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Ensino & Pesquisa

Revista da Universidade Estadual do Paraná - UNESPAR Campus de União da Vitória N. 11 V. 02

União da Vitória, 2º semestre de 2013

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UNESPAR Universidade Estadual do Paraná, campus de União da Vitória Praça Coronel Amazonas s/n 86400-000 União da Vitória Paraná

IEPS Instituto de Ensino, Pesquisa e Prestação de Serviços Avenida Bento Munhoz da Rocha neto, n o 553 86400-000 União da Vitória Paraná

Catalogação ISSN 1676-1030

Projeto Gráfico e editoração Fernando Cesar Gohl Luciane Mormello Gohl

Editor Rogério Antonio Krupek

Conselho Editorial Sandra Salete de Camargo-Silva Unespar/Campus de União da Vitória Armindo LonghiUnespar/Campus de União da Vitória Ilton César Martins Unespar/Campus de União da Vitória Caio Ricardo Bona Moreira Unespar/Campus de União da Vitória Erickson Cristiano dos Santos Unespar/Campus de União da Vitória

Conselho Consultivo Acir Mário Karwoski Universidade Federal do Triângulo Mineiro Cesar Aparecido Nunes Universidade Estadual de Campinas Claudia Beltrão da Rosa Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro Jarem Raul Garcia Universidade Estadual de Ponta Grossa Luís Fernando Cerri Universidade Estadual de Ponta Grossa Suzete de Paula Bornatto Universidade Federal do Paraná Tiago Kroetz Universidade Tecnológica Federal do Paraná

Ensino & Pesquisa, n.11,v.02 2º semestre de 2013

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Editorial

A revista Ensino e Pesquisa é uma publicação periódica impressa vinculada à Universidade Estadual do Paraná, campus de União da Vitória. Apresenta natureza multidisciplinar e publica trabalhos científicos nas áreas de Educação, Ciências Humanas, Exatas e Naturais.

É com grande satisfação que o presente volume da revista Ensino e Pesquisa apresenta alguns dos trabalhos apresentados no I CEPE - Congresso de Ensino, Pesquisa e Extensão da Unespar, campus União da Vitória.

O CEPE tem como objetivo primordial a promoção da integração entre os alunos e professores da instituição e das instituições da região, na divulgação de seus trabalhos de pesquisa. O evento possui um caráter multidisciplinar e busca promover o desenvolvimento da pesquisa científica, pela facilitação do intercâmbio de conhecimento. Desta forma, apresenta uma oportunidade de inter-relação das diversas linhas de pesquisa desenvolvidas pelos pesquisadores, além da interação entre os alunos de graduação, pós-graduação e profissionais de diversas áreas para a troca de experiências no desenvolvimento dos trabalhos.

Desta forma, este volume da revista Ensino e Pesquisa busca promover a interação entre as diferentes áreas de ensino, visando contemplar as produções científicas geradas, apresentadas e discutidas no âmbito institucional.

Por fim, agradeço a toda a comissão organizadora do I Congresso de Ensino, Pesquisa e Extensão da Unespar, campus de União da Vitória.

Ensino & Pesquisa, n.11,v.02 2º semestre de 2013

Rogério Antonio Krupek editor

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SUMÁRIO

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NOTAS SOBRE BERNARDIN DE SAINT-PIERRE E A LITERATURA ROMÂNTICA (1772-1814) Michel Kobelinski

22

MONARQUISTAS OU REPUBLICANOS A HISTÓRIA DAS IDE POLÍTICAS NA GUERRA DO CONTESTADO (1912 1916) Everton Carlos Crema

33

PARA ALÉM DO TOTALITARISMO CORPORATIVO: AS RELAÇÕES ECONÔMICAS E DE PODER EM INSIDE JOB Armindo José Longhi Claudio Cavalcante Junior

46

NIETZSCHE E OS GREGOS: APONTAMENTOS ACERCA DO INDIVIDUALISMO, O ETHOS E O PATHOS Paulo César Jakimiu Sabino Samon Noyama

61

COMO FERVER O LEITE SEM QUE VAZE DA LEITEIRA? Laiane Ribicki Gabriele Granada Veleda

71

ALGUNS ASPECTOS GEOMÉTRICOS DA MÉTRICA DE MINKOWSKI EM Édino Andrioli Norberto José Polsin Jr. Simão Nicolau Stelmastchuk

82

O DOUTOR VERSUS O CHARLATÃO: UMA REFLEXÃO SOBRE A CRÍTICA IMPRESSIONISTA E O PROCESSO DE MODERNIZAÇÃO DOS ESTUDOS LITERÁRIOS NO BRASIL Caio Ricardo Bona Moreira

92

UMA ANÁLISE DA LITERATURA MINIMALISTA A PARTIR DAS OBRAS DE DALTON TREVISAN Fernanda Baggio Karine Bueno Costa

104

SERTÃO É LITERATURA: CULTURA POPULAR E POETIZAÇÃO DO LÉXICO NEOLOGISTA-PROSICO NA OBRA ROSIANA Josoel Kovalski Regina Jaremko

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NOTAS SOBRE BERNARDIN DE SAINT-PIERRE E A LITERATURA ROMÂNTICA (1772-1814)

Michel Kobelinski 1

RESUMO: O texto tem por objetivo analisar a abrangência da literatura produzida por Bernardin de Saint-Pierre. Com aporte teórico metodológico em História/ Literatura/Sensibilidades e, constatando a ausência de estudos no Brasil sobre este tema, procuramos verificar como as obras de Bernardin de Saint-Pierre representam o imaginário revolucionário em que o real e a ficção servem como evocações da natureza paradisíaca e alternativa crítica à realidade vivida, inventada e imaginada. Palavras-chave: História e literatura, História e sensibilidades, História e narração, Romantismo, Romance.

NOTES ON BERNARDIN DE SAINT-PIERRE AND ROMANTIC LITERATURE (1772-1814)

Abstract: The purpose of the paper is to analyze the consequences of the literature produced by Bernardin de Saint-Pierre. From the interpretations of history and literature, verified as the works of Bernardin de Saint-Pierre represent the imaginary revolutionary where reality and fiction meant evocations of nature's paradise and critical alternative to the reality experienced, imagined and invented. Keywords: History and Literature, History and Sensitivities, History and Narration, Romanticism, Romance.

1 INTRODUÇÃO

A presente reflexão se situa na intersecção entre a história e a literatura. Procuramos articulá-

las, valorizando a riqueza e os benefícios que a literatura pode trazer à história. Seja como

manancial eivado de metáforas e referentes do real que nos permite pensar as sensibilidades

humanas, seja como instrumento de crítica social que procurava mediar conflitos sociais,

projetando alternativas à realidade vivida, inventada ou imaginada. Logo, inscrevemo-nos

nesse campo polêmico das conceituações conflitantes na certeza de contribuir para com o

avanço do conhecimento histórico. Em razão desse direcionamento e perspectiva definimos

nossa posição em torno da ideia de que a história é, ao mesmo tempo, uma ciência e uma arte

Uma ciência porque possui procedimentos, embora que estes sejam frutos de escolhas e

seleções arbitrárias. Uma arte, na medida em que, flerta de forma racional e sensível com uma

estética da narração e com a necessidade de desvelar as tramas construídas pelos homens ao

longo do tempo.

1 Professor Adjunto do colegiado de História. Universidade Estadual do Paraná, campus de União da Vitória. E- mail: mkobelinski@yahoo.com.br

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O direcionamento para o tema em tela

decorreu da necessidade de o pesquisador

aprimorar seus estudos e ampliar as reflexões

sobre as letras no período romântico. Diga-se

de passagem, que esta investigação é a base do

projeto de pesquisa atual (TIDE). A leitura

acerca do Brasil Colônia (KOBELINSKI,

2012) nos estimulou a pesquisar a América

francesa, isto é, a Nouvelle France. Na

sequência destes estudos, o resultado e o

reconhecimento da pesquisa As curiosidades

Botânicas de Pierre-François-Xavier de

Charlevoix (História, ciências, saúde

Manguinhos, v. 20) nos atraiu para o desafio

do estudo da tendência literária pré-romântica e, particularmente a vida e a obra do escritor e

botânico francês Jacques-Henri Bernardin de Saint-Pierre (1737-1814). É preciso dizer que

este percurso investigativo se deu, tanto pelo contato e traquejo com a documentação do

século XVIII, quanto pela necessidade de refletir idealizações e projeções dos sujeitos que se

encaminhavam para a valorização de si e, simultaneamente projetavam ideais de igualdade,

liberdade e fraternidade em contraposição às estruturas sociais e políticas do Ancién Regime.

Bernardin de Saint-Pierre é neste caso um precursor esquecido, e, por isto mesmo, merece a

nossa atenção. Note-se também que ao longo de nossa trajetória acadêmica priorizamos os

eixos temáticos História e Natureza e, História e Sensibilidades. Desse modo, a identificação

com o tema e com o período se esclarece, permitindo-nos levantar questões pontuais em

relação ao objeto de estudo. Sabemos muito bem que o romantismo tem como características

Figura 1. Paulo e Virginia perguntam a um senhor o nome de seu escravo. Moreau
Figura 1. Paulo e Virginia perguntam a um
senhor o nome de seu escravo. Moreau &
Girardet. [177?]

os

sentimentos e a sensibilidades dos sujeitos em relação à sociedade e à natureza.

As

parcas referências à Bernardin de Saint-Pierre também o caracterizam como um ilustre

desconhecido entre nós. As breves referências aparecem em Alfredo d‘Escragnolle Taunay

(1872), Raul Pompéia (1888), Mário de Andrade (1927), Joel Rufino dos Santos (2001),

Barbosa (2005) e Souza Teixeira (2009). Por outro lado, as traduções da obra Paulo e Virgínia

para o português, tanto no século XIX quanto no século XX, não são acompanhadas de

estudos detalhados. A defasagem nestes estudos justifica a abordagem aqui proposta.

A análise das obras de Bernardin de Saint-Pierre está em andamento. Contudo, já é possível

constatar alguns pontos que consideramos relevantes. Em especial, as representações do autor

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para os saberes, comportamentos e idealizações estabelecidas em relação à metrópole e às possessões ultramarinas, isto é a Île de France (Ilhas Maurício), parte insular do oceano Índico, África. Nossa intenção ao longo dos próximos anos é avaliar os sentidos atribuídos à natureza a partir de diálogos com as ciências e com as artes, bem como sua inserção na literatura francófona. É neste sentido que a estética do olhar sobre a natureza (Paul et Virginie) elaborada por Bernardin de Saint-Pierre nos leva a compreensão de como a natureza e a sociedade francesa e de além-mar estavam ligadas à razão e aos sentimentos.

2. PANORAMA TEÓRICO: HISTÓRIA, CULTURA E SENSIBILIDADES

A intersecção história-literatura/história-sensibilidades nos encaminhou para um tratamento

teórico específico e para a análise da narrativa histórico-literária. Isto, em razão da afinidade com os aportes teóricos considerados e porque envolvem uma narração ficcional e representações da realidade vivida pelos mauricianos no século XVIII e pelo seu autor. Segue-se, portanto, algumas discussões nesta direção, respeitando-se, na medida do possível,

a limitação imposta pela natureza do presente texto.

A aproximação entre história e literatura é enriquecedora, no entanto, também é problemática.

As contradições entre elas são notórias. De um lado, a narração dos fatos históricos e o desejo

pela verdade, e de outro, os vínculos entre a narrativa e os mitos provocam distensões. Em Huizinga, por exemplo, um dos primeiros historiadores da cultura no século XX, aponta-se a necessidade de informar o leitor sobre a autenticidade e o desejo de o historiador descobrir a realidade. A razão não é inteiramente simples. A narrativa histórica comporta vínculos com os sentimentos humanos e, o uso da imaginação histórica por parte do historiador não faz outra coisa senão evocar imagens da realidade diante da constatação da impossibilidade de não podermos trabalhar com processos psicológicos e de apreensão da realidade: a história não pode nem quer reproduzir o emaranhado do passado, nem pretende sequer dar ao passado uma fisionomia que deseje ser considerada como verdadeira com a exclusão de outras possibilidades(HUIZINGA, 1946, p. 53).

Os historiadores também se preocuparam com as relações entre a história e as sensibilidades. Neste caso, admitiram a interdisciplinaridade. A linguística, a filosofia, a psicologia e literatura possibilitavam novos enfoques, os quais culminaram no que se chamaria história das mentalidades e, mais tarde na história do imaginário. Em termos teórico-metodológicos a obra de Marc Bloch Apologia da história ou o ofício do historiador não questionou apenas a legitimidade e a utilidade da história. E se esta era vista como uma ciência e como uma arte,

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tinha por objetivo a reconstrução, a qual ele chamou de sensibilidade histórica. Com o seu método crítico-comparativo-psíquico-regressivo ou simplesmente psicologia do testemunho, entendia-se que era possível adentrar os impulsos íntimos dos sujeitos, a estrutura social e econômica, uma vez que os seres humanos percebem de maneiras diferenciadas: ―com poucas exceções, não se vê, não se ouve bem a não ser o que se esperava de fato perceber" (BLOCH:

2002, p. 103-104).

Estas mesmas preocupações aparecem de forma mais intensa em Lucien Febvre. Ele saiu em defesa do entrelaçamento teórico-metodológico pela via da interdisciplinaridade. Para ele a história é inteiramente social e, deste modo, ela se define como um estudo cientificamente conduzido que se debruça sobre das atividades humanas ao longo do tempo. A necessidade de

reconstituir a vida afetiva de outros tempos nos mostra, desde cedo, uma preocupação com as subjetividades humanas, as quais foram negligenciadas pela historiografia: ―a vida afectiva é

de facto [

o que existe de mais necessariamente e de mais inexoravelmente subjetivo em

nós‖ (FEBVRE, 1989, p. 219). Lembremo-nos que a Lucien Febvre e a Paul Vidal de la Blache foi atribuída a ideia de que na complexidade do meio geográfico as interações humanas são múltiplas e desempenham um papel importante na transformação da natureza

(possibilismo). Sua contribuição também se dirigiu à literatura como possibilidade de leitura

],

da

vida social, especialmente na obra ―O problema da incredulidade no século XVI: a religião

de

Rabelais‖ (1968), onde analisou o anacronismo histórico-psíquico de Abel Lefranc (1924),

o qual considerava que o escritor François Rabelais era ―ateu militante‖. Febvre demonstrou

sua impossibilidade, pois no século XVI o conceito de descrença era algo inimaginável. Seu projeto, orientado pelas influências tardias do estudo da psicologia das massas - de Henri Wallon, Lucien Levy-Bruhl e Charles Blondel e Huizinga se dirigiu para a constatação da repulsa historiográfica às atividades emocionais frente aos componentes racionais.

A obra de Lucién Febvre foi contemporânea a de Norbert Elias (1939). ―O processo

civilizador: uma história dos costumes‖ tratou do controle de afeições e comportamentos

durante a formação do Estado Moderno. As causas das transformações nos costumes eram provenientes dos conflitos sócio-políticos entre a aristocracia e a burguesia. Assim, em termos históricos, os distanciamentos sociais se davam pela adoção de comportamentos, tais como medo, vergonha, embaraço e nojo. Estes eram posteriormente incorporados pelas outras classes, deixando de atuar no nível da consciência para influenciar na mudança da

um passo no caminho que

personalidade dos sujeitos. Segundo Elias, este seria ―[

finalmente levou ao nosso próprio molde afetivo-emocional um passo na direção da

civilização‖ (ELIAS, 1994, p. 85, v. 2).

]

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As perspectivas teóricas e temáticas de Lucién Febre acabaram influenciando a obra de Robert Mandrou (1961). Este historiador se dirigiu para uma antropologia histórica dos sentidos. À margem da querela com Fernand Braudel e de seu ostracismo historiográfico, desenvolveu um estudo de psicologia histórica na obra ―Introduction a la France moderne:

essay psichologique - 1500-1640‖ (1961). Ali, as sensibilidades ou atitudes em relação à alimentação, saúde, doenças e, os sentidos, sensações, emoções e paixões eram entendidas no

contexto social, espacial e mental. Neste particular, a história das mentalidades de Mandrou nos permite vislumbrar as estratégias de evasão dos sujeitos no âmbito familiar e social. Diz- nos ele na introdução de sua obra: ―que o homem – físico e psicológico muda através dos

(MANDROU, 1961, p. 13). Nesta mesma direção

tempos, nos o sabemos muito bem [

seguiu a obra ―Magistrados e feiticeiros na França do século XVII‖ para falar da histeria popular e das narrativas orais originárias em torno da feitiçaria e de possessões demoníacas (MANDROU, 1979).

]‖

A dimensão da história das mentalidades em sua interseção com a psico-história e com a história do imaginário foi trabalhada por autores como Jean Delumeau, Phillipe Ariès, Michel Volvelle, entre outros. Aqui nos interessa Volvelle em razão do tratamento conferido ao período pré-revolucionário. Especialmente por ir além da análise de fontes seriadas, isto é, dos testamentos provinciais que revelavam atitudes diante da vida e da morte. Seu trabalho com a literatura profana, sagrada e erudita evidencia uma busca por padrões de sensibilidades. Ao estudar a mutação nas formas de pensar e de sentir, em termos individuais e coletivos, questionou-se sobre os limites de uma sensibilidade pré-revolucionária. Constatou que as mutações sensíveis se operaram entre a elite e as classes populares, além de que as sensibilidades e as ideologias não passavam de reflexos da cultura no século XVIII: ―[ ] podemos indagar se não se elaboram no interior mesmo dos grupos populares especifica e localmente, os elementos de um novo modelo de comportamento coletivo‖ (VOVELLE, 2004, p. 370).

A contribuição de Alain Corbin é mais recente e representa, no âmbito da história da cultura, uma retomada do estudo das culturas sensíveis: ―história dos signos e símbolos exibidos, dos lugares expressivos e das sensibilidades difusas, solidamente fixada nos textos e nas obras de criação, carregada de memória e de patrimônio, sempre íntima, alegórica e emblemática,

realçando ferramentas mentais e as evoluções dos sentidos [

(RIOUX, 1998, 22). Corbin

trata da evolução histórica das sensibilidades, isto é, da mudança radical no sistema de percepção e de apreciação da natureza e, simultaneamente nas maneiras de ser dos sujeitos.

Este historiador destaca que a emergência do indivíduo ocorreu durante o processo

]‖

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revolucionário. Momento em que se ampliou o sentimento do eu, da autoestima, da escrita de

si, da intimidade, do controle do corpo, da higiene, das boas maneiras, da percepção dos

prazeres, dos temores, do amor, da raiva, da melancolia, das experiências provocadas pelas viagens, do efeito das invenções sobre os sujeitos, da relação de amor aos animais domésticos, das recepções sensíveis e inteligíveis dos órgãos sensoriais, etc. (CORBIN,

1991;1997).

Em relação à historiográfica inglesa destacamos Keith Thomas. Sua obra ―O homem e o mundo natural: mudanças de atitude em relação às plantas e aos animais 1500-1800‖, de

1988, trata das mudanças significativas na maneira de perceber e classificar o mundo natural.

O resultado destas mudanças, por exemplo, apareceu através de novas sensibilidades na

segunda metade do século XVIII, quando os princípios filosóficos e religiosos advogavam a ideia de que os homens deveriam ser generosos e benevolentes para com as criaturas ao derredor. Desta nova maneira de pensar e sentir, todos, isto é, crianças, escravos, criminosos e animais tinham o direito ao prazer e, portanto, não deveriam sofrer. Segundo Thomas (1988:

p.207) ―o século XVIII é rico nessas novas sensibilidades. Com efeito, se na literatura temos o tio Toby do Tristram Shandy, relutante em matar até uma mosca, na vida real existiu o médico Sylas Neville, de Norwich, que em 1767 prendeu dois camundongos para depois soltá-los – incapaz de matar dois incômodos animais daninhos‖. As classes abastadas também ditavam as regras para os comportamentos populares, ao mesmo tempo em que redefiniam suas próprias ações. Assim, procurou-se eliminar as atividades populares como açulamento de leões, texugos, ursos e apedrejamento de animais, ao mesmo tempo em que se definiam como atividades nobres a falcoaria, a caça à raposa e a pesca.

Por outro lado, devemos lembrar que a relação entre a história e literatura passa pelos estudos sobre a cultura e o imaginário, na medida em que se volta para as ―formas de ver, sentir e expressar o real dos tempos passados‖ (PESAVENTO, 2006 s.p.). É no imaginário que as ideias e imagens se reproduzem como habitáculo das apreensões do mundo racional e emotivo. E se o imaginário, por sua vez, está ligado à representação da realidade, esta não lhe ocupa o lugar, pois o mundo é aquilo que racionalizamos e sentimos. Ora, concordamos com a possibilidade de a literatura ser uma forma de atingirmos de maneira indireta, alegórica e metafórica o imaginário. Especialmente porque ele fornece indícios da sociedade que foi representada pela escrita, abrangendo tanto os aspectos estruturais das formações humanas, quanto de suas historicidades.

A narrativa literária e a narrativa historiográfica realizam mediações entre seus objetos de

interesse. Em diferentes sentidos, ambas envolvem oposições entre verdade e ficção, tendo

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sentidos e funções socioculturais. De todo modo, é possível pensar que a narrativa dos historiadores também seja um artefato literário e, em alguma medida, conviva-se parcialmente com elementos ficcionais. Argumenta-se que as fontes são objetos de manipulação e que representam indícios frágeis que permaneceram ao longo do tempo (WHITE, 2001; VEYNE, 2008). Trata-se de uma reflexão sobre a história como modo de escrita. É neste sentido que os historiadores devem alertar seus interlocutores sobre os diálogos transdisciplinares e interdiscursivos. Em outros termos, devemos alertar os leitores para aquilo que realmente fazemos (DARNTON, 2005). Por outro lado, Albuquerque Júnior defende a premissa de que aproximação entre história e literatura possibilita lançarmos novos olhares sobre um campo de trabalho estimulante e enriquecedor. Sobre a aversão dos historiadores a esta aproximação e sobre a limitação da escrita da história, menciona: ―não será a precariedade do que conseguem produzir como sendo a vida humana, não será a falta de profundidade psicológica dos personagens que conseguem imaginar, que a literatura vem explicitar?‖ (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2007:43). Até aqui apresentamos um percurso e um aporte teórico fundamental à análise proposta. Agora passamos a dialogar com uma historiografia que prioriza o tema história e literatura e a inserção da produção literária de Bernardin de Saint-Pierre no contexto revolucionário.

3. PANORAMA TEMÁTICO: HISTÓRIA E LITERATURA

A história e a literatura se entrelaçaram no período revolucionário, promovendo o que Lynn Hunt (2009) chamou de torrentes de emoções. A literatura permitia o acesso aos desejos e aos sonhos como expressões que suscitavam uma nova história, a expressão do indivíduo que se levantava da obscuridade para pronunciar sua existência, lutando contra a opressão. As abordagens de Bernardin de Saint-Pierre se entrelaçam ao desejo pela nostalgia do isolamento, arrebata-se pela encenação das paixões distantes que contestam a razão. E se Paul et Virginie, por exemplo é uma das mais importantes manifestações pré-românticas, inaugurando o romance burguês, ela não só se aproxima das obras de Rousseau (La nouvelle Heloise), Laclos (Les liaisons dangereuses), Diderot (Le fataliste), entre outros, mas também integra o universo cultural revolucionário, consolidando a disseminação do gênero literário, fosse ele libertário ou clandestino (DARNTON, 1992).

Não é nossa intensão abrir toda uma discussão historiográfica sobre o problema histórico do romantisme avant la lettre. No entanto, é preciso dizer que não era um movimento uniforme como o que ocorria entre os alemães e ingleses. Apesar dos escritos de Rousseau serem

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antecipatórios, assim como os de Chateaubriand e Staël, o romantismo só se oficializou com as Méditations poétiques et religieuses, de Lamartine, em 1820. Isto porque a França do

século XVIII sofria uma invasão ―revolucionária de pré-românticos‖ de outros países, daí o simbolismo de os historiadores usarem o termo Pré-romantismo num país em que este

uma

nova sensibilidade poética, mais intima da natureza, inclinações religiosas e místicas, sentimentalismo, revolta contra as convenções estéticas do classicismo, gosto pela poesia popular e primitiva, enfim, uma mentalidade que oscila entre tristeza, melancolia e protesto revolucionário‖ (CARPEAUX, 2011, p. 1200).

movimento literário foi tardio. Em termos de estilo ele pode ser definido como ―[

]

Por outo lado, o Romantismo pode ser definido como um movimento artístico, político, e filosófico marcado pela aversão ao racionalismo e ao iluminismo. O avanço das artes e letras também era o resultado ecumênico das revoluções industrial e francesa, tendo, por consequência, vínculos com a política, principalmente quando se construía a ideia de nação e nacionalidade. Embora seus propósitos não fossem bem definidos, a não ser pelo extremismo,

lutava-se contra a alienação, procurando, através da crítica, recuperar a unidade perdida entre

o homem e a natureza. A inspiração vinha do homem primitivo, do exotismo e da maior

incógnita do período, o povo, até então desconhecido em sua essência (HOBSBAWM, 1989,

p 345). E por acaso não é emblemático o fato de a razão suscitar o desconforto ao levantar a

ideia de sentimento de existência e dos próprios sentimentos? Para Starobinski (1994: p. 15) a invenção da liberdade passa pela constatação de que o pensar não pode ser desvinculado do sentir: ―nada, portanto, é mais variável do que nossa consciência de existir, e como nossa felicidade está ligada ao sentimento de existência, nada é mais necessário do que procurar

variar nossas sensações, multiplicar nossos pensamentos‖.

E de fato, a emancipação dos sujeitos estava atrelada à literatura. Segundo Lynn Hunt (2009,

p. 58) ―os direitos humanos cresceram no canteiro semeado por esses sentimentos‖. A autora considera as obras Júlia ou a Nova Heloisa (1761), de Jean Jacques Rousseau, Pamela (1740)

e Clarissa (1747-48), de Samuel Richardson, como romances de identificação psicológica. A

empatia dos sentimentos dos leitores em relação às personagens dos romances tornava possível a absorção de sensações de realidade em detrimento do esmaecimento da figura do autor. Daí toda sorte de comportamento e de manifestações a favor e contra os romances, pois

eles serviam para libertar ao mesmo tempo em que estimulavam a licenciosidade. Em nosso entendimento o romance de Bernardin de Saint-Pierre vai além do decantado amor ingênuo e trágico. Há nele a ideia de substituição de uma sociedade corrupta e maquiada pela ideia de felicidade em viver em meio à natureza, mesmo que o furor da paixão consumisse os sujeitos.

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Não será justamente a simplicidade daquela encenação que fez a crítica literária do século

XIX não se debruçar sobre suas ideias? Entendemos que Paul et Virginie revolveu a

intimidade dos leitores, fazendo aflorar torrentes de emoções, bem como o ideal de

transformação social. Poderemos identificar ali a idealização - e utopia, por assim dizer -, a

luta contra a doutrinação e o proselitismo político pelo viés literário, filosófico e estético. Em

nossa pesquisa procuraremos verificar até que ponto, tratou-se de mais uma estratégia de

evasão.

Bernardin de Saint-Pierre (1737-1814) foi educado por jesuítas, seguiu a carreira militar

(engenharia) e, além de se dedicar à literatura

por influência de Jean-Jacques Rousseau, foi

nomeado administrador do Jardim das Plantas,

elegeu-se membro do Insitut de France (1795),

ingressou na Académie Française (1803), sendo

seu presidente (1807). Transitou pela Martinica,

Holanda, Rússia, Polônia, Áustria e Ilhas

Maurício. Como escritor foi caracterizado pelo

estilo e elegância literária. Como homem foi

taxado de inquieto e orgulhoso; um sentimental

egoísta que amava a natureza, os pássaros e se

sacrificava pelas mulheres. O modelo de

personagens de seu romance Paulo e Virgínia

partiu do próprio seio familiar, isto é, eles

representavam os filhos de seu casamento com

Félicité Didot (1792). E se a influência de Rousseau foi decisiva no mundo das letras,

Bernardin de Saint-Pierre se situou entre aquele, Voltaire e a escola clássica, aproximando-se

de Chateaubriand (LANSON, 1963: p. 827-828). Desta epítome biográfica concluímos que

entenderemos melhor Bernardin de Saint-Pierre e sua obra se averiguarmos suas relações com

Rousseau, sua participação no movimento revolucionário, suas correspondências, além da

maneira prática e utópica com que lidou com a natureza. Uma literatura recente poderá nos

ajudar neste encaminhamento (JAFFRÉ-COOK, 2009; MALCON COOK, 2011; RACAULT,

2011).

Figura 2. Desespero de Paul diante da partida de Virginia. Moreau & Girardet [177?]
Figura 2. Desespero de Paul diante da
partida de Virginia. Moreau & Girardet
[177?]

Os fundos documentais da Biblioteca nacional da França (Gallica) em torno das obras de

Bernardin de Saint-Pierre comportam mais de 500 documentos, entre obras,

correspondências, e contribuições de terceiros. Entre elas estão: Voyage à l'Isle de France, à

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l'île Bourbon et au cap de Bonne-Espérance (1773, 2 vol.), Études de la nature (1784, 3 vol.), Paul et Virginie (1787), L'Arcadie (1781), La Chaumière indienne (1790), Le Café de Surate (1790), Les Vœux d'un solitaire (1790), De la Nature de la Morale (1798), Voyage en Sibérie (1807) e Harmonies de la nature (1815, 3 vol.). A principal obra Paulo e Virginia foi publicada entre 1787 e 1788. Apareceu originalmente como quarto volume da obra Estudos da Natureza. O romance foi gestado durante a estadia de Bernardin de Saint-Pierre na Ilha de França como engenheiro do rei, entre 1768 e 1770. Ali o ideal revolucionário e a crítica à escravidão aparecem como elementos centrais da trama. A narrativa retrata o enlace amoroso entre Paulo e Virgínia numa ilha paradisíaca, distante dos vícios da civilização. Na trama as personagens centrais são duas crianças de famílias distintas que vivem na Ilha de França (Ilhas Maurício) criadas de forma espontânea por meio de laços fraternais em meio a um cenário tropical. A adolescência é marcada pelo enlace amoroso entre ambos. A fim de evitar este envolvimento a mãe de Virgínia, os afasta, enviando-a para estudar na França com sua tia abastada. Anos mais tarde, Virgínia avisa por carta que estava voltado. Contudo, em sua chegada, sobre o olhar de todos o navio Saint-Geran que chegara durante uma tempestade naufraga. Todos se salvam, menos Virgínia que não quer retirar sua roupa para se salvar. Paulo desesperado sucumbe à dor da perda da amada, mas sobrevive das lembranças que carrega consigo dos momentos felizes que teve com Virgínia.

Entre as primeiras obras literárias publicadas no Brasil, no início do século XIX, estão as de Bernardin de Saint-Pierre. É importante ressaltar que a circulação de romances em nosso país resultou das transformações revolucionárias desencadeadas na Inglaterra e na França. Deste modo, a formação de leitores se ampliou com a institucionalização da Imprensa Régia e de medidas de disseminação das letras e artes no governo D. João VI, a partir de 1808. Paulo e Virgínia: uma história fundada em factos e Choupana índia foram anunciadas entre as primeiras obras impressas no Brasil na Gazeta do Rio de Janeiro, em 1811 (SOUZA, 2005, 30-32). Na época, a divulgação das ―novelas‖ ou ―contos morais‖ se assemelhava à venda ambulante de livros na França (CHARTIER, 1990: p. 55), cuja finalidade era se tornarem acessíveis à burguesia, voltando-se, principalmente à formação e modelação dos comportamentos sociais, especialmente o de moças. Afinal de contas, a circulação do escrito e o ideal iluminista colocava todos em pé de igualdade em um espaço crítico e essencialmente político que não deixava de lado a utopia de transformar ―todos‖ em leitores e autores. Uns por não terem dinheiro o suficiente para gastar com o que era, digamos assim, supérfluo à sua miserável condição, nem leitores se tornaram. Outros, mesmo tendo condições financeiras não

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tinham competência em ―dominar a totalidade das línguas necessárias para ter acesso à universalidade do patrimônio escrito‖ (CHARTIER, 1999, p. 139).

Desde o século XVIII havia um comércio livreiro, onde se desejava saber o que ―os franceses queriam ler‖ (DARNTON, 1992, p. 14). Bernardin de Saint-Pierre pertencia ao escalão do Alto Iluminismo e, embora dependente da proteção dos soberanos e de pensão para disseminar uma imagem favorável do Ancién Regime atuou de modo contrário. Este foi um dos motivos a nos instigar a estudá-lo no contexto revolucionário. Ele permaneceu em meio uma revolução que alternou posições políticas e virou do avesso o mundo cultural. Principalmente ao destruir academias, dispersar salões, abolir privilégios e pensões (DARNTON, 1987, p. 47). Aliás, a obra Boemia Literária e Revolução, de Robert Darnton,

trata do submundo literário francês às vésperas da Revolução de 1789, evidenciando que tanto

a literatura produzida pelos membros da Academia de Letras e do le monde, quanto a

subliteratura, aquela dos marginais e excluídos desses meios, possuíam valores revolucionários. Era justamente esse comércio clandestino de livros, estimulado pela burguesia, que fazia circular ideias sobre a perversão de nobres, o despotismo de monarcas, a licenciosidade da corte e de clérigos.

Simon Chama em Cidadãos: uma crônica da Revolução Francesa (1989) trata do fluxo de publicações censuradas que culminaram com a liberdade escrita em jornais, revistas, panfletos literários, poemas e brochuras. As ideias contidas nestes livros corroeram o Ancién Regime por dentro, pois a corte e a alta nobreza consumiam essas ideias sem entender o que significavam e combatiam. E, de fato, a geração pré-revolucionária criou uma nova maneira de se expressar e comportar. O coeur sensible simbolizava o caminho para a simplicidade e para a sinceridade: ―a palavra-chave era sensibilité: a capacidade intuitiva de sentimento intenso‖ (SCHAMA, 1989, p. 137) . Este autor também apontou em ―A History Britain: the fate of the empire-1776-2000‖ que as letras operaram uma mudança significativa em relação à natureza. Neste sentido, a influência de Jean Jacques Rousseau foi decisiva. A ideia de montanhas lagos e florestas escaparam de sua insignificância geográfica para se transformar na nova face das nações. Buscava-se o genuíno e uma alternativa milagrosa para os problemas das cidades, sua política e sua corrupção. Era uma tentativa de recuperar a liberdade na natureza. E de fato, segundo este autor a obra de Rousseau ―Emílio ou da educação‖ não passava de uma educação natural camuflada em romance. A educação se assemelha ao cuidado com a natureza e, deste modo, os homens deveriam cuidá-la, corrigindo suas imperfeições. Em outra obra, ―A nova Heloísa‖, em que retrata o amor impossível entre tutor

e aluna, transformou seres de pensamento em seres de sentimento. Segundo Schama, ele

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procurou devolver a verdadeira natureza dos homens, demovendo-os de uma sociedade urbana que significava podridão, mascaramento e enfermidade (SCHAMA, 2003, p.12). A solução para este mal era retomar a simplicidade da infância. Portanto, sua preservação passava pelo aleitamento físico e moral com o leite materno para terem vida saudável, patriótica e virtuosa. Principalmente porque no imaginário masculino ―supunha-se que a lactação e atividade sexual se excluíam mutuamente por causa do medo de poluir o leite ou provocar aversão aos homens‖ (SCHAMA, 1989, p. 137). A campanha de amamentação de Rousseau ressaltava as funções naturais das mulheres, num momento em que, a alimentação por amas de leite promovia a indústria da morte de crianças que ficavam sob os cuidados de terceiros.

4. A RECEPÇÃO DA OBRA PAULO E VIRGINIA DE BERNARDIN DE SAINT- PIERRE NA LITERATURA BRASILEIRA

Como apontamos na introdução deste texto os estudos sobre Bernardin de Saint-Pierre não tiveram grande destaque entre os historiadores brasileiros. Neste sentido, Souza Teixeira (2009) apresenta um panorama tênue da vida e da obra de Bernardin de Saint-Pierre por ocasião do encerramento do ano da França no Brasil (2009). Sob os auspícios da Academia Brasil-Europa, institui-se o programa Cultura e Natureza - Pamplemousses, Ilhas Maurício. Deste projeto resultou um artigo que destaca, sob o prisma dos Estudos Culturais, as relações de gênero, e a incorporação da obra Paulo e Virginia na obra Inocência, de Taunay (1872). Assim, a articulação entre a cultura e natureza nos permite refletir o contexto histórico desta produção e as imagens construídas para as ilhas Maurício, antiga Ilha de França. Seu conteúdo perpassa a filosofia, a ética e a cultura de uma época, contribuindo para com o conhecimento de uma memória inventada que passou de geração a geração entre os mauricianos.

Outra produção significativa no Brasil é a de Sidney Barbosa (2005) que analisa de forma pormenorizada a representação da natureza no romance francês do século XIX em autores como Bernardin de Saint-Pierre, Victor Hugo e Villiers de l‘Isle-Adam. A análise da obra Paulo de Virgínia explora a representação literária da natureza pelo viés da teoria sócio crítica, em que se apresenta a ambiguidade do homem frente a natureza, além de se constituir como referencial das transformações operadas no contexto revolucionário. O autor destaca o valor literário, temático e formal desta obra, especialmente pelo seu encaixe e captação das transformações sociais e estéticas de uma época. Um mundo novo no qual a natureza

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idealizada representava um desejo universal de evasão de estruturas sociais injustas e na realidade da escravidão que deveria ser abolida. Concordamos com Barbosa, pois o romance de Bernardin de Saint-Pierre era uma forma de reconstruir imaginativamente o mundo, desejando outra realidade. Seu romance despretensioso transcendeu a literatura, convidando- nos a interpretar o período revolucionário em sua dimensão histórica ao prenunciar uma nova forma de sensibilidade.

O estudo sobre Bernardin de Saint-Pierre nos leva a indagar sobre a negligência da crítica e dos editores (RACAULT, 2011). Um absurdo, pois apenas Paul et Virginie se tornou um sucesso editorial há mais de duzentos anos, com tradução em vários idiomas. Esse abismo crítico também se deve ao fato de o romance Paul et Virginie ser ambíguo e confundir os críticos e a historiografia literária. Barbosa (2005, p. 140) o entende como um romance que suplanta o pré-romantismo, enquadrando-se no gênero literário utópico, histórico,

arquitetônico, religioso, científico, pois tinha como características: ―[

um mundo socialmente perfeito e harmonioso, situado, na maioria dos casos, numa ilha‖.

veicular uma ideia de

]

Em termos históricos o vazio do pensamento das luzes no Brasil diz respeito à historicidade do imaginário francês e da colonização da América realizada pelas nações europeias. Antes da deflagração da Revolução Francesa os intelectuais se interessavam mais pela Guiana, Flórida e Nouvelle France. A renovação utópica se deu através dos trabalhos de Charles-Marie de la Condamine. Na Amazônia, por exemplo, ele mencionou a existência de relatos indígenas que davam conta de ―uma república de mulheres que viviam sozinhas e sem homens, as quais haviam se retirado para o interior, na direção do rio Negro‖ (CONDAMINE, 1759, p. 99- 100). Depois, a mitologia veio em forma de regeneração dos europeus em Bernardin de Saint- Pierre (Fragments de l'Amazone, in L‘Arcadie - 1781), onde a Amazônia era vista como

um mundo virgem para ali construir a Nova Genebra e o país da realização utópica‖

―[

(MOREAU, 1999, p 166). Uma interpretação mais cautelosa dessa fonte de pesquisa poderá ajudar os leitores brasileiros que se depararem com a nossa tradução de Paul e Virginie - e,

provavelmente, a de La Chaumière indienne (1790) - a entender como as histórias podem ser conectadas.

]

Esse tipo de história permite verificar como os vínculos entre sujeitos, ideias, valores e sentimentos perpassam continentes, tais como a Europa, África, Índia e América como ocorre com a projeção de Bernardin de Saint-Pierre - (SUBRAHMANYAM, 1997). E se no plano científico do século XVIII a Arábia, a Índia, a América e a China se tornaram ainda mais conhecidas, a literatura pré-romântica inaugurou seu olhar para o exotismo desses lugares e culturas. Veja-se, por exemplo, que Voltaire e Montesquieu trabalharam com os

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chineses e persas, respectivamente. O romance de Bernardin de Saint-Pierre não se

preocupava com o conhecimento ancestral destes povos. Buscava nestes mundos longínquos

―a mocidade, a ingenuidade, os instintos não degenerados, a virgindade intacta da natureza‖

(CARPEAUX, 2011, p. 1263). O conceito de natureza de Bernardin de Saint-Pierre subverteu

as heterotopias (FOUCAULT, 1984) da natureza na França pelo de natureza original

enquanto estado da alma. Contudo, ia além da arte de descrever a paisagem antropomorfizada

para lutar ―contra a deturpação dos instintos puros pela civilização‖ (CARPEAUX, 2011, p.

1265). Neste sentido, veja-se, por exemplo, a obra Paulo e Virginia como evocações

diferenciais em termos de gênero literário no Brasil. O romance regionalista Inocência (1872),

de Alfredo d‘Escragnolle Taunay, ambientado nos sertões do Brasil evoca a obra Paul et

Virginie, não apenas pelas referências à paisagem idílica e a harmonia da natureza, mas

também pelas adaptações. A Île de France representa os sertões de São Paulo e Mato Grosso

do Sul, o créole mauriciano se travestiu na pele do sertanejo brasileiro. As personagens

Inocência e Cirino têm fins invertidos aos de Paulo e Virgínia. No entanto, nota-se nestas

diferentes representações a preponderância do meio natural sobre o comportamento humano,

ou melhor, a manifestação dos princípios revolucionários.

Outra produção significativa em termos literários é Paulo e Virgínia: o literário e o esotérico

no Brasil atual, do historiador e literato Joel Rufino dos Santos (2001). Os modelos da vida

real - Paulo Sarmento Guerra, professor de literatura e, Virgínia Mattos Guerra, psicóloga

serviu de inspiração para criticar a ―crise do ensino universitário de letras no Brasil‖. A

conectividade com as personagens do romance de Bernardin de Saint-Pierre, bem como as

vinculações formativas das personagens reais com a França foram fundamentais à sua

reflexão. Segundo Santos (2001, p. 149) a formação de leitores críticos estava comprometida

devido às contradições ―entre a idéia culta de literatura e a idéia social de literatura‖, além da

tendência de valorização da literatura de massa (personificada em Paulo Coelho) pelas

editoras, livrarias e mídia. Como podemos apontar preliminarmente o tema trabalhado,

apesar de aparentar simplicidade envolve esforços teóricos, conceituais e metodológicos

complexos, cujos resultados, mais consistentes, apareceram nos próximos anos.

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MONARQUISTAS OU REPUBLICANOS A HISTÓRIA DAS IDEIAS POLÍTICAS NA GUERRA DO CONTESTADO (1912 1916) 1

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Everton Carlos Crema 2

RESUMO: Busca a pesquisa, analisar a construção dos arquétipos políticos, monarquistas e republicanos e suas reapropriações durante o desenrolar do Conflito do Contestado, tendo em vista a pressão que o revisionismo histórico enseja em sua construção. Interessa-nos perceber em que condições os grupos sociais envolvidos no conflito criaram ou reelaboraram seus referenciais políticos e apreensões do cotidiano e a partir dessas proposições, perceber seu processo de tomada e consciência e ação. Grosso modo os caboclos desejavam uma monarquia travestida dos ideários republicanos, suas orientações e suas concepções de identidade mesclaram o monarquismo e o republicanismo em um híbrido político adequado as suas perspectivas de interpretação e possibilidades reais. Para as elites regionais, o republicanismo se configurou num híbrido de liberalismo econômico e controle político, diferente de uma ampliação da participação política, mas adequada aos seus interesses imediatos. Importa-nos perceber em que condições, decorreram essa dinâmica regional e como essas vertentes políticas acabaram por se cristalizar. Palavras Chave: Contestado, Ideias Políticas, República.

MONARCHISTS OR REPUBLICANS: THE HISTORY OF THE POLITICAL IDEAS IN THE CONTESTADO WAR (1912-1916)

ABSTRACT: The research pursues analyzing the construction of the political, monarchist and republican archetypes and their reinterpretations during the unfolding of the Contestado Conflict, in view of the pressure that the historical revisionism gives to its construction. It is of our interest to realize in which conditions the social groups involved in the conflict created or redrew their political references and apprehensions of the daily life, and from these propositions, notice their decision-making process and consciousness and action. Roughly the caboclos (native people) wanted a monarchy disguised of the republican ideas, their orientations and their concepts of identity mingled the Monarchism and Republicanism in a political hybrid suitable to their perspectives of interpretation and real possibilities. To the regional elites, the Republicanism configured itself in a hybrid of economic liberalism and political control, different from the extension of the political participation but suitable to the immediate interests. It is worth to notice in which conditions this regional dynamic ran and how these political issues ended up in crystallizing themselves. Key-words: Contestado, Political Ideals, Republic.

Ao passarmos pelo centenário do Contestado (1912-1916) três certezas nos vem a mente, a

primeira, naturalmente é a de que somos tributários daqueles que nos antecederam e que felizmente

1 Pesquisa financiada pela SEED - PR TIDE 2 Mestre, Professor Adjunto do Colegiado de História, UNESPAR - Campus União da Vitória PR. Email:

evertoncrema@yahoo.com.br

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guiam nossa reflexão, a segunda é que muito ainda tem por se fazer e a ultima certeza é que trilharemos o caminho em boa companhia.

Dada a complexidade e amplitude do movimento do Contestado se torna importante percebermos a necessidade de uma reflexão inicial, já que a validade do conhecimento histórico não se dá exclusivamente pela construção racional de um problema, supondo sua qualidade científica. Importa-nos compreender que a racionalização e a perspectiva científica da história buscam criar ―conexões legaliformes‖, estruturas teóricas equivalentes, que permitam o campo da história lidar melhor com os pressupostos das ciências e a criação de modelos explicativos, ante a fragilidade do acontecimento e as tentativas de se criarem leis históricas.

A possibilidade de prognósticos históricos não é apenas contestada pelo modo em que se

leva em conta, na análise da estrutura da explicação histórica, a prática cognitiva da ciência

da história, mas também pela lógica do pensamento histórico, cujos processos de constituição de sentido deixam patente que a narrativa histórica não se regula pelas formas

do pensamento nomológico. (RÜSEN, 2007, p. 33)

O que desejamos demonstrar, é que os grandes modelos teóricos analisam em suma os resultados de um momento histórico específico, muitas vezes negligenciando, detalhes formadores da história, ou das possibilidades da formação da história como, por exemplo, a relação intenção / ação. A análise da ação ou de seus resultados não se torna um equivalente imediato de sua intencionalidade ou de suas intencionalidades, pois as ações não possuem apenas um motivo, mas vários, e explicam por vezes a base real dos motivos, o que nos remete a um problema. Se escolhermos aleatoriamente alguma ação na história, indevidamente poderemos chegar a resultados diferentes, o que nos remete a necessidade de buscarmos pela variedade da racionalidade a formação de sentidos e não a partir dessa racionalidade autorizar ―um sentido‖.

Na mesma direção, quando revisitando necessariamente as ideias de Edward Palmer Thompson, percebemos a construção de um modelo analítico, onde as ações e costumes humanos inserem-se na complexidade e amplitude das relações sociais e somente podem ser compreendidos, a partir da realidade socialmente construída. Para Thompson as camadas populares são e estão ativamente envolvidas na construção de seu campo de ação, reivindicação e resistência, grande parte desse processo pode ser percebido nas culturas populares, e na liberdade que elas evidenciam. Em geral a historiografia percebeu o povo e sua cultura, através de filtros deterministas, reducionistas e reativos, quando na verdade a grande base criadora dos movimentos sociais está na cultura popular ou nos grupos populares. As ações sociais, individuais ou não, são baseadas na experiência vivenciada, equivalente a uma lógica histórica ou consciência histórico social, pensada a partir da

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realidade. A contribuição das ideias de Thompson redefiniram as pesquisas em história social, por desenvolver metodologicamente uma ―história social vista de baixo‖ e por dar mais contorno, nitidez e vigor a cultura popular.

Esse processo de diferenciação cultural é percebido pelas mudanças nas experiências e expectativas cotidianas, pelas transformações no trabalho, no lazer e na religiosidade, que se constituíam em ―pressões para ―reformar‖ a cultura segundo normas vindas de cima, onde a alfabetização suplantava a transmissão oral, e o esclarecimento escorria dos estratos superiores aos inferiores.‖ (THOMPSON, 1998, p. 13), bem como a inferência da igreja e Estado no corpo social.

Houve um tempo em que os sertanejos defendiam a autonomia própria na organização de suas festas religiosas. Precisando do padre apenas para celebrar a missa, batizar, casar e só. Não queriam que o padre se imiscuísse nos negócios da festa. Apurados os resultados financeiros dos leilões de prendas, o saldo tinha um destino que o informante ignora. Progressivamente os sertanejos foram convencidos a admitir o controle da Igreja sobre o movimento financeiro, alegando os representantes desta que o dinheiro deveria ser destinado à construção e conservação de capelas e igrejas. (FREI NARCISO in MONTEIRO, 1974, p. 249)

As pressões de reforma em relação aos costumes construíram-se de várias formas, dinâmicas e mecanismos, mas de maneira geral pressionavam as práticas cotidianas e as tradições reinantes nas regiões de serra catarinense. Especificamente, trataremos da relação do catolicismo rústico 3 4 e o crescente processo de romanização desenvolvido no Brasil, a partir do século XIX. Acreditamos que a imposição de novas práticas religiosas, forçaram o remodelamento das religiosidades regionais, pensadas como equivalentes identitários, ao mesmo tempo em que marginalizavam o sertanejo do processo mágico ritualístico. Situando o debate em nível nacional, segundo Monteiro, (2004) as vertentes religiosas rústicas no Brasil são vistas de forma ‗empobrecida‘ pois, em geral são pensadas como um reflexo menor da religião romana, negando toda a sua riqueza e variedade, construída dentro de um sincretismo extremamente original e dialético. Não diferentemente às religiões rústicas brasileiras também se mostraram, campo de luta e reivindicação social, refletiram contextos sociais específicos no final do século XIX em todo o Brasil.

Politicamente e de forma geral podemos perceber que a crise geral do mandonismo, é deflagrada pela emergência do poder político dos Coronéis na Primeira Republica Brasileira. As novas práticas políticas republicanas não assentaram lugar para ‗velhas reivindicações e cerimônias‘ do patrimonialismo. O aparelhamento do estado em nível regional redimensiona o eixo de poder, que da prática local, transita gradualmente em direção ao estado e ao governo federal. Dessa forma o patriarcalismo rural perde força ante os novos modelos produtivos, ensejados pela modernidade e

3 Forma de sincretismo religioso, fusão do catolicismo romano e a práticas religiosas populares.

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forças políticas emergentes. O deslocamento do eixo político nacional e seus equivalentes criaram um novo ‗ambiente político‘, novas forças e rearranjos contribuíram para a desagregação do patriarcalismo e consolidaram novas realidades travestidas. Os sertões do Brasil se modernizam e as praticas e costumes tradicionais se mostram incompatíveis com a modernidade, civilização e progresso.

Perdidos entre obrigações morais e proteções cingidas a reação dos grupos tradicionais mesclou rebeldia ‗política‘ e misticismo religioso, numa tentativa de reelaborar seus horizontes de possibilidade ante a realidade vigente. ―Ao fazê-lo, irromperam no curso de uma história dramática de submissão para trilhar os caminhos da rebeldia sem projeto, ou seguir as vias místicas que lhes eram dadas, ousando assumir a condição de sujeitos.‖ (MONTEIRO, 2004, p. 43). Além das transformações que a crise da monarquia brasileira encetou à nação é importante compreendermos o crescente conflito entre um catolicismo colonial e um cristianismo romanizante em nível nacional crescente, a partir de 1860. Segundo Monteiro (2004) a Igreja romana via com maus olhos a permissividade e frouxidão de seu primo pobre, sobretudo de seu sincretismo. A reação da Igreja Romana operou em três direções1- aproximação com o povo; 2 reorganização eclesiástica e 3 reavivamento espiritual. Parte dessa retomada catequética pode ser entendida pelo contexto político europeu, onde a igreja romana buscava se reafirmar ante a crise encetada pela Revolução Francesa e Unificação Italiana.

No Brasil, o conflito entre a hierarquia da Igreja e a Maçonaria – conhecido como ―Questão Religiosa‖ (1872) – e a romanização, situam-se dentro desse quadro internacional e correspondem à preocupação de reforçar a Igreja contra os avanços das idéias republicanas, da maçonaria do positivismo e do protestantismo. (MONTEIRO, 2004, p. 45)

A Igreja Romana também temia uma autonomia crescente do clero brasileiro, sobretudo quanto ao surgimento de um sentimento nacionalista, que questionava o monopólio dos milagres, dos santos e dos cânones europeus. Posicionado um contexto mais abrangente, tentemos a partir de agora, olhar para os sertões de Santa Catarina e Paraná, já que pertenciam no século XIX a mesma diocese, na tentativa de percebermos uma parte importante da crise de identidade e de lugar do sertanejo. Segundo Serpa (1997) as práticas religiosas dos sertanejos, sobretudo catarinenses, estavam eivadas de aspectos festivos, estes sobressaindo, em relação aos princípios doutrinários e a observância às praticas sacramentais. Uma religiosidade tolerante e aberta, fruto do seu próprio sincretismo e das condições reais daquela sociedade. Entretanto o processo de romanização desenvolvido pela Cúria Romana, não buscava somente um retorno à ortodoxia do rito e a fiel obediência das praticas

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religiosas, o clero reproduziu uma nova mentalidade, contextualizada pelas novas vontades, e interesses das elites locais:

Havia neste sentido, uma estreita ligação com o processo de remodelação das condutas e criação de novas formas de sociabilidade que as novas elites: burocratas, comerciantes, profissionais liberais e armadores estavam propagando através de discursos em torno da salubridade e concepções medico higienistas. (SERPA, 1997, p. 132-133)

Junto a esse discurso em construção, diversos jornais em Desterro, dentre eles ―O Argos‖, ―O Despertador‖, ―Folha do Comercio‖, ―A regeneração‖, dentre outros, lançaram mão de fortes críticas contra as festas e práticas religiosas populares que tradicionalmente evidenciavam muito mais a diversão e a confraternização do que a doutrina e a constrição religiosa. Esse discurso de higiene social, reflete uma ideologia em construção que mesclou um hibrido entre modernidade, individualismo e controle social, pelo menos das classes perigosas. Por outro lado esse discurso refratou as práticas religiosas e seus equivalentes de identidade popular. Os festeiros possuíam papel de destaque nas festas religiosas populares, toda uma preparação ritualizada se encontrava em mãos de populares, sertanejos, esse controle sobre as festividades construía-se como centro da vida social. Cedo as disputas pelos campos simbólicos entre as comunidades sertanejas e padres de origem alemã que participavam do processo de romanização e as novas e mo rigeradas elites se transformaram em conflito flagrante.

Não só as festas populares foram encampadas ou controladas pelo clero estrangeiro, igrejas populares, associações religiosas, irmandades, lugares de fé e procissão passaram a ser alvo da diocese que gradualmente vai restringindo a autonomia popular e inserindo um controle direto nas praticas religiosas, pois os padres diocesanos só rezavam missas em igrejas devidamente passadas ao patrimônio diocesano. Em relação às irmandades e associações religiosas, os padres diocesanos forçavam lugar e ocupavam posições diretivas e de prestigioso, obliterando outros grupos e interesses, não seria exagero falarmos na construção material do controle religioso.

Em Santa Catarina o fenômeno se fez de maneira tão ampla que houve momentos que o território estava por eles ocupado desde o Rio Uruguai até o Rio Iguaçu, como ainda desde São José, na Costa Catarinense, até o Rio peperiguaçu, na fronteira com a Argentina. Particularmente, o Vale do Itajaí e o planalto foram campo de atividades franciscanas. (SERPA, 1997, p. 143)

Essa amplitude não se fez ao largo dos grupos políticos locais e suas alianças, apesar dos conflitos iniciais entre a ordem franciscana e chefes políticos locais, o enquadramento a lógica política entre franciscanos e o Coronel Francisco Ferreira de Albuquerque de Curitibanos, se deu pela

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intermediação do Coronel Vidal José de Oliveira Ramos de Lages. Segundo Serpa (1997) essa aliança refletia os novos rumos da política catarinense, primeiro a própria crise do mandonismo, pelos limites da agregação inviabilizada pelo grande aumento populacional e o progresso, segundo pelos franciscanos estarem ligados as estruturas vigentes de poder, podiam contar com o apoio da situação e com a grande participação das mulheres de ‗classe‘, envolvidas na evangelização e assistência social. ―foi das elites dirigentes locais que a Ordem Franciscana recebeu recursos financeiros para equipar as igrejas com altares, imagens de santos vindos da Europa e doações de terrenos‖. (SERPA, 1997, p. 148)

O clero estrangeiro que chega a terras catarinenses em 1891, pelos esforços do Padre Francisco José Topp, era visto distintivamente do clero nacional, os padres nacionais, mais tolerantes e com maior contato com o povo, eram preferidos em tudo. O processo de romanização não demorou a receber sérias e continuadas criticas nos jornais e nas vozes do litoral e a seu tempo nos de serra acima. Segundo Serpa (1997) No início do século XX O Jornal ―O Clarão‖ declarou-se anticlericalista e os jornais ―A Ordem‖ e ―O Oriente‖ criticavam as freiras e padres alemães pelo uso da língua alemã e práticas sacramentais impositivas. Os ataques e criticas ao clero alemão aumentaram desproporcionalmente durante a vigência da Primeira Guerra Mundial, sob a máxima do ―perigo alemão‖. Reviravoltas a parte o Bispo D. Joaquim Domingues de Oliveira, mediou conflitos entre o clero alemão e lusos brasileiros e que com a ampliação dos confrontos na Guerra do Contestado e o controle político aumentado, gradualmente silencia a questão.

As imposições e interferências religiosas do clero ‗estrangeiro‘ nos deixaram episódios que elucidam em parte, os conflitos pelos capitais simbólicos da comunidade. Na cidade de Lages, a capela de Santa Cruz era tinha como milagreira, pelas graças alcançadas pelos fiéis de João Maria de Agostinho que ao plantar lá cruzeiro, fizera. Dizia-se que a cruz plantada aumentava de tamanho ano após ano, a fama de milagreira e benfazeja da capela atraiu o interesse dos franciscanos que intimaram, em 1902, o zelador da mesma, o Senhor Lourenço Dias Baptista a prestar-lhes contas acerca das doações, dízimos e esmolas, evocando o direito de sucessão do vigário. Sem acordo e no calor da disputa, respondeu aos franciscanos o filho de zelador que ―o pai seria o único com competência para dar uma definição e não padres e bispos que nada tinham a ver com a capela feita

(SERPA, 1997, p. 204). Do outro lado ―o vigário, padre Pedro Sinzig, fechava

pelo povo

questão, colocando que ―os franciscanos só voltarão a rezar missa e fazer a festa de Santa Cruz quando estiver em suas mãos toda a escritura da capela‖ (SINSIG in SERPA, 1997, p. 205). Fica bastante claro que a missa como sacramento romano, só se faria rezada depois do encampamento da igreja de forma simbólica e legal, através da escrituração. Por outro lado o próprio vigário evidencia a importância dos ritos de fé populares quando ameaça não mais fazer a festa, até verem seu pedido

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satisfeito. Na replica de Lourenço Dias Baptista publicada no jornal O Imparcial (1903), podemos

perceber a defesa do caráter popular da capela defendido como lei, pois emanava do costume e da

tradição:

Recuso por esta razão das qualquer gênero de satisfação ao senhor Padre Pedro, como recusei ao padre Rogério e recusarei a todos os vigários que queiram transformar o caráter particularmente popular da capelinha. Darei contas da minha administração quando bem

entender, mas aos devotos da Santa Cruz

Não será, portanto, o senhor padre Pedro Sinzig

com sua pouca idade e com sua recente chegada a esta terra que possa fazer juízo (BAPTISTA in SERPA, 1997, p. 206)

O conflito publicado nas folhas do jornal O Imparcial ampliou a disputa entre franciscanos e líderes

político-religiosos locais, entretanto, com o acirramento dos conflitos da Guerra do Contestado a

partir de 1914, as classes médias e grupos intermediários, temerosos das consequências do conflito

e da ameaça do fanatismo caboclo, gradualmente esvaziam as resistências a romanização das

praticas e lugares religiosos. O saldo desse processo é uma sociedade dividida, de um lado uma

nova elite em construção reapropriando-se gradualmente do ideário Republicano e moderno,

revalorando e impondo seus capitais simbólicos, do outro, caboclos em armas, excluídos,

estigmatizados de selvagens, retomam a tradição numa perspectiva de resistência, reelaborando o

universo político social conhecido onde a Monarquia era uma lembrança isenta, justa e concreta e

uma ordem de oposição a seus novos inimigos.

1 MONARQUISTAS OU REPUBLICANOS? As mudanças políticas, econômicas, religiosas, morais e sociais na região do Contestado no inicio

do século XX, alteraram e transformaram o cotidiano da sociedade sertaneja tradicional. A

modernização, romanização e a crise do mandonismo nas sociedades tradicionais locais,

desenvolveram-se em intensidade e direções diferentes, muitas vezes, ampliadas pelo

prolongamento e dinamização da cadeia produtiva ou das inovadoras possibilidades econômicas e

imposições culturais, que justificaram discursos, ações e usos políticos.

Sua tecnologia tornava possível trazer regiões outrora inacessíveis de forma efetiva para a esfera do mercado mundial, por meio da ferrovia e do vapor. As convulsões sociais que sucederam à transferência da agricultura para um modelo capitalista, ou pelo menos um padrão de comércio em larga escala, afrouxaram os laços tradicionais entre os homens e a terra de seus ancestrais, especialmente quando descobriram que não possuíam praticamente nada dela, ou pelo menos muito pouco para manterem suas famílias. (HOBSBAWM, 1996, p. 245).

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Evidentemente que a mudança das estruturas sociais afetou diretamente a rotina produtiva da sociedade cabocla e a ruptura da economia moral, daqueles grupos com o costume, com sua cultura, engessando o horizonte de expectativas dos caboclos. As mudanças impediram a reprodução lógica das estruturas vigentes, aceitas pelos grupos sociais inseridos nas regiões de serra catarinense e que puderam sentir toda a força transformadora e a viragem do seu cotidiano. As reações ao fim das expectativas aceitas e reproduzidas, da tradição e dos costumes, pelos sertanejos os lançaram da negação a luta, contra aquilo que não compreendiam como seu.

De outra forma a sociedade regional, os grupos sociais nas regiões do Contestado sentiram e assimilaram esse processo de transformação diferenciadamente, a cristalização de interesses mostrou-se diversa. Para o caboclo a modernização, suas ideias e vontades se mostraram de forma excludente e violenta, pois começavam a alterar toda uma visão de mundo, toda uma celebração da tradição. Numa perspectiva diferente as elites regionais viram na modernidade, um caminho, um horizonte a ser alcançado, a validação de um ‗sentimento‘, ―o progresso‖. Dentro dessa perspectiva podemos dizer que a separação entre ―costumes‖ e modos de vida, se reproduziu dentro de lógicas e expectativas específicas. Do lado das elites a nova cultura estava cada vez mais ligada ao racionalismo dos costumes, ao racionalismo produtivo, ao racionalismo do trabalho e do capital, impondo-se como cotidiano, adotado como cultura.

A inovação é mais evidente na camada superior da sociedade, mas como ela não é um processo tecnológico \ social neutro e sem normas (―modernização‖, ―racionalização‖), mas sim a inovação do processo capitalista, é quase sempre experimentada pela plebe como uma exploração, a expropriação de direitos de uso costumeiros, ou a destruição violenta de padrões valorizados de trabalho e lazer. (THOMPSON, 1998, p. 19)

Para os grupos subordinados o choque entre o racionalismo capitalista e a ―tradição‖, permitiu um retorno a ortodoxia dos costumes ―tradicionais‖ no intuito característico de reforçá-los e defendê- los, ante as mudanças que se operacionalizavam. Parte do processo de transformação, suas inovações, conflitos e rupturas, seus mais diversos interesses e a própria luta por sua legitimidade, polarizaram-se dentre outras perspectivas, a partir dos conceitos políticos do monarquismo 4 5 e republicanismo 5 6 . As leituras políticas sobre essas formas de governo não correspondem aos seus conceitos e estruturas políticas puras, conceitualmente foram apropriadas conforme interesses e representações específicas, muito mais ligadas à defesa de um modo de vida e aos desejos dos

4 Monarquismo, corrente política que defende um regime de poder unipessoal ―dominus‖, baseado na hereditariedade e vitaliciedade do rei, entende-se ainda monarquia como o governo da res pubblica de caráter monopessoal. (BOBBIO; MATTEUCCI; PASQUINO. 2004: 776 777). 5 Republicanismo, corrente política anti-monarquista, defendem um governo representativo liberal, baseado na separação dos poderes e um estado federativo, especificamente nos Estados Unidos.

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homens que levantaram suas bandeiras, do que propriamente uma forma de governo historicamente constituído. Seus discursos foram distorcidos, amoldados num híbrido entre o velho e o novo.

Desejavam os dois lados, o melhor de dois mundos, canalizaram suas expectativas de mudança e de manutenção dentro dos referenciais políticos que à época oposicionaram os destinos no Brasil. Lembremos que a proclamação da República em 1981 ainda se fazia muito presente na memória nacional, por vezes sem a devida compreensão do alcance de seus significados, muito mais ligada às tradições seculares e ao costume do que presa ao contexto republicano. Não diferentemente nas regiões do Contestado, observarmos um intenso catolicismo rústico desenvolvido em grande parte do interior do Brasil, o forte sentimento de religiosidade dos caboclos transformou-se em luta e suas aspirações foram canalizadas em um movimento político de restauração da ―monarquia celeste‖, do bom governo, onde primava a lei de Deus e não a dos homens.

A proclamação da República, trazendo a separação entre o Estado e a Igreja, repercutiu desfavoravelmente no espírito de João Maria, e ao passo que as leis republicanas tendiam a ser por ele acoimadas de ―leis do diabo‖, a Monarquia passava a representar uma Idade do ouro perdida. (QUEIROZ, 1957, p. 262).

Do outro lado, as elites regionais, polarizaram-se, dentro de uma guerra onde buscavam defender seus interesses articulados as ideias de ordem e progresso, do jovem republicanismo. Republicanismo esse que distorcido se desenvolveu no Brasil muito mais por sua vertente anti- monarquista e liberal do que qualquer outro motivo, era de interesse das elites brasileiras adequar o liberalismo republicano a sua política caudilhista. 6 7 Entretanto dos dois lados, os conceitos de monarquia e república foram permeados pelos naturais interesses de grupo. Os ―pelados‖ 7 buscavam na restauração do ‗monarquismo celeste‘, remédio para seus males, suas lembranças e experiências da monarquia eram muito mais favoráveis que a realidade republicana que se apresentava, além disso, a monarquia era o ―governo de Deus‖.

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Há uma unidade ideológica cuja manifestação mais visível encontra-se no catolicismo rústico, religião de fazendeiros e de agregados. Sua estabilidade é mantida pela junção entre um consenso que encobre os aspectos coercivos e uma coerção que garante a continuidade consensual. Os aspectos materiais mesclam-se com representação que deles é feita no nível das instituições religiosas ou para-religiosas. (MONTEIRO, 1974, p. 13)

6 Para isso ver. LEITE, Renato Lopes. Republicanos e Libertários: Pensadores radicais no Rio de Janeiro (1822). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

7 Termo pejorativo, por rasparem as cabeças os revoltosos do Contestados foram denominados pelados, sem pelos, pelas tropas federais e milicianas.

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Dessa forma podemos articular de que a tentativa da restauração do monarquismo estava muito mais ligada ao cotidiano vivenciado por aquelas populações nos sertões contestados do que uma inteligibilidade política conceitual, acerca do que representava um governo e um estado monarquista. Desejavam muito mais voltar a viver, dentro da rotina de seu costume do que defender uma forma de governo arcaica. Os interesses na manutenção ou retorno da monarquia foram idealizados pelos caboclos, num desejo de justiça, amor e fraternidade, compatível com o sincretismo da ética cristã. Por outro lado aceitar que os caboclos, os ―pelados‖ do Contestado enfrentaram o governo federal e governos estaduais, os coronéis latifundiários e que por inúmeras vezes rechaçaram heroicamente seus ataques mantendo regiões inteiras sob seu controle sem nenhum tipo de organização e politização parece-nos pouco provável.

Dificilmente aceitaríamos essa perspectiva, a menos que, mais uma vez nos curvássemos à tranquilidade de uma definição conceitual hegemônica, abrangente e precisa do conceito político ou da própria história, pensado de forma restrita, ou ampla, tudo ou nada, surgiriam mais problemas do que soluções. Importa-nos perceber a importância da flexibilidade do uso conceitual quando da análise histórica, observando dentro de sua narrativa, dentro de seu processo de construção escalar as condições especialíssimas que a criaram. ―Não é de hoje que nos vemos diante da tendência a essencializar a ideia mesma de republica atribuindo-lhe o caráter de entidade eterna e universal. Contra essa metafísica conceitual julgamos que o método mais adequado é ainda a historização do conceito.‖ (FALCON, in HOMEM; SILVA; ISAÍA, 2007. P. 390-391) Nesse sentido, quem sabe, devêssemos pensar a Guerra do Contestado, a partir da construção dos sentidos políticos pela perspectiva dos pluralismos de sentidos e possibilidades.

Os sertanejos acabaram demonstrando, tanto por discurso como por atos, que desenvolveram uma nítida consciência das condições sociais e políticas de sua marginalização, de que se tratava de uma guerra entre ricos e pobres, que lutavam contra o governo, que defendia os interesses dos endinheirados, dos coronéis e dos estrangeiros. (MACHADO, 2004. p. 26).

A defesa da República por seus partidários se processou de forma semelhante, a modernidade, a ordem e progresso se constituíram em baluarte dos interesses das elites regionais, sobretudo, se observarmos as redes políticas desenvolvidas pelo coronelismo regional. Dessa forma o republicanismo condensou ao mesmo tempo a ideia de representatividade política limitada e liberalismo econômico, onde as elites regionais buscavam aumentar sua ação dentro dos governos estaduais, centralizando o processo decisório e conjuntamente flexibilizavam a ação econômica dos governos segundo interesses muito específicos.

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De forma geral, algumas ideias apresentadas no presente artigo, esboçam a necessidade de

percebermos o campo social histórico dentro de uma ‗ambiência‘ narrativa, onde o político não seja

pensado de forma estática e anti-histórica. Devemos pensar a monarquia ou a republica como

sistemas políticos que necessariamente representem e reflitam o pensamento brasileiro e o campo

social situado em seu contexto dialógico. A utilização de ideias e conceitos políticos puros e

originais evidenciam a construção de ‗entidades‘ eternas e universais, que apropriadas

mecanicamente criam um anacronismo histórico sem igual, ao mesmo tempo em que reproduzem

uma perspectiva eurocêntrica nas concepções políticas e suas correlações sociais.

REFERÊNCIAS BIGNOTTO, Newton. (org.). Matrizes do Republicanismo. Belo Horizonte: UFMG, 2013. 314p.

BIGNOTTO, Newton. (org.). Pensar a Republica. Belo Horizonte: UFMG, 2000. 192 p.

BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de política. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2004. 942 p.

HOMEM, Amadeu Carvalho; SILVA, Armando Malheiro da; ISAÍA, Artur César. (orgs.). Progresso e religião: A República no Brasil e em Portugal: 1889-1910. Coimbra, Portugal:

Imprensa da Universidade de Coimbra. 2007. 428 p.

LEITE, Renato Lopes. Republicanos e libertários: pensadores radicais no Brasil Independência. Rio de janeiro: Civilização Brasileira, 2000. 127 p.

MACHADO, Paulo Pinheiro. Lideranças do Contestado. Campinas: Unicamp, 2004. 391 p.

MONTEIRO, Duglas Teixeira. Um confronto entre Juazeiro, Canudos e Contestado, In História Geral da Civilização Brasileira: O Brasil Republicano vol. 2 sociedade e instituições (1930 1964). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004. 281 p.

MONTEIRO, Duglas, Teixeira. Os errantes do novo século: um estudo sobre o surto milenarista do Contestado. São Paulo: Duas Cidades, 1974. 323 p.

PEDRO, Joana Maria. Nas tramas entre o público e o privado: A imprensa de desterro no século XIX. Florianópolis: Editora da UFSC, 1995.105 p.

QUEIROZ. Maria Izaura, Pereira de. La “Guerre Sainte” au Brésil: lê mouvement Messianique du ―Contestado‖. São Paulo: Seção gráfica de faculdade de Filosofia. USP. 1957. 299 p.

RÜSEN, Jörn. Reconstrução do passado. Teoria da História II: os princípios da pesquisa histórica. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2007. 187 p.

SERPA, Élio. Igreja e Poder em Santa Catarina. Florianópolis: Editora da UFSC, 1997. 245 p.

THOMPSON, Edward Palmer. Costumes em Comum estudo sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 493 p.

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PARA ALÉM DO TOTALITARISMO CORPORATIVO: AS RELAÇÕES ECONÔMICAS E DE PODER EM INSIDE JOB

Armindo José Longhi 1

9

Claudio Cavalcante Junior 2

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RESUMO: O texto analisa sob quatro aspectos o documentário Inside Job, dirigido por Charles H. Ferguson. Na primeira análise questiona a tradução do documentário Inside Job e conclui que a recepção foi influenciada pela tradução. Num segundo momento discute os atores envolvidos na não regulamentação do setor dos derivativos a partir do conceito de poder e hegemonia. Ao encerrar o texto, a terceira parte discute se a arte contemporânea se resume ao entretenimento light. Palavras-chave: Trabalho, crise econômica, democracia, obra da arte.

BEYOND THE CORPORATE TOTALITARIANISM: ECONOMIC RELATIONS AND POWER ON INSIDE JOB

ABSTRACT: The text analyzes in four ways the documentary Inside Job, directed by Charles H. Ferguson. In the first analysis questions the translation of the documentary Inside Job and concludes that the reception was influenced by the translation. Secondly discusses the actors involved in the deregulation of the sector of derivatives from the concept of power and hegemony. When closing the text, the third part discusses the contemporary art boils down to light entertainment. Key-words: Work, economic crisis, democracy, work of art.

1 INTRODUÇÃO

11 .

Podemos apontar quatro interpretações que emergem a partir do filme Inside Job 3

Começamos com uma provocação: a tradução para língua portuguesa do título do

documentário orientou a recepção brasileira do documentário. Em seguida argumentamos que

a não regulamentação do setor dos derivativos resultou das relações de poder, das técnicas

políticas e do mecanismo de hegemonia dominante dentro da sociedade capitalista dominada

pelo totalitarismo corporativo. O terceiro excurso discute se o documentário aborda a crise

econômica de 2008 sob a perspectiva crítica ou se a leitura feita pelo diretor do documentário

sofreu influencia do poder hegemônico. No quarto e último momento o texto contrapõe a

ideia de obra de arte e a ideia de entretenimento light.

1 Graduado e mestre em Filosofia pela UFSM e doutor em Filosofia da Educação pela UNICAMP. Professor da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), Campus União da Vitória. E-mail: armindolonghi@gmail.com.

2 Graduado em Filosofia pela UFRJ, mestre em Antropologia pelo PPGA/UFF e professor da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), Campus União da Vitória. E-mail: cavalcante1981@hotmail.com.

3 Os resultados prévios aqui apresentados fazem parte da pesquisa ―Relação entre Direito e Democracia no pensamento de Jürgen Habermas‖. A pesquisa, coordenada pelo Prof. Dr. Armindo José Longhi, foi aprovada pela COPERTIDE e será desenvolvida de 2013 a 2014.

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2 PROVOCAÇÃO

Iniciamos com uma provocação: do que trata o documentário Inside Job? Em um primeiro momento, é provável que a maioria responda com toda a confiança que o documentário aborda a grande crise financeira cujo ápice ocorreu em 2008. A resposta está correta? Se alguém disser que o documentário não analisa criticamente o sistema financeiro, mas um tipo de atividade econômica exercida dentro do sistema financeiro, a que conclusão chegaremos? Nossa tese é que o núcleo do filme Inside Job aborda um tipo de atividade exercida dentro do mercado financeiro mundial.

Vamos ao documentário. A abertura começa com a epígrafe: ―A crise econômica global de 2008 custou a dezenas de milhões de pessoas as suas economias, seus empregos e suas casas. Foi assim que isto aconteceu‖. A seguir o documentário relata a experiência da Islândia que resumimos nos seguintes termos: ―O governo realizou uma ampla reforma de desregulamentação. Os primeiros efeitos foram sentidos no meio ambiente, depois na economia. Ocorreu a privatização dos três maiores bancos da Islândia. O resultado foi uma das mais puras experiências de desregulamentação financeira já realizada. Gylfi Zoega, professor de economia da Universidade da Islândia, comenta as notícias veiculadas pelos jornais sobre o investidor Jon A. Johannesson. Segundo Zoega os jornais noticiaram que Johannesson havia comprado empresas, carros, aviões, barcos, coberturas, em entre outros, mas nunca informaram que tudo aquilo foi feito com dinheiro dos bancos locais. A quebra dos bancos aumentou em seis vezes o desemprego no seu país. Todos foram afetados. Pessoas perderam as poupanças. Os órgãos reguladores não fizeram nada. Um terço dos funcionários das agências reguladoras trabalhavam para os bancos. O economista afirma ainda que isso não aconteceu só na Islândia, mas em todo lugar, inclusive em Nova York‖. Fim da introdução, abre a apresentação dos créditos do filme e o documentário começa a exibir depoimentos, comentários, dados, imagens etc.

Voltamos a pergunta inicial: qual é o objeto central do documentário? Por que concluir que o documentário é sobre a crise financeira de 2008? Talvez tenham sido influenciados pela tradução dada ao título do documentário. Inside Job foi traduzido por Trabalho Interno. Por que traduzir o substantivo job pelo substantivo trabalho? Por que Ferguson não nomeou originalmente o documentário por Inside work? O substantivo job não possui o mesmo significado que o substantivo work. Assim, as palavras job e work não são sinônimos.

No que elas se diferenciam? O substantivo work é adequadamente traduzido por trabalho, ação qualificada e desenvolvida com o objetivo de atingir um fim ou um produto. Denota

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profissão, capacitação, preparação, comprometimento, regularidade. No Brasil, durante o regime militar iniciado em 1964, era frequente policiais abordarem pessoas em lugares públicos. Ao abordar um indivíduo, a força de repressão exigia do suspeito seus documentos. Não bastava o indivíduo apresentar sua identidade. A prova da sua condição de ser alguém honesto era ter a carteira de trabalho assinada. Não era suficiente ser trabalhador, precisava estar trabalhando. Estar trabalhando qualificava alguém como honesto, deixando de ser suspeito. Se você não tivesse carteira de trabalho poderia ser preso por vadiagem. Naquela época, ser vadio era considerado contravenção. Trabalhar significava honestidade, integridade, retidão e ajustamento. Exemplo claro da aplicação da ética do trabalho, mesmo que às avessas.

Alguém poderia questionar: ―Isso é coisa do passado! Agora estamos vivendo outra época‖. Responderíamos a esse interlocutor imaginário com um exemplo. Entre os dias 5 e 6 de maio de 2013 a mídia nacional divulgou um vídeo feito pela polícia do Rio de Janeiro. O vídeo mostrava um helicóptero da polícia perseguindo o carro do traficante apelidado de Matemático. Parecia uma cena de filme de ação policial. O carro era vigiado por uma câmara com infravermelho. Durante a perseguição um dos policiais pronunciou a seguinte frase: ―É fuzil na mão! É vagabundagem!‖ (Fantástico. Rede Globo. 05/05/2013). Qual é o sentido contido na frase? Nesse contexto a frase separa claramente o vagabundo do trabalhador, o bandido do honesto. Acredito que esses dois exemplos esclarecem o sentido que pretendemos imprimir na palavra trabalho.

Qual é a definição de trabalho proposta pelos textos especializados? Marx, em seu livro Ideologia alemã, afirma: ―os homens começaram a distinguir-se dos animais quando ‗começaram a produzir seus próprios meios de subsistência, progresso este condicionado pela organização física humana. Produzindo seus meios de subsistência, os homens produzem indiretamente sua própria vida material‘‖ (ABBAGNANO, 2007, p. 965). Trabalho não é apenas o meio com que os homens asseguram sua subsistência: e a própria produção da sua vida como um modo determinado. O trabalho constitui o próprio ser humano, seu modo específico de ser e de fazer-se ser humano.

Outhwaite e Bottomore (1996, p. 773), num sentido amplo, definem trabalho como o ―esforço humano dotado de um propósito e envolve a transformação da natureza através do dispêndio de capacidades mentais e físicas‖. As duas definições concordam quando apontam no trabalho características similares: transformação, capacidade humana, produção da vida, constituição do ser humano.

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Mas voltemos ao título do documentário. O substantivo job é mais adequadamente traduzido por emprego ou ocupação passageira, momentânea. Refere-se a tarefas indeterminadas, a ações não especializadas. O substantivo job está relacionado a questão íntima ou a motivação interna presente no sujeito da ação. Em inglês se pode afirmar: ―It’s my job!‖, ou seja, ―É o meu emprego!‖. A inflexão dada à expressão pode enfatizar uma atividade temporária ou provisória. A expressão ―É o meu trabalho!‖ é diferente da expressão ―É o meu emprego!‖. O indivíduo executa um job quando está passageiramente inserido dentro de um sistema produtivo qualquer.

Inside é formado a partir das partículas ―In‖ (em) e ―side‖ (lado) e pode ser traduzida por ‗dentro‘. Ou mesmo como o substantivo interior ou lado de dentro e quando adjetivo pode ser traduzido por interior, interno, confidencial ou particular. Assim, poderíamos verter o título do documentário Inside job por ―emprego particular‖ ou ―emprego interno‖. Devemos concordar que ―emprego interno‖ é bem diferente de ―trabalho interno‖.

Se o título Inside job fosse traduzido por ―emprego interno‖, mudaria algo na recepção do documentário no Brasil? Ao ler o título o expectador poderia se perguntar: por que emprego interno? Esse título carrega nuances: algo foi omitido ou alguma coisa não foi explicitada. Defendemos que o documentário não seria adequadamente compreendido se ele fosse interpretado como uma crítica ao sistema financeiro ou a financeirização da economia. O autor do documentário não questiona o sistema financeiro. A tese é a seguinte: o documentário denuncia um tipo de ação (job) executada por pessoas infiltradas dentro do sistema financeiro mundial. Qual é o tipo de ação que o documentário critica? A ação de agentes públicos e privados na defesa da desregulamentação do sistema financeiro mundial.

Apoiamos o argumento na Parte I do documentário denominada ―Como chegamos aqui‖. O narrador nos informa que nos anos 90 os derivativos 4 12 se tornaram populares e os esforços em regular os derivativos fracassaram, pois a desregulamentação contava com o apoio de vários funcionários importantes. O narrador também explica que nos anos 2000 ocorre a financeirização da economia, ou seja, a indústria passa a ser dominada por quatro bancos de investimento (Goldamn Sachs, Morgan Stanley, Merril Lynch e Bear Stearns), por dois conglomerados (Citigroup e JPMongan Chase), por três companhias de seguro (AIG, MBIA,

4 Derivativos é o nome dado ao conjunto de mercados em que operações com liquidação futura são realizadas, tornando possível a gestão do risco de preço de diversos ativos. A formação de preço dos derivativos depende da variação de preços dos ativos dos quais se originaram. A criação dos derivativos deu-se com a finalidade de transferir os riscos entre os integrantes do conjunto do mercado. A origem do termo derivativoestá associada à ideia de que os preços desses contratos estão diretamente vinculados aos preços do ativo subjacente ao contrato, ou seja, o preço do derivativo derivado preço do ativo do qual se originou.

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AMBAC) e três agências de classificação de risco de crédito (Moody‘s, Standar & Poors e Fitch).

Dentro do sistema financeiro existem pessoas que trabalham e pessoas que estão infiltradas. Entre os infiltrados o documentário apresenta algumas personalidades bem conhecidas:

George Soros (empresário e homem de negócios húngaro-americano, que ficou famoso pelas suas atividades como especulador, chegando a ganhar um bilhão de dólares em um único dia), Dominique Strauss-Kahn (político francês, foi diretor geral do FMI de 2007 a 2011 e saiu do cargo após ter sido acusado de abusar sexualmente de uma funcionária de um hotel em Nova York) e Christine Lagarde (francesa, atual diretora geral do FMI substituindo Strauss-Kahn no cargo).

Na parte VI do documentário, denominada de ‗Responsabilidade‘, o narrador continua apresentando outros personagens tipicamente infiltrados. São os altos executivos que se afastaram das companhias insolventes, mas mantiveram suas fortunas pessoais intactas. Esses executivos remuneravam os diretores com bilhões de dólares em bônus, o dinheiro das remunerações originava-se do socorro feito pelo governo aos bancos.

Um terceiro tipo de infiltrados são os lobistas. Grandes bancos investiram bilhões de dólares nesse tipo de atividade para impedir as tentativas de regulamentar o setor dos derivativos. Só no ano de 2010 foram cinco bilhões de dólares, conforme informa o documentário.

Os esforços para manter a desregulamentação do setor de derivativos contavam com o

envolvimento de economistas acadêmicos. Durante décadas eles deram suporte teórico justificando a não regulamentação. O documentário caracteriza a ação desses economistas como ―conflito de interesse‖. Onde está o conflito de interesse? Muitos economistas recebiam

dinheiro por consultorias e pareceres encomendados, as empresas certificadoras carimbavam os pareceres e os bancos, companhias seguradoras e demais grupos interessados pagavam a conta.

3 PODER, HEGEMONIA E CORPORATIVISMO

A segunda parte do trabalho persegue outra pergunta: por que os governos não

regulamentaram o setor dos derivativos? A resposta pode ser dada em dois momentos. A primeira parte da resposta é fornecida pelo documentário, ou seja, o trabalho lobista patrocinado pelos bancos de investimento, pelas companhias seguradoras e pelas agências de

classificação de riscos impediram a regulamentação governamental. O poder do Estado foi neutralizado.

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Para dar conta da segunda parte da resposta faremos uso de uma velha e ainda atual teoria apresentada por um filósofo e político que viveu cinco séculos antes da crise de 2008. Esse autor se chama Nicolau Maquiavel. Dele é mais conhecido o livro O Príncipe, de 1513. No mesmo período Maquiavel escreveu o livro Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio. Da publicação desses livros até hoje já se passaram 500 anos. No livro Comentários Maquiavel analisou a história romana em função dos problemas da Itália do seu tempo. Procurava na Roma republicana de Tito Lívio acontecimentos ou sequências de eventos que confirmassem suas convicções acerca dos rumos a serem seguidos pela política italiana. A Itália daquela época estava dividida em vários estados e enfrentava graves problemas por causa de conflitos internos. Maquiavel buscava na história romana a cura para os males

renascentistas, conquistar a unificação da Itália e aumentar o poderio italiano. Comentários é uma obra política no seu enfoque e, na medida em que indica um curso de ação a ser seguido,

é também uma obra normativa, à semelhança do livro O Príncipe.

No Capítulo Quarto do Livro Primeiro de Comentários, Maquiavel afirma:

Os que criticam as contínuas dissensões entre os aristocratas e o povo parecem desaprovar justamente as causas que asseguravam fosse conservada a liberdade de Roma, prestando mais atenção aos gritos e rumores provocados por tais dissensões do que aos seus efeitos salutares. Não querem perceber que há em todos os governos duas fontes de oposição: os interesses do povo e os da classe aristocrática. Todas as leis para proteger a liberdade nascem da sua desunião (MAQUIAVEL, 1982, p. 31).

O que Maquiavel afirma é que as boas leis nascem do conflito. O conflito surge da diferença de interesses entre as classes, portanto do conflito de classes surge a boa lei. Ao Estado compete administrar a força aplicando a lei na regulamentação dos interesses conflitantes. Maquiavel procurou entender o mecanismo do poder instituído por relações que se estabelecem entre forças sociais antagônicas. Ou seja, para ele existe um antagonismo claro entre povo e aristocracia. Marx, por sua vez, fala da luta de classes entre burguesia e proletariado. Contemporaneamente, certos intelectuais defendem que nas sociedades complexas não existem mais antagonismos ou lutas de classes sociais. A categoria classe social teria se tornado difusa e imprecisa. Zigmunt Bauman é um dos que criticam tal interpretação quando diagnostica a sociedade líquida como efeito das ligações entre a modernidade, o holocausto e o consumismo pós-moderno. No livro O mal-estar da pós- modernidade, Bauman discute a inquietação produzida pela dissolução de conceitos centrais da modernidade. O mal-estar surge quando conceitos como classe social tendem a se dissolver

e não mais se consegue separar claramente o que é verdade, da ficção e da incerteza.

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Para aqueles que acreditam no fim das classes sociais como categoria de análise das sociedades complexas nos cabe perguntar: quem ganhou e quem perdeu com a crise de 2008? Por um lado, a Parte V do documentário nos informa que dezenas de milhares de trabalhadores foram demitidos das fábricas dos EUA e, por outro, os grandes acionistas dos bancos continuaram com suas fortunas pessoais intactas. Mais grave ainda é a constatação da tendência de que o controle do sistema financeiro está se restringindo a um número cada vez menor de bancos, confirmando a antiga tese da concentração do capital.

A tendência de concentrar o controle num número cada vez menor de bancos nos remete à pintura Balsa da Medusa inspirada no naufrágio da fragata Medusa, ocorrido em 1816, em viagem da França para o Senegal. Depois do naufrágio, 147 pessoas não conseguiram lugares nos botes salva-vidas e, por isso, se amontoaram em uma pequena jangada construída precariamente com tábuas, cordas e partes do mastro. A embarcação provisória foi nomeada Balsa da Medusa. Nos primeiros dias diversas pessoas desapareceram no oceano e outras ainda foram mortas a tiros por oficiais em embarcações próximas.

Após diversos dias na efêmera embarcação um dos sobreviventes, o médico Jean-Baptiste Henry Savigny assumiu a liderança do grupo e decidiu transformar os corpos dos mortos em alimento aos sobreviventes, evitando que estes morressem de fome. Depois de 13 dias à deriva os passageiros ainda vivos foram resgatadas por um pequeno navio mercante. A esta altura restavam apenas 15 sobreviventes.

Inspirado nesse acontecimento, o pintor Géricault pintou o quadro Balsa da Medusa. Para construir a cena registrada na tela o artista realizou um estudo profundo de detalhes da embarcação, entrevistou os sobreviventes e observou os restos dos corpos dos mortos.

Augusto Boal, em seu livro Teatro como arte marcial, na cena ―Náufragos”, descreve dramaticamente o cenário: ―Sem comida, decidiram trucidar e comer os moribundos.

Primeiro, os aleijados; logo depois, criancinhas indefesas, mais tarde

foram-se comendo uns aos outros até que, na jangada, sobrou um único sobrevivente. Morto

de fome, o único náufrago pôs-se a comer a si mesmo, começando pelas partes mais dispensáveis do seu corpo: os dedos e o braço esquerdo, e também a perna do mesmo lado. Foi comendo o seu corpo e acabou por comer os intestinos, já que não tinha encontrado nada de mais nutritivo, nem na cabeça nem no coração: órgãos inúteis! A última coisa que o

Queriam se salvar e

náufrago comeu foi a própria língua e a boca! Depois não comeu mais nada dente!‖ (BOAL, 2003, p. 88).

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cuspiu um

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A sobrevivência do banco mais poderoso, da seguradora mais ágil e da agência de riscos mais

influente repete a cena de náufragos numa jangada a deriva. A crise financeira de 2008

reproduz contemporaneamente a Balsa da Medusa no mar do sistema financeiro mundial.

Mas voltemos à teoria política do florentino renascentista. Maquiavel reconheceu que na realidade efetiva o poder se exerce pela força, mas o consenso assume uma grande importância no processo de manutenção da ordem instituída. Assim, procurou explicitar a natureza do poder, as técnicas de seu exercício, os modos de sua conquista e conservação 5

13

.

Maquiavel também escreve sobre as relações de poder e as técnicas políticas para atingir e permanecer no poder. No início do século XX, Gramsci (1976) denominou a técnica de dominação política por ―mecanismo de hegemonia‖. Segundo Gramsci, esse mecanismo é um

dos modos de realizar a política e criar e reproduzir a hegemonia de uma classe sobre a outra.

O bloco hegemônico não mantem o poder utilizando simplesmente o aparato repressivo do

Estado. Se essa fosse a realidade para derrubar um poder bastaria um poder maior. O poder da classe dominante é fundamentalmente garantido pela hegemonia cultural obtida sobre os dominados, através do controle do sistema educacional, das instituições religiosas, dos meios de comunicação e da arte (cinema, teatro, música, pintura, etc). Hegemonia cultural ocorre quando uma classe ―educa‖ a outra classe para a submissão. Ser dominado hegemonicamente significa que a classe subalterna aceita como algo natural e conveniente ser submisso. O poder hegemônico é exercido quando a classe dominante consegue combinar e articular coerção e consenso. Cabe aos intelectuais orgânicos articular a organização da cultura. A filmografia é uma das formas utilizadas para ‗explicar‘ os fenômenos econômicos e o documentário Inside Job é um exemplo de interpretação da crise financeira de 2008 a partir

da perspectiva do poder dominante.

Para o Pensamento Liberal, hegemonia é o equilíbrio entre a força e o consentimento obtido pelo voto. Ser liberal significa acreditar que todo governo eleito pelo voto é democrático. A afirmação carrega o seu contrário, ou seja, onde não existe eleição não existe democracia. Por sua vez os Governos Ditatoriais não precisam de consenso. Porém, a hegemonia também é obtida. No Brasil, em 1964, ocorreu consentimento de grande parte da população diante da força militar. Diferente do Pensamento Liberal e dos Governos Ditatoriais, no Socialismo aumenta o número de pessoas em torno do consenso e diminui a importância da força na obtenção do equilíbrio hegemônico.

5 Para Maquiavel o conflito é entendido como elemento constitutivo da ordem política estável e, ao mesmo tempo, é a causa da sua degradação. O tema degradação do poder não é abordado no presente trabalho.

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Hegemonia implica numa correlação de forças entre as classes sociais no sentido de concretizar determinadas relações de poder. Significa apresentar uma capacidade dirigente, antes de dominante. Ser dirigente antes de dominante é a estratégia utilizada na defesa da desregulamentação dos derivativos. O próprio documentário nos informa: no ano de 2010 foram cinco bilhões de dólares investidos pelos lobistas em ‗propinas‘ para o financiamento de campanha e outras despesas realizadas pelos políticos dos EUA. O fato de tal atividade ser regulamentada e legal naquele país não invalida o argumento.

Hegemonia, como momento político e cultural, implica na capacidade de uma classe social formar e manter seus intelectuais. Obama indica para o seu governo os mesmos economistas que trabalharam nos bancos envolvidos na produção da crise de 2008. Essa estratégia é ancestral, vem desde a Grécia antiga. Dentro dos muros que cercavam Atenas e Esparta, além dos nobres viviam os técnicos (pessoas que detinham um conhecimento considerado estratégico para a cidade e que não poderia cair na mão do inimigo). Entre esses profissionais estavam generais, marceneiros, ferreiros, construtores de navios, médicos etc. Assim como os gregos antigos, Obama também mantem seus intelectuais economistas dentro do seu governo.

Ao final do documentário, na Parte V intitulada ―Onde estamos agora‖, o diretor poderia repetir a cena inicial do filme O Leopardo (1963) de Luchino Visconti. O filme é uma adaptação do romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa Tancredi sobre a unificação da Itália iniciada por Garibaldi na segunda metade do século XIX. O filme inicia com uma citação do romance Il Gattopardo (O Leopardo): “É preciso que as coisas mudem de lugar para que permaneçam onde estão”.

Sem questionar o sistema financeiro em si, o documentário aponta como causa principal da crise financeira de 2008 um certo tipo de atividade realizada dentro do sistema financeiro. Esse tipo de atividade é mantida dentro do governo Obama. Assim, Obama coloca em prática a máxima de Tancredi ao proteger os protagonistas da crise de 2008 indicando-os para cargos chaves dentro do seu governo. Esperamos ter argumentado o suficiente para mostrar que o tema central do documentário é job e não work.

4 ENTRETENIMENTO LIGHT

O documentário Inside Job é um registro que se pretende crítico diante do desenrolar da crise financeira de 2008. Utilizamos o termo crítico com um sentido específico. A crítica aponta para as deficiências que nos deixa inconformados e angustiados diante da realidade dada. Estar inconformados nos move para buscar algo novo.

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Tal fenômeno também ocorre no cinema. Por exemplo, parece haver a tendência de ver a política como algo corrupto e sujo. Por isso o desprezo pela política. Esse fenômeno é observado no Brasil, na América Latina, nos Estados Unidos e na Europa. Muitas pessoas não querem entrar na política, porque entendem que a política está corrompida. Diante dessa percepção as pessoas tendem a recusar filmes políticos e se voltam para os filmes de entretenimento. Essa atitude é perigosa por excluir da vida humana uma dimensão fundamental: a política.

Uma questão que parece florescer ao longo do filme é se o mesmo tem a intenção ou a pretensão de ser crítico. Além de informativo, com grande riqueza de detalhes, Inside Job aparenta revelar algo que permanecia nas trevas: a manipulação do dinheiro de contribuintes por figuras ligadas ao mercado financeiro e ao alto escalão da administração pública.

Desta forma, seu objetivo seria o de trazer à luz fatos, informações que permitiriam ao expectador tomar uma posição diante da crise econômica que assolou o sistema financeiro em 2008. Com este acúmulo de informações o espectador poderia se emancipar e se posicionar criticamente frente a realidade que o cerca? É clara a posição do filme em torno dessa expectativa. A história da Filosofia está repleta de propostas cuja pretensão era tornar o sujeito político dono do seu destino.

Essa expectativa libertadora está presente na teoria crítica da Escola de Frankfurt que ao longo de vários momentos do século XX, semearam a esperança de que o ser humano se emanciparia da ignorância que o impede de ser sujeito político. De diferentes vias esta emancipação foi imaginada como a denúncia da ‗falsa‘ arte produzida pela indústria cultural, questão analisada por Adorno e Horkheimer em Dialética do Esclarecimento. A arte imaginada como um verdadeiro veículo de emancipação estaria a cada dia perdendo a sua força diante da pseudo-arte produzida em escala industrial, que fortalece o domínio sobre a classe trabalhadora e não os permite exercer aquilo que torna alguém de fato humano: pensar.

Na mesma obra, os autores denunciam as propostas otimistas do Iluminismo, mostrando que este simplesmente serviu para legitimar o domínio de uma classe sobre outra. Adorno e Horkheimer recorrem ao texto de Homero quando apresenta Ulisses como uma espécie de arquétipo do burguês. Isso ocorre quando mostra que a maneira como Ulisses manipula os fenômenos da natureza é análoga à da ciência moderna, ou seja, impregnada de aspectos ideológicos.

Trata-se de um texto em que alguns fundamentos da modernidade são postos em xeque como a da ciência estar a serviço da humanidade e empurrando a sociedade para um futuro glorioso

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repleto de crescentes e constantes melhoras. Assim, denunciam o desenvolvimento técnico e sua associação com o sistema capitalista, que não trouxe melhorias para a humanidade, apenas possibilitou, por exemplo, a industrialização da morte: as câmaras de gás e as bombas atômicas. Nesse processo, a ciência substituiu a religião na função de exercer o domínio do homem sobre o seu semelhante e sobre a natureza.

Desta forma, o documentário Inside Job poderia ser pensado como uma obra que tem como expectativa tirar o sujeito da escuridão, proporcionando luz para que possa perceber os absurdos exercidos pelos executivos, políticos e cientistas. O filme reforça que os usos ideológicos da ciência, denunciados por Adorno e Horkheimer, estão fortemente enraizados em universos até então considerados ‗imparciais‘, como o mundo acadêmico. Agora basta saber se o documentário, de alguma forma, nos tornará sujeitos políticos emancipados e aptos para agir e mudar a realidade que nos cerca.

A recusa por temas políticos nos filmes não resulta de um fenômeno natural. Muitos diretores

de filmes e escritores fizeram opções equivocadas quando abordam em seus trabalhos temas políticos. O documentário Inside Job resulta de uma escolha política do diretor quando decide culpar os infiltrados e salvaguardar o sistema financeiro. Isso é discutível.

Sucumbir ao mercado parece ser um fenômeno que atingiu as artes em geral. Parece que a arte

a cada dia que passa mais se aproxima ou se torna entretenimento light. Se a arte está se

tornando só entretenimento ela acabará por destruir a cultura porque impede a crítica e a percepção de que a sociedade está mal concebida.

Exemplo de entretenimento light é Damien Hirst, artista que dominou a arte na Inglaterra durante a década de 90. Sua reputação resultou do sucesso obtido pelo esquema de marketing montado pelo colecionador Charles Saatchi. O Sunday Times calculou a fortuna de Hirst em cerca de 363 milhões de dólares (261 milhões de euros). Em agosto de 2007, Hirst vendeu por cem milhões de dólares a obra Pelo amor de Deus, que consiste num crânio com mais de oito mil diamantes incrustrados. O montante desta transação é o mais alto pago até a data por uma obra de um artista vivo.

Em entrevista, Hirst declarou que não sabia fazer arte, mas as pessoas pagavam muito por suas obras. Isso é o entretenimento light. Algo está equivocado. Nenhum problema se as pessoas pagam uma fortuna por qualquer coisa. O questionável é o lugar e o espaço ocupado por tais produtos. Assim, o problema passa a existir quando não sabemos mais do que gostamos e do que não gostamos, o que é arte e o que não é arte. A fronteira se torna líquida.

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Nem tudo o que é produzido no mundo artístico é entretenimento light. No Brasil temos a

versatilidade de Tom Zé, compositor, cantor e arranjador. Considerado uma das figuras mais

originais da música popular brasileira, tendo participado ativamente do movimento musical

conhecido como Tropicália nos anos 1960 e se tornado uma voz alternativa influente no

cenário musical do Brasil. A partir da década de 1990 passou a gozar de notoriedade

internacional, especialmente devida à intervenção do músico britânico Davi Byrne, ex-

integrante da banda Talking Heads.

Nos EUA temos o seriado de televisão O Fio (The Wire) concebido por David Simon, ex-

jornalista, e Ed Burns, ex-policial e professor. A série inova ao ter uma perspectiva ampla e

multilateral dos temas tratados. Cada temporada funcionava como um romance com início,

meio e fim, tendo sempre diferentes personagens no foco central sem, no entanto, abandonar

os personagens já conhecidos. As histórias se baseavam nas experiências de trabalho dos dois

criadores: o cotidiano real do Departamento de Homicídios de Baltimore nos anos 80 e o

cotidiano real de uma família em um gueto dominado pelo tráfico. Os cenários da vida real

forneceram os principais personagens transportados para a série de TV nos anos 90.

Se a arte só se aproximará sem se tornar entretenimento light ou se a arte se identificará com o

entretenimento light é uma questão aberta. A decisão dependerá do movimento produzido

pela sociedade contemporânea.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O documentário Inside Job analisa um tipo de ação realizada dentro do sistema financeiro. A

ação dos infiltrados é apontada como a principal causa da crise no sistema financeiro cujo

ápice deu-se em 2008. Mesmo que a crise financeira seja o tema do documentário,

concluímos que o diretor Ferguson percebeu equivocadamente a origem da crise. O equívoco

ocorre quando identifica que a ação dos agentes financeiros foi viabilizada pela não

regulamentação do setor dos derivativos. Assim, aponta a ação dos infiltrados como a

principal causa da crise é não o totalitarismo corporativo do próprio sistema financeiro.

REFERÊNCIAS

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Tradução: Alfredo Bosi. São Paulo:

Martins Fontes, 2007.

ADORNO, Theodor W., HORKHEIMER, Max. A dialética do esclarecimento: Fragmentos Filosóficos. Trad.: Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 1995.

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BAUMAN, Zigmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Tradução: Mauro Gama e Cláudia M. Gama. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

BOAL, Augusto. ‗Náufragos‘ In: Teatro como arte marcial. Rio de Janeiro: Garamond,

2003.

GÉRICAULT, J-L. A. T. A Balsa da Medusa. Museu do Louvre, Paris, França. Ano: 1818. Técnica: Óleo sobre tela. Movimento: Romantismo.

GRAMSCI, Antonio. Maquiavel, a política e o Estado moderno. Rio de Janeiro:

Civilização Brasileira, 1976.

MACHIAVELLI, Nicolo. Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio. Tradução:

Sérgio Bath. Brasília: UnB, 1982.

O FIO (The Wire). Produtores: David Simon e Karen L. Thorson. Estados Unidos. Seriado:

2002 a 2008, 5 temporadas e 60 episódios. Idioma original: Inglês. Exibido originalmente:

HBO.

O LEOPARDO (Il gato pardo) Dirigido por: Luchino Visconti. Itália/França. 1963. 140 min. sonor. color. Idioma original: Italiano.

OUTHWAITE, William; BOTTOMORE, Tom. Dicionário do pensamento social do Século XX. Tradução: Eduardo Francisco Alves e Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar, 1996.

TRABALHO interno (Inside Job). Dirigido por: Charles H. Ferguson. Estados Unidos. 2010, 108 min. sonor. color. Idioma original: inglês.

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NIETZSCHE E OS GREGOS: APONTAMENTOS ACERCA DO INDIVIDUALISMO, O ETHOS E O PATHOS 1

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Paulo César Jakimiu Sabino 2

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Samon Noyama 3

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RESUMO: O presente trabalho possui a intenção de buscar aproximações acerca da filosofia de Nietzsche e o legado dos antigos gregos. É nítida a presença da poesia grega e dos poetas na obra nietzschiana. Porém, é preciso estabelecer alguns pontos: o primeiro, buscar entender que temos um Nietzsche que iniciando em sua carreira de professor universitário estava encantado com os gregos, influenciados por uma corrente que já se seguia na Alemanha a pelo menos um século. Assim, Winckelmann, Goethe, Schopenhauer e Wagner são algumas influências. Porém, posteriormente o filósofo faz uso desse legado grego de maneira diferente, conseguindo enxergar ali uma espécie de vida afirmativa. Eis que não há apenas uma aproximação, mas também um afastamento o afastamento no que diz respeito a filosofia, pois se inicia um pensar racional e a necessidade de discursos justificando racionalmente as ações. No que diz respeito a ética, é interessante pensar que, embora haja essas nuances, um fator é preciso ser considerado: a ética possui um caráter individualista para os gregos, algo que parecemos ter perdido e, dessa maneira, tornamos a ética praticamente uma espécie de valores que visam o bem viver coletivo sempre, e não uma possibilidade de estruturar o indivíduo partindo de si mesmo e não dos outros ao seu redor. Palavras Chave: Ética, Dionisíaco, Grécia antiga.

NIETZSCHE AND THE GREEKS: NOTES ABOUT THE ETHOS AND THE PÁTHOS

ABSTRACT: The paper has the intends to seek approaches on Nietzsche‘s philosophy and the ancient Greek‘s legacy. The presence of Greek poetry and of Greek poets in the nietzschean work is clearly. However, it is necessary establish some points: the first one, is seek understand that we have a Nietzsche who starting your career as a professor was delighted with the Greeks, he was influenced by one current in Germany started at least for a century ago. Therefore Winckelmann, Goethe, Schopenhauer and Wagner are some the influences. However, after that the philosopher uses the legacy in a different way, he got notice there are something like an affirmative life. Here is not only one approach, but one distance the distance is related to philosophy, because it starts a rational thinking and the necessity of speeches justifying rationally the actions. With regards to ethic, is interesting to think about, even though there are nuances, that we need to consider one element: the ethic have one individualistic aspect for the Greeks, something that we seem to have lost, and this way, we made the ethic almost something like values what aim always to the social good living, and not a possibility to the man organize himself by himself, and not from the others around him. Key-words: Ethic, Dionysiac, ancient Greek.

1 Este trabalho é parte do projeto PIBIC 2013-2014 fomentado pela Fundação Araucária. 2 graduando do curso de Filosofia da Universidade Estadual do Paraná, campus União da Vitória. E-mail:

3 Professor adjunto do curso de Filosofia da Universidade Estadual do Paraná, campus União da Vitória.

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1 INTRODUÇÃO

―Para quem está fora do sofrimento é fácil aconselhar e incitar o sofredor‖ (ÉSQUILO, 1980, p.21)

As definições da ética passaram, ao longo dos anos, por diversas interpretações e tentativas de fornecer algo coerente. Pode-se empenhar-se ao máximo e ainda assim é difícil acreditar que se chegaria a uma conclusão que pudesse satisfazer a todos. O que pensamos em propor é uma análise de dois termos fundamentais para essa discussão, a saber, o ethos e o páthos, e assim realizar, inclusive, algumas provocações acerca do que muitos hoje parece ser a noção de ética mais bem aceita por todos. Ora, é comum entender o termo como bem viver ou mesmo como se deve viver, algo próximo a normas e regras de conduta que são constantemente discutidas para que não se tornem dogmas. Contudo, parece que a ética perdeu um pouco do seu valor individual, pensa-se nela apenas como necessária para a vida coletiva não negamos esse aspecto, e adiante podemos perceber as razões que a levaram a assumir essa característica e, como se não fosse o suficiente, ainda parecemos desconsiderar relevantes questões a respeito do páthos as paixões quando se falam de ética, muitas vezes assumem um papel secundário.

Até então nos pautamos muito no pensar ético racional, isto é, acerca dos valores que consideramos certos ou errados, mas que permanecem em um plano suprassensível ou ideal, em termos platônicos. É para fugir um pouco desse ―padrão‖ que faremos uso do pensamento do filósofo Friedrich Nietzsche. Para tanto, levamos em conta as diversas alternâncias no pensamento do filósofo. Naquela que é considerada sua primeira obra, O Nascimento da Tragédia, temos já uma aproximação do autor para com os gregos antigos. Porém essa aproximação não é resultado exclusivo do filóso fo e se deve, em especial, a dois elementos: o primeiro é o movimento iniciado por Winckelmann no século XVIII na Alemanha que busca imitar o ideal de beleza grega, tais ideias foram fundamentais para a estética alemã seguinte, segundo Pedro Süssekind: ―elas [as ideias do autor] se inserem em um projeto mais amplo de análise e compreensão da arte grega, um esforço de interpretação que influenciou decisivamente a literatura e a filosofia alemãs no século seguinte‖ (2008, p.68). E em segundo momento principalmente considerando o ano em que O Nascimento da Tragédia fora escrito a influência de Wagner, músico alemão que buscava restaurar a Grécia na Alemanha, tal fator teve fortes consequência no pensamento do filósofo, que em seu primeiro livro é como se dialogasse com músico, o segundo momento do livro Nietzsche ―[ ]

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interpreta a obra wagneriana com um renascimento da arte trágica na modernidade‖ (CAVALCANTI. In: Introdução: Wagner em Bayreuth, 2009, p.11).

Sendo assim, um dos aspectos dessa aproximação a ser notada é que, os gregos que Nietzsche estima não são os filósofos, mas sim os poetas e os que representam a cultura da aristocracia guerreira homérica eis aqui uma nova perspectiva de ética. Por isso, ao fazer uso das pulsões estéticas, apolíneo e dionisíaco, temos uma aproximação do homem para com o individuo e não com o rebanho. Tal afirmação, entretanto, é um pouco arriscada de se fazer, levando em consideração que Apolo, na obra, é o princípio de individuação e Dionísio 4 17 o que rompe com esse princípio unindo a parte ao todo. Mas é justamente por esse viés que pensamos poder dar a ética uma importância para com o indivíduo e demonstrar que, tal individualismo, pode apresentar uma característica positiva.

Dionísio representa a união da parte com o todo, mas isso é uma ligação do homem para com a natureza, não com a pólis. É por isso que a ética em Nietzsche pode ser pensada através de uma intrínseca relação do homem para com suas paixões, sem que elas sejam negadas, mas afirmadas e valorizadas para a constituição do caráter do indivíduo 5 18 . Por isso é importante a concepção de páthos e de ethos para compreender como se ocorre a aproximação de Nietzsche para com os gregos antigos. Em um aforismo de A Gaia Ciência, escreve:

―Raramente nos tornamos conscientes do verdadeiro pathos de cada período da vida enquanto nele estamos, mas achamos sempre que ele é o único estado então possível e razoável para nós, um ethos, não um pathos falando e distinguindo como os gregos 6 19 ‖ (NIETZSCHE, 2011a, p.212, grifo do autor). É possível a formação de um ethos? Algo duradouro e sólido que nos permita viver e refletir sobre nossas ações? Ou caberia um pensar ético diferente, que ao invés de reflexão, provocasse em nós sentimentos, sensações, algo que por si só não é racional, mas fisiológica. É possível então, partindo dessa perspectiva, focar em uma ética individualista? Para a realização de tal tarefa, focamos nas obras capitais de Nietzsche e nos limitamos a pesquisa bibliográfica.

4 A concepção de Dionísio é fundamental para entender o pensamento do autor. No seu texto Quem é Dionísio, Lebrun lembra que Nietzsche muda de gosto e de orientação, sendo que a concepção de Dionísio em um primeiro momento, isto é, em O Nascimento da Tragédia, seria uma noção equívoca e que não necessariamente há uma contraposição entre as duas divindades (Cf. LEBRUN, 2006, p.367-368). Pensamos que a mudança da concepção de Dionísio não é apenas estética, mas também ética.

5 A ideia de uma ética do páthos já é tratada anteriormente em outros autores, por exemplo, Cf. OLIVEIRA, J. A Grande Ética de Nietzsche. Revista Índice, Rio de Janeiro, n.01, Vol. 03, p.112-129, 2011.

6 Se esclarece que o pathos é visto como algo que constantemente muda, enquanto o ethos é duradouro. Cf. nota 77 de Paulo Cesar de Souza In: NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. São Paulo: Companhia das Letras,

2011a.

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2 A DIFERENÇA ENTRE ÊTHOS E ÉTHOS

Antes de discutir propriamente um modo de trazer a ética do âmbito da razão, para o fisiológico, isto é, corpóreo e o que diz respeito a ele, é preciso entender, mesmo que minimamente, o surgimento do termo ética. Existe um abismo entre aquela cultura grega que originou o termo para com a nossa, porém, é possível fazer algumas análises mais precisas.

Miguel Spinelli (2009) elucida com clareza a respeito do termo ethos, ao começar por distinguir duas grafias distintas: o éthos com epsílon, que remonta a Ésquilo e o êthos, grafado com eta está ligado a Homero. Continua a explicitar os diversos significados que os pensadores e poetas gregos atribuíram, onde o éthos, por exemplo, passa a designar o costumeiro ou habitual e o êthos assume uma característica de capacitação para o modo de ser que pode ser aperfeiçoado. Embora, como poderemos perceber, as palavras ainda estejam ligadas a uma concepção do exercício da razão para o aprimoramento da ética, demonstra-se que os gregos, no que diz respeito aos poetas, principalmente, parecem dar valor ao indivíduo, a um reger a vida por si só, de maneira autônoma. Após citar um trecho de um famoso poeta de Sófocles, Spinelli ainda diz que o poeta:

faz referência a um êthos noético, a um modo de pensar, mais exatamente, a um

domínio (organizado em termos de pensamento e discurso) e em dependência do qual um indivíduo vem a ser capaz de reger a sua vida sem se sujeitar a qualquer outro governo (dos humanos ou dos deuses) que não o seu (2009, p.12, grifo do autor).

] [

A partir dessa perspectiva é possível entender que relacionar a ética a algumas doutrinas, ou qualquer forma de coletividade, como ética cristã, por exemplo, não faz o menor sentido. O significado acima faz oposição a muito do nosso pensar contemporâneo a respeito do assunto, tal pensamento poderia ser traduzido por uma aclamada obra dos dias atuais, referimo-nos a Ética Prática de Peter Singer, onde o autor, ao dar uma possível explicação do que é a ética, trabalha com possibilidades que desmerecem o indivíduo quando contraposto ao coletivo:

Para serem eticamente defensáveis, é preciso demonstrar que os atos com base no interesse pessoal são compatíveis com princípios éticos de bases mais amplas, pois a noção de ética traz consigo a ideia de alguma coisa maior que o individual. Se vou defender a minha conduta em bases éticas, não posso mostrar apenas os benefícios que ela me traz. Devo reportar-me ao público maior. (1998, p.18).

Por isso, partindo dos gregos, é possível entender como o intuito da ética não é necessariamente o apontado acima pelo autor, como algo que traria consigo uma ideia maior

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que o individual. Nossa grande dificuldade em pensar desse modo o período antigo é porque levamos junto de nosso olhar, uma perspectiva cristã. É incomum, para nós, seres do século XXI, pensar que é algo bem aceito desafiar o divino, seriamos imputados de culpa, aquele que realizasse tal ação tornar-se-ia um pecador. Contudo, as tragédias gregas deixam claro que não há heróis ou vilões 7 20 , não existe a noção de que os deuses são bons e puros podem ser mais perfeitos que os mortais, mas isso não implica bondade , caso a dificuldade que nos referimos aqui diz respeito ao fato de que, nessa cultura grega, a dualidade bem e mal não é tão ―delimitada‖ como nos dias de hoje, onde fazemos questão de procurar por tais valores.

Mas a concepção que faz a ética relacionar-se ao coletivo não se dá por acaso, ou por mera deturpação do decorrer histórico. Os termos são riquíssimos e se desdobram de diversas maneiras. É por esse motivo que o êthos pode estar vinculado a três outros elementos, a saber:

gnômas, daímôn e moîra. Spinelli (2009) explicita ainda esses três termos e desfaz algumas possíveis confusões; fazendo menção a Heráclito, por exemplo, a gnômas está ligada a uma espécie de saber que apenas a divindade detém que diz respeito não a um Deus, mas sim ao Kósmos que está envolvido por uma sabedoria interna da qual deriva o modo de ser e agir. Ora, sendo assim, a própria filosofia é uma tarefa que busca nos aproximar desse divino, isto é, buscar os saberes que envolvem o universo o mesmo diz respeito ao pensar a ética. O vínculo com seguinte é mais denso: ―Daímon é tomado como expressão de uma força ou de

designa apenas o destino, a própria sorte‖ (SPINELLI, 2009, p.18). O daímon

chega a ser ainda mais claro o vinculo do homem para consigo mesmo e não com os deuses, pois ―é no interior e não de fora (dentro de nós e não em outro) que encontramos o caminho e os meios para nos decifrar‖ (Ibidem, p.20). Não cabe voltar nossas ações para o outro, antes do outro existe o agente voltar a ação exclusivamente para o outro é pautar-se em algo que possa abranger o melhor para ambos, porém, essa base acaba em função dos valores que regem a determinada cultura ou época. Contudo, é inegável que embora exista uma aproximação para com a filosofia de Nietzsche, há também um afastamento, pois o daímon refere-se aqui a um conhecer intelectual, racional, e principalmente, porque não é uma entidade física, relacionando-se ao theîon é algo que pertence a um plano etéreo (Cf. Ibidem, p.21). E por fim, a moîra ou destino, ligada a uma potência diretiva da vontade do indivíduo ou das leis do Estado , um autoconhecimento, pois o destino é constituído e para todos; a diferença é que os homens são capazes de deliberar que necessita da inspeção de si para tal constituição, não acontece naturalmente como na phýsis (Cf. Ibidem, p.22-23).

um poder [

],

7 A noção que existe nas tragédias gregas é a de herói trágico, contudo, a diferença entre aquele que representa o bem (o herói) e o mal (vilão) não se aparece nas tragédias gregas.

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É perceptível que o ethos, apenas pelo fato de possuir duas grafias, é demasiado rico em detalhes e significados, não é estranho pensar o porquê a ética começou a estar vinculado ao coletivo, já que algumas vezes como é o caso da moîra quando ocorre por leis do Estado ela se coloca desse modo, mas os gregos, porém, parecem não forçar para esse lado, principalmente os poetas. Claro que o termo, na medida em que designa pensamento racional em vista da deliberação, hábito, costume, etc. pode ter em mente o bem da pólis, mas acreditamos que essa generalização do termo, que passa a designar o coletivo co mo um bem maior, ocorre dentro da apropriação dos latinos pelo termo, ao ser transcrito para o latim assume significados que se distanciam dos gregos:

O éthos (com epsílon), eles [os latinos] o traduziram por suetus, termo que resultou em português no nosso consueto (no que é tido como costumeiro, usual, corriqueiro); já o êthos com era (certamente por influência de Aristóteles) verteram- no em mos, moris: termo que deu origem ao que, no tempo deles, digamos, Lucrécio e de Cícero, veio a ser denominado de moral [

Por moral (mores) em sentido amplo, os latinos entendiam o cultivo do caráter, (cultivo das ―boas‖ qualidades cívico-patrícias), e, não, a rigor, uma disposição ética no sentido de promover princípios racionais e orientadores da conduta de excelência. (Ibidem, p.28-29).

Não é estranha a confusão que se faz ao pensar a ética e a moral, sendo do modo como tentamos distinguir ambas, ou mesmo fazendo o contrário, não diferenciando. Devido à quantidade de significados e usos dos gregos para o ethos, as interpretações foram diversas podendo ter sido consequência do modo de vida ou cultural da época, bem como de suas necessidades sociais. É assim que gostaríamos de evidenciar aqui justamente a principal distinção entre a ética (enquanto ethos nos gregos) e a moral (a mores dos latinos) foi a perda da qualidade individual que se atribuía ao ser humano, onde a autoridade caberia ao homem. Com Lucrécio, como irá explicar Miguel Spinelli, irá fazer uso da mores como um mores generatim, onde os costumes seriam passados de geração para geração os filhos imitavam os pais e assim constituía um uso dos costumes próprio de vida patenta, sendo assim, uma preservação dos costumes (Cf. 2009, p.30) 8 21 . A moral anseia por preservação, tradição e conservação de costumes, ela pretenderia assumir-se como algo que não deixaria os ―bons costumes‖ morrer, portanto, na medida em que a cultura muda, obviamente os tipos de morais não conseguem realizar tal preservação a mera tentativa, porém, de buscar preservar, já seria danosa, pois visa dar conta das paixões do ser humano, e vale lembrar que as paixões são

8 Sejamos justos, como foi dito na citação de Spinelli, não se pode negar a influência de Aristóteles no mundo latino. Logo, em diversas obras, como na Ética a Nicômaco, Aristóteles (1973), defende que a ética pode ser constituída por um habito, que diversas vezes praticado pode ser internalizado, onde a experiência diversas vezes repetidas pode formar o habito.

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contingentes, afetadas pelo nosso modo de viver e ser, de uma época ou cultura, isso sem contar que, buscar padronizar o coletivo, não permitindo autonomia ao homem de formar-se a si mesmo, ele precisaria ser regido pelo que é externo a ele, pois é a isso que se supõe uma preservação de costumes, a mera tentativa do tornar coletivo ou de dar conta das paixões inconstantes, é um fator degenerativo em nossas condições físicas e psíquicas.

Já temos algumas possíveis considerações que nos permitiram apontar as aproximações em dados momentos, afastamentos entre Nietzsche e os gregos; também uma brecha para demonstrar e fazer uma defesa do individualismo, algo que, como pretende-se demonstrar, será necessário para a ética. O pensamento nietzschiano, em diversos momentos, faz menção a nobreza da aristocracia guerreira do período homérico, porém, é válido lembrar, a intenção é tirar a ética de seu campo puramente racional apenas os valores e assim trazê-la para um campo sensível, ou pelo menos, dar mais atenção a característica sensível da ética, consequentemente, notaremos um afastamento para com os gregos principalmente os filósofos onde a ética é ainda objeto da razão.

3 NIETZSCHE: ENTRE O PÁTHOS E O AGON

A presença dos gregos na obra de Nietzsche é muito perceptiva e acompanha o autor do início ao fim de sua produção intelectual. Desde livros que são ao todo influenciados pela cultura grega antiga como é o caso de O Nascimento da Tragédia passando por pequenos textos onde o autor analisa alguns aspectos dos helenos como A Disputa de Homero ou O Estado Grego até os livros tardios, onde nunca esquecera de dedicar um espaço para o tema em Crepúsculo dos Ídolos, por exemplo, há um capítulo do livro intitulado o que devo aos antigos. Por isso, não é estranho que a ligação entre um dos primeiros filósofos da contemporaneidade com uma cultura que desapareceu há milênios seja tão íntima. Porém, as perspectivas adotadas em tais análises mudam em diversos momentos. É desse modo que gostaríamos de caracterizar a filosofia nietzschiana em dois aspectos: o primeiro é a atenção que dedica às questões do pathos, atacando com isso os aspectos da racionalidade humana. Outro aspecto merece muita atenção: trata-se de uma filosofia do agon palavra traduzida por disputa, jogo, conflito. A filosofia de Nietzsche assume esse aspecto de conflito, obviamente, com outras filosofias, para com o autor, quando o estimula a pensar em perspectivas e, principalmente, com ela própria. O filósofo entra em conflito consigo mesmo e isso aparece nos seus escritos, não apenas nas alternâncias de pensamentos, mas também no posicionamento que assume perante algumas questões pode ser poeta, pode ser filósofo,

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mas nunca deixa de ser os dois. O dado a ser considerado é importante já que, frequentemente, ao pensar a ética, fazemos uma aproximação com a política 9 22 , eis aqui uma clara distinção do autor para outros pensadores: a ética de Nietzsche está mais interlaçada com a estética, talvez, devido à influência devida a poesia grega e, também, pelo fato do próprio autor se considerar como apolítico ou mesmo antipolítico (Cf. NIETZSCHE, 2010CI,

p.58).

É preciso tomar cuidado para trabalhar o tema individualismo em Nietzsche é equivocado

dizer que o autor apenas desprezou o meio social, é verdade que por vezes critica a vida gregária, mas em outras preocupa-se com a elevação da cultura dos povos, é justamente a partir da possibilidade de se elevar que podemos tentar pensar a ética com mais ênfase no

indivíduo. Em um texto particular, Nietzsche olha para a distância entre o período moderno e

o dos gregos. Trata-se de A Disputa de Homero 10 23 . Nietzsche apontara no texto que não há uma separação entre o homem e a natureza, pois as qualidades naturais e as humanas nascem de forma conjunta, sendo que a humanidade nos gregos era marcada por traços da natureza, alguns que, aos nossos olhos, não parecem ser adequados. É onde entra a noção de disputa. Este é um dos maiores afastamentos que o homem moderno tem para o mundo antigo, nesse último existiam dois tipos de Éris, diz Nietzsche, uma boa e outra má:

a antiguidade grega em geral pensa de modo diferente do nosso sobre rancor e

inveja, julgando como Hesíodo, que aponta uma Éris como má, a saber, aquela que conduz os homens à luta aniquiladora e hostil entre si, e depois enaltece uma outra como boa, aquela que, como ciúme, rancor e inveja, estimula os homens para a ação, mas não para a luta aniquiladora, e sim para a ação da disputa. O grego é invejoso e percebe essa qualidade, não como uma falha, mas como a atuação de uma divindade benéfica: - que abismo existe entre esse julgamento ético e o nosso! (Idem, 2000Prefácio, p.70, grifo do autor).

] [

Quanta diferença entre o nosso pensamento ético, onde os valores parecem ser justamente o oposto de disputa e elevação. Alguns quase que inquestionáveis, onde o ser humano atual parece enxergar nobreza e não fraqueza que inclusive poderia definir caráter. Um exemplo? A humildade. Temos aqui a noção de que um indivíduo não pode elevar-se acima dos outros, ou, quando o faz, não pode parecer maior. A disputa é completamente eliminada, torna-se igual. Na concepção nietzschiana, nada mais do que autoproteção: ―o verme se

9 Deixamos claro que aqui, ao tratar do individualismo na ética, o foco não é fazer considerações a respeito do âmbito político no assunto, como o liberalismo econômico e a luta contra o Estado, ou mesmo o anarquismo. Busca-se desvincular toda doutrina política e focar exclusivamente no campo ético e estético, claro, que em alguns momentos, pode-se transitar em um ou outro assunto desse caráter, mas não é o objetivo do artigo. 10 As vezes encontrado sobre o título de O Agon em Homero.

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encolhe ao ser pisado. Com isso mostra inteligência. Diminui a probabilidade de ser novamente pisado. Na linguagem da moral: humildade –‖ (Idem, 2010CI, p.14, grifo do autor). A disputa é desestimulada, pois parece um ato de arrogância, porém, com isso, não estaríamos apenas buscando uma zona de conforto? Um modo seguro de medir nossas ações, ou mesmo, de agir? A queda é sempre menor para o humilde. E que tipo de absurdo seria pensar que isso pode então definir caráter, podendo inclusive autorizar a chamar o humilde de bom. Não seria moralizar a ética? Suponhamos que, para que algo se denomine bom é preciso um padrão, dizer que alguém é ético não seria o mesmo que dizer: essa pessoa encaixa-se nos meus padrões de ética. Perde-se todo o sentido do caráter do indivíduo, ele precisa se justificar para os padrões sociais não pelo mero moralismo normativo, mas acima de tudo pelos valores prezados por um tipo de sociedade.

Tão diferente da cultura grega. Ali, Nietzsche encontra algo que irá estimular nos pensamentos que compartilha: os gregos não rompiam com sua natureza. Por esse motivo, a disputa, a inveja, era vista como uma dádiva, um benefício elevava o ser humano. O que de modo algum prejudicava a pólis:

Para os antigos, entretanto, o objetivo da educação ―agônica‖ era o bem do todo, da sociedade citadina. Assim, cada ateniense devia desenvolver-se até o ponto em que isso constituísse o máximo de benefício para Atenas, trazendo o mínimo de dano.

Desde a infância, cada grego percebia em si o desejo ardente de, na competição

entre cidades, ser um instrumento para a consagração de sua cidade: isso acendia o

seu egoísmo, mas, ao mesmo tempo, o refreava e limitava (Idem, 2000Prefácios,

p.72-73).

] [

Nota-se que a distinção entre o povo grego guerreiro que enxergava na Éris boa uma forma de elevação não necessariamente está contra a pólis, ou mesmo, do coletivo, porém, é elevando a si mesmos que conseguem melhorar a vida coletiva. Eis um importante traço a ser considerado: entre os gregos não há um desprezo do que é natural, instintivo, tentando diferenciar instinto de humanismo.

Mas que fique claro: o distanciamento de valores não é a única questão no pensamento ético de Nietzsche. No que diz respeito aos gregos, se pode aprofundar-se muito mais basta olhas para os estudos que o filósofo elabora sobre a tragédia grega, mais precisamente no Nascimento da Tragédia. A obra tem íntima relação com o texto A Disputa de Homero, como

essa noção de agon, resposta épica à questão do sofrimento,

elucida Roberto Machado: ―[

da crueldade, da morte, só pode ser compreendida profundamente pela noção de individualidade‖ (2006, p.204, grifo do autor). É partindo disso que no Nascimento da

]

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Tragédia teremos duas pulsões que o filósofo denomina Dionísio e Apolo este último sendo considerado a expressão do princípio de individuação, termo que Nietzsche toma de Schopenhauer. Pelo agon o guerreiro buscava se elevar e se eternizar pela boca do poeta , atribui-se características específicas ao homem ele se torna indivíduo. Porém, Apolo é mais do que isso, ele engendra todo mundo Olímpico, é também a expressão do mundo onírico, que possibilita a existência dos gregos: ―O grego conheceu e sentiu os temores e os horrores do existir: para que lhe fosse possível de algum modo viver, teve de colocar ali, entre ele e a vida, a resplendente criação onírica dos deuses olímpicos‖ (NIETZSCHE, 2005, p.36). A tragédia grega, entretanto, nasce da dualidade das forças apolíneas e dionisíacas 11 24 , pois uma representa a constituição do homem separado de sua natureza e Dionísio é justamente a reconciliação, a embriaguez, é o que está intimamente ligado a natureza humana, aquilo que o homem não pode extirpar o que queremos demonstrar aqui é o cuidado para tratar da individuação, não se trata de romper o princípio de individuação recolocando o homem a sociedade, fazendo-o adentrar em uma massa, mas sim unir pelo que é semelhante a todos, se a razão nos distingue, a natureza é o que une: ―Agora o escravo é homem livre, agora se rompem todas as rígidas e hostis delimitações que a necessidade, a arbitrariedade ou a ‗moda impudente‘ estabeleceram entre os homens‖ (Ibidem, p.31). O encantamento dionisíaco tira o homem de si, isto é, fora da razão.

Evidencia-se desse modo não que a individualização é negativa, mas que o dionisíaco não se trata de colocar o homem ao coletivo, mas de tirar o véu onírico sobre seus olhos e fazê-lo adentrar na experiência da natureza o instintivo, o impulso, as paixões, pois isso é o natural a cada um, ao mesmo tempo, o corpo é uma morada instável, cada tipo de indivíduo não possui exatamente o mesmo tipo de estado fisiológico, por isso é natural o instinto sexual, por exemplo, mas a satisfação dele, a busca pelo prazer acaba sendo distinta. Acontece que dentro das massas, do coletivo, o homem acaba tentando padronizar e, o indivíduo e o coletivo que aparecem na dualidade Apolo e Dionísio não é a mesma que tratamos na sociedade atual, ela apenas evidencia algo que hoje tentamos esconder. A concepção de Nietzsche acerca de Dionísio se altera ao longo de seu caminho intelectual 12 25 , porém, atentar nossos olhares para as divindades gregas do Nascimento da Tragédia nos permite uma explicação mais clara.

Nietzsche se colocara veemente contra as concepções de pós vida ou vida aparente e vida real, não haverá para ele outra senão esta, o aparente é tudo o que temos. Dionísio aparecerá em

o contínuo desenvolvimento da arte está ligado à duplicidade do apolíneo e do dionisíaco, da mesma

maneira como a procriação depende da dualidade dos sexos, em que a luta é incessante e onde intervêm periódicas reconciliações‖ (Ibidem, p.27, grifo do autor).

12 Já mencionamos isso, vide nota 2.

11

―[

]

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textos posteriores como Crepúsculo dos Ídolos, como a afirmação dessa vida, dos prazeres e terrores existenciais, por exemplo: ―O artista trágico não é um pessimista ele diz justamente

Sim a tudo questionável e mesmo terrível, ele é dionisíaco

autor). Dionísio está acima de Apolo, não se pode dominá-lo. Em As Bacantes Eurípides (1974) demonstra com clareza esse ponto. Penteu, o representante apolíneo, cheio de ideais, tenta reprimir a presença de Dionísio na Grécia, mas os resultados são devastadores, Dionísio

13 26 ‖ (Idem, 2010CI, p.29, grifo do

provoca a morte de Penteu por sua própria mãe, demonstrando o quão devastador pode ser o instintivo quando ele é reprimido. De tal maneira, o dionisíaco só pode ser a afirmação de tudo o que existe nessa vida, e para tanto, de todas as paixões e instintos.

No seu amadurecimento intelectual Nietzsche considera o egoísmo e o individualismo elementos por vezes necessários para a elevação da vida humana. É ainda mais evidente que se distancia dos pensamentos que o tomavam na escrita de seus primeiros livros sobre os gregos, no Crepúsculo dos Ídolos, mais precisamente no aforismo 3 da parte intitulada o que devo aos antigos, o afastamento aparece com clareza quando o próprio autor admite, por exemplo, não vislumbrar nos gregos almas belas, ou admirar a calma na grandeza herança do movimento de Winckelmann por ter sido protegido pelo psicólogo que havia em si (Cf. Ibidem, p.103) ou então quando passa a considerar a filosofia como a decadência do helenismo: ―Mas os filósofos são os décadents do helenismo, o antimovimento contra o gosto antigo e nobre‖ (Ibidem, p.104, grifo do autor) 14 27 . A racionalidade filosófica é a decadência da cultura grega que exaltava o pathos onde a natureza e o humano não eram separados é essa aproximação que faz a ética de Nietzsche não apenas das paixões, mas uma ética dionisíaca.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Mas o que significa tratar do individualismo na filosofia de Nietzsche e qual essa ligação com as noções pathos e ethos dos gregos? Após as considerações anteriores já é possível pensar em responder a tal questão de maneira consistente.

13 Aqui já nota-se a separação com Schopenhauer e, consequentemente, com o pensamento dominante no seu primeiro livro, onde as interferência sobre Nietzsche eram nítidas, seja pelo uso dos termos, ou pelas ideias expressadas. Não há mais uma fuga do terror existencial pelo pensamento onírico, mas uma afirmação da mesma através de Dionísio.

14 No que diz respeito aos rompimentos do autor com suas primeiras influências, além de Schopenhauer e o movimento alemão iniciado por Winckelmann, a influência de Wagner era perceptível, mas aqui, entre os fatores que existem, apontamos principalmente para as ideologias que o músico passou a aderir, como por exemplo, o movimento antissemita, mas não propriamente o fator principal teria relação direta com o entendimento do helenismo por parte do músico.

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A individualização não é apenas o que fora representado por Apolo. É claro que o brilho do guerreiro que nas epopeias assumia características singulares ao buscar a glória e a eternização pelo poeta contribuem para nossa reflexão: o brilho da aristocracia guerreira dos gregos está profundamente distante da nossa ética atual. Contudo, a beleza nas ações dos gregos estão relacionas com o fato do indivíduo determinar-se pelo pathos e não pela racionalidade mas dionisiacamente, isto é, há ali a presença do que é natural e instintivo. O que se deve notar não é a mudança de Apolo na filosofia de Nietzsche, mas como Dionísio passa a ser a caracterização da afirmação da vida e desse modo se colocar acima do deus do sol. É esse dionisíaco o principal elo de ligação entre a cultura grega e o filósofo do século XIX. Desse modo a individualização e até o certo egoísmo que aparece sugerido aqui não é apenas a busca pelo brilho, mas também a responsabilidade aumentada no homem para consigo mesmo medir suas ações a partir de si, mas com isso, suportar toda a carga. Quando adentramos no coletivo ou nas massas costumamos pensar no bem viver geral e com isso degeneramos nosso próprio corpo. Isso fica muito claro em um texto de Freud intitulado psicologia das massas e análise do eu, principalmente quando o autor se refere ao impulso gregário. Vejamos o modo preciso como Freud explica a diminuição do eu em meio ao coletivo:

Estamos autorizados a dizer a nós mesmos que as abundantes ligações afetivas que reconhecemos na massa bastam plenamente para explicar uma de suas características, a falta de independência e de iniciativa do indivíduo, a uniformidade de sua reação com a de todos os outros, seu rebaixamento à categoria de individuo de massa, por assim dizer. Mas a massa mostra algo mais se a consideramos como um todo; os traços de debilitamento da capacidade intelectual, de afetividade desenfreada, a incapacidade de moderação e de adiamento, a tendência a ultrapassar todos os limites na manifestação das emoções e a descarregá-las completamente na ação [

Assim, temos a impressão de um estado em que os sentimentos isolados e os atos intelectuais pessoais do indivíduo são fracos demais para se fazer valer por conta própria e têm de aguardar pelo reforço mediante a repetição uniforme por parte dos outros (2013, p.119-120).

O que Freud explicita é que o indivíduo dentro das massas se deixa guiar pelo valor aprovado por todos ou pelo líder pois estabelecem entre si relações afetivas e só o fazem porque como coletivo ganham força, o que seriam incapazes de fazer por si só. Porém, isso custa um preço, a uniformização das ações, e ainda, o que pode ser mais grave, a uniformização dos sentimentos: descarregamos as emoções que são trazidas com as massas, mas reprimimos aquelas que dizem respeito ao eu. Do mesmo modo, ao precisar de aprovação das massas, a capacidade intelectual se restringe a pensar apenas ao que o grupo considera bom, saudável,

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correto, comum, normal: Alguns traços típicos demonstram claramente como o ser humano age exatamente da forma como os outros do rebanho, seja na hora da morte, em rituais de passagem festas de casamento, entre outros elementos, nossas emoções parecem ser sempre as mesmas. Isso não é apenas para o senso comum. A filosofia em si possui traços marcantes. Correntes filosóficas ou doutrinas políticas acabam tentando estabelecer uma ética, isto é, um padrão isso considerando não da forma como pensamos, mas na possibilidade de pensar a ética como algo que possua de fato uma padronização como, por exemplo, a preocupação com o outro a partir de ações altruístas. Mas até que ponto esse olhar ―bondoso‖ – essa compaixão, na medida em que se considera possível aproximar-se do sentimento de dor alheia ou mesmo o altruísmo não são apenas formas de satisfazer a nós mesmos? O homem sente prazer no sacrifício há tempos foi lhe ensinado que isso é benéfico, que isso é uma ação ―boa‖. Se ela assim for considerada, é porque passou pela aprovação de outros.

Se a filosofia é um pensar por si, ela não é possível apenas pela possibilidade de interpretar de modos diferentes ou de um livre pensar. É preciso algo que Nietzsche parece ter deixado em seus escritos: questionar os valores de nada adiante intepretações ligadas às massas que já determinam por si só o certo e o errado, pela afetividade entre os indivíduos, somos reduzidos ao mero pensar por uma estrutura pré-determinada. Individualização na ética é, por esse motivo, focar no indivíduo na capacidade que este tem de criar.

Concordamos que a sociedade atual, por exemplo, exclui o outro oprimidos não faltam, o pobre, o negro, o homossexual, etc. Porém, seria um erro dizer que a sociedade esta fragmentada, que somos egoístas apenas. Ora, uma vida gregária exige que cada um desempenhe bem sua função: os seres isolados em suas casas não necessariamente estariam desfragmentados do Estado o Estado funciona na medida em que fazemos aquilo que nos é proposto: consumir e produzir, duas funções básicas embora não as únicas. Isso só foi possível porque o homem é tornado animal de rebanho, isto é, sua natureza foi apaziguada. Ele faz o que o rebanho exige dele. Consola sua consciência na ilusão de poder ajudar os outros, da união, de direitos iguais, na compaixão, ou melhor, no amor ao próximo. Porém parece que tratamos do egoísmo de forma absolutamente negativa: a ponto de querer excluir o eu em prol do outro. A luta é de massas, mas quando o indivíduo assumirá as responsabilidades por suas ações. Ouviu-se falar de grandes homens, não de grandes massas:

E quem proclama o Eu sadio e sagrado e o egoísmo bem-aventurado, em verdade também proclama aquilo que sabe e profetiza: Vê, ele está chegando, ele está próximo, o grande meio dia‖ (NIETZSCHE, 2011b, p.184, grifo do autor). Percebe-se que o egoísmo é tratado por Nietzsche de maneira distinta, não apenas negativa, isso porque: ―O egoísmo vale tanto

Ensino & Pesquisa, n.11,v.02 2º semestre de 2013

59

quanto vale fisiologicamente aquele que o tem: pode valer muito, e pode carecer de valor e ser desprezível‖ (Idem, 2010CI, p.81). A importância de Dionísio e da cultura grega é justamente não desrespeitar o corpo, deixando-o fisiologicamente saudável, por esse motivo o egoísmo pode ser bem visto. O altruísmo é representado para Nietzsche como uma moral da décadence: ―Uma moral ‗altruísta‘, uma moral em que o egoísmo se atrofia é, em todas as circunstâncias um mau indício. Isto vale para o indivíduo, isto vale especialmente para os povos. Falta o melhor quando o egoísmo começa a faltar‖ (Ibidem, p.83). O individualismo demonstra que as nossas ações podem ser determinadas por nós, pelos nossos sentimentos. Por esse motivo o pathos como fator principal da ética de uma ética dionisíaca. O ethos grego se aproxima do pensamento de Nietzsche quando foca o indivíduo, quando os homens

ou os deuses não determinam suas ações, mas ao mesmo tempo, isso da a entender um caráter

duradouro, algo que o filósofo despreza, pois pensa no corpo como algo inconstante como pathos. Na medida em que uma ação precisa ser defendida racionalmente e não se age por instinto, é porque há o juiz, ou juízes. Ser egoísta, nesse sentido, é agir e arcar com as responsabilidades da ação, é sentir de diferentes maneiras e não estar restrito ao que a massa permite, ao que alguém ou alguma doutrina pensa ser bom. É ser livre:

―Às vezes o valor de uma coisa não se acha naquilo que se obtém com ela, mas

Pois o que é liberdade? Ter a

Liberdade significa que os instintos

viris, que se deleitam na guerra e na vitória predominam, predominam sobre outros

instintos, os da ‗felicidade‘, por exemplo. [ ‖

que se quer, que se conquista

como algo que se tem e não se tem,

vontade da responsabilidade por si próprio. [

naquilo que por ela se paga aquilo que nos custa. [

]

]

]

(Ibidem, p.88-89, grifo do autor).

O que os gregos legaram a Nietzsche? A exuberância das paixões e dos instintos. O que

Nietzsche nos legou? Que os valores precisam ser determinados pelo homem, que o homem pode elevar-se a ponto de criar seus próprios valores não precisa da autorização das massas. Porém, ser livre é abrir mão do agir pela busca da felicidade, não é o bem viver, é o viver pela honra. Aliás que honra há no preconceito? Na exploração? Costumamos sempre pensar em melhorar a sociedade, a mudança no homem é apenas em benefício do coletivo. Quando pensaremos em possibilitar ao indivíduo olhar para si. Pensando politicamente: qual a razão de pensar que a sociedade está dividida? Talvez o problema não seja o homem ignorar o outro, mas sim ignorar a si mesmo. Essa é talvez uma possibilidade, ou um caminho. Claro, como falou Zaratustra, esse é um caminho, pois o caminho não existe (Cf. Idem, 2011b,

p.186).

Ensino & Pesquisa, n.11,v.02 2º semestre de 2013

60

REFERÊNCIAS

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CAVALCANTI, A. 2009. H. Introdução In: NIETZSCHE, F. Wagner em Bayreuth. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p.07-34.

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Abril Cultural, p.06-49.

EURÍPIDES 1974. As Bacantes. São Paulo: Duas Cidades, p.127.

FREUD, S. 2013. Psicologia das massas e análise do eu. Porto Alegre: L&PM, 176p.

LEBRUN, G. 2006. Quem era Dionísio? In:

Paulo: Cosac e Naify, 608p.

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MACHADO, R. 2006. O Nascimento do trágico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 280p.

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2010.

Crepúsculo dos Ídolos. São Paulo: Companhia das Letras, 159p.

2005.

O Nascimento da Tragédia. São Paulo: Companhia das Letras, 184p.

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p.112-129.

SINGER, P. 1998. Ética Prática. São Paulo: Martins Fontes, 2ed, 399p.

SPINELLI, M. 2009. Sobre as diferenças entre Éthos com Epsílon e Êthos com Eta. Revista Trans/Form/Ação, São Paulo, 32 (2): p.9-44.

SUSSEKIND, P.2008. A Grécia de Winckelmann. Revista Kriterion, Belo Horizonte, 117:

p.67-77.

Ensino & Pesquisa, n.11,v.02 2º semestre de 2013

61

COMO FERVER O LEITE SEM QUE VAZE DA LEITEIRA?

Laiane Ribicki 1

28

Gabriele Granada Veleda 2

29

Resumo: No trabalho exposto apresenta-se o desenvolvimento de uma atividade de Modelagem Matemática na perspectiva da Matemática Aplicada. Propomos um problema que está ligado à fervura do leite, buscando-se, por meio da Modelagem Matemática, uma relação entre volume e tempo de fervura do leite. O modelo obtido viabiliza às donas de casa a possibilidade de consumir o leite produzido no sítio com segurança, conseguindo destruir suas bactérias e mantendo os importantes nutrientes do leite, como o cálcio e a proteína, sem que ele vaze da leiteira/panela. Para tal trabalho, necessitou-se de uma pesquisa teórica sobre a Modelagem Matemática, sobre a pasteurização do leite e foi necessária a realização de um experimento. Palavras-chave: Modelagem Matemática, leite, fervura.

HOW TO BOIL MILK WITHOUT LEAK FROM MILKMAID?

Abstract: This paper present a development Mathematical Modelling activity in the perspective from Mathematics Applications. We propose a problem about how to boil milk without leak from milkmaid, seeking, using Mathematical Modelling, a relation between time and volume of boiling milk. The obtained model enables housewives the opportunity to consume the milk produced at the farm safely, because this model allows us to estimate how long to boil milk to destroy bacteria end keep the important nutrients in the milk, such as calcium and protein, without leak from milkmaid. For writing this paper, we research about Mathematical Modelling, boiling milk and conducted an experiment. Key-words: Mathematical Modelling, milk, boil.

1 INTRODUÇÃO

O tema de estudo é relacionado à fervura do leite. Procuramos responder às seguintes

questões: Será que realmente é necessário ferver o leite que vem direto da vaca ou será que

este ato poderia destruir componentes do leite importantes para nosso organismo? Se há a

necessidade ferver o leite, como fazer com que ele não derrame da leiteira? A partir do

momento em que pensamos em um tema, um problema relacionado a este tema e queremos

resolvê-lo utilizando conceitos matemáticos, a metodologia que mais se adequa é a

Modelagem Matemática.

1 Acadêmica do curso de Matemática, Universidade Estadual do Paraná, campus de União da Vitória. E-mail:

laiane_ribicki@hotmail.com

2 professora do curso de Matemática, Universidade Estadual do Paraná, campus de União da Vitória. E-mail:

gabi.granada@gmail.com

Ensino & Pesquisa, n.11,v.02 2º semestre de 2013

62

Neste trabalho apresentamos o desenvolvimento de uma atividade de modelagem na perspectiva da Matemática Aplicada, cujo tema escolhido é a fervura do leite. Escrevemos sobre a escolha do tema, a coleta de dados para a qual foi preciso fazer um experimento e dissertamos também sobre as outras etapas necessárias no desenvolvimento de uma atividade de modelagem segundo Burak (2010).

Concluímos este trabalho chegando às respostas das perguntas iniciais por meio de um modelo matemático que pode auxiliar donas de casa a não deixar o leite derramar da leiteira, permitindo à sua família consumir um alimento nutritivo e sem bactérias.

2

APLICADA

MODELAGEM

MATEMÁTICA

NA

PERSECTIVA

DA

MATEMÁTICA

Antigamente a Matemática era uma ciência trabalhada de forma abstrata, Bassanezi (2009, p.16) afirma que ciências como a Biologia, a Química e a Psicologia, não utilizavam a Matemática para exprimir suas ideias, mas apenas utilizavam uma linguagem comum. Mais tarde, segundo o autor, a Matemática passou a ser um instrumento indispensável na formulação de teorias em pesquisas científicas de outras áreas do conhecimento, devido ao seu poder de síntese e generalização. A partir do século XX, a Matemática foi aplicada às ciências como a Física, Astrofísica, Química, Biologia, Economia, entre outras.

A aplicação correta da matemática nas ciências factuais deve aliar de maneira

equilibrada a abstração e a formalização, não perdendo de vista a fonte que originou

tal

processo. Este procedimento construtivo conduz ao que se convencionou chamar

de

Matemática Aplicada. (BASSANEZI, 2009, p.18).

Em relação à Matemática Aplicada, Bassanezi (2009, p.32) cita que ―modelos matemáticos, ou mais geralmente, todo argumento matemático que é ou pode ser, de alguma forma, relacionado com a realidade, pode ser visto como pertencente à Matemática Aplicada‖. O autor também afirma que nas ciências biológicas, por exemplo, ―a Matemática tem servido de base para modelar, por exemplo, os mecanismos que controlam a dinâmica de populações, a epidemiologia, a ecologia, a neurologia, a genética e os processos fisiológicos.‖ (BASSANEZI, 2009, p.19).

Em consequência disto, a Modelagem Matemática passou a ser utilizada como um instrumento de pesquisa na Matemática Aplicada. A Modelagem Matemática segue uma série de etapas em seu encaminhamento, que nesta perspectiva, de acordo com Burak (2010, p.19),

Ensino & Pesquisa, n.11,v.02 2º semestre de 2013

63

são: o problema, a fase exploratória, a construção do modelo, validação do modelo e, análise e interpretação dos resultados.

Enquanto metodologia de pesquisa, a Modelagem Matemática possui grande relevância.

Bassanezi (2009, p.32) destaca benefícios da Modelagem, sendo alguns deles: estimular ideias

e técnicas experimentais; pode ser um método para fazer interpolações e previsões; pode

servir de recurso para melhor entendimento da realidade e pode servir de linguagem universal

para a compreensão e entrosamento entre pesquisadores de diversas áreas do conhecimento.

3 MODELANDO O PROBLEMA DA FERVURA DO LEITE

Pensando na Modelagem Matemática como um método de pesquisa, criamos uma modelagem na perspectiva da Matemática Aplicada. Seguimos as etapas citadas por Burak (2010, p.19) que são: o problema, a fase exploratória, a construção do modelo, validação do modelo, análise e interpretação dos resultados, a seguir vejamos cada uma delas.

3.1 O PROBLEMA

O tema escolhido para a modelagem é o leite, ou melhor, a fervura do leite em casa. Segundo

informações do site da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), o leite é, provavelmente, um dos únicos alimentos que tem como objetivo fornecer nutrientes e proteção imunológica (através dos anticorpos) para o recém-nascido, o que pode explicar o seu elevado valor nutricional. Há milênios é considerado um dos constituintes fundamentais da alimentação humana. O primeiro alimento que recém-nascidos recebem é o leite materno, depois, na maioria das dietas das crianças, são recomendados leites de animais, que possuem

elevada digestibilidade, como o leite de vaca, o leite de cabra e o leite de búfala.

Buscando informações sobre a pasteurização do leite, descobrimos que a pasteurização é um processo de aquecimento do leite de 72ºC a 75ºC e resfriamento 2ºC a 3ºC, feitos de forma rápida, antes de o leite ser embalado para a comercialização. Este processo é feito logo depois do leite ser retirado do animal leiteiro (vaca). O intuito da pasteurização é destruir microrganismos presentes no leite que podem causar danos a saúde humana. Após este processo, o leite é mantido refrigerado, pois existem outras bactérias presentes nele que não fazem mal a nossa saúde, mas podem estragar o leite.

Em municípios do interior, onde existem vários sítios com vacas, ainda existe a prática da venda do leite a granel, colocados em garrafas pet de um ou dois litros e que são vendidos na

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64

cidade ou utilizados para o consumo próprio dos produtores. As donas de casa, em sua maioria, sabem do perigo de se tomar o leite cru, que é como o chamamos antes de passar por um processo de pasteurização. Como o processo de pasteurização é algo complexo, praticado apenas por indústrias do leite, elas fervem este leite em leiteiras ou panelas. Pensando na fervura do leite, levantamos a seguinte questão: Qual o tempo que determinada quantidade de leite vai demorar a ferver? Esta questão é interessante, pois ao ferver o leite, ele vaza da leiteira ou da panela fazendo uma grande sujeira, logo queremos descobrir o tempo que cada quantidade de leite leva para ferver para que uma dona de casa possa apagar o fogo do fogão antes que o leite derrame.

3.2 A FASE EXPLORATÓRIA

Ao procurarmos informações sobre o problema e torná-lo mais claro, buscamos saber por que o leite cru é fervido antes do consumo e se realmente isso seria necessário. Descobrimos, segundo informativos sobre o assunto, que o leite nunca deve ser consumido sem algum processo de fervura, pois pode causar vários danos a saúde humana por causa das bactérias presentes nele.

Para resolver o problema inicial, pensamos primeiramente na realização de um experimento, pois conforme propõe Fiorentini e Lorenzato (2009, p.105), ―Experimento é aquela parte da investigação na qual se manipulam certas variáveis e se observam seus efeitos sobre outras. A pesquisa experimental é útil quando se deseja destacar a relação entre variáveis‖ e ainda, ―Neste tipo de pesquisa as hipóteses desempenham importante papel e o pesquisador pode controlar tanto a variável independente como também a constituição dos grupos de sujeitos envolvidos nas pesquisas‖ (FIORENTINI e LORENZATO, 2009, p.106).

Inicialmente, nossa hipótese é que o mais adequado seria ferver o leite para matar as bactérias existentes. Ao iniciarmos as pesquisas sobre o assunto, encontramos um vídeo no site do You Tube, conhecido site de vídeos, no qual Roberto Martins Figueiredo falava sobre o leite. Figueiredo é um biomédico que costuma aparecer em vários programas de televisão, conhecido como Dr. Bactéria. Neste vídeo, ele comenta que o leite não pode ser consumido diretamente da vaca, pois há uma série de bactérias que não poderiam ser ingeridas pelos seres humanos, o que leva várias pessoas que possuem um sítio com algumas vacas e tiram leite para o consumo, fervem o leite para matá-las.

Dr. Figueiredo afirma que fervendo o leite realmente acaba com as bactérias, mas existem vitaminas termos sensíveis no leite que se perdem quando ele é fervido. O doutor também

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65

afirma que ao ferver o leite o cálcio vai para o fundo da leiteira/panela e a proteína e a gordura se transformam em nata, a qual geralmente é retirada ao consumirmos o leite. Ele concluiu sua fala informando que o leite deve ser aquecido até alcançara temperatura de 75º, pois esta é

a temperatura que acaba com as bactérias sem destruir seus importantes componentes.

A partir desta informação, decidimos não mais responder a questão que levantamos no início deste capítulo sobre a fervura do leite, mas sim a seguinte questão: Qual o tempo que determinada quantidade de leite vai demorar a chegar a uma temperatura de 75ºC. Para resolvermos o problema, realizamos um experimento. Para isto foram utilizados: leite, leiteira de alumínio, fogão a gás comum, um termômetro digital com alarme em forma de palito com 30 cm de comprimento, um cronômetro, um medidor de líquidos e papel e caneta para anotações.

Colocamos leite em vários recipientes, sendo que cada continha certa quantidade de leite, sendo elas 100 ml, 150 ml, 200 ml e assim sucessivamente até obtermos oito quantidades diferentes de leite. Não foram considerados volumes menores do que 100 ml, pois, após colocarmos quantidade tão pequena de leite na leiteira, não teria como submergir o termômetro no líquido para realizar a medição da temperatura. Além disso, não faria sentido ferver quantidade tão pequena de leite. Todos os recipientes foram guardados na geladeira, onde o líquido se mantinha a uma temperatura entre 4ºC e 5ºC. Retiramos da geladeira o recipiente com 100 ml de leite e colocamos o conteúdo na leiteira juntamente com o termômetro com alarme programado para disparar a 75ºC. Em seguida acendemos o fogo em uma das bocas menores do fogão a gás. Assim que colocada a leiteira ao fogo, disparamos o cronômetro. Quando o alarme disparou, paramos o cronômetro, desligamos o fogo, realizamos as anotações do tempo referente a esta quantidade de leite, colocamos o leite aquecido em outro recipiente, resfriamos a leiteira com água para mantê-la nas mesmas condições que o início do experimento e da mesma forma, ele foi realizado para as outras quantidades de leite.

Para cada quantidade de leite foram realizados três aquecimentos, cada um em dias diferentes, para podermos calcular uma média de tempos que cada quantidade de leite leva para aquecer

a 75ºC. Esta média teve que ser realizada por vários fatores. Um deles é que de um dia para

outro a temperatura ambiente pode variar e assim o leite poderá demorar mais ou não a aquecer. Outro fator é que poderia haver falha humana ao acionar o cronômetro na hora exata em que se coloca a leiteira ao fogo. Vejamos na Tabela 1 o tempo dos três aquecimentos e a média dos tempos calculada.

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Tabela 1. Dados do experimento com média calculada

Volume de leite (ml)

1ºAquecimento (s)

2ºAquecimento (s)

3ºAquecimento (s)

Média

(s)

100

75

73

78

75,3

150

100

101,5

109

103,5

200

139,5

136

126

133,8

250

163

163

153

159,7

300

182

179

191

184,0

350

218,5

211

211

213,5

400

247,5

252

238

245,8

450

281

274

269

274,7

Fonte. A autora, 2013.

3.3 A CONSTRUÇÃO DO MODELO

Plotando no plano cartesiano, os valores dos tempos médios encontrados pelas quantidades de

leites, obtemos os seguintes pontos:

pelas quantidades de leites, obtemos os seguintes pontos: Figura 1. Pontos representando o aquecimento do leite

Figura 1. Pontos representando o aquecimento do leite de acordo com o volume

Fonte. A autora, 2013.

Podemos traçar uma linha reta sobre os pontos e obtemos uma função linear. Nossa intenção

neste momento é chegar a um modelo matemático que melhor se adeque a situação. Para isso,

podemos utilizar o programa computacional Curve Expert, no qual distribuímos os dados da

Ensino & Pesquisa, n.11,v.02 2º semestre de 2013

67

temperatura e do tempo e o programa nos indica a melhor função que se aproxima dos pontos. A seguir, o gráfico da função mais ideal apontada pelo programa:

S = 4.91293240 r = 0.99795124 65.0 135.0 205.0 275.0 345.0 415.0 485.0 X Axis
S = 4.91293240
r = 0.99795124
65.0
135.0
205.0
275.0
345.0
415.0
485.0
X Axis (units)
301.60
260.40
219.20
178.00
136.80
54.40 95.60
Y Axis (units)

Figura 2. Gráfico da função apontado pelo Curve Expert

Fonte. A autora, 2013.

O programa aponta uma função linear ( ( )

) no qual

e

(

)

, logo

(1)

em que

indicada por

( ) é o tempo de aquecimento do leite de acordo com a quantidade desejada de leite,

.

3.4 VALIDAÇÃO DO MODELO

Para fazermos a validação do modelo (1), substituímos o valor de do modelo pelo valor de cada quantidade de leite citada no experimento e comparamos o valor encontrado para ( ) com o valor real da cada tempo encontrado no experimento. Podemos observar os resultados na Tabela 2 a seguir.

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Tabela 2. Comparação do modelo com os dados do experimento.

Volume

Tempo médio

de leite

obtido no

Tempo calculado pelo modelo (s) - TM

Erro %

( |

| )

|TM-TE|

(ml)

experimento(s) - TE

100

75,3

74,3

1,0

1,4

150

103,5

103,2

0,3

0,3

200

133,8

132,2

1,6

1,2

250

159,7

161,1

1,4

0,9

300

184

190,1

6,1

3,3

350

213,5

219,1

5,6

2,6

400

245,8

248,0

2,2

0,9

450

274,7

277,0

2,3

0,8

Fonte. A autora, 2013.

Podemos observar na Tabela 2 que os tempos obtidos pelo modelo são muito próximos dos

tempos encontrados no experimento. Se observarmos a última coluna desta tabela, vemos que

o erro é muito pequeno. Logo, podemos considerar o modelo ( ) ,

apropriado para descrever os dados reais.

3.5 ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS

Como visto na seção anterior, o leite não pode ser fervido, mas aquecido entre 72ºC e 75ºC,

para não perder suas propriedades. Neste sentido, propomos a questão: Qual o tempo que

determinada quantidade de leite demora a chegar a uma temperatura de 75ºC?

Para uma dona de casa que pode não ter uma calculadora, o modelo pode ser considerado

complicado, pois utiliza várias casas decimais. Tentamos deixar o modelo mais prático como,

por exemplo, ( ) mas ao fazer a validação, encontramos erros muito grandes

que chegam a 33 segundos de diferença do tempo real, logo não poderia ser usado, pois com

este tempo a menos de aquecimento do leite, ele não chegaria nem a 72ºC, que é o mínimo

necessário para o extermínio das bactérias presentes nele.

Então, para as donas de casa que não considerem possível ou prático utilizar o modelo,

indicaremos o uso da seguinte tabela, conforme a quantidade de leite desejada:

Ensino & Pesquisa, n.11,v.02 2º semestre de 2013

69

Tabela 03. Quantidades de leite e seus respectivos tempos para o aquecimento a 75ºC

Volume de leite (ml)

Tempo necessário para aquecer a 75ºC

100

1min14seg

150

1min43seg

200

2min12seg

250

2min41seg

300

3min04seg

350

3min39seg

400

4min08seg

450

4min37seg

500

5min06seg

750

7min31seg

1000

9min55seg

1500

14min45seg

2000

19min35seg

Fonte. A autora, 2013.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

19min35seg Fonte . A autora, 2013. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste trabalho, utilizando a Modelagem Matemática como

Neste trabalho, utilizando a Modelagem Matemática como um método de pesquisa, estudamos sobre um tema que consideramos de possível interesse de várias donas de casa: a

fervura do leite produzido ou comprado no sítio. Comumente, ao fervê-lo, ele vira da leiteira, além de perder seus nutrientes.

A ideia inicial deste trabalho era apenas deduzir um modelo matemático que permitisse a

dona de casa desligar o fogo do fogão antes que o leite derramasse da leiteira. No entanto, no

transcorrer das pesquisas, descobrimos que o leite não deve ser fervido, mas apenas aquecido a uma temperatura entre 72ºC e 75ºC. Portanto, o problema investigado foi: Como aquecer o leite a 75ºC sem possuir um termômetro para medir sua temperatura?

A partir desta pergunta, e com o auxilio de um experimento, nos envolvemos com o tema,

buscando ferramentas matemáticas para estudá-lo, compreendê-lo e resolvê-lo.

Uma atividade de Modelagem segue uma série de etapas. Para desenvolvermos este trabalho, escolhemos as citadas por Burak (2010, p.19), que são: o problema, a fase exploratória, a construção do modelo, validação do modelo, análise e interpretação dos resultados.

Ensino & Pesquisa, n.11,v.02 2º semestre de 2013

70

Como resultado deste trabalho foi desenvolvido uma tabela para donas de casa que desejem

―ferver‖ o leite de forma segura, sem sujar o fogão e garantindo a permanência dos nutrientes

no leite após o aquecimento. A tabela possui vários volumes de leite e seus respectivos

tempos de aquecimento, tornando-se um modelo útil para elas.

REFERÊNCIAS

BASSANEZI, C. B. Ensino-aprendizagem com Modelagem Matemática. Contexto, 3.ed, São Paulo: 2009.

BURAK, D. Modelagem Matemática sob um olhar de Educação Matemática e suas implicações para a construção do conhecimento matemático em sala de aula. Revista de Modelagem na Educação Matemática, Vol. 1, n. 1, p.10-27, Ponta Grossa: 2010.

FIGUEIREDO, R. M. Jeito correto

http://www.youtube.com/watch?v=qxI-YQFdwXU. Acesso em: 25/08/2013.

de

ferver

o

leite.

Disponível

em

FIORENTINI, D. e LORENZATO; S. Investigação em educação matemática: percursos teóricos e metodológicos. Campinas, SP: Autores Associadas, 2006.

Ensino & Pesquisa, n.11,v.02 2º semestre de 2013

71

ALGUNS

MINKOWSKI EM

ASPECTOS

GEOMÉTRICOS

DA

MÉTRICA

DE

30

Édino Andreoli 1 Norberto José Polsin Jr 2 Simão Nicolau Stelmastchuk 3

RESUMO: O presente trabalho visa apresentar alguns aspectos geométricos da métrica tempo-espacial de Minkowski no , a qual é o modelo para a Teoria da Relatividade Restrita. Utilizamos as métricas Euclidianas em e para compreender como se dá tal métrica em . Palavras-chave: Geometria Euclidiana, Geometria de Minkowski, Teoria da Relatividade Restrita.

SOME GEOMETRICS ASPECTS OF MINKOWSKI’S METRIC ON

ABSTRACT: This work presents some geometric aspects of Minkowski‘s metric on , which is a model to Theory of the Restrict Relativity. We use the Euclidian metrics on and

. Key words: Euclidian geometry, Minkowski‘s metric, Theory of the Restrict Relativity.

to understand the behaving of such metric on

1 INTRODUÇÃO

Este trabalho é elaborado por acadêmicos do curso de Matemática da Unespar campus União

da Vitória que são participantes do PIBIC, Programa Institucional de Bolsas de Iniciação

Científica.

O presente trabalho visa estudar os aspectos geométricos em , cuja ideia é estender os

resultados existentes em para . Para tal escreveremos os vetores em em

coordenadas, isto é, =( ) e =( ). Usamos esta representação

algébrica para representar vetores existentes em quarta dimensão. Após estas percepções

realizamos a mudança da métrica tradicional para uma métrica tempo-espacial, descrita por

Minkowski, mantendo a resolução quadridimensional. Sendo utilizada esta métrica para

compreender as implicações geométricas existentes na teoria da Relatividade Restrita, e os

efeitos que isso pode causar.

1 Participante do PIBIC de Matemática da UNESPAR campus União da Vitória, União da Vitória, Paraná. E- mail: edinho.andrioli@hotmail.com

2 Participante do PIBIC de Matemática da UNESPAR campus União da Vitória, União da Vitória, Paraná. E- mail: junior_polsin@hotmail.com

3 Professor Doutor do Colegiado de Matemática da UNESPAR campus União da Vitória, União da Vitória, Paraná. E-mail: simnaos@gmail.com

Ensino & Pesquisa, n.11,v.02 2º semestre de 2013

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Mesmo não podendo representar os aspectos físicos desta geometria, a Matemática nos mostra que ela existe e existem outras dimensões além desta que podemos calcular, mostrando assim os componentes e implicações existentes nesta geometria. Durante á pesquisa percebeu-se que as relações Euclidianas existentes em são muito

similares as de

, tendo assim uma perspectiva que em quarta dimensão conceitos da

Geometria Analítica tridimensional são válidos. Contudo quanto à métrica tempo-espacial

descrita por Minkowski, percebeu-se que os mesmos teoremas são respeitados em certos

casos, assim não podendo generalizar os resultados, de modo que isso causa impactos na

representação e construções de sólidos nesta geometria. Como embasamento teórico para

estas determinações foram utilizadas as seguintes literaturas: Andrioli et al. (2013), Boldrini

(1980), Boulos e Camargo (2005), Nussenzveig (1998).

2 DESENVOLVIMENTO

2.1 CONCEITOS

A pesquisa é voltada para idealizações e problematizações matemáticas que buscam voltar-se à realidade. Para tal utilizamos a métrica tempo-espacial descrita por Minkowski, levando em conta que está foi criada para ser invariante com respeito às transformações de Lorentz, em outras palavras, um invariante para os intervalos tempo-espaciais (ver por exemplo p. 199 de NUSSENZVEIG (1998). De forma grosseira, pode-se pensar a quarta coordenada como tempo, porém na métrica Minkowski toma-se o seu sinal negativo devido às construções dos referenciais na Relatividade Restrita.

Com a utilização desta geometria não podemos visualizar aspectos físicos, quatro dimensões. Mas através de operações algébricas conseguimos obter resultados para o entendimento da realidade física. Realizou-se assim uma pesquisa exploratória, de modo a utilizar a ferramentas matemáticas para descobrir e comparar como os da geometria Euclidiana de se comportam com está geometria tempo-espacial em .

Primeiramente, vamos definir o módulo e norma de um vetor em

( ) em

, seu módulo ou norma se da por:

|||| =

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Euclidiano. Sendo =

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Sendo

= (

) e

= (

) dois vetores em

=

, o produto escalar é dado por:

.

Iniciamos nosso trabalho apresentando algumas implicações clássicas dentro da análise vetorial tridimensional (ver por exemplo [3]).

|⃗

| ≤ |||| ||

||

||

|| ≤ |||| + ||

||

| ||||

- ||

|| | ≤ ||

||.

Usando o sistema de coordenadas cartesianas verificamos a validade das inequações acima em Euclidiano. A questão para a obtenção de tais resultados é uma boa definição da norma e produto escalar. A intuição nos diz que a maneira correta é a seguinte: se =

( ) é um vetor em

definimos o seu módulo ou norma por:

|||| =

No caso em que escalar é dado por:

= (

) e

= (

= A definição de nossa estrutura geométrica em

) são dois vetores em

, o produto

. , através da definição da norma e do produto

escalar, leva intuitivamente que muitos resultados irão se estender de forma natural. Isto se

mostrou verdadeiro com o estudo feito no trabalho (ANDRIOLI et al., 2013). Porém, em

alguns casos a visualização em

.

é uma ferramenta que nos auxilia á qual não possuímos em

Com o intuito de entender os aspectos geométricos da métrica de Minkowski, que é o objetivo

de estudo, é necessário introduzir um novo produto escalar e uma nova norma no espaço

.

Se

= (

) é um vetor em

o produto de

por

se dá por:

 

 

=

No caso em que escalar é dado por:

= (

) e

= (

) são dois vetores em

, o produto

 

 

=

 

.

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Nesta nova métrica o produto escalar ⃗ ⃗ pode assumir valores negativos. Ao pensarmos em norma com um valor real não negativo, vemos que a definição de uma norma para está métrica nos daria valores complexos. Diante deste fato, não nos convém falar de norma para está nova métrica.

Ao se visualizar o produto escalar presente acima percebemos que ai existe uma grande diferença quanto à métrica anterior, pois ao se pensar na métrica convencional, o produto de um vetor por ele mesmo sempre seria um resultado positivo ou igual a zero, contudo