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FRANGOIS FURET PENSANDO A REVOLUCAO FRANCESA Traduzido por Luiz Marques e Martha Gambini 2.8 edigéo PAZETERRA © historiador que estuda os reis merovingios ou a Guerra dos Cem Anos néo se vé obrigado a apresentar, a todo momento, seu di- ploma de pesquisador. Tanto a sociedade quanto seu circulo profis- sional atribuem-lhe, por menor que tenha sido seu aprendizado técni- © da objetividade, A discussio dos resul- No caso de um historiador da Revolugao Francesa, devem ser exi bidos outros titulos além de sua compettneia. Ele tem que anunciar 1s suas cores, E preciso, em primeiro lugar, que ele esclarega de onde fala, o que pensa, o que busca; e o que ele escreve sobre a Revolugéc possui um sentido anterior a seu préprio trabalho: ¢ a sua opinido, essa forma de julgamento nunca requisitada quando se trata dos mero- vingios, mas que se torn indispensével no caso de 1789 ou 1795. Bas- io seja dada, ¢ tudo jé esté dito: eilo monarquista, liberal ou jacobino. Através desta senha, sua histéria adquire uma sig- nificegao, um lugar, um titulo de legitimidade, © surpreendente nao é que esta histéria particular, como qual- » comporte pressupostos intelectuais, Nao existe interpre- tagio histérica inocente, e a histéria que se escreve & também histé- ria dentro da histéria, produto de uma rela¢o por definigo instavel entre 0 presente ¢ o passado, cruzamento entre as particularidades de ‘um espfrito € 0 imenso campo de seus enraizamentos possiveis no pas- 15 sado, Mas apesar de qualquer hist6ria implicar uma escolha, em uma preferéncia na ordem dos interesses, nfo se segue dat que ela suponha uma opiniGo sobre 0 tema tratado. Para que isso acontesa, é preciso que esse tema mobilize no historiedor e em seu piblico uma capa- cidade de identificagdo politica ou religiosa que tenha sobrev'vido 20 E essa identificagdo que o tempo passado pode apagar ou, pelo contrério, conservar, dependendo se o tema tratado pelo historiador continua ou néo a ter sentido em seu presente, em seusvalores, em suas escolhas. © tema de Clévis e das invasbes francas desperiava p x80 no século XVII, pelo fato de os historiadores de entdo af buse tem @ chave de estrutura da sociedade dessa época, Eles pensavam que as invasdes francas estavam na origem da divisio entre nobreza ¢ plebe, os conquistadores constituindo o troneo original dos nobres, os conquistados © dos plebeus. Hoje as invasées francas perderam qual- quer referéncia ao presente, pois vivemos em uma sociedad: onde @ nobreza ndo mais existe como prinefpio social; tendo deixado de ser © espelho imaginério de um mundo, elas perderam sua eminéncia his- toriogréfiea, com a qual esse mundo tinha-as revestido, e passarsm do campo da polémica social 20 da discussio erudit E que a partir de 1789, a obsessdo pelas origens, com a quel se tece qualquer hi nacional, apoderouse precisamente da ruptura evoluciondria, Da mesma forma que as grandes invasées tinhem cons: tituide © mito da sociedade nobilidtia, o grande relato das origens, 1789 & a data de nascimento, 0 ano zero do mundo novo, fundado na igualdade. A substituigdo de um aniversério pelo outro, ou se finiggo temporal de uma nova identidade nacional, é ‘provavelmente um dos maiores trasos de genialidade do abade Sieyés, se pensarmos que ele antecipa de varios meses o evento fundador, ao qual, no en- tanto, ele dé de antemao seu pleno sentido: “ temer remontar a tempos passades, Ele vai se ref 1a; © como ele & hoje suficientemente forte para néo se téncia serd sem diivida mais eficaz, Por que via enviar novamente pata as florestas da Francénia todas que conservam a louca pretensio de terem saido da raga dos conquistadores ¢ de terem herdado seus direitos? A nagio, entio depurada, poderd consolar-se, penso eu, por se ver reduzida a nfo mais se acreditar composta sendo dos descendentes dos gauleses e dos 10- manos”? Essas poucas linhas dizem ao mesmo tempo que os titulos de propriedade dos nobres sobre a nagio sio ficticios, mas também 16 que, caso fossem reais, bastaria ao Terceiro Estado restaurar 9 contra to social de antes da conquista, ou melhor ainda, fundé-lo, apagando séoulos de usurpagio violenta, Em ambos os casos trata-se de recons- tituir uma origem “'verdadeira” para a nagdo, dando uma data de nas- cimento legftimo & igualdade: 1789 inteiro encontra-se af. A histéria da Revolugdo tem como fungdo social manter esse re- lato das otigens. Basta olharmos, por exemplo, o recorte académico dos estudos hist6ricos na Franca: a ‘modema” termina em 1789, com aquilo que a Revolusao batizou “Antigo Regime”, qu sim se viu atribuir, na falta de uma certidio de nascimento precisa, ‘um atestado de Sbito de acordo com todas as formalidades. A partir dai, @ Revoluglo e 0 Império formam um campo de estudos separado © auténomo, que possui suas cétedras, seus estudantes, suas socieds- des eruditas, suas revistas: 0 quarto de século que separa a tomada da Bastitha da ‘batalha de Waterloo reveste-se de uma dignidade part- cular: final de época “moderna”, introdusio indispensdve do contempordneo, que comeca em 1815, ele & esse eniremeio que con- fere sentido a ambos, esse dividir de aguas a partir do quel a historia de Franga remonta em diregiio © seu passado, ou mergulha em seu futuro, Permanecendo fiéis & consciéncia vivida dos atores de’ Revo- lugdo, apesar dos absurdos intelectuais que esse recorte cronolt igina, nossas instituigSes universitérias investiram o periodo revolu- cionétio, e 0 historiador desse perfodo, com os segredos de nossa his- A6ria nacional, 1789 € a chave para o antes e para 0 depois. Separs-os, © portanto os define, os “explic’ Allis, no que se refere ao "depois", esse periodo que comeca em 1815 e que se considera que ela traz & luz, torna possivel, abre, néo 6 suficiente dizer que a Revolugao “explica” nossa hist6ria contempo- ranea. Ela € nossa hist6ria contempordnea, O que merece algumas re- flexdes. elas mesmas raxSes que fezem com que o Antigo Regime tenha ‘um fim, mas néo um nascimento, a Revolugdo tem um nascimento, mas nfo um fim. O primeito sofre de uma definigo cronolégica nega- tiva, e portanto mortuéria, 0 outro € uma promessa tio vasta que apre- senta uma elasticidede indefinida, Mesmo a curto prazo, nfo & ff + dependendo do sentido que o historiador atribua aos prin- cipais acontecimentos, ele pode encerré-la em 1789, ano em que 1 do balango terminal foi conseguido, a pégina do Antigo Re- gime virada — ou estendé-le 2 1794, até a execugo de Robespierre, enfatizando a ditadura dos comités ¢ das secgdes, a epopéia jacobina, 7 a cruzada igualitéria do ano [1, Ou chegar até 0 18 de Brumério de 1799, se quiser respeitar aquilo que os termidorianos conservam de jacobino, © governo dos regicidas e a guerra com a Europa dos reis. Ou ainda integrar 2 Revolugdo a aventura napolednica, seja até o fim do perfodo consular, stja até o casamento habsbiirgico, seja até os Com Dias: todos esses recortes cronol6gicos podem ter sua razio de ser. Sonho com uma histéria da Revolu¢ao infinitamente ma's longa, muito mais estendida para o “‘depois” ¢ cujo termo nao intervém antes do fim do século XIX ou inicio do século XX. Pois a hist6ria do sé- culo XIX francés inteiro pode ser considerada como a hist6ria de uma uta entre a Revolugio ¢ a Restauragéo, através dos episédios de 1815, 1830, 1848, 1851, 1870, a Comuna e 0 16 de maio de 1877. Somente 4 vitGria dos republicanos sobre os monarquistas, no infcio da Tercel- ra Repiblica, assinala definitivamente a vit6ria da Revolugdo nas pro- fundezas do pats: o professor laico de Jules Ferry, missionétio dos vi lores de 1789, é mais 0 simbolo que o instrumento dessa longa batalha ganha. A integracdo da Franga alded ¢ camponesa na nacéo republi- cana, através dos prinefpios de 89, deve ter durado no minimo um século; sensivelmente mais, sem divide, em regides como a Bretanha ‘ou o Sudoeste, retardatérias ? em muitos aspectos. Essa hist6ria recen- te do espago francés, no essencial, ainda no foi escrita e constitui também uma hist6ria da Revolugo. A vit6ria do jacobinismo republi cano, durante tanto tempo ligado a ditadura de Paris, s6 foi consegui- da a partir do momento em que teve como apoio 0 voto mijoritério da Franga rural, no fim do século XIX. Mas “conseguida” nao quer dizer honrada, valor to undnime que nfo seja mais debatido. A celebracio Jos pri cipios de 89, objeto de tantas preocupagdes pedagégicas, ou a cond: nagdo dos crimes de 93, que envolve a rejeicio de tais principios, per- manecem no centro das representagdes politicas francesas até meados do sécuilo XX. © fascismo dé ao conflito de idéias uma dimenséo inter- nacional. Mas é significativo que, em sua forma francesa, o regime instaurado com Vichy apés a vitéria alema tome forma menos espe- cificamente fascista que tradicionalista, ancorada na obsessfo de 1789. ‘A Franga dos anos 40 ¢ ainda esse pais cuja hist6ria ps cidadfos de- ‘vem selecionar, datando seu nascimento, escolhendo entre o Antigo Re- gime ¢ a Revolucio, Sob essa forma, a referénc nteriorizada como um 18 dos valores de 89 nfo comporta mais nem alvos poltticos resis nem forte investimento psicolégico. Mas se essa unanimidade exist, isto se deve ao fato de que o debate politico simplesmente deslocou-se de uma Revolusao a outra, da do passado aquela que est por vir essa transferéncia do conflito para o futuro permite um aparente con- senso sobre a heranga, Mas, na verdade, essa heranga continua domi- nando as representagées do futuro, assim como uma velha camada geo Logica, recoberta de sedimentagbes ulteriores, no deixa de modeler 0 relevo e a paisagem. E que a Revolugéo Francesa nflo é simplesmente a Repiiblica, E também uma promessa indefinida de igualdade ¢ uma forma privilegiada da mudanga. Basta que se veja nela, em vez de ‘uma instituigo nacional, uma matriz da hist6ria universal, para devol- verhe sua dinémica e seu poder de fascinagao. O séeulo XIX acr tou na Reptblica. © séeulo XX acredita ne Revolugio. Existe um mes- mo evento fundedor nas duas imagens, Com efeito, os socialistas do fim dos ago ao mesmo tempo como solidéria ¢ di Solidéria porque a Repiiblica ¢, a seus olhos, a condigto prévia para ‘0 socialismo, Distinta, porque a democracia’ politica é um estégio his- Aérico da orgenizagfo sociel que deve ser superado, e porque 89 funds precisamente néo um Estado estével, mas um movimento, cuje légica Ea dessa superagio. Essas duas lutas, pela democracia e pelo socialis- mo, so duas configuragées sucessivas de uma dindmica da igualdade ¢ cuja origem € a Revolugo Francesa. Assim formou-se uma visio, uma hist6ria linear da emancipasio humana, sta. primeira etapa ten: do sido a eclosio ¢ a difusio dos valores de 89, e a segunda devendo cumprir a promessa de 89, através de uma nova revolugto, desta vez socialista: mecanismo de disparo duplo, que subentende por exemplo a histéria revolucionéria de Jaurts, mas cujo segundo termo nao tinha ainda sido fixado pelos grandes autores socialistas, ¢ com razio, pois esse segundo termo estava por vir. ‘Tudo muda com 1917. A partir de entio a revolugio socialista tem um semblante, ¢ a Revolugio Francesa deixa de ser um modelo para um futuro possivel, desejével, esperado, mas ainda sem conted- do, Ela se tomou a mie de um acontecimento real, datado, registrado, que € outubro de 1917. Como demonstro em um dos ensaios publica- dos aqui, os bolcheviques russos nunca deixaram de trazer presente em seu espirito essa filiagao, antes. durante e depois da Revolugdo Russa, Em contrapartida, os historiadores da Revolugdo Francesa também projetam no passado seus sentimentos ou seus julgamentos sobre 1917, lo XIX concebem sua 19 tendendo a privilegiar, na primeira revolugfo, 0 que paree prefigurar a segunda. No mesmo momento em que a Réssia stb bem ou mal, @ Franca no papel de nagio na vanguarda de histéria, pois ela herd da Franga ¢ do pensamento do século XIX a eleigao evoluciondria, os disctrsos historiogréticos sobre as duas revolugdes repercutem um sobre o outro e se contaminam. Os bolchevigues tém ancestrajs jacobinos © 08 jacobinos tiveram antecipagdes comunistas. Desde duzentos anos, deixou de ser um relato sobre as origens, e pottanto, um discurso sobre a identidade, No século XIX essa histéria mal se distingue do acontecimento que esté encarregada de retratar, pois 0 drama que comega em 1789 nfo parou de ser encenado, gerasio apds geragio, em torno dos mesmos alvos ¢ dos mesmos simbolos, numa continu dade da lembranca transformada em A Revolucio nfo somente fundou a gual a Franca “contempordnea” é inteligivel; ela também lego. a essa Franca conflitos de legitimidade e um estoque de debates politicos de uma plasticidade quase infinita: 1830 recomega 89, 1848 encena nova. mente a Repiblica, © a Comuna reata com 0 sonho jacobixo. Foi necessfria, no fim do século, a vitéria de um consenso republicano na opinigo parlamentar, depois nacional e nada menos que a fndagio durével da Terceire Repiblica, para que a histéria da Revol Francesa recebesse enfim, apés um século, um inicio de legitimagdo académica: sob a pressio da Sociedade de Hist6ria da Revolugio Fran- cese, fundada em 1881 por intelectuais republicanos, a Sorbonne abre em 1886 um “curso” de histéria da Revolugio, confiado a Aulard; © curso vai se transformar em “cétedra’ em 1891 A Revolugdo em cétedra tornou-se uma propriedade nacional, como a Repiblica? A resposta é, como para a Repiblica, sim ¢ nfo, Sim porque em um sentido, com a fundagio da Repiiblica scbre o sufrdgio popular ¢ ndo mais sobre a insurreigGo patisiense, :: Revo. uso Francesa finalmente “terminow”; ela se tornou uma instituigao ‘onal, sancionada pelo consentimento legal « democratico dys cide dios. Mas, de um outro lado, 0 consenso republicano em torno da civilizasao politica nascida em 89 € um consenso conservador, obtido Por falta de outro melhor; do lado das classes ditigentes, jé que no existia um acordo sobre um rei, e como uma garantia de sepuranca, do lado dos camponeses ¢ dos pequenos notiveis: foi a repressio da Comune que naturalizou a Reptblica na provincia. E essa Revolugio ia da Revolugéi a 20 Francesa vitoriosa, finalmente aceita como uma hist6ria fecha, como um patriménio ¢ uma instituigdo nacional, é contradit6ria com @ ima- gem da mudanca que ela implica, ¢ que comporta uma promessa bem mais radical do que a escola laica ou a separagao entre a Igreja e 0 Estado, Nem bem havia ecabado de impor a Repiiblica e se torna claro que a Revolugto Francesa € muito mais do que a Reptiblica. Ela é uma anunciagio, que nenhum acontecimento esgota E por essa’ razio que, nesse extremo fim do século XIX, tendo © debate historiogréfico entre realistas © republicanos. sobrevivido as lutes politicas de 1789, o pensamento socialista apoderou-se da anunciagio, Aulard havia ‘¢ em Taine @ reconstituicao das “origens da Franga contemporines”. Jaures vé na Revolugio Francesa as origens de uma origem, o mundo de um outro nascimento: “© que ha de menor nela, é 0 presente ... Ele tem prolongamentos ilimita- dost A Revolugdo Russa de outubro de 1917 vem, no momento oportuno, alojarse nessa espera de uma duplicagdo des origens. A partir dela — Mathiez formulou-o explicitamente® — o inventétio da hreranga jacobina & acompanhado de um discurso implicito pré ou 3s bolchevi para derlhe nenhuma intelectual. Com efeito, a superposi¢do dos dois debates 08 prolonge 0 séeulo XIX no XX, ¢ transfere para 0 comit nismo ¢ 0 anticomunismo as paixdes anteriormente mobilizades pelo rei da Franga © @ Repiblica, que ela desloca sem enfraquecer. Pelo contrétio: ela as re-enraiza no presente, dando-lhes novos alvos poli- ticos, que devem ser lidos nas filigeanas, como promessas ainda con fusas, nos acontecimentos de 89, ou melhor, de 93. Mas a0 tornar-se 4 anunciaedo positiva ou negative de uma Revolusio autenticamente comunista, onde @ famosa “burguesia” nao virie confiscar a vitéria do povo, a Revolugao Francesa nada ganhou em significagio ou em clareza conceitual. Ela simplesmente renovou seu mito, empobre- cendo-o. E preciso chegar a um acordo quanto as palavras: esta ‘contami- nago do passado pelo presente, esta eapacidade de tudo assimilar que caracteriza por definigio uma Revolugio concebida como uma sm, no € incompativel com progressos setoriais da erudigio, Ain da menos quando a histéria revolucionsria tomou-se, a partir do fim do séoulo XIX, uma especializagao universitiria, sendo desde entdo necessario que cada geracio de historiadores faga sua patie no trabs- Iho de arquivos. Nesse sentido, a énfase colocada nas classes populares © sua ago na Revolugéo Francesa provocou, em nossos conhecimentos 21 sobre o papel dos camponeses ¢ do povo das cidades, progr ssos que seria absurdo negar ou subestimar. Mas esses progressos néo trouxe- ram nenhuma modificago sensivel na anélise do que poderiamos cha. mar o objeto histérico global “Revoluggo Francesa”. Tomemos por exemplo o problema camponé vado por muitos trabalhos, desde 0 inicio do século, de Loutchiski a Paul Bois, ¢ que é, na minha opinigo, a contribuigdo central de Georges Lefebvre & historiografia revolucionéria, Através da andlise do problema e do comportamento camponés, Georges Lefebvre chega a duas id 1, varias revolugGes naquela que é chamada a Revolugio. E que a revolugdo camponesa, amplamente auténoma, independente das outras (da dos arisiccratas dos burgueses ow dos sans-clottes, por exemplo) € anticapitalista, ou 4 seus olhos, voltada para o passedo.' Jé essas duas idéias so de conciliar com a visio de uma Revolugdo Francesa enquanto tum fenémeno social ¢ histérico homogéneo, abrindo um fuiuro capi. 2, ou burgués, ao qual o “Antigo Regime” teria bartado 0 ca 0. Mas ha mais. Georges Lefebvre também observa que, na hist6ria agraria desse Antigo Regime, o capitalismo est cada vez mais pre: sente, € que seu “ enetrou com forca na aristocracia fun- a: ¢ to bem que, como Paul Bois demonstraré? um potico mais tarde, esse mesmo campesinaio vai se encontrar sucessivamente em confli estudao, reno- ou de seu combate. Georges Lefebvre ja escrevia ig0 Regime engajara a histOria ageévia da Franga na mo; a Revolugfo concluiu bruscamente a tarefa que ele havia encetado”.* Mas dessa constatagfo, que ressca um pouco como se viesse de Tocqueville, o historiador de tradigo jacobina néo como seu ancestral de tradiglo legitimista, uma critica do préprio conceito de Revolugdo, Ele nio tenta compreender sob quais condigdes € possivel reunir as idéias de uma mudanga radical e de uma continuidade objetiva, Simplesmente sobrepbe, sem tentar conci- lig-las, ume airdlise do problema eamponés no fim do séeulo XVITI © uma tradi¢do contradit6ria com esta andlise, que consiste em ver a Revolugao através dos olhos de seus préprios atores, como uma rup- tura, um advento, uma espécie de tempo de natureza diveria, homo- ‘géneo como um tecido novo, Nao seria dificil mostrar que o maior historiador universitério da Revolugdo Francesa do século XX. aquele 2 ue possuiu sobre esse perfodo o saber mais rico ¢ seguro. teve so- mente, como visio siniética do imenso acontecimento 20 qual consa ‘grou sua vida, as convicgées de um militante do Cartel das esquerdas ou do Front popular’ E que a erudicao, apesar de poder ser estimulada por preocupa- bes tomadas do presente, nunca é suficiente para modificar a concel- izagao de um problema ou de um acontecimento, Tratando-se da lugdo Francesa, ela pode, no séeulo XX, sob a influéncia de ,€ do marxismo, derivar para a histéria social, con- quistando novos territérios. Permanece anexada, e mesmo mais do que nunca, anexada a um texto de fundo que é 0 velho relato das ‘a0 mesmo tempo renovado e ctistalizado pela sedimentacio socialista. Pois o assenhoreamento da hist6ria revoluciondria pela hist6ria so ampos para a pesquisa setorial, s6 fez tum advento. Permanéncia ainda mais extraordinéria pelo fato de a idéia de uma ruptura radical no tecido social de uma nagio ser mais, dificil de se conceber. Nesse sentido, esse deslocamento historiogré- ‘ublinha ainda mais 2 forga do 4 contradiggo intelectual é mascarada pela celebrago do comego. E gue mais do que nunca, no século XX, o historiador da Revolugao Francesa comemora o acontecimento que ele conta, ou que ele estuda. (Os materiais que ele acrescenta sfo somente ornamentos suplementares oferecidos & sua tradigdo. As linhagens perpetuam-se como os debates: cscrevendo sobre a Revolugfo Francesa, Aulard e Taine debatiam sobre a Repablica, Mathiez e Gaxotte discutem. sobre as origens do comunismo, £ essa elasticidade comemorativa, onde se esté sempre investindo » orgulho nacional, que faz da histéria revolucionéria na Franga um setor particular da. dis. elevado dignidade de especialidade , dO por constituir um campo de problemas particulares ¢ especificados enquanto tais, mas por estar submetido a um mecanismo de identificago do his eu” evento, Da Revolugio Francesa existem portanto as, hist6rias liberais, hist6rias jacobinas, hist6 tdrias, e esta idades no sio todas contraditérias — nem sobretudo nna qual nascemos, a Revolugio permite quaisquer pesquisas de 2B Go. Mas todas essas hist6rias, que se afrontam ¢ que se di duzentos anos em nome das origens desse afrontamento ¢ ceramento, tém na realidade um terreno comum: elas so identidade. Nao existe portanto, para um francés desta segunda meta- de do século XX, um olhar estrangeiro sobre a Revolusio Francesa. Nao existe etnologia possivel numa paisagem tao familiar. 0 sconte mento continua sendo to fundamental, tao tirfnico na co politica contempordnea, que qualquer em relagdo @ ele 6 imediatamen lade — como se a relagao de idemtficagdo fosse inevitavel, seja ela de filiagao ou de rejeigao, Entretanto, & preciso tentar romper esse circulo vicioso da histo- rafia comemorativa. Durante muito tempo esteve na moda, entre os homens de minha geragio, sob a dupla influéncia do existencialis- mo e do marxismo, enfatizar o entaizamento do homem em sett pré- Prio tempo, suas escolhas ou suas determinag6es. A demasiada insis- tne as, apesar de ter sido util contra a ilusio itivista da “objet traz consigo 0 tisco de alimentar inde idamente profissées de £6 ¢ polémicas erepusculares. Mais ainda do que pela ideologia politica, a historiografia da Revolugao parece-me hoje estar bloqueads pela preguiga de espirito e pelas fastidiosas repe- igdes respeitosas, Certamente, jé & tempo de desinvesti-la das signi icagdes clementares que ela mesma legou a seus herdeiros, para devol- verthe © que é também um primum movens do historiador: a curiosi- dade intelectual e a atividade gratuita de conhecimento do passado. is, um dia vird em que as crengas politicas que alimentam hé dois séculos os debates de nossas sociedades parecer tio surptezndentes aos homens quanto so pera nés as inesgotiveis variedades e as ines- gotiveis violéncias dos conflitos religiosos da Europa entre os séculos XV e XVII. Provavelmente, € 0 proprio campo politico moderno, tal como foi constituido pela Revolugio Francesa, que pareceré ser um sistema de explicago © um investimento psicolégico de uma outra época. Esse “resfriamento” do objeto “Revolugio Francesa”, para falar nfo pode ser esperado somente do tempo inir suas condigdes, e até mesmo reconhecer mentos, na trama do nosso presente. Nzo afirmo que essas condigdes, esses elementos, irdo finalmente constituir a objet do ume modificagiio essen- cial na relagdo entre o historiador da Revolugio Francesa e seu: objeto 24 : eles tornam menos espontinea, e portanto menos coercitiva, 1 identificagio com os atores, a celebracio dos fundadores ou a exe stagdo dos desviantes. Para esse desinvestimento, que considero desejavel para renovar 4 histéria revolucionéria, percebo dois caminhos: um deles produz-se progressivamente, tardia mais inelutavelmente, a partir das contradi- ses entre 0 mito revoluciondrio ¢ as sociedades revolucionérias (ou pésrevoluciondrias). © outto esté inscrito nas mutagies do saber hist6rico. Os efeitos do primeiro so cada vez mais claros. Escrevo estas Jinhas no fim da primavera de 1977, em um perfodo no qual a critica do totalitarismo soviético, e de forma mais geral, de qualquer po- der que se reclame do marxismo, deixou de ser o monopélio ou ‘quase-monopélio do pensamento de direita, para tornar-se o tema cen- tral de uma reflexto de esquerda, O que importa aqui, na refe- réncia a esses conjuntos historicamente relatives que so a direi © 2 esquerda, nao é 0 fato de que uma critica de esquerda tenha mais peso que uma critica de dircita, na medida em que a esquer- da tem uma posigo culturelmente dominante em um pais como a Franca, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, O que conta bem mais € que @ direita, para condenar 2 URSS ou @ China, nfo tem necessidade de remanejar nenhum elemento de sua heranga: baste-lhe permanecer no interior do pensamento contra-revolucionério, Ao pas- 50 que a esquerda deve enfrentar dados que comprometem seu sistema de crengas, nascido na mesma €poca que o outro. por isso que durante tanto tempo ela mostrou mé vontade em fazé-lo; & por isso que, ainda hoje, ela prefere freqiientemente remendar o edificio de suas convieg6es, em vez de interrogar a histéria de suas tragédias. No final das contas, pouco importa. O importante € que uma cultura de esquerda, uma vez que aceitou refletir sobre os Fatos, ou seja, sobre © desastre que constitui a experiéncia comunista do século X relagio a seus préptios valores, tenha sido levada a criticar sua pr6- prie ideologia, suas interpretacdes, sues esperancas, suas racionaliza- ses, £ nela que se instala e distancia entre a hist6ria e 2 Revolugio, pois foi ela que acreditou que a hist6ria estava inteiramente contida nas promessas de Revolugio, A partir desse ponto de vista, seria possivel escrever uma hist6ria a esquerda intelectual francesa ‘em relagao & Revolugo Soviética, mostrando que o fendmeno stalinista enraizou-se em uma tradiglo jaco- bina simplesmente deslocada (a dupla idéia de um comego da hist6ria 25 © que ado, & nog de desvio em relago a uma origem que permaneceu pura permitiv salvar o valor importantissimo da idéia de Revoluglo, E esse cadeado duplo que comesgou a ser arrebentado: em primeiro lugar porque, tor: nandose a referdnc’ bumerangue, jléncia bolchevique pelo precedente francs, em nome de circunstincias comparéveis. Hoje, 0 C com que o Terror seje repensado, em virtude de uma i As duas revolugées permanecem ligadas: ma: século, elas eram sistematicamente absolvidas com a desculp , de fendmenos exteriores ¢ estranhos & a0 contrétio, elas so acusadas de serem consubs- ws de opressio meticulose dos corpos ¢ espiritos. 0s radicais na gestdo da comemoracdo republicana, agarra-se a ele e no brinca com as tradigées. Cada vez mais apegada a0 seu curto ps como se fosse um patriménio social, ela simplesmente nao f pela desvalorizacdo dese patriménio entre o: iculdade nfo somente de desposar, mas cionaria, mas ‘5 fem geral deixou de ser esse saber onde se considera que os “fatos” falam por si mesmos, desde que tenham sido estabelecidos segundo as regras. Ela deve enunciar problema que t canonizado por uma racio} muda seu cardter, 26 de réncia de claboragio intelectual, a forga elementar que ele sua funggo de advento, Sobre esse ponto, expliquei-me em um dos ensaios que compdem este Tivro: essa racionalizagdo nfo existe nas obras de Marx, que nfo contm uma interpretacdo sistemética da Revolugdo Frances &0 produto de um encontro confuso i itutiva da. propria iSrico, consubstancial a0 marxismo, Com efeito, o marxismo — ou digamos, esse marxismo que Jaurés na histéria da Revolugéo — desloca para 0 econd- de do problema da Revolugao, Ele procura enraizar nos progressos do capitalismo « lenta promosao do Terceiro Estado, cara & historiografia da Restauragfo, ¢ ¢ apoteose de 1789. Assim procedendo, ele ao mesmo tempo estende & vida eco: forma, elas fazem explodir 0 sobrepor uma anélise das um relato dos acont 10 ideol6gico. ‘menos a vantagem de sublinhar istoriografia revoluciondria, o da de interpretasdo com a cronologia do acontecimento. irmos, a qualquer prego, em conservar a idéia de ume ruptura a no tempo histérico, fazendo dessa ruptura o alfa e Omega da ia de Revolucao, seremos wvelmente conduzides, qualquer 8 absurdos terpretacao, quadro cronolégico’canénico, ele se feita sob 0 modo econd 1789 & 1794 € todo o transformado, j4 que a antiga monarquia desapareceu, Mes a que entre essas mesmas datas 0 tecido social ou econdmico da nacio iets, de diferentes tamanhos, que ar a "Revolugic gue nao tem muito sentido en relagio 2 esse tipo de irmaco, mesmo que ela possa ter causas que nfo Em outros termos, qualquer conceitualizacio da histéria revolu- dria comesa pela critica da idéia de revolugao, tal como foi vivida Por seus aiores ¢ veiculada por seus herdeiros: ou seja, como uma mudanga radical, © como a origem de um tempo novo. Enquanto esse a néo estiver presente em uma histéria da Revolugéo, a super posi¢ao de uma interpretagdo mais econémica, ou mais social, a uma terpretardo puramente politica, nada mudaré naquilo que todas essas histérias tm em comum, ou seja, o fato de serem figis & vivéncia revoluciondria dos séeulos XIX ¢ XX. A sedimentagio econdmica e social trazida pelo marxismo talvez s6 apresente a vantagem de fazer aparecer claramente, através do absurdo, as aporias de qualquer his- {ria da Revolusio que petmanega fundada sobre a vivéncia interior dos atores dessa hist6r E aqui que encontro Tocqueville ¢ que avalio seu genio. Na mesma época em que Michelet coneebeu a mais penetrante das hist6- rias da Revolucto jé escritas sob o modo da identidade — uma his- t6ria sem con: de achados do coragao, marcada por uma espécie de a das almas e dos atores — Tocqueville imagina, € ele foi o nico a tela imaginado assim, a mesme hist6ria, sob o modo inverso da interpretasio sociolégica. Portanto, a questio nio é que o atistocrata normando néo compartille das mesmas opinides que 0 filho do impressor jacobino: Tocqueville nao esereveu, por exemplo, uma hist6ria da Revolugdo que se encontra mais “A direita” que a de Michelet. Ele escreveu uma outra hist6ria da Revolugéo, fundada em uma critica da ideologia revolucfonéria e daquilo que constitu na sua opinio, a iluséo da Revolugdo, Francesa sobre si propria. , a reviravolta conceituel de Tocqueville néo deixa de apre- sentar analogias com equela que marcou sua andlise do fenémeno ameticano. Antes de Démocratie en Antérigue, a América & pensada pela cultura européia como a inféncia da Europa, a imagem de seus Primérdios: a instalago, 0 desbravamento, 0 homem conquistando um mundo selvagem. O livro de Tocqueville, operando quase somente por dedustio a partir da hipdtese central da igualdade, vira essa im gem do avesso, A América, ele diz aos europeus, no é a sua inffinc €0 sou futuro, f 1é que desabrocha, livre das restriges de um pasado sristocrdtico, a Democracia, que seré também o futuro pol 28 da velha Europa, Da mesma marira, mas em sentido inverso, Tocque- ville renova seu paradoxo vinte anos depois, a respeito do Revolugao, que nunca deixou de estar — mesmo e sobretudo durant: 0 “cesvio’ ameticano — no centro de seus pensamentos, Ele pergunta a seus con- temporaneos: “"Voeés acreditam que a Revolugio Francesa é uma rup- tura brutal em nossa histéria?”, Na realidade, ela é o desabrochar do nosso passado, Ela conclui a obra da monarquia. Ao invés de const tir ume ruptura, ela s6 pode ser compreendida em e pela continu dade histérica, Ela completa esta continuidade nos fatos, embora aparega como ruptura nas consciéncias. Assim, Tocqueville elaborou uma critica radical de qualquer histéria da Revolugdo fundada na vivéncia dos revohicionérios. E essa critica 6 ainda mais aguda por permanecer no interior do campo poli- tico — as relagGes entre os franceses e 0 poder —, justamente aquele que parece ter sido mais transformado pela Revolucio. O problema de Tocqueville € 0 da dominagio das comunidades ¢ da sociedade civ pelo poder administrativo, seguindo-se & extenséo do Estado centr zado; este assenhoreamento do corpo social pela administragao nao & somente 0 trago permanente que une o “novo” regime ao “antigo”, Bonaparte a Luis XIV. Mas € também aguilo que explica, através de uma série de mediagées, a penetragdo da ideologia “democrética”” (ou ja, igualitéria) na antiga sociedade francesa: em outros termos, ‘Revolugdo”, naquilo que tem de constitutive, foi, na sua opinio (Estado administrative reinando sobre uma sociedade com ideologia igualitéria), amplamente cumprida pela monarquia, antes de ter sido sriminada pelos jacobinos e pelo Império, E aquilo que é chamado 2 Revolugéo Francesa”, esse acontecimento repertoriedo, datado, lou- do como uma aurora, nao é sengo uma aceleracdo da evolugéo poll- a ¢ social anterior, Destruindo nfo @ arlstocracia, mas o princ{pio aristocrético ne sociedade, ele suprimiu e legitimidade da resistéacia social contra o Estado central, Mas ¢ Richelieu e Lufs XIV que deram © exemplo, Tento ansliser, em um dos ensaios seguintes, es dificuldades sus- citadas por esse tipo de interpretagao: se Tocqueville nunca escreveu uma verdadeira hist6ria da Revolugdo Francesa, parece-me que isto se deve ao fato de que ele conceitualizou apenas uma parte dessa histéria, a da continuidade, Ele concebe « Revolugdo em termos de um balanco, no em termos de um acontecimento; como um proceso, no como uma quebra. EB ele morreu no momento em que, trabalhando no se- gundo tomo, estava em face do problema que consistia em pensar 29 esse quebra. Mas o que permaneco fundamental na obra desse dedutivo © abstrate, providencialmente extraviado em um dot superinvestido pelo narrative, € que ela escapa & histériea dos atores ¢ 20 mito das origens. Tocqueville no se encontra mais no interior das mesmas escolhas que Necker, Luis X ou Robespieme, Ele esté a parte. Ele fala de outra E por essa raxfo que seu livro ¢ mais importante pelo méiodo que sugere do que pela tese que defende, Parece-me que os historia. dores da Revolucdo escolheram ¢ sempre terfo que escollier entre Michelet e Tocqueville: o que ndo quer dizer entre uma histéria repu- blicana € uma hist6ria conservadora de Revolugéo Francesa — pois essas duas hist6rias estaxfo ainda atades por uma problemética co- mum, que Tocqueville precisamente recusa, Aquilo que cs separa encontra-se em outra parte: 6 que Michelet faz a Revolugio reviver a ichelet comunga, comemora, enquanto Tocqueville mordvel entre os valores, o povo e a ago. dos homens. Tocqueville ndo se limita a questionar eséa transparéncia, ou essa coincidéncie. Ele Pensa que elas mascaram uma opacidade méxima entre a agdo humana € seu sentido real, opacidade caracterfstica da Revolusdo enquanto perlodo histérico, devido ao papel que nela desempenha a ideologia democrética, Existe um abismo entre o belango da Revolugdo Fran- cesa eas intengées dos revoluciondrios, Eis por que L’Ancien Régime et la Révolution continua sendo, em ‘minha opiniéo, o livro capital de toda a historiografia revoluciondria, Eis também por que ele sempre foi, hé mais de um séeulo,.o parente Pobre desse historiografia, mais citado que lido, e mais lido que com- Preendido.” De direita ou de esquerda, realista ou republicano, conser Vader ou jacobino, o historiador da Revolusio Francesa toma o dis. curso revelucionério como se fosse indiscutivel, pois ele se situa no Interior desse discurso: desde entdo ele nunca deixa de revestir essa RevolucSo dos diferentes semblantes que ela prépria se conferiu, inter- mingvel comentério de um afrontamento ao qual ela teria, de uma vez por todas, atribuido sentido, pela boca de seus herdis, Assim, é iso que ele acredite, jé que ela assim o afi truiu @ nobreza, quando ela negou seu principio; que a Revolugao fun dou. uma sociedade, quando ela afirmou valores; que a Revolugdo uma origem da histéria, quando ela falou de regenerar 0 homem. 30 Nesse jogo de espelhos onde 0 historiador e a Revolue%> confiem plenamente um na palayra do outro, pois a Revolugéo iornowse @ principal figura da histéri ona insuspeita dos novos tempos, Tocquevi se, nesse discurso da ruptura, ilusio de uma mudanga? A resposta A questio nfo 6 simples, ¢ a prépria questo nio con- tém toda a hist6ria da Revolusio, Ela é provavelmente indispensdvel para uma conceitualizagéo dessa hist6ria. E através de sua falta que podemos medir sua importdncia: car de colocé-la, o historiador € levado & execragio ou & celebracio, que so duas maneitas de co- memorar. el mais profundo: e se s6 houves: eres, © anpoder do poder rerolsioniro, do tempo em que ae rdo ses detox, staves du quan de Reber reconquisiou também sua densidade e seus interesses; as ses da ago deixaram de recobrir completamente o jogo das forcas sociais © os ‘os politicos. Subitamente, a guerra dos a =o sella que a guerra da Montanha escondia: ela toma a seu a rgo, transformandc ras, as tendéncias seculares da sociedade francesa, 4 revitalizou o espirito de cruzada, em um velhfssimo pais da cri tandade. Reforsou, ou recriou, a autoridade dos gabinetes e do poder zznl, qu eram congustas de monrgue, Conedoe so pove © teira © @ gléria militares, que tinham sido durante tanto tempo a teste oa honra dos nob 3° Se a bandeira da igualdade reine em = ss dot ag tad @ nagao, nao € apenas por ser nova; & verdade que : ‘ra os franceses das injusticas de seu pasado, mas também resti hs, puieadas pela democrcin, ag abies devon ats Dessa forma, 0 9 de termidor marca niio © da Revolugio, isso de sun forma mas pus. Devlvendo a0 soils independen och nee @ morte de Robespierre faz-nos passar de 88 ‘Ao mesmo tempo que dues épocas, 0 9 de termidor separa dois conceitos da Revolucao. Ele coloca fim & Revoluglio de Cochin, Mas faz aparecer a Revolugéo de Tocqueville, Essa encruzilhada cronol6- gice € também uma fr i Ela recorta diferentes inter- pretagoes sob a aparén ‘Nesse sentido, Cochin coloca-se sob mesma insignia que @ his- t6ria universitéria de esquerda do século XX, pois, como ela, inte- tarlamente pelo fenémeno jacobino. Ele escolhe portanto, . © perfodo que ela privilegiou por preferéncia © que termina com a queda de Robespierre. A iinica diferen- ga (que &, som divide, fundamental) € que a historiografia jacobina toma a0 pé da letra 0 discurso jecobino sobre si préprio, fazendo da ipacdo popular no governo a caracteristica da época. Ao passo ‘que Cochin vé no jecobinismo um discurso imaginério do poder (a vontade do povo) que se transforma em um poder absoluto sobre @ sociedade, Mas nos dois casos, € claramente um sistema de poder que se rompe em 9 de termidor. Permanecendo-se dentro dos critérios implicitos da historiografia de esquerda, esse recorte €, slis, cada vez mais incompativel com os fatos conhecidos, j4 que os trabalhos de D, Guérin e de A, Soboul demonstraram, cada um & sua maneira, que a ditadura robespierrista instalou-se somente pela repressio do movimento das seq&es, especial- 89 mente no outono de 93 ¢ na primavera de 94: e tio bem, que o sardter “popular” do poder que cai em Termidor € cada ver m colocado em questo, mesmo pela historiografia mais “robespierrista’ no presente caso, Soboul. Se essa tradiga apesar disso, a data de 9 de termidor como um corte decisivo, é porque ela veicula sua verdade existent poderosa que os. progressos da erudigéo: ou seja, que existe um legendério revolucionério que morre som Robespierre, ¢ que sobrevivera a priséo de Jacques Roux ou & execugtio de Hébert. E Cochin quem nos fornece a chave para esse legend: inindo a Revolugo pele fen6meno jacobino, e o fend: ‘meno jacobino pela apropriagae simbélica da vontade do povo. Pois o que desaparece em 9 de termidor ndo é a parti massas no governo da Repiiblica. Essa participagdo é inexistente durante os poucos meses da ditadui i ¢ julho de 94; e durante todo 0 periods ca, ela 6 de qualquer forma, cont ites — clubes, segBes, cor a Convencao para figurar 0 povo. Robespierre é, nesse se mente @ encarnagio final dessa identidade mitica. Fe Poder que 0s conjurados de Termidor derrubam. Portanto, no se trata simplesmente da substituiggo de um poder por outro poder, como em um golpe de Estado, ow pot ocasio de uma mudanga de maioria, Trata-se do de um esse sentido, mas nesse sentide somente, do © poder é constitufdo pela representagio q santemente de si préprio —'a no ser que desaparega — como algo hhomogéneo ¢ transparente ao “'povo"; ge ele acaba por set expulec dessa posicio ceder © lugar ao grupo ou so homem belece essa homogencidade ¢ essa trans- A Revolugio jramente contida em um discurso jidade democrética, de Robespierre, ela nfo tem mais leg Possui uma legalidade (mesmo quando a viola), Ela pasta a ¢: inteiramente contida nos impasses da legalidade republicana Isso quer dizer que a ideologia revolucionéria d twir simultaneamente 0 poder p carse no lugar desses dues insténcias, em nome da soberania do povo. Essa ruptura assinalada, imediatemente ap6s 9 de termidor, pela exuberncia das manifestagées do corpo social ¢ pela execragio geral 90 de consti- e de colo- tos, das paixdes ¢ dos interesses. A liberdade reenco: jor tem como contetido essencial uma revanche do soci 4 ideologia: & por essa razio que ela apresenta 20 observador uma que choca os admiradores do Incorruptivel. im uma outra Revoluedo escon- a sucede, e insepardvel dela Revolugdo dos interesses. estd nos negécios © real reira na guerra; nga”, escreve Tocqueville, ugio"; ele quer dizer que 0 que havia de io” na dade francesa apés Termidor exam seus interesses, e nfo mais sua a; sua vontade de conservar ou de defender as vantagens ad c ico da hist6ria humana, Tendo deixado de ser se um balango, Reconquistads ¢ reto- mada pela sociedade civil, ela oferece a lade de uma contabl- we de perdas e gankes, onde Tocqueville pode ler, meio século arde, a partir desse posto de observago, tudo 0 que essa conta idas € no mais o re um advento, a Revolugio tornat toda # méquina do poder, ac mesmo tempo, cafa em frangalho Mas como ele nao elaborou uma teoria sobre 0 Terror, néo fornece também uma explicagio sobre a impossibilidade do dito Terror. Pri- sioneiro de seu conceito de Revolugio-continuidade, ele colocou entre um vasto paréntese 0 estudo das formas politicas sucessivamente erie das pela Revoluedo Francesa entre 1789 ¢ o Consulado. Se 0 Terror tora: apts 9 de termidor, isso se deve, seguramente, ao fato de a sociedade ter recuperado sua aut em relacéo ao politico. Mas essa prépria recuperagio 36 fc 1 porque @ ideologia revolucionéria deixou de ser coextensiv a0 poder. As representagdes da ago no sio mais, a partir de entio, dominantes, mas subotdinadas & aco. E os valores que constituem a1 vos dessa ago sfo di ago, deixal tos dos atores: eles se tornaram sua identidade, Para defender a Rept- blica contra a ofensiva realista intema de 1798, 03 termidorianos nfo t8m mais necessidade de afirmar que eles so “o povo”: essa é toda 4 diferenga entre © Terror robespierrista © o dos frutidorianos, O pri dade, enquanto o segundo tem somente meiro ¢ um ato de Ie lum carétet operacional: 0 primeiro, durdvel e sangrento, é u da Revolucdo, a0 passo que o segundo, logo bloqueado pela resistén- cia da sociedade, ¢ um expediente que marca o fim do poder temic doriano. Esse poder, que deixou de ser investido pelo Terror, e que ainda ndo o foi pela administragdo, ndo tem mais nem » forca da Revolugio nem a da lei Nio seria des das admi I demonstrar, analisando-se as Iaboriosas ragées do Diretério sobre a ordem nas ceri ideologia revoluciondria degradou-se a. Nao que ela fosse menos necess em _um certo sentido ela o é ainda ve durante . Bois 0 governo termidoriano niio consegue se conformar a legalidade que ele Préprio sc outorgou. Mas ela nfo exeree as mesmas fui mudou de natureza, Como 0 poder é fundado, a partir desse momento, sobre uma seqiiéncia de delegacdes de soberania, ela néo é mais aquilo que © define, e que o torna conforme a vontade do povo, Ela lo que © ajuda, através da educagio republicana dos cidadios. Fla ¢ aquilo que © serve, através da pedagogie da igualdade, Ele é a traduz sua vontade ¢ seus interesses © no mais o que Ihe dé auto ridade. © funcionamento do regime do Diretério vai exclut-la como io, pressupondo-a como meio, Pouco importa, no caso, que ele tenha tanto mais orta, » que ele tenha tanto mais necessidade dela or ser mais desaereditado pela opinido publics, e menos no que se refere ao respeito da legalidade. A conjuntura em quo ole se encon- ta preso © arrasta sem modificar sua natureza. A ideologia revolt ciondtia pessou de prineipiadora a subordineda, do discurso da leg midade ao da propaganda republicana, Ela era, sob o regime da demo. cracia pura, o préprio luger do poder. Agora, nfo age sendo como instrumento do Estado representative modemno menses Ela desempenha, entretanto, um papel mais profundo do que faz Stet essa versio puramente instrumental, adaptada do cinismo termi- doriano. E que ela conserva de suas origens bem recentes a dignidade Suprema de ter sido a prépria Revolugio, e de continuar a representar 92 imagem, aos olhos de seus internos € externos. E por esse razdo que ela nao é somente um disfarce dos intexesses burgueses, um simples m da heranca revolucionstia, un do os deputades regicidas, os proprietétios enriquecidos e os campo- neses-soldados; cla é, com’a guerra, e uma sustentando a outra, o que permanece vivo da Revolugéo, ¢ que constitui de forma insepardvel & democracia e a nao. A Republica representativa € ao mesmo tempo inde para assumir duravelmente a res- ponsabilidade por essa sedimentagao, que mistura interesses idéias igualmente poderosos. E Bonaparte que vai pagar seu duplo prego histérico: um Estado forte, e @ guerra permanente. ‘Assim, a ideologia revolucionétia, que se encontra entre 1792 € 1793, sob sua forma quimicamente pura, na origem da guerra e do ‘Terror, vai se torner, em 1799, sob uma forma semidegradada, semi- opiniao, semilegitimidade, a chave do erguesia do Brumério procurava um ima representativo. © sentimento popular impulsiona um general totioso a instaurar um Estedo absoluio, Como explica Marx, é uma versio administrative do Terror que encerra a Revolugéo Francesa. ‘Tendo.a concebido apenas em termos de um balango, Tocqueville tem duplamente razio de ter julgado que esse balango € principal- mente politico cultural (no sentido mais amplo do termo) e que ele se sustenta, antes de tudo, no reforgo do Estado centralizado, desem- baragado dos obstéculos que Ihe opunhe o tecido social ¢ administra tivo do Antigo Regime. © que Tocqueville chama, em seu tltimo livro, de “‘democracia”, 6 muito mais uma cultura igualitéria do que um estado da sociedade; essa cultura deve sua extensio social ao desenvol- jas pela lei. Fo triunfo dessa cultura, ¢ de uma rag centralizada da qual ela € causa ¢ efeito, que constitui fo da Revolugdo Francesa, reunindo Luis XIV e Napoleso. que falta a essa hist6ria, como tento mostrar, € a anélise das mediagbes através das quais ela passe, sobretudo, da mais impor- tante e improvavel dentre elas: a propria Revolusio, problema € compreender como a continuidade aparentemente ivel de um fenémeno se produz através da descontinuidade aparentemente radi- cal de uma Revolucao, ‘Vemos claramente que essa Revolugdo elimina alguns obstéculo jo-0s pelo exercicio de uma eutoridade administrativa central. 93 Mas 0 que esse livro quer sugerir vai além dessa constatagio neg: € que existe na cultura democrética, que é 0 ve uso Francesa, nessa transfertncia de 0 ot pelo dircito, a 1789 ¢ 9 de termidor ria faz do paradoxo da democracia, explo- rado por Rousseau, a tinica fonte do poder. Ela integra sociedade e Estado da vontade do povo; e as imagen: obsessdo pela legitimidade so o Terror ¢ a guerr tas na escalada dos grupos pela apropriegio do pri © Terror recompée, sobre © modo democrético, uma espécie de dire’ divino da autoridade piblica, Essa configuracéo é rompida em 9 de termider, pela recuperagao da independéncia da sociedade, que reaparece com sta densidade, seus interesses, suas divisées, ¢ que tenta fundar novamente uma partir da representaglo el lugo Francesa termi sirando que carrega consigo a falar vas teferentes 2. mobilizagéo de recursos ¢ homens, ela é aquilo através do qual o génio da Revo- lugdo murmura ainda aos franceses a palavra messidnica da: origens No extremo dessa légica ambjgua encontra-se Bonaparte, ou seja, um rei da Revolugio, A antiga imagem do poder, ligada & novs dade, Assim, ao fazermos Tocqueville tomar, em detrimento «la erono- logia, um desvio passando por Augustin Cochin, obtemos uma Revo- lugdo Francess cuja natureza pode ser contida em uma dialética do poder ¢ do imaginério, e o seu primeiro balango, dez anos apés ter fo de uma realeza da democracia. A Revolugao ‘0 do poder, que no quebra a continuidade, e nko deriva para a democracia pura, senfo para melhor garantir, em um outro nivel, @ tradigio absolutista, EB esse © processo pelo qual # sociedade francesa recompée ao mesmo tempo sua legi tica © seu poder admi compreender como a I 94 € social em seu principio. A legitimidade democrética da Revolucdo € ao mesmo tempo seu contrétio e seu avesso: ela recupe ra 0 mesmo espaco, que recusa despedacar, e investe com o mesmo jo homogéneo principiador qualquer outra nova ordem, mas a partir da vontade do povo. Nenhuma burguesia “liberal” conseguiu, durante todos esses anos, ser a encaragdo ou o intérprete dessa legitimidade, Nenhuma repre- sentagao parlamentar conseguiu transformer duravelmente em leis os 33 € deveres dos novos cidadios. A democr no governo do Terror. E se Bonaparte consegue € porque constitu sua versdo pl i eneontrada sob a qual a sociedade pletamente dela, permanecendo independente, superior a ela, como © Terror, mas entregando um novo rei o que estava procurando em digo em seus termos: @ condigo minou, pois a Franca reencontra sua hist6ria, ou melhor, recon suas duas histérias. para compreendé-la, aceitar consideré-la em seu centro © no diluf-la em um vago evolucionismo, destinado a conceder um acréscimo de dignidade as virtudes de seus atores, O que faz a originalidade da Franga contempordnea nfo é que ela tenha pasado da monarquia absoluta ao regime representativo, ou do mundo nobiligrio A sociedade burguesa: a Europa percorreu o mesmo caminho a primeira experiéncia da democracia. 95