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TEOLOGIA CRISTÃ CURSO MODULAR TEOLOGIAS COMPARADAS Vlademir Fernandes SETEBAN – RO/AC
TEOLOGIA CRISTÃ
CURSO MODULAR
TEOLOGIAS
COMPARADAS
Vlademir Fernandes
SETEBAN – RO/AC
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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

 

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CAPÍTULO 1 APRISIONAMENTO E MANIPULAÇÃO: TEOLOGIA

CATÓLICA

CLÁSSICA

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1.1.- O início da Igreja Cristã

7

1.2.- O início e desenvolvimento da Igreja Católica

7

1.3.- O surgimento do monasticismo

8

1.4.- O surgimento do papado

9

1.5.- A corrupção do culto

.......................................................................................

9

1.6.-

O

sistema de disciplina

9

1.7.- A criação do purgatório

10

 

10

10

1.10.- Algumas datas e dogmas da Igreja Católica

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CAPÍTULO 2 ENCONTRANDO AS ESCRITURAS: TEOLOGIA REFORMADA

 

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2.1.-

Centrada em Deus

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2.2.- Baseada somente na Palavra de Deus

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2.3.- Comprometida somente com a fé

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2.4.-

Dedicada a Jesus Cristo

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CAPÍTULO 3 JESUS CRISTO E A MITOLOGIA: RUDOLF BULTMANN E A

TEOLOGIA

LIBERAL

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3.1.-

O liberalismo teológico

.................................................................................

19

3.2.-

Teologia

do mito ............................................................................................

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CAPÍTULO 4 DE VOLTA AO ESSENCIAL: KARL BARTH E A TEOLOGIA NEO-ORTODOXA

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CAPÍTULO 5 ESPERANÇA EM MEIO AO SOFRIMENTO: JURGEN

MULTMANN E A TEOLOGIA DA ESPERANÇA

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CAPÍTULO 6 CRISTIANISMO SEM RELIGIÃO E O MOVIMENTO DA

 

MORTE DE DEUS

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6.1.- A teologia do cristianismo sem religião

27

6.2.- O movimento da morte de Deus

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CAPÍTULO 7 PRÁXIS LIBERTADORA: GUSTAVO GUTIÉRREZ E A

TEOLOGIA

DA LIBERTAÇÃO

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CAPÍTULO 8 CONVENÇÃO BATISTA NACIONAL: QUEM SOMOS E EM

QUE CREMOS?

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8.2.- Os elementos fundamentais de nossa fé

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CONSIDERAÇÕES

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REFERÊNCIAS

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APÊNDICE: MODISMOS TEOLÓGICOS

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INTRODUÇÃO

A teologia é inevitável para o cristão. A afirmação parece ser radical,

contudo faz justiça a essência do significado do termo. Se o cristão quer e precisa conhecer a Deus, logo ele precisa de teologia. O teólogo Cheung (2006, p.9) afirma

que “a necessidade de teologia é uma questão da necessidade de comunicação de Deus”. Deus comunicou-se proposicionalmente através de sua Palavra, desta forma, conhecê-lo e compreendê-lo envolve labor teológico. Academicamente podemos advogar a necessidade do estudo sistemático da revelação mediante a simples observação do fato de que o ser humano geralmente não aceita simplesmente uma verdade bruta, por meio de fatos “secos”, ele precisa concatenar ideias, fazer junções e estabelecer uma lógica diante dos fatos. Neste serviço, acaba por produzir teologia quanto aos fatos religiosos. De acordo com Hodge (2001, p. 1) “em nenhuma esfera do conhecimento os homens têm ficado satisfeitos com a posse de uma massa de fatos indigestos” e conclui, a partir desse fato, a necessidade da teologia. Num perfil mais apologético temos na teologia um refúgio que nos traz clareza quanto nossa fé, nosso corpo de doutrinas, bem como orientações para repudiar o erro. Erickson (1997, p. 16) define teologia como “o estudo da doutrina”. Neste sentido, doutrina é interpretada não no sentido pejorativo, mas no sentido de corpo de crenças da religião cristã. Assim, é preciso estabelecer crenças doutrinárias corretas para um saudável relacionamento entre o crente e Deus. Ademais, faz-se necessário prevenir a igreja contra a vasta gama de outras ideias e filosofias que disputam nossa devoção. A teologia se desenvolveu como ciência através dos séculos, e podemos traçar resumidamente um panorama de sua história, a fim de percebermos com maior detalhe as nuanças, caminhos e opções pelas quais ela trilhou. Notamos um pensamento teológico incipiente na Igreja Antiga quando existia a preocupação apologética em defender a fé contra heresias perniciosas, como o gnosticismo, que pairava pelo meio da igreja. Os pais da igreja tiveram papel fundamental neste período. Naquela época ocorreram vários concílios e a igreja produziu diversos documentos de boa qualidade que até mesmo hoje ainda são utilizados. Não encontramos problemas, por exemplo, em conhecer e crer no Credo Apostólico 1 , A instrução contida na Didaquê 2 ainda pode ser aplicada, e, posteriormente o Credo de Nicéia e de Constantinopla, estabeleceram com firmeza a magna doutrina da Trindade, enfatizando a divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Após o século IV, aconteceu a oficialização do cristianismo no império romano por meio dos imperadores Constantino e Teodósio, com os respectivos editos de Milão e Tessalônica. O primeiro permitindo a existência da religião cristã, o outro, tornando-a religião oficial do estado romano. Nitidamente os primeiros problemas mais sérios começaram a se proliferar no seio da Igreja. A institucionalização do Cristianismo como religião oficial do

  • 1 Para maiores informações consultar: http://www.monergismo.com/textos/credos/credoapostolico.htm,

  • 2 Para maiores informações consultar: http://www.mackenzie.br/7114.html.

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império romano, ocasionou um o sincretismo religioso, pois o paganismo que era comum no império, bem como outras expressões religiosas, foram absorvidos pela novel religião. Assim, doutrinas, princípios e rituais estranhos ao Cristianismo foram aceitos e incluídos em sua liturgia.

Na Idade Média, os desvios doutrinários na igreja católica se acentuaram. Dezenas de doutrinas antibíblicas foram produzidas por influência da escola de pensamento conhecida como escolástica. Aliado aos desvios doutrinários estava uma prática imoral. O baixo padrão moral e ético na Igreja Católica, naquela época, era marcante de forma que aqueles que desejaram seguir com uma prática cristã autêntica começavam se separar desse movimento em busca de autenticidade. Neste contexto surge o monasticismo, uma prática da religião exercida por meio da abdicação e isolamento. Os monges, como eram conhecidos, viviam em

comunidades geralmente agrícolas e longe do contato com o “mundo” em busca de

uma purificação espiritual e como fuga da corrupção crassa vista no clero romano. O monasticismo não resolveu o problema. Contudo, os cristãos sinceros continuavam insatisfeitos e se esquivando dos pensamentos deturpados de Roma. A tendência separatista continuaria até sua culminação na chamada Reforma Protestante. Alguns grupos pré-reforma ficaram conhecidos e exerceram grande influência para a efetivação do movimento, tais como: donatistas, anabatistas, albingenses e valdenses. Com a Reforma Protestante no século XVI os reformadores se viram obrigados a discordar e desafiar os dogmas da Igreja Católica. Enfatizaram a autoridade e suficiência das Escrituras, o verdadeiro sentido dos sacramentos, a justificação pela fé, o sacerdócio universal dos crentes. De modo geral, foram enfatizados os cinco Solas: Sola Scriptura, Sola Fide, Sola Gratia, Solus Christus e Soli Deo Glorie. 3 O contexto histórico e cultural em que se deu a Reforma foi influenciado pelo Renascimento, movimento artístico, cultural, político e religioso que marcou a transição dos valores das tradições medievais para valores de um “novo mundo” que estava sendo descoberto. Tais valores tinham uma entonação mais materialista e antropocêntrica, ao contrário do teocentrismo que predominava o período anterior. As críticas à religião católica não se limitavam aos religiosos insatisfeitos, na verdade, tudo um movimento de renovação conspirava contra o autoritarismo e o pensamento, muitas vezes infundado, da Igreja.

Como reação, a Igreja Católica instituiu a Contra Reforma e movimentos de reação e punição das supostas heresias. Adotou uma postura mais radical contra ideias novas e uma espécie de oposição gratuita à ciência. Muitas descobertas científicas foram simplesmente rechaçadas, o que, trouxe ainda mais aversão e críticas ao sistema religioso que perdia cada vez mais seu prestígio. Ficaram definidos claramente dois sistemas de teologia na religião cristã, a teologia católica e a teologia reformada. Dois sistemas complexos de pensamento com cosmovisão própria e quase totalmente antagônicos.

3 Para maiores informações consultar:

http://www.monergismo.com/textos/cinco_solas/cinco_solas_reforma_erosao.htm.

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Outro movimento cultural, desta vez ocorrido no século XVIII, conhecido como Iluminismo procurou afirmar decisivamente o poder da razão como meio para reformar a sociedade. Seu foco maior era trazer a liberdade, autonomia e a emancipação do homem. De certa forma o movimento postulou que o crivo para toda verdade seria a razão. Assim, tudo o que a razão não conseguisse comprovar deveria ser descartado. Neste sentido, as críticas à Bíblia e a religião como um todo foram gravemente intensificadas. Os mitos, as lendas e explicações não científicas foram duramente criticados, pois o método científico se estabelecia como o tribunal para de toda verdade. A Bíblia passou a ser categorizada por muitos no mesmo nível dos mitos ou como construções tribais lendárias dos antigos judeus. Muitos pressupostos importantes do cristianismo foram postos de lado, como a inspiração divina das Escrituras e a existência do sobrenatural em nosso universo. Houve uma secularização na teologia. Outrora tínhamos basicamente duas correntes de pensamento, o catolicismo e o protestantismo. Após o advento do Iluminismo, e sua influência “científica” nos estudos bíblicos, presenciamos o nascimento de uma teologia conhecida como Liberal. O liberalismo teológico segundo Almeida (2003, p. 111) “é, simplesmente, uma tendência de ajustar o Cristianismo aos conceitos da Alta Crítica da Bíblia,

da ciência e das filosofias modernas”.

A partir do século XIX temos coexistência das teologias: católica, reformada e liberal. Sendo que a Teologia Liberal, como visto antes, é a tentativa de ajustar o Cristianismo aos novos postulados da ciência. Sua expressão alcançou várias nuanças e produziu diversas linhas de pensamento que consideramos em conjunto como teologia contemporânea. Delas podemos citar: A Teologia do Mito de Bultmann, a Teologia da Esperança de Pannenberg e Moltmann, a Teologia Evolucionista, a Teologia do Evangelho Social ou Teologia da Libertação (na américa do sul) originada em Schleiermacher e a Teologia do Cristianismo sem Religião de Bonhoeffer. Sem falar na Neo-ortodoxia de Karl Barth com o intuito de refutar o liberalismo teológico, o que, na verdade, fundou outra espécie de liberalismo, contudo mais velada. Assim, chegamos ao século XXI com não mais duas ou três expressões teológicas proeminentes, mas uma gama considerável de pensamentos que disputam a atenção e o domínio sobre a verdade. O trabalho cristão tem-se tornado ainda mais desafiador diante da batalha pela “fé que foi dada de uma vez por todas aos santos” (Jd 3), visto que muitas vãs filosofias têm concorrido com o verdadeiro evangelho. Nosso objetivo será compreender ainda mais cada uma das propostas teológicas contemporâneas a fim de conseguir firmar ainda mais a verdadeira teologia cristã e possibilitar a denuncia do erro.

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CAPÍTULO 1

APRISIONAMENTO E MANIPULAÇÃO:

TEOLOGIA CATÓLICA CLÁSSICA

1.1.- O início da Igreja Cristã

O primeiro século é o cenário do ministério do Senhor Jesus Cristo, o início e desenvolvimento de sua Igreja. Neste período também todo o cânon do Novo Testamento foi escrito e a Igreja se espalhou por todas as partes. Assim, apesar de perseguição, o evangelho havia sido pregado em grande parte do mundo. Jesus Cristo quando exercia seu ministério queria alcançar o máximo de pessoas possível. Era visível que o Senhor também queria juntar um grupo de pessoas que tivesse um compromisso especial em divulgar estes ensinos. Para isso, chamou alguns discípulos que teriam o trabalho de auxiliá-lo na propagação das boas novas e ministrou um ensinamento especial e mais detalhado a estas pessoas. Após sua ressurreição ministrou por aproximadamente quarenta dias exclusivamente aos discípulos e deu-lhes ordem para que fossem por todo o mundo pregar o evangelho a todas as nações. Para tal empreendimento prometeu-lhes dar poder pra a realização da tarefa. Este grupo de seguidores foi chamado de Igreja. Nos três primeiros séculos a Igreja cresceu e se desenvolveu muito. Na sociedade, todas as classes sociais foram alcançadas pelo Cristianismo mudando aquela característica inicial que mostrava um Cristianismo formado apenas por pessoas paupérrimas. Apesar disso, a classe mais poderosa de cristãos ainda era representada em sua maioria por artesãos. Neste processo de crescimento muito foram aqueles que se empenharam e contribuíram para essa realidade. Os apologistas, por exemplo, defensores da fé, desempenharam um importante trabalho. Podemos, e até mesmo devemos, citar o nome de Justino, o Mártir (100- 165) e Tertuliano (160-220). Os homens que faziam o trabalho de mestres na Igreja também foram extraordinários. Um deles foi Orígenes de Alexandria (185- 253). Contudo, podemos afirmar sem dúvida que a maior parte da obra de levar a mensagem da cruz foi realizada pelos cristãos em geral.

1.2.- O início e desenvolvimento da Igreja Católica

Após a metade do século 2º começou a surgir uma organização que depois

veio a ser conhecida como Igreja Católica. O termo “católica” quer dizer universal.

Além da unidade espiritual que caracterizavam as igrejas do século 1º foi necessário uma unidade também exterior. As igrejas que se uniram a esta

associação chamada “católica” eram unidas, em primeiro lugar, por terem uma só

forma de governo, isto é, bispos, presbíteros, diáconos; segundo, pela adoção de um só credo, substancialmente o Credo dos Apóstolos e terceiro, por todas reconhecerem e receberem uma só coleção dos livros do Novo Testamento. A organização da Igreja Católica tornou-se necessária devido a um grande perigo. O

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Gnosticismo e outro movimento chamado Montanismo, ambos heréticos, causavam confusão e dissensão dentro da Igreja. Para preservar a pureza do Cristianismo tornou-se necessário um meio externo de unidade. O meio usado foi a organização da Igreja Católica, uma instituição que pretendia possuir autoridade, excluindo do seu interior os que se recusassem a obedecer a ela. Mais tarde, esse fato teve resultados funestos, mas nesse tempo foi necessário. Se falarmos sobre a expansão da Igreja neste período não podemos deixar de fora a figura do imperador Constantino. Não se sabe ao certo o porquê, mas Constantino se afeiçoou com o Cristianismo. Talvez por esperteza, pois via o Cristianismo, mesmo debaixo de perseguição, sempre em crescimento e isto poderia lhe ser favorável em seus planos de domínio e unificação dos povos ou por pensar que haveria em tal religião um favor divino, pois ela não se dissolvia, mas estava cumprindo sua trajetória, enfim, Constantino deu fim a perseguição cristã por parte de Roma. Mais ainda, ele mostrou-se favorável a ela e começou a mostrar apoio por meio de doações para construção de igrejas e alguns auxílios para manutenção do clero tais como isenção de impostos. Nessa nova perspectiva é claro que podemos esperar da Igreja um grande crescimento e isto realmente aconteceu. Mas, este crescimento se por um lado foi bom, por outro foi ruim. O lado bom foi que tudo estava agora a favor da prosperidade Igreja. O império, o povo e a própria cristandade que havia passado por uma grande prova, estavam empenhados expandir esta religião. A participação do Estado tornou-se tão latente até que em 380 d.C. Teodócio, imperador cristão, baixou um decreto pelo qual todos os súditos do império deveriam aceitar a fé cristã como estabelecida pelo Concílio de Nicéia. Neste período encontramos o lado ruim. Muitos se tornaram cristãos nominais sem nada conhecer do cristianismo e sem qualquer compromisso mais profundo. Muitos simpatizaram com a religião porque nela encontraram auxílio para seus problemas sociais. Outros se viram obrigados a serem cristãos por força da lei. Quais forem os motivos, muitos ditos cristãos não eram convertidos daí podemos já imaginar os problemas que futuramente isto causaria. Com essa nova configuração da Igreja formada também por pessoas não convertidas surgiram vários problemas que deixaram muitos cristãos sinceros preocupados. A queda no nível moral foi o mais alarmante.

1.3.- O surgimento do monasticismo

A Igreja desenvolveu sua disciplina para tentar refrear os excessos e punir os abusos cometidos, mas esta atitude não resolveu o problema da sede espiritual que os sinceros tinham. Os cristãos não queriam viver diante de uma religião que mais funcionaria como uma disciplinadora do que formadora da espiritualidade. O meio encontrado para fugir desta situação foi o chamado monaquismo. Os homens decidiram se tornar monges e literalmente fugir da sociedade, pois tinham um grande anseio por verdadeira salvação. Pensavam que em se retirando do meio da sociedade corrompida teria melhores condições para isto.

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1.4.- O surgimento do papado

Na sequência do desenvolvimento organizacional da Igreja Católica surgiu e tomou forma a tendência de aumentar a autoridade dos bispos chegando mesmo a centralizar o governo da Igreja nas mãos de quatro deles sendo que os dois mais importantes representavam Roma e Constantinopla. O bispo de Roma tinha certa vantagem, pois Roma havia sido a capital do mundo tempos anteriores. Além disso, a pretensão petrina ou papal foi transformada em doutrina e crida pela maioria da cristandade. Pedro foi considerado o primeiro bispo de Roma e seu primado foi legado aos seus sucessores, dessa forma, a primazia sobre os demais bispos deveria ser exercida por um bispo de Roma. Outras Igrejas não concordaram com esta postura e se separaram da Igreja Católica, estas foram consideradas hereges.

1.5.- A corrupção do culto

Não demorou muito para o culto dentro do Cristianismo dessa época ser influenciado e modificado pelo pensamento pagão. As mudanças mais significativas foram a introdução da idolatria no culto. Agora, Deus revelado por Jesus não era o único objeto de culto. Vários santos e a Virgem ganham a atenção dos “fiéis”. Contudo, a Igreja não assumiu que se tratava de idolatria, antes, tal atitude manifestava apenas uma veneração, um louvor, ou reconhecimento à vida dos santos. Soares (2002, p. 177) faz uma dura crítica a tal entendimento.

Há diferença entre “adorar” e “prestar culto”? Prostrar-se diante de um ser, dirigir a ele orações e ações de graça, fazer-lhe petições, cantar- lhe hinos de louvor, se não for adoração, fica difícil saber o que os papistas entendem por adoração. Chamar isso de simples veneração é subestimar a Inteligência humana.

O culto às relíquias também foi desenvolvido, pois se cria que as relíquias que estiveram em contato com os santos transmitiam certa graça à vida do crente. Neste momento, a missa tornou-se o elemento central do culto. A religião caminhou para uma religião do medo. As pessoas eram aprisionadas e manipuladas pelo medo. Pensava-se que o mundo era cheio de maus espíritos, de demônios, apelava-se à intercessão dos santos e às virtudes mágicas das santas relíquias.

1.6.- O sistema de disciplina

O sistema de disciplina da Igreja também foi desenvolvido. Dentre os elementos da disciplina estava a confissão. Todos eram obrigados a se confessar ao sacerdote pelo menos uma vez por ano. Os que se confessavam tinham de fazer penitência de acordo com a gravidade das faltas. Tais penitências eram várias ações como jejuns, flagelos e peregrinações que uma vez feitas comprovavam a sinceridade do arrependimento do penitente. Após o cumprimento da penitência era proclamada, então, a absolvição. Entendia-se que o pronunciamento era considerado como perdão divino, concedido ao pecador.

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Depois, a ideia de que a Igreja teria o poder de perdoar os pecados prevaleceu. A Igreja teria o perdão divino e poderia administrá-lo concedendo aos homens. Esse processo de confissão, penitência e absolvição livrava a culpa do pecado e, consequentemente, do castigo eterno devido ao mesmo. Mas ainda permanecia a consequência temporal do pecado, cuja parte principal seria penalizada no purgatório.

1.7.- A criação do purgatório

Neste momento entram as ideias sobre o purgatório. Segundo o pensamento da Igreja, esse era um estado de sofrimento purificador, pelo qual o pecador deveria passar antes de entrar na bem-aventurança final. A Igreja ensinava que tinha o poder de diminuir essas penas do purgatório daquelas pessoas que, enquanto estavam na terra, satisfizessem as suas exigências. Essa redução de penas do purgatório era chamada indulgências e podia ser conseguida pela prática e certas penitências. Mais tarde essas indulgências passaram a objeto de negócio, sendo vendidas a todo preço. Era ensinado que a pessoa que as pudesse comprar, além de beneficiar-se, ajudava também aos parentes e amigos já falecidos. Não podemos nos esquecer das disciplinas direcionadas em casos mais graves. A excomunhão era a punição aplicada nos casos mais graves. A pessoa era expulsa da Igreja e ficava privada dos seus sacramentos. Para as pessoas da época, isso constituía uma punição aterradora.

1.8.- Direito Canônico e “Santa” Inquisição

Outro sistema bastante desenvolvido eram as leis e os tribunais eclesiásticos. Os povos estavam sujeitos a duas leis, as civis e as eclesiásticas. Esse sistema judicial da Igreja pretendia ser tão eficiente como o civil. O desenvolvimento dele culminou com a criação da Inquisição que tinha o objetivo de punir os levantes de grupos e pessoas que sustentavam o que a Igreja denominava de heresia.

Esse sistema foi bastante “eficiente” agindo com mãos de ferro e tendo

muitas vezes ao seu lado o apoio das leis civis que também puniam severamente

os movimentos hereges. A Inquisição marcou a história por causa dos absurdos que cometeu chegando a sentenciar pessoas inocentes a graves torturas e até mesmo à morte.

1.9.- Sacramentos e a continuação da corrupção do Culto

O culto da Igreja era exercido mediante a administração dos sacramentos. Estes eram em número de sete: 1) Batismo, 2) Confirmação, 3) Eucaristia, 4) Penitência, 5) Extrema-unção, 6) Ordem, 7) Matrimônio. Pensava-se e ensinava- se que estes eram meios de salvação. Em virtude de os sacramentos terem tão grande destaque, a pregação passou para lugar secundário e de muito pouca importância. Com uma pregação

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tão escassa a ignorância imperava nas mentes dos fiéis que facilmente eram manipulados a praticaram os rituais propostos pelo clero. Os elementos da superstição pagã continuaram aflorando no meio da Igreja. O culto aos santos dominou totalmente a religião. As relíquias também continuaram sendo usadas como materiais miraculosos. Peregrinações a lugares santos e aos relicários constituíam grande devoção na vida religiosa da Idade Média. O culto à Virgem constituía parte muito importante da religião popular. No ensino da igreja papal nunca se atribuíra divindade à mãe de Jesus. Ela, porém, recebia tal consagração e louvor, tão grande culto da parte do povo, que pouco faltava para ultrapassar o do próprio Deus. A culpa do crescimento desse tipo de idolatria, em parte, era do próprio clero. As pessoas tinham uma visão de Deus muito limitada. O viam como Criador e Dominador Supremo. Jesus era visto como o grande Juiz severo. Essa imagem de Deus lhe tirava a simpatia, a misericórdia e o amor. Tais características o povo encontrava na Virgem que era mulher e mãe. Assim, consideravam-na intercessora e protetora. O povo construía grandes altares e magníficos templos dedicados em sua honra.

1.10.- Algumas datas e dogmas da Igreja Católica

Ano 431, a igreja começa a cultuar Maria, mãe de Jesus. Ano 503, decretam a existência do purgatório. Ano 1476, começaram a cobrar "Missas de intenção". Ano 783, iniciam a veneração de imagens (idolatria). Ano 933, a igreja institui a "Canonização". Ano 1074, instituído o Celibato. Ano 1190, começam a conceder perdão e favores espirituais por dinheiro. Ano 1208, começaram na missa, a "levantar" a hóstia para ser adorada. Ano 1414, o vinho na Ceia do Senhor começou a ser negada aos fiéis. Ano 1215, o papa Inocêncio III, por decreto instituiu a Transubstanciação. Ano 1870 declaram o papa infalível. Ano 1854, impõem o dogma da imaculada conceição de Maria. Ano 1950, impõem o dogma sobre a Assunção de Maria.

Enfim, podemos dizer que o período, principalmente durante a Idade

Média,

era

de

trevas

espirituais.

O

Cristianismo

tinha

perdido aquela

simplicidade,

espiritualidade,

alegria

e

confiança

que

Jesus

Cristo

havia

oferecido.

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CAPÍTULO 2

ENCONTRANDO AS ESCRITURAS: TEOLOGIA REFORMADA

Logo no início do século XII surgiram vários movimentos em oposição a atitude e o estado da decadente da Igreja que se encontrava num verdadeiro lamaçal. O movimento dos cataristas mexeu muito com a Igreja. O movimento dos Valdenses também tentou mostrar uma forma de religião mais simples e sem

tanto paganismo. Os denominados “irmãos” também nutriam uma fé simples e

um culto com pureza e bondade. Mas também tinham que se esconder, pois não estavam ligados diretamente à Igreja Romana e isto os tornavam réus da Inquisição, assim como todos os outros movimentos já mencionados. Surgiram várias revoltas na Igreja. Duas delas a Igreja não pode reprimir e ocorreram nos séculos XIV e XV lideradas por João Wycliff e João Huss. João Wycliff entrou em luta com o papado em 1375 neste tempo já fazia 75 anos que a Inglaterra resistia à interferência papal nos negócios da igreja inglesa. Wycliff nascido entre 1320 e 1330 já era famoso como um homem culto. Ele também era padre de Lutterworth quando conquistou a simpatia dos pobres. Suas reivindicações começaram por contrariar o direito do papa de cobrar impostos ou taxas da Inglaterra. Ele ainda denunciou o papado e toda organização clerical afirmando que não deveria haver distinções de classes dentro do clero. Também foi além e afirmou falta de base bíblica para a doutrina da transubstanciação. Wycliff após os ataques ainda afirmou que a Bíblia é a única e verdadeira regra de fé e prática. Surgiu então o seu maior trabalho, a tradução da Bíblia da Vulgata (do latim) para o Inglês. O movimento iniciado por Wycliff atraiu várias colaboradores e ganhou muita força. Contudo, foram miseravelmente perseguidos no século XV, mas continuaram sua obra até ao tempo da Reforma. João Huss seguiu os passos de Wycliff e originou uma revolta ainda maior contra a igreja papal. Huss também era um homem muito respeitado entre o povo e de grande influência. Podemos dizer que Huss “bebeu” as ideias de Wycliff nos livros. Como Wycliff era considerado herege, Huss certamente seria condenado pelos chefes da Igreja como um herege, também. Ele foi excomungado pelo seu desafio ao papa João XXIII, em 1412, diante de quem compareceu. Ele escreveu um livro em que afirmada ser a “Lei de Cristo”, isto é, o Novo Testamento, o guia suficiente para a Igreja, e que o papa só podia ser obedecido na medida em que suas ordens coincidissem com essa lei divina. Julgaram Huss em Constança mediante uma farsa e escárnio. Ele foi martirizado condenado à fogueira em Constança. Após este fato levantou-se uma grande ira da parte do povo. Um partido iniciou a guerra pela independência. Os negócios da Europa em geral foram muito perturbados. A era da reforma já estava sendo preparada. Muitos movimentos já indicavam que ela seria iminente. O movimento do Renascimento também contribuiu significativamente para realização desse objetivo no meio da Igreja. A reforma era extremamente necessária e ocorreria inevitavelmente, pois o sistema eclesiástico estava tão corrompido que era insustentável se manter daquela

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forma. Homens e mulheres valentes já tinham se levantado para criticar a postura da Igreja, mas eram apenas movimentos isolados, em épocas anteriores, contudo estava chegando o momento de os movimentos não serem parcos e mirrados, mas sim ganharem os corações da massa cristã que almejava por melhores condições na religião. Martinho Lutero (1483-1546) nasceu em Eisleben, na Saxônia, descendente de uma família de camponeses. O pai trabalhava numa mina de ferro e, durante a infância de Lutero, foi um homem de parcos recursos; porém, tendo mais tarde progredido, conseguiu dar ao filho uma educação primorosa. No final de 1512 e início de 1513, enquanto lia a Epístola aos Romanos, em sua cela, encontrou estas palavras: “O justo viverá por fé”. Isso, então, como que lhe incendiou a mente; vislumbrou aquela verdade que vinha procurando há tanto tempo: que a salvação lhe pertencia simplesmente pela confiança, pela fé em Deus por meio de Jesus Cristo, e não por qualquer obra que ele próprio realizasse. Até então, ele não tinha entendido plenamente esta verdade. Prosseguiu em seus estudos através de várias boas leituras e principalmente lendo os Salmos e as Epístolas, principalmente as de Paulo. A partir desse estudo pregava com maior clareza e profunda certeza a realidade de que Deus salva os pecadores mediante a fé no seu amor revelado em Cristo. Contudo, contra esta verdade e acima dela em termos humanos, pairava o ensino da igreja medieval de que o homem pode alcançar a salvação pelas obras, pelos sacramentos que a igreja, que se dizia divinamente autorizada, prescrevia. Mas, Lutero estava convicto de que sua mensagem era verdadeira porque em sua luta e prolongada pesquisa encontrou-se com Deus. Dessa experiência ele trouxe um novo impulso que seria necessário para reformar a igreja cristã que tinha sido romanizada e paganizada. Em 31 de outubro de 1517, véspera do Dia de Todos os Santos, quando enorme multidão comparecia a Igreja do Castelo, na cidade de Wittenberg, Lutero colocou às portas dessa igreja as 95 teses que tratavam do caso das indulgências. Essencialmente as teses afirmavam que a Igreja não tinha o poder para perdoar as pessoas, nem mesmo tinham o poder de remover a culpa pelo pecado, mas qualquer cristão arrependido tinha o seu perdão vindo diretamente de Deus, sem a intervenção de indulgências. Sem perceber, Lutero deu um golpe no coração da igreja, pois atacara sua pretensa autoridade como mediadora entre Deus e os homens. A partir de 1520, os ensinos reformadores dominaram rapidamente a Alemanha. A maioria dos monges deixou os claustros para pregarem as boas- novas do Novo Testamento. Muitos dos sacerdotes das paróquias tornaram-se luteranos e, em muitíssimos casos, seus paroquianos os seguiram. Um bom número de bispos tornou-se favorável às novas doutrinas. Quando não se encontravam clérigos para pregar, os leigos o faziam. Os livros de Lutero tiveram enorme divulgação e influência. O movimento luterano espalhou-se como um forte reavivamento espiritual. De fato, esse movimento foi, fundamentalmente, um reavivamento religioso. Lutero tinha em si próprio um tremendo poder de vida religiosa, e, por meio dos seus ensinos, que eram, contudo, tão antigos quanto o Cristianismo, produziu no seu povo uma nova vida religiosa.

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Mas, qual o cerne da teologia reformada e o que ele transmitiu para gerações futuras? Maia (2007, p.9) define o que compreendemos por teologia reformada.

Trata-se da teologia oriunda da Reforma (calvinista) em distinção à luterana. O designativo “reformada” é preferível ao “calvinista” – ainda que o empreguemos indistintamente -, considerando o fato de que a teologia reformada não provém estritamente de Calvino.

De modo geral, podemos seguir as ideias do teólogo americano R. C. Sproul,

em sua obra “O que é teologia reformada” para traçarmos os fundamentos da

mesma. Destacaremos resumidamente a proposta em quatro, quais sejam: 1) Centrada em Deus, 2) Baseada somente na Palavra de Deus, 3) Comprometida somente com a fé e 4) Dedicada a Jesus Cristo.

2.1.- Centrada em Deus

Primeiro de tudo a teologia reformada é teocêntrica e não antropocêntrica. Isso quer dizer que o maior interesse dela é glorificar a Deus, colocando-o como centro de toda a existência.

No contexto da Reforma, tudo era considerado, menos a centralidade de Deus. Ele havia sido “retirado” do culto e da vida das pessoas. O culto estava permeado e difuso entre diversas “devoções”. Com a introdução dos santos, das

relíquias e de Maria, a adoração certamente perdeu sua centralidade e exclusividade em Deus. Muito além do culto e das expressões dentro da Religião, havia na época o movimento de Renascimento e, posteriormente, surgiu o movimento conhecido como Iluminismo. Ambos enfatizavam muito a humanidade e seu potencial bem como sua capacidade intelectual em detrimento da fé. Assim, de forma geral o conceito do homem foi exaltado. A teologia reformada respondeu adequadamente sobre a posição e valor do ser humano. Nela, o ser humano é reconhecido, contudo, posto em seu devido lugar de acordo com a revelação, ou seja, o homem é uma criatura que após a “queda” encontra-se em estado depravado. O homem nasce pecador, ao contrário do que dizia Jean Jaques Russel, filósofo suíço, que afirmava “o homem nasce bom, mas a sociedade é que o corrompe.”. Vale citarmos R. C. Sproul quando complementa o entendimento.

A teologia reformada mantém a visão alta do valor e da dignidade dos seres humanos. Defere radicalmente nesse ponto de todas as formas de humanismo em que o humanismo atribui uma dignidade intrínseca ao homem, enquanto que a teologia reformada vê a dignidade do homem como sendo extrínseca. Quer dizer, a dignidade do homem não é inerente. Não existe em e de si mesmo. O que temos é uma dignidade derivada, dependente e recebida. Em e por nós mesmos somos pó. Mas Deus nos designou um valor notável como criaturas feitas à sua imagem. Ele é a origem de nossa vida e nosso próprio ser. Ele nos pôs um manto de valor extremo. (SPROUL, 2009, p. 20).

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O pensamento da Reforma era que Deus não poderia ser deixado de lado e nem reinterpretado, de forma a rebaixá-lo a ideias como a natureza, a uma força cósmica. Deus deveria continuar no centro de todas as coisas, pois Ele é o Criador e Sustentador do Universo. A gravitação não deveria mudar de rumo, e girar em torno do homem, mas continuar em torno de Deus. Assim sendo, a doutrina de Deus foi reafirmada e nenhum dos conceitos ortodoxos de sua pessoa e obra seriam negociados. A soberania de Deus foi enfatizada, pois Deus é o Criador e dono de todo Universo, além de ser o auto- existente e como tal não há ninguém superior a Ele aos qual ele deva se sujeitar. Logo, por suas qualidades e perfeições, ele é soberano, no sentido em que governa a tudo conforme exclusivamente sua vontade. A personalidade de Deus igualmente foi tema da teologia em questão. Contrária a toda inovação e reinterpretação sobre a divindade em termos panteístas, a personalidade foi enfatizada. Ou seja, Deus é uma pessoa. Não é uma força cósmica e nem se confunde com a própria natureza. Não é uma definição filosófica abstrata como “o fundamento do ser”. Deus é um ser. Uma pessoa. A ideia da teologia reformada quanto ao tema pode ser expressa conforme definição na Confissão de Fé de Westminster, Capítulo II, De Deus e da Santíssima Trindade.

Há um só Deus vivo e verdadeiro, o qual é infinito em seu ser e suas perfeições. Ele é um espírito puríssimo, invisível, sem corpo, membros ou paixões; é imutável, imenso, eterno, incompreensível, onipotente, onisciente, santíssimo, completamente livre e absoluto, fazendo tudo para sua própria glória e segundo o conselho da sua própria vontade, que é reta e imutável. É cheio de amor, é gracioso, misericordioso, longânimo, muito bondoso e verdadeiro galardoador dos que o buscam, e, contudo, justíssimo e terrível em seus juízos, pois odeia o pecado; de modo algum,

terá por inocente o culpado. (Bíblia

...

, 2009, p. 1787).

De modo geral, a teologia reformada enfatiza que Deus:

  • 1. É um só Deus em três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo.

  • 2. É perfeito, imutável, independente, infinito, eterno.

  • 3. É pessoal em toda relação com a sua criação.

  • 4. É santo, bondoso, sábio, justo, verdadeiro em seu Ser.

  • 5. É possível conhece-lo suficientemente.

  • 6. É impossível compreende-lo exaustivamente.

  • 7. É criador de todas as coisas em seu estado de perfeição.

  • 8. É providente em todas as suas obras.

  • 9. É seu o completo controle de tudo o que acontece no universo.

    • 10. É absolutamente soberano sobre tudo e todos.

2.2.- Baseada somente na Palavra de Deus

Em oposição à igreja católica, que aceitava

a tradição da igreja como

elemento normativo de sua fé, a Reforma enfatizou o conhecido como Sola Scriptura, ou seja, Somente as Escrituras. Significa que a única regra de fé e

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prática deveria ser a Bíblia Sagrada. Não haveria outra fonte de revelação divina tão específica e confiável. A Revelação Geral tem seu lugar, contudo, somente a Revelação Específica, a Palavra de Deus, pode salvar o pecador. Assim, a doutrina das Escrituras também foi reafirmada. A Bíblia não deveria ser considerada um mero livro de religião provindo da expressão religiosa tribal dos judeus antigos e dos cristãos primitivos. Ela deveria ser posicionada como a verdadeira Palavra de Deus. A Bíblia, portanto, é inspirada por Deus. Homens santos falaram movidos pelo Espírito Santo. Ou seja, Deus estava guiando todo o processo profético de construção de sua mensagem ao homem. Tal fator é o distintivo. Por conta da inspiração consideramos a Bíblia um livro totalmente diferente de qualquer outro. A Bíblia é a Palavra de Deus. Tal é o conceito da teologia reformada. Sproul (2009, p. 36) nos afirma que “os reformadores mantinham uma alta visão da inspiração da Bíblia. A Bíblia é a Palavra de Deus, o verbum Dei, ou a voz de Deus, a vox Dei.”. A infalibilidade e inerrância da Bíblia surgiram como consequência. Um livro inspirado por um Deus perfeito não pode conter erros, falhas ou incoerências. Tal doutrina é muito questionada atualmente, mas compreendida corretamente desfaz qualquer antagonismo.

2.3.- Comprometida somente com a fé

O Sola Fide, somente a fé, enfatiza que não há outro meio de salvação além da fé em Jesus Cristo. Todo engodo envolvendo sistemas pelagianos, semi-pelagianos para salvação foram negados. A tão conhecida linha teológica arminiana, portanto, não passava de um semi-pelagianismo, que no final das contas apelava em alguma medida para as obras como meio de salvação. “O justo viverá por fé” (Rm 1.17) foi a grande descoberta de Lutero que reverberou em todo momento de Reforma. Tal proclamação iria de encontro a todo sistema católico da época, baseado em obras tais como: penitências, indulgências, sacrifícios e outros. A fé foi

centralizada e passou a ser exclusiva para salvação. “Porque pela graça sois

salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie.” (Ef 2.8-9). Um quadro comparativo sobre a justificação em termos de fé e obras nos é

apresentado por Sproul (2009, p. 65).

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17 2.4.- Dedicada a Jesus Cristo A pessoa de Cristo também foi centralizada e melhor compreendida

2.4.- Dedicada a Jesus Cristo

A pessoa de Cristo também foi centralizada e melhor compreendida de acordo com a Palavra. Jesus Cristo não era um mero homem ou apenas um profeta. Na verdade Jesus Cristo era o Messias, o Filho do Deus vivo. Era o próprio Deus encarnado. Muitas heresias surgiram no início da cristandade e no seu desenvolvimento. A pessoa de Cristo não ficou isenta de tais ataques de incrédulos. Assim, havia o equívoco de pensar que Jesus não era Deus como correntes arianistas e ebionistas. Por outro lado, com uma enorme influência da filosofia grega, muitos apostaram que Cristo seria uma espécie de eon do gnosticismo. Uma emanação da divindade e, portanto, não era homem, de forma alguma. O problema em tais compreensões reside no fato de que se houver a

negação da divindade de Cristo, tal mediador não pode ser “potente” o suficiente

para salvar a humanidade, pois só Deus é quem pode fazê-lo. A morte expiatória não valeria muito em tal caso, se Cristo fosse um mero homem. Ora, pois quais

homem pode salvar alguém? Noutra perspectiva, se negarmos a humanidade de Cristo, estaremos indo contra do texto bíblico que afirma ser ele plenamente homem. “Porque há um só

Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem”. (1Tm

2.5).

Desta forma, é impossível negar a humanidade ou a divindade de Cristo sem cometer sério equívoco. A expressão, portanto, ortodoxa afirma que Jesus Cristo é plenamente homem e plenamente Deus. Ele possui duas naturezas, a humana e a divina. Tais naturezas não podem ser misturadas e nem separadas. Jesus Cristo é o Deus-homem, uma pessoa com duas naturezas. Ele é 100% Deus e 100% homem. Além de tais realidades, o pensamento reformado costuma enfatizar os chamados ofícios de Jesus. Assim, ele exerce o ofício de profeta, sacerdote e rei. Encontramos na Confissão de Fé de Westminster, Capítulo VIII, De Cristo o Mediador, o seguinte:

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Aprouve a Deus, em seu eterno propósito, escolher e ordenar o Senhor Jesus, seu Filho Unigênito, para ser o Mediador entre Deus e o homem, Profeta, Sacerdote e Rei, o Cabeça e Salvador de sua igreja, o Herdeiro de todas as coisas e o Juiz do mundo; deu-lhe, desde toda a eternidade, um povo para ser sua semente e para, no tempo devido, ser por ele remido,

chamado, justificado, santificado e glorificado. (Bíblia

...

, 2009, p. 1790).

Os ofícios de Cristo são facilmente reconhecidos e indiscutíveis. Ele realmente foi Profeta, Sacerdote e Rei. Com relação a ser Profeta temos o fato de Moisés indicar em tempos remotos que seria levantado outro profeta semelhante a ele ao qual o povo ouviria. “O Senhor teu Deus te levantará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, como eu; a ele ouvireis” (Dt 18.15). O povo também o reconhecia como profeta. E, chegando Jesus às partes de Cesaréia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem? E eles disseram: Uns, João, o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas.” (Mt 16.13-14). De certa forma há uma identificação de Jesus com o ofício profético nesta passagem. Entretanto, o mais contundente era a própria ação profética do Senhor. Ele profetizou várias vezes, sobre diversas situações. Para citar um caso, temos o sermão profético a respeito da destruição de Jerusalém em Mateus capítulo 24. Jesus como Sacerdote representa aquele que leva a causa do povo diante de Deus. Lemos no livro de Hebreus 5.5-10 o seguinte:

Assim também Cristo não se glorificou a si mesmo, para se fazer sumo sacerdote, mas aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, Hoje te gerei. Como também diz, noutro lugar: Tu és sacerdote eternamente, Segundo a ordem de Melquisedeque. O qual, nos dias da sua carne, oferecendo, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia. Ainda que era Filho, aprendeu a

obediência, por aquilo que padeceu. E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem; Chamado por Deus sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque.

(Bíblia

...

,

2009, p. 1650).

Jesus Cristo como Rei vem cumprir a promessa de Deus dada a Davi de

que o “cetro” não se apartaria de sua descendência. E que ele teria um reino eterno. Sproul (2009, p. 82) faz uma ligação do reino de Jesus com a vinda do

Reino de Deus: “Na teologia reformada, o reino de Deus não foi completamente

proposto para o futuro. Embora este reino ainda não esteja consumado, já foi inaugurado e é uma realidade presente.”. Jesus é o Rei soberano. Todas as coisas estão debaixo de seu poder e governo. Tal é a conclusão de seu próprio pronunciamento: “E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra” (Mt 28.18). Sproul (2009, p. 82) comenta com propriedade este fato.

É uma realidade política profunda: que Cristo agora ocupa o assento supremo de autoridade cósmica. Os reis deste mundo e todos os governos seculares podem ignorar esta realidade, mas não podem desfazê-la.

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CAPÍTULO 3

JESUS CRISTO E A MITOLOGIA:

RUDOLF BULTMANN E A TEOLOGIA LIBERAL

3.1.- O liberalismo teológico

O

liberalismo

teológico

surgiu

no

século

XIX

como

consequência

da

agitação intelectual da época. Foi um legítimo fruto do Iluminismo.

Após a Reforma, durante os séculos XVII e XVIII, a igreja protestante foi largamente influenciada por ideias originadas do Iluminismo. O racionalismo desejava submeter tudo ao crivo da análise racional.

Lentamente a razão humana começou a triunfar sobre a fé. [

...

]

Foi

a

época em que surgiu o método histórico-crítico de interpretação da Bíblia, negando a inspiração divina de seus livros e tratando-a como mero

registro humano, falível e contraditório, da fé de Israel e dos primeiros

cristãos. A confiança na Bíblia foi tremendamente abalada. [

]

esses

... desenvolvimentos dentro da Igreja e o movimento associado a eles foi

chamado de liberalismo teológico. (NICODEMUS, 2008, pp.107-108).

A Teologia Liberal pode ser caracterizada como uma postura em relação à religião e as Escrituras. Postura esta baseada nos pressupostos modernistas da ciência pondo a razão como crivo da verdade. Almeida (2003, p. 119) nos alerta que a proposta do liberalismo “procura libertar as consciências cristãs das suas amarras escolásticas, apontando-lhes as exigências da razão”. Tal sistema de pensamento deve ser analisado primeiramente devido sua vanguarda em introduzir pressupostos totalmente diferentes daqueles advogados pela fé reformada ou pela ortodoxia (doutrina correta), o que, abriu a possibilidade para o livre pensamento e o consequente surgimento de uma gama

de teologias. Todas tem em comum a busca por uma espécie de “libertação” de

supostas infantilidades e crendices onde o sobrenatural é rechaçado e o método científico enaltecido. Só as conclusões do raciocínio são aceitas. Contudo, um equívoco neste pensamento é nítido. Almeida (2003, p. 119)

vaticina que “a maioria dos teólogos da atualidade considera hoje insustentável

essa premissa liberalista de que o espírito humano não possa mover-se em

regiões para além do alcance dos sentidos, além do raciocínio mais brilhante”.

Segundo os liberais, o cristianismo deveria incorporar à sua teologia os valores básicos da modernidade tais como aqueles sugeridos pela filosofia, sociologia e antropologia. Dessa indicação surgiu o evangelho social onde o evangelho salvador com uma mensagem de regeneração e justificação passou a ser uma fórmula de libertação social. O evangelho foi transformado numa sociologia recheado de termos puramente humanistas. Outro equívoco impingido por tal teologia diz respeito à pregação de tolerância entre as denominações. Não apenas uma tolerância no sentido contrário a intrigas, mas uma tolerância permissiva que minimizava as diferenças doutrinárias e enfatizando o ecumenismo irrefletido.

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A força com que tais pensamentos de tolerância, ecumenismo, igualdade e pluralidade avançaram na teologia está baseado no fato de que é um postulado da modernidade filosófica. Assim, para se coadunar com as conclusões atuais da filosofia, a teologia liberal assumiu o relativismo de ideias. Nicodemus (2008, p. 43) enfatiza que “liberais, neo-ortodoxos e libertinos abraçaram com força o conceito de pluralidade. Com sua capa de academicismo e democracia, impulsiona

disfarçado o velho relativismo que está no coração da ética libertina”.

Deste modo, verdades absolutas não são aceitas em prol da diversidade. O problema com tal postura é que o Cristianismo advoga a existência de absolutos inquestionáveis. Além do mais, a ausência de padrões pode causar sérias inconsistências e inseguranças na vida tornando complicadas decisões a respeito de certo ou errado, justo ou injusto, pois a relatividade torna tais juízos de valor quase

impossível.

[O homem] perdeu a referência que lhe sirva de orientação e não consegue mais encontrar parâmetros válidos sobre os quais fundar seus juízos. Não sabe mais distinguir entre o bem e o mal, entre o verdadeiro e

o falso, entre o belo e o feio, entre o justo e o injusto, entre o útil e o

prejudicial, entre o lícitos e ilícito, entre o decente e o inconveniente [

...

].

As antigas certezas culturais e morais jazem por toda a terra; os valores sobre os quais se fundava a nossa civilização foram como que esmagados e dissolvidos; os pontos de referência do progresso e da ação perderam sua consistência. (MONDIN, apud NICODEMUS, 2008, p.44).

Com relação à doutrina de Deus, o liberalismo fez igualmente, não ficou imparcial. Pontos como a Soberania absoluta de Deus são tidos como conceitos absurdos. A imanência divina passou a ter predominância em detrimento da transcendência, mas uma imanência associado a conceitos panteísticas em que tudo é Deus e Deus é tudo. Deus passou a ser confundido com a natureza, com sua própria criação. Ainda em relação à ênfase na imanência, há uma consequência séria quando se trata com o conceito de pecado. Quando Deus é confundido com a natureza, com o cosmos, há uma descaracterização ética e moral da divindade, o que, implica uma descaracterização de conceitos como o pecado uma vez visto como errar o alvo (em termos objetivos) colimado por Deus. Quando Deus passa a ser a natureza e nosso relacionamento com Ele passa a ser um relacionamento de elementos, fenômenos e existência com o ambiente, não há margem para se postular uma espécie de vontade de Deus. Assim, não há,

por consequência, espaço para a definição de pecado como “desobedecer a lei de

Deus”. Logo, o homem passa a ser o centro de tudo, como a medida de tudo. O fim

do homem passar a ser a satisfação consigo mesmo, a plenitude de sua existência. O hedonismo entre em cena. O conceito de Deus como Criador onipotente tornou-se obsoleto. A proposta científica de Darwin, o evolucionismo, publicada em 1859, em A Origem das Espécies, atraiu mais as atenções dos críticos e ganhou maior aceitação do que o relato da criação. O problema é que atualmente, tal teoria é negada até mesmo por grandes cientistas. De modo geral, podemos resumir, seguindo Almeida (2003), as principais “doutrinas” liberais, quais sejam:

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  • Os credos primitivos são arcaicos e sem realidade para o mundo moderno;

  • A mente do homem é capaz de raciocinar segundo os pensamentos de Deus;

  • A mente deve estar aberta à verdade independentemente da fonte;

  • As doutrinas cristãs são símbolos de verdades racionais conhecidas pela razão humana;

  • A divindade de Jesus era uma declaração simbólica do fato de que todos os homens possuem um aspecto divino;

  • O conceito bíblico da revelação de Deus na história era ingênuo e pré-filosófico;

Além disso, Champlin e Bentes apud Almeida (2003) enunciam alguns

posicionamentos liberais em relação ao Cristianismo que valem a pena ser conhecidos:

  • Foi posta em dúvida a natureza única do Cristianismo;

  • Foi promovida a dessupervalorização do Cristianismo;

  • Foram evocadas filosofias correntes para explicar a natureza do Cristianismo, com a apresentação de argumentos antimetafísicos;

  • Veio à tona a distinção entre o Jesus teológico e o Jesus histórico;

  • A historicidade do Cristianismo foi atacada, e seus ensinos sem igual foram salientados como a sua verdadeira contribuição;

  • Mudaram as atitudes concernentes ao pecado e à salvação.

3.2.- Teologia do mito

A teologia do mito tem como um de seus principais fundadores a figura do teólogo Rudolf Bultmann (1884-1976) que afirmou estar as Escrituras, principalmente o Novo Testamento, eivado de mitos. Bultmann advoga que para o homem moderno, boa parte do Novo Testamento não faz sentido algum é irracional. Segundo ele, por causa da visão mitológica pré-científica contida no documento. Para Bultmann, os escritores do Novo Testamento, cristalizavam sua visão de mundo, o qual estava dividido em três compartimentos: o superior ou invisível habitado por Deus, pelos anjos, o inferior habitado pelos demônios e o do “meio” que seria o nosso. Bultmann proclamou em uma palestra que:

Não se pode utilizar a luz elétrica e os aparelhos de rádio, apelar para medicamentos e clínicas modernas quando se está enfermo, e ao mesmo tempo crer nos milagres do Novo Testamento. (BULTMANN apud ALMEIDA, 2003).

No mesmo sentido, praticamente todo o aparato escatológico do Novo Testamento é criticado. A crença na vinda sobrenatural do Filho do Homem nos

ares com poder e glória deve ser abandonada. Além do mais, a ideia de um Filho de Deus preexistente que entra no mundo para salvar os pecadores seria coisa do

gnosticismo.

A questão primordial para Bultmann seria responder adequadamente se a

proclamação da mensagem essencial do Novo Testamento resistiria depois de

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eliminado todo mito. O teólogo afirma que seria possível resgatar a verdade essencial e relevância do Novo Testamento por meio de um processo de desmitologização. A teologia do mito foi forjada mediante a influência de várias correntes filosóficas: existencialismo de Martin Heidegger, gnosticismo, de Reitzensteins, e religião helênica, de Wilhelm Bousset. (ALMEIDA, 2003).

Alguns problemas encontramos nessa teologia.

  • A reinterpretação do evangelho elimina o sentido original dos termos.

  • O problema do homem não é mais o pecado, mas sua finitude.

  • O uso da filosofia para formulação de dogmas é problemático, uma vez que distorce o ensino cristão além de poder introduzir novas ideias.

  • Essa teologia é antropocêntrica aproximando-se mais de uma antropologia do que teologia.

  • Após a suposta demitologização dos evangelhos, o Cristo resultado é simplesmente um ser humano igual a qualquer outro, até insignificante e débil.

  • Não há relação entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento.

  • O Sola Fide é completamente reinterpretado.

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CAPÍTULO 4

DE VOLTA AO ESSENCIAL:

KARL BARTH E A TEOLOGIA NEO-ORTODOXA

Karl Barth (1886-1968) foi considerado o maior teólogo do século XX. Nasceu na Suíça e lecionou teologia nas universidades de Gottingen, Munique e Bonn. Responsável por implantar uma espécie de reação ao liberalismo teológico, seu sistema de pensamento ficou conhecimento por vários nomes como:

barthianismo, teologia dogmática, teologia da crise, teologia dialética, neo- ortodoxia, teologia transcendental, modernismo-negativista e teologia de Lund. A proposta de Barth estabeleceu uma terceira opção teológica que não se coaduna com o cristianismo histórico nem mesmo com a formulação liberal. Na verdade, o sistema reúne e tenta conciliar elementos das duas linhas formando assim uma síntese. Influenciado por Hegel que concebia a verdade como síntese entre a tese e a antítese, ou seja, abandonando a lei da causa e o efeito para a descoberta da verdade, Barth aplicou tais conclusões em sua teologia. Assim, a verdade residiria na síntese entre a tese e a antítese. O cristianismo histórico (ortodoxia) seria a tese, o liberalismo seria a antítese. A verdade estaria na síntese, ou seja, num amálgama construído utilizando elementos de ambas as formulações. O problema é que partindo desse pressuposto, teríamos nesse sistema doutrinas antagônicas: o certo e o errado, a verdade e a mentira subsistindo lado a lado. Desta forma, seria preciso adotar um novo princípio, o desuso da lógica! Embarcando assim o sistema num relativismo e no abandono de verdades absolutas! Contudo, não podemos esquecer alguns benefícios advindos do barthianismo. Ele possibilitou um retorno a temas centrais da fé cristã tais como:

a Trindade, o nascimento virginal de Cristo, as duas naturezas de Cristo, justificação, pecado, graça e eleição. Temas que traziam o aspecto de uma nova ortodoxia ou uma neo-ortodoxia, termo empregador majoritariamente para identificar a teologia de Barth. Apesar da aparência, a neo-ortodoxia não tinha muito compromisso com os preceitos essenciais da fé cristã ortodoxa.

[

...

]

a neo-ortodoxia, na verdade, era uma tentativa de síntese entre a

ortodoxia da igreja e o liberalismo teológico, e sem dúvida alguma, nessa síntese o liberalismo perdeu sua força. Mas, não só ele a ortodoxia também já não seria a mesma. (NICODEMUS, 2008, p.109).

Uma falha maior nessa teologia diz respeito à bibliologia. Para Barth a Bíblia não é a palavra, ela apenas contém.

São dignos de nota três pontos criticados por Nicodemus (2008) acerca da neo-ortodoxia, ou como ele chama, do neo-liberalismo quais sejam:

  • A neo-ortodoxia conservou a crítica destrutiva à Bíblia presente no

liberalismo teológico. Não houve uma resposta objetiva refutando os ditames do liberalismo teológico que afirmava ser a Bíblia nada além do que um livro comum

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de religião, cheio de erros e mitos. Para a neo-ortodoxia o maior erro dos liberais não foi desacreditar na inspiração divida das Escrituras ou mesmo atribuir a ela erros e contrações, mas sim pensar que Deus não mais poderia se revelar à humanidade por este meio. Logo, o “avanço” da neo-ortodoxia foi reafirmar que Deus continua falando ainda hoje por meio das Escrituras, mesmo estas sendo imperfeitas. Nota que a imperfeição, a existência de erros e contradições não foi descartada. Tal pensamento é contrário à ortodoxia clássica que se baseia no silogismo apresentado por Geisler (1999):

Deus não pode errar. A Bíblia é a Palavra de Deus. Portanto, a Bíblia está isenta de erros.

  • A neo-ortodoxia faz separação entre Palavra de Deus e Escritura. A

separação de fato justifica a descrença na inerrância e suficiência da Bíblia. Tal

teologia advoga que a Palavra de Deus e a Escritura são coisas diferentes. A Escritura seria uma testemunha da Palavra de Deus. A Bíblia de fato não seria a Palavra de Deus, mas poderia se tornar quando Deus a usasse soberanamente para nos falar. Como testemunha da Palavra a Bíblia não é infalível, muito menos inspirada por Deus. É na verdade o testemunho de reação humana de fé ante a revelação.

  • A neo-ortodoxia considera irrelevante para a fé a veracidade dos relatos

bíblicos. Ao invés de criticar a descrença liberal quanto à historicidade da Bíblia e

refutar seus argumentos racionalistas, a neo-ortodoxia preferiu outra opção.

Afirmou que isso não tinha relevância alguma para fé, pois a fé não independe da história. Assim, fizeram uma distinção entre historie (história, fatos brutos) e heilsgeschichte (história santa ou história da salvação). A heilsgeschichte é como se fosse uma história paralela, numa outra dimensão na qual os “fatos” que lá

ocorrem não precisam obrigatoriamente ter manifestação na historie e vice versa. Foi criado assim quase que um mundo “esquizofrênico” da fé. Desta forma, não seria importante para os discípulos saber o que aconteceu no túmulo de Jesus na manhã de domingo, mas sim a declaração de que ele ressuscitou.

Outros nomes estão associados à neo-ortodoxia como Emil Brunner (1889- 1966), Reinhold Niebuhr (1892-1971) e Paul Tillich (1886-1965). Seguindo Almeida (2003), podemos traçar a característica da filosofia de cada uma desses teólogos. Principais ideias de Emil Brunner:

  • A verdade é alcançada por meio de debates entre posições contrárias;

  • Há possibilidade de revelação fora da Bíblia;

  • A Bíblia é o único critério julgar a verdade de conhecimento bíblico;

  • A Bíblia é e não é a Palavra de Deus;

  • Jesus é absoluto e relativo;

  • Não houve nascimento virginal de Cristo;

  • Não existiu a ressurreição.

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Principais ideias de Reinhold Niebuhr:

  • A relação do homem com Deus não pode ser expressa em termos racionais e lógicos, mas apenas em termos de mito;

  • Qualquer tentativa para provar a revelação está errada;

  • Não há herança do pecado de Adão, só houve a queda individual;

  • O cristão deve ser um eterno revolucionário;

  • A queda não modificou a natureza e estrutura essencial do homem; Principais ideias de Paul Tillich:

  • Deus não existe. Não é um ser, mas um poder de ser. O fundamento do ser, porém não objetivo e não sobrenatural (aproxima-se do panenteísmo 4 );

  • O teísmo bíblico é antiquado;

  • A fé é o estado de ser possuído por uma preocupação última, que se preocupa com o nosso “donde” e nosso “para onde”;

  • A vida está sem sentido;

  • Prega a afirmação própria do ser humano.

4 Sistema filosófico criado pelo alemão Karl Christian Friedrich Krause (1781-1832), que vê todos os seres em Deus e Deus em todos os seres.

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CAPÍTULO 5

ESPERANÇA EM MEIO AO SOFRIMENTO:

JURGEN MULTMANN E A TEOLOGIA DA ESPERANÇA

Promovida por Wolfhart Pannenberg e Jürgen Multmann o pensamento surge da dialética de Hegel trazendo um conceito otimista do homem. A Teologia da Esperança é uma reação ao pensamento existencialista das propostas de Barth

e Bultmann que focavam muito o “aqui” e o “agora”.

Para Pannenberg e Multmann o problema do mistério de Deus estaria situado no futuro. O caráter misterioso de Deus estaria no fato dele sempre disponibilizar, ao longo da história, apenas promessas de salvação, mas sua realização sempre estaria condicionada ao futuro. Assim, Deus não estaria no passado nem no presente, mas seria o poder do futuro, chamando todos a terem sua complementação e conclusão.

Do começo ao fim, e não apenas no epílogo, o cristianismo é escatologia, é esperança, está voltado para o futuro e se desloca em sua direção e, portanto, revoluciona e transforma o presente. (Multmann apud Miller, 2011, p. 129).

Neste sentido, Jesus seria uma espécie de garantia para a realização futura da salvação, ou seja, aquele que leva o cristão para o reino de Deus. Há uma perspectiva bastante arminianista em alguns conceitos da teologia. Notamos que o homem tem possibilidade de “apressar” o futuro; o poder da promessa divina não reside completamente em Deus, mas, em parte, no homem por obedecer a sua Palavra; Deus não parece ser Deus, pois atributos como Soberania, Onisciência e outros são questionados. Deus não seria Deus de

fato, mas estaria “vindo a ser”, pois o futuro para ele estaria aberto.

Alguns problemas desse pensamento.

  • Rejeita as profecias como sendo história prescrita;

  • O futura trará algo totalmente novo, inclusive para Deus;

  • Ignora-se o efeito do pecado;

  • Apresenta um novo plano de redenção universalista;

  • Ênfase na escatologia em detrimento de fatos históricos, Deus estaria apenas no futuro;

  • Tem uma posição ecumenismo. (ALMEIDA, 2003).

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CAPÍTULO 6

CRISTIANISMO SEM RELIGIÃO E O MOVIMENTO DA MORTE DE DEUS

6.1.- A Teologia do Cristianismo Sem Religião

O Cristianismo Sem Religião é um proposta surgida após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) com o teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer (1906- 1945) que morreu aos 39 anos sob a acusação de ter atentado contra a vida de Hitler e o regime nazista. O pensamento do Bonhoeffer alcança temas como a autonomia humana e a secularização do mundo. A ciência tem marginalizado a divindade e o homem não pode simplesmente responder a isso com religiosidade. Na verdade, o homem deve perceber que pode viver sem Deus. A proposta, portanto, seria o banimento da religião. Entretanto, como isso funcionaria adequadamente não foi explicado pelo teólogo que morreu prematuramente. Fica evidente uma coisa, que tal cristianismo traria grandes e insolúveis problemas. Se, por um lado temos problemas com a religião institucionalizada, por outro lado, o banimento de todo ritual, liturgia, congregação, também ocasionaria confusão. A religião seria uma mera produção humana, de acordo com o Cristianismo Sem Religião. Um apêndice desnecessário, pois bastaria uma fé autêntica e uma vivência com Deus manifesta no segredo de sua alma, sem necessidade de rituais, liturgias ou quaisquer outros sinais externos. Bonhoeffer, entre outras coisas, afirma o seguinte, de acordo com Almeida

(2003):

  • Deus é o além no meio de nossa vida.

  • Deus nos ensina a necessidade de vivermos como pessoas que passam muito bem sem Ele.

  • O Deus que está conosco é o Deus que nos abandona.

  • O mundo de hoje, por ser mais sem Deus do que nunca, pode estar mais perto de Deus do que as gerações passadas.

  • Ser mundano e viver inteiramente neste mundo é o caminho para a fé e para ser ele mesmo o homem sem tentar ser religioso, santo, etc.

Neste sentido arreligioso do cristianismo, a Igreja não seria considerada como uma comunidade que adora a Cristo, mas o próprio Cristo se manifestando no mundo. Assim, a missão da Igreja seria caminhar por entre o mundo. Se misturar ao mundo e viver com ele. A Igreja só existe em função do outro. Desta forma, a Igreja deveria distribuir aos pobres seus bens, seus ministros deveriam viver apenas de donativos ou mesmo ter um trabalho secular para se manter. A Igreja deveria participar de todas as tarefas comuns da humanidade, mas não com qualquer interesse religioso, mas sim como auxiliadora e ajudadora, como quem serve.

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O cristão deveria viver a vida diante de um mundo sem Deus e não tentar mudar tal realidade, ou seja, propor qualquer expressão religiosa que tente mudar a situação. Assim, ele poderia viver mundanamente mesmo e livre de qualquer restrição religiosa. Como se pode notar, há três aspectos principais em que a teologia em questão apresenta seus maiores problemas: Deus, Cristo e Religião.

6.2.- O Movimento da Morte de Deus

O Movimento da Morte de Deus remonda ao famoso filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Ardoroso anticristão, Nietzsche batalhou para suplantar a ética e moral cristã. Chegou a afirmar que Deus estava morto! O movimento ganhou força após a neo-ortodoxia de Barth, pois, o conceito neo-ortodoxo de Deus deixou em aberto a possibilidade de várias interpretações.

O “Deus totalmente outro” passou a ser facilmente identificado como o “Deus totalmente desnecessário”. Conforme Almeida (2003, p. 163) “A origem do

movimento remonta ao início da década de 1960 e durou pouco mais de um

decênio, mas foi o suficiente para suscitar polêmicas e debates em todo mundo”.

O que motivou a construção de tal pensamento foi propriamente a observação da vida secular dos cristãos modernos, que, profanando o nome de Deus, vivem como se Deus não existisse

Augustus Nicodemus, em seu livro “O ateísmo cristão e outras ameaças à

Igreja” traz uma consideração interessante que podemos utilizar aqui. Na

verdade, a definição que ela traça naquele momento está mais libada a movimentos que reinterpretam o ser e ação de Deus como a proposta teísmo aberto. Contudo, tal pensamento aplica-se de certo modo ao movimento que ora analisamos, portanto, consideramos relevante trazer essa contribuição.

Ateísmo cristão é a negação do Deus cristão revelado na Bíblia por alguém que, ao mesmo tempo, tenta redefini-lo usando linguagem e termos evangélicos. Alguém que, na prática, vive como se ele não existisse. (NICODEMUS, 2011. p. 78).

O americano Harvey Cox foi um dos principais propagadores do movimento. Entre os temas comuns de suas palestras, realizados em toda parte do mundo, estavam: secularização, diálogos cristãos-marxistas, ecumenismo, o fenômeno hippie e a saturação sexual. Enfatizada a secularização de nossa época e, de certa forma, rejeitava as

“utopias” futuras. Deveríamos viver o aqui e agora e aceitar como boa nossa época

contemporânea. Propõe que os cristãos vivam nesse novo mundo e elaborem uma teologia mais condizente com as demandas de nossa época de nível social e tecnológica. Assim, a pregação também deveria ter outra conotação, mais secularizada e pragmática. Outros ensinamentos de Cox são, conforme Almeida (2003, pp.166-167):

  • A igreja deve podar ritos, mensagem, etc., que não podem ser aceitos pelo homem moderno.

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  • A poda deve ser feita em épocas e lugares diferentes. Para os unitarianos, anuncia-se um Jesus apenas homem; para os teólogos da morte de Deus, deve-se pregar que Deus realmente está morto, etc.

  • O cristianismo não pode dispensar a política para desenvolver o homem ao máximo.

A exclusão da religião da vida das pessoas é equivocada. O ser humano tem, por natureza, uma inclusão e uma necessidade religiosa, de culto de adoração. Assim, não seria possível uma vida apenas pragmática, banindo toda a metafísica de nosso contexto. Outra impossibilidade que pode ser aplicada tanto a este pensamento quanto ao Cristianismo Sem Religião como é o fato de que o próprio Jesus Cristo instituiu rituais aos quais não podemos simplesmente abdicar com incorrer em grave erro. Jesus instituiu o batismo e a ceia que são elementos rituais e sinais externos. Como obedecer a Cristo e não cumpri sua vontade neste quesito? Outro problema diz respeito ao relacionamento com a política. Por não ser deste mundo, o cristianismo não deve utilizar da instrumentalidade da política para alcançar seus objetivos.

Outro teólogo da morte de Deus é Willian Hamilton, considerado o mais inteligível do todos. Para Hamilton, o homem atingiu a maioridade e possui, portanto, independência. Por isso, ele não só deve afirmar, mas desejar a morte de Deus, reconhecendo que o homem neste mundo é independente e autônomo. Sua teologia deve advir das expressões culturais e intelectuais do pensamento moderno. Um conceito de Hamilton é que o homem atual sai do pessimismo para o otimismo, pois está aprendendo a viver num mundo sem Deus, onde o elemento principal e que dá sentido a vida é o amor. A visão de um Deus pessoal e transcendental juntamente com uma fé cristã apoiada em tais elementos é perdida. O importante na verdade seria o amor, a maior das virtudes. O protestante hoje, segundo Hamilton, não teria Deus, nem mesmo fé em

Deus, afirmaria a morte de Deus bem como a morte de toda forma de teísmo. Outros conceitos de Hamilton, segundo Almeida (2003).

  • O homem deve viver com incerteza radical.

  • Só o amor dá sentido a existência humana.

  • O cristão deve promover a justiça social.

  • Deus é substituído pela sociedade humana e por Jesus.

  • O cristão precisa descobrir Jesus sob os disfarces do mundo.

  • O cristão só descobre a si mesmo quando descobre a Jesus.

  • O que Deus fazia é hoje feito pelas mudanças sociais, políticas e até por evolução.

  • A academia e o templo não merecem, agora, confiança como guias teológicos.

  • Os homens podem passar sem pão espiritual, podem até passar sem amor, mas não podem passar sem o pão terreno.

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  • O teólogo norte-americano atual é um homem sem fé, sem Deus, sem esperança e sem igreja.

  • As soluções dimanam somente do mundo e não de Deus.

  • O mundo moderno pode passar sem Deus, e o homem deve rejeitar toda ideia de religiosidade.

  • A luta mundial pelos direitos humanos representa a principal característica do otimismo atual em que vive a humanidade.

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CAPÍTULO 7

PRÁXIS LIBERTADORA:

GUSTAVO GUTIÉRREZ E A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

7.1.- Teologia do Evangelho Social

Teve suas raízes em Friedrich Schleiermacher (1764-1834) teólogo e filósofo alemão. Alcançou visibilidade após a Primeira Guerra Mundial, em parte porque o otimismo pregado pela Teologia Liberal havia naufragado com a miséria da guerra que vitimou milhões de pessoas, depois porque a causa da grande guerra havia sido identificada como injustiça social, tema ao qual a teologia em questão é tributária. A Teologia do Evangelho Social pode ser identificada, na América do Sul, com a Teologia da Libertação. Simpatizantes das abordagens do Materialismo Dialético de Max e Engels interpretam a realidade por este prisma. Adeptos da teologia chegam a propor alianças com marxistas revolucionários para o comum

propósito de implantar a justiça social contra a opressão do capitalismo. O movimento teve seu lado “positivo” para a cristandade, alertando-a agir com mais atenção quanto aos pobres e oprimidos. Ele também influenciou a Igreja a participar mais ativamente da vida cidadã e política, criticando governos e sistemas ideológicos. A consciência cristã tornou-se consciência social. Uma das formulações do Evangelho Social é identificar o Reino de Deus com um reino desse mundo. Desta forma, a proposta seria transformar a sociedade no reino de Deus. Uma visão extremamente otimista. Com isso, a missão do cristão estaria ligada mais a aspectos sociais e ações em favor do próximo do que com questões espirituais. Alguns advogam que neste sistema, as obras e o evangelho estão no mesmo nível de importância. Assim, alimentar um faminto seria tão importante quanto pregar o amor de Cristo e a salvação na cruz do calvário! Listemos alguns problemas dessa teologia, de acordo com Almeida (2003).

  • Nesta teologia o pecado original não existe.

  • Os maiores pecados seriam a exploração dos pobres, as favelas, péssimas condições de trabalho.

  • O que eliminaria o pecado seria o amor pela comunidade.

  • Deus não seria transcendente, mas apenas imanente.

  • Jesus seria apenas um bom mestre, um primus inter pares (primeiro entre iguais).

  • A salvação seria pelas obras. 7.2.- Gustavo Gutiérrez e a teologia da libertação

Gustavo Gutiérrez era um padre, teólogo e ativista peruano. Um dos fundadores da chamada teologia da libertação. Impulsionado por movimentos de libertação, pela tônica da pobreza extrema na América Latina e pela inclinação da Igreja Católica quanto aos pobres, em 1971 publicou a teologia da libertação.

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Nesse período, no Brasil, o educador Paulo Freire, lançava também as sementas da teologia da libertação. Paulo Freire se voltou diretamente para os pobres a fim de conseguir dirimir seus problemas advindos de uma época de desencantamento com o desenvolvimento econômico. A ênfase de Freire seria libertar as mentes condicionadas pela dominação. Outro pensador brasileiro de renome adepto dessa teologia é o ex-padre Leonardo Boff. Inicialmente suas ideias foram censuradas pela Igreja Católico, uma vez que a mesma ainda não tinha um posicionamento sobre a teologia da libertação. Roma temia que movimento e teologias locais pudessem por em xeque a unidade da Igreja. Assim, Boff foi proibido de publicar por um breve período até a Igreja emitir parecer. Contudo, o tempo mostrou que seria irreconciliável o pensamento de Boff com as exigências da Igreja, o que, com o tempo implicou na saída do mesmo da instituição. De modo geral, a teologia da libertação de Gutiérrez ecoa os mesmos princípios vistos na proposta do evangelho social. Primeiramente se firma num espécie de teologia contextual. Ou seja, recebe influência da sociologia da educação e compreende que um pensamento, inclusive teológico, deve estar associado a uma realidade social e contextual. Não se deve simplesmente pensar e abstrair vagamente sem objetivos explícitos. Existe a necessidade do conhecimento estar relacionado com a vivência. Com a prática, com a sociedade que o rodeia. A teologia, portanto, deveria estar relacionada em seu maior desafio no contexto latino, que seria a superação da pobre endêmica. A teologia deveria estar relacionada à reflexão prática do desafio de lutar com as minorias oprimidas. “Desse modo, a teologia da libertação se torna um teologia contextualizada por excelência. Trata-se de um fazer teológico exclusivo dos pobres e para os pobres em sua batalha pela libertação”. (Miller, 2011, p.169). O sistema também opta por priorizar o pobre. Há uma denúncia para os “níveis” alarmantes de pobres. Cada vez mais os pobres ficam mais pobres e os ricos aumentam suas posses. A injustiça social seria gritante. A desigualdade seria também aterradora. Além do mais, os que ousam denunciar o sistema, quem ousa agir contra o status quo podem sofrer perdendo a própria vida. Qual seria o papel da teologia diante desse caos? Auxiliar a massa sofredora que em sua maioria professa justamente a religião cristã. A Igreja, portanto, não poderia se mancomunar com os opressores, deveria, antes, tomar o partido dos oprimidos e ajudá-los na conquista de seus direitos. Igualmente notório é a influência do marxismo na teologia da libertação. A interpretação do materialismo dialético de Marx e Engels foi tomado como base interpretativa para causa do “fenômeno” da pobreza.

De acordo com Marx, o trabalho é parte da identidade humana essencial da pessoa. Por esse motivo, quando as pessoas são obrigadas a vender o

fruto do seu trabalho por menos do que o seu valor integral. Elas passam a ser a um só tempo exploradas e desumanizadas. Esse tipo de situação ocorre sempre que aqueles que são donos dos meios de produção de

apropriam da “mais valia” do trabalho do operário. A exploração e

alienação levam à luta de classes cujo desfecho é a revolução. (Miller, 2011, p. 173).

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Outra inclinação da teologia é pensar na salvação priorizando, de certa forma, a libertação social. Fazendo justiça ao pensamento de Gutiérrez, podemos dizer que realmente ele não identificava totalmente a salvação em termos puramente de libertação econômica e social. Contudo, sua ênfase foi esta. A

ênfase que o movimento adotou postula uma espécie de igualdade entre evangelismo e ativismo social, de tal forma que pregar a salvação em Jesus Cristo seria tão importante quanto alimentar uma criança faminta. No dois casos, haveria genuína salvação. Listemos resumidamente algumas das principais críticas atribuídas à teologia da libertação.

  • O uso da análise social marxista pode levar à ideologia ateísta. Uma vez que o sistema marxista é ateu em essência.

  • Do ponto de vista bíblico, alguns teólogos criticam Gutiérrez afirmando que dificilmente poderemos encontrar um favorecimento bíblico do pobre. Na verdade, todos são tratados de igual modo e o pobre não recebe tratamento diferenciado ou especial.

  • A ênfase de Deus no mundo pode ofuscar ou até mesmo anular a transcendência divina.

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CAPÍTULO 8

CONVENÇÃO BATISTA NACIONAL:

QUEM SOMOS E EM QUE CREMOS?

8.1.- Início da Convenção Batista Nacional - CBN

Um movimento conhecido como Renovação Espiritual alcançou o Brasil e se expressou de modo mais acentuado na década de 1960. E não só no Brasil, mas em diversos países. Tinha-se notícia de que o operar do Espírito Santo estava acontecendo de modo diferenciado em várias partes. Experiências e fenômenos identificados como pentecostais foram vistos nas Américas, Europa e África alcançando diversos pastores e diversas denominações. Era a Renovação Espiritual de que a Igreja tanto necessitava. Assim, acontecia naqueles dias uma grande obra de avivamento.

Os cristãos de hoje vivem dias de avivamento. As igrejas cristãs emergem de uma época de esfriamento espiritual e formação de grupos particulares denominados de cristãos, mas todos unidos pela realidade do formalismo na fé. Não uma fé dinâmica, espiritual, mas formal e particular. Mas o século XX, que sucedeu ao mais incrédulo e racional dos séculos, o século XIX, foi agraciado por Deus pelo sopro renovador do Seu Espírito. E os primeiros 50 anos, do século atual, foram ocasião para o Espírito mudar completamente esse estado de coisas. As igrejas tradicionais estão sendo abaladas, em seus fundamentos, por um transformador avivamento espiritual. As suas potências de organização e poder econômico começam a mostrar fraqueza ante o impacto da nova era espiritual. As igrejas tradicionais estão sofrendo defecções constantes, incapazes de serem detidas. E novos grupos cristãos dinâmicos no Espírito, vão se formando. É um fenômeno histórico, incontroversível e incontrolável. (NASCIMENTO apud TOGNINI, 2007, p. 33).

Como mencionado por José Rego do Nascimento, as igrejas tradicionais estavam sendo abaladas. Não podemos deixar de mencionar a prévia influência de alguns missionários que realmente contribuíram semeando as primeiras sementes da Renovação Espiritual em nossa pátria. Segundo Tognini (2007), em 1930, visitou o Brasil um norte americano metodista chamado George W. Ridout. Pregou em muitas igrejas, em diversos Estados de nossa Pátria. Ao sair do Brasil, deixou um livro que foi traduzido por Carlos Godinho com o nome ‘Poder do Espírito Santo’. Mais tarde também veio ao Brasil, em visitas sucessivas, J. Edwin Orr. Pregou abertamente em igrejas de diversas denominações sobre o Batismo no Espírito Santo, como bênção distinta do novo nascimento. Suas mensagens causaram profundo impacto no seio das igrejas evangélicas tradicionais. Em 1952, visitou o Brasil um pastor norte-americano Boatrigth. Sendo pentecostal, pregou em diversas denominações enfatizando principalmente o Batismo no Espírito Santo e dons espirituais. A missionária norte americana D. Rosalee Mills Appleby também teve grande participação neste momento. Veio jovem para o Brasil,

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recém casada. No ano de 1924, ano de sua chegada ao Brasil, tem seu único filho David ao mesmo tempo em que perde seu esposo. Este, antes de morrer disse à

esposa: “Faça o meu trabalho e o seu

...

”.

Ao contrário de muitos avivalistas, D.

Rosalee desejava que o avivamento adentrasse as portas das igrejas históricas.

Ela era batista e nunca foi abalada em suas convicções denominacionais. Seu ministério se desenvolveu em Belo Horizonte-MG onde auxiliou na obra fundando quatro igrejas e ajudando na plantação de outras quatro. Divulgou muito as doutrinas do Batismo no Espírito Santo e dos dons espirituais como realidade

para nossa época. Criou o programa radiofônico “Renovação Espiritual” e distribuiu em todo o país folhetos chamados “Vida Vitoriosa” que bombardeavam

os lares dos pastores com uma mensagem de renovação e preparando terreno para o agir do Espírito Santo. Pela vontade de Deus e pela instrumentalização desse movimento de Renovação Espiritual, nos anos de 1954 e 1958, dois grandes líderes dos batistas foram batizados no Espírito Santo, são eles, respectivamente, José Rego do Nascimento e Enéas Tognini. O desejo e trabalho de D. Rosalee começava a surtir efeito.

José Rego do Nascimento começou a pregar com um poder abalador. Como batista, teve amplo acesso aos batistas de modo geral, pregou e influenciou com grande poder e ousadia em várias igrejas, seminários e congressos. Sua mensagem era de Renovação Espiritual. A tônica também era a necessidade de Batismo no Espírito Santo e os dons espirituais. Tognini (2007, p.55) mostra uma correspondência particular em que José Rego do Nascimento descreve um pouco de seu serviço, para a causa da renovação, realizado no seminário batista do sul:

(

...

)

Escrevo-lhe, meu irmão, para informá-lo de que alguma coisa gloriosa

está acontecendo em nossa Pátria. Estou voltando do Seminário do Sul, no Rio, depois de uma semana de trabalho especiais com os seminaristas, a convite do grêmio, onde estudamos a doutrina do Espírito Santo. Na sexta-feira pela manhã, o Senhor nos visitou com grande poder, levando ao altar quase todos os seminaristas. Na noite do dia seguinte, cerca de 50 seminaristas se reuniram na biblioteca para uma reunião de oração. Depois do cântico de alguns hinos, foi lido um trecho da Bíblia e começamos a orar. Todos se mostravam submissos e desejosos de Deus.

Por volta da quarta oração, aconteceu pentecostes.

Não menos importante para esta obra foi a atuação do pastor Enéas Tognini que praticamente foi o sucessor de José Rego do Nascimento. Ele narra sua experiência com o Espírito Santo da seguinte forma:

Era o dia 16 de agosto de 1958. Era pastor da Igreja batista de Perdizes e

diretor do Colégio Batista de São Paulo. Ó se me lembro

sábado...Levantei-me

Era um

... às cinco da manhã e entrei no meu escritório da

casa pastoral. Orei cerca de uma hora e meia e o céu parecia de bronze.

Deus estava em silêncio profundo silêncio ... Fui ao café, e voltei para a batalha da oração. Mais duas horas de luta, como Jacó no vau de Jaboque. Nenhuma resposta do céu. Desacorçoado, levantei-me dos joelhos e sentei-me na mesma poltrona de onde hoje escrevo esta nota. Apoiei a cabeça nas mãos e estava meio em desespero por Deus não me responder a oração. E, quando nessa aflição, ouvi a voz de Deus, tão perfeita, como a de qualquer mortal, que me dizia num tom profundamente imperativo: ENTREGA ...

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Ao ouvi-la, não tive dúvida nenhuma de que era a voz de Deus. E eu respondi: ENTREGA O QUE, SENHOR?! E Deus me disse: A BIBLIOTECA (tinha uma biblioteca de aproximadamente 4 mil volumes e era, para mim, um grande e terrível ídolo); e eu disse: ENTREGO, SENHOR! E Deus me pediu o segundo ídolo: A DIREÇÂO DO COLÉGIO BATISTA; e eu disse logo: ENTREGO TAMBÉM, SENHOR! E Deus foi ao meu terceiro ídolo: O PASTORADO DA IGREJA BATISTA DE PERDIZES; e eu respondi: ENTREGO, SENHOR! Então, Deus continuou e me disse: A FAMÍLIA. Eu relutei um pouco, mas disse: ENTREGO, ENTREGO, SENHOR! Ao entregar o último ídolo, veio sobre mim, um poder tal, como nunca experimentara em minha vida. Um gozo profundo no meu coração! Uma

paz maravilhosa

Banhei com lágrimas a minha mesa de estudos. Fui

... revestido de poder do alto. A Bíblia passou a ser um livro novo para mim; orei com liberdade fora do comum. Tive consciência mui sensível do

pecado. Senti profundo amor pelos meus irmãos e pelas almas perdidas. Tive muita coisa na minha vida para endireitar; inclusive procurar algumas pessoas para pedir-lhes perdão. Passei a pregar com tanto poder que todos estranharam a mudança em mim operada. (TOGNINI, 2007, p.

116-117).

Nesse contexto, o movimento de Renovação Espiritual já estava se difundindo muito e com considerável aceitação. Enéas Tognini também trabalhou em todo o Brasil, pregando e ministrando em diversos ambientes como congressos, seminários e igrejas. Naturalmente as oposições também se iniciaram. Protestos contra o pastor José Rego do Nascimento foram surgindo de todos os lados. A Junta Administrativa do Seminário Batista do Sul divulgou declaração desaprovando a reunião presidida por José Rego do Nascimento naquele recinto. Um grupo da Igreja de Lagoinha, pastoreada por José Rego do Nascimento, também se levantou contra ele fazendo queixas contra a Renovação Espiritual a ponto de publicarem declaração intitulada “Manifesto da Minoria”. Nela a “Igreja” negava validade aos atos praticados na Igreja em nome da Renovação Espiritual. Repudiavam as ideias pentecostais e condenavam a atitude que chamavam de leviana do pastor José Rego do Nascimento. Os ânimos continuaram se acirrando e os embates continuaram existindo entre os que queriam a Renovação Espiritual no seio da Igreja e aqueles que a repudiavam como uma obra carnal e extravagante, indigna do povo de Deus. Uma comissão foi formada na Convenção Batista Brasileira para analisar justamente o movimento de Renovação Espiritual a fim de que a convenção tomasse uma posição quanto ao tema. A Comissão foi conhecida como “comissão dos 13”, pois era formada por três pastores pró-renovação, três contra o movimento e sete outros deveriam julgar a causa. Na 47ª Assembleia da CBB em janeiro de 1965 aconteceu o desfecho da análise sobre a Renovação Espiritual. Após uma reunião atípica foi tomada a decisão precipitada de desligar da CBB todas as igrejas que estivessem ligadas com o movimento renovacionista. Esta decisão resultou na exclusão de 32 igrejas em sua maior parte radicadas no Estado de Minas Gerais. Outras foram excluídas no decorrer do ano chegando ao final um total de 52 igrejas excluídas.

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Esse grupo de igrejas, agora sem convenção, via-se diante de um sério dilema: o que fazer? Abandonar o movimento de Renovação ou continuar a caminhada e não perder o fogo espiritual que havia sido aceso? A resposta foi continuar, e para tanto foi necessário estabelecer novas estratégias para que o movimento não se dispersasse. Seria interessante a formação de uma nova convenção? Talvez sim, contudo a experiência convencional e o trauma recém sofrido pelo grupo os impeliram a repudiar a ideia. A solução veio com a proposta da criação de uma Ação Missionária de estilo interdenominacional e livre das formalidades convencionais. Surgiu, então, a AME Ação Missionária Evangélica. A AME durou pouco tempo, aproximadamente dois anos. Sua intenção de agregar todas as comunidades e expressões da Renovação Espiritual que também haviam sofrido exclusão de suas denominações, não surtiu muito efeito. Com o tempo, começou a surgirem alguns desgastes em termos de expressão religiosa. Assim, algumas igrejas decidiram deixar a AME e vivenciar uma estrutura mais condizente com sua tradição. Assim, basicamente restaram as igrejas oriundas da Convenção Batista compondo a AME. Numa assembleia da AME, no segundo ano de sua existência, já havia nos bastidores o clima de que uma reforma seria inevitável para que a instituição não morresse. A proposta mais óbvia ser dar um passo além do que a AME podia oferecer. Era necessário, imprescindível a criação de uma convenção. Não com os contornos convencionais falidos e viciados que eram vistos, mas uma convenção com a finalidade de auxiliar o crescimento e desenvolvimento do movimento de Renovação Espiritual. Assim, surgiu em 16 de setembro de 1967, na cidade de Belo Horizonte-MG, com a presença de 21 igrejas, a Convenção Batista Nacional CBN.

8.2.- Os elementos fundamentais de nossa fé

Quanto aos princípios dogmáticos da CBN, podemos afirmar que, de modo geral, os Batistas Nacionais, seguem os princípios e valores dos Batistas, com uma leve diferenciação em sua pneumatologia, uma vez que os dons do Espírito Santo recebem uma consideração continuísta. Assim, os princípios Batistas e a Declaração de Fé das Igrejas Batistas da Convenção Batista Nacional, bem como sua eclesiologia podem melhor ser compreendidos no texto oficial intitulado Manual Básico Batista Nacional. Ainda assim, baseados no Manual Básico 5 , salientamos que os Batistas Nacionais creem:

  • A Bíblia Sagrada foi escrita por homens divinamente inspirados. É um tesouro perfeito de instrução celestial, tendo Deus por seu verdadeiro autor. A Bíblia é a Palavra de Deus, infalível, inerrante e autoritativa.

  • Há um e somente um Deus vivo e verdadeiro, Espírito infinito e inteligente, cujo nome é Jeová, Criador e Senhor Supremo dos céus e da terra, indizivelmente glorioso em santidade e digno de toda honra, confiança e amor; que na Unidade Divina há três pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

5 Manual Básico Batista Nacional. Disponível em: www.cbn.org.br. Acesso em: 15 jul. 2016.

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  • Cremos que o Espírito Santo é o Espírito de Deus. A “terceira” pessoa da Trindade. A presença dele no cristão é a segurança de Deus para trazer o salvo à plenitude da estatura de Cristo. Ele ilumina e reveste de poder (Batismo no Espírito Santo) o crente e a Igreja para a adoração, evangelismo e serviço.

  • O homem foi criado em santidade, sob a lei do seu Criador, mas caiu desse estado santo e feliz, por transgressão voluntária, em consequência da qual toda a humanidade tornou-se pecadora, inclinada à prática do mal, estando, sem defesa nem escusa, condenada com justiça à ruína eterna.

  • A salvação dos pecadores é inteiramente de graça pela mediação do Filho de Deus. Sua morte realizou completa expiação dos nossos pecados; e, tendo ressurgido dos mortos, está agora entronizado nos céus.

  • A grande bênção do Evangelho é que Cristo assegura aos que nele creem a Justificação. Esta inclui o perdão dos pecados e a promessa da vida eterna, baseada nos princípios da justiça. É conferida, não em consideração de quaisquer obras justas que tenhamos feito, mas exclusivamente pela fé no sangue do Redentor.

  • Os pecadores para serem salvos precisam ser regenerados, isto é, nascer de novo. A regeneração consiste na outorga de uma santa disposição à mente, e isso se efetua pelo poder do Espírito Santo de um modo que transcende a nossa compreensão, em conexidade com a verdade divina, de maneira a assegurar-nos nossa obediência voluntária ao Evangelho.

  • O arrependimento e a fé são deveres sagrados e também graças inseparáveis, originadas em nossas almas pelo Espírito regenerador de Deus. Por essas graças somos convencidos profundamente de nossa culpa, perigo e incapacidade, bem como do caminho da salvação por Cristo, voltamo-nos para Deus com sincera contrição, confissão e súplica por misericórdia.

  • A Santificação é o processo pelo qual, de acordo com a vontade de Deus, somos feitos participantes de Sua santidade. É uma obra progressiva que se inicia na regeneração é continuada nos corações dos crentes pela presença do Espírito Santo, o Confirmador e Confortador, no uso contínuo dos meios indicados, especialmente a Palavra de Deus, o exame próprio, a renúncia, a vigilância e a oração.

  • Só são crentes verdadeiros aqueles que perseveram até o fim. A sua ligação perseverante com Cristo é o grande sinal que os distingue dos que professam superficialmente o evangelho. Uma Providência especial vela pelo seu bem-estar e são guardados pelo poder de Deus mediante a fé para a salvação.

  • A Lei de Deus é a regra eterna e imutável de seu governo moral. É santa, justa e boa. A incapacidade atribuída pelas Escrituras ao homem decaído para cumprir os seus preceitos, deriva inteiramente do amor que ele tem pelo pecado. Um dos grandes objetivos do Evangelho e dos meios da graça relacionados com o estabelecimento da igreja visível é o de libertar os homens do pecado e restaurá-los, através de um Mediador, à obediência sincera à santa lei.

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  • Uma igreja visível de Cristo é uma congregação de crentes batizados, que se associam por um pacto na fé e comunhão do Evangelho; que observam as ordenanças de Cristo e são governados por Suas leis; que usam os dons, direitos e privilégios a eles concedidos pela Palavra; que seus únicos oficiais, segundo as Escrituras, são os bispos ou pastores e os diáconos, cujas qualificações, direitos e deveres estão definidos nas Epístolas a Timóteo e a Tito.

  • O governo civil é de ordenação divina para os interesses e a boa ordem da sociedade humana. Os magistrados devem ser objeto de nossas orações, bem como devem ser conscientemente honrados e obedecidos, exceto, exclusivamente, nas coisas que se opõem à vontade de nosso Senhor Jesus Cristo, que é o único Senhor da consciência e o Príncipe dos reis da terra.

  • Há uma diferença radical e essencial entre os justos e os ímpios. Somente aqueles que pela fé são justificados em o nome do Senhor Jesus e santificados pelo Espírito de nosso Deus são verdadeiramente justos à face de Deus, enquanto que todos aqueles que continuam na impenitência e na incredulidade são ímpios aos Seus olhos e se encontram sob a maldição.

  • Aproxima-se o fim do mundo. No último dia, Cristo descerá dos céus e levantará os mortos do túmulo para a recompensa final. Ocorrerá então uma solene separação, os ímpios serão entregues à punição sem fim e os justos à bem-aventurança para sempre. Esse julgamento, baseado nos princípios da justiça, determinará o estado final dos homens no céu ou no inferno.

Concluindo, observamos que os Batistas Nacionais, conforme seus documentos e estatutos mantém uma base teológica firmada na ortodoxia, não se aventurando em teologias modernistas, nem mesmo em modismos teológicos, vivendo pela Palavra de Deus.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao finalizar este texto reconhecemos que muito mais poderia ser dito. Afinal de contas, muitas outras expressões teológicas existem e são dignas de conhecimento, contudo, o espaço não permite tanto, o que, nos conduz à difícil tarefa de resumir. No entanto, estamos satisfeitos por poder informar, mesmo que de modo panorâmico, as diversas veredas pelas quais as teologias contemporâneas caminharam, além, é claro, de tecer razoáveis críticas aos pontos que consideramos equivocados com base nas Escrituras. Esperamos que a exposição e análise de tais também tenham nos proporcionado uma visão mais holística do pensamento cristão, do pensamento teológico. Almejamos ter alcançado nossa meta de fazer “teologias comparadas”. Apontamos ao final, um pouco do surgimento e fé da Convenção Batista Nacional CBN à qual fazemos parte e exercemos nosso viver cristão. O objetivo é mostrar em linhas gerais, qual nossa cosmovisão a fim de diferenciar abruptamente nosso pensamento de quaisquer heresias ora mencionadas, bem como estimular aos irmãos a busca constante pela purificação da Igreja, ou seja, uma reforma constante, um retorno contínuo às Escrituras. Que Deus Pai, Filho e Espírito Santo nos abençoe para tanto. Amém.

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APÊNDICE

MODISMOS TEOLÓGICOS

Teologia da prosperidade

O que é a teologia da prosperidade? De forma bem objetiva podemos dizer que é o ensino que afirma ser a prosperidade financeira um direito do cristão, uma vez que ele é filho do Rei, o dono de toda riqueza. Teve sua origem nos Estados Unidos com Willian Kenyon (1867-1948) e Kenneth Hagin (1917-2003). Seus discípulos mais conhecidos no Brasil são: Edir Macedo na Igreja Universal do Reino de Deus e Missionário R. R. Soares, da Igreja Universal da Graça. Contudo, existe uma gama de outros ministérios que se identificam com a proposta. Um ensino predominante do sistema é a ideia da semeadura. Para se colher é necessário plantar e quanto mais você plantar maior será a colheita. De certa forma, Deus teria a obrigação de abençoar aquele que der dinheiro à sua obra. Geralmente os textos bíblicos tidos como base são Malaquias 3.10 e 2 Coríntios 9.6. Contudo, há um mal entendido em tais textos. Caso o interpretemos assim estaremos estabelecendo uma espécie de teologia da retribuição e, de tabela, estaríamos anulando a graça. O pior seria estabelecer um

relacionamento com Deus com base na barganha, no “toma lá dá cá”.

Outro equívoco da teologia é identificar a qualidade espiritual do cristão a partir de suas posses. Quando o cristão estiver sendo abençoado seria sinal da presença de Deus, caso contrário, algum problema deveria estar acontecendo. Algum pecado ou falha o cristão poderia estar cometendo. Nessa teologia, pobreza

é sinônimo de maldição. Nem precisamos dizer que isso é um absurdo. Temos exemplos bíblicos de cristãos autênticos que eram pobres. Os crentes da judeia precisaram de doações para não morrer de fome! E o que dizer de Jesus Cristo que era pobre (claro que os advogados da teologia da prosperidade não acreditam nisso, postulam que Jesus foi rico!). Em se tratando do direito cristão à prosperidade, os mesmos são estimulados a exigirem de Deus, a colocarem o mesmo contra a parede, pois não se trata de privilégios, mas de direitos, logo o cristão pode exigir a posse dos mesmos. Uma falha crucial é desconsiderar a Soberania de Deus. Deus não está obrigado a atender aos caprichos do ser humano. Deus também não é devedor de ninguém. Por fim, podemos concluir afirmando que o cristão não é um supercrente. Não somos imunes às doenças, crises financeiras e ao sofrimento. Pelo contrário,

Jesus nos alertou que “no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo” (Jo

16.33).

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Quebra de maldições

A doutrina da maldição hereditária também conhecida como “maldição de família” ou “pecado de geração” é outra crendice que se espalhou pelo meio

evangélico. Segundo esse pensamento, todo tipo de sofrimento seria herdado de pai para filho. A maldição seria uma “autorização dada ao diabo”. Desta forma, seria necessária uma pessoa ou mesmo equipes “preparadas” para “quebrar” tais maldições na vida das pessoas. Um texto bíblico bastante usado é Deuteronômio

20.5-6.

O problema é a falta de entendimento do texto bíblico. Deuteronômio não fala de uma maldição hereditária da natureza citada, mas sim em termos de consequência. Se um pai for idólatra, por exemplo, a idolatria será comum em sua casa, como consequência seus filhos serão influenciados por tal, contudo, só serão

alvo do “castigo”, se individualmente e livremente optarem também por serem

idólatras. Em tal caso, a idolatria seria consequência da má escolha do pai e uma livre decisão e associação do filho. Outro texto bíblico deixa claro que a maldição hereditária é inconsistente:

Que é que vocês querem dizer quando citam este provérbio sobre Israel: “Os pais comem uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotam?”. Juro pela minha vida, palavra do Soberano Senhor, que vocês não citarão mais esse provérbio em Israel. Pois todos me pertencem. Tanto o pai como o filho me pertencem. Aquele que pecar é que morrerá. (Ez 18:2-4). Além do mais, além das maldições hereditárias, neste movimento também é dito sobre o “poder” das palavras. Assim, determinadas palavras trariam maldição. Tais palavras teriam o poder sobre aspectos sentimentais, profissionais e financeiros. A consequência máxima seria atribuir até mesmo maldição a nomes próprios. Uma pessoa que se chamasse Dolores poderia ser escrava a vida inteira da dor e sofrimento por causa de seu nome. Claro que o crente deve zelar pelo seu falar e evitar palavras torpes, contudo não podemos atribuir um valor excessivo e mágico às palavras. Afinal de contas, somos cristãos e não bruxos! Claro que dizer para uma criança: “você será

igual a seu pai” não vai fazê-lo ter os mesmos vícios e os fins de seu pai. Na verdade, a coincidência possivelmente estaria ligada ao tipo de criação e à

formação de caráter e não a uma “maldição” impingida em algum momento.

Quanto aos nomes malditos também não há nenhum afirmação categórica na Bíblia que diga isso. Na verdade, tal prática se assemelha a crendices da numerologia mística. Na Bíblia, vemos pessoas com “bons” nomes sendo ruins e pessoas com nomes maus tendo um ótimo caráter. Vejamos alguns: Judas = Louvor. Absalão = Pai da paz. Abias = Jeová é pai. Todos estes foram ímpios. Apolo = destruidor. Tiago = forma moderna de Jacó, enganador. Paulo = pequeno.

Todos estes foram tementes a Deus.

Apóstolos e profetas

Os adeptos da chamada Nova Reforma Apostólica, que culminou no movimento apostólico atual, acreditam que os ministérios apostólico e profético

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estão em vigor ainda hoje. Deus estaria levantando novos apóstolos e profetas para nossa geração. Esse movimento tem uma escatologia triunfalista e acredita que Deus irá restaurar o mundo, antes da segunda vinda de Cristo, dando poder e prosperidade à sua Igreja para promover a restauração. Segundo os defensores desta teologia, o ministério apostólico e profético foram “perdidos” durante o caminhar da igreja, mas ultimamente esta sendo

restaurado. O texto de 1 Co 12.28 também é usado como apoio para a restauração

apostólica. Deus estabeleceu “primeiramente, apóstolos; em segundo lugar,

profetas”. Nestes textos afirmam que os ministérios de profetas e apóstolos foram mesclados com outros ministérios sem nenhuma distinção. Portanto, significa que tais ministérios ainda estão ativos. Contudo, claro que tal restauracionismo é um equívoco. Numa concepção

ortodoxa, os apóstolos e profetas constituíram um grupo único e exclusivo na história da redenção e hoje não existem mais. Um critério para ser apóstolo, por exemplo, era ter visto Jesus ressurreto e ser por ele chamado. Logo, Paulo foi o último apóstolo. Por sua vez, João Batista foi o último a ser profeta conforme (Lc

16.16).

Outra ideia estranha do movimento diz respeito aos “Atos Proféticos”. Tais “Atos” são uma espécie de ato simbólico que supostamente traria ao mundo físicos

realidades espirituais proclamadas, invocadas ou determinadas. Assim, tudo que o cristão faz teria repercussões espirituais. Desta forma, demarcar territórios, ungir objetos com óleo, tomar posse de algo seriam atos proféticos. Os defensores dessa prática geralmente se espelham nos profetas do Antigo Testamento que em determinadas ocasiões e instruídos pelo Senhor realmente publicavam sua mensagem por meio de representações, encenações, demarcações e atos que simbolizavam determinada realidade futura. Contudo, praticar tais rituais hoje em dia seria um equívoco. Os chamados atos proféticos não eram praticados na igreja primitiva. Trata-se de uma inovação. Além de tudo, os atos dos profetas do Antigo Testamento tinham um escopo didático e não traziam nada do espiritual para o mundo material. Na verdade, eram proclamações ilustradas do que ocorreria de qualquer foram, pois

se tratava da vontade de Deus. O uso simbólico, portanto, era apenas um recurso para tornar a mensagem melhor compreendida. Devemos tomar cuidado contra bizarrices teológicas. A igreja por vezes parece até irracional. Em nome de tais

“Atos” proféticos quantas sandices já não presenciamos? Desde demarcar território com urina até mesmo a encenação “profética” do leão.

Práticas judaizantes

Desde os primórdios a Igreja teve problemas com os judaizantes, ou seja, pessoas que queriam trazer para dentro da Igreja as práticas da religião judaica. Assim, o apóstolo Paulo nos primeiro século do cristianismo, já precisou orientar a Igreja contra tais práticas. “Mas agora, conhecendo a Deus, ou melhor, sendo por ele conhecidos, como é que estão voltando àqueles mesmos princípios elementares, fracos e sem poder? Querem ser escravizados por eles outra vez?(Gl 4:9).

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Acontece que tais judaizantes estão atualmente influenciando a comunidade cristã. Muitos nem mesmo se dão conta disso, outros abraçaram a proposta. Desta forma, práticas e objetos do culto judaico são trazidos para o culto cristão. Temos visto, por exemplo, crentes tocando shofar (espécie de berrante judeu), usando o kipar (pequeno chapéu), o talit (xale de orações), colocando na igreja a bandeira de Israel, a estrela de Davi, a imitação da arca da aliança e a Menorá (candelabro). Além disso, existem igrejas cristã realizando a festa do Sucot (festa dos tabernáculos), a Pessach (páscoa judaica), o Yom Kipur (dia do perdão) e a guarda do Shabat (sábado judeu). Assim como os rabinos, os judaizantes atuais acreditam que a língua hebraica é um idioma sagrado. Assim, palavras determinadas palavras daquele idioma estariam cheias de poder espiritual. Por isso, não é incomum vermos expressões sendo ditas em nosso culto como: Shamah, Shekinah, Shalon, El- Shaddai. No mesmo sentido, leituras, orações, músicas e danças são realizadas na língua hebraica. A maior novidade é chamar Jesus de Yeshua ou Yeshôshua (nome em hebraico). Alguns acreditam que por Israel ter tido um papel fundamental no Antigo

Testamento e por ter sido o “Povo Eleito”, suas práticas, cultura e elementos

religiosos não devem ser desprezados. Alguns afirmam que seguir suas tradições seria seguir a Bíblia, pois elas estão na Palavra! Há quase uma veneração pela Terra Santa também. Temos visto muitas viagens e peregrinações serem feitas. O misticismo em torno dos judeus tem aumentado. Ir à Jerusalém representaria ter um novo e verdadeiro encontro com Deus. Aquele seria o lugar mais espiritual da terra! Toda essa conjuntura é um equívoco. O problema está numa péssima compreensão do Novo Testamento e da Nova Aliança. Na Nova Aliança temos a realidade, Jesus Cristo, algo que os Judeus do Antigo Testamento não tinham. Logo, a Antiga Aliança era baseada em tipos, símbolos e sombras. Conforme o ensino do Novo Testamento, voltar às velhas práticas judaicas seria o mesmo que anular o sacrifício de Cristo (Gl 5.2), seria anular a graça (Gl 2.21). Na Nova Aliança, Israel não tem nenhum vantagem sobre o restante da humanidade. Agora, todos de igual modo são salvos unicamente pela fé em

Cristo. Jesus disse: “O Reino de Deus será tirado de vocês e será dado a um povo que dê os frutos do Reino” (Mt 21.43).

Sobre enfatizar Jerusalém, devemos ter em mente que a “nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos o Salvador” (Fl 3.20).

O apóstolo Paulo faz um pergunta pertinente aos nossos dias: “Como é que

estão voltando àqueles mesmos princípios elementares, fracos e sem poder?

Querem ser escravizados por eles outra vez?” (Gl 4.9).

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