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Alberto Caeiro

Creio no mundo como num malmequer,


Porque o vejo. Mas no penso nele
Porque pensar no compreender...

O Mundo no se fez para pensarmos nele


(Pensar estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu no tenho filosofia: tenho sentidos...

Se falo na Natureza no porque saiba o que ela ,


Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que amar...
Amar a eterna inocncia,
E a nica inocncia no pensar...

Sejamos simples e calmos,


Como os regatos e as rvores,
E Deus amar-nos- fazendo de ns
Belos como as rvores e os regatos,
E dar-nos- verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!...

Se quiserem que eu tenha um misticismo, est bem,


tenho-o.
Sou mstico, mas s com o corpo.
A minha alma simples e no pensa.
O meu misticismo no querer saber.
viver e no pensar nisso.
Acho to natural que no se pense
Que me ponho a rir s vezes, sozinho,
No sei bem de qu, mas de qualquer coisa
Que tem que ver com haver gente que pensa...
Que pensar o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me s vezes isto at dar por mim
A perguntar-me coisas. . .
E ento desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um p dormente. . .
Que pensar isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Ter a terra conscincia das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas coisas,
Deixaria de ver as rvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver s os meus pensamentos...
Entristecia e ficava s escuras.
E assim, sem pensar tenho a Terra e o Cu.