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FUNDAGAO EDITORA DA UNESP Presideaie do Consethe Cunador QUENTIN SKINNER Antonio Manoel dos Santos Silva se Ei lei oman omtn utre CoE ens Aste Co Wager ann sone ded on ya Dade fats alse is LIBERDADE ANTES DO LIBERALISMO José Roberto Ferreira Lg Vero Ten, Sa Stel ue de ra Rau! ges Gurnee, Roberto Kraenkel ——S— ‘Rosa Maria Feiteite Cavalans Tole Kae Tradugio | dios Assn Raul Fiker Maria Appareida FM. Bustalats ‘Maria Dolores Prades JEdivora UN ESP ESGAMBRIpcE s A LIBERDADE E O HISTORIADOR, 1 Estive falando sobre a ascensio e queda de uma teotia espect fica de liverdade civil. Hé 0 perigo 6bvio, contudo, de que, ao falar to breve e programaticamente como venho fazendo, eu possatrair em vez de ilustrar 05 principios sobre os quais procuro basear ‘minha prética como historiador. Portanto, talvez eu deva enfatizar ue tum dos princfpios que tente ilustrar é o de que os historiadores do pensamento fariam bem em se concentrar nio meramente, ou mesmo principalmente, num enone de assim chamados textos cléssicos, mas, preferivelmente, no lugar ocupado por esses textos em tradigdes e quadros mais amplos de pensamento. Vale a pena lembrar que esta abordagem contrasta com a orto- doxia prevalecente na época em que iniciei meus préprios estudas de pbs-graduagio no comego da década de 1960. Um canone de textos principais era amplamente visto na época como o finico objeto apropriado de pesquisa na histéria do pensamento politico. A tazio, alegava-se, € que esses textos podem por definigéo set considerados como indo ao encontro de um conjunto de perenes {quest6es definitivas do préprio pensamento politico. Era ampla mente assumido que, se o estudo histérico da moral ou da teoria politica deve ter algum trago caracteristico, este teré de assumir a 84 ueNTEN skinnen forma de extrair dos textos cléssicos quaisquer insights que eles ssam nos oferecer sobre questées gerais de sociedadee politica na Epoca presente. Blesestdo lé para serem apropriados postos para trabalhar.! Muito tempo antes de eu comegar a me preocupar com essas questdes, ocorreu a varios estudiosos que a premissa bisica desse argumento é questionAvel, Est longe de ser ébvio, num exame mais detido, que mesmo as obras mais proeminentes na histéria da moral ou da teoria politica tratam das mesmas questées, embora Seja por certo possivel construir um cdnone de maneira tal a mini. mizar esta divida. Ainda me recordo de quio impressionado fiquei ao ler pela primeira vez a Autobiografia de R. G. Collingwood, onde cle afirma que a histéria de todas as ramificacées da filosofia carece de um objeto estavel, na medida em que as perguntas bem como as respostas mudam continuamente. Mas fiquei ainda mais im. Pressionado quando, durante meu segundo ano como estudante de graduagio, Peter Laslett publicou sua edigio definitiva dos Two Treatises of Government de Locke. Pela Introdugio de Laslett fiquei sabendo que, embora néo haja talvez mal algum em pensar nos Deis Tratades de Locke como uma defesa cléssica do contrataria- nismo, nao hd esperanca de compreender seu texto a menos que se zeconheca que seu objetivo primeiro era intervir numa crise espect- fica do monarquismo inglés sob Carlos Il, e que foi escrito de uma Posicio identificével no espectro do debate politico no inicio da década de 1680 A pattir do final da década de 1960, virios outros estudiosos trabalhando numa lingua semelhante vieram a fazer da Universi dade de Cambridge um centzo dominante para uma abordagem de orientago mais histGrica 20 estudo do pensamento moral e pol- 1 Para uma reafiemagzo impenitente de um eminente praticante -no cutso da qual todas esas afiemagOesreaparecem er Warrenden, 1979, 2 Collingwood, 9, esp. pl. 5 Lslete, 1998, esp p46 LIBERDADE ANTES DO UIRERALISMO BS tico.* Com esta abordagem ganhando popularidade, uma conse- giéncia benéfica foi que o alto muro que anteriotmente separava a histéria da teoria politica comegou a ruir. © muro havia sida eri sido em grande parte por uma geracio obstinada de historiadores politicos, entre os quais o mais proeminente fora Sir Lewis Namier. Para Namier parecia dbvio que as teorias politicas agem como at mais simples racionalizagées ex post facto do comportamento pol tico, Se estamos em busca de explicagées da acio politica, man- tinha ele, devemos procurélas no ntvel das “emocbes subjacentes, misica, para a qual as idéias so um mero lier, frequentemen. te de qualidade muito inferior’ Para crticos de Namier, como Sir Herbert Butterfield, 0 inico recurso posstvel.parecia ser a volta a tum famoso dito de Lord Acton no qual as idéias so comumente a8 causas € no os efeitos de eventos publicos.® Mas essa resposta, como era de esperar, incorreu no desprezo de Namier e seus se. Buidores pela alegada ingenuidade de supor que agdes politcas sio sempre genuinamente motivadas pelos principios usados para racionalizé-las’ Entre aqueles que ajudaram os historiadores do pensamento a romper este impasse, uma das vozes mais influentes foi (eé) a de John Pocock, que comesou sua carreira na pés-graduacdo como um discfpulo de Sir Herbert Butterfield em Cambridge. Foi Pocock, ‘mais do que todos, que ensinou minha geragio a pensar a histéria da teoria politica ndo como o estudo de supostos textos candnicos, ‘mas sim como uma investigagio mais abrangente das linguagens polfticas em transformagio nas quais as sociedades dialogam com 4 Devo destacar especialmente © nome de john Dunn, que publicow uma ‘importance defesa da sbordagem haténca em 1968 (ver Dunn, 1960) ear cous em seu estudoelisico de Jahn Lacke (ver Dunn, 1969} 5 Nemier, 1985, 4 6 Butertield, 1957, ».209; cf. Acton, 1906, p5. 7 Ver, por exemplo, Broake, 1961, ep. p22, 24.5, 26 QUENTIN skiNNER tlas mesma. Uma vez aleangada esta perspectiva privilegiada, ‘omout-se possivel vincular o estudo de politica e teoria politica de fmanciras novas e mais frutiferas. Uma destas conexées ~na qual eu mesmo estive particularmente interessado ~ deriva da con- fideragao de que o que é possivel fazer em politica € geralmente timitado pelo que €possvellegitimar. O que se pode esperar leg timar, contudo, depende de que cursos de acio podem.se plausi- velmente alcangar sob principios normativos existentes, Mas isto implica que, mesmo que seus principios professados nunca ope. em como seus motivos, mas apenas como racionalizagdes de seu comportamento, eles ndo obstante vo ajudé-lo a moldare limi. {ar quais linhas de ago voce pode seguir com éxito, Portanto, nao podemos deixar de invocar a presenca desses principios se dese. amos explicar por que certas politicas sio escolhidas em deter. minadas épocas ¢ so entdo articuladas e seguidas de maneiras especificas? Entre historiadores do pensamento como eu mesmo, parecia um desenvolvimento excitante poder relacionar nossos extudos ‘mais intimamente ao que se costumava chamar histéra "real", ¢ tum efeito desses desenvolvimentos foi, cteio, fazer a histGria do Pensamento parecer um assunto de interesse mais geal, Segundo 8 descricdo de Sir Geoffrey Elton deste novo estado de cosas, em, Seu Return to Essentials [Rerorno ao Essencial] de 1991, a hist6ris dae ‘déias havia sido ‘subitamente promovida da copa para a sala de estar’. Para muitos estudiosos de moral eteoria politica, entre. tanto, a adogéo desta abordagem histérica parecia envolver uma traisio, O valor de nossos estudos era tido como.o de nos capacitar arevelaro que é de interesse perene numa grande sequgncia de tox. 8 Para a propria vis Pocock, 1985, p.1 tetrospectiva de Pocock deste desenvolvimento, ver ie Pocock, 1987 9 Pata ume tentative de expr este argumento e maior detalhe, ver Skinner, 1974 10 Eon, 1991, p.12. LMERDADE ANTES DOLIBERALISMO 87 tos cldssicos.! Quanto mais se argumentava que esses textos deve: slam ser vistos como elementos num discurso politico mais amplo, cujos contetidos mudam com a mudanga das citcunstincias, mais parecia que nossos estudos estavam sendo roubados de seu trago