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Saber Vera Arquitetura Bruno Zevi ‘Usos dn Linguasem: Probblemas e Téenleas na Produgéo Oral e Eserite Francis Vanoye Exercicios de Laboratério em Psicologh Mario A. A. Guidi eHerma i, Bauermeister ‘© Processo da Commnicagion David K, Berio ros do Desenko Moderne Nikolaus Pevsner 0s Gineros do Discurso ‘Tavetun Todorov (© Lado Humane da Empresa ‘Douglas MeGregor ‘Origens da Arquitetura Moderna e do Desiga Nikolaus Pevsner 0 Roment: Urns etrotucia i Anteopologia. Ralph Linton. os A.Chinde Antige Fustel de Coulange AsPolayras ¢ 14 Colsus ‘Michel Fewcault A Cidade na Historia Lewis Mumford Essiistica da Lingua Portugussa M. Rodrigues Lapa [As Btapas do Pensamento Socialigico Raymond Aton rama da Arquitetura Ocidental ‘Nikolaus Pevsner A Verdadena Historia Oscar Handtin A Linguagem Clissica da Arquitetwra John Summerson Homer, Cultura eSaciedade Harry L. Shapiro Histéria da lmprenca no Beast! ‘Nelson Werneck Sodré ‘As Origens Sociais do Ditadura eda Demoeracia Barrington Moore Jr Os Problemas da Es Luigi Pareyson Teoria Pura do Dircito Hans Kelsen A lddinde Let Dennis Lloyel Ciencia e Compo 1B. Skinner “Teoorlu da Literatura ‘Terry Eagleton Manual de Psiquiateia G. Campailla, Arte eliusio E. 8, Gombrich P. > TERRY EAGLETON _teoriada literatura: uma introducao Martins Fontes PEORIA LITERARIA a € inconcebivelmente esotériea — julgam- nna uma categoria b parte, elitista e misteriosa, de certa forma sente- Ihante & fisica nuclear. Uma “educagao literdvia” cortamente. nia € © caminho mais indieado para se estimular 0 pensamento analftico, mas @ teoria literéria de fato nao é mais diffeil do que muitas outras formas teéricas de investigagio, sendo mesmo muito mais fécil do que algumas delas. Espero que este livro possa contribuir para desmis- tifiear aqueles que temem estar o assunto fora de seu alcance. Alguns estudantes e erfticos também objetam que a teoria literéria “se inter ‘poe entre © leitor € a obra”. A resposta mais simples a esta obser vagio & a de que sem alguma forma de teoria, por menos consciente ¢ implicita que seja, nfo saberiamos, em primeiro lugar, como defi- ia”, ou como deveriamos lé-la, A hostilidade para com a teoria geralmente significa uma cposigfe as teorias de outras pessoas, alm de um esquecimento da teoria que se tem. O propé- sito deste livro € eliminar esta forma de repressdo € permitir que dela nos lembremos. TE Introducao: O que é Literatura? Se a teoria itervia existe, porece ébvio que haja afguma coisn chamada literatura, sobre a qual se teoriza. Podemos camtegar, entio, por levantar @ questio: 0 que é litezat Muitas t8m sido as tentativas de se definir literatura, E possi vel, por exemplo, definila como a escrita “imaginativa", no sentido de fiegiio — escrito ests que nfo é Iiteralmente, veridica, Mas sc refletirmos, ainda que brevementc, sobre aquilo que comumente se considera literatura, veremos que tal dfinigo nfo procede. A lite ratura inglesa do sée. XVII inclui Shakespeare, Webster, Marvell e Milton; mas compreend? também as ensaios de Francis Bacon, os sermées de John Donne, a cutobiografia espiritual de Bunysn, ¢ os escritos de Sir Thomas Browne, qualquer que seja o nome que se dé a eles. Eventualmente, cla poderia abranger 0 Leviathan, de Hob- bes, e a History of the Rebellion, de Clarendon. A literatura francesa do se. XVII conta, além de Corneille € Racine, com 3s méximas de La Rochefoucauld, corn os discursos finebres de Bossuet, co tratado de poesia de Beilean, Mime, de Sevig sua fills, € com a filoso! cal. A literatura inglesa do séc. XIX geralmente inclui Lamb (mas nao Benthem), Macaulay (mas 180 Marx) © Mi" (mas no Darwin ov Herbert Spencer A distingio entra “fare” & “ficpio", portanto, nio pa ser mello init, ¢ oma-das razdes para isto € a de que e propein di estio J se disse, por eatrnpio, que entre verdude “histévica” © BORIA LITER AREA istica", de modo algum se aplice 8s antigas sagas islandesss.” No inglés de fins do séc. XVI € prineipios do séc. XVI, a palavra i usada, ao que parece, tanto para 0S acontecimentos reais quants para os fictéeios, sendo que até mestno as noticias de jomal dificilmente poderiam ser consideradas fazuais. Os romances e as noticias x40 evam claramente fatuais, nem claramente ficticios: a cis: lingto que fazemos enire esias calzgorins simplesmente nfo era api ¢ Gibdon achava que esererta ar verdade histdrle, bém fosse este mento dos wuitores da. Genes; (als id, sBv lids ioje como “fates” por agus, e como “ieyio” por outros; Newman sem davida achava que suas medtilagies teold- gicas eram verdedes, mas muitos Jeitores as considesan hoje “Tite- ". Além disso, se a “literatura” inclui muito da escrite "fatual”, sexciui uma boa marge de ficgAo. As histérias em quadrinhos do Super-homem ¢ os vomanees de Mills ¢ Boon sto fiegao, mas isso no fez con: que sejam geralmente considerados como literatura, € riviso menos como Literatura, O fato de a literatura ser a escrica ative” ou “Smaginativa” implicaria serem a histéria, a filosolia ia naturais no eriativas ¢ destituidas de imaginaso? séria uma abordagem totlmente diferente. Ge ser ficcional ow obras, Talvez nos seja neces Talvea a literatura soja definivel no pelo f ‘“imeginativa”, mas porque emprega a linguagem de forma peculiar. Segundo essa tworia, a literature & a eserita que, nas palavras do cenitico russ Roman Jakabson, aepresenta uma “violéncia organized contra a fala comumm”. A literavura transforma e Intensifiea @ logos gen cemum, afustundo-se sitematicamente da fala cotigiana. Se ol- usr: se apsoximar de mim em um ponto ce énibus e disser: “Tu, a ainda imaculeda da quiewde”, tenho corsciéneta imediata de que estou em presenga do literfrio. ‘Sei disso porque a tessiture, 0 ritmo e @ ressondncia das palavsas superam 0 set significado abstrato — vy, como os Hingilistas ditiam de mancira mais téeniea, existe oma dtescontormilade entre os signficantes © os sipnificados. Tratase de urs tape de -inguagem que chama a atencdo sobre si mesina ¢ exibe cia material, ao contririo do gus corse com frases tas coma "Vook slo sube que o8 motoristas de énibus eatio em. yreve?” ii, The Sega Mind Oa Davis, “A Social History 0 ysl Disavew © Fatly English Nove", em vere © Lances.” 1980). WW. Said. sors ature sed Sacety “Bal be 1! INTRODUGAO: © QUE £ LITERATURA? De ato, esta foi s definigio de ““iterdrio” apresentada pelos formalistas russos, entre os quais estavam Vitor Sklovski, Roman Jakobsen, Osip Brik, Yury Tynyanov, Boris Bichenbaum © Boris Tomashevski. Os formalistas surgiram na Russia antes da revolucao bolchevista de 1917; suas idéias floresceram durante a década de 1920, até serem eficientemente silenciadas pelo Stalinismo. Sendo um fprupo de critivos militantes, polémicos, eles rejeitarnm as doutrinas Simbollstas quase infaticar que avant tnfluenelado a erftten Htordela até entio e, imbuldos de um espfrito pritico e cienlitico, transfor amu atengdo para a reufidade material do texto literdrio em A critica caberia dissociar arte © misiério e preocuparse com a ma- heira pela qual os textos literétics funeionavam aa prética: a lite- ratura nfo era uma pseudo-religiéo, ou psicologia, ou Sociologia, mas ‘uma organizagGo particular da linguagem. Tinhe suas leis especificas, suas estruturas e mecanistios, que deviam sec estudados em si, € no reduzidos @ alguma outra coisa. A obra literéria nao era um vefculo de idéies, nem uma reflexdo sobre a realidade social, nem 2 enearna- io de uma verdade transcendental: era um fato material, cujo fun- cionamanto podia ser analisado mais ou menos como se examina uuma méquina, Era feta de palavras, nfo de abjeios ou sentimentos, sendo um erro consideréla como a exptessio do pensamento de um autor. O Bugénio Onegin, de Pushkin — observe certa vez Osip Brik com certa ousadia —, teria sido escrito mesmo que Pushkin ndo tivesse vivido. Em sua esséncia, 0 formalismo foi a aplicagio da lingiistiea a0 estudo da literatura; ¢ como a lingiistica em questo era do tipo formal, preocupada vom as estruturas da linguegem ¢ nao com 0 que ela de fato poderia dizer, os formalistas passaram ao largo da andlise do “conteido” literario Gastincia em que sempre existe a tendéncia de se recorrer & psicologia ou & sociologis) € dedicaram-se ao estudo da forma literdtiv. Longe de considerarcm a forma como expresso do conteido, eles inverieram essa relagifo: 0 conteddo era simples- mente 2 “motivagio” da forma, uma ocasifo ou pretexto pars um tipo expectfico de exercicio formal. O Dom Quixote nfo € ums obra “sobre"" o personagem do mesmo nome: 0 personagem & apenss um artificio para se reunirem ciferentes tipes de téenicas narrativas. Ani- mal Farm 280 seria para os formalistas uma alegoria do Stainismo; pele conteéro, 0 Stalinismo simplesmente ofereceria uma oportuaidade propicia & ctiagio de uma alegoria. Foi cesa insisiéncia obstinade que vonquistou pata os formalistas sta denominagéo depreciativa, a 4 TEORIA LITERARIA cles atsibuide por seus entagonistes. E gmborn eles nlc negessem que a arte tivesse uma relagGo com a realidade social — de fato alguns deles estavam estreitamente associados aos Boleheviques — 0s for- matistas afirmavam, provocadoramente, que essa relagdo fugia ao im- ito do trabalho do cxitico, s formalistas comegaram por considerar a obra literéria como uma reuniao mais ou menos arbitréris de “artificios", ¢ 96 mals tarde passaram a ver esses artifcios como clementos relacionados entre si “fungées” dentro de um sistema textual global. Os “‘artficios” i cluiam som, imagens, ritmo, sintaxe, métrica, rima, téenicas narrati vas; na verdade, incluiam todo o estoque de elementos literérios for- mais; © 0 que todos esses elementos tinham em comum era o seu efeito de “estranhamento” ou de “desfa "A especifici- dade da linguagem literéria, aquilo que a distinguis de outras formas de discurso, era o fato de ela “deformer” a linguagem comum de varias manciras. Sob 2 pressio dos artificios literérios, a linguagem comum era intensificada, condenseda, torcida, reduzida, amplinda, invertida. Era uma linguagem que se “tornara esctanha”, © gragas a este estranhamento, todo o mundo cotidiano transformava-se, subi- tamente, em algo n3o familiar, Na rotina da fale cotidiane, nossas percepgies © cages a realidade st tornam embotadas, apagedas, ou como os formalistss ditiam, “eutomatizadas”. A literatura, impon- domos uma consciéneia dremética da linguagem, renova esses reagSes habitunis, tornnndo os objetos muis “percepltvele”, Por ter de Tutor com a linguogem de forma mals trubulhoss, mus wuloconsclente do que © usual, 0 mundo que essa Tinguagem encerra & renovado de forma intenss. A poesia de Gerard Manley Hopkins oferece um exem- plo particularments claro do que se afiemou. O diseurso literério torna estranhs, aliena a fala comum; a0 fazé-lo, porém, paradoxal: mente nos leva a vivenciar a experiéncia de maneira mais intima, ‘mais intensa. Estamos quase sempre respirando sem ter consciéncia disso; como a finguagem, o ar 6, por exceléncia, o ambiente em que vivemos, Mas se de sibito ele se tomar mais denso, ou polufdo, somos forcados a renovar o cuidado com que respiramos, ¢ 0 resuk tado disso pode ser a intensificagio da experiéncia de nossa vida ‘material. Lemos o bilhete escrito por um amigo, sem prestarmos muito atencfo & sua estrutura narrative; mas se uma histéria se interrompe recomesa, passa constantemente de um nivel natzativo para outro, retarda’o elfmax para nos manter em suspense, adquirimos entfo como ela € construfde, ao mesmo tempo em que INTRODUGAO: © QUE F LITERATORA? neste interesse por elt pode se intensificar. & histéria, como dis os formalistas, usa artiffcios que funcionam como “eniraves” ou “retardamentos” para nos manter atcnios; € na lingungem Iiterdia, esses arlificios revelam-se elaramente, Foi isso que levou Vice Sklovski de Lau. rence Stee — um romance que cria tais entraves ao desenvolvi- ‘mento de sun (rama, cue mal chega a comegar —, que se watava do “romanee mais tipico da literatura mundial”, ‘um conjunto de desvios de norma, uma espécie de viol fica: a Siceratura € uma forma “especial” de linguagem, em contraste com a linguegem “comum”, que usamos habitualmente. Mas para se identificar um desvio & necessério que se possa identifiear 2 norma da qual ele se afasta. Embora a “linguagem comum” seja um conceito muito ao gosto de certos filésofos de Oxford, a linguagers comum dos Jil6sofos de Oxford pouca relagio tem com a Tinguagem comum dos portudrios de Glasgow. A linguagem usada por esses dois grupos socials para eserever carlas de amor difere da que € habitualme empregada na conversa cor 0 vigério de sua pardquie, A idéia de que existe uma iinica linguagem “notmal”, uma espécie de moeda corrento sada igualmente por todos os membros da scciedade, € uma ilusio, Qualquer Linguagem em uso consiste de uma varitdade muito complext de discurses, diferenciades segundo u clisse, regio, gen +0, singh, eie., os quals de forma alguma podem ser simplesmente unificados em uma Gniea comunidade lingiiistica homogénea, O que alguns considersm norma, para outros poderd significar desvio: usar “ginnel” (beco) em lugar de “lleygnay” (trayessa) pode ser poético cem Brighton, tas constitui linguagem comum em Barzsley. At ‘mo o texto mais “prosaico” do sé, XV pode nos patecer “postico” hoje devido ao seu arcafsmo, Se nos depardssemos corn um frags: escrito isolado de alguma civilizaggo hé muito desaparecida, no po- derfamos dizer se se trateva ou no de “poesia” apenas pelo © que fariamos dele, jé que ado tertemos avesso aos discurso: “com daquela sociadade; ¢ mesmo se uma pesquisa revelasse posteriocmente que esse taxto fosse um “desvio” da nerma, ainda ficaria provado que se ualava de poesia, pols nem todos os desvios lin- shisticos so poéticos. A gitia, por exemplo. Um simples passar de exto mio seria suficiente para dizesmos que nfe se reraiura "realista", se nile diopasésseicce TEORIA LITERARIA de maiores iatormagies acerca de sua real fungso, enquanto Frag: mento escrite no seio da sotiedade em questi Nao & que os formalistas russos ndo compreendiam tudo isso. Bles reconheciam que as normas ¢ os desvios se modificavar J? um conlexto social ou nisiriea para outa — que “poesin”, nesse ans tid, depende de nossa loeslizagio num dado momento, A “estrunlie- za” de um texto no & gatantia de que cle sempre foi, em toda parte, “estranho": eta-o apenas em contraposigte & um cetto pano de fundo lingiistico normativo, ¢ se este se miodificava, um tal fragmento es- crito poderia deixar de ser considerado literério. Se todos usassem frases como “Noiva imaculada da quietude” numa conversagio corr queira de bar, e1se tipo de linguagem poderia deixar de ser poético. Fm outvas palaveas, para os formalistas, 0 cardter “litevdsio” advinha das relagGes diferenciais entre um tipo de discurso ¢ outro, no sen- do, portant, uma caracteristica perene. Eles 40 queriam definir a “itersiuea", mes a “literaturidade” — os usos especiais da lingue km —, que ndo apenas podiam ser encontrades em textos “literd- ios", mas também em multes outras circunsténcias exteriores a cles. acredita que a “literatura” posse ser definida por esses usos is da linguagem tem de enfrentar o fato de que hé mals mets foros na Tinguagom wsnda habituslmente em Manchester do que na pocsia de Marvell. Noh nentum antificio “literério” — metont- mia, sinédogue, litte, quinsmo, et=... — que nio seja usado inten- sivamente 10 discurso didrio. Ainda assim, os formalistas achavam que 2 esséncia do literdrio ent 9 “tomar extranio”. Bles apenas relativizevam esse uso da lin- guagom, vendo-o como una questo de contraste entre um, tipo de iscurso € outro, Mes © se no bar eu ouvisse alguém dizer na mesa so lado de minha: “Essa caligrafia € temendamente floreada!” Sevia uma lingungem literéria, od néo-iteriria? Na verdude, trota-se de lingzegem “Yeersriu”, pois vem do romance A Pome, ue Knut Hamsun. Mas como poderia eu saber que ¢ literiia” Afinal de con- ss, ela no exige que nenhuna atengdo pertievler Ihe soja dispensada enquanto desempenho verbsl. Lma das reepostes u essa pergunta que & frase prowém do rumante A Pome, d: Kaut Hamsua, E parte dle um testo que leio como “Yficsio", cue sz anuncia ccrio im “romance”, cue pode faze? patte do curriculo universitirio, ¢ ‘© contexto mostra-me que € literério, mas a lingua: si nentusma propriedade OU que Czga de outtos ties de diseurs0, tonto que po: INTRODUCAO: O QUE E LITERATURA? a isso num bar, sem provocar a edsmitagio dos outros pela idade literdria, Pensar na literatura como os formalistas fo fazem é, na realidade, considerar toda a literatura como poesia. De fato, quando os formalistas trataram dn prosa, simplesmente es- tendemm w ala ws iGeviens que Rovian wilizndo para a possia, De lun modo gerul, porém, vonsiderase que a literatura contenha muhas ultras coisas aléim da poesia — por exemplo, obras realistas ou natu- ralistas que nio so lingiisticamente autoconscientes, nem constituem uma realizagao partioular em si mesmas, Por vezes, um estilo € con- siderado “bom” precisamente porque ndo atrai sobre si mesmo wma atengéo indevida: admiramos sua simplicidade lacénica ou sua sobrie~ dade. E 0 que dizer das piadas, dos slogans e reftdes das vorcidas de futebol, das manchetes de jornal, dos antncios, que muitas vezes sio verbalmente exuberantes, mas que, de um miedo getal, 0 sto classifieados como literatura? Um outro problems concermnente so argumento da “estranheza” 0 de que todos os ripos de escrita podem, se trabalhados com a devida engenhosidade, ser considerasos “estranhos”. Veja-se uma afir- ago pressica. perfeitamente clata, como a que se encontra por vvezes no metrd: “Cachorros devem set carregados na escada rolante”. Iso talvez no soja tio claro quanto pode parecer 2 primeita vista signilicard que nds cemos de carregat um cachorto na escada rolante? Seremas impedides de uséla se nto encontrotmos algum viralata para tomarmos nos bragos, antes de subirmos ow descertaos? Muitos Avisos, aparentemente clares, encerram ambigitidades semelhantes: “Cologue 0 lixo no e280", por exemplo, ous placa de sinalizagio Ge uma esirads inglesa que diz “Saida", lida por um americano de Califérnia, Mesmo se deixarmos de lado tais ambigiidades pertur- badoras, certamente ¢ ébvio que o amtinsio do metré poderia ser Lido como literatura. Poderiamos nos deixar levar pelo staccato abrupto, ameagedct, des primeiros monossflabos pondetosos; poderiames sur- preender nossa mente, no momento em que ela se deparasse com a ea alusio tuscitade pelo voedbulo “carregados", divagando entre res- sondncias que sugerem o salvamento de cdes coxos; e talvex pudés- semos até mesmo detectar na prOpric melodia ¢ inflexdo da palavra Srolante”, uma alwsfa 20 movimente de subit e descer da coisa em si, Tal exercicio pode str infrutifero, mas aio sera significativamente, mais infrucifero do que pretender ouvir o enttechoque dos subres na igo poética d2 um duelo, e pelo meros, tem a vantegem de sugecir que a “literatura” pode ser tanto uma questio daquilo que as 8 TEORIA LITERARIA pessoas fazem com a escrita, como daquilo que a escrita faz com as pessoas. Mas mesmo que alguém lesse o aviso dessa maneire, ainda assim seria uma questio de Ié-1o como se fosse poesia, que € apenns uma parte do que a literatura comumente abrange. Vamos, pottanto, ext- minar uma outra maneita de “ler erroneamente” 0 aviso, que nos pode Ievar um pouco mais elém em nossa andlise, Tmaginemos um bébedo, tarde da noite, segurando-se no corrimdo da escada rolante © que Ié 0 aviso com dificultose etengao durante virios minutos para depois dizer a si mesmo: “Coma é verdade!” Que tipo de erro se verifica neste eas0? © que o bébedo fez & considerar o aviso como uma espécie de afirmacfo dotada de uma significagao geral, até mes mo cbsmica. Aplicando certas convengées de leitura is suas palavras, ele as elogis sem relacionélas com 0 seu contexto imediato, genera Tizando-as além de sua finalidade pragmatica ¢ dandothes uma sig- nificago mais smpla ¢ provavelmente mais profunda. Isto sem di- ida parece ser uma operagfio envolvida naguilo que as pessoas cha- mam de literatura, Quando 0 poet nos diz que seu amor 6 como uma rosa vermelha, sabemos, pelo simples fato de ele colocar em verso tal afirmagdo, que no Ihe devemos perguntar se ele realmente teve uma namorada que, por alguma estranha redo, Ihe parecia ser semelhente uma rosa, Ele nos esté dizendo alguma coisa sobre as, mulheres ¢ sobre o amor em gorel. Poderiamos dizer, portento, que a literatura € um discurso “na ‘ndo-pragmético”; 40 contrsrio dos ma- niuais de biologia ¢ recados deixados para o leiteiro, ela nao tem nenhuma finalidade prética imediata, referindo-se apenas a um estado geral de coisas. Por vezes, mas nem sempre, ela pode empregar ume linguagem peculiar como se quisesse tornar evidente esse fato — para indicar que sc trata de uma mancira de falar sobre o mulher, € nfo sobre alguma mulher da vida reel em particular. Esse enfoque ne maneira de falor, e nfo na realidad daquilo de que se fala, € por vyezes considerado como uma indicagdo do que entendemos por lite ature: uma espécie de linguagem cuto-rsferencial, uma linguagem que fala de st mesma. Mas também essa definigdo da literatura encerra problemes. En- ure outras coisas, teria side uma surpresa para George Orwell saber que seus ensaios devem ser lidos como se os tépicos por cle exami nados fossem menos importantes do que a maneira pela qual os exa- minou, Em grande parte daquilo que & classfieado como literatura, © velor veridico ¢ a relevancin prética do que € dito é considerada | t | i ODUCEO: O QUE £ LITERATURA? 9 importante para o afeito geral. Contudo, mesmo em se considerands que o discurso “sfo-pragmético” é parte do que se entende por “lite: ratara”, seguese dessa “definigio” o fato de a Fiteratura no poder ser, de Taso, definida “objetivamente”. & definigio de fiteratuen fica dependendo di manvirs pela quul alguse resolve fer, endo da natu: vera daquilo gue é lido. Hé cerzos tipos de eseritos — poeras, pecas de teatro, romances — que, de forma cloramente evidente, preten- dem ser “nio-pragméticos” nesse sentido, mas isso nfo nos garante que sero realmente lidos dessa manzira. Eu poderia muito bem let 4 descrigéo que Gibbon faz do império romano no porque esteja suficientemente equivocedo para achar que ela seri uma fonte fide- digna de informegies sobre # Roma antiga, mas porque gosto do estilo da prosa de Gibbon, ov porque me agradam 3s imagens da corrupgo humana, qualquer que scia a sua fonte hist6rice. Mas eu poderia ler © poems de Robert Burns porque nfo sei — supondo-se que cu fosse um horticultor japonts — se a rova vermetha floresceu 1a Inglatersa do séc. XVIEI. t880, podete dizer, ndo sigafica ler Burns como “literatura”: mas ser que minha leitura dos enseios de. Orwell como Hieratura s6 seré possivel se eu generalizer o que ele diz sobre 1 guerra civil espanhola, interpretando-c como um tipo de observa glo eésmiea sobre a vida humana? Se é certo que mvilas das obras estudadas como literatura nus instituigdes académicas foram “cons- truidas” para serem lidas como literetura, também € certo que muicas do o foram. Um segmento de texto pode comesar s como histéris ou filesofia, e depois passar a ser class Titeraturo; Ou pode comecar como literatura ¢ Passar a ser valorizado por sev significado arqueolégivo. Alguns textos néscer: literdrios, ou- lrgs akingom a condigio de literdrias, ¢ a outros tal condigio € im- posta, Sob esse aspecio, u produgtio do texto € muito mais importumle do gue o seu nascinunte. O que importa pode no ser a origem do texto, mas 0 modo pelo qual as pessoas o consideram, Se elas deci diem que se trata de Titeraturs, entio, 20 gue parece, o texto sexs literatura, 8 despelto do que o seu autor tenha persado. Nesse sentido, podemos pensar na literatura menos como uma qualidade inerente, ou como um conjunto de qualiduies evidenciads: por certos tipos Woolf, do que come as varias. me relucionam com a sscrite. Nios se chemou de “Lieratera”, um conjon inerentes. Ne verdade, seria t3o impo: esctitos que vic desde Beowulf até Virginia us pelas quais as pessous se il isolar, entre tudo 0 ave 10 TEORIA LiTERARIA tinica eatacterfstien comum que idemlifieasse :odos os tipos de jogos. Néo existe wan “esséncia” da literatura. Qualquer fragmento de es cts pode ser lido “nvie-pragmaticamente’, se & isso 0 que significa ler um texto como literatura, assim como qualquer escrito pode ser lido “posticamente”. Se examino © horirio dos tens nic peru éts abrir uina conexao, ma: pars estimular minkas rcfleades gerais sobre 4 velocidade © complexidade da vida moderna, entta podeestia dizer ve 0 estou Iendo como literatura, fobn M. Ellis argumentou que a palavra “literatura” funciona como a palavra “mato”: ¢ mato 10 € um tipo esptcifico de planta, mas qualquer planta que, por uma outra, 0 jardineiro nfo quer ne seu jardim: “Literatura” talvez signifique exatamente © oposto: qualquer tipo de escrita que, uma 420, seja altamente valorizeds. Como os filéscfos ¢iciam, ra” ¢ “mato” so termes amtes firicionais do que onteldgieas: fazemos, nfo do estado fixo das coisas. Eles nos falam tum texto ou de urn cardo nun contexte sotial, snes relagBes com 2 embiente e suas diferengas com esse inesino ambiente, 4 mansita pela qual se comporta, as finalidades que Ihe podem ser dadas ¢ as préticas humanas que se scumslaram & sna volta, “Lite nesse sentido, “uma definigéo puramente formal, vazia. Mesmo se pretendermes gun ela scju um tratamento nfo-prugmético uagem. ainds assim no teremes chegado a ume “esséncia 0 também acontece com sntteas prétieas Tine ss, como se piadas, De qualower modo, esta lange de ser clara sibilidade de distinguirmos altidamenie sxtre as: maneiras “pr ea” © “nho-grétiea” de nos welacionannos sem a Gnguagent. A lei- i@ wm romence, feita por prazer, evidentemenle se difere du Yeitura de un sinal todovidrio de jaformagio; mas. como turs de um manual de biologin ngtio religiose; & nitiéa distin alien 06 seju passive! ouma so: INTRODUGAO: 0 QUE # LITERATURA? t Portanto, ainda who deseotoriinas 0 sagredo que [az com que Lamb, Macaulay ¢ Mill sejam literatura, mas no, falando em ter- mos gevais, Benthem, Mure ¢ Darwin, Uma tesposta simples talvez seja 0 fato de os trés primeiras serem exemplos de “eserever bonito”, 150 passo que os trés uilkimos, nao. Essa resposta tem a desvantagem de ser em grande parte inveridica, pelo menos em minha opiniso, mas encerru @ conveniéncia de sugerir que, de modo geral, as pessoas consideram como “Titeratura” q eserita que thes porcce bonita, Uma objegio bvia € a de que se tal definigao tivesse validade geral, ndo hhaveria a m6 literatura. Passo achat que Lamb ¢ Macaulay séo sobrestimades, mas is80 néo significa necessariamente que eu deixe de consideré-los como literatura. Podemos achar Raymond Chandler’ “bom em seu género”, mas no exatamente literaturt, Por outro lade, se Macaulay fosse um autor realmente ruim — se nao tivesse nenhu- ia capacidade de”pereepedo da gramética, e parecesse interessado ‘apenas em ratos brancos — sua obra poderia ser considerada nio-ite- récia, no chegando nem mesmo a ser mé literatura, Os julgamentos cde yslor parecem ter, sem davida, muita relagio com 0 que se con sidera literatura, ¢ 0 que no se considera — néo necessariamente rno sentido de que o estifo tem de ser “belo” para ser litersrio, mas sim de que tem de ser do tipo vorisiderado, belo; ele pode ser um ‘evemgle menor de um modo geralmente considersdo como valioso. Ninguém diria que o bilhete de Onibus é wn exemplo menor de literatura, mas alguém poderia dizer que a poesia de Ernest Dowson constitui tal exemplo. A expresso “bela essrita”, ou belles letires, ambigua nesse sentido: denola uma espécie de eserita em geral ‘muito respeitads, embara no nos leve necessariamente & opinigo de que um determinado exemplo dela € “belo”. Com essa ressalva, a_sugestio de que “literatura” € um tipo de escrita altamente valotizada, € esclarecedora. Contudo, ola tem ‘ume consegiiGncia bastante devistadora, Significa que podemos aban- donar, de uma vez por todas, a ihusée de que a categoria “literatura” € “objetiva”, no sentida de ser eterna e imutével. Qualquer coisa ‘pode ser liverature, © qualquer coisa que é considerada literatura, inal- Cerdvel e inquestionavelmente —— Shakespeare, por exemplo —, pode deixar de sto. Qualquer lddia de que o estudo da literature é fo estudo de uma entidade estivel e bem definida, tal como 2 ente- motogia é 0 estudo dos insetos, pode ser abandonada como uma quimera, Alguns ripos dt ficgho so literature, autos ngo: parte da literatura € ficctonal, e parte no é; @ literatura pode s¢ preocupar R TEORIA LITERARIA consigo mesma no que tange a0 aspecto verbal, mas muita retérica claborada ndo € literatura, A literatura, no sentido de uma colegio de obras de valor real e inalterével, distingvida por certas propric: dades comuns, ndo existe. Quando, deste ponto em diante, eu util zar as palavras “literério” e “literatura” neste livro, eu 0 farei com 2 reserva de que tais exprossées nfo so de fato as melhores; mas no dispomos de outras no momento. ‘A dedugio, feita © partir da definigio de literatura como uma csctita altamente valorativa, de gue ela no constitui uma entidade estavel, resulta do fato de serem notoriamente varidveis 0s juizos de vaior. “Os tempos se modificam, os valores, nfo", diz © antincio de um jomal, como se ainda acteditéssemos na necessidade de st matarem bebés que nascem defeituosos, ou de se exporem doentes taentais & curiosidade piblica. Assim como uma obra pode ser com: siderada como filosofia num século, € como literatura no século se- fuinte, ou vice-versa, também pode variar o conceito do piblica sobre © tipo de escrita considerado como digno de valor. Até as raa6es que determinam a formagio do critério de valioso podem se modifi- car. 1550, como disse, ndo significs necessariemente gue venha a ser recusado 0 titulo de literatura a uma obre considerada menor: ela ainda pode ser chamada assim, no sentido de pertencer a0 spo de sscrita geralmente consideteda como de valor. Mas nio significa que © chamedo “‘cénone literrio", a “grande tradigdo” inquestionada da “literatura nacional”, tenho de ser reconhecide como um constru- to, modelado por detcrminadas pessoas, por motives particulates, © nunt determinado momento, Nao existe uma obra ou uma twadigio fiterdrie que sefa valiosa em si, a despelto do que ¢¢ tenha dito, ou se venha a dizer, sobre isso. “Valor” € um termo transitivo: signi- fica tudo aquilo que ¢ corsiderade como vatioso por certas pessoas cem situagdes especificas, de acordo com critérios especificas ¢ & luz de determinados objetivos. Assim, € possivel que, ocorrendo uma transformagio bastante profunda em nossa hisiéria, possamos no futuro produzlr uma soctedade incupuz de ateibuit qualquer valor a Shokespeare. Suns obros passariam a parccer absolutemente estra- s, imptegnadas de modos de pensar e sentir que essa sociedade considerasse limitades ov irtelevantes. Em tal situago, Shakespeare teria mais valor do que muitos grafites de hoje. E embora pare muitos essa condicio social possa parecer tragicamente empobrecida, erelo que seria dogmstismo no considerar a possibilidade de que ela resultasse de um enriquecimente humano geral. Karl Marx proo- INTRODUGAG: © QUE E LITERATURA? * é 8 cupayese com a sazio pela qual a arte da Grécia en:igs muntinha tun “encanto etemo”, embora as condigées socials que a tinham pro- Guzido hé muita tivessem desepsrecide. Mes como poderemos saber se ela continard sendo “eternamente” encantadors, 5 gue a histér finda ngo twemincu? Imaginemos que, grages a alguna hibil pesquisa arqucolégica, descvbrissemos muito mais sobre 0 qut 2 enliga trage- dia grege realmente: significava para seu priblico original, se zeeo- niheeéssemos que sais interesses esti muito distamtes dos nosso3, ¢ femos a reler esta pega a iz desse novo conecimento. Como conseqiiéncia, poderizinos deixar de aprecilas. Poderiamos passer 2 ver que delas gostdvamos porque involuntariamente 9s liamos 2 Iz de nossas préprius preocupacées; quando tal isterpretagie tornax+ se menos © drama deixou de ter significado p: © fato de sempre interprecaxmos as obras literérias, 216 ce! ponto, a luz de nossos préprios interesses — 2 0 fato de dade. szrmos incapens de, num cero sentido, interpreti-les ée rmancira — poderia ser uma das zazdes peles quais cxrtas obr ritias.parecom conscrvar seu valor através dos sécuics, Pode tecer, é claro, que ainda conservemos muitas das preccupasées ine: rentes & da propria obra, mas pode ocorrer também que no esteia- mos valorizando exatamente a “mesma” obra, embora essim nos p& repa, © “nosso” Homero ndo ¢ igual ao Homero da Idade Média, nemo “nosso” Shakespeare € igual a0 dos contemporiness dese autor, Diferenies periodos istériese construiram um Homero ¢ um Shakespeare “diferente tape 966s prdprios, envontrando em seus textos elemenics a serem valor zados ov desvalorizados, embora nfo necessariamcais os mesmaos, Todas as obras Tterdrias, em outeas palavras, s€o “reoscritas”, mestne que inconscientemente, pelas sociedades que as Iéem; na verdade io hé releicara de uma obra que no seja tnmb Nenhuma obra, «nena avaliagie atta! dela, pode ser simplesmen- te eslendidy w novos grupos de pessoes sem que, nesse [ nedifivagées, talve Guuse imperepiiveis, E essa & pols quais 0 ato dé se classificar algo como fteratura s2ja extre cords com seus interesses & rwamente instavel. Nio quero dizer que sefe instével p jam “subjetivos”. De acordo com 12) interpret dido entre ates <éfidos, ‘fexteriores", como a estacgo ferrovisria Grand Central, ¢ artilnérios juizos de valor “inter (ar de bananas ex actor que © rem de um pi -gue os julzos de valor se o mundo € divi MW THORIA LITERARIA Janfarronice defensiva até @ resignagio sombtia, Os falos sho publi- 005 ¢ indiscul{veis, os valores so privados e gratuitos. Hé uma dife- renga Gkvin entre descrever um fato, come “Esta cutedral foi cons- truida em 1612”, ¢ registrar um juizo de valor, como “Esta tatedrel uin exemple magnifico da arquirelura barroéa”. Vamos supor, po- rém, que a primeira ofirmagio tenho sido feita.a um visitante es- trangeina que percorre a Inglaterra, co tenha intrigado muito. Por que, ele poderia perguntar, vooé insiste cm mencionar as datas da cons truco de todos esses edilicios? Por que essa obsesséo com as or gens? Na sociedade em que vivo, cle poderia continaar, ndo inante- mos um registro desses econtecimentos; nossos edificios sio classifi zados de acorde, com sua posicio em relagio a0 noroeste ou a0 sudeste. Isso demonstraria parte do sistema incanscieate de juizos de valor que sublinha minhes proprias descrigées. Esses jutzos de valor nao 40 nevessariamente do mesmo tipe que’ “Esta catedral € um exemplo magaitico da arquitetura barrocs”, mas ainda assim slo juf- 08 de valor. ¢ nenzuma afirmagéo relacionade com fatos pode evi- Si-los, Afinal, as afirmagoes sobre os fatos s80 afirmapdes que pres- supsem alguns jufzas questioniveis: os juizes de que tais afirmacbes sic dignas de serer feitas, talvez muis dignts do que algumas ou- tras, de que e1 sou a pessoa indicada pata fazé-las ¢ talvex 2 pessoa capaz de assogurar sua veracidade,, de que voc® & 4 pessoa: indicada para fezé-tas, de que se obtém elgo de util com essa afirmagao, ¢ assim por diante. Uma conversa num café pode transmitix informa siio, mas o que predomtina nesse tipo dé converse € o um forte ele- mento daquilo que os lingilistas cramariam de *Zético”, uma preo- cupago som © ato de comunicacao ern si mesmo. Ac vonversar com yoo sobie as condisdes de tempo, estou assinalando também que considera digna de valor 2 conversa com voed, que 0 considero uma pessoa com quem vale a pena convetsar, que nfo sax antisocial e que nio estou inclinsdo © fazer ume critica detalhads de sue apa- rénein pesso Nesse sentido, nfo ha posaibilidade de se fazer uma observagtio toralimente desiaisiescada, Navuralmente, © fate de se mencionar a data em cuc uma caicdrai foi construida é considerado, em nossa cultura, come uma afirmago mais imparcial de que expressat uma opinide scbre sua arquitetura; mas poderiemos também imaginar ituagdas nas quais & afirmacio anterior estatia mais “earvegada de ” do que 2 segunda. Talvez “barroce” e “magnifico” se tenham singnimos, 20 pass? que epenus ep INFRODUCAO: Q QUE f LITBRATURA? tum punhado de pessons (elmosus se upegom d crenga de que a date de construgde d¢ um edificio seja significativa, e minha. afirmagto seja tomada como uma maneita codifieada de assinalar essa posi¢io. Tudas as nossas afirmagies descritivas se fazem dentro de uma rede, freqentemente invisivel, de categorias de valores; de fata, sem essas categories nada terfamos a dizet uns sos outros. Néo que tenhamos alguma coisa chamada conhecimento fatual que possi ser deformado or interesses e jufzos particulares, embora isso seja perfeitamente possivel; osorre, porém, que scm interesses particuleres nfo teria os nenhuin conhecimento, porque nid veriamos qualquer wilidads fem nos darmos 40 trabalho de adquitir tal conhecimento. Os inte- resses so constitutivos de nosso conhecimento, © no apenas precon- ceitos que o colocam em risco. A pretensio de que 0 conhecimento deve ser “isento de valores” 6, em si, um juizo de valor. Pode ocorrer que a prefertneia por bananas seja uma questi meramente particular, embore tal Fato seja questionével. Uma unlise exaustiva de minhas preferéncias por’ alimentos provavelmente reve: laria a profunda relevancia que elas tém para certas experiéncies formativas de rainha infancia, para as relagées com meus pais ¢ it- infos © para muitos outros fatores culturais que slo tio sociais e “ndosubjetivos” quanto as eslagies fersovidsies. Ussa € ainda mais vélido no que diz respeito & estrutura fundamental de crengas © interesses que me envolve desde o nascimento, como membro de uma determinada socivdade, tais como a conviceo de que me devo manter em boa saiide, de que as diferengas dos papéis sexuais tém suas raizes ha biologia humana, ou de que os seres humanos so mais importantes do que 0s crocodilos, Podemos discordar disso ou daguilo, mas tal discordincia s6 € possivel porque partilhamos de certas mancicas “profundas” de ver e valorizar, que estio ligadas 3 nossa vida social, © que ndo poderiam ver modificadas sem trans- formarem essa vida, Ninguém me castigard seriamente por nio gostar de um determinady poema de Donne, mas se, em certas cireuastincias, eu argumentar que Donne nfo € literatura, eu correria 0 isco de perder meu emprego. Sou livre para volar a favor dos trabalhisiss fu dos vonservadores, mas se eu tenter agir com a conviesio de que ‘esa esuolha apenas mascara um preccnceito mais profudo — 0 preconceita de que o significado da democracia Timitwse a colocar Juma cruz num voto de tantos em tantos snos — entio, em certas cirounstincias exvepcionsis, eu poderia acabar na cadeia ' | 16 TEORIA LITERARIA A estrutara de valores, em grande parte ceulta, que informa © enfatiza nossas afizmagdes fatuais, & parte do que entendemos por “jdeologia”. Por “ideologia” quero dizer, aproximademente, @ ma neira pels qual aquilo que dizémos e no que acredivamos se rele ciona com a estrutura do poder © com as relagées de poder da socitdade em que vivemos. Segue-se, dessa grosseira definigao. que tem todos 05 nosis jufzos € categotias subjecentes podem ser pro- veitosamente considerados ideolsgicos. Temos @ convicgao profunda ie que avangamos pare a futuro (pelo menos uma outta sociedade facha que esté recuando para 0 futuro), mas cmbora essa maneira de ver possa se"relacionar de modo significetivo com 2 extrutura de poder de nossa sociedade, jsso necessariemente ndo ocorre sempre ¢ ‘em toda a parte. Nio entendo por “idtologia” apenas as crengas que tem cavzes profandas, ¢ sto muitas vezes ineonscientes; considero-a, mais particularmente, como sendo os motos de sentir, avalige, per ceber © screditar, que se relecionsm de alguina forma com 9 manc: tenglo e reprodusic do poder social. © fato de que tcis convicgses néo so apenas caprichos particulores pode ser ilustzado com um exemple fiteréro. Em seu famoso estudo Practica! Criticism (1929), 0 critico 1. A. Richards, de Cambridge, procurou demonstrar como os julzcs de valor titerdries podem ser caprichosos e subjetivos, distribuindo os seus alunos uma série de poemas, sem os iitulos e os nomes dos autores, ¢ pedindo-lhes que os aveliassem, Os julgamenios resultantes, foram muito varindos: poetas consagrados pelo tempo receberam no- fas baixes @ autores obseuros foram elogiades. Na minha opinio, Porém, 0 aspecto mais interessante desse projeto, ¢ a0 que pa nfo percebido pelo prépric Rickards, foi o de demonstrat como um consenso de avaliagées inconscientes ests présente nessas diferentes opiniges, Lendo as opinidss dos alunos de Richards sobre as obras Ierdrias, surpreendemnos 0: hébitos de percepelo e interpretagio Que, espontaneamente, toxlos tém em comum —~ 0 que esperum que a Rerataen soln, quafs os pressuposios que levom num pooma e que salistagSes esperam obter dele, Nada disso € realmente surpreenden- Je, pols swelos os pateipantes da experidnels cram, presumidamente, jovens, brances, de classe média alta ou média, educados em escolas particulares inglesas da décade de 1920, © a maneira pela qual rea giram a um poema dependeu de muitas outra coisas além de faicres puramente “literdtios”, Suts rescSes criticas estavam profundemente Tigadas aos seus preconceltos e erences mais gerais. Ndo se trata de INTRODUGAO: O QUE € LITERATURA? E I? uma questéo de culpa: nfo 6 reagio eritica que nie tenha tis ligagées, © assim sendo, nao hi neda que se assemelhe 2 wm julge- io ou interpretagso orttiee purmenite “Veersria”. Se alauém 6 culpado, séré H. A. Richards, que como wm professor de Cambridge, ‘ovem, brance, de ol alto, foi ineapaz de objotivar at contexto de ineresso | ele pariithava em considersvsis pro , sence por isso ineapar dé recomhever plenamente que us diferencas jocais. “subjetives”, de avaliggio, funciona dentro de luma maneira especifica, socialmente estruturada, de ver 0 mando. Se mio é possivel » “Obie tive”, descritiva, também nfo & possivel dizer que a liveratura € ape nas aquilo que, caprichosamente, cueremos ghamar de literature, tsso fer a fReraturs como porgue mio ha nade de coprichoso nesses sipos de juizos de valor cles rim stas rafees em estrutures mais profundas de ctensas, 10 evidemles ¢ inebalaveis quanty o edificio do Empire Stats. Portanto, © que descobrimos até agcra nao € apenas gue a literatara uso existe da mesma maneita que os inseins, © que os jaizos de valor que 2 consti io historicamente varidveis, mas que esses réprios. uma cstteita relagso com as ideclogias rem, em tiltima andlise, n3o apenas a0 gosto particular mas aos pres supostos pelos quais certus grupos socials exercem © mantém © poder sabre cutros, Se tal afiymagio parece exagerads, ou fru preconecite pessoal, podemos testd-u através de uma expo: 2 usconsiio du “literanera” na lnglaterra. 10 sobre