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Margarida Maria Lacombe Camargo Pesquisadora da Casa Rui Barbosa, Professora da Universidade Gama Filho (Pas graduagao) HERMENEUTICA E ARGUMENTACAO UMA CONTRIBUICAO AO ESTUDO DO DIREITO Preficio de Vicente de Paulo Barretto 3* edigéo revista e atualizada Posficio de ‘Antonio Cavalcanti Maia LIVRARIA‘E EDETORA RENOVAR LTDA, ata Rs Assen, 041 Conn (cep 2011.9 Te 21) 258-208 - aw (1) 3312138 LIVHARIA CENTRO. Rude Asembl 10 Ton Cente 1901 Tet (21) 881-1816) 2991-38 Pe 2) 353 12 LIVRARIA IPANEMA: Ren Vicone de Pn 273 ot A pana" RE “Gep=2410 01 Tel (iy 287400 Fue (2) 207-88 FILIAL Wy fs Amanes Mai 177 Sto CrroRS- CEP 2090 010 a2) 2509-186 / 2880 8596/3 4199 Fa (3) 25601960 LIAL SP, Ran Sano Amaro, 257-4 Bol Vis -SP-CEF 01315001 ets (i) S14 9851" Fa (113108089 andltorarenover.com.orrenovar@edorarenovarcom.tr ‘Ac: 00 221069 Const Eri Aral Lopes Shad — Psd ‘ars Albeo Mewes Dse ou as tae mi ds Roa {Celia de Augers Mello ‘ise Perea i Revie Tprifce ‘am ta Co cone Joe Cet Gomes Topxtos Ee Graf Lt, tPeait. Cops fonte Sino Naina do tees Lr, RL cm ‘Comage Narnia Nava Lon Hemet e spunea un contigo a0 estado do ‘Mages Mata icone Coma pede Vicon Pe Sane Sink Ride to: Reno 00, 29. lom, ISaN aster09 |, Hemera (Dio), 2 Lingua 3. Andise 6 deus Reusin 1 Barto, Vice de Pas I Til, oti cmc 961098) Biblioteca de teses Os Cursos de P6sGraduacio tém se desen- volvido no Brasil, € a producdo de teses tem sido elevada ¢ de alto nivel. ‘A Editora Renovar propée na presente Bi blioteca estimular a divulgagao de obras que contribuam para o desenvolvimento da ciéncia Juridica brasileira, levando-as a0 conhecimen- to do grande piblico, No Direito as novidades estio, de um modo sgeral, nas teses © nas revistas especializadas. ‘Assim sendo, a Editora Renovar abre a sua linha editorial para os juristas que estio no inicio de sua carreira profissional como mes- tres ¢ doutores. A Biblioteca tem esperanca de que vena a constituir um estimulo a estes profissionais. E mais uma prova de que acreditamos na qualidade das obras uridicas brasileiras. A nos- selina editorial & marcada por uma rigorosa selecio realizada pelo Conselho Editorial, que Feline eminentes juristas. Ezitora Renovar BiBuioteca bE TEses RENOVAR Posse da Seuranga Juridica & Questo Social Marcelo Oomans (0 Prejiza na Frade Contes Credores Marca Robene Fer 1 Pessoa juritica€ 05 Direitos da Persoalidate ‘lesan Ferra de Asimpgio Ales {atado © Ordem Econdmico Soci treo Aula Per Caco (0 Projeto Poltico de Pontes de Miranda Dante Braz Lmong! (© Direito do Consumidor a Ea da Glabalizago Sonia Maria Via de Mello [As Novas Tendéncis do Dirio Extradicional ‘anor de Brto Custos Sova Fupdamentos para uma lnterpretagso Constucionl do Pracipio da Boa Fé Teese Newer, © Ministerio Pilio Bravo foie France Sauwen Fho {A Giianga eo Adolescente no Ordenamentojuridico Brailelro sad Fsuma Caraga Fimo Propriedade e Domisio Rrcedo Arcane (0 Principio da Proporcionaidade «a Interprelagso da Consituigso Paulo rm Tavares Buechele ‘Condominio de Fata Bamele Mactade Soares A tierdade de imprensae 0 Direito Imagem Suey Cesar Siva Cuca Diteito de Inlormagio «Libera de Expresso Tul Gustavo Grandnet Coe Canvabo ‘A Saga do Zangao - Ua visio sobre o dei Mercosul e Personalidad Juridica tnternacional Marcus Rector Toledo Sita Fania sem Casamento Girmem Lica S Ramos [A Dscptna Juridica dos Epasos Martoos na Convenso ds NagGes Unidas Sle Diet do Mar de 1982 ena Jursrudenci Internacional Jet ane Fatt (© Dirito Econdmico na Prspectva da Globalizarso Cosas august Siva da iva ee eer + Lines da Reforma Conttcions! Sottvo atts Coun e Ste © tetrendo Raton Spat Sepang nteracional ¢Diritos Humanon Shove wan (+ Fundamentos eos Lites do Fader Reo no Amite do Mercado Finance Sine tarshe © Dirt Cbemneico ieancke f Pnerte) Confitor etre Tratads lnteraconi Lis nteras Maing res! Pvazgte sob Otca do Dio Prvado Femoct © feaoss ‘Auta de rec no procne do tabi: ma vo Ntvco-compaaina daa pr oan brace) {ards Henig on AGaMOVCh Iusradénia Bras sobre Transport Aéeo Jor Cabrel Ass de Aled Sonericte Compuleria ~ Instrument de Sleinagto de Fungo Social da Propriedade ms ws Nate eon Coated ‘fans nfofandadas no catamento a condcio eminna ‘aCe Hanna Noe Imaldadeprocesual um esto par 0 proceso do trabalho ‘icy Rachid Coco ‘A sida humana emblondi sa protein Jussara Maria Leal de Meirelles - © Frinpo Consttucionl da Digna da Pesos Hans: © Enfoque da Dowtina scl daira Caer ancien aves, Conve Substncal do Negi Jrico Joto Albeo Schuser et Neto {© Dirt da Concortacia no Dio Comnisio furopes — Sia contibio ao Merch Dye Compe Meron Unio Europ Contigo ‘Marcio Monteiro Reis 7 Dire Tut ¢Glbatiag rand Gorges Pers “Teasers, Odeo sun nova ena sea ‘An Pala Arto dan ees rio Ra «Aonuma dana ino da Tipeldae dx irs Res ‘André Pinto da Rocha Osorio Gondinho 7 ‘A fatemidade Presumida no DireitoBrasliro © Comparado {ut Paulo Covim Coarse, Tn nso Celico sobre Pregos de Transleréncia (0: Novos Paradigmas da Faria Contemportnes na de Olvera Zamberian (0 Mito da Verdade Real na Dogntea do Froceso Penal Franco dis Neves foptta 0 Direito a0 Devevolvimento na Perspectva da Globalizagso; Paradoror« Destin ‘na Paula Tees Delgado ‘Cooperacio Juridica Penal no Mercosul Solange Mendes de Souza fm Busca da Familia do Novo Milenio Rotana A. irr Fach Iuizados EspeciaisCrininas Beaure Abrto de Olver (0 Principio da impesoalidade {iva ara Armertano Roenigsein Zapo (© Principio da Subsdiaredade no DiretoPabica Contemporsneo ‘Sia Faber Fores Dirito, Escasseze Ecoha: em Busca de Crterios Juriicas ara Lidar com a Esser de Recursos eas Deites Tries Gustavo Amaral Decadéncia ePrescrigao no DiritoTributiio do Bras Francisco Alves dos Santos Lesdo Contatual no Diet Brasileiro Marcelo Cera Marine ‘Aceso& Justia — Um problema dcosacal no plano da relizasso do Direlto Paulo Cesar Somos Berera ‘Concurso Formal Crime Continundo Datei Moshe Choche Bixe [A Boalé ea Vilagso Positva do Contato Forge Coss Fever da Siva Responsabildade Patrimonial do Fstado por Ato Jvedicional 2ollarFachin Gestio Fraudulent de Istitugdes de Intuigao Financelra€ Dispositivos Processus da Le 7.39286 Iuliano Breda Conratos de Software *Shrnkwrap Licenses” e *lickrap Licenses” Emi tcandor Amd Juredigdo Consitucional, Democraciae Raionalidade Prtca Sidi Perea de Sours Neto ‘Descomsderag da Personalidad Juridica ~ Aspetos processus Osmar Views de Siva (© Dano Pessoal na Sociedade de Rico ana Ate Costa Hofmeister Presunge €FcgOet no Dito Teibutro eno Dirsto Penal Tbutilo fro Chats Schekerkewitz Hoora, Imagem, Vida Piva e ltiidade em Colisio com outros Diritos Monies Neves Aguiar Siva Casto eee eet 1a tesio no Dirito Braselro Atal Coren Alber Siar Fiho Repetgio do indbitoTribuiro — © lnconstiuconal artigo 166 do CTN [oh Dias Femandes ‘Uma Andie 63 Testra Abeta da Linguagem e sua ApliagSo 30 Dirlto owl Stuchiner DireitoTribuivio versus Mercado Marcos Rogdrio Palmore © Direito & eaucagio epina Maa Muniz © Abuso do Direto« as Relages Contatsis Rotaie Filgo Pineiro ‘A Legtimaczo dos Principios Consttcionis Fundamentals ‘Ana Pula Cosa Barbs ’ Partcipagso Popular na Administra Public: o Ditto de Reclamagio ‘dvs ea Cons Ricardo Sehr Do Patro Poder 3 Autordade Parental Naveos Aves da Siva Paradigms Biocéatrce: Do Patimanio Privado 20 Pa Jort Robeon da Sia (0 Discurso Juridico da Propiedad e suas Rupturas Froultis Conan anor Teyciizagio ¢ Intermetacao de Mio-de-obra Rodrigo de Lacerda Carel As Apncas Reguladras no Dirsito Brasileiro ‘ian Brito Redrgues Cal ‘As Novas Tendéncis na RegulamentarSo do Sinema de Telecomanicagoes pla ‘Ageacia Nacional de Telecomunicagbes~ ANATEL {eas de Sura Lee ‘A Renincia& Imunidade de uisdigo pelo Estado Brasco ‘Antenar Perera Mads Fh ‘A Muther no fspagoPrivado: Da Incapaidade& gualdade de Dircitos ana Alice Rodres ' Propiedade como Relasio Juridica Complens France feud Lowe (© Conceito de AnuagSo ou Prejuizo de Beneficios no Contest da evolu do earrsome Regina Marta de S. Pereva © Direito de Asistencia Homanitiia ‘Abert AmarlJaior ‘Contato de Trabalho Virtual Nargorahf, Bxrclar © Dirsito de Resistencia na Ordem juries Constituconal Braslera| Mauro Cent Manteno “Transormagoes do Dirsito Administrativo Parca F Spat imino Ambienta ‘a Privacidade da Pesos Humana no Ambiente de Trabalho ‘Bruno Lewick| Préximos langamentos ‘dens do Coan a Esra Scions do Neorg fara AleandraFonuny [tado, Sociedade Civile Princ Vania ara Nascimerao Congalves {A Relago entre o interno eo Internacional Exovie Perea Couto ‘Contibuigbes para oFinanciament da Sequridade Social {Grteros para Definigao de sum Naturera Juridica Sivania Concelgao Tognet IuizadosEspeciis Fderas Civeis Ivar Coon Antunes Sora (0 Direito Frente is FanlasReconsiuidas Rorane Felhaver ‘De Marx a Deus - Os Toruosos Camis do Terrorism Internacional Dene de Souza Soares, da Sebidariedade na fra da Clobalzag so Confess Pvlamentares de inguérito no Brasil Jess Claude Franco de Alencar Responsaidade Civil dos Pais pelos Actos ds Fos Menores Jeovanna MstensViaanaPinheo Alves Regime Juric dos Incentvos Fas reos Ande Vinkas Cato (© Principio da Impesoalidade da Adonis Para ung Adminitragso lineal ‘ra Paula Olvera Aa Franchising Refeos Juris nas Relages das ares Rabero Chalcot Sampaio © Regime Jrdco do Financiamento das Campanas Cetrais Serge hed Aauio Espacos Pablcos Comparthados ene a Adminstacdo Psblica ea Sociedade enato Zupno sponse Otte do tno do io de ec por Omiso oa re de ‘itonio Cesar Pimentel Caldera Un Estudio Comparatino de a Protecién Leia del Cosumidoren “Ambito interno e os Paes de Mercotur ia Morte, [As Normas Consitucionsis Programsticse © Controle do Estado {ose Ciros Vasconcelos dos Ras A.minha famtlia Flévio, Fabio e Estela Agradecimentos Este estudo foi feito com o apoio da Fundacio Casa de Rui Barbosa, onde trabalho como pesquisadora, e conto com 4 colaboracio eo incentivo de muitos amigos. Em primeito lugar, © Professor Vicente Barretto, orientador da tese que deu ori- .gem a este livro; em seguida, Antonio Carlos Maia, que me franqueou sua biblioteca e cujas sugestbes demonstraram uma verdadeira prova de amizade; Celso Albuquerque Mello, que sme despertou para leituras importantes; José Ribas Vieira Ana Liicia de Lyra Tavares, parceiros de trabalho. E, também, 08, amigos da Casa de Rui Barbosa, em especial José Almino de Alencar, entio Diretor do Centro de Pesquisas Prefacio a primeira edigdo Por uma nova leitura do direito A cultura jutidica contempordnea, principalmente nos paf- ses de tradigéo romanistics, encontra-te prisioneira de alguns impastes epistemol6gicos e metodol6gicos. A concepgio do di- reito como fruto da vontade do poder e, como tal, devendo ser aplicado de forma mecinica na solugio dos conflitos,ignorando realidades econémicas e sociais, acha-se contestada em seus fundamentos pela prépria mudanga ocorsida na estruturagio do. poder politico. O processo de democratizagio, que toma conta, ‘como se fosse uma onda politica de todos os quadrantes do planets, acarretou também uma mudanga substantiva na natu reza da ordem juridica. A ordem juridica passou, progrestiva- mente, a ter que lidar com conflitos de interesses e de valores cde uma sociedade pluralista ecomplexa, onde a norma de dicei- 10 reflete a vontade democritica na sua formulacio e envolve, portanto, na sua apicagio o emprego de critérios metajuridicos ara responder a esse desafio, alguns juristas e fil6sofos contemporineos, como Recaséns Siches, Alexy, Dworkin, Ha- bermas, Viehweg, Perelman, Tércio Sampaio Ferraz e outros, libertaram-se de uma metodologia de anilise do fendmeno jurf- dico estritamente formalista e incorporaram no processo de aplicagio do direito outros instrumentos conceituais © herme- rnéuticos, que se encontram para além da ordem legal posit da, Nesse contexto de superacio dos ébices resultantes de uma ddogmitica estrta, é que o liv da professora Margarida Lacom- bbe Camargo traz para a literatura juridica brasileira uma conte bbuigio original eatualicima, destacando-se por enfreatar, com, ‘o auxilio de alguns dos autores jf referidos, o desafio nuclear pra filosofiae a teoria do direito neste final de milénio: como realizar uma radical e profunda aleeragio no modo de pensar € aplicar o direito, instrumento principal para assegurar a justiga na sociedade democritica e pluralista da contemporaneidade, O livro da professora Margarida Lacombe Camargo investi- 2, assim, essa mudanca de paradigma na teoria do dircto, procurando estabelecer os parimetros de uma nova hermentu- tica juridica, que corresponda no émbito do direito 20 movi- mento geral de refundagio das ciéncias humanas e sociais das, Gltimas décadas. Enquanto a dogmatica clissica encontrou nos grandes civilistas e nas codificagdes do século XIX 0 campo propicio para desenvolver um modo de aplicagio do direito, que se caracterizaria por um modelo de interpretacio fundado ‘numa concepsio abstrata do direto, eno fundo ideal do Estado eda sociedade, 0 pensamento jutidico contemporineo defron- ‘use, precisamente em virtude da chamada “crise do direito", ‘com o desafio de construir uma nova forma de pensar e aplicat © direito. A “aplicacio da lei", vale dizer, a adequagio do fato 40s ditames da norma jurdica, consistia no abjetive central da, ddogmitica cléssica, que transitava no universo fechado do siste- rma juridico nio levando em conta o que Hans Kelsen chamou, de fatores “acientificos' na andlise jurdica. O direito bastava- se a si préprio, como se fosse uma ménada dentro da qual A argumentacéo, por sua vez, & a técnica que visa a0 acordo sobre a escolha do significado que paresa mais adequado as ‘fetivamente, esencialmente um problema de decsfo:o legislador deve decidir quais seri as les cbrigatéras numa comunidad organi ‘ada, 0 juiz deve decidir sobre © que € 9 dreto em cada stuasio ‘submetida 20 seu juz, Mas nem olegislador nem ojuiztomam deci bes puramente abitearia: a expesgto dos motivos indie razbes por {que uma lei fi votada e, num sistema moderno, toda sentenga deve ser motivada, O dieita postivo tem como correativo a nogéo de decisio, sendo razodvel, pelo menos raciocinads." CF. Eta edireit, p.376. 25 Olivier Reboul, de forma bastante sintGtca, atrbul o cardter de verossmil a “tudo aquilo em que a conflanga € presumida”, CF, Intro updo a retérca,p. 8. 26: Perelman defini argumentagdo em oposigéo a demonstragdo, da seguinte forma: ‘Demos o nome de argumentagdo 20 conjunto das, ‘écncasdiscusivas que permitem provocar ou aumentar a adesto das ‘mente 2s teses que se apreseatam 20 seu astentimento; send 0 ter ‘mo tradicional demonstazdo reservado aos meios de prova que possi- bilitam concuir, a partir da verdade de ceras proposgtes, pela de ‘utras proposigSes, ou sind, no terreno da logic formal, passa, com, «ajuda de regia defnidas de tansformagéo, de ceras tess de um, sistema a outras teses do mesmo sistema.” Perelman, Retéreas, p 369. 2 partes discursivas; acordo este fundamentado em provas Concretase opinises amplamente aceitas. Com a argume tacio temos condigées de “visualizar” a compreenséo, na medida em que esta se traduz em algo de concreto.”” ( direito admite, pois, uma superposicio entre duas cesferas: a da compreensio da norma ¢ a da compreensio do fato, levadas a cabo pelo ser historicamente presente, due se utiliza, paza tanto, do procedimento argumentative. Tecnicamente, a argumentacio vibiliza 0 acordo capsz de formular a compreensio através de uma interpretagio que sirva de fundamento a solugie mais razoavel. (© método do direito é, portanto, © método t6pico- hermenéutico, Cada situagio deve ser compreendida em fangio do problema que apresenta ¢ da tradigao histérica na qual seinsere. Maso seu instrumental é argumentativo essa forma, podemos dizer que o direito consste na rea- lizagdo de wma pratica que envolve o método hermentutico dda compreensao e a ténica argumentativa. ara nés, o método diz respeito& orientagio para 0 co- nhecimento, ea técnica, as regras que dirigem essa ativida- de. Logo, compreensio e concretizagio encontram-se int- ‘mamente relacionadas: existe o que se compreende em funcio imediata de um aplicar. Assim, arealidade dodivei- to €a mesma reaidade de sua compreensio.® 37 Quando Heidegger diz que a interpetacio funda-se na compreen= ‘shoe ado vice-versa, ele considera os préulzos como ponto de partida para toda a compreensio. Fass pé-julzesfuncionam no nosso esque- ‘a come fopt Para Herdeyge, a interpretacio sempre se Funda numa visdo pré- via, que “recorta’ © que fo asumido na posigo previa, segundo uma porablidade determinada de interpretacio, Cf. Ser tempo, p. 206-7. 28 Para Gadamer,"srelidade histrice € igual realidade do com ‘reender hetrice” Verdadee método,p. 370 2 1.3 Hermenéutica ¢ interpretagio A hermenéutica mostra-se presente quando, segundo Vaxtimo,# Nietesche anuncia a morte do deus da metafisi- ca,® entendida esta iltima como "a descricéo universal- mente vilida de estruturas permanentes € essenciais & compreensio do mundo".*” A descrigéo objetiva dos fatos| segue-se a busca da verdade mais persuasiva e responsével, origindria da interpretacéo, isto €, uma interpretagdo que pretende validade até aparecer outra, concorrente, que a destitua.” (O autor situa a hermenéutica na filosofia que se desen- volve 20 longo do eixo Heidegger-Gadamer.” E olhando dessa forma anota que a hermenéutica revela os seus dois aspectos constitutivos: 0 da ontologia, privilegiado neste 38. Gianni Vato, Para além da interpreta: 0 significado da her mentutica para ilosfia. $e. Vattimo fnaiza capitulo intitulado “A vocag nlilistica da het rmenéutica,evocando Nietaschee o sentido da morte de Deus para a modemidade, "iso é, da dissolucto da verdade como evidéncia pe- emptria © ‘bjetiva’.Até agora, [airma,] os filbsofes acreditaram fem descrever 0 mundo, € chegido 0 momento de interpretél.. Para além da interpreta, p. 27 al Vattimo, ob. et, p23. 2. Passagem iarrative sobre a importncla da argumentaso ede sua ‘matrz intersubjetva, no processo de interpreta, encontramos no texto de Vattimo: "Os argumentor que a hermenéutica oferece para sustentr a propria inerpretagso da modemnidade sio conhecidos por ferem ‘pens’ interpretagces; no porque acreditam em deixar fora {de siuma realidade verdadera, que podera ser lida de modo diferen- ‘te; mas sim porque admitem nio se poder apela, pela propria valida. dd, 1 nenhuma evidéncia bjetiva imediat, Isto porque o seu valor estén capacidade de dar lugar aur quad coerente e compartiha- do, na expectativa de que outros proponham ur quadro alternative mais aceitavel” Ob. cit, p. 24 2 Ch p ds, nosso trabalho, ¢ o da lingtisticidade.* Gadamer critica cientificismo ¢ © metodologismo modernos para reivindi- car a busca da verdade além dos limites do método cient(- fico positive, a comecar pela verdade da experiéncia, como ato interpretativo. Dessa forma, passemos a anélise do ‘tema, buscando um pouco das suas origens. ‘Como vimos, a origem do termo Hermenéutica tem como referéncia Hermes, 0 enviado divino que na Grécia antiga levava a mensagem dos deuses aos homens. Signifi- cava trazer algo desconhecido ¢ ininteligivel para a lingua- gem humana, Richard Palmer nos diz que 0 verbo herme- neuein, usualmente traduzido como “interpretar”, € 0 substantivo hermeneia, como interpretasao, significam ‘ransformar aquilo que ultrapassa a compreensio humana tem algo que essa inteligencia consiga compreender.* 0 autor aponta ainda trés tarefas especificas da hermenéuti- ca como mediaglo, quais sejam: dizer, explicar e tradwzir. Dizer, no sentido de anunciar ou afirmar algo, relacions-se, antes, com a ago enunciadora de Hermes: trazer noticias fitis das divindades. No entanto, o predominio da palavra entre o$ gregos fez com que a linguagem faleda e sua ver- tente performética ganhassem relevo, ¢ a hermentutica passasse a ser vista como ars. Explicar torna-se mais im- portante do que simplesmente expressar, na medida em ue as palavras racionalizam e clarificam algo; € quando ganha énfase o aspecto discursivo da compreensio. E, quanto a traduzir, significa que o hermeneuta torna com- preensivel o que é estrangeiro, estranho ow ininteligvel 3 Nesta links poderiamos apontaro trabalho de Lenio Luiz Steck. Hermendutia furiica ef) crise: uma exploragdo hermentutica da ‘construgdo do Direito 35: Ver Richard Palmer. Hermenéutica Py Em Roma, a hermenéutica desenvolveu-se muito com 4 propria prética juridica. Os pretores e os jurisconsultos diziam o direito para cada caso concreto, sem qualquer pretensio de generalidade. Mas essis decisées consolida- Tam-se com o tempo, transformando-se em méximas que se tornaram muitas vezes obrigatérias." ‘A hermentutica alcangou notvel proeminéncia no campo religioso. O problema de interpretar corretamente a palavea de Deus era comum a0 povo judeu em relagio 20 ‘Antigo Testamento; aos cristios, ao Novo Testamento; € a0s protestantes, em relacio a Reforma. Durante a Idade Média, a andlise sistemstica sobre aevidencia da revelasio divina deu origem 3 Teologia,” e a hermenéutica assumiu © aspecto exegetico da corretainterpretagio dos textos s3- grados, dando ensejo ao seu desenvolvimento no campo filol6gico. 36, Ovalor do argumento de autoridade em Roma € grande, haja vista a Lei das CiagSes, promulgada por Constantino no século IV d.C. Ese estatuto legel veto corrboraro que a ptiaj haviaconfiemado: a sabedora dos jursprudentes notvels aa legitimidade para esten- ‘er-se a situagbes similares, De acordo com a Lei das Citapbes, 0 juz ‘devera aplcar as opiibes de Ulpiano, Modestino, Gao, Papiniano e Paulo, da seguinte forma: em primero lugat,prevalece opinito da ‘maiors; em caso de divergéncia, acolhese ¢ opinlio de Papiniano; Finalmente, nfo havendo regras especificas para‘ caso, cabe a0 juiz dota a tese que lhe parega melhor. 37. Na Esclistica, por exemplo, procurava-seorganiaarraconalmen- te a idiasdivinas sob a perspeciva da fe. A racionalidade encontra- ‘ies no instrumental wlzado, que era o texto, por meio do qual ‘ransmitism-se a dis reveladas. Na dade Media existiam os “co- _mentéros” eas “sumas". Os primeiros originavamse diretamente da Crplicago do texto, enguanto as sum apresentavam, de forms ‘ionalmente ordenada, a siatese dos prineipios extafdos dedutiv mente dos textos divinos. Vide J. M. Pateaud, no prefici 4 2* edigio brasileira de Discurso do método, de Descartes: Editors Martins Fon- tes, 1996. 2s Para o direito, no entanto, foi extremamente significa- tiva a atividade dos glosadores da Universidade de Bolo- nha, durante os séculos XI e XII. Com a descoberta, em 1080, as leis romanas compiladas por ordem do Imperador Justiniano no século VI d.C., mais tarde chamadas de Cor- ‘pus luris Civili, iniciou-se todo um esforgo acerca do seu entendimento e compreensio, de forma a adotar-se, na pritica medieva, o exemplo romano. Segundo Wieacker, “a Idade Média sentiu a cultura antiga como uma forma modelar ¢ atemporal da sua prépria vida". desenvolvimento das cidades italianas justificow « formacio de uma corporagio propria — a Universidade —, destinada aos estudos juridicos para a formacio de fun- cionéries pablicos, como sindicos, procuradores, notérios € advogados.” Como 0 texto juridico romano era muito dificil, antes de mais nada ele deveria ser explicado. E do resultado da interpretacio feita pelos professores apare- ‘cem as glosas, palavra por palavra, linha por links,“ para logo alcangar todo o sistema, visto como um todo har- monico, a reunir as partes, conforme princfpios de or- dem geral. ‘A técnica expositiva da Escola de Bolonha ligava-se, se- undo Wieacker, 3 tradigio do ensino trivial"! Segundo o ‘mesmo informa, mantinham-se “ainda as figuras de expli- caglo e de raciocinio elaboradas originalmente pela l6gica, 3a Frane Wieacker. Histéria do direitaprivade moderno, p42. 38 Idem, Ibidem, p. 4041 40. As glosss ganharem robustez nos seus significados, torando-se fecunda fonte de consults para os priticose estudiosas do direto. Destague para a Glossa Ordinaria de Accuris (1250), considerado 0 maior trabalho de interpretacio, aa época, sobre 0 Digesto. 41, Durante 0 século XI, tritium correspandia 20 ensino dos ele- rmentes bisicos da cultura da época: gramtica,legicae retrica; 0 ‘quadrivium, A rasica, geomet, aritmétca 2 fsa. 26 pela gramética e pela retérica gregas, aplicadas, inicial- ‘mente pelos eruditos alexandrinos, & exegese dos textos filolégicos: a glosa gramatical ou semintica, a exegese ou imterpretagio do texto, e a distingéo. [...] Como ratio scripta, o texto isolado de um jurista constituia, em si mes- ‘mo, sem referéncia & sua conexdo com 0 conjunto de todos 6$ textos, uma verdade.”* No entanto, “a convicgao do dominio de uma ratio sobre todo 0 conjunto da tradigio cconduziu a investigacéo hermenéutica 3 procura do senti- do global de todo 0 texto, para apresenté-lo em cadeias silog(sticas, pois se cada texto encerra a verdade da autori- dade absoluta, um texto nio pode contradizer outro igual- mente verdadeiro”.® (O método de anélise escolistico, por sua vez, foi fator responsivel pelo aparecimento da dogmética juridica, tal como ocorrera com a religio. De acordo com J. Harold Berman, 0 método escolistico pressupunha a absoluta au- toridade de certos livros, que continham um completo ¢ integrado corpo doutrinério, como era 0 caso do Corpus Turis Civilis ¢ da Biblia, corporificando a razio. Verifica- se, assim, que a chamada ciéncia do direito e a cigncia da tcologia formam-se na mesma época.** 1 Wiencker, ob. cit, p. 47 © 50. ‘2. Idem Ibider, p53. Coma interpreta das Bscrituras Sagrada, je tem a nocio da relagdo circular existent entre o todo eas partes, que nio abandonaré ‘mais a hermenéutica, Quem nos chara a atengio par tal foto Hans Georg Gadamer. Segundo cle, o sentido literal da Bsritura nio se centende inequivocamente em todas s8 suas passageas nem em todos ‘os momentos, €0conjunto da Sagrada Escritura que gla a compreen ‘to do individual, al como no inverse, em que este conjunto 36 pode tmpreender-se quando realizda a compreenso individual. O sentido ‘e unidade pass assim, a serie de pressuposto dogmatico para toda a hermentutics. CF, Gadamer, Verdade emétodo,p. 227. {4 Ch Berman, Law and Revolution, p- 131 6132. 2 ‘© romantismo eo renascimento também se ocupam da recuperagio das obras cléssicas, procurando, na correta utilizagéo da palavra e da ingua, ser fiel a0 espiito da épo- ea antiga, Em um e outro caso, trata-se, na realidade, do redescobrimento de algo cujo sentido era estranho e ina~ cessivel, e nio, propriamente, de algo novo. O que se pre- tendia, nesses casos, era por a descoberto o sentido original dos textos através de um procedimento quase artesanal, «que implicava a aprendizagem de outras linguas. Posterior- mente, sob a influéncia do historicismo, 2 hermenéutica abandona o seu aspecto puramente exegético, na medida tem que é reconhecida a necessidade de se interpretarem tanto as circunstincias histéricas que ensejaram a criagéo de um texto quanto as circunstincias que determinam ‘sua posterior utiizagéo. Mas € com 0 movimento da Ilus- tragio e o pensamento cientifico moderno que interpreta- io e hermenéutica deixam de significar a mesma coisa. A hermenéutica passa, entio, a se comportar como ciéncia, preocupando-se com as técnicas préprias do fazer inter- pretativo. E, ao investir na questo do método, a herme- ‘© metodo dialético era bastante wtieada come forma de resolver problema de contradicio no texto, Como exemplo do papel da dale tien escolistica na formacdo do dieto ocidental, temes 0 tratado do rmonge de Bolonha, Graclano,escito por volta de 1140, intiulado, sugestivamente, A Concordance of Discordant Canons. Segundo Ber- ‘man, Graciano foi quem, a dade Média, primeiro explorou, de for ‘ma sistemitea, as implicagoes legais desasdistingtes e arrajou a8, ‘ras Fontes de dieitoem ordem herirquca. Ele comecouinterpon- ‘do conceit de diceito natural entre os conceitos de direito diving & de direlto humana. O direito diving era a vontade de Deus refletida ‘a revelagio, especialmente a revelagdo da Sagrada Escitra, eo di- zeito natural, eambém refletido na vontade de Devs, podeis ser en- «ontrado tanto na revelasio divina quanto na razio e conscigncia hur ‘mans. Cf, Law and Revelutin,p. 145, 2 ‘néutica ganha particular importdncia para a filosofia e para a teoria do conhecimento.* No entanto, a énfase dada 3 linguagem matemitica acaba por inserir a hermenéutica no ‘campo da légica formal, e & apenas com a fenomenologia, desenvolvida por Husserl ¢ Heidegger que ela passa a ser vista como compreensdo, revelando-se na consciéncia do r6prio ser, Para Heidegger, a compreensio consiste no movimen- to bisico da existéncia, no sentido de que compreender no significa um comportamento do pensamento humana en- tre outros que se possa disciplinar metodologicamente e, portanto, conformar-se como método cientifico. Consti- tui, antes, 0 movimento basico da existéncia humana. Compreender, para Heidegger, "€ a forma origindria de realizagdo do estar ai, do ser-no-mundo".*’ Gadamer diré que compreender é experiencia {5 Flosofia como reflexio sobre o conhecimentoe “teora do cone- clmento” aquela que procura a verdade objetva, com base na distin- 0 existeate entre syetae objeto Gavdamer diz que a hermenévtice atu, incentvada pela desco- berta das ciéncias humanas, aio trata de definirsimplesmente um método espectfice, mas si fazer justiga a uma ida inteiramente diferente de conhecimento e de verdade. As ciencias humanss,afr- ra, ao se limitam a por um problema para a fiasfia, Ao conto, clas pem um problema de flosofia. CE. O problema da conceéncia historica,p- 20 ‘A respeto da relagio existente entre hermentuticae teoria do conhecimento, vale confer © que dia Raimundo Bezera Faledo, em Hermenéutica, p87 e segs 46. CE Gadamer, “Hermentutia clisicae hermendutica ilossfica” (1977), in Verdade ¢ Método Il p. 105, Palmer, ob. cit, p. 134 47 Verdadee mitode, p32. ‘idea de "mundo" cortesponde 0 conjunto de condigdes geogré- fica, histica, sociis eecondmicas, em que cada pessoa est imersa 2» No século XX, seguindo a esteira do historicismo de Dilthey,* que considerava a reflexividade como base da cexperincia, eda ontologia heidegeriana,® a luz da retoma- dda da questio do ser, o Professor Hans-Georg Gadamer traz a hermenéutica para o campo da préxis ou da filasofia pratica,® Deixa claro que seu objetivo é dar continuidade WS Reconhecidamente, Dilthey empeeendeu um notévelesforgo no Sentido de dar objetividade metodol6gica as “citncias do espirito” {ssumindo o problema da rlativdade. A parr da impertincia da Conscitncia do condicionamento histérco, Dilthey procurou conver- ter em cidacia a experiéncia hstérica, Perém, segundo Gadamer, Dilthey no consegui escapar das amatas do cartesanism, manten- doa experiéneis como ago transcendeste a0 propre ser Nao obstan- te, Dilthey teria conseguda cumprr a tare que considerou sua, de justificar epistemologcamente as ciéncas do espirto, pensando 0 ‘mundo histrico como um textoa sr decifrado. Cf. Verdade e nto dd, paginas 277 « 304, ¢ "Extensio e limites da obra de Wilhelm Dilthey", em O problema da concincia histirica, p27 e segs 19, De acerdo com Gadamer, “sob 0 termo chave de uma hermenéu tt da faticidade Heidegger opde 3 fenomenologaeidtica de Husserl, a dstingio entre fatoeessencia sobre s qual repouse, uma exigéncia paradonal. A faticidade do ertar af (Dasen), 2 existecia, que nlo € Suseetivel nem de fundamentagio nem de deducio, € 6 que deve trgie-se em base ontoligica ds fenomenologis,e mo 0 puro cogito, como constitwigio estencial de uma generlidade tipica." Verdade e método,p- 318. [0 Gadamer, o tabslhar com o problema hermenéutico da aplica- ‘io, eportase a Aristotles. Apesar de Avstételesnio trata dceta~ {rente do problema hermenéutico nem da sua dimensio histrica, na Etiea trate do desempenho da rao na stuagio moral. Como as che mada “ciéncias do espirto” possuem come base a vida o homem, fas suas relagSes interindividaas, e o que ele sabe de si mesmo, 0 aber que Ihe € préprio € o saber morale ado o térico ou cientifico (saber moral cu a phyoneis, tal como descreve Aristétles, nib & tevidentemente umn saber objetivo, a medida em que © seu conhecer ‘do decorre da constatacio de fatos, mas daguilo que se fz. Aquele ‘que atua tata antes com coisas que nem sempre si0 como sip, senfo 0 a proposta de Heidegger, ao reconhecer que o conceito da ‘ompreensio néo é mais um conceito metédico, mas ca rater Sntico original da vida humana mesma,” Segundo Gadamer, o estar af &, na realizagio do seu proprio ser, compreender. Mas, na realidade, nem 0 conhi cedor nem 0 conhecido "se dio” “onticamente", mas “his toricamente’, isto €, participam do modo de ser da histo- ricidade, Pertencer & condicao para o sentido originério do interesse hist6rico. O problema da faticidade, que aparece tem Heidegger, era também o problema central do histori- cismo,e isto significa que o ser determina-se no horizonte do tempo, “A tese de Heidegger € de que 0 ser mesmo é tempo". ‘© ponto central da teoria de Gadamer, que diz respei to ao problema da verdade e da compreensio no ambito das ciéncias do espirito," @ a analise da “consciéncia da historia efetiva’,traduzida para o inglés como historically «effected consciousness. A conscincia da histéria efetiva é 8 consciéncia da situagdo hermenéutica, portanto, do mo- mento de realizacao da compreensio.® Gadamer defende Sue podem ser amb tints Ne descbre em ue pono pode iments, eu sb deve dg se fans CE Vee may p38 8 brea iso aio de ricco pec, es noo de rb resi vale tab conece obo de Asda Malay, uta eum? Qual raconaldade? 51.C£. Gadamer Verda eméad,p. 325 8 om 9 38 Cato noc) 53. Ese tomatic € sora ny segue parte des principal cbr Verdade ¢ método, ani eer 54 Ver Hans-Georg Galan. Trath and Method, Tadao de oe Weinsheimer e Donald G. Mortal, the Continous Publhing Company, New York, 1964, $8: Cadamer, Verdadee mftodo, p. 372 3 ‘a idéia de que nio € tarefa da hermentutica descobrir mé- todos para uma correta interpretacZo, mas refletir sobre © acontecer da prépria interpretacio, que no dmbito das tcigncias do espirito corresponde mais especificamente & compreensao.* © individuo compreende-se a si mesmo através da conscincia que tem de sua situagio histérica, A idéia de situagdo ligam-se, por sua vez, as idéias de tradi- (fo e de horizonte. Todo ser hist6rico encontra-se inserido ha tradigao e ocupa determinada posicdo que Ihe delimita horizontes, O ser humano, devido a sua condigio histérica, 6, por isso, um ser limitado. O horizonte, para Gadamer, é co mbito de visio que alcanga e encerra tudo o que é visivel 1 partir de um determinado ponto, Nao obstante, ter hori- zonte néo significa estar limitado Aguile que nos cerca mais, de perto, mas poder ver, inclusive, por cima dele. Horizon- te & apenas a dimensio do que © homem compreende ¢ ‘que ajuda a compreender-se a si mesmo. Aquele que tem horizonte consegue valorar o significado das coisas que se tencontram dentro ou fora dele, segundo padrées de per- to/longe, grande/pequeno, etc. A mobilidade histérica im- pede a existéncia de horizontes Gnicos, ao passo que © ho- rizonte se move conforme quem se move: no € a cons- ciéncia histérica que pée em movimento o horizonte, mas nna consciéncia histérica este movimento se faz.consciente de si mesmo. Por outro lado, de acordo com a teoria de Gadamer, 0 horizonte do presente encontra-se em constante forma- Ge Para Gadamer, a compeeensio & menos um método através do ‘qual a conscitncia hstriea se aproxima do objeto eleito par aleancar ‘stu conhecimento cbjetivo de que um processo que tem como pes Suposto 0 estar dentra de um acontecer tradicional. Cf. Verdade e Indtodo, p. 380, eee cece a0 contrério, é a fusio desses horizontes que possibilita ; Garren se ale inc no secon een nificativa, Sintetizando, é este o entendimento de Gada- ea gto de am bozo hin & portant ase ou momento a relzagao da comprcense, © consolida na aute ‘ a 2 lienagdo de uma jer sda, consciénis passoda, 2 no prio horzonte compreensia do pe sent, Na realizgio d compreeso tem gr un ver ir fusio horiabntiea que com o projeto do hortaant his tr levaacabosmtnemente a superace Arel So contolada da fusio damoso nome de “tarefa da cone. ciéncia histérico-efetiva’,” F - A idéia de horizonte sustenta-se num de i 2-Se num dos prineipais pi- lares da constugio tedrice de Gadamer, que € 0 iia de tradigdo, uma vez.que o tempo passe a ser visto no como um precipicio que deve ser transposto para a recuperacio do passado, mas 6, na realidade, osolo que mantém o devir onde o presente cra raizes, Dessa forma, ‘A “distincia temporal” nio é uma distincia no sentido dle uma distincia que deva ser transposta ou vencida, Esse era o preconceito ingénuo do historicismo, que acreditava poder alcangaro terreno da objetividade hit6rica através de ‘um esforgo para se colocar na perspectiva da 6poce extudada € pensar com 0s conceitos e representagoes que hes eram, 57 Hem, p37 s Te Kd, 333. 7. Gadamer "Sobre o circulo da compreensio" (1959). Verdade método I, p. 63. 118. Pera Gadamer, os preconceitos necesssios e que orienta tod tarefsinterpretativa nie constituem, obrigatoriament,fonte de e770, ‘como queria Descartes. Os preconceits, por exemple, dado pela trac cavregam um fundamento de validade. Dai Gadamer fla da autordade propris da tadigio, Por outro lado, “a tradio ndo € uma force cea, em face da qual ohomem seria um ente meramente pass. vo, nio s8 porque através dela 9 homem Se auto-interpeet, mas tam: ‘bém porque por ela © homem € continsamente iterpeledo.[..] A tradiao & assim identifcada com o conjrta de preconcsitas trans subjetvos que arientam a interpretardo e, como les, €igualnente Aautoridade da tradigio, no entanto, ndo tira a liberdade do intérprete, porque, 20 ser racionalmente reconhecida, € formar uma consciéncia met6dica da compreenséo, somos capazes de controlé-la* Mas a compreensio no consiste em uma busca do passado feita por uma razéo inde- ppendente, como procedia o romantismo histérico, consi- dera Gadamer. Consiste, isto sim, na determinacio uni- versal do estar ai, ou melhor, na futuridade do estar af, feita por uma razio comprometida historicamente. O es: tar af faz parte de um processo hist6rico enquanto expe- riéncia humana da qual participamos. E, assim, escreve: [Nilo & s6 a tradigéo ¢ a ordem de vida natural que for- ‘mam a unidade do mundo em que vivemos come homens; © modo como nos experimentamos uns 208 outros @ como cexperimentamos as tradigdes ist6ricas eas condigées natu- ris de nossa existéncia e do nosso mundo formam um au- ‘tEntico universo hermenéutico com respeito ao qual nds nfo estamos encerrados entre barreiras insuperdveis sendo aber- tosacle." A razio s6 existe como real e histrica, ou seja, a razio rio € dona de si mesma, mas esta sempre referida a0 dado no qual ela se exerce. "Por isso, os pré-jutzos de um indivi duo sao muito mais que seus juizas; a realidade histérica do seu ser." E sob esse viés ontol6gico-existencialista, contrério as constragées que se fundam sobre 0 método logico-objetivista, Gadamer entende que: ‘afirmada como condigto da interpreagao.” CF. Joo Pasuna, Diciond- ro, p. 163. 119," Verdade e métdo, 336 120. Idem, p. 26. 1a Idem, 344 37 ‘A antecipacio de sentido que guia nossa compreensio de um texto nio é um ato da subjetividade senio que se determina desde a comunidade que nos une com a tradicio Mas em nossa relagio com a tradicio, esta comunidade est submetida a um pracessa de continua formagio. Nao € sim plesmente pressuposto sob o que nos encontramos sempre, sendo que nés mesmos a instauramos enguanto que com: preendemos, paticipamos do acontecer da tradicio e conti- rhuamos determinando assim desde nds mesmos. O circulo dda compreensio nio é neste sentido um circulo "metodalé- ico” Seno que descreve um momento estrutural ontol6gi- ‘co da compreensio.'”= De fato, quando Heidegger afirma que “a compreensio significa 0 projetar-se em cada possibilidade de ser-no- mundo, isto 6, existir como essa possibilidade",! pode- ‘mos continuar com Gadamer quando, a0 analisar tal con- cepsio, conclui que “quem compreende um texto, para no dizer uma lei, nio apenas se projeta, no esforgo da compreensio, em diregio a um significado, mas adquire pela compreensio uma nova liberdade de espfrit. Isso im- plica novas € numerosas possibilidades, como interpretar um texto, ver as relagoes escondidas que ele dissimul tix rar conclusées, etc.""* problema da pré-compreensio assume especial im= portincia no direito, devido a0 seu aspecto dogmatico." 1a dem, p. 363. 123. Cf. Sere tempo, Pate 2, p. 193. 124, O problema da consiénca histrica,p. 41 125, Sobre a existéncia de preconceites ou pressupostos que orien: tam ainterpretacio ne pensamento de Heidegger, temos que! “eeitar aexistincia do cicula hermenéaticoindissoialmentesceita exis téncia de pressupostos ou preconceitos para tod «exegese ¢, a ver dade, como condigio para a prépriaexegese” Cf Jodo Pasana,Dico ndrio, p. 159, verbete "Hermencutics™ se ‘A formacio de uma tradigio juridica, originéria dos princf- pios traduzidos pela lei, pela doutrina e pela jurisprudén- Cia, oferece ao direito um forte poder de legitimidade, nia tanto pela sua autoridade produtiva, egislativa ou judicial, mas, principalmente, pela regra de justica que estabelece a aplicagio do precedente como meio de conceder trata- mento igual a situacées essencialmente semelhantes. Da ‘mesma forma, a natureza normativa das regrase principios juridicos positivados © dos conceitos sedimentados pela tradigio condiciona a agio do intérprete, impondo-lhe li- mites. Veremos, todavia, que o uso da tépica no direito ajuda a potencializar seu émbito de significagio, a0 inves de cercear a agio interpretativa Para o direito, além da tradigio histériea, que situa 0 intérprete, contamos também com uma tradigio especifi- camente juridica, de regras e princfpios, que se mantém no tempo e servem de sustentagio as decisdes, segundo a re- grade justica. Dessa maneira, entendemos que a dogma 6. Perelman atribu significado especial A tradigho jriprudencil ‘com féerula de justics, Bers come acs "prncipioegeris de dirlto", {que atuam como sepras gers con autordade repouss na tradido, Descartes, por seu lado, se indispde francamente conta quer ta. digSo. Os costumes eas opinises levam a0 ero, da mesma forma que 4 Fazio se opée & arbitaniedade das crencase dos pre-conceits. Ele pretende, com iss, segundo declara no seu primero trabalho publica ‘do — Discurso do método —, fnertdbula asa de sua prépria vi, desfiaendo-se das opiiges antes tidas como verdaderas Ele dispe ‘como primeira regra para suas abservagées: "Nunca acetar cosh ag rma como verdadeia sem que conhecesseevidentemente como tal fou sei, evtarculdadosamente a precipitagio e a prevencio, © n30, inclu em meus jutos nada alm daguilo que se apresentasre to clara fedistitamente s meu esprito, que eu nfo tives; nenburma acaifo de péslo em vida "(Discurso do metodo, p. 23) €, mais diate: “quanto aos costumes, por vezes & necessiro sep, come se Fossem indubitéveis,opinibes que sabemos seem mito incerta, com j foi 39 tica é capaz de reservar alguma seguranga as relagdes so- ciais, pelo quantum de previsibilidade que oferece 20 con- trole de suas ages, mais do que em qualquer outra Sea do conhecimento, nio merecendo, por isso, ser descurada. Alls, € caracteristica que nos faz distinguir a hermenéuti- ca juridica dos demais campos hermenéuticos, atribuindo- Ihe tratamento préprio. a as, como ent deseava ocupat-me somente da procurs fe, pense que precisavs fazer exatamente o contri, ereje- tar como abeoitament falso to em que pdsse imaginar a menor divide, «fim de ver se depois disso nfo restaria em minha crenca tlguma coisa que fosteinteiramente indubitéve."(Discurso do méto do,p.37) 60 Capitulo 2 O PENSAMENTO JUSFILOSOFICO MODERNO: DA EXEGESE A JURISPRUDENCIA DOS VALORES pensamento juridico moderno, ox as virias correntes: filosoficas que pensaram e escreveram sobre o dieito no século XIX, detiveram suas preocupacées em torno dos valores que servem de esséncia a0 préprio diteito. Seriam les basicamente a justiga, a certeza e a seguranga. Enten- demos que toda condigao ética © moral concentra-se no mbito da justica, assim como a ordem se refere a certeza © 8 seguranca. Entretanto, nao se deve afastar a idéia de que a justiga, como auséncia do arbitrio, sustenta-se na lei, relacionada diretamente aos valores da ordem e da segu- ranga, E a chamada justiga formal, que gerante a igualdade de todos perante ale. Por isso, &repassarmos a ist6ria do mundo moderno para perceber que a necessidade da segu- xanga se sobrepée & idéia mais elevada de justia, fazendo com que o direito se circunscreva a ordem formal.” Se & TDF Asegurangs es ordem sf o valores tpicos do mundo moderno. s. cestaa modernidade que agora se questions, € sobre ela que nossas atengSes devem receir, tomando-a como paradigina de anilise ‘£0 momento em que o cartesianismo se impoe. Carac- cristico disso & a teoria do contrato social, criado pela ra 70 e que iré fundamentar a ordem social dos ilurinistas A figura almejada de um legislador racional, criador de uma nova ordem, a despeito dos costumes e da tradigéo cexistentes, encontram fundamento nos escritos de Des- cartes: Nio hd tanta perfeigio nas obras compostas de varias pecas, e Feitas pelas mios de virios mestres, como naquelas fem que apenas um trabalhou. [..] E assim pensei que as cineias dos livros, pelo menos aquelas cujasrazdes sio ape nas provivels,e que aio tém nenkuma demonsteacdo, sendo compostas ¢ aumentadas pouco a pouco pelas apinises de muitas pessoas diferentes, néo se aproximam tanto da ver- dade quanto os simples raciocinios que um homer de bom senso pode fazer naturalmente sobre as coisas que se The apresentam." Os te6ricos do racionalismo, que trataram da laicizagéo. do poder estatal, deslocando o eixo da origem do poder, ‘que antes se situava na esfera divina, para a azo ou para a natureza humana, clamavam, antes de mais nada, pela ne- cessidade da certeza e da seguranga nas relagées sociais ‘Com eles tvemos a eviaio do Estado de Dirt, cujoinuito fi o de extabelecer previsdese vitro sritio, A tania do pensamenta cien= tfico-artesanoesté dada pela seguranca que a verdade pode tazer. ‘A respeito, diz Descartes: “Eu tinha stmpee um imenso desejo de aprender a distinguir 0 verdadeir do fas, pata ver claro em minhae gSes, caminhar com seguranca nesta vida." Discurso do mitodo, pls. 128. Discurso do método, p. 15 €17. 2 ‘Thomas Hobbes centraliza no Soberano todas as expecta- tivas de seguranga para-a sociedade inglese do Recelo XVIL" Convoca um tipo de Saberano a desco- nhecido na tradicéo medieval: 0 Soberano absoluto com: posto pelas pessoas, seus corpos e mentes, como delegado inerente de suas vontades. John Locke cria um soberano coletivo: o poder legislative, composto pela delegacao tempordria das vontades dos homens, que mantém 0 po- der originirio.™ Por outro lado, Locke vé como funda- ‘mental e imprescindivel a existéncia de um poder executi- ‘vo composto por magistrados capazes de aplicar imparcial- ‘mente as leis soberanas ditadas pelo legislativo. Rousseau cenaltece a figura do cidadio, detentor originério do poder soberano, como o tinico capaz.de conduzir legitimamente ' vida pablica. Imagina uma ordem estatal em que indivi- duo. Estado se i de poder." “Mais foi com Locke que a teoria do Estado liberal me- Ihor se estruturou, seguido mais de perto por Montes- quieu'” e os Fouding Fathers! americanos. Com base nesses autores, o Estado iguala-se 3 ordem configurada pelo ordenamento juridico positivo e, com isso, a seguran- ‘92 © certeza poderiam ser encontradas nas leis legitima- mente criadas pelos representantes do povo e garantidas pelo Estado mediante a ago do poder judiciério. Leis que cobrigam tanto governantes como governados. A lei passa a ser vista como mecanismo de controle das agées do gover- entificam numa mesma e Gnica estrutura 10, Thomas Hobbes. Lviard ou matéria, forma e poder de um Esta do Bclsidstico e Cv, passim. 130. John Locke. Segundo Tratado sobre o Gaverno, passim: 1, JeansJacques Rovsseeu. Do Contato Social, pain. 132, Montesquieu. Do esprito das es, passin. 13, Hamilton, Madison e Jay. O federalista, pasim. 6 no, A medida que inibe 0 abuso do poder, ¢ como regra que garante a igualdade (formal) entre os homens. Encontra- se, afinal, uma férmula para conter os desmandos dos go- vvernantes, enquanto a cidadania se afiema [No ambito da vida privada, marcada pelas relagdes en- tre particulares, a presenga de um poder maior, capaz de manter a ordem através da mediagio na composicio dos conflitos, também aparece como necesséria, Mais do que uma questo de justica, que nio é de todo ausente, haja vista 0 requisito da imparcialidade para o terceiro media- dos, impée-se, antes, a manutengio da ordem fundada na liberdade individual" Mas para tanto, de nada adiantaria tum corpo de leis criativo e bem elaborado, sem mecanis- mos capazes de garantir-lhes execuséo.'™* A norma justa cra aquela feita pelo povo, ainda que por meio de repre- sentantes eletos, e que cabia ser aplicada sem intermedia~ es. Ao poder judiciério competiria simplesmente ums acio eficaz, capaz de concretizar @ nova ordem tal como fora estabelecida, A teoria da separacio dos poderes, bem como a igualdade garantida pela aplicagio regular da lei, vvém, desta maneira, garantr a estrutura formal e os ideais do Estado de Direito Na pés-modernidade, contudo, esse referencial de or- dem e seguranca garantidos pelo formalismo abre espaco para o valor da justiga, garantido no mais pela agéo formal de cunho abstrato, mas pela razoabilidade referente a de- cisio de cada caso concreto. E quando as relacées intersub- [ba A vespeito da predomindncia do iteresse individual, vale confe- sir a obra de Macpherson — A teria politica do individualism pos. sestve de Hobbes até Locke 135. T.H. Marshal demonstra como fundamental pars a sedimenta- da cidadania no séc. XVIII a protegto dos direitos individu ‘mediante a agdo vigorosa do Poder Indio 6 jetivas edialéticas,capazes de viabilizar 0 consenso e a le- gitimidade das decisées juridicas,fazem com que se rect pre a antiga retdrica cléssica e Ihe confira objetivos novos Contudo, para se chegar ao ponto em que se encontra 4 filosofia uridica atualmente, que contempla a "Iégica do razoavel” ea “nova hermenéutica’, convém percorrermos algumas das principais escolas e movimentos tebricos que Pensaram o direito no mundo moderno, caracterizando a Filosofia de suas respectivas €pocas, e que ainda servern de referencia & discussio atwal 2.1 A Escola da Exegese Sob a énfase do racionalismo, surge, na Franca, em 1804, o Cédigo Civil Francés, mais conhecido como Cédi- g0 de Napoledo. A idéia de sistema como conjunto de ele- rmentos estruturados de acordo com as regras da deducdo impde-se no campo da filosofia, com especial repercussio no direto."® A criagdo de um corpo sistemitico de normas capaz de uniformizar 0 direto, suprimindo a obscuridade, a ambigiidade, a incompatibilidade e a redundéncia entre 18, Segundo Tércio Sampaio Ferraz Je, “O nicleo constituinte des- ‘1 teora jf aparece esbocada a final do sécule XVI, O jusnaturalis- mo ji havia cunhado para o diteta © conceite de sstoma, que s© resumia, em poucas pslavras, na nogio de canjunto de elementos es traturados pelasregras de dedugio. No campo jurdicofalava-se em sistema da ordem da razio ou sistema das normas conforme a razdo, entendendo-re com ista + unidade das normas a partir de princpics dos quas todo o mais era dedusido. Interpretar significa, entdo, Inseri @ norma em discussio na totalidade do sistema. O relacior ‘mento, porém, entre sistema e ftalidade acabou per calocar a ques to geal do sentido da unidade do todo.” Introdugao 20 estudo do direto, p. 240. 6 0s virios preceitos normativos regionals e setorias, objet ‘vando sua aplicagéo, revela uma vitéria da razio sobre ou- tras formas espontineas de expressio cultural. E como ‘movimento doutrinério proveniente dos grandes comenta- ristas do novo cédigo, surge a chamada Escola da Exegese Crédulos nas intimeras virtudes daquele corpo siste~ mitico de normas, 0s componentes da Escola da Exegese propugnam uma atuacio restrita do poder judiciéri, me- diante o apego excessivo as palavras da lei. A atividade dos juizes, na Franga, ento comprometidos com o Antigo Re- rime, seria controlada pelo atendimento severo e restrito acs termos da lei Lei feita pelo povo, em cujo contetido cencontra-se a vontade geral. Na busca do seu significado, privilegia-se, entéo, os métodos de interpretagio gramati- cal, e sistemitico, Por intermédio da estrutura gramatical, € pelo conteiido dos termos técnicos, encontrar-se-ia a vontade do legislador reconhecida como a méxima expres- sto da vontade geral que encarna o poder. Nada poderia ser admissfvel como ameaga 2 nova ordem. Qualquer po- der, além daquele que verifica o contesdo expresso da lei, ‘ransforma-se em arbitrio. E assim, o juz passa a ser visto ‘como um funcionério do Estado e mero aplicador do texto legal. Laurent, um dos fautores da Ecole, proclama: “Os cédigos nao deixam nada ao arbitrio do intérprete; este rio tem por missio Fazer 0 direito. O direito esté feito Nio hé mais incertezas; 0 diteito ests escrito nos textos auténticos.” Caracteristico do impulso cientificista que prima pela certeza, a atividade do jurista deveria ser a mais objetiva e neutra possivel. Em nenhum momento o juiz deve colocar ‘sua indole 4 mercé da interpretacio da lei de forma a des- 137, Apud Bonnecase, ob cit, p. 128. figurar a verdadeira “vontade do legislador". E dessa ma: neira, acredita-se na regeneragio da Ciéncia do Direita (Civil) pela Escola da Exegese. O método sistemstico tam- bbém apresenta-se como apropriado no trabalho de inter- pretagio do novo cédigo, uma vez que 0 conjunto de nor- mas integrado e harmdnico traduz, em si, um sentido co- mum, além do significado isolado de seus artigos, cabendo 20 intérprete considerar a lei em conformidade com a to- talidade do Codigo. O dogma da razio exalta de tal forma 4 capacidade do Cédigo, que leva & completa iden do direito com a lei, Daf acélebre frase de Bugnet: Gonheco 0 direito civil; eu ensino somente o Cédigo de Napoledo."! Havia uma pretensio de se encontrar na lei a resposta para todos os conflites. De fato, em um momento de pou- 2 complexidade social e progresso em lenta evolusdo, 0 cédigo napoleénico conseguiu manter-se praticamente inalterado até o final do século, ¢ com ele as propostes da Escola da Exegese.™ Julien Bonnecase, autor dolivro L’E- cole de I Exégése en Droit Civil, divide em trés os perfodos desse movimento: primeiro, 0 perfodo de formacio, que data de 1804 a 1830; em seguida, 0 seu apogeu — 1830 2 158 Idem, p. 128. tna, A questi das lacunes, por exemplo, no dicitonio era enfrents+ ds pelos wesricos da Escola da Exegese,emboraexistsse no Cédigo [Napolednico uma dispasigio no sentido de que ojuiz mio pode deixar de jolgar alegando auséncia os cbscuridade na le, sob pena de ser ‘condenado:“O jue que recs jugar, a pretexto do silencio, da cbscu- Fidade ou dainsuficienci da lei, poder ser prcestado como culpado dde-denegucio de justice" antiga 4 do Ciigo de Nepoledo. Cabe wesficar respeito, or debates que antecederam » promulgacio do Codigo, rincipalmente o que dia Portas, recohecidamente 0 seu principal mentor. o 1880; e 0 declinio, verificado por volta de 1880. Além do apego a literalidade do texto como caracterfstica, Bonne- case aponta, ainda, um outro aspecto da Escola da Exege- se, que € 0 da “estatalidade”. O direito identifica-se como Estado, nos seguintes termos: A Doutrina da Escola da Exegese se reduz, com efeito, 2 pproclamar a onipoténcia juridica do legislador, isto é, do Estado, pois, queiramos ou nao, oculto do texto da leie da intengio do legislador, Ievado 40 extremo, coloca 0 direito cde uma maneira absoluta nas mios do Estado." A Escola da Exegese firmou, assim, a base te6rica do racionalismo juridico ocidental, cuja grande obra foi o C6- digo de Napoledo, 2.2 Acritica de Francois Gény Apesar de toda énfase dada pela Escola da Exegese 20 aspecto racional do direito tal como este se encontra ex- presso na lei, que tudo alcanga e tudo prevé, a despeito, inclusive, do que dispunha o artigo 4° do Cédigo Civil francés, 20 determinar sobre a obrigagio do juiz de julgar diante do silencio, da insuficigncia ou da obscuridade da lei, encontramos a critica de Francois Gény."! Por meio de uma construgio de base empirica feita sobre o trabalho dos juizes, que se defrontavam muitas vezes com casos de "lacuna", em vez de teorizar apenas no plano do abstrato ou do meramente racional, Gény faz sua defesa pela “livre WO. Bornecas, p. 149, Ml, Método de interpretagto ¢ fontes em direito privado positive (1899) e Ciénciaerénica em dretoprivadopositiv (1914-1924), o investigagdo cientifica”. Muitas vezes verificava ndo ser bastante a subsuncio do fato 3 norma geral para se retirar dai, automaticamente, uma solucio para 0 caso. Para Gény, quando 0 ordenamento juridico néo apresentasse ‘uma lei especifica para determinado caso, 0 juiz deveria langar mio da anélise feita sobre os fatos sociais, bem como das leis que regem a sua estabilidade, para enti ob- ter a regra capaz de resolver a questio. A seu turno, a in- vvestigagio cientifica mostrava-se conveniente também pelo seu rigor, apto a fornecer nfo apenas uma solucio ob- jetiva e criteriosa, possivel de evitar qualquer arbitrio, como também uma solugio legitima, pois que ori _dos préprios costumes e valores existentes na sociedade. Gény esclarece seu pensamento sintetizando-o na ideia da livre pesquisa cientifica, da seguinte forma: "Pesquisa li ve, uma vez que ela se encontra aqui subtraida 8 aco p pria de uma autoridade positiva; pesquisa cientifica, a0 ‘mesmo tempo, porque ela ndo pode encontrar suas bases sélidas senio nos elementos objetivos, que somente a cién- cia pode revelar.""# De acordo com Gény, uma vex nio obtida a resposta para o problema no sistema, o aplicador da lei poderia, por meio da atividade cientifica, encontrar a solugio juridica para o caso fora do imbito restrito da lei positiva. As pos- sibilidades para se resolverem casos de auséncia de lei cram encontradas, dessa maneira, Fora do texto legal, ain- da que através do mesmo, uma vez. que néo caberia 40 téxprete negar a ordem juridica afastando-se dos seus prin- cipios fundamentantes. Uma pesquisa cientifica, de base sociolégica, seria capaz de oferecer ao intérprete os crité- 142, Frangois Gény. Méthode D'Interprétation et Sources en Droit Privé Positif. 78, 6 rios de justica prevalecentes na sociedade e que, na reali dade, dariam ensejo ao surgimento de novas les. ‘De maneira que, na esfera de livre pesquisa, onde nés 0 ‘consideramos agora, o método juridico deve ter como preo- cupagio dominante descobrir, ele mesmo, em prejuizo do auxlio de fontes formais, os elementos objeivas que deter- ‘minardo todas as solug6es requistadas pelo diteto positi- Logo, a atividade do intérprete deveria coadunar-se ‘com as regras prinefpios gerais norteadores da ordem ju- ridica positiva, fundamentais a garantia do Estado de Di- reito. A esse respeito, escreve Recaséns Siches: Antes de tudo hi que interrogur a razdo e a consciéncta para descobrir em nossa natureza intima as bases mesmas da justiga. Por outro lado, hé que dirgirse aos fendmenos so- ‘ais para descobrir as leis de sua harmonia eos principios de dem que requererm."* Para Gény, a lei continuava a ser considerada como a principal fonte de direito. Antes de se recorrer 08 cast- mes e livre investigagio cientifica, deveriam ser esgota- das todas as possibilidades de busca de uma solucéo para 0 as0 no direito postive. Apesar de admitir-se, pela primei- 12 vez, a procura do direito fora do texto legal, e dat a grande novidade trazida por Gény, a importincia da or- dem escrita era inquestionsvel. Na verdade, sua grande contribuicio foi para a teoria das lacunas."© 18. Tom, vol.2, p79 lat Apud Recasens Siches, Panorama do pensamento juridico do sc. 2X, p38. 14s" Gény, em suas erficas (apud Recaséns Siches Panorama del Pensamiento Juridico en el Siglo XX, vl. p.28 430), chama atencio 0 O vies cientificistatipico daquele século aparece niti- damente na obra de Gény. No livro Ciéncia e téenica em direito privado positivo, ele trabalha com dois tipos de componentes: o dado e o construido. O construédo seria 0 clemento artificial do dircito, © © dado, o elemento natu- ral. De acordo com Gény, 0 verdadeiro conhecimento di- se sobre 0 dado, ou seja, sobre os fendmenos da natureza ‘ou fatos sociais. Dessa forma, atribui um elevado grau de para as tentatvas do govern francés, come a cragio do tribunal de Cassagio, com poderes pars anula toda sentenge que volseeexpres- samente 0 texto da le, de forma a impeciruma possivelinterfeacia do judicrio sobre o legislatvo, gredindo a separacio dos poderes. Em relagio ao artigo 4” do Cédigo Civil, que admitia a existncia de lacunas so proirojuiz de recusar sentence sobre qualquer asunto submetido 40 seu conhecimento, lembea as palavras de Portas, 0 ‘mais eminente de todos os autores do projeto do Cdigo de Napoledo,, {quando este defende a utilzagio de prinepios geras de direto sob luma concepcio jusnaturalista:"A misio da lei consiste em fixar os, Pncipis gras do diveito;estabelecer prncipiosfecundas e, no des- ‘cer ao detalhe de questses que possam surgi em cada matéraconcre ta — 20 juz, a0 jurisconsuto, penetrado do espirio geal da lei, & a «quem cabe faze as aplicagSes. Por isso, em todas as nagtes privilege das, a lado do santusio das leis e sob vigdnca do legislador,vé-se sempre formar um dep6sto de maxims, de decistes, de doutrina, {que diariamente se depura mediante s pritica ea confrontagio dos