
que conscientemente destrói outras formas de pensar e viver. Já na quinta perspectiva, é
discutido a maneira em que uma identificação e a construção de uma identidade é uma forma de
poder e um ato de violação, uma vez que quem tem controle de identidades tem profunda
influência sobre o destino e vida de um individuo grupo ou sociedade.

RECONSTRUINDO A PESQUISA CIENTÍFICA: LIDANDO COM A CRÍTICA PÓS-


EMPIRICISTA

A primeira questão a qual devemos nos ater ao analisar as possibilidades de reconstrução


do projeto científico é a existência ou não de maneiras não arbitrárias de distinção entre
conceitos quanto a sua veracidade. Considerando que a palavra “realidade” refere-se à resistência
do mundo em se conformar com determinados conceitos imaginários criados por humanos,
concluímos que nem todas as narrativas imaginárias podem ser impostas ao mundo.

Dentre as críticas pós-empiricistas quanto à possibilidade de se determinar a realidade por


meio de bases científicas, duas merecem particular destaque: a primeira afirma que não há fatos,
base de dados, ou realidades “independentes” onde se possa testar as teorias; a segunda afirma
não ser a ciência baseada em uma lógica neutra, mas um ato de poder que impõe seus critérios
para determinar verdades.

Os pós-empiricistas afirmam, em sua primeira crítica, que fatos não podem ser usados
para testar teorias, pois não são independentes destas, mas sim produtos de conceitos que, por
sua vez, estão atrelados às teorias. Fatos podem, assim, ser encontrados para provar teorias.


 
Segundo o autor, no entanto, tal perspectiva não significa que não existiam observações e
quebra-cabeças anteriores à teoria. Além disso, teorias e conceitos muitas vezes seguem
observações em busca de padrões, que se mostram, em diversos casos, mais importantes que os
próprios fatos.

Outro detalhe levantado por Vasquez é que, se os fatos só servissem para confirmar as
teorias que os criaram, então só seriam produzidas confirmações. O que se observa, no entanto, é
justamente o contrário. Podemos ainda afirmar que duas bases de dados são consideradas
independentes se as duas explicações que competem acerca de um mesmo comportamento têm
as mesmas chances de serem rejeitadas, existindo a possibilidade de identificação dessa
independência.

Os antigos positivistas lógicos esperavam que a ciência e seus métodos pudessem ser
estabelecidos na lógica, mas essa epistemologia não se estabeleceu. Daí surge a segunda crítica
da pós-empiricistas, a qual afirma que a ciência nada mais é do que uma escolha, um acordo
arbitrário. Nesse caso, o que se deve observar é que essas regras e critérios científicos são
elaborados de modo rigoroso, visando limitar a intrusão de preferências pessoais. Vasquez
afirma que a ciência é mais do que uma mera ferramenta, ela tem valores próprios e práticas que
a tornam uma maneira de pensar. O compromisso com a verdade é seu mais alto valor, isso
significa que teorias e crenças devem ser aceitas ou rejeitadas somente com base na sua
habilidade de ser consistente com as evidências e não porque sua aceitação será benéfica por
algum motivo particular.

SUPERANDO O RELATIVISMO NA TEORIA CIENTÍFICA E PRÁTICA

Vasquez inicia o texto argumentando que vários foram os esforços para superar o
relativismo encontrado na questão do estabelecimento de critérios par aa avaliação teórica e que
esta é área de preocupação do pós-positivismo e do debate interparagmático, em Relações
Internacionais.
O autor entende que, para vários estudiosos, o pluralismo teórico é algo benéfico, mas
que deve-se tomar cuidado sobre o que se produz. Assim, ele traça parâmetros para a avaliação
das crenças, explicações, teorias e paradigmas, baseando-se na suposição de que uma boa teoria


 
deve ser verdade. Ademais, Vasquez argumenta que a utilização de tais critérios diminui as
chances de que o objeto em questão seja falso, em relação a um que não as use, e que o objeto
estará mais propenso a atinger seu objetivo final - objetivo final da ciência -, que é a aquisição de
conhecimento.
Ele então apresenta seis critérios, sendo que os dois primeiros são essenciais. Uma “boa”
teoria deve portanto ser: precisa; refutável; capaz de evidencias grande poder explicativo;
progressiva, em oposição a degenerativa em termo de seu(s) programa(s) de pesquisa(s);
consistente com o que é sabido em outras áreas; e apropriadamente parcimoniosa e elegante.
Neste ponto, o autor discute cada ponto adotado por ele como qualidade de uma boa teoria e
alega que o que é crucial é que ela seja capaz de passar em testes, primeiro em princípio e depois
em fato. Vasquez depende que estes critérios devem ser interpretados como objetivos a se lutar,
mas que a aplicação deles não deve ser feita num estágio prematuro da teoria.
Pós-modernismo e pós-empiricismo têm ganho espaço para a investigação de uma análise
normativa, mas o autor argumenta que esse trabalho não tem sido rigoroso, e que se é respeito
que se busca, que, então deve-se também ter mais critérios de avaliação.
O propósito da teoria pratica é guiar a prática. Então pode ser avaliado em termos da
extensão em que ela fornece uma função que a permite, isto é, quão bem guia os profissionais. E
isso pode ser feito verificando se a teoria de fato provem informação que os profissionais
precisam saber e podem usar. Uma filosofia e teoria da prática também podem ser testadas pelas
políticas e ações a quais elas cedem lugar. Assim, teoria prática pode ser avaliadas por tanto
observar suas características intrínsecas (ex.: tipo de informação que ela provém), quanto pela
qualidade das prescrições políticas que produz.
Neste momento, Vasquez traça sete critérios de adequação. Um “bom” guia de prática
deve: ter um bom propósito e conseqüências - e este é um critério essencial; ser capaz de ser
implementado na prática; prover comparativamente conselho completo e preciso para o que
deveria ser feito; ser relevante para os problemas de política mais difíceis do dia; ter antecipado
custos (incluindo o custos morais) que valem os benefícios esperados; alcançar sucesso e evitar
falha; e, finalmente, a teoria empírica latente de uma teoria prática deve ser cientificamente
válida.


 
Tendo colocado esses critérios, Vasquez alega que a chave está em definir “bom”, que
pode só pode ser feito - ou constestado - pelos maiores grupos éticos, religiosos, profissionais,
ou, no caso de política externa, pelo Estado.
No final desta secção, Vasquez propõe que estes critérios empíricos podem ser utilizados
para colocar questionamentos científicos num novo patamar, respondendo a uma das maiores
críticas ao pós-empiricismo e evitando um potencial relativismo do pós-modernismo.

PÓSPOSITIVISMO E O FUTURO DA TEORIA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Na conclusão de seu capítulo, Vasquez critica o modo de fazer ciência empregado pelos
Realistas, corrente que ele admite dominar a construção teórica no campo de Relações
Internacionais, e propõe uma nova forma de fazer ciência, delineada por seus critérios citados na
sessão anterior.
Para tal, o autor começa indicando que o Pós-Positivismo guiou as ciências sociais, em
especial, as Relações Internacionais para uma grave crise. A verdadeira crise da pesquisa em
relações internacionais está na ausência de uma análise empírica e normativa com base em uma
apreciação teórica séria, sustentável e rigorosa. Sendo que a razão para essa falta de apreciação
está em dois pontos: a) a escassez de critérios; b) a falta de disciplina ao empregar os critérios
existentes.
Ou seja, na argumentação de Vasquez, os critérios são usados somente quando se ajustam
aos resultados perseguidos pelo cientista. Na sua visão os cientistas têm, nas Relações
Internacionais, orientações políticas e ideológicas que determinam decisivamente as suas
pesquisas e os resultados que elas geram. Por esse motivo, ele não admite que existam no campo
várias teorias que competem, como afirma Lapid (1989). Vê, contrariamente, vários sistemas
conceituais que convivem e não competem, já que explicam diferentes fenômenos. O grande
desafio das Relações Internacionais não consiste em escolher entre esses sistemas, mas sintetizá-
los e integrá-los em um todo coerente. O problema é a construção de teorias e não a apreciação
delas.
Outro grande problema é o da construção teórica que confere demasiada importância aos
dados. Há uma crítica massiva aos estudiosos que não conseguem integrar os dados de forma a
concluir algo sobre a realidade a partir deles. Para esses críticos, a pesquisa baseada em dados é


 
pouco produtiva. Vasquez, entretanto, admite que esse tipo de pesquisa é parte do processo
científico. O grande problema o uso de dados específicos para confirmar fatos esperados, ou seja,
usá-los com base em uma intenção pré-determinada.
Parte da falta de rigor científico do campo é, para o autor, conseqüência de se dispensar
facilmente o método em função da teoria. Esse argumento corresponde ao cerne da crítica do
autor ao Realismo. A falta de acumulação de conhecimento nas RI é resultado de o conjunto de
abordagens teóricas que estão sendo testadas, ou seja, o próprio Realismo, ser provavelmente
errado. Isso decorre do fato de o Realismo ter um problema com a manipulação de evidências.
Desde Morgenthau podemos observar exemplos de dados históricos que foram apropriados para
ilustrar e afirmar algum ponto de vista.
Vasquez também critica os Neotradicionalistas, que se abstêm de todos os dados e
constatações e adotam apenas evidências casuais. Os estudiosos que adotam esse ponto de vista
apenas constroem bons argumentos sem a preocupação de testá-los, ou seja, escrevem sobre
vários temas sem conhecer nenhum dado quantitativo ou histórico que sustentem suas
afirmações. As baseiam apenas no senso comum. Vasquez afirma que eles agem com essa
liberdade frente aos dados por dois motivos: a) a noção de que a pesquisa é contraditória e não
muito informativa; b) a crença que o trabalho quantitativo não é realmente uma evidência e que
pode ser colhidos após questionarem medidas, padrões de pesquisa, etc. A falha consiste em
empregar apenas evidências casuais e em ignorar programas de pesquisas inteiros, ou seja, não
apresentam nenhum critério para a pesquisa.
Com base nessas críticas, o autor propõe, finalmente, uma série de soluções para a
construção de uma “boa” ciência das relações internacionais. Afirma, em primeiro lugar, que os
critérios apresentados na sessão anterior devem ser seguidos com o objetivo de substituir esse
procedimento sombrio que domina as Relações Internacionais por um procedimento mais
rigoroso. Deve-se, portanto, aliar casos históricos ao trabalho baseado em dados quantitativos.
Além disso, deve-se comparar reivindicações teóricas com uma revisão sistemática das
evidências e com o contexto maior do critério da adequação. Apenas aliando todos os critérios e
chegando a um meio-termo que se pode fazer algum progresso científico e acumular
conhecimento. Como forma de fortalecer o discurso científico de Relações Internacionais de
modo geral, é necessária a observância ao rigor científico e a obediência ao método.


 
Além disso, há uma necessidade de aplicação sistemática dos critérios para progredir com
o debate interparadigmático. Lakatos e Kuhn apontam que os paradigmas não podem ser
falsificados através de uma aplicação do seu critério da precisão (ou da exatidão). Parte da razão
pela qual o Realismo é dominante até hoje é que ele foi constantemente reformulado ao ter que
enfrentar anomalias e resultados discrepantes. A violação do critério da precisão explica porque
o Realismo ainda vigora e é tão criticado. Essa capacidade do Realismo se reformular contribui
para a sua persistência no campo, mas, segundo ele, não é indicador de que ele é um programa de
pesquisa progressivo.
O debate interparadigmático só pode ser resolvido através da aplicação de todos os
critérios de adequação de forma sistemática e do modelamento da pesquisa de acordo com a
agenda de apreciação da teoria. Além disso, um foco nesse debate pode ajudar a unir
Neotradicionalistas e estudiosos que se baseiam em dados em torno de uma agenda comum, sem
comprometer as ênfases metodológicas divergentes. A aplicação do critério da adequação da
teoria prática pode ajudar a localizar a teoria normativa em uma nova fundamentação de rigor.
O debate Pós-positivista nos leva a escolher a avaliar de forma mais conscientes as
teorias científicas, assim como restaura a teoria normativa prática ao seu lugar de direito dentro
do discurso de Relações Internacionais. Além disso, o Terceiro Debate induziu as Relações
Internacionais a reconstruir sua fundamentação filosófica, sem necessariamente por em perigo
suas abordagens de pesquisa. Ao tratar a ciência como um sistema com suas próprias regras e
normas baseadas em convenções e na razão, ao invés da lógica, situa a abordagem científica
numa epistemologia mais adequada.