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INSTITUTO LATINO- AMERICANO DE ECONOMIA, SOCIEDADE E POLÍTICA (ILAESP) SERVIÇO SOCIAL QUESTÃO SOCIAL, TERRITÓRIO,

INSTITUTO LATINO- AMERICANO DE ECONOMIA, SOCIEDADE E POLÍTICA

(ILAESP)

SERVIÇO SOCIAL

QUESTÃO SOCIAL, TERRITÓRIO, FRONTEIRAS E MIGRAÇÕES

IDENTIFICAÇÃO DOS SERVIÇOS, DEMANDAS E DESAFIOS:

ATUAÇÃO DA POLÍCIA FEDERAL NA TRÍPLICE FRONTEIRA

FILIPE SILVA NERI

JASLEISY L. S. VILLAVICENCIO

Foz do Iguaçu

Maio/2017

Sumário

1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS

3

2. A INSTITUIÇÃO: IDENTIFICAÇÃO

4

2.1

ESTRUTURA ADMINISTRATIVA/INSTITUCIONAL DA POLÍCIA FEDERAL

4

3. ENTREVISTA DIVISÃO DE CONTROLE E IMIGRAÇÃO DA PF

6

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

14

REFERENCIAS

14

ANEXOS

15

1.

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

O presente trabalho trata de uma análise sobre como e de que forma as instituições de ordem

federativa, regional e local, mediante órgãos públicos e privados, vem a ofertar serviços para a população fronteiriça, transfronteriça, e migrante na região da tríplice fronteira composta por Brasil, Argentina e Paraguai.

Neste contexto, desenvolvemos uma pesquisa de campo visando apreender como e de que forma

se dá a atuação profissional, os bens e serviços ofertados pela Polícia Federal na região de Foz de

Iguaçu para identificar a interação institucional com a população que permanece e transladam nas regiões de fronteira, entre as cidades gêmeas ou não. O estudo se deu a partir da articulação dos conteúdos da disciplina da Questão Social, Territórios, Fronteiras e Migrações do Curso de

Graduação em Serviço Social da UNILA, com identificação ativa por parte dos acadêmicos sobre

os serviços, demandas e desafios que enfrenta a população estrangeira e migrante na atenção aos problemas/situações peculiares que se expressam na processualidade da dinâmica local que perpassa para o global como expressões da questão social, que tem respostas institucionais.

É importante salientar que no brasil, desde 2004, ampliou-se o debate sobre as regiões fronteiriças com a criação do Ministério da Integração MI. Segundo Silva (2006) isto incorporou uma visão ampliada da fronteira, de forma a apreender todos os processos peculiares a essa região, tendo como referência o local, privilegiando deste modo à especificidade de cada faixa de fronteira. Entende-se, a partir do apresentado, que discutir as peculiaridades da zona fronteiriça de Foz de Iguaçu é importante para identificar como o discurso da integração vem se plasmando por parte das instituições, com recorte para atuação da Polícia Federal que tem uma visibilidade da aplicação da política na perspectiva de proteção do território o que envolve a questão da segurança nacional sobre as expressões da questão social. Cabe destacar que a atuação da Policia Federal na área de Foz de Iguaçu vem contemplar o conceito de faixa de fronteira instituído pelo MI, que segundo Silva na área do Mercosul é formada por:

69 municípios de quatro Estados sendo 29 municípios localizados no Rio Grande do Sul, 10 em Santa Catarina, 18 no Paraná e 12 no 69 Mato Grosso do Sul, os quais todos juntos somam aproximadamente um milhão e quinhentos mil habitantes (MI apud Silva, 2004).

Cabe destacar que o presente trabalho busca identificar como o conceito de fronteira é entendido, de forma objetiva e subjetiva, por parte da Polícia Federal, fazendo uma articulação entre as informações concedidas mediante entrevista e a dissertação de Mestrado da professora Maria Geusina da Silva “O Local e o Global na Atenção às Necessidades de Saúde dos Brasiguaios:

Análise da Intervenção Profissional do Assistente Social em Foz Do Iguaçu”, fazendo um destaque dos procedimentos e riscos que enfrentam a população migrante, fronteiriça e transfronteiriça.

2.

A INSTITUIÇÃO: IDENTIFICAÇÃO

A Polícia Federal é um órgão Federativo do Brasil que tem como missão “Exercer as atribuições de polícia judiciária e administrativa da União, a fim de contribuir na manutenção da lei e da ordem, preservando o estado democrático de direito. ” (PF, p.1). Esse órgão foi criado para a preservação da segurança nacional que tem base jurídica para a composição da estrutura e desenvolvimento de competências na Constituição Federal do 1988, na Portaria nº 490, de 25 de Abril de 2016, na Portaria nº 3997/2013-DG/DPF de 2013 e a Instrução Normativa nº. 013/2005- DG/DPF, que define as obrigações e atribuições da Policia Federal.

2.1 ESTRUTURA ADMINISTRATIVA/INSTITUCIONAL DA POLÍCIA FEDERAL

A instrução normativa n o. 013/2005-DG/DPF, de 15 de junho de 2005 em seu Art. 5 o. assinala que as Delegacias de Polícia Federal localizadas nos municípios de Foz do Iguaçu/PR e de Santos/SP compõem-se de:

1. DELEGACIA DE POLÍCIA FEDERAL DPF

1.1 Núcleo de Administração - NAD

1.2 Núcleo de Inteligência Policial - NIP

1.3 Núcleo Técnico-Científico - NUTEC

1.4 Delegacia Executiva DELEX

1.4.1 Núcleo Especial de Polícia Marítima - NEPOM

1.4.2 Núcleo de Polícia de Imigração - NUMIG

1.4.3 Núcleo de Operações - NO

1.4.4 Núcleo de Cartório - NUCART

No artigo 36 do IN nº. 013/2005-DG/DPF, de 15 de junho de 2005 se estabelece as

competências da Divisão de Controle de Imigração da Polícia Federal de Foz do Iguaçu:

I - Planejar, orientar, controlar e avaliar a execução das operações policiais relacionadas aos processos de entrada/saída de pessoas no/do País, de cadastramento e fiscalização dos meios de transporte e dos agentes consignatários do tráfego internacional, dos prazos de estada de estrangeiros categoria turista, da autorização de embarque/desembarque de cadáveres, da concessão de embarque, desembarque, reembarque

e transbordo de pessoas no tráfego internacional, bem como das relacionadas com o patrulhamento da faixa de fronteira, da orla marítima, rios e lagos navegáveis de curso internacional, áreas e instalações aeroportuárias, alfandegadas ou não;

II - Planejar, orientar, coordenar, controlar e avaliar a execução das atividades relacionadas à fiscalização de tripulantes, trabalhadores e visitantes aos meios de transporte marítimos e aeroportuários, engajados no tráfego internacional;

III

- controlar o embarque e desembarque de deportandos, expulsandos e extraditandos, bem como a

repatriação de clandestinos e impedidos.

IV - Impedir a entrada/saída de pessoas no/do País que estejam em desacordo com as normas vigentes;

V - Coordenar, controlar, orientar e executar as autuações decorrentes de infrações ao Estatuto do

Estrangeiro relativas ao tráfego internacional;

VI - Levantar as necessidades dos pontos de fiscalização terrestres, portuários e aeroportuários, propondo

à CGPI/DIREX soluções adequadas ao seu provimento;

VII - propor diretrizes específicas e orientar suas unidades subordinadas sobre a legislação e a

jurisprudência correlatas à sua atribuição, visando à uniformidade de atuação;

VIII - implementar visitas e inspeções às unidades descentralizadas, tendo em vista a melhoria dos procedimentos operacionais;

IX - Colaborar com a ANP/DGP na orientação do planejamento e da execução do ensino da matéria de sua

atribuição;

X - Promover o controle estatístico dos dados e a consolidação das informações referentes às atividades,

aos resultados das operações policiais e à incidência infracional, relacionados à sua atribuição, tendo em

vista subsidiar a gestão do Coordenador-Geral da CGPI/DIREX.

3.

ENTREVISTA DIVISÃO DE CONTROLE E IMIGRAÇÃO DA PF

A entrevista foi realizada com Andersom Vargas de lima, agente da Polícia Federal que compõe a Divisão de Controle de Imigração da Polícia Federal de Foz do Iguaçu/PR.

A entrevista teve início com a apresentação dos instrumentos disponibilizados pela professora coordenadora da pesquisa, quais sejam: Termo de livre consentimento e esclarecido, Solicitação de Visita Institucional e os temas que foram abordados no decorrer.

O entrevistado iniciou com a apresentação de como se dá a atuação da Polícia Federal em Foz do Iguaçu/PR, com recorte para pessoas estrangeiras e migrantes na tríplice fronteira Brasil Argentina Paraguai.

Nos informou que o controle migratório no Brasil tem várias frentes: uma que é realizada no exterior, por meio do Consulado, que realiza a emissão de visto e demais documentos que permitem a entrada do estrangeiro no Brasil. No entanto o profissional salienta que não são todos os estrangeiros que necessitam passar por esse processo, pois, alguns podem entrar no país de forma direta, de acordo com a nacionalidade ou com a finalidade da viagem, ficando isento de passar por estas etapas. Todos os ingressantes em território nacional, independentemente de sua forma de entrada, nacionalidade ou região, devem se submeter a outra forma de fiscalização, que é o controle de fronteira. Tal forma de controle é realizado em todas as fronteiras brasileiras, sejam elas terrestres, aéreas, fluviais ou marítimas. O entrevistado ressalta que o controle migratório na fronteira é mais amplo, tendo em vista que não fiscaliza somente os estrangeiros, mas, também, o próprio nacional, seja ele migrante ou cidadão fronteiriço.

Esse segundo tipo de controle é realizado pela Polícia Federal em diversas linhas, sendo, nos aeroportos, nos portos fluviais e marítimos e nas fronteiras terrestres. É a Polícia Federal que detém o controle de fronteira 1 no Brasil, prevista constitucionalmente.

Existe ainda uma outra forma de controle, que nem todos os estrangeiros estão submetidos. O estrangeiro, quando transfere domicílio para o Brasil, participa de um terceiro controle realizado pela PF, chamado de controle interno, realizado pelo Registro de Estrangeiros, cominando com a emissão do documento de identidade do estrangeiro RNE. Dentro dessas três formas de controle, o mais completo é controle realizado na fronteira. Todos os municípios que possuem Polícia Federal realizam alguma forma de controle, sejam na fronteira ou não. Pois todas as delegacias da PF possuem setores de registro de estrangeiro.

Fora das formas de controle supra, existe ainda o controle para os estrangeiros que estão estudando ou trabalhando. Este é feito por meio do setor de operações que realiza fiscalizações

1 O controle de fronteira abrange o controle de armas, de mercadorias, de drogas e controle migratório.

pontuais no intuito de identificar se existe algum empregador trazendo estrangeiros para trabalhos em situação irregular (análogos à escravidão e exploração do trabalho, tráfico de pessoas etc). Salienta-se que, atualmente, existem investigações em Foz do Iguaçu sobre trabalhos análogos à escravidão 2 .

Ao ser Foz de Iguaçu uma região fronteiriça caracteriza pela sua dinâmica turística, polo receptor de acadêmicos universitários, assim como sua particularidade limítrofe com Argentina e Paraguai que lhe outorgam características para se tornar uma “Fronteira viva”, permeada por expressões sociais possibilitadas pela própria localização geográfica que dotam a cidade de passos fronteiriços, fluviais, terrestres e aéreos, que possibilitam a migração, e a estancia de nacionais, estrangeiros e cidadãos fronteiriços e transfronteiriços,

pode-se então classificar essa fronteira como uma “fronteira viva”, a qual

Padrós (1994, p.76) denomina como ”caracterizadas por uma presença demográfica relativamente importante e por uma estrutura social complexa, ” manifestando uma “integração informal que sobrevive às conjunturas políticas e de corte”. As relações e processos sociais construídos nesses espaços derivam da forma de organização e fortalecem as economias locais e regionais levando o homem fronteiriço a criar estratégias para sobrevivência nestas regiões (Silva, 2006, p.75)

] [

No tocante a exploração de estrangeiros na fronteira, temos que levar em consideração as crianças e adolescentes, geralmente paraguaias, que ficam em situação de mendicância, pois estas passam diariamente por diversas formas de exploração. Outra forma de exploração de estrangeiros na tríplice fronteira é caracterizada pelos empregadores que buscam serviços domésticos às empregadas paraguaias, não as registram na polícia, muitas vezes pagando valores bem a baixo das empregadas brasileiras, além da sobrecarga de trabalho.

Sobre a atuação da Polícia Federal no tocante as formas de exploração de estrangeiros, o entrevistado ressaltou que em Foz do Iguaçu existem particularidades de acordo com a população alvo, com maiores incidências para os malabares, pedintes, empregadas domesticas, trabalhadores rurais, que, por mais que não caracterize trafico, do ponto de vista administrativo há exploração. Pois faltam registros e pagamento dos direitos trabalhistas. E tem também a realidade das crianças e adolescentes. Em todas as situações, a PF conta com o apoio do país/região de origem. Na realidade de Foz do Iguaçu, a maioria dos casos acontecem com pessoas paraguaias ou argentinas. O que facilita o diálogo, tendo em vista que ambos possuem consulado na cidade, o que possibilita o intercâmbio de informações. Em relação as empregadas domésticas, caso seja constatado alguma forma de irregularidade no trabalho, é passível de multa, tanto para empregada quanto para o empregador. No entanto, a PF atua na perspectiva de regularizar a situação para

2 Ressalta-se, ainda, que a lei que trata do tráfico de seres humanos é ampla em nível internacional. No Brasil, de acordo com o entrevistado, não há uma lei específica para tais fins. No entanto, a PF utiliza-se das leis brasileiras como estratégia de combate ao tráfico de pessoas, trabalho análogo à escravidão e exploração da força de trabalho.

que a empregada estrangeira possa ter seus direitos garantidos. Já em relação aos malabares, a partir do momento em que este ultrapassa o limite entendido como trabalho artístico, ou seja, atrapalhando a dinâmica do trânsito, utilização de ferramentas ou consumo de substâncias o mesmo é retirado do território nacional por meio da deportação, pois, de acordo com o entendimento da PF, o mesmo deixa de ser conveniente para o Brasil. Em relação às crianças e adolescentes, foi nos informado que a situação é mais delicada, pois além de não poder multar o menor, já que o mesmo não pratica atos da vida civil, não se pode simplesmente leva-los até a

fronteira e realizar deportação, pois, de acordo com o entrevistado, o Estado brasileiro não estará os tirando da situação de vulnerabilidade em que os mesmos vivem. Talvez estariam os expondo

a riscos maiores, tendo em vista que não se sabe o motivo da vinda ao Brasil e nem o que poderá

acontecer do outro lado da fronteira. A Polícia Federal pode atuar de forma conjunta com outros órgãos, tais como o Conselho Tutelar, Vara da Infância e da Juventude, o consulado do país de origem etc, visando tirar a criança e adolescente da situação de vulnerabilidade. Ressaltou a importância do Protocolo de Atendimento às Crianças e Adolescentes, pois o órgão que realizar

o atendimento aos usuários nacionais ou estrangeiros deve saber qual o caminho a ser percorrido

para que estes fiquem em situação de segurança. Esse apoio é necessário também do outro lado da fronteira. Em muitas situações, a PF repassa o caso para o Conselho Tutelar e muitas vezes esse órgão não tem e/ou não sabe qual o melhor direcionamento. Uma das maiores dificuldades se dá no acolhimento institucional, pois não há como entrar em contato com a família. Por isso a

importância do protocolo de atendimento padrão e solidificação de uma rede de atendimento, de forma impessoal.

Nessa região existem quatro postos de atendimento da Polícia Federal: Ponte da Amizade, Ponte Tancredo Neves, Aeroporto e o porto fluvial no município de Santa Helena/PR.

Algumas pessoas defendem que a solução é aumentar a fiscalização na Ponte da Amizade, no entanto, torna-se humanamente impossível por conta do fluxo de pessoas que atravessam a fronteira diariamente. O fluxo de transeuntes, em baixa temporada, é em média de 80 mil pessoas/dia. Não há um investimento massivo em migração. Salientou ainda que o Brasil tem uma postura e entendimento diferente aos demais países em relação a migração, pois o país já realizou diversos acordos que facilitam a entrada e trânsito de pessoas, entre esses, o MERCOSUL. Estabelecer uma política de fechar a fronteira seria totalmente incoerente. Entre os acordos, existe também a nova lei de migrações 3 que, de acordo com o profissional, esta é um norte totalmente diferente do atual discurso de fronteira fechada. Neste sentido cabe destacar, ainda que existam

3 Destaca-se que a nova lei de migrações ainda não foi sancionada, até a presente data, pelo governo brasileiro.

avanços no âmbito das políticas migratórias mediadas pela ratificação e submissão de acordos bilaterais e multilaterais que beneficiam ao migrante, Silva assinala que:

A cooperação binacional nesta região, ainda que pautada em acordos locais e regionais dinamizados pela circulação de pessoas de um lado para outro, já se

Destaca-se a dificuldade em se conceituar a

fronteira frente à dinâmica própria dessa faixa de interações, especialmente entre as cidades gêmeas, remetendo a necessidade de introduzir neste contexto o debate sobre fronteira institucionalizada. Ou seja, a criação de leis e projetos especiais que definam e regulem a utilização da faixa de fronteira não somente em nosso país, mas em todos os países da América do Sul. (2006, p101-103)

Ainda em relação a nova lei de migrações, o profissional salienta que a nova lei não muda

a competência do controle de fronteira, continuando no âmbito de atuação da Polícia Federal. Mas que podem ocorrer adaptações regionalizadas

constitui um cenário real. [

]

Ressalta-se que a fronteira de Foz do Iguaçu possui particularidades que as diferencia de qualquer outra fronteira brasileira, por isso a defesa das adaptações regionais para nova lei de migrações. O profissional salienta que tais adaptações ocorrerão de forma pontual, tendo em vista que a lei precisa ser entendida e atendida de forma geral, precisando ser regulamentada em vários pontos. E que, por esse motivo, talvez leve mais um ano após sua aprovação para que entre em vigor. Em relação ao que postula a nova lei sobre a reponsabilidade dos estados e municípios regulamentarem a mesma, foi ressaltado que, nesse quesito, se trata da divisão de responsabilidades no que diz respeito às políticas sociais.

O profissional postula que a nova lei de migração pode ser considerada um avanço e ao mesmo tempo um retrocesso, avançando no tratamento mais humanizado e retrocesso no quesito controle de fronteiras e migrações. No entanto, o Brasil é uma vanguarda com essa nova lei, enquanto o mundo discute as migrações de forma a fechar as fronteiras, o Brasil está indo no caminho inverso. Defende ainda que a migração no país não pode ser considerada um problema. Para isso, a taxa de migração deveria ser de 3% da população para que haja um desequilíbrio e, atualmente, essa taxa não passa de 1,2 por cento da população. O Brasil está longe de um problema migratório.

Um dos avanços apontados pelo entrevistado, é que a questão da regularização do migrante estrangeiro, pois é um dos grandes problemas que a Polícia Federal enfrenta até o momento. Não adianta realizar a deportação do migrante, sabendo que o mesmo poderá voltar a situação de irregularidade e vulnerabilidade social. É melhor que o estrangeiro exista para o Estado, cadastrado em um banco de dados nacional. A partir do momento em que o Estado Nação continua a marginalizar o estrangeiro, não dando instrumentos que os possibilitem uma certa

autonomia e regularização, existe a tendência de exploração destes. Ou seja, a política de Estado,

a partir desse novo viés, passa a ser uma política de regularização. A lei antiga previa que não se deve regular o irregular. Os avanços possibilitam que até a empregada doméstica irregular e

indocumentada tenha a possibilidade e prazo para regularização, garantindo os direitos trabalhistas, passando a existir para o Estado brasileiro. Quando o Estado não garante uma política de regularização, fomenta mais problemas ainda, pois o migrante vai ser mais explorado, viver escondido e não terá direito à saúde. E, sob estes aspectos, a nova lei é muito positiva.

Em relação a discricionariedade, o profissional faz uma autocrítica, pois existem várias Polícias Federais no âmbito nacional e cada profissional pode ter um entendimento diferente sobre o trato em relação ao migrante e ao estrangeiro. E que a postura adotada em Foz do Iguaçu pode não ser a mesma postura adotada em outros municípios do Paraná. Mas que, por um lado, a análise deve ser voltada de acordo com a região e o público atendido por determinado departamento. Mas essa forma de abordagem pode ser entendida como um problema, a polícia e o serviço público de migração deveria ser único, em seguir um padrão de atendimento ao usuário. Por mais que ocorram adaptações regionais.

Um dos grandes avanços da Polícia Federal em Foz do Iguaçu, foi a participação na construção de políticas voltadas para o atendimento ao migrante e estrangeiro, através de cursos de alinhamentos. E a criação de uma ferramenta para controle migratório na fronteira.

O maior desafio do controle migratório na fronteira é na separação dos fluxos pois, até então, a imigração trata todos os migrantes como se fossem todos com o mesmo perfil. O que acaba partindo do preconceito que todos são potenciais terroristas ou que estão fugindo de algum lugar. Torna-se necessária a capacidade de separar o turista, a criança e adolescente, as pessoas que possuem mandato de prisão etc. ressalta-se que a Polícia Federal conseguiu estabelecer um projeto piloto para a cidade de Foz do Iguaçu, que atuará como um autoatendimento ao migrante. Possibilitando que a Polícia Federal atue com foco ao estrangeiro que esteja com alguma pendência. E sobra tempo para os usuários que necessitam de uma atenção maior, como as crianças e adolescentes. O profissional ressalta ainda que de todo o montante de atendimento realizado pelo setor de migração, em média 80%, é oriundo do Mercosul e não gera nenhum problema, pois estes vêm à turismo. A partir disso, o atendimento é realizado com maior qualidade.

Em um segundo momento, o desafio é o de agilizar a fronteira brasileira com a Argentina. Existem dois controles dos fluxos migratórios, um no Brasil e outro na Argentina. O que pode ser um grande problema na época de alta temporada. O Brasil só consegue realizar dez por cento do controle de fluxo migratório realizado efetivamente pelo país vizinho. O que torna necessário a união dos dois controles, trabalhando de forma conjunta. Esta situação se agrava na medida em que a fronteira se expande conforme o crescimento econômico e populacional dessa região, pois,

Esse espaço passou a contar com um alto índice de indivíduos binacionais ou transfronteiriços, em que os binacionais são aqueles cujo domicílio está situado

de um lado da fronteira, mas que, por motivos diversos, transitam permanentemente entre fronteiras. (Silva, 2006, p.74)

Outro tema esclarecido foi em relação ao controle que a Polícia Federal esteve realizando,

a partir de 2015, em conjunto com a Secretaria Municipal de Saúde de Foz do Iguaçu, no tocante

ao acesso e concessão do cartão SUS ao estrangeiro. O profissional postula que, a partir da vigência do acordo do Mercosul, instrumento que facilitou a residência de estrangeiros no Brasil,

assim como nos demais países signatários, fez com que alguns cidadãos paraguaios se utilizassem desse acordo para se regularizassem no Brasil. Ressalta-se que o registro não solicitava a comprovação de residência no país, de acordo com o decreto 6.975/2009. Isso fez com que os paraguaios que vivem na região fronteiriça conseguissem o registro nacional de estrangeiros com base na lei, o que facilitou o acesso ao Cartão SUS, até que se tornou insustentável e oneroso ao município. Outro problema apresentado é que, com essa situação, apareceram despachantes para auxiliar o estrangeiro na obtenção do RNE e Cartão SUS, com suspeita de que estes estivesses recebendo dinheiro. O que acabou criando um problema. A partir disso foi criada uma auditoria conjunta entre a Secretaria de Saúde e a Polícia Federal para a criação de um protocolo, onde todos os cartões de estrangeiros foram cancelados para que depois fosse realizo o recadastramento. A Polícia Federal auxiliou na auditoria, identificando falhas administrativas. Mediando o diálogo entre Foz do Iguaçu e Ciudad Del Este. O entrevistado acredita que enquanto

o país vizinho não tiver um sistema de saúde mais efetivo, o SUS brasileiro sempre será a válvula de escape para os estrangeiros que necessitam de assistência médica.

O profissional, em sua fala, deixa em evidencia que os cidadãos que se encontram na região da tríplice fronteira têm criado estratégias para acessar e usufruir aos direitos garantidos pelo Brasil a seus residentes. Assim os cidadãos fronteiriços, transfronteiriços e migrantes tendem

a evadir o sistema burocrático mediante falsificação de documentações legais, ou empréstimo dos mesmos por parte de terceiros.

Neste cenário identifica-se um número expressivo de pessoas que forjam comprovantes de residência no Brasil, mediante pagamento a brasileiros para transferência de contas de água, luz ou telefone em seu nome. O empréstimo de documentos, mais especificamente aqueles que não possuem fotos, como certidão de nascimento, CPF, ou título de eleitor também é comum. A contração de brasileiros que falam bem a língua portuguesa, a espanhola e a guarani, por paraguaios, como intérpretes, e também como guias, para apresentarem-se em repartições de saúde e outras, também é muito utilizada. Além disso, existem os falsos casamentos e até a falsificação na tradução de documentos expedidos pelo consulado brasileiro no Paraguai. (Silva 2005. Apud SILVA, 2006, p95)

Outra forma de atuação da Polícia Federal sobre o controle de migrantes estrangeiros é a aplicação de multa ao indocumentado e ao irregular. Esta aplicação depende de cada circunstância, sendo que o valor mínimo é de R$ 8,27, independentemente do tipo de visto ou irregularidade. Mas que essas autuações também discorrem sobre a discricionariedade do agente da Polícia Federal. Um exemplo concreto se dá na fiscalização e controle dos paraguaios, por conta do acordo de facilitação de residência, a dispensa de visto e demais instrumentos jurídicos-

normativos. Seria incoerente aplicação de altas taxas para estes, tendo em vista a dinâmica e a particularidade da tríplice fronteira. Diferente de outros países que necessitam realizar a migração (libaneses, chineses, árabes etc.).

O público alvo das atuações da Polícia Federal em Foz do Iguaçu é todo o migrante, que está entrando ou saindo do país, seja nacional ou estrangeiro. Além do atendimento aos refugiados, perseguidos políticos, países em guerra etc., situações em que o Brasil pode conceder o passaporte para estes estrangeiros.

O número de atendimentos realizados em média ao estrangeiro e migrante é flutuante e o número depende ao que for considerado. No setor de registro de estrangeiro atende em média 100 pessoas por dia (seja para entrar com um pedido de requerimento; pedido de naturalização ou informações gerais). No setor de passaporte, existe uma média de 80 pessoas atendidas por dia. As estatísticas dos postos de atuação da Polícia Federal 4 , em 2016, foram de 653. 633 entradas e 628.260 saídas 5 . Ressalta-se que esses dados dependem de cada época do ano ou até mesmo do preço do dólar.

As demandas mais frequentes atendidas pela Polícia Federal dentro da Delegacia de Migrações, são relativas às documentações. Os estrangeiros indocumentados que necessitam regularizar sua situação, podendo ser para estudo, trabalho, saúde 6 , aposentadoria. Existem muitos casos de estrangeiros que viveram a vida toda em Foz do Iguaçu e que só estão obtendo a documentação recentemente e vão à Justiça pleitear a aposentadoria. Essa realidade é muito latente em relação ao Paraguai, a partir do acordo do Mercosul. Existem ainda as demandas pelas escolas e universidades, em instituições públicas e privadas.

Outro tipo de demanda apresentada pelos usuários é sobre as anistias, com foco nos estrangeiros que já moram a mais de 15 anos no Brasil e solicitam a naturalização. Existem três formas de naturalização que são as mais procuradas pelos estrangeiros, sendo: quando a criança ingressa no Brasil com menos de cinco anos de idade, ganha uma naturalização provisória. Quando este chega aos 18 anos, tem o prazo de mais dois anos para informar se quer ser naturalizado de forma permanente. Outro tipo de naturalização é a ordinária, nesta o estrangeiro tem que entender o idioma português, tem que comprovar renda e não responder criminalmente. Se for de algum país de língua portuguesa, basta um ano de residência. Se for casado com brasileira ou tem filhos brasileiros, basta um ano de residência 7 . Tem ainda a naturalização

4 Anexo I

5 Em 2017, até o mês de março, foram contabilizadas 276.018 entradas e 287.397 saídas.

6 Aqui destaca-se o tratamento continuado, não somente o de emergência. A parir da regularização, o migrante entra nas estatísticas e o sistema local não é onerado.

7 Todas essas formas realizam análise da vida pessoal e econômica dos estrangeiros.

extraordinária, a mais simples. O estrangeiro deve residir no Brasil há mais de 15 anos e não ter nenhuma condenação penal.

Neste sentido, as naturalizações só aconteceram no cumprimento das condições da Constituição Federal de 1988, os que cumpram com a condição de residentes no pais. Tal sentido de acordo com Silva (2006) é resgatado na medida em que:

Verifica-se que a condição de “residente” para outorga da nacionalidade e consequentemente para a obtenção da proteção estatal, contraria alguns preceitos constitucionais como o direito de ir e vir contrapondo-se a promessas do passado que gestaram e incentivaram a migração de brasileiros para o Paraguai. (2006, p.93)

No tocante às demandas apresentadas por outros órgãos e instituições, a que tem maior solicitação é no que diz respeito ao transito de criança e adolescente pela vara da Infância e juventude. Em segundo lugar estão as demandas apresentadas pela Secretaria de Saúde (confirmação de estrangeiros). Receita Federal (quando gera dúvidas a respeito da emissão do CPF para o estrangeiro, em território nacional ou não). Instituições de ensino (para a regulamentação, registro e emissão dos diplomas de estrangeiros). Justiça Federal. E empresas e cooperativas privadas que realizam a contratação de estrangeiros. Consulados. Polícia Paraguaia, Imigração Argentina etc.

Os maiores desafios encontrados pelo setor de migrações da Polícia Federal são: 1º Estabelecer os Fluxos Migratórios, aplicando o controle correto em cada situação; 2º O desafio eminente da nova lei de migrações (equilibrar e aplicar o espírito da nova lei de forma uniforme no Brasil); 3º carência de pessoal (abre as fronteiras, mas não é garantido uma estrutura que de conta da demanda, o que não dá qualidade ao serviço).

Os desafios e peculiaridades de atuação na fronteira se dão no fluxo migratório na linha de fronteira, sendo maior do que qualquer outra unidade brasileira. Na fronteira, cada migrante possui uma história.

Os recursos que a Polícia Federal recebe não são suficientes para custeio das ações e serviços. A demanda é sempre crescente. Ressaltando que a Polícia Federal em Foz do Iguaçu é uma das maiores do Brasil. É unidade gestora das cidades de Cascavel e Guaíra e que presta apoio administrativo e financeiro. Além dos quatro postos de atuação.

4.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A dinâmica do fluxo contemporâneo das migrações nacionais e internacionais tem impactos nas realidades locais e regionais das zonas que compõem a faixa de fronteira. A partir disso, torna-se necessário (re) pensar como e de que forma as políticas públicas migratórias podem impactar na processualidade da vida material, social, cultural, política e econômica dos cidadãos fronteiriços, transfronteiriços, migrantes, estrangeiros e refugiados na região da tríplice fronteira e suas cidades gêmeas.

Nesse sentido, face a tal movimento, se faz urgente e necessário pensar como e de que forma os novos instrumentos jurídicos-normativos vão intervir, direta ou indiretamente, nas relações sociais engendradas de forma particular na tríplice fronteira. É indispensável pensar o funcionamento da política migratória desde a visão local para o global, numa perspectiva de construção histórica-social. A previsão da nova lei migrações marca, em certo aspecto, o progresso social e moral dos direitos sociais nas legislações brasileiras, possibilitado uma maior integração regional. Tal regulamentação impactará diretamente na atuação profissional da Polícia Federal e demais órgãos de atenção ao migrante.

Entendemos que outro desafio é como tais legislações poderão ser regulamentadas a partir do entendimento dos estados e municípios e a discricionariedade profissional no tocante às políticas de proteção social, atendendo às demandas dos usuários da linha de fronteira, de forma particular e universal, respeitando e considerando o fenômeno migratório em sua totalidade.

REFERENCIAS

SILVA, Maria Geusina da. “O Local e o Global na Atenção às Necessidades de Saúde dos Brasiguaios: Análise da Intervenção Profissional do Assistente Social em Foz Do Iguaçu”

BRASIL. Polícia Federal. Disponível em: <http://www.pf.gov.br/institucional/missao-visao-e- valores/>. Acesso em 08 de maio 2017.

INSTRUÇÃO NORMATIVA No. 013/2005-DG/DPF, DE 15 DE JUNHO DE 2005. Disponível

em: <http://www.pf.gov.br/institucional/acessoainformacao/institucional/instrucao-

normativa-no.-013-2005-dg-dpf-de-15-de-junho-de-2005/>. Acesso em 08 de maio 2017.

ANEXOS