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Proposta de Paz 2009

Competição humanitária:
Nova esperança na história
Por Daisaku Ikeda,
presidente da Soka Gakkai Internacional

Enviada à Organização das Nações Unidas (ONU)


por ocasião do 34º aniversário da SGI, em 26 de janeiro de 2009
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Proposta de Paz 2009

Competição humanitária:
Nova esperança na história
O mundo inteiro está abalado com o impacto da Espero que os governos saibam evitar o agrava-
maior crise financeira do século, iniciada com a mento desta situação. Que intensifiquem a coorde-
quebra do mercado de crédito hipotecário nos Es- nação de políticas fiscais e monetárias, reúnam cri-
tados Unidos e a falência do banco de investimen- térios e decisões adequadas.
tos Lehman Brothers. Mal se pode discernir aon- A principal causa da crise está na especulação
de ela pode chegar. dos ativos financeiros, cujo montante é estimado
É inevitável a associação desta crise ao pesade- em quatro vezes o valor do produto interno bruto
lo da década de 1930, quando a depressão econô- (PIB) mundial. Os mercados financeiros, que deve-
mica armou o palco para a conflagração da Segun- riam sustentar e facilitar as atividades econômicas,
da Guerra Mundial. Apesar das medidas políticas transformam-se, eles próprios, em donos do palco.
para enfrentá-la, cresce o EDUARDO KNAPP / FOLHA IMAGEM Com o único propósito de
Tradução: René Takeuti turbilhão financeiro. A lucros e vantagens — in-
Elizabeth Miyashiro economia mundial está diferentes ao impacto que
minada — corroída pela isso tenha sobre os outros
Revisão: Thiago de Mello recessão, raiz do desem- —, corretores e empresá-
prego. Se lembrarmos que rios tornaram-se os astros
Colaboração: Elisângela Barros a Grande Depressão levou deste drama. É escanca-
Susan Scaranci Ribeiro dois anos para mostrar até rada a cobiça do capita-
onde chegara, podemos lismo de nossos dias.
Arte: Iusse José Filho avaliar a gravidade da si- Em minhas propostas,
tuação atual. venho destacando a cau-
Capa: Henrique Kubota
Todos têm o direito de sa mais profunda da cri-
Fotos da capa: Photos.com viver em paz, em condi- se: a fixação doentia no
ções humanas. Afinal, es- significado abstrato e não-
te é o empenho incessan- -substancial da riqueza
te do mundo inteiro. É ina- — dinheiro. Esta é a pa-
Todos os direitos reservados à Editora Brasil Seikyo Ltda. ceitável que a fonte de tologia que subjaz à civi-
subsistência da humani- lização contemporânea.
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dade seja estancada pelo De modo metafórico, po-
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tsunami que não se previu de-se dizer que as espe-
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Proposta de Paz 2009

-ideológico pós-Guerra Fria foram digeridas no estô- lheres, japoneses ou americanos, idosos ou jovens, se tornam conceitos abstratos, Gabriel Marcel (1889-1973) mundo inteiro, ouvimos vozes
mago do conquistador Manon — o deus do dinheiro. nascidos em algum lugar. Quanto mais observamos tratadas como seres inferiores, Filósofo francês que se converteu ao catolicismo repletas de remorso de empre-
O dinheiro — pedaço de papel ou metal e, mais as pessoas, mais as reconhecemos como únicas. sem valor e até como algo no- romano em 1929. Grandemente influenciado sários conscientes que não ti-
recentemente, bits de informação eletrônica que Este é o mundo da realidade concreta. Qualquer civo a ser eliminado. As pes- pelas obras filosóficas de Søren Kierkgaard (1813- veram escolha senão desempe-
controlam economias de mercado — não tem, é discussão sobre seres humanos ou humanidade que soas, em sua humanidade ple- 1855), Marcel tornou-se famoso existencialista nhar esse papel repugnante.
cristão. Diferente de outros existencialistas de seu
claro, valor virtual. Somente valor de troca. E este deixe de considerar essas diferenças, acabará crian- na, deixam de existir. A verdade é que a globali-
tempo, ele acreditava que “a essência precede a
valor de troca depende de um acordo entre as pes- do conceitos abstratos sobre a própria vida. O próprio Gabriel Marcel re- zação centrada nas finanças
existência” e isso formou a base para a sua
soas. Em essência, a moeda é tão abstrata quanto Marcel usa o termo espírito de abstração para vela: “O espírito de abstração compreensão da dignidade humana. Marcel produz inúmeras pessoas co-
anônima. Os mercados financeiros não mantêm definir o processo destrutivo pelo qual nossa con- é essencialmente da ordem das defendia que o primeiro contato das pessoas com mo estas.
qualquer conexão com bens e serviços concretos, cepção dos fatos se aliena das realidades concre- paixões, e... por outro lado, é a o mundo não é feito pela mediação de ideias Absorvidos pelo espírito de
por isso mesmo findáveis. Assim, como objeto de tas. Ele nota, por exemplo, que só é possível par- paixão, não a inteligência, que inatas. Consequentemente, ele via a filosofia como abstração, perdemos de vista
desejo humano, não têm limites reais ou inerentes. ticiparmos da guerra se negarmos o caráter indivi- forja as abstrações mais peri- um reflexo pessoal da sociedade, em vez de um o fato de que nossa verdadei-
Característica muito particular é a patologia fatal dual e a humanidade do outro — reduzindo-o a gosas”.5 Foi por esta razão que sistema de abstrações e fórmulas. Enfatizava a ra humanidade existe somen-
necessidade de filósofos comprometidos com as
de nossa fixação pelo dinheiro. conceitos abstratos como fascista, comunista, sio- ele considerou todo o seu tra- te na inteireza de nossa per-
pessoas e o meio em que vivem, frisando a
A busca incessante de eficiência a fim de gerar nista, fundamentalista islâmico. A este respeito, balho de filósofo como “uma sonalidade. Em maior ou me-
importância do diálogo de vida a vida.
lucro, aliada à instabilidade da moeda que carece Marcel declara: batalha incansável e obstinada nor grau, tornamo-nos todos
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de base na economia real, são os elementos prin- contra o espírito de abstração”. Homo economicus, incapazes de reconhecer ou-
cipais das economias de mercado que se desenvol- As pessoas... exigem o meu compro- Retomando a questão da atual crise financeira, tros valores a não ser o monetário.
vem em torno do eixo das atividades econômicas misso beligerante contra outros seres hu- temos de indagar se nós, enquanto sociedade, não As pessoas parecem dominadas por uma espé-
livres dos indivíduos. Foi o que levou o economis- manos a quem devo, em virtude da minha fomos surpreendidos nas armadilhas desse espíri- cie de impotência claustrofóbica, sensação que se
ta Katsuhito Iwai a observar a “incompatibilidade opção, estar pronto a destruir. É necessá- to. Não estaríamos sob o encanto do caráter anôni- aprofunda na medida do avanço da globalização.
fundamental”1 de eficiência e estabilidade não só rio, do ponto de vista daqueles que estão mo e abstrato do dinheiro, semelhante ao feitiço da Esta é, a meu ver, consequência inevitável da ar-
nos mercados financeiros, mas nas economias de me exigindo, que eu perca totalmente a Medusa? Será que não perdemos nossa capacida- rogância e do egoísmo que conduz à busca cega do
mercado em geral. consciência da realidade individual, da de humana essencial de enxergar que — embora lucro, do pensamento de que a sociedade humana
pessoa que eu sou, para que eu seja leva- necessário ao funcionamento da sociedade — o di- pode continuar a existir mesmo com a destruição
O espírito de abstração do a destruir. A fim de transformá-los em nheiro não passa de uma convenção, um tipo de do meio ambiente natural e cultural. Não ignore-
meros alvos impessoais, é imprescindível realidade virtual? mos as eternas palavras de José Ortega y Gasset
Logo que a Segunda Guerra Mundial findou, o convertê-los em abstração.2 A adoração ao dinheiro vai além da mera preci- (1883–1955) sobre a unicidade de nossa vida e do
filósofo francês Gabriel Marcel (1889–1973) fez são material. Ele nos atrai e nos hipnotiza, nos in- nosso ambiente: “Eu sou eu e minha circunstân-
penetrante análise no seu ensaio “O espírito de Sem este reducionismo, é impossível justificar duz a ações que, em outras circunstâncias, evitaría- cia, e se não a salvo, também não me salvo”.7
abstração como fator gerador de guerra”. Embora ou encontrar sentido na participação de alguém nu- mos. Por exemplo, uma empresa que perde de vis- Naturalmente, o Homo economicus é produto de
a habilidade de desenvolver e manipular concei- ma guerra. ta sua responsabilidade social, sensível apenas aos um vetor intrínseco ao capitalismo. Quanto mais
tos abstratos seja indispensável à atividade inte- Em outras palavras, o espírito de abstração não interesses particulares dos acionistas — pela insis- “pura” a forma de capitalismo pregada, mais obri-
lectual humana, as abstrações resultantes carecem é de valor neutro. Marcel observa que é invariavel- tência destes em lucros a curto prazo —, relegará, gados seremos — em nossa condição de acionistas,
de substância. A idéia de ser humano, por exem- mente acompanhado de “caráter passional”3 de re- a segundo ou mesmo terceiro plano, as relações com administradores e empregados, clientes e consumi-
plo, pode ser entendida, em certo sentido, como jeição e ressentimento (ressentiment) que produz a o universo de pessoas reais, sejam administradores dores — a buscar esse vetor. Se assim não fizermos,
ficção. A realidade é assim: somos homens ou mu- “redução depreciativa”.4 É assim que as pessoas e empregados, sejam clientes e consumidores. No pelo menos a curto prazo, sofreremos perdas.
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Robert B. Reich, secretário de Estado do Traba- regulamentadora. Para isso, cabe aos governos e manentes. Classificar renda e riqueza mate-
lho no governo Bill Clinton, advertiu quanto aos pe- processos políticos importante papel. Os líderes as pessoas como vence- rial, não é possível sen-
rigos ocultos da “nova economia”. Em sua recente políticos devem exercer seus talentos para o bem doras e perdedoras, con- so algum de suficiên-
obra Supercapitalismo, ele condensa os múltiplos maior e de uma perspectiva mais ampla e impar- forme a moda no Japão cia ou satisfação. Em
aspectos de nossa personalidade nos nossos papéis cial. Precisamos de medidas imediatas e audacio- atual, é julgar tudo pe- meados da década de
de investidores e consumidores, e como cidadãos. sas — como garantir suporte fiscal e financeiro e la perspectiva da su- 1990, o jornalista Ro-
Reich escreve: reforçar as redes de segurança social — para res- premacia econômica. bert Samuelson escre-
ponder ao colapso da ação corporativa e ao aumen- Esses termos não con- veu sobre a insatisfa-
Por mais estranho que pareça, a ver- to do desemprego. seguem expressar a ção incipiente que to-
dade é que quase todos nós temos dupla É especialmente importante ter em mente a di- plenitude de nossa per- Tchinguiz mou conta da socieda-
Aitmátov, escritor
personalidade: como consumidores e co- mensão mundial da pobreza, que rouba das pes- sonalidade. (maio de 1994)
de americana mesmo
mo investidores, queremos ótimos negó- soas oportunidades de trabalho digno e enobrece- Há na sociedade quando a economia do
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cios. Como cidadãos, não gostamos de mui- dor. O trabalho é atividade humana essencial: in- inúmeros casos de pessoas que vivem com relati- país estava em alta. O constante descontentamen-
tas consequências sociais daí advindas.8 corpora o propósito e a esperança, vitais para a rea- va tranquilidade — sem se exaltar com os triunfos to e a cobiça levam ao surgimento de uma socie-
lização pessoal e o florescimento social. Devemos e sem se abater com os reveses — que permane- dade estagnada e de paixões negativas.
O grande desafio está no equilíbrio capaz de res- dedicar todas as nossas energias, comprometidos cem inabaláveis diante de elogios ou críticas alheias.
gatar totalmente nossa humanidade. Contudo, sob com essa questão fundamental. E considerar devi- Quando se usa com frequência um termo que pre- O excesso de ideologia
o domínio do supercapitalismo, “os consumidores damente a lição da década de 1930, quando a con- tende presumir a soma dessas complexas realida-
e os investidores ganham poder; os cidadãos per- fiança excessiva no controle estatal levou ao sur- des numa única frase, ele tende a depreciar o va- O momento que vivemos me faz lembrar das sin-
dem força”.9 Os interesses do capitalismo assumem gimento do fascismo. Da mesma forma, é preciso lor e a dignidade do ser humano, desmotivando-o ceras palavras de meu amigo Tchinguiz Aitmátov,
precedência sobre as exigências da democracia. ouvir a advertência de Marcel contra os perigos do a enfrentar os desafios com co- grande escritor quirguiz, fale-
Tchinguiz Aitmátov (1928-2008)
A predominância de interesses monetários acen- espírito de abstração. ragem e criatividade. cido no ano passado. Pedi que
Escritor quirguiz, tornou-se popular tanto na
tua os aspectos negativos do capitalismo, como de- Precisamos, portanto, tomar desse a seus leitores alguns
Rússia como no Quirguistão e ganhou vários
sigualdade de renda mundial, mercados de trabalho “Vencedores” e “perdedores” cuidado para não nos tornar o prêmios literários durante a era soviética. Sua conselhos, como faz um pai. Ele
instáveis e degradação ambiental. Isso não para por que Marcel chamou de “pessoas literatura deu voz à minoria do povo quirguiz, me atendeu:
aí. A consequente queda das atividades econômica No Japão, frases como “sociedade estratificada pobres de espírito”, que veem os retratando a vida numa sociedade dominada pelo
e financeira levanta sérias dúvidas sobre o que é co- (kakusa shakai)” e “time vencedor (kachigumi) e ti- acontecimentos externos como pensamento coletivo, observando com olhos Peço aos jovens
10 críticos a condição das mulheres na sociedade
mumente reconhecido como aspecto positivo do ca- me perdedor (makegumi)” já são formas populares “juízo final em miniatura”, in- que não contem tan-
tradicional. Suas obras foram traduzidas para
pitalismo — a capacidade de gerar riqueza. Porque para descrever os efeitos negativos da globalização. terpretando-os como mensagens to com a revolução
várias línguas. Djamila (1958), O Navio Branco
a riqueza produzida tem provado ser ilusória. Precisamos, portanto, ser cuidadosos com essa de redenção ou apocalipse. É um social. Revolução é
(1972), A Escalada do Monte Fuji (1973) e Um
Sustentado pela desregulamentação e a inovação linguagem que pinta diversos fenômenos com o mes- desvio da humanidade, renún- Dia Dura Mais que Cem Anos (1980). Aitmátov violência, tumulto,
tecnológica, o processo de globalização sofre um con- mo pincel, obscurecendo o mundo real e deprecian- cia à autonomia que pode abrir foi conselheiro de Mikhail Gorbachev, apoiando loucura coletiva. É
tragolpe na forma de recessão globalizada. Ficou evi- do os esforços de cada indivíduo. Esta terminologia caminho para a violência. a campanha pela reestruturação democrática violência em massa
dente que foi maldepositada a fé na competição e nos está muito distante da realidade das pessoas, que Sob um sistema de supre- conhecida como perestroika. Em 1990, foi que traz enorme so-
mercados livres para resolver todos os problemas. Na- lutam para enfrentar imensos obstáculos apresenta- macia monetária e econômica, nomeado embaixador soviético em Luxemburgo frimento a toda a so-
e, posteriormente, embaixador quirguiz na União
da no mundo é pré-ordenado de forma tão simplória. dos pelas difíceis condições econômicas e sociais. em que valores humanos são ciedade, um povo ou
Europeia, Otan e Unesco.
O sistema financeiro mundial requer estrutura Nem a vitória nem a derrota são condições per- avaliados por um padrão de uma nação... Peço
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que busquem formas de desenvolvimen- cial dos mais recentes sobressaltos da História”.13
to sem derrame de sangue, caminhos pa- Em outras palavras, a universalidade abstrata
ra a reforma social à luz da razão.12 do dinheiro e a universalidade abstrata do indiví-
duo como vantagens da força de trabalho são os
Quando Marcel clama às pessoas para que ven- dois lados da mesma moeda.
çam a pobreza de espírito, ele adverte principal- Assim como os princípios universais de liberda-
mente contra os perigos do comunismo. Marcel es- de e direitos humanos foram elaborados a partir do
creveu estas palavras em 1951, quando o fascismo individualismo, há uma considerável aproximação
já malograra, enquanto o comunismo mantinha seus entre o capitalismo e a democracia moderna. Por con-
atrativos. O que ele mais desejava era alertar as seguinte, se a crise financeira for, de fato, uma crise
pessoas para slogans abstratos como “Você não tem do sistema social do Ocidente moderno, com o capi-
nada a perder senão as próprias correntes” ou “Os talismo e a democracia no seu fulcro, é imprescindí- Tsunessaburo Makiguti
e sua obra Geografia
expropriadores são expropriados”, que podem as- vel descobrir perspectivas e princípios alternativos
da Vida Humana,
sumir aspectos de inevitabilidade histórica, inci- (evitando os erros do internacionalismo proletário). publicada em 1903
tar ressentimento e instigar à violência em nome Precisamos ter uma visão de grande amplitude,
da revolução. A história de mais de setenta anos de empenho generoso, para configurar o espírito conceito de competição humanitária. Alcançar os objetivos, que de outra for-
de surgimento e queda do comunismo soviético pro- de uma nova era. Para melhor ou pior, o processo Nos capítulos finais de sua obra, publicada quan- ma seriam perseguidos pela força militar
va eloquentemente a visão acurada de Marcel. Uma de globalização atingiu o ponto em que se exige do tinha apenas 32 anos, Makiguti examina o grande ou política, pelo poder intangível da in-
das lições desta história é como o comunismo, ape- resposta fundamental. As seguintes palavras de curso da história humana. Identifica formas de com- fluência moral; em outras palavras, ser
sar da declarada aversão ao sistema de valor de Max Weber (1864–1920) são instrutivas: petição — militar, política, econômica — que preva- respeitado, não temido.15
aquisição material simbolizado pelo dinheiro, foi lecem em diferentes períodos.
incapaz de vencê-lo. Não as ideias, mas os interesses (ma- Não são demarcações históricas claras e distin- Relembro o conceito de soft power, definido por
Para assegurar que algumas medidas legais ou teriais e ideais) é que dirigem a ação dos tas. Por exemplo, a competição econômica geral- Joseph S. Nye Jr., da Universidade de Harvard,
institucionais de controle dos excessos do capitalis- homens. O mais das vezes, as “imagens do mente tem fundo de cena militar, e o reverso tam- com quem tive o privilégio de me encontrar em di-
mo não permaneçam ao nível do remediável, mas in- mundo” criadas pelas “ideias” determina- bém é verdade. Ou seja, essas diferentes formas de versas ocasiões, como a “habilidade de se ter o que
tegrem uma visão de longo prazo, é forçoso um novo ram, feito manobristas de linha de trem, competição superpõem-se e interpõem-se, confor- se quer por meio da persuasão, em vez da coer-
modo de pensar, que haja uma mudança de paradig- os trilhos nos quais a ação se vê empurra- me passam por transformações graduais. Se acom- ção”.16
ma, capaz de atingir a base da civilização humana. da pela dinâmica dos interesses.14 panharmos esse processo com atenção e audácia, Da mesma forma, há semelhanças entre o con-
Durante a Grande Depressão, há oitenta anos, ficará evidente a trajetória do desenvolvimento da ceito de “mundo em que todos ganham”, sugerido
o socialismo — até o comunismo e o nacional- Competição humanitária humanidade. pela futuróloga americana Hazel Henderson, e o
-socialismo — pretendia ser alternativa ao capita- Makiguti conclui nos chamando a ter os olhos que diz Makiguti na seguinte passagem:
lismo, mas hoje não há fonte clara para tal caminho. Vou me valer de algumas ideias do presidente fixos no compromisso com o que denominou com-
Jacques Attali, influente conselheiro do presiden- fundador da Soka Gakkai, Tsunessaburo Makigu- petição humanitária. Ele não chega a essa con- O que importa é deixarmos de lado os
te francês Nicolas Sarkozy, tem a seguinte análise: “A ti (1871–1944), em sua obra de 1903, Geografia clusão com uma perspectiva supra-histórica, mas motivos egoísticos, empenhando-nos pa-
situação é simples. As forças do mercado detêm o pla- da Vida Humana. Acredito que sirvam de luz a nos traçando a lógica interna do desenvolvimento his- ra proteger e melhorar não só nossa vida,
neta ‘nas mãos’. Última expressão do individualismo, ajudar neste momento sombrio. Gostaria de consi- tórico. Makiguti descreve a competição humani- a dos outros também. Devemos agir pelo
essa marcha triunfante do dinheiro explica o essen- derar especialmente as ricas significações do seu tária da seguinte maneira: bem dos outros. Beneficiando os outros,
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beneficiamos a nós mente humana. O problema era que os construtores da Esta passagem lírica oferece um retrato vívido
mesmos.17 Uma livre competição Rússia simplesmente não conseguiam des- da monstruosa caricatura em que se transformam
guiada por impulsos irres- cer de onde estavam e elaborar um proje- as pessoas iludidas pelo espírito de abstração.
Estou plenamente con- tritos de egoísmo pode cair to arquitetônico, em escala humana e sen- Quando nos permitimos desincorporar ideias pa-
vencido de que chegou a numa espécie de darwinis- sível, para pessoas comuns. Em vez dis- ra nos distrair e nos divorciar deste mundo de rea-
época, cem anos depois de mo social na qual os fracos so, ergueram uma torre aos céus — uma lidades concretas, terminamos pagando um alto
ter sido proposta pela pri- seriam presas dos fortes. Torre de Babel. Não conseguiam se satis- preço inesperado.
meira vez, de dar mais aten- Mas a competição condu- fazer com um passo comum, saudável e As abstrações da ideologia podem oprimir até
ção à competição humani- zida por um sistema ade- vigoroso, como o de um homem que ca- os laços de amor entre pais e filhos. Em meu diá-
tária como diretriz para a no- quado de regras e conven- minha para o trabalho e retorna para ca- logo com Tchinguiz Aitmátov, ele relatou um ver-
va era. ções, que possibilite a ma- sa. Eles tiveram de se arremeter para o gonhoso episódio da era stalinista: Pavlik Morozov,
Uma razão para tanto é nifestação das energias dos futuro com passos de sete léguas. um jovem que denunciou o pai às autoridades so-
que a justiça social e a indivíduos, revitaliza a so- “Vamos romper com o passado!” De viéticas por sua simpatia aos kulaks (camponeses
igualdade, consideradas pe- ciedade. uma vez por todas, é necessário varrer o ricos que resistiam à coletivização). Seu pai foi pre-
lo socialismo como antído- Nisto reside o valor da mundo inteiro, não deixando nenhum tra- so e morreu na prisão, e o próprio Pavlik foi assas-
Hazel Henderson
tos para os males do capi- (Tóquio, Japão,
competição humanitária. ço para trás. E o mais importante: nossos sinado por parentes ultrajados. As autoridades, en-
talismo, estão realmente en- setembro de 1998) Como conceito, ela nos com- espertos rapazes, surpreendentemente, sa- tretanto, louvaram o jovem como herói stalinista,
raizadas em princípios hu- pele a confrontar a sua rea- bem de tudo... Sabem como treinar um alçando-o a modelo e erigindo-lhe uma estátua em
manísticos. Não se pode permitir que esses ideais lidade e, ao mesmo tempo, assegura a sua firme coelho para acender fósforos. E sabem que homenagem.
pereçam junto com o fracasso do sistema comu- condução com base em valores humanos, produ- o coelho precisa ser feliz. E eles sabem o
nista. Seria condenar ao esquecimento uma das zindo assim uma reação sinérgica entre padrões que será preciso para fazer a prole do coe- Universalidade interior
mais cruciais experiências do século 20 — a de humanitários e energias competitivas. Isso é o que lho feliz por duzentos anos.19
como o movimento socialista atraiu a lealdade de qualifica a competição humanitária como um pa- Gabriel Marcel foi igualmente impiedoso em sua
tantas pessoas, especialmente dos jovens, em lar- radigma-chave para o século 21. crítica à civilização industrial e me-
ga extensão do planeta. É crucial que prestemos atenção na advertên- canizada, representada pelos Esta-
A questão em que permanece é: por que, se o cia de Gabriel Marcel: sempre manter à vista as dos Unidos: “Pode alguém deixar
socialismo foi formado por princípios válidos, fa- realidades concretas. As pessoas que, em sua im- de perceber que a tecnocracia con-
lhou como sistema? Aqui é valiosa a percepção de paciência e arrogância, pensam que sabem tudo e siste precisamente em abstrair o pró-
Makiguti: “Quando a livre competição é dificulta- estão prontas a oferecer um projeto grandioso de ximo e, a longo prazo, negá-lo?”20
da, seja por influências naturais, seja pelo homem, história humana, caíram vítimas dos aspectos ne- Meio século depois, podemos
resulta em estagnação, estase e regressão”.18 O fra- gativos do espírito de abstração. imaginar como Marcel teria apli-
casso do socialismo pode ser atribuído a não ter le- O ex-presidente da extinta União Soviética, cado clinicamente o bisturi ao pu-
vado em conta adequadamente o valor da compe- Mikhail Gorbachev, adverte que esta é uma das nhado de super-ricos que buscam
tição como fonte de energia e vitalidade. Havia uma grandes lições espirituais do século 21. Ele dá lucros massivos usando instrumen-
fé muito otimista em que apenas a eliminação das muitos exemplos, incluindo esta percepção do Mikhail Gorbachev
tos financeiros de alta tecnologia,
diferenças sociais criaria as condições apropria- mundialmente conhecido cantor de ópera Feodor em visita ao Japão os quais, obcecados pelas abstra-
(11 de junho de 2007)
das para a construção de uma sociedade genuina- Chaliapin (1873–1938): ções da moeda, permanecem indi-
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ferentes à vida dos pobres. A prosperidade basea- forma incompatível. são observáveis em pequenas regiões (literalmente, achá-lo sem valor é algo temeroso, que
da na negação do próximo é imperdoável e defini- Amar essas pessoas requer uma espécie de lu- “do tamanho da testa de um gato”). Neste sentido, convida a admoestação dos céus.25
tivamente insustentável. ta espiritual que envolva todo o nosso ser, uma pro- os contornos do vasto e complexo fenômeno da geo-
Em uma proposta escrita há vinte anos, quando funda metanoia, uma transformação da alma, co- grafia mundial podem ser explicados com exemplos Conectar-se empaticamente, por meio de uma
a União Soviética ainda existia, declarei que nossa mo prega o Sermão da Montanha no Novo Testa- de uma simples cidade ou vilarejo rural.24 peça de tecido, à vida dos fazendeiros que traba-
abordagem das perspectivas e dos princípios uni- mento. O indivíduo, inegavelmente presente em Se prestarmos atenção às características parti- lham em campos de amora na distante China — é
versais não deveria ser externa e transcendente, mas nossas circunstâncias imediatas, representa o cri- culares de até mesmo um pequeno pedaço de ter- precisamente isto a que me refiro como universa-
imanente e interior. Essa perspectiva foi bem-rece- sol no qual é provado o verdadeiro valor de nosso ra, observando-as e analisando-as dentro dos pro- lidade interior.
bida por muitos intelectuais ao redor do mundo. compromisso de amar a humanidade. cessos de vida ali existentes, poderemos desenvol- Em outras palavras, em vez de dar o grande sal-
A universalidade pregada pela ideologia e pe- Nossa incapacidade de amar o próximo é a iro- ver a capacidade de compreender as característi- to para o vasto e complexo fenômeno da vida, de-
lo dinheiro tem efeito corrosivo nas pessoas reais nia e o paradoxo de Ivã. Ao ensinar que “a igual- cas de todo um país e também do mundo. vemos começar a partir das realidades concretas
e na sociedade real precisamente porque ideolo- dade de todos os seres vivos é representada pelo Makiguti cita a seguinte história sobre o políti- do pequeno pedaço de terra onde estamos agora.
gia e dinheiro são externos e transcendentes, pro- exemplo de um único indivíduo”,22 o budismo nos co Doi Toshikatsu (1573–1644, início do período É somente prestando incansável atenção a essas
dutos do espírito de abstração. Em contraste, as adverte contra as armadilhas que acompanham o Edo) para ilustrar como a extensão e expansão de realidades que poderemos direcionar livremente
perspectivas e os princípios que constituem o que espírito de abstração. nossa consciência pode se basear em exemplos con- nossos pensamentos e nossas associações para di-
chamo universalidade interior estão enraizados no Neste contexto, a metodologia seguida por Ma- cretos e nos guiar. Certo dia, Doi pegou uma peça mensões maiores. Se desenvolvermos essa vigoro-
mundo das realidades concretas e somente podem kiguti em Geografia da Vida Humana merece cui- de seda chinesa e a deu de presente a um de seus sa e vital imaginação, uma aguçada sensibilidade
ser desenvolvidos a partir do íntimo. As questões dadosa atenção. Isso é perceptível já a partir do samurais. Muitos riram com esse gesto aparente- para a vida diária e para a vida em si, seremos ca-
verdadeiramente importantes estão sempre à mão, título. Comparada à geografia natural ou mesmo à mente insignificante. Anos depois, quando Doi per- pazes de vivenciar como próximos não apenas os
em nossas circunstâncias tangíveis e imediatas. geografia humana, a “geografia da vida humana” guntou ao samurai sobre a peça de seda, este a mos- amigos ao redor mas até os habitantes das terras
Uma nova tradução para o idioma japonês de sugere um mundo de realidade concreta abran- trou, cuidadosamente guardada. Doi elogiou o sa- distantes com quem jamais nos encontraremos —
Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski, tor- gendo política, economia, cultura, educação, reli- murai e aumentou seu estipêndio anual para 300 e mesmo com culturas e produtos dessas terras.
nou-se best-seller há alguns anos, redespertando gião — o escopo das atividades humanas em sua koku (unidade padrão de riqueza no Japão da épo- Para uma pessoa que desenvolveu essas capa-
interesse pela obra clássica. A certa altura, Ivã, o profundidade e riqueza. Makiguti cita as palavras ca). Explicou então suas ações: cidades, a guerra, que devasta a terra e destrói a
irmão ateu, diz à sua jovem irmã Aliósha: do influente pensador japonês Yoshida Shoin vida, é abominável. As expressões de uma rica hu-
(1830–1859): “As pessoas não existem separadas Este tecido foi produzido por fazendei- manidade, com profundas raízes na grande terra,
Tenho uma confissão a fazer... Jamais do chão onde vivem. Os eventos são inseparáveis ros chineses que colhem folhas de amo- podem se manifestar em qualquer tempo e lugar,
consegui compreender como é possível das pessoas. Se quisermos discutir questões hu- reira para a cultura do bicho-da-seda. Ele mesmo no campo de batalha, como ilustra esta his-
amar o próximo. Em minha opinião, as manas, devemos primeiro investigar a geografia foi parar nas mãos de comerciantes chine- tória: No início da Guerra Russo-Japonesa
pessoas impossíveis de se amar são jus- com cuidado”.23 ses, atravessou grandes distâncias por mar (1904–1905), dois soldados russos foram captura-
tamente aquelas mais próximas. As que Ainda mais importante: a abordagem de Maki- até chegar ao Japão, passou pelas mãos do dos. Era a primeira vez que isso ocorria e eles ti-
realmente amamos estão distantes.21 guti está enraizada numa espécie de universalida- povo de Nagasaki, foi comprado por mer- veram de desfilar para que todos os vissem. Con-
de interior que eu venho discutindo. Plantamos fir- cadores em Kyoto ou Osaka, e finalmente tudo, entre os soldados japoneses havia aqueles
Assim, de forma irônica, isso demonstra quão memente nossos pés nas realidades da comunidade chegou a Edo (atual Tóquio). Ninguém po- que não queriam tomar parte nisso. Quando o co-
pouca resistência sentimos para dar amor a al- local e tratamos de desenvolver perspectivas mais deria deixar de ficar surpreso pelo enor- mandante da companhia perguntou a razão, um dos
go distante e abstrato. O amor não é tão fácil amplas a partir desse ponto inicial. Para ele, as con- me esforço humano feito para chegar a nós. soldados respondeu: “Na minha vila natal, eu era
quando a pessoa, embora próxima, é de alguma dições das grandes extensões da Terra geralmente Assim, descartar um pedaço de pano por um artesão. Quando coloquei o uniforme, tornei-
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Proposta de Paz 2009

me soldado do meu país. Não sei que tipo de pes- quecido na busca por um futuro utópico. Tenho mo o Choque de Nixon, foram seguidas pela crise Empreender ações
soas são, mas mesmo sendo nossos inimigos, tam- convicção de que a chave para criar uma era du- do petróleo. Esses anos também marcaram o surgi- conjuntas na solução dos
bém são soldados lutando pelo país deles. Agora radoura e repleta de humanidade está na busca mento de uma série de desafios globais. Em respos- problemas ambientais
eles tiveram o infortúnio de serem capturados. De- dessa universalidade interior. ta, organizou-se sob os auspícios das Nações Uni-
ve ser triste para eles ter de ir de um lugar a outro das a primeira Conferência Internacional sobre Meio Quero agora discutir o primeiro desses pilares,
e servir de espetáculo. Sinto por eles e não desejo Partilhando o futuro Ambiente e Alimentos, e as maiores democracias e especificamente as mudanças climáticas.
insultá-los ou humilhá-los, olhando estupidamen- industrializadas do mundo realizaram sua primei- O aquecimento global vem causando impactos
te para eles”.26 A seguir, gostaria de oferecer algumas propos- ra reunião de cúpula (G6) em Rambouillet, na Fran- profundos em todos os ecossistemas. Além dos de-
Apresentei este episódio num discurso que pro- tas específicas, baseadas no conceito de competi- ça. Embora esses eventos marcassem o início de sastres meteorológicos, tem o potencial de agravar
feri na Universidade de Bucareste, na Romênia, ção humanitária, para responder às complexas ques- importantes sistemas de cooperação internacional, conflitos armados e problemas como a pobreza e a
em 1983. Sustentando a empatia do soldado japo- tões atuais. que existem até os dias de hoje, é também muito fome. É o epítome da crise da civilização humana
nês, está a sua sensibilidade para a vida diária co- Além da crise econômica global, o mundo tam- evidente que não funcionaram efetivamente diante no século 21.
mo artesão. Essa saudável consciência da vida co- bém enfrenta crises entrelaçadas, como as da mu- dos interesses nacionais conflitantes. Isso se evi- Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, identi-
tidiana e da humanidade que reside nela pode trans- dança climática, degradação ambiental, pobreza, denciou pelo fato de que os problemas que surgi- ficou o problema como uma das questões-chave pa-
formar mesmo um inimigo estrangeiro no próximo. escassez de alimento e de energia. Vista de uma ram na época permanecem ainda sem solução. ra as Nações Unidas e advertiu: “A longo prazo,
Da mesma forma, para os camponeses da Sibéria, perspectiva histórica, a situação hoje parece com- Hoje precisamos agir com audácia ainda maior e ninguém — rico ou pobre — permanecerá imune
cujo amor pela humanidade é tão poderosamente re- binar algumas das características mais alarmantes com base numa visão muito mais abrangente do que aos perigos trazidos pelas mudanças climáticas”.28
tratado por Dostoiévski em Recordação da Casa dos tanto da crise da década de 1930 quanto da do iní- a mostrada durante as crises das décadas passadas. Isto significa que nenhum de nós deve permane-
Mortos, os exilados políticos que vivem entre eles não cio da década de 1970. Nos Estados Unidos, epicentro da crise global, cer como espectador. Precisamos considerar esta
eram pessoas más a serem evitadas ou desprezadas, Por volta de 1930, em resposta à Grande De- “mudança” foi o tema central da campanha presi- questão como algo que diz respeito a nós próprios.
mas sim o próximo. Os camponeses se recusavam a pressão, esforços foram feitos para se chegar a uma dencial de Barack Obama. Em seu discurso de pos- As mudanças climáticas são tanto uma contí-
tratar os exilados como criminosos, referindo-se a coordenação de políticas intergovernamentais, bai- se, ele declarou: “O mundo mudou e precisamos nua crise multidimensional como uma ameaça ao
eles, em vez disso, como “desafortunados”. xar as barreiras tarifárias e estabilizar as taxas de mudar com ele... O que se exige de nós agora é uma futuro da humanidade, que sobrecarregará as fu-
Partir de realidades concretas e imediatas, e criar câmbio. Entretanto, essas negociações terminaram nova era de responsabilidade”.27 O desafio de pro- turas gerações com imensos desafios de consequên-
a cada passo novos vizinhos, numa rede expansiva em fracasso e cada país se voltou para políticas eco- duzir mudanças confronta não apenas os Estados cias terríveis.
de solidariedade humana — este é o verdadeiro ca- nômicas protecionistas apenas para defender seus Unidos mas o mundo inteiro. Lamentavelmente, nenhum progresso percep-
minho para a paz. Sem o acúmulo desses esforços, o próprios interesses sem considerar os outros. Isso Neste sentido, gostaria de sugerir três pilares que tível foi feito nas negociações para reduzir as
ideal de uma paz duradoura permanecerá para sem- resultou no agravamento da crise econômica glo- serviriam para transformar a crise global em catali- emissões do gás estufa no ano passado. É impe-
pre fora de alcance. Partilhar com outros essa espé- bal, numa demonstração da natureza destrutiva da sador de novo futuro da humanidade, estimulando rativo que discussões construtivas ocorram até
cie de consciência e sensibilidade — sem ser enve- desconfiança mútua descrita no famoso “Dilema do assim uma espécie de competição humanitária que dezembro, prazo final para que se chegue a um
nenado pelo que Marcel chama de espírito de abs- Prisioneiro”, previsto na teoria dos jogos. Lamen- crie uma comunidade global de paz e coexistência. acordo quanto ao tratado sucessor do Protocolo
tração — é nutrir e cultivar a universalidade interior. tavelmente, foi só no auge da terrível tragédia da O primeiro desses pilares é empreender ações de Kyoto, cujo primeiro período de compromis-
Este é o antídoto mais eficaz para as patologias Segunda Guerra Mundial que a comunidade inter- em conjunto para lidar com os problemas ambien- sos termina em 2012. É vital que os países emer-
de nossa era. É a maior garantia que temos contra nacional aplicou as lições da Grande Depressão. tais. O segundo é dividir responsabilidades por gentes e em desenvolvimento sejam participan-
as espécies de inversões pelas quais as pessoas são Na primeira metade da década de 1970, mudan- meio da cooperação internacional em relação aos tes comprometidos em qualquer novo sistema,
sacrificadas em prol da ideologia, com todos os ças bruscas na economia e na política de circula- bens públicos globais. O terceiro é unir esforços além de renovar os esforços dos países desen-
meios justificando os fins e o presente tangível es- ção de dinheiro dos Estados Unidos, conhecidas co- para a paz, rumo à abolição das armas nucleares. volvidos.
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Proposta de Paz 2009

Data Conferência/Evento Objetivo/Questão


baixo consumo de carbono. Desenvolvimentos recen- firme base universal.
tes sugerem avanços nesta direção. Alguns podem expressar preocupação quanto a
11/11 a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Definir acordo sucessor para o Protocolo de Kyoto
Um exemplo é o estabelecimento da Agência essas iniciativas, argumentando que a transferên-
12/12/2009 Climáticas, em Copenhague
Internacional de Energia Renovável (Irena, na si- cia de tecnologia minaria a competitividade eco-
5/12/2009 Tratado de Redução de Armas Estratégicas (Start 1) Tratado sucessor com redução significativa nos
gla em inglês), com o apoio de mais de 50 países. nômica dos países individuais e que a cooperação
expira arsenais norte-americanos e russos
A organização intergovernamental foi fundada em financeira onera os contribuintes de impostos. Mas
Janeiro/2010 Cúpula Global Zero da Sociedade Civil e Política Elevar a consciência pública para acordos verificáveis, Bonn, na Alemanha, em 26 de janeiro deste ano, a cooperação internacional visando ao objetivo co-
legalmente vinculativos, visando à eliminação das reunindo esforços internacionais para promover o mum de mudar o quadro do aquecimento global,
armas nucleares
uso de energia renovável que abarque da mesma pode ser enquadrada no princípio que Makiguti
2010 Conferência de Revisão do Tratado de Desarmamento em boa-fé pelos Estados nucleares; forma os países industrializados: tanto os desen- considerava central para a competição humanitá-
Não-Proliferação Nuclear (TNP) introduzindo os Estados não-signatários do TNP volvidos quanto os emergentes. Porque sugeri há ria: “Beneficiando outros, beneficiamos a nós mes-
2011 Conferência das Nações Unidas para os Países Gerar o ímpeto para cumprir os Objetivos de
sete anos na minha proposta de paz uma conven- mos”. Dessa perspectiva ampla, todo esforço para
Menos Desenvolvidos Desenvolvimento do Milênio (ODMs) ção para a promoção de fontes de energia renová- o bem da humanidade definitivamente será bené-
vel, recebo com alegria a criação desta agência in- fico para o interesse nacional.
31/12/2012 Primeiro período de compromisso do Protocolo de Tratado global sucessor
ternacional. Essa nova agência atuaria também para forjar
Kyoto expira
Também houve uma nova iniciativa na área de a solidariedade, recebendo incentivos e informa-
2015 Data prevista para o cumprimento dos Objetivos de Oito objetivos, incluindo: reduzir à metade a pobreza eficiência energética. Em dezembro de 2008, mi- ções de governos locais, do setor privado e de ONGs
Desenvolvimento do Milênio (ODMs) extrema, deter a propagação do HIV/AIDS e oferecer
nistros da Energia de um grupo de países, incluin- para a construção de uma sociedade sustentável.
educação básica de qualidade para todos
do o G8, China, Índia e Brasil, divulgaram uma de- Suas funções poderiam, por exemplo, incluir um
claração conjunta em favor da Associação Interna- sistema aberto, de registro pelo qual todas as or-
A questão crítica, portanto, é de que forma po- gia da criação de empregos, iniciativas do presi- cional para Cooperação sobre Eficácia Energética ganizações interessadas documentassem livremen-
demos empreender efetivamente ações em comum? dente Barack Obama, têm foco em novas indús- (IPEEC, na sigla em inglês), a ser estabelecida em te suas atividades e melhores práticas, disponíveis
Políticas de energia são notadamente um tema trias e serviços em áreas como desenvolvimento de 2009 com um secretariado instalado na Agência em um banco de dados aberto na Internet, forne-
sobre o qual se pode construir a cooperação inter- fontes de energia alternativa, e poderiam ser cha- Internacional de Energia (AIE). cendo uma plataforma de troca de informações e
nacional. Assegurar fontes adequadas de energia mados de “New Deal” Verde. Da mesma maneira, Essas novas iniciativas precisam funcionar até o facilitando parcerias.
não é apenas para os países emergentes e em de- um número cada vez maior de países — Japão e final de 2012, quando termina o primeiro período O Instituto Toda para a Paz Global e Pesquisa de
senvolvimento. Questões energéticas são também Coréia do Sul entre eles — está agora consideran- de compromissos do Protocolo de Kyoto. Indo mais Políticas, afiliado à SGI, realizou uma conferência
fundamentais para qualquer esforço dos países de- do e implementando medidas econômicas de emer- adiante, podem servir como foco para a construção intitulada “Enfrentando a Mudança Climática com
senvolvidos que favoreçam a transição para uma gência para promover investimentos em setores am- da cooperação internacional e ter papel-chave na uma Ética Ambiental Renovada”, em novembro de
sociedade com baixo consumo de carbono e pou- bientais e energéticos. implementação da Convenção-Quadro das Nações 2008. Um dos pontos tratados foi a necessidade de
co desperdício. Em minha proposta de paz do ano passado, defen- Unidas sobre Mudanças Climáticas, de 1992. uma aliança sinergética entre governos, setor priva-
Em vista do fato de que aproximadamente 60% di uma competição humanitária como âmago dos es- Além dessas medidas, proponho que seja cria- do e sociedade civil, alicerçada num senso comum
das emissões do gás estufa tem origem no consu- forços para solucionar a crise ambiental global, ins- da uma Agência Internacional de Energia Sus- de responsabilidade para com as gerações futuras.
mo de combustíveis fósseis, seriam altamente pro- tigando a promoção de medidas para a energia reno- tentável, sob a égide das Nações Unidas, para A conferência mostrou a importância do apoio com
dutivas ações comuns de políticas energéticas no vável e iniciativas de eficiência energética, que efe- promover os trabalhos dessas duas organizações base ampla e participação ativa do público.
combate às mudanças climáticas. tivem a transição da dependência de combustíveis — Irena e IPEEC —, de forma que a cooperação Desde 2002, a SGI mantém a exposição “Semen-
O estímulo na economia americana e a estraté- fósseis para uma sociedade sem desperdícios e de internacional nas políticas energéticas tenha uma tes da Mudança: A Carta da Terra e o Potencial Hu-
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Proposta de Paz 2009

HELMUTH RAUTENBACH

Conferência Internacional realizada pelo os interesses nacionais tivessem precedência so- sentados, principalmente relacionados à saúde.
Instituto Toda para a Paz Global e Pesquisa bre questões humanitárias, em resposta à fome glo- Entre os já estabelecidos estão a Facilidade Fi-
de Políticas (Moscou, junho de 2001)
bal. Prossigo convencido de que os produtos es- nanceira Internacional de Imunização (IFFIm, na
senciais à vida não devem ser politizados. Natu- sigla em inglês), com apoio a programas que sal-
ralmente, é vital para qualquer país garantir o su- vam milhões de vidas, e o Imposto sobre Bilhete
primento estável de alimentos para o seu povo. Mas Aéreo, que financia o tratamento de doenças in-
isso não deve ser alcançado às custas das outras fecciosas como o HIV/AIDS, a malária e a tuber-
nações. O que precisamos é estabelecer uma se- culose. Cresce o interesse por esses mecanismos,
gurança alimentar global. a ponto de mais de cinquenta países participarem
Exposição “Sementes da Mudança: A Carta da Terra e o
Potencial Humano” (Johanesburgo, África do Sul, 2002) A crise de alimentos foi um dos pontos discuti- do lançamento do Grupo Piloto para Contribuições
dos na reunião de cúpula do G8 em Hokkaido- de Solidariedade para Financiamento do Desen-
mano”, elaborada com a Iniciativa da Carta da Ter- nossos esforços para combater a pobreza. -Toyako, em julho de 2008. Na Declaração dos Lí- volvimento, em 2006.
ra, já levada a vinte países em oito idiomas. Traba- Iniciado em setembro de 2006, o grande aumen- deres do G8 sobre Segurança Alimentar Global, pe- Encontram-se em estudo as possibilidades de
lhando com outras entidades, a SGI também orga- to no preço dos grãos gerou crises simultâneas de la primeira vez se decidiu “estudar opções de ges- outros mecanismos, como um imposto sobre tran-
nizou atividades ambientais como projetos de re- alimentos em vários países, levando fome a mais tão coordenada de estoques, considerando os prós sação financeira e outro sobre o carbono. Espera-
florestamento em vários países. Embora cada ini- de 40 milhões de pessoas. Estima-se hoje que 963 e contras da formação de um sistema de reserva ‘vir- se a participação de mais Estados. Esses financia-
ciativa ambiental tenha sua devida importância, es- milhões de pessoas em todo o mundo sofram de tual’, administrado internacionalmente para fins hu- mentos são fundamentais para as exigências hu-
forços conjuntos multiplicam os resultados. desnutrição. manitários”.29 Antes da cúpula do G8, o presiden- manitárias do século 21, que demandam uma coo-
A Década das Nações Unidas da Educação pa- O pior é que este é um desastre totalmente cau- te do Banco Mundial, Robert Zoellick, pediu aos lí- peração em escala global equivalente ao Plano
ra o Desenvolvimento Sustentável chega este ano sado pelo homem, resultante da especulação do deres do G8 que estudassem o valor para o estabe- Marshall no século 20.
à sua metade, fato que realça a necessidade da par- mercado e do aumento da produção de biocombus- lecimento desse sistema de reserva.30 Chegou o mo- Há urgente necessidade de nova energia nas
ticipação de cidadãos em atividades de educação tíveis. Como efeito da crise no mercado hipotecá- mento de impulsionar essas iniciativas. discussões preparatórias da Quarta Conferência
e conscientização. rio nos Estados Unidos, enorme volume de capital Proponho o uso extensivo de mecanismos de fi- das Nações Unidas sobre os Países Menos Desen-
especulativo saiu do mercado de grãos, com brus- nanciamento inovadores, tais como impostos inter- volvidos, programada para 2011, de promover a
Dividir responsabilidades ca elevação nos preços. Esse aumento também re- nacionais de solidariedade, para fortalecer os fun- realização dos ODMs. Devemos construir sistemas
em prol do desenvolvimento fletiu uma queda drástica na produção de grãos pa- dos contra a pobreza e melhorar a saúde e o sanea- de segurança estreitamente ligados para proteger
ra alimentos, devido ao aumento na demanda por mento básico, em acordo com os Objetivos de De- os membros mais vulneráveis da sociedade global
O segundo pilar é dividir responsabilidades em biocombustíveis como fonte de energia. senvolvimento do Milênio (ODM). Esse esforço de- para além de 2015, prazo final dos ODMs.
termos de cooperação internacional quanto aos bens Para que todos os povos tenham acesso seguro ve ser motivado por uma forma de competição hu- “O bilhão de baixo”31 — os mais pobres dos po-
públicos globais. Elemento importante para isso se- aos alimentos, precisamos elaborar um sistema que manitária: vários Estados competindo construtiva- bres em 58 países, que há muito foram deixados
ria a criação de um banco mundial de alimentos. mantenha certa quantia de grãos em estoque, co- mente, uns com os outros, na criação de ideias e para trás pelo crescimento econômico global — foi
Em minha proposta do ano passado, referi-me ao mo bem público global. Essas reservas poderiam propostas concretas. um dos temas de debate ano passado nas Nações
acesso à água potável como fator fundamental do de- ser distribuídas, como auxílio emergencial, duran- A ideia desses sistemas de financiamento ino- Unidas. A gritante disparidade no valor da vida e
senvolvimento e da segurança humanos. Da mesma te uma crise de alimentos, ou disponíveis nos mer- vadores ganhou destaque pela primeira vez na Con- da dignidade humana, virtualmente predetermina-
forma, assegurar suprimentos estáveis de alimentos cados para estabilizar os preços. ferência Internacional sobre Financiamento para da pelo local de nascimento, é uma injustiça in-
é essencial para sustentar a vida humana e sua dig- Propus pela primeira vez a criação de um ban- o Desenvolvimento, em Monterrey, México, em concebível na sociedade global.
nidade, e deve ser o ponto de partida de todos os co mundial de alimentos em 1974, preocupado que 2002. Desde então, novos mecanismos foram apre- Se é pela dignidade humana — manifestar os
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Proposta de Paz 2009

sentimentos de compaixão que Jean-Jacques transcrevo observações. Estas foram feitas ano pas- substituir o Start 1 (Tratado de Redução de Armas rem com firmeza e boa-fé pelo desarmamento se-
Rousseau (1712–1778) assegura que está no âma- sado pelo juiz Mohammed Bedjaoui, presidente da Estratégicas), que expira em dezembro de 2009. rá possível conseguir que outros países de fora do
go das mais antigas comunidades humanas — Corte Internacional de Justiça (CIJ), quando o órgão Por sua vez, o primeiro-ministro Vladimir Putin as- TNP se comprometam com o congelamento dos pro-
devemos lutar. elaborou sua opinião consultiva sobre a legalida- sim expressou seu apoio ao desarmamento: “De- gramas de desenvolvimento de armas nucleares so-
O prêmio Nobel de Economia, Amartya Sen, de da ameaça ou uso de armas nucleares em 1996. vemos fechar essa caixa de Pandora”.38 lidários com o desarmamento.
ressaltou que a “pobreza deve ser definida como Não podemos desperdiçar este momento. Pro- Um desafio paralelo a ser perseguido é o de uma
privação das capacidades básicas de um indiví- Boa-fé é um princípio fundamental da ponho a realização, sem tardança, de uma reunião Convenção sobre Armas Nucleares (NWC, na si-
duo, e não apenas como renda inferior a um pata- lei internacional. Sem ela, todas as leis de cúpula entre os Estados Unidos e a Rússia, pa- gla em inglês), que proíba de forma ampla o desen-
mar pré-estabelecido”.32 Para as pessoas do “bi- entrariam em colapso.33 ra discutir novas e rigorosas reduções de armas nu- volvimento, o teste, a manufatura, a posse, a trans-
lhão de baixo” é urgente o apoio da comunidade cleares. Se as duas nações chegarem a um acordo ferência, o uso e a ameaça de uso de armas nuclea-
internacional para livrá-las das dificuldades e das A boa-fé requer que cada Estado- básico, fica demonstrado claramente ao mundo o res. Uma Convenção-Modelo sobre Armas Nuclea-
circunstâncias degradantes. -membro desenvolva, individualmente e compromisso delas com o desarmamento na Con- res foi esboçada pela iniciativa de ONGs e subme-
O Japão foi capaz de rápida e considerável recu- em conjunto com outros Estados, mem- ferência de Revisão do TNP em 2010. tida às Nações Unidas pela Costa Rica, em 1997;
peração dos danos sofridos na Segunda Guerra Mun- bros ou não do TNP, medidas positivas Em termos concretos, os dois países precisam versão revisada circulou nas Nações Unidas em
dial. É minha sincera esperança que a nação japone- para deixar a comunidade internacional concluir um novo tratado de desarmamento nuclear 2007. Ano passado, o secretário-geral Ban Ki-moon
sa faça bom uso dessa experiência, demonstrando li- mais próxima do objetivo do TNP, o de- que inclua cortes mais profundos dos que aqueles acrescentou sua voz, pedindo aos governos que con-
derança ativa no esforço para estabelecer, como bem sarmamento nuclear.34 realizados pelo Start 1 — trabalhando, por exem- siderassem realizar a NWC.
global comum, no século 21, o direito de todas as pes- plo, com propostas russas feitas em 2000 para a A política de intimidação, para a qual os Esta-
soas viverem em condições humanas e pacíficas. A credibilidade do TNP depende absolutamen- redução de cerca de mil ogivas nos arsenais nu- dos nucleares ainda se inclinam, serviu como uma
te das ações de boa vontade dos Estados com armas cleares. justificativa para que outros Estados aumentassem
Unir forças para a nucleares. Desta forma, usando as palavras do juiz Além disso, os dois países deveriam se esfor- seu potencial nuclear. É vital para a humanidade
abolição nuclear Bedjaoui, “um rompimento injustificável das nego- çar imediatamente para resolver questões pen- fixar normas internacionais que proíbam as armas
ciações é radicalmente incompatível com a boa-fé”.35 dentes há muito tempo, como a ratificação pelos nucleares, sem exceção, para qualquer Estado.
O terceiro pilar é a criação de um sistema in- Por dois anos consecutivos, o ex-secretário de Estados Unidos do Tratado Abrangente de Proi- Meu mestre, Jossei Toda (1900–1958), segun-
ternacional que facilite a união de vontades para Estado Henry Kissinger e outras figuras políticas bição de Testes Nucleares (CTBT, na sigla em in- do presidente da Soka Gakkai, condenou todos os
a paz e alcance a abolição das armas nucleares. dos Estados Unidos vêm clamando por um mundo glês) e o início das conversas sobre o Tratado de que usavam armas nucleares, independentemente
Em primeiro lugar, proponho que os Estados livre de armas nucleares, e cada vez mais se apro- Limitação de Material Físsil (FMCT, na sigla em da nacionalidade, em sua declaração pela aboli-
Unidos e a Rússia, responsáveis por 95% do arse- funda essa discussão dentro dos Estados nucleares. inglês). ção das armas atômicas, feita em setembro de 1957,
nal nuclear mundial, retomem imediatamente as Durante sua campanha presidencial, o então se- Construída em consenso entre os Estados Uni- um ano antes de seu falecimento. Ele percebeu o
conversações bilaterais para o desarmamento. nador Obama declarou: “Precisamos trabalhar com dos e a Rússia, deveria ser convocada regularmen- egoísmo nacional subjacente ao desejo de possuir
Devemos sempre ter em mente o fato de que o a Rússia para pôr os mísseis balísticos dos Esta- te uma reunião de cúpula com os cinco Estados nu- armas nucleares como uma terrível ameaça ao fu-
Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) não dá dos Unidos e da Rússia fora do estado de alerta e cleares, incluindo outros países também nucleares turo da humanidade.
aos cinco Estados nucleares o direito de deter por reduzir drasticamente o estoque de armas e mate- e o secretário-geral das Nações Unidas, para tra- Alguns expressam preocupação de que seria di-
muito tempo esse status “especial”. riais nucleares...”36 çar um roteiro de medidas específicas que os fa- fícil obter a participação dos Estados nucleares em
Com relação ao significado do Artigo VI do TNP, Quanto à Rússia, o presidente Dmitry Medve- çam cumprir suas obrigações de desarmamento sob uma NWC e que, sem ela, o tratado não teria subs-
o qual estabelece a obrigação de negociações de dev ressaltou a “importância excepcional”37 que o Artigo VI do TNP. tância. Mas a esperança prevalece. Alguns gover-
boa-fé que conduzam ao desarmamento nuclear, seu governo dá à conclusão de novo acordo para Somente quando os Estados nucleares se uni- nos, Índia e Reino Unido entre eles, reconhece-
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Proposta de Paz 2009

ram, agora oficialmente, embo- Declarações do Reino Unido e ção sobre Bombas de Fragmen- das no próximo ano, podem Norte. Precisamos de forças
ra com várias condições e re- da Índia sobre Armas Nucleares tação, que inaugurou um novo servir de trampolim para ne- tenazes para reduzir as ten-
servas, a necessidade de eli- Gordon Brown, primeiro-ministro britânico, capítulo na história dos trata- gociações de uma Convenção sões e fortalecer a confiança
minar as armas nucleares. declarou na Câmara de Comércio, em Nova Délhi, dos de desarmamento, os cla- sobre Armas Nucleares. nas respectivas regiões, a fim
Apesar de que ainda preci- Índia, em 21 de janeiro de 2008: “Precisamos enviar mores para uma NWC criam a Num dos diálogos com o de afastar as destrutivas es-
um poderoso sinal a todos os membros da
se entrar em vigor, o CTBT já oportunidade de união das pes- historiador britânico Arnold pirais de ameaça e descon-
comunidade internacional de que a corrida para
levou até mesmo alguns Esta- soas do mundo inteiro, solidá- J. Toynbee (1889–1975) fi- fiança.
aumentar os arsenais de destruição nuclear acabou”.
dos não-participantes do trata- Brown prometeu: “Estaremos na vanguarda da rias com o cerco ao próprio quei profundamente impres- Os membros da SGI, ten-
do a anunciar uma moratória campanha internacional para acelerar o desar- conceito de armas nucleares. sionado com a sua declara- do como princípio condutor a
de testes nucleares. Da mesma mamento entre os países detentores de armas, Houve um aumento da opi- ção de que os elementos cru- Declaração pela Abolição das
forma, uma NWC poderia agir evitar a proliferação de novos Estados nucleares e, nião pública internacional con- ciais da questão nuclear são Armas Nucleares, de Jossei
Arnold Toynbee
como uma norma internacional por fim, chegar a um mundo livre dessa ameaça”. tra as bombas de fragmenta- iniciativas enérgicas por Toda, dedicam-se diligente-
(Londres, Inglaterra,
que exerceria influência subs- Declaração semelhante foi proferida pelo primeiro- ção, classe de armas singular- parte das pessoas e um “ve- mente a incentivar as pessoas
maio de 1975)
-ministro indiano Manmohan Singh, em 9 de junho 40
tancial no comportamento dos mente desumana, que levou à to auto-imposto” à posse a ver o problema das armas
de 2008, na Conferência Internacional “Por um
Estados nucleares. adoção da Convenção que as de armas atômicas por parte dos governos. como se fosse uma questão pessoal. Em 2007, ano
Mundo Livre de Armas Nucleares”, em Nova Délhi.
Mesmo que estes Estados Singh disse que “a Índia não tem intenção de entrar proibiu dentro de um período A Convenção sobre Armas Nucleares incorpo- do quinquagésimo aniversário da Declaração, rea-
achem impossível entrar em ne- numa corrida armamentista com ninguém”, e que excepcionalmente curto no ano raria esse veto auto-imposto. Epítome do mal ab- lizamos a exposição “De uma Cultura de Violência
gociações imediatas para uma “o país está totalmente compromissado com o passado. As armas nucleares soluto que ameaça o direito à vida de todas as pes- para uma Cultura de Paz: Transformando o Espíri-
NWC, eles podem empreender desarmamento nuclear que é, na realidade, mundial, são as mais desumanas de to- soas, as armas nucleares são incompatíveis com os to Humano”, um passo concreto para promover a
ações regionais que demons- universal e não-discriminatório”. das. Uma vez mais, a condição interesses não só de seguran- Década dos Povos pela Abo-
trem uma aceitação de boa-fé humanitária deve prevalecer ça nacional mas sobretudo de Jossei Toda, segundo presidente da Soka Gakkai e lição Nuclear. Com o mesmo
autor da Declaração pela Abolição das Armas Nucleares
do empenho de banir as armas nucleares. Para es- sobre todos os princípios militares. segurança humana — a bus- propósito, o Comitê de Paz das
se fim, poderiam, por exemplo, completar a ratifi- Tendo o ex-presidente dos Estados Unidos, Jimmy ca da paz e da dignidade pa- Mulheres da Soka Gakkai
cação de todos os importantes protocolos dos Tra- Carter, e o ex-líder soviético, Mikhail Gorbachev, ra todos os povos da Terra. produziu o documentário
tados da Zona Livre de Armas Nucleares (NWFZ, entre seus signatários, a campanha Global Zero pa- Esta convicção deve formar “Testemunhas de Hiroshima
na sigla em inglês) e agilizar o estabelecimento de ra eliminação das armas nucleares foi lançada em a base para a Convenção so- e Nagasaki: O Brado das Mu-
uma NWFZ no Ártico, como sugeri em minha pro- Paris, em dezembro de 2008. Baseada na consciên- bre Armas Nucleares. lheres pela Paz” — um DVD
posta de paz de 2008. cia de que a ampla mobilização da opinião pública Estou convencido de que em cinco línguas que narra as
Os esforços públicos para o desarmamento ga- internacional é essencial para a concretização de esses passos são indispen- experiências de sobreviven-
nham força. Uma pesquisa conduzida no ano pas- um mundo sem armas nucleares, a campanha pla- sáveis para unir os esforços tes da bomba atômica.
sado em vinte países, incluindo os Estados nuclea- neja realizar a Cúpula Mundial em janeiro de 2010, pela paz — jamais se alcan- Para celebrar o 110º ani-
res, mostrou que 76% das respostas eram a favor reunindo políticos e líderes da sociedade civil. çará a paz mundial ao preço versário de nascimento de
de um acordo internacional para eliminar as armas Faz tempo defendo a realização de uma reunião da miséria e do temor de tan- Jossei Toda, em 2010, a Con-
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nucleares. de cúpula para o desarmamento. Dessa forma, torço ta gente. venção sobre Armas Nuclea-
Usando as experiências das iniciativas tomadas para que o resultado seja um sucesso. A Cúpula Mun- Há uma preocupação con- res dará expressão concreta
pela sociedade civil nas campanhas para o Trata- dial Global Zero e a Conferência de Revisão do Tra- tínua com os programas nu- à Declaração. Em parceria
do de Banimento de Minas Terrestres e a Conven- tado de Não-Proliferação Nuclear, que serão realiza- cleares do Irã e da Coreia do com outras ONGs, como a As-
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Proposta de Paz 2009

sociação Internacional de Mé- Década dos Povos compreendida como uma his- da Sociedade Civil-Nações Unidas, sob di-
dicos pela Prevenção contra a para a Abolição Nuclear tória de competição humanitá- reção do ex-presidente do Brasil, Fernando
Guerra Nuclear (IPPNW, na si- Com o lema “Agir para fazer a diferença” a ria — com todos os seus desa- Henrique Cardoso. Conforme destaca o re-
gla em inglês), que lançou a Década dos Povos para a Abolição Nuclear visa a fios e suas tribulações — pe- latório do Painel, “a sociedade civil é hoje
Campanha Internacional pela elevar a consciência quanto à realidade das armas la realização dos ideais da Car- tão vital para as Nações Unidas que o seu
nucleares e oferecer uma plataforma para as
Abolição das Armas Nuclea- ta das Nações Unidas. compromisso com ela é uma necessidade,
pessoas, especialmente os jovens, empreenderem
res (ICAN, na sigla em inglês), A questão-chave que a or- não uma opção”.43 É essencial que as ONGs
ações concertas a fim de livrar o mundo dessas
estamos determinados a esti- armas. Para atingir esse objetivo a Década tem
ganização mundial enfrenta pa- não sejam confinadas ao papel de observa-
mular a opinião pública inter- como base de atuação três pontos: (1) aprender ra cumprir a missão determi- doras. Sejam, ao contrário, reconhecidas co-
nacional para a adoção de uma sobre a realidade das armas nucleares; (2) refletir nada em sua Carta é, para Ken- mo parceiras indispensáveis para o traba-
Convenção sobre Armas Nu- sobre os meios para abolir essas armas; e nedy esta: “Seremos capazes lho das Nações Unidas. Desta forma, a im-
cleares, com ênfase particular (3) capacitar os indivíduos a se engajar em diálogos de vencer os nossos temores, o portância das contribuições das ONGs só
nas atividades iniciadas pelas e a agir. Por meio dessas ferramentas educacionais, nosso egoísmo, para servir, a tende a aumentar com os progressos do sé- Daisaku Ikeda e o ex-subsecretário-geral das Nações Unidas,
a Década espera formar uma rede mundial de Anwarul K. Chowdhury (Tóquio, Japão, 30 de agosto de 2006)
mulheres e pelos jovens. longo prazo, ao bem de todos culo 21.
pessoas compromissadas com a criação de uma
e em nosso próprio benefício? Não podemos permitir que as palavras do preâm- quem tenho dialogado, expressa também sua preo-
cultura de paz.
Prevendo o futuro Para mais informações, consulte: Muito da história do século 21 bulo da Carta das Nações Unidas “Nós, os povos...” cupação com a ausência de uma seção na ONU de-
www.peoplesdecade.org pode depender de nossa res- tornem-se mero floreio retórico. Precisamos traba- dicada à antecipação dos desafios que a humani-
Trago agora algumas pro- posta coletiva a esse desafio”.42 lhar para edificar uma Nações Unidas que tenha, dade há de enfrentar.
postas para o fortalecimento das Nações Unidas, Quando consideramos o futuro das Nações Uni- nas preocupações e na vida das pessoas, o seu ob- Concordo plenamente. É preciso que as Nações
organismo criado depois de duas guerras mundiais, das dessa perspectiva, a questão-chave é criar uma jetivo principal. Essas reformas seriam um passo Unidas sejam equipadas com uma unidade orga-
que deve servir de eixo aos esforços da humanida- forte parceria com a sociedade civil. Esta união se- para alcançar esse objetivo. nizacional, com função “catalizadora de ideias”,
de para tratar os problemas globais que tanto me rá uma fonte de apoio às gerações vindouras e uma Desejo propor ainda a criação de um órgão de capaz de formular uma visão orientada do futuro e
preocupam. forma de legar-lhes poder. alcance global dentro do Secretariado das Nações estratégias baseadas no que o mundo provavelmen-
O Parlamento do Homem, do historiador Paul Para fortalecer esse objetivo, sugiro a criação Unidas que lhe possibilite projetar e antecipar ten- te será daqui a cinquenta ou cem anos. Gostaria de
Kennedy, é uma obra notável que retrata a vida da do posto de subsecretário-geral das Relações da dências futuras e concentrar energias nelas. frisar que maior atenção deve ser dada às perspec-
organização mundial. Ilumina a sua história de Sociedade Civil. Essa função seria permanente e O economista Kenneth E. Boulding (1910–1993), tivas das mulheres e às vozes dos jovens nas ativi-
seis décadas. É particularmente impressionante especificamente dedicada a elevar a posição das comentando uma palestra que proferi sobre soft dades dessa unidade e que as discussões tenham
porque narra a história das Nações Unidas não só ONGs dentro do sistema das Nações Unidas e pro- power na Universidade de Harvard, em 1991, dis- sempre como foco central o desenvolvimento da ju-
pelo seu rico acervo de políticas internacionais mover parcerias com elas. O subsecretário-geral tinguiu a questão da legitimidade para integrar as ventude e da infância.
mas como “uma história de seres humanos tatean- participaria, por exemplo, nas deliberações de te- nações.44 Ele disse que, enquanto as nações deri- O fortalecimento das Nações Unidas tem sido
do em direção a um fim comum, a um futuro de mas fundamentais das Nações Unidas, como paz e vam sua legitimidade de glórias passadas, as Na- um dos temas de estudo frequentes do Instituto
mútua dignidade, prosperidade e tolerância por segurança, questões econômicas e sociais, desen- ções Unidas devem buscar legitimidade na visão Toda para a Paz Global e Pesquisa de Políticas
meio do controle partilhado de instrumentos in- volvimento e cooperação, questões humanitárias e que tem do futuro da humanidade. desde que eu o fundei em 1996, um ano depois
41
ternacionais”. direitos humanos para garantir a representação das Compelidas em parte por sua natureza como ór- do 50º aniversário de fundação das Nações Uni-
O que Kennedy nos dá é uma história contem- opiniões e dos interesses da sociedade civil. gão intergovernamental, as Nações Unidas reagem das. O Instituto Toda continuará a desenvolver
porânea da humanidade, tendo as Nações Unidas Proposta similar foi apresentada em 2004 pelo somente depois de surgirem os problemas. O ex- programas de pesquisa e atividades de apoio à
como centro. Vou além e digo que a obra pode ser Painel de Personalidades Eminentes das Relações -subsecretário-geral Anwarul K. Chowdhury, com ONU, nesta função-chave de identificar tendên-
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Proposta de Paz 2009

Instituto de Filosofia Oriental Diálogo: fonte de criatividade

O diálogo apresenta infinitas possibilidades. É


um desafio que pode ser aceito por qualquer pes-
soa, em qualquer momento, para transformar uma
cultura de violência numa cultura de paz.
Foi confiante no poder do diálogo que, entre 1974
e 1975, período em que cresceram as hostilidades
Centro de Pesquisas para o Século 21 de Boston
da Guerra Fria, fiz várias viagens à China, à extinta
União Soviética e aos Estados Unidos. Como cida-
cias e desenvolver uma clara perspectiva para o tural e político entre as pessoas”.45 Encontro com o premiê soviético dão comum, preocupado com a situação mundial, en-
Aleksey N. Kosygin (setembro de 1974)
futuro da humanidade. Promover o entendimento mútuo continua sen- contrei-me com os líderes máximos de cada país, com
Com o mesmo ideal, o Centro de Pesquisas pa- do um desafio urgente ainda hoje. As Nações Uni- o intuito de amenizar as tensões. Desde então, pro-
ra o Século 21 de Boston (BRC, na sigla em in- das designaram 2009 como o “Ano Internacional curo neutralizar as forças divisórias, erguendo pon-
glês) e o Instituto de Filosofia Oriental (IFO) pros- da Reconciliação” e 2010, o “Ano Internacional tes de amizade e confiança pelo mundo inteiro.
seguirão com seus esforços para reunir a sabedo- para a Aproximação das Culturas”. Isso comprova O Dr. Toynbee muito me incentivou ao diálogo
ria da humanidade por meio de diálogos entre re- a valorização da tolerância e do diálogo das Na- quando nos encontramos em 1972 e 1973. Exami-
ligiões e civilizações. São iniciativas que propõem ções Unidas como elementos indispensáveis para nando a história humana em termos de “desafio e
soluções a problemas de precedência na agenda a verdade e a justiça. resposta”, com uma perspectiva que abarca centú-
das Nações Unidas. Devido ao grande número de problemas críti- rias ou milênios, distinguiu o poder do diálogo fun-
Ainda que os desafios se mostrem esmagado- cos que o mundo hoje enfrenta, estes esforços, mais damentado nos valores de nossa humanidade, co-
res, extremamente difíceis, o primeiro passo de- do que nunca, são imprescindíveis. Em adição aos mo força condutora para a criação de uma nova era.
ve ser o diálogo. Alicerçado na fé em nossa hu- conflitos sangrentos em Gaza, Sudão e na Repú- A questão da liberdade humana foi tema discu-
manidade comum, o discurso franco transcende blica Democrática do Congo, o número de refugia- tido por Toynbee em sua palestra “Singularidade
Chu Enlai, premiê chinês
todas as diferenças de formação, valores e pontos dos e de pessoas deslocadas internamente (IDPs) e Recorrência na História”, proferida no Japão, em
(dezembro de 1974)
de vista. continua a aumentar. A ameaça de terror persiste. 1956. Ele observou que parece haver leis que re-
O diálogo tem sido o próprio coração das Na- Embora as Nações Unidas tenham importante gem a repetição da história humana e a ideia de
ções Unidas desde o estabelecimento delas. Se- papel na solução dessas questões profundamente que as civilizações têm um ciclo de vida de apro-
gundo Paul Kennedy, a Organização, logo que arraigadas, a cooperação entre os Estados e os es- ximadamente 800 anos. No entanto, Toynbee res-
nascera, já foi comparada a um tripé: o primei- forços diplomáticos são de valor inestimável. saltou que certo fenômeno humano não se ajusta a
ro apoio representa as medidas para garantir a Em termos mais fundamentais, precisamos rom- esses padrões fixos. E concluiu:
segurança internacional; segundo, o aperfeiçoa- per o ciclo de violência e ódio e, no lugar, criar
mento das condições econômicas no mundo in- uma cultura de paz ampla e resistente. Precisa- De todos os fenômenos, o único cuja
teiro; e terceiro, o entendimento entre os povos. mos assegurar a cada indivíduo o gozo pleno do existência não é estabelecida por padrões
Ele frisa: “Por mais firmes que estejam os dois direito à vida, em paz e com dignidade. Somente é o do campo do encontro e da conversa
primeiros apoios, o sistema falirá se não forem estas ações darão ao nosso mundo a garantia de Henry Kissinger, ex-secretário de de duas pessoas. É desse encontro e des-
criados meios de melhorar o entendimento cul- um amanhã seguro. Estado norte-americano (janeiro de 1975) se diálogo que surge a criatividade.46
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Proposta de Paz 2009

o conceito de competição humanitária de Tsunes- veria num magnífico meio para nutrir e fortalecer
saburo Makiguti e o brado incessante de Jossei To- as pessoas — é uma realidade.
da para banir a miséria da face da Terra. Visando ao 80º aniversário da Soka Gakkai e
Unidos pelo compromisso com o humanismo e ao 35º aniversário da SGI em 2010, estamos de-
o bem maior, nossa rede de cidadãos expandiu-se terminados a prosseguir solidários com homens
para 192 países e territórios. A visão do futuro que e mulheres de boa vontade do mundo inteiro na
Jossei Toda repartiu comigo, no curso de nossas in- construção de uma nova era de paz e de flores-
terações — a de que a Soka Gakkai se desenvol- cimento humano.

Notas
1. Iwai, “Shihonshugui”. 15. Makiguti, Obras Completas, 28. Ban, “Combatendo as Policy Conference” (“Discurso na

2. Marcel, Man Against Mass 2:399. Alterações Climáticas”, p. 23. Conferência Mundial sobre Política”).

Society (O Homem Contra a 16. Nye, Soft Power, x. 29. Cúpula G8 Hokkaido-Toyako, 38. Timesonline, “Putin Tells Britain”

Sociedade de Massa), p. 117. 17. Makiguti, Obras Completas, “Global Food Security” (“Segurança (“Putin declara à Grã-Bretanha”)

3. Ibidem, p. 116. 2:399. Alimentar Global”). 39. Global Zero, “100 International

Jovens da SGI (Tóquio, Japão, setembro de 2008) 4. Ibidem, p. 116. 18. Ibidem, p. 402. 30. Zoellick, “Letter to Prime Leaders Launch” (“100 Líderes

5. Ibidem, p. 3. 19. Gorbachev e Ikeda, Moral Minister” (“Carta ao Primeiro- Internacionais Lançam Campanha”).
Se permitirmos a nós mesmos o confinamen- pelas barreiras que dividem as pessoas, tenho per- 6. Ibidem, p. 1. Lessons (Lições Morais), p. 3. Cf. Ministro”). 40. Toynbee e Ikeda, Escolha a
to a determinadas ideologias, etnia ou religião corrido algumas sociedades antagônicas, queren- 7. Ortega y Gasset, Meditations Chaliapin, Man and Mask (Homem 31. Collier, The Bottom Billion (O Vida, p. 202.
— presas do espírito de abstração — viveremos do abrir vias de diálogo e comunicação onde an- (Meditações), p. 45. e Máscara), pp. 292-293. Bilhão de Baixo). 41. Kennedy, The Parliament of
à mercê do fluxo e refluxo, encalhados no “ban- tes não existiam. Com o desejo de compartilhar as 8. Reich, Supercapitalismo, p. 90. 20. Marcel, Man Against Mass 32. Sen, Development as Freedom Man (O Parlamento do Homem), xv.
co de areia” da história, incapazes de fazer pro- lições aprendidas desses diálogos da forma mais 9. Ibidem, p. 56. Society, p. 199. (Desenvolvimento como 42. Ibidem, xvii.
gressos. Em contrapartida, se formos além da ar- ampla possível, muitos deles foram publicados em 10. Marcel, Man Against Mass 21. Dostoiévski, The Brothers Liberdade), p. 87. 43. NU, “We the Peoples,” (Nós, os
bitrariedade, dos rótulos ou das classificações livros (cinquenta até o momento, e outros vinte em Society, p. 176. Karamazov (Os Irmãos 33. Bedjaoui, “Steps Toward a Povos”), p. 9.
superficiais e nos unirmos uns com os outros em preparação). 11. Samuelson, “Great Expectations” Karamázov), p. 309. Nuclear Weapons Convention” 44. Boulding, “Chikyu runesansu”
diálogos, gerando uma interação espontânea e A Soka Gakkai nasceu em 1930, em meio a uma (“Grandes Expectativas”) 22. Nitiren, Nitiren Daishonin, p. 564. (“Passos em Direção à Convenção (“Rumo à Nova Era da Renascença
intensa de coração e mente, surgirão “movimen- crise mundial. Em 1975, igualmente em tempos de 12. Aitmátov e Ikeda, Oinaru 23. Makiguti, Obras Completas, 1:28. das Armas Nucleares”), p. 17. Global”).
tos mais profundos e lentos”,47 considerados por crise, surgiu a SGI. Desde então, promovemos cons- tamashii no uta (Ode ao Grande 24. Ibidem, p. 23. 34. Ibidem, p. 20. 45. Kennedy, The Parliament of
Toynbee como os mais importantes para moldar tantes iniciativas para apoiar as Nações Unidas. Espírito), p. 81. 25. Ibidem, p. 17. 35. Ibidem, p. 21. Man, pp. 31-32.
a história humana. Como membros que prestam contribuições a nos- 13. Attali, Uma Breve História do 26. Ikeda, A New Humanism (Novo 36. Obama, “New Strategy for a 46. Toynbee, Rekishi no kyokun
Com esta convicção, tenho me dedicado ativa- sas respectivas sociedades, trabalhamos para cons- Futuro, p. 15. Humanismo), p. 93. Cf. Stancu, New World” (“Nova Estratégia para (Lições da História), pp. 79-80.
mente aos diálogos com líderes e pensadores de truir uma cultura de paz por meio do diálogo de 14. Weber, Essays in Sociology Barefoot (Pés Descalços), p. 266. um Novo Mundo”). 47. Toynbee, Civilization on Trial
vários campos. Recusando-me a ser dissuadido raiz popular. Esses esforços têm como inspiração (Ensaios de Sociologia), p. 280. 27. Obama, “Discurso de Posse”. 37. Medvedev, “Speech at World (A Civilização Posta à Prova), p. 213.
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Proposta de Paz 2009

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Propostas de paz proferidas por Daisaku Ikeda


em 26 de janeiro, Dia da SGI
2008 — A humanização da religião a serviço da paz
2007 — Resgatar a nossa humanidade: primeiro passo para a paz mundial
2006 — A nova era do povo: uma rede mundial de indivíduos conscientes e fortes
2005 — Uma nova era de diálogo: o triunfo do humanismo
2004 — Revolução interior: uma onda mundial pela paz
2003 — Por uma ética global — A dimensão da vida: um paradigma
2002 — O humanismo do caminho do meio — O alvorecer de uma civilização global
2001 — O desafio da nova era: construir a todo instante o “Século da Vida”
2000 — A paz pelo diálogo — É tempo de falar: uma cultura de paz
1999 — Pela cultura de paz — Uma visão cósmica
1998 — A humanidade e o novo milênio: do caos para o cosmos
1997 — Novos horizontes de uma civilização global
1996 — Rumo ao terceiro milênio: o desafio da cidadania global
1995 — Criando um século sem guerras por meio da solidariedade humana
1994 — A luz do espírito global: uma nova alvorada na história da humanidade
1993 — Rumo a um mundo mais humano no século vindouro
1992 — Uma Renascença de esperança e harmonia
1991 — O alvorecer do século da humanidade
1990 — O triunfo da democracia: rumo a um século de esperança
1989 — A alvorada de um novo globalismo
1988 — Entendimento cultural e desarmamento: os blocos edificadores da paz mundial
1987 — Propagando o brilho da paz: rumo ao século do povo
1986 — Rumo a um movimento global por uma paz duradoura
1985 — Novas ondas de paz rumo ao século XXI
1984 — Criando um movimento unido para um mundo sem guerras
1983 — Nova proposta para a paz e o desarmamento