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MELODRAMA O GENERO E SUA PERMANENCIA Ivete Huppes ‘Na Eo Copyright © 2000 Andrea Saad Hossne Dirctosreservades ¢protegidos pela Le 9.610 de 19 de feverszo de 1998 proibida »reproducio toa ou parcial sea auorizago, por eseito, da editor, ISBN 85-7480-029.5 Discos reservados & AATELIE EprTORIAL Rua Manel Tecra Let, 15 6700-000 ~ Granja Visea ~ Cota ~ SP ‘Wlfie: (011) 46129666 sevatelie com. be 2m0 Printed in Braet i feito depo lege SUMARIO Introdugao ne) Origem, Estrutura Temas. Drama Histérico.. Presente e Passado. Apartes, Monélogos, Confidéncias 2B Platéia Bobo ... Espetéculo .. Bons e Maus ee m1 ‘Terror e Piedade o 123 Desdobramentos 137 Cronologia de Fatos Referidos 159 InTRODUGAO ( teatro de estilo romfntico costuma ser associado com © melodrama e com o drama histrico. A singularidade temitica de cada espéci justifica indicar a dupla aternativa Grasso modo, observacse que 0 melodrama dé preferéncia a cnredos sentiments, enquanto 0 drama histérico vai buscar inspiragio em vultos resgatados & realidade do passado ¢ ambas as vias, ainda que de forma independente, encontram grandes autores ampla aceitacio. De outro lado, a aproxi- magi se impée, quando observamos que as pesas de fando istérico mobilizam recursos comumenteassociados ao me- lodramsa, Como este, elas valorizam a aco, destacam o em- bate entre vicio e virtude ¢ exploram as sugestées do cendrio tendo em mira o impacto sobre a platéia, Tal coincidéncia sugere a ina de racioeinio que serdadatada aqui. Ou se, MELODRAMA: O GENERO f SUA PERMANENCIA ‘© melodrama aparecerd como uma espécie de denominador comum do estilo teatral romantic. Seguindo esta interpretagio, podemos reconhecer no rmelodrama uma das criagdes estéticas mais importantes do século XIX. Seria ele o sucessor da tragédia, Melhor, 0 melodrama seria a tragédia que a civilizagio mecanicista emergente ensejou produzir, ou entio, a composigio ade~ ‘quada ao horizonte que a revolugio burguesa constitu, tan- to da perspectiva artistica quanto ideol6gica, Por isso mes- mo, sua carreira no permanece restrita a0 romantismo, mas vem a ultrpassi-lo em larga medida, No decorrer do século XX 0 melodrama recupera 0 ¢s- pago entretanto cedido a outras formas draméticas. Sucede que o aplauso quase undnime que colhera durante a primei- ra metade dos oitocentos comegou a ser partilhado com nnovas modalidades teatrais, mais afinadas com o estilo do realismo, © gosto pela naturalidade da cena e pela repre- sentagio sem exageros conquista espaco, 20 lado do teatro cOmico e musicado, Nao obstante @ inequivoca renovagio operada, seria excessivo identificar nesses tragos a supera- 0 do melodrama, ou o antincio da sua morte. I: mais ade~ quado julgar que a alternativa inversa se concretiza, © me- lodrama reflui, mas retoma o félego com o surgimento das ‘modernas variedades de entretenimento popular. Os meios de comunicagio de massa, em especial o cinema e a televi- slo, propiciam-the um habitat estimulante, Pensando nes- 10 InrRopugio. ta diregio, Philippe Rouyer considera mesmo que 0 melo- drama é forma teatral propria da pés-modernidade'. Ago- ra, quando a nogdo de espeticulo, de performance ¢ de tea tralidade perpassa os discursos, neste mundo atravessado pelas imagens ~ comenta ele ~ o estilo melodramitico ga- ‘nha vigor novo. Volta, embora haja sucessivos registros sabre o esgotamento definitivo do género. E que procedi- rmentos ali consagrados ~ como a exuberinc plicita atificialidace da intriga e, principalmente, a clare~ za de objetivos quanto a reagio que a estrutura da obra deve produzir no espectador ~ tornam a encontrar adesio em meio a novas circunstincias soca. ‘A persistencia da forma e o éxito continuado do melo- drama estio relacionados, pois, com uma série de fitores. Ficam a dever, por exemplo, A permeabilidade para incor- porar inovades sejam elas de natureza temdtica ou compo- sicional, © melodrama assume um certo ar de erOnica para repercutir as inquietgBes da hora, enquanto absorve con- vyengBes sucessivas, sem traumas de identidade. Opera uma paradoxal concliagio daymudanga com a reiteragio;no uso dos recursos. Do ponto de vista que adotamos, tl resulta~ do se deve & presenga de\uma vocacio peculiar Sucede que cos movimentos do melodrama t8m motivo e endereso pre- 1. Philippe Rouyes “Le tite postmodern comme mlladrame", Earp, Pars, 703-704, noes. 1987, pp 97-100 u MELODRAMA: © GENERO E SUA PERMANENCIA cisos. Convergem numa 2ona de intersegfo bem nti, qual seja, a intencdo central ~ e jamais negada ~ de satsfazer & plain. Compreende-se que sea assim. Nos ineios da car- rela, altura em que a proteglo dos mecenas comegava a ce- der espago para as inciativas empresarais, o melodrama se Jmpoe como uma alternatva de arte que é visvel economi- a viabilidade da recepcio postva que suscta junto x0 pibico. Paralela- mente ao que deve acontecer com o cliente de um negécio, a satisfagio que cada espeticulo proporciona garante o re- torno 20 estabelecimento. Mas nio se conclua apressada- camente. Empreendimento auténomo, ext mente que esse feitio ¢ tal enderecamento implicam fici- lidades. Muito mais complexo do que parece & primeira vista, 0 melodrama deve ser capaz de monitorar a reagio do pilblico ~ para oferecer-Ihe a dosagem adequada — enqun- to desenvalve as histrias no paleo. Una extca amitde reptida, que envolve negativamen- te0 melodrama, indica sua predisposicio para fazer conces- sbes de toda a sorte, servindo pratos de sabor mediocre para o delete de platéias poucoilustradas. E rotulado de simpl3- rio e apelaivo, Em que pesem os argumentos implicados na anilise,cabe reconhecer que 0 género tem de enfrentar -vencer um duro desafio. Compete-Ihe capturar 0 interes- sede um public tio amplo quanto possvel,utilzando pro- cessosrepetidos& exaustio. Submetendo-se aos dtames da rentablidade, para se equilbrar entre a repetigio e a novi- a irropugio dade que Ihe garante a sintoni, vé-se obrigado & pesquisa incessante, Tem de conviver com o desafio de liberas, na me~ dida, elementos de elich® com tragos de vanguardi'e atua- Tidade, 20 tempo em que aperta o lago a0 consumidor, ~O progressive afastamento da temética histérica marca 4 evolugfo do melodrama no século XIX, Essa transforma~ fo acompanha a mudanca do perfil da plaéia, no decurso da revolugio burguesa, Um piiblico muito mais rude come- gaa ter acesso a bens culturais, Ele chega a0 teatro sem a “lustragio caracteristca da corte. O conkecimento prévio