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Nico NORONHA E DAVID COIMBRA

A HISTÓRIA DOS GRENAIS

PORTO ALEGRE-RS

© de António Augusto Noronha Pinto, 1994 © de David Coimbra, 1994

Criação de Desenho de Capa de Tatiana Sperhacke

Fotos de Capa do Arquivo de Zero Hora

Supervisão Editorial de Eleonora Joris

Fotos de Arquivo Zero Hora, Museu Eurico Lara,

Arquivo pessoal Carlitos e Arquivo Nico Noronha.

Reproduções Fotográficas de Zero Hora e Eleonora Joris

Composição de Artes e Ofícios

Impressão de Pallotti

Reservados todos os direitos de publicação, total ou parcial, pela

ARTES E OFÍCIOS EDITORA LTDA

Rua Henrique Dias. 201- Fone/Fax (051)221-0732

90035-100 PORTO ALEGRE-RS

IMPRESSO NO BRASIL PRINTED IN BRAZ1L ISBN

85-85418-31-1

Índice

Apresentação/5

Os primeiros tempos/7

O Rolo Compressor/43

Doze anos em treze/78

AEraBeira-Rio/118

Tempos modernos/179

Tabela dos Grenais/213

Apresentação

Apresentação

Nos anos 60, o então presidente do Grémio, Rudy Armin Petry, cunhou uma sentença que fez

estremecer o Estado desde as margens da Lagoa dos Patos até os últimos cantões da fronteira com o

Uruguai:

O Grémio é grande devido à grandeza do Internacional.

O que para um isento analista do início do século soaria apenas como uma

pareceu escandaloso aos ouvidos dos torcedores gremistas e encheu de jibilo o peito dos colorados. Naquela época, quando o máximo da ambição de

- - era colecionar campeonatos gaúchos, os dirigentes da dupla grenal sequer

atavam o nome do adversário: era só "o co-irmão". Mas Petry, um homem afável e

_: estava, mesmo, sendo somente cordial, aquilo não era nenhuma capitu lação. E não dizia nada mais do que a plena verdade. Já escreveu Luis Fernando Veríssimo:

:

Não somos bons porque somos mais europeus ou mais fortes, somos bons

- •; „;- : Internacional precisa ser melhor que o Grémio que precisa ser melhor que

o Internacional que morre se não for melhor do que o Grémio. Assim transcorre a história desses dois. O Grémio tinha a Baixada, que, ape-•_: ;e ser pouco mais do que um campo com pavilhão, era melhor que o do Inter. ; Chácara dos Eucaliptos. Aí o Inter construiu o estádio dos Eucaliptos, sediou jogos da Copa do Mundo de 1950 e, finalmente, montou um time melhor do que o do Grémio. Mas o Grémio não podia ficar para trás e, em 1954, fundou o Olímpico, na época o maior estádio particular do planeta. Com o Olímpico, voltaram os títulos. Até que

o Inter levantou o Beira-Rio do aterro do Guaíba. em 1969. e conquistou o Brasil com um supertime. Mas o Grémio aumentou e reformou o Olímpico e tornou-se campeão da América e do Mundo.

A história dos Grenais

A birrenta história desta rivalidade foi dividida em cinco capítulos, neste livro. O repórter David Coimbra é autor de "Os Primeiros Tempos", "Doze Anos em Treze" e "A Era Beira-Rio". O repórter Nico Noronha é autor de "O Rolo Compressor" e "Tempos Modernos". Foram entrevistadas cerca de cem pessoas, entre jogadores, dirigentes, técnicos, jornalistas, torcedores, empresários e historiadores. Mais de mil exemplares de jornais e revistas foram consultados. Os principais: Correio do Povo, Folha da Tarde, Folha da Manhã, Folha Esportiva, Zero Hora, Última

Hora, Jornal Hoje e Diário de Notícias. Para tornar esta pequisa possível foi indispensável a presteza

e a atenção dos funcionários do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa.

Os livros mais consultados foram: Campeonato Gaúcho: 68 anos de história, de Cláudio Dienstmann, História de um Clássico, de José Ney; História do Grémio, de Edison Pires; O Gigante da Beira-Rio, de Carlos Lopes dos Santos; O Gigante da Beira-Rio entra na Literatura Brasileira, de vários autores; Figueroa, de Marco Aurélio, António de Oliveira e Mauro Toralles; e Crónicas da Minha Cidade, de Ary Veiga Sanhudo. Importante, também, foi o apoio do diretor de esportes da Rádio Gaúcha, Flávio Dutra, e do jornalista Kléber Grabausca, que cedeu as tabelas dos grenais.

Os primeiros tempos

A quele grupo de rapazes elegantes parecia não se impressionar de estar refestelado numa das maravilhosas invenções do início do século, no frio entardecer de 21 de junho de 1909. Viajavam em

um Chope Duplo, apelido do bonde elétrico de dois andares, novidade implantada havia pouco mais de 15 meses em Porto Alegre. Fosse antes de março do ano anterior, fariam o mesmo trajeto num bonde puxado por burros sobre obsoletos trilhos de madeira. Nenhum dos quatro discorria acerca das facilidades da vida moderna porque estavam mais preocupados com o encontro que teriam horas depois, na sede da Sociedade Leopoldina, no bairro Moinhos de Vento. Os diretores do recém-fundado Sport Club Internacional preparavam-se para desafiar o veterano Grémio Foot-Ball Porto Alegrense para seu jogo de estreia no novo e já empolgante esporte bretão, ofoot-ball.

No centro da cidade, desembarcaram do Chope Duplo, que fazia a pioneira linha Menino Deus, e tomaram um bonde simples da linha Auxiliadora. Passaram pela velha Igreja Nossa Senhora da Conceição e pelo Hospital da Beneficência Portuguesa, pelos casarões dos magnatas da avenida Independência, entre eles os das famílias Torelly, Godoy e Theo Mõeller. e bem perto do célebre Fortim da Baixada, onde pretendiam disputar seu primeiro match.

O mais tranquilo do grupo era também o mais velho, o capitão Graciliano Ortiz, promovido, depois, a coronel. Tinha pretensões políticas e por isso aceitara o pomposo cargo de presidente honorário do clube nascido há apenas

A história dos Grenais

dois meses no porão da casa de João Leopoldo Seferin. no número 141 da avenida Redenção, mais tarde João Pessoa. Quando alguém perguntava ao capitão que história era aquela de team de foot-ball, ele desdenhava, sorrindo:

É só uma brincadeira desses simpáticos meninos.

Meninos mesmo. Os três irmãos Poppe. Henrique. José e Luis, que deram a ideia de formar um club de foot-ball, tinham menos de 20 anos. Eram paulistas. Estavam no estado desde 1908. quando montaram uma próspera loja de roupas. Como praticavam o foot-ball em São Paulo, ao chegarem a Porto Alegre tentaram ingressar numa sociedade dedicada a esse esporte. Escolheram o detentor do melhor team da Capital, o Grémio Porto-Alegrense. Que os rechaçou. A alegação: eram recém-chegados, não tinham nenhuma indicação nem conhecidos ilustres na cidade. A única saída, portanto, era fazer um club de foot-ball deles e para eles.

Assim nasceu o Internacional.

O primeiro presidente não era nenhum dos entusiastas Poppe. Era o filho do proprietário da sede improvisada do clube, João Leopoldo Seferin, então com 18 anos de idade. Seferin não concordara com aquela loucura de bater-se contra o poderoso Grémio Porto-Alegrense. Achava a partida uma temeridade e nem integrava o grupo que agora dava as últimas chacoalhadas no bonde Auxiliadora. Mas fora derrotado pelo vibrante Antenor Lemos, pelotense que ingressara no Internacional pouco depois da fundação para moldar à sua feição a história do clube nas décadas seguintes.

Numa tarde do "mês dos lindos poentes", como os cronistas da época gostavam de referir-se a maio. Antenor Lemos entrou na Alfaiataria Estilo Americana, na rua Marechal Floriano. Procurou pelo proprietário, o major Augusto Koch, então presidente do Grémio, e pediu que o veterano club aceitasse receber uma comissão da novel associação. A reunião foi marcada para o mês seguinte.

Foi Antenor Lemos quem introduziu a comissão, formada por ele, Ortiz, o goleiro e redator do jornal O Estado de São Paulo. Tomaz Madeira Poppe, e o capitão do time, Juvenalino César, na sala em que os esperavam os próceres do Grémio. A saber: Koch e os diretores Álvaro Brochado. Guilherme Kallfelz e Júlio Griinewald.

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Feitas as apresentações, o capitão Ortiz tomou a iniciativa. Tendo o cuidado de ressaltar o handicap do Grémio "um clube mais antigo, de mais prestígio e grande conceito"disse que o Internacional o convidava para ser seu primeiro adversário "a fim de divulgar o esporte bretão". Koch aceitou o repto:

Nosso segundo quadro está à disposição.

Lemos quase pulou da cadeira. Agradeceu a oferta do presidente do Grémio, mas rejeitou-a. Exigia o primeiro time. E queria jogar no domingo seguinte. Os dirigentes do Grémio surpreenderam-se com a ousadia. Lemos, no entanto, armou-se com um instrumento que foi, sempre, a maior marca da sua personalidade: a determinação. Tanto insistiu que, como invariavelmente acontecia, conseguiu. O Grémio colocaria em campo o seu primeiro time, mas só em 18 de julho, pois a agenda do clube estava lotada para os demais fins de semana.

Naquele tempo, não se cobrava ingressos. Além do mais, os dirigentes de ambas as agremiações pretendiam promover um jantar e um baile para depois do jogo. Havia despesas a pagar, portanto. Os colorados anunciaram que a conta era deles. Os gremistas se ofenderam. De jeito nenhum, bradou Koch, o Grémio paga. Os colorados insistiram e os gremistas ameaçaram cancelar a partida. Só assim os dirigentes do Inter cederam e as despesas ficaram a cargo do Grémio.

A reunião terminou fraternalmente. Os dirigentes permaneceram na Sociedade Leopoldina até

altas horas, brindando com o vinho Esperança, comprado da Casa Comercial de José Pilla, na rua Mostardeiro, 10, por 4 mil réis, preço especial para comerciantes.

Os jogadores do Inter tinham menos de um mês para acertar o time. Com sua influência de Diretor da

Limpeza Pública da Prefeitura, o capitão Ortiz arranjara um campinho para a equipe treinar. Ficava na rua Adindo, perto de uma curva do riacho, no bairro Azenha, a alguns metros do local onde o Grémio construiria, 45 anos depois, o Estádio Olímpico.

Os próprios jogadores limparam o terreno com pás, enxadas e picaretas. O clube possuía uma bola, um apito e goleiras móveis, que. após cada training, eram retiradas para evitar que os vagabundos as usassem como lenha. Uns abnegados, os primeiros jogadores do Inter. Exerciam suas atividades esportivas nas

A história dos Grenais

horas de folga, depois do trabalho. Quase todos eram estudantes ou empregados do comércio. O capitão Juvenalino César, por exemplo, ganhava o pão como funcionário da Casa ao Preço Fixo, na Rua da Praia, especializada em artigos importados, tais como castiçais, velocípedes, martelos, anéis e papel higiénico.

O dia do jogo se aproximava e o nervosismo dos colorados aumentava. As rodas esportivas da

Capital debatiam a respeito do desafio com entusiasmo. Afinal, um match de foot-ball era coisa rara naqueles tempos. O Grémio, em seus seis anos de vida, jogara um total de 16 partidas. 15 delas contra o Fuss-Ball Porto Alegre, seu irmão gémeo, nascido no mesmo 15 de setembro de 1903, e uma contra o Sport Club Rio Grande, o clube de futebol mais velho do Brasil.

O foot-ball, porém, ainda não se consistia exatamente num esporte de massas. Havia mais com o que

se ocupar no Rio Grande do Sul de 1909. No primeiro dia de julho, o coronel Álvaro de Moraes, sub-chefe de

polícia da 1 a região, só queria saber de deslindar o caso de defloramento de uma menor em São João do Montenegro. Neste mesmo dia, 179 russos chegaram à colónia de Guarany e 130 alemães à de Ijuhy. Sete pessoas haviam deixado a vida em Porto Alegre em 24 horas - uma devido a uma hemorragia cerebral, uma por angina de peito, um nascido morto, dois tuberculosos, um pelo mal de Bright e um por "amolecimento cerebral".

Na sexta-feira. 16 de julho, os jogadores do Inter saíram mais cedo do trabalho para fazer os treinamentos finais no campo da rua Adindo. Ainda não haviam desferido o primeiro schout quando deram pela inusitada presença de ninguém menos do que o center-foward Booth. captain do Grémio. Após assistir ao treino, o experiente e temido atacante vaticinou:

Eles recém iniciam e nós temos seis anos. Vamos passá-los por uma dura prova, mas se não desanimarem vão para frente, pois nunca vi tanto entusiasmo e tantos planos nesse assunto de futebol.

Seria, realmente, uma dura prova.

No dia seguinte, foram distribuídos panfletos pela cidade anunciando o grande match. Algum dos panfletos talvez tivesse passado pelas mãos do vago-mestre do 2° Batalhão de Infantaria da Brigada Militar, Luiz Vieira, de 30 anos.

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Mas ele não assistiria ao jogo. Às 9h30 de sábado. Vieira esteve no armazém de Ponciano Salazar, na rua Baronesa do Gravataí, como de costume. Era um homem de génio alegre e folgazão. Gracejou com todos no armazém e saiu. não demonstrando qualquer preocupação. Às lOh, tomou o trem do arrabalde Tristeza para ir ao Hospital da Brigada, situado em uma colina do Crystall. Lá, conversou com subalternos sobre assuntos militares. Às 15h despediu-se e tomou a estrada que ia para a linha férrea da Tristeza. No meio do caminho, sacou o revólver do coldre, na cintura, levou-o à têmpora direita e puxou o gatilho. O projétil varou-lhe a cabeça de lado a lado. O corpo de Vieira, vestido com o uniforme preto da Brigada, ficou caído na estrada até ser encontrado por passantes.

O suicídio do vago-mestre comoveu a comunidade. Mas não causou mais espanto do que a chegada ao Estado de "Abomah, a mulher gigante". Egressa dos Estados Unidos, imensa em seus 2m35cm de altura, seu rosto negro como azeviche contrastava com o rosa do vestido de seda cortado e enfeitado por ela mesma. Para sustentar o corpanzil de 200 quilos, Abomah sugava dois ou três litros de leite no café da manhã e devorava comida o suficiente para alimentar oito pessoas em cada almoço e jantar. Suas apresentações na terra natal lhe permitiram amealhar 50 mil dólares, com os quais pretendia obsequiar o indivíduo que casasse com ela. Abomah, pois, percorria o mundo em busca de marido e com este objetivo apresentou-se, sábado à noite, no Theatro Carlos Gomes, em Uruguaiana. A parada anterior fora em Montevidéu. Apareceram cinco pretendentes uruguaios, mas somente um deles atendeu às condições impostas pela mulher gigante: ser de estatura baixa, abster-se de álcool e recolher-se às 19h. O enlace não se realizou por oposição da família do noivo.

Enquanto Abomah não encontrava o baixinho de sua vida em Uruguaiana, as representantes do bello sexo da Capital aprontavam suas toi-Ifítes adaptadas para jogos ao ar livre e fofocavam a respeito dos sportsman que estariam logo à tarde no Fortim da Baixada. Muitas mulheres iam aos jogos nos albores do futebol no estado. Gritavam, torciam e coloriam os grvunds. Ao ponto de, em 1915, o cavalheiro Ivan Ney. do Olympic Foot-

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A história dos Grenais

Bali Club, tecer estes versos para as apreciadoras do esporte bretão:

"E elegante e é chie é distincto, é de escol rir nervosa, ter chilique por causa do foot-ball

Vermelhinha, como encanta ouvir-lhe palmas a bater é nossa alegria tanta que brilhamos sem querer

Fazemos passes certeiros jogamos com mais ardor quando seus olhos brejeiros torcem por nós com

fervor

Em meio à pugna, que bello! Como o delírio é sem par! Vê-la, rouquinha, um apello fazer-nos para

ganhar!

E todo o team animado Capricha por merecer Um

torcer apaixonado D'uns olhinhos de mulher

Há corações pendulándo gritinhos mil. aflições enquanto vão uns driblando e vão outros aos

trambolhões

E elegante e é chie é distincto, é de escol morder

os lábios por tic num match de foot-ball"

Exatamente por causa dessas delicadas presenças que as páginas róseas do Correio do Povo de domingo, 18 de julho de 1909. advertiram, abaixo do texto de apresentação do jogo:

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"Somos obrigados, afim de evitar factos desagradáveis, a aconselhar aos espectadores a que não se pronunciem, por ocasião do jogo. em favor de um ou de outro team. Ainda domingo ultimo, durante o torneio, deu-se, entre um dos juizes e um grupo de assistentes, lamentável incidente, tendo os espectadores imprudentes ouvido phrases pouco gentis.

Achamos justo que se formem partidos sympathicos aos teams combatentes, porém que o enthusiasmo seja sempre moderado, para honra dos jogadores. Como se sabe, em todos os matches numerosa é a assistência nos grounds, notando-se, entre ella, grande numero de senhoras e senhoritas, às quaes não se deve dar o desgosto de testemunhar discussões inconvenientes. Si fazemos esta pequena observação é porque desejamos ver o progresso do sport bretão, que está caindo no agrado da mocidade porto-alegrense".

Às 14h, os foot ballers rubros saíram em bonde expresso da sede do club, na avenida Redenção, em direção ao Moinhos de Vento. Uma hora e dez minutos depois as duas equipes cruzaram lado a lado a roleta à margem do campo e entraram no gramado, precedidas pelos respectivos presidentes e pela banda da Brigada Militar. As duas mil pessoas da assistência aplaudiram com entusiasmo. Os jogadores do Grémio ostentavam fardamento estilo inglês, com camisas metade azul, metade branca, e calções pretos, os colorados camisas listradas de vermelho e branco e calções brancos, à moda italiana. O árbitro foi Waldemar Bromberg, auxiliado por Castro Silva e Sommes (juizes de linha) e Theobaldo Foernges

e Theodoro Bugs (juizes de gol). Os juizes de gol ficavam sentadinhos num banquinho ao lado das

goleiras. Eram muito necessários por uma razão bem simples: as goleiras ainda não estavam equipadas com redes. Aí, qualquer chute que pass_ próximo às traves originava a maior discussão: foi gol, não foi. Aos juizes de gol competia deliberar acerca destas angustiantes polémicas.

Às 15h25 "foi dado o signal de kick-off", batendo na bola o center-foward Booth, do Grémio. Nos primeiros minutos, indecisão. O Grémio estudava a força do adversário. Mas logo os "porto-alegrenses", como eram chamados os gremistas, tomaram conta da partida. Aos 10 minutos. Booth marcou o primeiro gol do jogo e da história do clássico Grenal. O goleiro do Inter. Poppe II.

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A história dos Grenais

até então bem na partida, começou a dar sinais de nervosismo. Aos 20 ele tomou o segundo gol. O Grémio faria um terceiro, anulado por off-side (impedimento). O primeiro tempo terminou em 2 x 0.

Naquela época, cada tempo durava 40 minutos, às vezes só meia hora, com um intervalo de dez minutos. O primeiro Grenal teve dois tempos de 40 minutos. O Grémio voltou para o segundo período ainda mais empenhado em provar a sua superioridade. O Inter tentou dois ataques, mas, em ambas as vezes, a bola parou nas poças de lama do campo de defesa do Grémio. Aos 10, quando os gremistas ampliaram para 3

x O, os colorados mostravam-se cansados. Só osforwards Mendonça, Carvalho e Poppe I continuavam

correndo. Foi uma tranquilidade para os bem treinados e experientes jogadores do Grémio. Em 30 minutos, assinalaram sete gois. O jogo transcorreu todo no lado do campo do Internacional. Estava tão fácil que o goleiro Kallfez e os beques Deppermann e Becker passaram vários minutos conversando com os torcedores, à beira do gramado. No dia seguinte, o juiz Bromberg confessaria ter se cansado de dar a saída de jogo tantas vezes. Quando ele encerrou a partida, o placar estava em 10x0 para o Grémio.

O campo foi invadido pela torcida, que carregou os jogadores do Grémio sobre os ombros. Às 18h.

juizes, jogadores e dirigentes foram até a sede dos Atiradores Alemães, ao lado da Baixada, e lá beberam cerveja e bailaram até a madrugada. Os colorados brindaram e homenagearam os vencedores, como rezava

a boa educação, e aproveitaram a festa.

Alguns, contudo, se deixaram abater pela humilhação do primeiro Grenal. Caso do presidente João Leopoldo Seterin. Aos poucos, desanimado, ele foi se afastando do clube, dedicando-se mais ao seu trabalho na Pharmacia Fischer. No final do ano, entregaria a presidência em definitivo para Henrique Poppe. O time passou três meses sem jogar, bem próximo do fechamento. O que não ocorreu devido à fibra de alguns bravos. Com destaque para dois. dentre eles: o maragato gritão Antenor Lemos e o primeiro ídolo da torcida, Carlos Kluwe.

Médico e pecuarista. Kluwe apaixonou-se pelo futebol e pelo Internacional. Alto, com Im9()cm. forte, veloz, era um ferrenho defensor da máxima pregada por uma quadrinha repetida pelos torcedores da época:

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A história dos Grenais

"Jogador do Internacional Chuta a goal de qualquer jeito Pé esquerdo ou pé direito"

De fato, quando percebia que um companheiro de time só batia em gol com um pé, obrigava-o a subsitituir a chuteira por uma alpargata e treinar o pé esquecido.

Um sentimento especial alimentava Kluwe e Antenor e dava-lhes forças para levar o Internacional adiante: a vingança. Um dia, o Grémio teria que levar o troco daqueles 10x0.

Grémio que sequer tomava conhecimento do despeito dos colorados. Seu grande rival era o Fuss-Ball Porto Alegre, com quem disputava o chamado Wanderpreis. Mas os gremistas logo superaram o adversário. De 15 partidas disputadas com o Porto Alegre, até o dia do Grenal, o Grémio venceu dez, empatou duas e perdeu três.

Em busca de maiores glórias, o Grémio bolou, em 1910, uma proposta que daria ao futebol da capital e do estado velocidade comparável aos potentes automóveis Hudson, que chegavam a inconcebíveis 90 quilómetros por hora. Em 12 de março, o diretor de campo do Grémio, Osvaldo Siebel, apresentou a ideia de realizar um torneio entre todos os clubes da cidade, com premiação para o vencedor. Aprovada a proposta, o próprio Siebel encarregou-se de convidar as demais associações: o Fuss-Ball Porto Alegre, o Internacional, o Militar, o Esporte Clube Nacional, o 7 de Setembro e o Fuss-Ball Manschaft Frisch Auf. Este último, evidentemente, fundado pela colónia alemã. Os clubes organizaram 2 Liga Porto Alegrense de Foot-Ball, da qual Siebel foi o primeiro presidente.

Nasceu, desta forma, o vibrante Campeonato da Cidade, propulsor da nvalidade Grenal. Rivalidade cabalmente demonstrada já no segundo jogo entre os dois times. O Grémio chegou ao clássico como favorito. Vinha amassando os adversários. Suas duas últimas partidas, contra o 7 de Setembro, foram goleadas de 8 x O e 7 x l . Mas o Internacional se preparara para o jogo. Kluwe estava no time e era o maior incentivador dos seus companheiros. E Antenor Lemos, apesar de ser um jogador medíocre, ia para a Cervejaria Bopp. na Praça da

A história dos G renais

Alfândega, e de lá propalava com seu vozeirão que chegara a hora da vingança.

Na fria e ventosa tarde de 17 de julho de 1910, um domingo, os dois times se encontraram pela segunda vez. Jogo realizado no campo do Militar, na Várzea. E o Grémio enfiou 5x0. Dois destaques na partida: nas goleiras, uma engenhosa novidade redes que evitavam o bate-boca sobre se a bola entrara ou não entrara. E o grande Edgar Booth. que por duas vezes estufou a rede flamante do Internacional. Booth foi o pivô da primeira briga em Grenais. Depois de apanhar a bola no meio e aplicar dribles em toda a defesa colorada, ele acabou barrado por um violento pontapé do irritado zagueiro Volksmarm. que não aguentava mais aquela falta de respeito. Fechou o tempo. Jogadores das duas equipes trocaram tapas e por pouco o jogo não foi encerrado ali mesmo.

A

vendeta do Inter foi adiada.

O

Grémio ainda enfiou 15 x O no Nacional, venceu todos os outros jogos com facilidade, mas foi

derrotado pelo Militar por 4 x 1. O título ficou com o Militar, que fechou naquela mesma temporada. O ano

seguinte, 1911, trouxe um Grémio ainda mais forte. Diretamente da Alemanha chegaram Bruno Schuback c Gustavo Mohrdieck. A dupla foi acoplada de imediato na zaga gremista e fechou o gol de Teichmann. Na frente entrou o carioca Edwin Cox, ex-jogador do Fluminense, driblador infernal, que chegou não só para fazer companhia a Booth, mas também para ensinar aos novos colegas sutilezas do futebol até então desconhecidas no Sul. Foi Cox, por exemplo, quem convenceu os dirigentes gremistas que o time deveria ser

escalado pelos jogadores, nos treinos, e não nas reuniões de diretoria. Eleito capitão, era Cox, agora, quem divulgava as escalações.

Foi Cox também o autor de um assombroso gol de "charles" no Internacional, em 18 de junho. Era

o terceiro Grenal, jogo muito esperado por torcedores e pela imprensa. O juiz Teobaldo Foernges chegou a

importar uma refulgente jaqueta da Alemanha especialmente confeccionada para jogos de futebol. O Internacional vinha se apresentando bem e muita gente garantia que, desta vez. a história seria diferente.

Não foi. Terminou sendo até pior. Abaixo de muita chuva, o Grémio venceu por 10 x 1. Pelo menos

o Inter marcou o seu gol de honra, autoria do

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A história dos Grenais

ponta-esquerda Vinholes. Nada que servisse de consolo para o amargurado Carlos Kluwe, que decretou:

Só posso deixar essa coisa de futebol depois de uma vitória sobre o tal de Grémio. E das grandes!

Enquanto Kluwe, Lemos e seus companheiros juntavam os cacos, o Grémio passava sobre os adversários como uma locomotiva. Sagrou-se campeão da cidade de forma invicta. Imprensa e torcida despetalavam-se em elogios à dupla Schuback e Mohrdieck. Eram zagueiros tão bons que, quando Viana, do 7 de Setembro, assinalou um gol no Grémio, foi carregado nos ombros dos torcedores ladeira acima. Isso que o Grémio venceu o 7 de Setembro por 10x1!

Não seria o solitário gol de Vinholes no Grenal, porém, a contentar Antenor Lemos. Não suportando ver o Grémio campeão, ele, pela primeira vez na história do futebol gaúcho, recorreu ao Tapetão, a Justiça Desportiva. Alegando que o meia Moreira viera de Pelotas depois de iniciado o campeonato, Lemos contestou o título gremista na Liga, mas foi derrotado. Outra novidade do campeonato de 1911 foi a cobrança de ingressos. A entrada para o Grenal valeu 500 réis, gerando revolta entre os torcedores. A direção do Grémio explicou que só tomara a medida por estar gastando muito na construção do novo pavilhão da Baixada. Nos anos posteriores, entretanto, a cobrança de ingressos foi institucionalizada.

O futebol, portanto, deixou de ser a distração de alguns rapazes da elite e transformou-se em espetáculo. Com mais de 130 mil habitantes, Porto Alegre era uma capital repleta de boas opções. A sensação eram os cinematographos. Em 23 de junho de 1912, dia do Grenal número quatro, o Cinema Odeon exibiu uma programação dividida em quatro partes, a começar pelo Gaumont Jornal. com notícias do mundo, principalmente de Paris. Em seguida, Dor de Chopin "sentimental film dramático, phantastico, com 460

metros de extensão". Na sequência, Sonoras

Bofetadas "hilariante film cómico, com Procópio (o

gordo)" e, por fim. Amor de Sereira "mimosa scena mythologica de interessante enredo e impecável desempenho".

Inúmeros porto-alegrenses saíram de casa para ir à matinée daquele

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A história dos Grenais

domingo, às 15h, ou para assistir ao Grenal, na Baixada, meia hora depois. É que, apesar de junho estar nos seus últimos dias, os gaúchos foram brindados por um agradável veranico fora de época, com a temperatura oscilando languidamente entre os 19 e 20°C.

Alguns preferiram o recôndito do lar: os mais abastados, proprietários de gramophones da acreditada Casa Faulhaber, do Rio de Janeiro, correram à Casa Eléctrica de Saverio Leonetti, na Rua da Praia. 302, perto da Rua de Bragança, que havia recebido uma série de discos nacionais. Coisa fina mesmo, como as polkas Zezé e Quiproquó, as valsas Perigosa. Flor de Maio, Oracélia, Beliza e Implorando, os schonisch Não me olhes assim. Maninha, Lúcia, Martyr do Amor e Mysterios do Coração, os tangos Chica Chie e Morena e a mazurka Flora da Madrugada.

Mais de mil pessoas preferiram não ficar em casa ouvindo essas belezas, tomaram os bondes da linha Auxiliadora e foram ao Fortim da Baixada, assistir ao match Grémio versus Internacional. O jogo prometia. Os colorados ansiavam por uma vitória contra o campeão. No início da partida, ninguém poderia prever quem seria o vencedor. Os dois times estavam nervosos e jogavam muito mal. Até que. aos 15 minutos, o atacante Galvão sofreu uma luxação num dos braços e foi retirado de campo. Não eram permitidas substituições. Se um jogador se lesionasse, ficava em campo machucado mesmo ou deixava seu time com dez. O Inter ficou com dez. E ficou desnorteado. O Grémio passou a dominar e os colorados reagiram com violência. Os jogadores "mimosearam-se com pontapés à inglesa", na expressão do cronista do Correio do Povo da terça-feira seguinte (não havia edições às segundas). A pena irónica do redator do Correio mostrou quanto o jogo o desagradou: "Si não fosse, no segundo tempo, o estridente trilar do apito do referée, de momento a momento, punindo corner, hands, full, etc, as centenas de espectadores que cochilavam ao redor do ground teriam dormido a somno solto".

Exagero do jornalista. Ou talvez ele torcesse para o Inter. Foram marcados seis gois no Grenal número quatro. Os seis do Grémio.

O Tricolor estava irresistível no campeonato de 1912. Schuback e Mohrdieck rebatiam todas atrás com os seus famosos "shoots à hamburguesa".

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A história dos Grenais

Cox e Booth, na frente, enlouqueciam os zagueiros inimigos. Em 25 de agosto, o desventurado Sport Club Nacional atravessou-se no caminho do Grémio e foi triturado: 23 x 0.

Em 15 de setembro, dia do aniversário do Tricolor, foi a vez do Internacional defrontar-se de novo com este terrível inimigo. O jogo foi disputado na Baixada em obras. O novo pavilhão deveria ter capacidade para 500 pessoas e um custo final de 10 contos de réis. O Inter não respeitou as credenciais do adversário nem o dia de festa. Começou ganhando, com um gol de Galvão logo no primeiro minuto. Kluwe pulou de alegria. Poderia ser aquele o dia em que, finalmente, derrotaria o tal de Grémio. Mas não foi. Booth, novamente, converteu-se no carrasco do Internacional. Marcou dois gois, o último com uma cocada ou cabeçada, como se diz hoje , e virou o jogo. O Grémio conquistou o bicampeonato invicto.

Apesar da derrota, os colorados não ficaram tão abalados desta vez. Dois a um não era cinco, seis ou dez. Quem sabe no próximo Grenal Kluwe alcançaria a sua vingança e poderia deixar, satisfeito, "essa coisa de futebol"?

O Grenal seguinte ocorreu em 8 de julho de 1913, na primeira rodada do Campeonato da Cidade. Uma genuína tarde gaúcha de julho, fria-e cinzenta. Pareceu ficar ainda mais fria para os jogadores por um

motivo prosaico: o juiz escalado para a partida não compareceu. O nome do árbitro gazeteiro perdeu-se na história, bem como o de seu substituto, arregimentado da assistência da Chácara dos Eucaliptos meia hora depois de os atletas entrarem em campo. Sabe-se apenas que foi um sócio do E.C. Colombo. O Grémio venceu de novo: 2 x 1. A vitória deu a impressão de que o clube do Moinhos de Vento arrancava para mais

um título. Mas depois de derrotar o Frisch Auf por 4 x 0. em 29 de junho, no seu segundo jogo pelo certame,

o Tricolor desentendeu-se com a Liga e simplesmente abandonou o campeonato.

Instaurou-se a maior confusão. O Inter continou jogando e se proclamou campeão. O Grémio liderou a formação de uma nova Liga e também proclamou-se campei». Em 1913, portanto, Porto Alegre teve dois campões ao mesmo tempo. A situação não mudou nos anos seguintes. Grémio e Internacional ficaram quase três anos sem se enfrentar. declarando-se campeões de suas ligas e menosprezando o título do adversário.

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A história dos Grenais

Os torcedores trocavam provocações nas ruas e nos cafés. Os gremistas diziam que o Inter só conquistara seus títulos porque não enfrentara o Grémio, de quem os colorados jamais haviam arrancado um empate. Os colorados respondiam que a situação mudara, que o Internacional estava mais forte e que venceria o Grémio, se os dois se defrontassem.

Os times não precisavam entrar em campo para a rivalidade se aguçar. Romantismo e desorganização na infância do futebol gaúcho.

Romantismo que pairava como um halo sobre Porto Alegre, cidade cheia de damas e cavalheiros no footing da Rua da Praia, à tardinha, mas com seu lado lascivo emergindo, ofegante, suarento e debochado, quando a lua surgia sobre o Guaíba. O jornal O Independente registrou, já em 1901, sua preocupação com

a faceta boémia da capital gaúcha num esclarecedor artigo intitulado A Noite:

"Porto Alegre, à noite, não resta dúvida, já tem foros de uma grande capital, movimentada e perdida. A mocidade libertina, de bordel em bordel, atravessa uma noite inteira, levantando brindes obscenos, mostrando no dia seguinte apenas o sulco fundo das olheiras roxas, attestado fatal de uma orgia onde embriagou-se e cavou com suas próprias mãos mais uma cova onde serão enterradas as ilusões de sua vida inútil e rápida.

Ao lado das prostitutas, gosando beijos e affagos mercenários, sem a ref-flexão precisa para evitar tamanho mal, encontra-se o moço e o velho libertino, trocando phrases indecorosas, tresandando a cachaça, vinho e cerveja barata, no mais completo bem estar deste mundo.

Numa verdadeira romaria de perdição vê-se mulheres moças, perdidas, famintas, de tasca em tasca,

que, em troca de instantes de prazeres, exigem, para matar a fome que as devoram, bifes com batatas regados

a vinho entragavel.

E, para reter a freguezia. o tavemeiro destas casas infamantes que a policia devia prohibir, tem lá dentro dois ou trez typos que. assastando a língua, gritam e berram a 'pallida madona' e quejandas, ao som desafinado de um violão de pinho ordinário. Após cada cantiga, do meio delles, surge uma horizontal indecente, cheirando a remédios, de pires em

punho, esmolando dos convivas uma moeda de 100 reis. E, deste modo, vae vivendo a canalha vagabunda, explorando a bolsa alheia e inexperiente".

A história dos Grenais

Durante o dia, antes de levantar brindes obscenos de bordel em bordel, a mocidade reunia-se nas pharmacias para conversar. Uma dessas "rodas de palestra", frequentada tanto por boémios como por próceres da comunidade, terminou sendo fatal para um dos mais ilustres líderes do estado, o senhor Francisco António Caldas Júnior, proprietário do Correio de Povo. Estava ele. numa tarde do início de março de 1913, na Pharmacia Fischer, do seu amigo Cristiano Fischer. Apareceu, então o doutor Bulcão, outro amigo, com a última descoberta da medicina: uma injeção de 606, preparado à base de arsénico, elaborado de acordo com o eficiente método alemão de purificação do sangue. Os amigos se entusiasmaram. Decidiram, todos, experimentar a tal injeção. Menos Caldas Jr. Não gostava dessas coisas. Os outros insistiram, insistiram, insistiram e ele cedeu. Tomaria a tal injeção. O doutor Bulcão advertiu:

É possível que você tenha febre ou uma reação qualquer. Se você tiver essa reação, vai para casa, deita, bota uma botija nos pés que amanhã está bom.

Caldas Jr. telefonou para a esposa, Dolores Alcaraz Caldas, e pediu que ela preparasse uma botija e a cama. Mas não sentiu nada. No dia seguinte, avisou ao doutor Bulcão que a injeção não funcionara, seu sangue devia estar tão smpuro quanto antes. O médico decidiu dar-lhe uma nova dose. Reforçou o preparado e aplicou. Caldas Jr. não só teve a reação como entrou em coma. Passou 40 dias delirando e morreu a 9 de abril de 1913, aos 44 anos.

Tempos de medicina precária, quase curandeirismo. A Cerveja Negrita. de Bopp Irmãos, para se ter ideia, era "especialmente recomendada aos que sofrem do estômago, aos convalescentes e às excelentíssimas senhoras no período de amamentação". Anúncios de panaceias milagrosas não faltavam nas páginas cor-de-rosa do Correio: "Um bom e útil conselho aos que soffrem de qualquer dysenteria ou diarhea sanguínea recente ou antiga: toma o Antidysenterico Martel que vos curará em poucos dias". Galactogenio era a salvação das mães que queriam amamentar seus filhos e não tinham leite. As moças usavam água da Sultana nas cores rosa ou branca para tirar sardas, pannos. darthros. espinhas e todas as manchas da pelle. "Contra bichas", no entanto, "só óleo de Santa Maria". Eram comuns anúncios como "A gonorrhéa de um marcineiro". tendo

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A história dos Granais

abaixo um texto em tom aliviado: "Agradeço a vossa senhoria o benefício que me fez o vosso precioso preparado Serum Gonno. Sofrendo há quatro annos de uma terrível gonorrhéa, só consegui allívio e uma cura radical depois que usei esse famoso preparado". Não havia antibióticos ou anestesia, gonorréias duravam quatro anos e moma-se de peste bubônica. obrigando os fiscais da Saúde a sair de casa em casa. distribuindo veneno para ratos.

Mas na Europa ocorria um conflito que forçaria o mundo a mudar. A 1 a Guerra Mundial podaria a vida de milhares de pessoas nas trincheiras geladas do Velho Mundo, deslocaria o eixo do planeta de Paris para Nova Iorque e impulsionaria invenções e transformações sociais. Em 24 de maio de 1925, o articulista João Grave, do Correio, escreveria, com certo parnasianismo e nostalgia, sobre A Timidfz na Sociedade

Actual: "Observadores subtis, commenta-dores da vida que sem repouso passa, levando na corrente mysteriosa o tempo e as folhas de rosa e transformando a cada momento os seus scenarios, afirmam já que. sobretudo nos grandes e confusos centros de população, a timidez que foi outrora um dos maiores encarto* femininos está em perigo".

O futebol também estava mudando, tomando conta do gosto da maioria da população e. aos poucos,

se profissionalizando. Grémio e Internacional não eram mais só de seus associados. Havia torcedores a se dar satisfações. Por isso. eles não podiam mais adiar o duelo, apesar de prosseguirem teimando com o rompimento. Ainda em meio à Guerra, em 31 de outubro de 1915, foi realizado o amistoso de tira-teima.

Eram times diferentes. O Grémio não tinha mais Booth, Cox ou Schuback. Mohrdieck continuava firme na defesa. No Inter. Kluvve. tristemente, pendurara as chuteiras sem cumprir a promessa de derrotar o rival. Outros craques despontavam no Colorado: o centroavante Hedionda e o ponteiro-esquerdo Vares. O Internacional, sobretudo, estava mais confiante, depois dos títulos conquistados na ausência do arquiimmigo

O jogo foi disputado na Baixada. Adultos pagaram dois mil réis, crianças, mil. Durante toda a

semana ficou exposta, na Joalheria Diehl, uma plaqueta que seria dada ao vencedor. A entrada dos jogadores em campo, as mulheres gremistas com vestidos azuis, coloradas com vestidos vermelhos

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A história dos Grenais

acenaram graciosamente com lenços brancos. Os atletas foram cobertos de con-fctes e serpentinas. O juiz, tenente Aristides Prado, deu a saída de bola. Aí terminou a cortesia.

Jogo violentíssimo. O Inter atacando sempre, Mohrdieck limpando a área i.:- Grémio. Faltando dois minutos para terminar o primeiro tempo, o ponteiro-dÉreito colorado, Túlio, cobrou escanteio e colocou a bola na área do Grémio. Os zagueiros tentaram tirar com cocadas, mas não foram bem-sucedidos. A -via sobrou para Miiller, que marcou l x O para o Inter.

No intervalo, os colorados foram cobertos de flores e confetes atirados pelas mulheres, enquanto os homens carregavam Miiller em triunfo. Ainda havia, porém, todo o segundo tempo e o Grémio teria o vento e a tradição ao seu favor. Talvez ninguém tenha avisado Bedionda de nada disso. Aos quatro minutos, ele desrespeitou o velho inimigo e, com uma violenta cocada, ampliou para 2 x 0. O Grémio se perturbou. Os colorados continuaram dominando. Aos ?0. Túlio avançou pela direita, chutou, a bola bateu na trave e entrou. Antenor Lemos gritava, Kluwe sorria e fechava os punhos fortemente. Aos 38, o Grémio rregou-lhes um susto. Sisson decontou. Logo em seguida, no entanto, aos 42, Bedionda marcou o último: 4 x l para o Internacional.

Está quebrado o lacre! Está quebrado o lacre! Demorou seis anos! Berrava Antenor Lemos, emocionado.

Carlos Kluwe abraçava os jogadores, alguns cobertos de flores pela torcida, outros carregados nos ombros. Kluwe só lamentava não ter sido um deles naquela partida histórica.

O Inter manteve a superioridade no ano seguinte. Os dois voltaram a disputar o Campeonato da Cidade

e o Colorado foi campeão. Os Grenais? Bem. no primeiro, em 30 de julho, o Internacional venceu por 6 x 1.

O ponteiro Vares logou como se estivesse possuído e marcou seis gois. Scalco descontou para o Grémio. No

segundo, em 29 de outubro, o Inter venceu por 3x2. Em 1917. o Grémio rompeu mais uma vez com a Liga, passou o ano fazendo amistosos e o Inter foi campeão.

O ano de 1918 chegou trazendo amplas mudanças para o futebol gaúcho. Em maio, foi fundada a

Federação Rio Grandense de Desportos, que reuniu

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A história cios G renais

Grémio, Inter e os demais clubes para organizar um campeonato estadual. O campeonato não chegou a ser disputado por uma razão que hoje soaria no mínimo curiosa: por causa de uma gripe.

Não uma gripe qualquer. Era a aterradora gripe espanhola. Na Europa, dizia-se, a espanhola causara mais mortes do que a Guerra. No Brasil, uma das vítimas fora o próprio presidente da República. Rodrigues Alves, morto a 16 de janeiro de 1919. antes de tomar posse.

Naquele ano atípico, o campeão da cidade não foi o Grémio nem o Inter. Foi o Cruzeiro. Aconteceram dois Grenais. A 19 de maio, o Inter venceu por 5 x 3. Era a quarta vitória consecutiva dos colorados. O Grémio não ganhava desde 1913. Era demais para os orgulhosos tricolores. Algo devia ser feito com urgên- cia. Algo que os colorados, claro, tentariam evitar. Com a rivalidade acirrada, cortante como o vento luánuano. os dois entraram no gramado da Baixada em 4 de agosto para diitpWar uma guerra que horrorizaria o Kaiser Guilherme II, na conflagrada Alemanha, se de a houvesse assistido.

O jogo começou violento, como sempre. O Grémio um pouco melhor. O zagueiro uruguaio Gariboni

mjurmi o primeiro gol para os tricolores. E o último. Estava l x O quando a bola saia pela lateral. Os jogadores passaram a discutir quem teria direito â reposição. Não havia fosso separando a torcida do gra- mado, nem cães pobciais a repelir invasões. De repente, estourou uma briga entre jogadores doiakTe torcedores do Grémio. Foi o início de um tumulto que resultou em cerca de 100 feridos e um preso. Torcedores, jogadores c dirigentes se agrediram a socos, punupés c bengaladas.

Até que o senhor Manoel Gosta, empregado da Empresa Telefónica Rio-Grandense, sacou de uma faca e com da riscou o ar, ameaçador, prometendo ferir quem se aproximasse. O meia Ribas, do Internacional, tentou contê-lo. Seria o último Grenal de Ribas. Manod Costa enfiou 15 centímetros da lâmina na região ilíaca do jogador. Assustado, o jovem Octávio Telles de Freitas pulou para desarmar o funcionário da Telefónica e também foi ferido na perna esquerda. Soldados da Brigada acorreram e não conseguiram deter o valentão. Ele só entregou a faca ao presidente da Federação, o gremista Aurélio Py. O chefe de Polícia Ariosto Pinto, finalmente, colocou Manoel numa viatura para levá-lo

A história dos Grenais

rreso. Os torcedores não deixaram o carro sair. Queriam linchar Manoel Costa. Após muitas negociações, os policiais conseguiram levar o detido. Mas, na saída do estádio, populares apedrejaram a viatura, ferindo Ariosto na cabeça e Manoel na perna esquerda. Enquanto isso,-Ribas dava entrada na Casa de Saúde. Em seguida, foi cloroformizado e operado pelos médicos Moisés de Menezes e Bernardo Velho.

O Grenal não terminou. Restou o l x O para o Grémio e muito rancor de parte a parte.

Na Europa, terminava a Guerra. Iniciava-se a era das melindrosas, do charleston e do foxtrote. Iniciava-se a era do Campeonato Gaúcho. Seria impossível realizar um campeonato extenso, penteado de viagens, como ocorreria décadas depois. Havia muitas dificuldades de transporte. Alguns anos antes, os

Automóveis Humber foram testados nas estradas gaúchas e aprovados com excelentes resultados: a distância entre Porto Alegre e Santo António da Patrulha foi percorrida em quatro horas, de Porto Alegre a Itapuã em duas horas, de Pedras Brancas a Pelotas em 16 horas.

A fim de evitar os intermináveis e desgastantes deslocamentos, a Federação montou um campeonato dividido por regiões. O campeão de Porto Alegre, portanto, disputaria com os de outras regiões.

Naquele ano de 1919 o Grémio começaria a construir uma equipe memorável, um time que não perderia nem empataria Grenais durante cinco anos. Antes que esta saga começasse, porém, havia uma injustiça do destino a ser corrigida. Carlos Kluwe, há quatro anos afastado dos gramados e atual diretor de futebol do Colorado, ainda não conseguira vencer um Grenal como jogador.

Em 20 de julho, ele teria sua chance. O centroavantc titular, Bedionda. estava lesionado. Kluwe nem centroavante era. Jogava na linha média. Associados e torcedores, contudo, fizeram abaixo-assinados pedindo que ele entrasse no time. Tanto insistiram que Kluwe aceitou. Afinal, tinha apenas 27 anos e não se sentia fora de forma. Pois Kluwe jogou, marcou um gol e o Inter venceu por 2x0. Foi a consagração de um emblema do Internacional do passado.

Depois dos 2 x O da vingança de Kluwe. o Inter ingressou no purgatório.

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A história dos G renais

do qual só sairia em 1927. Pudera: o Tricolor montou urna seleção. Logo no segundo Grenal de 1919 entraram no time três titãs: o back Jorge Tavares Py (filho do presidente Aurélio Py). o half-direito Assumpçao e o center-forward Lagarto. Assumpçao jamais perdeu um Grenal. Lagarto era um artilheiro predestinado. Jogou na Seleção Brasileira num tempo em que só cariocas e paulistas eram convocados. Lagarto fez um dos gois na vitória de 3 x 2 do Grémio no Grenal que deu ao clube o título de campeão da cidade de 1919.

Py, Lagarto e Assumpçao eram muito bons. Só que os melhores ainda estavam por vir. Os anos 20 cederam três lendas ao Grémio: o centroavante Luiz Carvalho, conhecido como O Rei da Virada, o meia esquerda Osvaldo Rolla, o Foguinho. que entrou no time mais tarde, a partir de 1928, sendo, depois, juiz. comentarista e um revolucionário técnico de futebol. E, principalmente, o goleiro Eurico Lara.

No final dos anos 20. o jornalista Ivo dos Santos Martins, do Correio do Povo. fez uma extensa entrevista com Lara. O goleiro narrou a singular história de sua contratação pelo Grémio c de como começou a jogar no gol. A matéria nunca foi publicada, l o abandonou o jornalismo, tornou-se promotor, mas jamais esqueceu a conversa com o legendário goleiro do Grémio.

Lara contou a Ivo que. aos 22 anos de idade, em 1920, aluava na ponta-esquerda de um tinte da soa terra. Uruguaiana. Um dia. o goleiro titular se machucou. Não havia reserva disponível Como ele tinha quase dois metros de altura, seus companheiros pediram que fizesse um sacrifício e fosse para o gol. Prestativo. Lara aceitou. A equipe adversária era muito forte e amassou o seu time. Mas não venceu. Lara não deixou. Passou o jogo inteiro rebatendo "shouts" e cocadas aparentemente indefensáveis. Na assistência, boquiaberto e de olhos arregalados, estava Máximo Laviaguerre. centroavante do Grémio. Profundamente impressionado. Máximo voltou correndo a Porto Alegre e declarou aos dirigentes gremistas:

Em Uruguaiana há um goleiro que. quando joga, o seu time não perde!

Os dirigentes chamaram Luiz Assumpçao e

o incumbiram de contratar

aquele

fenómeno.

Assumpçao foi a Uruguaiana certo de que iria fazer um

A história dos Grenais

jovem atleta muito feliz. Enganou-se. Lara não queria sair da sua cidade. Assumpção fez mil propostas e não adiantou. Lara continuava irredutível. Os dirigentes do Grémio resolveram apelar para o prestígio político do clube. Como Lara estava servindo ao Exército, os dirigentes deram um jeito de arranjar a sua transferência para Porto Alegre. Desesperado, o goleiro chegou a simular uma doença e baixar à enfermaria para anular a transferência. Não teve jeito.

Ao chegar a Porto Alegre. Lara foi recebido por uma multidão, na Estação Ferroviária. Aí mesmo é que se assustou. Percebeu a responsabilidade que lhe era jogada nas mãos. Mãos, por sinal, que permaneciam fechadas quando ele jogava. Inexperiente, diamante bruto, Lara rebatia a bola a socos. Vendo outros goleiros jogar, na Capital, é que aprendeu: Ah, a gente tem que agarrar a bola!

Ninguém agarraria a bola como ele. No início do século, o futebol era muito mais violento. Os atacantes chutavam a bola mesmo quando ela estava em poder do goleiro, tentando colocá-la nas redes com adversário e tudo. Pois Lara, após encaixá-la, não largava mais, mesmo sendo chutado e empurrado. Era magérrimo, mãos enormes, braços longos. Em 1923, os torcedores paulistas riram ao ver entrar no gramado do Parque Antártica aquele goleiro esquisito de caminhar lerdo e desconjuntado. Então era com aquele mongolão que a Seleção Gaúcha queria parar o arrasador ataque da Seleção de São Paulo? Um ataque com Formiga, Neco, Tatu, Rodrigues e, sobretudo, com Friedenreich, El Tigre!

Depois de iniciado o jogo, os risos cessaram. Logo no primeiro minuto, o juiz marcou um pênalti para os paulistas. Fried ajeitou a bola. El Tigre jamais perdera um pênalti. Correu e bateu com a força costumeira, no canto esquerdo. Lara voou, os braços esticados, e. como uma pantera, enroscou-se na bola. Estupor no campo e nas arquibancadas.

Minutos depois, Fried invadiu a área sozinho, levantou o pé e, quando ia desferir a bomba, viu a bola sumir como se fosse feitiço. Olhou adiante e lá estava ela, entre as grandes mãos do bruxo Lara. O meia Neco. sorrindo, estendeu a mão direita a Fried:

Meus pêsames.

No segundo tempo, porém, foi a vez de Neco entrar livre na área. Mais

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A história dos Grenais

uma vez, Lara roubou a bola e os aplausos da torcida. Fried deu o troco. Cumprimentou Neco, sardónico:

Meus pêsames.

Lara defendeu nada menos do que 20 chutes, mas os paulistas eram muito superiores e venceram por 4 x 2. No final do jogo, contudo, foi o goleiro do Grémio quem saiu carregado nos ombros e ovacionado pela torcida.

Além de ser um goleiro inigualável. Lara impressionava pelo seu caráter. Era tão correto e honesto que quando duas equipes iam disputar um jogo muito importante, para o qual se previam dificuldades de arbitragem, ele era convidado para ser juiz. Os adversários e os companheiros o respeitavam. Se tomasse

um gol feito de forma ilegal, provocava a interrupção da partida, conversava com o atacante e o obrigava a confessar a falta ao juiz.

Jogou 16 anos no Grémio, foi 11 vezes campeão da cidade, cinco vezes campeão estadual e quatro vezes vice. Morreu jogando no Grémio, aos 37 anos de idade. Tomou-se um mito. Dizia-se pelo estado que Lara morrera ao defender um pênalu batido peio próprio irmão o chute, violentíssimo, teria lhe arrebentado o coração gicmista.

Na década de 20. ninguém, no país. falava de "Lara, o goleiro do Grémio". Falava-se, srai. de 'Grémio, o clube de Lara". O goleiro foi imortalizado por Lupicínio Rodrigues na letra do próprio Hino do Grémio. Uma estrofe

canta:

"Lara. o craque imortal

Soube o teu nome elevar

Hoje com o mesmo ideal

Nós saberemos te honrar"

No museu do Grémio, no Estádio Olímpico, estão expostos um relógio que o clube ofereceu ao goleiro, a bola da sua última partida e a máscara mortuária do seu atleta-símbolo.

Com Lara, Luiz Carvalho. Lagarto. Py e Assumpção, o Grémio foi pen-tacampeão da cidade, de 1919 a 1923. Perdeu o título em 1924 para o Americano e reconquistou em 25 e 26. Anos medonhos para

o

Internacional. De setembro de 1919 ao final de 1926 foram disputados 11 Grenais o Grémio venceu oito,

o

Inter apenas um.

A história dos Grenais

O Colorado penava há nove anos. Pior: o Grémio chegara às finais de iodos os campeonatos gaúchos e agora jactava-se de glórias estaduais. O r-jolor foi bicampeão do Estado em 1921 e 22 e campeão em 1926. De agosto _; '.420 a setembro de 1923 ocorreu outro hiato. Grémio e Internacional tsnperam de novo e passaram três anos sem se enfrentar. Para aumentar a con-fu>lo. em 1923 e 1924 não houve campeonato estadual. Houve uma revolução. ,

Os maragatos liderados por Joaquim Francisco de Assis Brasil, candidato a presidente do estado pela Aliança Libertadora, contestaram a vitória do candidato da situação, António Augusto Borges de Medeiros. Afirmavam que Borges de Medeiros elegera-se pela quarta vez consecutiva mediante a fraudes. Montaram em seus cavalos, carregaram seus fuzis e partiram para a luta.

Não foi uma revolução cruenta como a de 1893, quando os combatentes não faziam prisioneiros degolavam-nos. Em 1893 foram mortas mais de dez mil pessoas, em 1923 cerca de mil. Mas os lenços brancos e vermelhos estavam em luta novamente e ninguém se arriscaria a sair por estradas conflagradas por causa de um jogo de futebol. Por isso, nem depois de assinado o Pacto de Pedras Altas, pondo fim à revolução a 15 de dezembro de 1923, o campeonato restabelecido. Os dirigentes da Federação temiam que chimangos e mara-:>s ainda estivessem a dar os últimos tiros pelas coxilhas e preferiram suspender também

o certame de 1924.

No retorno, em 1925, o campeão foi o Bagé. O primeiro campeão gaúcho havia sido o Brasil de Pelotas, em 1919, e depois dele Guarani de Bagé, clube dirigido por Oswaldo Aranha, futuro ministro da fazenda e presidente da Assembleia Geral da ONU Organização das Nações Unidas.

Os times do interior continuariam a ser páreo duro para os da Capital até que o Inter se apercebesse da fonte de força destas equipes: nelas, qualquer um jogava, fosse branco, preto, amarelo, pobre, rico ou remediado. O Guarani de Bagé foi o primeiro clube de futebol do Brasil a ter jogadores negros. Antes mesmo do Vasco da Gama, considerado oficialmente como o primeiro a desafiar o preconceito de cor, em

1923.

Nos times do interior aluavam jogadores de todas as raças e classes sociais. Aluavam, inclusive, jogadores do Uruguai, país com um futebol bem mais

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A história dos Grenais

desenvolvido, que seria campeão olímpico em 1928 e o primeiro campeão mundial, em 1930. A força dos uruguaios fora sentida amargamente pelo Internacional em 1916. Julian Bertola. centromédio da seleção uruguaia, "enamorou-se" pelo Grémio após enfrentar a equipe porto-alegrensc. Mudou-se para o Rio Grande, ingressou no clube e ainda trouxe outros três craques com ele: Eduardo Behegaray, também da Seleção. Eduardo Garibotti, autor do gol do Grenal que não acabou, em 1918, e Nicanor Rodrigues. Os quatro faziam do Grémio um time de quilate muito mais alto. O Internacional protestou contra a inclusão dos quatro na equipe do Grémio e por isso o Tricolor rompeu com a Liga em 1917.

Pois nos times do interior aluavam muitos uruguaios, negros e pobres, enquanto que nos da capital só moços das boas famílias de Porto Alegre. Até mesmo a chegada de Lara ao Grémio provocou certa desconfiança por ser o goleiro de origem humilde. Os negros jogavam em sua própria associação, a chamada Liga da Canela Preta.

Nos anos 30, o Internacional passou a buscar os jogadores que se destacavam na Liga da Canela Preta e assim montou o seu supertime, o Rolo Compressor.

Em 1926, porém, o Colorado mal rompera com o preconceito. Não passava de uma equipe de branquelos enfrentando dificuldades sobre-humanas nos Grenais. Na frente, o Inter parava em Lara. Atrás, tinha que parar Luiz Carvalho. Habilidoso, veloz, artilheiro de nascença, Luiz Carvalho chutava a bola como ela viesse, quadrada ou redondínha. rasteira ou aérea. Nos Grenais o Inter designava um jogador especialmente para marcá-lo, estratégia absolutamente nova nos anos 20. A tática de jogo ainda era a inventada em 1880 pelo clube inglês Nottinghan Forest dois zagueiros, três médios e cinco atacantes. Só depois de 1930 que o inglês Herbert Chapman criaria o WM. pai dos modernos esquemas de jogo. Estabelecer um sistema de marcação só para anular um jogador parecia, portanto, inconcebível.

Não para os colorados. A cada Grenal. Luiz Carvalho lembrava-lhes a humilhação que sofrera no início da carreira. O jovem Luiz fora fazer um teste na Chácara dos Eucaliptos, sede alugada pelo Internacional em 1912. e acabou reprovado.

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A história dos Grenais

- Vai embora que tu maltrata a bola, guri teriam lhe dito os diri-.:".es do Inter.

Um gremista, no entanto, observava o treino e o enxergou com outros : ; .'no>. O centroavante Lagarto correu à Baixada e recomendou:

-Busquem o rapaz que ele é bom.

Mais do que bom, Luiz Carvalho era ótimo. A ponto de, em 1923. ganhar i posição de Lagarto.

Luiz Carvalho só pendurou as chuteiras aos 35 anos de idade, em 1938. ipós perder um Grenal amistoso por 6 x O, o Inter já querendo armar o Rolo Compressor.

Uma carreira como aquela não poderia terminar em derrota. O destino se encarregaria de reescrever o final. Em janeiro de 1940, o Independiente, bicam-7>eão de Buenos Aires, fez uma excursão pelo Brasil. Tratava-se de um timaço. Seus jogadores ficaram conhecidos como maestros. Começaram a excursão por Rio

e São Paulo e venceram todo mundo por lá. Invictos, desceram ao Rio Grande do Sul para enfrentar o

Grémio. No início do jogo, fizeram l x O e prosseguiram em vantagem no marcador até que, para surpresa e júbilo da torcida, Luiz Carvalho entrou em campo com a camisa Tricolor. Resultado: 2 x l para o Grémio, com um gol de Luiz Carvalho. No dia seguinte, o Correio do Povo mancheteou: "Só se viu um maestro em campo e era Luiz Carvalho". A rartir de então, ele passou a ser conhecido como El Maestro.

No embalo, El Maestro decidiu continuar jogando só para terminar com uma vitória sobre o Inter. Foi

o que fez: atuou no Grenal de 13 de fevereiro de 1940. ajudou o Grémio a vencer por 4 x 2 e a conquistar o

Campeonato da Cidade de 1939. E encerrou a carreira. Mas Luiz Carvalho não abandonou o futebol nem o seu clube do coração. Em 1974 e 1975 ele chegaria à presidência do Grémio. Passou a vida dentro do clube e em nenhum momento, mesmo após instalado o profissionalismo, aceitou dinheiro para jogar futebol.

Com Luiz Carvalho no auge da carreira, o Internacional tinha muito a :emer naquele Grenal de 27 de junho de 1926. Já estava decidido: o centromé-dio Lampinha ficaria encarregado de anular o centroavante do Grémio, de persegui-lo por todo o campo da Chácara dos Eucaliptos.

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A história dos Grenais

Um empate vinha bem. O Inter somava sete pontos, o Grémio seis. Na Chácara dos Eucaliptos havia treino quase todos os dias e o retrospecto recente parecia indicar que a situação talvez estivesse mudando. Os dois últimos Grenais, em 1925, terminaram empatados. Num deles, a 11 de outubro, o Inter foi nitidamente melhor. Passou o jogo inteiro atacando e chutando a gol. Lara pegou todas. O meia Geny. do Inter. cansou a perna de tanto bater a gol e os olhos de tanto ver Lara defender. Os torcedores colorados se desesperavam.

Como é. Geny 1 Como é? E o gol. Geny? Berravam, impotentes,

das arquibancadas. Geny virou-se. aflito, estendeu os dois braços para Lara e

gemeu:

Ele não deixa!

No final, empate em 2 x i com um gol de Luiz Carvalho.

Agora, no primeiro Grenal de 1926. o empate era bem-vindo. A cidade se mobilizava para o jogo. Na sexta-feira à noite, ante-véspera da partida, o repórter Ivo dos Santos Martins, o mesmo da entrevista com Lara, ruminava um problema. Sentado à mesa do Café Colombo com os gremistas Armando Siaglia e Luiz

DaudL Martins lamentava-se da sorte por um motivo um tanto prosaico. Redator de esportes do Correio, ele se cansava de escrever, sempre, "Grémio Foot-Ball Porto AlcgiiuBe" e "Sport Club Internacional" cada vez que os dois se enfrentavam.

- reclamava. Estava pensando um jeito de encurtar isso. de criar uma

expressão que definisse o jogo.

Inicialmente. Martins propôs Inter-Gre. mas. como bom gremista, não queria colocar o Internacional na frente. Decidiu-se, então, por Gre-Nal. Escreveu a palavra várias vezes na mesa de mármore do café e pediu aos amigos que ajudassem a divulgá-la. Não publicou a nova expressão no Correio por temer que um secretário de redação colorado a proibisse. Mas ele e os amigos saíram pelas ruas a chamar o clássico de Grenal. Aos poucos, a população foi usando o termo. Até que um dia. em 1933. quando Martins já abandonara o jornalismo, viu a palavra Grenal impressa na página de esporte do Correio do Povo. Pronto, tornara-se oficial.

Pode-se afirmar, pois. qoe o primeiro Grenal a ser conhecido como tal foi

-

A história dos Grenais

o de 27 de junho de 1926. Um Grenal com recorde de público: sete mil pessoas deixaram de ver o filmaço "Peccador Divino", com o Rudolph Valentino e Helen D'Algy, exibido pelo Cine Central, e tomaram os bondes linhas G. T e A para a Chácara dos Eucaliptos. Todos esperavam presenciar um espetáculo. Um, TJ.IÍS letrado e empolgado, chegou a compor uma quadrinha brincando com os

nomes do meia do Grémio, Esperança, e o centromédio do Inter, Lampinha: "Lampinha projecta a luz Esperança luz projecta Por isso conduzirão a flux de forma muito correcta"

Os jogadores até que iam conduzindo a. flux de forma relativamente correcta. O problema foi a interferência intempestiva de um torcedor do Inter. descrita assim pelo redator do Correio do Povo:

"O match corria na melhor ordem, embora sem lances empolgantes ou technica impecável, quando um ardoroso torcedor do pavilhão alvi-rubro, numa má compreensão das normas de educação sportiva e do papel de torcedor, invadiu o campo de bengala em punho, aggredindo o juiz do match, vibrando-lhe "epetidas pancadas". Após condenar a covarde agressão, o róseo acrescentou:

"Não encontramos qualquer attenuante ou evasiva que justifique tal atti-tude".

As repetidas bengaladas vibradas no desditoso árbitro, Manoelito Ruiz, do Americano, foram fortes mesmo. Ele teve que ser subsituído por um cidadão conhecido como Senhor Zapp. Que também não conteve os ânimos dos torcedores. Um grupo de soldados da Brigada, fardados e armados, aprontou a maior confusão no estádio. Brigaram com outros torcedores, a luta estendeu-se ao campo e o jogo foi encerrado a dez minutos do final do tempo regulamentar. No placar, 4 x l para o Grémio, gois de Luiz Carvalho, Esperança e dois de Coro. descontando Barros para o Inter.

A decisão do campeonato foi disputada a 14 de novembro. O Grémio venceu o Grenal por 4 x 3 e tornou-se bicampeão. Os melhores do jogo? Luiz Carvalho e Lara. Luiz Carvalho marcou dois gois e Lara transformou-se num muro atrás da defesa gremista. Finalizada a partida, o ponteiro-esquerdo Barros, do Inter. abestalhado com aquela atuação monstruosa do goleiro, atravessou a área e cumprimentou-o.

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A história dos Grenais

Parabéns disse, apertando a enorme mão do goleiro. Estou muito impressionado.

Como campeão da cidade, o Grémio habilitou-se a disputar o Campeonato Gaúcho. Chegou

à final a 5 de dezembro contra o Guarani de Bagé, na Chácara das Camélias. Até então não existia a figura

do técnico profissional. Quem treinava e escalava o time era o capitão. No Grémio, curiosamente, o capitão terminou sendo reconhecido mais como técnico do que como jogador. Chamava-se Telêmaco Frasão de Lima e atuava na importante posição de centromédio. No antigo esquema 2-3-5. o centromédio tinha a incumbência de distribuir o jogo. de ser o irradiador de jogadas do time. Machucado, Telêmaco não pôde participar da final contra o Guarani. Luiz Carvalho ofereceu-se para substituí-lo, passando Pitoco para o ataque. Foi um desastre. Em poucos minutos, o Guarani marcou dois gois. Ainda no primeiro tempo, Luiz Carvalho voltou ao ataque. Pitoco foi deslocado para a ala e Adão passou para centromédio. Desta vez deu certo: o Grémio conseguiu empatar em 3 x 3 no primeiro tempo e virou o jogo no segundo: 4x3.

Grémio campeão gaúcho pela terceira vez. Os colorados se descabelavam. Nenhum deles mais do que Antenor Lemos, com seu ódio figadal ao clube do Moinhos de Vento. Fora do gramado, como dirigente do Inter ou da Federação, Lemos importunava mais ao Grémio do que como jogador. Se fosse preciso, brigava a socos, mesmo quando presidente do Colorado. Valia-se de todos os métodos, lícitos ou não. para beneficiar seu clube.

Certa feita, exercia a presidência da Federação e percebeu que, na pen-denga de um tema qualquer, o Grémio contava com a maioria. Convocou a reunião de votação para moa. sala fechada e distribuiu imensos charutos a todos. Quando chegou o rrprra Hmtt do Cruzeiro, um senhor asmático favorável à tese gremista. o ambiente estava enfumaçado como um saloon de pôquer. Bastou o dirigente encher uma vez os pulmões com aquele ar pestilento e a asma lhe estrangulou os brônquios. Arquejando e tossindo, o cruzeirista teve de ser levado para casa, enquanto a votação empatava. Aí, Antenor Lemos, como presidente, deu o voto de minerva em favor da tese do Internacional.

A Antenor Lemos o Inter deve a quebra do preconceito racial, em 1925,

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A história dos Grenais

com a entrada no clube do primeiro negro, o ponteiro-direito Dirceu Alves. O ingresso de Dirceu. no entanto, serviu mais como marco do que de abolição da discriminação. O Inter continuaria a desprezar discretamente os negros até os anos 30, pelo menos. Ainda em 1927, o Internacional finalmente venceu o

Grémio. Mas só com jogadores brancos. O ídolo do time era o ala Ribeiro, proprietário de um pontente chute de perna direita. No ataque, o capitão Banos se encarregava de marcar os gois. Com dois deles no goleiro Lara, em 12 de junho de 1927, mais um de Nené, o Inter venceu o Grenal por 3 x l e levou o Campeonato da Cidade. Eufórico por ter superado o rival, o Colorado passou por cima dos demais adversários e venceu

o primeiro Campeonato Gaúcho de sua história.

Os colorados festejaram muito o título, mas ele seria apenas o interregno entre uma fase ruim e outra péssima. A dor voltou aos corações vermelhos por mais seis anos. De 1928 a 1934 foram disputados 16 Grenais. O Inter venceu três. O Grémio venceu onze. Pior: por muito pouco o Internacional não fechou as portas. Isso, cruel ironia, devido a um erro de raciocínio do seu maior dirigente, Antenor Lemos.

Aconteceu em 1928. Os gestores do Asilo da Providência procuraram um dos diretores do Inter, o jornalista Arquimedes Fortini, e comunicaram-lhe que iriam vender o terreno da entidade no bairro Azenha. Sobre aquele terreno estava construída a Chácara dos Eucaliptos, o estádio do Colorado. Arquimedes se assustou. Mas os dirigentes logo o tranquilizaram: a preferência de compra era do Internacional. Por 40 mil contos de réis.

Tratava-se de uma fortuna. O Inter não tinha esse dinheiro. Arquimedes e outros dirigentes, então, decidiram apelar para uma abastada família colorada. os Chaves Barcellos. Afinal, dois deles, Plínio Chaves de Figueiredo e Pedro Chaves Figueiredo, jogavam no Inter. Os Chaves Barcellos não esconderam a carteira. Dispuseram-se a emprestar a quantia ao Internacional sem prazo fixo de pagamento. Chegaram a insinuar até que aquilo poderia ser contabilizado como uma doação ao clube.

Tudo parecia resolvido. Parecia. Na hora de consolidar o negócio. Antenor Lemos se opôs. Considerava 40 mil contos um absurdo.

A história dos Grenais

Além disso, bradava, inflamado como de costume o Internacional tem que viver de conquistas esportivas, não de glórias materiais.

Realizada a votação. Antenor Lemos, evidentemente, venceu. Arquimedes Fortini e seu grupo ficaram tão irritados que abandonaram o clube.

Sem sede, sem campo, o Internacional foi arrefecendo até tornar-se moribundo. Foi então que surgiu a mão do salvador. O jovem engenheiro lido Meneghetti suprimiu horas de trabalho da Dahne. Conceição & Cia, da qual era funcionário, e liderou uma vigorosa campanha de arrecadação de fundos a fim de construir um novo estádio para o Colorado. Com a venda de bónus no valor de 500 mil réis. Meneghetti levantou a importância suficiente para construir o Estádio dos Eucaliptos, na rua Silveiio. em 1931.

Enquanto o Inter debatia-se pela vida como um afogado, o Grémio reforçava o time com um dos maiores esportistas da história do futebol gaúcho: Oswaldo Azzarini Rolla. Os cabelos vermelhos valeram-lhe o apelido de Foguinho e a prática do pólo aquático um fôlego cavalar. Como um guerreiro viking. como um nuno servagem. ele jamais desistia da luta. Combatia o adversário em todos os quadrantes do campo. Pasmados de admiração, os torcedores, não raro. nem bem haviam cessado os aplausos a algum petardo desferido por Foguinho na anca inimiga c já viam-no roubando a bola no campo de defesa do Grémio.

De personalidade Ião forte quanto o seu chute de canhota, Foguinho sustentava a compleição robusta

e a disposição infindável às custas de muito treinamento. Alfaiate por profissão, nunca aceitou um conto de réis do Grémio enquanto atuou como jogador. Mas o clube o apoiou como pôde. Em 1931, a fim de permitir que Foguinho treinasse à noite, depois do serviço na Camisaria Aliança, o Grémio instalou na Baixada o conjunto de luminárias pioneiro em estádios do Rio Grande do Sul. O jogo de inauguração dos

refletores, dia 28 de julho, é óbvio, foi um Grenal. Vencido pelo Grémio por 2x0, gois deles: Luiz Carvalho

e Foguinho.

Antes desta partida houve um outro amistoso: o Grenal de inauguração dos Eucaliptos, em 15 de março. O meia Javel desconheceu a crise do Inter, o super-time do Grémio e. como um prenúncio de que o Colorado se tornaria cada

A história dos Grenais

A goleada foi uma das raras alegrias do Internacional desde a perda da Chácara dos Eucaliptos. Em

1928. nem Grémio nem Inter conquistaram o Campeonato da Cidade. O vencedor foi o Americano, graças

a um zagueiro imponente que seria titular da Seleção Brasileira na Copa de 1934. na Itália, e se consagraria no

Grémio a partir de 1935 - Luiz Luz, o Fantasma da área. No ano >eguinte, foi a vez do Cruzeiro alcançar sua maior glória: campeão da cidade e do estado.

Mas depois de 1930 o Grémio empilhou títulos. Foi tetracampeão da cidade 1930, 31, 32 e 33

e bicampeão do Estado 31 e 32. A sequência do Grémio só foi barrada quando o Inter, finalmente, teve

em sua equipe um -egro de destaque, o meia Tupã. Alto, magro, goleador, Tupã deu ao Colorado o título da

cidade e o do estado em 1934. No ano seguinte, ele ganhou um companheiro de respeito, o atacante Darci Encarnação.

Darci Encarnação era o pesadelo do Grémio. Em 1933, ele formava dupla com o centroavante Cardeal no São Paulo de Rio Grande. Poucos centroa-vantes foram tão habilidosos quanto Cardeal. Não chutava forte. Nem precisava. Colocava a bola onde queria, sempre fora do alcance do goleiro, com uma suavidade maliciosa, com a segurança de um neurocirurgião. No final da carreira, corroído pela tuberculose. Cardeal teve um pulmão inutilizado. E mesmo assim jogou algumas partidas. Ficava parado nas proximidades da área, tendo à cabeça o boné vermelho que lhe rendeu o codinome. De repente, a bola caía em

seus pés. Era só o que precisava. Cardeal já sabia como o goleiro estava posicionado e, com maciez, atirava

a bola exatamente onde ele não a acharia.

Quem municiava os pés infalíveis de Cardeal no São Paulo de Rio Grande era Darci Encarnação. Emérito driblador, Darci ziguezagueava entre os zagueiros até alçar a bola ao seu companheiro, no meio da área. Assim eles derrotaram o Grémio em 1933. Darci fez um gol de falta em Lara no primeiro :empo e, no final do jogo, com o placar em l x 1. ele deixou quatro gremistas sentados a drible e passou a bola para Cardeal, livre, desempatar. Com esta credencial Darci veio para o Inter em 34. Completando a equipe, na defesa o

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A história dos Grenais

Colorado possuía o zagueirão Risada, insuperável nas bolas altas. O time estava pronto para ser bicampeão em

1935.

O certame de 1935 foi o mais importante desde a criação do Campeonato da Cidade, em 1910. Foi o

Campeonato Farroupilha, em comemoração ao centenário da Guerra dos Farrapos. A Redenção, ou Parque Farroupilha, sofreu mudanças radicais por causa do festival do centenário. Porto Alegre passou o ano vivendo o festival, embelezando-se para as comemorações. Foram insituí-dos trofeus para torneios de remo. basquete, ténis, atletismo, natação, pólo e futebol. Em setembro, na semana farroupilha, chegou à capital do estado o presidente da República. Getúlio Vargas, para prestigiar as festividades.

Em 28 de julho foi disputado o primeiro Grenal do Campeonato Farroupilha. O Inter. campeão da cidade e do estado, era o favorito. O Grémio estava sem Luiz Carvalho, que se transferira temporariamente para o Rio de Janeiro, onde defendia o Vasco da Gama. Mais grave era o caso de Lara. Dois meses antes, numa partida contra o Santos, ele se chocara com o atacante Mário Seixas e sofrera uma concussão no peito. Seu problema, então, veio à superfície: Lara era cardíaco. Mesmo contra as recomendações médicas, Lara continuou jogando. E no Grenal do final de julho foi, de novo, um dos destaques.

Mas o herói de fato terminou sendo o ponteiro-esquerdo Castilho, autor do célebre Gol do Avião. Ocorreu que Castilho estava com a bola em frente a área do Inter no momento em que um avião passou a fazer piruetas sobre o campo dos Eucaliptos. Acrobacias do género eram inéditas na Porto Alegre da década de 30. O que levou o goleiro Penha e os zagueiros Natal e Risada, do Colorado, a se distraírem do jogo e levantarem as cabeças para o céu, entre temerosos e surpresos. Castilho, por outro lado, não se descuidou da bola e a mandou para as redes do Internacional. Graças ao Gol do Avião, o Grémio empatou o jogo em l x 1. Depois do Grenal, estranhamente, Castilho sumiu, desapareceu. Diziam que os colorados, furiosos com o tal gol, haviam-no raptado e que ele estava bem escondido numa casa do bairro Belém Novo. Castilho só ressurgiu em 1936, jogando com a camisa vermelha.

Quando

da

decisão do Campeonato Farroupilha,

em 22

de

setembro,

Castilho

estava

devidamente evaporado. O Inter faria de tudo para ganhar

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A história dos Granais

jquele campeonato. Seus torcedores mostravam-se confiantes de que isso acon-ttceria. Principalmente devido ao inesperado fracasso do Grémio, uma semana mtes, contra o Força e Luz. O Tricolor atrapalhou-se todo. perdeu por 2 x O e deixou o Colorado com um ponto de vantagem. Bastava um empate para o bi. Além do mais, o grande Lara não devia jogar. Sua doença se agravara e os médicos o proibiram de entrar em campo.

No domingo, com a certeza da vitória colorada, um dos torcedores do Inter deu-se ao trabalho de caçar 11 cachorros pelas ruas de Porto Alegre, pintá--. todos, de vermelho c amontoá-los dentro de uma camionete. Conduziu o 1 para a frente da Baixada e foi para as arquibancadas. Seu plano era de. encerrado o jogo, com a provável vitória do Inter, soltar a cachorrada no gramado, só de farra.

Não desconfiava o torcedor que naquele instante Lara comunicava aos dirigentes do Grémio c aos seus companheiros de time que ele ia jogar de qualquer jeito. E que não tentassem demovê-lo. Pouco minutos antes. Foguinho chegava à Baixada no bonde Auxiliadora. Passara a viagem pensando em como derrotar aquele poderoso time do Internacional. Sequer reparara na paisagem ou nos reclames pregados às paredes do carro, como os famosos versos construídos

sob encomenda pelo poeta Bastos Tigre:

"Veja, ilustre passageiro o belo tipo faceiro que o senhor tem a seu lado. No entanto, acredite, quase morreu de broquite: salvou-o o Rhum Creosotado"

Haveria Rhum Creosotado capaz de salvar o Grémio naquela tarde?

Dois terços do Fortim da Baixada estavam pintados de vermelho. O jogo nem começara e a torcida do Inter pulava nas arquibancadas. Os gremistas só se animaram quando viram a figura esguia de Lara entrando em campo.

Lara não decepcionou. O Inter dominou todo o primeiro tempo, rondou a área do Grémio, atacou com perigosa insistência. Mas a zaga gremista tinha Dário e Luiz Luz, o Fantasma da área. Por fim, a bola que passasse por eles acomodava-se nos longos braços de Lara. O primeiro tempo terminou em O x 0.

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A história dos Grenais

O problema era que 0 x 0 significava a morte para o Grémio. A torcida colorada passou o intervalo

comemorando, barulhenta. Na volta dos jogadores ao gramado, a festa vermelha aumentou. Lara. não suportando as dores no peito, saiu, entrando Chico em seu lugar.

Estimulados pelo desfalque do adversário, os jogadores do Inter atiraram-se à frente. Os ataques se sucederam cada vez com maior frequência. Dário e o Fantasma da área cansaram de tirar bolas de cabeça, de bico de chuteira, de canela, de peito, de nariz. Colocavam o rosto na frente dos chutes colorados, tudo para impedir a derrota. Na frente, seus companheiros não encontravam nenhum atalho para o gol.

A partida terminava aos 80 minutos dois tempos de 40. Aos 37 do segundo tempo, o placar ainda

em O x 0. o torcedor colorado que guardara os cachorros vermelhos na camionete saiu correndo do estádio,

faceiro e saltitante como uma camponesa num piquenique. Abriu a porta de trás do carro e preparou-se para levar os cães ao gramado da Baixada.

Faltando dois minutos para o final do jogo, o Grémio teve a seu favor uma falta na intermediária do Inter. quase no grande círculo do meio de campo. O juiz Francisco Azevedo aproveitou para olhar no relógio e conferir quanto faltava para encerrar a partida. Os torcedores colorados prosseguiam com a festa nas arquibancadas.

Foguinho pegou a bola com as mãos. aproximou-se do centromédio Mascarenhas e cochichou no seu ouvido direito:

- Levanta no meio da área que o Risada vai tirar e eu vou pegar o rebote.

Foguinho confiou a bola ao companheiro e caminhou rápido para a área colorada. Mascarenhas cumpriu o combinado. Com o pé direito, alçou a bola à marca do pênalti. Lá estava Risada. O zagueiro do Inter pulou mais do que todos os adversários e testou a bola para a frente. Ela descreveu um arco e caiu na meia-lua da área. Bem onde a esperava a perna esquerda de Foguinho. O meia do Grémio não permitiu que a bola tocasse o chão. Encheu os pulmões de ar, rilhou os dentes, jogou o peso do corpo na perna direita e bateu. Ela saiu incandescente de seu pé esquerdo e foi incinerar as redes do goleiro Penha.

-

A história dos Grenais

Num átimo, as duas torcidas ficaram em silêncio, incrédulas. Décimos de segundo depois, o lado a/.ul projetou-se das arquibancadas num grito só: gol!

Os jogadores do Internacional não acreditavam. Tontos, encaminharam-se ao meio de campo para dar nova saída de jogo. O juiz apitou, a bola rolou, Foguinho deu o bote e recuperou-a mais uma vez. Saiu correndo como um touro enfurecido, espalhando defensores, com os colorados que restavam de pé deses- perados no seu encalço. Assim continuou Foguinho até a área do Internacional. Penha, vendo que ele ia gol adentro, saiu para tentar a defesa. Quando o goleiro chegou perto, Foguinho encostou a bola mansamente para o lado. onde estava seu companheiro Laci. O ponteiro só precisou empurrá-la para dentro do gol.

O juiz apitou o final do jogo. A torcida só podia gritar uma palavra: Foguinho! Foguinho! Foguinho!

No lado de fora do campo, um colorado não entendia nada. O mal-aven-turado proprietário dos cachorros vermelhos tentara sair com eles da camionete quando Foguinho tez o primeiro gol. O foguetório gremista assustou a cachorrada, contida com dificuldades pelo torcedor. Um minuto depois, no entanto, estourou o segundo gol. Ninguém seguraria os cachorros enlouquecidos com as bombas, certamente irritados por passar a tarde encerrados numa camionete, suando, latindo uns para os outros. A matilha avançou no dono, que foi parar no hospital. Salvou-se das mordidas, mas quase sofreu um ataque cardíaco ao saber do resultado do jogo.

Na Baixada, a festa não parava. Alguns jogadores e dirigentes continuaram comemorando noite adentro. Entre um chope e outro, o técnico Sardinha I, emocionado, sugeriu que o título do Centenário Farroupilha fosse comemorado por mais um século. Proposta aceita, desde 1935, em 22 de setembro, o Grémio realiza o Jantar Farroupilha em homenagem àquela conquista heróica.

O goleiro Lara não participou do segundo Jantar Farroupilha. Terminada a partida, feliz com a

vitória mas contorcendo-se de dor, ele foi levado ao Hospital da Beneficência Portuguesa. Morreu dois meses depois, comovendo colorados e gremistas. Porto Alegre parou e chorou ao assistir seu enterro.

A morte de Lara simbolizou, de certa forma, o fim de uma era do futebol

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A história dos Grenais

gaúcho. O fim do amadorismo. Sem Lara, o Grémio perdeu o campeonato estadual de 1935 para o 9° Regimento de Pelotas, que, depois desta conquista, passou a se chamar Farroupilha, exatamente por causa do título. Em 1936, o Inter foi campeão da cidade, mas perdeu o Gauchão para o Sport Club Rio Grande, o clube mais velho do Brasil. Aquele seria o último campeonato vencido por um time do interior em confronto direto com a dupla Grenal. Em 1937, 38 e 39 Grémio e Internacional, em outra cisão do futebol gaúcho, não disputaram o estadual. A dupla empenhava-se na implantação do profissionalismo no estado. Fundaram, assim, sua própria Liga, profissional, enquanto a antiga FRGD patrocionou o campeonato estadual, ainda cm caráter amador, com os demais clubes.

A despeito de toda a confusão, o campeonato metropolitano prosseguiu, e o Grémio, com a volta de Luiz Carvalho, sagrou-se tricampeão.

Mas o Inter engendrava uma reação que transformaria aqueles 30 anos de hegemonia intermitente do Grémio em um vulto no passado longínquo. Os chamados "negrinhos do Internacional" estavam sendo reunidos aos poucos nos Eucaliptos, Eles formariam um time com futebol veloz e de beleza plástica que mereceria o codinome com o qual passou para a história: O Rolo Compressor.

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A história dos Grenais

"O Rolo Compressor"

arlinhos ficou até as 6 horas da manha no baile do Clube Tristezense. Dançou pouco. Preferiu, C como sempre, limitar-se a circular pelo salão com seus ansiosos olhos de adolescente. Não tinha mesmo nada o que fazer naquele domingo de junho de 1938, dia 6. O único plano, ainda assim

sujeito a cancelamento, era assistir à corrida de carreteras no circuito da Pedra Redonda, da qual participariam João Pinto, Norberto Jung, Abelard Jacques Noronha e outros respeitáveis e arrojados jovens da sociedade porto-alegrense.

Ao chegar em casa no amanhecer, Carlinhos acordou o pai e pediu que o chamasse em duas horas. Entre um gole de café e uma mordida no pão com manteiga decidiria o que fazer. E estava neste dilema quando, pouco antes do meio-dia, chegou um emissário do Internacional convocando-o para o Grenal que seria realizado à tarde no campo da Timbaúva. Espanto. Sua ligação com o Inter não era nem um pouco íntima. Apresentara-se ao clube dez dias antes para fazer teste nos aspirantes e três dias depois fora testado num amistoso contra o Força e Luz. Fizera sucesso aquele dia, está certo, mas não chegara ao desatino de acreditar que aos 16 anos ganharia uma vaga no time principal. Era um garoto sonhador, alegre, extrovertido, mas não era louco.

E por ser assim tão consciente das coisas, chegou na Timbaúva às 13 horas, pouco depois de ter sido convocado, pensando em disputar o clássico dos aspirantes, a preliminar. Mas desta vez sua consciência estava equivocada. Máximo Bassegio, técnico dos aspirantes, e Bouças, o do time de cima. haviam

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A história dos Grenais

sido loucos o suficiente para, em conjunto, decidirem que Carlinhos jogaria entre os titulares. A notícia entrou pelos seus ouvidos, percorreu a espinha e gelou-o por completo. Pela surpresa, pela responsabilidade, pela emoção do desafio. Mas adorava desafios. E entrou em campo sem conhecer a metade dos seus companheiros. Nunca os vira nem mesmo das arquibancadas de um estádio. Sabia, por ouvir falar, que havia um zagueiro de respeito, Risada, que o ataque tinha dois étimos jogadores, Acácio e Castilho, e sabia, principalmente, que o meia-direita era o seu velho companheiro do Tristezense, Rui. Do Grémio, ao contrário, sabia a escalação de cor e salteada. Edmundo; Dário c Luiz Luz; Jorge, Noronha e Russo; Mesquita, Vanário, Luiz Carvalho, Foguinho e Casaca. Há dois anos o Inter apanhava daquele Grémio. Luiz Carvalho e Foguinho eram mais do que jogadores, já eram tratados como lendas nas rodas de futebol.

Por tudo isso, o empate de 4 x 4 naquele clássico de Timbaúva lotado teve gosto de vitória para os sofridos torcedores colorados. E de descoberta. Na ponta-esquerda aparecera, para alegria dos vermelhos, um ponteiro desaforado, ofensivo, com fome de gol. Um menino que criara a jogada de dois e marcara outro, o terceiro do time, um golaço. Vanário fizera falta, Zezé cobrara à meia altura, da direita, e Carlinhos emendara de primeira, certeiro. Pirilo marcou outros dois e Acácio completou o placar. Para os azuis, dois gois de Casaca, um de Vanário e um dele, do legendário Luiz Carvalho. Descoberta ainda mais surpreendente do que aquela feita pelos torcedores foi a do próprio Carlinhos no dia seguinte, no escritório da diretoria do Inter, quando o apressado funcionário do clube, a mando do presidente lido Meneghetti, datilografava o seu primeiro contrato com o Inter.

- Por quê Carlinhos? perguntou o funcionário.

Porque meu nome é Carlos Alberto Azolim Filho explicou o jogador.

- Só se tu tiveres outra certidão de nascimento, porque nesta aqui teu nome é só Alberto Azolim Filho.

O boquiaberto Carlinhos descobria, às vésperas de seu 17° aniversário, que de Carlos e Carlinhos não

tinha nada. Em novembro de 1921. o escrivão do

A história dos Grenais

cartório da Tristeza não prestara atenção quando o pai dissera o nome que queria para o filho e o Carlos que deveria ser registrado ficou só na intenção daquele senhor que saiu apressado e tomou o rumo de casa, sem conferir o documento.

A surpresa não entristeceu o menino. Era mesmo época de recomeço para o promissor craque e aquela

confusão de nomes só serviu para reforçar sua desconfiança de que o destino estava lhe aprontando alguma. Alberto Azolim não nascera para ser Alberto. Carlos ou Carlinhos. Era para ser, e foi, Carlitos. E Carlitos ficou no Inter até completar 30 anos, em 1951. Disputou 61 Grenais. um recorde, e marcou 485 gois.

A chegada daquele jovem goleador, com peito suficiente para roubar a festa que há anos era

comandada por maduros e competentes tricolores como Foguinho e Luiz Carvalho, marcou o surgimento de um novo Inter. Melhor, mais veloz, ímpeto de ataque, e que só ficaria pronto alguns anos depois, pre- cisamente em 1942. E pronto receberia a denominação de rolo compressor, uma máquina que passaria por cima dos adversários, esmagando-os sem nenhuma piedade durante toda a década de 40.

Mas ninguém imaginava que surgiria um time como aquele na manhã em que Carlitos apareceu nos Eucaliptos pela primeira vez. Fora convidado no começo do mês de maio para demonstrar suas habilidades de zagueiro no São José. O pai, Alberto, não gostou da ideia. Moravam na zona sul da cidade e o campo do São José ficava lá na zona norte.

Procura um time mais perto, o Inter por exemplo, ali na Silveiro.

E o filho, que já tinha mesmo simpatia por aquele time que vestia cores idênticas às do seu Tristezense

o vermelho, o branco e até o cinza das meias não vacilou. Apresentou-se, fardou-se, sentou no banco de reservas e na metade do treino, quando o técnico Bouças virou-se para eles e gritou "entra Carlitos", o menino achou que era com ele e correu para o meio de campo como uma flecha. Na verdade Bouças chamara Carlitos Baldo, um reserva já experiente do grupo, mas para um guri que acreditava chamar-se Carlos ou Carlinhos. o grito soou familiar.

Deixa o guri jogar abriu mão o Carlitos mais velho, pouco disposto

a participar do trabalho.

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A história dos Grenais

E o Carlitos mais jovem arrasou. Nas semanas seguintes o armazém onde ele trabalhava como balconista ganhou um funcionário bem mais disposto, orgulhoso e brincalhão. Ao atender conhecidos gremistas, perguntava se não estavam assustados com sua presença no ataque colorado.

Tu não é Boris Karloff nem nada respondeu um azul com o deste-

mor de quem ainda era, oficialmente, campeão da cidade, um ser convicto de que o Grémio continuaria mandando no futebol gaúcho.

Era um frio mês de junho. O cinema Rex passava Às Portas de Changai, um filme no qual Karloff encarnava o assustador general Wu Yen Fang, "um homem que arrazava cidades, massacrava homens e roubava as mulheres", como dizia com um gritante erro de português na palavra arrasa o cartaz.

No final daquele 1938 Grémio e Inter se encontrariam em mais um Grenal amistoso e nele os colorados sentiriam que novos e melhores tempos estavam chegando. A certeza veio num dia de Finados. "Choque sensacional entre a technica tricolor e o tradicional "sangue colorado", dizia o Correio do Povo. Seria o clássico de despedida de Luiz Carvalho, "o crack n" l do Rio Grande do Sul, que terá por esse motivo oportunidade de receber carinhosas demonstrações de affecto e sympathia". Mas não por parte do Inter. Os colorados, ou diabos rubros como preferiu dizer o mesmo Correio no dia seguinte, ganharam por 6x0, vantagem nunca antes conseguida num clássico, e o árbitro Álvaro Silveira ainda anulou cinco gois, alegando que dois haviam sido feitos com a mão e nos outros três os atacantes estavam impedidos.

Porque anulaste tantos gois? Perguntou ao árbitro, após o jogo. o indignado presidente do Inter, lido Meneghelli.

Era muito gol para um Grenal respondeu, sem cerimónias. Álvaro

Silveira. Assim o Inter não conseguiu retribuir os 1 0 x 0 que levara do Grémio no primeiro Grenal da história, mas de qualquer forma o que antes era impensável, transformava-se na mais pura realidade. Já era possível golear os poderosos. Foi um final de ano glorioso para os colorados, que transformaram-se nos mais alegres personagens dos bailes sociais da cidade. Eram minoria nos clubes mais

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A história dos Grenais

ricos como o Leopoldina e o Náutico União, mas maiorais na algazarra e na bebedeira.

No Areal da Baroneza, ao contrário dos grandes clubes, as festas não tinham smokings ou champanhes. Pés negros e descalços, embalados por cachaça, levantavam poeira nas esquinas da Barão e da Baroneza do Gravataí. Quase todos pés colorados, afinal, raríssimos eram os negros que torciam para o Grémio, pois o clube rejeitava-os como sócios ou como atletas.

Era negro? Era bom? Era nosso! lembra Abelard Jacques Noronha, dirigente que presidiu o Intcr em 1943 e 1944.

E o melhor de todos os negros surgidos ali no Areal foi Osmar Fortes Barcellos, o Tesourinha. Uma distinção que o próprio rejeitava. Dizia que o irmão era melhor, mas Ademar, o Tesoura, nunca chegou a jogar num dos grandes clubes pobre e desassistido, morreu cedo, tuberculoso. O apelido de ambos vinha do bloco carnavalesco do qual os homens da família Barcellos participavam, Os Tesouras.

Tesourinha, o mais jovem e franzino deles, chegou ao Inter em 1939. Tão franzino que não acreditava em seu aproveitamento no clube, apesar das promessas do presidente Willy Teichmann. Desconfiado, o negrinho de 18 anos assinou ficha nos Eucaliptos, mas continuou a participar dos treinos no seu ex-time, o Ferroviário, dupla vida de jogador que durou até o dia em que Ferroviário (que viria a se chamar Nacional posteriormente) e Inter se encontraram no campo do primeiro, na José de Alencar, onde hoje existe um enorme supermercado. Escalado nos dois lados, o ponteiro ingressou, na marra, no time de vermelho.

Naquele final de ano Tesourinha assinou seu primeiro contrato. Passaria a ganhar 200 mil réis, uma exorbitância se comparada com o minguado salário que recebia como armeiro da Brigada Militar. Para ganhar corpo e acabar com aquela imagem física doentia, ainda foi autorizado pelo médico do clube. Gildo Russowsky, a pegar dois litros de leite e meio quilo de carne todos os dias num armazém da Silveiro, próximo ao estádio. O agradecimento ao clube viria através de dribles longos, cruzamentos certeiros e muitos gois. Para os gremis-tas, a tortura estava começando.

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A história dos Grenais

Seu primeiro Grenal, em 4 de janeiro de 1940, foi uma mostra clara do que estava por vir. Inter 6x1. Tesourinha, que sempre fora ponteiro-esquerdo, deslocado pela direita porque, na sua, já havia um dono incontestável: Carlitos. Acácio fez três gois, Carlitos dois e Tesourinha um. Salvador, o gol de honra de um Grémio que se desmanchava diante daquela força jovem que se impunha, diante de dois ponteiros endiabrados. "Não havia nomes a destacar no onze colorado. Eram, todos, dignos um do outro, actuando com

indiscutível superioridade sobre o seu mais encarniçado rival de lutas", simplificou o jornal do dia seguinte. Só no primeiro tempo o Inter fizera 5x0. Nas arquibancadas do estádio um jovem de 20 anos, filho do português José de Oliveira Reis, se encantaria com o time, contrariaria o pai que era gremista, e passaria a torcer para os vermelhos. O nome do jovem era Abílio, o Abílio dos Reis que décadas mais tarde se dedicaria

a formar para o Inter craques como Falcão, Carpeggiani e Dunga, entre tantos outros.

A 2 a Grande Guerra corria solta na Europa, os franceses ma ndavam tropas e armamentos para ajudar os finlandeses que apanhavam dos nazistas e Unity Mitford, moça inglesa filha do Lord Resdalfi, amiga de Hitler, voltava para Londres com uma bala no pescoço após uma frustrada tentativa de ajudar a pôr fim à guerra. No sul do Brasil, em Porto Alegre, os colorados não davam a mínima para tudo isso. O Rolo estava prestes a ganhar seu primeiro título estadual. Ele se confirmaria em novembro, com duas vitórias sobre

o Grémio Bagé. O técnico era Orlando Cavedini e do lime ideal, aquele que ficaria para sempre gravado na

memória dos torcedores e na história dos Grenais Ivo; Alfeu e Nena; Assis, Ávila e Abigail; Tesourinha, Russinho, Vilalba, Rui e Carlitos seis já estavam nos Eucaliptos.

Eram eles Alfeu, que já jogara no Inter, andara pelo Santos, fora campeão estadual pelo Grémio Santanense em 1937 e estava de volta ao clube; Assis, o Parobé, nascido em Uruguaiana, chute potente, lateral que superava com facilidade qualquer ponteiro que aparecesse em sua frente e que tinha como único

ponto fraco a incontrolável paixão pela cerveja (algo que o fazia engordar c volta e meia o afastava do time por excesso de peso. Parobé. seu apelido, vinha do bar onde costumava sentar e estufar sua proeminente barriga); Russinho, o

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"doutor" David Russowsky, tirado do Grémio pela lábia convincente do irmão Gildo, meia-direita que virou exemplo maior de amor ao Inter (Pertencente à família abastada, poderia perfeitamente ter dispensado o dinheiro que o futebol pagava a seus personagens na época, mas não o te/); Rui, baixinho do Alegrete, irrequieto, incansável, e que por isso era conhecido pelo sugestivo apelido de Motorzinho; E finalmente os dois ponteiros que ninguém segurava. Tesounnha e Carlitos.

Naquele 1940 o medo dos tricolores da Baixada sumiu por completo. Na temporada haviam sido disputados cinco Grenais, os vermelhos ganharam quatro e mantiveram a média de quatro gois em cada um deles. Nos cafés da rua da Praia, os gremístas mudavam de assunto, faziam de conta que desconheciam o poderio crescente do Inter e gastavam saliva a falar da guerra. Na verdade poucos se importavam com os tiroteios de além-mar e 'a maioria não tinha sequer uma ideia exata de quem era mocinho ou bandido na história. Se o próprio mandatário do país, o são-borjense Gctúlio Dornelles Vargas, mantinha-se neutro e silencioso a respeito do conflito, quem eram eles, simples trabalhadores, torcedores de futebol, simpáticos a um clube de origem germânica, para bater boca em defesa de alguma das partes?

E assim como a guerra foi crescendo e acumulando vítimas nos campos de batalha da Europa, foi crescendo também o poderio do Inter nos campos de futebol do Rio Grande do Sul. Em 1941 incorporavam-se ao time o centromédio Ávila e o centroavante argentino Vilalba. Ávila, um craque de bola buscado em Pelotas. Um craque que quase perdeu seu lugar na história pela escassez de recursos da medicina de então. Chegou a Porto Alegre sifilítico,um homem praticamente acabado para o esporte, uma vítima a caminho do céu. O Hospital da Brigada recuperou sua saúde, o Inter a sua vontade de viver, e ambos lhe deram o alvará de soltura para atirar-se outra vez ao trago, à noite, e às mulheres. Ávila, o King Kong, o futuro rei do Cabaré do Galo, na Cabo Rocha.

Vilalba, um baixinho de Im66cm, bem ao contrário de Ávila, não se adaptou tão facilmente aos vícios da urbanidade. Vindo de Santo Tomé, fronteira com São Borja, apegado a vícios interioranos. volta e meia ameaçaria abandonar o clube para voltar à vida tranquila na divisa entre Brasil e

A história dos Grenais

Argentina, às margens do rio Uruguai, ou para esconder-se em qualquer outro lugar sossegado onde houvesse carne farta, grandes extensões de terra verde para meter os olhos e sombra à vontade para tirar uma soneca.

Com eles o Inter pela primeira vez repetiu consecutivamente a conquista do título gaúcho. Façanha diante de um Grémio que tentava reagrupar forças e sugava as últimas energias de Foguinho. Esforço em vão. O Rolo Compressor estava recém embalando e nem os próprios torcedores colorados sonhavam, mesmo nos mais delirantes devaneios, que pela primeira vez na história um clube chegaria a repetir o título maior do estado por impensáveis seis anos seguidos.

Em 1942 chegaram os rolamentos e as correias que faltavam e complc-tou-se o Rolo. As peças encaixavam-se harmoniosamente. Pelas redações dos jornais da Capital, Vicente Rao, torcedor símbolo da

paixão colorada que se alastrava pelas ruas da cidade, espalhava cartazes onde uma patrola abarrotada de jogadores do Inter amassava jogadores tricolores que mais pareciam répteis se arrastando pelo chão. Décadas depois, mesmo com o clube do coração já tendo conquistado o Brasil, velhos torcedores ainda dariam suspiros de sincera saudade ao ouvir a escalação que se completara naquele 1942 com Ivo Winck, revelação do torneio metropolitano do ano anterior atuando pelo São José, goleiro que desprezava firulas e acrobacias; Nena, zagueiro buscado na várzea, no time do Paraná do Caminho do Meio, apelidado de cabeça de aço porque bolas aéreas tiradas por ele representavam perigosos contra-ataques; e o lateral-esquerdo Abigail, o magrela, o fiapo, o seco, o velho (este último um apelido resultante da péssima experiência de ingerir água contaminada e ficar com aparência envelhecida, cabelos caindo). Abigail jogava no Força e Luz e trabalhava como lustrador na fábrica Miguel Stanckiewics. Um emprego que deixou ao ingressar no Inter.

Máquina pronta, ajustada, e o tricampeonato veio de forma fácil, O Inter não perdeu nenhum jogo e marcou 108 gois. No último Grenal da temporada a torcida comemorou antes. Os gremistas tiveram que engolir a. flauta durante toda a semana que antecedeu o jogo. De tal forma que no domingo os jornais circularam com recomendações para que a euforia vermelha fosse contida. Eles

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A história dos Grenais

estavam tão unidos e barulhentos que o delegado Câmara Canto foi aos meios de comunicação anunciar que estavam proibidos abusos e que soltar ou portar foguetes e rojões, mesmo nas imediações dos Eucaliptos, resultaria em cadeia.

Os infratores serão conduzidos à repartição central de polícia e. em seguida, processados anunciou, ameaçador.

Carlitos fez dois, Tesourinha um, Vilalba outro, e o Inter meteu 4x2. Contrariando a ordem do delegado, foguetes espoucaram insistentemente pela cidade, especialmente no bairro Menino Deus.

Diante de tamanha humilhação, o Grémio obrigou-se a fazer mudanças radicais em seu grupo de jogadores. A defesa parecia ser o ponto mais fraco. Júlio, bom goleiro que sobrara nos Eucaliptos com a chegada de Ivo, foi contratado, Clarel seria o novo homem forte da defesa, no meio entraria o esforçado e lutador Badanha, e no ataque chegaria a vez de Touguinha. O primeiro clássico do campeonato daquele ano, empate em 3x3, fez a diretoria do clube concluir que estava no caminho certo. No mês seguinte, julho, um segundo jogo, 3x0 para o Inter, deixou o presidente gremista Waldemar Fonte com uma pulga atrás da orelha. Mas haveria um terceiro e decisivo Grenal, ele seria disputado na Baixada, e em casa o povo gremista seria vingado.

Tudo foi cuidadosamente preparado para que a série de títulos do Inter fosse interrompida naquele domingo. Promessa de prémio gordo para os jogadores, espaço limitadíssimo para a torcida adversária e orientação para que, de maneira alguma, os seguranças deixassem entrar no estádio a tal Chica, a cabrita de propriedade de um certo Lothar, que o futuro rei Momo da cidade. Vicente Rao, garantia ser o símbolo da sorte e da força colorada. Os supersticiosos torcedores acreditavam nisso e a notícia de que Chica não entraria na Baixada os deixou de cabelo em pé.

Chegamos ao estádio, entramos pela ruazinha dos Alemães e nos revistaram como se fôssemos

ladrões, como se pudéssemos esconder uma cabrita dentro de uma sacola lembra Abigail, que ao lado de Carlitos é o único dos integrantes do Rolo que ainda está em Porto Alegre para contar tais histórias.

Vicente Rao não se deu por vencido. Escolheu alguns dos mais fortes

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A história dos G renais

torcedores, pessoal da estiva, do porto, arrebentou algumas tábuas que cercavam o estádio e Chica, triunfante, ingressou na Baixada. Foi um foguetório só.

A torcida parece que vibrou mais com a entrada do bicho do que com o nosso time conta Abigail.

O jogo foi disputadíssimo. Chances se alternando de ambos os lados, os goleiros Ivo e Júlio tirando tudo, os laterais Vinícius e André conseguindo com esforço sobre-humano segurar Tesourinha e Carlitos, enquanto Touguinha dava trabalho como nunca aos imbatíveis Alfeu e Nena. Mas quando faltavam oito minutos para o final do jogo, brilhou a estrela da cabrita Chica. Ela iluminou Rui, e na cobrança de falta a bola que tomava o rumo da linha de fundo fez uma leve curva e entrou na forquilha esquerda. Estava, outra vez, liquidado o Grémio. Desde 1932 um Grenal não se limitava a um único gol. Chica foi carregada nos ombros, da rua Dona Laura até a Silveiro. Na avenida Independência os gremistas mais raivosos jogavam baldes de água pela janela, agressão que servia apenas para aliviar o suor de colorados que pulavam enlouquecidos.

As glórias que se acumulavam dentro de campo elevavam os jogadores colorados à condição de semideuses da capital dos pampas. A fama já chegava a Rio e São Paulo, fazendo com que no encerramento do ano de J 943 pelo menos três jogadores do Rolo fossem assediados por grandes clubes do País. O Diário de Notícias informava que o Corinthians oferecia Cr$ 160 mil para levar Tesourinha e Ávila. Que Alfeu estava nos planos do São Paulo. E que o Botafogo, só por Tesourinha, a meaçava pagar exorbitantes Cr$ 200 mil cruzeiros.

Os colorados viviam uma fase de sonhos. Tesourinha e Abigail criaram coragem e foram falar com o patrono do clube, lido Meneghetti, para que os ajudasse a comprar a sonhada casa. Ganharam mais do que ajuda. Ganharam dinheiro suficiente para comprar o que queriam sem precisar mexer em suas economias. Abigail comprou a sua na rua Dom João VI. Tesourinha um terreno próximo ao estádio, na própria Silveiro, ficando ainda com a promessa de que o clube construiria a casa para ele.

O seu lido prometeu, o seu lido prometeu repetia todo santo dia.

Uma tarde, em meio ao treino, Tesourinha cochícou a Abigail que um

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A história dos Grenais

torcedor

acabara de dizer a ele que estavam largando algumas pedras no terreno.

- Vai lá conferir sugeriu o lateral.

Tesourinha saiu correndo e minutos depois reingressou no campo de treinamentos, esbaforido, comunicando a Abigail:

Botaram um monte de pedras lá. Um montão de pedras.

Ávila curtia a fama e o bom momento de outra forma. Ao contrário dos demais, preocupava-se mais com a hora do sol se pôr, para poder ir até o bar Dalila, na esquina da Azenha com a Marcílio Dias, e tomar descansadamente sua cerveja favorita, a Continental. Ficava na sala dos fundos, onde havia duas mesas de bilhar e uma de snooker, local separado do ambiente onde era servido o elogiado bife a pé do Dalila. O garçom. Banha, sabia bem como tratar o ilustre freguês: jamais deixava que as garrafas se acumulassem à mostra, pondo-as cuidadosamente debaixo da mesa. Um gesto de precaução caso os dirigentes do Inter aparecessem de surpresa.

E isso acontecia com alguma frequência. Gildo Russowsky desperdiçou muitas horas de suas noites

atrás do jogador. Pegava seu Chevrolet 39, preto, e ia bater na porta da casa onde morava a sogra de Ávila,

dona Sofia. Lá era informado por ela (diante do balançar de cabeça afirmativo da filha Francisca) que o genro saíra de chinelo e pijama para ir até a esquina. E era assim mesmo que Gildo o encontrava no Dalila. Não estivesse lá, o dirigente já sabia o local do segundo esconderijo: o cabaré do Galo. na Cabo Rocha, hoje Freitas e Castro. Ali Ávila era rei.

O cabaré do Galo era o cinco estrelas naquele pequeno amontoado de prostíbulos. Só o Salão Casique

(assim mesmo, com S) conseguia fazer frente e roubar um pouco da melhor freguesia. Ávila recebia tratamento VIP e reclamava apenas que ali não serviam cerveja Continental, só a Oriente. A ralé que compunha seu grupo de

amigos no Dalila, sem dinheiro para pagar a companhia de profissionais tão formosas e muitas vezes sem ter sequer a consumação de CrS 1.50 por um trago tinha de se contentar com a casa de Dona Estimada. Ali. a trepada custava só 5 mil réis. Walter Lydio Couto, hoje um comportado engenheiro aposentado, amigo de Ávila, lembra com detalhes aquelas noitadas inesquecíveis:

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- Enquanto o Ávila curtia as mordomias do Galo, nós entrávamos numa fila para trepar na casa da Dona Estimada. Uma mulata de boca torta organizava a fila. Após muito esperar entrávamos sem saber quem encontraríamos lá dentro. O quarto tinha uma cama, uma bacia e dois baldes. A prostituta limpava a vagina com a água de um balde, acocorada sobre a bacia, e depois despejava a água suja no outro balde.

Apesar desta imagem tão anti-higiênica, a fase do Rolo compressor naqueles anos 40 deve ser descrita como "romântica". Os jogadores tanto os vitoriosos colorados como os derrotados gremistas vestiam a camisa de seus clubes com amor e respeito. O exemplo de dedicação dado por tricolores e colorados no campeonato de 1944 tornou aquela competição uma das mais dis putadas e bonitas de todos os tempos.

O Inter ganhou o primeiro Grenal do campeonato em abril, com um 4 x 2 no estádio dos Eucaliptos. Em maio, antes do segundo clássico oficial, num amistoso que serviu de inauguração da nova bandeira Tricolor e durante o qual foi prestada uma homenagem aos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira que partiam para a Europa para ajudar a liquidar o já morimbundo movimento nazista outra vitória colorada, por arrasadores 7x3. Por este retrospecto no ano, todo o Rio Grande apostava que no segundo clássico para valer, dia 13 de agosto, o Inter venceria com facilidade e liquidaria o campeona to citadino. Uma charge da Folha da Tarde que circulou no dia do encontro mostrava uma senhora gorda, gremista, apontando para uma folha do calendário e mostrando que era 13 de agosto. O senhor, colorado, respondia: "Ora, deixe disso vizinha, esse negócio de azar não pega. No Grenal ganha quem j oga melhor, o resto é conversa mole".

A convicção da vitória colorada aumentou ainda mais ao encerramento do primeiro tempo do jogo que se realizava no Fortim da Baixada, pois com gois de Elizeu (que substituía Carlitos, machucado), Rui e Adãozinho, os colorados largavam com 3x0. "Mais um, mais um", gritavam os torcedores enquan to os jogadores caminhavam para o vestiário.

Nas sociais do estádio, grupos de gremistas reuniam-se e tratavam de dar início a um abaixo-assinado para derrubar a diretoria. Ao mesmo tempo, encer-

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A história dos Grenais

rado com seus jogadores, o técnico Telêmaco Frazão de Lima procurava superar aquele ambiente desolador:

- Um gol no começo do segundo tempo e teremos alento psicológico para equilibrar o jogo.

O gol veio logo no 3° minuto, através do uruguaio Ramón Castro. Bentevi fez o segundo. Agora era a torcida gremista que gritava "mais um. mais um", já acreditando no empate que viria antes do 30° minuto, outra vez com Ramón Castro. Era fantástico o que estava acontecendo naquele estádio superlotado (renda recorde de Cr$ 38 mil cruzeiros), era quase inacreditável. E aos 38 minutos, para deixar os colorados ainda mais incrédulos, o meia-esquerda Ivo Aguiar buscaria a bola em seu campo, atravessaria toda a zona intermediária, passaria ao ponteiro-esquerdo Mário, que invadiria a área acossado por Alfeu e daria um chute certeiro, sem chances para o goleiro Ivo Winck.

Aquele final de tarde causou especial surpresa nos torcedores do Inter que assistiam a sessão das quatro do Cine Guarani, entre eles o futuro cartunista da Revista O Globo, Zeca Sampaio, um colorado fanático que estava acompanhado da namorada. Como era Grenal, a cada gol que saía o projetista botava na tela a informação. Inter l x 0. 2 x O, 3 x 0. O cinema já estava virado em salão de carnaval. Aí uma pequena fumaça começou a sair da sala de projeção e alguém berrou: "Fogo". A correria tomou conta do ambiente. O lanterninha tentava parar as pessoas e dizia que o problema seria solucionado. Zeca e a namorada ficaram encostados na parede, esperaram, esperaram, até que desistiram e resolveram ir embora. Na saída, ele dirigiu-se ao pipoqueiro, pediu um saquinho e aproveitou para perguntar:

Quanto foi o Grenal? Foi 4x3 pró Grémio.

Zeca Sampaio só foi acreditar no dia sequinte quando as manchetes do dia botavam o Grémio nas alturas. "O quadro gremista reviveu ontem a sua tradição gloriosa", dizia o Diário de Notícias, logo abaixo de uma manchete enorme que garantia ter sido aquela, "A mais impressionante vitória do Grémio".

Para os colorados foi

difícil deglutir aquela derrota. Até hoje fala-se em

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A história dos Grenais

sucos que teriam, ainda na concentração do time na Vila Elza, recebido misturas, dopado e deixado tontos os craques do Rolo durante o intervalo. Os dirigentes colorados diziam saber inclusive o nome dos espiões gremistas que teriam feito o trabalho, mas, curiosamente, negaram-se, sempre, a revelá-los.

De qualquer forma eles teriam sua vingança dois meses depois, no terceiro e decisivo encontro, em campo neutro, na Timbaúva. Um jogo dominical que o Inter começou a vencer na quinta-feira. Carlitos, que

operara os meniscos do joelho direito 23 dias antes, no hospital São Francisco da Santa Casa, repousava em casa quando lá chegaram seus companheiros de time. Iniciou-se então uma conversa boba sobre o tempo e sobre o progresso da cidade, repentinamente interrompida pelo acamado:

Afinal, o que vocês estão fazendo aqui? Não deviam estar concentra dos para o Grenal?

Em nome do grupo. Tesourinha respondeu:

Bem

Entra logo no assunto incentivou Nena.

Tá bom

Não precisa nem jogar, é só vestir a camisa complementou Assis.

A resistência de Carlitos não durou muito. No mesmo dia intensificou

Acontece que

Olha, Carlitos, nós decidimos que tu vais jogar.

seus exercícios de fisioterapia e no domingo entrou em campo para enfrentar um Grémio que só precisava do empate para matar a saudade de um título. Seria "O Grenal mais sensacional de todos os tempos", anunciava a Folha da Tarde. As edições jornalísticas despejavam, naquele dia, notas curiosíssimas sobre o clássico. Estava lá. na página de esportes do Diário de Notícias: a Casa Soares, da rua dos Andradas, oferecia uma deslumbrante camisa no valor de Cr$ 60,00 para ser sorteada entre os jogadores do clube vencedor. E a empresa Lipio & Ludwig, fabricante da caninha Grenal, oferecia "uma dúzia de garrafas do precioso líquido" para ser entregue ao jogador que fizesse o gol da vitória, mimo que fez o redator da Folha redigir uma pérola: "Pode-se facilmente concluir que a façanha será festejada de maneira bastante espiritual". Tinha mais. Um grupo de torcedores do Inter adquiriu 11 apólices de seguro contra acidentes de trânsito, na Companhia Equitativa, para ser entregue aos jogadores caso vencessem.

A história dos Grenais

"Assim o triunfo facultará aos defensores rubros arrojarem-se de joelhos até mesmo debaixo de um bonde", dizia o mesmo jornal. E um outro torcedor colorado enviou duas dú/.ias de lápis para ser entregue àquele que fizesse o primeiro gol no clássico, iniciativa que resultou no seguinte comentário: "A dianteira rubra está na obrigação de fazer gois lapidares".

O bom humor destilado pelos editores de esportes se completou com a reprodução, no Diário, de um bate-boca que havia ocorrido na sexta-feira, entre o torcedor símbolo do Inter, Vicente Rao, e Noventa e Nove. um jovem de 20 anos, gremista dos quatro costados, que levava o apelido porque 99cm era exatamente a sua altura. Noventa e Nove, ou Jorge Batista de Oliveira, foca até o Banco do Comércio, onde trabalhava Rao, para provocá-lo.

Não julgues, Rao, que venho aqui te jogar contetes e fazer rapapés nesta manhã nublosa e

molhada. Sei que vives a fazer promessas a São Judas, o santo milagroso da época e para Santa Clara, a dona das chuvas, para que continue a cair água a fim de vocês, colorados, poderem preparar melhor o quadro.

Ora, tira o petiço da chuva, baixinho petulante.

Então pensas que energia, resistência,

sangue, combatividade, coragem e vontade de vencer estão racionados pelo Caergs? Temos um título de

tetra e vamos promovê-lo a penta no Grenal.

Qual penta, qual nada. Vocês não têm competência nem pinta para pularem na ponta. Isso é

mera balaca. Aliás, neste particular não te respeito. Sou pequenino mas sei vibrar com a voz. Não te iludas pois sou, com meu tamanho. folião incorrigível. Se você vir provocar, saia já para fora.

Ato contínuo, Vicente Rao enveredou pela porta interna do estabelecimento bancário e saiu pelas escadarias onde Noventa e Nove já o aguardava, ao lado do repórter que já estava preocupado com o rumo

que as coisas tomavam. Mas, conhecendo o espíriív brincalhão de Rao, este manteve-se frio até mesmo quando o grandalhão colorado segurou o baixinho, e mantendo-o preso em seus braços disse:

Vamos arrasar o time de Telêmaco c acabar com estes devaneios. Se tu soubesses um pouco da

geografia saberia que duas probabilidades contra uma sempre demonstraram através dos corpos opacos que a coisa está para os colorados.

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A história dos Granais

Noventa e Nove não entendeu nada, ergueu o braçinho e apontando quatro dedos para o céu exclamou:

Há um Deus lá em cima que me saberá vingar.

Não vai chover, o Grenal vai sair e o Inter não perderá o penta.

Não adianta Rao, sangue colorado é sangue ruim. O sangue bom é

azul.

E, dita a última frase, o picurrucho gremista desvencilhou-se e saiu zunindo pela rua 7 de Setembro, rumo à sede tricolor.

Na tarde sem chuvas de domingo, Noventa e Nove decepcionou-se com seu Deus bem cedo. O árbitro Henrique Maia Faillace, conhecido como Rei do Apito, autorizou o início do jogo. Os gremistas deram o primeiro toque, Adãozinho roubou a bola, deu um drible rápido em Touguinha, fez o passe para Tesourinha e este então lançou Carlitos que, enfiando-se área adentro deixou bola bater em seu peito e emendou de primeira, no ângulo. A bola não correra mais do que 20 segundos e o Inter já estava na frente.

Aos oito minutos do segundo tempo, já capcngando em consequência de um pontapé recebido na perna operada, Carlitos bateu um escanteio, o goleiro Júlio soqueou a bola e o uruguaio Vòlpi, de voleio, fez 2 x 0. O Grémio, que dois meses antes conseguira aquela grande virada na Baixada, não se entregou e aos 23 minutos o lateral-esquerdo Sanguinetti outro uruguaio deslocado pela direita, fez um lançamento para Bentevi. Este cruzou alto, no segundo poste da pequena área colorada, e o terceiro uruguaio do jogo, Ramón Castro cabeceou descontando. A partir de então, o Inter defendeu-se como pôde. Carlitos mal caminhava. Assis, com torção no tornozelo, não podia mais dividir bolas e Tesourinha recuou para fazer a função dele na lateral. Não era possível fazer substituições naquela época, é bom lembrar, e com inferioridade numérica, os colorados se multiplicavam para garantir a vitória. Volpi, que fizera o segundo gol do Inter e mais tarde levaria 12 garrafas de canha Grenal para casa era o único que não pegava junto, não punha o coração em jogo, despertanto por isso a ira do negrão Ávila, que gritava:

Luta, castelhano covarde.

O castelhano se encolheu ainda mais. Alfeu também se machucou e o

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A história dos Grenais

Inter ficou reduzido a sete jogadores inteiros. Mas resistia de forma brava. No último minuto, confusão total na área, a bola sobrou para o gremista Ivo Aguiar, sozinho, e os torcedores do Inter juntaram as mãos em sinal de prece, para que algum defensor invisível surgisse de repente e impedisse a tragédia. Mas não foi preciso

ajuda do sobrenatural: Alfeu, que estava longe do lance, ignorou o problema muscular, correu arrastando a perna e jogou-se a tempo de salvar o time. Ficou ali mesmo, estirado, urrando de dor, enquanto o povo "

O nome do ídolo ecoaria durante toda aquela noite por

colorado urrava de felicidade. "Alfeu, Alfeu, Alfcu uma Porto Alegre vermelha, cor de sangue.

A vitória naquele Grenal inesquecível e a conquista dos pentacampeo-natos citadino e estadual (este contra o Bagé) eram feitos suficientes para que o clube do povo se desse por satisfeito no ano. Mas teria mais. O time. ou quase todo ele, foi representar o Estado no campeonato brasileiro de seleçõcs. Do Grémio, só o goleiro Júlio, o que causou revolta entre os tricolores. Que. peto menos, levassem um atacante. Ivo Aguiar, ou Touguinha, afinal era imcom-preensível que a camisa de centroavante titular fosse dada àquele negrinho de baixa estatura, muito jovem, que só entrara no time principal do Inter porque Vilalba trocara o clube do Sul pelo Palmeiras.

Pura dor de cotovelo. Adãozinho, o negrinho baixinho, jogava demais e. graças a ele, o Rio Grande do Sul conseguiu pela primeira vez derrotar a temida seleção de São Paulo que tinha, como centroavante, o experiente Leônidas da Silva, o Homem Borracha, ou Diamante. Negro (como o haviam apelidado na Copa de 1938, quando fez oito gois e foi o artilheiro da competição). Nas semifinais, partida disputada no Rio de Janeiro, o Inter, ou melhor, o Rio Grande do Sul, fez 2 x l em São Paulo e o pretinho, toco de gente, fez os dois gois. além de ter sido considerado o melhor jogador em campo. Na segunda partida, ofendidos e, ao natural, melhores, os paulistas fariam 5 x O e iriam à final contra os cariocas, mas independente do rumo que o campeonato tomou. Adãozinho já fizera seu nome. Ele, Alfeu (que anulou Leônidas no primeiro jogo». Ávila. Abigail e Tesourinha, encantaram a crónica do centro do País. Os jogadores do Rolo, com a camisa da seleção gaúcha, ganhavam o reconhecimento definitivo. Na edição do Jornal do Brasil de 24 de novembro daquele 1944. Ary Barroso.

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A história dos Grenais

cronista, letrista, anti-getulista, apresentador de televisão, narrador de futebol, autor da música/hino Aquarela do Brasil (e ele odiava que o lembrassem invariavelmente como autor da Aquarela pois considerava outras composições de seu vasto repertório melhores), faria o mais enobrecedor dos textos a respeito do grande Inter da década de 40. O título de sua crónica era O Macumbeiro'.

"Rio, 23.

Nos áureos tempos do amadorismo puro, o jogador escolhia livremente o clube dos seus afetos e envergava a sua camiseta com orgulho e entusiasmo. Os voos eram raros e, quase sempre, provocavam escândalo. Quando um atleta qualquer trocava de clube, era cognominado sarcasticamcnte de borboleta. Os borboletas podem ser os precursores da "insensibilidade clubística" que contaminou o nosso profissionalismo. O regime da remuneração organizada (ou desorganizada?) veio acabar definitivamente com o lado emocional do futebol. Hoje em dia o jogador não tem mais preferência. Vai para o grémio que melhor lhe pagar. Não joga por causa do clube, se não pelo contrato a prazo fixo. Tanto se lhe faz vestir uma camisa branca ou preta, azul ou vermelha, aqui ou em São Paulo, no Norte ou no Sul. Todo fim de ano é este corre-corre tremendo em busca de craques, com operações mais ou menos escusas e expedientes geralmente inferiores.

No panorama do profissionalismo brasileiro, porém, há um grupo de jogadores sui-generis. As abarrotadas arcas de dinheiro dos clubes milionários do Rio e de São Paulo absolutamente não seduzem o jogador deste grupo. São profissionais com mentalidade amadorista. Sentem-se bem onde estão e ouvem com

singular desinteresse as ternas e embaladoras canções das sereias astutas que os pretendem abraçar. Refiro-me ao notável grupo de profissionais do Internacional de Porto Alegre!

O estribilho destas canções de amor é o mesmo com pequeninas adaptações:

Que é que vocês pretendem da vida, perdidos lá pelas lonjuras dos pampas? A felicidade está por

aqui. Há dinheiro, fama, popularidade, cartaz, enfim

E eles continuam firmes no Internacional.

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Vamos pensar no dia de amanhã.

Sai jogador do Pará, de

Pernambuco, da Bahia, de Minas Gerais, do Paraná. Do Internacional não sai. Os emissários vão ao Sul e voltam desnorteados com o livro de cheques intacto. Que será isso? Não é por falta das sereias cantar para eles o chorinho buliçoso e metálico das cifras. Há qualquer segredo no apego destes profissionais do Internacional ao próprio clube. Alguém dirá:

São muito burros. Responderei:

De burro não têm nada. São divinamente sagazes e inteligentes. Querem saber o que um deles

me disse?

Não me interessam as propostas formidáveis que constantemente nos fazem representantes de

clubes cariocas e paulistas. Não deixo o Internacional. Vivo bem por lá, rodeado de amigos sinceros, protegido por meus diretores e amparado pela minha torcida. Porque hei de abandonar o agradável

.Nem tudo neste mundo se pode comprar com

dinheiro. Não, estou satisfeito no Internacional e já que comecei neste clube, nele hei de terminar minha carreira. Se o futebol brasileiro precisar de meus modestos recursos, estarei a sua disposição com prazer

e honra. Agora, clube, só o meu. Quando o craque terminou eu ainda continuei olhando para ele, meio tonto, meio abobalhado, sem capacidade para articular uma palavra. Percebendo minha atitude sublinhou as suas expressões com este período definitivo:

ambiente em que vivo, pela ambição de mais alguns

cruzeiros.

É isso mesmo, "seu" Ary.

Uma espécie de tiro de misericórdia.

Sacudi a cabeça como quem espanta o sono e rapidamente dei um pulaço na cadeira e fui cair no gabinete de trabalho do senhor Abelardo Noronha, na capital gaúcha, para perguntar-lhe com a sofreguidão dos curiosos impenitentes:

Presidente, o senhor que é macumbeiro do profissionalismo indígena, o senhor que faz

despachos terríveis e os coloca na porta da casa de seus jogadores a ponto de inocular-lhes a mística internacionalista. o senhor que não tem medo de tenores e muito menos de sereias, o senhor feiticeiro dos pampas, quer me revelar a sua reza milagrosa? Olhe, quem sabe não é isso que está fal-

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A história dos Grenais

tando ao futebol brasileiro e nós seremos capazes de fazer uma revolução no profissionalismo fazendo de todos os jogadores gente da marca dos seus jogadores. Ah, pai de santo invencível, me dá um pouco de seu marafo.

Porque, meus senhores a obra do presidente do Internacional tem sido tão útil, tão grande e tem produzido tão admiráveis frutos que ele pode ser apontado como único em sua terra, pondo amor no coração dos seus contratados e retendo no seu clube astros de invulgar brilho, como este gigantesco Ávila, este satânico Àdãozinho, este incansável Abigail e esta maravilha que é Tesourinha. Eta macumbeiro brabo e perigoso".

O jogador com o qual Ary Barroso falara era Àdãozinho e é difícil acreditar que, com toda sua simplicidade, o centroavante colorado tenha travado diálogo tão fluente com um dos mais criativos e eloquentes comunicadores do país. Àdãozinho deve ter se limitado a um "gosto do Inter e não quero sair", o que, no final das contas, vinha a ser o mesmo. A indissolubilidade do lime colorado, tão elogiada por Ary, também não era um fato tão concreto. Um dos heróis do Rolo, Russinho, já deixara o clube um ano antes, e era substituído, ora por Cacho Perez, ora por Volpi, ambos castelhanos. Assis, que definitivamente perdia a briga para a cerveja, gordo, sairia da equipe alguns meses depois. E o próprio Àdãozinho ocupava o lugar do goleador Vilalba. Esta última, uma troca que não resultou em nenhuma desvantagem. O baixinho, como escrevera Ary Barroso, era satânico.

Àdãozinho foi descoberto pelo próprio macumbeiro Abelard, batendo bola num campinho na esquina da Ipiranga com a Ramiro Barcelos. Não foi preciso analisar de forma muito aprofundada o desempenho do guri na pelada para ver que ele tinha qualidades técnicas incomuns. Estava na cara. Mas o promissor atacante possuía outra qualidade incomum: a preguiça. Logo que ingressou no Inter, para jogar nos aspirantes, não apareceu para um treino que seria realizado pela manhã. O presidente do clube foi então buscá-lo em sua casa, e o faria mesmo que na porrada.

Ele não está disse a mãe de Àdãozinho. com ar sonolento. Não sei quem é mais sem-vergonha, se a senhora ou o seu filho retrucou Abelard.

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A história dos Grenais

E dito isso arrombou a porta do quarto do barraco e arrastou o centroa-vante. Adãozinho passou a morar numa luxuosa casa de três andares na avenida Independência, a ter comida farta e boas roupas. A mãe, lá no barraco, ergueu as mãos para o céu e deu graças a Deus.

Adãozinho ganhou urn quarto só para ele e.fazia as refeições com os funcionários da casa.

Um dia você ainda vai me dar água na mesa do patrão avisava à empregada.

Um ano depois, após a grande campanha no campeonato de seleções de 1944, todo o grupo de jogadores que representou o Rio Grande foi jantar na casa de Abelard. Quando a empregada entrou na sala para servir. Adãozinho. orgulhoso, da cabeceira da mesa, exclamou:

Não te disse? Não te disse?

Muito dinheiro entrou nos bolsos dos jogadores colorados na temporada. O clube abriu uma caderneta de poupança na Caixa Económica Federal, para cada um dos seus titulares, no valor de Cr$ 3 mil cruzeiros. Carlitos. fama de pão-duro, pegou mais Cr$ 1.500 que tinha economizado e comprou outro ter- reno na Tristeza. O património aumentava. Nena e Tesourinha foram atrás e compraram terrenos ali perto. Tesourinha vivia sua fase áurea. Casara no início do ano com a jovem Conceição Menezes, numa festa que mereceu fartos registros nas páginas sociais. Ganhara presentes que totalizavam CrS 15 mil e sua casa na Silveiro. pronta há horas, ficou abarrotada. "A popularidade é coisa séria e "não há quem a tenha mais que ele no futebol gaúcho", registrou a Folha da Tarde.

A popularidade cresceu em 1945. Tesourinha foi eleito o melhor ponteiro do Continente durante o

campeonato sul-americano de seleções e jogou como nunca no campeonato estadual. O Inter ganhou os três Grenais oficiais e. de lambuja, mais um amistoso, dando ao Grémio apenas o gostinho de um empole. Tesourinha fez gois em todos os clássicos que valiam pontos. Inter. hexacam-peão gaúcho invicto no fim da fase áurea do Rolo Compressor. De 1940 a 1945,o time jogara 28 vezes contra o Grémio, ganhara 19. empatara cinco perdera apenas quatro. Em gois, uma goleada total de 87 x 49.

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A história dos Grenais

Cansado de apanhar o Grémio apelou para todos os santos possíveis e imagináveis em 1946. Um aglutinar de forças de dar inveja. Demonstrações de paixão doída. O presidente, doutor José Gerbasc, foi longe buscar reforços. Trouxe do Vasco da Gama três aspirantes promissores, o lateral-direito Jorge, o ponteiro-direito Cordeiro e o meia-esquerda Hélio, pondo-os à disposição de um estudioso do futebol, o técnico Oto Pedro Bumbel. O vice-presidente Severino Nunes Filho achou que a presença de um patrono daria maior dignididade ao clube, maior grandeza, e após uma alteração nos estatutos, foi criado o artigo 161, conferindo a Aurélio de Lima Py, "em homenagem aos serviços excepcionais prestados", o primeiro título. Alguns conselheiros mais supersticiosos foram atrás do Homem dos Cachos, um pai de santo que morava na Mo s tardei ro, proximidades do campo da Baixada e que, uma década depois, ainda era citado regularmente como responsável pela heróica e histórica vitória sobre os vermelhos no Grenal Farroupilha de 1935. Prometeram grana preta para Dos Cachos, que só vestia branco. O chefe de torcidas, Salim Nigri, idealizou e o diretor Flávio Obino institucionalizou, uma frase que passaria a ser levada em faixas para o estádio a fim de dar incentivo e moral aos atletas: "Com o Grémio onde estiver o Grémio". E completando o movimento de mobilização, Carlos Engelke Filho criaria uma publicação chamada "Mosqueteiro", cujo símbolo, bota e espada a tiracolo passaria a identificar o próprio clube. A figura do mosqueteiro, desenhada pelo chargista da Folha da Tarde, Pompeu, seria representada nos estádios por um boneco de dois metros de altura.

O Inter, sabiam os gremistas, continuava melhor. Apesar de algumas mudanças ainda era o Rolo.

Um time que se dava até ao luxo de ter como técnico um uruguaio simpático, brincalhão, amigo de todos (na concentração preferia um bom jogo de cartas à palestras táticas) mas que na verdade não tinha tantos conhecimentos assim para comandar o grupo. Felix Magno era seu nome. Fora volante do próprio Inter no final dos anos 30, início dos 40, e os mais velhos conselheiros do clube lembram como feito marcante dele a desastrada participação durante um amistoso contra o América do Rio, nos Eucaliptos. Naquela época, em jogos festivos, era comum um teco-teco passar por sobre o estádio e lá do alto, 100 metros acima, largar uma bola que cairia bem no meio do grama-

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A história dos Grenais

do, uma espécie de pontapé-inicial com efeitos especiais. Pois a bola foi largada do avião, pegou velocidade, força, aumentou consideravelmente de peso. mas Felix Magno, desconhecendo leis elementares da física posicionou-se bem e. conscientemente, cabeceou a peronha. Foi à nocaute, é claro. Os torcedores não sabiam

se

ficavam preocupados ou se riam do acontecido. Assim que acordou. Magno virou-se para o jovem Carlitos

e,

ainda tonto, disse:

Tche, gurizito, estoy mareado.

O primeiro dos Grenais oficiais daquele ano ficou só no 1x0 para a equipe colorada, gol daquele ponteiro que há quase uma década os incomodava. Carlitos. Mas o time do Grémio, na base da gana e de uma aplicação tática que o técnico Bumbel cobrava a todo segundo, fizera um jogo equilibrado. Perdera porque o adversário soube usar bem sua experiência e malandragem. E corno a usava. Carlitos, sempre moleque, tinha a mania de abaixar-se pouco antes das cobranças de escanteio, encher a mão de terra (uma vasta extensão próxima às traves inimigas) e quando a bola era cruzada jogava nos olhos do goleiro sem que o juiz visse, cegando-o momentaneamente para que o centroavante fi/.esse o gol. Ri, lembrando da sacanagem:

Havia uma outra tática também eficiente. Quando a bola era levantada

para a área, eu metia o dedo no eu do zagueiro e ele ficava estático enquanto um companheiro meu subia sozinho e metia a cabeça. É impressionante a capaci dade que um dedo tem de paralisar um adversário.

Mas com os batuques de Dos Cachos e o desrespeito de Cordeiro, um atacante que chegara do Rio

pouco sabendo sobre um tal de Rolo Compressor, o Grémio venceu por 2 x l o segundo Grenal do citadino,

o decisivo. Gois de quem? De quem? Ambos de Cordeiro, o jovem de 20 anos que perguntara

ingenuamente ao técnico Bumbel, quando este tentava explicar o poderio do maior rival:

Rolo o quê?

Os gremistas comemoraram tanto aquele título que não vinha há 14 anos "o delirante corso festivo tinha duas centenas de automóveis" -que os conselheiros que haviam prometido dinheiro ao pai de santo Homem dos Cachos esqueceram do pagamento pelo ótimo trabalho.

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A história dos Granais

Isso vai sair caro para vocês, uma derrota para

cada jogador

agourou Dos Cachos, aos berros, para o grupo de conselheiros e torcedores que

circulavam pelo Fortim da Baixada no dia seguinte.

E o que até hoje me impressiona, é que o Grémio ficou exatos onze

jogos sem ganhar de ninguém lembra um daqueles conselheiros que ouviu a ameaça, Salim Nigri. Grenal, o Grémio só voltaria a ganhar 17 clássicos e três anos depois, em 1949. Em 47 e 48, outra vez predomínio do clube dos Eucaliptos, outra vez com o comando dos dois ponteiros indestrutíveis, Tesourinha e Carlitos. Tesourinha, em 1948, chegou ao cúmulo de ter ganho a eleição nacional do Craque Melhorai. Uma caixa inteira do comprimido para dor de cabeça que estava sendo lançado no país representava 100 votos. Os cabos eleitorais de Tesourinha surgiam aos borbotões pelo Rio Grande. Até gremistas votavam

nele. E assim não deu outra. Deu Tesourinha, e ele e dona Conceição ganharam um apartamento na praia de Copacabana, no Rio. A Cidade Maravilhosa parecia que os chamava.

Osmar Fortes Barcellos atendeu ao chamado em 1949, após ganhar oito campeonatos estaduais em dez anos de Inter. Mas despediu-se do clube com derrota. Em 30 de outubro, ao lado de velhos resistentes como o goleiro Ivo, o zagueiro Nena e o ponteiro Carlitos, não impediu que o campeonato terminasse em festa Tricolor. 1x0 para o Grémio em pleno estádio dos Eucaliptos, gol do grandalhão Geada, em dia de renda recorde: Cr$ 260.887. Uma vitória surpreendente, embora justa, e que repercutiu nos mais distantes cantos onde houvesse simpatizantes do clube colorado. No interior carioca, em Nova Friburgo, Larry Pinto de Farias, um jovem de 17 anos que dava ao seu adorado time de botões o nome de Inter, arregalou os olhos, incrédulo, quando leu na revista O Cruzeiro que no campeonato gaúcho daquele ano a vitória fora do Grémio. Mesmo à distância, não compreendia como Nena, Tesourinha e Adãozinho podiam ter perdido para o Grémio, gol de um tal Geada. Larry sequer imaginava que cinco anos depois acabaria vestindo a camisa do Inter, realizaria atuações memoráveis em Grenais e teria como adversário o seu maior ídolo, Tesourinha.

Aquele 1949 representou a primeira gestão de Saturnino Vanzelotti como

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A história dos Grenais

presidente do Grémio. Era o início de um doloroso processo, comandado por ele mesmo, cujo objetivo principal era acabar com a norma dos estatutos que impedia o clube de incluir em sua equipe de futebol atletas de cor. Uma norma que resultava vantajosa para os rivais, pois o universo de jogadores à disposição deles era muito maior e, além disso, uma norma que Vanzelotti considerava vergonhosa. Mas o bem intencionado presidente sabia que não conseguiria derrubá-la com um chute de primeira porque parte do conselho ainda mantinha fortemente enraizado o preconceito racial. Optou pela tática do "tanto bate até que fura" e aos poucos foi amorenando o time. O meio-campista Hermes, por exemplo, campeão naquele 49, era negro e, por isso, vivia uma situação constrangedora. Os colorados que cruzavam por ele nas ruas perguntavam:

O que você está fazendo no Grémio, traidor da raça?

Hermes aguentava calado. Precisava do dinheiro para sobreviver e além disso gostava muito do clube. Sua atitude, inicialmente criticada e considerada submissa, na verdade foi decisiva para que Saturnino Vanzelotti pudesse aos poucos dobrar os mais preconceituosos de seus conselheiros. Estes, diante do fato inegável que era a presença de Hermes como ponta-de-lança titular, diziam que o jogador tomava muito sol e era, isto sim, bronzeado.

Vanzelotti gostava de Hermes, mas sonhava com Tesourinha. Não tinha em caixa dinheiro para contratar o ponteiro que, na época, era titular da seleção brasileira, mas armazenou o sonho e deixou-o lá, no fundo de seu baú de desejos. O futuro, a quem pertencia?

Enquanto Vanzelotti sonhava, Tesourinha engolia sua humildade, criava coragem e mandava-se para o Rio, onde seria campeão estadual com a camisa do Vasco e campeão brasileiro de seleções pela equipe carioca. O amigo Abigail. que em anos anteriores chegara a ser sondado para tomar o mesmo rumo, agora sentia-se entusiasmado a acompanhar o ponteiro, mas uma incurável distensão na virilha impedia qualquer tipo de negociação. Abigail gostava do Rio. Tinha parentes por lá, inclusive tia Perciliana, a autora de seu curioso nome. Quando, em 1926, nascera o menino, a mãe ligara para a irmã que morava na capital da nação ela

certamente teria uma ideia brilhante pedindo uma sugestão de nome. Perciliana, que acreditava ter nascido uma menina, pensou, pensou, e lascou:

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A história dos Grenais

Abigail.

Como o nome se prestava a homens e mulheres

Abigail reencontraria Tesourinha mais tarde e este revelaria que a expe riência as pés dos Cristo Redentor não fora das melhores. Machucou cor seriedade o joelho, ficou fora da Copa de 1950 se lá estivesse quem sab não teríamos vencido os uruguaios naquela trágica final e voltou ao Sul en dezembro de 1951, logo após completar 30 anos, pouco disposto a abandonar o campos de futebol. Sabia que sua condição física nunca mais seria a mesma ma, não pensava em desistir.

Porto Alegre mudara muito naqueles seus três anos de ausência. O Inte continuava ganhando, chegara ao bicampeonato estadual c era conhecido come o Rolinho (evidentemente uma referência ao inesquecível time dos anos 40) mas não havia mais nenhum de seus companheiros na equipe. Até Carlitof abandonara o clube naquela temporada. Carlitos, ou Carlos, ou Carlinhos, finalmente abrira a mão, comprara um Ford inglês da marca Anglia e em novembrc de 1951 se dera como presente do 30° aniversário, juntamente com a aposentadoria. Aposentou-se às vésperas do último Grenal oficial da temporada, quando o título já havia sido ganho, o 10° desde ele que chegara ao clube no distante 1938.

O novo Inter encontrado por Tesourinha tinha uma zaga elogiadíssima, formada pela dupla Florindo

e Oreco. Os laterais, alas modernos, de apoio, eram Paulinho e Odorico. O centroavante sensação do

Estado era um pernambucano que cabeceava como ninguém (daí seu apelido), Bodinho, e na ponta-direita, a

sua ponta-direita de tantos anos, um novo ídolo dos colorados: Luizinho. Um timaço. Não havia mais lugar para ele nos Eucaliptos.

Foi quando Saturnino Vanzelotti remexeu em seu baú de sonhos e convidou o ponteiro, mesmo com o

joelho estourado, para vestir a camisa Tricolor. Deixou bem claro: a contratação teria um valor bem maior que

o estipulado em cruzeiros, e uma importância superior à presença do jogador na ponta-direita do time. A

contratação representaria oficialmente o fim do preconceito no clube da Baixada. Para Tesourinha não foi nada fácil tomar a decisão. Sempre fora colorado, inimigo dos azuis e temia que a consciência o incriminasse por dupla

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A história dos Grenais

traição. Aos colorados e aos negros. Passou noites sem conseguir dormir, enquanto o Grémio pressionava para que aceitasse a proposta. Queria continuar jogando bola e precisava de dinheiro, pois o que guardara não dana para mante-lo por muito tempo. Após uma destas noites inquietas, deixou o sol nascer, tomou um cate e foi atrás do amigo Abigail para se aconselhar.

Tenho medo de me arrepender Bigual (era assim que chamava Abigail). Os torcedores colorados, que sempre me deram força, não vão me perdoar. Chego a andar com dor de cabeça de tanto pensar nisso. O que faço? Pego os pilas e ajudo eles (os gremistas)'?

Abigail deu-lhe o empurrão que faltava:

Tesourinha, tu não é mais guri, não está em condições de estar escolhendo time, é profissional,

e além disso não podemos negar que o Grémio, nosso inimigo, é um grande clube.

E então, em fevereiro de 1952, tudo acertado, Saturnino Vanzelotti assinou a nota histórica: "A

Diretoria do Grémio Futebol Porto-Alegrense vem trazer ao conhecimento de seus associados e simpatizantes, por decisão unânime, que resolveu tornar insubsistente a norma que vinha sendo seguida, de não incluir atletas de cor em sua representação de futebol. A decisão tomada com convicção, após cuidadoso exame da situação, ausculta, acima de tudo, não só as determinações de nossa Carta Magna, como a imposição expressa de nossos próprios estatutos".

O mundo velho dava suas voltas e trazia Tesourinha de volta a sua casa da Silveiro. Porto Alegre crescia,

paupérrimas vilas espalhavam-se pela periferia (contavam-se dez), e Saturnino Vanzelolti, cumprida a missão de abrir as portas do clube para os negros, mirava seus olhos para outro grande objetivo: a construção do estádio Olímpico. Era uma época de pensar grande. Getúlio Vargas, após seis anos. voltara à presidência do Brasil eleito pelo Partido Trabalhista Brasileiro com 3.849.000 votos (dando um vareio cm Eduardo Gomes, da UDN, e Cristiano Machado, do PSD) e seus planos como a implantação do monopólio estatal do petróleo, criação da Petrobrás e a nacionalização da energia elétrica por meio da Eletrobrás. davam a clara impressão de que uma fase de crescimento tinha início. O otimismo impregnava a todos naquele início de anos 50. Inclusive o Grémio de Tesourinha.

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O primeiro Grenal disputado pelo ponteiro com a camisa nas cores azul, preto e branco, um amistoso

em 13 de julho de 1952, terminou com a vitória gremista por 2 x 1. Os companheiros de Tesourinha eram Sérgio; Ciarei e Xisto; Hugo, Aldeia e Bentevi (depois substituído por Joni); Gita (Ferraz), Camacho, Pedrinho e Robinson. Gita e Camacho fizeram os gois. descontando Camargo para os colorados. Seria a simples presença do craque negro capaz de mudar a indiscutível realidade de que o Inter era melhor? Não. Não este Tesourinha de meniscos e ligamentos do joelho estourados, já sem velocidade, martirizado pelas ofensas de milhares que antes eram seus fãs. Este. disputaria mais oito clássicos e não ganharia nenhum, não marcaria gol algum.

O último Grenal do campeonato de 1952, apitado por Osvaldo Rolla, o Foguinho, foi humilhante.

Num estádio dos Eucaliptos lotado, o Inter fez 5 x l e o ponteiro foi completamente anulado por Odorico. Os colorados exultavam. Nenhum torcedor queria perder a chance de assistir os shows do filho pródigo do Rolo, o Rolinho. Na tarde daquele 5 x 1. os irmãos Renato e Roberto Faillace convidaram o amigo Paulo Brasil Gomes de Sampaio, o Sampaulo, para irem juntos para o estádio. Lá aplicavam com frequência um golpe infalível para ver o jogo sem pagar. Filhos de sócios podiam entrar com a carteira do pai e os filhos de

Jandir Faillace um dos primeiros e mais respeitáveis sócios do tnter pegavam a carteirinha dele, entrando todos, um após o outro, com ela. O primeiro subia até as sociais, jogava-a para o lado de fora do muro onde o segundo estava esperando, e assim por diante. Só que naquele dia tão importante Sampaulo deu azar. Quando chegou a sua vez. o documento ficou preso nos galhos de um eucalipto. Mais que depressa

o futuro chargista se atracou a subir no tronco da árvore, mas foi pego em flagrante pelo guarda que

circulava a cavalo: "Desce daí pilantra!" Sampaulo tinha 20 anos, era estudante, sem dinheiro, e além de não poder entrar no estádio ainda foi obrigado a ficar os 90 minutos embaixo do eucalipto cuidando para

a carteirinha não cair e se extraviar. E assim teve de contentar-se em ouvir o relato da goleada de pé, no bonde, quando retornavam para casa. "O Odorico enterrou o Tesourinha", contou Renato.

Os gremistas, ao invés de fugirem dos estádios e mostrarem decepção

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com o clube, apegavam-se e faziam crescer sua paixão. Uniam-se, consolavam-se e davam alento a dirigentes e jogadores sempre carregando a apaixonada frase "com o Grémio onde estiver o Grémio". Foi neste período de dor que o compositor Lupicfnio Rodrigues conseguiu resumir em quatro frases a devoção da torcida Tricolor para com o seu time. Mestre em composições no estilo dor-de-cotovelo, e já cansado de discussões nos bares da Cidade Baixa onde se via obrigado a contra-atacar as provocações coloradas, Lupi tez a letra e a música que esclareceriam de vez aos adversários que, independente do que já acontecera e do que viesse a acontecer nos campos de futebol, ele e os demais azuis estariam sempre, orgulhosamente, ao lado do seu Grémio Foot-Ball Porto-Alegrense. E cantou "até a pé nós iremos/para o que der e vier/mas o certo é que nós estaremos/com o Grémio onde o Grémio estiver". Virou hino do clube. Mas não impediu mais um campeonato do Inter, que alcançava assim, em 1953, seu segundo tetracampeonato.

A decisão do citadino, dia 1° de novembro, no estádio da Baixada, acabou em 2 x O para os colorados, gois de Jerônimo e Canhotinho. Não foi nenhum deles, entretanto, a enlouquecer a zaga grcmista no jogo e sim o supersticioso, impressionável e impressionante pernambucano Bodinho. Na véspera do jogo do tetra, informado por um amigo que os gremistas haviam feito um trabalho para prejudicá-lo, procurou, apavorado, o técnico Teté:

Fizeram despacho pra mim, me amarraram, acho melhor nem me escalar para o jogo de amanhã.

Teté, que entre outras várias especialidades era mestre graduado em assuntos de macumba, mandou Bodinho ficar na sala, quieto, que ele resolveria o problema. Chamou então a mãe Geralda, uma negra batuqueira que morava na Glória e era conhecida no clube. Trancou-se com ela na cozinha dos Eucaliptos. Lá dentro não fez nada além de jogar conversa fora e comer linguiça com farinha, mas após duas horas comunicaram a Nilton Coelho da Costa, o Bodinho. que ele estava desamarrado e podia entrar em campo tranquilo:

Ainda bem que tu me avisou, porque não foi fácil desfazer o trabalho revelou Teté com ar de alívio, missão cumprida.

E após um ufa, Bodinho foi embora, dormiu sossegado e no dia seguinte

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infernizou a vida dos zagueiros gremistas. Aos derrotados restou, como consolo, saber que as obras do novo e grandioso estádio estavam quase prontas naquele final de ano. João Goulart, que fora coordenador da campanha presidencial de Getúlio e ocupava agora o cargo de Ministro do Trabalho, foi visitar, em 20 de dezembro, as obras do monumental estádio que surgia na avenida Carlos Barbosa, local onde anteriormente se agrupavam famílias miseráveis, centenas de casas sob o sugestivo nome de Vila Caiu do Céu (porque as improvisadas residências surgiam do dia para a noite sem que ninguém se desse conta).

Em 1954, enquanto o Grémio fazia os preparativos para a inaguração deste novo estádio que substituiria o da Baixada,o folcórico Bodinho ganhava a companhia de um outro centroavante com o qual formaria a dupla de ataque mais famosa do Inter: Larry. O carioca de Nova Friburgo já abandonara seu time de botões preferido, o Inter, com o qual goleava os amigos do Colégio Modelo, Roberto e Reginaldo Farias; já passara dois anos vestindo a camisa do Fluminense, onde substituíra Telê (ele mesmo, o Santana); e deixara o clube das Laranjeiras por dois motivos: primeiro porque o técnico Zezé Moreira insistia em fazê-lo executar uma função que detestava, a do centroavante que fica estático na área, em meio aos zagueiros, e segundo, porque o médico do clube, Paes Barreto, já detectara a taquicardia que vez ou outra, em momentos de muita tensão, atacava o jogador e tirava-o de ação.

Larry Pinto de Farias chegou a Porto Alegre no dia 9 de maio de 1954, uma quarta-feira chuvosa, e foi direto para a concentração do estádio dos Eucaliptos. O mau tempo e o precário estado do local onde passaria seus primeiros dias deram-lhe uma péssima impressão do clube e da cidade. Um sentimento que se tornava mais forte quando batia a saudade da namorada, Maria Luiza, ou quando lembrava-se da estrutura exemplar do Fluminense na época.

Fui dividir um quarto com o Bodinho e o Breno (um reserva do clube). A concentração não tinha nada, nenhum conforto, e apesar de estranhar o frio fui obrigado a tomar banho gelado.

Dia 18 de julho, dois meses após a chegada, Larry teria a primeira oportunidade de ver que, mais indigesta que o frio seria a marcação que os gremistas imporiam a ele nos clássicos Grenais. Já ouvira falar em rivalidades regionais,

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A história dos Grenais

mas concluirá que, como aqui, não poderia haver igual. O jogo. que sequer era válido pelo campeonato, acabou em vitória por 3x1. Bodinho tez dois gois. Itamar (um ex-aspírante do Flamengo que conhecia do Rio de Janeiro) descontou para o Grémio, e quando ele, Larry, fez o terceiro, o violento lateral Xisto perdeu a cabeça. A bola fora lançada na ponta-esquerda, Larry correra para tentar alcançá-la, mas ao ver que não conseguiria virou-se para retornar ao centro do gramado. Ficou de frente para o crime. O adversário continuava correndo em sua direção. Era Xisto, que lhe aplicou então um direto no queixo que jamais seria esquecido. O golpe veio acompanhado de uma frase carregada de ódio e preconceito:

- Toma, carioca filho da puta.

Larry ficou zonzo, já não sabia mais para que lado era o centro do campo, mas o que lhe restava de consciência pós-golpe possibilitou ouvir uma frase solidária, pronunciada pelo goleiro grcmista, Sérgio (Moacir Torres): Xisto, deixa o carioca jogar a bola dele, não faz uma coisa dessas.

Xisto que mais tarde teria a perna quebrada pelo colorado Salvador era naturalmente agressivo. Em Grenal do ano anterior sua vítima fora Luizinho. o pontciro-direito do Inter que de 1952 a 1957 foi responsável por noites e noites de insónia dos laterais-esquerdos grcinistas. Não satisfeito em jogar o baixinho fora do gramado com um pontapé, avançou até ele, apoiou a mão direita sobre a nuca do jogador caído e esfregou seu rosto no chão. O árbitro, Hans Lutzkat, educadamente repreendeu o agressor e pediu que não repetisse o gesto.

Xisto fazia em campo o que os mais raivosos dos torcedores do time. os "xiitas" tricolores, tinham vontade de fazer tamanhas eram as surras que andavam levando. No mesmo mês de julho, uma semana após os 3 x 1. um novo encontro resultaria em 4 x O para os colorados, aumentando o contingente dos azuis

propensos a transformarem-se em Xistos. E em setembro, bem

amistoso que, na lembrança do povo vermelho, tem mais valor que muitos títulos.

em 26 de setembro, ocorreu o Grcnal

O Grémio inaugurava o Olímpico, um estádio de dar inveja. Após guerrear por exatos 50 anos no Fortim da Baixada, de 1904 a 1954. era chegada a

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hora do salto de grandeza. O processo para deslocar para outras áreas da cidade aquele povaréu que habitava a Caiu do Céu fora complicado, demorado. Durante todo o ano de 1951 o prefeito colorado, lido Meneghetti, usara de sua habilidade política para fazer as transferências sem traumas, sem prejuízos para sua imagem e para seu projeto grandioso de vir a ser governador do estado. E Meneghetti foi eficiente, garantindo a desocupação em dezembro daquele ano. As obras propriamente ditas só começaram a ser notadas em 1953, depois que haviam sido movimentados 80.000m3 de terra e depois de ter sido feito o desvio, a dragagem e a retificação do arroio Cascatinha, que serpenteava o terreno.

A partir daí o processo acelerou-se e naquele ensolarado setembro lá estava o Olímpico, majestoso, pavilhão social completo, 2.000 cadeiras cativas sob a marquise de 90 metros, arquibancadas populares, além da tribuna de honra e demais dependências para capacidade inicial de 38.000 pessoas bem acomodadas. Surgia na capital dos Pampas o maior estádio particular do Brasil,

As 15 horas do dia 19. a banda da Brigada Militar ingressou no estádio para o desfile inaugural. Atrás da faixa que dizia "O Grémio de Ontem", três porta-bandeiras, entre eles o doutor Augusto Maria Sisson, jogador emérito dos primeiros tempos do clube. Logo atrás, outros nomes brilhantes do futebol gremista: Luiz Carvalho. Túlio de Rose, Telêmaco Frazão de Lima. Depois, acompanhando a faixa "O Grémio de Hoje", destacava-se o presidente Saturnino Vanzelotti no último ano de sua longa e inesquecível gestão de seis anos.-

O Grémio ganhou por 2 x O o primeiro jogo daquele festival de inauguração, contra o Nacional do Uruguai. Os gois foram de Vitor centroavante que substituíra o titular Camacho no intervalo ambos no segundo tempo, aos 20 segundos e aos 37 minutos. Três dias depois, outra vitória, agora sobre o Liverpool, também uruguaio, por 4 x O, gois de Tesourinha, Zunino, Vitor e Delem. E então chegou o dia 26, o do primeiro Grenal no Olímpico. Um desastre. O Grémio só conseguiu manter um certo equilíbrio no jogo no primeiro tempo. Jerônimo e Larry marcaram para o Inter, Sarará para o Grémio. 2 x 1 . No segundo tempo, um baile comandado pelos vermelhos.

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A história dos Grenais

Logo após o recomeço do jogo, Larry arrancou de seu campo driblando todo mundo. Ênio Rodrigues no seu encalço. Ao chegar à área adversária o cen-troavante do Inter ameaçou bater em gol, Ênio se atirou para salvar, mas Larry puxou a bola deixando-o deitado. Aí, deu um toquezinho para dentro da goleira de Sérgio, que já estava com dificuldades para conter sua revolta. Mal o jogo recomeçou e o ponteiro Luizinho pegou a bola na ponta, saiu correndo em diagonal, atravessou o gramado da direita para a esquerda, outra vez com

o esforçado Ênio Rodrigues no encalço e ao cruzar em frente a área deixou a bola e seguiu em disparada

com suas perninhas curtas, em direção à linha lateral. Ênio, mais preocupado com o jogador do que com a bola, seguiu atrás do colorado. Canhotinho veio de trás e bateu, sem marcação, fazendo o quarto gol.

Sérgio, então, perdeu de vez a paciência com seus jogadores e, sem maiores explicações, deixou o gramado e saiu caminhando de cabeça baixa para o vestiário. Ninguém entendeu nada. Alguns jogadores do Inter correram até ele e ouviu-se a voz de Bodinho dizendo:

Volta, covarde, para tomar mais quatro.

Larry, que no seu Grenal de estreia recebera a solidariedade de Sérgio quando agredido por Xisto, evitou provocações. Apenas aproximou-se, incrédulo, curioso. Sérgio, ofendido, remexeu seus brios e resolveu retornar ao campo. Acabou sofrendo mais dois gois, ambos de Larry, mas nesta altura já não tinha estrutura emocional sequer para articular uma frase de reclamação para seus desnorteados zagueiros, Zunino faria mais um gol para os azuis e o resultado final seria 6x2.

Este Grenal recebeu no fascículo n° 4 da "História Ilustrada do Grémio" exalas três linhas e meia num minúsculo corpo de letra n° 5. O pequeno texto não registrava sequer o placar do jogo. Limitava-se a isso:

"Na terceira partida inaugural, foi realizado o Grenal n° 135, no dia 26 de setembro. Equipe do Grémio:

Sérgio; Ênio Rodrigues e Orli; Roberto. Sarará e Itamar; Tesourinha, Milton. Camacho (Vitor), Zunino e Torres (Delem)."

E foi só.

Apesar da flagrante superioridade sobre o Grémio, o título gaúcho naquele 1954 acabou não com

o Inter, mas com o Renner. Estaria finalmente

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A história dos Grenais

ocorrendo uma revolução na ordem futebolística? Por que não? O planeta estava revolto. Na música, por exemplo, começava a se instalar a saudável balbúrdia do rock'n roll, Elvis Presley batia na porta da gravadora Sun Records para mostrar sua interpretação de That's Ali Right (Mama) e Bill Halley & The Comeis emplacavam o primeiro sucesso, RockAround the Clock.

É, mas nos campos de futebol do sul do Brasil a revolução dos industriados da Sertório não passou de

fogo de palha e restou ao Renner um lugar na história por ter sido o último clube a conseguir superar a dupla.

A rotina de conquistas, ora dos vermelhos, ora dos azuis, recomeçaria em 1955, numa temporada tensa. O

Grémio, agora treinado por Osvaldo Rolla, vinha com um estilo de força e aplicação tática jamais visto no Sul. Nos dois primeiros clássicos do ano, uma vitória do Inter. outra do Grémio, ambas por 2 x l. A tensão

chegava ao limite máximo na tarde de 6 de novembro, a ponto de Larry, pela primeira vez desde que chegara

a Porto Alegre ser acometido pela taquicardia.

Aos cinco minutos de jogo ele foi obrigado a sair de campo e receber massagem. Os minutos passavam. Um, dois, três. A torcida colorada se desesperou. Sem Larry o time não era o mesmo. Sem Larry, Bodinho não era o mesmo. Mas Larry voltou, a torcida delirou e o Grémio se abalou. 13 minutos, lá foi Larry pela ponta. Ele driblou Aírton e fez o passe para Jerônimo. l x 0. Agora Larry estava calmo.

Luizinho nem tanto. Ele sofreu uma pancada forte na perna, mancou, mas não queria desfalcar o time. Então, quando o juiz Fortunato Tonelli não estava olhando, deu um soco em Hercílio, que revidou e ambos engalfinharam-se. Era o que Luizinho queria: ambos foram expulsos. No segundo tempo, cada time teve dez homens e o Inter ampliou através de Bodinho (após tabela com Larry). O título estava quase nas mãos. Lindoberto, como que para matar os seus do coração, fez contra aos 18 e deu alento ao Grémio. E então, aos 30, outra tabela Larry/Bodinho, concluída com um chute do pernambucano, decretou o 3 x l final. O 3 x l do título. O Inter ainda mandava no Rio Grande. Era o 12° título gaúcho em 16 anos.

- Apesar da vitória sentíamos que era o fim de uma era lembra Larry, revelando o sentimento geral do grupo.

O clube desleixava. Após quase duas décadas de conquistas, os dirigentes

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agiam como se estivessem enfastiados de títulos. Pensavam: acaba um time. surge outro. E seguindo esta linha de raciocínio vendiam os jogadores ao primeiro clube que chegasse. Paulinho, Salvador, Oreco. Chinezinho. um a um os craques colorados iam abandonando os Eucaliptos. Não havia mais macumbeiro nenhum que os segurasse. A estrutura do clube ruía. Um procedimento tão suicida quanto o tiro na cabeça que Getúlio Vargas se dera um ano antes. Ali perto, na Carlos Barbosa, ao contrário, os inimigos, bem acomodados em seu novo e invejado forte, faziam planos diabólicos e mantinham bem pagos os seus melhores guerreiros.

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A história dos Grenais

"Doze anos em treze"

azul do fardamento da guarda civil tomou conta da pequena rua Cabo Rocha no início da noite, O pouco antes das 20 horas daquela segunda-feira, 3 de dezembro de 1956. Em pouco tempo, os guardas, auxiliados por brigadianos, bloquearam a rua pelos dois lados. A um comando do delegado

Werther Maranghelli, titular da Delegacia de Costumes, grupos de policiais invadiram bares e prostíbulos, enquanto outros paravam os passantes, pediam documentos, prendiam quem não se identificasse. Os proprietários de cada bar ouviram, assustados, a intimação para fechá-los à meia-noite. As portas dos bordéis foram cerradas. Homens saíam dos quartos abotoando camisas, mulheres pulavam

cercas e janelas.

Era o saneamento da rua Cabo Rocha, providência historicamente solicitada pelas famílias do bairro Azenha. Era o epílogo de uma época. Os porto-ale-grenses estavam acostumados a ver a Cabo Rocha como um símbolo da prostituição. No dia seguinte, a cidade tinha 300 meretrizes sem teto. Cento e cinquenta delas foram para São Leopoldo. Outras, carregando trouxas de roupas na cabeça ou a bordo de carroças contratadas para fazer suas mudanças, transferiram-se para o Centro. A maioria estabeleceu-se na Voluntários da Pátria. Algumas ficaram nas imediações Alberto Bins, Otávio Rocha, Vigário José Inácio e Doutor Flores. O delegado Maranghelli prometeu resolver em breve o novo problema das ruas centrais de Porto Alegre.

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A história dos Grenais

O futebol gaúcho também mudaria para sempre em 1956. Uma mudança que começou três anos antes

com o senhor Oswaldo Rolla. o Foguinho. Depois de uma carreira de sucesso como jogador e como árbitro. Foguinho largou o apito e aceitou o cargo de técnico do Cruzeiro de Porto Alegre. Com o time da Montanha Melancólica, ele participou de uma empolgante aventura em 1953: a primeira excursão de um clube do Rio Grande do Sul pela Europa.

O Cruzeiro teve boas atuações no Primeiro Mundo, mas nenhuma vitória do estrelado, como gostavam

de dizer os cronistas, foi mais importante do que uma coisa que Foguinho viu durante a excursão. A coisa vestia camisa vermelha e chamava-se Seleção Húngara. Baseada no poderoso time do Hon~.: _ Seleção da Hungria possuía craques como Ferenc Puskas. o Major Galopame. além de Kocsis, Hidegkuti, Czibor e Bozsik. Esta equipe foi a primeira a vencer a Seleção Inglesa em Londres, exatamente em 1953, por 6x3.

Nos seus tempos de jogador, Foguinho sempre destacou-se por soa força e por sua intensa movimentação. Pois força e movimentação foi o que ele viu na Europa. Os húngaros não paravam em campo, não deixavam o adversário sequer piscar. Era o futebol total com o qual ele sempre sonhara.

O futebol da Hungria encantou o mundo e só foi decair a partir do ano seguinte, na Copa da Suíça. De

goleada em goleada, os húngaros atropelaram todos os adversários. O Brasil levou 4 x 2 e foi desclassificado. A Alemanha tomou 8x3. Mas não foi desclassificada. Com muita garra, superou as adversi-dades e chegou à final contra a própria Hungria. Para surpresa de todo o plane-la, os alemães venceram por 3 x 2 e conquistaram a Copa. abatendo mortalmente os húngaros.

A esta altura, Foguinho já havia aprendido tudo sobre os húngaros e o futebol europeu. Em 1955, ele

e suas ideias voltaram ao Grémio pelas mãos do seu antigo companheiro de ataque, Luiz Carvalho. O Grémio inaugurara o Olímpico um ano antes, mas continuava perdedor. Agora, o presidente gremista. Ary Delgado, queria contratar o técnico do Renner, Selviro Rodrigues, para retomar a hegemonia do futebol gaúcho. O diretor de futebol Luiz Carvalho posicionou-se a favor da contratação de Foguinho. Venceu Luiz Carvalho. "Para a sorte do Grémio", admitiria depois Ary Delgado.

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Luiz Carvalho e Foguinho juntos outra vez, como no campo da Baixada. Os dois se completavam, formavam uma dupla. Quarenta anos depois, Luiz Carvalho já morto, Foguinho comentaria sobre o seu grande amigo:

Todos os dias eu penso no Luiz Carvalho.

Luiz Carvalho deu condições para Foguinho fazer um novo molde do futebol do Estado. Os jogadores do Grémio passaram a ser exigidos em algo inusitado: condicionamento físico. Os clubes ainda não contavam com fisicul-tores. Na Seleção Brasileira, o primeiro preparador físico, Paulo Amaral, só apareceria em 1958. No Grémio, Foguinho se encarregou desta função. Mandava os jogadores carregarem os outros nas costas e subirem, correndo, as escadarias do Olímpico. Um exercício horrendo. Mas quem pensasse em reclamar logo desistia ao olhar para o lado e ver o treinador fazendo o mesmo, ele também com um assombrado jogador empoleirado nos ombros, galgando impávido as arquibancadas do estádio.

Foguinho cuidava até da alimentação dos atletas. Dizia aos dirigentes: - Podem dar bastante comida para eles que eu tiro tudo nos treinos.

Em campo, o técnico queria movimentação. O adversário não poderia jogar, tinha que sentir o seu espaço ficar cada vez menor, engolido pelos vorazes gremistas. O biótipo dos jogadores, da mesma forma, mudou. "Jogador tem que ter perna e pulmão", receitava Foguinho. Os pulmões eram escalados na meia-cancha, mas corriam o todo o tempo pelo campo inteiro. Na defesa, só grandões. No ataque, rompedores velozes e destemidos.

A fórmula começou a dar resultado em 1955 mesmo. O Grémio só perdeu o campeonato no último Grenal, quando estava um ponto na frente. Isso graças à esperteza do capitão Teté, o técnico do Inter. O atacante Hercílio vinha se constituindo na principal arma dos gremistas. Eslava desequilibrando o Grenal, até que Teté chamou o seu ponteiro Luizinho e ma ndou: - Bate no Hercílio.

Luizinho bateu, Hercílio revidou, ambos foram expulsos, o Grémio se perturbou e o Colorado venceu por 3 x 1 .

Mas 1956 chegou.

O time de Foguinho se aperfeiçoou. No início, era uma correria só. Era

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tirar a bola do adversário, jogá-la para frente e ver o que é que dava. Algumas partidas e treinos depois, a equipe já estava bem mais organizada. A defesa foi estruturada em torno de um jogador forte, de Im86 de altura e história um tanto pitoresca. Chamava-sc Aírton Ferreira da Silva e é, na opinião de muita gente de respeito, o mais perfeito zagueiro-central que já amarrou uma chuteira no Rio Grande do Sul.

Aírton nasceu na rua São Manoel, pertinho da Timbaúva, o campo do Força e Luz, time onde foi jogar aos 13 anos de idade. Torcia pelo Internacional por duas razões. Venerava o ponteiro-direito Tesourinha e obedecia ao pai, seu Argemiro, que vivia repetindo:

Tu és descendente de negro, e descendente de negro tem que ser colo

rado.

Até que um dia o Força e Luz, com o jovem Aírton na ponta-direita, foi enfrentar o Intcr nos Eucaliptos. Placar final: 1 0 x 0 para o Rolo Compressor. Aírton saiu de campo cabisbaixo, resmungando:

Desgraçados! Juro que ainda vou ganhar desse time!

A chance chegou em 1954. Aírton já estava convencido de que era muito alto e muito pesado para jogar

na ponta-direita, renunciara a seguir os passos de Tesourinha e passara a atuar como centromédio. E centromédio era o que faltava ao Grémio Porto-Alegrense o titular, Xisto, havia quebrado a perna durante um Grenal. O clube do Olímpico manifestou interesse por Aírton. O pai, Argemiro, não vetou a

transferência porque Tesourinha, dois anos antes, ajudara a quebrar o preconceito racial no Grémio. O Força

e Luz concordou em fazer o negócio. Com uma condição: queria Cr$ 50 mil mais o antigo pavilhão de

madeira do Fortim da Baixada. O Grémio topou e trocou as arquibancadas de seu velho estádio pelo jogador, que dali em diante passou a ser conhecido pelo apelido de Pavilhão.

Como centromédio, Aírton Pavilhão não era exatamente um vinuose. Mas Foguinho, certa tarde, puxou-o pelo braço até a grande-área.

O senhor vai jogar de beque comunicou.

Obediente, Aírton foi para a zaga. Seu desempenho melhorou muito. Algumas arestas, no entanto, ainda não estavam bem aparadas. Foguinho notou

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que lhe faltava um fundamento do esporte: Aírton não sabia correr. Arrastava os pés, todo duro, desajeitado como uma avestruz. Chamou-o mais uma vez.

- O senhor vai estragar esta grama bonita do Olímpico brincou o

treinador. E ensinou-o a correr, a se movimentar em campo e a utilizar o corpo.

Aírton aprendeu direitinho. Tornou-se simplesmente o melhor zagueiro do País. Não perdia uma disputa de bola pelo alto. No chão, era impossível suplantá-lo. Muito depois de abandonar o futebol, perto dos 60 anos de idade, recordaria, com candura:

- Nunca acreditei que um cara me driblasse nem que me ganhasse de

cabeça.

Era um zagueiro extremamente técnico. Fazia loucuras que nenhum zagueiro sonharia cometer:

dava tempo para o atacante dominar a bola e tentar o drible, desarmava-o e saía jogando. Somava-se aos atacantes e aos meio-cam-pistas, participava do jogo em todo o campo e não só nas duas áreas, como a maioria dos zagueiros. Tinha duas marcas registradas, duas jogadas. Uma fazia antes do jogo começar, com o time entrando em campo. Os jogadores em fila indiana, troteando para fora do túnel. Aírton com uma bola embaixo do braço. Quando chegava à pista em volta do campo, o zagueiro jogava a bola para cima. No exato instante em que ela tocava o chão, o bico da chuteira direita de Aírton a encontrava. E lá ia a bola, 20 metros acima, para descer de novo nas mãos do zagueirão. que sorria ao ouvir a vibração da torcida. Um malabarismo difícil para um jogador normal.

A segunda marca registrada de Aírton era tão extraordinária que parece ficção. Ao vencer a jogada do

atacante, ele levava a bola cm direção à bandei-rinha do escanteio. O adversário, evidentemente, saía atrás. Aírton continuava correndo até o vértice do campo. O atacante cercava-o, certo de que o havia encurralado. Aí acontecia o inacreditável: ao ser assediado pelo centroavante, Aírton virava o corpo e dava de charles nas mãos do goleiro. Esta jogada ele repetiu inúmeras vezes, uma delas durante um coletivo da Seleção Brasileira.

A vítima: o Rei Pele. Aquele lance de treino, tomado por uma brincadeira, uma molecagem, foi, na opinião de

muitos cronistas da época, a razão do afastamento de Aírton da Seleção. Quando Grémio e Santos se enfrentavam, Aírton trava-

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vá duelos gigantescos com Pele. E não raro vencia. Talvez por isso, no final dos anos 60, ao saber que Aírton abandonara o futebol, Pele tenha comentado: Agora ninguém mais me marca sozinho.

Aírton fazia parte de uma defesa forte, de jogadores de estatura elevada. Em certos casos, a altura correspondia à categoria. Aírton fez dupla com ninguém menos do que Calvet. um quarto-zagueiro de técnica tão refinada quanto à dele. Calvet jogava por prazer. Tinha dinheiro de sobra. Por isso, pôde voltar a Bagé em 1957, irritado porque Foguinho só o escalava de centromédio. Voltaria ao Grémio depois e, mais tarde, transferiria-se para o Santos, onde seria bicampeão mundial.

Foguinho só colocava Calvet de centromédio porque o dono da quarta-zaga era o capitão Ênio Rodrigues. Ènio funcionava como a extensão de Foguinho durante o jogo. Aírton era o burlesco, Ênio a seriedade. Fazia o time jogar. Não admitia corpo-mole. "Todos nós respeitávamos o Ênio, ele era o nosso líder", lembra o laleral-esquerdo Ortunho. A liderança de Ênio Rodrigues pode ser medida por um incidente ocorrido num jogo contra o Juventude, em Caxias, em 1956. O Grémio perdia por l x O e o meia Gessy não corria. Ênio Rodrigues saiu da área e aproximou-se do companheiro.

Se tu não começar a te mexer eu vou te tirar do time.

Gessy não atendeu. E o capitão cumpriu a promessa. Tirou-o de campo. Uma decisão ousada num tempo em que não se permitiam substituições. No intervalo, Foguinho quis saber a razão da saída de seu meia-direita.

- O Gessy não está querendo jogar informou-o, seco, Ênio Rodrigues. Eu assumo a responsabilidade pela saída dele e, se ele voltar, eu saio.

Gessy continuou de fora e o Grémio, com um jogador a menos, venceu por 3x2.

Gessy. Um mistério no Grémio. Morreu de câncer, anos após parar de jogar. A maioria de seus ex-colegas e dos antigos dirigentes do clube garante que ele não gostava de futebol. Jogava apenas por dinheiro, para pagar a faculdade de odontologia. Retraído, não suportava brincadeiras, quase não falava e sequer comemorava os muitos gois que marcava. Como não queria saber de

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abraços depois dos gois, os jogadores, brincalhões, festejavam dando-lhe tapas na cabeça.

Gessy apreciava sobremaneira três coisas na vida: cigarro, bebida e mulheres. Alguns jogadores ainda lembram de um dos raros momentos em que viam os olhos do ponta-de-lança brilharem: quando estava atrás de um pilar de bolachas de chope na Churrasquita, no Centro. Comia pouco. O diretor Hermínio Bittencourt, preocupado, chegou a dar uma ordem ao arrendatário do restaurante do Olímpico:

Para o Gessy pode servir o que ele quiser, a hora que quiser, que o clube paga.

Fumava muito. Os jogadores diziam que, nas viagens, Gessy levava na bolsa um par de cuecas, a escova de dentes e dois pacotes de cigarro. Seu apelido era Relâmpago por causa do brilho das dezenas de fósforos riscados à noite, no escuro da concentração. Quando todos estavam deitados, Gessy acordava para fumar. Antes dos treinos, enquanto os jogadores batiam bola no gramado, Gessy permanecia no túnel, fumando solitário. Só entrava em campo depois que Foguinho soprava o seu apito e chamava para o trabalho. Odiava os exercícios físicos. Asmático, muitas vezes entrava em campo carregado pelos compa nheiros de meio-de-campo, Élton e Milton.

As mulheres o adoravam e ele adorava as mulheres. Entre as tantas apaixonadas, destacava-se uma baixinha da Vila IAPI que constantemente podia ser divisada nas arquibancadas do Olímpico, assistindo aos treinos. Chamava-se Elis Regina. Contam muitos de seus contemporâneos, entre eles o treinador Oswaldo Rolla, que Gessy finalmente perdeu a capacidade física devido aos ardores de uma namorada insaciável. Teria sido esta morena de pernas de cetim e seios de granito que lhe sugou a saúde até o último suspiro de prazer.

Gessy era o jogador que menos se movimentava no time do Grémio. Mas quando a bola caía em seus pés era como se estivesse enfeitiçada. Dava dribles sobre um ladrilho, colocava a bola onde sua vontade determinasse. Quando saía tabelando ou costurando em dircção ao gol não havia cotovelada, agarrão ou bolinada que o detivesse.

Em janeiro de 1959 o Grémio precisava demais de Gessy. O time ia par-

A história dos Grenais

ticipar de dois jogos no Cone Sul contra temíveis adversários: a Seleção Uruguaia e o Boca Juniors, tricampeão de Buenos Aires. No primeiro jogo. no dia 21, empate em l x l com os uruguaios em Montevidéu. Para o segundo, na Bombonera, Gessy pediu dispensa. Chegara o dia do seu exame no vestibular para odontologia e ele não podia faltar às provas de jeito nenhum. O presidente Ary Delgado e o técnico Foguinho foram sensíveis e liberaram o rapaz. Mas ele teria que voltar no dia do jogo. Gessy foi a Porto Alegre, prestou exames, passou e retornou a Buenos Aires. Ary Delgado foi esperá-lo no aeroporto- O presidente teve ganas de arrancar o bigodinho de raiva ao ver Gessy desembarcar do avião. O jogador cambaleava de bêbado. Pensando na importância de Gessy para o time, Ary Delgado conteve-se. Sorriu amarelo para o meia e conduziu-o até o táxi. Dentro do carro, perguntou:

- E aí, Gessy, como foi o vestibular?

O jogador abriu um sorriso e começou a falar, empesteando o ar do cano com cheiro de cerveja adormecida.

- Olha, seu Ary, eu vou ser sincero. Passei. Aí eu e meus amigos fizemos a maior farra. Tomei uma

borracheira e não dormi ainda. Agora diz pra mim, presidente, diz pra mim: o senhor não faria o mesmo?

Ary Delgado suspirou, tentando desviar o nariz da golfada de ar viciado que saiu da boca do jogador. Resolveu ser diplomático:

Faria o mesmo, Gessy.

- Pois é. Mas e como é que eu fico com o homem? Indagou Gessy. referindo-se a Foguinho.

Vamos fazer o seguinte: deixa o seu Rolla comigo. Tu chegas no hotel, come algo, dorme e me promete uma coisa.

- O quê?

Que tu vais jogar todo o teu futebol. Prometo.

Gessy cumpriu o trato. À noite, 35 mil estarrecidos argentinos testemunharam o Grémio enfiar 4 x l no grande Boca Juniors. Gessy foi marcado por um dos maiores meiocampistas da Argentina, Ratin. E fez os quatro gois. Trinta e cinco anos depois Foguinho ainda ri ao lembrar de um portenho senta-

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do próximo ao banco do Grémio que implorava:

Tira este loco que ele vai acabar com o Boca! Tira este loco!

O

Grémio saiu de campo aplaudido e Gessy ovacionado.

Um time desta excelência só poderia despedaçar seus oponentes, come ocorreu em 1956. O Grémio corria o tempo todo. Vencia a maioria das partidas no segundo tempo, quando os adversários estavam esfalfados de lutar pela posse da bola. Chegou ao Grenal decisivo do primeiro turno, em 2 de setembro, como favorito, apesar de o Internacional possuir, ainda, uma equipe de respeito. O Inter tinha Oreco, Odorico, Ivo Diogo, Bodinho, Larry, Chinesinho, Florindo. Jogadores de primeira água, como se dizia então. Por isso o Grenal despertou tanto interesse. Público recorde no Olímpico: 36.059 pessoas.

Muitas delas comentavam uma estranha e revolucionária operação realizada dias antes no Chile. René Ceron Pardo, de 50 anos, condenado à prisão perpétua por três assassinatos, foi sedado e colocado sobre uma mesa de cirurgia. A seguir, o neurologista Hector Valladares efetuou a dissecação do lóbulo temporal e do úncus do presidiário. A esperança dos médicos era de eliminar, desta forma, a agressividade homicida de René c inaugurar um método moderno e eficiente de prevenção ao crime.

Outros torcedores debatiam acerca do movimento dos taxistas de Porto Alegre contra a implantação obrigatória de um novo aparelho nos veículos: o taxímetro. Alguns poucos elogiavam um filme com William Holden e Jennifer Jones que estava sendo exibido pelo cine Castelo, Suplício de uma Saudade. A maioria preferia A Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock, apresentado pelo Rex.

A atuação de James Stewart como fotógrafo com a perna quebrada e a beleza de Grace Kelly no filme

de Hitchcock foram esquecidas em definitivo quando Grémio e Internacional entraram em campo. O Grémio tinha mais torcida e esperanças. Mas também tinha medo. A Capela do Olímpico permaneceu cheia durante todo aquele domingo, desde muito cedo. Fiéis vestidos de azul ajoelhavam-se nos genuflexórios e invocavam ajuda superior.

No gramado, ficou provado que o time nem precisava da interferência divina. O Grémio sufocou o Inter desde o início. Aos 9 minutos, Hercílio

A história dos Grenais

chutou cruzado. O goleiro La Paz, pressionado por Gcssy e Juarez. atrapalhou-se todo e mandou a bola para dentro do próprio gol. l x O, O Grémio continuou dominando. E assim prosseguiu durante toda a partida. Mas, por ironia, foi um lance protagonizado por um colorado e, mais irónico ainda, lance que evitou um gol, a razão daquele Grenal ter se imortalizado. A jogada passou à história como a mais bonita de todos os Grenais. Deu-se

aos 26 minutos. Gessy, com a categoria costumeira, lançou o centroavante Juarez. La Paz saiu para tentar a defesa e o atacante o encobriu. A bola encaminhou-sc em dircção ao gol c a torcida do Grémio levantou-se nas arquibancadas, comemorando o 2 x 0. Foi então que surgiu, não se sabe de que setor do gramado, o zagueiro Florindo. Negro, alto. magro e veloz. Florindo era chamado de O Gigante de Ébano. Travou duelos míticos com o centroavante Juarez. Um dos mais refulgentes capítulos do duelo foi a jogada do Grenal de 2 de setembro de 56. Os torcedores do Grémio comemorando, a bola já na risca do gol, quando Florindo empreendeu um salto acrobático. De puxeta, meteu o bico da chuteira na bola e atirou-a pela linha-dc-fundo. num desafio às leis da física. A jogada emudeceu os torcedores do Grémio, mas, passado o espanto, eles juntaram-se aos colorados nos aplausos ao lance de Florindo.

O primeiro tempo terminou em l x O para o Grémio. O time de Foguinho voltou com a mesma

disposição para o segundo tempo. Nem o gol de empate do Internacional, assinalado por Larry numa jogada isolada de ataque aos 28 minutos, abateu os gremistas. Dois minutos depois, Calvet escorou de cabeça uma rebatida de Lindoberto e passou para Milton. Da entrada da área. Milton, também de cabeça, encostou para Vieira. Que, de cabeça, tocou para Juarez. O centroavante completou para o gol. De cabeça, evidentemente. Um gol marcado através de uma tabela com quatro cabeceadas. O Grémio venceu e o presidente Ary Delgado entrou em campo chorando para abraçar-se aos jogadores. Sabia que ninguém mais se atravessaria no caminho do seu time, que o Grémio, após sete anos negros, seria, afinal, campeão.

Como foi. No final do ano, com a faixa no peito, Ary Delgado deu a Foguinho o prémio prometido pela conquista: um DKW Vemag novinho.

O Inter se desesperou e começou a vender seus jogadores. O maior

A história dos Grenuis

craque do time, Oreco, saiu em 1957 para alegrar a torcida do Corinthians, E a do Grémio, que azeitava ainda mais suas peças. Um goleiro da segunda divisão da Argentina chegou desacreditado e virou ídolo Germinaro. Com sua inde-fectível camisa amarela, ele deu ainda mais segurança a uma defesa viril. No meio, Foguinho escalou um loiro alto de Roca Sales, Élton, que no inicia da carreira jogava de ponta-de-lança.

O senhor tem tudo para ser centromédio disse-lhe Foguinho. Como invariavelmente acontecia, o técnico estava certo. Élton juntou-se

a Milton, o Formiguinha, dono deste apelido porque se movimentava pelo campo todo, incansável. Élton e Milton tiravam bolas de cabeça na área do Grémio, ajudavam Aírton e Ênio Rodrigues a desarmar os adversários, armavam o jogo no meio e apareciam na frente da área, chutando e tabelando, marcando gois. Vieira também se movimentava intensamente. Com Zagalo e Telê Santana, foi dos primeiros pontas a jogar recuado, auxiliar o meio-de-campo e a acompanhar o lateral. Era um jogador solidário e prestativo, um abnegado. Mas não admitia que companheiro algum fosse autoritário com ele, nem mesmo Ênio Rodrigues. Os jogadores do Grémio já sabiam: se gritassem com Vieira, não-conseguiam nada dele. Além de marcar e fechar no meio, Vieira somava-se com qualidade ao ataque. Cruzava com perfeição, abria espaços e tabelava com Juarez.

Um centroavante especial, este Juarez Teixeira. Até os 27 anos de idade atuçu em clubes do interior de Santa Catarina. Por indicação de Foguinho, o Grémio foi buscá-lo no Caxias de Joinville em 1955. Atarracado, forte, Juarez era apelidado de O Tanque. De fato, ele patrolava as defesas adversárias. Pedia para Gessy:

Bota a bola mais ou menos ali no meio dos zagueiros que eu me viro. Bater em Juarez era como bater na porta de um cofre. O negrão parecia

blindado. Veloz, indestrutível, rasgava ao meio qualquer estrutura de defesa. Mesmo assim, em 1958, o Grémio lutando pelo tricampeonato, Juarez foi deslocado para a ponta-esquerda. Vieira passou para a direita e Rudimar para o centro do ataque.

Esta foi a formação que Foguinho anunciou para o Grémio no Grenal

A história dos Grenais

decisivo do primeiro turno do campeonato de 58, em 1 7 de agosto, nos Eucaliptos. O Colorado tinha um ponto a mais e o empate lhe serviria para ganhar o turno. Manchete do Diário de Notícias daquele domingo: "Grenal -Tremem Céus e Terras". Na mesma edição, a vidente Madame Mafalda previu a vitória do Inter por 3x2.

Os leitores que se encantaram com as previsàes de Madame Mafalda divertiram-se com histórias em quadrinhos famosas como A Família Fedegoso e O Outro Eu do Comendador Ventura, ambas de Divito; Doutor Fulgência, o homem que não teve infância, de Lino Palácios; e Rodolfo, o veadinho de nariz vermelho, de Robert L. May. Era uma época de inocência. Na ilustração de um anúncio de jornal, uma moça queixava-se para a amiga:

Com cabelos lisos não irei ao aeroporto!

Ora, leda! retrucava a amiga E o estojo-çonjunto Toni que lhe

mandei? Vou ajudá-la a fazer um permanente. Salva pelo estojo-çonjunto Toni, leda foi, feliz e encaracolada, esperar a chegada do avião.

O Grémio daquela época cultuava duas superstições. Uma envolvendo Ary Delgado, outra com Foguinho. Nas vésperas de Grenal, Ary Delgado tinha que dormir na concentração e nas viagens era obrigado a acompanhar a equipe. Foguinho, por sua vez, não podia deixar de usar um pulôver preto durante o jogo, mesmo nos dias mais quentes. No túnel, antes de entrar em campo, se os jogadores o vissem sem o pulôver, logo perguntavam, ansiosos:

E o pulôver? E o pulôver?

Já vou botar apressava-se a responder o técnico.

Um dia, Foguinho esqueceu o pulôver em casa. Ia para o banco só de camisa. Os jogadores se exaltaram. Sem pulôver não dava, eles iam acabar perdendo a partida. Como Foguinho podia ter esquecido o pulôver? Foi a maior crise. Os dirigentes viram-se obrigados a apelar para um sócio, Luiz Peixoto, que foi buscar o pulôver do treinador em seu apartamento, na Coronel Vicente. Só assim o time jogou e venceu descansado.

Os jogadores sorriram ao ver o técnico de pé no banco de reservas, ereto como sempre, com seu pulôver a lhe proteger do frio da tarde sombria de 17 de

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A história dos Grenais

agosto de 1958. Eles haviam se preparado com muito empenho para a partida. O lateral-direito Orlando chegou a deixar de fumar durante os treinos a fim de estar tinindo no Grenal. O lateral-esquerdo Mourão, que fora contratado do Santos, prometeu:

Se o Grémio ganhar, vou me jogar nos braços da torcida.

Mas os colorados também não podiam reclamar da dedicação de seus atletas. O pai de um deles, o meia Verardi, morrera dois dias antes e o jogador estava lá, pronto para entrar em campo.

Trinta mil pessoas se espremiam nas arquibancadas dos Eucaliptos. Umas seis ou sete mil eram gremistas. O árbitro Miguel Comesana trilou o apito para o início da partida c o Inter mostrou que não estava para brincadeira. O meia Joaquinzinho, deslocado pela ponta-direita, envolvia com facilidade ao la- teral-esquerdo Mourão. Enio Rodrigues saía na cobertura e criava-se uma brecha no meio, por onde penetrava o perigoso Bodinho. Tensão no banco de reservas gremista. Na torcida, ninguém respirava. O gol do Internacional só não acontecia porque Aírton tirava todas as bolas da área. Conta a lenda que Aírton cabeceou mais de 40 bolas naquele dia, saindo de campo com a cabeça inchada.

Próximo aos 20 minutos de jogo, Mourão, um jogador que, se não primava por uma técnica exemplar, era bastante exuberante fisicamente, acertou a canela de Joaquinzinho. O jogador do Inter rolou no gramado, gemeu de dor e Mourão ficou a encará-lo significativamente. Dado o recado, o ímpeto de Joaquinzinho arrefeceu. Jogando só no seu setor, Enio Rodrigues pôde controlar Bodinho com maior eficiência e o Grémio cresceu. Ainda no primeiro tempo, Juarez, deslocado pela ponta, marcou um gol, mas o juiz assinalou impedimento de Gessy e o anulou. O primeiro tempo ficou no O x 0.

No segundo tempo, o Colorado voltou mais agressivo. Verardi adonara-se da meia-cancha, distribuía

o jogo e cadenciava o time. Aos nove minutos, o goleiro La Paz mandou um balão para o meio do campo.

Milton rebateu mal e a bola caiu ao lado da área do Grémio, nos pés de Ivo Diogo. Ele centrou e Bodinho apanhou, de sem-pulo, para fazer l x O para o Internacional. Festa nos Eucaliptos. Em meio aos abraços, Verardi lembrou do pai e explodiu num choro convulsivo. Os torcedores emocionaram-se nas arquibancadas.

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A história dos Grenais

O Grémio parecia liquidado. Quando os olhares se desviaram de Verardi para a bola. uma surpresa. Quem estava com ela entre os pés, no meio do campo, cabeça baixa, olhar grave, mãos na cintura, era Juarez. Na ponta-direita, Rudimar. Na esquerda, Vieira. Rudimar se lesionara e Foguinho decidiu mexer em todas as posições de seu ataque. Na saída de jogo a bola caiu na área do Inter. Juarez cabeceou e La Paz espalmou. Na cobrança do escanteio, Juarez chutou e La Paz defendeu. O Inter tentou sair jogando, mas

Juarez recuperou a bola e partiu para cima dos zagueiros como se quisesse assassiná-los. Foi derrubando um

a um com os ombros até quase a linha de gol, onde um pé salvador conseguir tirar a bola no último milésimo

de segundo. O Colorado fez menção de se rearticular mais uma vez. mas Milton roubou a bola, passou a Vieira, que cruzou. Na marca do pênalti, Juarez pedalou uma bicicleta e a bola tirou tinta do travessão. A torcida gremista se levantou.

Grémio! Grémio! Grémio! Gritaram os torcedores, sem parar. No banco, Foguinho gesticulava e berrava:

Joguem a bola para o Juarez!

Não precisava mandar. Juarez tomara conta do jogo. A raça do centroa-vante contaminou os outros jogadores. O Grémio todo passou a atacar, menos Rudimar, lesionado, que só fazia número na ponta-direita. A área do Inter virou um inferno. Bola alta na meia-lua, Florindo partiu para cabeceá-la, mas Juarez chegou antes, derrubou-o com o ombro, cabeceou, entrou no meio de três colorados, espalhando-os pela área, e cabeceou a bola mais adiante. Os colorados tremeram. Ninguém conseguia parar o Tanque. Faltando 16 minutos para o final, Juarez dominou a bola pela direita, aplicou dois dribles em Barradas. trombou com

Florindo, chegou à linha de fundo e bateu para a área. Vieira só precisou encostar para o gol. Era o empate. A torcida do Grémio, enlouquecida, arrancava as cadeiras do estádio e as jogava para dentro do campo, gritanto:

Juarez! Juarez!

O

chefe de torcida Camelinho, lembrando aquele jogo. comentaria a cena, mais tarde:

Lá vinha Juarez, levantando polvadeira, espalhando retratista!

Aos 83 minutos. Vieira cruzou novamente para a área do Inter. Confusão.

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A história dos Grenais

Juarez dominou, girou o corpo e soltou a bomba. Que explodiu no poste esquerdo de La Paz. Lá estava Gessy, que completou para a rede. Era a virada. Os gremistas deliravam nas arquibancadas. Uma senhora e dois homens desmaiaram de emoção e foram levados às pressas para o Pronto-Socorro. Terminado o jogo, Mourão cumpriu a promessa, escalou o alambrado e atirou-se no meio dos gremistas. Não conseguindo suportar o peso do possante lateral, os torcedores gritavam, uns para os outros:

Pega o Mourão, pega o Mourão!

A partir de então, o jogador passou a ser agraciado exatamente com esta alcunha: Pega Mourão.

Ao mesmo tempo em que os torcedores tinham dificuldades para sustentar no ar o corpo do lateral-esquerdo, um bolo de jogadores abraçou Juarez.

Que monstro! Que monstro! Quem ganhou fué Juarez! Fué Juarez! Berrava Germinaro, em

portunhol.

Rudimar chorava de dor e foi carregado aos vestiários por Gessy e Milton. Gessy sorria largamente, algo raro de se ver, e Milton não cansava de repetir:

- Mas como jogou esse Juarez!

Foguinho chorava:

Que time! Que camisa! Que jogador! Foi a maior atuação de um ata cante em Grenal!

Em meio às comemorações, jogadores, técnico e dirigentes, de repente, perceberam que estava faltando alguém: Juarez. Procura daqui, procura dali, foram encontrá-lo de banho já tomado, esperando o resto da equipe no ônibus do clube. Foguinho, ainda rubicundo de tanta emoção, foi abraçá-lo: Que atuação, senhor Juarez! Que atuação!

Juarez encolheu-se todo no banco e sorriu, tímido:

Que é isso, seu Rolla, não foi tanto assim.

A reação comandada por Juarez, pode-se dizer, deu o tricampeonato metropolitano ao Grémio. No

estadual, o Guarani de Bagé, a exemplo do que vinha ocorrendo com as equipes do interior nos últimos 18 anos, não resistiu e perdeu a decisão até com certa facilidade. No último Grenal do ano, em 21 de dezem-

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A história dos Grenais

bro, o Grémio, já com a taça na estante, foi derrotado por l x 0. gol contra de Orlando. Repetia-se a história de 56 e 57 o Grémio perdia quando podia perder. Mesmo assim, os colorados gozavam. "O Papai Noel é vermelho", di/.iam.

Em 1959, o time de Foguinho consolidou-se de vez, atingiu a maturidade. Os atletas assimilaram bem a nova filosofia de jogo e a equipe ganhou reforços. Calvet voltou e chegaram o goleiro Henrique c os atacantes Giovani. Volnei, Alfredinho e Higino. Giovani era chamado de John Wayne. Bom de bola, esperava-se que fosse o sucessor de Gessy. O problema era que, como Gessy, ele não podia ver um barril de chope sem querer secá-lo. A fama de bom copo espalhou-se pela cidade. Giovani reclamava:

- Não posso beber um copo d'água que já telefonam pró seu Rolla dizendo que estou bebendo

chope.

O melhor reforço do ano foi um negro alto de corpo desproporcional. As pernas eram responsáveis pela maior parte de seus Im85cm de altura, deixando para o tronco só um pequeno retângulo musculoso. Chamava-se Jorge Carlos Carneiro mas tornou-se conhecido pelo apelido, tomado emprestado do nome de um jogador uruguaio que aluava no Penharol e tinha o corpo parecido com o íLele. O uruguaio era Ortufio e o brasileiro ficou sendo Ortunho, com nh.

Ortunho nasceu na rua Baronesa do Gravataí, em frente à casa de Tcsourinha. Sendo negro e com aquela vizinhança, só poderia ser colorado. Tentou jogar no Inter, mas foi dispensado em 1953. Como não queria ir para o Grémio, treinou no Força e Luz, passou para o Nacional e seu amigo Tesourinha o indicou para p Vasco da Gama. Finalmente, após dois anos no Rio, acabou no Grémio. O pernambucano Mourão era o titular e não largava a posição de jeito algum. A saudade da família batia, mas ele não ia a Recife, com medo de perder o lugar no time. Os companheiros brincavam:

Tu estás com medo do Ortunho, por isso não viajas.

Para mostrar que não tinha medo, Mourão viajou. E perdeu a posição. Ortunho só sairia do time dez anos anos depois, no fim da carreira, para dar passagem a um juvenil chamado Everaldo. Mil novecentos e cinquenta e nove foi um ano e tanto para Ortunho e para o Grémio, que não perdeu nenhum Grenal.

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A história dos Grenais

Foi um ano de renovação política. Um herdeiro do trabalhismo de Getúlio Vargas, Leonel Brizola, assumiu o governo do Estado em 31 de janeiro. Entrou no lugar do colorado lido Meneghetti.

Na tarde da posse, a futura primeira-dama, Neuza Brizola, chegou ao Palácio Piratini, conduzindo os filhos pelas mãos, às I5h25. Vestia um leve vestido de gaze branca com petit-pois pretos em tamanho grande, luvas a meio braço pretas, bolsa e sapatos também pretos, colar e brincos de pérolas. Estava impaciente.

- Quando é que vem o Leonel? perguntou Heloísa Ribeiro, mulher do deputado Daniel Ribeiro. Não esperou resposta para acrescentar, nervosa:

Há quatro anos que espero por este dia. Quero assistir à posse. Um repórter quis saber se ela moraria no Palácio.

Meu marido é quem vai decidir disse. -- Vou para onde for o

Leonel.

Meia hora depois, o marido irrompeu no Palácio, rodeado de políticos e populares. Neuza não esperava aquela chusma. Mal conseguia divisar Brizola em meio ao magote de correligionários. Resignada, terminou cedendo o seu lugar à mesa para os amigos do governador e retirou-se sem assistir à posse.

Dois dias depois, Grémio e Inter empataram em 2x2 num Grenal válido pelo campeonato de 58, mas que não decidia nada o Grémio já era campeão. Em abril, na comemoração do cinquentenário do Internacional. Gessy matou o dono da festa ao fazer os dois gois da vitória do Grémio por 2 x 1. O Grémio ganhava por l x O quando Cacaio empatou e foi comemorar o gol na frente da torcida tricolor. No segundo gol de Gessy os jogadores do Grémio revidaram e foram comemorar diante da torcida colorada. Foi o suficiente para fechar o tempo. Torcedores invadiram o campo e foram barrados pela Guarda Civil. Reagiram. Começou a pancadaria generalizada. Ary Delgado, já eleito deputado estadual, correu para tentar serenar os ânimos e acabou apanhando da torcida. A baderna só acabou com o ex-govemador lido Meneghetti entrando em campo e clamando pela paz. No dia seguinte, diversos deputados bradaram da tribuna contra a sova levada pelo colega Ary Delgado.

O Grenal seguinte foi realizado em 17 de agosto e aí foi a vez de Juarez

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.4 história dos Grcnais

marcar os dois gois da vitória de 2 x l do Tricolor. Naquele dia. antes do jogo, a torcida só falava numa coisa, nos Eucaliptos: a chegada da televisão ao Rio Grande do Sul. A TV Piratini estava se preparando para apresentar cinco horas de programação, a partir do final da tarde, e algumas lojas já vendiam aparelhos como o TV Emerson, com o seu sistema sonoro sem estática, fixação da imagem independente das variações de força c maior seleção sem interferência. O Televisor Mundial foi o pioneiro no estado, vendido por Arno Decker & Cia na Doutor Flores. 116.

O Grenal de agosto não foi televisionado. Se fosse, os telespectadores teriam a chance de ver uma

cena inédita: uma jogada violenta de Aírton. Conta-se que aquela foi a única vez que Aírton deu um pontapé. Mas deu a mando do presidente do clube e por incentivo dos colegas. Há anos que Aírton travava um duelo com o centroavante do Internacional, cognominado de O cerebral Larry. Era mesmo um jogador inteligente, repleto de jogadas sutis. Tinha o costume de, após fazer um bom lance, levar o dedo indicador à cabeça e olhar, irónico, para o zagueiro, a fim de irritá-lo. Aírton também tentava provocar o adversário. Sempre que driblava Larry saía rindo com a bola, às vezes às gargaJhadas,

Larry incomodava muito nos Grenais e estava em boa fase. Aírton andava preocupado. Milton apareceu com a solução:

Dá uma nele, Aírton.

O zagueiro se escandalizou:

Eu não faço isso! Eu só jogo na técnica!

Só uma rapaz!

Nunca!

Na véspera do jogo, Aírton estava sentado, solitário, nas arquibancadas do Olímpico. O presidente Arv Delgado aproximou-se:

Que foi, rapaz?

O Larry. Andam dizendo que ele vai acabar com o jogo.

Dá uma porrada nele, Aírton. Só uma, no início do jogo.

Até o senhor, presidente?

Aírton estava revoltado. Para piorar seu estado de espírito. Milton e Enio Rodrigues passaram o dia insistindo:

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A história dos Grenais

- Tu tens que dar uma nele, Aírton!

Continuaram soprando a ordem para o zagueiro até entrarem em campo.

Muito a contragosto, suspirando de pesar, aos 15 minutos de jogo, Aírton seguiu as recomendações. Larry dominou uma bola e tentou um corte para a esquerda e o Pavilhão caiu sobre ele. O pontapé tez um estupefato Larry voar e se estatelar no gramado, gritando de dor e surpresa. Foi o fim dos dribles cerebrais do centroavante naquela partida.

O último Grenal do ano foi disputado em 29 de novembro. Para a surpresa dos 35 mil torcedores que estavam no Olímpico, o Inter saiu na frente, com um gol de Deraldo aos três minutos. O Grémio, no entanto, logo se impôs. Aos 27 minutos, Milton empatou o jogo. Três minutos após, Élton virou o placar, aos 20 do segundo tempo, Gessy ampliou para 3x1. Tudo ia bem e a partida corria relativamente fácil para o Tricolor. Quem poderia prever o que aconteceu a seguir?

Numa jogada pelo flanco esquerdo do Grémio, a bola saiu pelo lado e Ortunho correu para cobrar o lateral. Neste momento, uma garrafa voou das arquibancas e foi espatifar-se, certeira, contra a cabeça do jogador. Ortunho caiu e o jogo foi paralisado. Abriram-se dois lábios vermelhos na testa do lateral do Grémio. Furioso, o árbitro Ricardo Alberto Silva informou que o jogo só prosseguiria se Ortunho voltasse a campo. Os médicos o atenderam, frenéticos. Costuraram-lhe a testa. Enquanto isso, o torcedor Clair Geraldo da Silva, identificado como o autor do atentado, foi preso e levado à delegacia.

Ortunho melhorou e retornou ao gramado com uma escandalosa banda branca na cabeça, sob os aplausos da torcida. O Grémio ainda fez o quarto gol, através de Élton aos 43. Ortunho ficou até o final. Entre um lance e outro, contudo, o ferimento abriu novamente e o sangue começou a jorrar. Em pouco tempo, a camisa, os calções e até as meias do jogador estavam empapados de sangue quente. Parecia que Ortunho estava com o uniforme colorado. Terminou como um dos melhores em campo e foi carregado pela torcida, no final.

No vestiário, Ortunho foi para o banho e, ao sentir a água escorrendo pelo corpo, limpando-o de todo o sangue, passou a ouvir as vozes dos companheiros cada vez mais distantes. As vozes iam diminuindo, ficavam lá longe,

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longe, longe. Um sono pesado e gostoso foi tomando conta dele. Como se estivesse num sonho, Ortunho viu quando os companheiros se aproximaram, falando palavras desconexas, e carregaram-no para o Pronto-Socorro. No caminho, o pneu da ambulância furou e puseram-no no carro de um torcedor.

Ortunho ficou quatro horas inconsciente. No dia seguinte, visitou o seu agressor, que até era vizinho da Baronesa do Gravataí. Aos 58 anos de idade, com alguns tufos de cabelo esbranquiçado a lhe decorarem

a cabeça, Ortunho seguidamente lembra daquele Grenal: é que, vez por outra, um caco de vidro

remanescente emerge da fronte do ex-lateral gremista, e ele o espreme, como uma espinha adolescente.

O Grémio ganhou o tetra e alcançou o penta com maior tranquilidade. Qualquer criancinha, na rua, sabia de cor a escalação do time: Henrique; Orlando, Aírton, Ênio Rodrigues ou Calvet e Ortunho; Élton e Milton; Marino, Gessy, Juarez e Vieira. No Estadual de 1960, o Grémio enfrentou o 14 de Julho de Livramento, o Nacional de Cruz Alta e o Pelotas. Em seis jogos, marcou 27 gois, uma média de 4,5 por partida. Só o Pelotas conseguiu empatar o primeiro jogo em 2x2, mas, em compensação, levou 7 x O na segunda partida. Tal facilidade convenceu a Federação a mudar a fórmula do campeonato. O certame de 1960 foi o último dividido por regiões.

Antes do campeonato houve um amistoso em 21 de abril, dia da inauguração de Brasília. Os jornais de todo o mundo derramaram-se em encómios à Capital de Juscelino Kubitscheck. O Parisien Libaré, de Paris, chamou Brasília de A Capital do Espaço, o Século, de Lisboa, considerou Brasília "uma vitória do mundo

moderno"; e o Yomiuri, um dos jornais de maior circulação do Japão, publicou uma série de reportagens sobre JK. Na agora ex-capital. Rio de Janeiro, preparava-se a disputa do Clássico Rebolado, entre as vedetas

do teatro de revista do Rio contra as de São Paulo. Participariam beldades como Conchita Mascarenhas, Nélia

Paula e Wilza Carla. Provocava muito debate, também, a ação da polícia contra o jogo do bicho. Tudo indicava que, daquela vez. os coo-traventores sofreriam um golpe de morte.

No Grenal dos Eucaliptos, o Grémio mostrou sua superioridade novamente e enfiou 3x0, com dois gois de Milton e um de Élton. O Grenal

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seguinte, válido pelo campeonato, carimbaria em definitivo a primazia gremista. No mesmo dia do jogo, o jornal Última Hora, de Samuel Wainer, lançou uma edição especial exclusiva sobre o clássico. Manchete:

"Gre 5 - Nal l". Juarez enfileirou três gois. Gessy e Vieira marcaram os outros e Ivo Diogo descontou para o Inter. No dia seguinte, na rua da Praia, cercado de amigos, Foguinho, brincava com o técnico do Colorado, o Capitão Teté:

Promovi o homem a general cinco estrelas flauteava o treinador gremista.

Mal desconfiava Osvaldo Rolla que se iniciava, em 1961, um ano dramático e. ao mesmo tempo, consagrador para ele.

Em abril, maio e junho. Foguinho e o Grémio excursionaram pela Europa. O time voltou ao estado cansado e sem Juarez. o Tanque, vendido ao Newell's Old Boys. da Argentina. Em seu lugar foi colocado o sergipano Paulo de Souza, mais conhecido como Paulo Lumumba devido à sua semelhança com Patrice Lumumba, presidente do Congo Belga, futuro Zaire.

Lumumba era um bom jogador, mas Juarez fazia falta. Pior era que o Inter arranjara um atacante perigoso, Sapiranga, contratado do Floriano, de Novo Hamburgo. Não se pode dizer que Sapiranga tinha muita técnica, mas velocidade, ah, isso ele tinha, e de sobra. Infernizava de tal forma as defesas adversárias

que ganhou a alcunha de O Diabo Loiro. Sapiranga converteu-se no vértice da única jogada de ataque do

Internacional de 1961. O meiocampista Sérgio Lopes (o Fita Métrica, tal a precisão de seus passes) ou o lateral-direito Zangão apanhavam a bola e lançavam-no. A ideia era jogar a bola na frente do ponteiro e do seu marcador para que eles apostassem corrida. Sapiranga ganhava sempre. De posse da bola, entrava na área em

diagonal para tentar o chute ou cruzava para os avantes Alfeu e Flávio Minuano. O Diabo Loiro terminou o campeonato de 196i como artilheiro, com 17 gois. Travou duelos inesquecíveis com Ortunho. Para enfrentar toda aquela velocidade, o lateral do Grémio valia-se de qualquer arma, inclusive a violência. Ao morrer,

cm 1994, Sapiranga ainda apresentava, nas canelas, as marcas das batalhas contra Ortunho. Depois de um

Grenal da época, o humorista Carlos Nobre contou uma história que definia bem o que era a guerra entre Sapiranga e o seu marcador:

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A história dos Grcnais

Quando o Sapiranga entrou cm campo para ser marcado pelo Ortunho, aquele rádio-repórter o entrevistou c depois disse em voz grave para os ouvintes: "Ouvimos, assim, as últimas palavras de Sapiranga".

Fora de campo, no entanto, os dois cultivaram uma amizade que vicejou até a morte do Diabo Loiro.

Em 1961 Sapiranga estava bem vivo c era ele quem matava os adversários do Inter. O primeiro Grenal do ano devia ser realizado em 27 de agosto. Não foi por um bom motivo: o Rio Grande do Sul pegara

em armas para garantir a posse de João Goulart na presidência da República. Era a Campanha da Legalidade,

desencadeada pelo governador Brizola através de uma rede de rádios, depois da renúncia do presidente Jânio Quadros. Ao fim de muita tensão, as armas não foram disparadas, os militares aceitaram Jango e Jango aceitou a emenda parlamentarista. O golpe estava adiado.

O Grenai adiado foi finalmente jogado em 10 de setembro de 1961. O Colorado venceu por 2x1, gois de Gilberto Andrade e Alfeu. com Lumumba descontando. Perdido o turno, o Grémio tomou uma rápida providência. Pagou Cr$ 1,5 milhão ao Newell's e trouxe Juarez de volta antes do final do mês. Diziam os gremistas que o Tanque havia retornado só para jogar Grenal.

No meio do caminho, porém, surgiu urna pedra. O diretor de futebol, João Leitão de Abreu, passou a dar opiniões cada vez mais frequentes sobre como ele achava que o Grémio devia jogar. Daí para tentar escalar o time foi um chute. Leitão de Abreu não admitia que Foguinho tirasse Gessy da equipe titular e o técnico argumentava que o jogador não estava na sua melhor condição física. Como não aceitava interferências em seu trabalho, Foguinho pediu demissão numa quarta-feira, 8 de novembro. Ao saber da saída do treinador, o patrono do Grémio, Fernando Kroeff, declarou:

Embora seja uma página gloriosa, Foguinho é uma página virada na história do Grémio.

Foi esta frase do patrono do Grémio que fez Foguinho aceitar o convite do presidente Pinheiro Machado para ser técnico do Cruzeiro. Dois dias após sair do Olímpico, Foguinho subiu a Colina Melancólica. Sua missão principal: preparar o Cruzeiro, que vinha de duas derrotas, para enfrentar o Grémio no dia 15 de novembro.

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Aquele Gre-Cruz era decisivo para o Grémio. Se perdesse, praticamente entregaria o campeonato ao Inter. Pois o Grémio perdeu. Conhecendo bem os seus ex-jogadores. Foguinho armou um esquema para anular as melhores jogadas do Tricolor. Determinou marcação especial ao ponteiro Vieira, que atravessava uma fase esplendorosa. Perseguido por todo o campo, sem conseguir nem mesmo tocar na bola. Vieira saía do ataque, desesperado, e gritava para Ortunho:

Segura este cara que ele não sai detrás de mim!

De fato, lá estava o aplicado meiocampista Carazinho grudado em Vieira, cuidando para que a bola não chegasse por perto. O Grémio atacou, pressionou, mas perdeu para o time de Foguinho. Gol de um jogador baixinho, gorducho, chamado de Mauro Barrilzinho de Pólvora.

Foguinho. que dera o pentacampeonato ao Grémio, lhe tirou o hexa. Alegria dos colorados, que passaram o ano garantindo:

Hexa. essa não!

Hexacampeão era o maior título do Inter, conquistado pelo Rolo Compressor nos anos 40. Parecia mesmo uma façanha impossível de ser repetida. Mas ainda havia o último Grenal do ano, o Grenal do Natal, o Grenal do Papai Noel.

Como o Internacional conquistara o campeonato, a lógica dizia que o Grémio ganharia o último Grenal. Pelo menos esta foi a lógica que motivou um fanático torcedor gremista, o vendedor de massas Adria Paulo Sant'Ana, a tomar emprestado de um comerciante uma fantasia de Papai Noel. Uma fantasia de Papai Noel azul. Sant'Ana e seu amigo, o também gremista e também fanático Camelinho, passaram a semana planejando a forma como o Papai Noel irromperia no gramado dos Eucaliptos após a vitória Tricolor. Faltava apenas o Grémio vencer.

A sorte, no entanto, parecia ter se evadido do Olímpico naqueles dias. O meia Gessy, machucado,

estava fora do clássico. Logo no primeiro minuto de jogo, o centromédio Élton se lesionou e foi substituído por Nadir. Algum raio de sol, alguma luz especial deve ter brilhado sobre a fronte de Nadir no instante em que ele entrou em campo, pois ele teve. naquele dia, o jogo de sua vida. Juarez,

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afinal, marcou um gol, mas o árbitro Ornar Rodrigues anulou sem que ninguém entendesse a razão. O primeiro tempo terminou em O x O e o presidente do Inter, Fagundes de Mello, aproveitou para anunciar o carnaval preparado para o final da partida. O horizonte ficaria ainda mais vermelho com a expulsão do lateral Altemir. O Grémio seguiu com dez em campo.

Logo no início do segundo tempo. Alfeu abriu o escore com uma bomba da entrada da área. Os torcedores nos Eucaliptos, 80% colorados, começaram a festejar. Paulo Sant'Ana sentiu que teria de devolver a fantasia intacta. Aos 65 minutos, aproveitando um choque entre Ortunho e o goleiro Irno, Alfeu marcou de novo: 2x0. Faltando 25 minutos para terminar a partida, ninguém mais poderia segurar o carnaval colorado.

A não ser o Grémio.

Aos 69, Nadir chutou uma falta no meio da barreira, a bola passou e entrou. O gol do Grémio serviu para quebrar um pouco da firmeza do Internacional. Os gremistas se recompuseram e tomaram o controle do jogo. A pressão foi aumentando. Fazia muito calor. De tempos em tempos, um jogador se aproximava da linha lateral e pedia um cubo de gelo para o seu massagista. Quando faltavam cinco minutos para o final, Nadir cruzou e Marino locou a cabeça na bola para empatar a partida e calar os colorados que promoviam um ruidoso carnaval nas arquibancadas.

Os colorados passaram a ter a aguda e desagradável sensação de que algo de muito ruim ocorreria até o final do jogo. Como ocorreu: no último minuto. Juarez trombou com o goleiro Silveira, botou-o a nocaute, empurrou a bola para a rede e ganhou o jogo para o Grémio. Uma virada para a posteridade. Silveira saiu desmaiado de campo quase ao mesmo tempo que um alucinado Paulo Sant'Ana forçava a sua entrada no acanhado corredor de acesso ao gramado dos Eucaliptos. Sob as cacetadas da guarda civil, já sem o pom-pom do gorro. Sant'Ana entrou, triunfante, assim que o jogo terminou. O Papai Noel era azul. A torcida do Grémio saiu do estádio cantando:

Juarez virou e o Silveira desmaiou.

O carnaval do Papai Noel Azul saiu dos Eucaliptos e desceu em direção ao Centro. Na Borges de Medeiros, os álacres gremistas. SantAna Noel à

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A história dos Grenais

frente, divisaram, lá longe, uma turba vermelha. Era o carnaval colorado, que vinha em direção oposta. A rota de colisão era evidente, inevitável e preocu-pante. SanfAna buscou uma saída de emergência. Achou-a num bonde salvador que descia pela avenida. Embarcou no bonde e foi recepcionado por furiosos e violentos passageiros trajados de vermelho. Devidamente chacinado, o gremista só sobreviveu por ter a esperança de ver maiores vitórias de seu time nos anos a-seguir.

E viu.

Uma virada de tal contundência não ocorre impunemente. Dez dias após a derrota no Grenal, o Inter trocou o técnico campeão. Sérgio Moacir Torres Nunes, pelo capitão Carlos Froner. O Grémio continuou com Ênio Rodrigues e com ele foi disputar a final do Torneio da Legalidade. Contra o Internacional, é claro. Empatou o primeiro Grenal em l x l e venceu o segundo por 2x1, conquistando a taça e revelando um novo valor. Joãozinho, um meia de Im64cm de altura, rápido, inteligente, apelidado de O Pequeno Polegar. O Grémio havia encontrado o sucessor de Gessy.

As derrotas em Grenais eram peçonhentas para o Inter. Froner mal esquentou o lugar no túnel e foi dispensado, substituindo-o o treinador das divisões inferiores, Pedro Figueiró. Pois Figueiró deu-se bem, a princípio. O Grémio saiu para fazer outra excursão à Europa e o Internacional concentrou-se no Gauchão. Foi vencendo, vencendo e amealhando pontos de vantagem sobre o Tricolor. De repente, faltando cinco jogos para o fim do campeonato, o Inter viu-se lá na frente na tabela, com cinco pontos a mais do que o arquiinimigo. A 11 de novembro, o Grémio perdeu mais um ponto ao empatar em 2 x 2 com o Cruzeiro, na Montanha. A diferença a favor do Inter poderia ficar em seis pontos, a três jogos do Grenal. Mas o Colorado surpreendeu seus torcedores e foi derrotado no mesmo dia pelo Guarani, em Bagé, por 2x0.

Grémio e Internacional venceram as suas duas partidas seguintes. Ou seja, havia mais uma e o Grenal. E o Inter contava com quatro pontos de vantagem. Um empatezinho e o Colorado seria bicampeão.

Na noite de 9 de dezembro, o Grémio jogaria fora de casa contra o Pelotas. O Internacional enfrentaria o Aimoré nos Eucaliptos. Confiantes na

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A história dos Grenais

vitória, os colorados traçaram um plano cruel para humilhar o adversário. Antes dos jogos, levaram um caixão

de

defunto para a saída da Ponte do Guaíba. A ideia era bloquear a ponte quando o ônibus do Grémio chegasse

e

obrigar o time a acompanhar o próprio enterro. O ônibus, lotado de jogadores mal -humorados e

resmungantes, teria de seguir por intermináveis quilómetros um féretro azul. lento e debochado.

O técnico do Grémio não era mais Ênio Rodrigues e sim o treinador campeão de 61, Sérgio Moacir.

No momento do embarque da delegação, ele reuniu os jogadores e jurou:

Se vocês me derem a vitória em Pelotas eu lhes darei o campeonato.

Contava, talvez, com o cumprimento de outra promessa, es ta feita pelo

atacante Paulo Lumumba, emprestado pelo Grémio ao Aimoré no início do ano.

Garanto que vou fazer a minha parte para dar o título ao Grémio - disse o jogador.

Um terceiro voto magnetizava o ar naquele final de 1962, o do técnico do Aimoré, Carlos Froner. Magoado pela rejeição sofrida nos Eucaliptos, meses atrás, ele jurara vingança.

Todos estes foram personagens centrais da inesperada e eletrizante decisão do Campeonato Gaúcho.

O Aimoré jantou o Internacional nos Eucaliptos. Ganhou por 3 x l e deu olé. Destaque da partida: Paulo

Lumumba, autor de dois gois. Finalizado o jogo, o goleiro do Inter, Gainete, atravessou o gramado em silêncio

e cumprimentou Carlos Froner. Ao mesmo tempo, em Pelotas, os gremislas faziam a sua parte vencendo o Pelotas por 4x0.

Restava, agora, apenas o Grenal. Se o Grémio vencesse, a dupla terminaria o campeonato empatada em pontos e teria que decidir em partida extra, um supercampeonato. Se o Inter vencesse ou empatasse, conquistaria o bi. Quer dizer, o Colorado continuava precisando só de um ponto, enquanto o Grémio dependia de quatro.

Mas o Grémio vinha embalado, confiante, entusiasmado. No Internacional, tudo era medo. A lembrança da virada no último Grenal de 61. a tradição de vitórias do adversário, os últimos fracassos, cada detalhe servia para abalar a fé dos colorados.

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A história dos Grenais

O Grémio venceu o Grenal de 16 de dezembro. Só podia vencer. Dois a zero, com dois figurantes roubando a cena e transformando-se em personagens principais: o ponta-direita Marino, autor dos gois, e o ponta-esquerda Ivo Diogo, ex-jogador do Inter, um dos melhores em campo. Ivo Diogo conquistaria outras glórias pelo Grémio e Marino, então, nem se fala. Marino era um ponteiro veloz e objetivo, muito parecido com um outro ponta que faria sucesso no Internacional, oito anos depois: Valdomiro. Jogava no

Grémio desde 1960, mas os dois gois marcados no último Grenal de 62 é que lhe enrijeceram o pé. Em 63, Marino seria o goleador do campeonato com 17 gois e, em um ano e meio, assinalaria nada menos do que dez gois em Grenais.

O Grémio saiu dos Eucaliptos, em 16 de dezembro de 62, certo de que reconquistaria o título. O

garoto Luiz Carlos Machado, de 12 anos de idade, também tinha esta certeza. Tanto que deixou o estádio aos

prantos. Era colorado fanático e não aguentava mais ver seu time perder. Morava na Ilhota desde que nasceu de um parto difícil, puxado a fórceps das entranhas maternas, a operação deixando-lhe um estigma na fronte

e fazendo a mãe correr à urna casa de umbanda para lhe fechar o corpo e iluminar a alma. Na Ilhota, o

negrinho aprendeu a jogar bola e a ser colorado. Agora, chorando de frustração, ele alisava instintivamente com o dedo a marca de nascença na cabeça e fazia uma promessa:

Ainda vou jogar no Internacional e vou ganhar todas do Grémio.

Naquele mesmo ano de 1962 Luiz Carlos ganhou o apelido que lhe faria conhecido em todo o Brasil na década de 70: Escurinho.

Até alcançar a celebridade, no entanto, Luiz Carlos teria muito a sofrer. Veria o seu Inter levar 4 x 2 ao natural do Grémio de Marino em 7 de fevereiro de 1963, com dois gois de Ivo Diogo, um de Joãozinho e um de Vieira, descontando Flávio c Soligo para o Colorado. O Grémio era supercampeão.

do

meio-de-campo. Acostumava-se, agora, a ser chamado pelo nome e o sobrenome: João Severiano. Nome com

o Grémio renovava

O Inter

estava

desmoralizado e

o

seu time.

Joãozinho adonara-se

o qual a torcida gremista o elegeria deputado estadual, no futuro.

Na zaga, ao lado de Aírton, substituindo Ênio e Calvet, jogavam Áureo

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A história dos Grenais

ou Altemir. No meio, depois da saída de Élton para o Botafogo, entrou Cléo. Na frente, Lumumba estava de volta e Marino empilhava gois. O Inter venceu um Grenal amistoso em 14 de abril de 63, por 2 x 1 , com Flávio Minuano marcando um gol-pintura, na definição da crónica esportiva: Flávio, Darlan e Gaspar tabelaram oito vezes até Flávio empurrar para o gol. Em 1° de maio, o Grémio deu o troco. Dominou o jogo todo e aplicou 4 x l no Colorado, com quatro gois de Marino.

O mesmo Marino fez o único gol da vitória de l x O no primeiro Grenal do campeonato, em 29 de

setembro, nos Eucaliptos. Apanhou a bola na intermediária ao 76 minutos de jogo e desandou rumo ao gol, com o zagueiro Osmar nos calcanhares. Durante todo o trajeto, uns 30 metros, Osmar tentou derrubar o atacante do Grémio, mas ele só parou quando Beno saiu do gol para, de perna esquerda, atirar para o fundo da rede. O Grémio chegou ao bicampeonato com facilidade, duas rodadas antes do final, e até ganhou o Grenal do Papai Noel por 1 x O em 14 de dezembro, desestabilizando de vez o treinador do Inter, professor Mendes Ribeiro, irmão de Jorge Alberto Mendes Ribeiro jornalista que mais tarde se elegeria deputado federal.

Mil novecentos e sessenta e quatro seria um ano mais difícil para o Tricolor. O capitão Carlos Froner foi contratado como técnico e trouxe com ele uma novidade: Mário Doernt, um major da cavalaria que passou a atuar como preparador físico. De início, os dirigentes estranharam.

Então vamos ter dois técnicos? perguntavam.

Logo em seguida, se acostumaram. Os jogadores gostaram da inovação. Só não apreciaram muito as comidas que o professor Mário mandava servir na concentração, principalmente aquele arroz escuro que ele chamava de arroz integral.

Naquele ano foi revelado Alcindo Martha de Freitas, um centroavante refugado anos antes de forma humilhante pelo Internacional. O episódio da dispensa fez crescer no peito de Alcindo uma raiva do Colorado só aplacada com gois em Grenais. No início dos anos 60, indicado pelos irmãos Kim e Alfeu. ele foi jogar no Inter. No campeonato dos juvenis, marcou nove gois em duas partidas contra o Grémio. Como morava em Sapucaia e precisava tomar dois

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A história dos Grenais

ônibus para chegar aos Eucaliptos, o jovem atacante aproveitou para pedir um aumentinho de salário. O técnico Abílio dos Reis apresentou a reivindicação ao presidente Fagundes de Mello. Que ficou fulo.

Deixa que eu falo como rapaz foi a única resposta do presidente. À tarde, Fagundes de

Mello apareceu no campo suplementar do Colorado, interrompendo o treino dos juvenis. Os jogadores cochicaram entre si, surpresos e um pouco assustados. Era muito difícil o presidente comparecer a um trabalho das divisões inferiores.

Quem é o tal Alcindo? perguntou o presidente a um jogador na lateral do gramado. O rapaz

apontou para a outra ponta do campo. Fagundes de Mello foi perguntando e os jogadores apontando. Viravam-se todos para Alcindo, que viu o presidente do clube, rosto crispado, olhar homicida, aproxmar-se a passos decididos em sua direção. Fagundes de Mello era baixinho. Mas Alcindo teve a

impressão de que o homem crescia à medida que chegava mais perto. Continuou se aproximando e crescendo até parecer medir uns três metros de altura.

Então tu és o Alcindo? A pergunta não pedia confirmação, mas Alcindo bem que cogitou a possibilidade de negar.

Sou ciciou, afinal. Quem tu pensas que és. guri? Tu tens dois irmãos jogando aqui, dois jogadores que sempre foram humildes e dedicados! E agora vens pedir aumento?! Alcindo não conseguiu responder. Cabeça baixa, só ouvia, envergonhado. E ouviu quando Fagundes de Mello encerrou a conversa.

Tu estás vendo aquele portão ali?

Podes sair por ali e não volta mais!

- disse o presidente, apontando para a saída do estádio.

Alcindo só voltou a cruzar o portão dos Eucaliptos para marcar gois no Inter. Dias depois, o Grémio soube da sua saída. A direção encarregou o chefe de torcida Camelinho de buscá-lo em Sapucaia. Camelinho chegou na casa da família do jogador e falou com a mãe dele, Oiívia. Perguntou por um filho centroavante. Dona Olívia sabia que era Alcindo. Andava mais preocupada, porém, com o futuro de Alcino, seu outro filho, jogador de várzea e não exatamente um exemplo cie requinte técnico. Chamou Alcino:

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A história dos Grenais

Meu filho, o Grémio quer te contratar. Vai agora mesmo para o Olímpico.

O

rapaz quase desmaiou de contentamento. Correu ao Olímpico, recebeu chuteiras, meias, calção e

camiseta. Entrou em campo para participar do treino. Na frente dele, Aírton Ferreira da Silva, com nome,

sobrenome e Im86cm de altura. Alguns minutos e poucas jogadas depois, o dirigente do Grémio Clébel Furtado pediu que Alcino o acompanhasse à pista atlética.

Diz uma coisa, meu filho, tu não tens um irmão com um nome pareci do com o teu? Sondou-o

Furtado.

Tenho. E o Alcindo.

Ele joga também, não joga?

Joga.

E centroavante?

- É .

Era do Internacional?

Era.

Ah, então faz o seguinte: sai assim como tu estás, com chuteira, meia, calção, camiseta, com todo o fardamento, vai de volta a Sapucaia, entrega tudo para o teu irmão e manda ele vir aqui.

Alcino foi e Alcindo voltou em seu lugar. Depois de ser emprestado ao São Paulo de Rio Grande, Alcindo finalmente passou a atuar no Grémio. Contudo, ainda não como titular. Revezava-se com Paulo Lumumba. O dia 22 de março de 1964 mudaria esta situação. O Grémio perdia para o Coritiba, em Curitiba, por l x O e o técnico Carlos Froner decidiu experimentar Alcindo no comando de ataque. Pois ele liquidou com a defesa do Coritiba e o Grémio venceu por 4 x 1 . Não saiu mais do time.

Alcindo marcou seu primeiro gol em Grenal em abril de 1964. Um mês confuso. No dia 1°, os militares deram o golpe de Estado. As reuniões foram proibidas, inclusive as esportivas. Logo, nenhum jogo poderia ser realizado. No dia 2, mais de cinco mil pessoas correram à rodoviária e seguiram em ônibus para o interior. Queriam fugir da conturbada Porto Alegre. Os ônibus que saíam do estado, porém, foram barrados na divisa com Santa Catarina e mandados de volta.

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A história dos Grenais

O Grenal do dia 19, um amistoso, foi realizado na calma de Santa Cruz do Sul. O Inter venceu por l

x O e açulou o desejo de vingança dos gremistas para o segundo encontro, dia 23, no Olímpico. Nesta noite.

Alcindo provocou pânico na defesa colorada. Fez todos os gois da vitória de 3 x 0. Carlos Froner não assistiu

a nenhum dos dois jogos. Como capitão do Exército, ele permaneceu recolhido no QG da Rua da Praia, a

espera de ordens superiores. Não pôde sequer orientar os treinos do Grémio. O time foi dirigido por Aparício Viana e Silva durante quase todo o mês de abril.

O Grémio ganhou o primeiro turno do campeonato ao empatar em zero com o Inter a 26 de julho.

Atrás da zaga. um novo goleiro, Alberto. Trajava uma camisa azul-celeste que se tornou tão famosa quanto à amarela de Germinaro. Seria titular nos próximos anos, só se revezando com Arlindo em 1966. O Grémio prosseguiu na dianteira até o final do campeonato. Em 11 de outubro, sofreu uma derrota inesperada, l x O para o Brasil. O Inter, que estava três pontos atrás, ressuscitou. Foi para o Grenal com apenas um ponto de diferença, ansiando em repetir a proe/a do Grémio de 1962.

A imprensa se impacientava com o técnico Carlos Froner, chamava-o de retranqueiro. Froner não respondia às provocações. Pelo contrário, as incentivava. Uma emissora de rádio colocou os dois treinadores, Froner e Sérgio, na mesma linha, para falarem sobre o Grenal.

Tu vais jogar na defesa? quis saber o técnico do Inter.

- Claro disse Froner. Posso empatar o jogo. Não vou abrir mão desta vantagem.

Enquanto prometia um Grémio defensivo, Froner pensava em resolver um problema de escalação da equipe, na lateral-direita. Não estava satisfeito com Valério nem com Renato, os dois jogadores da posição. Pensava em tirá-los do time, mas não queria melindrar ninguém. Dias antes do jogo, surgiu, no Olímpico, o boato de que Renato fora visto com uma mulher acompanhada por um dirigente colorado. Valério, da mesma forma, teria sido flagrado conversando com um prócer do Internacional em frente ao estádio. Era a chance do técnico. Alegando querer preservar os jogadores, escalou o vigoroso quarto-zagueiro Altemir na lateral-direita. Altemir e

os outros dez titulares ouviram a instrução do treinador, pouco antes da partida:

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A história dos Grenais

Vamos atacar desde o início que eles estão esperando um adversário cauteloso.

O Grenal decisivo foi disputado no Olímpico no domingo. 1° de novembro. Sobre a data, a coluna de Hilário Honório, com a indefectível marca do perdigueiro, na Folha da Tarde, comentou: "Dizem por aí que "

o Internacional jamais perdeu em 1° de novembro

As TVs queriam transmitir a partida. Os clubes não aceitavam. Ainda não havia acerto entre clubes

e emissoras. A direção do Grémio proibiu a entrada das equipes de televisão no estádio e o narrador Geraldo José de Almeida teve que fazer a transmissão da sacada de uma casa em frente ao Olímpico.

As emoções assistidas ao vivo pelos telespectadores gaúchos começaram cedo, aos dois minutos de

jogo. Sérgio Lopes, o Fita Métrica, agora no Grémio, deu um de seus lançamentos milimetrados para Alcindo. O zagueiro Scala foi na bola e falhou. O centroavante entrou na área e encobriu o goleiro Silveira: l x

O para o Grémio. O tricampeonato estava próximo. Pode-se dizer que chegou em definitivo aos 46 minutos,

quando Marino correu pela direita e centrou para Alcindo completar para o gol. A bola bateu na rede e o torcedor Alfredo Prates, de 56 anos, funcionário do Banco do Estado, caiu nas sociais do Olímpico, ful- minado de emoção. Morreu no estádio, sem ver o terceiro gol do Grémio, assinalado por Joãozinho depois de uma cobrança de escanteio de Marino, aos 27 do segundo tempo. A frieza militar do capitão Carlos Froner acabou ali. Finda a partida, ele abraçou-se aos jogadores e chorou sem culpa.

Grémio tricampeão. Mesmo assim, o Papai Noel foi vermelho mais uma vez. A 10 de dezembro, o Inter venceu um Grenal amistoso por 2x1. Aírton acabou expulso pelo árbitro Yolando Rodrigues. A torcida tentou derrubar o alam-brado dos Olímpico para linchar o juiz, o que só não ocorreu devido à vi-gorosa distribuição de borrachadas por parte da polícia. O jogo terminou com uma batalha entre a polícia e a torcida. Três guardas e dois torcedores foram hospitalizados. O nervosismo contagiou os jogadores. Ortunho, irritado, aplicou uma cabeçada no repórter Lupi Martins, da Rádio Gaúcha. Caído no chão. sangrando pela boca e pelo nariz, o jornalista só não foi mais agredido graças à intervenção de Carlos Froner. Lupi Martins registrou queixa na polícia contra Ortunho no mesmo dia.

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A história dos Grenais

Não seria o derradeiro envolvimento de Ortunho com a polícia. No intervalo do último Grenal de 1965, em 12 de dezembro, ele passou pelo bar do estádio dos Eucaliptos e ouviu insultos de um colorado. Identificou um cidadão como autor dos impropérios e não teve dúvidas. Sentou-lhe um pontapé na cabeça. Parou na 2 a DP. Sentadinho diante do delegado, já mais calmo, Ortunho explicou a razão de tamanha fúria:

Ele me cuspiu na cara e ainda por cima disse que eu não era homem.

Depois de provar ao torcedor colorado que era homem, sim, Ortunho voltou a campo para marcar, com igual disposição, o ponteiro Carlos Castro. O Grémio venceu este Grenal por l x O, gol de Alcindo aos 43 do segundo tempo. Como vencera o anterior do campeonato, 2x1, gois de Alcindo, de novo, e Joãozinho.

Foi, talvez, o campeonato mais tranquilo da história do Grémio. Apenas empatou um Grenal amistoso em zero, no início do ano, e venceu os outros dois. Nem carecia. O título chegou de forma invicta, com dois mirrados pontos perdidos, ambos para o Floriano. No final do certame, o Tricolor apareceu em primeiro na tabela de classificação, com quilométricos 17 pontos a frente do Internacional. O Colorado não conseguiu sequer chegar em segundo. O Juventude ficou com o vice-campeonato, com 16 pontos perdidos. Em terceiro chegou o Floriano, com 18 pontos perdidos. Ao Internacional coube o humilhante quarto lugar, e ainda assim dividido com o Brasil de Pelotas, os dois com 19 pontos perdidos.

O Inter chegara ao que os gregos chamavam de nadir, o ponto mais baixo, o oposto do zénite. No início do ano, desesperados com as derrotas de 62, 63 e 64, os dirigentes colorados tentaram implantar um apressado processo de juvenilização no time. A equipe dos juvenis era muito boa. A torcida ia aos Eucaliptos mais para se deliciar com os jogos dos chamados juvenis Bossa Nova do que para ver aqueles profissionais desgastados pelas derrotas. Os garotos prometiam. Sobretudo a habilidosa dupla de meio-campo, Bráulio e Chorinho. Os dois eram as estrelas, os artistas da bola, os génios do futuro. Quase todo o grupo de juvenis foi promovido aos profissionais. Só Bráulio continuou nas divisões interiores, para seu supremo desespero. Saiu chorando dos Eucaliptos direto para as barras da saia da mãe.

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A história dos Grenais

Que decepção na minha vida, mãe. Nunca mais volto lá resfolegava. No dia seguinte, porém, o

técnico dos juvenis, Abílio dos Reis. e um dirigente do clube. Braga Gastai, foram à casa do jogador.

Que é isso, rapa/,, tu tens só 15 anos. Vamos voltar já para os Eucaliptos ordenou Braga

Gastai.

Bráulio voltou. Não se arrependeu. Seus ex-colegas de juvenis acabaram queimados devido às derrotas e ele prosseguiu no Inter para cumprir uma tra-jetória gloriosa e polémica.

O Internacional desmoronava e o Grémio tornava-se ainda mais sólido. O ex-jogador colorado Sérgio Lopes encaixou na meia-cancha gremista como se lá tivesse nascido. Com Cléo, formou um meio-campo que nada devia a Élton e Milton. Na frente, não havia mais Juarez, o Tanque. Mas ninguém dava pela falta. Alcindo, o Bugre Xucro, era a reencarnação do velho centroavante rompe-dor. forte, pleno de arrancadas fatais para a zaga adversária. Alguém sofria de saudades das tabelas entre Juarez e Gessy? Bastava olhar para o campo, salivar com as combinações entre Alcindo e Joãozinho, que a nostalgia logo passava. Atrás,

Alberto fechava o gol tal qual Genninaro, Altemir mostrava-se ainda mais vigoroso que Figueiró e Orlando, e Áureo esforçava-se para merecer o lugar que fora de Calvet e Ênio Rodrigues.

Mil novecentos e sessenta e cinco trouxe, também, um reforço para o Grémio. De Lajeado chegou Volmir. o Maçaroca, um ponteiro driblador e artilheiro. No Grenal de 12 de dezembro foi ele quem enfiou a bola entre as pernas de Scala e chutou cruzado para Alcindo empurrar para a rede quase sobre a risca do gol. Mas aquela não foi sua melhor partida pelo Grémio. Aliás, ele nem jogou bem. Sua consagração ocorrera um mês e meio antes, num compromisso pela Taça Brasil. O Grémio enfrentava o Palmeiras, a temida Academia do Futebol. Um timaço: Dona: Djalma Santos, Djalma Dias. Procópio e Ferrari; Dudu e Ademir da Guia; Julinho, Servílio, Ademar e Rinaldo. Na semama anterior, o Grémio havia perdido por 4 x l em São Paulo, num jogo que, segundo todas as testemunhas gaúchas, o juiz Eunápio de Queirós só faltara entrar em campo para ajudar o Palmeiras. Pelo menos dois gois, juravam todos, tinham sido irregulares. O Rio Grande estava em pé de guerra. Até os colorados estavam revoltados com a injustiça.

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A história dos Grenais

O árbitro escalado para a partida em Porto Alegre foi Armando Marques. O juiz, os bandeirinhas, os

jogadores do Palmeiras, ninguém de fora do Estado poderia esperar ver o que se viu na noite de 27 de outubro de 1965 no gramado do Olímpico. Que Academia, que nada. O Grémio desmontou o Palmeiras. Volmir, que em São Paulo ficara na reserva, encarou o melhor lateral-direito do Brasil, o bicampeão do Mundo Djalma Santos, como se ele fosse um juvenil do Força e Luz.

O Maçaroca pegava a bola, partia para cima de Djalma Santos, cortava o lateral para um lado, para

outro, voltava ao mesmo lugar. Quando Djalma queria enquadrar o corpo, Volmir arrancava rumo à linha de fundo ou investia sobre a área do Palmeiras. As vezes Djalma Santos se interpunha em seu caminho e o Maçaroca derrubava-o com o ombro, protegia a bola com o lado do pé e tornava a afunilar em direção ao gol paulista.

A defesa palmeirense virou um inferno. Aos 34 minutos, Alcindo marcou o primeiro gol do Grémio.

Faltando um minuto para terminar o primeiro tempo, Volmir enfiou uma bola goela adentro de Djalma Santos, entrou na área e foi derrubado por Djalma Dias. Alcindo cobrou o pênalti e fez 2 x 0. Logo aos três minutos do segundo tempo, Volmir driblou quase toda a defesa do Palmeiras e ampliou o marcador. Aos 16 minutos, Joãozinho assinalou o quarto gol, o Palmeiras descontou com Zequinha aos 27 e o Grémio fechou a goleada aos 40, com Alcindo: 5 x 1 .

Esta atuação de Volmir foi uma marca registrada em sua carreira. Anos depois, mesmo quando ele não estava em boa fase. os adversários o respeitavam. "E se ele resolve fazer aquilo que fez contra o Palmeiras?", perguntavam-se os seus marcadores.

No ano seguinte, 1966, o Grémio trouxe o técnico Luiz Engelke, obedecendo à fórmula de trocar o treinador a cada dois anos, mesmo sendo ele um vencedor. O clube se traumatizara com a saída de Foguinho em 61, e a derrota subsequente. Os dirigentes, agora, acreditavam que a permanência de um técnico por longo tempo se tornava prejudicial ao time.

O Brasil pós-golpe fervia. No futebol, a meta era a conquista do tricam-peonato mundial, na Copa da Inglaterra. No terreno cultural, no entanto, germi-

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A história dos Grenais

nava a excitação maior. No final de 65, o novo jornal de Porto Alegre, o matutino Zero Hora, com seus dois anos incompletos, trazia uma matéria analítica em seu Caderno 2: "Beatles - o que são? Comunistas, cristãos ou terroristas?" No texto, o repórter destacou uma alarmante tese apresentada pelo reverendo David Noebel, chefe da Cruzada Cristã Anticomunista de Wisconsin, nos Estados Unidos.

- Os Beatles estão preparando os jovens para a Revolução e a revolta contra a República Cristã jurava o reverendo. Os comunistas desenvolveram um sistema engenhoso de hipnose musical baseado na sincronização do ritmo às batidas do coração dos jovens. Um dia, quando a Revolução estiver madura, os Beatles virão para a TV e hipnotizarão a juventude da América inteira.

Em outubro de 66, pouco depois do primeiro Grenal do campeonato, chegou a Porto Alegre um típico produto da revolução iniciada pelos Beatles. O cantor Ronnie Von desembarcou sua tez pálida e seus olhos verdes no aeroporto Salgado Filho e por pouco não foi trucidado pelas fãs adolescentes. Alguns jovens mais inflamados arrancavam tufos dos cabelos do artista. Cada fio de cabelo foi vendido às meninas a Cr$ 500 na saída do aeroporto. Ronnie Von acenou às admiradoras e deixou o Salgado Filho num enorme Impala cor-de-rosa em direção à boate Paraphernália, onde cantou, à noite. Outro cantor de sucesso da época era Wanderlei Cardoso, que estrearia meses depois numa fotonovela publicada por Zero Hora.

Três conhecidos estudiosos de fenómenos paranormais fizeram previsões para este clássico de outubro de 66. O famoso Homem dos Cachos, que vaticinou a vitória do Grémio no Grenal Farroupilha, em 1935. tranquilizou as duas torcidas: vai dar 2x2, garantiu. O professor Ornar Kahn discordou. Assegurou que o Inter venceria por l x 0. E a madame Alba ficou com o Grémio: 2 x 1 .

Sem saber qual deles estava certo, os jogadores do Grémio repetiram um ritual realizado antes de todas as partidas importantes. Empoleiraram-se no DKW de Aírton e passaram, solenes e respeitosos, pela frente da Igreja Santa Terezinha. no Bom Fim. Os jogadores tinham tanta fé na santa que, antes de cada viagem, obrigavam o motorista do ônibus da delegação a fazer um desvio só para desfilar diante da igreja.

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A história dos Grenais

Como todo o grupo que permanece muito tempo junto, eles criaram hábitos em comum e formularam regras. O jogador novo, contratação recente, tinha que pagar um churrasco para todo o time no dia da assinatura do contrato. Apenas o pão-duro Ortunho escapou desta obrigação. A cada ano, ele prometia que pagaria dois churrascos em vez de um e assim ia levando os colegas.

No refeitório, havia três mesas: a dos magros, a dos gordos e a dos super-gordos. A dos magros ficava para quem estava dentro do seu peso ideal, a dos gordos para os que estivessem um ou dois quilos acima e a dos supergordos para os que pesassem muito além do normal. O goleiro Alberto era um contu- maz frequentador da mesa dos super-gordos. Alcindo, com sua paixão por doces e massas, batia ponto na dos gordos. A mesa dos magros tinha de tudo. Um lauto banquete. Cremes, molhos, filés grossos como bíblias, batatas douradas, omeletes suntuosas, sobremesas faiscantes. Na dos gordos, a paisagem era verde. Saladinhas, um ovo cozido, um bifinho sumidouro e aquela repugnante água mineral. A dos super-gordos era espartana. O suspiro de Alcindo ainda é dolorido e comovente quando ele fala de uma vez em que lhe foi servido nada mais do que um copo d'água e a metade de uma maçã como almoço. Os

gordos e os supergordos sofriam ao ver os magros comendo com parcimônia, quase com indiferença, todas aquelas delícias que eles tanto amavam e desejavam. Mas a pior tortura era a do sonho-bocha. O sonho-bocha feito pela cozinha do Grémio era famoso. Redondo, recoberto por uma casquinha crocante e açucarada, encorpado pela massa sequinha e macia, o sonho fazia os jogadores deli-rarem quando os dentes alcançavam o recheio cremoso e adocicado. A pena mais temida por gordos e super-gordos era a proibição de comer sonho-bocha.

Devido à fama de comilão, Alcindo, vez em quando, era condenado à concentração forçada. Tinha que ficar a semana inteira no Olímpico, recolhido, vigiado pelo massagista Banha, definitivamente longe de guloseimas e acepipes. Alcindo concentrava antes e o Grémio ganhava. Com o tempo, aquilo tornou-se mais uma das superstições do time. Os jogadores exigiam que Alcindo concentrasse no início da semana, mesmo quando ele estava dentro do peso normal. Assim, não havia jeito. Era só chegar na semana do Grenal que Alcindo ficava na obrigação de dormir no Olímpico.

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A história dos Grenaís

Sua companhia, o massagista Banha, fazia de tudo para alegrá-lo. Às vezes até lhe fornecia um sonho-bocha clandestino. À noite, quando Alcindo dormia, Banha levantava-se em silêncio e apanhava uma garrafa de vinho que escondia no armário. Bebia, solitário e satisfeito. Na semana do Grcnal de 2 de outubro de 66, Alcindo estava especialmente revoltado com a concentração. Há dois dias do jogo, resolveu protestar. Esperou Banha dormir e foi fazer uma visita ao armário do massagista. Roubou uma garrafa de vinho e a entornou. Alcindo não estava acostumado a beber. O primeiro gole veio-lhe amargo. O segundo menos. O terceiro parecia docinho. Bebeu meia garrafa. Enjoou. Banha acordou quando ele eslava vomitando o vinho, o sonho-bocha, a alma.

- To doente, Banha gemeu o jogador.

Banha correu para socorrê-lo c viu, ao lado da cama, a garrafa de vinho pela metade. Ficou apavorado. Tratou de Alcindo a noite inteira e fez-lhe jurar que não contaria nada a ninguém. No dia seguinte, Alcindo treinou tropega-mente. Mas, no Grenal, não teve para o Intér. Aos 13 do segundo tempo, Alcindo fez o gol da vitória do Tricolor.

Naquele clássico iniciou-se uma das mais célebres rivalidades entre jogadores do futebol gaúcho. Aos 40 minutos do primeiro tempo, Alcindo chocou-se com o goleiro Gainete com violência. O goleiro permaneceu caído, gritando de dor, enquanto o lateral-direito Laurício advertiu o cenlroavante:

Tu não enxerga, guri bobo? Depois reclama que estão te batendo. Agora é que tu vai ver!

Alcindo passou o resto da partida apanhando da zaga colorada. E revidando. Ele e Gainete tornaram-se, mais do que adversários, inimigos. Xingavam-se, chutavam-se, cuspiam-se.

- Vou te quebrar, seu fresco! insultava-o Gainete.

Vem que eu te parto a cara e ainda te faço um gol. corno! retrucava Alcindo.

Ao contrário de Sapiranga e Ortunho, Gainete e Alcindo não conseguiram cultivar amizade fora de campo nem depois de terem abandonado o futebol.

O Grémio faturou o pentacampeonato por antecipação e, mais uma vez,

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A história dos Grenais

perdeu o último Grenal por l x 0. gol de Dorinho, em 17 de dezembro. Chegara, então, o grande desafio, a chance pela qual os gremistas esperavam desde a década de 40: o hexacampeonato. Há muito que os colorados garantiam: "Hexa, essa não". O hexa, diziam, era exclusivo do Internacional, conquistado pelo glorioso Rolo Compressor.

Junto com a oportunidade de ganhar o hexa, chegou para o Grémio (e para o Inter) a de se consagrar nacionalmente. A dupla, afinal, participaria do Robertão, o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, antes restrito aos clubes de Rio e São Paulo. O Robertão foi o pai do campeonato brasileiro. Como só o Olímpico tinha condições de sediar partidas tão importantes, os dois clubes jogavam no estádio do Grémio, com esquema de caixa único. O sistema foi um sucesso: o Grémio terminou em terceiro lugar e o Inter em segundo.

O primeiro Grenal de 67 valeu pelo Robertão, Os dois clubes queriam fazer bonito na competição. Ansiavam em mostrar ao País como o Rio Grande do Sul era civilizado. Para evidenciar ainda mais o elevado padrão moral do Estado, a Federação proibiu até os palavrões no estádio. Quem pronunciasse qualquer gracinha para uma moça ou dissesse palavras desairosas em voz alta seria de imediato recolhido ao xadrez.

Foi um soberbo jogo de futebol. O Internacional venceu por 2x0. Bráulio estourou como o astro do time. O narrador Mendes Ribeiro passaria a chamá-lo de O Garoto de Ouro. Bráulio foi autor de uma jogada histórica neste Grenal. No segundo tempo, o Inter vencendo por l x O, aplicou um balãozinho no zagueiro-central Aírton que quase provocou um desmaio coletivo na torcida colorada. O lençol de Bráulio foi o marco final da carreira de Aírton no Grémio. O jogo seguinte Aírton assistiu sentado no banco de reservas. Uma semana depois, pediria para sair do clube.

Aírton nunca mais jogou um Grenal. Sem o seu maior craque, mas ainda com a velha estrutura vitoriosa, o Grémio conquistou o hexa. O treinador, mais uma vez, foi Carlos Froner. Como o hexa era prioridade, ele escalava uma equipe mista nas partidas do Robertão. O título gaúcho foi alcançado por antecipação, fazendo com que Froner colocasse os reservas também no último Grenal do ano, em 17 de dezembro.

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A historiados Grenais

A atitude do treinador, respaldado pela direção. ofendeu os colorados. O Inter venceu por1 x 0, gol de Dorinho. mas não foi o suficiente. Terminada a partida, o vice-presidente do Internacional, Rafael Strougo. agrediu um juvenil do Grémio, Beto, que comemorava o título da categoria. Foi o que bastou para começar a pancadaria geral. Ortunho bateu cm Gainete, Gainete tentou revidar e outros jogadores entraram na briga, seguidos de dirigentes, massagistas, médicos, torcedores e policiais. Na confusão, Rafael Strougo procurou o presidente do Grémio, Rudy Armim Petry, encontrou-o e, de punhos cerrados, bradou:

Era tu mesmo que eu queria!

Antes de Petry tentar encetar uma reação, Strougo o agrediu brutalmente com diversos murros e pontapés.

Toda a fúria colorada seria inútil. O Grémio ainda venceria mais um campeonato e chegaria ao hepta. Ironicamente, auxiliado por Aírton. O velho zagueiro, jogando no Cruzeiro em 1968, fez um gol no Internacional, de perna esquerda, e isolou o Grémio na liderança. Mas o hepta seria, também, o último título da série do Grémio. Com o Beira-Rio concluído, o Colorado passou a imitar o rival e a montar times de competição, transformando-se em mestre de um estilo de jogo que conquistaria o País. Ficaria, no time do Inter, só um representante do futebol requintado do Rolo Compressor, o jovem meia Bráulio, o Garoto de Ouro, pivô do grande debate futebolístico do início dos anos 70 no Rio Grande do Sul.

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A história dos Grenais

A Era Beira-Rio

As lágrimas turvaram a visão do meia Bráulio e ele quase deixou escapulir a bola que lhe fora rolada com doçura por Dorinho. Ante a pressão do voluntarioso gremista Jadir, livrou-se dela com um passe lateral para Sadi. Continuou caminhando e soluçando pela intermediária, sem prestar atenção no jogo. Um assustado João Severiano aproximou-se e sussurrou:

Pó, mas o que é isso? Pára de chorar, garoto. Tá todo mundo te olhando! Bráulio o chicoteou com um olhar furioso.

Não fala comigo! Rosnou. To com raiva de vocês e daquele treinador gremista!

João Severiano se afastou, balançando a cabeça em resignação. Esqueceu-se logo do inconformado adversário. O árbitro João Carlos Ferrari apitou o final do jogo, levantando os braços. Décimos de segundo depois, foi a vez de João Severiano e toda a torcida do Grémio levantarem os braços num urro de alegria. Bráulio não viu a festa. Abandonou o campo ainda chorando. E o choro prosseguiu, resfolegante, enquanto ele tirou as chuteiras e o uniforme, entrou no banho, vestiu-se de novo e embarcou no Aero Willys do capitão do Inter, Sadi. Recuperou-se quando o carro o deixou na casa da noiva Nina Rosa, na Barão do Amazonas. Abriu a porta e o futuro sogro, seu Teimo, tentou um consolo bem-humorado:

Torci pra que tu jogasse bem, mas queria que o Grémio ganhasse.

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A história dos Grenais

Para quê! Bráulio arregalou os olhos injetados, as narinas se dilataram em busca de todo o ar da sala, o rosto ficou rubro como a camiseta do Internacional.

O que que eu to fazendo aqui. numa casa de gremistas?! Indignou-se.

Saiu batendo a porta, jogando a aliança longe, gritando que o noivado

estava desmanchado.

Mais tarde, claro, reataria com Nina Rosa, casaria com ela e com ela teria filhos. Mas naquele 2 de junho de 1968 sua ira parecia-lhe justificada. O Inter perdera mais um campeonato. Não um campeonato qualquer: o Grémio sagrara-se heptacampeão. Pior: o Grémio enfiara 4x0.

Tudo por causa daquele treinador gremista! Não cansava de repetir Bráulio entre os dentes, ao se distanciar a passos militares da casa da noiva.

O treinador gremista a que se referia era o técnico do Internacional. Osvaldo Rolla, o Foguinho, fora contratado pela direção colorada num lance de desespero, a fim de impedir a angustiante sequência de campeonatos do Grémio. Sequência da qual Foguinho era o símbolo vivo. Havia sido exata-mente ele o introdutor desta nova maneira de jogar futebol no Rio Grande do Sul. Homens fortes, vigorosos, que tivessem talento para tocar a bola com a sutileza de um pianista, mas que principalmente reunissem disposição para correr o campo todo e marcar o adversário com a determinação de um muçulmano. O Inter, ao contrário, seguia praticando o futebol "bonitinho mas ordinário", como se dizia então, numa alusão à peça de Nelson Rodrigues. Virtuoses da bola passavam os 90 minutos enchendo os olhos da torcida com balõezinhos e toques de trivela, para, no final do campeonato, entregar a taça ao Grémio.

Foguinho foi o emblema do desejo de mudança do Internacional. Chegou a tentar impor suas ideias, mas não obteve sucesso. No final do campeonato, pouco antes do Grenal decisivo, declarou, para a surpresa do Rio Grande inteiro:

Será a luta da arte contra a força.

Uma luta desigual, O Grémio tinha dois pontos de vantagem na tabela e uma superioridade flagrante no campo. A defesa não tinha mais Aírton. o Pavilhão, mas nela se destacava um competente sucessor de Ortunho chamado

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A história dos Grenais

Everaldo. O meio-de-campo com os laboriosos Cléo e Jadir. Nas pontas, o lépido Babá e o driblador Volmir Maçaroca. A velocidade inteligente de João Severiano na ponta-de-lança e, no centro do ataque, fincado entre os zagueiros como um búfalo inquieto, o matador Alando, o Bugre Chucro.

Não bastasse a força do adversário, o Internacional debatia-se em dis-senções intestinas. "Os jogadores não suportavam o Foguinho", conta Bráulio. "Hoje isso pode parecer bobagem, e é mesmo, mas nós achávamos que ele era gremista e por esse motivo a maioria dos jogadores não o aturava".

Quem mais implicou com o apregoado gremismo de Foguinho foi o goleiro Gainete. Brigou com o treinador dias antes do Grenal e acabou cortado do jogo. Foguinho chamou o goleiro Schneider e lhe atirou no peito a camisa número um.

O senhor será o titular na decisão anunciou.

Schneider fitou a camiseta de mangas compridas com o olhar devoto de quem contempla um ídolo sagrado. Era um goleiro jovem. Tão jovem que jamais havia participado de um Grenal, clássico que Gainete disputava desde 1962. Vendo a cena, os demais jogadores tremeram. Mas Schneider entrou em campo. À sua frente. Laurício, Scala, Luiz Carlos e Sadi. No meio, o ex-gremista Élton, um dos jogadores preferidos de Foguinho, o futebol clássico de Dorinho e a habilidade de Bráulio. No ataque, um ponteiro-direito aplicado que passou o ano sendo vaiado pela torcida, Valdomiro, vindo do Comerciário de Criciúma. Na outra ponta, Othon, e entre eles um centroavante de incomum explosão muscular, Claudiomiro.

Logo aos dois minutos, Foguinho mandou o massagista Antenor Moura dizer a Othon para vir buscar o jogo no meio. Othon não obedeceu. Aos 15, Foguinho gritou, carregando nos erres, como de costume 1 .

Seu Othon, procure o jogo, não tique parado na ponta! Othon não obedeceu.

Do outro lado, o técnico do Grémio, Sérgio Moacir Torres Nunes, estava calmo. Via seu time jogando melhor, dominando a partida aos poucos e inexoravelmente.

Aos 30 minutos, Claudiomiro foi lançado e não correu. Foguinho se irritou;

A história dos Grenais

O que há, seu Claudiomiro? O senhor tem que disputar o jogo!

Aos 40, Alcindo caiu dentro da área. A torcida do Grémio pediu pênalti. Sérgio Moacir também. O juiz marcou escanteio. Depois de esbravejar, Sérgio se conformou:

- Tudo bem. Deus é grande disse para ele mesmo. Pode ser que o gol saia agora.

Não saiu.

Se, como Mendes Ribeiro dizia. Deus não joga, mas fiscaliza. Seu dedo de fogo só iria fazer justiça no segundo tempo.

Já no intervalo, no entanto, a espada vingadora do arcanjo Gabriel parecia pender sobre as cabeças coloradas. No vestiário, o zagueiro Scala procurou o treinador, reclamou de dores no joelho direito e avisou que não tinha condições de continuar. Foguinho não conteve a indignação.

O homem está tremendo ironizou. E virando-se para o zagueiro reserva ordenou; Entra, seu Nitota.

Nitota

teria

que

enfrentar

o

Bugre

Chucro.

Atrás

dele,

Schneider,

inexperiente

como

um

seminarista. O Inter voltou a campo ainda mais apreensivo.

Tinha motivos. Os jogadores do Grémio saíram do vestiário rilhando os dentes, com olhares esfomeados para a bola. Oito minutos depois do reinicio da partida, Babá foi derrubado na área do Inter. Ferrari não marcou nada. Mal passaram três minutos e Alcindo cobrou com perfeição maliciosa uma falta perto da área. Gol. Os colorados ainda não haviam se recuperado quando Joãozinho fez o segundo, aos 13. O Inter estava liquidado. Mas o Grémio não parou. O técnico Sérgio Moacir gritou do túnel:

- Tem muito jogo ainda.

E tinha. Aos 22, Volmir ampliou para 3 x 0 . Aos 28, Nitota derrubou Alcindo dentro da área. O próprio Alcindo cobrou o pênalti, finalmente assinalado por Ferrari. Encerrou a goleada e a carreira de Nitota, que. depois daquele jogo, submergiu para sempre na obscuridade.

No dia seguinte, os gremistas cruzavam com os colorados na rua da Praia e mostravam-lhes os quatro dedos da mão. Durante a sessão da Assembleia Legislativa, o deputado Ary Delgado, ex-presidente do Grémio, circulou pelo

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A história dos Grenais

plenário com o que dizia ser o projeto de lei 15/68. O projeto dispunha "sobre o baile no futebol'". O principal artigo considerava crime "qualquer baile realizado sem o atendimento dos sentimentos de compaixão e piedade cristã". Os deputados gremistas riram muito e assinaram o projeto. O colorado Pedro Simon lamentava-se, atrás do bigode. Reclamava que o Inter, um clube popular, tinha lido Meneghetti, um arenista, como patrono, e José Alexandre Zachia, outro integrante da Arena, na presidência, além de Osvaldo Rolla. um gremista, como técnico.

- Não pode ter melhor sorte mesmo suspirava o deputado.

Se os parlamentares colorados sofriam, o que não dizer dos eleitores. No afastado e pacato bairro Sarandi. na Zona Norte de Porto Alegre, Dinarte Oliveira Santos e Ademir da Silva, o Niqueta. precisaram de muito fôlego e bom humor para pagar a aposta perdida para os gremistas Lauro Schmidt e Vilmar Gonçalves, o Fogareiro. Sob os apupos de toda a vizinhança, os colorados formaram uma parelha e puxaram tropegamente uma carroça pelos paralelepípedos do bairro.

Os colorados chegavam ao auge do sofrimento. O Grémio era heptacam-peão, tinha um time melhor e um estádio maior. Perto do Olímpico, os Eucaliptos não passavam de uma sede de associação de bairro. Está certo, os gremistas não perderiam por esperar. Não longe do Olímpico, o Gigante da Beira-Rio emergia lentamente do Guaíba, como um Netuno redentor, de tridente em punho.

Desde 1957 os colorados suspiravam pelo Gigante. Na ensolarada manhã de domingo de 24 de novembro daquele ano, centenas de barulhentos torcedores saltaram de ônibus e carros particulares às margens escuras do Guaíba. Como se fosse uma decisão de campeonato, com suas bandeiras vermelhas e gritos de guerra, assistiram alegres ao trabalho da draga Ster I, do DNOS, que veio diretamcnte do Rio de Janeiro para aterrar os 13 hectares doados ao Internacional pela prefeitura de Porto Alegre para a construção do novo estádio.

Os colorados festejavam. Os gremistas riam. Olhavam para a área onde os adversários diziam ser o berço do Gigante c só viam água. Quando o Inter anunciou a venda de cadeiras-cativas, os gremistas espalharam pela cidade que

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A história dos Grenais

o título, na verdade, seria de bóias-cativas.

O pior era que a coisa não andava. A direção do clube tentava angariar fundos e a comunidade não se sensibilizava. Até que um velho comerciante português chamado José Pinheiro Borda perdeu a eleição para a presidência do Jockey Club. Fora Pinheiro Borda o idealizador e realizador da construção do Hipódromo do Cristal durante seu período na presidência do Jockey Club. Ao perder a reeleição, em 1961, voltou-se para sua outra paixão: o Internacional. Era um colorado tão alucinado que negava-se a pronunciar o nome do Grémio. Dizia apenas "eles". E jamais entrara no Estádio Olímpico. Assistia aos Grenais do alto do cemitério São Miguel e Almas, apertando os olhos e sofrendo como uma alma penada

a cada vitória do Grémio. Prometeu que só transporia os portões do Olímpico quando o Inter tivesse um estádio maior.

Com a angustiada intenção de um dia cumprir a promessa. Pinheiro Borda foi eleito presidente da comissão de obras do Beira-Rio em 1962 e, de imediato, saiu pelo Rio Grande em busca de ajuda.

Encontrou-a. Seu entusiasmo eletrizou a torcida do Inter e todos contribuíram. Todos. Nem que fosse com um saco de cimento, uma pá, um tijolo. Para fazer com que os compradores das cadeiras cativas acreditassem que daquele banhado sairia um estádio, Borda mandou construir uma marquise em frente

à avenida Padre Cacique. Era a aba das arquibancadas, dizia.

Mas Pinheiro Borda não veria o estádio concluído nem entraria com o peito inflado de orgulho no Olímpico. Qual um Moisés morto ao avistar a Terra Santa, o condutor dos colorados rumo ao Gigante sentiu o coração falhar em 26 de abril de 1965. Morreu aos 67 anos de idade e virou nome de rua no bairro Cristal.

Seu sucessor, o engenheiro Ruy Almirante Tedesco, não esmoreceu. Deu sequência ao trabalho com

a mesma disposição de Borda. Os contornos do Gigante se delineavam lentamente, como os de uma

moça que tira a roupa na penumbra. E este vulto na escuridão era a única alegria da torcida naqueles anos

azuis. Depois de algumas derrotas para o Grémio, um grupo de dirigentes saía do campo e ia em silêncio para o canteiro de obras, suspirar em frente à construção do estádio sonhado.

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A história dos Grenais

Nos últimos anos, a obra aproximando-se do final, os dirigentes não aguentavam mais. Com sofreguidão, o colorado prefeito Teimo Thompson Flores sugeriu que não se fechasse o anel do estádio. Que o inaugurassem assim mesmo, com capacidade para 25 ou 30 mil torcedores. Insistiu tanto que, num dia de vento, os integrantes da comissão de obras levaram-no para o local da construção. A ventania era tal que, se um jogo de futebol fosse realizado no terreno, o gandula teria que buscar a bola na Ilha da Pintada à primeira cobrança de tiro-de-meta. Thompson Flores se convenceu. Mas não muito. Propôs que

se deixasse o Beira-Rio em forma de ferradura. Só uma tarde em que o vento soprou do lado oposto ao rio fez o prefeito desistir da ideia.

Com o Gigante da Beira-Rio erguendo-se musculoso diante dos olhos gratos da torcida e o time sendo amassado pelo Grémio dentro de campo, o carinho dos colorados derramou-se, como um bálsamo, sobre os integrantes da comissão de obras. Ungidos pelos torcedores, eles passaram a se articular para chegar ao poder efetivo.

Na noite de 21 de outubro de 1968, o presidente da comissão de obras, Ruy Tedesco, o vice Aldo Dias Rosa, o coordenador da comissão de finanças, Carlos Stechmann, e o da comissão de compras e relações públicas, Eraldo Hermann. se reuniram no restaurante Sherazade, na avenida Protásio Alves, a fim de traçar um plano para alçar o grupo à direção do Internacional. Ali eles decidiram colocar Stechmann na presidência e Aldo na vice de futebol. A composição da chapa foi rabiscada num guardanapo de papel que hoje, como uma borboleta de coleção. jaz crucificado num fundo vermelho de uma moldura dourada, um orgulhoso quadrinho a enfeitar a parede do escritório contábil de Aldo Dias Rosa.

Empossada a diretoria. a 2 de janeiro, o secretário geral da comissão de obras, Luís Guimarães Falcão, levou a Aldo um grupo de amigos seus, todos com cerca de 30 anos de idade e cheios de ideias, para fazer do Internacional um clube vencedor. Além de Falcão, o grupo era formado por Paulo Portanova, Otávio Pellegrini, Cláudio Cabral, Ibsen Pinheiro, Hugo Amorim e Ivo Correia Pires, este de mais idade. Meses depois seriam batizados de Os Mandarins, tidos como os principais responsáveis pela mudança de filosofia no Inter.

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A história dos Grenais

Uma mudança efetuada com base numa surpreendente demonstração teórica e científica. Depois de apresentados a Aldo Dias Rosa. os Mandarins pediram para ter com ele uma reunião reservada. Intrigado, o dirigente aceitou. Certa noite, encontraram-se no escritório de engenharia de Ruy Tedesco. na esquina formada pela Farrapos com a Barros Cassai.

- Estamos aqui para mostrar-lhe um estudo e propor um plano de ação falou Ibsen Pinheiro, espécie de porta-voz do grupo.

O estudo era ilustrado por um mapa de três metros de largura especificando os jogos do Inter nos últimos anos. O mapa provava que o problema do time não era o confronto direto com o Grémio. O colorado perdia pontos e campeonatos no interior do estado.

Nossa conclusão emendou Ibsen, depois de limpar a garganta é que perdemos no interior porque nosso time é muito leve. Temos que ter jogadores fortes, raçudos, de boa estatura. Nossos jogadores devem ter, cada um, pelo menos duas dessas características: habilidade, força e velocidade. Precisamos vencer no interior.

Aldo, que até então observava o mapa em silêncio, coçou o queixo, olhou para cada um dos rapazes e sentenciou:

Vocês me convenceram.

Todos estes estratagemas eram bolados pelos Mandarins geralmente após o pôr-do-sol. A cada noitada, entre um gole de chope e uma mordiscada num bolinho de bacalhau, eles gastavam neurônios e saliva em táticas infalíveis para derrotar o terrível adversário do bairro da Azenha.

Alguns deles podiam ser vistos devorando o hereford criado embaixo do ubre da La Cabana, na Coronel Bordini, ou trinchando as costelas e picanhas servidas pela Pinchitos. a Montaditos ou a Mouro e Cristão, churrascarias da Avenida Farrapos. O happy-hour podia ser feito desde as 17h, quando abria o Amarelinho, a boate da "penumbrinha precoce" e da "luz que pisca e pula" na rua Santo António. Mais tarde, muitos davam uma passadinha na Uísque a Gogó ou pela Encouraçado Butikin, ambas na Independência.

Naquela

época,

Porto

Alegre

era

uma

capital

provinciana

desenvolvendo-se

celeremente.

Viadutos espichavam-se do asfalto, edifícios surgiam, impo-

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A história dos Grenais

nentes, de uma semana para outra, no Centro, no Moinhos de Vento, na 24 de Outubro. O comércio espalhava-se na Assis Brasil, onde antes só havia banhados e descampados. Às margens da avenida Protásio Alves começava a surgir um dos maiores hospitais do estado, o Hospital de Clínicas, da Ufrgs. Para 1969. a prefeitura anunciava a proibição do estacionamento no Centro como a única maneira de solucionar o estrangulamento do tráfego na cidade.

Porto Alegre crescia, mas ainda era segura. Nas noites iluminadas de véspera de Natal, as famílias paravam extasiadas diante das vitrines. As bocas-de-lobo não vomitavam meninos sujos e podia-se passear pela formigante rua da Praia sem temor de mãos alienígenas a cortar as bolsas das mulheres ou a puxar dinheiro do bolso dos velhos. Naquela época. Porto Alegre podia dormir tarde.

Os jornalistas, advogados, profissionais liberais e playboys caboclos se reuniam à tardinha na Confeitaria Central. Depois de uma ou duas horas a observar gulosamente as moças enfeitadas que desfilavam pelo Largo dos Medeiros, bandos alegres e sedentos se deslocavam em ondas em direção ao chope do Treviso, no Mercado Público. A um estalar de dedos, o garçom baixava na mesa um cardume frito de peixes reizinho ou uma colorida tainha recheada.

Atendidas as necessidades do estômago, era a vez das demandas da luxúria. Então, o endereço certo era o American Boite. na Voluntários da Pátria, ou o Marabá, na Siqueira Campos, em frente à Paineira. O grupo subia as escadarias do Marabá e dava para o grande salão, com suas mesas e suas mulheres. Um dos príncipes da noite era o piloto de corridas Ismael Chaves Barcellos. Ele e seu Mustang amarelo e preto, importado dos Estados Unidos, faziam tanto sucesso quanto a escada rolante das Lojas Americanas.

Coloradíssimo, Ismael fora vice-presidente do Inter em 1961 e era muito amigo do técnico Daltro Menezes, que substituiu Foguinho em 1968. Daltro era o técnico preferido pelos Mandarins. Por dois motivos: conhecia o interior, pois fora considerado o melhor técnico do campeonato de 68 ao dirigir o Juventude de Caxias, e conhecia a estrutura do Internacional. Daltro treinara as divisões interiores do Inter de 63 a 65. Descobriu e formou inúmeros jogadores.

Um deles foi-lhe indicado por Aurélio Ghiloso, proprietário do restau-

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A história dos Grenais

rante do aeroporto Salgado Filho. Numa manhã de 64, Daltro conversava com o amigo no aeroporto. O assunto? Futebol. A bola rolava veloz no papo dos amigos quando Ghiloso chutou:

Garanto que tu não conheces aquele homem ali.

Daltro olhou para um senhor que jogava areia nas escarradeiras do saguão.

- Nunca vi mais gordo.

Ele mora em Canoas e tem um filho que é centroavante. Um gurizote. mas com corpo de homem. Precisa ver. Ninguém consegue para-lo em campo.

Daltro refletiu alguns segundos e, em seguida, perguntou:

Qual é o nome desse senhor?

Seu Elpídio.

Vamos lá, então.

Caminharam até o homem. Ghiloso apresentou o técnico dos juvenis do Tnter. Daltro apertou a mão de seu Elpídio e quis saber se era verdade que ele tinha um filho jogador de futebol.

É verdade, sim senhor. Um menino forte, centroavante?

Isso mesmo. Tem só 13 anos, mas é parrudo como um adulto.

Como é o nome dele?

Claudiomiro.

Velho conhecido de Daltro era também o meio-campista Tovar. Numa tarde do final de 68. o técnico chegava ao clube e cruzou com o jogador, que saía.

Onde tu vais? quis saber o técnico.

Embora respondeu Tovar. Fui trocado pelo Bebeto, do Gaúcho.

Não foi, não disse Daltro, pegando Tovar pelo braço e levando-o de volta ao estádio. Tu

vais é jogar no meu time. Outra providência do treinador foi pedir à direção a contratação de uma psicóloga. Cada jogador foi submetido a três testes: liderança, atenção e Q.I. Não era uma medida inédita. Nem prestigiada: na preparação para a Copa de 1958, a CBD contratou o psicólogo João Carvalhaes que, depois de analisar os

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A história dos Grenais

jogadores, recomendou a desconvocação de Garrincha, considerado "mentalmente irresponsável".

Fosse como fosse. Daltro levou a sério o trabalho da psicóloga. Com os resultados dos testes na mão, chamou o lateral-esquerdo Sadi. único gaúcho convocado por João Saldanha para a Seleção Brasileira e apelidado pela imprensa de "o grande capitão colorado".

Sadi, quero te informar que a partir de agora o capitão é o Gainete comunicou Daltro, seco.

O jogador revoltou-se:

- Mas como é que um técnico vindo do interior chega aqui e me tira a faixa de capitão, eu que sou o grande capitão colorado 9

Há quanto tempo tu és capitão?

Desde 64.

- Pois é. Na tua gestão o Grémio foi campeão todos os anos. O capitão

é o Gainete.

A partir daí. o lateral-esquerdo Jorge Andrade, contratado do Cruzeiro de Porto Alegre, foi sendo experimentado no time titular. Na zaga-central, entrou outro ex-juvenil, Valmir Louruz. Na lateral-direita, uma indicação de Foguinho: Edson Madureira, egresso do Metropol de Criciúma. Para completar a defesa,

o Inter buscou, num time amador de General Câmara, o legítimo representante de uma temida estirpe de

zagueirões do interior. Bibiano Pontes chegou com o aval de ser irmão de João Pontes e Daison Pontes, a

feroz dupla de zaga do Gaúcho de Passo Fundo. Os Irmãos Pontes fizeram história no futebol do Estado. Até disputar coletivo contra eles era temerário. A bola, o atacante ou um naco de sua canela, um dos três parava no bico das chuteiras dos Irmãos Pontes. Limpando as unhas com a ponta de seu facão três listras, Daison Pontes costumava advertir aos centroavantes que a dupla Grenal contratava de fora do Estado:

Pra ganhar o Gauchão tem que entrar na área em Passo Fundo.

Nada pessoal. Coisa de família.

Com Bibiano, a defesa estava montada. No meio, havia Tovar e Bráulio. Dorinho fora deslocado para o ataque, onde fazia companhia a Claudiomiro e ao

ainda contestado Valdomiro.

Faltava um centromédio.

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A história dos Grenais

Com a mudança dos Eucaliptos para o Beira-Rio. em abril de 69. a direção do Inter resolveu pensar grande. O presidente Carlos Stechmann chamou Daltro à flamante sala da diretoria para uma reunião. Cercado dos outros dirigentes, proclamou, orgulhoso:

- Trocamos uma casinha por uma mansão e queremos um time digno dela. Pode pedir o centromédio que tu quiser. Qualquer um, em qualquer parte do Brasil. Dinheiro não é problema.

Stechmann colocou um acento de satisfação na última frase. Pronunciou-a sorridentemente. Os demais diretores também estavam sorridentes. Todos preparados para ver o espanto e a admiração iluminarem o rosto agradecido do treinador. O pedido de Daltro, porém, fez os sorrisos dos dirigentes se desmancharem como o de uma boneca de plástico atirada ao fogo:

- Eu quero o Carbone.

Um breve silêncio. Os dirigentes se entreolharam, apalermados. Stechmann falou:

Carbone? Quem é o Carbone?

- É um cara que era o quarto reserva no São Paulo. Está emprestado ao Metropol de Criciúma.

Os dirigentes continuavam se olhando, mudos. Mais uma vez, foi Stechmann quem falou. Aliás, balbuciou:

- Nós estávamos pensando no Wilson Piazza, do Cruzeiro de Minas

O Carbone é melhor Daltro parecia decidido.

Os dirigentes ficaram ainda mais confusos. Piazza era uma das estrelas do Cruzeiro. Junto com Zé Carlos, Dirceu Lopes e Tostão formava um meio de campo de futebol refinado e académico.

- Vamos fazer o seguinte: Te damos os dois, o Carbone e o Piazza

contra-argumentou Stechmann.

- Aí eu não vou ter tranquilidade para botar o Carbone no time. Olha,

eu não gosto da forma como o Piazza se movimenta ali no meio. Prefiro o Carbone.

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A história dos Grenais

Carbone acabou sendo contratado. No final do ano, foi considerado o melhor jogador do Campeonato Gaúcho. Não chegou, contudo, a participar de um dos grandes Grenais de 69 e da década. Curiosamente, um amistoso. Se bem que, como já disse alguém, não existe Grenal amistoso. E aquele, então, era um amistoso todo especial. Foi o Grenal de inauguração do Beira-Rio.

O jogo foi realizado em 20 de abril. O estádio já havia sido inaugurado oficialmente dia 4 e desde então Grémio e Inter enfrentavam outros adversários num festival comemorativo. Mas. claro, o batismo só se daria mesmo com o primeiro Grenal.

Os gremistas esperavam por esta partida como um presidiário anseia pelo indulto de Natal. Queriam vingança por uma humilhação de 15 anos de idade. Lembravam com amargura daqueles 6 x 2 enfiados pelo Internacional na inauguração do Olímpico em 1954.

A revanche tornava-se ainda mais colorida devido a um detalhe trepidante: o goleiro do Grémio, nos 6 x 2, o goleiro que chorara e que ameaçara abandonar o campo, era Sérgio Moacir Torres Nunes. O mesmo Sérgio Moacir Torres Nunes que agora, 15 anos mais velho, treinava o Grémio. O jogo, portanto, assumia proporções de vendeta pessoal. Caso perdesse mais uma vez, Sérgio passaria à posteridade como o pé-frio das inaugurações.

Durante a semana, gremistas e colorados só lembravam o episódio da ameaça de fuga de campo nos 6x2. Dizia-se que, no quarto gol do Inter, Sérgio tentara desertar, sendo contido a tempo pelos companheiros. Angustiado, o técnico negava. Contava que, antes do jogo, queixara-se ao treinador de uma lesão nos cotovelos. Mesmo assim, fora obrigado a entrar em campo. Após o quarto gol, garantia Sérgio, ele apenas caminhara até a lateral para mostrar ao técnico o lamentável estado dos cotovelos. Sérgio

explicava-se, mas não adiantava. Cada vez mais, nas rodas da rua da Praia, a história da fuga era repetida e aumentada.

Para completar, os gremistas mostravam-se visivelmente despeitados com a inauguração do Beira-Rio. No dia 4, antes da cerimónia de abertura do estádio, a direção do Grémio anunciou que começaria, logo, logo, os trabalhos de ampliação do Olímpico. O estádio passaria a ter capacidade para cem mil espectadores, prometiam os diretores.

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A história dos Grenais

Dias depois, no final do torneio de inauguração, espocou uma briga entre os dirigentes da dupla. O Grémio não concordava com os critérios de divisão das rendas dos jogos e ameaçou não disputar o Grenal. Diretores dos dois clubes passaram a semana do jogo trocando ofícios polidos, porém duros. Três dias antes da partida, o Inter insinuou que poderia jogar com o time reserva.

No domingo, os mais fervorosos torcedores acomodaram-se nas refulgentes arquibancadas do Beira-Rio às 10 horas da manhã. Refulgentes e molhadas. Com a chuva insistente que caía sobre Porto Alegre, a espera pelo início do Grenal tornou-se ainda mais incómoda.

Daltro Menezes sentiu que o clima estava mais para batalha do que para festa. Por via das dúvidas, determinou que todos os jogadores do plantei se fardassem. Ao todo, 37, entre eles até os que seriam emprestados a outros clubes. Os repórteres olhavam aquela abundância e não entendiam. Queriam saber a razão de tantos jogadores prontos para entrar em campo.

- É uma cerimónia especial, uma data histórica. Todos merecem participar explicava Daltro.

Às

15h30, finalmente, o árbitro Orion Satter de Mello soprou o apito e decretou o início do jogo.

O

Inter começou melhor. Pontes e Valmir, atrás, controlavam bem as investidas impetuosas de

Alcindo e Volmir. No meio, Bráulio tocava a bola com maciez e fazia a torcida colorada suspirar numa voz só. O Grémio reagiu com dureza. O Inter replicou jogando ainda mais duro. A tréplica do Grémio veio no bico da chuteira. Até que o ponteiro Hélio Pires foi expulso aos sete minutos do segundo tempo. Chuteira contra canela, cotovelo contra nariz, o jogo prosseguiu sem que se desse muita atenção à bola. Objeto, aliás, definitivamente esquecido aos 83 minutos. O goleiro Alberto estava com a dita cuja nas mãos. O lateral Espinosa à sua frente. Urruzmendi, ponteiro do Inter, correu do risco da grande área em direção aos dois, numa evidente e perigosa rota de colisão. Espinosa deu-lhe as costas para proteger o goleiro.

Urruzmendi não quis nem saber. Atropelou Espinosa como se fosse um ônibus da Carris desgovernado. Espinosa caiu. Assustado com o abalroamento, Alberto atirou a bola pela linha lateral para que ele fosse atendido. A bola não foi mais vista em campo desde então.

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A história dos Grenais

Tupãzinho desembestou do meio de campo e só parou quando atingiu Urruzmendi. Que revidou. Lá do meio também vinha, desabalado, o Bugre Xucro, bufando e urrando, louco para entrar na briga, justificando plenamente o apelido. Percebendo suas intenções belicosas, Sadi correu atrás dele,

agredindo-o pelo caminho. Alcindo não ligou para o ataque do lateral do Inter. Continuou a carreira e só parou ao encontrar Urruzmendi e pespegar-lhe um rotundo soco no rosto. Urruzmendi não se fez de rogado e retribuiu a agressão. Apesar de lutar como um espartano, estava em desvantagem numérica e apanhava comoventemente dos gremistas. A sétima cavalaria, entretanto, não tardou. O goleiro Gainete atravessou o gramado em linha reta, veloz, demonstrando invejável preparo físico, e saltou feito um leopardo sobre o bolo de jogadores, as pernas e os braços abertos. Mas errou o bote e caiu no meio dos gremistas. Levou porrada de todos, democraticamente. A esta altura, os integrantes dos dois bancos de reservas já estavam em campo, distribuindo e recebendo, igualmente, jabs, diretos e pés-na-orelha. Um dos mais nervosos era o médico do Grémio, Jairo Cruz, por quem o técnico do Inter, Daltro Menezes, cultivava incomum antipatia. Jairo Cruz era um dos gremistas mais briosos e, no seu orgulho clubístico, irritava o treinador. Ainda durante o jogo, no banco de reservas, percebendo que os ânimos dos jogadores se acirravam, Daltro recomendou: - Se houver briga, tudo bem, não vamos fugir do pau. Agora, pelo amor de Deus. não me deixem escapar aquele Jairo Cruz. Quero ver esse camarada levar uma bela porrada.

Viu, para sua inefável alegria. Daltro riu muito, e ainda ri, ao lembrar o médico, de pequena estatura, sendo atingido na ponta do queixo por um inclemente cruzado. O técnico recorda com especial deleite a imagem dos pés do médico saindo do solo com a violência do impacto, levando-o ao nocaute.

Encerrada a confusão, o Grémio desceu aos vestiários. O Internacional ainda tentou retornar a campo para continuar o jogo. Só então os colorados descobriram que apenas o meio-campista Dorinho não havia sido expulso. No Grémio, o único a não levar cartão vermelho fora o goleiro Alberto.

Na saída de campo, os repórteres correram para um dos jogadores que mais brigou, o goleiro Gainete. Rosto ensanguentado, ainda bufando de ódio

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dos gremistas, ele proferiu apenas uma frase. Profética, por sinal:

-Aqui nós é que vamos cantar de galo!

O combate do Grenal de inauguração do Beira-Rio coalhou de vez as relações já azedas entre os

dois clubes. Como um casalzinho emburrado, eles passariam mais de um ano sem fazer as pazes. O Grémio, com um pessimamente disfarçado ciúme da badalação que se fazia em torno do Beira-Rio. Os colorados enchiam a boca para dizer: "Gigante da Beira-Rio, o maior estádio particular do Mundo".

Estádio novo, time novo, torcida assanhadíssima, o Inter estava muito mais motivado para ganhar o título de 1969. Do outro lado, a equipe do Grémio dava claros sinais de caduquice. Ao contrário de anos anteriores, o Grémio derrapou no interior do estado, deixando o Internacional chegar ao Grenal decisivo com vantagem. Nem tanta, contudo, a ponto de o Grenal se transformar em amistoso. Pelo contrário, bastava o Grémio vencer a partida para chegar ao octa.

O jogo foi disputado em 17 de dezembro, uma quarta-feira, no Beira-Rio. Naquela tarde, às 16hlO,

o ex-presidente da República, general Arthur da Costa e Silva, morreu, no Rio de Janeiro. O fato não chegou a surpreender o país porque Costa e Silva estava doente desde 31 de agosto, quando uma junta militar assumiu o Governo.