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QUATIO SECHLOS De LATIPYNDIO ALBERTO }aSSO8 GUTMARAES ; 0 lotifindio €.0 eentro. dos de~ bates: atuais sébre a problemati- ca brasileira. Pura ug correntes progressistas Gle ¢ a causa bA- sica dla crise em que ore vive- mos, dmuarrindo-nas fi monacul- (ura de expactigio, en detri- mento da produgiv de géncrax alimenticies para o consume! in terne; impedinds o desenvol- vimento do mercado. nacional, a demoeratizacia dq proprieda- Ede, de crédito, do poder e 4 jus tiga) spciul: enyuanto que para as elites coniicrvidoras gant fo vos de fitor niméro um de os tabilidade social, tornando-se, em | consegiténeia, intocdvel, Alberts Passos ‘Caimaries: Ud- nos no presente trabalho umn. espléndida ‘© impressionante wi- sao do processo de formagae da nossa estrutury latifungliiria, des- de suas raizes, até o aspect com que ara se apresenia, mostean- = do-as wirias formas de sua evn lugio Histdrica & regional. Annlisa o auter, com abjetivi- dade cientilica. 25 teses contradi- (Grias sobre a existincia ou nap di curactoristicas feudais em nossa vide rutul, chegands: aun definiedo mais clara © real’ cls misina, qué representa, sem dd _ vida, uma mugnifies contribui- che 4 melhor compreensau esse i problema fundamental, indispen- sivel A jusin formulagio, “polis forgas populares, dos linhas ¢ dos: objetivas da revolugao hea- sileira, Mostro-nos, outrossim, 0 pro- cesso de surgimento do camponés brasileiro, a partir da concen- ttugio do Tntifindig agneareiro. © conseqilente formariio das mas- Sis furais sem terra — os «ugre- gadis —¢, posteriormente, com «winds dos imigruntes’ euro- peus ec a criagha da: eparceriaw. Demonstra a fabicia dw pretensa eguiparacao de «parcerine bra- sili ao institut intermedia. riy conhecide na Europa. pelo mesmo nome e catueterizade por Murs em © Capital, mos: trando @ nftide cardter servil das: relagées: de produgio: aqui existentes ‘Tratase, pots, de jum livre indispensivel ad vonhecimento da tealidsde brasileira, fruty de Pesquisas © de aniilises ctenti- ficas, de elabomegio inteligente: e de interpretagie propria’ de feinas © matetiais. inédites, uma verdadeiia historia ecendmica do Brasil, tendo por centra, o institute bisico da nessa estru- tur, apraria. A Biblioteca de Estudos. Bra- sileiras orgutha:se; assim, de tras zer aos estudiosgs mais est con tribuigio ac processa de auto- conseiéncia critica que aru telits- forma c entijece 6 espirito na- siunal, © que, sendd ‘Gonpeqaén- tin do ‘desenvolvimento ¢cond- nivo ji conquistado, rornbu-se hoje no: impulsionador bisico do~ seu ptosscpuimento, que prec: suinds; porttate, aprofundar © eariquecer, LANCAMIENTO PROGEAMLADO A QUESTAO AGRARIO-CAMPOWESA ATUALIDADE BRASILEIRA . MOISES VINHAS Nesse livro, o aulor faz jma apreciacdo, do pouto de vista marxista, da real situagio da estrntnrd agraria. Revela, com fatos ¢ dados hrefitaveis, a permundnecin do monopélio da nas mos de latifunditrios. As teses con- Tiago § So dlemonstradas todis as conseq is uefasias desse monopolio da terra, par, seis ilo campo e¢ das cidades, para a ine ne para lida a Nagao: Ao estudar a atnal estruture agra o antor compara os dacdos do, processo das ttinas apa tro décadas — a contar dle 1920 a 196 8 HI diverencas ¢ semellaneas entre os ¢ o. Norieste, neste terreno, Ahorda, pela primeita vex, de fornia mat avingida, chi nossa literatura, as diferengas s rehighes entre a questio agraria ea ques: 6 camponesa. Procira esclirecer as relit- es de prodigao predominuntes no ¢ampo e as conseg! fone: classes e camadas dai decor- rentes. A definigho das referidas hisses e camadas ¢lncida as diferentes ¢ principais contradighes no enipio, ; Desenvolvendo sux andlise, conclui, o autor, pela inevitabilidade da reformer agraria, e do ‘ier rulien! da mesma, necessirto para so- ona as contradiches vigerantes entre as forgas que por ¢la lutam, ¢ as que a ela se opden. Ttnionstra, ainda, qie o movimento GUMpOnes EN USceLsO, Assi Como a opinido peal » faverivel cada vex mais 4 reforma agraria, levam 2 formagio de uma frente de ayilo comm, que impulsione o processo revol i ciondvio do Pats, Oo refutacas. One tn- EDITORA FULGOR BIBLIOTECA DE ESTUDOS BRASILEIROS pirecao bE LUIZ OSIRIS DA SILVA RESERVADOS TODOS OS DIREITCS PARA O BRASIL EDITORA FULGOR LIMITADA RB ANHANGUERA, 64-CX. POSTAL, 1821 TELEFONE 51-9095— SAO PAULO —1964 - ee ol ALBERTO _ PASSOS GUIMARAES QUATRO SECULOS- DE LATIFUNDIO FULGOR a=. opi cei il VIT. VIN. IX. X. INDICE Preficio 7 Propriedade ¢ Pré-Histdria 9 O Regime Econémico Colonial: Fendalismo ou Colonialisma ? 21 A Sesmaria 39 Engenhos ¢ Fazendas 37 O La Formagao da Pequena Propriedade: 1. Intrusos ¢ Posseiros 95 findio Cafceiro 71 Formagiia da Pequena Propriedade: IL Da «Colonizagio» ao Minifundismo 109 A Crise do Sistema Latifundidrio 141 As Crises de Superprodugio ¢ as Transformagoes Capitalistas 149 A Estrutura Agratia no Século xX 177 PREFACTO Restringimo-nos, neste trabalho, & apreciagic de determinados aspectos que nos patecetam marcantes da formacio, apogeu © declinio do latifiindio no Brasil. A tarefa a que nos propuse- mos nao foi a de narrar ampla ¢ exaustivamente os fatos his- téricos, attumados em ordem cronoldgica, mas a de tentat des- cobrir as conexdes interiores entre aguéles fatos, estabelecer © avivar as relagdes de causa e efeito que motivaram os avangos € as recuos, os Exitos ¢ os insucessos do sistema latifundidrio brasileiro. © método de nossa escolha exigiu a busca e¢ 0 realce dos fenémenas tipicos, isto ¢, daqueles que consideramos, dentro de nossas naturais limitagdes, capazes de exptessar, breve ¢€ frisantemente, os vaivéns do processo histérico, método que implicou a omissia de grande nimero de pormenores, pela qual o Jeitor amante das minudéncias nos perdoard. Deixamos, por isso, de referit-nos a diversos acontecimentos, situagdes € circunsténcias que poderiam ter o mérito de alargar @ campo de observagao do leitor mas que, a0 nosso vet, nao tetiam contribuido para reforcar a linha de raciocinio seguida, trazendo o risco de distrair a atencdo para os aspectos se- cundarios. Daf a desigualdade de tratamenta com que foram focaliza das vérias questdes, algumas examinadas mais profunda e extensamente do que outras o foram. Fixamo-nos, por exem- plo, durante o perfodo colonial, na caracterizagio dos enge- nhos e das fazendas de gado, os quais, segundo acreditamos, etam as expressdes tipicas do latifiindio nessa época, Concen- tramo-nos, depois, no latifiindio cafeeiro, estendendo-nos s6- bre os fatos caracterfsticos de sua evolucio, por acharmos que éle foi o tipo representativo de todo o sistema, no perfodo posterior 4 Independéncia. Pareceu-nos igualmente acertado, para fixar a expansio tipica do latifundisma no século XX. tomar por modélo, ¢ dar-lhe atencdo especial, o latifiindio agu- careiro, ao tempo da substituigao do engenho bangué pel usina, na regido nordestina. Ajudou-nos também, 9 método por nés preferido, a encon- trar o elemento «aglutinantes, sem o qual os fatos apreciados perderiam o nexo, o sentide, © nao encontrariam explicagdes plausiveis. Guiamo-nos, pois, entre os caminhos emaranhados aT por problemas de imensa complexidade, através de um fio condutor — a luta das classes pobres do“campo pela conquis- ta da terra. Isso impediu que féssem ainda maiores as difi- euldades a superar na interpretagio daqueles problemas, fa- cilitou-nos a compteensao das suas origens ¢ de suas conse- qliéncias © permitiu-nos a aproximacio da tealidade e a for- mulagdo de vdtias hipdteses e conclusdes. Pelo mesmo motivo por que evitamos tratar dos fenémenos atipicos, ou, a nosso juizo, de insignificante representatividade no contexto de certas situagGes ou de certas épocas, concen- tramo-nos, deliberadamente, em algumas regides fisiogtdficas, que se tornaram palco das princtpais mudancas a destacar, emprestando importancia secundéria ao semelhante desenro- lar dos acontecimentos noutras regides em que éles apenas constituiriam um reflexo daquele processa original. Nenbuma referéncia fizemos, por exemplo, 4 Regido Norte, ainda hoje mais extrativista do que agticola ¢ pouco tratamos da Regiao Centro-Oeste, para onde sé muito recentemente se distenderam as fronteiras cconémicas. Outros fatos propositadamente deixaram de ser menciona- dos, para que nao se dilufsse a ténica com que uns foram acentuados. Mas precisamos confessar a nossa responsabili- dade pela omissio de episddios, porventura importantes, que hos escaparam, assim como por varias inconseqiiéncias e dis- ctepancias que no tivemos capacidade de eviter. Devido 4 estreiteza do prazo de que disptinhamos, éste tra- balho nao péde ser submetido 4 prévia leirura de pessoas com maior autoridade e competéncia, que o teriam expurgado de muitas incorregdes, nao fésse a involuntdria desobediéncia a essa praxe. OL TURRO DE 1963 capitulo 1 PROPRIEDADE E PRE-HISTORIA Era de «paz e sosségo» a vida brasileira antes de comegar a nossa Histéria. Dela assim nos fala Jean de Lery, um dos ptimeitos cronistas a registrar as condigdes de existéncia aqui surpreendidas pelos conquistadores vindos de além-mar. A terra cra um bem comum, pertencente a todos, e muito longe se achavam os scus donos de suspeitar que pudesse al- guém pretender transformé-la em propriedade privada. Dispunham os brasileiros primitivos de casas e excelentes terrenos «em quantidade muito superior 4s suas necessidades» — escrevera Lery. «No que toca 4 reparticfo dag terras, cada pai de famflia escolhe algumas geiras onde lhe apraz ¢ nelas planta suas rogas; ¢ quanto a isso de herancas ¢ pleitos divi- sérios sio cuidados que deixam aos demandistas e avarentos da Europa.» A conclusdes semelhantes sObre a vida trangilila ¢ a indole pacifica do gentio deveriam ter chegado, ao aqui aportarem, os tripulantes da frota de Cabral, cérea de cingiienta anos antes, «Vinham todos rijos para o batel, e Nicolau Coelho thes féz sinal que pusessem os atcos, ¢ éles os puserame» — registra Pero Vaz Caminha, em sua famosa carta a el-rei D. Manuel. Apés os contactos iniciais, poucos dias de convivio basta- Tam para que fdssem lancgadas as bases de um reciproco en- tendimento ¢ introduzida a pratica do escambo entre os povos do velho ¢ do néve mundo. «Resgataram |4, por cascavéis ¢ por outras ceisinhas de pouco valor que levavam, papagaios vermelhos, muito grandes e formosos, e dois verdes peque- nos, € carapugas de penas verdes e um pano de pena de mui. tas cores, maneira de tecido, assaz formoso.» E ésse foi também o meio por que cbtiveram os homens brancos tuda de quanto precisavam para refrescarem suas naus. «Acarretavam dessa lenha quanta podiam, com mui boa von- tade, ¢ levavam-na aos batéis, ¢ andavam jd mais mansos e seguros entre nés do que nds anddvamos entre éles.» Por muitos anos adiante, tal método de resgate das ri- quezas da terra e de aliciamento da mio-de-obra nativa dera provas de completa eficdcia. Assim féra preparada e embar- cada a carga da nau Bretoa, a altura do ano 11 da Descoberta, o e assim também se procedera com o carregamento de outros barcos que a precederam, sébre os quais se tém noticias me- nos precisas. Portuguéses e franceses, que vararam a costa, do Cabo Frio ao Cabo de Sao Roque, nesses primeiros tem- pos, devastaram florestas na apanha de milhares de toros de pau de tinta, sem que ptecisassem empregar, nas suas relagdes com o gentia, outtos elementos mais persuasivos que a oferta, em troca da tiqueza extrafda, de uma reduzida variedade de bugigangas. E para que tivessem sida bem sucedidos cm sua emprésa, os traficantes europeus da época nao poderiam ter lidado com tribos tio inabordaveis e hostis como depois as imaginaram, com intengdes preconcebidas, varios conhecidos historiadores. Pelo que se sabe de sua vida ptimitiva. nossos indios, em diversas regides, j4 haviam ultrapassado a fase superior Estado Selvagem e penctrado na fase inferior da Barbdtie, adotando-se a classificagio de Lewis Morgan. Conheciam a cerémica € teciam suas rédes. Praticavam uma agricultura ru- dimentar, nes perfodos de sedentaricdade que se alternavam com os de nomadismo, cultivando a mandioca ¢ o milho. Dés. ses dois géneros obtinham uma série de produtos, particular- mente a farinha, cuja preparagio exigia certa experiéncia de ttabalho de tipo mais elevado. Sua antropofagia, tao alardea- da pata conveniéncia dos conquistadores, parecia estar em de- clinio, ¢ restringia-se a meras formas rituals, havendo infor- magoes de que, numa ov noutra drea, seus ptisioneiros jd eram Poupadas: Dificilmente se poderd determinar o grau de desenvolvi- mento e de generalizagao das. praticas escravistas entre os {n- dios nessa época. De um lado, exageravam-se as noticias sé- bre a antropofagia, quando se tinha interésse em justificar a preia do gentio, que, dessa maneira, aparecia como um ato de filantropia dos conqnistadores. Doutro lado, exageravam-se as noticias sébre a esctavatuta, quando se pretendia apresentar © trabalho escravo como uma ttadicio indfgena, ¢ nio a re- sultante da coagio dos homens brancos. A elucidagiio désse aspecto controverso ¢ obscure, mas nao io obscuro quanto aparenta, € muito importante para a ex- plicagiio dos fatos histérices que decidiram do cardter da co- lonizagio portuguésa. Teriam os nossos indies evoluido espontineamente da an- tropofagia para o sistema da esctavidio em época anterior ao contacto dos brancos ? E pouco provdvel que isso sucedesse. 10 Mais aceitivel ¢ a hipétese de haver sido a escraviddo intro. duzida apds aquéles contactos, antes ou depois de Cabral, sem que _tivesse alcancado alguma amplitude, por lhe faltarem as condicdes requeridas para o seu desenvolvimento, no estdédio em que se achava o gentio. As teferéncias de Nébrega a indios vendidos em Pérto Se- guro, aos portuguéses, pelos préprios indios, assim como ou- tras que se conhecem, bem como as que tratam dos casos em que éstes se entregavam ao cativeiro premidos pela fome on pelas calamidades natutais, nao sio de molde a convencer-nos senio de acontecimentos esporadicos, e, assim mesmo, tardios, pois se prendem ao tempo em que os hibitos civilizados jé tinham penetrado em algumas comunidades nativas. E sto igualmente tardias as noticias sGbre guerras que entre si mo- viam as tribos para fazer prisioneiros @ negocid-los com os co- lonizadores, que os vendiam ov os submetiam ao trabalho escravo, Que a esctaviddo penetrou na Histéria da Humanidade com a civilizagao, depois que o homem passou a viver sedentaria. mente, a abandonar o canihalismo e a aproveitar os prisio- neiros de guerra como trabalhadores escravos, néo padece dii- vida. Seria, porém, duvidoso que isso tivesse aconrecido na préhistéria brasileira, antes que as comunidades indigenes houvessem atingido téda a plenitude de uma vida sedentdria, antes que praticassem a domesticagio de animais ¢ conheces- sem a uso dos metais. Note-se, a propésito, que os portuguéses se cercavam de todos os cuidados a fim de que os indios se mantivessem na ignorancia de muitos costumes civilizados, chegando a proibir que, nas zonas distantes da costa, os desbravadores brancos fundissem metais, pata que nao transmitissem aos da terra co- nhecimentos que se tornariam perigosos se utilizados na fei- iura de armas ¢ instrumentos de trabalho. O periodo relativamente curto de duragio do escambo, co- mo forma dominante nas relagdes entre o indio ¢ as conquis- tadotes, ¢ outro argumento contra a possibilidade de existén- cia de um sistema desenvalvido de escravidio no seio das co- munidades indigenas. Se a frota de Cabral aqui encontrasse disponibilidade farta dessa mereadoria humana, foco de cobiga dos traficantes de além-mar, dela nfo sé falariam amplamente as erénicas désses primeiros tempos, quando se refetissem ao es- cambo, como se teria constituido um fator de principal relévo na expansio das trocas ¢, ainda, de permanéncia das relagies pacificas entre os povos da terra ¢ os de além-mar. Ao invés disso, entretanto, as crénicas acentuam que as guerras dos bran- aA, cos contra os indios, visando a escravizé-los, teriam coincidide com o declinio do escambo. Por que precisariam os colonizadores encetar as sangiindrias campanhas para a preia do gentio se o poderiam adquitir fa- cilmente, trocando quantos prisioneiros escravizados houvesse por produtos de insignificante yalor ? A extensio e fetocidade assumidas por essas campanhas de- monstram, sobejamente, que no apenas eram escassas ou ine- xistentes as reservas de indios esctavizados no seio das tribos, como ainda que a sua apropriagdo pelo branco seria impossivel pot outras formas que nao a violéncia, Tria terminar, por ésse motivo, a fase das relagGes pacificas entre ambos os povos, aproximando-se ignalmente do fim o petiodo em que o escambo assegurara aos portuguéses o caminho para o saque das riquezas da regio descoberta. Quanto 4 tesel de que o escambo comegara a decair quando os indigenas jd nio mais se interessavam pelos produtos que Ibes eram oferecidos, por os terem de sobra, nao parece nenhum modo razodvel. Por mfnimas que féssem as necessi- dades materiais dos indios, limitadas pelo seu modo de pro- dugao, clas tenderiam forgosamente a diversificarse com o préprio desenrolar das trocas e a intraducdo de novos costu- mes aprendidos dos civilizados. Cabe citar o cxemplo dos franceses que nao se lamentavam de tais limitagdes e mantive- ram, em geral, progressivo entendimento com os povos pri- mitivos, de quem espoliavam a riqueza extrativa para engros- sat sua traficincia, atraindo para seu lado, com a maxima ha- bilidade, as simpatias do indigena. Os fatos recolhidos pela Histéria dao a respeito plena confirmacao, ¢ nao sé quande de suas perambulacdes pelas terras do pau-brasil, como tam- bém nos tempos em que se entregavam A mercincia de peles 1 Alexander Marchant (Do Escambo @ Eseravidéo, Col, Brasiliana, 1943, pig. 96) observa que “os indius.podiam bem chegar & suciedede em relagio ao que os portuguéses tinham a oferecer.” Essex “saciedade”, portanto, re- feriase as bugigangas que niio mais interessavam 20s Indios. agora dese- josos de objetos de valor tais como instrumentos de trabalho, armas, ete. ‘Aos portuguéses, porém, iso allo convinha, porque o que éstes quetiam ent abter géncros ou man-de-ubra indigena a custos insignificantes. Pelo que, conclui Marchant; “Reduzides a enfrentar um sistema que ji ia falindo, os pottuguéses, mais do que unca necessitadns de brages, encontram uma alternativa na escravizacia.” (Pig. 97.) De fato, como se 18 ma carta de Duarte Coelho de 20 de devembro de 1946 (Histdéria da Colonizucée Portugu@sa, vol ul, pag, 314), queixava-se fitia do muito que prometiam aos indins os que vinham “fazer tornando-se uquéles cada vez mais exigentes: “e coma esta fartos de fercamentas fazem-se mais ruins do que sic e alvorocamse ¢ ensobex- becem-se ¢ levantam-se’’. 12 durante a ocupagio do territério norte-americano. Aqui, como ali, os franceses revelaram grande traquejo na arte de dominar pelo engddo as populagdes nativas, tirando delas o suficiente para expandir o seu comercio, setvindo-se do escambo como instramento bdsico de suas relagdes pacificas com os indios, 0 quais souberam astuciosamente utilizar como aliados nas guerras contra os seus inimigos. Todavia, nfo foi a falta de habilidade dos conquistadores portuguéses que motivou a substituigio do escambo pela vio- léncia no trato com o gentio. As mudancas que se processa- yam nesse terrenos foram simples decorréncia das necessidades econdmicas da Metrépole que a levavam a optar por outras formas de exploracio da terra conquistada, Quando predominava a mercdncia dos produtos_florestais, @ que mais preacupava era a paz com o gentio. Os capitdes da frota de Cabral revelaram essa intengao ao se reunirem para decidir que «nao curassem aqui de, por férga, to- mar ninguém, nem fazer escindalo, pata a de toda mais amansat ¢ pacificar». Mandaria a prudéncia, em nome dos objetivos a que se propunham, que, mesmo quando os que apor fdrga» tomassem indios, nos primeiros lustros, o fizes- sem «sem ¢scindalo», e assim deveriam também ter agido os demais capities das naus que por aqui passaram, sem excluir a Bretoa. A politica entdo vigente a Metrépole orientava-se no sen- tide de tornar o gentio a principal férca de trabalho na ex- plotacio extrativa, Recebia le em quinquilharias, cartas de batalho ¢ quejandos, o pagamento de seus servigos, que con- sistiam no corte, na preparacio e no transporte do pau-bra- sil e no abastecimento de tudo quanto pudesse intetessar as frotas de guardacostas e mercadores. A méao-de-obta indigena ndo-escrava foi ainda utilizada nas rogas que se formavam em tGrno das feitotias, durante os primérdios da ocupagio por- taguésa, Mantiveta-se nesses tétmos, ao que tudo indica, até a ins- tituisdo das Donatarias, em 1532, 0 convivio entre o fneola e os conquistadores, respeitado pelos tiltimos, em cetta me- dida, o regime comunal da propriedade sub o qual viviam os primeiros na pré-histéria brasileira. Dai por diante, a preia do gentio, antes furtiva e acessd- tia, foi estendendo-se a tédas as regides, vindo a constituit- se paulatinamente numa das atividades mais lucrativas, quer como fonte de suprimento de mfo-de-obra pata a formaciio das lavouras, quer como género de exportacio. 13 Conta Frei Vicente do Salvador que, quando comegaram as entradas, muitos colonizadores nao estavam convencidos de que ésse sistema fésse o mais conveniente para os fins pro- postos. «As guerras, diziam éles, afugentayam os Gentios» para a distancia de muitas léguas da costa, acreditando ser «melhor trazélos por paz e por persuasio de Mamalucos; que por les saberem a lingua, e pelo parentesco (...) os trariam mais facilmente que por armas.» Por todo o tempo de vigéncia das Donatarias, que se pode tomar como a fase de transi¢fio entre as formas pacificas ¢ o uso da coacdo nas relagdes com o gentio, o escambo se tor- naria cada vez mais escasso. A habilidade ¢ a asnicia dos co- merciantes de costa, dos mercadores expetimentados no enten- dimento com os povos das Indias, deixatiam de ser os ele- mentos fundamentais de ligacio entre as duas sociedades que, mais tarde, deyeriam forcosamente hostilizar-se. Acresce que entravam em jégo, agora, interésses e objetivos diferentes da simples aventura da conquista que havia empol- gado os traficantes ¢ mercadores. Nao se tratava apenas de vir buscar e transportar para os mercados da Europa os fru- tos do continente descoberto e sim de fundar aqui novas fon- tes de riqueza com a ocupacio ¢ exploracdo da terra, em- présa a que se lancavam os mais audazes representantes da fidalguia lusa. Aos principios e métodos da conquista, sucediam os ptin- cipios e métodos da colonizagio. A missio confiada aos co- lonizadores cra a de submeter o incola, apropriar-se de suas terras c bens, impor-lhe suas concepgdes e transformé-lo num agente décil de seus objetivos de dominio. A partir do momento em que algo mais do que a riqueza extrativa passa a despertar a cobica da metrépole portuguésa, comecam a apagar-se os vinculos que nos atavam 4 pré-histd- tia. A transformagdo da terra conquistada em colénia de ex- ploragio exige novas instituigSes jurfdicas, novas formas de propriedade que sdmente poderiam vicar sébre as rufnas das Instituigdes primitivas. Incipiente ainda, a caca aos escravos indigenas nao havia até entéo provocado a ruptura definitiva nas relagdes entre €stes ¢ os conquistadotes, o que se verificaria irremissivel- mente inais tarde, com a expropriagao em larga escala de suas terras, Tanto assin que seriam encontradicos na «histéria das varias donataries os exemplos de populacio européia ¢ na- tiva vivendo em excelentes relagies ¢ até mesmo em estreito convivios, o que, evidentemente, ndo resultaria do «moda de ser 14 natural» dos portuguéses, como quer Paulo Meréa?, mas do fato de nao terem éstes ainda abandonado, por essa €poca, os meios pacificos de cooperacfo econémica. Uma reconstituicio Iégiea désse periode de iniciagio da his- réria de nosso pais, sébre o qual so escassas € contraditérias as noticias, nos fard compreender que a duelidade de métodos — o do comércio pacifico ¢ o do emprégo da férga — que pot muito tempo coextstiram nas relagGes com os silvicolas, de certo refletiria a conflito de interésses ¢ de concepgdes, a disputa entre castas ¢ faccdes que dividiam ¢ minavam a sociedade seis- centista de além-mar. O crescente predominio da farga sébre a astticia, no trato com as gentes da terra, ptosseguiria a despeito de taxativas determi- nagdes em contrério, de tio duvidosa exeqiibilidade que logo em seguida eram invalidadas por outras determinagées, igualmente expressas, em favor da escravidio dos indios. Ainda nos primeiros tempos das Donatarias, ter-sc-ia empre- gado, indiferentemente, a astticia ou a férca para submissio do gentio, ¢ hd boas indicagdes de que petsistiam os reccios de fa- zer escandalo, agindo-sc com moderagio e prudéncia, Que nao era inteiramente livre a preia do indigena e sua exportagao, po- demos deduzilo dos textos das cartas de doagio, de Martim Afonso, Duarte Coelho ¢ autras, em que constava autorizagio expressa para conduzir para o Reino um nimero limitado de indios escravos, o qual variava de vinte c quatro a quarenta ¢ ito, afora outros que figurassem na tripulagio das naus. Isso se dera entre o sexto e o sétimo lustro do primeiro sé culo, ¢ logo a seguir, em 1537, surgia a bula papel de Paulo IIT, onde clatamente se recomendava que nfo féssem os indios pti- yados de sua liberdade nem do dominio de scus bens; 0 que nao impediu que, quase a2 mesma época, uma carta régia consagrasse a escravizacao dos Cactés. © predominio dos métodos de férga viria a firmar-se, defini- tivamente, depois de 1549, com a instalagio do Govérno-Geral de Tomé de Souza, quando aparecem, com maior evidéncia, as provas de urilizagao de indios catives entre a mao-de-chra empre- gada internamente, periodo cm que fam sendo progressivamente ocupadas ¢ exploradas, de maneita sistemdtica, as terras outrora a éles pertencentes. Um depoimento preciso e insofismavel sGbre as condigées em que se processavam, a essa altura, as relagdes com o gentia, va- mos enconttar na carta dirigida de Pérto Seguro a D. Joao il, 0, 2 Hindria da Colonizardo Portuguéra, vol, til, pag. em 7 de fevereiro de 1550, por Pedro Borges, que féra destina- do «por mandate do governador ao socorra dos Tlhéus»: «A causa que principalmente fazia a éstes gentios fazer guer- ta aos cristios — diz Borges em certo trecho — era o assalta que os navios que pot csta costa andavam faziam néles. E neste negscio se faziam coisas tio desordenadas, que o menos era sal- teé-los porque houve homem, que um indio principal livrou de maos de outros mal ferido ¢ maltratado c o teve em sua casa © 0 curou eo tornou a pdr sio das feridas em salvo. Este ho- mem tornou ali com um havio e mandou dizer ao gentio prin- cipal que o tivera em sua casa que o fésse ver ao navio, cuidando © gentio que vinha éle agradecer-lhe o bem que lhe havia feito, como o teye no navio o cattvou com outros que com éle foram © o foi vender por essas capitanias.»3 Desde entio, tomaria formas cada vez mais cruéis a preia dos silvicolas, a caga por todos os meios desumanos com que se ha- via de nutrir de bragos cativos as plantagGes e os engenhos que ja se espalhavam pelas capitanias mais présperas. Penetravam, sertio a dentro, as hordas de preiadores A cata de bragos indigenas, os quais se supunha sctiam capazes de de- sempenhar, resignados ¢ submissos, o papel que lhes reservava o névo sistema de ptoducao implantado pela emprésa colonial. O indio livre foi, assim, banido de suas terras e expulso para Jonge do litoral, aonde sé permaneciam os que 4 férga tinham caido no cativeiro. Tribos inteiras foram jogadas contra outras tribos, para o que se agravavam antigas discérdias e se fomentavam novas. Na arte de intrigar os nativos, de despertar ¢ acittar ddios entre os mes- mos, os colonizadores portuguéses aplicatam aqui sua grande pe- ticia jd comprovada em outras dreas e repetida com téda a per- feigao, mais tarde, na caca aos negros da Guiné. Désse modo, o mercado de trabalho iria rapidamente aumentar, ao suprit-se também com os prisioneiros feitos pelas tribos vitoriosas nas guerras a que, para tal fim, os indigenas eram empurrados. Amiudavam-se as entradas e sucediam-se as guerras de exter- minio dos brancos contra os indios, a que éstes respondiam com investidas © ataques de conseqtiéncias nao menos tettiveis para muitos dos colonizadores, Os macicos «descimentos», a que cram atrastades os prisioneiros resultantes dessas empreitadas san- grentas, tornavami-se cada vez mais freqiientes, 4 medida que ctescia a enorme mortandade dos indigenas cativos, vitimados pelo rude regime de trabalho a que os submetiam, constran- nia da Colonia da Portuguéss, vol. tt, pi gidos a viver num ambiente inteiramente diverso daquele a que se haviam acostumado, Ainda hoje, ao glorificar os fatos da descoberta ¢ do povoa- mento, a histéria oficial faz por ignorar as verdadeiras razées pelas quais, no Brasil, foi tao rapidamente dizimada a popu- lacdo nativa, a ponto de hoje apenas dela restarem poucos re- manescentes, enquanto que, noutros paises, como alguns da América Espanhola, aquela populagio, apesar de téda a brutal espoliacio igualmente sofrida, pdde sobreviver e, até certo pon- to, expandir-se. Os esforgos realizados no sentido de restubelecer a verdade sébre o papel do indigena em nossa formacio ainda deixam margem para permitir a divulgac3o, nos compéndios, de sérias deturpagdes. Tém, pottanto, cetta atualidade as criticas ¢ acusa- gSes que a propdsite fizera o General Couto de Magalhies: aCoitados! Eles (os indias} nao tém historiadores; os que lhes escrevem a histéria qu sao aquéles que, a pretexto de religiao ¢ civilizagio, querem viver & custa de seu suor, reduzir suas mulheres ¢ filhas a concubinas; ou sin os que os encontram de- gtadados por um sistema de catequese que, com mui ratas e honrosas excegGes, é inspirada pelos mdveis da gandncia ou da libertinagem hipdcrita.> Tantas ¢ tais desumanidades aqui se cometetam, tio espan- tosa sé tornara a mortandade dos silvicolas que, ante a ameaca de com isso se esgotarem as reservas nativas de bragos, mais ¢ mais protestos se levantavam, no prdprio Reino, contra os atos de selvageria dos brancos. Continuon, no entanto, a Coroa a tergiversar, ora promo- vendo medidas defensivas, ora aceitando a espoliacao do gentio. «Decretaya-se hoje o cativeiro sem restri¢des, amanha a liber- dade absoluta, depois um meio rérmo entre os dois extremes. Promulgava-se, revogava-se, transigiase» — coma notou Jodo Francisco Lisboa, A medida que se estendia o dominio dos colonizadores por- tuguéses sébre os territérios pavoados pela gentio, mais fre- qiientes se tornavam as perseguicGes, a caca desapiedada ao brago cativo, multiplicavam-se os descimentos ¢, em contrapar- tida, os assaltos do gentio ac branco. Nos engenhos ¢ planta. gGes fundados pela nobreza lusitana, o indigena teimava cm rejeitar o trabalho escravo, dava constantes demonstragdes de rebeldia e, quando nfo conseguia fugir, terminava abatido pe- los castigas ou pelas daengas, morrendo as dezenas ou as centenas. Malgrada os apelos de Anchieta e de Nébtega, as piedosas tecomendagdes papalinas, ¢ as timidas determinages da Mc- 17 2s. trdpole, a marcha inexordvel da colonizag3o prosseguia em seu avango, deixando no rastto 0 sangue das populacdes nativas No segundo século, faziam-se mais ferozes os apresamentos e mais encarnicados os massacres. $6 nas catnificinas levadas a efeito em 1619 por Bento Macicl Parente na regio mara- nhense, segundo estimativa de Simao Estdcio de Oliveira, pas- sara de 500000 o nimero de mortos e cativos. Subiam tam bém a enormes ciftas os descimentos de indios ¢ escravos. In- fotmagbes recolhidas pelo Visconde de Sio Leopoldo indicam que, numa de suas devastadoras invasdes, os paulistas condu- ziram de Guaird 15000 indios que foram vendidos, aos lotes, em praca publica Por sua vez o gentio n@o se comportava passivamente em relagio aos seus perseguidores e redobrava seus assaltas com cada vez maior audacia, Rebelava-se igualmente contra o tra- balho sedentdrio, tornayase um escravo de infimo rendimento e manifestava pela «indoléncia» seu protesto contra o estilo de vida a que o queriam subjugar. A tal estado de coisas eta preciso par cébro, alcangar uma ttégua pata consolidar os éxitos da colonizacdo; €, ante as ne- cessidades de mobilizaciio de um tipo de mio-de-obra mais adap- tdvel ao modo de producto implantado, impunha-se uma nova politica, que consistiria em substituir o «indolentes escrayo da terra pelos negros importados da Guiné. Embora se repetissem, também no século XWil, os atos di bios ¢ incoerentes que formatam o lastto juridico de todo o periodo colonial, viria a surgir uma tomada de posicio impot- tante, com o Alvard de 1.° de abril de 1680. Muito mais incisivo € consistente do que os anteriores, ésse documento adquirin extraordindria significagzo porque néle foi reconhe- cido, pela primeira vez, ao indigena, o direito & propricdade das terras «ainda que sejam dadas em sesmarias a pessoas particulares, porque na concessiio dessas sesmatias sc tesetva © ptejuizo de terceiro ¢ muito mais se entende, e¢ quero que se entenda, ser reservado o dircito dos indios, primdrios ¢ na- tutais senhores delas».5 4 CF. Lemos Brito, Pontos de Partida para a Histéria Econdmica do Brasil, Col. Brasiliana, 1939. 3. “O indigens, primariamente cstabelecido, tem a sedam posisio, que cons- titi o fundamento da posse, segunda conhecido texto do jurisconsulto Paulo (Dg. tit. de acq. vel, amitr. posses. L. 1) a que se referem Savigny, Molitor, Maynz ¢ outros romanistas; mas o indigena além désse jus possersionis, tem 0 jes porsideati, que jd Ihe € recoahecide € preliminarmente legiti- mado, desde a Alvari de 1° de abril de 1680, como dircizo congénite.” (Joao Mendes Jdnior, Os Indfgewar do Brasil, seus Dirsitos Individuait e Politicos, S. Paulo, 1912, 58/59.) 18 Mais significative ainda ¢ 0 fato de que, até o momento de ptoclamar-se, incondicionalmente, o direito do indio As ter- ras por éles ocupadas, na qualidade de «primérios e naturais senhores delas», ndo se havia ainda instituido, sob forma com- pleta ¢ perene, a propriedade privada dos colonizadores as terras que lhes ctam distribufdas, em conformidade com o ptincipio da sesmaria, sob determinadas condigdes e reservas, ¢ cuja efetivacio era indispensdvel pata sua confirmacdo posterior. Admitindo-se a validade da conhecida tese de Citne Lima, de que a propriedade privada das terras, inicialmente concedidas em usufruto aos sesmeiros, nasceria com a Real Ordem de 27 de dezembro de 1695, a qual, no dizer daquele eminente pes- quisador, «enyolvia uma transformagio completa da situagio juridica do solo colonial», forgoso é concluir que o reconheci- mento explicito © irrestrito da propriedade ao indigena havia precedido, de 15 anos, a instituiggo do dominio territorial di- eto por parte dos colonizadores. Isto pésto, teria sido o indio o primeiro a investir-se, por um diploma legal, do direito A propriedade agrdria, o qual sd- mente iria estender-se aos invasores europeus alguns anos mais tarde, Nao obstante, pouco ou nenhum efeito pratico resultaria des- sa decisio da Metrdépole, logo relegada ao esquecimento nos arquivos, Nada perturbaria menos a tranqtiilidade dos senho- tes feudais da América Portuguésa, empenhados em desalojar a qualquer custo o gentio das terras mais férteis e mais cobigadas, do que semelhantes retalhos de papel, ja desacreditados por uma longa tradigio de inexequibilidade Continuatiam, assim, por muito tempo, o esbulho das popu- lagSes nativas, a apropriapio viclenta do imenso tetritétio por elas utilizado na caga e pesca c na extragio de ftutos silyestres ou ocupadas por suas aldeias ¢ por suas lavouras. Intensifica- vam-se, também sem descontinuidade, a matanca e a escravidao do gentio, Quase um século depois, no govérno do Marqués do Pombal @ Alvara de 4 de abril ¢ a lei de 6 de junho de 1755 tevitali zavam os térmos do Alvard de 1680, determinando-se que vessem os mesmos execugdo imediata, » 6 Rui Cite Lima, Terra: Devolutas, Porto Alegre, 1933, pag. 37. Em sua Hisidria Tervitorial do Brasil, vol. 1° e Gatco, pag. 136, Felishello Freire tinha dado interpretasio diferente ac dispusitive que estabelecia a co- beanca do féro: “Ai esti assinada uma grande fevolucio que se operon po dizeito de propricdade territorial, que na zona agricola do pais pissou, como em muitas vilas ¢ cidades, an simples dominio itil © proprieticio agricola, que até entio tinha sdbre suas propriedades dircito pleno, trans- formou-se em enfiteuta do Estato, 19 «Foi Pombal — escreve Rodolfo Garcia — quem rompeu sem regresso com o principio da escravidao. certo que os indios, ainda depois das famosas leis de 1755, foram nao pou- cas vézes vitimas da opressio dos escravizadores; mas, nesses casos, o mal tinha um cardter meramente acidental e tmansitd- tio, As experiéncias que em sentido contritio tomou o prin- cipe regente D. Joao, pelas cartas régias de 13 de maio e 2 de dezembro de 1808 e 1.° de abril do ano seguinte, nao foram bem aceitas pela opinijo nem vingaram contra o principio da liberdade jd radicado, ¢, guerreando os gailombos de indios, apenas serviram para legalizar as violéncias das chamadas ban- deiras, que se organizayam a pretexto de repelir as agressies dos selvagens.»7 Caracteriza-s¢ ésse dilatado perfode, que vai dos dltimos lus- tros do século XVI até os fins do século xvii, por néle terem expirado as formas pré-histéricas da propriedade tctritorial em nosso. pais. Dai por diante a luta pela apropriacio ¢ exploragio da terra prossegue com téda a violéncia e crueldade dos primeizos tem- pos; cntretanto, ela ndo mais se travatd, em nome da civilizacio contra a barbaric ¢ 4 sombra de pretextas supostamente filan- trépicos, entre duas instituigdes histdricamente antagénicas. ‘A comecar do século XIX, a propricdade privada continuard impondo-se a ferro e fogo, mas o que ela destrdi ¢ esmaga pela férea € a propria ordem juridica instituida pelo homem civilizado. Sob o signo da violéncia contra as populagées nativas, cujo direito congénito 4 propriedade da terra nunca foi respeitado ¢ muito menos exercida, € que nasce e se desenvolve o lati- fiindio no Brasil, Désse estigma de ilegitimidade que € 0 seu pecado ariginal, jamais éle se redimiria. 7 Rodolfo Garcia, Basaio Sébre 2 Histéria Politica ¢ Administrativa do Brasil, Rio, 1936, pigs, 151/152. 20