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MINIST …RIO DO MEIO AMBIENTE S ECRETARIA DE R ECURSOS H ÕDRICOS E A MBIENTE

MINIST…RIO DO MEIO AMBIENTE

SECRETARIA DE RECURSOS HÕDRICOS E AMBIENTE URBANO

ELABORA« O DE PROPOSTA DE DIRETRIZES AMBIENTAIS PARA O DESENVOLVIMENTO DE CIDADES SUSTENT£VEIS NO BRASIL ñ

BRA/OEA/08/001

RelatÛrio Parcial n02

RT02 ñ EXPERI NCIAS EXITOSAS NA TEM£TICA ENVOLVENDO AS ìCIDADES SUSTENT£VEISî

BrasÌlia-DF

ELABORA« O DE PROPOSTA DE DIRETRIZES AMBIENTAIS PARA O DESENVOLVIMENTO DE CIDADES SUSTENT£VEIS NO BRASIL ñ

BRA/OEA/08/001

RelatÛrio Parcial n02

RT02 ñ EXPERI

NCIAS EXITOSAS NA TEM£TICA

ENVOLVENDO AS ìCIDADES SUSTENT£VEISî

Nabil Bonduki Secret·rio de Recursos HÌdricos e Ambiente Urbano

SÈrgio AntÙnio GonÁalves Coordenador Nacional/BRA/OEA

Carolina Herrmann Coelho-de-Souza Consultor TÈcnico

CPR N 204734

Agosto/2011

RT02 ñ EXPERI NCIAS EXITOSAS NA TEM£TICA ENVOLVENDO AS ìCIDADES SUSTENT£VEISî

RESUMO EXECUTIVO

O RT02 sofreu um redirecionamento para chegar ‡s diretrizes ambientais para ìcidades sustent·veisî, ou denominadas ìrecomendaÁıes socioambientaisî. Ao invÈs do detalhamento das experiÍncias exitosas apresentadas no RT01, observou-se a necessidade de uma maior contextualizaÁ„o da problem·tica urbano-ambiental e as diversas escalas que abrange. A revis„o bibliogr·fica desenvolvida tem por objetivo responder as seguintes perguntas: Quais os problemas urbano-ambientais? Quais as escalas de an·lise? O texto que daÌ discorre visa estimular reflexıes acerca dos temas e tipos pertinentes para uma an·lise urbano-ambiental. O objetivo do RT02 È, portanto, o de construir uma matriz que relacione tipos do ambiente urbano com foco na problem·tica ambiental no Brasil, com temas da polÌtica ambiental urbana. O resultado deste cruzamento ser„o as recomendaÁıes socioambientais voltadas ‡s Prefeituras Municipais no RTFinal.

Palavras-chaves: Matriz. Temas. Tipos. PolÌtica urbano-ambiental.

i

SUM£RIO

INTRODU« O

1

1.

CONTEXTO: O URBANO-AMBIENTAL

2

1.1 Sustentabilidade

2

1.2 Sustentabilidade urbana: desafios do urbano-ambiental

4

1.3 Alguns direcionamentos

7

2. O CONTEXTO DAS ESCALAS

10

3.

A CONSTRU« O DA MATRIZ

14

3.1

Temas

15

3.1.1 Propostas de mensuraÁ„o da sustentabilidade

15

3.1.2 ApresentaÁ„o dos temas

21

3.2

Tipos

23

 

3.2.1

Tipologias referenciais

23

3.2.1.1

Tipologia das Cidades Brasileiras ñ ObservatÛrio das MetrÛpoles

23

3.2.1.1.1 O resultado: a tipologia das cidades brasileiras proposta pelo

ObservatÛrio das MetrÛpoles (2009)

26

3.2.1.2 Plano Nacional de HabitaÁ„o

28

3.2.1.3 Gest„o Ambiental nos MunicÌpios Brasileiros - Tese

30

3.2.1.4 Estudos do GEO-Brasil

33

3.2.2

ApresentaÁ„o dos Tipos

38

4

A MATRIZ

39

5

CONSIDERA«’ES FINAIS

41

REFER

NCIAS BIBLIOGR£FICAS

41

ii

LISTA DE QUADROS

Quadro 01 ñ Esquema geral da matriz

Quadro 02 ñ Matriz da Pegada EcolÛgica conforme Wackernagel e Rees (1996) 17

Quadro 03 ñ Matriz do DiagnÛstico da Sustentabilidade Ambiental de municÌpios de 18 pequeno porte conforme Coelho-de-Souza (2009) Quadro 04 ñ SÌntese das referÍncias de mÈtodos de avaliaÁ„o da sustentabilidade 20

Quadro 05 ñ Agrupamento dos temas por dimensıes de an·lise da sustentabilidade 22

Quadro 06 ñ ComparaÁ„o entre regiıes polÌtico-administrativas 31

14

Quadro 07 ñ Problemas e principais causas apontadas pelo gestor ambiental municipal,

32

De Carlo (2006) baseado em IBGE (2005) Quadro 08 ñ Cen·rio Tendencial ñ Matriz Press„o-Impacto para o Estado do Meio

36

Ambiente no Brasil (EGLER;RIO, 2002) Quadro 09 ñ Cen·rio Desejado ñ Matriz Impacto-Resposta para o Estado do Meio

37

Ambiente no Brasil (EGLER;RIO, 2002) Quadro 10 ñ Matriz construÌda: tipos X temas

40

iii

LISTA DE FIGURAS Figura 01 ñ Biomas por grupamento de zonas fisiogr·ficas (EGLER; RIO, 2002)

iv

35

SIGLAS E ABREVIATURAS

MMA

MinistÈrio do Meio Ambiente

OEA

OrganizaÁ„o dos Estados Americanos

RT

RelatÛrio TÈcnico

SRHU

Secretaria de Recursos HÌdricos e Ambiente Urbano

v

INTRODU« O

A elaboraÁ„o de proposta de diretrizes ambientais para o desenvolvimento de cidades

sustent·veis no Brasil È fruto do Projeto Internacional de CooperaÁ„o TÈcnica para a melhoria

da gest„o ambiental urbana no Brasil ñ BRA/OEA/08/001, celebrado entre o Governo da

Rep˙blica Federativa do Brasil e a Secretaria-Geral da OrganizaÁ„o dos Estados Americanos ñ SG/OEA, datado de 19 de dezembro de 2008. O objetivo È fortalecer as PolÌticas vinculadas ‡ Gest„o Ambiental Urbana no ‚mbito da PolÌtica Nacional de Meio Ambiente ñ PNMA.

O objetivo da presente consultoria individual especializada È o de prover a SRHU/MMA a

elaboraÁ„o de diretrizes ambientais para o desenvolvimento de ìCidades Sustent·veisî no Brasil. Os produtos dever„o produzir informaÁıes tÈcnicas, permitindo uma maior integraÁ„o entre os entes do governo federal que implementam aÁıes relacionadas com os aspectos

ambientais na tem·tica em pauta, bem como apresentar as diretrizes ambientais nacionais a serem observadas pelos demais entes federados na busca do desenvolvimento de ìCidades Sustent·veisî.

O trabalho È dividido em 03 (trÍs) RelatÛrios TÈcnicos (RTs), os quais s„o: RT01 ñ Proposta

preliminar de diretrizes ambientais para o desenvolvimento de ìcidades sustent·veisî; RT02

ñ ExperiÍncias exitosas na tem·tica envolvendo as ìcidades sustent·veisî; e RTFinal ñ ConsolidaÁ„o de proposta de diretrizes ambientais para o desenvolvimento de ìcidades sustent·veisî.

Em reuni„o com a Secretaria de Recursos HÌdricos e Ambiente Urbano do MinistÈrio do Meio Ambiente (SRHU/MMA) ñ designada pelo Governo Federal como respons·vel brasileira pela execuÁ„o das aÁıes decorrentes desse Termo de CooperaÁ„o ñ foi definida a mudanÁa de metodologia do RT02, porÈm com o objetivo de alcanÁar os mesmos resultados. Esta mudanÁa se fez necess·ria em decorrÍncia de um processo de re-estruturaÁ„o interna da SRHU/MMA, e do delineamento de uma nova agenda.

A an·lise das experiÍncias exitosas, vinculadas ao RT02, que visavam fornecer subsÌdios ‡

elaboraÁ„o das diretrizes, foram re-estruturadas numa vis„o de que È necess·ria a exposiÁ„o

da problem·tica ambiental, numa determinada tipologia, para a construÁ„o de diretrizes

especÌficas para cada realidade observada. Para tanto, È desenvolvida uma base referencial e a construÁ„o de uma matriz que apresenta escalas apropriadas para uma tipologia do ambiente construÌdo que se relacione com a problem·tica ambiental no Brasil, o resultado dessa relaÁ„o tipologia X problem·tica ambiental ser· a construÁ„o das diretrizes, agora denominadas de ìrecomendaÁıes socioambientaisî.

O presente documento, dividido em cinco capÌtulos, È o resultado do produto 02 referente ao

RT02. O trabalho traz, no primeiro e segundo capÌtulos, a contextualizaÁ„o da tem·tica urbano-ambiental e suas escalas, por meio de revis„o bibliogr·fica que apresenta as noÁıes de sustentabilidade urbana, desafios e direcionamentos do urbano-ambiental, e as escalas possÌveis. No capÌtulo trÍs desenvolve-se a construÁ„o da matriz, com a apresentaÁ„o dos temas da polÌtica ambiental-urbana de acordo com ferramentas de avaliaÁ„o da sustentabilidade; e tipos, construÌdos com base em referenciais consolidados. No capÌtulo quatro È, finalmente, apresentada a matriz, que cruza os dados dos temas e tipos criados, para gerar as recomendaÁıes socioambientais aos municÌpios no RTFinal. Por fim, o capÌtulo cinco apresenta as consideraÁıes e os encaminhamentos para o RTFinal.

1

1. CONTEXTO: O URBANO-AMBIENTAL

Esta parte inicial de contextualizaÁ„o da tem·tica urbano-ambiental tem por objetivo resgatar o conceito de sustentabilidade, para em seguida, direcionar para a sustentabilidade urbana. Destaca-se, todavia, que uma discuss„o de maior abrangÍncia foi apresentada no RT01, no capÌtulo denominado ìNoÁıes de cidades sustent·veisî, sendo que aqui retomamos algumas referÍncias fundamentais. Nesse momento, tambÈm se pretende levantar os desafios e, inclusive, os encaminhamentos vislumbrados pelos autores para uma integraÁ„o urbano- ambiental.

1.1 Sustentabilidade

Costa (2008a) discorre sobre a trajetÛria do pensamento ambiental, retomando as visıes e discussıes desde a dÈcada de 1960, e as origens do conceito de desenvolvimento sustent·vel, que ganha maior Ínfase a partir de meados da dÈcada de 1980. A definiÁ„o mais usualmente conhecida do termo È aquela definida pelo RelatÛrio Brundtland 1 , publicado em 1987, em que o desenvolvimento sustent·vel È aquele que atende ‡s necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as geraÁıes futuras atenderem a suas prÛprias necessidades.

De acordo com Costa (2008a) essa definiÁ„o n„o discute sobre os modelos e alternativas de desenvolvimento, nem das relaÁıes sociais e de poder, mas esta definiÁ„o foi o consenso possÌvel por enfatizar um compromisso intergeneracional. Portanto, a discuss„o que est· presente se refere aos meios e procedimentos para alcanÁ·-lo. Costa (2008a) identifica nas contribuiÁıes de diversos autores uma ìpreocupaÁ„o com a redistribuiÁ„o, com as desigualdades e com a busca de novos caminhos, a partir da formulaÁ„o de polÌticas e estratÈgiasî (p.83).

Para Barbier 2 (apud COSTA, 2008a) o desenvolvimento sustent·vel deve promover a resoluÁ„o das necessidades b·sicas da populaÁ„o, em especial, a garantia de que a populaÁ„o pobre tenha acesso a uma existÍncia sustent·vel e segura. Para Barbier n„o h· sustentabilidade possÌvel com pobreza, e a sustentabilidade implica em tratar das dimensıes quantitativas e qualitativas que se misturam: a dimens„o quantitativa estaria associada ‡ melhoria das condiÁıes de vida da populaÁ„o, com maior atenÁ„o a populaÁıes em situaÁ„o de pobreza absoluta, ìenquanto a dimens„o qualitativa seria multifacetada, associada ao potencial ecolÛgico, social e cultural para dar suporte tanto ‡s atividades econÙmicas como ‡s mudanÁas estruturaisî (COSTA, 2008a, p.84).

Sachs (1993) explora o longo caminho percorrido da relaÁ„o de desenvolvimento e meio ambiente, e cita a The South Comission 3 que coloca que ìa verdadeira escolha n„o È entre desenvolvimento e meio ambiente, mas entre formas de desenvolvimento sensÌveis ao meio ambiente e formas insensÌveis ao mesmoî (p.31).

O autor (op. cit.) desenvolve cinco dimensıes de sustentabilidade, e em publicaÁ„o mais recente, Sachs (2002), apresenta oito critÈrios de sustentabilidade, os quais devem ser levados em consideraÁ„o simultaneamente. A seguir apresenta-se a junÁ„o das dimensıes desenvolvidas por Sachs (1993; 2002).

1 The World Commission on Environment and Development, Our Common Future, Oxford, Oxford University Press, 1987, p.147, p.166

2 BARBIER. Environmental Conservation, p.101-115.

3 SOUTH COMMISSION. 1990. The Challenge to the South. Oxford. Oxford University Press. p.259.

2

1.

Social: refere-se ao alcance de um patamar razo·vel de homogeneidade

social; distribuiÁ„o de renda justa; emprego pleno e/ou autÙnomo com qualidade de vida decente; e igualdade no acesso aos recursos e serviÁos

sociais.

2. Cultural: refere-se ao equilÌbrio e respeito ‡ tradiÁ„o e inovaÁ„o; a procura

de raÌzes endÛgenas de processos de modernizaÁ„o e de sistemas agrÌcolas

integrados, processos que considerem a continuidade cultural, e que tratem de soluÁıes especÌficas para o local, o ecossistema, a cultura e a ·rea.

3. EcolÛgica: significa a preservaÁ„o do potencial do capital natureza na sua

produÁ„o de recursos renov·veis, e limitar o uso dos recursos n„o-renov·veis.

4. Ambiental: trata-se de respeitar e realÁar a capacidade de autodepuraÁ„o

dos ecossistemas naturais.

5. Territorial (ou espacial): visa a obtenÁ„o de uma configuraÁ„o rural-

urbana mais equilibrada, uma melhor distribuiÁ„o territorial dos assentamentos humanos e das atividades econÙmicas, com Ínfase em reduzir

a concentraÁ„o excessiva nas metrÛpoles, e superar as disparidades inter- regionais; e promover a melhoria do ambiente urbano.

6. EconÙmico: refere-se ao desenvolvimento econÙmico intersetorial

equilibrado; seguranÁa alimentar; capacidade de modernizaÁ„o contÌnua e razo·vel nÌvel de autonomia na pesquisa cientÌfica e tecnolÛgica; e a inserÁ„o soberana na economia internacional.

7. PolÌtica (nacional): refere-se ‡ democracia definida em termos de

apropriaÁ„o universal dos direitos humanos, desenvolvimento da capacidade do Estado para implementar o projeto nacional, e trata da necessidade de um nÌvel razo·vel de coes„o social.

8. PolÌtica (internacional): trata-se da efic·cia do sistema de prevenÁ„o de

guerras da ONU, na garantia da paz e na promoÁ„o da cooperaÁ„o internacional; um pacto Norte-Sul de co-desenvolvimento baseado no

princÌpio de igualdade porÈm considerando o favorecimento do parceiro mais fraco; controle institucional efetivo do sistema internacional financeiro e de negÛcios, da aplicaÁ„o do PrincÌpio da PrecauÁ„o na gest„o do meio ambiente

e dos recursos naturais; prevenÁ„o das mudanÁas globais negativas; proteÁ„o

da diversidade biolÛgica e cultural; gest„o do patrimÙnio global; e realizaÁ„o de um sistema efetivo de cooperaÁ„o cientÌfica e tecnolÛgica internacional. (SACHS, 1993; 2002).

No que tange o componente cultural da sustentabilidade, Guimar„es (2001) acrescenta a necessidade de manutenÁ„o do sistema de valores, pr·ticas e sÌmbolos de identidade. Guimar„es (2001) e Sachs (1993) tambÈm reforÁam que a promoÁ„o de vida sustent·vel deve prever a participaÁ„o dos grupos e das comunidades locais, e o aprofundamento de construÁ„o da cidadania.

Soma-se ‡ isso, o fundamento polÌtico da sustentabilidade, o aprofundamento da democracia e de construÁ„o da cidadania (op. cit.). Sachs (1993) tambÈm compreende que a promoÁ„o de vida sustent·vel deve ter a participaÁ„o dos grupos e das comunidades locais.

Viola e Leis (1992) compreendem que as m˙ltiplas dimensıes da sustentabilidade s„o de difÌcil articulaÁ„o cientÌfica e possuem diferentes valores Ètico-sociais de igualmente difÌcil aproximaÁ„o m˙tua. Assim, os autores (op. cit.) classificam trÍs categorias de versıes do desenvolvimento sustent·vel: estatista, comunit·ria e de mercado. O enfoque estatista considera a qualidade ambiental um bem p˙blico, sendo, portanto, resguardado somente pela intervenÁ„o normativa, reguladora e promotora do Estado. O enfoque comunit·rio considera

3

que as organizaÁıes de base da sociedade devem ter um papel predominante, onde o Estado e

o mercado deveriam preencher um papel subordinado ao poder da sociedade civil. O enfoque

do mercado, por fim, mantÈm a sua lÛgica, busca a expans„o dos consumidores verdes e considera legÌtima a apropriaÁ„o privada dos recursos naturais. Viola e Leis (1992) concluem tratando que o modelo possÌvel de desenvolvimento sustent·vel no Brasil È condicionado a capacidade de convergÍncia e cooperaÁ„o entre os trÍs setores mencionados.

Similar ao apresentado por Sachs, Paula et al (1997) colocam que a quest„o ambiental ìevidencia o entrelaÁamento, a interdependÍncia das dimensıes fÌsicas, biÛticas, sociais, econÙmicas, culturais e polÌticas que constituem a realidade ambientalî. Paula et al (1997) colocam a necessidade de um processo coletivo e interdisciplinar para superar os marcos atuais dos estudos ambientais.

Paula et al (op. cit.) reconhecem as externalidades dos custos ambientais, citam a exportaÁ„o de ind˙strias poluidoras e devastadoras do meio ambiente para os paÌses ·vidos de crescimento. AÌ entra em pauta a discuss„o por justiÁa ambiental, que significa assegurar que nenhum grupo social suporte uma parcela desproporcional de consequÍncias ambientais negativas, e que seja proporcionado o acesso justo e equitativo aos recursos naturais, acesso ‡s informaÁıes e o favorecimento de modelos democr·ticos de desenvolvimento (FREITAS et al, 2004).

Observa-se, portanto, dos textos atÈ aqui apresentados, que È na discuss„o dos meios que se est· o embate para alcanÁar o desenvolvimento sustent·vel. Percebe-se um entendimento de que a superaÁ„o dos problemas ambientais est· condicionada a uma superaÁ„o das desigualdades sociais. ReforÁa-se tambÈm a necessidade de contrapor a noÁ„o de que os custos sÛcio-ambientais podem ser externalizados, seja para outros paÌses, cidades ou populaÁıes. Estes custos, por sua vez, podem ser minimizados conforme o modelo de desenvolvimento e o modo de vida priorizados, onde o planejamento urbano e regional tem o seu papel a desempenhar.

Finalmente, s„o v·rias as dimensıes da sustentabilidade que devem ser consideradas simultaneamente, o que gera a necessidade de aÁıes integradas e interdisciplinares, alÈm do

exposto por Viola e Leis (1992), sobre a necessidade de convergÍncia entre Estado, sociedade

e mercado.

1.2 Sustentabilidade urbana: desafios do urbano-ambiental

Costa (2000) discute o conflito teÛrico do ìdesenvolvimento urbano sustent·velî por meio da

an·lise das trajetÛrias ambiental e urbana, origin·rias de ·reas de conhecimento diferentes, porÈm compreendendo ambas como fundamentais para a mudanÁa social. A autora (op. cit.)

diz respeito ‡

aceitaÁ„o ou n„o do atual projeto de modernidade (capitalista ocidental), que tem no discurso sobre desenvolvimento (sustent·vel) a sua mais abrangente traduÁ„o.î (p. 62).

tambÈm coloca que ìum divisor de ·guas importante nessa discuss„o (

)

Para traduzir o conceito de sustentabilidade nas cidades È preciso estar ciente de que esta ainda È uma noÁ„o reivindicada por diferentes conte˙dos e pr·ticas (ACSELRAD, 1999). Acselrad (1999) faz um mapeamento das principais matrizes discursivas da sustentabilidade urbana e as classifica em trÍs representaÁıes: (i) representaÁ„o tecno-material da cidade, (ii) a cidade como espaÁo da ìqualidade de vidaî, e (iii) a reconstituiÁ„o da legitimidade das polÌticas urbanas.

4

A

representaÁ„o tecno-material, baseada na eficiÍncia energÈtica e equilÌbrio metabÛlico, onde

o

consumo È reduzido pela implementaÁ„o de eficiÍncias, a reutilizaÁ„o de recursos È

maximizada, explorando ao m·ximo os recursos locais, porÈm essa vis„o tende a descaracterizar a dimens„o social e polÌtica do espaÁo urbano. A noÁ„o associada ‡ qualidade de vida estrutura-se no modelo do ascetismo, pureza e cidadania, em um processo de construÁ„o de direitos, da existÍncia simbÛlica de sÌtios urbanos. Por fim, a noÁ„o que tem como foco a legitimidade das polÌticas urbanas compreende o projeto urbano segundo a eficiÍncia na administraÁ„o dos recursos p˙blicos e a equidade, ou seja, a democratizaÁ„o ao acesso dos serviÁos urbanos. (ACSELRAD, 1999).

Acselrad (1999) conclui que n„o h· um ˙nico modo sustent·vel, deve-se reconhecer a complexidade da trama social, a dimens„o polÌtica do espaÁo urbano e a temporalidade histÛrica das cidades. Para Acselrad (2004), È preciso considerar as cidades como espaÁo do debate p˙blico, da construÁ„o de mundos diversos e compartilhados, caso contr·rio, a sustentabilidade urbana tende a se reduzir a um atributo a mais na competiÁ„o interurbana.

Associar a noÁ„o de ìsustentabilidadeî ‡ idÈia de que existe uma forma social dur·vel de apropriaÁ„o e uso do meio ambiente dada pela prÛpria natureza das formaÁıes biofÌsicas significa ignorar a diversidade de formas sociais de duraÁ„o dos elementos da base material do desenvolvimento. Colocar o debate sobre sustentabilidade fora dos marcos do determinismo ecolÛgico implica, portanto, afastar representaÁıes indiferenciadoras do espaÁo e do meio ambiente, requer que se questione a idÈia de que o espaÁo e os recursos ambientais possam ter um ˙nico modo sustent·vel de uso, inscrito na prÛpria natureza do territÛrio. A perspectiva n„o determinÌstica, portanto, pressupıe que se diferencie socialmente a temporalidade dos elementos da base material do desenvolvimento. Ou seja, que se reconheÁa que h· v·rias maneiras de as coisas durarem, sejam elas ecossistemas, recursos naturais ou cidades. (ACSELRAD, 1999, p.87)

Vainer (2002, p.26-27) reforÁa que a cidade È um complexo de relaÁıes sociais, econÙmicas, e tambÈm relaÁıes de poder.

a relaÁ„o entre a cidade e a estrutura social n„o È uma relaÁ„o passiva, em

que a cidade È meramente reflexo das estruturas; ao contr·rio, a cidade contribui para configurar a estrutura social. N„o est· inscrito na estrutura

( )

social brasileira que apenas sejam asfaltadas as ruas dos bairros habitados pelas classes superiores e mÈdias, nem que a ·gua chegue apenas a alguns

cantos da cidade. (

Tampouco est· inscrito na estrutura social brasileira que

os recursos captados pelo governo local sejam sistematicamente alocados de

modo a reproduzir a desigualdade urbana (

)

)

(VAINER, 2002, p.27)

GonÁalves (1995) coloca que muitos dos problemas sÛcio-ambientais da atualidade tÍm origem em processos sÛcio-histÛricos. No caso do Brasil s„o apontadas trÍs caracterÌsticas gestadas na fase colonial que ainda se mostram presentes na formaÁ„o do territÛrio relacionadas ‡ quest„o ambiental, s„o elas: a apropriaÁ„o concentrada da terra, o tipo de tratamento que tem sido dado aos povos indÌgenas e a grande desigualdade na distribuiÁ„o de nossa populaÁ„o (GON«ALVES, 1995). Ressalta-se que para GonÁalves (1995) a sociedade produz territÛrio, n„o apenas ocupa, pois sobre ele s„o projetados significados resultantes de processos complexos, onde s„o manifestadas as relaÁıes sociais e as relaÁıes sociedade e natureza.

5

Tratando do exercÌcio do planejamento e gest„o urbano-ambiental, Costa (2008b) percebe uma tendÍncia de convergÍncia de olhares, mas que n„o significa necessariamente a construÁ„o de um consenso. Para a autora (op. cit.) o emergente debate ambiental ìvem complicar ainda mais o debate em torno da polÌtica e da pr·xis urbanaî (p.84).

Um exemplo cl·ssico deste embate È visualizado no tradicional conflito ìentre as demandas

por regularizaÁ„o fundi·ria, o direito de permanÍncia de populaÁıes de baixa renda, habitando ·reas de proteÁ„o ambiental, e as necessidades coletivas de preservaÁ„o de recursos naturais

de uso coletivo, como mananciaisî (COSTA, 2008b, p.84-85).

Smolka (2001) discute a hipÛtese de que a polÌtica urbana de ‚mbito local detÈm parte da responsabilidade pelas ocupaÁıes irregulares. Para o autor (op. cit.) dentre as causas est· uma regulaÁ„o elitista e excludente que conduz a elevados preÁos do solo urbanizado no mercado formal [alÈm da especulaÁ„o imobili·ria], e resulta na impossibilidade de acesso a uma parcela da populaÁ„o que se vÍ obrigada a aderir ‡ informalidade (SMOLKA, 2001). Essa informalidade tambÈm leva a ocupaÁ„o de £reas de PreservaÁ„o Permanente (APPs), visto que esses espaÁos n„o podem ser ocupados pelo mercado formal.

Fernandes (2003) ressalta que nas grandes cidades dos paÌses em desenvolvimento, entre 40 e 70% da populaÁ„o urbana est· vivendo ilegalmente. Desta forma, o autor (op. cit.) percebe que a legalidade e a ilegalidade ìs„o duas faces do mesmo processo de produÁ„o do espaÁo urbanoî. Esta ilegalidade pode ser compreendida pela din‚mica de processos polÌticos pouco democr·ticos, mercados de terras especulativos, e a natureza excludente da ordem urbanÌstica em vigor (FERNANDES, 2003). O autor (op. cit.) conclui, portanto, que a ilegalidade ìdeixou de ser a exceÁ„o e passou a ser a regra, ela È estrutural e estruturante dos processos de produÁ„o da cidade.î

Com base neste cen·rio de processos que levam a irregularidade e a ocupaÁ„o de ·reas ambientalmente fr·geis, È que Martins (2006, p.64) coloca È o ìdesenvolvimento social que, priorizado, poder· viabilizar um desenvolvimento econÙmico ambientalmente respons·vel.î

A autora (op. cit.) apresenta uma boa an·lise dos impasses em torno da ocupaÁ„o nas ·reas de

proteÁ„o a mananciais na Regi„o Metropolitana de S„o Paulo, e faz a seguinte sÌntese:

a existÍncia da Lei de ProteÁ„o aos Mananciais n„o modificou o padr„o

de ocupaÁ„o dessas ·reas nem isolou os corpos d`·gua como era desejado. O aumento da pobreza, seguido do crescente dÈficit habitacional, a reduzida oferta de habitaÁ„o de interesse social, a defasagem entre a condiÁ„o econÙmica da populaÁ„o e o padr„o legal estabelecido, o intrincado processo de licenciamento e a fragilidade da fiscalizaÁ„o fazem com que essa forma de ocupaÁ„o do espaÁo ñ irregular e prec·ria ñ fosse a predominante na regi„o. (MARTINS, 2006, p.57).

( )

Para Martins (2006) um dos grandes problemas da inefic·cia das legislaÁıes brasileiras est· na adoÁ„o de modelos importados, fora da realidade brasileira, baseados em outros contextos ñ econÙmicos, sociais e de estado. Os padrıes estabelecidos s„o ideais, porÈm intangÌveis. ìMelhor uma regra mais b·sica, passÌvel de ser atendida por todos e control·vel pela prÛpria comunidade do que uma que seja mais sofisticada, mais rigorosa e invi·vel na pr·tica.î (MARTINS, 2006, p.61). Por fim, a autora (op. cit.) enfatiza a import‚ncia da confluÍncia de diversos campos do conhecimento, articulando o que j· est· produzido em diversas ·reas.

6

Uma realidade que tem destruÌdo paisagens inteiras e expulsando comunidades locais s„o os empreendimentos hoteleiros e os condomÌnios fechados de alta classe, os quais, conforme Leal (2008), s„o uma ameaÁa ‡ sustentabilidade econÙmica, social, cultural e ao ambiente natural. Para a autora (op. cit.) os condomÌnios fechados destroem conceitos de cidadania, de pertencimento social e de apoio m˙tuo, mas tornaram-se uma tendÍncia da produÁ„o capitalista do solo urbano, a qual tambÈm se associa a total dependÍncia do automÛvel.

Outro tipo de problema ambiental, porÈm, de origem industrial, È apresentado por Freitas et al (2004) na descriÁ„o do caso da Bayer no estado do Rio de Janeiro. Os graves problemas ambientais existentes na ·rea da Bayer ìs„o resultado da contÌnua combinaÁ„o de pobreza, carÍncia de recursos para enfrentar os riscos industriais, habitaÁıes prec·rias, elevada densidade populacional, violÍncia e grande poluiÁ„o gerada pelas ind˙strias.î(p.270). O acidente de 1992 expÙs os riscos da poluiÁ„o quÌmica e o cen·rio de periferia e exclus„o social das comunidades diretamente afetadas.

Acrescenta-se, ainda, como mais um exemplo, o trabalho de Assis e Zucarelli (2007). Os autores (op. cit.) realizaram pesquisas de campo onde observaram os problemas sociais e ambientais decorrentes da expans„o dos agrocombustÌveis, tais como o ìdesmatamento, exploraÁ„o de m„o-de-obra indÌgena, concentraÁ„o de terra, expuls„o do agricultor familiar do campo, desrespeito ‡s leis trabalhistas, press„o sobre biomas e substituiÁ„o de cultivos alimentaresî (p.64). Para municÌpios que possuem forte influÍncia de atividades do agronegÛcio, È um desafio maior articular a atividade com a preservaÁ„o ambiental e a qualidade de vida da populaÁ„o.

Por fim, mencionam-se brevemente problemas ambientais decorrentes de grandes obras. A hidrelÈtrica de Barra Grande, construÌda no vale do rio Pelotas na divisa dos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, alÈm de inundar remanescentes de Floresta com Arauc·ria com importantes populaÁıes naturais de espÈcies ameaÁadas de extinÁ„o, e inundar uma Unidade de ConservaÁ„o Municipal de Vacaria (RS), na regi„o conhecida como ìOs Encanados do rio Pelotasî, trouxe tambÈm problemas sociais com a vinda dos trabalhadores para a construÁ„o da barragem e a expuls„o de propriet·rios de terras (PROCHNOW, 2005). Outras grandes obras, assim como aquelas relacionadas aos megaeventos, tambÈm tÍm sido alvo de crÌticas, o que demonstra a necessidade de serem melhor avaliadas neste contexto.

Os casos apresentados brevemente demonstram, mesmo que de forma simplificada, a variedade de problemas sociais e ambientais que precisam ser enfrentados em conjunto. A elaboraÁ„o do presente trabalho, que conduzir· a construÁ„o de temas, tipos e posteriormente recomendaÁıes para o nÌvel municipal, pretende contemplar tais situaÁıes.

O que È importante ressaltar aqui È a preocupaÁ„o de n„o se reduzir as estratÈgias de integraÁ„o urbano-ambiental em respostas restritas e pontuais, que n„o levem em consideraÁ„o as dimensıes que abrangem, e a realidade da complexa teia de poderes e relaÁıes existentes que fazem parte de qualquer processo coletivo.

1.3 Alguns direcionamentos

Costa (2000) apresenta duas abordagens que favorecem a convergÍncia entre o social/urbano e o ambiental: de um lado a an·lise das pr·ticas e movimentos em torno de alternativas de desenvolvimento econÙmico, processos de gest„o autÙnomos de governabilidade e gest„o; e,

7

de outro, a ·rea da histÛria ambiental, para romper ìas fronteiras analÌticas convencionais do tipo urbano-rural, construÌdo-intocado, social-naturalî (p.69).

Para Monte-MÛr (1994) um aspecto central da quest„o ambiental contempor‚nea È a

integraÁ„o cidade-campo e as relaÁıes cidade-regi„o, visto que as fronteiras entre cidade e

a integraÁ„o

metrÛpole-tecido urbano estendido, a re-invenÁ„o das relaÁıes urbano-rurais e as novas combinaÁıes espaÁo construÌdo-espaÁo natural aparecem como de import‚ncia centralî, sendo que a metrÛpole precisa ser pensada em suas contrapartidas de periferias prÛximas e distantes, e n„o apenas em si mesma. (MONTE-M”R, 1994, p.178).

regi„o e cidade e campo est„o menos distintas (MONTE-M”R, 2005). ì(

)

Maricato e Junior (2007) colocam que a intersetorialidade das aÁıes no campo da polÌtica urbana È fundamental, mas n„o È ainda observada efetivamente. Para Guimar„es (2001) dentre os principais desafios das polÌticas p˙blicas destaca-se a necessidade de ìterritorializar a sustentabilidade ambiental e social do desenvolvimentoî (p.49).

Para o Guimar„es (2001) o fator determinante da qualidade de vida e, consequentemente da sustentabilidade, ìn„o È unicamente seu entorno natural, e sim a rede de relaÁıes entre cinco componentes que configuram um determinado modelo de ocupaÁ„o do territÛrioî (grifo no original, p.53), e baseado em Duncan 4 (1961, apud Guimar„es, 2001, p.53), as apresenta da seguinte forma: (i) PopulaÁ„o (tamanho, composiÁ„o e din‚mica demogr·fica); (ii) OrganizaÁ„o Social (padrıes de produÁ„o e de resoluÁ„o de conflitos, e estratificaÁ„o social); (iii) Entorno (ambiente fÌsico e construÌdo, processos ambientais, recursos naturais); (iv) Tecnologia (inovaÁ„o, progresso tÈcnico, uso de energia); e (v) AspiraÁıes sociais (padrıes de consumo, valores, cultura).

A realizaÁ„o da inter-relaÁ„o entre estes componentes acima citados permitem compreender como, por exemplo, um paÌs como o Jap„o, com alta densidade demogr·fica e pobre em recursos naturais, È um dos paÌses mais desenvolvidos do mundo, devido ‡ incorporaÁ„o de territÛrios muito afastados (leia-se: a possibilidade de importaÁ„o de recursos naturais e externalizaÁ„o dos custos ambientais), somada a sua organizaÁ„o social e ‡ tecnologia, em outras palavras, o Jap„o supera as limitaÁıes ambientais e territoriais (GUIMAR ES, 2001).

Guimar„es (2001) sugere, portanto, conforme j· colocado em estudo anterior de Guimar„es e Maia 5 (1997, apud Guimar„es, 2001, p.54-55) que ìa sustentabilidade de um determinado territÛrio, em sua express„o ambiental, ser· dada pelo nÌvel de dependÍncia deste em relaÁ„o a ambientes externos e, em sua express„o socioambiental, pela dist‚ncia entre a satisfaÁ„o das necessidades b·sicas de seus habitantes e os padrıes de consumo conspÌcuo das elitesî.

Hogan et al (2010) traz a noÁ„o do estilo de vida para a discuss„o dos problemas ambientais. Para os autores (op. cit., p.42) ìos dilemas ambientais pouco tÍm a ver com o tamanho da populaÁ„o, mas muito mais com o estilo de vida que cada uma dessas regiıes possui.î E, consideram a cidade ìo local onde se expressam as principais transformaÁıes sociais e dos padrıes de consumoî (p.43).

4 DUNCAN, Otis D. From Social System to Ecosystem. Sociological Inquiry, Chicago, n.31, inverno, p.140-149,

1961.

5 GUIMAR ES, Roberto P. e MAIA, K·tia D. Padrıes de produÁ„o e padrıes de consumo: dimensıes e critÈrios de formulaÁ„o de polÌticas p˙blicas para o desenvolvimento sustent·vel. In: LEROY, Jean-Pierre,

MAIA, K·tia D. e GUIMAR ES, Roberto P. (orgs). Brasil sÈculo XXI: Os caminhos da sustentabilidade cinco anos depois da Rio-92. Rio de Janeiro, FASE, 1997.

8

Ainda para Guimar„es (2001), que tambÈm apresenta dimensıes da sustentabilidade, s„o os fundamentos sociais da sustentabilidade em paÌses com graves problemas de pobreza,

desigualdade e exclus„o, que devem ser o critÈrio b·sico de polÌtica p˙blica. PorÈm, o que se tem visto, s„o tentativas de ìtransformaÁıes cosmÈticas que tendem a ëesverdearí o estilo

ìO af„ do crescimento ilimitado baseado na

atual, sem de fato viabilizar as mudanÁasî (

crenÁa do desenvolvimento tecnolÛgico, igualmente ilimitado, sÛ È capaz de produzir a alienaÁ„o 6 dos seres humanosî (GUIMAR ES, 2001, p.62 e 67).

)

Smolka (1993) coloca muito bem a seguinte compreens„o: ìA cidade n„o representa apenas um palco privilegiado para a tragÈdia ambiental. Mais do que oferecer um cen·rio favor·vel ela È parte essencial do enredo, quando n„o a prÛpria tramaî (SMOLKA, 1993, p.133).

Smolka (1993) distingue duas questıes que emergem da intersecÁ„o entre o tema ambiental e

o intra-urbano: (i) questıes que decorrem dos problemas ambientais mais gerais sobre as

cidades, enquadradando-se, mais diretamente, as caracterÌsticas associadas ‡ localizaÁ„o geogr·fica, o ecossistema em que naturalmente est· inserida; (ii) ìquestıes ambientais introduzidas pela cidade enquanto forma particular de organizaÁ„o socialî (p.134).

Neste sentido, Smolka (1993) estabelece trÍs caracterÌsticas da cidade: ì(i) a justaposiÁ„o ou concentraÁ„o espacial de pessoas e atividades; (ii) a escala e diversidade de funÁıes desempenhadas; e (iii) sua base material na forma de um ambiente construÌdo.î (p.134). Em outras palavras, Smolka (1993) est· se referindo ‡s externalidades e outros efeitos de difus„o ou contaminaÁ„o, com impacto direto ao meio ambiente; ‡ direÁ„o do fluxo de bens, serviÁos

e informaÁ„o, com as outras unidades que compıem o sistema urbano; e a noÁ„o dos equipamentos fÌsicos e duradouros da cidade.

Como alternativas para o enfrentamento dos problemas ambientais, Smolka (1993) apresenta

o que considera duas lÛgicas, as quais s„o:

(i)

Atuar sobre os efeitos ñ atravÈs de introduÁ„o de constrangimento e/ou imposiÁıes ambientais, preservando-se contudo as regras do jogo vigente ñ isto È, do processo de estruturaÁ„o intra-urbano; ou

(ii)

Atuar sobre as causas, alterando aqueles processos respons·veis em primeiro plano por tais problemas. (grifo nosso, SMOLKA, 1993,

p.139)

Verifica-se na primeira alternativa a pretens„o de se potencializar as forÁas de mercado e a iniciativa individual, embora se submetendo a certas restriÁıes; e na segunda, ìuma mudanÁa mais radical nos costumes e no modo de vidaî (SMOLKA, 1993, p.139). PorÈm, o autor (op. cit.) considera ambas alternativas de difÌcil implementaÁ„o. Muitas das atividades que necessitariam ser restringidas (atuaÁ„o sobre os efeitos) ìs„o reaÁıes ou manifestaÁıes da incapacidade do sistema de prover habitaÁ„o, saneamento e transporte coletivo adequado a todosî (grifo no original, p.139). Da mesma forma, a atuaÁ„o sobre as causas, traz consigo os dilemas das alteraÁıes substanciais dos interesses em jogo, pois o enfrentamento de um problema seja social, urbanÌstico, ou outro, pode criar outro problema n„o-antecipado (op.cit.).

6 Aqui o autor refere-se ‡ alienaÁ„o com relaÁ„o ‡s necessidades reais de sobrevivÍncia e de crescimento espiritual.

9

Acselrad (2001) percebe dois caminhos para o desenvolvimento. O primeiro supıe a subordinaÁ„o dos sujeitos sociais ‡ lÛgica econÙmica, uma modernizaÁ„o tÈcnico-material e institucional. O autor (op. cit.) refere-se a um desenvolvimento voltado para a competitividade, baseado no domÌnio das tecnologias, em que o social aparece na qualidade de ìrecursos humanosî. O segundo caminho, ao contr·rio, coloca a cidadania como condiÁ„o do desenvolvimento, o qual seria movido prioritariamente pelas potencialidades do espaÁo territorial, uma descentralizaÁ„o que buscaria elevar os graus de auto-suficiÍncia microrregional, sendo a participaÁ„o democr·tica e a socializaÁ„o da polÌtica condiÁıes para o desenvolvimento, apoiado na diversidade de saberes dos sujeitos sociais sobre os seus territÛrios.

… possÌvel observar uma convergÍncia de percepÁıes dos dois caminhos apontados por Smolka (1993) e Acselrad (2001), o primeiro que seria um ìesverdeamentoî do atual modelo de civilizaÁ„o; e o segundo, que propıe uma ruptura, uma mudanÁa no modo de vida, construÌda pelos prÛprios sujeitos cidad„os.

2. O CONTEXTO DAS ESCALAS

Este capÌtulo sobre o contexto das escalas visa subsidiar a reflex„o acerca da variedade de tipos de interesse na tem·tica urbano-ambiental. Esta breve revis„o bibliogr·fica busca, portanto, apresentar alternativas de escalas apropriadas ao tema, as suas relaÁıes, e desta forma, contribuir para a construÁ„o da matriz.

Vainer (2002, p.14) analisa as escalas da aÁ„o polÌtica, pois o debate intelectual e polÌtico vÍm se realizando em categorias que remetem ‡s escalas espaciais, e pergunta: ìqual a escala pertinente (ou priorit·ria), seja para a an·lise econÙmica e social [e ambiental], seja para a aÁ„o polÌtica eficaz?î. No inÌcio do sÈculo havia uma oposiÁ„o entre as escalas nacional x internacional, atualmente o debate se faz entre local x global com uma participaÁ„o menos marcante da escala nacional.

Outro debate interessante colocado por Vainer (2002) diz respeito ao questionamento de que escala se constrÛi a cidadania? ìCidad„o local, cidad„o nacional, cidad„o global aparecem pois como os agentes/sujeitos polÌticos que viriam, cada um a seu modo, atualizar as diferentes escalas como espaÁos polÌticos estratÈgicos.î (grifo no original, p.23).

Para Vainer (2002) a an·lise da escala n„o pode substituir a dos processos, ìo que temos s„o processos com suas dimensıes escalares, quase sempre transescalaresî (grifo no original, p.24). As escalas priorit·rias s„o definidas onde os embates centrais se dar„o, escolher uma escala È escolher um sujeito, e um determinado modo e campo de confrontaÁ„o (op. cit.).

A

ideia central pode ser expressa como segue: qualquer projeto (estratÈgia?)

de

transformaÁ„o envolve, engaja e exige t·ticas em cada uma das escalas em

que hoje se configuram os processos sociais, econÙmicos e polÌticos estratÈgicos. (VAINER, 2002, p.25).

Na conclus„o de seu pensamento, Vainer (2002, p.28) compreende que em primeiro lugar È a cidade, o local, que ìconstitui escala e arena possÌveis de construÁ„o de estratÈgias transescalares e de sujeitos polÌticos aptos a operarem de forma articulada com coalizıes e alianÁas em m˙ltiplas escalasî (grifo no original). E, reforÁa, que È preciso reconhecer que a escala local n„o se encerra em si mesma. Monte-MÛr (2005) concorda que as articulaÁıes dos territÛrios variam de regiıes continentais a espaÁos locais, uma integraÁ„o multiescalar.

10

Hogan et al (2010) percebem duas escalas privilegiadas para se discutir a relaÁ„o populaÁ„o- ambiente: a da cidade e a da regi„o. A primeira se deve ao fato de que as cidades sobrepuseram os riscos ambientais e sociais, e a escala regional, por outro lado, È central para ìse entender as din‚micas agr·rias e dos ecossistemas, bem como os conflitos entre campo, cidade e ·reas protegidasî (HOGAN et al, 2010, p.53).

Outra escala de abordagem È aprofundada por Monte-MÛr (1994), o qual percebe mudanÁas nas lÛgicas de assentamento e povoamento, ao que denomina de urbanizaÁ„o extensiva. O autor (op. cit., p.170) deriva este termo da ìzona urbanaî de Henri LefËbvre, compreendendo esta como ìo est·dio da urbanizaÁ„o que se encontra para alÈm dos limites da ëcidade industrialí, ainda que a englobando.î A urbanizaÁ„o extensiva È, portanto, para Monte-MÛr (1994, p.171), ìesta urbanizaÁ„o que se estende para alÈm das cidades em redes que penetram virtualmente todos os espaÁos regionais integrando-os em malhas mundiais.î

Para o autor (op. cit.) os processos urbanos atingem todo o territÛrio nacional, com diferenÁas apenas em grau e intensidade, s„o ìas novas formas urbanas e/ou protourbanasî (p.173). Outra quest„o principal apresentada por Monte-MÛr (1994) diz respeito ‡ necessidade de mediaÁıes entre o nÌvel micro da an·lise relacionada aos aspectos da vida quotidiana, e as grandes questıes ditas urbanas: ìhabitaÁ„o, alimentaÁ„o, saneamento b·sico, transportes, serviÁos urbanos, poluiÁ„o industrial, padrıes de consumo etc.î (p.176). A escala local de organizaÁ„o espacial sociopolÌtica e econÙmica deixa de ser apenas o municÌpio para atingir o nÌvel microrregional ou local expandidoî (MONTE-M”R, 2005, p.438).

E a escala da cidade? O que È a cidade afinal? Conforme Souza (2003, p.24) ìa cidade È um objeto muito complexo e, por isso mesmo, muito difÌcil de se definir.î O autor (op. cit) mostra que h· muita controvÈrsia e discuss„o sobre o conceito de cidade, mas apresenta, de forma ìaproximadaî, que as cidades s„o ìassentamentos humanos extremamente diversificados, no que se refere ‡s atividades econÙmicas ali desenvolvidas, diferentemente dos assentamentos rurais que s„o as aldeias e os povoadosî.

Souza (2003, p.26) coloca que a cidade È a sede do municÌpio, e que sob o ‚ngulo do uso do solo e atividades econÙmicas, a cidade È um espaÁo de comÈrcio e serviÁos, um espaÁo de produÁ„o n„o-agrÌcola. AlÈm disso, Souza (2003) afirma que a cultura tem um papel crucial, a cidade È tambÈm sede do poder religioso e polÌtico, È um local onde as pessoas se organizam e interagem com base em diversos interesses e valores. J· o termo ìmunicÌpioî faz parte da organizaÁ„o polÌtico-administrativa da Rep˙blica Federativa do Brasil, conforme TÌtulo III, CapÌtulo I, da ConstituiÁ„o Federal de 1988.

Endlich (2010) coloca que falta uma definiÁ„o oficial mais criteriosa do que È cidade no Brasil. A autora trata que as cidades s„o consideradas as sedes municipais, e cita Veiga 7 que registra que essa regra foi criada no Estado Novo pelo Decreto-lei 311/38, e que o prÛprio Estatuto da Cidade n„o supriu essa lacuna. Segundo Endlich (op. cit.) È nas pequenas cidades que os limites estabelecidos entre o rural e o urbano s„o mais procurados, e questiona ìSer„o as pequenas cidades realmente cidades?î(p.13).

7 VEIGA, J.E. Cidades Imagin·rias: o Brasil È menos urbano do que se calcula. Campinas: Autores Associados, 2002. 301 p.

11

Sobarzo (2010) analisa Henri Lefebvre, e coloca que em sua obra n„o se encontrar· uma linha de corte, um critÈrio especÌfico de urbano e rural, e considera mais apropriado analisar a relaÁ„o campo/cidade (que n„o se igualam aos termos urbano e rural).

Para Lefebvre, a cidade pode ser lida como uma morfologia material, uma realidade presente, imediata, um dado pr·tico-sensÌvel, arquitetÙnico. O urbano corresponde ‡ morfologia social, uma realidade social composta de relaÁıes presentes e relaÁıes a serem concebidas, construÌdas ou reconstruÌdas pelo pensamento. Nesse sentido, as relaÁıes entre cidade e urbano s„o estreitas, j· que È impossÌvel para a vida urbana dispensar uma base pr·tico-sensÌvel, que se constitui em produto e condiÁ„o da din‚mica social (LEFEBVRE 8 ).

Numa analogia arriscada, poderÌamos pensar no campo e no rural. O campo poderia ser entendido como a base pr·tico-sensÌvel e o rural, a realidade social, mas logo nossa analogia perde sentido porque o urbano n„o se restringe ‡ parcela da sociedade que mora na cidade. Para Lefebvre, o urbano, a ìsociedade urbanaî, È uma virtualidade que carrega a constituiÁ„o de uma sociedade planet·ria, uma totalidade que modifica e transforma a agricultura e a ind˙stria, mas que n„o faz com que elas desapareÁam (SOBARZO, 2010, p. 58).

Fernandes (2008) percebe como um desafio urbano a necessidade de correspondÍncia entre as instituiÁıes jurÌdicas e a natureza efetiva dos processos econÙmicos e polÌtico-sociais existentes. O autor (op. cit., p. 125) d· destaque ‡ instituiÁ„o jurÌdica dos ìMunicÌpiosî, ìe o consequente conceito de autonomia municipal, quando a realidade da urbanizaÁ„o no Brasil È essencialmente metropolitanaî. Monte-MÛr (1994) tambÈm verifica que os fragmentos da cidade metropolitana espalham-se por todo o territÛrio nacional.

Fernandes (2008) aborda, portanto, a problem·tica da escala, pela dist‚ncia enorme no tratamento jurÌdico da realidade urbana. E, aponta que, para a quest„o ambiental, por exemplo, a escala varia novamente, sendo no mÌnimo a da microbacia. (FERNANDES, 2008).

Para Abrucio (2001) a transformaÁ„o do municÌpio em ente federativo, constitucionalmente com o mesmo status jurÌdico dos estados e da Uni„o, trouxe um processo de descentralizaÁ„o com efeitos perversos, tais como: a multiplicaÁ„o desenfreada dos municÌpios e a concorrÍncia pelo dinheiro p˙blico. Esta descentralizaÁ„o acaba, portanto, por ser contr·ria a agregaÁ„o de poderes locais. Abrucio (2001) considera que esse processo descentralizador reforÁou as desigualdades e destruiu a capacidade de planejamento sobre o necess·rio compartilhamento de polÌticas, e coloca que a ordem municipalista È anti-metropolitana, sendo este um dos grandes empecilhos da estrutura federativa.

Maricato e Junior (2007) tambÈm destacam que o Estatuto da Cidade consolidou e fortaleceu o papel dos municÌpios no planejamento e gest„o das cidades, no entanto, os problemas urbanos necessitam de tratamento nacional, em especial no que se refere ‡s metrÛpoles ñ problem·tica urbano-metropolitana. Os autores (op. cit.) destacam a import‚ncia de uma intervenÁ„o nacional para as metrÛpoles, para a definiÁ„o de diretrizes e para impulsionar polÌticas cooperadas e integradas.

… importante considerar, no entanto, que a ConstituiÁ„o Federal de 1988 (artigo 25, par·grafo 3), facultou aos Estados Federados instituir regiıes metropolitanas, aglomeraÁıes urbanas e

8 LEFEBVRE, H. O direito ‡ cidade. S„o Paulo: Moraes, 1991 [1968].

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microrregiıes, ìconstituÌdas por agrupamentos de municÌpios limÌtrofes, para integrar a organizaÁ„o, o planejamento e a execuÁ„o de funÁıes p˙blicas de interesse comum.î

Moura (2008) define o que seria a metrÛpole:

A metrÛpole corresponderia ‡ cidade principal de uma regi„o, aos nÛs de

comando e coordenaÁ„o de uma rede urbana que n„o sÛ se destacam pelo tamanho populacional e econÙmico, como tambÈm pelo desempenho de funÁıes complexas e diversificadas, por uma multifuncionalidade, e que estabelecem relaÁıes econÙmicas com v·rias outras aglomeraÁıes e com o mundo (MOURA, 2008, p.105).

AlÈm das Regiıes Metropolitanas (RMs), h· as Regiıes Integradas de Desenvolvimento (RIDES), para situaÁıes que integram mais de uma unidade federativa 9 . J· a aglomeraÁ„o urbana, para Moura (2008, p.105) pode ser entendida como:

( )

polarizada por um centro, que pode ser ou n„o uma metrÛpole. Em seu interior potencializa-se a geraÁ„o de valor, as maiores densidades de populaÁ„o e atividades, e realizam-se as maiores intensidades de fluxos econÙmicos e populacionais, relativamente ‡ regi„o em que se localizam. As aglomeraÁıes envolvem municÌpios, ou parte deles, fortemente integrados ‡ mesma din‚mica, cada qual cumprindo papÈis especÌficos. (MOURA, 2008,

p.105)

uma mancha de ocupaÁ„o contÌnua, ou mesmo descontÌnua, diretamente

No entanto, conforme Moura (2008), permanecem entraves ‡ gest„o compartilhada, que esbarra na fragilidade do complexo ambiente jurÌdico-institucional das regiıes. Essas unidades regionais s„o reconhecidas como espaÁo de express„o econÙmica e social, porÈm n„o de direito, ìpois n„o circunscrevem territÛrios aptos a normatizar, decidir ou exercer o poder ñ apenas uma estrutura meramente administrativaî (MOURA, 2008, p.116).

Motta (2004, p.136) coloca que uma das tendÍncias da rede urbana em diversas regiıes do Brasil È o ìpeso crescente das aglomeraÁıes urbanas metropolitanas e dos centros urbanos mÈdiosî, e a ìconsolidaÁ„o da formaÁ„o de aglomeraÁıes urbanas n„o-metropolitanasî, por outro lado, ìas pequenas cidades apresentam saldo migratÛrio negativoî. Outra tendÍncia tem sido a da periferizaÁ„o:

A significativa periferizaÁ„o, ou seja, o aumento da ocupaÁ„o de ·reas

perifÈricas pela populaÁ„o, em especial a de baixa renda, em centros urbanos

de grande e mÈdio porte vem acentuando o surgimento de ·reas urbanas

informais. Essa situaÁ„o È agravada pela dificuldade de acesso ‡ terra e por deficiÍncias legais, o que vem favorecendo a ocupaÁ„o informal dos centros urbanos, notadamente nas ·reas centrais e nas periferias das aglomeraÁıes urbanas metropolitanas e n„o-metropolitanas (MOTTA, 2004, p. 140).

9 Mais informaÁıes sobre as Regiıes Metropolitanas do Brasil est„o disponÌveis na seguinte publicaÁ„o:

OBSERVAT”RIO DAS METR”POLES. An·lise das Regiıes Metropolitanas do Brasil. RelatÛrio da atividade 1: identificaÁ„o dos espaÁos metropolitanos e construÁ„o de tipologias. ConvÍnio MinistÈrio das Cidades/ObservatÛrio das MetrÛpoles/FASE/IPARDES. BrasÌlia, 2005a. 118 p. DisponÌvel em http://www.observatoriodasmetropoles.ufrj.br/produtos/produto_mc_1.pdf. Acesso em: Jul/2011.

13

Torres (2002) mostra a crise sanit·ria e de pobreza nas periferias das metrÛpoles brasileiras. A porcentagem de habitaÁ„o, fornecimento de ·gua, coleta de esgoto e de lixo, È menor nos municÌpios perifÈricos do que na cidade pÛlo da metrÛpole. A pesquisa do ObservatÛrio das MetrÛpoles (2005b, p.13) observou nas Regiıes Metropolitanas que ì‡ medida que os municÌpios se distanciam do pÛlo, ou quanto menor o seu nÌvel de integraÁ„o ‡ din‚mica da aglomeraÁ„o, sua condiÁ„o social vai piorando.î Para Torres (2002) È nas periferias das ·reas metropolitanas que deve ser dado o principal foco de polÌticas sociais e ambientais no Brasil.

Outro desafio vislumbrado È o de se integrar os diversos setores do planejamento, considerando que cada setor, em cada realidade, possui sua escala mais adequada de

planejamento e gest„o, e consequentemente de polÌtica p˙blica. E, ao mesmo tempo, o desafio

de articular as polÌticas setoriais entre si tendo que lidar com diferentes instituiÁıes jurÌdicas e

limites polÌticos que muitas vezes n„o correspondem ‡ dimens„o desejada para determinadas aÁıes.

Verifica-se, por fim, a presenÁa de v·rias escalas interdependentes, e a Ínfase a uma abordagem regional. As ·reas perifÈricas, e de expans„o urbana tambÈm requerem uma atenÁ„o especial. O importante È n„o se restringir aos limites de uma escala sem perceber as suas relaÁıes. Aponta-se para a necessidade de um rompimento das fronteiras convencionais e a percepÁ„o das interaÁıes possÌveis.

3. A CONSTRU« O DA MATRIZ

A matriz tem por objetivo relacionar tipos do ambiente urbano com foco na problem·tica

ambiental no Brasil, com temas da polÌtica ambiental urbana. O resultado deste cruzamento tipos X temas ser„o as recomendaÁıes voltadas para as prefeituras municipais, a serem

apresentadas no RTFinal. O Quadro 01 a seguir apresenta o esquema geral da matriz.

Quadro 01: Esquema geral da matriz.

esquema geral da matriz. Quadro 01: Esquema geral da matriz. Assim, para a constru Á„o da

Assim, para a construÁ„o da matriz È apresentado a seguir as referÍncias e as definiÁıes dos temas e tipos.

14

3.1 Temas

Nesta seÁ„o s„o apresentadas, de inÌcio, algumas referÍncias que mostram propostas de mÈtodos de avaliaÁ„o da sustentabilidade, com o objetivo de verificar quais s„o os indicadores aplicados, a fim de contribuir no lanÁamento dos temas e verificar a sua adequaÁ„o. Em seguida, os temas s„o definidos.

3.1.1 Propostas de mensuraÁ„o da sustentabilidade

Em nossa abordagem, um municÌpio È considerado mais ou menos sustent·vel ‡ medida que È capaz de manter ou melhorar a sa˙de de seu sistema ambiental, minorar a degradaÁ„o e o impacto antrÛpico, reduzir a desigualdade social e prover os habitantes de condiÁıes b·sicas de vida, bem como de um ambiente construÌdo saud·vel e seguro, e ainda de construir pactos polÌticos que permitam enfrentar desafios presentes e futuros. Ademais, para ser considerada sustent·vel, n„o È suficiente que confira a seus habitantes condiÁıes ambientais equilibradas, mas que o faÁa mantendo

baixos nÌveis de externalidades negativas sobre outras regiıes (prÛximas ou distantes) e sobre o futuro. Isso implica atentar no apenas para a escala local da sustentabilidade, mas tambÈm para a escala regional, constituÌda pelas

relaÁıes com o entorno, e a escala global (

)

(BRAGA et al, 2004, p. 13)

Braga et al (2004), baseados no Environmental Sustainability Index (ESI, 2002) 10 e no estudo de Paula (1997) 11 , constroem um sistema Ìndices de sustentabilidade municipal composto por quatro Ìndices tem·ticos: (i) qualidade do sistema ambiental local, que mensura o grau de sa˙de do sistema ambiental do municÌpio; (ii) qualidade de vida humana, que mensura a capacidade do municÌpio em reduzir a desigualdade social, prover condiÁıes b·sicas de vida aos habitantes, e um ambiente construÌdo saud·vel e seguro; (iii) press„o antrÛpica, que mensura o potencial de degradaÁ„o, e o grau de impacto antrÛpico no municÌpio; e (iv) capacidade polÌtica e institucional, que mensura a capacidade para o enfrentamento de desafios presentes e futuros.

Estes quatro Ìndices estabelecem indicadores de estado, press„o e resposta, que refletem condiÁıes presentes na escala local e regional. O Ìndice de qualidade do sistema ambiental È avaliado por meio da qualidade da ·gua do rio, sendo obtido por uma mÈdia dos Õndices de Qualidade da £gua de Barbosa (1997) 12 . Os demais Ìndices tem·ticos possuem os seguintes indicadores (BRAGA et al, 2004, p.20):

- (i) Qualidade de vida humana:

- Qualidade de habitaÁ„o

- CondiÁıes de vida

- Renda

10 ESI, 2002. 2002 Environmental Sustainability Index ñ an initiative of the global leaders of tomorrow environmental task force. (In collaboration with: Yale Center for Environmental Law and Policy Yale University and Center for International Earth Science Information Network Columbia University). DisponÌvel em:

<http://www.ciesin.columbia.edu>.

11 PAULA, Jo„o A. et al. Biodiversidade, populaÁ„o e economia: uma regi„o de mata atl‚ntica. Belo Horizonte:

UFMG/Cedeplar; ECMXC; PADCT/CIAMB, 1997.

12 BARBOSA, F. (Coord.). Impactos antrÛpicos e biodiversidade aqu·tica. In: PAULA, Jo„o A. et al. Biodiversidade, populaÁ„o e economia: uma regi„o de mata atl‚ntica. Belo Horizonte: UFMG/Cedeplar; ECMXC; PADCT/CIAMB, 1997.

15

- Sa˙de e seguranÁa ambiental

- ServiÁos sanit·rios

- (ii) Press„o AntrÛpica:

- Press„o urbana

- Press„o industrial

- Press„o agropecu·ria

- Cobertura vegetal

- (iii) Capacidade institucional:

- Autonomia polÌtico-administrativa

- Gest„o p˙blica municipal

- Gest„o ambiental

- InformaÁ„o e participaÁ„o

A pesquisa de Braga et al (2004) apresenta a composiÁ„o de cada indicador, e desenvolve

quatro testes metodolÛgicos atÈ chegar a uma metodologia estatÌstica, a qual È aplicada para

os municÌpios da bacia do Piracicaba/MG. A metodologia aplicada tambÈm se utiliza do barÙmetro da sustentabilidade (Prescott-Allen, 1995) 13 .

O resultado apresenta a comparaÁ„o dos Ìndices entre os municÌpios, e uma classificaÁ„o de

baixa, razo·vel, boa e alta qualidade de vida comparada ‡ baixa, moderada, mÈdia e alta

press„o antrÛpica.

Bellen (2007) realizou uma an·lise comparativa entre 18 ferramentas que buscam mensurar a sustentabilidade. De acordo com o autor (op. cit), a Pegada EcolÛgica foi a ferramenta mais citada por especialistas como sendo a mais promissora quanto ‡ avaliaÁ„o do processo de desenvolvimento, sob a perspectiva da sustentabilidade.

A Pegada EcolÛgica, desenvolvida por Mathis Wackernagel e William Rees, È uma

ferramenta de an·lise que permite estimar o consumo de recursos e a capacidade de assimilaÁ„o de resÌduos gerados, de uma determinada populaÁ„o ou economia, em termos de ·rea produtiva correspondente (WACKERNAGEL; REES, 1996). Em outras palavras, a Pegada EcolÛgica promove a comparaÁ„o entre o que o planeta Terra È capaz de produzir e se regenerar, em relaÁ„o ‡ demanda das pessoas.

A

Pegada EcolÛgica permite verificar que muitas cidades se sustentam ‡ custa da apropriaÁ„o

de

uma ·rea, para produÁ„o e regeneraÁ„o dos recursos naturais utilizados, muitas vezes

superiores ‡ sua ·rea de limite polÌtico. O que demonstra as externalidades dos custos

ambientais para outras populaÁıes.

O mÈtodo de avaliaÁ„o da Pegada EcolÛgica relaciona categorias de uso (apropriaÁ„o dos

recursos naturais), com correspondente ·rea de terra ecologicamente produtiva necess·ria para proporcionar tais usos, apresentando o resultado em hectares per capita. As categorias de uso utilizadas por Wackernagel e Rees (1996) s„o as seguintes:

(i) AlimentaÁ„o: (a) frutas, vegetais e gr„os, e (b) produÁ„o animal. (ii) EdificaÁıes: (a) construÁ„o e manutenÁ„o, e (b) operaÁ„o.

13 PRESCOTT-ALLEN, R. Barometer of sustainability: a method of assessing progress toward sustainable societies. Victoria: Padata, 1995.

16

(iii)

Transporte: (a) veÌculo motorizado privado, (b) veÌculo motorizado p˙blico, e

(c)

transporte de mercadorias.

(iv)

Bens de consumo: (a) pacotes, (b) vestu·rio, (c) mÛveis e aplicativos, (d)

livros e revistas, (e) tabaco e ·lcool, (f) cuidado pessoal, (g) equipamentos

de recreaÁ„o, e (h) outras mercadorias.

(v) ServiÁos: (a) governo e militares, (b) educaÁ„o, (c) serviÁos de sa˙de, (d)

serviÁos sociais, (e) turismo, (f) entretenimento, (g) serviÁos banc·rios e de

seguros, e (h) outros serviÁos.

As categorias de ·reas de terra ecologicamente produtivas equivalente s„o as seguintes:

(i)

·rea para geraÁ„o de energia (combustÌvel fÛssil),

(ii)

·rea degradada (·rea construÌda),

(iii)

hortas e pomares (produÁ„o de vegetais e frutas),

(iv)

cultivos,

(v)

pastoril (leite, carne e l„),

(vi)

floresta manejada (madeira).

A matriz de avaliaÁ„o da Pegada EcolÛgica È apresentada no Quadro 02 a seguir:

Quadro 02: Matriz da Pegada EcolÛgica conforme Wackernagel e Rees (1996).

da Pegada Ecol Ûgica conforme Wackernagel e Rees (1996). A Pegada Ecol Ûgica pode ser aplicada

A Pegada EcolÛgica pode ser aplicada em v·rias situaÁıes, para pessoas, objetos, paÌses, entre outros. Coelho-de-Souza (2009) adaptou a Pegada EcolÛgica para avaliaÁ„o de municÌpios de pequeno porte, como parte integrante do diagnÛstico municipal destinado ‡ elaboraÁ„o do Plano Diretor. A autora (op. cit.) observa, no entanto, que esta ferramenta busca mensurar somente a dimens„o ambiental da sustentabilidade, devendo ser avaliada em conjunto com demais indicadores sociais, econÙmicos e culturais.

De acordo com Coelho-de-Souza (2009, p.159) a adaptaÁ„o da Pegada EcolÛgica integrada ao processo de leitura da cidade para elaboraÁ„o de sua polÌtica urbana local contribui para:

ìintroduzir uma perspectiva sustent·vel no planejamento das cidades; tornar visÌveis e compar·veis as diferentes pressıes ambientais; alertar para a necessidade de mudanÁa; permitir a verificaÁ„o, ou n„o, do nÌvel de dependÍncia da cidade de recursos externos; proporcionar a transformaÁ„o do conceito de desenvolvimento sustent·vel em uma definiÁ„o mais operacional, entre outrosî. AlÈm disso, permite o monitoramento do planejamento ao longo do tempo.

17

Coelho-de-Souza (2009) utiliza as seguintes categorias de uso do solo:

(i)

AlimentaÁ„o: (a) frutas, vegetais e gr„os, e (b) produÁ„o animal.

(ii)

Transporte: (a) gasolina/·lcool, e (b) diesel.

(iii)

Saneamento: (a) ·gua, (b) esgoto, (c) lixo org‚nico e (d) lixo seco.

(iv)

Ambiente ConstruÌdo: (a) ·rea urbana (densa), e (b) ·rea rural

Os nÌveis de impacto ambiental s„o representados pela quantidade de ·rea de solo produtiva necess·ria para proporcionar aos habitantes do municÌpio alimentaÁ„o, transporte, saneamento e o ambiente construÌdo (Coelho-de-Souza, 2009, p.71). As correspondentes ·reas de solo produtivo s„o, portanto, as seguintes:

(i)

Energia: ·rea necess·ria para o seq¸estro de g·s carbÙnico.

(ii)

ConstruÌda: ·rea ocupada por edificaÁıes, ·reas pavimentadas e ·reas

contaminadas.

(iii)

Cultivo: ·rea ocupada por plantaÁıes.

(iv)

Pastoril: ·rea ocupada para o pastoreio de animais.

A matriz da ferramenta da avaliaÁ„o da sustentabilidade ambiental, adaptada da Pegada EcolÛgica, desenvolvida por Coelho-de-Souza (2009), denominada de DSA ñ DiagnÛstico da Sustentabilidade Ambiental ñ È apresentada no Quadro 03:

Quadro 03: Matriz do DiagnÛstico da Sustentabilidade Ambiental de municÌpios de pequeno porte conforme Coelho-de-Souza (2009).

do Diagn Ûstico da Sustentabilidade Ambiental de munic Ìpios de pequeno porte conforme Coelho-de-Souza (2009). 18

18

Nota-se, que em Coelho-de-Souza (2009) s„o avaliadas tambÈm as boas pr·ticas realizadas nos municÌpios que reduzem seu impacto ambiental, destacadas na coluna de ì£rea de impacto reduzidoî, cujo valor encontrado È subtraÌdo na tabela com o objetivo de incentivar tais pr·ticas, e por fim, s„o destacadas as ·reas protegidas. O resultado se d· em valor numÈrico em hectares por habitante.

AlÈm da pegada ecolÛgica, outras ferramentas de mensuraÁ„o da sustentabilidade foram analisadas mais detalhadamente por Bellen (2007), trata-se do painel (dashboard) da sustentabilidade e o barÙmetro da sustentabilidade. Para o presente trabalho destaca-se a apresentaÁ„o de seus indicadores.

O desenvolvimento do painel da sustentabilidade È liderado pelo Consultative Group on Sustainable Development Indicators (CGSDI). Os indicadores utilizados por este mÈtodo s„o apresentados a seguir por dimens„o contemplada:

(i) Dimens„o EcolÛgica:

- MudanÁa Clim·tica

- DepleÁ„o da camada de ozÙnio

- Qualidade do ar

-

-

- DesertificaÁ„o

-

- Zona Costeira

-

- Quantidade de ·gua

- Qualidade da ·gua

-

- EspÈcies

Agricultura

Florestas

UrbanizaÁ„o

Pesca

Ecossistema

(iii)Dimens„o EconÙmica:

- Performance econÙmica

- ComÈrcio

- Estado financeiro

- Consumo de materiais

- Consumo de energia

- GeraÁ„o e gest„o de lixo

- Transporte

(ii) Dimens„o Social:

- Õndice de pobreza

- Igualdade de gÍnero

- Padr„o nutricional

-

-

- CondiÁıes sanit·rias

- £gua pot·vel

- NÌvel educacional

-

- Moradia

- ViolÍncia

-

Sa˙de

Mortalidade

AlfabetizaÁ„o

PopulaÁ„o

(iv)Dimens„o Institucional:

- ImplementaÁ„o estratÈgica do

desenvolvimento sustent·vel

- CooperaÁ„o internacional

- Acesso ‡ informaÁ„o

- Infraestrutura de comunicaÁ„o

- CiÍncia e tecnologia

- Desastres naturais ñ preparo e

resposta

- Monitoramento do desenvolvimento sustent·vel

Por fim, apresentam-se breves consideraÁıes a respeito do BarÙmetro da Sustentabilidade, ligado aos institutos World Conservation Union (IUCN) e International Development Research Centre (IDRC), tendo o pesquisador Prescott-Allen na lideranÁa do desenvolvimento da ferramenta. O barÙmetro da sustentabilidade apresenta escalas de avaliaÁ„o: bom (verde), razo·vel (azul), mÈdio (amarelo), pobre (rosa) e ruim (vermelho). O mÈtodo utiliza dois subsistemas, o humano e o ambiental, e admite para cada cinco dimensıes. Em cada dimens„o È admitida uma variedade de questıes. Um exemplo do

19

sistema b·sico para a construÁ„o do barÙmetro da sustentabilidade È apresentado por Bellen (2007, p.152):

(i) Sociedade (dimensıes humana)

- Sa˙de e populaÁ„o (sa˙de mental e fÌsica, doenÁa, mortalidade, fertilidade, mudanÁa populacional)

- Riqueza (economia, sistema financeiro, receita, pobreza, inflaÁ„o, emprego,

comÈrcio, bens materiais, necessidades b·sicas de alimentaÁ„o, ·gua e proteÁ„o)

- Conhecimento e cultura (educaÁ„o, pesquisa, conhecimento, comunicaÁ„o,

sistema de crenÁas e valores)

- Comunidade (direitos e liberdades, governanÁa, instituiÁıes, lei, paz, crime,

ordenamento civil)

- Equidade (distribuiÁ„o de benefÌcios entre raÁas, sexos, grupos Ètnicos e outras divisıes sociais)

(ii) Ecossistema (dimensıes ecolÛgicas) - Terra (diversidade e qualidade das ·reas de floresta, cultivo e outros ecossistemas, incluindo modificaÁ„o, convers„o e degradaÁ„o)

- £gua (diversidade e qualidade das ·guas e ecossistemas marinhos, incluindo

modificaÁ„o, poluiÁ„o e esgotamento)

- Ar (qualidade do ar interna e externa, condiÁ„o da atmosfera global)

- EspÈcies (espÈcies selvagens, populaÁ„o, diversidade genÈtica)

- UtilizaÁ„o de recursos (energia, geraÁ„o de dejetos, reciclagem, press„o da agricultura, pesca, mineraÁ„o)

Destas referÍncias apresentadas, destaca-se os Ìndices de sustentabilidade municipal de Braga et al (2004); as categorias de uso do solo do diagnÛstico da sustentabilidade ambiental de Coelho-de-Souza (2009), adaptado da Pegada EcolÛgica; e, por fim, os indicadores por dimensıes desenvolvidos pelo painel da sustentabilidade e o barÙmetro da sustentabilidade. A sÌntese das referÍncias È apresentada no Quadro 04 abaixo:

Quadro 04: SÌntese das referÍncias de mÈtodos de avaliaÁ„o da sustentabilidade

Õndices de

DiagnÛstico da

Painel da

BarÙmetro da

Sustentabilidade

Sustentabilidade

Sustentabilidade

Sustentabilidade

Municipal

Ambiental

(i) qualidade do sistema ambiental;

Dimens„o

(i) dimens„o

(i) dimensıes

Ambiental:

ecolÛgica;

humanas; e

(ii) qualidade de vida humana;

(i) alimentaÁ„o;

(ii) dimens„o social;

(ii) dimensıes

(ii) transporte;

(iii)

dimens„o

ecolÛgicas

(iii)

press„o

(iii)

saneamento; e

econÙmica; e

antrÛpica; e

(iv)

ambiente

(iv)

dimens„o

(iv)

capacidade

construÌdo

institucional

institucional.

Observam-se pelo quadro sÌntese, dimensıes e Ìndices comuns, que remetem aquelas dimensıes da sustentabilidade de Sachs (1993; 2002). Verifica-se tambÈm, que o mÈtodo do painel da sustentabilidade mostra-se mais abrangente, similar aos Ìndices de sustentabilidade municipal, j· as demais ferramentas inserem-se, de certa forma, nestas.

20

Utilizaremos estas referÍncias para realizar o exercÌcio de verificar se os temas a serem utilizados na matriz atendem ao que È avaliado nas ferramentas que buscam mensurar a sustentabilidade, conforme ser· apresentado a seguir.

3.1.2 ApresentaÁ„o dos temas

Lembramos que o RT01 referente a esta consultoria, tratou de temas relativos ‡ consultoria paralela realizada, referente ao Levantamento do Estado da Arte na tem·tica das Cidades Sustent·veis, os quais s„o:

(i)

o planejamento urbano e uso sustent·vel do solo;

(ii)

a mobilidade urbana;

(iii)

a proteÁ„o e valorizaÁ„o de ·reas naturais (·reas verdes e p˙blicas);

(iv)

a conservaÁ„o de ·gua, recursos naturais e energia;

(v)

construÁıes sustent·veis;

(vi)

padrıes de produÁ„o e consumo sustent·vel;

(vii)

o saneamento b·sico (abastecimento de ·gua, esgotamento sanit·rio, resÌduos sÛlidos e manejo de ·guas pluviais);

(viii)

medidas voltadas para a adaptaÁ„o das cidades, aos impactos decorrentes da mudanÁa do clima;

(ix)

a qualidade do ar e

(x)

poluiÁ„o sonora.

Somado a estes, o RT01 acrescentou o seguinte tema:

(xi) Gest„o integrada

Em reuni„o ocorrida em 28 de junho de 2011 junto ‡ equipe tÈcnica da SRHU/MMA, tendo sido apresentado o contexto da problem·tica urbano-ambiental (capÌtulo 01), e reapresentados os temas do RT01, foram lanÁados os seguintes temas de relev‚ncia para a agenda urbano- ambiental:

(i)

planejamento urbano e regional

(ii)

expans„o urbana e (re) urbanizaÁ„o sustent·veis

(iii)

mobilidade e acessibilidade

(iv)

poluiÁ„o do ar

(v)

poluiÁ„o sonora

(vi)

edificaÁıes sustent·veis

(vii)

·reas protegidas (APPs e UCs), ·reas verdes e parques urbanos

(vii)

recursos hÌdricos (mananciais, impermeabilizaÁ„o, disponibilidade e manejo das ·guas, poluiÁ„o da ·gua estuarina, marinha, fluvial e aquÌferos, assoreamento)

(viii)

infraestruturas das ·guas (abastecimento de ·gua, drenagem de ·guas pluviais e fluviais, esgotamento sanit·rio)

(ix)

resÌduos sÛlidos

(x)

gest„o ambiental (comitÍ de bacias, Ûrg„o ambiental, conselho de meio ambiente, conselho de desenvolvimento urbano)

(xi)

mudanÁas clim·ticas medidas de mitigaÁ„o (matriz energÈtica) e adaptaÁ„o (desastres naturais)

(xii)

padrıes de produÁ„o e consumo

21

(xiii)

educaÁ„o ambiental

(xiv) patrimÙnio cultural (natural e construÌdo)

Como forma de verificar o atendimento das dimensıes abordadas nas ferramentas de avaliaÁ„o da sustentabilidade, tendo como base o painel da sustentabilidade devido a sua maior abrangÍncia (ver Quadro 04), È realizado o agrupamento dos temas por dimens„o, conforme verificado no Quadro 05 a seguir.

Quadro 05: Agrupamento dos temas por dimensıes de an·lise da sustentabilidade

Dimens„o EcolÛgica (pressıes antrÛpicas sobre a terra, o ar e a ·gua)

Dimens„o Social (qualidade de vida humana)

Dimens„o EconÙmica (promoÁ„o do uso de recursos naturais)

Dimens„o

Institucional

(gest„o p˙blica,

 

informaÁ„o)

-

planejamento

-

mobilidade e

infraestruturas das ·guas

-

- gest„o ambiental

urbano e regional

acessibilidade

- educaÁ„o ambiental

-

expans„o urbana e

- poluiÁ„o sonora

- resÌduos sÛlidos

- mudanÁas

(re) urbanizaÁ„o

- edificaÁıes

- mudanÁas

clim·ticas

sustent·veis

sustent·veis

clim·ticas

(adaptaÁ„o-desastres

·reas protegidas, ·reas verdes e parques urbanos

-

-

padrıes de

(mitigaÁ„o-matriz

naturais)

produÁ„o e consumo

energÈtica)

-

patrimÙnio cultural

- poluiÁ„o do ar

 

- recursos hÌdricos

Pelo Quadro 05 verifica-se que todas as dimensıes est„o contempladas pelos temas propostos, considera-se, portanto, que os temas est„o adequados.

Para simplificar a matriz e reduzir a quantidade de temas, verifica-se a oportunidade de agrupamento por similaridade e a discretizaÁ„o de um grupo de temas que possuem uma maior transversalidade aos demais. Os temas transversais s„o compreendidos como aqueles que tÍm condiÁıes de serem contemplados nas aÁıes propostas por todos os demais temas. Assim, a construÁ„o dos temas resulta nos seguintes ìgrandes temasî e ìtemas transversaisî:

Grandes temas

(i)

planejamento urbano e regional

(ii)

expans„o urbana e (re) urbanizaÁ„o sustent·veis

(iii)

mobilidade e acessibilidade, poluiÁ„o do ar e poluiÁ„o sonora

(iv)

edificaÁıes sustent·veis

(v)

·reas protegidas (APPs e UCs), ·reas verdes e parques urbanos

(vi)

recursos hÌdricos (mananciais, impermeabilizaÁ„o, disponibilidade e manejo das ·guas, poluiÁ„o da ·gua estuarina, marinha, fluvial e aquÌferos, assoreamento) e suas infraestruturas (abastecimento de ·gua, drenagem de ·guas pluviais e fluviais, esgotamento sanit·rio)

(vii)

resÌduos sÛlidos

(viii)

gest„o ambiental (comitÍ de bacias, Ûrg„o ambiental, conselho de meio ambiente, conselho de desenvolvimento urbano)

22

Temas transversais:

(ix)

mudanÁas clim·ticas (mitigaÁ„o e adaptaÁ„o)

(x)

padrıes de produÁ„o e consumo

(xi)

educaÁ„o ambiental

(xii)

patrimÙnio cultural (natural e construÌdo) 14

Ressalta-se que muitos destes temas j· possuem polÌticas prÛprias, porÈm, o que se objetiva aqui, È mostrar a integraÁ„o de tais temas tendo como foco ìcidades sustent·veisî.

3.2

Tipos

Apresenta-se, inicialmente, uma sÈrie de trabalhos j· realizados que desenvolveram tipologias

para diversas realidades, e estudos que tratam da an·lise de diferentes biomas, e de aspectos

da gest„o ambiental no Brasil. Por fim, apresentam-se os critÈrios e a definiÁ„o dos tipos para

aplicaÁ„o na matriz.

3.2.1 Tipologias referenciais

Neste capÌtulo s„o levantadas tipologias j· construÌdas que servir„o de base para a construÁ„o da matriz. Apresenta-se, inicialmente, a tipologia desenvolvida pelo ObservatÛrio das MetrÛpoles; a do Plano Nacional de HabitaÁ„o, a qual foi baseada no trabalho do ObservatÛrio das MetrÛpoles; uma tese sobre gest„o ambiental nos municÌpios brasileiros que aborda vari·veis da quest„o ambiental para a classificaÁ„o de municÌpios; e, finalmente, uma vis„o por biomas, em estudos desenvolvidos pela GEO-Brasil.

3.2.1.1 Tipologia das Cidades Brasileiras ñ ObservatÛrio das MetrÛpoles

Esclarece-se, de inÌcio, que todo este subcapÌtulo 3.2.1.1, suas subdivisıes, citaÁıes e conte˙do, foram retirados do trabalho do ObservatÛrio das MetrÛpoles (2009). O objetivo aqui È o de apresentar o trabalho do ObservatÛrio das MetrÛpoles de modo suscinto para contribuir na elaboraÁ„o de tipologias voltadas ‡s questıes ambientais.

A publicaÁ„o do ObservatÛrio das MetrÛpoles (2009) teve como objetivo o de identificar e

classificar os municÌpios brasileiros. As cidades s„o entendidas a partir de sua import‚ncia frente ao desenvolvimento regional. ìNesta perspectiva, pode-se sustentar que cidade consiste no conjunto de populaÁ„o, atividades e infra-estruturas sociais, culturais e econÙmicas

concentradas em territÛrio delimitado e relativamente pequeno, orientadas para a produÁ„o de valor e de meios de reproduÁ„o do trabalho.î (p.01).

A maioria das grandes metrÛpoles n„o deixaram de crescer, porÈm, o seu crescimento se

concentrou nas periferias metropolitanas, as quais expressam problemas urbanos de pobreza, exclus„o social e riscos ambientais. Por outro lado verificou-se, especialmente nas regiıes

mais din‚micas, a constituiÁ„o de um conjunto expressivo de cidades mÈdias, reduzindo a dependÍncia pelas grandes metrÛpoles. O estudo tambÈm verificou parcelas consider·veis do

14 Com a transversalidade do tema ìpatrimÙnio culturalî busca-se enfatizar a noÁ„o de que as aÁıes humanas devem interferir o mÌnimo possÌvel no meio, È preciso reconhecer, respeitar e preservar as tradiÁıes, os valores locais, e ·reas de interesse coletivo, como, por exemplo, lugares, paisagens, espaÁos naturais que possuem valor cÍnico, simbÛlico, sagrado, de identidade e pertencimento, etc. Incluem-se tambÈm a noÁ„o da manutenÁ„o e resgate das pr·ticas tradicionais e de relev‚ncia para a comunidade, tais como formas de trabalho, de subsistÍncia, tÈcnicas construtivas, entre outros aspectos.

23

territÛrio ainda precariamente atendidas pela urbanizaÁ„o, e, as fronteiras pioneiras no paÌs ainda carecem de cidades. Deve-se reconhecer a diversidade de situaÁıes que ocorrem no territÛrio, e para cada situaÁ„o, assinalar um conjunto de aÁıes especÌficas.

Assim, ·reas sem integraÁ„o ou isoladas n„o podem ser objeto dos mesmos instrumentos de polÌtica urbana aplicados a ·reas de crescimento acelerado e integradas, mas sem urbano. As cidades de regiıes estagnadas e de baixa

acumulaÁ„o de riqueza devem ser dirigidos investimentos distintos daqueles a serem aplicados em cidades mÈdias onde a ìcriseî urbana das grandes cidades

j· se reproduz; para as grandes metrÛpoles, a aÁ„o vai privilegiar a extremada

concentraÁ„o de populaÁ„o e riqueza, o desequilÌbrio ambiental, as demandas

de reproduÁ„o do trabalho historicamente reprimidas e as disparidades sociais.

Nestas ˙ltimas, os conflitos e as carÍncias adquiriram grandes proporÁıes, e exigem atenÁ„o especial. (p. 4-5).

… proposto que a tipologia para o conjunto dos municÌpios brasileiros seja fundamentada em

duas abordagens: (A) a abordagem que parte dos territÛrios e enfatiza a diversidade do territÛrio nacional e das densidades econÙmicas que os caracterizam; (B) a an·lise da rede de cidades e de sua capacidade de estruturar o territÛrio em regiıes polarizadas. … realizada uma classificaÁ„o de cidades por tamanhos populacionais e pelas funÁıes que elas exercem alÈm

de seus limites.

(A)A abordagem pelo territÛrio adotada pela PNDR

Esta abordagem est· presente na Proposta para Discuss„o da PolÌtica Nacional de Desenvolvimento Regional (PNDR), elaborada pelo MinistÈrio da IntegraÁ„o Nacional em 2003. Foi adotada a escala microrregional, para possibilitar uma vis„o mais detalhada das diversidades e desigualdades. Considerou-se que a escala macrorregional e a mesorregional encobririam diferenÁas preciosas para o diagnÛstico, por outro lado, a escala municipal tornaria o manuseio dos dados alÈm do administr·vel.

O seguinte passo metodolÛgico foi a criaÁ„o dos tipos, para identificar as potencialidades e

reduzir as diferenÁas. Foram levadas em consideraÁ„o duas informaÁıes b·sicas: estoque de riqueza acumulada e din‚mica de crescimento das microrregiıes.

A vari·vel de estoque escolhida foi o PIB municipal estimado pelo IPEA para

1990 e 1998, e o rendimento domiciliar mÈdio, cuja fonte È o Censo 2000 do

a escolha metodolÛgica permitiu repartir o territÛrio segundo

tipologia definida a partir da riqueza instalada e das perspectivas de expans„o dessa riqueza, sem o recorte inicial cl·ssico marcado pelas macrorregiıes. (p.

IBGE (

)

8).

A

articulaÁ„o das duas vari·veis resultou nos seguintes tipos microrregionais:

(i)

MR1 - microrregiıes de alta renda, qualquer que seja a din‚mica do PIB;

(ii)

MR2 ñ microrregiıes de renda baixa ou mÈdia e din‚mica do PIB elevada;

(iii)

MR3 ñ microrregiıes de renda mÈdia e pequena din‚mica do PIB;

(iv)

MR4 ñ microrregiıes de baixa renda e pouco dinamismo do PIB.

Verificou-se que a abordagem pela escala microrregional permitiu observar diferenÁas internas da macrorregi„o. Para cada tipo microrregional ser„o previstos conjuntos especÌficos

de programas regionais.

24

(B) A abordagem pela Rede de Cidades

S„o apresentados estudos que desde a dÈcada de 1960 buscam identificar uma rede urbana no Brasil. O trabalho do ObservatÛrio das MetrÛpoles utilizou como referÍncias dois destes trabalhos: (i) Metodologia do IPEA/IBGE/NESUR; e, (ii) Metodologia do CEDEPLAR, conforme exposto a seguir:

(i) Metodologia do IPEA/IBGE/ NESUR 15

Neste estudo foi adotada a divis„o territorial do paÌs em macrorregiıes, a partir das quais foram realizados estudos regionais. O objetivo era a identificaÁ„o de mudanÁas na estrutura produtiva e na organizaÁ„o do territÛrio ocorridas nos anos 1980 e 1990. O estudo tambÈm envolveu dados que tomaram como escala as mesorregiıes geogr·ficas, e permitiram uma an·lise multivariada. ìDeve-se destacar que a an·lise multivariada tambÈm serviu para a distribuiÁ„o das cidades por classes de tamanho decorrentes de v·rios fatores e n„o apenas o porte populacional.î (p. 12). Este estudo tambÈm desempenhou especial atenÁ„o ‡s aglomeraÁıes urbanas.

A classificaÁ„o do conjunto da rede urbana do Brasil resultou da an·lise de determinados

aspectos, para em seguida identificar critÈrios que expressassem esses aspectos. Cada critÈrio

foi associado a indicadores, que permitiram o enquadramento dos centros urbanos.

( )

incluem centros que n„o constituem aglomeraÁıes urbanas e centros em aglomeraÁıes urbanas, que compreendem 62 e 379 centros urbanos, respectivamente, perfazendo ao todo um total de 441 centros urbanos. De um total de cerca de 5.500 municÌpios em que est· dividido o territÛrio nacional, estes 441 centros abrigam 55,85% da populaÁ„o total do paÌs. (p.13-14).

a rede que resulta deste estudo È formada por 111 centros urbanos, que

A caracterizaÁ„o da rede urbana nacional ìque compreende o conjunto das cidades que

polarizam o territÛrio nacional e os fluxos de bens, pessoas e serviÁos que se estabelecem

entre elas e com as respectivas ·reas ruraisî (p.13) foi a seguinte:

(i)

MetrÛpole global

(ii)

MetrÛpole nacional

(iii)

MetrÛpole regional

(iv)

Centro Regional

(v)

Centro sub-regional 1

(vi)

Centro sub-regional 2

15 EGLER, C. ConfiguraÁ„o e Din‚mica da Rede Urbana, in: ConfiguraÁ„o atual e tendÍncias da rede urbana do Brasil. BrasÌlia: IPEA, 2002. (SÈrie caracterizaÁ„o e tendÍncias da rede urbana do Brasil, 2). ConvÍnio IPEA, IBGE, UNICAMP/IE/NESUR, IPEA, 2002. pp. 317-375.

INSTITUTO DE PESQUISAS ECON‘MICAS APLICADAS _ IPEA et al. CaracterizaÁ„o e tendÍncias da rede urbana do Brasil. Campinas: UNICAMP-IE, v.1, 1999. 444p.

IPEA. ConfiguraÁ„o atual e tendÍncias da rede urbana do Brasil. BrasÌlia: IPEA, 2002. (SÈrie caracterizaÁ„o e tendÍncias da rede urbana do Brasil, 1). ConvÍnio IPEA, IBGE, UNICAMP/IE/NESUR, IPEA, 2002.

25

AlÈm dos nÌveis, foram identificados 8 (oito) tipos de municÌpios os quais s„o:

(i)

Integrantes de regi„o metropolitana (RM);

(ii)

Urbanos de grandes dimensıes (tipo 1);

(iii)

Urbanos de mÈdias dimensıes (tipo 2);

(iv)

Urbanos de pequenas dimensıes (tipo 3);

(v)

TransiÁ„o de pequenas dimensıes (tipo 4);

(vi)

TransiÁ„o de mÈdias dimensıes (tipo 5);

(vii)

Rural de mÈdias dimensıes (tipo 6);

(viii)

Rural de pequenas dimensıes (tipo 7).

(ii) Metodologia do CEDEPLAR 16

O estudo do CEDEPLAR n„o se prende ‡ divis„o polÌtico-administrativa do territÛrio. ìAo

contr·rio, concebe a regi„o a partir de conceito eminentemente econÙmico, e o centro urbano

o CEDEPLAR foca na

como elemento organizador desta regi„o ou espaÁo econÙmico. (

capacidade de atraÁ„o do pÛlo e na densidade econÙmica da ·rea que este polariza ñ o centro

urbano de influÍncia regional e sua ·rea de mercado.î (p.15).

)

O CEDEPLAR utilizou o modelo gravitacional, inspirado em Isard (1960), para a

identificaÁ„o das regiıes de polarizaÁ„o. O resultado apresentou 12 macropÛlos e 11 ·reas de polarizaÁ„o, ou seja, uma destas È polarizada por dois centros urbanos. Identificou-se tambÈm

mesopÛlos, compreendidos em cada ·rea de mercado dos macropÛlos. Os mesopÛlos foram configurados em ìtrÍs tipos de regi„o polarizada: enclave (entorno de subsistÍncia e/ou renda baixa); regiıes isoladas (entorno de renda baixa e/ou renda mÈdia baixa); e pÛlo econÙmico (entorno predominantemente de renda mÈdia alta e elevada).î(p.17).

3.2.1.1.1 O resultado: a tipologia das cidades brasileiras proposta pelo ObservatÛrio das MetrÛpoles (2009)

Utilizando em conjunto os trabalhos citados no item 3.2.1.1, a publicaÁ„o do ObservatÛrio das MetrÛpoles (2009) elabora uma tipologia dos municÌpios brasileiros verificando a possibilidade de aprofundar a relaÁ„o entre o urbano e o territÛrio com base na diversidade de suas densidades econÙmicas em todos os municÌpios brasileiros, quaisquer que sejam seus tamanhos populacionais. Inicialmente foi elaborada uma tipologia dos municÌpios partindo de cada um dos quatro conjuntos microrregionais identificados pelo PNDR, correspondendo a quatro situaÁıes econÙmicas, mas o trabalho tambÈm integra os resultados dos demais estudos apresentados.

O banco de dados È formado por quatro seÁıes: dados de localizaÁ„o, dados de aglomeraÁ„o e hierarquia urbana, dados demogr·ficos, sociais e econÙmicos e dados populacionais relacionando as mesorregiıes e macrorregiıes polarizadas pelos meso e macro pÛlos identificados no estudo do CEDEPLAR com a tipologia das microrregiıes constando no PNDR.

(p.25)

Os quatro conjuntos de microrregiıes identificados pelo PNDR s„o os seguintes:

16 CEDEPLAR/UFMG. A nova geografia econÙmica do Brasil: uma proposta de regionalizaÁ„o com base nos pÛlos econÙmicos e suas ·reas de influÍncia (2000).

26

O Tipo 1, caracterizado pela alta renda, ou melhor, por um alto estoque

de riqueza acumulada; essas microrregiıes situam-se no Centro-Sul do

paÌs, mais concentradas no Sudeste e no Sul, havendo raras exceÁıes no Nordeste e no Norte;

O Tipo 3, caracterizado por um mÈdio estoque de riqueza acumulada e

por uma variaÁ„o positiva de intensidade mÈdia ou baixa do PIB; essas microrregiıes situam-se em todas as Grandes Regiıes do paÌs. O Tipo 2 re˙ne as microrregiıes de baixa densidade econÙmica associada a um movimento positivo do PIB e nova geraÁ„o de riqueza; situam-se sobretudo no Centro Oeste, Norte e Nordeste (especialmente na parte ocidental dessa Grande Regi„o) e s„o menos numerosas no Sudeste e no Sul onde predominam as microrregiıes de tipo 1 e 3;

O Tipo 4 agrupa as microrregiıes de baixo estoque de riqueza, observando nelas uma variaÁ„o discreta do PIB, denotando uma fraca din‚mica; situam-se todas no Nordeste e no Norte, onde representam ·reas de relativa estagnaÁ„o. (p. 21-22)

Foram levantadas vari·veis de natureza social, econÙmica e de problemas urbanÌsticos caracterizado pelo dÈficit habitacional. TambÈm foi realizada a distribuiÁ„o geogr·fica do n˙mero de municÌpios segundo as seguintes faixas de tamanho populacional:

(i)

100 mil e mais

(ii)

Entre 100 mil e 20 mil

(iii)

Abaixo de 20 mil

Neste estudo foi verificado que 70,54% dos municÌpios com 100 mil e mais habitantes foram caracterizados na microrregi„o de tipo 1, referente ao alto estoque de riqueza acumulada, porÈm observa-se que esta microrregi„o re˙ne 28,80% do total de municÌpios do paÌs. Os municÌpios entre 100 mil e 20 mil habitantes e abaixo de 20 mil habitantes tiveram sua distribuiÁ„o mais equilibrada entre as 4 microrregiıes.

Essa distribuiÁ„o muito desigual dos municÌpios com 100 mil habitantes e mais, bem como o grande n˙mero de municÌpios atÈ 20 mil habitantes (4017 dos 5506 municÌpios em 2000), orientaram os procedimentos adotados para as an·lises multivariadas definindo-se nove agrupamentos de municÌpios em diversos conjuntos geogr·ficos (p.35):

(i)

MunicÌpios com populaÁ„o de 100 mil e mais habitantes analisados no Brasil em seu conjunto;

(ii)

MunicÌpios com populaÁ„o entre 20 e 100 mil analisados no conjunto das microrregiıes de tipo 1;

(iii)

MunicÌpios com populaÁ„o entre 20 e 100 mil analisados no conjunto das microrregiıes de tipo 3;

(iv)

MunicÌpios com populaÁ„o atÈ 20 mil habitantes analisados no conjunto das microrregiıes de tipo 1;

(v)

MunicÌpios com populaÁ„o atÈ 20 mil habitantes analisados no conjunto das microrregiıes de tipo 3;

(vi)

MunicÌpios com populaÁ„o entre 20 e 100 mil analisados no conjunto das microrregiıes de tipo 2;

(vii)

MunicÌpios com populaÁ„o entre 20 e 100 mil analisados no conjunto das microrregiıes de tipo 4;

27

(viii)

MunicÌpios com populaÁ„o atÈ 20 mil habitantes analisados no conjunto das microrregiıes de tipo 2;

(ix) MunicÌpios

com

populaÁ„o

microrregiıes de tipo 4;

atÈ

20

mil

habitantes

analisados

no

conjunto

das

Os resultados das an·lises multivariadas, apresentadas por classes para cada agrupamento de municÌpios, e sua distribuiÁ„o espacial no territÛrio brasileiro, est„o disponÌveis na publicaÁ„o do ObservatÛrio das MetrÛpoles (2009). Por fim, o trabalho (op. cit.) desenvolve a caracterizaÁ„o dos tipos de cidades apresentados em cartogramas e tabelas, os quais