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0 mesmo tempo em que coloca NOVOs questionamentos, a obra de Pierre Bourdieu fO/NINE respostas originais, renovando 0 pensamente SOCIHIIN sobre as fungGes ¢ o funcionamento social dos SIstiil de ensino nas sociedades contemporaneas, @ SONG Ai relagdes que mantém os diferentes grupos socials COIN escola e com 0 saber. Conceitos e categorias anallleal por ele construidas constituem hoje moeda correla Ui pesquisa educacional, impregnando, com seu alto pOuel explicativo, boa parte das andlises brasileiras SObIG al condigdes de producao e de distribuicao dos bens culturais e simbolicos, entre os quais se incluem obviamente os produtos escolares. Este livro foi organizado com o intuito de oferecer, Hl lingua portuguese, a um piblico de pesquisadore estudiosos e especialistas em educagao, uma selegha Me alguns dos mais importantes escritos do autor em mall de educacao e de ensino, que ainda nao estavain disponiveis em nosso pats - boa parte dos quai publicados originalmente na revista Actes de la Recherche en Sciences Sociales, criada por Bourdieu em 1975, 6 ali hoje por ele dirigida” Maria Alice Noguelll Atrénio Catan EDITORA will 326-20) i SHE Aisi ndaiywozys com by 883322050 0 OVWSVINAGI 39 SOLINDSa 6. ) olueyy ‘e11anBON aDity eUeEW 37.0; PIERRE BOURDIEU ESCRITOS pe EDUCACAO Orqanizacio: MAMA ALICE. NOGUEIRA AL RANIO'CATANI E14}. [ale rs me hep Elf “Espera-se do socidlogo que, A medida do profeta, d& respostas tltimas © (aparentemente) sistemdticas fis questdes de vida ou de morte que se colocam no dia- a-dia da existéneia social. E Ihe 6 recusada a fungio, que ele tern direito de reivindicar, ‘como qualquer dar respostas precisas verificdveis apenas as questdes que est em condigdes de colocar cientificamente: quer dizer, rompendo com as perguntas postas pelo senso comum € também pelo joatisme, ntista, de Ni deve entender-se com isto que ele deva assumiro papel de perito ao servigo dos poderes.,. Doravanic, a sociologia estar tao segura de si mesma que dir aos politicos que néo podem pretender governar em nome de universos dos quais ignorem as leis de fincionamento mais elementares.” Pierre Bourdien CoLrcAO GaENCIAS SociA's DA EDLEACAO. Goordenacores: Maria Alice Nogueira @ Léa Pinkeiro Paixao = Osujelto do educagao . ‘Temaz Tada da Sia (org) = Neollberalismo, qualidede total « educagdo Tommaz Tadau ds Sim « Pablo Genii loxys Teoma critica ¢ educogéa Bruno Puce fra) Currfeulo ~ Teoria e historia Inor F: Goodsen ~ Fsoritas de edueagia Maria Alice Noguera e Afrinio Calon fogs.) + familie e escola - Trajet5rias de escolarizacéo em cnniadas médias ¢ populores Maria Alice Nogioa, Geraldo Romanelli a Nadiv Zago forge) A escolartzagdo das elites ‘Ana Mata Forseca de Almeida ¢ Maria Alice Nogueta (orgs.) = Homem pial ~ Os determinantes da ago Caagout Bemard Lahie Bip_Core Tomoyo} cae 2085.4 — citer GEG 4 Waser Dados Internacionais de Catalogagie na Publicacio (CIP) (Camara Brasileiva do Livto, SP, Brasil) Exeritos do educagic / Moria Alice Nogueina e Alranio Catan (organizarores), 9, ed, ~ Petropolis, il: Vozes, 2007. — [Ciencias socias da educagac), ISBN 978-85-326:2053-8 1. Educagdo 2. Sociolagia eckicacioral 1. Catani, Afrénio, A. Nogueira, Maria Alice, UL. Titulo. IV. Serie 96.0345, €Db-370.19 Inleos para eatdloge sstemalice 1, Scciologla educactonal 370,19 PIERRE BOURDIEU ESCRITOS DE EDUCACAO Selegio, organizagao, introducio e notas ‘Maria Alice Nogueira, ‘Afrénia Catan y EDITORA VOZES Petrépolis © Pierre Bourdieu © 1998, Editora Vozes Lida, Rua Frei Luis, 100 7 25689-900 Petropolis, Ril Internet: hutp://www,vozes.com.br Brasil odes 0 direitos reservados, Nenhurna parte desta obra podera ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer metos (dletrénico ou mecanico, ineluindo fotocépia e gravagSo) ou arquivada ‘em qualquer sistema ou banco de dados sem parmisséo escrita da Editora “EL ouvrage, publié dans Je cadre du programme de participation la publication, bénéficie du soutien du Ministére frangais des Affaires Etrangéres, de I'Ambassade de France au Brésil et de la Maison Francaise de Rio de Jeneiro.” “Este livro, publicado no ambito do programa de participagso a ublicagao, contau com o apoio do Ministerio francés das Kelacdes Extericres, da Embaixaca da Franca no Brasil ¢ da Maison frangaise do Rio de Janeiro’ Editoracdo e oro. ttteréria: daime Clasen Cape: Susana Cellegari (SBN 978-85-326-2053-8 Este vro foi compasto e impresso pala Falitora Vozes Lida Sumario Uma sociologia da produgio do mundo cultural 2 escolar (Maria Alice Nogueira e Afrénio Catan), 7 Preficio: Sobre es artimanhas da raeéo imperialista, 17 1. Método cientifico @ hierarquia social dos objetos, 33, IL A escola conservadora: as desigualdades frente a escola e a cuitura, 39 Ill, © capital social ~ notas provisérias, 65 IV. Os trés estados do capital cultural, 71 V. Futuro de classe @ causalidade do provavel, 81 VO diploma e 0 cargo: relagbes entre o sistema de predugao 0 sistema de reprodugio, 127 VIL Classificacao, desclassiticacao, reclassificacéo, 145 VII As categorias do julzo professorel, 185 IX, Os excluidos do interior, 217 X. As contradigées da heranga, 220 XI, Medalha de ouro do CNRS 1993, 239 Anexo I: Quadro comparativo dos sisiemnas de ensine ~ Brasil/Frange, 249 Anexo tl: Significado das sighs, 251 cae Usa SOCIOLOGIA DA PRODUCAO, DO MUNDO CULTURAL E ESCOLAR TAA sss de 60 pec ser coda tae Saad fees Gi@ncias sociais francesas: 1m acelerado processo de desenvolvimento, expresso sobretudo na ampiiagio do namero de pesquisedores e no exescimento do volume da producdo cientifica, levou ao aparacimento de ppensadores como Pierre Bourcheu (1930), cujo nome Gesponta iniciaimen- te como criador, em 1967, do Centro de Sociologia da Educagio ¢ da Ciitura (CSEQ,, 'sendo autor, juntamente com Jear-Clautle Passeron, do livo Les Téritiers (1964), ume des principais fontes inspredoras dos estudantes universitarios tebelados em maio.de 1968," Desde entéo, as andlises cle Bourdieu decicadas & sociologie de educegio e da cultura marearam getagées de intelectuais e canharam rapidamente natoriedade nacional e internacional ‘Ao mesmo tempo en que colocava novos questionamentos, tia obra fomecia respostae originals, renovando © pensamanto sociologico sobre as funcées ¢ o funcionamento social dos sistemas de ensino nas sociedades ontempordineas,e scbreas relagSes que mantém os diferentes grupos socials com a ascola e com o saber. Conceits catagorias analficas por ele cors- {nutds, constituem hojemoeda comenteda pesquisa eduicactonal, inpregnan- do, com seu ako poder explicativo, boa parte das andlises brasleiras sobre as condigBes de producdo e de distrbuicao dos bens cuiturais ¢ simbelices, fentre 6s qucis se inclier obviamnente os produtes escolares Esie lio fol organizetlo com o intuito de oferecer, em fingue porte guesa, a um pitolico de pesquisadores, esiurliosos e especialistas ern ecli- Wo, uma select de alguns dos mals importantes escrtios do autor em materia de educagéo € de ensino, que ainda nio estavam disponiveis ern 1. Raynor Aron escrevau que ro de Bee © te Paseo Les Heres. mouse. yor ‘usin oer tenivo de obscedoe etn cent. Memes trae, Cavs Aves Velho ode eno, Nowe Frotein, 2 el, 1986. p, 621 ‘nosso pais — hoa parte dos quais publicados originalmente na revista Actes de fa Recherche en Sciences Sociales (ARS), criada por Bourcieu em 1978, e até hoje por ele crigida* Em se tratando de obra Jao extensa, era forgoso operar escolhas, 0 que provavelmente nao fizemos sem certa dose de arbitrariedacte, Guiou nos, enlrelento, a intengio de evitéle ao maximo € 9 propdsito de selecionar na obra, inicialmente, aqucles momentos fortes do pensamento, ‘marcaclos por textos que tiveram vasta repercussao e influencia na area, Um outro eritério levou-nos & opedo por trabalhos que tentassem cobrir os ciferentes aspetos da questéo eduicacional que ocupamn oautor, visando obter uma certa representatividade do conjunte do pensamento. ‘A disposigao dos textos « partir da ordem cronoligica de pubiicagio ado nos pareceu corveriente, porque quebraria a saqiiancia tematica. A ela pra ferimos uma estratégia de apresentacio que os agnipasse segundo os diferentes aspecies da problemética de Bourdies no campo da educasio, Trata-se, pois, de textos redigidos em momentos diferentes © em cistintos contextos, 0 que toma no minimo amriscado falarse de ur corpus uificedo, Integram assim a presente coletanea onze textos precedidos de um prefacio do autor ¢ acrescidos dos anexos [ell que fomecem, respectivar mente, as equivalancias entre 08 graus ¢ as series dos sistemas de ensino frances e brasileo, ¢ 0 significado das siglas edlucaciorais francesas que aparecem nos textos “Método cientica e hierarquia social dos abjetos” (1975) 6 um artigo de. abemura, especie de editoral, publcado orghalmente no prineiro nimero de ARSS. Para Bourdieu, a existancia nos campos de procugéo sirmbelica de uma hierarquia dos objetos leatios, eatimavels ou mdigros ccnstturse em. uma das mediagSes por meio das quais se impGe a censura especfica de um ‘determnaciocampa, No sau entender, “a delrigao dmirante das cosas boas de se dizer e dos temnas dignos de interesse € un dos mecanismos ideologicos {que fazzm com que coisas também muito boas de se dizer no seam ditas @ com que temas nao menos dlignos de interesse no interessem a nnguem, Ol 36 possam ser tratados de modo envergonhado ou vicioso". Ez hicrerquiados abjelos que, consciente ou inconscienterente, orenia, 0s inuestimentos intelecuais dos agentes, mediadlos pela estumura de operti- nidades de hero material e simbdico. Assim, os produlores que trabelliam. 2. An ooh por orf x apie dae conan de vacepro da chen cle eur 2 Beal let Loic Mequon parse Codon Uridos, em su tects “Bet ates on he aentinporition of sacl heay” tn CALLIOUN, C, IPUMAy E-@POSTONE M.forgst Houraien Critcal Fenpeeives, cambsdge Poy Pes, 1993) Mas desl a ¢ piv stpce qu, ere nis. wfc 0 meno fnmens do descorkek rmarto d> orn corse aris eines veluadss pes coabeadates © eles Baurtios evastndh ra rola Acter def Recherche en Stences Soca ‘wom! objetes consleracos “desvalonizados” esperam de um outro campo. As recompensas que o campo cientifice Ines recusa de antemic, Apenas quotro anos antes de A Reproducéo, o artigo “A escola fonservadora: as desiqualdades frente a escola e cultura” (1966) assinalou lume etapa decisiva na exploragao das fangSes escolares de repraducao tiitural e de conservacéo socal Rompendo com as explicagSes fundadas em aptidées noturais Individuals e ensejando ~ de mado praticamente pioneira ~ a critica do mito do “dom", o autor desvenda es condicSes sociais e culturals cue jpermitram 0 desenvclvimento desse mito. E desmcnta tambam os mecs- Injsmos através des quais o sistema de ensino transforma as diferencas Ihielais ~ resutedo da tronsmisséo familiar da heranga cukural ~ em dlesigualtades de destino escolar Nesse momentoda obra, j6 despontavam elementos que rao se revelar @uradouros no persarnenio, conquanto tenharn side ulterormente melhor osenvcluidos ou mais rgororamento demonstrados, E 0 eaco, pot exem plo, da enfase conferida & retacdo com o saber (em detrimento do saber fs mesmo} como uma das caracteristices prineipis dateoria bourdicusiana. ‘0 edlucandos provenientes de familias cesprovidas de capital cultral spre- ‘wentardo uma relagdo com as obras de cultura veiculadas pela escola que tende er nteressada, Iaborios, tensa, esforgada, enquanto para of individvos tlgindrios de meios culuralmente privileglados essa relacSo esté marcada eb diciantsmo, dovenvotur, clogincia,faciilade verbal “natural”. Ocorre ‘Mie, a0 avatar o desempenhodos alunos, a escola lava em conta sobrehito = conselente ou inconscientemente ~ esse mado de aqulsigdo (e uso} do Haber 04, em custras palauras, essa relagdio com 0 saber. — “Os tr8s ostadios do capital cultural” e “O capital social ~ notar pro: las” epareceram em ARSS, respectivarnente, en 1979 € 1980. Sao § findamentais para a compreensio dos esquemas explcativas senvoWvidos por Bourdien, Ele formulcu 0 conceito de capital cultural ja dar conta cla Gesigualdade de desempenko escolar de criancas lanclas de diferentas classes socials, procurando zélacionar o “sucesso ‘fieolar” (Isto @, 08 beneficios especificos que as criangas das diferentes losses © fragées de classe podem obter no mercado escolar) com a “Hlstrbouicao desse capital espectico entre as classes cx frags de classe “Val postura significa “urne ruptura com os pressupostos inerenies, tanto & Wino comum que considera 6 sucesso ou fracasso escolar como eleito das Juptidoes’ naturais, cuanto as teorias do 'cepital humeno” © capital cuitural existe sob tres formas, a saber: a} no estado in ‘eotporado, sob a forma de disposigces duréveis do organisa. Sua ‘acuinulaeio estaigada a0 corpo, exiginda incorporacéo, demanca tempo, [enupoe um trabalho de inculcagao e assimilagdo, Esse tempo necessaxio dove ser investido pessoalmente pelo receptor ~ ‘tal como 0 bronzeamen to, essa ineorporacio nao pode efetuar-se por procuracto”. b)no estado objetivade, sob a forma de bens auurais (quadros, lives, dicionstios, instumentos, méquinas), transmissiveis de maneira relativamente instan- tanea quanto a propriedade juridica. Todavia, as condicoes de sua apro- ptiagio especfica submeter-se és mesmas leis de transrrisso do capital cultural em estado incorporado: c) na estado institucionalizado, consol dando-se nos tiuios e cerificados escolares que, da mesma manera que © dinheiro, quardam relativa independéncia em relagio a0 portador do titulo. Esse certidac de competéncia "institui o capital cultural pela magia coletive, da mesma forma que. segundo Merieau-Ponty, os vios instituem seus morlos através dos titos do lito". Por mein dessa forma de capital cultural & possivel colocar a quesido das fungdes socials do sistema de censino e de aprender as relagdes que mantam com o sistema econdmico, © capital sociel &, pare Bourdieu, o coniunto de recursos (atucis ou potenciais) que eso ligados a posse de uma rade chirvel de relagoes mais ‘ou menos institicionalizades, em que o> egertes se reconhecem como pares ou como vinculados a dererminadals) grupols). Tais agentes 380 dotados de propriedades comuns e, também, encontramse unidos alraves de ligagées permanentes €teis, Assim, 0 volume do capital social que um agente individual possui depende da extensao da rede de retacoes que pode ou consegue mobiizar e do volume do capital (econémico, cultural ou simbélico) quo 6 posse exclusiva de cada um daquiles a quem esta ligado, Bourdiaat escreve que a reproducdo do capital social @ tritntavia de instituieoes que visam fevorecer “as trocas legtimas © a excliir as trocas ilegitimae, preduzindo ocasides (rallyas, enuzeros, cagadas, saraus, racep- oes ete), lugares (baitros chiques, escolas seletas, chibes etc.) ou praticas fesportes chiques, jogos de sociedade, ceriménias culturais ete.) que reinem, de maneita aparentemente fortuita, incviduos tao homogeneos quanto pessivel, seb todos os agpectos pertinentes do ponto de sista da existéncia @ pertinéncia de grupo’. Tal reproducao paga tributo, iquaimen- te, a0 trabalho de sociabilulade, de uma competencia especfica eonheck mento das relages genealégicas e das igacées reais ¢ arte ce utiliza), de um dispendio de tempo e de esforcos para manté-la ~ além, natural mente, de capital econdmico, “Futuro de classe e causalidade do provavel” (1974) apareceu na Revue Francaise de Socioloaie, sendo republicaco em parte no Ivro La Distinction (1979), No entender de Bourdieu, as prétices econdmicas dos agentes scciais depencem cas possibilidades cbjetivas com que se assegura 6 capital, ems um dado momento, a uma classe especifica de agentes. Tal siuagio & determinada pelas disposighes durdvzis, habitus, principio gerador de estratégias objetives. De manetra mais precisa, tals praticas econmicas “dependen da estrutura das possbilidades diferenciais de aproveitamento que se olerecem a essa classe, levando-se em conta © volume ea esirutura de seu capital’, como taribém “a estrutura do sisterna 10 de estralégias de reproducio que uitlizam para melharar ou manter sua pposicao na estnitura socal” ‘A “causaliiade do provavel” @ 0 resultado dessa especie de dialeica mire © habitus, cujas antecipacies pritieas repousam sobre toda experiéncia anterior, ¢ as “signiticacdes pravéveis", ou sea. 0 dado que ee tome como percepgéo seletiva e uma apreciacéo obliga tos indicaclor tos do futuro. Assim, ‘25 préticas aparecem como 6 resultado desse encontro entre um agente predisposto e prevenido, e um mundo presu- ido, isto &,o tinico que Ihe & dado conhecer’. © sistema de estratégias de reproducéo pode ser definido como seqténcias ordenadas e orientadas de praticas cue todo gripo produr para Yeprocuzir-se enquanto grupo. Merecem desiaque, dentre putras, para © ‘lor, as estratégias de fecundidade, limitando-se o niimero de filhos.¢, feonseqiiontemenie, rechizindo o total de pretencentes ao patrimdnio; cu fia, as estratégias indiretas de limitac&o de fecundidede, como 0 case mento tardio ou 0 edltbalo. As estratégios sucessérias tém por fim a ttansrrisséo do patrimonio, com a menor possibiidacle de degradagao. de lima geragio a outra. As estratégias educativas, conscientes ¢ inconseten: ts, sao investimentes de longo prazo que, em geral, nde sao percebidos ‘eomo tais pelosagentes. Estratégias matrimoniaisexistem para assegurar fs reproducso biclégica do grupo, tratando-se de evitar uum "casamnento dlesigual’ ¢ de prover, atraves da allanga com um grupo ao menos equ Valente, a manuiengao do capital de relagies sociais. As estratégias Ieoloaices, por sua ver, var leaitimar os privilegios, naturalizande-cs. Isso sem mencionarmos as estralégias propriemente econémices, de Inuestimenia social, profititicas ete © futuro de classe & determinado pela velacio entie o patriménio Bi scraco em sau volume e composicao) os sisiemas des instrumentos Ue reproduce. Nesce sentido, o¢ dotontoros de capital ndo podem manter hia posicao na estrutura social (cu na de um dado campo, como por wiemplo 0 artistico ou © juridieo) “senéo 20 preco de reconversées das “espécies de capital que detém, em ontras espécies mais rentaveis /ou ‘Thais legitinas no estado considerado dos insirumentos de reprodugao", O texto "O dipioma e o cargo: relacbes entre o sistetna de producto e 0 tibtema de reproduc" (1975), escrito em colaboragio com Lue Boltanski {ol originalmente concebito como nota proviséria de trabalho, cu finaldade verte ser a ce langar o clebate sobre uma série de hipoleses o tespeito das twhigbes entre a cisterna de ensino o diploma) ao sstoma proditve [0 cargo}, tema que na década de 70 mobilzava no apenas cs autores mas grande 9,61 BOURDIEY, P., BOCTANSKE 1, SAINEMARTIN, M. As ett de rsonven | ‘Unies soc stem de eso te DURAND, LCG (Org) fadueuguo wegen le (lars a finedes eeotfeasdeescla Kode area, Zaks 1979, 105176, Te Parle dos sociélogos da educagio franceses. Esse programa de estudos {eré prolongamento no artigo “Classficagio, desclassifcagio, reclassfice, $40" (1978), \gualmente publiado na revsta ARS e posteriormente lncorporedo ao segundo capitulo do livro Le Distinction, No primero trabalho, o+ autores imitamse a focalzar a defasagem exstente entre, de um lado, as translormacées que afotam continiarrente a esiritura das profissées e, cle outro, a producio de produtores palo vstema ‘Scolar, © qual, em razio de suas funges mais geais de reprocueao socal fe ‘io apenas de reproduydo técnica ede sua autonamia rlatva, no se ajista Sendo de modo muito imperfeito as demandas do mercado de trabalho possiblitando 0 fenémeno da “inflagéa de diplomas’ 6 ne astigo de 1978, Bourn estonde a andlze & exhratéges empie- gacas pelos dilerentes grupos socais para obter o maior rendimento poceivel de seus investimentos educativos ode seu capital escolar. Sequrido a posicio ue ccupam no espaco social, es5es diferentes grupos travam, em tome do- diploma, uma verdadkira lua por aua classifcagio, para nao se desclecsicn, em ou para se reclassticarem, davio que, ccm © mesmo nivel de diploma ‘cupa-se postos cada vez mencs elevados na hierarquia ocupacionel Essa oleito de deoreciagio relativa, ortunda da multipicagso do con: Lingente de ciplomados, lava a uma intensficagéo da utihzacao da escola, per parte des categories Ja ~ anteriormnente ~ utilizadoras dela, ¢ a ume Gesilisdo, nor part dos novos utilendores, no que se refere as aspiragas ‘ue nutriam em relacéo as eredenciais escolares obiidas, E no sein destes Lltimes que © processo de dewvaloitzacéo faz sues niciores viimae, pois tue, et Geral, sé0 privados de outras expéeies de cepital (em particular, @ capital social), copazes de rentabilvzar seu certiicado escclar. No artigo “As categoites do juizo professoral" (1975), examinando os Considerandos anotados pelos professores & mnargem dos trabalhos oxen lores de 1154 slunas de flosofia de um cursa preparatério & Escola Nonnal Superior de Paris, nos onos 1960, Pierre Bourdieu e Monique de Saint. Martin constalam que tanto os julgamentoe mais favoravels quanto esnotas clovam se & media em que se eleva a posicdo social da alena, embora biimeito elemento osteja mais fortemente cosrelacionado a crigem social lo que a nota Bem mals felevante, entretanto, @ sua demonstragéo de que nada escape ao julgamento operado pelo dacente na hora de avaliar © predate do trabatho discente, Ao ldo, ou para além, dos “cilleris nternes"de ‘4. Quase danas mas tare, a lio Home Acadomicus Par, Mint 1994), Bours te matin ia hesinte quant do enorems da aalogh diac, “sql net em le eae ta rabalho”, una ve que certs anoles ics ou oles che nie, es Beamnle 1 rhgio denovea mecadis © potbsce, poten protege patslee serie, ‘teolve denclorendos el. Fle 2 avallagao de um determinado tipo de conhecimento (dominio do campe vocabulitio tecnico, entre outros), levam-se em conta, sobretudo, “criterios ‘extemos” tais como: postura comporal, maneiras, aparéncia fsica, diogac, sotaque, estilo da linguagem oral e escrita, cultura geral ete Desoudam o sistem de classicacso que orienta a apreciagio do mestre, © qua se expressa através de uma “faxionomia proprlamiente escolar” que dlstingue (e poe) qualicades supericres como brilho, originalidade fineza, sullza, elegéncia, desenvoltura, de vitudes inferiores ~ ou, até mesma “negativas” — camo esforgo, seriedade, presiséo, modéstia, correcao, Mesmo se hoje em dia, maiscl vinte anos apes publicacdo desse argo, (5 sociblogos n8o mais se pernitem enxergar nos processos socials de avaliagio escolar apenas 9 agéo inexorivel de um mecanismo, de uma ‘maquina ideclégica” de trarsformar heranga cultural em enpial escolar, do Impede que a imaginagio crladora ea demonstracio socioligica dos autores conserve, até hoje, o ménito de ter decfrado as classificagCes escolares como formas de classiicacéo social e. principalmenite, a valor hauristioo de ter femiueado ¢ nomeado o universe fino e sutlde elementos imps eocultos ue poroam a apreriacdo prolessoral. E preciso pois render a esse texto a coreligdo de picneito no terreno da sociolocia da avaliacdo escolar Bem mais recente, 0 artigo “Os exchuidos do interior”, publicado orie ginalmente em ARSS (1992), e reproduzido, um ano apis, no lr La Inisere du monde (1993), trata da constituico de novas formes de desigualdade eseclar, Se, alé fins da década de 50, a grande clvagem se fazia entre, de um lado, 0s escelarizades, ¢, de outro, 08 excliidesda escola, hoje em dia ela opera, de modo bem menos simples. através de uma Segregacéo iniema ao sistema eckicacional que separa os educandos segundo © ilinerério escolar, 0 tipo de esturlas, © estabelecimento de snsino, a sala de aula, as opgées curriculares. Exclusio “brenda”, “cont tua", “insensivel”, “despercebida”” A escola eegue pois excliindo mes hoje tla o faz de modo bem mass dissimulado, conservando em seu interior 0+ excludes, postergando sua elminogéo, e reseivando a eles o$ setores escolares mais desvalorzads. Talvez sea esse artigo de 1992, escrito em colborsqio com Patrick Champagne, texto que melhor deita ver a renovacao do pensamento de Bourdieu no que se refete ao papel da escols. Das primeires obras dos ants 0 a9 momento atual, @ andkse se atuaiza em fungéo da nova conjuntura escolar ¢ também ideolsgica. Mas no renuncia ao riicleo da teorla: a escola permanece uma das instituigdes princinais de manutangao dos privilégios De modo semelhante, o texto “As contradigées da heranca'” (1993), extraido do ive A Miséria do Mundo, propoe novas maneiras de abordar 55. Lt edo pila Vara, com ote misdrae muds 1997. © peso da instituigao escolar na via dos incividuos, notadamente © papel ue podem ter seus veredicics nos processos de transmissao da heranca, farnilar, Seus efetos de mudanca nas posigbes e disposicoes dos agentes incidem poderosamente sobre a construgéo cas identidecles indivicuais Numa perepectiva meis réxima da intimidede dos sujetes, o autor teflete sobre as formas de “sofrimento social” que tém a fama e a escola em sua origem, Cita come situago exemplar 0 caso de pais originanios de meios desiavorecidos cuja relagéo com a escolatidade prolongada ¢ o sucesso esccler do flho & marcadla por uma forte ambivaléncia: a0 mesmo tempo em que desejam que este se diferencie deles tomarclo-se alguém bem sucedida escolar @ socialmente, temem a inevitével distancia dos packdes populares ~ ¢ portanto de i mesmos ~ que ta processo acarretaria para o filho. Cumprindo um destino de “trénsfuga”, este tikimo, por sua vee, enfrenta uma dilacerante contradicao em relacdo a si mesmo: ter sucesso eullpabilica pois significa tar suas origens: reruncier a ele também, pois representa decopcionar expeciativas patemnas. “Medalha de ouro do CNRS 1993”, titime artigo desta coletinea, constituise basicamente em um “texto de combate” em cue 0 autor realiza uma defeca apaixonada da sociologia, des sociélogos. do métier de sociblogo e das condigdes de insitucionalizacao desse cigncia, em especial ne Franga. Bourdieu agracece ao Ministro do Ensino Superior e da Investigacéio pela aurea que the foi conferida e, a0 mesmo tempo em que enfetlza que a sociologla francesa & “universalmente reconhecida como tuma das melhores do mundo", cobra das autoridades “as vantagens slmbélicas e materials” associadas a tal reconhecimento. Deiende a idea segundo a qual a sociologia deva ser sobretudo rellexiva, que tome a s. prbpria por objeto, com o trabalho se desenvol vendo em equines integradas - resultados dosca postura podem ser encontrados em Homo Academicus (1984) € nas acbes que culminaram na edigéo de A miséria do mundo, na revista ARSS 0 no seu suplemento internacional, Liber. Recusendo-se a “pregar ans converiios", Bountieu merguiha na sociologia do universe centifico, perseguinco a “psicalogia do esphilo cientificn” preconizada por Bachelard, desvelando 0 iruisivel, 0 nao dito, as censuras, a Iegica dos determinantes socials da excluséo, dos comites deselegdo, dos critérios de avaliogdo, das condigdes sociois do tecrutamer to. edo comportamento dos aciministraciores cientilicos etc. Ele vaidissecar a logic inerente dle um espaco social especifico, quer dizes, © campo cieniifico, situando © sociélogo em seu interior, “este pequeno profata privilegiado e estipendiado pelo Estado”, nas palavras de Weber. (Nesta sua fala de quase cinco anos atras, Bourdieu faz a defesa do Estado ~ “que representa a tinica liberdade diante dos constrangimentos do mercado” -, direcionanda sua artiharia concra a atual manoira de 4 proceder dessa estera, que cada vez mais pauta suas acdes e services em matéria de cuitura, de cidncia oa de literatura, pela “tirania do maniceting, das sondagers, de audimat e de todos os rogistins” que se supdem legitimos face 8s expectativas do maior ntimero, da quantficagao absolute’. Uma palavra deve ser dita, ainda, com relacio ao texto “Sobre as aitimanhas da rezio imperilista”, publicedo originalmente em ARSS (1998) ¢ tence coma corautor Loic Waemuant. Esta coleténea jd estava cam todos os textos tradizidos @ nos enconiravamnios a espera do preficio de Bourdieu quardo, em carta de meados de janho de 1998, ator nos sugeriu que fosse esse trabalho, “de grande impoxténcia para socidlogos de diferentes pases", transformado no artigo inicial ~ sugestio que ineorporamos de imediaio. Marta Alte Nayuera Aifinia Mendes Cotant Bala Horivonts - Séo Pauio Ageste1998 6. Nero resto, ss los Sur ka Clin Pari, Liber Ealtors, 2997} @ Cantre eux (Pts, ‘Sou 1998) bers cra deans ce sus cascbranerta 9 arine ‘A mégansisheral” bs Mast, Patho de 8, Paulo, 12/7/1998 Preracio: - SOBRE AS ARTIMANHAS DA RAZAO IMPERIALISTA PIERRE BOURDIEU E LOIC WACQUANT Tradusdo: Gotu itieas Jouo bt Farias Text, Fesisdo ieemce; MAA ALCL NOCUERA Fon: Bourtia Pere Macqiant Lol, “Sls rss dla iste" publeado orahuimarie mn Actos he en trae sacates Pals 12 122, mr de 1968. p, 109-208, OD serra era sepa param rea pa mos associados a uma trade histrica singuler, tomando-os imecorhedt vei com tas! Assim, do mesmomede que, no século XIX, um carte ntimero de questies ditas Hlosoficas debatdas como unversas, etm toda a Europa e para akéry dela, tinham sua origem, segundo foi muito bem demorstrado por Fata Ringer, nas particiariades (e nos confitos) hisiéncas propries do Universo singular dos professcres universtérios alemies', assim também, boje erm dia, nuimerosos tépicos eriundos diretamente de confrontos intelectuais assockxdas & pariculaidade socil da socledace ¢ das universklades america- nas impuseram-se, sch formas aparentemente desistoriciodas, ao planeta inlexo, Esses fugares:comuns no sentido aristctdico de nogoes ou de teses com os quais se argumenta, mas sobre as quais nao se argument ou, por ssi = ard presse jo muro; len dso. a Jenerszagi0 xbox a 26 vila, mate mtands, yar outros campos ¢ pales (prepare, a Fama d’P, Boudin, ‘Dow mpsatines de Tunversd” nC Fah eT Sup (ed), Hameaun des Proved, Pris, EX Prange Bear, 1992 Blnger, The Delite ofthe Mandates, Canad, Combrege Lniersty Fre, 1369 Ww foutas palavras, esses pressupostos da discussao que permanecem indis catilos, devem uma parte de sua foxga de convicedo 00 fato de que, cireulando de colbquios universitrios para leros de sucesso, de revistas serni-ericitas para relator de especialisas, de balangos de comissOes para capas de magaaines, eto fresenles por toda parte a0 mesmo tempo, de Berim a Tequio e de Milao a Mexico, e sao sustentados ¢ intermediaclos de tama forma poderosa por esses especos pretansamente neutros como 30 os erganismos intzracionais (as como a OCDE ou a Comissio Europea) fo ceniros de eskurlos € essessoria para polticas piiblices (tal como © Adem Srnith Institute e a Fendation Saint Simon)” A nautralizacio do contexto historic que resulta da circulagao inter- nacional dos textos e do esquecimento correlato das concigses historicas Ue origem produz uma universalizecao aperente que vem duplicas 0 vabalho de “tecrizacic”, Espécie de axiomatizagio fietcia bom feita para produzir a ihisio de uma génese pura, 0 jogo das definigoes previas e das edhugées que visa substituir a contingéncia das necessidades sociclégicas negadas pels aparéncia da necessidade lagica tende a ccullar as raizes historicas de um conjunto de questoes e de nocdes que, segurxlo cetnipo de acalhimento, serio consideradas filosdficas, sociolégicas, histéricas ou polteas, Assim, planetarizados, rmundializados, no sentido estritarmente geogralico, pelo desenraizarnento, a0 mesino ternpo que Gespaxticularizar dos pelo efeito de falso core que produz a conceitualizacao, esses luga- res-comuns da grande vulvata planetara transformacos, aos pouces, pela insisténcia midiétice em senso comm universal chegam 0 fazer esquecer que tém sua origem nas realidades. complexas e centrovertidas de uma sociedade histérica particular, constituida tacitamente como modelo e medida de todas as coises, Eis o que se passou, por exemplo, com o debate imprecise € in consisterte om torno do “multiculturalismo”. termo que, na Europa, foi utlizado, sobretido, para desiqnar 0 pluralismo cultural na estera civica, tre on hronque dio estes des MeDonanaie rampant do pessmente, rode clor 2 jetted ettte de A. Bloom The Ci ne Armen Md awa Vor, Sine Scbustay, 1967] trace ctor hectare, om otis 7 dleorrage LUST] ec pare erraveco do niga sano teoconsenadr fe ogra de Reagan) esto do Mahan ue D. DiSonz, bee Education: The Poles of Race fad Sow oy Cape Ans Nee Te Fg Pre, 198K) raaases em Banat com 9 EEaucaon corns tos tenon Pres, Gabel (Colas Massager) 1093. Um dor tncloves ince ra Kereta bx us pga ease tm Sn neva cozy preter plonaana @ a celedads, aokamerse ib. com # il sto Fades © publeades fo exterior ecbrot, em comparaio com as cas Gates). Para ma visio fata lecenio dos sess efacassscs ro mrsnor aera. halen ts mo do Bowls cnsngr » “The Amercm Arado Profesi 126 cated 1997) pimoohywrteB. Cig Sl Wels lee peice tnd! ots of Asnican Acidanic Pokeskhs” 2, 21-42, ¢ P AKiwch “An itrasoral ‘Akademie Cos? The Anetean Pislesorate we Compaate Perspective’. 1338 18 enquanto, nos Esteclos Unidos, eleremete ds seqiiclas peranes da exchisio clos negros e & ctive da mitologia nacional do “scnho americana", correlacio- rradla 20 crescimento generalizado das desiguaklades no docorrer das titias dias decadas’. Crise que 0 vocabulo “muticuitural” encobre, confinando-a atic ¢ excusivamente 20 microcosmo universitério e expressando-a em Luo registro ostensivamente “étnico” quando, afinal, da tem como principal ‘quesiao, nao o reconhecitnento das culturas marainalizadas pelos cdnones acodémicos, mas 0 acesso aos instrumentos de (rejpreclucéo das classes rmédia e superior ~ na primeira fla das cuais figura a universidade ~ erm umn contexto de descompromisso macigo e multiforme do Estado* Através desse exemplo, ve-se de passagem que, entre os produtos cukuris cifundidos ne escala planetiria, os mais insidiosos 10 so os teotias de aparéncia sistemtica (como o “fim da hist6ria” ou a “globaliza- 0") € 28 vib6es do mundo filoséficas (ou que pretendem ser tais, como 0 poe medernismo"), no final de contas, féceis de serem identificedas, mas sobretudo deteminados termos isolatos com aparéncta téenica, tals como a “flexbldede” (ou sua verséo britanica, a "empregabsidade”) que, pelo fato de condensarem ou veicularem uma verdedeia flosofia do individuo @ da organizacéo social, adaptam-se perletamente para funcionar emo vverdadeiras palavres de ordem polticas (no caso conereto: “menos Estar do”, reducio da cobertura social e aceitagao da generalizacso da precarie- dade salarial como uma fetalidede, inclusive, urs bereticic). Poderse-ia analsar também em todos os seus detalhes a nocéo fortemente pelissémica de *mundializagéo” que ter comm efeto, para nde dizer fungdo. submerair no ecumenisma cultural ou ro fatalismso econo ‘mista 03 efeitos do imperialismo e fazer aperecer uma relacdo de forca transnacional corno uma necessidade natural. No temo de uma revirevolia simpolica baseade na naturalzarao dos esquemas do pensamento neolbe- ral, cuja dominagio se impds nos Gitimos vinte anos, gragas ao trabalho de sapa dos think tanks consewadores e de seus alados nos campos 4.0 Masgy © M.Detor, Amettean Apuriaid Pash, Descares eC, 1995, ong. ce 2993) Matas, Ethnic Options (Wereet Unters of Calionin Press 198, DA ielinger Prstethvic Amorco Nava York. Base Seoks. 1905) 1 4 Hechschl, Fucing uy to the ‘American Droanr Race. Clas, and the Self the Naran rtcten, Piecton Uist Prom 1996 parma rdisedoconitodeste quasar que, com hts, coloen meio 15 anearagom o ocamaneia Helens D- Lasers, La Cre ue Fadentiecrneusine: Dus ‘retin pot ou muttenttaratme Par, Papa, 1997) Salve 2 imperstho de meanherinens ctu, C. Taisy, Mutieratem, Examining the oles of Recognition Princatan Punetrs Uriverty Pres * feet pr. Guers ) Matcuturaion: A Crea Rade Kconkrge, Bek {90 se os evtravs 3 exrarogus de parpenac ch fast ma os Esa Un, Waostart, "La séventsaion de sds slate en Amir: etucirons denis sterecée eprotucon socal’, n Actes le rechrcheren sconces sofas 11, denon {2 1896, p. 65-79, 0 profit wabetay ca clase mca amercana bein dee por K Neuman, Berlnirg Fertanse Now Yorks Bose Books, 199, cT) poltico @ jomalistico’, a remodelagem das relagéer sociais © das priticas culturais das sociedades avancadas em conformicade com o padréo notte americano, apoiado na paupericecéo do Estado, mercantilzacéio dos ‘bens pitblieos e generalizag3o da insoguranga social, é aceita atualmente com resignagéo como 0 dlesfecho obrigalério das evolucoes nacionais quando no & cclebrada com um entusiasmo eubserviente que faz lembrar estranhamente a “ebre’ pela América que. hé meio século, 0 pleno Marshall tinha suscitada em uma Europe devastade’ Uin gravele niimeso de teres conexos publicedos recentemente sobre 8 cena intalectial ouropéia ¢, singularmente, parisiense, atravassaram assim 0 Atlatico, seja 8s claras, sea por contrabando, favorecendo a volta da influencia de que gozam os prochitos da pesquiso americana, t2is como © “poiiticamente correto”, utlizado de forma paradaxal. nos meibs intoloe- tuais franceses, como instrumento de reprovacao e repressio contta qualquer voleidade de subversio, principalmente feminista ox homosse: xual, ou 0 panico moral em tomo da “guetoizacdo” das bairros ditos “imigrantes", ou aitcla o moralismo que se insinua por toda parte atraves de uma visa ética da poitica, da farvila, ete, condurindo a uma expecte de despolitzagao “principiele* dos problemas socials ¢ poliicos, assim desembaracadlos de qualquer referéncia a toda espécie de dominacio ov, enfim, a oposleao que se tomnou candnica, nos setores do campo intelectual mais prosimos do jomalizeno cultural, entre © "modernism" e o "ps-mic- demisno” que, baseada em uma releitura eclética, sincrética e, na maioia das vezes, desistoricizada ¢ bastante imprecisa de um pequeno nimero de autores franceses e alemées, asta om vias de se impor, em sua forma americana, aos proprios europeus", Sera necessétio atribuir um lugar 4 parte e conferir um desenvohi mento mais importante ao debate que, atualmente, apse os “lberais” a0s efensores da comunidade” (outros tantos termos dretamnente transeri 0. eaten, Peates, ure ve euros Periyar Je, 1389, elonce de Vaio mara, fe Congrs pour & Nr de atu Pais Pats Fe. 1996. Sth The ao Brokers Think Tents athe Re of tha No Paley Ete Nove Vek, The Fee re 1901. Doom ex Beatie di Mach Lion 32, eto de 197 86 7. Sobte a “munnisio” como “projéo ameriana", N.Fsteny, "Rbtorins et rats de ‘mondiston in Actes dele recherche wo seurce seein, 119 sete dd 1997p S07; sckra 9 ein anbiulante pala Area nc porta apée » quora L. Boloml ‘Amare, Ameria... Le plas Maral o Feipertellt haere m1 Aes de Be cherie en stences soci 38, 1983, p. (941, ef, Kus, Sedueting the Pench Tie Drismna oy Amencivzanan berks ef Calla Pree, 1933), 1B. Noo won do rca aaa anque. pat wh pando eras dm eee es tos eminaco arin un cto nee de ies Guus Eade Une espn e mxeem ‘entero ousiuena, 9 coma fst Epa, ain (cet como a forme ras waned tte 5. Pos ea bibliog do renee dat, wr; Philos & saa! eit, 9/44, 14, 1988 ‘seal sue, Unitas, commablanansi crtemporary deeaes nets. 20 jos, € no traduzxlos, do ingles), tistracao exemplar do efeto de falso corte ¢ de falsa universalizagéo que produz 8 passagem pata a oidem do ciscurso com pretensées filos6licas: cefinicdes fundadoras que marcam ‘ume ruptara aperente com oy particularismes histéricos que permanecem no segundo plano do pensamento do ponsador situado ¢ datado do ponto de vista bistérice (por exemplo, como seré possivel nao ver que, como jé fi sigorido muitas vezes, 0 caréter dogmatico da argumentegio de Ravels «em favor da pricridade das liverdades de base se explica pelo fato de que ale attibui tacitamente aos pparceiros na. posigéo original um idea! latente ue nao @ outso senao 0 seu, ode tum professor universitarie americano, apegado a uma visio ideal da democracia americana?|"; pressupostos antropokegicos antropologicamente injustifiedves, mas dotades de toda a eutoridede social da tecrla eoondmica neomarginalista qual sao tomados de empréstimo: pretensdo & dedugio rigorosa que permite encadear formalmente consequencias inialsficavets sem se expor, em nenhum mo- mento, & menor refutagdo empirica,alternativas vituais, iisbries, entre atomistas individualistas e holstes-coletvistas, o to visivelmente absurdas a medida em que obrigam a inventer “holistas-individualstas” para ‘enquadrar Humboldt, ou “atomistas-coletvistas”: ¢ tudo isso expresso em um extracrdinério jarodo, em uma tertivel lingua franca internacional, que permite inclir, sem leva-ias om consideracio de forma conscionte, todas as particularidadtes ¢ os particulaisinos assocadas as tradigoes filosdficas @ politicas nacionais (sendo que alguém pode eserever liberty entre pparentases apes a pabira liberdade, mas aceitar sem problema determi- nados barbarisimos conceituais come a opesigéo entve o “procedural” «0 substance’). Esse debate ¢ as "teorias” que ele onde, @ entre as quais sera init] tentar introduzir uma opeéo poltica, devem, sem divida, ume parte de seu sucesso entre 08 filsoios, principalmonte eonservadares ie em especial, catclicos). ao fato de que ternlem a reuzir a poltice & moral 6 imanso diseuxso sabiamente neutralizado e politicamente desrealizado que ele suscita velo tomnat 0 kigar da grande tradicao alema da Antropo- logio filoséfica, palavra nobre ¢ jalsamente profunda de denegasio (Verneinung) que, durante mato tempo, serve de anteparo e obstacuio ~ pot toda parte em que a filozoia lem) podia afirmar sue deminagéo ~ a qualquer andlse cientifca do mundo social" Em um campo mais préximo das tealdades politcas, um debate como oda “raga” e de identidade dé lugar a semelhanies intrusdes emocentrices. Una representaio historica, surgida do fato de que a tradigo americana 10, HELA, Har "Ra en ike an ts Poa" InN Davies a), Renna Rawls Nova York Basi Boole, 1975.9, 288259, 11, Dose pont de ust aadamerte secoksk.o deg ete daw « Habeas =» spot ds nasmio 6 exact alr que, anreecao abrskibolotefca.shtstinie careless: = baltameniesnfencuote pos exer) Habermas. "Rororeisontheucthe Pie se env Removis on Pbial iba In Jaca of Phuepy. 1985.2,» 109-13 21 calca, de maneira arbitréria, a dicotomia entre brancos e negtos em uma realidad infinitamente mais complexe, pole até mesmo se impor em paises em que of principios de visio e divisio, cocificedos ou patios, das dliferencas étnicas sd completamente diferentes e em que, como o Brasil, sinda oram considerados, recéntemente, como contra-exems do ‘medelo americano™, A maior parte das pesquisas recentes sobre a cesiguakladle etronacial no Bresil, empreendidas por americancs ¢ lhtinoamericanos ormades nos Fstados LInidos, esforgarn-se em provar cue, contrariamente imagem que os brasiletos tem de sua nagio, © pas das “irs tistes regas" (ndigenas, negros descendontes cos escravos, brancos ortundes da coloniza Ho @ das vags de imigraréo europtias| nao @ menos “racla” do que os ‘outros; além disco, sobre esse capitulo, os braslcires “brancos” nada tém 2 inveiar em reélacdo aos primos norte-americanos. Anda por, 0 racismo mascarado & brasileira seria, por definico, mais perverso ja que dissin Taco e negada. Fo que pretende, em Orpheus and Power'®, o cientista palitico afro-americano Michael Hanchard: ao aplicar as cacegorias racials norte-americanas 4 situagio brasileira, 0 autor erige a historia particule do Movimento em favor dos Direitos Civis como padrdo universal da iuta dos grupos de cor oprimides. Em vez de considerar 2 constiigio de ordem etnorracial brasileira om sua logiea propna, essas pesquisas contentamn-se, na metoria das vezes, em substituir na sua totalidade o mito nacional da ‘democracia racial” (tal como € mencionada, por exempio, na obra de Gilberto Freire", pelo mito segundo © qual todas as sociedades so ‘racistas”, inchisive aquelas no seio das qutais parece que, & primeira vista, as relagoes “sociais” s40 menos distantes ¢ hosts, De utensil aneliico, 9 concoto de racitmo torna-se um simples instrumento ce acusagéo: sob pretexto de ciéncia, acaba por se corsolilar a logica do processo (gererr tindo o sucesso de livraria, na falta de um sucesso de estima” Em um artigo chissieo, publicade ha tinta anos, o antropélogo Charles Wadley mostrava que a concepgao da “raga” nas Américas admite varias, dolinigéee, segundo 0 peso atribuido a ascendéncia, & aperéncia fisica (que nao se limita a cor da pele) ¢ ao status sociocultural (arolissa0, montante 12, Sequalo oesuda lescode Dele Nether Black Nor White Siaseard Rece Relations i roa ad te Lind Stotes, Mason, Unworayo Weras Press. 7995 rie pla priv vor 9 1979 13.4, Handa Oreheut ed Power The Movimento Negro af deJeneita and Sdo Polo 19451988. Perevon, Princeton Unies Pres. 1054. Lm podeoeo aa ahecbarta nie nara de Arthony Mans, Blk ewe A Comparton of the Unted Slater, Sauth Africn are! Bri Unters Pres, 1998) ue donut tea dss vaca sts extctamene ibs Jo isona pabcs Wlogien do pis corserado, sendo que ca Eada lve, Se aguma ‘ou, » onsepete de aga" cue he cone 14.6, Frese, Mattes excises, Pas, Getard, 1976 15. Quando ser pica um lia rts "0 as ait sen 0 etl dh cbr sm 9 “uo cramer ngiiel, "La France mie" de ue cdo res ma sees ‘expecatis corpo oral do ue complies de reldade? 22 darerula, diplomas, regio de origem, etc}, em funedo da historia das reagoes eds confitos enire grupos nas diversas zones”. Os norte-americanos $20 os Linicos a defnir “vaca” a partir sornente da ascendendia e, excluswvamente, em selagdo acs afte-americanos. em Chicago, Los Angeles cu Atlanta © pessoa & “negra néo pela cor da pele, mas pelo fato de ter um ou varios parentes ‘denlificados como negros, isto é, no tern da regiesslo, como excrevos, Os Ertados Unidos constituom a tinica sociedadle medlema a aplicar a “onedrop rule” ¢ 0 principio de "hipodescendéncia”, segundo o qual os fihos de wma Luniio mista so, aulomaticamente, situades ne grupo inferior (aqui, os:negrce) No Brasil a identidade racial definese pela reeréncia a um continuum de cor", sto 8, peh aplicagéo de un prinepioflexivel ou imprecise que, levendo em consileracdo tragostsleas como a textura dos cabelos, a forma dos labios e do nariz e a posigéo de classe (principalmerte, a rernla e a eucacéo) engendram um grande niimero de catagorias intermediirias (mais de uma centena foram repertonadas no censo de 1980) e nao implicam ostracizagio radical nem eatigmatteagao sem remédio. Daa testemunho dessa stuaceo, por exemplo, 08 indices de searecacdo exbtlos peas cklades braslatras, ritidamente inferiores aes das mebsopoles norte-americanas, bem como a auéncia virtual dessas duns formas tipcamentenoite-atnericanas de violencia racal como s80 0 inchamento eo moti urban0’’, Pelocontiaiv, nos Estados Unidos nao existecategaria que, social legalmente, seja reconhecida como mestigo"*, Ai, temos a ver com uma dviséo que se assemelha mais a das cattos definitivamente definidas o delimitadas (como prova, @ taxa ‘excepcionalmente baixa Ge intercesanentos: menos de 2% das afro-ame- ricanas contraem uni6es "mistas", em contrapasicio 8 metade, aprenima damente, des mulheres de crigem hispanizante e asitica que o faze) que se tenia dissimular, submergindo-a pela “globalzagao” no universo das visbes diferenciantes. Como explicar que seiar assim elevadas, tacitamente, & posigho de pardouniversal emrelagao ao quel deve ser analisecla e avaliada toda sitaeco cde dominagdo éinica”, determinadas “teorias” das “rolagées raciais” que sto transfiquragdes conceitualizadas e, incessantemente, renovales pelas ey, “Othe Concept ef Sei ace in tbe Arias. DB. Heath od RIN Adams ‘ade Contemporary Cultures and Socktes in Late Antica, Nia York Peer: Hoxse 3965, p SBL-545 17. EE Toles, “Race. Cas an Space Bantan Cue intemacene! Joursa of Urean end jeylonal Research, 13.3. selenide 7995. p, 39546, €C.A, Rell, Backs and Whites i Sin Poole Ist 1988 Moser, Ler ol acon Pree, 1992 18.15, Dis, Mio stack? One Nation's ule, Uveraty Pars, Pensania Sa Pres. 1991 Villon The Meu Pesple, Micepenaticn ard Muteoes# he Unde Stats, Nowa nk Now ark Unio Prove 1080. 19. etotto Ge pari urieral de “mentee d Greece réaca0 20 gu so mado ce manges #8 ress, oh “aredumes" e 05 “moremiares” [a vanqure.& una as frbicecesunkoreae daisies ee eamiraey smbobcmente um uve Ct P. Cason TiSpace Sutin niectona, to de deo, Pst, 1057) 23. nevessidades da alualizagao, de esteredtipos raciais de uso ‘em si mesmos, nao passam de justificagSes primarias da dominagio dos brancos sobre os negros"”? O feto de que, no decorrer dos akimos anos, 2 sociodicéia racial (ou racist) tenha conseguido se “mmundializar’, perden do 20 mesmo tempo suas caracteristicas de discurso justficador para uso jntemo ou lccal, é, sem chivida, uma das conlimardes mais exemplares do império e da influéncia simibdtioos que os Estados Unidos exercem sobre toda especie de producao erudite ¢, sobretudo, semherualta, et particuat, através do poder de consagragio que esse pais detém e dos benelicios materials ¢ simbélicos que a adesso mets cu menos assumida ou vergonhosa ao medelo norte americana proporciona aos pe:quisadores dos paises dom+ nalos. Com efato, & possivel dizer, com Thomas Bender, que os produtos da pesquisa americana adcuirram “uma estatura intemacional ¢ um poder de stracdo' comparaveis aos "éo cinema, da miisca popular, des programas de informatica e do basquetebol americanos"", A violencia senzélice nunca se cexerce, de fato, sem uma forma de cumplicidate (extorquica) daquoles cue a soirem ea “globalizacso"dos temas da doxa social americana ou de sua transcrig30, mais ou menos sublimada, no diseurso semi-enudito nao seria possivel sem a colaboracao, consciente ou inconsciente, direta ou indire- tamerte interessada, néo 35 de todos os “passadores” ¢ importadores de produtos culturais com grife ou “dégritias” (editores, diretores de mstitur Ges cullurais, museus, Speres, galerias de ate, sevistas, etc.) que, no pro- prio pais ou 0s paises-alvo, propdem e propagam, multas vezes com toda a boarle, os produtos culiurais americanios, tnas também de todas as ins ‘neia eulturais americanas que, sem estarem explictamente coordenadas, acompanham, orquestiam ¢, ae por vezes, organizatn o processo de nova Maca simbsli umn que, conversio colativa Mas todos esses mecanismos que tam como efoto favorecer uma verdadeira “globalizacao’ das problematicas americanas, dando assim mado, em um aspecto, & renga americano-cénttica na “globalizacSo' entendida, simplesmente, como americanizacao do undo acidental e, aos poucos, de todo 9 universo, nfo séo suficientes para explicar a 20, Jes Meee danonet a. nna 2 vez, em 8 chrome, Secislnyond the ce Pabiom ‘he Pare ofa Poripenne h barn atl hiss, User of He Press. 1968) ror thon que ssa ens sem psn coma tomato teetine Sail Jen voxneng, porwr qe dan ne reeves senor sper anstzaac naga do aperguea © os RAE a 21-7 avd, ‘Paton ltclod, nel the Arcane, 2945-1995" in Dwoing 126, e197. p. 138 cove» postage cmt > quete ovata Jeol a rnd ins ‘esas ule, L Wacquat, Paurn ti evcteithe ds cheeghets’ le tfteaces awe li Herne a is sistas 1 noes tela rerborhe arbre, 92, eentan de 1952. p. 2030, 22. Ura descigio exemple do proceso de trferinch do pedir de omsngrgte da Pars Fs ‘Nove York em mate de are de sanguatda eivortz-ae no Io clas de Serge Glos Fou New York Site the feof Modern art Asiteet Inpeasonsim, Freedom, dnl he eld War, Clicaga. The Unive of caso Press, 1983. 24 tendéncia do ponte de vista americano, erudite ou semi-enudito, sobre o mundo, para se impor como panto de vista universal, sobretudo, quando se trate de questdes, tals comio a da "raca” em que 2 particulatidade da situago americana ® panicularmente flagrante ¢ esté particularmente longe de ser exemplar. Poder-se-ia ainda invocar, evidentemente, 0 papel motor que desempenham as grandes fundagées americanas de filantropia e pesquisa na difusdo da doxa racial norte-americana no seio do campo universitétio bresileo, tanto no plano das representagGes, quanto. das praticas, Assim, a Fundacéo Rockefeller finaneia um programa sobre “Raga ¢ etnicdade" a Universidade Federal do Rio de Janeiro, bem como 0 Centro de Estudos Afro-asistions (e sua revisia Estudos Afro-csiéticos) da Universidade Candido Mendes, de maneira a favorecer 0 intercambio de ppesquisadores e estudantes. Para a cbiencéo de seu patiocinio, a Fundagio 4enpoe como condigao que as equines de pesquisa obedecam aos criterios de affirmative action & maneira americana, 0 que levanta problemas espinhosos j4 que, como se viu, a dicotomia branco/negro & de aplicagio, no minimo, arriscada na sociedad brasileira, Alem do popel das fundacdes filantropicas, devese, enim, colocer “entre 0s fatores que contibuem para a cifusso do “pensamanto US' nas cléncias socials a internacionalizacto da atwidade editorial universitana. A integragSo crescente da adigio dos livres académicos em lingua inglesa (doravante vendidos, irequertemente, peias mesmas editoras nos Estados Unidos; nos ciferentes paises da ntiga Commonvrcalthtriténica, bem como nos pequenos paises peliglotas da Unido Européia tais como 2 Suécia & a Holanda, e nas sociedacles submeticas meisclretamente Adorninecéo cultural americana) e 0 desaparecimento da fronteira enire atividade ditorial vuniversitiria e editoras comerciais contriouiramn para encorajar a crculagao de termos, temas e tropos com forte divulgagéo previsia ou constatada, ‘que, por riecchete, devem seu poder de atracao ao simples fato de sua ampla difusio, Por exemplo, a grande editora semicomercial,semi-univer sitaria (designada pelos anglo-saxces comio crossover press), Basil Biack- well, no hesita em impor a seus autores determinados titulos em consonéncia com esse novo senso comum planetaio para a instalaco do ‘qual ela tert dado sua coniribuiggo sch pretexio de repercuticy, Assim, & coletdnea de textos sabre as novas formas de pobreza urbana, na Europa € na Amnérice, reunidos en 1996 pelo sociblogo itallano Enzo Mingione, foi dado o titulo Urban Poverty and the Underclass, contra 0 parecer de seu sesponsavel e dos diferentes colaboradores uma vez.que toda a obra tende a demonstrar a vacuidade da nocd de underelass (Backwell cnegou. mesmo a se recusar a colocar o termo entre aspas)®. Em caso de reticéncia, 23.E. Mogioe Uthos Posey ai ie Undortons A Recdr Osore Ral Bac, LOG. No ce tots deur icdale ile no tense cm gue eae sige sl pro pra, 2 rer es timp cba sso cum os ube Rel! von Kempen e Peter Marie fn Sequeestsoatiquen ole de stacked, she Honigoned Cit, pom Glbsang Cues 25, domasiado grande por partedos autores, Basil Blackwell esté em condicdes de pretender que Um titulo atraente ¢ 0 tnico melo de evtar umn prego de venda elevado que, de qualquer modo, iquidariao livro em questio, Eassim que certas docisies cle pura comercialzacao ecltoral orientarn a pesquisa ¢0 ensino universilétics no sertide da homogencizacdo ¢ da submissio as imedas oriundas da Amérca, quando nfo acabam por ctier, claremente, detorminadas “disciplins’, tals como os cultural studies, campo hibrido, rnascido nos ano: 70 na Inglaterra que dave sua difusio intemacional @ uma politica de propaganda editorial ber-sucedida. Dee modo, o fato de que essa “discipline” estsja ausente dos campos universitéria @ intelec: tual franceses no impediu Routiedge de publicar um compendium intr ado French Cultural Studies, segundo 0 modelo dos British Cultural Studies (existe tarnbem ura tomo de German Cuitural Studies, E pode-se ppredizerque, em virtude do principio de partenogénese étnice-edtorial em vvoga aivaimente, ver-ce-& em breve aparecer uma markial de French Arab Cultural Siudies que venba a consiitair 0 par simuice de sea primo do alémrMancha, Black British Cultural Studies, publicado em 1997, Mas todes esses fatores reunidos ndo podem justficar complatamente a hegemenia que a producdo exerce sobre o mercado mundial, E a razao ppela qual & necessério Ievar em vonsidesagéo 0 papel de alguns. dos responsive polas estratégias do import-export conceitual mistficadores mistificados que podem veiculer, sem seu conhecimnento, a parte ocuita ~ @, muitos vezes, makita ~ dos produtos eukurais que fazem circular. Com feito, 0 que pensar desses pesquisadores americanos que ¥20 a0 Brasil encorajar 0s Ileres do Movimento Negroaadotar as taticas do movimento afro-americano de dofesa dls direitos civis e denunciar a categoria pardo (terme invermediario entre branco e preio que desiana as pessoas de ‘eparéncia fice mista) a fim de mobilzar todos os brasilares de ascendéncia africana a parlir de uma oposicao dicotomica eatre “airo-brasileiros” ‘brancos" no precise momento em que, nos Estados Unidos, 0° individuos de origem mista se mobilizam a fim de cue 0 Estado american (a comecar pelos Institutos de Recenseamento) reconhesa, oficialmente, as america nos “nmesticos", deixando de os claceficar & forca sob a etiqueta exclusiva de ‘negro’ 2" Semelbantes constatacées nos autorizam @ penser que a descoberla tao recente quanto repentina da “globalizagéo da raca! resulta, ndo de uma brusca convergéncia dos medos de dominacéo etnorracial nos diferentes paises, mas antes Ga quase universalizacéo do 24, 1M Spencer, The Now ew Work Untarsiy, Rematns ff the tract fray Fes de detorn, Uaiarbde Jo Calon, Barkly, 25,1, Wet “Rac Fortin oe agerony. Gla are Local Devognate™ m8 Rates int 8. Westwoal ale} Tuasn desi Ei Onn Bod Ezchve, 990, « tae ical Conditions Nirneapols, Une c Dresata Pres, 1995, 26 folk concept nerte-americano de “raga” sob o efelto da exportagao mun- dial das categorias eruditas americanas. Poder-se-ia fazer a mesma demonstracao propécito da difussio intemacional do verdadetto-falso conceto de underclass que, por um efeito de allodoxia transcontinental, foi importado pelos sociélogos do \velho continente desejosos de consegurem Uma segunda juvertide inte- lectual surfando na onda da popularidade dos conceitos made in USA. Para avancar rapido, os pesquisadores europeus ouvem falar de ‘classe © actaditam fazer referencia a uma nova posigo na estrutura do espaco sorial urbano quando seus colégas americanos owvem falar de “under” ¢ pensam cambada de pobres perigosos ¢ imorais, tudo isso sob uma optica deliberadamente vitoriana ¢ racstéide, No entanto, Paul Peterson, profes sor de ciéncia politica em Harvard ¢ diretor do “Comit® de pesquisas sobre ® undercloss urbane” do Social Science Reseach Council (ambém financiado pelas Fundagdes Rockefeller ¢ Ford), nao deiva subsistir qual ‘quer equivoco quando, com o seu aval, resume os ensinamentos extraidos ce um grande ccléquio sobre a underclass realizado, em 1990, em Chicago, nesies termes que nao tém necessidade de qualquer comentario: “O aulixo ‘class’ & 0 componente menos interessente da palavra, Embora amplque uma relacso entre dois arupos socials, os termos dessa relacio permanecem indeterminados enquanto néo for acrescentadle a palavra imais familar ‘under’. Esta sugere algo de baixo, vil, passiv, resignado e ‘20 mesmo tempo, algo de vergonhoso, perigoso, disruptive, sombrio, malético, inclusive, demoniaco. E, além desses aiributos pesscais, ela lmplica a ita de stiomissé0, subordinaggo e miséria"”. Em cada campo intelectual nacional, existern "passadores” (por vezes, Lum 86; outras vezes, varies) qua ratomam esse mito erudite ¢ retormulara nesses tetmnos alienedlos a questao das reagdes entre pobreda, imicracae e sogregaedo om seus paises. Astim, ja no 6 possivel cortar o niimero de artigos ¢ obras que tem como objetivo provar - ou negar, o que acaba sendo a mesma coisa ~ com uma bela aplicagdo positvista, o “existéncia” desse “arupo’ em tal seciedadle, cidade ou bairro, a partir de indicadores empiricosna maiotiadas vezes malconstruides e mal correlacionados entre si" Ora, colecar a quesiao de saber se existe uma underclass (terme que ‘Bris Soh ol theo 3 S758. 27. Calecho P,P 2 Assedaion| About and Band the Uneins SomeNcte ont nt inleon Bish Soaniogy Tod" in Socolgy. 264, uh seertne de ln), The Uden Unies Wenhggon Broking nn, 199,93, 28, Es és examslos, enemas 7 Rl, "An Emerging ne Liverlnsin th Nehari? Some Epica! Evlence™ by News Communiy 191, oaubes de 1982, p. 120141. J Danihot ~Concertraon of over dhe Lancapes of Boome Hara: The Ce lation Urton Undrclss? sn Urban Studies, 31-77 ogetade 1998, p. LL 83-1147, eT ‘stn, "Mamaatzation Depron nd Fain the Reb of Ven Cae anc ker dass Pespecties". 2 Eurepean Socoloica! Reve, 121 mao de 1956, 33.5, a alguns scciblogos franceses no hesitaram em traduzir por “subclasse”, na expectativa, sem divida, de introduzir © conceito de sub-homens) em Londres, Lyon, Leiden ou Lisboa & pressupor, no minimo, por um lado, que. terme 6 dotado de uma certa consisténcia analitea e, por outro, que tal “grupo” existe realmente nos Estados Unidos”, Ora a noyéo serlior nalistica @ semierudita de underclass 6 desprovida nao s6 de cveréncia semantica, mas tambem ce existéncia social. As populacdes heterochtas que os pesquizadores americans colocam, habitualmente, sob esse termo = beneficiéros da asesioncia social, desempregecios cronicos, mes soltel- 125, farnillas mnonaparentats, rejetados do sistema escolar, cricninosos € membros de gangues, drogades e sem teto, quanda nao sio toros 0s habitantes do gueto sem distingao ~ devem sua incluso aessa categoria fourre-tout 20 fato de que sao percobidas come outros tantos desmenti- dos vivos do “sonho americano” de sucesso individual O.‘concetc aparentado de “exchis6o" é comumente empregado, na Franga e em certo rnimero de outros paises europeus (principalmente, sob a influencia da Comissio Européia), a fronteira des campos politico, jornalistico € Sientifico, ecm fungées similares de desistoricizacio e despolitizagéo. Isso a ume ilela da manidade da operagao que consiste em relreduzir uma nogio inexistente por uma outra mais do que incerta” Com efeito, a underclass néo passa de um grupo fieticio, prodizido no papel pélas praticas de classificagao dos enuditos, jornalistas e outros especialistas em gestio dos pobres inegros urbanos} que corrungam da orenca em sua existéncia porque tal grupo & consttuido para volar a dar ‘2 algumas pessoas uma legtimidade cientilica €, a outras, um tema polticamente compensador’, Inapta inepto no caso americano, 0 concetto de importacdo nao raz nada ao conhecimento das socledades européias, Com efeita, os insirumentes © as modalidades do governo da miséria estio longe de ser idénticos dos dots lados do Atlantico, sem falar das dives anicas ede seu estatuto police”. Segue-se que, nos Estados Unidos, a definic’ « 0 tratamento reservados as “populagées com problemas” diferem dos que sto adotados pelos dverses paises do velho ‘mundo. E, sem divida, omais extraordinsio & que, segundo um paredoxo. 29, Tends sete mia clude para alr una eine So, fa de gue 0 xe de Lncerclossno we sea Sods Fares, Capen Ave cca efor ow. rec avec aie ern opoteiont Ecos ado Laquesion de’ unsecessde dows oi {Set stig! iv Setage ds tront 39°, abl do LBD, p 2UL-23}, 30. H, Hein “Llundelss dos a soils ncn: etchison sacle paren Rete francaise de soneleate, 344, dheselenbrs be 1593.9. 421-439 51. Wocqare, “Lundercse tripe dere frsagrire sosal et stenaique amézkan’, nS. gos et exclusion (@tatdessasors Pare Een La Decal, 1995, 9 298-262 eens eto evemchscm prokaedss peda ino, com dn mins deihuxna Poca e Maa Kaa: G. Prova. Gower lame oquestion, fen Frans, 1789184, Pare 2 Sl, 1995, oN, Na. Irie Sbacou ef he Poorhae of Wolfae in Aare, Na Yk. Ba Bocks, 1997, nx iio. 28 8 encontrado a propasto de outros falsos concetios de wulgata mundiazaa, essa nogao de underclass que nos checa da América surgi na Europa, bem como a de ateto que ela tem por funcao ocuitar em razic da severa censure poltica que, nos Estedos Unidos, pesa solre a pexiuisa a respeto de guaklade urbana e racial. Cem efeito, tal nogdo fnha sido foiada, nos anos 60, 0 partir da pelavra sueca onderkiass, pelo econorisia Gunnar Myrdal ‘Mas sua intengdo era, nesse caso, doserever © proce:so de marginalizgie dos segmenias inferiores ca classe opera dos paises ros para clicar 2 ideologia do aburguesamento generalizade das sociedades capitalisias™. V2-se como 0 desvio pela Améica parle transformar uma idéia: de um conceito estrutural que vsava colocar em questo a representagao dommante suraks ‘uma categoria behaviorsta racortada sob medida para eforgéle,imputan- do aos compertamentos “anti-socils" dos mais desnuunidos a responsabi- lidadle por sua despossesséo, Esses mabentendidos devemrse, em parte, ao feto de que os “passa- ores" transatlnticos dos diversos carmpos inelectuais importadoree, que ptoduzem, reproduzem e fazer circular tedos esses (falsos) problemas, retirando de passagem suis pequena parte de beneficio material ou simbé- lico, esto expostas, pelo lato de sua nosicao e de seus habitus eruditos @ politicos, « uma dupa heteronomia, Por umn ledo, olham em direyao da América, suposto nticleo da (pés)"mocemidade* social ¢ cientifiea, mas eles proprios sto dependentes dos pesquisedores amerivenas que expor- tam para o exterior detorminados predlutos intelectuais (multas vezes, nem tao frescos) fa que, emt geral, nao tem conhecimento dlreto e espectticn dos institulgées e da cultura americanas. Por outro ledo, inclinare-se pate 9 joralismo, para as sedacfios cue ele propée @ a sucesscs imediatos que dle proporciona, e, a0 mesmo tempo, pare os temas que afloram na Intersecio dos campos midiitico @ police, pottanta, no ponte de rendi- mento maximo sobre 0 mercado exterior (como seria mostraco por um recenseamento das resenhas complacentes que seus trabalhos recebem nas reuistas em vogo). Dai, sua predilecdo por problematicas soft, nem verdadeiramente jomalistices (eslao guamecidas com concetes), nem completamente eruditas (orgulham-se por estarem em simbiose com “o onto de vista dos atcres") que ndo passam da retraducéo sem+erudita dos problemas socieis do momento em ura idioma importade dos Estados Unidos (ethicicade, identilade, minorias, comunidade, fragmentacao, of.) fe que se suvedem segundo uma orden e rime ditados pela midia: ju- ventude dos sububios, xencfobia da classe operéria em decinio, desajus tamento dos estudantes secundarstas ¢ universitérios, violincias urbanas, ete, Esses sociélogos jornalistes, sempre prontos a comentar os “fatos cle Sociedade”, em uma Inguagem, a0 mesmo tempo, acessivel ¢ “modemis- 33..Muc, Challe to Afluene, Nove Yea Pantheor, 1953. 2 ta’, portanto, muitas vezes, percebida como vagamerte progressista fem releréncia aos “arcatsrnes” do velho pensemento exxopeut, conbibuem, de manera particilarmente paradoxal, para a imposico de tna viséo do mundo que esté longe de ser ncompativel, apesar das aperencias, com as que produzem ¢ veicalam os grandes think fanks irtemacionais, mais ou menos diretamente plugados as esleras do poder econdmico e poltic. Quanto aos que. nos Estados Unidos, estéo comprometidos, muitas vezes sem seu conhecimento, nessa imensa operagao intemacional de import-export cultural, eles acupam, em sua maioria, uma posigao domi nada no campo de poder americano, e at? mesmo, muitas vezes, no campo intelectual. Do mosmo modo que os produtores da grande industria cultural americana como 0 jazz otto rap, ou as modas de vestuario e alimentares ‘mals eommuns, como o jeans, devem uma parte da sechicdo quse universal que exercem sobre a juvertde ao aio de.que sho profuricas e utiizadas por minorias dominadas", assim também os tépicos da nova vulgata mun dial tram, sem dvida, uma boa parte de sua eficacia simblia do ‘ato de ‘que, utlizados por especialstas de disciplines percebidas como marginals, subversivas, tais como os cultural studies, os minority studies, os gay studies ou os women studtes, eles assumem, pot exernplo, aos olhos dos escritores das antigas colénias ouropéias, a aparéncia de mensegens de Ibertacao, Com efeito, o imperiatismo cultural (american ou outro) ha de se impor sempre mehor quando é servido por intelectuais progressistes (ou “de cor’, rio caso da desigualdade raciad, pouico suspeitos, aparente- mente, de promover os interesses hegeménicos de um pais contra 0 qual esgtimem com a arma da critica social. Assim, os diversos artigos que compdem o némero de verdo de 1996 da revista Dissent, orgao da “vena esquerda” demecratica de Nova York, consagrado as “Minorias. em hita tno planeta: direitos, esperancas, ameacas”®, projetam sobre a humanidade inteire, com a boa consciéncia humanista caracteritica de certa esquerda academia, nao $6 0 senso comm liberal norte-americeno, mes a nocdo de minority (seria necessirio conservar sempre a palavra inglesa para lembrar que se trata de urn concetto native importaco na teoria ~ ¢ aincla ai, crigindtio da Europe) que pressupde aquilo mesmo cuja existenele real ou possivel deveria ser domonsiraca®, a saher: catogorias vecortadas no ‘34, Fonts, “Eroyting ar Notlng: Te Mean ofFa-Fond and Cher American Cal (Geods nme The Tecquele Haves. 157, 1998, p 5798 £95." Minot ercund the 36.0 recblaa da nga, evocad de pasiagrs, & am doe ait eine. Tends coche das prosaic toradar ree clslogee on ntoduae de pabae rash, «or tama ‘cum confide todos a berficcssrbluos forecidos por eae vrs de meer, pole nos stepremler que cetrmisasoy profesional dae eile sors pov sta Angunge certs com tans "iss ages teas tasendos ro snp decal lec ‘ho fninarty, miverdade: profess, oxblsio Iba ete }sen oleervar us sms palamis ‘efolegiaments germs exo sopveee yr na fren retest coor sora oqualtornm prods enue seera ne qual ea tn ntachaidn, Ox ma pone be: Ris, Hopes, Theat, Der, rete 1996, 30 seio de determinado Estado-nacio a partir de tracos “euiturais” ou “étni: cos" tém, enquanto tei, odesejo ¢ o divito de exigy um reconhecimento ivion ¢ politico. Ora, as formas sob as quais os indiiduoe procuram fazer reconhecer sta exisencia¢ sea pertencimento peo Estado variam segunda ©$ higares ¢ os momentos een fungdo das traclgSes histéricas ¢ consfituem sempre um mictWvo ée hitas na historia. E assim que uma anilise compar rativa aparenlemente rigorosa e generosa pode cortibuir, sem que seus autores tenbam consciéncia disso, para fazer apatecer como universal uma problemitica feta por e para ameticanes, Chege-se, assim, a um duplo paradoxo, Na huta pelo monopdlic da predugéo da visio do mundo social universalmente reconhecida como universal, na qual os Estados Unicos ccupam atualmente uma poscio em nente, incisive dominante, esse pais é realmente excepcita, mas seu excepcionalismo nao se stra exatamente onde a sociclogia @ a ciéncia social hacionais estio de ecordo em situélo, ite é, na fhider de uma oxdem social que oferece opertunidades extraordinarias (prineipalmente, em compacaxso ‘com as estuturas sociaisrigdas do vetio continent & mobildade: os estudes comparativos mais igotoses estdo de acordo em conch que, nesce especto, 18 Estados Unidos nao dliferem hindamertalmente das outras nagées ind tvalzachs quando, afinal, o leque das desiguailacis & a ritidamente mais aberto”, Se os Estados Unitos sio realmente excepeicnai, segundo a velha temstica (ooquevliana, ncansavelmente retomadla e periodicamente reatua- lizada, @ antes de tudo pelo dualismo rigido das divises da ordem social Kun pateamapnns npceedatie oageaernten mee ts Lene cual cy sn pr arate ian generis ‘ta jor vrs Ba ee alee Uo asec mies de faba less imines yelsyvos wnt clade pas gud woeree desaooesnar ens Srp aucnce ec fm ng a ands Recs cameras as ‘henge near enor kameyo ct amie gone Seo Starline de Chutes cysts Netaanisaee oe tdeeed ne sts de Ten Bs, deve ser ‘ols hsteasaea i ce mor” ee pebres ca ayia, ee fl eb Xe Chon ora aos yee ea mien na vs de 1°96 87. Cem paedauar B. Lacon el. Goblluaie, The Corstny Flax: A Study of Mob nes, rion, Cheon Pes, 19920 On Ag cheg fea eal ‘main moog sansvdnenteciteee, em Cless aunts Camparmine Slush Cas nei, CanbndgePans. Canad Uae Pres Crs dea Moses cies prime 1997: woereos deesiartes pied xls dsl tFeadn Caer a to dona ae cizas dus ds, © Facke of Inequiy by Desge the Bel Core Meh, Pncetn, Phnceas Unive Press 1996 3) Enda mais por sta capacidade para mpor como universal 0 que tem de tials particular, ao mesono tempo que fazem passar por excepcional o que tam de mais comun So 6 vordade cue 2 desistoricizagdo que resuika quase inevilavelmente da migracao das idéias através das fronteiras raclonals € tm dos fetores de destealizagao e de falsa universalizag3o (por exemplo, com os “falsos amigos” teéricos), entéo somente uma verdadelta hisi6rta da. genese das ideas sobre 0 mundo social, associada 8 uma andlise dos mecanis socias da circulagao internacional dessas idéias, poderia conduait os eru- dios, tanto nesse campo quanto alhtres, a um controle mals aperfetgoado dos instrumentos com os quais argumentam sem ficarem inguietos, de méo, em argumentar a ptoposito dos mesmos". 238. Emma cor eseril yor ver plrsmente nin so. pare de consist ue, sb vin Torna als cu mans mec ere sckree as pecs eas de cantor do done naked # me “esky atl ere o deomsinoe Neat pins ado oro, a extragdo b> dd {01 Pis. The Ong ef Arwtean Soc Seence, Cand " WEI) De segrae fndacoves ue ttradder cls se ren et elo. pine. lgager os {o's tate ssi ee alec Paro de care una “toa wh ro ocemente, bar asurgenet ds ee dea de esaea aca atts ae sea tea damadoristic” ue eo sar prtas sole oesica da lang sci fn cide spe a Sere Gor Sue alirente fr un ftoro tsperad nes thas pd cove. 32 Método cientifico & hierarquia social dos objetos PIERRE BOURDIEU “Teco tic: Bata CATAN © ATANO MEWS CATAN esi tenia, Mists ALCL NOGLERA Fonte: Bete, Pl, "Melle senfiqueeitrce 2 tebe’ voto engamenten Actes de Techerthe en sarees socales Pots, anita de 197s nd Qars. Pamgnides indaga a Socrates, para emibaracélo, se ele edmite a existéncia de “formas” de coisas “que poderiam parecer at@ mesmo insignficantes, como um tio de eabelo,¢ amne, a sujelra, ou qualquer cuteo cbjeto som importéncia nem valor”. Sécrates confessa que nao pode dedidirse a fazer 50, pois tem medo ce resvalar para um “abismo de besteiras”. Iso, diz Parménides, é porque ele ¢ jovern e novo em iilosofis, e preocupa-se ainda com a opinio cos homens; a flosofia vai apoderar-se dele umn dia e the ferd ver a inutlidade dessas arregancias das quais a loaica nao participa (Parménides, 130 d). A filesofia dos profestores de filosofia nao releve suficentemente a Iedo de Parmiénides e ha poucas tradigces conde seja mais marcada a distinedo entre os abjatos nobres @ os objetot tgndba's. ou entre as maneiras ignobers @ 2s maneiras nobres ~ isto @. atamente “teéricas”, logo ideakzadas, neutralizades, euferizades - de tratarlos. Mas as proprias disciplines cientificas nao icnaram os efeitos desoas cisposigbes hierarquieas que afasiam os estudiosos dos géneros, objetos, métedos ou teorias menos prestigiasos num dada momento do {emmpo. Assim foi possivel mosirar que certas revolucées cientilicas foram © prodtito da importagia para dominios socisknente desvalorizados das lsposigdes correntes nos dominios mats consegracos!. A hiietarguia dos objetos legos, egitimaveis cu indignos & uma clas mediacdes através das quaic se impéo a consura expecta de um campo determinado que, no caso de um campo cula independéncia esta mal alirmada com relagéo és demandas da classe dominante, pede ser els prépria a mascara de uma censura puramente politica, A definicio dominante das colsas boas dle se dizer dos temas dignos de interesse & tum dos mecanismos ideolbgicos que fazem com que coisas tamoém muito bboas de se dizer nao sejam ditas e com que temas no menos dianos de interesse no interessem a ninguém, ou 36 possam ser tratadas de modo enverganhado out viciosa FE isso 0 que faz com que 1472 livros sobre Alexandre, o Grende tenham sido escritos, dos quais apenas dots sertam necessirios, caso se acredite no autor do 1473" que, a deepeito de seu furor iconoclesta, est mal situado para se perguntar se um livro sobre 1.5. BEN DAVID ® R. COLLINS, “Secs Fates a Payebelogy, in American Secloloical Reslew, 31M 2. RL FOX, Alesander he Gro, Ltrs ig of 4 Now Seances The Alin Lane, 1973, Sein dtnesido dice we st ‘candace takamertfunconl— dap io edperpenng9 doe, siderite ura oat dere Deen orem ae pase urea de want en aang Asetba—eata enel Seta ext, 35 Alexandre é ou nia necessirio, ese a radundéncia observada nos dominias mais consagrados nao € 0 preco do sikincio que patra sobre outros objetos. ‘A hierarquia dos dominios e dos objetos ortenta os investimentos intelectunis pelo mediagéo davestrutura das oportunidades (reese) de hucro ‘material e simbolico que ela contritus para detinir. O pesquisadior participa sempre da mportancia e do valor que 360 comumente etriouidos 20 seu bjeto o & pouce provivel que ele ne love em canta, consciente ou in conscientemente, na alocacao de seus interesses intelectual, 0 fato deque 65 trabalhos (cientificamente) raais importantes sobre os objetos mals insignficantes” ‘2m poucas oportimidaces de ter, aos olhios daqueles que interiorizaram o sistema de classificagao em vigor, tanto valor quanto o8 trabalho: mais insignificantes (cientiicamente) sobre os cbjotos mais “im: porlantes’ que, com freqliéncia, so iqualmente os mais snsignificantes, isto &, 08 mais anédinos’. F por isso cue aqueles que abordam 08 objetoe dosvalorizados por sua “futidade” ou sua “indigniade’ , como o jornals ‘mo, a moda oW as histérias em quadrinhos, fteqtientemente esperar de tum outro campo, esse mesmo que ees estudam, as gratificagdes que o campo cientiico Ihes recusa de antemao, ¢ 180 no contitbu) para indindlos a uma abordagem cientific, Seria necessitio analiser a forme que assume a divisio, adrnitida come patural, am dominios nebres ou wulgares, sérios ou fiteis,interessantes ou ‘wiviis ros diferentes campos, em diferentes momentos, Certarmente se Gescobriria que © campo dos objetos de pesquisas possiveis tende sempre a organizarse de acordo com duas cimersées mdependentes, ‘10 ¢. segundo o grat de legitimidacle ¢ segundo o grou de prestigio no interior cos limites da definigéo. A oposicio entre 0 prestigioso e 0 cbscuro que poe dizer respeito a dominics dos géneros, objeivs e formas (inais ow menos "tebrieos" ott “empiricos” de acordo com as taxichomias reinartes & 0 produto da aplicacao de critertos dominantes que determina graus de exceléncia no interior do universo das préticos legtimas. A oposigio enire 05 objetos (ou o¢ dominios, ete.) oriodoxas e os cbietos com pretensio a consagtagao, que podem ser considerados de. vanguarda ou herétices conforme se situem ao lado dos delensores da hierarquia estabelecida ou a0 lado dos que tentam impor uma nova definicao dos objetes legitimos, manifesta polarizagiv que se estebelece em todo campo entre instituivoes ‘ou agentes que ocupam posigées opostas na estrufura da dlstrisuicao do capiial especiico, Isto quer dizer, evidentemente, que os teres desses sisen clans vlocses panache ego sedi ae spo, G.BACHELARD be rohan abornel Bare PL 1830, 216} paratrarar na rupurd com gs cam die pede sor > da chighos clithare (ets “rsibacts” a1 porate” so stan scale rechten cota etetoceigateanee rn co moras el Ihvefetiiothcln as exes que derrnn nec, run sitera ce comet, de surat trdnas aia cents MOGs ea bcs ao 36 oposigBes #80 ralativor & estruture do campo considerads, mesmo que © funcionamento de cada campo tenda a fazer com que eles ndo possem ser percebidos como fais e aparecam a todos aqueles que interiorizerem 5 sistemas de classificacéo que reproduzern as estruturas objativas do campo comno intrinseca, substancial ereelmence importantes, interessantes, vulc: res, chiques, obscuros ou prestigiosos. Bastard, para balizar esse espago, Imarear alguns pontos com exemplos tomaclos das ciéncias sovials, Porurn lado, temrse a grartle sintese teésica, sem oulio ponto de apolo na realidade a néo sex a referencia sacralizante aos textos canénicos ou, na melhor das hipoteses, aos objetos mals importantes € mais nobres do mundo subhinar, isto & de preferéncia “planetarios” e constituides por luma tradicao antiga. Por outro lado, terse a monogratia provinctana, duplamente fofima, pelo objeto ~ minisaulo e sodelmente inferior ~ ¢ pelo método, vulgarmente ampirico. Oposta a uma e outra, tem-se a anslise semiologica da fotonovela, dos semanarios ilustracos, das historias em quedtinhos, cu da mode, aplicagéo bastante herética de um método legtimo, para attair os prestigins do vanguardismo a objetas condenarlos pelos guaicliaes da orcdoaia que esiéo predispostos pela atengdo que recebem nas fronteirasdo campo intelectual edo campo artstico ~a quer fascinam todas as formas do kitsch ~ a apostar em estrateglas de reabiltacdo que ado tonto mais rentiveis quanto mais ariscadas’, Assi, © confito ritual enire a grande oriadoxia do sacerdécio académico © a heresia notével dos independentes inofensivos faz parte de mecanismos que contribuem para manter a hierarquia dos objetos.e, ao mesmo ternpo, a Iverarquia dos grupos que dela tiram seus hicros materiais e simbelicos, A experencia mostra que 0s cbjetos que a representacao dominant trata como inferiores ou menores atraem freqlientemente aqueles que esto menos preparades para trati-los. O reconheeimento da indignidacte demi- ra ainda equeles que se eventuram no terteno provide, quardo ees se erdem obrigades a exinir uma indignagao de toyeur puritano, que deve nclenar pera poder consumir, ou uma preccunatao de reabiitacao que supe a submisséo intima @ hierarquia das legiimicades ou, ainda, uma habil combinacao de disténcia @ particinacdo, de desprezo ¢ valorizacéo que pesmite brincar com fogo, 8 moda do arstocrata que se abastartla, A, ciéncia do objeto tem por condicéo abschuta, aqui como em outros eases, a clencia das diferentes formas da relagao ingena com 0 objeto (dentre as quais a que 0 pesquisodor pode manter com ele na prética comam|, isto 2, aciéncia da posicdo do objeto estucado na hierarquia objetiva dos graus, lg st (i or ‘medatzadn pelo oo cca conn w viens soil fe P- BOLRDIEG. L_POLTANEKI e MALOIDIER. La deere cx compet forration sures sciences sxc, 108) 1973) ¢ ‘rexel que «eremage pa tomo ca porta do expec dos ciece de pass ena 37 de lagitimidade que comanca todas as formas de experiencia ingennia, A timica maneira de escapar & 1éago ingérua de absolutizacdo cu de contra-absolutizagio comsiste, de feto, em apreender coma tal a estrutara objetiva que comanda essas disposicoes. A cércia nao toma partido na luia pela manutencéo ou subverséo do sistema de chssificagic dominante, la o toma por objeto, Ela nfo diz que a hierarquia dominante que tata a pintura concesual como uma arte ¢ as historias em quadrinhs como ur modo de expressio inferior & necesséria (a nio ser sociologicamenta), E nem diz que a hierarqua cominante & arbitraria, como aqueles que se atmam do relativismo pare destrui-l ou modilicé 1a mes que, 20 final, nd0 fazem senio acrescentar mais um grau, 0 titi, a escala das praticas culturais consideradas legttnmas, Em suma, a ciéncia néo opde um julgar mento de valor a outro jalgamento de valor, mas constata o fato de que a referéncia a uma hierarquia de valores esta objetivamente mnscrta nas praticas e, em particular, na luta da qual esse hierarquia € 0 objeto de dloputa c que se exprime em julgamentas de valor antaginicos, Campos situados em uma posicio inferior na bierarquia das legitini- dads oferecem a polemica da raza cientifica uma ocasiéo privilegiada de texercer-se, com toda lberdecle, e de atingir por procuragdo, com base na homologia que se estabelece entre campos de legitimidade desiaual, os mecanismos socials ‘etichizados que também funciona sob es censuras eas miccaras de atitoridades no Universo proteaido da alta legiimidade Dai o at de parodia que tomam todos 05 atos do culto de celebragdo quendo, abandonando seus objets habituats,filbsofos pré-socraticos ou poesia malarmaica, wotam-se para urn objeto {20 ral situado na bierarquia ‘em vigor quanto as histrias em quadrinhos, taindo a verdade de todas as acumulagdes enditas. E © proprio eleito de dessacralizacio que a ciéncia deve produzir para se constiutr e reprodizir para se comunker & mals fecilmente obtido quando se vé obrigada a pensar 0 universo por demzis prestigioso e por demais familir da pintura ou da iteratura mediante uma andlise da alquimia sinibGlica pela qual o universo da alta costura produz aafé ne valor insubstiuivel de seus prodatos, 38 A Escola conservadora: as desigualdades frente & escola e 4 cultura PIERRE BOURDIEU Traduoéo ApARECICA JOLY Gon Reviefo téeniea, Manta AUCE NEGLERA Fonte: Boies, Pee, “Lécole conser, Las neal dese Heeee cutie puedo eral in Fewue francs de socobgle, Pas, 7 3, 1986. we tomando 0 sisteme escolar como um fator de mobilidacke social, segundo a Ideologia da “escola libertadora”, quando, ao contrério, tudo tende « mostrer que ele é um dos fatores mats eficazes de conservegio social, pois fornece a aparéreia de iegitimidade as desi gualdades sociais, ¢ senciona a heranga cultural eo dom social tratado como dom notural dustamente porque os mecanismos de eliminagéo agem durante todo © cursus”, Glegtimo apreender o efeito cesses mecanismos nos araus mais clevades da carrera escolar. Ora, vé-se nas opertunidades de acesso a0 ensino superior 0 resultado de uma selegao cirofa ou indireta que, ao longo dda eseolaridede, pese ccan rigor desigual sobre os sujetos clas clferentes classes sociais. Um joven da camada superior tem oitenta veces mois chances de entrar na Universidade que o ‘ilho de um assaleriado agricola « quarenta vezes mais que um flho de eperdrio, e ses cherices 520, zinda, duas vezes superiores aquelas de tum jovem de classe média'. E digno de note 0 fato de que as insltuigGes de ensino mals elevadas tenbam tambem ‘9 ecrtlamento tmais aristocratico: assio, of filhos de quadros superiores ¢ de profissionas lberais constituetn 57% dos alunos da Escola Poittécnica, 54% dos da Escola Normal Superior (regtientemente citada por seu re- crutamento “demoeratico"), 47% dos da Escola Central ¢ 44% dos do Instituto de Estudos Poiticos Mas néio ¢ suficiente erunciar o fato da desiqualdade diante da escola, & nocossério descrever os mecanismos objetivos que determinam a eliminagso continua das criancas destavorecidas. Parece, com efeito, que a explicagso sociolégica pode esdlarecer completamente as diferengas de éxito que se auem, mais freatientemente, as diferencas de dons. A ago do privlégio culurd s6 & percebida, na melor parte des vezes, sob suas formas mais grossoiras, isto &, como recomandagéas cu relagées, luda no trabalho escolar ‘cu ensino suplementat, nformagao sobre o sistema de ensino e as perspec- tivas profissionsie, Na realidade, cada familia transmite a seus filhos, ais por vias incivetas que diretas, tim ceria capital cultural e um ecrto ethos, “igearo parasso (ais ex manor ongo, noe a nous revo Sees reo ce ane ‘sabeloimert) eka pels sho ao Tonge de aus ease sce 1.1, P: BOURDEU ed-C, PASSERON, Les Heri, Pars flee Nes, 1964p, 14:21 a1 sistema de valores implicitos ¢ profundamente inlerlorizedos, que contribul para definiy, entra coisas, as atitucles face ao capital cultural e & insttuicso escolar, A heranca cultural, que difere, sob os dois aspectos, sequndo as cchises sociais, 6 9 responsével pela diferenca inicial das eriargas chante la experiineia escolar e, corseaiientemente, pelas taxas de axite, A TRANSMISSAO DO CAPITAL CULTURAL da A influencia do capital cutural se deta apreender sob a fo relagio, mus vezes eenstatada, entve o nivel eultal global da foai © exito escolar da crianca. A parcela de “bons alunos” em uma amosira da quinla sire.eresce em fungao da rend de suasfomilas, Paul Clerc mostrou «que, com dploma jou, a renda nao exerce nenhuma infuencia propria sobre © Gio escolar ¢ que, a0 contréri, coms renda igual, « propurgao de bons alunos varia de manetra significative sequtrlo 0 pai néosejeciplornasa cuseja bachelier*, o que pennite concer que a ago do meio familiar sobre 0 exito escolar & quase exchisiamente cuitural. Mais cue os diplomas cbidos pelo pai, mais mesmo do que o tivo de escolaricace que ele seguiu, é 0 nivel cailtiral global do grips familar que mantém a relagéio mais estreita com o @xito escolar da crianca, Ainda que o €xto escolar parega ligado igualmente a0 nivel cultural do pai ou da mie, percebemse ainda variagSes signtica tivas no exito da crianga quando os pais sao de nive! desigual” A apalse dos casos em que os nivets cultura’ dos pais s40 desiqnais nao deve fazer osquccer que eles se encontrar fraqlientemente igndes (em razio da hemogamia de classes) © 2s vantagens cultarais que estio asseciads 0 nivel cultural dos pois so cumulatives, como se vé ja na quinla série, em que os filhos de pais teulares do. baceataurést obtérn uma taxa de dxito de 77% coniza 62% para os fils de um bachelier ¢ de uma pessoa sem diploma; cssa diforonga se manifesta mais ritklamente oinda nos graus mais clevadas do cursus, Lima avaliagio precsa das ventagens e das desvantagens rans: das pelo meio fariliar Geveria evar em conta néio somnenteo nivel cultural do pai ou da mae, mas também o dos ascenelentes de um ¢ outro ramo da farnha(e nibém, sem vida, odoconjunte dos mernbros da famita extensa). ‘Assim, 0 conhecimento que os estudantes de lelras tm do teatro fmedido pelo nimero de pecas de teatro vistas) se hierarquiza perfeitamente segundo a categoria sccioprotissional do pai ou do avd seja mals eleva, oil 4 medida que a categoria socioprefisional do pai e da avé ce dover IVT No stem rants, psson qu cela secur prrisro, poraiis d"toscatnseat ny fone skeen, tac Leja tsi porns, soa Lacsrebta re lencés, dear, 2 resi ec 2 ‘lam coer 0 final is git 2.01.7 CLERC, "La ‘ano isggorlen penne’. colar 1 iy cl stn, Ep du on, Pa) agasovseemtsc de 1964, p 7-644, 42 Cconjuntamente; mae, por outro lado, para un valor fixo de cada uma desses varidvels, & outra tende, por si 56, a hierarquizar es escores", Assim, em virlude da lentidéo do processo de acukuracéo, dferencas sutisligedas és antighiidades do acesso & cultura continuam a separar individues aparente- mente igus quanto ao exito social e mesmo ao éxito escolar. A nobreza cultural também tem seus greus de descendéncias. Além disso, sabendo-se que a residéncia perisierse ou provinciane (ola propria fortemente hgada a categoria socioprofissionaldo pai) esti tamern associada as vantagens © desvantagens cullurais culo efello se nota em todos ossetores, quer se trate de resultados escolares anteriores, de pratieas @ de conhesimentos culturais (em matérla de teatro, musica, jazz, ou cinema) ou ainda da facilidade ingiistice, vé-se que a consideragio de um conjunto relativamente restrito de varlévels ~ a saber, o nivel cultural dos antepassados cla primeira ¢ da segunda geragSo, ¢ 2 residéncia ~ permite cexplicar as variagées mais importantes do éxito escolar, mesmo om um nivel elavado do cursus E até mesmo possivel que a combinagio dosses critérios permita compreender as vaslagGes observadas no interior de arupos de estudantes homogénaos em retagéo a categoria socioprofissional de ovigern: @ assim que os jovens das cemadas superires tendem a obter regularmente resultados que se distribuem de maneira bimodal, isso tento em suas praticas ¢ seus conhecrmentos culturais quanto na sta capacidade paca 2 Fompreensio © o manejo da lingua fum tarco deles se distingue pelos desempenhes nitilamente superiores ao rosta da categoria). Uma anlise tmutkivariada, levando em ecnta no somente o nivel cultural do pai e da fe, o dos avés patemos e matemos ¢ a residéncia no momento dos esitrlos superiores e durante a adlolescéncla, mas também um conjunto de caracteristicas do passado escolar, como, por exemplo, o ramo do curso seeundério (clissco, medemo ou culo) ¢ 0 tipo de estabelecmento (colegio ‘ouliceu, instituicao piiblica ou privade), permite expliear quase inteiramen tec diferentes graus de éxito obtitos pelos diferentes subcrupos defiidos pela combinagio desses critérios; @ isso sem apelar, absohitamente, para ‘es desigualdacles inaias, Consequentemente, um modelo que eve ern conta essas diferentes variiveis - e também as coracteristicas demograticas do grupo faniilar, como o tamanho da familia ~ pemmitira fazor ur esleulo muito preciso das esperaneas de vida escolar Da mesa forma que os jovens das camadas superiores se distinguem por cferencas que pocem estar ligadas a ciferencas de condic&o social, também os fihos das classes populares que chegam até o ensino superior parecem pertencer a farilias que diferem da média de sua categoria, tanto Por seu nivel cultural global como por seu tamanho: dado que, como se Vit, as chances cbjetivas de chogar a0 ensino suzerior ado quarente vezes '8.CI.P. BOURDIED «JC; PASSERON, Les unions et 9697 a mais fortes para um joverm de camada superior que para um filho de operério, poder-se-ia esperar encontrar, numa populacao de estudantes| investigade, a mesma relagao (40/1) entre o numero médio de individuos ‘com esturlos superiores nas familias de estudantes flhas de operarios enas familias de estudantes das carnadas superiores. Ora, numa omostra de ‘eatudantes de medicina, o nimaro médio da membros da familia extensa que fizeram ou fazem estudos superiores nao varia senao de 1 a4 entre 0s estudantes oriundos das classes populares e os estudontes oriunclos das camadas superiores, A presenca no circulo familar de pelo menos um parente que terha [eito ou esteja fazendo curso superior testemunha que casas familas apresentam uma situago cultural original, quer tenham sido afetadas por uma mobilidade descendente ou tenham uma attude frente Aascensio que as distingue do conjunto das familias de sua categoria. Prova indlireta do falo de que as oportunidedes de chegnt ao ensino sccundério ou superior @ as chances de ser bem sucedldo sio funcéo, fundamentalmente, do nivel cultural co meio familar no momento da entrada na quinta série (sto é, quando a agio homogencizante da escola @ do meio escolar nao se exerceu por muito tempo) temc-la no fato de as Uesigualdales de éxito entre criangas francesas ¢ criongas estrangeiras serem quate tolalmenta axplicéveis pelas diferences na composicao social dos dots grupos de fami. Com nivel socal igual, as criangas estrangetias tém um nivel de éxito sensivelmente equivalente aqucle das criangas fran cesas: com efeito, se 45% dos filbos de aperdrios iranceses contra 38% dos flhos de operdvios estrangeiros entram na quinta série, pode-se supor que uma boa parte dessa diferenca (relativamente minima) & imputavel 20 fato de que os cperdrios estrangetros tem uma taxa de qualficagao menor do que os operivios franceses* Mas o nivel de instrugo dos membros da familia rstrita ou extensa ainda a residéneia sao apenas indicadores que permitem situar 0 nivel cultural de cada familia, sem nada informar sobre 0 contetxlo da heranga que as farnilas mais cultas transmitem 2 seus filhos, nem sobre as vies de tronsmissa0, As pesquisas sobre os estuxlantes das faculdades de letras tendem a mostrar que a parte do capital cutural que é 2 mais diretamente rontdvel na vila escolar é constituida pelas informacies sobre o munclo Universiténo e scbre o cursus, pela faciiclade veibal ¢ pela cuitura livre adquirida nes experiéneias extra-ascolares. As detigualdades de informagao so por damais evidentes ¢ conhect das para que hla necessidade de recorcétas mais longemente. Conforme Paul Clere, 15% das familias deakmos dos C.E.G. (colégios de ensino geral ajo rectutamento é mais popular que o dos iceus) ignoram o nome do ‘orsiation scl ou ome de aga en ei i, Lee n ats ana dezanbco 1964, p, 871 ALP, CLERC, "Nowatos dens {ceves de ratonale argv a Pope 44 liceu mais préximo, atingindo essa taxa 36% entre as familias dos alunos da chsse de fim de estucos primarios. O liceu nin faz parte do universo concreto des farntias populares, ¢ @ necesséria uma série continua de sucossos excepcionals © conselhos do professor ou de algum membro da familia para que se cogite de enviar para la crianca. Ao contrério, & todo ‘ur capital de informagées sobre o cursus, sobre a sigificagao das grandes escolhas da cinta série, ca sétima ou das classes torminais do ensino seoundatio, sobre as carreitas futures e sobre as crientagées que nonmal- mente conchizem a elas, reincim{eP SOURDEL Tree alten eugene Pate ®. 30-36, Relund A, CLOWAAD & Logd E OSLN. Det 'ethecre of eellnguont gargs Hove York, Pow Press 0 acti Gere, 196 Chomce SCHRAG, “encieny att orp, soe Ther ‘Socioloy ond Sct Reseerch 6) jen de 1942.) 175-176 pec heovel Ma Sletten Sel Cones Ns Yer 1968p. 213 1sio somente suscita alvos elevados, mas ainda tem oportunidades de criar situagdes de progressos capazes de conduzir a ur moral airxla melhor", Por outro lado, como se sabe que “os ideais o os ates do individiwa cependem to grupo 20 qual le nertence e ds fins e expectativas desse grupo", vé-se que a in luéacia do grupo de pares ~ sempre relativamente homogéneo quanto & ongem socal, de ver ave, por exemplo, adistribuicdo Gas criancas entre os colegios teenicos e os liceus e, no interior destes, centre as seg6es, @, muito e:tritamente, funcio da classe social — vom redcbrar, enire os destavorecidos, a influencia do melo familiar e do contento social, que tendem a desencorainr ambigdas percobidas como desmedidas e sempre mais o1 menos suspettas de reneger as origens. Assim, tudo concorre para conclamar equueles que, como se diz, “néo tem futino", a terom esperancas. “vazatvas”, cu, como diz Lawin, “realistas”, Cou soja, muito frentientemente, a renunciarem & esperanca, capital catural e o ethos, ao se combinarem, concorrem para definir 2s contisias escolares e as afitudes diante da escola, que constituem o principio de diminacio aiferencial das criancas ies diferentas classes sodiais. Ainda que o exito escolar, diretamente ligado ao capital cutural legado pelomeia familiar, desempenhe um papel naescolna da orientagao, parece que o determinante principal do prosseguimento dos estudos seia a atitude de familia a respeito da escola, el mesma fungéo, como se vit, das osperangas objetivas de axito escolar encontradlas em cada categoria social, Paul Clere mostrou que, alnda que a laxa de éxito escolar © a taxa de entrada na quinta série deperdam estreitamente da classe social, as desiguaddades das taxas de entrada nessa série sao mais afetadas pela origem social do que pela desiguaklade de éxito escolar, De fato, i880 significa que os obstéculos so curnulativos, pois as criancas das classes populares e médias que obtém globaimente uine taxa de éxito cats fraca procisam ter um éxito mais forte para que sua familia @ seus professores pensern em fez@-las prossequir seus estos, O mesmo mecanismo de superselegio atua segunelo o eritério da idade: as criongas das classes ‘camporesa e cperinia, gevalmente mais velhas do que as eriancas de meios mais favorectlos, sao mass fortemente elinades, com idade igual, do que as criangas desses meios, Enfim, 0 principio geral que conduz & superse- lec&o das criancas cas classes populares e médias estabelece-se assim: as, ctiangas dessas elesses sociais que, por feta de capil cultural, 2m menos oportunidades que as cuttas de demonsirar um exo excencional devern, contudo, demonstrar um éxito excepcional para chegar a9 ensino secun= iio, 14. fod, 115, 16.7, a: lo. ep. 646 Mas 0 mecanismo de supersalego funciona tante melhor quanto racis se se eleva na hieratquia cos estabeleciments secundatios @, no interior destes, na hlerarqula (soclalmente adrritida) das secées: aqui ainda, com resuitado igual, es criancas dos meios favorecides vio muito mais freqilen- temente cue as outras para os boeus e para as seqoes cassicas desses liceus devendo as criancas de origem desfavorecida, ia maiotia das vezes, pagar ‘por sua entrada na quinta série © prego de serem rolagadas em um cclégio de ensino geral, enquanio aquelas criangas des classes abastadas que se vem impedidas de froqiientar 0 liceu, dado o seu resukado mediocre, podem encontrar abrigo no ensino prvado. Vese, ainda aqui, que as vantagens e clesvantagens s80 curmulatvas, pelo fato de as eecalhas inicinis, escolha de ostabelecimento ¢ escolha de ‘secao, definirem ieversiveimente os destines escolares, F assim que uma pesquisa mostrou que os resultados obtidos pelos esluclarites universitatios de letras ern um coniunto de exerccios destinarlos a medic a cormpreenssa ¢ a maniptlegao de lingua, e em particular da Ingua academica, eram ungio diteta do tipo de estabelecimento freqtieniado durante os estudes secundarios, bem como do conhecimento do greyo e latim, As escolhas operadas no momento da entrada na quinta série selam, de uma vo2 por todas, os destinos escalates, convertendo a heranca cultural em passado escolar. Do fato, assas escclhas que comprometem todo 0 futuro 380 efetuadas com referencia a imagens diferentes do futuro: 31% dos pais de alunos do liceu deselam que seus flhos atinjam 0 ensino supericr © 27% 0 baccalauréat; uma patte infima destina seus filhos a um brevet tecnico (499) ow ao B.EP.C, (2%, Ao contrério, 27% dos pais de alunos do C.E.G. deseam ve-los obter o brevet técnico ou profissional, 15% 0 BEPC. 14% baccalauréat; 7% apenas esperam vé-los atingiro ensino superior” Assim, as cas globais que mostram um erescimento da taxa cle ‘escolarizagtio secundéria dissimulam o feto de que as criargas das classes populares devem pagar seu acesso a esse nivel de ensino com um estreita- rmento constlerdvel do campo de suas possibilidades de futur. As cifras sistematicas que ainda seperem, ao final do cursus escolar, 08 esludantes oriundos dos diferentes moios sociais devern cua forma € sua DUT No sions olicacenal ances. € ceneado een obo ype 2 renzo dean curs Frefsiendtzanie de 2 aor, er sema90 1 eo, 17, parvo. om elt ta dango rel do ona eco acne os pets induce caneba se dlemanun e, dese reco as ales ers cecln Fs deleneb> ‘sicalvane, denemcte, sur es ces soca ant pera os embvos ds eae inkerites das chasse mis 0 bocaieuet parece 2 peceie, anu ce, cova 0 ea oral ds esi ~ por tea denier po Tat de ner, str Sem div, porpe acerprogadae coe acts nis tn aiequetogor ox ator ewes 4. experiment » eich dens boners cere socal -, ce spare ta We tee aes ‘tio uber tas chs alloy «45 classes supetors ote in epee exame de ada pa esi sper. sia reresrtagao de cursus poses exe par que es de fenpreaes @ de quadios miles renindar, em yronorcies aticlasnene eves rose seston lon do cca 51 naturcza ao fato de que a selegdo que eles aofrem é desigualmente severa, @ quie as vantagens ou desvantagens sociais s80 convertidas progressiva- mente em vantagens & desvantagens escolares pelo jogo das orienlactes presoces, que, diretamonte ligadas & origem social, substituem ¢ redobram. a influencia desta utima. Sea acéo compensadora que a escola exerce nas motérias diretamerte ensinadas explica, ao menos pardelmente, que a vantagem dos estudantes oniundos das classes superiores seja tanto mais marcada euanto mals se se afasta dos dominios culturas ciretamnente ensinades @ totalmente controlados pela escola, somente o eleito de compensacdo ligado a superselecéo pode explicar que, para um compor- tamento como o uso da lingua escolar, as diferengas tendam a se atenvar ‘a0 maximo e@ mesmo a se inverter, pois que os estudantes altamente selecionedlos das classes populares obtem, nesse derinio, resultados aquivalentes aqueles dos esiuclantes das classes alts, menos fertemente selecionados, ¢ superiores aqueles dos estudantes das classes médias, igualmente desfavorecidos pela aimostera lingiistica de suas farniias, mas menos fortemente selecionarlos"” Da mesma forrra, o coniunto de carac teristicas da correlra escolar, as segbes ou os estabelecimentos, so indicios da influéncia direta do meio familiar, que eles tyaduzem na lagica propria- mente escolar: por exemplo, se, no estado atual das tradicdes e das tecnicas pedagégicas, um maior dominio da lingua einda & encontrado entre os estudantes de letras ie optaram, em seus estes sectindrios, pela secéo. de Tinguas antlaas, & que a formagdo clissica ¢ a mediacao pela quel se exprimem @ se exeream outras influéncias, como a inforacso dos pais sobre as secdes € 2s carreiras, o sucesso nas primeiras etapes do cursus, ou, ainda, a vantagem constituida pela entrada nos ramos de ensino em que‘ sistema recanhece a sua elite. Procurendo recobrar a lagica segundo qual se opera a transmutagdo da heranga soda) em heraniga escolar nas diferentes siuagdes de ciassa, observar-se-d que a ascolha da seedo ou do estabelecimento es resultados obtidos nos primeiros anos da escolaridade securstivia eles préprios ligados a essas escolhes) condicionama utilzagio queas criancas dos diferentes meics podem fazer de sua herance, nostiva cu negativa, Sem clavida, serfa tmprudente pretencer isolar, no sistema de relagées que s8o as carcciras escolares, fatores determinantes e, « fortiori wun fator predominante. Mas, se 0 éxito no nivel mais alto do cursus permanece muito fortemenie: Hgaco 20 passado escclar mais longinauo, ha que se admitir que escalhas precoces comnrametem ruta fertemente as oportunidades de atinair (al ou tal remo do ensino superior ¢ de nele iriunfar. Em sintese, as eartas so jogadas muito codo. 16, CP BOURDIEL, J.C, PASSERON 6M, do SAINT MARTIN, be ot. Para mir complet Inerteu ef do eye ogUstes, eracanoio etebeaee roves de wales xparmerzoh frases acl teatadse por Basten se ox vdp;ces ngatalwes ere sitaxe dt inqua asch for oer, Su completo, eo Elo ef culos mane ier aqueles dds extafcs Beri (andes reaciae sestadl. por xen a alec © FUNCIONAMENTO DA ESCOLA E SUA FUNCAO DE CONSERVACAO SOCIAL Concordar-se- facmente, ¢ talver até facilmente demais, com tudo que precede. Mes resivingirse asso signifcaria abdicarrnos de nos intertogar sobre.a reeporsabilidade do exccla na perpetuagso das cesiqualdades socics, Se essa questio é raramente colocada, € porave 2 Klecloaia jecobina que inspira a reaior parte des criticas diigilas ao sisterne universitévio evita levar em conta realmente as desiqualiades frente aa sistema escolar, ern virtude do apeyo a urna cefnicao social de eqhiderle nas oportunidad cle escolarizagéo. Ora, s0 conciderarmos seriamerte as desigualdades socialrente condiciona- das diante da escola e da cultura, somos obricatios a concur que a eallidacle formal & qual cbedece todo. sisterna escclar & injusta de fato, e que, em toda sociedade onde se proclamam ideais democréticas, ela protege melher os ppilégiss do que a transmissio aberta ds priilesios, Com efeito, pera que sejamn favorecidos os mais favorecidos e destar vorecidos os mais desiavorecidos, & necessévio e suficiente que a escola ignore, no émbito dos contetidos do ensino que transmite, dos métedos e \anicas de transmisso € dos critérios de aveliagio, 63 desigualdades culturais ontre.as eriancas das dilerentos elassos sociais, Em cutras palavras, tratando todos os educandos, por mais desicuals que sejam eles de fato, como igueis em direitos e deveres, 0 sistema escolar é levado a dar sua sengéo as desigialdades iniiais ciante da cultura, A igualdade formal que panta a prética pedagégiea serve.como mascara € justfcegio pare a indiferenga no que diz respeto &s desiguadades reals dante do ensino e da cultura transmitida, ov, melhor dizendo, exigiia. Assim or exempo, a "pedagocia’ que € utilzaca no ensino secuncao ou superior aparece objetivernente como uma pedagogia "para o despertar", como diz Weber, visando @ despertar os “clons ecdormecidos em alguns individuos cxcopcioncis, através de ténicas encantatBrias,tais como a proeza vertal dos, mestres, em oposkéo a uma pedagogia tecional e universal, que, partinclo do zero € no considerando como dedo © que apenas alguns herdavam, se obrgara a tudo em favor de todos e se orgenizaria metoclicamente em referencia ao fin explicto de dar a todos os meics de ackuiniraquilo que no 6 daéo, sob a aparéncia do dom ratural, sendo as criancat das classes pitlegiades. Mes ofeto ¢ que a taclcso peragtaica so se diize, por tas das iddias inquestionéveis defgualdade ¢ de uriversalidade, 20s educandos que esto no caso particular de deter urna heranga cultural, dle acordo com as texigéncias culturais da escola. Nao somente ele exciui as interrogagées sobre os meics rmais elicazes de transmitir@ todas os conhecimentos as habilidades que a escola exige de toxics e que as diferentes classes sociais s6 trensmitem de forma desigual, mes ela tende ainda a desvalorizar como ‘phmarias’ {com o duplo sentelo de primttivas e vulgares| e, paradoxal ments, como “escolares”, as agées pedagdgicas voliadas para tals fins 53 Nao € por acago que 0 ensine primério superior, quando concorria com o licen clissico, constitaia um mundo menos estranho do que 0 Feet para as criancas criundas das classes populares, attaindo, assim, o despre 20 dos dlites, precisamente porque era mais explcits © metodicamente escolar. Sao também duas concepgtes de culture que, sob interesses corporatives, se exprimem ainda hoje nos conflitos entre os rmestres provenientas do ensino primérin e os professores tradicionals das escolas secundarlas”, Seria preciso que se indagasse também sobre as fungSes que cexerce junto aos professores e membros das classes cutivadas © horror sagrado a “bachotage"™, em oposicao a culkura geral. O “bachotage” nao © mel absolute, quando consiste técrsomente em reconhecer que se prenara as alunas para 6 baccalouréat, e determinélos, por isso mesmo, a reconhecer que cles estao se preparando para 0 “bachot”. A desvalort zagio das téenicas néo 6 senso 0 reverco da exaltagio da prooza intelectt, a qual tem afinidace estrutural com os valores dos anupos privilegiados do ponto de vista cultural, Os detentores estatutérios das "boas manciras* ‘stio sompre inelinaddos a desvalorizar como laboriosas e laboriosamente adguiridas as quaidades que nao valem sendo sob as aparencias do inato. Produtos de um sistema voltado para a transmissdo de uma cultura avistoerdtica em seu contetido ¢ expirito, os educadcres inclinam-se a desposar os seus valores, com mais ardor talvez porque the devem 0 sucesso universitri e social, Aléma lo mais, como nao integrariam, mesmo esobretudo sem que disso tenham consciéncia, os valores de sou meio de corigem ou de perteneimentc as suas manetas de julgar ede ensinar? Assim, no ensino superior, 08 estudantes originsrios das classes populares ‘emédine sordo julgadas segundo a escala de valores das classes privilegiar das, que numerosos educaclores dever @ sua origem socal ¢ que assumern de bom grado, sobretudo se 0 seu pestencimento a elite datar de sua ascensio 20 maqsiério. Da-se uma inyersao dos valores ~ a qual, através de uma mudenga de signo, transforma 0 sério em espirito de sério «a valorzacio do eslorgo em uma mesquinharia indigerte e laboriosa, suspei ta de compensar 2 auséncia de dons ~ a pantir do momenio em que 0 ethos pequeno-burgués @ julgado segundo o penta de vista do ethos da elite, ou sea, atenco pelo diletantisaro do homer culto e bem nasck’o. De modo opesto, o diletantisme que os estudantes das classes favorecidas exprimem em virias condutas ¢ 0 priprio estilo de suas relecdes com uma cultura que ees nao devern jamais totakrente a escola, resporxlem as 19, Ver, neste meso never, aga Je, BAMEERTIAMATL, La rie dae wstier: sas lake a iste ce els, p, 30D. 4 96T.. Rr “lachaimge” enicrlese tok pemiegéo tatu ute deo meromons & ‘provagio en exams concurs fan, ek gaa. de cas eespadrtes praca! Oe, pvr, so dears festa dered. O tema dea de "bacoter”, gin, <2) fred, ssaenramsar pelo “bacho, 9 &. peo tacit expectativas, freqiientemente inconscientes, dos mestres @, mais ainda, & exigencias objetivamente insentas na insttuigao, Néo ha indicio algam de pertencimento social, nem mesmo @ posture corporal ou a indumentiria, © estilo de exqrressao 010 sotaquie, que nko sejam objeto de "pequenas percepgies" de casse e que néo conitiguam para crientar ~ mais freqilente- mente da mania inconseiente ~ 0 juigamenio dos mestros!”. O professor que, ao jugar aparentemente “dons inatos’, mede, nelos enterios do ethes ch eile cultivada, condutes inspiradas por um ethos ascético do trabelho execiitado leboriosa edificimenta, opée dois lipos de relagao com urna cultara & cual individuos de meios socials ciferentes estao desiqualmente destinades chide o nascimento, A cultura da cite & tao préxima da cultura escolar que as criangas originras de um meio pequerio burgues (ou, @ fortion, campones «© operitio} no podem adauiir, sendio penosernente, o que ¢ herdadlo pelos {ilhos cas classes cutiverias: 0 esilo, o bom-gosto, o ialento, emsintese, esas atitudes e aotidbes que 56 parecer naturals ¢ naturalmente exigiveis des marbros da chsse cullivada, porque constituem a “cultura” (no sentido empregaclo pelos etnélogos| dessa classe. Nao recebendo de suas famiias nada que hes poss senir em sua ativelade escolar, a néc ser uma espécie «de boa voniavle cultural vazia, os fihos das classes malas sao forcadios a tudo esperar ¢ a tudo receber da escola, ¢ sujeitos, ainda por cima, a ser repreendidos pela escola por suas conchitas por demnais “escolares E uma cultura arstocratica e sobretudo uma relagio aristocritica com essa cultura, que o sisterna de ensino transite e exige", Isso nunca fica tio claro quanto nas relagSes que os professores mentém com linguager. Pendendo entre um uso carismatico da palavra camo encantamento destinaco a colocar 9 akino em eentligdes de “receber a graca” e um uso tradicional da linguagem universitéria como veiculo consagrado de uma ‘cultura consagrada, os professores parter da hipotese de que existe, entre Co ensinente € o ensinado, uma comunidade lingiistiea e de culture, una cumplicdacle prévia nos valores, o que 9 ocare quando o sistema escolar 20. Do sno mo que os ilganentos que os preesores pends, inpragnads de vores ds Cass ss is penn ecg peutsea vert ave leseseabileren Srmsraercona'® colaagfo bes ce canine otha er: venrhs 40 proton 6 At Sees exe 2A. No certo cb deiczo mals tran de cutra et, sam dvd. a dst en o work eh eda fn sevlo maga ce lta cba irereienchl ou 4. nla ser, © 8 Imolidade encarta da pose dace eer, uo Ihe ds toda a laieagio oto ‘leq rang ed ‘av ut cnet de ela com eur que pra presented mete de aqua ‘essa ela A go qs ue monn ca acs dct fe molec less as sua expereis utas) . porfaro, mab ours "Tbs", bnthante, “aval ‘abososa, "arf". “dmsniten’ “ons, segiro as condiis nas wat ee ages 8 ‘ain: & aprerdaagen ourdsca na ir fvorcarda eon oxpeéora de "hraarsnde™ oncede ano cersnttal ue eoprendangerexely su pets so force earl iment, Vere esi que sa cobatofnlaenn fdecao comma calire ewe wea Ges ce ‘sages ais ertocrtco a facade eo il), escl acece ox mas veces, inosurls 55 cecté fidando com seus proprios herdeims. Fazendo como se a Enguagam do ensino, linaue feita de alusdes e cumplicidade, fosse natural aos suetos *inteligentes” e “clotados”, os eckicadores poclemse poupar 0 trabalho de controlar teenicamente seu manejo da linguagem e a compreenséo que dela tem os esixlantes. Eles podem tarrbém experienciar, como estrita- mente equarimes, as avalagdes eseolares que eonsagram, de lao, 0 privileaio cultural, Com efeito, como linguagem ¢ a parte mais inatingwvel ea mais atuante da hecance cultural, porque, enquanto sintaxe, ele fomece lum sistema de posturas mentais transfertveis, sobdaries com valores que dominam toda a experncia, e como, por outio lado, a Unguegem Luniversitéria 6 muito desigualorente distante da lingua efetivamenie falada pelas diferentes classes soriais, nio se pode conceber educendos iquais em direitos e deveres frente & lingua universitéria ¢ frente co uso universitério da lingua, sem se condenar a craditar ao dom um grande. niimern de desigualiades que séo, antes de tudo, desigualdades socials. Alem de um laieo ¢ da uma sintaxe, cada individuo herda, de seu meio, uma certa atiudde em relagao as palavras @ ao seu uso que 0 prepara mais ou menos para €s jogos escolares, que so sempre, em parte, na tradigie francesa de ensito hiteréria, jogo de palavres. ssa ligactio com as palavras, reverencial ot livre, artificial ou familar, sobria ou intemperate, nao € nunca téomanifestaquentonas provas oral, tas quais os prolessores, conseiente ou inconscientemente, diferenciam a faclidade “natural”, constiuide da facildade de expresséo e de desencl tura clegante, da destreza “forgada”, ireqiiente nos estudantes das classes populares ¢ médias, e ave trai o esforco para se conformar (a custa de dissonfncias e de um certo tom artical) és nomnas do discurso universi tario, Essa false destreza, em que desponta a ansiedade de se impor, deixa toansparecer por demais sua fungde de sutovalorizagao, para nao ser suspeita de vilgaridade interessada, Em sintese, a “certitudo sui" dos professores, que no se exprime nunca lao bem quanto no prestigio do {eurso magistal, alimonta-se ce um “etnocentrismo ce ciasse”, queautoriza tanto umn uso determined da lmquaaem professoral quanto certa atituce em relagdo aos usos queos educendos fezem da linguagem e, em particular, dh linguagem professoral Assim, 0 que est implicito nessas relacdes com a linguager & toelo 0 sigulficadlo que as classes culkas conferem ao saber erudilo e a insituigdo encarragada de perpalué-loe transmit-lo, So asfun;des latentes quie essas asses atribuem 4 institugéo escolar, a saber, organizas 0 culto de uma callura que pode ser proposta a todos, porque esté reservada de fato aos membres das classes as quais ela pertence. Fa hieraruia dos valores Intelectuals que dé aos manipuiadores prestigiosos de palavres © ilies superioridade sobre os humildes servidores das técnicas, E, en‘im, a logiea propria de um sistema que tem por funcao objetiva conservar 05 valores que fundameniam a ordem social. 56 Mois profundamerte: & porque o ensino tradicional se dirige cbjetiva ueles quie davem ao seu: meio o capital ngtistice « cultural que le exige objetizamente & que esse ensino pode permit senao expliclar stias exiagncias © niio se dbrigar a der # todos os meios de satisfazt-las. A moda de um direto consvetudinaro, a tradiggo universitria preve aneras indregdes e sangSes partivlares, sem jamais expliciar os prinefpios que as fundamentam, A verdade ce tim tal ssterna dave ser, tio, encontrada nas suas exigencias implctas e no caréter mplicto de suas exlcencias. Assim, tomando-se 0 exemplo do cxame, percebe-se evidentemente que, quaito mais as provas escitas propostas se apreximam de um exercicio retérica mais tradicional, mais favordvel & exbigéo de qualidedes imporeleraves, tanto no estilo quanto na sintaxe do pensamento ou nos conhecimentos mobilizados, a “dissertatio de omni re sefbil’ que domina os arancles concursos literérios (e que sinda desempenha um papel importante nos eoncursos eientificos), mais elas marcam as diferencas existontes entre os candidatos de diferentes origens socieis. Segundo a mesma l6gica, os “herdeiras” so mais fevore- cides nos exames orais do que nos escritos, principaimente quando © ‘exaine orale tora explicitamente aquilo cue ele sernpre eimplictamente, a saber, o teste das mancizas culkivadas e distinias” Nota'se, evidentemente, que um sistema de ensino como este sb pode Jancicnar perfeitamente enquanto se limite a recruiar @ a salecianar os edlicondos capezes de salisfezerem as exigéreias que se lhe impoer, objetivarente, ou seja, enquanto se dlrs a inclvicluos dotados de capital cuitural fe da apticéo para fazer frutiicar esse capital) que ele pressupse € consagra, sem exigilo oxplicitamente e sem transmit-lo metodicarvente. A nie prova de que ele nossa realmente se ressentir nao é, como se ve, a do mémero, mac a da qualidade cos eduucandos. O ensino de massa, do qual se fala tanto hoje em dia, opde'se. ao mesmo tempo, tanto ao ensino reservado a um pequeno nimero de herdeires da cultura exigida pela escola, quanto ao ensino reservado @ um pequeno ntimero de indvidios ‘quisquer. De fato, o sistema de ensino pode acolher um niet de ediicandos cada vez maice ~ ecmo é ocoreuna primeira metade do eéculo XX ~ sem ter que se ransformar profundamente, desde que os recem-che- ‘gados sejam também portadores das aptidées sociakmente adquitidas que @ escola extge tradicionalmente. Ao contrario, ele esid condenado a uma «tise, perccbida por exemple como de “queda de nivel’, quardo recebe lum numero cada vez maior de educandes que nao dominam mais, no ‘mesmo graia que seus predecessores, a heranga eulturaldle sua classe social (como aeontece quando as taxas de escolnizacao secundaria @ superior 22. Arastnca doy profeeres am regi 8 "Saco" [NT Ese tere desig, em Lenco sto dance dees se ana faene, de amore ° dexalos de ume competinin ct Feta tip de corsaqurets nega 5 alem do minimo necessério reproducto da forca de trabalho menos valorizada em in dado momento histérico). Mas @, sem davida, na propria Kigica da transtissdo do capital cukural que reside 0 principio meis poderoso da oficacia ideolégica desta espécie ce capital, Sabe-se, por um lado, que a apropriacao do capital cakural dbjetivado = portanto, © tempo necessétio para redizi-le ~ depende, principalmente, do eaptal evltural incorporade pelo conjunto da familia ~ nor intermedi, entre cutras coisas, do efetto Amow generalizaco’ e de todas as formas de trarsmisséo implta, Sebe-se, por outro lado, que a acumulagio inieial do capital cultural ~ cordigéo da acumulagao répida @ facil de toda especie de capital cultural unl ~ 56 comeca desde a origem, sem atraso, sem perda de tempo, pelos membros das familias dotadas de um lorte cepital cultural: nesse caso, 0 tempo de acumiulacio engloba @ totalidade do tempo de sociaizacdo. Sequese que a trenstiss40 do capital cultural & sem dévida, forma mais dissimulada da transmissio herecitéria do capital por isso. no sistema das estratégias de reproducto, recebe um peso tanto malor quanto mals as formas diretas ¢ visiveis de transmissio tencem a sor mais fortemente censuradas @ controlades. Vise, imediatamente, que & por intermédio do tempo necesssrio & aquisicdo que se estabelece a ligacdo entre o capital economico e 0 capital cultural. Com efeito, as diferenges no capital cultural possuldo pela familia implcam em diferengas: primeiramento, na precocidade do inicio do empreendimento de transmissao ede acumulagdo, tendo por limite @ plena Uiiizacéo da totalkdade do tempo biologicamente disponival, fieande 0 tempo livre maximo a servigo do capital cultural méximo; € depots na capectlade assim definida para satisfazer as exigencias propriarnente cukurais de um empreendimento de aquisicdo prolongado, Alem disso, ¢ corrlativamente, 0 tempo durante 0 qual determinado ‘ndviduo pode prolongay seu empreendimento de aquisigéo depende do tempo livre ce sua familia pode Ihe assegurar, ou seja, do tempo liberado da necassidade econémica que @ a cordicéo da acumulagio inicial tempo que pode ser avallado como tempo en que se deixa de genhar 4. O gue dhatre esate “Anuar” genwalale. sep ofits dee @erjute de bere lai, “quicaon, parurents, ma, obj oles een patsy Todos agides quetacen Date de neo anberce nad, ov2cen tn eet aca por sua sph ext, em ic, un dos laoves estrada exposiaexcdarno tera am que o sesarverto ta IWanidads de exptd ual acamdade ro esa oetheds sumeria a ago west, ‘Ntomanente etree plo male ambien Sev sracata ao of daquao capa Ihlsincrporeds corce snrsaerse vse que. mean geragio, tesco geo sera sah ese costar como aso, 0 lalode use tama weal dues ru ‘esnensacraerte€ ur dos atres extras ce hlgen cpl oo do des tres jiekrasque esi Kara els de ecarvesia do captah 76 O ESTADO OBJETIVADO © capital cultural no estado objetivado detém um certo nimero de ppropriedades que se definem apenas em sua relago com o capital cultural itt sia forma incorporada, © capital cultural objetivado em suportes imateriais, tais como escritor, pinturas, monumentos ete., é transmissivel em sta materialidade, Uma colegéode quadios, por exemplo, transmite-se to bem (vendo melhor, porque num grau de eufemizacSo superior) quarto © capital econdmico, Mas o que é transmissivel @ a propriedade juridica e nao (ou nao necessariamente} 0 que consitul a condicdo da apropriacéo expecifica, ite &, a possessdo dos instrumentes que permitem desfrutar de uum quedo ou utilizar una maquina e que, limitando-se a ser capital incor- porado, séo submetidos as mesmas leis de transmisséo, Asin, os bens akureis podem ser objeto de ume apropriaggo matorial, qua pressupée 0 capital econémice, e de uma apropriagso simbelica, que pressupse o capital cultural. Por conseqliéncia, 0 proprie- {rio des instrumentos de prodlugio deve encontrar meios para se apropdar ‘u do capital incorporado que ¢ @ condicao da apropriagao especitica, cu dos services dos detentores dease capital. Para possulr miquinas, basta ter capital econdmico: pata se apropriar delas ¢ utiizé-las de acordo com sta estinacdo especiiica (definida pelo capital cientiica e tecnolégica que se encontra incomoredo neh), @ preciso dispor. pessoaimente ol por procuragio, de capital incorporado. Esse & sem devia, o furddamento da status ambigio dos “queclos’: se acentuames o fato de que ndo s40 08 possuicores (ro sentido estrtamente economico) dos instrumentos de produgio que utiizam ¢ que 6 tiram proveito de seu capital cultural vvernlendo os servicos e os produtos que ess2 capital toma possivels colceamo-los do lado dos dominados; se insistimes no fato de que tira seus beneficins da utilzacdo de uma forma particular de capital, colocarmo~ bbs do lado dos dominentes, Tudo parece indicar que, na medida em que eresce o capital cuitural incorporadonos instwimentos de provhigso (e, pela mesina re2’0, 0 tempo de incorporagao necessér'o para adauiir os meics que permitam sua apropriaggo, ou scja, para Obedecer & sua intentio objetiva, sua destinacto, sua funcao), a forca coletiva dos detentores do capital cultural tenderia a crescer, se os detentores da espécie dominante de captal nao estivessem em condigées de por em concarréncia os dleteniores de capial exkural ald, inclnados &concomencia pelas prOpiias condicdes de sua selecio e formacéo ~ e, em particular, pela logica da competigao escolar e do concurso) © capital cultural no estado cbjetivade apresenta-se com todas as aparéncias de um universo auténamo e ecerente que, apesar de ser 0 produto da acéo histérica, tem suas proprias leis, transcendentes vontades individusis, ¢ que ~ como bem mostra o exemplo da lingua ~ pertnanece itredutivel, par isso mesma, aquilo que cada agente ou mesmo 2 © canjinta dos agentes pode se apropriar (ou sea, a0 capital cultural incorporado). E preciso nao esquecer, todavia, que cle s6 existe e subsiste como capital aiivo e atuante, de forma materiale simbélica, na condiso de ser apropriado pelos agentes e uttizado como atria ¢ obseto das tas que setravarn nos campos da preclugao cultural (campo aristico,eientfco, eic) e, para além desses, no campo das classes socials, onde os agentes cbiem beneficios proporcionais ao dominio cue possuem desse capkal ebjetivado, portanto, na medida de seu capital incomporado’. O ESTADO INSTITUCIONALIZADO. [A cbjotivacao do capital cultural sob 2 forma do diploma & um dos mods de neutralizar certas propriedades devidas ao fato de que, estandle incorporado, cle tem os mesmos limites bioldgicos de seu suport. Com diploma, essa cartidéode competéncia cultural que confere 20 seu portacor tum valor corvencional, constante ¢ juvidicamente garantido no que diz respeito A cultura, a alquimia social produz uma forma de capital cultural que tem uma autoncrria relativa ern relagio ao seu portadore, até mesrio ‘em relagio ao capital cultural que ole porsui, efetivamente, em um dado ‘memento bistérico. Ela institut 0 capital cukural pela magia coletwva, da mesma forma que, segundo MerleauPonty, 09 vivos instituem seus arts através dos ritos do luto, Basta pensar no concurso que, a partir do continuum das diferenges infinkesimas entre as performances, produz dezcontinuidades duréveis e brutais, de tudo a0 nada, como aquela que separa o tltime aprovado do primetro reprovado, e institut uma chferenca de esséncin entrea competéncia estatutariamente reconhecida e garantida 0 simples capital cultural, constanternente intimado a demonstrar seu valor. Verse claramente, nesse caso, a magia performatica do poder de instituir, poder de fazar ver e de fazer crer, ot, numa s6 palavra, de fazer reconhecer, Néo existe fronieira que nao seja magica, isto €, imposta € mantida (is yezes, com risco de vida) pela erenca coletiva, “Verdade lem dos Pirenaus; era além’. & amesma diacrisis onginana que insu © grupo como realidad, a0 mesmo tempe, constante (ou seja, transcen dente acs indivicuaos), homogénea e diferente, pela instituicao arbitedria ¢ desconhecida como tal de uma frontetra jurdica, @ que institui 05 valores Ulkimos do grupo, aqueles que tém por principio a crenca do grupo ern seu propria valar e que se delinem na aposigao aas outros grupos. [Ao conferir a0 capital cultural possuido por determinado agente umn reconhecimento institucional, 0 certilicado escolar permite, alérn disso, a |5. Tomes; main cs snag vein avg allen eve «cai tur biti ‘Bont por clone #2 neste) cyt etl sorparda, suse dae cata e eco doespite plata ch sv porte ds ego po tina ch gage plo peed. 8 comparagin entre os diplomados e, até mesmo, sua “permuta’ (substiin- ddo-os uns pelos outros na sucessdo),permnlie também estabelecer taxes de convertibiidade entre o capital cutural e 0 capital econémica, garantindlo 6 valor em cinheiro de determinaco capital escolas. Produto da conversa de capital econémico em capital cultural, ele estabelece o valor, no plano do capil cultural, do detentor de determinado diploma em relagéo 20s outros detentores de diplomas e, inseparavehnente, 0 valor em dinheiro peloqual pade sertrocado no mercado detrabalho —oinvestimento eseclar $6 tem sentido se um minimo de reversibiidade da conversao que ele implica for objetivamente garantido, Pelo fato de que os beneficios mate- tials simbaleos que o certificada escolar garante, denendem também de sua rarddade, pode ocorter que os invastimentos (ern tempo e eslorgos) sejam menos rentave's do que £2 previa no momento em que eles foram rwalizaclos (com a modilicacao, de facto, da taka de convertibitdade entre captial escolar e capital exondmico). As estratégias de reconverséio do capital econémico em eapital cultural, que esto entre as fatores conju turais da explosao escolar ea inflago de diplomas, séo comandacas plas transformagées do estrutura das oportunidades de lucro asseguradas pelas diferentes espécies de capital 79 R Pa fo) mall > i ry 4 rs) Futuro de classe e causalidade do provayvel* PIERRE BOURDIEU Tradugdo. Aunonr StuCIeNANL Fewsao tecnica: GuNHERME JOAODE FREMAS TEBERS Fonte Bou, Pee, “Aven de dase «easly Hither crtgralmerts in Rue frei eo elie vol XV. pra mano de 1974p. 342, * Bate artigo represen o morsaco de uma pesuse mals asta au estou desomobendo, bb ans 2002 or Le Botan As, assis prca masa sa sor em ‘uta ubiesBoniet P. BOURDIEL; L BOLTANSKL¢P. MALDIDER, “Us dane cone In Information sur des sconces sacalss, 20 Ul, 1971, p. 486 « P- BOURDIEL, L. BOUTANSKIe Mle SAINT-MARTIN, Las sates de eects’, Fformetion sur ‘tence sociales, 12 (0), 1973, p. 61-113). Agate aJ-C. Cahoon . Meth peas bseragies esses eon qe crane corebuiam pare ete ete AA ieee i pss stcada pea ions Fars, quase sempre em ‘estado implicito, quando precisam explicar a economia das priticas, sto €, a ogica imanente as agdes & 0 sentico objetivo das obras e instiwwcbes, cscila, para além das divergéncias entre as tradicSes teéricas, entre © mecanicsino e utna versio geralmente intelectualista do finalismo, Por oconhecer apenae dilcrentes variantes ch odo racional o da regio mecanica a uma determinacao tal como aimpesicao do pracomecanicamen- te formado pelo mercado, deixa-se de compreender a ligica especifica de texas as agdes que trazem a marca da razio sem serem o produto de uma ‘meta tacionalizeda ou, ainda mais, de um ciclo racional; que so habitadas por uma especie de finaldacle objetiva sem serem conscionterente organiza- das em relagdo a urn fim explicitanente constiuido; que séo intelgiveis & coerentes sem serem proveniantes de uma intengao intolgente «de uma decisio deiberada; que sA0 ajustadas ao futuro ser serem 0 produto de um projeto ou de um plano! A ferca da altemativa é famanha que aqueles que pretendiem reaair contra 0 meranicismo de cera tradiéo da ecanomia sem cair no intelectualsmo do “cAlculo econémieo” jou na “psicclogia" a priori herdada do uliltarismo € do pragmatism) com o qual ele comumente atema, s6 raiamente eseapam as ingeruidades do subjetivismo com seu aparato personalsta de “aspiracées” @ “projetos": o cpie, inversamento, aquels que pretendem romper com as ingenuicackes das teorias subjetistas da agdo reczem, de modo quase mouitavel, om um mecenicismo quase tio Jngenuo queria o da teorta que, transpondo para a economia a axiomtica da mecéinica cassia, tyafa os agentes econdmicos como particilas inciscer rivers submetidas as leis de um equiibrio quase mecinico. Com efeito, para dar cabo da velha aternativa, nfo basta volar a ume forma cle mecanicsttio tnais bem dssimulada, com aqueles estuturalistas cue tratam os agentes ‘convenienterente redzidos, gracas 2 uma supertreducéo de Marx, 20 papel de “suportes” da estnutura (Traiger) ~ como reflexos redundlantes das 1. Lady son Mine tem © mito de ctraar una fe exes da dip icin ago ate ‘sombre. an ead iho, « fore condik. Contiaalaquatue ao cna Intechotal eo “ago rasa” fexpessan qe. sequin ss seni, pase 9 se” um plone, leno reconhace neu oxto edo 2; al da rangi ella ets Fe: Uva MISES, Hunan Aion A Trestice on Eeonniics New Finven 1949.13.20, 83 estnuturas, ot! sittar no principio das praticas um inconsciente definiée como operacior mecdnico de fimalidade’ De fato, na grande maioria de suas agdes, 0 agente econterico & tanto calculador racional, obedecendo exeusivamente & avaliacao racional das chances, quanto automato, detertinade mecaricamente pelas leis do rnerca- do, Principio geradlor de estratégias objetivas, como sexfiéncias de préticas estruturadas que so orientadas por releréncia a funcoes obitivas, o habitus tencena a soluczo dos paracoxos do sentido objetivo sernintencao subetiva, entre cutras razdes porque ~ a propria palaura o diz ~ ele propce explicta- ‘mente a questo de sue propria génese coletiva e individual. Se cada um dos momentos da série de agées ordenadas @ orientaclas que constituetn as estratégias objetivas pode parecer determinado pela antecipagio do futuro e, ‘em particular, de stias préprias conseqiiéncias (0 que pwsifiea © emprago de cconceito de esirategal,@ porqueas praticas que o habitas engendra e que sto ‘comandadas pelas eondigoes passatss da produgdo de seu principlo geredor jSest3o proviamente acaptacas As corcligbes objetives todas as vezes em que ‘as condicBes nas quals 0 habitus funciona tenham permnanecido ikénticas ou sermahantes) as condiqdes nas quais ele se constiviia O ajustamento is condligoes objetives é com efetto, perftta e imediatamente bersucedilo & fa tlusdo da finalidade ov, 0 que vern a dar no mesmo, do macanicismo ‘aulo~egulado, ¢ total no caso e somente no caso em que as condicces de ppreducéo ¢ as condigées de efetuarao coincidam perfetamente’ ‘Atemangncia, sob a forma de hebitus, do efeito dos condicionamentos primarios, implica que a comespondéncia imediata entre as estruturas e os hhabitas (com as representagies ~ 2 experiéncia déxice do mundo sccal ~ © as oxpectativas ~ 0 amor fati — que eles engendram) ndo é sendo um caso particular do sisternaclos casos possivets de relagives entre as estruturas a »gonewe do pean sbia” euler soc Dg08 ce 2. page, a respeio cas wertotas de Durham yor Tai ver de onto comes dade | Chale Li Strasse $iclacos macaraseclo tlprsbienas ape fara aiviladeinsenscins co epi, Eas aenon sie Dukhomp cra a cotagnsEngitien meer sa ieee [Rincon upsevenitatce © supe aas8o faa a Deni 2 lebaarele ‘Sie cons mia ition Ere! (eu ur progtes consol secu Ferounent do lta do seca RX fal yal €astodo, por enempo. por Spencer 0 ‘go ce neta eo nama da comsinie stave oy dais encase eldentnee « Sinutdadetrecrsciente doeypriio C. Lar szis, (7G GURVETCH 2 Wz, MOORE, os Le'Sseiloge oe AX" scl, Pa, Pees Uaivesianes de France, 1987, 15, 9 527 ‘Sihiniedo por me) As de letras, mseinicita cu fat, eo valent proves vores a ncn dees mitra rgiandbdes era stance froailere-o, pov evemple, «sch camdinice daw aconemie arne tadonse = ds ‘obetnoladente que “elie” oct ce mpl” a cranes eave ‘Selina, e demons nas geal atlases el ysleay.Altadodoermostte fa, sgirde uta meta, Fores. 10 te una lemma eof tos ingests ¢'a Berane de Sat {3 Pie convene da neccrdnde dees sbendoredsekamuthn waracanianaofialana iahi Insheres exemple co uc nave gio mcs dat asa cru dae cna Mab tna actrejoniiee ato cic Je meuke wid os alratin deem tieo equa Rpolrecs cise emirate pete ste! engin qe ‘SB aporincnech ahd se inp cam fra pasar 84 objetivas e as disposes. Els também expica, e bem, os casos em que as dlisposigdes funcionam a conttetempo (segundo o paradigma cke Dom Quixote, Vo caro. a Marx) e en que as praiicas so cbjetivamente inadaptadas as condigoes presenies por serem objainamente ej-stadas a condigoes esqoades ‘ou abaldes: basta mencionar 0 caso, pasticuarmente paradoxal, das formacbes Socials ex que se observarn umamudenga permranente das condigses obetvas pertanto, uma defasagem permanente erire as condligbes ds quis o habitus estaajstado @ as condicdes as quais deve ajustar-se ~ e, a0 mesmo tempo, uma simples translagéo da estrutura das relagdes de classe; nesse caso, histerese dos habitus pode levar a uma defasagem entre as exnectativas @ as condigies objetivas, que incuz a impaciencia dessas condigces objetivas (6 6 caso, por exemplo, quando os detentores de cortlicadlos cecolaree desvalorizados cue, neminaimente, permaneceram identicos, esperam, pelo fato de cua divulgagso, obter ac vantagens reais que, na epoca anterior, éstaxam vnetlalas aos mesmos).E mais detucto aco que marca as condligoes primirias que o habitus “espera” e “exige”, ainda que seja a contretempo, po's «leas supe como conicéo de seu funcionamenio, nara # maisdaterminanta do que o sistema dos indices pelo qual 6 evocado 0 sentido* da trajeteria social cla lishagem ~ 0 sentido* nulo das formagdes saciais out das clasts mals "estavels" & um caso particular de todas as condiedes que encerram as mareas da ascensio ou do declinio, Em suma, a tendéncia a perseverar fm seu ser, que 05 anupos devem ~ entre outras razoes ~ ao fato de cue esagentes que o3 compdem s80 dotados de disposigées duréveis, capazes cde sobreuiver ds condigdes econdmicas e socais de sua propria producdo, pode estar na origem tanto da inadepiagéo quanto da adaptogéo, tants da revolta quanto da resignacéo. Era preciso evocar, sem entrar en uma anilise sistematica’, universo das jormias possiveis da relagao entre as disposigées e as condlicées para pensar no ajustamento antecipade do habitus 2s condigdes objetivas como lum “caso particular do possivel’, segundo a expresso de Bachelaed, @ evitar assim universalizar inconscientemente o modelo da relagdo quase circular de reproducio quase perfeita que nao vale completamente senao ppara os casos em que as condigées de procugdo do habitus eas condigées de seu funcionamento sao identicas ou hemotetieas. Neste caso particule, es disposigées constitutivas do habitus que estéc duravelmente inculcadas pres cordlizées. cbjatias © por uma aco pedlagécica tendencialmente ajtplada a essas condigdes tender a exgerndrar expectaitvas e praticas que sto objetivamence compativeis com assas condigbcs @ previamnenta adaptadas as suas exigencias objetivas; em outras palavras, send o produto de uma ase determinada de reguaridades objetivas (equelas que, por exemplo, Nico No orginal pacte 4A fone temic pos calacager etre os dispesigbes eae eatutane no ca60 cana ened loa ban etn 8 een, pertnobrneris iaentte em cou eve prove se one ‘sllementeerrnpldo se analbada en at aio a fa prepa, 85