Você está na página 1de 60
Ulf Hannerz Explorando a cidade Em busca de uma antropologia urbana Tradugao de Vera Joscelyne a &% evitoRA VOZES Petrépolis Sumario Agradecimentos, 7 1 A formagio de um antropdlogo urbano, 11 2 Etnégrafos de Chicago, 28 3 A busca pela cidade, 69 4A vista do Copperbelt, 131 5 Pensando com redes, 178 6 A cidade como um teatro ~ Contos de Goffman, 218 Conclustio — A construgao de cidades ¢ das vidas urbanas, 261 Apéndice ~ Conceitos analiticos em Explorando a cidade, 337 Referéncins, 345 Indice remissivo, 381 I A formagao de um antropdlogo urbano Apenas hé pouco mais de uma década, quase nao havia uma antropologia urbana. A preocupagio com o urbanismo como parte da civilizagio ¢ o inte- resse pela definico de suas propriedades interculturais, jé Ievaram uma série de pesquisadores a Timbuktu e a outros locais distantes, Mas, ainda no inicio da década de 1960, um estudante de urbanismo comparativo pode observar que os antropélogos eram “um grupo notoriamente agoréfobo, antiurbano por defini- a0” (BENET, 1963a: 212). $6 nessa década a tendéncia dos antropdlogos de ir para as cidades (ott, simplesmente, de permanecer nelas) tornou-se realmente consideravel. Houve varios motivos para isso. Nas sociedades “cxdticas” 4s quais 9s antropdlogos habicualmente dedicaram a maior parte de sua atencdo - ¢ que agora esto aprendendo a descrever como “Terceiro Mundo” — as pessoas, cada vez mais, deixayam as aldcias ¢ iam para novos centros urbanos em constante crescimento € € claro que os pesquisadores de suas vidas dificilmente poderiam desconsiderar esse fato. Nos Estados Unidos, muitos antropélogos estavam mais diretamente envolvidos com os desenvolvimentos locais, Na década de 1950, a imagem que os Estados Unidos tinham de si mesmos era a de uma sociedade de massa homogencizada c afluente; intelectuais queixavam-se de um excesso de conformismo medfocre, Na década de 1960, a etnicidade ¢ a pobreza foram re- descobertas e, na maioria das vezes, foram definidas como “problemas urbanos” Na Europa, a0 mesmo tempo, a migragao de mio de obra internacional ¢, em menor medida, 0 afluxo de refugiados de convulsoes politicas, estavam mudando © cardter de muitas cidades, Havia uma busca por novos conhecimentos ¢ os antropélogos sentiram que poderiam desempenhar um papel. Tinham se espe- cializado em “outras culturas”, mas as tinham procurado em lugares distantes. Agora, eles as encontravam do outro lado da rua, 1. Certumente também nao é um fato totalmente insignificante que em um niimero crescente de pats ses do Terceiro Mundo, pesquisadores estrangeiros j4 no cram particularmente bem-vindos. Além «disso, o financiamento para longos periodos de trabalho de campo no exterior parecia cada ver mais a Entre a presenga de antropdlogos nas cidades até o surgimento de uma an- tropologia urtiana, no entanto, houve ainda outro paso. A identificagio coletiva com a nova especializagao académica, ¢ o uso habitual do rétulo de antropologia urbana, foi mais uma coisa da década de 1970 do que da década precedente. O primeiro livro com o titulo Antropolagia Urbana surgiu cm 1968. Desde 1973, autores € editores (um pouco sem imaginacao) o usaram em mais cinco livros’. ‘A revista Antropologia Urbana comecou a ser publicada em 1972. Obviamente, naquele momento, 03 antropélogos urbanos j4 estavam formando uma comuni- dade, Candidatavam-se a vagas de especialistas em seus proprios departamentos de antropologia, encontravam-se em suas proprias conforéncias © as cartas que rrocavam nfio eram pequenas, isto quando nao escreviam compéndios para ensi- nar aos alunos sobre as cidades. ‘A reagio a esses desenvolyimentos tem sido um tanto confusa. A antropo- logia urbana, como € agora, pode reivindicar certas realizagoes. Ela também en- frenta varios problemas nao resolvidos e nao hd consenso sobre suas perspectivas. Um profissional sugere que a “antropologia urbana pode vir a ser 0 novo niicleo criativo da antropologia social comparativa moderna” (GUTKIND, 1968: 77); outro considera a delimitacdo de tal area “falsa ¢ retrégrada, na medida em que tende a criar uma justificativa para manéer um tema dentro de uma disciplina que nao pode ¢ nao deve lidar com ele” (LEEDS, 1972: 4). Para alguns, os re- cursos tedricos e metodolégicos da tradigao antropolégica parecem insuficientes para a pesquisa urbana; para outros, 0 problema € justamente que os novos ur hanologistas nao esto prestando ateneio suficiente as ideias desenyolvidas por antropdlogos cm outros contextos sociais. Os que tém alguma consciéncia do que se passa na disciplina-irma da sociologia podem ter notado que a base para uma especializagao urbana, tedrica ou pratica, talver estivesse ld, Outros podem ter percorrido seu caminho independente ¢, talvez, mais Ientamente, em diregao a incerteza similar. © que uma preocupagio de relevancia, para alguns, pode ser mero oportunismo para outros — “uma luta indigna para encontrar selvagens substitutos nas favelas”, nas palavras de Robin Fox (1973: 20). Assim, pode parecer que a antropologia urbana nao tem nenhum passado nem qualquer motivo para se preocupar com seu futuro. Mesmo assim, este livro é em grande parte retrospectivo, uma tentativa de trilhar alguns dos passos dados na diregio do presente. Que motivos poderia haver para realizar um empreendi- mento como este? dificil de se encontrar, talvez especialmente para jovens antropdlogos americanos. A antropologia urbana em meu pais poderia assim ser uma saida, 2. O primeiro volume com esse titulo é de Fedy (1968); 0s outros s4o de Southall (1973a), Gutking (1974), Uzzell e Provencher (1976), Fox (1977) ¢ Basham (1978). Bastante semelhantes si0 08 livros de Weaver ¢ White (1972), Foster e Kemper (1974) ¢ Eames ¢ Goode (1977). 12 Em grande parte, eu diria, eles podem ser encontrados na maneira pela qual 9s antropdlogos entraram na cidade. Nao foram tanto suas proprias reflexes sobre a natureza ¢ 0 estado de sua disciplina que os levaram 4, mas sim eventos externos que insistentemente cxigiam arengio, Em uma corrida desenfreada para um campo definido por conflitos raciais, instituigdes que funcionavam mal ¢ o crescimento de favelas, eles, muitas vezes, refletiam pouco sobre o que é urbano ha antropologia urbana e o que é antropolégico a respeito dela. Tavia apenas a transferéncia mais simples e menos autoconsciente possivel da antropologia bé- sica para 0 novo contexto. As especialidades da antropologia que eram conside- radas Sbyias eram uma sensibilidade para a diversidade cultural e a proximidade dos acontecimentos da vida cotidiana, que eram acompanhadas pela obServagao participante como método de pesquisa dominante; ¢ a inclinagio para definir 9s problemas em seus termos gerais, “holisticamente”, ¢ ndo em suas minticias. Tais caracteristicas, de método e perspectiva, tenderam a levar 0 antropdlogo, especialmente nos Estados Unidos, para o enclave étnico, 0 gueto, que tinha caracteristicas culturais ¢ organizacionais com as quais ele poderia —a sua propria estranha maneira — sentit-se & vontade. Mas, em geral, 0 que era mais importante Para atrai-lo para Ii, € claro, € que esse tipo de comunidade ¢ também frequen- temente confrontada com problemas sociais-Particularmente a antropologia u- bana americana, tornou-se entao, na frase de Tylor, “a ciéncia do reformador”. Ela se voltou para as questdes de satide ¢ bem-estar social, lei e justica, escola ¢ trabalho, o ambiente fisico ¢ suas mudangas. Isso, certamente, nao é motivo para arrependimento. A preocupagio com boas obras, certamente continuard a ser parte da antropologia urbana e a tendén- cia € acharmos que ela pode ser bastante titil nessas éreas, Scria também imperdo- avel que um antropdlogo com rafzes em uma sociedade muito mais homogénea Sugerisse que os antropdlogos urbanos americanos devessem parar de prestar atengao aos bairros ¢tnicos dc suas cidades. Obviamente, a etnicidade continua sendo uma forca viva na sociedade americana. O resultado disso, no entanto, é especialmente uma antropologia ce senso comum, cuja qualidade tende a ser mensurada mais por sua relevincia prética e resultados, do que por scu puro valor intelectual, Embora contribuigées tedricas possam resultar de tal trabalho, clas sao passiveis de ser subprodutos inesperados. E um outro fato das mesmas realidades de pesquisa que o campo da antro- pologia urbana foi definido de uma maneira muito ampla. Na maioria das vezes ela € levada a incluir todos os estudos em que a cidade € 0 locus e nao 0 focus’, Etnicidade e pobreza, por exemplo, podem ocorrer na cidade, mas elas nao sio, 3. Estou grato a Henning Siverts por essa formulagio em um seminério no Departamento de An tropologia Social, Universidade de Bergen, em 1971. ix por definigao, fendmenos tipicamente urbanos. O uso eufemistico de “problemas urbanos” na retérica politica ngo é um guia confidvel aqui. As investigagoes da vida familiar urbana, ou das atividades de gangues de jovens, ou das culturas ocupacionais, tampouco precisam estar muito relacionadas com quaisquer ca- racteristicas intrinsecamente urbanas. Essa inclusdo generosa de todos os tipos de interesses, ideias e descobertas, juntamente com uma relativa despreocupacao com aquilo que poderia ser seu denominador comum, também contribui para a imagem de uma antropologia urbana que parece nao ter uma estrutura coerente ¢ unificadora de ideias. Neste livro, tentaremos selecionar alguns dos elementos dessa estrutura, E provavelmente inevitavel que isso também nos leve a ter como objetivo primor- dial uma antropologia urbana mais estritamente concebida, onde o focus esteja no urbanismo em si ~ seja Id o que for que esta afirmacao possa significar, Em grande medida, iremos desconsiderar o que pareca ser meramente pritica roti- neira da antropologia dentro dos limites da cidade, Mas isso nao significa neces- sariamente que tenhamos de comegar novamente do zero. Podemas obter uma visio geral melhor do territério a ser explorado sc usarmos as oportunidades que surgem em nosso caminho para observi-las do ombro de gigantes — ou as vezes até mesmo de gente pequena como nds. Em outras palavras, tentaremos reunir alguns componentes de um passado utilizavel para a antropologia urbana que te- mos em mente. A antropologia urbana precisa de sua prdpria histéria das ideias, uma consciéncia coletiva do crescimento das compreensées que digam respeito aos fundamentos da cidade e da vida da cidade. Algumas dessas compreensdes ja podem ter uma idade respeitivel. Outras s40 produto de um passado muito recente, até mesmo fundindo-se com o presente. Elas apareceram em contextos variados ¢ pode muitas vezes ser vitil (ou pelo menos intelecrualmente agradével) vé-las, ali, pela primeira vez. Outras, claro, ocorreram periodicamente em formas eiramente diferentes em yérios momentos ¢ locais. Grande parte do trabalho de tragar suas interligagdes e combiné-las em um padrio ainda precisa ser feita. Descrever 0 que se segue como histéria parcial do pensamento antropold- gico urbano, no entanto, sé seria correto de algumas maneiras; de outras, seria um equivoco. Isso implicaria, sobretudo, uma autonomia muito grande para a disciplina. A maior parte do que possa ter sido vitil no passado para a antro- pologia urbana de hoje, originou-se do outro lado das fronteiras académicas, por mais aceitaveis que essas ideias possam agora parecer para uma perspectiva antropolégica. Elas devem ser tomadas, por exemplo, da histéria, da sociologia ¢ da geografia. Hé também a questio do relacionamento da disciplina do ramo urbano, com a antropologia como um todo. Podemos, talvez, ver os antropdlogos urbanos quer seja como urbanologistas com um determinado conjunto de ferramentas, ou como. antropélogos que estu- 14 dam um det@rminado tipo de arranjo social. Os dais modos de olhar o trabalho deles nao sao totalmente independentes, mas sugerem énfases diferentes. Acredito que grande parte da antropologia urbana recente presta-se mais ao conceito ante- For; sua pergunta tem sido: “Qual é a contribuigao da antropologia para os estudos urbanos?” A questo complementar é, “Qual €a contribuigao dos estudos urbanos Para a antropologia?” Ambas as perguntas merecem ser feitas, repetidamente, para Ver se novas respostas podem estar em desenvolvimento. Mas, se para a primeira questio até agora as respostas estiveram, em sua maioria, dentro dos padrées nor- mais acerca das caracteristicas da antropologia, a tiltima pode ser, teoricamente, mais provocativa ¢ talvez possa garantir que a comunicagao entre a antropologia comparativa geral ¢ 0 seu ramo da cidade passe a ser uma via de mao dupla Para fazer jus 4 sua pretensao de ser “a ciéncia da humanidade”, no entanto, a antropologia deve ser reconstrufda para incluir uma consciéneia de vida urbana. Ela nio pode tirar suas conclusées baseando-se apenas em pesquisas em comuni- dades pequenas, sem complicagoes, principalmente nas partes nao ocidentais do mundo, A contribui¢éo especial da parte urbana ao todo antropolégico consiste na compreensdo de uma série de fendmenos sociais ¢ culnurais, pouco ou nunca cacontrados em outros locais, que sejam examinados tendo como fundo a varia- gio humana em geral. Com base nesse ponto de vista, deve ser acrescentado que a afluéncia dos antropdlogos urbanos para os enclaves étnicos das nossas cidades pode parecer um subterfiigio. Eles podem ser a coisa mais semethante aos locais da pesquisa antropoldgica tradicional que poderiamos encontrar na cidade, “aldeias urbanas” nos termos de Gans (1962a). No caso ideal, uma grande parte dos relaciona- mentos sociais da populagao est4 contida dentro do enclave. Os compatriotas do aldeio urbano formam um grupo para © qual sdo atraidos nao sé seus vizinhos, mas também seus amigos ¢ parentes, ¢ ele interage com eles nestas capacidades, principalmente dentro do territério da aldeia. Quanto menor for a populagio, mais provavel serd que ela forme uma densa rede de relacionamentos em que po- demos comegar a partir de uma pessoa, tragar algumas ligagdes ¢ voltar por um caminho tortuoso para aquela mesma pessoa — e podemos fazer isso por uma s¢- tie de caminhos diferentes. Como Gans diz, ¢ possivel que nem todos conhecam todos os demais, mas todos sabem alguma coisa de todos os outros. Além disso, pode haver uma continuidade considerdvel ao longo do tempo nessas relagdes, jd que 0s aldedcs se vecm dia apds dia, ¢ raramente passam por mudangas em suas vidas que rompam os lagos que tém entre si. Criangas que crescem juntas podem muito bem ser, quando adultas, amigas umas das outras, vizinhas ¢ talvez, até parentes por afinidade. Nem todos os bairros étnicos séo assim. Para contribuir ao maximo com o Panorama etnografico que é um dos maiores recursos da antropologia, no entan- 1S. to, os antropélogos da cidade talvez devessem dar grande parte de sua atengao ao exttemo oposto da aldeia urbana. Tendemos a pensar a cidade especialmente como um lugar onde as pessoas nao se conhecem muito bem (pelo menos nio inicialmente), onde conhecidos em comum sio descobertos € ni9 presumidos, e onde transigGes rdpidas podem ser feitas através da estrutura social. Diante disso poderiamos afirmar que tais fenémenos nao sao realmente mais tipicos da cidade do que da aldeia urbana. Isso pode ser verdade, por um lado, mas, por outro, pode ser bastante irrelevante. Existe um sentido em que provavelmente concordarfamos que eles sio “mais urbanos” do que a aldeia urbana — ou seja, que € mais provavel que eles sejam encontrados na cidade do que em outras Areas. Se fidis a nossa heranca antropoldgica, estarcmos mais interessados nas variagdes da forma do que naquilo que ¢ tipico € € neste sentido que eles sao importantes como manifestagGes de urbanismo. Ao longo deste livro, nossas investigag6es irdo, portanto, ser direcionadas para a identificagao de insights especificos que 0 estudo da cidade pode oferecer para a antropologia. Ao mesmo tempo, deve ser entendido que a nossa prépria ma- neira de selecionar e conceituar fendmenos pode ser, em si, uma contribuigdo da antropologia aos estudos urbanos, O pensamento urbano antropoldgico é fanda- mentalmente, pensamento antropolégico. Tanto 0 que pode ser original sobre o assunto quanto o que serd cmprestado de outras fontes (¢, depois, possivelmente transformado) € determinado pelo confronto da mente antropolégica com a rea- lidade urbana. Isso pode acabar se tornando uma experiéncia um tanto parado- xal na adaptabilidade da andlise antropoldgica. Depois de décadas de trabalho construindo um sistema conceitual para a compreensio de sociedades tradicionais distantes, sempre temendo o cativeiro moral ¢ intelectual do etnocentrismo, agora nos deparamos com o teste desse sistema em nossas proprias cidades. Seus efeitos, espero, incluirio 0 desenvolvimento de ideias que também possam provar ser importantes em outras esferas da antropologia, embora a narureza da vida urbana possa mostrar a sua utilidade de formas particularmente dramiticas. Espero que a perspectiva esbocada aqui satisfaca os antropdlogos que criti- cam a nogio de uma antropologia urbana porque sentem que a sua diferenciagao, com um rétulo proprio, marcaria sua separagao da disciplina-mae. Eles estao preocupados com o fato de que o estabelecimento de uma identidade separada leve & rejeicdo do método ¢ da teoria antropolégicos considerando-os inadequa- dos para os estudos urbanos. Isto nao é, obviamente, a minha concepgio de antropologia urbana, Como um ramo da antropologia, a antropologia urbana nao é mais separada do que os estudos de, digamos, sociedades camponesas ou ndmades. Ninguém sugere que o estado antropoldgico de camponeses tenha se divorciado da antropologia propriamente dita; ninguém nega que a antropologia tenha se beneficiado do crescimento dos estudos camponeses que, nao faz muito 16 tempo, também constitufam um novo interesse emergente. Contudo, ao mesmo tempo, reconhece-se que 0 estudo das sociedades camponesas envolve um grupo de conccitos ¢ ideias para o qual é pratico ter-se uma designagio comum. Nem mais nem menos, € 0 que cu acho que deva ser reivindicado para a antropologia urbana. Ela é uma especializagao reconhecida, mas, ao mesmo tempo, uma parte integrante da antropologia. Por outro lado, a preocupagao com a contribuigio intelectual dos estudos urbanos para a antropologia pode parecer mero academicismo, um recuo de re- levancia. Pode-se responder & essa objesao, antes de mais nada, dizendo que hd espago para mais do que uma antropologia urbana, Pelo menos nessa fase inicial, certamente, devemos estar preparados para deixar que mil flores cresgam e espe- ramos que elas irdo encontrar maneiras de florescer mesmo em um ambiente de concreto. Mas, além disso, pode-se responder que o antropdlogo cujo campo seja em Boston ou Berlim, deve ter tanta ou tio pouca liberdade ~ seja qual for nos- So desejo — para cultivar sua curiosidade por suas vantagens intrinsecas quanto aquele que va viver entre os bongo. Pensar de outra forma daria a impressio de etnocentrismo, por mais bem-intencionado que fosse. Na verdade, se Boston ou Berlim por acaso fossem parte de nossa propria sociedade, poderfamos ser mais capazes de desempenhar a parte ativa de um antropdlogo-advogado do que po- deriamos fazer nos lugares em que estivéssemos “apenas visitando”, No entanto, parece haver pouca diferenga, cm principio, entre rejeitar esse papel ficando em casa ou evitando-o indo para Bongo. Naturalmente, também podemos esperar que uma atengdo mais critica 4 teoria € A conceituagao dos fundamentos comuns da antropologia e do urbanis- mo possa levar a uma aplicagao prética mais precisa da antropologia aos assuntos urbanos, E, além disso, nao devemos cair na armadilha de considerar o trabalho académico de uma maneira restrita ¢ o envolvimento definido na engenharia social fragmentada também de uma mancira restrita como sendo as tinicas alter- nativas diante dos antropdlogos. A relevancia da antropologia também se baseia No scu potencial, nem sempre percebido, de fazer as pessoas refletirem sobre a variabilidade da condigio humana e sobre sua propria situagio particular, Devo falar um pouco sobre esse poder da antropologia. Em 1935, um escti- tor satirico inglés, Charles Duft, publicou 0 Anthropological Report on a London Suburb [Relato antropoligico sobre um subtirbio de Londres], uma parddia da- quilo que um antropdlogo daquela época poderia ter a dizer se voltasse sua aten- go para sua prépria sociedade*, A seguir o Professor Vladimir Chérnichewski, 0 “eminente cientista” ficticio, em cujo nome Duff escreveu: 4. Esse esquecido volume foi apresentado de uma maneira ligeiramente mais completa em outro lugar (HANNERZ, 1973). 7 lee Aciéncia da antropologia nao se preocupa somente com o selvagem nu, mas com o homem ou a mulher com calga plus fours ou vestido de gala. Para o verdadeiro homem de ciéncia, pouco importa se ele est lidando com 0 subtirbio ou com a selva, com a danga de jazz modlerno ou com a orgia sexual selvagem, a magica da floresta magica ou O-deismo an- tropomdrfico de um verdureiro suburbano, as curas e feitigos do pagé de Bantu ou a obra de um membro do Royal College of Physicians. 8 : diferenca entre nds ¢ os selvagens muitas vezes ¢ mais aparente do que real; uma calca plus fours pode csconder um bruto, ¢ uma camada de tinta pode encobrir um coracao sensivel (DUEE, 1935: 12). Até certo ponto, 0 antropdlogo urbano de hoje pode concordar com o rela- tivismo do Professor Chernichewski. Mas, Chernichewski usa sua liberdade po- ética para tornar 0 suburbano ¢ 0 selvagem igualmente burlescos ¢ torna-se ele prdprio ridiculo ao parecer incapaz de chegar a uma compreensio mais profunda de um ou do outro. A tética que podemos preferir é aquela onde a antropologia, devido A consciéncia que ela promove de qualquer estilo de vida, como uma de uma série quase infinita de alternativas, pode contribuir para uma exotizagio do familiar; sua estranheza recém-adquirida pode, cntéo, tornar possivel concep- Ges novas ¢ incisivas. As bases da perspectiva da antropologia nado deveriam somente ir em direc’o As inter-relagGes da vida social, mas tomar para si o que C. Wright Mills (1961: 5) chamou de imaginagio sociolégica, permitindo que quem a tenha “entenda 0 cenério histérico mais amplo, em termos de seu signifi- cado para a vida privada € ptiblica de uma variedade de individuos”. H4 também uma imaginagao antropoldgica peculiar, que implica melhorar seu entendimento, por comparacées implicitas ou explicitas, do modo de vida em outros arranjos sociais ¢ culturais. Ela se apoia na possibilidade de compreender a si mesmo por entender os outros. Isso também é uma contribuigdo da antropologia aos estudos urbanos: a antropologia urbana como instrumento pelo qual os habitantes da cidade possam pensar de maneira nova sobre o que se passa ao seu redor. Pode ser Util se eu falar um pouco mais, aqui, sobre o meu entendimento da natureza da antropologia, j4 que ele continuard a nortear o que se segue. Talvez o produto mais caracteristico do trabalho antropoldgico seja a etnografia; predominantemente qualitativa, com descrigdes ricamente contextualizadas do pensamento e da a¢io humanos. Em linhas gerais, pode-se pensar em tal ctno- grafia, por um lado, como algo intimamente ligado a forma como o trabalhador do campo antropolégico aborda a realidade, por outro lado, como a fonte da qual a tcoria antropolégica é extraida e refinada e, em seguida, usada para guiar a produgio futura da etnografia. Esse complexo da industria intelectual pode nao parecer muito eficiente. Alguns observadores podem achar que uma grande parte da etnografia torna-se intitil. Na verdade, isso deveria ser visto contra 0 pano de fundo da preocupagio natural do antropélogo com descobertas. Como ua 18 tradigao € explorar terrenos sociais ¢ culturais desconhecidos ele quer maximizar a sensibilidade para o inesperado — fatos novos, novas ligagdes entre eles. E facil entender a énfase dada a observacao participafite ¢ ao “holismo” como, no mini- ‘mo, parcialmente motivada pelo cardter exploratério da tarefa. Esse uso da ima- ginacdo antropoldgica pelo qual até cenas familiares possam ser tidas como es- tranhas ¢, portanto, disponiveis para novas descobertas também se encaixa aqui. Mas, neste ponto em particular, podemos nos preocupar menos com o pro- cedimento de campo antropoldgico e mais com o pensamento antropoldgico, com a estrutura conceitual que também faz parte da postura antropolégica com relagio & realidade. A perspectiva que desenvolvo aqui é a de um antropéiogo |. ¢ ela me sugere uma mancira de descrever o contraste entre mim ¢ uma de socidlogo tfpico. Isso provavelmente ¢ util, j4 que os antropélogos parecem muitas yezes desenvolver uma ansiedade crénica sobre nao ser inte diferentes dos socidlogos urbanos — especialmente dos primeiros urbanos. Beals (1951: 4), hd muitos anos, citou um socidlogo no sen- que, se os antropdlogos continuassem como haviam comegado o estudo a moderna, iriam com o tempo rcinventar a sociologia, no minimo pelo 50 anos depois do resto da drea. Mais recentemente, Shack (1972: 6) la- wou que grande parte da antropologia urbana parece ser apenas “a sociologia de 1940 revisitada”. Em vez disso, ele propde que a antropologia urba- basear-se na tradiggo antropolégica de andlise comparativa do compor- ito institucional — como exemplos, ele sugere que o principio da oposigao ementar ow a andlise de ciclos de desenvolvimento em grupos domésticos muito bem ter sua valia nos estudos urbanos. faco objegGes a esses exemplos, e a expansdo dos conceitos antropold- s gerais para a drea urbana est, certamente, em sintonia com a minha con- 9 de antropologia urbana como parte integrante de uma visio comparativa da sociedade humana. Mas isso nao deve degenerar em escolasticismo, um zo das manciras pelas quais a vida urbana tem suas prdprias caracteristi- fares, um entendimento que, por si s6, pode ajudar a desenvolver ideias antropologia geral. Por tais motivos, pode-se achar até que a “anilise com- do comportamento institucional” seja uma definigao muito limitada da pologia, pois uma das dreas para as quais a antropologia das sociedades com- tem dado importantes contribuigdes ¢, de fato, 2 do comportamento nio cucionalizado — empreendedorismo, manipulagao de rede ¢ assim por diante. eu creio, ela é melhor compreendida de outra forma. A distingio que ho em mente ¢ feita, mais convincentemente, por Leach (1967) em seus co- entarios sobre uma pesquisa social no Ceilao rural. A premissa do socidlogo m sua orientagao estatistica, Leach sugere, é que o campo de observagao con- 19 siste em “urfidades de populagio”, “individuos”. © antropélogo social, por sua vez, acredita que seus dados so compostos de “sistemas de relacionamento”, A imagem antropolégica da sociedade ¢, mais cspecificamente, uma imagem de episddios de interacao e de interdependéncias mais duradouras entre as pessoas Os individuos, da maneira como os antropdlogos sociais lidam com eles, esto empenhados cm fazer contato com os outros; eles sao entidades construidas a partir dos papéis que assumem nestas situagdes variadas, Os socidlogos mais fre- quentemente tentam enfrentar o paradoxo de abstrair as pessoas da diversidade real de suas ligagSes em andamento, descontextualizando-as, ¢ ainda assim defi- nindo-as de alguma forma como animais sociais. Essa diferenca de tendéncia é 0 que ¢ fundamental. O fato de ser muito mais facil usar os mimeros para lidar com dados individuais do que com dados relacionais é secundario, por mais evidente que isso possa ser como sintoma. Nossa énfase aqui ¢, portanto, sobre uma perspectiva relacional — sobre situa- Oes sociais, sobre a participacao das pessoas nestas ¢ sobre a maneira como uma vida social complexa pode ser construida a partir delas. Isso, reconhecidamemte, nio é 0 suficiente para separar a antropologia urbana estritamente de tudo aquilo que passa por sociologia urbana, ou até mesmo para separar a sociologia da antro- pologia. Os antropslogos, 4s vezes, acham motivos para contar pessoas, ¢ vemos Socidlogos que pensam tanto em termos relacionais como qualquer antropslogo. Na drea urbana, o tiltimo é exemplificado por clissicos, bem como por uma sé- Hie de estudiosos com uma filiagio sociolégica profissional que recentemente se tornaram os etndgrafos bacanas das boates de striptease, bares noturnos e casas de massagem®. Mesmo assim, podemios discernir que, 8 medida que foram evoluin- do, a antropologia e a sociologia passaram a ter centros de gravidade diferentes, nao 86 na escolha do assunto, mas também de modo analitico. A antropologia, quando vai para a cidade, nao precisa se tornar completamente indistinta da socio- logia e, refletindo um pouco, talvez possamos perceber que a “sociologia urbana” que, como antropélogas, achamos ser mais compativel est4, realmente, de acordo com esse critério de “antropologia urbana”. De uma maneira um tanto arrogante, Podemos até achar algumas vezes que suas andlises poderiam ter se aprofundado mais se isso tivesse sido percebido. Por outro lado, uma definigdo um tanto vaga da fronteira entre sociologia e antropologia nao precisa ser especialmente inquiie- tante. O imperativo territorial nio deve ser intelectualmente respeitado e a visita muitua entre antropologia e sociologia, quando ocorre, tem sido frequentemente Gratificante. Em grande parte a linha diviséria pouco clara que temos é um aciden- te da historia, Neste livro nao seremos muito respeitosos em relagdo a ela. 5. Um drgao eatraoficial dessa tiltima cendéncia € a publicagao Urhan Life, que comesou a ser pu- blicada em 1972, 20 Aqueles que nao sejam tio enfaticamente antropdlogos sociais podem se sur- ender por eu ter cscolhido o ponto de vista relacional, em vez do conceito de itura, como a marca distintiva da antropologia. Na academia americana em cular, muitas vezes deparamos com a nogao, um tanto estranha, que “os iSlogos estudam a sociedade, enquanto os antropdlogos estudam a cultura”. riamos até pensar que dificilmente seria possivel estudar uma ou a outra , em certa medida, estudar as duas. Mas, certamente, hd alguma verdade essa opiniao. Existem alguns antropdlogos que lidam com cogni¢6es sem de- senivolver muito uma concepeio da estrutura social ¢ os so idlogos, as vezes, Prestam muito pouca atengio a coisas como ideias, conhecimento, crengas ou valores cm suas descrigdes da sociedade. Na antropologia urbana também, acre dito que a ideia de cultura sera muito mais central do que tem sido habitualmente sociologia urbana, Mcu motivo para dar prioridade & concepgio relacional da sociedade pode ter alguma semelhanga com a bem conhecida declaragio de Fortes (1953: 21), que a estrutura social pode ser vista como “a cultura toral de um determinado povo é tratada em um enquadramento especial da tcoria”, ‘mas cla tem uma relagdo mais direta com a nossa compreensao de urbanismo. O ultimo & consideravelmente mais propenso a ser definido em termos sociais do que culturais; tendemos a generalizar sobre urbanismo, primeiramente, como um tipo caracteristico de sistema de relacionamentos sociais ¢ somente de forma secundria e por derivagio, como um conjunto de ideias pertencente aos urbani- tas. A cultura urbana, consequentemente, pode ser conceituada mais facilmente quando a descrigo da estrutura social jé estiver bem encaminhada. Parece bastante possfvel, a0 mesmo tempo, que os estudos urbanos possam contribuir para dar aos antropdlogos uma concepgo muito mais sofisticada dos Processos e da organizagio culturais do que em geral tém feito. A cultura, como jd foi diro, é uma questio de wifego de significados. A imagem € oportuna para 98 nossos propdsitos, pois fica imediaramente evidente que os padroes de tréfego urbano tém algumas peculiaridades e que alguns veiculos podem ser mais ade- quaclos para eles do que outros. O sistema social urbano pode promover certos tipos de ideias, ou dar origem a problemas especificos de organizacéo da cultura. Pode haver ideias sobre gerenciamento de contatos com estranhos, se houver uma grande quantidade deles no meio ambiente, Ou se, como é bastante pro- yavel em um sistema social complexo, for possivel dizer que pelo menos alguns Individuos esto envolvidos com varias culturas, as formas de lidar com esta di- versidade podem ser um problema para a andlise, Vamos lidar com essas questoes brevemente, mas nado mais do que isto, neste livro. Essa, entao, é, em termos mais gerais possfvcis, minha concepgio de visio antropoldgica de sociedade, © fundamento do tratamento que dou as variadas formas de descrever ¢ analisar a vida urbana nos capitulos a seguir. Eu poderia ter 21 prosseguido aqui para dizer algo sinopticamente similar sobre 0 que presumo ser a realidade do urbanismo, a outra parte da equacio no encontro do antropélogo com a cidade, Mas deixarei que essas compreensées se desdobrem gradativa- mente no que se segue. Em vez disso, acrescentarei algumas observagées mais pessoais, que podem langar luz sobre 0 tipo de livro que escrevi. Embora eu creia que seria util para os antropdlogos urbanos se unirem mais firmemente por algum tempo, desenvolvendo um conjunto de conceitos de es- copo variado na tentativa de yer até que ponto isso ajudaria a organizar a area intelectualmente, é possivel que fique 6bvio pelo que foi dito, que na minha escolha pessoal de tal ordenagao de ideias, nao sou muito fiel a qualquer tradigao antropoldgica especifica. Disse que escrevo como um antropdlogo social; isto pode ser entendido como a identidade escolhida de alguém favoravelmente incli- nado para a corrente britanica do pensamento antropoldgico. De fato, acho que os esforcos dessa corrente para realizar uma andlise sistematica e abrangente das relag6es sociais ¢ admirdvel. Mas muitas de suas ideias centrais tm uma histéria mais longa ¢ com o passar dos anos clas se espalharam para outros cantos do mundo, onde foram reformuladas. Esses desenvolvimentos anteriores e posterio- res, como provavelmente veremos, tém me interessado tanto quanto aqueles do centro estabelecido. Além disso, a visio da antropologia urbana apresentada aqui teve a influéncia de algumas outras preferéncias minhas. Quero dar bastante atengao 4 formagao e ao tratamento dado ao significado das interagdes objetivando, assim, uma andlise cultural que seja flexivel o suficiente para ser compativel com a andlise social de estruturas complexas que, por enquanto, est4 tao mais desenvolvida. Com esse objetivo fui atraido muito cedo para o interacionismo simbélico, uma tendéncia do pensamento social americano, embora em sua maior parte ligeiramente fora da antropologia académica daqucle pats. Embora meu interesse nesse tipo de in- teracionismo nao tenha sido particularmente sistematico, ele certamente desem- penha um papel nas paginas que se seguem, Até agora, contudo, vejo uma afini- dade muito grande entre cle ¢ a antropologia simbdlica que mais recentemente se tornou um dos componentes principais da antropologia nos Estados Unidos. Meu interesse em historia social s6 estard em evidéncia de forma mais dis- persa. Acredito, no entanto, que serd uma boa coisa se os antropélogos urbanos se familiarizarem mais profundamente com cstudos de Histéria, especialmente quando comegam a se enyolver com estudos comparativos mais sisteméticos do urbanismo. Espero ter mais a dizer sobre isso em uma obra futura. Provavelmente essa sintese pessoal, por mais incompleta que possa ainda ser, tem algo a ver com a minha propria experiéncia académica. Tive a oportunidade de fazer algumas observacGes participantes entre antropdlogos americanos ¢ bri- tinicos, e como a antropologia urbana se desenvolveu muito mais nos Estados 22 Unidos do que em outros locais, vejo-me conduzindo uma espécie de didlogo especialmente com estes desenvolvimentos. Mas passo a maior parte do tempo em um ambiente académico sem uma tradiggo nacional prépria estabelecida no sipo de antropologia pelo qual me interesso. Pode ser que isso renha me deixa- do com liberdade um pouco maior para procurar ideias em diregSes um tanto idiossincréticas, atravessando as fronteiras de universos de pensamento que, em outros lugares, poderiam ser demarcadas mais claramente. Mas envolvimentos ¢ experigncias, além daqueles que surgiram dentro do circulo de colegas‘de profissao, também podem ter tido seus efeitos sobre minha visio da antropologia urbana. Embora cu sugira que um certo conhecimento das ideias sobre a cidade, das obras onde clas foram proeminentes € das pessoas que estio por trés destes trabalhos, so todos parte da formacio de um antropélogo urbano, esta formagao também deve basear-se consideravelmente na inter-rela~ cao de temas urbanos com a propria biografia do antropdlogo. Como intimeros Gutros antropélogos, passei praticamente toda a minha vida em dreas urbanas. (falvez. vishumbremos, aqui, outro motivo para que a disciplina tenba se volrado, cada ver mais, para os estudos nas cidades ~ so poucos os antropdlogos que tém conhecimento dos aspectos priticos de cuidar de uma fazenda, da criagao de animais domésticos e de outros aspectos da vida mais préxima da natureza € somos, a este respeito, malpreparados para aprender sobre formas rurais de vida.) Também gosto das cidades ¢ uso outros habitats, na maioria das vezes por pouco tempo, apenas para contrasté-los com as cidades. Quando saio de férias, € mais provavel que procure ruas distantes do que a serra ou a praia. Fui um morador habitual, por perfodos bastante longos, de cidades americanas, suecas ¢ inglesas ¢ passei menos tempo fazendo turismo antropolégico em comunidades urbanas na Afcica, Asia, Australia, Oceania, América Latina ¢ Caribe, bem como em outros lugares da Europa. Isso tem me dado a oportunidade para refletir sobre o que ¢ diferente e o que permanece, de alguma forma, o mesmo entre aldeias € cidades em locais variados. Além disso, trés experiéncias de trabalho de campo antropo- ldgico também influenciaram meu pensamento sobre a vida urbana — um deles ~ mais indiretamente, dois muito diretamente. Na década de 1960, passei dois anos em Washington, D.C., fazendo o que consideraria agora (de acordo com o que foi dito acima) antropologia na cidade, mas, em sua maior parte, antropologia ndo urbana no sentido estrito. Em ou- tras palavras, o foco de meu interessc no era 0 carater especificamente urbano dos estilos de vida com o qual me envolvi, embora tenha gradativamente ficado mais atcnto a este tipo de linha de investigagao e mais preocupado com isto. Esse estudo foi centrado em um bairro negro de baixa renda, conduzido quase inteiramente por meio de observasio participante, para tornar o meu papel de pesquisador minimamente ambiguo em uma atmosfera tensa. O livro que resul- 23 tou (HANNERZ, 1969) tratou da interagao da delimitagao étnica com oportu- nidades econdmicas limitadas na formagio de uma série de adaptacées coletivas; uma cultura complexa ancorada no passado € no presente. Entre os temas espe- cificos estavam a dindmica dos papéis dos géncros no gueto, o conhecimento partilhado que serviu como fonte para uma identidade comum entre os seus moradores ¢ a relacio entre seus pensamentos e agdes com a cultura americana predominante. Menos ostensivamente, no entanto, eu estava lidando também, por exemplo, com as incertezas que eu ¢ eles confrontamios ao lidar com a vida da rua. Percebi, como nunca antes, que podemos, algumas vezes, ser forgados a pensar nas pessoas desconhecidas do cenério urbano como problemas. Também me tornei consciente das dificuldades para escolher ¢ delimitar uma unidade de observagio nos estudos urbanos. Meu bairro poderia ser visto, de certa maneira, como uma aldeia urbana, mas esta regio nao tinha tanto significado na vida de uns quanto tinha na vida de outros. Se certas pessoas dificilmente saiam dele, outras na maioria das vezes iam para casa para dormir ¢ isso, as vezes, nem tao regularmente. Poderia haver lagos de parentesco e amizade estreitos com pessoas do sul rural e uma falta de relacionamentos pessoais fora da comunidade negra. Como Washington tinha uma populagao negra muito grande, o gueto como um todo bastava para a criagdo de arranjos de relacionamentos sociais que nao cram nem compactos nem estaticos. Como mais um exemplo da maneira como os pro- blemas do urbanismo se misturam com os da pobreza e da etnicidade, pude notar que as vezes queria saber mais sobre as diferengas entre a vida do gueto negro de Washington e os de outras cidades, como Newark ou Detroit. Em que medida a natureza de roda a comunidade afeta a comunidade étnica aninhada dentro dele? Se vocé ja viu um gueto, realmente viu todos cles? Minha segunda experi¢ncia de campo, em 1970 (c relatada cm HANNERZ, 1974a), foi um breve estudo da politica local nas Ilhas Cayman, no Caribe, ¢ sua relagio com a antropologia urbana nao é exatamente ébvia. Eu estava, de fato, morando na capital - chamada George Town, como tantos outros lugares que uma ver fizeram parte do Império Britinico — mas era pouco mais do que a vila principal em um territério muito pequeno. Na verdade, a relevancia dessa expe- riéncia para a minha compreensao de urbanismo foi o fato de ela ter apresentado um contraste significativo. A sociedade das Ihas Cayman foi o mais proximo que consegui chegar como ctndgrafo profissional de uma estrutura social de pequena escala, ¢ essa escala no era menos evidente em sua politica. A maquina formal do governo tinha como base ideias importadas de uma sociedade de massa, com papéis altamente diferenciados ¢ procedimentos impessoais. O relacionamento que 0s caimanianos tinham uns com os outros, por outro lado, is vezes era dema- siado intenso ¢ era como se a personalidade total das pessoas tendesse a se envol- ver nas interagoes. Era assim também que preferiam agir na politica ¢, por isto, 24 divergéncia de opinido com as nuangas do governo teve alguns momentos dticos. Isso me fez pensar sobre o papel desempenhado pelas informacées soais Nas construgdes varidveis dos relacionamentos sociais. Meu trabalho de campo mais recente foi na Nigéria, em meados da década de 1970 e, neste caso, os objetivos da pesquisa foram antropologicamente urbanos Ao sentido estrito. Como jé tinha realizado um estudo da vida cm um enclave de uma grande cidade, agora queria experimentar, conceptual e metodologicamen- , estudando toda uma comunidade urbana. O sitio escolhido foi Kafanchan, uma cidade que cresceu em um importante entroncamento ferrovidrio durante os Ailtimos cinquenta anos € que agora apresenta grande diversidade ocupacional ¢ tnica®. O mosaico é uma metdfora popular quando tentamos resumir a natureza ‘de uma comunidade assim e realmente é, de alguma forma, apropriado. Mas se _ alguns dos grupos que formam a comunidade sao relativamente bem-demarca- dos, com limites bem-definidos, come um mosaico, outros se sobrepodem ou se misturam. Além disso, a histéria de Kafanchan de alguma maneira refletiu 0 passado volétil da Nigéria como um todo, e este € um dos motives pelo qual a dimensao diacrénica de sua estrutura social ¢ de grande importancia. O mosaico transforma-se em um caleidoscépio, onde a multiplicidade das partes repetida- mente assume novas configuragées. En comecei em Kafanchan colhendo os dados da totalidade dos grupos de re- Jacionamentos, ordenados por linhas étnicas, profissionais, religiosas, recreativas coutras, Esse ¢ um objetivo que exige a visita a igrejas, tribunais, mercados, bares que servem vinho de palma, cortigos ¢ uma série de outros lugares. Em condigéies ideais — € 0 estudo, certamente, ainda nao chegou [4 — gostariamos de ter uma fepresentacio da estrutura social urbana de cima para baixo, desde os conjuntos de vinculos mais inclusivos até os menos inclusivos, mesmo que dos tltimos s6 Scja possivel obter uma amostragem. No processo de obter essa representacao, obterfamos também uma avaliacio da maneira como sao ordenados esses varios componentes da vida comunitéria para compor uma coexisténcia fisica em um espaco restrito. Indubitavelmente, essa organizago espacial ¢ visual deve causar grande impress nas mentes dos etndgrafos urbanos em muitos locais. Kafan- chan também me despertou para o faro de que para entender uma comunidade urbana como um todo, deve-se vé-la em seu contexto mais amplo. A cidade nio teria chegado a existir se nao fosse pela construgio de um sistema ferrovidrio na Nigéria. O local poderia ainda ser um trecho de savana, parcialmente usado por agricultores de subsisténcia em um pequeno vilarejo proximo, e ocasionalmente atravessada por pastores de gado. Agora que as coisas mudaram, Kafanchan tor- 6. Um pi (1976). neiro relatdrio sobre 0 projeto, voltado para a metodologia, encontra-se em Hannerz 25 hou-se o centro de uma pequena regio, servido (ou, talvez, as vezes governado ou explorado) pelos burocratas, comerciantes, médicos, enfermeiros, professo- tes, Kideres religiosos € artesdos da cidade. Os camponeses vio Mi vender scus produtos, mas mas yezes também para ter o prazer de observar 0 cendrio urbano. Se deixarmos de fora todas essas ligagdes entre cidade ¢ pais, teriamos uma imagem bastante estranha de um Ingar como Kafanchan. Fissas impresses de trés campos, entio, podem prenunciar muitas das ques- tdes levantadas neste livro, j4 que elas foram uma parte importante do meu pro- prio trabalho no curso de antropologia urbana. Nas paginas a seguir, no entanto, Washington, George Town ¢ Kafanchan nao estio conspicuamente presentes. O material para uma antropologia urbana que enfatizarei é 0 que reccbeu gran- de reconhecimento por sua importincia na pesquisa urbana, embora essa nossa maneira de junté-lo e interpreté-lo possa ser incomum. Nem todos os capitulos cortardo fatias semelhantes do pensamento urbano. Em primeiro lugar, no préxi- mo capitulo, nos concentraremos em Chicago ¢ no notivel trabalho pioneiro de etnografia urbana feito lé, particularmente nas décadas de 1920 ¢ 1930. Eleé um exemplo onde desconsideraremos 0 limite entre sociologia ¢ antropologia, uma vez que estamos lidando com “a Escola de Sociologia de Chicago”. Mas desco- briremos, no final, que os estilos contrastantes de conceituagao que demarcar o limite tém alguma importancia. A partir daqui, passamos, no capitulo 3, para tuma pesquisa mais ampla de idcias sobre o que seja urbanismo. Fle poderia ser considerado como o capitulo principal do livro ¢ ao mesmo tempo aquele que tem um dos contetidos mais diversificado. Todos os tipos de cidades aparecem nele ¢ varias disciplinas, No capitulo 4, h4 um foco mais distinto, semelhante aquele sobre a Escola de Chicago. Tratamos aqui novamente com uma forma especifica de urbanismo, a das cidades de mineragao na Africa Central, como foram estudadas durante 0 final da era colonial pelos antropdlogos do Instituto Rhodes-Livingstone (também identificaveis como membros “da Escola de An- eropologia de Manchester”). Hi uma estreita ligasio também entre esse grupo co tema do capitulo 5, andlise de redes, jé que ela teve papel proeminente no desenvolvimento desta maneira de conceituar as relagces sociais. Mas, falaremos aqui sobre um grupo mais variado de contribuidores do pensamento em rede, nem todos dentro da antropologia académica. A andlise de redes, ¢ claro, nao se limita A pesquisa urbana, mas parece itil trarar dela aqui, uma vez. que pode ser especialmente titil para compreender os aspectos da vida na cidade. O papel prin- cipal no capitulo 6 é desempenhado por Erving Goffman, um pensador brilhante um pouco controverso, cuja posi¢ao encontra-se na fronteira entre a sociologia ¢ a antropologia. Usando seu trabalho como ponto de partida, consideramos problema de definir a pessoa — tanto a construcao quanto a apresentagao do self— sob circunstancias urbanas. Isso é também um retorno para onde comegamos, ja 26 joffinan ¢ um chicagocnse de uma gerago posterior. No ultimo capitulo taremos juntar os fios soltos de seus predecessores, delineando nossa percep- quilo que é antropologia urbana. im pequeno exército de guias sera, portanto, alistado para nos ajudar a ex- orar a cidade. Existem ainda outros que poderiam ter-nos levado para passeios icionais, mas eu também vi motivo para deixar de fora alguns dos candidatos Obvios. Os estudos Yankee City, de Lloyd Warner ¢ seus associados, certa- constituem um importante acervo de pesquisas, com uma reconhecida do antropoldgica. No entanto, o seu impacto foi maior no campo da tificagao social do que no do urbanismo e, talvez por isto, nao cause tanta esa que os antropdlogos urbanos hoje prestem pouca atengao a eles. Além 0, 0 suficiente j4 pode ter sido dito - “foram tantas as criticas a Warner que vez scja hora de pedir a moratéria delas” (BELL & NEWBY, 1971: 110). julgamento semelhante provavelmente pode ser feito para excluir os Lynds Middletown, ¢ (mais proximo de nosso tempo) o debate sobre “cultura da a”, tio central para o que foi entendido como antropologia urbana nos tados Unidos no final dos anos de 1960. Eu mesmo estive envolvido nesse de- tc através do meu estudo sobre Washington; ¢ para exemplificd-lo parecem ser aficientes 03 livros de Lewis (1966), Valentine (1968) e Leacock (1971). Um conjunto de pesquisas que teriam me atraido mais é aquele sobre o urbanismo ino-americano, realizado especialmente por antropdlogos dos Estados Unidos da Gra-Bretanha. Antes de mais nada, ele poderia ter sido um complemento Aquilo que é dito sobre cidades africanas, pequenas ¢ grandes, no capitulo O trabalho anterior, no entanto, principalmente sobre areas de assentamento al, parece menos rico em idcias analiticas sobre urbanismo, enquanto a segun- ionais e internacionais, é uma coisa tao atual que seria dificil tratar aqui da ntinuidade de seu desenvolvimento. Repetindo, estamos particularmente inte- ressados em resgatar um passado utilizavel. Portanto, comecemos com Chicago, como cla era cm sua adolescéncia. 27 2 Etndgrafos de Chicago O crescimento de Chicago que, no século XIX e infcio do XX, partiu de praticamente nada para se tornar uma grande metrdpole, foi espetacular, Dos estados do leste e de grande parte da Europa as pessoas afluiam para pegar uma parte, grande ou pequena, da riqueza criada pela industria frigorffica, pela siderurgia, pela bolsa de trigo e por outros tipos de indistria e comércio. Vol- tae meia um recém-chegado tinha mais sucesso do que seria imagindvel, Outros, no entanto, se viam na pobreza desesperada que era, tao frequente- mente, o reverso de uma sociedade em répida industrializagéo sob condigoes de tnissez-faire. Alguns dos recém-chegados tiveram sucesso apenas quando se voltaram para o crime, mas este nio foi necessariamente o caminho seguro para uma vida confortdvel para todos aqueles que o tentaram. Na recente clas- se trabalhadora, sindicatos © grupos politicos se organizavam para uma agao coletiva; em 1° de Maio de 1886, aquela que foi provavelmente a primeira manifestagao mundial do Dia do ‘Trabalho, marchou até a Avenida Michigan pela jornada de trabalho de oito horas. Alguns dias depois, um protesto dos trabalhadores, em Haymarket Square terminou em grande confusio quando a policia agiu para dispers4-los ¢ uma bomba explodiu, provocando tiroteios in- discriminados, com a morte de varios policiais ¢ manifestantes. A “Revolta de Haymarket” durante muito tempo permaneceu como simbolo da ameaca que as ideologias estrangeiras como 0 anarquismo e © socialismo representavam para a sociedade americana. Essa Chicago volétil era também 0 ponto de entrada para o Ocidente e, por isto, alguns recém-chegados mudavam-se novamente. No final do século XIX, porém, essa opcio jé nao era tao atraente quanto antes. Simultaneamente a Feira Mundial de Chicago de 1893 — um evento que orgulhava os chicagoenses, que viam sua cidade como uma histéria de sucesso ~ foi realizada aguela reuniao de historiadores em que o jovem Frederick Jackson Turner observou o fim da era da fronteira, ao mesmo tempo em que especulava sobre seu significado para a cultu- ra americana. Nas décadas que se scguiram, a expansio da sociedade americana 28 ¢ concentraria ainda mais em suas cidades, com Chicago ainda ocupando um lugar de destaque. Como muitas outras cidades cm transformagao, Chicago apagou muitos dos estigios de sua histéria recente. O Hisll House, o antigo abrigo que um pequeno grupo de idealistas, lideradas por Jane Addams administrava, tentando melhorar as condigoes das favelas vizinhas, ainda est4 de pé, mas agora um pouco isolado como um pequeno museu nos arredores de um novo complexo académico. A poucas centenas de metros de distancia, a Haymarket Square foi cortada cm dois por um sistema vidrio ¢ por um monumento erguido para perpetuar a agao dos liciais em “defesa da cidade”, naquela desastrosa noite de maio, ¢ apenas sua base continua ali, quase imperceptivel para quem nao estiver procurando por ela. Muitas versées da estérua que ficava sobre ela foram explodidas a0 longo dos anos, uma delas pelos Weathermen, em 1969. Mas sea cidade nao parece mais a mesma, a juventude de Chicago foi docu- mentada, expressivamente,de muitas outras maneiras. Havia os escritores. Theodore Dreiser, em “Sister Carrie”, mostrou uma cidade que parecia crescer sozinha ¢ a corrupsio de jovens recém-chegados era seu principal negdcio; Upton Sinclair descreveu a carreira sombria do imigrante lituano Jurgis Rudkus, que de traba- thador em um matadouro se transformou em presididrio, meraltirgico, mendigo, ladr3o € polftico corrupto, em The Jungle. Hd as memorias de Jane Addams, Trenty Years at the Hull House. Hi um capitulo dedicado politica de Chicago n The Shame of The Cities, de Lincoln Steffens, onde, talvez surpreendentemen- te, 0 autor descobriu que a cidade, pelo menos em 1903, ndo estava realmente entre as mais corruptas, Nao menos importante, no entanto, é uma instituigao local que ainda esta viva ¢ que também teve um papel significativo na formacao do nosso entendi- mento nao sé de Chicago no inicio do século XX, mas do urbanismo em geral. partir da Primeira Guerra Mundial ¢ durante toda a década de 1930, os so- idlogos da Universidade de Chicago realizaram uma séric de estudos baseados investigagdes de sua propria cidade, que foi geralmente reconhecida como 0 icio dos estudos urbanos modernos, e como o conjunto de pesquisas sociais is importantes sabre qualquer cidade do mundo contemporineo. Embora te- nha sido examinada antes, podemos nos lembrar dela, mais uma vez, a fim de ncorpord-la explicitamente heranga da antropologia urbana’, . Decidi no entulhar 0 texto que se segue com referéncias e sim reservé-las para pontos especificos 1e pareceriam exigit uma documentagio precisa. Em vez disso, esta nota pode ser considerada m0 um minicnsaio bibliogrifico sobre fontes que me pareceram titeis ao desenvolver minha pré- ia compreensio dos socidlogos de Chicago. JA que este € um grupo de académicos que atrairam 1uitos comentirios durante anos, certamente nao afirmo estar oferecendo um quadro completo da ieratura. Sobre as obras dos proprios chicagoenses um mimero de monografias ¢ citado ou resumi- 23