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HERMES FERNANDO PETRINI

MÚSICA E ARTE NA EDUCAÇÃO:

PARA A RECOMPOSIÇÃO DOS FRAGMENTOS DA VIDA

MESTRADO EM EDUCAÇÃO UNISAL Americana - SP

2006

HERMES FERNANDO PETRINI

MÚSICA E ARTE NA EDUCAÇÃO:

PARA A RECOMPOSIÇÃO DOS FRAGMENTOS DA VIDA

Dissertação apresentada como exigência parcial para a obtenção do grau de Mestre em Educação Sócio-comunitária à Comissão julgadora do Centro Universitário Salesiano de São Paulo – Unisal, sob orientação do Prof. Dr. Severino Antonio Moreira Barbosa.

UNISAL Americana - SP

2006

FOLHA DE APROVAÇÃO

Prof. Dr. Severino Antônio Moreira Barbosa

UNISAL

Prof. Dr. João-Francisco Duarte Júnior UNICAMP

Prof. Dr. Luis Antonio Groppo

UNISAL

Dissertação apresentada e aprovada em 20 de janeiro de 2006.

DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho às minhas filhas:

Mariana e Carina,

e a todas as crianças– crianças pequenas e crianças grandes –

que já descobriram ou estão por descobrir,

o quanto “um amor nascente inunda o mundo de poesia”.

Para que num presente bem próximo, todos sejamos cidadãos saudáveis,

construtores de uma sociedade realmente mais humana, generosa e sensível;

Que a Arte e a Música sejam redescobertas como instrumentos fundamentais nesta

transformação!

Que aqueles que plantam e aram a terra,

possam também colher.

E cantar, e dançar

E agradecer os frutos da colheita

E saciarem-se dela!

E que comemoremos muito por isso!

AGRADECIMENTOS

À fonte de toda bondade e sabedoria,

de vontade e de vida, de energia

o maior Educador, o maior Artista;

Aos que me geraram com muito amor: Ermelindo e Cacilda;

`As crianças, jovens e professores do Colégio Dom Bosco Assunção, Faculdade

Salesiana e Colégio Notre Dame de Campinas;

A todos os parceiros que me apoiaram nessa travessia do mestrado:

Zazá (a partitura) de duas lindas melodias – Nina Mel e Mari Mar;

Henio e Ângela Petrini, Helaine e Márcio Moral,

Fernando Petrini, Chistina Ribeiro Neder, Mathilde Neder,

Andréa Lastória e Evandro Fischer,

Alfredo Coelho, Homero Colinas, Elder Santis, Marcos Scopinho, Luiz Stella,

Sandra Gimenes, Vanda Ricci e Jocimara Paes de Almeida;

Aos amigos: Sérgio Castilha, Ivan Dal Pogetto, José Roberto Paschoalini,

Marcos Januário, Reginaldo Matheucci, Luis Henrique (Pardal) e Edson Dihel;

A Juraci Carreon, Fernanda Zambelli e Flor Aragão;

A todos os meus professores e mestres,

dentre eles Heloisa Angeli, Donizeti Godoy, Markito Cavalcanti, Carlos

Coimbra (in memorian), Humberto Cantoni, Olinda Noronha, Augusto Novaski e

João-Francisco Duarte Jr.

Uma gratidão especial ao professor Luiz Groppo

E ao meu orientador e “guru”, Severino Antonio.

RESUMO

Este trabalho, pertencente à linha de pesquisa “A intervenção educativa sócio- comunitária: linguagem, intersubjetividade e práxis”, tem o objetivo de valorizar as dimensões da sensibilidade humana reveladas, mais especificamente, por meio da Arte e da Música, o que contribui para uma Educação emancipatória, plena e que promove o refinamento dos sentidos e a dialética do esclarecimento. Denuncia a supremacia do racionalismo em detrimento da dimensão sensível, o que gera gigantes racionais e pigmeus emocionais. Valoriza a palavra (Homo Loquens) a partir do esclarecimento do Homo Sapiens; denuncia o Homo Demens, quando o homem retorna às suas cavernas interiores; quer a presença do Homo Ludens neste mundo tão racional e irracional ao mesmo tempo e propõe o Homo Artisticus e o Homo Musicalis: uma cosmovisão com olhar estético, o que pode contribuir para um encantamento de olhares e atitudes. O uso pleno dos sentidos pode existir a partir de um olhar artístico e, mais especificamente, musical, com uma abrangência inter, multi e transdisciplinar; pode tornar a experiência educativa mais saborosa, emancipatória e geradora de autonomia; enfim, pode contribuir para o objetivo último da Educação que deveria ser a geração de felicidade. Quanto ao método, trata-se de uma pesquisa bibliográfica, teórico-reflexiva e também de análise de relatos de experiência da história vivida com Música e Educação.

Palavras-chave: Educação – Arte – Música – Linguagem – Fragmentação – Diálogo - Reencantamento – Homo Musicalis.

ABSTRACT

This study belongs to a research line “The Social-Community Educative Intervention”:

language, inter-subjectivity and práxis”, and has the aim to value the revealed sensitivity human dimensions, more specifically, by means of Art and Music, what contribute to an emancipator education, complete and promoting the refinement of the senses and the dialectics of the enlightenment. It denounces the supremacy of the rationalism in detriment of the sensitive dimension, what generates rational giants and emotional pygmies. It values the word (Homo Loquens) of the elucidation of the Homo Sapiens; denounces the Homo Demens when the man returns to his interior caves; request the presence of the Homo Ludens in this so rational and irrational world and at the same time proposes the Homo Artisticus and the Homo Musicalis: the cosmo vision with an aesthetic eye to what can contribute to the enchanting look and attitude. The full use of the senses can exist from the artistic look and more specifically, musical, comprising the inter, multi and the trans-disciplinal: it can become the educative experience, more flavorful, emancipator and autonomy generating; at last it can contribute to the Education final goal that should be the happiness generating. Regarding the method, it refers to a theoretic-reflexive bibliographical research, as well as from the report analysis of the history experience lived with Music and Education.

Key words: Education – Art, Music – Language – Fragmentation – Dialogue - Re- enchanting – Homo Musicalis.

SUMÁRIO

DO

INTRODUÇÃO PRELÚDIO

1

RE

CAPÍTULO I – HOMO SAPIENS - A CONDIÇÃO HUMANA, A

LINGUAGEM E A ARTE

13

1.1.

Homo Loquens – a palavra, monólogos, diálogos e a Música

19

1.2.

Homo Sapiens x Homo Demens - razão e fragmentação

32

MI

CAPÍTULO II – A EDUCAÇÃO, O SABER E O SABOR

48

2.1.

Educação e Encantamento

56

2.2.

Educação e Fragmentação

62

FA CAPÍTULO III – ARTE E MÚSICA – ALTERNATIVAS PARA UMA EDUCAÇÃO DESFRAGMENTADA

71

3.1. Homo Artisticus - a dimensão Arte

74

3.2. Homo Ludens - a corporeidade e a espiritualidade do corpo

84

3.3. Homo Musicalis - a dimensão Música

95

SOL CAPÍTULO IV – HISTÓRIA VIVIDA – RELATO DE EXPERIÊNCIAS EM SINFONIA

112

4.1. Prestíssimo – Um funeral; o acorde “de passagem”

116

4.2. Presto - As Serenatas

121

4.3. Allegro - As Cerimônias de casamento

127

4.4. Andantino - Os CDs “Antes bem acompanhado”, “Cântico do Sol” e “Cântico

132

 

de Pira”

4.4.1. CD Antes Bem Acompanhado

133

4.4.2. CD Cântico do Sol

134

4.4.3. CD Cântico de Pira

137

4.5. Largo - As meninas de Macapá

140

4.6. Andante - A Música como instrumento mediador no relacionamento paciente- profissional

144

4.7. Allegretto - Música e Pastoral- uma contribuição

151

4.7.1.

Planejamento Pastoral

153

4.8. Adágio - A geração rock

158

4.9. Larghetto - As educadoras das EMEIS de Piracicaba (I) e do Curso Normal

168

 

Superior

(II)

LA

CONSIDERAÇÕES FINAIS PÓS-LÚDIO

178

SI REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

185

 

ANEXO

192

1

INTRODUÇÃO – Prelúdio

Sentir é antes de tudo sentir alguma coisa ou alguém que não somos nós. Sobretudo: sentir com alguém. Até para se sentir a si mesmo, o corpo busca outro corpo. Sentimos através dos outros. Octávio Paz

Em Arte, todos os procedimentos são sagrados, desde que satisfaçam a uma necessidade interior. Wassily Kandinsky

Enobrecer os sentimentos do homem, enriquecer-lhe a vida, proporcionar-lhe alegria e sentido, É a missão da Arte. Mokiti Okada

2

Tentamos elaborar este texto, como um tecido. Ao utilizarmos os teares do

conhecimento, entendemos que todas as linhas são importantes e, dentre elas, queremos

valorizar a harmonia entre razão e emoção. Desse modo, se alguma linha desintegrar-se,

o tecido poderá se rasgar e lacunas na sua trama surgirão. Então o tecido não cumpriria

sua função de proteger, confortar, acolher e embelezar. Assim, todos os fios são

fundamentais: linhas mestras, fios de sustentação, cordões secundários, terciários e

ornamentais.

Acreditamos que a humanidade encontra-se fragmentada. Uma das possíveis

razões talvez seja a falta de diálogo entre logos (razão e estruturas de compreensão) e

pathos (sentimento, capacidade de simpatia e empatia, dedicação, cuidado e comunhão

com o diferente) 1 e, orientando-se por esta perspectiva, este trabalho busca contemplar

os objetivos de nossa pesquisa, que são: investigar o quanto a fragmentação, destacando

o atual processo educativo, depreciou no homem suas dimensões mais humanas, como

as emotivas, lúdicas, artísticas e transcendentes, dentre outras, relegando-o a ser objeto

quando deveria ser sujeito, coisificando-o;

e pesquisar na Educação, o quanto a Arte,

em destaque a Música, pode ser um processo motivador e de encantamento para revelar

a condição humana e reconstruir o Homem enquanto sujeito.

Entendemos fragmentação 2 como processo de separação de âmbitos que, na

natureza e na condição humana, apresentam-se “naturalmente” juntos, como razão e

emoção. Pode ser utilizada como um recurso técnico para controlar, dominar e tornar

mais eficiente. Apresenta suas qualidades no que tange às partes, mas o todo sofre

conseqüências; muitas vezes torna-se ineficiente.

1 Logos e pathos, do grego, de acordo com o resgate do modo-de-ser-cuidado. Leonardo Boff. Saber cuidar. Ética do humano - compaixão pela terra. 8 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002, p.99.

2 Tal conceito foi discutido na disciplina Educação e Sociedade, ministrada pelo Prof. Dr. Luis Antonio Groppo, no Centro Unisal, Americana, SP, durante o segundo semestre de 2004. Trata-se de uma discussão antiga se a razão pertence ou não à natureza humana. Não poderia ser a razão o motivo da “separação” do homem da natureza?

3

Por comungarmos das idéias do professor Duarte Jr. que são um dos referenciais

teóricos desta dissertação, recorremos a ele quando diz que:

O que se pretende é tornar evidente o quanto o mundo de hoje desestimula

qualquer refinamento dos sentidos humanos e até promove a sua deseducação, regredindo-os a níveis toscos e grosseiros. Nossas casas não expressam mais afeto e aconchego, temerosa e apressadamente nossos passos cruzam os perigosos espaços de cidades poluídas, nossas conversas são

nossa alimentação, feita às pressas e de modo

estritamente profissionais [ automático [ ]

],

3

Acreditamos que a Arte pode e deve ser utilizada na Educação, a qual, por sua

vez, também pode ser considerada uma forma primorosa de Arte.

Queremos evidenciar o quanto a Arte pode nos humanizar, reunir, religar

E

desfragmentar: um neologismo ainda não anotado pelo dicionário Houaiss, nem pelo

Aurélio. Alfredo Bosi nos ilumina nesta intenção: “A palavra latina ars, matriz do

português arte, está na raiz do verbo articular, que denota a ação de fazer junturas entre

as partes de um todo” 4 .

Para realizar esse intento, organizamos os itens principais em notas musicais, na

intenção de discernirmos o quanto uma melodia precisa de cada uma das notas e,

eventualmente, de suas pausas também. Assim como dos compassos, dos arranjos, das

interpretações. Deste modo teremos a percepção de que a união destas notas pode criar

belas melodias.

Justificamos o porquê da seqüência dos itens no sumário deste trabalho.

Prelúdio 5 , de acordo com o dicionário Aurélio, significa “primeiros passos, o que

precede alguma coisa, ensaio da voz ou instrumento antes de cantar ou tocar” 6 . Portanto,

3 DUARTE JR. João-Francisco. O Sentido dos sentidos. 3ª ed. Curitiba, Pr: Criar Edições: 2004, p.18. Antes da qualificação eu ainda não havia lido este belo livro. Fiquei surpreso e feliz com tantas coincidências de ideais e alguns referenciais teóricos. Por outro lado, foram-me apresentadas outras grandes referências.

4 BOSI, Alfredo. Reflexões sobre a Arte. São Paulo: Ática, 1985, p.13. 5 FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio Básico da Língua Portuguesa. São Paulo: Nova Fronteira: 1988, p.525.

6 Idem

4

ao sugerir o prelúdio na introdução, queremos realizar o primeiro ensaio desta

dissertação, bem como esclarecer seu caráter musical, artístico e pedagógico, dentre

outros.

Por outro lado, não encontramos o termo pós-lúdio 7 para revelar seus últimos

acordes.

Desta

forma,

sugerimos

tal

nomenclatura,

colocando-a

como

um

dos

neologismos

propostos

neste

trabalho.

Pós-lúdio

seria

então,

a

parte

final

da

apresentação, aqueles instantes em que se dá o despertar do sonho para a realidade, o

encontro da magia com a verdade, ou ainda, o momento de lucidez, de retirada e guarda

dos

instrumentos

após

a

apresentação

da

sinfonia,

outra

metáfora

utilizada

na

distribuição dos temas do capítulo IV, História vivida - Relato de experiências em

Sinfonia.

Achamos por bem realizar o movimento do âmbito geral para o particular,

iniciando pelo capítulo I Homo Sapiens - a condição humana, a linguagem e a Arte

(Homo Sapiens, Loquens e Demens), invertendo este sentido ao retornarmos do

particular (Educação e Encantamento e Educação e Fragmentação) para o geral (Homo

Artisticus, Ludens e Musicalis), visto que nossa dissertação está inserida no contexto

educacional.

Se interpretarmos a Educação como razão da evolução do Homo Sapiens,

acreditamos que se faz necessário seguirmos este caminho, pois queremos identificar

nesta “evolução fragmentada” o quanto a Arte e a Música podem contribuir para uma

Educação mais crítica, mais humana e reveladora da humanidade de cada indivíduo

enquanto sujeito e não objeto de sua história. Trata-se apenas de uma seqüência

pedagógica. Aqui entendemos humanidade na visão de Ernst Cassirer:

7 De acordo com FARIA, Ernesto. Dicionário Escolar Latino-Português, Ministério da Educação e Cultura, Campanha Nacional de Material de Ensino, São Paulo, 1962, p.574, Ludus seriam representações teatrais, associado a ludo (brincar, imitar brincando, compor, tocar) e ludius (histrião, dançarino profissional).

5

Se o termo ‘humanidade’ quer dizer alguma coisa, quer dizer que, a despeito

de todas as diferenças e oposições que existem entre suas várias formas, todas

elas estão, mesmo assim, trabalhando para um fim comum. A longo prazo, deve ser encontrado um traço destacado, um caráter universal, sobre o qual

todas concordam e se harmonizam. 8

Aristóteles também colabora conosco. Ao classificar as diversas faces do

homem, dividiu-as em Homo Sapiens, relacionando-a ao conhecimento e aprendizagem,

Homo faber 9 , relacionando-a ao trabalho e execução; e homo ludens, ao se referir às

dimensões humanas, brincadeiras e criação 10 . Classificou as faces analisando-as, na

intenção de compreender o todo.

Assim, iniciamos valorizando o Homo faber. Não iremos categorizá-lo, como

faremos com Homo Sapiens ou Musicalis, por exemplo, por incluí-lo dentro da

categoria Homo Artisticus, e justificamos esta opção a partir do conceito que será

discutido na seqüência do texto: a dimensão do fazer dentro da Arte, como parte e

processo, segundo Alfredo Bosi:

A

arte é um fazer. A arte é um conjunto de atos pelos quais se muda a forma,

se

trans-forma a matéria oferecida pela natureza e pela cultura. [

]

A arte é

produção; logo supõe trabalho. Movimento que arranca o ser do não ser, a

arte é um

exprimir. Projeção da vida interior que vai do grito à alegoria, passando pela vasta gama dos símbolos e dos mitos. 11

forma do amorfo, o ato da potência, o cosmos do caos. [

]

A

Queremos interpretar a Arte como construção/jardinagem, conhecimento e

expressão, compartilhando da visão de Alfredo Bosi: fazer, conhecer e exprimir.

O

termo jardinagem foi acrescentado aqui, por contribuição de Rubem Alves. Assim

sendo, permitimo-nos propor que a Arte, ao fazer junturas entre as partes de um todo,

8 CASSIRER, Ernst Ensaio sobre o homem: Introdução a uma filosofia da cultura humana. São Paulo:

Martins Fontes, 1994, p.119.

9 Homem artífice. Refere-se à expressão do homem antigo que tinha de fabricar seus próprios utensílios, de acordo com FILARDI, Luiz Antonio. Dicionário de Expressões Latinas. São Paulo: Atlas, 2000,

p.134.

10 Marilena Flores Martins, Fundadora e Presidente do Conselho da IPA Brasil (Associação Brasileira pelo Direito de Brincar) disponível em http://www.ipa-br.org.br/textos/O_Homem_L%FAdico.htm. Acesso em 30 set 2005. 11 BOSI, Alfredo. Reflexões sobre a arte. São Paulo: Ática, 1991, p.13 e contracapa.

6

pode religar o que estava desligado, reunir o que esteve perdido, re-Humanizar o que foi

des-(H)umanizado talvez, pela modernidade. Aqui sugerimos a idéia de que a Arte pode

desfragmentar o que foi fragmentado.

Muitos autores nos sugerem que uma Educação através da Arte é uma Educação

que nos humaniza, que enaltece nossa sensibilidade; expressa sentimentos e emoções,

pois permite uma relação mais sensível com o mundo que nos rodeia. Dentre esses,

encontra-se João Francisco Duarte Jr 12 , uma das leituras prévias motivadoras para a

realização deste trabalho.

Em

nossa

travessia,

recorreremos

a

autores

considerados

clássicos,

como

Herbert Read, Edgar Morin, Georges Gusdorf, Ernst Cassirer, Theodor Adorno, Max

Weber, Johan Huizinga e Paulo Freire.

Recorremos também a autores contemporâneos, como Alfredo Bosi, Rubem

Alves, Otto Maduro, Hugo Assmann, Severino Antônio, Roberto Crema, Régis de

Moraes, Carlos Rodrigues Brandão, António Damásio, Leonardo Boff, Zuin, Pucci e

Oliveira, Olinda Maria Noronha

e João-Francisco Duarte Jr. Na intersecção de suas

idéias,

ainda

que

eventualmente

permeiem

correntes

ideológicas

distintas,

valorizaremos o que possa haver de comum entre eles.

Em outros momentos citaremos autores como Ítalo Gastaldi, Jorge Ponciano

Ribeiro, Manacorda, Otto Maduro e Carlos Fregtman; citaremos também compositores

da Música popular brasileira, como Toquinho, Elifas Andreatto, Almir Sater, Renato

Teixeira, Paulo Tatit, Zé Tatit, Sandra Peres, Herbert Vianna, Alceu Valença, Tom

Jobim, Newton Mendonça, Lulu Santos, Nelson Mota, Paulo César Pinheiro, Lenine e

Ivan Lins, não menos importantes, mas como colaboradores dos temas centrais desta

dissertação.

12 DUARTE JR., João-Francisco. Fundamentos Estéticos da Educação. 5 ed. Campinas, São Paulo:

Papirus, 1998.

7

Por

acreditar

que

os

conceitos

perpassam

os

tempos

e

aglutinam

novas

categorias

e

visões,

por

meio

da

historicidade

interpretativa,

faremos

constantes

recorrências a eles, ao fundamentarmos as categorias; em outros momentos, faremos

inserções “fotográficas”, a partir de uma ótica dos nossos tempos.

Algumas perguntas podem nos ajudar em nosso propósito: qual o motivo de

vivermos num mundo insensível, que de um lado prega o racionalismo como fio

condutor

da

relação

entre

as

pessoas,

e

de

outro

lado

leva

o

homem

a

agir

irracionalmente

no

tratamento

de

seus

semelhantes,

produzindo

atrocidades

que

envergonhariam qualquer ser vivo? A humanidade deste século XXI, conhecido como

era

do

conhecimento

e

comunicação,

tem desvendado

novos

anéis

em Saturno,

encontrado novas luas em outros planetas; dividiu o átomo, criou micro-chips, e, no

entanto, tem gerado cada vez mais incomunicação, de acordo com Leonardo Boff. 13

Neste sentido, muitas vezes as pessoas não são capazes de resolver os problemas de

suas ruas, seus vizinhos, ou mesmo seus problemas internos, pessoais, emocionais. Qual

a explicação para tamanhas contradições? Não sabemos a resposta, mas acreditamos que

num mundo que se pretende bom e melhor, a Arte, o belo necessariamente tem de tomar

parte; nisso concordamos com a visão de Herbert Read:

Há um certo modo de vida que consideramos bom e a atividade criativa a que chamamos arte é essencial nele. A Educação nada mais é que uma iniciação a esse modo de vida, e acreditamos que essa educação é mais bem-sucedida através da prática artística que de qualquer outra forma. 14

Nesse sentido também concordamos com Roberto Crema quando diz que

“atravessamos

uma

crise

de

demolição:

lição

do

demo”. 15

O

excesso

de

um

racionalismo

tecnicista

excludente,

objetivista,

cartesiano,

nos

fragmenta,

13 BOFF, Leonardo. Saber cuidar. Ética do humano - compaixão pela terra. 8 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002, p.11. 14 READ, Herbert A redenção do Robô. São Paulo: Summus, 1986, p. 21

15 CREMA, Roberto. “Prefácio” apud GUERREIRO, Laureano. A Educação e o Sagrado: a ação terapêutica do educador. Rio de Janeiro: Lucerna, 2003, p.11.

8

compartimentaliza, divide e enfraquece, tornando-nos cada vez mais gigantes racionais

e pigmeus emocionais.

Entendemos o termo cartesiano como o autor português António Damásio, que

nos diz sobre Descartes: “símbolo de um conjunto de idéias acerca do corpo, do cérebro

e da mente que, de uma maneira ou de outra, continuam a influenciar as ciências e as

humanidades no mundo ocidental”. 16 Descartes separa a mente do corpo e também a

mente do cérebro, relacionando-os apenas no aspecto de que a mente é um programa

que ocorre numa parte do cérebro e este, por sua vez, não consegue sobreviver sem a

manutenção do corpo. Tentaremos identificar no Capítulo III deste trabalho, item Homo

Ludens, a dimensão da corporeidade, a possibilidade de um equívoco que Descartes

teria cometido, com base no autor Damásio.

Em sentido amplo, Educar é humanizar.

Acreditamos que a Educação, com todas as formas possíveis de encantamento e

seus pressupostos éticos, deve contribuir para a construção da cidadania em suas

diversas amplitudes, superando diferenças sociais, faixas etárias, etnias, religiões,

culturas

e

contextos

tecnológicos,

ao

realizar

um

diálogo

transdisciplinar

e

transcendente entre estas. Para tanto iremos transitar entre alguns conceitos, dentre os

quais, a Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire e o Estado Estético de Morin, por

acreditarmos que educar não é algo unívoco ou monológico.

Utilizaremo-nos, também, ao longo do texto, de considerações sobre a dimensão

criativa, por acreditarmos que ela é pressuposto básico do processo artístico, além de ser

inerente

ao

ser

humano.

Para

tanto,

dentre

outros

argumentos,

abordaremos

a

16 DAMÁSIO, António R. O erro de Descartes. Emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo:

Companhia das Letras, 1996, p. 278.

9

valorização da criatividade 17 humana, a questão do instinto e sobrevivência animal e a

identificação do homem com ser simbólico, de acordo com Ernst Cassirer.

Queremos também investigar as dimensões artísticas, estéticas e musicais do ser

Humano, como contribuição indispensável da Arte e da Educação para um mundo

melhor, ao mesmo tempo em que criticaremos a idéia da coisificação do ser humano, o

excesso de razão instrumental, o que gera uma racionalização incapaz de questionar

meios e fins, incoerente e muitas vezes, insensível. Para tanto, vamos tecer a idéia de

que, enquanto crianças, nascemos com a capacidade de desenvolver a linguagem

artística, lúdica e musical e que seremos “educados ou deseducados” para a linguagem

escrita e oral cultas, através da (des)aprendizagem de nossa forma “natural” de ser,

lúdica e artística. Pretendemos contribuir com o propósito de que muitas experiências

podem ser realizadas pedagogicamente, mas, sem dúvida, serão melhores com Arte e

Música e em grupo; aqui se faz presente o ingrediente Sócio-Comunitário, conforme

direcionamento da linha de pesquisa deste Centro Universitário.

Doravante, faremos uma travessia através da Arte, com algumas de suas

especificidades e universalidades, entendendo a Arte como conhecimento, expressão e

uma linguagem alternativa capaz de tornar a Educação mais prazerosa e saborosa;

especificamente faremos também outra travessia através da Música, considerada como

uma das linguagens inerentes ao ser humano, como forma motivadora de construir e

elaborar a experiência pedagógica. O grupo, o comunitário, entra como um ingrediente

indispensável à realidade da condição humana. O objetivo último da Educação,

provavelmente, é a metamorfose da informação em conhecimento, na alegria do

encontro com o “sabor”; a sensação de felicidade e prazer que deveríamos sentir em

17 Para Houaiss, criatividade é inventividade, inteligência e talentos natos ou adquiridos para criar, inventar, inovar. Criar é ”conceber ou inventar, instituir, causar, dar condições de existir, alimentar, educar, adquirir”. HOUAISS, Antonio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p.868.

10

cada momento de aprendizagem e da vida; depende do olhar do observador, além, é

claro, da “descoisificação” do ser humano, de sua revelação enquanto sujeito, em vez de

objeto.

Nesse caminho, a Educação que imaginamos é aquela que pode quebrar

paradigmas,

reconquistar

e

recuperar

valores

“deitados

eternamente

em

berço

esplêndido”, deturpados quer pela censura, quer por crenças unilaterais ou tendenciosas,

incompetência, comodismo ou até mesmo negligência.

Acreditamos que a Arte e a Educação, e especificamente a Música, podem

contribuir

sensivelmente

para

a

construção

de

uma

outra

sociedade,

na

qual

a

humanidade, pautada por valores éticos e tendo o belo como referência, promova uma

relação frutífera, harmoniosa e integrada do Homem consigo mesmo (Eu-Comigo),

entre os homens e seus semelhantes (Eu-Tu) e entre os homens e a natureza (Eu-Meio),

da qual eles são partes integrantes, sujeitos protagonistas e objetos de transformação.

Se não podemos evitar a demolição em pleno curso, ainda é possível nos preparar para a tarefa da reconstrução. Sobretudo, através de uma nova educação, centrada na consciência de inteireza, que cuide e facilite a atualização do potencial humano e o florescimento da inteligência integral, este patrimônio tão descuidado de nossa ferida humanidade. 18

A Arte, de modo particular a Música e a Educação, num mundo bom, belo e

melhor, revelam-se necessárias, porque ajudam a nos encontrar conosco mesmos e, para

aqueles que acreditam em sua dimensão transcendente, propiciam o encontro com o

Criador.

Assim, este trabalho está arquitetado em quatro capítulos, os quais, em breves

linhas, resumimos abaixo.

18 CREMA, Roberto. “Prefácio” apud GUERREIRO, Laureano. A Educação e o Sagrado: a ação terapêutica do educador, Rio de Janeiro: Lucerna, 2003, p.11.

11

No capítulo I, identificamos o Homo Sapiens na superação do Homo Demens,

valorizando sua dimensão Loquens, a qual pressupõe o diálogo, a Arte e a Música como

instrumentos de sua razão e emoção, o que o humaniza. A fragmentação é identificada

aqui como uma força contrária a este processo: o de humanização.

No capítulo II, “Educação – saber e sabor”, fundamentamos alguns conceitos de

Educação sobre os quais queremos navegar; discutimos a fragmentação como algo que

pode deseducar e valorizamos o encantamento e o sabor, que a nosso ver, podem ter na

Arte e na Música, grandes parceiras relevantes e entusiastas.

No

capítulo

III,

“Arte

e

Música

alternativas

para

uma

Educação

desfragmentada”, fundamentamos nossa proposta, motivo maior deste trabalho, nas

categorias Homo Artisticus, Homo Ludens e Homo Musicalis, para as quais a Arte, o

lúdico (na intenção da utilização do corpo humano como meio de dialogar com o

mundo) e a Música são importantes contribuintes de uma leitura das especificidades das

emoções 19 , para a qualidade de seus relacionamentos e dos diálogos entre animus e

anima, homem e mulher, da relação entre Educação e Sociedade, e do equilíbrio entre

gigantes-racionais e pigmeus-emocionais. O objetivo último: a harmonia e a felicidade.

No IV e último capítulo, “História vivida - Relato de experiências em Sinfonia”,

descrevemos empiricamente algumas das experiências musicais e artísticas possíveis e

passíveis de acontecer em diversas manifestações humanas, uma vez que, ao nosso ver,

degustar,

sentir,

tocar

e

escutar

justificam

a

existência

desta

dissertação.

Tais

experiências valorizam a necessidade da Arte e da Música mais especificamente, como

instrumentos de recomposição dos fragmentos da vida; a recomposição em oposição a

esta fragmentação, tão arraigada na convivência humana que pode gerar alienação,

fetichização e reificação, fazendo regredir a qualidade dos sentidos e des(H)umanizando

19 Dizemos leitura das especificidades das emoções no sentido de um refinamento das emoções, na intenção de que os sentidos possam e devam ser educados, aprofundados, “refinados” e potencializados.

12

o ser humano, num mundo onde Arte e Música passam a ser manipulados pela indústria

cultural. Quando houver a recomposição, acreditamos que teremos um mundo bom e

melhor. Com este propósito, desejamos, humildemente, uma boa degustação aos futuros

leitores.

13

CAPÍTULO I

HOMO SAPIENS A CONDIÇÃO HUMANA, A LINGUAGEM E A ARTE

Deveríamos definir o homem como animal simbólico e não como animal racional. Ernst Cassirer

A beleza é o infinito, finitamente apresentado. Schelling

Somos menos do que somos. Somos mais do que somos. De um lado, temos sido muito menos do que poderíamos ser. De outro, poderemos ser muito mais do que temos sido. Severino Antonio

14

Neste

capítulo

serão

feitos

alguns

questionamentos,

através

dos

quais

comparamos a natureza humana aos animais, na intenção de valorizar a inteligência e o

processo criativo, essencialmente humanos, além de iniciarmos uma travessia pela

linguagem e pela Arte.

A etimologia de homem nos remete a homo, que significa igual, semelhante (do

grego, homós). Assim evidenciamos aqui, em sua essência, a característica humana de

ser-de-relação, de necessidade do outro, por isso igual. Ser da fala, ser da palavra que

precisa ser comunicada a outro. Ser que precisa de iguais, de semelhantes. Já do latim,

temos homo, hominis 20 (gênero humano) oriundo de húmus, aquele que veio do barro,

da terra, do solo umedecido pela água. Aquele que precisa da água para viver.

O dicionário Houaiss 21 , dentre as definições de homem, apresenta uma em

particular que nos chama a atenção: “raça humana, o ser humano considerado sob o

ponto de vista dos sentimentos”, fraquezas, perplexidades, inerentes à sua natureza

humana - passível de erros. E é sobre os sentimentos que dialogam e alimentam uma

visão estética e poética que iremos fundamentar algumas categorias adiante.

Homo nos cede também o radical da palavra humildade. Um homem humilde é

aquele que se reconhece igual aos outros, com mesma origem, vindo da mesma matéria

e que pisa o mesmo chão.

Sapiens

nos

remete

à

sapiência,

sabedoria,

informação

transformada

em

conhecimento que leva à sabedoria. Humanidade inteligente, revelada na essência da

sabedoria.

Querendo evidenciar também a humanidade deste ser sabedor, começaremos

pela sua dimensão animal. O que nos diferencia dos outros animais?

Somos animais

20 FARIA, Ernesto Dicionário Escolar Latino-Português. Ministério da Educação e Cultura. São Paulo:

Campanha Nacional de Material de Ensino, 1962, p.452.

21 HOUAISS, Antonio; VILLAR, Mauro de Salles.Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p.1545.

15

racionais, emocionais ou simbólicos? Se o homem é o ser da fala, da palavra e das

relações, qual a importância da palavra em seus relacionamentos? Ao fragmentar o

mundo para entendê-lo, o homem não conseguiu reuni-lo novamente. Por que a

fragmentação relegou as emoções, e conseqüentemente a Arte e a Música, ao segundo

plano em nossas vidas?

Faz-se necessário estabelecermos parâmetros e diferenças entre aprendizagem e

treinamento (adaptação), pelo fato de que, muitas vezes, a Arte é percebida através de

uma visão míope, como repetição ou reprodução de pré-conceitos e até mesmo modelos

estabelecidos, e isso contraria os princípios de sua essência, sua natureza criativa e

evolutiva.

Uma prova desta natureza evolutiva e criativa é a fala e a palavra humana.

“Com a palavra, o homem se faz homem” 22 , assim contribui conosco Paulo

Freire. Com a palavra o ser humano transforma o ambiente, constrói o mundo, dá

sentido a suas ações.

Por outro lado, o animal adapta-se ao ambiente e até pode desenvolver algumas

habilidades, se estas forem necessárias à sua sobrevivência. Suas atividades são restritas

aos seus sentidos: ouve, vê, cheira, saboreia e toca. Sem consciência, com adaptações,

vive o tempo presente. Poder-se-ia dizer que a vida do animal se dá num suporte

atemporal, de acordo com Paulo Freire, uma vez que não existe para o futuro (não o

planeja) e nem tem memória histórica (consciência), apenas memória celular, biológica,

resultado de sucessões genéticas que o levaram a agir instintivamente de um modo ou

de outro, de acordo com sua espécie, e a se adaptar para suprir suas necessidades

fundamentais. Ou seja, o animal não assume a vida, não se compromete; nas matas,

como no zoológico, é um ser fechado em si mesmo. Já o homem, mesmo sendo

22 FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 18ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, p.13.

16

consciente de suas atitudes, é consciente de sua inconclusão e por isso, “animaliza” o

mundo, transforma-o, adapta-o, além de ter um movimento permanente em busca do ser

mais, nas palavras de Paulo Freire. Animalizar no sentido de “dar vida”, tornar anima.

Olhando assim, entendemos o paradoxo sobre a idéia de homem, quando

chamado de “animal”: na medida em que (o homem) apenas sobrevive, vive adaptando-

se ao ambiente, atrofiando suas habilidades imaginárias, criativas, não planejando o

futuro, nem tendo memória histórica – o que pressupõe releituras, transformação,

cosmovisão 23 pois, segundo a sabedoria popular, o homem que não tem memória, não

faz história, torna-se menos “homem” e mais próximo de seu eu “animal”. O contrário

também seria verdadeiro: humaniza-se e vive na mesma intensidade com que exerce sua

natureza criativa e com que instiga seu mundo imaginário. O Homem humaniza-se

quando sonha

E admirando os pássaros (outro paradoxo) quis conquistar os céus,

morfologica e metaforicamente; tanto sonhou em voar, que inventou o avião

Paradoxo

porque, ao voar, imita o pássaro, motivo de sua admiração e contradição de sua

natureza. A asa é extensão de sua imaginação e criatividade.

Edgar Morin soa como brisa neste vôo:

O tecido da vida é feito também de sonhos, como o dos sonhos é feito de vida. A composição e a dose variam. Da mesma forma que necessita de afetividade, a realidade precisa do imaginário para ganhar consistência. [ Nosso mundo real é, nesse sentido, semi-imaginário. 24

O animal é realidade, momento presente. O Homem é realidade, ficção e

afetividade. Afetividade é carinho, processo, futuro e passado, história e profecia.

Alguns dizem que os animais afeiçoam-se àqueles que os tratam, como os cães ou os

23 O dicionário Houaiss traduz Cosmo ou Cosmos, por universo, harmonia universal. E Visão como percepção do mundo exterior pelos órgãos da vista, ponto de vista. Quando dizemos Cosmovisão, entendemos como mais que uma visão de mundo; ela representa uma postura, um posicionamento, uma atitude diante desta visão. Implícito nela há um caminho de ação e realização. p. 853 e p. 2870.

24 MORIN, Edgar. Método 5: A Humanidade da Humanidade, a identidade humana. Porto Alegre:

Sulina, 2002, p.132.

17

bois que têm “saudade” da invernada. A isso chamaríamos afetividade? Talvez afeição?

A humanidade cria sentido na medida em que sonha, em que realiza profecias

“A

substância do sonho mistura-se com a da realidade, sem que o ser humano tome

consciência disso. Daí as loucas ilusões” 25 que muitas vezes norteiam atitudes humanas

impensáveis

O Homem age e reage. O animal adapta-se ao ambiente e constrói o seu ninho. 26

O Homem transforma-o. O animal é treinado, adestrado. O Homem aprende, dá

significado, re-significa. O animal sobrevive e é condicionado a quem o adestra. O

Homem vive, planeja, sonha, pensa o futuro e revive o passado, sente saudades

sentido à sua existência, ao emocionar-se! O homem que “apenas sobrevive” resigna-se

a ser menos homem e mais animal

Rubem Alves, convidado de Duarte Jr., contribui conosco, afirmando que

o que nos separa dos animais é que os pensamentos que moram na nossa cabeça desandaram a proliferar, multiplicar-se, cresceram. O que teve

vantagens indiscutíveis porque foi graças aos pensamentos que moram na cabeça que o mundo humano se construiu. A filosofia, a ciência a

tecnologia

conhecimento vai crescendo, sedimentando, camada sobre camada, e chega um momento em que nos esquecemos da sabedoria sem palavras que mora no corpo. 27

Cresceram tanto que chegaram a entupir a sabedoria do corpo. O

Assim, o pensamento e a sabedoria do corpo são alguns dos diferenciais

humanos. Não que os animais não os tenham, mas, ao exercitar sua dimensão de animal

simbólico, ser da criação, o homem vai exercendo suas capacidades, pensamento e

imaginação

e,

ao

colocá-las

em prática, transforma

e

adapta

o

mundo

às

suas

necessidades. Tendo o belo como referência, melhora o mundo e o transforma num

25 Ibid, p. 132. 26 O pássaro João de Barro é um bom exemplo, pois constrói sua casa com o próprio barro. Já por sua vez, a canção “João de Barro“ de autoria de Teddy Vieira e Cesar Cury, é uma metáfora muito sugestiva que compara a ave à condição humana: O João-de-barro pra ser feliz como eu, certo dia resolveu arrumar uma companheira, no vai-e-vem o pedreiro da biquinha, ele fez sua casinha prá aquela que tanto amava. 27 ALVES, Rubem. Sabedoria bovina, em Correio Popular, 19 de abril de 1998 apud DUARTE JR., João- Francisco. O sentido dos sentidos. 3ª ed. Curitiba: Criar, 2004, p.126.

18

lugar melhor para se viver. Assim, educar pela Arte passa a ser educar para a harmonia

universal, para a paz.

Recorremos também a Aristóteles: “Todos os homens, por natureza desejam

conhecer. Uma indicação disso é o deleite que obtemos dos sentidos; pois estes, além de

sua utilidade, são amados por si mesmos”. 28

Aqui verificamos a ligação entre o desejo de conhecimento – Eros, para os

gregos, especialmente para Platão, representava a curiosidade vital do homem, o desejo

de conhecer a si e ao mundo – e o deleite dos sentidos, instrumentos que conectam a

humanidade e o mundo, através da Arte.

O verbo ‘erotan’ de onde vem o nome Eros, significa amar e também

perguntar [ nos outros [

sentimento amoroso de cuidar um do outro, é amor ao trabalho, às idéias. 29

Eros em psicanálise significa uma capacidade amorosa, um

indagar sobre as coisas à nossa volta e prestar atenção em si e

]

]

Já Alfredo Bosi sugere-nos um bom processo de aprendizagem, criação e fruição

da Arte, diríamos até pedagógico. Fazer, conhecer e exprimir, ao nosso ver, revelam a

criatividade humana (fazer, homo faber), a inteligência e a sabedoria, características

próprias

dos

humanos

(Homo

Sapiens)

e

o

desejo

de

dialogar

e

se

expressar

artisticamente (Homo Artisticus, Homo Musicalis - categorias que iremos aprofundar

adiante, nos compassos seguintes desta obra).

Vista desta forma, a Arte é característica essencialmente humana, pois revela

nossa natureza criativa, o que, dentre outras coisas, nos diferencia dos animais, além do

desejo de fazer história ou de planejar o futuro.

28 ARISTÓTELES apud CASSIRER, Ernst. Ensaio sobre o homem, Introdução a uma filosofia da cultura humana. São Paulo: Martins Fontes, 1994, p. 11. 29 DETONI, Márcia. Folha de São Paulo, Equilíbrio, 5 a feira, 06/09/2001, reportagem local.

19

Assim, dar sentido à vida passa a ser, necessariamente, conquistar valores,

ideais, planejar sonhos, ou seja, criar significações que justifiquem o nosso viver;

sermos sujeito de nossa existência. Recorremos novamente a Cassirer:

é impossível penetrar o segredo da natureza sem ter estudado o segredo

o homem só pode ser descrito e definido nos termos de sua Declara-se que o homem é a criatura que está em constante

busca de si mesmo – uma criatura que, em todos os momentos de sua existência, deve examinar e escrutinar as condições de sua existência. [ ] [nessa atitude crítica para com a vida humana, consiste o real valor da vida humana 30 .

] [

do homem. [ consciência. [

]

]

Em busca de si mesmo, o homem questiona o seu existir; ao tentar explicá-lo,

faz uso da palavra.

Assim, utilizamo-nos da palavra, tão importante quanto a própria existência, pois

esta, a existência, passa a fazer sentido pela palavra. E dar sentido à vida, requer, dentre

outras atitudes, nomear simbolicamente aquilo que sentimos; desse modo, vamos

adentrando o universo do Homo Loquens, o homem das palavras.

1.1. Homo loquens – a palavra, monólogos, diálogos e a Música

A palavra é a morada do ser.

Heidegger

Iniciamos este item valorizando os “desdobramentos” da palavra.

O ser humano é o único ser que extrapola seu próprio corpo, “viaja” no tempo --

passado e futuro (sonhos) -- pois tem consciência de outras dimensões. É o único animal

que sabe

que

um dia

vai morrer. É

capaz de se tornar

sujeito e objeto de seu

pensamento, o qual pode tomar-se vivo e se manifestar através da palavra, talvez a

30 CASSIRER, Ernst. Ensaio sobre o homem, Introdução a uma filosofia da cultura humana. São Paulo:

20

“maior

dimensão

Concordamos

com

simbólica

do

mundo

Ernst

Cassirer,

que

humano”,

nas

nos

concede

palavras

a

epígrafe

de

Duarte

Jr. 31 .

deste

capítulo:

“Deveríamos definir o homem como animal simbólico e não como animal racional”. 32

Ora, se o homem fosse apenas racional, acreditamos que toda sua “humanidade” estaria

comprometida; laços amorosos, saudades, relações familiares, vínculos, enfim, todos os

sentidos não teriam razão de ser. Ao sugerir o homem como ser simbólico, Cassirer

amalgama cultura, conhecimento, mito e religião, linguagem, Arte, história e ciência à

essência humana; com certeza, em nossa opinião, contempla melhor a definição de

homem e atribui à Arte uma dimensão antropológica.

Loquens, do latim, nos remete ao presente de loquor 33 , que seria falar, exprimir,

dizer.

Homo Loquens, o homem da fala, o homem da palavra. O homem que utiliza a

palavra para dar vida às suas emoções, seus sentimentos, suas razões e inquietações.

Para o grande educador Paulo Freire, aprender a utilizar as palavras é “aprender

a escrever a sua vida [

].

Com a palavra o homem se faz homem”. 34 Pela palavra

aprendemos a pensar o mundo e “pensar o mundo é julgá-lo”; assim, concluímos que

pensar o mundo é emitir pareceres, opiniões, tomar partido, assumir compromissos e

posicionamentos diante de fatos, pessoas e situações. Conforme nos percebemos como

testemunhas da história, nossa consciência faz-se reflexivamente mais responsável por

essa história, e, assim, tornamo-nos sujeitos, protagonistas.

Por isso é importante aprendermos a chamar as pessoas pelos seus nomes e, as

emoções pelos nomes adequados. As coisas, pessoas e emoções, uma vez “nomeadas”,

31 DUARTE JR., João-Francisco. Por que Arte-educação? 8 a ed. Campinas: Papirus, 1998, p.18.

32 CASSIRER, Ernst Ensaio sobre o homem, Introdução a uma filosofia da cultura humana. São Paulo:

Martins Fontes, 1994, p. 50.

33 FARIA, Ernesto. Dicionário Escolar Latino-Português. Ministério da Educação e Cultura - Campanha Nacional de Material de Ensino, 1962, p.571.

34 FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, p.10-13.

21

pré-conhecidas e identificadas pelo ser humano, passam a ter uma carga de historicidade

maior,

porque

nos

revelam fatos,

histórias, sentimentos e

ciência, dentre

outras

informações possíveis. E se acaso as palavras referirem-se a pessoas, revelarão mais

ainda.

Conseguimos nos expressar melhor, quando nomeamos com mais clareza aquilo

que sentimos. Sobre esse tema, o compositor/violonista Toquinho e seu parceiro Elifas

Andreatto compuseram uma canção, a qual refere-se ao PRINCÍPIO III, da Declaração

Universal dos direitos da criança, "A criança tem direito a um nome

nacionalidade”.

e

a

uma

Gente tem sobrenome 35

Todas as coisas têm nome: casa, janela e jardim. Coisas não têm sobrenome, mas a gente sim. Todas as flores têm nome: rosa, camélia e jasmim, Flores não têm sobrenome, mas a gente sim. Todos brinquedos têm nome: bola, boneca e patins, Brinquedos não têm sobrenome, mas a gente sim. Coisas gostosas têm nome: bolo, mingau e pudim, Doces não têm sobrenome, mas a gente sim. O Chico é Buarque, Caetano é Veloso, o Ary foi Barroso também. Entre os que são Jorge tem um Jorge Amado e um outro que é o Jorge Bem. Quem tem apelido? Dedé, Zacharias, Mussum e a Fafá de Belém, Tem sempre um nome e depois do nome tem sobrenome também. Renato é Aragão o que faz confusão, Carlitos é o Charles Chaplin, E tem o Vinícius que era de Moraes e o Tom brasileiro é Jobim. Quem tem apelido? Zico, Maguila, Xuxa, Pelé e He-Man, Tem sempre um nome e depois do nome tem sobrenome também.

O autor desta dissertação também compôs uma canção para crianças, com esta

idéia – a importância de nomear e ser protagonista da história - intitulada “Mundo

melhor”. Apresentamos aqui a primeira parte dela:

Mundo Melhor

O dia em que escrevi meu nome Foi muito importante, Para mim foi a glória. Abri ainda mais horizontes, Pois pretendo ser sujeito da minha história.

35 Em 20 de novembro de 1959 a Assembléia Geral das Nações Unidas, aprovou os dez princípios da ''Declaração Universal dos Direitos da Criança''. O LP "CANÇÃO DOS DIREITOS DA CRIANÇA" DE TOQUINHO E ELIFAS ANDREATO gravado em 1997 pela Movieplay, traz canções alusivas a esses princípios.

22

Quero escrever belos sonhos e alegrias sem fim, Um mundo melhor, um paraíso ou algo assim, Pois já sei ler e vou aprendendo a escolher A cada dia, mais sabedoria, Muita harmonia e razões prá viver

Deste modo, o significado dado pela humanidade à sua existência é resultante do

diálogo entre sentir (experimentar, vivenciar) e simbolizar (transformar as vivências em

símbolos, nomeá-las), a partir da convivência entre os homens. Com essa lógica, a

linguagem é um “fenômeno essencialmente social”, de acordo com a visão de Duarte

Jr. 36 , e assim a palavra só faz sentido para nos comunicarmos com o outro. Se não

precisássemos expressar o que sentimos, a palavra não seria necessária; para que

nomear e traduzir o que sentimos, se não há a necessidade de comunicar a outro, ou

mesmo, a quem comunicar? Tão importante quanto, é a endo-comunicação, que seria

comunicarmos a nós mesmos nossos sentimentos e emoções; o que passa pela questão

da auto-estima. Se normalmente temos dificuldades em decifrá-las (as emoções), quanto

mais nomeá-las. Aqui, outro aporte para a necessidade desse trabalho: a Arte nos ajuda

a decifrar emoções quando as palavras não encontram nomes para decifrá-las.

Ao nos comunicarmos, fomos elaborando uma linguagem e, de acordo com

Huizinga,

é a linguagem que lhe permite distinguir as coisas, defini-las e constatá-las, em resumo, designá-las e com essa designação, elevá-las ao domínio do espírito. Na criação da fala e da linguagem, brincando com essa maravilhosa faculdade de designar, é como se o espírito estivesse constantemente saltando entre a matéria e as coisas pensadas. Por detrás de toda expressão abstrata se oculta uma metáfora, e toda metáfora é jogo de palavras. Assim, ao dar expressão à vida, o homem cria outro mundo, um mundo poético, ao lado do da natureza. 37

Antecipamos aqui algumas das categorias que iremos abordar nas próximas

páginas, por acharmos que estão relacionadas com a linguagem. São elas: o diálogo, a

36 DUARTE JR, João-Francisco. Por que Arte-Educação? Campinas: Papirus, 1996, p.27.

37 HUIZINGA, Johan. Homo Ludens. São Paulo: Perspectiva, 1980, p.7.

23

dimensão lúdica, a espiritualidade do corpo e a poesia, a arte da palavra; “a utopia da

palavra”, expressão lapidada pelo professor Severino Antonio 38 .

Nesse sentido, a natureza humana, seus segredos, o homem e sua consciência,

estão em constantes movimentos para nomearem-se, conhecerem-se e darem sentido à

vida, seja através de palavras ou significações artísticas. Renato Teixeira e Almir Sater

colaboram conosco ao evidenciar a idéia do filósofo Sócrates (“só sei que nada sei”), na

canção “Tocando em frente”, o que vem a contribuir para esta reflexão:

Tocando em frente 39

Ando devagar porque já tive pressa, Levo este sorriso porque já chorei demais. Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe, Só levo a certeza de que muito pouco sei, ou nada sei Conhecer as manhas e as manhãs, o sabor das massas e das maçãs, É preciso amor pra poder pulsar, É preciso paz, pra poder sorrir, É preciso chuva para florir. Penso que cumprir a vida seja simplesmente Compreender a marcha e ir tocando em frente. Como um velho boiadeiro levando a boiada, Eu vou trocando os dias pela longa estrada eu vou, estrada eu sou Todo mundo ama um dia, todo mundo chora, Um dia a gente chega, noutro vai embora. Cada um de nós compõe a sua história, Cada ser em si carrega o dom de ser capaz, De ser feliz.

A socialização, portanto, acontece através da linguagem; graças a ela nos

educamos e aprendemos a ordenar o mundo, no tempo e no espaço. É a linguagem que

nos ajuda a nomear os sentimentos, para atender nossa necessidade de socialização. E,

muitas vezes, as palavras que os nomeiam, necessariamente não são capazes de

descrevê-los, como: tristeza (qual tristeza?), alegria (que tipo?), raiva (como assim?),

paixão (por quem, como, quando, onde, de que tipo?)

Para descrever, podemos recorrer à Arte e à Música ou mesmo a outras palavras,

pois juntando palavras, teremos uma frase. Juntando as frases, teremos um texto. E

38 ANTONIO, Severino. A utopia da palavra. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002.

39 ALMIR SATER. Almir Sater ao vivo, São Paulo: Colúmbia/ Sony Music, 1992. 1 CD.

24

ambos, frases e textos, produzem e revelam um contexto explícito, ou implícito. Frases,

textos e contextos revelam a socialização da palavra, diálogo entre palavra e palavra.

Frases, textos e contextos humanos revelam a sociedade; diálogo entre seres humanos.

Socializando e evoluindo, a natureza do homem o leva a produzir ciência,

porquanto elabora racionalmente sua história, sua prática, seus sentimentos. A ciência,

por sua vez, encontra na razão as bases da sua justificativa. Acontece que o pensamento

busca sempre transformar as vivências ou experiências em palavras; em símbolos que as

signifiquem. Porém, nem sempre as palavras são suficientes para traduzir as emoções, e

quando tentamos agir desta forma, estamos recorrendo à razão, ou seja, buscando nomes

para tentar traduzi-las.

Homo loquens é o homem da palavra. O homem que construiu o mundo da

palavra. O mundo da palavra é constituído pelo uso da palavra, porque é ela que

permeia as relações entre o homem e este mundo. A palavra é a origem da necessidade

de existência da humanidade. A palavra, verbo, sempre realiza, provoca, aproxima ou

distancia, modifica algo. O uso da palavra pressupõe uma lógica como condição: um

pacto

social

sobre

as

regras

de

articulação

dos

pensamentos,

bem

como

o

reconhecimento de uma linguagem. Estamos de acordo que podemos trocar palavras. É

um pressuposto básico importante. E também é importante sempre, de acordo com

Georges Gusdorf, não esquecermos os três coeficientes necessários para fazerem

acontecer a palavra: “de quem (quem proferiu a palavra), a quem ela se destina e o

momento (contexto histórico e emocional)” 40 .

O homem que compromete sua palavra compromete a si mesmo. O músico

Gonzaguinha nos brinda, através da canção Sangrando, com esta idéia, diria tão

25

antropológica, contida em sua canção: a de que confirmamos nossa existência a partir

das nossas palavras, sejam elas faladas ou cantadas.

Sangrando 41

Quando eu soltar a minha voz, por favor entenda Que palavras por palavras eis aqui uma pessoa se entregando Coração na boca, peito aberto, vou sangrando São as lutas dessa nossa vida que eu estou cantando Quando eu abrir minha garganta, essa força tanta Tudo o que você ouvir, esteja certa que eu estarei vivendo Veja o brilho dos meus olhos e o tremor nas minhas mãos E o meu corpo tão suado, transbordando toda raça e emoção

E se eu chorar e o sal molhar o meu sorriso,

Não se espante, cante que o teu canto é minha força pra cantar Quando eu soltar a minha voz, por favor entenda,

É apenas o meu jeito de viver, o que é amar.

Homo loquens, o homem da palavra. As pessoas entregam-se e se revelam pelas

palavras; como se, ao serem proferidas pela boca, assumissem a forma de “órgão

humano”, pois “sangrando” revela de onde veio e sua origem: a humanidade. Assim,

metáforas

como

“coração

na

boca,

peito

aberto,

vou

sangrando”

revelam

o

compromisso daquele ou daquela que diz uma palavra. Comprometer sua palavra é

comprometer a própria vida, a existência. “Brilho nos olhos”, “tremor nas mãos”,

“corpo suado, transbordando toda raça e emoção”, talvez expressem as conseqüências

da palavra dita; sentidos revelados pela palavra. Talvez, lá no fundo, a palavra tenha

surgido pela necessidade humana de confirmar a própria existência e a vocação natural

para amar e ser amado: “quando eu soltar a minha voz, por favor entenda, é apenas o

meu jeito de viver o que é amar”.

O educador sabe a importância da palavra e do diálogo em seu ofício. O

monólogo revela a linguagem do solitário. É o início da loucura. Já o início da

Sabedoria, para Gusdorf é o diálogo: o ponto de partida para o uso da palavra. [

]

“Graças

ao

diálogo,

a

alma

dos

outros

penetra

na

nossa

por

interstícios”. 42

A

41 DE VOLTA AO COMEÇO. (EMI-ODEON), 1980. 1 LP.

42 GUSDORF, Georges. A Fala. Porto: Edições Despertar, 1970, p. 72.

26

universalidade acontece a partir do diálogo, segundo Gusdorf. A característica que

prevalece no homem de diálogo é a escuta.

A valorização do monólogo, ao suprimir a reciprocidade, estabelece um gênero

novo: a eloqüência, outro conceito pertinente a este tema.

Além da eloqüência, há também a técnica para a boa utilização da palavra.

“Retórica, dialética, sofística, representam formas tradicionais de uma Arte de persuadir

que faz da lógica o instrumento do desejo de domínio. Converter é vencer”. 43 Sob este

ponto de vista, a palavra configura-se numa ferramenta importante para conseguirmos o

nosso intento, nosso objetivo. E estabelece-se como primordial na Arte do encontro, na

Arte do diálogo.

Na Arte, a criação pode ser associada ao monólogo e ao diálogo. Porém,

queremos entender, instaurar e discernir uma grande diferença entre eles; quando

dissermos monólogos, iremos entendê-los como aparentes (e aqui sugerimos também o

início da fragmentação); por sua vez, entenderemos os diálogos como autênticos,

verdadeiros, como elementos e categorias da unidade, da recomposição, da harmonia.

Monólogo é entendido como aparente porque, ainda que fruto da interpretação pessoal,

ele seria feito com o diálogo realizado pelo indivíduo com seu conhecimento, suas

fontes,

seus

valores.

Olhando

assim,

o

monólogo

é

uma

fraude.

Ele

seria

a

“manipulação” egocêntrica e incoerente da palavra, que não considerou a importância

devida de seus interlocutores.

Quantos diálogos podem ocorrer internamente no processo de criação? Diálogos

conosco mesmos, com outros autores, outras vozes, com fatos, pessoas, com os

momentos históricos, que acabam por se converterem em monólogos, visto que terão a

assinatura do autor. Nessa visão, a criação é fruto de diálogos intensos.

43 Idem.

27

Entretanto, o processo de fruição da Arte também possui monólogos e diálogos.

Monólogos nas interpretações pessoais que cada um dá e faz, degusta e sente, a partir de

uma obra-de-Arte. Diálogos quando a obra é interpretada do ponto de vista do autor -

artista está expressando-se e fazendo do admirador, do visitante, ouvinte ou degustador,

um receptor ou “continuador” da existência de sua obra. Sob esta ótica, a obra só passa

a existir quando acontece esse diálogo: o da fruição, interação entre obra e público,

comida e degustador, Música e ouvinte, apreciador e músico.

Exemplificando: uma canção seria monólogo quando criada por um só autor,

que traduziu diversos diálogos com seu conhecimento, com vozes internas, com

contextos históricos, com uma musa, com uma emoção etc, para sua forma de sentir e

interpretar o mote de sua canção. Diálogo quando composta por mais de duas mãos.

Porém, enquanto não é executada ou gravada, ela ainda não existe para realizar um

diálogo com um ouvinte, espectador ou admirador. Ainda não ocorreu a fruição, do

ponto de vista artístico. O sentimento de pertença a um grupo passa necessariamente

pelo diálogo.

Portanto, é no diálogo que passamos a existir para o outro e passamos a admitir a

existência dele. O monólogo ignora a presença do outro. O Diálogo é a Arte do

encontro. Dessa forma, a Arte e a Música teriam o diálogo e o encontro presentes em

suas essências. Logo, a fruição é o encontro do artista com o público e/ou admiradores,

enquanto a criação é o diálogo com suas vozes internas, suas idéias e pensamentos, suas

emoções; e muitas vezes, seu tempo. Relembramos o poeta Ezra Pound quando disse

que os artistas são, verdadeiramente, a antena da raça. O “poetinha”, Vinícius de

Moraes, nos lembra com uma epígrafe poética: “A vida é a Arte do encontro, embora

haja tantos desencontros pela vida”.

28

E é esse diálogo – o que promove encontros - que pretendemos fazer haver para

a desconstrução da fragmentação.

Há uma canção intitulada Hora do clarão gravada por Almir Sater 44 , que pode

contribuir para essa idéia. Dentre outras interpretações, ela nos fala da relação entre Ana

Raio e Zé Trovão. Ana Raio seria a emoção, a dimensão feminina, o anima e Zé

Trovão, a masculina, talvez a racionalidade, o animus. E dá-se o diálogo entre estas

partes, na Arte do encontro.

Hora do clarão (Almir Sater e Renato Teixeira)

Ana Raio e Zé Trovão, diz a sabedoria Tudo o que acontece hoje, aconteceu um dia Se esse mundo é o nosso pai, o tempo é a magia Que nos mostra a direção, sem medo nem poesia

Viver é a nossa alegria, seguir é a nossa missão E tudo se resume em estar aqui um dia,

Noutro dia não

Ana Raio e Zé Trovão

A primeira estrofe, dentre outras possibilidades, nos ilumina quanto a sermos

perenes, finitos. O tempo é magia e nos mostra a direção sem medo nem poesia. Tempus

fugit, a expressão latina para a passagem do tempo que não volta e não pára. Chronos,

para designar a voracidade e talvez a crueldade do tempo, como o fez o deus grego

Chronos, 45 deus do tempo, fome devoradora da vida, desejo insaciável de evolução.

Kairós, expressão do tempo de graça, de poesia, de felicidade. E para nós, tempos de

Arte e Música.

Ana Raio e Zé Trovão, mulher e valentia Um conhece a direção, a outra a estrela-guia Um caminha pela luz e a outra se alumia

44 ALMIR SATER; RENATO TEIXEIRA. Almir Sater ao vivo. Hora do Clarão, canção de autoria de

Almir Sater em parceria com Renato Teixeira, 1992.1 LP.

45 A mitologia Grega nos revela que CRONOS (SATURNO), deus do tempo, também é trágico porque

Luta contra o

próprio pai, Urano, a pedido de GAIA, porque desde que se unira a ele, seu ventre não havia parado de gerar um só instante, além de obrigar seus filhos CÍCLOPES e HECATÔNQUIROS a viverem no ventre

A seu

tudo comanda, é insaciável, devora seres, momentos, destinos

Cronos “vence sempre”.

escuro de Gaia, sem nunca terem visto a luz do dia. Como a mãe fica sempre ao lado dos filhos

pedido, Cronos corta os testículos de Urano, os quais voam pelo espaço; o sangue espalha-se pela terra e

No mar, os órgãos com o sêmem expelido, forma uma espuma alvíssima, da qual emerge

AFRODITE (Vênus) - a deusa do amor. Na terra, o sangue origina as Melíades, e as Erínias, vingadoras dos crimes semelhantes ao de Cronos

pelas águas

29

São as cores do destino que os diferencia Um dia é um dia é um dia Que nasce no seu coração E tudo se resolve na hora da aurora, Hora do clarão, Ana Raio e Zé Trovão.

A segunda estrofe nos revela a complementaridade, a parceria, o diálogo: Zé

Trovão, valentia, caminha pela luz. Ana Raio se alumia, estrela-guia. E tudo se resolve

na hora da aurora, hora do clarão, da clareza, da verdade; do encontro e do diálogo.

Ana Raio e Zé Trovão, quem disse que sabia? Onde andará o vento, quando é calmaria? Quem decide essa questão, quem é que avalia? A nascente da canção, a mágica do dia? Pensar só nos traz alegria Saber já é outra questão, Somente quando sonha o homem vai ao céu e o resto é pelo chão, Ana Raio e Zé Trovão.

Já a terceira estrofe pode nos iluminar numa reflexão científica ou transcendente;

depende do olhar do observador. Científica, se respondermos às questões da natureza

pela biologia (onde andará o vento quando é calmaria? Quem é que avalia a nascente

da canção, a mágica do dia?). Os versos diferenciam pensar de saber – informação,

reflexão e conhecimento são ingredientes da sabedoria. E diríamos transcendentes, se o

olhar for de encantamento, enamorado pela magia de que quando sonha, o homem vai

ao céu, e quem decide essa questão, quem é que avalia? Talvez Kairós, inspiração,

tempo de graça, gozo e felicidade. Ainda no final da estrofe, há o retorno a Chronos: o

resto é pelo chão; tem que haver transpiração, trabalho.

Ana Raio e Zé Trovão: diálogo e não monólogos.

Porém, na Música, inexiste o monólogo. Mesmo na realização de um solo. O

músico dialoga com seu instrumento, seja ele saxofone, violão, piano, cítara, etc;

inclusive as cordas (ou pregas) vocais, que significativamente são duas, são pré-

condições para a existência do diálogo. Até a natureza humana – aparelho vocal-

conspira a favor do diálogo

Por outro lado, segundo Gusdorf, “a verdade nasce da

30

reflexão, deste lento e frutuoso regresso a si, que os vestígios da eloqüência têm

vulgarmente por finalidade impedir a todo custo”. 46 E todas reflexões acontecem

dialogicamente.

Entendermos a razão como conseqüência, ou seja, como algo posterior ao

processo vivenciado (experimentado, sentido). Assim, sentir (emocionar-se) e pensar

(racionalizar), passam a ser ligados em sua essência, desde o nascimento. Aqui, um

paradoxo: constantemente a razão é supervalorizada pela ciência em detrimento da

emoção, realizando um rompimento deste diálogo (razão e emoção). O paradoxo: a

razão, que precisou do sentimento e do pensamento anterior para existir, após este

processo, “despreza” a emoção, ao se dividir e desvencilhar-se dela. Dessa maneira, o

Homo Sapiens constantemente é induzido a regredir a seu estágio subterrâneo, às suas

cavernas interiores, ao seu Homo Demens. Aqui identificamos a fragmentação na

separação entre razão e emoção.

A Música, constantemente quer reduzir este grande número de regressos ao

subterrâneo, pois, fruto do diálogo entre notas e pausas musicais, entre autor e musa,

entre

instrumentos

e

vozes,

entre

a

razão

e

a

emoção,

tem

a

capacidade

de

continuamente resgatar o homem de suas cavernas interiores, ao inspirar sentimentos,

reviver emoções ou mesmo sugerir divagações.

Ao ser executada e escutada, a Música pode religar-nos a emoções indescritíveis

e que fluem através de uma linguagem não-verbal (se Música instrumental), uma

linguagem que mantém aberta a interpretação do ouvinte, ou mesmo através de uma

linguagem verbal (se Música letrada), que, eventualmente, possa induzir a algum tipo de

emoção ou comportamento. Deste modo a Música pode ativar as duas dimensões

31

cerebrais: lado esquerdo, lado racional, a razão que já comentamos e o lado direito, o

lado da emoção.

Sem falar nas dimensões culturais, históricas, folclóricas dentre tantas outras que

podem envolver a Música e serem envolvidas por ela. Há uma canção intitulada

“Palavra Cantada prá cantar”, de autoria de Paulo Tatit, Zé Tatit e Sandra Peres que

pode contribuir conosco ao associar a idéia da Música à palavra cantada. Música seria,

metaforicamente, palavras cantadas? Talvez uma definição de poesia? Valeria a pena

escutá-la, mas, por hora, vejamos:

Palavra Cantada pra Cantar 47

Palavra cantada pra cantar Palavra encantada no canto de toda canção Palavra cantada pra dançar Palavra embalada num canto qualquer deste chão Pra dar à luz, a alegria Pra fazer jus à voz da velha geração Palavra que vaga pelo ar Palavra que voa na voz que vem do coração Para cantar, para dançar Para brincar de voar pelo ar Pra conhecer o coração. Ê boi e, é samba, funk e, ciran-dá, ê mãe ê, Vô to-cá, vem me vê, vô cantá no CD, Ê Brasil pode crê.

Assim evidenciamos a importância da palavra e dos diálogos, conforme citado

acima, “pra dar à luz a alegria, pra fazer jus à voz da velha geração, [

]

para cantar,

para dançar, para brincar de voar pelo ar, pra conhecer o coração”. Por outro lado,

queremos verificar que o desentendimento, a alienação e a desarmonia podem ser

provocados pelo mau uso da palavra. Quando isso ocorre, entendemos que o Homo

Demens estaria superando o Homo Sapiens

47 PERES, Sandra; TATIT, Paulo. Canções do Brasil, “O Brasil cantado por suas crianças”, produzido por Sandra Peres e Paulo Tatit, gravado de abril de 1999 a junho de 2001, selo Palavra Cantada. De autoria de Paulo Tatit, Zé Tatit e Sandra Peres.1CD.

32

1.2. Homo Sapiens x Homo Demens - razão e fragmentação

A vida sem freio me leva, me arrasta e me cega no momento em que eu queria ver O segundo que antecede o beijo, a palavra que destrói o amor Quando tudo ainda estava inteiro e o instante que desmoronou. Palavras duras em voz de veludo, e tudo muda, adeus velho mundo, Há um segundo tudo estava em paz Cuide bem do seu amor, seja quem for.

Herbert Vianna 48

Ao iniciarmos esta travessia, na qual entendemos a necessidade de superação do

Homo Demens pelo Homo Sapiens, faremos um diálogo ecumênico entre Leonardo Boff

e Adorno, valorizando o que possa haver de comum entre eles.

Entendemos por ecumênico um diálogo que valoriza o que há de bom entre as

partes envolvidas, mais do que discutir suas diferenças.

Assim sendo, iniciaremos com um pequeno “dedo de prosa” com Leonardo

Boff, para depois nos enveredarmos no diálogo com Adorno, estudados por Zuin et al,

conforme citações posteriores.

Utilizamo-nos dos termos Homo Sapiens, na intenção de tornar pleno o uso da

inteligência humana, em todas as suas amplitudes e atitudes equilibradas, e Homo

Demens, na intenção de situar e localizar as atitudes “menos humanas” (se é que

poderíamos interpretar assim), ao nos referirmos a atitudes insensíveis, que levam a um

mundo, a uma cultura, a uma sociedade e a uma escola fragmentada, a caminho da

barbárie, diria o filósofo e compositor Adorno. Sapiens, sapiência, sabedoria das coisas

humanas e divinas. Demens, demência, procedimento insensato, loucura, esquizofrenia.

Robert Sardello, citado por James Hillman e Duarte Jr, colabora conosco nesta

reflexão:

48 PARALAMAS DO SUCESSO, Longo Caminho. EMI Music. Canção: Cuide bem do seu amor, 2002. 1 CD.

33

um indivíduo apresentava-se para a terapia no século XIX; já no século

XX, o paciente em crise, é o próprio mundo

fragmentação, especialização, hiperespecialização, depressão, inflação, perda de energia, jargões e violência. Nossos prédios são anoréxicos; nossos

negócios, paranóicos; nossa tecnologia, maníaca. 49

Os novos sintomas são

] [

No século XIX, o indivíduo; no século XX, o mundo; qual leitura faremos sobre

o século XXI? Talvez uma crise intensa entre humanidade e mundo, acirrada pela sua

evolução (ou involução?) tecnológica? Talvez a hipermodernidade? Muitos olhares

podem nos ajudar a identificar possíveis causas e conseqüências, mas iremos nos ater à

fragmentação, por ser esta uma linha, ou falha, de nosso tecido.

Para tanto, vamos abordar este tema, a fragmentação, com algumas definições e

citações que achamos oportunas – como as de Rollo May, Duarte Jr. e Max Weber e, na

seqüência, nos basearemos na obra de Adorno, como o fizeram Zuin et al, no livro

Adorno - o poder educativo do pensamento crítico.

Há um pressuposto básico para tal ousadia. A razão instrumental que, ao nosso

ver, deprecia a razão emancipatória e norteia decisões importantes para a vida das

pessoas

em

nossa

sociedade

contemporânea

está

baseada

em

paradigmas

de

competitividade, lucro e exploração. A razão emancipatória sob nosso prisma, seria o

bom senso; aquela que gera autonomia, crescimento saudável, libertação e evolução em

todos os sentidos. Acreditamos na necessidade de novos paradigmas, novos olhares,

novas atitudes para revertermos a ótica que diz que, dentre outras coisas, o dinheiro

pode comprar tudo. Acreditamos que um olhar mais cuidadoso, atencioso, calcado na

reeducação dos sentidos, possa dar uma grande contribuição para o reencantamento do

mundo. Dizemos reeducação dos sentidos na intenção de potencializar seu uso e não

49 DUARTE JR., João-Francisco. O Sentido dos sentidos: a educação (do) sensível Criar, 2004, p.19.

3ª ed. Curitiba:

34

desvirtuá-los ou reduzi-los, o que tem feito a fragmentação. Por isso começamos com o

cuidado. Um dos possíveis antídotos contra a fragmentação.

Sobre o cuidado, Leonardo Boff no livro Saber cuidar 50 , sugere um

novo paradigma de convivência que funde uma relação mais benfazeja para

com a Terra e inaugure um novo pacto social entre os povos no sentido de

Este difuso mal-

estar da civilização aparece sob o fenômeno do descuido, do descaso e do

abandono, numa palavra, da falta de cuidado. 51

respeito e de preservação de tudo o que existe e vive. [

]

Neste caminho, ele identifica como sintomas da crise civilizacional o descuido e

o descaso pela vida de crianças inocentes, de pobres e marginalizados, desempregados e

aposentados; o abandono de sonhos de generosidade; a falta de sociabilidade nas

cidades; o descuido pela dimensão espiritual do ser humano; o descaso pela coisa

pública;

o

abandono

da

reverência

e

do

espírito

de

finesse

(gentileza,

sutileza,

enternecimento, a possibilidade de um diálogo não-verbal, as entrelinhas); a falta de

cuidado com o planeta Terra e o reflexo disso na forma de se organizar a vida em

sociedade, habitação, saúde, dentre outros.

É

este

o

A sociedade contemporânea, chamada sociedade do conhecimento e da

comunicação, está criando, contraditoriamente, cada vez mais incomunicação

Atulhados de aparatos tecnológicos vivemos

tempos de impiedade e de insensatez. Sob certos aspectos, regredimos à barbárie mais atroz. 52

e solidão entre as pessoas. [

]

sentido

de

fragmentação

que

desejamos

identificar:

aquele

que

desconstrói a harmonia, desconstrói as relações pessoais e familiares, desconstrói a

esperança de uma vida mais digna e humana, e acaba por utilizar diversos instrumentos

para isso. A indústria cultural é um deles. Uma verdadeira barbárie que toma de assalto

a atividade criadora. Ela será retomada adiante, de acordo com a concepção do pensador

Adorno.

50 BOFF, Leonardo. Saber cuidar. Petrópolis. Rio de Janeiro: Vozes, 1999, p.17-18.

51 Idem

52 Ibid,. p. 11 e p.20.

35

Desse modo identificamos nosso objetivo: a superação do Homo Demens pelo

Homo Sapiens.

O dicionário Houaiss 53 define fragmentação como: a divisão de algo em

fragmentos, partes. Já o Aurélio 54 traduz fragmentação por reduzir a fragmentos, partir

em pedaços, dividir, fracionar, fazer-se em fragmentos, quebrar-se. O que se encontra

em fragmentos, encontra-se incompleto, desestruturado, estraçalhado, desprovido de sua

condição de equilíbrio.

Se entendermos fragmentação como processo de separação de âmbitos que se

apresentam ”naturalmente” juntos, como razão e emoção, conforme já citado na

introdução deste trabalho, poderemos talvez perceber o quanto ela se faz presente em

nossas vidas, na medida em que, desde cedo, somos estimulados a separar razão de

sentimentos. Assim, ao fazermos valer a máxima de Descartes, “penso, logo existo”,

enaltecemos a predominância da razão sobre nossa existência e, implicitamente,

desprestigiamos nossos sentimentos, nossas emoções.

O autor português António Damásio sugere-nos que:

] [

sistemas cerebrais necessários aos primeiros se encontram enredados nos

sistemas necessários à segunda e que esses sistemas específicos estão

os sentimentos parecem

depender de um delicado sistema com múltiplos componentes que é indissociável da regulação biológica; e a razão parece, na verdade, depender de sistemas cerebrais específicos, alguns dos quais processam sentimentos. Assim pode existir um elo de ligação, em termos anatômicos e funcionais, entre razão e sentimentos e entre esses e o corpo. 55

interligados com os que regulam o corpo. [

os sentimentos exercem uma forte influência sobre a razão, que os

]

De forma alguma queremos desmerecer a razão; apenas pretendemos sugerir que

há mais diálogos entre razão e sentimentos do que se supõe. E que, ambos, por estarem

53 HOUAISS, Antonio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p.1384.

54 FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio Básico da Língua Portuguesa. São Paulo: Nova Fronteira: 1988, p.306-307.

55 DAMÁSIO, António R. O erro de Descartes. Emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo, Companhia das Letras: 1996, p. 276.

36

imersos na dimensão da corporeidade (tema que será abrangido no Capítulo III, item

Homo Ludens) podem realizar esta integração, ou recomposição - termo que adotamos

por entendermos que já estiveram juntos em sua essência e precisam ser reunidos

novamente para uma humanidade mais feliz.

Com este olhar, remetemos à palavra de Fritjot Capra, citado por Duarte Jr, em

sua iluminada obra O sentido dos sentidos:

A visão fragmentada da realidade não só é um obstáculo para a compreensão da mente, mas é também um aspecto característico da doença mental. A experiência salutar de uma pessoa é uma experiência de todo o seu organismo, corpo e mente, e as doenças mentais surgem freqüentemente de uma falha na integração dos vários componentes desse organismo. Deste ponto de vista, a divisão cartesiana entre corpo e mente e a separação conceitual entre os indivíduos e seu meio ambiente parecem ser sintomas de uma doença mental coletiva compartilhada pela maior parte da cultura ocidental, como são, de fato, freqüentemente percebidos por outras culturas. 56

Fundamentamo-nos nesta citação para evidenciar algumas das categorias sobre

as quais estamos edificando o nosso trabalho. São elas: a esquizofrenia (aspecto

característico da doença mental), o diálogo entre corpo e mente,

a cosmovisão

(experiência de todo o seu organismo) e a visão fragmentada, já citada.

Uma mãe, ao cantar cantigas de ninar para sua criança, está transmitindo

carinho, segurança, confiança. Talvez seja por isso (além de todo o processo intra-

uterino já realizado) que a criança se entrega, se solta e dorme tranqüilamente no colo

da mãe. Porém, dependendo das letras das canções, podemos estar prestando um

desserviço à Educação e emoção deste bebê, ainda que ele ainda não entenda as

palavras e seus significados.

Muitas vezes, até sem maldade, contrariamos nossos discursos com nossas

atitudes e vice-versa.

56 CAPRA, Fritjot O ponto de Mutação, p 321, apud DUARTE JR., João-Francisco. O sentido dos sentidos- a educação (do) sensível. 3ª ed. Curitiba: Criar, 2004, p. 65.

37

Contrariamos sentimentos com palavras 57 e assim introduzimos as primeiras

esquizofrenias na vida das crianças tratadas deste modo.

Há também esquizofrenias (do grego, mente dividida) na organização da nossa

sociedade, modelo que é perpetuado pelas escolas, ao reproduzirem a visão determinada

pelas classes dominantes, com o objetivo de produzir mão-de-obra para alimentar a

reprodução deste modelo, como se fosse a única alternativa possível, e a “correta”.

Rollo May sintetiza a idéia desta forma:

surgiu uma nova mudança no século XIX. Psicologicamente a ‘razão’ foi

separada da ‘emoção’ e da ‘vontade’. Para o homem de fins do século XIX e princípios do século XX a razão respondia a qualquer problema, a força de

bem, estas em geral atrapalhavam e o

melhor era recalcá-las. Vemos então a razão (transformada em racionalização intelectualista) a serviço do agrupamento da personalidade com as resultantes

depressões e conflitos entre instinto, ego e superego, que Freud tão bem escreveu. 58

vontade o resolvia e as emoções

] [

Sobre o mesmo tema descreve Duarte Jr:

Assim, nossas ”civilizadas” culturas contemporâneas têm se assentado numa patologia básica: a divisão do homem em razão e sentimentos como dois compartimentos estanques, onde o primeiro se sobrepõe ao segundo, na busca de verdades da vida. A razão foi transformada em racionalismo, por negar seus próprios fundamentos na esfera dos sentimentos. 59

Ao negar suas emoções, a humanidade vai contra sua própria natureza, seus

fundamentos básicos, acentuando a distância entre razão e emoção.

Por outro lado Max Weber nos diz sobre o “desencantamento” do mundo:

57

Não pretendemos ser tão radical, mas sugerimos uma reflexão: ao cantarmos “boi da cara preta, pegue este menino que tem medo de careta,” o que estaremos dizendo e preparando para o futuro desta criança?

Ou mesmo: “Samba Lelê precisava é de umas boas palmadas

confortar a criança? Será que existe o risco de estarmos desvalorizando e dissociando a palavra da Música, criando apenas mais uma possibilidade de exceção na mente de nossos bebês – e educando para a

incoerência? É como se disséssemos: “bate, mas não machuca”, “xinga, mas não ofende”, “fala, mas não é bem isso que quer dizer”. Outro risco: mal-entendidos, neuroses, estresses, remédios, confusões,

Sobre este tema, realizamos por três ocasiões, Cursos de Orientação Musical para

Gestantes. (A Música e o bebê, Apêndice 5). Alguns autores como o prof. Duarte Jr., considera esta reflexão pertinente, e um tanto exagerada, pelo fato de que o bebê não entende as letras e realiza uma comunicação sensível e não inteligível neste caso.

esquizofrenias

A intenção inicial não era ninar e

58 MAY, Rollo. Apud DUARTE JR., João-Francisco.Fundamentos Estéticos da Educação. 5 a ed. Campinas: Papirus, 1998, p.68.

59 DUARTE JR., João-Francisco. Fundamentos Estéticos da Educação. 5ª ed. Campinas: Papirus, 1998,

p.68.

38

A crescente intelectualização e racionalização não indicam, portanto, um conhecimento maior e mais geral das condições sob as quais vivermos. Significa antes, que sabemos ou acreditamos que, a qualquer instante, poderíamos, bastando que o quiséssemos, provar que não existe, em princípio, nenhum poder misterioso e imprevisível no decurso de nossa vida, ou, em outras palavras, que podemos dominar tudo por meio de cálculo. Isto significa que o mundo foi desencantado. 60

Tal pensamento pode levar-nos a crer que o racionalismo técnico e seu

conseqüente processo científico de fragmentação podem explicar tudo e gerar a crença

de que tudo pode ser traduzido em números, calculado e previsto. Ao agir assim, as

pessoas deixariam de lado a magia, o encantamento. Adorno diz quase a mesma coisa

em relação a esta visão, utilizando-se da matemática. Sobre a tentativa de explicação do

mundo pelo racionalismo técnico, que pretende ter o controle das etapas e explicação do

desconhecido,

] [

equivalente, onde o cálculo matemático espraia-se de tal forma que alcança o status de espírito absoluto. A própria verdade se transforma em sinônimo de lógica matemática. 61

estão também presentes numa sociedade regida pelo princípio do

Algumas categorias crítico-expressivas do pensamento de Adorno nos ajudarão

nesse trajeto que, dentre outras coisas, pretende esclarecer o quanto a fragmentação

pode ser um engodo e, sorrateiramente, faz-se presente nas mais diversas dimensões da

nossa vida, desconstruindo a cultura, a sociedade, a Educação e a qualidade das relações

entre as pessoas.

Queremos evidenciar as seguintes categorias: a dialética do esclarecimento e a

reprodução da barbárie; a semicultura, a indústria cultural e a regressão dos sentidos.

Adorno utiliza a dialética crítico-reflexiva; seu pensamento não é uma teoria

fechada, lacrada, mas que deve ser investigada, confirmada, contestada, a partir das

60 WEBBER, Max. Metodologia das Ciências Sociais, tradução de Augustin Wernet; introdução a edição brasileira de Maurício Tragtenberg, 2.ed. São Paulo: Cortez; Campinas, SP; Editora da Universidade Estadual de Campinas, 1995, p. 439.

61 ZUIN, Antonio Álvaro Soares et al. Adorno - o poder educativo do pensamento crítico. Petrópolis, RJ:

Vozes, 1999, p.48.

39

reflexões e fatos, sempre se recusando a soluções

quais recorremos a seguir:

fáceis. Há outras idéias básicas às

O exercício constante da heurística dialética; o reconhecimento da

ambigüidade como estágio freqüente da realidade em mutação; o diálogo com os pensares divergentes desde que estes tenham uma coerência autêntica

o uso da

ênfase para evitar o mecanismo capitalista de tudo dissolver

capaz de apontar para lacunas ou falsos atalhos da reflexão; [

]

homogeneizando. 62

Acreditamos que as incoerências do racionalismo científico, extremamente

técnico, normalmente servem a um senhor, a quem nos tornamos subservientes: o

capital. Teríamos condições de eliminar a fome e a miséria da face da Terra, com o

progresso material e espiritual que atingimos já no início deste terceiro milênio e, no

entanto, o que vemos é justamente o contrário: o aumento e a reprodução da barbárie, da

fome e da miséria, uma vez que a divisão social do trabalho não ocorreu de forma

democrática. “Possuímos o aparato técnico que nos capacita atingir finalmente a tão

sonhada e prometida liberdade, porém nos acostumamos cada vez mais com a perene

reprodução das necessidades”. 63 Em seu texto Educação após Auschwitz, Adorno cita

Freud

dizendo

que

progressivamente”. 64

“a

civilização

produz

a

anticivilização

e

a

reforça

Logo, o que vai norteando as decisões que cada vez mais influenciam o destino

da humanidade, são valores como a competição, o acúmulo, a ganância, em detrimento

do cuidado que deveríamos ter com pessoas, animais, plantas e o planeta.

Ao nos deixarmos seduzir pelos apelos do capitalismo, abrimos mão de nossa

condição

de

cidadãos,

reduzindo-nos

a

consumidores.

Ao

sermos

reduzidos

a

consumidores, perdemos nossa autonomia e vontade, desumanizamo-nos, pois somos

submetidos aos produtos intercambiáveis criados pelos homens. Daí a nos tornamos

62 Ibid, p.152.

63 Ibid, p.46.

64 Ibid, p.50.

40

mercadorias pode ser apenas uma questão de tempo, ou talvez um pequeno passo.

Assim, coisificamo-nos, reificamo-nos – conceitos que serão abordados futuramente.

Também assim nos fragmentamos. Também assim poderemos nos tornar descartáveis.

Zuin et al contribuem nesse sentido, discorrendo sobre o pensamento de Adorno:

É que essa subserviência ilustra também com todas as cores o caráter totalitário do Esclarecimento: o progresso baseado na reprodução da barbárie, incrivelmente potencializado com a ascensão técnica. É de conhecimento geral que grandes invenções tecnológicas foram engendradas devido aos interesses militares de dominação e controle das informações. O computador utilizado para escrever esse texto é um notório exemplo desse fato. 65

Ao complementar esta idéia citamos Adorno que também nos mostra sua

indignação no texto Cultura e Civilização: “o mal não deriva da racionalização do nosso

mundo, mas da irracionalidade com que essa racionalização atua”. 66 Trata-se do

prevalecimento da razão instrumental sobre a emancipatória. A isso também chamamos

de barbárie, conseqüência de uma cultura desconstruída, fragmentada.

Outra categoria fundamentada por Adorno, a qual iremos igualmente abordar, é

a chamada semicultura ou semiformação cultural.

Se a cultura de um povo é a sua história, seus valores, sua língua, suas tradições,

sua Arte e tudo aquilo que, de uma forma ou de outra, contribuiu para que ela evoluísse

e chegasse aonde chegou, ela possui, em sua essência, o desejo de perpetuar-se sem

injustiças, potencializada com tudo do bom e do melhor. É a idéia do belo como

referência.

Assim, um outro conceito que introduzimos aqui, a alienação, vai contra o belo,

contra o desejo de emancipação. Pois, na medida em que supervaloriza o objeto, torna-

se fetiche, dando a ele mais valor do que realmente tem, quase humanizando-o e, na

medida em que menospreza o homem, reduzindo-o, coisificando-o, torna-se reificação.

65 Ibid, p.52.

66 Ibid, p.53.

41

Ao nosso ver, reificar o homem é diminuí-lo, fragmentá-lo. Acreditamos que Adorno

concorda com Marx: reificação é quando a mercadoria se sobrepõe ao humano.

Abordaremos nas próximas linhas a idéia do fetiche ao refletirmos sobre a fetichização

da Música.

Para

Adorno,

cultura

é

a

insatisfação

constante

do

particular

frente

à

generalidade, ”na medida em que esta se mantém irreconciliada com o particular”. 67

Desta forma, a criatividade brotaria como um protesto perene do grito de

liberdade, do desejo de emancipação.

O futuro melhor seria aquele em que a formação cultural poderia ser objetivada, de tal maneira que haveria um auto-reconhecimento do espírito, numa miríade de manifestações culturais, a saber, a filosofia, a arte, a ciência, a literatura e a música, entre outros. 68

Nessa visão, a cultura é emancipatória: resgata a auto-estima, valoriza a criação, a autonomia, instiga, provoca. O que Adorno chama de semicultura, vem na contramão dessa rua. Para Adorno, a semiformação cultural é a

] [

instrumental voltada para a adaptação e o conformismo, subjugando a dimensão emancipatória que se encontra ‘travada‘, porém não desaparecida. 69

difusão de uma produção simbólica onde predomina a dimensão

Identificamos

aqui

a

idéia

da

redução

e

instrumentalização

que

serão

aprofundadas com o conceito de indústria cultural. A semicultura é reducionista; sendo

adaptada, não é original; sendo conformista, não se apresenta como emancipatória ou

libertária.

Para

adentrarmos

o

tema

Indústria

cultural,

gostaríamos

de

utilizar

uma

metáfora:

o

mito

de

Tântalo,

o

qual

nos

ajudará

a

entender

o

processo

de

67 Ibid, p.65

68 Ibid, p.56.

69 Ibid, p.58.

42

mercantilização de produtos simbólicos, utilizado pelos autores Zuin et al no livro

Adorno - o poder educativo do pensamento crítico.

Ao roubar os manjares dos deuses do Olimpo, Tântalo foi alvo de uma maldição.

Ao ter sede e se aproximar da água, esta se afastava dele. Ao ter fome e se aproximar de

uma árvore frutífera, esta encolhia os ramos e lhe negava os frutos. Desta mesma forma

funciona a indústria cultural: ela faz com que a felicidade pareça residir em produtos

suntuosos e sedutores. E assim, para sermos felizes, precisaríamos consumi-los, na vã

idéia de que tomaremos posse dos atributos vinculados a eles. Porém essa promessa é

tão efêmera quanto o breve momento em que vemos um outro produto mais atraente,

pois o mercado é cruel ao apresentar ininterruptamente novidades. É insaciável. Só para

lembrar: seu objetivo é o lucro. É ele quem o sustenta, quem o alimenta, a qualquer

custo, e não a felicidade de seus consumidores.

Agindo assim, o mercado comercializa tudo. Inclusive o que não deveria. Ao

fetichizar 70 a Arte, o mercado a nivela por baixo, faz prevalecer a razão instrumental

sobre a emancipatória. Mais uma vez, a indústria cultural, desconstruindo a cultura.

O termo “indústria cultural” foi utilizado pela primeira vez em 1947, na

publicação da obra Dialética do Iluminismo, de Horkheimer e Adorno. Para Adorno, tal

termo vem substituir “cultura de massa”, pois esta “induz ao engodo que satisfaz os

interesses dos detentores dos veículos de comunicação de massa”. 71 A indústria cultural

é um grande instrumento de fragmentação, pois “impede a formação de indivíduos

autônomos, independentes, capazes de julgar e de decidir conscientemente”. 72 Ela é

extremamente reducionista: reduz o cidadão a consumidor e empregado, na medida em

que falsifica seus reais interesses, para que melhor possam ser servidos. Reduz o sujeito

70 A adoração de algo sem a compreensão de suas qualidades específicas e reais, além de suas relações com o todo.

71 ADORNO, Theodor W. Vida e obra. São Paulo: Nova Cultural, 1999, p.8.

72 Idem.

43

a objeto, o protagonista a coadjuvante; o Homo Sapiens a Homo Demens. Continua

Adorno: “o próprio ócio do homem é utilizado pela indústria cultural com o fito de

mecanizá-lo, de tal modo que, sob o capitalismo, em suas formas mais avançadas, a

diversão e o lazer tornam-se um prolongamento do trabalho” 73 .

Ao tolher a consciência das massas e instaurar o poder da mecanização sobre o

homem,

a

indústria

cultural,

de

modo

fraudulento,

aumenta

seu

engodo

pela

competição, pelas novidades, invadindo inclusive um mundo que deveria ser intocável:

o mundo de Eros. Eros é o que nos anima, o que nos impulsiona, o que nos motiva, o

que nos faz curiosos pelo prazer de viver. E aí talvez, na fetichização de Eros, a

Indústria cultural encontre seu maior filão.

Ao prometer e não cumprir, excitar e parar por aí, oferecer e privar, a indústria

cultural utiliza-se das formas mais baixas possíveis de mexer com a libido das pessoas e

adentrar no território da intimidade delas. Vejamos, por exemplo, cenas eróticas tão

exploradas pelo cinema: ao sugerir imagens, o desejo suscitado – que traz consigo uma

promessa implícita, ou seja, a realização do desejo – não pode ser levado a cabo, é

insatisfeito. E assim impera a frustração. Mais uma vez o mito de Tântalo

Aqui a

fragmentação reducionista presente nos instintos e desejos mais íntimos da humanidade.

E assim, a indústria cultural em vez de sublimar o instinto sexual, reprime-o e sufoca.

Convida

e

desconvida.

sexualidades.

Estimula

e

ceifa.

Desconstrói

a

beleza

da

dimensão

da

Criando “necessidades” ao consumidor (que deve contentar-se com o que lhe é oferecido), a indústria cultural organiza-se para que ele compreenda sua condição de mero consumidor, ou seja, ele é apenas e tão-somente um objeto daquela indústria. Desse modo, instaura-se a dominação natural e ideológica. Tal dominação, como diz Max Jiménez, comentador de Adorno, tem sua mola motora no desejo de posse constantemente renovado pelo progresso técnico e científico, e sabiamente controlado pela indústria cultural. Nesse sentido, o universo social, além de configurar-se como um universo de

73 Ibid, p.9.

44

“coisas” constituiria um espaço hermeticamente fechado. Nele, todas as tentativas de liberação estão condenadas ao fracasso. 74

Diante do que Adorno nos sugere, fica fácil entender a categoria por ele

chamada de privação dos sentidos. Regressão da audição, de gostos; de visão (tanto de

conjuntura, quanto de qualidade) reducionista e fragmentadora: “A indústria cultural

visa subordinar todos os setores da produção espiritual a um fim único: ocupar os

sentidos dos homens da saída da fábrica à noitinha, até a chegada ao relógio do ponto,

na manhã seguinte”. 75

Privação dos sentidos porque pretende ceifar o pleno desenvolvimento deles (dos

próprios sentidos e dos homens). O objetivo passa a ser desconstrui-los, contribuindo

com o que Adorno chama de menoridade do sujeito, torná-lo menor, menos, mudo, o

mais insensível possível.

Achamos

este

pensamento

bem