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DE

ESPAÇO

E

SOCIEDADE

NOSSA

SENHORA

DA

LUZ

MENSBG N

NA

VILA

DOS

PINHAIS

AUTORIDADES

LUCIANO

DUCCI

Prefeito

de

Curitiba

ROBERTA STORELLI

 

Presidente

da

Fundação

Cultural

JOSÉ ROBERTO

LANÇA

Superintendente

 

ANA MARIA

HLADCZUK

 

Diretora

de

Incentivo

à

Cultura

JANINE DE SOUZA

MALANSKI

Diretora

de Ação

Cultural

 

de

Curitiba

MARIA ANGÉLICA DA ROCHA CARVALHO Diretora Administrativa e Financeira

MARILI AZIM

Diretora

de

Patrimônio

Cultural

NILTON CORDONI

Presidente

JÚNIOR

Curitiba

do

Instituto

de Arte

e

Cultura

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA

PUBLICAÇÃO

C975 Curitiba e seus homens bons: espaço e sociedade na Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais / organizado por Ana Lúcia Rocha Barbalho da Cruz; Magnus Roberto de Mello Pereira. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, 2011. 128 p.: ii

ISBN 978-85-86107-19-1

1. Curitiba - História - Séc. XVIM-XIX. 2. Família - Curitiba - Séc. XVIII - XIX. 3. Tropeirismo - Curitiba. I. Andrezza, Maria Luiza. II. Barleta, Leonardo Brandão. III. Borges, Joacir Navarro. IV. Cruz, Ana Lúcia Rocha Barbalh o da. V. Inssa, Maria Helena Cordeiro. VI. Kato, Allan Thomas Tadashi. VII. Pereira, Magnus Roberto de Mello. VIII. Santos, Rosângela Maria Ferreira dos. IX. Stanczyk Filho, Milton.

CDD (22 a ed.):

981.62 1

Ficha catalográfica elaborada por Filomena N. Hammerschmidt - CRB9/850

Projeto realizado com o apoio da Prefeitura Municipal de Curitiba /

Fundação Cultural de Curitiba / Programa de Apoio e Incentivo à Cultura

ANA

LÚCIA

MAGNUS

ROBERTO

BARBALHO

DE MELLO

DA CRUZ

PEREIRA

&

(ORGS.)

CURITIBA

E SEUS

HOMENS-BONS

DE

ESPAÇO

E SOCIEDADE

NOSSA

SENHORA

DA

LUZ

NA

VILA

DOS

PINHAIS

CURITIBA

2011

SUMÁRIO

LISTA DE ABREVIATURAS

06

APRESENTAÇÃO

07

ONDE MORAVAM OS HOMENS-BONS DE CURITIBA

10

Allan Thomas Tadashi Kato

OS HOMENS-BONS VÃO ÀS URNAS

3 2

Rosângela Maria Ferreira dos Santos

ELITE E CARIDADE NOS SERTÕES DE CURITIBA

4 6

Maria Luiza Andreazza

MULHERES À BEIRA DE UM ATAQUE HONRA E FAMÍLIA NA VILA DE CURITIBA

60

Leonardo Brandão Barleta Magnus Roberto de Mello Pereira

OS HOMENS

DE NEGÓCIO DA SOCIEDADE TROPEIRA

76

Joacir Navarro Borges

A ELITE VAI AO REINO

104

Maria Helena Cordeiro Inssa Ana Lúcia Rocha Barbalho da Cruz

CONSTRUIR ALIANÇAS E TRANSMITIR SABERES:

116

UMA ESTRATÉGIA DE FAMÍLIA

Milton Stanczyk Filho

LISTA DE ABREVIATURAS

ACC - Arquivo da Catedral de Curitiba

ACSP - Arquivo da Cúria de São Paulo - Arquivo Metropolitano

Dom Duarte Leopoldo e Silva

AESP - Arquivo do Estado de São Paulo

APSAL - Arquivo Paroquial de Santo Antonio da Lapa

BAMC - Boletim do Archivo Municipal de Curitiba

BCMC - Biblioteca da Câmara Municipal de Curitiba

CEDOPE - Centro de Documentação e Pesquisa de História

dos Domínios Portugueses - UFPR

LAJO - Livro de Audiências dos Juízes Ordinários

LA - Livro de Avulsos

LN - Livro de Notas

PTC - Primeiro Tabelionato de Curitiba

RIHGB - Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro

APRESENTAÇÃO

Durante décadas, as pesquisas acadêmicas sobre a história do Paraná pouco se ocuparam do período que decorre da ocupação da região da baía

de Paranaguá e dos campos de Curitiba, em meados do século XVII, até a

Emancipação Política do Paraná, em 1853. O recorte cronológico de disser- tações e teses dos Cursos de Pós-graduação em História da UFPR, entre os anos de 1972 e 1997, exemplifica bem o interesse acentuado por estudar períodos mais recentes. Nesse período de vinte e cinco anos, o século XVII mereceu apenas um único trabalho e o XVIII, seis. A partir daí, observa-se um

salto quantitativo expressivo. Quarenta e dois trabalhos investigaram o século

XIX e setenta e oito estavam voltados para temas do século XX. 1

A escassa produção relativa ao período colonial priorizou análises de cará- ter demográfico, que discutiam e procuravam compreender a composição e

a estrutura da população de vilas paranaenses, com base em dados retirados

de listas nominativas e/ou de registros paroquiais. Por sua vez, a historiogra- fia sobre o século XIX dedicou-se insistentemente ao estudo da imigração européia. Com isso, a academia acabou participando e contribuindo para

um processo de construção mítica da figura do imigrante. Era como se os

recém imigrados do continente europeu tivessem chegado a um território vazio e inexplorado e, a partir do zero, tivessem começado a construir o Pa- raná contemporâneo. Este tipo de enfoque começou a ser modificado a partir

do final dos anos 1980, em função das novas tendências assumidas pela historiografia brasileira as quais apontavam para um revigorar das investiga- ções sobre o período colonial. O determinismo econômico que havia servido para explicar praticamente toda a dinâmica do Brasil colonial e a polaridade como eram tratadas as relações da metrópole exploradora versus a colônia explorada perdem espaço como modelos explicativos. Em seu lugar cresce

a percepção sobre movimentos mais complexos, indicando que os colonos

eram agentes ativos que construíram processos internos de acumulação e que negociavam espaços de poder com a metrópole. Por outro lado, os estu-

dos

históricos demográficos também se reorientaram na direção da constru-

ção

de uma história social, mais preocupada em perceber a constituição de

tramas de relações econômicas, sociais e político-administrativas, que passa- ram a ser observadas simultaneamente em escalas macro e microscópicas. Tais fenômenos passam a ser abordados não mais em um viés localista -

a História Regional - mas em uma perspectiva que procura articular o local,

1 Fonte: Catálogo de Dissertações e Teses (1972-1997). PGHIS: 25 Anos. Curitiba: Coor- denação do PGHIS, 1997.

o regional e o transcolonial com as relações colônia-metrópole. O Brasil Co- lônia, ou as múltiplas capitanias portuguesas da América, passa a ser visto como uma parcela dos domínios da coroa lusa, integrando um processo his- tórico com lógicas próprias e não mais como o embrião em gestação do futuro Brasil independente.

Os textos aqui reunidos participam dessas mudanças de paradigma e fo- ram elaborados a partir de pesquisas acadêmicas desenvolvidas por alunos e professores da Universidade Federal do Paraná. 2 Sob diferentes perspectivas, refletem a produção historiográfica contemporânea sobre a Curitiba do sécu- lo XVIII e início do XIX. Antes disperso e individualizado, agora tomado em seu conjunto, o produto das pesquisas passa a constituir as partes coerentes de um todo que foi sendo construído lentamente para desvelar aspectos de uma Curitiba conhecida de poucos. Contudo, essa história em fragmentos, construída no tempo lento das muitas leituras, da formulação das hipóteses, do cruzamento de dados, da busca de indícios e probabilidades, vista em conjunto, se traduz num amplo painel em que a imagem de Curitiba do período colonial aparece cada vez mais rica em detalhes e nuances.

A cada ano, monografias, dissertações e teses visitam novos temas e ensaiam perspectivas de análise com vistas a enriquecer as visões do passado. Os ho- mens-bons da Curitiba setecentista são as personagens que permeiam e dão unidade aos estudos ora apresentados. No entanto, cada um dos segmentos que compõem este volume é fruto de projeto de pesquisa específico, distintos um do outro e realizados em momentos diferentes. Na forma de trabalho acadêmico em que foram concebidos e produzidos estes estudos, que resultaram do esforço de anos de investigação científica de cada um de seus autores, eles tenderiam a permanecer como peças únicas e desarticuladas umas das outras. O formato de coletânea dá unidade e sentido ao que nasceu disperso, mas, principalmente, cria a possibilidade de que um universo mais amplo de leitores tenha acesso a textos que de outro modo estariam restritos à comunidade acadêmica.

Nosso desejo é que esses fragmentos da história contribuam para tornar mais multifacetada e complexa a imagem em construção do passado de Curitiba. Se o exercício de compilar, adaptar e organizar os textos para este volume con- seguir despertar em seus leitores algum prazer e uma maior curiosidade por conhecer outras versões da história, terá cumprido seu desígnio.

2 Acompanhando o movimento de renovação historiográfica e com vistas a fornecer os ins- trumentos para a ampliação da abrangência das pesquisas, foi criado o CEDOPE - Centro de Documentação e Pesquisa de História dos Domínios Portugueses.

ONDE

MORAVAM OS

HOMENS-BONS

DE

CURITIBA

ALLAN THOMAS TADASHI KATO*

* Mestre em História pela UFPR, integrante do CEDOPE.

A VILA DE CURITIBA NO INÍCIO DO XIX A vila de Nossa Senhora dos Pinhais, localizada na parte mais baixa de um planalto, desenvolveu-se bastante lentamente desde seus primeiros assenta-

mentos, em meados do século XVII. Relatos de viajantes que por aqui passa- ram permitem vislumbrar alguns aspectos daquela que era uma pequena vila ainda no século XIX. Em 1820, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, escreveu em seu caderno de viagem que a cidade tinha forma quase circular,

e contava com 220 casas, pequenas e cobertas de telha, quase todas térre-

as

de Andrada, havia feito um breve apontamento em sua passagem pela vila, observando que suas casas eram brancas e asseadas. 4 As casas se agrupa- vam principalmente em torno da grande praça central, bipartida entre o que se denominava o Campo, espaço de descanso das montarias e realização das feiras e o Largo da Matriz. Algumas outras edificações se encontravam nas ruas adjacentes, e, outras ainda, de forma mais esparsa, se distribuíam ao longo dos caminhos de acesso ao núcleo central. O livro de registro das edificações para efeito de cobrança do imposto predial urbano - Décima Ur- bana - indica que, em 1810, havia na cidade 244 casas, distribuídas por 12 logradouros. 5

naturalista brasileiro Martim Francisco

e feitas de pedra. 3 Anos antes, o

Para além dos imóveis residenciais, comerciais e mistos (aqueles que abrigavam comércio e moradia acoplados) aqui também, como em outras vilas brasileiras do período colonial, alguns elementos definiam a paisagem urbana: a Casa da Câmara e Cadeia, as cariocas (fontes d'água), o pelourinho

(local de castigo para escravos e criminosos e marco simbólico do poder mu- nicipal) e a igreja (ou igrejas). No caso de Curitiba, chama a atenção o fato de

a pequena vila contar, além da Igreja Matriz, com mais três igrejas menores, ou capelas. O número relativamente elevado de espaços de culto religioso nessa vila de pequeno porte e poucos habitantes talvez se explique como

3 SAINT-HILAIRE, A. Viagem pela Comarca de Curitiba. Curitiba: Fundação Cultural, 1995. p. 105-106.

4 ANDRADA, Martim F. de. Jornal de viagem por diferentes vilas desde Sorocaba até Curi- tiba principiado a 27 de novembro de 1802. RIHGB, t.45, parte 1, 1882. p. 42, 1882. As considerações deste viajante naturalista luso-brasileiro acerca do núcleo urbano de Curiti- ba foram publicadas nesta única página, em um parágrafo curto.

5 A queda no número de casas (de 244 para 220) nesse intervalo de dez anos pode não ter ocorrido. No primeiro livro de imposto predial da cidade foram registrados os imóveis em uso, as ruínas e as edificações em construção. Como não há informação se Saint-Hilaire incluiu na sua contabilidade as casas não-habitáveis, não se pode afirmar que houve declí- nio no número de imóveis. Pode ter ocorrido justamente o contrário. O número de imóveis em condições de uso pode ter aumentado de 196 (casas habitáveis em 1810) para 220, à época da passagem do naturalista francês.

indício de uma hierarquização social local. A hipótese carece de confirma- ção. O que se sabe é que a capela do Rosário destinava-se, especialmente, aos negros. A capela da Ordem Terceira era frequentada por uma parte da elite local. Quanto à capela de São Francisco, não há informação sobre seus usuários.

Saint-Hilaire visitou a igreja matriz e observou sua simplicidade, registrando que ela não era grande, que contava com algum ornamento mas não tinha torre nem possuía sino e tampouco havia pintura no teto (como era usual em templos maiores ou mais ricos). O viajante francês estranhou a posição da igreja, que fica- va desalinhada em relação à praça, o que, segundo ele, prejudicava a harmonia e regularidade da mesma. 6 As edificações que abrigavam os templos menores deviam ser ainda mais modestas, não merecendo descrição de nenhum dos via- jantes que por aqui passaram. A observação de Saint-Hilaire sobre a implantação da igreja matriz provavelmente foi levada em conta quando da sua reconstru- ção no final do século XIX; o edifício foi deslocado para enquadrar-se na praça. Os demais templos permanecem até os dias de hoje em seus sítios originais.

A Casa de Câmara e cadeia, mandada construir em 1721 pelo ouvidor Par- dinho, provavelmente, foi um dos principais imóveis da vila. 7 Contudo, em 1810, o edifício não estava em condições de uso. Esse fato talvez explique o aluguel de dois imóveis - na Rua Fechada e no Pátio da Matriz - para a realização das atividades camarárias.

Duas cariocas e o pelourinho completavam o cenário urbano. Saint-Hilaire relatou que as fontes de água eram feitas de pedra, mas não tinham nenhum ornamento. 8 Uma delas, localizava-se no largo da Igreja do Terço, onde ainda se encontra hoje, no largo da Igreja da Ordem Terceira e a outra dava nome à rua onde estava colocada, Rua da Carioca de Baixo (hoje desaparecida, mas repre- sentada em plantas antigas). Quanto ao pelourinho, não há nenhuma indica- ção que permita identificar, com precisão, sua localização original. Apesar disso, nojjéculo XX, a prefeitura de Curitiba definiu a região anexa ao Pátio da Matriz, antigo Largo da Matriz, atual Praça Generoso Marques, como o local onde o pe- lourinho teria sido levantado.

6 SAINT-HILAIRE, op. cit., p. 106.

7 Em 1721, o ouvidor Pardinho ordenou a construção de um edifício próprio para as funções camarárias (provimento 43). Até então, o Concelho se reunia em casa alugada. SANTOS, Antonio Cesar de A. (org.). Provimentos da Vila de Curitiba (1721). MONUMEN- TA, Curitiba, v. 3, n.10, 2000. p.44. A construção desse prédio parece ter sido finalizada em 1726. LEÃO, Ermelino de. Contribuições históricas e geográficas para o Dicionário do

Paraná. Curitiba: Instituto

Histórico e Geográfico do Paraná, 1926. v.l , p. 244.

8 SAINT-HILAIRE, op. cit., p. 106.

O LUGAR DOS MORADORES

0 presente artigo é uma tentativa de situar a elite curitibana do início do século XIX no espaço urbano da vila. Para posicionar os moradores de Curitiba nos lugares onde residiam era preciso conhecer o arruamento e o loteamento da localidade. No entanto, não existem plantas da vila no início do século XIX. Na ausência de representações cartográficas que mostrassem as ruas e os lotes urbanos, foi necessário recorrer a plantas mais atuais e, com o auxílio de outras representações da vila produzidas no século XIX (gravuras principalmente) e de fontes descritivas, tentar retroagir à situação da época desejada.

Um dos recursos mais úteis para tentar perceber a distribuição das edi- ficações na malha urbana foi o registro dos imóveis feito pela administração municipal para procederá cobrança do imposto predial, denominado Décima Urbana, criado por ocasião da vinda da família real para o Brasil. No livro relativo à cobrança da Décima Urbana de Curitiba em 1810 estão arrolados 11 logradouros. Algumas das ruas dessa época tinham o nome relacionado a marcos importante presentes no lugar, tais como a Rua do Rosário que par- tia da Igreja homônima, ou as ruas da Carioca de Cima e Carioca de Baixo, nomeadas em função das duas fontes da vila. Outras ruas levavam nomes de caráter descritivo, como a Rua Fechada (provavelmente um beco) e a Rua do Jogo da Bola, denominação auto-explicativa. Saint-Hilaire disse dessas ruas que eram largas e regulares, sendo algumas totalmente pavimentadas e outras calçadas apenas diante das casas. 9

A região do entorno da igreja matriz recebia respectivamente as deno- minações de Pátio e Largo da Matriz. O Pátio correspondia mais ou menos ao que é hoje a Praça Tiradentes, na época um amplo campo de formato

quadrangular, "coberto

por um relvado" 10 ; o Largo se desenvolvia como um

anexo ao Pátio e tinha formato irregular, correspondendo ao local onde hoje

se encontra o mercado de flores da Praça Generoso Marques.

A análise dos registros do livro da Décima Urbana de 1810 permite obter informações relevantes não apenas para se perceber a localização aproxi- mada dos imóveis nas ruas e logradouros da vila. 11 Mais que isso, ofere- ce importantes indícios para relacionar o local de morada à posição social

9 SAINT-HILAIRE, ibidem. Dificuldades financeiras da Câmara provavelmente restringiram mudanças profundas no arruamento da vila.

10 SAINT-HILAIRE, ibidem.

11 Dado que o escrivão do livro de impostos não especificava o lado da rua em que estava situado cada imóvel, não foi possível obter o posicionamento exato deles, mas apenas o fato de estarem localizados em cada uma das ruas e logradouros.

dos moradores e verificar, em função do valor dos imóveis e da ocupação do proprietário, entre outras variáveis, se havia uma tendência para a formação de grupos de vizinhança consoante a condição sócio-econômica dos moradores.

Os livros de cobrança de Décima Urbana, no entanto, não qualificam ple- namente os moradores. Para conhecermos a situação sócio-econômica dos habitantes da vila foi preciso recorrer a outras fontes. As mais importantes são as Listas Nominativas, que eram os censos da época. Essas listas de moradores, feitas ano a ano, descrevem a composição dos domicílios: quais eram os moradores, as relações de parentesco entre eles e suas idades, etc. Muitas vezes trazem dados sobre a ocupação de seus chefes e a renda anual da família. Outras fontes a oferecerem informações adicionais sobre os in- divíduos que habitavam a vila são as listas de oficiais da câmara municipal (vereadores, procuradores e juízes ordinários) e de integrantes das irmanda- des religiosas que congregavam a elite local. A documentação referente às milícias também mostra a hierarquização dos moradores. No conjunto, essas fontes permitiram traçar um perfil dos homens-bons de Curitiba, a partir de seus atributos sociais e econômicos.

HOMENS-BONS

O termo homens-bons servia para designar os homens que de alguma forma se distinguiam dos demais. Na linguagem dos documentos das Câma- ras oitocentistas essa terminologia medieval ainda era utilizada para referir os representantes das elites locais. O prestígio de que gozavam os homens- -bons do lugar franqueava e esse seleto grupo de cidadãos, e somente a eles, as prerrogativas de poderem eleger e serem eleitos para os cargos da admi- nistração municipal. Em algumas vilas do Brasil colônia, os representantes dos grupos de poder local se auto-definiram como 'nobreza da terra', forma de nobilitar a posição social que ocupavam.

Para a vila de Nossa Senhora dos Pinhais, podem ser apontados alguns fatores que intervinham na representação identitária das elites e que faziam com que pessoas ou grupos fossem reconhecidos como merecedores de prestígio e distinção social. Ser homem 'de posses', embora não fosse uma garantia, era um bom começo para pertencer à nobreza da terra, mas esse atributo podia ser acrescido de outros que lhe agregassem ainda mais dis- tinção, como por exemplo, ter altas patentes nas milícias, ocupar cargo na Câmara ou pertencer a certas irmandades religiosas.

A vila de Nossa Senhora dos Pinhais era relativamente pobre e bastante pequena. O viajante Saint-Hilaire, que havia visitado outras vilas do Brasil,

observou que em nenhuma delas as casas pertencentes às pessoas impor- tantes eram tão modestas quanto aqui. Nessa sociedade 'rústica' os índices de fortuna pessoal não se traduziam em residências portentosas e muito me- nos em utensílios domésticos de luxo ou ornamentos pessoais. Certamente eram outros os itens que denotavam a abastança. Um deles era ser senhor e dono de escravos. Por ser mercadoria relativamente cara, a posse de escra-

vos era um sinal de riqueza de seu proprietário. Numa sociedade na qual não havia abundância de bens de ostentação, os escravos também se prestavam

a esse propósito.

As patentes da milícia constituíam uma das principais distinções da so-

ciedade da vila no período. Era tão relevante para aqueles moradores inte- grarem o corpo miliciano que a patente alcançada praticamente se associava ao nome do seu portador. Não importando o tipo de documento em que

o miliciano fosse citado, sua patente sempre antecedia seu nome. Assim,

quanto mais alta a patente, mais 'nobilitava' seu portador, que normalmente

a ostentava como título honorífico de grande importância.

O espaço mais proeminente para o exercício e a demonstração de poder no âmbito da vila era a Câmara Municipal. Ocupar os cargos da Câmara im- portava distinção a que apenas os homens brancos da elite tinham acesso. Nesse período as câmaras constituíam a única instância de administração local, concentrando sob sua jurisdição não apenas as funções legislativas, como atualmente, mas exercendo também as atribuições administrativas e judiciárias do município. Na estrutura da Câmara havia as funções de maior

poder decisório como as de vereador, juiz ordinário e procurador-tesoureiro

e

os cargos de menor expressão, como o de alcaide, porteiro e carcereiro.

O

cargo de almotacé era um cargo intermediário, que algumas vezes funcio-

nou como porta de entrada para funções mais prestigiadas. Os representan- tes das elites locais tinham no Concelho da Câmara um espaço privilegiado de ostentação, até porque, como os cargos não eram remunerados, só os mais abonados podiam dar-se a tal 'luxo'. Tão, ou mais relevante quanto ocu- par um cargo na Câmara era fazer parte do rol de eleitores. Os requisitos para tornar-se eleitor eram os mesmos exigidos para ocupar os cargos da Câmara, ou seja, estar entre os homens bons do lugar e saber escrever. Portanto, os homens que tinham a prerrogativa de votar pertenciam às mesmas elites que podiam ser votadas.

As irmandades religiosas, geralmente agregadas a alguma igreja ou ca- pela, funcionavam como espaços de sociabilidade urbana e se constituíam também como redes de solidariedade. Além disso, os recursos dos cofres das irmandades foram frequentemente utilizados como fundos disponíveis

para empréstimos, sendo a função de gerenciá-los a um só tempo motivo de distinção social e possibilidade de manipular recursos financeiros. A confra- ria que reunia as elites brancas era a Irmandade de Nossa Senhora da Luz. Embora não houvesse nenhum impedimento explícito nos documentos da irmandade, não consta em seus livros registro qualquer homem que não fos- se declaradamente branco. A ocupação dos chefes de domicílios da vila que eram confrades desta irmandade dividia-se entre fazendeiros, negociantes e padres. Assim, a irmandade se configurava como instituição agregadora e de reafirmação da identidade social de seus confrades; no caso o clero paroquial e as elites rural e dos negociantes de grosso trato.

O LUGAR DOS HOMENS-BONS

Após a elaboração de plantas hipotéticas da vila e a caracterização dos moradores, o passo seguinte foi relacionar, aproximadamente, cada morador ao lote em que morava. Uma das dificuldades encontradas foi a mudança do nome das ruas ao longo do tempo. Todos os logradouros passaram por trocas de nomes, à exceção da Rua do Rosário. A comparação entre plantas produzidas ao longo do tempo, uma maquete da vila feita na década de 1920 representando a vila em 1876, croquis dos quarteirões produzidos na pri- meira metade do século XX e levantamentos feitos por estudiosos da cidade, ajudaram a acompanhar as alterações de nomenclatura das ruas.

COMPARAÇÃO DAS NOMENCLATURAS DAS RUAS, DE CURITIBA, EM DIVERSAS

ÉPOCAS

1810

1857

1876

Rua Fechada

Rua Fechada

|

Rua Fechada

Rua Nossa Senhora do Terço

-

-

Rua do Fogo

Rua do Fogo

j

Rua do Fogo

Rua Nova

i

Rua da

Rua da

da Entrada

!

Entrada

Entrada

Rua do

Rua da

Rua da

Lisboa

Carioca

Carioca

Rua da Carioca de cima

:

-

 

1900

2010

Rua José

Rua José

Bonifácio

Bonifácio

Rua

Rua

:

São Francisco !

São Francisco

[parte]

[parte]

Rua

Rua

:

São Francisco

São Francisco

[parte]

[parte]

Rua

Rua Emiliano

Aquidaban

Perneta

Rua

Rua Riachuelo

!

do Riachuelo

Travessa

Rua Mateus

da Ordem

Leme

Rua São Francisco:

de Paula

Rua do Rosário

- -

: Rua do Rosário

Rua do Rosário :

-

Av. Jaime Reis

Rua Rosário

Rua do Rosário

Pátio e

Pátio e

Largo da Matriz

Largo da Matriz

Rua Nova

Rua Nova

das Flores

das Flores

Rua da Carioca de baixo

Rua do Jogo da Bola

Rua das

Flores

Rua do

Comércio

Assembl a

Largo da Matriz/

Pçs. Tiradentes/

Pç. Do Mercado

Municipal

Rua

Rua XV

das Flores

Rua do

Comércio

I

Ru a

Nov a

de Novembro

Rua

Mal. Deodoro

Rua

da Assembléia

Pçs.

Tiradentes/

Generoso

Marques/J.B.

de Macedo

Rua XV

de Novembro

Rua

Mal. Deodoro

Al. Dr. Muricy

Fontes: Décima Urbana de Curitiba (1810); Planta de 1857; Maquete de 1920; Planta

de 1900; e Planta cadastral atual (2007).

Na análise da distribuição sócio-espacial dos moradores, as casas em que habitavam fornecem, desde logo, importantes indícios. Cerca de 91% dos proprietários possuíam uma única casa na vila, resultando que a figura do morador praticamente se confundisse com a do proprietário do imóvel. O valor de um imóvel é um excelente indicativo para se perceber a condição sócio-econômica dos seus proprietários. Assim, casas de valores mais modes- tos sugerem residentes menos abastados; do mesmo modo que imóveis mais valorizados tendem a pertencer a moradores mais abonados. Essa linha de investigação permitiu que se fizesse um mapeamento sócio-econômico da vila para o ano de 1810, com algum grau de confiabilidade. Além do valor atribuído das edificações, sempre que foi possível, foram agregadas outras variáveis a fim de melhor caracterizar o status social dos ocupantes dos imóveis.

PLANTA DA VILA COM INDICAÇÃO DO VALOR MÉDIO DAS EDIFICAÇÕES (CURITIBA, 1810)

Valor do Aluguel

Legenda

|

| l$440-2$440

BBB

2$880-4$800

I

5$280-7$680

H

8$640-15$380

[ZZ ] Casas Inabitadas

Tendo em vista o traçado da vila, observou-se que os imóveis mais valori- zados estavam distribuídos pelas ruas do setor norte do núcleo urbano, região para onde se desenvolveu o arruamento mais antigo, logo após a implantação das primeiras casas no entorno da igreja. Em contraposição, nas ruas do se- tor sul, que foram ocupadas posteriormente, localizavam-se os imóveis mais modestos da vila. A parte central, que abrange o largo da matriz e seu pátio, dividia o núcleo urbano em duas regiões relativamente distintas e configura- va-se como uma área de ocupação mista, com imóveis de alto e baixo valor, (vide planta)

A tabela seguinte, mostrando a distribuição das 244 casas da vila em seus logradouros, permite que se tenha um perfil da densidade ocupacional de cada rua bem como do núcleo da vila como um todo.

NÚMERO DE CASAS URBANAS POR LOGRADOURO - CURITIBA, 181 0

 

Logradouros

N° de casas

%

Pátio e Largo da Matriz

68

28

Rua do Fogo

38

16

Rua do Lisboa

29

12

Rua do Rosário

18

I

7

Rua nova das Flores

17

j

7

Rua Fechada

16

1

Rua do Jogo da Bola

16

7

Rua nova da

Entrada

12

5

Rua da Carioca de cima

11

4

Rua

Nossa Senhora do Terço

08

3

Rua São Francisco de Paula

07

3

Rua da Carioca de baixo

04

2

Total

244

100

A região da vila onde estavam localizadas as casas mais valorizadas era formada por quatro ruas próximas e conectadas pelo largo da antiga Igreja do Terço, atual Igreja da Ordem. Eram elas a Rua Fechada, a Rua Nossa Senho-

ra

do Terço, a Rua da Carioca de Cima e a Rua do Rosário.

Em média, a Rua Fechada tinha os imóveis mais caros do núcleo urbano.

se localizava a casa de mais alto preço da vila, na qual, em 1810, morava

o

pároco Antonio de Macedo. Afora ocupar a casa mais cara da vila e na

falta de maiores informações sobre a situação econômica deste sacerdote, não é errôneo afirmar que ele fazia parte da elite local. O elevado prestígio de que gozavam os sacerdotes na sociedade desse período, não dependia

exclusivamente de suas riquezas pessoais, embora alguns tenham sido bons

negociantes e tenham chegado a acumular fortuna. O poder simbólico atri- buído aos integrantes do clero e a influência por eles exercida sobre os paro- quianos colocava, de partida, os padres lado a lado com as elites econômicas locais. Residia também na Rua Fechada a viúva do sargento-mor Diogo Pinto de Azevedo Portugal. Pessoa proeminente na sociedade local, com a mor- te do marido, Rita Ferreira de Oliveira Bueno tornou-se proprietária de uma fazenda, de 18 escravos e da casa urbana onde morava. Mulher de posses, a fazendeira merecia o título de 'dona', que na época era dispensado à mu- lheres de reconhecido status e prestígio. Vivia na mesma vizinhança o reinol João Antonio Pinto de Faria Meneses, também viúvo, que era um próspero fazendeiro de 57 anos. Além da fazenda e cinco escravos, Meneses contava entre seus bens a propriedade de dois imóveis urbanos. Compartilhou os espaços de poder da Câmara no período na condição de eleitor. Aliás, muitos

ou

seja, de reconhecida reputação entre os homehs-bons da vila. No ano de 1810, o reduto chegou a abrigar 1/3 do total de eleitores residentes no núcleo da vila, confirmando o logradouro como um dos preferenciais para morada de representantes das elites locais. O capitão José Rodrigues Branco, de 42 anos, também era proprietário na Rua Fechada. Apenas intermitentemen- te o capitão ocupava sua casa no planalto, já que sua residência principal localizava-se em Paranaguá, onde o capitão era conhecido como próspero negociante. Também negociante e igualmente detentor da patente de capi- tão, Francisco de Paula Xavier Bueno, de 38 anos, fazia parte da próspera vizinhança da Rua Fechada. Senhor de grandes posses, constavam entre seus bens dez escravos e duas extensas fazendas, uma de gado e outra vol- tada à produção agrícola. O negociante-capitão-fazendeiro destacava-se ain- da por ser confrade da Irmandade de Nossa Senhora da Luz, que agregava com exclusividade os homens-bons e brancos da comunidade. Dona Rita de Oliveira Bueno, mãe de Francisco, não ocupava a mesma casa, mas morava perto do filho. Nos registros da Décima, suas casas receberam os números 1 1 e 12, provavelmente eram vizinhos de muro. Era també m morador da Rua Fechada o capitão Joaquim Mariano Ribeiro Ribas, 52 anos, casado. Um dos representantes das elites locais, o capitão destaca-se por sua atuação nas funções públicas da Câmara. Foi eleito vereador e juiz ordinário. Era também fazendeiro e proprietário de 8 escravos. Entre esta seleta vizinhança, mora- va o capitão-mor Antonio Ribeiro de Andrade (filho de Lourenço Ribeiro de

outros eleitores moravam nesta rua, todos

homens de "sã consciência" 12 ,

12 A expressão foi utilizada para qualificar os homens que acabaram por formar a primeira lista de eleitores da vila. BAMC, v.l , p.4-5.

Andrade - legítimo representante da mais alta nobreza da terra) que, além de autoridade máxima da vila, também havia ocupado o cargo de juiz ordinário e, por diversas vezes, integrou a restrita lista de eleitores. Ribeiro de Andrade também era proprietário de uma fazenda e dono de um invejável plantel de 16 escravos. O capitão-mor reunia vários dos atributos de elitização ante- riormente elencados, inclusive o de pertencer à principal irmandade da vila, exclusiva para confrades brancos, a de Nossa Senhora da Luz.

Os números da Rua Fechada corroboram a preferência das elites pelo logradouro: 50% dos chefes de domicílio pertenciam à irmandade de Nossa Senhora da Luz; 54% deles ocupavam ou haviam passado pelos principais cargos da Câmara (juiz ordinário, vereadores e procurador) e 45% haviam atuado nos cargos menores (almotacé, porteiro, alcaide). Porém, o dado mais significativo da distinção social dos moradores desta rua é o fato de 45% de seus chefes de morada terem integrado a seleta e restrita lista de eleitores. Em 1810, o 'colégio eleitoral' de Curitiba era formado por apenas 15 eleito- res, escolhidos entre os homens-bons com domicílio urbano. Além do padre, morava na Rua Fechada grande número de fazendeiros (50% dos chefes re- sidentes) e negociantes (33%), o que torna inquestionável a concentração de homens-bons na vizinhança. Alguns destes ostentavam ainda altas patentes milicianas a enobrecer seus nomes. Para além da situação econômica que pudesse advir das ocupações desses moradores, vale lembrar que elas tam- bém mereciam distinção por não se alinharem entre os 'ofícios mecânicos'. Na época, todo trabalho executado com as mãos, era socialmente desquali- ficado.

A Rua de Nossa Senhora do Terço era a segunda melhor cotada nesta região da vila. A exemplo do que acontecia na Rua Fechada, também ali a casa de maior valor pertencia a um pároco. Esta casa, um dos três únicos sobrados da vila, ficava contígua à igreja e havia sido adquirida, em 1799, pelo padre José Joaquim Ribeiro da Silva, para ali estabelecer sua residência. Além desta, o religioso era dono de outra casa na mesma rua. A segunda casa mais cara da vizinhança, não era ocupada por seu proprietário. Quem morava nela era o comerciante Manoel Afonso Enes, um taberneiro de 40 anos que alugava o imóvel. Mesmo não dispondo de maiores informações sobre esse morador nem sobre o local onde funcionava sua taberna, não é descabido supor que a venda funcionasse ali mesmo, na parte fronteira da casa, com portas abertas para a rua e que o comerciante ocupasse a parte posterior do imóvel como moradia. Pela localização e alta avaliação do imóvel que aluga- va, Manoel não devia ser homem de poucas posses, embora sua atividade de comerciante 'de porta aberta' não estivesse entre as mais prestigiosas.

A Rua da Carioca de Cima vinha logo a seguir, na escala de ruas com

imóveis mais valorizados da região, ocupando o terceiro lugar no mercado imobiliário da época. Neste logradouro, os dois imóveis mais caros eram ha- bitados por homens que exerciam atividades ligadas ao comércio. Um deles era ocupado pela família do alfaiate Francisco Antonio Coimbra, de 33 anos, que era casado e tinha para servi-lo, dois escravos. É de supor que, por razões do ofício, o alfaiate tivesse entre seus clientes alguns homens-bons do lugar e fosse de seu interesse manter sua oficina de trabalho próximo às residências dessa clientela. De qualquer modo, o artesão devia auferir bons lucros com sua atividade, conseguindo morar numa das casas mais valorizadas da vila. Um dos três únicos sobrados da vila pertencia a Manoel de Andrade Pereira que era um dos homens-bons da vila e ocupava o segundo imóvel mais caro da rua. Casado, 50 anos, o capitão de milícias era proprietário de nove es- cravos e atuava como negociante. O capitão-negociante ocupou o cargo de almotacé da Câmara no período entre 1800 e 1804.

A Rua do Rosário também concentrava um bom número de imóveis de

alta valorização, embora o valor destes ficasse um pouco abaixo dos situados em dois dos setores mais valorizados do Pátio da Igreja matriz. Por situar- -se nas cercanias das três ruas mais valorizadas, também aqui se encon- travam algumas residências da elite. Por exemplo, morava nesta rua o velho sargento-mor Antonio José Ferreira que, aos 66 anos, podia orgulhar-se de ter conseguido formar o considerável plantel de 28 escravos. O fazendeiro havia ocupado várias posições de destaque na sociedade local: em distintas ocasiões ocupou o cargo de juiz ordinário e de juiz dos órfãos; tendo partici- pado, por sete vezes (!), da lista de eleitores no período entre 1785 e 1808. Nesta vizinhança morava o capitão Inácio Lustosa de Andrade, um rico nego- ciante, proprietário de oito escravos, que ao longo dos anos acumulou larga experiência na administração local, tendo ocupado vários dos cargos camará- rios. O maior proprietário de imóveis da vila morava na Rua do Rosário. Dono de 4 casas no núcleo urbano, e de um plantel de 18 escravos, Antonio Xavier Ferreira, de 43 anos, aparentava confortável situação econômica. Chegou a galgar posições de destaque junto à Câmara, como juiz ordinário e eleitor. Fazia parte da vizinhança da Rua do Rosário o próspero negociante Capi- tão Manoel José Taborda Ribas, descendente de uma das mais tradicionais e prestigiadas famílias da vila. 13 O Capitão Taborda Ribas era confrade de

13 Manoel José Taborda Ribas era filho de Lourenço Ribeiro de Andrade. Desde a funda- ção da vila os ancestrais desta família se faziam representar nos cargos da Câmara e nos espaços de poder local. Lourenço Ribeiro de Andrade foi o primeiro curitibano a ostentar o título de Licenciado, adquirido na Universidade de Coimbra.

outros homens-bons na irmandade de Nossa Senhora da Luz, como o Capi-

tão Inácio de Sá Sottomaior que morava na mesma rua. A exemplo de outros conterrâneos seus, o capitão Sottomaior, de 52 anos, natural do Reino, viera solteiro de Portugal e aqui contraiu núpcias com uma filha da nobreza da terra. Na colônia, Sottomaior efetuou bons negócios, chegando a possuir uma casa na vila, uma fazenda e dez escravos. Integrando as elites locais, o reinol foi indicado como eleitor, serviu em algumas funções da administração local e chegou a ser eleito para o cargo de vereador. Também integrava a vizinhança da Rua do Rosário o escrivão judiciário João Pereira, de 56 anos. O fato da casa em que morava ser das menos valorizadas da rua, e de João Pereira ser proprietário de apenas dois escravos não diminuía o prestígio social que ele pudesse ter por ocupar funções camarárias e também por ser letrado. Durante vários anos João Pereira esteve envolvido com as atividades de go- vernança, nos períodos em que atuou como almotacé, procurador e vereador.

A

Rua do Rosário um terço do total de eleitores da vila. Entre estes estava

o

vereador Sebastião Cordeiro da Silva que, desde 1799, também integrava

a

confraria dos homens brancos. O negociante Francisco José de Almeida,

de 45 anos, era natural do Desterro (ilha de Florianópolis, Santa Catarina)

e escolheu morar entre os homens-bons do Rosário. Provavelmente buscava

ascender socialmente quando aceitou sua indicação para o cargo de almo- tacé. Outros indicativos apontam a Rua do Rosário como reduto de morado- res integrantes das elites da vila. Entre os chefes de domicílio que moravam ali, 28% pertenciam a alguma irmandade, o que constituía o segundo maior percentual de concentração da vila. Neste logradouro observou-se uma alta concentração de moradores que haviam ocupado os cargos da Câmara, 54% deles ocuparam os cargos maiores e 38% passaram pelos cargos menores. 44% dos chefes de domicílio desta rua eram fazendeiros e igual percentual atuava como negociantes.

Não por acaso a região formada pelas ruas acima referidas abrigava os imóveis mais valorizados: tratava-se da parte mais alta da vila, onde os terre- nos eram mais secos e estáveis. Nesse período, essa condição era de grande relevância uma vez que os rios e riachos que cortavam a região formavam, nas épocas de chuva, grandes alagadiços que inundavam ruas e casas nas áreas de baixios da vila. Nesse início do século XIX, a situação geral de dre- nagem das ruas era ainda bastante precária, de modo que morar numa re- gião livre de inundações era um considerável privilégio. Portanto, quem tinha

o privilégio de morar nessas áreas mais nobilitadas da vila, supostamente,

eram as pessoas mais bem posicionadas econômica e/ou socialmente do lugar, configurando nessa área do quadro urbano um núcleo de vizinhança

no qual predominavam representantes das elites locais.

Em contrapartida, e em oposição à parte alta da vila, os imóveis de mais baixa cotação localizavam-se nos baixios inundáveis do núcleo urbano. Nessa região, que correspondia à parte sul e leste da vila, localizavam-se as ruas Nova das Flores, do Fogo, da Carioca de Baixo e do Lisboa e suas edi- ficações mais modestas. No período de chuvas, quando as águas do Rio Ivo subiam, essa parte mais baixa da vila se transformava num grande charco. Consequentemente, os terrenos e casas aí localizados, sujeitos à inundação, deviam ser menos valorizados. É de se supor que onde predominavam as casas mais modestas morassem as pessoas mais pobres do lugar. Contudo, essa hipótese se manifesta apenas como tendência, sendo errôneo supor que as diferenças socio-econômicas se expressassem de forma tão evidente e estrita na ocupação das casas e ruas da vila. Caso exemplar é o do pequeno comerciante Joaquim dos Anjos Pereira. Ele era proprietário da casa onde residia na Rua do Fogo, um imóvel de baixo valor, como os demais daquele logradouro. Contudo, a trajetória deste aparentemente modesto morador do Fogo, em muito se aproxima da dos proeminentes residentes da Rua Fecha- da. De algum modo sua atividade de comércio miúdo lhe rendia suficientes recursos para permitir que ele tivesse três escravos para servi-lo. Mais que isso, Joaquim dos Anjos Pereira granjeara alta reputação entre os homens- -bons do lugar, vindo a ocupar os mais altos postos da administração da vila. Por diversos mandatos foi almotacé, função que pode ter sido sua porta de entrada para a Câmara, depois, alinhando-se com a nobreza da terra, veio a ocupar os cargos de procurador, de juiz ordinário e de vereador. A opção desse representante da elite política por morar no Fogo, certamente não se prende a uma questão de vizinhança, mas a interesses bem mais concretos e imediatos tais como o de viver em local estratégico para atender à sua clientela de miudezas. Além disso, a Rua do Fogo era um dos acessos à vila para aqueles que subiam do litoral. Outro caso que desvia a tendência dos mais abastados por ocuparem as áreas mais nobilitadas da vila é o do Ca- pitão Manoel Gonçalves Guimarães. Embora fosse dos maiores proprietários de escravos residentes na vila, o jovem capitão de 25 anos (filho do coronel homônimo que morava no setor 1 do Pátio da Matriz) escolheu morar nos baixios da Rua Nova das Flores. Porém, esse não era o morador padrão dessa parte da cidade. O que os dados da Décima de 1810 permitem observar é que a maior parte dos moradores dessa parte da vila dedicava-se a ativida- des pouco lucrativas. Se excluirmos desse grupo os proprietários dedicados ao pequeno comércio, os quais estavam distribuídos de forma mais ou me- nos regular por todo o quadro urbano, predominava nas áreas dos baixios,

os agricultores de subsistência com poucos, ou nenhum, escravos. Uma variável a considerar é que parte desses, de quem os censos diziam que plantavam "para comer", não eram moradores permanentes da vila. Muitos moravam em suas propriedades rurais, utilizando suas casas urbanas nas ocasiões em que vinham para vila cumprir com os deveres religiosos das mis- sas e festas da igreja ou para vender o excedente do que produziam.

Dividindo e interligando a parte alta e 'nobre' da vila de sua parte baixa e pobre, o centro configurava-se como uma região de transição e de compar- tilhamento de espaço entre imóveis de valor alto e médio, entre negociantes, pequenos comerciantes e fazendeiros. Trata-se da área do mapa correspon- dente ao Pátio e Largo da matriz. Para efeito de análise da situação ali encon- trada, sempre conforme os dados da Décima d 1810, a região foi segmentada em 4 setores: os três setores do Pátio e mais todo 0\Larg0, como se vê na ilustração. Nos setores 1 e 3 do Pátio, que estavam próximos à região mais valorizada da vila, situada na parte posterior da igreja, também se situavam os imóveis mais valorizados do núcleo central.

SETORES DO PÁTIO DA MATRIZ (CURITIBA,

%

Pátio

da Matriz

"

\

YC- ^

^

,

1810)

O segmento 1 do Pátio era o mais valorizado desta área. Se fosse consi- derado fora do seu contexto, seria o segundo logradouro mais caro da vila, muito próximo dos valores dos imóveis da Rua Fechada. O segundo imóvel melhor avaliado da vila localizava-se neste setor. A casa não era ocupada por seu proprietário, mas alugada para o ajudante (uma posição intermediária na tropa) Inácio Pereira Bastos, natural de Santos, e que, aparentemente, vivia de soldo. Como foi dito, na região central da vila, não se observa uma

marcante segmentação socio-econômica dos proprietários de imóveis. Neste setor do Pátio da Matriz morava um próspero fazendeiro, o alferes José da Costa Pinto, de 57 anos. Ele era dono de várias propriedades, dentre elas, onze escravos, uma fazenda, e dois imóveis urbanos no setor 1 do Pátio, sen- do que um deles era um dos três raros sobrados existentes na vila. 14

Neste setor de imóveis bastante valorizados, também moravam pequenos comerciantes. O furriel Antonio Francisco de Moraes escolheu para morar e

abrir sua taverna uma das casas do Pátio da Matriz. Por situar-se no centro da vila, local sujeito à passagem de todos quantos andassem por ali, é pro- vável que o pequeno comércio fornecesse ao miliciano o necessário para

o seu viver.

As casas do setor 3 do Pátio eram bem valorizadas. Neste setor, o número de chefes negociantes era o mesmo que de fazendeiros. Domingos José da Mota, casado, ocupava a segunda casa mais valorizada do setor, estando acima do valor médio da cidade.

Bem próxima ao setor 1 do Pátio, localizavam-se as Ruas do Jogo da Bola

e Rua Nova da Entrada. Embora fora das áreas onde, notadamente, estavam

concentrados os imóveis mais caros, algumas edificações desses dois logra- douros tinham valores superiores à média urbana. Como se observou, as ruas

de acesso à vila acabavam por ter imóveis relativamente bem valorizados,

o que pode se explicar por serem locais propícios para o comércio de miu-

dezas, botequins e tavernas. As duas ruas em questão davam acesso ao ca- minho para o sertão. Afora os pequenos comerciantes, os imóveis dessa área eram ocupados por chefes de domicílio ligados à agricultura de subsistência.

Embora o Largo da Matriz fosse uma área que, de maneira geral, apre-

sentava os imóveis de valor mais reduzido do centro da vila, havia repre- sentantes da elite que optavam por aí instalar suas residências. O tenente coronel Manoel Teixeira de Oliveira, reinol, morava no Largo. Era negociante de fazenda seca e dono de um plantel de cinco escravos. O coronel Mano- el Gonçalves Guimarães foi um dos que também escolheu morar no Largo.

O próspero negociante de grosso trato era proprietário de duas casas contíguas,

uma delas a terceira mais cara do quadro urbano. Aos 64 anos, o velho negociante era dono da maior escravaria da vila, com um plantel de 32 es- cravos. Sem dúvida um dos homens mais bem postos economicamente, não há indícios de que o coronel tivesse se interessado por assumir cargos

14 Eram três os sobrados urbanos de Curitiba. Um pertencente ao reverendo José Ribeiro da Silva na Rua de Nossa Senhora do Terço; outro ao Capitão Manoel de Andrade Pereira na Rua da Carioca de Cima; e o terceiro ao alferes José da Costa Pinto.

na governança da vila. Sua vizinhança era formada, prioritariamente por pe- quenos comerciantes, proprietários das tavernas, botequins e vendas que se espalhavam pela na área central da vila. Nesta área, as casas dos negocian- tes de grosso trato intercalavam-se com as dos pequenos comerciantes, sem que qualquer primazia de umas sobre outras fosse perceptível.

Nas pequenas vilas coloniais, o comércio era uma das marcas que diferencia- vam os núcleos urbanos das porções rurais (ou semi-rurais). Os comerciantes que se dedicavam exclusivamente ao pequeno comércio tendiam a fixar residência no quadro urbano das vilas. Essa evidência tem levado pesquisadores da cidade colo- nial a apontá-los como fator de agregação de moradores. 15 A historiadora Maffalda Zamella, por exemplo, afirma que as casas de venda no Brasil colonial eram "pontos de atração do povoamento" e do "abastecimento de nossas vilas e arraiais" 15 e, de certo modo, equiparavam-se às igrejas na função de aglutinar moradores nas vilas e cidades na sociedade colonial brasileira. 17 Segundo a historiadora Mara Barbosa, "A vila de Nossa Senhora da Luz e do Bom Jesus dos Pinhais de Curitiba, pode ser inserida numa perspectiva até certo ponto semelhante à construída pela autora". 18

Os pequenos comerciantes habitavam, sobretudo, o Largo da Matriz. Residiam próximos uns dos outros e, certamente, seus negócios se benefi- ciavam da formação dessa vizinhança. É o caso dos taberneiros Manoel José de Pinho, de 48 anos, e Antonio Gomes de Souza, de 66 anos, que tinham vendas vizinhas no Largo. A tendência do pequeno comércio para agrupar-se no centro da vila devia criar um certo movimento no núcleo urbano, o que era do interesse de todos, comerciantes e freguesia. É bom lembrar que em Curitiba como nas demais vilas e cidades do Brasil colônia a rua, mas espe- cialmente a praça, o pátio e o largo das igrejas eram importantes espaços de sociabilidade.

O levantamento de Décima Urbana de Curitiba (1810) não especifica os imóveis que eram utilizados^para comércio. Por outro lado, nas licenças concedidas para o funcionamento dos comércios não era indicada a

15

OMEGNA, Nelson. A cidade colonial. Brasília: EBRASA, 1971. p. 25.

15 ZAMELLA, Maffalda P. O abastecimento

São Paulo: HUCITEC, Editora da Universidade de São Paulo, 1990. p.161.

17 As cidades coloniais herdaram sua configuração espacial de uma tradição medieval, as

mas em lugares altos e de

difícil acesso. Morro abaixo serpenteavam ruelas e becos sobre os quais se aglomeravam casas toscas", e ao alto dos morros erguiam-se as igrejas. DEL PRIORE, Mary & VENÂN- CIO, Renato P. O livro de ouro da História do Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p.105.

quais, "na maioria, foram construídas não em áreas planas (

da capitania

das Minas

),

Gerais no século

XVIII.

18 BARBOSA, Mara F. Terra de negócio: o comércio e o artesanato em Curitiba na segunda metade do século XVIII. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2003. Dissertação de mestrado em História, p.35

localização dos imóveis comerciais. Contudo, é possível supor que as vendas, botequins, e armazéns ficassem no mesmo lote, possivelmente na mesma edi- ficação, em que moravam os chefes de domicílio arrolados como comerciantes. Nas Listas Nominativas de Curitiba, muitos chefes de domicilio foram apre- sentados como vendeiros, taverneiros ou que viviam de seu botequim. Dentre estes, 77% eram proprietários dos imóveis onde residiam. Conside- rando que, nesse período, era vedado comerciar fora do quadro urbano, não é descabido inferir que as atividades comerciais se dessem ali mesmo, no mesmo imóvel utilizado para moradia, e não em outro lugar.

O cruzamento dos dados da Décima Urbana de 1810 com os dados

constantes das Listas Nominativas de Habitantes de Curitiba (1801-1811) permitiram perceber que os negociantes de grosso trato e os pequenos comerciantes disputavam espaço de moradia na mesma região do centro da vila, o Largo da Matriz. Este é o caso de Antonio Álvares de Araújo e José Francisco, distintos socialmente, ambos residiam em imóveis do Largo. José nunca ocupou cargos na administração municipal nem posto na milícia. Não tinha escravos, também. Antonio, por sua vez, era proprietário de duas casas urbanas e de seis escravos. Embora não tivesse patente na milícia, foi almotacé e procurador. O cargo de procurador, além de conferir a seu ocupante um fator de distinção social, em geral, não era ocupado por pessoas de poucas posses, já que além de não ser remunerado seu ocupante deveria ressarcir os cofres públicos com seus próprios recursos, caso se constatasse alguma irregularidade no exercício do cargo.

Os moradores com ocupações ligadas ao pequeno comércio não predomi-

navam em nenhuma das ruas; estavam espalhados por toda a vila. O Largo da Matriz era a única exceção, onde 31% dos chefes de domicílio viviam do pequeno comércio e outros 31% eram negociantes. Isto significa que, entre os moradores do Largo, a atividade predominante era algum tipo de comércio, miúdo ou de grosso trato, perfazendo 62% dos moradores do setor. Contudo, a Rua do Rosário era o logradouro de maior concentração de mo- radias de negociantes de grosso trato; 33% das casas eram ocupadas por chefes negociantes.

No computo geral, entretanto, quase metade dos moradores do núcleo da vila estavam envolvidos com atividades ligadas à terra. A ocupação que com mais freqüência aparece nas Listas Nominativas é a de agricultor de subsistência: "planta para comer" indica a fonte. Além dos pequenos agri- cultores, havia os que tinham lavouras maiores e conseguiam plantar para vender. Juntos, os pequenos agricultores e os fazendeiros somavam quase metade dos chefes de domicílios urbanos. A posse de escravos, as patentes

milicianas e a ocupação de cargos na administração da vila são os indícios mais evidentes de diferenciação social entre uns e outros.

O cruzamento das informações contidas na Décima Urbana de 1810 com os dados de população registrados nas Listas Nominativas, associados a outros documentos, tornaram possível uma maior aproximação ao cenário urbano da vila de Curitiba, tal como se apresentava na primeira década do século XIX. Evidentemente, ficam ainda muitas lacunas a preencher, o que poderá ocorrer através de aproximações sucessivas. O objetivo deste artigo é contribuir com mais uma peça para compor o mosaico urbano da vila de Curitiba, sob a perspectiva da distribuição espacial das moradias da elite no quadro da vila.

Pode-se concluir que, até início do século XIX, a área preferencial para moradia dos principais da vila era a que se situava a norte e a oeste da Igreja Matriz. Esta era a região mais elevada do núcleo urbano, onde se encontra- vam os melhores terrenos, mais altos e secos. Visto que as elites se faziam representar nos postos da administração local, não era por acaso que as ruas onde se concentravam as residências dos homens-bons fossem também as mais cuidadas pela Câmara que se incumbia de manter seus calçamentos e refazer seus regos para escoamento das águas, várias vezes ao ano. As igre- jas, em especial as matrizes, eram pólos de valorização espacial nos núcleos coloniais. Em Curitiba, as Ruas Fechada e do Rosário e o setor 1 do Pátio da Matriz se configuraram como espaços privilegiados, embora não exclusivos, para as habitações das elites.

OS HOMENS-BONS VAO AS

URNAS

ROSÂNGELA MARIA FERREIRA DOS SANTOS*

* Historiadora e Paleógrafa, integrante do CEDOPE.

A fundação de São Vicente, em 1532, primeira vila criada na Colônia, pode ser considerado o ato inaugural de instituição das bases da adminis- tração municipal no Brasil. O sistema municipal instaurado naquela oca- sião vigoraria até 1828. Esta primeira vila foi criada diretamente pela coroa. Com o estabelecimento das Capitanias - grandes senhorios hereditários - a instalação de municípios tornou-se cláusula obrigatória das cartas de con- cessão. Pelas cartas de concessão, os donatários ficavam obrigados a fundar pelo menos uma vila, com a respectiva câmara municipal, em seus territórios. Desta forma, a coroa permitiu que os colonos assumissem feição político- -jurídica, contrapondo-se e limitando os poderes dos donatários. 19

Com o abandono das capitanias e a falência de diversos desses dona- tários, a coroa experimentou um processo de colonização direta e passou ela mesma a criar novos municípios. O Brasil foi, assim, durante séculos, um território híbrido. Parte dele submetido a senhorios hereditários, como foi o caso das capitanias de São Vicente e Pernambuco. Outra parte, submeti- do diretamente à coroa. Diga-se, de passagem, que em Portugal acontecia algo semelhante. Parte do território era de administração direta do rei, outras partes eram senhorios. No entanto, em ambos os casos, a expressão política dos moradores era o município. Em decorrência, ora as câmaras respondiam diretamente à coroa, ora o seu vínculo com o poder régio passava pela medi- ção dos capitães hereditários e seus prepostos.

No caso da região que hoje corresponde ao Estado do Paraná, houve um litígio entre a coroa e os supostos herdeiros dos donatários da desaparecida capitania de Santo Amaro.

A descoberta de ouro na região desperta o interesse tanto da coroa como dos

herdeiros dos donatários da antiga capitania de Santo Amaro, o conde da Ilha do

Príncipe e o marquês de Cascais, que passam a disputar essas terras. O segundo

cria na região a capitania de Paranaguá, de efêmera duração. A lacuna de poder

é ocupada pela figura ambígua de Gabriel de Lara que atuou tanto como repre-

sentante do conde da Ilha do Príncipe, como governador em nome do Marquês

de Cascais ou como agente da coroa

portuguesa. 20

D. João V encerrou esse litígio no mesmo processo em que acabou com o sistema dual de administração, incorporando, por compra ou por proces- sos judiciais, os territórios das antigas capitanias ao domínio direto da coroa. São Vicente foi comprada em 1711. A partir de então, observa-se uma

19 PEREIRA, Magnus R. M. A forma e o podre; duas agendas da cidade de origem portu-

guesa, entre a idade média e a idade moderna em História, p.79-80.

20 PEREIRA, op. cit, p.278.

Curitiba: UFPR, 1998. Tese de Doutorado

preocupação constante, por parte da Coroa, com a administração municipal das terras do sul. Nesse sentido, verifica-se a presença e atuação de funcio- nários régios com o intuito de regulamentar o funcionamento das câmaras, tanto dos municípios já existentes, quanto dos que viriam a serem fundados. Com isso, fica patente a importância de que a instituição municipal se reves- tiu no contexto político e administrativo do Antigo Regime português.

A ocupação portuguesa do planalto curitibano deu-se quando, em meados do século XVII, mineradores de ouro e membros remanescentes de bandeiras paulistas fixaram-se na região. 21 Foram estes os formadores do povoado de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. Em 1668, a pedido dos moradores do povoado, Gabriel de Lara, então procurador de um dos pretensos donatários daquelas terras, o Marquês de Cascais, ergueu o pelourinho, símbolo das justiças locais. No entanto, a câmara municipal não chegou a ser instalada. 22 Somente em 1693, a vila seria oficialmente criada, por requerimento do povo ao capitão-povoador Mateus Leme, que passara a ocupar o lugar de Gabriel de Lara. Note-se, porém, que Curitiba não foi criada como uma vila senhorial, mas vinculada diretamente à coroa.

REQUERIMENTO PARA A CREAÇÃO DAS JUSTIÇAS - Sr. Capitão Povoador.

Os moradores todos assistentes nesta povoação de Nossa Senhora da Luz e Bom

Jesus dos Pinhais que atendendo ao serviço de deus e o de Sua Majestade, que

Deus Guarde, paz, quietação e bem comum deste povo, e por ser já hoje mui

crescido por passarem de noventa homens, e quanto mais cresce a gente se vão

fazendo maiores desaforos, e bem se viu esta festa andarmos todos com as armas

na mão, e apelourou-se e dos outros mais e outros insultos de roubos, como é

notório e constante pelos casos que tem sucedido e daqui em diante será pior,

o que tudo cai^sa o estar este dito povo tão desamparado de governo e disciplina

da justiça. E atendendo nós, que ao diante será pior por não haver a dita justiça

na dita povoação, nos socorremos a Vossa Mercê como Capitão e cabeça dela, e

por ser já decrépito e não lhe obedecerem, seja servido permitir a que haja justiça

nesta dita vila, pois nela a gente bastante para exercer os cargos da dita justi-

ça que faz número de três povos. E pela ordenação ordena Sua Majestade que

havendo 3 0 homens se eleja justiça, e demais de que consta que Vossa Mercê

por duas vezes procurou aos Capitães-mores das capitanias debaixo lhe viessem

criar justiça na dita povoação, sendo que não era necessário por ter havido já

aqui justiça em algum tempo criada pelo defunto Capitão mor Gabriel de Lara,

21 NADALIN, Sérgio Odilon. Paraná:

tiba: SEED, 2001. p. 42-43.

22 Sobre os diversos atos fundacionais da vila de Curitiba, ver PEREIRA, Magnus R. M. & SANTOS, Antonio César de A. 300 anos-, Câmara Municipal de Curitiba. 1693-1993. Curitiba: Câmara Municipal de Curitiba, 1993. p. 15-25.

Curi-

ocupação

do território,

população

e migrações.

que levantou Pelourinho em nome do donatário o Sr. Marquês de Cascais -; Pelo

que requeremos a Vossa Mercê da parte de Deus e d'el-Rei que visto o que alega-

mos e o nosso pedir ser justo e bem comum de todo este povo, o mande ajuntar e

fazer eleição e criar justiça e câmara formada, para que assim haja temor de Deus

e

d'el-Rei e por as coisas em caminho. E Receberá Mercê. DESPACHO - Junte-se

o

povo. Referireis o qu e ao qu e pedem. Pinhais 2 4 de

Março de 1693. - Leme. 23

Em atendimento ao despacho dado por Mateus Leme, os moradores da vila reuniram-se na Igreja da povoação para a realização da eleição dos ofi- ciais camarários: juízes, vereadores e procurador.

REUNIÃO DO POVO E A ESCOLHA DOS ELEITORES - Aos vinte e nove dias do

mês de Março da era de 1693 anos, nesta Igreja de Nossa Senhora da Luz e Bom

Jesus dos Pinhais por despacho desta petição se ajuntou o povo desta vila e pelo

Capitão dela lhe foi perguntado o que todos lhe responderam a voz alta lhe queria

se justiça para com isso, ver se evitavam os muitos desaforos que nela se faziam,

o que vendo o dito capitão era justo o que pediam-lhe respondeu que nomeassem

seis homens de sã consciência para fazerem os oficiais que haviam de servir,

o que logo nomearam para com o dito Capitão povoador fazerem eleição, e como

assim houveram todos por bem se assinaram comigo Antonio Rodrigues Seixas

em falta do escrivão, que o escrevi. Matheus Martins Leme, Antonio da Costa

Veloso, Antonio Martins Leme, Manuel Soares, Domingos Rodrigues Soares, José

Pereira Quevedo, João Leme da Silva, João Pereira Avelar, André Rodrigues da Sil-

va, Miguel Delgado, Diogo da Costa, Manoel Picam de Carvalho, Manoel da Silva

Baião, Agostinho de Figueiredo, Gaspar Carrasco dos Reis, Nicolau de Miranda

Franco, Antonio de Siqueira Leme, João Álvares Martins, Miguel Fernandes de

Siqueira, Braz Leme de Siqueira, Francisco de Mello, Jerônimo Rodrigues Side,

Manoel Álvares Pedroso, Manoel Dias Cortes, Antonio Rodrigues Cid, Salvador

Rodrigues, Amador Nunes de Bulhões, Salvador Martins, Antonio Luiz Tigre Leme,

Paulo da Costa Leme, João Leme, Matheus Martins, Luiz Rodrigues, Antonio do

Couto, José Martins Leme, Pedro Gonçalves Martins, Miguel Rodrigues, Caetano

Leme Cabral, José Rodrigues Cid, Antonio dos Reis Cavaleiro, Frutuoso da Cos-

ta, João da Siqueira, Gonçalo Pires, Lourenço Pinto, Pedro de Moraes de Mon-

forte, Bartolomeu Nunes, Domingos André, Pedro Rodrigues, Baltazar Carrasco

dos Reis, Luiz Leme da Silva, Antonio da Costa, João Velloso da Costa, Garcia

Rodrigues, Inocêncio de Medina, Roque Fernandes, Vicente de Góes, Plácido de

Ramos, Luiz de Siqueira, Antonio Garcia da Costa, Domingos Ribeiro de Abreu,

José de Góes, Luiz de Góes, João Felix Cavalcante. 24

Como se depreende do registro daquela reunião, o "povo desta vila" de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais manifestou-se favoravelmente à

23 BAMC, v.l, p.4. Fundação da Villa de Curytiba, 1668 a 1721.

24 BAMC, v.l, p.4-5.

instalação de sua câmara municipal. Para isso, o capitão-mor Mateus Leme ordenou-lhes "que nomeassem seis homens de sã consciência para fazerem os oficiais que haviam de servir". Naquele mesmo dia 29 de março, foi eleita a primeira câmara de Curitiba.

ELEIÇÃO DA CAMARA E INSTALLAÇÃO DA VILLA - Memória do que acordaram

os seis eleitores, o Capitão-mor, Agostinho de Figueiredo, Luiz de Góis, Garcia

Rodrigues Velho, João Leme da Silva, Gaspar Carrasco dos Reis, Paulo da Costa

Leme, os quais debaixo do juramento que lhes foi dado pelo reverendo padre

vigário desta vila, Antonio de Alvarenga, nomearam para juízes Antonio da Costa

Veloso, Manuel Soares; vereadores Garcia Rodrigues Velho, o capitão José Pereira

Quevedo, Antonio dos Reis Cavaleiro, e para procurador do conselho o Capitão

Aleixo Leme Cabral, e para escrivão da câmara João Rodrigues Seixas; este é o

nosso parecer, e como tal nos assinamos aqui. - Agostinho de Figueiredo, Luiz de

Góis, Garcia Rodrigues da Cunha, João Leme da Silva, Gaspar Carrasco dos Reis,

Paulo da Costa Leme,

Padre Antonio Alvarenga. 25

O historiador Joacir Navarro Borges observou que a composição das câ- maras nos município de origem portuguesa se deu de forma mais ou me- nos homogênea. Os concelhos municipais tendiam a ter a mesma compo- sição: dois juízes ordinários, três vereadores, um procurador, um tesoureiro, um escrivão, dois almotacés e um alcaide. "Os ofícios camarários eram car- gos de governança exercidos pelos "homens bons" do lugar, que formavam a elite local ou nobreza da terra". 26

Estes ofícios concelhios são "honorários". Ou seja, são desempenhados por titu-

lares eventuais (e não de carreira) escolhidos pelas populações e, em princípio,

não remunerados. O interesse do desempenho dos cargos estaria no prestígio que

lhes era inerente. Mas^fambém, num plano menos imaterial, nas possibilidades

de, usando da situação de preeminência social e política que eles garantiam,

obter vantagens econômicas diversas. 27

Observando a constituição e o funcionamento das câmaras municipais segundo o que determinavam as Ordenações Filipinas, o historiador Joacir Navarro Borges descreveu a atuação de uma "câmara hipotética". Seguindo o modelo simulado por Borges, a presidência da câmara era exercida por um dos juízes ordinários eleitos, prioritariamente pelo mais velho e, na ausência deste, pelo mais novo. Duas vezes por semana o senado da câmara se reunia para deliberar sobre "o regimento da terra e das obras do Concelho, e de tudo

25 BAMC, v.l, p.5.

26 BORGES, Joacir N. Das justiças

no século XVIII. Curitiba: UFPR, 2009. Tese de doutorado em História, p.52.

27 HESPANHA, Antonio Manuel. /4s vésperas

p.164.

.

e dos litígios-, a ação judiciária da Câmara de Curitiba

do

Leviathan.

Coimbra: Almedina, 1994.

o que poderem saber, entender, porque a terra e os moradores dela possam

bem viver, e nisso hão de trabalhar" 28 e editar posturas relativas à vida comu-

nitária. O poder judiciário também era exercido pela câmara através da ação dos seus juízes ordinários. 0 Juízo Ordinário que, geralmente, funcionava no próprio paço municipal, arbitrava litígios e definia penas, "garantindo aos vizinhos o secular direito de ser julgado pelos próprios pares". 0 almotacé tratava de, periodicamente, fiscalizar e averiguar o cumprimento das postu- ras da vereança relativas ao abastecimento, à aferição dos pesos e medidas do comércio local, às normas construtivas das edificações além de outras questões referentes ao ordenamento urbano e rural do município. O procura- dor era o encarregado de representar a câmara e o povo da municipalidade. Seu papel era cuidar das rendas do concelho, zelando pela sua arrecadação

e correta aplicação. O tesoureiro recebia os tributos e demais rendas munici-

pais, tratando de efetuar as despesas ordenadas pelos vereadores; na falta ou ausência de tesoureiro, a função era acumulada pelo procurador. O alcaide era uma espécie de chefe de polícia local, ao qual cabia zelar pela ordem pública efetuando as prisões em flagrante ou a mando dos juízes. O porteiro

da câmara era o responsável pelas citações dos réus nos processos da justiça

ordinária. O escrivão era o responsável pelo registro sistemático dos atos ca- marários. Embora sintética, a descrição das funções de cada um dos oficiais do concelho elaborada por Borges a partir das Ordenações Filipinas permi-

te vislumbrar a diversidade de aspectos administrados pelas câmaras, bem

como a amplitude de seu poder de ordenação nos municípios coloniais. 29

Transcorridos 28 anos da eleição do primeiro concelho municipal, a vila de Curitiba recebeu a visita do Ouvidor da Geral da Capitania de São Paulo, Rafael Pires Pardinho, que vinha com a missão de observar e normatizar o funcionamento da câmara local de acordo com as leis vigentes na metrópole.

O Ouvidor deixou uma série de 129 provimentos versando sobre diversos

aspectos da administração municipal. 30 Os provimentos de número 19, 21, 22 e 23 diziam respeito direto às eleições dos principais cargos da câmara:

juízes, vereadores e procuradores. As Ordenações determinavam que as elei- ções se realizassem nas Oitavas de Natal. O oficial régio propunha, no caso da Câmara de Curitiba, que essa data fosse antecipada para o Dia de Todos

28 ORDENAÇÕES FILIPINAS. Lisboa, Fundação Colouste Gulbenkian, 1985. [Fac-simile da ed. comentada de Cândido Mendes de Almeida. CÓDIGO PHILIPINO. Rio de Janeiro-. Typografia do Instituto Philomático, 1870.] Volume I, Título LXVI, Parágrafo 1.

29 BORGES, op. cit., p.62.

30 BAMC, v. 8. Provimentos de correições, 1721 - 1812.

os Santos, "visto a distancia em q' esta vila fica", da sede da Capitania. 31

A justificativa se prendia à necessidade de submeter os resultados da elei-

ções às autoridades da capitania, para verificar se os escolhidos não estavam,

de alguma forma, impedidos de exercerem seus cargos. Observando que

a pequena vila já contava com número bastante de homens-bons, o Ouvi-

dor recriminou a frequência anual com que vinham sendo feitas as eleições, determinando que estas passassem a ser trienais. 32 Outro ponto enfatiza- do pelo Ouvidor refere-se à posse dos cargos pelos oficiais eleitos: estes só poderiam tomar posse e começar a servir em seus cargos após receberem

suas Cartas de Confirmação, que eram fornecidas depois de se "correr folha" no cartório da vila e na ouvidoria. Procurava-se, assim, evitar que indivíduos

de "mau exemplo aos bons". 33 As orientações deixa-

"criminosos" servissem

das pelo ouvidor Rafael Pires Pardinho foram, em geral, obedecidas. Mesmo porque, depois dele, muitos outros ouvidores passaram por Curitiba, reiteran- do muitas das recomendações daquele primeiro ouvidor.

No que se refere às eleições, desde 1721, seguindo os provimentos do Ouvidor Pardinho, os curitibanos passaram a realizar eleições trienais. A esta eleição trienal dava-se o nome de 'eleição de pelouro'. O termo pe- louro refere-se à bola de cera dentro da qual era inserido um papelzinho com os nomes dos escolhidos para os cargos da câmara. Os procedimentos eleitorais seguiam um protocolo. O processo tinha início com o lançamento de um edital convocando "a gente da governança e povo desta dita vila", que eram chamados também pelo alcaide. Reunidos na câmara, os homens- -bons votavam secretamente em seis indivíduos, os quais seriam os eleito- res que escolheriam os futuros oficiais da câmara pelos três anos seguintes. Feita a votação dos eleitores e apurados os votos, os seis escolhidos prestavam juramento aos evangelhos e, separados dois a dois, indicavam os indivíduos que serviriam nos cargos de juiz ordinário, vereador e procurador. Cada dupla elaborava uma relação de nomes, uma câmara completa. Feito isso, cabia ao presidente da eleição, que geralmente era o ouvidor ou o juiz ordinário mais velho, fazer a apuração e colocar as listas de nomes nos pelouros, ou seja, três composições completas de câmara para serem utilizadas nos três anos a seguir. As bolas de cera, ou pelouros, eram colocadas em bolsas de seda que eram guardadas no 'cofre das eleições', cujas chaves ficavam em poder dos vereadores do momento. O ato final das eleições constituía a abertura

31 BAMC, v.8, p.12.

p.ll .

33 BAMC, v.8, p.12.

32

BAMC, v.8,

do pelouro. Convocava-se a maior parte do povo e dos homens da governan- ça para presenciarem essa abertura. O juiz presidente, junto com os demais oficiais em exercício, abria o 'cofrinho de três chaves' e dele retirava o saco contendo o pelouro para o próximo ano. Do pelouro retirava-se a pauta con- tendo uma câmara completa (dois juízes, três vereadores e um procurador/ tesoureiro), em seguida, os indivíduos relacionados eram convocados para virem tomar posse dos cargos para os quais haviam sido indicados.

Através deste processo, pode-se vislumbrar a existência de uma hierar- quização de poderes a configurar o mapa do mando político local. Ou seja:

no alto da pirâmide do mando local situavam-se os eleitores: homens que recebiam de seus pares a prerrogativa de escolher aqueles que ocupariam os cargos da câmara. Esse 'colégio eleitoral', composto pelos mais poderosos e influentes dentre os homens-bons da vila, era bastante reduzido. Logo abaixo desses, vinham os indicados e eleitos para ocuparem os principais cargos do concelho: juízes ordinários, vereadores e procuradores. Eventualmente, em virtude das alianças políticas ou interesses circunstanciais alguns eleito- res vieram a ocupar os cargos da câmara.

Acontecia muitas vezes que indivíduos eleitos para ocupar os cargos da câmara, por motivos os mais variados, não chegavam a assumir suas funções. Uns não chegaram a tomar posse por estarem ausentes ou terem contas a ajustar com a justiça. Podia ocorrer que um dos escolhidos tivesse falecido. Outros se escusavam de servir à municipalidade apresentando suas razões

para tal. Nesses casos, ocorria um outro tipo de eleição, da qual participavam apenas os oficiais da câmara e os homens-bons. O substituto para aquele que se recusava ou que se encontrava ausente, impedido ou morto, era escolhido

sumariamente: os votos eram depositados

em um barrete, 34 e o mais vota-

do era o escolhido. A esta eleição dava-se o nome de "eleição de barrete". As eleições de barrete ocorriam com grande freqüência, sendo que em al- guns anos eram realizadas mais de uma vez, sendo, às vezes, para um mes- mo cargo.

No período de trinta anos, de 1735 a 1765, 135 indivíduos participaram dos processos eleitorais da Câmara de Curitiba, tanto nas eleições de pelouro, como nas de barrete, sendo que deste total 101 vieram efetivamente a ocupar os cargos de juiz ordinário, vereador e procurador.

No Livro de Atas de Eleições Municipais constam sete eleições para a escolha de eleitores. A partir dos registros dessas eleições, foram arrolados

34 O termo "barrete" refere-se a um pequeno gorro de tecido em que eram dos os votos.

deposita-

55 indivíduos, dos quais apenas 21 foram efetivamente escolhidos como elei- tores. Para esta modalidade de eleição, as indicações individuais variaram de uma até o máximo de 6 indicações. Como se vê, o número de homens-bons eleitores era bastante reduzido, o que confirma que se tratava de um seleto grupo de homens das elites locais.

HOMENS-BONS ELEITORES

Nome

Amador Bueno da Rocha

Amaro Fernandes da Costa

Antônio Álvares Lisboa

Antônio de Araújo Miranda

Antônio

Antônio Francisco Guimarães

Antônio João da Costa

Antônio José Teixeira

Antônio Martins Lisboa

Antônio Ribeiro do Vale

Fernandes de Siqueira

Baltazar da Costa Pinto

Bento de Magalhães Peixoto

Bento Gonçalves Soutinho

Brás Domingues Velozo

Diogo da Paz

Domingos Cardoso de Leão

Domingos da Cunha Teixeira

Estevão Ribeiro Baião

Felipe Teixeira

Feliz Ferreira Neto

Francisco da Cunha Braga

Francisco de Siqueira Cortes

Francisco Martins Lustosa

Francisco Xavier Pinto

Henrique Ferreira de Barros

João Batista Dinis

João Carvalho da Assunção

João Dinis Pinheiro

João Gonçalves Teixeira

1735-1765

N° de

indicações

N° de vezes que foi eleito

3

3

4

0

1

0

1

0

4

1

1

0

2

0

1

0

2

0

4

0

1

0

2

0

1

0

1

0

1

0

1

0

1

0

1

1

1

0

2

0

1

0

5

4

1

0

1

0

1

0

4

1

2

0

1

0

1

1

Joaquim Manoel de Abreu

José de Albuquerque

José Palhano de Azevedo

Lourenço Ribeiro de Andrade

Lourenço Ribeiro Ribas

Manoel da Costa

Manoel dos Santos Cardoso

Manoel Gonçalves de Sampaio

Manoel Rodrigues Seixas

Manoel Soares da Silva

Manoel Soares do Vale

Manoel Vaz Torres

Miguel de Lima

Miguel Gonçalves Lima

Miguel Ribeiro Ribas

Miguel Rodrigues Ribas

Paulo da Rocha Dantas

Pedro Antônio Moreira

Pedro Dias Cortes

Roque Fernandes de Siqueira

Salvador de Albuquerque

Sebastião dos Santos Pereira

Sebastião Gonçalves Lopes

Sebastião Teixeira de Azevedo

Simão Gonçalves de Andrade

Vitorino Teixeira de Azevedo

1

0

1

0

4

1

6

2

1

0

1

0

3

1

6

3

4

4

3

0

2

0

4

0

1

1

5

5

5

2

5

1

3

0

1

0

6

1

1

0

3

2

5

3

1

1

5

1

4

3

6

3

Note-se que muitos dos homens-bons da vila, embora indicados, nunca chegaram a integrar a restrita lista de eleitores. As razões para a preferência de uns sobre outros deve-se à correlação das forças políticas locais e ao po- der de mando das elites dominantes.

Muitos dos indivíduos que concorreram a eleitores vieram a ocupar cargos camarários, como é o caso de Amador Bueno da Rocha, que exerceu o cargo de juiz ordinário cinco vezes, e Vitorino Teixeira de Azevedo, que ocupou o cargo de procurador três vezes, o de vereador quatro vezes e o de juiz ordi- nário três vezes. Lourenço Ribeiro de Andrade, um dos três eleitores mais indicados no período, foi um legítimo representante da nobreza da terra tendo

ocupado, por mais de trinta anos o cargo de Capitão-mor da vila. 35

Para o cargo de juiz ordinário foram arrolados nas eleições de barrete setenta indivíduos, dos quais quarenta e seis chegaram a exercer a fun- ção. Para vereador, foram arrolados um total de noventa e dois indivíduos, dos quais setenta e dois vieram a ocupar o cargo. Dos sessenta e um indi- víduos arrolados para o exercício da função de procurador, trinta e quatro exerceram o cargo. 36

1735, 1743 1748,

Braz Domingues Veloso

" Domingos Cardoso de Leão

Domingos da Cunha Teixeira

Domingos Lopes Cascais

Domingos Ribeiro da Silva

Estevão Ribeiro Baião

Feliz Ferreira Neto

Francisco Bueno da Cunha

Francisco Correia do Ó

 

1750

 

1740

1748

 

1758

1763

1759

1742,

1745

1738, 1752,

1758

1741,

1748

1751, 1755, 1759

1750, 1752

1757

1760

1757

 

1739, 1742,

1744,

1749

1747, 1754,

1756

1751, 1755,

 

1758, 1762

1763

1746

1761

1737

 

1740,

1745

1736

1751

1760

1737

1747

1738

 

1744, 1760

1735

1763

1746, 1750,

 

1755

1735

1735

1764

 

1761

1754

1760, 1765

 

1741

1753, 1754

HOMENS-BONS E CARGOS QUE OCUPARAM -

Nome

Amador Bueno da Rocha

Amaro Fernandes da Costa

Antônio Martins Lisboa

Antônio da Silva Leme

Antônio de Medeiros Chaves

Antônio dos Santos Teixeira

Antônio João da Costa

Antônio Malaquias da Silva

Antônio Ribeiro do Vale

Antônio Fernandes de Siqueira

Antônio José Teixeira

Antônio Luís da Costa

Baltazar da Costa Pinto

Bento de Magalhães Peixoto

Bento dos Santos Pereira

Procurador

1747,

1750

1752,

1753,1757

1749

1739, 1749,

1761

1761

1

1758

1764

1735-176 5

Vereador

Juiz

 

1736,

1750

1754, 1757

Francisco de Siqueira Cortes

 

1754

1760

Francisco Marques Lameira

1737,

1741

1758,

1765

 

1746,

1764

Francisco Martins Lustosa

 

1740, 1744

 

Francisco Ribeiro da Silva

1757

Gaspar Teixeira Ribeiro

1741

1762

Gonçalo José de Meneses 1764

1758

1759,

1760

Gonçalo Soares Pais

 

1758, 1765

 

Henrique da Cunha

1754, 1759,

Henrique Ferreira de Barros

1755

1764

 
 

Jerônimo da Veiga da Cunha

 

1747

 

João Batista de Oliveira

1737

1757

João Carvalho de Assunção

1743,

1749

João da Silva Guimarães

1753,

1756

João de

Siqueira

 

1756

João Dias Cortes

 

1756, 1760

1757

João Dinis Pinheiro

1757

1761

João Gonçalves Teixeira

João Martins Leme

1735, 1738

João Pereira Braga

João Rodrigues Seixas

João Veloso da Luz

Joaquim Manoel de Abreu

José de Mendonça Coelho

José de Oliveira Sampaio

José Gabriel Leitão

José Palhano de Azevedo

1755

1737, 1745

1754,

35 Ver NAVARRO, op. cit, p.88. Dos 25 juizes que atuaram em Curitiba, entre 1731 e 1752, apenas um único formado era formado em Direito. Foi o Dr. Lourenço Ribeiro de Andrade, nascido em Curitiba em 1724, filho do Capitão Miguel Rodrigues Ribas e Maria Rodrigues de Andrade. Licenciou-se em direito pela Universidade de Coimbra em 1747. Seu nome apareceu pela primeira vez nas audiências dos juízes ordinários em 1748, quando come- çou a atuar como procurador, atuando em 11 processos. O doutor Lourenço foi juiz ordi- nário da vila de Curitiba e m 1750 e nomeado capitão-mor em 1751. Era u m dos homens mais cultos da vila.

36 Não foi levantado o exercício dos cargos camarários por estes indivíduos nos anos ante- riores a 1735 e posteriores a 1765.

José Dias Cortes

1736

1739

1737

José dos Santos Pacheco Lima

1761

José Nicolau Lisboa

 

1736

Leão de

Melo e Vasconcelos

1743

1741

1742, 1743,

1744

Leão de Siqueira e Silva

1741

Lourenço Ribeiro de Andrade

 

1750, 1754

Lucas Francisco

 

1745

Luís de Souza Meneses

1764

Manoel Álvares Fontes

Manoel Borges de Sampaio

Manoel Correia da Silva

Manoel da Costa Cardoso

Manoel da Rocha Carvalhais

Manoel da Silva

Manoel de Lemos Bicudo

Manoel de Souza Castro

Manoel Dias Colasso

1756,

1765

1765

1758, 1762

Manoel dos Santos

Cardoso

1751

Manoel dos Santos

Lisboa

Manoel Ferreira Valongo

 

Manoel Gonçalves Sampaio

 

1751

Manoel Munis Barreto

 

Manoel

Pereira do Vale

 

/

1744

Manoel Rodrigues Seixas

'

1743

Manoel Soares do Vale

 

Manoel Vaz Torres

Manoel Soares da Silva

 

Manoel Rodrigues da Mota

Miguel Gonçalves Lima

Miguel Paes Cardoso

Miguel Ribeiro Ribas

Miguel Rodrigues Ribas

 

Nazário Ferreira de Oliveira

 

1754

Pantalião Rodrigues

Paulo Chaves de Almeida

1751, 1756,

1760

1749

1752,

1758

1765

 

1737, 1753

1735

1762

1747,

1753

1759

1747

1762

1753, 1763

1757, 1759,

1764

1744

 

1742

1749

1739

1743, 1747

1744, 1752,

1763

1760

1737,

1745

1758

 

1739

1743

1737

1748

1755

1741, 1743,

1747,

1749

1761

1738

1765

Paulo da Rocha Dantas

Pedro Antônio Moreira

Pedro de Albuquerque

Pedro de Souza Pereira

1739, 1740,

1752

1764

1759

1756

1746

1746, 1752

Pedro Dias Cortes

Felipe Pereira de Magalhães

Roque de Siqueira Cortes

Salvador de Albuquerque

1740

1748

Sebastião Gonçalves

Lopes

Sebastião Teixeira de

Azevedo

1746,1750

1741

1763

1745

1753, 1756

1754

1736, 1740,

1742

1743, 1755,

1760 1763

Sebastião Teixeira Pereira

Simão Gonçalves de Andrade

Simão Veloso

Tomás Leme do Prado

Trifônio Cardoso Pazes

1742, 1753

1759

1760

1759

1736,

1765

1745, 1761

1743

Vitorino Teixeira de Azevedo

1742, 1746,

1738,

1756 1748, 1753

1736,

ELITE

E CARIDADE

NOS

DE

CURITIBA

SERTÕES

MARIA LUIZA ANDREAZZA*

* Doutora em História pela UFPR, professora do Departamento de História da UFPR, pesquisadora do CNPQ, integrante do CEDOPE.

Deus poderia ter feito todos os homens ricos, mas quis que houvesse pobres neste

mundo para que os ricos tivessem oportunidade de redimir os seus pecados.

Santo Eloi

Domingas Fernandes de Siqueira Cortes morreu numa freguesia dos ser- tões de Curitiba, dedicada a Santo Antônio de Lisboa, no dia 18 de setembro de 1792. Ao morrer sem nunca ter gerado filhos, Domingas deixou parte de seus bens para os pobres da Lapa. 37 O lugar que esta mulher ocupou na co- munidade em que viveu e a rede de sociabilidades que ela teceu ao longo da vida ajudam a compreender a trama de relações em que estavam enredados ricos e pobres nas sociedades do Antigo Regime.

A ocupação das terras de Curitiba e da vasta região denominada, então, sertões curitibanos, deu-se gradualmente a partir de meados do século XVII. A família Siqueira Cortes encontra-se entre os mais antigos povoado- res a receberem sesmaria e se instalarem na região. Ao longo de gerações, os homens desse clã ganharam prestígio e reconhecimento sociais, construí- dos através de sua presença nos cargos da câmara e no exercício dos postos das milícias. Oriundos da Capitania de São Paulo estavam entre os primei- ros desbravadores que buscavam ampliar seus negócios ou construir fortuna num território ainda por explorar. Esses povoadores paulistas eram homens de cabedal e alguns acabaram por se fixar com suas mulheres nas pro- priedades adquiridas na região, constituindo aqui novos núcleos familiares. Outros membros das mesmas famílias, irmãos, sobrinhos, primos, cunhados, acabavam por se juntar aos que haviam vindo antes, e assim, tendiam a reproduzir seus clãs de origem nestes territórios das 'fronteiras de expansão' paulista. Os avós de Domingas seguiram essa trajetória, vindo a se instalar na vila de Curitiba, onde tiveram seus filhos.

37 ACSP, Série Testamentos e Inventários, Testamento (1792) e o auto de contas do formal de partilha dos bens de Domingas Fernandes de Siqueira Cortes (1793).

GENEALOGIA DE DOMINGAS FERNANDES DE SIQUEIRA CORTES

V •

Miguel

Fernandes

de Siqueira

Nat. São Francisco

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T

C

V

Cap.

Antônio

Fernandes de

Siqu

o

Curitiba

V -

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W

I

João

Machad o

Fagundes

V i f 1 f i

I

I

DOMINGAS

 

* 11/09/1729

+17/09/1792

#21/02/1750

Curitiba

Viúvo de Antónia Cardosa

* Santo Amaro

T 08/08/1750

tiro, 35 anos

1177 2

V i

W

V

Joachym

Vicente de

Menezes

* ilha Terceira Após 1786 = Alfreses Lapa

#

04/08/175 7

Tamanduá / Laps

Luis de Goes

Sesmaria em 1668 Signatário Ata Pelourinho

#1714

V

Catharina

de Siqueira

* o Curitiba a Lapa

Cortes

t Lapa 1792

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Izabel

Quitéria Luiz

de

Siqueira

de Siqueira

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«

* Diogo

* Manoel

# 1854

Gançalves

Ribeiro

8 filhos

Gomes

de Oliveira

'Barcellos

João

Palha no

8 filhos Cap. Francisco de Paula Peixeira

Nascimento - #casamento - + morte -

o = moradia

Luis de Góes, o avô materno de Domingas, foi um desses sertanistas que, em meados do século XVII teria acompanhado as incursões de Gabriel de Lara pelos sertões curitibanos. Luis de Góes foi casado com Maria de Siquei- ra Cortes, do clã paulista dos Siqueira Cortes, e desde 1668 andava pela região onde era proprietário de terras. A mãe de Domingas, Catarina de Si- queira Cortes, nasceu no povoado de Curitiba. O avô paterno de Domingas, Miguel Fernandes de Siqueira, também descendente de paulistas, nasceu em São Francisco, para onde seguiram muitos dos povoadores que desciam pelo litoral. Miguel Fernandes de Siqueira casou-se com Maria Luiz Tigre, provavelmente aparentada com o sertanista Antonio Luis Tigre instalado nos Campos Gerais. O casal já morava em Curitiba ao nascer Antonio Fernandes de Siqueira, o pai de Domingas.

Em 1693, quando o povoado foi elevado à categoria de vila, os dois ramos da família de Domingas já se achavam instalados na vila e desfrutavam do prestígio atribuído aos homens-bons do lugar. No dia 29 de março de 1693, os moradores reuniram-se na igreja matriz de Nossa Senhora da Luz dos Pi- nhais para a cerimônia de instalação da Câmara e a eleição de seus oficiais. Os dois avós de Domingas, Miguel Fernandes de Siqueira e Luiz de Góes estavam presentes e assinaram a ata da reunião solene. Luiz de Góes compôs o restrito grupo de seis eleitores, designados pelo capitão-mor Mateus Leme para escolherem os ocupantes da primeira legislatura da Câmara de Curitiba.

Ao longo dos anos, os homens das famílias Siqueira Cortes e Góes continu- ariam a figurar entre as elites locais e a participar dos espaços políticos e de

prestígio da vila.

Os pais de Domingas casaram-se em 1714, ao tempo que Curitiba era ain- da uma pequena e remota vila. O matrimônio consolidava a ligação de duas famílias de nobreza da terra. Com o nascimento dos filhos, o casal deu iní- cio à segunda geração de suas linhagens nascida em território curitibano. A prolífica família do capitão Antonio Fernandes de Siqueira e Catarina Siqueira Cor- tes já ia pelo sexto rebento quando Domingas nasceu, às vésperas da primavera de 1729. Depois dela vieram mais sete filhos. Era comu m nessa época, as famílias de posses promoverem casamentos endogâmicos (homogâmicos - entre seus iguais) como forma de não dissipar bens e fortuna. Assim, a união de Antonio com Catari- na talvez se deva mais aos desígnios econômicos de manutenção dos bens do clã dos Siqueira Cortes, do que à escolha pessoal dos jovens nubentes. Na origem des- sa história familiar vamos encontrar a união de três ramos 'paulistas': os Tigre, os Siqueira Cortes, e os Góes, todos ligados à ocupação das terras meridionais da co- lônia, dos planaltos de Curitiba e dos Campos Gerais, estendendo-se ao litoral norte de Santa Catarina.

—x

Quando Domingas nasceu, consolidava-se na região de Curitiba e seus campos uma sociedade marcada pela dominação econômica e política de

famílias ligadas às atividades relacionadas ao tropeirismo, que detinham o

por meio de oligarquias parentais. 38 Domingas

era filha dessa nobreza da terra, composta por famílias nobilitadas pelo pres-

tígio social e pelo poder econômico e político angariado ao longo dos anos.

poder político local

e regional,

Antes de completar 21 anos de idade, a jovem Domingas contraiu núpcias com João Machado Fagundes, natural das bandas paulistas de Santo Amaro. Essa união daria continuidade a antigas alianças parentais. Os pais de João, Antonio Machado de Oliveira e Ana Maria de Siqueira haviam se casado em Santo Amaro em 1710. O pai fora um dos primeiros paulistas a descobrir

cujas minas faleceu, em 1724, e a mãe, Ana Maria

de Siqueira vinha de tradicional família paulista. Em 1739, João Machado Fagundes casou-se pela primeira vez com uma prima de Domingas, da qual veio a ficar viúvo. João era um homem já maduro quando, em 1750, despo- sou Domingas. A celebração do casamento foi oficiada na sede da freguesia de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, pelo pároco Manoel Domingos Leitão, em agosto, mês que ainda não adquirira halo de mau agouro. O casamento pouco durou. Antes de a união completar 6 meses, João foi morto por um tiro. Cerca de um ano após a morte do marido, Domingas e a sogra foram ao tabelião para lavrar escrituras de "amor e perdão". Através desses docu- mentos, Domingas e a sogra perdoavam o assassino, isentando-o de culpa, por estarem cientes de que João viera à cidade "querelar". É provável que o marido de Domingas tenha morrido em duelo. O que é pouco provável é que o gesto de perdão tenha partido da livre vontade e determinação das duas mulheres, certamente ainda compungidas com a perda do marido e filho. Possivelmente Domingas e Ana tenham se submetido à pressão dos homens de suas famílias, sendo induzidas a lavrar as escrituras de perdão em função de uma jogada de interesses políticos e/ou econômicos.

ouro em Cuiabá, em

Em 1757, aos 28 anos, Domingas contraiu segundas-núpcias com Joa- quim Vicente de Menezes, açoriano, natural da Ilha Terceira. Este casamen- to foi celebrado na Capela de Nossa Senhora da Conceição, no Tamanduá. Joaquim provavelmente tinha terras nessa região dos Campos Gerais, onde inicialmente o casal foi morar. Mas, a partir de 1774 vamos encontrá-lo so- licitando à Câmara de Curitiba licença para o funcionamento de uma venda em Santo Antonio da Lapa. Aquelas paragens, então, pertenciam à Comarca

38

BALHANA, A. R;

PINHEIRO MACHADO,

Curitiba: Grafipar. 1969. v.4„ p.65.

B. ; WESTPHALEN,

C. História

do

Paraná

de Curitiba, cabendo a seus oficiais a expedição de alvarás liberando ativida- des mercantis. Parece que os negócios de Joaquim prosperaram. A licença para exercer comércio numa 'venda' rapidamente - já em 1776 - transfor- mou-se em 'negócio de fazenda, secos e molhados' 39 . Joaquim também as- cendeu socialmente. A partir de 1786 passou a exercer na Lapa o posto

de alferes da Cavalaria de Ordenanças de

Curitiba.

A ocupação oficial da região onde se organizou o povoado de Santo Antô- nio da Lapa se deu tardiamente. As partes norte e central dos Campos Gerais, alvos da cobiça dos 'paulistas' de Santos, Itu, Paranaguá e São Paulo de Piratininga, já estavam recobertas por fazendas de gado desde os primórdios do século XVIII pois, entre 1725 e 1744, mais de noventa sesmarias foram aí requeridas. Estes sesmeiros, por deterem o monopólio regional da criação do gado que abastecia a zona mineira, não tinham interesse em expandir-se para o sul dos Campos Gerais e fizeram o possível para impedir a abertura do Caminho do Viamão 40 .

Contudo, em 1730 "sempre com grandes trabalhos" a expedição que partira dos Campos da Vacaria, comandada por Francisco de Sousa Faria alcançou os campos de Curitiba. "O Caminho do Sul consolida-se em 1732, com a passagem do primeiro comboio de animais e dos primeiros tropeiros", diz o historiador Jaelson Trindade e conta que

Cristóvão Pereira de Abreu, um rico negociante da Colônia de Sacramento, nas-

cido em

Durante 13 meses, entre 1731 e 1732, ele permaneceu no planalto, fazendo um

Depois, voltou para o

reconhecimento da picada já aberta e de toda Região. [

Viamão e tornou a subir, com vários sócios, a Serra para Curitiba acompanhado

por 130 homens e tocando 3.000 cabeças de mulas e cavalos trazidas da Colô-

um modo de viver - o do

tropeiro - e um eixo que ataria definitivamente o extremo sul ao resto

Portugal, foi o chefe da primeira tropeada sulina, "o primeiro

]

tropeiro".

nia de Sacramento. [

]

a tropeada de 1732 inaugurou

do Brasil. 41

A triunfal passagem de Cristóvão Pereira de Abreu pelos sertões de Curitiba criou as condições para que se iniciasse uma expansão de popu- lação, embora rarefeita, no espaço sul dos Campos Gerais, com fixação

39 Nesta data situa-se o mais remoto registro encontrado, até o momento, indicando a residência de Domingas na localidade. Trata-se de um pedido encaminhado à Câmara Municipal de Curitiba, de licença para funcionamento da 'venda' de seu marido Joaquim, afiançada por Baltasar Costa Pinto. (Livro de Fianças - 1750 - 1780. Câmara Municipal de Curitiba.).

40 PINHEIRO MACHADO, B. Formação histórica. In: BALHANA, A. P. et alii. Campos Ge- rais: Estruturas agrárias. Curitiba: Imprensa da UFPR, 1968. p.28-30.

São Paulo: Editoração Publicações e

41 TRINDADE, Jaelson Bitran. Comunicações, 1992. p.30-31.

Tropeiros

do Brasil.

acentuada nas proximidades dos pousos de tropas. O que atraía as pessoas era, certamente, a possibilidade de comerciar com os tropeiros. Auxiliava, ainda, esta concentração o fato de, a poucas léguas do 'pouso da Lapa', existir um posto de cobrança do 'pedágio do gado', o registro do rio Grande ou registro

de

Curitiba.

No entanto, a efetiva concessão de sesmarias nessa região dar-se-ia mais tarde. Diferentemente da modalidade de ocupação do norte dos Campos Ge- rais, onde predominaram os proprietários absenteístas, os sesmeiros radi- cados mais ao sul tenderam a fixarem-se em suas fazendas, ombreando-se à elite regional curitibana.

Por determinação da coroa, foi ordenado aos moradores radicados em torno do pouso da Lapa que organizassem uma povoação, para não viverem dispersos. A freguesia surgiu em 1769, através da doação de uma sesmaria, destinada a ser patrimônio da igreja. O primeiro vigário a assumir a fregue- sia foi o padre João da Silva Reis, que passou a exercer seu ministério na localidade onde moravam seus pais, irmãos e outros familiares. Os pais do padre João da Silva Reis, os reinóis João Pereira Braga e Josefa Gonçalves

da Silva, estavam entre os primeiros sesmeiros a se estabelecerem com mo- rada efetiva nos Campos Gerais. De fato, os ancestrais do pastor de almas de Santo Antonio da Lapa eram verdadeiros representantes da nobreza da terra. Desde 1727 eram proprietários nos Campos de Tibagi e, em 1742, já haviam adquirido a sesmaria da Palmeira 42 . A elite que se organizou na lo- calidade conformou-se a partir da família de João Pereira Braga. Seus filhos

e genros, e sucessivamente os descendentes, assumiram as lideranças locais.

Desde a primeira lista nominativa de habitantes, de 1765, e daí em diante, até o século XIX, seus familiares consangüíneos constam entre os que de- tinham os principais cargos nas milícias e nas companhias de ordenança locais, exercendo funções que iam desde alferes, tenentes, sargentos e, es- pecialmente, de capitães.

Santo Antonio da Lapa e seus campos integravam o universo tropeiro

e aí, além das famílias 'fazendeiras', e sua escravaria, radicaram-se pessoas de toda qualidade ligadas a este universo. Sazonalmente, caravanas movi- mentavam o povoado permitindo sua integração com espaços mais amplos da América colonial que iam do norte do Uruguai, do leste da Argentina até

a região de Itú e Sorocaba.

ANDREAZZA, Maria Luiza. Notas acerca da ação do clero secular na colônia. Anais

Encontro

2002. p.132.

Anual

da Sociedade

Brasileira

de Pesquisa

Histórica.

Curitiba

do

Curitiba- SBPH-

Nesta sociedade, a 'família' fazendeira e seus agregados recolhiam-se dentro de suas terras, criando uma economia quase auto-suficiente orien- tada para a subsistência do próprio grupo. 43 No mais das vezes, o contato comercial com as vilas restringia-se à compra do sal mas, por força de lei, os fazendeiros eram obrigados a manter residência também nas vilas e para lá dirigirem-se, seguindo a tradição portuguesa bem como as Ordenações do Reino, em certas datas do calendário festivo, religioso e civil.

Na nova localidade, o casal Domingas e Joaquim reorganizou seus víncu- los sociais. Além da atividade comercial que favoreceu contatos interpessoais baseados em uma sociabilidade específica, eles estreitaram contato com ou- tros parentes, pois aí residiam inúmeros familiares de Domingas: os Siqueira Cortes. Nessa época, o casal dividia domicílio com Catarina, mãe de Domin- gas. É possível que esta coabitação tenha acontecido em função da viuvez de Catarina com a morte do de seu marido, o capitão Antônio Fernandes de Siqueira, em 1772. Até então, há indícios de que Catarina morava em Curitiba, onde criou seus 15 filhos. Era boa parideira, diferentemente da filha Domingas. Esta foi devota de Santa Margarida de Cortona, mas suas rezas não encontraram eco, já que ambos os seus casamentos foram estéreis. 44 Domingas não teve filhos, mas foi madrinha de muitas crianças. Entre junho de 1774, ano das primeiras menções do casal Domingas/Joaquim na Lapa, e julho de 1792 - mês em que ditou seu testamento - ela foi mãe espiritual de 33 crianças, 17 vezes partilhando o apadrinhamento com seu marido. 45 Não raras vezes, a pia batismal serviu para que os 'notáveis' reforçassem ou estabelecessem parentesco espiritual com Domingas. Neste caso, é exemplar sua relação com a prestigiada família Pereira Braga, que lhe confiou seus rebentos por três vezes. O vigário João da Silva Reis, que pertencia a essa família, desde 1769 estava na Lapa a cuidar dos fiéis da sua freguesia e do gado da sua fazenda, havida por herança. É possível pensar que ele também tivesse uma boa relação com sua paroquiana Domingas. Ambos descendiam de famílias fazendeiras e, podemos supor, afinidades homogâmicas teriam agido para o estabelecimento de vínculos entre eles. Ademais, Domingas e Joaquim participavam dos eventos religiosos sob o estandarte da Irmandade de São Miguel e Almas, à qual pertenciam.

Dois meses antes de morrer, em julho de 1792, em pleno "juízo que Deus

43 PINHEIRO MACHADO, op. cit., p.37.

44 Santa protetora das parturientes. Ver Relação das Devoções, de acordo com a crendice popular, no Brasil. KIDDER, Daniel. Reminiscências de viagens e permanência no Brasil. São Paulo: Livraria Martins Editora USP, 1972. p.286.

45 APSAL. Livro de baptizados, n.l , 1769-1797.

Nosso Senhor lhe deu, de pé, porém com idade avançada", Domingas so- licitou ao Capitão Salvador Gomes Pereira que escrevesse seu testamento. Lúcida, porém doente, Domingas teve esta cautela ao sentir-se "vexada pelas moléstias e temendo a morte, não sabendo quando Deus Nosso Senhor a levari a dest e mundo" . Po r nã o sabe r 1er e escrever , el a dito u a s determina - ções para dispor de seus bens e acautelar-se quanto à salvação de sua alma. Esta foi encomendada à Santíssima Trindade, ao Pai Eterno, ao senhor Je- sus Cristo, à Maria Santíssima, a todos os Santos da Corte dos Céus, par- ticularmente ao seu anjo da guarda e ao santo de seu nome. Em sinal de agradecimento aos moradores da cidade de Deus, deixou 12$800 réis para a Igreja de Santo Antônio. Dispôs, ainda, sobre o guardamento de seu corpo, com ordens expressas para que os testamenteiros tudo pagassem:

Meu corpo será sepultado na Igreja desta freguesia e amortalhado no hábito de

no dia de meu falecimento podendo ser aliás no dia seguinte

se me dirão as missas de corpo presente que puder ser pelos sacerdotes que se

acharem nesta freguesia os quais acompanharão meu corpo à sepultura com a

cruz paroquial cada irmandade das Almas de que sou irmã e à arbítrio dos meus

testamenteiros deixo as demais disposições de meu enterramento pagando-se

tudo conforme o costume. Deixo pela minha Alma que se digam com a maior bre-

com a

vidade duas capelas de missas de que se pagará a esmola costumada. (

mesma brevidade vinte e cinco missas pelas almas do Purgatório; declaro que se

tomarão por mim duas bulas de composição. 46

Domingas ocupou-se também do plano terreno, consignando sua vontade em relação aos bens materiais que deixava. Instituiu a mãe, Catarina, como sua herdeira universal. Quitadas as dívidas, é possível supor que, foram desti- nados à Catarina cerca de 1$000.000, além de 14 escravos, 'entre grandes e pequenos'. Suas irmãs, Maria da Conceição e Izabel de Siqueira, receberam um escravo cada uma. Ao marido, Domingas deixou apenas o que lhe cabia por força da meação. Ademais, dispôs em testamento que a terça parte de seus bens fosse repartida entre os pobres. Para o fiel cumprimento dessa par- te do testamento, os testamenteiros tiveram que identificar os despossuídos que se beneficiariam com o último gesto de caridade da falecida. A relação das pessoas que se auto-denominaram pobres, com referendum eclesiásti-

São Francisco e (

)

)

co, consta do Auto de contas do formal de partilha

dos bens de

Domingas

de

Siqueira

Cortes. 47

Neste documento estão nominados

152

indivíduos,

46 ACSP. Série Testamentos e Inventários. Testamento de Domingas Fernandes de Siqueira Cortes (1792).

47 ACSP. Série Testamentos e Inventários. Auto de contas do formal de partilha dos bens de Domingas Fernandes de Siqueira Cortes (1793).

que correspondiam a mais de 10% da população de Santo Antônio da Lapa em 1792! Os argumentos empregados pelos requerentes para caracterizar seu estado de penúria foram: orfandade, doença, invalidez, miséria, prole

numerosa, dívidas e outros como "ser casada de pouco com moço muito po- bre" e "carregar o pai de arrasto", cabendo aos testamenteiros arbitrar sobre

as quantias a serem distribuídas a cada um.

A quantificação dos pedintes das esmolas de Domingas permite observar um amplo favorecimento ao contingente feminino, que totalizava 81% dos beneficiados. Perto de 27% das mulheres contempladas eram jovens com

menos de 20 anos. Além dessas, as mulheres na faixa de idade entre 30-39 completavam a maior parte dos beneficiados pela 'terça' de Domingas. Os es- moladores homens concentravam-se acima dessa faixa de idade, tendência que se mantém até as idades mais elevadas, pois 39% dos homens contavam com mais de 50 anos, faixa em que se situavam apenas 15,1% das mulheres.

O que se pode observar acerca do perfil dos esmoleiros é o paralelo entre

condição feminina e miserabilidade, o que sugere o relativo desamparo das moças, das mães solteiras, das viúvas e, até, das casadas. Cerca de 26% do contingente feminino era formado por mulheres solteiras, com idades até 39 anos, totalizando 35 mulheres; enquanto, na mesma faixa de idade apre- sentaram-se apenas 5 homens. Nenhum viúvo colocou-se na condição de necessitado, mas 18 viúvas - 14,6% das mulheres - o fizeram. Mas o grupo

que mais se destacou no conjunto das mulheres-pedintes foi o das casadas, pois estas arremataram 44% do total distribuído pelos testamenteiros.

Do total do espólio, couberam aos despossuídos da\Lapa aproximadamen- te 500$000, distribuídos entre 285 varas de algodão e 440$000 em nume- rário que por sua vez foi dividido em parcelas que variavam entre 1$200 e

12$042 réis. Conforme determinação da falecida, os testamenteiros - Salva- dor Muniz de Siqueira, seu primo, Manoel Gomes de Oliveira, seu cunhado

e Miguel Dias - teriam o prazo de três anos para cumprir suas últimas vonta-

des. Foi-lhes dado o poder de vender o que fosse necessário para o enterro e

o cumprimento de seus 'recados'.

Domingas teve o cuidado de pedir atenção para que, no processo de partilha aos mais carentes, seus testamenteiros antepusessem, sempre, seus parentes pobres. Diversos parentes de Domingas constavam dentre aqueles que compunham o grupo dos despossuídos da Lapa. Em princípio, esta desclassificação social estaria em desacordo com a trajetória geral da família Siqueira Cortes, por isso, um dos pontos a ter em conta é o da con- cepção de parentela praticada naquela sociedade. Os indicadores obtidos até o momento evidenciam que ela se estendia, no mínimo, até a esfera do

parentesco espiritual. Disto são provas os muitos afilhados de Domingas e o valor das esmolas a eles destinadas. Buscaram-na para madrinha escravas, mães solteiras, irmãos, primos e pessoas da elite local, indicando que a rede de relacionamentos de Domingas, de alguma forma, cobria toda a escala social de Santo Antônio da Lapa. Estudos de historia social do Brasil chamam a atenção para as relações de compadrio nas sociedades do Antigo Regime. Ao estabelecer uma relação de paternização espiritual, o apadrinhamento criava para os afilhados obrigações de fidelidade e deveres, mas também os

inscrevia nos benefícios

que essa inclusão importava. 48

Por nascimento, casamento, fortuna amealhada ao longo da vida e pres- tígio junto à comunidade na qual viveu, Domingas deve ter sido designada como 'dona', título reservado às mulheres de respeito e consideração. Além disso, a relação de bens arrolados em seu formal de partilha revela uma mu- lher de posses e permite inscrever esta 'dona' dos sertões curitibanos como uma representante das elites setecentistas da região. No momento de sua morte, Domingas possuía 14 escravos. Em se tratando do universo tropeiro, cujas atividades não demandavam grande número de braços, esse plantel não era insignificante. Os três maiores proprietários de terras e de gado em Santo Antonio da Lapa possuíam nesse mesmo ano - 1792 - entre 28 e 30 escravos. Este dado sugere que Domingas vivia sob condições materiais adequadas à trajetória geral de sua linhagem familiar. Ao contrário, muitos de seus parentes que moravam em Santo Antonio da Lapa se sujeitavam a esmolar para minorar suas necessidades.

A trajetória de Domingas, de filha da nobreza da terra a 'dona' dos sertões curitibanos, ao mesmo tempo em que remete à origem e à manutenção de uma linhagem de prestígio, oferece pistas para se observar pontos de inter- cessão entre o universo das elites e o dos pobres numa sociedade de Antigo Regime. Os caminhos percorridos para a construção do reconhecimento so- cial das mulheres nas sociedades coloniais por certo não foram os mesmos disponíveis para os homens, já que pelo menos duas vias estavam vedadas a elas: o acesso a cargos públicos e à milícia. Mesmo admitindo que a linhagem familiar e, num segundo momento, o casamento exerciam indiscutível deter- minação sobre o lugar social que uma mulher pudesse ocupar no seu meio, as evidências mostram que espaços de sociabilidade acessíveis ao transito feminino propiciavam a construção de outras redes pessoais de prestígio e influência pelas mulheres da elite.

48 FRAGOSO, João Luis Ribeiro et alii (org.) Conquistadores

elites no Antigo Regime nos trópicos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p.15.

e negociantes-,

História das

Ao mesmo tempo, é preciso ter em conta a possibilidade dos indivíduos se associarem - com maior ou menor envolvimento e em função de interesses pessoais ou comunitários - a inúmeros grupos. Nas organizações rurais da América portuguesa, as pessoas estavam situadas em cenários sociais inter- ligados 49 , o que, tendo em vista a sociedade setecentista de Santo Antonio da Lapa, se traduz numa comunidade que oferecia múltiplas condições de sociabilidade entre desiguais. 50

Os vínculos de proteção que nasciam com as relações de compadrio,

a aproximação entre desiguais propiciada pelo pertencimento a irmandades

religiosas, bem como os compromissos de gratidão e fidelidade criados a partir da doação de esmolas e prestação de favores aos pobres compunham

o universo ampliado de sociabilidade das mulheres de elite. Embora não ex-

clusivamente feminino, o território das relações geradas pela dádiva e pelos gestos de proteção aos pobres era importante espaço de construção de pres- tígio social disponível para as mulheres na sociedade setecentista. Domingas movimentou-se e exercitou-se nesses territórios.

Em testamento Domingas expressou o desejo de deixar para os pobres da Lapa a terça parte de seus bens. O gesto tem a ver com a ampla parentela espiritual que ela formou durante a vida por meio de filantropia e apadrinha- mento dos mais pobres. Contudo, é possível também que como boa cristã, diante da iminência da morte ela tivesse em mente a salvação de sua própria alma através da caridade.

Com efeito, o ultimo gesto de Domingas repercutias palavras da máxima de Santo Eloi escolhidas como epígrafe deste artigo. A ética preconizada pelo santo medieval supunha, no interior de seu imaginário cristão, atos de gene- rosidade e de acolhimento praticados entre grupos que se concebiam como naturalmente desiguais. No período colonial brasileiro, doações de bens

49 Para a região focalizada neste projeto, sugere-se até uma certa homogeneidade entre fazendeiros e as camadas subalternas da localidade. Os estudos de Pereira, por exemplo, indicam que, por certo 'populismo' dos fazendeiros, não haveria diferenças no comporta- mento daqueles atores sociais. Segundo ele, "provavelmente o oligarca, seus camaradas, comerciantes e artesãos urbanos tinham hábitos pouco diferenciados. Não há evidências de que existissem formas de lazer, de higiene ou de gestual específicas de um ou de outro setor da população". PEREIRA, Magnus R. de M. Semeando iras rumo ao progresso. Curitiba: Editora da UFPR, 1996. p.136. '

50 Tributa-se a Gilberto Freyre haver iniciado uma sociologia das relações sociais no interior da sociedade escravocrata colonial, e desde então, com pequenas variações, os autores destacam que de tais relações não resultou um sistema racial polar haja vista ser sua característica a alta miscigénação. Mas, a mistura racial, como se sabe, não promoveu 'democracia racial' pois se aquela sociedade abrigava mobilidade era, sobretudo, organi- zada a partir da desigualdade ditada por critérios de cor, ascendência, sangue e religião.

ou de dinheiro a obras pias e caritativas frequentemente constavam dos tes- tamentos, que eram o instrumento civil destinado a legalizar a transmissão patrimonial. A proximidade com a morte foi poderosa propulsora do tipo de caridade praticada por Domingas. Prova disto é a benevolência com os mais necessitados, presente em seu testamento.

MULHERES À BEIRA DE UM ATAQUE HONRA E FAMÍLIA NA VILA DE CURITIBA

LEONARDO BRANDÃO BARLETA* MAGNUS ROBERTO DE MELLO PEREIRA**

* Historiador, mestrando em História na UFPR, integrante do CEDOPE.

** Doutor em História pela UFPR, professor do Departamento de História da UFPR,

pesquisador do CNPQ, integrante do CEDOPE.

Quarta-feira, 15 de agosto de 1804: dia santo de Assunção de Maria. Em frente à Igreja Matriz da Vila de Curitiba, 'dona' Francisca de Paula Carneiro e 'dona' Maria Joaquina Marcondes esperavam o início da missa conventual. A primeira era casada com o capitão-mor da vila, Antônio Ribeiro de An- drade; a outra, esposa do tenente-coronel Francisco de Paula Ribas, irmão do capitão-mor. As duas integravam o grupo familiar mais bem estabelecido na região. Os maridos eram filhos de Lourenço Ribeiro de Andrade, antigo capitão-mor da vila, falecido cinco anos antes. No século XVIII, o dr. Lou- renço foi o único curitibano a estudar na Universidade de Coimbra. Além de deixar o cargo ao primogênito, legou aos filhos vasto prestígio social entre os moradores de Curitiba e região. Não é necessário qualificar melhor as duas senhoras, pois a família a que pertenciam é amplamente conhecida da his- toriografia curitibana.

A posição destacada da família não se resumia aos cargos milicianos e

militares. Os membros do agregado familiar e seus aliados próximos ocu- param com freqüência os mais destacados cargos da Câmara Municipal da vila de Curitiba. Além disto, eles acumulavam um significativo patrimônio. Sua influência ia além da vila. O tenente-coronel Francisco de Paula Ribas foi um dos homens-bons envolvidos na fundação da Vila Nova de Castro, em 1789. 51 A conformação oligárquica desse agregado familiar chamava atenção nos primeiros anos do oitocentos, conforme foi bem caracterizado por um depoente em um processo administrativo que envolvia a família.

Estas antecipações me obrigarão a entrar circunstanciadamente na inteligência

da origem motora destas desavenças; E me fica sendo constante, que elas não

deixão de ter principio nas influências do dito tenente coronel pela ascendência, que tem na autoridade do capitão-mor seu irmão, e da mesma Câmara, em que são juizes seu cunhado João Antônio Pinto, seu tio Antonio José de Andrade; e camaristas o filho do mesmo capitão-mor Joaquim Mariano, e outros do seu partido. 52

Formavam, portando, um potentado muito bem estabelecido na região do Planalto Curitibano e dos Campos Gerais.

O dia da missa era uma fria quarta-feira do inverno curitibano. No perío-

do, para amenizar o efeito das baixas temperaturas, eram utilizados peque- nos aquecedores a carvão. O prestígio social da dupla de concunhadas fica

51 Documentos

Interessantes

para

História

e Costumes

de São Paulo,

v.4, 1886. p.115-

117.

52 A ESP. Manuscritos militares Paranaguá, 1742-1822. C0026, pasta 001. Todas as re- ferências ao caso foram retiradas desta documentação. As transcrições dos documentos foram modernizadas.

evidente através um fato muito simples ocorrido frente à igreja. Uma outra moradora de Curitiba, que não foi possível identificar, presenteou-as com um desses fogareiros. Desejando demonstrar o funcionamento do presente, diri- giu-se a Maria Águeda, uma humilde moradora do bairro do Tinguiquera que se achava próxima, ordenando-lhe que fosse buscar brasas. Esta "respondeu que não ia, e que mandasse as suas escravas", o que deu início a um bate- -boca entre as duas. "Disse a mulher do tenente-coronel a Maria Águeda, que se contivesse; ela concluiu dizendo que sem embargo de ser mulher de bai- xo nascimento não podia sofrer semelhantes desatinos". Segundo um relato sobre a ocorrência, o embate entre as mulheres teria encerrado com o início da missa. Outro informe prestado por um oficial do Regimento de Curitiba diz que o conflito com as concunhadas teve seqüência e que palavras impróprias foram proferidas dentro do templo. "Só ignoro a natureza de algumas pala- vras que na Igreja houveram entre estas, e Maria Águeda".

O litígio aqui descrito pode ser reconstituído a partir das informações coli- gidas pelo sargento-mor da vila de Paranaguá, Joaquim José Pinto de Morais Leme. O relato - Imformação que se me deu do que se obrou na Vila de Curitiba no dia 15 de Agosto de 1804 - compõe, por sua vez, um dossiê que relata supostos abusos que a família dos Ribeiro de Andrade cometia na região. O caso envolvendo Maria Águeda é apenas um dos cinco que inte- gram o dossiê.

Este trivial bate-boca é interessante, pois, na medida em que envolveu mulheres de camadas sociais muito distintas, ele nos reqnete a questões mais amplas, que ressoam formas de sociabilidades bastante hierarquizadas e de- siguais, típicas do Antigo Regime, mas que no império colonial português ganharam uma dinâmica própria. O conflito iniciado em frente à Igreja Matriz nos permite compreender certas características das tramas de sociabilidades que constituíam a vida cotidiana dos habitantes de uma vila colonial brasilei- ra. A rusga pôs em jogo as imagens sociais dos personagens que se envolve- ram na questão, não só das mulheres diretamente implicadas, mas de outros que foram chamados a participar. Eram suas auto-imagens e a caracterização de suas posições sociais que estavam sendo postas a prova no cenário da dis- puta. Na ação cotidiana dos envolvidos, foram mobilizadas idéias de honra, precedência e virtude, fazendo com que as tensões sociais se acirrassem.

Para ajudar a entender tal tipo de questão, pode-se recorrer à noção de que a 'honra' desempenhava um papel de centralidade nos valores morais dos sistemas familiares das sociedades mediterrânicas, incluindo aí os países

ibéricos e, por derivação, as suas colônias americanas. 53 Para os pesquisa- dores vinculados a essa corrente interpretativa, no mundo mediterrânico a honra é vivida como sentimento individual: a imagem e orgulho que cada um tem de si. No entanto, a honra também se refere ao reconhecimento pelos outros deste sentimento, da posição ocupada socialmente pelo indivíduo e do direito ao orgulho. 54 Em uma'sociedade de Antigo Regime, tais valores constituem-se em meios significativos para a organização social, à medida que fornecem os mecanismos para a hierarquização e a estratificação que as caracterizam e acabam por orientar o comportamento das pessoas que nela vivem. No caso das colônias latino-americanas, os historiadores Lyman Johnson e Sonya Lipsett-Rivera sugerem que

a instalação da instituições políticas ibéricas, as formas arquiteturais e tecnologias

combinadas com a disseminação do Cristianismo e a língua espanhola (ou portu-

guesa) criaram um meio cultural para a transferência e posterior adaptação dos

valores e crenças ibéricas, incluindo a cultura da honra. 55

Assim, a experiência ultramarina portuguesa retomaria valores culturais comuns da Península, mas que no Novo Mundo agregou questões outras colocadas pelo processo de colonização. A noção de honra característica de Portugal foi, então, transposta para o ambiente colonial sendo aqui ressigini- ficada, incorporando novos elementos, tais como a composição social multi- -étnica e a escravidão.

Estas noções permitem que caracterizemos o litígio que envolveu quatro mulheres à porta da igreja matriz de Curitiba como uma 'questão de honra'. Tanto o atrito quanto as ações que ele desencadeou posteriormente preten- diam garantir e reafirmar a posição social que aquelas pessoas atribuíam a si próprias. Se, por um lado, as esposas dos Ribeiro de Andrade se

53 Com o fim dos regimes colonialistas na África e Ásia, muitos antropólogos deslocaram seus trabalhos dos povos primitivos destes continentes para sociedades ocidentais mais pobres, como a América Latina e região mediterrânica da Europa. O outro deixou de ser o aborígene dando lugar ao camponês dos países subdesenvolvidos. A mudança de objeto suscitou, também, nova orientação dos olhares dos antropólogos, que passaram a concor- rer com outros especialistas - como o sociólogo, o historiador, o economista. Dessa forma, a contribuição do antropólogo passou a ser principalmente o estudo dos sistemas familia- res e parentais e os sistemas de valores morais a eles ligados. Cf. CUTILEIRO, José. Honra, vergonha e amigos. In: PERISTIANY, J. G. (org). Honra e vergonha•. valores das sociedades mediterrânicas. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 1991. p.lX-XXV.

ima-

gem de si ou dom

55 JOHNSON, Lyman; LIPSETT-RIVERRA, Sonya. (eds.). The faces

and violence in Colonial

54 PITT-RIVERS, Julian. A doença da honra. In: GAUTHERON, Marie (org.). A honra:

de si -

um ideal equívoco. Porto Alegre: LP&M, 1992. p. 18.

of honor,

Latin America. Albuquerque:

sex, shame

Press,

University of New México

1998. p 6. Tradução feita pelos autores do presente artigo.

consideravam na posição de mando sobre os demais pessoas daquela vila - precedência reconhecida socialmente, refletida no fogareiro ganho na porta da igreja ou mesmo na preponderância historiográfica da família - , por outro Maria Águeda não aceitou ser o objeto desse poder de mando. A recusa, por sua vez, refletia também a posição social que ela queria ver afirmada e reconhecida: não era uma escrava. Assim, foi o não-reconhecimento entre os oponentes dos conceitos que cada um fazia de si que levaram ao conflito na porta da igreja e nortearam os desdobramentos que se seguiram.

São poucos e fragmentários os dados conhecidos da vida de Maria Águe-

da, o que pode ser atribuído a

documental do imbroglio entre as mulheres, a sua trajetória de vida não servi- ria mais do que para compor estudos estatísticos sobre o passado de Curitiba. De acordo com as listas nominativas de habitantes, Maria Águeda nasceu no final da década de setenta do século XVIII, entre 1776 e 1779. Tinha, portan- to, aproximadamente 25 anos, em 1804. Era filha de Manoel da Costa (fale- cido entre 1786 e 1790) e de Joana Rodrigues e possuía 4 irmãos. A família morava, ao menos a partir de 1786, no mesmo bairro do Tinguiquera onde ela se estabeleceria após o casamento. A única indicação socio-econômica disponível sobre a família é que, em 1786, possuía 100 urubembas. Isto indi- ca que ela participou da tentativa que a coroa portuguesa fez de introduzir a plantação de urumbebas na região, com o intuito de criar cochonilhas, inse- tos parasitários que eram utilizados na preparação de corantes vermelhos. 57

seu baixo nascimento. 56 Não fosse o registro

Em 1793, Maria Águeda ainda vivia em casa de sua m^ãe, juntamente com todos os irmãos. Na lista nominativa de 1795, já aparece dividindo um novo domicílio com Salvador da Silva. O casamento ocorreu na matriz de Curitiba, em 22 de outubro de 1794, tendo Simplício da Costa e Francisco de Paula Leite como testemunhas. Deste registro constam alguns detalhes sobre a vida de Salvador anteriores ao seu casamento: "filho de Pais incógnitos; expostos em casa de Antônio Lima da Silva e freguês da Freguesia do Patrocínio de São José". 58 Expostos ou enjeitados eram as crianças abandonadas no nascimen- tos. Assim, seus pais - supostamente livres - eram desconhecidos, ao menos

56 Para a composição destes dados, foi consultado o conjunto de listas nominativas de

Público

de São Paulo, com cópias no CEDOPE. Também integraram nosso corpo documental de pesquisa as cópias digitais dos livros de batismo (n.10 e n.12) e casamento (n.4) da Fre-

guesia de Nossa Senhora da Luz da Vila de Curitiba.

57 WESTHPHALEN, Cecília Maria. Urumbebas e cochonilhas no Brasil meridional.

Estudos

habitantes (maços populacionais) de Curitiba que integram o acervo do Arquivo

Brasileiros,

v.7-8, 1979.

58 ACC. 4 o Livro

de Casamentos.

Versão digital disponível no acervo do CEDOPE.

do ponto de vista oficial. Salvador, não era, portanto, alguém 'de família' e não tinha uma 'procedência honrada' a defender.

A grande variabilidade dos nomes na documentação dificulta o rastre- amento de indivíduos como Salvador e sua mulher, o que, de certa forma, denota a 'pouca importância' do casal na sociedade curitibana da época, ao

dos mesmos documentos. 59 Maria Águeda,

assim nomeada no relato do tenente-coronel Morais Leme, surge nas fontes como Águeda, Maria, Maria Rodrigues e, mais recorrentemente, como Águe- da Maria. É esta a maneira de escrever o seu nome que aparece no registro de batismo dos seus três primeiros filhos - Matildes, Roberta e João - sendo que no da primeira o nome é sucedido pelo sobrenome da Costa. No registro do matrimônio, os nomes atribuídos aos contraentes são.- Águeda Maria de Oliveira e Salvador da Costa da Silva. Nos batizados, o pai aparece no pri- meiro com o sobrenome Pires e no outro Esteves. Todas as referências que temos nas listas nominativas repetem o mesmo nome que aparece no relato da briga: Salvador da Silva.

menos

aos olhos dos produtores

Os registros de batismo dos três filhos do casal integram os livros destina- dos às pessoas das classes inferiores. O termo de abertura do 10° livro remete aos "assentos dos batizados que se fizerem na Igreja de Nossa Senhora da

Luz

da Vila de Curitiba de todos os

bastardos 60 , administrados e escravos"

enquanto o 12° é dedicado aos "bastardos e pretos". Naquela época, o termo bastardo não era utilizado para se referir exclusivamente aos filhos nascidos fora do casamento. Tinha, antes, um sentido social. Segundo o historiador

Sérgio Nadalin, as pessoas que constavam desse tipo de livros de registros "seriam bastardos porque foram gerados no seio de uma condição social definida pela mestiçagem"; "degenerados". 61

O casal estava profundamente enraizado no bairro, como aparece tam- bém no relato de Morais Leme. Seus parentes consangüíneos (como a mãe e irmãos de Maria Águeda) e espirituais (padrinhos de seus filhos) também viviam ali. Tinguiquera era um bairro rural que consistia em uma região

59 Cabe ressaltar o caráter estatístico das listas nominativas. Esta documentação era feita

a partir de levantamentos censitários dos habitantes de determinada circunscrição das

companhias de ordenança. Em seguida, eram contabilizadas no intuito de produzir mapas gerais de população e remetidos a Portugal grande quadros gerais sobre as populações no

império. Desta forma, a acuidade na coleta de alguns dados como o nome são relegados

a importância secundária na produção do documento.

60 NADALIN, Sergio Odilon. História e Demografia: elementos para um diálogo. Campinas:

Associação Brasileira de Estudos Populacionais, 2004. p.30-31.

61 ACC. 10° Livro de Batismo• 12 0 Livro de Batismo.

de campos ao sudoeste de Curitiba, onde hoje é o município de Araucária. No ano de 1806, era um dos maiores bairros da vila de Curitiba, com 707 habitantes, dos quais apenas 19 eram escravos. 62 Uma vez que a posse de escravos pode ser tomada como um indicativo de riqueza, é possível presu- mir que se tratava de um bairro pobre. Não há registros de grandes fazendas na região. Os domicílios dos moradores eram pequenos sítios voltados à agri- cultura e criatório de subsistência.

Em 1800, os registros sobre o núcleo formado pelo casal e sua primeira fi- lha (Matildes) não traz nenhum designação de cor, ao contrário do que ocor- re com quase todos os seus vizinhos, que são classificados como pardos. Isto remete a alguma diferenciação social, uma vez que, ainda que indiretamen- te, isso implicava em classificar seus integrantes como brancos, ou, pelo menos, mais branco do que os outros. Contudo, nos anos posteriores - 1800, 1801, 1803 e 1805 - a família não escaparia de ser incluída na condição de parda.

No último ano do século XVIII, Salvador de Silva vivia "de ser peão e de conduzir tropas do Sul para esta vila de que ganhou este ano 5$000". No ano seguinte, quando do nascimento de Roberta, foi registrado que "plan- ta para o seu sustento e vendeu na terra um capado por 2$000". Em 1803, seu envolvimento com a atividade trapeira é apenas indicada, sem referên- cias a valores e, posteriormente, os censos registram-no apenas como lavra- dor. Podemos supor, a partir destas indicações fragmentárias, que a família composta por Salvador e Maria Águeda possuía uma pequena lavoura volta- da para subsistência e comercializavam um eventuaLçxcedente produzido. Salvador, esporadicamente, completava a renda familiar com atividades vin- culadas à condução de tropas do sul para Sorocaba. Um perfil sócio-econô- mico bastante comum à época, sobretudo no bairro em que moravam.

Na qualificação de Maria Águeda e sua família, não foi possível encontrar nenhum traço que os associasse à condição jurídica da escravidão. Entretan- to, na sociedade escravista que integravam, o pobre livre se colocava num lugar um tanto quanto ambíguo e indistinto: não era senhor nem escravo. Verificando a legislação municipal de Curitiba e Região no século XIX, é pos- sível perceber que as camadas dominantes da população olhavam para os mais pobres sem dar grande atenção para a condição jurídica das pessoas. As posturas municipais, em suas restrições e punições, tenderam a igualar negros e pardos, livres, libertos e escravos. Todos eles eram percebidos como

62 A ESP. Coleção Maços de

de Ordenanças

População. Lista

de

1806.

da vila do Coritiba

nominativa

de habitantes

de 2 a .

Companhia

integrantes de uma massa, um

tanto indistinta de não-morigerados. 63

No entanto, para cada um desses não-morigerados, o estatuto pessoal

era crucial. Eram capazes de perceber a complexa geografia cultural na qual viviam e buscavam a todo custo marcar as distinções sociais que atribuíam

a si. Se havia uma tendência - 'de cima para baixo' - de indiferenciá-los, havia também uma pressão no sentido oposto, acentuando essa diferencia- ção. Portanto, os mais pobres também se preocupavam com sua honra e com a posição social que dela decorreria.

Ao tratar da produção social de identidades, hierarquias e categorias ra- ciais, no período colonial, a historiadora Cacilda Machado salienta a impor- tância das caracterizações de cor na construção das diferenças no interior dos grandes grupos sociais. Entretanto, esta designação - como o "pardo" das listas nominativas - está menos vinculada à ascendência étnica do que

à inserção social do indivíduo. Isto permitia que, ao longo da vida, a pessoa

"mudasse de cor" à medida em que suas relações interpessoais e seu esta- tuto social se transformasse. Desta forma, hierarquia e posição social estão manifestas também na cor registrada na documentação. 64

Maria Águeda e Salvador da Silva são, na maioria das vezes, designados como pardos, o que os coloca no meio do caminho entre escravidão e liberda- de. Eram livres, mas marcados com a ascendência africana e, possivelmente, indígena. 65 No entanto, apesar de sua liberdade jurídica, a cor e a pobreza os diferenciava dos socialmente 'brancos', o que estava claramente expresso na própria divisão dos livros de batismos. Os pardos livres viviam em uma "condição de diferenciação em relação à população escrava e liberta, e tam- bém de discriminação em relação à população branca" Eles eram "a própria expressão da mancha de sangue". 66 Estavam, portanto, em zona pouco de- finida - entre liberdade e escravidão - sofrendo a tendência das elites locais de imaginá-los como integrantes da segunda. A elite mal conseguia distinguir

63 PEREIRA, Magnus Roberto de Mello. Semeando tora da UFPR, 1996. p.57-58.

64 MACHADO, Cacilda. Cor e hierarquia social no Brasil escravista: o caso do Paraná sagem do século XVIII para o XIX. Topoi, v. 9, n. 17, 2008.

65 Cacilda Machado e John Monteiro salientam a importância da escravidão indígena na

composição da força de trabalho da Capitania de São Paulo - que Curitiba fazia parte. Ain- da que no período do ocorrido a mão-de-obra cativa negra já estivesse bastante consolida- da, a composição étnica das populações capitania sofreu siginificativa influência indígena

Cf. MACHADO, op. cit

nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Rio de Janeiro- Jorge

da terra-, índios e bandeirantes

pas-

Curitiba- Edi-

iras rumo

ao progresso.

MONTEIRO, John Manuel. Negros

e cidadania

no Brasil

66 MATTOS, Hebe. Escravidão Zahar, 2000. p.6-18.

monárquico.

um pardo livre de um escravo. Esta não era, contudo, a imagem que Maria

Águeda tinha de si. Sua recusa em executar ordens remete, assim, ao seu

desejo de afirmar a sua condição de livre diante de uma sociedade que a

colocava em um lugar muito próximo à escravidão.

Do outro lado, Maria Joaquina Marcondes e Francisca de Paula Carneiro,

honradas de nascença, precisavam fazer valer o direito ao orgulho que seu

"alto nascimento" lhes permitia. "O direito ao orgulho é o direito à posição

social e a posição social estabelece-se pelo reconhecimento de uma certa

identidade social". 57 Dessa forma, elas deveriam fazer com que os outros

aceitassem a avaliação que elas faziam de si próprias, de sua condição hon-

rada e de sua posição social. No conflito entre as 'honras' destas mulheres,

outros atores seriam mobilizados e exigido deles vários comportamentos na

salvaguarda destas mesmas honras. A honra questionada coloca em xeque

a posição social assumida pelo indivíduo e fazer valer o seu conceito de si

perante os outros - seja no duelo ou na imposição pela força - era a única

alternativa para manter sua reputação.

Assim, o conflito ganharia dimensão logo que acabou a missa, através

da atuação do tenente coronel Francisco de Paula Ribas. Acompanhado do

soldado Pedro Fernandes, o oficial seguiu até a casa de Antonio José Pinto

Bandeira 68 , onde se encontrava a autora das supostas ofensas. Águeda foi

detida e conduzida para casa, ao encontro de seu marido Salvador da Silva,

no bairro do Tinguiquera. Quando Maria Águeda foi questionada se "conhe-

cia a quem tinha desatendido" respondeu que conhecia muito bem, embora

negasse ter proferido qualquer ofensa. O tenente-coroneldirige-se ao marido

dizendo "se assim era que ensinava mulher a ser desavergonhada".

Desde os tempos medievais a noção de Honra se opunha à de Verecun-

dia - a vergonha. Verecundia, no entanto, era outro termo para se referir à

omenatge - a homenagem - que era tanto o juramento de vassalagem ao

senhor, quanto a demonstração da submissão por gestos e palavras. Não foi

à toa que o tenente-coronel chamou Águeda de "desavergonhada". A palavra

foi empregada com precisão e conhecimento de causa. Ribas considerava-a

e vergonha •.

valores das sociedades mediterrânicas. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 1991. p.

67 PITT-RIVERS. Honra e posição social. In: PERISTIANY, J. G. (org). Honra

14.

68 Natural de São Mamede,

onde se casou com Maria Domingues de Jesus. Requereu a sesmaria do Putunã ao go-

vernador da capitania, alegando ter cinco filhos e alguns escravos para plantar e criar

gado vacum.

como capitão de ordenanças em Castro. BAMC, v.10, p.91-96.

Recebeu a confirmação de sesmaria em 1805. Posteriormente, é encontrado

Portugal e estabelecido em Curitiba desde o final do XVIII,

desavergonhada por não prestar as devidas homenagens aos seus superio- res, ferindo-lhes a honra.

O papel assumido por Francisco de Paula Ribas de defesa da honra de

sua família evidencia a divisão sexual dos comportamentos ligadas ao ideal

de honradez. 69 Homens e mulheres - ainda que partilhassem os mesmos

conjunto de valores sociais - desempenhavam papéis distintos. Pitt-Rivers

sugere que a honra masculina é positiva, pois provem da procedência e he-

reditariedade do sujeito ou é adquirida pela virtude. A feminina, por sua vez,

é negativa cabendo a mulher não a buscar da honra, mas evitar seu oposto

- a vergonha. 70 Assim, o maior perigo a reputação de um família vinha do

comportamento da mulher, entendida como 'receptáculo' da honra familiar.

Isto definia, também, o comportamento masculino: a defesa dessa honra.

No nosso caso específico, a ofensa da honra entre mulheres levaria quase

que forçosamente à mobilização dos maridos, como aconteceu, colocando

frente a frente Salvador da Silva e o tenente-coronel Paula Ribas.

Os historiadores L. Johnson e S. Lipsett-Rivera são críticos a esse tipo de

abordagem e buscaram desconstruir a idéia de que as mulheres ocupavam

apenas papéis passivos na cultura da honra. Os ensaios por eles reunidos na

coletânea The faces of honor procuram mostrar que muitas vezes a honra

pode ser defendida individualmente e diretamente por mulheres. 71 A

envolvendo Maria Águeda não deixa que caracterizar o papel ativo feminino

nestas questões, uma vez que ela própria assumiu a defesa da honra ofendi-

da à porta da igreja. Contudo, a situação não deixa de evidenciar certa divisão

de funções entre os sexos, na medida em os mandos foram mobilizados.

trama

O tenente-coronel não pretendia deixar barato os agravos feitos à honra

da família Ribeiro de Andrade. A pena adequada seria expor Maria Águeda à

vergonha e à humilhação pública, prendendo-a em tronco de pé e pescoço.

No Brasil colônia, tal forma de castigo era mais freqüentemente reservada a

escravos. Uma gravura de Debret, "Negros no tronco" datada circa 1830,

ilustra bem esta relação.

69 Há uma tendência muito forte por parte da bibliografia, quando se combina questões de gênero e honra, de restringi-la à dimensão de honra sexual. Não negamos a pertinência destas abordagens, contudo consideramos ser possível compreender - e buscamos de- monstrar ao longo deste texto - como esta divisão opera mesmo quando não se trata da honra sexual. Um exemplo de trabalho historiográfico que parte desta particularização do conceito de honra é CAULFIELD, Sueann. Em defesa da honra: moralidade, modernidade e nação no Rio de Janeiro (1918-1940). Campinas: Editora da Unicamp, 2000.

70 PITT-RIVERS, A doença da honra, p.24-25.

71 JOHNSON & LIPSETT-RIVERA, op. cit., p.12.

Mais do que a punição em si, a intenção de Paula Ribas era ensinar a

vergonha a Maria Águeda, aproximando-a da escravidão e negando-lhe a

condição honrosa de mulher livre.

A proporção que o ocorrido assumiu se explica, em grande medida, pela

publicidade que o envolveu. A igreja era espaço central das sociabilidades

citadinas no período colonial, sobretudo numa vila que não somava mais

que poucas centenas de casas urbanas. Um parâmetro para compreender

a importância do espaço em que se desenrolou a ação, é o fato de que os

assento nas igrejas ou distribuição das pessoas durante as festas religiosas

obedeciam a critérios de diferenciação dos indivíduos. Os lugares em evidên-

cia eram reservados a pessoas de alta distinção social, ao passo que a arraia

miúda era colocada marginalmente. A percepção do espaço era, portanto,

atravessada pelos critérios hierárquicos que ordenavam aquela sociedade.

Dessa forma, a recusa de Maria Águeda feita publicamente assumiria o ca-

ráter de transgressão da ordem estabelecida, feita diante\tos olhares curiosos

de pessoas de várias posições sociais. "A honra, todavia, só se compromete

irrevogavelmente na presença de testemunhas que representam a opinião

pública" 72 . O prejuízo à reputação do ofendido está diretamente relacionado à

notoriedade do fato. Provavelmente, se feito num ambiente privado, o caso te-

ria repercutido muito menos e, possivelmente, nunca teríamos conhecimento

dele. No entanto, a repercussão do evento tornava necessária a defesa públi-

ca da honra ofendida, dando uma resposta eficaz não só a "desavergonhada"

Maria Águeda, mas mostrando a toda aquela sociedade que os Ribeiro de

Andrade ocupavam a posição que eles próprios imaginavam ocupar.

Assim, a rigidez do castigo proposto por Francisco de Paula Ribas tentava

lavar publicamente a honra de sua família. Contudo, a disputa entre desiguais

não exige o duelo - forma recorrente de defesa da honra entre as elites -

e realizá-lo poderia até mesmo desqualificar os hierarquicamente superiores,

72 PITT-RIVERS, Honra e posição social, p.18.

uma vez que implicava em reconhecer em seus inferiores um estatuto social igual ao seu. Foi o que aconteceu.

Desde a Idade Média, a legislação buscava coibir a beligerância das mu- lheres de baixo nascimento, expressa em xingamentos e agressões em públi- co, mandando pôr-lhes freios, como nos animais de montaria. 73 O Regimento de Évora sob o "Título das bravas" dedicava a elas punições específicas. Numa segunda reincidência, a infratora seria "enfreada e degradada publica- mente com o freio na boca fora da cidade até mercê d'el-Rei". 74 Mesmo em Curitiba, a legislação do século XIX multava em 20$000 "Toda a pessoa que em lugar público injuriar a outrem com palavras infamantes, ou indecentes, ou gestos de mesma natureza". 75

Francisca de Paula Carneiro e Maria Joaquina Marcondes aceitaram

o desafio e assim tinham se 'rebaixado' à condição de bravas, briguentas ou

fazedoras de barraco, como diríamos atualmente. Se ambas receberam al-

gum tipo de punição por tal "disatino", não sabemos, pois teria sido coisa de âmbito doméstico. Responsabilizada pela queda das duas 'donas', a punição de Maria Águeda deveria ser exemplar. A alternativa encontrada foi expô-la

à humilhação e à vergonha no tronco para a salvaguarda da honra dos Ribei-

ro de Andrade, o que, no entanto, traria outros tipos de problemas referen-

tes à honra da pobre família do Tinguiquera. Diante do conflito estabelecido

e sabendo da impossibilidade de combater o tenente-coronel, a estratégia

adotada por Salvador da Silva foi a de minimizar a vergonha e a humilha- ção a que sua família seria exposta. Entende-se, assim, porque sua postura

foi mais moderada que a de Maria Águeda, de certa forma demonstrando

o reconhecimento da precedência do tenente-coronel. Por fim, Salvador,

pede para assumir o lugar da mulher no castigo "visto que ela se achava com uma criança de peito".

Nem mesmo a condição maternal demoveu o tenente-coronel e Maria

Águeda foi conduzida à cadeia pelo soldado Pedro Fernandes, um persona-

gem menor que, neste momento, assumiu o papel de destaque. As questões

73 PEREIRA, Magnus R. M. Cortesia, Civilidade,

Elias sobre a conformação do espaço e das sociabilidades na cidade medieval portuguesa. História: Questões e Debates, v. 16, n. 30, 2000. p.112 e 118.

74 ÉVORA. Regimento da cidade de Évora feito pelo corregedor da corte João Mendes em tempo dei Rei D. João I. In: PEREIRA, Gabriel Vítor do Monte (ed.). Documentos históricos da cidade de Évora. Fascículo I, Foros e costumes ou