Você está na página 1de 6

Estádios de Comportamento a Flexão

Como principio fundamental de projeto das estruturas de concreto, exige-se que a segurança em relação aos estados limites últimos jamais dependa da resistência à tração do concreto. Assim sendo, nas peças estruturais de concreto armado, os esforços internos de tração são absorvidos por armaduras de aço passivas. Isto é, por armaduras que não introduzem esforços internos nem deformações adicionais na peça, e que entram em funcionamento em decorrência das deformações da própria estrutura provocadas pelas ações externas. O concreto armado deve ser idealizado como um material composto, pelo concreto e pelo aço, respeitando-se o funcionamento solidário destes dois materiais.

A técnica de armar as peças estruturais deve se basear no conhecimento: da distribuição dos esforços internos. Para

cada um dos diferentes tipos de elementos estruturais existentes em uma construção, o arranjo das armaduras de aço

deve seguir regras específicas estabelecidas com base em modelos que procuram reproduzir o comportamento real destas armaduras, solidárias ao concreto, até os estados limites últimos.

16. TIPOS DE FLEXÃO

Flexão Normal simples ou composta:Plano de carregamento ou resultante é perpendicular a linha neutra 8 (LN) Flexão Obliqua simples ou composta: Ocorre quando plano de carregamento não é normal a LN ou quando a seção não é simétrica Flexão Simples: ocorre quando não há esforço normal atuando na seção (N=0) Flexão Composta: ocorre quando há esforço normal de tração ou compressão atuando na seção (N0) Flexão Pura: trata-se de uma flexão simples ou composta em que não há esforço cortante atuante Flexão Não Pura: ocorre quando há esforço cortante atuando na seção

OBS:

Nas vigas geralmente o esforço normal é desprezível dessa forma serão consideradas inicialmente apenas sujeitas a Flexão Normal Simples

16.1. Modelos para as vigas retas à flexão simples nos ELU

Para o estudo do funcionamento das vigas de concreto armado, a literatura tradicionalmente se utiliza dos resultados dos "ensaios de Stuttgart", realizados por Leonhardt e Walther.

O ensaio consiste no carregamento gradativo, até o colapso, de uma viga bi-apoiada, conveniente armada sob a ação

de duas cargas concentradas simétricas (fig.23).

P P a a M Pa P P V a a
P
P
a
a
M
Pa
P
P
V
a
a
simétricas (fig.23). P P a a M Pa P P V a a Figura 23- Ensaio
simétricas (fig.23). P P a a M Pa P P V a a Figura 23- Ensaio

Figura 23- Ensaio de Stuttgart

O trecho central da viga está submetido à flexão pura, e os trechos extremos, à flexão simples não-uniforme. A seção

transversal da viga submetida ao momento fletor passa por três níveis de deformação denominados estádios.

8 Linha imaginaria que corta a seção transversal da viga no ponto em que a tensão é nula

Universidade Veiga de Almeida Apostila da Disciplina Concreto Armado I-CIV8010 Profª.Maria Izabel Barrientos

28

Estádios de Comportamento a Flexão

17. ESTÁDIOS DE COMPORTAMENTO À FLEXÃO

17.1. Estádio I (Elástico)

Em uma primeira fase sujeita a um momento de baixa intensidade (M1), a viga não apresenta fissuras, pois o concreto da fibra inferior não atingiu à tensão característica de tração (ftk). O funcionamento se dá no estádio I. Os pontos da peça não fissurada estão sob estados planos de tensões, normais e tangenciais, cujas trajetórias de tensões principais de tração e de compressão estão esquematizadas na fig.24. O diagrama de tensão normal ao longo da seção é linear.

σ1 P<P1 P<P1 σ2 d h Estádio I – trajetória das tensões principais bw
σ1
P<P1
P<P1
σ2
d
h
Estádio I – trajetória das tensões principais
bw

17.2. Estádio II (Fissuração)

Figura 24- Estádio I

Com o aumento da carga, e consequentemente do momento fletor (M2) as fibras na região central ultrapassam a resistência característica a tração (ftk) e começam a surgir as primeiras fissuras verticais que se estendem até pouco abaixo da linha neutra. O funcionamento desta fase é no estádio II, quando os esforços de tração passam a ser absorvidos pela armadura. É usual se desprezar totalmente a contribuição do concreto à tração enquanto que o concreto à compressão continua em regime linear-elástico No início desta fase, os trechos extremos ainda estão funcionando no estádio I, mas o aumento progressivo da carga até ao colapso forçará toda a viga a trabalhar fissurada, com exceção de regiões muito pequenas, próximas aos apoios. Neste trecho, em presença das tensões cisalhantes, as fissuras são inclinadas.

P P Estádio II – no limiar do estado limite
P
P
Estádio II – no limiar do estado limite

17.3. Estádio III (Ruína)

Figura 25- Estádio II

Com o aumento da carga e do momento fletor atinge-se o nível próximos ao da ruína (MU). Nesta fase, ocorre uma plastificação progressiva do concreto comprimido. Atinge-se à situação limite, com ruptura da seção por compressão do concreto. As fibras comprimidas do concreto entram em patamar de escoamento a partir da deformação específica de 2chegando a atingir sem aumento de tensão 3,5. Supõe-se que a distribuição de tensões do concreto ocorra segundo um diagrama parábola retângulo. Nesta fase ocorre também um alongamento excessivo da armadura tracionada, o que é, convencionalmente, considerado como uma situação última da peça fletida.

D B P A P C E Modos de Ruptura – estado limite último
D
B P
A
P C
E
Modos de Ruptura – estado limite último

Figura 26- Estádio III

Estádios de Comportamento a Flexão

Md (de cálculo) Mk (característico) Fissuração estabilizada Ruptura
Md (de cálculo)
Mk (característico)
Fissuração
estabilizada
Ruptura

Figura 27- Estádio de comportamento à flexão

Portanto:

Estádio I (não se admitem fissuras): o concreto resiste à tração

Ia – em regime plástico Estádio II(estados limites de serviço): concreto não resiste a tração, tensões de compressão no regime elástico. Estádio III (estados limites últimos): tensões de compressão em regime plástico, iminência de ruptura à compressão.

em regime plástico, iminência de ruptura à compressão. I – em regime linear A verificação do

I – em regime linear

A verificação do concreto no Estádio I é efetuada em casos muito especiais, em que não pode se admitir fissuração em hipótese nenhuma (o que pode ser exigido, por exemplo, no caso de alguns reservatórios de líquidos). O funcionamento no Estádio II é considerado nas verificações do concreto em serviço, como para os estados limites de abertura de fissuras, de limitação de deformações e de excesso de vibrações. Já o funcionamento no Estádio III é considerado nas

verificações dos estados limites últimos, como para solicitações normais (flexão e forças normais) e tangenciais (forças

de

cisaIhamento ).

O

cálculo de estruturas de concreto armado se da no estádio limite ultimo (estádio III) já que buscamos projetar

estruturas que resistam aos esforços atuantes sem chegar ao colapso mas garantindo certa economia.

σcc σcc σcc σcc M σct=0 σct=0 σct σct
σcc
σcc
σcc
σcc
M
σct=0
σct=0
σct
σct
Estádio I M ≤ M1
Estádio I
M ≤ M1

Estádio II M1 M M2

Estádio III M2 M Mu

Figura 28- Estádio de comportamento à flexão para o concreto

18. CONSIDERAÇÕES INICIAIS SOBRE ARRANJO DAS ARMADURAS

O panorama de fissuração da peça ao atingir o estado limite último, pode ser muito diferente daquele que poderia se

prever da análise das trajetórias de tensões elásticas, pois, depende do arranjo para a distribuição das armaduras. A

princípio existiriam duas possibilidades para o arranjo das armaduras.

Uma primeira, teoricamente possível, é baseada na idéia da substituição local de material, onde barras de armadura seriam distribuídas por todo volume da peça estrutural, de modo que ao se abrir uma fissura já existiria uma armadura capaz de absorver a tração liberada do concreto. Neste caso, a distribuição dos esforços internos seguiria o mesmo

Universidade Veiga de Almeida Apostila da Disciplina Concreto Armado I-CIV8010 Profª.Maria Izabel Barrientos

30

Estádios de Comportamento a Flexão

padrão de antes da fissuração. Porém, nada garante que este arranjo seja o mais eficiente para a segurança em

relação aos estados limites e nem o mais econômico. A segunda se baseia no fato de que uma parte das barras de aço

é melhor aproveitada quando empregada de forma concentrada, em posições preferenciais da estrutura. Este é o

princípio dos arranjos de armadura padronizadas estabelecidas de acordo com modelos nos estados limites últimos das peças estruturais. Estes modelos devem sempre garantir a estabilidade, global e local da peça.

Para o trecho central da viga, onde as seções transversais estão solicitadas à flexão pura, o modelo típico consiste

seções resistentes formadas por um banzo comprimido de concreto e um banzo tracionado correspondente à armadura longitudinal disposta junto à face inferior. Para os trechos extremos, sob flexão não uniforme, o modelo idealizado é o de uma treliça, que considera a interação entre o momento fletor e a força cortante. A treliça tem banzos longitudinais, comprimido e tracionado, como no trecho central, ligados por diagonais comprimidas e tirantes. As diagonais comprimidas ditas bielas, representam o concreto entre as fissuras. Os tirantes verticais ou inclinados representam a armadura transversal da viga (estribos), completando o esquema estático da treliça e costurando as fissuras.

em
em
Biela de concreto Zona comprimida de concerto Armadura Armadura Transversal de flexão (tirantes)
Biela de concreto
Zona comprimida de
concerto
Armadura
Armadura
Transversal
de flexão
(tirantes)

Figura 29- Modelo de treliça para dimensionamento de viga nos ELU

19. HIPÓTESES BÁSICAS PARA O CALCULO

As condições analíticas de segurança estabelecem que as resistências não devem ser menores que as solicitações e

tipo de

construção considerada. Os estados limites devem ser calculados para poder garantir a segurança exigida contra a

ruína. Uma estrutura oferece segurança quando possui condições de suporte, sem atingir um estado limite imediato ou

a longo prazo, em condições não precárias de funcionalidade.

devem ser verificadas em

relação
relação

a todos os estados limites e todos os carregamentos especificados para o

Método Semiprobabilístico de cálculo:

a)

Majoram-se as ações e os esforços solicitantes de modo que seja pequena a probabilidade desses valores serem atingidos ou ultrapassados.

b)

Reduzem-se os valores das resistências dos materiais, de modo que seja pequena a probabilidade dos valores reais descerem até esse ponto. Na prática a estrutura terá uma resistência maior do que a considerada em projeto o que compõem para a segurança.

c)

Equaciona-se a situação de ruína dizendo que o esforço solicitante de cálculo encontrou o esforço resistente de cálculo Rd=Fd

A flexão simples (M ≠ O e N = O) é a solicitação normal característica das vigas. A flexão subentende a existência, na

viga, de um banzo comprimido e de um tracionado.

Nas vigas de concreto armado, são dispostas barras longitudinais de aço (armadura de tração de área total A s) que irão absorver a tração decorrente da flexão. Eventualmente, são necessárias barras longitudinais junto ao bordo comprimido (armadura compressão de área total A s ' ) que irão colaborar com o concreto na resistência à compressão.

Estádios de Comportamento a Flexão

Estádios de Comportamento a Flexão M d = momento fletor de cálculo b w = largura

M d = momento fletor de cálculo

b w = largura da seção tranversal

Figura 30- Nomenclatura

h

= altura total da seção transversal

A

s = área de armadura de tração na seção transversal

A

s ’= área de armadura de compressão na seção transversal

d

= altura útil da seção = distância do CG de As à borda comprimida

d'

= distância do CG de As' à borda comprimida

x

= profundidade da linha neutra, indicada sempre pela altura da zona comprimida

Hipóteses Básicas

No estudo da capacidade resistente, são considerados os estados limites convencionais - estados limites últimos, para

o quais o comportamento da seção à flexão é admitido no estádio lII, sob as seguintes hipóteses básicas:

1) O concreto é considerado como um material não resistente à tração. Assim, no cálculo da capacidade resistente da seção transversal da peça, a contribuição do concreto à tração é desprezada.

2) É admitida a solidariedade perfeita entre cada barra de aço e o concreto que a envolve, assim, a deformação específica de uma barra da armadura é igual à deformação do concreto adjacente a esta.

3) É válida a hipótese da manutenção da forma plana da seção transversal até o estado limite ultimo. Hipótese de Bernoulli.

4) São considerados valores limites convencionais as deformações específicas dos materiais, que independem da resistência destes. Para o concreto, o encurtamento de ruptura à flexão simples é ε cd, = 3,5% o ; e, para o aço, o alongamento último é ε sd, = 10 % o .

5) São considerados os diagramas tensão-deformação convencionais de cálculo, com o coeficiente de minoração da resistência de aço γ s = 1,15. (NBR6118, item 7.2 e item 10.8 desta apostila)

Estádios de Comportamento a Flexão

σσσσs fyd φ -3,5 -εycd φ εyd 10 fycd
σσσσs
fyd
φ
-3,5
-εycd
φ εyd
10
fycd

εs()

6) A distribuição de tensões de compressão no concreto é dada pelo diagrama convencional parábola-retângulo (NBR6118, item 8.2.4), que pode ser simplificado para um diagrama retangular (fig.31). O coeficiente de minoração da resistência de concreto é γ c = 1,4.

bw Diagrama Parábola-Retangulo 0,85fcd Diagrama Retangular 0,80 ou 0,85fcd εcd 2‰ 0,8x Rcc x LN
bw
Diagrama
Parábola-Retangulo
0,85fcd
Diagrama
Retangular
0,80 ou 0,85fcd
εcd
2‰
0,8x
Rcc
x
LN
h
d
Md
z
εsd
d”
As

Figura 31- Distribuição de tensões na Viga

No diagrama parábola retângulo as tensões têm distribuição: parabólica para encurtamentos de O a de para encurtamentos de 2a 3,5.

2 ‰
2 ‰

; e uniforme

Nos casos em que a largura b w da seção diminui na direção da linha neutra para a borda mais comprimida, como ocorre nas seções circulares e triangulares, considera-se a tensão de compressão igual 0,80 fcd

Para os demais casos

a tensão de compressão igual 0,80 fcd Para os demais casos LN LN Figura 32- Variação
a tensão de compressão igual 0,80 fcd Para os demais casos LN LN Figura 32- Variação
a tensão de compressão igual 0,80 fcd Para os demais casos LN LN Figura 32- Variação

LN

de compressão igual 0,80 fcd Para os demais casos LN LN Figura 32- Variação da largura

LN

Figura 32- Variação da largura bw