Você está na página 1de 130

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ

Ramon Pereira dos Reis

CONJUGALIDADES HOMOSSEXUAIS NA MÍDIA TELEVISIVA: O DISCURSO MIDIÁTICO PAUTANDO AS RELAÇÕES HOMOCONJUGAIS EXPOSTAS NO SERIADO QUEER AS FOLK.

BELÉM

2010

Ramon Pereira dos Reis

CONJUGALIDADES HOMOSSEXUAIS NA MÍDIA TELEVISIVA: O DISCURSO MIDIÁTICO PAUTANDO AS RELAÇÕES HOMOCONJUGAIS EXPOSTAS NO SERIADO QUEER AS FOLK.

Trabalho de Conclusão de Curso orientado pela Profª. Dra. Cristina Donza Cancela, apresentado à Faculdade de Ciências Sociais do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Pará, como requisito para a obtenção de diploma de Bacharel e Licenciado Pleno em Ciências Sociais.

BELÉM

2010

Ramon Pereira dos Reis

CONJUGALIDADES HOMOSSEXUAIS NA MÍDIA TELEVISIVA: O DISCURSO MIDIÁTICO PAUTANDO AS RELAÇÕES HOMOCONJUGAIS EXPOSTAS NO SERIADO QUEER AS FOLK.

Banca Examinadora

Profª. Dra. Cristina Donza Cancela Orientadora

Prof. Msc. Izabela Jatene de Souza Examinadora

Apresentado em: 04/02/2010.

Conceito: Excelente

Trabalho de Conclusão de Curso orientado pelo Profª. Dra. Cristina Donza Cancela, apresentado à Faculdade de Ciências Sociais do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Pará, como requisito para a obtenção de diploma de Bacharel e Licenciado Pleno em Ciências Sociais.

BELÉM

2010

AGRADECIMENTOS

Aos meus familiares: Eliane Helena (mãe), Zila Reis (avó), Elias Santana (avô),

Elielza Reis (tia) e Graça Reis (tia), pelo empenho que me foi disponibilizado, por sempre me ajudarem e me darem força para eu continuar estudando. Especialmente à tia Graça, a quem eu não tenho nem palavras para agradecer o quanto fez e o quanto faz por mim, e à minha eterna “mãezona” Zila Reis (in memorian), que durante toda minha infância cuidou de mim e sempre me teve como um filho, me dando abrigo, educação, alimentação, etc. Sou muito grato pelos cuidados concedidos a minha pessoa.

À professora e orientadora Cristina Donza Cancela, pela sensibilidade que teve em

me aceitar como seu orientando, pela compreensão nos momentos em que estive ausente, aos incentivos disponibilizados para eu continuar pesquisando sobre tal tema, às indicações de leitura e, por fim, pela confiança concedida ao meu trabalho. Aos demais professores (as) pertencentes ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Pará, em especial: Izabela Jatene, Carmen Isabel, Mônica Conrado, Wilma Leitão e Suelene Pavão, com as quais tive um contato mais próximo e, pelos constantes diálogos em sala de aula, nos eventos científicos e nos corredores da UFPA, foram de fundamental importância para a minha formação enquanto acadêmico.

À Casa do Estudante Universitário do Pará CEUP, por ser um espaço que ajuda

muitos universitários oriundos tanto de municípios fora da região metropolitana de Belém quanto de diversas regiões do país e do mundo e, que possuem poucos recursos para manter seus estudos em Belém, dessa forma, agradeço pela acolhida que tive, por parte de todos os moradores, desde 2005, pelo constante aprendizado e por me fazer dar valor às relações com o outro. Aos amigos e parentes que, direta ou indiretamente, contribuíram para a construção desta monografia, que me alegraram quando precisei; que me acalmaram quando estive sem paciência; que me deram conselhos. Especialmente, a Priscila Figueiredo (prima) pela paciência dispensada a minha pessoa e pela ajuda com alguns materiais didáticos; a Josiane Neves que diversas vezes cedeu seu computador para eu digitar; ao José Luiz quando emprestou seu notebook para minhas pesquisas e digitações; ao Luciano Cássio pela ajuda em diversas vezes, nas quais estive doente, nas alegrias e tristezas, sou imensamente feliz e grato por tê-lo como amigo; ao William Borges por ter me acolhido quando precisei; pelas constantes indicações de leitura e

pelas ajudas nos momentos de dificuldade; aos meus queridos amigos Wanderson (Gasparzinho), João Paulo e Alice, pelas palavras carinhosas de incentivo. Aos amigos e colegas de turma, que através de constantes debates em salas de aula, questionamentos, posicionamentos, serviram como importantes propiciadores de reflexões e compreensões a cerca da nossa realidade. Especialmente ao Edyr Oliveira Júnior por ter me apresentado e indicado o seriado Queer as Folk, o que futuramente se converteria em meu objeto de pesquisa e a Lucivane Lopes por ter sido gentil em me emprestar os DVDs. A todos os meus informantes, que contribuíram de forma bastante significativa para a construção da pesquisa de campo e concretização deste trabalho. Por fim, a todos os integrantes do Movimento Universitário em Defesa da Diversidade Sexual Grupo Orquídeas, pelo acolhimento, incentivo, sugestões de leitura, nos momentos de tristeza e de felicidade, nos vários eventos, enfim, por toda uma trajetória que me possibilitou: rever conceitos, resignificar práticas, ampliar meus horizontes e lutar por uma sociedade mais justa e equânime. Em especial, aos amigos(as): Milton Ribeiro, nas várias vezes que conversamos, debatemos, trocamos textos, sugestões de leituras e pelas frases emblemáticas – “Tu tens que ler!”, “Tu tens que comprar tal livro!”; a Elane Pantoja pelo incentivo, pelas conversas, empréstimo de livros e ao Robson pela indicação de leituras, disponibilização de artigos, etc.

À minha querida tia Graça Reis, dedico esse trabalho por ter me dado oportunidade de crescimento intelectual e social, assim como pelo esforço e confiança depositados sobre mim.

Deve-se falar do sexo, e falar publicamente, de uma maneira que não seja ordenada em função da demarcação entre o lícito e o ilícito, mesmo se o locutor preservar para si a distinção (é para mostrá-lo que servem essas declarações solenes e liminares; cumpre falar do sexo como de uma coisa que se deve simplesmente condenar ou tolerar mas gerir, inserir em sistemas de utilidade, regular para o bem de todos, fazer funcionar segundo um padrão ótimo. O sexo não se julga apenas, administra-se. Sobreleva-se ao poder público; exige procedimentos de gestão; deve ser assumido por discursos analíticos

Michel Foucault

RESUMO

O

presente trabalho se propõe a compreender como se estabelecem e / ou se constroem

as

relações homoconjugais masculinas e femininas expostas no seriado norte-americano

Queer as Folk, especificamente na primeira temporada deste. Enfatiza-se o papel exercido pela Cultura no processo de socialização dos indivíduos, estabelecendo condutas sociais de comportamento, que por vezes se tornam hegemônicas, como o fato de associarmos, nas relações, as mulheres ao aspecto sentimental e os homens ao sexual, dando a entender que são posições da natureza humana. Procura-se, ainda, destacar a função desempenhada pela mídia televisiva, no que concerne a exposição das questões mencionadas acima, funcionando como importante veículo de informação, assim como um significativo produto de reflexão, estimulando nosso pensamento crítico. Através

das entrevistas, feitas com telespectadores do seriado (5 homens e 5 mulheres), e da análise das falas, identificamos que apesar de estarmos trabalhando com algo que não foi produzido no Brasil, conseguimos encontrar certa disposição, receptividade e semelhança, por parte dos informantes, com algumas situações do cotidiano de gays e de lésbicas da nossa realidade. Concluímos, portanto, que falar de conjugalidade homossexual ou homoconjugalidade em um determinado produto midiático, é ter em mente que estamos lidando com a representação de aspectos culturais, sociais, econômicos, de um lócus específico, nesse caso, procuramos, com bastante delicadeza, ponderar as considerações de maneira clara e objetiva, sempre tentando fazer relação com o contexto local. A cultura, nesse sentido, é significativa para pensarmos a simbólica estruturante dos pares homossexuais: a maneira de se vestir; de falar; de estabelecer relacionamentos; A mídia, então, repassa aquilo que visualiza, de maneira dramática ou não.

Palavras Chave: Conjugalidade homossexual; Cultura; Gay; Lésbica; Mídia; Queer as

Folk.

ABSTRACT

This study aims to understand how to establish and / or build homoconjugality relationships male and female exposed in American series Queer as Folk, specifically in this first season. It emphasizes the role played by culture in the socialization process of individuals, providing social conducts of behavior, which sometimes become hegemonic as the fact that we associate, in relationships, women and the sentimental aspect to men sexually, giving understand that these are positions of human nature. The aim is to also emphasize the role played by the television media, regarding the exposure of the issues mentioned above, functioning as an important vehicle of information, as well as a significant product of reflection, stimulate our critical thinking. Through interviews conducted with viewing of the show (5 men and 5 women), and the analysis of discourse, we identified that although we are working with something that was not produced in Brazil, we find certain willingness, openness, and similarly, by informants, with some real-world situations of gays and lesbians in our reality. We therefore conclude that talk of homosexual conjugality in a particular media product, keep in mind is that we are dealing with the representation of cultural, social, economic, one particular locus in this case, we, quite gently, consider considerations in a clear and objective, always trying to make our relationship with the local context. Culture in this sense, it is significant to think through the symbolic structuring of homosexual couples:

a way of dressing, talking, to establish relationships; The media then passes what they display, dramatically or not.

Keywords: Homosexual Conjugality; Culture; Gay; Lesbian; Media; Queer as Folk.

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

AIDS Síndrome da Imunodeficiência Adquirida ENUDS Encontro Nacional Universitário de Diversidade Sexual EUA Estados Unidos da América GLS Gays, Lésbicas e Simpatizantes LGBT Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais PFLAG Pais, Familiares e Amigos de Lésbicas e Gays QAF Queer as Folk TCC Trabalho de Conclusão de Curso TV - Televisão UFPA Universidade Federal do Pará

SUMÁRIO

Resumo

8

Abstract

9

Introdução

12

Capítulo 1 - Conhecendo o seriado Queer as Folk

17

1.1 Ambientação em QAF A Cidade de Pittsburgh

18

1.2 Descrição dos personagens principais

19

1.3 A 1ª temporada

21

1.4 Comunidade LGBT de Pittsburgh

30

Capítulo 2 - Relacionamentos homoconjugais expostos no seriado QAF

31

2.1 Mulher = Afeto; Homem = Sexo?

31

2.2 Como as personagens lésbicas e gays do seriado encaram as relações

homoconjugais?

35

2.3 Fidelidade / Infidelidade

40

2.4 Diálogos com a pesquisa de campo

42

Capítulo 3 - Os percursos da pesquisa – “Olhar, Ouvir e escrever”

46

3.1 O fazer antropológico

46

3.2 Entre idas e vindas

47

3.3 Sujeitos e falas

49

Considerações Finais

63

Referências bibliográficas

65

Apêndices

12

INTRODUÇÃO

Ao longo da minha trajetória acadêmica, no curso de ciências sociais da Universidade Federal do Pará, diversas vezes me peguei pensando qual seria meu tema de trabalho de conclusão de curso TCC-, confesso que tinha receio de escolher algo que não desse resultado ou não conseguir orientador (a). Desde 2005, até os dias atuais, pude notar que as questões relacionadas ao gênero e a sexualidade me chamavam muita atenção, especialmente aquelas que versavam sobre homossexualidade. Eu ficava, bastante, instigado a discutir essas questões, pois quando fazia pesquisas sobre tal tema, eu percebia que existiam diversos debates acerca dessa temática, o que me possibilitou um alargamento da minha visão, me fazendo perceber que homossexualidade não se resume, apenas, ao gay e a lésbica, mas também ao universo da diversidade sexual. De 2005, até a metade do curso, me perguntava como trabalhar a temática da homossexualidade em um TCC: qual seria o meu objeto de pesquisa; em qual discussão iria focar; ao longo do tempo, fui amadurecendo essa idéia. Foi então que, em outubro de 2007, sem nenhuma pretensão, recebi um convite de um amigo do curso (Alan Michel) para uma viagem a Goiânia, não sabia, ao certo, do que se tratava. Inicialmente, eu teria que me vincular ao Movimento Universitário em Defesa da Diversidade Sexual Grupo Orquídeas 1 -, e participar das reuniões deste coletivo de estudantes da UFPA, das mais diversas áreas de conhecimento (Administração, Enfermagem, Estatística, Direito, Ciências Sociais, Psicologia, etc.) e que, aos poucos, começavam a trazer à tona, nos espaços desta Universidade, as questões LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), sendo que mais tarde, tratariam estas a partir do viés da diversidade sexual. Em 2007, me vinculei, de fato, ao Grupo Orquídeas, do qual eu faço parte até hoje, e fiz a minha primeira viagem a outro Estado. Naquela ocasião, iríamos ao V Encontro Nacional Universitário de Diversidade Sexual ENUDS-, conheci diversas pessoas, tive contato com novas leituras, etc., meu leque de oportunidades havia sido ampliado, eu estava, cada vez mais, confiante em trabalhar a homossexualidade em meu TCC.

1 O Movimento Universitário em Defesa da Diversidade Sexual Grupo Orquídeas- é um coletivo organizado, porém não-institucionalizado, por estudantes da Universidade Federal do Pará, que se reúnem desde agosto de 2007 com o propósito de disseminar a prática da aceitabilidade e do não preconceito com relação às pessoas que destoam do padrão heteronormativo imposto pela sociedade (Disponível em:

13

Quando retornei a Belém tive certeza de que, seguia no caminho certo, só precisava definir meu objeto de pesquisa, diante de tantas possibilidades que tinha conhecido, ficava um pouco difícil. Até que, em 2008, quando o ENUDS teve sua edição em Belém, nas dependências da UFPA, organizado pelo Grupo Orquídeas, resolvi escrever um trabalho sobre Telenovela e Homossexualidade, pois a questão midiática sempre me chamou atenção, principalmente, no que concerne ao influenciar ou não o comportamento das pessoas. O trabalho produzido havia sido interessante, só que ocorreram alguns contratempos e a pesquisa não foi finalizada. No último ano do curso, em 2009, depois de idas e vindas, meu tema começava a se definir, minha intenção inicial era falar sobre a representação de casais gays e lésbicos nas telenovelas brasileiras, mas em algumas conversas com a orientadora, tive que modificar minha abordagem, pois para uma análise dessa natureza eu teria que ter o produto midiático (telenovela) em mãos e, de fato, eu não o possuía, tentei ir atrás, mas percebi que não iria conseguir. Até que, num determinado momento, um amigo do curso (Edyr Júnior) comentou comigo a respeito de um seriado norte-americano chamado Queer as Folk (QAF) 2 que tratava, especificamente, sobre o universo LGBT e, além disso, eram representados alguns casais de gays e de lésbicas. Eu, com a ajuda de Edyr e de Lucivane (amiga do curso), tive acesso a 1ª temporada do seriado e, percebi que tinha em mãos um material significativo para análise. Agora, meu novo tema iria focar na conjugalidade homossexual masculina e feminina representada no seriado QAF.

A escolha do tema acima se deu por diversos fatores: escassez de trabalhos acadêmicos, nessa área, na região norte, em especial na UFPA 3 ; por eu fazer parte do Grupo Orquídeas, coletivo organizado, porém não-institucionalizado, que se preocupa em discutir a diversidade sexual nos seus mais diversos campos; e, finalmente, por

2 Na tradução para a versão brasileira, o seriado teve como título Os Assumidos.

3 Ao pesquisar no caderno de Antropologia na Amazônia balanços e resumos de dissertações (1994- 2004) eu encontrei apenas a dissertação: “Tribos Urbanas” em Belém: Drag Queens rainhas ou dragões? de Izabela Jatene de Souza, como uma das que trabalhou especificamente com essa questão na antropologia, sendo que, as dissertações sobre gênero e / ou sexualidade trabalharam-no numa perspectiva heterossexual (homem e mulher). Indo mais além, em algumas pesquisas bibliográficas que fiz na Biblioteca Central da UFPA, eu encontrei pouquíssimos trabalhos sobre homossexualidades, como por exemplo: “„Bonecas da pista no horizonte da cidadania: uma jornada no cotidiano travesti” – Dissertação de Mestrado defendida por Rubens da Silva Ferreira, no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos em 2003; “Análise da investigação dos determinantes do comportamento homossexual humano” – Dissertação de Mestrado defendida por Aline Beckmann Menezes do Curso de Psicologia, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas em 2005; “Demandas homoeróticas e adoção em Belém” – Tese de Doutorado defendida por Eli do Socorro Pinheiro Teixeira, pelo Programa de Pós-Graduação em Serviço Social, no ano de 2007.

14

tentar compreender, a partir da mídia, como tais relacionamentos são colocados para a sociedade e, como esta encara isso. Inicialmente, tive dificuldades para encontrar bibliografia adequada nas bibliotecas, pois a produção de trabalhos, desse porte, ainda é muito pouco. Minha bibliografia de base foi bastante diversificada e atual, mesclando o pensamento de autores clássicos com outros mais atuais, havendo, também, a constante pesquisa em periódicos.

A discussão teórico-metodológica está pautada, não somente, em mostrar como

são representados os casais de gays e de lésbicas no seriado em questão, mas também em analisar como são construídas essas relações para o feminino e para o masculino, como tais posições identitárias se comportam. Tudo isso, tendo como principais suportes teóricos, os seguintes autores: Fry & MacRae (1991) pela delicadeza e sensibilidade as questões homossexuais no Brasil, assim como ao entendimento das

relações homoconjugais femininas e masculinas; Paiva (2007) pela percepção apurada com as questões da gestão da intimidade nas parcerias homoeróticas masculinas; Nunan (2007) ao tecer considerações significativas sobre os conflitos potenciais entre desejo e norma social e suas conseqüências no âmbito das relações amorosas estáveis entre homens; Heilborn (2004) constituindo-se enquanto um trabalho exemplar sobre as articulações entre igualitarismo, gênero e identidade sexual; Hall (2006) nos dando a possibilidade de pensar a identidade como algo que deve ser entendido enquanto um processo histórico-sócio-cultural, dentro de um contexto pós-moderno; Louro (2004) atentando para as considerações a respeito dos estudos queer, que nos possibilitam pensar em construções pós-identitárias de gênero e sexualidade, bem como de mudanças nos paradigmas sociais, não dialogando a partir de binarismos; Zanforlin (2005) por ter construído uma dissertação que tem como objeto de análise o próprio seriado, o que se tornou significativo para a construção desta monografia.

O seriado em questão é uma adaptação 4 , do original britânico, ele é composto

por 5 temporadas, sendo que o nosso ponto de análise foi a 1ª temporada 5 que possui 22 episódios. Cada episódio está descrito, no apêndice deste trabalho, em formato de ficha

4 A adaptação desse seriado foi uma co-produção de Daniel Lipman e Ron Cowen.

5 A primeira temporada do seriado televisivo Os Assumidos foi baseada na série britânica criada por Russel T. Davies. Queer as Folk foi transmitida não apenas na Inglaterra, mas em vários países da Europa, como também nos Estados Unidos e no Brasil, pelo canal de TV a cabo Eurochannel.

15

descritiva, contendo informações da sinopse de cada episódio, personagens principais, duração, principais aspectos e falas dos personagens 6 . Os 22 episódios mostram o universo LGBT da cidade de Pittsburgh,

Pensilvânia: os conflitos, as amizades, as festas, os relacionamentos, as famílias, etc. 7 Ao todo, são sete personagens principais: Brian, Justin, Ted, Emmett, Michael, Lindsay

e Melanie. Mas, no 1º capítulo eu acrescento mais três personagens (Debbie, David e

Vic), por compreender que os três foram importantes para o desenvolvimento da trama. A proposta de cada capítulo se deu pelos anseios da pesquisa, ou seja, cada um deles possui abordagens específicas. O próprio título já nos mostra o que será trabalhado, facilitando o entendimento pelos leitores. No 1º capítulo, intitulado “Conhecendo o seriado Queer as Folk”, as colocações feitas estão voltadas, especificamente, ao QAF. Ao longo desse percurso, inicio mostrando um breve histórico do seriado, falando sobre este, os autores, o ano de exibição, enfim, sobre todo o universo que permeia a série. Mais adiante, faço um exercício de mapeamento geográfico, ou seja, falo sobre o contexto de ambientação, a

cidade de Pittsburgh, Pensilvânia. Ao longo da minha pesquisa, percebi que esta cidade

é bastante receptiva às questões LGBT, diversos são os lugares que podemos encontrar,

destinados a esse público, que vão desde boates até grupos de pais e mães que têm filhos gays e filhas lésbicas. Por fim, descrevo o perfil de cada personagem principal e, por conseguinte, toda a 1ª temporada, destacando a questão dos relacionamentos homoconjugais masculinos e femininos, representados no seriado.

No segundo capítulo, nomeado “Relacionamentos homoconjugais expostos no seriado QAF”, procurei dar enfoque na discussão que se faz sobre os relacionamentos homoconjugais masculinos e femininos, não apenas mostrando a representação deles no seriado, mas também fazendo relação com a pesquisa de campo, utilizando-a como ferramenta que nos ajuda a entender, um pouco mais, sobre a nossa realidade. Procuro analisar os relacionamentos entre gays e lésbicas, no sentido de perceber se, de fato, na realidade paraense, dizer que as lésbicas só querem saber de afeto e os gays só de sexo,

é verdade? Até que ponto se pode dizer que isso é convenção cultural? Uma das minhas

intenções, neste capítulo, é saber como tais relações se constroem, tanto para o feminino

6 Metodologia utilizada pela estudiosa Heloísa Buarque de Almeida.

7 Enfocando o cotidiano de um grupo de amigos na faixa etária dos trinta e poucos anos, que se conhecem desde a adolescência, a série inova em seu modo de representar casais formados por pessoas do mesmo sexo, sem repetir jargões e caricaturas estereotipadas quando se trata de representar o(s) sujeito(s) homossexual(ais), tratando-os como jovens comuns que convivem no espaço sócio-midiático e das baladas das grandes urbes (ZANFORLIN, 2005, p.11)

16

quanto para o masculino, procurando fazer uma relação com aquelas expostas no seriado e às do nosso cotidiano: Será que há semelhanças? Diferenças? Como se constroem as práticas e as representações? Dessa forma, será de fundamental importância fazer um diálogo entre a pesquisa de campo e o seriado. Enquanto proposta para o 3º capítulo “Os percursos da pesquisa – Olhar, ouvir e escrever”, dou espaço aos informantes, tendo como construção, específica, a pesquisa de campo. É importante fazer esse exercício de dar voz aos informantes, pois é uma constante prática que os antropólogos costumam fazer, nos possibilitando dar cabo à discussões entre prática e teoria. Nesse sentido, o olhar, o ouvir e o escrever são atividades essenciais ao trabalho de campo. 8 Por fim, enquanto colocações a posteriori, faço considerações a respeito do trabalho de campo e do seriado que servirão de base para futuros questionamentos e próximos trabalhos, pois entendo que é possível ir sempre além, contribuindo com novos posicionamentos, resignificando conceitos, pesquisas, etc. Vale ressaltar que, em nenhum dos capítulos a discussão se esgota, é importante que o leitor tenha em mente que as questões pontuadas foram objeto de reflexão e resignificação. Dessa forma, cabe a todos nós nos questionarmos e termos sempre uma postura crítica, somente assim podemos avançar nas discussões, pois o conhecimento não é algo dado, estanque, e sim, construído. Portanto, quero frisar a importância de um trabalho como este, que traz à tona discussões recorrentes na atualidade e se propõe a verificar se a mídia interfere, ou não, na conduta pessoal dos sujeitos. Trabalhar com conjugalidade homossexual, a partir de determinado produto midiático, não é, apenas, identificar que existem casais homossexuais, é também, se posicionar enquanto sujeito transformador, fazendo com que a sociedade em geral alargue a visão e não fique restrita somente ao pensamento do senso comum que não aceita que dois homens e duas mulheres possam ter um relacionamento.

8 OLIVEIRA, Roberto Cardoso de. O trabalho do antropólogo. São Paulo: Editora UNESP, 1998.

17

CAPÍTULO 1 CONHECENDO O SERIADO QUEER AS FOLK 9 :

1 – CONHECENDO O SERIADO QUEER AS FOLK 9 : Fonte:

Queer as Folk é o nome de duas séries televisivas, do gênero drama, que obtiveram bastante sucesso, ambas criadas por Russell T. Davies. A série original começou a ser produzida em 1999, pela Red Production Company para o canal aberto, Canal 4, do Reino Unido. Contava os conflitos diários de três homens gays vivendo em Manchester. Posteriormente, o seriado foi adaptado, por Ron Cowen e Daniel Lipman 10 , em uma co-produção: Estados Unidos Canadá, e começou a ser transmitido em 2000, nos seguintes canais de televisão a cabo: Showtime (EUA) e Showcase (Canadá). Contava a história de cinco homens gays e um casal de lésbicas que viviam em Pittsburgh, Pensilvânia. Houve algumas diferenças óbvias entre os dois seriados: primeiro na quantidade de personagens e tramas principais: na versão inglesa apareciam apenas três personagens masculinos gays e, por conta do menor número de atores as relações que se estabeleciam eram de densidade menor, se comparadas à versão americana, pois todos os acontecimentos envolviam um número maior de pessoas e isso fazia com que o seriado se tornasse mais envolvente.

9 O nome do seriado é uma brincadeira com um ditado inglês, de “ninguém é tão estranho como nós” (“nobody is so weird as folk”), para “ninguém é tão gay como nós” (“nobody is so queer as folk”). No Brasil o seriado foi exibido com o título “Os assumidos”. 10 A proposta dos produtores é falar de pessoas tão comuns quanto outras quaisquer, que poderiam “viver na porta ao lado” sem apelar para símbolos comuns à imagem do gay. Sem estigmas, de gestos, roupas, modos de falar, rompendo com a “virtualidade” da prática homossexual (ZANFORLIN, 2005, p.60).

18

Um segundo aspecto a versão americana teve um total de cinco temporadas e a britânica somente duas, isso se deve ao fato de que a versão americana obteve mais sucesso do que a inglesa e não se preocupou em mostrar cenas de nudez e sexo como aconteceu na versão britânica. Terceiro aspecto: as cenas de nudez não estavam presentes na versão inglesa, mas podiam ser encontradas na americana, devido ao fato de que nesta era transmitido em canais de televisão a cabo, e na versão britânica não. A série original não obteve tanto sucesso, talvez pelo fato de ter sido exibida em canal aberto e consequentemente não expunha totalmente a intimidade das personagens, diferente da versão americana, que “abusava” de cenas de nudez e sexo e era transmitida por um canal fechado. Durante três anos consecutivos, Queer as Folk foi a série com maior índice de audiência do canal Showtime (NUCCI; MELO; CARVALHO (Orgs.) Apud ZANFORLIN, 2004). Vale ressaltar, que minha análise irá se deter na versão americana deste seriado, especificamente na 1ª temporada, composta por 22 episódios. No Brasil, o seriado estreou em 2001, sendo transmitido pelo canal pago Cinemax. Até hoje, os DVD‟s da série não foram lançados no Brasil, estando apenas disponíveis na internet para quem queira baixar os episódios ou para aqueles que pretendem comprá-los.

1.1 Ambientação em QAF - A cidade de Pittsburgh 11 :

Ambientação em QAF - A cidade de Pittsburgh 1 1 : Fontes: <

rgh>, acesso em 18/07/09.

11 As informações a

respeito

da

cidade

de

Pittsburgh

foram

retiradas

do

site:

19

Pittsburgh, também por vezes escrita em português como Pitsburgo ou Pittsburgo, é a segunda cidade mais populosa do Estado americano da Pensilvânia. Apenas a cidade de Filadélfia possui mais habitantes. Pittsburgh está localizada no sudoeste do Estado, sendo a sede de Condado de Allegheny. No final do século XIX, e isto até meados da década de 1960, Pittsburgh foi o maior pólo siderúrgico e o maior produto de aço do mundo. De fato, o codinome de Pittsburgh é “Cidade do Aço”. Por causa das siderúrgicas instaladas na região altamente poluidoras – Pittsburgh também foi codinomeada por alguns como “Cidade Enfumaçada”. Porém, a maior parte das siderúrgicas – que passaram a enfrentar a concorrência cada vez maior de siderúrgicas estrangeiras fecharam ou saíram da cidade. Em seu lugar, vieram indústrias de alta tecnologia, especialmente biotecnologia e robóticas, levando Pittsburgh a ser codinomeada pela Wall Street Journal como Roboburgh. Pittsburgh é uma das maiores produtoras de equipamentos robóticos do mundo, fora o Japão. Pittsburgh é um centro importante de fundações e organizações de caridade e filantrópicas, como a Heinz Foundation, que tem uma longa história de apoio a atividades culturais e artísticas, que fizeram de Pittsburgh um pólo artístico e cultural no país. Além disso, Pittsburgh é um importante pólo de educação superior dos Estados Unidos, especialmente na área de medicina.

1.2 Descrição dos personagens principais 12 :

Nome - Brian Kinney / Ator - Gale Harold: É um executivo de 29 anos, solteiro, possui um alto padrão de vida. Foi criado por um pai, a maior parte do tempo ausente e alcoólatra, e uma mãe obsessivamente católica. Possui uma vida bastante agitada: trabalha pela manhã e sai constantemente à noite para paquerar e encontrar com os amigos. No primeiro episódio descobre que é pai. Mais adiante irá se relacionar com Justin.

Nome - Justin Taylor / Ator - Randy Harrison: Justin é estudante do colegial, tem 17 anos e mora com os pais. Justin perde sua virgindade com Brian aos 17 anos e acaba se apaixonando por ele. Ele sai de casa depois de ter publicizado sua orientação

12 A descrição dos personagens foi retirada do site: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Queer_as_Folk >, acesso em 18/07/09

20

sexual para o pai e para a mãe, pois ambos não o aceitam. Futuramente, Justin irá morar com Debbie (mãe de Michael), e mais tarde com Brian.

Nome - Michael Novotny / Ator - Hal Sparks: É o melhor amigo de infância de Brian, e também está a ponto de fazer 30 anos. No princípio da série, Michael trabalha numa loja de departamento chamada The Big Q e é um fanático por histórias em quadrinhos e pelo super – herói “O Capitão Astro”. Michael nutre um amor platônico por Brian. Nos episódios iniciais, ele mora com o amigo Emmett, mas conhece David com quem irá morar junto e terá um relacionamento.

Nome - Emmett Honeycutt / Ator - Peter Paige: Emmett é o mais extravagante do grupo, por conta do modo de se vestir, com roupas justas e coloridas, e pelo jeito afeminado. No início do seriado trabalha numa loja de roupas chamada Torso. Divide apartamento com Michael. Está sempre próximo do seu melhor amigo Ted, com quem sai pra dançar, trocar confidências, etc. Emmett está sempre em busca da sua “alma-gêmea”.

Nome - Ted Schmidt / Ator - Scott Lowell: É um contador de 33 anos, que está sempre com baixa auto-estima, pois se acha feio e fora dos padrões de beleza. Está apaixonado platonicamente por Michael. É introvertido e sempre se queixa de seu aspecto físico. Tem o costume de visitar páginas pornôs e é amante da ópera e da boa comida. Constantemente sai a noite para falar com os amigos, se divertir nas boates, nos bares e, também para flertar com os rapazes.

Nome - Lindsay Peterson / Atriz - Thea Gill: Amiga íntima de Brian desde o colégio e mais adiante se converterá na mãe de seu filho, Gus. Trabalha como professora de arte, mas no tempo livre procura sempre estar com seu filho. Os pais católicos protestantes de Lindsay não aceitam sua homossexualidade e seu relacionamento com Melanie. Lindsay e Melanie moram juntas e cuidam do bebê Gus.

Nome - Melanie Marcus / Atriz - Michele Clunie: Melanie mora com Lindsay e trabalha como advogada. Melanie sempre questiona o fato de Brian não conceder a paternidade a ela, por esse motivo, diversas vezes briga com Lindsay, pois se sente isolada, por não poder ter direitos sobre a criança.

21

Nome - Debbie Novotny / Atriz - Sharon Gless: Uma membra ativa do PFLAG (pais, familiares e amigos de lésbicas e gays), Debbie possui uma relação bastante respeitosa com o filho Michael e com todos os amigos dele. Acolhe todos os garotos na sua casa, especialmente a Justin, que vive com ela, depois de fugir de casa. Ela trabalha no Liberty Dinner, e em casa cuida de seu irmão Vic.

Nome - Vic Grassi / Ator - Jack Wetherall: É o irmão de Debbie e mora junto com ela. Trabalha como chefe de cozinha e também é hospedeiro para os negócios empresariais de Emmett. Mais tarde tem uma discussão com Debbie e morre por complicações de AIDS.

Nome David Cameron / Ator Chris Potter: Personagem que aparece a partir do 5º episódio do seriado. É fisioterapeuta, mora sozinho, tem um filho chamado Hank, possue um nível de vida de alta qualidade e, futuramente conhecerá Michael, com quem irá ter um relacionamento.

1.3 A 1ª temporada:

O seriado Queer as Folk (QAF) 13 tem como ambientação a cidade de Pittsburgh, Pensilvânia, e enquanto cenário principal da trama, a boate Babylon, voltada ao público GLS (gays, lésbicas e simpatizantes) sendo caracterizada num lugar que toca música eletrônica, possui dançarinos no estilo go go boys, dark room, bebidas e drogas. Habitando juntamente nesse espaço, está presente o grupo de amigos: Brian, Michael, Justin, Emmett e Ted, Além da boate, tal grupo costuma freqüentar o bar Woody‟s, onde eles se reúnem para beber, fumar, flertar, conversar, outro espaço de convivência, é o restaurante-lanchonete Liberty Diner, local onde trabalha a mãe do personagem Michael (Debbie) e o garoto Justin, há também uma academia, onde Brian, Michael, Ted e Emmett costumam frequentar. Tais espaços se configuram como elos de sociabilidade 14 ,

13 A sigla foi utilizada tendo como referência o trabalho de Marina Fisher Nucci (UERJ); Ana Paula Lopes de Melo (UERJ) e Marcos Castro Carvalho (UERJ): Conjugalidades homossexuais nos seriados televisivos Queer as Folk e The L Word: onde gênero e sexualidade se cruzam, apresentado no Fazendo Gênero 8 Corpo, Violência e Poder, em Florianópolis, de 25 a 28 de Agosto de 2008.

a própria sociedade, em geral, significa a interação entre indivíduos. Essa interação surge sempre a

partir de determinados impulsos ou da busca de certas finalidades. Instintos eróticos, interesses, objetivos,

impulsos religiosos, objetivos de defesa, ataque, jogo, conquista, ajuda, doutrinação e inúmeros outros

14

(

)

22

pois é lá que ocorrem as relações sexuais, os encontros, os acontecimentos divertidos, as tensões, os romances, etc. Além disso, esses lugares estão imbricados um ao outro, pois mantém conexão entre si e estão localizados na mesma avenida, Liberty Avenue (Avenida Liberdade). Além do grupo de amigos, ainda estão presentes na primeira temporada, o casal de lésbicas (Lindsay e Melanie), a amiga de Justin (Daphne), o tio de Michael (Vic), a mãe de Michael (Debbie), a mãe de Justin (Jennifer) e o namorado de Michael (David). As representações iniciais de Queer as Folk colocam em cena a boate Babylon, com todo seu aparato tecnológico, de luzes e sons característicos, além da exacerbação de corpos masculinos semi-nus. Nesse cenário toma forma a narrativa de Michael, direcionada ao telespectador:

“Você precisa saber que tudo gira em torno do sexo. É verdade! Dizem que os homens pensam em sexo a cada 28 segundos, mas os gays pensam nisso a cada 9 segundos. Seja no supermercado, na lavanderia, ou fazendo compras você pode estar paquerando um cara gostoso melhor do que aquele da noite anterior. É por isso que estamos na Babylon à uma da manhã. E quem quer estar na cama sozinho quando se pode estar aqui sabendo que a qualquer momento é possível vê-lo, o homem mais

amanhã à noite”. Em seguida a câmera se foca em um

homem musculoso e descamisado: “Este sou eu. 1,81 de altura, 1,22 de tórax, 43 centímetros de bíceps, 70 centímetros de cintura, o próprio deus grego. Bem que eu gostaria”. Novamente ocorre um movimento de câmera e passa-se a focar a personagem Michael de fato: “OK. Este sou eu. Michael Novotny, o tipo de vizinho gracinha, 29 anos, 1,75, 68 quilos, 23 centímetros, circunsisado. É exagero. Mas quem é sincero depois da invenção do cybersex?” É importante pensarmos esta fala de Michael a partir da “narrativa da revelação”, conceito desenvolvido por Dennis Allen, em sua análise sobre como as relações homoeróticas, foram apresentadas no seriado norte-americano Melrose Place. O autor detectou, em seus estudos, que a “narrativa da revelação” é a única história que pode ser contada nos programas por ele estudados. Ou seja, a presença dos homossexuais nas histórias apenas envolvia a suspeita de suas orientações, que é

bonito da face da terra. Isto é

até

fazem com que o ser humano entre, com os outros, em uma relação de convívio, de atuação com referência ao outro, com o outro e contra o outro, em um estado de correlação com os outros. Isso quer dizer que ele exerce efeitos sobre os demais e também sofre efeitos por parte deles. Essas interações significam que os portadores individuais daqueles impulsos e finalidades formam uma unidade mais exatamente, uma “sociedade” (SIMMEL, 2006, p. 59-60).

23

revelada, somente, próximo ou no final das tramas. A este tipo de narrativa, Allen denomina „narrativa da revelação‟, que existe para constituir um sub-tema da narrativa da heterossexualidade e incorporar o inevitável ciclo do amor, casamento, família de forma tradicional. Este investimento interpretativo exclui a alteridade ou marginalidade da homossexualidade (COLLING Apud OLIVEIRA, 2002, p. 166). Diferente do que foi colocado acima, o seriado Queer as Folk foge a regra da “narrativa da revelação”, pois não dialoga com discursos que colocam a homossexualidade em campos periféricos de debate, mostrando o universo LGBT sem encobrimentos das questões que dizem respeito ao amor, aos formatos de família, aos relacionamentos, etc., e, nem tampouco encobre o fato das personagens serem gays ou lésbicas 15 . Percebe-se, a partir do que foi exposto acima, que este seriado, assim como outras produções televisivas, está direcionado a um público consumidor específico, e tem no seu roteiro e configuração das personagens uma prática discursiva que, ao mesmo tempo em que produzem mudanças sociais nas concepções de relacionamentos e de sexualidade, também reforçam padrões morais hegemonicamente aceitos (NUCCI; MELO; CARVALHO (Orgs.) Apud HAMBURGUER e ALMEIDA, 2004). Ao analisar o seriado Queer as Folk, especificamente os 22 episódios 16 da primeira temporada, é perceptível que há uma gama de questões que podem ser trazidas a baila, por exemplo, a questão do uso das drogas, da AIDS, da velhice, etc., mas a minha intenção é focar na questão, a princípio, de como o discurso midiático explora as relações homoconjugais masculinas e femininas, a partir de um determinado produto midiático, que é a televisão e, mais adiante perceber, a partir desses discursos, como são estabelecidas e/ou construídas tais relações. Analisando a veiculação de seriados como Queer as Folk, em programas de TV, estimula-nos a pensar e refletir a cerca da identidade, enquanto termo que agrega valores culturais, sociais, econômicos, etc. Nesse sentido, a construção imagética nesse seriado, está embasada a partir de uma lógica idealizante, na qual dialoga com o telespectador a partir de modelos identitários identificadores, que servem para atrair, ou não, o público.

15 O que diferencia Os Assumidos de outros seriado que possuem entre suas personagens homossexuais é uma nova disposição em relação à forma de representá-los. Primeiro, o seriado foi pensado para o público gay, para levar para as telas de veículo massivo, a televisão, o estilo de vida e as relações vivenciadas no cotidiano, que envolvem família, trabalho, doenças, relacionamentos amorosos, etc. 16 Todos os 22 episódios estão descritos no apêndice.

24

A importância deste seriado para o público em geral, está no fato de que, apesar de ser uma série voltada ao público LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), ela se vale para mostrar como é construído o espaço de convivência dessas identidades e também serve como modelo de identificação, daquilo que chamaríamos de “ser gay” e “ser lésbica”. As construções estereotipadas, tais como branco / classe média alta / heterossexual, são reformuladas e resignificadas a partir das relações homossexuais 17 , todavia reforça padrões de gênero que se assemelham aqueles esperados das relações heteronormativas. Tais aspectos serão trabalhados mais adiante. Podemos pensar, a partir dessa lógica, que a construção da identidade pode ser reformulada e transformada, visto que as construções das relações existentes são estereotipadas, portanto passíveis de modificação, ou seja, a identidade é realmente algo formado, ao longo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo inato, existente na consciência no momento do nascimento (HALL, 2006, p. 38). Ao longo do preenchimento das 22 fichas de cada episódio, pude perceber o quão é enfática a questão dos relacionamentos, numa amplitude bem maior para os personagens homens do que para as personagens mulheres. Isso fica claro na sinopse de cada episódio e nas falas dos personagens, é como se a mulher tivesse sido colocada em segundo plano. Os espaços de convivência entre homens e mulheres são distintos, por exemplo:

gays sempre aparecem na boate, no bar, na sauna, na rua, flertando, transando, reunidos entre amigos, enquanto que, quando aparece o único casal de lésbicas, elas estão sempre em casa, quase não saem, não aparecem flertando, sempre estão discutindo a relação, o universo delas se restringe ao trabalho e a casa. Nesse sentido, o olhar que lançamos a esses indivíduos está ligado ao estabelecimento de pólos de convivência distintos, onde diríamos que os homossexuais masculinos se comportam no âmbito do espaço público e as homossexuais femininas no âmbito do espaço privado 18 .

17 O trabalho de Ângela Cristina S. Marques, apresentado no XXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação Salvador/BA 1 a 5 de Setembro de 2002, com o tema: Da Esfera Cultural à Esfera Política: a representação da homossexualidade nas telenovelas e a busca por reconhecimento, é significante para o entendimento relacional com o seriado, pois ela diz que, quando questões polêmicas, como a homossexualidade, é abordada, por gêneros midiáticos específicos, como a telenovela, elas ganham uma dimensão de visibilidade capaz de instaurar um debate público que convoca indivíduos e grupos a se posicionarem diante de tais questões. Reflexivamente, esses indivíduos e grupos formulam idéias e posturas capazes de pôr em movimento discursos que, ao se encontrarem com a fala dos “outros”, conferem uma nova dinâmica as relações de sociabilidade e estimulam a reconfiguração das identidades individuais e coletivas.

18 Nas sociedades ocidentais as mulheres têm sido tradicionalmente socializadas para valorizar intimidade e compromisso em seus relacionamentos, a botar as necessidades dos outros em primeiro lugar, a serem

25

Adentrando na especificidade deste trabalho, o seriado Queer as Folk representa a conjugalidade homossexual por um casal de lésbicas (Melanie e Lindsay) que possuem um filho (Gus), pelo casal de gays (Michael e David) e também por outro casal de gays (Brian e Justin). Entende-se aqui que a conjugalidade

) (

uma relação social que condensa um „estilo de vida‟, fundado em uma dependência mútua e em uma dada modalidade de arranjo cotidiano, mais do que propriamente doméstico, considerando-se que a coabitação não é regra necessária (HEILBORN, 2004, pp. 11 e 12)

não é aquela que emerge de um fato jurídico. É, isto sim, o que expressa

Atentando para o modo como tais relações se estabelecem, no caso das mulheres, a personagem Lindsay, que irá gestar o bebê (Gus) pára de trabalhar como Professora de Arte, para se dedicar exclusivamente à criança, enquanto que a sua parceira (Melanie), continua sua vida normal, trabalhando como Advogada e garantido

o sustento da família. No caso dos homens, o casal que se forma a partir do 5º episódio (Michael e David), estabelece sua relação da seguinte forma: Michael é Supervisor em uma loja de departamentos (Big Q) e não garante as despesas da casa, por outro lado, David que é Fisioterapeuta, tem uma vida independente financeiramente ficando

encarregado de bancar os custos mensais da casa. Por outro lado, o casal Brian e Justin,

a princípio com uma relação bastante conturbada, é percebido de maneira que, Brian

Publicitário de sucesso -, independente financeiramente, arca com as despesas de Justin, que ainda estuda no colegial e é dependente de Brian. De forma analítica, com relação ao casal de lésbicas, uma das mulheres carrega consigo características estereotipadas, conhecidas pelo senso comum com “femininas” – ser compreensível, doce e frágil -, num viés diferente, a outra mulher do casal desempenha um papel “masculinizado” – é forte, independente e trabalha fora, ou seja, garante todo o sustento da família. Nesse sentido, podemos dizer que o seriado reproduz certa lógica de gênero, onde a família torna-se o local da “feminilidade”, e a rua, o

trabalho, espaço para a “masculinidade”. Passando para os casais masculinos, as relações que se estabelecem, são sempre mostradas como relações descompromissadas e que, mesmo quando um casal se forma como é o caso dos personagens de David e Michael, os comportamentos são de um casal que quer ter uma vida livre: poder sair com os amigos, ser visto pelos outros, ser

26

desejado por outras pessoas. Isso pode ser percebido em um dos diálogos entre David e Michael, no 18º episódio, quando o personagem Michael descobre que David foi à sauna:

David: “Eu fui à sauna” Michael: “O que foi fazer lá?” David: “Apenas dar uma volta. Ouça, não é algo que faço sempre, Michael primeira vez desde que estamos juntos” Michael: “Não quero falar disso” David: “Não, você deve saber”

Michael: “O quê?

David: “Eu não transei” Michael: “E depois você vem pra casa transar comigo. Se me transmitiu algo ”

David: “Não, eu disse que não transei!

Michael: “Apenas. Eu não entendo. Não sou suficiente pra você?”

David: “Sim, claro que é, Michael” Michael: “Então, por que fez isso?”

David: “Eu não sei

atraente. Não sei, às vezes

Michael: “Você é um mentiroso” David: “É a verdade. Michael” Michael: “Dane-se você e a sua verdade”

Que você transa por aí?”

Eu apenas me masturbo”

Acho que foi pela excitação

preciso sair sozinho”

Quero que os caras

me

É

a

achem

Deste modo, a figura do homem é colocada enquanto ser que está propenso ao sexo, de forma natural e supostamente incansável. A trama envolve o telespectador, a partir da exacerbação da figura do homem, centrando-o no discurso e na imagem. É importante atentar para o caráter puramente volátil das relações homoconjugais entre homens: o relacionamento entre tais sujeitos se faz presente em apenas um curto período de tempo, não sendo necessário estabelecer um vínculo mais duradouro. O prazer de estar com a pessoa acaba logo após o ápice do sexo. Isso fica explícito no diálogo entre Brian e Justin, no 2º episódio:

Justin: “Você não namora ninguém” Brian: “Mikey andou conversando com você”

27

Justin: “Você transa com todo mundo

realmente ” Brian: “Eu transei com você. O que aconteceu na noite passada foi apenas uma diversão. Eu queria você e você me queria. Foi tudo o que aconteceu” Justin: “Uma transa?” Brian: “O que pensava que tinha sido? Olha, eu não acredito no amor. Eu acredito em sexo. É honesto. É eficiente. Você sai com o máximo de prazer e o mínimo de compromisso. Amor é uma coisa que os heteros dizem que existe, só pra terem uma razão pra transar e depois acabam machucando um ao outro. Porque foi tudo baseado

em mentiras pra começar. Se é isso que você quer. Então vai e encontre uma linda

garotinha

Eu

Ele é feio. Você nem conhece ele. E eu

e

case-se com ela”

Justin: “Não é isso que eu quero. Eu quero você” Brian: “Você não pode me ter. Estou muito velho. Você é muito jovem pra mim. Você

tem 17. Eu tenho 28” Justin: “29” Brian: “Tudo bem. 29. Mais um motivo. Agora vai fazer a sua lição de casa”

Vale ressaltar, que não podemos generalizar e dizer que todos os casais homossexuais masculinos e homossexuais femininos se comportam da mesma forma 19 , visto que não existe um único estereótipo da homossexualidade na mídia. Dessa forma, identidades corporais podem se conformar ou não às regras de gênero e sexuais, esta apontam para a tríade heterossexual 20 : sexo gênero sexualidade, ou seja, o indivíduo nasce com um sexo determinado, em seguida compõe sua identidade de gênero a partir de seu órgão genital e, mais adiante, engloba em seu arcabouço corpóreo a maneira como irá expor seus prazeres e desejos com o sexo oposto. Para a maioria da população, em geral, condicionada ao pensamento heterossexista, as afirmações expostas acima são bastante polêmicas e provocadoras, pois fogem à regra do que para as convenções sociais deve ser determinante: pênis masculino heterossexual relacionamento afetivo-sexual com mulheres / vagina feminino heterossexual relacionamento afetivo-sexual com homens.

19 Ver LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho ensaios sobre sexualidade e teoria queer, Belo Horizonte: Autêntica, 2004 20 Ver Idem

28

A partir das produções acadêmicas voltadas para uma perspectiva de gênero,

bem como mais recentemente, com a Teoria Queer, podemos dizer que tais padrões homoconjugais: homem ativo trabalha fora de casa / mulher passiva dona de

casa, podem ser colocados em cheque no seriado, visto que, nem todos os homens são ativos e trabalham no espaço público e, nem todas as mulheres possuem relação de passividade e são donas de casa.

É notável que, ao observar o seriado, há certo equilíbrio entre o número de

casais masculinos e femininos: num total são dois casais masculinos (Michael e David, Brian e Justin). E ainda as relações rápidas de Emmett e Ted, e apenas um casal

feminino (Lindsay e Melanie). Inclui-se aqui, a questão da falta ou diminuição de relações sexuais entre as mulheres que formam o casal feminino, apontando para uma concepção de gênero que não associa a mulher ao sexo. Podemos também pensar esta questão a partir da abordagem tratada por Maria

Luiza Heilborn (2004), ao comparar casais homossexuais femininos e masculinos, ela observa como os ideais de igualdade, mais presentes nos casais femininos, acabam por resultar em uma menor eroticidade. As mulheres homossexuais levariam ao extremo aquilo que é preconizado para a conjugalidade igualitária, sendo que isso parece implicar menor eroticidade da relação (HEILBORN, 2004, p.189). Para as mulheres haveria uma relação associada ao amor romântico, diferente dos homens, que encaram as relações a partir de um amor sexual (ênfase na libido). Porém, em contrapartida ao pensamento masculino puramente sexual, a série mostra, numa determinada cena, um casal de homossexuais masculinos que estão juntos há 50 anos.

O binarismo masculino / feminino se faz presente no entorno das relações

polares entre “ativo” e “passivo” 21 , não se limitando apenas ao ato sexual, assim como na interação entre “papéis sexuais”, onde o “falo” representa a discussão central nas relações. Podemos exemplificar essa lógica a partir deste esquema: penetrador = dominante / penetrado = dominado. O fato é, portanto, que, “atividade” significa poder

em relação à “passividade”, que faz com que as relações de poder da vida cotidiana possam ser algumas vezes invertidas temporariamente no ato sexual de coito anal (FRY & MACRAE, 1991, p.51).

21 A superioridade social do “ativo” sobre o “passivo” é nitidamente expressa nas palavras de gíria que usamos para falar das relações sexuais como “comer” e “dar”, “ficar” por “cima” e “abrir as pernas”. Quem “come”, vence, como um jogador de xadrez que tira as peças de seu adversário do tabuleiro, “comendo-as”. Quem “come” está “por cima” e quem está por cima é quem controla. Quem “dá” ou quem “abre as pernas” é quem se rende totalmente (FRY & MACRAE, 1991, p.48).

29

Esta imagem, que se torna recorrente na série, é transposta às personagens tidas como “passivas” que são representadas enquanto dependentes financeiramente, e estão localizadas num ambiente privado, como por exemplo: Brian e Justin: Brian é publicitário, desempenha o papel de ativo na relação e é independente financeiramente / Justin é estudante do colegial, desempenha o papel de passivo na relação e é dependente dos pais; David e Michael: David é fisioterapeuta, desempenha o papel de ativo na relação e é independente financeiramente / Michael é supervisor em uma loja de departamentos (Big Q), desempenha o papel de passivo e é “dependente” financeiramente de David; Melanie e Lindsay: Melanie é advogada, desempenha o papel de ativo na relação, é aquela que trabalha fora para garantir o sustento da família / Lindsay é professora de arte, desempenha o papel de passivo e é dependente de Melanie. Considera-se, que as relações identitárias lineares, tais como: lésbicas / família / estabilidade conjugal / maternidade / afetividade e, gays / corpos / sexo / relações voláteis / espaço público, se constituem enquanto estereótipos que reafirmam e rearticulam a lógica heterossexual. Tomamos como base, o que Goffman (2008), diz acerca do conceito estigma:

o estigma envolve não tanto um conjunto de indivíduos concretos que

podem ser divididos em duas pilhas, a de estigmatizados e a de normais, quanto um processo social de dois papéis no qual cada indivíduo participa de ambos, pelo menos em alguma conexões e em algumas fases da vida. O normal e o estigmatizado não são pessoas, e sim perspectivas que são geradas em situações sociais durante os contatos mistos, em virtude de normas não cumpridas que provavelmente atuam sobre o encontro. Os atributos duradouros de um indivíduo em particular podem convertê-lo em alguém que é escalado para representar um determinado tipo de papel; ele pode ter de desempenhar o papel de estigmatizado em quase todas as situações sociais, tornando natural a referência a ele, como eu o fiz, como uma pessoa estigmatizada cuja situação de vida o coloca em oposição aos normais. Entretanto, os seus atributos estigmatizadores específicos não determinam a natureza dos dois papéis, o normal e o estigmatizado, mas simplesmente a freqüência com que ele desempenha cada um deles. E já que aquilo que esta envolvido são os papéis em interação e não os indivíduos concretos, não

) (

deveria causar surpresa o fato de que, em muitos casos, aquele que é estigmatizado num determinado aspecto exibe todos os preconceitos normais contra os que são estigmatizados em outro aspecto (GOFFMAN, 2008,

p.148-149).

Apoiando-se no que Judith Butler coloca: A instituição de uma heterossexualidade compulsória e naturalizada exige e regula o gênero como uma relação binária em que o termo masculino diferencia-se do termo feminino, realizando- se essa diferenciação por meio das práticas do desejo heterossexual (BUTLER, 2004,

30

p.45). Como indagação a posteriori, podemos pensar como irão se comportar as relações daqueles indivíduos que correspondem à norma, contudo, no seu convívio social se relacionam, a partir de práticas e de desejo, com pessoas do mesmo sexo? Diante de tais colocações, o seriado em questão se articula a partir de uma lógica predominante, a heterossexista, apesar de conseguirmos visualizar que este é um produto midiático, voltado a um público específico, o determinante heterocentrista ainda é muito forte, por exemplo: colocação das personagens lésbicas em segundo plano, o ativo ser superior ao passivo, enfatizar os relacionamentos homossexuais masculinos ao invés de colocá-los em pontos de igualdade com os femininos.

1.4 Comunidade LGBT de Pittsburgh 22 :

Pittsburgh é de perto uma cidade, que volta seus olhos para a comunidade gay e lésbica. Isto, em grande medida devido à multiplicidade de atividades, bares, festas, e simpatia que a cidade estende a qualquer pessoa disposta a dar uma olhada. Esta cidade oferece um diverso ciclo de entretenimento, e geralmente possui um calendário completo por eventos de esportes, artes e cultura, e também a famosa Pittsburgh Gay PrideFest - Parada do Orgulho Gay de Pittsburgh. A comunidade gay e lésbica foi bem acolhida em Pittsburgh desde finais dos anos 70, e a cidade teve uma coordenação gay, desde 1990 que impede a discriminação baseada na orientação sexual. Pittsburgh também é o palco do popular Festival Anual de Cinema Gay e Lésbico que atrai milhares de gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros, escritores, diretores e atores.

22

As

informações

a

respeito

da

Comunidade

LGBT

de

Pittsburgh

foram

retiradas

em

acessados

dos

sites:

18/07/09.

31

CAPÍTULO

SERIADO QAF:

2

-

RELACIONAMENTOS

2.1- Mulher = afeto; Homem = sexo?

HOMOCONJUGAIS

EXPOSTOS

NO

As explanações a seguir trazem à baila a discussão que se faz sobre relacionamentos homoconjugais masculinos e femininos, explorando não apenas a maneira como tais casais são representados no seriado Queer as Folk, assim como fazendo relação com a pesquisa de campo, no sentido de utilizá-la como ferramenta que nos ajuda a entender, um pouco mais, sobre a nossa realidade. Procuro, enquanto objetivo geral, compreender como se constroem as relações homo-masculinas e homo-femininas no seriado mencionado anteriormente. Parafraseando (PAIVA, 2007, p.341): o foco analítico do trabalho recaiu sobre o “artesanato” dessas relações revelando a dimensão da sociabilidade do dia-a-dia, das micro-redes relacionais, da economia dos sentimentos. Acredito que diversos são os fatores para se tentar entender como se estabelecem tais conjugalidades. Na maioria dos casos, convencionou-se culturalmente em dizer que existem identidades de gênero que já estão determinadas desde o nosso nascimento, ou seja, na nossa sociedade, é comum ouvirmos da maioria das pessoas, que: mulher é mais afetuosa, mais romântica, enquanto que o homem é mais sexo e menos romântico 23 . Seguindo essa lógica, podemos dizer que:

A socialização de gênero na nossa cultura ensina os homens a serem mais interessados em sexo e em variedade sexual do que as mulheres. Por outro lado, para muitas mulheres, independente de sua orientação sexual, sexo e amor estão intimamente ligados, o que faz com que relações casuais sejam menos atraentes (NUNAN, 2007, p.59)

Tais construções convencionais de gênero podem ser percebidas no seriado, pois numa análise rápida e com poucas elocubrações teóricas, é perceptível a existência de diferenças entre homens e mulheres homossexuais, tanto nas relações sexuais como nas

23 A declaração “É uma menina!” ou “É um menino!” também começa como uma espécie de “viagem”, ou melhor, instala um processo que, supostamente, deve seguir um determinado rumo ou direção. A afirmativa, mais do que uma descrição, pode ser compreendida como uma definição ou decisão sobre um corpo. Louro Apud Butler (1993) argumenta que essa asserção desencadeia todo um processo de “fazer” desse um corpo feminino ou masculino. Um processo que é baseado em características físicas que são vistas como diferenças e às quais se atribui significados culturais. Afirma-se e reitera-se uma sequência de muitos modos já consagrada, a sequência sexo-gênero-sexualidade. O ato de nomear o corpo acontece no interior da lógica que supõe o sexo como um “dado” anterior à cultura e lhe atribui um caráter imutável, a-histórico e binário (LOURO, 2004, p.15)

32

sociais. O casal de lésbicas é mostrado desde o início da série, como um casal que já está firmado: as duas têm um filho, são mostradas enquanto personagens que se restringem ao ambiente da casa, e, apesar das discussões, na maioria das cenas aparecem demonstrando carinho uma pela outra. No caso dos homens: são, constantemente, mostrados com os amigos, na boate, no bar, não possuem relações fixas com os parceiros e, se contentam, muito mais, com o prazer sexual. A princípio, quando assistimos pela primeira vez QAF, não nos damos conta que apesar de existirem modelos conjugais, que destoam, aparentemente, de padrões heterossexuais (homem e mulher), no entanto, no momento dos pares estarem juntos numa casa, num apartamento, por exemplo, ocorrem situações semelhantes à de um casal heterossexual, ou seja, no caso das personagens lésbicas do seriado (Lindsay e Melanie), ao manterem conjugalidade, elas estabelecem papéis identitários de gênero:

Lindsay dona de casa mãe – “dependente” financeiramente de sua parceira / Melanie

trabalha fora – se considera o “pai” na relação – paga as contas. No lado masculino, podemos mencionar dois casais: Justin dependente dos pais mora inicialmente com

a família e depois vai morar com amigos nas práticas sexuais se comporta como

“passivo” / Brian – Publicitário mora sozinho nas práticas sexuais se comporta

como “ativo”; O outro casal: Michael – “dependente” financeiramente de David – se comporta como “passivo” / David – Médico mora sozinho se comporta como “ativo” 24 . Apesar de Heilborn (2004); Nunan (2007) destacarem que: no par homossexual

é abolida a classificação do gênero, prevalecendo a expectativa de independência

econômica entre os parceiros, percebemos, no seriado, uma diferenciação no sentido do

ser independente tanto financeiramente quanto sexual, ou seja, a série não coaduna com

o pensamento das autoras acima, estabelecendo hierarquias entre os sujeitos masculinos

e femininos. As discussões, no seriado, giram em torno da questão do “falo”, onde quem o possui ocupa a posição de dominador e o que não o possui é dominado. No caso feminino, há uma pequena diferença: o discurso das mulheres não registra a vigência de uma gramática da cópula 25 nos termos “passividade / atividade” como ocorre entre os homens gays (HEILBORN, 2004, p.180). Mas, ainda assim, o seriado estabelece

24 A utilização das aspas nas palavras: pai, dependente, ativo e passivo, faz-se necessário, pois entendemos que são representações sociais, por esse motivo não se pautam a partir de uma lógica determinista e / ou generalizante.

25 A gramática da cópula também pode ser traduzida para o termo economia das relações amorosas (passivo / ativo) utlizado por Paiva (2007), mais acessível ao entendimento.

33

padrões hierárquicos, tanto para gays quanto para lésbicas, não dizendo respeito apenas ao âmbito sexual, assim como ao financeiro. Dentro dessa homocorporalidade 26 , podemos destacar questões que dizem respeito ao âmbito da casa e da rua, enquanto categorias de análise que nos ajudam a entender uma possível lógica da construção das relações entre gays e lésbicas, pelo fato de que as personagens “passivas” são constantemente representadas enquanto “dependentes” na questão financeira e ligadas ao âmbito privado (casa). Para DaMatta (1997) “casa” e “rua”

são categorias sociológicas para os brasileiros, estas palavras não

designam simplesmente espaços geográficos ou coisas físicas comensuráveis, mas acima de tudo entidades morais, esferas de ação social, províncias éticas dotadas de positividade, domínios culturais institucionalizados e, por causa disso, capazes de despertar emoções, reações, leis, orações, músicas e imagens esteticamente emolduradas e inspiradas (DAMATTA, 1997, p.15).

) (

Nesse sentido, associar as lésbicas ao ambiente da casa e os gays ao ambiente da rua, se constituem enquanto domínios culturais institucionalizados que no Brasil bem como no seriado são fortemente marcados, mas isso não quer dizer que tais categorias ocupam uma posição estática e absoluta, pelo contrário, há uma movimentação dos sujeitos no espaço urbano, rua e casa se reproduzem mutuamente, posto que há espaços na rua que podem ser fechados ou apropriados por um grupo, categoria social ou pessoas, tornando-se sua “casa”, ou seu “ponto” (DAMATTA, 1997, p.55). Apesar de haverem diferenças econômicas, culturais, sociais, entre os Estados Unidos e o Brasil, no momento em que visualizamos algumas cenas, percebemos que os padrões sexuais (masculinos e femininos) são parecidos aos do Brasil, ou seja, as personagens femininas (heterossexuais e homossexuais) são, na maioria das vezes, representadas desenvolvendo atividades ligadas ao âmbito do privado, da casa; no caso dos personagens masculinos, tais sujeitos se movimentam no espaço urbano e, de certa forma, podemos associar essas práticas às considerações feitas por Roberto DaMatta. No percurso de QAF, o único casal de lésbicas que é representado, aparece como um modelo de conjugalidade convencional (heterossexual) e, tal qual nesse modelo, decidem ter um filho. Brian, então, teria sido escolhido por ser amigo de Lindsay desde

26 Tal termo pretende ser um descritor de contatos sexuais entre homens e mulheres e sem que haja a centralidade da sexualidade, que é uma figura por demais histórica. (HEILBORN, 2004, p.15)

34

a época da faculdade. Logo no primeiro episódio, percebemos a inserção das personagens lésbicas na trama, através da maternidade 27 . Ao representar o casal de lésbicas, o seriado recorre, inicialmente, ao estereótipo mais recorrente ao universo feminino, que é a relação intrínseca da mulher com a maternidade. Segundo (ZANFORLIN Apud HALL, 1997), o estereótipo reduz, exagera, simplifica, essencializa, naturaliza e fixa a diferença, demarcando fronteiras de fácil e reducionista identificação. Dessa forma, a construção estereotípica 28 além de funcionar como marcador de identidades, é uma forma de excluir os indivíduos que não se enquadram em um determinado perfil e / ou padrão. Fry & MacRae (1991), em um dos estudos clássicos sobre homossexualidade, destacou que no Brasil os papéis sexuais são rigidamente separados:

Desde a mais tenra infância, meninos e meninas são educados para se portarem como homens e mulheres mais tarde. Os homens deveriam ser fortes, trabalhadores capazes de sustentar sua família, interessados em futebol e outras atividades definidas como masculinas e, sobretudo, não deveriam

chorar

imbuído o que se chama de instinto materno. Ao contrário dos homens, não

As mulheres, por outro lado, aprendem as tarefas de casa e lhes é

podem ter relações sexuais antes de casar, chegando ao casamento ainda virgens. Além disso, ainda neste Brasil popular, uma vez casadas, não deveriam demonstrar muito gosto pelo sexo (FRY & MACRAE, 1991, p.41-

42).

Dentro da perspectiva dos autores destacados acima, temos uma noção de que as percepções identificadoras dos gêneros masculinos e femininos, tais como: mulher carinhosa ambiente da casa e homem sexo ambiente da rua, são concepções embasadas pela cultura, pelos significados apreendidos de educação, comportamento, etc.

Especificamente, ao falarmos de gays e de lésbicas, percebemos que existe um universo que possui características específicas, tanto nas práticas sexuais quanto nas sociais, com relação a essa questão, novamente Fry & MacRae (1991) puderam constatar, numa pesquisa feita com homossexuais masculinos e femininos em São

27 É pela maternidade que a mulher realiza integralmente seu destino fisiológico; é a maternidade sua vocação “natural”, porquanto todo o seu organismo se acha voltado para perpetuação da espécie (ZANFORLIN Apud BEAUVOIR, 1980, p.248).

28 Ao mencionar o termo construção estereotípica procuro estabelecer relação com o que Goffman (2008)

diz sobre estigma, no qual está ligado com a nossa rotina de relações sociais diárias com “outras pessoas”

previstas sem atenção ou reflexão particular

atributo profundamente depreciativo, mas o que é preciso, na realidade, é uma linguagem de relações e

O termo estigma, portanto, será usado em referência a um

não de atributos. Um atributo que estigmatiza alguém pode confirmar a normalidade de outrem, portanto ele não é, em si mesmo, nem honroso nem desonroso (GOFFMAN, 2008, p. 12-13)

35

Francisco, que os homens tendem a ter relações sexuais muito mais freqüentes que as mulheres.

De forma menos objetiva, qualquer freqüentador do meio lésbico pode chegar à mesma conclusão, pois é comum se encontrar casais de mulheres que, apesar de se considerarem um par ou um “caso”, mantém pouquíssimas relações sexuais uma com a outra. Muitas vezes é o vínculo afetivo que é considerado mais importante, ou então o contato sexual pode ser mais uma questão de carícias feitas em várias regiões do corpo do que um contato voltado essencialmente para os órgãos genitais. Outro dado constatado é que, embora haja uma tendência para os homossexuais de ambos os sexos serem mais promíscuos que seus equivalentes heterossexuais, no geral as lésbicas têm “casos” mais duradouros que homens, além de serem mais “fiéis” às suas parceiras do que eles. Recentemente tem até sido difundida a posição de que as sexualidades masculina e feminina seriam intrinsecamente diferente, tanto as mulheres heterossexuais quanto as homossexuais dariam muito menos ênfase à genitalidade que os homens, sendo mais adequado considerar a sua sexualidade como difusa em seu corpo inteiro e muito menos centrada na experiência de um clímax cujo modelo geralmente é a ejaculação masculina. Isto serviria para explicar as grandes diferenças geralmente encontráveis no comportamento sexual de homossexuais de ambos os sexos (FRY & MACRAE, 1991, p.106-107)

A partir deste subitem, podemos vislumbrar possíveis considerações a respeito das determinações identitárias dos papéis sexuais masculinos e femininos, que envolvem práticas sexuais assim como sociais. Sem a intenção de esgotá-las aqui, espero que seja propiciadora de reflexões e compreensões acerca de tais convenções culturais.

2.2-

homoconjugais?

Como

as

personagens

lésbicas

e

gays

do

seriado

encaram

as

relações

Neste subitem, começarei minha explanação mostrando alguns diálogos entre as personagens gays e as personagens lésbicas e, em seguida farei as análises. No diálogo a seguir Brian e Michael conversam (ambos falam sobre o encontro de Michael com David):

Michael: É estranho ter um encontro.

Brian: Deixe que abra a porta do carro e puxe a cadeira pra você.

Michael: Me refiro a isso. É tão

Brian: Uma vez

Michael: Eu não sei o que fazer ou o que dizer.

Brian: Seja você mesmo!

Hetero! Já esteve em um encontro de verdade?

terminei trepando com o garçom.

36

Michael: Isso fará a noite voar. Porque não podemos ir direto pro sexo? Brian: O motivo de um encontro, ou como me foi explicado, por aqueles que costumam fazer isso, é conhecer bem a outra pessoa antes de trepar com ela. Michael: Que idéia idiota! E se não gostar dele?

O próximo diálogo será do casal de lésbicas (Lindsay e Melanie), na ocasião da cena, elas conversam com Justin sobre o fato da personagem Daphne (colega de escola de Justin) estar “apaixonada” por ele, pois Justin e Daphne tinham transado, sendo que foi a primeira vez que Justin se envolveu sexualmente com uma garota e, era a primeira relação sexual de Daphne:

Lindsay: Bem, isso porque não é tão fácil para a maioria das mulheres separar amor e sexo como os homens fazem. Melanie: Sim. Isso foi sempre o que me incomodou nos homens, especialmente em se tratando da sua primeira vez. Lindsay: Quero dizer, ali você está permitindo que alguém entre em seu corpo. Melanie: Digo você nunca esteve tão perto de alguém em toda a sua vida. Lindsay: E antes que você se dê conta, você está apaixonado por essa pessoa, que a faz sentir de uma forma que você nunca tinha sentido antes. Melanie: Então você entende porque Daphne deve estar apaixonada por você.

Analisando, inicialmente, o casal masculino, verificamos a partir da fala da personagem Michael, que há um pensamento de exclusão na questão dos encontros homossexuais masculinos, a simbologia do termo “encontro”, na fala, parece estar associada somente ao ambiente heterossexual, como se não houvesse a possibilidade de se estabelecerem encontros entre homossexuais masculinos. Além disso, a questão do sexo é bastante enfática no diálogo, pelo fato de não se ter uma representação significativa para os casais homo-masculinos 29 . Nesse sentido, os gays seriam capazes de separar amor e sexo e, portanto, de desfrutar de sexo casual sem envolvimento emocional (NUNAN Apud ALMEIDA NETO, 1990) No caso das lésbicas, apesar de se falar em amor e sexo, a maneira de pensar do casal homo-feminino deixa claro que há uma separação entre tais termos, onde o

29

quando irrompe nos mapas da simbólica sexual binária (homem / mulher), a homossexualidade é alojada no território do marginal, do desvio, do estrangeiro (PAIVA, 2007, p.247)

(

)

37

primeiro está ligado à afetividade, ao carinho, e o segundo, ao prazer sexual, à libido. Nesse sentido, o amor está ligado às relações de caráter fixo, que já estão firmadas, que envolvem compromisso, e, o sexo está ligado ao prazer e não se configura como construtor de uma relação 30 . Diante dessa problemática, Heilborn (2004) tece considerações significativas:

a maior parte do problemas ligados à condição homossexual é este corte

entre afetividade e sexualidade resultante da ausência de instituições familiares que cimentam as relações heterossexuais. Prolongando-se muito

raramente mais do que alguns meses ou poucos anos, a relação do casal é frequentemente tomada hipotética desde o começo por dramas, angústias e infidelidades. À falta de um modelo de vida social própria, o casal homossexual, imagem sobredeterminada pela norma heterossexual, é um ideal sentimental raramente realizado (HEILBORN Apud POLLAK, 1988,

p.51).

) (

Observamos que mesmo entre casais homo-masculinos e homo-femininos, existem relações de poder que permeiam o binarismo homem / mulher e mantém representações tradicionais e arraigadas socialmente, tais relações têm como base direcionamentos hierárquicos, traduzidos geralmente por percepções heterossexuais. Concernente ao sexo, como foi mostrado anteriormente, há uma regulação, por parte de leis, que configuram o poder. O que significa, em primeiro lugar, que o sexo fica reduzido, por ele, a regime binário: lícito e ilícito, permitido e proibido (FOUCAULT, 1988, p.93). Vale ressaltar, que as relações homoconjugais masculinas e femininas não se restringem ao caráter puramente sexual. Devemos mencionar aqui, as relações estabelecidas no cotidiano, para isso, utilizaremos alguns diálogos presentes em episódios da primeira temporada. No diálogo a seguir, Melanie e Lindsay levam o filho (Gus) ao hospital, pois ele está doente:

Enfermeiro: Quais são os sintomas? Melanie: Diarréia, vômito, febre. Enfermeiro: Sabe a temperatura? Lindsay: Quase 40º. Melanie: Nós nos preocupamos com desidratação.

30 Sob os auspícios do amor, o lesbianismo grafa de forma exagerada os limites de sua traduzibilidade e revela que sua artimanha é justamente dialogar com o pensamento lá onde consideramos domínio oposto à razão, a saber, a afetividade, que no “amor entre mulheres” é levada às últimas conseqüências (HEILBORN Apud MUNIZ, 1989, p.49-50).

38

Enfermeiro: Vamos checar. Quem é a mãe?

Lindsay: Sou a mãe biológica. Enfermeiro: Venha comigo! Você espera aqui (para a Melanie). Lindsay: Nós somos um casal. Enfermeiro: Neste caso, tem os papéis da adoção? Lindsay: Adoção?

Melanie: Ainda não

Enfermeiro: Só os guardiões legais podem entrar. Melanie: Pare de falar e leve-o agora.

Lindsay: Volto quando souber algo. Melanie: Amo você. (Ela vai falar com a recepcionista). Com licença, preciso ir lá dentro. Minha parceira esqueceu a manta e não quero o bebê

Recepcionista: Senhorita, ou seja lá o que for

guardiões legais podem acompanhar o bebê. Melanie: Acredito que deve ser explicado a você que sou eu quem o ama, alimenta, troca, limpa sua sujeira, paga as contas, e ouça aqui! (Ela tinha baixado a cabeça e não olhava para Melanie). Passo a noite acordada preocupada com que ele cresça, seja feliz e amado e não ouse dizer que não tenho o direito de estar com ele (Brian chega nesse momento). Brian: O que está havendo? Melanie: Não me deixaram entrar lá. Brian: Por quê? Melanie: Não sou guardiã, estou enlouquecendo. Brian: É a maldita burocracia? (o enfermeiro chega). Melanie: Com licença, este é o pai. Enfermeiro: Eu o levo até lá. Brian: Ela também vai.

Melanie: Não se preocupe, vá e dê isso a ele (a manta).

já foi explicado que só os pais ou

planejamos.

No diálogo a seguir, no bar, Ted, Emmett e Brian, conversam com Michael sobre o fato de ele ter um namorado:

Ted: Se anda com um namorado e fala como um namorado. Ted /Emmett: Só pode ser um namorado.

39

Brian: Dá pra calarem a boca? É ótimo Mike ter um caso mais sério. Michael: Não é nada sério, só saímos duas vezes. Ted: Consideramos isso um relacionamento. Emmett: Logo estarão trocando alianças. Ted: Numa cerimônia onde 200 convidados já transaram com um ou dois pombinhos. Emmett: Nos prometa que não vão usar ternos brancos iguais. Michael: Isso nunca vai acontecer! Emmett: Então é bom tomar cuidado com os sinais. Michael: Que sinais? Ted: Como quando ele lhe dá flores. Emmett: Ou convida-o para passar o fim de semana nas montanhas. Ted: Onde só verá o teto do quarto. Emmett: E o aviso mais importante: quando ele conhece sua mãe e ela o convida para jantar.

No primeiro diálogo, fica evidente, apesar do cuidado, do amor, da atenção dada ao filho, naquela sociedade o preconceito é muito forte, o qual esbarra na questão da adoção. Se torna latente no diálogo o fato das legislações não assegurarem direitos civis semelhantes aos estipulados a casais heterossexuais: direito à herança, partilha da bens, declaração conjunta de renda, adoção, dentre outros 31 . No segundo diálogo, os amigos de Michael conversam com ele sobre relacionamentos: o que se pode considerar como um relacionamento sério? Nessa economia dos sentimentos existem sinais que indicam quando se está namorando ou não? A questão da construção dos relacionamentos homoconjugais masculinos é muito presente, praticamente em todo o seriado, pelo que se observa, ao longo da primeira temporada, os amigos Ted, Emmett, Michael, Brian nunca experimentaram relacionamentos de longa duração 32 e apenas estabeleceram vínculos muito rápidos. Esta realmente parece ser a tônica dos relacionamentos, e os sujeitos estão bastante

31 Do mesmo modo, a falta de rituais que marquem a união, assim como a inexistência do direito de casar- se legalmente exclui estes casais de validação social e legal. Dito de outra forma, para casais homossexuais resta a confusão que os membros da família de origem experienciam no processo de tentar entender seus papéis com relação ao novo casal. A ausência de uma festa de casamento ou de uma cerimônia equivalente tende a confirmar o estigma com relação aos homossexuais, perpetuando a crença de que estes casais devem ser mantidos em segredo (NUNAN, 2007, p.49).

32 Para identificar relacionamentos homoconjugais longos e estáveis utilizo a variação que Paiva (2007) utilizou na sua pesquisa de 3 a 21 anos.

40

avisados a respeito da instabilidade e do não-lugar 33 sobre o qual se assenta o vínculo de amor mantido por eles (PAIVA, 2007, p.271). Constantemente temos visto que existe certa necessidade tanto dos gays quanto das lésbicas do seriado em tentar buscar um modelo de relacionamentos, no qual seja possível se basear construir e / ou estabelecer parcerias e, além disso, para que sejam reconhecidos pela sociedade. Assim, na ausência de validação social, legal e religiosa, assim como na falta de modelos de relacionamentos nos quais se espelhar com freqüência criam suas próprias normas conjugais (NUNAN Apud SIMON, 1996).

2.3- Fidelidade / Infidelidade:

A problemática da fidelidade / infidelidade também faz parte das micro-redes relacionais das personagens gays e lésbicas, em uma das cenas Melanie e Lindsay são mostradas em casa realizando o chá de bebê de Gus, com algumas amigas. Nesse dia, Melanie conhece Marianne (amiga do casal) com quem terá um envolvimento sexual. Abaixo segue um diálogo entre Melanie e Marianne num bar:

Melanie: É tão bom. Algumas vezes faria qualquer coisa por um cigarro. Marianne: É bom saber disso. Por que não se permite quando tem vontade? Melanie: Deixei de fumar quando o bebê nasceu. Lindsay se preocupava com os efeitos da fumaça. E está certa. Marianne: Ela é do tipo que está sempre certa? Melanie: Sobre quase tudo. (dão um gole de vinho e se olham) Você foi um consolo. No chá só falavam de bebês. Amo meu filho, mas às vezes Marianne: Às vezes você precisa de outra coisa.

Ao final dessa conversa, as duas vão à casa de Marianne e lá elas transam. No caso masculino, o próximo diálogo mostra Michael e David, os dois conversam sobre o fato de David ter ido à sauna.

David: Eu devia ter contado a verdade. É sobre ontem à noite. Michael: Quando disse que gozaria pela quarta vez, eu sabia que estava mentindo.

33 A partir dos estudos antropológicos, podemos dizer que a união homossexual apresenta-se como o estado zero das relações sociais, como não-relação (PAIVA Apud BALANDIER, 1976, p.41).

41

David: Não, quando disse que tinha um jantar de negócios, era mentira. Eu fui à sauna. Michael: (De pé, gritando) O que foi fazer lá? David: Dar uma volta. Não é algo que faço sempre, Michael. É a primeira vez desde que estamos juntos. Michael: Não quero falar disso. David: Você deve saber. Michael: Que transa por aí? David: Eu não transei. Michael: E depois vem pra casa transar comigo. Se me transmitiu algo David: Disse que não transei! (Grita) Eu apenas me masturbo.

Michael: Apenas

David: Não sei! Acho que pela excitação. Quero que os caras me achem atraente, sei lá! Às vezes preciso sair sozinho

Michael: Você é um mentiroso.

Não sou suficiente pra você? Por que faz isso?

Falar de fidelidade / infidelidade não é um dos focos deste trabalho, perpasso por essas questões porque se faz necessário, tendo em vista que quando mencionamos esses termos nos estudos sobre relacionamentos, voltamos nosso olhar àquilo que já foi dito anteriormente, onde os papéis sociais 34 / sexuais masculinos e femininos frequentemente se encontram em espaços estigmatizantes que indicam quase como uma vocação ao compromisso, uma característica ao ser mulher. A partir de algumas cenas, observamos que a personagem Lindsay se sente obrigada a agradar Melanie, é afetuosa, paciente, e cumpre seu dever de parceira através de uma “obrigação” com o ato sexual, por mais que esteja cheia de afazeres e cansada. Já Melanie procura o sexo que não encontra em casa, com uma parceira eventual, numa típica alusão ao “marido infiel” (ZANFORLIN, 2005, p.126). A infidelidade, portanto, é apresentada como uma característica estritamente relacionada ao gênero masculino. Vale ressaltar, que isso não é algo fechado, estanque. O fato é que os homens são criados para pensar que sua própria masculinidade está

34 Destaca-se que as representações da relação entre Melanie e Lindsay foram estabelecidas sob a orientação dos papéis sociais determinados pelo gênero biológico, como também pode ser observado na relação entre David e Michael. Este último assume o papel da mulher que cobra fidelidade do marido, ao dizer, por exemplo: “não sou suficiente para você?”. Ou seja, “as pessoas socialmente „femininas‟ se relacionam com as socialmente „masculinas‟. As mulheres e bichas se relacionam co os homens e os homens e mulheres-macho se relacionam com as mulheres” (ZANFORLIN Apud FRY & MACRAE, 1983, p.45).

42

sempre a ser provada por um desempenho sexual tanto potente quanto freqüente (ZANFORLIN Apud FRY & MACRAE, 1983, p.49).

2.4- Diálogos com a pesquisa de campo:

As considerações seguintes dizem respeito a uma parte da pesquisa de campo, especificamente à 17ª pergunta do questionário 35 , que diz: Como você percebe, no seriado, que gays e lésbicas encaram as relações homoconjugais? Na pesquisa, que será detalhada no próximo capítulo, foram entrevistadas somente aquelas pessoas que assistiram a primeira temporada do seriado QAF. Os nomes dos informantes foram trocados pelos dos personagens principais da primeira temporada do seriado. A seguir mostrarei 4 entrevistas (2 homens e 2 mulheres), referentes à 17ª pergunta. Pergunta: Como você percebe, no seriado, que gays e lésbicas encaram as relações homoconjugais? Jennifer (21 anos, sexo feminino, orientação sexual heterossexual, não se atribui identidade de gênero / sexual, ensino superior incompleto) respondeu 36 :

já vai mais parte do ser humano, né?! É a questão de tentar eles tentam sempre buscar, né?! A relação perfeita e, pra

se compreender

isso vai passando, vai conhecendo e, à noite saindo

não dá mais, e é isso que o seriado tentar mostrar, que é interessante, também, como eles mostram, né?! Essa procura, essa busca, o fato de às vezes eles descobrirem de uma amizade, mesmo, que pode ser algo mais, pode ter um significado maior e acredito que seja isso.

e aí uma relação dá certo, depois

“Bom, eu acho que aí é

tentar

Daphne (27 anos, sexo feminino, orientação sexual feminina [heterossexual], não se atribui identidade de gênero / sexual, ensino superior incompleto) respondeu 37 :

“Eu acho que não existe muito a diferença entre homens e mulheres encarar a relação conjugal. Em todos, e não só os homens, o que existe é uma diferença, mesmo, cultural,

35 O questionário com todas as perguntas utilizadas na entrevista estão no anexo do trabalho.

36 Entrevista concedida no dia 15 de agosto de 2009, no município de Belém Pará.

37 Entrevista concedida no dia 10 de junho de 2009, no município de Belém Pará.

43

de educação, entre homem e mulher. O homem, ele foi educado, quando criança, que

não tem aquela coisa: „Ah! Ele é gay, ele é homo, ele é isso, ele é aquilo outro, ou ela é

é aquela coisa: mulher é educada pra se preservar, pra

cuidar, pra manter relações estáveis, o homem é educado pra caçar, pra pegar, pra ficar com todo mundo, então existe a relação, aí, nessa base, mas a partir do momento que ser adulto, independente da identidade sexual que assume, acho que todos querem a mesma coisa

isso, ela é aquilo outro

Brian (28 anos, sexo masculino, orientação sexual homossexual, identidade de gênero / sexual gay, ensino superior completo) respondeu 38 :

“Eu acho que vai da cabeça de cada um. Tem uns lá que têm uma idéia bem romântica,

como o Michael, né?! Ele já

ali na

série, que já não tem essa idéia, não idealizam uma pessoa, não imaginam um

relacionamento só os dois juntos, é igual vida real, mesmo, né?!”

bem romântica, assim

é Michael, né?! [risos]. O Michael, ele tem uma idéia

tal

os dois juntos, mesmo, e tem outras pessoas que

Michael (23 anos, sexo masculino, orientação sexual masculina [heterossexual], a identidade de gênero / sexual depende do contexto e das pessoas, ensino superior incompleto) respondeu 39 :

“É como eu falei naquela hora, também, sobre os meus amigos aqui, os homens curtir, curtir, curtir, e as mulheres ficar e construir algo, tanto é que os personagens mais experientes que nós temos, todos eles estão solteiros, eles podem estar buscando, mas o que fica claro ali é que eles estão buscando o quê? Eles estão buscando alguém pra aquela hora, pra depois não. O seriado já começa com as lésbicas casadas, elas já moram juntas, tanto é que no início, uma delas tem o filho, e o filho é pra duas, então essas relações que são colocadas ali, de homens e mulheres, perpassa muito por essa questão de, querendo ou não, fazendo essa associação, se é certo ou errado, não sei quem a cabe julgar. Mas, o homem, mesmo, gay, ele ainda tem aqueles traços machistas: de pegar, de ficar, de ter o outro, e a mulher ainda é aquela coisa de: estar na casa, construir algo, ficar, ter relacionamento, ter as nossas coisas junto, então só

38 Entrevista concedida no dia 20 de junho de 2009, no município de Belém Pará.

39 Entrevista concedida no dia 06 de junho de 2009, no município de Belém Pará.

44

muda o gosto, o hetero que fica lá com a mulher, mas ele fica com uma agora e fica com outra depois, o homossexual lá que fica com outro homem, mesma coisa! Ele fica com um aqui, fica com outro ali, fica com outro que ele quer ficar, o que ele quer é manter as relações sexuais dele e, com a mulher já é mais diferente”.

Inicialmente, falar das representações midiáticas de casais gays e lésbicos é, muito mais, do que apenas veicular informações,

a mídia também produz saberes, formas específicas de comunicar o que é

masculino e feminino. As maneiras como são valorados os gêneros implicam manutenção ou subversão de comportamentos, sentimentos e interdições que

ajudam a moldar a vida de homens e mulheres (BORGES, 2007, p.370).

) (

Dentro desse viés midiático de representação, existe, muito mais, uma questão cultural do que um determinismo biológico, pois antes de falarmos de gays e de lésbicas, que são consideradas identidades sexuais, há um registro sexual no momento do nosso nascimento, dizendo que seremos homens ou mulheres e que devemos nos comportar e atuar, na sociedade, por meio de condutas pré-estabelecidas. Pelo que foi visto na primeira temporada do seriado, tal produto midiático transmite uma lógica identitária de pensamento e, alguns informantes, por exemplo, Michael, se apropria dessas idéias e as transmite num discurso relacional com o machismo e com características que devem estar intimamente ligadas ao gênero masculino e ao gênero feminino, no caso de colocar o homem sempre em uma posição de superior e a mulher sempre numa condição de inferior e, além disso, associar o gênero feminino aos relacionamentos mais estáveis e o gênero masculino aos relacionamentos mais voláteis. Por outro lado, de acordo com a fala da informante Daphne, o que prevalece não são diferenças entre como os gays e lésbicas encaram as relações homoconjugais, “o que existe é uma diferença, mesmo, cultural, de educação”. Os gêneros

“masculino” e o “feminino” são criações culturais e, como tal são

comportamentos apreendidos através do processo de socialização que condiciona diferentemente os sexos para cumprirem funções sociais específicas e diversas. Essa aprendizagem é um processo social. Aprendemos a ser homens e mulheres e a aceitar como “natural” as relações de poder entre os sexos. A menina, assim, aprende a ser doce, obediente, passiva, altruísta, dependente; enquanto o menino, aprende a ser agressivo, ativo, independente

(ZANFORLIN Apud ALVES E PITANGUY, 1991, p.55-56).

) (

45

No final das contas, todos (gays e lésbicas) querem a mesma coisa, seja com uma idéia romântica 40 de relacionamento ou não, como assinala o informante Brian, ou seja, os casais homoconjugais, nesse sentido, querem estabelecer relações. Mas que tipo de relação? Foucault (1988) ressaltou que o personagem homossexual do século XIX está alocado numa região das sexualidades periféricas e, dessa forma, utilizando-se dos dispositivos de saturação sexual, que dizem respeito ao espaço e aos ritos sociais do século XIX, podemos dizer que a sociedade moderna procurou reduzir a sexualidade ao casal ao casal heterossexual, numa possibilidade de relação legítima. O sentido da busca de uma relação, por vezes “perfeita”, como menciona a informante Jennifer, extrapola binarismos (masculino / feminino; superior / inferior; certo / errado; lícito / ilícito; legítimo / ilegítimo) e vai em busca da compreensão de como o ser humano se comporta, quais as atitudes que cada um toma pra si, no sentido de não generalizarmos tanto a conduta das personagens quanto daqueles que não fazem parte da ficção. Tecendo considerações finais a este capítulo, trago à tona a seguinte questão:

Até que ponto é possível considerarmos que as categorias identitárias dos papéis sexuais / sociais masculinos e femininos interferem na construção e / ou no estabelecimento de relações homoconjugais? Vimos que a lógica das construções homoconjugais não parte do fato de sermos gays ou lésbicas, e sim dos processos de socialização apreendidos pela cultura, indicando o que é ser homem e o que é ser mulher. Além disso, devemos destacar que a condição de classe dos sujeitos também influencia. O seu status social e o fato de pertencerem às camadas médias as aproximam de certos valores de igualitarismo, educação para a fidelidade e relacionamentos simétricos. A cultura foi mostrada, ao longo deste capítulo, como componente fundamental ao entendimento das relações homoconjugais expostas no seriado Queer as Folk, mas será que, somente dizer que são construções convencionais de gênero basta? Será que não existiria certa propensão do ser humano em querer estabelecer relações conjugais estáveis ou não-estáveis com as / os parceiros / as, visto que, não podemos generalizar e dizer que todos os homossexuais se comportam da mesma forma? Essas questões não podem e nem devem ser esgotadas aqui, muito ainda deve ser comentado sobre isso e, serve, também, de reflexão ao leitor.

40 A idéia de um relacionamento romântico se configura a partir do entendimento de um amor romântico, estruturado pela afeição e tido como o motivador do “casamento” contemporâneo, o qual focaliza a procura de um ser insubstituível e único (HEILBORN, 2004).

46

CAPÍTULO

ESCREVER41 :

3

OS

PERCURSOS

3.1 O fazer antropológico:

DA

PESQUISA

“OLHAR,

OUVIR

E

Adentraremos, neste capítulo, no universo do trabalho de campo, percebendo as pormenoridades do fazer antropológico, enviesado pelas considerações teóricas de OLIVEIRA (1998) e CLIFFORD (1998). Entre idas e vindas a campo, pude entender e / ou compreender o quão necessário é fazer pesquisa de campo, não somente pelo fato de recolhermos falas de informantes, mas também pela importância de considerarmos o aspecto empírico como artefato primordial para a construção de trabalhos que fazem diálogos entre a teoria e a prática.

Dentro desse arquétipo construcional, é significativo situarmos o leitor dentro de um determinado contexto, mostrando os caminhos que foram percorridos pelo pesquisador. Nesse sentido, fazer pesquisa de campo, tal como é proposta na metodologia deste trabalho, é descrever densamente o objeto pesquisado; é ter o olhar, o ouvir e o escrever, apurados e aguçados. Tais aspectos são constantemente ressaltados na obra de Roberto Cardoso de Oliveira: Se o olhar e o ouvir constituem a nossa percepção da realidade focalizada na pesquisa empírica, o escrever passa a ser parte quase indissociável do nosso pensamento (OLIVEIRA, 1998, p.31-32). Um dos aspectos que devem ser levados em consideração é a entrevista, enquanto um importante mecanismo para trabalharmos o exercício do ouvir, tendo em mente, que toda e qualquer pesquisa de campo, não retrata fidedignamente todos os pormenores, cabendo ao pesquisador transpor, a partir de sua subjetividade, tudo aquilo que conseguiu perceber. A relação que se estabelece entre informante e pesquisador é uma relação não-dialógica, ao passo que somente será superada a partir do momento em que o informante se tornar “interlocutor”, ou seja, quando ele se tornar sujeito de sua própria história, por isso, é importante utilizarmos as vozes dos informantes neste trabalho, as quais servirão de base para análise da realidade empírica. Dentro desse aspecto, ressalto uma característica que deve ser enfatizada, para o melhoramento desta

41 Procuro me apropriar de tais termos, por entender a importância deles para o campo das Ciências Sociais e, de maneira especial, ao fazer antropológico (OLIVEIRA, 1998, p.17-35)

47

metodologia, que é a inserção do observador participante, mobilizando a mais completa variedade de interações e utilizando a interpretação descritiva (CLIFFORD, 1998). Por fim, enquanto último aspecto metodológico, a ser utilizado, enfatiza-se a questão da transcrição, tanto dos dados teóricos quanto dos empíricos. Esta parte deve ser feita com o mínimo de cuidado, cada transcrição deve estar delineada de acordo com o contexto do trabalho, não podendo ser feita aleatoriamente, por esse motivo, o pesquisador precisa ser observador participante em todos os momentos, desde a análise do seriado, até o momento da entrevista. No que concerne ao aspecto da transcrição (escrever), Roberto Cardoso de Oliveira diz que:

Devemos entender, assim, por escrever o ato exercitado por excelência no gabinete, cujas características o singularizam de forma marcante, sobretudo quando o compararmos com o que se escreve no campo seja ao fazermos nosso diário, seja nas anotações que rabiscamos em nossas cadernetas. E se tomarmos ainda Geertz por referência, vemos que na maneira pela qual ele encaminha suas reflexões, é o escrever “estando aqui”, portanto fora da situação de campo, que cumpre sua mais alta função cognitiva. Por quê? Devido ao fato de inciarmos propriamente no gabinete o processo de textualização dos fenômenos sócio-culturais observados “estando lá”. Já as condições de textualização, isto é, de trazer os fatos observados vistos e ouvidos para o plano do discurso, não deixam de ser muito particulares e exercem, por sua vez, um papel definitivo tanto no processo de comunicação interpares isto é, no seio da comunidade profissional -, como no de conhecimento propriamente dito (OLIVEIRA, 1998, p.25)

Portanto, a partir das considerações feitas neste subitem, é que esta pesquisa pôde ser construída, enfatizando principalmente a pesquisa de campo, enquanto validação dos estudos antropológicos, e também como propiciadora de discussões, que vão muito além do campo teórico e, adentram em um universo empírico, possibilitando a nós pesquisadores, reformularmos e resignificarmos conceitos padronizados, e construirmos um trabalho que supere a relação não-dialógica entre informante e pesquisador.

3.2 Entre idas e vindas

Partimos agora para a especificidade desta pesquisa, considerando as constantes incursões do pesquisador a campo e levando em conta as vozes dos informantes. Inicialmente, quando delimitamos o nosso objeto de pesquisa (o seriado Queer as Folk), eu e minha orientadora, pensávamos em como faríamos a pesquisa de campo, perguntávamo-nos: Quais seriam os informantes? Utilizaríamos questionário de perguntas? Partimos, então, para a análise da parte, que é a representação da

48

conjugalidade homossexual em QAF, para depois relacionarmos a um contexto maior, enviesado a partir das discussões recorrentes sobre identidade, percebida aqui como termo pertinente ao entendimento das relações homoconjugais. Podemos pensar, ao analisar uma parte específica que este método está relacionado àquilo que James Clifford aponta ao falar de etnografia, propondo primeiramente a análise de partes específicas de determinadas sociedades, para depois chegar a uma análise mais geral. De certa forma, nessa antropologia interpretativista 42 , seriam estudadas “micro-etnografias”, para se chegar ao entendimento de uma “macro- etnografia”. O objetivo não é contribuir para um completo inventário ou descrição de costumes, mas sim chegar ao todo através de uma ou mais de suas partes (CLIFFORD, 1998, p.30). Depois de identificarmos o objeto a ser estudado, tivemos que delimitá-lo ainda mais, pois se tratava de um seriado com cinco temporadas e mais de cinqüenta episódios no total, e isso não seria possível, ou melhor, não ficaria satisfatório para um período de, apenas, seis meses 43 . Dessa forma, minha análise se deteve na primeira temporada de tal produto midiático, composto por vinte e dois episódios. A partir de tais especificações, delimitações, das idas e vindas assistindo o seriado e das constantes orientações, buscávamos, em diversos momentos, tentativas de aprimoramento e sofisticação da metodologia utilizada. Em um dos diálogos que tive com a orientadora, ela me apresentou uma metodologia utilizada por Heloísa Buarque de Almeida, estudiosa de questões referentes à mídia, onde ela analisa determinado produto midiático, a partir de fichas catalográficas, nas quais coloca todas as informações que são pertinentes de determinada novela, seriado, programa de TV, por exemplo. Tal proposta metodológica, intitulada, por mim, de ficha descritiva 44 , foi bastante significativa ao meu trabalho, facilitando, consideravelmente, ao encaminhamento das minhas análises, sem eu ter que precisar, sempre, rever os episódios, o que demanda muito tempo. Além disso, é um importante auxílio aos

42 CLIFFORD, James. A experiência etnográfica: antropologia e literatura no século XX. Rio de Janeiro:

Editora UFRJ, 1998, p. 17-62.

43 O curto período de tempo desta pesquisa deve ser levado em conta, pois equivale a estilísticas do trabalho de campo propostas por Clifford (1998, p. 28-29).

44 Foi um total de 22 fichas descritivas, contidas no apêndice deste trabalho, que incluem: nome do episódio, número do episódio, sinopse, principais aspectos, personagens principais, falas importantes e duração de cada episódio.

49

leitores, em especial, aqueles que nunca assistiram o seriado e, que porventura queiram saber mais sobre a série. A pesquisa de campo, propriamente dita, foi elaborada através da coleta de dados empíricos, a partir de entrevistas semi-estruturadas com telespectadores da primeira temporada do seriado. Foi aplicado um questionário 45 com 25 perguntas para um total de 10 informantes (5 homens e 5 mulheres) 46 , na faixa etária entre 18 a 28 anos, onde a maioria está cursando o ensino superior. Vale lembrar, que os nomes dos informantes foram trocados pelos nomes dos personagens principais. Ao longo das minhas incursões a campo, diversos foram os momentos, nos quais pensei que não fosse conseguir realizar as entrevistas. Desde o primeiro momento, quando um colega de sala (Edyr) me recomendou a série, eu sabia que seria difícil, no sentido de encontrar pessoas dispostas a me concederem entrevistas, em especial mulheres (tanto homossexuais quanto heterossexuais). Diversas vezes, senti que havia certa barreira entre informante e pesquisador, talvez pelo fato de ser uma série polêmica e questionada pela sociedade, aqueles informantes com orientação sexual heterossexual, poderiam ter receio de falar a respeito de um produto voltado ao público GLS e, dessa forma serem tidos como homossexual. Buscando certa ética na pesquisa, sempre deixei claro, no início de cada entrevista, que a identidade pessoal (nome) dos informantes seria preservada. Ainda assim, apesar das explicitações feitas acima, procuro entender que tal questão não é tão simples, não basta, apenas, dizer que determinado indivíduo tem receio de participar de pesquisas com tema dessa natureza, porque no final será taxado de homossexual. Acredito que isso está intimamente relacionado ao tema e, indo mais além, à escassez de pesquisas antropológicas sobre gênero e sexualidade no Brasil, em especial, na região norte 47

45 O questionário aplicado, possui quatro momentos: um primeiro momento, no qual podemos visualizar um pequeno perfil de cada informante; em seguida, focalizamos em perguntas específicas sobre o seriado; no terceiro momento perguntávamos sobre conjugalidade homossexual, mesclando com questões sobre QAF; por fim, trouxemos à tona questões mais atuais que dizem respeito à como a homoconjugalidade é vista / percebida / encarada pela sociedade brasileira / paraense. 46 Vale ressaltar que, no momento das entrevistas, não direcionamos nossa pesquisa, apenas, à comunidade LGBT, ou seja, nossa intenção não era entrevistar somente gays e lésbicas, mas sim, aquelas pessoas que assistiram a primeira temporada do seriado.

47 Apesar da reputação de ser aberta à pesquisa sobre sexualidade, a Antropologia como disciplina só relutantemente tem dado apoio a esse trabalho. A pesquisa e a teoria antropológicas desenvolveram-se lentamente, partilhando um paradigma teórico estável (o modelo de influência cultural) desde os anos 20 até os 90. Embora fosse além das estruturas determinista e essencialista ainda comuns na biomedicina, o trabalho antropológico ainda assim considerava aspectos importantes da sexualidade como universais e transculturais (VANCE, 1995, p. 29)

50

3.3 Sujeitos e falas:

Neste subitem, inicialmente, procuro traçar o perfil dos informantes, através de uma tabela de dados, que será exposta a seguir e, mais adiante, faço análise das falas, levando em consideração aquelas mais convenientes ao tema pesquisado. Tabela de dados

     

Orientação

Identidade de Gênero / Sexual 49

Já viveu ou vive alguma situação de conjugalidade 50 ?

Já teve relacionamentos homoeróticos 51 ?

Frequenta o circuito GLS de Belém 52 ?

Informantes

Idade

Escolaridade

Sexual 48

   

Ensino Superior

Masculino

Depende do

     

Michael

23

contexto e

Não

Sim

Não

Incompleto

[Heterossexual]

das pessoas

Emmett

25

Ensino Superior

Masculino

Gay

Sim

Sim

Não

Incompleto

[Homossexual]

   

Ensino Superior

         

Brian

28

Incompleto

Homossexual

Gay

Sim

Sim

Não

   

Ensino Médio

         

Justin

18

Completo

Homossexual

Gay

Sim

Sim

Não

48 O termo orientação sexual foi utilizado por referir-se ao sexo das pessoas que elegemos como objetos de desejo e afeto. Hoje são reconhecidos três tipos de orientação sexual: a heterossexualidade (atração física e emocional pelo “sexo oposto”); a homossexualidade (atração física e emocional pelo “mesmo sexo”); e a bissexualidade (atração física e emocional tanto pelo “mesmo sexo” quanto pelo “sexo oposto”) (Formação de Professores (as) em Gênero, Sexualidade, Orientação Sexual e Relações Étnico- Raciais Curso Gênero e Diversidade na Escola, 2009, p. 7)

49 A partir das respostas dos informantes, percebemos que não estamos trabalhando apenas com a

categoria identidade de gênero (performance), assim como com identidade sexual, pois ao falarmos de identidade de gênero nos referimos à maneira como alguém se sente, se identifica, se apresenta para si e para os demais e como é percebido / a como “masculino” ou “feminino” ou, ainda, uma mescla de ambos independente tanto do sexo biológico quanto da orientação sexual (GDE, 2009, p. 7). No caso da identidade sexual: al igual que ocorre com el gênero respecto al sexo, determinadas sexualidades (es

se marcan culturalmente y devienem em

decir, sentimientos, prácticas, deseos, pensamientos

identidades. Así, surgen identidades sexuales basadas en el sexo de las personas que participan en las mismas como: homosexualidad, heterosexualidad y bisexualidad. Pero las identidades basadas em La sexualidad acaban siendo mucho más amplias y complejas: gay, lesbiana, queer, sadomasoquista,

asexual, dominatrix

50 O termo conjugalidade é baseado naquilo que Heilborn (2004) fala, dizendo respeito a modalidades de arranjo cotidiano, nesse sentido levamos em conta o namoro como possível formato de conjugalidade e, não resumimos este ao aspecto coabitacional.

51 A intenção da pergunta foi de tentar identificar se o informante já teve algum contato homocorporal, o que não se resume apenas ao ato sexual, podendo, também, serem consideradas as relações de afeto e carinho.

52 Tal como na pergunta anterior, a intenção foi de perceber se, algum dos informantes, já tiveram contato com o circuito GLS de Belém, pois este não se resume somente a boates, mas também a mostras de filmes, paradas da diversidade sexual, saunas, bares, etc.

)

(SÁNCHEZ; GALÁN Org, 2006, p. 143-156).

51

   

Ensino Superior

         

Ted

20

Cursando

Homossexual

Gay

Não

Sim

Não

   

Ensino Superior

         

Lindsay

21

Cursando

Heterossexual

Nenhuma

Não

Sim

Não

   

Ensino Superior

         

Debbie

23

Cursando

Heterossexual

Feminino

Não

Não

Não

   

Ensino Superior

         

Melanie

19

Incompleto

Bissexual

Bissexual

Não

Não

Sim

   

Ensino Superior

         

Jennifer

21

Incompleto

Heterossexual

Nenhuma

Não

Não

Sim

Daphne

27

Ensino Superior

Feminino

Nenhuma

Não

Não

Sim

Incompleto

[Heterossexual]

Fonte: Pesquisa de campo, 2009.

Tecendo considerações a respeito da tabela, além de termos o perfil de cada informante, percebemos, a partir das respostas, como eles encaram e se posicionam dentro do contexto ao qual estão inseridos. Falar sobre orientação sexual, identidade de gênero e identidade sexual, num primeiro momento, talvez sejam questões complicadas, pois parecem muito próximas e parecidas, mas numa análise mais aprofundada veremos que se constituem enquanto importantes categorias de análise, dizendo respeito a um discurso identificatório; é como alguém se posiciona em meio à sociedade; é a maneira como eu quero que as pessoas me reconheçam. De maneira simples, falar de orientação sexual é considerar a homossexualidade (atração física e emocional por indivíduos do “mesmo sexo”); a heterossexualidade (atração física e emocional por indivíduos do “sexo oposto”); e a bissexualidade (atração física e emocional tanto por indivíduos do “mesmo sexo” quanto pelo “sexo oposto”), nesse sentido, responder que determinada orientação sexual é masculina ou feminina, tal como alguns informantes responderam, não cabe, pois falar de masculino e feminino é referir-se ao gênero e, este é muito mais do que falar de características sexuais, isso

52

remite a los diferentes contenidos socioculturales que se dan a esas

características biofisiológicas entre hombres y mujeres estableciendo comportamientos, actítudes y sentimientos masculinos y femininos y jerarquizándolos de modo que se da mayor valor para los que se identífican com lo masculino (SÁNCHEZ; GALÁN (Org.), 2006, 146).

) (

Do mesmo modo, quando falamos em identidade de gênero (masculino e feminino) e identidade sexual (travesti, transexual, gay, lésbica, bissexual, etc.), acontecem algumas confusões, alguns autores preferem trabalhar somente com uma categoria, outros não gostam de trabalhar com o termo identidade, por entenderem que este delimita o sujeito e engaveta-o numa determinada classificação, preferindo trabalhar com o termo performance 53 , entendido como algo transitável e maleável. O que podemos dizer é que tais categorias dizem muito dos discursos de afirmação que cada um dos informantes traz consigo: a maneira como eles se identificam, se sentem, se apresentam para si e para os demais, as práticas, os desejos, os pensamentos, tudo isso visualizado através de um contexto sócio-cultural. No que concerne a essa questão, é importante mencionarmos um trecho da entrevista de Michael 54 (23 anos, sexo masculino, orientação sexual masculino, a identidade de gênero / sexual depende do contexto e das pessoas, ensino superior incompleto):

Pesquisador - Você se atribui alguma identidade de gênero?

Michael Eu não gosto, muito, de falar dessa questão de atribuir identidade a isso, porque a gente é uma coisa tão volúvel, né?! A gente sempre tá um pouco aqui um

em determinados locais eu posso dizer que eu sou hétero, em

outros eu posso dizer que eu sou gay, outros eu sou bi, tudo depende, muito, da ocasião

e das pessoas com quem eu tiver perto.

pouco acolá

não sei

Falar de conjugalidade homossexual, a princípio, é dizer que estamos tratando de casais homossexuais masculinos e femininos e que, não necessariamente precisam estabelecer vínculos coabitacionais, dessa forma, apesar de não termos 100% de informantes gays e lésbicas, fez-se necessário questioná-los sobre possíveis situações de conjugalidade que já viveram ou que vivem. O que nos chama atenção aqui são as

53 BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro:

Civilização Brasileira, 2004. 54 Entrevista concedida no dia 06 de junho de 2009, no município de Belém Pará.

53

entrevistas de Melanie e Lindsay, ambas namoram, mas não acreditam que o namoro possa ser uma forma de estabelecer conjugalidade: 55

Pesquisador Atualmente, você vive alguma situação de conjugalidade? Já

viveu?

Melanie Não. Atualmente, eu tenho um namorado menino [risos]. Eu to no “bunitinho”. (Melanie, 19 anos, sexo feminino, orientação sexual bissexual, identidade de gênero / sexual bissexual, ensino superior incompleto). 56 Lindsay Na verdade, eu sou solteira convicta, mas namoro, namoro sério, há

1 ano e 9 meses, é uma

um ano e alguns meses, ele sabe, eu não sei quantos anos?

relação estável né?!, mantida fielmente, e tal, mas que eu mantenho, assim, não por

tipo de

coisa

namorando [risos]. (Lindsay, 21 anos, sexo feminino, orientação sexual heterossexual, não se atribui identidade de gênero / sexual, ensino superior cursando). 57

pressão

esse

tipo de coisa

é

porque eu gosto mesmo, mas casar

esse

nunca

fui casada, não sou viúva, não sou nada, só sou solteira, mesmo,

Quando perguntamos aos informantes sobre a possibilidade de já terem tido relacionamentos homoeróticos, procuramos identificar quais deles já tiveram algum contato homocorporal (beijos, carícias), o termo relacionamento homoerótico não está ligado, única e exclusivamente, à denotação sexual, mas também à afetiva. Vale mencionar as respostas de dois informantes sobre essa questão:

Pesquisador - Você já teve relacionamentos homoeróticos?

Michael O que seria um relacionamento homoerótico? Pesquisador O que tu acha que é um relacionamento homoerótico?

Michael Porque assim

Se a gente levar em consideração o relacionamento

homoerótico como sendo aquele onde tu manténs relações sexuais com as pessoas do

mesmo sexo, eu posso dizer que eu ainda não tive não! Agora se tu levas em

a palavra

consideração o homoerotismo como sendo qualquer outro tipo de

certa seria, assim, não de sentimento, mas, por exemplo, algo mais não tão sexual, eu

de

55 A partir destas respostas, pode-se perceber que algumas informantes femininas levam ao extremo o termo conjugalidade, referindo-o apenas ao contrato firmado, tal qual num casamento, onde os pares se comprometem a morar juntos.

56 Entrevista concedida no dia 20 de agosto de 2009, no município de Belém Pará.

57 Entrevista concedida no dia 05 de setembro de 2009, no município de Belém Pará.

54

posso dizer que sim, então vai depender, muito, do que seria esse homoerótico, se tá relacionado com a questão de tu manter relação sexual, então eu nunca tive, mas se tu me perguntar, se tu já beijastes alguém do mesmo sexo, eu vou te dizer que já! Tu já

tocaste, já! Mas nunca passou disso. (Michael, 23 anos, sexo masculino, orientação sexual masculino [heterossexual], a identidade de gênero / sexual depende do contexto e das pessoas, ensino superior incompleto). 58 Lindsay Olha, se beijar amiga conta? [risos] Já beijei uma amiga, mas foi

assim

a gente tinha bebido e tava na sacanagem, eu com um cara e ela com outro, e

acabou rolando um beijo, mas só isso! Agora relação sexual, mesmo, nunca rolou. (Lindsay, 21 anos, sexo feminino, orientação sexual heterossexual, não se atribui identidade de gênero / sexual, ensino superior cursando). 59

Ao longo das entrevistas, a maioria dos informantes respondeu que não costuma freqüentar o circuito GLS de Belém, vale ressaltar que tal circuito não se resume somente a boates, assim como está relacionado a mostras de filmes, saunas, bares, paradas da diversidade sexual.

muito raro a gente ir pra boate gay, tem certos

que não tem como ficar

De assistir

programas. (Justin, 18 anos, sexo masculino, orientação sexual homossexual,

identidade de gênero / sexual gay, ensino médio completo). 60

agora eu

tenho

sou. Quando tem alguma coisa ou outra de cultura, que não seja só uma boate. Por exemplo, tava tendo, acho que foi ano retrasado que teve um mostra de filmes, só filmes GLS, eu adorei aquilo! Aí eu vou lá, porque eu adoro ver, sabe? Tudo que envolve tema

Não é só de balada, de tudo isso que envolve né?! O meio, aí eu não

Às vezes a gente vai pra

lugares, que eu acho sei lá

deploráveis, muito ruins

assim

lá, mas a gente gosta de filmes que tem essa temática de

e a gente vai [

]

Eu não sou muito de balada

outros

já fui, sabe?! Mas eu não curto mais

perto do teatro, aí eu vou que eu quero ver. Agora envolvido no mundo de balada, não! (Brian, 28 anos, sexo masculino, orientação sexual homossexual, identidade de gênero / sexual gay, ensino superior completo). 61

58 Entrevista concedida no dia 06 de junho de 2009, no município de Belém Pará.

59 Entrevista concedida no dia 05 de setembro de 2009, no município de Belém Pará.

60 Entrevista concedida no dia 20 de junho de 2009, no município de Belém Pará.

61 Entrevista concedida no dia 20 de junho de 2009, no município de Belém Pará.

55

Dessa forma, entendemos que a maioria das respostas “não” se deu ao fato de termos utilizado a palavra freqüentar, denotando freqüência aos informantes, o que, de fato, não caberia, pois alguns deles não freqüentam, mas já tiveram contato.

Não, eu não freqüento, mas eu já fui. Eu fui num bar uma vez só, há muito tempo atrás, mas esse negócio de freqüentar, ir toda vez, não. Eu fui uma vez só. (Michael, 23 anos, sexo masculino, orientação sexual masculino [heterossexual], a identidade de gênero / sexual depende do contexto e das pessoas, ensino superior incompleto). 62 Não, não freqüento. Já freqüentei uma vez, uma boate, um restaurante, pra fazer

entrevistas informais e

encontros acadêmicos. (Debbie, 23 anos, sexo feminino, orientação sexual heterossexual, identidade de gênero feminina, ensino superior cursando). 63

deixa eu ver o que mais

Ah! E encontros de academia,

Neste momento, voltaremos nossas análises para as questões específicas do seriado, dizendo respeito a quantidade de informações que os informantes possuem sobre o produto televisivo em questão, por exemplo: Onde ficou sabendo da existência? Por quê resolveu assistir? O que entende pelo termo Queer as Folk? O que mais lhe chamou atenção? Vale ressaltar, que as questões 8 e 9 64 foram feitas especificamente aos LGBT‟s, porque precisávamos colher informação de pessoas que levam a vida fora de padrões heteronormativos, afinal de contas, estamos trabalhando com a representação de personagens gays e lésbicas num seriado e, nada melhor do que a opinião de um desses indivíduos, para nos possibilitar uma visão mais específica da questão. A maioria dos sujeitos desta pesquisa ficaram sabendo da existência do seriado QAF através de um(a) amigo(a), sendo que diversos foram os fatores que os levaram a assisti-lo (pela temática LGBT, por ter relação com a própria história de vida, por curiosidade, etc.):

eu

tava me apaixonando, pela primeira vez, por um rapaz, aí a história é em torno disso:

do garoto de 17 anos que se apaixonava por um cara mais velho e eu tava com 16 e

Porque quando eu fiquei conversando com esse amigo, eu tava passando

62 Entrevista concedida no dia 06 de junho de 2009, no município de Belém Pará.

63 Entrevista concedida no dia 25 de agosto de 2009, no município de Belém Pará. 64 Questão 8: Somente para LGBT‟s. Você acha que o seriado retrata a realidade LGBT brasileira? Questão 9: Somente para LGBT‟s. Você consegue se visualizar ou visualizar algum de seus amigos em algum dos personagens principais da 1ª temporada do seriado? Se sim, de que maneira?

56

tava me apaixonando por um cara mais velho, aí por isso

rolando uma identificação,

eu quis ver o seriado (Justin, 18 anos, sexo masculino, orientação sexual homossexual, identidade de gênero / sexual gay, ensino médio completo). 65

é uma visão deles como se fosse

por eles e, não por uma coisa estereotipada, assim, tipo um homem hétero falando de um homem gay, não! Ficou parecendo uma coisa mais gay falando de gay 66 , ficou uma coisa muito mais livre do que aquela coisa estereotipada: gay é bagunceiro, só quer saber de sacanagem, no seriado eles querem mesmo, só saber de sacanagem, mas eles têm alguma coisa na cabeça, também. Eles têm os seus pensamentos, as suas viagens, e tal, e eu achei isso interessante, aí eu fui assistir (Lindsay, 21 anos, sexo feminino, orientação sexual heterossexual, não se atribui identidade de gênero, ensino superior cursando). 67

Porque, na verdade, eu acho interessante essa

Com relação à significação do termo Queer as Folk 68 , apenas quatro informantes tinham uma noção do que seria (“gente estranha”; “pessoas diferentes”; “pessoas estranhas”), os demais não sabiam ou não lembravam. Dentre os aspectos destacados, foram diversas as situações que chamaram a atenção dos informantes, sendo que a maioria deles destacou a relação de amizade entre mães e filhos, cabe destacar aqui, o que o informante abaixo destacou, entendendo como uma possível relação do seriado com a nossa realidade:

O cotidiano homossexual, apesar de ser um país diferente do nosso, culturalmente, e na questão, também, econômica que influencia, bastante, nos hábitos e costumes. Eu destacaria esse cotidiano, que apesar dessas distinções, eles são muito

gay vai ser gay independente do lugar onde esteja, apesar

de não haver um consenso entre códigos sociais entre os gays, mas há uma certa

próximos, pra mim

assim

65 Entrevista concedida no dia 20 de junho de 2009, no município de Belém Pará.

66 Numa das entrevistas de um dos produtores e escritores do seriado, Ron Cowen, elucidada no trabalho de Zanforlin (2005, p. 61), ele diz o seguinte: Primeiro, nós fazemos [o seriado] para nos divertir, nós podemos ter bons momentos e dizer o que realmente queremos dizer. Segundo, nós o fazemos para nossos amigos gays e para uma audiência gay, nós nunca pensamos e não digo isso para insultar em héteros quando escrevemos o seriado. Nós não pensamos, “Oh, será que vamos ofendê-los?”

67 Entrevista concedida no dia 05 de setembro de 2009, no município de Belém Pará.

68 Na versão para o Brasil, o seriado teve como título Os Assumidos, mas se formos ao pé da letra ou, então, numa análise científica, o termo anterior foge aquilo que, de fato, deveria significar. Na linguagem coloquial americana, o termo queer significa efeminado; bicha; viado, mas, quando num movimento de resignificação feito por Louro (2004, p. 7) ele se torna estranho, raro, esquisito. O título ainda é composto pela preposição as que significa como e, pela palavra Folk que significa pessoa(s). Nesse sentido, Queer as Folk tem como significação: Estranho como as pessoas; Pessoas “estranhas”.

57

similitude acerca dos comportamentos, eu acho que isso foi interessante na série (Emmett, 25 anos, sexo masculino, orientação sexual masculino [homossexual], identidade de gênero / sexual gay, ensino superior incompleto). 69

Um dos aspectos importantes a se destacar, foi a adjetivação as cenas vistas:

fortes, extravagantes, bonitas, porém a maioria deles destacaram que houve muita exacerbação do sexo, mas apesar de identificarem que houveram muitas cenas de sexo, elas foram verossímeis parecidas com a realidade e, por falar em realidade, todos eles, de alguma forma, conseguiram relacionar o seriado com a realidade brasileira e / ou paraense:

São realidades um pouco diferentes, mas com relação ao preconceito, é bem parecida (Melanie, 19 anos, sexo feminino, orientação sexual bissexual, identidade de gênero / sexual bissexual, ensino superior incompleto). 70 A questão dos hábitos (do sair, da noite, das festas, das boates, da paquera, dos comportamentos, dos grupos de homossexuais (Emmett, 25 anos, sexo masculino, orientação sexual masculino [homossexual], identidade de gênero / sexual gay, ensino superior incompleto). 71 Alguns pontos, poucos pontos. Se esconder no trabalho, não dizer que é gay. A questão do mais afeminado ser visto com mais preconceito; a questão dos guetos (Daphne, 27 anos, sexo feminino, orientação sexual feminino [heterossexual], não se atribui identidade de gênero, ensino superior incompleto). 72 A homofobia, o grupo, as amizades, o assumir-se pra família (Ted, 20 anos, sexo masculino, orientação sexual homossexual, identidade de gênero / sexual gay, ensino superior cursando). 73

Quando perguntamos, aos informantes, o que eles entendiam pelo termo conjugalidade homossexual ou homoconjugalidade, todos, sem exceção, têm a idéia de ser algo ligado ao casal, tal como numa relação vivida a dois, na mesma casa; uma relação de companheirismo. Apenas uma informante enfatizou que: “A relação

69 Entrevista concedida no dia 15 de junho de 2009, no município de Belém Pará.

70 Entrevista concedida no dia 20 de agosto de 2009, no município de Belém Pará.

71 Entrevista concedida no dia 15 de junho de 2009, no município de Belém Pará.

72 Entrevista concedida no dia 10 de junho de 2009, no município de Belém Pará.

73 Entrevista concedida no dia 01 de setembro de 2009, no município de Belém Pará.

58

homossexual feminina é mais consistente que à dos gays, que é mais passageira(Lindsay, 21 anos, sexo feminino, orientação sexual heterossexual, não se atribui identidade de gênero, ensino superior cursando). 74 Na fala da informante acima, podemos, de fato, relacionar com tudo aquilo que foi dito anteriormente. Vale ressaltar, que não podemos generalizar e dizer que todas as relações homoconjugais femininas são, sempre, mais consistentes que às masculinas, o que existem são diferenças de classe, de cultura, de educação. Algumas respostas nos levam a crer que quando falamos no tema em questão, estamos trabalhando com posições preconceituosas, nas quais alijam os casais homossexuais de um processo de reconhecimento social, deixando-os a margem, pois aquilo que é intrigante aos informantes, quando se fala em homoconjugalidade, é a maneira como a sociedade trata tais casais: “Na forma de falar, no jeito de se expressar(Ted, 20 anos, sexo masculino, orientação sexual homossexual, identidade de gênero / sexual gay, ensino superior cursando); 75 Pelo espanto que as outras pessoas têm ao tema” (Daphne, 27 anos, sexo feminino, orientação sexual feminino [heterossexual], não se atribui identidade de gênero / sexual, ensino superior incompleto); 76 Pela falta de igualdade entre homos e héteros” (Justin, 18 anos, sexo masculino, orientação sexual homossexual, identidade de gênero / sexual gay, ensino médio completo); 77 Pela maioria das pessoas acreditarem que os gays não são fiéis(Brian, 28 anos, sexo masculino, orientação sexual homossexual, identidade de gênero / sexual gay, ensino superior completo). 78 Com relação a nossa realidade, foi bastante enfático perceber que todos os / as informantes identificaram que existem diferenças entre as relações homoconjugais masculinas e femininas, todos ressaltaram que, no caso masculino está ligado ao sexo e no feminino ao sentimento. Vale notar que, não pensamos dessa forma, e sim que existem diferenças e, “essa diferença está na questão do gênero, na criação histórica de homens e mulheres” (Emmett, 25 anos, sexo masculino, orientação sexual masculina [homossexual], identidade de gênero / sexual gay, ensino superior incompleto). 79 Quando perguntados se haveria alguma distinção entre os casais de gays e de lésbicas expostos no seriado com aqueles percebidos no nosso cotidiano, percebemos,

74 Entrevista concedida no dia 05 de setembro de 2009, no município de Belém Pará.

75 Entrevista concedida no dia 01 de setembro de 2009, no município de Belém Pará.

76 Entrevista concedida no dia 10 de junho de 2009, no município de Belém Pará.

77 Entrevista concedida no dia 20 de junho de 2009, no município de Belém Pará.

78 Entrevista concedida no dia 20 de junho de 2009, no município de Belém Pará.

79 Entrevista concedida no dia 15 de junho de 2009, no município de Belém Pará.

59

apesar de se tratar de países diferentes (Estados Unidos e Brasil), com culturas diferentes, realidades sócio-econômicas distintas, ocorrem “diferenças no padrão de vida e nos costumes sim, mas não na relação” (Emmett, 25 anos, sexo masculino, orientação sexual masculina [homossexual], identidade de gênero / sexual gay, ensino superior incompleto); 80 A diferença não é bem da relação, e sim, do meio” (Daphne, 27 anos, sexo feminino, orientação sexual feminino [heterossexual], não se atribui identidade de gênero / sexual, ensino superior incompleto); 81 Procurando, ainda, fazer associação com as práticas, tanto sexuais quanto sociais, representadas pelos personagens, com àquelas do cotidiano dos informantes, em diversos aspectos a maioria deles conseguiu estabelecer certa co-relação: “Pode ser na questão sexual, mas nem tudo gira em torno disso” (Michael, 23 anos, sexo masculino, orientação sexual masculino [heterossexual], a identidade de gênero / sexual depende do contexto e das pessoas, ensino superior incompleto); 82 Podemos associar ao cotidiano do mundo gay (flertar, imaginário noturno, o sair, conflitos existentes)” (Emmett, 25 anos, sexo masculino, orientação sexual masculina [homossexual], identidade de gênero / sexual gay, ensino superior incompleto). 83 Com relação à última parte do questionário, aquela que diz respeito a como os informantes se colocam, se posicionam, no que concerne a questão da conjugalidade homossexual. Na realidade atual, perceber se os homossexuais masculinos e femininos querem estabelecer relações é fundamental para esta pesquisa, pois denota compreensão do contexto local ao qual estamos inseridos, dessa forma, destacamos algumas respostas: “Não conheço, muito, sobre isso. Entre as pessoas que tenho contato, poucos são os que mantem” (Michael, 23 anos, sexo masculino, orientação sexual masculino [heterossexual], a identidade de gênero / sexual depende do contexto e das pessoas, ensino superior incompleto); 84 Acho que sim. As mulheres dão o primeiro passo para uma relação estável” (Lindsay, 21 anos, sexo feminino, orientação sexual heterossexual, não se atribui identidade de gênero / sexual, ensino superior cursando); 85 Isso é relativo, dependendo da classe social, nem todo mundo quer ter relacionamento” (Debbie, 23 anos, sexo feminino, orientação sexual heterossexual,

80 Idem.

81 Entrevista concedida no dia 10 de junho de 2009, no município de Belém Pará.

82 Entrevista concedida no dia 06 de junho de 2009, no município de Belém Pará.

83 Entrevista concedida no dia 15 de junho de 2009, no município de Belém Pará.

84 Entrevista concedida no dia 06 de junho de 2009, no município de Belém Pará.

85 Entrevista concedida no dia 05 de setembro de 2009, no município de Belém Pará.

60

identidade de gênero / sexual feminino, ensino superior cursando); 86 Acho que sim, gay é muito carente, eles ficam sempre buscando uma pessoa certa” (Brian, 28 anos, sexo masculino, orientação sexual homossexual, identidade de gênero / sexual gay, ensino superior completo). 87 Todos concordaram que a temática LGBT foi trabalhada, pelo seriado, de maneira interessante, eles (os produtores) “souberam escrever de forma sucinta e que não ficasse de mau gosto” (Jennifer, 21 anos, sexo feminino, orientação sexual heterossexual, não se atribui identidade de gênero / sexual, ensino superior incompleto); 88 é um produto que “mostra a realidade dos jovens” (Ted, 20 anos, sexo masculino, orientação sexual homossexual, identidade de gênero / sexual gay, ensino superior cursando); 89 A linguagem é bem interessante, não é clichê” (Melanie, 19 anos, sexo feminino, orientação sexual bissexual, identidade de gênero / sexual bissexual, ensino superior incompleto); 90 Não ficou segmentado, mostrou tudo, as pessoas são diferentes” (Brian, 28 anos, sexo masculino, orientação sexual homossexual, identidade de gênero / sexual gay, ensino superior completo); 91 Nesse sentido, trabalhar essa temática, em seriados, mas não somente nestes, é fundamental, pois “são questões que precisam ser repassadas à sociedade” (Debbie, 23 anos, sexo feminino, orientação sexual heterossexual, identidade de gênero / sexual feminina, ensino superior cursando) 92 , além disso, “deveria ter mais espaço pra trabalhar a conjugalidade homossexual na televisão e no cinema” (Justin, 18 anos, sexo masculino, orientação sexual homossexual, identidade de gênero / sexual gay, ensino médio completo) 93 , essa e outras questões devem ser repassadas para quebrar preconceitos, é importante trabalhar as relações homossexuais como se trabalha outros tipos de relações, pra não ficar no estereótipo (homossexual-pegador)(Daphne, 27 anos, sexo feminino, orientação sexual feminina [heterossexual], não se atribui identidade de gênero / sexual). 94 Enquanto última questão, sobre a aceitação e a não aceitação das relações homoconjugais, finalizando as análises com pensamentos diversos, alguns acreditam

86 Entrevista concedida no dia 25 de agosto de 2009, no município de Belém Pará.

87 Entrevista concedida no dia 20 de junho de 2009, no município de Belém Pará.

88 Entrevista concedida no dia 15 de agosto de 2009, no município de Belém Pará.

89 Entrevista concedida no dia 01 de setembro de 2009, no município de Belém Pará.

90 Entrevista concedida no dia 20 de agosto de 2009, no município de Belém Pará.

91 Entrevista concedida no dia 20 de junho de 2009, no município de Belém Pará.

92 Entrevista concedida no dia 25 de agosto de 2009, no município de Belém Pará.

93 Entrevista concedida no dia 20 de junho de 2009, no município de Belém Pará.

94 Entrevista concedida no dia 10 de junho de 2009, no município de Belém Pará.

61

que ainda há preconceito, mas com o passar dos tempos isso vai diminuindo: “Ainda há um preconceito com relação a isso, mas tá sendo quebrado, com o tempo vai ser algo corriqueiro” (Ted, 20 anos, sexo masculino, orientação sexual homossexual, identidade de gênero / sexual gay, ensino superior cursando); 95 Ainda existe muito preconceito. Mas tá melhorando, as pessoas estão aceitando mais” (Jennifer, 21 anos, sexo feminino, orientação sexual heterossexual, não se atribui identidade de gênero / sexual, ensino superior incompleto); 96 Aqui, ainda há aquele preconceito meio velado, as pessoas ainda olham com uma cara meio „torta‟, não gostam de ficar perto, isso tá mudando. Os jovens, já não têm, mais, tanto preconceito quanto os mais velhos, mas ainda rola sim, preconceito às escondidas por aqui” (Lindsay, 21 anos, sexo feminino, orientação sexual heterossexual, não se atribui identidade de gênero / sexual, ensino superior cursando). 97 Outro aspecto ressaltado pelos informantes é com relação ao respeito: “Ninguém é obrigado a aceitar, somos obrigados a respeitar. É uma questão de respeito!(Emmett, 25 anos, sexo masculino, orientação sexual masculina [homossexual], identidade de gênero / sexual gay, ensino superior incompleto); 98 Tudo que é minoria,

é difícil. Você tem que se respeitar, e tem muito gay que não faz isso, para depois exigir

o respeito dos outros” (Brian, 28 anos, sexo masculino, orientação sexual homossexual, identidade de gênero / sexual gay, ensino superior completo). 99 A questão da criação também influencia: “Vivemos numa sociedade livre, cada um pensa da forma que acha mais conveniente e, essa questão vai de cada pessoa, e principalmente por conta da criação de cada pessoa” (Justin, 18 anos, sexo masculino, orientação sexual homossexual, identidade de gênero / sexual gay, ensino médio completo). 100 Pra que nós consigamos chegar a uma possível aceitação, “precisamos do apoio da mídia, de mais debate, de mais conversa” (Melanie, 19 anos, sexo feminino, orientação sexual bissexual, identidade de gênero / sexual bissexual, ensino superior incompleto). 101

95 Entrevista concedida no dia 01 de setembro de 2009, no município de Belém Pará.

96 Entrevista concedida no dia 15 de agosto de 2009, no município de Belém Pará.

97 Entrevista concedida no dia 05 de setembro de 2009, no município de Belém Pará.

98 Entrevista concedida no dia 15 de junho de 2009, no município de Belém Pará.

99 Entrevista concedida no dia 20 de junho de 2009, no município de Belém Pará.

100 Idem.

101 Entrevista concedida no dia 20 de agosto de 2009, no município de Belém Pará.

62

A fala acima é, sem dúvida, enfática, nos fazendo refletir a cerca de todo o contexto colocado anteriormente, percebendo que, apesar de estarmos lidando com um produto midiático não produzido no Brasil, preservando especificidades regionais, mas ainda assim, atinge nossa realidade e nos coloca a pensar sobre sua importância para o debate ao qual nos propomos. Acostumamo-nos, a assistir TV sem nos preocuparmos com posturas críticas e, isso equivale àquilo que foi colocado ao longo deste capítulo; assistimos somente por prazer? A mídia constrói produtos a partir do que visualiza em determinada cultura e, isso pode, ou não, se assemelhar com outras culturas, de alguma forma. Apesar de trabalharmos com um seriado, onde muitos informantes, no momento das entrevistas, não conseguiam nem pronunciar o nome Queer as Folk, o que, de fato, não é o ponto mais importante, queremos dizer é que não precisamos ir muito longe para encontrar um contexto semelhante ao nosso, tanto que em alguns momentos das entrevistas, alguns informantes foram enfáticos em dizer que as cenas tinham sido muito verossímeis e se aproximavam da nossa realidade. Portanto, volto a reafirmar que, para avançarmos no debate, é preciso discutirmos, debatermos, repassarmos as informações, termos posturas críticas e não aceitarmos que as condutas heterossexistas sejam as corretas, pois elas impõem padrões heteronormativos de comportamento e excluem os indivíduos que destoam deste.

63

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Chegamos ao fim de mais uma etapa e, esperamos que todas as colocações feitas, anteriormente, sirvam de questionamento para futuras análises. Enquanto objetivo geral, eu acredito que ele foi alcançado, pois procuramos entender e compreender como se constroem as relações homoconjugais representadas no seriado Queer as Folk e, ainda, relacionar tais questões com o contexto local, a partir da percepção e da fala de cada informante na pesquisa de campo. Gostaria de reafirmar que, falar de conjugalidade homossexual em QAF, isso se constitui como, apenas, um dos aspectos abordados por este produto midiático, tendo em vista a existência de diversos temas dentro de um mesmo seriado, como: a adoção por pares homossexuais; o “coming out”; a AIDS; fidelidade e infidelidade entre casais homo-masculinos e homo-femininos. Algo interessante a notar foi às questões pontuadas, do início ao fim, desta monografia, concernentes ao significado da cultura e da mídia para a sociedade, ou seja, a partir do contexto ao qual estamos inseridos; das identidades de gênero e / ou sexuais que adotamos, percebemos que a cultura, tendo como um dos aparatos a mídia, constrói hábitos e costumes; influencia na maneira de pensarmos, de nos comportarmos, de nos posicionarmos, etc. A mídia, enquanto ponto analítico deste trabalho pode funcionar como um espelho da cultura, reafirmando, ou não, questões já pontuadas no nosso cotidiano, mas que, às vezes, precisam ser visualizadas para um melhor entendimento. A mídia tem o potencial de chegar aos espaços mais longínquos possíveis, atingindo desde as classes mais baixas até as mais altas, um bom exemplo disso é a televisão e, nos dias atuais, a internet. No caso do seriado em questão, um produto midiático que foi transmitido para o Brasil somente em canal pago, mas com o avanço da tecnologia e da informação hoje pode ser visto pela internet, atingindo tanto o público heterossexual quanto o homossexual. A proposta deste trabalho foi bastante significativa, pois se preocupou, desde o início, a atingir todo e qualquer tipo de leitor, não somente pela linguagem, mas também por outros fatores metodológicos. Fez-se necessário, então, ancorando-se numa metodologia utilizada pela estudiosa de mídia Heloísa Buarque de Almeida que criássemos um compêndio de fichas descritivas, todas afixadas no anexo deste trabalho, com as principais informações de cada episódio. Dessa forma, entendemos que, para os

64

leitores leigos sobre o seriado, isso facilitaria a compreensão das análises, encaminhadas nesta pesquisa, no momento da leitura de cada episódio e, para aqueles que já assistiram o seriado, tais questões acima se tornam de fácil acesso e compreensão. Além disso, cada capítulo foi pensado e trabalhado de acordo com as necessidades do tema e, de maneira específica. É significativo ressaltar que, quando falamos em conjugalidade homossexual, não estamos lidando, necessariamente, com casais homo-masculinos e homo-femininos que possuem um contrato firmado (casamento), estamos de acordo com aquilo que Heilborn (2004, p.11-12) coloca sobre conjugalidade, sendo aquela que não emerge, única e exclusivamente, de um fato jurídico, expressando uma relação que condensa um “estilo de vida”, embasado em uma dependência mútua e em uma dada modalidade de arranjo cotidiano. O leitor deve ter em mente e, eu corroboro com o pensamento a seguir de que a cultura molda os nossos comportamentos, hábitos, costumes e, o que ficou claro neste trabalho é que existem diferenças no estabelecimento de relações homoconjugais, tanto para gays quanto para lésbicas. Tal como foi mostrado no decorrer, essa questão está intimamente ligada com a maneira que somos e que fomos educados, mais especificamente, aos processos de socialização. Apesar das diferenças culturais, econômicas, sociais entre Estados Unidos e Brasil, no que diz respeito à representação dos personagens gays e lésbicos é bastante parecido com o Brasil. Não cabe, agora, entrarmos em detalhes, temos de perceber é que, não podemos e nem devemos excluir a economia dos sentimentos dos pares masculinos de uma possível conjugalidade. Gays e lésbicas, seja na ficção ou na realidade, exercem estilísticas de conjugalidade diferenciada e, como várias vezes foi mostrado, um dos fatores, se não o maior, que propiciam essa diferença, é a cultura. Por fim, espero que minhas indagações tenham contribuído de alguma forma, para o conhecimento e esclarecimento das questões que foram colocadas. Espero, ainda, ter alcançado aquela parcela da sociedade que não consegue acreditar que exista a união entre iguais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Antropologia na Amazônia (1994 2004): Balanço e resumos de dissertações. Organizado por Jane Felipe Beltrão. Belém: Universidade Federal do Pará, Museu Paraense Emílio Goeldi, 2006;

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003;

BORGES, Lenise Santana. “Lesbianidade na TV: visibilidade e ‘apagamento’ em telenovelas brasileiras. In: GROSSI, Mirian Pillar; UZIEL, Ana Paula; MELLO, Luiz (Orgs.) Conjugalidades, parentalidades e identidades lésbicas, gays e travestis, Rio de Janeiro: Garamond, 2007, p. 363-379;

CLIFFORD, James. A experiência etnográfica: antropologia e literatura no século XX. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1998, p. 17-59;

COLLING, Leandro. “Homoerotismo nas telenovelas da rede globo e a cultura”. In:

III

Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, Salvador, BA, 23 a 25 de maio

de

2007;

Formação de Professores (as) em Gênero, Sexualidade, Orientação Sexual e Relações Étnico-Raciais. Curso Gênero e Diversidade na Escola, 2009, p. 7);

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: A vontade de saber. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro:

Graal, 1988;

FRY, Peter & MACRAE, Edward. O que é homossexualidade. 7ª Ed., São Paulo:

Brasiliense, 1991;

GOFFMAN, Erving. Estigma: Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4ª Ed, Rio de Janeiro: Guanabara Koogan S.A, 2008, p. 137-158;

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro, 11 ed., Rio de Janeiro: DP & A, 2006;

HEILBORN, Maria Luiza. Dois é par: Gênero e identidade sexual em contexto igualitário. Rio de Janeiro: Garamond, 2004;

LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2004;

MARQUES, Ângela Cristina S. “Da Esfera Cultural à Esfera Política: a representação da homossexualidade nas telenovelas e a busca por reconhecimento”. In: XXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Salvador, BA, 1 a 5 de setembro de 2002;

MATTA, Roberto da. A casa & a rua. 5 Ed, Rio de Janeiro: Rocco, 1997, p. 11-63;

NUCCI, Marina Fisher; MELO, Ana Paula Lopes de; CARVALHO, Marcos Castro. Conjugalidades homossexuais nos seriados televisivos Queer as Folk e The L. World: onde gênero e sexualidade se cruzam”. In: Fazendo Gênero 8 – Corpo, Violência e Poder, Florianópolis, de 25 a 28 de agosto de 2008;

NUNAN, Adriana. “Influência do preconceito internalizado na conjugalidade homossexual masculina. In: GROSSI, Mirian Pillar; UZIEL, Ana Paula; MELLO, Luiz (Orgs.) Conjugalidades, parentalidades e identidades lésbicas, gays e travestis, Rio de Janeiro: Garamond, 2007, p. 47-64;

OLIVEIRA, Roberto Cardoso de. O trabalho do antropólogo. São Paulo: Editora UNESP, 1998, p. 17-35;

PAIVA, Antonio Cristian S. Reservados e invisíveis: o ethos íntimo das parcerias homoeróticas. Campinas: Pontes; Fortaleza, PPG em Sociologia da UFC;

SÁNCHEZ, Ángel Moreno; GALÁN, José Ignacio. “Homonormatividad y existência sexual. Amistades peligrosas entre gênero y sexualidad. In: Revista de Antropologia Iberoamericana, Ed. Electrónica, Volumen 1, Número 1, Enero Febrero, 2006, p. 143-

156;

SIMMEL, Georg. Questões fundamentais da sociologia: indivíduo e sociedade. Tradução Pedro Caldas, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006, p. 59-82;

VANCE, Carole S. “A antropologia redescobre a sexualidade: um comentário teórico. In: Revista de Saúde Coletiva, Vol. 5, Número 1, 1995, p. 7-31;

ZANFORLIN, Sofia. Rupturas possíveis: representação e cotidiano na Série Os Assumidos (Queer as Folk). São Paulo: Annablume, 2005;

Sites pesquisados

<http://pt.wikipedia.org/wiki/Queer_as_Folk>, acesso em 19 de março de 2009;

79C8B63>, acesso em 18 de março de 2009;

html>, acesso em 18 de março de 2009;

<http://pt.wikipedia.org/wiki/Pittsburgh> acesso em 18 de março de 2009.

APÊNDICE I QUESTIONÁRIO DE PERGUNTAS

TEMA: CONJUGALIDADES HOMOSSEXUAIS NA MÍDIA TELEVISIVA: O DISCURSO MIDIÁTICO PAUTANDO AS RELAÇÕES HOMOCONJUGAIS EXPOSTAS NO SERIADO QUEER AS FOLK

Idade:

Sexo que foi registrado ao nascer:

Orientação sexual:

Escolaridade:

Identidade de gênero:

1ª- Onde você ficou sabendo da existência deste seriado? 2ª- Por que você resolveu assistir o seriado Queer as Folk? 3ª- O que você entende pelo termo Queer as Folk? 4ª- Quais aspectos, da 1ª temporada do seriado, você destacaria? 5ª- O que mais lhe chamou atenção no seriado? 6ª- Como você considera as cenas expostas no seriado? 7ª- Você consegue fazer relação do seriado com a realidade a sua volta? Se sim, qual / quais? 8ª- Somente para LGBT‟s. Você acha que o seriado retrata a realidade LGBT brasileira? 9ª- Somente para LGBT‟s. Você consegue se visualizar ou visualizar algum de seus amigos em algum dos personagens principais da 1ª temporada do seriado? Se sim, de que maneira? 10ª- Você tem amigos LGBT‟s? Se sim, você consegue relacioná-los com algum perfil dos personagens principais mostrados na 1ª temporada do seriado? 11ª- Quais os pontos positivos e negativos da veiculação de imagens pela mídia televisiva? 12ª- No seriado, diversas vezes se enfatiza a questão dos relacionamentos homoconjugais. Nesse sentido, o que você entende pelo termo “Conjugalidade Homossexual” ou “Homoconjugalidade”? 13ª- Para você, o que é mais intrigante quando se fala em Conjugalidade homossexual?

14ª- Você acha que há diferença (s) entre relações homoconjugais masculinas e relações homoconjugais femininas? Se sim, qual / quais? 15ª- Você acha que há distinção entre as relações homoconjugais expostas no seriado e às que você percebe no seu cotidiano? Por quê? 16ª- Dentre as situações colocadas, com relação às práticas sexuais e sociais representadas no seriado, de que maneira podem ser feitas associações com aquelas vivenciadas em nosso meio ou em nossa trajetória? 17ª- Como você percebe, no seriado, que gays e lésbicas encaram as relações homoconjugais? 18ª- Você considera, na realidade atual, que homossexuais masculinos e homossexuais femininos querem estabelecer relações homoconjugais com os / as parceiros / as? 19ª- Somente para LGBT‟s. Você consegue definir características de uma relação homoconjugal? Ela seria diferente da heterossexual em algum aspecto? 20ª- Você acha interessante a maneira como foi abordada a temática LGBT no seriado? Por quê? 21ª- Você considera importante trabalhar a temática da conjugalidade homossexual em seriados? 22ª- O que você pensa sobre a aceitação ou não aceitação das relações homoconjugais na sociedade brasileira? 23ª- Atualmente, você vive alguma situação de conjugalidade? Já viveu? 24ª- Você já teve relacionamentos homoeróticos? 25ª- Você costuma freqüentar o circuito GLS de Belém?

APÊNDICE II FICHAS DESCRITIVAS

FICHA DESCRITIVA 1

Seriado: Queer as Folk

1º Episódio (não possui título) 1ª Temporada

Sinopse: O seriado inicia mostrando a Boate Babylon, voltada para o público GLS (gays, lésbicas e simpatizantes), no interior da boate diversas pessoas estão se divertindo, na maioria homens, que exibem seus corpos, malhados ou não, habitando juntamente com GO GO Boys, drag queens e lésbicas. O clima é bastante divertido, alguns bebem, fumam, usam alguma droga, transam no dark room. Diante de tais situações o grupo de amigos: Michael, Emmett, Ted e Brian, também se encontram na boate. Uns bebendo, outros beijando. Após a saída desse grupo de amigos da boate babylon, o personagem Brian encontra Justin, que mais tarde irá se juntar ao grupo, e fica interessado por ele, os dois seguem em direção à casa de Brian. Depois de algumas conversas na cama com Justin, Brian descobre que ele é virgem e que tem apenas 17 anos. Nesse momento, no outro lado da cidade de Pittsburgh, Michael (melhor amigo de Brian) volta para casa com o amigo (Emmett) que mora com ele e, se depara com o rapaz que o seguia. Michael convida-o para entrar, os dois começam a se beijar, mas Michael é interrompido por Brian, que liga para sua casa e diz que seu filho acaba de nascer e que está vindo buscá-lo para ir ao hospital. Chegam ao hospital: Michael, Brian e Justin e encontram diversas pessoas numa sala juntamente com Lindsay, Melanie e o recém-nascido (Gus), filho de Brian e Lindsay, por inseminação artificial. Em seguida, aparecem Michael e Brian em uma das sacadas do hospital, Brian está pensando no que aconteceu, na responsabilidade de ter um filho e Michael o conforta. Na volta da conversa, Brian e Michael retornam ao quarto onde está Lindsay e Melanie, Brian fica um tempo sozinho conversando com Lindsay sobre a relação dos dois e sobre o novo filho. Os três (Michael, Brian e Justin) saem do hospital e seguem em direção à casa de Brian, onde Michael deixa Justin e Brian e volta para sua casa no carro de Brian. No dia seguinte, são mostrados Brian e Justin acordando depois de uma noite cheia de acontecimentos, Brian nem se dá conta das coisas que aconteceram na noite anterior, por exemplo, o fato de ter ficado com Justin e ter recebido a notícia de que é pai. Na

cena seguinte, é mostrada a vizinhança homofóbica de Michael, pelo fato de alguns garotos terem pixado, com a palavra “faggo” (bicha; veado) e amassado algumas partes do carro de Brian. Michael vai até a casa de Brian e o encontra ficando com Justin e, é perceptível que Michael está com ciúme da relação dos dois, os três saem em direção as rotinas diárias: Brian trabalha como publicitário em uma empresa, Michael é supervisor na loja de departamentos Big Q e Justin é estudante do colegial. O episódio finaliza mostrando Brian e Michael indo para o trabalho no carro pixado e as pessoas em Pittsburgh comentando sobre a pixação feita no carro.

Principais aspectos do episódio:

- Vida noturna na boate babylon;

- Os relacionamentos homossexuais masculinos (a maneira que eles se estabelecem);

- O fato de um casal de lésbicas terem um filho, como sendo uma das qualidades delas (vontade feminina);

- Filhos = assumir responsabilidades;

- Mulher (Lindsay) = feminino = sensível (fala de Lindsay);

- Filhos: realidade não-vivenciada pelo personagem Brian;

- A presença masculina é necessária no crescimento de um bebê do sexo biológico masculino (fala de Brian).

Personagens: Michael, Emmett, Ted, Brian, Justin, Lindsay, Melanie, Daphne (amiga de Justin da Escola), Gus.

Duração: 42 minutos e 11 segundos.

Falas:

Michael: “É fastidioso ver aquele monte de lésbicas bajulando ele e fazendo voz de

bebê

deste saber da existência de seu filho).

É o que as mulheres fazem com os bebês” – (Michael falando para Brian depois

Michael falando para Brian no hospital: “Você vai dar boa noite pra Lindsay. Vai pra casa. Vai dormir. Acordar e trabalhar pelos próximos vinte anos pra sustentar seu filho” Diálogo entre Brian e Lindsay no quarto do hospital: Lindsay: “Estou me sentindo um

pouco sensível

Quem iria imaginar. Você e eu. Pais” / Brian: “É bem assustador

meninos e meninas. Você acha que é tarde demais pra devolver ele? A gente pode

Eu teria comido você, sabe? Mas eu tive medo que a sua mulher me desse uma

/ Brian: “Eu teria aproveitado

tentar

surra” / Lindsay: “Nós tivemos muitas chances antes

mais se pudesse”. / Lindsay: “Até que não foram ruins” / Brian: “Agora você me diz

isso?

quis dizer isso” / Brian: “Acho que está bom como está”.

Quer dizer que eu poderia ter sido hetero esse tempo todo?” / Lindsay: “Eu não

Brian e Justin tomando banho falam sobre Lindsay: Justin: “Ela devia querer muito um

filho” / Brian: “A maioria das mulheres querem” / Justin:

“Até mesmo as lésbicas?” /

Brian: “Lésbicas são mulheres”.

Brian e Justin ainda no banheiro: Justin: “Minha mãe diz às vezes que preferia que eu não tivesse nascido” / Brian: “Deve ser porque ela vai passar o resto da vida com um

Sem

chance

As mães dele vão, mas estarei por perto para suprir a presença masculina, tão

menino mal educado” / Justin: “Então, você vai criar ele (Gus)?” / Brian: “Eu?

necessária na vida dos garotos.” / Justin: “Aposto que Melanie pode fazer isso melhor que você”.

FICHA DESCRITIVA 2

Seriado: Queer as Folk

2º Episódio (não possui título) 1ª Temporada

Sinopse: O episódio inicia mostrando a rotina de todos os personagens principais: Ted, Emmett, Justin, Michael e Brian. Ted trabalha como Contador e nas horas vagas do trabalho, ele costuma ver vídeos pornôs na internet; Emmett trabalha numa loja de roupas Torso; Justin é Estudante do colegial; Michael trabalha como Supervisor em uma loja de departamentos Big Q; Brian é Publicitário. Esse grupo de amigos se depara com várias situações, do dia-a-dia, consideradas homofóbicas. Justin comenta, com sua amiga Daphne, os momentos quando ficou com Brian, ele diz a ela que o ama, enquanto isso, Brian, depois de uma reunião de negócios, transa com um cara desconhecido na banheiro da empresa. Um dos lugares onde o grupo se encontra é a academia, lá eles batem papo, paqueram, transam na sauna da academia. Michael, em seu ambiente de trabalho, é questionado sobre sua sexualidade, mas ele afirma, para os colegas, que é hetero, com medo de uma possível demissão, nesta ocasião, Marly (colega de trabalho de Michael) o convida para um happy hour com os colegas, onde estaria Tracy (Colega de Michael e possível namorada dele), ele aceita o convite. Os amigos de Michael (Ted e Emmett) conversam, na academia, sobre o happy hour de Michael, em um bar hetero. Michael está preocupado com o que vai falar ou que vai fazer. Justin não presta mais atenção no que sua mãe diz, pois está apaixonado por Brian, mas não se dá conta de que Brian não quer nada sério com ele. Melanie, Lindsay e Brian, conversam sobre o caso dele assinar os papéis concedendo paternidade à Melanie. Ted, Emmett, Brian, Michael e Justin se encontram no Bar Woody‟s, um dos outros lugares em que eles freqüentam. Michael cobra a Brian responsabilidade de Justin. Justin e Michael vão até o Liberty Diner (local de encontro dos amigos e é onde trabalha a mãe de Michael Debbie). É mostrado o casal de lésbicas: Lindsay cuida do bebê e Melanie fica observando, em seguida, o casal começa a se beijar, mas são interrompidas pelo choro do bebê. Debbie e Michael estão voltando para a casa quando encontram Vic Tio de Michael e irmão de Debbie pensando nas contas a pagar. Michael vai para o antigo quarto e relembra alguns momentos nos quais esteve com Brian. O episódio termina na cena aonde Justin vai à casa de Brian e o encontra com

outro cara, ele diz que só quer conversar, mas Brian manda Justin ir embora. Brian, a pedido do cara desconhecido, vai atrás de Justin e explica que o que aconteceu entre eles foi apenas uma transa, pois ele não acredita em amor, e sim em sexo. Justin não aceita e fica muito triste, pois o que ele quer é Brian, a sua intenção é namorá-lo.

Principais aspectos do episódio:

- Características masculinas: Homem tem sempre que falar de garotas; tem que saber consertar a pia Falas dos colegas de trabalho de Michael;

- Gays tem que expor aos colegas de trabalho que são gays, sem mentiras;

- A questão do ativo e passivo: Ativo (superior – “homem de verdade”), Passivo (inferior) Fala de Emmett;

- Ser “obviamente gay” – Falas de Ted e Emmett;

- Estar no “mundo hetero” sem parecer ser gay;

- A questão do amor e do namorar: relações homossexuais masculinas.

Personagens: Ted, Emmett, Michael, Brian, Daphne, Marly e Tracy (colegas de Michael), Jenifer (mãe de Justin), Debbie, Lindsay, Melanie, Vic, Gus.

Duração: 38 minutos e 40 segundos.

Falas:

Diálogo de Michael com Marly na Big Q: Marly: “Sabe, nunca ouvi você dizer que ”

/ Marly: “Na verdade, nunca ouvi você

gosta de alguma garota” / Michael: “Bem

falando de garotas. Você gosta de garotas, não é mesmo?” / Michael: “Claro!” / Marly:

Depois do trabalho? Vamos levá-lo pra tomar uns

“Então você vai sair com a gente

drinks” / Michael: “Eu acho que não posso”.

Conversas entre Michael, Ted e Emmett na academia: Michael: “Foi tudo uma

armadilha

/ Michael:

“Fingiu que não gostava dela, só pra saber o que eu diria” / Emmett: “Shawn Petters ”

/ Michael: “E eu caí na

levou ele pra casa achando que o cara era ativo” / Ted: “E

Eu poderia malhar durante 100 anos e nunca teria um corpo igual aqueles

/ Emmett fala para Ted: “Hei, ta vendo aquele cara de short vermelho? ”

dela!” / Emmett: “E ele descobriu que o cara é totalmente passivo” / Ted: “Eu bem que

Será que não tem mais

poderia ter descoberto isso” / Emmett: “É tão desanimador

homem de verdade? / Michael: “Agora eles estão esperando que eu encontre com eles” /

Ted: “No Steroid City?” / Michael: “Não. Em um bar hetero

A gorducha

da Marly armou uma para você encontrá-la com os outros depois de trabalho, e agora

O que

acontece se desconfiarem?” / Ted: “Poderiam demiti-lo” / Michael: “Ou passar o resto da minha vida como auxiliar de gerente” / Emmett: “A solução é fingir que você gosta de boceta?” / Ted: “Olha, ele não é como você, OK?” / Emmett: “O que você quer dizer com isso?” / Ted: “Significa que ele não é obviamente gay” / Emmett: “Você está me

/ Emmett: “Eu poderia

ser muito homem se quisesse

mãos, ter certeza que meu rosto não tem expressão fácil alguma, nunca, nunca usar

palavras como

esportes. Mas prefiro ser uma fogueira gigante do que ser uma pequenina chama de vela” / Ted: “E que fogueira gigante!” / Emmett: “Obrigada” / Ted: “tudo bem, mas Michael está no mundo hetero, e acredite, não é nada fácil. Você tem que fazer o que precisa ser feito”

„Fabuloso‟ e „Divino‟, falar sobre sei lá, falar de mulheres e jogo e de

Sabe, baixar o tom de voz, parar de gesticular com as

acusando de ser óbvio?” / Ted: “Se a carapuça servir em você

você tem que ir ou eles podem suspeitar de você

Tem alguém me ouvindo

aqui?!” / Emmett: “Tem uma garota nova no trabalho interessada em você

Olha lá o Sr. Peck Tech!

Michael e Tracy falando de relacionamentos: Tracy: “Tipo, dá pra acreditar que ele não sabia consertar uma pia?” / Michael: “Sério?!” / Tracy: “Ele me ligou no trabalho dizendo o que eu devo fazer? Eu disse: Não me importo com o que faça. Compre argamassa, use uma rolha, use goma de mascar, mas conserte isso!”

Michael e um colega de trabalho no bar: Colega: “Você assiste futebol?” / Michael:

“Constantemente” / Colega: “Então

Eu acho

assim, nossa defesa continua forte, mas precisa de um novo esquema do nosso

coordenador pra mover a bola” / Colega: “É exatamente o que eu digo!

Que devido ao passe livre, perdemos alguns dos melhores jogadores. Ainda

O que você acha? / Michael: “O que eu acho?

Michael conversando com Brian: Brian: “Existem apenas dois tipos e heteros nesse mundo. Aqueles que odeiam você na sua frente e aqueles que odeiam você pelas costas”.

Brian e Justin: Justin: “Você não namora ninguém” / Brian: “Mikey andou conversando

com você” / Justin: “Você transa com todo mundo ”

E eu

foi apenas uma diversão. Eu queria você e você me queria. Foi tudo o que aconteceu” /

Olha eu não acredito

no amor. Eu acredito em sexo. É honesto. É eficiente. Você sai com o máximo de prazer e o mínimo de compromisso. Amor é uma coisa que os heteros dizem que existe, só pra terem uma razão pra transar e depois acabam machucando uma ao outro. Porque foi tudo baseado em mentiras pra começar. Se é isso que você quer. Então vai e encontre

uma linda garotinha

Você é muito jovem pra

Mais um

motivo

Justin: “Uma transa?” / Brian: “O que pensava que tinha sido?

/ Brian: “Eu transei com você. O que aconteceu na noite passada

Ele é feio. Você nem conhece ele.

Eu realmente

E case-se com ela” / Justin: “Não é isso que eu quero. Eu quero

você” / Brian: “Você não pode me ter. Estou muito velho

mim. Você tem 17. Eu tenho 28” / Justin: “29” / Brian: “Tudo bem. 29

Agora vai fazer a sua lição de casa”

FICHA DESCRITIVA 3

Seriado: Queer as folk

3º Episódio (não possui título) 1ª Temporada

Sinopse: O episódio inicia mostrando o grupo de amigos: Michael, Ted, Emmett, no batizado de Gus, na casa de Lindsay e Melanie. A cerimônia que acontecerá será um Brisket Bris (Cerimônia de circuncisão), pois Melanie é judia e, de acordo com a cultura dela, é necessário haver esse ritual. O episódio todo gira em torno dessa cerimônia, participam dela: Michael, Emmett, Ted, Katsuo (ficante de Emmett e garoto de programa, mas Emmett ainda não sabe), Lindsay, Melanie, Tia de Melanie e Brian, que chega somente na hora da circuncisão. Brian não aceita que seu filho seja circuncisado e briga com o casal de lésbicas, ele alega ter direitos sobre Gus, pois é o pai biológico dele. Brian chega e interrompe o ritual de circuncisão, ocorrendo, dessa forma, o cancelamento da cerimônia. Melanie e Lindsay discutem por conta do que Brian fez e, também porque não há espaço para ele na vida delas. O episódio mostra como cada um dos personagens principais estabelece seus relacionamentos: Ted não acredita que pode ficar com alguém, se acha feio e sem auto-estima; Michael está preso num sentimento puramente platônico que sente por Brian; Emmett conhece um cara japonês (Katsuo) e pensa que ele quer algo sério, mas depois Emmett irá descobrir que Katsuo é garoto de programa; Brian leva uma vida descompromissada, fica com vários caras diferentes por dia, e sempre ressalta que suas relações não possuem nenhum tipo de compromisso; Justin não esquece Brian e continua atrás dele, mas Brian não dá a mínima, apenas transa com Justin. Ted acaba de conhecer Blake na boate babylon e o leva para casa, ao chegar à casa de Ted ele é envolvido por Blake, até que nem se dá conta de que tomou exageradamente GHB (droga líquida), na água que Blake ofereceu a ele. O episódio termina mostrando Emmett, Michael, Daphne, Brian e Justin, na Babylon, sendo que Brian e Justin terminam a noite juntos.

Principais aspectos do episódio:

- Diferenças entre homens e mulheres não tem haver com o fato e ser gay ou hetero Fala de Michael;

- A criação do filho pelas lésbicas: associação das lésbicas com a heterossexualidade Opinião de personagens homens;

- A questão de ser pai biológico: direitos que são conferidos ao inivíduo;

- Sexo se faz com estranhos Fala de Ted;

- Travesti: homem ou mulher? Fala de Daphne;

- Instantaneidade dos relacionamentos homossexuais masculinos.

Personagens: Michael, Lindsay, Melanie, Brian, Emmett, Katsuo, Shirley (Tia de Melanie), Justin, Daphne, Blake (ficante de Ted), Debbie, Vic e Gus.

Duração: 42 minutos e 8 segundos.

Falas:

Michael pensando: “Depois de uma semana que o bebê nasceu, graças a grande contribuição de Brian Kinney. Lindsay e Melanie estavam em festa. Elas convidaram

todas as lésbicas mais próximas e mais queridas, alguns parentes e

pai, para a casa delas. Foi muito bom, o cheiro da comida, e todas as flores espalhadas

pra onde você olhasse. Não é a mesma coisa que ir a casa de um amigo, com cheiro de roupa suja e muitas fitas pornôs espalhadas por onde você olhasse. Vendo elas em seu lindo lar com o seu lindo bebê. Abraçando uma a outra. Eu desejei por um instante em ser uma lésbica. Mas quando lembrei que teria que comer uma boceta, então eu desisti! Eu percebi o quanto homens e mulheres são diferentes. E não tem nada a ver com o fato de ser gay ou hetero. É que, a forma que eu vejo. As mulheres sabem como se relacionar seriamente, os homens não. Pelo menos não os homens que eu conheço”

nós, os amigos do

Michael e Brian: Brian: “Eu disse, eu não vou para o Munchers Brunch. E está dito!” / Michael: “Olha, não vai ser por elas. É pelo seu filho!” / Brian: “Meu filho! Ele é meu filho apenas quando querem meu dinheiro” / Michael: “Porque puní-lo não comparecendo?” / Brian: “Olha, ele sequer vai saber se estou por lá” / Michael: “Você ”

Comics?

/ Michael: “Onde?. Marvel

não pode ter certeza” / Brian: “Eu li em algum lugar

Que os bebê reagem as coisas, mesmo quando ainda está no útero. Como,

por exemplo, tensão e discórdia afetam eles profundamente, enquanto que tocando Mozart e coisas do tipo os tornam super inteligentes” / Brian: “Bem, o que você acha do fato de ouvir duas sapatas transando uma com a outra pelos últimos nove meses afetarão

ele? Nossa! Ele concerteza vai crescer pra ser hetero!” / Michael: “Mais uma razão pela qual ele precisa de um pai”

Eu não acredito que

É muita

sorte um garoto ter duas mães. Pra quê ele vai precisar de um pai, não é mesmo? O seu tio Bem foi um péssimo pai. Nunca tinha tempo para a família. Sempre caçando

Um pau duro não tem

Tia Shirley e Melanie: Melanie: “Tia Shirley, diga alguma coisa

você esteja sem palavras” / Tia Shirley: “Estou emocionada por vocês duas

mulheres. É bem melhor pra vocês serem lésbicas por que consciência alguma”

Emmett conversando com os amigos sobre Katsuo: Emmett: “Ele não é lindo. O nome

dele é Katsuo. Ele dá a uma simples lambida um novo significado” / Michael: “Onde

Eu estava tomando um drink no

Lizard Lounge. Ele chegou e começou a jogar conversa fora. Ele não fala uma palavra em inglês. E a única coisa que sei em japonês é Sony e Toyota” / Michael: “Então como é que você conversa com ele?” / Emmett: “Existem outras formas além da fala”

você encontrou ele?” / Emmett: “Ele me encontrou

Rabino explicando o ritual de circuncisão: “Na vida de cada garoto judeu, existem três passos pra se tornar um homem. Primeiro o Bris. Depois o seu Bar Mitzvah e finalmente o seu casamento. Por 3.500 anos, o ritual da circuncisão, tem sido o sinal fundamental do acordo entre Deus e Israel. Melanie, você poderia, por favor, colocar

seu filho no colo da mãe?”

convocando Lindsay e Melanie a irem para cozinha

Brian chega ao meio da cerimônia, interrompendo-a e

Melanie, Lindsay e Brian: Melanie: “Que diabos você pensa que está fazendo? Entrando aqui, interrompendo uma cerimônia religiosa” / Brian: “Você deveria ter pedido a minha permissão antes pro quê? Pra circuncisar o meu filho?” / Melanie: “Não temos

que pedir sua permissão. Somos os pais dele” / Brian: “Eu sou pai biológico, e isso me dá mais direitos que você” / Melanie: “Vejo que alguém andou estudando direito” /

Lindsay: “Olha, esse não é o momento pra termos essa conversa

convidados” / Melanie: “E desde quando você começou a se preocupar com seu filho? Considerando que você não tem visto ele desde que nasceu” / Brian: “Bem, eu não sou muito bem aceito por aqui” / Melanie: “Sem essa, você tem estado muito ocupado trepando com qualquer coisa que se mexa” / Lindsay: “Por favor, vamos parar com

Com a casa cheia de

Por que importa pra você se Gus for circuncisado?” / Brian: “Ele está nesse

mundo a menos de uma semana, e já existem pessoas que não irão aceitá-lo pelo que ele é, que mutilaram ele ao invés de deixá-lo do jeito que ele é, deixá-lo do jeito que ele

nasceu. Bem, eu não vou deixar isso acontecer”

cerimônia não volta ao normal e termina sem a circuncisão.

O Rabino interrompe a discussão e, a

isso?

Ted e Michael: Michael: “Então que todos sabem que não se transa com os amigos” / Ted: “Ah, certo. OK. Sexo é algo que se faz apenas com estranhos. Sim. Com pessoas que você nunca mais vai ver. A menos que você encontre eles pela rua. Mas nunca com alguém que você se importa. Quem inventou essas regras malucas, hein?” Daphne falando para Justin quando vê um travesti: “Oh meu Deus! Olha pra isso. Isso é uma mulher ou um homem?”

Lindsay e Melanie conversando: Lindsay: “Então, por quanto tempo isso vai continuar? Ou você pretende nunca mais falar comigo?” / Melanie: “O que você gostaria que eu disesse?” / Lindsay: “Qualquer coisa” / Melanie: “OK, que tal, eu tenho uma casa cheia de comida que nem sequer foi tocada e um filho não circuncisado. Que tal isso?” / Lindsay: “Olha, Brian vai retirar o seguro de vida. Ao menos ele concordou em fazer

isso. Isso é algo, não é mesmo?” / Melanie: “Oh, prêmio de consolação

“Isso era muito importante pra você semana passada” / Melanie: “E ainda essa era tarde, mas agora eu fui humilhada, na frente dos meus amigos, meus parentes, Rabino Protesh.

E você deixou ele fazer isso” / Lindsay: “Eu” / Melanie: “Você convidou ele pro Bris. Claro, sei que não é muito importante pra você ou pra ele, mas é um ritual muito importante na família” / Lindsay: “Sabe, existem muitos homens que acham a circuncisão uma prática cruel e bárbara” / Melanie: “Não me importo com o que os homens pensam do pau deles. Me importo o fato de Brian ser mais importante que eu. Mas, sabe por que estou surpresa? Ele sempre foi mesmo” / Lindsay: “Por favor. Vamos ter que passar por tudo isso de novo? Não quero conversar sobre isso” / Melanie: “Sim, e eu não queria que Brian fosse o pai do bebê em primeiro lugar. Mas não, você tinha que colocar ele no caminho. Tinha que ser ele ou mais ninguém. Agora ele faz parte da nossa vida pra sempre, gostando ou não”

/ Lindsay:

FICHA DESCRITIVA 4

Seriado: Queer as Folk

4º Episódio (não possui título) 1ª Temporada

Sinopse: O Episódio inicia mostrando os amigos: Emmett, Michael e Brian, no Restaurante Liberty Dinner, relatando o que fizeram na noite passada. Emmett ficou com um sado masoquista, Michael com um esportista e Brian continua ficando com Justin. Os amigos vão visitar Ted que está em coma no hospital e acabam conhecendo a mãe de Ted (Margareth Schmidt). Numa outra cena, a mãe de Justin (Jennifer) está vendo alguns desenhos dele e descobre, em uma das páginas, o nome de Brian, escrito diversas vezes. Os amigos conversam, no hospital, sobre o fato de Ted ter sido influenciado por Blake a tomar GHB. A mãe de Ted critica o fato de o filho ter ficado com um homossexual, pois se seu filho fosse hetero isso não teria acontecido. É mostrado o dia-a-dia de Justin no colegial, aparece ele masturbando um colega de classe (Chris Hobbs). Emmett, Brian e Michael vão à academia e depois à sauna, todos eles estão preocupados com o estado de Ted. Será que Ted irá acordar do coma? Nesse sentido, Ted pode contar com os amigos, principalmente com Michael, este diversas vezes vai ao hospital visitá-lo. Ted declara, em seu testamento, Brian como o responsável pela sua vida, mas Brian não aceita ser o responsável por isso e se conforta indo à Babylon e ficando com outros caras. Justin consegue diferenciar sexo de amor, por isso ele ama Brian, e o procura novamente. Os amigos acabam descobrindo que Ted é apaixonado por Michael, pois ao vasculharem o apartamento dele descobrem várias fotos fixadas na porta do guarda-roupa de Ted. Justin, depois de sair de casa, vai morar na casa de Debbie e Vic. O episódio gira em torno do coma de Ted e da “descoberta”, pela mãe de Justin, da sua homossexualidade. Brian e Justin transam na casa de Debbie, especificamente no quarto que era de Michael. Aos poucos, eles vão se envolvendo cada vez mais e sem se perceberem estão construindo um relacionamento.

Principais aspectos:

- A questão das influências;

- Respeitar a orientação sexual, mas não aceitar os relacionamentos;

- Sexo é diferente de amor Fala de Justin;

- Definição do que é ser homossexual;

- É perceptível, no seriado, que aos relacionamentos homossexuais masculinos é dada

muita ênfase às relações sexuais. Sexo é fundamental para eles, e não importa qual seja

o perfil. No caso das lésbicas, quase não aparecem cenas de sexo, elas, quase sempre, aparecem discutindo a relação.

Personagens: Brian, Michael, Emmett, Mãe de Ted (Margareth Schmidt), Justin, Jennifer, Daphne, Chris Hobbs (colega de classe de Justin), Debbie, Lindsay, Melanie, Gus.

Duração: 47 minutos e 9 segundos.

Falas:

Conversa entre Michael, Emmett e a mãe de Ted no hospital: Michael: “Sra. Schmidt, ”

estamos indo pro trabalho. Se precisar pode ligar pro meu celular, se

“Disseram que ele tomou uma overdose de uma droga que eu nunca ouvi falar” /

E

o levou pra casa” / Sra. Schmidt: “Posso perguntar uma coisa Michael?” / Michael:

“Claro” / Sra. Schmidt: “Se meu filho fosse hetero, se tivesse levado uma garota pra casa, você acha que ela teria ido embora. E deixado ele para morrer?”

Emmett: “Bem, ele não usava drogas

/ Sra. Schmidt:

” / Michael: “Ele deve ter conhecido alguém

Daphne e Justin conversando sobre a masturbação que Justin fez em Chris Hobbs:

Isso não é

amor Daph

Daphne: “Mas pensei que você gostasse do Brian” / Justin: “Eu e Chris?

Foi apenas sexo”

Debbie e Michael conversando sobre o fato de ser gay: Debbie: “Ninguém sabe se é a natureza ou criação ser gay. Agora dizem que dá pra saber pelo tamanho do dedo indicador. Embora todos os dedos do Michael sejam normais. Ele deveria ter três filhos e uma barriga de cerveja. Mas ele é tão gay o quanto pode ser!”

FICHA DESCRITIVA 5

Seriado: Queer as Folk

5º Episódio (não possui título) 1ª Temporada

Sinopse: O episódio inicia mostrando a casa de Brian, especificamente a cama de Brian,

e juntamente com ele um cara desconhecido (provavelmente algum rapaz da noite

anterior). Nesse momento Lindsay e Gus aparecem na casa de Brian, pela manhã, e Lindsay convida Brian para almoçar na casa dela, pois Melanie, Lindsay e Brian precisam entrar em acordo com relação à criação de Gus. É mostrado Michael em seu trabalho na Big Q. A mãe de Justin o leva a terapeuta, para uma tentativa de entender sua sexualidade (suas vontades). Brian aparece trabalhando na empresa. Emmett, Ted e Brian conversam com Michael sobre o fato de ele esconder dos colegas de trabalho sua homossexualidade, principalmente de Tracy, a garota que gosta dele. Nesse sentido, alguns personagens pensam diferente sobre algumas situações, por exemplo: Brian não acha necessário revelar a homossexualidade para os pais, ele vive normal assim, levando em conta que ele é um publicitário bem sucedido. Melanie sente que Brian interfere no seu relacionamento com Lindsay. Justin gosta de Brian, mas ele não

percebe isso. Michael teve que se consultar com um fisioterapeuta, por conta de ter machucado o pescoço quando trabalhava, então acaba conhecendo seu futuro namorado

(David fisioterapeuta). Jennifer procura conhecer os ambientes que Justin costuma freqüentar: Bar Woody‟s, Liberty Dinner. Marvin (Empresário) e Brian vão à Babylon e

o colega de trabalho de Brian conta um pouco de sua vida. Marvin assedia moralmente

Brian. E a questão que se coloca: Transar ou não no trabalho? É apenas uma questão de negócios? David vai até o local onde Michael trabalha para convidá-lo a um jantar, Michael aceita. Ted e Emmett comentam sobre o encontro de Michael com David. Brian o ajuda a se vestir. Brian é convidado por Marvin a ir a casa dele para trabalhos sexuais, mas no final Brian não aceita. Brian não quer acordo com o casal de lésbicas, é perceptível que ele gosta muito de seu filho e não irá conceder a paternidade à Melanie. David e Michael se conhecem no jantar (é perceptível a diferença de classe entre os ambos). David, na volta do jantar, é enfático com Michael, não o quer apenas para transar, sendo que Michael pensava que ele fosse logo querer transar.

Principais aspectos do episódio:

- A terapia como um método para entender a homossexualidade;

- Revelar ou não revelar a homossexualidade aos pais? / Revelar ou não revelar a

homossexualidade aos amigos, colegas de trabalho?;

- Casal de Lésbicas = Família alternativa Fala de Lindsay e Melanie;

- Namorar é algo que aprendemos a pensar, não é algo natural Fala de Brian;

- Encontro

algo que está intimamente ligado aos casais heterossexuais;

É tão hetero Fala de Michael: Discurso que qualifica o encontro como

- O primeiro encontro tem que ter transa Fala de Michael.

Personagens: Brian, Lindsay, Marly, Tracy, Michael, Jennifer, Justin, Debbie, Ted, Emmett, Daphne, David, Marvin, Melanie, Gus.

Duração: 46 minutos e 34 segundos.

Falas:

Conversa entre Jennifer, Justin e a Terapeuta: Jennifer: “Costumávamos dividir coisas.

Eu falo com ele, ele bate a porta, sai

correndo. Ele mente. Diz que vai dormir na Daphne, mas sei que não. E descobri

coisas” / Terapeuta: “Que tipo de coisas?” / Jennifer: “Desenho. Esboços que ele faz,

de

Justin, como você pode

saber quem você é?” / Terapeuta: “Justin, Você tem algo a dizer?” / Justin: “Eu gosto de

pau. Quero ser fodido por pau. Quero chupar um pau. E sou muito bom nisso” / Terapeuta: “Bem. É um começo”

Nós

Gostávamos um do outro. Mas agora eu

Homens nus. Eu quero

Saber” / Terapeuta: “Se ele pode ser gay?” / Jennifer: “Ele

tem apenas 17 anos. Jovem demais pra ter essas vontades, ser

Diálogo entre Brian e Michael: Michael: “Não posso. Onde trabalho eles riem de gays” / Brian: “Os únicos gays que valem a pena rir são os que não dizem a verdade. Não seja um desses babacas que escondem Mikey. E pare de controlar ela (Tracy)”

Diálogo entre Brian e Justin: Brian: “Deveria ir para casa. Sua mãe deve estar muito

preocupada” / Justin: “Ela é patética

Ela me levou pra perder tempo em um terapeuta”

/ Brian: “Talvez ela esteja tentando entendê-lo” / Justin: “Não quero que ela me

entenda

O que os seus pais fizeram quando

Quero

que

me

deixe

sozinho

descobriram que você era

disse a eles” / Justin: “Não disse?” / Brian: “Não é a vida deles aprovação deles”

Sabe, gay?” / Brian: “Eles não fizeram nada. Porque nunca

Não preciso de

Melanie e Lindsay conversando: Lindsay: “Como podemos? Ele é o pai de Gus” /

Melanie: “Como se eu precisasse lembrar” / Lindsay: “Sabe, poderíamos ser uma família alternativa” / Melanie: “O que significa „duas mães‟” / Lindsay: “Sou eu quem

tenho a assinatura da Newsweek

Sei o que significa. Apenas não existe nada de

alternativo com a gente. Estamos fodidas como qualquer outra família na história do

mundo” / Melanie: “Então. O que você quer?” / Lindsay: “Quero ser uma boa mãe Quero estar com você”

Diálogo entre Brian e Justin: Brian: “Olha, já disse, não sou seu namorado. Não sou seu parceiro, não sou sequer seu amigo. Você não é nada pra mim” / Justin: “Eu poderia

Se me desse uma chance” / Brian: “Onde aprendeu a falar assim? Assistindo

algum dramalhão adolescente?” / Justin: “Preciso de você!” / Brian: “Não. Você pensa

Porque é isso que você aprendeu a pensar. „Precisamos um do outro‟.

Bem, isso não passa de besteira. Você precisa de você mesmo. Você é o único com quem pode contar”

que precisa

ser

Diálogo entre Jennifer e Debbie no Bar Woody‟s: Jennifer: “Então não acha que foi

porque o sufoquei demais?” / Debbie: “Você sufoca uma costela de porco, mas não um

Eles falam muito e agem duramente, mas a

verdade é que, a coisa que ele tem mais medo, mais do que o pai descobrir e meter a porrada nele, é que você deixe de amá-lo” / Jennifer: “Eu nunca faria isso” / Debbie:

“Então tenha certeza que ele sabe que não a perdeu”

filho

As pessoas são o que são

Escuta

Diálogo entre Marvin e Brian na Babylon: Marvin: “Casei jovem, antes de descobrir. Entrei no lance de ter uma família. Quando descobri o que eu era, estava tarde para mudar as coisas. Amo minha esposa e meus filhos. Porque iria destruir tudo isso?” / Brian: “Então você toma conta dos negócios quando está fora?” / Marvin: “Exatamente” / Brian: “Cara esperto Marvin” / Marvin: “Você é um cara esperto também”

Diálogo entre Michael e Brian: Michael: “É estranho ter um encontro” / Brian: “Faça

ele abrir a porta do carro pra você e puxe a sua cadeira” / Michael: “Me refiro a isso. É

tão

trepando com o garçom” / Michael: “Eu não sei o que fazer ou o que dizer!” / Brian:

“Seja você mesmo”/ Michael: “Isso fará a noite voar

direto por sexo?” / Brian: “O motivo de um encontro, ou como me foi explicado, por aqueles que costumam fazer isso, é conhecer bem a outra pessoa antes de trepar com

Porque não podemos apressar

Terminei

Hetero! Já esteve em um encontro de verdade?” / Brian: “Uma vez

ela” / Michael: “Que idéia boba que você faria?”

E se você não gostar deles?” / Brian: “Pior ainda. O

David e Michael conversando: David: “O que está fazendo?” (Michael tentando fazer ”

/ David: “Convidei

sexo oral em David) / Michael: “Eu pensei

você pra conhecer você melhor, não porque eu queria uma transa rápida”

Quero dizer, eu não

Conversa entre Ted, Emmett e Michael na Babylon: Emmett: “Alguém deve ter comido algo que não fez bem” / Michael: “Apenas perdi meu tempo. Ele pagou o jantar e nem quis transar” / Emmett: “Talvez tenha uma problema de próstata ou apenas um testículo” / Michael: “Ou talvez ele não goste de mim” / Emmett: “Por que ele não gostaria de você?” / Michael: “Mesma razão que todo mundo. Não sou o Brian” / Emmett: “Isso é uma bobagem” / Ted: “Ele deve ter gostado de você. Por que ele teria pedido você pra sair?” / Michael: “Eu não sei” / Ted: “É apenas a sua insegurança” / Emmett: “Talvez ele seja o tipo de cara que não transa antes do encontro” / Michael:

“Não me importo. Vou encontrar alguém que me queira”

FICHA DESCRITIVA 6

Seriado: Queer as Folk

6º Episódio (não possui título) 1ª Temporada

Sinopse: Michael está arrasado por achar que o seu primeiro encontro com David foi horrível. Justin encontra Melanie e Lindsay e propõe ajudá-las com Gus. Ted e Emmett conversam sobre relacionamentos, Ted procura nos classificados parceiros que sejam compatíveis com seu perfil. Michael vai ao consultório de David pedir desculpas pelo que fez no final do primeiro encontro, eles voltam. Lindsay descobre os desenhos de Justin e acha interessantíssimo e, então dá força a ele pra inscrevê-los na Mostra de Arte do Centro de Gays e Lésbicas. Ted e Emmett vão conhecer um grupo de solteiros e Ted resolve marcar um encontro com um rapaz. David e Michael tem sua primeira transa. Ted e Roger decidem sair para se conhecer, os dois vão a um restaurante e conversam sobre relacionamentos. Os amigos, na academia, conversam sobre relacionamentos. Transar no primeiro encontro ou não? Chega o dia da exposição dos desenhos de Justin na Mostra do Centro de Artes de Gays e Lésbicas. David sente que Brian pode atrapalhar o relacionamento dele com Michael, pelo fato de serem amigos de infância. Aí vem a questão: as amizades atrapalham os relacionamentos? Ou os relacionamentos atrapalham as amizades? Emmett ao conversar com Ted, diz que sexo nunca é a coisa certa. Estão na galeria: o casal de lésbicas, Michael, David, Brian, Justin, Ted, Emmett, Roger, Debbie, Jennifer. Debbie relata a Emmett uma das qualidades de Michael: ajudar os amigos com os relacionamentos, mas não admite ver seu filho ainda preso contemplando um sentimento platônico por Brian. A mãe de Justin prestigia os quadros do filho, mas fica assustada ao ver Brian, ela acha ele muito velho para se relacionar com Justin. Ted e Roger são estimulados a transar vendo os quadros, só que percebem que não são parecidos na hora do sexo e Ted tem certeza que foi tudo engano. Roger não é o tipo de Ted, eles discutem e Roger vai embora. Debbie e Jennifer conversam sobre o envolvimento de Justin com Brian Kinney, a mãe alega que há uma diferença muito grande de idade e, gostaria que o filho se envolvesse com pessoas da faixa etária dele. Debbie fala a Jennifer que Brian é extremamente desejado por todos. Os amigos:

Brian, Justin, Daphne, Michael, David, Ted, Emmett se encontram na Babylon para comemorar a venda do quadro de Justin. Ted reencontra Blake na Babylon e percebe

que ainda gosta dele. O episódio termina quando Michael e David chegam à casa de David e este pergunta em quem Michael pensa quando fecha os olhos, e ele porre, somente ri, nesse mesmo momento, numa outra cena, Brian aparece transando com um cara, este está chupando ele e, ele está olhando fixamente para o quadro de Justin (Será que ele gosta mesmo de Justin? Será que Michael gosta, de fato, de David?

Principais aspectos do episódio:

- Gays não querem ter filhos gays Fala de Brian;

- Influência da criação na vida dos filhos: criado por duas lésbicas precisará de

influência feminina (associação das lésbicas com o masculino) Fala de Michael;

- Associação da homossexualidade com profissões tidas como femininas Fala de

Jennifer;

- Ênfase no ato de transar: “Tudo que fazemos, tudo que usamos, é uma tentativa

consciente ou inconsciente para transar” – Fala de Ted;

- Dificuldade em estabelecer relacionamentos sérios e duradouros nas relações homossexuais masculinas;

- Encontrar a “pessoa adequada”;

- Relacionamento de homens mais velhos com homens mais novos.

Personagens: Michael, Brian, Justin, Daphne, Lindsay, Melanie, Gus, Ted, Emmett, David, Roger, Jennifer, Blake.

Duração: 45 minutos e 53 segundos.

Falas:

Diálogo entre Brian e Michael na loja de gibi: Michael: “Veja. É a nova boneca Mulher Electra. Vou comprar para Gus” / Brian: “Eu não quero um filho gay” / Michael:

“Criado por duas lésbicas

Precisará de influência feminina”

Diálogo entre Daphne e Justin: Daphne: “Sua mãe sabe que está comprando jóias?” /

Que eu fuja e vire

cabeleireiro” / Daphne: “Eu odeio você

Justin: “E esses (jóias) aqui” / Daphne: “É muito bicha!” / Justin: “Sem essa. É o símbolo da nossa amizade”

Justin: “Ela aprova tudo

A mina é uma chata sem nenhum motivo” /

E se não aprova. Finge com medo

Diálogo entre Ted e Emmett: Ted: “Já me decidi

você não me verá mais na Babylon” / Emmett: “Ora, não pode deixar que um coma de nada o deprima. O que acha?” / Ted: “Você parece um lixo” / Emmett: “É isso mesmo. Vou levar” / Ted: “Você não entende. Tudo o que fazemos, tudo o que usamos, é uma tentativa consciente ou inconsciente para transar” / Emmett: “É verdade, há muita

ênfase em sexo. Mas porque não comprar roupas justas?” / Ted: “Porque tragicamente, alguns de nós não nascemos para usar lycra” / Emmett: “Cheque os anúncios. Talvez encontra alguém para não sair” / Ted: “Sabe, uma coisa que eu não entendo nesses

Chega de saunas, bares e clubes,

anúncios. Porque falam em lamber mamilos e penetração? Seria bem mais difícil

Veja

este aqui no centro. Pegadinha: encontre gays solteiros escolhas, nem rejeição, cara a cara”

Para conversar

Sem

Diálogo entre Ted e Roger num restaurante: Roger: “Ele tem um sorriso bonito” / Ted:

“Entre outros atributos” / Roger: “Sei que ele é uma boa pessoa” / Ted: “Aposto que é

muito inteligente” / Roger: “Normalmente, eu pensaria

Como: Nunca o vi por aqui antes? Você é novo?” / Ted: “Ou, conheço você de algum lugar? Não? Deve ser de sonho?” / Roger: “Ou, quando começaram a contratar modelos

aqui?” / Ted: “Você é pior que eu! Você quer que eu vá

lo

bom estar fora desse mundo” / Roger: “Preciso confessar algo. Não fui a reunião só para

anunciar

Adequado” /

Um concerto de Sondheim” / Ted: “Foi o que achei” / Roger: “Esperava

encontrar alguém com quem pudesse me relacionar” / Ted: “Alguém Roger: “Exatamente. Alguém adequado”

Ao banheiro para tentar cantá- É um flerte inútil” / Ted: “É tão

Em alguma cantada patética

Ou

” / Roger: “Não! Nunca funcionou mesmo

Diálogo entre Ted e Emmett: Emmett: “Já transaram?” / Ted: “Não

/ Emmett: “Quando vão transar?” / Ted: “Quando soubermos que é a coisa certa” /

Quer falar baixo”

Emmett: “Sexo nunca é a coisa certa

deficientes é a coisa certa. Doar sangue” / Ted: “Tudo bem. Já entendi”

Alimentar os pobres é a coisa certa

Contratar

Diálogo entre Jennifer e Debbie: Jennifer: “Pensei

experiências

Debbie: “Ainda não, mas vou dizer o que você achou” / Jennifer: “Não está certo” /

Tudo bem, ele está tendo

deve ter uns 30 anos” /

Mas com garotos da idade dele. Esse homem

Debbie: “Acontece” / Jennifer: “Se o pai dele descobrir!”

FICHA DESCRITIVA 7

Seriado: Queer as Folk

7º Episódio (não possui título) 1ª Temporada

Sinopse: O episódio inicia mostrando Justin e Daphne indo a uma loja de piercing e tatuagem. Justin coloca um piercing. Importante notar a narrativa de Michael quando ele está conversando com David no Liberty Diner (Michael acredita que seja bom ter um namorado, mas poucos gays têm e, ele chega à conclusão: ninguém quer ter compromisso) e, nessa mesma ocasião, Debbie conhece David e o convida para um jantar na casa dela. Ela fica impressionada por David ser Fisioterapeuta. Os pais de Justin discutem sobre a homossexualidade dele e, a mãe de Justin revela ao marido quem é a pessoa com quem seu filho está se envolvendo: Brian Kinney. Brian, Justin, Ted e Emmett se encontram no Woody‟s Bar, para falar sobre o jantar de Michael e David e, Brian e Justin conversam. Enquanto o pai de Justin (Craig) olha para os desenhos e outras coisas do filho, no mesmo momento, numa outra cena, Brian, na sua casa, e Justin são mostrados transando. Brian aparenta estar com ciúme da relação de Michael com David, ele acredita estar perdendo o amigo. Os pais de Justin conversam com ele e, eles procuram entrar em acordo, Craig menciona chamar a polícia. Os pais não acreditam que Justin possa gostar de Brian, pois acham que ele é muito novo para decidir sobre isso. O jantar de Michael e David ocorreu tudo bem, Debbie, Vic, Michael e David, conversaram, comeram, beberam e depois o casal foi transar, pois não faziam isso há muito tempo, nessa ocasião, David convida Michael a passar um final de semana numa casa nas montanhas. Brian continua ficando com caras desconhecidos, mas nem se dá conta de que está marcando um encontro, ao telefone, com a pessoa errada, o pai de Justin, o qual tem ódio dele. Michael se preocupa com o que acontecerá no final de semana com David, Ted e Emmett o confortam e dizem que vai ser bom, pois David gosta de Michael. Brian conversando com Lindsay, ele não acredita que um relacionamento entre homens pode dar certo. Justin e Chris Hobbs brigam no vestiário da escola, por conta de Chris estar fazendo alguns comentários homofóbicos. Michael e David chegam à casa de David nas montanhas. David conta um pouco de sua vida a Michael: diz que tem um filho, que já foi casado com uma mulher, mas afirma que sempre foi gay, só não queria admitir pra si mesmo, então, David, depois desse fato

decidiu que seria sempre sincero consigo e com os outros, inclusive Michael. Brian na Babylon, com Ted e Emmett, se sente estranho. Brian, dentro do carro, parado no semáforo é atropelado pelo carro do pai de Justin. No dia seguinte, Michael e David transam ao ar livre, mas alguns minutos depois, Michael liga para Brian para saber como ele está e descobre que Brian sofreu um acidente, então pede a David para voltar. David fica decepcionado, ao chegar à casa de Brian ele está festejando. Os pais de Justin continuam a discutir com ele, Craig quer levá-lo ao internato. David resolve lutar por Michael, apesar de Brian atrapalhar, às vezes. David, na Babylon, pede a Brian que deixe Michael em paz pra viver sua vida.

Principais aspectos do episódio:

- Todos os gays sonham em ter um namorado e pensam em como seria a vida a dois. Mas poucos têm. Ninguém quer compromisso Fala de Michael;

- Os pais sempre sabem, ou desconfiam da homossexualidade dos filhos;

- Nem todo rapaz quer jogar futebol Fala do pai de Justin;

- Compromissos = relacionamento sério = aliança;

- Não é certo homens mais velhos se relacionarem com garotos (associação da AIDS à homossexualidade) Fala dos pais de Justin;

- O pensamento dos amigos sobre o relacionamento de Michael e David se baseia sempre no ato sexual;

- Ter filho custa caro;

- Relacionamentos = romântico = Lindsay. Para ela gays precisam ter relacionamento;

- Sempre fui gay, só não queria admitir Fala de David;

- Sendo um grande empreendedor

Achei que se me esforçasse me tornaria outra coisa,

até hetero Fala de David (Discurso da homossexualidade camuflada Tentativa de

aceitação pela sociedade);

- Aprender a ser homem (nós aprendemos a ser isso ou aquilo)

Personagens: Justin, Daphne, Michael, David, Debbie, Craig, Brian, Ted, Chris Hobbs, Emmett, Vic, Lindsay, Melanie, Jennifer.

Duração: 41 minutos e 59 segundos

Falas:

Diálogo entre Michael e David no Liberty Diner (Michael inicia conversando com

David, e logo após a conversa, câmera para e começa a narrativa de Michael: David: “Já notou que todo mundo está nos azarando?” / Michael: “Esqueci de avisar que a turma não vem aqui pela comida” / Narrativa de Michael: “Todos sonham em ter um

E o

fio dental” / David: “Incomoda quem quer comer” / Narrativa de Michael: “Por que tão poucos têm um? É porque todos mentimos. Ninguém quer compromisso. Como ter um namorado”

namorado. Imaginam como vai ser

E como seria bom partilhar a vida, os sonhos

Não vai dizer

Devem ser um trabalho da

escola. E a cueca, concerteza é dele” / Jennifer: “Não é do tamanho dele” / Craig: “Isso não é motivo para suspeitar” / Jennifer: “Ele mesmo me contou” / Craig: “Não importa,

não quer dizer nada. Garotos sempre acham isso. Estão confusos e com medo” / Jennifer: “Ele não está confuso, nem com medo. Ele tem certeza. Nós também sempre

soubemos” / Craig: “Não, eu nunca soube” / Jennifer: “Mas desconfiava” / Craig: “Não, ”

/ Jennifer: “O que? Sensível? Diferente? Um Nem todos rapaz quer jogar futebol” / Jennifer:

“Devia falar com ele” / Craig: “E dizer o que? Sua mãe acha que você é homossexual” /

Se já não tiver” / Craig:

“Está dizendo que ele anda fazendo coisas?” / Jennifer: “Ele já tem 17 anos! Não é mais ingênuo” / Craig: “Por que não me contou?” / Jennifer: “Porque prometi a ele” / Craig:

“Essa é ótima. Não tenho o direito de saber o que se passa por aqui? Justin!” / Jennifer:

“Ele não está. Disse que ia ver Daphne, mas sei que não foi” / Craig: “Então, onde ele está?” / Jennifer: “Outra noite eu o vi em um bar gay” / Craig: “Não posso acreditar, Jen! Deixa que vá a estes lugares?” / Jennifer: “Eu não sabia” / Craig: “Vou dar um basta nisso agora mesmo” / Jennifer: “E tem mais, ele está saindo com alguém” / Craig:

Jennifer: “Converse, antes que ele se exponha a algo pior

você desconfiava. Ele não é gay, é artista?” / Craig: “Ele é mesmo

nada?” / Craig: “Justin não é gay. Os desenhos que achou

Diálogo entre Pai (Craig) e Mãe (Jennifer) de Justin: Jennifer: “Craig

“Quem é o garoto? Vou ligar para os pais dele” / Jennifer: “Não é um garoto, é um homem. O nome dele é Brian Kinney”

Os amigos: Ted, Emmett, Brian, Justin e Michael conversando: Emmett falando para Michael: “Se anda como um namorado, e fala como um namorado, só pode ser um namorado” / Brian: “Dá pra calar a boca? É ótimo Mikey ter um caso mais sério” / Michael: “Não e nada sério. Só saímos duas vezes” / Ted: “Consideramos isso um

relacionamento” / Emmett: “Logo, estarão trocando alianças” / Ted: “Numa cerimônia

Já transaram com um ou dois, pombinhos” / Emmett: “Mas

prometam que não vão usar ternos brancos iguais” / Michael: “Isso nunca vai acontecer!” / Emmett: “Então é bom tomar cuidado com os sinais” / Michael: “Que sinais?” / Ted: “Como ele lhe dá flores” / Emmett: “Ou convida-o pra passar o fim de semana nas montanhas” / Ted: “Onde você só verá o teto do quarto” / Emmett: “E o aviso mais importante. Quando ele conhecer sua mãe e ela o convidar para jantar”

onde os 200 convidados

Discussão entre Craig, Jennifer e Justin: Jennifer fala para Justin: “Não é certo um

Apesar de você achar que o

ama, tenho certeza que ele não o ama” / Justin: “Não é verdade” / Craig: “Ele é um adulto. É ilegal ele ter relação com um menor” / Jennifer: “Querido, não é sua culpa. Sabemos que esse homem seduziu você” / Justin: “Ele não me seduziu. Eu o quis” /

homem da idade dele fazer isso. Fazer sexo com você. E

Craig: “Justin. Por Deus! Você é muito jovem para saber o que quer” / Jennifer: “Craig,

E como fica a AIDS?” / Justin: “Ele usa

camisinha. Eu mesmo ponho nele” / Craig: “Meu Deus! Vou chamar a polícia” / Jennifer: “Não vai chamar ninguém. Quer que todos saibam?” / Craig: “Vai deixar esse

monstro