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APRESENTAÇÃO

Um plano para os seus estudos

Este GUIA DO ESTUDANTE ATUALIDADES oferece uma ajuda e tanto para as provas, mas é claro que um único guia não abrange toda a preparação necessária para o Enem e os demais vestibulares. É por isso que o GUIA DO ESTUDANTE tem uma série de publicações que, juntas, fornecem um material completo para um ótimo plano de estudos. O roteiro a seguir é uma sugestão de como você pode tirar melhor proveito de nossos guias, seguindo uma trilha segura para o sucesso nas provas.

guias, seguindo uma trilha segura para o sucesso nas provas. 1 Decida o que vai prestar

1 Decida o que vai prestar

O primeiro passo para todo vestibulando é escolher com clareza a

carreira e a universidade onde pretende estudar. Conhecendo o grau de dificuldade do processo seletivo e as matérias que têm peso maior na hora da prova, fica bem mais fácil planejar os seus estudos para obter bons resultados.

traz todos os

cursos superiores existentes no Brasil, explica em detalhes as carac- terísticas de mais de 270 carreiras e ainda indica as instituições que oferecem os cursos de melhor qualidade, de acordo com o ranking de estrelas do GUIA DO ESTUDANTE e com a avaliação oficial do MEC.

COMO O GE PODE AJUDAR VOCÊ O

GE PROFISSÕES

do MEC. COMO O GE PODE AJUDAR VOCÊ O GE PROFISSÕES 2 Revise as matérias-chave Para

2 Revise as matérias-chave

Para começar os estudos, nada melhor do que revisar os pontos mais importantes das principais matérias do Ensino Médio. Você pode re- passar todas as matérias ou focar apenas em algumas delas. Além de rever os conteúdos, é fundamental fazer muito exercício para praticar.

COMO O GE PODE AJUDAR VOCÊ Nós produzimos todos os anos um

O GE PODE AJUDAR VOCÊ Nós produzimos todos os anos um guia para cada matéria do

guia para cada matéria do Ensino Médio:

GE HISTÓRIA , Geografia,

Português, Redação, Biologia, Química, Matemática e Física. Todos reúnem os temas que mais caem nas provas, trazem muitas questões de vestibulares para fazer e têm uma linguagem fácil de entender, permitindo que você estude sozinho.

fácil de entender, permitindo que você estude sozinho. 3 Mantenha-se atualizado O passo final é continuar

3 Mantenha-se atualizado

O passo final é continuar estudando atualidades, pois as provas exigem

alunos cada vez mais antenados com os principais fatos que ocorrem no Brasil e no mundo. Além disso, é preciso conhecer em detalhes o seu processo seletivo – o Enem, por exemplo, é bem diferente dos demais vestibulares.

GE ENEM
GE ENEM

COMO O GE PODE AJUDAR VOCÊ O

e o GE Fuvest são ver-

dadeiros “manuais de instrução”, que mantêm você atualizado sobre todos os segredos dos dois maiores vestibulares do país. Também não dá para perder a próxima edição do GE Atualidades, que será lançada em agosto, trazendo novos fatos do noticiário que ainda podem cair nas provas dos processos seletivos do final do ano.

cair nas provas dos processos seletivos do final do ano. FOTO: MIKE SEGAR/REUTERS CALENDÁRIO GE 2017
cair nas provas dos processos seletivos do final do ano. FOTO: MIKE SEGAR/REUTERS CALENDÁRIO GE 2017

FOTO: MIKE SEGAR/REUTERS

CALENDÁRIO GE 2017

Veja quando são lançadas as nossas publicações

MÊS

PUBLICAÇÃO

Janeiro

Fevereiro

GE HISTÓRIA

Março

GE ATUALIDADES 1

Abril

GE GEOGRAFIA

Maio

GE QUÍMICA GE PORTUGUÊS

GE BIOLOGIA

Junho

GE ENEM

GE REDAÇÃO

Julho

GE FUVEST

Agosto

GE ATUALIDADES 2 GE MATEMÁTICA

Setembro

GE FÍSICA

Outubro

GE PROFISSÕES

Novembro

Dezembro

Os guias ficam um ano nas bancas – com exceção do ATUALIDADES, que é semestral. Você pode comprá-los também nas lojas on-line das livrarias Saraiva e Cultura.

também nas lojas on-line das livrarias Saraiva e Cultura. FALE COM A GENTE: Av. das Nações

FALE COM A GENTE:

Av. das Nações Unidas, 7221, 18º andar, CEP 05425-902, São Paulo/SP, ou email para:

guiadoestudante.abril@atleitor.com.br

CEP 05425-902, São Paulo/SP, ou email para: guiadoestudante.abril@atleitor.com.br 4 GE ATUALIDADES | 1º semestre 2017

4 GE ATUALIDADES | 1º semestre 2017

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SUMÁRIO

ATUALIDADES VESTIBULAR + ENEM / Ed. 25 / 1º SEMESTRE 2017

ESTANTE

10 Dicas culturais Sugestões de filmes, histórias em quadrinhos e fotografias que complementam reportagens desta edição

PONTO DE VISTA

16

Retrospectiva/Perspectiva Veja o que os principais semanários destacaram em seu balanço de 2016 e suas expectativas para 2017

18

Donald Trump Como os principais diários noticiaram a posse do novo presidente dos Estados Unidos e seu discurso à nação

DESTRINCHANDO

20 Entenda a dívida pública O descompasso entre o quanto o governo brasileiro arrecada e gasta, o histórico da dívida pública no Brasil e o mapa do endividamento dos países

pública no Brasil e o mapa do endividamento dos países BRASIL 80 Operação Lava Jato Delação

BRASIL

80

Operação Lava Jato Delação da construtora Odebrecht cria expectativa de denúncias que podem afetar todo o sistema político

86

Poder Judiciário A atuação recente do Supremo Tribunal Federal levanta a discussão dos limites de cada um dos Poderes de Estado

90

Governo Temer O governo federal lança um programa de reformas conservadoras em meio a escândalos políticos

96

Ditadura Militar Morre dom Paulo Evaristo Arns, ícone na luta contra o regime militar e seus abusos contra os direitos humanos

100

Estado Novo Há 80 anos, Getúlio Vargas iniciava uma ditadura

ECONOMIANovo Há 80 anos, Getúlio Vargas iniciava uma ditadura   DOSSIÊ GLOBALIZAÇÃO EM CRISE 102 PEC

 
DOSSIÊ GLOBALIZAÇÃO EM CRISE

DOSSIÊ GLOBALIZAÇÃO EM CRISE

102

PEC do Teto O governo aprova uma emenda constitucional que congela o aumento de todos os gastos públicos por até 20 anos

108

Matriz de Energia O Congresso retira da Petrobras a exclusividade

26

Choque global Donald Trump é eleito presidente dos EUA com

na exploração do petróleo do pré-sal

discursos contra o livre-comércio e a cooperação internacional

114

Agropecuária O agronegócio ainda é o motor da economia do país

28

Trump e Brexit A eleição de Trump e a saída do Reino Unido da

118

Economia compartilhada Uber e Airbnb revolucionam o consumo

União Europeia ameaçam alicerces da globalização

122

Doutrina Truman Política externa dos EUA contra a URSS faz 70 anos

32

História da globalização Os principais conceitos do fenômeno

32 História da globalização Os principais conceitos do fenômeno QUESTÕES SOCIAIS

QUESTÕES SOCIAIS

34

Ordem antiglobal A crise no livre-comércio, o desemprego e a desigualdade social geram questionamentos à globalização

40

Nações desunidas Crescem os movimentos nacionalistas e xenófobos contra imigrantes e refugiados

124

Segurança pública Guerras entre facções nas prisões provocam barbárie e revelam a grave crise no sistema carcerário

INTERNACIONAL

INTERNACIONAL

132

Desigualdade racial Violência e discriminação nos EUA e no Brasil

138

Urbanização Os impactos do crescimento desordenado das cidades

144

Demografia A proposta de reforma da Previdência apresentada

46

Guerra na Síria O conflito altera a dinâmica geopolítica do Oriente Médio e gera uma grave crise humanitária

pelo governo e o envelhecimento da população mundial

54

Cuba As incertezas na ilha caribenha após a morte do líder histórico, Fidel Castro, e a ameaça representada por Donald Trump

após a morte do líder histórico, Fidel Castro, e a ameaça representada por Donald Trump CIÊNCIAS

CIÊNCIAS E MEIO AMBIENTE

58

Venezuela Politicamente dividido e afetado por desabastecimento e hiperinflação, o país vive uma grave crise

150

Aquecimento global Como as emissões de gases do efeito estufa e outras ações humanas impactam o planeta

62

Colômbia Após 52 anos de conflito armado, entra em vigor um

156

Água Estiagem castiga o Nordeste e o norte de Minas Gerais

acordo de paz entre o governo e os guerrilheiros das Farc

160

Doenças transmissíveis Surto de febre amarela ameaça o país,

66

Turquia Localizado entre a Europa e a Ásia, o país enfrenta divisões internas e desafios geopolíticos

que já sofre com as epidemias de dengue, chikungunya e zika

68

África 25 anos após o referendo que encerrou o apartheid, o

SIMULADO

continente sofre com a queda de preços dos produtos que exporta

164

Teste 36 questões dos vestibulares sobre temas desta edição

74

ONU O novo secretário-geral pretende resgatar a capacidade da entidade para evitar guerras e crises humanitárias

PENSADORES

78

Guerra da Bósnia Há 25 anos eclodia o conflito nos Bálcãs

178

Paulo Freire O pedagogo que revolucionou as formas de ensinar

6 GE ATUALIDADES | 1º semestre 2017

AMERICA FIRST O então candidato Donald Trump durante a campanha presidencial em agosto de 2016

BRIAN SNYDER/REUTERS

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^~^ ESTANTE
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ESTANTE

FILMES E QUADRINHOS NOS FALAM DO MUNDO ATUAL E SEUS DRAMAS CONTEMPORÂNEOS

FILMES

Lembranças

concretas

A partir da especulação imobiliária, Aquarius mostra o valor da memória afetiva

VICTOR JUCA/DIVULGAÇÃO
VICTOR JUCA/DIVULGAÇÃO

10 GE ATUALIDADES | 1º semestre 2017

A trama central de Aquarius ,

filme do diretor brasileiro

Kleber Mendonça Filho, é

definida logo nos primeiros minutos da obra. Clara, uma jornalista e crítica musical aposentada, recebe a visita de funcionários de uma construtora, in-

teressados em comprar o apartamento em que vive. A intenção da empreiteira é demolir o Edifício Aquarius, que fica em frente à praia de Boa Viagem, no

Recife (PE), e erguer um prédio de alto padrão. Todos os outros proprietários

já cederam às sedutoras ofertas finan-

ceiras da construtora e se mudaram dali. Clara é a última moradora, que reluta em deixar o imóvel. Entramos, portanto, na seara da espe- culação imobiliária. O terreno ocupado pelo Edifício Aquarius é visto como uma mina de ouro para a construtora. Ao ad-

quirir a propriedade total daquele prédio antiquado na valorizada orla recifense, a empresa poderia construir um moderno edifício, que atrairia o interesse de uma endinheirada classe média alta. Mas

o que a empreiteira vislumbra como

um excelente investimento financeiro representa algo mais para Clara. Aquele apartamento é um repositório de memó- rias de gerações inteiras de sua família, coisa da qual ela não está disposta a abrir mão por dinheiro nenhum.

Estabelecidos os papéis de mocinha e bandidos nesta história, o filme chega a flertar com o maniqueísmo – o pedante

e inconveniente funcionário da cons-

trutora contra a senhora que defende

o seu direito de permanecer no lugar

onde mora. Mas Kleber Mendonça Filho soube driblar essa armadilha estabele- cendo interessantes subtramas a partir

da teia de relações humanas de Clara.

Temos as relações familiares de Clara com seus três filhos. Um deles tenta convencer a mãe a aceitar a oferta da construtora. O contato com a emprega- da, por sua vez, reforça a hierarquia de classe. Por mais que Clara mostre ter uma genuína afeição pela empregada, as barreiras entre os dois mundos estão ali, sempre evidentes. A protagonista também não se furta a desfrutar de certas vantagens, como os contatos privilegiados com um jornalista e um advogado para conseguir o que deseja. Também é interessante a forma como

o filme explora o envelhecimento. O

papel de Clara, interpretado de forma excepcional por Sonia Braga, nos apre- senta uma senhora que foge aos padrões concebidos de sua idade, desfrutando de uma ativa jovialidade e independên- cia. Por sua vez, é a partir da exposição de uma característica mais típica do

envelhecimento que Clara dará sentido ao filme: o apego à memória afetiva. O avanço da idade torna as lembran- ças ainda mais preciosas. Uma música, uma foto ou um lugar recuperam me- mórias de um passado que está sempre sendo revisitado por Clara. E é justa- mente ao mergulhar nesse saudosismo da protagonista que Aquarius humaniza um tema tão, digamos, mercadológico como a especulação imobiliária. Pela lógica do mercado, é o capital quem tem o poder. Se uma construtura precisa adquirir um apartamento para colocar seu projeto em ação, o dinheiro,

em tese, resolveria tudo. Por isso, a resis- tência de Clara é algo incompreensível para os detentores do poder financei- ro, da mesma forma que a memória afetiva da protagonista é imensurável em termos monetários – conflito que

é habilmente explorado em Aquarius.

AQUARIUS

Direção | Kleber Mendonça Filho Ano | 2016

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DIVULGAÇÃO
DIVULGAÇÃO

Sexualidade e identidade

Moonlight apresenta retrato sensível de um garoto em busca de autoconhecimento

U m dos grandes méritos de Moonlight: Sob a Luz do Luar, vencedor do Oscar de melhor

filme em 2017, é a sutileza com que, em sua aparente simplicidade, a obra nos

oferece diversas camadas temáticas. A partir da saga do garoto Chiron, acompanhamos o seu desenvolvimento em três momentos distintos. Na infân- cia, o pequeno Chiron cresce em um subúrbio barra-pesada em Miami, nos Estados Unidos. Em meio às ameaças de outros garotos e à negligência de uma mãe viciada, o garoto encontra no traficante Juan a figura paterna com quem passa a compartilhar a cumplici- dade familiar que lhe falta em casa. Na adolescência, Chiron permanece como

o alvo preferido do bullying de seus

colegas de escola, enquanto descobre

a sua (homo)sexualidade. No terceiro

e último ato, já adulto, Chiron tenta

se adaptar ao mundo bruto em que vive, mais por necessidade do que por

inclinação ao delito. Essa atribulada jornada de Chiron nos permite múltiplos olhares sobre os assuntos abordados. Há o contexto

social bem definido. Temos o garoto negro e pobre que frequenta a mesma boca de fumo que sua mãe – enquanto Chiron busca a atenção do traficante,

a mãe vai atrás de drogas. Há também

o rude ambiente escolar, que acaba limitando as opções de futuro e conduz muitos jovens à delinquência. Podemos ver o filme também por seu filtro psicológico, no qual Chiron se vê frequentemente rejeitado – na família, na escola –, enquanto tateia cheio de receios e inseguranças o árduo

caminho na busca por afeto. Por fim, a obra permite o olhar sobre a sexualidade. Com bastante delicadeza,

o diretor Barry Jenkins mostra como a

busca de Chiron por uma identidade, nessa longa jornada de autoconheci- mento, está intrinsecamente relacio- nada à descoberta e à aceitação de sua homossexualidade. “Quem é você, Chi- ron?”, é uma das perguntas que o prota- gonista ouve sem saber o que responder. Moonlight brilha por ultrapassar o

rótulo de filme sobre a homossexua- lidade. Ele vai muito além. O contexto social áspero faz o interessante con- traste com a sensibilidade com que o filme relaciona homossexualidade e descoberta pessoal. Junte a isso atua- ções impecáveis de todo o elenco com uma bela fotografia e chegamos à con- clusão de que o Oscar de melhor filme não poderia estar em melhores mãos.

MOONLIGHT: SOB A LUZ DO LUAR

Direção | Barry Jenkins Ano | 2016

QUADRINHOS

Dramas da opressão

Reportagens traz em quadrinhos episódios importantes da história recente

A utilização dos quadrinhos como gênero jornalístico ganha em Joe Sacco sua ex-

pressão de mais alto nível. Nascido em Malta em 1960, o jornalista viveu

a maior parte de sua vida nos Estados

Unidos e fez carreira como repórter, colaborando para veículos de diversos países. A reunião das principais histó- rias que produziu entre 1998 e 2010 deu origem a Reportagens, lançado em 2012

e publicado no Brasil no ano passado. Inserindo-se como personagem, o autor aparece em diversos momentos, invariavelmente munido de seu blo- quinho de anotações. Sua apuração busca sempre ouvir a voz da população oprimida, sobretudo nas passagens que tratam da miséria e discriminação nas aldeias dos párias da Índia em Kushinagar, no norte do país, e da xenofobia e do preconceito contra os refugiados africanos que desembar- cam em Malta, pequena ilha na rota entre o norte da África e a Europa, em Os Indesejáveis (imagem no alto, à dir.). Na história de A Guerra e as Che- chenas, o autor transparece sua difi- culdade, como repórter, de manter-se como mero expectador da realidade. Ao registrar a situação dos refugiados internos da Inguchétia, região que lu- tava por independência da Rússia no início dos anos 2000, durante a Guer- ra da Chechênia, ele aceita o pedido de ajuda de duas senhoras carentes e, com isso, posiciona-se contra o possí- vel mito de uma isenção jornalística:

12 GE ATUALIDADES | 1º semestre 2017

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ESTANTE

REPRODUÇÃO
REPRODUÇÃO
ATUALIDADES | 1º semestre 2017 ^~^ ESTANTE REPRODUÇÃO REPORTAGENS Autor Joe Sacco Editora Quadrinhos na Cia,

REPORTAGENS

Autor Joe Sacco Editora Quadrinhos na Cia, 200 páginas.

Autor Joe Sacco Editora Quadrinhos na Cia, 200 páginas. estar ali acompanhando os episódios demandava também

estar ali acompanhando os episódios demandava também vivê-los. Em Territórios Palestinos, Sacco pro- duz um interessante material sobre o cotidiano da região e a intervenção militar israelense. Esse capítulo ter- mina com Portfólio de Gaza, que não é uma HQ, mas imagens dos campos de

refugiados e do cenário de destruição nas cidades pelos bombardeios de Is- rael, feitos a traço, como um pequeno álbum de fotos de viagem. Integram a obra passagens no Tri- bunal de Haia, sobre a conferência que

delimitou a relação entre os países no fim da Guerra da Bósnia, e também sobre a intervenção dos EUA no Iraque. Reportagens promove uma cober- tura humanizada da história e cativa

o leitor pela riqueza com que trabalha

os temas, possibilitando uma visão al-

ternativa e mais local de grandes pro- blemas humanitários. Sob os traços de Joe Sacco, a desigualdade e a injustiça dos episódios retratados ganham face ainda mais dramática, auxiliando na sua compreensão e análise. Do mesmo autor, vale a pena ler Pa- lestina (que reúne duas de suas obras anteriores, Palestina – Uma Terra Ocu- pada e Notas sobre Gaza). Em Área de Segurança Gorazde, história em quadrinhos, Sacco também registra

a guerra civil da Bósnia, mesmo tema

de Fax de Sarajevo, que resenhamos na

página ao lado.

Horrores de uma guerra

A HQ Fax de Sarajevo narra a Guerra da Bósnia pela ótica das vítimas civis no conflito

A máquina de fax era o que permitia a Ervin Rustemagić manter contato com o restante

do mundo nas tentativas de mobilizar ajuda ou para relatar o cotidiano de um conflito que parecia não ter fim.

O cerco à capital Sarajevo em 1992,

episódio que dá início à Guerra da Bósnia, altera completamente a vida do editor de histórias em quadrinhos de origem bósnio-muçulmana. Após terem destruído sua casa e o estúdio que servia de abrigo a ele, Ervin e sua

família passam a conviver com o medo e a insegurança, sob o barulho constan-

te das explosões de granadas sérvias.

A “limpeza étnica” promovida pelos sérvios era implacável. O simples ato

de sair à rua poderia ser fatal, dada a quantidade de bombardeios diários e de franco-atiradores posicionados no alto dos prédios, remunerados confor- me o número de pessoas que matavam. Casas eram saqueadas e destruídas, mulheres eram tomadas como prisio- neiras sexuais e execuções em massa

se tornavam cada vez mais frequentes. A falta de eletricidade ou de linhas telefônicas somava-se à escassez de água e comida. Os comboios sérvios controlavam as fronteiras, impedindo que qualquer pessoa não autorizada deixasse a cidade. No entanto, ficar em Sarajevo por mais tempo significava aguardar uma morte trágica e iminente. Os 18 meses em que a família Ruste- magić viveu de perto o horror da guerra são descritos com detalhes nas mensa-

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horror da guerra são descritos com detalhes nas mensa- ^~^ FAX DE SARAVEJO Autor Joe Kubert
horror da guerra são descritos com detalhes nas mensa- ^~^ FAX DE SARAVEJO Autor Joe Kubert

FAX DE SARAVEJO

Autor Joe Kubert Editora Quadrinhos Via Leitura , 208 páginas.

Joe Kubert Editora Quadrinhos Via Leitura , 208 páginas. gens enviadas por Ervin por meio dos

gens enviadas por Ervin por meio dos antigos aparelhos de fac-similes (fax), que transformam desenhos e textos em papel em imagens enviadas por linha telefônica. Destinadas a amigos da indústria editorial de várias partes do mundo, suas mensagens retratam as tentativas da família de deixar o país.

Coube ao quadrinista norte-americano Joe Kubert, amigo pessoal de Ervin e destinatário de boa parte dos fax, reu- nir e interpretar o material utilizado para a criação de Fax de Sarajevo. Kubert possui carreira relevante como desenhista de quadrinhos, co- laborando em empresas como a DC Comics e a Marvel. A opção do autor pelo formato de HQ confere à histó- ria maior dinamismo, personifica o terror do conflito nas expressões dos personagens e nas cenas de uma Sara- jevo arrasada pela guerra. Colocados na íntegra ao longo da história, os fax conduzem a narrativa, estabelecendo uma espécie de diário de guerra. Apesar de ter ganhado versão nacio- nal apenas em 2016, a obra foi origi- nalmente publicada em 1996, e venceu importantes prêmios internacionais de quadrinhos, como o Eisner e Harvey Awards, dos Estados Unidos, e o do Festival de Angoulême, na França. A Guerra da Bósnia completa, em 2017, 25 anos de seu início. Foi o mais sangrento conflito armado na Europa desde a II Guerra Mundial.

FOTOGRAFIA

Olhares que revelam problemas globais

Fotografias vencedoras do prêmio World Press Photo 2017 dão identidade a dramas humanitários e questões geopolíticas

A foto ao lado foi registrada du-

rante a inauguração de uma

exposição em uma galeria de

arte em Ancara, capital da Turquia, e transformou-se em um trágico incidente

diplomático. O embaixador da Rússia na Turquia, Andrei Karlov, foi alvejado por oito tiros e morto enquanto discursava, em 19 de dezembro de 2016. Os disparos partiram de Mevlut Mert Altintas, ex- policial turco de 22 anos, que na ação proferiu menções a Alá e às crianças mortas em Aleppo, no norte da Síria, por bombardeios da Rússia na guerra civil síria. O episódio foi classificado pelo governo russo e pela comunidade internacional como ataque terrorista e agravou as relações diplomáticas entre

a Rússia e a Turquia. O governo turco

é contrário ao governo de Bashar al-

Assad, enquanto o russo o apoia, e havia intensificado seus ataques militares em apoio ao ditador sírio.

A foto causa impacto pela expressão do atirador no momento em que foi feita, e por ser um flagrante registro jornalístico do momento exato de um inesperado atentado.

14 GE ATUALIDADES | 1º semestre 2017

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ESTANTE

14 GE ATUALIDADES | 1º semestre 2017 ^~^ ESTANTE O corpo do embaixador abatido pa- rece

O corpo do embaixador abatido pa-

rece simbolizar uma Europa incapaz de evitar os atentados que tem sofrido. Como a diplomacia é a arte da negocia- ção, pode-se também entender a foto como um registro da violência armada

se

sobrepondo ao diálogo e à civilidade.

O

mesmo pode-se intepretar por esta-

rem na foto, ambos, trajando o terno exigido pela formalidade do evento, e a diferença entre eles, na imagem, é

uma arma.

O autor da foto é Burhan Ozbilici,

repórter fotográfico da agência de notí- cias Associated Press (AP) há 28 anos.

A imagem foi a vencedora da 60ª edição

do prêmio World Press Photo of the

Year (Foto do Ano da Imprensa Mun-

dial), promovido pela Fundação World Press Photo (WPP). A organização foi criada em 1955 e realiza anualmente uma premiação internacional, selecio- nando as melhores fotos jornalísticas. A escolha dessa foto recebeu críticas, inclusive de Stuart Franklin, presidente da banca julgadora do evento, para quem ela poderia ser tomada como uma espécie de publicidade ao terrorismo. A associação entre a vítima e seu algoz foi classificada por Franklin em coluna para o jornal britânico The Guardian como “tão problemática de publicar quanto uma decapitação terrorista”. Ainda que controversa, a fotografia não perde sua relevância jornalística e tam- bém seu valor como registro histórico.

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^~^ As demais obras premiadas trazem à tona questões humanitárias, como retratos das guerras civis na

As demais obras premiadas trazem

à tona questões humanitárias, como

retratos das guerras civis na Líbia, Ucrânia e Afeganistão, e da situação dos refugiados na rota do Mar Mediter- râneo e no trajeto Grécia-Macedônia.

A foto acima registra o medo da po- pulação diante da atuação das forças militares do Iraque nas ofensivas de combate ao Estado Islâmico (EI). O repórter fotográfico belga Laurent Van der Stockt capturou a expressão de horror da menina iraquiana, surpreen- dida durante uma operação militar que buscava membros do EI nos subúrbios de Mosul, no norte do país. Na premiação de 2017 destacou-se também a série fotográfica do brasilei- ro Lalo de Almeida sobre os casos de microcefalia no Nordeste. Na foto ao lado, ele registrou o semblante triste

e desolado da mãe que contraiu zika

vírus durante a gestação e teve gêmeos

com microcefalia. Para conferir todos os trabalhos pre- miados nesta edição, acesse o site da WPP: http://www.worldpressphoto. org/collection/photo/2017.

DIFERENTES OLHARES As fotos premiadas que publicamos ajudam a dimensionar o contexto de três realidades. O olhar de fúria do ex-policial turco no momento do mortal ataque terrorista ao embaixador da Rússia na Turquia (à esquerda) revela o nível de tensão geopolítica no Oriente Médio. O horror na expressão da menina iraquiana, surpreendida na frente de sua casa pelo fotógrafo, retrata a vulnerabilidade das crianças em meio à guerra dos adultos. O olhar distante da mãe de gêmeos com microcefalia, na região de Areia, no sertão da Paraíba, exemplifica o drama humano diante de uma realidade difícil de aceitar e suportar

FOTOS: DIVULGAÇÃO WORLD PRESS PHOTO 2017
FOTOS: DIVULGAÇÃO WORLD PRESS PHOTO 2017
^~^ PONTO DE VISTA
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PONTO DE VISTA

UM MESMO FATO PODE SER NOTICIADO DE MANEIRAS VARIADAS POR DIFERENTES VEÍCULOS DE COMUNICAÇÃO

MANEIRAS VARIADAS POR DIFERENTES VEÍCULOS DE COMUNICAÇÃO veja Com o predomínio da cor vermelha e a

veja

Com o predomínio da cor vermelha e a ausência de chamadas,

a revista traz uma paródia do famoso mural Guernica (1937), de

Pablo Picasso, que retrata os horrores da Guerra Civil Espanhola.

No lugar de cavalos, touros e mulheres da tela original são re- tratadas algumas das personalidades que se destacaram no ano, como o cantor e compositor inglês David Bowie (com o raio em seu rosto) e o pugilista norte-americano Muhammad Ali (à direita) – ambos morreram em 2016 e aparecem com uma lágrima no rosto. A caracterização e a disposição dos personagens também fazem referência aos fatos que protagonizaram no ano que passou. O recém-eleito presidente norte-americano Donald Trump (com a gravata que remete à bandeira dos Estados Unidos) aparece jun- tando os lábios como se fosse beijar Dilma, numa possível alusão

à sua fama de machista e de assediar as mulheres. A ex-presidente

Dilma Rousseff (com o colar de pérolas) surge abaixo dele, como se estivesse subjugada, o que retrataria o seu impeachment. Já o

ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, ocupa

o lugar da pessoa combalida, numa referência à sua cassação e

posterior prisão. Ao trazer a chamada “A Guernica de 2016”, a revista considera que o ano que passou também nos apresentou

desgraças e barbáries, assim como o quadro de Picasso.

16 GE ATUALIDADES | 1º semestre 2017

quadro de Picasso. 16 GE ATUALIDADES | 1º semestre 2017 carta capital Assim como Veja ,

carta capital

Assim como Veja, Carta Capital optou por uma capa sem cha- madas, destacando uma grande ilustração de Laerte Coutinho. Ela mostra uma espécie de passeata, manifestação que foi muito frequente em 2016. Mas, em vez de pessoas caminhando, surgem esqueletos montados em cavalos (que também são esqueletos), sugerindo a ideia de mortos-vivos – mortos, pois são caveiras; vivos porque estão em movimento. A imagem também lembra os “cavaleiros do apocalipse”, personagens bíblicos que anunciam o fim do mundo. Seria, então, uma referência às personalidades e aos acontecimentos desastrosos do ano que passou, que levarão

a uma situação semelhante ou ainda pior no ano seguinte – “Rumo

a 2017”, diz a frase que acompanha a imagem. Liderando o grupo aparece a violência da polícia (o cavaleiro da tropa de choque com um cacetete). Ele é seguido por várias figuras, como os evangélicos (Bíblia em mãos), o poder judiciá- rio (toga preta e balança da Justiça), o presidente Michel Temer (com a faixa presidencial), Donald Trump (cabelo loiro e chapéu de cowboy), a mídia (cinegrafista), a Polícia Federal (óculos escuros e colete preto), os empreiteiros (prédio e maleta nas mãos), os pa- neleiros etc. Eles representariam o fim do mundo e, pior, rumam para 2017 sugerindo que as perspectivas continuam muito ruins.

O ano que passou e o que está por vir

Como os quatro principais semanários elaboraram suas retrospectivas de 2016 e perspectivas para 2017

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O fato

P ara a última edição do ano, tradicionalmente, as revistas semanais realizam um balanço

do período que termina e anunciam o que esperam para o que se inicia. Veja, Carta Capital, Época e IstoÉ optaram por caminhos diversos para mostrar os principais fatos que marcaram o ano de 2016 nas diferentes áreas, como política, economia, cultura e sociedade.

Referências à crise política e econô- mica nacional – o impeachment da presidente Dilma Rousse ff e a ope- ração Lava Jato, por exemplo – foram escolhas comuns e marcaram presença nas quatro capas. Quanto às projeções para 2017, Carta Capital e IstoÉ lan- çaram suas expectativas para o ano novo, enquanto Veja e Época focaram em fazer um retrato de 2016.

Veja e Época focaram em fazer um retrato de 2016. época Na linha de Veja e

época

Na linha de Veja e Carta Capital, Época também fez uma capa crítica a 2016, “O ano que nos acertou em cheio”, conforme afirma sua principal chamada. Acompanhando a frase, um fundo preto confere tom fúne- bre ao conjunto, e surge uma grande foto em preto e branco de um homem sendo socado por alguém usando uma luva de boxe – ou seja, trata-se de um profissional, aquele que não erra o soco. Portanto, o ano foi, segundo a revista, uma grande bofetada na cara dos brasileiros. O homem que apa- nha usa terno e gravata, o que nos permite identificá-lo com um político, um executivo ou o próprio leitor da revista. Ou com todos esses perfis, conforme sugere o pronome “nos” da frase principal. A mensagem de que o ano de 2016 só trouxe fatos ruins, no entanto, é contraposta por notícias mais animadoras, que também merecem ser lembradas, segundo sugere a revista. Assim, abaixo de cada uma das chamadas que trazem notícias negativas (“a recessão levou o país à lona”, por exemplo), a conjunção “mas” introduz um aspecto positivo daquele mesmo fato (“mas nossos governantes aprenderam a fazer conta”). De acordo com Época, o ano foi ruim, mas temos lições a tirar.

com Época , o ano foi ruim, mas temos lições a tirar. istoé Ao contrário dos

istoé

Ao contrário dos demais semanários, IstoÉ apresenta uma capa otimista e foca nas perspectivas para o novo ano: um céu azul (indicando que tempos melhores devem vir) serve de ce- nário para a principal chamada: “2017, o ano da reconstrução”. O tom esperançoso está presente também na frase que vem

a seguir: “O que o Brasil precisa fazer para superar a crise

política e ética, retomar a confiança e voltar a crescer”. Ou seja, apesar de existir a crise, a revista acredita que o país é capaz de superá-la e se reerguer. Ao passar essa ideia, IstoÉ sugere apoio ao atual governo do presidente Michel Temer. A ideia de reconstrução é reforçada, ainda, pelos elementos que aparecem no interior e à volta dos algarismos 2, 0, 1 e 7 – tijolos, blocos de concreto, andaimes, operários trabalhando

e um guindaste – sugerindo que 2017 está sendo reformado. Duas chamadas na parte superior completam a capa. À es- querda, tem destaque “O fim da era Obama”, focando em um dos principais acontecimentos de 2016, que foi a transição de governo nos Estados Unidos. À direita, uma notícia da semana (uma denúncia contra a ex-presidente Dilma Rousseff ) destoa do comumente encontrado em uma retrospectiva ou edição de fim de ano, evidenciando a intenção de criticar a ex-presidente.

Donald Trump assume sob protestos

Ao tomar posse, o novo presidente norte-americano repete o discurso nacionalista e gera confrontos nas ruas

O fato

O empresário Donald Trump assumiu a Presidência da Re- pública dos Estados Unidos

em 20 de janeiro de 2017 e, após ser

empossado pelo Congresso, fez um dis- curso em tom agressivo à multidão que

o aguardava do lado de fora do edifício.

Trump repetiu parte das promessas de campanha, em que pregou um naciona- lismo calcado em ameaças aos demais países, que segundo ele exploram os Estados Unidos, prometendo tornar o país grande novamente. Em afirmações consideradas populistas pela imprensa, afirmou que trará de volta ao país as indústrias norte-americanas instaladas

em outras nações na globalização, e junto com elas os empregos. Ao longo da campanha eleitoral Trump fez declarações machistas e xenófobas contra árabes, islâmicos e

latino-americanos, que estão na ori- gem dos protestos no dia de sua posse. Veja aqui como noticiaram a posse e

o discurso de Donald Trump os três maiores jornais do país.

18 GE ATUALIDADES | 1º semestre 2017

^~^

PONTO DE VISTA

18 GE ATUALIDADES | 1º semestre 2017 ^~^ PONTO DE VISTA o globo O diário carioca

o globo

O diário carioca optou por destacar em sua manchete o caráter

populista do novo presidente norte-americano, deixando para destacar nas primeiras linhas o viés nacionalista no discurso que Donald Trump fez dirigindo-se ao país. O sentido de popu- lista, mais habitualmente empregado, é o de quem fala para o cidadão comum aquilo que ele quer ouvir. Ao usá-lo, O Globo expressa uma opinião editorial. Para acentuar a manchete, o jornal escolheu uma foto de Trump e seu vice, Mike Pense, cada um ao lado de sua esposa, acenando serenamente aos populares diante da sede do Congresso. Antes da descrição da foto, na legenda o jornal a definiu, em negrito, como “novos ventos”, oferecendo ao leitor uma dupla leitura dos editores:

não é apenas o vento que faz voar a gravata vermelha de Trump,

mas também um vento novo na vida política e social do país. Abaixo da manchete, à esquerda, o jornal destaca “Mais de 200 manifestantes são presos em violentos confrontos em Wa-

shington”. O Globo detalha que Trump atacou a classe política do país e manteve a retórica de blindar as fronteiras norte- americanas. “Trump pintou um quadro sombrio do país, focou nos desiludidos, prometeu erradicar o extremismo islâmico e colocou os EUA como prioridade total”.

À direita da foto, o jornal colocou chamadas para quatro tex-

tos de opinião que reforçam a avaliação negativa de Trump, dizendo ser “um presidente errático e irresponsável”, “refém” do personagem que ele criou, e adjetivando negativamente seu

discurso como uma versão de “sua verborragia de campanha”.

^~^

^~^ o estado de s. paulo O tradicional diário paulista optou por enfatizar o discurso de

o estado de s. paulo

O tradicional diário paulista optou por enfatizar o discurso de

Trump à nação no título, no texto e também na foto escolhida, na qual se vê um presidente agressivo e de punho cerrado, contra a imagem embaçada de Barack Obama atrás dele. O jornal optou por uma manchete que começa com a ressalva: “Sob protestos,

colocando protagonismo tanto nos protestos

quanto no discurso da posse. Para acentuar isso, uma imagem de limusine em chamas foi colocada recortando a foto principal, embaixo à esquerda. A legenda é única para as duas fotos. Com- plementando a manchete, o jornal destacou: “Presidente diz que, de agora em diante, só haverá a ‘América em primeiro lugar’. Ele prometeu resgatar a supremacia americana com segurança de fronteiras, empregos e restituição aos que foram ‘roubados’. Mais de 200 pessoas são presas em Washington”. No texto introdutório, O Estado de S. Paulo destaca que Trump “repetiu promessas populistas e reforçou o ultranacionalismo de sua campanha”, “descreveu os EUA como um país explorado por outras nações”. O jornal procurou contextualizar o leitor sobre outros fatos envolvendo a posse de Trump, além da ênfase nos protestos. O diário cita mudanças feitas nos sites oficiais antes do evento, retirando conteúdos de prioridades da gestão de Oba- ma. Completam o conjunto, abaixo da foto principal, chamada para três artigos opinativos, quanto aos aspectos negativos do discurso, a preocupação dos dirigentes da Europa, além dos pos- síveis prejuízos para o Brasil das promessas de protecionismo econômico de Trump.

Trump assume

”,

de protecionismo econômico de Trump. Trump assume ”, folha de s.paulo Ao destacar a agressividade de

folha de s.paulo

Ao destacar a agressividade de Donald Trump, como um preâmbulo no texto da manchete, o diário paulista também escolhe contextualizar para o leitor a animosidade presente no dia da posse. Na foto escolhida, vê-se um Trump sisudo por uma pequena brecha na porta do prédio do Congresso do país, o Capitólio. Trump parece enjaulado em um conto de

fadas que ele mesmo criou, viés dado pelas cortinas vermelhas.

A legenda explica que a foto foi feita antes da posse efetiva.

Complementa a manchete o texto: “Empresário sucede Obama com a mesma retórica conservadora e populista que o alçou

à Presidência dos EUA”. O jornal traz ao leitor um extenso texto, em três largas colu- nas. Cita que Trump usou “a mesma retórica agressiva de sua campanha vitoriosa”, mas evita o termo nacionalista, optando apenas por repetir trechos a respeito no discurso presidencial:

“Todas as decisões sobre comércio, impostos, imigração e temas

internacionais serão tomadas para beneficiar os trabalhadores

e famílias americanas, disse o republicano

que Trump assume com a maior taxa de rejeição a um presi- dente norte-americano, de 52%, e que o empresário é o mais velho e mais rico já eleito, e o único que nunca divulgou seu imposto de renda – sugestão de que ele tem algo a esconder. Complementam o conjunto chamadas para três artigos de opinião, destacando o que diz a mídia norte-americana sobre sua posse, que seu discurso ainda parece eleitoreiro e que seu patriotismo poderá ser prejudicial ao Brasil.

”. O jornal destaca

^~^ DE S TRIN C HAND O
^~^
DE S TRIN C HAND O

NO ESTUDO E NO DIA A DIA, GRÁFICOS, MAPAS E TABELAS TRAZEM MUITAS INFORMAÇÕES

ENTENDA AS CONTAS PÚBLICAS DO GOVERNO FEDERAL

DE ONDE VEIO O DINHEIRO EM 2016

Receitas, em R$ bilhões

QUANTO O GOVERNO TINHA PARA GASTAR EM 2016

O ORÇAMENTO FEDERAL O orçamento federal é elaborado todos os anos pelo governo, em uma lei que prevê os recursos que serão arrecadados (receitas) e onde esses recursos serão direcionados (despesas).

AS RECEITAS Veja na barra ao lado como quase dois terços das receitas do orçamento federal vêm do recolhimento de impostos, dos quais 26% representam a fatia do imposto de renda. Cofins, CSLL e PIS/Pasep formam as chamadas contribuições sociais, que o governo retém diretamente na fonte pagadora.

A CARGA TRIBUTÁRIA Uma das principais fontes de receitas do governo federal é a arrecadação de tributos (impostos, taxas e contribuições). A carga tributária brasileira é de 42% do Produto Interno Bruto (PIB). Além de elevada, ela é injusta. Veja no gráfico abaixo como os tributos sobre bens de consumo, que atingem principalmente a população com menor renda, representam quase metade da carga tributária.

Imposto

de Renda

Cofins

CSLL

PIS/Pasep

Outros impostos COMPOSIÇÃO DA ARRECADAÇÃO TRIBUTÁRIA (2015)* Consumo 49,7% Salários 25,8% Renda 18,3%
Outros
impostos
COMPOSIÇÃO
DA ARRECADAÇÃO
TRIBUTÁRIA (2015)*
Consumo
49,7%
Salários
25,8%
Renda
18,3%
Propriedade
4,4%
Transações
1,8%
financeiras
* Inclui impostos federais,
estaduais e municipais
20 GE
ATUALIDADES
|
1º semestre
2017
341,1 (25,9%) Total de Impostos 819,7 (62, 4%) 204,7 (15,6%) RECEITA LÍQUIDA Receita total R$
341,1
(25,9%)
Total de
Impostos
819,7
(62,
4%)
204,7
(15,6%)
RECEITA LÍQUIDA
Receita total
R$ 1,09
68,1
1.315
(5,2%)
TRILHÃO
53,9
(4,1%)
151,9
(11,6%)
Deste total é
preciso descontar
os repasses e
incentivos fiscais
Transferências
-226,8
Incentivos fiscais
358,1
Arrecadação
-0,16
(27,2%)
da Previdência
Receitas não
137,2
administradas
(10,4%)
pela Receita
Federal
Fontes: Receita Federal e Ministério da Fazenda

^~^

Uma conta

que não fecha

Ao gastar mais do que

 

arrecada, o governo brasileiro

fica mais endividado e perde

 

a capacidade de promover o

desenvolvimento econômico

Por

Marcelo Soares

e

Mario Kanno/MultiSP

-

T odos os anos, o governo brasi

leiro planeja um orçamento no

qual projeta o quanto espera

arrecadar e o quanto pretende gastar.

Quando o governo gasta mais do que

arrecada, ele produz o chamado déficit

orçamentário – sinal de que faltou di-

nheiro para cobrir as despesas públicas.

Para tapar esse buraco nas contas, o go-

verno precisa pedir empréstimos, que é o

que alimenta a chamada dívida pública.

Esse desequilíbrio é uma situação

muito comum na maioria dos países.

Afinal, há momentos em que a sociedade

necessita de investimentos que superam

a capacidade do governo de aumentar as

receitas. O problema se dá quando o go

-

verno começa a se endividar para pagar

despesas corriqueiras e se vê obrigado a

abandonar as políticas necessárias para

desenvolver a economia.

É o que acontece no Brasil desde

2014, quando os gastos passaram a su-

perar as receitas. Entenda nos gráficos

abaixo como se dá esse descompasso

nas contas públicas.

abaixo como se dá esse descompasso nas contas públicas. PARA ONDE FOI O DINHEIRO Despesas, em
abaixo como se dá esse descompasso nas contas públicas. PARA ONDE FOI O DINHEIRO Despesas, em
PARA ONDE FOI O DINHEIRO
PARA ONDE FOI O DINHEIRO

Despesas, em R$ bilhões

 

507,9

(40,9%)

 

257,9

(20,8%)

270,7

(21,8%)

192,9

(15,5%)

13,0

(1%)

Previdência

Funcionários

públicos

RECEITAS E DESPESAS (1997-2016) 1.600 4 Despesa 1.200 2 800 0 Receita 400 -2 Resultado
RECEITAS E DESPESAS
(1997-2016)
1.600
4
Despesa
1.200
2
800
0
Receita
400
-2
Resultado primário
0
-4
1997
2005
2016
Em reais
Em % do PIB

DE SUPERÁVIT A DÉFICIT Veja nas linhas do gráfico acima como as receitas e as despesas crescem de forma contínua desde 1997. Entre 1998 e 2013, o Brasil arrecadou mais do que gastou, obtendo superávits primários. A partir de 2014, as despesas passaram a superar as receitas, e o governo registrou déficit primário por três anos consecutivos. Com isso, os juros da dívida não foram pagos e se acumularam.

QUANTO O GOVERNO GASTOU EM 2016

RESULTADO PRIMÁRIO –R$ 154,2 DÉFICIT BILHÕES
RESULTADO PRIMÁRIO
–R$ 154,2
DÉFICIT
BILHÕES
RESULTADO PRIMÁRIO É a diferença entre o que o país arrecada e o que ele
RESULTADO PRIMÁRIO
É a diferença entre o que o país arrecada e
o que ele gasta, descontando o pagamento
com os juros da dívida.
DÉFICIT PRIMÁRIO
Ocorre quando as despesas ultrapassam
as receitas.
DESPESA LÍQUIDA
R$ 1,24
TRILHÃO
SUPERÁVIT PRIMÁRIO
Ocorre quando as receitas são maiores que
as despesas. Esse dinheiro economizado é
utilizado para reduzir a dívida, pagando os
juros que se acumulam.
AS DESPESAS
Veja na barra ao lado como a
Previdência é responsável por quase
metade dos gastos federais. As
despesas discricionárias envolvem os
valores direcionados aos ministérios e
outras ações. Apesar de obrigatórias,
podem variar de ano a ano, conforme a
necessidade identificada no
planejamento orçamentário.

Despesas discricionárias do Executivo

Ministério da Saúde

99,8

8,0%

Ministério da Educação

34,5

2,8%

Ministério do Desenvolvimento Social

32,1

2,6%

PAC/Minha Casa Minha Vida

42,0

3,4%

Outros

62,3

5,0%

Outras despesas obrigatórias

Subsídios, subvenções, Proagro

23,3

1,9%

Abono e seguro-desemprego

56,0

4,5%

Benefícios assistenciais (inclui Bolsa Família)

49,0

3,9%

Desonerações da Previdência

17,6

1,4%

Complemento do FGTS

5,6

0,5%

Outros

41,4

3,3%

Despesas discricionárias dos outros Poderes

Legislativo

1,9

0,2%

Judiciário

8,2

0,7%

Ministério Público

2,9

0,2%

GE

ATUALIDADES

| 1º semestre

2017 21

A evolução da dívida

Entre os fatores que interferem no endividamento do Brasil estão choques externos, aumento dos gastos públicos e a variação de câmbio e juros

^~^

DESTRINCHANDO

A dívida pública é o dinheiro que o Estado toma empres- tado para cobrir a diferença

entre o que gasta e o que arrecada no orçamento federal. No Brasil, esse valor atingiu 3,112 trilhões de reais em 2016. Mas todo esse montante não surgiu da

noite para o dia. O país deve dinheiro a investidores e bancos nacionais e estrangeiros desde que surgiu como nação, em 1822, quando pediu emprés- timos no exterior para cobrir despesas devidas pela colônia.

Mas mensurar a evolução da dívida brasileira não é uma tarefa simples. Isso porque o Brasil já teve nove moedas desde o Império. Toda essa atribulada história do dinheiro no Brasil dificulta uma comparação mais precisa do en- dividamento brasileiro em diferentes períodos históricos. Ainda assim, é possível identificar alguns momentos em que a dívida deu saltos significativos. Exemplos disso são o financiamento para a entrada do Brasil na II Guerra Mundial, em 1942;

A EVOLUÇÃO DA DÍVIDA PÚBLICA FEDERAL NO BRASIL (EM BILHÕES DE REAIS)

Valor nominal da dívidaDÍVIDA PÚBLICA FEDERAL NO BRASIL ( EM BILHÕES DE REAIS ) Valor atualizado pela inflação (IPC-A)

NO BRASIL ( EM BILHÕES DE REAIS ) Valor nominal da dívida Valor atualizado pela inflação

Valor atualizado pela inflação (IPC-A)

A LINHA AZUL, referente à dívida pública nominal, sinaliza o seu valor em cada ano e a sua evolução no período entre 1996 e 2016 – ela mostra um crescimento constante.

Já a LINHA VERMELHA, que indica o valor da dívida corrigida

pela inflação, leva em consideração a elevação dos preços no

período. Dessa forma, ela permite observar quanto a dívida em qualquer ano no período valeria nos valores atuais. Este indicador é o mais apropriado para notar o impacto da dívida em cada período específico. Assim é possível observar

momentos de maior crescimento, estabilidade ou mesmo

queda da dívida em termos reais.

1997-1998 – CRISES ASIÁTICA E RUSSA

Para evitar a fuga de capitais estrangeiros

devido à crise asiática, que afetou as economias no mundo todo, o Brasil elevou sua taxa básica de juros a 38% ao ano em dezembro de 1997. Como boa

parte da dívida era corrigida pela taxa de

DÓLAR

Média anual, em R$

4 3,87 3,62 3,35 3 2 1 0,85 0 1996 2000 2010 2016
4
3,87
3,62
3,35
3
2
1
0,85
0
1996 2000
2010
2016

O IMPACTO DO DÓLAR NA DÍVIDA Entre 1998 e 2008, boa parte da dívida brasileira estava indexada ao câmbio. Ou seja, quanto maior o valor do dólar, maior a dívida. Isso explica o salto da dívida em 2002, quando a cotação do dólar explodiu.

JUROS

Média anual da Selic, em %

40 39,87 30 20 13,61 10 0 1996 2000 2010 2016
40
39,87
30
20
13,61
10
0
1996 2000
2010
2016

O IMPACTO DOS JUROS NA DÍVIDA Em 2008, o Brasil quitou a sua dívida externa e a maior parte da dívida passou a ser indexada pelos juros. Ou seja, agora, quanto maior a taxa Selic, mais rápido cresce a dívida brasileira.

3.500

3500

3.000

3000

2.500

2500

2.000

2000

1.500

1500

1.000

1000

500

500

0

0

GOVERNO

2 . 187 , 7
2 . 187 , 7
000 1000 500 500 0 0 GOVERNO 2 . 187 , 7 2002 – ELEIÇÃO DE
2002 – ELEIÇÃO DE LULA 1 . 865 , 0 1999 – DESVALORIZAÇÃO CAMBIAL A
2002 – ELEIÇÃO DE LULA
1 . 865 , 0
1999 – DESVALORIZAÇÃO CAMBIAL
A partir de 1998, a dívida pública
passa a ficar mais atrelada ao dólar.
Com a maxidesvalorização do real
em relação ao dólar adotada pelo
presidente Fernando Henrique
Cardoso no ano seguinte, a dívida
subiu ainda mais.
653 , 6

juros, ela disparou e manteve a tendência de alta por muitos anos.

Durante a campanha presidencial, a perspectiva de vitória do candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, agravou a crise cambial – o dólar chegou a quase 4 reais. O mercado financeiro temia que o Brasil desse um “calote” na dívida caso Lula vencesse. Mas, ao tomar posse, Lula adotou uma política rigorosa de controle das contas públicas, economizando dinheiro para amortizar a dívida.

886 , 0 251 , 7
886 , 0
251 , 7
1 . 157 , 3
1 . 157 , 3

2008 – CRISE MUNDIAL Como resposta à crise econômica mundial, o governo facilitou as condições de crédito, forneceu isenções fiscais à indústria e ampliou os gastos públicos. Isso aumenta a dívida, porque o governo passa a gastar mais e a arrecadar menos. O governo também quitou sua dívida com o FMI. A dívida interna passa a pesar mais do que a externa – e os juros passam a ter mais influência na dívida do que o câmbio.

1996

1997

1998

1999

2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

FHC 1

FHC 2

LULA 1

2007

2008

LULA 2

Fonte: Ministério da Fazenda

22 GE ATUALIDADES | 1º semestre 2017

^~^

os empréstimos tomados pelo gover- no para aumentar os gastos públicos durante a ditadura (1964-1985);
os empréstimos tomados pelo gover-
no para aumentar os gastos públicos
durante a ditadura (1964-1985); e a
escalada da dívida nos anos 1980, em
virtude das altas taxas internacionais
de juros e da elevada cotação do dólar.
Apenas a partir de 1994, com a ado-
ção de uma nova moeda, o real, é pos-
sível traçar a evolução da dívida em ba-
ses comparáveis. A partir daí, choques
externos e fatores como o câmbio e os
juros influenciaram o valor da dívida,
como você pode acompanhar abaixo.
DÍVIDA INTERNA E EXTERNA
COMPOSIÇÃO
A
dívida interna representa tudo
DA DÍVIDA
(R$ bilhões)
aquilo que o governo deve a cre-
dores residentes no próprio país
e no exterior. É paga em moeda
nacional, embora parte do valor
possa estar indexado ao dólar.
3.000
Dívida externa
2.400
Juros
1.800
A
dívida externa é a soma dos
1.200
débitos contraídos de emprés-
timos no exterior. Ela é paga
em moeda estrangeira.
600
Dívida interna
0
2007
2016
DÍVIDA EXTERNA
A QUEDA DA DÍVIDA EXTERNA
Em 2002, 30,2% do endividamento
Em % do total da dívida
40
no país era contraído no exterior.
Essa situação mudou bastante.
30
30,2
30
Atualmente, apenas 4,1% da dívida
é externa. Isso significa que de 20
3
, 1
20
reais que o Brasil deve, 19 reais
representam a dívida interna.
10
4,1
TRILHÕES
0
JUROS DA DÍVIDA
Quando há déficit primário, o governo é
obrigado a tomar empréstimos para
conseguir pagar as contas, aumentando
ainda mais a sua dívida e os juros.
Em 2016, os gastos com os juros da dívida
foram de 318 bilhões de reais, o que
corresponde a 13% do montante geral. Esse
valor é mais do que o dobro das despesas
com saúde e educação somadas.
1996 2000
2010
2016
DE REAIS
3 . 112 , 9
2 . 547 , 4
TÍTULOS PÚBLICOS DA DÍVIDA
Para financiar a dívida, o governo emite
títulos públicos. Funciona assim: o governo
vende esse título para investidores e utiliza
os recursos para pagar os empréstimos
vencidos. Quem adquire os títulos recebe
depois de um tempo o valor da compra mais
os juros. Bancos, fundos de investimento e de
previdência são os maiores credores da
dívida – eles compram os títulos com o
dinheiro de seus investidores esperando um
retorno financeiro com essa aplicação.
1 . 694 , 0
OS CREDORES DA
DÍVIDA BRASILEIRA
2011 – NOVA MATRIZ
ECONÔMICA
A presidente Dilma
Rousseff mantém as
políticas de estímulo
econômico ao reduzir os
juros e intensificar a
concessão de crédito. Para
conter a inflação, o
governo segura as tarifas
de energia elétrica e dos
combustíveis.
2014 – DÉFICIT NO
ORÇAMENTO
Após seguidos
aumentos nos gastos
públicos, a conta chega:
25,1%
23,1%
Previdência
Bancos
são três anos
consecutivos de déficit
primário. Sem conseguir
economizar para pagar
os juros, que voltam a
patamares elevados, a
dívida dispara.
22,1%
Fundos
14,3%
Fora do país
5,5% Governo
2009
2010
2011
2012
2013
2014
2015
2016
4,6% Seguradoras
5,4% Outros
DILMA 1
DILMA 2
TEMER

Um planeta endividado

Conheça os países com as maiores dívidas do mundo em relação ao tamanho de suas economias e saiba como uma conta negativa pode afetar de forma diferente cada nação

^~^

DESTRINCHANDO

P raticamente não existe um país

no mundo que não esteja en-

dividado. Mas ter dívidas nem

sempre representa um problema. Au- mentar os gastos públicos pode ser uma forma de os governos estimularem a economia em momentos difíceis e promover ações sociais ou obras que atendam às necessidades mais urgentes da população. E para isso, muitos países recorrem a empréstimos ou financia- mentos para cobrir eventuais buracos nas contas públicas.

A questão é saber como essa dívida será administrada no decorrer dos anos

e se o país possui indicadores econômi-

cos sólidos o suficiente para lidar com

o tamanho do seu endividamento. Se a

nação possui uma economia saudável, o endividamento não chega a ser um

problema, já que os credores sabem que

o governo tem condições de honrar seus

compromissos. É o que acontece com o Japão. Com uma das economias mais dinâmicas do planeta, mesmo sendo detentor da maior relação entre dívida

O MAPA-MÚNDI DA DÍVIDA PÚBLICA

Relação dívida/PIB, em %

- MÚNDI DA DÍVIDA PÚBLICA Relação dívida/PIB, em % 0 50 100 150 200 250 105,2
0 50 100 150 200 250 105,2 1 EUA 54,0 MÉXICO 1 ESTADOS UNIDOS
0
50
100
150
200 250
105,2
1
EUA
54,0
MÉXICO
1
ESTADOS UNIDOS

A dívida do país representa mais

do que tudo o que a sua economia produz em um ano. Mas o seu histórico de crédito e o fato de ser a principal potência mundial faz com que os títulos norte-americanos sejam um investimento bastante seguro.

33,8
33,8

EQUADOR

24,2 PARAGUAI 52,1 3 ARGENTINA
24,2
PARAGUAI
52,1
3
ARGENTINA

2

3

BRASIL

ARGENTINA

17,5

CHILE

O setor público somado deve um

valor superior a 70% de toda a riqueza produzida no país. Embora seja difícil estimar um limite considerado aceitável, o que preocupa é a trajetória de alta do indicador, maior do que outras economias emergentes.

O país decretou a moratória da dívida externa em 2001, mas renegociou o débito com os credores nos anos seguintes. Ainda assim, o histórico de endividamento preocupa. Além disso, o governo elevou a dívida para financiar as províncias.

24 GE ATUALIDADES | 1º semestre 2017

89,0 71,0 132,7 REINO UNIDO ALEMANHA ITÁLIA 4 96,1 FRANÇA 99,3 ESPANHA 176,9 GRÉCIA 5
89,0
71,0
132,7
REINO UNIDO
ALEMANHA
ITÁLIA
4
96,1
FRANÇA
99,3
ESPANHA
176,9
GRÉCIA
5
89,0
EGITO
49,8
ÁFRICA
2
DO SUL
73,7
BRASIL
4
5

UNIÃO EUROPEIA A crise de 2008 evidenciou o problema da dívida no bloco. Entre 2001 e 2008, países como Espanha e Itália elevaram os gastos públicos e acumularam dívidas. Alemanha, Reino Unido e França têm economias mais sólidas, apesar da dívida elevada.

GRÉCIA A Grécia foi o país europeu mais afetado pela crise da dívida. O país fez pesados empréstimos para financiar o crescimento e, quando a crise estourou, não obteve mais crédito. A nação recorreu a órgãos como o FMI para financiar sua dívida.

total/PIB Dívida /PIBDívida

e PIB, os japoneses estão longe de ser

um país falido, ainda que o endivida- mento cause preocupação. Já se o país não possui bons indica- dores econômicos e gasta descontro- ladamente, as condições para se obter um empréstimo são mais complicadas. Quando instituições como o Fundo Mo- netário Internacional (FMI) são cha- madas para fornecer socorro financeiro

a algum governo, a primeira receita é

cortar gastos, como os do funcionalismo

e os da previdência. Foi assim na Grécia,

^~^

um país que esteve à beira de quebrar e que hoje patina para reequilibrar suas contas e retomar o crescimento. A credibilidade financeira dos países é medida pelas chamadas “agências de risco”, como a Moody’s. Elas atribuem uma nota aos países, como forma de sinalizar o risco aos investidores. Os países mais bem avaliados por essas agências possuem uma espécie de ates- tado de que não darão calote na dívida pública. Já os com pior avaliação têm dificuldades em obter crédito.

com pior avaliação têm dificuldades em obter crédito. A RELAÇÃO DÍVIDA/PIB A principal forma de mensurar

A RELAÇÃO DÍVIDA/PIB

A principal forma de mensurar o nível de endividamento é comparar o montante da dívida pública com toda a riqueza que determinado país produziu em um ano, ou seja, com o Produto Interno Bruto (PIB). Dessa forma é possível saber o im- pacto da dívida de acordo com o ta- manho da economia de cada país.

16,4 42,9 RÚSSIA CHINA 6 7 37,9 248,0 COREIA JAPÃO DO SUL 69,1 ÍNDIA Fontes:
16,4
42,9
RÚSSIA
CHINA
6
7
37,9
248,0
COREIA
JAPÃO
DO SUL
69,1
ÍNDIA
Fontes: FMI e Trading Economics
6
7
CHINA
Em 2009, para minimizar os
efeitos da crise econômica, o país
elevou os gastos e as empresas
públicas se endividaram
ferozmente. Hoje, o governo tem
oferecido crédito fácil para
estimular a economia, o que
eleva ainda mais a dívida.
JAPÃO
A
relação entre dívida e PIB é a
mais alta do mundo. No entanto,
a economia do Japão é sólida,
com um alto nível de poupança, o
que dá segurança financeira. A
dívida se encontra em bancos
nacionais, resguardando o país
de choques externos.

RELAÇÃO DÍVIDA/PIB E AVALIAÇÃO DE CRÉDITO (PAÍSES SELECIONADOS)

250 Japão 200 Grécia 150 Itália França EUA 100 Espanha Egito BRASIL Reino Unido Índia
250
Japão
200
Grécia
150
Itália
França
EUA
100
Espanha
Egito
BRASIL
Reino Unido
Índia
Alemanha
México
Argentina
50
China
Equador
África do Sul
Paraguai
Rússia
Coreia do Sul
Chile
0

C

B3

BA1

A2

AA

Nota da agência Moody’s

Os países mais à direita no gráfico, com nota mais alta do que BA1, são considerados estáveis para investimentos. Veja como o Brasil está pouco abaixo da nota de corte. Por sua vez, quanto mais alto no gráfico, maior é a relação dívida/PIB. A Grécia, com elevado grau de endividamento, ficou com a pior nota. Já o Japão, apesar de possuir uma grande dívida, é considerado um país seguro financeiramente.

dívida, é considerado um país seguro financeiramente. 160 120 80 40 0 EVOLUÇÃO DA RELAÇÃO DÍVIDA/PIB

160

120

80

40

0

EVOLUÇÃO DA RELAÇÃO DÍVIDA/PIB DO BRASIL (%)

120,7

1884
1884

102,9

1989

51,6

73,7 2015
73,7
2015

1933

BRASIL (%) 120 , 7 1884 102 , 9 1989 51 , 6 73,7 2015 1933

21,9

1961

120 , 7 1884 102 , 9 1989 51 , 6 73,7 2015 1933 21 ,
120 , 7 1884 102 , 9 1989 51 , 6 73,7 2015 1933 21 ,
120 , 7 1884 102 , 9 1989 51 , 6 73,7 2015 1933 21 ,
120 , 7 1884 102 , 9 1989 51 , 6 73,7 2015 1933 21 ,
120 , 7 1884 102 , 9 1989 51 , 6 73,7 2015 1933 21 ,
120 , 7 1884 102 , 9 1989 51 , 6 73,7 2015 1933 21 ,
120 , 7 1884 102 , 9 1989 51 , 6 73,7 2015 1933 21 ,
120 , 7 1884 102 , 9 1989 51 , 6 73,7 2015 1933 21 ,
120 , 7 1884 102 , 9 1989 51 , 6 73,7 2015 1933 21 ,
120 , 7 1884 102 , 9 1989 51 , 6 73,7 2015 1933 21 ,
120 , 7 1884 102 , 9 1989 51 , 6 73,7 2015 1933 21 ,
120 , 7 1884 102 , 9 1989 51 , 6 73,7 2015 1933 21 ,
120 , 7 1884 102 , 9 1989 51 , 6 73,7 2015 1933 21 ,
120 , 7 1884 102 , 9 1989 51 , 6 73,7 2015 1933 21 ,
120 , 7 1884 102 , 9 1989 51 , 6 73,7 2015 1933 21 ,
120 , 7 1884 102 , 9 1989 51 , 6 73,7 2015 1933 21 ,
120 , 7 1884 102 , 9 1989 51 , 6 73,7 2015 1933 21 ,
120 , 7 1884 102 , 9 1989 51 , 6 73,7 2015 1933 21 ,
120 , 7 1884 102 , 9 1989 51 , 6 73,7 2015 1933 21 ,
120 , 7 1884 102 , 9 1989 51 , 6 73,7 2015 1933 21 ,
120 , 7 1884 102 , 9 1989 51 , 6 73,7 2015 1933 21 ,

1880

1900

1920

1940

1960

1980

2000

2015

A relação dívida/PIB do Brasil atingiu em 2015 o maior valor dos últimos dez anos, mas o país já enfrentou situações mais duras. Em 1989, o indicador superou 100% como resultado de uma década de crise. Pior que isso, só em 1884, quando a renegociação das contas em virtude da Guerra do Paraguai fez a dívida explodir.

^~^

^~^

global
global

Vitorioso nas eleições presidenciais norte- americanas, Donald Trump desafia a ordem globalizada com um discurso contra o livre-comércio, a cooperação entre nações e os imigrantes

por Cláudio Soares / infográficos Multi/SP

^~^ DOSSIÊ GLOBALIZAÇÃO EM CRISEEEEEEEEEEEEEEEEE DOSSIÊ GLOBALIZAÇÃO EM CRISE JIM BOURG/REUTERS
^~^
DOSSIÊ GLOBALIZAÇÃO EM CRISEEEEEEEEEEEEEEEEE
DOSSIÊ GLOBALIZAÇÃO EM CRISE
JIM BOURG/REUTERS

SOB NOVA DIREÇÃO O presidente dos EUA, Donald Trump, acena durante sua cerimônia de posse em Washington, em 20 de janeiro de 2017

Um desafiante na Casa Branca

A eleição de Donald Trump

como presidente dos EUA e o processo de saída do Reino Unido da União Europeia colocam em xeque

a globalização

Unido da União Europeia colocam em xeque a globalização APONTE O CELULAR PARA AS PÁGINAS E
Unido da União Europeia colocam em xeque a globalização APONTE O CELULAR PARA AS PÁGINAS E

APONTE O CELULAR PARA AS PÁGINAS E VEJA VIDEOAULA SOBRE DONALD TRUMP E O LEGADO DE BARACK OBAMA (MAIS INFORMAÇÕES NA PÁG. 5)

28 GE ATUALIDADES | 1º semestre 2017

NA PÁG. 5) 28 GE ATUALIDADES | 1º semestre 2017 oite de 8 de no- vembro

oite de 8 de no- vembro de 2016, Estados Unidos (EUA). Após o fechamento das seções eleitorais, era chegada a hora da apura- ção dos votos. Em algumas ho- ras, o mundo iria conhecer quem seria o novo líder da maior potência econômica e militar pelos próximos quatro anos. Se as elei- ções presidenciais nos EUA já chamam a atenção de todo o planeta, aquela votação em particular tinha um atrativo a mais: a candidatura de Donald Trump pelo Partido Republicano. O rico empresário, que fizera fortuna no ramo imobiliário, é afeito ao mundo das celebridades, sendo mais conheci- do como apresentador do reality show O Aprendiz do que por suas posições políticas. Havia entrado na disputa como franco-atirador, desafiando até mesmo as principais lideranças de seu partido para sair como candidato.

Do outro lado da disputa estava Hillary Clinton, do Partido Demo- crata. Mulher do ex-presidente Bill Clinton, Hillary tinha no currículo a passagem por expressivos cargos pú- blicos como senadora e secretária de Estado – credenciais que ajudavam a mantê-la sempre como favorita nas pesquisas eleitorais. A possibilidade de o desafiante repu- blicano ocupar a Casa Branca parecia remota. Sem apoio em seu partido, ban- cou boa parte da campanha com recur- sos próprios. Além disso, a candidatura de Trump foi cercada de escândalos. Declarações contra mexicanos e mu- çulmanos e o vazamento de um áudio no qual dizia impropérios sobre como tratar uma mulher, renderam-lhe acu- sações de ser xenófobo e misógino. Sua campanha não naufragou por pouco. Mas, quando o mundo começou a acompanhar em tempo real a apuração dos votos, ficou evidente que a disputa seria acirrada. Nas primeiras horas do dia 9 de novembro veio o anúncio:

Donald Trump, de 70 anos, havia sido eleito presidente dos EUA.

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STEFAN WERMUTH/REUTERS
STEFAN WERMUTH/REUTERS

RETIRADA O ex-primeiro-ministro britânico David Cameron e sua família deixam a residência oficial em Londres, após a vitória do Brexit

A vitória do republicano deixou o mundo estupefato. Isso porque algumas de suas promessas de campanha, se colocadas em prática, teriam o efeito de indispor os EUA com os governos de diversas nações. Trump disse que iria construir um muro na fronteira sul do país, para impedir a entrada de imigran- tes ilegais vindos do México. Declarou que barraria a entrada de refugiados, es- pecialmente muçulmanos. Ainda amea- çou iniciar uma guerra comercial com a China e rever a participação dos EUA em acordos de livre-comércio. Também anunciou que gostaria de res- tringir a abrangência das parcerias mili- tares com aliados históricos, como Japão, Coreia do Sul e Arábia Saudita. Além disso, é crítico da Otan, a aliança militar que os EUA mantêm com as nações da Europa Ocidental principalmente. São promessas que representam um desafio ao paradigma da globalização. Aquela ideia de um mundo integrado, em que prevalecem o livre movimen- to de pessoas, mercadorias e capitais, encontrou um desafiante disposto a romper com essas conexões.

“America First”

Em qualquer disputa eleitoral, a in- satisfação com a situação econômica costuma abrir espaço para o avanço de novatos na política. Desde a crise econômica de 2008, quando o mundo todo foi abalado pelo estouro da bo- lha imobiliária (veja mais na pág. 34), os EUA tentam se recuperar. Sob a presidência de Barack Obama (2009- 2017), o país até retomou o crescimento econômico e o nível de emprego, mas a renda permaneceu estagnada. Foi nesse cenário que a candidatura de Trump sacudiu as eleições norte-americanas. Enquanto Hillary era vista como a con- tinuidade do sistema político vigente, o establishment, Trump surgia como

Sob o lema “America First”, Trump quer reforçar a posição econômica do país em relação a outras nações

posição econômica do país em relação a outras nações o forasteiro impetuoso, que disparava pesadas críticas

o forasteiro impetuoso, que disparava

pesadas críticas e até xingamentos aos políticos que conduziam o país.

Para além do personagem polêmico, Trump foi capaz de seduzir uma expres- siva fatia do eleitorado interessado em sua plataforma política. Um dos lemas de sua campanha foi “America First”, algo como “América em primeiro lugar”. Essa marca que Trump quer imprimir em seu governo simboliza a ênfase em medidas para reforçar a posição econô- mica do país diante de outras nações. Um exemplo: atribui-se o fechamento de diversas vagas de operários norte- americanos à assinatura do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), o bloco econômico formado por EUA, Canadá e México. Esse tratado

permitiuqueempresasnorte-americanas

se transferissem para o México e empre- gassem a mão de obra local, mais barata. Durante a campanha, Trump disparou

contra o Nafta e prometeu intimar os exe- cutivos das empresas norte-americanas

a abrir vagas nos EUA, em vez de levar

a produção e os empregos para outras nações (veja mais na pág. 35).

DOSSIÊ GLOBALIZAÇÃO EM CRISE O VOTO NAS ELEIÇÕES AMERICANAS ^~^ OS VENCEDORES EM CADA ESTADO

DOSSIÊ GLOBALIZAÇÃO EM CRISE

O VOTO NAS ELEIÇÕES AMERICANAS

^~^

OS VENCEDORES EM CADA ESTADO E TOTAL DE DELEGADOS ELEITOS PERFIL DO VOTO (%) Maior
OS VENCEDORES EM CADA ESTADO E TOTAL DE DELEGADOS ELEITOS
PERFIL DO VOTO (%)
Maior taxa
Partido Democrata
Por raça
HILLARY
TRUMP
Partido Republicano
Brancos
37
57
Negros
89
8
2012
Por faixa etária
18 a 44 anos
53
39
332
O CINTURÃO DA FERRUGEM
Wisconsin, Michigan, Iowa, Ohio e
Pensilvânia fazem parte do
chamado “rust belt” (“cinturão da
ferrugem”), por abrigarem antigas
áreas industriais, hoje decadentes.
Nessas regiões, onde por décadas
os democratas venceram, Trump foi
vitorioso. O eleitorado democrata
das grandes cidades desses estados
se absteve ou mudou seu voto em
favor de Trump.
Mais de 45
44
52
OBAMA
X
Por escolaridade
Ensino Médio ou menos
46
51
206
Superior incompleto
43
51
ROMNEY
Superior completo
49
44
Por renda anual
Iowa
Wisconsin
Menos de 50 mil dólares
53
41
Michigan
De 50 mil a 99.999 dólares
46
49
2016
100 mil dólares ou mais
47
47
Ohio
Fonte: CNN
306
TRUMP
Pensilvânia
X
232
HILLARY
COMO TRUMP GANHOU
Ele teve mais votos
entre os homens
brancos, mais velhos,
sem nível superior e de
classe média.
Flórida
ESTADO DECISIVO
Na Flórida, Trump teve 4,6 milhões
de votos, ante 4,5 milhões para
Hillary. Isso garantiu-lhe os
29 delegados do estado no Colégio
Eleitoral. Analistas dizem que essa
apertada vitória, também não
prevista nas pesquisas, deveu-se
basicamente à mobilização do
eleitorado republicano branco,
em contraposição a um
menor engajamento dos
apoiadores democratas.

Quem votou em Trump

A análise do perfil dos eleitores de

Trump ajuda a compreender a estra- tégia do republicano e as razões que

o levaram à vitória. De modo geral, é

composto de homens brancos, mais velhos, sem formação universitária. Trata-se de um dos estratos da popu- lação norte-americana que mais foi afetado economicamente nos últimos

anos, com o achatamento da renda e a falta de perspectivas de ascensão social. Geograficamente, a insatisfação des- ses eleitores pode ser explicada pela alteração do perfil eleitoral em seis es- tados nos quais os democratas haviam vencido em 2012 e que deram maioria

a Trump em 2016: Flórida, Wisconsin,

Michigan, Iowa, Ohio e Pensilvânia. Bastou isso para que garantisse os de- legados de que precisava para se tornar presidente. Os cinco últimos fazem parte do chamado rust belt (“cinturão da ferrugem”), que abriga antigas áre- as industriais em que há atualmente altos níveis de desemprego, causados pelo fechamento de indústrias (veja infográfico acima).

30 GE ATUALIDADES | 1º semestre 2017

Como a eleição nos EUA é indireta, a vitória de Trump nesses estados-chave carimbou o triunfo do republicano,

mesmo tendo menos votos populares do que Hillary (veja boxe ao lado). Com essa estratégia, o empresário buscou atingir uma significativa parcela da população constituída por cidadãos para os quais a globalização trouxe consequências indesejáveis, como a perda de empregos industriais. Foi o suficiente para garantir os votos que

o levariam à Casa Branca.

Reino Unido fora da União europeia

Antes da vitória de Trump, os alicer- ces da globalização já haviam sofrido os primeiros abalos na Europa. Em ple- biscito realizado em junho de 2016, os britânicos votaram pela saída do Reino Unido da União Europeia (UE), o maior

e mais importante bloco econômico do

planeta. O chamado Brexit (contração das palavras inglesas “Britain” e “exit”, algo como “saída britânica”) teve o voto de 17,4 milhões de britânicos (51,9%), ante 16,1 milhões (48,1%) que preferiam permanecer na UE.

ante 16,1 milhões (48,1%) que preferiam permanecer na UE. ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS NOS EUA SÃO INDIRETAS Nas

ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS NOS EUA SÃO INDIRETAS

Nas eleições presidenciais de 2016 nos EUA, Hillary Clinton obteve cerca de 2,9 milhões de votos a mais do que Donald Trump em nível nacional. Ela venceu no voto popular, mas não levou. Isso porque a eleição para presidente é indireta. Os eleitores não votam nos candidatos, mas sim em delegados que formam um Colégio Eleitoral encarre- gado de definir o presidente. Cada estado é representado por certo número de delegados, proporcional à sua população. O Colégio Eleitoral de 2016 foi composto de 538 delegados. Em quase todos os estados (exceto Maine e Nebraska), quem vence no voto popu- lar leva todos os delegados ao Colégio Eleitoral, mesmo que a sua vitória tenha sido por poucos votos de diferença. Por causa disso, um candidato pode ter um número maior de votos populares, na- cionalmente, e eleger menos delegados ao Colégio Eleitoral. Foi o que aconteceu com Hillary, que não obteve delegados suficientes para se eleger.

^~^

O VOTO NO BREXIT PERFIL DO VOTO (%) Maior taxa OS VENCEDORES POR PAÍS E
O VOTO NO BREXIT
PERFIL DO VOTO (%)
Maior taxa
OS VENCEDORES POR PAÍS E POR REGIÃO (%)
Permanecer na UE
48
52
Por faixa etária
PERMANECER
SAIR
48
52
Sair da UE
18
a 24 anos
75
25
TOTAL
25
a 49 anos
56
44
50
a 64 anos
44
56
62
38
65
anos ou mais
39
61
56
44
Escócia
Por escolaridade
Irlanda do Norte
Ensino Médio
34
66
Superior sem diploma
52
48
Superior com diploma
71
29
Manchester
Por categoria social
QUEREMOS SAIR
Houve um voto significativo
pela saída da União Europeia
em regiões industriais do
centro e do norte da
Inglaterra, entre as quais
alguns distritos em torno da
cidade de Liverpool,
Manchester e Birminghan.
Birminghan
Classe média alta e média
57
43
Classe média baixa
49
51
Trabalhadores manuais
e desempregados
36
64
Liverpool
Londres
COMO O BREXIT VENCEU
Repare nas semelhanças entre o
perfil dos eleitores do Brexit e de
Trump. Pessoas acima de 50 anos
foram majoritariamente a favor da
saída do bloco. Os mais
escolarizados votaram pela
permanência, enquanto o Brexit
teve ampla maioria (64%) entre a
classe média baixa, os operários e
os desempregados.
48
52
País de Gales
47
53
Inglaterra
QUEREMOS FICAR
Em Londres, a posição de
permanência na UE foi
vencedora, diferentemente do
resultado geral do Reino
Unido. Mesmo na capital
britânica, entretanto, os
eleitores de bairros operários
do leste da cidade votaram
majoritariamente a favor da
saída do bloco europeu.
Fontes: Politico.eu, Financial Times,
Lord Ashcroft Polls, The Telegraph

Ao virar as costas para a UE, os bri- tânicos anunciam que a participação no maior bloco econômico do planeta não lhes traz benefícios, em um sonoro “não” ao processo de globalização. Por trás da decisão dos britânicos está a insatisfação com os mecanismos de integração da UE, que, segundo seus críticos, impõem restrições à autono- mia e ferem a soberania das nações. Os eurocéticos britânicos são contra a imigração por achar que os estrangei- ros representam uma concorrência em um mercado de trabalho saturado. E questionam os repasses financeiros que os países-membros devem fazer à UE. Por isso, não surpreende que o perfil demográfico dos britânicos que vota- ram a favor do Brexit seja bem parecido com o dos eleitores de Trump. Ou seja, de modo geral, trata-se de cidadãos bri- tânicos mais velhos, do sexo masculino, sem nível superior e de renda média. Entre operários e desempregados, o voto também foi majoritariamente pela saída do bloco – novamente, extratos da população mais afetados pela crise econômica (veja infográfico acima).

Interessante também é notar como a distribuição do voto variou geografica- mente. O Reino Unido é composto de quatro unidades políticas. Na Inglaterra e no País de Gales prevaleceram o voto pelo Brexit. Já a Escócia e a Irlanda do Norte votaram expressivamente a favor da permanência na UE. Esse resultado expôs a forte divisão política no país. Desapontado com o Brexit, o governo local da Escócia cogita realizar um novo plebiscito, desta vez para decidir se deve permanecer ou deixar o Reino Unido. Em 2014, os escoceses já haviam ido às urnas e decidiram ficar no Reino Unido. Mas, desta vez, a insatisfação com a saída da União Europeia pode estimular uma debandada escocesa.

Eleitores do Brexit criticam a União Europeia por impor restrições à autonomia do Reino Unido

Europeia por impor restrições à autonomia do Reino Unido Logo após o plebiscito, o primeiro- ministro

Logo após o plebiscito, o primeiro- ministro conservador David Cameron, que fez campanha pela permanência

na UE, renunciou e foi substituído pela ex-ministra do Interior, Theresa May, que ficou responsável por encaminhar

a retirada do bloco. O início da separa- ção está previsto para março, quando

o Reino Unido deverá acionar o Artigo

50 do Tratado de Lisboa da UE, dando início formal à saída. De acordo com as regras do bloco, o processo deve durar até dois anos. Não por acaso, Trump comparou sua vitória ao Brexit, por terem o mesmo sentido de defesa nacionalista dos inte- resses do país. Num primeiro momento, tanto no Reino Unido quanto nos EUA,

os eleitores responsáveis pelos resul- tados surpreendentes foram conside- rados xenófobos, racistas ou simples- mente ignorantes. Mas há também algo mais profundo: um recado do homem comum, que não se vê representado pelos políticos e instituições atuais. São pessoas que acham que há algo de errado na globalização, e deixaram isso evidente por meio de seu voto.

^~^ DOSSIÊ GLOBALIZAÇÃO EM CRISE DOSSIÊ GLOBALIZAÇÃO EM CRISE AFP PHOTO
^~^
DOSSIÊ GLOBALIZAÇÃO EM CRISE
DOSSIÊ GLOBALIZAÇÃO EM CRISE
AFP PHOTO

Os pilares da globalização

Caracterizado por um mundo integrado pelo comércio, com menos intervenção estatal e maior flexibilidade no mercado de trabalho, o fenômeno é mais antigo do que parece

de trabalho, o fenômeno é mais antigo do que parece 32 GE ATUALIDADES | 1º semestre

32 GE ATUALIDADES | 1º semestre 2017

do que parece 32 GE ATUALIDADES | 1º semestre 2017 globalização, tão contestada por Donald Trump

globalização, tão contestada por Donald Trump e pelos partidá- rios do Brexit, é entendida como o processo de integração entre povos, empresas, governos e mer- cadorias ao redor do planeta. Um mundo globalizado é aquele em que eventos políticos, eco- nômicos, culturais e sociais estão inter- conectados e onde um acontecimento em um lugar tem a capacidade de ecoar por outros cantos do globo. Suas origens remontam aos séculos XV e XVI, com o início da expansão ultrama- rina europeia (veja linha do tempo na pág. ao lado). A descoberta de novas terras e rotas comerciais permitiu a formação de enormes impérios coloniais na Europa. Posteriormente, o acúmulo de rique- zas forneceu a base para a Revolução Industrial no fim do século XVIII, que, com o tempo, desenvolveu o trabalho assalariado e o mercado consumidor.

desenvolveu o trabalho assalariado e o mercado consumidor. GIGANTE GLOBAL Operário faz reparos no logo de

GIGANTE GLOBAL Operário faz reparos no logo de uma das lojas da rede de fast-food McDonald’s em Pequim, na China

As descobertas científicas e as inven- ções provocaram enorme expansão dos setores industrializados e ampliaram o mercado para a exportação de produtos. No fim do século XIX surgiram as gran- des empresas multinacionais. O século seguinte verá o fortalecimento dessas corporações, bem como a consolidação dos Estados Unidos (EUA) como a nação capitalista mais poderosa do planeta.

O Neoliberalismo

Pode-se afirmar que a atual fase da globalização tem como pilares eco- nômicos o neoliberalismo. Trata-se do conjunto de medidas adotado pela primeira-ministra Margaret Thatcher (1925-2013) no Reino Unido e pelo pre- sidente norte-americano Ronald Rea- gan (1911-2004) a partir dos anos 1980. O neoliberalismo consolidou-se como o sistema econômico dominante a partir dos anos 1990, com o fim da Guerra Fria. De modo geral, o ideário neoliberal é constituído por alguns pontos centrais:

abertura comercial e financeira para promover o livre-comércio e ampla possibilidade de atuação das empre- sas em nível internacional; diminuição do papel do Estado na economia, por meio de privatiza- ções, e fim do Estado de Bem-Estar Social (welfare state) vigente prin- cipalmente na Europa, com o corte nos gastos públicos e na oferta de serviços sociais pelo governo; desregulamentação financeira, ou seja, deixar o mercado livre para ditar preços e condições de atuação, sem a interferência do Estado; flexibilização do mercado de traba- lho. As reivindicações trabalhistas são encaradas como obstáculos ao cresci- mento econômico; propõe uma nova divisão internacional do trabalho, com migração de empregos industriais para os países em desenvolvimento.

OMC e blocos econômicos

Um elemento central da globalização é o livre-comércio, ou seja, a criação de um sistema em que bens e serviços são comercializados sem restrições tarifárias. Nesse sentido, o papel da Organização Mundial do Comércio (OMC) na expansão comercial foi fun- damental, principalmente na primei- ra década após sua criação, em 1995. Seu objetivo principal é estimular a abertura das economias nacionais e eliminar o chamado protecionismo – quando um país impõe taxas ou outras barreiras comerciais para restringir a importação de produtos e proteger sua própria produção interna. Outro pilar importante da globalização

e do livre-comércio é a formação de blo-

cos econômicos. Sob a economia globali- zada, esses grupos reforçam a tendência de abrir as fronteiras das nações ao livre fluxo de capitais, ao reduzir barreiras alfandegárias e coibir práticas prote- cionistas e regulamentações nacionais. A formação de blocos econômicos acelerou o comércio mundial. Antes, qualquer produto importado chegava ao consumidor com um valor significa- tivamente mais alto, em função das ta- xações impostas ao cruzar a alfândega. Os acordos entre os países reduziram

e em alguns casos acabaram com essas barreiras comerciais. Existem quatro modelos básicos de blocos econômicos:

1. Zona de livre-comércio, em que há redução ou eliminação de tarifas alfandegárias. Exemplo: Nafta;

2. União aduaneira, que, além de abrir o mercado interno, define regras para o comércio com nações de fora do bloco. Exemplo: Mercosul;

3. Mercado comum, com livre circu- lação de capitais, serviços e pessoas;

4. União econômica e monetária, em que os países adotam a mesma políti- ca de desenvolvimento e uma moeda única. Exemplo: União Europeia.

As contestações a esses fundamentos da globalização sempre existiram. Mas, ironicamente, coube ao Reino Unido

e aos EUA liderar os mais expressivos movimentos a desafiar a atual ordem

– justamente as duas nações que mais

defenderam os valores neoliberais.

^~^

LINHA DO TEMPO DA GLOBALIZAÇÃO

globalização não é algo novo – remonta ao tempo das grandes navegações europeias. O avanço do capitalismo, das comunicações e dos transportes moldaram o fenômeno em sua forma atual

A

e dos transportes moldaram o fenômeno em sua forma atual A PRIMEIRO PERÍODO (1450-1850) EXPANSÃO MARÍTIMA
e dos transportes moldaram o fenômeno em sua forma atual A PRIMEIRO PERÍODO (1450-1850) EXPANSÃO MARÍTIMA

PRIMEIRO PERÍODO (1450-1850)

EXPANSÃO MARÍTIMA EUROPEIA

PRIMEIRO PERÍODO (1450-1850) EXPANSÃO MARÍTIMA EUROPEIA 1450 • Johannes Gutenberg inventa a imprensa com tipos
PRIMEIRO PERÍODO (1450-1850) EXPANSÃO MARÍTIMA EUROPEIA 1450 • Johannes Gutenberg inventa a imprensa com tipos

1450 Johannes Gutenberg inventa a imprensa

com tipos móveis metálicos

1492 • A descoberta da América e o início da

colonização e da escravidão negra marcam o ápice das Grandes Navegações

escravidão negra marcam o ápice das Grandes Navegações 1698-1777 • Desenvolvi- mento da máquina a vapor

1698-1777 • Desenvolvi- mento da máquina a vapor impulsiona a Revolução Industrial 1789 • Revolução Francesa inicia o período

Industrial 1789 • Revolução Francesa inicia o período de domínio da burguesia e de declínio da

de domínio da burguesia e de declínio da

nobreza

1830 • Inauguração, na Inglaterra, da primeira

ferrovia de longa distância para passageiros em

escala comercial

1844 • Invenção do telégrafo

SEGUNDO PERÍODO (1850-1945)

CONSOLIDAÇÃO

DAS POTÊNCIAS

CAPITALISTAS

(1850-1945) CONSOLIDAÇÃO DAS POTÊNCIAS CAPITALISTAS TERCEIRO PERÍODO (1945-1989) GUERRA FRIA E REVOLUÇÃO

TERCEIRO PERÍODO (1945-1989)

GUERRA FRIA

E REVOLUÇÃO

TÉCNICOCIENTÍFICA

INFORMACIONAL

FRIA E REVOLUÇÃO TÉCNICO – CIENTÍFICA INFORMACIONAL 1947-1951 • Com o Plano Marshall, o governo dos
FRIA E REVOLUÇÃO TÉCNICO – CIENTÍFICA INFORMACIONAL 1947-1951 • Com o Plano Marshall, o governo dos

1947-1951 • Com o Plano Marshall, o governo dos EUA financiam a reconstrução da Europa ocidental

1947-77 • Fortalecimento do Estado de Bem-Estar Social na Europa ocidental; período dos Trinta Anos Dourados do capitalismo

1950

• A televisão começa a se popularizar

1957

• Tratado de Roma cria a Comunidade Econômica

Europeia, embrião da atual União Europeia

1970 • Cabos de fibra óptica expandem as

telecomunicações

1971 • Os EUA acabam com a conversibilidade do dólar

em ouro, encerrando o sistema de Bretton Woods

1973 • Países árabes embargam o fornecimento de

petróleo aos EUA e às potências europeias: o preço do petróleo quadruplica e abala a
petróleo aos EUA e às potências europeias: o preço do
petróleo quadruplica e abala a economia mundial
1977 • Lançamento do
Apple II, que dá início à
era do microcomputador
pessoal, ou personal
computer (PC)
1979
• Margaret Thatcher

torna-se primeira-ministra do Reino Unido: política de privatizações e corte de gastos públicos torna-se referência do neoliberalismo

1983

• O telefone celular começa a ser vendido

1989

• Queda do Muro de Berlim marca simbolica-

mente o fim da Guerra Fria

1876 • O norte-americano Alexander Graham

Bell obtém a patente do telefone

1884-1885 • Novo imperialismo: as potências europeias realizam a Conferência de Berlim, partilhando o território africano entre si

1906

• Primeira transmissão de rádio nos EUA

1909

• O norte-americano Henry Ford introduz a

linha de montagem em sua fábrica de carros

1914-1918 • Disputa entre as potências leva à Primeira Guerra Mundial, que foi seguida de recessão e protecionismo

1929 • Quebra da Bolsa de Valores de Nova York

1933-37 • New Deal: nos EUA, o governo intervém pesadamente para recuperar a economia do país 1939-1945 • Novos conflitos entre as potências provoca

a Segunda Guerra Mundial;

ao final da guerra, a nação capitalista mais poderosa passa a ser os EUA

1944 • Conferência de Bretton

Woods estabelece o dólar norte-americano como a base do sistema monetário mundial e cria o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI)

E
E

QUARTO PERÍODO (1989 EM DIANTE)

PREDOMÍNIO DO NEOLIBERALISMO

DOS MERCADOS FINANCEIROS

1991 • Criação da internet; fim da

União Soviética

1992 • Tratado de Maastricht cria a

União Europeia

1992

• Criação do Nafta

1995

• Surge a Organização Mundial do Comércio (OMC)

2001

• Atentados de 11 de setembro nos EUA expõem

as fissuras entre o Ocidente e os países muçulmanos; entrada da China na OMC muda o comércio mundial

2008 • Colapso do mercado imobiliário nos EUA leva à

maior crise mundial desde os anos 1930

2015 • Instabilidade na Síria e em outros países de

maioria muçulmana eleva a imigração, na pior crise de refugiados desde a II Guerra

2016 • Brexit: em

referendo, eleitores do Reino Unido aprovam a saída da União Europeia; nos EUA, o republicano Donald Trump é eleito presidente

da União Europeia; nos EUA, o republicano Donald Trump é eleito presidente GE ATUALIDADES | 1º
da União Europeia; nos EUA, o republicano Donald Trump é eleito presidente GE ATUALIDADES | 1º
da União Europeia; nos EUA, o republicano Donald Trump é eleito presidente GE ATUALIDADES | 1º
da União Europeia; nos EUA, o republicano Donald Trump é eleito presidente GE ATUALIDADES | 1º
DOSSIÊ GLOBALIZAÇÃO EM CRISE ^~^ KEVIN LAMARQUE/REUTERS Uma nova ordem antiglobal Crise no livre-comércio, perda

DOSSIÊ GLOBALIZAÇÃO EM CRISE

^~^

KEVIN LAMARQUE/REUTERS
KEVIN LAMARQUE/REUTERS

Uma nova ordem antiglobal

Crise no livre-comércio, perda de postos de trabalho nos países desenvolvidos e manutenção da desigualdade social levam a questionamentos sobre a globalização

social levam a questionamentos sobre a globalização 34 GE ATUALIDADES | 1º semestre 2017 o a

34 GE ATUALIDADES | 1º semestre 2017

o a
o
a

início dos anos

1990, o mundo parecia ter entra-

do em uma fase de amplas opor-

tunidades para todos. Com o fim da Guerra Fria e

consolidação de

uma Nova Ordem Mundial, sob a li- derança hegemônica dos Estados Unidos (EUA), nada parecia deter o processo de globalização e as novas possibilidades de desenvolvimento que ela prometia. Sem o antagonismo comunista representado pela União Soviética (URSS), o capitalis- mo passou a reinar absoluto no planeta. As políticas neoliberais deram a sus- tentação econômica à globalização, enquanto o avanço da tecnologia da in- formação, particularmente da internet, tornou viável a interconexão e aproxima- ção entre as diversas nações. Ao longo do tempo, porém, esse sistema começou a mostrar algumas fissuras. Ao contrário do que pregavam alguns dos principais teóricos da globalização, o aumento da

integração mundial e a ampliação do comércio não promoveram o bem-estar geral dos indivíduos e a redução das

desigualdades entre as nações. A glo- balização fez alguns vencedores, mas deixou muitos perdedores pelo caminho.

E é nesse fosso de desigualdade que co-

meçam a surgir as reações ao sistema de

integração econômica mundial.

Crise de 2008

Os sinais mais evidentes de que havia algo de errado com a globalização vie- ram em 2008, com o estouro da bolha imobiliária nos EUA. Começava ali a maior crise econômica no mundo desde

a Grande Depressão dos anos 1930. A origem da crise está ligada aos

empréstimos que os bancos norte- americanos concederam a milhões de clientes para comprar suas casas, entre 2002 e 2008. Mesmo sabendo que mui- tas pessoas não tinham boa avaliação como pagadores, os bancos autorizaram

a liberação desses créditos.

Essa decisão só foi possível devido a um efeito importante da globalização que

é a desregulamentação do mercado

ABAIXO DA SUPERFÍCIE Sem-teto se abriga em estação de metrô próxima à Casa Branca, sede do governo dos EUA

financeiro. Antes o governo impunha restrições para a concessão de emprés- timos, uma medida que servia para dar segurança ao sistema bancário. Sem es- sas regras, os bancos ficaram livres para conceder crédito e ampliar seus lucros. Como era fácil obter empréstimos e os juros estavam baixos, a procura por imó- veis se intensificou, elevando os preços. Posteriormente, quando os juros su- biram, as prestações dos financiamen- tos dos imóveis ficaram mais caras e muitos compradores pararam de pagar. Isso provocou uma reação em cadeia que afetou todo o sistema financeiro norte-americano. As relações de in- terdependência nesta era de economia globalizada trataram de espalhar a crise pelo globo, afetando dos países ricos às nações em desenvolvimento. A resposta dos governos para a crise tornou ainda mais evidente os dese- quilíbrios provocados pela globaliza- ção. Os EUA e os integrantes da União Europeia (UE) injetaram trilhões de dólares para socorrer os bancos utili- zando dinheiro público proveniente dos impostos pagos por toda a população. O argumento era o de que, sem isso, haveria uma quebra geral, com conse- quências piores para o mundo inteiro. Em diferentes graus, outras nações afetadas seguiram a mesma receita. A medida, contudo, não foi capaz de reativar de forma completa a economia e ainda por cima deixou vários países endividados. A consequência é que os governos cortaram ainda mais seus gas- tos em serviços públicos e benefícios sociais. Tudo isso acelerou o desman- telamento do já enfraquecido Estado de Bem-Estar Social (welfare state). Neste modelo, que surgiu na Europa após a II Guerra Mundial, o Estado se compromete a garantir padrões míni- mos de saúde, educação e habitação, concebendo a proteção social como um direito dos cidadãos.

^~^

Livre-comércio na mira

A recessão causada pela crise de 2008 levou diversos países a rever suas políticas econômicas. Para proteger os empregos e a produção local, muitos governos passaram a questionar o livre-comércio, mais especificamente os benefícios dos blocos econômicos. Nos anos 1990, período que coinci- de com os primeiros anos dessa fase mais recente da globalização, sur- giram diversos blocos econômicos. O Tratado de Livre-Comércio da Amé- rica do Norte (1995), a UE (1992) e o Mercosul (1991) são alguns exemplos. A ideia era que, a partir da redução ou da eliminação de tarifas de importação de diversos bens e serviços, as nações pertencentes ao mesmo bloco inten- sificassem as trocas comerciais entre si, em um processo que ampliaria a geração de empregos e promoveria o desenvolvimento. No entanto, a abertura comercial ex- põe o país à competitividade típica do capitalismo e do liberalismo econômico. Ao eliminar as barreiras à importação, os bens que entram no país disputam mer- cado com os produtos nacionais. Aquele que tem maior vantagem competitiva, seja por cobrar menos impostos, por pa- gar baixos salários ou por dispor de um câmbio mais favorável para as exporta- ções, vai se dar melhor na conquista pelo mercado consumidor. E, dependendo do tipo de acordo comercial, a entrada de produtos estrangeiros pode afetar todo um setor da economia de um país.

Como resposta à crise de 2008, muitos governos na Europa socorreram os bancos e reduziram os programas sociais

Europa socorreram os bancos e reduziram os programas sociais Fora do TPP Ainda durante a campanha

Fora do TPP

Ainda durante a campanha presi- dencial, Trump identificou como uma das fragilidades econômicas do país as relações comerciais com o resto do mundo. Segundo o novo presidente, sua gestão dará prioridade a acordos bilaterais “justos”, em vez de blocos econômicos, com o objetivo de levar de volta aos EUA empregos e indústrias. Por isso, não foi nenhuma surpresa que uma das primeiras ações de Trump como presidente tenha sido a assina- tura de um decreto que retira o país do Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica (TPP, na sigla em inglês). Criado em fevereiro de 2016, o TPP nasceu para se tornar a maior área de livre-comércio do mundo, abrangendo 12 nações com uma população somada de 800 milhões de pessoas e responsá- veis por 40% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Entre seus membros estavam duas das três maiores econo- mias do mundo – EUA e Japão. Com uma canetada, Trump retirou os EUA do TPP e praticamente invia- bilizou o acordo, que terá dificuldades para ser levado adiante sem a presença norte-americana. Dessa forma, Trump desferiu o maior golpe contra o livre- comércio até agora, sepultando um tratado que iria diminuir ou até mesmo eliminar cerca de 18 mil tarifas de im- portação, abrangendo de commodities agrícolas até bens industrializados.

Divisão Internacional do Trabalho

Durante a assinatura do decreto que retirou os EUA do TPP, Trump justificou: “Devemos proteger nossas fronteiras dos estragos causados por outros países que fabricam os nossos produtos, roubam nossas empresas e destroem nossos postos de trabalho”. Essa declaração tem como alvo as novas relações de trabalho que surgi- ram no atual estágio da globalização.

DOSSIÊ GLOBALIZAÇÃO EM CRISE ^~^ QUEM GANHOU E QUEM PERDEU COM A GLOBALIZAÇÃO Evolução da

DOSSIÊ GLOBALIZAÇÃO EM CRISE

^~^

QUEM GANHOU E QUEM PERDEU COM A GLOBALIZAÇÃO

Evolução da renda real dos vários segmentos da renda global – 1988 a 2008

O eixo vertical mostra o aumento percentual da renda real, em dólares constantes, entre 1988 e 2008. O eixo horizontal mostra a posição na distribuição da renda global. Quanto menor o número, mais pobre é a população

100

1 80 3 60 40 20 2 0 5 15 25 35 45 55 65
1
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3
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2
0
5
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25
35
45
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65
75
85
95
-10
Mais pobres
Distribuição da renda global (%)
Mais ricos
Fonte: Branko Milanovic/Banco Mundial
1
2
3
Crescimento real da renda
(em %)

QUEM MAIS GANHOU

Este ponto do gráfico corresponde à classe média de países emergentes, como China, Índia, Brasil, Indonésia e Egito – mais de um terço da população mundial –, que seria a principal beneficiária da globalização. Sua renda cresceu até 80% no período de 1988 a 2008.

QUEM MAIS PERDEU

Mostra as famílias cujos rendimentos estão entre o nível 75 e 85%. Corresponde a uma alta classe média global, o que abrange os assalariados bem remunerados de nações como EUA e Reino Unido. Este segmento teria sido o mais prejudicado com a globalização.

ÓTIMOS RESULTADOS

Refere-se aos indivíduos mais ricos do planeta, que também estão entre os que obtiveram ótimos resultados no período estudado, com alta de 60% na renda. Esta elite financeira corresponde a cerca de 60 milhões de pessoas que ficaram ainda mais ricas com a globalização.

POBREZA EXTREMA EM QUEDA

Pessoas que vivem com menos de 1,90 dólar por dia (em % da população global)

América Latina e Caribemenos de 1,90 dólar por dia (em % da população global) África Subsaariana Europa e Ásia

África Subsaarianadia (em % da população global) América Latina e Caribe Europa e Ásia Central Leste da

Europa e Ásia Centralglobal) América Latina e Caribe África Subsaariana Leste da Ásia e Pacífico 30 Sul da Ásia

Leste da Ásia e PacíficoLatina e Caribe África Subsaariana Europa e Ásia Central 30 Sul da Ásia Or. Médio e

30

Sul da ÁsiaEuropa e Ásia Central Leste da Ásia e Pacífico 30 Or. Médio e Norte da África

Or. Médio e Norte da Áfricae Ásia Central Leste da Ásia e Pacífico 30 Sul da Ásia 25 20 15 12,2

25 20 15 12,2 10 Mundo 5 3,2 0 1990 2008 2013
25
20
15
12,2
10
Mundo
5
3,2
0
1990
2008
2013

COMBATE À MISÉRIA A globalização reduziu a pobreza extrema em todo o mundo. No leste da Ásia, onde a taxa caiu para menos de 1%, o resultado pode ser atribuído à urbanização e à industrialização. Na África, o índice ainda é alto.

Fonte: Banco Mundial

Na África, o índice ainda é alto. Fonte: Banco Mundial Principalmente a partir dos anos 1990,

Principalmente a partir dos anos 1990, houve uma mudança significativa na Divisão Internacional do Trabalho (DIT), como é chamada a distribuição das atividades produtivas e dos serviços entre os países do mundo. A globalização facilitou a livre circu- lação de bens e capitais, o que permitiu às multinacionais expandirem ainda mais sua atuação ao redor do mun- do. Diante da maior competitividade comercial imposta pelo neoliberalismo, essas empresas começaram a espalhar sua cadeia produtiva para os chamados países periféricos com o objetivo de reduzir custos. Suas fábricas passaram

a ser montadas em nações como Chi-

na, México, Coreia do Sul, Tailândia e

o próprio Brasil, atraídas pela maior

oferta de matéria-prima e energia, mão

de obra mais barata, isenções fiscais

e legislação trabalhista menos rígida.

Exemplo disso é a Apple, que, a par- tir de sua sede nos EUA, distribui seu processo produtivo por todo o globo, utilizando trabalhadores da Europa, da África e da Ásia para fabricar o iPhone (veja infográfico na pág. 38).

36 GE ATUALIDADES | 1º semestre 2017

O emprego nos EUA

É por isso que Trump chama o Nafta, o bloco econômico que inclui EUA, Mé- xico e Canadá, de “desastre”. O Nafta permite que empresas norte-america- nas se instalem no México para apro- veitar os menores custos de produção do vizinho latino-americano. No cerne de sua crítica está a perda dos empregos na indústria norte-americana para os trabalhadores mexicanos, que Trump promete agora recuperar. Uma revisão sobre a participação dos EUA no Nafta já está em estudo pelo governo. Em boa medida, a nova DIT e a inte- gração comercial propostas pela globa- lização geraram resultados econômicos distintos para os povos das diferentes nações envolvidas nesse processo. Um estudo do Banco Mundial mostrou que, entre 1988 e 2008, o extrato da popula- ção que teve maior incremento na renda foram os trabalhadores de nações em desenvolvimento, principalmente de China e Índia, e a elite financeira dos países ricos. Em compensação, a classe média trabalhadora dos países ricos, principalmente dos EUA e da Europa,

dos países ricos, principalmente dos EUA e da Europa, OS RICOS AINDA MAIS RICOS A globalização

OS RICOS AINDA MAIS RICOS

A globalização gerou enormes desi- gualdades econômicas e sociais. É o que afirma a organização não gover- namental Oxfam, com base em dados do banco de investimento suíço Credit Suisse. A concentração de riquezas atin- giu o maior nível da história em 2015:

1% da população mundial detém 50% de toda a riqueza do planeta. Essa par- cela mais rica teve aumento de renda 182 vezes maior do que os 10% mais pobres, no período entre 1988 e 2011. Em outro dado revelador das desigual- dades, a Oxfam aponta que os oito ho- mens mais ricos do mundo têm o mesmo patrimônio que 3,6 bilhões de pessoas, a metade mais pobre do planeta. Essa disparidade é resultado de um sistema vantajoso para poucos eleitos em detrimento da maioria, que desen- cadeia um círculo vicioso: quem tem menos recursos vive em condições mais precárias de saúde, habitação e educação. Isso, por sua vez, resulta em menores oportunidades de conseguir trabalho com remuneração adequada.

^~^

DA INDÚSTRIA PARA OS SERVIÇOS

As dez empresas norte-americanas que empregam maior número de trabalhadores

Indústria Serviços

Indústria

Indústria Serviços

Serviços

 

Em 1960

 

Em 2010

   

General Motors

 

Walmart

   

Bell System (AT&T)

 

Kelly Services

   

General Electric

 

IBM

   

Ford

   

UPS

   

U.S. Steel

   

McDonald’s

   

Sears, Roebuck

 

Yum!

   

A&P

 

Target

   

Esso (Exxon)

 

Kroger

   

Bethlehem Steel

 

HP

10º

   

ITT

 

The Home Depot

DO OCIDENTE PARA O ORIENTE

Produção industrial em % do total mundial

100 Resto do mundo 80 Europa 60 América do Norte 40 Resto da Ásia 20
100
Resto do mundo
80
Europa
60
América do Norte
40
Resto da Ásia
20
China
0
1990
2013

MAIS BARREIRAS, MENOS COMÉRCIO

Número de medidas protecionistas implementadas pelos países do G-2020 China 0 1990 2013 MAIS BARREIRAS, MENOS COMÉRCIO Crescimento do comércio mundial em relação ao

Crescimento do comércio mundial em relação ao ano anterior, em %medidas protecionistas implementadas pelos países do G-20 400 20 300 10 200 0 100 -10 0

400 20 300 10 200 0 100 -10 0 -20 2009 2013 2016 Nº de
400
20
300
10
200
0
100
-10
0
-20
2009
2013
2016
Nº de medidas
Crescimento %

TRANSIÇÃO SETORIAL

Em 1960, sete das dez empresas que mais empregavam nos EUA eram do setor industrial. Em 2010, o setor de serviços concentra nove das dez empresas com o maior número de funcionários trabalhadores. Só a gigante varejista Walmart emprega mais de 2 milhões de trabalhadores.

Fontes: Government Accountability Office; Bureau of Labor Statistics; S&P Capital IQ; iSuppli, citados por The
Fontes: Government Accountability Office;
Bureau of Labor Statistics; S&P Capital IQ; iSuppli,
citados por The New York Times
INDÚSTRIA MIGRA PARA ÁSIA PORTAS FECHADAS Note como, em 1990, a produção industrial mundial se
INDÚSTRIA MIGRA PARA ÁSIA
PORTAS FECHADAS
Note como, em 1990, a produção
industrial mundial se concentrava
majoritariamente na Europa e na
América do Norte. Em pouco mais de
duas décadas, esse cenário mudou:
agora a manufatura da China e do
restante da Ásia já se equiparam
com a das potências ocidentais.
Após a crise econômica de 2008,
os 20 países mais ricos do mundo
adotaram políticas protecionistas,
como o aumento nas tarifas de
importação. Essas medidas têm um
impacto direto no comércio mundial,
cujo crescimento em valores
despencou a partir de 2012 – ano
em que o protecionismo disparou.
Fontes: Economist, ONU
Fontes: Economist, ONU

tiveram as maiores perdas na renda (veja gráfico na página ao lado). Contudo, vale ressaltar que, apesar dos recentes avan-

ços, os salários dos trabalhadores chine- ses continuam bem abaixo da média do trabalhador norte-americano. Enquanto

a renda per capita no país asiático em

2015 era de 7.930 dólares ao ano, nos EUA o valor alcançava 55.980 dólares. Outro efeito dessas mudanças no

mercado de trabalho norte-americano

é a transferência dos empregos, que

migraram do setor industrial para o de serviços. Se durante boa parte do século XX a indústria era o motor da economia nos EUA e a principal geradora de emprego no país, a globa- lização alterou esse perfil. O setor de serviços, que compreende atividades que incluem comércio, transportes, saúde, educação, alimentação e entre- tenimento, tornou-se o segmento que mais contrata funcionários nos EUA. A gigante do setor varejista Walmart emprega 2,1 milhões de funcionários, enquanto a empresa do setor industrial que mais contrata, a HP, tem 324 mil funcionários (veja gráfico acima).

O problema é que, apesar de empregar muitos funcionários, o setor de serviço oferece salários menores. É verdade que empresas como a Apple contam com uma equipe de designers e programa- dores muito bem pagos. Mas a maioria dos empregados no setor de serviços, como garçons, vendedores e professo- res, recebe bem menos e tem poucas perspectivas de ascensão profissional.

Protecionismo

Com o objetivo de defender os em- pregos na indústria, ainda durante sua campanha presidencial, Trump atacou duramente empresas dos EUA que se mudam do país, em busca de custo mais baixo do trabalho e vantagens fiscais, e

Medidas protecionistas, como o aumento de tarifas de importação, cresceram em todo o mundo

de tarifas de importação, cresceram em todo o mundo com isso eliminam vagas dos trabalhado- res

com isso eliminam vagas dos trabalhado- res norte-americanos. Entre as medidas que prometeu adotar, está a taxação em até 45% para os produtos dessas empre- sas que vierem do México e da China. Além disso, a política econômica es- boçada por Trump promete sacudir alguns paradigmas da ordem global. Ao defender o protecionismo, o presidente norte-americano sinaliza com medidas para erguer barreiras à importação, com o objetivo de garantir que os produtos norte-americanos tenham um mercado assegurado em seu próprio país. Sabe-se, porém, que práticas prote- cionistas nunca deixaram de existir. Historicamente, muitas nações que de- fendem uma posição de livre-comércio puseram em prática políticas prote- cionistas, com o objetivo de assegurar mercado para sua produção doméstica. Países em desenvolvimento denunciam há anos que as grandes potências pre- conizam formalmente a liberdade de circulação de bens e serviços, mas, na prática, mantêm subsídios e outras políticas que favorecem seus produto- res, prejudicando os de outras nações.

DOSSIÊ GLOBALIZAÇÃO EM CRISE ^~^ ALY SONG/REUTERS EM SÉRIE Fábrica que produz máscaras do presidente

DOSSIÊ GLOBALIZAÇÃO EM CRISE

^~^

ALY SONG/REUTERS
ALY SONG/REUTERS

EM SÉRIE Fábrica que produz máscaras do presidente dos EUA, Donald Trump, na China

Além disso, a adoção de práticas pro- tecionistas não seria exclusividade dos EUA. As barreiras ao comércio têm cres- cido no mundo todo desde a eclosão da crise de 2008, como uma forma de de- fender os empregos locais. O problema

é que, se a maioria dos países eleva suas

taxas de importação, uma consequência óbvia é a retração do comércio em nível mundial – afinal, as exportações tendem

a cair também. Órgãos como a OMC cre-

ditam a lenta recuperação da economia mundial a essa onda protecionista.

O comércio com a China

A percepção de que a China está le- vando vantagem neste grande jogo da globalização levou Trump a apontar

o país asiático como o principal rival

a ser combatido na arena econômica.

As duas maiores economias do mun- do, entretanto, mantêm uma relação estreita. A entrada da China na OMC, em 2001, ampliou as relações comerciais da China com o mundo e, em especial, com os EUA. Mas os norte-americanos exportam para a China produtos num

valor bem menor do que o de suas im-

38 GE ATUALIDADES | 1º semestre 2017

portações dos chineses. Ou seja, a ba- lança comercial dos EUA com a China

é deficitária. Somente em 2016, o saldo

negativo atingiu 347 bilhões de dólares.

Mas qualquer medida agressiva do presidente norte-americano poderá provocar retaliações chinesas. Numa eventual guerra comercial, analistas citam a possibilidade de a China re- duzir as compras da soja dos EUA ou de recusar os aviões da Boeing, cujas vendas no país atingiram o valor de 15 bilhões de dólares em 2015. Diante das incertezas trazidas para

a economia mundial pela nova admi-

nistração norte-americana, um dado curioso é a defesa da globalização e do livre-comércio feita pelo presidente chinês, Xi Jinping, no Fórum Econô- mico Mundial de Davos, em janeiro. Sem citar Trump, o dirigente da China contrapôs-se de forma cabal à sua po- lítica. E o mundo assiste ao governante do mais importante país de regime formalmente comunista defender uma ordem econômica que o presidente da maior nação capitalista parece interes- sado em chacoalhar.

EMPREGOS INDUSTRIAIS MIGRAM DOS EUA PARA A CHINA

A perda de empregos na indústria nos EUA e

em outros países desenvolvidos se dá por dois fatores principais: o avanço da automação e a transferência da fabricação dos produtos para países como a China (relocalização).

Enquanto os melhores e mais remunerados empregos ficam na matriz, o trabalho manual é transportado para nações onde os custos são muito menores do que nos EUA.

A possibilidade de mudar as fábricas de

região, de país e até de continente, em busca de mão de obra barata, foi facilitada pela

expansão da internet e se tornou um argumento importante para que os empresários pressionem os trabalhadores nos países desenvolvidos a aceitar uma redução em seus ganhos e direitos.

O processo atinge, sobretudo,

os assalariados fabris e o pessoal menos qualificado em geral.

O alto escalão das firmas globais teve o nível de emprego pouco afetado e mantém salários altos.

o nível de emprego pouco afetado e mantém salários altos. SAIU NA IMPRENSA FÁBRICAS DOS EUA
o nível de emprego pouco afetado e mantém salários altos. SAIU NA IMPRENSA FÁBRICAS DOS EUA
o nível de emprego pouco afetado e mantém salários altos. SAIU NA IMPRENSA FÁBRICAS DOS EUA

SAIU NA IMPRENSA

FÁBRICAS DOS EUA OPERAM COM CADA VEZ MENOS FUNCIONÁRIOS

As fábricas já estavam voltando a ope- rar nos Estados Unidos antes mesmo da promessa de revitalizar o setor industrial que ajudou a levar Donald Trump à pre- sidência do país. Mas os números de postos de trabalho que estão sendo verificados não são os mesmos do passado, uma realidade que tornará difícil para Trump – ou qualquer outra pessoa – impulsionar as taxas de emprego no coração industrial dos EUA, como ele prometeu. A tecnologia e a automação tornaram possível para as empresas manufatureiras funcionar, e mesmo prosperar, com menos empre- gados do que nunca antes. A produção industrial do país está pró- xima dos níveis anteriores à recessão. Mas cerca de 1,5 milhão de empregos em fábricas – aproximadamente 20% dos postos perdidos durante a recessão – não retornaram. ( )

The Wall Street Journal, 18/12/2016

^~^

A CADEIA DE PRODUÇÃO DO IPHONE, DA APPLE COMPONENTES MONTAGEM 3 4 Os aparelhos celulares
A CADEIA DE PRODUÇÃO DO IPHONE, DA APPLE
COMPONENTES
MONTAGEM
3
4
Os
aparelhos celulares da Apple são constituídos
por centenas de componentes diferentes,
produzidos fora dos EUA, em países como China,
Taiwan, Coreia do Sul, Cingapura e Alemanha.
Na China, o iPhone é montado,
ou seja, tem seus componentes
juntados por trabalhadores
braçais para dar origem ao
aparelho. No caso da Apple,
a
empresa responsável pela
ALEMANHA
ESTADOS
UNIDOS
COREIA DO SUL
montagem do produto é a
Foxconn, localizada na cidade
de Zhengzhou, onde a empresa
tem vantagens competitivas.
CHINA
TAIWAN
AS VANTAGENS DA CHINA
1
As obrigações ambientais
são menores
CRIAÇÃO
O iPhone foi desenvolvido pela
A
legislação trabalhista é
menos rigorosa
Apple em sua sede na
CONGO
CINGAPURA
A empresa recebeu
Califórnia,
Estados Unidos.
MATÉRIA-PRIMA
incentivos
do governo
Ali trabalham profissionais
como engenheiros, designers e
programadores, responsáveis
pelo projeto e aprimoramento
do smartphone. No mesmo
local se concentra a
divulgação da marca,
com o pessoal de marketing
alimentando o desejo
do consumidor.
2
O
iPhone contém em sua estrutura
diversas
matérias-primas, como
chinês, que eliminou ou
reduziu impostos
tântalo, tungstênio e estanho, obtidos
O valor dos salários dos
em países africanos, como a República
Democrática do Congo.
operários é muito inferior
aos pagos nos EUA
5
O QUE PODE MUDAR COM TRUMP
Durante a campanha eleitoral, o presidente Donald Trump disse que iria fazer a Apple
produzir o iPhone nos EUA, para recuperar empregos perdidos
dos trabalhadores
norte-americanos. Se isso ocorresse, o valor de venda do aparelho subiria, em virtude dos
custos mais altos de produção em território norte-americano. Essa transferência é
considerada pelos especialistas muito improvável, por envolver a instalação de uma ampla
infraestrutura que levou décadas para ser montada na China.
Fontes: The New York Times, Deutsche Welle

Da teoria à prática

De modo geral, as principais pro- postas de Trump na esfera econômica questionam os fundamentos da ordem globalizada vigente. Mas, se o diagnós- tico do presidente norte-americano coincide com a maior parte das análises sobre os desequilíbrios provocados pela globalização, o remédio proposto para esses males é motivo de controvérsia. Para muitos analistas, a proposta de trazer indústrias de volta aos EUA é de aplicação difícil, ou até impossível. Se- ria necessário descumprir a legislação internacional à qual os EUA estão sub- metidos, como a da OMC. Ainda que se resolvesse esse ponto, estaria criado um grande problema, porque as empresas teriam de elevar o preço de venda dos produtos, provocando inflação. Isso porque o custo de fabricação nos EUA, principalmente por causa dos salários mais altos, é muito maior do que nos países para os quais as fábricas foram transferidas. A elevação de preços para os consumidores finais levaria a uma queda nas vendas, com reflexos diretos no crescimento econômico do país.

Há também a questão da automação:

diversas funções executadas até poucos anos atrás por operários norte-america- nos podemhoje ser cumpridas por robôs. Isso quer dizer que, mesmo se Trump conseguir trazer as empresas de volta aos EUA, isso não significaria a abertura de vagas em número tão expressivo. Além disso, as vagas criadas na indús- tria são bem diferentes das existentes há 20 anos. As funções atuais exigem conhecimento maior da tecnologia de in- formação, nas quais o trabalhador passa a atuar diante de uma tela de computa- dor, em vez de operar um forno quente, por exemplo. Há, portanto, necessidade de melhorar a qualificação da mão de obra para operar os novos equipamentos.

Ainda que Trump traga as indústrias de volta aos EUA, a automação restringe a abertura de novas vagas

aos EUA, a automação restringe a abertura de novas vagas Curioso notar como os EUA se

Curioso notar como os EUA se vol- tam contra os princípios de uma ordem econômica que sempre defendeu. Crí- ticas de anos atrás sobre como a globa- lização alijava as nações mais pobres do processo de integração eram igno- radas por sucessivos governos norte- americanos. A percepção de que esses desequilíbrios também atingem sua população leva o país agora a querer mudar as regras do jogo. Mas o fato é que, depois de décadas de Nafta e de OMC, as relações dos EUA com o México, com a China e com outros parceiros comerciais passaram

a estar integradas em vários aspectos.

Essa interdependência torna difícil a operação de desmontar as engrenagens do sistema, tal como Trump almeja. A questão que se coloca é se a tentativa de romper os elos dessa cadeia não provo- caria mais estragos do que benefícios

à economia dos EUA – e do mundo.

PARA IR ALÉM O filme A Grande Aposta (de Adam McKay, 2015) transforma os eventos que antecederam a eclosão da crise de 2008 em uma comédia de humor negro.

DOSSIÊ GLOBALIZAÇÃO EM CRISE ^~^ JORGE DUENES/REUTERS NÃO ULTRAPASSE Barreira que separa EUA e México,

DOSSIÊ GLOBALIZAÇÃO EM CRISE

^~^

JORGE DUENES/REUTERS
JORGE DUENES/REUTERS

NÃO ULTRAPASSE Barreira que separa EUA e México, na praia de Tijuana: Trump quer ampliar o muro para impedir a entrada de imigrantes

Nações

desunidas

Movimentos nacionalistas e manifestações xenófobas crescem nos países desenvolvidos como resposta à crise econômica e ao aumento da imigração

resposta à crise econômica e ao aumento da imigração 40 GE ATUALIDADES | 1º semestre 2017

40 GE ATUALIDADES | 1º semestre 2017

da imigração 40 GE ATUALIDADES | 1º semestre 2017 eleição de Donald Trump como pre- sidente

eleição de Donald Trump como pre- sidente dos Esta- dos Unidos (EUA) e o Brexit, como ficou conhecida a decisão dos elei- tores do Reino Unido de deixar a União Europeia (UE), exprimem a reação de amplos setores da população aos frustrantes resultados econômicos dos últimos anos. Também são sinto- mas de uma mudança profunda em curso na sociedade das duas nações. A vitória de Trump e o Brexit tornaram ainda mais visível um fenômeno que dialoga diretamente com a atual onda de rejeição ao mundo globalizado: a ascensão do nacionalismo. Esse processo está ligado à crise eco- nômica iniciada em 2008, que ainda não foi totalmente superada. Nestes quase dez anos, parcelas expressivas da classe trabalhadora perceberam que as pers- pectivas de ascensão social e de aumento da renda estão cada vez mais reduzidas.

É o cenário ideal para o surgimento de

lideranças mais radicais, que prometem uma sacudida no atual estado das coisas.

Na ordem econômica proposta pela

globalização, o aumento da imigração

e do livre movimento de pessoas co-

meçam a enfrentar uma resistência que tem como base o fortalecimento do sentimento de identidade nacional. Quando Trump promete ampliar o muro na fronteira sul para impedir a entrada de imigrantes ilegais vindos do México ou quando o Reino Unido inicia os pro- cedimentos para se separar do maior bloco econômico do planeta e impedir

a entrada de trabalhadores de outros

países, a mensagem deixada é bem clara:

os estrangeiros não são bem-vindos.

De modo geral, o nacionalismo pode ser entendido de duas formas. Ele ex-

pressa um sentimento cívico, de lealdade

à pátria. Nesse sentido, etnia, língua,

religião e história são vistos como ele-

mentos unificadores de uma nação. Mas

o nacionalismo também pode ser utili-

zado como uma ideologia, que explora tais valores de identidade nacional para alcançar objetivos políticos. A eleição

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MIKE THEILER/REUTERS
MIKE THEILER/REUTERS

VISTO NEGADO Protesto em aeroporto de Washington D.C. (EUA) contra a decisão de Donald Trump de barrar imigrantes, em janeiro de 2017

de Trump e o fenômeno do Brexit são exemplos dessa visão de mundo, na qual as relações com outras nações acabam sendo definidas mais em termos de com- petição, onde prevalecem as rivalidades nacionais. Na mão de líderes populistas, o nacionalismo é usado como poderosa ferramenta política (veja mais sobre po- pulismo na pág. 44).

Nós contra eles

No mundo globalizado, a ideia de uma governança global, com base na colaboração entre os países para a pro- moção do desenvolvimento, deu ori- gem a instituições como a Organização das Nações Unidas (ONU), cujo prin- cipal objetivo é articular a cooperação internacional para resolver problemas econômicos, sociais e humanitários. É verdade que essa articulação sempre encontrou enormes dificuldades para ser colocada em prática. Mas agora a governança global está ameaçada, porque o líder da nação mais poderosa do planeta rejeita ex- plicitamente os seus fundamentos. Para Trump, a ONU é uma “perda de tempo

e dinheiro”, desprezando o papel da

instituição como fórum para discussão e resolução de problemas entre os países.

Até a cooperação militar que os EUA

mantêm com diversos parceiros foi cri- ticada por Trump. O presidente chamou

a Organização do Tratado do Atlântico

Norte (Otan), aliança militar impulsio- nada pelos EUA, de “obsoleta”, além de reclamar que o governo norte-americano arca com a maior parte dos seus custos. Essa postura mostra um menosprezo de Trump em relação aos pilares que sustentam a chamada Pax Americana. A Pax Americana é o nome dado ao período que começa após a II Guerra Mundial (1939-1945), no qual os EUA projetaram seu poder pelo mundo, dis-

Para Trump, a ONU é

uma “perda de tempo

e é dinheiro” e a Otan uma instituição “obsoleta”
e
é
dinheiro” e a Otan
uma instituição
“obsoleta”

seminando os valores da democracia e do liberalismo econômico. Para a maior parte das nações era mais conveniente embarcar no trem governado pelos norte-americanos do que se opor a essa liderança. Com o desmantelamento da União Soviética (URSS), em 1991, o po- derio econômico e militar dos EUA se tornou tão desproporcional em relação ao resto do mundo que o país se fir- mou como o principal responsável pelo equilíbrio entre as potências mundiais. Agora, ao flertar com o isolacionis- mo, Trump quer que os EUA evitem uma postura ativa em assuntos que não dizem respeito aos interesses norte-americanos mais imediatos. E não só isso. Sua visão de mundo e de política externa tem como alicerce o “America First”. Ao sustentar que a América deve vir em primeiro lugar, Trump se apresenta como expoente do tipo de nacionalismo que considera as relações internacionais uma grande competição, um jogo no qual o outro é sempre um inimigo e que os ganhos de um país estão sempre atrelados às perdas dos outros.

DOSSIÊ GLOBALIZAÇÃO EM CRISE ^~^ GEOFF CADDICK / AFP AFINIDADE Grafite em Bristol (Reino Unido)

DOSSIÊ GLOBALIZAÇÃO EM CRISE

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GEOFF CADDICK / AFP
GEOFF CADDICK / AFP

AFINIDADE Grafite em Bristol (Reino Unido) ilustra o presidente dos EUA, Donald Trump (à esq.), e Boris Johnson, um dos líderes do Brexit

Soberania nacional

O Brexit também tem suas raízes nesse tipo de nacionalismo. Ao decidir abandonar o maior e mais importante bloco econômico do mundo, o Reino Unido reafirma a importância de dois valores muito caros ao sentimento na- cionalista britânico: a soberania sobre suas decisões políticas e econômicas e o controle das fronteiras nacionais. Ao longo dos anos, a UE criou meca- nismos que aprofundaram a integração entre os países-membros, principal- mente em três aspectos:

Econômico: estabeleceu-se um mercado comum, com a eliminação das tarifas alfandegárias e a adoção de políticas econômicas em comum. Em 2001, foi adotada uma moeda única – o euro – embora nem todos os países- membros a adotem, como é o caso do Reino Unido.

Político: o Tratado de Lisboa, que entrou em vigor em 2009, é uma es- pécie da Constituição Europeia. Ela define a atuação de instituições como o

42 GE ATUALIDADES | 1º semestre 2017

Banco Central Europeu, que estabelece a política monetária para os países da zona do euro, e o Parlamento Europeu, que tem poder de decisão em alguns assuntos internos dos países-membros.

Migratório: a livre circulação de pessoas é garantida pelo Espaço Schen- gen. Composto de 26 nações europeias, ele permite aos habitantes cruzar livre- mente as fronteiras – o Reino Unido não participa, mas adota algumas políticas comuns para a imigração.

Quando as várias nações do conti- nente decidiram estabelecer ações de forma coletiva e adotar as regras do bloco, cada uma abriu mão parcialmen- te de sua soberania, em favor do aces- so preferencial ao mercado ampliado proporcionado pela UE. Esse projeto ousado transcendia as rivalidades na- cionais em favor de um projeto que integraria as nações pelo comércio, prometendo ganhos para todos. Mas, por mais que haja um esforço de uni- dade, os interesses específicos de cada país não desapareceram por encanto.

A decisão do Reino Unido é vista como uma forma de recuperar a autonomia so- bre suas decisões políticas e econômicas.

O plano de retirada prevê que o Reino

Unido deixe o mercado comum euro- peu, que possibilita a livre circulação de

mercadorias, trabalhadores, serviços e capitais entre os participantes, como se

o bloco fosse um único país. Com isso,

perdem os exportadores britânicos, que deixarão de ter acesso livre a um merca- do que reúne 500 milhões de consumi- dores. O setor financeiro também será afetado, já que os bancos britânicos têm ampla atuação em toda a UE. Em compensação, ao interromper a mobilidade de trabalhadores entre os países-membros do bloco, o governo

britânico retoma plenamente o controle de suas fronteiras. E foi justamente esse

o fator que mais pesou entre o eleitorado que aderiu ao Brexit. Entre 1971 e 2015

o percentual de estrangeiros vivendo no

Reino Unido saltou de 5,8% para 13,1%. Em um momento de empregos escassos

e serviços públicos sobrecarregados,

esse ponto foi bastante explorado na

campanha a favor do Brexit.

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MUNDO EM MOVIMENTO

Percentual de imigrantes no total de residentes Em 2015, em %

OS DEZ PRINCIPAIS FLUXOS MIGRATÓRIOS EM 2015

3,3 RÚSSIA UCRÂNIA REINO 1,3 UNIDO ESTADOS UNIDOS 3,3 CHINA TURQUIA PAQUISTÃO 1,6 SÍRIA 2,1
3,3
RÚSSIA
UCRÂNIA
REINO
1,3
UNIDO
ESTADOS UNIDOS
3,3
CHINA
TURQUIA
PAQUISTÃO
1,6
SÍRIA
2,1
MÉXICO
1,1
12
3,2
BANGLADESH
ARÁBIA
SAUDITA
EMIRADOS
1,9
3,5
FILIPINAS
ÁRABES
UNIDOS
ÍNDIA
Principal fluxo
(em milhões)
AUSTRÁLIA
O número indica
quantas pessoas
migraram de um
país a outro.
indica quantas pessoas migraram de um país a outro. 0 a 10 10 a 20 20

0 a 10

quantas pessoas migraram de um país a outro. 0 a 10 10 a 20 20 a

10 a 20

pessoas migraram de um país a outro. 0 a 10 10 a 20 20 a 30

20 a 30

migraram de um país a outro. 0 a 10 10 a 20 20 a 30 30

30 ou mais

EUROPA

Luxemburgo

44

Suíça

29,4

Áustria

17,5

 

Suécia

16,8

 

Irlanda

15,9

Alemanha

14,9

Reino Unido

13,2

Espanha