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DD Abdicação

Err' 1825, o Império do Brasil alcançou

relativa estabilidade: no plano inrerno, esmagada a Confederação do Equador, as províncias encontravam-se pacificadas e, no

externo, o país começâva a ser reconhecido pelos demais Esrados. No entanto, sob a aparente imposição de uma nova ordem, alguns problemas fundamentais conrinuavam sem solução. De um lado, ainda não se

forjara a idéia do que significava ser brasileiro,

em função tanto das diferenças regionais quento da força com que se impusera a

concepção de um novo Império aos serores

mais conservadores

da elite. De outro, a

existência de regiões díspares subordinadas ao Rio de Janeiro, cujos elemenros de aproximação erâm epenas a língua e a

religião, levava a divisões no seio das próprias elites, que tinham um único interesse comum - a mânutenção da escravidão. Tudo isso se convertia, potencialmente, em diferenças e

antagonismos que iriam aflorar ao longo do Primeiro Reinado.

Em I826, morria D. João VI, o que rornave

Pedro I herdeiro da Coroa porruguesa, à qual logo renunciou em favor de sua filha menor,

Maria da Glória. Conrudo, D. Miguel, irmão

mais novo do imperador, pretendeu assumir

o trono, com o apoio dos setores mais reacionários de Portugal. Em conseqüência, D. Pedro viu-se envolvido, cada vez mais, pelos assuntos da anrige metrópole. Além

disso, na ausência de uma cradição cultural própria, distinca da herança lusa, a única

forma de definir o brasileiro era em oposição ao porcuguês, identificado com o arraso e o

passado colonial. Assim, a aritude do

imperador de manter um círculo privado na

corte, formado essencialmente

de

portugueses, revelava-se uma âmeaça, despertando a desconfiança de que esse grupo incentivasse suas idéias de um governo

mais centralizado e absolurista. Quando da aberrura dos trabalhos iniciais da Assembléia Legislariva, em I826, voltou à

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tona o confliro ideológico enrre as duas

concepções de soberania que se rinha

manifestado, poucos anos entes, entre os

partidários de José Bonifácio e de Gonçalves

Ledo, o que estabeleceu um elemento de

tensão entre o imperador e os deputados. O processo agravou-se porque, pare assegurer

a fidelidade aos seus propósitos do Senado

vitalício, D. Pedro escolhera para esta cesa os

elementos mais conservadores e afinados com

o entigo ideal de um império luso-brasileiro,

deixando que a Câmara, em função das

dimensões resrriras da elite política, fosse tomada majoritariamente pelos portadores das idéias mais liberais e radicais.

A composição da Câmara refletiu-se, de

maneira clara, em suas discussões e decisões,

que tenderam e uma oposição ao absolutismo

e ao passado lusitano. Assim ocorreu com a determinação de que os juízes de paz fossem

escolhidos por vocação, em 1827, e no ano

seguinte, com a reforma das câmaras

municipais e e exrinção de instituições remanescentes do período colonial, como o

Desembargo do Paço, a Mesa da Consciência

e Ordens e a Intendência Geral da Polícia, apontando pera a consriruição de um Império

liberal, submetido ao conrrole dos cidadãos,

e afastado da herança centralizadora

portuguese, crescentemente atribuída a Pedro I.

Em I828, com a perda da Cisplatina, a

imprensa passou a adotar um tom cada vez

mais radical. No Rio de Janeiro, alguns

jornais destacaram-se por seu papel de

oposição, ora em tom moderado, como o

Astríia, a Aurora Fluminense e A Malagueta, ore

em linha mais radical, como a Nova Luq

Brasileira, O Tribuno do Povo e O Repúbliro. Nas

províncias, surgiram outros, como

O Observador Constitucional, em São Paulo, a

Sentinela do Serro, em Minas Gerais, a Ca4ta Paraibana e a Abelha Pernambucana.

Paralelamente,

uma folha - a Ga4ta do Brasil - considerada o

primeiro "pasquim subvencionado" ne

história da imprensa do Brasil, aproveitado

por D. Pedro, em diversas ocasiões, como

o governo pâssou e proteger

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veículo para a inserção de cartas em que

criticava os deputados ou reafirmava seu

poder como ,,rp"rio, às Câmaras' À tensão

entre os poderes Legislativo e Executivo

somavam-se as dificuldades financeiras por

que passava o Império, com o fechamento do

Banco do Brasil, em I829, e uma acentuada

desvalorização cambial. No final desse ano,

pâra conter a oposição e ampliar sua

popularidade, D. Pedro I substituiu o

ministério, acusado de favorecer o absolutismo, por outro, confiado ao marquês

de Barbacena, que afastou do convívio do imperador um de seus mais fiéis auxiliares' o Chalaça, odiado pelos brasileiros' Além disso, o banimento da corte de Domitila de Castro,

a marquesa de Santos, e o novo casamento de

D. Pedro I, com a princesa Amélia, fizeram

surgir um clima ãparente de serenidade

política. A tranqüilidade, no entanto, foi logo abalada

pela persistência das preocupações de

D. Pedro com a situação cadavez mais grave

em Portugal e das recriminações quanto às

interferências inglesas na perda da Cisplatina

e na questão do tráfico, além da eleição de

um número ainda maior de deputados oposicionistas para a legislatura de I8lo. Chamados de exahados, opunham-se eo "bloco de Coimbra", meis conservador, e eos liberais

moderados, defendendo idéias radicais, amplamente favoráveis ao federalismo e' Por vezes, até mesmo ao republicanismo.

Exercendo a oposição por meio de jornais de curta duração, que forneciam mais opiniões do que notícias, e Partir de reuniões secretas

em clubes, deslocaram o esPeço da discussão

política para fora da Câmara e da esfera pública de poder. A atuação deles foi decisiva

para os acontecimentos de I8I I.

Nas últimas sessões de ISlo da Assembléia,

o conflito entre a Câmara e a Coroa atingiu o âpice, evidenciando-se em algumas medidas

então adotadas. Em especial, a redução, Pera

o orçemenco de I8l I-l2,

dos gastos do

governo em Í/)

e das despesas com as forças

militares em l/4, e na lei que regulamentava

abdicação

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o número de oficiais nas forças armadas,

estabelecendo a demissão de todos os oficiais

estrangeiros dos corpos nacionais, com

exceção epenes daqueles que tinham lutado

na Independência e dos mutilados ou

gravemente feridos no serviço da nação.

Rejeitadas pelos senadores, a Câmara

conseguiu obrigar o Senado, na última sessão de I8 )o, a realizar uma reunião conjunta das

duas casas, como previsto na Constituição,

para nova votação dessas decisões e,

majoritária, impôs e sua vontade, deixando

clara a fragilidade em que o imperador se encontrâve. Além disso, a chegada das notícias da Revolução de Julho, na França, provocada por uma tentativa de golpe de Carlos X, o que resultou na instalação no

trono de Luís Felipe, o Rei-cidadã0, propiciou

curiosas comparações com a situação

brasileira, aumentando e tensão. Após o retorno de uma viagem a Minas Gerais, onde Pedro I fora recebido com

grande frieza, seus partidários prepararam uma série de manifestações a fauor do

imperador no Rio de Janeiro, com a armação

de fogueiras e luminárias nas freguesias do

centro da cidade. Contudo, na noite de I I de merço, tiveram início os conflitos que se

estenderam até o dia I5 e ficaram conhecidos

como a Noite das garrafadas, durante os quais os "brasileiros" - sobretudo estudantes, cadetes

e homens de cor - apagavam as fogueiras "portuguesas" e atacavam as casas

iluminadas, sendo respondidos com cacos de

garrafas jogados das janelas. No meio da

agitação das ruas, bradava-se "morte aos pés-

de-chumbo" e "morte eos estrengeiros",

e pedia-se também "a cabeça do tirano".

Em 5 de abril, sem aviso prévio, o imperador

decidiu substituir o ministério Barbacena por

outro, comPosto Por seus auxiliares mais

próximos e fiéis, todos com títulos de

nobreza. Os boatos de um golpe de Estado ganharam força, criando um ambiente de incerteza e apreensão. No dia seguinte, uma

multidão, juntamente com o Exército,

ocupou o campo de Santana e exigiu a volta

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do ministério deposro. D. Pedro I respondeu

à crise de maneira impetuosa, como era de seu feitio e conforme os direitos que lhe conferia a Constiruição, abdicando do crono

em favor do filho, Pedro de Alcântara, de apenas cinco anos. O episódio do 7 de abril

foi saudado na época como o momento ern

que "começou â nossa existência nacional" e entrou parâ o irnaginário da nação,

estabelecendo uma nova data cívica que a

historiografia de cunho nacionalista

incorporou por muitos anos. (LBPN)

8)

Remeter

Constituição, Cortes porruguesas, Ernancipação

política, D. Pedro I, José Bonifácio

8*t Referências Bibliográfi cas

MONTEIRO,-f . História do Impírio: o Primeiro Reinaào (Igl9-1946). Belo Horizonte, Itariaia,

1982, v. 2; NEVES, L. B. P. & MACHADO, H.

O Impírio do Brasil. Rio de Janeiro, Nova Fronreira,

I999; RIBEIRO, G. "Brasileiros, vemos a elesl":

Identidade nacional e controle social no Prirneiro

Reinado. Ler História. Lisboa, 27-28,1995. pp.

ol-2); SOUZA, 7. L. Pátria coroada: o Brasil como

corpo polítiro autônomo - t78o- l 83 l. São Paulo,

UNESP, I999.

sD Aberrura dos portos

Há certo consenso historiográfico a respeito

das medidas tomadas pelo príncipe regenre,

D. João, a pertir da vinda da Corte

portuguesa pâra o Brasil, em I8o8, no

sentido de que elas acabaram por conduzir à

Independência do Brasil. A primeira, talvez a

de maior impacro, foi a denominada

"Abertura dos portos brasileiros às nações

amigas", tida como inevitável, na época, por

estar Portugal com seu comércio ultramarino

interrompido pela ocupação napoleônica,

motivo, aliás, da decisão da Corte em se

transferir para o Brasil. Nesse momento,

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o Brasil era a principal fonte de receira da

metrópole, tanto pâra a Corte quanto pera comerciantes e demais segmentos econômicos. A chegada da Coroa porruguesa

ao Brasil, portento, tornava imprescindível

que se mantivesse sua principal fonte de

receita: as rendas derivadas das alfândegas.

Os termos da Carta Régia de 28 de janeiro

de t8o8, por meio da qual se abriram os portos às "nações amigas", foram inspirados por José da Silva Lisboa (futuro visconde de

Cairu), orientador da política econômica de

D. João no Brasil, simparizanre dos

princípios liberais de Adam Smith. Ainda na

Bahia, antes mesmo de chegar ao seu destino

- o Rio de Janeiro -, D. João recebeu

representâções dos "exportadores da teÍta",

alegando a necessidade de manutenção do

comércio externo interrompido pela ocupação napoleônica. Na Carta Régia endereçada ao vice-rei do Brasil, conde da

Ponte, D. João ordenava, em caráter

provisório, que, primeiro, fossem admissíveis

nas alfândegas do Brasil todos e quaisquer

gêneros, fazendas e mercadorias,

transportadas ou em navios da Real Coroa ou

ern navios dos vassalos, pagando por entrada

24%"; e, segundo, que não os vassalos de

Portugal, mas também os estrângeiros

pudessem exportar para quaisquer porros em benefício do comércio e da agricukura, à

exceção do pau-brasil, ou outros produtos

estancados, pagando por saída os mesmos

direicos estabelecidos nas respecrivas

capitanias, suspendendo-se

codas as leis,

Cartas Régias, ou outras ordens que aré então proibiam o recíproco comércio enrre o

Brasil e os estrangeiros.

Rompeu-se, assim, a base sobre a qual se

Ao lado: Projeto de melhorias no porro do Rio de

|aneiro. Armazéns. Detalhe. Brunlers e Mckerrow. Londres (I889)- AN.